Os termos ‘Ética’ e ‘Moral’

Eduardo Dias Gontijo

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Professor do Departamento de Psicologia da UFMG.Doutor em Psicologia pela United States International University of San Diego. Pós-doutor pela Pontificia Universidad de Comillas. Atual vice-diretor da FAFICH-UFMG. R. Francisco Deslandes, 780 / 602 - Bloco 1 - Bairro Anchieta - 30310530 – Belo Horizonte - MG - Brasil - Tel: (31) 3284.0913 edgontijo@ufmg.br

Resumo O artigo trata da questão da aplicação dos termos ‘ética’ e ‘moral’, comumente usados para se referir a um mesmo domínio de saber e um mesmo campo de fenômenos. Num primeiro momento, procura-se demonstrar a sinonímia original dos termos, a partir de suas respectivas raízes etimológicas. Em seguida, são exploradas algumas nuances de significação dos termos, a partir da crítica hegeliana da filosofia prática de Kant. Finalmente, é discutida a prevalência atual do termo - ética -. Palavras-chave Ética; moral; etimologia; filosofia moral; pós-modernidade.

Mental - ano IV - n. 7 - Barbacena - nov. 2006 - p. 127-135

Concluirei meu trabalho discutindo a preferência atual do termo ‘ética’ sobre a palavra ‘moral’. ao fim da Era Moderna. Escritos de Filosofia IV: Introdução à Ética Filosófica. 1999. éthos significa “o conjunto dos costumes e hábitos fundamentais. 119). em primeiro lugar. termo corrente na língua grega. ethike. procurarei demonstrar a sinonímia original dos termos ‘ética’ e ‘moral’ a partir de suas respectivas raízes etimológicas. Mental . época ou região”. Aristóteles foi o primeiro a definir com precisão conceitual esse saber. São Paulo. Éthos com eta (ç) inicial designa. que constitui uma transliteração de dois vocábulos gregos: éthos (com eta inicial — hqoV) e êthos (com epsilom inicial — eqoV).n.128 Eduardo Dias Gontijo Introdução Dada a grande confusão semântica atual em torno dos termos ‘ética’ e ‘moral’.Barbacena .-K.) e da cultura (valores. seja o exercício da reflexão crítica e metódica (praktike philosophia) sobre os costumes (ethea)1. idéias ou crenças). a saber. Com o passar do tempo. Loyola.. physike). característicos de uma determinada coletividade. o adjetivo gradualmente se substantiva e passa a assinalar uma das três partes da filosofia antiga (logike. minha modesta contribuição neste artigo versará sobre um problema de natureza estritamente terminológica. 1 2 Ver H. 3 Como afirma Heráclito: éthos anthrôpo daímôn (o ethos é o gênio protetor do homem) (D. no âmbito do comportamento (instituições. No Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. B. ao empregar a expressão ‘ethike pragmatéia’ para designar seja o exercício das excelências humanas ou virtudes morais. a questão do uso de dois termos de grafias distintas — ‘ética’ e ‘moral’ — para se referir a um mesmo domínio de saber e a um mesmo campo de fenômenos. como espaço construído e incessantemente reconstruído — e tecido pelo logos — é o seu abrigo protetor mais próprio3. Em seguida. originara-se do substantivo ‘ethos’. e se revelam no vocabulário ético atual. Lima Vaz. empregado originariamente para qualificar um determinado tipo de saber. Isto é. Ética e Moral como sinônimos A palavra ‘ética’ provém do adjetivo ‘ethike’. 7 . C. por sua vez. diferentemente da physis.ano IV .p. a morada dos homens e dos animais. 2006 . estilo de vida e ação. afazeres etc. a natureza.nov. explorarei algumas nuances de significação no uso desses termos que se originaram no início do século XIX. 127-135 . O adjetivo ‘ethike’. mais do que habitar a physis. o éthos. A metáfora contém a idéia de que o espaço do mundo tornase habitável pelo homem por meio do seu éthos. Num primeiro momento. 22. o homem habita o seu éthos: pois. É o éthos como morada que dá origem à significação do éthos como costume2.

O mesmo se verifica com a palavra ‘moral’. Com a criação da Ética como ciência do ethos no mundo grego — como aplicação do logos demonstrativo à reflexão crítica sobre os costumes e modos de ser dos homens — a palavra ‘ética’ passou a designar. Designando originariamente a morada dos homens e dos animais.n. Isto é. 4 5 Ver Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. na tradição filosófica. O termo latino mos. No que respeita a tradição filosófica. e de um ponto de vista individual. portanto. 7 .Os termos ‘Ética’ e ‘Moral’ 129 Êthos com epsilom (å) inicial refere-se primordialmente ao processo genético do hábito (hexis) como disposição estável para agir. ‘Ética’ significa. do ponto de vista coletivo. igualmente. como esse próprio saber. comportamentais e intelectivas de um indivíduo4. Mental . o bem ou o justo podemos nos servir indiferentemente de qualquer um dos dois termos5. A inquietude moral e a vida humana. Monique. o que ela afirma. o mesmo campo de fenômenos e o mesmo domínio de reflexão.] não há nenhuma dúvida sobre o fato de que os termos ‘moral’ e ‘ética’ designam o mesmo domínio de reflexão. passa a significar o caráter pessoal como um padrão relativamente constante de disposições morais. A inquietude moral e a vida humana. 127-135 . portanto.p. são sinônimos. os costumes.[. foi usado (provavelmente por Cícero) para traduzir o vocábulo ethos.Barbacena . afetivas. que decorre do exercício dos atos. os termos ‘moral’ e ‘ética’ designam.. com todas as letras. tanto a disciplina que reflete criticamente sobre o saber ético encarnado nos costumes e modos de ser. de forma inequívoca. tanto o objeto de estudo de uma disciplina quanto o estudo do objeto. 2005. São Paulo: Loyola. Eis. o modo de ser — o caráter. que servirá para designar tanto o objeto de estudo — a moral — quanto o estudo crítico do objeto — a Filosofia Moral.ano IV . o qual conhece. E para nos referirmos ao tipo particular de atitude que é a reflexão sobre a ação. de onde provém o termo moral. Posição esta que pessoalmente assumo e que. é assumida pela maior parte dos filósofos e está plenamente de acordo com a organizadora do principal dicionário de ética de nossa época — Dicionário de Ética e Filosofia Moral — Monique Canto-Sperber. no mundo latino. amplia gradualmente seu significado para denotar. quase idêntica história semântica ao termo grego ethos. A partir daí. em outra obra.nov. Canto-Sperber.. 2006 . publicada recentemente no Brasil: Vou decepcionar o leitor dizendo que em geral me sirvo dos termos ‘moral’ e ‘ética’ como sinônimos.

tal como ele se exprimiu na Ética de Kant e de Fichte. para a dialética de Hegel. isto é. assim. do universo ético dos costumes (Sitten)”8.. a presença da 6 7 8 Ver Ver H. por meio da célebre distinção hegeliana. que recomenda empregar indiferentemente os termos ‘ética’ e ‘moral’ para designar o mesmo campo de fenômenos. C. fundamentalmente. Longe de se opor estruturalmente à Eticidade — é evidente que. C. consideram que a palavra “moral” sugeriria. Mental . cit. Lima Vaz. a) Moralidade e eticidade em Hegel O que denomino aqui “nuances” de significação começaram. provavelmente. explorarei alguns exemplos de usos diferenciados dos termos ‘ética’ e ‘moral’.ano IV . Lima Vaz. Nesta parte do trabalho. op. o indivíduo se submete livremente ao sistema de seus deveres dando à sua ação. sem a qual a segunda permaneceria puramente formal ou ao nível de uma particularidade abstrata. ao cumpri-los. atualmente. e Sittlichkeit conotava o campo da eticidade social e politica6. Lima Vaz. cit. cit. na moralidade “a determinidade da vontade está assim posta no interior [.p. De certo modo. Lima Vaz. a qualidade de virtude e participando. Ver H. a introduzir-se no vocabulário filosófico. elas se opõem dialeticamente — a Moralidade representa para Hegel um estágio elevado do pensamento da Liberdade. Ver H.] moral aqui tem o sentido de uma determinação da vontade. 127-135 . Nas palavras de H. Com efeito. b) Ética e moral em Paul Ricoeur Alguns autores atuais. na medida em que ela está no interior da vontade” (§ 503). como na Filosofia do Direito.nov.n.. Enquanto que “a eticidade é a plena realização do espírito objetivo. a eticidade é a verdade da moralidade. diferentes nuances de significação no uso dos termos. Já a passagem da Moralidade para a Eticidade significa o início da vida propriamente ética — o campo das virtudes — e da realização efetiva da liberdade na esfera prática7. podemos dizer que. na Enciclopédia. 397. constitui a sua realização concreta. magistral leitor de Hegel: “Existindo na substância ética. entre o domínio da Moralität (moralidade) e da Sittlichkeit (eticidade).Barbacena . C. no início do século XIX. 7 . op. enquanto momentos da vida do Espírito. op. na esteira do pensamento de Paul Ricoeur. na dialética do Espírito Objetivo. a verdade do espírito subjetivo e do espírito objetivo mesmos” (§ 513). Hegel afirma que.130 Eduardo Dias Gontijo Nuances de significação dos termos ‘ética’ e ‘moral’ Apesar da sinonímia de origem. p. C. tanto na Enciclopédia das Ciências Filosóficas. 2006 . observamos.. Moralität compreendia o domínio kantiano-fichtiano da moralidade interior.

dos deveres. (4) ou uma disposição de espírito produzida pelo caráter e atitudes de uma pessoa ou grupo (“estar com o moral alto” etc. (5) ou uma dimensão da vida humana pela qual nos vemos obrigados a tomar decisões (“a moral”). Ver Cortina. da qual Hegel é um dos mais ilustres representantes. São Paulo. marcado por normas. distinguir uma nuance. e expressar-se-ia no optativo9.n. seu domínio semântico pertenceria. (2) ou um conjunto de convicções morais pessoais (“fulano possui uma moral rígida”). pois.. todavia.).Barbacena .nov. ao registro do imperativo categórico e à filosofia kantiana. P. obrigações. E. embora o mais corrente seja “ética aristotélica” etc. das obrigações. Pode-se facilmente reconhecer na distinção entre intenção de vida boa e obediência às normas a oposição entre duas heranças: a herança aristotélica. e ambas remetem à idéia dos costumes (ethos. às virtudes ou às práticas efetivas concretas. 2005. grande pensadora espanhola. enquanto a palavra ‘Ética’ — ou Filosofia Moral — deveria reservar-se à disciplina filosófica que busca refletir criticamente da moral. 7 . e uma herança kantiana.). interdições caracterizadas ao mesmo tempo por uma exigência de universalidade e por um efeito de constrição. A. c) Moral como objeto de estudo e ética como estudo do objeto Para outros autores. por sua vez. a palavra ‘moral’ deve ser usada preferencialmente para denotar o objeto de estudo. pode-se. relevante rever o que nos diz o ilustre filosofo francês neste contexto: É preciso distinguir entre moral e ética? A dizer a verdade. Loyola. na qual a ética é caracterizada por sua perspectiva teleológica (de télos. Loyola. De fato. e Martinez. Ética e Moral. In: Leituras 1: Em torno ao político. a exemplo de Adela Cortina11. em suas diversas acepções. outra do latim. para designar âmbitos que constituem o objeto de estudo da Ética ou da Filosofia Moral: (1) ou um modelo de conduta socialmente estabelecido em uma sociedade concreta (“a moral vigente”). 1995.ano IV . primordialmente. portanto por um ponto de vista deontológico10. fim). Ética. o termo ‘moral’ é muitas vezes usado como substantivo. É por convenção que reservarei o termo ‘ética’ para a intenção da vida boa realizada sob o signo das ações estimadas boas. A ética. Como 9 10 11 A saber. 127-135 . segundo se ponha o acento sobre o que é estimado bom ou sobre o que se impõe como obrigatório. Mental . Torna-se. 2006 .).p.Os termos ‘Ética’ e ‘Moral’ 131 obrigatoriedade das normas. São Paulo. sejam doutrinas morais concretas (“Moral católica” etc. Ver Ricoeur. sejam teorias éticas (“Moral aristotélica” etc. nada na etimologia ou na história do uso das palavras o impõe: uma vem do grego. Esse uso encontra apoio na linguagem corrente. e o termo ‘moral’ para o lado obrigatório. estaria associada ao bem viver. mores). à tradição aristotélica. na qual a moral é definida pelo caráter de obrigação da norma. (3) ou tratados sistemáticos sobre as questões morais (“Moral”).

O que não se pode é tratar os termos como antônimos. Tal uso é superficial e contraditório: é contraditório defender. já discutida antes. devo algo. Já o termo ‘moralidade’ é muitas vezes usado. Em termos gerais. uma dimensão da vida humana identificável entre outras e não redutível a nenhuma outra. seja como (a) sinônimo de “moral”. (c) ou na contraposição filosófica de cunho hegeliano entre “moralidade” e “eticidade”. finalmente. para expressar aquele novo ethos denunciado por Gilles Lipovetsky.p. devo honrar os contratos. a generosidade não se pode obrigar: ela expressa um dom gratuito. uma ética sem moral. 2006 . diferentes dimensões de um mesmo fenômeno. Por outro lado. mais adequada: é perfeitamente legítimo falar. devo ser justo etc. grosso modo. Essa prevalência do termo ‘ética’ em relação ao termo ‘moral’ serviria. ou em contraposição à “amoral”. 7 . Quando filósofos utilizam distintas nuances de significação. enquanto outra se expressa por aspirações. e.nov. por outro lado. ex. antes de mais nada. Uma separação excessiva no uso dos termos implicaria um uso avaliativo da distinção. porque a idéia de um bem desejado remete sempre a uma certa normatividade. A ética indolor Mental . no sentido de uma concepção moral concreta (p. Devo. por exemplo.n. Ética sem Moral? No uso dos termos ética e moral. geralmente o fazem para denotar diferentes aspectos da vida moral ou da reflexão moral. se devo algo. o termo moral é preferencialmente usado em contraposição à “imoral”.ano IV . por exemplo.Barbacena . subentendendo. se quero algo. respeitar os direitos do outro. ou seja. ou uma moral sem ética. por exemplo. seja como (b) sinônimo de “a moral”. 127-135 . isto é. que a ética vale mais que a moral. a sinonímia original deve prevalecer como pano de fundo para as diversas nuances de significação. toda normatividade sempre faz referência a uma certa idéia de bem. num livro que se tornou célebre — O crepúsculo do dever. em usos que interessam à Ética. quero algo. Enquanto a sinonímia é. E isso. em geral. de uma ética universal de Kant ou uma moral das virtudes de Aristóteles. que a aspiração e o desejo valem mais que o dever e a obrigação. isto é. e que se manifesta no fato de que emitimos juízos morais.132 Eduardo Dias Gontijo adjetivo. É evidente que uma parte considerável da vida em comum exprime-se mais adequadamente através das idéias de obrigação e do dever. quando dizemos “isso é uma imoralidade” = “isso não é moralmente correto”).

Fruto do novo ethos individualista e do narcisismo dos tempos atuais. A. de devoção a fins superiores.p. Em relação às palavras finais de Lipovestsky. 1994.n. de fato. nenhuma separação de si mesmo”. São Paulo: Loyola. que consagra a saída da forma-dever. p. a moral se encontraria demasiado próxima do espírito religioso. HEGEL. Don Quixote. 295. nessa perspectiva. A pós-modernidade é. tal moral incandescente. Escritos de Filosofia IV: Introdução à Ética Filosófica. é forçoso nos interrogarmos se.ano IV . 7 .nov. nem de ética e nem de moral. Enciclopédia das Ciências Filosóficas. 1999. Para Lipovetsky.. dos deveres para com o outro. entretanto. Ética. v. em que tal dever infinito vibraria nos corações.Barbacena ..] da imperatividade ilimitada dos deveres”. 127-135 . que se instalou com todo seu brilho. III. 2006 . 12 Lisboa. LIMA VAZ. F. A inquietude moral e a vida humana. E. pois. apesar da secularização em marcha na era moderna.. existiu. transcendentes. Monique. foge da dor do dever. essa nova ética é indolor. São Paulo: Loyola. de dever absoluto [. W. e Martinez. O que parece certo. G. Referências CANTO-SPERBER. São Paulo: Loyola. Henrique C. A ética indolor dos novos tempos. uma era “pós-moralista”. um dia. Mental . Para Lipovestsky — recordemos que trata-se aqui de uma análise sociológica — a era da moral se apagou para dar lugar à era da ética. na medida em que “não ordena nenhum sacrifício maior. da qual preserva “a noção de dívida infinita. 1995. é que não podemos abrir mão das aspirações por uma vida melhor.Os termos ‘Ética’ e ‘Moral’ 133 dos novos tempos democráticos12. CORTINA. 2005. que poderia ser também traduzido com outro título: O crepúsculo da moral. como conjunto de “obrigações supremas em relação ao que nos ultrapassa” e fundamento das obrigações morais e coletivas. São Paulo: Loyola. com efeito. 2005.

Lisboa: Don Quixote. 1994. HOUAIS. RICOEUR. In: Leituras 1: Em torno ao político. Paul. Mental . O crepúsculo do dever. 1995.n.p. 7 . 2006 . Gilles. 127-135 . Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. São Paulo: Loyola.nov.ano IV . A ética indolor dos novos tempos democráticos.134 Eduardo Dias Gontijo LIPOVETSKY. Antônio.Barbacena . Ética e Moral.

Initially.Os termos ‘Ética’ e ‘Moral’ 135 terms The terms ‘ethic’ and ‘moral’ Abstract The paper is concerned with the application of the terms ‘ethics’ and ‘moral’. we will try to demonstrate their original synonymy. 7 . which are often used to refer to the same field of knowledge and phenomena. Finally. after-modernity. the current prevalence of the term ‘ethics’ in the ethos of pos-modernity will be discussed Key words ethics. some nuances of meaning will be explored. 127-135 .ano IV . 2006 . moral. etimologia. based on their etymological roots.p. regarding Hegel´s critique of Kant´s practical philosophy. moral philosophy.Barbacena . Artigo recebido em: 16/6/2006 Aprovado para publicação em: 11/7/2006 Mental .n. Afterwards.nov.

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