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Memórias
Já tomei muito chá com wisque antes de registrar minhas memórias hoje. Preciso abafar as interferências sonoras externas e para isso uso um headfone, conectado ao CD-Rom do meu microcomputador, onde roda sem para um CD de música indiana que minha namorada me emprestou. Talvez tenha tomado muito chá com wisque. Preciso de pouco para induzir um estado mínimo de consciência alterada. Sou fraco para o álcool. Se não controlar as doses, acabo tão bêbado que nem consigo digitar. Aí, meu intuito se perde. Nesse momento, com as teclas obedecendo a ordem táctil de meus dedos, com as moléculas do wisqui diluído num chá de flores e frutos silvestres fervilhando nas células de meu cérebro, e com meus ouvidos totalmente isolados de qualquer influência, sinto as portas das outras dimensões se abrirem. Não preciso de nave espacial, nem máquina do tempo, nem nenhuma superdroga experimental. Não precisaria nem do wisque, mas é difícil controlar o campo meditativo numa casa tão atormentada como a minha. Os festejos da quermesse da igreja lá da esquina vibram malevolamente até aqui. Além de meus pais e irmãos fisgados pelos sons e luzes hipnóticos do aparelho de TV, desperdiçando tempo com o passado. Um programa de televisão, “ao vivo”, demora cerca de três segundos para ser transformado em ondas, enviado para o satélite e retransmitido para a antena ou o receptor de cabo do aparelho de TV da minha casa. A imagem e o som chegam com três a sete segundos de atraso desde o momento em que são geradas no estúdio de TV. Ao ver um programa desses, estamos três segundos no passado. E olha que grande parte dos programas não é “ao vivo”, mas gravada e editada. Ver TV é estar constantemente olhando para um passado. Próximo ou longínquo, sempre passado. E cada vez mais editado. As pessoas depositam tanta fé no que vêem. Mas a verdade é que, hoje, é impossível saber se o que é transmitido é verdade ou não. Para que ver então? Para mim, é só um entretenimento. Um verdadeiro passatempo. Assim como estudar história. Não há certeza de nada, apenas puras deduções. Não quero mais perder meu tempo. Quero participar, fazer parte de algo. Acho que o que tenho para dizer pode ser importante. Se não para alguém, para mim com certeza. Tenho duendes no meu quarto. Não sei se são mesmo duendes, mas é assim que os chamo. Mataram o peixe dourado que eu tinha num aquário e agora vivem lá. São meio cinzas ou meio verdes. Já contei uns três  Contos e Crônicas de um Condenado

Tato Guin  2 diferentes. Têm hábitos noturnos. Bebem um tipo de cerveja e berram muito durante a noite. Posso ouvir seus berros na forma de sussurros enquanto durmo. Não sei se são bons ou malvados, apesar da cara de mal encarados que fazem quando os observo. Têm o tamanho de uma gilete e não saem em fotos nem em vídeos. Poderia pensar que só eu os vejo. Mas só eu já vi tanta coisa que nem ouso perguntar a ninguém a veracidade dessas existências para não ser tachado de louco. Estão todos em silêncio agora. Parece que dormindo. Deve ser efeito do pingo de wisque que joguei na água do aquário. Bom, de qualquer jeito, hoje é um grande dia. Finalmente deixei de esperar alguma coisa acontecer e resolvi escrever. Vou registrar todas as experiências que tive e aquilo que sinto e penso agora, nesse eterno viver. Este é só o primeiro apanhado. Não se preocupe, não deixarei este texto ficar chato nem entediante. Quero incentivá-lo a pensar, a dialogar e a clarear sua existência. Ler as experiências de outrem é ótimo para aprender. Registro aqui pouco das histórias que ouvi da mente de algumas pessoas enquanto pegava o coletivo. Outras chegaram em ondas magnéticas durante meu sono. Umas em forma de contos. Outras em forma de crônicas. Minha mente tem se expandido com os anos. E ao invés de loucura, torno-me mais equilibrado e lúcido. Por isso não ligo para o que os outros possam pensar sobre o que acontece comigo. Não é ficção. São fatos. Alguns aconteceram e outros acontecerão. Dada a maneira que escolhi para divulgar esses acontecidos, a literatura (já que a transmissão de pensamentos mente por mente não funciona como eu esperava), há modificações. Há adaptações narrativas. Narro como observador e também como personagem, apesar de nem tudo se referir a mim. Mas preciso começar, é claro, falando de como tudo começou.

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A Origem de Tato Guin
Numa ensolarada manhã de Sábado, fui praticar traiking numa cidade do interior paulistano cujo nome não convém propagandear. Andava numa picada mato adentro em busca de uma suntuosa queda d’água desconhecida dos turistas. No meio do caminho, encontrei uma entrada para outra picada, estreita, com chão calçado por pedras irregulares, e que parecia há muito em desuso, tomada pela força da natureza. Resolvi aventurar-me, pensando que talvez fosse um atalho esquecido. Armado de meu facão, foi alargando meu caminho e seguindo àquele incerto destino. Depois de cerca de uma hora, cheguei a uma pequena clareira que tinha ao centro uma velha porteira de madeira. Imbuído a pular aquele obstáculo, aproximei-me, porem, ao tocar a cerca, fui tomado de estranha sensação. Senti náuseas, minha vista escureceu e meu corpo foi desfalecendo. Senti perder o peso como se eu estivesse flutuando. Quando dei por mim, não havia chão sob meus pés: eu estava realmente voando. Abaixo de mim, vi extenso mar de águas avermelhadas, talvez barrentas, agitadas. O céu era de um cinza de entristecer a alma. E haviam grossas nuvens negras. Estrondosas explosões fizeram as nuvens arderem em chamas e uma estranha e grossa água barrenta começou a precipitar das alturas. Aquele pegajoso e quente líquido marrom lambuzou-me todo. Por curiosidade levei alguma quantidade daquilo ao meu nariz na intenção de identificar qual a natureza da bizarra gosma que chovia. O cheiro era adocicado. Instintivamente levei a gosma à boca e então comecei a sorrir desacreditado: era chocolate. Eu estava flutuando sobre uma mar barrento avermelhado, sendo alvo de uma barulhenta e inimaginável chuva de chocolate. Comecei a indagar que força fazia-me voar. Eu continuava flutuando a uma velocidade considerável. Tentei controlar meu vôo, fazer manobras, virar para a direita ou para a esquerda, mas tudo em vão. Não era minha vontade que controlava aquele vôo. Era como uma força de atração. Como se eu fosse uma peça de metal arrastado por um poderoso imã. Estava sendo atraído para um misterioso destino, flutuando, sentindo ainda as pesadas gotas de chocolate açoitando meu corpo, ao som de estrondosas explosões sob nuvens negras que se consumiam em fogo. A certa altura pude avistar uma ilha distante, com um morro. Ao me aproximar pude notar que o sinistro morro tinha a forma de uma caveira. Mais perto, vi que um dos orifícios oculares da caveira-morro na verdade era uma gruta. E conforme a ilha chegava mais perto, diminuía a velocidade de meu vôo. Pousei na entrada da gruta, abandonado pela enigmática força que me atraiu. Como o chocolate ainda chovia torrencialmente, resolvi  Contos e Crônicas de um Condenado

Tato Guin  4 abrigar-me na gruta. Não queria me arriscar, mas lampejos de luz pareciam oscilar no fundo da caverna. Curioso, passei a seguir em direção à luz. O aroma de velas queimando começou a se propagar. Em determinado momento, não podia mais avistar a saída da caverna, só via a luz na direção oposta. Cauteloso, continuei até chegar a uma tosca sala iluminada por inúmeras velas grossas, que alastravam o cheiro de cera de abelhas enquanto queimavam. Junto da parede havia um grande altar de pedra sobre o qual repousava um velho e pesado livro empoeirado, encadernado em couro. Chamei por alguém, mas nada nem ninguém deram resposta ao meu chamado. Resolvi abrir o livro do altar. Constatei estranhos símbolos, diagramas que não se assemelhavam a nada que eu já tivesse visto. Nem chinês, nem japonês, nem árabe, nem nenhuma língua conhecida, viva ou morta. Ao passo que eu folheava aquele antigo livro, imagens foram se formando em minha mente, e significados foram se revelando, como se eu pudesse entender aqueles escritos esquecidos. Eram os registros de histórias do passado, de aventuras fantásticas em diversos mundos, de acontecimentos mágicos que marcaram as eras. Ali, coberto de chocolate que ia secando, comecei a ler sobre civilizações de antes da história. Acontecimentos anteriores a Antigüidade. Li sobre portais e sobre contatos com diferentes seres e dimensões. Li sobre os filósofos que surgiram antes dos filósofos. Vi registros de artes e representações. Aprendi sobre técnicas de luta e estratégias de conquista. Conheci os deuses, e os deuses que originaram todos os deuses. Confabulações sobre o surgimento da vida e da primeira fagulha. Orientações para a ordem e o caos. Feitiços sobre a vida e a morte. Ciências do andamento da natureza e do funcionamento de todos os grandes mecanismos. O relógio do universo e os ponteiros dos astros. Casulos do espaço e das profundezas da terra. Conforme eu lia, mais havia para ler. Quanto mais eu folheava, mais o livro parecia crescer. Como se o conhecimento não tivesse fim. Passaram-se horas, dias, meses. Magicamente eu não sentia fome nem cansaço. Só um apetite cresceu: o saber. Eu deveria absorver tudo que me fosse mostrado e permitido, sem me preocupar em entender. O entendimento viria depois, mas o primeiro contato deveria ser aproveitado, todo. E quando eu estava chegando à primeira de todas as palavras, o verbo que a tudo deu início e que, se recitado ao contrário, tudo findaria. Quando eu estava chegando perto da face do primeiro de todos os seres, o responsável pelo sopro das primeiras existências e vidas. Próximo do fim e do começo, do cheio e do vazio, do tudo e do nada. Um trovão rompeu. O barulho de rocha se arrastando me assustou. O altar de pedra se moveu, revelando um fosso escuro. Do fosso um cintilante vermelho e esfumaçado emergiu. Abobado, atrevi-

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Tato Guin  5 me a tocar o laranja avermelhado que subia e queimei-me. Era a ponta de uma tocha, carregada por um ser horrendo e mal cheiroso. Era a própria latrina do demônio. E um humanóide de pele retorcida, olhos vermelhos sangue sem íris nem pupilas, com o bafo da morte, urrando a língua das bestas feras, falou: – Quem ousa tocar o livro das origens deve pagar no inferno pela eternidade!!! Não me atrevi a pensar nem questionar, simplesmente corri. Corri para fora da gruta, saltei do olho da caveira e, sem saber o que me aconteceria, simplesmente flutuei. Numa velocidade, que a cada segundo se superava, eu voei. Não caia mais nenhum chocolate. O céu ainda era cinza e o sol não existia. A força que me fazia voar me levava não sei para onde. Antes de sentir-me aliviado olhei para trás e a criatura enrugada me seguia, montada em um réptil alado. Em sua fúria enlouquecida ele grunhia: – Não importa onde você vá. Em qualquer dimensão ou esfera os guardiões das origens o encontrarão. Aos humanos não é permitido saber... aos humanos não é permitido saber... o melhor que te pode acontecer é morrer... reeeeerrrrrr.... Finalmente avistei ao longe a antiga porteira sustentada no nada. Ao máximo me estiquei e finalmente a toquei... ... ... E lá estava eu, suado, parado em frente à porteira, naquela singela clareira. Menos de cinco minutos haviam se passado. Será que eu sonhei? Alucinação causada pelo cansaço e pelo calor? Eu nunca usei nenhum tipo de droga e quase nunca me embebedei. Não tenho parente esquizofrênico na família, nem caducos ou de mentalidade doente. O que foi aquilo? Eras de conhecimento descoberto em anos de leitura que se passaram em minutos de experiência. Um devaneio. Só poderia ter sido um doido devaneio. Mas eu sentia um dor lucilante na mão direita. Percebi uma dolorosa cicatriz, resultado de uma queimadura. Como podia ser? Não podia mais questionar. Deixei a mata numa fuga frenética até a minha casa. Sentei-me à frente do computador e registrei tudo o que eu pude lembrar. Até hoje tenho sonhos. Reis conquistadores, aventuras em terras distantes, viagens pelo espaço proporcionadas pela magia, deuses, seres e situações de todas as espécies surgem em imagens oníricas. Tenho também pesadelos com homens de pele derretida e estranhos demônios me perseguindo. Mas também sonho com seres supremos, guardiões do tempo e das mudanças das eras. Estes são os seres que às vezes me orientam. Eles sussurraram em meu ouvido o nome mágico que eu deveria usar para tornar público o que aprendi sem ser reconhecido pelos guardiões do livro das origens e seus asseclas. Tato Guin é o nome que para sempre me protegerá.

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Só sei que trago até hoje a cicatriz da tocha em minha mão direita. É assim que me apresento nas histórias que irei narrar... Boa Viagem!   Contos e Crônicas de um Condenado . Sentemse. E minha namorada sempre me pergunta como é que eu arrumei este natural odor adocicado de chocolate que estou sempre a exalar. sintam-se à vontade e.Tato Guin  6 Se isso tudo é real. não me preocupo mais em provar.

que faria jogo com o seu seis e o seu cinco esquecidos no canto da mão. quando tiver curado suas ansiedades. Pensar no que se poderia ter feito quando o jogo já terminou não nos faz vencê-lo. alguém acaba vencendo o jogo antes da gente. o desprezamos. Não raro. E com essa idéia fixa. e aí. acaba passando despercebido. Muitas vezes. Mas graças a Deus podemos partir para uma nova rodada. Ou fica alimentando esperanças de que a próxima carta que tirar do monte será o oito que lhe garante a vitória. uma fagulha que julgamos o necessário para clarear nossos dias. O problema é que a carta que queremos pode estar no fundo do baralho. pronto para ser pego. não vai fixar-se num só tipo de jogada e estará pronto para aproveitar tudo que a vida tiver de bom para lhe oferecer. o oito de espadas. às vezes você sai com um determinado jogo na mão. Canastra por exemplo.   Contos e Crônicas de um Condenado . Na vida. ou algo em você faz-lhe pensar que um oito de espadas é a carta de que precisa para vencer o jogo. um sete de ouros. E quando você estiver despreocupado. Você perde.Tato Guin  7 Oito de espadas A vida é como um jogo de cartas. outros brilhos acabam passando desapercebidos. Não raro. por vezes. Se você aprendeu com seus erros. Podem os outros aproveitar ou não aquilo que deixamos passar. E não importa mais se você ganha ou perde. cegos por nossas ambições e idéias fixas. lá estará ele. Justo o sete de ouros que seu oponente estava esperando para completar-lhe a canastra e vencer. Simplesmente você gosta é de jogar. sem nada pelo que esperar. Observando o que seus parceiros jogam à mesa ansiando que desprezem seu oito tão almejado. nessa gana que lhe faz a cabeça. Veja bem. o prêmio que a vida tem para nos oferecer é melhor do que esperamos. Aí você passa o tempo todo perseguindo esta carta. ansiamos por um acontecimento. Embaralha-se tudo e dão-se novas cartas.

Há um piscar irritante de luz. A porta se abre e adentro a sala. Ansioso por minha cama. o chão afunda e me percebo caindo. Parece que estou flutuando. E ele é forçado a olhar para mim. mirando o chão em penitência. O homem está algemado. De alguma forma. Era um sonho. E acordo. à esquerda. Transtornado. Portas dos dois lados. como num leve nevoeiro. Número 36. lembrando uma escola. E de anteontem. à força. Passo o dia como um zumbi. E ao mesmo tempo temeroso. Paredes brancas. Parece num transe psicótico. Num canto da sala há um homem ajoelhado. Um alucinado. aflito. Estou caminhando. Sou eu.  Contos e Crônicas de um Condenado . assustado. O mesmo de ontem. com a cabeça pendendo dos ombros. Isso está me fazendo mal. Posso ver pela pequena janela que se trata de uma sala com chão e paredes acolchoados. Sinto-me nauseado com o relampejo daquele rosto. A estranha voz berra algo mais uma vez e vejo aquelas mãos serem afastadas com luta do rosto que tentavam esconder. Braços estranhos o levantam do chão. Então ouço passos e sinto meus pés no chão. Caindo numa escuridão sem fim. mas não posso ver quem está comigo. E de antes de anteontem. Veste um pijama branco encardido. Como uma dessas lâmpadas florescentes com defeito. Alguém o chama mas não consigo ouvir seu nome. Não estou só. um hospital ou uma instituição psiquiátrica. Mas sua voz não me é estranha. Tudo começa a tremer. Faz uns quinze dias que tenho o mesmo sonho todas as noites. E não volto mais a dormir. já tinha visto aquelas mãos. molhado de suor. Reconheço o homem. ofegante. Dou-me conta dos gemidos. pois sinto que o sonho vai se repetir. Então paro diante de uma porta. Tudo fica mais nebuloso. Gente rezando. vou me acalmando. Meu trabalho sai mal feito. Percebo a voz murmurante do homem.Tato Guin  8 O gênio mau Vejo um corredor. O ambiente é meio esbranquiçado. Acordo sempre por volta de três da manhã. Ao aproximar-me. na minha cama de solteiro. Sou eu algemado numa sala de manicômio. Fico mal humorado. Estou caminhando nesse corredor estranho cheio de portas com pequenas janelas. Olho em volta na esperança de reconhecer o lugar e. Ele cobre o rosto com as mãos. Reconheço o rosto. Gente chorando. o cabelo espesso cobrindo-lhe a face. Descalço. Gente gritando. sinto o calor de sua loucura.

dando mole para ele? Preciso me garantir. Garota de programa. Métodos semelhantes. do Tribuna. trabalhadoras da noite. Relaxe. Não há pesadelo que resista. Alerta para o que fazemos conosco mesmos.. Meu caro. Talvez um serial killer. Naturalmente minha ansiedade aumentou. Mas não posso tirar férias agora. para poder se afastar do teu trabalho estressante. Parece haver uma ligação. Todas tiveram a garganta cortada. Ou pelo menos fingir que sabe ouvir.Tato Guin  9 O que acha doutor? Estou ficando louco? . Vítimas parecidas: jovens moças. Todos na mesma região. Vou te receitar uma dose deste aqui . feito urubu diante da carniça. Por que o capitão daria exclusividade para mim. acho que o estresse da tua vida profissional já está afetando drasticamente teu corpo. tome antes de ir para a cama. duas semanas pelo menos. Qualquer detalhe na fala do interpelado pode ser rastro para uma grande descoberta. Não sou desses. Quase um amigo. Um bom jornalista precisa saber ouvir. Realmente. “ Jovem jornalista ajuda a desvendar crimes na capital ” . Começo para uma grande história. Metade dos jornalistas que conheço enfartam antes dos cinqüenta anos. Verá como os pesadelos irão passar. E a última há dois dias. O segredo é mostrar-se solidário.. Quem sabe. confidente. Realmente interessado. Três assassinatos. Peça umas férias.. Vou agora mesmo para lá. Não agora que estou acompanhando este caso. Consegui nome e endereço da mãe da primeira vítima. seria uma boa manchete. Nosso inconsciente nos dá avisos. Eu acreditei no doutor.. Eu sou capaz disso. Correr atrás de notícias o tempo todo. Não quero deixá-la tensa.. chegar na notícia antes dela.. E ele está pedindo arrego. com aquela gostosa da Ana Vilela. insensíveis à dor daqueles que são notícia. A primeira foi encontrada há vinte dias. . E para alertar outras vítimas em potencial de casos como esse.Talvez você quisesse ficar louco.. A gastrite me força a evitar o café. Sei como agem alguns jornalistas. Uma striper de uma casa de shows. Enfrentar multidões. Não. Vá visitar sua família. tentar uma conversa descompromissada. O Capitão Reginaldo prometeu-me deixar informado de qualquer novidade. tornar-me a notícia.. E pegue mais leve com o serviço rapaz. Faz um mês que estou tentando parar de fumar. Mostrar a importância que algumas informações podem ter para elucidar a trama. Não se preocupe tanto. um prazo para cumprir. Vá para o campo. Garçonete de uma lanchonete. meu trabalho é muito estressante. A segunda na semana passada..  Contos e Crônicas de um Condenado .. Você precisa de umas férias e de um calmante. Ter sempre um texto novo para criar. Mas naturalmente que estou fazendo uma investigações independentes.

Nesta foto ela e a turminha do serviço estão comemorando o último fim de ano. Era a última a sair.Tato Guin  10 Sei que a moça era muito bonita.. Mas nunca trouxe um namorado para casa. Começou a trabalhar naquela lanchonete com catorze anos. Veja. algumas fotos. Mãe sofrida.. inventando ou copiando coisas que via da TV. Ela era muito atraente. . Ninguém lá tem carro não. num parque próximo. traze-la em casa? . Algum amigo costumava dar carona. de uma orelha a outra.. os desenhos da menina eram de péssimo gosto. Mas preciso confessar.. Depois de dois dias em desespero. Sou viúva. .Foi a primeira coisa que a polícia perguntou. Não ia ser grande coisa como estilista não. Engraçado. Era sempre esperada pela mãe. Já tive tantas refeições nesta lanchonete. Pensava no futuro. Meio esquisitos..Não sei por quê isso aconteceu. Era quase independente.. Costumava deixar o serviço às 23:30 h.. Segundo o boletim de ocorrência. venha.. Certa noite.Será que ela teve algum relacionamento com colegas do trabalho? Para levar o corpo até o parque.Ela estava guardando dinheiro para pagar um curso de faculdade. Ela tinha algum namorado. .. um amigo . fazia o turno da noite na famosa lanchonete desta região.. A turminha do serviço era muito legal também. minha filha que fechava a lanchonete. Teria sido o gerente? Um molestador de subalternas enraivecido por um assédio sexual não correspondido? Teria sido um dos fregueses? Estou em frente à lanchonete agora.. Chegava em casa por volta de 1 h da madrugada.. Muitas vezes. . . Alguns sinais de luta. Vivia fazendo desenhos.. Gente pobre. o assassino precisaria de um carro.? . Ela tinha amigos. Era uma menina cheia de vida. mas ele não ficava lá até o fim do turno da noite. O corpo foi encontrado no dia seguinte. Será que ela não  Contos e Crônicas de um Condenado . É triste ver uma família ser atingida assim pela violência. Cuidei dela e da irmã até hoje com muito esforço. Não me lembro de tê-la visto. E marcas de batom. estes são alguns dos modelos que ela desenhava.. Ela não pensava muito em namorar. Essas coisas modernas sabe.Claro. Mostrei que não é fácil por gente nesse mundo. . Queria fazer moda.. Por vezes costurava e moldava as próprias roupas.Não.. esperando anoitecer. Coitada. Achavam que poderia ser um crime de ciúmes.. Só o gerente. não voltou... As pressões da vida profissional nos cegam para as relações humanas. Um profundo corte na garganta.. Um monstro desses deveria ser queimado vivo.. Será que eu poderia ver o quarto dela. .. a família prestou queixa de desaparecimento. Quem de seu círculo teria interesse em matá-la? Ninguém parece suspeito.

Saímos juntas umas duas vezes. a não ser a beleza. ofereceu uma carona. E o gerente? Como ele é com vocês?  Contos e Crônicas de um Condenado .Tato Guin  11 teria me servido um hambúrguer numa noite dessas? Perdi a oportunidade de conhecê-la. Um assassino serial tem sempre um padrão. E um suco de maracujá. qualquer uma pode ser a próxima vítima. Outros dois assassinatos parecidos ocorreram na região. Não havia sinais de sangue no local de serviço nem no local em que foi achado o corpo.. Mocinha. e faço algumas perguntas.Bom moço... na provável noite do crime. Era comum as garotas sortearem quem ia ficar com as chaves.. .. seja rápido pro gerente não achar ruim. depois do expediente. onde ocorreu o crime. Nunca a vi namorando mesmo.. Como era seu relacionamento com tua colega? Ela te contava coisas? Falava de algum amigo chegado ou de um namorado? . e depois “desovada” no parque. investigo a sua morte no intuito de alertar todo o país.. ocultando as nefastas intenções. para farrear.. Vou esperar mais um pouco. Não á nenhuma semelhança física aparente entre elas. Às vezes falávamos de paquera. Teria essa jovem sido apenas vítima do destino: estar no lugar errado na hora errada? Não. peço um lanche. com o resto da turma. Um estranho teria que imobilizá-la. aceita torta de maçã para sobremesa? Pode ser. – o rosto da alegre mocinha se entristeceu de imediato – Ah.. Cheeseburger. Testemunhas afirmam que.. O senhor está precisando se acalmar? Mais ou menos. . por favor. Entro. Ninguém queria ser o último a sair. você se importa de voltar aqui para conversarmos um pouco. Sou jornalista. ou pelo menos simpático. Ela foi levada a algum lugar.. Se for um maníaco. ela foi a última a deixar a lanchonete.Oh! Um momentinho. . ..Hum! Ma-ra-cu-já. Você deve imaginar a importância de noticiarmos um caso desses... Em que eu poço ajudar? Não queria incomodá-la. um modus operantis. As vítimas trabalhavam à noite. Mas amigos de serviço nunca são muito íntimos. Fora deixada para trás por duas colegas que correram até o ônibus que passava enquanto ela trancava as portas. E agora. Muitas pessoas passam por aqui dia e noite.Nós éramos amigas. Já a vi ficando com dois ou três carinhas. levá-la até o carro. Provavelmente um rosto conhecido. . queria falar a respeito de uma colega sua.

Exige bastante de todo mundo aqui. Também vou atrás de informações da segunda vítima: a stripper. Eles têm recursos que não temos aqui. Todos ficamos transtornados. É comum rolar uma amizade. Esta é uma lanchonete muito procurada por todos não é mesmo? . Preciso escrever algo para a minha coluna de quinta-feira.Seu Odair é gente fina. . Espero que sim.. Seria bom se eu ganhasse mais notoriedade fazendo desses casos uma boa matéria.Ficou arrasado. uma paquera. Coitado.É verdade. Poderia um dia ter meu próprio programa policial na TV.Moço. Talvez me dê melhor escrevendo um livro. Muitas manchas de sangue. Tenho alguns poucos fãs e leitores assíduos. Infelizmente essas coisas ainda não são levadas muito a sério aqui no Brasil. Ele anda ficando aqui até mais tarde para fechar a lanchonete. Vive falando delas e da esposa. Amanhã vou à delegacia. Estava com bastante roupa para uma striper.. É muito duro com relação ao trabalho.. Bom. Pediu para nós sairmos todas juntas. Exigiu do mantenedor a contratação de um vigia para ficar aqui no turno da noite. Coordenar imagens de helicópteros e motolinks. . É casado e tem duas filhas pequenas. O segundo corpo foi encontrado num beco. Talvez o Capitão tenha algo novo para dizer. Como era ela com os clientes? Alguém exigia atenção especial? Havia algum freguês que fosse . Descobriram o assassino devido a uma pegada deixada no local do crime. não é a primeira vez que o senhor vem aqui. próximo do parque em que encontraram a garçonete. não é? Não. e tentar dormir. amigo dela? . O senhor é de um jornal famoso? Será que pode ajudar a pegar o monstro que fez isso? Espero que sim. Mas não sei se é o tipo de fama que procuro. Ninguém mais vai para casa sozinho aqui. Como ele ficou depois do acontecido? . Mais alguma coisa? Acho que não. Acho que já servi o senhor antes.. Nada de concreto. E então capitão! Algo novo para mim?  Contos e Crônicas de um Condenado . Há chance da perícia ter encontrado alguma pista: uma impressão digital ou um fio de cabelo.. Obrigado. . Vi um documentário americano uma vez. Mas nunca vi nada de diferente não. por hoje só me resta provar do calmante que o doutor me receitou. Não posso decepciona-los.Aqui é um lugar muito freqüentado por jovens.Tato Guin  12 ..

Não sabiam no que ela trabalhava. é que até você poderia ser um suspeito.O que estou dizendo rapaz.. Felizmente poucos são loucos assassinos. Hum. Estamos tentando segurá-la para investigar um pouco mais. Muita gente freqüenta a boate em que ela trabalhava. você precisa de umas vitaminas. Não tive uma boa noite de sono. Mandavam-lhe algum dinheiro todo o mês. Hã. Cai fora daqui rapaz.Nossa! Você está péssimo. Está louco para assustar as pessoas com a idéia de um serial killer. Assustar o assassino. A família é do interior. também stripper. Mas não vou falar mais nada. Talvez não apreciem a idéia de ter a vida da filha escancarada no seu folhetim.... aí conversamos. você costumava ir nessa boate.Eu sei o que você está sugerindo. não é mesmo! Ela dividia um apartamento com uma colega. . freqüentadores do lugar.. Muitos homens fantasiam com garçonetes gostosonas. Muitos homens procuram prostitutas. pálido. Por falar nisso. Foi um duplo baque para eles.É claro que há rapaz.Só confirmo que você consegue me enrolar direitinho. Religiosos...Vários. Então o senhor confirma que se trata de um assassino psicopata? . Muitos homens freqüentam essas casas.. Está magro.. Uma publicação sua poderia arruinar nossas investigações.Tato Guin  13 .  Contos e Crônicas de um Condenado .. Vocês têm um suspeito? . é uma situação complexa. o empresário que a agenciava.Que olheiras horríveis. Por hoje chega. .Rapaz.. A moça tinha família aqui? . O café eu dispenso. Não se vê muita gente direita em ambientes como esses. A garota está muito assustada. Também é do interior e quer voltar para a família. Achavam que estudava e morava numa república. Há chance de que aceitasse alguns programas. não é? O que é isso capitão! Não precisa me assustar. Vamos tomar um café. Vai acabar doente. Há impressões digitais? Marcas de batom? . Aposto que é por isso que não dormes direito. . Venha. Já entendi que você não quer falar mais sobre o assunto. Descobrimos que ela já tinha até posado nua para uma dessas revistas baratas. Será que o senhor poderia me ceder algumas informações sobre a striper? . não é! Não deveria ter deixado você ver o corpo da garçonete. Há ligações entre os crimes capitão? Os três crimes? . A lista de suspeitos acaba ficando grande: os donos da casa.

Só um cigarrinho malvado de vez em quando. Haveriam marcas de batom também no corpo da striper? Preciso ir ao necrotério da cidade.. Você ou sua amiga. O capitão Reginaldo deu uma de durão mas acabou me cedendo uma visita. Não acordei no meio da madrugada.Éramos amigas. Mando dinheiro para minha mãe todos os meses e ela sabe muito bem qual sua origem. E por que vocês entraram nesse ramo? . Ela estará acompanhada por um policial à paisana.Não. Felizmente o alarme do rádiorelógio me libertou dessa terrível ilusão. Realmente tive uma noite horrível. Estou mal. O calmante pareceu piorar as coisas. Sua amiga tinha algum namorado? Algum protetor ou amigo próximo? . Partilhávamos muitas coisas.A ilusão da fama e do enriquecimento fácil. Eu parecia preso ao pesadelo que se repetia a cada vez mais próximo do real. Mas a custo da dignidade fragilizada. . Para o capitão ter concordado com isso. Desculpe-me a franqueza.. mas é comum usar de sedução para conseguir bons trabalhos. Qual a natureza da relação entre você e a vítima? . Muitos homens casados freqüentavam aquela casa – ela disfarça a voz e cochicha com o canto da boca – e policiais também.. Muitos homens não entendem a diferença entre tirar a roupa e se prostituir.Ela estava dormindo com o nosso agente. Acham que o dinheiro compra tudo. é um ramo de dignidade frágil. Vivíamos juntas já há oito meses. ou está se lixando para a repercussão do caso ou já tem um plano em que minhas matérias podem ter um papel importante. Seria bom ter uma entrevista com o legista. A vida nesse meio é perigosa. numa luta desenfreada. Deve haver algo mais conectando estes crimes além da maneira pela qual as vidas foram tomadas. usavam drogas? .. Somos julgadas pela maioria como prostitutas mesmo. Olho para todos com receio.. A moça está sob vigilância em local confidencial. Entendo. Cada vez mais assustador. Eu já tive um relacionamento com ele também.Tato Guin  14 De tarde vou encontrar a colega da striper. Marcamos na lanchonete.Não. E isso me angustía. Imagino o nervoso que você tem passado nos últimos dias e não quero me demorar....  Contos e Crônicas de um Condenado . ver o laudo da autópsia das garotas.Não sei. Como eu disse. Nem eu ou minha amiga. mas rolei na cama a noite toda. você sente-se em perigo. Hum. Você também mentia para sua família? . Nunca me prostitui. Quem você acha que fez isso com ela? Ela tinha dívidas? . mas sua amiga fazia programas? Alguém já as ameaçou para fazerem programas? . Por vezes fomos salvas de algum abusado pelos seguranças da casa em que trabalhávamos.

Ora. também haviam muitos hematomas: sinais de luta. Oi Chong. Alarma-me mais o receio da colega da vítima. quero sair daqui.. os líquidos pareciam já bem coagulados. Como você sabe. Acabou de sair daqui aquela moça bonita do jornal que concorre com o teu.. . deixa de brincadeira e me diz o que quero saber. A coisa vai ficando mais complexa. smac. Há uma certa indiferença. Será que aquela moça usa calcinha? aposto que não... É duro ver uma moça tão bonita morta assim tão cedo e tão tragicamente. Um lugar proibido para o seio da boa família.Tato Guin  15 . e a prostituição.Sim. não seja por isso. seu coisa feia. para minha mãe. Já mandei analisar. a causa da morte foi a mesma das outras duas moças: hemorragia da jugular provocada por objeto cortante. Ganhei até um beijo no rosto. garçonete de lanchonete. Vem cá.Talvez. O corpo não estava tão ensangüentado quanto o da outra moça. smac. Então o assassino teve relações com a vítima? . Vai. o resultado sai em 5 dias. Um pedaço do inferno. Quando eu examinei o corpo. E crimes mais infames se acumulam. um cliente anterior. Mais fundo e se chega ao tráfico. Eu mesmo já fui muitas vezes àquela casa. como estão as coisas? . Mas agem diferente com stripers e prostitutas...Barra pesada. Só falo com você com autorização escrita do capitão. Preciso escrever minha coluna: “Crimes do centro podem ter ligação”.. Eu gosto é de mulher bonita. Amanhã visitarei o necrotério. Mas há algo diferente desta vez: sinais de esperma na parte interna das cochas. parece uma boa manchete.Nem vem.. Serve essa? . Como foi a autópsia da prostituta? . O material poderia ser até de outra pessoa. Odeio arranhado de barba. . Para alguns um assassinato desses é como uma condenação..  Contos e Crônicas de um Condenado . Não escapam do julgamento social. voltar para minha casa. Sociedade hipócrita.Sinto-me. Seria necessário precisar a idade do material.. “menina direita”.O capitão anda distribuindo isso agora é?! Esteve aqui outro repórter interessado no caso? . Conseqüência ou justa punição por atos pecaminosos.. . Como nas outras. Ninguém concorda com o assassinato de uma jovem trabalhadora.Sai pra lá. Seu japonês safado. Até policiais estão em sua lista de suspeitos. Essa entrevista valeu à pena.. A hora da morte está estimada entre 2:15 e 3h da manhã de quatro dias atrás. Ver se bate com a hora aproximada da morte.

“Degolador à solta Em vinte dois dias. A primeira análise de tipo sanguíneo deu O. Suspeito que haveria coincidência.. convida-la para um café. como alguém que mata uma galinha. Hahaha! Eu aceito. O sangue encontrado na segunda vítima. sob as unhas das duas primeiras vítimas. Suponho até que o sangue foi drenado ou escoado.Os três pescoços foram cortados com a mesma precisão. Mas se pudesse. Não houve o mesmo cuidado. muito sangue na segunda e esperma na última. Hum! Há mais alguma coisa que eu poderia saber? Algo que você não disse para a outra repórter? . . nessa ordem. navalha ou até um bisturi. É um exame caro.. antes que meu chefe venha reclamar. escrever e entregar logo.Sim. Além do tipo de morte..  Contos e Crônicas de um Condenado . três crimes brutais mancharam de sangue as ruas desta cidade. O mesmo não aconteceu com a stripper.Meu telefone. Tenho material suficiente para a coluna... desovando os corpos depois. ao que parece: A+. mesmo tipo de corte. Portanto. resquícios de pele e traços de sangue. Mas vou avisando que sou um cara difícil! . Brincadeiras à parte.. reservando o sangue para uma sopa ou coisa parecida. Cada corpo tinha algo em particular: marcas de batom na primeira. pediria uma perícia desse material e do sêmen da terceira moça. Eu quis dar a ela. uma striper e uma garota de programa. foram vitimadas neste espaço de tempo. Foi encontrado algo parecido nas outras duas? . provavelmente o mesmo instrumento: faca.em ambos os casos.Tato Guin  16 Haviam marcas de batom no corpo da primeira vítima. Eu não tenho autonomia para pedir um exame de DNA. possivelmente o algoz levou as vítimas a algum lugar para cometer os crimes. mas ela recusou.Encontrei material. Por isso tanto sangue. o que mais relaciona os crimes? . era todo dela? . Então você afirma que os três crimes podem ter sido cometidos por uma mesma pessoa.Não. Uma garçonete. Talvez o crime tenha acontecido no próprio beco em que o corpo foi encontrado. Chong foi muito útil. Três belas jovens foram assassinadas e tiveram seus corpos encontrados na região central. O primeiro e o último tinham poucas marcas de sangue. de forma mais apressada... só com autorização do governo. Melhor ir para a redação. .

. Pelo menos o pesadelo mudou um pouco. estou indo..Você continua com a aparência horrível rapaz. Que horror.. Eu era o açougueiro.. Foi mais aterrorizante. Tudo bem capitão? Alguma novidade? Não gostou da minha matéria? . Parece que tua matéria surtiu algum efeito. Poderia escrever mais. Mesmo modelo do teu carro. vi-me olhando para o espelho. Que medo.. Por que? .  Contos e Crônicas de um Condenado . Uma espécie de cozinha ou banheiro.. Quero criar um clima de suspense.Tato Guin  17 As investigações da policia apontam para um assassino em série. Sabe-se que o criminoso tem preferência por mulheres jovens e bonitas. Sim senhor... Ele olhou para mim.. Estava cutucando a pele da mulher com alguma coisa.. Bege.Qual é a cor do teu carro mesmo? Bege. . A policia continua as investigações e não revelou se já tem um suspeito. Muito sangue por todos os lados. A notícia não espera! . Dar todos os detalhes dos crimes logo de cara chamaria a atenção do público. O capitão Reginaldo ligou aqui a sua procura. cof. Vou tomar um banho. comer algo. Alô?! . Trim. Desta vez nem o rádiorelógio conseguiu me despertar. .Escuta rapaz. Vá direto à delegacia. Um homem de cabelos desgrenhados... Jovens.Tuuuuuu Maldito calmante. não te pago para ficar dormindo.cof. Havia uma mulher nua sobre uma bancada. Faze-lo parecer maior do que é. cuidado com as caronas. Parece que bebi a noite toda. Mãos manchadas de sangue. Amanhã pela manhã saberei se minha matéria surtiu efeito.Temos uma testemunha. interesse. mas por pouco tempo. cof. Que dor de cabeça.. Quer um café? Não. . A primeira coisa é dar um nome ao criminoso.. Como se minha consciência fizesse uma viagem de 180o .. Via sangue. Alguém viu o carro que levou a garota de programa. E ver o que o capitão quer. Alô. revelar mais. Trim.É para ontem. usando um avental de açougueiro. Fazer os leitores acompanharem a evolução das investigações a cada matéria. que degola o pescoço de suas vítimas. Ataca sempre à noite..” . um possível maníaco... Sinto-me horrível. obrigado. Evitem sair sozinhas e tentem chegar mais cedo em casa.. Em dois dos crimes houve seqüestro seguido de assassinato.

Já pedi uma autorização para exame de corpo-delito que sairá em breve. Dois policiais vão te vigiar. . Inacreditável. . Agora. De lá posso coordenar minha investigação particular e parecerá trabalho de rotina.Não é brincadeira. Onde você esteve há cinco noites? Ora. A coluna dela não foi publicada. Não posso poupa-lo dos trâmites legais. Eu. . Vou ligar para a redação deles. Doei sangue ao senhor na última cirurgia pela qual passou. Na lista telefônica posso conseguir telefone e endereços. Não pode viajar nem fazer nada sem me comunicar. Quem terá sido a testemunha? O que mais terá visto? Devo começar por onde posso. preciso me empenhar em encontrar o responsável. Destes. Teu carro está apreendido para averiguações. sem despertar maiores suspeitas. Estou sempre de olho na concorrência.Você está sob custódia. . não é estranho não ter saído nada sobre os casos que você vem investigando no Tribuna de hoje? Como? .Tato Guin  18 Que brincadeira de mau gosto capitão! . quantos registros de carros do mesmo modelo e cor do meu existem na cidade.Você sabe que foram encontrados resquícios de sangue O sob as unhas das duas primeira vítimas..Ei. Sou doador universal: O-.Havia alguém com você? Não. Açúcar? . Tome. . Outros dois vão investigar teu apartamento. mais do que nunca. Acho que vou aceitar aquele café. Vou para a redação procurar. Está parecendo fácil. Será que vetaram o artigo dela? Você tem um Tribuna aí? . contando com o meu. em casa. suspeito de cometer esses crimes bárbaros. dois são do modelo quatro portas.Não ouviu o que disse? Acho estranho não ter saído nada dos casos que você estava investigando no Tribuna. Minha última namorada me deu um pé na bunda há uns dois meses.Muitas coincidências. Tirando o meu. capitão.. Você é nosso principal suspeito. agora que tenho esses gorilas atrás de mim. Consegui o número das placas e o nome dos últimos proprietários.. não? Não pode ser sério. nos arquivos da companhia de transito. Sou solteiro. Espero estar errado rapaz. não quero ficar conhecido como amigo do “degolador”. Cinco registros. Qual é mesmo o teu tipo sanguíneo? O senhor sabe. A Ana Vilela vive entrando em atrito com você por exclusividade nesse tipo de notícias. Tomara que a notícia não tenha vazado. ..Claro. sobram dois. Estranho.  Contos e Crônicas de um Condenado . via internet.

Ora.Com licença. Preciso saber o que está acontecendo. Nosso chefe de redação acabou de sair.Te falo já... .... De nada.Tato Guin  19 .. por favor.. Eu sei como funciona o jornalismo do Tribuna. Não. Abra os braços por favor. anunciei e vendi. Disse que ia investigar o local em que a garota de programa fazia ponto.  Contos e Crônicas de um Condenado . ... Você sabe alguma coisa sobre a testemunha secreta do capitão? .Alô.. Fazem uma imensa matéria caluniosa primeiro. Esse é pouco suspeito... Obrigado Chong.. Quem está falando? Alô.. Droga.. . Sim. Você deve vir conosco.Pode tirar a roupa e vestir isso aqui. O carro não está à venda. Parecia novo na cidade.. não conhecia o rapaz. Respire fundo. – Tuuuuu. Alô. Não entregou a matéria da coluna e na casa dela ninguém atende aos telefonemas..Alô. Vendi há dois meses.. sem remédio. já sabe que sou o principal suspeito. Acho que o dono atual ainda não renovou o registro. Agora a direita. sim. E se estavam errados. Sou vendedor de seguros.. O capitão Reginaldo conseguiu a autorização para o teu exame de corpo-delito. Isso está muito esquisito.. – Tuuuuuuu. Não. Talvez ele saiba algo mais sobre as ultimas descobertas da polícia. A Ana não apareceu aqui hoje. Como? Não senhor. eu já tive um carro assim. Levante a perna esquerda. Hum. . . esses são o modelo e a cor do meu carro.. a essa hora.. Capitão Reginaldo precisa saber disso. Não aparece desde ontem. pagou em dinheiro vivo. O perito que me fará os exames é o próprio Chong. . as desculpas aparecem numa errata de três linhas num canto da última página. Os senhores podem esperar lá fora. vão pintar-me como monstro. Virese de costas. Era um sujeito esquisito. Pai de família de subúrbio..Temo pelo pior... Não agüento mais esses caras olhando feito bobo para mim. moro no subúrbio. Acabam com a boa imagem de qualquer um. Se aconteceu alguma coisa com ela. . Preciso de ajuda. . O tempo está correndo.. alô. Investigam depois. Vamos ao segundo. O chefe da Ana.. Preciso verificar os donos dos automóveis. Foi à delegacia. . Quem usa é minha esposa e ela o adora.

O editor-chefe do Tribuna disse que ela costumava portar um canivete para auto-defesa. .Confesso que estava pronto para te dar uma surra. E com o teu porte físico. por enquanto. há dois gênios idênticos a cada pessoa da Terra. Um deles vendeu o carro recentemente a um homem suspeito. Como vivem aprisionados. Venho tendo estranhos pesadelos com um homem preso numa espécie de prisão ou manicômio.Capitão. preciso lhe falar.Tato Guin  20 Nenhuma marca. encontramos um novo suspeito.. atrás de um frigorífico na região central. . Capitão. Por um momento cheguei a duvidar da minha sanidade. Quando olho para o rosto do homem.Nós vamos. Fiz alguma investigação por conta própria.. Quanto à testemunha do capitão. posso dizer que você está limpo.Então seu gênio mal pode estar à solta. É um modo pelo qual explicam a loucura: possessão. Isso é horrível. Você estava desconfiando de mim? .. O crime aconteceu nesta noite. .Na cultura oriental existem lendas sobre o “duplo eu”.. sempre fui filho único. Encontrei dois proprietários de carros parecidos com o meu. Se não é você.Pelo que eu percebi. . Fora estas terríveis olheiras. Vamos lá. vejo a mim mesmo. . eu já sei. Um carro igual ao descrito foi visto numa garagem. Veremos. Usar nosso corpo para viver em nosso mundo. Aparentemente sabia quem ela era.  Contos e Crônicas de um Condenado . Estou perplexo. Acho que lhe devo desculpas. Um orientado para o bem e outro orientado para o mau. São só lendas. nem hematoma. Já mandei para análise. Dizem que nas dimensões infernais.Não. Estava sem calcinha. Foi encontrada há duas horas na quadra de trás da rua onde a garota de programa fazia ponto. Acho que conseguiu feri-lo.Você tem algum irmão gêmeo? Não. Você fica aqui. soube que é um mendigo. O assassino se deu ao trabalho de escrever “vagabunda” com caneta esferográfica por todo o corpo. em meus sonhos. Degolada. o maior desejo do gênio mal é escapar e tomar o nosso lugar.É. . Acabei de examinar o corpo daquela repórter. alguém muito parecido está fazendo tudo isso. Havia sangue em suas roupas. Também não encontramos nada de comprometedor no teu carro nem no teu apartamento. . Nenhuma arranhão. . Viu o último cliente da garota de programa. Você acredita nisso? . Que eu saiba. A descrição bateu com o teu carro. houve muita luta.

Nós faz troca boa. Puxa! Que cochilada.. Agora esses barulho sirene vem importunar. Liberdade por liberdade.. Preciso saber o que está acontecendo. Não há como sair. Para humanos.Ei ! Acorde. Makuatsha disse.. Ninguém sabe o que Sameja passou. Deixa polícia me pegar.  Contos e Crônicas de um Condenado . Você está liberado.Deus! O que é isso?! Quanta mosca.O local está isolado à espera dos peritos. vagabunda. Como fui envolvido nisso? Ou quem está querendo me envolver? Agora. O que fazer Sameja? Sameja firme. Já que estou aqui mesmo. Como pode se meter assim onde não foi chamada.Tato Guin  21 Droga. o senhor já pode retirá-lo também. Penso necessidade. Quase livre. Para Sameja.. Aparêcia humana. é melhor você se entregar. Olhos vêem alma. . carne é liberdade. Roubam vida de quem não tem alma. Pelo menos agora tenho sangue suficiente. tem como me darem exclusividade na cobertura do caso? . Eu quase gente.Isso é com o capitão. se entregar. O prédio está cercado. Quem é esse sujeito? Como isso pode acontecer? Espero. O capitão acabou de nos comunicar. Não penso crime. Só não olhar. Teu carro está na nossa garagem. Engano bem quem quiser me tocar. Bonzinho. Última coisa confessou antes de eu o mastigar.. Só não olhar nos olhos. Makuatsha disse antes de eu o mastigar. . Era ela no meu sonho. Você é um louco?! Sameja bonzinho. Mas teve o que merecia. .. Tenho certeza de que encontramos o autor de todos esses crimes. *** Maldita repórter... Preciso de sangue para tornar-me carne.. Eles ainda estão no local da prisão? . carne é prisão do espírito. Sameja parado. não faz nada. Eu sonhei com isso. Morta. se entregar. Ninguém poder julgar como faz isso. O meliante está sendo encaminhado para nosso laboratório para exames. Ana Vilela. deitada numa bancada. . . .. Preciso arranjar um jeito de sair daqui. é uma das formas de tornar-me todo carne. Sangue.Parado. Só me resta esperar. . o verdadeiro assassino foi preso.Algemem esse lunático. Totalmente carne.

A polícia encontrou três garrafões cheios de sangue humano nas geladeiras do frigorífico onde você foi preso. Pronto senhor. de frente para o manicômio municipal. mas ainda com certa consciência para uma entrevista. só o suficiente para não ser violento. Nome não descrever toda grandeza de Sameja.O senhor que veio entrevistar o suspeito do assassinato da repórter? Isso. Você sentir. não há nenhum documento seu nem algum registro anterior de qualquer espécie. Temos apenas que vigiar pelas janelinhas das portas. a própria aparência do sujeito é de arrepiar. Como no meu sonho. . . Humanos? Você não é humano? Não sê tolo como os outros. Se não se importa. que eu não ser humano. Ele parecia mal. assim como os outros. fico muito agradecido. Que eu me lembre. Toda uma gama de instrumentos cortantes. Pelo que disse. Muito sangue humano. Ele não está severamente sedado. levante-se. Sei. Tenho que admitir que tudo isso é muito estranho. nunca estive aqui antes. Pelo que fui informado. agora permitiu que eu tivesse uma exclusiva com o assassino. Não olha ninguém de frente e seus olhos parecem vazios. Deve ser terrível trabalhar aqui. Então eu ser Sameja. Deixa o moço conversar com você. . cuidar para que não se automutilem. Mas humanos precisa disso.Vamos..É nesta sala. A melhor maneira de tirar alguma conclusão é interpelando o sujeito pessoalmente. Seu nome é Sameja certo? Nomes. Olha para cima Sameja.. Se você puder me ajudar.Tato Guin  22 Aqui estou eu. . Ilusão humana. mas esse lugar me é muito familiar. Eles ficam sedados a maior parte do tempo. vou ficar aqui junto à porta. .Acompanhe-me por favor. Por isso também. todas as salas são acolchoadas. Correspondiam com o tipo  Contos e Crônicas de um Condenado . O Capitão Reginaldo se sentiu em dívida por ter suspeitado de mim.. vou fazer algumas perguntas. Ser estúpido aquele que não age como sente.A gente se acostuma. Estranho. Não conseguiu explicar direito o que viu no frigorífico onde o meliante foi encontrado. com esses corredores cheios de loucos assassinos não? . Vou chamar outro enfermeiro para me ajudar. restos de gatos mortos. Não cubra o rosto. Mas contenta-se com que seus olhos ver. Olá. Principalmente a natureza dos crimes pelas quais o senhor está aqui. ..

Por todo este tempo teu íntimo tentou te avisar. Estou livre agora. Calma. O que você está fazendo comigo? Não pode ser. . Seu lado demônio finalmente se manifestou e se apossou de você. Não pensei que ele pudesse ter um surto desses.. minha nova vida. socorro. Sinto muito. O que fazer comigo..O senhor perdoe. Chega de perguntas para sempre. Sei que todas minhas aspirações são apenas ilusão. Eu o libertaria agora.. Doente. Eu perdôo. Admiro a sua coragem. Nada não. Finalmente resolveu me encarar?! O que você á afinal? Por que está me olhando assim? Espere! O que está acontecendo? O que é isso? Minhas mãos! Meu rosto! Estão mudando. . Eu encontro o caminho.. Ele enganar.. Seus sonhos... Makuatsha não havia dito toda a verdade sobre os olhos afinal. Por que matou essas mulheres? E o que faria com tanto sangue? Já fez. Eu não Sameja. Mas você é muito humano e adormecido para perceber.. Mas isso acabaria com meu novo disfarce. Não possível! Não possível! Tirar esse monstro! Tirar. . E obrigado. Vou indo... Agora não há mais nada que você possa fazer. Eu sugar energia vital. O que você dizer? O que fazer comigo? Você foi avisado. Socorro! .. Tive que fugir sem pegar sangue.. Jornalista de coluna policial...Calma Sameja. Esta picada vai fazer você se sentir melhor. eu ser. Ele não havia demonstrado nenhuma violência até agora. Mas eu sentir vida crescer agora. Hahahahahahahahaahahahahaahahahhahahaahahaha. Até . Hehehe. Falta pouco agora.... eu ser. Isto é impossível. . Calma! Eu não Sameja.. você..  Não sabia o que queria  Contos e Crônicas de um Condenado .Até logo.Tato Guin  23 de sangue de três das suas quatro vítimas.. Chega de perguntas por hoje.. Teria terminado antes se uma das vagabundas não tivesse gritado tão alto... Claro que perdôo..... Eu ser.O que o senhor disse? Quer fazer mais alguma pergunta? Não. Suas dores de cabeça.. O que você está fazendo comigo?! Eu sou um repórter. Sem felicidade. Você é um vampiro? Não.. não precisa me acompanhar. Faria seu coração parar. Aaaah! Socorro! tirar esse monstro daqui. Eu ser. Você. Mas ele vai dormir um pouco e já já melhora....

Viu uma moça fazendo manobras de patins num outro dia. Encasquetou com a possibilidade de vender histórias.Tato Guin  24 Era um jovem que não sabia o que queria da vida. Sempre sentira uma veia artística pulsando no âmago de seu ser. Logo se frustrara. Desistia de seus projetos nas primeiras dificuldades. Imaginou-se vencendo competições. Andava na rua. Deixou o brinquedo de lado e nunca mais patinou. engrenava o enredo. Desenhava dia e noite. E cansava. Foi a uma oficina de desenhos durante as férias. Talvez uma delas vira-se filme em Hollywood. Ele era assim mesmo: oscilava. Seria seu novo hobby. acrobacias. Num natal. Comprou um par de patins e começou a treinar. Parecia muito mais velho do que era. Injetavam-lhe soro pois recusava-se a comer. Sentia que se enjoara da vida. introduzia as personagens. Avistou crianças empinando pipa num jardim das redondezas. Começava muito bem seus contos. Era mais fácil ceder à preguiça e ao desânimo. quiçá se exibir em shows especiais. matriculou-se numa academia de natação. Definhara. ora temia pegar um resfriado. Aos poucos. ficou sozinho em casa. Em breve morreria. Numa manhã de Domingo. até no banheiro. Foi internado. ora passaria um bom seriado na TV. Queria fazer manobras radicais. Pálido. Fraco. Tinha se cansado dessa história de morrer. Mas fazia alguma idéia do que poderia ser bom . as olimpíadas não viriam tão fácil assim. Agora a despertara. Depois. Apesar de ter várias engatilhadas. Um conto sobre o mito do mundo e da realidade  Contos e Crônicas de um Condenado  . Saiu sem casaco num dia frio e pegou pneumonia. Enfim. Emagreceu muito. Deixou seu leito a pé tirando forças da própria alma. representando o país nas olimpíadas. Apresentava o cenário. ganhando medalhas. Viveria dos direitos autorais. Olhou-se profundamente no espelho. Passava as noites sentado numa poltrona na sua sala escura. Mas suas obras não ficavam lá muito parecidas com os motivos que escolhia de modelo. Pensou em ser escritor. sentiu o sol entrar pela janela do hospital. Certa feita. Durante as duas primeiras semanas foi uma empolgação só. Queimou todos seus desenhos num acesso de raiva. dentro de casa. Passou a escrever todos os dias um pouquinho. enjoou. Foi comprar bambu e seda. Até levar uns tombos. Sem visitas. ora a chuva atrapalharia. Em seis meses foi incapaz de terminar uma história sequer. Ficou impressionado. Tudo parecia desculpa para faltar: ora acabara de comer. Não saia mais de casa. Era disciplinado. Nesse ritmo. jamais seria um best seller. foi deixando de comer.

Acham isso um direito. cada percepção. Ou nem exista. Este povo ignora as bênçãos da agricultura e as nobrezas do viver. Encontraram na vasta planície muito para se coletar. Cedo. choram em dobro. Pegam o que encontram. São devorados com louvor. O único meio de vida. Isca ou armadilha dos donos do terreno. Comem na mesma hora o que encontram. lixo ou sobras. Alguns segundos marcaram a diferença de tempo entre o nascimento das duas irmãs. explorando regiões em busca do que comer. devido ao estado de putrefação do que consomem. Roubam. O mundo real talvez seja impossível de se ver. Mas para eles trata-se de coleta. Sabem do risco que é a busca pela comida. A verdadeira realidade é imensurável e imperceptível para nossos olhos. Vsorineidhe é a mais velha e Krapinah a mais sonhadora. Não são idênticas. Seu clã descende de ancestrais oriundos da distante floresta que não sabem se ainda existe. Krapinah e Vsorineidhe vêm de um povo esquecido e marginalizado pelos viventes de sua época. Não guardam nada para o amanhã. revela um. apesar das semelhanças. O canibalismo é natural e necessário. guiados pelo impulso de sobreviver. fogem da luz. Cada indivíduo vive em seu próprio mundo: aquele que seus órgãos dos sentidos e seus padrões de pensamento permitem perceber. Os muito velhos. Quando um coletor some. No breu. Mas têm costumes e hábitos interessantes de se conhecer. pois há duas vezes menos do que se alimentar.Tato Guin  25 Não existe um único mundo. o alimento tem veneno. Se estava sem dono. Quando não. compartilhando uma última vez a existência com os do mesmo lar. é verdade. um ou outro ente adoece e cai. donde tiram a umidade que lhes agrada. como todas as pequenas. os coletores se aventuram. O que para nós poderia parecer miséria. aprenderam sobre suas origens ouvindo as histórias da anciã.  Contos e Crônicas de um Condenado . Procuram qualquer coisa que possa saciar a fome do momento. Sabem que muitos sucumbem nas garras do perigo. Tudo deve ser aproveitado. Vivem de coletas. agora é deles. debilitados ou incapacitados têm na morte seu nobre destino. para eles é alimento. Lá. Às vezes. Fixaram residência entre as grutas mais ao sul. embora tenham desenvolvido hábitos noturnos para invadir territórios que não lhes pertencem. Quem sabe? Esta é a história de duas irmãs e uma verdade sobre elas que só aos iniciados é permitido saber. Principalmente os que vão mais longe. junto do poço sem fim. Cada olhar.

Nenhum outro sentimento mais nobre existia. ouvem-se os guinchos aterrorizantes do demônio a procura de sangue. Os poucos relatos giram em torno de sua bocarra enorme que suga tudo pela frente. Seres vivendo no limite constante entre a vida e a morte.  Contos e Crônicas de um Condenado . uma a menos para disputar por ele. A possibilidade de encontrar terrenos nunca antes explorados. E se morresse. temeu. A emoção é pouca. A preocupação com o bem estar do próximo e solapada pela fome diária. Vsorineidhe sabia que ninguém se oporia ao treinamento da irmã. Poucos conseguiram escapar de suas perseguições. mais apega às tradições. anseia cotidianamente pelo amanhecer do dia. Às vezes. Arriscar-se.Tato Guin  26 aborrecidos com os rivais. Depois. vaga. todos se reúnem para saber dos acontecidos. raramente voltam depois que o bicho aparece. Suas aparições são acompanhadas de terremotos e de berros ensurdecedores. nem que para isso jante os de sua própria origem. Ir mais longe só é justificado pela falta de alimento. básica e instintiva. quando todos dormem. Ir mais longe. Os que resolvem dormir fora das tocas. Os limites das grutas protegem o clã. Com a volta dos coletores. Evitam esses cadáveres o quanto podem. É esse o meio em que crescem Vsorineidhe e Krapinah. percebendo a firmeza no olhar da irmã. Dentre todos os avisos. É aí que os sonhos de Krapinah ganham cor. das histórias e das novidades. É sempre o mais insistente quem sobrevive. É difícil descrevê-lo. Poucos conseguiram vê-lo mais de perto e voltaram para contar. não têm tempo para desenvolver laços. Imaginar um mundo diferente além dos limites conhecidos é o que faz de melhor. É também o momento de reouvir os ensinamentos. Explorar. abarrotados de alimento para coletar. Vsorineidhe. sem distinção nem medo. Conhecer parentes distantes com a qual valha a pena se comunicar. Esta era a matemática de seu povo. Seus ataques são sempre de dia. Vsorineidhe riu. em plena manhã. Entende-se a insistência dos mais velhos para que todos fiquem próximos à segurança das grutas. Mas nada pode se fazer a despeito dos coletores mais afastados. Esses sonhos fizeram Krapinah pedir para ser treinada na arte da coleta. o mais assustador diz respeito ao Grande Devorador. Sabe-se que tem colossais dimensões. Provavelmente sugados para o estômago do devorador. Seria uma a mais para trazer alimento.

Detalhes que para os outros poderiam parecer apenas sorte. O bater de seu coração forçava o peito e se confundia com o estrondo que a besta fazia. Se esconderam entre poucas sombras.. Tornava-se uma guerreira. contra o vento. No seu encalço.Tato Guin  27 A irmã mais velha foi a única que se preocupou.. quando uma fina luz anunciava o começo do dia.. estava sempre o olhar da irmã. Noite após noite a jovem foi se aperfeiçoando. O chão tremeu. Tudo ao derredor tremeu. De certo. Observando primeiro para depois se arriscar a fazer. Enorme. são naturalmente eliminados. Alertas. conforme o coletor sobrevive às aventuras diárias. zelando a distância por algum bem estar. Sempre camuflada pela falta de luz. Passados os dias. desenvolvia sentimentos de responsabilidade e preocupação que seriam incapazes de se aprender. Logo seu treinamento se iniciou. imperceptível. mas foi incapaz de comunicar o que sentia ou de impedir a decisão de Krapinah. Além do barulho. Assim. Uma insensível guerreira. Krapinah liderava uma comitiva. Os outros ensaiavam o sono. junto dos mais jovens coletores. VRRRUUUOOOOUUUUU VRUUU. a fera o comeu. O que a alimentava era o sonho de ir além das fronteiras. Encarar a morte a deixava mais forte. Ficavam sempre na retaguarda. arrastandose no resto de breu.. Nenhum sinal do sentinela mais ao longe. o pavor a consumia. Ser um bom coletor consiste em desenvolver duas habilidades básicas: força nos membros superiores para poder agarrar a prenda com firmeza. intervinha vez ou outra para que a jovem irmã não viesse a morrer. Gigante. todos se prepararam. sem querer. Simplesmente brotava o que alguns de nós chamariam de amor fraternal. A mais velha.. Apenas um de vigia. Uma pedra que caia do nada. Eram simples seus pensamentos. todas as noites Krapinah se entregava aos trabalhos. VRUUOOOUUU. VRUOOUUU.  Contos e Crônicas de um Condenado . Resistência e condicionamento físico melhoram com o tempo. Estátuas. e agilidade nos membros inferiores para correr o mais rápido que puder pela distância que for preciso. Ali permaneceram imóveis. indo mais além do que se poderia. Via de perto o padecer dos colegas que falhavam. Não chegariam às tocas a tempo. Quase sem sentimentos. Um barulho que antes não existia.. Por vezes a diferença entre a vida e a morte. Os que não aprendem direito ou não se esforçam. Krapinah a viu de relance.

Mas correu para as tocas. Estavam vivos. mas no íntimo sabia. Uma história de sacrifício. E tudo parou. Viu o verde mais lindo. iam sucumbindo. Às vezes. Talvez todos concordariam com este ato. Algum ou outro barulho. Estava na barriga da besta. Enquanto sua irmã partia. Então tudo parou. sacudindo asas por instinto. Coletores. Amor entre os que seriam incapazes de senti-lo. aos poucos. Encarou o monstro de frente. E ali passou muito tempo. Sentiu o ar da atmosfera sendo roubado. Sentiu ainda algum movimento. A fome ia sumindo. Falou e foi atendida. Não viu olhos nem dentes. Depois de tanto tempo nas trevas um fio de luz a cegou. Vsorineidhe foi desistindo. Tremia. Tudo era sugado para dentro da boca que não se fechava e nunca se enchia. Quando a cegueira passou. Sentiu tudo tremer. Correu tudo que podia. tendo a boca da fera seguindo-a de perto. Os cochichos e conversas. Não podia contar. Avistou os limites das tocas. Corria. Gemidos. Se lágrimas tivesse. E também ouvia. sentiu ar novo entrando. Fechou os olhos. Respirou ar puro. Apenas a boca sugando tudo e chegando mais perto. foram diminuindo. Servia-se do que achava. Cega por um momento. E a morte não veio. Sentiu seu corpo caindo. andava. A enorme boca a perseguia. barulho e barulho. Pressentia que os coletores sobreviventes. não sabia com quem. Corria. Longe. Mas foi sugada.Tato Guin  28 Então viu a boca. Sem saber como. Longe. Calor. Tudo tremia. Tudo  Contos e Crônicas de um Condenado . E dormia. Não via nada. naquele instante choraria. Arriscou espiar e nunca imaginaria o que viu. Sentiu o chão sacudindo. Não conseguia. Era o escuro mais escuro que a noite jamais produzira. Vsorineidhe correndo em campo aberto. Ninguém se via. A morte era agora. Viu e ouviu o choro e o terror dos colegas sendo levados. Esqueceu-se do que existia. Estava livre. no breu. O que aconteceu depois? Você não quer perguntar? Vsorineidhe correu tudo o que pode naquele dia. Não foi esmagada por nenhum dente. Poderia parar por aqui este relato. Flores. Atravessou toda a planície tendo a fera a seu encalço. Naturalmente. Dormia quando o movimento recomeçou. Apalpou um canto e sentou. Cheirava e comia. viu o dia. voou. Apenas barulho. O enlouquecido barulho e o martelo em seu peito. Sol. Não viu o que aconteceu. O ar pesando. Esqueceu-se de porquê estava lá. mas sentia que foram muitos dias. Mas há mais para falar. Sentia muitas coisas a sua volta.

Questionar-se. Dou-te um tempo... Além disso. Você já descobriu? Leia de novo. Krapinah nunca mais foi a mesma. Seu povo ainda habita entre nós. tonteada por uma nuvem de ar mais densa. Fui eu que esmaguei a mais nova com minha sandália de borracha. Vsorineidhe e Krapinah são insignificantes baratas.. Fui eu que libertei a mais velha. E morreu esmagada por algo imenso que veio do céu. História interessante. . A princípio incapazes de pensar. Vamos à verdade. saiu da toca. Voou muito e se alimentou de coisas novas que encontrou. . Novo e diferente. O que é a verdade afinal? Emocionar-se. Quem sabe? Quem pode saber? Tato Guin 11/2003  Contos e Crônicas de um Condenado . Fantasia. O mundo real talvez seja impossível de se ver. feliz.. O que é a realidade? O que somos nós senão insetos de destino incerto? A verdadeira realidade é imensurável e imperceptível para nossos olhos. E voou. Você foi capaz de viajar comigo e imaginar todo o ocorrido? Mas eu disse que a história dessas irmãs envolvia um segredo que só os iniciados podem saber.. Envelheceu. cada instante. Como um executivo.. Não vale ler o final! .. Não saia da toca. E um dia. Ou nem exista. Chega de canibais sob meu teto. E depois disso mandei detetizar toda a casa. Em nossas dispensas. Vamos lá. . Cada indivíduo vive em seu próprio mundo: aquele que seus órgãos dos sentidos e seus padrões de pensamento permitem perceber.Tato Guin  29 muito colorido. Está bem. Foi devorada por um pássaro gigante. Essas irmãs que imaginou talvez nunca terem existido. Em nossos porões. Em nossos banheiros e cozinhas. Mas viveu. só resmungava e comia. existiram sim.. Alertava os pequenos para não irem longe. Incapazes de amar. Vsorineidhe também morreu um dia. O Gigante Devorador é meu aspirador de pó. Finalmente descobriu suas asas e se pois a voar. depois de viver muitas outras aventuras.

O garçom nos chama a mesa e paga a refeição. Encontram a morte no útero de suas mães queridas. Outra dimensão onde tudo é pelo avesso. Onde as pessoas nascem podres e carcomidas. O sol fica a pino à meia-noite e os mortos se levantam ao meio-dia. Ama. Arara. Um mundo onde se ama os inimigos e se quer mau aos amigos.   Contos e Crônicas de um Condenado . Neste mundo eu te odiaria para sentir que te amo. A gente se afastaria para viver juntos. O certo é errado e o errado é incerto. Rejuvenescem com o passar do tempo até tornarem-se crianças. desaprendendo. Nos restaurantes. Osso.Tato Guin  30  Palíndromos Imagine um lugar onde tudo acontece ao contrário. Onde tudo se transforma quando nada acontece. Oro. brotando dos cemitérios. A gravidade faz as coisas flutuarem e sua ausência prende tudo ao chão. Fazer-te-ia feia para ver-te bela. O relógio gira no ante-horário e os sanduíches são de presunto e queijo recheados de pão. o freguês faz a comida. Ovo. Nas conversas fica-se quieto e o silêncio só é sentido com gente aos berros. Erre.

que costumam ser raros nas casas de hoje em dia. Enquanto distribuía ordens e ajeitava aquela confusão. aquele enorme caminhão que o fazia arregalar os olhos de curiosidade e excitação. talvez ainda não entendesse direito o  Contos e Crônicas de um Condenado . Arminda estava feliz com a promoção. dois quartos e um banheiro no andar de cima. de personalidade forte e cativante sabia também que logo encontraria novas amizades. alto. de janelas grandes e quadradas. E o quintal aos fundos. Agitava-se no colo da mãe que mal podia segurá-lo. Dentro. entre caixas. Tendo maiores responsabilidades. de tijolinhos à vista. E ainda havia o caminhão. e sustentava uma angelical cabeleira castanha encaracolada. roupas e moveis espalhados. mas não tão branca. sabia que isso significava melhorar o padrão de vida que tinham até então. Era uma criança muito feliz e saudável. 01 Era um sobradinho simples. pele bem branca salpicada de charmosas sardas. e tinha um olhar esverdeado ao mesmo tempo penetrante e desafiador. forte e carinhoso com sua mulher e filho. ajudava os carregadores levando o aparelho de som e dizendo onde achava que este ou aquele móvel poderiam ser deixados. fazia divisa com a calçada de paralelepípedos. sabia que a partir daquele dia ficaria distante de seus pais e irmãos. e sua criatividade e entusiasmo se encarregariam de fazer da nova casa um lar adorável e aconchegante. Era um moreno de olhos pequenos que tinha um desenvolvido senso de dever e adorava se sentir útil. Tinha a pele sardenta como a de sua mãe. O telhado alto não destoava do tom de cor da casa. Mudaram-se para lá devido à promoção que alcançara em seu serviço. precisava ficar mais perto da empresa. que ria bastante. após um pequeno espaço onde podia-se guardar um carro. Paredes feitas de um vermelho escuro meio terra.Tato Guin  31 O Monstro Cap. bem distribuídos de forma que o pouco espaço não parecesse tão pouco assim. Seu Nicanor era um jovem e dedicado pai de família. cozinha e área de serviços em baixo. Era uma mulher muito bonita. e estava orgulhosa pela capacidade e esforço de seu marido serem reconhecidos. e um monte de gente de uniforme azul carregando coisas para lá e para cá. mas sendo uma mulher desinibida. Já Bruno gostou da mudança por causa da bagunça em que se viu. de cabelos ruivos encaracolados. quase não existia de tão pequeno. E ainda haviam o sótão e o porão. Em plena flor de seus três anos de idade. A rua estreita era apinhada de outros sobradinhos do mesmo estilo e parecia manter o ar ingênuo das cidades de antigamente. sala. Animado. o teto era alto. quando as pessoas não tinham porque temer outras pessoas. destes de arquitetura um tanto antiga. Um pequeno cercado branco à frente da varanda.

Você nunca viu um gatinho ? – disse a senhora dirigindo-se para o menino. começou a ronronar. Tudo já estava limpo as roupas em seus devidos armários. e abrir a porta do porão que parecia emperrada. carinhosos e bem nutridos. fazia-se o que o tempo e a disposição permitiam quando o pai voltava do serviço à noite.Tato Guin  32 que estava acontecendo. pressentido. estão acostumados com meus netos. muito simpática.. Bruno alcançou o gato amarelo e gordo que não o estranhou. a auto denominada Viúva Greice. Enquanto isso. o Jujuba. descobrindo lugares e sensações. mas o deslumbre de ver um caminhão daqueles de perto era maior do que qualquer preocupação insignificante como casa nova. fofos. Bruninho parecia alheio a tudo. Ele está achando que teu gato é como o ursinho. ia demorar mais uma ou duas semanas para uma nova folga. Quando solto. Era fim de ano. bairro novo ou qualquer outra situação que estivesse por vir. – Este é o Mel. Todos os meus gatinhos gostam de crianças. sempre vigiado de perto pela zelosa mãe. O berço de Bruno ficou no canto do quarto dos pais. Arminda riu ao perceber a associação que o menino fizera: – Jujuba é o nome do ursinho dele. inúmeras caixas aguardavam um destino. uma gorda senhora de cabelos grisalhos. que se entretinha cuidando de uma enorme família de grandes gatos... Ganharam um gostoso bolo de fubá como sinal de bem vindos da vizinha da frente. nem sequer imaginado o que estava para acontecer. dona Arminda conseguiu manter a árdua tarefa de organizar o novo lar.. Durante a semana seguinte. Arminda fora convidada para uma xícara de chá com bolinhos de chuva. Arminda logo conheceu as vizinhas. Zuzuba. Certa tarde acompanhou a mãe em uma visita a casa de Dona Greice. havia muito para ser resolvido na empresa e todos os funcionários estavam sendo convocados para fazer cerão. Como Nicanor já tinha tirado uma folga para realizar a mudança. corria pela casa de um lado para o outro. Pulou do colo da mãe gritando: – Zuzuba. Bruno se deliciava com os bolinhos quando uma coisa peluda no chão chamou a sua atenção. Seria preciso esperar a folga de Nicanor para afixar os quadros nas devidas paredes. Foi naquele dia de mudanças que um ar sinistro começou a afetar esta família. dar um fim às caixas. Teve que pedir uma xícara de arroz e uma ou outra coisinha emprestadas e aproveitou para se apresentar. arrumar uma ou outra coisinha. Ficava horas dentro do chiqueirinho brincando com seu surrado ursinho amarelo. Era bem peludo e logo que o menino o acariciou. apesar deles ainda não terem percebido. e no quarto que seria o da criança. Mas  Contos e Crônicas de um Condenado . concertar o encanamento do banheiro.

Já às portas dona Greice veio correndo.. e assuntos desse tipo nunca eram tratados nas conversas. Ficou admirada com a simplicidade e hospitalidade da nova vizinha. Vinha de uma família católica. orégano e um tiquinho de vinagre de vinho tinto e sal. se guiam mais pelas nossas ações e exemplos do que pelo que falamos. E Arminda agradeceu mais uma vez. e Arminda aconchegada sobre seu braço esquerdo. feijão e salada de alface e tomates temperada com azeite. Tudo depende de como são criados. Assistiam à novela das oito quando Arminda se lembrou: – Quer um docinho de sobremesa? De imediato levantou-se. – É a primeira vez que ele vê um bichinho assim de perto – disse Arminda – Eu queria ter um cachorro para fazer-lhe companhia. acha que ter animais em casa é anti-higiênico e perigoso para crianças. Mas uma pulga ficou a mordiscar atrás de sua orelha. Energia !!! Arminda espantou-se com essa expressão que parecia nunca ter ouvido antes. E ainda mais com a força e experiência de vida que aquela senhora parecia sustentar. um dentinho de alho espremido. São como crianças. pois fez questão de passar a mão em todos os gatinhos. À noite. mas meu marido não deixa. trazendo alguns bolinhos embrulhados num guardanapo: – Para adoçar o jantar do teu marido. – A Dona Greice aqui da frente que te mandou.. Arminda agradeceu a hospitalidade.. Por que?  Contos e Crônicas de um Condenado .Tato Guin  33 ele nem deu bola. a família se sentou à frente da televisão. assim como o marido. Bruninho e eu tomamos chá com ela esta tarde. Que história era aquela de energia ? Seria aquela doce senhora uma macumbeira ? Mas o jantar precisava ser feito e essas idéias logo se deixaram passar. – Energias ruins ?!?! – Sim. E cada gato pareceu cumprimentá-lo permitindo-se adularem.. E são grandes companheiros. correndo até a cozinha e voltando em seguida com um pratinho de bolinhos de chuva. – Pois saiba que os gatos são os bichos mais limpos que existem. – retrucou Nicanor.. Fez uma tremenda cara de assombro que a Viúva Greice ponderou: – .. E além disso dizem que os gatos espantam as energias ruins. – Está uma delícia.. e muito boa cozinheira. Nicanor com Bruninho no colo. já com a boca cheia.. curioso e entretido com o barulho do bichano. após um suculento contrafilé acebolado acompanhado de arroz. bom. você nunca ouviu falar de que há mais do que ar e ácaros preenchendo os ambientes ?! . palpáveis. Preferiam ater-se às coisas reais. do dia-a-dia. Parece-me uma senhora de respeito. tinha que voltar para casa para preparar o jantar mas só conseguiu sair depois que Bruno se satisfez. – O que você acha da Dona Greice? – perguntou Arminda. deixa para lá... – Pouco sei.

Mexia na chave... Mas macumbeira. começou a empurra-la com alguma insistência. Disse que existe energia. – Sim. Desceu para deixar sobre a mesa da cozinha alguns documentos de que ia precisar no serviço. Ficaram em silencio por algum tempo. mas não adiantava.... Percebendo-a trancada.. passando pelo corredor. Ele continuou a forçar o trinco e a chacoalhar. Não era racional.. meio sem entender o que havia acontecido.. Mas algo o fazia querer abrir aquela porta de qualquer jeito. – Deixa para fazer isso quando você estiver de folga. Neste momento a racionalidade permitiria concluir que ele deveria menosprezar aquilo e tratar de preparar-se para dormir. Vem. Mas logo já estava na cama. Vamos dormir que já é tarde. e todos despertaram meio de supetão. no trinco.. Pode não falar coisa com coisa de vez em quando.. De repente já estava esmurrando e chutando a porta... Nicanor foi subindo de mãos dadas com Arminda. claro. parecia dominado por uma vontade estranha à sua. Naquele momento. A frustração começou a enraivecê-lo. o cansaço de um dia de trabalho veio cobrar a sua cota de sono. ein!? Era como se o despertassem de um transe. ele não precisava abri-la naquele instante.Tato Guin  34 – Não. parecia mesmo emperrada. – Ela devia estar falando de eletricidade estática. acho que não é. energia. meio contrariada. Por que usara tanta violência contra aquela porta? Para quê tentar abri-la com tanta vontade.. sabia? Agora o que os gatos tem haver com isso eu não entendi. né?! – Ela fala de energia e você fala de macumba!? O que tem haver uma coisa com outra!? Ela estava reclamando da Companhia Elétrica? Com raiva? – Não. – Nicanor.... E que os gatos espantam a energia ruim. ela disse que há mais coisa no espaço do que o ar. forçando-a com alguma violência.  Contos e Crônicas de um Condenado . Foi se questionando. Logo todos estavam cochilando em frente à TV quando de repente caiu o pratinho vazio que Nicanor segurava sem perceber. Instintivamente tentou abri-la. meio insana. Não precisa abrir essa porta agora. sei lá. passou pela minha cabeça que ela pudesse ser do tipo macumbeira. é que ela falou algo sobre. quando. Nicanor foi arrumando suas roupas para o dia seguinte. não como mais os bolinhos dela. Mas se ela for macumbeira. – Hum! – retrucou Arminda. Todos os objetos tem eletricidade estática.. que é isso? Assim você vai acordar o Bruno. bobagem. Bruninho ficou meio manhoso e Arminda resolveu leva-lo ao berço para depois também se prepararem para dormir. sem razão.. e o episódio da porta já estava por ser esquecido.. mas uma necessidade estranha o dominava. Podem até dar choque. deteve-se diante da porta do porão. Esquisito.. se naquele momento não era preciso? Nicanor percebeu que não pensara. Enquanto isso.. deve se sentir sozinha... – disse enquanto abocanhava outro bolinho.. – Hã. Essa senhora tem alguma idade.

algumas chaves de fenda e alicates enferrujados.. Dona Greice disse: – Se precisar de qualquer coisa filho..Tato Guin  35 Duas semanas se passaram sem maiores atribulações enquanto a família já se habituava ao novo lar. um monte de pregos e parafusos tortos. e um pequeno pé de cabra meio encurvado. O final de semana de folga tão esperado de Nicanor finalmente chegara. para aí então  Contos e Crônicas de um Condenado . viu!? Percebendo um certo ar de preocupação materna na voz da viúva. Sua sala era impecavelmente arrumada.. Teria de pedir emprestado a algum vizinho. Pregos e martelo para afixar os quadros nas devidas paredes ele já tinha. Acho que eu não vou precisar disso tão cedo. Seu Nicanor ficou tão à vontade observando aquele acolhedor ambiente de casa de vovó que quase se esquecera das arrumações que o esperavam em sua casa. meio sujo de graxa. O grifo é uma ferramenta um tanto cara e Nicanor não dispunha de um. Num deles via-se a própria Dona Greice cercada por uma infinidade de gatos fofos. Nicanor agradeceu novamente. e entre outras coisas lá estavam um grifo. talvez fosse preciso um grifo para soltar o cano que parecia rachado e para atarraxar um novo. Logo cedo ele saiu para comprar algumas coisas que Arminda pedira. Colocaram a maleta em cima da mesa. Nicanor correu ajudá-la. Logo ela voltou carregando uma pesada maleta de ferramentas: – Eram do falecido. Podia-se sentir um açucarado aroma de canela que vinha da cozinha de onde se podia ouvir também uma alegre música de Ray Coniff. O sistema de descarga do vaso não tinha um registro próprio. além de alguns pedaços de cano e uma cola de vedação para concertar o encanamento do banheiro. hunf. Seria preciso fechar o registro geral e esperar que fosse usada toda a reserva da caixa d’água. Ao abri-la vislumbraram uma porção de ferramentas gastas e sujas. Bibelôs e livros dividiam espaço com o aparelho de TV numa estante de madeira. e um belo vaso com margaridas enfeitava a mesa de jantar de quatro lugares que ficava mais adiante. – Pode levar e ficar por quanto tempo quiser. uma cabeça de marreta quebrada. com toalhas de renda sobre o sofá. pensando consigo mesmo: “Ela deve se sentir muito sozinha. Talvez precisasse emprestar também um pé de cabra para abrir a porta do porão.. Havia um pequeno piano junto de uma parede sobre a qual encontravam-se vários porta-retratos. um martelo.” Ao tentar resolver o problema do banheiro.. Ela foi muito gentil. Havia um vazamento atrás do vaso sanitário. alguns com fotos de crianças ou com pessoas jovens. a maioria gordinhos e com bochechas rosadas. Agradeceu e rumou em direção a porta. Naquela manhã foi preciso perguntar a três vizinhos diferentes sem nenhum sucesso até que Nicanor bateu na porta de Dona Greice. é só falar. mandou-o entrar e esperar na sala enquanto fuçava num armário da cozinha. Nicanor percebeu que aquele serviço teria de esperar..

Deixou a ferramenta de lado e obedeceu ao chamado da esposa. dava alguns palpites e dizia se um quadro ou outro parecia torto. alecrim e sal grosso e levou-a ao forno. Arminda chamou: – Nicô. ou qual deveria ocupar esta ou aquela parede. Depois de todos os quadros colocados. Arminda. pegou uma bisnaga de óleo de máquina que já estava pela metade. no pequeno espaço entre a porta e o batente e até nas dobradiças. mas aí lembrou-se do quanto foi difícil encontrar caixas para ajudar na mudança e com essa boba preocupação resolveu guardá-las no porão para serem úteis no futuro. certificou-se de que estava bem encaixado. Juntos. tentou erguer a porta. fazendo-o perder o equilíbrio e projetar-se para frente. Passou então a afixar alguns pregos nalgumas paredes. Tentou novamente. mostarda. voltou-se para o pé-de-cabra que havia deixado de lado. Pensou em rasgá-las e jogá-las fora. ao mesmo tempo que se ocupava de aprontar o almoço. Estava sendo preparada uma bela peça de filé mignon que Nicanor trouxera do açougue mais cedo. Quando ia começar a se ocupar de abrir aquela porta. Bruninho ficava numa cadeira própria para bebês. quando ia impulsionarse contra a porta. levemente. Nicanor desceu todas as caixas de papelão que ainda tiravam espaço do quarto que seria de Bruninho. esmurrou. na maçaneta. preparou os braços para usar toda sua força e. Correu para junto de sua caixa de ferramentas. talvez comemorando as duas semanas de casa nova. puxou. Ele sabia que usar o pé-de-cabra envolvia o risco de danificar o batente ou a própria porta. Vendo que todo esse esforço era em vão. Aquele parecia ser um almoço especial. dando-lhe de comer na boca de seu próprio prato de vez em quando. batendo com a  Contos e Crônicas de um Condenado . Abandonou as caixas no meio da sala. Olhou bem para aquela porta que já o deixava com alguma exaustão e pôs então a ponta encurvada da ferramenta entre a fechadura e o batente. pega o Bruninho no chiqueirinho e vem que o almoço esta na mesa. por isso. pegou o pequeno e torto pé-de-cabra da vizinha e dirigiu-se à porta do porão. Seriam usadas numa deliciosa salada quente que acompanharia o assado. No final Nicanor ajudou a limpar a cozinha enxugando a louça e depois partiu para junto da porta do porão novamente. virou a maçaneta de todas as formas possíveis. trancou e destrancou dezenas de vezes a porta com a chave. ela se abriu sozinha. mas nada adiantou. pingou na fechadura. e descobrir se havia um registro que pudesse ser fechado para facilitar-lhe a empreitada. Ou então subir no telhado. empurrando. chutou. antes de usá-lo. até o reservatório. junto a mesa e Arminda deixava que o menino tentasse se alimentar sozinho. Arminda a besuntou com uma mistura de manteiga. os três saborearam a refeição. Aqueles aromas se espalhavam pela cozinha acompanhados do tse-tse da panela de pressão onde algumas batatas descascadas cozinhavam.Tato Guin  36 trocar o cano do vaso sem causar uma inundação. sacudiu. alho picado. puxando e chutando. Empurrou. como mágica.

e quanto mais atentava para isso. vamos deixá-lo respirar mais um pouco.. escancarando a porta do porão num solavanco. Hernandes e os jovens gêmeos. desmaiado no chão. mas a intenção deste pensamento foi acompanhada de um tremendo calafrio que arrepiou até as penugens de seu ouvido esquerdo. − O que há nesta porta para ter feito ele desmaiar ? − Disse o gêmeo Wellington.. Enquanto todos tinham a atenção voltada para Nicanor.Tato Guin  37 cara na parede com tamanha violência que foi caindo.. alguma coisa chamou a atenção de Dona Greice em direção à porta do porão que estava entreaberta. ai. − NÃO !!! − gritou a viuva. chamando por socorro. angústia e aflição começaram a embrulhar-lhe o estômago. foi explicando que o encontrou desmaiado. − Calma. E perguntou: − O que foi que você aprontou? O que aconteceu? Você lembra de alguma coisa? − Hum.. − balbuciou apontando para o porão. Dona Greice correu novamente para a cozinha. que tinha um ar despreocupado e ao mesmo tempo parecia consolar a mãe. ai.. Ao mesmo tempo. quando. Logo alguns vizinhos apareceram.. O marido começou a balbuciar alguma coisa... pedindo que ficasse mais calma. A viúva tinha a sensação de que alguém os observava de dentro do porão. chamou o serviço de emergência indo em seguida acudir a vizinha desesperada. que moravam à esquerda de Arminda. enquanto uma gota de sangue escorria de sua testa.. Arminda. chamava por ele e chorava. ficou desesperada e foi correndo pedir ajuda aos vizinhos. Ela veio em direção à maldita porta e assustou-se com a imagem do marido no chão.. abraçava-o. essa.  Contos e Crônicas de um Condenado . que morava ao lado. Deu um berro e curvou-se sobre ele. em meio àquela sala cheia de caixas. mais calma. Empurrava-o. mas ainda estava meio zonzo e sem entender o que estava acontecendo. O choque da cabeça de Nicanor contra a parede fez um barulho que chamou a atenção de Arminda que estava a entreter Bruno com seu Jujuba. porta. Arminda chorava e se agarrava a Bruninho. mais mal se sentia. colocaram Nicanor deitado sobre o sofá. Pensou em ir até a porta e escancará-la.. e logo três ou quatro vizinhos já estavam ajudando. lentamente. Arminda correu para a rua. Nicanor já estava recobrando a consciência. Dona Greice também veio. fuçou em alguns armários. filhos de dona Helena. Dona Greice aprontou um saco de gelo na cozinha e trouxe para colocar sobre a cabeça do acidentado. Hernandes.. Ela quase podia jurar que via uma pequena névoa saindo de dentro do porão. preparou um copo de água com açúcar e trouxe para Arminda. − disse o vizinho Hernandes.

percebendo a aflição da vizinha − eu que chamei vocês.... só um susto bobo de uma velha impressionável..... e a temperatura − tirou o termômetro do sovaco do paciente e concluiu − está normal.. Dona Greice. O vizinho Hernandes se adiantou em guiar os paramédicos até o acidentado no sofá.. vai ficar inchado.. Era o berro da sirene da ambulância que acabava de chegar. que estava agora com um termômetro em baixo do braço e tinha sua testa sendo examinada pelo baixinho. a senhora pode ficar com o Bruninho um pouco? − disse já passando a criança. calma − disse o baixinho − há uma luxação na testa. acho. que estava emperrada − explicava Arminda. Colocamos gelo. Dois homens feitos. Seria bom levá-lo para uns exames mais detalhados. Ele deve ter desmaiado com o choque... acho que bati a testa na parede... − Nós viemos acudi-la − continuou Hernandes. Os batimentos cardíacos e a pressão estão bem. que sustentava uma careta de assombro.  Contos e Crônicas de um Condenado .. e deixá-lo em observação.. vim ver e encontrei-o desmaiado no chão.Tato Guin  38 Todos se assustaram. eu. O grito de Dona Greice pegou a todos desprevenidos. − Oh meu Deus − rezou a esposa − eu vou junto. − Vocês fizeram bem em nos chamar. − Eu não entendo. não sei como. a porta estava emperrada. mas eles moram muito longe. − Calma. E todos se voltaram para a viúva. corri para chamar ajuda... nada.. Então outro barulho estridente fez todos se assustarem novamente. Tinha um pouco de sangue escorrendo da testa dele.. entraram trazendo uma maleta de primeiros socorros. Então viemos e o ajeitamos no sofá.. voltando-se para Nicanor. − disse a viúva.. verificar se não houve uma lesão interna. Enquanto o baixinho começou a medir a pressão e os batimentos cardíacos de Nicanor. − Nada. mais mirrado e magricela.. respirando ofegante e aliviada diante da percepção de que no porão parecia não haver nada além de escuridão.. vou pegar uma muda de roupas para ele e vou junto. − O que foi dona Greice ? − perguntou o gêmeo Washington.. Ele estava começando a recobrar a consciência quando vocês chegaram. acho. E o senhor ? Como está se sentindo ? Consegue falar ? O que foi que aconteceu ?− perguntou o gigante. para o colo da senhora − eu preferia ligar para minha mãe para não te dar este incômodo. o grandão foi perguntando: − O que foi que aconteceu aqui? − Eu estava na cozinha cuidando do meu filho enquanto o meu marido estava aqui tentando abrir aquela porta. não abria de jeito nenhum. ainda nervosa − quando ouvi um barulho como o de algo batendo na parede. eu estava usando o pé de cabra. meio contrariada.. um negro grande e forte e um outro moreno.

guiados pelo enfermeiro negrão. enquanto a materna senhora preparava algumas rabanadas e uma cremosa gemada para apaziguar seu estômago e o coração. Já estava anoitecendo. Só que Bruno não era uma criança dada a escândalos. meio sem graça ao ver Dona Greice de camisola e penhoar. Pegaram um taxi. Pegou Bruninho no colo. A dona Greice vai cuidar de você tá. e qualquer tristeza era abrandada com a presença dos gatinhos que pareciam se revezar na companhia do garoto. Foi fechando a casa bagunçada enquanto todos saiam e Nicanor era levado de maca até a ambulância. Seja um bom menino. Preparou  Contos e Crônicas de um Condenado . entregando-lhe a chave da casa e a bolsa. e agradeceu a solidariedade da vizinha. Deu um beijo no neném. Arminda. Arminda acompanhou Nicanor até a sala de exames. Deveria ligar no caso de qualquer tipo de alteração em seu comportamento. mas a aparente calma não chegava a esconder uma certa apreensão. um atestado para justificar dois dias de folga forçada e um tapinha nas costas de um médico careca e falastrão. fixado com uma faixa de gaze. entrou na ambulância com o marido e com o paramédico baixinho. Arminda recebeu instruções para mantê-lo em repouso e observação. Mamãe te ama. e já era tarde da noite quando chegaram em casa.Tato Guin  39 − Pode deixar. com a sirene ligada.. Leve meu número de telefone e qualquer coisa me ligue. Agradeceu à viúva mais uma vez. Finalmente entraram na casa.. preparou uma sacola de miudezas para levar ao hospital e uma pequena bolsa com algumas roupinhas e o ursinho de Bruno. Nicanor ganhou um analgésico. que já dormia em seu pijama. Bruninho estava sentado quietinho no sofá da sala de Dona Greice. Seus olhos arregalados observavam todos os detalhes da casa e um aperto no peito vez ou outra lembrava-o da falta da mãe. Arminda subiu. ainda bagunçada com as caixas e a correria. Arminda apressou-se em por Bruninho no berço. desculpou-se mais de cinco vezes. parecia entretido com um desenho que passava na televisão. − Papai tá muito dodói ? − Só um pouquinho. e despediu-se do filho: − Mamãe vai cuidar do papai e já já voltamos tá. No hospital público. Aparentemente não haviam motivos para preocupação. e foram embora. um curativo na testa. Tocaram na casa da viúva. descendo em seguida. Preencheu alguns papéis enquanto tiravam um raio-x da cabeça de seu marido. Se tiverem que passar a noite no hospital o neném pode dormir lá em casa sem problema nenhum. Agradeceu ao vizinho Hernandes e aos gêmeos pela ajuda.

com um medo vindo não sabia donde. além da abençoada solidariedade dos vizinhos que mal conhecera.. quando se deu conta do inesperado: a porta estava fechada.. abriu sozinha. chutou. em direção à escada que levava ao quarto.. Nicanor acompanhou a esposa. Mel cochichava: “Nnnão se prrreucupe.. A imagem do marido desmaiado resplandecia em sua tela mental toda vez que fechava os olhos. Em seus sonhos tinha a sensação de cair em um buraco. Vamos antes que o Bruninho acorde. sentado à mesa da cozinha. mas sentia algo como ar passando por seus cabelos. emperrada. Só via tudo escuro. bastava curtir. O maior e mais respeitável de todos os felinos era o amarelo Mel. Logo que deitou. Não lembrou de sensação nenhuma. a quem o bebê apelidará de Zuzuba. Transtornado. Nicanor se exaltou. Bruno não entendia bem as palavras. puxou. sacudiu a porta.. e agora está trancada. e o anestésico já estava deixando-o a ponto da exaustão. comentando as aventuras daquele dia. calma! Deixa isso pra lá. Custou a conseguir dormir.. não sabia de que. Vamos para cama. Sentia-se oprimida. me fez bater a testa na parede.. Aquela maldita porta ia ter que esperar. Arminda teve um sono agitado. Arminda compartilhou a aflição que sentira com o acidente do marido e Nicanor percebeu a importância e grandiosidade do amor de sua família. dormiu. e concluiu: − QUE MER#@ DE PORTA !!! − Calma Nicô... Você precisa descansar. Bruninho se viu aconchegado em seus sonhos. um poder químico ofuscou seus pensamentos. Nicanor não teve sonhos. cercado por inúmeros gatos fofos que pareciam compartilhar de sua companhia. a porta estava aberta. e talvez. meio sonolento.  Contos e Crônicas de um Condenado . Nenhum mmmal vai te acontecerrrr. Uma falta. vamos dormir. um breu. E continuou a afagar aqueles fofos gatinhos que o protegiam em seu sono. Tomaram o chá juntos. − Não acredito ! Você viu. mas entendia que não precisava se importunar com nada. e simplesmente. sabia que ela tinha razão. Vem. Ia comentar a ironia de seu acidente tentando abrir uma porta que se abriu sozinha. Não adianta ficar com raiva.Tato Guin  40 um chá de erva cidreira para o marido que a acompanhava. Esquece isso agora.” . como se realmente o estimassem. trancada. Naquela noite. Iam pelo corredor. ainda frustrado pela porta. quando Nicanor reparou na porta do porão. Mel estava cara a cara com Bruno e seu olhar era muito reconfortante. mexeu na chave. Apesar da raiva. Já estava com a mão na maçaneta da porta que parecia apenas encostada. ser o que ele sempre fora.

Nicanor ligou para o serviço para justificar a ausência. Eram cerca de sete da manhã quando Arminda abriu os olhos. Não pretendia folgar os dois dias que o atestado medico lhe garantia... A sala de estar ainda estava cheia de caixas de papelão vazias. o olhar obcecado. 02 O sol da manhã irradiou a chegada de um novo dia. que tudo que para tende a desaparecer. Sentia seus ombros pesados e a cabeça oprimida.. O que Arminda achou estranho foi Nicanor despertar do sono apesar de segundos antes sustentar o olhar fixo na porta.. Ele pretendia arrumar o quarto do filho e a idéia de mexer na porta do porão lhe irritava profundamente. Chamou o marido para saborearem juntos o desjejum. – Você passou a noite toda aí? – A noite toda? Não sei.. nossa. Parecia sair de um transe. Arminda pedia para ele sentar-se à varanda para relaxar. talvez fossem os efeitos do calmante que ele tomara na noite passada.. mas Nicanor não gostava da sensação de ficar parado. Na verdade Nicanor não sabia porque despertou na sala. Começou a rasgá-las e a colocar os pedaços num saco  Contos e Crônicas de um Condenado . Foi até o banheiro cuidar da higiene pessoal. Desceu as escadas em direção à cozinha. Foi ao passar pela sala que se assustou com a presença do marido. Nicô . Não gostou do próprio rosto ao se olhar no espelho. Foi até o berço de Bruninho conferindo seu sono angelical.. Arminda preparou torradas com manteiga e um café bem forte.. fixo na porta do porão. Nicô!?! – Hã.. já amanheceu. Nicanor se levantou e deu um longo e sonoro bocejo enquanto se espreguiçava.Tato Guin  41 O Monstro Cap. Ah. foi isso.. Preocupou-se com o marido e se perguntou onde ele poderia estar. Sua última lembrança era a raiva de perceber a porta trancada e a esposa puxando-o para a cama. oi.. A expressão era a de ausência de espírito. A faixa na cabeça e as olheiras conferiam-no um ar de zumbi. Nicanor estava afundado numa poltrona. Concluiu então que daria cabo àquelas caixas. que foi?. Não lembrava de ter acordado à noite. não lembro direito. – Acho que vim pra cá no meio da noite para tomar um copo de água e acabei adormecendo na poltrona..... Estranhou a ausência do marido ao se espreguiçar. Lembrou-se do concerto do vazamento no banheiro e resolveu deixa-lo para o próximo fim de semana. Ela preferiu não comentar nada. Aprendera com o pai que o trabalho é que move o mundo.. na intenção de preparar o café... Depois preparou a mamadeira de Bruno. mas um dia de descanso vinha bem a calhar. – Você me assustou! O que está fazendo ai? .

. ela disse.. – Nicanor. acorda meu bem. Terminou com dois sacos grandes bem cheios de lixo. sentiu as pálpebras pesarem e os pensamentos flutuarem quase perdendo o sentido. Sonhei que estava falando com a porta do porão. Um outro risco surgiu mais embaixo. que se ocupava dos afazeres na cozinha: – Você acha que devemos mudar o berço de Bruno para o quarto dele? Ele já está grandinho. O que me diz? Aproveite para descansar.. . você está tendo um pesadelo. Esta é a minha casa e eu não admito portas fechadas aqui. Deu uma última arrumada na sala e foi ter com a esposa.... e ao contrário do que você possa pensar.. Mas não se preocupe com isso agora Nicô.. Via muitas imagens passarem rápido pela sua mente e sons se confundirem... abrindo-se na forma de uma enorme boca e a porta perguntou: – O que você quer de mim humano? – Eu vim destruí-la.. já está na hora de começar a dormir sozinho... “Dane-se... por favor. Relaxado. se nos mudarmos novamente dou um jeito de achar caixas novas”... De repente surgiram dois riscos horizontais na parte de cima da porta que se abriram formando um par de olhos vermelhos. Esta casa nunca foi sua.. .. Ficou observando o movimento da rua enquanto sua esposa saia com o filho no colo.. Os olhos o encaravam raivosamente.. – Disse que esta casa NUNCA FOI SUA HAHAHAHAHAHAHA!!! – AAAAAAAAAAAAH. Com que foi que você sonhou? – Engraçado.. Eu obedeço a um único mestre. – Está é a minha casa e se você não se abrir eu vou destruí-la! – Hahahahahaha. – É... Rendido. Vestia bermuda e camiseta folgadas e calçava um velho par de chinelos de dedo.. Muitos devaneios sem sentido até que o sono finalmente chegou. vá até a varanda. hahahahahahaha!!! – E quem é esse idiota? Por que ele não se mostra de uma vez? . Nicanor jogou-se na cadeira de vime da varanda. Ela disse.. – Está bem.Tato Guin  42 plástico. O verdadeiro dono nunca a abandonou. – Nicanor. .. – Hahahahahaha! Sua casa! Hahahahahaha... acorda meu bem. Viu-se então parado em frente à porta do porão com um machado na mão.. descanse um pouco que eu vou comprar o jornal para você. pensou. este mestre não é você. acorda!  Contos e Crônicas de um Condenado . acorda! – Hã! O que foi? – Você estava se mexendo e resmungando quando eu cheguei aqui.. acho que teve um pesadelo. Nicô. você está tendo um pesadelo. Nicô.

ler o jornal e brincar com Bruno. Arminda sentiu-se reconfortada nos braço do marido. Durante a madrugada ele teve sonhos estranhos... A porta do porão não saia de sua cabeça. conversaram. No serviço. mas está tudo bem agora. – Você tem que se cuidar. mas determinado e ambicioso como os jovens de hoje. Você é importante para este projeto.. Bruno via tudo aquilo agarrado ao jornal do pai. Imaginaram que até à noite do dia seguinte tudo estaria resolvido. Seu Onofre era um senhor de respeito. Passaram uma noite tranqüila.Tato Guin  43 – Ah! Meu Deus o que foi isso?? – Calma querido. Mas ele disfarçou a obsessão depois que percebeu o olhar preocupado da esposa. foi só um sonho. passaremos umas boas férias juntos. Então ela o acordou. Eu jamais iria rir de você. rindo de mim. Nicanor se revezou entre ver TV.  Contos e Crônicas de um Condenado . Não quero mais saber de trapalhadas. sou eu.. tudo transcorria bem. Era o encarregado da obra que a equipe de Nicanor estava projetando. Arminda estava realmente preocupada. A empresa de engenharia estava indo muito bem e não podia se dar ao luxo de desfazer de um funcionário como Nicanor. você me salvou. a empolgação do serviço distraiu os pensamentos que lhe torturavam a mente. tentando acalmalo. Antes do rádio relógio tocar Arminda foi despertada por um empurrão involuntário do marido. Ele respirava fundo. No dia seguinte Nicanor voltaria ao trabalho e Arminda chamaria um chaveiro para averiguar a porta do porão. Quando terminarmos tudo. Olhos cor de fogo o perseguiam por um labirinto de corredores escuros. mas depois do pesadelo o marido pareceu voltar à normalidade. com olhos vermelhos. Com o decorrer do dia.. Está tudo bem agora. Queria acordar mas não conseguia. – Eu acabei de sonhar com isso! Você me acordando. purê de mandioquinha com molho e lingüiça calabresa. Um chefe um pouco paternalista como os de antigamente. O dia passou meio rançoso. Ele suava frio e se mexia. Pensou em ligar para o médico. Ele gemia palavras sem sentido. – Calma Nicô. Nicanor. ofegante e aliviado. – O que foi? Outro pesadelo? – É.. A voz assustadora da porta demoníaca o assombrava. E Bruno voltou a sonhar com gatinhos. Durante o jantar. Nicanor entregou o atestado médico no setor de RH e deu algumas explicações ao chefe. Arminda acalentava o marido em seus braços. Mas com Nicanor foi diferente.

Um estranho silvo acompanhado de um vento gélido arrepioulhes a espinha. o vento fez ela bater. O profissional examinou a porta. Arminda tratou de procurar nas páginas amarelas um chaveiro que atendesse a domicílio. trancando-a de novo. para não ter problema de se trancar sozinha novamente. Em seguida puxou de volta o papel. Marcou logo com o primeiro da lista para depois do meio dia. Pegou uma folha de papel. depois que seu marido a abriu. Essa outra chave não deve ser daqui. Dedicava-se mais no preparo do jantar. Vestia uniforme cinza e trazia uma maleta de ferramentas. no almoço. as dobradiças. Olhou demoradamente pelo buraco. – Hum. Isso acontece. Arminda levou-o até a porta do porão. para si e para o filho. Acho que é melhor assim.. trancou e destrancou. Mas depois emperrou de novo. – Na certa. mexeu na maçaneta. O segredo da chave de dentro não combina com a chave que estava aqui fora. Um senhor gordinho de óculos e cabelos grisalhos. Preparou um bom prato de comida que serviu às colheradas. Perguntou: – Não abre de jeito nenhum. é melhor remover a fechadura. passando-a por de baixo da porta. que carregava uma antiga chave dourada. Há bastante corrente de ar. Era o chaveiro. Naquela manhã. Foi logo mostrando o crachá e perguntando qual era a fechadura com defeito.. – Mas então. ela estava trancada por dentro? – É o que parece. Mantinham na família o bom costume de jantarem juntos. Sabe dona. ali mesmo. prezando a companhia do marido. Ou a senhora vai trancar alguma coisa aí? – Não. é? – Meu marido conseguiu abrir uma vez. das sobras do jantar da noite anterior. Tem alguma coisa aqui dentro. O sujeito tirou a chave da fechadura e colocou-a de lado. Deu algumas batidinhas. Estavam acabando de almoçar quando tocou a campainha. Pôs a chave dourada na fechadura. deu meia volta. Então passou a cuidar dos afazeres de sempre. a fechadura. Começou a cutucar dentro da fechadura com uns araminhos. sabe. Arminda estendeu uma colcha sobre a grama do quintal e ficou brincando com Bruninho. e a porta se abriu como mágica. Nos dias de semana ela costumava servir-se.Tato Guin  44 Ainda era cedo. Ouviu-se um estalido metálico de alguma coisa caindo. É uma fechadura muito velha.  Contos e Crônicas de um Condenado . deixando a porta da frente entreaberta. Comparou as duas chaves e disse: – A fechadura externa parece truncada. Pode remover a fechadura. como fazia algumas vezes.

Está muito sujo e empoeirado. Mas alguém precisaria dar um jeito naquele rato. Mirou o feixe de luz da lanterna para as paredes tomadas de estantes onde vários vidros de conserva disputavam espaço. Queria fazer uma faxina lá. – Hum. Depois do tradicional arroz com feijão. que parecia esquecida. As madeiras da escada rangiam de tão velhas. mas nada acontecia. e juntos foram compartilhar de companhia na mesa do jantar. notou várias latas e garrafas velhas. Uma mesa e uma cadeira rústicas ocupavam o centro. mas um baque surdo a fez saltar de medo. mas aliviada. Nicanor beijou a esposa. Você já entrou no porão? – Sim. pôs alguns panos entre a porta do porão e seu batente. Apontou a luz para debaixo da escada. Não queria despertar no marido a estranha obsessão. Muita poeira e teias de aranha davam um aspecto ainda mais assustador. Mirando os cantos e o chão. E de que o rato por lá não passaria. Sentiu frio. dourada. como a risada de um gnomo.  Contos e Crônicas de um Condenado . vamos dar uma olhada. sufocou-as. Antes de se ater aos seus afazeres. Arminda mirava curiosa a fechadura que tinha duas chaves. – Vamos ver o que tem nesse porão e fazer uma boa limpeza. Ainda ouviu um pequeno guincho. não viu mais interesse em prosseguir sua expedição e subiu para junto de seu filho. batendo os dentes instintivamente. A chave de dentro. Parecia outro. – Bom. realmente era bem diferente da outra. abraçou ternamente o filho. Temeu virar-se. e de boas conversas. Não se via nem um fiasco de luz natural. o profissional se retirou. Alerta. que bom. Arminda se viu tentada a falar do porão. Escuridão. Pegou uma lanterna no armário da cozinha e adentrou vagarosamente naquela escuridão. Não tinha coragem suficiente para enfrentar tamanho roedor. onde uma vassoura acabara de cair. Tentou acender a luz no interruptor. animado. – É mesmo. Arminda ouviu um chiado de algo arranhado a parede atrás de si. o chaveiro esteve aqui hoje. descendo degrau por degrau. E pode ver um enorme rato procurando um lugar para se esconder. bife e salada. Conseguiu abrir a porta do porão e removeu a fechadura para não haver possibilidades de emperrar novamente. Mas como o porão se trancara por dentro? Como seu marido abrira a porta sem quebrar nada usando o pé-de-cabra? Antes que as dúvidas gerassem medo. Um dia de serviço o fez sentir-se vivo novamente. Mas vi um rato enorme. Trêmula. A noite chegava anunciando a hora dos maridos atarefados retornarem ao seio de suas amadas famílias.Tato Guin  45 Feito o serviço. – Querido. certificando-se de que não mais se fecharia. E você quer que eu dê um jeito no rato primeiro? – Exatamente. Concluiu que a lâmpada estava queimada.

Quase não se via a tinta que dava cor às paredes. Imediatamente. Pegou a lanterna na cozinha e foi acompanhá-lo. Nicanor apontava o feixe de luz pra todas as direções. Mas não viram nenhum rato. e arrastou a mesa até debaixo da lâmpada queimada. Mas ela foi chegando perto. O chão parecia revestido de um assoalho de madeira. O cheiro podre obrigou Nicanor o cobrir o nariz com a gola da camisa. Pegou um e limpou para ver melhor. fez-se luz. Adiantou-se em pegar vassoura. Como a porta de um alçapão. Na ausência da esposa. Teve dificuldade para abri-lo.Tato Guin  46 Arminda ficou aliviada em ver a naturalidade com que o marido lidava com a situação. A falta de luz impedia-o de ver com precisão. Pediu para que ela segura-se a lanterna. era ainda pior do que sentira antes. O cheiro de mofo era impregnante. espatifando-o no chão. – Deve ter escapado por algum buraco. descendo a escada do porão. Já ia subir na mesa quando reparou num ranger no assoalho. nem pegador. Não existiam dobradiças. O fio elétrico donde se pendurava a lâmpada descia de uma viga de madeira central. Nicanor pode examinar com mais atenção toda a mobília e as condições do porão. pelas frestas. a vassoura velha caída embaixo da escada. com todas aquelas estantes cheias de vidros e teias de aranha. apontando o feixe de luz em sua direção. que atravessava o teto. pé ante pé. enquanto trocava a lâmpada. constatando tudo o que Arminda já vira: as estantes nas paredes cheias de potes de vidro. Ainda assim. de noite. lembrando um alçapão. Mas sem trinco. Nada de especial havia. As paredes por de trás das estantes pareciam pintadas de marrom. com a tampa enferrujada. pegue por favor uma lâmpada nova no armário da cozinha. latas e garrafas no chão. Não agüentou o cheiro de podridão e largou o vidro involuntariamente. Ia se agachar mas Arminda chegou com a lâmpada. agachou-se para estudá-lo melhor. Estavam muito sujos. apontada para ele. Parecia conter uma compota de goiaba. Apoiou a lanterna sobre a cadeira.  Contos e Crônicas de um Condenado . – Sim querido. curioso com o desnível do assoalho. Apenas as frestas que formavam um quadrado. Era frio. Não havia caixa de luz nem nenhuma central ou forno de calefação. Porém sentia ar frio vindo de baixo. Querida. poeira e teias de aranha. Havia um desnível em forma de quadrado bem embaixo do local da mesa. Arminda se ateve aos potes de vidro nas estantes. coisas que costumam ser comuns em porões de casas antigas. Vou arrastar esta mesa até aqui para trocar a lâmpada queimada. A sensação de entrar lá. toda sujeira. a cadeira e a mesa ao centro. pá e saco de lixo para limpar o estrago perante os comentários do marido para que tivesse mais cuidado. Notaram as péssimas condições do recinto.

E fugira pelo mesmo lugar. Mas ele sentia-se observado. Mas só depois da merecida noite de sono. marido e mulher partilharam um gostoso desjejum: salada de frutas. tentando esconder a preocupação. Calma. Engoliu seco e disse: – Querida. mas não me sinto bem com esse porão. Mas nada havia. Era tarde da noite. – Nosso filho dorme como um gatinho. Sonhava com ratos. faltava só o beijo da esposa que fora espiar o filho dorminhoco. Nicanor sentia-se aliviado em ver resolvido o problema da porta do porão. pão com manteiga e um cremoso café com leite. mas não me contrarie. Correu em busca do pé de cabra da vizinha e usou-o para tentar abrir o aparente alçapão. A ruiva arrumou o penteado do marido e beijou-o na fronte ternamente. Nesse meio tempo. Já haviam planos na mente de Arminda de como fazer a limpeza. iogurte. Pode ser só uma cisma boba. De manhã. por debaixo das fundações da casa. Mas ainda não estava confortado. Nicô!? Tudo bem? O homem parecia assustado como se a morte o tocasse. A madeira cedeu facilmente e o que pode ver sob o tampo foi chão de terra batida. Em pouco tempo todos estavam acomodados e entregues ao sono. Calma está bem. não faça nada sozinha. Como se o mundo tivesse parado. Nicanor ajeitava os últimos detalhes para mais um dia de trabalho. Mas nada para se preocupar. Não faça nada sozinha. Uma brisa fria anunciou uma presença estranha. Nem explicação. Arminda. não quero assustá-la. – Está bem. Mais tarde vou perguntar a Dona Greice se ela pode me ajudar. Vinha do porão. Viu que não há nada além de sujeira. por favor. E assim ele foi ao trabalho. Pressentia que alguma coisa não fora revelada. fez-se um minuto de silêncio. Nicanor olhava e nada havia. Não entrarei lá sozinha. Promete? – Oh não! Esse porão de novo. Silêncio total. não entre no porão hoje. Talvez o rato tivesse entrado pelas frestas.Tato Guin  47 Seguiu de imediato seu impulso. Foram se preparar para dormir. Aquele lugar precisava de uma boa faxina e não seria agora que a fariam. o jovem pai de família sentiu seu coração palpitar como nunca.  Contos e Crônicas de um Condenado . também não dormia bem. Suando frio. Arminda passou um pano com desinfetante para amenizar o cheiro. Talvez ratos. Depois de retirar quase toda a sujeira do vidro que deixara cair. Bruninho cochilara no sofá. Por favor. Você entrou comigo ontem. Arminda nunca vira o marido tão aflito e resolveu concordar. Não consigo explicar. O tempo passara e não tinham percebido. – Por favor.

e melhor nem comentar. Ontem ele parecia tão bem. Arminda sentia que. Todo pó foi aspirado em uma hora com o aparelho ligado. nas panelas. aprendemos a desconfiar de tudo e de todos. Tenho muito prazer em ajudar. olhando de cima da escada. Bruno já estava no chiqueirinho. Todo o mais. Levantou-se. não se preocupava em sufocar o barulho que fazia. Sentimo-nos sós. Logo já estavam todos em suas camas. E cada uma foi cuidar da própria higiene. como cascos de cavalo batendo surdo sobre o chão. A poeira se acumulava aos montes. É bom conversar um pouco. entregues ao sono. Pegou o que de mais consistente e por perto havia como arma. Você não está sozinha.Tato Guin  48 Eram dez da manhã. à espera da coleta municipal. Os passos continuavam. armado no quintal.. que o marido não se lembrara do porão. garrafas e outras caixas rasgadas. assistindo as peripécias de Bruninho. riram juntas na varanda. e o que ficou foi limpo. mas não entendo essas atitudes. Parecia muito bem. As duas foram então enfrentar a limpeza do porão. O ser fuçava nos armários. juntas. O serviço realmente lhe tirava da mente qualquer pensamento obsessivo. A voz da boa senhora trazia conforto. – Incomodo algum minha filha. desculpe incomodar a senhora assim. as estantes fixas nas paredes e aquele tampo no assoalho. Foi até o corredor. Noutra caixa foram se agrupando latas. Baratas e aranhas fugiam e se escondiam. uma cinta. enquanto Dona Greice segurava-lhe a mão trêmula. chegou o marido. Nada parecia prestar e não tinham tempo nem interesse em averiguar. Viu uma sombra se mexer lá embaixo. Arminda agradeceu imensamente e deu um grande abraço na vizinha.. De vez em quando Dona Greice tossia com o levantar de pó. foi levado para a frente da casa. A jovem confessou seu tormento: – Estou preocupada. acumulado em caixas e sacos de lixo. cansadas e empoeiradas. As duas. Arminda deixou rolar uma lagrima até o chão. Foi quando Nicanor ouviu ruídos. poderiam expulsar qualquer mal que lá habitasse em forma de sujeira. Numa caixa de papelão começaram a acomodar os estranhos vidros de compotas e geléias. A sombra se dirigiu para a cozinha. Acho que aquela batida na cabeça está afetando o juízo de meu marido. Jantaram todos e Arminda achou estranho. Restaram só a cadeira e a mesa velhas. E hoje. Concordo que este porão pareça sombrio. mexendo com seus brinquedos. e desceu silenciosamente. Tiraram quase tudo. Nos dias de hoje. Certamente alguém vasculhava pela sala. cuidando para não acordar Arminda. Mesmo quando não estamos. No fim da tarde.  Contos e Crônicas de um Condenado . Era bom sentir um pouco de confiança. Dona Greice e Arminda tomavam um cafezinho na mesa da cozinha. Um esfregão molhado com desinfetante deu outro cheiro ao local.

Os dentes pontiagudos e podres sorriam naquela boca suja de malícia. Arminda tentava mas não reprimia os pensamentos de desconfiança. quando a fera olhou pra ele. O rastro continuava até o falso alçapão.. Já na cama. esperando o sono que não vinha.. está lá embaixo. Mas a vasilha estava vazia. Só Bruninho parecia gostar do arroz e da carne moída refogada com quiabo. meu deus. acorda querido. Ela abriu a geladeira buscando o filé que deixara numa vasilha na noite anterior. sem pestanas nem sobrancelhas. Escondeu-se atrás do batente da porta da cozinha. Não lembra? Está aqui na geladeira. – Não. – Nicanor.. Era a ele que ela temia. É um sonho. estava sendo devorado um bom pedaço de estranha carne. O que viu primeiro foi um ser sombrio. não era loucura. acorda. E sumia. acendendo todas as luzes que podia. Mal enxergava pela penumbra da luz da lua que pela janela invadia. Estava sentado de costas para ele. O jantar foi de silêncio. A carne sumiu. O dia passou como chuva. Olhos de um branco cintilante. – Aah! Ah. ou de uma velha sem dentes comendo melancia. – Ah não. tem alguma coisa aqui. Chegou mais perto empunhando a vassoura como um taco. Arminda procurava a todo custo não pensar no ocorrido. Porém. eu vi. Sumiu com a carne. Fazia um barulho medonho como o de uma fera que devora algo. Nicanor confessou: – Passei um dia horrível. avermelhado. – AAAAAAAAAAAAHHH!!! . espreitando para dentro.. Tinha um pequeno par de chifres. um pesadelo. Ambos seguiram o rastro até o porão. Tinha garras. Eu vi. Não consigo dormir. de onde muito sangue escorria. Gostaria de conversar. Preso nas mãos com garras. Arminda vinha atrás. junto à mesa. Não era alucinação. Gotas de sangue faziam um rastro que saia pela cozinha. Chegaram até a cozinha... – Calma querido. Você está de brincadeira comigo. o homem desceu correndo. como um louco sádico. Você teve um pesadelo com a peça de contrafilé que você mesmo trouxe para eu preparar. Ambos se abraçaram temerosos. Na certa o marido ensandecera. temia. veja! Nicanor apontou para o chão. E nada havia. e agora tremia de falso medo. armou tudo aquilo. Nicanor estava realmente apavorado. Mas permaneceu séria e triste por longo período..  Contos e Crônicas de um Condenado ... Atordoado. – Ele estava aqui. rindo-se por dentro. Estava devorando carne crua. na cozinha.Tato Guin  49 Nicanor chegou até uma vassoura por lá esquecida e trocou de armas.. Por isso. Fora o monstro horrendo que ele vira em sonho? Não podia mais confiar nos próprios sentidos. Não tem nada.

Arminda abraçou-o fortemente. Fosse o que fosse. Dona Creuza. A pancada poderia ser a causa dos pesadelos. – Que mal? – Não quero assustá-la. A família se mudou. No calor das emoções. Esta casa ficou muitos anos vazia. No meio de sonhos bons como não tinha há muito tempo. No seu egoísmo não acreditou no que se passava com ele. dormiram. mas moro nesta rua há mais de quarenta anos. Sinto-me impotente e covarde – e o homem deixou escapar soluços de choro sentido como de criança. Roubava dinheiro da esposa e comprava quilos de carne no açougue. maquinista de trem. Até o dia em que a ferrovia foi desativada e ele perdeu o emprego. Seu Josival era um bom homem. as lágrimas descerem pelo rosto do marido. E chorou sentindo que não havia solução para o medo que tomava aquele lugar. Sete dias depois. E fizeram amor como dois adolescentes que temem ser flagrados. Quando chegamos. Diziam. mas não conseguiu outro trabalho. Entregava a amada uma joaninha que pousara em suas mãos. feliz como a sua. rindo de sua alegria. Finalmente. Começou a pensar que havia algo errado consigo. Durante o café falou a Arminda sobre procurar um médico. disse o que estava se passando e porque o marido chegaria mais tarde. A esposa concordou. Então o céu e o calor que transpareciam uma linda tarde deram lugar a um céu vermelho escuro e um frio de arrepiar. para que o jovem Bruno não os pudesse escutar. consolando-o. Despertou tendo Arminda aconchegada em seu peito. Nicanor sentia sua vida se recuperar. Arminda convidou Dona Greice para um café. Mas ninguém sabia que fim dava para tudo aquilo. Como se houvesse algo terrível nesta casa. No meio de muita boa conversa. De tarde. morava aqui uma família. O homem sumiu. é que não entendo isso. Se algo acontecer com você ou com o Bruno. arrependida. Não sei o que é e não me sinto capaz de protegê-los. Encontraram-no morto. E o homem viu das nuvens surgir o monstro. e testemunhei estranhos acontecimentos. – Sinto medo. Tinha feito a receita de bolo de fubá cremoso de sua mãe e chamou a vizinha para experimentar. começaram a se acariciar. na época. deu um grande suspiro. Pensei que o mal havia terminado.Tato Guin  50 – Claro querido – Arminda percebeu. era preciso ajudar. De manhã. desde que me casei. Passaram-se anos até o rapaz. Nicanor vasculhou todo o porão. o filho. a casa e o quintal. que o homem estava ficando louco. arrombaram o porão devido ao mau cheiro. Via-se passeando com a esposa num belo campo de margaridas. A viúva ouviu tudo seriamente. tarde da noite. Mas o que mais me atormenta. Um dia Dona Creuza ameaçou ir embora com o filho. para sustentá-los. Havia se enforcado com a própria cinta amarrada à viga. não vou me perdoar. passou a fazer faxina pra fora.  Contos e Crônicas de um Condenado . um menino bonito como o seu. Num bilhete colado ao peito escreveu: “A vida é só uma ilusão”. Tentou. a esposa. o clínico do hospital. e disse: – Eu preferia não acreditar que algo assim acontecesse. Ficava horas trancado no porão.

É uma forma de agradecer toda sua generosidade. Mais tarde que de costume. No dia seguinte passaria com o neurologista. Sentia-se observada. foi falado. Foi com este conselho que o atormentado pai de família chegou dois dias depois ao consultório do Senhor Natore. Filho de italianos. um psiquiatra que o próprio neurologista indicara. mas nunca por muito tempo. No consultório. Dormiram. sobre o sigilo profissional e a necessidade  Contos e Crônicas de um Condenado . Olhava seriamente para a entreaberta porta do porão. Arminda não ousou comentar a história que a vizinha havia lhe contado. Tudo o que se passara. Sua fala era forte e confiante. Mas não entendo o que isso tem haver com as alucinações e pesadelos de meu marido. – Meu deus. É uma história bizarra. estafa mental. Conversou com a esposa sobre os vários exames que fizera. Organicamente. o senhor parece normal. com os poucos cabelos já grisalhos. Logo a ajuda do médico resolveria o problema. Pelo que me disse. Dona Greice esperou na soleira da entrada. Não acreditava em fantasmas. O analista era um senhor meio calvo. meio resignada. Acho que isso que o está afetando. desde seu estranho acidente com a porta do porão. Aí vocês chegaram. Já se despedia quando lembrou: – Espere um pouco que vou cortar-lhe mais um pedaço do bolo para a senhora desfrutar mais tarde. foi promovido recentemente. pediu mentalmente que os anjos protegessem a casa. Recomendo que o senhor procure um psiquiatra ou psicólogo. levou a convidada até a porta. vendo-se naquela sala sombria. e usava recursos como a hipnose quando julgava necessário. mas sabia que não podia se meter assim na vida dos vizinhos. Rezarei pela saúde de seu marido e espero que fique tudo bem. depois de estudar todos os exames e de ouvir o que se passava com Nicanor. Situações de pressão podem levar a estresse. Eu não sabia disso. com um divã ao canto. Nicanor combinara o encontro por telefone e agora. – Perdoe-me minha querida. secamente. mas de aspecto jovial. com especialização na Alemanha. foi-se com o embrulho na mão. Enquanto a jovem arrumava um embrulho com o doce na cozinha. Do fundo do coração. Nicanor chegou. Outras duas famílias moraram aqui. Isso foi deixando o novo cliente mais à vontade. O analista explicou sobre como funciona um tratamento psicoterapêutico. Passamos um tempo muito bom aqui até ele bater a cabeça. o neurologista concluiu: – Não encontrei nada. perguntava-se se tudo aquilo era mesmo necessário. Natore seguia a escola psicanalítica.Tato Guin  51 vir organizar uma reforma e vender a casa. de decoração clássica. Depois. Não quero contrariá-la. Arminda.

provocando um pequeno corte. Arminda pode verificar o estado do marido. o grifo escapou-lhe da mão. você se machucou – disse ela examinando sua mão. nada nobre mas latente: raiva. E cuspia enojado na tentativa de livrar-se do sabor salgado que tinha nos lábios. para esvaziar a caixa d’água. O gosto do próprio sangue provocou-lhe náuseas e falta de ar. Talvez a única maneira de manter o relacionamento com o homem que amava. Ainda sentada. No domingo. É de se esperar que o homem da casa seja capaz de resolver questões como essa. e sobre todas suas sensações e emoções. Já na rua. Arminda novamente inundou-se de pensamentos de insegurança. puxando a mão de volta – só sai para respirar um ar. O banheiro já está quase pronto. Mas também entendia que era uma saída para a situação por que passavam. A vontade de explicar o que não entendia foi tomando o ambiente. a imagem da porta do porão veio mais uma vez á mente do nosso protagonista. Já em casa. portando um pedaço de cano e o grifo de Dona Greice. o homem contou tudo à esposa. Chegou o fim de semana e o responsável pai de família já se organizara para resolver o problema do vaso sanitário fechando o registro geral dois dias antes. A angústia por notar sua incapacidade foi aos poucos trazendo a tona um outro sentimento. Deixou-se cair sentado na calçada. Acertaram uma nova sessão para a semana seguinte. está tudo bem? Já concertou o banheiro? Só quando chegou mais perto. Estava feliz pelo marido. Só de verbalizar o que lhe acontecia. Neste momento sua mente se preencheu com a imagem da figura que vira em sonhos: a cena do monstro devorando o pedaço de carne. O homem levantou-se voltando para a casa como criança emburrada. pela manhã. Arminda tentou esconder o que pensava. Sentou-se junto dele e perguntou: – O que houve? Nossa. Sobre o receio e a posterior sensação de segurança. feliz. A mente de Nicanor já parecia mais tranqüila e Arminda já imaginava até a possibilidade de cancelar o tratamento do marido com o psiquiatra. – Não foi nada – respondeu ele rispidamente. percebeu-se fitando a casa de  Contos e Crônicas de um Condenado . Nicanor sentia-se mais aliviado. ofegava como quem foge de um incêndio. O tempo transcorreu calmamente. Isto a preocupava. Nicanor se envolveu na empreitada. sugando o sangue do ferimento. Enquanto dialogava consigo mesma sobre quando aquilo tudo ia acabar. Enquanto esvaziava o excedente de água presente nas tubulações. respirando mais aliviado. com a cabeça distante e o coração enraivecido.Tato Guin  52 de se falar tudo que se passava em sua cabeça. mas sempre entendera a psicologia como coisa para loucos. O homem abandonou tudo correndo para fora da casa. – Querido. Nicanor levou a mão à boca instintivamente. Enquanto apertava o cano.

Preocupo-me em garantir o bem estar deles. Estava emperrada. Trancada. Mas não entendo. – Uma vida melhor. Não entendo o que ele quer. Precisamos entender o que  Contos e Crônicas de um Condenado . Foi a criatura. A princípio. E eu gosto muito do que faço. Ela estava trancada por dentro. É tanta responsabilidade quanto a dele. Não tenho mais os sábados e. ela estava aberta. Eu não largo mais a chave. Antes de qualquer coisa o senhor precisa entender que está seguro aqui.. isso pode acometer qualquer pessoa. quer dizer. O que o senhor descreve parecem sinais claros de alucinações paranóicas. Eu posso sentir. Minha mulher não me falou nada.. Como está a nova ocupação? – Bem.. Sinto-me realizado profissionalmente. Não gosto de pensar na possibilidade de perder tudo que já conquistamos. talvez eu me preocupe mais agora. ela abriu sozinha. – Existe mais pressão do que antes? – Com certeza. Trabalho mais. E acho que eu bati a cabeça. Eu sei. segurando-a como um arqueólogo que detém uma relíquia. A de fora nunca abriria aquela porta. Continua lá. Calma. Fico imaginando se consigo dar conta de tudo. – E o monstro apareceu. às vezes me preocupo. Tentei de todas as formas. E veio o chaveiro. quer dizer que o senhor foi promovido recentemente. Nicanor mostrou a chave dourada. Com segredos diferentes. O mais incrível é que ela estava aberta. Quando estava prestes a usar o pé de cabra. Compensa. – E como o senhor se sente com relação a isso? – Bem. – Hum. Será que fará algum mal a minha família? Ninguém o vê. estou ficando louco? – Calma seu Nicanor.. às vezes. nem os domingos. mas também ganho mais. Veja. Estaria seu marido enlouquecendo? Haveria alguma influência dos ocorridos no passado daquela casa? cap.Tato Guin  53 Dona Greice e lembrou-se da história de terror e loucura que ouvira.. E tem também os almoços de negócios com novos clientes. 03 – Então Seu Nicanor. o homem continuou – me diz doutor. Mas é para o bem de todos nós. – Agora o senhor é supervisor? – Respondo aos projetos diretamente com o meu patrão. – E como o senhor se sente com relação a isso? – Bem... É preciso passar sempre uma boa impressão. Eu lembro que quando deixei minha casa em direção ao hospital. Nem mesmo eu estou certo de tê-lo visto – já desesperado. uma casa nova. E quando voltamos. Não é loucura. E aí o senhor foi tentar abrir aquela porta do porão. Bem. Mais responsabilidades. mas eu achei numa gaveta a fechadura. E tem meu filho pequeno.. E o senhor sempre teve estas preocupações? – Claro.. Como foi mesmo? – Maldita porta. estava fechada novamente. Passo menos tempo com a família. A porta tinha uma chave do lado de dentro e outra do lado de fora..

Tudo bem? – Agora. E se não é real. – Então nos vemos de novo na semana que vem. Repita isso mentalmente. quero evitar ter de receitar qualquer remédio. Enquanto Nicanor se despedia. acordaram se namorando. Arminda o observava encostada ao batente da porta de entrada. Não era louco afinal. parece fazer sentido. Talvez por isso as alucinações. pães de queijo e capuchino. E nem o mais eficaz jardineiro seria capaz de eliminá-la. Atente para as sensações e os pensamentos. enquanto Arminda o acompanhava. Um bom dia de trabalho. Nicanor sentiu um tremendo alívio.  Contos e Crônicas de um Condenado . – Então como saber? Veja. Não me parecia uma alucinação. E para mim parece claro que tudo isso é uma válvula de escape para a pressão que o senhor vem sentido atualmente. Mas a semente do medo já estava plantada. Tudo parecia mais harmonioso. não é real. Sua psique está tentando verbalizar essa insegurança que o senhor inconscientemente recalcou. Ligue-me se precisar. Estava novamente no controle.. Realmente posso estar cobrando muito de mim ultimamente. Lembre-se. segurando sua caneca ainda cheia e esboçando um jubiloso sorriso. O senhor pode se surpreender com algum tipo de resposta em seu consciente. Estava tudo bem. Ambos despediram-se. Nicanor trazia um ar de satisfação. De madrugada. Anote. Todo o mal momentaneamente esquecido. Profundamente. ia já atentando para seus pensamentos e sentimentos. Parecia que os eventos das últimas semanas nunca existiram. Pura satisfação. quase flutuando aos passos pela calçada. E traga para estudarmos juntos. O senhor entende o que estou dizendo? – É. se for preciso. No caminho para casa. a primeira coisa é manter a calma.. melhor. nesta primeira fase. O calor ainda presente dos afagos madrugais. nenhum mal pode lhe acontecer. menos temeroso. Comeu a janta requentada com prazer. O senhor sabe.. Vamos lidar com isso da seguinte forma: se o episódio voltar a acontecer. homem não pode demonstrar fraqueza. Bruninho já dormia quando o pai chegou em casa. tomaram café juntos. mais uma vez. Preocupar-se excessivamente com a família. conversando sobre as traquinagens que Bruno aprontara durante o dia. Saiba que não é real.Tato Guin  54 fez desencadear este processo. Fizeram amor e pela manhã. Tudo isso gera uma insegurança que de certa forma o senhor se nega a aceitar. Quero que o senhor tente se acalmar. – E o senhor já teve alucinações antes? – Não.. Sentia-se mais consciente. Mas a sensação era tão real. Ambos dormiram abraçados e tiveram bons sonhos. Lidar com uma nova fase profissional. O senhor vai respirar fundo. E repetir mentalmente: “o que meu inconsciente quer dizer com isso?”.

Arminda se assustou com o barulho de queda. Sentiu o arrepio característico em sua espinha. Pendurado numa corda. Jantar o arroz com feijão e bife com salada. todo mijado. estava o corpo de um homem enforcado. um arrepio lhe calava fundo a alma. moleque. Um dos rapazes jogou-lhe um copo d´água e o homem despertou em desespero. Os olhos esbugalhados o miraram e aquela boca podre se abriu e o morto disse: “A fida é fó uma iluvão. Sua esposa estava lá. Apesar de insistir na lembrança das palavras do terapeuta. E ouvir. um recado que não conseguia ler devido à distância. O homem tentou disfarçar a tensão e caminhou mansamente até junto da porta entreaberta. O cheiro peculiar de açougues e matadouros. foi chegar em casa. viu-se no pátio da escola. correu até o porão e se desesperou em ver o marido caído aos pés da escada. mas felizmente. Sua reação foi direta: – Vocês viram o corpo do homem no porão?  Contos e Crônicas de um Condenado . firme e estridente. expulsa e retorcida. Aparentemente só ele ouvia. O liquido quente escorreu e molhou suas calças. Em seguida. O pescoço quebrado pendia. Algo de sua infância. Crianças podem ser os piores dos demônios quando querem. em avançado estado de putrefação. Do rosto. uma peça de sua cabeça cansada. Parecia inerte. já a muito dominado. a medonha risada. Acendeu a luz e o que viu foi tenebroso. Sentia algumas dores pelo corpo. Mais uma vez foi à rua clamar por ajuda. entretida com o filho. parecia que nada lhe atingira a cabeça. Tentou acudi-lo mas parecia desmaiado.Tato Guin  55 Ao fim do dia. Pendurado ao peito. dar um beijo no filho. de dizer mentalmente que tudo não passaria de uma alucinação. Nicanor perdeu o controle de sua bexiga e se urinou todo. As risadas das crianças entraram em ressonância com a risada monstruosa que em nenhum instante cessara. Estava em choque. Abraçar a esposa. O pavor o impedia de se mover. E cada vez que ele espiava em direção à porta.. Dona Greice davalhe tapinhas no rosto e o chamava. amarrada à viga principal do teto do porão. Cheiro de sangue velho. E um cheiro ruim. Uma lembrança da infância incorreu em sua mente e como se estivesse em outra realidade.” E tudo se apagou. Então ele voltou para o momento presente. inerte àquelas medonhas risadas. Podia-se ouvir. Sentar para ver o noticiário diante da TV. Tomou-se de alguma coragem e desceu vagarosamente as escadas do porão. voltou a acontecer. Foi Dona Greice quem chamou uma ambulância e a primeira a chegar dessa vez. sendo alvo das risadas das crianças sem alma. os Gêmeos Washington e Wellington carregaram Nicanor até o sofá. vazando para os degraus e de lá para o chão do porão. vindo de lá do porão. saltavam os olhos sem vida e a língua proeminente. estava lá. encarou o cadáver que se balançava..

– O que? O homem correu até as escadas do porão.Tato Guin  56 Todos se olharam de forma receosa. – Não tem dada no porão não seu Nicanor. e nada de mais havia.  Contos e Crônicas de um Condenado . E ele olhou para mim e disse “a vida é só uma ilusão”. nenhuma risada. pendurado no porão. – Eu vi um homem enforcado. – Meu Deus! – exclamou a viúva.. meio cambaleante. Então se deu conta de suas calças molhadas e corou de vergonha. Nenhum corpo..

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