SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE

EDITORA DA UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MARINGÁ

Reitor Vice-Reitor Diretor da Eduem Editor-Chefe da Eduem

Prof. Dr. Décio Sperandio Prof. Dr. Mário Luiz Neves de Azevedo Prof. Dr. Ivanor Nunes do Prado Prof. Dr. Alessandro de Lucca e Braccini

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Presidente Prof. Dr. Ivanor Nunes do Prado Editor Associado Prof. Dr. Ulysses Cecato Vice-Editor Associado Prof. Dr. Luiz Antonio de Souza Editores Científicos Prof. Adson Cristiano Bozzi Ramatis Lima Profa. Dra. Analete Regina Schelbauer Prof. Dr. Antonio Ozai da Silva Prof. Dr. Clóves Cabreira Jobim Prof. Dr. Edson Carlos Romualdo Prof. Dr. Eliezer Rodrigues de Souto Prof. Dr. Evaristo Atêncio Paredes Prof. Dr. João Fábio Bertonha Profa. Dra. Maria Suely Pagliarini Prof. Dr. Oswaldo Curty da Motta Lima Prof. Dr. Reginaldo Benedito Dias Prof. Dr. Ronald José Barth Pinto Profa. Dra. Dorotéia Fátima Pelissari de Paula Soares Profa. Dra. Terezinha Oliveira Prof. Dr. Valdeni Soliani Franco Profa. Dra. Luzia Marta Bellini Profa. Dra. Valéria Soares de Assis

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Marcos Kazuyoshi Sassaka Edneire Franciscon Jacob Mônica Tanamati Hundzinski Vania Cristina Scomparin Edilson Damasio Artes Gráficas Luciano Wilian da Silva Marcos Roberto Andreussi Marketing Marcos Cipriano da Silva Comercialização Norberto Pereira da Silva Paulo Bento da Silva Solange Marly Oshima

FORMAÇÃO DE PROFESSORES - EAD

Aparecida Meire Calegari-Falco
(ORGANIZADORA)

Sociologia da Educação: olhares para a escola de hoje
2. ed. revisada e ampliada

Maringá 2009

10

eletrônico.uem. 4.br . por qualquer processo mecânico. mesmo parcial. I.Maringá: Eduem. 2. -. e ampl. 5790 . por escrito. 21cm. 155p. 3.Editora da Universidade Estadual de Maringá Av. (Formação de professores – EAD.br / eduem@uem. Calegari-Falco.Paraná Fone: (0xx44) 3261-4103 / Fax: (0xx44) 3261-1392 http://www. n. 2. 370. Sociologia da educação. sem a autorização. do autor. Todos os direitos reservados desta edição 2009 para Eduem. organizadora.9/331 Revisão Gramatical: Annie Rose dos Santos Edição e Produção Editorial: Carlos Alexandre Venancio Eliane Arruda Capa: Júnior Bianchi Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) S678 Sociologia da educação: olhares para a escola de hoje/ Aparecida Meire CalegariFalco. Aparecida Meire.. reprográfico etc.Coleção Formação de Professores .eduem. 2009. Sociedade e educação. ed.ed. org. Sociologia educacional. rev. Proibida a reprodução. Colombo. 10).EAD Apoio técnico: Rosane Gomes Carpanese Normalização e catalogação: Ivani Baptista CRB .Bloco 40 .19 Copyright © 2009 para o autor Todos os direitos reservados. Educação – Sociologia.Campus Universitário 87020-900 . CDD 21.Maringá . ISBN 978-85-7628-188-7 1. Endereço para correspondência: Eduem .

S umário Sobre os autores > 5 > 7 > 9 > 13 Apresentação da coleção Apresentação do livro CAPÍTULO 1 O debate sociológico atual e as transformações na sociedade capitalista Tarcyanie Cajueiro Santos CAPÍTULO 2 Neoliberalismo e reforma educacional: crise e esgotamento Mário Luiz Neves de Azevedo / Dalila Andrade Oliveira > 25 > 41 CAPÍTULO 3 Considerações sobre o trabalho como categoria explicativa do fenômeno educativo Eloiza Elena da Silva CAPÍTULO 4 A educação na obra de Brecht: representações de conquistas e realizações coletivas. Primeiros atos: possibilidades apresentadas Marta Chaves / Sonia Mara Shima Barroco > 49 3 .

integração/inclusão escolar: A educação de pessoas com necessidades especiais Nerli Ribeiro Nonato Mori > 113 CAPÍTULO 10 Impossibilidade de educar para a não-violência?: Reflexões preliminares Lizia Helena Nagel > 127 CAPÍTULO 11 Fracasso escolar: uma questão sociológica Luciana Grandini Cabreira / Luzia Grandini Cabreira > 141 CAPÍTULO 12 Novas demandas educacionais na contemporaneidade: um olhar para a ecopedagogia Aparecida Meire Calegari-Falco / José Ricardo Penteado Falco > 155 4 .SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE CAPÍTULO 5 Construção do sujeito na era tecnológica Tarcyanie Cajueiro Santos > 63 CAPÍTULO 6 O conhecimento no projeto educativo da “Sociedade do conhecimento” Lizia Helena Nagel > 77 CAPÍTULO 7 As funções sociais da escola na atualidade Maria Eunice França Volsi > 89 > 99 CAPÍTULO 8 Escola: ideologia e indústria cultural Iris Yae Tomita / Tereza Kazuko Teruya / Vanderlei Siqueira dos Santos CAPÍTULO 9 Segregação.

Participa do Grupo de Pesquisa ‘Transformação Social e Educação nas Épocas Antiga e Medieval’ (UEM). Graduada em Jornalismo (UEL) e Pedagogia (Fafijan). Mestre em Biologia Celular (Unicamp) e Doutor em Biologia Celular e Estrutural (Unicamp). Mestre em Educação (UEL). IRIS YAE TOMITA Professora do Centro Universitário de Maringá (Cesumar). Graduada em Pedagogia (UEM).S obre os autores APARECIDA MEIRE CALEGARI-FALCO Professora do Departamento de Teoria e Prática da Educação da Universidade Estadual de Maringá (UEM). Mestre em Educação (UEM). JOSÉ RICARDO PENTEADO FALCO Professor do Departamento de Biologia Celular e Genética da Universidade Estadual de Maringá (UEM). Pesquisadora do CNPq (bolsista de produtividade). Doutora em Filosofia da Educação (PUC-SP). LUZIA GRANDINI CABREIRA Professora do Departamento de Teoria e Prática da Educação da Universidade Estadual de Maringá (UEM). Mestre em Educação (UEM). 5 . Mestre em Educação (UEL). Graduada em Publicidade e Propaganda (Cesumar). Graduada em Psicologia (UEL). Mestre em Educação (UFMG). Doutora em Educação (USP) e Pós-Doutoramento (UERJ) na Universidade de Montreal (Canadá). Bacharel em Ciências Sociais (UFMG). Doutoranda em Educação (UEM). DALILA ANDRADE DE OLIVEIRA Professora da Faculdade de Educação e do Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal de Minas Gerais. Pesquisadora na área de História e Filosofia da Educação. Mestre em Ensino pela UFRGS. LIZIA HELENA NAGEL Graduada em Filosofia e História. LUCIANA GRANDINI CABREIRA Professora do Departamento de Teoria e Prática da Educação da Universidade Estadual de Maringá (UEM). Graduado em Ciências Biológicas (Unesp-Rio Claro).

Pós-Doutoramento pela USP. NERLI RIBEIRO NONATO MORI Professora do Departamento de Teoria e Prática da Educação da Universidade Estadual de Maringá (UEM). Mestre em Psicologia da Educação (PUC-SP). VANDERLEI SIQUEIRA DOS SANTOS Graduado em Jornalismo (Faculdades Maringá). Doutora em Educação (Unesp-Marília). Graduado em História (UEM). no Programa de Mestrado em Comunicação e Cultura da Uniso. Graduada em Pedagogia (UEM). Doutora em Educação (Unesp-Araraquara). Mestre em Educação (Unesp-Marília). Professora da Fafipar. Bolsista jovem pesquisadora da Fapesp. TEREZA KAZUKO TERUYA Professora do Departamento de Teoria e Prática da Educação da Universidade Estadual de Maringá (UEM). MÁRIO LUIZ NEVES DE AZEVEDO Professor do Departamento de Fundamentos da Educação e do Programa de PósGraduação em Educação da Universidade Estadual de Maringá (UEM). Doutora e Pós-Doutora em Ciências da Comunicação pela USP. Pesquisadora do CNPq. 6 . MARTA CHAVES Professora do Departamento de Teoria e Prática da Educação da Universidade Estadual de Maringá (UEM). Mestre em Educação (UEM). Faz parte do Grupo de Estudos Filosóficos da Comunicação-Filocom.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE MARIA EUNICE FRANÇA VOLSI Graduada em Pedagogia (UEM). TARCYANIE CAJUEIRO SANTOS Formada em Ciências Sociais pela UFPE. Mestre em Educação (UEM). Pedagoga da Rede Estadual Pública de Ensino. SONIA MARI SHIMA BARROCO Professora do Departamento de Psicologia da Universidade Estadual de Maringá (UEM). Mestre em Educação (UEM). Doutora em Educação (UFPR). Pesquisador visitante do IESALQ-Unesco (1/2008) e do CNPq (bolsista produtividade). Graduada em Ciências Sociais (Unesp-Marília) e História (Faculdade Auxilium de Lins-SP). Mestre em Educação (UFSCar-São Carlos). Mestre. Doutor em Educação (USP). Mestre em Educação (UEM). Graduada em Psicologia (UEM). Doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano (USP).

A princípio. A partir de 2008. com o acréscimo de 12 novos títulos.EAD teve sua primeira edição publicada em 2005. que por meio da atuação direta da Reitoria e de diversas Pró-Reitorias não mediu esforços para que os trabalhos pudessem ser desenvolvidos da melhor maneira possível. da reflexão e do aprofundamento das questões pensadas como fundamentais para a formação do Pedagogo na atualidade. serão impressos 695 exemplares de cada título.A presentação da Coleção A coleção Formação de Professores . esta coleção somente poderia ser construída a partir do esforço coletivo de professores das mais diversas áreas e departamentos da Universidade Estadual de Maringá (UEM) e das instituições que têm se colocado como parceiras nesse processo. uma vez que os livros da nova coleção serão utilizados como material didático para os alunos matriculados no Curso de Pedagogia. tendo em vista que o financiamento para esta edição será liberado gradativamente. Neste sentido. O que buscamos. um objeto de reflexão que foi pensado para uma disciplina específica do curso. com cada um dos livros publicados. no âmbito do Sistema UAB. De modo bastante 7 . que é responsável pelo programa denominado Universidade Aberta do Brasil (UAB). Agradecemos. com 33 títulos financiados pela Secretaria de Educação a Distância (SEED) do Ministério da Educação (MEC) para que os livros pudessem ser utilizados como material didático nos cursos de licenciatura ofertados no âmbito do Programa de Formação de Professores (Pró-Licenciatura 1). ofertado pela Universidade Estadual de Maringá. A tiragem da primeira edição foi de 2500 exemplares. mas em nenhum deles seus organizadores e autores tiveram a pretensão de dar conta da totalidade das discussões teóricas e práticas construídas historicamente no que se referem aos conteúdos apresentados. é abrir a possibilidade da leitura. demos início ao processo de organização e publicação da segunda edição da coleção. agradecemos sinceramente aos colegas da UEM e das demais instituições que organizaram livros e ou escreveram capítulos para os diversos livros desta coleção. ainda. em seu bojo. de acordo com o cronograma estabelecido pela Diretoria de Educação a Distância (DED) da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal do Ensino Superior (CAPES). Cada livro da coleção traz. Modalidade de Educação a Distância. Por isso mesmo. A conclusão dos trabalhos deverá ocorrer somente no ano de 2012. à administração central da UEM.

Internamente enfatizamos. pudesse ser criado oficialmente.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE específico. o envolvimento direto dos professores do Departamento de Fundamentos da Educação (DFE). que em parceria com as Instituições de Ensino Superior (IES) conseguiram romper barreiras temporais e espaciais para que os convênios para a liberação dos recursos fossem assinados e encaminhados aos órgãos competentes para aprovação. Letras e Artes (CCH). na modalidade de educação a distância. tendo em vista a ação direta e eficiente de um número muito pequeno de pessoas que integram a Coordenação Geral de Supervisão e Fomento e a Coordenação Geral de Articulação.EAD possa contribuir para a formação dos alunos matriculados no curso de Pedagogia. destacamos o esforço da Reitoria para que os recursos para o financiamento desta coleção pudessem ser liberados em conformidade com os trâmites burocráticos e com os prazos exíguos estabelecidos pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). o que exigiu um repensar do trabalho acadêmico e uma modificação significativa da sistemática das atividades docentes. Maria Luisa Furlan Costa Organizadora da Coleção 8 . No tocante ao Ministério da Educação. ressaltamos o esforço empreendido pela Diretoria da Educação a Distância (DED) da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal do Ensino Superior (CAPES) e pela Secretaria de Educação de Educação a Distância (SEED/MEC). bem como de outros cursos superiores a distância de todas as instituições públicas de ensino superior que integram e ou possam integrar em um futuro próximo o Sistema UAB. Esperamos que a segunda edição da Coleção Formação de Professores . ainda. vinculado ao Centro de Ciências Humanas. que no decorrer dos últimos anos empreenderam esforços para que o curso de Pedagogia.

que apesar de oferecer um panorama das questões atuais. Soma-se a essas questões a necessidade de apresentar um panorama relativo às novas possibilidades de atuação do pedagogo também nos espaços não escolares. É importante destacar que. bem como suprimir. desvelar temáticas importantes para um curso de formação de professores. Buscamos identificar. sob diferentes concepções teóricas. que indubitavelmente flexibiliza-se em espaço e tempo para acontecer nos mais diversos setores/lugares que antes sequer se cogitava pensar sob a perspectiva educacional. os limites e sugestões que por ventura pudessem ter surgido no trabalho efetivo com os alunos do Curso Normal Superior. 9 . a quem a primeira edição se destinava. Franco Cambi1 define com maestria o momento de reavaliação atual da pedagogia: “acontece por solicitação de uma sociedade em profunda transformação e que está assumindo a forma de ‘sociedade aberta’ (plural. junto aos tutores e professores/orientadores da disciplina. uma vez que permite tecer considerações sobre tais problemas que envolvem diretamente a escola. uma vez que em seu limite não conseguirá abarcar todas as demandas. Agradecemos aos autores que se empenharam em contribuir com suas pesquisas para enriquecer a presente obra. acrescentamos temas que têm por objetivo contribuir na construção de um arcabouço teórico/prático para a formação de professores. atendendo às demandas levantadas por eles e repensando o propósito desta obra. temáticas que são emergentes nas discussões educacionais na atualidade. Desejamos aos leitores que possam se apropriar adequadamente dos temas que serão 1 Franco Cambi. esta obra certamente pontuará somente as principais questões. apesar de atender em parte o conjunto de tais temáticas. considerando que estas se multiplicam rapidamente.A presentação do livro A reedição desta obra nos possibilitou acrescentar. pedagogo italiano. ao contrário. não se configura em uma abordagem da micro-história. busca compreendê-las sob uma perspectiva histórica desse novo repertório pedagógico. 1999). Essa abordagem é pertinente em um momento em que se repensa a própria identidade dos cursos de Pedagogia e da própria Educação. É imprescindível que não percamos de vista a TOTALIDADE da questão envolvida. Dessa forma. dinâmica e até mesmo conflituosa)”. autos de História da Pedagogia (Editora Unesp. permitindo.

especialmente na comunidade escolar. e sim como um exercício de compreensão de fatos sociais que interferem em nossas vidas.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE abordados. com a certeza de que somente parte dessa pluralidade aqui se apresenta. mas não como um receituário a ser seguido. Aparecida Meire Calegari-Falco Organizadora do Livro 10 .

1 O debate sociológico atual e as transformações na sociedade capitalista Tarcyanie Cajueiro Santos A Sociologia. p. econômica. 1991). afetando os aspectos mais pessoais da existência humana (GIDDENS. mais especificamente com a “ruptura do tecido simbólico que encerrava a sociedade do Antigo Regime” (CAILLÉ. p. ciência que se propõe a estudar a sociedade. seja na dimensão social. Esse novo modo de vida. surgiu no século XIX. 14) e produziram modos de vida sem correlação com os tipos tradicionais de ordem social. 45). O indivíduo emerge progressivamente como sujeito detentor de seu destino. mas sua gestação remonta ao final do século XVI e início do século XVII. como uma organização social correspondente a um estilo de vida. A partir da modernidade. 9). É com a derrocada efetiva do mundo baseado na dominação da nobreza e com o surgimento da crença de que o homem é o principal porta-voz de seu destino que as Ciências Sociais vão se desenvolver. seja na cultural e existencial. As transformações que caracterizaram esse período. foram “mais profundas que a maioria dos tipos de mudança característicos dos períodos precedentes” (GIDDENS. A modernidade. quando a sociedade feudal se desagrega e em seu lugar surge a progressiva consolidação da sociedade capitalista. Podemos afirmar que a partir do 11 . 1991. 1991. política. no continente europeu. As Ciências Sociais e a Sociologia são uma tentativa de resposta às transformações geradas no homem e na sociedade pelo advento da modernidade. cuja característica principal é a de ser emulada por um conjunto de descontinuidades que descentram o homem. trouxe consigo a produção de estilos diferentes dos das instituições sociais tradicionais (GIDDENS. 1991. p. a natureza da vida social cotidiana é radicalmente alterada. Esse fenômeno se insere em um outro ainda maior: o advento da modernidade. inaugura uma nova maneira de conceber o homem e repercute nas relações sociais.

propenso a mudanças. e outro. O advento de uma nova organização socioeconômica implicou um rompimento com os constrangimentos do século XVIII. porque isto lança luz sobre a ruptura de sentido e a nova cultura que então emerge e que se espelhará pelo século XX adentro. que se inicia com a aceleração da Revolução Industrial. 1996. que desloca “as relações sociais de contextos locais de interação e sua reestruturação por meio de extensões indefinidas de tempo-espaço” (GIDDENS. Segundo o autor. que tinham a natureza e não mais Deus como princípio explicativo. o dinamismo que a modernidade imprime ao mundo deriva dessa separação do tempo e do espaço. a qual remete ao desencaixe dos sistemas sociais. por isso. p. imanente e. com a Revolução Francesa o espaço urbano passa a ser pensado cada vez mais como um conjunto formado por partes conectadas entre si e não isoladas (ORTIZ. 78). p. 1991. os padrões religiosos de interpretação da ordem do mundo foram substituídos por padrões seculares. Ou seja. p. Se. distingue dois momentos no século XIX francês: um primeiro. promoveu um intercâmbio entre espaços que estavam voltados para si mesmos. a eletricidade. É importante compreendermos bem o que ocorre entre o século XVIII e o século XIX. o mundo deixou de ser visto e explicado como perfeição divina e passou a ser encarado como algo em si. As 12 . 1991. Podemos pontuar que. a cidade se especializa e o espaço se transforma. modificando as relações do homem com o espaço e com o tempo. o tempo e o espaço confinavam-se em fronteiras seguras. A primeira. Assim. descontinuidades que inauguram um novo patamar social. conforme Ortiz. a partir dessa época. a iluminação a gás. duas modernidades caracterizariam esse período. uma transformação que reflete o afastamento do capitalismo e dos seus avatares da tradição feudal e do Antigo Regime. Essas duas modernidades são. durante o Antigo Regime. 198). p. como as estradas de ferro. assentado sobre os pilares da emancipação e da regulação.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE final do século XVIII tem início o cumprimento histórico do projeto sociocultural da modernidade. o telégrafo e a fotografia. Trata-se de uma mudança de visão dos homens em relação a si mesmos e ao mundo. a telecomunicação (rádio) e o cinema (ORTIZ. ao analisar a história da modernidade. A segunda anuncia elementos que marcarão o século XX e que têm como substrato outro sistema técnico: o automóvel. 1991. associa-se à Revolução Industrial e as suas descobertas. Ou seja. com a nova secularidade daí advinda. descrita por Baudelaire com ironia e vivacidade. 29). o avião. Esse projeto “coincide com a emergência do capitalismo como modo de produção dominante nos países da Europa que integraram a primeira grande onda de industrialização” (SANTOS. 30-31). Renato Ortiz. que se estende da Revolução Francesa até a metade do século.

cujo 13 . liberdade e fraternidade da Revolução Francesa. ainda respira os ares do passado. Isto gerou um ambiente de constantes crises: de um lado. explosivas convulsões em todos os níveis da vida social. mas também no campo dos interesses práticos. Vilma Figueiredo. um tempo lento que se contrapõe à rapidez da modernidade a vapor. o sentimento de um mundo que não chega a ser moderno por inteiro (BERMAN. a Sociologia teve como parâmetro o método das ciências naturais. a exploração de mão de obra infantil. a miséria generalizada. das lojas de departamento e das exposições universais. por meio da imprensa. No caso da Sociologia. que tem se caracterizado pela aceleração do ritmo da vida e pela compressão do tempo-espaço. é no século XIX que surgem os primeiros esforços sistemáticos de delimitação do objeto de estudo e de estratégias metodológicas para a produção de conhecimento. A esse respeito. que emerge no século XIX juntamente com a racionalidade. buscando não apenas entender os problemas que surgiam. 1986). não apenas se deu no nível intelectual. Deste modo. estruturas de poder pouco flexíveis e impermeáveis aos anseios das grandes massas alguns dos principais temas que ocupavam grande número de intelectuais de então (FIGUEIREDO. como também solucioná-los. o sistema e o desempenho. as precárias condições de higiene. O princípio de circulação. É nesse panorama de turbulência ocasionado pela disseminação dos ideais de igualdade. como também a aplicação dessas descobertas na correção e no controle do social e dos indivíduos. 2001. pessoal e política. que os intelectuais vão pensar uma nova teoria da sociedade. 5). cujo resultado nas pessoas que viveram no século XIX foi a sensação de habitarem dois mundos diferentes. p. a funcionalidade. impulsionando o desenvolvimento do capitalismo. O debate sociológico atual e as transformações na sociedade capitalista A resposta destes pensadores ao caos desse período. ao mesmo tempo. Apesar do avanço considerável do sistema de comunicações. pela inovação tecnológica e por uma industrialização causadora de miséria e de desemprego em uma época que. A racionalização do espaço e do tempo ao longo do século XVIII compôs um processo de reorganização social caracterizado por uma profunda dicotomia. de outro. como se as pessoas vivessem em um mundo unificado. as impossibilidades técnicas não efetivam o total “encolhimento” do espaço. torna-se o elemento estruturante da modernidade. assinala que: Eram as condições inumanas de trabalho. De acordo com Renato Ortiz. o qual é sentido potencialmente. a cidade ainda guarda um passo provinciano. A crença de que a sociedade era regida por leis naturais incentivava não apenas a tentativa de elaborar um conhecimento sistemático acerca delas. fazendo com que as pessoas sentissem o tempo e o espaço fraturados.medidas revolucionárias introduzidas na sociedade rompem com o modelo do Antigo Regime.

por meio de suas teorizações sobre a evolução da racionalidade. da iluminação a gás. que se associavam à Revolução Industrial. para sociedades mais avançadas. p. Como apregoa Giddens: 14 . Isso porque foi em seu nome que se desenvolveram argumentos e desdobramentos inspiradores e justificadores da revolução que pretendeu implantar o comunismo na Rússia e criou a União Soviética (FIGUEIREDO. quer sejam mais solidárias. a sociologia elaborou um sistema de conhecimentos com base em fatos e tentou livrar-se de concepções dogmáticas. nas razões da ordem e nas possibilidades de mudança lenta ou acelerada. baseados na tradição positivista de August Comte e Max Weber. segundo as quais a razão era a principal aliada do homem. com multiplicidade de temas. esses fundadores da Sociologia têm em comum a responsabilidade pela formação da crença de que o conhecimento sociológico poderia controlar a sociedade. p. na medida em que deixaram para essa ciência um legado teórico e prático que inspirou inúmeros intérpretes e seguidores ao longo do século XX e cuja força se estende até os dias atuais: Karl Marx. passando a ser produzida em diferentes lugares. gradual ou não. A Sociologia. Èmile Durkheim. as ciências naturais alcançaram um desenvolvimento notável.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE emprego sistemático da observação e da experimentação possibilitou uma progressiva dominação e controle do homem sobre a natureza. em seu desenvolvimento. foi por elas influenciada. seja no sentido de sua organização e conservação. Entre o tempo de Copérnico e Newton. mais igualitárias ou mais racionais (FIGUEIREDO. cujo resultado foi. São dignos de atenção os fundadores clássicos da Sociologia. Com o fim de ter o mesmo progresso das ciências naturais e alcançar o status de ciência. 9). se Comte. É Marx. religiosas e de ideias preconcebidas. seja no da mudança gradual ou transformação radical: Deixando-nos uma macro-sociologia cujo eixo está nos fatores condicionantes do conflito e da solidariedade na sociedade industrial. Durkheim e Weber influenciaram o desenvolvimento das democracias que se fortaleceram durante o século XX. Apesar das diferenças entre si. 7). quem fornece o exemplo mais visível de teoria posta em prática. a natureza do vínculo social e os tipos de dominação. o que estava dentro do espírito do tempo impregnado pelas ideias iluministas. supranaturais. entretanto. foram feitas descobertas tecnológicas extraordinárias. ao mesmo tempo. do telégrafo e da fotografia. 2001. problemas e propostas. 2001. O impacto das teorizações produzidas por esses pensadores nas sociedades do século XX é apontado por sociólogos como Vilma Figueiredo. por exemplo. Para ela. o surgimento das estradas de ferro. influenciou os destinos das sociedades que almejavam se tornar modernas e.

durante todos esses anos. “funcional-weberiano”. Cabe ao homem conviver com os ‘paradoxos’ (TRAGTENBERG. 15 . tinham origem no contexto da sociedade industrial e na crença de que o progresso seria alcançado por meio da razão e da ciência. Assim fazendo. neste caso. 49). “nem a ciência. que são narrações com funções legitimadoras. ao classicismo antigo). xiv). teorias e descobertas das outras ciências sociais continuamente ‘circulam dentro e fora’ daquilo de que tratam. que em um futuro iria se efetuar1. Para ele. Normalmente. p. Tais paradigmas. a complexidade e a incerteza que vivenciamos parecem não condizer mais com muitos dos conceitos por eles elaborados. A filosofia de Hegel totaliza todas estas narrativas. salvação das criaturas por meio da conversão das almas à narrativa crística do amor mártir. aquilo que Lyotard designou como as metanarrativas. tais como: Emancipação progressiva da razão e da liberdade. os atuais desafios da Sociologia e. de modo que se era ou marxista ou funcionalista ou weberiano. se considerando o próprio cristianismo na modernidade (opondo-se. os cientistas sociais aderiam a uma ou a outra visão de mundo. 31). Por conseguinte. ele próprio tendo aprendido a pensar sociologicamente. a racionalização leva ao desencantamento do mundo. procurando dar conta dos novos problemas sociais que têm aparecido. Apesar de os pensadores clássicos ainda serem uma fonte inesgotável de conhecimento para se pensar a contemporaneidade. emancipação progressiva ou catastrófica do trabalho (fonte do valor alienado no capitalismo). A modernidade não comporta ‘soluções’. ou seja. A modernidade é ela mesma profunda e intrinsecamente sociológica (1991. Assim. apesar dos diferentes conceitos e metodologias. e neste sentido concentra em si a modernidade especulativa (LYOTARD. as ciências sociais se articularam basicamente em torno de três grandes paradigmas: o marxismo. O debate sociológico atual e as transformações na sociedade capitalista Por isso. Em sua visão. eles reestruturam reflexivamente seu objeto. criando uma jaula de ferro. quando muito. 1992. 1993. e até. das ciências sociais emergiram na segunda metade do século XX e tornaram-se mais evidentes ou aguçados no início deste século. ao caminhar da macro para a microssociologia. essa ciência vem se diversificando tanto metodologica quanto teoricamente. 1 Weber foi o único desses pensadores clássicos que viu o uso abusivo da razão sob uma perspectiva negativa. o funcionalismo e o weberianismo. p. quando o mundo parece ter finalmente entrado em uma nova fase. p. nem a filosofia podem dar um ‘sentido’ à existência. O eixo básico desse pensamento era a ideia de um sujeito e de um fim unitários e também de superação. de maneira geral.O discurso da sociologia e os conceitos. enriquecimento da humanidade inteira por meio dos progressos da tecnociência.

da reestruturação do capitalismo e das novas tecnologias comunicacionais. Para uma compreensão melhor desse conceito. independentemente de suas vontades. David Harvey (1992) vê aí uma intensa fase de compressão do espaço e do tempo similar à ocorrida no final do século XIX. ser compreendida com base na “existência de processos globais que transcendem os grupos. como as da época do surgimento da sociologia como ciência. mas por meio de uma velocidade cada vez maior e ininterrupta. tecnologias comunicacionais e informacionais. A modernidade avançou materializando-se nela. da fragmentação das sociedades. Renato. Como propala Renato Ortiz. Comportaria a emergência de uma sociedade global. como o conjunto 2 Modernidade-mundo pode. Em meio ao processo de modernização da sociedade observa-se o aparecimento de uma cultura de massa. que visou à conquista de um maior mercado possível e dirigiu seus produtos a consumidores em expansão. À medida que o século XIX se estendeu.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE Diversamente de outros períodos históricos. 7. em síntese. no final do século XX. 16 . princípio estruturante das relações sociais. cujo impacto não parece ser menor do que o de técnicas anteriores. a sua plena realização ocorre apenas no decorrer do século XX. a técnica não apenas passou a ser prolongamento da ciência. a materialidade dos meios de comunicação permite interligar as partes desta totalidade em expansão” (ORTIZ. como também da sociedade. p. conectada cada vez mais pelos meios de comunicação voltados ao grande público. da precarização do trabalho. A vocação mundial sobre a qual se estrutura essa modernidade repousa sobre as exigências de uma civilização urbano-industrial. Contudo. Mundialização e cultura. que modificou o panorama de então. eletrônicas e informacionais. as classes sociais e as nações”. p. 1991. Portanto. 58-59). com o advento da globalização. permitindo. A circulação. por meio da separação do tempo e do espaço. na conjuntura posterior à Segunda Guerra Mundial sofrerá saltos e redefinições. o desencaixe das relações sociais. ocorre com base nesses meios. embora já no final do século XIX a emergência de uma “modernidade-mundo”2 possa ser captada em alguns estratos sociais dos países ocidentais mais desenvolvidos. São Paulo: Brasiliense. assim “como as antigas estradas de ferro. em escala abrangente e dinâmica. se no século XIX a racionalização da sociedade ainda era uma potencialidade. o século XX desenvolveu. a tecnologia tornou-se estruturadora das próprias sociedades. Isto significa que. os meios de comunicação de massa contêm uma dimensão que transcende as territorialidades locais. veja: ORTIZ. pois o circuito técnico sobre o qual as suas mensagens se apoiam é responsável por um tipo de civilização que se mundializa. indicando a existência de uma malha imprescindível para a mobilidade cultural. 1998. em que os homens encontram-se interligados. Foi nesse caminhar que.

convergente de tecnologias em microeletrônica, computação (software e hardware), telecomunicações/radiodifusão, optoeletrônica, a engenharia genética e seu crescente conjunto de desenvolvimentos e aplicações. No momento em que o processo de racionalização sobre o qual se ancora a modernidade ocorre nas diversas esferas do tecido social, a sociedade passa a ser caracterizada como um conjunto desterritorializado, cujas partes são articuladas umas às outras. Com isso, não foram apenas a Primeira Guerra Mundial, o choque da Segunda Guerra Mundial, a revolução soviética e a ascensão dos movimentos fascistas que fizeram com que o mundo ocidental entrasse em uma nova fase; também o advento do pós-industrialismo, de uma burocratização cada vez mais impessoal, a proliferação de armas químicas e nucleares, a devastação do meio ambiente e a deterioração da vida social, assim como a atuação cada vez maior dos meios de comunicação como cimentadores sociais, entre outros acontecimentos, ajudaram a produzir uma desconfiança em relação às ideologias do progresso e uma incerteza sobre o futuro e colocaram em xeque as metanarrativas que guiaram as ciências sociais. Uma sensação de que “tudo o que é sólido desmancha no ar”, como bem pontuou Marx no Manifesto Comunista, vai a par do processo de secularização e individualização da sociedade e da crise das ciências, as quais parecem não dar mais conta dos acontecimentos, não conseguindo, muitas vezes, prevê-los ou explicá-los. Esse processo de substituição de uma sociedade disciplinar, estruturada com base na noção de dívida infinita e de dever absoluto, por uma sociedade do controle, assentada na informação, na estimulação das necessidades, no sexo, no culto da naturalidade, da cordialidade e do humor e no levar em conta os “fatores humanos” (LIPOVETSKY, 1994) indica a passagem da modernidade à pós-modernidade, na teoria e na cultura em geral. O momento de radicalização da modernidade, segundo autores que negam a pós-modernidade, é entendido como um fenômeno de superação daquela3. Essa mutação, que apenas veio a ser amplamente analisada nas últimas décadas do século XX, quando nos deparamos com o processo de reestruturação do sistema capitalista implementado pela revolução tecnológica da informação, não ocorreu da noite

O debate sociológico atual e as transformações na sociedade capitalista

3 Concordamos com Renato Ortiz, no sentido de que a pós-modernidade pode ser compreendida como uma configuração social que se projeta para além da anterior, mesmo se construindo com base nela, uma vez que é um momento de radicalização das modernidades anteriores. Ortiz. Mundialização e cultura, op. cit, p. 68-69.

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para o dia4. Todavia, já em 1950, ano do aparecimento da televisão, alguns autores começaram a discutir e analisar esse processo de transformação cultural, social, econômica, tecnológica e política, que impulsionou a nova configuração social, política, econômica e existencial, cujo marco foi a explosão de maio de 1968. A proclamação desse movimento de todos os desejos, bem como a sua pretensão à autenticidade e ao direito à diferença, como novas visões de mundo, em nome do respeito ao indivíduo e da erradicação dos dogmatismos morais e religiosos, apontam o novo espírito da época. Com essa mudança normativa, que instituiu sociologicamente o indivíduo puro, o importante passa a ser poder se exprimir e se assumir. Esse novo sujeito soberano e incerto, por não ter mais o peso de morais rígidas para indicar a sua conduta, deve elaborar suas próprias regras (EHRENBERG, 1998, p. 133). Riesman (1971, p. 85), que no início da década de 1950 publicou A Multidão Solitária, com a assistência de Nathan Glazer e Reuel Denney, figura entre os cientistas sociais que se preocuparam em analisar o declínio do modelo normativo, baseado na disciplina e na culpa, que guiou a individualidade até 1950. Ele argumentava que a sociedade estava transitando de um estágio “orientado para dentro” para um estágio “orientado para o outro”. As pessoas, antes influenciadas pelos pais e outras autoridades mais velhas, passavam a depender da aprovação de seus pares. No início da segunda metade do século XX, Riesman já percebia que “educação, lazer e serviços caminham conjuntamente com um crescente consumo de palavras e imagens dos novos meios de comunicação de massa” (RIESMAN, 1971, p. 85). Se essas técnicas, juntamente com o capitalismo, ajudaram a corroer os laços comunitários ao mesmo tempo em que aumentavam a demanda por comportamentos mais “socializados”, a difusão da televisão, após a Segunda Guerra Mundial, criou uma nova “galáxia da comunicação”, aprofundando ainda mais processos iniciados anteriormente, como os de individualização e de distanciamento entre o tempo e o espaço. Com a sua introdução, um sistema de comunicação essencialmente dominado pela mente tipográfica e pela ordem do alfabeto fonético é deixado para trás. Em seu lugar, emerge “um meio fundamentalmente novo caracterizado pela sua sedução, estimulação sensorial da realidade e fácil comunicabilidade, na linha do menor esforço psicológico” (CASTELLS, 1999, p. 358).

4 Steven Connor afirma que “embora o termo ‘pós-modernismo’ tenha sido usado por alguns escritores dos anos 1950 e 1960, não se pode enunciar que o conceito de pós-modernismo tenha se cristalizado antes da metade dos anos 1970, quando afirmações sobre a existência desse fenômeno social e cultural tão heterogêneo começaram a ganhar força no interior e entre algumas disciplinas acadêmicas e áreas culturais, na filosofia, na arquitetura, nos estudos sobre o cinema e em assuntos literários”. CONNOR, Steven. Cultura pós-moderna: introdução às teorias do contemporâneo. São Paulo, Loyola: 1992, p. 13. Outros autores, como Ciro Marcondes Filho, postulam que o pós-modernismo já existia em 1920.

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Ao modelar a linguagem da comunicação societal, os media, especialmente a televisão e o rádio, moldaram o ambiente no qual agimos e interagimos. Quanto mais esses media penetram em nossa vida, mais tendemos a, individualmente, nos absorver. Castells preconiza que a difusão desses media, cujo eixo central é a TV, pressupõe uma importante característica da sociedade em que um número cada vez maior de pessoas está morando sozinhas. Ciro Marcondes Filho, por sua vez, ao mencionar o papel da televisão, distingue nela uma característica única. Para este autor, ela não apenas foi “o veículo dominante no final da modernidade”; como também foi o “veículo de ingresso na nova fase social, fim da modernidade, interregno pós-modernidade e agora cibersociedade” (MARCONDES FILHO, 2000, p. 36). Deste modo, como principal meio de comunicação da modernidade, a televisão, junto com a motorização, contribuiu amplamente para o confinamento das pessoas em casa, para a implosão da esfera pública e para a política de sedução de massa (MARCONDES FILHO, 2000, p. 36). No final do século XX, a Internet, aliada ao aparecimento e à cotidianização de sistemas multimediáticos, como o computador, que reúne media dispersos (a televisão, o telefone, o rádio e o jornal), parece aprofundar essa tendência. Por meio deles, conceitos como interatividade, participação e performance indicam novos vetores, como realidade virtual, imagem, digitalização, transitoriedade, entre outros. Ou seja, nos deparamos com o aparecimento de uma sociedade em rede, cujo sistema multimediático se apresenta como o sinalizador de novas tendências culturais, políticas, econômicas e sociais. Se com os media dispersos já vivíamos em um ambiente comunicacional, com a introdução e a difusão dos sistemas multimediáticos entramos na sociedade em rede. Com o teclado e a tela as pessoas já acionam programas via satélite e a cabo, veem o clima e jogam. De fato, atualmente a televisão não apenas está conectada a grandes redes, TV a cabo e parabólicas; sua tela já integra cassetes, jogos eletrônicos e até mesmo o computador, fazendo o papel de visor (ORTIZ, 1998, p. 63). Diversamente do ambiente de discussão produzido pelo espaço público moderno, como contraponto ao espaço privado, os sistemas multimediáticos, cujo epicentro é a Internet, aparecem como uma esfera pública inteira, “um mundo em que a constelação de atividades se acha deslocada e condensada no meio eletrônico”5. A penetrabilidade em todos os domínios das atividades humanas, atuante nas tecnologias da informação, do processamento e da comunicação, faz com que vivamos em um mundo que já se tornou digital.

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5 Marcondes Filho. “Haverá vida após a Internet?”, disponível em: http://www.anpocs.org.br.http://www.eca.usp.br/ nucleos/filocom/home.html. 2000.

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51). de comunicação e de gerenciamento de vida. correspondeu a um seguimento específico da sociedade norte-americana que. concretizou um novo estilo de produção. 87). não apenas foi de encontro com a tradição cautelosa do mundo corporativo de então. na interatividade. a maior interdependência entre o homem e a máquina deriva desse novo modo informacional de desenvolvimento. na visão de Dominique Wolton (2000. Castells (1999) relaciona esse grande progresso tecnológico do início dos anos 1970 com a cultura da liberdade. a disponibilidade de novas tecnologias constituídas como um sistema já na década de 70 foi uma base fundamental para o processo de reestruturação socioeconômica dos anos 80. p. As novas tecnologias. pode ser compreendido por meio de três palavras chaves: autonomia. E a utilização dessas tecnologias década de 80 condicionou. mas também processos a serem desenvolvidos. Assim. A ênfase nos dispositivos personalizados.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE Essas tecnologias não são apenas ferramentas a serem aplicadas. desembocando na cibersociedade ou sociedade tecnológica ou sociedade em rede dos anos 1990. funcionam como amplificadores e extensões do homem. pela primeira vez na história a mente humana se torna uma força direta de produção e não apenas um elemento no sistema produtivo. segue-se uma relação muito próxima entre os processos sociais de criação e manipulação de símbolos (a cultura da sociedade) e a capacidade de produzir e distribuir bens e serviços (as forças produtivas) (CASTELLS. A digitalização. essas novas tecnologias simbolizam a liberdade e a capacidade de dominar o tempo e o espaço. p. p. Com elas. atuante nessa revolução da tecnologia da informação. 1999. como também se difundiu pela cultura mais significativa das sociedades contemporâneas. 1999. 69). eles produzem novas sínteses. reordenando seu modus 20 . na formação de redes e na busca de novas descobertas tecnológicas. O seu sucesso. até certo ponto. da inovação individual e da iniciativa empreendedora oriunda dos campi norte-americanos da década de 1960. domínio e rapidez. Desse modo. seus usos e trajetórias na década de 90 (CASTELLS. de processamento da informação e de comunicação de símbolos. a velocidade e o excesso informativo são considerados por Marcondes Filho como os três componentes da era tecnológica. Na medida em que a fonte de sua produtividade se encontra na tecnologia de geração de conhecimentos. em grande parte. Por se juntarem ao profundo movimento de individualização das sociedades modernas. ao integrarem mentes e máquinas. Informa Castells que o espírito libertário dos anos 1960. muitas vezes sem muito sentido comercial. em interação com a economia global e a geopolítica mundial. Ao interferirem na ordenação física e psíquica dos agentes.

Ao se difundir por todo o conjunto de relações e estruturas sociais. porque o novo estágio do capitalismo e a globalização a ele atrelada têm nos mostrado um mundo interconectado por uma tecnologia que chega. uma sociologia humilde e plural. à importância de outras disciplinas para se entender as transformações sociais e o próprio campo da sociologia. porque a neutralidade científica e o racionalismo como os modos dominantes de pensar da ciência (incluindo-se aí a sociologia) se mostraram um mito. acima dos fenômenos. Economias por todo o mundo passaram a manter interdependência global. 1999. cit. ou seja. p. Por isso. 36). sua difusão ocorreu com a velocidade da luz. Humilde. Neste sentido. assim como sobre a vida social e cultural. Reiterando Castells: Uma revolução tecnológica concentrada nas tecnologias da informação está remodelando a base material da sociedade em ritmo acelerado. Assim. Como expõe Ciro Marcondes Filho: 6 Marcondes Filho. 21 . equilíbrio de poder de classe. 21). inúmeros autores têm chamado atenção à interdisciplinaridade. para ser ao menos delimitada. Eles foram postos em xeque pela teoria do caos e da mecânica quântica. Ela pressupõe. 1999. O surgimento de uma nova estrutura social coloca inúmeras dificuldades para aqueles que desejam compreendê-la. as últimas décadas do século XX foram caracterizadas por um impacto desorientador e diruptivo sobre as práticas políticas e econômicas. em menos de duas décadas. Apesar de haver grandes áreas e consideráveis segmentos populacionais que não têm acesso a esse novo sistema. Plural. a tecnologia e as relações técnicas de produção penetram no poder e na experiência. em maior ou menor escala. levando à necessária relativização de seus pressupostos. penetra em todos os domínios de tal forma que a sociologia sozinha não pode mais dar conta de seu objeto. foi levada a repensar a própria atividade do investigador diante da precedência dos fatos e dos fenômenos em relação a ele próprio. As transformações sociais são tão drásticas quanto as tecnológicas. a todos os lugares. p. conectando o mundo. culturais e econômicas. apresentando uma nova forma de relação entre a economia.vivendi e sua estruturação de mundo6. 52. por meio da tecnologia da informação. modificando-os (CASTELLS. o Estado e a sociedade em um sistema variável (CASTELLS. O debate sociológico atual e as transformações na sociedade capitalista O grande desafio da sociologia é o de procurar compreender todas essas mudanças. uma ciência que se pretendia soberana. “Haverá vida após a Internet?” op. subsumindo-os. políticas.

Loyola. David. ao ter uma postura crítica diante dos acontecimentos que marcaram o século XX./jun. 6. Belo Horizonte. Assim. Para uma sociologia da cultura pós-moderna. a Sociologia poderá nos dizer muito sobre os rumos que as nossas sociedades estão tomando. A. 1991. 1986. As conseqüências da modernidade. S. São Paulo: Paz e Terra. 2000). EHRENBERG. La fatigue d’être soi: dépression et société. razão. São Paulo: Loyola.combinada à falência do humanismo.org. 22 . n. DF: v. 1999. 39-57. Disponível em: <http://www. Alain.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE Levou a uma postura que . 25. 2005. [s. GIDDENS. CAILLÉ. FIGUEIREDO. 1998. CASTELLS.br>.org. 1992. 1991. M. 2001. Acesso em: 26 out. Disponível em: <http://www. M. p.anpocs. ano 9.se alinhava ao pensamento deste século. V. Ciência da sociedade: texto do curso teoria sociológica. São Paulo: Unesp. São Paulo. muito mais crítico em relação aos desenvolvimentos da ciência e muito mais consciente das verdadeiras capacidades de pesquisa do ser humano (MARCONDES FILHO. M. jun. história. homem) . mas também não fazendo dela a sua musa. à crise dos ideais emancipatórios e a todos os mitos que envolveram o despertar científico do início do século 19 (progresso.anpocs.]: Anpocs. 32-45. Referências BERMAN. FEATHERSTONE. Brasília. Acesso em: 16 nov. p. Fim da modernidade?: algumas razões para a perda de sentido nas ciências sociais. Revista Brasileira de Ciências Sociais. Companhia das Letras. São Paulo. A sociedade em rede. Tudo o que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade. HARVEY.br>. e sem negligenciar a razão. 1992. Paris: Editions Odile Jacob. n. Cultura pós-moderna: introdução às teorias do contemporâneo. muito mais modesto em relação às capacidades humanas diante das máquinas. 1. 2005. CONNOR. 1994. l. A condição pós-moderna. evolução. teleologia. jan. Sociedade e Estado: Revista Semestral de Sociologia da UnB.

Lisboa: Dom Quixote. 1992. Pela mão de Alice: o social e o político na pós-modernidade.:s. C. 1994. 1994. O crepúsculo do dever: a ética indolor dos novos tempos democráticos. RIESMAN. David. B. SANTOS. Introdução à edição brasileira. [S. ORTIZ. O debate sociológico atual e as transformações na sociedade capitalista Proposta de Atividade 1) Qual a relação entre a Sociologia e a modernidade? Anotações 23 . Champs. São Paulo: Cortez.usp. 1971. R. 2005. Max.n. São Paulo: Perspectiva. 1998. 1993. TRAGTENBERG. São Paulo: Brasiliense. O que é sociologia.html>. In: WEBER. G. ______. ______. São Paulo: Brasiliense. Disponível em: <http:// www. 1991. l.eca. Lisboa: Don Quixote.]: 2000. M.br/nucleos/filocom/razao. Superciber. Acesso em: 14 nov. Cultura e modernidade. São Paulo: Cortez. 1996. MARCONDES FILHO. LYOTARD.LIPOVETSKY. São Paulo: Brasiliense. 2000. MARTINS. Internet et après? Paris: Flammarion. São Paulo: Ática. A multidão solitária. B. WOLTON. Metodologia das Ciências Sociais. Mundialização e cultura. O princípio da razão durante. 2000. O pós-moderno explicado às crianças.

SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE Anotações 24 .

3) o direito inalienável à propriedade. reconhece que não existe um conceito unívoco de liberalismo. Matteucci (1992). mas. cumpriu funções históricas fundamentais para avançar no sentido de uma sociedade com maior riqueza e liberdade1. A advertência de Matteucci é bastante atual. 686). agora de Economia. Entretanto. que consolidava sua força econômica ante uma aristocracia em decadência amparada no absolutismo monárquico. o liberalismo defendia: 1) a mais ampla liberdade individual. 2) a democracia representativa com separação e independência entre os três poderes (executivo. encontramos a seguinte definição para o termo liberalismo: doutrina que serviu de substrato ideológico às revoluções anti-absolutistas que ocorreram na Europa (Inglaterra e França. do que se convencionou chamar de neoliberalismo e de suas consequências.. que tem o trabalho livre. p. p. concorrendo. 1 Segundo Marx e Engels. patriarcais e idílicas” (1998b. como teoria político-econômica e prática de governo. legislativo e judiciário).] (SANDRONI. sobretudo. “que não tem muito a ver com história” (1992. 1985. Onde quer que tenha conquistado o poder. dessa forma. Correspondendo aos anseios de poder da burguesia. no Dicionário de Política de Norberto Bobbio. O pensamento liberal deu forma a um modo de produzir. 23). 25 . pósmedieval. o que coloca-nos diante do risco de se escrever uma história paralela de diversos liberalismos ou de se chegar a um liberalismo “ecumênico”. basicamente) ao longo dos séculos XVII e XVIII e à luta pela independência dos Estados Unidos. pois tal conceito continua equívoco (não unívoco). ao escrever o verbete “Liberalismo”. a burguesia calcou aos pés as relações feudais. não só da complexa matriz liberal. para uma maior dificuldade na definição. “a burguesia desempenhou na história um papel eminentemente revolucionário.. o liberalismo não se define de maneira simples.2 Neoliberalismo e reforma educacional: crise e esgotamento Mário Luiz Neves de Azevedo / Dalila Andrade Oliveira O liberalismo. 241). apesar dos exemplos de escravismos conhecidos na História. e a liberdade de empreendimento para o capital como conteúdos e o mercado como espaço de relação entre possuidores de mercadorias. p. 4) a livre iniciativa e a concorrência como princípios básicos capazes de harmonizar os interesses individuais e coletivos e gerar o progresso social [. Em outro dicionário.

As publicações mais relevantes são “A Riqueza das Nações”. de John Stuart Mill. na procura de benefícios para si. De modo esquemático. O marginalismo. (2) a administrar a justiça interna. 96). liberalismo. Para Smith. 26 . portanto. atribuindo certa racionalidade ao mercado e recomendando que o Estado tenha papel mais restrito. 256). de David Ricardo. A Teoria Keynesiana [. a Economia Keynesiana é o “conjunto de análises econômicas inspiradas nos trabalhos de John Maynard Keynes (1883-1946). imutável e acabado. após um período de relativa estabilidade do Estado de bem estar social e de economia política keynesiana3. De acordo com Adam Smith. O neoliberalismo O que se conhece por neoliberalismo é um projeto político e econômico que se (re)apresenta na segunda metade do século XX. não é um sistema único. 1989. Ou seja. como teoria econômica. As políticas de orientação liberal clássica apoiam-se em Smith. de Adam Smith. Jevons (1835-1882) sucedido por Alfred Marshall (1842-1924). p. sua utilidade marginal aumenta. isto porque. radicalmente.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE Observamos então que o liberalismo constitui um conjunto de princípios que serve de referencial a seus partidários. economista e alto funcionário britânico. O livre mercado e o individualismo firmam-se. faz uma fissura com a Escola Clássica ao negar a teoria do valor-trabalho. o indivíduo. defendendo. 3 A Economia Clássica foi fundada por Adam Smith e David Ricardo. por sua ‘utilidade marginal’” (ibid. e os “Princípios de Economia Política e Tributação”. 82). apoia-se no livre-cambismo e como teoria política propõe um Estado que governe o menos possível.. a explicação para a existência dessa curiosa energia “ego-filantrópica” reside no mercado. de 1776. Além disto. ao buscar maximizar o próprio ganho. e (3) a criar e promover certas obras e instituições públicas” (HUNT. o indivíduo é guiado por uma “mão invisível” e “colabora” com o desenvolvimento social. A Escola Neoclássica segue a maioria dos princípios da Escola Clássica (automatismo do mercado. Para Smith. Bobbio (1990. defendendo maior liberdade de escolha. de 1817.. Ludwig E. originado na Escola Neoclássica.] opõe-se frontalmente à Teoria Neoclássica e defende a necessidade da intervenção do Estado face às crises econômicas” (1996. von Hayek (1899-1992). 114) afirma que as características unificadoras e fundantes do liberalismo residem na economia e na política. p. o valor do bem torna-se maior à medida que o produto escasseia. von Mises (1881-1973) e Friedrich A. de 1848. “o valor de cada bem é dado pela utilidade proporcionada pela última unidade disponível desse bem. individualismo e mínima intervenção do Estado). p. Conforme Sandroni. podemos afirmar que os 2 Segundo Capul e Garnier. b) Escola Austríaca: Karl Menger (1840-1921) seguido por Böhm-Bawerk (1851-1914). o Estado deve limitar-se a “(1) proteger as fronteiras nacionais. p. c) Escola de Lausanne: León Walras (1834-1910). ou seja. a mínima intervenção do Estado e assemelhando-se ao liberalismo defendido pela Escola Neoclássica2. os “Princípios de Economia Política”. historicamente. O valor para o marginalismo é gerado a partir de um fator subjetivo a utilidade marginal. isto é. que teve como discípulo Vilfredo Pareto (1848-1923). Friedrich von Wieser (1851-1926). autor clássico do liberalismo anglo-saxão. promove o bem público (1980). O marginalismo é criado e desenvolvido por três escolas diferentes: a) Escola Inglesa: William S. como sendo as bases do liberalismo. O mercado é o campo desta determinação.

referência incontestável do neoliberalismo.. p. Contemporaneamente. 1983. conforme dito. Contudo. é atualizado pela Escola de Chicago. promover mercados competitivos” (1983. do keynesianismo. reforçar os contratos privados. Neoliberalismo e reforma educacional: crise e esgotamento 4 O monetarismo segue o extremo laissez-faire. qualquer ação do governo nesse sentido representa um perigo” (FRIEDMAN. Um argumento central [. p. p. a terceira função do Estado defendida por Smith. representada por seu maior expoente Milton Friedman. enquanto que a teoria do valor-utilidade vê a harmonia social como fundamental e leva. nos levar a fazer em conjunto o que seria mais difícil ou dispendioso fazer separadamente. Milton Friedman. Os representantes da teoria quantitativa afirmam que os preços das mercadorias seriam determinados pela quantidade de dinheiro em circulação. é a referência monetarista acadêmica. que propugna a utilidade como fonte de valor. No currency (meio circulante) incluíam. 120). como para a teoria do valor-utilidade. que partiu da teoria quantitativa do dinheiro. a Escola de Chicago. a emissão devia ser regulada conforme a importação e exportação do metal precioso. o monetarismo também não é novo. Marx. 27 . preservar a lei e a ordem. 1983. Entretanto. pois tem referência no século XIX. a obra de Smith serve como referência tanto para a tradição liberalconservadora como para o pensamento mais progressista. desestimando. algumas vezes. de Smith. além do dinheiro metálico. Entretanto. em O Capital. o diferencia do liberalismo de Adam Smith e o distingue.... essencialmente. Segundo Hunt. no capitalismo. caracteriza-se por sustentar que é possível manter a estabilidade do sistema capitalista com medidas de controle sobre a quantidade de moeda no mercado. quanto à questão do conflito de classes versus harmonia social. o governo pode. 82). Só quando Smith abandonou a teoria do valor-trabalho é que ele pôde argumentar em favor da “mão invisível” e da harmonia social (1989. p. em uma nota de rodapé. também as notas bancárias. Eles acreditavam alcançar um curso estável do dinheiro por meio da plena cobertura em ouro das notas bancárias.] é de que os proponentes da teoria do valortrabalho vêem o conflito de classes como algo de importância fundamental para a compreensão do capitalismo. inspiradas nas escolas neoclássicas. que defende o trabalho como o original fator criador de riqueza. inclusive. a roupagem ideológica do neoliberalismo traz novos adereços e o seu conteúdo teórico comporta determinadas características que. As tentativas do governo inglês (lei bancária de 1844) de basear-se nessa teoria não tiveram nenhum sucesso e somente confirmaram sua falta de sustentação científica e sua total inutilidade para fins práticos" (MARX. considerou os pressupostos monetaristas como absurdos. 12). Ele explica em nota complementar: "Teoria monetária muito divulgada na Inglaterra na primeira metade do século XIX. a uma versão do argumento da “mão invisível”. Os representantes do Currency principle queriam imitar as leis da circulação metálica. “além desta função principal. Curiosamente. tanto para a teoria do valortrabalho. inevitavelmente. propõe que a principal função do Estado seja “a de proteger nossa liberdade contra os inimigos externos e contra nossos próprios compatriotas. qual seja: a criação e promoção de “certas obras e instituições públicas”. As obras de Smith [. A participação estatal na economia só é aceita por Friedman em casos excepcionais. ao estilo dos economistas neoclássicos. 12). Para ele.pensadores neoliberais.] impressionam o leitor por serem extremamente ambíguas. são mais “liberais” que o próprio liberalismo clássico4.

não existe um neoliberalismo com sentido unívoco. mas também política (1995. No entanto. apenas. escrito em 1944. na região da Europa e da América do Norte onde imperava o capitalismo. não somente econômica. denunciadas como uma ameaça letal à liberdade. da preservação dos contratos estabelecidos e de promotor do livre mercado. comportando esse paradoxo (ou ambiguidade). são vários neoliberalismos. OLIVIER. entre as variantes mais conhecidas. podemos inferir que a “desregulação” do servilismo é. 28 . Seu texto de origem é O Caminho da Servidão. 1996. Destaquemos que o individualismo. Enfim. 9). retornar ao caminho que a Escola Clássica indicou e que a Escola Neoclássica radicalizou na forma. o papel de vigilante dos princípios de respeito à propriedade privada. Desse modo.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE A obra de Smith.. a obra deve ser datada e compreendida de acordo com o espírito da época em que foi escrita. a livre iniciativa e a mínima intervenção do Estado eram pressupostos básicos para que regimes e sistemas. segundo a qual o Estado não podia intervir na vida econômica” (CAPUL. Para a ortodoxia neoclássica e para o neoliberalismo. no artesanato. diferenças entre si. para pôr fim às subservientes relações sociais do feudalismo. Trata-se de um ataque apaixonado contra qualquer limitação dos mecanismos de mercados por parte do Estado. marcando uma ruptura com a tradição econômica liberal dos Estados Unidos da América. Roosevelt. Grosso modo. segundo a noção de historicidade. na autarquia dos feudos e no misticismo religioso fossem superados e para que se impedissem retrocessos ao estilo de um “neofeudalismo”.]. cujas marcas principais são a troca de coisas e o individualismo do laissez-faire. na agricultura primitiva. 5 “Nome dado pelo presidente dos EUA Franklin D. uma “regulação” capitalista. Perry Anderson recorda que o neoliberalismo nasceu logo depois da II Guerra Mundial. dá margem a uma dupla interpretação. em essência. de Friedrich Hayek. à semelhança do liberalismo. a sua política econômica de luta contra a crise [. mas fundamentais. Foi uma reação teórica e política veemente contra o Estado intervencionista e de bem-estar. 185). isto é.. pois. o mercado foi um elemento desagregador do modo de produção feudal e a burguesia beneficiou-se da impessoalidade das novas relações sociais. Como já podemos notar o liberalismo clássico e o neoliberalismo preservam tênues. baseados no servilismo. do marginalismo e da vertente quantitativista do Monetarismo5. A compreensão do movimento neoliberal é um desafio teórico. de modo que se destine ao Estado. p. os representantes políticos e teóricos dessa corrente de pensamento entendem que a sociedade deve voltar a adotar a política econômica anterior às regulações de matiz keynesiano. em 1933. o mercado deve ser livre e deve ser tratado como o principal regulador nas relações sociais.

9-11). 9). As pessoas agora podem desfrutar um padrão de vida antes restrito a uma minúscula elite" (MUZZIOLI apud HOBSBAWM. convocou várias celebridades que compartilhavam de sua orientação ideológica para uma reunião em Mont Pèlerin. era o Partido Trabalhista inglês. Na seleta assistência encontravam-se Milton Friedman. Walter Lipman.Segundo Perry Anderson. três anos após a publicação de O Caminho da Servidão. p. Seu propósito era combater o keynesianismo e o solidarismo reinantes e preparar as bases de um outro tipo de capitalismo. uma espécie de franco-maçonaria neoliberal. o neoliberalismo tornou-se uma opção para os governantes: 6 Esse é um testemunho do que significou os "Anos Dourados" em uma região da Itália: "foi nos últimos quarenta anos que Modena viu de fato o grande salto à frente. 29 . 253). De acordo com Hobsbawm. p. abertamente. antes que a transformação se acelerasse até a velocidade do raio. Lionel Robbins. às vésperas da eleição geral de 1945 na Inglaterra. 7). Enquanto os fundamentos do Estado de bem-estar se estruturavam na Europa do pósguerra (II Guerra Mundial) e o New Deal6 consolidava-se nos EUA. Este é um livro político [sem grifos no original]” (ANDERSON. que este partido efetivamente venceria” (1995. Salvador de Madariaga. p. interessar-se por que não fossem completamente ignorantes" (1980. p. 1995. deveria mesmo assim. dada a falta de efeito das usuais intervenções. Os princípios do liberalismo radical não podiam ser aplicados em países que conheciam os mais altos índices de crescimento econômico da história e que maravilhavam-se com a assistência do Estado de bem-estar social. Ludwig Von Mises. 1995. Contudo. pois as décadas de 1950 e 1960. duro e livre de regras para o futuro (1995. anuncia e reconhece Hayek nas primeiras páginas de sua obra: “quando um estudioso das questões sociais escreve um livro político. conhecidas como “Os Anos Dourados” do capitalismo. p. na Suíça. ou de lentas e intermitentes modificações. Neoliberalismo e reforma educacional: crise e esgotamento As propostas econômicas referenciadas na obra teórica de representantes desse grupo passam a ser consideradas relevantes por policymakers somente a partir da década de 1970. Anderson nota o que. mais precisamente com a crise 1973. altamente dedicada e organizada. 398). parecia ter se esgotado a política de keynesiano. naquele momento. entre outros. em 1947. Hayek. Karl Popper . p. 7 Adam Smith sugere: "Mesmo que o Estado não viesse a tirar qualquer vantagem da instrução das camadas inferiores do povo. pois as políticas sociais e econômicas dos governos tinham por pressupostos que os problemas seriam temporários sem a necessidade de mudanças de fundo (HOBSBAWM. Michael Polanyi. constituíram um período infrutífero para o neoliberalismo7. seu primeiro dever é declará-lo francamente. O período que vai da Unificação até então fora uma longa era de espera. 1995. Aí se fundou a Sociedade de Mont Pèlerin. Conforme Anderson. Hayek entra assim na luta ideológica e no clima de disputa eleitoral do pós-II Guerra Mundial: “O alvo imediato de Hayek. com reuniões internacionais a cada dois anos. 425). Walter Eupken. A crise dos anos 1970 foi a grande prova para o keynesianismo.

do cotidiano e das condições de vida dos sujeitos e que o Estado deve se privar de qualquer intervenção no mercado. aboliram controles sobre os fluxos financeiros. na teoria e na prática de governo. Entre os países centrais. elevaram as taxas de juros. Os governos Thatcher contraíram a emissão monetária. principalmente suas correntes mais ortodoxas. impuseram uma nova legislação anti-sindical e cortaram gastos sociais. O zelo ideológico dos velhos defensores do individualismo era agora reforçado pela visível impotência e o fracasso de políticas econômicas convencionais. em 1979. aplastaram greves. equivocadamente (e a História o comprova).] de crentes no livre mercado irrestrito já começara seu ataque ao domínio dos keynesianos e outros defensores da economia mista administrada e do pleno emprego. 398). defende que a iniciativa privada deve ser a empreendedora por excelência. a minoria [. inspirado na “mão invisível” de Adam Smith. 1995. em 1980. Perry Anderson faz um conciso relato sobre o processo de implantação do modo de governar neoliberal no Reino Unido: o modelo inglês foi.. Jean Baptiste Say (1767-1832). Mesmo antes do crash. se lançaram num amplo programa de privatização. sobretudo após 1973 (1995. o petróleo.. Resumidamente. p. finalmente [. não ocorre crise de superprodução. O NEOLIBERALISMO E A EDUCAÇÃO Sistematicamente. criaram níveis de desemprego massivos. baixaram drasticamente os impostos sobre os rendimentos altos. pois. começando por habitação pública e passando em seguida a indústrias básicas como o aço. que nada mais é que a ideologização das relações de troca. respectivamente. que o mercado deve ser o sinalizador e o regulador dos negócios. seguida pelos EUA. entende a oferta cria a sua própria procura e o mercado tende ao equilíbrio.]. o pioneiro e o mais puro. portanto. dos investimentos. Não diferentemente. os fundamentos do liberalismo. E. tomam por base o individualismo para a formulação das políticas sociais. a partir dessa visão de mundo e sob a perspectiva da “lei dos mercados”. p. a eletricidade. 12). ao mesmo tempo. que receberam o Prêmio Nobel de 1974 e 1976.. conhecida pelo nome de “lei dos mercados”. sob a presidência de Ronald Reagan. o neoliberalismo. foi a primeira a tentar cumprir a agenda neoliberal. sob o Governo de Margareth Thatcher. Além disso. o gás e a água (ANDERSON. essa variação ortodoxa de liberalismo como programa econômico de governo ganhou maior crédito político internacional com a premiação de dois de seus maiores intelectuais: Friedrich von Hayek e Milton Friedman. as reformas neoliberais identificaram o mercado como 30 .SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE A única alternativa oferecida era a propagada pela minoria de teólogos econômicos ultraliberais. a Inglaterra. também pode ser considerado um resgate radicalizado da “Lei de Say”. Para Say (1983)..

justifica-se a construção de políticas públicas para a formação geral. isto é. argumentando que. para além das possíveis vantagens individuais. a expressão 'justiça social' não tem o menor significado” (HAYEK apud BUTLER. é uma conquista popular extraída a duras penas do Estado” (AZEVEDO. Além disso. A educação é um direito social e uma obrigação do Estado. 1987.ou melhor. do déficit educacional ainda existente em grande parte do Planeta e. em especial. Efeitos laterais e paternalismos têm implicações muito diferentes (1) para a educação geral dos cidadãos e (2) a educação vocacional especializada (1983. Dessa maneira. Entretanto. a questão educacional encontra-se no âmbito do mercado. p. de formação de cidadãos e preservação da vida em sociedade. Em suma. Neoliberalismo e reforma educacional: crise e esgotamento Os pensadores neoliberais costumam distinguir educação e instrução. Ele admite tão somente que a educação possa ser financiada pelo Estado se “justificada pelos efeitos laterais” (1983. a construção de uma sociedade democrática e estável demanda (prioritariamente) indivíduos alfabetizados com um grau mínimo de conhecimentos. Não consegui esse intento . Diante de tanta força criativa. o benefício gerado pela educação diretamente ao sujeito não se descola do 8 “Descobrir o significado do que se costuma chamar de 'justiça social' tem sido. antes de ser somente um setor do Estado. A intervenção governamental no campo da educação pode ser interpretada de dois modos. 31 . há mais de dez anos. Historicamente. “a educação é um instrumento público. cheguei à conclusão de que. O projeto de sociabilidade neoliberal marca-se pelo afastamento da democracia tradicional e pelo menosprezo da ideia de justiça social9. p. Para Friedman. p. 86). uma das minhas maiores preocupações. sociedade e educação8. 9 Cf. p. ou seja. a universalização da educação possibilita um ganho para toda a sociedade. ao mesmo tempo.circunstâncias estas que tornam a troca voluntária impossível. a execução do projeto do sistema educacional é retirada do âmbito público e transferida para a iniciativa privada. 1995. da complexidade das relações humanas e. o que propõe o neoliberalismo para a educação? Na opinião de Friedman. 17). necessariamente. entretanto. a educação geral é considerada pelo neoliberalismo como um usufruto pessoal/familiar. O segundo é o interesse paternalista pelas crianças e por outros indivíduos irresponsáveis. de integração social. de cidadãos. circunstâncias sob as quais a ação de um indivíduo impõe custos significativos a outros indivíduos pelos quais não é possível forçar uma compensação. é considerada uma atividade de socialização.: Oliveira (1997). no Brasil. potencialmente civilizador. O primeiro diz respeito aos ‘efeitos laterais’. até certo limite. por excelência. “Educação e planejamento: a escola como núcleo do sistema”. 83). pois.referência para as mudanças na relação Estado. ou produz ganhos substanciais pelos quais também não é possível forçar uma compensação . 89). com referência a uma sociedade de homens livres. criador.

32 . A educação chilena é administrada por um sistema misto. atingir maior efetividade das políticas. O Chile é comumente apontado como o país que sofreu maiores influências das ideias neoliberais na reforma de seu sistema educativo. sobretudo para possibilitar a busca de complementação orçamentária junto à sociedade e. a Colômbia. seguindo a lógica do Estado Mínimo e do livre-mercado. as orientações neoliberais. as reformas educacionais implementadas estavam imbuídas da mesma racionalidade presente na reforma do Estado brasileiro. os referenciais perseguidos pelos reformadores estatais foram. a descentralização da cobertura. Tais reformas vieram no bojo de um movimento mais amplo de reforma do próprio Estado. distribuídos pelo governo. em grande medida.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE benefício para toda a sociedade. Trata-se de um processo que pressupõe a focalização das políticas públicas nas populações mais vulneráveis. também viveram processos de reformas educacionais orientadas na direção aqui discutida. uma espécie de bônus (voucher). entre outros. o Peru. A Argentina. variando conforme a capacidade de resistência e contraposição a tais processos. sendo que ao Estado nacional cabe um papel condutor. gerando maior impacto por meio da expansão do atendimento com menores custos. com a venda. Friedman propõe a privatização das escolas. cuja maior expressão é a Reforma Administrativa. visando a atenção local. A suposta crise do modelo burocrático de administração ensejou o desenvolvimento de outras formas de organização do serviço público. viveu um período de importantes reformas tanto no âmbito do Estado quanto da educação. bem como a implementação de ações e programas. Alguns deles tiveram seus sistemas educacionais reformados em uma direção contrária ao movimento de construção da educação pública como um direito do cidadão e obrigação do Estado. As ideias neoliberais tiveram muita força no movimento de reformas educacionais vivido por muitos países latino-americanos na década passada. que os pais trocariam pela educação de seus filhos em escolas particulares. As justificativas para tais reformas assentavam-se na necessidade de modernizar o Estado e adequá-lo às exigências da economia mundial. por fim. O Brasil. também na década de 1990. Para tanto. apesar da descentralização da educação pública e uma forte área de gestão privada. das instalações e dos prédios escolares e com a criação do “vale-educação”. a partir da definição de um padrão mínimo de atendimento. sendo que em cada país tais orientações foram sendo incorporadas de maneira distinta. inclusive. Nesse contexto. No entanto. a desregulamentação para permitir maior flexibilidade orçamentária e administrativa. A educação privada está dividida em dois tipos: aquela financiada pelas famílias e a que recebe recursos financeiros estatais. embasadas em maior flexibilidade. conhecida como “educação particular subvencionada”. o que resultou em modelo de organização muito peculiar.

as famílias ficaram US$ 9. mudanças nas prioridades do gasto público (de áreas menos produtivas como a saúde. abertura para entrada de investimentos estrangeiros diretos. 08 mar. como também essa abertura tem estimulado-as a buscarem complementação orçamentária junto à iniciativa privada e a outras formas de contribuição da população. os modelos fundamentados na flexibilidade administrativa promoveram maior desregulamentação de serviços e descentralização de recursos. que se mantinha. Seu enunciado concretiza dez temas de política econômica. ganha uma magnitude que somente pode ser comparada à crise de 192911. a qual. liberalização comercial. 2009. o orçamento anual da escola. as escolas não só passaram a contar com maiores possibilidades de decidir e resolver suas questões cotidianas com mais agilidade. desregulações. devendo ser alcançados por meio de inovações incrementais na organização e gestão do trabalho na escola. especialmente das modalidades de lucro. BM). a Reserva Federal. segundo o autor. verifica-se que através da autonomia. nos quais. liberalizacão financeira. referenciado no liberalismo ortodoxo (ou neoliberalismo) e na supremacia do capital financeiro. o sistema capitalista.com. do ponto de vista histórico. “Washington” significa o complexo político-econômico-intelectual integrado pelos organismos internacionais (FMI. mais precisamente a partir da segunda quinzena de setembro de 2008.As reformas dos anos 1990 trouxeram importantes mudanças para a gestão da educação pública. que reúne 380 grandes bancos. Em contrapartida. entra em crise. a realidade demonstra que o liberalismo necessita do Estado para a manutenção de sua referência para o capitalismo.uol. bem como a definição de prioridades de gastos. net/libros/2005/gog/3c.folha. VIVE-SE TEMPOS DE PÓS-NEOLIBERALISMO? (À GUISA DE CONCLUSÃO) No final da primeira década do século XXI. entre outras. “os norte-americanos estão enfrentando um súbito processo de empobrecimento que já destruiu cerca de US$ 16.htm). Tais modelos foram justificados pela busca de melhoria da qualidade na educação.br/fsp/dinheiro/ fi0803200911. garantia dos direitos de propriedade (2009. O valor equivale a mais do que tudo o que os EUA produzem em um ano e a quase 13 PIBs do Brasil. privatizações. educação e infra-estruturas). busca e manutenção de modelos de câmbios competitivos. Só de setembro para cá. tais como a elaboração do calendário escolar. Diante da crise de Neoliberalismo e reforma educacional: crise e esgotamento 10 Segundo Canzian.5 trilhões da riqueza disponível entre as famílias nos últimos 15 meses.htm). entendida como um objetivo mensurável em termos quantitativos. e foram divulgados em antecipação a dados semelhantes a serem publicados pelo Fed (o banco central dos EUA) nos próximos dias” (CANZIAN. 11 Olivares e Guedes assim definem o chamado Consenso de Washington: “A primeira formulação do chamado “consenso de Washington” se deve a John Williamson. http://www. reforma fiscal encaminhada para buscar bases tributárias amplas e modelos secundários moderados. http://www1. Os temas sobre os quais existe acordo são: disciplina orçamentária. Os números são do IIF (Instituto de Finanças Internacionais). Apesar de parecer paradoxal.eumed. Tal processo fez com que fossem ampliadas as responsabilidades e espaços de decisão nas unidades escolares. em grande medida. 33 . o que acabou por ampliar a autonomia da escola e fortalecê-la como núcleo do sistema10. os altos cargos da Administração e os grupos especialistas. o Congresso dos EUA. “Washington” está de acordo.5 trilhões mais pobres.

] (p. Patrícia Campos Melo. em tempos de crise. sentimo-nos como se dizendo uma blasfêmia quando propomos que o governo assuma totalmente o controle do sistema bancário.. Defendem-se sem ressalvas a nacionalização de bancos. Richardson e Roubini declaram em artigo intitulado “Agora. o salvamento de empresas capitalistas e a injeção de capitais (públicos) na economia.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE 2008. celebrizada pela abreviação TINA (There is No Alternative).. na qualidade de empresa (holding estatal) que concentra a poupança a ser colocada à disposição da indústria e da atividade privada [. privatizantes e desregulamentadores da economia. concebido como algo de absoluto. na linha de Richardson e Roubini. nasce a justificação histórica das chamadas tendências corporativas. a sua estrutura permanece plutocrática. culminando. o que torna impossível romper as ligações com o grande capital financeiro [sem grifos no original]” (p. 34 . em 1989. na série de recomendações liberalizantes denominada de “Consenso de Washington”12.] deste complexo de exigências nem sempre confessadas. de que não havia alternativas ao livre mercado. Margareth Thatcher. 410). 2009). se não quisermos ficar como o Japão nos anos 90 ou os Estados Unidos nos anos 30.] o Estado é investido de uma função de primeiro plano no sistema capitalista. Daí a impressão de que a base político-social do Estado parece repousar sobre a ‘gente humilde’ e os intelectuais. A declaração de que a alternativa é a estatização faz sucumbir a célebre sentença da primeira ministra do Reino Unido (1979-1990). Paulo. o único meio de salvar os bancos é a estatização. Mas o sistema financeiro dos Estados Unidos chegou a um ponto tão crítico que não há muita escolha [sem grifos no original] (RICHARDSON. ROUBINI. A crise do subprime e do estouro da “bolha imobiliária” nos Estados Unidos da América tem obrigado.. rendas e dividendos e nacionalização de perdas e prejuízos”. a se construir um novo consenso em favor da intervenção do Estado na economia. que se manifestam predominantemente como exaltação do Estado em geral.. escreve a respeito da crise financeira: 12 Gramsci. De certo modo. quando se espalharam pelo Globo programas de governo de corte neoliberal. 408) “[. todos nós somos suecos”: o sistema bancário dos Estados Unidos está à beira da insolvência e. correspondente em Washington do jornal O Estado de S. como os grandes bancos de Wall Street. a respeito da política econômica italiana na passagem da década de 1920 para a de 1930.. professores de uma escola de administração no coração da capital financeira do mundo. economistas ligados ao establishment dos EUA passam a defender essa intervenção. na realidade. Esse tipo de ortodoxia é uma “verdade” que foi superada a partir de setembro de 2008. inclusive a estatização de determinados símbolos do capitalismo mundial.. mas. esse gênero de intervenção significa a transferência de rendas e fundos do tesouro público para a esfera e interesses privados que se resume na antiga e patrimonialista consigna de “apropriação privada de lucros. assevera: “[. e como desconfiança e aversão às formas tradicionais do capitalismo. Como economistas defensores do livre mercado.

O esmaecimento do neoliberalismo como modelo de organização política e a falência do mercado como eixo regulador da vida em geral também se refletem na educação. Se durante os anos 1990 os programas de reformas eram unânimes em propor a descentralização da educação. os atores sociais que têm por referência o mercado sem regras. 2009. Em suma. É desnecessário pontuar que a solução para aquela crise (1929) foi a regulação e a intervenção de Estado que. ao paralisar-se diante da única alternativa reconhecida pelo neoliberalismo: o próprio mercado. inebriados pela atmosfera do jogo e da etérea ilusão da acumulação sem limites. o jogo de mercado. à maneira narcísica. Os pressupostos do neoliberalismo são postos em questão diante da realidade construída pelo próprio capitalismo: o sistema capitalista para ser operativo. a livre-escolha e a busca dos pressupostos da economia privada na gestão da escola pública. deixado à (ideo)lógica dinâmica do mercado. inclusive no financiamento educativo. 2009). p. em países considerados desenvolvidos. tendem ao suicídio por definhamento. Neoliberalismo e reforma educacional: crise e esgotamento Essa não é uma novidade para o sistema dominante. apesar do discurso em contrário. Descartada essa regra. Instituições como Citibank e Bank of América são tidas como insolventes.O governo dos EUA já injetou US$2 trilhões no sistema financeiro desde agosto de 2007. ao mesmo tempo em que a teoria (neo)liberal supõe aversão à intervenção do Estado.8 trilhões em ativos tóxicos – papéis de origem duvidosa e com baixa aceitação no mercado (MELO. 35 . Poderiamos recordar as políticas públicas posteriores ao crash de 1929 para demonstrar como o sistema capitalista alcança a saída para as crises. mas isso é só o começo. em época conhecida como “anos dourados” do capitalismo. maior participação da comunidade. necessita da regulação pelo Estado. Calcula-se que o sistema financeiro americano tenha US$10. o sistema capitalista necessita de que o Estado seja o regulador das relações econômicas e políticas entre os diversos atores sociais e garanta. na atualidade assistimos a um movimento de busca de maior articulação e de estímulo à organização sistêmica. resultou no chamado “Estado de Bem-Estar Social”. avaliam analistas ouvidos pelo Estado. Há ainda um rombo que pode chegar a US$4 trilhões. legal e coercitivamente.

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Anotações Neoliberalismo e reforma educacional: crise e esgotamento 39 .

SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE Anotações 40 .

os quais. ainda que ideologicamente. em consequência da reestruturação produtiva que se dá no atual contexto de globalização da economia. quando as empresas perderam a proteção governamental e passaram a ter como concorrentes os produtos importados. ocorrida na década de 1990. na elevação dos índices de desemprego e no aniquilamento de algumas profissões. visando a garantir sua fatia no mercado globalizado. bem como no surgimento de novas funções sociais. É com base nesse contexto historicamente modificado que pretendemos discutir a educação atual. O entendimento da educação como ideologia pode ser observado nos ditos populares que apregoam um poder social/reformador à educação e estão largamente difundidos por grande parte dos meios de comunicação. mais precisamente o fato de os objetivos e fins de nossa educação estarem ancorados em princípios muito próximos aos objetivos (e resultados) atribuídos à educação pelo senso comum. a educação cumpre o papel de garantir. como a televisão. investindo em tecnologia e qualidade. No Brasil. essa 41 . Tais ideias fundamentam-se em um princípio de igualdade entre todos os homens e. As mudanças no mundo do trabalho se revelam tanto no surgimento de novos campos profissionais e empregatícios quanto na revolução tecnológica. desconsiderando os demais condicionantes sociais. O acesso ao mercado internacional ampliou a gama de fornecedores e compradores.3 Considerações sobre o trabalho como categoria explicativa do fenômeno educativo Eloiza Elena da Silva São inúmeras as mudanças que ocorrem no mundo do trabalho. fazendo com que as empresas nacionais se reestruturassem. os jornais e revistas. nesse caso. as mudanças começaram a acontecer realmente com a abertura da economia ao mercado externo. transmitem a ideia de que a educação pode ser o fator chave do sucesso ou não de um indivíduo.

todos teriam a mesma possibilidade de alcançar sucesso ou não. em uma sociedade em que a venda da força de trabalho é fator primordial para a sobrevivência da maior parte da população. conforme os objetivos e fins atribuídos à educação. 1996. como instituição. dever da família e do Estado. 5). é importante lembrar que a escola. no que se refere ao preparo para o trabalho. o ensino ulterior. Essa suposta igualdade se concretiza então como produtora de profundas desigualdades. recai apenas no indivíduo a responsabilidade pelo seu fracasso ou seu sucesso. independente das oportunidades reais que lhe foram negadas. o esforço pessoal e a capacidade de consumo). em sua essência. inspirada nos princípios de liberdade e de solidariedade humana. A prática pedagógica na sociedade humana. assume o poder de realizar mudanças no ser social. seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho (BRASIL. como o acesso à educação fundamental é um direito de todos. A educação toma a forma de redentora do homem. Assim. a começar por seus objetivos e fins: A educação. Em um país em que teoricamente todos são iguais e que. considerados em sua totalidade. a categoria trabalho firma-se então como condicionante do fenômeno educativo. Na medida em que se vive na sociedade capitalista. ou seja. nesse caso. pelo acesso à educação. 1996) estabelece como prioridade do Estado a educação básica (Ensino Fundamental e Médio). Isso significa que. justifica-se que as definições para a educação estejam quase sempre vinculadas ao binômio cidadania e trabalho. não se considera o fato de muitas vezes as oportunidades de emprego não atenderem à demanda de pretensos trabalhadores que estão excluídos do mercado produtivo. p. tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando. ou aquele que realmente possibilita uma formação profissional. 42 . atuando “teoricamente” como niveladora de oportunidades. está sempre comprometida ideologicamente. Para analisar a questão. é uma prática ideológica que carrega em si o objetivo preestabelecido de ‘formar’ os homens de que ela necessita para se manter na forma em que está estabelecida. esse comprometimento entre educação e formação para o trabalho.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE igualdade. baseada na relação capital-trabalho. independentemente dos demais condicionantes envolvidos no mesmo processo. que passam a ser compreendidas como de responsabilidade apenas do indivíduo. exige que questionemos o real e o imaginário constantes nessa relação e baseados nos conceitos de igualdade e individualidade. de acordo com sua aplicação individual. dependerá exclusivamente da capacidade do indivíduo para acessá-lo (considerados. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação – LDB 9394/96 (BRASIL. preparando o cidadão para a vida em sociedade e para atuar no mercado de trabalho. Ao mesmo tempo.

A reafirmação da categoria ‘trabalho’ no primeiro plano dos objetivos educacionais significa que estes se mantêm sob parâmetros do passado. sendo senhor de si próprio e proprietário de sua pessoa e das ações e do trabalho que executa. outros menos. colocando-se eles sob governo. o homem. p. Nesse aspecto. a excelência dos dotes e o mérito colocarão outros acima do nível comum. por si mesma. 1983. apenas uma boa qualificação profissional não é capaz. Esse é um direito social que também deve ser garantido. Na perspectiva de que o sucesso ou fracasso de cada um é resultante da dedicação individual. e outros não têm nada.] que todos os homens são iguais pela natureza. não pretendo suponham que entenda eu toda espécie de igualdade. em que uns têm mais. visto que possuem a propriedade do trabalho.. que se ignora o fato de que o mundo do trabalho já não é mais o mesmo e que. tirava-se Deus das relações sociais. nessa ideia de igualdade há limites estabelecidos sobre a propriedade: Embora tenha dito [. Em um momento de ruptura com o modelo produtivo que já não atendia às necessidades e interesses da população. Essa visão ideológica que confere à formação escolar o poder de levar qualquer homem ao sucesso.. portanto. mas a propriedade do trabalho que dava forma aos homens era uma resposta às mudanças que ocorriam no interior daquela sociedade. gratidão ou outros motivos [. Esse direito natural não poderia ser tirado por ninguém. de gerar novas oportunidades de emprego. teria ainda em si mesmo a base da propriedade” (LOCKE. um filósofo inglês descendente de comerciantes. cada um era proprietário de seu trabalho.] embora a natureza tudo nos ofereça em comum.. a qual. seria ao mesmo tempo a prova da igualdade e a justificativa para as desigualdades. p. 48). se todos os homens são iguais em estado de natureza. e “[. da união entre os homens em comunidades.. para prestar obediência àqueles que a merecem pela natureza. não pode ser tirada por ninguém. cuja concepção de homem e sociedade baseava-se no princípio da igualdade.. todos os homens em estado de natureza eram iguais e proprietários. A idade ou a virtude podem atribuir ao homem justa precedência. acessível a todos. o nascimento pode submeter a alguns e alianças e benefícios a outros. a posse de outros bens e de outras propriedades está acessível a qualquer um por meio do trabalho. a ideia de que não era a vontade divina. em um mundo de trabalho cada vez mais escasso e competitivo. é fundamentada em um princípio de igualdade e individualidade. No entanto.] (LOCKE. é a 43 . 51). Para Locke. Considerações sobre o trabalho como categoria explicativa do fenômeno educativo Assim. As ideias que fundamentam essa concepção existem desde Locke (1632-1704). em um momento em que as oportunidades de trabalho sucumbem ao desemprego. como direito natural. a educação ganha a feição de uma grande arma que. 1983. Locke (1983 p. 82) define que “o objetivo grande e principal.. Nesse novo pensar.

as desigualdades com base em uma suposta igualdade. liberdade e posses. Desse modo. mas. visto que resulta do trabalho humano.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE preservação da propriedade”. na prática somente os proprietários de bens terminam por exercitar plenamente a cidadania. relacionando o fracasso ou sucesso ao individual e não ao social. puramente formal. preservando a propriedade. apesar de aparentemente tudo estar disponível a todos. justifica quando se refere a todos os cidadãos como proprietários e iguais. Apesar de o atual momento histórico ser extremamente diferente daquele em que se produziram tais ideias. dar acesso à educação é dar as armas para o homem agregar valor a sua propriedade pessoal (força de trabalho). podemos identificar essa relação estado/sociedade/propriedade em nossa prática social. produz diferenças e gera desequilíbrios. produzir e acumular ilimitadamente outras propriedades. o usufruto está condicionado à propriedade e à quantidade de capital que cada um possui para a troca. bem remunerada. ao contrário. já que tomar para nós um bem que não é nosso significa usurpar a propriedade do outro. uma vez que a igualdade era definida de forma abstrata e até. resultando em uma sociedade de classes que Locke (1983) não desconsidera. entre outros. meios de transporte. qualquer homem poderá. Assim. ao considerar que o objetivo principal da união entre os homens era preservar a propriedade. Conseguir atingir ou não esses objetivos é de sua exclusiva 44 . que o Estado tem o dever de preservar. havendo grande distância entre o que está disponível e o que é acessível. mas para que possamos gozar de quaisquer desses bens ou serviços. se teoricamente todos são membros da sociedade civil. o pensamento liberal (do qual Locke foi um dos maiores representantes) conteria um claro elitismo. visto que uma suposta igualdade garante esse direito. Em uma sociedade que condiciona a educação diretamente à formação para o trabalho. como escolas. Esse acúmulo. assim. esta possibilitará o acesso a outras propriedades. carros. lazer. Sendo a propriedade considerada legítima. justificando. por meio de seu próprio esforço. os proprietários estariam apenas submetidos à sociedade civil. faz-se necessário ‘pagarmos’ por eles. A forma de governo representativo representa a propriedade e garante a posse inerente às desigualdades latentes. outras vezes somente como bens e fortunas. Essa situação leva-nos a refletir: nessa relação. talvez possamos assinalar. sendo considerados membros com o objetivo principal de ser governados. por outro lado. Sua essência não se modificou: hoje também se encontra à disposição de qualquer cidadão uma infinidade de bens e serviços. podemos encontrar a definição de propriedade apenas no sentido de propriedade da vida. Deste modo. Em alguns momentos de seu “Segundo Tratado Sobre o Governo”.

Logo. Já a Lei de Diretrizes e Bases da Educação nº. Considerações sobre o trabalho como categoria explicativa do fenômeno educativo É claro que o preparo para a cidadania tem um importante papel no esclarecimento dos deveres e direitos. apregoa que um dos fins da educação é “o preparo do indivíduo e da sociedade para o domínio dos recursos científicos e tecnológicos que lhes permitam utilizar as possibilidades e vencer as dificuldades do meio” (NISKIER. 4024/61. p. Atualmente. Consequentemente. na compreensão e aceitação da forma como os homens serão governados para manter a ordem e a propriedade. estabeleceu como primeiro dever do Estado. 450). a LDB nº. devemos considerar a estreita relação entre educação e trabalho e questionar se o atual estágio em que se encontra o trabalho ou o emprego é capaz de garantir a sobrevivência. da mesma forma. quando o valor de um homem é medido pelo que possui. o artigo 01 apresenta como “objetivo geral proporcionar ao educando a formação necessária ao desenvolvimento de suas potencialidades como elemento de auto-realização.. artigo 129. p. O que não podemos negar é que tudo o que se faz ou se pretende fazer em termos de educação no Brasil também pouco se distancia do binômio cidadania-trabalho. 5692/71.responsabilidade. 45 . seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho (BRASIL. Quando. A situação que se apresenta é a de que uma grande parcela da classe trabalhadora cada vez mais rapidamente vê o emprego diminuir. dever da família e do Estado. inspirada nos princípios de liberdade e de solidariedade humana. Esses dados revelam a crise que se instaura no mercado de trabalho e se agrava a cada dia. 304). essa concepção de propriedade e de igualdade distancia as pessoas dessa mesma sociedade em classes claramente distintas. os outros condicionantes sociais são “inocentados” de qualquer participação nesse processo. p. o “ensino pré-vocacional e profissional” (NISKIER. 1989. em matéria de educação. p. na prática. 341). 1996. que se encontra presente em praticamente todas as leis que definem a educação no Brasil. Na Lei nº. leva-se em consideração sua própria capacidade. demonstrando que a propriedade da força de trabalho não mais representa a possibilidade real (como regra) de propiciar a manutenção das necessidades básicas ou de se adquirir outras propriedades. qualificação para o trabalho e preparo para o exercício consciente da cidadania”.. 9394/96 define que: A educação. 05). A Constituição de 1937. é como se os demais aspectos sociais em nada influenciassem sua trajetória. o fato de outro nada possuir também é atribuído ao seu fracasso individual. 7077/82 define como ”objetivo geral proporcionar [. artigo 01. ou seja. 1989. A Lei nº. tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando.] preparação para o trabalho e para o exercício consciente da cidadania” (NISKIER. por exemplo. 1989.

torna-se claro quem representa o “ninguém” e o “alguém” nessa relação. eles nem sempre encontram comprador. em que a exploração do trabalho humano assalariado representava o grande filão para se produzir riqueza. O trabalho não mais se encontra sob as perspectivas do passado. parecem-nos um tanto utópicas. como “Sem a Educação Eu Não Sou Ninguém”. por outro lado. dentro do contexto social e não como curativo para seus males. pois a escola não tem em si mesma o poder de resolver tais crises. e talvez para a busca de um novo fim e de um objetivo mais condizente com a realidade. Sua única propriedade para negociar em favor de sua sobrevivência é sua força de trabalho e. o sonho de máquinas que realizariam o trabalho pelo homem tornou-se pesadelo para uma grande parcela da classe trabalhadora. que disputarão com garra uma vaga disponível. e. Faz-se necessário libertar a educação institucionalizada do estigma de redentora social. A utopia da igualdade tornou-se produtora de profundas desigualdades. porém o senso comum. sem qualquer formação específica. podem “comprar” o trabalho e o potencial de inúmeros “letrados”. com proprietários de meios de produção que. nossa análise apontou para a necessidade de uma reflexão acerca da crise no mundo do trabalho. Desse ponto de vista. Tendo em vista que. A educação carece sim de novos fins e objetivos para sua existência. Passam. as empresas conseguem mais lucro substituindo o trabalho humano pela máquina (ou mesmo parando as máquinas). Diante de tais considerações. portanto. diretamente relacionada com uma possível perda de identidade entre educação e trabalho e para a necessidade de novos paradigmas que venham guiar o fenômeno educativo. na sociedade capitalista. Hoje. a enfrentar uma dupla concorrência: a de máquinas avançadas. para que possamos buscar soluções para as crises sociais consideradas como totalidade. ao lado de algumas máquinas gerenciadas pelo homem. Acreditamos que essas condições e contradições possam servir de suporte para uma reflexão sobre a visão de educação advinda do senso comum. com as quais muitas vezes nem podem competir. visto que podemos nos deparar com pessoas consideradas “ninguém” e que possuem boa formação escolar e/ou profissional. algumas máximas do senso comum. e o quesito educação quase sempre representa apenas um detalhe em tais definições. para ela. ansiosos por uma oportunidade de emprego. em busca de um capitalismo estável e lucrativo. e a da grande massa de desempregados que disputam as poucas vagas disponíveis. tende a perpetuar conceitos que apresentam a 46 . cabe à grande maioria da população sustentar-se com a venda de sua força de trabalho e que os fins e objetivos da educação estão também diretamente relacionados à formação para o trabalho. como ideologia.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE Em nossos dias. tão massificadas pelos meios de comunicação.

educação como redentora do homem e como solução para as desigualdades sociais, embora a história comprove que a educação não é capaz de solucionar problemas sociais, como o da falta de emprego. Essa constatação, indiscutivelmente, gera um embate contra um de seus principais fins e objetivos, o que nos aproxima de uma questão crucial para a compreensão da própria sociedade. Se a educação é uma das formas de que esta se utiliza para se reproduzir, quando começa a perder sua identidade é porque a sociedade se encontra em uma profunda crise e necessita de novos paradigmas. Teoricamente, o capitalismo supõe o trabalho humano, mas na atualidade passa a prescindir dele. Como não é possível negar a totalidade, ou seja, considerar apenas o lado dos proprietários dos meios de produção, é necessário considerar que essa mudança acarreta uma perda da identidade dos não-proprietários da força de trabalho, que já não conseguem garantir sua sobrevivência. Essa contradição se desnuda, demonstrando que não se pode mais insistir em políticas educacionais que retratem o senso-comum ideológico sobre o saber e o trabalho, ignorando a crise no mercado, que denuncia a própria contradição da sociedade capitalista e a crise na educação. A crise que se instaura na sociedade denuncia a existência de objetivos e necessidades que não estão sendo satisfeitos. Ou seja, o modelo de produção capitalista não satisfaz mais na forma como as relações sociais estão postas, porque, em seu processo histórico, as mudanças no processo de trabalho correspondem a uma negação da forma burguesa de ser, ou seja, traz em si sua contradição ou a necessidade de superação. Faz-se necessária uma nova forma de vida, posta como possibilidade, que apontará uma nova forma de conhecimento, não mais o saber sobre o trabalho, mas a compreensão do papel histórico das forças produtivas, gerando uma nova forma de existência dos homens. Relembrando Marx, este expõe que:
A revolução social [...] não pode tirar sua poesia do passado, e sim do futuro. Não pode iniciar sua tarefa enquanto não se despojar de toda veneração supersticiosa do passado. As revoluções anteriores tiveram que lançar mão de recordações da história antiga para se iludirem quanto ao próprio conteúdo. A fim de alcançar seu próprio conteúdo a revolução [...] deve deixar que os mortos enterrem seus mortos. Antes a frase ia além do conteúdo; agora é o conteúdo que vai além da frase (MARX, [19--], p. 205).

Considerações sobre o trabalho como categoria explicativa do fenômeno educativo

Urge compreender e diferenciar o velho do novo, para que possamos nos libertar das superstições do passado e, finalmente, buscar (e encontrar) um novo sentido para a educação, com os pés centrados no presente e os olhos voltados para o futuro.

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SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE

Referências

BRASIL. Ministério da Educação. Lei n. 9394/96. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Brasília, DF: 1996. LOCKE, John. Segundo tratado sobre o Governo. São Paulo: Abril Cultural, 1983. MARX, Karl. O dezoito brumario de Luiz Bonaparte. In:______. Obras escolhidas. São Paulo: Alfa - Omega, [19--]. v. 1. ______. O capital. São Paulo: Nova Cultural, 1985. NISKIER, Arnaldo. Educação brasileira: 500 anos de história, 1500-2000. São Paulo: Melhoramentos, 1989. SAVIANI, Dermeval. A nova lei da Educação. Campinas, SP: Autores Associados, 1997.

Proposta de Atividade

1) Como podemos averiguar a influência das mudanças ocorridas no mundo do trabalho no processo educativo?

Anotações

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A educação na obra de Brecht: representações de conquistas e realizações coletivas
Marta Chaves / Sonia Mari Shima Barroco

Ser educador nos dias atuais tem sido um desafio, pois quando a prática social parece complexa, e ao mesmo tempo impotente, é preciso cuidado. Há um risco muito grande de se tomar os homens por essa medida aparente; como se ela fosse apenas fruto das suas ações imediatas e como se naturalmente tivesse que ser sempre assim. Para avançar além dessa constatação, é preciso da ciência que vá além do aparente. Neste sentido, é importante retomar o teórico soviético L. S. Vigotski (1997), posto que denunciou, em sua crítica à psicologia burguesa, a crise de uma ciência, justamente pelo fato de ela lidar com aparências e emergências. Ela tomava os sujeitos, e as queixas a eles referentes, descolando-os do mundo, e concebendo o próprio mundo de modo estagnado, sem movimento, ou ainda sob rotações sobre as quais não se poderia intervir; antes, apenas aguardar o desenrolar natural dos fatos e fenômenos inter e intrapsíquicos. Uma psicologia dessa natureza, que embasaria a educação, só poderia descrever, mas não explicar a contento como os homens aprendem e se desenvolvem, como eles imitam; como seus psiquismos constituem-se de uma ou de outra forma segundo as suas condições biológicas, que tomam uma ou outra direção de acordo com as condições sócio-históricas disponíveis. Essa psicologia criticada acabava referendando e perpetuando uma dada visão de mundo, bem como uma dada prática social; a prática de se conceber a sociedade a partir de polos naturalmente antagônicos, a sociedade de classes. Vigotski e outros psicólogos, bem como vários educadores soviéticos (Makarenko, Pistrak etc.) puseram ou reconheceram diante de si uma tarefa histórica: a formação de um novo homem, do homem para uma sociedade sem classes. Nesse contexto fundamental, destacar Krupskaia, educadora e combatente
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de utilidade social. em defesa de outra ciência e de outra sociedade. posto que o isola de seu contexto e de suas bases filosóficas sob uma ideologia neoliberal e uma prática pós-moderna (DUARTE. de uma constante atuação sobre o mundo ( VIGOTSKI. Para isto. vencer aparentes limites. mas deve expressar a vida quotidiana de cada pessoa. BLANK. como Vigotski. como ele. 2001). 1996). e reconhecemos. socioculturais significativas elevam os indivíduos de um estado primitivo a um nível cultural. filosofia. tudo isso levava ao remover das montanhas. órfã naqueles anos pós-1917. um grande humanista. a da socialização do saber. vislumbrou e demonstrou a possibilidade de outra sociedade. Para nós. essa prática deve representar não uma mera substituição de termos ou pronomes. Krupskaia solicita ao povo soviético coerência entre a proposta e as ações. Para esta autora. faminta. mas que lhe retiram de fato o seu vigor. esses seriam os primeiros conteúdos dessa educação. adulto ou criança. Krupskaia [19--?) afirmava que para a vida soviética daqueles tempos não bastava substituir o pronome eu por nós. quanto os grandes pensadores e autores propiciam-nos níveis mais elevados de consciência. revelando ao mesmo tempo todas as dificuldades de se exercitar uma prática que até então era anunciada. é um meio para a formação do espírito e de responsabilidade social. fortalecimento da solidariedade. como uma nobre guerreira reafirmava a importância da formação do novo homem. e a autora insiste que os jogos e reuniões contribuem para isto. de outra forma daquela que tinha a sua frente: grande parte da Rússia era analfabeta. saberes técnicos. o homem desenvolvido é aquele que domina os recursos externos e direciona seus processos internos por meio do conhecimento. a importância e a necessidade de se apreender o mundo pela única via possível. a primeira direção ou um dos pilares para a educação do novo homem é a unidade e ajuda mútua.I. Hoje estamos aqui no Brasil. afirmava que o trabalho social. Entendemos. de fato. Literatura. – investigado por Binet (1905). Pôde vislumbrar e defender outra ciência. história. LURIA. que os libertasse da mediocridade. com documentos oficiais que fazem menção a este autor e a sua teoria. mas sem o devido entendimento das implicações dessa tese. 50 . camaradagem. Podemos dizer que a sua visão prognóstica do desenvolvimento humano. dos grilhões do Q. em meados dos anos de 1920. 2005. Fica dele a defesa de que o bom ensino é somente aquele que se adianta ao desenvolvimento e que as mediações instrumentais. aquela que pusesse os homens em movimento. foi possível porque ele mesmo teve sólida formação humanista (BARROCO. Neste sentido. em que os homens poderiam revelar-se. 1996). da sina do destino. cuja aplicação desmedida pela pedologia foi fortemente questionada por ele – da presdestinação dos berços dos bem ou mal-nascidos etc.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE revolucionária russa. a sua essência. No mesmo cenário e com os mesmos propósitos Vigotski.

não negou o método dialético. ao pontuar os limites da escola. e até podemos mencionar a organização da rotina e do espaço escolar.No sentido de destacar essa prática. PRÁTICAS SOCIAIS E PRÁTICAS DIDÁTICAS: A NECESSIDADE DA SUPERAÇÃO Segundo Brecht (1992). reproduzindo-a sem discuti-la ou estranhá-la. Com ele. portanto carregado de possibilidade transformadora. como Marx denuncia. à medida que traz em suas atividades cotidianas a forma de relação estabelecida pelos homens na luta pela vida. conclamando seus espíritos. procurou revelar a prática dos homens comprometidos e dependentes de instituições que legitimam a sociedade burguesa. 2000). Apresentando-se expressamente como um defensor do conhecimento histórico. Assim. De acordo com Chaves (2000). Não intentamos reeditar o passado. baseia-se no conhecimento da economia da sociedade capitalista (CHAVES. portanto. mas sim sob aquelas que encontra apresentadas pelo passado. Brecht entende que a construção da sociedade sem classes. ocupando-se em promover a compreensão e a superação da mesma. vale aqui lembrar o que o próprio Karl Marx assinalou acerca da História ao tratar da Revolução Francesa. e a aquela de fato referenda a prática social. como afirmam os clássicos do marxismo. não sob as circunstâncias de sua escolha. Trata-se de enriquecer nosso repertório para outro devir. músicas. mas também por apresentar as instituições sociais como elementos que contribuem para a estabilidade da sociedade capitalista. expressos sob a forma de conteúdo escolar. suas peças e personagens nos instiga não só por seu estilo literário. Ressaltando tal conhecimento como um elemento fundamental para a formação da consciência crítica. o que significa enunciar que apresentou os limites e ao mesmo tempo a positividade das instituições educativas. buscamos por pistas para mais bem compreendermos o homem que somos e que formamos pela via educacional. não desconsiderou a necessidade de tratar da educação formal e. Neste capítulo. porém precisamos ir aos clássicos. apresentamos. afirmando que os homens fazem sua própria história. Para efetivar tal objetivo. emprestar seus olhos e identificar os diagnósticos que faziam e os remédios que propunham. práticas didáticas. reflexões acerca da obra de um desses mediadores que a história propicia: Bertolt Brecht (1898-1956). os elementos que caracterizam a prática dos indivíduos envolvidos diretamente ou não com a escola confirmam que a valorização de determinados comportamentos pela sociedade encontram-se evidenciados no interior da mesma. Em sua crítica. em 1919 Brecht põe seus personagens a ensinarem que o “homem não pode ser A educação na obra de Brecht: representações de conquistas e realizações coletivas 51 . Brecht com suas poesias. não há independência da escola em relação à sociedade.

formando padres. As reformas educacionais não estavam isentas do sentimento de humilhação e derrota que se propagou na Alemanha e uniu as forças patrióticas em busca da autoconsideração. se responsabilizavam pela ordem e bem estar moral. A dinâmica social que deu origem à organização da educação formal determinou a estruturação dos mosteiros cristãos que representavam a primeira forma de ensino institucionalizado. não consegui aprender nada dos meus professores. foram introduzidas em alguns de seus estados as diretrizes modernas de educação estatal. em seguida. como a obrigatoriedade escolar. Agora tratando especificamente da educação na Alemanha. uma preocupação com a formação do homem para desempenhar seu papel no Estado. sua nação de origem. nove anos que. A preocupação com a reconstrução nacional alemã requisitava uma educação de formação geral. Eles não cessaram de me estimular meu gosto pelo prazer e pela independência (BRECHT apud PEIXOTO. Há. Ao discutir o comprometimento do conteúdo da educação burguesa com essa ordem social. a razão tornava-se o critério da ação. que. durante a renascença. acessível a todos e que deveria priorizar o comércio e a agricultura. Lembramos que. As bases para uma nova organização do Estado alemão foram postuladas pelo filósofo Johann Gottlieb Fichte (1762-1814). como evidencia: Me aborreci durante quatro anos na escola primária. Posteriormente. Ficam evidentes as raízes de sua independência e de sua concepção da arte como uma forma alternativa de educação. p. cuja função última no período em que o autor frequentava os bancos escolares era preparar o homem para o Estado. Brecht dá um depoimento que demonstra seu descontentamento com seus primeiros anos na escola. nos séculos XVII e XVIII. Em 1808. Neste sentido. Evidentemente. tendo como referência a filosofia iluminista. 1991. em seus “Discursos à 52 . atividades econômicas preciosas à Alemanha naquele momento de reorganização política e econômica em função da derrota imposta por Napoleão em 1806. 26). marcas postas desde a Idade Média e início da Idade Moderna. então. e em tal contexto. comercial e físico dos homens. o descontentamento de Brecht com o conteúdo da educação não se restringe à educação da Alemanha.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE paralisado pelo saber”. A escola conhecida pelo jovem Brecht é expressão da educação europeia que se edificou sobre as bases da filosofia grega. Fichte. do direito e teoria do estado romano e do pensamento cristão. passei no Realgynasium de Augsburg. unificada. a educação fazia a defesa do Estado Moderno. escrivães e médicos. em última instância. cuja efetivação só ocorreu a partir do século XIX. o sistema educacional passou a orientar-se pelo pensamento humanista. o conhecimento tem a função de revelar cientificamente como as instituições sociais contribuem para a edificação da dinâmica social burguesa. E durante.

Hitler (1983) tinha toda uma argumentação concatenada. a formação geral e profissional para a ação em sociedade. a escola do século XX expressava a necessidade de preparação do homem para atender o Estado. formando o homem para a defesa prática e intelectual da sociedade capitalista. as classes conflitantes em uma preservação da propriedade privada. mais uma vez.Nação Alemã”. p. apenas reforçam a ideia de que as instituições sociais. A defesa do homem com formação patriótica para a reorganização da nação alemã confirma aqui. para servir de mãode-obra para a Alemanha e demais países. formam a geração de Brecht. marcam a estruturação e consequentemente a defesa da sociedade capitalista. A preocupação não era se limitar a preparar o homem para a realização de tarefas. contraditoriamente. deveria responsabilizar-se pelo Estado. dão a sua parcela de contribuição no cenário político e econômico. Prática. logo. expressa-se no conteúdo escolar. Naquele contexto. tanto no tocante às orientações oficiais quanto à dinâmica escolar referentes a esse período. que se manifestava em seus discursos. acrescida de valores morais. Brecht nos mostra. porque a defesa da nacionalidade unia. 1977. incorporados pela sociedade e legitimados pela escola. imperiosa. o conteúdo moralizador caracteriza-se com dupla intenção. o homem era considerado um elemento integrante da política estatal. através do desenvolvimento integral de suas capacidades. que incorporasse a defesa e a aceitação da dinâmica social capitalista. patriota. Valores como o culto à juventude e à guerra. prática frequente A educação na obra de Brecht: representações de conquistas e realizações coletivas 53 . A valorização da pátria e o “gosto pela independência”. enquanto instituição promotora da sociedade capitalista. a crítica de Brecht à educação burguesa. porque no início desse século os conflitos pela posse de territórios conduziam a um embate direto para os quais os homens deveriam estar preparados. cada uma a sua maneira. segundo Michel (1977). impávida e cruel” (HITLER apud MICHEL. em um momento em que sua organização já se mantém com base em uma defesa prática e ideológica. Todos os encaminhamentos estavam voltados para tal prática. 86). incide sobre a exaltação ao herói. defendia que cada cidadão. que marcam a face educacional no século XIX e início do século XX em resposta aos anseios sociais da Alemanha. Neste sentido. nos livros escolares das escolas em geral e também dos institutos responsáveis pela formação dos dirigentes para o nazismo a prioridade eram os ensinamentos de amor à pátria e a negação de qualquer possibilidade de se refletir sobre as práticas sociais e escolares instituídas. Ideológico. Na formação institucional do homem alemão. intelectual. Nesse âmbito. a ideia de que a dinâmica social mostra-se na dinâmica escolar e também em outras instituições sociais. por meio dos quais insistia: “quero uma juventude brutal. a qual. mas a formação moral. Assim.

Com as memórias vivas diante deles. em alemão. Formando um conjunto de 87 crônicas. ao Führer.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE não só na Alemanha como também em outros países. assumidamente amparado pelos clássicos marxistas. e muito sobrava para a exaltação do herói. 20). na cama ou no campo de batalha. na qual só havia espaço para a ordem e a obediência. manifestas nas imagens e experiências de toda sorte que as guerras forneciam. Lembremo-nos de que este autor testemunhou as duas guerras mundiais do século XX. enquanto ideal almejado pela prática social. ao líder ou. E isto também só enquanto acreditarem que estão distante da hora final (BRECHT apud PEIXOTO. sabemos que em 1936 passou a ser obrigatória a adesão de jovens em organizações do partido nazista. Despedir-se da vida. trata-se da defesa do capital privado. Vale lembrar que a exaltação dos heróis nacionais camufla a luta de classes. p. Nessa experiência escolar denunciada por Brecht. o qual pedia uma redação sobre o tema Doce e honroso é morrer pela Pátria. seria associado ao culto ao chefe. faz inúmeras referências críticas ao conteúdo da escola burguesa. mais precisamente. como a defesa coletiva da pátria. Entre as diferentes obras que tratam dessa questão. Para a garantia da incorporação desses valores pela juventude. pequenos textos escritos no início da década de 1930. consequentemente. a guerra apresenta-se. é geralmente difícil para os jovens na flor da idade. Pondo em discussão a importância da consciência histórica. ocasião em que contestou a orientação de seu professor. lembrando que essa é uma questão intensamente abordada nos escritos de Marx e Engels. DA SUPERAÇÃO BRECHTIANA: À SUPERAÇÃO POSSÍVEL Brecht relata uma de suas experiências enquanto estudante em 1915. 1991. Apenas os imbecis podem levar tão longe a vaidade de falar sobre o pequeno salto através da porta escura. trazem certezas e indagações pertinentes ao comportamento humano. há o culto ao herói que. em sua essência. convencendo o homem a se unir para proteger as riquezas de seu país. quando. assim se manifestou: A máxima de que é doce e honroso morrer pela pátria pode ser valorizada apenas como propaganda tendenciosa. durante o nazismo. pouco sobrava para a reflexão e o conhecimento. Contrariando a tarefa recebida. Para 54 . acentuava-se a louvação ao individualismo e de valorização da hierarquia. presente no cotidiano escolar. sendo um dos elementos dos programas oficiais da rede de ensino. Nessa perspectiva. o que significa dizer que sua geração foi marcada pelos princípios que referenciam os mortos no “front” e vangloriam os que retornam dos campos de batalha. estão As histórias do Senhor Keuner. Brecht. Durante o Terceiro Reich. em sua aparência. Essa prática torna-se.

Escreve: Se os tubarões fossem homens.. dada com muita astúcia. mas em todo o mundo. Em uma das curtas histórias e utilizando-se da fábula intitulada Se os Tubarões fossem Homens. os peixinhos são mudos mas calam-se em línguas muito diferentes e por isso é impossível entenderem-se. caros à sociedade capitalista. que Brecht e seus companheiros de escola deveriam elaborar. E nessas escolas os peixinhos aprenderiam como se nada na goela dos tubarões. 57). Os exercícios aparentemente realizados de forma integrada. a resposta. para incorporar valores morais. que se posiciona criticamente contra essas e outras questões na luta pela vida. filha de uma hospedeira. p.. Para tal fim. Mandariam os seus próprios peixinhos para a guerra. que simboliza no conto a ingenuidade. perseguição aos opositores do regime nazista. tratando da forma oficial de se educar o homem na sociedade capitalista: Como é natural. A educação na obra de Brecht: representações de conquistas e realizações coletivas Brecht denuncia a escola. Brecht muito jovem contestou a tarefa ordenada. a relação mediada pela falsa ideia de bondade e alegria são práticas constantes.tratar temas como nacionalismo. e todos deveriam ter fé nos tubarões. “os peixinhos”. este autor focaliza algumas instituições sociais. destacamos que esse texto pode ser considerado como uma síntese da obra de Brecht. o culto ao indivíduo e a exaltação ao herói. Brecht (1993) cria o Senhor Keuner. princípio religioso. nessas grandes caixas também haveria escolas. Brecht utiliza esse conto como recurso didático.] (BRECHT. é um exemplo do comportamento deste autor diante da dificuldade de sobreviver nos anos trinta em função da perseguição política que sofriam aqueles que se opunham à ordem. Ensinarlhes-iam que nada é mais sublime nem formoso do que um peixinho que se sacrifica alegremente. A ideia de sacrifício é fundamental e permanentemente exaltada. não somente vigente na Alemanha. [.] É claro que a formação moral dos peixinhos seria o mais importante. Em seu permanente exercício de desvelar os mecanismos da sociedade capitalista. entre as quais a escola. o caráter de naturalidade que os homens atribuem às questões da sociedade. Lembremo-nos da redação Doce e honroso é morrer pela Pátria. e ensinar-lhes-iam que há enorme diferença entre eles e os peixinhos dos outros tubarões. 1993. Quando a menina interroga o Senhor Keuner sobre como seria o mundo se os tubarões fossem homens.. proclamariam. instituição social cuja rotina diária e conteúdo preparavam meninos e meninas. o Senhor Keuner a desmistifica. A cada peixinho que matasse na guerra uns quantos 55 . por certo fariam guerra uns aos outros para conquistar caixas e peixinhos estrangeiros. Far-se-ia os peixinhos compreender que um tal futuro só estaria assegurado se aprendessem a obedecer [. Eis como. e décadas depois sua contestação ganha consistência e o dramaturgo nos dá uma oportunidade de refletir sobre uma das mais importantes funções da escola. Como toda gente sabe.. escreve um diálogo entre o Senhor Keuner e uma menina. em linguagem figurada e irônica. sobretudo quando prometem zelar pela felicidade futura.

não é a ausência de conteúdo revolucionário que ele critica. põe em discussão os livros didáticos. o fato de Brecht mostrar-se um crítico da educação não significa que atribui à escola a responsabilidade de preparar os homens para a ação revolucionária. Brecht reafirma nossa compreensão de que não há independência entre conteúdo escolar e conteúdo social. escrita em 1939. 1993. o autor apresenta essa instituição como instrumento legitimador da sociedade de seu tempo. 1992. O conteúdo escolar é marcado historicamente. dos que se calam noutra língua. e é como tal que ele a focaliza. seriam dadas uma condecoração de algas marinhas e o título de herói (BRECHT. Brecht (1992). p. instrumentos do universo escolar. e na qual o autor afirma: Nos livros escolares Lêem-se os nomes dos grandes generais. Em um texto da década de 1940. p. o conteúdo escolar não pode revelar a contradição social. No entanto. Entendemos que Brecht não responsabiliza particularmente a educação pela edificação da sociedade burguesa. Insistindo que a escola era um elemento necessário à prática burguesa e. p. cuja estrutura permanece a mesma até os dias atuais. podem servir e correntemente têm servido de respaldo ou para naturalizar (demonstrar como curso natural da história) o modo de ser da sociedade capitalista. Estude bem as batalhas deles E as suas vidas extraordinárias. no ano em que oficialmente se iniciou a II Guerra Mundial. 19). Assim. 80). Ou seja. contribui com sua edificação. estruturando seu posicionamento em relação a essa educação. Para podermos ser dignos deles. que trazem como conteúdo o culto aos heróis. mas sim o fato de que por ser burguesa. 1992. Ele tem plena consciência dos limites burgueses dessa instituição. Essa questão está presente na peça O Julgamento de Luculus. A escola traz o conteúdo comprometido com a prática social que 56 .. O autor evidencia quanto os livros didáticos. não está desvinculado da realidade. portanto. Entretanto. o conteúdo da escola burguesa está comprometido com o capitalismo e expressa a sociedade capitalista.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE peixinhos inimigos. porque trazem em muitas de suas ilustrações e textos a defesa de valores patrióticos expressos na exaltação ao herói. Logo. 58). Quem os quiser imitar. o autor escreve que “[. mas uma intrínseca relação entre ambos.. Nossa cidade espera Algum dia também os nossos nomes (BRECHT.] os livros da escola não dizem que quem emprega o suor é um e quem recebe é outro” (BRECHT. Devemos elevar-nos bem acima Da multidão.

discursos eloquentes provocavam a identificação. É fato que. sendo um educador que fez de seu teatro um instrumento da práxis revolucionária. condenando o entendimento fascista de que o homem precisa ser enquadrado e comandado por uma organização que garanta de forma eficaz o culto à nação e proclame a virtude da violência. Música. nem por isso. Essa ênfase objetiva salientar aos educadores atuais que a linguagem deve ser viva. mas. aprimorando-os de acordo com suas necessidades. É importante realçar que a práxis utilitária imediata e o senso comum que a ela condiz permitem ao homem que se viva no mundo. Brecht faz do teatro um instrumento da elaboração da consciência crítica. uma alternativa educacional. Restavam. poucas e clandestinas opções aos opositores ao regime. portanto. como dramaturgo ou poeta. que compreenda a realidade. a racionalidade. enfim. as peças de Brecht tinham um sentido político de resistência muito particular. símbolos. de fato. a emoção irrefletida. toda a sociedade estava sendo intencionalmente reeducada para o nazismo. assumem papel fundamental nessa busca. Tal como Brecht. um conteúdo que justifica e sustenta a prática capitalista. foram paulatinamente dispensados ao longo do próprio percurso da filosofia alemã. todas as formas de manifestação estavam comprometidas com o nazismo. literatura. se familiarize com as coisas. portanto. porque quando a prática se mostra impotente é preciso buscar razões para se viver. E. de Shelling até Hitler – que dirá de outros espaços (LUKÁCS. ATOS DECISIVOS: A REALIZAÇÃO COLETIVA E A EDUCAÇÃO POSSÍVEL QUE PROTAGONIZAMOS Não fazendo de Brecht um herói. nesse momento particular. revelando que. devendo também provocar ações vívidas. 1972). somada a um dado modo de atuação. A teorização. em seu momento. propaganda. uma vez que o conhecimento e a teorização. Este se apresentava como a alternativa natural para os desdobramentos históricos da Alemanha. é necessário salientar que este autor dedicou sua vida e seus escritos à defesa da igualdade entre os homens.lhe condiz. A educação na obra de Brecht: representações de conquistas e realizações coletivas 57 . criando recursos cênicos diferentes daqueles da dramaturgia convencional. Ao abordar o período da História marcado pela Alemanha nazista. imprensa. o conhecimento deve ser vivo acerca de uma prática também viva. consideramos o conteúdo escolar dependente do movimento social e. trata-se da negação da luta de classe. o autor aborda a aparência do fenômeno. denuncia as formas de negação aos direitos do homem. que as maneje e que crie novos aparatos e os reproduza. O fato de Brecht ter vivido sob o nazismo e de ter produzido suas peças nessas circunstâncias não invalida a atualidade de suas questões. Com a intenção de desmistificar questões como estas.

com ações. posto que inofensivas. As “conquistas”. experimentos que permitam. no sentido brechtiano. da submissão. Brecht contribuiu para que repensássemos o processo ensino-aprendizagem. e ao mesmo tempo se queremos que ela avance para outra função. da escola. que é determinada não impede a possibilidade de atuação nessa escola. de fato. A escola tradicionalmente marcada pelo autoritarismo ou pela liberdade. fazendo com que o singular seja sempre superior ao plural (ao coletivo). mas o próprio conteúdo. caracteriza sua rotina. a dinâmica social. da hierarquia. nas comemorações semestrais – conduzidas pelo calendário oficial – valoriza-se a máxima da individualidade. conflitos com roupagens religiosas. por consequência. Compreender que a escola é expressão da lógica social instituída. que lhe deveria ser a clássica. os feitos históricos são atribuídos a um homem e não aos homens. como obra de um só indivíduo e não como produção social dos homens. Nessa possibilidade de refletir sobre a dinâmica escolar está implícita a necessidade de avaliar a atuação dos educadores. fora do espaço teatral. com práticas e conteúdos marcados pela hierarquia e submissão. Ensinar e aprender a ser ativo e não passivo diante do conteúdo. atravessaram os mares e alcançaram outros povos. de modo pouco dialético. Seu trabalho apresenta-se como recurso didático capaz de questionar as guerras. Nos livros didáticos. nos murais nos pátios e corredores. o culto aos heróis nacionais ou midiáticos. os problemas apontados por Brecht permanecem em nossa época com marcas aparentemente democráticas. cujas estratégias de harmonização social em muito se assemelham às anteriores. ou de outros segmentos formadores? São instituições cujo limite é a reprodução da dinâmica social vigente? Essas questões merecem nossa atenção se quisermos evitar que se tome a escola de modo estanque e paralisador. descomprometida. cênico. apenas como aparelho ideológico do Estado. da autoridade. mais que conhecer. aquela dinâmica na qual a relação ensinoaprendizagem efetiva-se com a supremacia da ordem.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE Entretanto. ou seja. que impedem o homem de compreender sua própria vida. portanto. em que a aprendizagem permanece no limite do cotidiano. 58 . Brecht permite-nos rever conteúdos e práticas frequentes. como também sugere Saviani (2003): a de ensinar conteúdos científicos e culturais. tornam-se clássicas. Negar. Como é possível perceber. elas superam seu momento. e conforme o conceito de Saviani (2003). Perguntamos. o espaço que deveria estar reservado ao conhecimento cede lugar ao culto ao passado. desvelar o cotidiano e. no cotidiano escolar. Muitas vezes. resistindo ao tempo. Avaliar não apenas a didática ou a forma de apresentação do conteúdo. agora: qual é o efeito da atuação da mídia. Tratando do ensinar e aprender no palco. solidárias. ao desenvolvimento científico.

Parece-nos que o ensinamento maior Brecht reside na ênfase da necessidade de se ampliar o universo de pares na relação ensino-aprendizagem, no sentido de valorizar o coletivo, incentivar a superação do estado inicial da aprendizagem, não limitá-lo a capacidades mínimas de leitura e escrita. Levar o educando a assumir uma postura de independência, e não de submissão frente ao saber ou diante daquele que pretensamente sabe, e que, por força de uma tradição que não promove, ao contrário oprime, deixa aprendiz e educador simplesmente em lugares opostos. Acreditamos que o que se coloca como desafio à escola atual, assim como orientaria Brecht, ainda é a necessidade de revigorar a formação dos educadores, a nossa própria formação. Se há a necessidade de se avaliar a didática, seja quanto à apresentação dos conteúdos e recursos didáticos, seja quanto aos próprios conteúdos, isso só nos parece possível se o eixo de trabalho não for perdido. Neste sentido, Chaves (2008) assinala que as tentativas de tornar a educação subserviente ao capital se apresentam e se reapresentam na História – trata em sua pesquisa particularmente do Estado do Paraná na década de 1960 – o que não nos impede de refletir acerca das possibilidades de enfrentamento a essa lógica que precisamos ensaiar até que possamos protagonizar atos que seja decisivos. O eixo ainda nos parece ser o domínio do conhecimento específico, mas também daquilo que ainda deve ser o universal: o domínio de como o mundo se move, não só no sentido em que Galileu desvenda, mas que a história tem revelado. Esse saber vivo que põe as coisas em relação não pode ser dispensado na sala de aula, e nem na própria formação do educador. Recoloca-se, portanto, como essencial, ter a dimensão de que a aprendizagem movimenta o desenvolvimento, daí sua dimensão não ser apenas do domínio cognitivo, porém a de alcançar o sentido ético. Assim, também nos parece necessário continuar a discutir as questões da escola e a sua relação com a sociedade em geral nos termos em que Brecht entende como a “praxis revolucionária”.

A educação na obra de Brecht: representações de conquistas e realizações coletivas

Referências

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A educação na obra de Brecht: representações de conquistas e realizações coletivas

Proposta de Atividade

Considere as práticas educativas realizadas na escola atual e apresente alguns procedimentos didáticos que possam contribuir para demonstrarmos a potencialidade da escola em favor de uma educação que contribua para a formação de educandos com espírito de solidariedade e defesa de bens e realizações coletivas.

Anotações

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SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE Anotações 62 .

Apesar das divergências entre os grandes filósofos – pré-socráticos. pois basta que este conheça para que encontre a verdade. cuja característica principal é a de ser emulado por um conjunto de descontinuidades que descentraram o homem. como o de conciliar as exigências da razão humana com a revelação divina. O indivíduo emerge progressivamente como sujeito. Nem a filosofia Antiga. ou seja. o questionamento sobre a possibilidade de o sujeito poder ou não compreender a realidade é posto. independente do sujeito conhecedor. repercutindo sobre as relações sociais. apresentou novos problemas. A Filosofia Cristã. provocando uma cisão entre corpo (matéria) e alma (espírito). ou o Bem. como quer Sócrates. Isso porque tal sistema de pensamento parte “da afirmação da existência da realidade e de que ela poderia ser conhecida verdadeiramente pela razão e pelo pensamento” (CHAUÍ.5 Construção do sujeito na era tecnológica Tarcyanie Cajueiro Santos A modernidade é um modo de organização social. entre outros – permanece a crença na indissociabilidade entre aquele que conhece e a própria realidade. a realidade e o sujeito. que dominou toda a Idade Média. em suma. tampouco a filosofia Cristã colocaram o sujeito como o centro de inúmeros questionamentos e grandes apostas. é realista. Antes da Idade Moderna. que passou a ser mediada pela fé. Entender o que é a realidade é a grande pergunta que esses primeiros filósofos se fazem. essa filosofia não se questiona sobre o estatuto do sujeito. Sócrates. Com a modernidade. cujo ponto de partida reside na indagação da possibilidade de o nosso pensamento alcançar a realidade. p. que se inicia com o pensamento grego. Dito de outra forma. como fez o pensamento moderno com o racionalismo clássico. A exceção são os sofistas que. a partir do século VII. não existia um sistema de pensamento que considerasse o sujeito como uma categoria filosófica. e é pensado como detentor de seu destino. 1999. parte da premissa de que o ser existe em si mesmo e por si. relativizam ou até negam o ser. que corresponde a um estilo de vida e inaugura uma nova maneira de conceber o homem. o infinito. partindo da linguagem. A Filosofia Antiga. O único meio de alcançar a verdade. Esse novo modo de vida. 209). Platão e Aristóteles. 63 . trouxe consigo a produção de estilos diferentes das instituições sociais tradicionais.

de um ser finito e corruptível. sendo reduzida a um mecanismo transparente e à linguagem matemática. 1999. Ora. incapaz de. assim como a importância que o homem e a razão passam a ter. instabilidades e perturbações políticas e sociais. que Descartes dá origem a duas grandes correntes da filosofia moderna: o idealismo e o empirismo. O dinamismo da natureza pertence ao criador. o sujeito moderno desponta apenas com o desmoronamento da Idade Média e o aparecimento de uma época que traz consigo o capitalismo. sem saber ao certo que caminho traçar. e que explica tudo que não é alma ou pensamento apenas pelas noções de extensão e de movimento dessa extensão. p. Fazendo uma recapitulação sobre a sua vida. o corpo e a vida à extensão. 225). entregue à exploração da razão humana. à medida que os fenômenos devem ser interpretados segundo o modelo fornecido pelos dispositivos mecânicos. ele busca um método universal. precisando ser socorrida e corrigida pela fé e pela Revelação” (CHAUÍ. as primeiras descobertas científicas. É a partir da suposição de que fenômenos da natureza são regidos pela lei da extensão e do movimento conhecidas pela razão. a reforma. alcançar a verdade. podemos duvidar de tudo. como o homem. Ao reduzir o homem ao seu cogito. O mecanicismo é a doutrina que reduz a matéria. logo existo”. “para os cristãos. as incertezas intelectuais. este pensador chega à conclusão de que nada do que aprendeu fornece certeza. inúmeros são aqueles que questionam o legado filosófico de então. Nessa época marcada por profundas transformações. Neste sentido. colocando em xeque tudo o que aprendeu. para que possamos utilizar corretamente a razão. O auge do sujeito moderno se dá com a filosofia crítica de Kant e com a ideia de que o avanço do conhecimento exige que as crenças tradicionais e a própria razão sejam submetidas à operação crítica. menos da nossa capacidade racional. de modo que a consciência aparece como sujeito e objeto do conhecimento. O único fundamento seguro é a razão. por si mesma e sozinha. as grandes navegações. duvidando inclusive da religião. porque ela não possui dinamismo próprio. Por isso. Para Descartes. o aparecimento e as redescobertas de textos sacros e antigos. à medida que Deus jamais poderia ser compreendido por meio da razão. Do ceticismo de Montaigne ao pragmatismo político de Maquiavel. ele busca fundamentos sólidos e princípios seguros. Por conseguinte. Descartes enfatiza a necessidade de se criar um método. é ante essa indeterminação e insegurança que se antepõe Descartes. própria do cogito. Daí a máxima “penso.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE Deus. o homem dessa nova época se vê em meio a um turbilhão de acontecimentos e sentidos. Deste modo. Se com Descartes o sujeito se torna o primeiro 64 . deveria ocorrer através da fé. a razão humana é limitada e imperfeita. com base no rigor da matemática e no encadeamento racional.

buscando evitar o excesso de subjetivismo kantiano por meio da importância que atribui à objetividade. Isto significa que “nunca saberemos o que é e como é a realidade em si mesma. cuja plena emancipação ocorreria senão existissem entraves a sua realização. Pensador iluminista. com Kant o sujeito passa a ser a condição mesma do conhecimento verdadeiro. Posto que “a razão em Hegel não é nem exclusivamente razão objetiva (a verdade está nos objetos) nem exclusivamente subjetiva (a verdade está no sujeito). 235). isto é. Kant se posiciona contra o empirismo de Hume. p. 1999. 1999. Com Hegel. Por conseguinte. com seu discurso emancipatório e suas fantasias antropocêntricas do sujeito. A realidade conhecível e conhecida é aquela aposta pela objetividade estabelecida pela razão ou pelo Sujeito Transcendental” (CHAUÍ. mostrando a necessidade de questionar a própria razão. Hegel é outro grande pensador idealista. Ou seja. se depois de Hegel aparecem diversas críticas ao seu absolutismo da Construção do sujeito na era tecnológica 65 . 231). isto é. automovimento que se realiza e se supera no desenvolvimento da história. das verdades sintéticas a priori. do progresso e da evolução presentes no Iluminismo. De acordo com Kant. Com ele. p. forma kantiana da verdade absoluta. 1999. Contudo. 81). caindo em um subjetivismo epistemológico. Em outros termos. há uma absolutização do idealismo.momento no processo epistemológico do conhecimento e da busca da verdade. Kant confere ao sujeito um lugar muito mais importante do que Descartes dera. um estudo sobre a estrutura e o poder da razão para determinar o que ela pode e o que ela não pode conhecer verdadeiramente” (CHAUÍ. mas ela é a unidade necessária do objetivo e do subjetivo” (CHAUÍ. Em seu sistema de pensamento. há com ele a pretensão de purificar a consciência empírica e elevá-la ao Espírito e ao Saber Absoluto. das estruturas de sensibilidade e do entendimento. da verdade. Kant concebe o sujeito moderno como um ser repleto de potencial. o conhecimento verdadeiro e necessário apenas é possível quando organizado pelo sujeito do conhecimento nas formas de espaço e tempo e conforme os conceitos de entendimento. Conhecemos apenas a realidade como fenômeno. organizada pelo sujeito do conhecimento segundo as formas do espaço e do tempo e segundo os conceitos do entendimento. prosseguindo com as fantasias da história. p. separada e independente de nós. Hume o desperta de seu sonho dogmático. Kant é um pensador que abraça o ideal iluminista do século XVIII. ou o espírito deixa de ser substância e passa a ser visto como processo. já que considera que a razão depende exclusivamente do sujeito. nasce a pretensão de propiciar ao homem o totalizante conhecimento absoluto do Absoluto. o sujeito. Nesses termos. refundando a filosofia e o próprio conhecimento. que rejeita as certezas do mundo e afirma um profundo ceticismo. do homem. “Despertar do dogmatismo é elaborar uma crítica da razão teórica.

isolados. Destronando Deus de seu infinito poder. Nietzsche chegou mesmo a antecipar Freud. à teoria do caos e à auto-organização. Gehlen). que se afirmam como a grande verdade. E. 66 . Nietzsche também se adiantou à própria concepção de ciência que emergiu com a física quântica. a mecânica se ocupava apenas com processos regulares e repetitivos. Toda a sua filosofia se contrapõe às ideias filosóficas e aos valores morais tradicionais. à sua insignificância no conjunto geral das coisas que constituem o mundo. 11). Não obstante. ser desmascarados. precisando.. é a de um sujeito que se vê como uma essência identitária. 13). considerando-o como vontade de potência. os metarrelatos ( J. que diante de dificuldades encontram novas respostas. sob o ponto de vista da subjetividade. por isso. não existindo nele uma ordem ou uma estrutura. sua fraqueza. dá um golpe final na visão de homem erguida e exaltada durante toda a modernidade. no século XX. 1997. A consequência dessa visão. aquilo pelo qual o homem se bate achando que é o seu senhor. Nietzsche tem sido apontado como o filósofo que anteviu não apenas o niilismo que muitos autores consideram como um fenômeno característico da pós-modernidade. sua impotência. uma ordem estável. que é um modelo mecanicista. dá importância aos fenômenos irregulares. Desde os átomos até o universo. vastas posturas morais. outro importante pensador que contribuiu para a aniquilação da crença no sujeito universal e racional ao chamar a atenção para o inconsciente como uma das dimensões estruturais do homem. o homem ocupou o seu lugar acreditando-se o novo criador. amplas ideologias. Segundo alguns autores. Isso porque a vontade. O homem sonhou o sonho da onipotência durante vários séculos. Lyotard)” (MARCONDES FILHO. por sua vez. com a sua crítica feroz a toda essa concepção filosófica do sujeito moderno e de sua racionalidade.]. sendo unidade entre pensamento e ser. p. 1997. as grandes ideias condutoras (A. como também os desdobramentos da cibercultura. Tal filosofia nos remete à pequenez do homem. dos grandes processos. essa mesma vontade não passa de ilusão [. Ao considerar que a natureza segue leis eternas e imutáveis. caracterizada pela unidade. “Combinava com uma visão de mundo do passado. Não podemos esquecer que todo o edifício da filosofia moderna foi construído tendo em conta a física clássica. p.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE razão e a sua crença de que a consciência é a própria realidade. Ao postular que a condição geral do mundo é o caos. Nietzsche. O modelo de ciência que emerge no século XX. será apenas com Nietzsche que todo esse edifício filosófico se destruirá. constância e isolamento. sua posição de mero figurante no teatro dos acontecimentos não tardou a surgir (MARCONDES FILHO. desse mundo artificial e de todo o seu imaginário tecnológico. sempre igual a si mesma. e que se constituem como conhecimentos da era tecnológica. com suas repercussões para o sujeito contemporâneo. Impiedoso..

p. seja através das redes de interação telemáticas. não-linear e fluida. o atual permite apreender nos próprios processos sua livre manifestação. onde podemos assumir diversas personagens. 13). uma vez que. é feito e transformado pela linguagem. em seus primeiros estudos sobre as comunidades virtuais. abriu-se a possibilidade de se estudar fenômenos a partir de modelos que operam com a indeterminação. emergiu com a revolução tecnológica no final do século XX. como também outras esferas. 1995. o calor que se dissipa no encontro dos corpos jamais será utilizado novamente. Essa homogeneidade estática. seja através das máquinas geradoras de realidade virtual (simulação). fluido. ou seja. o sujeito da sociedade tecnológica ou da cibersociedade desmascara sociologicamente a concepção de um eu unitário. e constituído na interação como conexões com máquina. Estrutura descentrada. o eu [self] é múltiplo. e a compreensão vem da navegação e da experimentação mais do que da análise. sistemas não-lineares. Isso é uma mudança enorme em relação à ciência clássica. É assim que “os computadores. a imprevisibilidade e o acaso. sistemas que elaboram repostas novas a novas questões. 17). 1997. A pesquisadora do MIT. Em relação à subjetividade. passando a ser compreendido como processual e aberto. o sujeito deixa de ser visto através da primazia da consciência e da centralidade. a relação com o outro passa cotidianamente pela tecnologia. não repetitivas. Em outras palavras. nada mais é o que a própria desordem. as pessoas organizam seu significado não 67 . encontro pessoas que me põem em uma nova relação com minha própria identidade (TURKLE. que tem seu auge no espaço eletrônico da Internet. o intercurso sexual é uma troca de significantes. Sherry Turkle. Dos processos não lineares passa-se à auto-organização” (MARCONDES FILHO. é que “cada vez mais. Isso porque essa lei parte do pressuposto de que a quantidade de trabalho útil que se pode obter a partir da energia do universo está constantemente diminuindo. Em meus mundos mediados por computador. Construção do sujeito na era tecnológica Essa transformação na maneira de se perceber e se vivenciar a subjetividade. Não somente as bases materiais da sociedade se modificaram drasticamente. p. falta de forma. já apontava esses espaços como intensos locais de trocas. instauram-se entre a velha dualidade entre máquinas simples (que não possuíam organização) e os seres vivos. E nos mundos gerados por máquina dos MUDs. sob o ponto de vista social. Massachusetts Institute of Technology. Para ela. ao contrário de um modelo preestabelecido. chamadas de MUDs (multi-user-domain ou multi-user-dungeon). levando à dispersão regular por todo o espaço.Depois da descoberta da segunda lei da termodinâmica. coerente e organicamente construído. e uma das consequências disso. Com as sociedades da informação. o que gera transformações irreversíveis. levando à desordem no sistema físico. sistemas complexos.

A essa passagem de uma vivência “sólida” para uma “volátil”. p. 27). as pesquisas privilegiam minorias. ao invés de se buscar a velha e tão almejada essência. Isso significa que a identidade. por meio de seu relacionamento com as corporações do mercado global. que com as novas tecnologias estende-se à esfera outrora sagrada. borrando ambos ao expô-los a assuntos que abarcam o domínio da intimidade. 23). família” (DELEUZE. podendo passar por configurações tão díspares como. Com a expansão dos meios técnicos de informação. como também “a busca pelo significado ocorre no âmbito da reconstrução de identidades defensivas em torno de princípios comunais” (CASTELLS. 1992. se grande parte das crianças no mundo contemporâneo passa o dia inteiro sob os cuidados da escola enquanto os seus pais precisam trabalhar e. contribuindo para que o sujeito da era tecnológica se assente em lógicas diferenciadas daquelas que acreditou até então. local tradicionalmente de afetividade? Isto sem mencionar a televisão e a Internet. qual a delimitação entre o espaço da família e o da escola. fábrica. o modo de se relacionar e perceber o outro assume novos sentidos. 1999. por exemplo. seguindo Michel Foucault. Devido à complexidade da sociedade tecnológica. 1999. Afinal. Cada vez mais fica difícil impor limites territoriais e legais sobre as diversas instituições que regem a sociedade.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE em torno do que fazem. em um exercício contínuo que nunca tem fim? Que tipo de domínio e gestão de corpos existem nesse incessante processo de dominação? Nas cruas palavras de Deleuze (1992. É por isso que. estruturada pela velocidade. 224). que trazem intermitentemente notícias do suposto espaço público para o espaço privado. movimentos moleculares e auto-organizações espontâneas. as 68 . p. nas sociedades de controle essa delimitação do dentro e do fora se esfumaça. hospital. Se nas sociedades disciplinares os indivíduos passavam de um espaço fechado para outro. a família. Como entender essas instituições que parecem se perfazer a cada instante. gerando uma “crise generalizada de todos os meios de confinamento. tornam-se reféns dos conselhos de pedagogos e de psicólogos. ao mesmo tempo. A identidade hoje assume dimensões inesgotáveis de análise. escola. cada um circunscrito as suas leis. mas com base no que elas são ou acreditam que são” (CASTELLS. as sociedades de controle emergem no final do século XX com a centralidade que a técnica passou a ter na vida das pessoas. o mundo analógico torna-se cada vez mais obsoleto. 220). pelo menos em termos de importância. denomina sociedade de controle. não é mais possível sustentar a definição do sujeito em função de seu território geopolítico. cujo apogeu se deu no início do século XX. prisão. p. p. o filósofo Gilles Deleuze. Diversamente das sociedades disciplinares dos séculos XVIII e XIX. como se o indivíduo tivesse uma estrutura acabada. que teoricamente parecem saber mais como educar os seus filhos do que eles próprios? E em relação ao trabalho. de seu pertencimento a um Estado-Nação. sendo substituído pelo mundo digital.

as conquistas de mercado se fazem por tomada de controle e não mais por formação de disciplina. pois como pontua Deleuze (1992.] como se a sobrevivência das empresas no mercado 69 . 1992. [. 223). como nas ações de hackers ou ciberpiratas. a fábrica. 1992. p. Por conseguinte... mas à dinâmica da inovação. os mercados e as diversas modulações de moeda.instituições como: a família. nos enviam ao perigo passivo da interferência e o ativo. 223). “não porque as máquinas sejam determinantes. p. como os luditas. da pirataria e da introdução de vírus (DELEUZE. características das sociedades disciplinares. p. como da racionalidade econômica. ao subordinar as decisões de investimento não às taxas de retorno. Aqui. a escola. que no século XIX se revoltaram contra a mecanização do trabalho e de suas péssimas condições decorrentes da Revolução Industrial. de uma mesma empresa que só tem gerentes. leva à penetração de sua lógica em várias esferas das sociedades de controle. Se ainda estendermos essa lógica ao capitalismo. o uso desenfreado da racionalidade tecnocientífica. exacerbado pela informatização da sociedade. por transformação do produto mais do que por especialização da produção (DELEUZE. deformáveis e transformáveis. sendo desbancadas pela empresa. enquanto que as máquinas informáticas e os computadores das sociedades de controle. 1992. por fixação de cotações mais do que por redução de custos. em que a mente humana se torna uma força direta de produção. veremos que seu modelo de sobreprodução não atua no par indivíduo-massa. 223). Equipamentos aparentemente mais simples. Construção do sujeito na era tecnológica Também podemos compreender a configuração das sociedades a partir dos seus tipos de máquina. o exército e a fábrica não são mais espaços analógicos distintos que convergem para um proprietário. mas porque elas exprimem as formas sociais capazes de lhes darem nascimento e utilizá-las”. a sabotagem ocorre de maneira mais difusa. pareciam se deparar “com o perigo passivo da entropia e o perigo ativo da sabotagem” (DELEUZE. 224). mas incide sobre as trocas flutuantes. mais complexas e difíceis de controlar. p. a concentração e a produção. A consequência perversa disso é que sob o ponto de vista do capital. Enquanto que no primeiro caso o perigo de sabotagem poderia ocorrer pela destruição das máquinas por operários. pelo marketing e pela venda (de ações e serviços). que devido aos seus conhecimentos em computadores têm a habilidade de entrar nos sistemas e modificá-los. no segundo. mas são agora figuras cifradas. as máquinas energéticas. Estado ou potência privada. já não têm tanta importância. indispensáveis nas sociedades de controle.

a própria vida do humano torna-se centro de questionamentos. ou ambos não passam de sistemas de informação? Com a penetração do humano com a máquina. transplantes. tanto dos homens quanto das máquinas. localizada e parcialmente (por enquanto). com a sua exaltação do sujeito antropológico. Assim. Se Nietzsche. que aliada à racionalidade científica acaba não apenas criando uma relação paradoxal entre homem e natureza mediada pela ciência e pela tecnologia. Dito de outra forma. p. Máquinas de guerra melhoradas de um lado e outro da fronteira: soldados e astronautas quase ‘artificiais’. com a evolução da engenharia genética e das redes computacionais. p. um processo paroxístico de renovação ilimitada de gadgets. Sentidos farmacologicamente intensificados: a percepção. Superatletas. a própria vida passa a ser gerida e controlada a partir dessa mesma lógica tecnocientífica. vacinas. 70 . Máquinas de visão melhorada. Seres geneticamente modificados. Biotecnologias. Superguerreiros. A marca da cibersociedade ou da sociedade tecnológica é a de ser regida e reorganizada por meio da cibernética e das redes computacionais. criando questionamentos acerca da relação homem-máquina. cujo objetivo é desenvolver linguagens e técnicas que deem conta do problema do controle e da comunicação em geral. Anabolizantes. Afinal. seres ‘artificiais’ quase humanos. com as transformações no corpo humano feitas pela tecnociência e ao mesmo tempo com a humanização e subjetivação das máquinas. indistintamente. Realidades virtuais. enxertos. com a sua primazia absoluta. Clones. deste modo. com seus ciborgues. a imaginação. no século XIX. tornando-os igualmente indistintos: corpos humano-elétricos (SILVA. de coordenação mais precisa. denominada por Michel Foucault biopolítica. Bits e bytes que circulam. A lista é enorme. 2000. psicofármacos. seguindo a ânsia ilimitada do capital. de reações mais ágeis.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE dependesse mais de sua capacidade de invenção e substituição de produtos do que da extensa exploração comercial dos mesmos. entre corpos humanos e corpos elétricos. inúmeros autores têm se debruçado sobre a discussão que remete ao pós-humano. as limitadas qualidades e as evidentes fragilidades dos humanos. clones e tantas outras invenções maquínicas. Clonagens que embaralham as distinções entre reprodução natural e reprodução artificial. como também certo tipo de controle sobre a vida. a tecnociência. Supermodelos. 15). a tesão. Seres ‘artificiais’ que superam. próteses. 2008. Tem-se. no final do século XX. questiona a humanidade de nossa subjetividade. Estados ‘artificialmente’ induzidos. ainda é possível falar do humano? Existem diferenças entre o humano e as máquinas. abrangendo no mínimo: Implantes. 5). apontou para a morte de Deus e para a grande farsa da metafísica. cujo ciclo de vida é cada vez menor (SANTOS. que intervém sobre a realidade biológica do ser humano. Seres portadores de órgãos ‘artificiais’. pautadas sob a lógica das máquinas inteligentes.

que tentava ser uma reprodução da nossa biosfera. mas seu aperfeiçoamento por meio de um processo de eugenia. por um lado. tanto nós homens quanto as máquinas somos fabricações. Sob o ponto de vista ético. preconceitos e divisões sociais. que sabendo o tipo de doenças que elas podem futuramente ter. com seres vivos. Não há aqui uma ruptura radical do humano. 164). como Gattaca – a experiência genética. O projeto Genoma. A Biosfera II. o corpo humano precisa ser superado. Um segundo ponto de vista é o da transformação biogenética. ou ainda de o mercado de trabalho ser fatiado segundo as aptidões genéticas dos indivíduos. esse projeto indica diversos problemas. que procurava reproduzir o mundo natural. resumidas em três posições acerca dessa temática. p. produção autônoma de oxigênio em uma bolha. Ela ocorre. Construção do sujeito na era tecnológica Um exemplo disso foi o projeto Biosfera II. legitimadas pela ciência. através da formulação de uma ‘exigência’ cada vez maior de que o homem precisa poder viver em ambientes que não são seu habitat natural – como as viagens espaciais (SANTOS. que visualiza o póshumano como a superação do humano a partir da própria evolução deste por meio de seu aperfeiçoamento genético. e. em que as pessoas que são concebidas geneticamente em laboratórios se tornam econômica e socialmente mais bem sucedidas do que aqueles que foram concebidas naturalmente. Esse projeto era uma instalação de vidro e metal. onde oito pessoas residiram durante dois anos. Ora. A sociedade fica dividida entre os válidos. Existem duas formas desse processo de obsolescência do corpo. Essa transformação pela qual mal começamos a entrar remete a inúmeros questionamentos. através de uma necessidade aparentemente crescente de modificar o organismo mediante a incorporação de próteses para lidar com a velocidade da transformação. plantas. estando obsoleto. revelando a preparação para a possibilidade da terra se tornar futuramente um planeta inabitável. de outro. com o objetivo de sobrevivência em outras condições climáticas e até em outros planetas. forma-se uma rígida hierarquia. no deserto do Arizona. com novas espécies de castas.Não há mais como negar que. com a melhoria do patrimônio genético. esses perigos já foram mostrados em diversos filmes. somos ciborgues em contínuo aprimoramento tecnocientífico. Em consequência. surge como uma possibilidade de mapear o genoma e eliminar os genes defeituosos. como o das pessoas se tornarem reféns de grandes corporações. Primeiro. mas sem o “mal” ou a degradação presente no ambiente (natural) externo. fracassou. 2005. que considera o pós-humano como superação do humano. a dúvidas que podem ser. que opera com a genética e a biologia molecular. é a via da singularidade. Tal como existe. em consonância com Laymert Garcia dos Santos. visando ao aumento de duração da vida. cobrariam taxas altíssimas de plano de saúde. que foram manipulados geneticamente antes 71 . tendo o monopólio do homem perfeito e de sua matriz.

Outro tem mais a ver com uma ‘recauchutagem’. Não se trata das próteses. Um trata de reformar o corpo a partir de sua matriz básica. a célula. posto que agora este sujeito não mais apresenta um componente demasiado fraco e débil: a sua humanidade. e os não-válidos. indivíduos que. temos a terceira vertente. ficam com os piores trabalhos. estamos aqui diante de um processo que se propõe a mexer diretamente com o corpo.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE de seu nascimento. tornam-se agora objeto de uma ciência que acredita poder controlá-las no homem e atém mesmo criá-las em máquinas. sem as deficiências do humanismo. São seres maquínicos ou robôs. Se podemos tratar do ocaso do humanismo. 72 . que só sobrevive com o enxerto de peças mais aperfeiçoadas. 50). frágil. como a válvula do coração. à guisa de conclusão. o ódio. A Inteligência Artificial é o consubstanciamento dessa visão. desta forma. precária. toma novos rumos com as utopias da sociedade tecnológica. a cibersociedade se assenta em uma nova visão de sujeito. naturalizando. será possível também pensar o fim do humano. como defendem as novas utopias da cibersociedade? A descoberta do homem como ser desprovido de valor e onipotência. inclusive porque menos humanos e mais maquínicos do que os belos replicantes. uma substituição de tudo que é ou se tornou falho em nosso sistema por peças recambiáveis.]. o saber. vemos emergir a substituição do conceito de homem pelo de corpo. buscando construir uma nova espécie de seres artificiais através de processos que simulam as propriedades da vida por meio de computadores. Com o fim da exaltação do homem tão apregoada pelo humanismo. o amor. entre outras características consideradas ainda por alguns da ordem do humano. São na verdade dois desenvolvimentos paralelos. Cabe. buscando-se. que não apenas pareciam com os humanos. Seguindo essa perspectiva. como aqueles imortalizados no filme de ficção científica Blade Runner. sem possibilidade alguma de ascensão social. Por último. p. Diferentemente do Biosfera II.. alterar o patrimônio genético da humanidade. Estes sim fracos e imperfeitos. com seus sentimentos e emoções.. Surge aqui a visão de que a emoção. Trata de ver o corpo como uma máquina imperfeita. como também eram mais perfeitos. Esta última opera com a negação do corpo enquanto a anterior. no campo da utopia. de substituição de partes prejudicadas ou ineficientes por mecanismos técnicos [. quais seus sonhos e utopias. e até mesmo mais humanos que os próprios humanos. que vê nas duas linhas anteriores a confirmação da obsolescência do humano e de sua passagem para o pós-humano. com sua reconstrução (MARCONDES FILHO. 1997. que aparece em Nietzsche e em Heidegger e posteriormente com o desenvolvimento da tecnociência. de toda essa indústria de órgãos artificiais. então. refletirmos um pouco mais sobre a constituição do sujeito na sociedade tecnológica. assim como procurar compreender que tipo de sociedade é esta. por causa da possibilidade de desenvolverem ou de já terem algum tipo de doença ou “defeito”.

A sociedade em rede (a era da informação): economia. CASTELLS. e nem por isso instintivo” (SANTOS. Construção do sujeito na era tecnológica Referências BERMAN. DELEUZE. p. E assim fazendo. 1992. Tudo o que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade. Gilles. The postmodern paradise: Dante.Misto de técnica com natureza desnaturalizada. Velocidad de escape: la cibercultura en el final del siglo. comporta-se como se não tivesse ligação alguma com a natureza. Terminal identity: the virtual subject in post-modern science fiction. 1993. parece ter sido ultrapassado pelo ressurgimento dos grandes projetos sociais presentes na cibernética e em suas diferentes vertentes. Conversações: 1972-1990. porque atualmente a busca do “além do homem” ocorre com referência ao discurso do corpo. São Paulo: Companhia das Letras. A invenção do psicológico: quatro séculos de subjetivação (1500-1900). Mark. São Paulo: Paz e Terra. Madrid: Ediciones siruela. 1999. FIGUEIREDO. criando a utopia de que há uma espécie cujo processo de evolução tecnocientífica superará este homem falido. BUKATMAN. Manoel. o que vemos agora é a tentativa de resgatar o homem por meios diversos daqueles defendidos pelo humanismo. 1997. crente em seus poderes. o desaparecimento de grandes relatos explicativos. 1994. Durham: Duke University Press. 1. São Paulo: Ática. 1999. FISHER. 34. 2). 111-132. Neste sentido. David (Org. promulgado pelo pós-modernismo nos anos 1980. DERY. que ao tomar como parâmetro à máquina e à inteligência artificial. 1986. p. 2008. New York: Routledge. Marshall. estes sim. 73 . dos genes e da carne. São Paulo: Educ. M. CHAUÍ. and the thecnosophy of cyberespace. cyberpunk. ele acaba instaurando um comportamento niilista.). In: PORTER. sociedade e cultura. Internet culture. o sujeito da era tecnológica desponta como um ser híbrido. M. Convite à Filosofia. Luís C. v. fortalecendo “um modo de ser pré-reflexivo. apenas humanos. 1991. não-racional e não espiritual. Jeffrey. Scott. Rio de Janeiro: Ed. Contudo.

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SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE Anotações 76 .

g) o controle de infovias urbanas ligadas à prestação de serviços das prefeituras. No entanto. c) o tráfego computadorizado. telecomunicação. f ) as redes de administração pública. a) o ensino a distância. entre outros tantos. Sociedade da Informação) é. d) a gerência de tráfego aéreo. Esse amplo programa de investimentos. cunhadas nos anos 1990 pela Comunidade Econômica Europeia e Estados Unidos com o objetivo de planejar ou concentrar esforços na construção de uma infraestrutura global da informação1. redes de comunicação digitais (Banda Larga) sistemas de comunicação móveis. de modo mais imediato. h) o uso da telemedicina. expressões conceitualmente mais realistas. não podemos esquecer que 1 A política preconizada pela Comunidade Europeia a esse respeito pode ser acessada pela Internet Information Society Projetct Office ISPO. menos pretensiosas em sua compreensão e mais precisas em sua extensão. e) a licitação e compra eletrônica. b) os serviços de telemática para pequenas e médias empresas. Isso significa que a “Sociedade do Conhecimento” (na verdade. órgão especialmente criado para coordenação e divulgação de suas atividades. desenvolvido pela União Europeia e Estados Unidos para garantir uma infraestrutura globalizada da informação. a Sociedade da Informação ou a Super Estrada da Informação. relativos à informática. antes de tudo. 77 . que incluem. pelo MEC/ MCT/ CNPq). desdobrase em ações capitaneadas pelo Estado. ideologicamente. por Empresas Locais e por Redes de Pesquisa (em nosso caso. a expressão empresarial dos investimentos racionalmente programados para o mundo globalizado.6 O conhecimento no projeto educativo da “sociedade do conhecimento” Lizia Helena Nagel A SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO QUE VIROU SOCIEDADE DO CONHECIMENTO A “Sociedade do Conhecimento” é a forma (brasileira) de traduzir.

contraditórios ou contrários ao mercado não podem ser divulgados em função da própria natureza particular da entidade privada da qual emanam as informações. no entanto. 78 . talvez) tem um predomínio tão gigantesco de poucos grupos empresariais sobre a exploração do fenômeno comunicacional de massa. consequentemente. sugere-se o texto de NAGEL. Nenhum país do mundo (exceto México. Ora. de banco de dados. meta definitiva da chamada “Sociedade do Conhecimento” (tão celebrada como grande conquista pelos educadores3!). Regras que. esses megaconglomerados da informação. dinamicamente. também. a ser “democratizado”. os quais. comandam o desenvolvimento da infraestrutura da informação e. Esses organismos. O conhecimento. de forma cada vez mais ampla e sofisticada. essencialmente operacionalizadas pelo privado. Coordenador Geral do Instituto de Estudos e Projetos em Comunicação e Sociedade. Educação e desenvolvimento na “pósmodernidade”. c) exploração comercial de produtos virtuais. não estão sendo analisados. usufruindo total 2 Gustavo Gindre. Infelizmente. no artigo Uma disputa de projetos nas sociedades do conhecimento. por meio de contínuas fusões.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE é do setor privado a responsabilidade primária pelo projeto e pela implementação não só dessa infraestrutura de informação pretendida como pela regulamentação em qualquer nível de parceria e/ou de interconexões das redes (locais. portanto. que as regulamentações que estruturam ou organizam essas redes de informação definem tanto a legitimidade de operações integradas entre várias redes quanto prescrevem o conteúdo e incluem: a) sigilo das comunicações. de forma mais ou menos sutil. o poder dos oligopólios já existentes2. aos oligopólios ou aos mega conglomerados que se apropriam. pelos educadores. esquecem-se de que o conhecimento a ser socializado dependerá dos interesses privados dos organismos que sustentam essa mesma infraestrutura. até hoje. Interesses múltiplos. 3 Para maior aprofundamento da temática. a natureza privada que lhe confere. garantem. divergentes. internacionais. o processo de desenvolvimento da legítima Sociedade da Informação se deve. organização e objetivos. têm poderes ilimitados para determinar a informação que pode ser (re)passada à sociedade. ou repassado em sua estrutura. mesmo quando reconhecidos como articulados por um poder político e econômico definido. tornam-se megaconglomerados da informação. 2007. transnacionais). somente pode expressar. concretude informacional. Cabe lembrar. Quando os educadores listam e apregoam as vantagens da “Sociedade do Conhecimento”. organizam. tem sido citado como exemplo da mais brutal concentração de oligopólios na comunicação. afirma: O Brasil. em sua natureza privatista. louvando a futura “democratização da informação”. b) propriedade intelectual. então.

sin ninguna necesidad . consideradas chaves.] A pesar de ello.en la oscuridad O conhecimento no projeto educativo da “sociedade do conhecimento” 79 . nessa formulação já estão contidas as ideias mestras. o problema principalizado pelo Banco Mundial constitui-se na tese de que a falta de conhecimento. contempla os seguintes itens: a) necessidade de reduzir as diferenças de conhecimentos entre países pobres e ricos. Já pontuamos que. O CONHECIMENTO. 1998-1999). d) delimitação das novas funções do Estado na perspectiva do desenvolvimento global. publicando seu Informe sobre o Desenvolvimento Mundial (1998-1999). PARA OS PAÍSES EMERGENTES O Banco Mundial. Lista sintética das “Lições de Casa” a serem cumpridas pelos países emergentes e que demonstram ter. tornar mais ágil a aquisição de conhecimentos aos homens que não o possuem. Nada melhor. oferece ricos subsídios para considerações pelos educadores. dependendo da forma como se elabora um problema. para a superação da situação aflitiva. fundamentalmente. para isso. expressando sinteticamente as questões trabalhadas na totalidade do Informe.independência de demandas públicas e/ou demandas culturais. como tal.. se pretende. se a educação pressupõe conhecimentos não-sofísticos. não-falaciosos. impede o desenvolvimento. de fato. ainda assim não são analisados pelos educadores como entraves reais para o conhecimento. portanto. b) sugestões para corrigir os problemas derivados da falta de informação dos países em desenvolvimento. Analisando apenas o resumo desse estudo – o conhecimento a serviço do desenvolvimento – pretendemos abordar. A versão resumida.. NA SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO. miles de milliones de personas viven todavía sumidas . Ora. Inicialmente. geradora de pobreza. esse estudo postula: El conocimiento se asemeja a la luz. não é analisado o pensamento do Banco Mundial. passível de ser superada por alternativas direcionadas pelas nações que detêm o saber científico e tecnológico. a convicção de ser a pobreza (de países e de pessoas) resultante da falta de conhecimentos e. que começar examinando as propostas do Informe sobre o Desenvolvimento Mundial (BANCO MUNDIAL. que fornece o roteiro sobre em quais conhecimentos os países em desenvolvimento devem investir. uma legítima Sociedade do Conhecimento. para a educação dos homens do amanhã! Da mesma forma. com capacidade de emancipar-se de qualquer paradigma que não seja definido pelo lucro. Cabe. como ponto de partida. Ora. faz-se necessária uma incursão nessa área. o tipo de conhecimento considerado necessário aos países pobres ou em desenvolvimento. para a inclusão. [. c) políticas para diminuir as deficiências de comunicação por meio de instituições internacionais. das redes.

passa a ser disseminado. O arrazoado do Banco Mundial reativa. em muitos professores o otimismo perdido nos discursos asseguradores da morte dos paradigmas. tira do usuário a possibilidade de compreender. 1998-1999. Também para dar continuidade a esse trabalho. presas ao próprio produto. 1. o Banco Mundial investe naquilo que considera o problema real a ser debelado: a superação da pobreza pela via do conhecimento. e das novas “verdades” asseguradas por esse organismo financeiro internacional4. de serviços. já empacotado. O conhecimento sugerido ao Terceiro Mundo é o saber como um produto acabado. pode ser apropriada por qualquer consumidor. 4. ou mesmo de alguns partícipes de certo otimismo pedagógico não é o mesmo que o Banco Mundial utiliza para defender ou emular o conhecimento nas nações subdesenvolvidas. pelo saber. ao “recuperar” o ideal Iluminista que promete. Los problemas de información son con frecuencia la causa fundamental de las dificultades que los pobres de los países en desarrollo encuentran en su lucha diaria por sobrevivir y mejorar su nivel de vida (BANCO MUNDIAL. a natureza. feito no Primeiro Mundo. a confecção. de modo rápido. servindo para eliminar. A proposta só não revela que esse tempo reduzido. ou suprimido. quando da compra de bens. O conceito de razão embutido nas teses Iluministas. intensamente divulgados ao final do século XX. passível de ser adquirido como uma mercadoria que. expressando os interesses do Banco Mundial. o conhecimento comprado. os passos para a produção. da Ilustração. Todavia. sistematicamente. porque.sean personas o países . a transformação social. a defasagem entre ricos e pobres. do ensino. grifos nossos). segundo indicações básicas de “como usar”. Secundarizando as relações capitalistas na determinação das diferenças entre nações ou homens. contrata Edgar Morin para redigir os parâmetros educativos ideais do século XXI – o que ele realiza no livro: Os sete saberes necessários à educação do futuro. Tese aparentemente cativante.p. reativa em muitos homens. “vide bula”. na verdade. p. Jacques Delors é convocado pelo mesmo organismo. assim como os possíveis danos derivados do produto 4 A Unesco.de los ricos es no sólo que tienen menos capital sino tambíen menos conocimientos. nos mais desavisados. transformando-se em cartilha básica para os professores dos diversos sistemas de ensino. até as últimas consequências. ou de pacotes científicos e tecnológicos. um certo otimismo pedagógico que se alia ao esforço para a difusão da nova forma de ser da educação. 80 . Nessa proposta. e seu livro: Educação: um tesouro a descobrir. objetivada em um pacote. Lo que distingue a los pobres . o estímulo ao crédito na razão ou no conhecimento para o saneamento de problemas sociais também deve ser examinado para além de suas aparências. apresenta a vantagem de suprimir o tempo necessário para a descoberta dos conhecimentos já existentes.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE de la pobreza.

extensão ou complexidade. dessa forma. ou com estruturas teóricas que permitem. dimensão. em toda a sua grandeza. Sente-se livre. de acordo com a frase do Informe: Por otro lado. Comportamentos trágicos para quem precisa aprender. p. inquirir. da necessária disciplina para organizar dados. 2). legitima-se o direito de ser o conhecimento. como promessa de superação das desigualdades. os símbolos. para o entendimento dos produtos elaborados. mas esperados e /ou aconselhados. inclusive. Desvalorizam-se os passos próprios à formação da consciência pesquisadora. Em nome do “necessário desenvolvimento econômico”.adquirido. o comprador do pacote de conhecimento-pronto é induzido a desvalorizar os meios apropriados de investigação. Na perspectiva do Banco Mundial. Estimula-se um voluntarismo destinado a implementar o já constituído. examinar tendências. nessa proposta. as representações. embora o próprio texto do Banco Mundial. En vez de volver a descubrir lo que ya se sabe. uma vez que o consumidor não possui conhecimento teórico e/ou metodológico para tanto. previsões antecipadas dos fenômenos. os métodos de pesquisa. produtiva. atributos ou propriedades dos materiais. as dúvidas científicas formuladas e testadas com o aval de comunidades diversas. los países en desarrollo no tienen que reinventar la rueda ni las computadoras. contraditoriamente. p. do conhecimento sem os desafios que antecedem as legítimas descobertas. apenas uma propriedade dos países já ricos. los países más pobres tienen la posibilidad de adquirir y adaptar gran parte de los conocimientos ya disponibles en los países más ricos (BANCO MUNDIAL. por quem detém o saber. ter familiaridade com critérios de julgamento. Sem negar a importância de transmitir conhecimentos já produzidos pela 81 . Sente-se desobrigado de conhecer os nexos que unem a teoria à prática e eximido de conhecer símbolos ou terminologias específicas. Tira do usuário a possibilidade de analisar e avaliar o material obtido via mercado. ni redescubrir el tratamiento del paludismo. no entanto. la mayor diferencia es la que existe no en el volumen de conocimientos disponibles sino en la capacidad de generación de los mismos (BANCO MUNDIAL. as rotinas pertinentes. 1998-1999. do descarte do passado em direção ao futuro inquestionável. Na apologia do “tempo ganho”. o desenvolvimento dos pobres só é agilizado porque o consumidor do conhecimento-pronto é dispensado de entender ou dominar todo e qualquer procedimento relativo àquilo que ele consome. grifos nossos). O conhecimento no projeto educativo da “sociedade do conhecimento” Suprimem-se pedagogicamente. 1998-1999. com naturalidade. Fica desobrigado de levantar e de testar hipóteses sobre a eficiência e eficácia do que adquire. 2. os atos intelectivos de compor e de decompor as tecnologias. propague: De hecho.

] Al mismo tiempo que el mundo avanza hacia una economía basada en el conocimiento. se observa una tendencia a proteger mejor los derechos de propiedad intelectual. 10). no Brasi eles não passam de 30% nas universidades públicas.] Los países en desarrollo deben participar activamente en las negociaciones en curso sobre estos temas. Opção nunca separada de sistemática propaganda. 9. como podemos ler no texto que segue: Los factores fundamentales para la adquisición de conocimientos en el exterior son tres: un régimen comercial abierto. recomenda serviços de qualidade [mas] de baixo custo. programas de contabilidade e de informática.. [.. 82 .. p. controle da natalidade. afirma-se o poder pernicioso do ideário e da prática que limita o ato de conhecer à aplicação de saberes disponíveis no mercado do Primeiro Mundo. recomenda serem levados aos alunos conhecimentos técnicos sobre nutrição. [.” da produção do saber mais avançado. além de conhecimentos sobre ecologia para impedir a degradação ambiental e manter a força dinâmica do trabalho saudável (BANCO MUNDIAL. de certa forma. 2. O saber científico e tecnológico como propriedade de quem já o detém fica.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE humanidade em geral. 1998-1999.7%. [. la inversión extranjera y la concesión de licencias de tecnología. o ensino proposto para o próprio desenvolvimento econômico já está comprometido.. “a priori. para poner de manifiesto su preocupación de que el endurecimiento de los derechos de la propiedad intelectual pueda inclinar la relación de fuerzas en favor de quienes generan la información y. Orientações que confirmam a redução dos conteúdos e a falta de profundidade dos temas tratados pela escola. 5 Enquanto nos países desenvolvidos o percentual do Produto Interno Bruto destinado à educação beira os 5%. p. o Congresso cortou em 18% o orçamento para 2009 do Ministério da Ciência e Tecnologia. Convém lembrar. grifos nossos). claramente definido como vendável a quem interessar possa. Mesmo com essa diferença. p. Enfim. posto que os argumentos a favor dessa proposta não escondem seu caráter político. agrande las diferencias de conocimientos (BANCO MUNDIAL. Como podemos constatar. é a lógica da desinformação na objetivação da Sociedade do (Des)Conhecimento5 . Na verdade.. que. Empreitada reducionista de valorização meramente mecânica de aplicação da tecnologia já pronta. 1998-1999. acentuando a escolha do ensino em sua forma virtual. Para a educação básica.. enquanto nos países do primeiro mundo os docentes universitários têm grau de doutor.] La concesión de licencias de productos tecnológicos desempeña un papel de creciente importancia en la adquisición de conocimientos por los países en desarrollo. também. no Brasil esse percentual gira em torno de 3. Para o ensino universitário. explorador e opressivo. com a negação. al frenar la adaptación. só esse conjunto de juízos emitido pelo Banco Mundial obriga a refletir sobre como se desenvolvem as relações de produção capitalista à época denominada “Sociedade do Conhecimento”. ficando com um percentual muito inferior nas escolas privadas. nesse documento.

fazem um trio imbatível em termos de credibilidade didática e de citações em projetos pedagógicos de qualquer instância. p. a ciência e a cultura necessárias ao “desenvolvimento” desejado. uma vez que. também Jacques Delors é convocado pelo mesmo organismo. eles entendem por “Sociedade do Conhecimento”. é disseminado. com Perrenoud. os parâmetros educativos ideais para o século XXI. Confirmando a tese de que nunca se abordou tanto acerca da importância do conhecimento e nunca. hoje. ao mesmo tempo. se os professores estabelecem relações entre o “ideal educativo atual” (no Brasil e para o Brasil) com os interesses econômico-financeiros que operam em nível internacional. Enfim. A Unesco capitaneou tanto a escolha e depuração dos conteúdos para a escola da sociedade globalizada quanto a forma de pensar o ensino e a aprendizagem. Para dar continuidade a esse trabalho. Mesmo sem idealizar o sistema educacional como capaz de contrariar o sistema produtivo no qual se insere. autor de extensa obra. ao iniciar sua O conhecimento no projeto educativo da “sociedade do conhecimento” 83 . expostos em seu livro: Os sete saberes necessários à educação do futuro. Morin. nos mais diversos sistemas de ensino. estimulam mais consumidores do que produtores. 11). torna-se imprescindível interrogar os docentes brasileiros sobre o que. concreta e objetivamente.O CONHECIMENTO NO BRASIL (ENQUANTO “SOCIEDADE EM DESENVOLVIMENTO”) NA PERSPECTIVA DOS PROFESSORES Dez anos após a publicação do documento do Banco Mundial aqui citado. Questionamentos importantes. no final dos anos 1990. e seu livro. Importante interrogar. É desculpa para tudo e desfruta. conforme o solicitado. Educação: um tesouro a descobrir. Edgar Morin. sistematicamente. A frase de Batista Junior é tão ou mais importante quando a pensamos no quadro de aceitação em massa das orientações dadas pelo Banco Mundial. os métodos utilizados. Edgar Morin e Jacques Delors. encarregados pela Unesco de detalhar o conteúdo e os procedimentos educativos necessários às novas demandas do capital. de qualquer nível no Brasil. portanto. o conhecimento ou conteúdo proposto pelas Diretrizes Educacionais correspondem às demandas do atual mercado que. com a função que a ONU lhe outorgou de organizar a educação. O peso do marketing a favor das ideias educativas desenvolvidas por esse organismo financeiro e alavancadas pela Unesco é incomensurável. trata de desenvolver o conhecimento na sociedade e. como propõe Batista Junior: “A ‘globalização’ virou pau para toda obra. retira dela as condições para tal realização. nunca se imaginou tanta adesão ao ideário neoliberal que. se eles percebem quanto a pedagogia instituída. transformando-se em verdadeira bíblia da pedagogia. se o desmereceu. redige. ainda. transformaram-se em ícones. da imortal popularidade de explicações que economizam esforço de reflexão” (1998. optamos por arrolar alguns aconselhamentos dados por esses intelectuais tão prestigiados. além disso. sofisticamente. Cumpriu. com tanta ênfase.

criticando a bagagem escolar que considera excessivamente pesada (p. colocando em dúvida o conhecimento existente. os quais. 4) comprometer os alunos com sua aprendizagem e seu trabalho. Morin induz à dúvida sistemática sobre tudo o que já foi dito e feito. 90). da engenharia de alimentos. características cerebrais. e 10) administrar sua formação continuada. da informática médica. esses intelectuais inviabilizam não só o ensino de conteúdos pertinentes a essas áreas como o crédito na própria razão. com o domínio e/ou a profundidade dos conhecimentos específicos de uma área. Nesse quadro de responsabilidades propostas aos professores. em nenhum item. se atendidos. Para ele. Sem tocar nos progressos. induz os professores em geral a privilegiarem as possibilidades subjetivas do educando em detrimento da conquista daquele saber que fez e faz das nações ricas as legítimas proprietárias dos conhecimentos que negociam. 7) informar e inserir os pais na instituição. dos supercondutores. suscitando neles o desejo de aprender. da biotecnologia. 9) enfrentar os deveres e os direitos éticos da profissão. de fato mera tautologia. movem as nações mais desenvolvidas. no mínimo. fundamentalmente. 3) conceber e fazer evoluir dispositivos de diferenciação. alerta para os erros e ilusões do saber e chama os professores a duvidarem da racionalidade que comandou o que já foi descoberto. sugere não estar a mesma relacionada. 8) usar novas tecnologias. 6) participar da gestão da escola. exigente e 84 . Perrenoud (1999). mostrariam a relevância de um professor. Apregoando e repetindo inúmeras vezes a impossibilidade de conhecer as coisas tais como elas são. incluindo a administração da heterogeneidade no interior dos grupos. não encontramos. São eles: 1) capacidade de organizar as situações de aprendizagem que inclui saber trabalhar a partir das representações dos alunos. habilidosos. da engenharia clínica. não repassa aos seus leitores uma valorização respeitosa dos conhecimentos teóricos que. 23). dando uma nova dimensão à palavra competência. a incorreções. 89). como os da robótica. imediatamente. com domínio dos saberes necessários às áreas citadas e em expansão não teria lugar no rol de objetivos das escolas. 5) trabalhar em equipe. que a educação deve reanimar e fortalecer o potencial criativo e a autonomia de cada aprendiz frente ao já existente (p. entre tantas outras práticas concretizadas com sucesso pelo saber teórico existente. Formar futuros profissionais. a desacertos. interessado na formação dos profissionais da educação. O primeiro princípio educativo por ele defendido. 2) administrar a progressão das aprendizagens. mentais e culturais podem levar a juízos falsos. afirmando. criticando a obsessão de acesso ao ensino superior (p. Delors (2001).SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE obra. com proposta similar à de Morin. Reconceituando a competência. por outro lado. divide-a em dez campos. aprender a aprender. preocupação mais imediata com o saber dito científico.

o que realmente unifica tantas contradições e o que congrega tantos professores. O conhecimento no projeto educativo da “sociedade do conhecimento” 85 . Enfim. Interessante é que a condenação feita por esses autores a qualquer sistema já produzido no mundo das ideias. Nesse levantamento. quer na perspectiva das ciências duras (ou exatas). assim. tolerância e solidariedade. pois. Segundo os autores. contraditoriamente. necessita. a educação do século XXI para a negação do conhecimento. a qualquer paradigma. levantamos uma hipótese para o entendimento dessa capacidade docente de crer no inacreditável. ora para a importância da subjetividade em detrimento da objetividade. a obediência aos paradigmas anteriores. três palavras. Ora apelando para práticas pedagógicas mais modernas. no Iluminismo. das artes). pela insistência e valor atribuído a elas. que auxiliam o reconhecimento de necessidades sociais e/ou a elaboração de diversos projetos de vida. de todo e qualquer modo de pensar e/ou de sentir dos seres humanos. por dever de ofício na pós-modernidade. merecem ser destacadas: compreensão. a possibilidade de generalização de princípios? Tentando responder às perguntas dadas. Procuramos identificar. todo e qualquer projeto pedagógico não pode deixar de tê-las como plataforma básica. a escola passa a assegurar que “só o amor constrói”. os pedagogos pós-modernos condenam todo e qualquer sistema de interpretação dos homens em suas relações com o mundo. negado como verdade. qualquer sistema é. muitas informações e dados anteriores. na obra desses autores. Como dar crédito a intelectuais que condenam sobejamente o autoritarismo teórico. tampouco. enquanto oportunizam uma coerção cultural em direção as suas teses? Por que somente as orientações fornecidas por eles precisam ser aceitas como sendo as “legítimas havainas”? Por que se confere crédito a um sistema de ideias quando esse mesmo sistema de ideias afirma não ser válida a transmissão de conhecimentos? Por que se autoriza um modelo educativo que afirma não existir verdades definitivas. de modo consistente. confronta-se. pela admissão incondicional de todo e qualquer modo de ser. À escola é. Condenando os paradigmas em geral. vinculando-os a opções pessoais. da política. sem qualquer análise histórica. ora para o descrédito no Racionalismo. dada a função de (ao invés de oferecer conhecimentos) estimular atitudes reguladas pelo afeto. com o sistema ou o paradigma proposto por eles para a educação do século XXI. repassando.de aprofundamento constante que. que concretizam descobertas importantes na área da mecânica. para a negação das bases epistemológicas que sustentaram e sustentam a tecnologia do mundo desenvolvido. os atuais representantes da intelectualidade educativa direcionam. para esse mesmo aprofundamento. pela sensibilidade. Quer na perspectiva das humanidades (da história. da filosofia. uma pedagogia hipócrita para um mundo ávido de competição e de ganhos financeiros escandalosos. por outro lado.

p. Cadernos de Pesquisa: Revista de Estudos e Pesquisa em Educação. Washington. nov. fazem bem melhor à alma dos comerciantes. (Coleção zero à esquerda). p.. THOMPSON. DELORS. G. 7-26.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE O tempo de escolarização serve. São Paulo: Xamã. M. Informe sobre el desarrollo mundial: el conocimiento al servicio del desarrollo. LAVAL. 6. Prefácio à edição brasileira. Globalização. F. pela introjeção didática de comportamentos não egoístas nos alunos.43. ed. que se esses atributos fazem bem à alma de qualquer cidadão. Petrópolis: Vozes. RIZOTTO. 2001. podemos pontuar que eles. 2004. M. sediados nos países desenvolvidos! Referências BANCO MUNDIAL. Brasília. In: HIRST. G. Educação e desenvolvimento na “pós-modernidade”. N. As armadilhas da globalização.. 9-11. P. 108. MORIN. Os sete saberes necessários à educação do futuro. Relatório para a Unesco da Comissão Internacional sobre Educação para o século XXI. ou. Educação: um tesouro a descobrir.C. L. na “Sociedade do Conhecimento”.. BATISTA JUNIOR. M. R. 1998. F.. Unesco. ed. A escola não é uma empresa: o neoliberalismo em ataque ao ensino público. para garantir a fantasia de que somente teremos um mundo melhor pela renovação de princípios cristãos. P. L. In: NOGUEIRA. P. Brasília. 1999. 11. (Org. D. PERRENOUD. ed. 86 . G. E. J.) Políticas sociais e desenvolvimento. privatizações: quem decide esse jogo? 2. UFRGS. 1998. H. n. P. Importante lembrar. neoliberalismo. 2006. FERNANDES. VIZENTINII. Resumen. 1998-1999. In: CARRION. no entanto. Profissionalização do professor e desenvolvimento de ciclos de aprendizagem. São Paulo: Cortez. São Paulo. R. ainda. 2007. DF: Unesco. p. Porto Alegre: Ed. L. Globalização em questão. 19. NAGEL. Londrina: Planta. C. dessa forma. dos vendedores do saber pronto. DF: MEC. São Paulo: Cortez.

nos últimos dez anos. matemática e ciências.Proposta de Atividade O conhecimento no projeto educativo da “sociedade do conhecimento” 1) Procure no site do INEP os dados estatísticos que revelam o desempenho dos alunos dos Ensinos Fundamental e Médio. Anotações 87 . em português. Faça uma breve exposição das possíveis causas desses resultados e estime os resultados em termos de desenvolvimento da nação brasileira. Assinale a diferença no rendimento dos estudantes ao longo desses anos.

SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE Anotações 88 .

Juntamente com os avanços científicos e tecnológicos. também denominada sociedade do conhecimento. como o avanço científico e tecnológico. especialmente a necessidade de acumular mais e mais capital.7 As funções sociais da escola na atualidade Maria Eunice França Volsi As rápidas mudanças que têm marcado a sociedade contemporânea. nesse contexto? Como entender e determinar o papel da escola em uma sociedade dita Sociedade do conhecimento. por exemplo. Temos ainda o conhecimento como princípio ativo no processo de produção. As transformações que estão ocorrendo na sociedade trazem desafios que. a exploração de uma classe em favor de outra. exigem um novo comportamento. especialmente a educação escolar. Apesar das mudanças na forma de produzir e se organizar que vêm ocorrendo desde a sua criação e das inovações pelas quais tem passado de forma mais intensiva nos últimos tempos. ele passou a ser o recurso determinante nessa nova fase da sociedade capitalista. Essas transformações são frutos do avanço da ciência e da tecnologia às quais os homens recorrem para sanar suas diversas necessidades. que passa a exigir dos homens novas formas de agir tanto nos negócios quanto na própria vida. que expressa a transição para uma outra forma de ser que ainda desconhecemos e sobre a 89 . Todas essas transformações requerem um novo tipo de educação. permanecem. bem como os desafios postos a ela no contexto atual. é necessário entendermos as funções atribuídas à escola. mas como compreendê-la. o individualismo. A sociedade pode ter mudado e inovado as formas de acumular riqueza. como. a acumulação de capital. para serem enfrentados. uma nova visão do futuro dos homens. fazem com que os homens de nossa época se preocupem mais com a formação e consequentemente com a educação. muitas das características que lhe dão sustentação. Diante desta nova realidade. Neste sentido. temos também a globalização da economia. é atribuída à educação a responsabilidade de formar e educar os homens de acordo com as necessidades da sociedade atual. mas ainda é uma sociedade capitalista. denominada também Sociedade do Conhecimento. a globalização da economia e principalmente o fato de o conhecimento ter se transformado no principal recurso no processo de produção.

Do mesmo modo que a Didática Magna de Comênio fora à elaboração. O desafio da qualidade coloca-se para a escola em dois níveis. mas não deve existir somente para atendê-lo. Para tanto. Um tanto complexa. a escola é. projetada para a satisfação das necessidades competitivas ditadas pelo mercado (grifo nosso). pais. uma instituição criada pela classe dominante para reproduzir seus interesses. segundo a interpretação. às necessidades postas pelos homens. a qual também deveria ser a de formar um cidadão crítico. como explica Guareschi (1994). p. desde a sua origem. Estas não se resumem apenas às estabelecidas pelas relações econômicas. se faz necessário pensar na qualidade da educação escolar. caracterizada essencialmente pelo domínio de técnicas. Uma é a formal. segundo a própria história. Essa afirmação acerca da função atual da escola pode ser encontrada na vasta literatura sobre a qualidade total na educação. sua ideologia e garantir as relações de produção. Pensada dessa forma. Na realidade. pela capacidade de manejo de instrumentos 90 . mas por isso mesmo necessária para podermos entender como se situa a educação. de certa forma. a educação é vista como uma mercadoria (de boa ou de má qualidade) e a escola como uma empresa fornecedora dessa mercadoria que qualquer cliente (aluno. Nela. 1994. das respostas no campo educacional. Entendemos que a escola precisa estar em consonância com as necessidades do mercado. acrescenta o autor. sociedade) poderá comprar. De acordo com Ferreira (1998. que a escola não se limite a reproduzir as relações existentes na sociedade. É preciso. 8). a escola hoje desempenha duas funções principais: “preparar mão-de-obra para o capital” e “reproduzir as relações de dominação e de exploração” (GUARESCHI. em meio a essas atribulações. a escola que.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE qual podemos apenas conjeturar? São estas as questões que desenvolveremos e analisaremos na perspectiva sociológica neste capítulo. nada mais são do que a sistematização de uma resposta necessária às questões da formação dos seres que fazem essa sociedade. certamente não poderia seguir por um caminho diferente. pois desta forma estaria reduzida sua função. Neste sentido. sempre atendeu. necessidade estas advindas do próprio processo de produção. p. apesar de serem importantes e necessárias para entendermos a educação e a escola. A educação. em especial a escolar. portanto. diante da materialidade. ela deve estar equipada para permitir dois tipos de qualidade. AS FUNÇÕES DA ESCOLA A escola. 72). hoje a escola tem que ser repensada. pensante e apto a lidar com todas as situações que possam surgir na vida. às demandas da sociedade naquele momento. sabemos.

p.[. 16) afirma que “não há como se chegar à qualidade sem a educação. 115). a alfabetização tecnológica.] tem também. 1998.] a escola tem uma função específica educativa. As funções sociais da escola na atualidade Podemos verificar que não são poucas as funções atribuídas à educação escolar dos nossos dias. no qual os alunos e os professores sejam reconhecidos como sujeitos capazes de inovar e de produzir conhecimento (BEHRENS. a diversidade cultural. ligada a questões do conhecimento. p. o relativismo ético... [. destacamos vários estudiosos da educação e da sociedade contemporânea que definem a função e/ou papel da escola no contexto atual. Ou seja.. p. a superinformação. diante dos fins históricos da sociedade humana (DEMO. capazes de construir elementos categorias de compreensão e apropriação crítica da realidade. p. pois. resgatar a importância da escola e reorganizar o trabalho educativo. a escola deve buscar o conhecimento aliado às qualidades formal e política. considerada a condição primordial da oportunidade de desenvolvimento.. Pensando nessas funções atribuídas à escola na sociedade atual.. 244)... A escola de hoje precisa propor respostas educativas e metodológicas em relação às novas exigências de formação postas pelas realidades contemporâneas como a capacitação tecnológica.] a escola tem um papel insubstituível quando se trata de preparação das novas gerações para enfrentamento das exigências postas pela sociedade moderna. Por isso. estamos nos referindo à escola como um todo.. 10). p. 90-91).. e a provida pela escolarização. Neste contexto a escola deve se apresentar como um ambiente inovador transformador e participativo. ou pós-industrial [. 1993. é preciso. p. 1999. crítico e criativo”. o papel da escola é de ser o lugar próprio onde se inicia e se sedimenta a capacidade de manejar e produzir conhecimentos. a consciência ecológica (LIBÂNEO.] a escola precisa propiciar um ambiente em que os professores e alunos sujeitos do processo possam gestar projetos conjuntos que propiciem a produção de conhecimento. levando em conta o problema do saber sistematizado.] Tem.. Vejamos alguns destes autores e suas afirmações: [.] é o de assumir a condição de lugar de formação de um tipo essencial de competência frente a formação da cidadania e frente às mudanças na sociedade e na economia (DEMO. o compromisso de reduzir a distância entre a ciência cada vez mais complexa e a cultura de base produzida no cotidiano. 114). o compromisso de ajudar os alunos a tornarem-se sujeitos pensantes. propriamente pedagógica. 1993... pois. [.. A outra é a política. [. Demo (1993. traduzida em uma capacidade de o sujeito fazer sua própria história. a 91 . Mas será que a escola que temos está preparada para assumir essas responsabilidades? Quando fazemos essa indagação. bem como não será educação aquela que não se destinar a formar o sujeito histórico.e de procedimentos científicos.] o papel da escola [. a partir do qual se define a especificidade da educação escolar (SAVIANI 1997..

considera a educação básica e o investimento em capital humano como ponto chave para o desenvolvimento econômico e redução da pobreza. Essa ideia de que a educação pode acelerar o progresso econômico. O Banco Mundial. que a escola não está sozinha na tarefa de educar.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE sua estrutura física. EDUCAÇÃO ESCOLAR E CRESCIMENTO ECONÔMICO De acordo com o relatório da Unesco. No momento atual. a nova geração que desponta. estamos nos referindo também ao papel que lhe é imposto pela sociedade. tem sua origem na teoria do capital humano criada nos anos cinquenta. em sua capacidade pedagógica e. Partindo dessa premissa. apesar de amplamente difundida na sociedade atual. que é o de formar os futuros cidadãos. capaz de trazer retorno considerável e aumentar a produtividade e a acumulação de capital. acreditava-se que. p. especialmente nos países em desenvolvimento considerase que o investimento em educação é de suma importância para se alcançar ou pelo menos acompanhar o desenvolvimento econômico dos países desenvolvidos. no entanto. Lembremos. cujos objetivos mais específicos são os adestramentos e reciclagens para o mercado de trabalho. observamos uma retomada desses preceitos. politicamente. órgão que vem financiando a educação nos países em desenvolvimento. O conhecimento é concebido como capital. Muitos serviços instrucionais são prestados por instituições capacitadoras. empresariais e principalmente com a mídia. enfim. a seu currículo. Mercado este tão concorrido que chega a gerar uma contradição: ao mesmo tempo em que se exige constante formação. ela compartilha a tarefa de socialização do saber com várias outras instâncias comunicativas. a suas condições financeiras. Isso significa que uma nação tende a prosperar mais economicamente conforme se dá mais atenção à educação e ao nível de desenvolvimento humano de sua população. Delors (1998. elevar-se-iam suas condições de produtividade e consequentemente seu nível de vida. A teoria do capital humano tem sido utilizada para justificar a necessidade do ajuste entre o sistema produtivo e as políticas educacionais como condição para a prosperidade econômica. 69) propõe que a ciência e a educação são os “motores principais do progresso econômico”. a partir do investimento no homem. embora as condições políticas e econômicas sejam diferentes das daquela época. Constatemos essa premissa no documento do Banco Prioridades y Estrategias para la Educacion – estudio sectorial del Banco Mundial de maio de 1995: 92 . a seu corpo docente. melhorando a qualidade de vida. assistimos ao desemprego em massa e a substituição crescente da mão-de-obra humana por uma “máquina inteligente”. Segundo essa teoria.

neste novo contexto histórico. Atualmente. assim. A educação é vista como investimento capaz de promover a mobilidade social. que a escola forme o trabalhador para dominar conhecimentos primários. xxxii). daí é compreensível a pregação de que deve haver ajuste entre a educação e as demandas criadas pelo sistema produtivo. pessoas capazes de evoluir. Para que a escola tenha sucesso na adequação às novas demandas que lhe são impostas. de se adaptar a um mundo em rápidas mudanças e capazes de dominar essas transformações. sendo o conhecimento o principal fator no processo produtivo e devido ao avanço tecnológico. 1995. para a inovação. como no taylorismo e no fordismo. especialmente agora que as estruturas do mercado de trabalho estão experimentando enormes transformações decorrentes da evolução tecnológica e da reforma econômica.A educação. portanto. O Banco Mundial considera também o investimento em capital humano como “motor principal do crescimento” (BANCO MUNDIAL. Vejamos: A economia e os mercados de trabalho estão experimentando mudanças enormes no mundo todo. Ampliaram-se. em particular o ensino primário e o secundário de primeiro ciclo. de forma que as mudanças de emprego serão mais frequentes na vida das pessoas. é preciso que se levem em consideração as transformações constantes no sistema produtivo. as responsabilidades da educação escolar. à qualidade e à inovação tecnológicas. Para ajustar a educação às demandas do mercado atual. tem-se dedicado mais intensivamente à universalização da educação básica. mas sim que formem. em que a empresa se encarregava do treinamento necessário à execução do trabalho. Observamos a utilização cada vez menor do trabalho manual. A rapidez com que se adquirem novos conhecimentos e se produzem as mudanças tecnológicas implica a possibilidade de se alcançar um crescimento econômico sustentado. Por isso. os empregos nas indústrias tornaram-se instáveis. p. nos últimos anos. A essa realidade não basta. tem importância fundamental para o crescimento econômico e a redução da pobreza. Essa metamorfose pela qual a sociedade como um todo vem passando é relatada também no já referido documento do Banco mundial. Já não se trata de pedir aos sistemas educativos que formem mão-de-obra para empregos industriais estáveis. a desregulamentação da economia e do mercado de trabalho e a migração estão mudando as estruturas de emprego dos países em desenvolvimento. A tecnologia. passíveis de mudanças constantes. o comércio internacional. empregos mais abstratos que se separam cada vez mais da produção pelo esforço físico. é preciso responder às necessidades geradas pelo mercado. As funções sociais da escola na atualidade 93 .

maior a possibilidade de aumento da produtividade e consequentemente de produção de riqueza. que representem o capital intelectual de seu país. o que representava o potencial de uma indústria eram as máquinas que esta possuía. Traduzindo. as pessoas (cérebros) passam a ser vistas como capital intelectual da empresa. é restrito. Isso significa que o grande capital de uma empresa hoje é o conhecimento que ela possui. a tarefa de transmitir e ao mesmo tempo produzir conhecimentos. especialmente o formal. cujo acesso a qualquer tipo de conhecimento. particularmente nos países pobres. hoje. mas sim conseguir manter essa elite detentora e produtora de conhecimentos. Com a transformação do conhecimento no princípio ativo do processo produtivo. Países em desenvolvimento até conseguem formar muitos profissionais com alto potencial cognitivo. É o potencial de conhecimento que também tem classificado um país como desenvolvido ou em desenvolvimento. especialmente a escolar. É claro que esses profissionais representam uma pequena fração da população. Parece evidente que o problema não é tanto formar profissionais com capacidade de produzir conhecimentos. a pobreza intelectual acaba imperando 94 . mas nem sempre são capazes de mantê-los. xxxii). principalmente no que se refere ao aspecto econômico. não é tão simples assim. em busca de melhores salários e melhores condições de trabalho. na Revolução Industrial. “emigram para os países ricos onde as suas potencialidades podem ser mais bem utilizadas e remuneradas” (1998. porém. pois ainda é predominante. uma vez que a educação e o investimento em capital humano são considerados como principais recursos para o desenvolvimento. com a disseminação das máquinas. já que quanto maior a detenção e a produção de conhecimento. é necessário que lhes sejam dadas as condições para que aí permaneçam e apliquem seus conhecimentos. 73). Se.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE Como bem propaga o documento do Banco Mundial: “está cada vez mais evidente que para se ter êxito neste novo mundo os países devem por em prática reformas baseadas no mercado e continuar investindo em conhecimento” (1995. uma grande massa da população em condições precárias. como aventa Delors. este passou a ser considerado um capital decisivo para o desenvolvimento da sociedade como um todo. então. Se o conhecimento se tornou o diferencial no processo de desenvolvimento e se é delegada à educação. ou seja. Estes. parece não ser suficiente formar profissionais com altos níveis de conhecimento. A situação. Isto se aplica também às reformas educacionais. uma escola e uma nação que consigam trabalhar neste sentido estarão respondendo às necessidades da sociedade atual. p. p. o que realmente tem determinado o potencial produtivo de uma empresa é o conhecimento. Nesse âmbito.

D. BEHRENS. 2. Prioridades y estratégias para la educación: estudio sectorial. DEMO. N. Ijuí. 1998. 1994. no entanto. Diante dessa situação. 1998. 7-28. RS.. DELORS. n.nos países pobres. Capital humano e sociedade do conhecimento: concepção neoconservadora de qualidade na Educação. São as relações produtivas entre os homens que. Jacques.1992. abr. Reencantar a Educação: rumo à sociedade aprendente. Curitiba: Champagnat. O paradigma emergente e a prática pedagógica. Mário. Desafios modernos da Educação.C. ed. CORTELLA. Washinton. S. São Paulo: Cortez. FERREIRA. estabelecem as prioridades educacionais e o papel da escola na sociedade. será que realmente a educação via escola poderá resolver ou pelo menos amenizar os problemas desses países? Será que. C. Hugo. CEPAL. direta ou indiretamente. 34. basta produzir e transmitir conhecimentos para que se possam resolver problemas que são frutos das próprias relações estabelecidas entre os homens no meio social em que vivem? Verificamos. 1999. Santiago do Chile. Gestão democrática da Educação: atuais tendências e novos desafios. que é a forma de produção e organização da sociedade que determina qual formação. FRIGOTTO. p. diante da problemática exposta./jun. M. A. A escola e o conhecimento: fundamentos epistemológicos e políticos. 1998. 95 . Petrópolis: Vozes. Petrópolis: Vozes. G. Versión preliminar. BANCO MUNDIAL. 1995. São Paulo: Cortez. Educação um tesouro a descobrir: relatório para a Unesco da Comissão Internacional sobre educação para o século XXI. 1998. qual educação se faz necessária em cada momento histórico. As funções sociais da escola na atualidade Referências ASSMANN. Unesco. 1993. Educação e conhecimento: eixo das transformações produtivas com equidade. Contexto & Educação. Pedro. São Paulo: Cortez.

Sociologia crítica: alternativas de mudanças. Pedagogia histórico-crítica: primeiras aproximações. ed. 100. mar. Proposta de Atividade 1) Como a sociologia da educação pode contribuir para que a escola não seja apenas. p. São Paulo: Cortez. Porto Alegre: Mundo Jovem. 33. 1997. P.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE GUARESCHI. Marília Gouveia de. Rio de Janeiro: Qualitymark. RAMOS. SAVIANI. Novo paradigma de conhecimento e políticas educacionais na América Latina. adeus professora? novas exigências educacionais e profissão docente. Caderno de Pesquisa: Revista de Estudos e Pesquisa em Educação. como explicam alguns autores.37-48. 1997. W. São Paulo: Autores Associados. LIBÂNEO. Educação para uma civilização em mudança. ed. H. reprodutora das relações capitalistas de produção e possa contribuir para a transformação das relações de exploração existentes na sociedade? Anotações 96 . Adeus professor. 11. Excelência na Educação: a escola de qualidade total. KILPATRICK. n. São Paulo: Melhoramentos. José Carlos. 1973. D. C. 1994. São Paulo. MIRANDA. 1998. 1995.

As funções sociais da escola na atualidade Anotações 97 .

SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE Anotações 98 .

decorrente da ‘Reforma Couto Ferraz’. Esse Regulamento. procuramos refletir sobre o poder da indústria cultural. Especialmente a partir do século XVIII. econômicas. ideologia e indústria cultural” pode ser tratado de diferentes perspectivas.000 a 100. para viabilizar a sociedade burguesa e efetivar o sistema capitalista de produção. No entanto. baixado em 17 de fevereiro de 1854 pelo Ministro do Império Luiz Pereira do Couto Ferraz. No Brasil. a criação desse sistema enfrentava as dificuldades decorrentes das precárias condições materiais. p. bem como abordaremos as dificuldades de sua implementação no Brasil. sua ideologia e seus reflexos na escola. nesse período. uma vez que este precisava ser adaptado ao novo modo de produção industrial. foi criada e idealizada segundo o projeto burguês de educação. a partir do Regulamento de 1854. estabelecia em seu artigo 64 a obrigatoriedade do ensino. o debate relativo à importância da educação nacional e da criação da escola foi intenso. culturais e políticas. determinando uma multa de 20. a ideia de sistema nacional de ensino só surgiu no século XIX. com base em alguns conceitos. Em seguida. procuramos resgatar. como a escola se universalizou com a criação do sistema nacional de ensino. ou seja. de forma sintética. Nas últimas décadas do Império. 253). mas os projetos de instrução em nível 99 . as transformações sociais. 2004. considerando que a construção de redes de escolas em todo o território nacional dependia de recursos financeiros para investir na educação. que acompanharam as revoluções burguesas na Europa e o processo de industrialização e urbanização exigiam a formação de trabalhadores qualificados para ocupar os postos de trabalho e a instrução do povo. dobrando-se a multa em caso de reincidência (SAVIANI. BREVE HISTÓRICO DA ESCOLA A escola.000 réis aos pais ou responsáveis por crianças de mais de sete anos que a elas não garantissem o ensino elementar. tal como a conhecemos hoje. Neste capítulo. ideologia e indústria cultural Íris Yae Tomita / Teresa Kazuko Teruya / Vanderlei Siqueira dos Santos O tema “escola.8 Escola.

denunciavam a situação precária das escolas e dos métodos de ensino. Nessa época. cujo resultado levaria o país ao crescimento econômico e ao desenvolvimento social e cultural. Após 26 anos do Manifesto dos Pioneiros da Escola Nova. uma vez que deve atender às necessidades do mercado. 1984. Os debates em torno do pensamento educacional não surgiram espontaneamente. nossos costumes e realidades. a pesquisa deve ser de cunho prático e utilitário. com o caráter nacionalista que lhe deram as novas correntes culturais de São Paulo e Rio de Janeiro. o projeto foi abandonado. Com a Proclamação da República. engajados no movimento progressista. de debates e de decisões em assembleias. a fim de conduzir a humanidade para a paz e a harmonia. Para o autor. na história da educação no Brasil. No Manifesto dos Pioneiros da Escola Nova em 1932 foram traçadas as diretrizes da nova política nacional para a educação escolar no Brasil. Atualmente. Era o movimento da Escola Nova. esse comportamento da elite favoreceu o crescimento da miséria e o atraso no desenvolvimento social. Segundo Lemme (1984).SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE nacional também não se realizaram por falta de investimento financeiro. passou a ser discutida a necessidade da implantação de rede escolar em nível nacional. Após a Revolução de 1930. a ideologia neoliberal vem dominando o processo de globalização e define a produtividade. em 1959. Havia uma crença de que a educação poderia substituir o espírito de revoltas e guerras pelo espírito de diálogo. A privatização é a meta do projeto 100 . No bojo dessas transformações. realizava-se a “Semana de Arte Moderna”. o problema da instrução escolar novamente voltou ao palco dos debates. os educadores brasileiros. para as características de nossa terra e de nossa gente. Desse ponto de vista. 259). foi o único nesse gênero. da riqueza e do poder. p. sendo retomado somente em meio à crise da década de 1920. No Congresso Nacional tramitou outro documento: o Manifesto dos Educadores Democráticos em Defesa do Ensino Público. esse documento histórico teve um caráter abrangente e. que até então desprezávamos e desconhecíamos completamente” (LEMME. Os defensores da educação popular argumentavam que a necessidade de expansão da escola pública era condição para a democratização da cultura. capitaneada pela oligarquia cafeeira. Foram impulsionados pelas transformações no mundo industrial e pelas ideias de renovação dos métodos na Europa pós-guerras. a eficiência e a competitividade como indicativos da qualidade total. no respeito à personalidade e ao interesse da criança contra a velha pedagogia coercitiva dos jesuítas. que defendia o método baseado na psicologia infantil. Era uma tentativa de romper com os modelos europeus e olhar para “as coisas de nosso País. Florestan Fernandes (1966) denunciava a precariedade da instrução popular e o descaso das camadas dominantes em relação à universalização da instrução primária.

a qual atua de forma discriminadora e repressiva. é necessário compreender a ação da indústria cultural no processo educativo. Essa imposição vem da autoridade pedagógica e do poder arbitrário que se encontra na autoridade legítima. A expansão e a diversificação das tecnologias de informação e comunicação lançadas ao mercado oferecem. a partir da década de 1920. Escola. conforme a perspectiva do materialismo histórico cunhada por Marx e Engels. De acordo com essa teoria. Dentre os sociólogos que. o qual ficou conhecido como Escola de Frankfurt. Adorno e Max Horkheimer. AIE jurídico. Se Altusser já denunciava a escola como um AIE que reproduz a ideologia burguesa. podemos citar Pierre Bourdieu e Passeron. os aparatos da mídia são mais eficientes para transmitir a ideologia. Theodor W. Na cidade de Frankfurt. exerceram influência sobre os educadores brasileiros. ideologia e indústria cultural 101 . Erik Fromm. assim.neoliberal de educação. denunciam a função da escola como reprodutora da ideologia burguesa na sociedade. para identificar a ideologia da mídia. como veremos a seguir. Como a teoria crítica desenvolvida pelos pensadores da Escola de Frankfurt muito contribuiu para enriquecer as nossas reflexões sobre a influência da indústria cultural no processo de difusão da ideologia burguesa e da racionalidade técnica. que atrela a escola e a universidade pública aos critérios mercantis de produtividade. AIE familiar. os quais elaboraram a teoria da violência simbólica. AIE sindical. Entendemos que. o Estado impõe sua ideologia por meio do AIE religioso. adverte Saviani (1995). AIE político. Alemanha. vamos nos dedicar um pouco a ela. na década de 1970. AIE da informação e AIE cultural. especialmente. entendida como elemento de controle opressivo e dominação. podemos citar Herbert Marcuse. As teorias crítico-reprodutivistas. Jürgen Habermas e. um grupo de intelectuais formava o Instituto de Pesquisa Social. AIE escolar. com suas inovações e técnicas de manipulação. é preciso esclarecer que entendemos o conceito de ideologia como falseamento da realidade. hoje. uma vez que se utilizam do entretenimento para seduzir o público. IDEOLOGIA E INDÚSTRIA CULTURAL Primeiramente. podemos enunciar que. Dentre eles. Louis Altusser procurou demonstrar que a ideologia se materializa nos Aparelhos Ideológicos de Estado (AIE). é necessário analisar criticamente as mensagens da mídia e desvendar a ideologia que ela propaga. que desenvolveram análises críticas referentes ao engodo da razão iluminista e dos sistemas totalitários nazifacistas da cultura massificada. Por isso. a escola impõe arbitrariamente a cultura dos grupos ou classes dominantes aos grupos ou classes dominados. recursos cada vez mais sofisticados. Valter Benjamim.

considerado um clássico do pensamento do século XX. por Adorno e Horkheimer. estandardizada e alienante com que atinge as massas. o capitalismo. que a priori parece preconceituosa. em consequência. o cinema era indústria. a ambiguidade do termo cultura de massa. uma dimensão massificada e. na obra Dialética do Esclarecimento. Em lugar de este ser expressão de uma cultura procedente das massas. A racionalidade técnica hoje é a racionalidade da própria dominação. A cultura passa a ter. portanto. em 1930. A indústria cultural 102 . Ele revela uma cultura comprometida com os aparatos instrumentais gerados pela sociedade industrial. onde escreveram o livro: Dialética do Esclarecimento. perpetuando. O termo indústria cultural torna-se mais apropriado para conceituar o papel alienante e fetichista que a produção dos bens culturais passou a ter no processo de desenvolvimento da sociedade industrial. Horkheimer e Adorno foram para os EUA. feita pelas massas. mas de uma cultura feita para as massas. exerce uma função ideológica de adaptação do indivíduo ao contexto historicamente determinado. p. Segundo esses pensadores alemães. por meio de seus aparatos. que. administrada. 1994. por via da razão iluminista. Gabriel Cohn (1994) assinala que o termo indústria cultural foi criado com o intuito de desvendar o caráter fetichista e manipulador do processo de produção e veiculação da cultura. Suíça. Nas relações com o mundo. ao passo que na Europa era arte. de uma cultura surgida espontaneamente das próprias massas. o que implicaria um sentido democrático e popular. a exclusão e a exploração. Horkheimer foi nomeado diretor da escola. Adorno e Horkheimer alertam para o fato de que a indústria cultural traz consigo a ideologia do capital. neste sentido.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE De acordo com Bruno Pucci (2003). nos EUA. O termo “indústria cultural” foi usado pela primeira vez em 1947. sociedade representante da emergência das transformações tecnológicas trazidas pelo capitalismo. prometia tirar o homem da tutela do trono e do altar e dar a ele condições e autonomia. foi transferida para Genebra. sobressai a dimensão totalitária. em 1933. dirigida e. Desfaz-se. HORKHEIMER. Segundo estes dois pensadores alemães banidos para um território norte-americano. é preciso compreender o conceito de Indústria cultural cunhado por Adorno e Horkheimer. Para entender essa ideia. No entanto. Um ano depois. Ela é o caráter compulsivo da sociedade alienante de si mesma” (ADORNO. enfeitiçado pelo vertiginoso “progresso” da dimensão instrumental dessa mesma razão. conduziu o homem a uma nova tutelagem: ser escravo das tecnologias que ele mesmo criou. perdendo o seu caráter de consistência civilizadora e emancipatória. 114). desse modo. ponto mais desenvolvido do capitalismo monopolista. Não se trata. “O que não se diz é que o terreno no qual a técnica conquistou seu poder sobre a sociedade é o poder que os economicamente mais fortes exercem sobre a sociedade. o ser humano tem necessidade de simbolizar o seu cotidiano e esses símbolos passam a representar essas relações.

ao invés da indústria cultural possibilitar aos sujeitos uma experiência emancipatória. eles também são fruto de um processo alienante. Os autores preconizam que: a diversão não passa de simples prolongamento do trabalho mecanizado e possui. que está latente em um determinado produto. entendido como o abandono descontraído à multiplicidade das associações e ao absurdo feliz. o produto prescreve toda reação [.. Mas o puro entretenimento. Essa é uma questão de fundamental importância para a compreensão dos aparatos da indústria cultural e que nem sempre é bem entendida. por isso. não está no fato de a indústria cultural propor diversão. Alienante porque leva o indivíduo a uma falsa experiência do real. quando se consome uma determinada mercadoria. consomem-se também as relações de subordinação nela imbricadas.] Toda Escola. Mais do que um produto. transformando-as em mercadorias. Os indivíduos não têm nenhuma forma de resistência a essa tendência porque não percebem o mecanismo de tal sistema.penetra nessas formas de representações subjetivas construídas pelos indivíduos. mantendo uma relação de dominação e reforçando a incapacidade de superação. INDÚSTRIA CULTURAL E ENTRETENIMENTO Adorno e Horkheimer (1994) pontuam que a indústria cultural permanece a indústria da diversão. Não são estes que alienam a sociedade. dando a falsa impressão de que eles são reconhecidos e integrados socialmente e não administrados em seus desejos e atitudes. é cerceado e estorvado pelo entretenimento corrente que a indústria cultural teima em acrescentar a seus produtos. INDÚSTRIA CULTURAL E CONSUMISMO Adorno e Horkheimer (1994) alertam para a violência com que a indústria cultural leva os indivíduos ao consumo desenfreado de mercadorias. como alienantes. consome-se uma ideologia. Dessa forma. por exemplo. acaba reforçando os estereótipos com os quais a subjetividade humana está comprometida. O logro. mas no fato de ela estragar o prazer. uma doença incurável. ideologia e indústria cultural 103 . e sim no consumo do todo da indústria cultural. Por trás de um determinado produto há uma estereotipia que faz parte do todo da indústria cultural e que se revela nesse particular. Da mesma forma. Não basta ver um produto. uma vez que envolve seu tino comercial nos clichês ideológicos da cultura em vias de se liquidar a si mesma. um programa ou um ator da mídia. ‘O espectador não deve ter necessidade de nenhum pensamento próprio. A violência da indústria cultural não está manifestada apenas no consumo de algum produto material específico dessa indústria. pois..

o lugar dos bens superiores. Tudo o que exigir um esforço mental maior e demandar maior capacidade reflexiva por parte do telespectador. Por trás dessa lógica. 1994. p. 135). concedido por um ser superior apenas para alguns privilegiados. HORKHEIMER. Destruindo a capacidade de individuação. que o convidado deve se contentar com a leitura do cardápio. Por estarem acostumados e conformados à indústria cultural. 128-129). esquecer o sofrimento até mesmo onde ele é mostrado. mas da última ideia de resistência que essa realidade ainda deixa subsistir. É na verdade uma fuga. mas não. que ele expulsa inteiramente das massas. a própria indústria do prazer é apresentada como se estivesse em busca dessa pessoa. A liberação prometida pela diversão é a liberação do pensamento como negação. O entretenimento é ofertado pela indústria cultural ao trabalhador como recompensa pelo esforço dedicado às horas de trabalho. excitado por nomes e imagens cheios de brilho. exclusivamente. a diversão se torna a própria apologia da sociedade industrial. A própria felicidade é entendida como um privilégio. 1994. esconde-se o grande limite da indústria cultural: ocultar. Mesmo quando o público se rebela contra a indústria cultural. afundando-se em um lamaçal de contradições que esconde a sua própria dor. anulando a capacidade do indivíduo de reconhecimento e emancipação. são levados a posturas de submissão paciente perante as mensagens e produtos da mídia. p. Na maioria das vezes. acabam rindo da sua própria desgraça. A impotência é a sua própria base. aquilo que é regressivo e coercitivo na sociedade industrial. Nessa falsa sociedade até o riso 104 . Significa que jamais chegaremos à coisa mesma. a indústria cultural destrói a possibilidade de os indivíduos se reconhecerem como sujeitos de si e de sua história. uma fuga da realidade ruim. essa rebelião é o resultado lógico do desamparo para o qual ela própria o educou (ADORNO. A promissória do prazer. O entretenimento acaba por tomar. A indústria cultural não cessa de lograr seus consumidores quanto ao que está continuamente a lhes prometer. emitida pelo enredo e pela encenação. na medida em que deixa de revelar o todo do processo social. HORKHEIMER. O descaramento da pergunta retórica: mas o que é que as pessoas querem? Consiste em dirigir-se às pessoas como sujeitos pensantes. por meio da estereotipagem da cultura. Divertir significa sempre: não ter que pensar nisso. Nas palavras de Adorno e Horkheimer. como afirma. é prorrogada indefinidamente. quando sua missão específica é desacostumá-las da subjetividade.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE ligação lógica que pressupunha um esforço intelectual é escrupulosamente evitada (ADORNO. deve ser evitado devido à cumplicidade deste com o processo de trabalho. principalmente os mais desatentos. o que enfim se serve é o simples encômio do quotidiano cinzento ao qual ele queria escapar. No fundo. Ao desejo. os consumidores.

Adorno responde que aquilo que é semicompreendido e semi-informado não é estágio prévio da cultura. seja na produção.atacou. Dessa forma. emancipatório. Essa ideologia já não seria um conjunto ideal no plano das ideias. a felicidade. a semiformação passou a ser a forma dominante da consciência atual. a qual poderia ampliar-se em consciência crítica graças a seu potencial de dúvida. de manter uma relação de objetivação com as coisas e acontecimentos e perde a capacidade de emancipação entendida como conscientização e racionalidade. que exija maior capacidade de concentração e reflexão. SEMIFORMAÇÃO E EDUCAÇÃO No livro Dialética do Esclarecimento. chiste e ironia. mas o resultado de um processo planejado de supressão das possibilidades libertadoras até mesmo da incultura. mas a própria ordem social. parafraseando Adorno. HORKHEIMER. o que a reforçaria como semiformação. e até mesmo com sua ajuda. Ao argumento de que seria melhor o contato precário com a cultura do que nenhum. É essa a lógica da indústria do entretenimento. com a repetição padronizada de seus produtos e do imediatismo. como uma doença. pois a formação nada mais é que a cultura tomada pelo lado de sua apropriação subjetiva. Adorno (1996) salienta que. Substituindo toda e qualquer forma mais elaborada de conteúdo. Rir-se de alguma coisa é sempre ridicularizar. a indústria cultural rouba dos sujeitos a capacidade de reflexão. Adorno e Horkheimer referem-se a ela como uma determinada forma social da subjetividade socialmente imposta por um determinado modo de produção em todos os planos da vida. Rodrigo Duarte (2003). o que exige uma teoria que seja abrangente. cada uma das quais se entrega ao prazer de estar decidida a tudo às custas dos demais e com o respaldo da maioria (ADORNO. deixa de se reconhecer e nomear seus sentimentos. amadurecimento e enfrentamento da realidade. mergulhado na oferta e na promessa do falso prazer (porque o indivíduo não experimenta o prazer e sim a sua estereotipia). A semiformação vai muito além de uma Escola. ideologia e indústria cultural 105 . O lazer perde a despreocupação e a leveza da sua essência. estão as primeiras referências à semiformação. De acordo com Wolfgang Leo Maar (2003). 1994). Neste sentido. o entretenimento aparece como meio privilegiado para eliminar da cultura o pouco de resistência que ainda existe. esclarece que a semiformação ou semicultura não significa pura e simples falta de cultura. Adorno diria que hoje a sociedade é ela própria uma ideologia. Rouba da cultura aquilo que é revelador. transformando-se em um enlatado pesado da sociedade do trabalho. seja fora dela. São mônadas. Para essa teoria. Um grupo de pessoas a rir é uma paródia da humanidade. mas seu inimigo mortal. O indivíduo. apesar de toda ilustração e de toda informação que se difunde. a ideia de cultura não pode ser sagrada.

Refere-se a uma forma ordenada da sociedade contemporânea. seria igualmente questionável se ela ficasse nisto e não produzisse nada além de pessoas bem ajustadas. pois o professor pode não ter formação para criticar uma linguagem que. muitas vezes. 106 . é preciso aplicar toda a energia para que a educação seja uma educação para a contradição e para a resistência: contradizer e resistir são modos de se ir além do plano da reconstrução cultural e da vigência da semiformação e de se referir ao plano da vida real efetiva. consideramos que a maior contribuição de Adorno e Horkheimer é “esclarecer o esclarecimento”. ao fato de que a educação – por sua essência racional e conscientizadora – seria imponente se ignorasse a adaptação e não preparasse os homens para se orientarem no mundo. precisamos examinar os diferentes tempos e espaços da cultura e sua formação fora do âmbito estritamente cultural ou pedagógico definidos na sociedade. E o segundo. Todavia. determinada conforme certo modo de produção social dos homens. Enquanto isso. É necessário investigar o plano ou o contexto da própria produção social e material da sociedade em sua forma determinada. vêm realizando reflexões e críticas relativas ao conteúdo ideológico utilizado pela mídia. cuja pressão sobre as pessoas é tão intensa que supera toda educação. Em seu pensamento. a TV continua sendo um utensílio tão ou mais importante que outras necessidades básicas. Maar (2003). desconhece. apontando as ideologias pelas quais enveredou a modernidade. informa que Adorno menciona a existência de dois problemas difíceis quando se trata de emancipação: o primeiro refere-se à própria organização do mundo – expressão da ideologia dominante – que teria convertido a si mesma imediatamente em sua própria ideologia. e somente nesse âmbito pode ser adequadamente apreendida. no debate radiofônico “Educação para quê?”. na perspectiva da educação para os meios de comunicação. A consequência seria de que a situação existente se imporia no que tem de pior Neste sentido. há que se questionar o método utilizado para promover essa visão crítica. os retornos positivos dessa prática nem sempre atendem às expectativas. IDEOLOGIA E INDÚSTRIA CULTURAL Os pesquisadores. Primeiramente. Nem mesmo os mais críticos deixam de assistir à TV: proíbem os filhos de fazê-lo. REFLEXÕES SOBRE A ESCOLA. Do ponto de vista educacional. No entanto.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE “perturbação pedagógica” no interior de uma determinada situação social educacional. Para captar a essência na análise da historicidade da construção educacional. inspirados na visão frankfurtiana da teoria crítica iniciada na década de 1930. o primordial é não perder de vista a constelação em que a educação é estruturada.

ideologia e indústria cultural 107 . Os programas televisivos. p. que continua mantendo o modelo tradicional de ensino.mas eles próprios não a desligam. filosofia. 1995. Essa visão reflete a ideia de que a criança é um ser incompleto. existe também uma função formativa ou deformativa da consciência humana. Talvez até mesmo acreditem estar se comportando de um modo realista. apresentando perfis com os quais ainda não estamos preparados para lidar. Adorno opõe-se a esse instrumento ideológico. de modo que as pessoas absorvem a harmonização oferecida sem ao menos se dar conta do que lhes acontece. Bourdieu (1997. p. E justamente aqui é necessário resistir” (ADORNO. vêm semiformados. uma vez que é enorme a quantidade de espectadores que ocupam muito tempo assistindo a televisão. cujo conteúdo apresenta modelos aparentemente ideais de conduta para os homens alcançarem uma vida verdadeira. p. que visam à formação geral ou à profissionalização. A televisão como ideologia procura incutir uma falsa consciência. “o contrabando ideológico se realiza sem ser percebido. 9) preconiza que a televisão “expõe a um grande perigo as diferentes esferas da produção cultural. A mídia eletrônica tornou-se um instrumento poderoso. mediados pela linguagem da mídia. 86). ciência. antes mesmo de ingressar na vida escolar. A harmonização e a deformação da vida são imperceptíveis para o público. 1995. como no caso da televisão educativa. De um lado. arte. qual seria o critério para que a criança pudesse assisti-la? Censurar ou selecionar os programas da TV para que seus filhos possam assistir não é caminho. Talvez porque se sentem mais preparados para assisti-la sem serem persuadidos. porque são perfeitamente realistas. p. 77). literatura. expõe a um perigo não menor a vida política e a democracia”. ocultar a realidade e impor um conjunto de valores ideológicos. 84). O problema é que a reprodução da ideologia na TV não é percebida. A linguagem televisiva de fácil assimilação e a fragilidade da escola são fatores que contribuem para transformar a televisão em uma fonte de entretenimento e diversão para as crianças e jovens. De outro. Escola. “dando a impressão de que as contradições presentes desde os primórdios de nossa sociedade poderiam ser superadas e solucionadas no plano das relações inter-humanas. de excelente qualidade técnica. Nesse caso. na medida em que tudo dependeria das pessoas” (ADORNO. Adorno tem um duplo posicionamento sobre a formação pela televisão. pois ela alcança quase todas as pessoas no mundo. apresentam-se como imparciais e neutros. ela oferece serviço de formação cultural. 1995. Quais seriam os efeitos de transmissões sem objetivo educacional? Ele entende que o uso em grande escala da televisão “contribui para divulgar ideologias e dirigir de maneira equivocada a consciência dos espectadores” (ADORNO. torna-se um local monótono e desinteressante. direito. O professor enfrenta o grande desafio de lidar com educandos que. A escola.

as tragédias que ocorrem no mundo. nos shows. Em se tratando de um jovem que desde o seu nascimento convive com a televisão. no entretenimento. como. 2006). por exemplo: o tempo. nos computadores. nos bate-papos. direciona as preocupações e incita o desejo de consumir cada vez mais coisas. um escândalo. A indústria cultural. no 1 O termo “assunto-ônibus” é utilizado por Bourdieu (1997) para referir-se àqueles assuntos banais da vida cotidiana. um crime e outras tragédias. além de produzir a ilusão. na rede. tem legitimado o poder econômico e político. o sucesso comercial. destacando diariamente os eventos esportivos. podem estar contaminadas pelos diferentes níveis de preconceitos e de valores éticos e políticos pervertidos. “O importante é viver a vida e não ser careta”. São flashes de acontecimentos cotidianos informados artificialmente.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE Por que esse perigo existe? As emissoras de televisão estão de olho nos índices de audiência. o sexo. nos CD-ROMs. A mídia define o modelo de indivíduo para a sociedade. 108 . nos vídeos. os programas estão sempre atrás de novidades e variedades. a chuva. mas sim na capacidade de entreter o público. isto é. nos telejornais. provavelmente o poder de influência desta sobre a representação da realidade é muito maior. podem manipular uma seleção de imagem do cotidiano e adaptar a uma mensagem ideológica. crimes. denúncias de corrupções e escândalos. por sua vez. nas informações. as novelas. especialmente o aparato televisivo e o cinema. é a exibição da racionalidade técnica de representação e ilusão. de maneira geral. O espetáculo está presente nas novelas. Essas categorias são “estruturas invisíveis” que organizam a visão de mundo construída por meio da educação. prioritariamente. os programas de humor e de futilidade. Tudo em forma de entretenimento. isto é. são pouco exigentes. imprimindo o consenso nas mentes e nos corações dos indivíduos. o jornal reúne uma variedade de “assuntos-ônibus”1 para garantir um nível desejável de audiência. As pessoas. Para satisfazer o público. A mensagem publicitária atua na área da emoção. incêndios. Alguns assuntos ganham mais destaque porque despertam as curiosidades e prendem a atenção dos telespectadores. da vaidade. um acidente. como catástrofes. da autoafirmação e da autoestima. O espetáculo. Essas categorias de percepção. no consumo. de acordo com as categorias de percepção do repórter ou dos produtores. por isso não investem na qualidade de seus programas. na Internet. Elas têm o poder de “ocultar mostrando”. Para manter o sucesso de audiência. A técnica do espetáculo garante o entretenimento e pode transformar uma determinada realidade com o potencial de falsificar ou simular imagens previamente montadas para mostrar uma estrutura escolar (TERUYA. nos sites. da cultura e da história. não leem jornais e têm a televisão como a única fonte de informação. nos CDs. O telejornal e a imprensa escrita sensacionalista difundem.

fama e beleza. se ali estão presentes as formas reducionistas da própria cultura. prestígio. no convite ao consumo. minimizando ao extremo os poucos resquícios de resistência. inteligência. Esta é a lógica da ideologia capitalista. O que importa é fazer de si um espetáculo. a mediação do professor é de fundamental importância no processo de recepção. equipados com recursos para conquistar o sucesso de público. Mediadas pelas mensagens de fácil assimilação e requintadas pelos apelos emocionais que os recursos audiovisuais da indústria cultural produzem com muita eficiência e convencimento. levá-los a perceber que ela apresenta uma sociedade harmônica. As imagens espetaculares da televisão têm o poder de fazer o telespectador acreditar naquilo que ele vê. pois as imagens veiculadas nos meios eletrônicos limitam a capacidade intelectual das pessoas. por exemplo. Hoje. do som. cada vez mais. Mais do que ignorar a influência dos meios de comunicação. elas educam a visão humana de forma cada vez mais atraente. despertar sua consciência sobre o engodo dos produtos da indústria cultural. Os professores reconhecem que os meios de comunicação desempenham função educativa paralela à da escola e que estão. conforme o pensamento de Adorno. Todavia. Todos nós participamos desse espetáculo de consumidores em que desfilam mercadorias e que revela a nossa identidade na sociedade. os produtos da indústria cultural estão presentes na sala de aula.shopping-center com suas mercadorias glamorosas. sem qualquer tipo de contradição social. de modo a imprimir um pensamento único segundo os interesses da elite. Cada modelito novo significa a visualização de uma personalidade à procura de seus pares. Não importa se o que mostra é falso ou verdadeiro. também estão presentes as possibilidades de emancipação e libertação. o professor pode ajudar os alunos a formar uma consciência crítica sobre os produtos e as mensagens midiáticas. que impõe um espírito competitivo. A leitura da imagem exige abstração e reflexão crítica. cujo perfil é mostrar se os indivíduos têm dinheiro. Essa representação da realidade que o mundo da imagem. São crianças que crescem em frente à televisão. Escola. deve também ajudar o aluno a perceber que. do ritmo e da animação nos oferece é a pura ideologia disseminada pela indústria cultural. mais do que nunca. O professor pode. Nesse contexto. ideologia e indústria cultural 109 . ajudar os alunos a perceber as falsidades presentes na vida da sociedade culturalmente construída.

1997. Sociologia. 1994. n. (Coleção polêmicas do nosso tempo). 255-272. 83 p. SP. Esquematismo e semiformação. SP: Autores Associados. Campinas. 3. ago. v. 1984. 2003. Campinas. 24. COHN. ano 17. 2006. SP. Theodor W. 65. ed. D. 1994. 83. A idéia de sistema nacional de ensino e as dificuldades para a sua realização no Brasil no séc.. 56. XIX. 2004. Gabriel. p. Educação e Sociedade: Revista de Ciência da Educação. FERNANDES. Pedag. v. ______. 150.. Coimbra: Sociedade Portuguesa de Ciências da Educação. Bras. 2004. R. Wolfgang Leo. v. ago.. SP. p. 30. 2003. São Paulo: Ática. Rodrigo. Tradução de Maria Lucia Machado. Campinas. ago. p. ADORNO.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE Referências ADORNO. Educação e Sociedade: Revista de Ciência da Educação. Teoria da semicultura. Paschoal. In: FERREIRA. curvatura da vara. 2003. Educação e emancipação. K. MAAR. Bruno. Theodor.. de Almeida. 24. HORKHEIMER. 459-476. 1995. n. Educação e Sociedade: Revista de Ciência da Educação. p. Max. Maringá: Eduem. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. Brasília. n. G (Org. CONGRESSO LUSO-BRASILEIRO DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO..). n. n. Trabalho e Educação na era midiática. ______. São Paulo: Paz e Terra. maio/ago. 250-256. Theodor W. SAVIANI. Adorno. 83. DF. São Paulo: Dominus. BOURDIEU. Pierre. SP. ADORNO. A escola nova e suas repercussões na realidade educacional brasileira. 35. T.45. 1995. Sobre a televisão. Tradução de Guido A. Educação e Sociedade: Revista de Ciência da Educação. Campinas. A Filosofia e a música da formação de Adorno. A. v. Campinas. LEMME. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. TERUYA. Coimbra. Est. onze teses sobre educação e política. 377-389. 441-458. Dialética do esclarecimento. Anais.. F. PUCCI. 1966. 24. DUARTE. semiformação e educação. 110 . p.. Educação e sociedade no Brasil.1996. Escola e democracia: teorias da educação.

Anotações 111 . observe as manifestações das crianças no espaço escolar. Em seguida. ideologia e indústria cultural Proposta de Atividade 1) Após a leitura deste capítulo. faça uma análise dessas manifestações para verificar como a indústria cultural interfere no mundo infantil.Escola.

SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE Anotações 112 .

9 Segregação. por alguma deficiência. elas eram exterminadas ou abandonadas. até a forma de morrer ou viver. A mais antiga forma de segregação foi a eliminação das pessoas que. sem obstáculos. por fim e para sempre. os recém-nascidos eram examinados por uma comissão especial. o caminho da utopia exige passos mais curtos. por isso. (Gabriel Garcia Márquez) Nunca é tarde para utopias. Nesse caso. 113 . a dedicação à guerra exigia um corpo forte e perfeito. UM POUCO DE HISTÓRIA: DA SEGREGAÇÃO À INTEGRAÇÃO A história dos homens é marcada pela segregação dos diferentes. Outros exemplos de eugenia radical são os da eliminação dos surdos na China. não conseguiam providenciar o seu próprio sustento ou defender-se nas situações de perigo. que vai da segregação entre os antigos até a luta pela inclusão social em nossos dias. mais justos e solidários. assim. No presente capítulo. Onde as estirpes condenadas a Cem anos de Solidão tenham. Na antiga Grécia. que reconhecia ou lhes negava o direito de viver. outros mais longos. sonham e buscam novos caminhos. excluir. pessoas pensam. um percurso de conquistas e retrocessos. No entanto. integração/inclusão escolar: a educação de pessoas com necessidades especiais Nerli Nonato Ribeiro Mori Temos o direito de acreditar que ainda não é demasiado tarde para empreender a criação da nova utopia da vida. A educação de pessoas com necessidades especiais também tem sido. em Esparta. alguns até mesmo para trás. ultrapassar o já estabelecido nunca é um processo tranquilo. onde ninguém possa decidir. vamos tratar um pouco desse percurso histórico e discutir os limites e possibilidades de uma escola inclusiva. nem decidir por outro. Caminhos melhores. uma segunda oportunidade sobre a terra.

15). Data desse período o nascimento da Educação Especial e sua didática. p. Ainda hoje é ascendente o movimento de criação de centros especializados na forma de escolas. surdos. que vagabundeavam. Como informam Garcia e Beatón (2004). desde o século XVIII foram produzidas abordagens importantes referentes à necessidade de um ensino pautado no desenvolvimento do indivíduo. disformes. roubavam ou se prostituíam. apresentamos um quadro com os principais fatos da história da educação especial.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE os quais eram lançados ao mar. juntamente com H. Esse modo de pensar e agir predominou na Idade Média. Esse movimento se realizou em meio a conquistas no campo da Pedagogia. cujo resultado foi a criação de escolas e classes especiais. “idiotas ou insensatos”. os filhos dos mendigos. loucos e párias da sociedade era considerado um caminho para se chegar ao céu. foram escritas as primeiras obras sobre deficiências e criadas as primeiras instituições voltadas para a educação de pessoas com deficiências. da obrigatoriedade do ensino primário. 114 . a partir do século XVII passou a imperar a ideia de que as pessoas com deficiência requeriam atendimento especializado. ou seja. Lus (1995) observa que autores como Maria Montessori e Ovide Decroly são muito mais lembrados pelos seus métodos para crianças normais do que pelo trabalho com deficientes. XVII e XVIII. fundamentados em Mazzota (2003). sua maior contribuição foi a possibilidade de avaliar a inteligência e a disposição para oferecer educação especial para as crianças que dela necessitassem. os bastardos e os “expostos” (abandonados) e também aqueles que hoje compõem a clientela das instituições especializadas. na França. Quais eram as pessoas enviadas para essas instituições? Nelas eram colocados os loucos. deficientes. proliferaram as obras de caridade e os internatos. os cegos. os doentes. Simon. que considerasse suas características psicológicas e os preparasse para uma vida útil. Com o início do cristianismo e a propagação de uma moral judaico-cristã. mendigavam. Segundo Simon (1991. os homens passaram a desenvolver uma atitude de resignação e tolerância para com as pessoas que apresentavam características especiais. na Gália. quando cuidar dos doentes. A criação das “classes e escolas de aperfeiçoamento” aparece associada à promulgação. ou seja. Entre o século XVII e início do século XIX. especialmente nos séculos XVI. Essa escala é a referência mais forte quando se fala de Binet. Na página seguinte. vagabundos e boêmios. Assim. as crianças que se portavam mal. ou os de deficientes sacrificados aos deuses. os órfãos. O mesmo ocorre com Alfred Binet. no entanto. Como indicamos no Quadro 1. por solicitação do Ministério de Instrução da França desenvolveu uma escala para identificar escolares que necessitavam de atendimento especial. em 1882. que entre 1905 e 1910.

aparente. mas. proliferaram escolas para cegos. [. A obrigatoriedade de educação para todos. Com a obrigatoriedade escolar aparecem alguns atrasados escolares para os quais vão ser criadas ‘classes e escolas de aperfeiçoamento’. por Louis Braille (1809-1852). em oposição ao método de sinais. antes disso. → Emigrou para os estados Unidos e em 1907 publicou o livro Idiocy and its treatment by the Physiological Method. Criação do sistema Braille. Obra: A verdadeira maneira de instruir os surdos-mudos (1776). As referidas classes surgiram em 1909. objetos coloridos e letras em relevo). XIX Entre 1817 e 1850. com base na adaptação de um método idealizado por Charles Barbier para a transmissão de mensagens noturnas nos campos de batalha. •Samuel Heineck (1729-1790 – Alemanha) → criador do método oral. → Ambos criaram institutos para educação de “surdos-mudos”. médica italiana. motoras e mesmo ‘mentais’. a motivação e a recompensa.1620 Primeira obra impressa sobre deficientes. Eppée → inventor do método dos sinais. integração/ inclusão escolar: a educação de pessoas com necessidades especiais 1770 1780 1829 Início do séc.. distinguiam-se facilmente as crianças deficientes sensoriais. Redação das letras e arte de ensinar os mudos a falar. aprimorou os processos de Itard e Seguin: criou programas de treinamento para crianças com retardo mental cujo objetivo era a “auto-educação” pelo uso de materiais didáticos (blocos.] até a obrigatoriedade escolar. • O trabalho desse sensorialista. destacaram-se. Primórdios do atendimento educacional aos “débeis” ou “deficientes mentais”: • Jean Marc Itard (1774-1838) → educação de Vítor. quatorze classes haviam sido criadas em caráter experimental. Programas para deficiência física só foram criados nas décadas posteriores. Fundação do Instituto Nacional dos Jovens Cegos. de algum modo. Dentre os discípulos do abade. o consequente aumento de alunos e a insuficiência de professores originaram classes 115 . na medida em que esta deficiência mental era. encaixes. no qual apresentava um programa para escola residencial. recortes. surdos e pessoas com deficiência mental.. Fundada a primeira instituição especializada para a educação de “surdosmudos” pelo abade Charle M. Segregação. • Maria Montessori (1870-1956). a programação sistemática de experiências de aprendizagem. aluno de Itard → criou o primeiro internato público da França para crianças retardadas mentais. por Valentin Haüy. pela divulgação e continuação de sua obra: •Tomas Braidwood (1715-1806 – Inglaterra). Definiu regras para educação de pré-escolares normais e escolares treináveis. em Paris. o “selvagem de Aveyron”. organicista e médico tem como norte a instrução individual. • Eduard Seguin (1812-1880).

Surgiram. criaram-se classes para ‘disléxicos’) e. então.] ao multiplicarem-se as categorias de crianças que freqüentarão estabelecimentos ou classes especiais (a título experimental. esse enfrentamento do problema é simplista. “é menos evidente para uma classificação que quisesse distinguir entre distúrbios do comportamento. antes da entrada na escola primária. Platone e outros (1984) referem que as estatísticas oficiais classificam as crianças e adolescentes segundo 15 categorias (os disléxicos. a colocação dos alunos com deficiência nas classes ou escolas especializadas passou a ser uma constante.. Além da França. 1991 p. ao generalizar-se a despistagem precoce. Dessas ações derivou o conceito de normalização. Somente a partir da década de 1970 começou a tomar corpo a ideia de inserção de 116 . no total. Para o autor. Após a Segunda Guerra Mundial. Uma justificativa para o que o autor chama de “febre segregativa” é a de que seria mais barato concentrar especialistas e materiais no menor número de estabelecimentos e aí atender o maior número possível de pessoas que apresentassem quadros semelhantes. 1991. cujo sentido é tornar acessível às pessoas com deficiência − ou àquelas socialmente desvalorizadas − condições e modelos de vida análogos aos disponíveis ao conjunto da população. felizmente. 17). não figuram aí) que. constituindo-se um panorama de segregação escolar. a especialização dos professores e dos estabelecimentos foi ampliada em países como Canadá e Estados Unidos. mas também as atitudes sociais para com as pessoas que têm deficiência. DA BUSCA DE UMA EDUCAÇÃO ESCOLAR INTEGRADORA À INCLUSÃO Os movimentos em prol da integração têm como marco ações empreendidas entre o final da década de 60 e início dos anos 70 (século XX) nos países nórdicos. atrasos intelectuais ou dificuldades de aprendizagem” (SIMON. F. 16). [.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE numerosas. porque. Um contraponto à segregação teve início na década de 1960. as quais tinham como objetivo a inserção de pessoas com deficiência nos mesmos espaços e contextos sociais que as pessoas ditas normais. p.633 crianças a receber um ensino especial (ano escolar de 1981-1982) (SIMOM.. mais tarde. as classes especiais dentro das escolas comuns. Foi em meio aos movimentos dos pais de crianças cujo acesso às escolas comuns foi negado que surgiu nos países desenvolvidos a filosofia da “normalização e integração escolar”. englobavam 384. por outro lado. a segregação escolar ampliou-se ainda mais. pois se pode ser verdade para as deficiências sensoriais e motoras. com movimentos em prol da integração de pessoas com deficiência. questionando-se não somente a segregação social e escolar. as propostas de escolas especiais e.

E. identificação. que vão desde a classe regular até a escolarização em centros de Educação Especial. foi apresentada em Quebec. denominada cascata. p. Para tanto. avaliação e correcção das dificuldades ligeira do aluno Nível 2 Classe regular com serviços de apoio ao professor de ensino regular ssári o coce ntínu que o re ão p ge do is lon o ma aç Educ Edu neste Nível 5 Classe especial na escola regular com participação nas actividades gerais da escola senti cam Não Nível 7 Apoio domiciliário Nível 8 Ensino em instituição ou centro hospitalar. Assim. em 1976. graduadas conforme as necessidades das crianças. É interessante observar que. transcrita de Bautista Jiménez (1997. o trabalho 117 Regr e Nível 6 Escola especial ssar neste inhar senti d oom d ais r apid Nível 4 Classe regular com o aluno a frequentar uma classe de apoio caçã o co ame n te po Nível 3 Classe regular com serviços de apoio ao professor de ensino regular e ao aluno nece ssíve a l . 39): QUADRO 2 Sistema em cascata segundo o relatório C. primeiro responsável pela prevenção.X.crianças e jovens de acordo com as suas necessidades individuais. as crianças e jovens podem ser colocados em diferentes níveis de ambientes educativos. a inserção da criança ou jovem não seria permanente em qualquer um dos seus níveis. mas em uma perspectiva de normalização.O. Uma versão desse sistema. segundo a proposta do sistema em cascata. Sua proposta é o atendimento educacional especial em oito níveis de integração baseados em uma diversidade de medidas. O apoio domiciliar ou o ensino em instituições ou centros hospitalares só devem ser adotados em casos de extrema necessidade. o movimento em seu interior não deveria ser estático. Vejamos uma representação do sistema em cascata. (Comité Provincial de L’Enfance Inadaptée) Segregação. já que estes são muito restritivos em termos de integração.P. ou seja. integração/ inclusão escolar: a educação de pessoas com necessidades especiais Nível 1 Classe regular com professor de ensino regular. Canadá.

tivessem eles ou não alguma deficiência. 1998. além de atuar diretamente com essas pessoas. p. de modo que ele se tornasse mais inclusivo e de qualidade. passou-se a defender um único sistema educacional para todos os alunos. 118 . ao passo que a da integração é o caleidoscópio. Os debates. portanto. era necessário modificar não apenas a escola. A metáfora da integração é a cascata. As crianças se desenvolvem. mas reestruturar também a sociedade. 48): O caleidoscópio precisa de todos os pedaços que o compõem. o sistema escolar tem que se adaptar às particularidades dos alunos. Todavia. de forma a indicar novas metas para a prática pedagógica e possíveis inserções em níveis menos restritivos e mais integradores. seria necessário reformular os currículos. Quando se retira pedaços dele.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE desenvolvido e os resultados alcançados deveriam ser continuamente avaliados por pais. as transições interníveis raramente ocorriam. acirraram-se nos anos 1990 com base na ideia de que. unicamente da capacidade de adaptação dos alunos a serem inseridos. o desenho se torna menos complexo. a formação dos professores e adotar uma política educacional consistente e contínua. aprendem e evoluem melhor em um ambiente rico e variado. professores e órgãos gestores da escola. Sob a perspectiva da inclusão. torná-la mais inclusiva. Essas constatações deram início a outro movimento na história da educação de pessoas com necessidades especiais: a luta pela inclusão. Aqueles que não conseguiam se adaptar ou acompanhar os colegas eram excluídos. o que se pretendia integrador não se efetivou na prática. voltada para a escolarização de todos. Assim. Para concretizar a metáfora do caleidoscópio. assim explicitada por Forest e Lusthaus (apud MANTOAN. as formas de avaliação. porque o sistema escolar regular não se modificou para receber os alunos especiais e a integração dependia. iniciados na segunda metade da década de 1980. com suas diferenças e necessidades. menos rico. Para tanto.

de 11 de fevereiro de 2001: institui as Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica. capítulo V: educação especial é “[. vale destacar algumas leis: • Constituição Federal 1988. Os inclusionistas defendem a manutenção dos serviços especiais para aqueles que deles desejam usufruir e também como forma de viabilizar o processo de inclusão. Art. É necessário avaliar também a qualidade da escolarização que está sendo desenvolvida. inciso III: “é dever do Estado assegurar à criança e ao adolescente: atendimento especializado aos portadores de deficiência.6%. observamos que a matrícula do alunado especial em escolas e classes especiais passou de 87% para 65.. Embora ainda muito longe do desejado. os dados indicam avanços com relação a Segregação. 54.4% a matrícula em escolas regulares e classes comuns. por outro lado. preferencialmente na rede regular de ensino”. quais as possibilidades e limites de uma escola inclusiva no Brasil? EDUCAÇÃO INCLUSIVA NO BRASIL Para entender o atendimento educacional oferecido às pessoas com necessidades especial no Brasil. na rede regular ensino. No panorama delineado. • Plano Nacional de Educação/1997: a formação dos profissionais da educação deve ser garantida pelas Secretarias Estaduais e Municipais da Educação.] uma modalidade de educação escolar. Art. esta última mais coerente com a ideia do caleidoscópio. os inclusionistas totais advogam a extinção do continuum de serviços e a colocação imediata de todas as crianças e jovens na escola comum. Como mostram as leis. há 566. Diretrizes e Bases a Educação Nacional. sendo 57% na rede pública e 43% na rede privada. preferencialmente. • Lei 9.394/96. preferencialmente na rede regular de ensino”. aumentou de 13% para 34. integração/ inclusão escolar: a educação de pessoas com necessidades especiais 119 . têm-se formado duas correntes em torno das discussões sobre educação inclusiva: a da “inclusão” e a da “inclusão total”.753 alunos com necessidades especiais matriculados. Comparando a evolução dos números de 1998 a 2004. • Resolução nº 2. Segundo o Censo Escolar divulgado em abril de 2004 pela Secretaria de Educação Especial.069/90. oferecida. sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente. a educação especial no Brasil é uma modalidade de educação escolar oferecida preferencialmente na rede regular de ensino.Nos últimos anos. • Lei 8. 208: “atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência.. para educandos portadores de necessidades especiais”. com ou sem apoio pedagógico. do Conselho Nacional de Educação.

as escolas integradoras necessariamente devem apresentar gestão escolar e currículo mais flexíveis. em junho de 1994. 2004. No caso daquelas com necessidades educativas especiais. Concomitante a esse desafio. Além disso. Essa é uma tarefa muito complexa. Nessa ocasião. inclusive aquele voltado para o alunado especial. realizada em Salamanca. Por estarem voltadas para as características culturais e individuais dos alunos. como ressalta a autora. como contínua. as metas 120 . na Espanha. sociais. 2004.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE sua inserção na escola regular. Conforme a Declaração. Dos trabalhos ali realizados resultou a Declaração de Salamanca. realizada em Jomtien. isto implica acabar com a rotulação. estejam voltados para atender às necessidades educativas especiais nas escolas integradoras” (BRASIL. todos os países devem assegurar que. Não é fácil romper com a prática da homogeneização. “devem ter acesso às escolas comuns que deverão integrálas numa pedagogia centralizada na criança. Organizado pelo governo espanhol em cooperação com a Unesco. o encontro contou com cerca de trezentos representantes de noventa e dois governos e vinte e cinco organizações internacionais. flexibilizar currículos e respeitar os diferentes ritmos e estilos de aprendizagem. independentemente de suas condições físicas. na Tailândia. os programas de formação do professorado. novas formas de ensino e ampliação dos recursos pedagógicos. no Brasil ainda há o grave problema do número de pessoas com necessidades especiais fora de qualquer sistema escolar. vivemos no Brasil uma situação de exclusão significativa. Como denuncia Mendes (2002) a despeito da retórica da integração escolar e da inclusão. p. “num contexto de mudança sistemática. o Brasil fixou metas para melhorar o seu sistema educacional. cujo princípio fundamental é o de que as escolas devem acolher todas as crianças. O objetivo era examinar mudanças políticas para estender o enfoque da educação integradora a todas as crianças. Ou seja. 10). O maior desafio para a criação da escola integradora é justamente oferecer um ensino ao mesmo tempo individualizado e grupal. p. capaz de atender a essas necessidades” (BRASIL. linguísticas ou outras. 11). intelectuais. Dois eventos contribuíram especialmente para a situação atual. em 1990. toda criança tem direito à educação e à possibilidade de atingir e manter o nível adequado de aprendizagem. emocionais. tanto inicial. porque envolve a superação da visão do déficit individual e a ênfase na proposta educativa. Outro evento foi a Conferência Mundial sobre Necessidades Educacionais Especiais: Acesso e Qualidade. sobretudo aquelas com necessidades educativas especiais. Um deles foi a Conferência Mundial de Educação para Todos.

para alguns. 31): Apesar das críticas que podem ser feitas às escolas especiais. Segregação. Para eles. com o apoio de várias instituições. narrado anteriormente. Faz também um apelo à sociedade e às escolas especializadas para que denunciem atos de discriminação como o de escolas que negam matrícula a alunos com deficiência. Os gestores da educação especial não pensam assim. É necessário delimitar mais claramente a relação entre escolas especiais e escolas comuns. são incompatíveis com a ideia de inclusão. Para estas últimas.8% das escolas públicas da educação básica possuem sanitários adequados aos alunos com necessidades educacionais especiais e somente 3. integração/ inclusão escolar: a educação de pessoas com necessidades especiais As instituições especializadas construíram um conjunto de conhecimentos fundamentais para a inclusão. não há preparo suficiente por parte dos professores ou estrutura adequada para lidar com alunos do segmento especial. isso contribuirá. mas essa se tornou a mais significativa. quando são bem atendidos e educados. publicou e distribuiu uma cartilha intitulada O Acesso de Alunos com Deficiência às Escolas e Classes Comuns da Rede Regular. na lei) nas escolas da rede comum. A meta era que. Quanto ao conhecimento do processo ensino-aprendizagem desse segmento. concordamos com García e Beatón (2004. do lado oposto ficaram as associações que mantêm escolas especiais e para quem certos graus de deficiência não permitem a inclusão. Por trás dos conflitos está a incerteza sobre o futuro das escolas especiais.6% têm dependências e vias adequadas ao alunado especial. p. até 2006. Em setembro de 2004. para evitar conflitos como os ocorridos no episódio da divulgação da cartilha. usuários de cadeiras de rodas e com deficiência intelectual (deficiência mental. todas as escolas brasileiras fossem inclusivas. que.assumidas em 1990 ainda não foram cumpridas. a qual exorta a inclusão de crianças e jovens surdos. serviram para por em evidência e demonstrar as imensas possibilidades de desenvolvimento que apresentam os escolares. por exemplo. cegos. É preciso lembrar que a quase 121 . o Ministério Público Federal. se posicionaram aqueles que defendem o direito do deficiente estudar com outras crianças e acreditam que isso levará a uma postura mais inclusiva da comunidade escolar. A cartilha provocou muita polêmica: de um lado. Muitas outras conclusões positivas podem ser numeradas. a elevação da taxa de inclusão de estudantes com necessidades educacionais especiais em classes comuns e a redução do crescimento das matrículas em escolas especializadas ou classes especiais consolidam a tendência de inclusão. aquelas que realmente se converteram em escolas no sentido amplo da palavra. Não deixa de ser desalentador verificarmos que apenas 4.

avaliação e sistemas de agrupamento para garantir acesso e sucesso a todas as crianças da comunidade. a preocupação por parte do setor especial com a manutenção dos serviços. pensamos que a inclusão total. estão bem distantes da nossa realidade. • Todos os professores aceitando a responsabilidade pelo aprendizado de todas as crianças. com o imediato desmonte dos programas e serviços especializados. aparentemente simples. Stainback e Stainback (1999) propõem algumas estratégias práticas para promover 122 . Independentemente das divergências em torno da definição do que seja a inclusão.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE totalidade das escolas especiais brasileiras é fruto de lutas de pais e outros setores da sociedade civil e são mantidas por organizações não-governamentais. há um consenso de que ela exige uma reorganização de base das escolas e salas de aula regulares. É compreensível. Segundo Mittler (2005). ela pode tornar-se inclusiva. Foram criadas em uma época em que a escola regular não recebia as crianças especiais. • Todas as escolas reestruturando seu programa de ensino. a qual deve ser um objetivo a ser alcançado. é um equívoco que. apoio do diretor. seria necessário reinventar a escola. Não se trata de negar ou ser contra a educação inclusiva. recebendo treinamento contínuo. do corpo administrativo da escola. As propostas neste sentido. Frente às questões levantadas. o momento atual de luta pela inclusão é um avanço na estratégia de universalização do saber. As propostas. se efetivado. Uma escola inclusiva rompe com o modelo escolar que conhecemos. filosóficos e políticos norteadores do atendimento educacional ofertado às pessoas com necessidades especiais no Brasil. pode ter consequências desastrosas e se configurar em um retrocesso das conquistas realizadas. essas mudanças envolvem três níveis: • Todas as crianças frequentando a escola local. cujas mudanças devem ser voltadas para atender à diversidade. voltada para todos os alunos. somente reinventando-a. para levá-las a termo. de seus colegas e da comunidade. é preciso abandonar o princípio da homogeneidade e voltar-se para a heterogeneidade. pedagogia. devem levar em conta os fundamentos históricos. ou seja. portanto. na sala de aula regular e com o devido apoio. legais. com todos os membros da comunidade envolvidos nas tomadas de decisões. no entanto. a inclusão não é unanimidade. Tanto os alunos quanto os profissionais e recursos financeiros e educacionais devem estar integrados em uma síntese superadora do individualismo. Trata-se de uma educação na e para a diversidade. pois também entre os pais.

de modo que eles possam ser modificados durante o processo educativo. que requer uma formação pautada pela lógica da diversidade e da heterogeneidade. se adotamos um método. Uma delas é prever processos de adaptação no currículo geral. para sermos inclusivos. não temos que romper com o que veio antes. É ilusão pensar que essas possam se fazer de forma tranquila. essa nova proposta educacional se configura em um novo espaço profissional. de modo a apreender. de modo a adequá-lo às necessidades dos alunos. emocionais. mas a todas as crianças. na academia. temos uma cultura de contraposição: é tradição. Como expõe Torres González (2002). colocar autores em opostos extremos e eliminar um em favor de outro. Uma providência imediata é a formação profissional e atitudinal dos educadores e gestores da educação. didático. Grandes mudanças sempre são produtos de tensões e lutas advindas de necessidades geradas na produção da vida. que reúnem tanto os aspectos teórico-práticos como as atitudes e disposições” (p. o que ainda não está claro é como chegar lá. Uma educação inclusiva demanda políticas públicas que assegurem a todos os alunos a possibilidade de desenvolver o máximo de suas potencialidades. Para o autor. É necessário também estabelecer mecanismo de flexibilidade dos objetivos. é preciso ressaltar que ela envolve mudanças na sociedade.a educação inclusiva. Para reinventar a escola. o conhecimento e a prática com as necessidades especiais não ficam restritos aos espaços e educadores especializados. independentemente de suas condições físicas. É interessante observar que os defensores da educação inclusiva ou da educação para e na diversidade não se referem apenas às deficiências. usufruir e contribuir para formar a cultura humana. integração/ inclusão escolar: a educação de pessoas com necessidades especiais 123 . curricular. linguísticas ou outras. 259). O debate está posto. Como efetivar a escola inclusiva? Essa é uma longa discussão que não cabe no espaço reservado para o presente capítulo. No entanto. O que fazer com os programas e instituições especializados? Acabar com eles e colocar todo o seu alunado na escola regular? No Brasil. organizativo e institucional. para viver a comunidade. o outro já não serve mais. o final do caminho aponta para a inclusão. “a diversidade implica vias formativas. intelectuais. temos que destruir instituições que ocuparam um lugar deixado vazio pelo Estado? Uma sociedade inclusiva é aquela que proporciona as condições necessárias para que o cidadão possa exercer seus direitos e cumprir seus deveres. Nesse novo pensar. sociais. o conceito de diversidade implica tanto a educação geral como a especial. Será que. a curto ou médio prazo. mas sim pensar em uma continuidade pautada em mudanças que desenvolvam práticas mais Segregação.

Lisboa: Dinalivro. maio/jul. México: Paidós. p. G. 1995. DF. Modalidades de escolarização: a classe especial e a classe de apoio. M. Brasília. a manutenção de um continuum de serviços e soluções. A . Referências BAUTISTA JIMÉNEZ. 2. L. portanto. Alunos com necessidades educativas especiais nas classes regulares. BRASIL.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE inclusivas por meio da criação ou do fortalecimento de vínculos entre escolas regulares e escolas especiais.). Para a autora. Mendes (2002) explica que a legislação atual seria cumprida caso a inserção ocorresse pelo caminho da associação entre classe comum e Sala de Recursos. mas com o provimento das condições materiais de acessibilidade física. Integração X Inclusão: escola de qualidade para todos. M. São Paulo: Linear B. M. LUS. com ênfase na matrícula em sala comum − com o aluno e a escola recebendo apoios especializados de acordo com suas necessidades − propiciaria que a educação inclusiva. ao contrário da integração escolar. E.. Secretaria de Educação Especial. Porto Alegre. pela adoção do professor itinerante ou. saísse definitivamente do discurso e alcançasse a sala de aula e as escolas. 5. R. Necessidades educativas especiais: desde o enfoque histórico-cultural. 1997. GARCIA. BRASIL. defendendo que a matrícula das pessoas com necessidades especiais seja feita preferencialmente em classes comuns das escolas regulares. Porto: Porto Editora. 124 . Necessidades educativas especiais. Coordenação Geral do Planejamento. BEATÓN. T. DF. 48-51. Brasília. 1997. por meio de classe especial. De la integración escolar a la escuela integradora. Somente com essas condições a escola pode receber e ensinar a todos. T. v. A. n. 2005. atitudinal e de formação geral e específica. MANTOAN. Coordenadoria Nacional para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência (CORDE). In: ______. (Org. Pátio Revista Pedagógica. 2004. 1998. Números da Educação especial no Brasil. CORREIA. B. ainda. Declaração de Salamanca e linhas de ação sobre necessidades educativas especiais. M. Concluímos. 2004.

p. 61-85. v. Escola inclusiva. J. 2002. 1999. 1-4. S.MAZZOTTA. 2002. p. STAINBACK.. TORRES GONZÁLEZ. J. J. C (Org. P. MARINS. A. Porto Alegre. 2005. In: PALHARES. Rio Tinto. A integração escolar das crianças deficientes. 2003. Portugal: Edições ASA. W. Anotações 125 . SIMON. STAINBACK. Pátio Revista Pedagógica. Perspectivas para a construção da escola inclusiva no Brasil. maio/jul. integração/ inclusão escolar: a educação de pessoas com necessidades especiais Proposta de Atividade 1) Aponte algumas diferenças básicas entre integração e inclusão.. Segregação. G. Educação e diversidade: bases didáticas e organizativas. M. 34. Porto Alegre: Artmed. São Paulo: Cortez.). S. São Paulo: EdUFSCar. 1991. Educação especial no Brasil: histórias e políticas públicas. Inclusão: um guia para educadores. E. MENDES. Porto Alegre: Artes Médicas. O futuro das escolas especiais. M. S. S. MITTLER.

SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE Anotações 126 .

a liderar. entre outros. profissionais que se sentem responsáveis pela vida não se propuseram. como também por se sentirem mais apoiados pelas revelações chocantes. é importante perguntar: por que os professores. Ciência e Cultura) sobre seu alastramento em todos os cantos do mundo. campanhas contra a violação dos direitos humanos? Crianças. adolescentes. adultos. professores começam a se reunir para discuti-la.10 Impossibilidade de educar para a não-violência? Reflexões preliminares Lizia Helena Nagel A PERGUNTA QUE NÃO QUER CALAR A preocupação no país sobre a violência. independentemente da classe social ou do poder econômico. sobre crianças. de modo mais disciplinado. velhos. mulheres. pais ou educadores não se irmanam. professores. ou com bagagem teórica suficiente. movidos não só pela angústia vivida em salas de aula. acerca do cotidiano das escolas e das famílias. de modo sistemático e produtivo. médicos. abertamente. dos quais se poderia esperar que abrissem a discussão. velhos. em uma luta a favor de relações humanas mais respeitosas? Por que pais. está adquirindo espaço na consciência social dos brasileiros. estimulada desde 1997 pelo alerta da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação. ainda assim os professores e pais não se sentem com coragem. em delegacias de polícia. O simples fato do início dos debates relativos à violência estar ligado ao apoio da Unesco e da mídia já mostra que os educadores. oferecidas pela mídia. Com dados estatísticos disponíveis em hospitais. até agora. jovens. Se educar significa opor-se a comportamentos que desqualificam o homem como um ser social. para levantar uma bandeira contra os mais diversos tipos de agressão sofridos nas famílias ou nas escolas. psicólogos. Ainda de modo tímido. quer como 127 . jovens. quer como vítimas. estavam calados. a maioria vitimada em ambientes domésticos ou educativos.

Nenhum deles. caiu por terra. As funções que são atribuídas aos representantes do povo não são mais associadas ao comando de homens íntegros. CONSIDERAÇÕES A MARCAR Inúmeros fatores podem ser indexados para responder aos questionamentos sobre a violência. de uma prática social destrutiva e. A consecutiva e crescente publicização dos escândalos dos indivíduos ligados ao Estado. não se transformaram em dados suficientes para envolver e empurrar os diferentes tipos de educadores em direção a projetos marcados pela busca da autêntica civilidade. muito tem contribuído para descaracterizar o político. outrora desenhado como “modelo cívico”. antes entendidos como “pessoas de bem”. passamos a discorrer sobre algumas questões que a sustentam. reféns. os homens da atualidade. o cidadão como um ser virtuoso. o homem público era descrito com um perfil delimitado por regulações morais. embora possam ser cotidianamente identificados. hoje. As funções públicas não são mais vistas como carentes de homens honrados. não tem por meta a educação em uma a perspectiva ética. ela educa muito mais por sua aparente neutralidade na narração dos fatos do que reconhece sua capacidade de interferência nas ideias e nas ações dos indivíduos 128 . ou admiradas. antes. sem a pretensão de esgotar o número. hoje. Se. políticos. Na verdade. a força e a complexidade dessas variáveis que acionam o império crescente da violência. comprometidos com deveres em prol das relações sociais. pode ser entendido como vetor único. o homem público atual. Iniciamos. por uma rápida comparação entre o que se espera. por suas convicções e práticas. sempre sustentadas pela defesa incondicional da liberdade da imprensa. a divulgação de comportamentos atípicos no espectro da moralidade não tem por objetivo imediato a preocupação com a negação de atitudes antissociais. responsável pela situação vivida. ao mesmo tempo. Tal interrogação exige aprofundamento. A compreensão relativa à complexidade das variáveis interatuantes não só divide e multiplica. por uma ou duas instituições. cidadãos e o que se pensava sobre a moralidade deles no início do século XX. juízes. potencializada. principalmente porque os educadores sabem que a realidade de amanhã está nas mãos dos filhos e dos alunos do presente. No entanto. com cargos eletivos ou executivos. Se os cargos públicos eram entendidos como destinados a pessoas dignas de serem imitadas. a responsabilidade de cada um como favorece o entendimento de que a violência não pode ser debelada por uma única categoria. por uma única força. eticamente dos governantes. A mídia. no entanto. cada vez mais. preocupada essencialmente em capitanear manchetes. deixaram de ser identificados e/ou selecionados por tais atributos. assim.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE responsáveis pela violência. Por uma questão didática.

apresentar como padrão um homem que. conforme depoimento de Luiz F. ela educa por vulgarizar. forjada pela repetição dos fatos e/ou das informações. não busca relações sociais mais qualificadas. modelos de intelectuais bem formados. desacreditam os intelectuais.comuns1. pelo mesmo caminho. ora mostram argumentos de defesa dos anteriormente acusados.09 às 8h30 min. contudo. pela mudança rápida do foco das noticias é. Valladão. por seu potencial de “sagacidade” e de “criticidade”. apenas.com. 2 Quando a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil . assim.02.br/oab8. o princípio da não-censura (bandeira liberada de qualquer dever. de que os dirigentes do país não só têm os pés de barro como são. de desenvolvimento. advogando e administrando. vulgarizam e desqualificam as profissões. fluido e sem parâmetro! Afinal.Seccional de Minas Gerais) encaminha uma campanha para recuperar a imagem do próprio advogado. norteadores de atos sociais politicamente comprometidos com a coletividade. paradigmas de idoneidade. imunes a qualquer sanção.2 Impossibilidade de educar para a nãoviolência? Reflexões preliminares 1 A neutralidade da mídia se faz pela mutabilidade constante das manchetes que ora acusam. 129 . assim como conferem a pena de morte a qualquer adesão a princípios éticos. Nesse quadro. A imprensa. o crescimento da consciência de ser o sucesso um produto do descumprimento de normas e regras. Resta. http://oab. imagens de políticos escrupulosos desaparecem no horizonte e expressam-se no desinteresse progressivo pela coisa pública. pela repetição dos fatos. acerca da corrupção “dos outros”. de superação antes considerados condição de melhoria da sociedade brasileira. ou ônus. ad nauseum. desacreditar no homem. acessado em 07. Também. totalmente. por essa educação midiática. O leitor transforma-se. correspondente a esse direito).quipus. induzido a abandonar os velhos desejos de aperfeiçoamento. sem limites. a impunidade também já foi traduzida como natural! A propagação contínua. informa aos cidadãos. Os inumeráveis e crescentes habeas corpus que assolam o país não só garantem as mais esdrúxulas impunidades como deslegitimam as instituições. sistematicamente. defendendo interesses próprios. só essa decisão já mostra a perda ou o desgaste da imagem desses profissionais. em um condenado a desacreditar naquilo que antes era induzido a valorizar. subliminarmente. roubam a dignidade dos homens em geral. com metodologia sensacionalista. Ao não tomar partido. sob o manto da impunidade.qps/Rf/QUIS-7DRSQZ. de fato termina por educar todas as classes sociais Na internalização dessa “verdade”. qualificando-o. tornar corriqueiro. referências de profissionais competentes. concretiza-se.

ou ainda detectados filosoficamente. tornam-se apenas menos aparentes. enquanto modelos. não sendo identificada como arbítrio posto ter. então. não é nem o ponto de partida. são entendidos. Convém explicitar. a priori. de modo simplificado. ajustados à era cibernética. 130 . metafisicamente. como meras expressões de poder. Implica na descrição de um perfil considerado ideal que facilitaria a direção educativa desejada assim como oportuniza a crítica a esse mesmo ideal projetado como conveniente à sociedade. A subjetividade continua construída. o conceito. quais argumentos sustentam essas afirmações tão desprovidas de bases concretas. mesmo que indiretamente. como conquista social. tampouco. como pais e educadores. a morte dos modelos4. em sua base. deve ser entendido como um recurso metodológico capaz de auxiliar no encaminhamento de conhecimentos e de práticas consideradas relevantes para um determinado contexto. Internet. 4 Modelo. Nesse quadro de ações fundamentalistas contra qualquer poder. tal como era antes entendido. a concepção. convém lembrar que nem modelos. acionada ou 3 Como representantes da pós-modernidade incluem-se todos aqueles que privilegiam: a) o singular. sem materialidade. Isso porque os modelos e princípios reguladores das atividades humanas continuam a existir. orkut etc. ou o inédito. fundamentalmente. f ) a liberdade emancipada de qualquer regra. como fantasmas! Mais difusos na prática social ou na prática educativa. 5 Autoridade. e) o entendimento do sujeito como criador de si mesmo emancipado de forças sociais ou de “violências simbólicas”. Na verdade. é tomada como diretividade. como destrutivas da subjetividade. Qualquer modelo é lido como objetivado pelo arbítrio de uns sobre outros que. substituem os velhos perfis desejados para os homens.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE Se a pós-modernidade3 vem louvando. como condução de um ponto definido para outro desejado. O “conteúdo” dos novos modelos. nem o ponto de chegada dos interessados na extinção de práticas orientadas por perfis ou referências já conhecidas. c) a libertação de qualquer parâmetro teórico. controle ou coerção. também. Os modelos em sua objetivação saem das mãos dos personagens reconhecidos. ou a função do modelo. servindo. d) a louvação do presente como superação qualitativa do passado. Os educadores em geral são condenados a abrir mão de deliberações e ações diretivas consideradas. imposição. entre outras características já postas pela literatura específica. televisão. Mas a realidade é mais complexa do que muitos cérebros que dela falam. e multiplicam-se na imprensa. frágeis. b) a afirmação da inexistência de verdades ou princípios de caráter universal. aqui. o particular. como abusivas frente aos direitos individuais de cada um. ou os princípios teóricos de atuação social condenados pelos pós-modernos. foram eliminados e. neste artigo. interesse social de qualidade maior ao já existente. a defenestração de princípios (éticos) reguladores da vida em comum. norma. de modo submisso se poriam a cumprir as regras dadas pelos detentores de algum tipo de força social. para compreensão e análise da realidade a qual ele se refere. violência física ou simbólica. coerção. Os “modelos”. agora. princípios reguladores de comportamentos foram extintos no mundo das mercadorias ou do consumo compulsivo. pais e professores são os primeiros condenados a abrir mão de sua autoridade5.

O pai. a moda. Machado de Assis. entranha-se Impossibilidade de educar para a nãoviolência? Reflexões preliminares 131 . A subjetividade que foi analisada. como reguladoras dos novos comportamentos. atitudes. Por meio das mais variadas formas de comunicação. a mãe tem como referência a “jovem descomprometida”. a filha se reconhece na “Gisele Bündchen”. na sociedade dos “sem-modelo” não é a condenação à morte de uma educação pautada em modelos impostos. “estrelas” fabricadas. Paulo Coelho entra para a Academia ao lado de notáveis como Aluízio de Azevedo. mais novo. em todas as obras. Propondo-se a colocar todos como iguais pela reprodução de papéis. da propaganda. a prática efetiva da imitação de novos ícones. agora não mais identificadas. e a professora só se justifica se for democrática (ainda que ignorante)! O novo. mais do que nunca. a moda padroniza comportamentos. de comportamentos. sem interferências contrárias faz o papel dos antigos modelos educativos. como perigosamente destruída por “modelos educativos impostos”. agora. Não é a negação da virtualidade do modelo ou da saga de qualquer modelo. os modelos. com um vigor centuplicado.(de)formada. os paradigmas. Di Cavalcanti. mantém-se forjada (ou destruída?) por outras referências. sentem-se respeitados pela grife em uso. mobilizam. não deixa de se transformar no mais novo recurso metodológico. a morte do moralismo. Na sociedade de consumo. nos fãs. sob a coordenação dos holofotes da mídia e/ou do mercado. da mesma forma. Britney Spears. o desejo de viver no mundo de espetáculos. no dia-a-dia. Ainda que a pós-modernidade liberte seu grito hedonista. A moda faz dos jovens uma cabeça universal com boné. de perfis. agora. revitalizados pela volatilidade do mercado e pela força da publicidade. Nas artes. quer na superação da forma anterior. capaz de padronizar hábitos. Ruy Barbosa. com talento suficiente para não se reproduzir. contraditoriamente. das fantasias. os meninos. a partir dos anos 60 do século XX de forma gradativa e crescente. habilidades. por outros meios e por outros “modelos”. por exemplo. afirmando o crepúsculo do dever. os cidadãos confirmam. Criticado e rejeitado o discurso sobre a educação por modelos tal como o passado afiançou. Na sociedade globalizada. os referenciais que interferem na formação ou educação dos homens continuam. de qualquer idade. com muito maior fôlego do que os velhos modelos ligados à moralidade existencial. ou reconhecidas. que é a de ser reproduzido quer na modernização. produz (ou educa) o maior número de adeptos à forma de vida definida como a melhor. tem como espelho a imagem do “filho sarado”. Segal. Amy Winehouse. mesmo efêmera. Pichadores com seu estilo repetitivo são enquadrados na categoria de artistas como Anita Malfati. O mais importante na sociedade dos “sem-modelos” é a rejeição visceral a qualquer situação que possa implicar compromissos com os outros. portanto.

defensores dos oprimidos. que antes eram vendidos como lutadores contra injustiças..]” (1997. defende a ideia de que no indivíduo cabe. se não obsoleta. apenas. como único ritmo para seu desenvolvimento. lei ou princípio. a aceitação de comportamentos irascíveis. torna-se impróprio advogar um código de ética universal. em todas as residências. Isso porque todo parâmetro. Nesse quadro. O que pode ser interpretado pela frase: o mundo atual não mais está interessado na formação de homens com princípios filosóficos. contraditoriamente. a não-permanência. O melhor discurso a favor da paz entra em contradição com o discurso hegemônico que se move rejeitando qualquer coerção. 132 . A subjetividade reclamada. de pensar.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE na subjetividade de todos o modo de ser. entre tantos outros modelos do século XX. assim. Os velhos padrões (ou os velhos modelos com grande durabilidade) precisam ser substituídos pelo mercado. de viver nominado como o mais moderno. esses personagens invadem todos os países e fertilizam. no contexto das práticas atuais. Como ele mesmo diz: “Los llamados neopragmatistas no están demasiado preocupados por la filosofia moral y la filosofia social [. de rejeição de princípios condutores de ações a longo prazo. Robin Hood. de não-permanência. exatamente por essa razão. fóbicos. uma vez que as verdades. inflexíveis. controladores de atos de vandalismo. tornaram-se obsoletos. Louva-se um outro tipo de homem. as referências. desaparecem do imaginário social na mesma neblina pela qual lobos passam a ser transformados em cordeiros. é aquela que não admite interferências de valores alheios ou estranhos aos interesses de cada indivíduo. A luta contra a violência. por exemplo.. 10). A substituição radical de comportamentos fica. o mais avançado para os cidadãos da sociedade do “conhecimento”! Dominados por comportamentos padronizados. homens em vampiros e mulheres6 são formatadas pelo sexo e pelas drogas. que impõe a descontinuidade. Richard Rorty (1931-2007). de novas subjetividades. antissociais. os indivíduos. titulares das séries televisivas mais premiadas nos últimos anos. à deriva do capital. universalizantes. o maior representante do neoliberalismo. só podem ser assumidos como afirmações pouco prováveis. quiçá esquizofrênica. regra. Representando um tipo-padrão de comportamento. antes creditados e acreditados. pensam-se como únicos dentro de uma “pluralidade” de iguais já modelados! Na produção dessa modelagem em série. como oposição permanente a denominadores comuns. Capitão Marvel. incrementar a esperança e a solidariedade. nada melhor do que lembrar personagens como Monk e House. de agir. Zorro. Nessa perspectiva de descontinuidade. Os heróis do passado. os paradigmas. modelo ou 6 Séries da televisão como Gossip. sociais. também se torna. p.

sem contradições. apenas. Essa despreocupação dos educadores frente à formação administrada pelos meios de comunicação. As perguntas básicas. Sua principal qualidade será a “desobediência”. aqui. as mudanças no mundo industrial são percebidas como possibilidade de recusa de todas as práticas e de todos os discursos já constituídos. as contínuas mudanças na sociedade. atuais. mas em fase de substituição por outros. denunciados. à informatização. ajusta-se à Revolução Tecnológica. antes admitidos como verdades. a ideia de libertação ou de emancipação do homem dessa sociedade. traduzido como ataque à subjetividade. O PENSAMENTO QUE (SÓ) QUER “LIBERTAR”. à automação e à robotização e respondem pelas mudanças estruturais de nossa sociedade. A pós-modernidade. desde que ele não se submeta ao já dado. Solidifica-se. educação formal ou informal). por não viabilizarem a duração ou a rigidez dos conceitos.. institucionalizada. não são apresentados. a uma “natureza disciplinadora” que deve ser negada”. ignora a formação dada aos cidadãos pelos meios de comunicação. permitem aos homens grande margem de independência. ao já regulado ou já legislado! Os pós-modernos parecem admitir que as transformações operadas pela tecnologia. toma forma. intrinsecamente unidos ao desenvolvimento da produção flexível. em profusão. com os modelos construídos pelo mercado e viabilizados. Deve manter-se em atitude de “estranhamento” diante de todos os “fazeres” e de todos os “dizeres”. sem contestação ou repúdio. Negando a educação intencional. pela mídia. A fluidez do mundo. o fazer-se homem como dono de si mesmo implica um exercício oculto de crítica sobre o mundo em que vive. ou “modelos”. Nessa perspectiva. intitulando-se como um movimento libertário. como organizadores e/ou destruidores de subjetividades? A resposta. inerentes à educação midiática. que não é simples. Nesse quadro. Eliminando do raciocínio a relação entre subjetividade e objetividade (no caso. entre individuo e sociedade. ou ainda como autêntica objetivação da violência. no entanto. podem construir sua subjetividade de modo soberano. orientando pais e professores a “não destruírem” a subjetividade de seus filhos e alunos. concepções. seriam: O que faz com que a educação por modelos seja tão ridicularizada? Por que modas. organizam discursos que proliferam nos meios pedagógicos. nesse momento. contraditoriamente convive. os indivíduos. lida e reduzida. que se faz concreta pela recusa espontânea Impossibilidade de educar para a nãoviolência? Reflexões preliminares 133 . na seguinte hipótese: confere-se a cada indivíduo a possibilidade de produção de sua própria subjetividade.princípio. se libertos de saberes e valores impostos como racionais. para julgar qualquer ação humana já é.. ao já feito. assim. na verdade. na verdade. normas ou regras. ao já dito. Subjetividade que. precisa ser mais bem aprofundada.

essa pretensão em não ser. nem pátria. juízos. ou por realizar. claramente. em seu livro Capitalismo e Liberdade (1988). O discurso a favor da emancipação de tudo e de todos. a favor de uma “distância isolacionista”. já em mudança. descrevem-se como integrantes de uma categoria privilegiada que conseguiu superar os erros e limites do passado. Essa proposta de autonomia absoluta. a qualquer aluno”! Para isso. Ideias. p. Hayek e Friedman reforçam a nova fase do capitalismo. em nenhuma hipótese. ao se referenciarem como vanguarda. realçando a importância de todos se sentirem como donos de seu destino. Sua proposta básica não deixa de incitar todos a cobrarem o direito individual de seguirem seus próprios valores e preferências em vez de os alheios. a partir dos anos 1970. Tais pensadores. afirma ser qualquer intervenção externa um ato coercitivo. lutam pela autonomia absoluta dos homens. “refém” do outro. em sua obra O caminho da servidão. desembainham espadas para cortar as amarras que impedem o indivíduo de ser único em suas decisões. destrutivo. reprodutor subserviente de uma sociedade que. não mais suporta velhos hábitos. deliberações. Urge. divulgados consecutivamente pelos (interessados) meios de comunicação. pelo uso da própria razão negada! Importante lembrar que tanto os favoráveis à reprodução da sociedade capitalista quanto os que a ela se opõem. Como não poderia deixar de ser. nem qualquer outra ideia. a formação do sujeito pela via da negação de qualquer ação realizada. o “dever de nada ensinar a qualquer filho. se assumidos. revelariam um homem ultrapassado. pois. Na grandeza conceitual dada à coerção. Mas não só economistas e políticos da atualidade reproduzem discursos da 134 . Entre os intelectuais de renome. contribuem inúmeros pensadores. o interesse pela acumulação capitalista torna-se pouco transparente. já formuladas. como supremos (1977. 15). defensores do neoliberalismo. Nessa direção. do desinteresse pelo outro e que se converte em autêntica apatia política toma dimensões inacreditáveis no mundo atual. Friedman (1912-2006). por outrem. ou atos já consagrados. contraditoriamente. nesses tempos.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE GRAFIA CORRETA: Hayek e Friedman e sistemática a endossar qualquer informação ou orientação. torna-se o desejo universal de todas as classes sociais. contraditoriamente. outro economista de renome. agora já detalhada como um mal maior. sem interferências. sem criatividade. tomando proporções fantásticas. da negação das relações em suas mínimas possibilidades. defendendo o pressuposto de que nada existe além do próprio indivíduo. confirma os axiomas de Hayek. a necessidade de libertar os indivíduos de quaisquer orientações diretivas. Hayek (1889-1992) acentua a condição considerada básica para manter e agilizar a sociedade ocidental: respeitar e acatar as opiniões e os gostos pessoais assumindo-os. esse discurso entra na educação que proclama. Sustenta.

segundo os pioneiros desse mais novo movimento cultural. assumidos como “leme para uma nova pedagogia”. marcam os fins e os meios dos procedimentos educativos por “aconselhamentos sistematicamente repetidos”.não-regulação. de fato. Lembrando os mais citados. associadas aos intelectuais proponentes: a) “[A] subordinação tem de desaparecer. 2005. das ideias que o deformam (DELEUZE. entre outros profissionais das áreas de ciências humanas. pois [assim] desaparece o seu fundamento: a crença na autoridade absoluta” [. são orientados a se posicionarem a favor da não-interferência. pois qualquer medida neste sentido não é só considerada uma invasão de privacidade como um abuso de autoridade. nunca crédulo. Importante é libertar o pensamento das regras. 216): b) O “adestramento” (educação por forças exteriores equivalentes à violência ou ao poder) priva o homem de julgar por si mesmo. vêm acentuando posicionamentos semelhantes. a um tipo de educação que tem como objetivo mais definido e relevante a estimulação para a tomada de decisões individuais. pelo espaço que lhes é concedido na mídia. 1990). Filósofos. apontam para o ideal educativo comum: libertar os indivíduos de qualquer força externa ao sujeito. Defendendo tais pontos de vista. nas últimas décadas. o segundo corolário obrigatório consiste em incentivar o aluno a transformar-se em um eterno contestador. d) O velho humanismo deve Impossibilidade de educar para a nãoviolência? Reflexões preliminares 135 . com poucas diferenças significativas. incapazes de destruir a unicidade entre eles quanto à defesa da construção da subjetividade.. Deleuze (1925-1995). Nessa educação para a tomada de decisões personalizadas. Pais e professores. apresentamos ideias-chave dessa nova forma de educar. já modelado pela cultura em que está inserido). em vista de objetivos e por meio de procedimentos definidos interessados em fins já estabelecidos (FOUCAULT. todavia. p. 1998). nunca submisso ao já existente. leva o sujeito a se perder em generalizações indevidas. Derrida (1930-1995) e Lipovetski (1944-).] (NIETZSCHE . alguns pensadores confirmam tal práxis na sociedade. Coesos. antropólogos.. O dogma contemporâneo da não-interferência em qualquer das múltiplas formas possíveis de ser dos indivíduos leva. por seu direito de ser único. Frases eloquentes e sedutoras são defendidas por seus inúmeros intérpretes brasileiros. São instados a execrar qualquer instrumento ou parâmetro regulador de comportamentos. c) Importante é não ser governado em nome de princípios. pelos valores que expressa. a respeitarem a autonomia dos filhos e dos alunos. Elencando alguns pontos dessa “doutrina”. nunca subserviente. das instituições. Foucault (19261984). historiadores. deve ser respeitado pelo modo de vida escolhido. O sujeito (de fato. marcando sobremaneira o cotidiano de professores e de pais. sem a imposição de saberes já dados. Estes autores. portanto. temos: Nietzsche (1844-1900). filosófica e didaticamente.

propõe a analisar o mundo pela complexidade. aos discursos políticos. do bem-estar e da saúde [.] Seja qual for o estado de graça da ética. A autoridade deve ser submetida à inquirição. prega ser o mundo (objetivo) captado por meio de estímulos individuais. convém elucidar se o projeto de Morin contraria ou afirma as linhas mestras defendidas pelos intelectuais aqui apresentados. convicções. pela negação peremptória de qualquer comparação. Negando as relações do todo com as partes. dos pós-estruturalistas ao destruir a importância dos paradigmas como opção metodológica para análises. Considerando que a Unesco não só alerta para a violência crescente. o pensamento “reacionário” se encontra definitivamente com seus “contestadores”. nós deixamos de nos reconhecer na obrigação de viver para outra coisa se não por nós mesmos (LYOTARD. verdades.. Em uma confluência de interesses. aos direitos instituídos.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE ser substituído.. categoria pouco interessada em estabelecer nexos (causais ou não) entre os elementos de um dado sistema. o que garante legitimidade a qualquer ação. oferecer meios para a contestação ou o “estranhamento” permanente. podemos dizer que o projeto educacional dos filósofos pós-modernos. Aproximase. Como podemos perceber. 2005). enquanto se reforça a paixão do Ego.. ele deve ser pensado como aquele que estabelece limites à força. como contrata Edgar Morin para delinear a educação ideal para o século XXI – o que ele realiza em Os sete saberes necessários à educação do futuro. a cultura sacrificial está morta. às leis proclamadas. pois. na verdade. atribui grande peso ao saber vinculado a 136 . os dois se fundem. A EDUCAÇÃO QUE NÃO QUER ENSINAR. à reavaliação (DERRIDA apud BAUMAN. Em síntese. Não é mais relevante formar o cidadão para a República. O discurso contra o racionalismo em seus erros e falácias levao a solicitar da educação um comportamento permanente na identificação dos limites dessa forma de pensar. a de respeitar a diversidade e a pluralidade. Quanto ao conhecimento. e) O espírito de abnegação está desvalorizado por toda parte. à crítica. por seu estado de constante “estranhamento”. em não mais formar o cidadão com universais reguladores de comportamentos. desejo ou forma de ser da cultura ou de cada indivíduo. mas sim incentivá-lo a reforçar a paixão por si mesmo.. também. em paralelo. por sua curiosidade. ato. funde-se ao dos neoliberais pela negação absoluta de qualquer diretividade. mas provocar dúvidas. Da mesma forma. na base. Morin se põe ao lado dos que condenam a forma de pensar e de agir que teria regulado o século XIX e XX.1998). Enaltece a necessidade constante de questionar o existente e. Propaga que ensinar não é distribuir certezas. todos concordam. tal como o antigo racionalismo requeria. consequentemente.

não só de Locke. respeitados como iguais em suas diferenças religiosas. inclui. em sua obra. posto já terem sido todas as referências ou modelos existentes colocados na berlinda. somente com a intenção de apaziguar os ânimos conturbados na passagem do milênio. p. visto como responsável pelos entraves relativos ao alargamento das empresas transnacionais. já utilizado por Locke (1632-1704). de acordo com as experiências próprias. 137 . Nessa proposta educativa. O primeiro7 expressa o propósito de organizar situações positivas. Impossibilidade de educar para a nãoviolência? Reflexões preliminares As demandas típicas para o desenvolvimento do capitalismo. aos novos tempos. lembra que o exercício da solidariedade moriniana não implica o uso de qualquer paradigma como estímulo para as ações. retoma-se essa luta contra a coerção cerceadora do progresso capitalista escamoteando-a e/ou simplificando-a (sem nenhuma criticidade) como princípio educativo da atual sociedade! (2007. políticas. sem o desejo de transformar o capitalismo. carente de decisões livres. Como assinala Nagel: Ao final do século XX. por isso mesmo. como solidariedade. Exalta a competência que. podem ser recuperadas. ou adequadas. apoiando a ideia de projetos privados.traduções e reconstruções pessoalizadas. em nível absolutamente internacional. O segundo expressa o interesse em sossegar a animosidade própria às convulsões do Leste e do Oeste europeu que precisam ser harmonizadas para a estruturação. Nesse ponto. relativizado. 21). retorna com as modificações necessárias. na qual aponta a vida como precária e de duração incerta. para o nascimento e desenvolvimento da sociedade das mercadorias em função das dificuldades trazidas pelas guerras religiosas da época. Nesse momento. na fase da negação do Estado Nacional. O conhecimento cientifico é. ou como responsável pelos entraves a uma nova divisão do trabalho internacional. de vida. Descontadas as diferenças entre as exigências típicas do nascimento da sociedade capitalista e a sua reprodução na fase atual. particulares. observamos que a busca educacional na perspectiva da liberdade natural dos indivíduos. ainda hoje (mesmo sob a defesa de uma nova epistemologia) é mantida. p. portanto. individuais. a efetiva compreensão que deve se desdobrar. A força do discurso de Stuart Mill (1806-1873) na defesa do individualismo também reaparece no enfático discurso dos defensores de uma liberdade 7 Locke. emancipadas de coerções externas. do sistema capitalista sem fronteiras. escreve a Carta acerca da tolerância (1978. abre-se para uma nova conotação muito mais alargada: transforma-se em capacidade para saber lidar com o mundo tal como é (!). 31). sem Estados nacionais. agora interessado em uma globalização mais alargada. interessado em um pacto social entre homens (nesse momento entendidos por sua racionalidade). o discurso da tolerância que busca a paz. como meta fundamental. ou com base nas formas como cada indivíduo se relaciona com os signos. na prática.

sustenta-se no tempo por estar fundamentada na defesa exacerbada dos direitos individuais./juin. em situação diversa a dos idos do século XIX (tão rejeitado pelos intelectuais). 1998. 35-63. desrespeitosa frente à dignidade das pessoa. 1. N. Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade.html>. sua “verdade”. avr. indiretamente o descrédito e o descompromisso para com as instituições existentes ou com as normas reguladoras externas a aspirações subjetivas.unb. FABRINI. FOUCAULT Qu’est-ce que la critique? Critique et Aufklärung. hoje. temos que Mill (1983) defende. como se ela fosse de ordem natural. paradigmas ou referências. v. São Paulo: Editora 34. 2. Disponível em: <http://www. 28. n. R. DELEUZE. G. tal como os pensadores pós-modernos. A manutenção da violência de todos os dias. Conversações. Aproximando-as. Tradução de Gabriela Lafetá Borges e revisão de Wanderson Flor do Nascimento. Os espectros de Marx. 1990. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. DERRIDA.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE mais radical. o que não significa a negação da violência que agride pais e professores. desagregadora de ambientes familiares e institucionais. sem controle por parte da lei ou da intromissão de algum funcionário público” (p. está. p. p. 1998. neoliberais e pós-modernos recuperam a exigência de que cada indivíduo busque sua satisfação. Acesso em: 12 jan. Conferência proferida em 27 de maio de 1978. 2009. Referências BAUMAN. São Paulo. 2006. na defesa da liberdade. por modelos. por conseguinte. 403). o que se traduz em benefício apenas para o desenvolvimento da sociedade das mercadorias. Rio de Janeiro: Relume. A negação da violência. que “as coisas na vida são mais bem feitas quando se deixa liberdade de ação àqueles que têm um interesse imediato envolvido. Bulletin de la Société française de philosophie. Revista Trans/ Form/Ação. outra hipótese pode ser levantada: a educação do século XXI é instada a buscar a paz. 1994. v. 138 . intimamente relacionada com a determinação de não constranger subjetividades por imposições externas. n. 7-27. J. 82. Nesse quadro.br/fe/tef/filoesco/foucault/ critique. afirmando. Como podemos constatar. em todas as esferas de ação dos homens. O ensino de filosofia: a leitura e o acontecimento.

In: NOGUEIRA. RORTY. Capitalismo e liberdade. A era do vazio: ensaios sobre o individualismo contemporâneo. NIETZSCHE. S. 1988. Novas competências para ensinar: convite à viagem. 2000. 1983. SP: Manole. M. F. DF: Unesco. Políticas sociais e desenvolvimento: América Latina e Brasil. que permite. R. MILL. v. Esperanza o conocimiento?: una introducción al pragmatismo. F. Brasília. modificar comportamentos. p. Educação e desenvolvimento na “pós-modernidade”: algumas reflexões. São Paulo: Cortez. O caminho da servidão. NAGEL.). São Paulo: Companhia das Letras. 1977. 2005. alterar situações humanas. (Org. F. Barueri. R. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica. quando estimulado. H. São Paulo: Abril Cultural. Porto Alegre: Artes Médicas Sul. 139 . Rio de Janeiro: Relume Dumará. L. 2.FRIEDMAN. 2002. LYOTARD. escreva como pais e professores poderiam encaminhar dez situações educativas dificultadoras do ciclo evolutivo do individualismo. E. é capaz de modificar a natureza. L. MORIN. HAYEK. Impossibilidade de educar para a nãoviolência? Reflexões preliminares Proposta de Atividade 1) Considerando o texto em tela e considerando que o homem. PERRENOUD. Princípios de Economia Política. relativismo e verdade. 11. a concretização de violência nas relações interpessoais. (Os economistas). demasiado humano: um livro para espíritos fortes. RIZZOTTO. RORTY. mesmo diante de circunstâncias limitantes. 2005. 1997. 2007. ed. G. ed. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Nova Cultural. G.. São Paulo: Globo. P. Humano. Objetivismo. 2. 2006. M. São Paulo: Xamã. M. 19-43. F.

SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE Anotações 140 .

preparando-as em vez disso com antecedência para a tarefa de renovar um mundo comum (ARENDT. se entendemos que a questão do fracasso escolar é resultado das políticas econômica e social. 1972. têm sido temas de inúmeros debates acerca dos problemas que ocasionam o insucesso escolar. então o “fracasso escolar” deve ser atribuído ao sistema educacional. Se entendermos que os professores não conseguem promover a aprendizagem. o que pretendemos é analisar o fracasso escolar na contemporaneidade. O ensino. tem sido um referencial até mesmo para indicar o nível de desenvolvimento de determinada população. então o responsável pelo “fracasso escolar” é nosso sistema de governo. 247). Assim. e tampouco arrancar de suas mãos a oportunidade de empreender alguma coisa nova e imprevista para nós. frente ao nível de desenvolvimento que a sociedade contemporânea alcançou em diferentes áreas. que. p. considerando que vem ocupando espaços nas agendas internacionais enquanto prejudica jovens e crianças que tendem a fazer parte dos contingentes de excluídos que vão 141 . quando verificamos que o Brasil integra o grupo dos nove países com maior índice de analfabetismo. então o “fracasso escolar” é dos cursos de formação.11 O fracasso escolar e suas implicações na atualidade Luciana Grandini Cabreira / Luzia Grandini Cabreira A educação é. É comum observarmos que a educação. que não garante vaga para todos os brasileiros em idade escolar. não é por acaso que os países com os piores índices de alfabetização também façam parte dos considerados “em desenvolvimento” ou ainda “países periféricos”. Assim. Dessa maneira. E ainda. Se entendermos o fato de a escola ainda não ser para todos. contrariando a LDB 9394/96. que promove a exclusão social e pratica a “política da escola dual”. não conseguem formar professores. entendemos que a temática “fracasso escolar” está longe de ser esgotada. também. Isto porque consideramos que reflete um conjunto de medidas e de pessoas envolvidas com esse processo que afeta nosso cotidiano de forma muito peculiar. assim como sua consequência natural – a aprendizagem. onde decidimos se amamos nossas crianças o bastante para não expulsá-las de nosso mundo e abandoná-las a seus próprios recursos.

nos demais casos. precisamos conhecer as variadas nuances que o identificam. um entendimento de que o 142 . 2007). pela União Federal.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE viver à margem de uma sociedade tecnológica e científica. la primera de ellas es el índice de repitencia experimentado por los alumnos. observamos que há. apontando resultados concretos a atingir. ya sea después de alguns años de estúdios primários. ou. Neste sentido. das seguintes diretrizes: I . dadas as especificidades de cada rede.alfabetizar as crianças até. Um tercer indicador es el nível de conocimientos alcanzado. mediante registro da sua freqüência e do seu desempenho em avaliações. Por isso. Caillods (2008) descreve algumas situações que identificam o fracasso escolar. os oito anos de idade. II .acompanhar cada aluno da rede individualmente. pela adoção de práticas como aulas de reforço no contra-turno. por meio do Decreto nº 6. Estados e respectivos sistemas de ensino.combater a repetência.combater a evasão pelo acompanhamento individual das razões da nãofreqüência do educando e sua superação (BRASIL. em detrimento do ensino. FRACASSO ESCOLAR O fracasso escolar se apresenta sob diferentes formas. “em regime de colaboração com Municípios. no máximo. apresentadas por Caillods (2008). Para conter as manifestações do fracasso escolar. o Ministério da Educação e Cultura – MEC.estabelecer como foco a aprendizagem. La segunda manifestación es la desigual duración de sus estúdios. Son muchas las manifestaciones del fracaso escolar. aferindo os resultados por exame periódico específico. estendendo seu alcance às populações com maior índice de vulnerabilidade social. Distrito Federal. uma vez finalizada laescolarización obligatoria.094. percebemos que no Brasil. que trata da implementação do Plano de Metas Compromisso “Todos pela Educação”. Evidentemente. por parte dos legisladores. pelo incentivo e apoio à implementação. III . quando couber. ao enfocar. a “aprendizagem” no inciso primeiro. de 24 de abril de 2007. e a participação das famílias e da comunidade. IV . como los 15 años de edad. y también lãs distancias observadas entre los alumnos sobre el particular. 146-147). Um último indicador son las dificultades para encontrar empleo que experimentan los jóvenes salidos del sistema educativo (p. que devem ser realizadas periodicamente. V . por Municípios. mediante programas e ações de assistência técnica e financeira. como también los índices de abandono escolar uma vez terminada la escolarización obligatoria. visando a mobilização social pela melhoria da qualidade da educação básica” estabelece no Artigo 2º que: A participação da União no Compromisso será pautada pela realização direta. estudos de recuperação e progressão parcial. y que acarrea el atraso escolar em el que quedan sumidos. Distrito Federal e Estados. para compreender melhor seus efeitos.

52). propõem nos incisos seguintes ações que priorizam o processo de alfabetização. p. do grupo dos nove países do mundo com a pior taxa de alfabetização do mundo e onde poderia ser encontrada a grande maioria que integra as “100 milhões de crianças fora da escola e mais de 900 milhões de adultos analfabetos” da sociedade contemporânea. Da mesma forma. 48).. Egito. 2007. se manifesta na repetência escolar.objetivo da educação se concretiza apenas se ocorre o aprendizado. temos. o controle de faltas. O fracasso escolar e suas implicações na atualidade PERSPECTIVAS POLÍTICAS DO FRACASSO ESCOLAR NA CONTEMPORANEIDADE [. MORAES. [200-]. por seu turno. pais e os pesquisadores nacionais/locais – serão ignorados como sempre? Todos parecem continuar sendo ignorados/descartados/desautorizados como atores-intelectuais-ativos. Na atualidade. distinta daquele defendida pelo Banco baseada em quantificação/ custos. a qual. Com isso. em 1990. signatário dos tratados internacionais voltados para a área educacional. estamos entre os países com as piores taxas de alfabetização. o envolvimento do Estado. Essas políticas articuladas recomendam. o Brasil fazia parte. o Brasil. que. sem uma política efetiva de melhoria do ensino público e de formação do educador o insucesso escolar tende a permanecer no cenário educacional brasileiro. de organizações sociais e de forças políticas e econômicas no “provimento da educação” (SHIROMA. 14). No entanto. educação à distância ou treinamento em serviço ao invés de qualificação do professor (SIQUEIRA. Na Conferência Mundial de Educação para Todos. porque consideram que: 143 .] a escola é uma instituição cujo papel consiste na socialização do saber sistematizado (SAVIANI. Juntamente com Bangladesh. México. EVANGELISTA. qualificação reduzida a testes ou taxas de aprovação/repetência. Índia. o combate à repetência e à evasão escolar. p.. estudantes. Nigéria e Paquistão. realizada em 1990. na prática. um alto índice de analfabetismo. segundo Caillods (2008). acarreta atraso nos estudos e até mesmo a desistência do aluno. MORAES. Isso se dá porque eles vêem o mundo de uma outra perspectiva. quem vivem. Medidas que visam a atenuar o fracasso escolar. no país. Será que os que trabalham com a educação. EVANGELISTA. em Jomtien. China. na Tailândia. 9). 2007. Indonésia. p. Em escala mundial. os países firmaram o compromisso de “impulsionar políticas educativas articuladas” (SHIROMA. enfrentam seus problemas cotidianos e tentam encontrar soluções – os professores. 2005. p. vem adotando políticas públicas no sentido de superar o fracasso escolar e diminuir o número de analfabetos brasileiros.

por exemplo. e sua focalização no ensino fundamental de crianças e adolescentes. amplamente utilizado nos documentos elaborados em Jomtien e Dakar. é nada mais nada menos que a paz mundial! Paz necessária e a ser assegurada pelo investimento que todos os países devem despender na educação. É importante a compreensão que os termos “adotados” na redação dos documentos oficiais nessa área são extremamente importantes e precisam ser analisados. 1999. especialmente nos países “periféricos”. proposta pelo Executivo e aprovada pelo Congresso em dezembro de 1996. Com isso. pois indicam. a concepção dos organismos internacionais e a natureza das ações que serão implementadas no âmbito educacional. Dentro do contexto atual. desobrigando o governo federal de aplicar com essa finalidade a metade dos recursos vinculados à educação.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE [. a atual LDB 9394/96. o cenário que verificamos. A Emenda suprimiu das Disposições Transitórias da Constituição de 1988 o artigo que comprometia a sociedade e os governos a erradicarem o analfabetismo e universalizarem o ensino fundamental até 1998. Quando tratamos do vocábulo equidade. p. As principais diretrizes da reforma são a desconcentração do financiamento e das competências de gestão relativas à educação básica em favor dos Estados e Municípios. a escola tem sido responsabilizada pela transmissão do saber e pela promoção da equidade social. podemos observar que está contemplado o “Programa Educação para Todos” como diretriz a ser seguida pelo sistema nacional de ensino. integrando o movimento de ênfase internacional “Todos pela Educação”. aponta que o Brasil se norteou pelas determinações dos organismos multilaterais para a década de 1990. no contexto das políticas educacionais. enfrenta uma crise sem precedentes. o Brasil vem participando dos Fóruns Internacionais e das discussões acerca das novas tendências mundiais voltadas para os países periféricos. geralmente. 8). Essas mesmas formulações vão estar presentes nos documentos gerados por uma avalanche de seminários realizados no Brasil. período em que foi gestada a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. o governo federal legitimou a antiga prática de realizar a maior parcela de seus gastos com o ensino superior e desobrigou-se de compromissos legais em contribuir com aportes substantivos para a educação básica. com a visão de uma educação com o papel de promover a equidade social e garantir o acesso à educação básica a quase todos os brasileiros. Em nossa LDB 9394/96. GIL. temos a impressão de que já superamos as desigualdades.. Com isso. porque é preciso que haja um mínimo de condição de igualdade para que se possa almejar a condição de equidade. mas enquanto isso.] o que está em risco. após Jomtien. segundo o diagnóstico dos organismos multilaterais. Nesse âmbito. 144 . DI PIERRÔ.. o que implicaria elevar seu orçamento (SILVA. O instrumento criado para alcançar tais objetivos foi a Emenda Constitucional 14.

no interior da sociedade têm assumido tarefas que extrapolam a grade curricular e vêm sendo responsabilizados pelo fracasso escolar. p. pelo viés da escolarização.1992. instrumentos que somente a educação familiar pode produzir quando transmite a cultura dominante (BOURDIEU. logo. Para Saviani (2005). Saviani (2005) busca as teorias da educação para explicar duas correntes teóricas bem definidas na educação. a partir dos conteúdos apreendidos. bem como os professores. consiste. Diante desse fato. em formar o estudante para que possa analisar. A inclusão social. 145 . A escola. o papel da escola consiste em “ensinar”. estão as teorias que entendem ser a educação um instrumento de discriminação social. portanto. de superação da marginalidade. 3). quer exigir de todos uniformemente que tenham o que não lhes foi dado. teorias que entendem ser a educação um instrumento de equalização social. no sentido de contribuir para a diminuição do índice de analfabetismo e de pobreza. Essa interferência de organismos multilaterais na área educacional também tem sido responsável pela crise enfrentada na educação. sobretudo a competência lingüística e cultural e a relação de intimidade com a cultura e com a linguagem. p. a saber. Neste sentido. portanto. no acesso ao saber produzido pela sociedade contemporânea de tal forma que os estudantes possam compreender o nível de desenvolvimento que a humanidade atingiu e apreender os saberes já produzidos. de que forma se estrutura a sociedade atual e ainda de que forma vai participar desse contexto. No segundo. 2005. O PAPEL DA ESCOLA E O FRACASSO ESCOLAR A escola eximindo-se de oferecer a todos explicitamente o que exige de todos implicitamente.Esse movimento se configura por globalizar as diretrizes educacionais. de marginalização (SAVIANI. uma vez que promove a implantação de programas que não atendem às especificidades de nosso país. o papel da escola consiste em transmitir o saber sistematizado. dentro de uma vertente crítica que promove a conscientização e a formação de um indivíduo capaz de compreender a sociedade atual e definir de que forma irá atuar nesse contexto e que revoluções irá promover para ter melhores condições de vida. em uma tendência dos Organismos Multilaterais Internacionais de gerir a educação em países mais pobres e com alta taxa de endividamento junto ao Banco Mundial ou FMI. 307) O fracasso escolar e suas implicações na atualidade Na década de 70. cerca de 50% das crianças saíam da escola em condição de semialfabetismo ou analfabetismo potencial na maioria dos países da América Latina.

1996. que para promover a aprendizagem a escola deve apresentar características que permitam superar o papel de conformadora e reprodutivista da estrutura social vigente. para o erro.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE Não se trata. Uma escola em que professores e alunos tenham autonomia. Onde há espaço para transformações. para as contradições. uma atuação pedagógica para que o professor tenha condições de ensinar em uma perspectiva crítico-transformadora. possam pensar. Os estudos desenvolvidos por Vygotsky (1991). ao criticarmos a política educacional vigente pela distorções decorrentes de seu atrelamento aos interesses dominantes. Para tanto. O modelo de Vygotsky incorpora estes dois aspectos. Para Vygotsky (1991). 68-69). p. que repercute tanto na organização econômica e política quanto resulta em consequências decisivas nas condições de vida da grande maioria da população trabalhadora. 31). não será possível deixar reconhecer seus efeitos sobre a formação (deformação) dos professores (SAVIANI.. pois. refletir sobre o seu próprio processo de construção de conhecimentos e ter acesso a novas informações. a estrutura social se apresenta dividida em classes e grupos sociais com interesses distintos e antagônicos. a partir dos estudos desenvolvidos por Vygostsky. 118). tinham por objetivo acompanhar como se desenvolvia a atividade mediada nas crianças e as funções superiores: percepção.. os professores e estudiosos da vertente histórico-crítico que contrapõem a crítico-reprodutivista apresentam. discutir. Tradicionalmente a construção da inteligência humana tem sido pensada apenas como se fosse um mero produto biológico decorrente da combinação de gens humanos ou um produto social. 2005. p. memória e pensamento. Na sociedade brasileira atual. Os postulados de Vygotsky parecem apontar para a necessidade de criação de uma escola bem diferente da que conhecemos. para a colaboração mútua e para a criatividade. p. escamoteando o fato de que eles também são vítimas de uma situação social injusta e opressora [. e observar como resolviam problemas utilizando instrumentos e signos. Uma escola em que o conhecimento já sistematizado não é tratado de forma dogmática e esvaziado de significado (REGO. duvidar. de deslocar a responsabilidade pelo fracasso escolar que atinge as crianças das camadas trabalhadoras para os professores. Conseqüentemente. privilegiando tanto um corpo geneticamente construído quanto a sua vinculação com o social no desenvolvimento das potencialidades do sujeito. Observamos. Lúria e Leontiev. nesse contexto. para as diferenças. 1997. a concepção torna-se dialética. Uma escola em que as pessoas possam dialogar. principais representantes da psicologia soviética. onde a interação entre as variáveis biológicas e sociais é constantemente referida a um processo contínuo de mudança (MRECH. questionar e compartilhar saberes.] Com efeito. o pensamento e a fala têm a mesma raiz genética e se 146 .

para propiciar a aquisição dos instrumentos que possibilitam o acesso ao saber elaborado (ciência). bem como o próprio acesso aos rudimentos desse saber.. sendo que em um primeiro momento de vida a relação do indivíduo com o meio ocorre mediada pela percepção e motivação. Está aí o conteúdo fundamental da escola elementar: ler. que permite à criança passar para um novo estágio de desenvolvimento. praticar a luta social e cultural é rejeitar qualquer forma de domesticação do tempo e da história humana. pois. Daí que a primeira exigência para o acesso a esse tipo de saber seja aprender a ler e escrever. as que dizem respeito à justificação cultural da escola. e lutar a favor da realização de tarefas pedagógicas e socioculturais possíveis para promover a inserção social desses grupos. os rudimentos das ciências naturais e das ciências sociais (história e geografia humanas) (SAVIANI. a um padrão de sequência organizado. de acordo com este autor. adolescentes e jovens oriundos de grupos sociais marginalizados. o discurso da adaptação e da utilidade momentânea. Além disso. é preciso conhecer também a linguagem dos números. [. enquanto que as questões fundamentais. Desse modo. Do ponto de vista educacional. através do brinquedo as crianças estabelecem relações. para Vygotsky (1991). ao lado do acesso é preciso construir alternativas de permanência com sucesso. nesse momento. e em seguida pela linguagem. p. O brinquedo. propicia a criação da zona de desenvolvimento proximal. escrever. o papel do professor é primordial por favorecer o desenvolvimento do conceito científico. e sob esse ponto de vista faz-se necessário combater politicamente qualquer forma de resignação às condições desfavoráveis das crianças. a linguagem da natureza e a linguagem da sociedade. 2005. Neste sentido. portanto. mas pode ocorrer a partir das atividades lúdicas que a criança desenvolve e dos saltos qualitativos que ocorrem em sua história de vida. não obedece. e em muitos casos não sabem como se portar ou reagir diante das descobertas. é uma cultura letrada. 15). É a partir dos anos sessenta 147 . contar. 10) pontua que “é o instrumentalismo estreito que reina. a cultura erudita. o analfabetismo escolar de crianças e jovens denuncia um processo de exclusão por dentro da escola que precisa ser enfrentado. As atividades da escola básica deve organizar-se a partir dessa questão.] Ora. O fracasso escolar e suas implicações na atualidade Forquin (1993. A escola existe. p..desenvolvem de forma independente. Sendo assim. que promovam a aprendizagem para as gerações escolarizadas. são sufocadas ou ignoradas”. o saber sistematizado. constituindo-se em uma atividade que determina o desenvolvimento da criança. O insucesso escolar caracteriza-se pela incapacidade de uma criança corresponder aos objectivos da escola em termos escolares. O desenvolvimento.

1). A culpa do seu insucesso escolar passou a ser assumida como um fracasso de toda a comunidade escolar. 23). É preciso. reinventar a forma como a escrita foi apropriada pela escola. quando se começou a exigir que as escolas. tornou-se subitamente um problema de cariz social. inclusive com outros grupos de diferentes culturas. Assim. é condição fundamental para o estudante tornar-se um mediador da cultura escrita. As novas tecnologias da informação e da comunicação. multimídia e globalizada. O que era atribuído até então ao foro individual. tanto na vida profissional quanto na vida pessoal. técnica e social. por razões económicas e de igualdade. revê-los e reconstruí-los com sabedoria (PIMENTA. a integram.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE que encontramos as suas primeiras manifestações. interpretar e fazer uso social desse aprendizado. através da pesquisa e da troca de informações. a finalidade da educação escolar na sociedade tecnológica. da expressão oral e escrita. 1999. ela tem um papel importante na formação de leitores/as capazes de ler. Por outro lado. e por conseguinte. encontrassem formas de garantir o sucesso escolar de todos os seus alunos. é possibilitar que os alunos trabalhem os conhecimentos científicos e tecnológicos. é fundamental viabilizar ao formador a possibilidade de aprender o significado cultural da escrita para poder vivenciá-lo com os seus educandos. então. tornando as crianças e os/as jovens sujeitos centrais de um processo de mudança que situe a leitura como produção cultural. educar na escola significa ao mesmo tempo preparar as crianças e os jovens para se elevarem ao nível da civilização atual – da sua riqueza e dos seus problemas – para aí atuarem. A preguiça. possibilitando aos jovens o domínio da leitura. 148 . Apesar de a leitura não se restringir à escola. Por isso. combater o fracasso culturalmente mediado pelos grupos sociais mais empobrecidos que constituem a escola pública. ampliar o seu horizonte de possibilidades e formar redes através das quais possam construir comunidades capazes de assumir coletivamente a produção de alternativas para os problemas que as afetam. do raciocínio lógico-matemático e do cálculo. Para isso. Isso requer preparação científica. 2008. a falta de capacidade ou interesse deixaram de ser aceites como explicação para o abandono escolar de crianças e jovens. O sistema não criava factores que motivassem e encaminhassem os alunos para o êxito escolar (BORDIEU. Essas são algumas das condições que podemos promover no sentido de qualificar os processos educativos da escola. no mundo moderno as funções da escrita e da leitura não se realizam apenas por intermédio dos livros. p. longe de concorrerem com a escrita. A apropriação da escrita como instrumento de informação e comunicação. p. de forma que através delas os/as educadores/as e os/as jovens podem se educar na linguagem do mundo. desenvolvendo habilidades para operá-los.

. A própria concepção de pensamento e inteligência foi alterada (MRECH. portanto. à qual cabem tarefas de assegurar aos alunos um sólido domínio de conhecimento e habilidades. e antes de tudo. é necessário também. de cuja solução depende. mentira ou passatempo fútil. pois lhes cabe escolher qual concepção de vida e de sociedade deve ser trazida à consideração dos alunos e quais conteúdos e métodos lhes propiciam o domínio dos conhecimentos e a capacidade de raciocínio necessários à compreensão da realidade social e à atividade prática na profissão. Esta perspectiva da escola como ‘sujeito’ remete para a questão central da implicação dos actores sociais na produção de conhecimento. a própria sociedade e o indivíduo. 1996. Toda pedagogia cínica. relativamente às suas próprias acções. destruiria a si mesma: ninguém pode ensinar verdadeiramente se não ensina alguma coisa que seja verdadeira ou válida a seus próprios olhos (FORQUIN. consciente e explicitamente. por parte daqueles a quem o ensino é dirigido. De acordo com Libâneo (1994). 1997. ela precisa ser compreendida como “sujeito de estudo”. 139). p. distribuição e consumo institui novas formas de se pensar a cultura. Para tanto. a ‘fertilidade’ da investigação educacional. na política e nos movimentos sociais. do ponto de vista da história do conhecimento humano. culturais) da sociedade. em larga medida. 1993. o desenvolvimento de suas capacidades intelectuais. Em síntese. a ciência contemporânea trouxe uma mudança bastante radical em relação aos paradigmas de saber anteriores. é muito grande. isto é. pelo menos em tese o ofício do professor é trabalho que 149 . O fracasso escolar e suas implicações na atualidade O campo específico de atuação profissional e política do professor é a escola. p. que este sentimento seja partilhado pelo próprio professor. e simultaneamente na produção de ‘sentido’. 9). A responsabilidade social da escola e dos professores. de pensamento independente e criativo. ou seja. ele insere sua atividade profissional. corolário da autoridade pedagógica do professor.. Se não há realmente ensino possível sem o reconhecimento.A RESPONSABILIDADE DA ESCOLA [. do lado dos interesses da população majoritária da sociedade. Desse ponto vista.] o modelo capitalista de produção. políticas. não podemos reduzir a escola a um simples objeto de estudo. Trata-se de uma questão crucial. inserida numa problemática. de âmbito mais vasto. sua competência técnica na luta ativa por esses interesses bem como na conquista de melhores condições de vida e de trabalho e a ação conjunta pela transformação das condições gerais (econômicas. quando o professor se posiciona. 67). de certa legitimidade da coisa ensinada. que tem estado no centro das nossas preocupações (CANÁRIO. p. consciente de si como manipulação.

71). sociais e políticas da coletividade. A aula. por sua vez. p. 27). no envolvimento de professores e alunos com a aventura do conhecimento. 150 . e que “o fazer a aula não se restringe à sala de aula. não é apenas uma exigência da vida em sociedade. A prática educativa. Para que ela ensine autonomia. Quem ensina apenas há de mostrar pistas. mas ativá-la ao máximo. deixar soltos os laços de seus significantes. Domesticar e escravizar os significantes em sentidos unívocos representa um atentado à plasticidade do cérebro/mente. mas também o processo de prover os indivíduos dos conhecimentos e experiências culturais que os tornam aptos a atuar no meio social para transformá-lo em função de necessidades econômicas. CONSIDERAÇÕES FINAIS À beira de um precipício só há uma maneira de andar para frente: é dar um passo atrás (M. especialmente considerando que integramos a “sociedade do conhecimento”. é algo que extrapola o espaço da sala. está além de seus limites. temporária ou prolongada. como decorrência de ser o conhecimento o mediador e o material. de Montaigne). como respeito à versatilidade de seu sistema neuronal. Deixemos. Se tomarmos em conta a extrema versatilidade original do cérebro/mente. p. Enquanto adquirem novas informações e conhecem novas linguagens. depois de caminharmos pelos autores e teses que nortearam a composição deste capítulo. a educação compreende os processos formativos que ocorrem no meio social. 2001. todo cuidado é pouco para não diminuíla. Então. nessa concepção. insinuar ritmos para a dança das linguagens. os aprendentes devem poder também. assim como o objeto produzido nesse processo de ensino-aprendizagem. podemos questionar: a escola que fracassa em seu papel de ensinar as novas gerações tem sido a única responsável pela não concretização do processo educativo ou ela faz parte de uma estrutura maior que a norteia nessa direção? Por isso mesmo é necessário repensar a escola que pretendemos. nos quais os indivíduos estão envolvidos de modo necessário e inevitável pelo simples fato de existirem socialmente. A rigidez excessiva no uso de palavras e conceitos geralmente representa uma diminuição. neste momento. fora de consideração os demais aspectos importantes da ecologia cognitiva para concentrar-nos na questão da linguagem. conteúdo e em que sociedade vivemos nesse século XXI ela precisa saber disso. da plasticidade de nossos neurônios (ASSMMAN. 1999.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE pressupõe a unidade entre teoria e prática. do relacionamento com a realidade” (RIOS. Na realidade. Educar significa propiciar e desencadear processos de auto-organização nos neurônios e nas linguagens das pessoas.

as igrejas. seja na sala de aula. Para que a autonomia seja de fato uma realidade na área educacional é imprescindível a conquista da autonomia de gestão e administrativa para que a área educacional possa caminhar sem sofrer tanto com os impactos políticos. os meios de comunicação de massa. nos moldes que foi implantada. Atualmente. O sistema educativo. de modismo em modismo. práticas sobre a vida. significou apenas a transferência de tarefas das administrações centrais para os Estados e municípios. ao seu modo. Programas de Governo passíveis de mudanças de acordo com a visão que cada equipe política porta da área educativa. têm constituído meios privilegiados para o repasse da ideologia dominante. no entanto. seja na sociedade. Assim. A descentralização. A minoria dominante dispõe de meios para difundir a sua própria concepção de mundo (ideias. mas não a desconcentração do poder da União. para atitudes conformistas. Sem uma política à prova de mudanças intempestivas fica difícil a área educativa combater o “fracasso escolar” que vem excluindo e relegando tantos brasileiros à condição de marginalidade. e que possibilitem um trabalho organizado e articulado pelas esferas educativas. porque a finalidade da educação. as relações humanas) para justificar. não podemos nos eximir dessa inferência. em sua maioria. está no processo de permitir que o indivíduo seja livre para se relacionar de forma ativa. em nossa escola ainda não temos nem mesmo autonomia no processo de gestão. inclusive a de se contentarem com uma escolarização deficiente. A educação que os trabalhadores recebem visa principalmente a prepará-los para o trabalho físico. Freire (2002) educava para a cidadania e fazia torcida para o sucesso dos movimentos sociais que tinham a proposta de libertar os homens. uma vez que representam. os programas voltados para a educação são alterados por conta das mudanças de governos. as agências de formação profissional. de programa de governo em programa de governo.porque para ensinar é preciso primeiro conhecer. o trabalho. vemos uma alternância que impede a implantação de políticas educacionais planejadas a longo prazo. O fracasso escolar e suas implicações na atualidade 151 . valores. o sistema de relações sociais que caracteriza a sociedade capitalista. incluindo as escolas. E.

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SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE Anotações 154 .

carregando em si o objetivo de “formar” os homens que tal sociedade necessita para se manter. desregulamentando mercados financeiros. destacando inclusive que a escola. obedecendo a uma lógica própria que passa então a ditar orientações nos campos da economia e demais setores dos paises. Neste sentido. enquanto instituição. por si só. A ideia de mercado mundial de capitais afundou a concepção de “ilhas financeiras”. Sobre a questão. No entanto. NOGUEIRA. 2002). atender o acesso e garantir o princípio de igualdade entre os indivíduos (NOGUEIRA. justa e igualitária. e dentre outras funções também a de promover uma sociedade democrática. Wertheim e Cunha pontuam que: 155 . o fenômeno da globalização aconteceu inicialmente no campo da economia. Segundo o Relatório Mundial de Educação da Unesco. e que a prática pedagógica na sociedade humana é. a categoria trabalho tem se firmado como principal condicionante do fenômeno educativo. como consequência da reestruturação produtiva que se dá no contexto da globalização. assistimos atualmente às inúmeras mudanças que ocorrem. Muitos pesquisadores questionaram essa visão funcionalista da educação. O princípio de escola pública vinha. uma prática ideológica. coordenado por Jacques Delors. em sua essência. predominava a crença que a escola teria o papel de superar o atraso econômico. torna-se imprescindível que os profissionais da educação descubram novos horizontes e reinventem novas formas de apropriação do saber” (Alvim Tofler) Até meados do século XX. na forma como está organizada e estabelecida.12 Novas demandas educacionais na contemporaneidade: um olhar para a Ecopedagogia Aparecida Meire Calegari-Falco / José Ricardo Penteado Falco “Para criar e organizar uma nova cultura. especialmente no mundo do trabalho. está vinculada e comprometida com o modelo de produção.

a concentração de riquezas gera concentração de conhecimentos e de tecnologias. p. considerando seus limites frente aos novos desafios impostos na atualidade. mantendo a maioria da população marginalizada da conhecida “sociedade do conhecimento”. diluída a soberania dos países pobres ou em desenvolvimento. Nesse contexto. gerando incertezas e perplexidades crescentes quanto ao futuro. ajudam a espalhar um sentimento de vulnerabilidade entre as pessoas e entre as instituições. Por sua vez. a pedagogia foi atravessada 156 . Essa relação. por assim dizer. Recorremos a Cambi (1999). o sistema educacional atende apenas a uma pequena parcela. CUNHA. a auto-estima dos países. habitação e segurança pública: As mudanças neoliberais que já se efetivaram ou as que estão em curso. Com o advento da globalização. o que torna mais escandalosa a separação entre os que ganham e os que perdem (2001. seguida da saúde. atingem toda estrutura social. De acordo com Reimers. estes se encontram cada vez mais impotentes para assegurar o mínimo compatível com a promoção da cidadania. por assim dizer. 48). CUNHA. p.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE Uma nova carta ao mundo foi traçada e. uma vez que. perpassa sobretudo o repensar sua própria identidade. uma das implicações imediatas da dívida externa é a redução da taxa de expansão da educação no país. capacidade de trabalhar em grupo. sem dúvida. (apud WERTHEIM. Quem quiser participar e ser incluído nesse novo mapa precisa arranjar trunfos específicos. capacidade de antecipação e conhecimento do cliente. 2001). entre outros fatores. as redes científicas e tecnológicas se estruturaram e geraram disparidades entre países pobres e ricos. que assim argumenta: a partir dos anos 80 e sucessivamente até hoje. O aumento do desemprego e da violência. 49). um contraponto crucial para o enfrentamento da crise ( WERTHEIN. 2001. coloca em risco o desenvolvimento humano nesses patamares de relação. Essa concentração tem forças para silenciar muitas culturas” ( WERTHEIM. Isso porque. 11). o setor produtivo aumenta a cobrança junto ao sistema educacional para responder às demandas em função de habilidades básicas que são exigidas pelo mercado e não necessariamente inspiradas nos direitos à cidadania. imposta. o progressivo endividamento e a redução da autonomia das nações. Devido a isso. Os novos mercados competitivos e globalizados exigem. inclusive a auto-estima tecnológica se vêem abaladas com sérios prejuízos no que se refere à dinamização da sociedade civil. uma nova cultura empresarial para a qual são exigidas posturas de liderança. A globalização desenfreada segue lado a lado com a própria redução do papel do Estado. Repensar os cursos de formação de professores. “a rigor. especialmente os cursos de Pedagogia. 1999. p.

são as seguintes: 01) Atenção à infância com problemas (abandono. modalidade a distância da UEM. 08) Prevenção e tratamento das toxicomanias e do alcoolismo. 157 . que revê sua própria identidade. na classificação de Quintana (1993). prevê uma obra específica para tratar dos campos de atuação do pedagogo de forma mais esmiuçada. por não se constituir objeto deste capítulo. 09) Prevenção da delinquência juvenil (reeducação dos dissocializados). novos sujeitos dos processos formativos/educativos e novas orientações políticoculturais (p. Ressaltamos ainda que a ampliação do conceito de educação que extrapola o âmbito escolar vem se configurando nos diferentes espaços denominados não escolares ou não formais. Chamada de Pedagogia Social. 04) Atenção à família em suas necessidades existenciais (famílias desestruturadas. sensoriais e psíquicos. da transmissão cultural. 07) Atenção a pessoas hospitalizadas (pedagogia hospitalar). É um saber que se reexamina. voluntariado.de suas engrenagens ou estruturas. 03) Atenção à juventude (política de juventude. tempo livre. 02) Atenção à adolescência (orientação pessoal e profissional. atividades. Destacamos ainda que o projeto pedagógico do curso de Pedagogia. ambiente familiar desestruturado). associacionismo. de desmascaramento de algumas . podemos constatar: A pedagogia é um saber em transformação. fixando novas fronteiras elaborando novos procedimentos (1999. de autocrítica. 641-642). das instituições educativas) também vem se reexaminando e requalificando. os quais abordamos brevemente. 06) Atenção aos deficientes físicos.por um feixe de ‘novas emergências’ e novas fórmulas educativas. emprego). esta se organiza como uma das áreas no campo de Trabalho Social. sem a pretensão de aprofundamentos. p. envolvendo uma série de especialidades que. separações). férias). atravessado por várias tensões. por instâncias de radicalização. Novas demandas educacionais na contemporaneidade: Um olhar para a Ecopedagogia Tais emergências são capazes de reescrever o papel e o território da pedagogia.ou de muitas . 05) Atenção à terceira idade. por desafios novos e novas tarefas. considerando assim uma sociedade que se organiza a partir de um saber em constante transformação e a necessidade de adequação aos novos paradigmas sociológicos. que se reprograma e se reconstrói. adoção. a educação (o terreno das práxis formativas. 638). Ao mesmo tempo. Ainda nas palavras de Cambi. em crise e em crescimento.

podemos definir Meio Ambiente por tudo aquilo que nos rodeia. p. Cambi (1999) enuncia que a Ecologia marcou a reflexão pedagógica dos últimos tempos. ela recebe uma carga injusta de rejeitos. engendradas e produzidas nas nossas atividades humanas e 158 . e não exclusivamente no âmbito da escola. Fazemos parte do Meio Ambiente e nossas ações refletem nele hoje e em seu futuro. dejetos e todo tipo de ações predatórias. ao lado de outras pedagogias. minorias étnicas. exaltando a relação entre o homem e o ambiente que congregue compreensão e respeito. Ela só tem sentido como projeto alternativo global onde a preocupação não está apenas na preservação da natureza (Ecologia Natural) ou no impacto das sociedades humanas sobre os ambientes naturais (Ecologia Social). as cidades e aldeias. de maneira a construir um novo homem. ou seja. Em termos gerais. 12) Educação de adultos. 2003. os desertos e as florestas.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE 10) Atenção a grupos marginalizados (imigrantes. destacando novos valores e novos modelos antropológicos e culturais.presidiários). Ela está ligada. Sem dúvida alguma. educacional. a qual se organiza como resposta a uma emergência atual de pensar os problemas ambientais de modo a considerar os aspectos econômicos. diferente em suas atitudes daquelas que mantinha no passado. 15). mas num novo modelo de civilização sustentável do ponto de vista ecológico (Ecologia Integral) que implica uma mudança nas estruturas econômicas. a respeitar e a preservar.. sociais e ambientais que temos hoje (GADOTTI. 11) Promoção da condição social da mulher. como já assinalamos anteriormente. Salientamos ainda o campo da pedagogia empresarial e a atuação em organizações não governamentais de diversos direcionamentos (ambiental. haja vista que. culturais e políticos. [. o Meio Ambiente natural e o Meio Ambiente modificado pelas ações antrópicas. realçando a necessidade do papel educativo do domínio/exploração do ambiente. portando. cultural e recreativo). uma das únicas (mas não exclusiva) formas de preparar o cidadão é a educação.. a um projeto utópico: mudar as relações humanas. sociais e culturais. Todavia.] a ecopedagogia não é uma pedagogia a mais. Ao mesmo tempo que a natureza nos dá suporte de existência biológica e social. uma área extremamente nova para a pedagogia é conhecida como Ecopedagogia ou Pedagogia da Terra. 13) Educação no campo. presos e ex. o conceito de educação extrapola os muros escolares. Objetiva superar a visão de habitat e forjar a concepção de “nicho ecológico”.

sociais. Nesse processo das ações da sociedade humana são criados e recriados modos de relacionamento, ao mesmo tempo que ocorrem as relações intra-sociais que dão origem à cultura através de bens materiais, tecnologia e outras formas de se reproduzir biológica e socialmente (HIGUCHI; AZEVEDO, 2004, p. 64).

Novas demandas educacionais na contemporaneidade: Um olhar para a Ecopedagogia

A degradação ambiental ocorre pela destruição de ambientes naturais para a construção de cidades e indústrias e exploração agropecuária, bem como pelos dejetos produzidos pelos hábitos humanos (resíduos hospitalares, domésticos, agrários, tecnológicos, entre outros). Cabe lembrar que a exploração do Meio Ambiente é uma necessidade do homem e de todos os animais. A exploração ocorre desde a origem da espécie humana. Como animal consumidor, precisamos explorar o Meio Ambiente como moradia e para extrair o alimento que contém a matéria orgânica que nos constitui e também contém a energia necessária para nos manter vivos. Contudo, devido ao modo atual de vida da sociedade, também necessitamos explorar o Meio Ambiente como fonte de matéria-prima para a produção dos “bens de consumo”. Os impactos ao Meio Ambiente causados pela exploração humana aumentam conjuntamente com o crescimento da população e com os hábitos sociais contemporâneos, principalmente os de consumo aliados ao avanço das tecnologias, que necessitam de matéria-prima para a sua construção.
O potencial destrutivo gerado pelo desenvolvimento capitalista o colocou numa posição negativa frente à natureza. O capitalismo aumentou mais a capacidade de destruição da humanidade do que o seu bem-estar e prosperidade (GADOTTI, 2003a).

No século passado, a exploração do meio ambiente pelo homem se deu de forma devastadora, produzida pela industrialização e urbanização descontrolada e pela ideologia da exploração da natureza, sem a preocupação com o futuro. Cientistas, prevendo os impactos humanos sobre o meio ambiente, criaram em 1972 o conceito de Desenvolvimento Sustentável, ou sustentabilidade, que prevê o equilíbrio entre a ação humana, o desenvolvimento econômico, o desenvolvimento social e o Meio Ambiente. Em termos simples, a sustentabilidade deve prover o melhor para as pessoas e para o ambiente, tanto agora quanto para um futuro indefinido. Deve suprir as necessidades da geração presente sem afetar as possibilidades das gerações futuras de suprir as suas, enfocando o desenvolvimento econômico, o desenvolvimento social e a proteção ambiental; um conceito sistêmico, relacionado com a continuidade dos aspectos econômicos, sociais, culturais e ambientais da sociedade humana.
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SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE

Ao ser instituída a Década das Nações Unidas da Educação para o Desenvolvimento Sustentável (2005-2014), ações político-pedagógicas da educação ambiental passaram a ser vistas em suas múltiplas nomenclaturas: ecopedagogia, educação no processo de gestão ambiental, alfabetização ecológica, educação ambiental crítica, educação científico-ambiental, emancipatória ou transformadora, tendo por objetivos compreender que o modo de vida atual da enorme população de seres humanos, com base no consumismo capitalista, está gerando uma degradação ambiental constantemente abordada nos meios de comunicação. Mesmo assim, a população em geral pouco faz para evitar essa degradação. Vale ressaltar que muitos vivem em condições precárias de sobrevivência, daí a pensar nessa temática é algo que com certeza não faz parte de suas prioridades. A qualidade de vida vem atrelada à conservação do meio ambiente, mas não somente sob essa perspectiva ecológica, somam-se a isso as questões sociais, culturais e econômicas que estão diretamente relacionadas à produção do homem e da maneira de este produzir sua vida.
[...] as conseqüências do analfabetismo científico são muito mais perigosas em nossa época do que em qualquer outra, devido ao fato de que a intervenção humana nos ecossistemas tem alcançado níveis alarmantes, com consequências globais [...] (ANGELINI; CARVALHO, 2005, p. 26).

Sem dúvida nenhuma é uma demanda educacional contemporânea se preocupar com essa temática, propiciando desvelar que fazemos parte do Meio Ambiente. Estamos interagindo constantemente com o Meio Ambiente. Exploramos o meio para as necessidades básicas e para as necessidades “criadas” pelo consumismo capitalista, produzindo grande quantidade de resíduos, que também agridem o Meio Ambiente. Destruímos o Meio Ambiente para construir moradias, para produzir alimento para nossa população através da agropecuária, para a construção de indústrias que produzem nossas “necessidades” tecnológicas. Destruímos o meio com a grande quantidade de resíduos que produzimos, com os quais não nos preocupamos, como se esses resíduos não nos afetassem. Para pensar, é necessário conhecimento adquirido, e o lócus da escola é indubitavelmente esse espaço por excelência. Não podemos deixar de destacar que, somadas às ações individuais, é imprescindível ações governamentais que possam assegurar diretrizes concretas para a efetivação de políticas de ação e de proteção ao meio em que vivemos; podemos citar o caso brasileiro, quando propôs a Agenda 21, a qual objetiva desvelar tal temática, inclusive no que se refere a uma abrangência para além do meio ambiente físico, como consta no documento,

160

Praticar a Agenda 21 pressupõe a tomada de consciência individual dos cidadãos sobre o papel ambiental, econômico, social e político que desempenham em sua comunidade. Exige, portanto, a integração de toda a sociedade na construção desse futuro que desejamos ver realizado. Uma nova parceria, que induz a sociedade a compartilhar responsabilidades e decisões junto com os governos, permite maior sinergia em torno de um projeto nacional de desenvolvimento sustentável, ampliando as chances de implementação bemsucedida (BRASIL, 2004, p. 16).

Novas demandas educacionais na contemporaneidade: Um olhar para a Ecopedagogia

E ainda: “Acreditamos que a Agenda 21 é um forte instrumento que permite definir e implementar políticas públicas com base em um planejamento participativo voltado para as prioridades do desenvolvimento sustentável” (BRASIL, 2004, p. 4). São prioritárias as questões que procurem desenvolver programas de inclusão social, ampliando o acesso universal da população à educação, saúde e distribuição de renda, buscando a sustentabilidade urbana e rural, a preservação dos recursos naturais e minerais e a ética política para o planejamento rumo ao desenvolvimento sustentável. Destacamos a essa soma de prioridades o combate à cultura do desperdício, um “problema ecológico, produzido pela industrialização descontrolada e pela ideologia do domínio/exploração da natureza” (CAMBI, 1999, p. 638).
[...] a evolução do conceito de educação ambiental acompanhou a evolução do conceito e da percepção de ambiente. Evoluiu de um enfoque mais ecológico no sentido das ciências biológicas, para uma dimensão que incorpora as contribuições das ciências sociais fundamentais para a melhoria do ambiente humano. Assim, pode-se pensar o ambiente e a educação ambiental de forma a reduzi-los aos aspectos relativos à fauna, flora, ar, solo e água. Pode-se, no entanto, ampliar o conceito e adotar o modelo do tecido celular de Dias (1992), abordando os aspectos políticos, éticos, sociais, científicos, econômicos, tecnológicos, culturais e ecológicos, por exemplo. Compartilho, no entanto, de um pensamento no qual o ponto de partida é o ambiente interno de cada ser humano. Não no sentido antropocêntrico, mas porque parto do princípio de que o ambiente interno de cada ser humano está interconectado com o planeta e com o cosmos. É onde começa a compreensão do conceito de rede e de interconexão, de interdependência, de teia da vida. A Conferência de Tbilisi considera a educação ambiental como sendo: ‘um processo permanente no qual indivíduos tornam-se conscientes do seu ambiente e adquirem conhecimento, valores, habilidades, experiências e a determinação para agir individual e coletivamente, prevenido e resolvendo problemas presentes e futuros’ (DIAS, 1992 apud MUNHOZ, 2004, p. 142).

Em âmbito internacional, podemos citar o Protocolo de Kyoto, assim denominado em homenagem à cidade japonesa de Kyoto onde o acordo foi assinado. Constitui-se em um acordo assinado em 1997 por 189 nações, que se comprometeram em reduzir a emissão de gases causadores do efeito estufa em 5%, com base em

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A principal crítica ao Protocolo de Kyoto é que as metas instituídas representam pouco na luta contra o aquecimento global. contribuir para a formação do espírito de responsabilidade e solidariedade e fugir da propagação oportunista que vem rondando a temática é um dos principais objetivos da Ecopedagogia. há algo que não podemos deixar de considerar importante. alegando que a implantação de metas prejudicaria a economia do país. além da importância em traçar as linhas gerais para os próximo acordo. na esperança de que seja mais rígido e abrangente. uma vez visto que os cientistas acreditam que a emissão descontrolada desse gás. principalmente os maiores causadores dos problemas e finalmente estabelecer uma verdadeira “vitrine” das questões que envolvem a sobrevivência/consumo/ atrelado a uma posição responsável frente ao planeta. Por outro lado. bem como de outros. promovendo uma série de catástrofes que muito prejudicará a humanidade e toda e qualquer espécie de vida. que se desponta como novos saberes e novas fronteiras que a pedagogia precisa buscar para reestruturar sua ação. já que são eles. O então presidente George W.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE pesquisas comparativas com os níveis da década de 1990. Portanto. Bush refutou o acordo. tornando concretas as ações ambientais neste âmbito (PROTOCOLO. Não resta dúvida de que é preciso reconhecer que as novas demandas educacionais. o maior emissor de gás poluente do mundo. apontar os países que se recusam a participar das propostas. Kioto foi essencial para que diversas nações e empresas tenham transformado em lei as metas de redução. quando o documento expira. pensar na formação do educador sem 162 . 2008). haja vista que se constitui em uma temática emergencial frente à degradação do meio ambiente que se construiu no último século. sobretudo a Ecopedagogia. Baseando-se nessa crítica. justamente. prevendo que suas metas sejam atingidas entre 2008 e 2012. causando um impacto pequeno na mudança do panorama atual. qual seja: expor ao mundo a situação do planeta. a falta de adesão dos Estados Unidos enfraqueceu muito a utilidade do acordo. Apesar dos limites que o Protocolo possa ter na efetivação de medidas eficazes a que se propõe. O alvo é o dióxido de carbono (CO2). entre eles os Estados Unidos. esteja diretamente ligada ao aquecimento da Terra. boa parte dos especialistas se mantém cautelosa quanto ao novo tratado. Para eles. o país com maiores emissões de gases poluentes do mundo. Por fim. Vale ressaltar que alguns países se recusaram a assinar o acordo. O Protocolo entrou em vigor em fevereiro de 2005. os defensores do Protocolo apontam que. envolvendo governos para o comprometimento de ações concretas para atendimento às diretrizes do documento. alegando também que este não exigia providências dos países em desenvolvimento. se constituem apenas no início de caminhada. O efeito estufa pode comprometer ainda mais a vida no planeta.

1992. 2004. Acesso em: 13 jan. p. 2004.F. Cuiabá. 4. Ações prioritárias da Agenda 21: possibilidades e restrições. CARVALHO. Comissão de Políticas de Desenvolvimento Sustentável. GADOTTI.antroposmoderno. Moacir . Moacir . São Paulo: Editora Unesp. São Paulo: Gaia. BRASIL. Brasília. 12. História da Pedagogia. GADOTTI. (Formação de professores EAD). p. Educação científica-ambiental: histórico e perspectiva.n. 2. 2005. A ecopedagogia como pedagogia apropriada ao processo da Carta da Terra.l. com/antro-articulo. In: FALCO. 2006) é restringir e estreitar a consciência de totalidade que tanto se busca nos cursos desses profissionais. Adriana Rosa.Pedagogia da terra: ecopedagogia e educação sustentável.].). n. n.php?id_articulo=392>. Identidades da Educação ambiental brasileira. Peirópolis. GADOTTI. 11-24. Déborah. Philippe P. HIGUCHI. Revista de Educação Pública. 63-70. (Coord. ed. v. Maringá: Eduem.l. Franco. DIAS. s. 2009.. 228p. Brasília. Novas demandas educacionais na contemporaneidade: Um olhar para a Ecopedagogia Referências ANGELINI. Educação como processo na construção da cidadania ambiental. Ministério do Meio Ambiente. 1999. CAMBI. 2003a. Genoveva Chagas de. DF: Ministério do Meio Ambiente.]. Pedagogia da terra. 0.). Philippe Pomier. RODRIGUES. 2004. G. Ronaldo. Brasília. Maria Aparecida (Org. Identidades da Educação ambiental brasileira. 163 . 2006. Moacir .perpassar pelo debate da Ecoformação (GADOTTI. AZEVEDO. Alfabetização ecológica: de indivíduos às empresas do século XXI. Antroposmoderno. Educação ambiental: princípios e práticas. 21. Disponível em: <http://www. DF: Ministério do Meio Ambiente. 2004. ed. Maria Inês Gasparetto. MUNHOZ. In: LAYRARGUES. DF. Revista Brasileira de Educação Ambiental. [S. LAYRARGUES. 2003. São Paulo: Ed. José Ricardo Penteado. Biologia dos organismos. [S.

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Anotações Novas demandas educacionais na contemporaneidade: Um olhar para a Ecopedagogia 165 .

SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE Anotações 166 .

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