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DEDICAÇÃO

Dedico este romance à minha princesa que tem gosto de jabuticaba. Que as letras ajuntadas ao longo dessas páginas nunca a separe da essência do amor.

Que o bom Deus te abençoe e ilumine sempre. Ânimo e coragem nas estradas que nos conduzem, mesmo passando por caminhos escuros, ao amor.

Oliveira Sousa

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I CAPÍTULO

SOB O OLHAR DO IPÊ

Nossos olhares tramavam o amor eterno, indissolúvel, cúmplices num entardecer debaixo dos galhos de uma árvore frondosa. Deitado em suas pernas, com o cafuné que fazia, minha alma derretia e se rendia sob a maciez de seus dedos escorregando pelo couro cabeludo. Estava tão unido a ela e ela tão ligada a mim que se a morte, num ímpeto de inveja, viesse a me chamar, somente o corpo arrebataria, pois a alma já estava confiscada e constantemente reclamada por minha amada. Era tanto amor e entrega que mesmo as estrelas, em sua áurea beleza, não conseguiam brilhar mais que o encanto das luzes de seu olhar na imensidão de meu céu. Jacqueline era o coração por onde minha vida existia.

Eram quase 17:00 horas e eu precisava ir encontrar meu amor que já estava no horário de deixar a escola. Minha mãe havia pedido que antes de ir eu escrevesse uma carta de cobrança para a Empresa Loures, pois ela tinha débitos conosco. Mamãe amava como eu escrevia, pois além de ser incisivo, direto e de certa forma, agressivo nas palavras, conseguia manter aquele respeito diante de situações desse tipo. Ela dizia que pagavam mais por consideração à carta do que propriamente por ela. Eu Acreditava. Atrasei-me um pouco. Peguei a moto e saí voando para encontrar minha flor. Parei a uma distância considerável da Escola Militar Estadual a observar uma cena que pareciam as cartas que

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escrevo para mamãe. Senti uma pontada no coração. Deixei a moto. Fui caminhando em direção àquela situação. As pernas bambas prenunciavam o quanto estava abalado o sistema nervoso. O colégio estava praticamente deserto, somente o vigia, a situação e eu, é claro, com a respiração ofegante. Ainda parei bem próximo para preencher-me de alguma energia para confrontar o azedume em meu peito. Cheguei próximo e, com respeito, como faço em minhas cartas de cobrança, sinalizei um boa tarde. Ela me olhou. Eu a contemplei. Não conseguia entender a teimosia de meu olhar em não se desfazer daquela dimensão de entrega à Jacqueline, mesmo numa situação de desconforto. Meu coração rasgou-se por inteiro. Minhas poesias haviam sido vencidas pelas cordas do violão daquele meu rival desconhecido.

A árvore frondosa acolhia minha dor. Tentava não lembrar nem a morte que me visitou, nem a vida que ali sempre me acontecia ao lado de Jacqueline. Há momentos em que desejamos que solidão seja apenas ausência de memória. Permaneci jogando pedrinhas no rio. Senti que alguém se aproximava. Era Jacqueline. Não tinha forças para escutá-la. Pulei no rio e atravessei à outra margem. Sentei no chão molhado com as pernas dentro da água do rio. Jacqueline encostou-se na árvore como sempre fazia quando estávamos juntos. Eu tentava matar dentro de mim a imagem de Jacqueline, porém, quanto mais a contemplava do outro lado, mais apaixonado me sentia. Meu coração não via culpa em sua atitude. Quando o coração ama tudo se perdoa. O que minha alma pedia era absurdo. Pule a margem, encontre seu coração por onde respira. Resistia bravamente aos gritos internos de meu amor. Não, eu não iria ver

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Jacqueline, justamente para poder continuar amando.

Quase 19:00 horas. Jacqueline permaneceu a acompanhar-me em minha dor. Vi quando levantou-se e começou a rabiscar na árvore com uma espécie de graveto. Demorou-se em pé contemplando-me do outro lado. Antes de ir embora gritou:

- Márcio minha alma te pertence!

As lágrimas desceram, o coração em prantos. Precisaria de muito tempo para compreender esse modo de amar, se é que algum dia entenderia. Passado o eco da voz de Jacqueline, nadei até o outro lado novamente. Automaticamente o olhar se prendeu ao que ela havia rabiscado. Estava escrito,

PARA SEMPRE TE AMAREI, SOU TUA!

Talvez não fosse intenção dela, mas a verdade é que as mesmas palavras se tatuaram em minha alma. Sentei como se estivesse no colo de Jacqueline e chorei. Imaginava o amor com seu lado de morte. Mata sem matar a memória. O amor, por vezes, é carrasco. Desde aquele dia vivo a tensão dessa faca de dois gumes, o amor. Recordei do dia em que conheci Jacqueline. Aquela jovem bela que assistia às orações da Igreja na porta do templo, enquanto eu realizava atividades no outro lado como ajudante do sacerdote. Ela tinha cabelos longos, um sorriso encantador, corpo escultural que se grudava em minhas sensações. Se amar é divino, então não tinha como condenar o coração por ter-se entregue à aventura de começar a amar pelo olhar. Certa vez soube que ela perguntou quem eu era. O coração enlouqueceu, os pulsos saltaram, tremia como vara verde, o amor

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mostrava suas garras, seus encantos. Pela primeira vez, sentia os versos dos poetas quando traduzem o amor. Jacqueline ficou na porta aguardando minha saída. Eu sabia que ela me esperava. Precisava dizer algo. Mas não sabia o que diria quando ouvisse sua voz. Uma eternidade o instante vivido entre a oração final do sacerdote e a saída. Ela tinha descoberto meu nome com os amigos, mais especificamente com Jackson, meu grande amigo e confidente. Caminhava em direção à porta central do templo. Não minto, parecia mesmo que me encaminhava ao tribunal, com a alma acusada e julgada por ter amado demasiado aquela bela jovem. O amor é sempre exagero. Cheguei bem perto, respirando com dificuldade. Os olhares se leram e se decifraram. Queríamos um ao outro. Ela, muito direta e dona de si, disse as primeiras palavras.

- Olá Márcio. – disse-me com tanta maciez que senti a textura de sua voz

- Olá Jacqueline. – Jackson já tinha me dito o nome dela para eu não vacilar.

- O que represento para você. Como me vê? –

disse com a voz firme e, ao mesmo tempo, tão doce.

Quis desmaiar de amor. Mas seria absurdo não lutar naquele momento. Procurei lá fundo a metáfora ideal, a sensibilidade poética, o ser de Jacqueline escondido em mim e, enfim, disse:

- Jacqueline, você é uma pétala que cai sem nunca

alcançar o chão, esvoaçante, suave e serena em minha alma, envolvente como o sopro do vento e da brisa, cintilante como a força extasiante das estrelas. Assim é

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você dentro de mim.

- É mesmo?! – ela disse com tanta sensualidade e

entrega que perfurou meu coração todo apaixonado. Só

consegui responder uma palavra, todo abobalhado:

- É.

Cada

sorriso

dela

eu

acompanhava.

Impressionante como me perdi em sua alma. Meu corpo diluído em seus poros. Então, decidi usar sua mesma pergunta:

- Jacqueline, o que represento para você. Como

me vê? – disse, com a voz trêmula, pois meu coração

havia sido atacado pelos sintomas do amor.

- Márcio, você é a pupila de minha alma. Por ti

enxergo meu mundo. Em ti desenho meus desejos. Em ti, Márcio, a alma sonha e o corpo acorda. O coração dói de amor quando estás em mim.

Estava em prantos. O coração doía de amor. Não tinha mais forças para chorar. Lembrar os pedaços de minha alma que se guardavam no interior de Jacqueline, tal qual diamantes nas jazidas, desmontava-me todo. Limpei bem os olhos e fui à casa de Jackson, precisava desabafar com ele. Conversamos um pouco e fomos para o Café Betelho. Ele viu que eu estava chorando demasiado atraindo a atenção dos clientes e decidiu levar-me a um lugar onde eu pudesse desabafar sem causar esta incômoda situação. Fomos para o bairro da Vila do Avião, onde ele tinha um amigo que abriu um bar aconchegante. Ali poderia derramar minhas lágrimas. O único inconveniente foi um bêbado que chorou comigo a noite inteira sem saber o motivo, mas solícito e

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companheiro com a causa desconhecida para ele. Jackson encontrou uma ex paquera dele por lá e ficou jogando seu charme para cima da garota. A noite terminou em confusão. O namorado da jovem veio tirar satisfações com ele. Viu cheiro de chifre no horizonte. Jackson disse que se ele continuasse com os insultos ia ter que pedir ao amigo dele, no caso eu, que o retirasse do recinto. É lógico, sobrou para mim. O rapaz veio vociferando e já desferindo golpes. Defendi-me como pude. Jackson ficou tentando me dar dicas de defesa e ataque como se eu estivesse num ringue. O rapaz tropeçou numa cadeira e eu aproveitei para lançar-me em cima dele. Mas em vão, porque ele virou-se. Alguém disse que tinha chamado a polícia e como ele tinha passagem por furto e drogas, resolveu fugir. Resultado: um olho inchado, garrafas quebradas e meu coração dolorido de amor por Jacqueline.

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II CAPITULO

O DESTINO OS UNE NOVAMENTE

Passados muitos anos, um fato abalou a cidade de Teresina. Há mais de décadas não se ouviu falar em crimes bárbaros como o ocorrido recentemente. O caso Planalto, como foi chamada a situação das duas mulheres espancadas no bairro de mesmo nome, havia chocado a Opinião Pública da cidade de Teresina. As duas jovens estavam na Praça da Bandeira, principal da cidade, namorando. Passaram dois rapazes por elas e lhes ofenderam com palavras preconceituosas. Quinze minutos depois, elas se levantaram e foram caminhando de mãos dadas em direção à parada de ônibus, quando forem abordadas e agredidas pelos dois rapazes. Além de palavras carregadas de preconceito, elas levaram chutes e pontapés. As agressões só cessaram quando uma viatura policial passava e os jovens tentaram fugir, mas foram pegos na altura da Igreja São Benedito onde tentaram pegar um táxi na avenida Frei Serafim. Uma das garotas faleceu no local vítima de traumatismo craniano e com o rosto desfigurado e a outra foi levada ao Getúlio Vargas e está em coma na UTI, devido aos pontapés que levou no rosto. A advogada Jacqueline Oliveira, referência nos casos de agressão a mulheres e homofobia no Estado do Piauí, está acompanhando o processo. Ela foi indicada pela promotoria e pelo setor Fé e Política da Arquidiocese de Teresina. Hoje expressou sua indignação numa entrevista coletiva junto com a OAB-PI diante de casos como esse. Jacqueline já é conhecida nos meios

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jurídicos por nunca perder um caso de violência contra a mulher e homofobia. Depois que se separou do amor de sua vida, há muito tempo atrás, Jacqueline havia se dedicado plenamente aos estudos. Ganhou uma bolsa integral para estudar Direito na Europa e não titubeou em ir. Na Inglaterra ganhou vários prêmios com seu trabalho sobre direitos das classes marginalizadas, em especial, das mulheres e dos homossexuais. Porém, nunca esquecera Márcio. Sempre lembrava dos bons momentos vividos ao lado de seu amor e de como ele tinha sido seu apoio em situações conflitantes de sua vida.

Márcio lia com atenção seu jornal matutino. Sempre buscava informações da Jacqueline, já que ultimamente seu nome era corriqueiro nos meios jornalísticos. Lia e relia tentando captar a alma de Jacqueline. Então, depois de lido, recortava e guardava

numa caixa onde já tinham muitas informações sobre sua amada. Como ainda era cedo, antes do trabalho, dirigiu-

se para a varanda de seu sitio, onde dava para a árvore

junto do rio Cafuné, como assim o batizou. Márcio havia

comprado aquela porção de terra, que no tempo de

estudante era usado pela comunidade local. Ali construiu sua casa. Sua única inspiração, sempre dizia a Mirna, sua ajudante na casa. Diante daquela paisagem, começava a escrever poesias. Logo que terminava, colocava dentro de um envelope, entregava para Mirna a fim de que ela fosse até a árvore e enterrasse. Terminado o ritual, sentava à mesa para o café que nunca dispensava e, só então, ia trabalhar. Sua veia poética ganhou expressão com a separação. Se há males que vem para o bem, isso poderia se aplicar a Márcio e sua escrita. Desenhava palavras cada vez mais românticas. Sabia como alcançar o coração

e descrever a alma embalada pelas emoções que as

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invadiam sem ter nome. Dizia com impressionante perfeição o silêncio e os sussurros da alma apaixonada. Havia uma fagulha do Mistério que subiam e cresciam por seus poros.

Estava saindo em seu carro e viu Mirna enterrar o envelope. Parou o carro e recordou a primeira poesia que enterrou logo depois do dia mais difícil de sua vida. Naquele dia sua alma havia sido tatuada na pele das palavras em forma de enigma que revela o amor. Mirna com todo o cuidado revolvia a terra e acomodava o envelope de forma a que se algum dia seu Márcio precisasse revê-lo, ficaria fácil o reencontro. O céu do coração se fechou. Algumas trovoadas se ouviram. Do olhar de Márcio caíram gotas de paixão e êxtase. Chuva trazendo a saudade de sua amada. Tinha viva na memória cada palavra escrita com o coração à flor da pele.

Tento tirar teu corpo de minha alma ferida Tento desviar a flecha no coração desferida Inventar uma desculpa para o louco amor Porém, o meu corpo em tua alma colou.

Márcio Sousa

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III CAPITULO

MÁRCIO, O ESCRITOR

Márcio trabalhava na cobertura de matérias direcionadas a questões sociais. Além de publicar seus artigos em vários jornais e revistas. Quando Jacqueline foi para a Europa, Márcio dedicou-se a estudar Jornalismo. Era professor de Lingüística na Universidade Federal do Piauí. Era um homem tranqüilo, amava ir ao Café Betelho discutir política, ética ou senão só tomar o cafezinho delicioso. Também era conhecido por suas palestras em eventos literários. Seu primeiro livro lançado como escritor tinha sido o Beijo Roubado, um ensaio sobre os Judas que proliferam na sociedade contemporânea. O livro teve várias edições. Boa parte de seus escritos tinham como fonte de inspiração, o amor por Jacqueline, mas só sabiam disso, Jackson e Mirna. Recebeu a incumbência de acompanhar junto com sua equipe o caso Planalto. Teria que buscar todas as informações possíveis sobre o mesmo. Ficou surpreso com a proposta, visto que naquele caso também sua amada estava trabalhando. Permaneceu um pouco pensativo se devia ou não aceitar. Desde o tempo de estudante estava afastado de sua amada. Cada um havia seguido seu caminho. Na época, Jacqueline, meio confusa, ainda esteve de paquera com Paulo, irmão de Juscelino, o mesmo que estava ao lado dela no dia em que os dois corações foram surpreendidos pela dúvida. Na mesma hora em que pensava, recebeu uma ligação de um jornal local para preencher uma coluna poética todas

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as quintas-feiras. Como escrever era diversão para Márcio, aceitou o convite prontamente. O chefe do jornal ligou para Márcio querendo saber como iria iniciar a cobertura do caso Planalto. Queria que Márcio acompanhasse de perto tudo que tivesse a ver com ele. Márcio respondeu que faria o possível. Ligou para Jackson, seu melhor amigo e cooperador. Pediu a Jackson que fosse entrevistar Jacqueline para saber como anda o processo e preparasse um texto para edição na primeira capa do jornal do dia seguinte.

O jornal do dia seguinte saiu com a matéria que pediu Márcio. A PODEROSA PROMOTORA JACQUELINE, assim tinha saído a chamada da primeira capa. Na notícia, o assunto versava como a advogada havia adquirido ao longo de sua carreira a capacidade de levar o júri a decidir a favor da acusação. No final do artigo arrematava, quem não se renderia à beleza dessa diva? Márcio, como de costume, sentou-se diante da árvore e a beleza que cacheava seu tronco. Pediu café para Mirna e foi ler o jornal. Tomou a matéria que lhe interessava, qual seja, o caso Planalto. Quando terminou de ler e conhecendo Jacqueline, sabia que ela iria ligar para tomar satisfações sobre o final do artigo. Então, de imediato, ligou para Jackson. Perguntou o motivo daquela ironia no final do artigo. Jackson disse que somente quis apimentar a matéria com um pouco da graciosidade própria da advogada. Mirna sabia da paixão de Márcio por Jacqueline. Quer dizer, quase tudo. Pois Márcio nunca lhe disse os detalhes daquele encontro ás 17:00 horas em frente à sua antiga escola. Sempre que ia ou voltava do trabalho dava uma longa volta para chegar à sua casa, somente para evitar a passagem pela frente do colégio. Márcio estava discutindo com Jackson sobre a

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atitude dele exigindo que se centrasse nas qualidades profissionais de Jaqueline, quando a advogada ligou para sua casa, assim comunicou Mirna. Ele começou a suar frio. O que diria, como se comportaria. Seria a primeira vez que ouviria a voz de sua amada há mais de décadas. Pediu a Mirna que mandasse esperar um pouco mais, a fim de que tentasse se acalmar. O amor ferve as cavidades mais profundas da alma quando o ser amado se aproxima como o amanhã que vem vencendo a madrugada. Pegou o telefone e com as mãos trêmulas levou até o ouvido. Meio gaguejando, soletrou o nome de sua amada:

- Jác-que-line? - O instante entre sua voz e a resposta pareceu uma eternidade.

A voz do outro lado, então, disse:

- Senhor, aqui não é a Dra. Jacqueline. Você está

com algum problema na voz, pois vejo que gagueja? –

Márcio suspirou fundo. Não era sua amada, era apenas a secretária.

- O que deseja senhorita? - Quis saber Márcio.

- A Dra. Jacqueline pediu-me que ligasse para o senhor, pois soube que você é um dos responsáveis pela matéria veiculada hoje pela manhã no Jornal da Cidade. Mandou dizer que está profundamente decepcionada com um dizer baixo relatado no final da matéria que apenas revela o preconceito contra as mulheres e demonstra ainda um pensamento medíocre e ultrapassado que é o machismo. Ela espera não precisar vir a público para se manifestar contra esse tipo de ignorância da sua parte senhor. Obrigada pela atenção. - A secretária desligou.

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Márcio parece que nem ouviu a reivindicação da moça. Foi sentar-se defronte a árvore. Ficou pensando em sua Jacqueline. Não tinha como negar. Seu espírito quase por completo pertencia ainda ao coração de Jacqueline. O pulso estava acelerado como um adolescente apaixonado. Quando lembrava que só a possibilidade de ouvir a voz de Jaqueline o deixou abobalhado, sentia-se um homem com o coração vendido a um estrangeiro, que por sua vez, apresentava-o num palco para diversão dos que não crêem no amor, enfim, um homem sem defesas. Então, pediu a Mirna café, papel, caneta e envelope.

Oh doce amada minha açucena Não quero fazer parte desta cena Onde tão graciosa tu só acenas A este pobre coração que pena

Márcio Sousa

Não iria tão cedo para o trabalho. Pediu a Mirna que lhe servisse um vinho francês e pôs-se a ouvir Hymne a L´amour, Edith Piaf. Assim ficou, enquanto contemplava Mirna enterrar mais um verso direcionado a seu amor. Chamou Mirna e pediu que plantasse rosas ao redor do local e que fossem dos mais diversos tipos e cores. Mirna olhou para seu Márcio e disse:

vermelhas

desenhou-se no coração do escritor.

Márcio que ouvia atento as palavras de Mirna esboçou um sorriso.

meu coração é

- novamente um pequeno broto. Vá pegar uma taça para

O

amor

novamente

em

pétalas

-

Você

tem

razão

Mirna,

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brindarmos a força do amor. - respondeu Márcio. Sentaram-se os dois e contemplavam a árvore. Mirna, depois de um gole, passou a mão pelo ombro de seu Márcio.

- Se algum dia, esta árvore não existir mais, tenho

quase a certeza que as letras se revoltarão com a natureza

por ter tirado a inspiração delas - Disse Mirna.

Completou

Márcio.

Ao longe avistou moleza, seu cachorro. Assoviou para ele, que veio correndo.

- Com licença Mirna, vou correr um pouco com

Moleza. – saiu para brincar com seu animal de estimação.

Você

tem

toda

razão

Mirna.

-

-

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IV CAPÍTULO

JACQUELINE, A ADVOGADA

As persianas balançavam com o som do vento. As estrelas pediam entrada no recinto embalado pela música suave. Um baby dool vermelho enfeitava as curvas formosas da advogada Jacqueline. Havia preparado um pouco de café, pois amava concluir a noite ouvindo a mesma música e tomando café, debruçada sob o alpendre da janela, recebia a companhia das lágrimas. Essa música de Juscelino Hanhy começou a fazer sucesso com ela e deslanchou sua carreira de músico. Por três vezes seguidas tinha sido escolhida como música revelação. Jacqueline era uma mulher muito elegante e inteligente. Amava ler livros e dançar. Desde que começou a advocacia, interessou-se pela questão dos Direitos Humanos. Era uma exímia tocadora de Piano. Pensava em fazer pintura, gosto motivado por um amigo que era pintor famoso nos meios artísticos. Jacqueline olhou para o criado mudo e tentava resistir, mas a força da saudade era mais forte e a vencia. Abriu a gaveta e tirou um lenço amassado onde, certa vez, Márcio deitado em seu colo escreveu uma poesia para ela. Foi a primeira poesia que recebeu em sua vida e também a primeira que Márcio escreveu para ela.

Em ti meu aconchego eu me deito Todo sem reservas em ti me perco

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Cada pedaço meu no teu todo, amor. Posso dizer: do meu sol és o calor.

Márcio Sousa

Sempre que lia o lenço parecia ser que pela primeira vez se deparava com tão belas palavras que se infiltravam em seu coração. Tomou o telefone e automaticamente ligou para seu grande amigo que a socorria nessas horas, Nonato. Era dessas pessoas tão queridas e compreensivas que qualquer pessoa o queria ter como amigo. Sabia escutar, mas também sabia falar com severidade e discernindo o melhor para a pessoa. Era um exímio pintor e ganhou alguns prêmios com exposições de suas obras. Jacqueline tinha no quarto uma obra dele pintada a óleo. Ele pintou Jacqueline debruçada na janela com um olhar faiscando de paixão. Essa obra recebeu dois prêmios de melhor tela a óleo. Ela amava muito essa pintura.

-

Nonato, preciso de você - Disse Jaqueline ao

telefone.

-

Meu amor, que houve dessa vez que seu coração

aflito me reclama? - Contestou Nonato com carinho.

- Aconteceu de novo. Não resisti abrir a gaveta do criado mudo. Márcio disse ao meu ouvido palavras suaves que somente pude suportar com o abraço das lágrimas. Preciso de colo, meu amigo - Desabafou Jacqueline.

de

quadros do boliviano Alejandro Salazar que está em

- Vamos

sair

amanhã.

uma

exposição

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cartaz no Teatro 4 de Setembro. Podemos passar por lá e depois sairmos para tomar um café - sugeriu Nonato.

- Tudo bem, meu querido, pode ser. Obrigado meu amigo. - Disse Jacqueline. Ela voltou para a janela e continuou por algum tempo a contemplar a noite silenciosa. Até a história da matéria que lhe deixou irritada com Márcio, ela esquecera. Suspirou forte, recolhendo as lágrimas do rosto e se dirigiu até o criado mudo onde guardou o lenço com a poesia escrita por Márcio, não sem antes imaginar o quanto realmente amava seu amado.

Pela manhã, Nonato passou pela casa de Jaqueline. Foram para a exposição. Toinho, o guardador de carros, sempre recebia seu Nonato com palavras que considerava cheias de glamour.

- Seu Honorífico Senhor que em minhas terras nasce profundo e semeia o meu mundo - Proclamou. - Vá em paz até a volta para seu possante. - Nonato agradeceu as palavras.

Ficaram um tempo na exposição. Nonato conversou com Alejandro Salazar. Conhecia-o desde sua passagem por Bolívia. Logo depois, saíram para um café que fica na Praça Dom Pedro. Pediram um capuccino e um café expresso. Jacqueline disse que estava com fome e pediu um pastel. Por alguns instantes reinou aquele silêncio, próprio de amigos íntimos quando se encontram. Um rito tão natural que é quase imperceptível.

- Você não consegue esquecê-lo mesmo, não é? - Nonato iniciou a conversa.

Jacqueline tomou seu cappuccino e deu um gole

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pensando na pergunta de Nonato. Por cima da xícara e com um olhar sensual e ao mesmo tempo tão inocente, Jaqueline disse:

- Nonato, me diga o que é, sem nenhum rodeio, o

amor?

Ele a olhou detidamente e respondeu:

- Se tem alguma explicação que elimine a busca

do amor, então decreto a morte de meu corpo e o engano

de minha alma. – disse Nonato convincente.

- Na verdade, não é dúvida, só mesmo desabafo

de um coração que nunca deixou de amar. – costurou

Jacqueline.

Enquanto conversavam, Jackson entra no Café Betelho e pede um chocolate. Vê o casal sentado do outro lado. Então, tenta se esconder com medo que Jacqueline o chame para explicar a matéria. Tomou seu café e escafedeu-se. Chegou no sitio para um encontro com Márcio.

-

Olá D. Mirna –

disse com a boca cheia de

charme.

-

Olá

Jaqui

Jackson

quase

entrou

na

intimidade. – guardei uma manga para você.

- Muito

cortesmente.

Obrigado

D.

Mirna

agradeceu

-

Você veio para a reunião com Seu Márcio, não é

mesmo?

-

Isso mesmo. Ele está andando por aí pelo sitio?

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- Não. Ele está no quarto. Vou avisar que está

aqui.

- Obrigado.

Márcio estava no quarto olhando umas fotos que tinha de Jacqueline. Havia ligado para Jackson justamente porque teve uma ideia.

- Olá Jackson, vamos para a área. Mirna, traga um

café para mim e para Jackson, por favor – e dirigindo-se

a seu amigo - Jackson, meu amigo, sempre confiei em

você para tudo que diz respeito à minha vida profissional

e pessoal. Quero continuar mantendo essa confiança.

Preciso de você para me ajudar a cobrir uma matéria de cunho pessoal.

- Senhor, você sabe que sempre poderás contar

com este túmulo. Diga-me o que será desta vez.

- Diz respeito a Jacqueline. Preciso que você, que

já está cobrindo a matéria do caso Planalto, tire fotos dela

sem que ela perceba.

- Senhor, com todo respeito, mais sei muito bem

porque ficou tão bravo com a história da edição da matéria. Desde já peço perdão.

- Tudo bem, Jackson, já passou. Só não cometa o mesmo deslize.

- Com certeza, senhor.

- Pare de me chamar de senhor.

- Sim senhor.

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Os dois tomaram o café servido por Mirna. Márcio teve que sair para ir ao centro da cidade visitar seu amigo Ivo que se conheciam desde o ensino médio.

Sairiam para o Poti Velho, a beira do Rio Poti, onde tinha

a melhor piaba frita regada a uma cerveja. Para Márcio

era sempre um momento de boas recordações e para celebrar a amizade de anos a fio e claro para escutar o velho coração do amigo destroçado pelo amor devotado a

uma bailarina. Fuzilado por um único beijo que sapateou em seus lábios. A bailarina namorava um lutador de boxe

e Ivo, por outro lado, era medroso e tinha um corpo

franzino. Não que estou sendo preconceituoso com a estrutura corporal de uma pessoa como determinante para ganhar a paixão de uma mulher, porque se assim fosse Márcio também não teria o amor pleno de Jacqueline. Ele era baixo e não era tão forte, apesar de ter malhado quando era mais jovem. Ivo dizia a Márcio na época que estudaram juntos que Jacqueline era a única mulher que o deixava abobalhado. Márcio não gostava muito de escutar isso de Ivo, porque passava a impressão de que era controlado pelo amor de Jacqueline.

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V CAPITULO

CAFÉ BETELHO

Eram 9:00 horas do dia marcado para o primeiro julgamento dos envolvidos no caso Planalto. Todos os jornais da cidade comentavam o caso em suas manchetes. Jackson conseguiu credencial para entrar no Tribunal. O meritíssimo juiz Paulo Sousa era o responsável pelo julgamento de hoje. Jacqueline chegou e logo foi cercada por jornalistas querendo saber sobre o que pensava dos acusados e da estratégia da defesa ao dizer que elas os haviam insultado ao fazer gestos obscenos para um deles, mas Jacqueline manteve-se em silêncio até atravessar o túnel de jornalistas sedentos por alguma palavra. O juiz pediu então que a acusação apresentasse a denúncia. Jacqueline tomou a palavra e chamou suas testemunhas. Foi impecável em suas palavras. Logo depois, a defesa tentou argumentar sobre o fato de que as vitimas provocaram a tragédia ao fazer gestos obscenos para um dos acusados fazendo com que ele perdesse o controle de sua raiva. A estratégia da defesa era diminuir a pena e até conseguir que pudessem pagá-la em liberdade. Enquanto isso, Jackson tirava fotos de Jacqueline. Márcio assistia pela televisão os flashes sobre o caso, atento às repercussões, sempre com a xícara de café que ganhara com sua foto impressa. Depois da tentativa da defesa, Jacqueline fez perguntas aos dois acusados e encontrou contradição no que as vitimas teriam dito a eles que julgaram como obscenos e, por sua vez, motivado o crime. Também conseguiu que dissessem que não

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toleravam outra orientação sexual que não fosse heterossexual. Isso foi suficiente para que o juiz Paulo dessa a sentença. Os acusados foram julgados dentro da lei como culpados pelo caso Planalto.

No dia seguinte ao julgamento, Jacqueline apareceu em vários jornais locais dando entrevista sobre

a condução do caso e a questão homofóbica no Estado do

Piauí. Márcio pedira que Jackson gravasse todas as entrevistas. À noite assistia a todas mais preocupado em observar as feições de Jacqueline que seus argumentos. Depois disso, Márcio foi descansar, pois logo teria que escrever sua primeira poesia para a coluna das quintas feira, Café Literário com Márcio Sousa.

Levantou bem cedo. Foi fazer sua caminhada matinal com seu companheiro moleza. Enquanto andava, recebeu uma ligação do Jackson.

- Senhor Márcio, levarei agora cedo as fotos da Dra. Jacqueline, se desejar.

- Claro Jackson, pode trazê-las.

Jackson chegou com as fotos uma hora depois. Márcio pegou e as levou para debaixo da árvore onde sentou e pôs-se a olha-las. Não conseguiu conter as lágrimas. Sentiu que seria o momento para escrever sua

primeira poesia para a coluna quinta poética. Descreveria

a dor que é amar. Chamou Mirna. Ela já sabia de que ele

precisava. Levou tudo que ele necessitava para sua criação literária, inclusive o cafezinho. Jackson ficou sentado no alpendre de conversa com d. Mirna.

- D. Mirna, a senhora já sentiu algo por alguém que nem conhece direito?

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- Como assim Jackson? – falou, meia inocente.

- Tipo seu coração acelerar toda vez que a vê. E

mesmo depois, o coração não parar de pulsar pelo mesmo

motivo.

- Não Jackson, não me lembro. Você aceita um suco? – Mirna desconversou.

Nesse momento, seu Márcio chamou por Jackson, que foi atendê-lo.

- Jackson, eu preciso que leve esse poema para o

jornal. Mas antes, quero que leia para Mirna e veja se ela gosta.

- Tudo bem, seu Márcio. Com sua licença.

Jackson foi até a cozinha. Mirna estava terminando de preparar o suco. Ele se posicionou para proclamar o poema. Fez um som com a garganta para chamar a atenção dela. Assim que ela virou-se ele começou a proclamar:

Amor

Perpassa-me dor que é encanto Invade-me fel que é meu canto És a capa grossa da angústia Que cruza esse meu oceano

Nuvens torrenciais de dor Lágrimas que envenenam

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Deixam a alma vulnerável Á teimosia do meu corpo

Meus ânimos se consomem No sono de meus desejos Só para sonhar contigo Dor que me ultrapassa

Preciso de um antídoto Que me restitua da dor Dessa distância cruel De ti, meu louco amor

Márcio Sousa

Quando terminou de proclamar, Mirna lançou-se aos seus lábios e o beijou como nunca havia beijado alguém na sua vida. Saiu envergonhada com sua atitude. Com certeza, culparia a força da poesia de seu Márcio pelo ocorrido. A questão era que fazia tempo Jackson era meio apaixonado por Mirna, mas ela resistia aos seus galanteios. Ele voltou para onde estava Márcio.

- Então, Jackson, a Mirna gostou?

- Seu Márcio preciso de outros poemas desses. Ela ficou arriada de amores por mim.

e contentamento, além das marcas do batom.

- Ao menos, vá tirar essa marca de batom que tá horrível em sua face. – arrematou Márcio.

de

Márcio

riu

de

Jackson

de

seu

rosto

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- O senhor vai precisar de mim hoje a noite?

- Bem, na verdade não teríamos mais trabalho

hoje; mas se desejar sair comigo, podemos ir para tomar

algo e conversar, que tal?

-

Por mim beleza, seu Márcio.

-

Então te pego pelas 20:00 e vamos para o Café

Betelho.

-

Beleza. Aguardo.

Jacqueline tinha ido visitar o mar. Levou consigo Nonato. Conversaram muito sobre o modo como o mar se impõe. Dizia a Nonato que o amor parece como as ondas. A namorada de Nonato ligou e perguntou se ele a podia pegar na universidade. Então, ele se despediu de Jacqueline. Na volta da praia, Jacqueline pôs a música que fazia seu coração saltar de emoção e a alma chorar. Era a música que compôs para seu amor, Márcio. Cantava com voz forte o refrão, visivelmente emocionada:

Doce

Se me enlouquece, também me acalma Liberta o tempo, asas ao pensamento ”

Nunca te perder, só nisso penso

louco amor, algemas de mi’a alma

Nesse instante, seu celular toca. Era Paulo, o juiz do caso Planalto. Fez elogios sobre o modo como ela bravamente se posicionou no tribunal.

bem

Fiquei

preparada

- Nunca

em

tinha

defender

visto

uma

tão

advogada

tão

casos

polêmicos.

28

impressionado com você, Jacqueline – disse o juiz.

- Obrigada meritíssimo Paulo –

- Por favor, deixemos de protocolos. Chame-me de Paulo somente.

- Desculpe, mas é o costume.

- Jacqueline, gostaria de fazer-lhe um convite para

um café. Estou encantado com seu trabalho e desejo discutir algumas ideias que surgiram depois daquele julgamento. Será que poderíamos nos ver mais tarde no Café Betelho?

- Bem, creio que não há impedimentos em minha

agenda. Mas será que haverá problemas se eu levar um amigo? Podemos nos ver depois das 20:00 por lá.

- Tudo bem. Sem problemas. Nos vemos por lá. –

Paulo desligou o telefone tão feliz que deu um grito de

vitória.

Ás 20:00 hs Márcio passava na casa de Jackson. Foram ao Café Betelho. Era um lugar muito exótico. Márcio frequentava desde quando era jovem. Pediu seu cafezinho de sempre. Jackson pediu um suco de laranja. Estava cheio como de costume. Márcio tomou a palavra.

- Jackson, tem novas fotos de Jacqueline?

- Para que fotos, meu senhor, quando pode vê-la

ao vivo e a cores. – Jackson falou apontando para a

entrada do Café Betelho onde Jacqueline acabava de entrar.

Jacqueline estava com um vestido vermelho que

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demarcava os contornos de seus seios exalando sensualidade, além de seus cabelos soltos e o olhar sempre firme e dócil de uma menina. Jacqueline deixou Márcio em estado de transe. Ela estava com Paulo. Sentaram-se do outro lado onde se encontravam Márcio e Jackson. Ela não percebeu a presença de Márcio. Com toda educação, própria de um cavalheiro com sua dama, Paulo puxou a cadeira para Jacqueline se sentar. Sentou- se de frente para ela. Viu que Márcio estava por ali. Porém, não disse nada a Jacqueline. Tinha certeza que se dissesse, perderia a atenção dela.

- O que vamos tomar, minha linda? – disse Paulo.

- Eu vou querer um pastel e um suco de laranja. – respondeu.

Márcio continuava paralisado. Todos esses anos sem ver sua amada e de repente ela aparece aos seus olhos tão bela como da primeira em que seus olhares beberam da alma de sua amada. Jackson vendo a situação de seu amigo e patrão decidiu acordá-lo do transe.

- Senhor, chegou seu café.

- Ah sim. Obrigado Jackson.

- Márcio, tire essa cara de abobalhado rapaz, parece que viu fantasma!

– e continuava ainda sem

acreditar que seu amor estava no mesmo ambiente e ele sem coragem para ir até lá.

Enquanto Jackson tentava fazer com que Márcio aterrissasse, os outros dois conversavam sobre situações

- Pois

é Jackson

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de preconceito e discriminação contras as mulheres e outras classes menos desfavorecidas da sociedade. Paulo recebeu uma ligação. Precisava sair, infelizmente. Ficou um pouco preocupado, pois Nonato, a quem Jacqueline havia convidado, não tinha chegado ainda. Jacqueline percebeu sua preocupação e disse:

- Tranquilo Paulo, pode ir. Eu aguardo o Nonato. Ele não deve demorar.

- Peço mil desculpas Jacqueline, mas realmente

preciso me ausentar. Estou me sentindo um idiota por causa dessa situação.

- O que é isso, Paulo, entendo perfeitamente. Não

faltarão outros momentos para continuarmos nosso papo.

– arrematou Jacqueline.

Márcio e Jackson continuavam de olho na mesa do casal. Viu quando Paulo levantou-se e abraçou Jacqueline. Seu pescoço estirou na tentativa de ver se havia algo a mais naquele abraço. Paulo despediu-se de Jacqueline e saiu.

- Seu Márcio, é sua chance! Vá e lá e apresente-

se. Vamos homem, levante a bunda dessa cadeira e se mexa. Vá rever sua amada. – insistiu Jackson.

- Calma, Jackson! Não saberia o que dizer.

Preciso montar algumas palavras para não ficar com cara de abestalhado diante dela. Ajude-me a organizar o pensamento, não me deixe mais nervoso do que já estou.

- Tudo bem. Diga que sentiu saudades e que

sempre guardou seu amor como uma xícara virgem de café.

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- Meu Deus, Jackson, não por favor, me poupe. Isso é ridículo!

- Então, diga que seu coração está abestalhado de tanto amor.

- Jackson, é melhor deixar eu pensar sozinho. Obrigado por suas dicas.

- Tudo bem, senhor. Mas se precisar, estou aqui.

- Já sei Jackson! Vou dizer a ela uma só palavra:

Jacqueline, te amo! Aí é só esperar.

Quando Márcio preparou para se levantar e ir até lá, Jackson o reteve, pois chegava Nonato, o amigo de Jacqueline. Foi até a mesa de Jacqueline e a beijou. As risadas na mesa deixavam Márcio vermelho de inveja e também com saudades do sorriso de sua Jacqueline. Ficou observando como eram bem próximos. Márcio perguntou a Jackson se os dois eram namorados. Também ele desconfiava, mas pelo jeito que se relacionavam, por certo eram, alfinetava Jackson. Depois de um certo tempo, Márcio cada vez mais com ciúmes da situação a que era obrigado a assistir, chegou uma jovem morena, alta e de cabelos grandes e se direcionou para a mesa de Jacqueline. Nonato se levantou e a beijou. Ficaram próximos e vez ou outra se beijavam. O coração de Márcio se sentiu aliviado. Pouco tempo depois, eles saíram. Márcio ficou muito feliz por saber que Nonato, na verdade, era um amigo de Jacqueline. Chamou Filho, o gerente do Café Betelho, e pediu o melhor licor de jabuticaba que ele tivesse na casa. Tomaram o licor. Jackson disse que ia ao banheiro. Mas foi no caixa puxar conversa com Amanda, filha do Filho. Uma garota linda,

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olhos castanhos, curvas formosas que era o sonho de todo marmanjo em busca de uma mulher bonita e decente para casar. Jackson sabia que ela amava poesia e coisas do gênero e vez ou outra extraviava poesias do seu patrão para dedicar a ela como se fossem suas. Teve uma ideia, aproveitaria a alegria para que ele fizesse uma poesia para dedicar a sua amada.

- Márcio, meu querido amigo e patrão. Você representa muito para mim.

- Jackson, ou você está bêbado ou quer algo. Diga logo o que é?

- Bom, tem uma amiga minha aqui. Você poderia

fazer uma poesia de amor para eu presenteá-la.

- Tudo bem. Dê-me caneta e papel.

Amor, Sensação que conheço. Paixão, Emoção que experimento. Quando esqueço que respiro, Suspiro, seu pulsar em mim.

Márcio Sousa

Jackson pegou a poesia, repassou para outro papel e pôs o nome dele no lugar do de Márcio. Amanda amou a poesia que foi lida pelo próprio Jackson. Estava ganhando pontos com Amanda. Filho, o pai dela, viu que Jackson estava arrastando a asinha para ela e disse na

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discrição que teria ele que comer muito sal para poder namorar Amanda. Jackson respondeu que ele podia temperar com pimenta malagueta que ainda assim comeria.

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VI CAPÍTULO

CASO LONDRINAS

Jacqueline logo bem cedo, depois de sua caminhada matinal, recortava a coluna poética, inaugurada na quinta-feira por Márcio Sousa. Tinha quase a certeza que Márcio escrevia para ela. O que não compreendia era por que os dois têm consciência que se amam tanto e não se buscam de forma explicita. Porque tem que ser pelas entrelinhas. Por outro lado, essa situação era tão romântica. Saber que nas letras de Márcio se escondia o amor por ela. Ela fez uma pasta para guardar as poesias dele. Colocou a música para ouvir, parecia um vicio. Enquanto deliciava-se com a música que compôs para seu amado e, que por sua vez, Juscelino Hanhy fazia sucesso, recebeu uma ligação importante. Era de Londres. Duas cidadãs londrinas haviam sido violentadas sexualmente e torturadas até a morte quando passavam por Parnaíba, uma área litorânea. Como Jacqueline era bem conhecida nos meios jurídicos de Londres e pela atuação dela no Brasil, queriam que ela assumisse o caso. Jacqueline pediu um tempo para pensar. Ligou para sua secretária e pediu que recolhesse todas as informações que pudesse sobre o caso das londrinas. A secretária sugeriu que ligasse para Jackson, pois ele sabia muitas coisas sobre esse caso, já que acompanhava a situação desde o inicio. Jacqueline disse que podia ser com o papa, mas queria todas as informações possíveis. Na manhã do dia seguinte, Jaqueline lia todo o dossiê que Deusimar conseguiu. É

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bom lembrar que Jacqueline conheceu Deusimar ainda no tempo do Ensino Médio. Era de uma precisão e praticidade que encantava. Estudou e concluiu Administração de Empresas. Quando Jacqueline voltou de Londres não pensou duas vezes em contratá-la. Namorava com Edmundo, um empresário de roupas e dono de uma rede de Perfumaria. Mas não gostava muito dele. Pensava em terminar nessa mesma semana. É melhor só do que mal acompanhada, era seu lema. Também nesse instante, outra ligação de Londres. Deusimar passou para a sala de Jacqueline. Ela pensava que era sobre o processo das Londrinas, mas surpreendeu-se ao saber que era Simone, sua grande amiga dos tempos de estudos na Inglaterra. Simone tinha pretensão de passar suas férias no Brasil e queria sondar essa possibilidade. Jacqueline ficou muito feliz com a ideia. Simone havia sido quem a ajudou no processo de sofrimento causado pela distância de Márcio. Eram grandes amigas. Dizia-se que eram unha e carne na universidade onde estudaram. Ela também se formou em Direito.

Jackson chegou cedo a casa de Márcio. Tinha muitas coisas para partilhar. Inclusive sobre o fato da secretária de Jacqueline tê-lo procurado. Como de costume, sentou-se na varanda de frente para a árvore frondosa. Mirna serviu-lhes um café. Ficaram um momento em silêncio como que se contemplassem a árvore. Jackson começou dessa vez a conversa.

- É seu Márcio, o Ipê começou a florescer cedo.

- É verdade Jackson.

- Eu vi assim que cheguei que também a

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jabuticabeira ali perto está pretinha, pretinha.

Márcio ficou contemplando a jabuticabeira. Repetidas vezes recolheu frutos para colocar na boca carnuda de Jacqueline como um súdito que serve sua deusa. Recordou que ela dizia que ela ganharia um beijo por cada jabuticaba ceifada.

- Cafezinho, senhores. – Mirna o acordou do

transe. Jackson sempre ficava em silêncio, pois sabia

onde estava o coração de Márcio.

- Obrigado Mirna. – Márcio agradeceu. - Então,

Jackson, que noticias me traz, além das costumeiras?

- Senhor, duas coisas. Primeiro. Aquela reportagem sobre o Tráfico de Mulheres está sendo concluída a parte de pesquisa. Falta entrarmos em contato com nossa informante e começarmos a entrar de fato no submundo dessa atividade. Agora, ela me meteu muito medo, pois perguntou se eu já passei por algum perigo de morte em minha vida, porque era necessário sangue frio.

- Certo. – disse Márcio, sem esboçar nenhum

medo quanto ao perigo de morte – Mas eu pergunto Jackson, você já passou por alguma situação de morte em sua vida?

- Bem, na verdade, passei uma boa, por causa de

mulher. – disse Jackson, pensando no fato que lhe aconteceu.

- Novidade!! Você sempre se envolve em confusão com as mulheres. Pensa que não vi você com a Amanda, filha do Filho, naquele dia lá no Café Betelho. Mas me conte como foi essa aí.

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- Ei Márcio, não tenho tantas mulheres assim que

me queiram como pensa. Ao menos se eu fosse escritor como certas pessoas, quem sabe né?! Mas quanto ao perigo foi alguns anos atrás. Conheci uma garota numa daquelas entrevistas que o senhor deu ao jornal Meio Norte. Lembra que você me pediu pra ir antes e ver como as coisas funcionavam lá?

- Sim, eu lembro.

- Nesse dia conheci uma jovem de seus 19 anos. A

mulher, toda metida a independente me convidou a ir a sua casa naquele mesmo dia. Eu nem pensei duas vezes, pois a mulher era muito linda. Pelas oito horas, eu já estava lá no maior amasso, foi quando o pai da bendita entrou em casa, todo bêbado. Só deu tempo eu correr e me enfiar debaixo da cama. Ele falou algumas coisas lá com a menina e ela tentando dissuadi-lo de que me fosse para baixo da cama, costume que ele tinha quando estava embriagado e eu não sabia disso. A cama era encostada na parede, ou seja, só tinha uma entrada e uma saída. Márcio, meu irmão, quando esse homem se enfiou debaixo dessa cama, pareceu briga de gato. A porrada comeu. Essa marca aqui no meu ombro foi uma mordida desse homem. Só sei que consegui me livrar dele e pulei a janela. Caí em cima da lixeira. Corri um bocado, quando fui parado pela polícia. Eu disse que fui assaltado e registrei um boletim de ocorrência. Ganhei umas roupas deles e fui para casa, salvo da morte. Depois, fui conversar com a garota para ver se ela estava com meus documentos. Ela me viu todo marcado com hematomas e olhou aquilo como troféu dos efeitos de sua beleza. O bom é que me passou os documentos e disse que o pai dela no dia seguinte, afirmou que brigou com o demônio

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em pessoa debaixo da cama e venceu. Foi isso. – Jackson concluiu com ar de quem nunca mais deseja passar pela mesma situação ou similar.

Márcio disparou a rir de seu amigo.

- Engraçadinho. Ria a vontade. Não foi você não é mesmo?!

- Rapaz, seu santo é muito forte! Escapar ileso é

muita sorte! Tudo bem. Agora, você marcou algum dia

para a gente começar o trabalho de campo?

- Olhe, pensamos no inicio da próxima semana.

Sairíamos na madrugada para a cidade de Porto. Nossa informante estará aqui em Teresina e irá conosco. Inclusive, há duas garotas que nesse período de estada nossa lá, os traficantes vão começar o processo para mandarem-nas para Espanha e a outro país, Holanda.

- Ok Jackson. Organize nossas coisas. Vou deixar

essa parte com você. E a segunda questão qual é?

- Ah sim. Essa você vai gostar. Tem a ver com Jacqueline.

Os olhos de Márcio brilhavam ao ouvir o nome de sua amada.

- Sim? O que foi que ouve com Jacqueline?

- Então! A secretária dela me ligou querendo

algumas informações sobre o caso das londrinas que o senhor me pediu para recolher informações para sua matéria semanal. Claro que não passei tudo que consegui, pois eu não tinha autorização da sua parte, então passei

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só o que todos já sabem.

- Mas o que Jacqueline teria a ver com esse caso? – Márcio estava curioso.

- Bem, a secretária dela me disse que ela foi

incumbida pela Embaixada Inglesa para assumir o caso.

- Porque escolheriam logo ela? O que pensa disso Jackson?

- Não se esqueça que ela ganhou notoriedade em

terras inglesas por seu trabalho. Depois, esse caso das Londrinas envolve um jovem da classe alta, filho de magistrado. Jacqueline tem manejo com casos desse tipo, pois não se deixa manipular por interesses e pedidos extras dessas figuras.

- Você tem razão. Pode passar o que ela precisar.

Fique próximo à secretária de Jacqueline, mas cuidado com o pai dela.

- Obrigado pela ultradica. – disse Jackson em resposta à ironia de Márcio.

- De nada. Vou caminhar um pouco pelo sitio.

Nos vemos. Fiuuuu

- Ok. Vou tomar mais um cafezinho de Mirna e

vou trabalhar. Precisa que leve algo para seu escritório?

Moleza, vamos lá menino.

- Não, obrigado.

Jackson se dirigiu à cozinha onde estava Mirna. Ela estava agachada arrumando umas garrafas de vinho. Márcio ficou contemplando a sensualidade com que ajeitava cada garrafa. Assim ficou na entrada da cozinha

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por um bom tempo. Deu sua tosse característica para Mirna perceber que estava ali. Ela se recompôs, pois estava numa situação complicada como mulher.

- Olá Jack

Jackson.

Como vai você?

- Estou bem D. Mirna. Não poderia ir embora sem

tomar o cafezinho na cozinha com sua presença.

- Obrigada Jackson pelo carinho. – disse Mirna,

com ar de sensualidade na sua fala. Ele nem percebeu.

enquanto Mirna

preparava o café. Ele disse:

- apaixonada de uma mulher que se declara para mim. O mais engraçado é que ela assina como Pitadinha Malagueta.

Mirna, ontem recebi uma carta muito

Jackson

sentou-se

na

mesa,

- Nossa Jackson. Você anda arrasando corações

assim, é? Mas não é por menos, porque você é muito bonito e sensual.

-

Obrigado Mirna. Agradeço a gentileza do seu

coração.

- Por nada meu querido. Mas o que diz essa carta que o deixou assim tão sensível à paixão?

- Bem, essa é a segunda carta que chegou às

minhas mãos por esta mulher. Ela faz umas metáforas interessantes. Por exemplo, nessa última ela diz que sou

como a borra de café que sempre recorda quão belo é. Depois, usa uma expressão que não entendi bem.

- Qual seria a expressão, pois talvez possa ajudar

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a decifrá-la.

- Ela me chamou de sensação envernizada. O que seria isso, hein Mirna?

- Eu acho que ela quis dizer que você é como uma madeira sempre jovem.

- Será? Achei muito estranho. Mas tudo bem. O

importante é que estou apaixonado por essa jovem.

Mirna ficou hiper feliz ao ouvir essas palavras. Ofereceu um pouco mais de café para Jackson com azeitonas, pois ele gostava muito. Estava um emaranhado louco toda essa questão. Mirna era quem escrevia as cartas e Márcio pensava que era Amanda. Enquanto ninguém descobrisse o real disso tudo, o trio amoroso estava formado.

Jackson manteve contato com a secretária de Jacqueline e colocando a disposição informações preciosas sobre o caso das londrinas. Deusimar comentou que Jacqueline havia assumido o caso, mas as autoridades policiais haviam colocado empecilhos para que ela tivesse acesso ao processo contra o rapaz envolvido no assassinato. Por outro lado, Jackson falou que ele e seu Márcio estavam envolvidos numa reportagem sigilosa sobre o tráfico de mulheres para o exterior. Eles suspeitavam que elas eram trazidas do interior para a capital e daqui despachada para a Europa. O que Jackson não desconfiava de Deusimar e vice-versa é que os dois eram informantes de seus respectivos patrões. Tanto um quanto o outro recolhiam tudo que escutavam e repassavam. Era assim que Jacqueline sabia como estava Márcio. Por isso amou a ideia de Jackson se

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aproximar de sua secretária. Ela, a pedido pessoal de Jacqueline, fez algumas perguntas para Jackson.

- Seu Jackson, estive lendo a primeira

participação de seu Márcio na coluna poética da quinta. Diga-me como ele consegue produzir coisas tão belas? Você que é mais próximo dele, fale-me como e quando ele as confecciona?

- Olhe, é um processo muito demorado e complexo. Seu Márcio se dedica quase a manhã toda para gerar uma poesia. Levanta ainda de madrugada, contempla o cantar dos pássaros, muitos deles pousam em sua janela. Deixa a caneta sob o alpendre para banhar-se da brisa que ainda se demora. Depois de sua higiene pessoal, vai tomar café já pensando e deixando-se inebriar pela inspiração. Aí sim, ele vai até seu lugar predileto para compor, uma árvore frondosa próxima ao rio Cafuné. Já vi como que espíritos sentados nos galhos da árvore que lhe sopram conhecimentos. Mas creio que deve o encanto que flui da concentração desse poeta do amor e que me paralisa fazendo-me ver alucinações. Ás vezes, eu me demoro o dia todo para ver o que ele escreveu. Ele me chama para ler seu escrito. – Jackson exagerou um pouco sobre o ato criador de Márcio fazendo jus ao ditado popular, quem conta um conto aumenta um ponto.

estou

acompanhando as poesias dele. São muito lindas.

Enquanto ela falava, Jackson meteu a mão no bolso e tirou um papel.

- Veja, eu não deveria fazer isso, mas vou lhe

- Nossa,

que

impressionante!

Eu

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mostrar a poesia da próxima quinta poética lá do jornal, em exclusividade.

- Sério? Que maravilha!

Jackson

preparou sua voz com o pigarro

característico.

CORAÇÃO INQUIETO

Que passa contigo meu coração? Não se contenta com seu pulsar?! Insiste em me tirar da sobrevivência Me lançar na sorte dos apaixonados.

Esse movimento tão descontrolado Do pulsar inquieto da respiração

Deixa a alma sem defesas, no chão.

O

quê há contigo meu coração?

O

meu corpo fica sem razão.

A

alma por conta da emoção.

Sei que só você pode decifrar

O sentido do que seja amar.

Márcio Sousa

- Meu Deus, Jackson, que formoso, delicioso de

se ouvir. Na sua voz, então, sem comentários. Fiquei apaixonada. Que lindo poema proclamou para mim. Obrigada. Esse é o original escrito pelas mãos de Márcio?

- É um prazer ter lido para você, Deusimar. Sim,

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este aqui é o original. Seu Márcio tem a mania de enterrar boa parte de seus poemas, mas estes são “comerciais” que ele vende para o jornal.

- Jackson, sou muito fã de seu Márcio e em suas

mãos está uma poesia do próprio cunho do poeta. Será

que

seu Márcio me mataria se

soubesse que extraviei o poema dele. O máximo que

posso fazer é tirar uma cópia para você.

- Oh, eu queria tanto a original! Por favor, seu

Jackson, só esta vez. Diga que foi roubado. Uma mentirinha pequenina em nome de uma fã enlouquecida.

– Jackson sabia que não poderia fazer

isso.

Deusimar saiu detrás de sua mesa, foi até onde estava Jackson e de súbito deu-lhe um beijo demorado. Depois do beijo, Jackson arrematou:

- Fui roubado por um beijo. Não poderia ter

ladrão mais desejável que este! Pode ficar com ele, é seu! Eu me viro com seu Márcio.

- Obrigado Jackson por sua gentileza e cuidado com as fãs de seu Márcio.

– Deusimar deixou no ar o que queria.

- Não, não, não

- Não sei

- A gente faz o que pode, né!

- Algum dia poderíamos ir ao Café Betelho, o que você acha disso?

- Claro, é uma boa ideia. Depois marcamos.

Agora, tenho que ir. Bom estar com você. Com sua

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licença Deusimar. - Fique a vontade, meu lindo!

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VII CAPÍTULO

CHEGADA DE SIMONE

Jacqueline tinha ido buscar Simone que chegava para as férias no Brasil. Foi seguido por um carro preto. Fingiu se encaminhar para a delegacia que ficava no Planalto Ininga, onde conhece o delegado de lá e, então, o carro seguiu outro caminho. O reencontro com Simone foi um momento especial para Jacqueline, pois desde a conclusão dos estudos na Inglaterra não tinham mais se visto. Passou no seu escritório antes de ir para sua casa, a fim de pegar uns relatórios que teria que se debruçar sobre eles mais tarde. Logo que chegou, Deusimar disse que tinha algo que ela iria amar. Jacqueline estava tão entretida com Simone que nem ligou para o modo eufórico como se expressou Deusimar. Mas quando ela disse que tinha a ver com Márcio, Jacqueline mudou da água para o vinho. Simone, que sabia de tudo, disse algo para ressaltar ainda mais o modo como Jacqueline se interessou pelo que dizia Deusimar.

você tem para me contar

- Jacqueline? – disse, tentando dissimular seu interesse quase angustiado.

- É algo que consegui de seu Márcio para você! – disse, criando suspense.

- Tudo bem. Você conseguiu! Diga logo o que é que eu não agüento mais de tanta curiosidade. – desabafou de uma vez.

O

que

é

que

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- Seu Jackson veio aqui e trouxe informações

valiosíssimas sobre o caso das londrinas. Fiz as perguntas que me sugeriu e, além de me responder a todas elas, ofereceu uma poesia de seu Márcio escrita num papel que ele levaria para a redação. Ou seja, a poesia que sairia amanhã na quinta poética, você agora a tem em mãos.

- Nossa Deusimar! Você realmente é demais!

Como você conseguiu arrancar dele essa poesia, menina?

- Usei os truques de minha sensualidade. Nada

mais!

- Humm, poderosa você heim beautifull girl! – Simone usou uma expressão em inglês.

- Cadê? Deixe eu ver como anda a letra dele? – disse Jacqueline, ansiosa.

Jacqueline leu silenciosamente a poesia. As outras duas disseram juntas, ironizando o modo como ela lia, tão entregue às letras de seu amado:

- Ohhhhhhhhh, o amor é tão lindo!

- Pode parar vocês! É só uma poesia! Leria todas com a mesma paixão.

- Você quer enganar a quem? – disse com tom

forte – Será que nós mortais podemos ler também? – disse Simone, quase tomando a poesia das mãos de Jacqueline.

- Mas é claro, meu bem! Tome.

-Simone leu. Releu. Elegeu uma frase como a mais bela do poema:

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O meu corpo fica sem razão. A alma por conta da emoção.

Jacqueline convidou Deusimar para ir almoçar com elas. Foram almoçar em um restaurante próximo dali mesmo, no Frango Leste. Conversaram muito e riram bastante com as partilhas de Simone sobre as travessuras de Jacqueline na Universidade. Lembrou da vez em que saíram da Universidade e foram para um parque de diversões da cidade com outros amigos e se divertiram muito. Principalmente Jacqueline quando descobriu um brinquedo onde se dançava Samba. Para matar a saudade do Brasil dançou até as pernas ficarem bambas. Caiu umas duas vezes do brinquedo. Os meninos diziam que era a ferrugem. Logo após esse momento festivo entre as três, Jacqueline pediu a Deusimar que à tarde levasse Simone para conhecer um pouco a cidade, pois ela teria que ler uns relatórios para a audiência do dia seguinte com a promotoria sobre o caso das Londrinas. Deusimar disse que a levaria para conhecer o Encontro das Águas e depois as Cerâmicas do Poti Velho. Se ainda sobrasse tempo, passariam no Café Betelho para degustar algo. Jacqueline acolheu a ideia do roteiro proposto por Deusimar e assim ficou acertado. Nonato chega ao restaurante e se depara com Jacqueline. Era costume dele sempre almoçar por lá com sua namorada. Foi apresentado a Simone.

é a famosa Simone que

- Jacqueline fala. Olhe, você é que nem doce na boca dela. Fala demais de você!

Ah,

então,

você

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- É mesmo?! Mas ela esconde os podres né? – Simone disse rindo.

- Na verdade, fala mais o doce que o fel!

Todos ficaram rindo. Depois se despediram e marcaram um dia para todos se encontrarem no Café Betelho. Na volta para casa, Jacqueline pôs a música Doce Louco Amor que estava fazendo o maior sucesso nas rádios. Simone ouviu a música e recordou-se dela.

-

Peraí! Essa não é a letra que você fez para

Márcio?

-

Ela mesma!

- Nossa amiga! Não me diga que é o Juscelino que gravou essa letra?

a música que abre o

álbum dele, Louco Amor.

- Menina, você arrasa heim. Além de advogada,

uma bela compositora. Mas agora me veio uma dúvida.

- Sim.

Foi ele mesmo. É

- Diga.

você

compôs para ele?

- Não, ele não sabe. Mas com certeza já deve ter ouvido. Um dia quem sabe, ele descobrirá.

- Eu não entendo porque é que ainda não estão

juntos de novo. Ficam brincando de se esconder um do

- sabe que essa música

Márcio

é

a que

outro. Ai que me dá uma raiva disso!

50

- É complicado Simone. – Jacqueline tentou se

justificar.

- Complicado são dois tomates tentando atravessar a avenida Kennedy. Quando a gente ama tem que partir pra cima mesmo, sem dó.

Estavam chegando a casa e Jacqueline amou porque assim aquele papo parava ali. O celular de Jacqueline tocou e uma voz rouca disse para ela não entrar na condução do caso das londrinas pela própria segurança dela e desligou em seguida. Jacqueline não teve como identificar, pois o número estava como privado. Mas ela não comentou com ninguém a ligação e foi para seu quarto ler os relatórios para se inteirar do caso. Depois da sesta, pois Simone precisou descansar um pouco, saíram para conhecer a cidade. Primeiro passaram no Centro Artesanal do lado da praça Dom Pedro II. Em seguida, conheceram o Teatro 4 de Setembro e se dirigiram para o Encontro das Águas e Poti Velho. Simone estava encantada com tudo. Na beira do rio comeram piaba frita, farofa e cerveja. Já quase noite, foram ao Café Betelho. Assim que entraram, Jackson viu Deusimar. Márcio e Jackson estavam por lá acertando os últimos detalhes da Reportagem e da viagem para Porto.

- Márcio, olhe quem está ali. É a secretária de d. Jacqueline, a Deusimar. – apontou Jackson.

- Mas quem será aquela bela jovem que está com ela? – ficou curioso.

- Não sei, mas deve ser uma amiga de Jacqueline que viria passar as férias aqui no Brasil.

51

- Humm, vejo que sua amizade com Deusimar

está lhe rendendo muitas informações da vida de Jacqueline.

- Somente as que interessam a meu senhor. –

desconversou Jackson – Veja, que elas estão olhando para cá – concluiu Jackson.

de

Jacqueline, o poeta da poesia Coração Inquieto.

- Nossa, Deusimar, além de bom poeta, ele é um gato! Quando voltar, vou dar umas lapadas em Jacqueline para aprender a não perder no amor.

- Talvez, ela nem se preocupe, pois sabe que ele não tem outro amor, senão ela.

- Conhecendo Jacqueline, duvido muito. Ela é

muito insegura. Tem medo de perder o que é seu e nem arrisca.

- Lá vem Jackson que trabalha para seu Márcio. Vou apresentá-lo para você.

- Olá Deusimar, tudo bem? Saudades de você, minha linda! – Jackson a saudou.

- desculpe, deixe-me lhe apresentar uma amiga, Simone. Ele veio da Inglaterra passar as férias dela aqui.

sim,

Deusimar

mostrava

para

Simone

o

poeta

Olá

Jackson,

tudo

bem!

Pois

é.

Ah

- Prazer conhecê-la morena! – Jackson a cortejou com todo o galanteio possível.

- Você e seu Márcio estão trabalhando é? – quis saber Deusimar.

52

- Bem, na verdade, estamos concluindo os detalhes daquela viagem que lhe contei que faríamos estes dias.

- Quando é que vocês vão?

- Creio que na segunda feira.

- Chame Márcio aqui para eu apresentar a amiga

de D. Jacqueline que amou o poema que ele escreveu.

- Tudo bem, mas não fale do poema, pois eu tive

que inventar uma estória cabeluda para ele sobre aquele poema.

- O que disse, posso saber?

- Eu disse que estava a caminho da redação,

escorreguei numa boca de lobo e fui parar no subterrâneo

do esgoto. Tive sorte porque haviam trabalhadores embaixo que fizeram meu resgate, mas a poesia não sei onde foi parar.

- Nossa,você também poderia escrever crônicas

de suas mentiras. – Deusimar falou irônica e arrancou

sorrisos de Simone.

- Seu Márcio, venha cá, por favor. – Jackson

acenou para Márcio que conversava com Filho, que conhecia a cidade de Porto.

Márcio

- cumprimentou as duas.

Simone sussurrou no ouvido de Deusimar que ele tinha a voz linda.

Olá

senhoritas,

bom

dia!

53

Apresentaram-se mutuamente. Deusimar os convidou para sentarem na mesa e prontamente aceitaram. Jackson ficou conversando com Deusimar, enquanto Simone conhecia um pouco mais de Márcio, de quem tanto Jacqueline falava.

- Então, você é o escritor famoso? – Simone

puxou conversa depois das apresentações iniciais.

- O povo diz que sim. Gosto de dizer que sou ajuntador de letras. Nada mais.

- Mas, pelo que ouvi, você junta de um modo tão admirável aos olhares de quem degusta.

- Parece que sim!

- Não estou agüentando, preciso dizer algo para

você. Não me leve a mal se isso o incomoda ou chateia. Se for isso, por favor, me diga para que eu mude de assunto, viu?

- Tudo bem. Sem grilho. Prossiga.

Amanda veio servir o pedido deles. Serviu o café de seu Márcio, o pastel de queijo de Deusimar, o leite para Simone e por último o sanduiche de Jackson e disse baixo para ele dizendo que ele não parecia homem de uma mulher só e saiu. Deusimar ouviu e disse a Jackson que se ela o estivesse complicando com a garota do Café Betelho, ela poderia ir lá e dizer que não havia nada de errado ali. Jackson disse que deixasse para lá, mas em seu coração havia uma felicidade por saber que Amanda estava gostando dele.

- Márcio, eu vivi sete anos de minha vida na

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companhia de Jaqueline lá na Cambridge. Desses anos, nunca passou um dia em que Jacqueline não falasse do amor que tinha por você. Acompanhou sua carreira como escritor. É impressionante como ela tem de tudo que você possa imaginar em relação a você. Qualquer noticia que era veiculada seja de palestras que você ministrava, quer seja dos artigos e livros que publicava. Posso afirmar que eu já o conhecia. Hoje eu disse a Jacqueline que não entendia porque ainda não estavam juntos novamente. Não sei se você pode me dar essa resposta, e nem estou dizendo isso para que se sinta coagido a dizer.

- Simone, não é mesmo?

- Sim, Simone.

- Veja Simone, eu também me faço essa pergunta.

Porque ainda não estamos juntos. Até porque meu coração ao longo desse tempo todo não conseguiu ser de ninguém, ainda que, às vezes, nos braços de alguém. Escrever se tornou refúgio de minha alma desolada pela ausência da amada. Toda vez que escrevo poesia, Jacqueline se faz presença e, então, sinto o amor ficar cada dia mais forte. O retorno de Jacqueline de seus estudos e de seu trabalho na Inglaterra trouxe esperança ao coração. Mas ainda não sei como chegar e dizer que esqueçamos aquela situação do passado e que quero terminar meus dias ao lado dela.

Márcio estava sem defesas. Permitiu deixar suas muralhas sem proteção. Um homem acabado pela paixão diante da melhor amiga de sua amada. Simone ficou pedindo a Deus que entrasse um homem assim tão apaixonado na vida dela. Pensou em arriscar e aproveitar o momento sensível em que ele estava para roubar-lhe

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uma poesia.

- Márcio, sei que é um grande poeta. Poderia dizer

que alma reveste esse sentimento que te embriaga neste

instante?

- Hum, uma poetisa aqui do meu lado! Amei sua

pergunta, Mas não queira tirar proveito de minha dor,

Simone!

- Ops, desculpe aí minha existência. Não tive essa

impressão. Era somente o desejo de degustar a beleza e a força de suas palavras de que os leitores seus tanto falam e expressam.

- Tudo bem, perdoe minha ignorância. Traga-me caneta e papel.

- Aqui em mãos. Prontinho.

Márcio tomou ainda um gole de café e se pôs a ajuntar letras. Poucos minutos depois entregou a Simone.

INCENDIADO

Chama que me chama Minha alma inflama Calor em mim derrama Meu ser ela reclama.

Cada pensamento se rasga No coração ele se engasga Se pigmenta e vira Paixão Ela aloja na alma o amor.

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Como uma brasa em mim Ele arde e queima sem fim Não vivo sem ele, é assim:

Para ele sempre digo sim!

Márcio Sousa

Simone leu com calma, mas não tinha como não notar a expressão de encanto e espanto diante do que lia. E assim que terminou, exclamou:

- Caramba, Márcio, pelo amor de Deus, que linda

poesia escreveste. Nossa mãe, como consegue ler o pensamento dos deuses, me diga?

- É exagero seu. Mas agradeço o carinho por estas letras ajuntadas.

- Porque você não manda essa poesia para a

coluna do quinta poética. Adoraria vê-la publicada. – disse Simone.

- Pode ser. – e dirigindo-se para Jackson que

estava entretido e tentando fazer ciúmes para Amanda – Jackson, por favor, pegue este papel com esta poesia e leve para a redação. Mas cuidado com os bueiros da cidade, por favor. – Deusimar quase riu ao ouvir Márcio falar assim.

- Márcio, soube que vai viajar, é verdade? – Simone puxou mais conversa.

- Sim, na segunda-feira provavelmente.

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- Posso saber quando volta? – Simone com mais perguntas.

- respondeu com outra.

- Estou de férias aqui no Brasil e gostei muito de

sua presença. Próxima semana marcamos um encontro aqui no Café Betelho. Queria convidá-lo a estar conosco, caso estejas aqui em Teresina próxima semana na sexta- feira.

Márcio

Posso

saber

porque

a

pergunta?

- Ok. Será um prazer. Vou ver com o Jackson para anteciparmos a volta.

- Tudo bem. Jacqueline ficará feliz em saber que estará conosco.

- Simone, obrigado pela força.

- De nada. Vocês merecem. Dessa forma, garanto

que sempre terá ao seu lado sua musa inspiradora.

Jacqueline liga para Deusimar, perguntando se elas podiam ir ao Café Betelho já no sábado, porque na semana seguinte teria o primeiro julgamento do caso londrinas. Deusimar sondou Simone e ela não teve como dizer não. Assim que desligou, Simone remarcou com Márcio. Despediram-se. Jackson ainda foi lá onde estava Amanda. Disse que amou as cartas que anda escrevendo. Amanda, que estava com raiva dele, por causa de Deusimar, desceu os cachorros sobre ele, dizendo que provavelmente eram de suas dezenas de mulheres e que não desejava ser mais uma a abarrotar sua caixa de correio. Não deu mais ouvidos a Jackson. Isso o intrigou. Se não era ela quem escreveu, quem poderia ser sua

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mulher misteriosa? Deusimar não podia ser porque as cartas já tinha cartas antes de conhecê-la. A garota do Comercial Carvalho tampouco seria, pois era lésbica assumida. Nem a Francisca, porque ela tinha um ódio dele, nunca mandaria cartas. Quem poderia ser? Saiu com essa interrogação.

Márcio havia convidado Simone para participar de uma palestra dele sobre o fazer poético no bairro da Socopo, onde funcionava um Colégio dos Jesuítas. A ideia da palestra era levar discussão sobre o fazer literário. Ele estava envolvido há algum tempo dentro do Projeto Criação, promovido pela Secretaria de Educação nas escolas públicas e de Convênio. Simone ficou muito feliz com o convite. Nesse dia, Juscelino Hanhy, foi convidado para dar um show beneficente para mais de três mil alunos da rede pública. Juscelino recebeu a ligação de seu irmão Paulo para tratar de alguns assuntos de família e ele comentou com Paulo que Márcio estava lá também. Falou também que tinha conhecido Simone, amiga de Jacqueline. Ela o havia convidado para ir sábado lá no Café Betelho. Ele teria que desligar, pois ia começar a palestra e ele gostava muito de ouvir Márcio falar de seu fazer literário. Despediu-se de Paulo. Automaticamente, Paulo ligou para Jacqueline, mas ela estava na audiência não podia atender. Deusimar que atendeu. Paulo disse que iria para o Café Betelho no sábado a convite de seu irmão Juscelino e que ligou para desejar boa sorte para Jacqueline na audiência.

Paulo sabia que era uma tentativa de reaproximar Márcio de Jacqueline. Não queria perder a possibilidade de ter Jacqueline ao seu lado. Ligou para Marcela, uma antiga amiga. Pediu que fizesse um favor para ele.

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Explicou como seria a situação e o que queria dela. Ela aceitou e disse que estaria lá no momento acertado. Desligou o celular, pois tinha alguém tentando falar com ele. Eram os advogados de defesa do jovem acusado do assassinato das inglesas. Assim que desligaram, ficou refletindo sobre o que disseram. Levantou-se e foi tomar seu chimarrão pensando nas consequências daquela ligação.

Simone estava encantada com as palavras de Márcio. Havia uma profundidade e uma pedagogia do Transcendental em seu modo de dizer as coisas que a impressionava. Juscelino ficou do lado dela e sempre confirmava os comentários que ela fazia de Márcio durante seu discurso. Ele estava vislumbrado com a beleza dela. Vez ou outra ela o flagrava com os olhares grudados nela. Assim que terminou a palestra abriu para perguntas e comentários dos presentes. Uma jovem disse que amava muito as poesias dele e que o acompanhava na coluna do jornal toda quinta e como ele expressa muito bem a dimensão do amor. Suas amigas haviam lido um livro dele que passaram um bom tempo repassando umas às outras. Sempre quiseram perguntar porque no final do livro o personagem não revelar quem de fato ele é. Márcio disse que a resposta estava no meio do livro. Os leitores tinham que ser mais astutos. Outro aluno pediu que ele proclamasse uma de suas poesias sobre o amor. Que fosse umas das que ele mais amou ter escrito e que fosse a mais importante. Ele buscou em sua memória alguma poesia interessante.

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Você é assim:

Uma pétala que cai sem nunca alcançar o chão Esvoaçante, suave e serena em minha alma Envolvente como o sopro do vento e da brisa Cintilante como a força extasiante das estrelas Assim é você dentro de mim.

Todos aplaudiram. Simone levantou a mão.

- Márcio, não seria dor demasiada para uma pétala que nunca alcança o chão?

- Depende de como encara o cair da pétala. O que

capto não é o fato de interromper seu ciclo natural. O que me interessa na contemplação dessa cena biológica da desse ser é o encanto transcendental que há no cair da pétala que nos rouba de nós mesmos. É nesse nunca alcançar o chão onde eu me encontro com o amor, a paixão sempre viva, forte, intensa, presente e vice-versa numa simbiose. É esse amor que nutro pela condição humana e por uma mulher que vive em mim como essa pétala descrita.

-Hummmmm. – Todos disseram juntos.

- Márcio, você já se apaixonou loucamente por

uma mulher como sugere seus escritos mais recentes, ou

seja, traduzem o sentimento do coração por alguém em especial? – Simone insistiu nas perguntas.

- Simone, minha jovem, não reduza o amor às

sensações corporais de um ser por outro ser. Nem tampouco a entrega da alma no respirar do outro. O amor vence todas essas concepções. O amor que fervilha em

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minhas poesias retratam minha paixão pela vida, por toda

e qualquer realidade onde o amor me chama. Como diz uma cantora brasileira, “ porque eu sou feito de amor da cabeça aos pés”.

- colocações. – Finalizou Simone.

Surgiram ainda algumas perguntas e Márcio convidou Juscelino para encerrar com a música dele que vem fazendo sucesso. Juscelino falou da admiração que

nutria pela poesia do poeta ali presente. Márcio não disse

a ele, mas amava a letra da música. Era seu amor por

Jacqueline ali impresso. Logo depois da palestra Márcio se encontra com Juscelino. Conversam sobre o Projeto Criação e Juscelino diz que precisa dizer algo para ele sobre aquele dia. Márcio disse que era assunto morto. Mas Juscelino insistiu e Márcio, mesmo incomodado, escuta.

- Márcio, quero que escute isso. – Juscelino

colocou um arquivo gravado. Era o momento em que ele

e Jaqueline gravavam a letra dela.

Márcio escutou com atenção. Havia fragmentos onde Jaqueline falava que ele ia adorar a composição. Na parte onde Jacqueline faz o gesto em Juscelino de como faz Cafuné em Márcio quando estavam juntos e que foi o pivô da situação na época. Márcio chorou como uma criança sem o peito da mãe. Juscelino aproveitou o momento e pediu perdão pela situação constrangedora e que só agora ele tinha encontrado o arquivo. Disse para Márcio que ele só colocou melodia na música, mas a letra foi Jacqueline que a compôs para “Márcio, meu maracujá azedo”, como ela sempre dizia, ressaltou Juscelino.

suas

Um

poeta

sempre

se

sai

bem

em

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Márcio continuou escutando o restante da gravação. Estava totalmente absorvido. Depois de algum tempo, Márcio tentando se recompor das lágrimas, disse algumas palavras.

- Poxa Juscelino, desculpe mesmo por meus julgamentos. Como fui um idiota, mas quando a gente ama parece que o discernindo some de nossos olhares. O mais engraçado é que eu já amava essa música e gostava muito de ouvi-la.

- Com certeza, Jacqueline ficará feliz em saber

disso. Mas, se não fosse isso, eu nunca teria feito tanto

sucesso com ela. Depois daquele dia, Jaqueline me permitiu usá-la como quisesse. Foi quando apresentei para a gravadora e eles aprovaram na hora o lançamento do álbum. – disse Juscelino.

- Vamos, Juscelino, cante para nós, a música aqui

ao vivo. Não é todo dia que temos essa honra de poder degustar da voz do próprio cantor tão bela música.

- Tudo bem, mas traga mais lenços para Márcio

que eu sei que vai chorar novamente. – Juscelino disse sorrindo.

Doce louco amor

Juscelino Hanhy

És o brilho nos olhos, quando estrelas no meu céu Tua alma em meu corpo deixa louco esse doce amor Minha alma só tem pulso no pulsar viril de teu calor.

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Vem, não te demores, vem logo me roubar de mim.

Refrão:

Doce louco amor, algemas de mi’a alma Se me enlouquece, também me acalma Liberta o tempo, asas ao pensamento Nunca te perder, só nisso eu penso

Quando o sol se vai, em mim tu te levantas Quando o sol se põe, em mim tu descansas Quero ser paisagem que acalente teu ser Sempre só para ti, todo amor eu hei de ser

Pelas correntezas desse louco amor Coração apaixonado se deixa conduzir Para onde me leva suas águas, não sei Mas pouco importa, já que sem reservas A esse doce louco amor eu me entreguei.

Foi como Juscelino previu. Márcio estava em prantos. Chorava de tanta emoção. Parece que alguém enquanto Juscelino cantava, andou trocando olhares com o cantor. Ele percebeu e disse que quem sabe algum dia fizesse uma música em inglês para uma bela inglesa. Simone só respondeu balançando a cabeça afirmativamente.

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VII CAPÍTULO

OS CORAÇÕES SE REENCONTRAM

Jackson chegou primeiro ao Café Betelho, certamente para ficar paquerando com Amanda que ainda seguia indiferente com ele. Depois chegou Nonato e sua namorada, Auxiliadora. Jackson foi recebê-los. Em seguida, Deusimar, Jaqueline e Simone. Quase junto com eles, apareceu Paulo e Juscelino. Filho havia preparado um cardápio especial e divulgou que Juscelino estaria em seu estabelecimento, pois não seria bobo de perder essa oportunidade de lucrar com a presença dele. Jackson evitou ficar muito de conversinhas com Deusimar por causa das olhadelas de Amanda lá do caixa. Paulo havia entretido a todos com suas piadas e casos jurídicos que tinham julgado com precisão em sua história como juiz. Já estavam lá a mais de uma hora e Márcio não tinha chegado ainda. Então, Paulo perguntou a Jackson se ele sabia por onde andava Márcio. Foi quando Jackson decidiu ligar para ele e soube que já estava a caminho do Café Betelho. Dez minutos depois ele já estava lá. Logo que chegou perto da mesa, suas pernas ficaram trêmulas, o coração acelerou e seu olhar chamuscava paixão por ver sua amada. Cumprimentou a todos, mas as sensações de seu corpo se guardavam para a saudação com Jacqueline. Simone tinha preparado tudo. Fez com que a cadeira vazia ficasse perto de Jacqueline. Por fim, Márcio saudou Paulo que estava do lado de Jacqueline e quando sentiu o perfume da amada aventurar em suas narinas, teve a sensação que desmaiaria ali mesmo. Lutou contra

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essa vertigem. Os olhares se fundiram e se dilataram um no outro quando se reencontraram. Márcio tomou a mão de Jacqueline e a saudou graciosamente com um beijo no dorso de sua mão, macia e perfumada. Teve vontade de mordiscá-la, mas se conteve. Sentou-se ao lado dela. Juscelino seguiu com suas investidas para cima de Simone que pouco a pouco de deixava conquistar por seu Don Juan. Novamente, Márcio se viu embaraçado buscando palavras na mente para dar nome ao que sentia. Mas parecia ser em vão. O silêncio pedia e impunha sua realeza no coração dos apaixonados. Por outro lado, era preciso dizer algo.

- Olá Jacqueline. – disse com a garganta seca.

- Olá Márcio. – disse com a voz macia.

Os dois quiseram degustar nos lábios e nas cordas vocais o sabor do nome de cada um.

- Márcio, parabéns! Você escreve cada dia mais

belo. Fico encantado e paralisada com a beleza de suas

palavras poéticas. – disse Jacqueline puxando assunto.

Márcio, ficou uns instantes saboreando a voz dela. Todo abobalhado só conseguiu dizer uma palavra:

- É.

Jackson tinha saído para o banheiro. Amanda disse ao pai que iria comprar algumas coisas que faltava na cozinha e que o pessoal estava precisando. Foram para a Praça Pedro II. Sentaram-se e Jackson tomou a palavra.

- Amanda, eu não sou muito de me prender. Tive

algumas mulheres, é verdade, mas nenhuma me roubou

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como você que me sequestra constantemente de mim. Estou apaixonado por você e comeria até uma tonelada de sal com pimenta malagueta se seu pai insistir. – disse Jackson bem romântico.

- Jackson, meu lindo. Eu também estou apaixonada por você. Não estou com medo de ser sua, mesmo sabendo do risco, pois você é muito mulherengo. Porém, não suporto mais tanta paixão. Me ganhaste com suas poesias. Se me ferve o cheiro de seu corpo, a sabor de sua alma me atrai loucamente.

Os dois se beijam apaixonados. Jackson nunca tinha sentido um beijo tão doce e gostoso como o de Amanda. Ficou preso aos seus lábios macios e doces. Foram interrompidos pelo celular de Amanda. Era seu Filho querendo saber do destino dela. Voltaram para o Café Betelho. Márcio tinha pedido um café como sempre e Jaqueline pediu um pastel com suco de laranja. O ambiente estava muito agradável. Juscelino disse que iria cantar uma música especial. Quando começou a cantar Doce Louco Amor, Márcio e Jacqueline se olharam apaixonados e não resistiram. Seus lábios se entreolharam e suas almas se beijaram loucamente deitadas na esteira de seus corpos. O coração de Márcio disparou desesperado de tanto amor. O som dos dois corações era audível nos lábios entregues um do outro. Todos pediram bis da música e Juscelino cedeu aos pedidos dos fãs. Na metade da música, uma morena alta, cabelos compridos e salto alto e vestido longo se aproxima da mesa e grita forte:

- Márcio, seu cachorro! Me deixou esperando até agora para estar aqui, não é mesmo?!

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Márcio observa aquela cena sem esboçar nenhuma atitude de espanto, achando tratar-se de um ledo engano. Mas como ela se aproximou mais ainda e repetiu as mesmas palavras com maior escândalo, ele se levantou e falou bem grosseiro:

- Você é uma louca, eu não a conheço. – Márcio levantou-se embravecido.

- Ah, quer dizer que agora você não me conhece! Mas há pouco quando estávamos no motel não era isso que eu escutei de você, seu bandido. Tchau para nunca mais, cachorro!! – e saiu como quem estava totalmente decepcionada.

Jacqueline levantou-se automaticamente da mesa e chamou Simone para irem embora. Estava sentindo-se humilhada com aquela situação.

- Mas

– Márcio tentava explicar.

- Por favor, não me toque seu Márcio. É vergonhoso o que você me fez passar. Como pode fazer isso comigo? Por acaso, você tentou se vingar foi? Que deprimente, seu modo de retribuir mágoas! – disse Jacqueline bem indignada.

Estava sem clima para qualquer explicação ou reação ao ocorrido. Paulo havia conseguido o que queria. Afastou os dois pombinhos. Ele se dispôs a levá-la para casa, mas ela disse que precisava ficar só. Porém, Nonato foi deixar sua namorada e seguiu para a casa de Jacqueline. Márcio ficou no Café Betelho tentando entender o que tinha acontecido. Jackson disse que iria descobrir de onde saiu aquela mulher e quem a mandou perpetrar aquele teatro. Permaneceram no Café Betelho

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até a madrugada, pois Márcio quis continuar tomando. Jackson foi levá-lo a sua casa, pois não tinha condições de dirigir. Acordou com uma dor de cabeça terrível quase meio dia. Mirna tinha preparado um chá para ele, pois Jackson que dormiu por lá tinha avisado a ela que ele precisaria. Pela noite, Jackson apareceu. Márcio estava melhor da ressaca, mas totalmente desolado.

- Senhor, passei a manhã investigando o paradeiro da garota maluca. – Jackson foi direto.

- Ah sim?! – disse Márcio com interesse.

- Sim. Consegui informações com o taxista que a

levou até o Café Betelho. Disse que ela pegou o táxi num condomínio que fica perto do Shopping Riverside. Não se preocupe que vou descobrir quem aprontou para o senhor.

- Obrigado meu amigo.

- O que é isso, seu Márcio, é dever da amizade

cuidar sempre. Ah sim, está tudo preparado para nossa

viagem amanhã a tarde.

disse

desanimado.

- Não, não, não. Não aceito isso. Já chegamos

muito longe para o senhor parar. Vai até ser melhor para o

senhor preencher a cabeça de outras coisas e esquecer por alguns momentos tudo isso.

noite

- sairemos então. – finalizou Márcio.

Acho

que

não

vou

mais

Jackson.

-

Você

tem

razão

Jackson.

Amanhã

a

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Nonato tentava consolar Jacqueline. Simone, por sua vez, tinha a mesma impressão de Jackson. Pareceu tudo muito certinho e controlado para ser verdade. Mas ainda era cedo para dizer algo. Deusimar disse que todo homem é igual mesmo, tudo safado ao que Nonato pediu respeito, pois ele é homem e se dizia diferente de todos os demais. Jacqueline passou o dia trancada sem querer sair de casa. Deu vontade de queimar tudo o que guardava de Márcio, mas havia algo dentro do coração que a impedia de fazer vale essa decisão. Nem mesmo para sua caminhada matutina teve coragem de sair.

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IX CAPÍTULO

MORGANA, A CIGANA

Márcio sentou-se de frente para a árvore frondosa. Um café bem quente como de costume foi servido por Mirna. Deitado debaixo da cadeira estava moleza com o rabo abanando. Mirna serviu café com leite ao cachorro, pois ele adorava.

- Aqui já está caneta e papel, pois sei que vai precisar. – alfinetou Mirna.

- Mirna, sente-se aqui comigo, por favor. – pediu Márcio carinhosamente.

Mirna puxou uma cadeira e sentou-se ao lado dele contemplando a árvore frondosa. Márcio se levantou e perguntou o que ela queria para beber. Mas ela recusou veemente a atitude de Márcio, pois ela mesma buscaria algo. Ele insistiu e ela se rendeu: pediu um chá. Márcio foi preparar. Na volta sentou-se e continuaram contemplando. Depois de um longo silêncio, somente os uivos de moleza, ele falou.

- Mirna, eu sinto uma angústia muita profunda

hoje.

- Ah, senhor, deve ser por causa de Jacqueline.

- Não Mirna, é algo mais angustiante.

- O que pode ser mais angustiante que a dor de

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amar? – disse, referindo-se mais à sua paixão por Jackson do que pela situação de Márcio.

- Mirna vou falar só para você. Eu sinto uma angústia como se fosse morrer.

- Pare disso, cruz credo! Deve ser coisas de sua cabeça. Só isso.

- Mirna, se algo me acontecer, quero que você

traga Jaqueline e mostre o lugar onde plantou todas as

poesias escritas.

- Mas senhor

– Mirna tentou falar.

- Por favor Mirna, só faça o que estou pedindo. Se

eu morrer quero que ela saiba que minha vida foi toda dedicada a amá-la mesmo em sua ausência.

- Tudo bem senhor, se algo lhe acontecer prometo

proceder como me pede. – Mirna decidiu entrar na

conversa dele.

- Obrigado Mirna!

- De nada senhor.

De repente, moleza apareceu com um pássaro morto na boca e largou próximo onde estavam os dois. Então, Márcio tomou a caneta e o papel e decidiu escrever.

MORTE DO POETA APAIXONADO

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Porque insistes em não estar aqui. Posso saber aonde fostes, ó alma? Deixaste o corpo sozinho, órfão. Vem, devolve a unidade desse ser

Acaso fostes preparar o novo lar? Ei, não tenha receio de me revelar Sinto a alma abandonar meu corpo Diga para aonde é que nós vamos?

Entre nós que seja tudo no diálogo. Se vou estes dias, então fale logo Só não roube o amor do coração. Tudo o mais leva contigo, ó Morte

Márcio chamou Mirna e entregou a poesia para ela levar no dia seguinte à redação do jornal. Poderia ser sua última poesia. Não fez nenhum drama. Pediu sigilo sobre sua viagem, caso ligassem à procura dele. Márcio viajou com Jackson para Porto. Assim que saiu, Mirna leu o poema de Márcio e chorou. Foi levar para a redação como ele pediu, mas antes passou na Cigana que mora na rua Paraíba. Mostrou para ela o papel com a poesia e pediu para ela dar uma olhada e ver se a alma de quem a escreveu já está próximo de deixar esse mundo. A cigana Morgana, uma morena muito linda e jovem, cabelos compridos e lábios carnudos, além de muito atraente, pega o papel, passa umas ervas por cima dele e estende-o na mesa. Então, jogou as pedras em cima e esperou. De repente, deu um grito que espantou Mirna.

- Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh.

- Meu Deus, Morgana, o que você viu aí pelo

73

amor de Jesus, me diga vá, por favor – Mirna falou desesperada.

- Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh

- Eu vejo sangue e dor. Eu vejo morte. Que Deus tenha pena dessa alma que eu vejo.

- Não, por favor, faça de novo, pois deve ter

havido algum erro. Faça de novo, eu pago novamente, mas faça de novo, faça de novo, eu imploro, vamos, repita, vá, vamos.

- Tudo bem. Vamos refazer. Mas cobrarei o dobro,

pois os espíritos são exigentes com repetições de trabalho

– Morgana preparou novamente todo o cenário sem esboçar nenhuma preocupação com o nervosismo de Mirna.

- Tudo bem, dona Morgana. Repita por favor. – suplicou Mirna.

para

Morgana repetir o trabalho.

- Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh. – soltou o mesmo grito.

- Meu Deus, o que foi que você viu me diga, o que vou viu Morgana? Desembuchaaaaaaaaa!

- Eu vi sangue, muito sangue. Eu vi sangue, vi

sangue, blood, I see blood! Very Blood! Yo miré

sangre!!!!!

estar

confundindo seu Márcio com outra alma.

fez

todo

um preparo

espiritual

- Não

pode

ser!

Seus

espíritos

devem

74

- Mirna, minha querida, mas eu posso tentar dar

uma forcinha extra. Pegue esse amuleto e ponha num lugar, coisa ou pessoa onde a atenção desse homem se prende quase todo o dia. Mas vou cobrar um valor simbólico apenas, só porque você é minha cliente desde há muito tempo.

- Ok. Muito obrigado Morgana. Já sei onde vou

colocar o amuleto. Vou pendurá-lo na árvore.

- Agora, tome um chazinho e se acalme, porque

eu vou refazer as contas. Você vai pagar em dinheiro ou no cartão?

- No cartão, por favor. Se puder, por favor, divida em duas vezes para mim.

Mirna pagou as consultas realizadas, tomou o papel manchado com as ervas que Morgana passou nele e foi para a redação deixar o papel com a poesia. O responsável pelo setor vendo o olhar abatido dela, perguntou se ela tinha visto alma. Mirna retornou para sua casa com a sensação de que não veria mais seu Márcio. Ligou para ele, mas o celular dele e de Jackson estavam desligados. Foi até a árvore e pendurou o amuleto.

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X CAPÍTULO

TRÁFICO DE HUMANOS

Márcio e Jackson chegaram onze horas da noite em Porto com Francinalda que os levou para uma pensão. Junto com eles chegam três homens estranhos para também se hospedarem. Francinalda disse que descansassem e que no dia seguinte conversariam melhor. Deixou-se lá e sumiu na avenida principal da cidade. Já no quarto Jackson comentou com Márcio.

- Você viu que caras estranhos?

- Sim, eu vi. Temos que ter muito cuidado.

- É mesmo, porque eu não quero deixar minha Amandinha para outro.

- Mas você nem ainda casou com ela, como pode dizer isso?

- Digo pela liberdade do amor e da poesia! Será que posso, poeta?!

com

poetas. – Márcio riu.

Logo cedo, Francinalda foi ao hotel e levou os dois para tomarem café em sua casa. Assim que entraram na casa de Francinalda, um senhor de seus cinqüenta anos levantou-se para cumprimentá-los. Ela apresentou Francisco, mais conhecido como Seu Chico, dono de

- humm

Você está

convivendo

demais

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uma rede de Agências Turísticas espalhadas pelo Piauí. Logo saberiam porque ele estaria ali. Márcio recebe uma ligação a cobrar do celular de Simone. Ficou preocupado, teria acontecido algo com Jacqueline?

- Olá Márcio, my beautifull. – disse Simone bem descontraída.

- Olá Simone, tudo bem com Jacqueline? – disse, preocupado.

-

Mais ou menos, Márcio.

-

O que houve com ela, diga logo, não me mate de

curioso!

-

Você sabe que ela está envolvida no processo do

caso londrinas. Ontem, quando voltava do Tribunal, o carro dela foi alvejado por alguns tiros vindos de um motoqueiro. Mas graças a Deus, não aconteceu nada com ela. Só mesmo nervosa com tudo isso. Mas disse que vai até o fim.

- Mas ao menos, se sabe quem é o mandante dessa atrocidade?

- Não. Só mesmo suspeitas. Lá na delegacia, ela

falou das ligações que recebeu ameaçando sua integridade física quando ainda nem tinha assumido o caso. Passou uma cópia das gravações que fez das ligações. Mas fora isso, está tudo bem com ela.

-

Que bom. Simone, obrigado pela atenção.

 

-

De

nada

Márcio.

Sobre

aquele

dia

tentei

dissuadi-la

de

que

talvez

fosse

uma

palhaçada

que

77

alguém criou para lhe prejudicar, mas ela está desconsolada e se sentindo como uma idiota. Mas eu sinceramente, não creio que você de fato tenha algo com aquela louca.

- Realmente, Simone. Jackson está investigando.

Uma hora saberemos a verdade. Aí mostrarei para Jacqueline que foi tudo uma invenção para destruir nosso amor.

- Sim, o Jackson me incumbiu de verificar isso.

Logo terei a resposta. Estou quase perto. Márcio, mudando de assunto, a Mirna veio aqui e me disse que você corre perigo. Pediu, caso falasse com você, para dizer que tenha muito cuidado, pois visitou Morgana, a cigana, e ela viu coisas horrendas de seu destino.

- Tudo bem, Simone, terei cuidado sim. Mas não

se preocupe, porque Mirna é assim mesmo, bem

preocupada comigo, sempre.

- Tenho uma boa noticia e uma má noticia. Qual você deseja escutar primeiro.

- A boa.

- Então, eu estou namorando com o famoso cantor brasileiro Juscelino Hanhy.

- Que bom Simone! Vi que realmente estavam juntinhos demais naquele dia. E a ruim?

- Bom, a ruim é que Paulo está bem próximo de

Jacqueline e anteontem tentou beijá-la no estacionamento do apartamento dele.

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- Que discarado sem-vergonha. – desabafou alto – desculpe Simone pelo tom.

- Tudo bem. Agora vou ter que ir. Bom falar com você. Abraços.

- Igualmente, abraços. – Márcio despediu-se.

Sentaram-se os quatro para conversar sobre o motivo real daquela viagem. Márcio se apresentou como jornalista do jornal da Cidade e seu ajudante, Jackson Oliveira. Francinalda apresentou para Seu Chico o motivo de tê-lo chamado ali. A ideia era desmanchar a quadrilha internacional de Tráfico de Humanos que atuava ali. Precisava saber quem era o responsável por pagar as viagens das meninas até o exterior através da Agência Turística dele instalada ali. Seu Chico tomou a palavra.

- Francinalda, você sabe que sempre admirei seu

trabalho aqui na comarca de Porto. Nunca me eximi de dar-lhe informações sobre alguns indivíduos. Mas desta vez, sinto que me pede demais. Pense direitinho no que você está querendo de mim. Se eu digo quem são os “patrocinadores” dessas viagens eu estou assinando minha própria certidão de óbito. Além do mais

Márcio interviu.

- Veja Seu Chico, eu entendo perfeitamente sua

posição. Mas raciocine comigo. Você está tendo a oportunidade de sair bem dessa situação. Sei que não sabe e nem compactua com as atividades criminosas dessas pessoas, porém, quando forem descobertas, não será só essa Agência que será fechada, mas todas suas outras filiais perderão a credibilidade, sem falar que você

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responderá na justiça por todos esses anos em que contribuiu com o crime. Na verdade, escute, nós é que estamos tentando lhe ajudar e não o contrário, como você pensa.

Seu Chico ficou pensando um pouco e considerando as palavras de Márcio e decidiu contribuir com a reportagem. Francinalda avisa que hoje é um bom dia para fazer as fotos e filmar como funciona o esquema do Tráfico Humano em Porto. Jackson ficou responsável por acompanhar o cotidiano das meninas que iriam ser despachadas para a Europa. Márcio foi para o interior com Francinalda conhecer a Fazenda de um dos homens que pagava a conta das meninas à Agência de Turismo. O nome do homem era Fuinca. Ele recebeu Márcio como um jornalista que veio fazer uma reportagem sobre desenvolvimento sustentável nas cidades de pequeno porte como a localidade de Porto. Fuinca falou de como a fazenda dele contribuía para o desenvolvimento do município. Francinalda ficou observando a movimentação na fazenda aquele dia. Márcio reconheceu um dos homens que passou por ele na varanda onde conversava com Fuinca. Depois da entrevista, Márcio e Francinalda voltaram para a cidade. Jackson ainda não tinha retornado e nem o celular dele atendia. Foram até a localidade onde as meninas moravam, mas ninguém sabia de nada sobre a presença do homem com as características ditadas por Márcio. O temor apossou-se de Márcio. Seu celular toca. É Jackson. Disse que está indo para o hotel. Pegou carona numa caminhoneta com laranjas. Soube que é assim que as meninas passam pela fiscalização sem serem identificadas. Márcio respirou aliviado. Porém, não foi por isso que tinha demorado no interior. Uma bela jovem foi a responsável por seu

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sumiço. Foi levar Jackson para conhecer onde eles pegam água, um pequeno rio na mata. Jackson tinha ido com ela para ajudá-la a trazer. Quem disse que se preocuparam em encher as vasilhas de água. Ficaram namorando à beira do rio e terminaram por perder as horas. Por isso, o único meio de voltar a Porto foi a caminhoneta. E foi a jovem quem falou de como funciona a ida das meninas para a cidade. Á noite, prepararam-se para a conclusão da reportagem e o grande mote. Desvendariam como acontece o Tráfico de Humanos em pleno sertão do Piauí. Jackson sabia qual seria a caminhoneta que as transportariam e instalou câmeras em posições estratégicas. Márcio e Francinalda seguiriam atrás.

Assim que saíram do hotel, os três homens invadiram seus quartos e revestiram tudo. Porém, não encontraram nenhum material escrito ou eletrônico que dissesse qual a intenção explicita deles ali em Porto. Todo o material estava com Jackson. Eles riscaram a parede com palavras ofensivas e ameaças de morte aos dois.

Jacqueline recebeu o Jornal da quinta-feira. Tentou resistir, mas não conseguiu. Passou direto para a coluna café literário. Leu a poesia de Márcio e sentiu uma dor no coração. Automaticamente ligou para Mirna. Quis saber de Márcio. Mirna chorou e disse que não tinha noticias dele. Jacqueline ligou para Nonato, pois ele conhecia Francinalda e pediu que ele a ajudava a ter notícias de Márcio. Nonato ligou para a comarca de Porto e conversou com Francinalda pela tarde. Soube que Márcio e Jackson estavam bem. Provavelmente voltariam no final de semana, pois estavam concluindo as investigações. Jackson é que tinha dado cuidados, mas

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que já estava tudo bem. Só assim Jacqueline aliviou um pouco. Simone descobriu o paradeiro da mulher maluca. Foi até o apartamento dela. A mulher sabia o motivo da presença dela ali à sua procura e tentou sair pelo fundo, mas foi descoberta e Simone a obrigou a ir com ela e contar a verdade para Jacqueline sobre aquele dia. Caso ela se recusava, Simone riria denunciá-la á policia pelo crime de calúnia, difamação e danos morais. Jacqueline teve vontade de dar uma surra nela, mas não teve coragem. Seria rebaixar-se demais como mulher. Porém, quando se encontrou com Paulo e sua cara lavada, a coragem veio em dobro. Deu-lhe um tapa na cara que ficou a marca de seus dedos. Paulo, intuiu pelo peso da mão dela que ela havia descoberto.

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XI CAPÍTULO

PERSEGUIÇÃO E MORTE

Era meia noite quando a caminhoneta saiu com as frutas. Jackson já estava lá desde cedo. Viu quando colocaram as meninas debaixo das frutas. As câmeras

instaladas captaram todas as imagens. Jackson sentiu medo e pensava em Amanda. Márcio e Francinalda e mais Antônio, escrivão da prefeitura de Altos, amigo de Francinalda, esperavam na beira da estrada a passagem da caminhoneta para seguirem atrás. Meia noite e meia,

a caminhoneta passava por eles. Eles seguiram-na um

pouco distantes. Jackson ouvia o soluço das meninas que estavam amedrontadas, mas não podia fazer nada. Márcio

viu pelo retrovisor do carro que vinham duas motos atrás. Pediu para Francinalda deixar a porta dela destravada e um pouco aberta e tirasse o cinto de segurança. Antônio prepare-se para a maior aventura de sua vida, tinha dito ainda. As motos foram se aproximando. Márcio previa o pior. Acelerou o carro, mas as motos já estavam quase em cima dele. Eles começaram a atirar. Márcio foi mais para

o acostamento e empurrou Francinalda no mato. Depois,

acelerou mais. Sangrava com alguns tiros que recebeu. No banco de trás, também Antônio tinha levado vários, mas ainda estava vivo. Márcio pediu que ele passasse para frente, pois ia fazer uma loucura para tentar salvá- los. Num ato de desespero, lançou o carro numa ribanceira onde havia uma curva. O carro despencou e explodiu em contato com as rochas. Jackson não consegue aceitar. Estava sob o efeito de sedativos.

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Mandaram fazer buscas várias vezes, mas nada encontraram a não ser os destroços do carro. Francinalda estava internada no Getúlio Vargas em Teresina. Corria risco de morte pelas fraturas que teve no corpo. O primeiro dia depois do acidente, Mirna lembrou o que disse Márcio. Ligou para Jaqueline e falou do que Márcio lhe pedira para avisá-la caso acontecesse algo a ele. Jacqueline disse que passaria lá na manhã seguinte. Amanda estava sempre com Jackson dando-lhe forças. Simone tinha ido conhecer Parnaíba, mas retornaria no outro dia.

Logo cedo, chegou Jaqueline a casa de Márcio. Mirna tinha colocado duas cadeiras na varanda que dava de frente á árvore frondosa e preparou um chocolate quente para Jacqueline. Fazia frio. Com certeza, Márcio faria dessa forma, pensou ela. Sentou-se junto de Jacqueline. Tentou não chorar. Mas era inevitável. Depois de ter chorado bastante sob o olhar silencioso de Jaqueline, Mirna disse:

- Seu Márcio, quase todos os dias sentava-se aí onde você está acomodada. Depois de muito contemplar

a árvore frondosa, me pedia café. Pouco depois, me pedia caneta e papel. Engraçado, nunca trazia esses dois objetos. Era como se quando vinha a inspiração, que

sempre vinha, ele ficasse espantado com a presença dela

e me chamava para trazer as ferramentas de trabalho do

poeta. Aí ele escrevia, sem pressa, deixando que as letras

se ajuntassem sozinhas, do jeito que elas desejavam ser

pelas mãos do artesão. Às vezes, escrevia afagando a

cabeça de moleza, seu cão, que ficava balançando o rabo.

O

que eu mais amava era quando ele lia para mim aqui

na

varanda antes de mandar enterrar.

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-O quê você disse? Antes de mandar enterrar? – Jacqueline despertou de sua viagem pela partilha de Mirna.

- Isso mesmo. Ele mandava enterrar. Explico o sentido disso. Debaixo da árvore frondosa estão todas as poesias que seu Márcio escreveu pensando em você. Dizia ele que ali era o ambiente sagrado onde nasce a poesia. Tudo que escrevia era semente. Até que um dia mandou cercar com roseiras. Cada roseira que plantei, ele fez uma poesia.

- Mirna, me leve até lá, por favor. –

Chegando lá, pediu que Mirna fosse desenterrar as mais antigas. Sentou debaixo da árvore e foi lendo as poesias uma por uma. Seus olhares recolhiam cada palavra escrita. Como nuves carregadas estavam o olhar. Não tinha como disfarçar as lágrimas que caíam. Tomou uma em suas mãos e a levou ao peito em soluços. Doía o coração por recordar a beleza e o encanto que aquela poesia lhe trazia á alma. Foi a poesia que ele compôs no dia do aniversário dela e leu para ela ali debaixo da árvore como surpresa. Deu-lhe um ursinho de pelúcia, um macaquinho.

ÁGUAS CINTILANTES

Banha-se nos meus olhares Textura de seu doce amor Nadam sem nenhum pudor Vão de um lado a outro

Navega nas profundidades

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De minhas águas cintilantes Contempla quão belo sou Decide me amar o amor

Banha-se nos meus olhares Textura de seu terno amor Aqui na superfície do que sou Tu és águas cintilantes em mim.

Mirna já tinha desenterrado outras poesias mais recentes. Jacqueline não tinha mais lágrimas para chorar. Alguém as observava da varanda.

minha

você

Eu

sabia

que

viria

ler

todas,

-

jabuticaba.

disse

Márcio

que

tinha

escapado

do

acidente.

Mirna quando viu Márcio, pensou que era um fantasma e desmaiou. Jaqueline chorava ainda mais. Ele se dirigiu para a árvore formosa toda florida. Jaqueline se lança nos braços dele. Abraçam-se loucamente e se beijam intensamente. Mirna levanta e Márcio diz para ela que não está morto, antes dela desmaiar de novo. Mirna o abraçou ternamente como uma mãe que reencontra seu filho. Márcio pediu que ela fosse ligar para Jackson e dissesse que viesse logo aqui vê-lo. Ninguém mais poderia saber que estava vivo. Os dois se sentaram no mesmo lugar onde sempre se acomodavam. Sem nada dizer, Jacqueline fez cafuné nele. Era a sensação de eternidade e de saciedade da alma e do corpo que perpassava esse momento. Depois de um longo tempo em silêncio, Jacqueline pergunta como ele conseguiu escapar, já que ela tinha visto na tevê o carro destroçado.

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- Antes de iniciarmos a viagem eu tinha feito o percurso para saber a geografia do local onde passaríamos. Quando houve a perseguição, sabia que estávamos próximos a uma curva. Empurrei Francinalda para fora do carro e acelerei o carro. Deixei que ele caísse ribanceira abaixo. Mas com cuidado de me jogar nas árvores que cresciam nas rochas. Fiquei preso ás árvores. Assim que eles se não foram busquei me livrar e me esconder, pois sabia que se me encontrassem ainda vivo, eles teriam piedade e iriam terminar o trabalho. Então, fiquei lá esperando o momento certo para fugir. Lembrei da caminhoneta carregada de frutas que sempre vem a Teresina. Como essa curva é lenta, eu aproveitei quando ele passou na madrugada e me escondi entre as frutas. Assim, aqui estou com o amor de minha vida, minha amada.

- Te amo, meu Indiana Jones do sertão. – disse, toda meiga, Jacqueline.

Jackson veio para ver Márcio e chorou quando viu seu grande amigo e irmão na presença dele. Abraçaram-se como dois irmãos que há muito tempo não se vêem. Márcio ainda disse que ele era um molenga, chorando. Todos riram. Assim que todos foram embora, nessa noite, em vez de ir para sua casa, Jacqueline decide ficar e dormir com Márcio. Há aquelas noites que pela intensidade que representam na vida de um ser, não morrem jamais. E aquela noite transformou-se em estrela para brilhar sempre, para ser o norte, para lembrar que existe o céu, o amor. Os dois se amaram como nunca um casal se amou.

Jackson chegou cedo à casa de Márcio. Mirna preparava o café enquanto o casal tinha ido caminhar

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pelo sitio acompanhado de moleza. Sentou-se na cozinha como de costume. Conversou algumas coisas com Mirna

e disse que quando estava em situação de morte percebeu

que o verdadeiro amor dele não era Amanda, mas outra mulher que ele não esquecia o beijo. Mirna virou fazendo-se de sonsa. Jackson disse que a mulher que ele queria passar o resto da vida era a Pitadinha Malagueta. Quando Márcio chegou viu os dois nos maiores amassos. Então fez um som como se fosse tossir. O casal se espantou e acordou do oásis de seus poros.

- Eu pensei que lhe pagava para trabalhar, mas

vejo que tem sido outra sua labuta. – disse Márcio, brincando.

- Desculpe Márcio, mas é que descobri que Mirna

é quem realmente amo.

dois

- merecem conhecer e usufruir o verdadeiro amor.

Tudo

bem,

Jackson.

Ânimo.

Vocês

-

Obrigado Márcio. Cadê Jacqueline? – perguntou

Jackson.

-

Ela está desenterrando outras poesias. Adora

fazer isso. Sobre o material da reportagem, você trouxe tudo?

-

Sim, senhor. Está tudo aqui.

 

-

Jackson,

você

está

disposto

a

sofrer

as

conseqüências?

- Claro que sim, Márcio. Se começamos, vamos até o fim. – bracejou Jackson.

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Os dois passaram o dia organizando a matéria para ser lançada em exclusividade no jornal impresso e na televisão. Fizeram vários acordos com algumas emissoras até conseguir a melhor oferta de veiculação. Tinham material suficiente para condenar todos os envolvidos e desbaratar uma das mais atuantes quadrilhas de Tráfico Humano, em especial, de garotas para a prostituição nos bordéis da Europa. As primeiras notícias da manhã e todas as manchetes dos jornais locais falavam do desmanche de uma quadrilha internacional formada por fazendeiros latifundiários, empresários, policiais federais e outros que ainda seriam investigados. A reportagem ganhou repercussão internacional. Seu Chico conseguiu escapar de uma investigação em suas Agências de Turismo, já que se pôs como inocente e que os traficantes de humanos compravam passagem como qualquer outro cliente. Nunca desconfiou que havia uma rede de Tráfico de Mulheres para prostituição fora do Brasil. Márcio estava com a agenda lotada pra entrevistas sobre o caso. Nesse período sempre andava com coletes a prova de bala com medo de algum atentado. Jaqueline tinha ido viajar com Simone para São Raimundo Nonato onde foram conhecer o Parque Arqueológico Sete Cidades, importante atração turística do Estado do Piauí. Depois, se soube que Amanda estava de namoro com Paulo. Francinalda havia se recuperado bem do acidente. Foi nomeada juíza em Porto. Seu Chico ofereceu passagens aéreas para o retorno das mulheres escravizadas na Europa.

Na semana seguinte, com toda a repercussão da Reportagem e a prisão de muita gente, Márcio foi comunicado que receberia o Prêmio de Melhor Reportagem do Ano com o tema Tráfico Humano no

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Sertão: Levam nossos Cactus, deixam dor e saudade. Marcaram uma comemoração no Café Betelho. Jacqueline estava muito envolvida com o caso das londrinas, mas disse que iria prestigiar seu amor. O julgamento estava marcado para o final de semana. Jacqueline andava com colete a prova de balas, devido a quantidade de ameaças que vinha recebendo.

O Café Betelho estava cheio como de costume. Juscelino tocava uma música para Simone. Ninguém sabia, mas Márcio compôs para ele poder presenteá-la. Porém, a melodia que pôs na música era realmente apaixonante. Mas também tocou depois a música sucesso de seu álbum. Nonato pediu a fala. Falou de sua amizade com Jacqueline e de como foi ouvinte por vários anos de seu encanto por um poeta conhecido nosso. Depois mostrou um quadro que fez para os dois. Era uma linda tela a óleo com a árvore frondosa e um casal em evidência como se fosse parte, mais ainda, causavam a impressão de que saíam da árvore como suas raízes. Jacqueline ficou emocionada e agradeceu a Nonato todo o carinho esse tempo todo e, também, a Auxiliadora por compreender a amizade dos dois. Também Márcio pediu a fala.

- Queridos amigos e amigas, de copo e de bar, mas acima de tudo, do sentido da palavra amar. Amigos do amor. Agradeço o carinho de todos, mas hoje quero agradecer a uma pessoa em especial: Simone. Foi preciso vir de longe para trazer de volta para mim quem estava tão próxima. Obrigado Simone pôr devolver a alegria de meu coração. Vou sentir saudades quando retornar a sua terra natal, Inglaterra. Agora, volto meus olhares para minha amada, Jacqueline, minha jabuticaba. – Márcio

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pediu um lenço de papel e caneta. Escreveu e recitou:

Amor meu, vive como cascata em minhas altitudes mais altas. Vive como esmeraldas em meu baú escondido. Vive, meu tesouro, como pérola em minha concha habitando nas profundidades de meu ser. Vive como a sensação de meus poros latentes. Vive como o Mistério que perscruto em minhas poesias. Vive, minha amada, como a ânsia de amar e de ser amado incrustada na alma de todo ser humano. Vive como o sonho mais íntimo.

Nesse verbo viver permito que viva e respire o verbo amar. Porque quando penso em viver, só me vem o amor por ti, como resposta, amor meu. Te amo, jabuticaba!

- Te amo, meu maracujá azedo! – disse Jacqueline

com sua sensualidade característica que mexia com o

coração de Márcio e com o rosto encharcado pelas lágrimas.

Márcio a beijou com volúpia. Jacqueline depois do beijo, olhou para Márcio e fez uma pergunta para ele.

- Amor, como o que eu represento para você?

Márcio lembrou o dia na Igreja. Proclamou como se fosse a primeira vez.

- Jacqueline, você é uma pétala que cai sem nunca

alcançar o chão, esvoaçante, suave e serena em minha alma, envolvente como o sopro do vento e da brisa, cintilante como a força extasiante das estrelas. Assim é você dentro de mim.

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- É mesmo? – Jacqueline estava querendo deixá- lo envergonhado.

- É.

Jacqueline riu. Era a mesma expressão que ele fez no inicio.

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XII CAPÍTULO

DESFECHO CASO LONDRINAS

O julgamento do caso londrinas estava marcado para o mesmo dia e horário em que Márcio receberia o prêmio de jornalismo. Nesse dia as manchetes se dividiam entre o jornalista e o julgamento. Porém, as manchetes na Inglaterra trazia a foto de Jacqueline como a mulher que faria justiça. Jacqueline chegou junto com Deusimar ao tribunal e logo foram cercadas por jornalistas. O juiz do caso era Zeferino. A Polícia Federal através de um mandato de segurança havia invadido o apartamento de Paulo em Parnaíba, pois ele tinha sido indicado para ser o juiz do julgamento; ele tinha sido denunciado pelo Ministério Público como inapto para julgar esse caso. Mas nada encontraram. Por isso, foi substituído pelo juiz Zeferino. O julgamento começou tenso. O acusado apresentou sintomas de desmaio e a defesa pediu a interrupção do julgamento. Porém, não foi aceita pelo juiz. Suspendeu-se a sessão por mais de meia hora até o réu ter condições de voltar. Nesse intervalo, Jacqueline montava com Deusimar como poderia aproveitar ainda mais as testemunhas. Além da carta na manga que tinha. A sessão recomeçou. A defesa tentou dizer que além de estar bêbado no momento do assassinato, o réu tem problemas mentais. Entretanto, o que mais pesa para o fato do Tribunal absolvê-lo seria o fato de que foi ameaçado pelas duas londrinas usuárias de cocaína e que estavam armadas com duas pistolas encontradas em seu poder. Jacqueline chamou as

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testemunhas que identificaram o rapaz como sendo o jovem que esteve a noite com as duas jovens em boates e bares na cidade e que foi visto pela última vez próximo ao local do crime. Outra testemunha disse que viu um carro oficial preto chegar logo depois.

Márcio viajou com Jackson e Mirna pra São Paulo, a fim de receber o prêmio. Márcio foi aplaudido de pé por todos que estavam na cerimônia. Depois de receber o prêmio, ele foi pego de surpresa pelo convite para ser conselheiro da ONU, mas ele recusou dizendo que o Brasil ainda precisava muito dele. Então, foi pedido que contasse os detalhes da Reportagem. Ele e Jackson se revezaram na contagem do acontecido. Jackson como sempre exagerava nas aventuras. Em algumas partes, os presentes riam, em outras, ficavam em silêncio pensando na dor daquelas mulheres escravizadas e no sofrimento do povo sertanejo abandonado pelo Estado.

O julgamento já alcançava a noite. A defesa disse que não havia provas suficientes para condenar seu cliente. O júri estava dividido, mas pendiam para a insuficiência das provas. Jaqueline decidiu tirar a carta da manga. Pediu ao juiz para apresentar uma prova. A defesa pediu indeferimento por não estar no processo. Mas o juiz permitiu. Então, ela mandou passar no sistema de som uma gravação onde os advogados de defesa tentavam convencer o juiz Paulo a absolver o réu. Na fita havia expressões ofensivas às vitimas dizendo que eram apenas prostitutas e que não fariam falta à sociedade. Além de se oferecer muito dinheiro ao juiz. Outra parte fala que ele se recorde que tem lindos sobrinhos. A apresentação da prova por Jaqueline causou euforia no

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Tribunal e ele foi mais uma vez suspenso. Uma hora da manhã, o julgamento foi reaberto. Depois de mais duas horas de discussões, o júri deu a sentença. O jovem era culpado pela violência sexual, tortura e assassinato das londrinas. Passaria um bom tempo de sua vida na prisão. Os advogados de defesa disseram que entrariam com um pedido de revisão do caso, visto que uma prova foi apresentada indevidamente.

Depois do julgamento, Jacqueline ligou para Márcio. Conversaram bastante. Ele disse que logo cedo sairiam de São Paulo direto para Teresina. Márcio leu uma poesia demonstrando a saudade de seu amor:

Minha alma quis pular de mim, Sair, voar como um serafim, Deixar o corpo sozinho aqui, Só pelo prazer de ir te ver, Como a brisa bem ansiosa À espera do broto de rosa A despir-se na madrugada.

Márcio Sousa

Jacqueline amou. O coração ficou todo bobo de paixão. Só mesmo Márcio poderia trazer calmaria e alento à sua alma naquele momento. Depois Jacqueline foi para sua casa. Estava exausta do dia. Vai ao quarto e toma um banho para relaxar. Põe seu baby dool para dormir, mas antes foi à cozinha preparar algo para comer.

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Ela vai até a dispensa e quando foi abrir a porta, alguém empurrou com força a porta contra a mão dela que ficou presa. Ela grita desesperada, mas em vão. Outra pessoa chega por trás e venda seus olhos. Gritam palavras ofensivas contra sua pessoa e a levam no seu próprio carro.

Assim que chegam ao aeroporto de Teresina, Nonato foi recebê-los e deu a notícia do desaparecimento de Jacqueline. Márcio entra em desespero e Nonato tenta acalmá-lo, mas também visivelmente abalado. A polícia já tinha sido acionada. Foram feitas várias buscas e denúncias anônimas, porém, nada descobrem do paradeiro de Jacqueline. logo que chegou a sua casa, Márcio mobilizou todos seus contatos na polícia para tentar ver se encontravam Jacqueline. A polícia já tinha desistido de encontrá-la ainda com vida, mas Márcio tinha esperança de estivesse sobre o poder dos seqüestradores. Depois de quase um mês, a polícia encontra o carro de Jacqueline todo manchado de sangue. Tinha sido jogado no rio Poti, próximo à curva São Paulo, no bairro Renascença. Márcio foi até o local e desmaiou ao ver o carro todo manchado. Jackson o levou para casa. Nonato também teve que ser socorrido no local. O carro foi rebocado para ser feito perícia. Dias depois, o juiz Venceslau é preso como principal mandante. Havia impressões digitais dele e de outras três pessoas. Márcio decide escrever sua última poesia no Café Literário e homenageia Jacqueline, grande defensora dos Direitos Humanos no Piauí:

HÁ HUMANOS

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Há humanos que só dormem

Vegetam sem rumo no mundo! É como um corpo sem alma.

Há humanos que dormem e sonham

Desejam mais que só respirar Querem saborear a existência!

Há humanos que sonham sempre

Seja dormindo, quer seja acordado Há humanos que se sabem divinos!

Márcio Sousa

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XIII CAPÍTULO

AURORA DE UM SONHO DEDICADO A JACQUELINE

Márcio abandonou o jornalismo. Passava boa parte de seu tempo sentado na árvore frondosa a jogar pedras no rio. Moleza, seu fiel amigo fazia-lhe companhia. Márcio não saía mais de casa, nem mesmo para o Café Betelho. Não agüentando a dor da perda de sua jabuticaba, Jacqueline, ele decide escrever e eternizar seu amor por ela. Ao longo de seis meses dedicou-se a confecção do livro. Conversou com Thiago, seu grande amigo que morava na Itália, artista afamado internacionalmente por suas pinturas, e pediu para ele confeccionar a capa. Viajou para Inglaterra a convite de Simone. Passou vários meses por lá. Participou de um Congresso de Direitos Humanos onde viu o nome de Jacqueline escrito. Simone o levou para conhecer o quanto onde Jacqueline tinha morado seus anos de estudo na Cambrigde. Ainda havia a foto de Márcio e alguns recortes de jornais e revistas. Foram passar o final de semana num sitio da família de Simone. Ali Márcio escreveu o último capítulo do seu livro. Parecia um bebê chorando a cada página que escrevia. Também nesse dia tomou muito café. Á noite, Simone a levava para sair e conhecer alguns lugares interessantes; ela brincava dizendo que a única coisa que não tinha ali era um lugar com o nível do Café Betelho. Márcio retorna para o Brasil. Simone disse que assim que fosse possível iria visitar Márcio. Juscelino foi deixá-lo no aeroporto. Esqueci de dizer que Juscelino havia pedido a mão de

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Simone em casamento. Casaram numa Igreja em Piripiri.

A cerimônia foi celebrada pelo padre Ricardo, amigo de

Juscelino. Quando retornou ao Brasil, Márcio procurou Jackson. Foram para o Café Betelho. Havia uma surpresa preparada para Márcio. Passaram a noite celebrando o retorno dele. Márcio se dedica aos últimos detalhes de seu livro. Negociou com as editoras. Seria seu primeiro romance lançado. Márcio publica seu livro. O local de publicação foi no Jóckei Club de Teresina. Ele foi um pouco sobre o motivo de ter escrito um romance e não um ensaio ou coisa do gênero como sempre fazia. Havia uma fila enorme para a sessão de autógrafos. Começou uma algazarra na fila, mas ele não ligou. Então, se espanta quando uma jovem pede que autografe um livro. Era Simone, sua amiga que estava junto com Juscelino Hanhy. Porém, logo atrás deles estava sua musa inspiradora, Jacqueline. Ela havia conseguido fugir do cativeiro hora antes. Os dois se olham sem dizer uma

palavra. O coração de Márcio dispara. Suas mãos ficam trêmulas e olhar se dilata. Sintomas do amor. Ela estende

o livro para ser autografado. Não consegue controlar as

sensações do próprio corpo. Márcio a contempla uma vez mais, da mesma forma como se detinha contemplativo na árvore frondosa, e se concentra na contracapa do livro, onde escreve um poema, regado a sorrisos de sua face embriagada de felicidade.

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O AMOR

Devagar caminha minha alma

Já o corpo corre às pressas

A

alma, consciente de seu ser.

O

corpo, por medo de perder.

Se corre o vento, ventania, Se vem a brisa, calmaria. Amor, sempre contradição. Instante e Eternidade.

Te amo minha saudade, Te amo jabuticaba!

Seu Maracujá azedo,

Márcio Sousa

AURORA DE UM

SONHO foi rapidamente

esgotado. Várias edições foram lançadas posteriormente.

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