100% acharam este documento útil (1 voto)
286 visualizações798 páginas

Album Açoriano

O documento destaca a figura da Rainha D. Maria Pia de Saboia, enfatizando seu papel como mãe e rainha caridosa, admirada pelo povo português. Além disso, aborda a importância dos cantos populares dos Açores, que preservam tradições e a rica herança poética portuguesa, em contraste com a obliteração das tradições no continente. O texto também menciona a influência de estudiosos como Garrett na valorização da poesia popular açoriana e sua relevância na formação da identidade cultural portuguesa.

Enviado por

carlosfafonso
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
100% acharam este documento útil (1 voto)
286 visualizações798 páginas

Album Açoriano

O documento destaca a figura da Rainha D. Maria Pia de Saboia, enfatizando seu papel como mãe e rainha caridosa, admirada pelo povo português. Além disso, aborda a importância dos cantos populares dos Açores, que preservam tradições e a rica herança poética portuguesa, em contraste com a obliteração das tradições no continente. O texto também menciona a influência de estudiosos como Garrett na valorização da poesia popular açoriana e sua relevância na formação da identidade cultural portuguesa.

Enviado por

carlosfafonso
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

DRaC-CCA

í- .
ssim foi sempre. Onde gemidos haviam Quantas ha enxugado e lhe dão direito ao respeitoso amor de
soado, onde pairara uma desgraça, surgia seu povo
logo um vulto esbelto, de cabellos arden­ Da Sr.11 D. Maria Pia de Saboia ha um retrato encantador
tes, sorriso de aconchegar humildes, es­ com o Príncipe D. Luiz, ainda muito pequenino, abraçado terna­
tendendo a mão carinhosa, que todos os mente á formosa cabeça de sua avó. Um instantâneo permittiu
pobres alguma vez beijaram, que poetas fixar o grupo em delicioso momento. Que ternura n’aquelles
cantaram tanta vez. braços de creança! Que formoso sorriso, que luz de contenta­
Esposa de El-rei D. Luiz, soube des­ mento, nos olhos da Rainha duas vezes mãe !
empenhar seu papel de Rainha, captivando Os queridos netos, como os tem no seu coração!
os portuguezes por seu ar soberano, pelos Que orgulho para ella vel-os crescer, reconhecer nelles, apon­
impulsos de seu coração, e tanto que, em volta de tando como botão formoso, as qualidades nobilíssimas de sua fa­
seu throno, se formou uma lenda tão bella como a mília, vel-os herdeiros das virtudes que ensinou a seus filhos!
de outras rainhas de Portugal de immorredoura me­ São elles ainda tão novos, que não teem por emquanto his­
mória. toria; são uma promessa, são uma esperança, são apenas uma
Mãe exemplar, o amor, que no paiz. hoje seu, aurora de maio.
lhe votaram, reflectiu-se sobre a cabeça dos filhos, O Príncipe, Sr. D. Luiz, quando, o anno passado, foi a
sabendo-se com que desvelo singular ella cuidava Londres com o fim de assistir á coroação de El-rei Eduardo III,
de sua educação. a todos conquistou pela forma simples, de alta nobreza, com que
Viuva agora, conserva a seu lado o filho mais se apresentou na corte de Londres. Distinguiu-o entre os mais
novo, o sr. Infante D. Affonso, condestavel do reino, príncipes El-rei da Inglaterra, e diz-se que em parte o fez pela
general do exercito, ultimo vice-rei da índia, onde muita sympathia pessoal que lhe inspirou o futuro rei dos por­
o levou seu dever num periodo de insurreição. tuguezes.
A Sr.a D. Maria Pia de Saboia tem seu nome O Infante é uma creancinha linda, adorada no paço.
vinculado a muitas obras de caridade, que são a Sigam as tradições dos seus, de seus paes, de seus avós e
mais rutilante gemma de seu diadema real. E lem­ saberão cumprir seu dever.
brarmo-nos dos prodígios que sua alma afflicta obrou
a favor dos innundados em 1876, o que fez pelas
desgraçadas victimas do pavoroso incêndio do theatro
Baquet, o que, em todas as occasiões que por ella bradam cora­
ções angustiados, descobre o genio de caridade com que Deus a
dotou milagrosamente, para lenitivo, quando não completo con­
solo, dos que perante ella vão derramar suas lagrimas.

DRaC-CCA
OS CANTOS POPULARES DOS AÇORES

s modernos estudos da Ethnologia têm susci­ que o povo idealisou o Santo Condestabre. Foi n este momento
tado um grande interesse scientifico pelas histórico, que se elTectuou a colonisação açoriana, de trabalhado­
tradições populares, conservadas inconscien­ res agrícolas e fabris, tanto do Minho como do Algarve; e essas
temente nas camadas sociaes menos progres­ famílias levaram comsigo os seus cantares e festas religiosas, taes
sivas, como vestígio do estado primitivo de como a dos Impérios do Espirito Santo, quasi obliterada no
concepções e de instituições extinctas ou mes­ continente.
mo de relações anthropologicas desconhe­ Póde, portanto, considerár-se esse grupo açoriano como con­
cidas. Assim o grupo da população portu- duzindo a uma grande experiencia sociologica, pela qual conse-
gueza confinada no Archipelago açoriano seguissem conservar através de quatro séculos em uma estabili­
desde o segundo quartel do século xv, se dade flagrante todas as condições para reconstituir a ethnologia
para o anthropologista merece especial inte- de Portugal no século xv. E sob o ponto de vista dos Cantos ly-
resse para fixar as suas differenciações do typo continental, os ricos e narrativos que este problema especialmente nos interessa;
costumes, as dansas, os cantos lyrico e narrativo, os casos, as porque, ao passo que em Portugal os Cantos e tradições popu­
superstições do vulgo têm uma incomparável valia, que, fazen­ lares, logo no século xvi cáem em uma doentia obliteração sym-
do-se o paradigma com as tradições portuguezas do continente, ptomatica, elles mantêm-se com uma enorme vitalidade nos Aço­
resalta logo o facto da sua immensa riqueza e pureza primitiva, res. Quem abre a legislação de D. Manoel e de D. João m, vê
resultante do isolamento insular. condemnados com forte penalidade os descantes populares; pelas
No momento da colonisação açoriana dava-se na Europa, e con- Constituições dos Bispados também foram severamente prohibidos
sequentemente em Portugal, um facto simultâneo a quasi todos os cantos nas egrejas, os Autos nas vigílias dos santos, e muitas
os paizes: uma assombrosa efflorescencia da Poesia popular denun­ orações foram escriptas para substituírem as canções tradicionaes.
ciava um vigor, um estado social, que motivava essa expansão Mas não bastavam estes attentados da Côrte e da Egreja contra a
sentimental revelada nas Canhone Strambotte italianas, nos 7^o- poesia do povo, veiu uma outra corrente desnatural-a, o gosto ex­
manceiros e Cancioneiros hespanhoes, nas Gwe%iou da Bretanha, clusivo pelos cantos da letra castelhana, como se vê pela queixa de
nas Bailadas da Inglaterra e Escossia, nos Volkslieder da Alle- Jorge Ferreira de Vasconcellos, lamentando o desprezo que se
manha, nas Kampviser scandinavos e nas Chansons de toile da affectava por qualquer cantiga portugueza. Diante d’esta desna-
França. Este facto notado por Mr. Gaston Paris, deu-se também cionalisação systematica, que concorda com as ideias ibéricas do
em Portugal, e bem intensamente como se vê pelos cantos com rei D. Manoel, que desejava unificar sob uma mesma corôa as

DRaC-CCA
Hespanhas, é que se comprehendem os versos de Gil Estes aspectos históricos mostram-nos a altíssima
Vicente quando se recorda do antigo cantar e bailar do importância que para o ethnologista apresentam os
povo, e como de vinte annos para cá tudo são tristezas Cantos populares do Archipelago Açoriano: Dão-nos o
e — Jeremias é nosso tamborileiro. Este estado dos es­ estado da Tradição poética portugueza no século xv,
píritos tornou-se mais sombrio, quando os terrores da para o confronto da epoca da efflorescencia europêa,
Inquisição depois de 1536, e o fanatismo obcecador dos que coincide com a incorporação social do Terceiro
jesuitas desde 1642, levaram o povo portuguez a um Estado; dão-nos um ponto de partida para se conhecer
mutismo lethargico, e a uma quasi inconsciência do seu a degradação a que foi levado o sentimento nacional
espirito de nacionalidade, a ponto de acceitar em 158o no século xvi e seguintes; e prestando-nos riquíssimos
o jugo de Philippe 11 com festas religiosas e arcos trium- elementos comparativos para estabelecer a unidade das
phaes. tradições poéticas entre Portugal, Hespanha, Italia,
E n’esta situação que a Poesia tradicional portu- França meridional e Grécia moderna, abre-nos um
gueza, com toda a sua riqueza do século xv, se conserva campo novo de elaboração nos Cantos populares do
no isolamento do Archipelago Açoriano em uma immensa Brasil, que precederam a formação d’aquella naciona­
estabilidade, prestando-se a um trabalho reconstructivo lidade.
do nosso passado continental. Mas a intensidade da Cabe a Garrett, açoriano pelos paes e familia, a
tradição poética açoriana prolonga-se até á colonisação gloria suprema de ter iniciado a investigação do Ro­
das províncias do Brasil no século xvi; os modernos manceiro tradicional portuguez. Ninguém imaginava que
estudos a que os investigadores brasileiros procederam o nosso povo tinha tanta riqueza poética; os seus es­
colligindo Cantos populares n’aquella vasta região civi- tudos, mais artísticos do que scientificos, exerceram a
lisada pelos portuguezes, taes como Celso de Magalhães, larga influencia de suscitar a attenção por esses canta­
José Veríssimo e Sylvio Roméro, chegaram ao desco­ res que eram considerados grosseiros e privativos da
brimento que todos esses veios tradicionaes eram tra­ gente rude. Olhando-os pela pura feição esthetica Gar­
zidos e vivificados pelos emigrantes açorianos. O facto rett prejudicou-os, mas venceu a indifferença das classes
bem se comprova, notando cultas por esses vestígios da
que no século xvi a tradição nossa poesia nacional. A obra
portugueza continental se obli­ de Garrett é preciosa pela in­
terava, pelas causas já referi­ fluencia suggestiva que exer­
das, e que a sua vitalidade no ceu ; a exemplo do excelso
Brasil era uma revivescencia, iniciador aproveitámos a nos­
como a do lyrismo da ^Mo­ sa situação na frequencia
dinha. da Universidade de Coimbra

DRaC-CCA
(1862-1868) para investigar­ ceiro geral; sem este elle
mos as tradições populares de nunca veria a sua publicação
todas as Provincias de Portu nem cresceria tanto em for­
gal; e depois da publicação ças, e não seria também para
dos nossos primeiros tres vo­ a nação uma gloria a conser­
lumes do Romanceiro e Can­ vação das suas tradições poé­
cioneiro geral portugue^, é ticas por uma colonia filha le­
que recebemos uma carta da gitima sua, quando essas tra­
ilha de S. Jorge, do Dr. João Teixeira Soares, datada dições se acham em boa parte obliteradas e menos
de 2 de Novembro de 1867, em que nos escrevia: «Vi­ bem conservadas na mãe patria?» E em carta de 28
via ainda Garrett, quando nos propozemos recolher o de Novembro d’esse mesmo anno, falia da riqueza
Romanceiro popular cavalheiresco d’esta ilha, com 0 d’esses veios insulanos:
fim de lhe aproveitar nas subsequentes edições do seu «Os romances dos Açores pela rapidez que os ca-
Romanceiro. racterisa estão ainda hoje num estado mui genuino, e
«Tínhamos empregado n’essa tarefa pouco tempo e têm mui pouco a corrigir em sua forma interna.—Umas
exercido as investigações em uma pequena área quando das grandes bellezas do d^omanceiro geral de V. está
a noticia de sua morte nos fez suspender o nosso tra­ no numero de versões que offerece do mesmo romance.
balho; apezar d’isso reconhecêmos, que o nosso Ro­ Garrett n’esta parte peccou, offerecendo uma só versão,
manceiro popular da ilha, tinha uma extensão muito e corrompida por vezes ridiculamente por variantes mí­
além do que em começo lhe supposeramos. — Vimos nimas. Em um vergel o agrupamento das arvores da
pelos jornaes, que V. se propunha a continuar a obra mesma especie é muitas vezes de grande belleza. As
do grande Mestre. Deparando acaso com alguma parte flores, ainda que irmãs dão tanto mais formosura á
do que havíamos recolhido resolvemos remettel-a a arvore que as produz quanto maior é o seu numero;
V.» Foi portanto ao estimulo de Garrett, que o Dr. João assim, as fructas, uma vez que o seu grande numero
Teixeira Soares e eu realisámos a investigação e pu­ não prejudique a sua nutrição.
blicação dos Cantos populares do Archipelago açoriano, «Trago estes factos naturaes para sustentação da
um dos mais opulentos thezouros da poesia tradicional ideia do maior numero de variantes e versões, sempre
portugueza. Na carta de 17 de Outubro de 1868 escre­ que as haja c tenham rasão de ser.
via-nos aquelle illustre açoriano: «Sobre a publicação «Sou apaixonadíssimo por ellas. — Se a riqueza de
do Romanceiro açoriano permitta-me V. que exponha um Romanceiro consiste não só na variedade dos ro­
que elle é para V. além de outros motivos, um grande mances, mas na abundancia de versões de cada um,
titulo de gloria por que é legitimo filho do seu Roman­ como creio, o Romanceiro dos Açores, merece por

DRaC-CCA
ambos estes factos, o epitheto de rico.» Aqui as versões reve­ naturalista michaelense Francisco de Arruda Furtado emprehen-
lam os themas provenientes de fócos diversos, e as variantes as deu o exame anthropologico do grupo ou população açoriana, pu­
adaptações ás épocas que se vão seguindo. Por essa riqueza blicando um interessantíssimo opúsculo Materiaes para o estudo
apontada pelo Dr. João Teixeira Soares, vê-se que a poesia po­ anthropologico dos Povos açorianos, dado á luz em Ponta Del­
pular açoriana, desde o século xv a xix, foi elaborada constan­ gada em 1884. Contém esse opúsculo de 80 paginas as Observa­
temente, transformando-se por uma evolução lenta em outras ções sobre o Povo michaelense. Arruda Furtado considerou no
épocas em que nunca as transformações sociaes foram rapidas seu exame também a parte tradicional, e embora obedeça a uma
ou intensas. A poesia popular dos Açores conservou-se sem tendencia separatista considerando o michaelense mais grosseiro
se ter esterilisado; é por isso que ahi apparecem problemas eth- do que os outros açorianos, diz: «O cantar ao desafio constitue
nicos e históricos de alto interesse, a começar pelo titulo com uma distinção favorita, dois camponezes de sexo dilferente, se é
que são conhecidos esses elementos tradicionaes, a que chamam nas dansas, levam a improvisar quadras numa sorte de contenda.
Ararias ou Oravias, e Aravengas. Esta designação não se rela­ E' a unica cousa em que se revela alguma imaginação construc-
ciona com o nome dos Árabes, mas com o do instrumento mu­ tiva; o improviso é rápido, ás vezes soberbo, e terrivelmente sa­
sical Rabeb (Ajabeba) ou Arrabil, a que eram cantados esses tírico quasi sempre. O cantar ao desafio chega a enlevar, no ter­
Romances tradicionaes na Península hispanica. Da mesma forma reiro, com uma viola bem tocada, entre dois namorados que
a viola açoriana chamada Braguinha, e na Madeira Viola de dansam, e se o improviso é rápido, variado e bom. — A viola é o
Braga, conserva o nome do antigo instrumento Rota de ‘Brachio, unico instrumento do povo michaelense; sómente nas festas do
produzindo-se pela homophonia a illusão de se attribuir á cidade Espirito Santo se compõe de uma sórte de orchestra com rabeca,
de Braga a originalidade d’esse instrumento, o que se não com­ ferrinhos e pandeiro. — O nosso povo, a par do excellente ouvido
prova. Nos Cantos açorianos conservam-se vestígios históricos, para a musica, tem na poesia individual um vigor descriptivo ad­
como o da morte do Principe D. Affonso, filho e unico herdeiro mirável. Elle versifica immediatamente e com grande facilidade
de D. João II, em cantares elegíacos que totalmente ignorados todos os acontecimentos intimos, mas em traços imaginosos; a
em Portugal, ainda sobrevivem já fragmentadamente na tradição poesia, n’estes casos, é um descriptivo e nada mais, (pg. 23.)
poética do Brasil. Também a celebre Batalha de Lepanto, de Exemplifica com uma extensa elegia, em quadras, intitulada O caso
1672, em que a Liga Catholica destruiu a potência dos Turcos, de Jacintho Pedro, em que se narra a situação de um pae que
acha-se memorada em um bello romance açoriano. sabe que a filha fica deshonrada.
O celebre romance de D. Duardos escripto por Gil Vicente Na ilha de Sam Miguel appareceu o thema do romance Ju­
para ser cantado em uma tragicomedia do mesmo titulo, vulgari- liana e Jorge, colligido por Teixeira Bastos, da província do Ceará;
sado em folhas volantes no primeiro quartel do século xvi, appa- as canções dramaticas, chamadas Mouriscadas são frequentes entre
receu na ilha de Sam Jorge na corrente das versões oraes popu­ o povo michaelense, bem como as paradas, como a de Sam Pe­
lares. dro, da Ribeira Grande. Existe publicado um auto popular inti­
Sob a influencia d’estes estudos, que encetámos, o mallogrado tulado O Conde de Lufbella, que é um typo do genero da mou-

DRaC-CCA
riscada. Um dos fócos mais vivos da tradição poética é a Ilha de e da egreja se fizesse sentir mais nesse centro official do que nas
Santa Maria, em que a população é naturalmente improvisadora, outras ilhas. Pela importância do problema vê-se que não cabe
sendo usual o costume de replicar ou responder em verso, e com em breves paginas de um album litterario o exame da Poesia po­
rimas de intenção satirica. pular dos Açores; mas pelos pontos apenas indicados basta para
Da ilha Terceira diz-nos o nosso patrício Faustino da Fon­ se reconhecer que se tórna uma obrigação moral para toda a
seca ser assente entre a classe media a superstição de que é máo mocidade estudiosa dos Açores desvendar á sciencia os thezou-
agouro cantar ou recitar os Romances populares, como por exem­ ros da Tradição que se guarda latente na alma d’esse grupo que
plo a Náo Catherineta ou a Sylvaninha, intimidando as crianças é uma das fibras mais puras da alma portugueza.
que por tal facto pode acontecer alguma desgraça em casa. Na ilha
Terceira foi sempre a sede do governo militar e ecclesiastico do Theophilo Braga.
Archipelago açoriano; não admira pois que a influencia da côrte

DRaC-CCA
VIAGEM REGIA AOS AÇORES
A ESQUADRILHA

HIATE «D. AMÉLIA» CRUZADOR «D. CARLOS»

CRUZADOR «D. AMÉLIA» CRUZADOR aS. GABRIEL»

DRaC-CCA
Typographia e Photogravura
DO
ANNUARIO COMMERCIAL DE PORTUGAL
Rua da Bombarda, 42 a 5o
LISBOA

DRaC-CCA
Oitores - Ólweíra <t Saptísta

DRaC-CCA
PLANO E DIRECÇÃO
DE ANTONIO BAPTISTA
LISBOA, i9o3
Illustraçóes de ALONSO

DRaC-CCA
ALBUM AÇORIANO
erra desde ha tão pouco do mundo conhe­ Os que as haviam alguma vez conhecido relembravam sonhos
cida, outra não ha mais cheia de lendas, encantadores; os outros perguntavam, attonitos, se algum canto
de poesia, mais formosa de formosas tra­ da terra teve Deus, por longo tempo, occulto aos homens, para
dições, do que os Açores. E’ obra de um dia lhes dar idéa do que foram delicias do paraizo.
verdadeiro patriotismo descrever uma por Desde o vertice do Pico fumegando levemente, como incen­
uma as nove pérolas; contar seus encan­ sando o céo, até aos laranjaes de S. Miguel perfumando a terra,
tos, o que devem ao céo, o que lhes deve que serie de paisagens a darem encantamento aos olhos, que es­
o mundo e á sua gente; cantar a graça trondosos applausos a commoverem os corações!
das suas mulheres, dizer o que pesa na historia de Portugal o va­ De quando em quando, lembranças de antigas tragedias vi­
lor dos seus filhos. nham por minutos ensombrar o pensamento; mas essas mesmas,
Ainda não ha muito, em todo o reino, foi o archipelago, obra quasi todas, diziam glorias, sacrifícios, patriotismo d’aquella gente.
prima do Criador, descripto com enthusiasmo em todas suas bel- Ali, na Ilha Terceira, procurou refugio D. Antonio, Prior do
lezas naturaes, commentada com elogio unanime a hospitalidade Crato, o mais constante na resistência ao formidável poder do
fidalga de seus habitantes. filho de Carlos V; ali se trocaram os últimos tiros pela indepen­
Andava El-rei com S. Magestade a Rainha percorrendo as dência de Portugal; ali, n’aquelle castello, fluctuou por mais
differentes ilhas, de festa maravilhosa em maravilhosa festa. tempo a bandeira branca, santificada pelas quinas, que sob os
E telegrammas e cartas e longas conversações depois descre­ reis d’Aviz passeara gloriosa por mais de meio mundo.
veram-nos o que foi esse passeio triumphal dos monarchas por- N’aquella mesma ilha se reunira com poucos mil valentes o
tuguezes, desde o Fayal, onde á Rainha offereceram o primeiro pae de D. Maria II, e, n’aquella costa hospitaleira com elles em­
ramo de flores desabroxadas na terra bemdita, até o ultimo adeus barcando, trouxera-os até ao Mindêlo para collocar na cabeça de
á divisão naval na Ilha de S. Miguei. sua filha a coroa de Portugal.
Parecia-nos estar folheando as paginas d’algum conto fantástico A historia da independencia, a historia da conquista da liber­
do Oriente, onde ha génios e fadas e talismans a que elles e ellas dade estão immarcescivelmente ligadas á historia dos Açores.
obedecem, onde uma pequenina fraze, um simples desejo rasga o Historias de guerra são coisa triste; mas sobre os vestidos de
véo dos palacios da luz. Mar e céo tudo era azul, e sobre as lucto também cai a luz do sol, e, muita vez, ao vencido cabe a me­
ondas, em que o sol semeava palhetas d’oiro, eram as nove ilhas lhor gloria no campo de batalha. O Prior do Crato morreu de mi­
como ramos enormes perfumados. séria n’uma aureola de luz viva. E esta e a que, passados séculos

DRaC-CCA
coroou os esforços de D. Pedro, oftuscam-nos o que basta para Fecundos são os Açores em grandes homens e justiça tem que
não vermos, no alto d’aquelle mesmo castello, o vulto melancólico prestar o Album Açoriano a muitos vivos, hoje em altas posições
de D. Affonso VI olhando tristemente para as ondas do mar livre. ou gosando da melhor fama como artistas ou homens de sciencia,
Deviam os reis de Portugal profunda gratidão áquellas terras, a muitos mortos de fama immortal, que filhos dos Açores, são das
a cujo valor de seus habitantes devem a estabilidade de seu throno, glorias maiores de Portugal.
os fulgidos brilhantes de seu diadema. Quer a Ilha de S. Miguel provar seu respeito á memoria de
Quizeram conhecel-os de perto, pagar-lhes com sua presença a di­ Anthero do Quental erguendo-lhe uma estatua. Deveria a subs-
vida desde ha muitos séculos contrahida, e nunca mais de seus pen­ cripção abrir-se no mundo inteiro, que ao mundo inteiro pertence
samentos d'elles se desvanecerá a memória dos quadros scintilantes um vulto como Anthero.
que os olhos lhes deslumbraram, nem de seus corações a lembrança N’este ficaremos, que de todos os outros o Album ha de falar
das lagrimas de enthusiasmo que viram deslisar em muitos rostos. a seu tempo. Nenhum deve esquecer, porque assim o manda a jus­
Foram pagar uma divida de gratidão e muito mais ficaram tiça, assim o manda a gratidão que todo o reino deve a esse povo
devendo. tão notável por seu patriotismo.
O muito que então se falou dos Açores e açorianos robus­ Emigram facilmente os açorianos, para Portugal-continente,
teceu no fundador d’este album a idéa que, havia muito, acari­ para o Brazil, para a America do Norte, para as Ilhas Sandwich;
nhava, de archivar amorosamente quanto diga respeito ao formoso mas não ha um que não leve no coração a saudade da sua terra,
archipelago, patria de muito illustres portuguezes, um dos quaes, a esperança de voltar a ella um dia, de ver outra vez o sol a que
durante a viagem real, occupou junto de El-Rei o mais alto logar. brincou criança, de respirar o perfume das flores, que na pri­
No Q/llbum zAçoriano, em que deverão collaborar todos os mavera trepam pelos montes ásperos, de ouvir duma bocca fresca
açorianos eminentes, em cada pagina será pago o tributo devido á de rapariga a canção que sua mãe lhe cantou no berço. Tudo
formosura d’uma cidade ou d’uma aldeia, ao talento dum homem, vai em seu coração a animal-o no trabalho, a prometter-lhe para
ao valor d’um soldado, á graça irresistível duma mulher, á poe­ a velhice o mesmo deslisar dos quadros da mocidade em sau­
sia, bondade, virtudes de todo um povo. dosa reminiscência revistos na grande paz que dá o dever cumprido.
Os primeiros portuguezes, que no território fértil se estabele­ Para esses também é composto o oAlbum oAçoriano. Possam
ceram a cultivar a terra, parece que um pedaço do sol brilhante os que vivem longe da patria lêl-o, aqui, além, com uma lagrima de
lhes penetrou até ao fundo das almas de mistura com os aromas ternura, com um sorriso de esperança, quando lhes elle descreva
d’aquellas serras por onde corre cantando canções festivas a agua uma paizagem querida, rememore uma canção, fale d’um velho amigo
dos lagos superiores. Não se fala das ilhas, que se não teça o ou lhes conte um conto da sua terra. Seja para elles um balsamo em
panegyrico de seus habitantes, desde o mais pobresinho, tão pit- sua nostalgia e lhes repita, em cada numero, que é de todos os por­
toresco em seus folgares cheios de poesia, até o mais altamente tuguezes amada a terra portugueza aos que, longe d’ella e por ella,
collocado, abrindo de par em par as portas de seu palacio e, como vão chorando lagrimas de saudade.
príncipe, recebendo os reis. JoÁo da Camara.

DRaC-CCA
DRaC-CCA
Duas qualidades, sobre muitas, concorrem no Sr. Ha rainhas portuguesas que ficaram gloriosas na
D. Carlos que o tornam digno do amor e respeito que tradição popular e cuja amorosa lenda vieram os sé­
lhe dedicam os portuguezes: um grande amor á sua culos posteriores enfeitando com sobrepostas aureolas.
patria, uma viva intelligencia. Vemol-as docemente luminosas, seja entre os res­
Tendo subido ao throno em vesperas d’uma crise plendores da epopêa, seja na escuridão da tragédia.
terrível, soube atravessar um dos mais funestos perío­ Atravez dos séculos, novas estrellas se engastaram
dos da nossa historia, conquistando sympathias, robus­ no azul do pátrio céo, formando a scintillante constel-
tecendo o throno, fazendo-se amar na terra que o accla- lação em que mais um astro de primeira grandesa
mára e respeitar no estrangeiro. agora fulge attrahindo os olhares.
Os tempos mudaram, a paz voltou, desfez-se o Augmentam-lhe o esplendor as lagrimas de gratidão
negrume, as victorias em África foram como luz duma dos muitos a quem ella foi guia no mar das amargu­
nova aurora. E El-Rei, que provára suas virtudes go- ras, lagrimas que sobem para ella como para o sol o
vernativas nos dias de turbação, soube na tranquilidade orvalho matutino.
precaver o reino contra novo temporal. Tão completa Bemdizem-a as crianças com seu chilrear, porque
confiança hoje inspira que do vantajoso resultado da lhes salvou as vidas; as mães, de joelhos postas, por­
sua ultima viagem a Erança, a Inglaterra e Hespanha, que a vida de suas vidas lhes salvou.
já não ha portuguez que duvide. E assim caminha entre bênçãos, na terra que escolheu
para sua. Salus infirmorum consolatrix afflictorum!
Amando a sciencia, viu elogiados os seus trabalhos No hymno que lhe cantam, seu nome dulcíssimo é
oceanographicos, a que se dedicou com a maior paixão; pronunciado com devoção pelas boquinhas outr’ora
artista de mérito, ninguém ousa regatear-lhe applau- pallidas, a que seus dedos caridosos deram a côr e o
sos, quando com suas bellas paizagens concorre ás brilho das cerejas. Quando ella passa, olhos em que
exposições que se teem realisado nas salas da nossa reaccendeu a luz da saude, seguem-a a refulgir amor.
Academia de Bellas Artes. Até onde se espalha seu perfume, os prantos enxu­
E’ um bello cerebro; e mais, é um grande coração. gam-se nos olhos, os sorrisos desabrocham nos lábios.

DRaC-CCA
DRaC-CCA
HffitGFGS - 0

DRaC-CCA
Album Açoriano, nasce do esforço moralmente pa- o espirito açoriano, o seu sentimento, as suas aspirações no­
O triotico e materialmente extraordinário, deliberado
na mente d’um açoriano de boa vontade, que decidiu
bres e generosas, hão de perfumar docemente todo o álbum,
de sorte que nem um só coração nascido nos Açores, que
realisar a publicação duma obra excepcional, illustre, que lá viva, ou que em regiões distantes chore os saudosos en­
fique memorável, e que seja um padrão lucilante attestando cantos da sua patriá, deixe de sentir-se inebriado ao folhear-
á geração presente e ás gerações por vir, o que de nobre lhe as paginas, e deixe, num impulso fremente, de cobril-o
e de formoso nasce vive e cresce, explende e brilha sob o de beijos — e talvez de lagrimas! — ao lêr palavras que são
ceu e sob o sol da encantada terra Açoriana. gritos d’amor e ao vêr pedaços da sua terra bem amada,
Ao titulo de oAlbum oAçoriano subordina-se rigorosa­ onde nasceu, onde primeiro o coração lhe palpitou feliz e
mente todo o livro, pelo assumpto e pelo caracter exclu­ loucamente, ou o peito lhe estalou n’uma primeira dôr!
sivamente patrício de todas as suas paginas: — descripções E’ um livro assim, honesto, verdadeiro, enternecido, que
e phqtogravuras de cidades, villas, panoramas, paysagens, vamos publicar, em seguida ao concurso que desejamos e
edifícios notáveis, retratos de senhoras e cavalheiros dis- que esperamos de todos os que se sentirem interessados
tinctos, artigos biographicos, collaboração litteraria de todos n’elle. Para conseguir este resultado, temos a certeza que
os escriptores açorianos e de muitos dos mais eminentes ninguém deixará de auxiliar-nos com o seu concurso e com
de Portugal; historia, litteratura, industria, commercio, os seus bons desejos, para obra tão eminentemente patrió­
costumes, etc., etc., — um radiante e explendoroso cinema- tica, de tão sagrados e tão honrados intuitos.
tographo das nove ilhas de que se compõe o Archipelago
dos Açores.
Por muito mundo que corra o Album Açoriano, e por :t
muitos tempos que dure, só desejamos que elle affirme em
Edição de luxo, formato elegante, este monumento da toda a parte, e sempre com honra, quanto é curiosa, rica,
historia Açoriana constará de 3oo a 400 paginas em optimo deslumbrante e formosíssima, a encantada terra dos Açores.
papel, encadernação rica, e será litterariamente collabora- E assim, o Album Açoriano ficará sendo para os Aço­
do, como já dissemos, pelos nomes mais illustres dos Aço­ res,— o seu livro heráldico, o seu nobiliário, a chronica
res e do continente, e ornado com centenares de photo- viva das suas virtudes, dos seus feitos, da sua aspiração,
gravuras e desenhos dos nossos principaes artistas. da sua poesia, do seu genio, da sua alma, e do seu cora­
Lendas, contos typicos, poesia popular, historietas, todo ção, emfim — o seu Livro d’Oiro. ..

DRaC-CCA
Collaboração de S. M. EI-REI D. CARLOS I
de S. A. O PRÍNCIPE DE MONACO
e de todos os escríptores e artistas açorianos
Director: Antonio Baptista-GERENTE: A. Luiz Rosa d’Oliveira
SÉDE DA EMPREZA — Calçada de S. Francisco, 6, rez-do-chão E — LISBOA

Aos Ex.mos Asstgnanles do ALBVM acoriawo

‘Pelo retardamento da publicação do AÇQBXA» bôas promessas de esteio; mas um pequenino transtorno impediu-
ETQ». devemos uma satisfação aos seus illustres subscriptores, nos de o fa\er, dando-nos, ao mesmo tempo, a comprehensão per­
que tão lisongeiramente acolheram a nossa ideia e tão amavel­ feita de que os alicerces estabelecidos eram frágeis de mais para
mente nos prestaram o seu valioso concurso. obra tão importante.
Uma edição da natureza d’esta — rica, luxuosa, extraordiná­ Esperámos. Não faltou então quem, ao saber d’esse ligeiro
ria leva muito tempo a preparar e deve assentar em bases bas­ abalo, nos propo^esse a compra do nosso aturado trabalho.
tante solidas para não sofrer interrupções, desanimadoras sem­ Regeitamos. Não porque os lucros não fossem compensadores;
pre, nem descambar, a certa altura, desastrosamente. mas porque tememos que o nosso plano sofresse qualquer altera­
O plano do AÇORIAITO, concebido vae para ção. Soubemos esperar. Hoje, felúpnente, com toda a segurança,
cinco annos, afagado com amor, melhorado, pouco a pouco, com sob os melhores auspicios, encetamos a publicação do AXtBXTXjC
a experiencia adquirida em trabalhos congeneres, de simples ensaio, com requintado esmero — conscios do seu valor e
convinha que não fosse prejudicado pela ancia de o realisar. Não confiados no apoio de todos os açorianos de préstimo ebóa vontade.
foi; não será. Imaginámos ha me^es poder lançar os primeiros
fascículos, para os quaes já tínhamos os elementos precisos, com A EMPREZA

DRaC-CCA
fpiGUGE

DRaC-CCA
DISTRICTO DE PONTA DELGADA
Ilhas de S. Miguel e Santa Maria

Superfície: 87:410 hectares. População: i3o:5oo.


Concelhos: Ribeira Grande, Villa Franca do Campo,
Povoação, Nordeste, Villa do Porto (Santa Maria)
e Ponta Delgada (sede do Departamento Marítimo
d’Oeste e do Tribunal da Relação; 18:000 h.; ma­
gnifica estancia, com Telegrapho, Doca e Estaleiros)
Exportação: cereaes, fructas e gado. Industrias prin-
cipaes: álcool, cerveja e tabaco.

i8

DRaC-CCA
DESCOBRIMENTO DO GRUPO ORIENTAL DOS AÇORES

descobrimento das ilhas do Oceano Ceuta e o progredimento da exploração da costa Occidental de


Atlântico não é assumpto tão com­ África absorviam copia de gente e de capitaes, portanto convinha
pletamente esclarecido, que se possa facilitar a concorrência dos estrangeiros, que em algumas das
affirmar com afoiteza como, quando expedições já vinham compartilhar a nossa ousadia.
por quem foi feito. A expedição ás Canarias, preparada em Lisboa em 1841 1 á
Os italianos attribuem o facto aos seus custa e sob os auspícios de D. Affonso IV, não poderia ter tido
marítimos, apoiados em vários mappas, feliz exito, se o rei e os marítimos nacionaes ou nacionalisados, já
cartas ou protulanos, onde se encontram um tanto conhecedores do Atlântico, não houvessem guiado os aven­
algumas d essas ilhas mais ou menos bem tureiros ligures, que vieram tentar essa empresa. Mas a prova de
arrumadas, com os nomes muito simi- que lhes sabiam melhor as excursões do mediterrâneo do que as
Ihantes aquelles por que sempre por nós foram designadas. Acèrca, do atlantico, está em não constar que voltassem a repetil-as.
porém, do valor d'essas cartas como documentos de data irrefu­ Dois factos provam a inanidade das affirmações italianas. O pri­
tável, já o meu patrício José de Torres disse o bastante, que eu meiro, que foi brilhantemente assignalado peloDr. Alvares Rodri-
não repetirei, nem resumirei, porque o não saberia dizer melhor,
nem caberia n este logar.
L Itimamente levantaram-se umas extemporâneas e serôdias
pretensões flamengas, que não apresentam melhor fundamento.
Certo é que depois dos portugueses começarem a povoar os
archipelagos da Madeira c Açores, vários italianos e flamengos
vieram estabelecer-se frelles, como também o fizeram alguns hes-
panhoes, franceses e ingleses; mas isso proveio de causas diversas
mas congruentes : primeira, a necessidade de attráhir elementos para
o rápido povoamento e aproveitamento de tantas insulas recera-
achadas; segunda, os muitos commerciantes e capitalistas flamen­
gos e italianos existentes em Portugal, que incitavam os seus
compatriotas a procurar lucrativo emprego n este paiz, em progres­
sivo impulso de aventuras e desenvolvimento.

>9

DRaC-CCA
vio estrangeiro desgarrado, ou em viagem de exploração, o facto
incontroverso é que, quando os portugueses desembarcaram n ellas,
não havia ali folego humano, e a própria fauna era restrictissima.
Ha cerca de vinte e dois annos escrevia eu os seguintes perío­
dos, que tém agora aqui seu cabimento:
«Ha uns penedos no meio do Oceano, como que semeados ao
acaso, que as ondas buliçosas do mar, ora afagam e abraçam mei­
gas e serenas, ora açoitam e combatem furiosas e desapiedadas,
parecendo querel-as pulverisar.
«Esses penedos distanciados entre si irregularmente por algu­
mas léguas, e de perímetros mais ou menos extensos, erguem as
cabeças com soberana altivez acima do dorso das aguas, agigantan­
do-se em partes a topetar com as nuvens ou a rasgar-lhes o seio.
«Se esses penedos são os píncaros mais elevados de um antigo
continente, submergido pela acção natural e lenta do tempo, ou
por effeito de um cataclismo repentino, — de que ha vagas alusões
nas tradicções da antiguidade,— se irromperam do seio das vagas,
Costa Occidental da ilha de S. Miguel (ClisM do fallesído ocnsallieiK Jos-á Julio Rodrigues)
por alguma d’essas erupções vulcânicas, que tão frequentes tém
sido na longa e constante gestação geognostica do nosso globo, não
gues d’Azevedo 2, é encontrar-se em tacs mappas, no archipelago se pode ainda—nem se poderá talvez nunca,—constatar.
madeirense a denominação de ilha deserta, dada a uma, que só «Vestígios largos de uma ancianissima acção vulcanica patentéa
podia ser assim chamada, depois das outras haverem sido habita­ a sua superfície enrugada, documentos de igual elaboração perma­
das, e como estas só o foram por 1420, segue-se que aquella ins- nente e constante surgem cada dia das suas entranhas; e comtudo
cripçao nas cartas é posterior a esta data; o segundo é a denomi­ esses fenomenos, similhantes aos de outras partes da terra, esses
nação das ilhas dos Açores — S. Miguel e Santa Maria — nomes penedos, em numero considerável, parece não terem sido vistos
que lhes foram dados, o primeiro pelo infante D. Pedro, que tomou de olhos humanos durante milhares de milhares de séculos.
a povoação d’aquella ilha a seu cargo, sendo esse archanjo o santo «Um dia uma pequena nação do occidente da Europa, havendo
de sua particular devoção, e o segundo pelo infante D. Henrique, chegado á sua idade viril, e precisando cumprir o destino provi­
que assim denominava todas as primeiras egrejas fundadas por dencial que a sua posição occidua e marítima lhe traçava, não
elle nas colonias. obstante os terrores com que uma idade de obscurantismo mas de
Dado porém, mas não confessado, que alguma ou algumas pujantissima imaginação, povoava os mares desconhecidos, come­
d’essas ilhas, tivessem sido avistadas ou tocadas por qualquer na­ çou a romper o seio das ondas com as suas frágeis caravellas.

20

DRaC-CCA
«Vendo desapparecer deante das suas proas as trevas de um pestades continuas cheias de horrores faziam arrepiar aquelles que
mar fantástico, observando em todas as latitudes o sol a espelhar- pensavam penetral-o. A própria vida era impossível alem de certa
se, as estrellas a retratarem-se nas vagas, animados pelo incita­ méta. Os portugueses de então, com a fé ardente que os alentava,
mento e impulso de um príncipe ousado e pensador, devassando e o desejo vehemente de praticar grandes feitos, não davam cre­
o oceano em todos os rumos, encontraram os seus navegantes dito a essas e outras patranhas, e iam discorrendo pelas suas aguas.
esses penedos, cujo seio ubérrimo lhes sorriu com uma vegetação Assim Gonçalo Velho procedendo, por ordem do infante, a
pujante. uma viagem de e,xploração para o sul em 1416, chegou á Terra
«O infante D. Henrique, reconhecendo nesses penedos um ponto Alta, na costa d’Africa, dando a volta no regresso pelas Canarias •».
de apoio para tentativas de descobrimentos futuros, cuidou por Nós suppomos esta data errada, e que deve corrigir-se para
todos os modos de crear ali alguns centros de povoação. Desde 1426, crendo que no original de Diogo Gomes, — que provavel­
então foram aproveitados para a civilisação mais alguns pedaços mente seria escripto em português, - estariam as datas, segundo
de terra, e Portugal juntou á sua corôa mais duas pérolas ma­ o uso do tempo, em conta romana, e que se omittiu um x na copia
gnificas: os archipelagos da Madeira e dos Açores.»3 e traducção. Muitas razões a isso persuadem. Primeira, que desde
Vamos, em confirmação d’estes princípios de longa data assen­
tes, e apoiados nos muitos documentos colligidos, pelo já citado
José de Torres, pelo outro prestantíssimo e eminente patrício o
meu chorado amigo Dr. Ernesto do Canto e por mim, e incorpo­
rados no vasto repositorio, formado pelo segundo, sob a designa­
ção de Archivo dos Açores, e no que mais digno de credito dizem
os historiadores, fazer o resumo do feliz descobrimento dos tor­
rões açorianos.
Em 1413 conquistava D. João I a praça africana de Ceuta, indo
ali responder ao repto que os musulmanos, sete séculos antes, ti­
nham vindo atirar ás faces da Europa christã. Desde então ao
infante D. Henrique ficou incumbida a manutenção e direcção
d’essa conquista. Era o infante Regedor e Administrador da Ordem
de Christo, dispondo portanto dos rendimentos e cavaileiros d’ella.
Entre elles havia um cujo genio ousado, força physica, animo
esforçado, caracter aventuroso, e valor indomável, não recuava
deante dos maiores riscos. Era Gonçalo Velho.
Para o resto do mundo o Oceano era ainda então um mar tene­
broso, onde a escuridão, os monstros de toda a especie, as tem­ Costa do Sul da ilha de S. Miguel (Cliché dc faUecido ocncelheiK J. Jullo Ecdriguec)

21

DRaC-CCA
a tomada de Ceuta até ao cerco e descerco d’esta praça em 1418,
o infante tinha assas de cuidado para satisfazer ás necessidades da
nova conquista, sua consolidação e defeza, devendo esperar-se a
cada momento a reacção mahometana, para revindicar a posse da
importante praça, o que se não fez esperar. Segunda, que o in­
fante não tinha podido até áquella data, — visto o pouco que se
demorou em África após a conquista — tomar ligeiro conhecimento
sequer das coisas relativas ao littoral do império marroquino e muito
menos do que existia ao sul d’elle. Terceira, porque não é facil
comprehender que havendo Gonçalo Velho chegado a um ponto
bastantes léguas ao sul do Cabo de Bojador, se estivesse tanto tempo
sem se proseguir iiaquella carreira, e só dezeseis annos depois se
tornasse a tentar o descobrimento da costa africana, celebrando-se
como grande façanha o dobramento de um cabo, tantas léguas ao
norte de um ponto já tocado dezeseis annos antes, ainda descon­
tando o encarecimento e phantasia dos chronistas a este respeito.
O desapparecimento dos livros da fazenda do infante D. Hen­
rique, que ainda existiam no tempo de D. Manoel e que tanta luz
podiam derramar sobre as expedições que aquelle ordenou e cus­ Um algar — S. Miguel (CMS 4c ía!l=:ido Conselheiro J. Júlio Rodrigues)
teou, é a causa principal das incertezas em que libramos, relati­
vas áquelle periodo interessantíssimo dos nossos grandes empre- perimentado, que outros ilhéus maiores poderiam demorar próxi­
hendimentos, tão importantes á civilisação universal. mos, singrou com a caravella em varias direcçoes, até que abordou
Sigamos, porém, o que mais provável parece relativamente ao a uma terra que reconheceu ser ilha. Desembarcado com alguns
descobrimento dos Açores. dos seus homens, e fazendo varias excursões n'essa terra estra­
Em iqSi a 3í partiu Gonçalo Velho a explorar o Oceano em nha, nada encontrou senão uma vegetação virgem, nenhuns ani-
direcção ao occidente. Esta viagem não nos parece dever-se con­ maes comestíveis, apenas algumas aves, que erradamente julgou
siderar como tentativa occasional, mas antes como proseguimento serem açores.
de outra ou outras anteriores, com o fim de reconhecer o que Mas n aquella solidão do Oceano, onde a abundancia de pes­
occultavam as vastas campinas do mar. cado os devia restaurar dos dias angustiosos já passados, os seus
Effectivamente, ao cabo de bastantes dias de viagem, chegou olhares, vagando por todo o largo e vasto horisonte, encontravam
a um sitio onde as ondas pareciam ferver, encontrando uns ilhéus sempre fixa no rumo de sueste uma grande nuvem, que nem o
a que chamou Formigas. Suspeitando, porém, como marítimo ex- vento nem o sol dissipavam. Determinado a verificar o que po­

22

DRaC-CCA
deria ser aquella visão permanente, vogou n’essa direcçao e não agora em calmaria pôdre horas e dias no mesmo ponto, agora
tardou a perceber que havia encontrado outra ilha muito maior que aproveitando uma bafagem favoravel, logo aguentando-se arvore
a primeira. Effectivamente assim era. Tomadas as alturas respecti- secca, contra outra opposta?E o biscoito, o pescado secco exhausto
vas, assignalados esses pontos no meio do Oceano, alegre e satis­ ou quasi, a agua avariada, o vinho de Caparica ou Santarém a
feito volta ao continente a dar noticia ampla do seu precioso achado. azedar, e o tempero a tornar-se rancido! Tudo vago, tudo incerto,
Que extraordinários homens eram os d’aquelle tempo! que tudo ignoto, tudo inesperado, tudo improvável, mas tudo possível!
feitos singulares praticavam! Com a maior singeleza d’alma se E essas fortes organisações resistiam sempre!
arrojavam num frágil lenho sobre mares desconhecidos, e, vol­ A viagem de Colombo, sessenta annos depois,— quando os por­
tando á patria, dada conta dos seus trabalhos, nem mais se occu- tugueses já tinham devassado o Atlântico em todas as direcções,
pavam delles; quando muito, nas longas noites de inverno, ao cre­ dobrado até o famoso Cabo das Tormentas e aperfeiçoado e alar­
pitante clarão da fogueira do seu lar, contariam aos seus descen­ gado os conhecimentos náuticos, — comparada com a de Gonçalo
dentes ou visinhos algumas peripécias e episodios d essas por­ Velho, é quasi como um brinco de creança em confronto com a ilha
tentosas odisséas, cem vezes mais uteis, mas mais terríveis e do Pico!
cortadas de perigos, do que a do famoso grego! E emquanto o famoso genovês por todos os modos possíveis
Nem um códice, nem uma linha nos legaram que relatasse não cessou de propagar a memória dos seus trabalhos, o arrojado
alguma coisa dos seus tremendos trabalhos! português não transmittiu á posteridade o mais insignificante
E com tudo a viagem de Gonçalo Velho é um assombro de pormenor das suas fecundas e arrojadas navegações!
destemidez e força de vontade nos princípios do século xv! Eil-o de novo, no anno seguinte, a percorrer o oceano, não
Hoje que — embalados nos coxins de uma locomotiva, ou nos só para verificar e ratificar o seu anterior descobrimento, mas
fôfos almofadÕes de um beliche, com os acepipes da mais refinada para explorar mais por menor aquellas paragens e verificar se
culinaria a fumegarem em luzentes porcelanas ou trinchos argenta­ conteriam algumas outras ilhas.
dos, com os vinhos mais exquisitos a brilharem em finos cristaes Na primeira e incomparável viagem descobrira a ilha de Santa
sobre as extensas mesas dos agigantados vapores, — transpomos Maria e necessariamente a de S. Miguel, pela proximidade d’aquella,
n’um dia centenares de milhas, mal podemos avaliar que arrojo, as quaes formam o grupo oriental dos Açores. Veremos como
que tenacidade era mister possuir, para, sem se aspirar á gloria provavelmente proseguiram os descobrimentos dos outros grupos.
ou ao prémio, aventurar a vida sobre mares, não lustrados ainda,
á procura do desconhecido em insignificantes barcos, cuja lotação Brito Rebello
(michaelense)
era inferior á de qualquer galera ou barca de hoje!
Que viagem a de Gonçalo Velho! Quanto tempo duraria ? Por
’ Sebastiano Ciampi — Monumenti d'un manoscritto. ■ ■ Firenzi 1827 — J. J. da Costa de Mace­
quantos dias, baldão das ondas, dos ventos e das correntes, ainda do, Nem. da Academia Real das Sciencias de Lisboa, tom. vi. Part. 1 e totn. xi, Part. 11.—Alv. Rod
por muitos tempos desconhecidas, erraria sobre esse mar chamado d-Azevedo, baudades da Terra, Funchal 1873, pag. 34/ —3 O Occidente, revista illustrada, vol. tv.
p ag. icó.— 1 Itiogo Gomes, De invenhone insularum de Açores — apud Scbmeller Uber Valenti Fer"
tenebroso, ora sentindo espedaçar uma vela, ora estalar um mastro; nandes, tçp. — Ayres de Sá —Fr. Gonçalo Velho, vol. 1.

z3

DRaC-CCA
Bahia e Porto Artificial de Ponta Delgada

24

DRaC-CCA
no anno de 1474 comprou a capitania da Ilha
de S. Miguel.
O primeiro Conde da Ribeira Grande foi
D. Manoel Balthazar Luiz da Gamara, a quem
D. Affonso VI mudou o titulo de Conde de
Villa Franca, que fora de seu pae e avô, no de
Ribeira Grande, com a mesma clausula de juro
e herdade. Este foi o oitavo Capitão General
donatario da Ilha de S. Miguel.
O actual Conde casou em 1872 com D. Maria
Helena de Castro e Lemos, da antiga casa do
Côvo, senhora de notável formosura e exem­
plares virtudes. Seu filho primogénito, decimo
conde da Ribeira, D. Vicente de Paula Gonçal­
ves Zarco da Camara, casou com a filha do mar-
quez de Castello Melhor.
*
O Conde da Ribeira, meu velho amigo, cuja
phisionomia vou dar em dois leves traços, deve
de ter orgulho, justo orgulho, da sua procedên­
cia. Seu pae, marquez da Ribeira, era Zarco da
Camara; sua mãe, Lafões.
Soberbo sangue lhe corre nas veias. Pelo pae,
o do marinheiro que descobriu a Flor do Ocea­
CONDE DA RIBEIRA GRANDE no, a nossa ilha da Madeira; pela mãe, o do sol­
dado de Atoleiros e de Aljobarrota, de Nuno
ste grande fidalgo é um grande homem de bem. Nono con- Alvares, do santo Contestável, emfim!
■ de da Ribeira, decimo terceiro alcaide-mór do castello de Parente de reis e de príncipes, conde da Ribeira, timbra os
S. Braz da cidade de Ponta Delgada, na ilha de S. Miguel, escudos da sua grandeza com a modéstia do seu caracter. A sua
Gran Cruz da Conceição, Par do Reino e Viador de Sua Mages- alma cristalina não se toldou jamais com os fumos da soberba.
tade a Rainha, representante de Ruy Gonçalves da Gamara que No primor da sua educação, trata os humildes como trata os seus

DRaC-CCA
pares. Não teve nunca um movimento de inveja para os validos da E’ que D. João da Camara é um
boa fortuna, e tem sempre uma lagrima para os desgraçados! poeta e os poetas adivinham: sabem
Nos olhos límpidos, nas linhas delicadas do rosto, na voz ca- onde se encontra a verdade e vão
riciosa, na summa distincçao do seu ar, sente-se-lhe logo a raça descobril-a através de todas asmas-
e a bondade nativa. Homem principalmente da vida intima, es­ caras. A's vezes soffrem. Melhor:
conde na sombra a intelligencia culta e lúcida. Com todos os seus tinta espalhada sem dor, só tinta
brazões, ainda tem esta priviligiada familia o mais brilhante, de fica.
todos o mais illustre: o brazão do talento. E como é uma rapida impressão
O auctor de Affonso VI, de Alcácer Kibir, dos Velhos, da que me pedem, eis o que sinto ao
Triste Viuvinha; o poeta dramatico eminente, o lyrico encantador, ouvil-o ou ao lel-o, depois de ter
numa palavra, D. João da Camara, ha muito que é um nome passado pela barafunda de tantos
patrício nas lettras portuguezas. litteratos, todos eminentes, c que me
Monte de Caparica, Torre, Março i5-go3
enchem de admiração ede cansaço:
Bulhão Pato. parece que topo uma fonte, aberta
em rocha viva, d‘onde corre um fio d'agua limpido e frigido como
um fio de lagrimas. Apaga-me a sede!
D. JOÃO DA CAMARA Raul Brandão.
D. João da Camara é um dos maiores dramaturgos portugue-
zes: as suas obras ficarão no nosso thcatro porque são profunda­ pianíssimo
mente humanas. E elle não dispõe de grandes effeitos: a sua arte
O rio é negro e nem de espuma um claro o esmalta,
não arrasta pelo tablado mantos de purpura; pelo contrario, quasi Que a noite é negra e um negro encanto encobre a lua;
sempre traz um vestido tão cossado que se lhe vê — a alma im- Apenas uma vela em mastro de falua
De tanto negro-negro, em tenue alvor, resalta.
mortal. Porque os farrapos desfazem-se, leva-os o vento: a alma
não; essa é eterna. De lume fatuo, incerto, onde o contorno falta,
Assim no escuro d’alma uma illusão fluctua;
E dia a dia este grande escriptor avança no caminho da Ver­ O enxame da cobiça em torno tumultua,
dade: os tvpos dos seus dramas, á medida que descem na escala E a fantasia, entanto, aspira a luz mais alta.
social, enchem-se de grandeza. A piedade trasborda-lhe da alma Fazendo volta ao mar, voltar-me a noite bella
e illumina-lhe todas as figuras. Das auras bem pudéra o cântico em surdina,
Que as nuvens extravia e os sonhos máus debella.
Poucas peças modernas resistirão ao tempo: mais alguns an-
nos e serão velharias de museu. Diversa será, porém, a sorte dos E, rota assim da lua a luminosa mina,
Eu vira, em meu transporte, altiva, a branca vela
Velhos, da 'Triste Viuvinha, da Meia Noite e da Rosa Enjeitada, Correr, sorrir, brilhar no ardor da tremulina.
que é um dos mais bellos dramas que eu tenho visto na minha vida. João da Camara

26

DRaC CCA
J
A CIDADE DE PONTA DELGADA
u já tinha desembarcado em S. Miguel, nhei por dois lados: porque fiquei sabendo o que desejava saber,
por quatro ou cinco vezes, mas sempre e me senti feliz da felicidade d'elles.
sem demora, de passagem para Lisboa, Uma primeira condição, essencial, da vida açoriana, bem ex­
ou vindo de Lisboa. pressa nos factos, nas coisas e nas pessoas, facilitava-me a tarefa:
Emquanto o vapor mettia car-
ga, ia-se dar uma volta na cidade,
entrava-se no mercado para com­
prar e comer fructa bem fresca,
visitava- se um amigo, descançava-
se um pouco á sombra d uma arvo­
re, e voltava-se para bordo ao en­
tardecer. Tinha-se feito uma leve
idéa do que a cidade era, olhando
de fugida os typos e os costumes,
Lavandeiras e tanto bastava para se ficar sup-
pondo que muito felizes deviam ser
os habitantes de uma tão serena e alegre nesga do universo.
Ao cair da noite espessa, o vapor levantava ferro, as
luzes das ruas e das casas esmoreciam na tréva, tudo se
apagava na distancia. E adeus Ilha, e adeus cidade!
D esta vez, porém, o vapor seguira viagem, e deixava-
me em terra por quinze dias.
Que os habitantes da Ilha deviam ser felizes, já eu sup-
pozcra; que o eram, já mais de um m’o tinha confirmado.
Faltava-me saber agora em que consistia essa felicidade;
e como o tempo me sobejasse, em vez de julgar por in-
formações, quiz eu mesmo observar e deduzir. Nisso ga- Caes da Alfandega (Cliehé antigo)

DRaC-CCA
É que nos Aço­ cão da fachada das egrejas, nas obras de talha e de ferro forjado,
res as apparen- nos moveis e nos canteiros dos jardins. E como o seu caracter
cias não enga­ não admitte complicações nem embustes, o seu estylo se limita a
nam. O que se muito poucos ornatos.
vê é o que é. Pão, Não ha grandes monumentos, nem edifícios grandiosos. Não
pão; queijo, quei­ ha museus de arte, nem ruinas românticas. Não ha estatuas, nem
jo! dizemos nós, ha quadros de auctores celebres. Tudo quanto não seja natureza
os ilhéos. e obra da natureza é bem pouco, e depressa se vê.
A frontariadas Em São Miguel, por exemplo, vista uma egreja, tem-se visto
casas correspon­ todas. Todas ellas têm a fachada semelhante, as mesmas portas
de, invariavel­ manuelinas, os mesmos altos relevos em tufo basaltico, os mesmos
mente, ao sem­ tectos abaulados e caiados, as mesmas capellas lateraes, a mesma
blante dos indi­ torre graciosa, isolada e direita, com a sua pequenina balaustrada
víduos. E como em volta, as mesmas rotulas e jancllas pintadas de verde, como
os indivíduos são, nas edificações typicas de Dresde, tão frescas e tão galantes.
em geral, duma O que pode levar-nos a correr todas
grande jovialida­ essas egrejas, fóra do tempo santo da
de, as casas são, Quaresma, em que só por devoção se
quasi todas, ou costuma fazer tal correria nas cidades
caiadas de bran­ açorianas, é uma ou outra rara peça
co, ou corde rosa. de arte, que quasi sempre não vale a
Tudo quanto se perda do tempo de a ver, e que melhor
passa na alma de aproveitado seria em subir mais uma
Porta Manuelina — Matriz do Ex.1"" Sr. LuizEilippe d'Ar.drads)
um açoriano se vez a colina da Mãe de Deus, que do­
lhe lê nos olhos, mina inteiramente a cidade, toda dis­
como tudo quanto se passa em sua casa se póde ver pelas janel- posta em amphitheatro: a leste, muito
las. Elle nem conhece dissimulações, nem gosta de cortinas. E ao longe, a ponta da Galera e a serra
tanto arregala os olhos para que a verdade entre por elles, como da Agua de Pau, mil e treze metros
escancara as vidraças para que o sol entre por ellas. acima do nivel do mar; a villa da La­
Ao caracter do ilhéo açoriano corresponde, com muita exacti- goa, a enseada, o areal e o ilhéo de
dão, o estylo da sua própria architectura, muito regular e muito Rasto de Cão, a casaria, os jardins, as Vendedeira de gallinhas
simples, e que na sua primeira maneira se encontra na ornamenta- estufas de ananazes, as chaminés das

28

DRaC-CCA
fabricas de álcool; a oeste, o porto de chipelago, aureolada de milagres, recamada de oiro, cravejada de
abrigo, o castello historico de São Braz, pedras preciosas, coberta de beijos, de lagrimas e de bênçãos.
outras colinas revestidas de batataes, Ha um Museu municipal muito notável, classificado entre os
de milharaes, de pastos; a Avenida da melhores dos nossos; mas o que nesse museu offerece maior
Liberdade, a verdadeira, a constitucio­ curiosidade é a pessoa do seu proprio director, o Major Chaves,
nal, rasgada no mesmo ponto da Ilha naturalista michaelense, que tem dedicado a maior parte da sua
onde D. Pedro passou em revista os vida aos estudos zoologicos, principalmente da fauna açoriana,
seus sete mil e quinhentos bravos e levando a dedicação ao ponto de realisar elle proprio, mettido em
ouviu a missa campal d esse bello dia; scaphandros, frequentes excursões submarinas, em busca de mo­
a nordeste, a povoação risonha da Fajã luscos e crustáceos com que tem enriquecido as suas collecções.
de Baixo e, entrevistos ape­
nas, os Arrifes... E tudo
emoldurado na incomparável
vegetação luxuriante d essas
Vendedor de confei tos
espaldas e planícies que res­
pondem a toda a semente, en­
tre rumores de folhagens, cantos de passaros e o eterno
sussurro das aguas verdes do mar!
Na Matriz, ha o portico manuelino com seus meda­
lhões, era baixo relevo, de Vasco da Gama e do Infante
D. Henrique, e as columnas do altar-mór, em boa talha
doirada, do estylo D. João V. Na egreja de São José,
uma credencia que está na sacristia, muita antiga e ge­
nuinamente insulana. Na de Santo André, o retábulo do
altar-mór, attribuido a Murillo, e representando o mar-
tyrio do Santo, entre algozes e pretorianos. Na ermida
da Senhora do Desterro, a grade de ferro forjado que
fecha o adro. No templo do Collegio, o púlpito onde
prégou o Padre Antonio Vieira, e a capella mais rica em
esculptura de madeira, que se suppõe existir em Portu­
gal. No convento da Esperança, a imagem do Santo
Christo, de uma tão grande popularidade cm todo o Ar- Campo de S. Francisco e Hospital

2')

DRaC-CCA
do velho muro da cerca de algum convento, ou recebendo a som­
bra das arvores d’alguns jardins, que sobre ellas se debruçam,
teem designações delicadas, amigas e comesinhas, todas recordando
com ingenuidade coisas simples e galantes, invocando a graça de
santos e poetas, avivando a memória de doces lendas e glorias.
Em Ponta Delgada, por exemplo, ha a Rua da Agua, a Rua da
Arquinha, a Travessa do Pavão, a Rua da Esperança, a Rua For­
mosa; a Rua de Margarida de Chaves, que mereceu ser canoni-
sada, e o Largo de Anthero do Quental, o maior poeta açoriano,
um dos maiores de Portugal, um dos grandes do mundo.
Em muitas d estas ruas, a erva cresce nos interstícios da cal­
çada, cobrindo o chão de um tapete verde, salpicado de malme­
queres miudinhos. Noutras, os passeios, que não teem mais de
dois ou trez pés de largo, acabam subitamente onde uma casa se

EGREJA DO Coi.LEGIO

Ha uma Bibliotheca Publica recheada de preciosos in-folios do


tempo dos frades. Ha um Theatro muito bom, muito espaçoso,
muito alegre, por onde já passou, em velhas noites de gloria, o
nosso querido Taborda. Ha uma Penitenciaria de dimensões ex­
traordinárias, que parece haver sido edificada muito de proposito
para instigar ao crime a população michaelense, de tão bondosa
indole, pois tantas são as suas commodidades e confortos, que até
por gosto se cumpria ali a pena de alguns annos de prisão maior
celular.
O grande encanto da vida das cidades açorianas consiste, prin­
cipalmente, no convívio exterior das suas populações e na doce
paz infinita dos seus lares. Tudo é amavel, carinhoso, e tranquillo.
Tudo impregnado duma egual atmosphera de bem-estar, de se­
gurança. de cordealidade. As ruas, pouco espaçosas, aconchegadas,
quasi todas ellas em torno de alguma egreja, correndo ao longo Ai.tar-mõr da Egreja do Coli.egio

3o

DRaC-CCA
desvia do alinhamento. Quando chove, não ha lama, porque a en­
xurrada das aguas tudo limpa, e corre para o mar, deixando as
pedras das ruas tão frescas e tão polidas como um asphalto de
cosinha esmeradamente esfregada.
De lixo nem um atomo. de porcaria nem uma molécula. Cada
casa tem o seu quintal, e cada quintal tem a sua estrumeira. Para
a estrumeira vai tudo quanto em muitas ruas de Lisboa se atira
para a rua, e para cima de quem passa.
Em qualquer das Ilhas
dos Açores, a creada le­
viana, que algum dia se
atrevesse a sacudir para a
rua os miolos de uma toa­
lha de mesa, teria provo­
cado uma desordem pu­
blica; se essa mesma crea­
Lado oriental da cidade
da, reincidindo, ousasse
atirar para o meio da cal­ d’elles fique sequer o vestígio de uma obreia. O commercio faz-se
çada uma tripa de peixe, sem reclamo, sem armadilhas e sem má fé. As lojas são, em ge­
teria posto a cidade em ral, mais que modestas; raras aquellas que ostentam alguma ino­
estado de sitio. O pelouro vação luxuosa; poucas as que teem montras ou exposições de pro-
da limpeza nas municipa­ ductos ás suas portas...
lidades açorianas é uma Cada estabelecimento tem a sua tradição, a sua fama e o seu
utopia. credito. Assim, na minha Ilha, toda a gente sabia que quem ven­
Não ha cartazes, não dia o melhor panno era o Bento Fartura; que quem vendia o me­
ha inscripções obscenas lhor chá era o velho Gaiato; que quem vendia os melhores pas­
nas paredes. Os editaes, teis era o Francisquinho das Flores. Cada um d estes honrados e
colados nos cunhaes ou á typicos commerciantes abria a porta da sua loja ás sete horas da
porta das egrejas, são ar­ manhã, punha-se ao balcão, e esperava os seus freguezes. Quando
rancados pontualmente no o relogio da Sé batia as nove horas compassadas da noite, cada
dia em que cessou o praso um fechava outra vez a sua loja, recolhia a sua casa, mettia-se na
Capote de capuz da sua validade, sem que sua cama, pegava no seu somno. E nunca um remorso agitou o

DRaC-CCA
seu somno, nem um caso illicito pesou na sua consciência: sempre guarda, e segredo em que pôde entrar quem quizer, como no se­
o Bento medira bem o seu panno; nunca o Gaiato roubara nas gredo de Polichinelo. O segredo está nisto: é que elle ama Deus
grammas do seu chá; e, mais fresco que os seus pasteis, só o pro- sobre todas as coisas e o proximo como a si mesmo.
prio Francisquinho das Flores se conhecia. A ideia que o ilhéo tem de Deus é uma ideia positiva, indis­
Os ilhéus dos Açores encontraram a verdadeira receita da ale­ cutível, eterna. Podem dizer o que quizerem para lhe provar o
gria de viver. E’ uma receita facil, mas para que se chegue a sa­ contrario, não chegarão a convence-lo. Deus é a infinita bondade;
ber avia-la, é necessário estar com elles, conviver com elles, e acreditando que o homem foi creado á sua imagem e semelhan­
aprender com elles. ça, o ilhéo entende que o seu dever é tornar-se bom quanto pos­
O açoriano não é ambicioso; contenta-se sempre com o que sível para melhor se aproximar de Deus. D esta ideia resulta,
tem, não inveja o que pertence ao proximo. Apenas com alguns naturalmente, o encanto ingénuo da vida açoriana e da bondosa,
paragraphos de excepção, porque ninguém é perfeito neste mun­ franca e communicativa indole das populações ilhoas.
da, elle regula toda a sua vida por uma obediência exacta aos
mandamentos da lei de Deus. E‘ bom, é sobrio, é rasoavel. A sua Alfredo Mesquita.
felicidade tem o seu segredo, mas é um segredo que elle não

3'2

DRaC-CCA
FASCICUI.OS TV.0" â er <4

<Jam>***

DRaC -CCA
LOjnBflDPS
A Rainha das aguas de meza
Leve, estomacal e digestiva,
pura, límpida e barata
R EC O M M E N D AD A
POR

TODOS OS MÉDICOS
Rua de S.Juliáo
Deposito Geral PUpfinho y

RUA ARCO DO BANDEIRA, 174 A178 C. MAHONY & AMARAL


LISBOA O, -Rua Augusta, x2-° — LISHOA
TELEPHONE 5S6
METAES EM BRUTO: Aço, cobre, latão, estanho, chumbo cm chapa, bar­
ras lingots.

-y
CLAR1MUND0 V. EMÍLIO FERRO: Em barras quadradas, redondas e vergalhão. Vigamento de ferro
em T I U ; cantoneiras e todos os mais aprestos para construcçòes. Ferro em
lingots para fundição. Chapas galvanisadas lisas e onduladas. Chapas de aço
para caldeiras. Tubos de ferro, cobre e latão. Arame de ferro, cobre e latão.
Folha de Flamlres. Material lixo e circulante para caminhos de ferro. Rails de
------ = DO =------ aeo e diversos perfis e pesos, vias portáteis. Machinas de vapor, gaz e petró­
leo. Caldeiras. Bombas. Machinas para industrias e agricultura. Machinas. Fer­
«Baltimore college of dental surgery» ramentas. Vidros polidos, foscos e de phantasia. Vidraça, lages de vidro (dallcs).
Assucar, arroz, especiarias, drogas, productos ehimicos. Ascensores hydrauli-
Consultas das 10 horas da manhã ás 5 da tarde cos, Edoux & C.a
C I ME KTTO
Rua Nova cio Almada, 81, 1. Uuicos importadores em Portugal e colonias do CIMENTO da Compagnie
des Ciments Parisiens, fabricado pelo notável engenheiro E. CANDLOT.
LISBOA Fabrica de sabão — Telhai (Poço do Bispo)
Fabrica de licores, aguardente, genebra e cognacs—TELHAL (POÇO 00 BISPO)

DRaC-CCA
^5353-5353.53^31^3353^353^53 5353-0-53
João Machado da Conceição Grand Hotel Central
J. J. NUNES SOBRINHO COM MISSÕES
LISBONNE
VUE SPI-ENDIDE SUK LE TAGE
L53

Antigo alumno da academia de Bellas Artes


E CONSIGNAÇÕES CUISINE FRANÇAISE fcENOMMÉE
Conforts modernes
5^5

Ascenseur, Bains, Salon de lecturc, etc.


Promove vendas de cereaes,
ON PARLE TOUTES LES LANGUES
manteigas, queijo etc., etc. PRIX MODÉRÉS
ATELIER EE PINTURA ESCULPTURA E DOURAMENTOS
Fornece todos os generos
Encarrega-se de paysagens, figuras, .ornatos, decorações, pintura d’esta capital, consumidos nos Grand Hòtel Central
histórica, restauração de quadros antigos, letras, imitação de mármore
53

Açores, nas melhores condições, LISBON


e madeira, sceuographía, frescos, aguarellas, pintura e dourainento em SITUATED ON THE SHORE OF THE TAGUS
egrejas, carnações em imagens, esculptura de imagens e retábulos, levando aos seus freguezes os
With magnificent panorama
trabalhos de architectura, desenhos e plantas para coiistruceões diver­
sas e todos os trabalhos pertencentes á arte, mesmo fóra da ilha. 3 minimos preços do mercado. MODERAT PRICES

Grande variedade de clichés photôgraphicos dos Açores. 3 Rua dos Correeiros, 6 — LISBOA
Excellent french cuisine
ALL LANGUAGES SPOKEN
PREÇOS CONVENCIONAES
Unrivtilled for its Comfort
Illaa cio Fayal-- A.ÇORES Adresse telegraphicc I.ift, Baths, Reading room dark room, etc.
H ACHE — LISBOA

Campeão & C.a Chá Canto ATELIER PHOTOGRAPHICO


CASA de CAMBIO eLOTERIAS
---------<•••►——
DE

Esta casa posstie para as lotcrias, quer


Agradarei, puro, hygienico e colhi­
do da genuina planta do chá.
Cardoso
ordaiarias. quer extraordinárias, um variado
sortimento de numeros em bilhetes, décimos 0 CIIA CA ATO só se vende em
e cautellas- pacotes de 50, 120. 240 e 580 réis, 3, KXJA DE S. PAULO, 3
Compram c vendem pelos melhores pre­
ços. libras, ouro portuguez c todas as moe­ com marca registada, para garantir
das nacionaes e estrangeiras, notas dos ban­ a sua pureza e qualidade e em latas HORTA
cos de Hespanha, França, Inglaterra, Italia, illustradas de 750 réis, lacradas na Veste estabelecimento tiram-se retratos, em grande variedade
etc.
Descontam vales do correio, vendem le­ tampa para egual garantia. de processos e tamanhos por preços baratíssimos.
tras, sellos e papel sellado. Para o CIIA CA ATO ter um opti- .Magníficos retratos a crayon. de differentes tamanhos, pelo ori­
rno sabor, é preciso ser feito em pou­ ginal com a maxima perfeição, ou por photographia antiga não
118- RUA DO AMPARO-118 co mais de metade da porção empre­ deixando nada a desejar.
gada por qualquer outra’qualidade
Fazem-se bellos piiKscptirtmtls de cartão especial e qua­
Numero telephonico 53 de chá. dros que se entregam promptos a collocar nas salas.
0 CIIA CA ATO encontra-se á
ENDEREÇO TEI.EGRAPH1CO
venda nas principaes lojas de chá e
Campeão— Lisboa
mercearias.

DRaC-CCA
<S»4>4>4>4
*
4 *4»
i<Qi<9><S
*

CONSERVARIA ITALIANA
Casa fundada em 1846
, por M. G. Ferrari
Especialidade em doces d’ovos, neve e doce de copa.
Conservas de fructas. Bolachas e biscoitos das me-
v, lhores fabricas inglezas e francezas.
Vinhos finos nacionaes e estrangeiros.
Licores de todas as qualidades, co-
gnacs, rhum, vermouth, bitter,
etc., etc.
PREMIADO com a medelha ??**
'
>\
* C'''
de l.a classa na Expos ção Internacional do >
Porto em 1865 e em varias outras exposições.

Fornecedor deS. S. MAGESTADES


FORNECE esmeradamente serviços com­
pletos de almoços, lunchs, jantares, soirées e bailes,
encarregando-se de toda e qualquer encommenda inherente
á sua arte tanto no continente e ilhas como África e Brazil.
R, ITOVA ©O ALMADA, 93

N. telephonico 412 Endereço telegraphico - CONSERVARIA

ri rt rr i1 iJJJJJ t
rooí

DRaC-CCA
SANTO CHRISTO
a chronica local anda assignalada, incontes­ na cêrca da Esperança e que tinha a invocação

N tadamente, a existência aqui, de 400 annos,


á imagem do Santo Christo:
E que foi offerecida pelo Pontífice a duas re­
de Nossa Senhora da Paz. Mudou-a a Madre
Thereza da Annunciada para capella própria no
côro interior da egreja do mosteiro. Foi isto por
ligiosas idas a Roma impetrar licença para eri­ fins do século xvn, certamente depois da pro­
girem o convento da Caloura, o primeiro que fissão d aquella Madre venerável, que teve logar
houve em S. Miguel. em 1623.
Mas porque a situação d'elle, muito proximo Vão passados, pois, mais de dois séculos
do mar, o expunha aos insultos dos piratas que desde que a divina Imagem se acha no local
pelos séculos xv e xvi frequentemente assalta­ onde ainda é venerada.
vam as costas açoreanas, resolveram as freiras Estas notas históricas encontram-se espalha­
abandonal-o. das pela diffusa biographia de Madre Thereza
Para lhes dar outro e seguro abrigo, se cons­ da Annunciada, escripta pelo presbytero José
truiu o convento da Esperança em Ponta Del­ Clemente, no volume popularmente conhecido
gada, tomando n’isso iniciativa, e dotando-o bem, por Livro do Senhor Santo Christo, do qual ha
os condes de Villa Franca. muitas edições.
Em 1541 estava concluída a construcção do
novo convento e n esse mesmo anno lá en­
traram nove das madres para quem fôra Dos prodigios obrados pelo Senhor com
destinado, tendo por superiora Ignez de aquella sua serva Madre Thereza, relata­
Santa Iria. dos em muitas paginas do citado livro, e de
Com estas primeiras povoadoras da Es­ tantos em que por intervenção d elia foram
perança veiu da Caloura a Santa Imagem. contempladas muitas outras pessoas, deri­
Está, portanto, ha 36i annos n'este convento e com os que vou a maior popularidade da devoção com o Santo Christo.
antes estivera na Caloura se arredondarão os quatro séculos da Os séculos vão passando, as gerações desapparecem, e a fé
existência em S. Miguel. na milagrosa imagem mais e mais se afervora na alma michae-
Primitivamente esteve a imagem n uma das ermidas que havia lense.

33

DRaC-CCA
Não se comprehende bem o que possa ser um povo sem fé de culto, se os tem, são pelo Espirito Santo, praticando a cari­
religiosa. O que ella vale no seio das famílias todos o sabemos. dade, e pelo Santo Christo, rendendo-lhe o melhor do seu amor
Nos mais sombrios quadros da vida lá vem aquclle raio de luz e da sua fé.
celeste trazendo mocidades, esperanças e confortos aos corações No seio de cada familia, no coração de cada indivíduo, ha um
macerados. templo em que os dois symbolos têm o mais florido altar.
Póde muito bem dizer-se que o povo michaelense anda limpo Nenhum filho d’esta ilha se ausenta para as aventurosas luctas
das praticas grosseiras de um mysticismo pervertido. O são prin­ da vida, para as folgadas viagens de prazer, ou para as que a
cipio religioso é o sentimento que mais o domina, e isso lhe põe medicina tantas vezes aconselha para remedio de enfermidades,
nalma fulgurações bellas das virtudes christãs. Os seus exaggeros sem levar, no melhor resguardo da bagagem, um quadro d'aquella
divina imagem, que desde a meninice se habi­
tuou a venerar, ante a qual tantas vezes ajoe­
lhou no sanctuario do lar, rodeado de familia, a
impetrar, ou a agradecer celestiaes favores.
O mais delicioso pertence da alma michae­
lense, é esta fé que alenta para os trabalhos da
vida, que mais suavisa os infortúnios e que mais
aquece as boas e desejadas alegrias.
Ha quatro séculos que este divino pharol do
Santo Christo enche de grande luz o bello céo
michaelense, e já agora não haverá n?elle ecly-
pses que o possam ensombrar.
Poderão as nortadas rijas das civilisações
que se succedem ir desmoronando as velharias
sociaes; mas esta que liga os corações a Deus
e o individuo á humanidade, irá atravessando
novos séculos, cada vez mais firme, mais vivida
e mais radiosa.
E’ consolador poder fazer tal affirmação con­
victamente, como é glorioso para o povo michae­
lense esta sua feição espiritualista.

F. M. Supico.
Ponta Delgada. — Convento da Esperança

DRaC-CCA
35

DRaC-CCA
Viscondes da Praia

Visconde da Praia, Duarte Borges da Camara Me­ reveladores do seu coração, fonte inexgotavel de ternura christã.
deiros, primeiro do titulo, par do Reino, do Con­ vaso milagroso de que brotavam consolações.
selho de Sua Majestade e Senhor de vários mor­ Tamanha caridade buscava uma caridade rival. Achou-a o Vis
gados. nasceu a 7 de setembro de 1799 e faHeceu conde na que veio a ser sua esposa, D. Anna Theodora Borges
com 72 annos de edade a 19 de março de do Canto e Medeiros, filha herdeira de Antonio de Medeiros Dias
1872. e Sousa da Camara, fidalgo da Casa Real, e de sua mulher.
Foi longa a sua vida, que levou a semear D. Clara .Joaquina Isabel do Canto Medeiros da Costa e Albu­
exemplos raros de abnegação e de caridade, querque, herdeira dos antigos morgados instituídos por Gaspar
de que outros colheram o bemdito fructo. Dias de Medeiros.
Tendo prestado relevantes serviços á causa Quem dá aos pobres empresta a Deus, e Deus achou n’aquellas
liberal, com extrema abnegação recusou toda a recompensa, não almas christãs os mais liberaes de seus credores.
acceitando sequer um só dos muitos cargos officiaes que honrosa­ Ainda na ilha vive, e viverá perpetuamente, a fama que dei­
mente lhe foram offerecidos. xaram os viscondes; vive em todos os corações que batem, e não
Senhor de avultada fortuna, teve o raro talento de exercer ad­ ha signal de vida que valha o bater d’um coração. Vive e viverá
miravelmente a caridade, virtude que pôde chamar-se a intelligen- cada vez mais perfumada, que lhe conserva vida a tradicção que
cia do coração. os viscondes aos seus deixaram, aos seus que lhes imitam o santo
Por isso, em voltei do seu nome se formou uma verdadeira exemplo.
lenda, d’estas que resistem ao tempo, o qual, em vez de seguir Não ha coisa tão fecunda no mundo, tão duradoura em seus
com ellas seu processo demolidor, as vai, pelo contrario, aureo­ effeitos como a esmola, que Deus impoz por obrigação aos ho­
lando, cada dia que passa, com luz mais viva. mens. Dizem muitos que a riqueza não dá a felicidade ao rico;
Que melhor brazão desejaria seu filho, o actual Marquez, que mas affirmam muito alto o contrario aquelles que sabem os deve­
melhor divisa que a herdada de seu pae, cantada por todas as res que a religião lhes impõe e na paz de sua consciência encon­
boccas a que elle saciou a fome, marchetada em cada letra pelas tram a ventura perfeita. Pois fazer felizes não será a maior feli­
lagrimas de gratidão dum povo inteiro? cidade ?
Dar generosamente é já muito, mas saber dar ainda é muito Não ha no mundo ventura tão completa como viver e morrer
mais. Ora do Visconde da Praia contam-se milhares de aneedo- entre bênçãos, viver entre lagrimas de gratidão, morrer entre la­
tas, populares em toda a ilha de S. Miguel, que são primorosos grimas de saudade.

35

DRaC-CCA
CETOLOGIA DOS AÇORES
equeno é o numero de nomes empregados nos Açores, para e tantos outros d‘estes animaes tão fáceis de differençar, também

P designar os dilferentes cetáceos que apparecem nos mares do


archipelago; e, facto curioso, sendo o pescador açoriano em geral
determinam a grande distancia (como tenho observado) se um
bando (um school) de cetáceos é composto de animaes da mesma
ou de dilferentes especies e mui­
bom observador, diíferenciando
e dando nomes (alguns bem ca- tas vezes quaes sejam estes ani­
racteristicos) a peixes apparente- maes ; isto simplesmente vendo
mente quasi idênticos, esse mes­ como elles saltam no mar e es­
mo pescador, quando balieiro, pa­ pecialmente pela fórma e altura
rece que perdeu o seu poder de dos )actos de agua que espada­
observação, pois não differenceia nam ’dos respiros dos cetáceos,
animaes bem diversos. Assim, quando teem a cabeça fóra d’agua,
para elle, baleias são quasi todos jactos a que chamam espautos
os cetáceos grandes e os peque­ (spout em inglez).
nos, toninhas ou bòtos. Não é pois para surprehender
Poucas vezes alguns cetáceos que Drouet, o unico naturalista
são designados pelos nomes ingle- que publicou (em 1861) uma lista
zes, ou dizendo melhor, pelo apor- dos cetáceos que apparecem nos
tuguezamento d'esses nomes; por mares dos Açores, (e que certa­
exemplo, á Orca gladiator (o Kil- mente colheu informações dos ba­
ler dos balieiros americanos) cha­ lieiros) indique, e com erros, só
mam Quilha; ao Megaptera boops as seguintes especies:
(o Humpback) chamam Ambéque. i —Delphinus delphis — Linn.
Devo porém notar, que os ba- (Golfinho); 2—Delphinus Pernet-
lieiros que confundem, depois de mortos, dois cetáceos, um dos tyi—Desm.; 3—Delphinus frcenatus—Dussum.; 4—Phoccena com-
quaes tem uma grande parte do corpo coberta com coronulas munis — Cuv. (Toninha marsopa); 5 — Physeler niacrocephalus —
(barnacles dos balieiros), como a Balama biscayensis, com a Ba- Linn. (Baleia); 6 — ? Balama mysticetus— Linn. (Baleia).
Icena myslicetus, que tem a pelle lisa e limpa de taes crustáceos D’estes cetáceos o segundo e o terceiro são indicados por

37

DRaC-CCA
Drouet como determinados pelo medico da phinusdelphis —Linn.(Toninha); 5 — Gram-
marinha franceza Déplauche e foram apa­ pus griseus — Cuv. (Grampas); 6 — Tur-
nhados, um nos mares dos Açores, o ou­ siops tursio— Gerv. (Bôto); 7— Phvseter
tro entre este archipelago e as Bermudas; macrocephalus — Flow. 1 Baleia); 8 — Me-
emquanto aos quatro restantes, o ultimo gaptera boops — Mull. — (Ambéque); q —
não apparece nos Açores, e só o penúltimo Balcena biscapensis — Eschr. (Baleia).
é conhecido por baleia, sendo desconheci­ D estes cetáceos, o mais interessante é
dos (creio eu) nos Açores os nomes de goZ- o septimo (Cachalote); cetáceo que chega
finho e de toninha marsopa; em todo o a ter vinte e seis metros de comprimento.
caso, ao primeiro chamam toninha (sim­ Pelas gravuras juntas, obtidas de pho-
plesmente), e ao quarto boto. tographias que tirei a um d'estes animaes
Foram certamente as mesmas informa­ de quinze metros e meio de comprimento,
ções que induziram o referido naturalista melhor do que por demorada descripcão
Drouet a affirmar que um cachalote (Phr- se faz idéa da fórma extraordinária d’este
seter macrocephalus) podia produzir i5o gigante dos mares.
tonelladas de azeite, que vendido a 25o Hoje é este o cetáceo que quasi exclu­
francos a tonellada importava em 87:600 sivamente se captura nos Açores, consti­
francos, quando na verdade, um grande tuindo tal captura uma industria, senão
cachalote produz cem barris de azeite e prospera, pelo menos de grande vantagem
cada barril (de 5o galões) não contém mais para muitos açorianos, pois nella, nos úl­
do que 200 litros; portanto o azeite não timos seis annos, têm em media sido em­
excederá a 20:000 litros, isto é, menos de pregadas 90 canoas, com cerca de 56o tri­
20 tonelladas. pulantes, que têm morto annualmente nunca
Para evitar cahir em erros analogos aos menos de 87, nem mais de 83 cachalotes.
citados não indicarei todas as especies (qua- Quão differente é porém hoje a impor­
torze) de cetáceos que me consta, pelas tância d'esta industria com a de 1768, quan­
descripções dos balieiros, existirem nos mares d'este archipelago; do da America vinham para os mares dos Açores duzentos navios
mas só o farei com relação áquellas que tenho podido determinar inglezes que aqui matavam não menos de mil cachalotes, que pro­
e das quaes existem, na maior parte esqueletos ou fetos, no Mu­ duziram cinco milhões de litros de azeite e dois milhões de litros
seu Municipal de Ponta Delgada; são ellas: de espermacéte, vendendo-se então o primeiro por quinhentos, e
1—Phoccena communis — Linn. (Boto); 2 — Orca gladiator— o segundo por trezentos contos de réis!
Gray. (Quilha); 3 — Globicephalusmelas — Flow. (Bôto); 4 — Del- F. A. Chaves.

38

DRaC-CCA
Antonio Borges da Gamara Medeiros
ntrar um momento nos não adormecer na infecunda ociosidade que
E famosos jardins de An­
tonio Borges da Camara Me­
deiros em Ponta Delgada e
seu oiro permittia, que lhe não permittiu o
sangue honrado de suas veias.
Coração aberto para quanto era grande e
illuminar o espirito com tanta bello, assim como cultivava as fecundas ro­
luz de arte, que nunca mais chas vulcânicas da terra de seus paes, ia vendo
na lembrança a impressão ha em sua alma desabrochar sentimentos novos,
de apagar-se. Assim o ouvi­ educava-a em longas viagens, abria-a a nova
mos a quantos d'esta ventura luz criadora como a do sol, que na ilha encan­
o goso houveram alguma vez. tada tão prodigo é de seus dons e tão cumpridor de suas promessas.
Passear por seus extensos,
sinuosos caminhos, demorar
os olhos nas vastas plantações
em que a sciencia do botânico
aproveitou para bem da arte
a formosura do clima, admi­
rar nas estufas os ricos exem­
plares tropicaes, gratos á cultura e Horescentes, sonhar um ins­
tante junto das grutas sombreadas, erguer a vista para as altas
copas das palmeiras, n'aquella comprida alameda que se tornou
celebre no mundo entre os homens de bom gosto, deslumbrar
d esta maneira os olhos e fartar a alma de coisas bellas é meio
caminho andado para conhecer o homem que soube maravilhas
sobre maravilhas accumular ciosa e apaixonadamente, legando aos
seus e aos da sua terra o exemplo de quanto póde uma fantasia
que um forte ideal apaixona.
O irmão do Visconde da Praia, senhor de muita riqueza, soube Jardim Borges — As estufas

39

DRaC-CCA
Bemdito exemplo legou Antonio Borges que tantos primores
d’arte accumulou em seu palacio, que tantos e decantados primo­
res conseguiu da natureza obediente.
Sahiu aos seus, não degenerou.
Como a todo o artista, não lhe manchava a alma a sombra
dum egoismo.
De seus jardins forneceu preciosas plantas aos jardins do con­
tinente, e as flores, ao abotoarem sob um céo extranho. di­
ziam com seu perfume cuidados que haviam merecido; seu
oiro repartiu-o pela pobreza e nas mãos dos pobres adquiriu per­
fume como as flores.
Foi por vezes governador civil de Ponta Delgada, cargo que

Jardim Borges — Alameda das Palmeiras

sempre exerceu muito a contento de seus conterrâneos e em que


mais evidenciou suas altas qualidades.
Havendo deixado viuva a sr.a D. Maria das Mercês de An­
drade Albuquerque Bettencourt Borges de Medeiros, continuaram
sobrega mesma sua casa cahindo as mesmas bênçãos, o sereno do
céo sobre as plantas e as orações dos pobres.
D esta nobre senhora foram fundação em Ponta Delgada as
cosinhas económicas, de tão singulares vantagens.
E assim uma simples noticia, que principia por falar de flores,
em flores, ainda que d outra natureza, havia de terminar. As al­
mas boas proporcionam d'estas surpresas á gente: até um pobre-
Jardim Borges —As Grutas sinho, despretencioso artigo, abre e fecha com chave d oiro.

40

DRaC-CCA
FASCICUIA) T¥.° 4

DRaC-CCA
LOMBADAS & Rainha das aguas de meza
Leve, estomacal e digestiva,
pura, limpida e barata
RECOMMENDADA
TODOS OS MÉDICOS

Deposito Geral
RUA ARCO DO BANDEIRA, 174 A 178 C. MAHONY & AMARAL
LISBOA
70. Rua Augusta, S.”— LISBOA
TELEFHONE 586
irriiTiiiiiiiííiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiniíniiiiiiiiiiiiiiiiiiiii
METAES EM BRUTO: Aço, cobre, latão, estanho, chumbo em chapa, bar­
1 r ras lingots.
r
Clarimundc V. Isilio FERRO: Em barras quadradas, redondas e vergalhào. Vigamento de ferro
em TI U; cantoneiras e. todos os mais aprestos para construcções. Ferro em
lingots para fundição. Chapas galvanisadas lisas e onduladas. Chapas de aço
CIRURGIÃO DENTISTA para caldeiras. Tubos de ferro, cobre e latão. Arame de ferro, cobre e latão.
-------DO ------ Folha de Flandres. Material fixo e circulante para caminhos de ferro. Rails de
aço e diversos perfis e pesos, vias portáteis. Machinas de vapor, gaz c petró­
& «Paltirqore college of dental surgery» t
!
leo. Caldeiras. Boinbas. Machinas para industrias e agricultura. Machinas. Fer­
ramentas. Vidros polidos, foscos e de phantasia. Vidraça, lages de vidro (dalles).
Assuear, arroz, especiarias, drogas, productos ehimicos. Ascensores hydraulieos,
Consultas das 10 horas da manhã ás 3 da tarde Edoux & C."
CIMENTO
Çua l^Iova do ^Irpada, 8t, í.°
> Únicos importadores em Portugal e colonias do CIMENTO da Compagnie
LISBOA
* des Ciments Parisiens, fabricado pelo notável engenheiro E. CANDLOT.
Fabrica de «abão — Telbal (Poço do Bispo)
riiiiiiiiiiniiiiiiiiiitiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiifiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii
Fabrica de licores, aguardente, genebra s cognacs TELHAI (POÇO DO BISPO)

Typ. d'«A Edil — Lisbna

DRaC-CCA
João Machado da Conceição Grand Hotel Central
LISBONNE

y gylj yg) âl
Commissões VUE SPLENDIUE 8UR LE TAGE

CUISINE FRANÇMSE RENCMMÉE


Antigo alumno da academia de Bellas Artes
DO
e consignações Conforts modernes
Ascenseur, Bams, Salon de lecture, etc.
ON PARLE TOUTES LES LANGUES
Promove vendas de cereaes, man­ PRIX MODÉRÉS £
ATELIER DE PINTURA ESCULPTURA E DOURAfflENTOS teigas, queijo etc., etc.
íS Encarrega-:•se de paysagens. figuras, ornatos, decorações, pintura Fornece todos os generos d'esta Grand Hotel Central
resl;
histórica, restauração de quadros antigos, letras, imitação de mármore capital, consumidos nos Açores, LISsBON
e madeira, scenographía, frescos, aguarellas, pintura e douramento em nas melhores condições, levando S1TUATKD ON THE SHOBE OF THE TAGUB
egrejas, carnações em imagens, esculptura de imagená e retábulos,
trabalhos de architectura. desenhos e plantas para construcções diver­ aos seus freguezes os minimos pre­ With magnificent panorama g
sas e todos os trabalhos pertencentes á arte, mesmo lóra da ilha. ços do mercado. MODERAT PRICES j?
Grande variedade de clichés photographicos dos Açores. EXCELLENT FRENCH CU-SINE
PR ÇOS CONVENCIONAES \ ALLLANGUAGES SPOKEN
Ilha do Fayal-AÇORES Rua dos Correeiros 6 — LISBOA Unrivallad for its Co nfort
Adresse tielegrapiilco Lift, Buths. Rea-ling room dark room,
etu.
HACHE —LISBOA

Campeão & C.‘


CASA de CAMBIO e LOTERIAS
n Chá Canto iiiiiiiiiiii mui iiiiiiiiiiii mui iiiiiiiiiiiiiiiiii mui iiiiiiiiiiii mui iiiiiiiiiiii iiimV

ATELIER PHOTOGRAPHICO —

Esta casa possuo para as loterias, quer


ordinárias,qner extraordinárias, um varia­
do sortimento de numeros em bilhetes,
Agradavel, puro, hygienico e colhi­
do da genuína planta do chá.
JOSÉ G. CARDOSO
décimos e cautellas. O CHÁ CANI'0 só se vende em pa­
Compram e vendem pelos melhores pre­ 3, RUA DE S. PAULO, 3
ços, libras, ouro portuguez e todas as moe cotes de 50, 120, 240 e 580 réis, com
das nacion es e estrangeiras, notas dos HORTA
marca registada, para garantir a sua
bancos de Hespanha, França, Inglaterra,
Italia, etc. pureza e qualidade e etn latas illustra- N’este estabelecimento lirani-se retratos em grande variedade de processos e
Descontam vales do correio, vendem le­ das de 750 réis, lacradas na tampa tamanhos por preços baratíssimos.
tras, sellos e papel sellado. para egual garantia. Magnifico? retratos a crayon, de differentes tamanhos, pelo
Para o CHÁ CANTO ter um optimo original com a maxima perfeição, ou por pbolographia antiga não
118—RUA DO AMPARO—118 sabor, é pr. ciso ser feito em pouco deixando nada a desejar. .
mais de metade da porção empre­ Fazem-se bellos passepartouts de carlão especial
NUMERO TELE PHONICO 53 gada por qualquer outra qualidade de e quadros que se entregam promptos a col-
chá. locar nas salas.
ENDF.RFÇO TELEGRAPH1CO O CHÁ CANTO encontra se ávenda
Campeão — Lisboa nas principaes lojas de chá e mer-
cearias. mui iiiiiiiiiiii mui iiiiiiiiiiii mui iiiiiiiiiiiiiiiiii mui iiiiiiiiiiii mui iiiiiiiiiiii iiiiii Z

DRaC-CCA
Slllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllll
lllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllll^

ãllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllll | | lllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllfn

DRaC-CCA
MYTHOGRAPHIA AÇORIANA
CONTOS POPULARES DA ILHA DE S. MIGUEL

Mythographia é uma sciencia relativamente nova, originários da ilha de S. Miguel, de que o meu illustre mestre e
que se occupa do estudo das questões relati- amigo obteve lições redigidas por creanças. Eis a lista d’essas es-
vas á origem e transmissão dos con- pecies: O mestre das artes; Maria Subtil; O coelho branco; Cla-
tos tradicionaes, nos quaes ha uma rinha; Bola-bola; Linda branca; O rei escuta; Os sete encanta­
grande quantidade de documentos uteis á sociolo­ dos; As sonsas; A mão do finado; O rei de Nápoles; O matador
gia, como reconheceu já Litré, e ás sciencias an- de bichos; As vozes; Santa Helena; O guardador de porcos; O
thropologicas. compadre Diabo; O tinhoso, o ranhoso e o sarnoso; Os peixes do
A primeira collecção de contos genuinamente guardião; O caso do tio Jorge Coutinho; O tolo e as moscas; Tic-
populares é a dos irmãos Grimm, publicada de Taco; As orelhas do abbade; Lenda da mãe de S. Pedro; A tú­
1812 a 1814, com 0 titulo de Kinder und Hausmarchen, e a que nica de Christo; O príncipe mendigo. Os primeiros treze d’esta
os collectores additaram varias notas comparativas em 1822. Desde serie são contos mythicos da .Aurora, do Sol e da Noite; e os res­
então, começaram a apparecer, em todos os paizes, numerosas tantes, casos e facécias da tradição popular, em que, aliás, tam­
raccoltas de contos populares, sendo principalmente muito curio­ bém, em alguns, poderão rastrejar-se elementos mythicos.
sas, pela inesperada revelação dos seus paradigmas, as collecções Em i885 publiquei na Revista do Minho (pag. 70, col. 2.a do
slavas. Até o thesouro tradicional dos esquimós, conservado na vol. 1) o seguinte conto mythico, colhido directamente da tradição
lingoa innok. e confinado na terra verde dos mares arcticos, foi oral de Ponta Delgada, e cujo principal interesse é o de constituir
violado, em 1874, pelo abbade Morillot, mais tarde seguido pelo um exemplo flagrante da intima relação do enigma com o conto.
indefesso americanista Em. Petitot.
Na exploração folklorica dos Açores, que são um dos mais ri­
cos centros ethnologicos de Portugal, pela persistência, determi­ Era uma vez uma mulher casada que ia todos os dias á cadeia,
nada pelo insulamento, das tradições que se vão obliterando no c’o seu menino ao collo; um dia topou-se ella c’um vassallo do
continente, muito ha que colher e estudar para a Mythographia. rei, que lhe perguntou:
Os primeiros contos populares açorianos foram colligidos pelo — Que quer vmc. aqui todos os dias?
sr. dr. Theophilo Braga nos Contos tradicionaes do povo portu­ Ao que ella respondeu:
guês (Porto, 1883). No primeiro volume d‘esta copiosa colleccio- — Eu já fui filha e agora sou mãe, e o menino que eu crio é
nação da novellistica tradicional encontram-se vinte e cinco contos marido de minha mãe.

41

DRaC-CCA
O vassallo disse isto ao rei, o em Ponta Delgada, na galeria que foi do intelligente amador An-
qua] mandou logo chamar a mu­ tonio Borges, cujo primoroso jardim é, ainda hoje, uma das mais
lher e pedio-lhe para explicar a soberbas maravilhas artísticas da florida capital michaelense. N uma
conversa, porque nenhum dos seus chromo-lithographia sueca acha-se, igualmente, reproduzida a scena
vassallos a sabia decifrar, e ella fundamental do conto; e ainda o dr. Caetano d"Andrade forneceu-
respondeu: me noticia de uma estampa franceza, inserta em um pequeno vo­
— Explico, sim, se V. M. per­ lume, edição de poche, onde vém o poemeto «Le mérite des fem-
doa o crime a um preso que está mes» e mais poesias de E. Legouvé, publicada em Paris em i836.
na cadeia. Desta gravura, que, á parte a diversidade de posições resultante
E como o rei respondeu que da composição artística, offerece completa analogia na exposição
sim, ella disse logo: do facto com. o quadro italiano citado, parecendo ser copia de
— Que o que ia fazer todos outro, fazia-me o meu mallogrado amigo, em uma carta, a se
os dias á cadeia era sustentar seu guinte descripção: «A pag. 53, como illustração ao trecho:
pae com o leite dos seus peitos,
porque não havia ordem de lhe Celle-la.............................................................................................

entrar comida. Dans un sombre cachot, d'un époux ou d’un pèze (sic)
O rei mandou soltar o preso. Accourait chaque jour consoler la misère,

ha uma pequena vinheta, que tem 65 millimetros de altura por 5o


A primeira versão conhecida deste conto millimetros de largura, representando num cárcere abobadado
remonta á antiguidade pagan, e encontra-se uma mulher nova, sentada ao fundo a amamentar um preso idoso,
n’um texto de Valerius Maximus (Factorum ajoelhado sobre palhas; e ella vigiando-se d uns vultos de guardas
dictorumque memorabilum, lib. IV, cap. IV, armados, que se entrevèem pelas grades d uma fresta ao fundo,
a pag. 247-8 da ed. Teubner-Halm); mas o na parede por detraz do grupo.»
christianismo, na syncretisação que realisou de Os contos acham-se espalhados por áreas geographicas largas
todos os velhos cultos e mythos, assimilou a e distantes O sr. Adolpho Coelho colheu, no Porto, uma variante
tradição, convertendo-a na legenda de um san­ do conto da filha que amamenta o pae, de que publicou este re­
to. O meu amigo e distincto folklorista sr. dr. Leite sumo, também na Revista do Minho (mesmo vol., pag. 78, col. i.a):
de Vasconcellos viu, na Beira Baixa, um quadro
antigo a tal respeito; e o fallecido escriptor michae-
lense dr. Caetano d'Andrade e Albuquerque com- L’m rei perdoava todos os annos a morte d um preso a quem
municou-me a existência de outro, italiano, mesmo fosse capaz de dizer um enigma que elle não podesse adivinhar.

42

DRaC-CCA
Uma vez apresentou-se a dizer um enigma uma mulher ainda Na variante michaelense, como se vê, per-
nova. As suas palavras eram: deu-se a forma métrica do enigma, persistente
nas versões colhidas no Porto, em Veneza e na
Já foi nina
Sicilia.
Aora soy madre;
Alimento mi padre, De outro conto, vivo ainda hoje na tradição
Marido de mi madre, açoriana, e totalmente esquecido no continente,
Avô de mis hijos (sic). onde apenas se conserva memória d elle na lo­
cução proverbial «A fé é que nos salva nanja o
O rei não conseguiu adivinhar, e a mulher teve que dar expli­
pau da barca», publiquei também a pag. 14 do
cação. O pae d elia estava preso e a filha ia todos os dias susten-
meu opusculo Folklore e Dialectologia de Es-
tal-o com o leite dos proprios seios, que lhe passava por uma pe­
po\ende (Espozende, 1890), a seguinte versão
quena abertura duma porta. O rei mandou soltar o preso.
michaelense:

O illustre professor affiança ainda que o mesmo conto é cor­ Uma rapariga que estava muito doente e já
desenganada dos médicos pedio ao noivo, que
rente no Minho. (Contos populares portugueses, p. XXXI).
ia a Jerusalem, que lhe trouxesse da cidade santa
Ha d elle varias versões italianas. Bernoni traz uma, sob n.° 63,
nas Indovinelli popolari venefiani. Pitré, nas Novelline popolari um pedaço da madeira da cruz em que Christo
siciliane raccolte in Palermo, n.° 5, publicou também uma variante foi pregado, para tomar em
veneziana, intitulada «La bona fia», em que occorre este enigma: vinho, a ver se assim me-
lhorava. O namorado esque- *
Indovina indovinator: ceu-se do pedido da mori­
Figlia io son de 1’imperator. bunda, e na volta cortou um
Oggi son figlia, doman son madre bocado da madeira do navio
Di un figlio maschio, marito di madre.
em que vinha, para enganar
O mesmo distincto folklorista recolheu ainda outra versão em a rapariga; e como esta se
Palermo. Outro conto siciliano, que vem, sob n.° 196, nas Fiabe, achasse curada depois de o
Novelle e Racconti da riquíssima bibliotheca de tradições popula­ tomar dissolvido em
res de Pitré, chama-se «Lunniminu», e tem o enigma seguinte: vinho, elle então di­
Oggi è 1'annu mi fu patri.
zia : — A fé é que ÍX / J
nos salva, neja o
Ed aguannu mi fu figghiu.
E lu figghiu che nutricu pau da barca.
E maritu di mè matri.

DRaC-CCA
D’este conto publicou o sr. Henry R. Lang outra versão, da Um pantomimeiro aconselha-o a que tome como remedio um pe­
ilha do Faial, na Zeitschrift fur romanische Philologie, vol. XIII, daço da madeira da cruz de Christo, e o doente dá-lhe bastante
pag. ií. O conto do pau da barca era muito popular em Lisboa dinheiro para que elle lho vá procurar; mas o intrujão faz ferver
ha quarenta annos, segundo informação do sr. Gonçalves Vianna numa panella um bocado do costado de uma barca velha e faz um
(Revista Lusitana, vol. II, pag. 5o, nota); e na Revista do Minho, xarope com que o doente se vê livre das febres. A forma do pro­
no vol. XI, col. 160, publicou o sr. J. J. Gonçalves Pereira a se­ vérbio no conto veneziano é esta:
guinte variante, recolhida na freguezia de Cidadelhe, concelho de
Mesão Frio: Siropo de barcazza
La freve descazza.
Havia um homem que estava doente com umas grandes se­
zões. Um dia que um amigo foi a uma terra onde havia um santo No Tempo, de Lisboa (n.° 493, de 3i de maio de 1890) publi­
milagreiro, advogado contra as sezões, pedio o doente a esse amigo quei mais outro conto michaelense, de que não conheço nenhum
que lhe trouxesse umas raspaduras dos pés do Santo, que decerto paradigma moderno, (*) mas de que, se a memória me não falha,
sararia com isso. O sujeito foi, mas ou porque o sachristão da existe um parallelo na litteratura budhica da índia.
egreja não consentisse que tocassem na imagem ou porque se es­ Eil-o, conforme o recolheu da tradição oral o meu prezado
quecesse, o certo é que não trouxe as taes raspaduras. Ora, como amigo e talentoso poeta Eugênio Moniz:
tivesse de atravessar um rio, foi-se a um pau da barca e raspa que
raspa, lá conseguiu arranjar umas raspas de madeira que levou ao
amigo. Havia uma mulher que vivia muito mal com seu marido, o
Este tomou-as immediatamente num copo de agoa e curou-se. qual todos os dias lhe batia, quando chegava do trabalho.
Depois d’isto, dizia o pobre do homem quando tal vio: — O que Um dia a mulher foi á fonte e poz-se a chorar, dizendo mal á
salva é a fé, nanja o pau da barca. sua vida, quando lhe appareceu uma velhinha, que lhe perguntou
Este conto foi passado em Lordello. Quem quizer saber se foi o que ella tinha.
verdade vá lá sabel-o. A mulher contou-lhe a vida que levava com o marido, e então
a velhinha disse-lhe assim:
Acabou a historia — Vae, minha filha, para tua casa, e quando entrar o teu ma­
Porque morreu o burro á Victoria. rido toma uma bochêcha da agua d'esta garrafa, porque emquanto
a tiveres na boca o teu marido não te hade tratar mal.
A mulher foi para casa e assim fez.
Também Bernoni achou uma versão d’este conto em Veneza,
que Gubernatis cita na sua Mvthologie des Plantes, vol. 1, pag. 17. (*) Cfr., porém, no mesmo genero, o conto portuense «Os dez anóesinhos
No conto veneziano figura também um homem atacado da febre. da tia Verde Agua», publicado por Th. Braga.

44

DRaC-CCA
D'ahi a dias já elia vivia muito bem com o marido; mas, aca­ historia da Carochinha e do João Ratão era então o meu enlevo,
bou-se a agua e ella foi procurar a velhinha, que lhe appareceu como já no século XVII, no tempo de D. Francisco Manuel de
outra vez e lhe disse: Mello era «o feitiço das crianças» (Feira dos Anexins); e mais
— A agua que eu te dei era agua da fonte, mas, emquanto a tarde, quando a reencontrei nas margens do Ganges, na Grécia,
tinhas na boca não podias responder a teu marido, e por isso elle nas províncias da Italia, na Lorena, na Catalunha, por todo o Por­
se calava. Vae para a tua casa e quando elle ralhar, imagina que tugal, e em tantas outras partes, quando descobri nella uma re­
tens a boca cheia e não lhe respondas, se queres viver em miniscência do mytho de Indra, porventura a descripção completa
paz. da revolução que se effectua nas vinte e quatro horas do dia, con­
D’ali por diante nunca mais viveram mal. soante a interpretação de Gubernatis, o seu estudo scientifico, feito
para o meu livro sobre a litteratura oral do Fundão, deu-me ainda
horas de um ineffavel praser intellectual, tão puro e intenso como
A novellistica popular dos Açores é um campo muito rico, onde o que a sua audição ingénua me causára no passado. E, como essa
resta muita flor para respigar. Uma das mais bellas é a velha his­ admiravel flor do campo opulento da tradição açoriana, quantas
toria da Carochinha, de que o sr. dr. Theophilo Braga publicou, outras, rescendendo igualmente o delicioso perfume de poéticos
primeiro na Revista de Estudos Livres (anno II, pag. 66 seg.) e mythos, estão á espera de uma piedosa mão que as colha e de uma
depois no Povo Portugue^ (vol. II, pag. 437), uma lição com forma intelligencia carinhosa que as colleccione no herbario luxuriante do
estrophica, da ilha de S. Jorge, e que eu ouvi muitas vezes con­ folklore da nossa terra ?!
tar em S. Miguel, na minha infancia, dissolvida já em prosa. Essa Armando da Silva.

45

DRaC-CCA
Cemiterio de S. Joaquim — Ponta Delgada

46

DRaC-CCA
ANTHERO

Nenhum poeta foi mais do que Anthero discu­


A VIRGEM SANTISSIM tido em Portugal; nenhum moderno escriptor por-
tuguez foi como elle admirado no mundo inteiro,
Cheia de Graça, Mae de Miseric< DIA nem viu seus versos traduzidos em todas as linguas
da Europa.
I í Filho dos Açores, na ilha em que nascera quiz-
N’um sonho todo feito de incerteza, se-lhe a sua luz apagar ainda antes da hora que
De nocturna e indisivel anciedade, Deus lhe marcara. Uma nuvem escura, fumo da
É que eu vi teu olhar de piedade própria combustão de seu espirito, toldára-lhe o
E, mais que piedade, de tristeza... caminho em que, astro de primeira grandeza, se­
guia sua orbita.
Não era o vulgar brilho da belleza, O desanimo que lhe deu foi triste filho talvez
de muito sonho que elle sonhára, grande poeta
Nem o ardor banal da mocidade...
como era, portuguez de todo seu grande coração.
Era outra luz, era outra suavidade,
Sobre Anthero diz-se muito ou não se diz nada.
Que até nem sei se as ha na natureza... Fundo nos commove cada trecho de sua obra, obra
prima qualquer d’elles, e do que elles nos desper­
Um mistico soffrer... uma ventura taram nas almas lhe havemos de construir seu
Feita só do perdão, só da ternura pedestal. Então os que souberem lhe cantem um
E da paz da nossa hora derradeira.. . livro de psalmos; contentem-se os outros com a
mystica oração, que palavras não dizem, e com que
os espíritos se elevam aos altos cumes.
O’ visão, visão triste, piedosa!
Pelo espirito foi Anthero do mundo inteiro,
Fita-me assim calada, assim chorosa... pelo coração foi portuguez, bem o provaram os
E deixa-me sonhar a vida inteira! últimos annos de sua vida.
Gloria da humanidade, honra de Portugal, bem-
Anthero do Quental. dita seja a terra em que viu a luz.

c-" Pfnarmhc^r.
ZARA
Jo»quir, d: Arauto
ZARA ZARA
Feliz de quem passou por entre a magoa
E as paixões da existência tumultuosa, Fèlice c quei che volse inconsciente
Inconsciente como passa a rosa, Happy are those who pass midst sorrow'
Fra c tumulti di sua vita penosa,
E leve como a sombra sobre a agua. Or wordly passions which tumultuous
Come pàssa sui petali la rosa
Unconscious as the fower which scertts
E come unombra sull’ aequa fuggente.
Era-tc a vida um sonho: indefinido And iight as shadbws floatmg on the
E tenue, mas suave c transparente. Era il tuo giorno pari ad un beato
Acordaste... sorriste... c vagamente Thy life was bus a dream, as undefined
Sogno lieve, ma dolce c trasparente;
Continuaste o sonho interrompido. Though vague, ’t was sweet, transparent as the dawn.
Ricordasti... ridesti... e vagamente
Awakened,—thou hast smiled, —thcn through thy rnind
Continilasti il bei sogno troncato.
Swiftly the dream‘s continuous cour.sc was borne.
ClXUA Bcrtini Attoj. iMdtr.

ZARA lARA
Fclix cui licuit per curas porque dolorcs
Mortalis vitae transiluisse graves, Sall den, som fram bland lidclser och strider. Gltlckselig wer vorúberging am Wch
Ignarum ut rosa, sicquc levem tanquam umbra per amnem. Des Lebens und der Leidenschaft Getose
bland fUrd och nõd sin vlíg tillryggalagt
ovetande som rosen i dess prakt Unwissend, wie vorubergcht die Rose,
Vita tibi incertum somnium, at optimum, crat;
och lâtt som skuggan, der langs sjõn den glidcr. Und tlUchtig, wie der Schatten ob der Scc.
Expcrgisceris et rides; mox inscia dormis
Atque interruptum denuo somnium inis. Dem Leben war cin Traum—begriffen kaum
Lifvct cn drõm dig var, och nu dess minnc
A. 1.. dos Saltos V syns dig cn vackcr saga, slutad nyss. Und leicht, dess Licht und Lieblichkeit du trankest;
Du vaknade, du log... ty dõdens kyss Du wachtcst auf und Úchcltcst und sankcst
ej afbròt drummcn i ditt .barnasinnc. ZurUck in deinen unterbroch’ncn Traum.
Up-U. MQiuter.
Gõrax Bjõrkman. WlLNSLM StORIX.

ÍARA

bcliz quien no sintió de las pasiones


La violenta lucha tormentosa,
Uonservando inocente v candorosa
bus mas nobles y castas ilusiones.
ZARA
Fue su vida un ensueno indefinido SÁR1
De algo remoto v bello v refulgente, Hcurcux cclui qui passe au milicu des sanglots,
i ai despertar sonno y vagamente Des luttes, de la vic agitce et morose, Aldott a leny, mcly bútol mcnekalt,
Uontinuó su sueno interrumpida -Inconscient,— ainsi qu'on voit passer la rose, Nem érvcn meg õt létíink szenvedclyc:
Legerement, — ainsi qu’unc ombro sur les flots! Akâr rozsának ártatlan kchélye,
LUtS V/r>KP.T
Akár ámyck, mcly tcngerhabra.Qlt.
Ton cxistencc frêlc et vague fut un songe
Transparent et suave. — Eveillcc un moment Merõ álom volt ròvid életcd,
Tu souris. — Mais bientôt tu rcpris douccmcnt Csckélykc fêny, de cdcsséggcl tcle...
Lc rêve interrompu, que le trepas prolonge. Fõlcbrcdtél... s ím mosolyogtãl belo..
Abba hagytad... folytaiva szendcrcd!
AUxUi» Formom.
t.OMMT/1 Va!.AMIR.

48

DRaC-CCA
fascículo t<.0 C

DRaC-CCA
LOMBADAS & lainha das aguas de meza
co
Leve, estomacal e digestiva, MARÍTIMOS IIHAde&MW
pura, limpida e barata
° CAPITAL Reis Insulanos-1000 OOOS000°
RECOxMMEND A 1) A
Agentes em Lisboa
TODOS OS MÉDICOS
Rua de S. Jvlião 100,2 • *
eiljino
Deposito Geral
RUA ARCO DO BANDEIRA, 174 A 178 C. MAHONY & AMARAL
LISBOA
70, Rua Augusta, â.° — LISBOA
TELEPHONE 586
k ^llllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllliliiiiiiiiiiiiiiiiiiiiillllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllj:
METAES EM BRUTO: Aço, cobre, latão, estanho, chumbo em chapa, bar­
ras lingots.

ChHswnd© V. Emilio FERRO: Em barras quadradas, redondas e vergalhão. Vigamento de ferro


em T I U i cantoneiros e todos os mais aprestos para construcçòes. Ferro em
lingots para fundição. Chapas galvanisadas lisas e onduladas. Chapas de aço
CIRURGIÃO DENTISTA para caldeiras. Tubos de ferro, cobre e latão. Arame de ferro, cobre e latão.
........... DO :---------- I Folha de Flandres. Material fixo e circulante para caminhos de ferro. Rails de
aço e diversos perfis e pesos, vias portáteis. Machinas de vapor, gaz e petró­
Paltirqore college of dental surgery leo. Caldeiras. Boinbas. Machinas para industrias e agricultura. Machinas. Fer­
ramentas. Vidros polidos, foscos e de phantasia. Vidraça, lages de vidro (dalles).
Assucar, arroz, especiarias, drogas, productos ehimicos. Ascensores hydraulicos,
Consultas das 10 horas da manhã ás 5 da tarde Edoux & C."
CIMENTO
Çua $ova do ^Irpada, 81, í. Únicos importadores em Portugal e colonias do CIMENTO da Coinpagnie
LISBOA r des Ciments Parisiens, fabricado pelo notável engenheiro E CANDLOT.
jiii iinjniiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiíiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii
Fabrica de sabão — Telbal (Poço do Bispo)
Fabrica da licores, aguardente, genebra e cognacs —TELHAI (POÇO 00 BISPO)

Typ. d'«A »— Lisboa

DRaC-CCA
João Machado da Conceição Grand Hotel Central
LISRONNE
|K J. J.KUSE SOBRINHO Commissões
CUISiNE
VOE SPLENDIUE SVR DE TAGE

FRANÇaISE RENCMMÉE
Antigo alumno da academia de Bellas Artes
DO
e consignações Conforts modernes
Ascenseur, Ba ns, Salon ue lecture, etc.
RIO DE JANEIRO - ON PARLE T0UTES LES LANGUES
Promove vendas de cereaes, man­ PR1X MODÉRÉS
ATELIER DE PINTURA ESCULPTURA E DOURfiMENTOS teigas, queijo etc., etc.

Encarrega-se de paysagens, figuras, ornatos, decorações, pintura -EI


Fornece todos os generos d'esta Grand Hôtel Central
histórica, restauração de quadros antigos, letras, imitação de mármore §4- capital, consumidos nos Açores, LlsBON
e madeira, scenographía. frescos, aguarellas. pintura e douramento em *
■> nas melhores condições, levando S1TUATED ON THE SHOBE OF THE TAGUB
egrejas, carnações em imagens, esculptura de imagens e retábulos, Wilh magnificent panorama
trabalhos de architeclura, desenhos e plantas para construcções diver- aos seus freguezes os minimos pre­
sas e todos os trabalhos pertencentes á arte, mesmo fóra da ilha. ços do mercado. MODERAT PRICES
Grande variedade de clichés photographicos dos Açores. EXCELLENT FRENCH CU>SINE
PRtÇOS CONVENCIONAES ALL LANGUAGES SPOKEN
Ilha, do Fayal- AÇORES Rua dos Correeiros 6 — LISBOA Unrivulled for its Gomfort
Lift, Baths, Reading room dark room,
Adresse tslegraphico etc.
HACHE-L1SBOA ' --- •JBBKHBIBkhkk

^/llllll llllllllllll llllll llllllllllll llllll llllllllllllllllll llllll llllllllllll llllll llllllllllll llllll\

Campeão & C.‘


DASA de MO e LOTERI AS
Chá Canto ATELIER PHOTOGRAPHICO

Esta casa possue para as loterias, quer


ordinanas.quer extraordinárias, um varia­
do sortimento de numeros em bilhetes,
Agradavel, puro, hygienieo e colhi- ||
do da genuína planta do chá.
JOSÉ G. CARDOSO
décimos e cautellas. O CHÃ CANTO só se vende em pa­ 3, RUA DE S. PAUDO, 3
Compram e vendem pelos melhores pre­
ços, libras, ouro portuguez e todas as moe cotes de 50, 120, 240 e 580 réis, com HORTA
das nacion es e estrangeiras, notas dos marca registada, para garantir a sua
bancos de Hespanha, França, Inglaterra, pureza e qualidade e em latas illustra- I N’este estabelecimento tiram-se retratos em grande variedade de processos e
Italia, etc.
Descontam vales do correio, vendem le­ das de 750 réis, lacradas na tampa tamanhos por preços baratíssimos.
tras, sellos e papel sellado. para egual garantia. Magnifico.» retratos a crayon, de differentes tamanhos, pelo
Para ò CHÃ CANTO ter um optiino original com a maxuiia perfeição, ou por pholographia antiga não
118 —RIA DO AMPARO—118 sabor, é pr> ciso ser feito ein pouco deixando nada a desejar.
mais de metade da porção empre­ avkSi Fazem-se bellos passepartoiits de cartão especi ’
NUMERO TfliPHONICO 53 sada por qualquer outra qualidade de RW/!' ' e 1ua,lros t|Ue se enlre£am promptos a col-
chá. ” fí7Í7 /■ÀVfcÊ’1 'ocar nas 6a*a9,
ENDEREÇO TELEGRAPH1CO
Campeão-- Lisboa
O CHÃ CASTO encontra se á venda
nas principaes lojas de chá e mer- j
WMÍHwlW
cearias. ^llllll llllllllllll llllll llllllllllll llllll llllllllllllllllll llllll llllllllllll llllll llllllllllll llllll<

DRaC-CCA
^IIIIIIIIIIIIIHIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIHIIIIIll illlllllllllllllllllllllllllllllllllllllllll^

ONSER VARIA TALIANA


__y Casa fundada em 1846
por M. G. FERRARI

Especialidade em doces d’ovos, neve e doce de copa. Con­


servas de fructas. Bolachas e biscoitos das melhores
fabricas inglezas e fnncezas.
Vinhos finos nacionaes e estrangeiros. Lico-
res de todas as qualidades, cognacs,
PREMIADO com a 4 tf * f** J rhura, vermouth, bilter, etc., etc.
medalha de 1.* classe na Exposi- /
ção Internacional do Porto em 1865 e '
em varias outras exposições. -O

FORNECEDOR DE S. S. MAGESTADES
FORNECE esmeradamente serviços com-
pletos de almoços, lunchs, jantares, soirées e bailes,
encarregando-se de toda e qualquer encommenda inhe-
k rente á sua arte tanto no continente e ilhas como África e Brazil

91, BDA NOVA ©0 ALMADA


LISBOA
412 Endereço telegraphico CONSERVARIA

ãllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllll| |lllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllíH

DRaC-CCA
A BRETANHA MICHAELENSE
(UM PROBLEMA ETHNOGRAPHICO)

que os forasteiros topam logo á entrada dos povoados da Breta­


nha.
Não é preciso pôr em fóco a exactidão e a verdade do dese­
nho, assim como os effeitos graciosos e realísticos do colorido da
tela original.
Os créditos de José d-Arruda Pereira, como paisagista, estão,
ha muito, firmados, nem aqui se trata de critica de Arte. Outro é
o alvo d’esta noticia. Reproduzindo o notável estudo do nosso
conterrâneo, tão sympathico na sua modéstia, quão estimável no
seu senso esthetico local, tivemos apenas em vista dar uma forma
concreta e tangível a algumas considerações, de caracter erudito,
que nos foram suggeridas pelo Problema ethnographico e ono­
mástico da Bretanha michaelense.
O que adeante se diz, por exemplo acerca das casas bretãs,
com as empenas fazendo frontaria para a estrada, fica a preceito,
evidenciado na paisagem de José d’Arruda Pereira. Nem que elle
Caminho do Moinho
previsse que algum dia o rincão do seu gracioso moinho, havia
de servir para illustração d’uma noticia acerca da nossa querida
gravura supra, representa um dos trechos mais pittorescos Bretanha!
A e mais caracteristicos da Bretanha, a freguezia que, na parte
de oeste, forma o topo septentrional da ilha de S. Miguel.
Isto dito, entremos no nosso assumpto.

E' a reproducção duma tela a oleo de José d'Arruda Pereira, *


que os visitantes da recente Exposição de Ponta Delgada tiveram
occasiao de admirar, no Pavilhão especial dos Amadores de Bellas Não ha forasteiro aqui vindo, que não faça reparo no nome
Artes de ^Bretanha, dado a uma extensa freguezia, situada no extremo
As qualidades do quadro correspondem aos talentos reconhe­ Occidental d esta Ilha - freguezia que tanto se distingue pelos es­
cidos do auctor e dão a palpitante nota da paisagem sui generis pecialíssimos Caracteres physicos e moraes de seus filhos.

49

DRaC-CCA
Nos Materiaes para o Estudo anthropologico dos Povos Aço- Mas a concordância,
reanos — (p. 76) diz Arruda Furtado que a gente da Bretanha é ou melhor, a harmonia da
notável pelo seu typo physionomico distinctissimo, d’uma correc- definição tppica dos Gru­
çao excepcional em ambos os sexos. pos francês e michaelense
«—E' lá — accrescenta elle — que se encontra aquella curiosa é mais intima e mais pro­
appellidação pelas mães; é lá que acabo de encontrar um systema funda do que talvez pode­
de habitação que ainda não encontrei em mais parte nenhuma da ria julgar-se pelas méras
ilha: — a borralheira, lareira primitiva, com um rudimento de approximações que os fo­
chaminé, sem abertura mais que uns interstícios, e o forno, longe rasteiros, leigos daanthro-
da casa, no meio do quintal, ao ar livre e sem pequena casa pró­ pologia, são levados a es­
pria ; e isto encontra-se em grande numero de casas, e sempre tabelecer á primeira vista.
nas mais pobres, isto é, nas que melhor representam os estados Ha de facto tal iden­
primitivos —». tidade ou tal parallelismo
Provirá a nossa Bretanha de alguma Colonia celtica, da Bre­ de Caracteres physicos,
tanha francesa, estabelecida aqui nos primeiros tempos da Colo- moraes e sociaes entre o
nisação henriquina? Serão realmente bretões os nossos Bretões ? Bretão francês e o Bretão
Não autorisarão esta hypothese os Caracteres anthropologicos michaelense, que, quem-
dos Povos d’aquella localidade, cuja elegancia de estatura, finura quer que os haja estuda­
de tez e delicadeza de feições, se salientam tão singularmente em do, conforme as normas
contraste com todos os Habitantes das Terras circumvisinhas? das Sciencias ethnologi-
Não será a persistência da pronuncia arrastada e dolente que cas, cada qual no seu Carro e petrechos de lavoura
elles exhibem a par dos seus uu, propriamente franceses, uma Meio natural não poderá
prova mais, além das que se derivam da Toponymia— Bretanha deixar de concluir pela admissão duma commum origem ethnica.
e Jean-Hon (Jam-Bon)? Assim, o que era méra suspeita ou hypothese para viajantes,
Indubitavelmente, taes factos não são productos do Acaso, sem autoridade especial na matéria, passa a ser uma opinião jus-
méros caprichos humanos ou sequer bem combinadas convenções tificadamente plausível e demonstrável para qualquer Naturalista,
sociaes. E’ mistér reconhecer que elles devem ser explicados, con­ com pratica de observações minuciosas que se proponha versar
soante o que a Historia local e a Sciencia nos ensinam. este importante objecto.
A concomitância da Toponymia com os Factos linguísticos e Quem escreve estas linhas teve a fortuna de se encontrar em
anthropologicos gera ás primeiras observações a supposição duma circumstancias favoráveis, não diremos já para resolver o problema,
communidade de origens ethnicas entre os Celtas da Baixa-Bre­ mas para lhe fornecer algumas contribuições que talvez o escla­
tanha e os nossos camponezes da Ajuda e dos Kemedios. reçam a certos respeitos.

DRaC-CCA
Convidado, por uma gentileza sem igual, a passar alguns dias um pouco guttural, nos homens,
do Outomno de 1887 em Pornic, praia de banhos das proximi­ imprimindo dolências graciosas
dades de Nantes, onde o nosso tão venerando como saudoso mes­ á entonação da voz, a longa pró-
tre, M. Fouqué, possue um gracioso chalet, no qual nos hospedou lação das vogaes nas phrases ex­
com aquella affabilidade de que só os francezes teem o segredo, clamativas ou admirativas das
pudemos, graças a esta circumstancia, ver de perto o que consti- creanças e gente meça, todos
tue o fundo ethnographico e anthropologico das populações mais estes Caracteres deram-nos uma
typicas da Baixa-Bretanha, tanto do litoral como do interior. illusão perfeita do Bretão mi­
Ora, em todas ellas se nos deparou absoluta conformidade chaelense.
ethnographica com os Factos que conhecíamos da nossa Bre­ O caracter celtico deste Gru­
tanha. po já prendera vivamente a atten­
Os trajos das esbeltas raparigas, com os seus lenços atados no ção de dois nossos mallogrados
tronco, em fórma de tesoura, muito limpos, as vestes de ver a Conterrâneos, tão cedo roubados
Deus dos homens, a disposição das casas com as empenas, ali­ á Sciencia, quando ella mais ti­
nhando com o caminho e a entrada da casa, dando sobre um pa- nha a esperar dos seus talentos
teo coberto por uma latada de verdura, a fórma das alfaias da e estudos: — Francisco d’Arruda
lavoura, mórmente dos carros e dos arados, o interior das casas, Furtado, auctor do opusculo, aci­
a vida familiar, os hábitos da sociedade, emfim, tudo quanto nas ma citado, e Francisco de Paula
Lavrador
condições geraes dum Povo prende a attenção, póde dizer-se que e Oliveira, distinctissimo anthro-
é perfeitamente commum ãs Bretanhas, francêsa e michaelense. pologo e archeologo, a quem o nosso Pais é devedor de magis-
Ver uma é vêr a outra! traes trabalhos de investigação que Emilio Cartaillac a cada passo
Sob o ponto de vista ethnologico e linguístico, as relações de poz em relevo e aproveitou no seu optimo livro:—Les Àges pre-
semelhança são tão próximas que, encontrando-nos com campo- historiques de V Espagne et du Portugal. — Paris, 1886.
nezes dos arredores de Saint-Na^aire, nos pareceu estar em pre­ Em carta a Arruda Furtado (MATERIAES—p. 70) lembra
sença de alguns filhos da Bretanha michaelense!! Paula e Oliveira, acerca do problema da nossa Bretanha, que
O ar daquellas cabeças, meio-brchycephalas, narizes regula­ talve^ o phenomeno se podesse explicar pelo estabelecimento nos
res, finos, lábios delgados duma curvatura sempre predisposta Açores de colonos franceses.
para o sorriso benevolente ou compassivo, a proeminência do Esse typo chamado celtico é frequente na Bretanha, mais no
frontal, revelando um longo exercício cerebral, intelligente na raça, Auvergne, mais ainda na Saboia. Destas duas ultimas regiões é
a frequência dos olhos azues e verdes, com os cabellos claros, a pouco provável que tenha havido emigração para os Açores; mas
estatura elevada, gracil e delicada, a pelle setinosa e transparente talve\ não assim da primeira.
das mulheres, e, sobretudo, o falar vagaroso, pausado e reflectido, Consideremos particularmente este ponto.

DRaC-CCA
* Portugal muitos senhores e nobres franceses (se é que podemos,
assim chamar a esses aventureiros de sangue franko ou celta) que
A hypothese do estabelecimento na Bretanha duma Colonia attraidos pelas nossas continuadas porfias com os Mouros, que­
de Franceses, como lembrou Paula e Oliveira, é mal conciliável riam fazer fortuna pela guerra
com o silencio das Chronicas locaes que aliás consignam e refe­ Já no tempo de Affonso VI. de Leão, avô de D. Affonso Hen­
rem muitos factos de somenos importância. riques, tinha sido considerável a emigração de famílias de guer­
Um povoamento de extranjeiros naquella epocha, só se pode­ reiros, dalém dos Pyrineus.
ria dar com altos patrocínios e influencias políticas, como p. ex. Foi numa dessas levas que veiu o Conde D. Henrique, de
foram os da Infanta D. Isabel, irmã de D. Duarte, que de Flan- Borgonha, a quem aquelle rei mais tarde deu a mão de sua filha
dres enviou levas de colonos para a Ilha do Fayal, chegando a D. Tareja com a administração do Condado Portucalense.
constituir-se alli a freguezia dos Flamengos. D. Henrique, por seu turno, querendo radicar a sua soberania
Em tudo isto estavam envolvidos largos interesses mercantis e pensando já. na independencia do Condado que lhe fôra confiado,
e vistas de predominio político da Casa de Borgônha que explicam tratou de chamar para junto de si grande numero de conterrâneos
a tentativa da colonisação extranjeira e dão, por isso, certa des­ com os quaes chegou mais tarde a constituir um forte núcleo de
culpa aos que o attribuiram á Duqueza D. Isabel a alta donataria resistência á hegemonia de Leão.
das Ilhas do Fayal e Pico. As Cruzadas favoreceram esta introducção de sangue francês.
Nenhuma, porém, d’estas condições políticas ou commerciaes Muitos dos Cavalleiros que se dirigiam á Terra Santa por cá
se dava a respeito da nossa Bretanha — rústica freguezia sem im­ ficaram, dominados pelos favores com que os reis portuguêses
portância alguma, ainda não ha um século! galardoavam os seus serviços, na guerra contra os sarracenos.
Seria possível que aportassem naufragos d'alguma embarcação E assim que D. Affonso Henriques doou Villa-Verde a
francêsa ? D. Allardo, espião francês que o ajudára á conquista de Lisboa.
O facto nada tem que maravilhe; mas parece-nos que, por Ce\imbra foi também doada com grandes privilégios e fóros aos
não contar a seu favor o menor argumento ou prova, deve ser Francêses que em 1199 auxiliaram D. Sancho I, na sua lucta con­
posto á margem. Tanto mais, que navio francês naquellas eras tra os Mouros.
só poderia ser de piratas que andassem a corso. Ora, sendo as­ Athouguia foi povoada em 1165 por Wilhelmo de Cornes e
sim, temerosos como andavam com as depredações, não consen­ seus companheiros, em prémio de grandes serviços prestados a
tiriam num desembarque e muito menos na constituição duma D. Affonso Henriques na tomada de Lisboa.
freguezia nova no proprio solo da Ilha! A A^ambuja também foi povoada com o nome de Filia Franca
Fica assim rejeitada a hypothese do estabelecimento duma em 1149 por D. Childe Rollim, filho do Conde de Chester, de
Colonia de Bretões vinda directamente de França. origem bretan, que praticou gloriosas façanhas na conquista de
Vejamos agora uma hypothese nossa. Lisbôa.
E" sabido que no começo da monarchia se estabeleceram em Finalmente, temos a Lourinhan, cujo donatario D. Jordão,

52

DRaC-CCA
Cavalleiro francês, a alcançou de voar o sul do reino, onde escaceavam em demasia os habitantes,
D. Affonso Henriques por servi­ mandando-se vir expressamente colonos fóra do reino; e se além
ços de guerra. disso nos recordarmos do grande numero de povoações fundadas
Todas estas povoações se en­ por estes, bem como dos motivos que ha para suppôr que os pri­
contram na região central da Ex- meiros colonos attrahiam successivamente outros novos, conhece­
tremadura, muito próximas do remos que a influencia do elemento franco na povoação das nos­
Tejo e do Atlântico. sas províncias, especialmente na da Extremadura e do Alemtejo,
Os fôros que lhes foram ou- foi muito mais importante do que em Leão, porque se associou
thorgados pelos reis portugueses ao povo e contribuiu para augmentar a extensão e a força dos
fizeram delias centros perfeita­ grémios municipaes.»
mente autonomos, com vida, cos­ Em vista de tudo isto, não será estranho suppôr que a franka
tumes, lingua e tradições distin- estivesse viva e bem radicada nestas Colonias ao tempo do povoa­
ctas e especiaes, no meio das mento das Terras michaelenses — (meio do século XV.)
restantes Povoações do nosso Li algures, não me lembro onde, que os Foraes dos Frankos,
Reino. como os Privilégios das Mourarias e das Judiarias, foram dos que
offereceram maior resistência á reformação manuelina. Logo, é
Ouçamos o que a seu res­ porque a Vida daquellas Communas autonomas era ainda bastante
Trabalhadores
peito diz Alexandre Herculano consistente para se julgar uma violência o obriga-las a entrar na
na sua Historia de Portugal, vol. III (ed. 2.a), p. 215. lei commum do Reino.
«Crcaram-se municipalidades puramente compostas de francos, Isto posto, note-se que o Infante D. Henrique confiou a missão de
como a principio o foram a Athouguia, a Lourinhan, Villa-verde, vir reconhecer a Ilha de S. Miguel a um fidalgo que tinha a sua
a Azambuja, Cezimbra e Ponte do Sôr. As frotas dos cruzados, Commenda e a sua Familia precisamente na região do Pais, onde
ajudando á conquista de cidades importantes, taes como Lisboa e existiam as florescentes Colonias frankas, a que acima nos referimos.
Silves, deixaram ahi sacerdotes, que foram elevados ás primeiras Note-se mais, que esse fidalgo, Gonçalo Velho Cabral. Com-
dignidades das restauradas igrejas. Destes indivíduos falam os mendador de Almourol, a quem o Infante encarregou do povoa­
monumentos; mas devemos crer que muitos outros tomariam a mento de S. Miguel, recrutou o pessoal para a colonisacão em so­
resolução de ficar n’este paiz tão superior em tudo ao duro clima brinhos e em dependentes seus.
da sua terra natal. Effectivamente, restam-nos documentos em Que cousa, pois, mais natural que entre esses viesse alguma
que figuram nomes obscuros de estrangeiros. Espalhado entre os familia das citadas Colonias frankas, que conforme a secular tra­
naturaes, o seu numero seria difficil de apreciar já então, e hoje dição da raça, usasse d’um appellido tirado da terra da sua origem
impossível de avaliar; mas bastará lembrarmo-nos de quanto pre­ — de Bretanha, por exemplo ?
dominou, ao menos no reinado de Sancho I, o pensamento de po­ Quem sabe como os Franceses de hoje gostam tanto de con­

53

DRaC-CCA
servar nos appellidos estas lembranças dos seus solares e terras sas freguezias ruraes. e a intensidade da vida própria da coloni a
senhoriaes, não se admirará que em pleno século xv a maior parte mãe. explicam também satisfactoriamente a presistencia dos Ca­
dos nomes proprios. senão todos, fossem compostos sob esse typo racteres ethnographicos e anthropologicos que fazem do Bretão
commum. Conheço alguns d’elles usados em Portugal, por filhos michaelense um irmão de sangue do Bretão celta.
das Colonias frankas que não fazem excepção á regra: — João de Parece-nos que esta maneira de considerar o problema, quando
Ruam. João de Navarra, Tristan Foix, etc., etc. .. não o resolva, servirá, comtudo. para lançar nelle alguma luz e
Em conclusão, a existência do appellido Bretanha no nome talvez provoque Indagações que então conduzam os Ethnologos á
dalguns dos primeiros povoadores desta ilha, que seguiram aoCom- verdadeira solução.
mendador Almourol, é uma hypothese perfeitamente fundada, em Eugênio Pacheco
harmonia com o onomástico da epocha e com as seculares tradic-
ções, ainda vivazes, da raça francêsa. (Extracto duma communicação ao Prof. Vicenzo Grossi, em Outubro de
O isolamento, nos primeiros tempos da colonisação das nos­ 1897).

DRaC-CCA
MARQUEZES DA PRAIA E MONFORTE

Á o Álbum se referiu ás virtudes dos velhos viscondes da Praia. n’este mundo uma estrada, toda ella de luz, por onde o marquez
J Em meia duzia de palavras podíamos fazer o elogio do mar­
quez da Praia e Monforte, escrevendo simplesmente que foi digno
vae caminhando entre as bênçãos d’aquelles por quem reparte os
bens que a Providencia lhe doou.
herdeiro de seus paes. Revelou-se n’um filho pobre da ilha de S. Miguel uma luz de
Noblesse oblige. E que melhor nobreza pode haver no mundo talento, uma vocação, logo lhe acudiu a esmola que ha de ser pro-
do que esta que aos viscondes enflorou os brasões com lagrimas ficua. Estudam uns no seminário d’Angra, cursam outros a Uni­
de gratidão de toda uma população? versidade, outros ainda nas Academias conquistam glorias para si,
O marquez da Praia e Monforte, casando com a filha dos vis­ para a sua terra e para a mão que os protegeu, alcançando nome
condes de Monforte, d’uma antiga e muito illustre casa do Alem- d’artistas.
tejo. e augmentando assim a sua riqueza, ainda melhor poude mi­ Assim conseguiu o marquez que a chuva de bênçãos não pa­
norar males alheios, dando aos pobres, emprestando a Deus. rasse com a morte de seus paes e não se escondesse o raio de sol
O seu excellente coração, o seu espirito religioso, traçaram que penetrava nas choupanas dos pobres.

55

DRaC-CCA
A sua bizarria fidalga bem a provou quando da visita de Suas
Magestades á ilha de S. Miguel.
O filho mais velho do marquez, que usa o titulo de seu pae,
casou com uma filha do conde dos Olivaes; o segundo é marquez
do Fayal, titulo pertencente á casa de sua mulher, filha unica dos
duques de Palmella. O terceiro conserva-se solteiro. A filha dos
marquezes casou com D. Alexandre de Lencastre, illustre oflicial
de marinha, filho segundo dos condes das Alcaçovas.
Sobre sua cabeça encanecida ha como que uma aureola, e esta
espalha sufficiente luz para aos pobres levar uma aurora á sua
miséria negra, para aos seus ser o mais suave encanto a corações
de irmãs e de filhos. Seu peito, para toda miséria, contem o raio
de sol que leva o conforto, para toda a amizade é o cofre de ter­
nura e do bom exemplo.

Marquez da Praia e Monforte e suas irmãs as ex.“as sr.“ D. Carolina Borges da Camara
Medeiros d'Andrade Albuquerque Bettencourt, Condessa da Silva, Viscondessa das La-
ranjeiras e D. Maria Carolina Borges de Medeiros Sousa Dias da Camara. Palacio do sr. Marquez da Praia em Ponta Delgada

56

DRaC-CCA
FASCICUEO TV.“

DRaC-CCA
LOMBADAS 1 Rainha das aguas de meza
Leve, estomacal e digestiva,
pura, limpida e barata ^ES^
Sociedade anonyma de responsabilidade limita.

RECOMMEND ADA
° CAPITAL Reis Insulanos -1000:OOOS000
Agentes em Lisboa
TODOS OS MÉDICOS
DPTOEIKK &
Rua ds S.Julião 100,5?
Deposito Geral
RUA ARCO DO BANDEIRA, 174 A 178 C. MAHONY & AMARAL
LISBOA
70, Rua Augusta, SS.“— JLISJBOA
TELEPHONE 5S6
1111111iiiiiijimiiiijiiimiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiimnHiHiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiici]
METAES EM BRUTO: Aço, dobre, latào, estanho, chumbo em chapa, bar­
ras lingots. 4

Clarimundo V. Emílio FERRO: Em barras quadradas, redondas e vergalhão. Vigamento de ferro


em Tl Ui cantoneiros <• todos os inais aprestos para eonstrueções. Ferro em
lingots para fundição. Chapas galvanisadas lisas e onduladas. Chapas de aço
CIRURGIÃO DENTISTA para caldeiras. Tubos de ferro, cobre e latão. Arame de ferro, cobre e latào.
----------DO ■ Folha de Flandres. Material fixo e circulante para caminhos de ferro. Rails de
aço e diversos perfis e pesos, vias portáteis. Machinas de vapor, gaz e petró­
ISaltirqore college of dental surgery» leo. Caldeiras. Rombas. Machinas para industrias e agricultura. Machinas. Fer­
ramentas. Vidros polidos, foscos e de phantasia. Vidraça, lages de vidro fdallea).
Consultas das 10 horas da manhã ás 5 da tarde Assuear, arroz, especiarias, drogas, productos chimicos. Ascensores hydraulieos,

CIMENTO
Çua tíova do ^.Irqada, 81; 1. Únicos importadores em Portugal e eolonias do CIMENTO da Compagnie
LISBOA des Ciments Parisiens, fabricado pelo notável engenheiro E. CANDLOT.
I
""i.... ....................... ..... ........................ imiiiii...... .......................................... . Fabrica de sabão — Telbal (Foço do Bispo)
Fabrica da licores, aguardente, genebra e cognacs — TELHAL (POÇO 00 BISPO)
Typ. d'«A Ec. ■a» — Lisboa

DRaC-CCA
João Machado da Conceição Grand Hotel Central
LISBONNE Ç
Commissões VUK SPLEND1DE SUR LE TAGK

CUISINE FRANÇAISE REN0MMÉE

 ntigo e consignações Conforts modernes


DO Ascenseur, Bains, Salon de lecture, etc.
0N PARLE TOUTES LES LANGUES
Promove vendas de cereaes, man­ PRIX MODÉRÉS
ATELIER DE PINTURA ESCULPTURA E DOURAMENTOS teigas, queijo etc., etc.

Eucarrega-se de paysagens, íiguras, ornatos, decorações, pintura


Fornece todos os generos d’esta Grand Hôtel Central
histórica, restauração de quadros antigos, letras, imitação de mármore capital, consumidos nos Açores, LISI3ON
e madeira, scenographía, frescos, aguareilas, pintura e douramento em nas melhores condições, levando SITUATED ON THE SHOBE OF THE TAGUS
egrejas. carnações em imagens, esculptura de imagens e retábulos, With magnilicent panorama
trabalhos de architectura, desenhos e plantas para construcções diver­ aos seus freguezes os minimos pre­
sas e todos os trabalhos pertencentes á arte, mesmo fora da ilha. ços do mercado. MODERAT PRICES
Grande variedade de clichés photographicos dos Açores. EXCELLENT FRENCH CUISINE i

PREÇOS CONVENCIONAES x ALL. LANGUAGES SPOKEN


Rua dos Correeiros 6 — LISBOA Unrivalled for its Comfort
Ilha do Fayal- AÇORES
Lift, Baths, Reading room dark room,
Adresse telegraphico etc. pj
HACHE-LISBOA

Chá Canto
yiiiui Hiiiiiiiiii mm iiiiiiiimí miii iiiiiiiiiiiiiiiiii iiiui iiiimiiiii iiiiii iiiiiiiiiiii iiiiu1
f Campeão & C.a
ATELIER PHOTOGRAPHICO
CASA de CAMBIO e LOTERIAS —Sx-lF-
Esta casa possue para as lotarias, quer
ordinanas,qucr extraordinárias, um varia­
do sortimento de numeros em bilhetes,
Agradavel, puro, hygienico e colhi­
do da genuína planta do chá.
JOSÉ G. CARDOSO
décimos e cautellas. O CHÁ CANTO só se vende em pa­ 3
Compram e vendem pelos melhores pre­ 3
ços, libras, ouro portuguez e todas as moe­ cotes de 50, 120, 240 e 580 réis, com HORTA
das nacion es e estrangeiras, notas dos marca registada, para garantir a sua
bancos de Hespanha, França, Inglaterra, pureza e qualidade e em latas illustra- N’esle estabelecimento liram-se retratos em grande variedade de processos e
Iialia, etc.
Descontam vales do correio, vendem le­ das de 750 réis, lacradas na tampa tamanhos por preços baratíssimos.
tras, sellos e papel sellado. para egual garantia. Magníficos retratos a crayon, de diferentes tamanhos, pelo
Para o CHÁ CANTO ter um optimo original com a maxima perfeição, ou por pholographia antiga não
HS—RIA DO AMURO —118 sabor, é preciso ser feito em pouco deixando nada a desejar.
mais de metade da porção empre­ Fazem-se bellos passepartouts de cartão especial
NUMERO TELEPHON1CO 53 gada por qualquer outra qualidade de o quadros que se entregam promptos a col-
chá. locar nas salas.
ENDEREÇO TELEGRAPH1CO O CHÁ CANTO encontra-se á venda
Campeão — Lisboa nas principaes lojas de chá e mer­
cearias. ^IIIIII IIIIIIIIIIII IIIIII IIIIIIIIIIII IIIIII llllllllllllllllll IIIIII IIIIIIIIIIII IIIIII IIIIIIIIIIII IIIIII <

DRaC-CCA
Illlllllllllllllllllllllllllllllllllllllllll lllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllg

ONSER VARIA
Casa fundada em 1846
M. G. FERRARI

Especialidade em doces d’ovos, neve e doce de copa. Con­


servas de fructas. Bolachas e biscoitos das melhores
sí,?. fabricas inglezas e francezas.
Vinhos finos nacionaes e estrangeiros. Lico-
res de todas as qualidades, cognacs.
PREMIADO com a 4a Q, < ’ AJ »
~ rhum, vermoulh, bilter, etc., etc.
medalha de 1.a ciasse na Exposi-
cão internacional do Porto em 186.'» o '
em varias outras exposições. >.
FORNECEDOR DE S. S. MAGESTADES
FORNECE esmeradamente serviços com-
pletos de almoços, lunchs, jantares, soirées e bailes,
encarregando-se de toda e qualquer encommenda inhe-
rente à sua arte tanto no continente e ilhas como África e Brazil

91, BDA NfQVA DO ALMADA, 93


XjISEO^.
Endereço telegraphico —CONSERVARIA

illlllllllllllllllllllllllllllllllllllllllll |lllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllír=

DRaC-CCA
A CULTURA DO ANANAZ
Ananaz, cujo nome botâ­ ido propagando por diversos paizes, não se tendo podido averi­
O nico é Ananassa Sativa, ou
Bromelia A nanas, é uma planta
guar quando foi introduzido em S. Miguel.
São conhecidas differentes variedades d’esta fructa, mais ou
vivaz, da família das Bromelia- menos recommendaveis pelo seu gosto, tamanho, e precocidade de
nas, de folhas radicaes, de 6o a fructificação.
8o centímetros de comprimento, Em primeiro iogar appareceu o ananaz das West índias, de fo­
canaliculadas, de bordas espinho­ lhas muito espinhosas, fructo mediano, um pouco acido, e que ve­
sas na maior parte das varieda­ geta e fructifica bem ao ar livre. Esta variedade está quasi com­
des; na epoca da florescência pletamente abandonada.
lança uma haste succulenta de Ananas de Providence (vulgarmente chamado Providencia, de
3o a 5o centímetros d’altura, que fructo enorme, mas também quasi geralmente abandonado em con­
sustenta uma espiga oval ou có­ sequência do seu desenvolvimento muito moroso.)
nica, de flores azues, terminada Ananas Abecaxi, de fructo alongado, e um pouco avermelhado,
por um trifo de folhas a que se mas cuja cultura também se acha abandonada.
chama corôa. Estas flores, que Ananas Cayenna variegata, de folhas e fructo variegado de
mui raras vezes deixam de ser branco, fructo pequeno, e quasi abandonado, apenas cultivado como
estereis, são acompanhadas por curiosidade para ornato.
Ananaz aborto
uma pequena bractea, que depois Ananas Cayenna de folha lisa, (raras vezes tem alguns espi­
da queda das flores intumesce, nhos nas bordas) de fructos médios, e algumas vezes grandes, não
e agglomeradas umas ás outras são outros tantos fructos de tal sendo raro encontrarem-se fructos com o pezo de 6 kilos e mais.
modo adherentes entre si, que é impossível desagregal-os, for- E’ este o que se acha geralmente cultivado na ilha de S. Miguel.
mando todos como um só fructo. não só pela sua boa qualidade, como pela facilidade da sua cul­
O ananaz é originário das regiões tropicaes da America, e foi tura.
introduzido na Europa em meado de xvn século, sendo cultivado E' cultivado, sem excepção, em estufas. Estas são construídas
primeiramente na Hollanda, para onde foi trazido por mr. La Cour, de duas maneiras. Ou de uma só vertente, e n’este caso escolhe-se
e cultivado primeiramente em Drieboch, d’onde foi levado para a quanto possível, que a inclinação da vertente seja voltada ao Sul,
Inglaterra, e ali principiou pela primeira vez em iyi5. D’ali se tem para receber directamente e durante todo o dia a luz e calor so­

DRaC-CCA
lar; ou de duas vertentes, sendo então uma voltada ao Nascente e pouco usado, sendo apenas aproveitadas para este fim as cascas
outra ao Ponente. Não são applicados esquentadores ou thermo- d'aquelles fructos que por serem defeituosos, ou extremamente pe­
syphons para o aquecimento das estufas, as quaes são apenas quenos não servem para exportar, e são consumidos pelos donos.
aquecidas pela acção do sol, ajudando-se o aquecimento da terra As plantas depois de destacadas das plantas mães, são planta­
por meio d’uma estiva de folhagens ou ramos verdes collocados das primeiramente n’uma estufa, chamada de multiplicação, em
no fundo da estufa, que por meio da fermentação aquecem a terra. tudo egual ás outras estufas, a distancia de 20 a 3o centímetros
Preparada d’este modo a estufa, com uma estiva, como acima umas das outras, e onde ficam a desenvolver-se até ao plantio de­
se disse, de cerca de 20 centímetros, é-lhe lançada em cima a terra finitivo na estufa em que devem fructificar.
para a plantação dos ananazes, e que é composta de terra de matto Também se faz a multiplicação por meio dos troços, ou tron­
(bruyère) misturada com um terço, pouco mais ou menos da terra cos das plantas depois de colhidos os fructos, e que collocados
que já serviu na cultura do anno anterior. Para se fazer a planta­ deitados numa estufa, cobertos com uma camada de terra de 6 a
ção, e a fim de que a terra não fique calcada, lança-se primeira­ 8 centímetros d’altura, desenvolvem grande numero de rebentos,
mente a terra necessária para uma linha de plantas, distanciadas que depois destacados d'aquelles troncos são tratados como os re­
umas das outras cerca de 60 centímetros. Terminada a plantação bentos que se extrahem das plantas onde se desenvolveram late­
da primeira linha, lança-se mais terra para fazer a plantação da ralmente.
segunda, na mesma distancia da area de 60 centímetros, prose- Plantada definitivamente uma estufa, para fructificar, conserva-
guindo da mesma maneira até terminar a plantação da estufa. Para se-lhe um temperatura de 25 a 35 graus Centígrados, e a terra
o tratamento das plantas costumam as estufas ter em toda a sua ligeiramente húmida. A falta de humidade prejudica o desenvolvi­
extensão ruas, que são de duas maneiras. A primeira e mais com- mento da planta, e sendo demais facilita o desenvolvimento de
moda é aquella em que o pavimento das ruas é mais baixo 60 a parasitas, cocos, a que os cultivadores d'ananazes chamam vulgar­
70 centímetros do que o nivel da terra do plantio, a qual é susten­ mente bicho.
tada por meio de duas pequenas paredes de supporte, chamadas Quando a planta está soffrivelmente desenvolvida, provoca-se
vulgarmente maineis. A segunda maneira de fazer aquellas ruas a florescência, contando que a fructa, para se desenvolver comple­
é um passadiço, geralmente de lageamento, de cerca de 60 centí­ tamente, gasta cerca de 6 mezes; por este motivo se fórça a planta
metros de largura, e no mesmo nivel da terra do plantio. Este ul­ a florescer por egual, e também para serem colhidas as fructas no
timo systema, por occupar muito menos espaço é que está sendo tempo que se deseja.
geralmente adoptado, embora tenha o inconveniente de ser mais Devido a um puro acaso, foi descoberto o systema de se poder
incommodo. forçar a planta a fructificar. Um cultivador que tinha uma estufa
A multiplicação da planta faz-se por meio dos rebentos que se edificada sobre uma abobada, mandou queimar debaixo d’esta uma
desenvolvem no tramo, e pode também fazer-se por meio da casca, porção de folhagens, e como a abobada não fosse bem fechada,
mas como esta acompanha sempre o fundo que se exporta, e a encheu a estufa de fumo, o que fez receiar a perda das plantas.
grande maioria da cultura é para exportação, por isso é muito Mas, contra toda a espectativa, não só se não perderam as plan-

58

DRaC-CCA
estufa, dentro de um alguidar, um tubo, como um cortiço de
barro de cano largo, e os mais abastados um tubo de ferro
de 3o ou 40 centímetros de largura e 60 d’altura, com fu­
ros lateraes dentro do qual é queimada uma porção de fo­
lhagens ou hervas meio verdes, de modo que ataquem a
estufa de fumo; a estufa deve estar bem fechada para o
fumo ahi se concentrar bem.
Repete-se esta operação 4 ou 5 vezes no mez, durante
o qual não é regada a estufa, sendo o em abundancia depois
e a fructificação é segura no mez seguinte. Já em tempo foi
dada esta noticia para o Jornal de Horticultura Pratica, que
se publicava no Porto, onde foi dada com certa reserva,
deprehendendo-se que não era acreditada, ficando á conta
de quem a tinha dado, embora a respeitabilidade do seu
nome estivesse acima de toda a duvida. (Foi o fallecido
dr. Ernesto do Couto quem deu a noticia).
Chegando os fructos ao seu completo desenvolvimento,
e quando teem perdido a côr verde, começando a amadu­
recer, são colhidos para serem exportados, na maior parte
para Inglaterra e Allemanha. Colhidos mais verdes, man­
cham, ficam ácidos e de má apparencia, e sendo muito ma­
tas, mas no mez seguinte estavam todas floridas, incluindo uma duros deterioram-se na maior parte durante a viagem.
coroa que pouco tempo antes tinha sido plantado n um vaso. Quando é necessário colher os fructos com alguns dias de ante­
Succedeu isto em 1868 ou 1869, e pouco depois um outro cul­ cipação, para que não amadureçam de mais antes de serem ex­
tivador, que tinha uma estufa com um fogão n um extremo, e com portados, são estes pendurados em casa, em parte arejada, onde
encanamentos por baixo da terra para a aquecer, notou que as a sua maturação é mais vagarosa.
plantas aquecidas por este modo não tinham florescido, ao passo A exportação no anno de 1901 foi de 85o:ooo fructos para pai-
que uma outra estufa contígua, que aquelles encanamentos tinham zes estrangeiros. Addicionando-se a este numero o dos que são
enchido do fumo, floresceu toda no mez seguinte. D’aqui se pas­ exportados para o continente do reino, e os consumidos 11’esta ilha,
sou a fazer experiencias, e hoje é pratica seguida por todos os cul­ conclue-se que deve ser superior a 900:000 a sua producção.
tivadores, forçarem as suas plantas a florescer na epocha que de­
sejam, e todas com egualdade. Para este fim collocam no meio da Evaristo Soares de Menezes.

DRaC-CCA
DRaC-CCA
CONDE DE JACOME CORRÊA
ui intimo de mais de Pedro Ja­ zes, succedeu no vinculo dos seus antepassados, e foi tal admi­

F come Corrêa — Conde de Ja­


come Corrêa — para lhe fazer a
biographia.
nistrador que ao cabo de largos annos de constante e intelligen-
tissimo trabalho, deixou, senão a maior, uma das maiores casas
de todo o archipelago açoriano. Quando tivesse tido a paixão po­
Dos que são muito nossos, te­ lítica, chegaria ás eminências do poder e estou convencido que
mos sempre certo acanhamento em nenhum dos financeiros do nosso paiz lhe daria de rosto. Genti­
lhes pôr as qualidades em eviden­ líssimo homem; os dois irmãos eram tão parecidos que chegavam
cia e relevo. Cedendo, porém, ao a confundir-se como gemeos. Amavam-se extremosamente. José
amavel e instante pedido dos pro­ Jacome tinha a palavra facil e in­
prietários do Álbum Açoriano es­ sinuante. Organisação singular!
creverei. ao correr da penna, al­ A primeira vez que estive em
gumas linhas sobre o homem com S. Miguel — 1866 a 67 — pas­
quem vivi, como irmão, por uns sava elle dos cincoenta. Um dia
bons cincoenta annosConheci-o disse-me: «Olha, agora é que cu
nos primeiros dias da minha mo­ principio a ver uma que outra
cidade. Era mais velho do que eu nuvem no horisonte; até aqui
doze annos. Nascera em 1817, eu tudo me tem parecido azul e côr
em 1829. de rosa.» Queria exuberante-
José Jacome Corrêa
Elle, concentrado ou, direi an­ mente ao seu paiz; queria-lhe
tes, medindo sempre pela refle­ tanto, que para não ficar atrás
xão as suas palavras e os seus actos. Eu, expansivo. Talvez esta dos seus parentes e amigos, é
antithese concorresse para apertar a nossa inalterável estima. Sei que se resolveu a visitar Lis­
que a maior finesa que lhe devi, entre tantas que trocámos, foi ter boa, Londres e Paris.
tido mão, por vezes, nos impctos do meu caracter. Nasceu na ilha Passados muitos annos, vol­ Conde de Jacome Corrêa
de S. Miguel e pertencia a uma familia das mais illustres dos tou a Lisboa, a conselho dos
Açores. médicos; demorou-se pouco e sempre suspirando pela sua ilha. Ti­
Seu irmão José Jacome Corrêa, mais velho uns dezoito me- nha rasão, porque S. Miguel é uma terra encantadora!

6l

DRaC-CCA
Pedro Jacome - Conde Deputado muitas vezes, com praça assente no partido regenera-
de Jacome—muito moço, dor, manteve-se firme no posto de soldado sem medo e sem macula.
saiu da ilha, para correr as Como não sei elogiar de thuribulo na mão, direi apenas que o
principaes cidades da Eu­ conde de Jacome era, principalmente e acima de tudo, homem de
ropa e desenvolver a sua bem. Fui padrinho do seu casamento e padrinho do seu filho;
educação em França. Es­ — era meu visinho na rua do Prior. Um dia de manhã entrou em
teve sete annos em Paris. minha casa. Vinha tremulo e chorando como uma criança. A custo
Era um cerebro lúcido, ra­ disse-me: — «Lé esta carta e vê que desgraça!» A carta era do
paz estudioso e de caracter irmão, que havia tempos adoecera, mas não denunciando sympto-
firme. Naquelle mundo, mas graves. De principio a fim a carta revelava que a cabeça que
onde as seducções
maream muitas ve­
zes as cabeças mais
seguras, manteve
sempre a sua pru­
dência e sisudez.
Nesse genero foi
modelo. Lembro-
me que num grande
MarQuez de Jacome Corrêa
jantar, dado no
Matta a Alexandre Herculano, José Estevam fez-lhe uma
saude, e entre outras coisas disse-lhe: «Bebo á saude do
rapaz mais serio que tenho conhecido em toda a minha
vida.»
De Paris veio para Lisboa, e na grande roda d aquelle
tempo foi dos moços mais bemquistos e apreciados.
Como o irmão, era gentilíssimo. Alto, cabeça arejada
resaindo dos hombros largos e descaídos; cabello negro e
ás ondas; olhos expressivos e luminosos; ar senhoril e pri­
morosa educação. Teve admiradoras, e elle admirou tam­
bém muito. Não lhe faltaram boas fortunas sem que jamais
se pavoneasse com as vaidades pequinhas de conquistador. Palacete do Marquez de Jacome Corrêa em Ponta Delgada

62

DRaC-CCA
a tinha ditado estava completamente perdida! Dahi a dois dias de Jacome Corréa, que o adora, e é exemplo de mãe como o foi
partiu para S. Miguel. Pouco depois da sua chegada, morria o de esposa. O marquez de Jacome, cultivando as faculdades nati­
irmão. O conde de Jacome tomou posse da sua grande casa e não vas, póde e deve representar brilhantemente o nome distincto e
fez senão augmenta-la durante uns dez annos que ainda viveu. O honrado que herdou de seu pae. Se lhe chegarem á mão estas
seu amor pelo filho era uma cegueira; amor absoluto e que o palavras, guarde a recommendação que lhe faz aqui agora o seu
absorveu completamente até á morte. O actual marquez de Ja­ velho padrinho: Cautela com as solicitudes de amigos numerosos
come Corrêa, o meu Ayres, é um bonito rapaz; vivo, robusto, e extremamente dedicados, nacionaes e estrangeiros!
sympathico, de boa indole e intelligente. Ha mais de dois annos
Monte de Caparica, Torre. go3.
que viaja pela Europa. Agora, segundo me dizem, está em Bru-
xellas estudando, acompanhado por sua mãe, a senhora condessa Bulhão Pato.

63

DRaC-CCA
ILHA SABRINA
o dia 13 de junho de 1811, cerca de mil e du­
N zentos metros de distancia de S. Miguel, houve
uma tremenda erupção submarina, da qual resultou
a ilhota representada na parte inferior da gravura
junta. No dia 17, o capitão Tillard, commandante
do navio de guerra inglez Sabrina, e Mr. Read, côn­
sul britânico cm Ponta Delgada presen-
cearam parte do phenomeno, da costa
dos Mesteiros, logar mais proximo. A
sua apparencia, quando menos agitado,
era a dum immenso corpo de fumo
branco, girando quasi horisontalmente
sobre a agua; de quando em quando
subia, subitamente em successivas co-
lumnas espiraes de fogo, cinza e pe­
dras, a uma altura não inferior a 800
pés. Estas erupções eram acompanha­
das de vividos clarões e de continuo
ruido semelhante ao troar de peças.
Pelo dia 4 de julho estava comple­
tamente formada a ilhota. O capitão
Tillard e alguns dos seus ofliciaes des­
embarcaram então na nova ilha. A sua
forma era quasi circular, tendo cerca
d’uma milha de circumferencia e a al­
tura de 3oo pés. Do lado de S. Miguel,
abria-se a cratera, d onde corria uma
Vista da erupção que se deu ao té da costa N. O. da ilha de S. Miguel, da qu RESULTOU A ILHA SaBRINA
torrente d’agua a ferver. Desde outu­
Configuração da ilhota e da cratera bro de 1811 a ilha foi desapparecendo.

64

DRaC-CCA
FASCICUEO K.° /

DRaC-CCA
LOMBADAS ft Mainha das aguas de meza
Leve, estomacal e digestiva,
pura, limpida e barata
RECOMMENDADA
2«o:eb

TODOS OS MÉDICOS

Deposito Geral
RUA ARCO DO BANDEIRA, 174 A 178 C. MAHONY & AMARAL
LISBOA ij 70, Rua Augusta, 2."— LISBOA
TELEFHONE 586
=tlllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllll| i|llllllllllllllllllllllll| W.11111111111!1 METAES EM BRUTO: Aço, cobre, latão, estanho, chumbo em chapa, bar-
I ras lingots.
FERRO: Em barras quadradas, redondas e vergalhão. Vigamento de ferro
ad Chrimnd© V. Emílio |
cm TI Ui cantoneiras e todos os mais aprestos para construcções. Ferro em
lingots para fundição. Chapas galvanisadas lisas e onduladas. Chapas de aço
CIRURGIÃO DENTISTA | para caldeiras. Tubos de ferro, cobre e latão. Arame de ferro, cobre e latão.
....... — DO . ■■ i Folha de Flandres. Material fixo e circulante para caminhos de ferro. Rails de
aço e diversos perfis e pesos, vias portáteis. Machinas de vapor, gaz e petró­
JSaltirriore college of dental surgery leo. Caldeiras. Bombas. Machinas para industrias e agricultura. Machinas. Fer-
j| ramentas. Vidros polidos, foscos e de phantasia. Vidraça, lages de vidro (dallea).
Consultas das 10 horas da manhã ás 5 da tarde * ' Assucar, arroz, especiarias, drogas, productos chimicos. Ascensores hydraulieos,
Edoux & C.‘
CI At EII T O
Çua ^lova do ^.Irpada, 8t, i. Únicos importadores em Portugal e colonias do CIMENTO da Coinpagnie
LISBOA des Ciments Parisiens, fabricado pelo notável engenheiro E. CANDLOT.
Fabrica de sabão — Telhai (Poço do Bispo)
iiiiiiiihiiii:iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiííííiiiíiii Piiiiíimiiiiiiiiiiíiiiiiiiiiiiiiii
Fabrica da licores, aguardente, genebra e cognacs — TELHAL (POÇO 00 BISPO)
Lisboa

DRaC-CCA
João Machado da Conceição Grand Hotel Central
LISBONNE
Commissões VUK SPLENDIDE SUR LE TAC.E

CUISINE FRANÇAISE REN0MMÉE

Antigo alumno da academia de Bellas Artes e consignações Conforts modernos


Asconseur, Bains, Salon de leoture, etc.
ON PARLE TOUTES LES LANGUES
Promove vendas de cereaes, man­ PR1X MODÉRÉS
ATELIER DE PINTURA ESCULPTURA E OOURAMENTOS teigas, queijo etc., etc.

Encarrega-ge de paysagens, figuras, ornatos, decorações, pintura


Fornece todos os generos d’esta Grand Hòtel Central
histórica, restauração de quadros antigos, letras, imitação de mármore capital, consumidos nos Açores, LISJBON
e madeira, scenograpliía, frescos, aguarellas, pintura e douramento em nas melhores condições, levando S1TUATED ON THE SHORE OF THE TAGUS
egrejas, carnações em imagens, esculptura de imagens e retábulos, Wilh magnificent panorama
trabalhos de architectura, desenhos e plantas para construcções diver­ aos seus freguezes os minimos pre­
sas e todos os trabalhos pertencentes á arte, mesmo fóra dã ilha. ços do mercado. MODERAT PR1CES
Grande variedade de clichés photographicos dos Açores. EXCELLENT FRENCH CUISINE
/ PREÇOS CONVENCIONAES \ ALL LANGUAGES SPOKEN
Rua dos Correeiros 6 — LISBOA Unrivalled for its Comfort
3Ç Ilha do Fayal-AÇORES
____ _r
*il!lfe Adresse telegraptiico
Lift, Baths, Reading room dark room,
etc.
HACHE-LISBOA

>111111 llllllllllll llllll llllllllllll llllll llllllllllllllllll llllll llllllllllll llllll llllllllllll llllll

Campeão & C.' n


CASA de CAMBIO e LOTERIAS
Chá Canto ATELIER PHOTOGRAPHICO

Esta casa possue para as lotarias, quer
ordinárias,quer extraordinárias, um varia­
do sortimento de numeros em bilhetes,
Agradavel, puro, hygieuico e colhi­
do da genuína plauta do chá.
JOSÉ G. CARDOSO
décimos e cautellas. O CHÁ CANTO só se vende em pa­ 3
Compram e vendem pelos melhores pre­ 3
ços, libras, ouro portuguez e todas as moe­ cotes de 50, 120, 240 e 580 réis, com I HORTA
das nacion :es e estrangeiras, notas dos marca registada, para garantir a sua
bancos de Hespanha, França, Inglaterra, pureza e qualidade e em latas illustra- N’este estabelecimento tiram-se retratos em grande variedade de processos e
Italia, etc.
Descontam vales do correio, vendem le­ das de 750 réis, lacradas na tampa tamanhos por preços baratíssimos.
tras, sellos e papel sellado. para egual garantia. Magníficos retratos a crayon, de differentes tamanhos, pelo
Para o CHÁ CANTO ter um optimo original com a maxima perfeição, ou por pbotographia antiga não
118 — RI A DO AMPARO—H8 sabor, é preciso ser feito em pouco deixando nada a desejar.
mais de metade da porção empre­ Fazem-se beilos passepartouts de cartão especial
NUMERO TELEPHONICO 53 gada por qualquer outra qualidade de e quadros que se entregam promptos a col-
chá. locar nas salas.
ENDEREÇO TELEGRAPH1CO O CHÁ CANTO encontra-se á venda
Campeão — Lisboa nas principaes lojas de chá e mer­ >111111 llllllllllll llllll llllllllllll llllll llllllllllllllllll llllll iiiiiiiiiiu llllll IIIIIIIIIIÍI IIIIIK
cearias.
2IIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII

Casa fundada em 1846


por M. G. FERRARI

Especialidade em doces d’ovos, neve e doce de copa. Con­


servas de fructas. Bolachas e biscoitos das melhores
fabricas inglezas e francezas.
Vinhos finos nacionaes e estrangeiros, I.ico-
res de todas as qualidades, cognaes,
PREMIADO com a «' ri < AJ »
medalha de !.■ classe na Exposi- ® ■< / rhum, vennouth, bilter, etc., etc.
ção Internacional do Porto em 1865 e *
em varias outras exposições. ™O

FORNECEDOR DE S. S. MAGESTADES
FORNECE esmeradamente serviços com-
pletos de almoços, lunchs, jantares, soirées e bailes,
encarregando-se de toda e qualquer encommenda inhe-
rente á sua arte tanto no continente e ilhas como África e Brazil

91, BUA NTOVA DO ALMADA, 93


LISBOA
Endereço telegraph CONSERVARIA

51IIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII | IIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIlHíH

DRaC-CCA
Aspectos geraes da natureza da ilha de S. Miguel
isboa, Funchal e Ponta Delgada, estes tres pontos geographi- Antes de continuar, duas palavras para nos orientarmos. Olhe­

L cos formam, entre si, approximadamente, um triângulo isos-


celes. Os dois lados eguaes são entre Lisboa e a
capital da Madeira, e entre esta e a capital de
mos para a carta do archipelago, levantada pelo capitão Vidal (in-

S. Miguel. Cada um d’estes lados percorre-se


em dois dias de viagem do paquete da carreira;
o terceiro lado, a base do triângulo, entre Lisboa
e Ponta Delgada, exige tres dias de viagem.
Ora é positivamente por um daquelles lados
que vamos navegando para S. Miguel, leitor ami­
go, que vens também da Madeira.
Lá está pela prôa a pequena ilha de Santa Ma­
ria, que nos fica no caminho. Para os naturalistas
é esta ilha um problema geologico, por ser cm
grande parte de constituição calcarea com incrus­
tações seculares de moluscos. Na gruta de S. Lou-
renço ha stalactites e stalagmites. D’onde proce­
de, pois, a presença do calcareo com fosseis n’uma
região vulcanica?
As interpretações dos geologos, nacionaes e
estrangeiros, são varias e o leitor póde procural-as
nas fontes. A nós não nos compete demorar no
estudo d essa feição especial, mas simplesmente
registrar, de passagem, o phenomeno.
Estamos na região dos Açores, no archipelago
das nove ilhas, das quaes Santa Maria é a mais
meridional. Lagôa i>as Eurnas

65

DRaC-CCA
glez). A direcção capital do archipelago é a NO-SE. Parece ter
sido esta a Unha d’expansão vulcanica geradora das g ilhas. A di-
rectriz da ilha de S. Jorge (grupo central) determina bem esta
orientação: prolongada esta linha directriz na direcçao da America
vae encontrar o grupo extremo Occidental — Flores e Côrvo —, e
em sentido inverso, a caminho da Europa, attinge o grupo extremo
oriental — S. Miguel e Santa Maria.
O paquete vae montando a ponta oeste de Santa Maria.
O que é aquillo que se avista na nossa frente, lá ao longe? São
dois montes, na linha leste-oeste, sahindo do azul do mar. Estão
distanciados entre si approximadamente iõ léguas, e apesar do ne­
voeiro que ora se condensa sobre elles, ora se rarefaz, e lhes en­
volve os cumes, conhece-se que são ambos truncados em corte
horisontal.
A' medida que avançamos, picos mais baixos vão surgindo na
linha intermédia áquellas duas alturas.
Avançando sempre, perpendicularmente á ilha, a linha He- Valle das Furna?.—Caldeiras
xuosa que liga as extremidades confunde-se já com a linha das
aguas. medonha que subverteu um altíssimo pico a oeste, de que os des­
Até que emfim — a cumiada da ilha apparece-nos una, acciden- cobridores tinham tomado nota como ponto de referencia.
tada, mas nunca interrompida. E’ a ilha de S. Miguel, d’um tom Os descobridores, narra ainda o chronista, deixaram na praia
sombrio pelo escuro do basalto e pelo verde carregado da vegeta­ a que aportaram (hoje villa da Povoação velha) alguns condemna-
ção. que nos patenteia inteira a vertente meridional. dos que tinham levado para taes fins. Imaginemos nós agora os
Os cumes truncados d’aquelles altos montes extremos da ilha, terrores de morte porque passaram aquelles pobres diabos, alli
e que primeiro se altearam á nossa vista, são as boccas de duas abandonados e sem recursos de fuga para o mar, ouvindo um
crateras enormes, extraordinárias, de dois immensos valles oblon­ pouco distante, mas dentro da ilha, o estampido e fragor successivo
gos, o valle das Furnas, ao nascente, e o valle das Sete-cidades d'aquella terremotada subterrânea, que d um momento para o outro
ao poente. A bocca de cada uma d’estas crateras tem approxima­ ameaçava abrir-lhes o chão debaixo dos pés ou atiral-os pelos ares
damente duas léguas d’eixo maior, e mais de uma no menor. fóra!
A primeira já estava formada quando os descobridores poseram Como elles, coitados! lívidos e enfiados, não diriam uns aos
pé na ilha; a segunda, porém, pelo que diz Gaspar Fructuoso, o outros:
mais antigo chronista da ilha, resultou d’uma erupção colossal e «Ouves além no retumbar da serra...»

66

DRaC-CCA
Quem escreve estas linhas estava neste mesmo logar da Po­ pico já registado por Gaspar Fructuoso. O seu fundo, porém, é
voação, em fevereiro de 1881, quando se deram os formidáveis alagado; podem lá passar-se algumas horas bordejando.
abalos de terra conhecidos então em toda a imprensa do paiz, a Seduziu-nos este valle, desde a primeira vez que lá estivemos,
proposito das subscripções publicas pelos terremotos da Povoação. pela verdade, e pela naturalidade do seu aspecto. A'parte o reves­
E quando succedeu a convulsão mais forte (8 da manhã de 9), timento arbustivo e espontâneo da encosta, nascido, é claro, depois
que a continuar por alguns segundos mais teria arrasado a villa, da erupção, o valle está como o vulcão o deixou. Alli, serra alta.
assim como pelo mesmo tempo foi destruída Casamiciola na ilha a mão do homem nada construiu, nada edificou. E’ um ermo ainda
d'Ischia, ouviu um rugido subterrâneo comparável
ao rufar dum milhão de caixas de guerra. Foi a
este som estranho e terrível que a população in­
teira fugiu espavorida das casas para a rua, lan­
çando-se de joelhos, e bradando de mãos postas
num clamor geral: «Misericórdia, meu Deus!»

O Valle das Furnas está mil vezes descripto.


No seu chão, de terra firme e a descoberto, assenta
a aldeia, assim como as varias casas de campo,
chalets e cottages, jardins e parques, a cujas fres­
cas sombras se refugia de verão a sociedade abas­
tada da ilha. E' também no fundo d este valle que
estão as famosas caldeiras, respiradouros vulcani-
cos em actividade permanente e que alimentam os
conhecidos banhos sulfuricos.
Noutros pontos da ilha, mas na linha dorsal.
ha outras duas crateras de vulcões extinctos: a
Lagoa do Fogo e a Lagôa do Congro. A primeira
na serra d'Agua de pau, é a mais alta da ilha; a
sua formação é também posterior á colonisação;
originou-se numa explosão que desfez um grande l.AGÔA DAS SETK ClDADKS

67

DRaC-CCA
não violado. A mudez sagrada da natureza envolve-nos. Quando
alli nos achamos sós o nosso espirito sente-se como sepultado n esse
silencio, apenas cortado pelo grito das aves da serra que passam alto.
O valle das Scte-cidades, esse ainda não o vi descripto em toda
a sua grandeza pittoresca. Não é nosso proposito fazel-o, nem sa­
beríamos fazel-o.
O fundo do valle é alagado permanentemente, tem o contorno
de um 8 e forma assim dois lagos separados por uma estreita
ponte. O povo chama-lhes a lagòa a\ul á maior, virada ao norte,
e lagòa verde á menor e do lado sul. A rasão destas pittorescas
designações vem dos tons das aguas: a grande, bem aberta ao
céu, vasta bastante, permittindo o bordejar horas, clara e muito
alumiada, reflecte o azul do céu e por isso é a a\ul; e a menor,
como tal reflectindo a côr da luxuriante e densa vegetação da sua
encosta algum tanto apertada, é a verde. Nada mais simples e
poético.
A' margem da lagoa azul, da banda de oeste, levanta-se a Alto dos Moinhos. — A caminho das Sete Cidades
pouca altura da superfície da agua uma facha do fundo, que é
aonde está edificada a aldeia. Nos invernos de chuvas torrenciaes umas collinas nos conduz lá abaixo, a casaria alvejante da aldeia,
o solo da aldeia é em parte inundado. sobresahindo-lhe o campanario ponteagudo, arrumada entre a agua
Por aqui e por além, nas margens das duas lagoas, uma ou e a encosta, a grandeza e o silencio d’aquelle recanto desconhe­
outra casa de campo, raras. cido do mundo, impressiona-nos de modo que, soltas as expontâ­
Quando se vae da cidade (o que exige tres léguas de burrinho, neas exclamações, absorve-nos e deixa-nos alli quedos.
serra arriba, desde que se deixa a estrada marginal da ilha) e se Será preciso irmos á Suissa, á alta Italia. ao Tyrol, para ver­
chega acima á Cumieira, o panorama de conjuncto que inopinada­ mos estes bellos quadros de natureza forte e pittoresca?
mente se abre a nossos pés, aquella elipse de mais de duas léguas Samuel Dabney, antigo cônsul dos Estados-Unidos no Fayal,
de circumferencia, contornando entre as montanhas a bocca do touriste infatigável e de fino gosto, disse-nos que, conhecendo bem
valle, lá no fundo mas ainda bastante além de nós as lagoas azul a natureza da America do Norte e da Europa, o Valle das Sete-
e verde na paz bucólica que lhes dá o abrigo dos montes, a vege­ cidades ainda lhe estava vivo aos seus olhos.
tação vigorosamente expansiva e d'um verde vivíssimo pela humi­ Esqueceu nos notar a Lagoa das Furnas, a meia legua do Valle,
dade, quer no chão inclinado do valle que precede as lagôas, quer apertada entre montes sombrios, mas tão extensa que permitte o
nas ondulações de terreno por onde serpenteia a estrada que por bordejar á vela.

68

DRaC-CCA
E' entre o planalto de leste, onde se vê o Valle das Furnas, bons menos o massador. Ora não sejamos massadores também.. .
e o de oeste, onde está o das Sete-cidades, que corre a cumiada na quantidade.
da ilha, constituída por urna serie successiva de picos como se As ilhas da Madeira e de S. Miguel podem competir bem entre
fossem as vertebras de uma espinha dorsal, com as suas pequenas si sobre opulência de vegetação. Se a Madeira tem em todo o anno
crateras, umas abertas no vertice, outras n um flanco. uma temperatura de primavera, S. Miguel tem a humidade atmos-
E do alto da serra d'Agua de pau, que se observa e admira, pherica, que é uma riqueza, a par do preciso calor exigido pelas
em parte, este quadro especial dos paizes de formação vulcanica. plantas. Na Madeira aprecia-se muito a flor e portanto os jardins;
E’ de lá também que se vê a um e outro lado o mar do norte e em S. Miguel talvez se aprecie mais as arvores e d’ahi os parques.
o mar do sul (em referencia á ilha), e também, recortado no azul Porque é de saber-se, que os celebres jardins de S. Miguel,
da agua como numa carta geographica, o contorno da costa cen­ que todo o viajante que alli aborda procura vêr, são pelo seu tra­
tral da ilha, norte e sul, orlado do branco espumeo das vagas que çado e cultura mais propriamente parques.
se desmancham contra o basalto escuro. Dos aspectos da natureza da ilha de S. Miguel, vimos quasi
unicamente valles. E monotono, bem sei; mas não estou arrepen­
dido do que hz, e a razão é simples. Cintra, Bussaco, Gerez, Bom
*
Jesus de Braga, etc., dão a quem saiba vêr, aspectos semelhantes
* *
ao da natureza da Madeira; mas o que Portugal não póde mostrar,
porque não tem, são valles-cratéras como os de S. Miguel, visto
Falando d'aspectos pittorescos da natureza não devemos es­ que são proprios e exclusivos das regiões vulcânicas.
quecer a Hora da ilha. Mas o artigo vae longo, e eu tenho presente
o preceito de Voltaire de que todos os generos de litteratura são Henrique das Neves.

DRaC-CCA
ANDRADES ALBUOUEROUES

a época tene­ Joaquina de Bourbon, com intervenção de sua cunhada Sr.a D. Ma­
N brosa em que
viveu, sacrificou o
ria Vadre Manique, açafata da Real-Casa, esposa do irmão do preso
Dr. Antonio Feliciano d’Andrade Albuquerque Bettencourt, ficando
seu talento e avul­ este responsável pela segurança de seu irmão, recolhido com ho­
tados bens á causa menagem em sua própria residência.
da liberdade, de que Recuperou plena liberdade mezes depois, regressando a Ponta
foi fidelíssimo apos­ Delgada, onde falleceu no seio de sua familia, com 5i annos de
tolo. edade em 1828.
Formado em Di­ Filho d’um dos mais abastados morgados dos Açores, o
reito pela Universi­ Dr. Caetano d'Andrade Albuquerque Bettencourt era 6.° neto de
dade de Coimbra João Roiz da Camara, 4.0 Capitão Donatario de S. Miguel.
foi um dos advoga­ Os últimos momentos da vida foram-lhe amargurados pelo
dos de maior talento desgosto da perda de dois filhos, quando em viagem da Figueira
do seu tempo, te­ para os Açores em uma escuna de primeira agua, esta desappa-
mido e respeitado receu sem que jamais houvesse noticia d elia nem dos passageiros.
pelo seu bom senso Restam-lhes os seguintes filhos : Dr. João de Bettencourt de
e prudência, e sobre Andrade Albuquerque. D. Maria das Mercês d’Andrade Borges
tudo pelas suas con­ de Medeiros, Filippe d’Andrade Albuquerque Bettencourt. D. Iza-
vicções políticas de bel Maria d’Andrade Albuquerque Soares dAlbergaria. Matheus
Dr. Matheus d’Andrade Albuquerque Bettencourt
que foi victima. d’Andrade Albuquerque Bettencourt e Francisco d"Andrade Albu­
Com as luctas querque Bettencourt.
terríveis da guerra civil foi desterrado para a ilha de Santa Maria O seu jazigo encontra-se juntamente com o de sua esposa na
passando para Lisboa, onde foi preso; devendo a soltura a sua Capella-Mór da igreja de Nossa Senhora da Conceição da cidade
esposa Sr.a D. Maria Soares Brum da Silveira Borges de Medei­ de Ponta Delgada, a qual foi instituída por seu avô Jacintho d'An-
ros, que veiu expressamente ao Reino solicitar da Rainha D. Carlota drade Albuquerque Bettencourt.

DRaC-CCA
a força da vida, quan­ dador das ordens de Nossa Senhora da Conceição de Villa Viçosa
N do mais a terra de
seus paes confiava em
e de Christo, era filho de Caetano d Andrade Albuquerque Ra­
poso da Camara e de D. Maria das Mercês d’Andrade Albuquer­
seu esforço e illustração, que Bettencourt.
a morte brutal roubou-o Nasceu cm Roma a 21 de janeiro de 1844, formou-se em di­
repentinamente ao amor reito na Universidade de Coimbra em 1869, e doutorou-se no
de mulher e filhas, á ami­ anno seguinte.
zade respeitosa de seus A 20 de outubro de 1873, casou com a sr.a D. Isabel Maria
conterrâneos. Raposo do Amaral, filha do par do reino José Maria Raposo do
Advogado, deputado, Amaral.
presidente da camara mu­ Em breves linhas diflicil é contar os serviços prestados pelo
nicipal de Ponta Delgada, dr. Caetano dAndrade; mas bastará rememorar os differentes
orador distincto, foi, po­ cargos que serviu zelosamente para avaliar-se de seu mereci­
rém, como jornalista que mento.
mais se evidenciou, ten­ Em 1881 foi eleito deputado pelo circulo de Ponta Delgada e
do-se estreado ainda an­ em 1890 foi presidente da camara municipal. Eoi socio da Socie­
tes dos vinte annos com dade de Geographia de Lisboa e provedor da Santa Casa da Mi­
um artigo didactico, des- sericórdia de Ponta Delgada. Fez parte, por mais duma vez, do
Dr. Caetano dAndrade Albuquerque Bettencourt cripção da villa de Col- conselho do districto, da junta geral, da commissão districtal, da
lares, publicado na Per- Sociedade de Agricultura de que foi presidente, da commissão au­
suasão, em dezembro de 1863. tonômica, da commissão de vigilância, etc. Pertenceu a muitas
Em differentes viagens que fez pela Europa, o dr. Caetano commissões de beneficencia e caridade e a outras de serviço pu­
d'Andrade apurou seu gosto naturalmente finíssimo e assim con­ blico e de administração local. Foi presidente da direcção do
seguiu reunir no seu palacio de Ponta Delgada uma famosa gale­ Asylo da infancia desvalida e da assembléa geral da Companhia
ria de quadros. Na capital da ilha, nas Furnas e nas Sete Cida­ de Seguros Açoriana e da fabrica de Santa Clara.
des, possuia jardins esplendidos, conservados com muito esmero e Sendo secretario da junta geral, foi auctor de muitas e impor­
amor. Toda a arte tinha n‘elle um amador distincto, de apurado tantes consultas dirigidas ao governo e foi d’elle, em 18g3, o ante-
gosto; bastava entrar numa de suas salas para reconhecel-o. Gos­ projecto de autonomia administrativa dos Açores, collaborando no
tava de musica, e, muito versado nas litteraturas portugueza, fran- projecto que foi depois apresentado á camara dos deputados.
ceza, ingleza e allemã, muita vez, em seus artigos e discursos, Como já dissémos, a sua estreia jornalística foi em i863, e
revelou sua illustração. nunca mais deixou de collaborar em vários jornaes da ilha, tendo
O dr. Caetano d‘Andrade Albuquerque Bettencourt, commen- sido durante muitos annos director político do Correio Michaelen-

DRaC-CCA
se, em que publicou artigos notáveis sobre os mais variados as­ Também collaborou distinctamente no jornalismo.
sumptos políticos, litterarios. críticos, etc. Era, em summa, um cidadão distincto e prestimoso, cuja pas­
Todos os problemas de agricultura lhe mereceram sempre a sagem pela terra ficou bem assignalada por uma nota de serviços
maior attenção e, sob a epigraphe Ensaios de agricultura, publicou que fazem honra á sua memória.
alguns artigos de muitíssimo valor. Como chefe de familia era um exemplar de virtudes. Dizendo
Coração generoso e alma nobre, foi dos mais denodados de­ isto, tributamos-lhe a nossa homenagem sincera, e a admiração
fensores dos interesses da sua ilha, a que dedicava um fundo amor. que nos infundia o seu respeitável caracter.
Tavares de Rezende.

(A-ovo Diário dos Açores — de i d’agosto de 1888).


ra um homem com prestigio co­
E mo poucos, porque era util á
sociedade como raros.
Ensinava aos novos pelo seu bom istincto empregado da contabilidade
exemplo, e impunha-se aos velhos
pelo seu bom conselho e animo sin­
D do Ministério da Guerra, é hoje na
capital do reino que Luiz Filippe d’An­
ceramente conciliador. drade Albuquerque Bettencourt mostra sua
Desde os mais verdes annos que actividade e as excellentes qualidades de
o estimávamos, porque tinha sem­ sua intelligencia. Pertencente a uma fami­
pre um bom dito para nos dirigir, lia muito distincta da Ilha de S. Miguel,
um incentivo á prudência e um esti­ foram seus paes Feligenio dAndrade Al­
mulo ao trabalho para nos dar. buquerque Bettencourt e D. Adelaide Frei­
Perdemol-o!—Não faz falta só Luiz Eilippe d’Andr*de
tas d'Andrade Albuquerque. Nasceu em
á sua familia: — deixa aberta uma Albuquerque Bettencourt 1876 n esta ilha, onde é estimadíssimo na
grande lacuna na sociedade! melhor sociedade. E' que Luiz Filippe d’An-
Serviu diversos cargos gratuitos, drade Albuquerque Bettencourt junta a uma elevada intelligencia
Eilippe d’Andrade Albuquerque
Bettencourt e de eleição popular; prestou rele­ e a um primoroso caracter raríssimos talentos. Amador de sport e
vantes serviços á Santa Casa da de coisas d’arte, é também um distincto atirador de florete e um
Misericórdia como mordomo, mesario e provedor. photographo de primeira ordem. Poucos como elle sabem decorar
Por vezes exerceu as funcções de juiz de direito da comarca, uma sala, poucos como elle organisam e animam uma festa. Com
como substituto, dando sempre provas de um espirito esclarecido taes predicados, facilmente se conquistam as melhores sympa-
e bem intencionado. thias.

72

DRaC-CCA
DRaC-CCA
LOMBADAS 4 Rainha das aguas de mcza
Leve, estomacal e digestiva,
pura, limpida e barata
RECOMMENDADA
TODOS OS MÉDICOS

Deposito Geral
RUA ARCO DO BANDEIRA, 174 A 178 C. MAHONY & AMARAL
LISBOA
70. Rua Augusta. 2."— LISBOA
TKITEFÍTOTTE 586
milllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllÇ:
METAES EM BRUTO: Aço, cobre, latão, estanho, chumbo em chapa, bar­
ras lingots.
FERRO: Em barras quadradas, redondas e vergalhão. Vigamento de ferro
em TlUi cantoneiras e todos os inais aprestos para construcções. Ferro em
lingots para fundição. Chapas galvanisadas lisas e onduladas. Chapas de aço
CIRURGIÃO DENTISTA para caldeiras. Tubos de ferro, cobre e latão. Arame de ferro, cobre e latão.
- ------- DO - - * Folha de Flandres. Material fixo e circulante para caminhos de ferro. Rails de
aço e diversos perfis e pesos, vias portáteis. Machinas de vapor, gaz e petró­
‘ JSaltirnore college of dental surgery leo. Caldeiras. Botnbas. Machinas para industrias e agricultura. Machinas. Fer­
ramentas. Vidros polidos, foscos e de phantasia. Vidraça, lages de vidro (dalles).
Consultas das 10 horas da manhã ás 5 da tarde Assucar, arroz, especiarias, drogas, productos chimicos. Ascensores hydraulicos,
Edoux & C.*
CIMENTO
Çua $ova do ^Irçada, 8t, t. Únicos importadores em Portugal e colonias do CIMENTO da Compagnie
USB O A des Ciments Parisiens, fabricado pelo notável engenheiro E. CANDLOT.
. ............................. iiiiiiiin.........
> Fabrica de sabão — Telhai (Poço do Bispo)
Fatrica de licores, aguardente, genebra e cognacs — TELHAI (POÇO 00 BISPO)
Typ. d'
* A — Lisboa

DRaC-CCA
João Machado da Conceição Grand Hotel Central
LISBONNE

U. lOTB SOBBIISO
Antigo alumno da academia de Bellas Artes
Commissões
e consignações
VOE SPLENDIDE SCH LE TAGE

CUISINE FRANÇAISE RENOMMÉE


Conforts modernes
Ascenseur, Bains, Salon de lecture, etc.
----------------------• ON PARLE TOUTES LES LANGUES
Promove vendas de cereaes, man­ PRIX MODÉRÉS
HELIER DE PINTURA ESCULPTURA E DOURAMENTOS teigas, queijo etc., etc.

Encarrega-se de paysagens, figuras, ornatos, decorações, pintura


Fornece todos os generos d’esta l| Grand Hôtel Central
histórica, restauração de quadros antigos, letras, imitação de mármore capital, consumidos nos Açores, LISBON
e madeira, scenographía. frescos, aguarellas, pintura e douramento em nas melhores condições, levando S1TVATED ON THE SHOBE OF THE TAGUS
egrejas, carnações em imagens, esculptura de imagens e retábulos.
trabalhos de architectura. desenhos e plantas para construcções diver­ aos seus freguezes os minimos pre­ With magnilicent panorama
sas e todos os trabalhos pertencentes a arte, mesmo fóra dã ilha. ços do mercado. MODERAT PRICES
Grande variedade de clichés photographicos dos Açores.
— EXCELLENT FRENCH CUISINE
PREÇOS CONVENCIONAES ALL LANGUAGES SPOKEN
Ilha do Fayal-AÇOHES Rua dos Correeiros 6 — LISBOA Unrivalled for its Comfort
Lift, Baths, Reading room dark room,
Adresse telegrapiiico etc.
*
WTWWWWW? i^WWWW^ HACHE —LISBOA

Vllllll llllllllllll llllll llllllllllll llllll llllllllllllllllll llllll llllllllllll llllll llllllllllll IIIIH '
? Campeão & C.8^

CASA de CAMBIO e LOTERIAS


Chá Canto ATELIER PHOTOGRAPH1CO

Esta casa possue para as lotarias, quer


ordinartas.quer extraordinárias, um varia­
do sortimento de numeros em bilhetes
Agradavel, puro, hygienico e colhi­
do da genuína planta do chá.
JOSÉ G. CARDOSO
décimos e cautellas. O CHÁ CANTO só se vende em pa­
Compram e vendem pelos melhores pre­ 3, RUA DS S. F 3
ços, libras, onro portuguez e todas as moe cotes de 50, 120, 240 e 580 réis, com
das nacionaes e estrangeiras, notas dos HORTA
marca registada, para garantir a sua
bancos de Hespanha, França, Inglaterra,
Italia, etc. pureza e qualidade e em latas illustra- N’esle estabelecimento tiram-se retratos em grande variedade de processos e
Descontam vales do correio, vendem le­ das de 750 réis, lacradas na tampa tamanhos por preços baratíssimos.
tras, sellos e papel sellado. para egual garantia. Magníficos' retratos a crayon, de diflerenles tamanhos, pelo
Para o CHÁ CANTO ter um optimo original com a maxima perfeição, ou por photograpbia antiga não
118—RUA 00 AMPARO—18 sabor, é preciso ser feito ein pouco deixando nada a desejar.
mais de metade da porção empre­ Fazem-se bellos passepartouts de cartão especial
NUMERO TELEPHONICO 53 gada por qualquer outra qualidade de e quadros que se entregam promptos a col-
chá. locar nas salas.
ENDEREÇO TELEGRAPHICO O CHÁ CANTO encontra-se á venda MjW • ./•
Campeão — Lisboa nas principaes lojas de chá e mer­
cearias. > llllll llllllllllll llllll llllllllllll llllll llllllllllllllllll llllllllllllllllll IIIUI llllllllllll llllll

DRaC-CCA
2JI IIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIJÉ

ONSER VARIA
\ / Casa fundada em 1846
por M. G. FERRARI

Especialidade em doces d’ovos, neve e doce de copa. Con­


servas de fructas. Bolachas e biscoitos das melhores
fabricas inglezas e francezas.
Vinhos finos nacionaes e estrangeiros. Lico-
^•x. res de todas as qualidades, cognacs.
PREMIADO com a « tf < M r rbum, vermouth, biller, etc., etc.
medalha de 1? classe na Exposi- ® t
cão Internacional do Porto em 1865 e '
em varias outras exposições. ^"^-x >,

FORNECEDOR DE S. S MAGESTADES
FORNECE esmeradamente serviços com- ^x.
pletos de almoços, lunchs, jantares, soirées e bailes,
encarregando-se de toda e qualquer encommenda inhe-
k rente á sua arte tanto no continente e ilhas como África e Brazil

91, WA WOVA AEMABA


LISBO.&.
Endereço telegraphico CONSERVARIA

iimiiiiiiuiiiiiiii

ãllllllllllllllllllllllllllllllllllHIIIIIIII llllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllr

DRaC-CCA
FABRICA DE TABACOS M1CHAELENSE
a de ha muito que tinha chegado até mim a fama d'este esta­ Combinado o dia
J belecimento industrial, um dos mais importantes do formoso
archipelago, e, certamente, o primeiro no que respeita á sua or-
ganisação e ás vantagens de vulto que elle garante ás suas opera­
para a minha visita,
entrei na Fabrica,
em occasião que não
rias. estava ali o sr. Sa­
Ancioso pois de visital-o, procurei o digno guarda-livros dos lomão Delmar, que
escriptorios da Fabrica, sr. Salomão Delmar, cavalheiro de amavel tinha deixado ordem
tracto, caracter profundamente sympathico. para que o fossem
chamar, logo
que eu che­
gasse.
Quiz pou­
par-lhe esse in-
commodo; e foi
na companhia
dum inspector
do estabeleci­ Residência do sr. José Bensaude, fundador e gerente da fabrica
mento, que de­
licadamente se prestou a acompanhar-me, que percorri o vasto
e bello edifício, n’um verdadeiro encantamento, sempre de
surpresa em surpresa, qual d’ellas a mais surprehendente e
agradavel.
Ha ali dentro um asseio, uma ordem, um ar de bem estar
que nos maravilha e deliciosamente nos commove! Em nenhum
rosto transparece o menor signal de sacrifício, de oppressão.
Em todas as boccas ha um sorriso de intima satisfação, pare­
cendo até que aquellas mulheres e creanças, dentro dos seus
Pessoal superior da Fabrica (Clichés do sr Joáo Maria dos Santos/ vestuários frescos e limpos, não são servas que trabalham em

DRaC-CCA
beneficio dum
senhor, mas sim
em proveito pro- Damos, a seguir, umas notas interessantes sobre a organisação
prio, unicamente. da Fabrica, da qual publicamos as principaes gravuras:
E’ que o fun­ A Fabrica de Tabaco Michaelense foi fundada, em i de janeiro
dador da Fabrica de 1866, na Ilha de S. Miguel, Açores. E’ o estabelecimento in­
de Tabacos Mi- dustrial mais popular de todas as Ilhas Adjacentes.
chaelense, soube Em 3o de setembro de igo3, o activo da Sociedade era de perto
numa intuição de 400 contos.
caridosamente Os seus mercados são as Ilhas Adjacentes e as possessões
socialista, conju­ portuguezas em África.
gar os interesses O pessoal operário da Fabrica é exclusivamente do sexo fe-
da Sociedade
com os de to­
dos os seus em­
pregados, e
conseguiu-o,
Uma officina
por forma tão
nobre, que são poucos todos os louvores que se lhe dispensem.
Chama-se ellc José Bensaude, e pertence, como o appellido
o vem dizendo, a essa activa e sempre nobre raça judaica, e é
membro d’uma familia de verdadeiros benemeritos.
Ha um contraste admiravel entre esta fabrica e as fabricas
continentaes: No continente existe geralmente em cada uma esse
aspecto de miséria, de sacrifício, que transparece claramente nas
caras macillentas, nos olhos pisados, na sujidez do vestuário.. -
E’ este confronto o que mais commove, ao entrarmos na Fa­
brica de Tabaco Michaelense, commoção que sobe de ponto ao
depararem-se-nos essas pequenas operarias curvadas sobre os li­
vros, a aprender, risonhas, cheias de felicidade, dentro d‘aquelle
estabelecimento modelo, sobre o qual, sem duvida, muitas bên­
çãos de mães terão cahido. Officina de cigarros

DRaC-CCA
minino. Não são (officinas, escriptorios, etc.), havendo em cada secção, além do
admittidas mu­ chefe e sub-chefe, um inspector encarregado da policia.
lheres casadas; e Estes inspectores são todos casados, militares reformados, exi­
as viuvas só po­ gindo-se-lhes absolutamente limpa a sua folha de serviços no exer­
dem ser admitti­ cito.
das como opera­ Ha também no estabelecimento creados, carpinteiros, etc., de
rias depois de de­ garantida seriedade e que não estão em relação directa com as
terminado prazo operarias; conseguindo-se por esta forma, que em um estabe­
de viuvez e de não lecimento de tal importância e desde o seu começo, não tenha
terem filhos que havido a minima quebra de respeito individual. A moralidade do
necessitem de estabelecimento acha-se assim absolutamente garantida, sendo plena
seus cuidados. a confiança não só das operarias, como de suas famílias.
As menores
não trabalham
consecutiva­
mente mais de
ESCRIPTORIO E SEU PESSOAL i ‘/a hora, tendo
intercaladas ho­
ras de recreio em pleno ar nos espaços livres da fabrica
Ha na fabrica uma escola, com professora habilitada, frequen­
tada por dois turnos de pequenas operarias, que aprendem a lêr,
escrever e contar: nas tardes, é a escola frequentada pelos dois
turnos reunidos, para o estudo da doutrina christã, a fim de que
as operarias possam bem cumprir os seus deveres religiosos na
idade propria.
Esta escola tem dado os mais profícuos resultados: algumas
das suas antigas alumnas desempenham variados serviços d'es-
cripturação da Fabrica, pelo que auferem melhores salarios. No
escriptorio, como em cada officina, todo o serviço d escripta é
desempenhado por operarias, havendo dez no escriptorio e duas
em cada officina.
A Fabrica, na sua organisação interna, divide-se em 14 secções Pessoal da Eabrica

DRaC-CCA
Possue também uma caixa chamada das operarias. Do fundo tiiação fornecida
d’esta recebe cada operaria, quando se casa, um dote regulado por 206 jancllas e
pelos serviços, classificação e antiguidade d’ella. portas, e por mui­
A Fabrica proporciona grátis a todo o pessoal, medico e botica tos aspiradores nos
e os salarios, durante a doença, e subsidio extraordinário na con­ telhados.
valescença ou nalguma infelicidade extraordinária da vida. A agua da gran­
Um motor da força de 10 cavallos põe em acçao todas as de cisterna do es­
machinas alli existentes, mesmo na typo-lithographia, a qual é tabelecimento atra­
montada com apparelhos dos mais aperfeiçoados, fornecida com vessa um filtro de
os typos mais modernos. carvão antes de en­
A Fabrica e seus depositos de folha a ella juntos, consta de 7 trar n’ella.
grandes edifícios. Condições hygienicas perfeitas, abundante ven- O sério proble­
ma das matérias
fecaes num fo­
co de tantos cen­
tenares de indi­
víduos, acha-se Fabrica de Tabacos Michaelense, typo lithographia
ali bem resolvi-
do: Não ha fossas, nem encanamentos, nem depositos subter­
râneos, nem evolução de gazes, nem cheiro. Um edifício isolado,
de dois andares e adequado a isso, tem no rez-do-chão uma pipa,
onde as matérias vão cahir, e na madrugada seguinte tapam n’a
e removem-n’a para terrenos de cultura, a alguns kilometros da
cidade.
Os impostos de fabrico e de licença, pagos pela fabrica, no
anno findo, em 3o de setembro de igo3, elevaram-se á cifra de
53.355íí>692 réis. Além d’isso, paga o imposto industrial e os di­
reitos d’alfandega do que importa do estrangeiro.
Pelo que ahi fica exposto ligeiramente, bem podem aquelles
que não tenham conhecimento da Fabrica de Tabaco Michae­
lense, aquilatar do seu alto valor.
Officina do EMPACOTAMENTO A. Baptista.

DRaC-CCA
Commemorações cívicas nos Açores
tricentenário de Luiz de Camões, a 10 de junho de 1880,
ONafoicidade
a primeira commemoração civica celebrada nos Açores.
de Ponta-Delgada, assumiu uma verdadeira glori­
ficação. Além de saraus musico-litterarios, em sociedades recrea­
tivas, e da récita de gala realisada por amadores dramáticos no
theatro Michaelense, houve um brilhante cortejo em que se incor­
poraram auctoridades, titulares, associações e numeroso povo.
Fizeram-se também edições festivas do jornalismo local.
Como recordação d essa festa, foi cunhada uma medalha de

S. Miguel — Theatro Michaelense

prata, com a legenda: — Os michaelenses a Camões, 1880. — de


que apenas existem nove exemplares, pertencentes aos membros
da commissão iniciadora da celebração do centenário, — dr. Cae­
tano d’Andrade Albuquerque, presidente ; Arão Cóhen ; Antonio
Manuel de Vasconcellos; Moysés Bensaude ; Manuel Antonio de
Vasconcellos ; João Maria Sequeira; José Moniz da Ponte; Ma­
nuel Pereira de Lacerda; e o tenor italiano Parmizini, que tomou
parte na récita de gala cantando uma aria. O producto d’esta ré­
cita, superior a 3oo$ooo réis, foi distribuído pelos pobres.
Ao centenário de Camões seguiu-se o do Marquez de Pombal,
S. Miguel — Egheja de S Pedro a 8 de maio de 1882. Por essa occasião, na sala da bibliotheca

DRaC-CCA
A 4 de março de 1894, as ilhas de S. Miguel e Terceira com-
memoraram devidamente o 5.° centenário do nascimento do In­
fante D. Henrique, o homem que, no expressivo dizer de Pinheiro
Chagas, fez surgir do abysmo das aguas, onde a ignorância as
sepultava, coroadas com o seu diadema de verdura, as ilhas do
Porto Santo, Madeira e Açores.
Também não passaram despercebidos em S. Miguel os cen­
tenários do nascimento de Castilho e de Garrett, esses dois lumi­
nares da litteratura nacional, nem o do descobrimento do cami­
nho marítimo da índia, pelo ousado navegador Vasco da Gama.
E assim teem os Açores seguido o movimento do espirito mo­
derno, realisando consagrações civicas aos grandes homens.
Ilha de S. Miguel, igo3. M. Pereira de Lacerda.

S. Miguel—Interior da Egreja do Convento de Santo André

municipal, pronunciou o dr. Caetano d’Andrade um discurso bri­


lhantíssimo, verberando accusações feitas ao ministro de D. José I
por um escriptor reaccionario hespanhol, que então residia em
Ponta-Delgada. O orador, relatando a obra grandiosa do Marquez
de Pombal, arrancou ao auditorio a mais calorosa e prolongada ova­
ção.Na sala da bibliotheca ainda existem os bustos, modelados em
tamanho natural, do Poeta dos Lusíadas e do notável Estadista.
A 6 de dezembro de i885, solemnisou-se também a gloriosa
travessia d Africa pelos arrojados exploradores Brito Capello e
Roberto Ivens, este michaelense, com um imponentissimo cortejo.
Figuraram carros allegoricos de subido valor e magnifico effeito.
Perpetuando o nome de Roberto Ivens, ergueram-lhe um mo­
numento os seus conterrâneos, encimado com o busto do notável
explorador. S. Miguel — Caes da Sardinha— Mercado do peixe

7*

DRaC-CCA
SILVEIRAS (FONTE BELLA)
Barão de Fonte Belia, posteriormente constituídas, cada uma das quaes se deu especial
O Jacintho Ignacio Ro­
drigues da Silveira, foi um
denominação.
Presidiu á Camara de Commercio aqui instituída em 1836.
dos michaelenses de mais va­ Em 1817, começou a construcção do seu palacio fronteiro ao
lor e prestigio n esta ilha. largo da Conceição. Era n’aquelle sitio o solar dos antigos donatá­
Nasceu no século xvm e rios da ilha, condes de Villa Franca e depois da Ribeira Grande.
falleceu com 83 annos, em 20 por isso por muito tempo se lhe chamou o Paço. Citamos aquella
de dezembro de 1869. data do inicio da edificação, por informação d um homem, João
Teve abastada herança Jorge, que existe ainda (outubro de 1902) e nos disse que alli em
de familia e opulentou-se pequeno trabalhou como jornaleiro.
muito pelo commercio. A rua do lado norte, com que confina a extensa cerca do pala­
Dotado de claras facul­ cio, ainda ha quem a denomine do «Pau do Conde». O nome de
dades intellectuaes, teve fina «Conde» que conserva, déra-se á rua por chegar até alli a resi­
educação, e o seu trato era dência do donatario. «Pau», alludia á haste da bandeira nacional,
muito distincto. que lá se hasteava.
Foi generoso dalma e Fez também edificar a sumptuosa residência do Botelho, com
Jacintho Ignacio Rodbigces da Silveira bondoso de coração. o seu grandioso jardim, que ainda se admira, não obstante já muito
I o barão de Fonte Bella
Era facil em dispensar desmerecido do que foi. Para o abastecer dagua, canalisou-a de
protecções aos commerciantes, e podiam contar com elle todos os tres léguas distante, no que dispendeu quatorze contos de réis
que pelo trabalho, probidade e regrada economia sabiam regular (14:000.^000 réis), segundo informação de Francisco Affonso da
os seus procedimentos. Costa Chaves e Mello, uma alta intellectualidade michaelense,
Por iniciativa de Jacintho Ignacio se instituiu a primeira com­ coevo de Jacintho Ignacio. Denominou Fonte Bella, como real­
panhia exportadora de laranja, d'esta ilha. O bom exito d’ella in­ mente é, a obra d’arte da fonte de tres abundantes bicas, que
duziu á creação d’outras, o que muito valorisou aquelle producto expoz ao publico, em frente da principesca residência.
agrícola e largamente contribuiu para uma extensa phase de pros­ D’este seu aqueducto cedeu gratuitamente um annel d’agua aos
peridade michaelense. Era conhecida por «Companhia Velha», a habitantes do logar das Soccas, e dois aos do Pico da Pedra, no
que elle fundou, por ser a mais antiga, e assim se distinguia das que prestou aos povos altíssimo serviço.

79

DRaC-CCA
Os princípios liberaes de Jacintho Ignacio eram conhecidos que lhe dirigia o governo do Porto, para que desempenhasse com
desde 1821, em que fez parte do Governo Interino da Ilha de diligencia e rigor as antipathicas funeções.
S. Miguel, acclamado pela revolução que n'esta cidade rebentou,
em 1 de março d’aquelle anno. A causa da Rainha e da Carta te- *
ve-o como adepto dos mais calorosos.
No dia 2 de agosto de 1831, quando o exercito victorioso na Em reconhecimento de seus relevantes serviços foi agraciado :
Ladeira da Velha marchava para Ponta Delgada, fez alto no Bo­ Com o titulo do conselho, por Carta Régia de 3o de janeiro
telho, reccbendo-o e festejando-o grandiosamente o opulento pro­ de i83o.
prietário e capitalista. Com o titulo de Barão de Fonte Bella, por decreto de 3 de
Quando o imperador D. Pedro IV aqui esteve, em 1802, orga- março de i836.
nisando a legião dos bravos do Mindello, fez-lhe tres empréstimos. Com a commenda de Christo, por decreto de 14 de janeiro
O primeiro de 5o contos, o segundo de 29 contos e o terceiro de 1837.
de 20. Com o pariato com honras de grande do Reino, por Cartas
O primeiro foi pago em Londres, sem difficuldade. Régias de 3 de maio de 1842 e 23 de maio de 1843.
Do segundo só tarde foi embolsado. Os diplomas d’estas mercês foram referendados por Cândido
Pelo terceiro recebeu titulos do Thesouro, que só foram resga­ José Xavier, Luiz da Silva Mousinho d’Albuquerque, Manuel da
tados bem depois de constituído o governo liberal. Silva Passos e Antonio Bernardo da Costa Cabral, depois conde
e marquez de Thomar.
Foi em duas epochas auctoridade superior administrativa d'este
districto, a primeira desde junho de 1835 a julho de i836 na qua
Jacintho Ignacio (futuro Barão de Fonte Bella) pertenceu á lidade de Conselheiro da Prefeitura e governador civil. A segunda
commissão do empréstimo forçado na ilha de S. Miguel, em i83t, desde 1 d’outubro de 1836 a 12 dagosto de 1838, como adminis­
conseguindo com os seus collegas que a somma pedida de 3oo trador geral interino.
contos fosse reduzida a 120 contos. Bastantes annos antes do seu fallecimento, recolheu-se inteira­
Fez também parte, como secretario, da commissão nomeada, mente á vida caseira. Recebia diariamente familia e amigos nas
c se installou em fevereiro de 1833, para sequestrar bens ás pes­ suas residências da cidade ou do campo, e nenhumas outras rela­
soas desaffectas á causa liberal, não se fazendo sequestro algum, ções mantinha com a sociedade.
resistindo a mesma commissão a todas as instancias e bravatas F. M. Supico.

80

DRaC-CCA
DRaC-CCA
LOMBADAS
rZXZSZXZXZSZSZKZ

i Rainha das aguas de meza GU/?

Leve, estomacal e digestiva, MARÍTIMOS ILHAdeS.MíGUEL


pura, limpida e barata ^CORIA^
''i"=as< Sociedade anonyma de responsabilidade lirnitada"

RECOMMHN D A D A
> CAPITAL Reis Insulanos-lOOO OOOSOOO
z=ozs Agentes em Lisboa
TODOS OS MÉDICOS
Rua de S. Juháo 100,5
Deposito Geral
RUA ARCO DO BANDEIRA, 174 A 178 C. MAHONY & AMARAL
LISBOA
70, Kusi Augusta. 3.”— LISBOA
TEDEPHONE 586
■■iiiiiiiiiiiíiiiiiiiiíiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiTiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii
METAES EM BRUTO: Aço, cobre, latão, estanho, chumbo em chapa, bar­
ras lingots.

Clarimundo V. Emílio FERRO: Em barras quadradas, redondas e vergalhào. Vigamento de ferro


em TlU; cantoneiras e todos os rnais aprestos para eonstrueções. Ferro em
lingots para fundição. Chapas galvanisadas lisas e onduladas Chapas de aço
CIRURGIÃO DENTISTA para caldeiras. Tubos de ferro, cobre e latão. Arame de ferro, cobre e latão.
—DO £ Folha de Flandres. Material fixo e circulante para caminhos de ferro. Rails de
aço e diversos perfis e pesos, vias portáteis. Machinas de vapor, gaz e petró­
Paltirqore college of dental surgery» leo. Caldeiras. Rombas. Machinas para industrias e agricultura. Machinas. Fer­
ramentas. Vidros polidos, foscos e de phantasia. Vidraça, lages de vidro (dalles).
Consultas das 10 horas da manhã ás 5 da tarde Assucar, arroz, especiarias, drogas, productos chimicos. Ascensores hydraulicos,
Edoux & C.‘
Çua ^ova do ^írpada, 81, 1. CIMENTO
Únicos importadores em Portugal e colonias do CIMENTO da Compagnie
LISBOA des Ciments Parisiens, fabricado pelo notável engenheiro E. CANDLOT.
-aiiiiiiiiiiijiiiiiiiuHniiLiiiiiiiiHiiiiHiiiiiiiiiiiiiiiiiuiy^iiiiiiiiiiiiiiiiiiiHiniiHiiiiiiiiiuHijriijju Fabrica de sabão — Telhai (Poço do Bispo)
Fabrica de licores, aguardente, genebra e cognacs — TELHAL (POÇO M BISPO)
Typ. d'•A » — Lisboa

DRaC-CCA
João Machado da Conceição Grand Hotel Central
LISBONNE

Commissões VUK SPLENDIDE SUB LE TAGE

CUIS'NE FRANÇAISE RENC MMÉE


Antigo alumno da academia de Bellus Artes
DO
e consignações Conforts moderne»
Asccnseur, Bains, Salon de lecture, etc.
ON PARLE TOUTES LES LANGUES
Promove vendas de cereaes, man­ PRIX MODÉRÉS
ATELIER DE PINTURA ESCULPTURA E DOURAMENTOS teigas, queijo etc., etc.

Encarrega-se de paysagens, figuras, ornatos, decorações, pintura


Fornece todos os generos d’esta Grand Hotel Central
histórica, restauração de quadros antigos, letras, imitação de mármore capital, consumidos nos Açores, LISBON
e madeira, scenographía, frescos, aguarellas, pintura c douramento em nas melhores condições, levando S1TUATKD ON THE SHORE OF THE TAGV8
egrejas, carnações em imagens, esculptura de imagens e retábulos,
trabalhos de architectura, desenhos e plantas para construcções diver­ aos seus freguezes os minimos pre­ Wilh roagniticent panorama
sas e todos os trabalhos pertencentes á arte, mesmo fora da ilha. ços do mercado. MODERAT PRICES
Grande variedade de clichés photographicos dos Açores. EXCELlENT FRENCH CUiSINE
PREÇOS CONVENCIONAES x ALL LANGUAGES SPOKEN
IlLa. d.o Fayal-AÇORES a. Rua dos Correeiros 6— LISBOA Unrivalled for its Comfort
_____________ . ......... .............. ............... Adresse telegraptiico Life, Batbs, Reading room dark room,
etc.
H ACHE-LISBOA

Aílllll lllíllllílll llllllllllllllllll llllll llllllllllllllllll llllll llllllllllll llllll llllllllllll

Chá Canto
111111a
f Campeão & C.‘^
ATELIER PHOTOGRA PELICO ?
CASA de CAMBIO eLOTERIAS
Esta casa possne para as loterias, quer
ordinanas,quer extraordinárias, um varia­
do sortimento de numeros em bilhetes,
Agradavel, puro, hygieuico c colhi­
do da genuina planta do chá.
JOSÉ G. CARDOSO
décimos e cautellas. O CHÃ CANTO só se vende em pa­ 3, RUA DE S. PAULO, 3
Compram e vendem pelos melhores pre­
ços, libras, ouro portuguez e todas as moe cotes de 50, 120, 240 e 580 réis, com HORTA
das nacionoes o estrangeiras, notas dos marca registada, para garantir a sua
bancos de Hespanha, França, Inglaterra, N’esle estabelecimento tiram-se retratos em grande variedade de processos e
Italia, etc. pureza e qualidade e em latas illustra-
Descontam vales do correio, vendem le­ das de 750 réis, lacradas na tampa tamanhos por preços baratíssimos.
tras, sellos e papel seltado. para cgual garantia. Magníficos retratos a crayon, de differentes tamanhos, pelo
Para o CHÃ CANTO ter um optimo original com a inaxima perfeição, ou por photographia antiga não
118 —RUA DO AMPARO —1’8 sabor, é preciso ser feito em pouco deixando nada a desejar.
mais de metade da porção empre­ Fazem-se bellos passepartouts de cartão especial
NUMERO TELEPHONICO 53 itada por qualquer outra qualidade de e quadros que se entregam promptos a col-
chá. locar nas salas.
ENDEREÇO TELEGRAPHICO O CHÃ CANTO encontra-se á venda
Campeão — Lisboa nas principaes lojas de chá e mer­
cearias. A iiim iiiiiiiiim mm iiinnmii mm 111111111111111111 mui uuiiiuiii mm iiiiiiiiiiu iiiiii<

DRaC-CCA
■Jlllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllll I

ONSER VARIA
Casa fundada em 1846
por M. G. FERRARI

Especialidade em doces d'ovos, neve e doce de copa. Con­


servas de fructas. Bolachas e biscoitos das melhores
fabricas inglezas 0 francezas.
Vinhos finos nacionaes e estrangeiros. Lico-
res de todas as qualidades, cognacs,
PREMIADO com a * Çt ' í' ‘ rhum. vermoulh, bilter, ele., etc.
medalha de 1." classe na Exposi- ® aZ'
Ção Internacional do Porto em 1865 e *
em varias outras exposições. >
FORNECEDOR DELS. S. MAGESTADES ‘ tfy
FORNECE esmeradamente serviços com-
pletos de almoços, lunchs, jantares, soirées e bailes,
encarregando-se de toda e qualquer encommenda inhe-
L rente á sua arte tanto no continente e ilhas como África e Brazil.

; 91, HUA NOVA DO ALMADA


WjA LISBOA
Endereço telegraphico —CONSERVARIA

llllllimillllll

DRaC-CCA
mancio Gago da Câmara, 2.0 Barão Quando voltou para S. Miguel, vinha um tanto desinteressado

A de Fonte Bella, recebeu esta mercê,


galardoando-lhe serviços sociaes, como
da política, mas não do progresso das classes trabalhadoras e me­
nos das instituições benificentes.
homenagem ao primeiro titular de quem Na provedoria da Misericórdia de Ponta Delgada e presidên­
era parente affim, amigo muitíssimo in­ cia do Asylo de Mendicidade, elle
timo e incondicionalmante dedicado. com os seus 88 annos demonstra
Nascido em 1815, já em i835 era energia de meia edade e delicia-se
alferes ajudante do batalhão civico de praticando frequentes e largas ge­
Ponta Delgada, que tanto se assignalou nerosidades.
em defeza de ordem publica e da liber­ Na nossa Chronica do Bem o
dade, principalmente em 23 de abril d’aquelle anno, em que se deu seu nome é dos que por lá se es­
a revolta dos calcetas no castello de S. Braz, de tragica memória. crevem entrelaçado ás mais bel-
Militou também na guarda nacional creada em 1836, e ainda las flores.
lhe pertenceu em 1846, quando reorganisada, para se dedicar Dispondo em beneficio social
á causa da revolução do Minho, aqui proclamada em outubro das sobras do seu viver modesto,
d aquelle anno. quer elle proprio edificar a sua
Consagrando ao commercio o bom tempo da sua idade, servia obra. Nós bastantes vezes lhe te­ 2.® Barão de Fonte Bell*
ao mesmo tempo a causa publica, fazendo parte das suas corpora­ mos ouvido esta phrase:
ções administrativas. Varias vezes presidiu á camara municipal de «Ninguém fará por mim o que eu deixar de fazer».
Ponta Delgada e fez parte de algumas das antigas Juntas Geraes Uma larga vida util e prestadia a do Barão de Fonte Bella, (2.0),
do Districto. c uma velhice que todos abençoam respeitosamente.
O movimento associativo foi também muito alentado por
Amancio Gago, quando já era titular, presidindo e largamente
auxiliando as differentes sociedades recreativas, sendo-lhe predi-
lectas as de operários. aroneza de Nossa Senhora da Oliveira, anda pelos 90 annos
Teve por isto poderosa e legitima influencia nas nossas deno­
minadas classes medias, sendo em longo periodo a mais popular
B de edade esta illustre e veneranda senhora. E’ um dos me­
lhores exemplares de resistência á acção do tempo. Rarissimas
personalidade de Ponta Delgada. damas terão, como ella, ostentado por tão largo tempo as prendas
Isto lhe deu um alto valor político que punha ao serviço par­ da formosura.
tidário. Não ha muitos annos ainda, que a sua elegancia e agilidade
Andou muito pelo estrangeiro em differentes épocas, fixando eram como de quem tivesse a menos algumas dezenas de janeiros.
em certo tempo, demoradamente, a sua residência em Lisboa. Em i832, nos bailes dados em Ponta Delgada ao Duque de

81

DRaC-CCA
Bragança, D. Pedro IV, pela ca- as duas datas 18S2 e 1901, pondo-lhe a claro, instantaneamente,
mara municipal e pelo cônsul 69 annos de vida cheia de venturas domesticas e de considerações
Real, e no que o Imperador sociaes.
offèreceu aos michaelenses, era F. M. Supico.
D. Maria Isabel Gago da Ca-
mara (a sr.a Baroneza) conside­
rada como primeira belleza entre acintho da Silveira Gago da Camara, 3.° barão de Fonte Bella
as damas d’aquelle tempo, tendo
tido a honra de dançar com sua
J e i.° conde do mesmo titulo, nasceu a 2Ò de novembro de
i85i. Filho de Aman-
magestade Imperial. cio Gago da Camara,
Brilhou, pois, a sr.a Baroneza 2.0 barão de Fonte
n’um dilatadissimo período, na Bella, em duas vidas,
alta sociedade d’esta terra de que fidalgo da Casa Real,
foi sempre distincto ornamento. etc, e de D. Ignez Sil­
Era duma antiga e nobre casa veira d’Andrade, fi­
morgadia, e a educação que n'ella lha de José Jacintho
recebeu, aprimorada em viagens d’Andrade Albuquer­
Baroneza de Nossa Senhora da Oliveira
pelo estrangeiro, com os seus na- que Bettencourt. Seus
turaes dotes de espirito e ameníssimo trato, a insinuaram na es­ irmãos foram: Jayme
tima e consideração geral. Gago, fallecido sem
Adquiriu o titulo por ter sido casada com o opulento proprie­ geração, Amancio da
tário Manuel Jgnacio Rodrigues Silveira, irmão do primeiro barão Silveira Gago da Ca­
de Fonte Bella, que em prémio de liberalidades em beneficio so­ mara (actual conde
cial foi agraciado com aquelle baronato. dos Fenaes) e D. Ma-
Ainda em igoi a sr.a Baroneza, no maior contentamento, das rianna Gago.
janellas da sua grande e formosa residência cobriu de flores El- Com 43 annos in­
Rei D. Carlos I, que na tarde do dia 7 de julho por ali passava completos deixou de
indo na procissão do Santo Christo. existir este illustre ti­
Sua Magestade, sabedor de que a veneranda senhora dan­ tular e prestante ci­
çara com seu bisavô, dignou-se cortejal-a com expressão jubi­ dadão.
losa. Herdeiro de no­
N’este cumprimento d’El-Rei ia um raio de sol illuminando bilíssimos titulos de Conde de Fonte Bella

82

DRaC-CCA
coração a par de avultados bens de fortuna, que para gloria sua
tão largamente soube aproveitar em actos de philantrophia, nasci­
dos do seu coração generoso e bom. Relevantes serviços prestou
á sua patria, que elle tanto presava e honrou.
Artista d’alma, soube collecionar em seus palacios verdadei­
ras obras primas. Grande amador _de pintura, possuia uma gale­
ria de quadros de subido valor, e obras d’arte diversas reputadas
excellentes. A sua collecção d’armas antigas e africanas tem sem
favor, um logar d’honra entre as primeiras.
Desenhava com immensa facilidade, imprimindo em seus estu­
dos, principalmente marinhos, immensa vida e realidade, reve­
lando em tudo o cunho do artista que sente, a expressão fiel da
verdade. Como caricaturista era felicíssimo, mas poucos trabalhos
deixou, visto que a maior parte dos seus originaes eram traçados
de momento sobre o panno verde dum bilhar, etc.
Como sportmen foi distinctissimo; principalmente o sport náu­
tico foi a sua principal paixão, na qual dispendeu uma boa somma
dos seus avultados bens.
Foi commendador de varias ordens, e membro do corpo con­
sular.
O museu municipal, adjuncto ao lyceu de Ponta Delgada, teve
n'elle o seu maior protector. A política da presidência do sr. con
selheiro José Luciano de Castro, perdeu líeste illustre titular um
fidelíssimo amigo, no dia 25 de junho de 1894.

mancio da Silveira Gago da Camara, Conde dos Fenaes, fidalgo

A cavalleiro da casa Real, nasceu a 6 de dezembro de 1853.


Filho segundo do Barão de Fonte Bella, Amancio Gago da
Camara, e da Baroneza do mesmo titulo, D. Ignez Silveira d'An-
drade. Capei.la do Botelho (Palacio Fonte Bella)

83

DRaC-CCA
O seu porte ma- Basta escutal o um momento, para se ficar captivo da sua voz
gestoso, d’uma cor- franca e leal, que sympathicamente se insinua no espirito de
recção distincta, dá- quantos lhe apreciam o cavaco ameno, proprio da sua vasta illus-
nos a impressão de tração.
soberania, ao mesmo Tem viajado muito, e repetidas vezes, pelas principaes cida­
tempo que a sua phy- des do mundo, e por isso fala de todas as bellezas e de todos os
sionomia, d’uma ex­ homens, com proficiência e critério, como não pode deixar de o
pressão sincera e fazer quem de tudo tem conhecimento proprio.
meiga, nos traduz a O Conde dos Fenaes é um dos vultos mais distinctos do sport
bondade que cara portuguez.
cterisa o nobre fi­ Ha pouco publicou um Tratado de Equitação, obra inte­
dalgo. ressantíssima, que dedicou ao Ex.m0 Sr. Conselheiro Ernesto
Descendente Rodolpho Hintze Ribeiro, de quem S. Ex.a é amigo, e em
das mais nobres e
illustres famílias de
S. Miguel, ainda pelo
seu casamento com
a condessa do mes­
mo titulo, D. Clara
Rebello Borges de
Castro, senhora de
bondade extrema e
de exemplares virtu-
CONDE DOS FENAES >
des, mais se aparen­
tou o Conde dos Fenaes com outras fidalguias michaelenses, que
lhe augmentariam o grau de nobreza, se elle já de si não fosse
tão nobre e illustre pelo nascimento e pelas acções.
E’ de estatura alta, mas se a grandeza do seu corpo devesse
ter relação com a grandeza da sua alma, facil lhe seria então
trocar com os astros o lume do seu charuto.
Eu não conheço alma mais gentil, na pratica do Bem e na
admiração do Bello. Uma sala do palacio do sn. conde dos fenaes

84

DRaC-CCA
de sommas relativamente grandes, que elle por bem empregadas
dá, só para acompanhar a arte em todos os seus progressos.
Como photographo amador, possue clichés que pelo seu re­
levo, bom gosto, finura e arte, não se envergonharão do confronto
com os de artistas profissionaes.
Tem cincoenta annos, mas apezar d’isso trabalha e estuda
sempre.
Os melhores professores de equitação e esgrima também não
lhe são desconhecidos.
Possue, como se vê, uma completa educação de gentlemen
distincto.
El-Rei D. Carlos, agraciando-o com o titulo de Conde dos
Fenaes, em i3 de fevereiro de 1902, com a commenda da Or-

Residência do sr. conde dos Fenaes —lado do jardim (Cliché do mesmo sr. conde)

que brilhantemente nos revelou, pela primeira vez, o seu talento


de escriptor.
Alem d’isso a distincção com que maneja o seu pincel, colo­
ca-o proeminentemente ao lado dos mais distinctos pintores ama­
dores do paiz; e só a avultada fortuna de que dispõe, que o
abriga de todas as dependencias, pode culpar-se d’elle não ser
um artista de nome e de gloria para a nação, —que méritos lhe
não faltam para isso.
E’ discípulo dos melhores pintores nacionaes e estrangeiros,
com os quaes procura sempre relacionar-se em qualquer capital
onde se encontra, empregando n’isso o seu melhor tempo, a custo Jardim do Botelho — palacio Fonte Bella (Cliché do sr. conde dos Fenaes)

85

DRaC-CCA
dem Militar de Nossa Senhora da Conceição de Villa Viçosa em distribuição das suas graças, com o escrupulo relativo ao valor
17 de abril do mesmo anno, e com a auctorisação para uso de delias, é o que melhor e sempre pode dar a medida dos bons
Brazao d’Armas e o titulo de Fidalgo de Cotta d’Armas, em reis e dos seus governos; — e todas as Mercês concedidas por
data posterior que agora me não lembra, honrou o, mas honrou-se El-rei ao nobre Conde dos Fenaes tem sido justas, por delias
ao mesmo tempo a si também, aos olhos dos que se permittem ser mui digno o sympathico titular.
a liberdade de apreciar acções regias, pois que a justiça dos mo-
narchas, na apreciação criteriosa dos homens do seu reino, e na Corrêa de Mendonça.

Brasão d'armas do Ex.mo Sr. Conde dos Fenaes

86

DRaC-CCA
COSTUMES POPULARES MICHAELENSES
m todos os povos, e em todos os parte do mundo, como o aflirmavam illustrados viajantes, e até
tempos, foram os costumes po­ certo ponto ridículo, não deixavam comtudo de offerecer commo-
pulares transmittidos de geração didade.
em geração, trazendo até nós os A respeito d’esta carapuça, escreveu ha annos o distincto es-
usos mais extravagantes, os cos­ criptor sr. Francisco Maria Supico o seguinte:
tumes mais particulares. «O luxo do camponez michaelense, pelo que a elle só diz
A ilha de S. Miguel não se po­ respeito, pode dizer-se que se manifesta principalmente na cara­
dia eximir a esta lei geral. puça.
O trajo que mais dá na vista Usa-se de custo excedente a 7^200 réis; e a forma cora ser
dos visitantes da ilha, é sem con- singular, e até manifestar as diffe-
tradicçãp o capote e capello usa­ renças de localidade por modifica­
dos pelas mulheres. Consiste elle ções no feitio, não deixa comtudo
em uma rodada capa, sempre de de ser muito commoda.
panno azul, distinguindo-se pelo As palas, bicudas ou redondas,
capello, que tem feitio particular, são amplas sempre e por isso bom
e que excluindo os usados na ilha resguardo do sol e da chuva.
de Santa Maria e na do Fayal, muito parecidos, não.consta exis­ Cahem da copa até aos hombros
tirem eguaes em outra qualquer parte. Estes capotes pesados, e boas tiras de panno, que agasa­
que se nos afiguram incommodos, offerecem comtudo vantagens lham das ventanias do inverno, e
ás pessoas costumadas a uzal os, que quasi em geral são pessoas não afogueiam no verão, pela fa­
menos abastadas, não sendo comtudo raro, vel-os de custo supe­ cilidade de as levantar. Se urge a
rior a trinta mil réis. necessidade lá está, o colchete ou
Nalgumas freguezias ruraes existe também outra forma de botão que a conchega mais, aper­
capote, que consta de uma capa de pouca roda, com um pequeno tando-a por sobre a barba, embora
cabeção, usado a maior parte das vezes pendente da cabeça. fiquem assim escondidas as borda­
Em tempos que não vão mui longe, o que mais se distinguia duras da camiza de linho, nem
n’esta ilha, eram as carapuças usadas pelos aldeãos. sempre fino, em que se revelia o
Com quanto o seu feitio fosse desconhecido em outra qualquer mérito da consorte, ou da filha pa- Trajo popular

DRaC-CCA
ra os trabalhos d’a- pre perfeito equilíbrio, caminhando desembaraçadas, cantando al­
gulha.» guma copla popular ou conversando com suas conhecidas.
Hoje é raro ver­ As festas mais populares e de maior devoção são duas: a do
se uma d’aquellas Senhor Ecce Homo e a do Espirito Santo. De longa data veem
carapuças porque a ellas, e a ultima, que se prolonga por mais de tres mezes em
moda tem quasi des- cada anno, dá motivo a que se abatam grande numero de rezes e
apparecido, e algu­ e se manipule alguns milhares de alqueires de trigo em pães, que
ma que por acaso são geralmente distribuídos pelos pobres da freguezia, ou em
apparece, é tão mo­ pensões aos irmãos do império.
dificada, que a muito Os foliões, typo caracteristico d'aquellas festas nas aldeias, e
custo dá ideia das que com a ausência d’elles o publico não fica satisfeito, com­
antigas. põem-se de um grupo de tres ou quatro homens, vestindo cada
E’ bello vêr nas um sua opa de chita de grandes ramos, sempre de côres alegres
aldeias as mulheres e com uma mitra na cabeça formada
em seus trajes do­ da mesma chita. Um, que é vulgar­
mingueiros. Seus mente o maioral, ou o que pucha a
vestidos de cassa cantiga, leva a bandeira que é sem­
branca, ou de chita, pre de damasco vermelho, tendo ao
alegremente enra­ centro uma pomba bordada a bran­
mada, seu amplo len­ co; os outros tocam rabeca, viola,
ço na cabeça, sem um pequeno tambor e pandeiros,
pre de côres visto­ e assim em grupo, n’uma toada mo-
Os FOLIÕES NA FESTA DO EfPIRITO S NTO
a sas, seus sapatos de­ notona e desafinada, acompanham
cotados, cami nhando as coroações á egreja e a todo o
ligeiras, frescas e rosadas para a egreja parochial, onde a ultima festejo d’aquelles dias.
badalada do sino as advertiu de que o parocho vae subir ao altar Na cidade e n’algumas villas es­
para celebrar o santo sacrifício da missa. tas scenas teem desapparecido, sen­
Se algum orvalho as apanha, ou o frio é intenso, a ampla do substituídas por musicas e pelo
saia do vestido virada para cima e cobrindo-as da cintura á cabeça acompanhamento de creanças rica­
lhes serve de resguardo. Mas o que ainda tem maior poesia, é mente vestidas.
vel-as de volta da fonte, pés nús, saia enrolada á cintura e com a
a talha ou jarra á cabeça, direita ou inclinada, conservando sem­ Joaquim Candtdo Abranches. A CAMINHO DA FONTE

88

DRaC-CCA
DRaC-CCA
LOMBADAS
& Rainha das aguas de meza
Leve, estomacal e digestiva,
pura, limpida e barata
R E C O M M E N D AD A
TODOS OS MÉDICOS

Deposito Geral
RUA ARCO DO BANDEIRA, 174 A 178 C. MAHONY & AMARAL
LISBOA
70, Rusi Augusta, 3.°— LISBOA

METAES EM BRUTO: Aço, cobre, latão, estanho, chumbo em chapa, bar­


| m _ ... I ras lingots.

Clarimundo V. FERRO: Em barras quadradas, redondas e vergalhão. Vigamento de ferro


em T I U i cantoneiras e todos os mais aprestos para construcções. Ferro em
lingots para fundição. Chapas galvanisadas lisas e onduladas. Chapas de aço
CIRURGIÃO DENTISTA para caldeiras. Tubos de ferro, cobre e latão. Arame de ferro, cobre e latão.
------------ DO ................... Folha de Flandres. Material fixo e circulante para caminhos de ferro. Rails de
aço e diversos perfis e pesos, vias portáteis. Machinas de vapor, gaz e petró­
JSaltirqore college of dental surgery» leo. Caldeiras. Bombas. Machinas para industrias e agricultura. Machinas. Fer­
ramentas. Vidros polidos, foscos e de phantasia. Vidraça, lages de vidro (dalles).
Consultas das 10 horas da manhã ás 5 da tarde Assucar, arroz, especiarias, drogas, productos chimicos. Ascensores hydraulieos,
Edoux & C.a
CIMENTO
Çua ^ova do ^luçada, 8t, t. Únicos importadores em Portugal e colonias do CIMENTO da Compagnie
USB O A des Ciments Parisiens, fabricado pelo notável engenheiro E. CANDLOT.
*
Fabrica de sabão —Telhai (Poço do Bispo)
............................. i ú li li 111 li ..... ......... . 11 í 111111 Li ........................... .
Fabrica da licores, aguardente, genebra e cognacs — TELHÃL (POÇO 00 BISPO)
Typ. d' *A Lisboa

DRaC-CCA
João Machado da Conceição Grand Hotel Central
LISBONNE

J. IIOT1S SQBMfflQ
Antigo alitmno da academia de Bellas Artes
Commissões
e consignações
VUK SPLENDIDE SDK LE TAGE

CUISINE FRANÇAISE REN0MMÉE


Conforts modernes
Ascenseur, Bains, Salon de lecture, etc.
ON PARLE TOUTES LES LANGUES
Promove vendas de cereaes, man­ PRIX MODÉRÉS
ATELIER DE PINTURA ESCULPTURA E DOURAMENTOS teigas, queijo etc., etc.

Encarrega-se de paysagens, figuras, ornatos, decorações, pintura


Fornece todos os generos d’esta Grand Hôtel Central
histórica, restauração de quadros antigos, letras, imitação de mármore capital, consumidos nos Açores, LISBON
e madeira, scenographía, frescos, aguarellas, pintura c douraiueulo em nas melhores condições, levando S1TUATBD ON THE SHORE OF THE TAGUS
egrejas, carnações em imagens, esculptura de imagens e retábulos. With magnilicent panorama
trabalhos de architectura, desenhos e plantas para construcções diver­ aos seus freguezes os minimos pre­
sas e todos os trabalhos pertencentes á arte, mesmo fóra dã ilha. ços do mercado. MODERAT PRICES
Grande variedade de clichés photographicos dos Açores. EXCELLENT FRENCH CUISINE
/ PREÇOS CONVENCIONAES \ ALL LANGUAGES SPOKEN
Ilha d.o Fayal- AÇORES > Rua dos Correeiros 6 — LISBOA Unrivalled for its Comfort
Lift, Baths, Reading room daik room,
♦§1 ------- ----------------- ----------------- Adresse telegraphico etc.
HACHE —LISBOA

Chá Canto
>111111 iiiiiiiiiiii iiiiii iiiniiiiiii iiitii iiiiiiiiiiiiiiiiii iiiiii iiiiiiiiiiii 111111111111111111 mmV
p' Campeão & C.‘ = ATELIER PHOTOGRAPH1CO ájjí =
CASA de CíMBID e LOTERIAS = »3C =

Esta casa possue para as lotarias, quer


ordinanas.quer extraordinárias, uni varia­
do sortimento de numeros em bilhetes
Agradavel, puro, hygienico e colhi­
do da genuina planta do chá.
! JOSÉ G. CARDOSO !
décimos e cautellas O CHÁ CANTO só se vende em pa­ = 3, R.UA DE S. PAULO, 3 =
Compram e vendem pelos melhores pre­
ços, libras, ouro portuguez e todas as moe cotes de 50, 120, 240 e 580 réis, com | HQRTA =
das nacionaes e estrangeiras, notas dos marca registada, para garantir a sua
bancos de Hespanha, França, Inglaterra, pureza e qualidade e em latas illustra- = N’este estabelecimento tiram-se retratos em grande variedade de processos e =
Italia, etc.
Descontam vales do correio, vendem le­ das de 750 réis, lacradas na tampa — tamanhos por preços baratíssimos.
tras, sellos e papel sellado. para egual garantia. atos a crayon, de differentes tamanhos, pelo =
Para o CHÁ CANTO ter um optiino ma perfeição, ou por pholographia antiga não =
118 — RIA DO AMPARO—118 sabor, é preciso ser feito em pouco 0 nada a desejar. =
mais de metade da porção empre­ zem-se belios passepartouts de cartão especial 2
NUMERO TELEPHONICO 53 gada por qualquer outra qualidade de e quadros que se entregam promptos a col- =
chá. locar nas salas.
ENDEREÇO TELEGRAPH1CO O CHÁ CANTO encontra se á venda ________________ ___________1
Campeão — Lisboa nas principaes lojas de chá e mer­
cearias. >111111 111111111111 mm 111111111111 iiiiii 111111111111111111 mui 111111111111 mm 111111111111 iiiiik

DRaC-CCA
DRaC-CCA
A memória d'/\ritl)ero
Retratos
Desfeita a illusão da vida, o mundo, Olha a gente um retrato e os olhos param
Para tão vasto olhar, tornou-se estreito: scismando no passado, com tristeza:
Prisão que lhe opprimia o justo peito. assim acórda rfelles mais accêsa
Num desalento já de moribundo. a lembrança d'alguem que muito amaram.

A Natureza, o Bello, um Bem fecundo, Aquelle olhar pasmado agora encaram


Já nada em volta achava, em ar desfeito e o rosto frio, sem côr e sem viveza:
Por mais que olhasse, eterno insatisfeito. que é d’elle o riso alli, que é da belleza
Só um deserto via, árido e fundo. que em vida já com ancia namoraram?

E o coração, na lucta attribulado Em vão espera a gente ouvir ainda


Do grande desengano, já cançado. palavras santas d'uma bôcca linda
Exangue n esse mar cheio d escólhos, que alli parece muda por maldade .

— Na mão de Deus agora emfim descança, Se é um engano tudo o que se vê


De Deus que foi a ultima esperança, n’um retrato, guardal-o para quê ?
A derradeira luz d’aquelles olhos! — senão para estragar uma saudade ?

Humberto de Bettencourt. Humberto de Bettencourt.

89

DRaC-CCA
DR. LUIZ DE BETTENCOURT DR. HUMBERTO DE BETTENCOURT

o fôro michaeiense, tão rico a moderna geração dos in-


N em boas mentalidades, o
dr. Luiz de Bettencourt de Me­ N tellectuaes michaelenses, o
nome do dr. Humberto de Bet­
deiros e Camara, apesar de n’elle tencourt de Medeiros e Camara
ser dos mais novos, occupa, sem surge em primeiro plano.
contestação, um dos melhores Aquelle nosso morbido meio
logares. açoriano, húmido e de nuvens
Figura sympathica, insinuan­ baixas, hade, por certo, acorren­
te, elle soube, em pouco tempo, ta-lo a uma inacção improducti-
conquistar em S. Miguel uma va, se bem que no seu cérebro
grande popularidade, como advo­ exista o germen abundante para
gado, mercê da superior intelli- bellas obras de arte.
gencia com que principiou, logo no começo da sua carreira, a de- O dr. Humberto de Bettencourt é quasi um talento inédito,
fender a causa dos seus clientes. refractario a publicações, á aura da popularidade.
Como orador, é elle hoje, indubitavelmente, o primeiro entre Em livros, possue apenas o Auto de saudação, publicado por
os oradores michaelenses; e não porque a alguns dos outros falte occasião da visita dos Monarchas portuguezes ás ilhas dos Aço­
talento e arte, mas porque o dr. Luiz de Bettencourt é o unico res ; mas na imprensa periódica de Ponta Delgada tem appareci-
que reune todos os requisitos modernamente indispensáveis a um do versos e prosas suas, que affirmam um poeta parnasiano e um
tribuno: talento, inspiração, figura, gesto e voz. escriptor de fina cultura.
E é por tudo isto que os seus discursos têm recebido, no fô­ Estreiou-se auspiciosamente na tribuna forense de Ponta Del­
ro, no theatro ou nos comícios, consagrações de applausos gada, e hoje exerce o cargo de professor do lyceu d’aquella
ruidosamente enthusiasticos. cidade, sendo ali estimadíssimo por todos os seus discí­
Elegendo-o deputado pelo districto de Ponta Delgada, pulos.
prestaram os michaelenses uma bem merecida homenagem Espirito lúcido e illustrado, caracter franco, o dr. Hum­
aos seus talentos, que ainda mais largamente brilharão de berto de Bettencourt é bastante apreciado e querido pelos
futuro. seus conterrâneos.

DRaC-CCA
EXCERPTO D’UM DISCURSO"
«Os bons para uma parte e os maus para a outra !» Distinguir os Bons dos Maus! Mas, quaes são os Bons? quaes
«Os homens, só os distingue a virtude, e não ha mais que dois são os Maus ?
generos de gente n’este mundo: bons e maus.» Não alcançou o engenho dos homens achar a pedra de toque
«Só o que está dentro de nós nos póde
distinguir intrínseca e verdadeiramente, e
este é o vicio ou a virtude; tudo mais são
cousas que ficam de fóra: — pódem mudar as
aparencias, mas não distinguir as pessoas.»

Assim falava ousado e vibrante o pri­


meiro orador sagrado portuguez; mas o
verbo inspiradissimo do ministro da dou­
trina christã não ensinava assim a moral de
Christo, porque essa praticou-a Christo para
que a praticassem os homens, e os olhos
d estes não têm vista para vêrem aquella
distincção intrínseca: mal alcançam aquillo
que lhes fica de fóra e não lhes pertence a
perspicácia d irem além das aparencias se­
parar o Bom do Mau.
Baldada tarefa essa da Humanidade atra-
vez dos séculos e de todas as comprehen-
soes do Universo !

(i) Proferido no Theairo Michaelense, em i de


janeiro de igo3, n’uma «matinée» musico-litteraria em
beneficio da Associação de Caridade O Século XX
— promotora d’instrucção popular. Jardim do Botelho. — Fonte Bella

DRaC-CCA
d’um metal tão precioso. Para proferir o veredicto
irrevogável da questão, não ha no mundo, tão
grande quanto é, um só palmo de terra onde o
juiz do pleito pudesse poisar os pés: onde elle
estivesse outra seria a razão, outro o critério, ou­
tra a sentença!
Pois o que justificava á Roma elegante e cul­
tíssima, que as tocheiras humanas, feitas com os
discípulos de S. Paulo, crepitassem illuminando os
jardins de Nero ?
Castigar os Maus.
E não foram esses que se chamaram christãos,
que, séculos volvidos, foram, por sua vez acender
as fogueiras da Fé? Para què?
Para castigar os Maus.
E ainda agora, em nome de que principio, a
austera justiça social, enche os cárceres das peni­
tenciarias ou faz erguer os cadafalsos ?
Para castigar os Maus.

O espirito humano agita-se anciadamente em


face d’esse problema. Dissecou-o a investigação
philosophica sob o escalpéllo dos systhemas mais
Jardim do Botelho — Fonte Bell*
diversos, e nos cadinhos de todos os methodos
tem sido decomposto e analysado. E a moderna sciencia social. E' verdadeiramente a consagração scientifica da fabula do lobo
procurando formular leis para as sociedades futuras, ahi também e da ovelha: — não foste tu, mas foi teu pae !. . .
se prende e embaraça, e já tanto affirma que só a educação
eguala todos os homens, insulando todos os caracteres e tendên­ Felizmente, porém, bem felizmente, que fóra e mui distante
cias, como logo proclama as fataes experiencias da hereditarie­ d essa avida região, penhascosa e sombria, em que a vida se
dade mórbida, verdadeiros anathemas de maldição, como os agita nas suas luctas e insaciáveis ambições do Querer, do Po­
dos prophetas bíblicos, sobre as gerações taradas dos vindou­ der. e do Saber, podemos encontrar o paiz sereno, pacifico, lumi­
ros ! noso, onde a desconfiança hostilisante do Homem para o Ho­

92

DRaC-CCA
mem, se transforma no sentimento caricioso da solidariedade fra­ dos doentes nos catres dos hospitaes, saber das suas virtudes ou
ternal. da sua iniquidade ? Que lhe importa que os lábios que lhe sorriem
N‘um ideal paiz da Paz e da Harmonia, habita, em seu palacio de gratidão se crestassem com impurezas da Mentira, ou apenas
de cristal, a linda fada ou rainha que o governa. se entreabrissem á palavra da Verdade?
A sua passagem, as vegetações adustas dos caminhos rever- E para recolher das valetas dos caminhos as creancinhas aban­
descem para lhe aifombrarem o sólo, florescem para a saudarem donadas, pensa lá, porventura, em perguntar-lhes:—teu pae foi
com perfumes: enxugam-se as lagrimas nos olhos dos infelizes, e virtuoso ?
o estertor das angustias muda-se em acclamações festivas: des­ Ella não vê nas misérias das degradações sociaes, horrores
cerram-se nevoeiros opacos de desespero, e abrem-se horisontes que afastem: vê dores que é urgente suavisar. Não vê desgraça­
constellados d’esperanças ! dos, vê desgraças!
Ha nesse paiz uma só lua:—a do Amor dos Homens; e a
Fada que n’elle reina, soberana indesthronavel, chama-se Cari­ A nossa festa d’hoje é toda consagrada á boa e linda Fada
dade. d’esse paiz ideal.

Ahi, perante ella acaba aquelle inquirir dos Homens, se são Ponta Delgada, i de janeiro de 190?.
Bons ou se são Maus. Que lhe importa, velando o somno agitado Luiz Bettencourt.

93

DRaC-CCA
Anno 68. Ilha de S. Mijjnel Sabbado 29 de Novembro de 1902 Numero 3528
0 Decano dos Jornaes Açorianos
Açoriano Oriental, o mais velho dos jornaes existentes

Dislincfio tnlre o Imnifii


DECANO DOS JORNAES PORTUGUESES

'eu jrn«an»'V)lo » doomr •»


forrnu vtriínltt Joqirod.ulM
ái mtareia com * i t<)it irM-
| », H nos Açores, conta 69 annos. Publica-se. na cidade da
Ponta Delgada, e é hoje seu proprietário José Ignacio
de Sousa, que ha 25 annos o mantém n uma correcta linha de
conducta. Foi fundado em i835 por meio de acçoes, cedendo-o
a sociedade fundadora, em 1841, a Francisco Joaquim Pereira de
t os animjcs' diiçOv» de Mta
* .elori» por
kd.api.k.
Quilqw qno wji o |'®'ik JÍSSUSlflM «griwlss
Macedo, que fôra seu collaborador.
Francisco de Macedo não possuia uma intelligencia culta;
mas, espirituoso e com habilidade, soube ganhar o bom conceito
publico, para o que muito concorria o seu caracter probo. Implan­
tou no jornal uma secção nova, em folhetins, forma epistolar,
onde tombava espirituosamente os assumptos mais palpitantes de
cada semana.
José Ignacio de Sousa, cujo retrato acompanha a reproducção
que fazemos d’uma pagina do Açoriano Oriental, tendo entrado
muito novo para a typographia de Francisco de Macedo, como
praticante, foi quem lhe succedeu na propriedade do jornal, e
quem lhe valeu nos últimos dias da vida, bem como a duas irmãs
que lhe sobreviveram. Todos o apreciam como jornalista digno
e homem de coração. O seu jornal é querido como uma boa re­
líquia do jornalismo insular.
Nos bons tempos em que poucas companhias theatraes visita­
vam os Açores, José Ignacio de Souza fez parte dum grupo esco­
lhido de amadores dramáticos, do qual já hoje poucos membros
existem na ilha, e outros são mortos.
VIRGEM, o melhor vinho de meza-Mercearia de Luiz Soares de Souza
Revellando sempre boa aptidão e gosto pela arte theatral,
ainda hoje o interessam bastante essas questões.

94

DRaC-CCA
FABRICA DE CERVEJA MICHAELENSE
a homens que pare­ mentos d’animo, veiu pois a dar na caudal de riqueza que hoje

H cem nascidos para


honra da terra que lhes
foi berço e vantagem de
tanto aproveita ao commercio geral dos Açores como obvia á ma­
nutenção de muitas familias.
Longe de referir seus cuidados no simples norteio da agricul­
quaes outras chegam mais tura, cuja selecção de processos lhe valera extranha melhoria, o
tarde a possui-los na força sr. João de Mello Abreu quiz ainda abalançar-se á industria em
da vida e, assim, em com­ grande, e ei lo que abre uma fabrica de cerveja — aquella sua fa­
pleta plenitude das suas brica que tão alto grau de prosperidade attingiu na cidade de
faculdades intellectuaes. Ponta Delgada.
— O que d'instante pode Sobre a perfectibilidade do artigo podem fallar os touristes
provar-se com a persona­ extrangeiros e d’entre nós Sua Magestade El-Rei que, por occa-
lidade sympathica do sião da recente visita, não duvidou classifica lo superior á cerveja
sr. João de Mello Abreu. das fabricas do continente. Assim cremos que também fosse o
Continental de nasci­ parecer elogioso do governo, ao visar a cerveja das ilhas, tão so­
mento, mas insular de re­ mente de consumo interno, com imposto egual ao que mais tarde
sidência, por isso que de veiu a incidir no fabrico da cerveja de exportação.
longa data assiste na Mas nem pelo muito que havia de lisongeiro em tal gravame
ilha de S. Miguel, tem o povo açoriano julgou dever dar se por convencido. . Levantou
Joáo de Mello Abreu este homem de bem de­ bem alto o seu protesto, conscio da justiça que lhe assistia, e o
votado ao progredimento protesto foi por fim acatado, sendo reduzido esse imposto, depois
local o melhor da sua actividade e da nobre cultura do seu es­ d’algum tempo de paragem da fabrica. Registaremos aqui, de
pirito. passo, quanto esse movimento unanime significou de estima pela
Sendo, como industrial probo, um vivo exemplo do que eram pessoa do sr. João de Mello Abreu.
os portuguezes antigos, o sr. João de Mello Abreu conseguiu ven­ Os protestarios, compartes das multíplices classes activas de
cer, em absoluto, esse quê de obstinação que, por banda dos na- S. Miguel, não esqueceram, decerto, o interesse geral para o ef-
turaes. se revela em toda a parte contra os adventícios. E a sua feito do protesto em vista; mas o que acima de tudo buscaram,
obra, iniciada com tamanho affecto e continuada sem affrouxa- no aproveitamento do ensejo, foi bem traduzir em que apreço

95

DRaC-CCA
mantinham nome e fazenda de um dos vultos a quem mais
deve a industria açoriana dhoje em dia.
Honra lhes seja; pois o homem nobre de quem vimos
fallando tudo ha feito pelo merecer, resaltando que não
poucas instituições do archipelago emanam dãniciativa sua.
Na impossibilidade de regista-las a todas, lembraremos,
ainda assim, a poderosa companhia de seguros em Ponta
Delgada, a qual constitue um dos melhores florões da obra
d’utilidade publica arriscada em pró da terra adoptiva pelo
sr. João de Mello Abreu.
Nunca os feridos pela má sorte acharam fechada a sua
bolsa; e se ás grandes calamidades elle, só por si, não
póde dar o efhcaz remedio, é sempre o primeiro a promo­
ver subscripções, que, uma vez de iniciativa sua, são cober­
tas rapidamente por todos a quem o sr. Mello Abreu se
dirige, tal é a consideração justíssima em que é tido em
todos os Açores, como um modelo que é, de trabalho, de
honra e de bondade.

96

DRaC-CCA
IV." 12

DRaC-CCA
LOMBADAS ft Rainha das aguas de mcza
Leve, estomacal e digestiva,
pura, limpida e barata
K H c O 1M N4 K N L ) A D A
for

TCDOS OS MÉDICOS

Deposito Geral
RUA ARCO DO BANDEIRA, 174 A 178 C. MAHONY & AMARAL
LISBOA
70. Rua Augusta. â.°— IjISBOA
TELEFHONE 586
uiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiniiiiiiimii I METAES EM BRUTO: Aço, cobre, latão, estanho, chumbo em chapa, bar­
ras lingots.

Clarimundo V. Emílio > FERRO: Em barras quadradas, redondas e vergalhão. Vigamento de ferro
em TI Ui cantoneiras e todos os mais aprestos para construcçòes. Ferro em
lingots para fundição. Chapas galvanisadas lisas e onduladas. Chapas de aço
CIRURGIÃO DENTISTA para caldeiras. Tubos de ferro, cobre e latão. Arame de ferro, cobre e latão.
: DO * Folha de Fiandres. Material fixo e circulante para caminhos de ferro. Rails de
aço e diversos perfis e pesos, vias portáteis. Machinas de vapor, gaz e petró­
JSaltirqore college of dental surgery leo. Caldeiras. Bombas. Machinas para industrias e agricultura. Machinas. Fer­
ramentas. Vidros polidos, foscos e de phantasia. Vidraça, lages de vidro (dalles).
Consultas das 10 horas da manhã ás 5 da tarde Assucar, arroz, especiarias, drogas, productos chimicos. Ascensores hydraulicos,
Edoux & C.‘
CIMENTQ
Çua ijlova do ^.Irçada, tít, t. Únicos importadores em Portugal e colonias do CIMENTO da Compagnie
LISBOA des Cimente Parisiens, fabricado pelo notável engenheiro E. CANDLOT.
%
Fabrica de sabão — Telhai (Foço do Bispo)
iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiniiiiiiiiiiiiiiii niiiinii=
Fabrica de licoraa, aguardento, ganebra 8 cognacs — TELHAI (POÇO 00 BISPO)
* A. Editora
Typ. d' * — Lisboa

DRaC-CCA
João Machado da Conceição Grand Hotel Central
LISBONNE

JJ.SOTB SOBRINHO Commissões VOE SPLEND1DE SVB LE TAGK

CUISINE FRANÇAISE RENOMNtEE


Antigo alumno da academia de Bellas Artes e consignações Conforts modernes
Ascenseur, Bains, Salon de lecture, etc.
ON PARLE TOUTES LES LANGUES
Promove vendas de cereaes, man­ PR1X MODÉRÉS
HELIER DE PINTURA ESCULPTURA E DOURAMENTOS teigas, queijo etc., etc.

Encarrega-se de paysagens. figuras, ornatos, decorações, pintura


Fornece todos os generos d’esta Grand Hôtel Central
histórica, restauração de quadros antigos, letras, imitação de mármore capital, consumidos nos Açores, LISBON
e madeira, scenographía. frescos, aguarellas. pintura e douramento em nas melhores condições, levando S1TUATED ON THE StlORE OF THE TAGOS

egrejas, carnações em imagens, esculptura de imagens e retábulos. With magnificent panorama


trabalhos de architectura. desenhos e plantas para construcções diver­ aos seus freguezes os minimos pre­
sas e todos os trabalhos pertencentes a arte, mesmo fora da ilha. ços do mercado. MODERAT PR1CES
Grande variedade de clichés photographicos dos Açores. EXCELLENT FRENCH CUISINE
PREÇOS CONVENCIONAES ALL LANGUAGES SPOKEN
Rua dos Correeiros G — LISBOA Unrivalled for its Corofort
Ilha, do Fajral— AÇOHES
Lift, Baths, Reading room dark room,
Ádresee telegraphico etc.
HACHE —LISBOA

iiiiiiiiiiii iiiiiiiiiiii

Chá Canto
yiiim niiiiiiiiii mm iiiiniiiiii iimi iiiiiiiiiiiniiiii iimi miii iiim\

Campeão &
ATELIER PHOTOGRAPH1CO
GASAdeCAMBlOeLOTERIAS
Esta casa possue para as loterias, quer
ordinanas,quer extraordinárias, um varia­
do sortimento de numeros em bilhetes
Agradavel, puro, hygienico e colhi­
do da genuina plauta do chá.
JOSÉ G. CARDOSO
décimos e cautellas. O CHÁ CANTO só se vende em pa­ 3, H.UA DE S. PAULO, 3
Compram e vendem pelos melhores pre­
ços, libras, ouro portuguez e todas as moe cotes de 50, 120, 240 e 580 réis, com HORTA
das nacionaes e estrangeiras, notas dos marca registada, para garantir a sua
bancos de Hespanha, França, Inglaterra, pureza e qualidade e em latas illustra- N’este estabelecimento tiram-se retratos em grande variedade de processos e
Italia, etc.
Descontam vales do correio, vendem le­ das de 750 réis, lacradas na tampa tamanhos por preços baratíssimos.
tras, sellos e papel sellado. para egual garantia. Magníficos retratos a crayon, de differentes tamanhos, pelo
Para o CHÁ CANTO ter um optimo original com a maxima perfeição, ou por pholographia antiga não
118 —RUA DO AMPARO —1*8 sabor, é preciso ser feito em pouco deixando nada a desejar.
rnais de metade da porção empre­ Fazem-se bellos passepartouls de cartão especial
NUMERO TELEPHONICO 53 gada por qualquer outra qualidade de e quadros que se entregam promplos a col-
chá. locar nas salas.
ENDEREÇO TELEGRAPHICO O CHÁ CANTO encontra-se á venda
Campeão — Lisboa nas principaes lojas de chá e mer­
llllll IIIIIIIIIIII IIIHI IIIIIIIIIIII llllll IIIIIIIIIIIIIHIII llllll IIIIIIIIIIII llllll IIIIIIIIIIII llllll/^
cearias.

DRaC-CCA
jllllllllllIlTlIlllllllllllllllllllllllllllll llllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllE

Casa fundada em 1846


M. G. FEKRARI
Especialidade em doces d’ovos. neve e doce de copa. Con­
servas de fructas. Bolachas e biscoitos das melhores
fabricas inglezas e francezas.
Vinhos finos nacionaes e estrangeiros. Lico-
res de todas as qualidades, cognacs.
PREMIADO com a tí J rhum, vermouth, bitler, etc., etc.
medalha de 1.* classe na Exposi- ® «Zxk -ti
ção Internacional do Porto em 1865 e '
em varias outras exposições. x

FORNECEDOR DE S. S. MAGESTADES
FORNECE esmeradamente serviços com-
pletos de almoços, lunchs, jantares, soirées e bailes,
encarregando-se de toda e qualquer encommenda inhe-
k rente á sua arte tanto no continente e ilhas como África e Brazil
91, BXFA NOVA DO ALMADA
LISBOA
Bí.° telephi Endereço telegrapbico CONSERVARIA

IIHIIIIIIIIIIIIIIIIII

ãllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllll|
j llllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllr

DRaC-CCA
MAJOR FRANCISCO AFFONSO DA COSTA CHAVES E MELLO

s sciencias naturaes têm nos Açores o seu mais lidimo repre­ O major Chaves foi, por vezes, nomeado professor interino do
A sentante no major do exercito portuguez, o illustre michae- Lyceu de Ponta Delgada, no qual regeu com proficiência as cadei­
lense sr. Francisco Affonso da Costa Cha­ ras de physica e chymica.
ves e Mello. Eram pobres, a esse tempo, de appa-
Foi na Ga\eta Açoriana, que o major relhos, os respectivos gabinetes; mas o
Chaves começou a publicação dos seus major Chaves, sempre interessado em
estudos scientificos de vulgarisação, sob tudo o que diz respeito a sciencias, tra­
a epigraphe de Sciencia Popular. Traba­ balhou devotadamente para que elles fos­
lhando sempre com afinco, já em 1884 sem dotados com o material necessário á
— tinha então 27 annos — enviava a Ca- ministração pratica d'esse ensino.
millo Flamarion, para serem publicadas O major Chaves é o director do Posto
no seu jornal L' Astronomie, observações Metereologico de Ponta Delgada, estabe­
astronómicas e scismicas. lecimento bem montado e de reconheci­
O major Chaves abriu em Ponta Del­ das vantagens, que ninguém melhor po­
gada, por esse tempo, um curso de scien­ deria dirigir. Em 1888 foi eleito membro
cia nocturno, onde leccionava alguns ope­ da Sociedade Astronómica de França. E’
rários. O seu amor pela instrucção levou-o agraciado com o grau de cavalleiro da
ainda a fazer varias conferencias sobre as ordem de S. Thiago, e socio correspon­
vantagens do methodo Frcebel, que lhe dente da Sociedade de Geographia de
mereceram uma mensagem de agradeci­ Lisboa.
mento, assignada por todos os professo­ O ultimo e importante trabalho do
res michaelenses. major Chaves, é a iniciativa dum Obser­
O carinho que tem votado ao Museu vatório Magnético, que já está sendo mon­
de Ponta Delgada, já hoje tão rico, é tam­ tado em S. Miguel.
bém um dos seus melhores brazoes. Não Deixando aqui tombadas estas rapidas
houve especie rara na zoologia açoriana, notas sobre a importantíssima obra de tão
que o major Chaves não enviasse ao Museu; e, para mais o enri­ distincta individualidade, rtsóg tivemos em mira pôr em relevo os
quecer, valeu-se também muito das relações que tem com vários seus méritos scientificos, e os altos serviços que os Açores lhe
sábios da Europa, que altamente o consideram. devem.

100

DRaC-CCA
JoELí
O amor! o amor! Que duvida funesta! Sim ! que ha de ser daquelle a quem roubaram
Vamos seguindo uma illusão que passa, O coração, em dias mais risonhos,
Mas a nossa alma, num momento emjfesta, Se elle era, o coração que nos levaram,
Torna-se um antro de desgraça! O ninho onde arrulhavam nossos sonhos?...

O amor! o amor! Que tragica visão! O amor! o amor! Que duvida funesta!
Se alguma vez ha risos nacarados, O amor! o amor! Que tragica visão!
Na Catedral do nosso coração Na minha Catedral já não ha festa,
Depois dobra a finados! — Roubaram-me também o coração!

O amor! o amor! Oceano sem bonança Senhora! uma só coisa de vós quero:
Onde naufragam illusões côr de oiro! A quem triste me faz fazei ditosa...
Que ha de esperar, Senhora da Esperança. Peregrino por senda dolorosa,
Quem vê roubado o seu melhor tesoiro?. . . Senhora da Esperança. .. eu nada espero!

Raposo de Oliveira.

1OI

DRaC-CCA
FRANCISCO MARIA SUP1C0

A PERSUASAO Redactor, responsável e proprietário—Francisco Maria Sup’eo


•tr?. ta * *
F
rancisco Maria Supico não nasceu em terras açorianas; mas
o longo periodo de 5o annos de vida michaelense, dão-nos
quasi o direito de lhe chamarmos nosso. Foi no continente do
reino e na villa de Louzã que seus olhos viram a luz do dia, no
PRIÇO n* ASSlGSATUiU Quarta
*
lelra rarç.» !»<n âwíiwk»
Homero 2:059 - x# - |<» 1,-M . „ .
3 de Jalw de 1901 40.» mo anno de t83o, a t de novembro. Na flor da vida, o coração ainda
«d la de meteis. Cima succtdia * ww an
liquada» .intepassato, çtuaô iam I Esoavaçõ , ihrnMs, tnucete à nobre, a juvla cmsj
incontaminado pelos gêlos da desillusão, procurava avidamente a
que •Itfriidcmc.i

EL-RE!
prlo piír altm. deKançinte n’ucri'ju
n‘ouira dc »u»; terras, • -• qx s
pa»a etcoUr tuppk-.w r <.;t, t'i
AI CMUmp! «r qu<> apear das m
,hs dt tda o frn.-r.v a tej.
leitura dos Poetas, na qual occupava seus ócios. Foi d esta natural
<
*«d *
pM Aar tu llh» Tire-ir»
Itenot. do .imanlii eeUtto ne»u
llh. I> Cartel I •, R< i Jc Pottug.l, c
às »«e» |h!li. preptu»
El-Rei lic.rA <oa:>»
não sú pelos a p«t ’
* i!t*ftu 9 tb b. l
Jc '
( .)!• e baiui-ic da liberdade p^U
■ [*'CZijaiiteMf4dat<n ovlr.i tp.-lu.
'.<i»/ry ri ,‘1' "4 •'« '« *• “•
affeição pela poesia que por esse tempo começou a versejar, sendo
sua augU>tvE-|«JÍ l.
R:>p:r.iniL - briias ■nujateu ilo
orebipelaxo »ç. t. in», terminam aqui .<
qotdros nsinr.»?s i
tes do ri«ib.afii»
parte p.d.is hiri»
•* —. S-J • .’,--. i*
X ■-
li «|«KV? t»j|r-. teten»a.re- oio
l '• . ••! • A -k *11, juntar ao- a sua primeira producção publicada no Correio Michaelense. En­
apreciação de su.i ciceprónies c cn- IiíIhÚi.Io t p-l .., -.. • >r. o:e ao dixuin. > M.nli.v AaguiU

wt
canlidor.is brll.'Z
*S.
E‘ a primr ti que na longa r
lominora hwt ui 11 orla/u.-ta sc r.crcc
iua>eis II»■!••
h (íunamenlc
bre po>o qu
t !!• . i» outra» liai, <t>i Açurei. mas
•"■ m w. i, furçu com ipi L.,j«
nl pȒ. Jeiiar Je reco-
trando assim no caminho das lettras, em 1864 iniciou a sua car­
a noti 1'un. i ví>i'i aos Açores dei w
mrchas d’oU nação.
E»tere c» o rei eph. mero D Anto-
tf
Otfmir
dará o
c-psrial #da DiritU

Skwnb-llrt
reira de jornalista, collaborando na Estrella Oriental, que ainda
nio, priai d > Ctílo, « is » pleitear m JT.rtc,
Mui direito, ã I-M.-.1 c wbwh par» isso IOM14
com a teaH.il., com o palno<i»m.v e 183-
ciioiã Itepe-
.•f<a da í:nwn a
hoje existe, com publicidade na villa da Ribeira Grande.
com > be.iuri do * açnrcan».
E-lcte D A ' (. •, ui i* ,-
Mtntareou Cl> Artgr. óan (,4-5 vi »p.
* w d»
. «..» ,
illui dos A-
* U. (FAqoci;.
Em i858, já então posto em evidencia, foi convidado a assu­
pintai d- mçobde mu e«p'..t m u>» sobredita |-
t< (ililO'li: i;i prijSo d-urada o Cfir, e
de ter cm,i umi •-•i.sij etc
liana pinem, qm u i:ni.‘,, ,n .11—rj.l
■J ■ Eo «Mtnl
•d*
*t.nxn-
t. Sc.' . » mir a direcção do Correio Michaelense, orgão do partido Setem-
• .te l'iJ-li-'iíaac',e
** 'a
quis p.r.i »i, drq-ij.lido-o U-iiIkiii <
seus din.kiv desobci-mj
Vnco Cv-nit,...... algun> nwc.
.a’tirJ Dt íen.oc, e c uno
.•te Bragança d ,v
ri.-o at próiiler., . pun,.
na brista, a qual tinha sido abandonada pelo fallecido Dr. Loureiro.
Pedro IV ruí ISH. mu fole nl
reiminte •\- v\c.o amJn ■ --sto
dc paina pmlnpurxa a mi-ir.
JH‘. que a * circfliQ Ur ub
nrote r*clam&o, no-uh (u>J>
Oi deiettr qo * Me irnp> a
Acceitou, e era definitivamente um jornalista, profisssão essa
de i[.e fila».. ..qm .t-vlij. *
lucivnjl, e a «efura confiar
|K«t tl I* i pcliv. direitos d
damentd <te l’orta,;>l, rrvilú
ibar4on.ro rej-m-j a ™t.; a$
*

at Mina. . cirrutr.'b.n.i.i. Me te-


que não mais deixou. Em janeiro de 62 fundou a Persuasão e
í» M-.ri.v da Gloria, (.<<»
IÚTM sxrifctM de vide
nobres Bthos dc Açore
Vetoei estas iPu. '
•u q«- mik chvo» sã. >> Mo
reunir a.. iV’tu-cr-
mais tarde a Gaveta da Relação, periódicos que ainda hoje redige.
/■ qu.' .1 cusli do, inaivre-. WlaIiCioO
cra ainda iiif.nte c ia
enlio que se hc ar
corôa de PoiIuívI
- t ni >u>irn
*3(te por ><u herneo ia-
l«: • ODlr» u4 . u. • Jorçc. da tiMip- Mas é principalmente ao primeiro d’estes que elle consagra o
ci<n bgrinas Jc
Mwlldck
E‘ pui. FJ-V
I' p’i- 'te .wrj.rer
melhor da sua actividade e do seu affecto; é na Persuasão que
de aouu»" ra.
tlrorni a suk.ar nu,.
nebimar. pau »ir ornpu.
pCftluri-•• ti ..r.uc-cm,... tio diffi.
<uk seu ,t.. rr.uumirei(pe.
os seus méritos de investigador consciencioso se têm accentuado,
C sem algum pu'ra f-m a «iteu
porção do potagnws de Loa lei. Oe.
xmiiudco c putos peto at»or <|o seu ‘
lotráa oaul as pteps e nxliedo» «Tei- (
I. • I nta H q.- Ik.i. j. .ter *
!»),
aushor; l..'- q i i j ote -n. Kcgerzia se
.ch.va d.- a,,tida a .put cooservarai
»
nas Escavações, trabalho este de reconhedida utilidade, para quem
mí q >' «.'.SiecJa *-n P.itugaloGo-
bs filias.
E' alta a liunrj c digno de a reitkr ‘
w tem rtostudo c se mostra este p<
Dtpah:
*o, 1 Qu»nA> ">1lM M.,
«crn> Lfgitm, d *. Mitdu Auf .->u Fi-
!-! i-r.m u Ccrt-s Gerais ,j. N».
mais tarde queira saber ou escrever dos Açores e dos seus vul­
nimbado d'«íto. (te çIo.-k, re> cm o-nau.- . ç‘.o i'oilu *<iws (.1 Cuja ‘ )c,torx’«o
altivo .<• <te<d, uf.no ite sui diemdado
formada nas rodis campanhas do tra­ co>po ereilo, rrttto o re<«,
loiros iu frcate, a «jctorix
' ’ mcd M-mcote manjarei p/oce>ter) ae
, re.terrotnpidas *
jouncrcine* coo .-ta .,uceucomic. n •.arreiem «te. tos que mais se evidenciaram.
balho. grande na adversidade, genero­
i con. * , emftm a tirar a I ltír'li>, que se adiam -I-úgamU r.i>
>r
so, meigo c bcai aimfa oiesmo quando
mais prcoiupaJo pelas tontrarieJate»
da tida.
diria, adqanJo além.
•patr-.is -qui tenso leu fi!»»o,
abre-Hif o» Ir-ços.mie;
| l^whilh,. tno,-----------

tr.'M>sdapo»o’euo
e -p- i ..........
a miséria ,
■ i—i/.o wflocMhteM BU!f nobre» v..., -----
qiudro V»-
Arb;n.. -í .?« Cirli VU1
raoMds -- ----------
•;.« vh ....
Conk'. i.->n.:; e
«u q., ■■______ ...
prc -Urei a , >- -..»«• i • v -
Francisco Maria Supico, pelo seu caracter probo e esclarecido
Ef RS terá occasiâo despreciarA tira
cotrva ainda aqui se conserva pura a ra­
fa aniipa dov | ertugueres, c ha dc »er
qtw nenhum a;.,|tano sc Ihedeerca pa­
e ante lei de ui.iu bnlba,
fulge na hiuoria Umbcm I
, nm . qa« »;•< ia P’".ug.lhi pfrk-1 do wl.t inom» IJar’.! par. o ét-r ió v
I 'te I 4AM'. C Mcj roíí/io x-lku pe- !■'-
<h ■ * ........
Itegcnci -ptrmaacnu

U e< :?.vú de Ga «cfflvfis srò» too-1-..................... ,.........................................
critério, logrou ser elevado a altas funeções publicas, sendo a ul­
Mre: -> BtM pcm> rrcoafcír-vte a » •,<. 1 BorJ» ih Fruat
* * R Je Ibr-
ra íaiec qutita de agguvot ©d requrs-
i Via uHiel. que Deui, d <pen»
*Jor d>-« .tjga' »»• ».le 7,-.f .r d, IS <„>.
tima a de presidente da Junta Geral, em iqoi, por occasião da
visita dos Monarchas portugueses ás ilhas dos Açores.
Raposo de Oliveira.

102

DRaC-CCA
PARALLELOS
ão, decididamente, elle não podia tra­ pérolas mais alvinitentes, que as pérolas que Margarida occultava
gar a Viscondessa da Serra Gorda ! no precioso e rubro escrínio da bocca! — Os dentes da Viscon­
A voz d'ella, o seu modo de rir, as dessa eram deseguaes, agudos, anavalhados, fazendo lembrar os
suas toilettes, ridiculamente provin­ dos lobos ou os dos chacaes!
cianas, inspiravam-lhe impetos ar­ E que mãos, que mãos, as da Viscondessa! Muito grandes,
dentes de brutalidades iniquas, que muito ossudas, com os dedos espalmados ! Ah ! Não eram, de cer­
nunca punha em acçao, mas que lhe to, mãos de titular! E estremecia, ao lembrar-se das pequeninas
deixavam os nervos vibrantes, n’um mãos de Margarida, dos seus dedos afilados, das suas unhas côr
mal-estar doentio! de rosa, do seu pulso tão delicadamente torneado, remate alabas-
E analysava pelos meúdos: Que trino ao seu braço de jaspe!
cabeça aquella, muito pequena, com E ao pensar nos bustos das duas, então, não pôde deixar de
raros cabellos hirsutos e ásperos, fa­ cascalhar um riso de ironia. Margarida resumia a perfeição su­
zendo lembrar as felpas de um porco- prema, e Phidias, se resuscitasse, despedaçaria a sua estatua, des-
espinho ! E que opulentas, as tranças de Margarida ! Que flexibi­ illudido da grande arte, perante aquelle esplendidissimo mármore,
lidade nos seus cabellos ondeados, de um castanho muito claro! vibrante de estremecimentos humanos ! — O busto da Viscondessa
Sempre que fitava os olhos da Viscondessa, accordava-lhe na era desalentador como um convite de enterro, rico de ângulos agu­
alma, pelo formato, grotesco e espherico, a reminiscência das pe­ díssimos, planície inaccidentada, charneca esteril e repulsiva.
dras de um triste loto, com que jogava muitas noites, desespera­ De repente, porém, estacou, e, dando uns passos pelo quarto,
damente, para entreter os ocios de uma tia velha, rheumatica e triturou nervosamente a ponta do havano.
rabugenta, que de mais a mais, morrera sem lhe deixar um ceitil, Proseguindo nas comparações, lembrára-se de aquilatar os co­
instituindo universal herdeira uma irmandade da sua terra! E pen­ rações das duas... Ah! Se tivesse podido, em virtude de um
sava nos olhos de Margarida, tão doces, tão esphyngicos, tão lu­ magico condão, transportar para o seio gelado de Margarida, o ar­
minosos, em cujas pupillas a voluptuosidade accendia lampejos tão dente coração da Viscondessa! Era impossível, porém, a realisa-
phosphorescentes! ção de semelhante desejo, e proseguiriam na vida, uma impecca-
A cutis de Margarida roubára a alvura ao leito e a macieza ao vel, na fórma, muito insensível e muito amada; a outra destituída
setim. A epiderme da Viscondessa tinha rubores insolitos, que fa­ de dotes physicos, muito infeliz e muito amante !
ziam pensar em espinhos carnaes.
Os ourives da rua de la Paix não tinham, nos seus estojos, Alice Moderno.

io3

DRaC-CCA
AMADORES DE PINTURA
e entre as coisas bellas que apparaceram na Exposição de Além das telas firma­
D Ponta Delgada, em 1901, por occasião da visita regia aos das por gloriosos nomes
Açores, sobremodo se destacou a secção de Pintura, á qual con­ de artistas extinctos,
correram os mais notáveis amadores michaelenses. como o de Marciano H.
N’esse certamen insular, bem patenteado ficou, para honra da Silva e o do Barão
dos michaelenses, que em Ponta Delgada ainda a arte, hoje em das Laranjeiras, novos
dia, levanta altos vôos, tentando, n uma louvável e santa aspira­ talentos ahi atfirmaram
ção, roçar azas pelas alturas a que subiu o genio d’esse grande dignamente o seu valor;
pintor já morto, que se chamou Marciano da Silva. e como não se pretenda
aqui fazer critica de arte,
mas tão sómente deixar
vinculados a esta obra
os nomes dos pintores-
amadores michaelenses
mais em evidencia, des­
ses nomes, justo é des­
tacar em primeira linha
o duma dama da me­
lhor sociedade de S. Mi­
guel: E’ o de D. Maria TVPO M1CHAELENSB. QUADRO A OLEO DO SR CoNDE DOS F NAES
e

Anna d’Andrade Albu­


querque. Pintora distinctissima, as suas telas impõem se como ver­
dadeiras obras de arte, aos olhos de quantos sabem vêr difficulda-
des em pintura, pequenos nadas que só um pincel de mestre cos­
tuma pôr em relevo; e, mesmo para os menos sabidos na matéria,
têm os quadros de D. Maria Anna dAndrade uma coisa que logo
os encanta: A verdade do assumpto.
Furnas. — Bahnos velhos. Quadro a oleo do sr. dr Julio Pereira Cor, forma, posição, tudo isto que é absolutamente indispen-

104

DRaC-CCA
OS AÇORES
ncerrados, desde o século XV, tuguês, anterior á conquista da índia, á introducção da escrava­
Eentre as apertadas costas des­ tura, á exploração mineira do Brazil, ás fogueiras da Inquisição,
tas ilhas dos Açores, circumdadas á dominação dos Felippes, á invasão franceza.
pelo largo oceano, que ora as beija Foram acontecimentos que mal nos affectaram, que nos deixa­
cariciosamente, ora, em impe tos ram intacto e firme o caracter do Português, como elle era no
desesperados, se ergue alteroso, pa­ tempo de D. João I, o Rei em que o Povo encarnou a sua livre
recendo que as quer submergir; Vontade de Independencia nacional.
semelhando por vezes um amante E’ por isso, é porque somos Portuguêses de antes quebrar
rendido, que affaga docemente a sua que torcer, que nas crises políti­
amada, outras vezes, um amante cas em que tem perigado a liberda­
a quem a raiva dos ciúmes leva á de e a Independencia nacionaes, os
loucura da destruição; expostos ás Açores teem sido o ultimo reducto
convulsões vulcânicas, que, num em que ellas teem procurado re­
momento, podem transformar a fugio.
bclleza das nossas paisagens, e a O ultimo gemido da Patria ven­
verdura esmeraldina dos nossos cida pelos exercitos e pelas arma­
campos, em lava ingrata e aspera; das de Felippe 2.0 de Hespanha,
Costume popular limitados pelo horisonte do mar e soltou-o Ella nos heroicos baluar
do ceu, como a bordo de embarca­ tes da Ilha Terceira; e foi com o
ções que a natureza tivesse consolidado com as rochas sub­ exercito definitivamente organisado
marinas; segregados dos carinhos da Mãe-patria, por léguas e aqui, n’esta ilha de S. Miguel, foi
léguas de distancia, que só os progressos da arte e da sciencia com os 7:5oo bravos que d’aqui
moderna teem podido encurtar; fóra das correntes da ordem so­ sahiram para as praias do Mindel-
cial e política, internas e internacionaes, que tão profundamente lo, que foram reconquistadas as
teem abalado e torturado a Alma portugueza no Continente do liberdades patrias, os direitos cí­
Reino, os Açorianos, graças ao seu mesmo isolamento, ás condi­ vicos, que o despotismo esquecera
ções da sua situação geographica, teem conservado o typo por­ e vilipendiara. Costume popular

DRaC-CCA
n’estas Ilhas a Patna portuguesa;
por duas vezes o Reino de Portugal
e dos Algarves, o poderoso Império
da Costa e da Contra-costa d'Áfri­
ca, e de Ormuz; da índia, e de
Malaca; de Macau e de Timor, e
do Brazil; o Império que se ex-
tendia por todas as partes do Mun­
do, ficou circumscripto aos Aço­
res, a estas pequenas ilhas, quasi
fluctuantes, do Atlântico, peque­
nas na extensão, mas grandes por­
que rfellas se albergou a pujança
ingente da audacia portuguesa,
porque ellas foram as deposita­
rias fieis dos sacratíssimos penho­
res da Liberdade e da Indepen­
Costume popular
dência nacionaes. O norte dos Costume popular
nossos affectos, o acume dos nos­
Foi sobre este rochedo, que o immortal Mousinho da Silveira, sos exforços, o destino da nossa vida histórica, tem sido, para nós
retemperado nas vivas tradições das liberdades antigas, elaborou Açorianos, levantar nos nossos braços, acima das nossas cabeças,
e assignou os monumentaes decretos de i832, cujas idéas contri­ para que se não afundem no atro pélago da escravidão, os direitos
buíram, tanto como a força armada, para implantar o regimen que nos legaram os nossos antepassados, de vivermos por nós, e
constitucional no Continente do Reino. para nós, os portuguêses.
Assim, por duas vezes, em transes afflictivos, ficou confinada Aristides Moreira da Moita.

DRaC-CCA
DR. JULIO PEREIRA DR. JOSÉ PEREIRA BOTELHO

oi, sem duvida, dos mais sse bello homem, que a ge­
F apreciáveis homens da E ração de hoje, a que per­
sociedade michaelense, o dr. tenceu, ainda recorda com sau­
Julio Pereira de Carvalho e dade, foi um verdadeiro cará­
Costa. cter de fortaleza e de bondade.
Nunca a carreira judicial, A sua iniciativa, dirigida por
de que era um dos mais di­ uma clara intelligencia, fructi-
gnos membros, logrou apa­ ficou profiquamente em largas
gar no seu espirito esse fogo emprezas, que ã ilha de S. Mi­
de vida intellectual, que fez guel levaram boas fontes de ri­
d elle uma figura saliente de queza. Assim, foi o dr. José
artista. Pereira Botelho o primeiro ho­
A feição mais caracteris- mem que na sua terra ensaiou
tica do espirito do dr. Julio a cultura do ananaz em larga
Pereira, foi a de orador-im- escala, com seguro exilo, exem­
provisador. Com effeito: ra­ plo mais tarde seguido por outros proprietários, a ponto d‘essa in­
ras foram as festas de cari­ dustria de exportação ser hoje das mais importantes da ilha.
dade em que elle não colla- Formado em medecina pela universidade de Paris, elle foi,
borasse com o seu verbo elo­ n'essa sciencia, dos seus mais abalisados membros. Procura­
quente e facil, pondo em vam-no todos os doentes com esperança, conscios do seu saber,
foco todas as boas causas, todas as boas obras. Foi ainda muito que era grande, sabedores da sua bondade, que era immensa.
da sua predilecção o sport náutico. A sua morte, occorrida em O illustre michaelense dedicou-se também com amor á in­
1904. causou, pois, um profundo pesar, porque além das suas dustria vinícola, chegando a ser o maior productor de vinho em
excellentes qualidades de homem social, o dr. Julio Pereira era S. Miguel.
um magistrado integerrimo no exercício do cargo de Procurador O dr. José Pereira Botelho foi chamado em 1846, á Junta Go-
Regio, junto da Relação dos Açores. vernativa de Ponta Delgada, e o seu critério e valor de muito
Era vastíssimo em manifestações de arte o seu espirito. A serviram então, como sempre e em todas as causas a que se de­
pintura mereceu lhe também especial affecto; e, assim, o seu fino votasse, que não foram poucas.
pincel deu-nos varias tellas de real valor artístico. E eis porque é tão querida para os michaelenses a sua memória.

99

DRaC-CCA
lASCIClLO T*í." 13

DRaC-CCA
LOMBADAS ft Kainha das aguas de meza

Leve, estomacal e digestiva,


pura, límpida e barata
R E C O -\1 M E N U A D A
TODOS OS MÉDICOS

Deposito Geral
RUA ARCO DO BANDEIRA, 174 A 178 C. MAHONY & AMARAL
LISBOA
70. Ru» An^iiístsi. â.°— LISBOA
TELEPHONE 586
Jlllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllll
i 4^^, , ^iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiilllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllll
METAES EM BRUTO: Aço, cobre, latào, estanho, chumbo em chapa, bar­
ras lingots.

| Clarimundo V. Smilio FERRO: Em barras quadradas, redondas e vergalhào. Vigamento de ferro


em T I U i eantoneiras e todos os inais aprestos para construeções. Ferro em
lingots para fundição. Chapas galvanisadas lisas e onduladas. Chapas de aço
CIRURGIÃO DENTISTA para caldeiras. Tubos de ferro, cobre e latão. Arame de ferro, cobre e latão.
---------- DO ------ ' Folha de Flandres. Material lixo e circulante para caminhos de ferro. Rails de
aço e diversos perfis e pesos, vias portáteis. Maehinas de vapor, gaz e petró­
fSaltirqore college of dental surgery» leo. Caldeiras. Bombas. Maehinas para industrias e agricultura. Maehinas. Fer­
* ramentas. Vidros polidos, foscos e de phantasia. Vidraça, lages de vidro (dalles).
Consultas das 10 horas da manhã ás 5 da tarde
Assucar, arroz, especiarias, drogas, productos chimicos. Ascensores hydraulieos,
Edoux & C.a
CIH B K T O
Çua $ova do ^IrQada, 81, 1. Únicos importadores em Portugal e eolonias do CIMENTO da Compagnie
LISBOA des Ciments Parisiens, fabricado pelo notável engenheiro E. CANDLOT.
Fabrica de sabão —Telbal (Poço do Bispo)
um................ Illlllllllllllllllll.............. I............ Illllllll....... Illl.............. . ............................... Illlllllllllllllli-
Fabrica de licores, aguardente, genebra e cognacs — TELHAI (POÇO DO BISPO)

Typ. d' *
* A Editora — Lisboa

DRaC-CCA
João Machado da Conceição Grand Hotel Central
LISBONNE
VOS SPLENDIOE SOR LE TAGK
Commissões CUISiNE FRANÇAISE RENOMMÉE

Antigo alumno da academia de Bellus Artes e consignações Conforts modernos


Ascenseur, Bains, Salon de lecture, etc.
DO

ON PARLE TOUTES LES LANGUES


Promove vendas de cereaes, man­ PR1X MODÉRÉS
ATELIER DE PIHTURA ESCULPTURA E DOURAMENTOS teigas, queijo etc., etc.

Encarrega-se de ]paysãgens,
, „ figuras,
„ - ., .pintura
ornatos, decorações,
Fornece todos os generos d’esta Grand Hôtel Central
histórica restauração de quadros antigos, letras, imitação de mármore capital, consumidos nos Açores, LISBON
e madeira, scenographíà. frescos, aguarellas, pintura e douramento em nas melhores condições, levando S1TUATED ON THE SHOBE OF THE TAGUS

egrejas. carnações em imagens, esculptura de imagens e retábulos With magnificent panorama


aos seus freguezes os minimos pre­
trabalhos de archilectura. desenhos e plantas para construcções diver­
sas e todos os trabalhos pertencentes á arte, mesmo fora da ilha. ços do mercado. MODERAT PRICES
Grande variedade de clichés photographicos dos Açores. EXCELLENT FRENCH CUISINE

/ PREÇOS CONVENCIONAES ALL LANGUAGES SPOKEN


$ Ilha do Fayal- AÇORES Rua dos Correeiros 6 — LISBOA Unrivalled for its Comfort
Lift, Baths. Reading room dark room,
Adresse telegraptiico etc.
HACHE-L1SBOA

yiiini iiiiiiiiiiii iimi iiiiiiiiiiii iimi iiiiiiiiiiiiiiiiii iimi iiiiiiiiiiii miii iiiiiiiiiiii iimiv
Campeão & C.a íj
CASA de CAMBIO e LOTERIAS
Chá Canto ATELIER PHOTOGRAPH1CO

Esta casa possue para as lotarias, quer


ordinanas.quer extraordinárias, um varia­
do sortimento de numeros em bilhetes
Agradavel, puro, hygienico e colhi­ JOSÉ G. CARDOSO
do da genuina planta do chá.
décimos e cautellas. O CHÁ CANTO só se vende em pa­
Compram e vendem pelos melhores pre­ 3
ços, libras, ouro portuguez e todas as moe cotes de 50, 120, 240 e 580 réis, com HORTA
das nacionaes e estrangeiras, notas dos marca registada, para garantir a sua
bancos de Hespanha, França, Inglaterra, pureza e qualidade e em latas illustra- N’esle estabelecimento tiram se reiralos em grande variedade de processos e
Italia, etc.
Descontam vales do correio, vendem le­ das de 750 réis, lacradas na tampa tamanhos por preços baratíssimos.
tras, sellos e papel sellado. para egual garantia. Magníficos retratos a crayon, de diflerentes tamanhos, pelo
Para o CHÁ CANTO ter um optimo original com a maxima perfeição, ou por photographia antiga não
118 — RUA DO AMPARO —1'8 sabor, é pr< ciso ser feito em pouco deixando nada a desejar.
inais de metade da porção empre­ Fazem-se bellos passeparlouls de cartão especial
NUMERO TELEPHONICO 53 gada por qualquer outra qualidade de e quadros que se entregam promptos a col-
chá. locar nas salas.
ENDEREÇO TELEGRAPH1CO O CHÁ CANTO encontra se á venda
Campeão — Lisboa nas principaes lojas de chá e mer­
llllll IIIIIIIIIIII llllll IIIIIIIIIIII llllll llllllllllllllllll llllll IIIIIIIIIIII llllll IIIIIIIIIIII
cearias.

DRaC-CCA
zJlllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllJ lllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllll^

ONSERVARIA
Casa fundada em 1846
M. G. FERRAR)
Especialidade em doces d’ovos, neve e doce de copa. Con­
servas de fructas. Bolachas e biscoilos das melhores
fabricas inglezas e francezas.
Vinhos finos nacionaes e estrangeiros. I.ico-
res de Iodas as qualidades, cognacs,
PREMIADO com a - tf J rhum. vermouth, bilter, etc., etc.
medalha de 1.* classe na Exposi-
cão Internacional do Porto em 1865 e ’
em varias outras exposições. w
FORNECEDOR DE S. S MAGESTADES
FORNECE esmeradamente serviços com-
pletos de almoços, lunchs, jantares, soirées e bailes,
encarregando-se de toda e qualquer encommenda inhe-
k rente á sua arte tanto no continente e ilhas como África e B.-azil

HUA NjOVA BO ALMADA


LISBOA
Endereço telegraphico CONSERVARIA

iiMiiiiiiiiiiiiimniiiic

nllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllll llllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllílln

DRaC-CCA
savel nas telas d’um artista, possuem-no as obras d'esta apreciá­ já nas paginas do
vel pintora michaelense. Album se deu um
Onde principalmente, porém, largamente se manifesta o su­ bello documento da
perior talento artístico da illustre dama, é no genero natureza sua aptidão artísti­
morta. Assim, os quadros que mais feriram a attenção do visitante ca, na reproducção
da secção de pintura da Exposição, foram — Un Coin de Table, da sua preciosa te­
e a explendida tela Fructas e Flores. la — Caminho do
Nunca, n’este ultimo genero, a pintura em S. Miguel attingiu Moinho, que enci­
tamanho grau de perfeição. ma o interessante
O pincel de D. Maria Anna d’Andrade Albuquerque Betten- artigo do sr. dr. Eu­
court deixa na tela, gênio Pacheco,—A
com tão grande ex­ Bretanha Michae­
pressão de verda­ lense. E ainda um
de, as flores e as outro quadro seu,
fructas, que as pri­ apresentado tam­
meiras sente o ob­ bém na Exposição
servador vontade Insular de Ponta
de as colhêr, e ao Delgada —O Estu­
vêrem as segundas do, logrou também
os lábios tornam-se as mais lisongeiras
gulosos! referencias do pu­
Quadro da Ex.ma Sr.* D. Maria Anna d’Andrade
Esta alta sug- blico amante da
gestão, que já em boa arte.
face dos quadros Concorreram ainda á Exposição a sr.a D. Emilia d'Azevedo
da illustre artista Oliveira, o dr. Julio Pereira, Jacintho Leite de Bettencourt e Duarte
de muita gente se Maya.
appossou, é o maior Alguns dos quadros d’estes amadores, revellam uma accen-
elogio do seu ta­ tuada originalidade e boa execução, o que é tanto mais para admi­
lento. rar, quanto é certo que, só á força de muito talento e muita força
* de vontade, se póde fazer arte, num meio onde faltam os bons
Do sr. José estímulos para tentar alguém, que sinta em si um pouco do sa­
Quadro da Ex.ma Sn.a D. Maria Anna d’Andrade d’Arruda Pereira, grado fogo da arte, a desviar-se do viver pratico e material de

105

DRaC-CCA
cada dia. E é muito mais louvá­ a bella pintura em seda d’Um Leque, e que
vel essa força de vontade artísti­ o sr. Duarte Maya é já um amador muito
ca, pois o certo é que nenhum apreciado em S. Miguel, pois que os seus
impulso de interesse pecuniário trabalhos trazem o cunho perfeito das li­
os levava ali, mas sómente o ções dos bons mestres dos ateliers de Pa­
puro amor da arte, que, em ris, que elle frequentou, emquanto alli foi
Miniatura
todas as suas manifestações, do sr. Jacintho Leite discípulo da Academia das Bellas Artes.
tem dado aos Açores tantos Dois quadros seus sobremodo se salienta­
vultos illustres. ram no pavilhão de amadores: — Uma Papsagem da Bretanha,
E, assim, d’esta forma re e Uma Rapariga em Costume dos Nossos Campos.
sava a apresentação do cata­ Confirmando os seus méritos, o jury da exposição de pintura,
logo da secção dos amadores realisada na Sociedade Nacional de Bellas Artes, em Lisboa, em
de pintura: «O pavilhão dos 1902, conferiu-lhe uma men­
amadores de bellas-artes, en­ ção honrosa, por dois traba­
cerra sómente trabalhos d’a- lhos seus alli apresentados.
José d'Arrud* Perbira quelles que, cultivando-as, não A arte da pintura, pois, em
as professam. Nenhum é, nem que tantos nomes se têem ce-
tem pretenções a mestre; não entram em concurso, não acceitam lebrisado por esse mundo, é
individualmente prémio algum. Dois únicos fins tiveram em vis­ também dignamente cultivada
ta: concorrer, consoante as suas forças, para as publicas mani­ em S. Miguel, d’um modo re­
festações de regosijo pela augusta visita dos nossos reis aos Aço­ lativo, é certo, pelos amado­
res, e mostrar, a quem por esse motivo aqui viesse, como na pa- res que ahi ficam menciona­
tria de Marciano H. da Ailva se presam e cultivam as bellas- dos.
artes.» E por brilhantíssima forma os amadores de pintura mi- E se o interesse pecuniário
chaelenses conseguiram esse fim. em nada os estimula a traba­
Está já dito de merecimento artístico do lhar sempre, ao menos que a
Conde dos Fenaes, do dr. Julio Pereira, e justiça prestada aos seus mé­
dos outros artistas-amadores cujos retratos ritos os incite a continuar a
agora publica o Album. Resta dizer que a ennobrecer, por forma tão no­
sr.a D. Emilia Azevedo, illustre dama mi- bre, as terras dos Açores, on­
chaelense, revellou n’esse certamen excel- de, apesar de tudo, a arte flo­
Miniatura
lentes aptidões artísticas, como o demonstra do sr. Jacintho Leite resce sempre, superiormente. Jacintho Leite de Bettencourt

106

DRaC-CCA
MARIA DA GRAÇA
(AO FRANCISCO DE BETTENCOURT)

seu lindo nome e a sua cara risonha, bastam para Imagina tu, meu amigo, que te encontravas agora longe d’aqui,
doirar de luz a minha alma de nostálgico! na minha garrida terra aldeã, onde te chegava a noticia da morte
Chama-se Maria da Graça. E tão bem se casa duma pessoa muito querida. A dor dilacerava-te o coração, tor-
este nome com a sua graça, cheia de alacridades, navam-se vermelhos os teus olhos, queimados pelo fogo das la­
que tem com certeza um bello cantinho pre- grimas... Mas, n’esse angustioso momento, surge ante os teus
M parado no ceu quem se lembrou de a chamar olhos tristes um lindo rosto, illuminado de riso e de graça.
assim. A’ sua vista, surprezas, as tuas lagrimas seccam-se; e os teus
Não vás tu imaginar agora, meu amigo, que lábios, que sentiam o travor amargo que a dor líelles pozera,
é alguma d’essas formosuras da cidade, que descerram-se inconscientemente n’um sorriso de paz!
ahi vês n:estas lindas tardes, passeando no — Que rosto feiticeiro faria tal prodígio ? — perguntarás.
Aterro em carruagens de luxo. — O da Maria da Graça!
Não: Ella não finge sorrisos nem estuda phrases, graças a Deus! E ahi tens tu, meu caro: Só assim te posso explicar como é
Vive lá, distante, na minha garrida terra aldeã, onde tudo é gracioso, delicioso, aquelle rosto onde cantam e faliam os seus
puro e alegre como os seus olhos garços, na limpidez da sua cara olhos garços. Olhos garços! E quanta vez eu lhe disse, cmballado
risonha. na casta volúpia dum sonho bom de poeta :
Olhos irriquietos, fixando pouco, e que só á torça de carinho — Quem dera que tu fôsses boieira, Maria da Graça !
conseguem demorar-se nos meus, parece que faliam e cantam, os — E para que ?. ..
seus olhos garços ! — Sei lá! Olha: para ir atraz de ti e do teu rebanho, por
Agora, que a tenho longe, punge-me dolorosamente a saudade esses campos fóra, dizendo uns lindos versos que eu conheço...
dos dias d este ultimo verão, que passei ao seu lado; e no em-
E a dos olhos garços, pastorinha bella...
tanto, da longínqua alegria d’aquelles olhos, ainda me chegam al­
guns raios consoladores.. . ...Então ella sorria-se, e ambos nos ficavamos a olhar por
Hei de dizer-lhe tudo isto para o anno, quando fôr visital-a ; e muito tempo, mudamente, na casta volúpia d’um sonho bom.
então pedir-lhe-hei licença para beijar castamente, uma só vez,
aquelles seus olhos preciosos. Raposo de Oliveira.

107

DRaC-CCA
HINTZE RIBEIRO
em mais outro titulo do que juntamente com o illustre mi
S o inherente aos cargos al­
tíssimos que exerceu, eis o
chaelense, sr. Hintze Ribei­
ro, parte do ministério pre
nome d’um dos mais illus- sidido pelo velho Antonio Ro­
tres filhos de Portugal, chefe drigues Sampaio. Assim os
d'um grande partido político, tres se estreavam. O primeiro,
e como tal, mais d’uma vez, d’uma intelligencia fórado vul­
chamado pela confiança de El- gar, cedo o levou a morte; o
rei para presidente de conse­ outro desviou-se um pouco da
lho de ministros. política e á suprema direcção
Muito novo entrou na vida do Banco de Portugal sacri­
publica, e, pouco tempo de­ fica suas melhores faculdades;
corrido depois de haver ter­ na vida activa política só o
minado em Coimbra com a sr. Conselheiro Hintze Ribei
maior distincção seu curso de ro continuou, pedindo esforços
direito, já na camara dos De- taes á sua energia, quer no
dutados, sua illustração, co­ governo, quer na opposição.
nhecimento dos negocios pú­ que d’elles se resentiu sua
Conselheiro Hintze Ribeiro
blicos, aturado estudo de que saude, e viu-se obrigado, por U. Joanna Hintze Ribeiro
deu provas, e seu talento oratorio, o indicavam para a alta posição conselho de médicos e de amigos, a entregar a pasta do reino
a que, depois de trabalhar ao lado do prestigioso Fontes Pereira de e a presidência, interinamente, nas mãos de seu collega, conse-
Mello, havia de subir, d’este vindo mais tarde a herdar a posição lheiro general Pimentel Pinto.
que occupava no partido regenerador de tão bellas tradições. Poude então o nobre presidente avaliar o gráo de estimação
Altas qualidades que o distinguiam não esmoreceram, antes se em que o tinham não só os seus amigos políticos, mas até muitos
confirmavam eloquentemente. O chefe do partido é o que, desde dos seus contrários. Durante a sua estada no estrangeiro, recebeu
logo, nas primeiras luctas, o soldado estreante revelou dever de provas do mais alto apreço de todos os que, dia a dia, se infor­
ser, quando de seus correligionários obteve a inteira confiança. mavam de suas melhoras e o felicitavam a se felicitavam pelas
Os srs. Lopo Vaz de Sampaio e Julio de Vilhena fizeram, boas novas. Seu regresso á patria foi um verdadeiro triumpho.

108

DRaC-CCA
Mereciam-no a importância de seu cargo, a sua claríssima intel- Amarguras teve-as decerto e das maiores, no caminho ingreme
ligencia, a força de vontade com que tem luctado, os primores do em que nem luctas abertas nem espinhos occultos o fizeram re­
seu caracter. cuar. Mas uma só hora, aquella em que se viu nos braços de ve­
Mais ao coração lhe haveriam de ter chegado taes manifesta­ lhos parentes e amigos, em que ouviu os applausos da multidão,
ções do que todas as honrarias com que o teem distinguido os lhe baniriam da lembrança melancolias fundas, poriam balsamos
reis de Portugal e os go­ a ferimentos que lhe fize­
vernos estrangeiros. A ram invejosos e ingratos.
maior de todas, o Tosão Ernesto Rodolpho Hin­
d'oiro, foi ultimamente tze Ribeiro ama deveras a
conferida por El-rei de sua patria, bastas provas o
Hespanha, D. AffonsoXIII, asseguram. Como não ha
quando de sua visita a Lis­ de elle amar o cantinho em
boa. que nasceu, onde passou
O sr. Hintze Ribeiro é annos de infancia e de ado­
natural da ilha de S. Mi­ lescência inolvidáveis? Com
guel, gloriosa de tal filho. amor lhe pagaram um gran­
Na viagem que Suas de amor, e de poucos tri­
Majestades fizeram ás ter­ umphos sabemos que tanto
ras açorianas em 1901, envolvessem a idéa duma
acompanhava-os o sr. Pre­ enternecedora justiça.
sidente do Conselho, que
decerto, por essa occasião,
gosou no intimo da sua al­
ma o maior dos prazeres Joanna de Chaves
a que póde subir um ho­
mem de bem.
Conselheiro Arthur Hintze Ribeiro D
D. Margarida Brum do Canto H. Ribeiro , Hintze Ribeiro, es­
posa do chefe do partido
Não voltara a S. Miguel desde seus primeiros triumphos. regenerador, ex-presidente do Conselho de ministros, e occupando
Avistava a patria, a cidade, a casa em que nascera, depois de portanto na sociedade portugueza uma elevadíssima posição, esta
tantos annos, pela primeira vez, ao lado dos reis, na mais elevada senhora, cujos dotes de coração egualam os do espirito, nobre
posição a que póde um homem, pelo trabalho, pela honra, pela exemplo dá com sua virtude áquelles a quem um nada, um acaso
dedicação aos ideaes de dever e de justiça, subir honrando-se a si só devido á cegueira da Fortuna, perturba o entendimento, accende
mesmo e honrando os seus. ambições e cubica.

109

DRaC-CCA
Ao lado de seu marido, acompanhando-o lagre obtido é d aquelles que deslumbram pela intensidade de seus
em seus trabalhos, alegrando-o em suas clarões os olhos dos mais cegos. Não foi perpetrado na sombra
alegrias, confortando o talvez em uns raros tão pouco, que na sombra andam loucos a arrastar-se. Não. Foi
desânimos, nobre missão lhe foi dada para na meia luz discreta cm que os olhos descançam gostosos, em
cumprir na terra. que os perfumes trepam de mansinho, enchendo as almas que se
Filha duma honrada familia dos Aço­ dilatam e que por uma hora de descanço abençoam as horas de
res, desde muito nova habita Lisboa, e, trabalho.
porque esconde modestamente a parte de Santa missão compete ás vezes ás mulheres. Abençoadas aquel-
gloria que lhe cabe, excellente esposa, na las que bem a sabem cumprir.
gloria de seu marido, seu nome é por to­
dos citado com profunda sympathia, é aben­
çoado por todos aquelles, pobres ou des­
graçados, que na virtuosa senhora encon­ esidente ha annos na capital do reino, onde e considerado, já

D. jorgina t. Abam h. Ribeiro


traram auxilio á miséria, á desventura.
A vida publica, a lucta constante, o ata­
R como irmão do grande estadista Hintze Ribeiro, já como um
vulto por si mesmo digno de to­
que e a defeza, exgotam os nervos e por dos os respeitos, o dr. Arthur H.
fim chegam a embotar a energia d’aquelles que não teem umas Ribeiro exerce actualmente o alto
horas de repouso no conchego d’um lar. E nem a todas as mu­ cargo de vogal do Tribunal de
lheres foi dado esse talento do coração, que adivinha mais ás ve­ Contas, de Lisboa.
zes que os poderosos cerebros. E’ na luz consoladora e amiga da Nunca fez clinica, apesar de
paz caseira, luz mansa em que pensamentos negros não abrem formado em medicina. Nas func-
suas azas, é no suave e discreto silencio do gabinete de trabalho, çoes da sciencia que estudou, ape­
apenas quebrado por palavras ternas sahidas directamente da al­ nas foi guarda-mór de saude n’a-
ma, sem o fel duma duvida, sem a baixesa d’uma lisonja, é en­ quella cidade.
tre amigos provados, entre descançados risos por coisas ás vezes O dr. Arthur Ribeiro é hoje
indifferentes, que um coração volta ao rithmo sereno, que o espi­ um dos proprietários do chá Can­
rito descança finalmente n’uma alegria suave. to, que é dos mais preciosos ra­
Assim as forças se renovam, assim os nervos socegam, assim mos da industria michaelense, chá
o raciocínio se torna de novo claro e se formula em claras pala­ que não só nos Açores, mas por
vras. todo o continente, é lisonjeira­
Esse trabalho não foi executado á claridade do dia, exigindo mente apreciado e consumido.
o applauso de multidão; não foi gritado e reclamado, nem o mi­ Nas suas longas permanências Dr. Jacintho Teves Adam

DRaC-CCA
em Ponta Delgada, os negocios E’ e foi sempre, um dedicado partidário da política regenera­
políticos da ilha de S. Miguel fo­ dora; comtudo nunca foi um irrequieto, nunca o facciosismo lhe
ram dirigidos pelo dr. Arthur Ri­ turvára a limpidês da vista, nunca o igualíssimo temperamento
beiro, que tem sido um grande lhe consentira uma irreflexão.
cooperador na lista de serviços Na sociedade michaelense o sr. dr. Teves Adam é notado pela
que aquella ilha deve ao eminente sua figura de homem onde ha a irreprehensibilidade de um gentle-
estadista Ernesto Rodolpho Hin- man. Delle póde dizer-se, como na velha phráse inglêsa: the right
tze Ribeiro. man in the right place.
O sr. dr. Teves Adam é o inimigo, por excellencia, da pu­
blicidade e das chusmas. Por isso, tirante as funcçÕes do seu
cargo, lá se refugia no conforto silencioso do seu quarto de lei­
asceu o sr. dr. Jacintho Te- tura, na convivência dos seus predilectos clássicos.
Manuel Augusto H. Ribeiro
N ves A dam na capital do dis - Mas, sobredoirando tão distinctas qualidades, ha as bonda­
tricto oriental dos Açores, em 9 de setembro de 1837. Formou-se des de coração do sr. dr. Teves Adam, que fazem delle uma das
em direito na Universidade de Coimbra, em 11 de julho de 1804, pesoas mais queridas nos Açores.
e entrou na burocracia, pela vêz primeira, no Cargo de adminis­
trador substituto do concelho de Ponta Delgada, por decreto de *
outubro de 1856. Depois foi successivamente nomeado: adminis­ * #
trador effectivo do concelho de Ponta Delgada, por decreto de õ
de agosto de 1872, e secretario geral, precedendo Concurso do O sr. dr. Jacintho de Teves Adam casou em 5 de agosto de
Governo Civil de Angra do Heroísmo, por decreto de 5 de outu­ 1807 com a sr.a D. Jorgina Hintze Ribeiro, irmã do eminente es­
bro de 1881, tendo sido transferido para idêntico logar, do Go­ tadista, o sr. conselheiro Ernesto Rodolpho Hintze Ribeiro.
verno Civil de Ponta Delgada, em novembro de 1881, Cargo que Nasceu a illustre senhora em Ponta Delgada, a 6 de julho de
ainda hoje exerce. 1842, sendo no meio social desta cidade, uns dos seus principaes
O sr. dr. Teves Adam, tem servido, a miude, de governador ornamentos, mercê dos primores da educação e fino espirito.
civil, como acontece ao presente, cahindo em córte dizer-se que A sr.a D. Jorgina Hintze Ribeiro extende todavia a sua acção
em todos os cargos que desempenhara e desempenha tem sem­ a muito mais.
pre revelado intelligencia sa e tino administractivo pouco vulgar. Extraordinariamente activa, intelligente e bondosa, muitos es­
Uma das caracteristicas predominantes no sr. dr. Teves Adam tabelecimentos de caridade devem-lhe a existência prospera, e o
é a modéstia sem alarde, e a absoluta ausência de ambições. seu nome está vinculado a importantes melhoramentos materiaes
Podendo guindar-se a muito maiores alturas nunca quiz ser mais nos Açores, obtidos, principalmente, pela sua influencia.
do que secretario geral. O empenho político da sr.a D. Jorgina Hintze Ribeiro tem su­

DRaC-CCA
bido valor, porque, sendo a irmã dilecta do supremo chefe do par­ MANUEL AUGUSTO HINTZE RIBEIRO
tido regenerador em Portugal, pede sempre com critério e justiça.
D’ahi o amor e respeito com que muitos pronunciam o seu nome.
E concluindo este rapidíssimo bosquejo, que quando muito rmão do sr. Conselheiro Hintze Ribeiro, o sr. Manuel Augusto
poderá servir como subsidio a trabalho biographico de mais
largo traço, diremos que o sr. dr. Jacintho de Teves Adam e vir­
I H. Ribeiro occupa em Ponta Delgada o logar de thesoureiro da
Alfandega d’aquella cidade, onde bellamente se distingue pelo seu
tuosíssima consorte realisariam o exemplar mais completo de fe­ caracter de funccionario probo.
licidade conjugal se não fôra a pungente e saudosa lembrança da Presidiu á direcção do Club Michaelense, quando aquella ex-
unica filha que a morte lhes levou ao tumulo. cellente sociedade se preparava para o baile a que assistiram Suas
Quiz Deus, ainda assim, que aquella filha ficasse substituída Magestades, na sua visita aos Açores. E pelo seu fino tracto, pe­
por uma neta, hoje uma gentilissima senhora medrada sob o in­ las suas qualidades de homem de sociedade, bem se houve no
fluxo do aflecto de seus avós. desempenho d’esse cargo, de responsabilidade reconhecida.

DRaC-CCA
FASCICIM) T*í." 14

DRaC* CCA
LOMBADAS
GR1ND FRJX
Exposição Internacional do S. Luú etn 1904
MEDALHA DE OURO
Exposição do Palacio de Crystal de l.oudrrs em 1904

fi Xainha das aguas de meza


Leve, estomacal e digestiva, pura, límpida
0 acido carbonlco não é Introduzido artiflcialmente

Recommendada por todos os médicos

DEPOSITO GERAL
106, AVENIDA DA LIBERDADE, 110 C. MAHONY & AMARAL
LISBOA
70, JRiin _A.ugiista, S.°— EISBOA
TELEPHONE 586
iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiihiiiiiiiiiil :
METAES EM BRUTO: Aço, cobre, latão, estanho, chumbo em chapa, bar­
1 ras lingots.
CAMPEÃO & C.A li
FERRO: Em barras quadradas, redondas e vergalhão. Vigamento de ferro
«■m TIU; cantoneiras e todos os mais aprestos para construcções. Ferro em
Casa de Cambio e Loterias lingots para fundição. Chapas galvanisadas lisas e onduladas. Chapas de aço
para caldeiras. Tubos de ferro, cobre e latão. Arame de ferro, cobre e latão.
& Folha de Flandres. Material fixo e circulante para caminhos de ferro. Rails de
Esta casa possua para as loterias, quer ordinanas, quer extraordinárias aço e diversos perfis e pesos, vias portáteis. Machinas de vapor, gaz e petró­
um variado sortimento de numeros em bilhetes décimos e cautellas
leo. Caldeiras. Bombas. Machinas para industrias e agricultura. Machinas. Fer­
Compram e vendem pelos melhores preços, libras,nuro portuguez e todas
as moedas nacionaes e estrangeiras, notas dos bancos de Hespanha, França,
Inglaterra, Italia, etc.
l ramentas. Vidros polidos, foscos e de phantasia. Vidraça, lages de vidro (dalles).
Assucar, arroz, especiarias, drogas, productos chimicos. Ascensores hydraulicos,
Descontam vales do correio, vendem letras, sellos e papel sellado.
Edoux & C.*
1W? BUa DO âMPÃB0? 118 r» QI M E K T O
Únicos importadores em Portugal e eolouias do CIMENTO da Compagnie
NJMERO TELLPHONICO 53 ENDEREÇO TEL'GR4PHIC0: CAMPEÃO — LISBOA des Cunents Parisiens, fabricado pelo notável engenheiro E. CANDLOT.
IIIÍÍIIIIIl'lllllÍIÍIIIIlllllÍII IIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIÍIIIÍIÍIIIIIÍI~IIIIHIIIIII|IIIIIIHÍÍHIIIHIIIIIlÊ
Fabrica de sabão — Telbal (Foço do Bispo)
Fabrica de licores, aguardente, genebra e cognacs — TELHAI (POÇO 00 BISPO)

Trp. d’*A Editora- — Lisboa

DRaC-CCA
João Machado da Conceição MAGAZINE
Antigo alumno da academia de Bellas Artes
Commissões
e consignações
BERTRAND
DO

A LEITURA ILLUSTRADA
Promove vendas de cereaes, man­
ATELIER DE PINTURA ESCULPTURA E DOURAMENTOS teigas, queijo etc., etc. Publicação quinzenal — 96 pag., 100 gr.
Fornece todos os generos d’esta
Encarrega-se dc paysagcns, figuras, ornatos, decorações, pintura
capital, consumidos nos Açores,
histórica, restauração de quadros antigos, letras, imitação de mármore
e madeira, sccnographía, frescos, aguarellas, pintura e "douramento em
egrejas, carnações em imagens, esculptura dc imagens e retábulos,
nas melhores condições, levando 200 RÉIS
trabalhos de architectura, desenhos e plantas para construcções diver­ aos seus freguezes os minimos pre
sas e todos os trabalhos pertencentes á arte, mesmo fóra dã ilha. ços do mercado.
I^ra/nco d.e porte
Grande variedade de clichés photographicos dos Açores.
/ PREÇOS CONVENCIONAES \
SAHIU O N.° 5
Rua tios Correeiros 6 — LISBOA
Ilha, do Fayal — AÇORES 2^
Adresse telegraphico
HACHE —LISBOA Antiga Casa Bertrand - Lisboa
yniiii

LMANACH BERTRAND
iiiiiiiiiiii mm iiniiiiiiii mm iiiiiiiiiiiiiiiiii mm iiiiiiiiiiii mui iiiiiiiiiiii mm

9
A
9
® ®

COORDENADO POR
9 9
® 9 ® 9 PARA 1905

FENANDEScosta
9 SEXTO ANNO DE PUBLICAÇÃO 9
® 9 9

9
®

9
®

9
®

.9
ATELIER PHOTOGRAPH1CO

JOSE G. CARDOSO
3
HQRTA
472 paginas, 600 gravuras, frontispício a 3 cores, e capa a 8 cores e curo N’esle estabelecimento tiram-se retratos em grande variedade de processos c
tamanhos por preços baratíssimos.
® 9 © BROCHADO, 500 RÉIS; CARTONADO, 600 RÉIS; PELO COHREIO MAIS 60 RÉIS ® « ® Magníficos retratos a crayon, de diflerenlcs tamanhos, pelo
original com a maxima perfeição, ou por photographia antiga não
deixando nada a desejar.

Antiga Casa Bertrand Fazem-se bellos passepartouls de cartão especial


e quadros que se entregam promptos a col-
locar nas salas.

& JOSÉ BASTOS -Mercador ãe livros - Editor & A mm iiiiiiiiiiii mm iiiiiiiiiiii mm iiiiiiiiiiiiiiiiii iiiiiiiiiiiiimii mui iiiiniiiiii
===== 73, RUA GARRETT, 75 — LISBOA -

DRaC-CCA
DR. FILOMENO DA CAMARA Foi amigo intimo, mesmo o amigo dilecto do dr. José Falcão,
de saudosa memória, que costumava dizer :
— Quando se abraça um homem d estes, sente se palpitar
errado ao meio ainda dava dentro do immenso arcaboiço um coração de oiro.
S dois gigantes. Sobre um
pedestal era outro collosso de
E’ esta a divisa do dr. Filomeno da Camara Mello Cabral :
Meus sana in corpore sano.
Rhodes. Dispõe de uma força Manuel da Camara.
de athleta correspondente. E'
loiro, corado como um inglês,
manso como o mar. em dia de DR. ARISTIDES DA MOTTA
sol, sem vento. O andar é
grave e pausado, como quem
nunca tem pressa, mas a cada alto respeito e consideração
passo que dá parece que a
terra treme. Manuel de Arria-
O que o nome do dr. Aristides
Moreira da Morta suscita em toda
ga. que fôra em Coimbra con­ agente, deve -os simplesmente, uni­
temporâneo d’elle, dizia quan­ camente ao seu talento inconfun­
do o via lançar-se ao rio, no dível, ao seu caracter bondoso.
verão, a tomar banho: O dr. Aristides da Motta é ora­
— Vae haver uma inunda­ dor e escriptor muito apreciado.
ção ! Como orador, a sua palavra ins­
E um bom. tem alma grande, generosa, e. como os fortes, é pirada e quente, onde quer que se
um leão, nas raras tempestades, nas raras paixões. Mas, como é faz escutar, arrebata sempre os au­
generoso e bom. não lhe ficam rancores, perdoa e esquece facil­ ditórios. E que, na realidade, os
mente. seus discursos enthusiasmam, não
O talento rfelle corre parelhas com aquella pujança de Titan. só pela força e energia que elle
Sem ser em S. Miguel, sua patria, teve ensejo de o demonstrar, lhes sabe imprimir, mas também, e principalmente, pelos primo­
em França e em Hespanha. Rege na Universidade de Coimbra res da dicção.
uma cadeira da Faculdade de Medecina, superiormente, e é que­ Como escriptor, a sua doutrina vernacula é sempre segura e
rido e respeitado de collegas e discípulos. Corno clinico tem um de rehectidos conceitos.
diagnostico seguro, sempre prudente, nunca é precipitado, como O seu pujante talento, sem sombra de lisonja, scintilla —
de resto, não o é em coisa alguma. permittam-nos o logar commum — como um astro de primeira

DRaC-CCA
grandêsa, na pleiade dos intelectuaes de S. Miguel, na actualidade. ressante. Em 1902 publicou
Aos seus constantes esforços e decidida bôa vontade se deve também um volume com o ti­
a fundação do sympathico instituto de caridade Século XX, que tulo Lucubrações Litterarias,
tão relevantes serviços está prestando ás creancinhas orphãs, de pequenos romances, quasi to­
que elle é um dedicado amigo. dos históricos, de acontecimen­
A terra que o viu nascer deve-lhe solícitos benefícios sem conta, tos locaes.
e ainda do seu talento superior muito tem a esperar. Hoje tem inéditos : — Con­
Tem desempenhado por vêzes differentes cargos públicos, pre­ vulsões da Terra, descripção
sidindo a elles sempre com o máximo critério e superior inteli­ de grande numero de terremo­
gência. tos e vulcões succedidos desde
A terra de S. Miguel ufana-se, portanto, em contal-o hoje no a mais remota antiguidade até
numero dos seus filhos mais illustres e distinctos. aos dias presentes.
Albuni illustrado de geolo­
gia Michaelense, representando
com suas côres naturaes todos
JOAQUIM CÂNDIDO ABRANCHES os quadrúpedes, aves, peixes e
insectos indígenas, ou ha longos
annos existentes na ilha, com
ilho de continentaes, e nascido na Ilha Terceira, Joaquim Cân­ seus nomes vulgares e scientifícos. Iconographia Botanica Michae­
F dido Abranches reside em S. Miguel, onde vive desde a
edade de nove annos. Os michaelenses, pois, consideram-no
lense, onde são desenhadas a cores, todas as plantas indígenas,
com suas raizes, flores e fructos, também com seus nomes vulga­
como seu irmão, e bastante se orgulham com isso, pois que este res e scientifícos; e ultimamente completou um pequeno album
homem, na mais intima das modéstias, possue duas qualidades que simplesmente intitulou Borboletas, por n’elle ter desenhado
grandes: E’ um artista perfeito e um trabalhador incansável. em tamanhos e cores naturaes duzentas borboletas das que vivem
Não teve cursos ; aprendeu sómente o officio de ourives, de em diversas partes do mundo.
que tem vivido modestamente e dignamente, por isso que poucos N'esse album interessantíssimo, Joaquim Cândido Abranches
artistas haverá capazes de, n’aquella arte, conseguirem tão perfei­ patenteia explendidamente as suas qualidades de desenhador e
tamente restaurar obras antigas, de real valor, sem a minima pintor. As côres são de tons finíssimos, com uma admiravel
quebra do seu primitivo cunho. approximação da realidade d essas azas de borboletas, de colori­
Desenhador emerito, publicou em 1869 o Album Michaelense, dos infinitamente variegantes.
collecção de noticias dos mais notáveis monumentos de S. Miguel, Modesto, e por isso quasi ignorado, é um artista sob muitos
com os respectivos desenhos seus, que é um livro deveras inte­ pontos de vista apreciável.

114

DRaC-CCA
MANOEL ANTONIO DE VASCONCELLOS sombra muitas individualidades que podiam e deviam, aliaz, brilhar
como soes, em toda a luz do seu merecimento.
Manoel Antonio de Vasconcellos é um artista de raça, um ca­
virtude e o genio são rácter honestíssimo, um coração diamantino, um modelo de hu­
A as maiores graças que
Deus pode conceder ao ho­
morismo inimitável, o qual noutra cidade, onde pudesse omnimo-
damente expandir toda a potência do seu genio, seria um célebre,
mem. mas que entre nós, atrophiado pela inépcia geral do meio, e es­
A virtude faz santos, o quecido nas sombras da própria modéstia, não o poderá ser ja­
genio faz artistas; e bem mais, embora haja a consagral-o a estima intima de innumeros
pode crer-se que a virtude amigos, e a opinião auctorisada e insuspeita de muitos sábios na-
é o genio do coração como cionaes e estranjeiros, que pasmam de vir encontrar n’este átomo
o genio é a virtude do ce- do mundo um rapaz de tão rara habilidade.
rebro. Manoel Antonio de Vasconcellos é o preparador do nosso
Bemaventurados os que museu.
nascem, trazendo embryo- Alguns mezes de estudo em Lisboa, e depois a sua experien-
nadas na alma essas graças cia própria, e mais do que tudo a rzs artística, fizeram d'elle um
de Deus; pois que nascem mestre.
para não morrerem mais, fi­ Pelo pouco que lhe ensinaram, entreviu o muito que tinha de
cando-se eternamente a vi­ aprender, parecendo que adivinhava o que precisava saber: —
ver nas suas obras, onde suggestoes do genio!
concretisaram todo o seu Sou incompetente para apreciar devidamente os trabalhos de
ideal — o ideal do Bem, do Manoel Antonio de Vasconcellos, tão incompetente, que, num es­
Bello, da Verdade! queleto de não sei que animal, não soube distinguir alguns ossos
Não basta, todavia, ter virtude ou ter genio para se chegar a artificiaes dos naturaes, sem embargo de no mesmo engano ha­
ser santificado ou immortalisado pela Historia, não basta isso verem caido alguns homens de sciencia.
simplesmente: — a educação, o exercicio, e em particular o meio, Como argumento, evoco este facto apenas, com mira de pôr
são factores essencialissimos, talvez indispensáveis, para o desen­ em alvo toda a sua omnipotente pericia, deixando patentes á
volvimento e perfectibilidade de qualquer manifestação do espi­ curiosidade de quem me ler, as salas do museu d’esta cida­
rito humano. de, em cujos exemplares melhor que nas minhas palavras,
Por outro lado a modéstia, que é, quanto a mim, irmã da se acha complexa e vivamente comprovada essa mesma pe­
obscuridade, e a inconsciência do valor proprio, eclypsam de algum ricia.
modo as irradiações do espirito, conservando culposamente na E não é só como preparador que Manoel Antonio de Vascon-

DRaC-CCA
cellos se evidencia; para eile a Arte não tem segredos, é a sua veitamento dos seus discípulos.
unica esposa ideal, a quem vota todo o amor do seu coração! Ainda em plena mocidade publi­
Dêem-lhe um pedaço de madeira e um canivete, e verão como. cou o seu primeiro livro de versos
dentro em pouco, d’essa madeira, pacientemente trabalhada, sur­ — Aspirações.
gem, animadas quasi, as cabeças de Alexandre Herculano, Ca­ Depois, em poesia publicou
mões, Castilho, José Estevão, Pasteur, Victor Hugo, a do pae. a ainda os Trillos e os SMarlpres
de um amigo, a sua própria... numa exactidão fiel e plena de do Amor. Tem um romance — O
linhas e contornos, faltando-lhes apenas a fala e o movimento. Dr. Lui\ de Sandoval, um livro
Os seus desenhos e trabalhos em coiro são do mesmo modo Açores, sobre pessoas e coisas
surprehendentes. Imitam até á confusão os similares antigos, sendo açorianas, e fez duas traducções
difticil distinguir uns dos outros. de romances francez.es.
Como veem, o genio de Manoel Antonio de Vasconcellos re­ D. Alice Moderno tem colla-
vela-se em tudo quanto elle produz, multiplica-se em todos os ge- borado nos jornaes dos Açores, e ultimamente fundou em Ponta
neros, scintilla sob todas as formas, vence todas as difficuldades Delgada um periodico semanal, intitulado A Folha, onde mani­
e assombra todos os admiradores. festamente exerce toda a actividade do seu apreciável talento.
Mas quem foi seu mestre? — Ninguém; nasceu assim, trazendo
embryonadas na alma as duas maiores graças que Deus pode
conceder ao homem: — a virtude e o genio. EçcoQtro
Manoel Augusto n’Amaral. Encontraram-se as duas, casualmente,
Nos humbraes do meu peito, certo dia,
Brancas vestes trajava a que partia
Com grinaldas na trança rescendente.

A que entrava, de crepes se vestia,


D. ALICE MODERNO Ennevoava-lhe o pranto o olhar ardente,
Com diversa expressão, solemnemente,
Fitaram-se a que entrava e a que sahia.

a ilha de S. Miguel D. Alice Moderno é a unica dama que Parto! — Disse a Ventura caprichosa.
N se dedica profissionalmente á carreira das lettras. e, por isso
mesmo, a que nella occupa o primeiro logar.
Fico! — Torna a Desdita, lacrimosa,
Hei de estabelecer morada aqui...

E a Desdita ficou, pallida e triste.


Não lhe dão os haveres logar a que se occupe da arte litteraria Quanto á Ventura, ignoro se ainda existe,
por méra distracção: A esse mister honroso, allia o de professora Pois nunca mais, nem de relance a vi!
particular de instrúcção primaria e de francez, com notável apro­ Alice Moderno.

116

DRaC-CCA
A DEMOCRACIA NAS COLONIAS

minto Incida e interessante noticia, que Theophilo popular, que ella se extinguia no continente, ainda antes do fim do
Braga nos dá n este Q/llbum, em relação aos Can­ século 15, pela invenção da imprensa, propagadora da ressurrei­
tos populares dos Açores, tem o alto valor de ex­ ção das letras gréco-latinas, e mais tarde pela nova corrente de
por em poucas paginas a importância dos traba­ ideas, que irrompia deslumbrantemente pela descoberta da Ame
lhos e investigações, primeiro encetadas entre nós rica em 1493 e do caminho da Índia em 1497.
por Almeida Garrett. que elle continuou com a A irresistível e esmagadora superioridade e influencia da anti­
sua conhecida pertinácia sob um ponto de vista guidade classica, afflrmou-se por uma espontânea e fecunda apro­
etnographiço, historico e litterario mais amplo e priação e augmento do espirito mediavel, que attingiu os mais al­
completo, em harmonia com o desenvolvimento tos resultados, desde a Divina Comedia do Dante até aos nossos
d estes estudos nos nossos tempos. dias, embora servis e inintelligentes plagiátos e arremedos deter­
D’accordo com as suas opiniões artísticas e minassem também as mais insípidas e inânimes producções.
políticas. Theophilo Braga esta disposto a lamen­ E’ no começo do século 16 que a reacção do Cesarismo e da
tar a destruição da poesia popular europeia, attribuindo a com Theocracia da imperial Roma dos Papas contra a revolta luthe-
rancor exclusivamente á influencia cesarista e theocratica propo­ rana, suscitada pelo paganismo dos Borgias e Medieis, aproveita
sitada. que não pôde supprimil-a nos Açores e no Brazil. a permanente tradicção herdada da Republica e do Império roma­
Este ponto de vista seria historicamente incompleto e injusto nos, accrescentando, para a defesa do Catholicismo reformado do
se o não ligássemos com a generalidade dos factos, litterarios e Concilio de Trento, ao poder civil, aos restos sobreviventes do re­
sociaes. que então se davam na Europa. E' certo que a intensi­ gímen feudal e ás instituições monachaes, a omnipotente e ubiqua
dade da febre religiosa, mahometana, protestante ou catholica, policia inquisitória! dos Dominicanos e a nova e poderosa direcção
caracteristica dominante daquelle prodigioso século 16, que ainda intellectual do ensino dos Jesuítas.
envolveu os germens do eclectismo ou sincretismo philosophico, Estas influencias, que, passadas tres gerações. 155o-165o.
tão largamente desenvolvido nos tempos subsequentes, devia con­ impuzeram com decrescente successó ao México, ao Paraguay.
correr poderosamente para substituir ou annullar todas as mani­ a Portugal. Hespanha, Italia e França o vinco da mais com­
festações, indifferentes ou extranhas aos intentos dogmáticos, que pleta submissão nos costumes, na política e na religião, de
n’aquella época procuravam realisar as suas mais ambiciosas as­ que ha memória entre nós, deviam fatalmente crear uma atmos-
pirações. Importa, porém, constatar em relação á poesia chamada phera moral, cujo predomínio, continuo e duradoiro, se póde

"7

DRaC-CCA
ainda reconhecer na nossa epoca, apesar duma reac- mente hierarchisada e reduzida até á mais absoluta su­
çao já secular, verificando-se em nossos dias o mesmo bmissão aos consagrados poderes da egreja, do governo
phenomeno psyco-social, que a permanência e poder e da nobreza.
do paganismo gréco-romano prolongou até aos primei­ A primasia separatista dos Estados-Unidos da Ame­
ros tempos da egreja, tão admiravelmente constatado rica, o exito incontestável da sua organisação demo­
pela profunda phrase de Tertulliano, o illustre pagão crática e o prodigioso desenvolvimento da sua riqueza,
convertido no segundo século do christianismo — «Nas­ attrahiram, desde a primeira metade do século passado,
cemos lodos imprègnados da idolatria do ventre ma­ a attenção dos publicistas europeus para o estudo dos
ternal. » elementos, que poderão ter originado estes phenome-
Se toda esta sábia e completa organisação não pôde nos políticos, sociaes e economicos.
evitar as revoltas das tendências naturaes do homem A' origem da raça, á sua instrucção geral e ao livre
na velha Europa, ha tantos séculos habituada á tradic- espirito hereditário independente dos primitivos purita­
cional sugeição, ainda menos o podia faser nas jovens nos, se tem attribuido em grande parte a forte indivi­
colonias, onde os elementos de acção, constrangimento dualidade. que parece explicar por completo a historia
e propaganda, a que nôs referimos, não possuíam a revolucionaria do paiz, para quem não conhece ou apre­
auctoridade, o vigor e eíficaz diffusão, que os impunha cia devidamente a significação exacta das causas acci-
ás populações do antigo continente. dentaes, determinantes d acontecimentos, que não esta­
Nas terras descobertas e povoadas no século 15, vam nos intentos das primeiras luctas contra as impo­
longe do fóco intenso, director e repressivo d estas do­ sições e prepotências da Inglaterra.
minações, nascia uma outra raça, cuja tempera nova E’ por isto que o susceptivel e desconfiado zelo pela
ressuscitava forças obliteradas da naturesa humana, af- egualdade social, habitual no Yankee, que parece di­
firmando-se por um acréscimo da personalidade indivi­ zer-nos a cada momento: «Eu sou tão bom como V.,
dual e collectiva, que lhes permittia, não só a conser­ ou mesmo muito melhor» tem sido considerado como
vação da sua poesia popular e superstições religiosas, a caracteristica especial dos Norte-Americanos e a base
até com extranhas modificações, apesar da resistência primordial e distinctiva da sua historia e do seu en­
clerical, mas ainda o desenvolvimento de hábitos e re­ grandecimento.
lações pessoaes, completamente differentes daquelles Durante uma longa viagem nos Estados-Unidos ti­
que imperavam soberanamente na Europa rigorosa­ vemos occasião de verificar, até mesmo nas mais infi-

DRaC-CCA
mas classes, este acréscimo da personalidade humana, Estrangeiros observadores e intelligentes teem no­
tão differente da tradiccional deferencia, quasi instin- tado entre nós ainda mais a correspondência ou influxo
ctiva, que prevalece na Europa. Mezes depois, porém, d'este modo de ser do nosso povo na lhaneza das clas­
percorrendo varias províncias do México e do Brasil, ses superiores para com as inferiores: e, como ha lon­
constatámos ali também a existência do que ha de es­ gos annos, aproposito das attenções e cuidados com
sencial n’esta defesa c affirmação da individualidade que dirigíamos um cavallo fogoso por entre uma mul­
própria, mesmo n’aquelles pobrissimos salariados, que tidão compacta, um ingiez nos dissesse — «Na Ingla­
só teem sobre pretos ou mestiços, a superioridade de terra eu zurzia e atropellava essa gentalha»—nós res­
mais ou menos claras pretenções á indispensável qua­ pondemos-lhe. com o excessivo orgulho patriótico de
lificação de brancos. quem aproveita o pouco de que pode alardear: Pois
A idéa geral, que deduzimos d’estas observações, amigo, aqui seria feito em postas!
não nos surprehendeu, porque ha muito a imaginara- De resto a concordância ou ligação desta realidade
mos vagamente, em relação á nossa pequena patria aço- social nas colonias com as manifestações históricas col-
reana, embora sob a forma atenuada, que devia resul­ lectivas da vida política dos Açores, guerreiras na Ilha
tar de condições diversas, filhas d'aquella mais adean- Terceira, pacificas em S. Miguel, quasi o unico distri-
tada phase material de socialisação, em que a força e cto de Portugal em que o voto popular vence frequen­
extensão do caracter pessoal é restringida pelo effeito 7,
tes vezes as mais fortes colligações da administração,
compressivo do numero e pela diminuição dos campos da propriedade e do dinheiro, confirma a nossa obser­
dactividade, que o fortalecem c augmentam nos paiz.es vação, verificada por um dos seus mais naturaes resul­
novos e inexplorados. tados.
De facto, ainda antes de sahirmos de S. Miguel, E' ainda a este germen de força independente que
parecia-nos que o feitio social de hombridade resistente se póde attribuir a superior fecundidade e vigor do
das nossas classes proletárias e medias para com as espirito literário e scientifico dos brasileiros nos fins
superioridades da fortuna e do nascimento, consagradas do século xvin, constatada por Oliveira Martins, e a
por tres séculos de regimen vincular, que açambarcou vivaz tempera e natural alcance do genius Açoreano,
toda a propriedade territorial, contrastava frisantemente representado por Almeida Garrett, Anthero de Quen-
com os costumes europeus, que os livros nos revelaram tal e Theophilo Braga, que tão salientemente se oppÕe
e que mais tarde conhecemos. a mórbida depressão e curto fatalismo e desespero, que

i ta

DRaC-CCA
nos melhores talentos continentaes parecem revelar a duradoira aos sentimentos, surprehendidos e encantados dos primeiros des­
impressão daquelle compressivo regimen de séculos, cujas primí­ cobridores. E é instructivo constatar aqui o extremo effeito es-
cias. entristecendo Gil Vicente, indignavam Camões pela: terilisador do domínio e ensino theocraticos, que por mais de
dois séculos pôde obliterar entre nós este sentimento da natureza,
.............................................................. rudeza que. talvez melhor que todos na Europa, possuímos e revelámos
D’uma austera, apagada e vil tristeza. ao mundo, com aquella perfeição expressiva da forma que só
pode ser attingida pela completa e commovida experiencia da
» sensação e da idéa.
* < *
* *
O mais antigo dos nossos chronistas, Gaspar Fructuoso, nada
nos diz de elucidativo sobre as relações das classes na sua época, As preoccupações genealógicas e heráldicas da sociedade por-
que abrangeu as tres primeiras gerações nascidas nos Açores, tugueza do séu tempo, fortalecidas e exageradas pelas façanhas
i?22-gi. Evidentemente dominado pelas idéas sociaes e formas recentes d’Africa, das descobertas, e da Índia, que geravam bra-
litterarias, consagradas pelos escriptores continentaes do seu zões novos e augmentavam a gloria e os escudos dos antigos,
tempo, que imita sem valor proprio ou adoptativo, elle não ma­ manifestam-se em Fructuoso com aquelle caracter formalistico,
nifesta aquellas originalidades d observação, que tantas vezes proprio das adaptações puramente litterarias. que atrahem os
brotam, como que involuntariamente, até mesmo dos mais estu­ espíritos medíocres, quer na erudição, quer n’aquella penetração
dados períodos da mais classica prosa dos seus contemporâneos observadora, capaz de sentir a viva realidade dos factos sob os
ou predecessores. mantos convencionaes impostos, que em todos os tempos os en­
A fóra o dos dados positivos, históricos e etnographicos, o seu cobrem, transtornam ou encarecem.
principal valor, mais documental do que artístico, aiiáz de im­ Ao leio, crer nos-hiamos n uma sala aristocratica europea
portância capital, encontra-se na viva e duradoira impressão, que e não no bravio sertão, onde, como ainda hoje nas florestas do
elle nos transmitte, dos novos aspectos maravilhosos das terras Brasil, se caminhava melhor por cima das arvores do que por
descobertas, prodigiosamente exuberantes, tanto pelo vigor in­ baixo d elias, abatendo o matto para a queima, lavrando a terra
tenso da vida da vegetação e da forca dos homens, como pela para o trigo, o assucar ou o pastel, vendendo e trocando líaquelle
multidão pululante dos animaes, impressão que nos prepara trabalho pratico e pacifico, que impõe o respeito mutuo, quando
admiravelmente o espirito para a amorosa comprehensão d aquelle aos braços dos homens não faltão as terras, facilmente apropriá­
profundo pantheismo camoneano, cujo poderoso enlevo tão per­ veis. que os sustentem sem dependencia alheia.
feitamente nos communica o grande poeta seu contemporâneo, o Tanto os portuguezes, como os anglosaxões, da classe aristo­
ultimo e o maior dos idealisadores da comrnunhão intima do ho­ cratica, transportavam por certo para as novas colonias as me­
mem com a natureza, que irresistivelmente se impôz aos olhos e mórias e as pretençõès familiares dos seus antepassados : a mais

120

DRaC-CCA
FASCICI EO K." J5

DRaC-CCA
LOMBADAS
GRÂND PRIX
Exposição Internacional do S. Lnu em 1901
MEDALHA DE OURO
Exposição do Pal. cio de Ciyslal de Londres em 19C4

A Kainha das aguas de meza


Leve, estomacal e digestiva, pura, límpida
0 acido carbonlco não é Introduzido artiflcialmente

Recommendada por todos os médicos

DEPOSITO GERAL
106, AVENIDA DA LIBERDADE, 110
X.ISBOA
C. MAHONY & AMARAL
70, Rua Augusta, â.°— LISBOA
TELEFHONE 586
METAES EM BRUTO: Aço, cobre, latào, estanho, chumbo em chapa, bar­
ras lingots.
FERRO: Em barras quadradas, redondas e vergalhão. Vigamento de ferro
em TI Ui cantoneiras e todos os mais aprestos para construcçòes. Feiro em
lingots para fundição. Chapas galvanisadas lisas e onduladas. Chapas de aço
para caldeiras. Tubos de ferro, cobre e latão. Arame de ferro, cobre e latão.
Folha de Flandres. Material fixo e circulante para caminhos de ferro. Rails de
aço e diversos perfis e pesos, vias portáteis. Machinas de vapor, gaz e petró­
leo. Caldeiras. Bombas. Machinas para industrias e agricultura. Machinas. Fer­
ramentas. Vidros polidos, foscos e de phantasia. Vidraça, lages de vidro (dalles).
Assucar, arroz, especiarias, drogas, productos chimicos. Ascensores hydraulieos,
Edoux & C.‘
CI M EII T Q
Únicos importadores em Portugal e colonias do CIMENTO da Compagnie
dcs Cnnents Parisiens, fabricado pelo notável engenheiro E. CANDLOT.
Fabrica de sabão-:—Telhai (Poço do Bi,po)
Fabrica da licores, aguardente, genebra 8 cognacs — TELHAI (POÇO 00 BISPO)
irp- a’>A ra • — Lisboa

DRaC-CCA
João Machado da Conceição MAGAZINE
Antigo alumno da academia de Bellas Artes
Commissões
e consignações
BERTRAND
A LERURA ILLUSTRADA
Promove vendas de cereaes, man
ATELIER DE PINTURA ESCULPTURA E DOURAMENTOS teigas, queijo etc., etc.
Publicação quinzenal — 96 pag., 100 gr.
Encarrega-se de paysagens, figuras, ornatos, decorações, pintura Fornece todos os generos d’esta
histórica, restauração de quadros antigos, letras, imitação de mármore capital, consumidos nos Açores,
e madeira, sceuographía, frescos, aguarellas, pintura e douramento em
egrejas, carnações em imagens, escclptura de imagens e retábulos,
nas melhores condições, levando 200 RÉIS
trabalhos de architectura. desenhos e plantas para construcções diver­ aos seus freguezes os minimos pre­
sas e todos os trabalhos pertencentes á arte, mesmo fóra dã ilha. ços do mercado.
dETranoo d© porte
Grande variedade de clichés photographicos dos Açores.
PREÇOS CONVENCIONAES
SAHIU O N.° 5
Ilha do Fayal — AÇORES Rua (los Correeiros 6 — LISBOA
Aclresse telegraphico
HACHE-LISBOA Antiga Casa Bertrand-Lisboa
iiiiii iiiiii iiiiii iiiiii

LMANACH BERTRAND
Ainiii iiiiiiiiim imiiiiiiii iiiiiiiiiiiiiiiiii imiiiiiiii iiiiiimiii miii V

A
9 9
«

9
»

COORDENADO POR
9
e * ® ® PARA

9 SEXTO ANNO DE PUBLICAÇÃO 9


1905

FENANDES COSTA
999999

472 paginas, 600 gravuras, frontispício a 3 côres, e capa a 8 côres e ouro


9 9 • 9
ATELIER PHOTOGRAPH1CO

JOSÉ G. CARDOSO
3
HORTA
N’este estabelecimento liram-se retratos em grande variedade de processos e
3

tamanhos por preços baratissimos.


9 9 9 BROCHADO, 500 RÉIS; CARTONADO, 600 RÉIS; PELO CORREIO MAIS 60 RÉIS 999 Magnifico? retratos a crayon, de differentes tamanhos, pelo
original com a maxima perfeição, ou por pholographia antiga não
deixando nada a desejar.

Antiga Casa Bertrand Fazem-se bellos passepartouls de cartão especial


e quadros que se entregam promplos a col-
locar nas salas.
ik JOSÉ BASTOS-- Mercador de livros - Editor
73, RUA GARRETT, 75 — LISBOA — ■ A IIIIII llllllllllll IIIIII llllllllllll IIIIII llllllllllllllllll llllllllllllllllll IIIIII llllllllllll

DRaC-CCA
recente, conhecida e importante historia dos últimos culo xv, Antao de Faria, o celebre Camareiro de
bastaria, comtudo, para nos indicar a insignificante in­ D. João II, e seu irmão Gonçalo de Faria, ambos
fluencia social destes elementos nas relações pessoaes galardoados pelo Príncipe pela sua bravura em Ar-
e hábitos collectivos dos primeiros, em presença dos zilla e principalmente na batalha de Toro. Entre os
vestígios permanentes herdados, a que nos referimos. companheiros de Vasco da Gama, na primeira viagem
se nenhuma prova positiva revelasse a data da existên­ de 1497, citam-se Pedro e Francisco de Faria.
cia entre nós d este phenomeno, que tão bem podemos No começo do século xvi, João e Balthasar de Faria
determinar na mais simples e incomplexa chronica dos desempenham importantes embaixadas em Roma, em-
costumes dos Estados-Unidos d‘America, livremente quanto d'entre os numerosos Farias das nossas histo­
desenvolvidos sob a protecção da mais completa tole­ rias do Oriente sobresaem os nomes de Pedro de Fa­
rância religiosa. Julgamos, porém, ter encontrado ha ria, que bem pode ser o mesmo que acompanhou a
pouco o testemunho insuspeito dos novos hábitos, oriun­ primeira viagem de Vasco da Gama, por isso que em
dos da colonisação, absolutamente differentes e oppos- 1643 elle aftirma a Martim Affonso de Sousa—«que
tos àquelles que imperavam no continente, num do­ tem sessenta annos de experiencia na guerra—» e An­
cumento. coevo de Fructuoso, em 1583, o testamento tonio de Faria, o extraordinário aventureiro e corsário
do instituidor do primeiro Morgado da nossa familia. dos mares da China, em cujo caracter e audacia Fer-
Antonio Lopes de Faria, que se afíasta da insignificân­ não Mendes Pinto nos [immortalisou o mais typico e
cia habitual d’estas sêccas manifestações das ultimas representativo exemplar d’àquelles pobres e imemora-
vontades, pelos conselhos e advertências que elle dirige dos gentishomens, que sob mais illustres capitães torna­
a seus sobrinhos e herdeiros, Pedro e Antonio de Fa­ vam possíveis:
ria, como elle nascidos, crescidos e creados na sua As homéricas batalhas
primeira patria portugueza. Dos quarenta contra mil I

O appellido de «Faria», imposto ao novo vinculo.


tinha já n’aquella epoca uma extensa chronica de exce- Depois d'estes os Severim de Faria de reputação
pcional distincção, que se prolongou continuadamentc htteraria: Estacio de Faria a quem Camões dedicou
por tres séculos, desde a o soneto, que tão bem se
tragica façanha do Castello pode applicar a elle e a tan­
de Faria no século 14, até tos do seu tempo:
meados do século 17.
Agora toma a penna, agora a espada,
Em seguida ao grande Eslacio nosso, em ambas celebrado.
Alcaide, Nuno Gonçalves
de Faria, apparccem no sé­ e seu neto, Manuel de Fa-

DRaC-CCA
ria e Sousa, o mais dedica­ Como se vê, as novas
do commentador épico, que condições da vida habitual.
usando a lingua hespanhola originadas, pela pacifica ex­
no apogeu da sua mais vasta ploração colonial c pela fal-
e gloriosa influencia mondial lencia, quer de tradições,
foi o maior vulgarisador dos quer d’aquelle obiquo regí­
nossos feitos e historia e um men autoritário e repressi­
dos muito raros portuguezes mencionados nas biblic- vo, que pôde ter em Portugal a sua mais absoluta effe-
graphias universaes. ctividade, determinavam immediatamente nas primeiras
gerações, nascidas no paiz recentemente descoberto,
um acréscimo da personalidade, creador d’um novo
uso- da terra, correspondente áquelle positivo senti­
Os nomes dos sobrinhos, que Antonio Lopes de mento do respeito humano, que só muitos séculos de
Faria escolheu para seus herdeiros, indicam a memória erudição e philosophia trouxeram, tardia e incompleta­
d’aquelles que mais se tinham illustrado no seu tempo mente, á velha Europa, de tornaviagem dos Estados-
no Oriente: e não é preciso saber muito das tradições, Unidos d’America, em cuja raça anglo-saxona se veri­
ainda hoje vivas, das prepotências aristocráticas em Por­ ficara uma revolução apenas idêntica á que fora ence­
tugal e do enfatuamento vanglorioso da temeraria mo­ tada, duzentos annos, antes, entre os nossas popula­
cidade, jactanciosa e mofadora da epoca, que em 1678 ções puramente latinas!
indignava Lisboa em vesperas da sua partida para, a Ao lado da conservação da poesia, das livres su­
triste desillusão de Alcacer-Quibir, para alcançar a ra- perstições religiosas e dos archaismos populares, appa-
são de ser das prevenções que o velho tio, prudente, rece este novo e anachronico phenomeno da egualdade
de bem diversa geração, encanecido na terra, enrique­ social, que vem alterar profundamente a inteireza d’a-
cera, recommendava aos jovens — «capitães de orde­ quelle conjuncto systematico, que por todos os lados,
nanças, nobres e poderosos» — como lhes chama Fru- desde o berço até á sepultura, apertava o indivíduo nas
ctuoso, aconselhando-lhes que — «com o povo d’esta talas de ferro da superior e indiscutível autoridade,
viila sejam muito domésticos e amem muito principal­ quer das idéas, quer dos homens. Ha nelle como que
mente os pobres, não usando da maneira da terra, uma renovação organica da natureza humana, que re­
onde nasceram, mas sim ao uso d’esta terra, como elle cupera obliterados elementos essenciaes da sua vida
testador sempre fe\, e lhes encommenda que nem com primitiva, que a evolução civil, política e religiosa,
seus amigos, nem com outros, jamais tenham zomba­ comprimira, ou annullara.
rias, porque são escandalosas». J0Á0 Machado de Faria e Maya.

122

DRaC-CCA
ARRUDA FURTADO
arwin, o illustre naturalista, tinha em alto conceito este tificas. Arruda Furtado adquiriu muitas especies de origem pró­
DIstomichaelense, com quem se correspondia amiudadamente.
devia ser consolador para Arruda Furta­
pria, que tem servido de valioso auxiliar aos estudos de sábios
estrangeiros. Por muitos d’elles foi este illustre
do, já que não encontrou consolações de fortuna, michaelense elogiado em livros e revistas france-
mesmo de bem-estar, carinho esse que apenas o zas e americanas, quando publicou o seu estudo
trabalho aturado que tinha no estudo das scien- sobre a Antropologia nos Açores.
cias naturaes, lhe oíferecia. Francisco d’Arruda Na sua obra apparecem também vários escri-
Furtado era pobre; e era a sciencia, por amor da ptos sobre a fauna das ilhas, cuja riqueza os seus
qual tanto trabalhou e tanto ennobreceu a sua estudos largamente mostraram.
terra, que lhe facultava os meios de sustentar a Em 1887 Arruda Furtado partia para S.- Mi­
familia que idolatrava: a esposa e um filho que guel, cançado e doente, na illusoria esperança de
deixou ainda creança. que os ares pátrios lhe restituiriam a saude. Foi
Tem havido assim muitos obreiros do pro­ n esse mesmo anno que n’uma das sessões da
gresso, vivendo como este na obscuridade, e a Academia Real das Sciencias elle era proposto
quem as sociedades, sem o saber, muito e muito seu socio. Infelizmente não chegou a entrar ali,
devem! Felizmente que ha quem veja a injustiça porque morria pouco depois em S. Miguel, que
dos homens e mostre o valor á luz do dia: Bar­ o conta no grande numero dos seus gloriosos
bosa du Bocage, na Academia Real das Scien- filhos.
cias, fallou largamente de Arruda Furtado, pondo A maior parte, porém, da obra produzida
em fóco a sua obra, longa e de real mérito, já pelo seu bem constituído cerebro, ficou inédita,
então revelada em Lisboa, sendo Arruda Fur­ ou então dispersa pelas columnas das publica­
tado conservador da Escola Polytechnica e colia- ções scientificas, em que Arruda Furtado larga­
borador do Jornal do Commercio. N’esta folha, e em folhetins mente collaborou. Ainda assim, o seu trabalho foi de tal vulto
subordinados á epigraphe de Revista Scienti/ica, deixou elle cabal­ que conseguiu impor-se perante homens de sciencia dos mais
mente patenteiado o seu saber em variados ramos de sciencia, abalisados, fazendo-o discutido, e a patria que o viu nascer sabe
escrevendo n uma linguagem accessivel a todos os leitores, syn- bem. felizmente, de quanto é devedora á memória de Arruda
thetisando matérias em que fornecia bei las e praticas noções scien Furtado.

DRaC-CCA
TORRE AUTONÔMICA

presente gravura, é reproducção d'um de­


Asenho devido ao lapis finamente humorís­
tico de Augusto Cabral, caricaturista amador,
de S. Miguel.
O assumpto d’esta, é o da implantação da
autonomia administractiva em S. Miguel, levada
a effeito por um grupo de homens de valor e
bons patriotas.
A gravura representa-os em caricatura, na
construcção da 'Torre dos seus bons ideaes.
Cada qual trabalha com amor; auxiliam-se to­
dos para o mesmo fim sagrado, que é o pro­
gresso da terra mater. Os dizeres que acompa­
nham cada um dos personagens, e que a redu­
ção da gravura não deixa lêr, mais augmentam
a graça das caricaturas, pois que Augusto Ca­
bral realisa o typo perfeito do caricaturista, tal
como elle deve ser : Alliar ao humorismo do de­
senho, o humorismo da phrase.
O meio em que vive não lhe dá incentivos
para poder expandir as suas excellentes apti­
dões artísticas. De longe em longe se dá um
caso de sensação, e a gente não gosta de ver-se
deformada n um papel que corre de mão em mão.
Por isso mesmo, morre á mingua de recur­
sos a publicação d’esse genero, como aliás já
aconteceu ao Binoculo e ao Pist!—jornaes mi
chaclenses de caricaturas em que Augusto Ca­
bral collaborou brilhantemente.

DRaC-CCA
VILLA DA LAGOA
ituada á beira mar, do­ tres, sendo uma em Ponta Delgada, a segunda na villa da Ribeira
S minando uma bella e Grande e a da Lagoa. A industria da distillação do álcool é das
vasta bahia, a Villa da La­ mais importantes da ilha, pois que emprega ao seu serviço cente­
goa fica a menos de duas nares de braços, e a sua matéria prima é a batata doce, que os
horas de viagem da cidade terrenos michaelenses produzem com abundancia.
de Ponta Delgada, na costa Os productos da fabrica de ceramica são apreciadíssimos, prin­
sul da ilha de S. Miguel. cipalmente por estrangeiros, que fazem d'elles largo consumo. A
A Villa é bastante pitto- louça d’esta fabrica é feita d’um barro vermelho finíssimo, dos
resca, os seus terrenos fer­ terrenos da visinha ilha de Santa Maria. O fabrico das figuras é
ieis, de boa indole o seu
povo, composto de campo-
nezes e pescadores. Rece­
beu a villa seu nome d’uma
lagoa que teve, de agua
nativa, hoje transformada
em terreno de cultura. Foi
creada villa em i552, por
decreto de D. João 111. O
unico edificio notável, pelo
tamanho e antiguidade, é
Clemente Antonio de Vasconcellos um convento de recoletos
capuchos, erigido em 1641,
sendo seus padroeiros os Condes da Ribeira Grande, convento
onde actualmente se acham installadas as repartições publicas do
concelho.
A Villa da Lagoa tem duas fabricas importantes: a de álcool
e a de ceramica. Esta ultima é unica na ilha; de álcool existem Villa da Lagoa

125

DRaC-CCA
gos que tem occupado, pela consideração de que gosa. E’ o dire-
ctor da fabrica de álcool d’aquella villa. Tem sido por varias ve­
zes administrador do concelho e presidente da Camara, a contento
unanime d’aquelles povos. Na política regeneradora local é o seu
nome o que mais sympathias gosa, e, por isso mesmo, o que
mais valor tem.
Cavalheiro honrado e lhano, torna-se o alvo da estima de quan-

Lagoa. —Um aspecto da villa

correctissimo. Na sua maior parte são costumes da ilha, ou ob-


jectos em deliciosas miniaturas, para adornar bancas ou para
brinquedos de creanças.
Na fabrica fazem-se louças de mais ordinário barro; mas a
sua especialidade são esses objectos minúsculos, d um barro muito
fino. Muitas casas commerciaes da cidade a vendem, em grandes
porções, aos touristes que visitam a terra, e que, d’entre as coisas
que da ilha levam para recordação d’ella, certamente que uma
das melhores são esses curiosos costumes populares da industria
lagoense, que faz honra á terra.
Lagoa — Mercado de peixe
Assim, pois, a villa da Lagoa, apesar de ser a mais pequena
em tamanho, é a primeira a concorrer, pelas suas industrias, para
o engrandecimento e progresso da terra de S. Miguel. tos o conhecem; e do povo do concelho da Lagoa elle bem a me­
rece, pelos serviços que por via da política lhe tem prestado.
O sr. Clemente Antonio de Vasconcellos é um d estes homens
indispensáveis, principalmente nas pequenas terras, porque, ser­
Na villa da Lagoa, Clemente Antonio de Vasconcellos é dos vidos por um bom caracter e por uma sã orientação, mais facil­
homens mais importantes pela sua influencia política, pelos car­ mente encaminham os ânimos de todos para o bem de todos.

126

DRaC-CCA
MANOEL AUGUSTO DAMARAL Depois é lyrico nas Cantigas, onde ha algumas quadras bellas,
buriladas por mão de mestre. Esta escola já se compadece mais
com a parnasiana, que é a sua escola, e onde o seu nome figura
patria de Anthero de dignamente na litteratura insulana, mesmo, sem favor, na littera-
AQuental ainda tem na
poesia, se bem que raros,
tura poética portugueza.

representantes que a no­ Uavadeira


bilitam. No numero des­
Lavadeira, flor das aguas,
ses raros entra Manoel Au­ Quem me dera, linda flor,
gusto d'Amaral com uma Que esta alma, suja de maguas,
já vasta obra, exclusiva­ Me lavasses, meu amor.

mente poética. Agua e pedra para tanto


Ao sabor do seu tem­ Não te faltam, filha, não :
Agua... o rio do meu pranto!
peramento, essa obra pas­ Pedra... esse teu coração!
sou por tres phases distin-
ctas: parnasiana, épica e ííupc et Serpper
lyrica. Todavia, os bons Correm aguas, correm aguas,
Correm do mar para o mar,
olhos sabem ver em qual Por entre montes e fraguas
d’ellas o poeta se mani­ Sempre a chorar, a chorar...
festa em toda a plenitude Assim se me vão os dias
do seu talento, sem forçar o estro. E’ na phase parnasiana que Do nada ao nada a correr:
este poeta é um poeta verdadeiro. O seu primeiro livro, Mira­ — Lentos, por entre agonias!
— Lestos, por entre o prazer!
gens, foi a denuncia da sua escola. Depois nas Volatas, livro onde
a forma é impeccavel, a duvida deixa de existir, sente-se em cada Cofre de beijos
estrophe que foi a mão d’um parnasiano que ali deixou o cunho Na tua hocca, anjo raro,
da sua pericia em modelar o verso. — Calix de rosa em botão!
Esse livro é o mais pessoal, o mais caracteristico do poeta, Guardo os meus beijos, avaro,
Com medo de algum ladrão!
aquelle em que revela o seu feitio. E’ o seu melhor titulo de gloria.
Na phase de épico, em que agrupamos, talvez indevidamente, Cerra os lábios, minha bella,
Essas pétalas sem par,
a pamphletaria, tem a Campanha de África, Portugal á Beira Não vá alguém, oh! cautela,
do Abysmo, etc., em que a forma soffre demasiado, e o seu cunho Não vá meus beijos roubar!

de artista se perde quasi. Manoel Augusto d’Amaral.

127

DRaC-CCA
ANTONIO DE JESUS S. BENTO
screvendo, ha tempos, a líellas. Quantas vezes, ao serem surprehendidos por aquellas tem­
E biographia d este homem
humilde, Manoel Augusto
pestades traiçoeiras dos Açores, os pequenos barcos de pesca, não
têm elles recebido o soccorro d esse homem, já no momento ex­
d Amaral começava assim o tremo dos pescadores verem apagada a ultima esperança de sal­
seu artigo: «Ha homens ante vamento!
cujo heroísmo a própria natu­ Já quando embarcações maiores não têm sahido do porto em
reza se assombra, eretraheos auxilio dos naufagos, julgando loucura a empreza, porque a si
seus impetos de fera, que­ mesmas se perderiam — o Antonio S. Bento atira-se para dentro
dando-se extatica como leôa dum dos seus escaleres, com mais quatro homens, a quem a sua
magnetisada sob o olhar em voz poderosa transmitte a própria coragem, e lá vae. envolto nas
chispas do domador audaz. ondas, coberto de agua, remando com os outros, n um esforço de
Tal foi o immortal Patrão Titan, sem attentar no risco da sua temeridade. n’um grandioso
Lopes, tal é também o bene- rasgo de abnegação! E depois, quando já sumido nas vagas e na
merito catraeiro S. Bento — cerração, os olhos inquietos o não alcançam e o julgam perdido
esse Patrão Lopes michae- com os que ia salvar, elle lá surge, triumphador e altivo, de
lense. De facto: Antonio de pé, no seu pequeno barco, com assombro das gentes, trazendo
Jesus S. Bento é, na verda­ comsigo a alegria para muitas almas afHictas, que já se julga­
deira accepção da palavra, um vam viuvas, o sorriso para muitas creanças, que já se sentiam
heroe. Alma de creança ingénua, n um corpo de gigante hirsuto! orphãs.
Simples, mas bravo! Rude, mas bom! No seu ser conjuga-se ad­ Já por mais d’uma vez factos d estes têm succedido, fazendo
miravelmente uma dupla personagem: Em terra, é um homem; de Antonio S. Bento uma figura querida de todos, a quem os
no mar, é um lobo!» maiores apertam sem pêjo a mão callejada dos remos.
Isso que ahi fica, embora muito poetisado, são verdades pu­ S. Bento é hoje proprietário d’alguns barcos que se occupam
ras. S. Bento, esse homem alto, robusto, queimado do sol, ca­ no transporte de passageiros entre a terra e os vapores surtos no
traeiro e analphabeto, é um benemerito que tem o peito coberto porto de Ponta Delgada.
de medalhas, ganhas sobre as ondas bravias do mar dos Açores, Todos o conhecem, todos o estimam, todos o procuram, e não
ás quaes tem arrancado muitas vidas em risco de se perderem ha outro, no seu mister, mais honrado do que elle.

128

DRaC-CCA
I’ASCICI IA> TV." 16

álbum Açoriano

DRaC-CCA
LOMBADAS
grand frix
Exposição Internacional <ic S. Luu em 1904
MEDALHA DE OURO
Exposição do Pa lúcio de Crystal de l.oudirs em 1904
MARÍTIMOS IIHAdíSJIGUEI
ft lainha das aguas de meza - j'
4^ Sociedade anonyma de responsabilidade limitada'______
Leve, estomacal e digestiva, pura, limpida >CAPITAL Reis Insulanos-l:000 000t000°<
0 acido carbonlco não é Introduzido artiíkiaJmente
Agentes em Lisboa

Recommendada por todos os médicos


Rua de S «Julião IOO, 2e. 0
■Z!
DEPOSITO GERAL
106, AVENIDA DA LIBERDADE, 110
LISBOA
C. MAHONY & AMARAL
70. 13u;i ^Aug usta, 3.°— I I 13 <
TELEFHCNE 586
............................ ...................................................................... miiiiii....... iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiuç
METAES EM BRUTO: Aço, cobre, latào, estanho, chumbo em chapa, bar­
ras lingots.
CAMPEÃO & C.A U FERRO: Em barras quadradas, redondas e vergalhào. Vigamento de ferro
era TI Ui cantoneiras e todos os mais aprestos para construcções. Ferro em
Casa de Cambio e Loterias i> lingots para fundição. Chapas galvanisadas lisas e onduladas. Chapas de aço
para caldeiras. Tubos de ferro, cobre e latão. Arame de ferro, cobre e latão.
<5 Folha de Flandres. Material fixo e circulante para caminhos de ferro. Rails de
Esta casa possue para as loterias, quer ordinanas, quor extraordinárias aço e diversos perfis e pesos, vias portáteis. Machinas de vapor, gaz e petró­
um variado sortimento de numeros em bilhetes décimos e cautellas
Compram e vendem pelos melhores preços, libras,ouro portuguez e todas leo. Caldeiras. Bornbas. Machinas para industrias e agricultura. Machinas. Fer­
as moedas nacionaes e estrangeiras, notas dos bancos de Hespanha, França, ramentas. Vidros polidos, foscos e de phantasia. Vidraça, lages de vidro (dades).
Inglaterra, Italia, etc.
Descontam vales do correio, vendem letras, sellos e papel sellado. Assuear, arroz, especiarias, drogas, productos chimicos. Ascensores hydraulicos,
Edoux & C.‘
1W, RITA DO AMPARO, 118 CIM B K T O
Únicos importadores em Portugal e colonias do CIMENTO da Compagnie
N JfflE RO TELEPHONICO 53 ENDEREÇO Tf L' GRAPH1C0: CiMPEÃO — LISBOA des Ciments Parisiens, fabricado pelo notável engenheiro E. CANDLOT.
*
Fabrica de sabão—Telhai (Poço do Bispo)
Fabrica da licoras, aguardente, genebra e cognacs — TELHÃL (POÇO DO BISPO)
Typ. a'
*
A Editora- — Lisboa

DRaC-CCA
João Machado da Conceição MAGAZINE
1F J. J. HTOES SOBBIIHO Commissões
BERTRAND
Antigo alumno da academia de Bellas Artes
DO
e consignações
A LEITURA ILLUSTRADA
Promove vendas de cereaes, man­
ATELIER DE PINTURA ESCULPTURA E DOURAMENTOS teigas, queijo etc., etc. Publicação quinzenal — 96 pag., 100 gr.
Fornece todos os generos d’esta
Encarrega-se de paysagens, figuras, ornatos, decorações, pintura
capital, consumidos nos Açores,
histórica, restauração de quadros antigos, letras, imitação de mármore
e madeira, scenographía, frescos, aguarellas, pintura e douramenlo em
egrejas, carnações em imagens, esculptura de imagens e retábulos,
nas melhores condições, levando 200 RÉIS
trabalhos de architectura, desenhos e plantas para construcções diver­ aos seus freguezes os minimos pre­
sas e todos os trabalhos pertencentes á arte, mesmo fora dã ilha. ços do mercado.
HTreinco d.e porte
Grande variedade de clichés photographicos dos Açores.
PREÇOS CONVENCIONAES SAHIU O N.° 5
Ilha do Fayal — AÇORES Rua dos Correeiros li — LISBOA
Adresse telegrapiilco
HACHE-LISBOA Antiga Casa Bertrand Lisboa
iiiiiiiiiiii

LMANACH BERTRAND
yiiim iiuii 111111111111 iimi 111111111111111111 iiiui 111111111111 111111111111111111 111111V

A
9 9
e •

COORDENADO POR
9 9
9 9 9 s PARA 1905

FENANDES COSTA
9 SEXTO ANNO DE PUBLICAÇÃO 9
9 ®

472 paginas, 600 gravuras, frontispício a 3 cores, e capa a 8 cores e ouro


s

9
9

9
®

9
9

9
ATELIER PHOTOGRAPHICO

JOSÉ G. CARDOSO
3, R.UA. DE S. PAULO, 3
HORTA
N’este estabelecimento tiram-se retratos em grande variedade de processos e
tamanhos por preços baratíssimos.
9 9 9 BROCHADO, 500 RÉIS; CARTONADO, 600 RÉIS; PELO CORREIO MAIS 60 RÉIS 999 Magníficos retratos a crayon, de differenles tamanhos, pelo
original com a maxima perfeição, ou por photographia antiga não
deixando nada a desejar.

Antiga Casa Bertrand Fazem-se bellos passepartouls de cartão especial


e quadros que se entregam promptos a col-
locar nas salas.
& & JOSÉ BASTOS -Mercador de livros - Editor &
—— 73, RUA GARRETT, 75 — LISBOA —— -= ^llllll IIIIIIIIIIII llllll IIIIIIIIIIII llllll llllllllllllllllll llllllllllllllllll llllll IIIIIIIIIIII

DRaC-CCA
READ CABRAL ACÇÃO DA LADEIRA DA VELHA

uilherme Read Cabral foi o primeiro dagosto de i83i, fez-se de vela da bahia d’Angra
G d'estes escriptores michae-
lenses que deixaram de si memó­
N da Ilha Terceira o Conde de Villa Flor, com uma divisão de
tres mil homens, em direcção á ilha de S. Miguel, sede do go­
ria preduravel, porque a sua obra, verno do Archipelago, e onde o capitão general, Henrique da
ainda que não seja notável pelos Fonseca de Sousa Prego, reunia forças imponentes, tanto de tropa
primores da forma, hoje das mais de linha como de milicianos.
apreciadas qualidades n’um ho­ A pequena esquadrilha do Conde de Villa Flor abordou á costa
mem de lettras, é sobremaneira do norte e desembarcou a tropa no pesqueiro da Salga, proximo
instructiva e util, pela matéria de ao logar da Achadinha.
que versam quasi todos os seus Em toda aquella extensão da costa, a rocha ergue-se alcanti­
livros. lada a grande altura, offerecendo apenas um rude e tortuoso ata­
O assumpto predominante, lho, aberto pelo continuado trilho dos pescadores, e de difficillimo
pois, da maior parte d"elles, é a accesso.
historia dos Açores, da qual Read Pode-se, pois, imaginar os esforços que tiveram de empregar
Cabral nos fornece interessantís­ estes valentes soldados com o equipamento da ordem, em escalar
simas notas. aquella escarpada subida, com risco de serem immolados pelas
Versejou também; chegou a publicar um volume de poesias enormes pedras que homens e mulheres dos povos visinhos arro­
com o titulo: Em Pleno Atlântico. Mas foi na historia que elle se javam de cima, e das quaes se resguardavam o melhor que po­
distinguiu, sendo o mais notável dos seus livros— Glorias e Pri­ diam, nas anfractuosidades da rocha.
mores de Portugal. D’este modo, e fazendo sempre fogo para cima, chegam á
E’ d’esse que extrahimos o artigo que se segue, sobre a bata­ estrada, formam em pelotões, e marcham em seguida sobre a Ri­
lha da Ladeira da Velha, na ilha de S. Miguel. beira Grande, villa importante, e que o Conde de Villa Flor queria
Além d'esses dois livros, publicou ainda um Compendio de occupar, caso encontrasse resistência de parte da capital da ilha.
Legislação Fiscal; Tfevista Geral de Historia Antiga e Moderna; Ainda bem não tinham as primeiras forças tomado posse dos
No Seio da Terra e nas Profundezas do Mar, etc. altos, são atacadas por um forte destacamento de linha, aquarte­
Os governos galardoaram os seus méritos, fazendo-o Com- lado na Ribeira Grande, mandado a marcha forçada a obstar ao
mendador da Ordem de Christo e Cavalleiro da Torre e Es­ desembarque dos constitucionaes, tão depressa foi conhecido o
pada. Na ilha do Fayal, onde residiu algum tempo, foi Read ponto escolhido.
Cabral cônsul da Inglaterra. Esta força, porém, não sustentou o impeto com que a atacou

N. 17 129

DRaC-CCA
a vanguarda da divisão liberal. Derrotada, e morro o capitão que A superioridade numérica de nada lhes valeu. - Kepulsados
a commandava, entregou-se á dcscripção. valentemente e cortada a sua juncção com o grosso do exercito,
Igual sorte teve outro destacamento de tresentos homens que debandaram aquellas forças em direcção á Ribeira Grande.
tinha descido pela Gurriana, e pertencia ao corpo de milicianos de Ao passo que se dava este assalto, que expunha o inimigo a
de Villa Franca. ser simultaneamente atacado pela frente e sobre o flanco direito,
Chegado ás approximações da Ladeira da Velha, foi o Conde tinha logar um combate a dois terços de caminho da ladeira, re­
informado de que o exercito realista, com força de quatro a cinco nhido e mortífero para ambos os partidos.
mil homens de tropas de linha e milicia, occupava as eminências Uma força imponente occupara um pinheiral junto á estrada.
que dominam este desfiladeiro, posição formidável, e a mais van­ Era um intrincheiramento formidável. Cada tronco d’arvore occul-
tajosa que póde desejar um general. tava um homem, e emquanto os assaltantes estavam a descoberto,
Uma verdadeira Thermopilas. os assaltados estavam ao abrigo das balas.
Effectivamente a Ladeira da Velha, a cavalleiro do logar do Nada porém podia deter a marcha impetuosa das forças consti-
Porto Formoso, é um ponto estratégico de primeira ordem. tucionaes. — O pinhal foi invadido e tomado á bayoneta calada,
Flanqueado pelo norte por terras altas extremamente acciden- seguindo-se a precipitada e desordenada fuga da columna realista.
tadas, que a ligam com a serra, e pelo sul com a alcantilada rocha
do mar; bem defendido, torna-se inexpugnável.
Tal é a entrada unica que tem deante de si o Conde de Villa
Flor.
N'estas condições, só generaes como Napoleão se exporiam a
uma derrota quasi certa, mas o digno descendente de D. Sancho
Manoel de Vilhena, bem sabia que commandava soldados laurea­
dos de victoria, na defeza da Terceira e na conquista de S. Jorge.
Os altos achavam-se coroados de artilharia e occupados pelo
exercito miguelista.
Era forçoso obrigar o inimigo e executar um movimento de
conversão e dirigir-lhe as attenções para um ponto differente: —
n’este intuito ordenou o Conde uma sortida sobre o flanco di­
reito do exercito realista, tendo as columnas que deveriam operar
este ataque de atravessar fundas ravinas e vencer as escabrosida-
des do terreno parallelo á ladeira.
Apercebida a manobra constitucional, fortes columnas destaca­
ram do centro em defeza dos pontos ameaçados. S. Miguel. — Como se conserva o milho

i3o

DRaC-CCA
N'esta conjectura é a retaguarda atacada por quinhentos mili­ tes e sem o seu commandante em chefe, o coronel Silva Reis, que
cianos de Villa Franca. Repellidos á bayoneta e envolvidos pelas se deixara ficar na Villa da Lagoa, entregue á embriaguez, calla-
tropas liberaes, a maior parte é prisioneira e a divisão prosegue ram bayoneta, rechassaram as forças mais avançadas e apodera­
na sua marcha. ram-se da artilharia. Estavam já senhores do campo.
A’ frente do seu estado maior subia o Conde de Villa Flor a Um unico corpo conservou-se firme.
montanha, com aquella serenidade e elegancia fidalga com que Foi o regimento de milícias da Ribeira Grande, commandado
sempre entrara em batalha, e que o distinguia, quer no campo, pelo coronel Jacintho Leite de Bettencourt.
como soldado, quer nas salas, como gentil homem. Este valente official de tropa de linha acompanhára o Senhor
Assomava elle d’espada em punho aos altos da ladeira, ao 1). João VI ao Rio de Janeiro, donde regressou a S. Miguel
tempo que o desbaratamento das forças mandadas suster a marcha quando, por morte de seu irmão primogénito, pertencia-lhe entrar
da columna da serra, permittia a esta envolver o inimigo, e que a na administração do vinculo.
fuga das forças desalojadas do pinhal, tinham espalhado o pânico O imperturbável sangue-frio do coronel manteve a disciplina
no grosso do exercito. do corpo do seu cominando, no meio do pânico e fuga desorde­
A impetuosidade com que subiam as forças constitucionaes os nada das outras forças, mas a superioridade numérica dos libe­
últimos passes do desfiladeiro, animadas pela victorià oa serra e raes não admittia resistência; e quando viu rarear as fileiras do
do pinhal, e dos gritos de — viva o imperador — aterrou o inimigo. seu regimento, deu a ordem de retirada, dizendo: — «Já nada fa­
Ainda procurou este deter as primeiras columnas das forças zemos aqui.» Foi a ultima espada que se embainhou na conquista
invasoras, fazendo-lhes algumas descargas que se perderam, de­ das ilhas.
vido á sinuosidade da ladeira, e que por esse motivo inutilisava a Assim findou a campanha gloriosa dos Açores.
artilharia, mas depois dum vivo tiroteio, os constitucionaes, apro­ ("Das Glorias e Primores de Portugal)
veitando-se da desmoralisação do inimigo, sem officiaes experien­ Read Cabral

DRaC-CCA
NICOLAU ANTONIO BORGES
ascido nos primeiros annos do século xix, e portanto num foi elle quem commandou os destacamentos do batalhão civico,
N dos períodos das maiores transformações sociaes e políticas conseguindo restabelecer por completo a ordem, emquanto du­
rou a crise revolucionaria.
por que passou Portugal, apesar de envolto sempre em luctas
partidarias, Nicolau Antonio Borges de Bet- Sem o seu valor, que fez suffocar a re­
tencourt pôde, ainda assim, pela rectidão e volta dos calcetas, no Castello de S. Braz de
firmeza do seu proceder, tornar se em S. Mi­ Ponta Delgada, por muito tempo toda a ilha
guel um dos caracteres mais venerados da teria sido theatro de nefastos horrores.
sua epocha. Sempre sobrecarregado dos mais Foi membro da Junta Governativa, cons­
importantes serviços públicos, elle foi toda a tituída pelo povo para manter os princípios
vida um acérrimo liberal, um democrata de proclamados pela revolução do Minho ; exer­
lei, sempre virtuoso e sempre bom. ceu por varias vezes os cargos de presidente e
Nascera de nobre progenie, com gloriosas vereador da Camara de Ponta Delgada; mem­
tradicções de familia, que dignamente conti­ bro e presidente da Junta Geral e do Conselho
nuou, sem desmerecer em nada dos seus an­ do Districto, e commandante da guarda nacio­
tepassados. Seu avô, Miguel Antonio Borges nal, que tantos serviços prestou á ordem e á
de Bettencourt, foi quem fez cumprir em causa liberal, e com amor se embrenhou em
S. Miguel a ordem de expulsão dos jesuítas todas as commissões de benificencia, ou n’a-
que ali existiam. quellas em que era necessário um provado
Muito novo, Nicolau Antonio Borges as­ patriotismo.
sentou praça nas fileiras da milicia. O mo­ Durante o longo espaço de i3 annos, Ni
vimento de 1831, que franqueou a ilha de colau Antonio Borges de Bettencourt foi pro­
S. Miguel ás forças constitucionaes, teve como vedor da Santa Casa da Misericórdia de
um dos seus mais illustres cooperadores Nicolau Antonio Bor­ Ponta Delgada, administrando-a, reformando-a, dotando-a com
ges, que chegou a ser capitão do batalhão civico e coronel de taes e tão importantes melhoramentos, que o seu nome a ella se
milícias. acha ligado indelevelmente. Por fallecimento do i.° Barão das
Para acabar com todas as guerrilhas miguelistas, que após a Larangeiras foi Nicolau de Bettencourt, quem assumiu na ilha a
partida para o Porto da divisão constitucional, infestavam a ilha, chefia do partido Setembrista.

102

DRaC-CCA
VIELA DA RIBEIRA GRANDE
a costa norte da ilha de S. Miguel, a dezoito kilometros de lometros no littoral
N Ponta Delgada, fica situada a Villa da Ribeira Grande, amais norte.
importante terra dos Açores e uma das mais importantes do paiz, Edificada pouco
na sua ordem. acima do nivel do
Rica pela extensão e feracidade de seus terrenos e mais rica mar, destaca-se
ainda pela actividade laboriosa de seus habitantes, rivalisa com al­ n uma vista impo­
gumas cidades do continente portuguez pelo movimento commer- nente a que dá tons
cial e industrial e pela formosura das suas ruas e edificios. E’ sede de belleza a extensa
de comarca e d um concelho de cerca de vinte seis mil habitantes esplanada de feiti-
distribuídos por oito freguezias, n’um percurso de trinta e seis ki- lissimos terrenos
que corre para sul
até ir encontrar, lá
ao longe, a monta­
nha da Lagoa do
Fogo, ultima linha
de verde negro que
fecha o quadro.
A villa é corta­
Egueja da Misericórdia
da a meio pela ri­
beira que lhe dá o nome e riqueza, pois que, aproveitada para
moinhos a força das muitas quedas d’agua, abastece de farinha
muitas localidades visinhas e a capital do districto com a qual
mantém intensas relações commerciaes. Essa mesma força foi
aproveitada para a illuminação por electricidade, e as suas ruas e
praças, como estabelecimentos e casas particulares, gosam hoje
d’este progresso de que ainda estarão privadas, talvez por largo
U.M FRECHO DA VlI.LA tempo, terras muito mais importantes do paiz.

i33

DRaC-CCA
A illuminação publica é servida por cerca de trezentas lampadas d'estes estabeleci­
d’incandescencia de dezeseis vellas e seis arcos voltaicos nos sitios mentos a quatro
mais espaçosos. irmãos da familia
Poucas terras se poderão dizer felizes como a Ribeira Grande Cabido, gran-be-
em instituições dc beneficencia. nemeritos que
O seu Hospital é uma das boas coisas no genero, quer pela os dotaram com
magnifica construcção das suas enfermarias, quer pelo apuro e abastadas rendas.
aceio dos seus serviços. Os seus rendimentos, com quanto não se­ A historia deve fa­
jam avultados, dão ainda assim n’uma relativa abundancia para zer na sua lista
tratamento dos doentes do concelho. d'honra o registo
Possue mais a Ribeira Grande dois estabelecimentos de cari­ dos seus nomes.
dade com boas rendas próprias — um Asylo de Infancia Desvalida, Entre os edifí­
e outro de Mendicidade. São instituições que vivem desafogadas cios públicos da
e prestam uma grande somma de beneficies. E’ devida a fundação Vi 11 a, merecem
nota especial a
igreja do Espirito
Santo pela sua
frontaria admira­
da por todos que
conhecem alguma coisa d’architectura, e a igreja Matriz pela harmo­
nia da sua construcção interna d’amplas linhas, valor d’uma boa
parte da sua obra de talha e grande preço artístico do seu cadei-
rado da capella-mór.
E’ n'esta igreja que se conserva o tão falado Arcano, obra
d uma freira egressa que matou as saudades da cella do seu con­
vento na pacientíssima occupação de fazer por suas mãos e de
collocar por ordem chronologica umas pequenas figuras represen­
tativas dos factos bíblicos. No detalhe, como obra d’arte, não tem
valor que se recommende. No conjuncto, porem, revela um grande
espirito d objectividade, uma faculdade poderosa de concretização
e principalmente uma tenacíssima vontade que sabe ir ao seu fim,
Ponte sobre a ribeira o que é sempre para admirar o máximo n uma senhora.

i34

DRaC-CCA
Não se compadece com os limites d’esta ligeira nota qualquer AS CALDEIRAS
indicação sobre o trabalho industrial da Villa, variadíssimo nas
suas manifestações e muito importante n’alguma d elias. Em todo
o caso, sem prejuízo da brevidade, são dignos de menção o fabrico as proximidades da Villa da Ribeira Grande, a pouco mais de
do chá em quatro estabelecimentos importantes, sobresahindo entre
elles o dos herdeiros de José do Canto, a preparação do fio d'es-
N quatro kilometros para o centro da ilha, fica o pittoresco
Valle das Caldeiras, que com as suas aguas thermaes sulfurosas,
padana na vasta propriedade do Marquez de Jacome Correia e a com os seus graciosos chalets, os seus deliciosos passeios e riso­
distillação d’alcool, que dão grande movimento ao trabalho local, nhos panora­
pela actividade laboriosa d’estes povos. mas, constitue
O Padre Cordeiro, na sua Historia Insulana, diz da Ribeira um dos qua­
Grande: «que até ao anno de 1555 não tinha parte para o poente dros campes­
mais que duas casas além da ribeira, onde hoje é a maior parte tres mais gar­
da Villa. Era de antes um logar da jurisdição de Villa Franca; ridos de S. Mi­
porém em 4 de agosto de 1007, El-Rei D. Manoel, estando em guel.
Abrantes, a fez Villa, com uma legua de termo ao redor. Não As Caldei­
tinha de antes mais que uma só freguezia; mas no anno de 1677 ras são, por
o Bispo de Angra, D. Gaspar de Faria, creou no arrebalde d’esta assim dizer,
Villa, chamado Ribeira Secca, segunda freguezia.» uma estação
E assim tem vindo, pelos annos adeante, a engrandecer-se, a thermal délite,
enriquecer-se, a notabilizar-se, na sua industria, no seu commer- pois que, tendo
cio, na agricultura, a Villa da Ribeira Grande, a qual só poderá uma dezena de
queixar-se da falta d um porto abrigado; pois que, se o possuísse, habitações, ali Caldeiras. — Vista geral
era ella que estava destinada de ha muito a ser a capital da ilha só se reúne um
de S. Miguel. limitado e escolhido numero de veraneantes. Passam-se os dias
Dest’ arte, não será para admirar que essa importante e labo­ em bellos passeios, á Fonte das Lagrimas, á nascente das Lom­
riosa villa. rivalisando e até mesmo excedendo muitas cidades do badas, á Lagoa do Fogo, ou ao Salto do Cabrito, ou ainda jogan­
continente do reino, venha também, mais tarde a gosar fóros de do, em lindos jardins, á sombra das arvores frondosas, entre o
cidade. perfume das flores, o croquet e o tenhis.
A Ribeira Grande, pois, pelas suas especiaes condições, pela A noite é na Assembleia, em danças, cantos, jogos e recitações,
tenacidade dos seus habitantes, tem reservado um grande fu­ num convívio intimo, alegre, familiar.
turo. Os passeios que deixamos apontados, são todos dignos de fa­
Christiano de Jesus Borges zer-se, mesmo pelos forasteiros que aportem á ilha de S. Miguel,

DRaC-CCA
pela sua ori­
ginal belleza.
Vi sitando-se
as Caldeiras
da Ribeira
Grande, fi­
cam todos
elles a pouca
distancia d'es-
te valle encan­
tador. Gottas
de agua cris­
talina, numa
chuva fresca e
ininterrupta,
cahem da abobada da Fonte das Lagrimas, uma gruta musgosa e
garrida, em
Nascente da agua das Lombadas
pleno matto.
O Salto doCa- Da Lagoa do Fogo, toda a descripção é pallida: Lá ao fundo a
brito é uma Lagoa, d um azul claro de aguas que se recortam nas margens
enorme e al­ de areia doirada.
tíssima queda E em plena serra de Agua de Pau, no mais alto d’ella; e cá
de agua,agora de cima o olhar estende-se, abrangendo quasi toda a ilha, que o
utilisada para oceano cinge n um estreito abraço. A cidade, as villas, os povoa­
funccionamen- dos, o mar e as montanhas, tudo ali fica aos pés do observador,
to das machi- que n aquella altura, n’aquella aridez e n'aquelle silencio, a um
nas producto- tempo se sente grande e mesquinho!
ras da electri- A nascente das Lombadas, essa preciosa agua mineral, tão
cidade que il- apreciada até em mesas estrangeiras, e que em grande quantidade
lumina a villa se exporta e se consome nos Açores, fica também n’um valle
da Ribeira dum pittoresco agreste, duas casitas brancas lá em baixo, onde a
Grande. Caldeiras. — Banhos agua se acondicciona para a venda.

136

DRaC-CCA
LOMBADAS
GRAND PRJX
Exposição Internacional de S. Luu em 190L
MEDALHA DE OURO
Exposição do PaL.cio de Crystal de Londres cm 4914

ft Rainha das aguas de meza


Leve, estomacal e digestiva, pura, limpida

Ife S Z A Z S Z A Z S
0 acido carbonico não é introduzido artiflcialmente

Recommendada por todos os médicos

DEPOSITO GERAL
106, AVENIDA DA LIBERDADE, 110
XISBOA
C. MAHONY & AMARAL
70. liiiíi Augusta, 2."— LISBOA
TBLEPHONE 586
HllllltlIllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllltlIlllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllL:
METAES EM BRUTO: Aço, cobre, latào, estanho, chumbo em chapa, bar­
ras lingots.
« CAMPEAO & C.A FERRO: Em barras quadradas, redondas e vergalhão. Vigamento de ferro
em TIU; cantoneiras e todos os mais aprestos para construcções. Ferro em
Casa de Cambio e Loterias lingots para fundição. Chapas galvanisadas lisas e onduladas. Chapas de aço
para caldeiras. Tubos de ferro, cobre e latào. Arame de ferro, cobre e latão.
Folha de, Flandres. Material fixo e circulante para eaminhos de ferro. Rails de
Esta casa possue para as loterias, quer ordinárias, quer extraordinárias aço e diversos perfis e pesos, vias portáteis. Machinas de vapor, gaz e petró­
um variado sortimento de numeros en> bilhetes décimos e cautellas
Compram e vendem pelos melhores preços, libras,ouro portnguez e todas leo. Caldeiras. Botnbas. Machinas para industrias e agricultura. Machinas. Fer­
as moedas nacionaes e estrangeiras, notas dos bancos de Hespanha, E rança, ramentas. Vidros polidos, foscos e de phantasia. Vidraça, lages de vidro (dalles).
Inglaterra, Italia, etc. Assuear, arroz, especiarias, drogas, productos chimicos. Ascensores hydraulicos,
Descontam vales do correio, vendem letras, sellos e papel sellado.
Edoux & C.*
118, BVA. DO AMPABO, 118 CIM E11 T Q
Únicos importadores em Portugal e colonias do CIMENTO da Compagnie
NJKERO TELÍPHONtCO 53 ENDEREÇO TEfGRAPHICO: CAMPEÃO — LISBOA des Ciinents Parisiens, fabricado pelo notável engenheiro E. CANDLOT.
llllll .............................................................................................
Fabrica de sabão — TelEa! (Poço do Bispo)
Fahrica de licores, aguardente, genebra e cognacs — TELHAI (POÇO 00 BISPO)
*A
Ivp. <i' E< • — Lisboa

DRaC-CCA
l ASCICI l .O TK." J y

album Açoriano

DRaC-CCA
João Machado da Conceição MAGAZINE
Antigo alumno da academia de Bellas Artes
Commissões
e consignações
BERTRAND
DO

A LEITURA ILLUSTRADA
Promove vendas de cereaes, man­
ATELIER DE PINTURA ESCULPTURA E DOURAMENTOS teigas, queijo etc., etc. Publicação quinzenal — 96 pag., 100 gr.
Fornece todos os generos d’esta
Encarrega-se de paysagens, figuras, ornatos, decorações, pintura
capital, consumidos nos Açores,
histórica, restauração de quadros antigos, letras, imitação de mármore
e madeira, scenograpbía, frescos, aguarellas, pintura e douramento em nas melhores condições, levando 200 RÉIS
egrejas, carnações em imagens, esculptura de imagens e retábulos,
trabalhos de architectura, desenhos e plantas para construcções diver­ aos seus freguezes os minimos pre­
sas e todos os trabalhos pertencentes á arte, mesmo fóra dã ilha.
Franco d.e porte
ços do mercado.
Grande variedade de clichés photographicos dos Açores.
/ PREÇOS CONVENCIONAES X SAHIU O N.° 5
1111 a do Fayal-AÇORES 7^
Rua dos Correeiros 6 — LISBOA
Adresse telegrapliico
HACHE-LISBOA Antiga Casa Bertrand - Lisboa
yimii iiiiniiiiii mm miiiiiiiii mm iiiiiiiniiiiiiiii mm iiiiimiiii mm iiiiiiiiiiii iiimv

LMANACH BERTRAND
A
9 9
999999

coordenado por
9 9
PARA 1905

FENANDES COS TA
9 SEXTO ANNO DE PUBLICAÇÃO
999999

472 paginas, 600 gravuras, frontispício a 3 cores, e capa a 8 côres e ouro


9 9 9 9
ATELIER PHOTOGRAPHICO

JOSE G. CARDOSO
3, H.UA. DE S. PAULO, 3
HORTA
Veste estabelecimento lirani-se retratos em grande variedade de processos e
tamanhos por preços baratíssimos.
9 9 9 BROCHADO, 500 RÉIS; CARTONADO, 600 RÉIS; PELO CORREIO MAIS 60 RÉIS 9 9 9 Magníficos" retratos a crayon, de differentes tamanhos, pelo
original com a maxima perfeição, ou por photograpbia antiga não
deixando nada a desejar.

Antiga Casa Bertrand Fazem-se bellos passepartouts de cartão especial


e quadros que se entregam promplos a col-
locar nas salas.

& & JOSÉ BASTOS - Mercador de livros Editor & & llllllllllll llllll IIIIIHIIIIIIIIIII llllllllllllllllll llllll llllllllllll f
73, RUA GARRETT, 75 —LISBOA

DRaC-CCA
ALBUQUERQUES (LARANGEIRAS)
ntre tantas famílias il- contra o Conservador, ou Cartis-
E lustres, de que a terra ta, o seu caracter sahiu d’ellas sem
de S. Miguel tem sido ber­ pre sem macula, pois que, acima
ço, a das Larangeiras oc- de interesses partidários, elle col-
cupa um honroso logar, locava a generosidade da sua al­
tendo-se nobilitado sobre­ ma. E a sua bolsa, que nunca se
maneira, em passadas epo- fechara para os necessitados, mes­
chas, com a espada dos mo na França e na Inglaterra foi
guerreiros, e ainda nos soccorrer os emigrados políticos
nossos dias pelas artes, e d’esse tempo.
sempre pelas virtudes. O Por todos esses altos serviços
primeiro Barão das Laran­ prestados á patria, com a sua es­
jeiras era o morgado Manoel de Medeiros da Costa Canto e Albu­ pada e com o seu dinheiro, foi-lhe
querque. Foi camarista, vogal da Junta Geral do districto e seu offerecido o titulo de Barão das
chefe administrativo. Liberal do coração, a favor da causa publica Larangeiras, e conseguiu ser ele­ i.° BarÁo dasLarangeiras
cedeu os vencimentos que fez como administrador geral, durante vado ao pariato.
os annos que exerceu esse cargo. Foi também presidente da Junta Já de traz vinha, na família, esse amor grande pela patria: Um
Governativa e commandante do batalhão civico, organisado em seu antepassado, o capitão Manoel de Medeiros da Costa, armára
S. Miguel n'esses maus tempos da guerra civil entre D. Pedro e alguns navios á sua custa, com os quaes batalhou contra os hes-
D. Miguel. panhoes e d’elles triumphou, em 1640, nas costas da ilha Terceira,
Logo depois de completa a sua educação litteraria, alistou-se em favor da independencia de Portugal. Por este feito d’armas
no serviço das armas, em que serviu cinco annos; e com a sua recebeu o habito de Christo e foro de fidalgo. E cahe aqui em córte
grande fortuna e prestigio pôz em pé de guerra um troço de ho­ o dizer-se que foi o capitão Manoel de Medeiros da Costa, quem,
mens, que foi engrossar o pequeno exercito açoriano que de­ em cumprimento dum voto por esse triumpho, fez construir a
sembarcou no Mindello. Os viveres para fornecimento da frota de egreja da Conceição em Ponta Delgada, em terreno que lhe levara
-7.500 bravos, foram oflerta do primeiro Barão das Larangeiras. em dote sua esposa, D. Feliciana d’Andrade Albuquerque. Para
Sustentando varias luctas, como chefe do partido Setembrista, tal lhe foi concedida permissão por alvará régio de 1662.

N.° 18

DRaC-CCA
Na casa chamada dos Prazeres, nas Furnas, hoje pertencente terceiro Barão das La-
aos seus herdeiros, esteve hospedado por alguns dias D. Pedro IV,
quando aos Açores foi procurar adeptos para a sua causa. E o
O rangeiras, Duarte de
Medeiros Albuquerque, ao
seu titulo de nobreza, jun­
tou o de ser um artista il-
lustre; ao seu foro de fi­
dalgo reuniu a grande qua­
lidade de trabalhador irifan-
tigavel.
A melhor typographia
que tem existido nos Açôrcs,
foi adquirida pelo terceiro
Barão, com os mais moder­
nos materiaes estrangeiros e
com as machinas mais aper­
feiçoadas. A primeira lytho-
graphia açoriana foi tam­
bém montada por elle, que
era o proprio a fazer os ne­
cessários desenhos, porque 2.a Baroneza das Larangeiras
eram na verdade vastas as
suas qualidades artísticas, entre as quaes a de pintor-amador foi
porventura a mais saliente. Quadros a oleo e aguarellas suas,
existem hoje por mãos de familia; e em todos esses trabalhos se
affirma um artista de raça, que innegavelmente o foi.
Mas as bellas artes não abriam caminho em S. Miguel.
Então elle, espirito refractario á indolência, passou a envere­
dar-se pelas industrias, e montou uma fabrica de panificação, ge-
Interior qa egreja da ConceicÁo nero francez, mandando ir da França para a ilha um director me-
chanico. Eram magníficos os productos da fabrica, mas foram
mais importante foi aquelle que depois se chamou o Barão das La- ainda nullos os resultados! E’ que o terceiro Barão das Larangei-
rangeiras, o morgado Manoel de M. da Costa Canto Albuquerque. ras era demasiado artista para ser commerciante.

i 38

DRaC-CCA
Gorada mais ilho desse grande e prestigioso vulto que foi o i.° Barão das
esta nobre ten­ F Larangeiras, Antonio Manuel de Medeiros Albuquerque, o 2.°
tativa, entrou na Barão e i.° Visconde das Larangeiras continuou dignamente as
carreira buro­ nobilíssimas tradições de familia, pela lhaneza do seu caracter e
crática, como pelas virtudes do coração. Casado com D. Anna Julia Borges Dias
empregado da da Camara Medeiros, filha dos Viscondes da Praia, ainda seus
Caixa geral dos filhos se distinguiram nobremente entre a fidalguia michaelense:
impostos, onde o já fallecido 3.° Barão, cujo perfil deixamos traçado, e o 2.0 Vis­
fez optimo lo- conde das Larangeiras, Manuel de Medeiros'Albuquerque.
gar; porém, com Quando se realizaram as primeiras eleições constituintes para
o ideal de mais a reforma da Camara dos Pares, o sr. Visconde das Larangeiras
largos comme- foi eleito deputado por Ponta Delgada, conseguindo então alguns
timentos, aba­ serviços para a sua terra, taes como os de isenção de direitos para
lou para as ter­ os materiaes necessários para canalisação de aguas da serra de
ras de Santa Agua de Pau para Ponta Delgada; para a construcção do Alber­
Cruz, onde mor­ gue Nocturno, e compra de terreno e construcção d’um muro de
reu quando a abrigo no porto da Caloura. O 2.0 Visconde das Larangeiras se­
fortuna princi­ guiu por algum tempo a carreira diplo­
piava a sorrir- mática, tendo sido addido á Legação
lhe. Não são ra­ Portugueza em Paris, onde serviu de
ros estes desfor- secretario interino.
tunados, cheios Ao abandonar a diplomacia, para
de talento, de regressar á administração da sua casa,
iniciativa, aman­ em S. Miguel, o Visconde das Laran­
tes do trabalho, O 2.° B Ã
ak o e i .° V
isconde das L , ,
arangeiras e seus filhos
geiras foi agraciado pelo governo fran-
a quem a sorte o 2.° V
isconde e , o 3.° B L
arão das arangeiras cez com o Habito da Legião d Honra;
se compraz em e por proposta do ministro dos Negó­
embargar-lhe toda a vida os ousados passos. O terceiro Barão das cios Estrangeiros, João d’Andrade Cor­
Larangeiras, artista e trabalhador, é um frisante exemplo d’esta vo, foi feito Commendador de Christo.
verdade. Porém, apesar de tudo, elle conseguiu impor-se de tal Illustrado e affavel, o sr. Visconde,
sorte, no seu meio, que ainda hoje a sua memória é querida de como os seus antepassados, realiza o ver­
todos. dadeiro typo dos fidalgos portuguezes. brazão existente na egrem

i3q

DRaC-CCA
FRANCISCO DE BETTENCOURT

E
um rapaz novo, cheio de talento, irrequieto e alegre, sympa-
thico e insinuante. As suas faculdades de escriptor, já por mais
d’uma vez foram provadas, na imprensa periódica de Ponta Del­
&isr©yíL
FOLHA DE NOTICIA E CRITICA
gada. Redigiu um jornal político, A Palavra, onde salientemente NUMERO 1 _ A_NNO I

h!
yi
>

s
MANVIX V. MEDSlROaa
PUBLICAÇÃO DO DOMINGO
demonstrou as suas aptidões como jornalista de combate, que
interesses de qualquer indivíduo, aus Pois náo será vergonhoso?!...
é, afinal, o genero litterario que melhor se coaduna com o seu caprichos de qualquer facção. Pense-se bem nisto e a serio!
Senhor 7’restdente e membros da Junta
Será curta a sua vida, estamos certos'
caracter são e o seu feitio motejador, que não póde vèr levan­ Não c este o caminho por onde en Geral:
veredam os que desejam fortuna... no àttençáo.
o assunto merece toda a vossa
Caso náo sejamos attendidos desta
tar pedestaes a postiças glorias nem queimar incenso a falsos meio cm que vivemos! feita—o que de resto não i de suppor!—
Também, não sam mui largas as nossas voltaremos de novo á estacada a occupar
aspirações: Quedaremos satisfeitos, se, 1 nos deste assunto de 'umantha impor­
deuses, sem lançar para cima de tudo isso mãos cheias de ridí­ no fim da jornada, a consciência dos tância para esta terra de S. Miguel.
nossos leitores achar que cumprimos
culo. dignamente o arduo dever que nos im- 1
puzemos. ECHOS
Juntamente com Raposo de Oliveira, seu amigo pelo coração Folha que hoje lançamos á publicidade: !
AHTWtaO DE CHJCNTA-
/■somta-nos que a brtosa Comminão de E»-
tudante» du Ljeeu Central, que pre­
Em ti pomos toda a nossa atTeíçáo!— •
e pelos mesmos ideaes de justiça, fundou em S. Miguei o semana- Que as auras da boa sorte te bafejem
tende açora ert|i« nesta cijadc lisj estatua a
este MblMM c tn-.mrwtal Poeta—u-na dasmuis.
Entrando agora. •Ha
* gloria
*. u-m do» mm jutet orgulhos Arva

rio A Nova, folha que pouco viveu, mas que era querida do pu­ .. - .1 Jornal de novos! ' .. .A Nora!— Jornal ae novos!
terra—roavidara para aMucnir * pecudcecra d

át Moita. togo qx o «o aetiMl r-reside^re. o


*
mc«ma. o Uletsto»» pirrsconsulto. «r dr Antridet

nosw d.um *
«~.m. colkga e am^ sor. dr.

blico, porque, além de n’ella se fazer arte, um sopro novo de ju­ *


VcCxs pugnadore»! Abri vossas fi- '
Um subsidio
Eucento Pachc.-o-sem iwbrr Cr fa-w—u-n
dos ma.» nt'efn»vt dc:en*o..» n» 1operosa
pertodKa desta urra Ja rclcodi oíva <1: con-
leiras ds c-penmcniados. que mais um
ventude a animava, na defensão dos mais caros interesses do povo lucu&r quer vir combater ao vosso la­
do.
Náo queremos vir hc-je aqui fazer rc
**
»
-•« *® . e.te no
*M Couserrwxo—
parta para a glande repuKaca noru-^mcrKana.
- Ovala «Jue a «coícnçio ha pouco et>i aberta
clamações nem tampouco formular cen­ qx noto •«r^onha parece paralvM-la

e da terra de S. Miguel. Não tem elle a vossa expericncia, nem,


porventura, as aptidões que vos sobejam.
suras aos actos da nossa primeira cor­
poração administrativa—seja-nos grato
--para salda- »|ta 4ni4» «Je homenagem, «jue
*
no todos dalma c corario devemos a ciemcia
do immcxt>l aUCloe do» MAelaa. I<qu» etitagir.
Err.tamo, vem cheio de ardar e mo dcdaral o peremptoriamente.
Francisco de Bettencourt Medeiros e Gamara prepara ainda o cidxd:, trazendo na fronte a auréola dos '
Queremos simplcz e ligciramcnie re­
ferir-nos—c assim julgamos estar dentro
tom a niasima brevidad., a *cmma nccnona
para a immcdUta rcst.MÇlo de ilo sympathteo
commettimento.
que ainda creem, dos que desejam de- I do programava da nossa modesta folhe-- Ninguém, «kcetto. dtra que a Gtmmusão <Jo

cerebro fresco, pelo estudo, para voos mais largos, a que o seu fender essas grandes virtudes que se
chamam Justiça e Bem!
á crcação dum hotel, assunto que tem
sido e provavelmente continuará a ser—
monumento pultltco a Anihcro it Qucutal lucre
cont a subsiit. tfío, mar e ir.-«n,erta«el que o
dr. Eugenia Pacheto ríio ^oma ser nulitor
oxalá nos enganemos.'—para a nossa im­
talento e a sua edade lhe dão jús. Entendemos que, para pugnar por
causas tam santas—menoscabadas u cada
prensa periódica um verdadeiro caralio
de baiaiha:
substituído.
E assim estamos certos Que c ar. 4r. AntliJes
da Moita- -caso acceite um hca<tu pretideotu.
passo c a coda passo combatidas!—mais I Sc c, p*>is. publico e notorio que para como c de suppor—snbceâ envidar Uk.-io.oa seus
Contando apenas vinte e quatro annos de edade, parece, no um que surja náo quer dizer que seja , esse fim e preciso um subsidio, porque
razão não o votou nas suas ultimas
esforços pa»a completar a patriótica obra do
mu antecessor.
um de mais...
emtanto, fadado para um risonho futuro na ilha de S. Miguel, A Nora náo pode apresentar um pro-
grarnma definido: Elle será tam vasto I
sesróes a nossa Junta Geral, aliás sem
pre pronta a attender □ todas as justas
OAAÇdCá DO A-JO9

reclamações de verdadeiro interesse pu­


onde não ha ninguém que o não estime e aprecie altamente. como o Bem. tam grande como a Justiça.
E é adentro destas duas concepções
' blico ?
Pois, na terJade, as circumstancias c
çue iremos, consoante as nossas forcas as occasiócs não terão demonstrado de •
Com bellos predicados de intellecto, e com um feitio todo seu rie novos o permitiam, expondo os nossas •
sobejo a urgência de tal empreza?!
aer-nos bem parecer que sim!
idéas, cfícrecendo os nossos applausos, S subsidio para a crejção, resta im­
em conquistar sympathias; reunindo a tudo isto um coração bom, ou lavrando as nossas queixas e pro
lestos.
portante cidade, dum hotel, é uma necessi­
dade de mawr urgência e cujas vantagens
para esta terra sáo manifestas. E*. pois,
não é para estranhar que tal succeda. A nossa folha, pois, procurará, quanto
lhe seja possivel. honrar o bom nome
para este tam importante melhoramento
ie vimos solicitar a attenção da re-
SeOBT ev a oyuuoA
Com esse arreigado amor patriótico, que todo o açoriano tem desta terra de S. Miguel; e deligencurá
sempre merecer a mais leal camaradagem
Í rida corpcração.
Pois náo será vergonhoso que numa O
s membro» deste tlul, reatisaram rio dia
d abr.) p. p. nu VcloJioru. do Ja-J.-n
Zootocno. uma corrida de bvcúletes. dedicada
dos seus collcgas—a cujo lado se vem cidade que se arroga feros Je civilisada a S M a Bamba a Sn- • 1) Mrn. P.a.
c quer passsr pela terceira do Reino, náo
ao seu torrão, a penna de Francisco de Bettencourt, sempre hoje collocar.
Não tem côr política alguma, náo
haja um único hotel confortável e de­
cente para receber o hospede menos
A «ua’da de honra « Rainha e a S. A. Real
o Sor. hsfaote I' AIloruo loi iciu peio» alumnos
das offl.-iríai Je S Jo»C. com ■ respoctín banda.
Asretencia »H«to e numerosa, sjndo úi>-

prompta para o nobre combate em pró dos benefícios da terra ftard, por consequência, sugeita ao» exigente ?1 fibuítioa aoa .vp^aJursi v.L.nos prc.-n.oa.

natal, tem muito que nobilitar-se em S. Miguel.

140
DR. CARLOS MACHADO
ccupa de direito um logar proeminente na historia michae- vez que o faro investigador do dr. Carlos Machado só se poderia
O lense. A sua individualidade ergue-se fulgurantemente sobre satisfazer com o descobrimento d um novo mundo!
o pedestal desse imperecível monumento da nossa civilisação—O O dr. Carlos Maria Gomes Machado, formado em medicina
Museu municipal, por eile construído com um assombroso dispên­ pela universidade de Coimbra, onde casou com uma senhora de
dio de trabalho e de dedicações continuadas, a cuja exemplares virtudes, foi ainda uma figura saliente
creaçao se associou principalmente o benemerito na política regeneradora michaelense.
Conde de Fonte Bella. Por vezes ascendeu ás mais elevadas funcções
Comtudo, sem um artista da envergadura de publicas do districto, sendo assim: Governador
Manuel de Vasconcellos, o dinheiro d'este ultimo Civil, Heitor do Lyceu, Procurador á Junta Geral
e o tacto scientifico do primeiro não teriam con­ etc, etc.
seguido o complemento d’aquelle importante es­ O seu nome acha-se vinculado a diversas ini­
tabelecimento - hoje um bello titulo de gloria para ciativas de progresso da terra michaelense tão-
Ponta Delgada. assignaladas, que denunciam uma epoca da nossa
E tão grande é a somma de trabalho e scien- historia.
cia contida n essa grandiosa obra, que tem che­ A memória do conspícuo naturalista, do ho­
gado a parecer inacreditável a muitos naturalistas mem superior, levanta-se, pois, como um rarís­
illustres nossos visitantes, que um só homem de simo exemplo de tenacidade de trabalho, alliada a
per si, então quasi sem livros, lograsse executar um amor desinteressado pelo engrandecimento da
uma tarefa que em outra parte qualquer teria exi­ terra, de que foi glorioso filho.
gido a cooperação de muitos especialistas experi­ O seu bello caracter foi inteiramente depurado
mentados e de muitos expositores de consulta ! E‘ sem duvida ex­ dos fátuos brilhos da vaidade, e o trabalho a que se entregou,
traordinário similhante esforço, e, em face do que elle representa com febricitante ardor, não o deixaram preoccupar com o pensa­
em aptidões variadas e em face de investigações, pode bem di­ mento consciencioso do quanto valia.
zer se, sem risco de exaggero, que a ter nascido fóra de Portugal, Hoje portanto que o Museu Municipal é uma honrosa gloria
o dr. Carlos Machado haveria chegado a conquistar um nome uni­ michaelense — importa mais do que nunca fixar o nome beneme­
versal entre os maiores naturalistas do seu tempo ! rito do homem a quem a sciencia e a patria deveram essa gran­
Arruda Furtado, outro notável filho de S. Miguel, dizia muita diosa obra.

DRaC-CCA
O PRIMEIRO JORNALISTA EM S. MIGUEL
em primeiro em S. Miguel exerceu a mis­ tude da primeira reforma administrativa, decretada pela Regencia
são de jornalista foi Manoel Antonio de na Terceira.
Vasconcellos. Uma nota do seu caracter e temperamento:
Iniciou-a em 18 de abril de 1835 Era camarista, em i83z, quando a côrte constitucional se mu­
com a publicação do primeiro numero dou da Terceira para esta ilha, com D. Pedro IV á frente, a orga-
do Açoriano Oriental. nisar as legiões que formaram o exercito libertador.
A segurança d’esta affirmativa está Por noticias de aboletamentos de tropa, trocaram-se officios em
no numero 42 de 6 de fevereiro de
1836 d'aquelle jornal, em que Manoel
Antonio se assignou como seu reda-
ctor em artigo, na quarta pagina, dirigido ao Patriota, folha coe­
va, de contraria política á do Açoriano.
Andando desde a emigração dividido já o partido constitucio­
nal, em avançado e conservador, seguia o Açoriano os princípios
d’aquella escola, e os d’esta o Patriota.
Manoel Antonio, pouco edoso ainda, pois nascera em 1796,
andava em evidencia como um dos primeiros talentos e uma das
mais cultas intelligencias d'esta terra. Com Manoel de Medeiros
(i.° barão das Larangeiras) Duarte Borges (i.° visconde da Praia)
Jacintho Ignacio (i.° barão da Fonte Bella) morgados José Cae­
tano Dias do Canto e Medeiros, Francisco Affonso da Costa Cha­
ves e Mello, Nicolao Antonio Borges de Bettencourt, e outros,
d'uma geração de homens superiores, que para o século findo nos
passaram do antecedente, exerceu os mais elevados cargos públi­
cos na infancia do novo regimen politico.
Com algumas d'aquellas individualidades distinctas, pertenceu
á primeira camara constitucional de Ponta Delgada, eleita em vir­ Jardim do Botelho

142

DRaC-CCA
tom azedo, entre o commandante militar da terra e o Senado po­
pular. Em sessão d'este se apresentou um official militar, portador
dum dos taes officios, acrescentando ousadias impróprias no acto
da entrega.
Manoel Antonio pediu licença para se levantar, e attraindo para
junto d’uma janella o militar menos respeitoso, disse-lhe em tom
severo e decidido gesto:
«Que se uma só das petulâncias que á camara dirigira lhe fosse
dita como homem, pela janella saltaria o insolente»; rematando com
estas palavras que se não perderam : «Se ha quem possa com uma
mochila, ha também quem possa com seis e as esmague num
prompto».
E abateram se as arrogancias da caserna; e a camara não tor­
nou a ser desconsiderada.

A ilha de S. Miguel estava em pleno regimen constitucional


desde i83i. O espirito liberal ampliado e fortalecido impunha a
creação do jornal, a melhor de suas manifestações e o mais pode­
roso sustentáculo do proprio regimen.
Para que o Açoriano pudesse apparecer, improvisaram-se im­
prensa e typographos. Manoel Antonio, com as suas excepcionaes
aptidões artísticas, ainda continuadas em quasi todas as pessoas
que representam a sua familia, montou a officina e adestrou com­
positores.
Da pleiade de rapazes da boa roda que aqui constituíram o Uma rua de Ponta Delgada

primeiro quadro typographico d’aquella officina, fazia também


parte, Francisco Peixoto de Lacerda Costa Rebello, escriptor «A livre circulação dos pensamentos, moldada nas regras inva­
fayalense ha pouco fallecido. riáveis da justiça universal, nas positivas convenções liberaes de
A primeira fulguração do radioso cerebro de mestre, a que os um povo, e na decencia que suaves e polidos costumes têm tor­
typos deram forma, foi: neado, é sem duvida o methodo mais profícuo porque se podem

DRaC-CCA
ensinar verdades uteis, desterrar abusos contrarios ao bem dos lhoramentos futuros do seu paiz, sobre o adiantamento das artes
povos, fixar no publico uma opinião discreta e solida, e apertar os e sciencias que mais podem contribuir á felicidade publica.»
laços da fraternidade social.
A imprensa dirigida pelas honestas mãos da imparcialidade e (Do primeiro artigo, do i.° numero do «Açoriano Oriental»).
da decencia publica, respeita no homem as fraquezas do mesmo
homem, transpõe e deixa como adrede os erros da vida privada, Ainda se não definiu melhor a alta missão de formalisar e a
e sómente dirige as flechas da censura e as descriminaçÕes da cri­ forma porque ella deva ser exercida.
tica sobre as acçÕes que não abonam ás normas da justiça, solici­
tada aptidão ou fidelidade publica. Por um impulso da humanidade
verdadeiramente patriótico, se cota o improbo e afanoso trabalho
de defender verdades proveitosas sobre o estado presente, e me-
Manoel Antonio de Vasconcellos foi eleito deputado por este
districto em ii de agosto de i836, conjunctamente com o me­
dico Antonio Ferreira Borralho, e o desembargador Antonio
Bernardo da Costa Cabral (depois conde e marquez de Tho-
mar), vencendo violenta campanha eleitoral contra o governa­
dor civil J. J. Lopes de Lima.
Quando no collegio eleitoral, no meio de estrondosa ovação
popular, foram entregues os diplomas aos eleitos, Manoel Anto­
nio, em serie de emphaticos e apaixonados discursos, como alli
se proferiram, disse singelamente:
«Este diploma foi-me entregue por meus concidadãos: elle
é a garantia da minha conducta, e elle me servirá de corpo de
delicto caso eu prevarique.»
Eloquência de Spartanc.
No dia seguinte embarcaram para Lisboa os tres deputados
n'um hiate denominado D. Pedro.
E terminára o seu tirocínio de redactor do Açoriano.
Na capital foi jornalista e advogado. Como político conspi­
rou nos clubs avançados; e na camara dos deputados, onde a sua
terra e a própria corte lhe deram cadeira, com José Estevam,
Redil na ExrosiçÁo de Ponta Delgada em 1901 com os Passos c Sá da Bandeira, barão da Ribeira Sabrosa,

>44
k.°
18

álbum Açoriano

DRaC-CCA
LOMBADAS
GRAHD PRJX
Exposição internacional dc S. Luiz em A901
MEDALHA DE OURO
Exposição do Pai.icio de Ciyslal de Londres cm 1914

i Kainha das aguas de meza


Leve, estomacal e digestiva, pura, limpida
0 acido carbonlco não é introduzido artiflcialinente

Recommendada por todos os médicos

DEPOSITO GERAL
106, AVENIDA DA LIBERDADE, 110
X.1SBOA
C. MAHONY & AMARAL
70, Bua Augusta, 2.”— LjISBOA
TELEPHONE 586
iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiitiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiimjimiiiiU|l^
METAES EM BRUTO: Aço, cobre, latào, estanho, chumbo em chapa, bar­
ras lingots.
CAMPEAO & C.A FERRO: Em barras quadradas, redondas e vergalhão. Vigamento de ferro
('in TI U; cantoneiras e todos os mais aprestos para construcções. Ferro em
Casa de Cambio e Loterias lingots para fundição. Chapas galvanisadas lisas e onduladas. Chapas de aço
para caldeiras. Tuoos de ferro, cobre e latão. Arame de ferro, cobre e latão.
i* Folha de Flandres. Material fixo e circulante para caminhos de ferro. Rails dc
Esta casa possue para as loterias, quer ordinanas, quer extraordinárias aço e diversos perfis e pesos, vias portáteis. Machinas de vapor, gaz e petró­
um variado sortimento de numeros em bilhetes décimos e cautellas
Compram e vendem pelos melhores preços, libras,ouro portuguez e todas leo. Caldeiras. Botnbas. Machinas para industrias e agricultura. Machinas. Fer­
as moedas nacionaes e estrangeiras, notas dos bancos do Hespanha, França, ramentas. Vidros polidos, foscos e de phantasia. Vidraça, lages de vidro (dalles).
Inglaterra, Italia, etc. Assucar, arroz, especiarias, drogas, productos ehimicos. Ascensores hydraulicos,
Descontam vales do correio, vendem letras, sellos e papel seliado.
Edoux & C.‘
118, boa do ajctabo* Cl M B H T O
Únicos importadores em Portugal e eolonias do CIMENTO da Compagnie
NJMERO TELEPHONICO 53 ENDEREÇO TEL-GRAPHICO: C4MPLÃ0 — LISBOA des Ciinents Parisiens, fabricado pelo notável engenheiro E. CANDLOT.
Fabrica de sabão — Telbal (Foço do Bispo)
iiiiiiiiiiiiiiiiliiiiiiimiilliiiliiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiilliiillilliiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiinc
Fabrica de licores, aguardente, genebra e cognacs — TELHAI (POÇO DO BISPO)
ivp. a‘»A E< • — Lisboa

DRaC-CCA
João Machado da Conceição MAGAZINE
Antigo alumno da academia de fíellas Artes
Commissões
e consignações
BERTRAND
DO
A LEITURA ILLUSTRADA
Promove vendas de cereaes, man­
ATELIER DE PINTURA ESCULPTURA E DOURAMENTOS teigas, queijo etc., etc. Publicação quinzenal — 96 pag., 100 gr.
Fornece todos os generos d’esta
Encarrega-se de paysagens, figuras, ornatos, decorações, pintura
histórica, restauração de quadros antigos, letras, imitação de mármore capital, consumidos nos Açores,
e madeira, scenograpliia, frescos, aguarellas, pintura e douramento em
egrejas, carnações em imagens, esculptura de imagens e retábulos,
nas melhores condições, levando 200 RÉIS
trabalhos de architectura, desenhos e plantas para construcções diver­ aos seus freguezes os minimos pre­
sas e todos os trabalhos pertencentes á arte, mesmo fóra da ilha. ços do mercado.
de porte
Grande variedade de clichés photographicos dos Açores.
PREÇOS CONVENCIONAES X
SAHIU O N.° 5

Z Ilha do Faval —AÇORES Rua dos Correeiros 6 — LISBOA


Adresse
HACHE-LISBOA
telegraptilco
Antiga Casa Bertrand - Lisboa

LMÃNACH BERTRAND
V111111 iiiiiiiiiiii 111111 iiiiiiiiiiii iiiiii iiiiiiiiiiiiiiiiii iiiiii iiiiiiiiiiii iiiiii iiiiiiiiiiii iiiihv

A
9 9
9 9

COORDENADO POR
9 9
9 9 9 9 PARA 1905

FENANDES COSTA
9 SEXTO ANNO DE PUBLICAÇÃO 9
9 9

472 paginas, 600 gravuras, frontispício a 8 cores, e capa a 8 cores e ouro


9

9
9

9 9
9 9

9
ATELIER PHOTOGRAPHICO

JOSÉ G. CARDOSO
3, RUA EE S. I
HORTA
N’esle estabelecimento liram-se retratos em grande variedade de processos e
3

tamanhos por preços baratíssimos.


9 9 9 BROCHADO, 500 RÉIS; CARTONADO. 600 RÉIS; PELO CORREIO MAIS 60 RÉIS 999 Magníficos retratos a crayon, de diflerentes tamanhos, pelo
original com a maxima perfeição, ou por pholographia antiga não
deixando nada a desejar.

Antiga Casa Bertrand Fazem-se bellos passeparlouts de cartão especial


e quadros que se entregam promptos a col-
locar nas salas.
& JOSÉ BASTOS-Mercador de livros-Editor &
— 73, RUA GARRETT, 75 — LISBOA-------- | IIIIIIIIIIII iiiiii iiiiiiiiiiiiiiiiii iiiiiiiiiiiiiiiiii iiiiii iiiiiiiiiiii

DRaC-CCA
mos, viemos bem aqui. Para tratar dos interesses do povo não é este
o logar proprio. Temos a sala do parlamento, que é a nossa casa.»
Linguagem de nobre e antiga isenção portugueza.
A estatura parlamentar de Manuel Antonio foi tal que o cele­
bre estadista Rodrigo da Fonseca, seu adversário, medindo-se com
elle numa alta questão, referiu-se-lhe n’estes termos:
«Não póde duvidar-se que o sr. deputado que me precedeu é
talvez a cabeça mais bem organisada, d’esta camara.»
Eis a largos traços quem foi e o que foi o fundador, n’esta
ilha, da dymnastia jornalística.
Francisco M. Supico.

Exposição de Ponta Delgada. —Feira Franca

Joaquim Antonio d'Aguiar, Juho Gomes, e outros d’uma altiva


raça que se perdeu, constituiu-se o grupo dos temíveis luctadores
que fizeram a revolução de Setembro.
A libérrima constituição de i83S que ella produziu, foi der­
ribada pela reacção urdida no Paço e explodiu no Porto, em 1842,
tendo á frente Costa Cabral.
Outra nota do leal e inquebrantável caracter de Manuel An­
tonio, referida por José Estevam, seu intimo e inseparável amigo.
Convidado para uma reunião no Paço em que se trataria de
interesses da corôa e ao povo, lá foi. Resolvidos os primeiros, pe­
diu licença para se retirar, proferindo estas memoráveis pala­
vras : Grupo de Jornalistas Michaelenses

Manoel da Camara. Manoel A. dAmaral, João Machado F. e Maya. Victor Cabral


«Para os interesses da corôa, que todos amamos e respeita­ Armando da Silva. Rodrigo Rodrigues, Pereira de Lacerda, Ferreira Cordeiro.

N.° 19 i45

DRaC-CCA
Saudadesxque me affligém cada dia s a minha oraram
jpe/ram tréguas n’est’hora aó pensamento tão alto peloT^fr^d^Tp
fe foram nZnm momenjof as d’e$cuta-los' ja cançados,
M eu ffrer me/7ião fugia, >■<$>■, amores pelos I içaram

al desfalma a saudãde se partia steg. aerraiTi


ago me dava amor novo tormento, uvinao se dos âc
pis que, se de saudades fui izentó. s ampres em tri
um novo m. se mejínchia. “nunca mais vrrsi

Çallei-me çrítao
b’ e stazalm à^se- ■anis algum 'gd
longe não pas

estado: Lá vivi com^n^úrpa sepultura:


narnorado Os amores ílpjx^rai^meu sentido
E qs echos riunc^ nrais^ de mim fallara

José Bruno RUNO

DRaC-CCA
DR. BRUNO CARREIRO tou, optimo subsidio á historia dos Açores, n’um ramo em que
até então nada se tinha feito !
Entre vários relatórios pelo illustre clinico publicados em diver­
um dos mais il- sas revistas medicas do paiz, destacaremos os tres mais notáveis
Elustres clínicos e pela sua valia scientifica e litteraria:
homens de sciencia fi­ Sobre a febre typhoide em S. Miguel; sobre a tuberculose, e
lhos de S. Miguel, e ainda sobre casos de clinica cirúrgica observados no hospital de
um dos que, com mais Ponta Delgada, de que é abalisado facultativo.
respeito e admiração, A sua clinica civil e hospitalar, vasta e já longa, os seus pro-
tem conseguido impôr fiados estudos no acompanhamento dos progressos da sciencia e
a sua brilhante indivi­ sobre a flora michaelense tem tornado, com justiça, o dr. Bruno
dualidade lá fóra.' Carreiro, um homem de conselho auctorisado na medicina, um
Operador distin- naturalista de grande valor na botanica.
ctissimo, estudioso
emento, trabalhador
indefeso, Bruno Ta­ ilho do dr. Bruno Carreiro, José Bruno,
vares Carreiro tem a F recentemente formado em direito, per­
sua fama profissional tence á geração nova de intellectuaes mi-
de ha muito consa­ chaelenses, que começam de affirmar os seus
grada entre os da sua classe, pela comprehensão nitida do que deve talentos. Ainda estudante, já elle poetava por
ser, na sociedade, um medico. Coimbra, moldando os seus versos na forma
Porém não só na cirurgia o seu nome é justamente conside­ classica dos poetas quinhentistas. O dr. José
rado, mas ainda na botanica, de que tem sido um diligente colle- Bruno foi auctor da peça para a récita dos
ctor. Assim, o seu valioso herbario tem servido de estudo a vários quintanistas do seu curso, em 1904, peça que
sábios extrangeiros, por vezes nossos hospedes, entre os quaes pelos estudantes foi representada no theatro
se destaca sobremaneira o naturalista norte-americano Trebade, de S. Carlos de Lisboa. Uma vespera de feriado, se intitula; e,
auctor do Botanical Observations in lhe Açores, o mais completo passada acção entre irrequietos e estouvados rapazes de Coimbra,
catalogo até hoje publicado sobre a flora das terras açorianas. o auctor soube revestir de scintillante espirito os seus versos. O
O dr. Bruno Carreiro foi também um dos directores do Ar- dr. José Bruno não publicou mais nada, nem reuniu ainda os seus
chivo Medico dos Açores, interessante publicação scientifica que, a versos em volume. Mas, muito novo, talentoso, e dotado dum
não ter morrido logo na corrente de indifferença e egoismo que excellente temperamento artístico, não tardará em mostrar mais
nos avassala soberbamente, teria certamente prestado, como pres­ amplamente os seus méritos de poeta e de escriptor.

*47

DRaC-CCA
VILLA DA POVOACAO
ssenta na costa sul da Ilha de S. Miguel a Villa da Povoação, A ribeira enche extraordinariamente, despeja as suas aguas na
A chamada assim por ser a primeira terra a ser povoada na
ilha, por alguns moiros que,
villa, alastrando-se pelas ruas, invadindo as casas.
A ultima e maior catas-
após a descoberta, o Infante trophe d’este genero, occor-
D. Henrique para lá enviára, reu em 1901, e foi terrivel­
a experimentar o seu clima. mente prejudicial.
Na Povoação existe a mais Grande numero de casas
antiga igreja da ilha, a er­ ficaram por terra; e algumas
mida de Santa Barbara, na vidas e muitos haveres fo­
qual se disse a primeira ram arrastados para o mar
missa em S. Miguel. pela pavorosa cheia. Muitas
Os seus terrenos são fer­ famílias ficaram sem pão e
tilíssimos, principalmente em sem lar. Mas a caridade mi-
milho, que se exporta para o chaelense, coadjuvada pela
resto da ilha, para os Aço­ de todos os Açores, fez le­
res, e mesmo para o conti­ vantar um bairro novo cha­
nente do reino. mado da Caridade, para dar
Perto da Povoação, mais morada aos que a tinham
para o centro da ilha, em perdido.
plano mais elevado, agru­ As transacções commer-
pam-se sete freguezias, as ciaes entre a Povoação, a ca­
lombas, que, vistas do alto, pital da ilha e as outras vil-
entre a verdura dos campos las, exceptuando a Ribeira
ferteis, são d’um pittoresco Grande, que não tem porto
delicioso. Pela sua baixa posição relativamente aos terrenos visinhos, que offereca abrigo, fazem-se hoje principalmente por mar, em
dos quaes desce uma enorme ribeira que atravessa a villa, a Po­ pequenos vapores, ou em barcos velleiros construídos na ilha.
voação tem sido já por vezes damnificada pelas aguas das chuvas. Os campos d’esta villa são os mais productivos de S. Miguel.

148

DRaC-CCA
AUGUSTO LOUREIRO VICTORIANO SEQUEIRA

imprensa de S. Miguel conta-o no nu­ ictoriano Sequeira é do numero pequeno


A mero dos seus mais antigos e illustres V d’aquelles que, por um trabalho hones­
representantes. to, um caracter recto e proceder irreprehen­
Augusto Loureiro é, na verdade, um jor­ sivel, sabem impôr-se á consideração geral
nalista completo, com raras aptidões de tra­ do meio em que vivem.
balho e technica profissional. Os cargos que exerce, as mercês, que lhe
Lidou, por muito tempo, quando resi­ têm sido conferidas, affirmam-no sobejamente.
dente em Lisboa, na imprensa da capital, Eis um facto honrosissimo da sua vida,
onde o seu nome, os seus talentos, e a sua que anda ainda na memória de todos, em
lealdade de caracter, deixaram entre os seus S. Miguel: Em abril de 1889, chegou ao porto
collegas de então bellas recordações. Já de ha muito que é um de Ponta Delgada o vapor inglez Missory, trazendo a seu bordo
distincto empregado superior das alfandegas. Mesmo quando ra­ 745 naufragos dinamarquezes, que recolhera do vapor Dan-
paz, começou a brilhar entre os do seu tempo. Collaborou em mark.
quasi todos os jornaes dos Açores. Escreveu também para o thea- Victoriano Sequeira, então e ainda hoje vice-consul da Dina­
tro. Em S. Miguel representaram-se peças suas, com ruidoso marca, com um zelo e promptidão inexcediveis, obteve immedia-
exito. Publicou também alguns livros, entre os quaes ultimamente mente o alojamento necessário aos 745 naufragos; e tal foi o aco­
um romance de costumes michaelenses, intitulado A Bruxa. lhimento por elles recebido, que o governo dinamarquez houve
Os últimos jornaes em que escreveu em S. Miguel, mais assi­ por bem agraciar Victoriano Sequeira com a commenda da or­
duamente, dirigindo-os, foram O Heraldo e Os Açores. Ambos elles. dem de Danlsog, mandando para esse effeito a S. Miguel, em
duma conducta irreprehensivel, versaram ferverosamente os mais missão especial, a corveta Dagmar.
complicados negocios da nossa administração; ambos elles tiveram Victoriano Sequeira é também vice-consul da Hollanda, e
por divisa a defeza do povo. Pelo amor, pois, desinteressado que agraciado com a ordem hollandeza de Orange Nassan.
lhe tem despertado sempre os interesses da bôa terra michaelense, Em Ponta Delgada exerce, hoje em dia, os cargos de thesou-
é hoje um jornalista querido, um escriptor apreciado. E que Au­ reiro da Junta Geral, director da Companhia de Seguros Açà-
gusto Loureiro põe sempre acima do interesse individual, o inte­ riana, presidente reeleito da Associação Commercial.
resse do povo, de que foi e tem sido estrenuo defensor. Com um passado tão distincto e honroso, com um presente
Agora, já cançado, raro se entretem a escrever para publico; tão illustre e prestimoso, não é estranho caso, portanto, que o nome
no emtanto quando se faz mister, ainda a sua penna tem bellas de Victoriano Sequeira inspire respeito e consideração a todo o
scintillações de mocidade e de arte. michaelense.

149

DRaC-CCA
VILLA DO NORDESTE Iiepdas da nQipba terra
villa do Nordeste ergue-se num morro tão alto, que os nave­ UM MILíAUÇE
A gantes já de trinta léguas de distancia a avistam do mar. E
é por isso que, lavada pelo vento, é um dos logares mais saudá­
veis de S. Miguel. ecordo-me com saudade !
Os seus habitantes, são sobrios e laboriosos, geralmente intel- Foi ali mesmo, sobre a nossa linda
ligentes. E’ o Nordeste a terra em que melhor se falia na ilha, ponte de sete arcos, n’uma noite fria de
numa clara e agradavel pronuncia. março, que a Maria da Graça, os bellos
E’ a villa menos importante em commercio e em industria, olhos banhados de luar, me contou sim­
talvez pelas suas poucas relações com Ponta Delgada, da qual de­ plesmente, mas encantadoramente, essa
mora treze léguas por terra, por caminhos ainda em parte pouco deliciosa lenda que tinha um século, e que
praticáveis, e também porque o mar quasi sempre agitado das suas ella ouvira narrar á sua avósinha — Deus
costas, que lhe não deixa ter um porto seguro nem para pequenos lhe fale na alma'.
barcos, impede que essas relações se estabeleçam mais frequente­ A noite estava clara, a lua illuminava
mente. esplendidamente o arvoredo do valle e
Ao centro da villa levanta-se uma grande ponte, a maior e branqueava o fio corrente e minguado
mais alta da ilha. Os paços do concelho são numa casa de bom da agua da pequena ribeira; e n um grupo
aspecto, que é o melhor edifício da villa. Tem magníficos pontos enorme tínhamos ido para sobre a ponte,
de vista, como a Nazareth e a Ribeira do Guilherme. A meio da escutar a musica dolente e religiosa dos
rocha altíssima, surge magestosamente o bello pharol, n’aquella aldeãos, que todas as noites, ali para as
ponta extrema da ilha, como uma sentinella vigilante. bandas do norte, sobem ao mais alto outeiro de cada povoado,
A formosa Villa do Nordeste gosa d’este privilegio, desde 18 pedindo n’esse tempo santo de quaresma, orações para todos os
de julho de i514, concedido por motu proprio d’el-rei D. Manoel, que de allivio necessitam.
em virtude de terem os seus moradores, que então eram ricos, E foi por isso que a Maria da Graça, a mais graciosa de to­
fornecido todo o necessário a umas naus portuguezas que da índia das as raparigas da minha terra, se lembrara da velha historia
se dirigiam ao reino, sem que quizessem receber seu importe. que, menina e moça, lhe tinha a avósinha contado.
Se não fôra o seu tamanho, e dois ou tres edifícios de maior Ei-la ahi vae, essa lenda suave e mistica, descripta, infelizmen­
vulto, o Nordeste podia bem passar por uma d’estas aldeias, que te, sem a doce ingenuidade com que tão lindamente a soube ves­
só devem á natureza a sua formosura. tir a bocca linda de Maria da Graça. Ella que me perdoe !

i5o

DRaC-CCA
Noite negra. Gemia o vento como um cordeiro a quem rou­
bassem a mãe; as nuvens deixavam cair por sobre a terra torren­
tes de lagrimas...
Noite de quaresma. E, no emtanto, o outeiro estava deserto.
Ninguém ia, como de costume, por similhante noite, pedir ora­
ções para os mortos, para os que soffrem e choram, para os que
não têm lar nem pão.
A canção que sempre n’este tempo os aldeãos costumavam
cantar de sobre o outeiro, pedindo orações para os tristes, canta-
va-a n'aquella noite o vento, gemendo como um cordeiro a quem
roubassem a mãe...

11
Nordeste. —Um aspecto da Villa

O moleiro estava
aindafcde pé. Uma ve­ E despiu-se, e deitou-se.
lha candeia alumiava ti. Porém, passado um momento, mão invisível atirava para o
biamente o seu pobre chão a roupa com que se cobrira...
quarto. Elle, que fôra O moleiro benzeu-se, apavorado; depois ergueu-se para a
sempre um dos mais tomar, e, tornando a deitar-se, cobriu-se bem com ella, segurou-a
devotados cumpridores bem.
d’aquelle missão piedo­ Mas a roupa tornou a escapar-se-lhe das mãos, caindo no
sa, arreceiava-se tam­ chão.
bém do tempo, não Castigo de Deus! Castigo de Deus!
queria ir. A’quella hora ainda deviam estar acordados, á espera da can­
Noite negra, gemia ção os velhinhos e as creanças que, ao ouvil-a, costumavam rezar
o vento, choravam as pelos mortos, pelos tristes que não têm lar nem pão!
nuvens. Então o moleiro, vestindo-se, poz pelos hombros a mais
Ir-se-hia deitar: pesada manta do seu leito, sahiu para a rua apressadamen­
Deus lhe perdoaria. te...

DRaC-CCA
111 IV

Chovia tanto que parecia um diluvio. Chovia muito, gemia o vento.


A voz do trovão punha uivos sinistros pelas quebradas e pe­ Açoitado pela chuva e pelo vendaval, o moleiro entrou em
los valles. corno se por lá andassem milhares de feras, rugindo casa desfigurado.
esfomeadas! Foi a tirar a manta de sobre os hombros; e alvoroçado mara­
Subitamente, dominando a voz da tempestade, ouviu-se em vilhado, ao tocar-lhe com as mãos, achou-a completamente seca!
todas as poisadas a voz grandiosa e triste de alguém que pedia Grande milagre! Milagre de Deus !
orações para os mortos e para os tristes que não têm lar nem E o moleiro cahiu de joelhos ao chão, rezando contrictamen-
pão... mente, emquanto o vento gemia como um cordeiro a quem rou­
A canção soltava-a o moleiro; e á sua voz similhando um cân­ bassem a mãe, e a voz do trovão punha uivos sinistros pelas que­
tico de alma penada, partia do coração de todos os simples um bradas e pelos valles, como se por lá andassem milhares de feras,
murmurinho de orações, que subia direito para o ceu, até ao rugindo esfomeadas...
throno de Deus!
Raposo de Oliveira.

Nordeste. —O pharoi.

DRaC-CCA
l ASCICI l.O T*í.” J.9

DRaC-CCA
LOMBADAS
GRAND FBJX
Exposição internacional do S. Luiz em 1901 ☆
MEDALHA DE OURO
Exposição do PaL.cio de Ciyslal de Londres cm 49G4
MARÍTIMOS
____ _______ ___
Hg7 ILHAdeS.MM
^$1^
ft |ainha das aguas de meza
_____ ^"^iSoctedade anonyma de responsabilidade limitada
Leve, estomacal e digestiva, pura, limpida S CAPITAL Reis Insulanos-1000 000$000<
Agentes em Lisboa
0 acido carbonico não é introduzido artiflcialmente

Recommendada por todus os médicos


Rua de S.Juliao
DEPOSITO GERAL
106, AVENIDA DA LIBERDADE, 110
I.ISBOA
C. MAHONY & AMARAL
70, Rua Augusta, â."— LISBOA
TELEPHONE 586
uiniiiii............ iiiiim.... ui...... ................ . 5 . METAES EM BRUTO: Aço, cobre, latào, estauho, chumbo em chapa, bar­
I ras lingots.
CAMPEAO & C.A I
FERRO: Em barras quadradas, redondas e vergalhào. Vigamento de ferro
em TI Ui cantoneiras e todos os mais aprestos para construcções. Ferro em
Casa de Cambio e Loterias S lingots para fundição. Chapas galvanisadas lisas e onduladas. Chapas de aço
para caldeiras. Tubos de ferro, cobre e latão. Arame de ferro, cobre e latão.
$ Folha de Flandres. Material fixo e circulante para caminhos de ferro. Rails dc
-as-

Esta casa possue para as loterias, quer ordinárias, quer extraordinárias aço e diversos perfis e pesos, vias portáteis. Machinas de vapor, gaz e petró­
um variado sortimento de numeros em bilhetes décimos e cautellas
Compram e vendem pelos melhores preços, libras,ouro portuguez e todas leo. Caldeiras. Bombas. Machinas para industrias e agricultura. Machinas. Fer­
as moedas nacionaes e estrangeiras, notas dos bancos de Hespanha, E rança, I ramentas. Vidros polidos, foscos e de phantasia. Vidraça, lages de vidro (dalles).
Inglaterra, Italia, etc.
Descontam vales do correio, vendem letras, sellos e papel sellado. I Assucar, arroz, especiarias, drogas, productos chimicos. Ascensores hydraulicos,
Edoux & C.*
118, BWk DO 118 I CIK E K T O
Únicos importadores em Portugal e colonias do CIMENTO da Compagnie
NJMÍRO TELLPHONICO 53 ENDEREÇO TEL'GRAPHICO: CAMPEÃO — LISBOA des Ciments Parisiens, fabricado pelo notável engenheiro E. CANDLOT.
Fabrica de sabão — Telhai (Poço do Bi«po)
lllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllll........Illlllllillllllllll........ IIIIIHIJIIIIlil ....... .
Fabrica de licores, aguardente, genebra e cognacs — TELHAI (POÇO 00 BISPO)
ivp. a'iA ra < — Lisboa

DRaC-CCA
João Machado da Conceição MAGAZINE
Antigo alumno da academia de Bellas Artes
Commissões
e consignações
BERTRAND
A LEITURA ILLUSTRADA
Promove vendas de cereaes, man­
ATELIER DE PINTURA ESCULPTURA E DOURAMENTOS teigas, queijo etc., etc. Publicação quinzenal — 96 pag., 100 gr.
Fornece todos os generos d'esta
Encarréga-se de paysagens, figuras, ornatos, decorações, pintura
capital, consumidos nos Açores,
histórica, restauração de quadros antigos, letras, imitação de mármore
e madeira, scenograplria, frescos, aguarellas, pintura e douramento em
egrejas, carnações em imagens, esculptura de imagens e retábulos, .
nas melhores condições, levando 200 RÉIS
trabalhos de architectura, desenhos e plantas para construcções diver­ aos seus freguezes os minimos pre­
sas e todos os trabalhos pertencentes á arte, mesmo fora da ilha. ços do mercado.
ZEFreinco d.e porte
Grande variedade de clichés photographicos dos Açores.
PREÇOS CONVENCIONAES
SAHIU O N.° 5
Ilha, do Fayal-AÇORES Rua dos Correeiros 6 — LISBOA
Adresse telegraphico
HACHE-LISBOA Antifla Casa Bertrand - Lisboa
Viiiiii
LMANACH BERTRAND
iiiiiiiiiiii mui iiiiiiiiiiii mui iiiiiiiiiiiiiiiiii mui iiiiiiiiiiii mui iiiiiiiiiiii iiimk.

A
9 9
e 9

COORDENADO ROR
9 9
• ® ® ® PARA 1905

FENANEES COSTA
9 SEXTO ANNO DE PUBX.XCAÇÃO ®
• 9

472 paginas, 600 gravuras, frontispício a 3 còres, e capa a 8 cores e ouro


9

®
9

®
9

®
9

«
ATELIER PHOTOGRAPHICO

JOSÉ G. CARDOSO
3, R.UA. DE S. FAUDO, 3
HORTA
N’este estabelecimento tiram-se retratos em grande variedade de processos e
tamanhos por preços baratissimos.
• e • BROCHADO, 500 RÉIS; CARTONADO, 600 RÉIS; PELO CORREIO MAIS 80 RÉIS 999 Magníficos retratos a crayon, de diíferentes tamanhos, pelo
original com a maxima perfeição, ou por photographia antiga não
deixando nada a desejar.

Antiga Casa Bertrand Fazem-se bellos passepartouts de cartão especial


e quadros que se entregam promptos a col-
locar nas salas.
& & JOSÉ BASTOS-Mercador de livros - Editor
73, RUA GARRETT, 75 — LISBOA ===== IIIIIIIIIIII llllll llllllllllllllllll llllllllllllllllll mui iiiiiiiiiiii

DRaC-CCA
N.° 20 i53

DRaC-CCA
NAS CUMIEIRAS DAS SETE CIDADES
uitas vezes tinha eu visto já as Cumieiras das Sete-Cidades, estar ali, a meus pés, eu não o via, não lhe distinguia o local.
M pela manhã, em pino do meio dia, ao sol pôsto e até de Sequestrava-o á nossa vista uma especie de toldo, um veu alvini-
noite. Vira aquelle formosíssimo panorama sob diversos aspectos tente, espesso. Era a condensação dos vapores ascendidos lá do
positivamente prismáticos: com tempo esplendido, céo anilado, fundo, emanados dos terrenos e da grande massa de agua das
ether transparente; vira-o com o ambiente cerrado de neblina, lagoas. A’ maneira que o sol se elevava na amplidão do espaço,
opaco, tristonho com sobresenho dc inver­ projectando os seus raios fulvos e lumino­
no, mas sempre grandioso e bello. Faltava- sos sobre o tecto movediço, o veu rare­
me vel-o ao amanhecer. fez-se, pouco a pouco, equilibrando-se,
O estio despedia-se: a temperatura man­ fragmentando-se. Pairando no espaço, co­
tinha se amorosa. Um bello dia, pois, bello mo uma aguia, um dos fragmentos tom­
na rigorosa expressão do vocábulo, cheguei bou em seguida, sobre o cume da mon­
ás Cumieiras antes que alvorasse. Rodea­ tanha, produzindo um grande rasgão no
va-me a treva, não a treva que melancho- tecto vaporoso, e deixando entrever uma
lisa, que entristece, que apavora o cami­ nesga do Valle.
nheiro dos desertos, mas aquella suave Uma vista surprehendente, encanta­
escuridade que infunde em nossa alma um dora, como de camara-escura, se me de­
respeito das coisas santas, escuridade ate­ parou. Pelo espaço sem nevoeiro divisa­
nuada por um tibio vislumbre de luz coada vam-se lá em baixo os pequeninos ma­
por gaze escura, projecção indecisa do res— as duas lagoas — banhando os pés
pallido fulgor das estrellas. da microscópica aldeia, com as suas ca-
.— A
Para as bandas do Oriente começou S
ete C idades lagoa vista das cumieiras
sitas e a igrejinha a alvejar, com os seus
então, lentamente, gradualmente, a manifestar-se uma transparên­ parques, com as aspiraes de alvíssimo fumo desprendidos das
cia opalina; depois, como se uma mão delicada de fada destin­ habitações.
gisse rosas, foram-se carminando umas tenuíssimas nuvens, como O sol continuou subindo, subindo. Umas após outras, as frac-
flocos. Como por encanto, decorridos minutos, emergiu do oceano ções do veu vaporoso, espreguiçaram-se, como se houvessem acor­
um globo ígneo, illuminando tepidamente a terra. dado de grande lethargo, sobre o dorso das Cumieiras, e passaram
Achava-me na cristã das Cumieiras, e, sem embargo do Valle alem, desapparecendo por fim. Dir-se-ia uma legião de fantasmas

DRaC-CCA
surgindo da profundidade de um abysmo, pairarem-lhe na gar­ com as pernas, póde-se affirmar, sem receio, que é continen­
ganta e dispersarem espavoridos, tal como se tivessem medo de tal.
ser surprehendidos pelo immenso luzeiro do dia. O caminho da Cumieira, que vamos pois cavalgando escar­
O valle ostentou então, em toda a sua plenitude, a magnifi­ ranchados sobre o amplo albardão de um macho vigoroso e trap-
cência da sua belleza: tive um deslumbramento. pu, tem parte do seu leito assente entre duas profundas ravinas,
a que os insulanos chamam grotas, e cujas encostas, quasi a pru­
Augusto Loureiro. mo, estão completamente revestidas de faias, acacias, pinheiros,
platanos, urzes c varias especies indígenas como o folhado c o
sanguinho (bois de rose), tudo entremeiado de fetos e inhames e

De Ponta Delgada ás Sete Cidades atapetado em toda a extensão pelo mais viçoso licopodio que te­
mos visto, o qual se encontra em muitas outras partes da ilha,
revestindo os vallados e as grotas! A meio d'esta vereda co­
meça a definir-se o terreno de montanha pela vegetação peculiar
caminho do touriste que de Ponta Delgada se dirija ás Sete ás cumiadas, que
O Cidades, faz-se parte em carruagem e parte a cavallo. O em toda a ilha de
S. Miguel vemos
landan em que sae de Ponta Delgada segue a estrada marginal
que atravessa a Relva e as Feteiras, importantes povoações com sempre verdejantes
mais de 2:000 habitantes cada uma, condul-o até á Lomba da Cruz, como as encostas e
onde facilmente obtem um solido e experimentado burro ou muar, os valles! A rainha
no qual fará a ascenção da montanha que fórma o topo poente do ar chipélago,
da ilha e no interior da qual se formou uma cratera, cujo diâme­ como lhe chamou o
tro superior tem pouco mais ou menos de 5 kilometros. erudito naturalista
De Ponta Delgada ás Cumieiras das Sete Cidades, vence-se a dis­ francez mr. Fou-
tancia em pouco mais de tres horas, cerca de duas em trem e o resto qué, apresenta nas
a cavallo. Esta parte do caminho é por certo a que mais interessa o suas partes mais
continental. Em primeiro logar o animal que lhe trazem para baixas uma serie,
montar vem arreiado á maneira da ilha, de albarda, andilha (ca­ quasi ininterrupta,
deirinha sem costas), e cochim revestido pela alcatifa de fabrica­ de campos viçosis-
ção insulana, tecida em algodão e lã. Uma cabeçada e uma corda, simos, onde com o
em guisa de arreata, completam o arreio. Nunca ha estribos, de maior desenvolvi­
fórma que os insulanos acham mais commodo ir sentados á moda mento se cultiva o
dos almocreves; quando se vê cavalleiro bifurcando a albarda milllO e a batata, S
ete C .— C
idades E
aminho da greja

DRaC-CCA
para fabricação do álcool; em planos mais elevados estendem-se borda de uma grande cratera, cuja parte superior, como já disse­
umbrosas mattas que, em média, não teem mais de trinta a qua­ mos, tem pouco mais ou menos de 5 kilometros de diâmetro e o
renta annos, encontrando-se lado a lado as arvores mais diversas fundo mais de 2 kilometros de largura média. Esta grande de­
originarias de todas as regiões temperadas do globo. Mas foi para pressão circular tem as paredes talhadas quasi a prumo e reves­
os pontos culminantes da ilha que a natureza reservou a sua orna­ tidas por uma vegetação exuberante, de um verde sombrio, que
mentação mais grandiosa: a leste, encra­ faz realçar garridamente, como uma al­
vado entre os mais pittorescos montes, o deia do Piemonte ou da Lombardia, a
"Calle das Furnas, cercado de rochas abru­ povoação das Sete cidades, assente no
ptas e atravessado por uma ribeira de agua fundo da cratera, com a sua casaria muito
quente, cujas nascentes cm ebulição repro­ branca, de um tom cálido, e da qual se
duzem em ponto pequeno o phenomeno destaca apenas uma casa apalaçada, de
dos geysers da Islandia; a poente, no extre­ aspecto muito simples mas nobre, cercada
mo da aresta da montanha cm que nos acha­ por um grande parque. Ao fundo da po­
mos, a Caldeira das Sete Cidades. O effeito voação, uma grande egreja com as pare­
que nos produziu a vista da Caldeira quando des e torres de cores claras.
chegámos á Cumieira, alarmou-nos a tal A aldeia debruça-se sobre um grande
ponto que, apesar de termos a nosso lado lago, bi-partido por um caminho, que o
um antigo companheiro de trabalhos e amigo atravessa na parte mais estreita e que o
intimo, intelligente e illustrado, e enthu- divide, portanto, em duas lagoas: a do
siasta como os que o são, pelo que é bello norte e a maior, em que a agua é azu­
e grandioso, apesar d isso ficámos por longo lada e attinge a profundidade de 14 bra.
espaço sem ter uma palavra que reprodu­ ças, e a do sul, em que a agua é verde
zisse a exaltação que o nosso espirito sentiu e a maior profundidade de 1 2 braças. A
U
ma margem da lagoa
ante o panorama deslumbrantissimo que, coloração differente das aguas d’estas duas
de repente e todo ao mesmo tempo, nos surprehendeu ao attingir- lagoas, que communicam entre si por um pontão de 5 metros,
mos a cristã da Cumieira! E no emtanto qualquer de nós dois sobre o qual passa o caminho a que nos referimos, é devida a
tinha a vista habituada ás paisagens mais formosas da Europa e matérias organicas, vegetaes, que estão na verde em suspensão.
o espirito eivado d’esse mal da epoca, chamado cosmopolitismo, Na lagôa azul um pequeno promontorio de 15o a 200 metros,
para que o amor pátrio influísse, de leve sequer, n’essa contem­ avança na margem de leste, cultivado com um parque inglez.
plação muda em que largo tempo nos quedámos e que tinha um Nesta mesma margem, assim como nas do norte c sul, as mon­
não sei que de extase! tanhas que se elevam sobre o fundo do valle mais de 3oo me­
Estavamos a mais de óoo metros acima do nivcl do mar e á tros, apresentam-se quasi verticaes e profundamente fendidas no

156

DRaC-CCA
sentido longitudinal pelas convulsões do terreno, onde em 1444 ou
1440 esteve em erupção um vulcão.
Estas fendas converteram-se em ravinas, cujos leitos e mar­
gens, bem como as tres encostas do lago ás quaes nos referimos,
estão completamente revestidas de espessa vegetação rasteira, em
que predomina o folhado, o louro bravo, a queiró, a urze, o ta-
mujo, os fetos e os musgos, entre os quaes o sphagno. Para con­
traste, a margem poente da formosa lagôa coberta de frondoso
arvoredo, com a pequena planície a seus pés, onde prados verde­
jantes circumdam a casaria clairseméer da mimosa aldeia!
O campanario typico das egrejas michaelenses faz augmen-
tar de intensidade a nota ridente e pacifica de toda esta paisagem
ideal, que rivaliza com as mais mimosas da Escócia, da Italia e
da Suissa.
Descendo a encosta da Cumieira em direcção á lagôa, o cami­
nho que se segue constitue outro encanto! Vencendo com muitos
lacetes os 3oo metros de desnível, vae sempre atravez de bos­
ques das mais variadas essencias, plantados pela sabia mão de Sete Cidades. — Hospedaria
Antonio Borges da Camara Medeiros, um dos homens a quem a
ilha de S. Miguel deve muitos e notáveis aformoseamentos. O por um canal navegavel, ao passo que estas estão separadas por
caminho da Cumieira ás Sete Cidades, com grotas de um lado e uma estrada atravessada por uma ponte. Antes de chegarmos a
de outro, atravessa massiços de platanos, de amieiros, de cri- essa estrada fica a esplendida propriedade, que de cima notámos
ptomerias (comniferas de que ha na ilha grandes mattas), de ala­ e foi fundada pelo sr. Antonio Borges (tio do actual marquez da
mos, de faias, de pinheiros, plantados de um c de outro lado do Praia e Monforte, também michaelense) e que pertence ao dou­
caminho das encostas e no talweg das grotas, em pequenas coli­ tor Caetano de Andrade Albuquerque.
nas, em rochas alcantiladas, por toda a parte, emfim, dando a O sr. dr. Caetano de Andrade estava por acaso em Sete Ci­
este percurso uma formosura tal que affronta a dos mais bellos dades com sua familia, veraneando alguns dias e fez-nos a honra
caminhos de Interlaken, de Baden, de Salzbourg e dos que a de ser o nosso cicerone no pittoresco valle. Em uma barca da
estes possam ser comparáveis. sua esquadrilha bordejámos no formoso lago, que tem na sua
Depois de tres quartos de hora, a pé, chegámos ás lagoas que maior extensão cerca de 5 kilometros e é povoado já de alguns
são miniatura dos lagos de Thun e de Brienz, que estão separa­ peixes, taes como trutas, ciprinos doirados e carpas, dos quaes
dos um do outro por uma facha de terra, que hoje é atravessada só os primeiros teem propagado. As ultimas inundações, que du­

DRaC-CCA
rante muito tempo conservaram parte da casa do dr. Caetano de mente illustrados da sua ilha e dos que mais nobilitaram as ban­
Andrade e outras com dois a tres palmos de agua, levaram este cadas universitárias.
cavalheiro a fazer encarregar o sr. engenheiro Marianno Machado No magnifico parque, que serve de fundo ao palacete do
de estudar, por conta do estado, um systema de escoantes para a dr. Caetano de Andrade, ostenta-se uma flora riquíssima, sobre-
lagoa, que sendo, como dissemos, cercada de montanhas, não tem saindo uma grande variedade de essencias, formando soberbos
saida natural para as aguas. Na margem norte e sul da lagoa, massiços, entre os quaes notámos banksias, com a flor em forma
foram, em vista d’esse estudo, e d uns ensaios feitos já por conta de maçaroca e com a medulla similhante a pelúcia marrou; um
dr. Caetano Andrade, perfurados alguns poços até encontrar ter­ bosque de i5o araucarias (o primeiro e unico que conhecemos)
reno bastante permeável, ficando a abertura d'estes poços pouco de 16 a 18 annos, attingindo já 10 metros de altura; formosos e
acima do nivel ordinário das aguas do lago. Este notável traba­ extensos grupos de azaleas, com mais de 4 metros de altura; e
lho, de iniciativa puramente individual, é proprio do caracter mi- outros de nogueira preta, de cedros dos Açores (Cupressus azo-
chaelense e honra sobremodo o seu executor o engenheiro acima rica), de urzes com porte de arvores (Eriea azorica), uma das
indicado, que é um dos espíritos mais cultos e mais ordenada- quaes tem mais de õo annos; bosques de criptomerias, havendo
um exemplar d'esta arvore notável, trazido de Paris, em vaso,
por Antonio Borges, cm 1864, e cujo tronco tem hoje quasi tres
metros de circumferencia; rhodondendros com 5 e 6 metros de
alto, bordando ruas; accacias de Australia e de outras especies,
camélias gigantescas; muitas especies de eucalyptos; soberbos
inhames cobrindo com a sua folha ornamental grandes superfícies
junto á lagoa, e um sem numero de arbustos, arvores e plantas
encantadoras, rematando por um charco de mais de mil metros
quadrados, recoberto de nenuphares em flôr!
Os encantos que em nosso espirito ia gravando esta memorá­
vel visita eram successivamente ampliados pela gentileza do
dr. Caetano de Andrade e de sua esposa, a sr.a D. Izabel Raposo
de Amaral, filha do digno par do reino vitalício d'este appelido,
uma senhora da mais esmerada educação, que aprimorou ainda
em demoradas viagens no estrangeiro.

(Do livro 5. Miguel em r8g3)

Emygidio da Silva.
Um trecho d,v lagoa

i58

DRaC-CCA
LENDA DAS SETE CIDADES
iz a lenda que as ilhas dos Açores são ape­ copardo e rainha Brancarosa assombrados pelo que se pas-
nas os restos d‘um grande paiz, rico e ma­ sára.
ravilhoso, que se chamava a Atlantida. O Passados tempos, nascia a filha dos reis da Atlantida. Todas
rei d esse paiz, Brancopardo, vivia desgos- as terras se vestiram de galas para festejarem o seu nascimento.
tosissimo por não ter herdeiro para a sua A princeza foi levada em cortejo para as Sete cidades já construí­
coroa. E tão desgostoso, que se foi tor­ das, onde ficou guardada.
nando cruel para os seus povos, elle, que Foram passando os annos. Todos os dias o rei recebia novas
d'antes tão bondoso era ! de sua filha, que ia crescendo num assombro de bellezas. Chama­
Uma noite, porém, estando elle assentado no ter­ ram-lhe Verdeazul.
raço do seu palacio, em companhia da rainha, viu Ora succedia
apparecer, baixada do ceu, uma linda visão, cercada que o rei da Atlan­
de luz, e que lhe disse : tida, com a ausên­
— Terás uma filha mais linda que o solMas para que a maldade cia da filha que não
desappareça do teu coração, é preciso, rei da Atlantida, que, após via, cada vez se tor­
o seu nascimento, deixes de a vêr durante vinte annos. Eu a oc- nava mais triste,
cultarei de todos e de ti, dentro de sete formosíssimas cidades, mais cruel e vinga­
que farei construir para ella na mais bella parte do teu reino. Cer­ tivo. E como se ia
carão as cidades fortes muralhas de bronze, que ninguém poderá tornando velho,
transpor. Findos os vinte annos, terás o coração limpo de pecca- não tinha já forças
dos, e poderás então apertar nos braços a tua linda filha. Mas re­ para esperar mais.
para que se antes de terminado o praso ousares transpor as por­ Ainda faltavam
tas das cidades, cujas muralhas hão de guardar a princeza, no dois annos para ex­
mesmo instante cahirás morto, e os teus reinos serão consumidos pirar o praso; mas
pelo fogo. Juras que não tentarás vêr tua filha antes dos vinte o rei, cheio de có­
annos passados ? leras, decidiu que­
— Juro! respondeu tremulo o rei. brar o juramento
Então a visão desappareceu como por encanto, deixando Bran­ que fizera á visão, C A
halet da família Andrade lbuquerque

159

DRaC-CCA
apesar dos rogos e das lagrimas da rainha, que lhe supplicava pru­ Quando o medonho cataclysmo cessou, só restavam d elia alguns
dência, para não expor o reino á vingança dos deuses, pela quebra rochedos, que são boje as lindas ilhas dos Açores. E a lenda ac-
do juramento. O rei, na exaltação do seu desespero, não se demo­ crescenta que o valle das Sete Cidades, em S. Miguel, esse trêcho
via a razões nem a supplicas. Poz-se em marcha, caminho das Sete de terra encantador, é o sitio onde existiam no tempo da Atlantida
cidades. Ao passo que avançava, o ceu tomava uma cor de sangue, essas sete cidades phantasticas que guardavam a desditosa prin-
escurecia tudo em volta, e sentia-se tremer a terra. Sombrio, des­ ceza Verdeazul, morta nas ruinas da catastrophe, com todos os do
vairado, o rei marchava sempre, indifferente ao aspecto sinistro da seu paiz, pelas maldades do seu rei.
natureza. As Sete cidades deram o nome ao pequeno povoado que hoje
Por fim, após muitos dias de caminho, appareceram-lhe as mu­ existe lá em baixo, no fundo da cratera enorme, nas margens da
ralhas das cidades, emquanto no ar se crusavam raios e do seio da lagoa, a qual tem metade das aguas verde, e a outra metade azul,
terra sahiam vozes pavorosas. O rei approximou-se das muralhas, em memória da linda princeza Verdeazul; e diz uma segunda ver­
e descarregou sobre ella um forte golpe com a sua espada. Ou­ são que existe esse phenomeno, porque no fundo d uma estão uns
viu-se um ruido pavoroso de bronze. As muralhas desabaram no sapatinhos verdes que a princeza tinha, e no fundo da outra a sua
mesmo instante, e da terra que se fendia elevavam-se chammas sombrinha azul. Eis ahi a lenda das Sete Cidades, cheia d uma
enormes. O mar em fúrias inundava, subvertia a grande Atlantida. interessante phantasia popular.

160

DRaC-CCA
FASCICVI.O T*í." 20

t\COR I ANO

^UGA. CASA BERTRAND

DRaC-CCA
77 V7 V7 V7 X~7 V7 \~7 S~ZLS~ZXZXZSZXZ\ Z\ ZS~ZA ZY

LOMBADAS
GRUD FRIX
Exposição Internacional de S. Luiz cm 1901
MEDALHA DE OURO
Exposição do Pai. cio de Cryslal de Londres cm 4914

ft Rainha das aguas de meza


Leve, estomacal e digestiva, pura, limpida
0 acido carbonlco não é introduzido artiflcialmente

Recommendada por todos os médicos

DEPOSITO GERAL
106, AVENIDA DA LIBERDADE, 110 C. MAHONY & AMARAL
X.ISBOA
70, HSiifi â.°— LISBOA
TBLEFHONE 586
ílilllIllillimilllllllllIllitllllllllllliillliliiiliililillIlIlilIllllllillliillllIlIllIllllIllIlllllIllIllllllIlUlIlL METAES EM BRUTO: Aço, cobre, latão, estanho, chumbo em chapa, bar­
ras lingots.
CAMPEAO & C.A FERRO: Em barras quadradas, redondas e vergalhão. Vigamcnto de ferro
em TI Ui cantoneiras e todos os mais aprestos para construcçòes. Feno em
Casa de Cambio e Loterias lingots para fundição. Chapas galvanisadas lisas e onduladas. Chapas de aço
para caldeiras. Tubos de ferro, cobre e latão. Arame de ferro, cobre e latão.
Folha de Flandres. Material fixo e circulante para caminhos de ferro. Rails de
Esta casa possue para as loterias, quer ordinanas, quer extraordinárias aço e diversos perfis e pesos, vias portáteis. Machinas de vapor, gaz e petró­
uni variado sortinu nto de numeros em bilhetes décimos e cautellas
Compram e vendem pelos melhores preços, libras,ouro portuguez e todas leo. Caldeiras. Boinbas. Machinas para industrias e agricultura. Machinas. Fer­
as moedas nacionaes e estrangeiras, notas dos bancos de Hespanha, Erança, ramentas. Vidros polidos, foscos e de phantasia. Vidraça, lages de vidro (dalle.s).
Inglaterra, Italia, etc. Assucar, arroz, especiarias, drogas, productos chimicos. Ascensores hydraulicos,
Descontam vales do correio, vendem letras, sellos e papel sellado.
Edoux & C."
118? RUâ DO ampaeo, 110 CIM BIIT O
Únicos importadores em Portugal e colonias do CIMENTO da Compagnie
NJMERO TELEPHONICO 53 ENDEREÇO TEL' GF APHICO: CiMPEÃO - LISBOA dos Cnncnts Parisiens, fabricado pelo notável engenheiro E. CANDLOT.
Fabrica de sabão—Telhai (Foço do Bi«po)
llllllllll Itlllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllilllllll
Fabrica da licores, aguardenfa, genebra e cognacs — TELHAI (POÇO 00 BISPO)

Jrp. a'iA »— Listoa

DRaC-CCA
João Machado da Conceição MAGAZINE
Antigo alumno da academia de Bellas Artes
DO
Commissões
e consignações
BERTRAND
A LEITURA ILLUSTRADA
Promove vendas de cereaes, man­
ATELIER DE PINTURA ESCULPTURA E DOURAMENTOS teigas, queijo etc., etc.
Publicação quinzenal — 96 pag., 100 gr.
Encarrega-se de paysagens, figuras, ornatos, decorações, pintura Fornece todos os generos d’esta
histórica, restauração de quadros antigos, letras, imitação de mármore capital, consumidos nos Açores,
e madeira, scenographía, frescos, aguarellas, pintura e douramento em
egrejas, carnações em imagens, esculptura de imagens e retábulos,
nas melhores condições, levando 200 RÉIS
trabalhos de afchitectura, desenhos e plantas para construcções diver­ aos seus freguezes os minimos pre­
sas e todos os trabalhos pertencentes á arte, mesmo fora da ilha. ços do mercado.
Franco d_e porte
Grande variedade de clichés photographicos dos Açores.
/ PREÇOS CONVENCIONAES \
SAHIU O N.° 5
K Ilha do Fayal-AÇORES Rua dos Correeiros 6 — LISBOA
Adresss telegraphico
HACHE-LISBOA Antiga Casa Bertrand Lisboa
Viiiiii iiiiiiiiiiii iiiiii iiiiiiiiiiii iiiiii iiiiiiiiiiiiiiiiii iiiiii iiiiiiiiiiii iiiiii iiiiiiiiiiii mm V
LMANACH BERTRAND
A
• ®
«

®
»

OOORDENADO POR
9
« ® ® » PARA -1905

FENANDES COSTAJ
® SEXTO ANNO DE PUBLICAÇÃO 9
«99999

472 paginas, 600 gravuras, frontispício a 3 cores, e capa a 8 cores e ouro


9 9 9 9 |
ATELIER PHOTOGRAPHICO

JOSÉ G. CARDOSO
3, RUA DE S. FAUUO, 3
HORTA
Veste estabelecimcnlo tiram-se retratos em grande variedade de processos e
tamanhos por preços baratíssimos.
® ® « BROCHADO, 500 RÉIS; CARTONADO. 600 RÉIS; PELO CORREIO MAIS 60 RÉIS ® • • Magníficos retratos a crayon, de difTerentes tamanhos, pelo
original com a maxima perfeição, ou por photograpbia antiga não
deixando nada a desejar.

Antiga Casa Bertrand Fazem-se bellos passepartouts de cartão especial


e quadros que se entregam promptos a col-
locar nas salas.
& & JOSÉ BASTOS -Mercador de livros - Editor & &
" 73, RUA GARRETT, 75 — LISBOA - iiiiiiiiiiii iiiiii iiiiiiiiiiiiiiiiii iiiiiiiiiiiiiiiiii iiiiii iiiiiiiiiiii
MARCIANO HENRIQUES DA SILVA
omo artista, lograra alcançar á força de estudo c com o tarde foram-lhe ensinados os primeiros rudimentos de desenho
C poderoso auxilio do seu inquestionável talento, uma bem me­ pelo sacerdote inglez Brant, que foi egualmente seu mestre inglez.
recida reputação, não só no seu paiz, mas também em Italia, No anno de 1847, visitou a ilha de S. Miguel um pintor inglez,
França, Inglaterra e Hespanha. mr. Charles Martin, de quem Marciano recebeu
Viveu pobre, e nos primeiros annos da sua as primeiras noções de pintura a oleo.
carreira artística luctou com a miséria, sem que Marciano viu então rasgar-se diante de si um
todavia succumbisse na lucta o seu espirito, que novo horisonte.
o talento illuminava, deixando-lhe entrever um Seduziam-n'o já os segredos da arte que lhe
horisonte mais puro, um futuro mais prospero, apparecia ainda envolta em trévas, e o seu es­
o prémio do seu trabalho, o baptismo da arte pirito buscava ancioso a revelação d'esses se­
que cultivava com tanto amor! gredos no estudo dos compêndios mais comple­
São assim as organisações privilegiadas; lu- tos, nas obras dos grandes mestres.
ctam, mas vencem. Protegido por seu padrinho, o padre João
A biographia de Marciano é simples e mo­ José do Amaral, auxiliado por José do Canto,
desta; as paginas brilhantes que a illustram são e recommendado pelo visconde de Castilho, se­
os seus triumphos de artista, quando ao realisar guiu Marciano para Lisboa, onde cursou, durante
na tela o pensamento que concebera, lograva anno e meio, a Academia das Bellas Artes.
colher os applausos dos collegas, a approvação Por conselho do sr. visconde de Menezes,
dos mestres. deliberou ir a Paris continuar os seus estudos,
Em 5 de junho de i831, nasceu Marciano e pouco tempo depois de ali estar, teve a felici­
Henriques da Silva, em Ponta Delgada, na ilha dade de ser apresentado por Charles Arago, ao
de S. Miguel. grande pintor Horacio Vernet, que lhe aconse­
Foi seu pae um honrado militar que depois lhou frequentasse o atelier de Toussant.
de retirar-se do serviço, se entregou ao commercio, e depois ao Foram-lhe proveitosas as lições do distincto professor, porque
ensinamento das linguas franceza e ingleza. lhe abriram as portas da Academia das bellas artes de Paris, onde
Aos seis annos de edade começou Marciano a manifestar uma foi admittido como alumno.
vocação decidida para a arte em que depois devia primar, e mais Um trabalho assiduo e intelligente, junto a um trato affavel e

N.° 21 161

DRaC-CCA
attencioso, em breve lhe grangearam a estima dos primeiros ar­ de Capri pintou cinco quadros pequenos que lhe serviram de re-
tistas, cabendo-lhe a honra de ser discípulo do celebre pintor Ary commendação para Londres.
Schoeffer, cuja reputação é universal. Por espaço de tres annos residiu em Roma, em relações inti­
De Paris seguiu para Londres, onde foi apresentado aos pro­ mas com os melhores artistas e amadores de Bellas-Artes, entre
fessores da Academia e ao celebre retratista Prescottnight. os quaes figuram o celebre Tomas Mason, o duque Gaetano di Go-
Foi ahi que Marciano, por encommenda do professor Elmore, zerta, Hiraldes, Fortuna, Gisbert Palmaroli e outros.
reproduziu o quadro representando Carlos V no convento, copia Voltando a Lisboa foi nomeado em i863 professor de pintura
que lhe mereceu os elogios do mencionado professor. histórica na Academia das Bellas Artes.
Foi também ahi que fez conhecimento com miss Selina Maria, O sr. D. Luiz I reconhecendo o mérito incontestável de Mar­
senhora ingleza e artista intelligente, a quem mais tarde se uniu ciano, confiou-lhe o encargo da construcção de uma galeria de
pelos laços do matrimonio. pintura no real palacio d’Ajuda, nomeando o pintor da real camara
Quando estava já bem estabelecida a sua fama de artista, vol­ e agraciando-o com a Cruz de Santiago, como prémio ao mérito
tou a Lisboa em dezembro de i856, sendo hospedado cavalheiro- scientifico, artístico e litterario.
samente pelo marquez da Fronteira, e pelo marquez da Ribeira O monarcha, avaliando as eminentes qualidades do artista,
Grande, a quem deveu sempre os mais assignalados favores. dignou-se dispensar-lhe a mais elevada estima. O artista, grato á
El-rei, o sr. D. Pedro V dignou-se honral-o com a sua estima, regia munificência do monarcha illustrado, pagou-lhe sempre com
e a mesma honra lhe conferiu o sr. D. Fernando, que possuia al­ a mais entranhada dedicação, com o mais desinteressado zêlo, com
guns quadros de Marciano. o mais profundo reconhecimento.
Fascinava-o, porém, a Italia, e impellido pelo desejo de visitar Entre os quadros de Marciano, os que se tornam mais dignos
aquelle berço das artes, e de proseguir os seus estudos, partiu de menção, são: O cardeal rei, o Tasso, um philosopho, 0 retrato
para Roma em setembro de 185/, recommendado pelo cardeal do visconde de Castilho, o retrato de Bulhão Pato, 0 retrato de
di Pietro, então núncio de sua santidade em Lisboa. sua esposa, o retrato de um negro, 0 retrato de Pinheiro Chagas,
A falta absoluta de meios obrigou o a ir alojar-se no Hospício que ficou por concluir, e varias outras télas de incontestável me­
de Santo Antonio dos portuguezes, obtendo da respectiva confra­ recimento artístico.
ria uma mezada de doze escudos com obrigação de restaurar os Todos quantos conheceram Marciano da Silva, todos quantos
retratos dos reis de Portugal que existem no mencionado HQspicio. lhe estenderam a mão da amisade, todos quantos viveram na in­
Era, porém, mui precaria a sua posição, quando o portuguez timidade do seu lar domestico, tiveram innumeras occasiões de
D. Francisco de Mattos, geral da ordem de S. Bruno, lhe encom- apreciar as elevadas qualidades do seu caracter recto, bemfazejo,
mendou o quadro de Santa Rosalia, que se admira hoje em uma honestíssimo.
das capellas do convento, quadro que Marciano considerou sempre E’ esta a modesta biographia do mallogrado artista que aos
como uma das suas melhores producções. 42 annos de edade deixou de existir.
No convento de Trezulti deixou também obras suas e na ilha Alfredo de Sarmento.

162

DRaC-CCA
JOSE DE TORRES
nome de José de Torres figura na prole dos os Ensaios, (viagens no interior da Ilha de S. Miguel) e as Len­
homens que pelo seu talento mais honraram a das Peninsulares.
terra michaelense. Revellado sobejamente na capital do reino o seu merecimen­
De muito novo se manifestaram n’elle as to, e porque tinha também patenteado o seu valor em matéria
aptidões litterarias, que depois o tornaram dis- de administração e economia política, José de Torres foi cha­
tincto em todo o Portugal. mado á burocracia, onde bons serviços prestaram o seu esclare­
Foi a sua estreia de escriptor feita noPhylo- cido talento e o seu caracter recto.
logo, jornal que elle fundou em Ponta Delgada, No Diário [Ilustrado de 1876, escrevia Silva Pereira estas
no anno de 1844. Em 48, Antonio Feliciano de palavras, ácêrca d’esta illustre individualidade michaelense:
Castilho chegava a S. Miguel, onde fortemente
impulsionou a instrucção popular, que tão des­ «Tendo apenas 18 annos foi nomeado amanuense da extincta
curada era, fundando a Sociedade dos Amigos das Leltras e Artes, contadoria de fazenda de Ponta Delgada.
de que José de Torres foi o primeiro secretario, sendo também o Em 20 de dezembro de 1844 passou a official para a secreta-
melhor cooperador de Castilho n’essa nobre cruzada a favor do taria da camara municipal, sendo transferido a 2 de março de
ensino da classe popular. 1849 Para 0 l°gar de segundo official do governo civil do mesmo
Além do Phylologo, que José de Torres fundou e dirigiu em districto, onde começou desde logo a servir de secretario geral,
S. Miguel, outros jornaes redigiu em Lisboa, para onde partiu na ausência d este até 19 de junho do dito anno.
em i8ô2. O duque de Loulé confiou-lhe a redacção do Futuro, Em 1839, procedendo-se á organisação do serviço do ministé­
folha d’uma sociedade maçónica de que esse titular era chefe. rio das obras publicas, precisando o governo duma pessoa que
Em S. Miguel fundou uma bella publicação litteraria a Revista pelos seus conhecimentos especiaes e provado merecimento di­
dos Açores. José de Torres foi um dos mais assíduos collabora- rigisse a repartição de estatística geral, creada por esta reforma, foi
dores do Panorama, na sua segunda serie, e foi elle ainda quem escolhido o distincto escriptor michaelense para esse espinhoso cargo.
continuou a publicação interrompida do Archivo Pittoresco, as A esse tempo estava elle concluindo as suas Lendas Peninsu­
melhores publicações litterarias que então appareceram em Lis­ lares, obra que porventura é talvez uma das melhores n’esse ge-
boa, e nas quaes o illustre michaelense deixou bem demonstrada nero, que se têm escripto em Portugal.
a sua individualidade de litterato e de sabedor. E’ d'aqui que começa o ponto de transição dos seus trabalhos
As suas obras de mór vulto, porém, reunidas em volume, são litterarios para os scientificos.

<63

DRaC-CCA
N’este mesmo anno, com o fim de se instruir, realisou a sua Tratou-se de fazer o recenseamento geral de população do
viagem a Hespanha, Inglaterra, França, Bélgica e Allemanha, reino.
feita a expensas próprias, o que acabou de aperfeiçoal-o na esta­ José de Torres, urdiu as peças officiaes tendentes a esse
tística, essa moderna sciencia que, com os seus variados ramos fim ; elaborou as instrucçÕes para as auctoridades, arranjou mo­
sobre administração publica, formava vasto campo para n'elle es- delos, creou methodos de trabalho, ideou o systema de apura­
espraiar o seu formoso talento e dar-lhe ampla margem á realisa- mento.
çao das suas sabias e eruditas investigações económicas. No fim de tres annos de inalterável perseverança e con­
Em 5 de agosto de 1802 foi nomeado chefe de secção, sendo stante labor, a nação viu, com assombro, sair dos prelos da
depois pela transferencia do sr. Carlos José Caldeira para as al- Imprensa Nacional, auctorisado pelo governo, o maior, o mais
fandegas, promovido effectivamente a chefe de repartição, por de­ perfeito, e o mais nitido inquérito que se tem visto em Portugal,
creto de 3i de dezembro de 1864, logar que já estava desempe­ sobre o importantíssimo assumpto do Censo, ou alistamento ge­
nhando interinamente desde 1860. Viu-se pois officialmente á testa ral de população, feito pelo methodo nominal e simultâneo.
da repartição de estatística um dos homens mais competentes. Para Precisou-se saber quaes os recursos que a nação offerecia
grandes génios, grandes commettimentos. para os aquartelamentos militares; o illustre estatístico encarre­
gou-se officialmente dessa inquirição, e os trabalhos que então se
executaram, e ainda hoje existem archivados, são d’um valor
inestimável.
Muitas outras reformas que estão introduzidas nos serviços
públicos, com geral acceitação publica e optimos resultados, se
devem a este distincto funccionario.
Das numerosas commissões de que o governo o encarregou, as
mais espinhosas foram as dos inquéritos ás companhias União Mer­
cantil e dos Caminhos de ferro portugueses, e da contabilidade
geral do Ministério das obras publicas, que não foi concluída.
Extra officialmente era José Torres o gerente, director, presi­
dente e governador de muitas outras companhias bancarias e as­
sociações industriaes.
Fui tudo isto que o perdeu.
Esta catadupa (permitta-se-nos a phrase, pois a achamos a
mais própria) esta catadupa de serviços e empregos difficeis, co­
meçando a minar-lhe a existência, ia-lhe enfraquecendo as forças
S. Miguel. — Praia de Banhos em S. Roque e anniquilando a saude.

ifi4

DRaC-CCA
José de Torres todo entregue aos trabalhos da companhia de sua familia, quasi que compellido pelo proprio ministro, resolveu
mineração Transtagana, da qual era accionista e director-gerente, abandonar temporariamente o serviço publico e largar de todo a
e de tantas outras, chegava a passar noites inteiras e consecutivas gerencia das suas associações, bem como todos os demais en­
em continuas lucubraçÕes, e na solução dos mais complicados cargos.
cálculos scientificos. Então, todo entregue ao remanso do lar domestico, bafejado
Era muita lida para um homem só; e esse athleta do trabalho pelos cuidados carinhosos da esposa e da sua querida filha, tra­
começou a sentir os terríveis effeitos d’essa faina tremenda. tou seriamente de atalhar os progressos assustadores da sua en­
Em meados de 1873, aggravando-se-lhe espantosamente os fermidade, e de se restabelecer.
seus padecimentos, o digno chefe de repartição de estatística, por Vão esforço! Tristes desenganos!
conselho dos médicos, instado pelos seus amigos, rogado pela Era já tarde, infelizmente .. Em 4 de maio de 1874 acabou
por succumbir, perdendo n elle a nação um dos seus mais activos
funccionarios e distinctos economistas, e a litteratura um dos seus
mais bellos ornamentos.
José de Torres, despido de vaidades, recusou por vezes meda­
lhas e distincções com que o quizeram galardoar.
Tres commendas lhe foram offerecidas: a de S. Thiago. a
de Nossa Senhora da Conceição e a de San Maurício e S. La-
zaro, e todas regeitou. Por fim, tendo-lhe o governo hespanhol
conferido por surpreza a commenda de Izabel a Catholica, José
de Torres, entre os accessos febris da sua doença, exaltou-se e
quiz recusal-a publicamente.
>Sendo aconselhado por amigos a que tal não fizesse, guardou o
diploma, mas escreveu n’elle pelo seu proprio punho: não acceito.
Tinha outras honras, que valiam mais do que aquellas: as
que se conquistam pelo verdadeiro talento e só outhorgadas ao
reconhecido mérito; eram as de socio correspondente de muitos
estabelecimentos scientificos da Europa, avultando a de socio da
Academia Real das Sciencias de Lisboa, que lhe havia sido con­
ferida em 8 de maio de 1862 por unanimidade de votos.»

Esta biographia diz bem do grande valor d’esse homem, glo­


S. Miguei- — Casa pobre d'aldeia ria e orgulho da terra que o viu nascer.

165

DRaC-CCA
família canto
o trato geral chamava-se-lhe apenas o mor­ novo pronunciadamente liberaes. Não obstante,
NEragadod’aquellas
José Caetano.
figuras que se conhecem sem
o general Prego, (Henrique da Fonseca de Sou­
za) governador de S. Miguel no regimen absoluto,
se terem visto, e se respeitam sem se ter tido tinha no maior apreço as suas luzes e probida­
com ellas a menor approximação. de, confiando-lhe, por isso, commissões de ser­
Creara-se pelas suas luzes e virtudes sociaes viço das mais consideradas e difficeis.
e domesticas, a aura popular de que gosava, O nome do morgado José Caetano apparece
mais duradoura do que elle. subscrevendo actas de deliberações tomadas nas
O nome prestigioso do morgado José Cae­ antigas assembléas publicas para que eram con­
tano era dos primeiros lembrado para as com- vocados os tres estados — clero, nobreza e povo.
missões eleitas ou nomeadas, de protecção e Representava n’ellas a classe dos nobres. A sua
defeza do interesse geral, ou em épocas de opinião era das mais acatadas e o seu voto dos
crises para se occuparem de assumptos beneficentes, ou outros. mais auctorisados nas questões tratadas. O primeiro serviço de
Tendo nascido em outubro de 1786, jà em 1807 o vemos fi­ incêndios, organisado pela camara de Ponta Delgada consta d’um
gurar entre vinte dos maiores e mais considerados proprietários e regulamento elaborado em i83g, em resultado de estudos duma
lavradores de S. Miguel, assignando notável resposta a um otficio commissão, presidida por José Caetano, e em que elle era a intel-
do juiz de fóra de Ponta Delgada, Roque Francisco Furtado de lectualidade preponderante.
Mello, officio sobre o qual, o general das ilhas dos Açores a Pertenceu ás Juntas Geraes, foi vogal do conselho do districto,
quem fôra dirigido, mandou ouvir os michaelenses, proprietários e como membro mais velho d'aquelle tribunal administrativo
e lavradores, aos quaes o referido magistrado carregou de res­ exerceu o cargo de governador civil numa phase das de maior
ponsabilidades por uma crise de decadencià com que, na sua opi­ agitação partidaria, deixando sempre do exercício dos cargos pú­
nião, luctava a sua terra natal. blicos as mais lisongeiras e honradas lembranças.
Este documento publicado no 5.° volume do «Archivo dos Em 22 de fevereiro de i832 desembarcou em Ponta Delgada
Açores», enche de gloriosa memória os signatários, pela superior D. Pedro IV, que fora imperador do Brazil e vinha dirigir o mo­
comprehensão que n’elle revelaram dos bons e fecundos princí­ vimento liberal em favor de sua filha D. Maria II.
pios de economia social e política. A casa do morgado José Caetano foi o paço real até ao dia
As ideias políticas do morgado José Caetano eram desde bem da partida de D. Pedro para o Porto á frente dos 7:600 bravos

166

DRaC-CCA
mindelleiros, a i~] de Junho de i832. Alli, com bailes e jantares mechanicas, exercendo algumas com inteira pericia. As de tor­
correspondeu D. Pedro ás festas que em sua honra deram o mu­ neiro e marceneiro, principalmente. Tinha para isto officina em
nicípio e cônsul inglez; e alli foram por seu real punho referen­ casa, onde eram entretidas as horas disponíveis do serviço pu­
dados os notáveis decretos de 16 de maio de i832, que muda­ blico, ou da administração da sua casa.
ram completamente a fórma político social do paiz. Dedicava-se também a estudos geneologicos, deixando, traba­
A mercê de commendador da Ordem de Christo, foi confe­ lho seu, n um livro, infolio grande, de 211 paginas de Arvores
rida ao morgado José Caetano em geneologicas e apontamentos históricos.
demonstração de real reconheci­ E avaliando bem o muito que ao futuro interessa o nitido co­
mento por aquella residência. nhecimento de occorrencias que se vão succedendo, isso o deter­
Partiu de José Caetano o maior minou a escrever e datar notas dos acontecimentos importantes e
impulso á iniciativa que trouxe a factos notáveis do seu tempo.
S. Miguel, em 1853, Mr. John Scott Pelos apontamentos que deixou se precisam hoje com inteira
Tucker, engenheiro civil inglez, sob exactidão muitos successos e interessantes noticias locaes, que,
os auspícios de Sir John Reuie, a sem aquelle cuidado, teriam de todo esquecido.
fazer estudos preliminares para a
construcção do actual porto artifi­
cial d’esta cidade. A despeza foi
custeada por subscripção particu­ s traços da sua ampla testa, finos e ao mesmo tempo sevéros,
lar. José Caetano foi dos que mais
subscreveu. Andou publicada nos
O fazem-nos lembrar de relance as linhas da bella fronte so­
crática do fallecido Salisbury. Quem pela primeira vez o encarava a
jornaes de então a lista de nomes e fito não podia deixar de se sentir attraido por uma influição sui
Morgado José Caetano
quantias de quem contribuiu para o generis d’aquelle semblante magestoso e meigo, onde tudo trans­
acto de subido patriotismo. luzia á força d1 um cerebro priviligiado.
Em muitas das commissões philantropicas a que pertenceu, A attracção da primeira vista subia, porém, de ponto, quando
era o seu nome sempre inscripto com quantias excedentes á pro­ ás seducções do seu finíssimo trato se juntava o prestigio da sua
porção de seus meios. conversação. Era então que o homem superior se revelava em toda
Na Santa Casa da Misericórdia exerceu o morgado José Cae­ a plenitude. Bulhão Pato, que o conheceu de perto, dizia, ha tem­
tano repetidas vezes o cargo de Mesario; e pela sua pratica d’obras pos, a um amigo, que não encontrara nunca um causeur, como
publicas fez sempre parte da Commissão d’Obras, que transfor­ José do Canto.
mou o velho convento franciscano na grandiosa casa hospitalar E’ que effectivamente não podia ser mais profunda a impres­
que hoje é. são que nos deixava aquella arte de dizer que a cada passo nos
Tinha o nobre michaelense grande predilecção pelas artes permittia ver em imagens subtilezas de pensamento que por outra

167

DRaC-CCA
forma seriam completamente intraduzíveis. Depois, não era só­ dade portuguêsa no seu genero, teve n’elle o seu mais prestimoso
mente a riqueza das ideias e dos pontos de vista originaes que secretario. Alli consummiu o melhor do seu fogo juvenil, propondo
tornava incomparável a sua conversação; era também a variedade alvitres e ensaiando trabalhos que são hoje o orgulho dos cultiva­
e a extensão do saber aproveitado a proposito de objectos que á dores michaelenses.
primeira vista pareciam destituídos de interesse. Havendo viajado O commercio deve lhe a construcção da doca, que hoje faz do
muito e lendo continuamente, a sua memória con porto de Ponta Delgada uma risonha esperança
tinha verdadeiros thesouros de conhecimentos e para o futuro da ilha de S. Miguel. Foi ao seu
de anedoctas, que para um interlocutor interes­ esforço, á sua vontade de ferro, que cederam
sado eram outras tantas vias abertas á inda­ todas as reluctancias que, durante mais de 20
gação. annos, se oppuseram por parte dos governos da
Psychologicamente, José do Canto ha de ser metropole á iniciação da monumental obra. José
definido e admirado, pela sua excepcional força do Canto, só por si, sem posição official, e sem
moral. Primeiro que tudo foi um creseter, na outras recommendaçÕes que o seu nome, veiu
genuina significação do vocábulo. de Paris a Lisboa, para informar o gabinete da
Tudo n elle se coordenava e concentrava em urgência da doca, e tal foi a força da sua argu­
torno duma faculdade motriz, cujo prodominio mentação que passados dias era expedida ordem
nos explica todos os actos da sua vida e todos para se proceder á iniciação dos trabalhos ! Bri­
os resultados da sua actividade : — era a vonta­ lhante exemplo á imitação dos vindouros!
de. Sob este prisma, raros encaram a figura de Finalmente, se encararmos a acção de José
José do Canto. Todavia, é na grandeza do ca­ do Canto nas corporações administrativas de
rácter que nós encontramos a expressão mais que fez parte, não podemos deixar de admirar
genuina da sua individualidade. Sem perigo de mais uma vez o poder duma vontade decidida,
equivocos, poder-se-hia talvez dizer que elle foi quando ao seu lado ha uma intelligencia capaz
um estoico á maneira de Kant. Qualquer dos de comprehender e pesar todas as contingên­
seus escriptos revela, como nota dominante, a cias da realidade, para obter soluções acceita-
preoccupação da conformidade moral, e a con­ José do Canto
veis.
vicção de que, no homem só vale o que é alcan­ O nome de José do Canto não pode, pois,
çado á custa dos esforços da vontade. Tal era o homem. Do pa­ ser esquecido, quando se faça o cadastro d'aquelles que mais lida­
triota, e do benemerito michaelense, faliam bem alto os serviços ram pelos progressos da sua terra natal.
por elle prestados á Agricultura, ao Commercio, e á Administra­ Feliz da ilha de S. Miguel, se entre tantos homens ricos que
ção, desde os seus 22 annos. ella possue se podessem contar alguns imitadores de José do
A Sociedade de Agricultura Michaelense, a mais antiga socie­ Canto!

168

DRaC-CCA
fascictlo W." 21.

DRaC-CCA
LOMBADAS
. GRAID PRJX
Exposição Internacional de S. Lnit em <901
CP)

• MEDALHA DE OURO
Co cP C

Exposição do Macio de Cryslal de Londres em 191 4
MARÍTIMOS ’ ILHAdeS. MIGUEL
-A O <0
A Kainha das aguas dc meza
Sociedade anonyma de responsabilidade limitada
Leve, estomacal e digestiva, pura, límpida S CAPITAL Heis Insulanos 1000 000$ 0 00 <
Agentes em Lisboa tf
0 acido carbonico não é introduzido artiílciaimente

Recommendada por todos os médicos


RuadeS.Juháo • Piljannboj.
DEPOSITO GERAL
106, AVENIDA DA LIBERDADE, 110
LISBOA
C. MAHONY & AMARAL
70, Kusi Augusta, 2.”—
TELEPHONE 586
IIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIL
METAES EM BRUTO: Aço, cobre, latào, estanho, chumbo em chapa, bar-
€ | ras lingots.
«!j João Machado da Conceição FERRO: Em barras quadradas, redondas e vergalhão. Vigamcnto de ferro
em TI U; cantoneiras e todos os mais aprestos para construcçòes. Ferro em
«1 lingots para fundição. Chapas galvanisadas lisas e onduladas. Chapas de aço
para caldeiras. Tubos de ferro, cobre e latão. Araine de ferro, cobre e latão.
§ COMMISSÕES E CONSIGNAÇÕES * Folha de Flandres. Material fixo e circulante para caminhos de ferro. Rails de
«I aço e diversos perfis e pesos, vias portáteis. Machinas de vapor, gaz e petró­
leo. Caldeiras. Bornbas. Machinas para industrias e agricultura. Machinas. Fer­
«í Promove vendas de ccreaes. manteigas, queijo, etc., etc.
Fornece todos os géneros d esta capital, consumidos nos Açores, nas me­ ramentas. Vidros polidos, foscos e de phantasia. Vidraça, lages de vidro (dalles).
«í lhores condições, levando aos seus freguezes os minimos preços do mercado. Assucar, arroz, especiarias, drogas, productos chimicos. Ascensores hydraulieos,
Edoux & C.*
CIMENTO
Rua dos Correeiros, 6 —LISBOA Únicos importadores em Portugal e colonias do CIMENTO da Compagnie
Adrcsse telegraphico: ACHE —LISBOA § des Ciments Parisiens, fabricado pelo notável engenheiro E. CANDLOT.
iimiiii ..................................... ........................................................ . Fabrica de sabão — Telbal (Poço do Bispo)
Fabrica da licores, aguardente, genebra e cognacs — TELHAI (POÇO 00 BISPO)
lyp. d'A » — Lisboa

DRaC-CCA
ANDRÉ DO CANTO
epentinamente, apenas com 3q annos de edade, deixou de Filho — que nol-o pinte a consternação de seu pae. consternação
R existir André do Canto, que para o bem da sua terra tanto
trabalhou. Na administração publica, em que occupou os cargos
mais que paternal. Irmão — a dôr de seus irmãos; uma clara
demonstração d’ella, ahi a tivemos nós ainda ha bem poucos mi­
de membro das primitivas Juntas Geraes, conselheiro do districto nutos! Esposo — todos sabem como a perda da que elle tinha es­
e Governador Civil; ao serviço da agricultura, a que com tanto colhido para companheira dos seus dias, quasi que ia dando en­
amor e proveito geral se dedicou; na sociedade michaelense, de tão o golpe que nós hoje estamos sentindo. Pae — uma inno
que foi dos melhores ornamentos — sempre o seu nome foi ci­ centinha de cinco annos, edade em que ainda se não entende a
tado com acatamento e respeito. morte, em que a vida só tem presente, e o presente só festas, lá
E é assim que na vasta lista dos talentosos, dos patriotas, dos está deplorando a sua orphandade, entre pessoas do seu sangue,
altruístas michaelenses, entram em primeira linha muitos nomes do seu uso, que a adoram, e que nunca lh’a hão de deixar sentir!
d’esta familia tão illustre.
As palavras do presente discurso, proferido por Antonio Fe-
liciano de Castilho á beira da sua sepultura, faliam bem alto do
valor e das virtudes de André do Canto:
«A hora em que um amigo vae desapparecer para sempre, é
solemne; e as despedidas, que ahi se dão, contêm, de mistura
com as saudades, recordações de factos, que podem servir de
doutrina, e que por isso convém avivar-se em commum, para
melhor se imprimirem na memória do coração. Já disse que não
trazia flores de Poesiti ou Eloquência a este acto; não as tenho,
e se as tivesse, seriam descabidas: devo accrescentar que tão
pouco trago factos ou noticias que todos os presentes não saibam
tão bem como eu, e melhor, pois não tive com a pessoa, cuja
perda deploramos, senão um trato de poucos mezes, todavia bas­
tantes para m'a tornarem cara, como um amigo dmfancia; o meu
fim é epilogar as qualidades, que nol-o fizeram modelo e cujo
complexo, o tornou, não direi unico, mas certamente raríssimo. Palacete ha família Canto, nos Prestes, S. Miguel

N.° 22 1G9

DRaC-CCA
Amigo — todos os nossos corações estão de luto; Funccionario — maes, das plantas convenientes, e accomodaveis ao seu paiz; exa
nos variados, e importantes cargos, que não ha muito exerceu, minava-os, pesava os, discernia-os com madureza ; tão acautelado
manisfestou a par com a intelligencia e a sciencia, a actividade contra o fanatismo do enthusiasmo, como contra a timidez pusi­
mais efficaz, o zelo mais fecundo, a inteireza mais incorruptível, lânime do costume, e posse velha. Recolhido á patria nunca mais
e o mais absoluto e raro desinteresse; o seu servir foi dobrada- interrompeu a sua perigrinação civilisadora; os livros, os jornaes
mente proveitoso, pois a remuneração pecuniária, que a lei lhe da sciencia agronómica, e mais sciencias subsidiarias o traziam
dava pelas fadigas do officio, elle a convertia toda em novos be­ sempre um espirito viajante, e observador universal: é uma ver­
nefícios para o publico;para ga­ dade de que eu posso dar pleno
lardão, o testemunho da própria testemunho, aqui, onde se não
consciência lhe bastava. Cidadão, mente, pelas muitas vezes que
finalmente — a ancia da prospe­ ás suas luzes me soccorri em
ridade da sua terra, foi a sua pai­ taes matérias e sempre com o
xão mais energica ; convencido mais cabal proveito. Entendo
de que a agricultura era o unico que esse saber laboriosamente
meio de resolver, até ao ponto accumulado de pouco serviria,
possível, este problema de todo se se não pudesse aproveitar, e
o mundo, e de todos os tempos. diffundir pelo povo; para isso,
dera-se desde muitos annos, com junto com os cavalheiros da ter­
aquelle animo, e ardor, que em ra, que mais idoneos lhe parece­
tudo punha, a enthesourar scien­ ram para o intento, funda a So­
cia, e experiencia, de que ante­ ciedade, e um jornal de Agri­
via no futuro um rico património S. M .—U
iguel ma rua daV L
illa da agoa cultura ; a Sociedade o tomou
material, e moral, para o povo, por seu presidente, o jornal teve
um accrescimo de satisfações para todas as classes, novos vín­ n’elle um dos seus principaes redactores: o que numa e n’outra
culos de sociabilidade, novos incentivos ao commercio, e novo cousa produziu a sua actividade, sabemol-o todos; o muitíssimo
lustre á sua ilha. mais, que ainda poderia produzir, sabe-o aquelle, que immaturo
O seu correr paizes estrangeiros, a este nobre e santo para a terra, o achou já maduro para si: o quanto elle queria á
fim se encaminhou; não eram tanto as Capitaes, como os cam­ arte, que fertilisa o solo, e aperfeiçoa os homens, o seu ultimo mo­
pos, que o attrahiam; deixava a outros o andarem colhendo só mento o symbolisou; expira com um livro de Agricultura abra­
prazeres estereis, ou sementes de arrependimento ; o que para si çado sobre o coração ; que perda !... e em que circumstancias !
tomava com amor, o que para si procurava com diligencia, era o na plenitude da virilidade, já fora do influxo dos annos tempes­
conhecimento dos méritos agrarios, dos instrumentos, dos ani- tuosos, e ainda longe da edade que entibia as forças e o querer t

170

DRaC-CCA
na estação em que tudo se reanima! nas vesperas duma festa ainda em vida do bibliophylo illustre, põe em brilhante fóco, a lar­
rural em que os seus queridos lavradores haviam de ser premia­ gos traços, aquella individualidade que tanto se distinguiu no
dos dos seus esforços! e repentinamente!... sem o mais leve seu meio.
symptoma precursor!... O pensamento religioso se confunde Vem aqui a proposito o dizer-se que da sua collecção de livros,
deante de taes exemplos; quem sondará os segredos divinos ? a valiosa e vasta, deixou o dr. Ernesto do Canto a maior parte á
vida é um tecido de mysterios; a morte é o mysterio supremo! Bibliotheca publica de Ponta Delgada, enriquecendo-a poderosa­
mas se a vida nos revela constantemente o amor de quem nol-a mente, o que é digno de re­
deu, como poderia a morte desmentil-o ? Eu por mim, Senhores, gisto, de louvor e de imita­
que não entendo o nosso Deus se não pelo meu coração, quando ção.
vejo, no dia mais solemne de redempção christã, desapparecer Os estudiosos, graças a
inesperadamente da terra um homem que se havia votado ao elle, têm n’esse legado um
pensamento da felicidade do povo, pela Agricultura; ao desem­ excellente auxiliar.
penho das mais bellas obras da Misericórdia, concebo logo, como Segue o perfil:
quasi infalível, a idéa do prémio. Quando os últimos passos fo­ «Um orgulho da nossa ter­
ram firmes, pelo caminho da beneficencia, a sepultura, como que ra, um nome fulgente. Espirito
despede de si resplendores, e nos profetisa no ouvido do cora­ lúcido, coração d’oiro.
ção muita bemaventurança. Concluo, Senhores, lembrando a to­ Tem revolvido o pó dos
dos nós os deveres, que o nosso commum amigo nos deixou; séculos para trazer á luz a
como filho d’esta religião, que não reconhece morte, mas só se­ trama da historia, onde se de­
paração temporária, e nos ensina que do mundo visivel para o senham acontecimentos e fi­
invisivel pode haver permutação de benefícios, pede-nos orações, guras que são honra da pa­
não lh’as recusaremos; como homens, como portuguezes, como tria.
cidadãos, devemos suppor que nos deixou em legado o seu que­ No Archivo dos Açores, no
rido pensamento do bem fazer á terra patria; vivamos pois Ensaio bibliographico, na Bi­
como elle viveu e expirou; vivamos com a agricultura, isto é, bliotheca açoriana, na memó­
com a felecidade publica abraçada sobre o coração.» ria Os Corte-Reaes, no estudo Dr. Ernesto do Canto
Quem deu o nome ao Labra-
dor? em que reivindica para dois açorianos a primeira des­
coberta d'aquella parte da America — elle tem levantado um
orreu em 1900, na sua casa de campo, nos Prestes, o cida­ monumento de paciência benedictina, de entranhado amor nacio­
M dão util e trabalhador infatigável, que foi o dr. Ernesto do
Canto. O seu perfil, traçado pela penna do dr. Aristides da Motta,
nal, de erudição documentada, de critica judiciosa.
Quando o vejo, quando o leio, quando o converso, não sei que

DRaC-CCA
aflinidades encontro entre elle e o velho typo portuguez, nobre, DR. EUGENIO PACHECO
grave e bondoso.
A sua linguagem é simples e correcta, o seu pensamento lím­
pido e sereno; tão longe do paradoxo, como do logar com- dr. Eugênio Vaz Pacheco do Canto e Castro
mum. Oé, actualmente, um dos mais robustos ta-
E’ uma encarnação do bom senso. lentos michaelenses.
Talvez devido áquellas atfinidades é que elle, depois de ter ser­ A sua vida em S. Miguel foi uma brilhante
vido, dedicada e generosamente, a administração publica, depois affirmação do valor do seu espirito lucidíssimo.
de ter tacteado a politica, foi procurar no passado as realidades, Trabalhador infatigável, elle manifestou esse valor mraMn
que a memória pode evocar, deixando na podrião da morte e do em livros de sciencia, versando a preceito todas
tempo a mascara da comedia da vida. as modernas questões sociaes; e na imprensa lo­
Caracter inquebrantável, illustração vasta e segura sobre toda cal occupou, certamente, o mais distincto logar, pondo quasi sem­
a ordem de conhecimentos, o dr. Ernesto do Canto emerge, em pre a sua penna ao serviço da terra natal, com ardor brilhante e
toda a elevação da sua alta estatura, acima do nivel commum da raro patriotismo.
nossa sociedade. Redigiu em Ponta Delgada a Autonomia dos Açores, O Preto
Elle ignora-o, porém, e se lhe dirigem uma palavra de louvor, no Branco, e ultimamente O Localista, folhas que attestam bem
o seu semblante, ordinariamente egual, perturba-se, revela intima claramente os alevantados serviços que o seu redactor prestou á
contrariedade e constrangimento. terra de S. Miguel.
Semblante egual. Mas como se desanuvia, se abre e esplende, O dr. Eugênio Pacheco é um distincto philologo, um abali-
quando o dr. Ernesto se anima na conversação e deixa fluir as sado naturalista, um fino litterato.
suas idéas, as suas observações, os seus sentimentos, por cima Como escriptor, a sua linguagem é de um vernáculo purís­
das represas da sua modéstia e das reservas da sua finissima edu­ simo, a forma d’uma perfeita correcção artística.
cação! Acode-lhe a imagem impressiva, o dito agudo, o commen- Foi por muitos annos professor e reitor do lyceu de Ponta
tario anecdotico; a phisionomia, o gesto, acompanham a palavra, Delgada, onde teve sempre a consideração e a estima que lhe
accentuam a expressão. conquistavam o seu talento e o seu caracter. Hoje faz parte do
Quem o ouve, esquece-se de si. corpo docente do lyceu central de Lisboa.
Ingénuo como um sabio, sincero como um forte ; a verdade e O dr. Eugênio Pacheco é d’estas figuras que fazem o orgu­
o justo são os pólos da sua actividade. lho duma terra, onde as peias políticas, que elle nunca teve, tor­
O respeito affectuoso, a profunda estima que os seus conter­ cem consciências, pondo bons talentos ao serviço de causas nem
râneos lhe consagram, é pequeno preito para o seu mérito.» sempre boas.
A justiça e o bem local, foram sempre o seu lemma na im­
Aristides da Motta prensa michaelense, que sobremaneira honrou.

DRaC-CCA
FILOMENO BICUDO E D. ANNA LEITE DO CANTO BICUDO

s dois esposos, Filomeno Bicudo e ptivante no trato. Funccionario do Go­


O D. Anna Leite do Canto Bicudo, verno Civil de Ponta Delgada, tem sido
descendem ambos das mais nobres fa­ muitas vezes chamado ao cargo de se­
mílias de S. Miguel, sendo o primeiro o cretario particular do governador, e n’el-
t8.° filho do morgado Pedro d’Alcantara le, e no de administrador do concelho in­
Borges Bicudo, e sua esposa a filha mais terino, em que já tem servido, sempre se
velha do dr. Ernesto do Canto e de D. Mar­ desempenhou a geral contento publico.
garida Leite do Canto. O Club Michaelense tem-no tido vá­
Senhora de illustração aprimorada, rias vezes por seu presidente; e sempre
como poucas, D. Anna do Canto Bicudo são das mais luzidas, das mais anima­
distingue-se na sua roda por dotes de intelligencia e de espirito das, as festas organisadas n’esta sociedade sob a sua direcção, pois
não vulgares. que elle é. sobre tudo, um homem
A sua illustração tem sido, de sala, fadado, como nenhum ou­
além d isso, auxiliada por via­ tro, para extremos de gentileza.
gens no estrangeiro e com boas E é por qualidades tão dis-
leituras. A litteratura tem me­ tinctas, que distinctamente se sa­
recido, por vezes, a attenção da lientam e são queridos estes dois
illustre dama, cultivando-a; e se esposos, na fina roda da socie­
bem que para um meio restricto, dade michaelense, onde affirmam
apenas quasi destinadas para as e honram as[nobres tradições de
pessoas da sua convivência, já seus antepassados.
publicou algumas obras, entre as Felizmente, para honra da
quaes um romance e uma come­ terra, succede quasi sempre que
dia. os filhos dos seus maiores tim­
Filomeno Bicudo, que prima bram em manter os exemplos
em ser um gentleman na genuína legados, quando não pelo talen­
significação do termo, é um bel- to, pelo patriotismo, quando não
lissimo caracter, um homem de pelo patriotismo, pelas virtu­
sociedade, insinuante sempre, ca- P D
onta . —S
elgada B
olar da família icudo des do coração.

DRaC-CCA
A POESIA POPULAR NOS AÇORES
OS REPENTISTAS

campo vasto para interessantes investigações, a poesia popu­ ahi alguns dum mérito real, aos quaes apenas escasseou a ins-
E lar do archipelago açoriano, onde abundam verdadeiros ar­
tistas anonimos, sem cultura intellectual, mas tendo no cerebro
trucção para serem optimos artistas.
Infelizmente, têm ido desapparecendo esses cantadores de
a faisca do talento. maior vulto, sem deixar discípulos condignos! O norte ainda pos-
Alguém, que amorosamente se desse ao trabalho de ir pelas sue bons exemplares de repentistas, mas não já d’esses cujo nome
nossas terras, arrancar da bocca do povo as obras dos seus poe­ se espalhava entre o povo, por toda a ilha.
tas, apenas escripta na sua memória, não teria labutado inutil­ Em Portugal ainda não houve um segundo Camões : Os Fe-
mente : a sua carteira viria, tenho a certeza, repleta de bom oiro,
para enriquecer o cofre da historia da poesia popular portugueza,
que tem nos Açores—onde até parece que todos somos poetas! —
o seu mais precioso filão.
Pela minha parte, em ligeiras tentativas, consegui colher, para
as bandas da minha terra, o Nordeste, algumas lendas deliciosas,
rimances, e varias cantigas esparsas.
Uma das mais curiosas formas, porém, em que se manifesta o
talento poético do povo, é sem duvida a do desafio.
Vale bem a pena presenciar uma d'essas scenas, em que ao
som da viola, nas esgalhas do milho ou pelas ruas, nos balhos ou
nas festas do Espirito Santo, dois cantadores-repentistas luctam
tenazmente, a estocadas de versos!
Sim, vale! mas quando elles realmente são de valor, já con­
sagrados pelo applauso publico.
E’ precisamente para o norte de S. Miguel que mais se tem
distinguido o typo do repentista, tendo apparecido antigamente S. Miguei..—Grupo de Banhistas na praia de S. Roque

>74

DRaC-CCA
naes da Ajuda ainda não tiveram um segundo Cara Velha! Estes
poetas populares de nomiada, tornam-se uns idolos do povo,
que é capaz de fazer por elles o sacrifício da vida; e, em-
quanto um resto de mocidade os beija, são elles o ai! Jesus das
moças, que se sentem orgulhosas em merecer a côrte dum des­
ses homens, que são a admiração de tantos!
Não haja receio de que a mais guapa rapariga do arraial lance
ternos olhos a outro que não seja aquelle rapaz que um grupo de
mulheres e homens cercam boquiabertos, vencendo ao toque da
viola — o instrumento querido do nosso povo — o contendor que
se atreveu a desafia-lo para cantar.
Escripto sobre o joelho, para mostrar algumas cantigas que
de memória trago, proferidas em dois d’esses originaes torneios
poéticos do desafio, este ligeiro artigo é apenas um subsidio para S. Miguel. —Porto artificial . Parte em construcçÃo

um mais largo estudo, que eu porventura venha a fazer, sobre a


poesia popular de S. Miguel. nhava ancioso. Era n’um adro de egreja, n’um domingo em que
São quatro os cantadores de que cito agora os nomes, e que duas coroas do Espirito Santo ali se encontraram, e cada um
fizeram furor — como se diz vulgarmente — no tempo em que eu delles era folião da sua.
dava no mundo os primeiros passos. E disse o Cara Velha:
Foram com justiça os mais afamados do seu tempo, e ainda
hoje são lembrados com saudade pelo povo, e as suas cantigas Divino Espirito Santo,
citadas como as melhores que então se cantaram. Ouvide o meu requerimento
Antonio Lourenço — o Cara Velha — e o Bexiguento, cujo Eu venho-vos esperar
Mais ao vosso Bexiguento.
nome me não occorre agora, mas será facil de saber-se, eram
dois simples jornaleiros, quasi analphabetos, do logar dos Fenaes
da Ajuda ; Antonio da Costa era natural do Porto Formoso, e O Cara Velha tinha-o ferido na sua fieldade ; era preciso vi­
Luciano Franco, de todos o mais justamente temido, nascera na brar-lhe golpe egual. Dente por dente !
freguezia da Achada. E o Bexiguento d'esta forma responde :
Duma vez, o Cara Velha e o Bexiguento, alcunhas por que
Chamando-me Bexiguento
esses dois homens eram geralmente conhecidos, sahiram a ter­ Ouvi agora uma trova.
reiro de desafio. Levae essa cara velha
O Cara Velha começa, em quanto em volta o povo se api- A quem vos dê uma nova.

i75

DRaC-CCA
Cara Velha Eu cá não metto em mim
Quem governe mais do que eu.
Que me dessem uma nova
Era esse o meu desejo.
Que deliciosas satyras não são essas cantigas! E saem ah
Que fizestes ao nariz
Que já nem ventas vos vejo ? mesmo, de um jacto, rimadas e metrificadas!
O Cara Velha confessa o seu fraco; mas reparem na metá-
Bexiguento phora engenhosa de que elle seserviu, para dizer que gostava de
vinho:
Nem sequer ventas me vedes, Assim que ganho dez réis,
Senhor, bemdito sejais. Gastá-los é meu costume,
O que as minhas têm de menos Em agua pisada aos pés,
Têm essas vossas de mais. Fervida sem ir ao lume.

O Cara Velha, attenta a Não sei mais cantiga algu­


sua fama, parece que não es­ ma d’este desafio, nem qual
tava nos seus dias felizes! E, fosse o vencedor; mas, n’um
assim, confessa que não está outro que ambos tiveram, o
apto para a lucta, que tem Bexiguento, completamente
uma gòtta a mais: derrotado, d’esta forma ter­
minou a contenda, dando ao
Eu sou chamada á guerra, outro, gentilmente, as honras
Da guerra não escapulo. da victoria:
Venho vário dos sentidos,
Na conversa não regulo.
Já cantei com o Cara Velha
Quando o tempo estava accêso;
E o Bexiguento, que tam­ Ambos fómos á balança:
bém era de temer-se, agarra- Lá tem mais um contra-peso.
lhe finamente a deixa, e d’esta
forma proclama o estado do Simplesmente bella, esta
seu contendor: confissão de vencido!
D’um outro desafio, entre
Senhores, deitem sentido o celebre Luciano e o Anto-
A falia que o homem deu. S. Miguel.—Um aspecto da costa nio da Costa, que teve logar

176

DRaC-CCA
FASCICU3.O T<.° 22

AkBUM AÇORIANO

DRaC-CCA
LOMBADAS
GRÁND frix
Exposição Internacional de S. Lui< em 190í
MEDALHA DE OURO
Exposição do Palacio de Cryslal de Londres cm 491 '•

A Rainha das aguas de meza


Leve, estomacal e digestiva, pura, limpida
0 acido carbonico não é introduzido artiflcialmente

Recommendada por todos os médicos

DEPOSITO GERAL
106, AVENIDA DA LIBERDADE, 110
LISBOA
C. MAHONY & AMARAL
70, Rua _A.iig-u8ta, S.° — IjISBOA
TELEFHONE 586
llllllllllllllll.......... Illllllllllllllllllllllllllllllllllll....... IIIIIH....... .
METAES EM BRUTO: Aço, cobre, latão, estanho, chumbo em chapa, bar­
ras lingots.
João Machado da Conceição FERRO: Em barras quadradas, redondas e vergalhào. Vigamento de ferro
em TIU; cantoneiras e todos os mais aprestos para construcções. Ferro em
«í lingots para fundição. Chapas galvanisadas lisas e onduladas. Chapas de aço
para caldeiras. Tubos de ferro, cobre e latão. Arame de ferro, cobre e latão.
§ COMMISSÕES E CONSIGNAÇÕES s Folha de Flandres. Material fixo e circulante para caminhos de ferro. Rails de
«I aço e diversos perfis e pesos, vias portáteis. Machinas de vapor, gaz e petró­
leo. Caldeiras. Bombas. Machinas para industrias e agricultura. Machinas. Fer­
Promove vendas de cereaes. manteigas, queijo, etc., etc.
Fornece todos os géneros d esta capital, consumidos nos Açores, nas me­ ramentas. Vidros polidos, foscos e de phantasia. Vidraça, lages de vidro (dalles).
lhores condições, levando aos seus liegiiezes os minimos preços do mercado. Assuear, arroz, especiarias, drogas, productos chimicos. Ascensores hydraulicos,
Edoux & C."
CIM B H T O
Rua dos Correeiros, 6 —LISBOA Únicos importadores em Portugal e eolonias do CIMENTO da Compagnie
Adrcsse tylcgrapliico: ACHE—LISBOA des Cimcnts Parisiens, fabricado pelo notável engenheiro E. CANDLOT.
Fabrica de sabão — Telhai (Foço do Bispo)
niiiiiiiíiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii .-iiiiiiiiiii
Fabrica de licores, aguardente, genebra e cognacs — TELHAI (POÇO 00 BISPO)
7ip. rf ./l Editora» — Lisboa

DRaC-CCA
na Achada, lembram-me também algumas quadras, que bem dizem Tu hoje é que has de saber
do valor d'esses dois repentistas. Quanto corta a minha espada.
O Antonio da Costa, que tinha ido á Achada propositadamente
para luctar com o Luciano, rompe assim, fanfarronamente. o com­ E logo o Luciano, consciente da sua força:
bate :
Acho que vens enganado,
Vim por meu gosto á Achada Inda te digo mais esta.
P'ra cantar com o Luciano. Tu nos bens és um morgado,
Trago a thesoura afiada Mas a espada é que não presta.
Para cortar no seu panno.

E’ provada a superioridade do
Responde-lhe o Luciano, des­
Luciano sobre os seus collegas, dos
denhosamente:
quaes raros se atreviam a medir-
Vejam cá este impostor
lhe as forças. O Cara Velha tem
Que parece um calafate: um interessante episodio na sua
Vinha como cantador, vida, que merece narrado, occor-
Quer ser agora alfaiate. rido por occasiao da chegada a
S. Miguel do Senhor D. Pedro IV,
E o Costa, sempre na sua: nos maus tempos da guerra civil.
D. Pedro desembarcava. No
Sei que jogas muito bem, caes, cheio de gente, estava um
Mas has de perder o jogo;
E quando mal o pensares
homem que se approximou do
Tenho-te largado o fogo. Imperador, e em voz alta lhe
Paute do Ii.heu de Viela Franca do Campo
disse, depois de o saudar:
Luciano
Nós, uns pobres jornaleiros,
Quem o fogo me accender, Com as enchadas na mão,
Ou seja agora ou depois. Como havemos de saber
0 meu corpo ha de arder Qual dos dois Reis tem razão ?
Mas o fogo cega dois.

Costa Era o Cara Velha! Revoltava-lhe a guerra o animo pacifico.


Dizes que sabes cantar, Proferiu ainda uma quadra, alludindo ao almejado dia em que o
Mas pTa mim não vales nada: paiz repousasse em paz, mas prenderam-no. E foi dentre os bra-

N.° 23 >77

DRaC-CCA
ços dos que o levavam, que elie proferiu esta outra, que ainda Já lá vão todos, esses cantores populares. O Luciano, esse, que
D. Pedro ouviu: tinha um espirito de bohemio e de aventureiro, foi acabar seus
Esse dia desejado, dias em terras do Brasil, ébrio, cahido nas pedras d’uma
Dou o que é seu a seu dono,
Será só quando estiver
rua...
D. Maria no throno. Poetas anonimos, só conhecidos dos camponezes rudes, que
com elles lidavam, sinto, ao escrever estas linhas, uma intima
Levaram-no; mas S. Magestade, achando curioso esse typo, e alegria por ser eu o unico que se lembrou de os fazer conhecidos,
admirando-o mesmo, mandou-o chamar ao pé de si, e perguntou- ainda que depois de mortos, por aquelles que presam a poesia
lhe quem era e o que queria. popular das nossas terras, tão rica e tão ignorada 1
O Cara Velha contou-lhe a sua humilde vida, e só lhe pediu Foi esse quasi o unico intento d’esta minha investigação, que
a liberdade. algum raro amigo da alma do povo ha de collecionar amorosa­
D. Pedro mandou-o ir livre, mettendo-lhe nas mãos um rolo mente.
de moedas de prata. Raposo de Oliveira.

■78

DRaC-CCA
DR. DUARTE E D. MARIA ANNA DA.NDRADE

dr. Duarte d’Andrade Albuquerque Bettencourt, esposo de da visita ás ilhas dos monarchas
OD. Maria Anna d’Andrade Albuquerque Bettencourt, é um
distincto membro da bôa sociedade michaelense.
de Portugal.
Na política da terra tam­
A sua esposa, dama gentil em quem, para mais, concorrem bém tem seu peso o nome do
tão bellas aptidões, na arte da pintura, já o Álbum, ao referir se dr. Duarte d‘Andrade Albuquer­
á exposição michaelense, fez a devida justiça, mencionando os que ; e quando o districto de
nomes d'alguns pintores-amadores de S. Miguel. Ponta Delgada resolveu mandar
O dr. Duarte d’Andrade exerce na cidade de Ponta Delgada o ás cortes, em nome do partido
cargo de Guarda-Mór da Re­ progressista, então desdobrado
lação dos Açores, alliando ás e m progressista - autonomista,
suas apreciáveis qualidades tres deputados que fossem pu­
de magistrado honesto, as gnar pela sua descentralisação,
d’um captivante trato social. foram elles os drs. Pereira
Pertence ainda ao numero, Athayde, MonfAlverne de Se­
já raro, d esses colleciona- queira e Duarte d’Andrade, que
dores pacientes que nunca d’esta forma enfileira ao lado
perdem o amor ás coisas dos que mais concorreram para
antigas; assim, tendo na sua levar tão grande beneficio á sua
casa moveis de grande apre­ terra. Em obras de caridade, a favor dos pobres, dos orphãos e dos
ço, pela belleza e pela anti­ velhos, em que sempre foi tão fértil o espirito michaelense, tem
guidade, possue a mais com­ o dr. Duarte collaborado largamente e amoravelmente, tomando
pleta collecção de medalhas a sua iniciativa, fazendo parte das direcçoes e administrações des­
antigas que existe nos Aço­ ses estabelecimentos, que o contam no numero dos que bem se
res, e que tão apreciada foi, interessam pelos alheios infortúnios.
quando appareceu na ultima Com taes predicados, não admira que tão insinuantemente se
exposição de Ponta Delga­ imponha a sua individualidade, ao respeito e á consideração dos
da, em 1901, por occasião seus concidadãos.

>79

DRaC-CCA
FELIX BORGES DE MEDEIROS
o interessante trabalho que no seu jornal A Persuasão, sob a ordem. Um bello ideal de auctoridade, que ninguém seguia,
D o titulo de Escavações, tem vindo ha annos publicando o de­
cano dos jornalistas açorianos, Francisco Maria Supico, traslada­
nem seguiu. Foi toda administrativa a sua missão de governar,
e n’este ponto os vinte e tres Relatórios (Bibliotheca Açoriana i.°
mos as seguintes notas biographicas do dr. Felix Borges de Me­ e 2.0 vol.) que dirigiu ao Governo e apresentou á Junta Geral
deiros — um frisante exemplo de honradez e de em muitas de suas sessões, que existem publica­
amor pátrio: dos, são o mais elogioso pregão de suas altas fa­
culdades e zeloso interesse pelos progressos dis-
Felix Borges de Medeiros formou-se em di­ trictaes. Os 17 annos do governo do dr. Felix
reito em Coimbra, em 1841. Borges, constituem o periodo em que aqui mais
Fixou residência no Porto onde foi advogado avançou a marcha civilisadora.
de boa reputação. Casou n’aquella cidade com Fundou-se o lyceu.
D. Anna Emilia de Castro Silva, da casa dos vis­ Creou-se a repartição d’obras publicas, que
condes de Santo Antonio do Valle da Piedade logo começou a tratar da viação e portos de
(Castro Silva). Santa Iria e Capellas.
Em i851 por occasião do movimento político Estabeleceu-se a navegação a vapor entre Lis­
que se ficou denominando Regenerador, de que boa e Açores.
o marechal Saldanha recebeu no Porto as honras Extinguiram-se os dizimos.
triumphaes, foi o dr. Felix Borges de Medeiros Aboliram-se os morgados.
nomeado governador civil do districto de Ponta Obteve-se a livre cultura e fabricação do ta­
Delgada, tomando posse em 25 de julho. Não ti­ baco, pensamento de ha 40 annos iniciado pelo-
nha tido antes, nem teve depois, outra posição burocrática. desembargador Vicente José Ferreira Cardoso.
Durante 17 annos exerceu o elevado cargo entre os seus con­ Inauguraram-se em setembro de 1861 os trabalhos do Porto
terrâneos, e com tal acerto, que poude desmentir o proloquio — Artificial, secular aspiração dos michaelenses.
«ninguém é propheta na sua terra.» Multiplicaram-se escolas primarias, officiaes e municipaes.
Deveu isto, em boa parte, a não se intrometter em luctas po­ Começou a construcção do edificio balnear nas Furnas.
líticas. Deixava livremente debaterem-se os partidos em volta das E por fim acabou a immensa vergonha de haver masmorras
urnas, limitando-se a fiscalisar a observância das leis e a manter nos baixos do Paço municipal de Ponta Delgada.

180

DRaC-CCA
VILLA FRANCA DO CAMPO
NOTICIA SOBRE A VILLA

illa Franca do Campo


V (assim chamada por ser
edificada n’um vasto campo,
pouco elevado do nivel do
mar, e também por ter, desde
o seu começo, pago sempre os
seus direitos e impostos com
franqueza e liberalidade) tem
constantemente avançado em
progressos, como poucas ter­
ras congeneres poderão or­
gulhar-se.
Foi n'ella que se formou
a primeira capital de S. Mi­
guel, residindo alli quanto de
illustre a ilha possuia, na sua
nobreza, nos seus elementos
militares e civis. Villa Franca
foi uma das maiores victimas
das grandes erupções vulcâ­
nicas que no começo da sua
colonisação assolaram a ilha
de S. Miguel. Em 1622 um
Vista geral oe Villa Franca. — (Cliché do sr. João Urbano S. Monitf violentíssimo abalo de terra,

i8r

DRaC-CCA
tazendo correr sobre a villa um monte visinho, deixou completa­ uz Soriano, o historiador portuguez, no seu livro Revelações da
mente arrasados os seus edifícios e mortos muitos dos seus habi­ L minha vida, diz fallando do iiheu de Villa Franca:—E’ um
tantes. montículo vulcânico, que no seu centro apresenta uma cavidade,
Hoje é uma fermosa terra, com boas ruas, largos, jardins, um ou antes cratera, actualmente meia d’agua do mar, que lhe entra
commercio importante, illuminação electrica, e faz exportação de por uma pequena abertura, situada do lado do norte, tendo uma
ananazes em grande escala, para a Inglaterra e Allemanha, para altura de 10 a 11 palmos d’agua na baixa-mar, e largura bastante
o que vão especialmente vapores carregá-los ao porto natural da para permittir a entrada duma pequena embarcação. Por este
villa, tão bella que surprehende os touristes, tão florescente que faz modo se constitue a dita cavidade numa verdadeira bacia sensi­
honra aos villa-franquenses. velmente circular, com noventa braças de diâmetro, offerecendo
Villa Franca do Campo compõe-se de duas freguezias; é ca­ no seu centro uma profundidade de dez a vinte e cinco palmos
beça de comarca e sede do concelho do mesmo nome. A sua d’agua. As bordas d’esta bacia assentam sobre lava porosa; mas
população anda por nove mil habitantes. a parte superior ao nivel das aguas é formada por areias e terras
O acceio das suas ruas e o aspecto dos seus edifícios, dão a vulcânicas aglotinadas, constituindo bancos de tufo e lava. Vistas
Villa Franca uns ares pomposos de cidade. as dietas bordadas pela parte exterior são altas barreiras do mesmo
A cultura do ananaz, tufo, cortadas a prumo, e
esse fructo tão apreciado parecendo ameaçar ruina,
em mesas estrangeiras, faz- esburacadas e carcomidas
se ali largamente; o vis­ como se acham em toda a
conde da Palmeira é o extensão da sua altura, pelo
maior proprietário de estu­ violento embate das ondas
fas em toda a ilha. na occasião dos temporaes.
A popularíssima festa Desembarcando no interior
do Senhor da Pedra, que d’esta bacia, subi até á ex­
annualmente se realiza em tremidade dos suas bordas,
Villa Franca com grande onde me debrucei, esten­
pompa, concorrem foras­ dido no chão, para lançar
teiros de todas as fregue­ os olhos sobre as barrei­
zias, mesmo das mais dis­ ras, que caem sobre o mar.
tantes, pois que é este, de­ Um medonho aspecto me
pois do Santo Christo, o apresentou este quadro, já
de maior veneração para pelas grandes fendas ou ra­
o povo michaelense B
acia doI lhéu de VillaF ranca chas que na largura d uma
182

DRaC-CCA
pollegada e mais atravessam de lado a lado as paredes da sobre-
dicta bacia, e já pelo considerável estado de carcomido e ruina
com que se apresentam pela parte externa, assimilhando-se a um
funil irregular, de bordas muito sahidas para fóra na parte supe­
rior, e estreitas em baixo ao nivel das aguas do mar.

O ILHEU DE VIELA FRANCA

pouca distancia de Villa Franca do Campo emerge graciosa­


Amente do Atlântico um llhéo, velha sentinella debruçada
sobre as aguas, que ora o beijam com meiguice, ora, encrespadas
pelo genio da tempestade, o açoitam furiosamente.
Testemunha de alguns acontecimentos consideráveis, aquelle
llhéo altivo viu insensível, nos primeiros dias da colonisação aço-
reana, o espectaculo tão horrível, como grandioso, de dois montes,
abalados nos seus alicerces e impedidos pela loucura da destrui­
ção, correrem com impeto desesperado e subverterem a mais an­
Um aspecto no Ilhéu. — /Cliché do sr. João Urbano)
tiga das villas açoreanas, então a capital de S. Miguel, Villa
Franca do Campo. Esphinge, que mergulha o corpo na profun­
deza do oceano para só deixar vêr a cabeça monstruosa, elle tem membros mutilados dos heroes que acompanharam o infeliz mo-
sido, por mais duma vez, origem de varias superstições, algumas narcha naquella expedição, já a alma popular portugueza tecia a
das quaes a aza do tempo não ponde ainda destruir por completo. lenda que pouco depois se chamou O Sebastianismo.
De todas, porém, a que encerra mais poesia e tem ao mesmo Partidário d'essa aberração, que devia durar séculos, nasceu
tempo alta significação histórica, é a que se prende com um facto então o Sebastianista, typo original, aferrado á sua crença, para
importante da vida nacional. quem a existência de D. Sebastião, que havia de vir novamente
* empunhar o sceptro, era verdade incontroversa.
Segregados da Mãe Patria por léguas e léguas de distancia,
Depois do desapparecimento mysterioso de D. Sebastião na ouvindo o gemido da vaga e o ciciar da brisa fagueira, os açorea-
desastrosa batalha de Alcacer-Kibir, quando ainda fumegavam os nos que, graças ao seu mesmo isolamento, têm conservado sem-

183

DRaC-CCA
pre immaculado o genio portuguez, nas suas aspirações mais no­
bres, acceitaram convictamente a crença de seus irmãos conti-
nentaes.
Porém em Villa Franca do Campo o Sebastianismo teve um
cunho especial, accentuadamente local.
O Sebastianista Villa-franquense povoou o Ilhéo, que lhe fi­
cava fronteiro, de vários personagens — D. Sebastião e os seus
companheiros.
Prendia-os alli, áquelle rochedo, um encantamento, até que o
destino o quebrasse mais tarde.
Em dias nevoentos, quando a bruma amortalhava o Ilhéo, o
Sebastianista contemplava de terra, de Villa Franca, estático e es­
perançoso, umas ondulações de roupa branca, que se approximava
da beira do velho penedo e que de lá lhe acenava! Seria elle. o
Rei Desejado?
De certo que o era para o seu coração de crente, pois que
n’esses dias, por um condão singular, o encantado tornava-se vi
sivel, durante algum tempo.
E como não havia de ser, se na brisa que soprava branda­
mente, julgava ouvir nesses momentos, para elle felizes, uma voz
que lhe dizia: coragem e fé?!

Hoje o Sabastianismo é um mytho. Tres séculos de desen­


gano foram mais que sufficientes para desfazer a nebulosa exis­
tência de D. Sebastião e a nimia credulidade dos que o espera­
vam.
Mas elle, o Ilhéo, lá continúa, firme e inabalavel, a desafiar o
orgulho das vagas...
Manuel Ernesto Ferreira. Extremo avançado do Ii.heu. — (Cliché do sr. João Urbano)

184

DRaC-CCA
l ASCICI J.O TV." “

álbum Açoriano

DRaC-CCA
LOMBADAS
GRAND FRJX
Exposição Internacional do S. Lnú em 1904
MEDALHA DE OURO
Exposição do Palacio de Ciyslal de Londres em 111(4

ft Rainha das aguas de meza


Leve, estomacal e digestiva, pura, límpida
0 acido carbonico não é introduzido artiflcialmente

Recommendada por todos os médicos

DEPOSITO GERAL
106, AVENIDA DA LIBERDADE, 110
Z.ISBOA
C. MAHONY & AMARAL
70, XSiiíi Augusta, 25." —
TELEPHONE 586
illlllllllillilllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllltllltl
METAES EM BRUTO: Aço, cobre, latào, estanho, chumbo em chapa, bar­
ras lingots.
João Machado da Conceição FERRO: Em barras quadradas, redondas e vergalhão. Vigamcnto de ferro
em T I U; cantoneiras e todos os inais aprestos para construcçòes. Ferro em
lingots para fundição. Chapas galvauisadas lisas e onduladas. Chapas de aço
para caldeiras. Tubos de ferro, cobre e latão. Arame de ferro, cobre e latão.
9 COMMISSÕES E CONSIGNAÇÕES § Folha de Flandres. Material fixo e circulante para caminhos de ferro. Rails de
aço e diversos perfis e pesos, vias portáteis. Machinas de vapor, gaz e petró­
leo. Caldeiras. Boinbas. Machinas para industrias e agricultura. Machinas. Fer­
Promove vendas de cereaes. manteigas, queijo, etc., etc. ramentas. Vidros polidos, foscos c de phantasia. Vidraça, lages de vidro (dalles).
Fornece todos os gcneros d esta capital, consumidos nos Açores, nas me­
lhores condições, levando aos seus freguezcs os minimos preços do mercado. Assuear, arroz, especiarias, drogas, productos chimicos. Ascensores hydraulicos,
Edoux & C.a
CIMENTO
Rua dos Correeiros, 6 —LISBOA
«í Adresse telegraphico:
Únicos importadores em Portugal e colonias do CIMENTO da. Compagnie
des Ciments Parisiens, fabricado pelo notável engenheiro E. CANDLOT.
ACHE —LISBOA 5
iiiiiiiiii iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiniiiiitiiiiiiiiF
> Fabrica de sabão — Telbal (Poço do Bispo)
Fabrica da licores, aguardente, genebra a cognacs — TELHAI (POÇO 00 BISPO)
7rp. — Lisboa

DRaC-CCA
BENTO DE GOES
ento de Goes, esse memorável vulto historico, nascêra em Villa um homem competente para tal, seguro de animo para affrontar
Franca do Campo, no anno de 1562. os perigos, forte de intelligencia para com proveito os vencer. O
A sua vida, um alto exemplo de abnegação e de amor pátrio, homem escolhido, foi Bento de Goes.
que fructificou largamente em proveito, não só de Portugal, mas E Bento de Goes partiu, levando por companheiros, nessa via­
de todo o mundo civilisado, pelos novos horisontes
que abriu á religião, ao commercio e á civilisação,
tem luminoso registo nos livros da historia portugueza
e estrangeira.
De S. Miguel emigrou com sentido de se ir pôr ao
serviço das armas portuguezas na índia. Aos 26 annos
de edade foi admittido para coadjuctor temporal do
collegio de Goa, dirigido por missionários: e tão grande
dedicação e tamanho zelo mostrou pela missão portu­
gueza, que n ella se tornou bastante considerado pe­
las innumeras sympathias que lhe captou.
Por esse motivo, foi Bento de Goes o indicado para
acompanhar a Lahore dois missionários, que a pedido
do Gran-Mogol Alkar n essa terra foram estabelecer
missão.
E este humilde apostolo conseguiu, pela sua pala­
vra inspirada e pelas suas provadas virtudes, relevan-
tissimos serviços em favor de Portugal e dos portu-
guezes.
A esse tempo, o geral das missões na Índia, Ni-
colau Pimenta, pretendia levar a effeito a descoberta
do caminho terrestre para Cataio, paiz de que então
se fallava vagamente, como d’uma lenda. Faltava-lhe Vii.i.a Franca. — Largo Bento i>e Goes. — (Cliché do sr. João Urbano.i

N. 24 iS5

DRaC-CCA
gem desconhecida, dois gregos e um arménio: Os primeiros, em
face de tantas difficuldades, de luctas e de trabalhos, abandona­
ram-no; só o armenio corajosamente o seguiu até ao termo da
jornada gloriosa, que durou tres annos!
Mas pôde, por fim, vêr Bento de Goes esse paiz mysterioso,
que era a China, traçar no seu diário o caminho para lá chegar,
dando assim margem a que acção civilisadora dos missionários o
pozesse em communicação com o resto do mundo.
Bento de Goes não logrou regressar, infelizmente, d essa via­
gem que foi um triumpho: As fadigas e as doenças do clima pros­
traram-no enfermo em Sou-tcheau, onde morreu a 11 de abril
de 1607.
Por um accaso da boa sorte, porém, é que não chegou a ser

Estrada de Viela Franca para as Furnas

infructifera a tarefa ardua de Bento de Goes, pois que o precioso


diário, que fizera com tanto amor, lhe foi roubado por uns maho-
metanos.
Quiz a fortuna, pois, que mais tarde elle fosse parar, se bem
que já incompleto, ás mãos do missionário italiano, Matheus Rici,
que o reconstruiu pacientemente e amorosamente, certo de que
essas folhas de papel estavam destinadas a immortalisar na his­
toria, pelo muito que significavam, o nome do homem que as.
escrevera.
Ficou assim aberto ao mundo o caminho terrestre d'esse rico
paiz, á custa da vida d um homem de que Portugal se orgulha e
que S. Miguel viu nascer.
O Caes de Villa Franca. — tClichè do sr. João Urbano. Raposo de Oliveira.

186

DRaC-CCA
VISCONDE DA PALMEIRA

verdade sobredoura o louvor. Dizel-a não é li­


A sonja.
Na historia da vida do illustre titular; no seu pas­
sado e no seu presente, no que foi e no que é, con­
substancia-se lucidamente o seu mais completo elogio
sem carência de franjas ornamentaes.
Conjugados aquelles dois extremos, é perfeita­
mente dispensável toda a verbosidade para os seus
merecimentos, como ás scintillaçoes do sol brilhante
são dispensáveis os fócos illuminantes da electrici-
dade. Na pleiade dos filhos da Villa do Nordeste, que
lhe são honra pelas
posições sociaes a
que souberam grim­
par-se, destaca-se
luminosamente o no­
me do Visconde da
O Ilhéu. —Outro aspecto. — /Cliché do sr. João Urbano.)
Palmeira.
Ainda em verdes annos, e após para cila sorrisse. N’este proposito veio parar a Vilia Franca sem
os seus primeiros exercícios es­ outras recommendações mais do que a sua firme resolução e von­
colares, abrira-se grande lucta tade inquebrantável.
entre a sua intelligcncia e o seu Em casa commercial encontrou guarida; e com tino bastante,
coração. de prompto se mostrou amestrado no serviço do balcão.
Sobre o amor da familia, em Como a aguia implume viveu n’este ninho; mas apenas sentiu
que o coração se incendiava, trium- coragem para desferir o seu voo, a clle se arremessou, e no dia 2
phou a intelligcncia, impondo-lhe de fevereiro de 1862 abria estabelecimento proprio, ao abrigo de
a necessidade de luctar pela vida, bem merecida protecção.
onde o trabalho honrado e honesto Sob os auspícios de tão feliz estrella o fez, que os seus nego-

187

DRaC-CCA
cios começaram logo de correr em maré de rosas, e tão propicia-
mente que a breve trecho a honra do seu nome ficou sendo o seu
fiador.
Feito de só no seu movimento commercial, e fugindo d elle
todos os revezes que podiam desconcertar os seus planos ganan
ciosos, abriu-se-lhe nova lucta, e o seu coração, acolá vencido,
aqui sahiu victorioso.
Impulsionado pelo amor aos seus, chama para junto de si
suas manas mais novas, promovendo-lhes esmerada educação.
A seus paes e mais parentes reparte-lhes já do seu pão.
E foi talvez por isso que a boa estrella lhe foi sorrindo cada
vez mais, dispondo hoje de considerável opulência, fructo exclu­
sivo de sua intclligcncia, dos seus labores e da sua actividade,

Villa Franca. —Paços do Concelho e Jardim Publico

exercida sempre com toda a honradez e lisura, no que vae o


máximo dos seus merecimentos.
O seu norte foi sempre a economia sem mesquinhez e sem
usura: a liberalidade sem vaidade e sem prodigalidade.
Constantemente equilibrando-se bem aprumado no convívio so­
cial, são-lhe prestes aproveitadas as suas aptidões a bem do ser­
viço publico.
No Senado Municipal e na Meza Administrativa da Misericór­
dia, toma assento ao lado dos principaes cavalheiros, chegando
mesmo a occupar a cadeira presidencial.
Por honrosas instancias tem occupado o logar de Administra­
dor d’este concelho, tendo por muitos annos exercido a vara de
Villa Franca. Hospital k Egreja da Misericórdia primeiro juiz de direito substituto.

188

DRaC-CCA
Na primeira e em campo d’ouro uma palmeira verde.
Na segunda e em campo vermelho um caduceu d’ouro e prata.
Sobre o escudo a corôa de visconde.
Por timbre um açor; e por supportes dois griphos de
ouro.
E nem estas tão honrosas distincções, nem o titulo que o no­
bilita, nem as veneras que lhe exornam o peito, nem as suas opu­
lências, puderam uma só vez envaidecei-o.
Sempre o mesmo popular, sempre o mesmo coração d’ouro,
sempre a mesma alma rasgadamente franca, sempre o mesmo
.Manuel Jacintho Lopes, para todos affavel, accessivel, gentilmente
prestadio e obsequiador.

Vlf.i.A FrANCA. — lÍGUHJA MaTRIZ

Em todas as funcções publicas foi sempre notável o seu cri­


tério e optimo desempenho, gosando justamente da maior estima
e sympathia.
Neste concelho é actualmente chefe do partido regenerador;
mas chefe pacifico, presando os seus correligionários políticos e
respeitando os adversários.
Dentro e fóra do nosso paiz é grandemente considerado o seu
nome e firma commercial; como não menos a sua individuali­
dade ha merecido desde muito o apreço dos nossos governos.
Em 1889 é agraciado com a commenda da Ordem Militar de
Nosso Senhor Jesus Christo.
Em 1893 é-lhe conferido o titulo de visconde da Palmeira com
a dignidade de Fidalgo Cavalleiro da Casa Real e Brasão dur­
mas: sendo estas um escudo partido cm palia. Vii.i.a Franca. —O A1 erro. (Cliché do sr. .lodo Urbano.

DRaC-CCA
Por tão justos tituios o sr. visconde da Palmeira é altamente
considerado por todos os habitantes de Villa Franca, que se honra
em ser sua patria adoptiva.
Pela nossa parte apertamos a mão do nosso respeitável ami­
go, esperando que a sua modéstia nos relevará o que deixa­
mos dito.
E’ porém a verdade, que não consente ser empanada nos
seus brilhos.
Melhor e mais artisticamente o tem dito em prosa e verso
pennas illustradas e mais competentes, a que simplesmente nos
quizemos associar.
Padre Manoel José Pires.

O ll.HEU K VIST* PARCIAL DE V1LLA FrANCA

Temos por certo que o seu maior brazão é ser grande e rico
pelo seu trabalho.
Já de muitos annos viuvo, mas sem descendentes na linha re-
cta, muitos o reputam por celibatário todo cheio de dedicações
pelas felicidades dos seus consanguíneos.
Na chronica do bem o seu nome inscreve-se com largo regis­
to; e não lhe fazemos o menor favor considerando-o como um
benemerito da religião e da patria.
As festas religiosas, algumas egrejas pobres, como os
alumnos do nosso Seminário Diocezano, bem o podem attes-
tar.
Os melhoramentos públicos também o podem dizer; como da
sua caridade e altruísmo podem fallar as calamidades geracs ou
individuaes, os indigentes, e quantos se soccorrem do seu vali­
mento. Uma rua de Villa Franca. — (Cliché do sr. João Urbano.

IQO

DRaC-CCA
DR. ANTONIO DA SILVA CABRAL Villa Franca do Campo é hoje uma povoação florescentissima.
Nenhuma outra terra açoriana progrediu tanto na ultima década.
Ella parece a phenix em cuja existência criam os antigos. Tocada
uem, um dia, tentar es­ pelo impulso, que lhe imprimiu a dextra do gigante, despertou
Q crever a chronica das
evoluções porque tem pas­
do lethargo em que jazia adormecida, renascendo para a luz e para
o progresso.
sado o archipelago açoriano, Deixando a gerencia do município, o dr. Cabral continua com
e quizer definir com critério egual sollicitude a interessar-se peio desenvolvimento de Villa
a acção dos homens que Franca, de cuja vida é a alma.
mais contribuíram para o E assim elle passa os dias fazendo o bem.
seu engrandecimento, ha-dc Como medico, minora afflicções, suavisa dores, mergulha o
necessariamente consagrar bisturi nos tecidos do enfermo para o salvar, diminue o nefasto
um capitulo á memória do poder da morte e restitue a alegria ao lar e á familia.
dr. Antonio da Silva Cabral,
porque bem poucos fazem o
que elle tem feito em meio
tão exiguo.
Impellido pelos elaste-
rios de uma intelligencia es­
clarecida e de uma vontade
tenaz, o dr. Cabral, quando
presidente do município vil-
la-franquense, deu o raro exemplo de uma actividade indefessa e de
uma dedicação até ao sacrifício. A sua alma, ehrigecida no traba­
lho, temperada no amor do bem e esmaltada pelo dever, jamais
sentiu o desalento ou a fadiga deante das difficuldades que por ve­
zes se oppunham aos seus designios.
O estabelecimento da luz electrica nos Açores era para muitos
uma utopia. Esta idéa, porém, fascinava-o. Emquanto não a viu
convertida em realidade, não deu tréguas ao espirito. E já duas
importantes villas michaelenses admiram e possuem o mais bello
invento que brotou do cerebro humano no século xix. Villa 1'ranca. Avenida Antonio i>a Silva Caiihal

1 9I

DRaC-CCA
Como cidadão, offerece os fructos opímos do seu labor á for­
mosa terra de Villa Franca do Campo.
Por isso tem a suprema consolação de gozar da sympathia dos
amigos e da admiração dos homens de verdade; e depois a pos­
teridade, no juizo imparcial da historia, ha-de perpetuar-lhe o nome
cercado da aureola da gratidão publica.
Ernesto Ferreira.

EXCERPTO DA «HISTORIA INSULANA»

obre o lugar onde a Villa estivera, durou a cava hum anno, e a


S ella levavão cães de caça, e fila, sem terem comido, para apon­
tarem aonde lhes desse o faro de alguma carne humana, para aili
cavarem os homens, e christãmente enterrarem os mortos: e feito
assim, acharão muitos mortos, quando já sahião pelas portas, e
muitos mais nas VlLI.A Fhanca.—U.M trecho do jardim publico
suas camas, e a ou­
tros indo já para a ro os matou assim a elles, conservando lhes a postura a inunda­
sua Matriz de S. Mi­ ção da terra que os cercou E foi muita a gente que se achou
guel o Anjo, e nesta em vãos ainda livres de suas casas, mas mortos de pasmo, e
a muitos outros, e á fome, e alguns ainda expirando. Os mortos se enterravão
homens houve a piamente no destricto onde de antes estivera a Matriz da Villa,
quem acharão em o e seus adros, e como a Villa Franca tinha vindo então muita
meio da portada da gente de fora com navios, e muita da mesma Ilha, e ainda na
sua casa, e postos j á mesma noite, a negociar, finalmente se achou que a gente que fal­
a cavallocom huma tava, passava de cinco mil pessoas, maiores, e menores, e muitas
lança na mão, e es­ mais serião. se muitas não tivessem sahido ás colheitas de suas
poras em os pés, quintas, e a negocios de outros lugares da Ilha; e também serião
sem poder matar a menos os que perigassem, se o tremor e diluvio acontecesse de
morte, que prirnei- dia, e não pouco depois da meia noite.

I<)2

DRaC-CCA
fascículo k.°

DRaC-CCA
LOMBADAS FRJX
Exposição Internacional de S. Luit em 1904
MEDALHA DE OURO
Exposição do Palacio de Ciyslal de Londres cm 491 4

ft Xainha das aguas de meza


Leve, estomacal e digestiva, pura, limpida
0 acido carbonico não é introduzido artifleialmente

Recommendada por todos os médicos

DEPOSITO GERAL
106, AVENIDA DA LIBERDADE, 1Í0
LISBOA
C. MAHONY & AMARAL
70, Rna ^Viig-usta, 3.”—IjISBOA
TELEFHONE 586
IIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIU (g
METAES EM BRUTO: Aço, cobre, latào, estanho, chumbo em chapa, bar­
ras lingots.
João Machado da Conceição FERRO: Em barras quadradas, redondas e vergalhào. Vigamento de ferro
em T I U j cantoneiras e todos os mais aprestos para construcçòes. Ferro em
lingots para fundição. Chapas galvanisadas lisas e onduladas. Chapas de aço
para caldeiras. Tubos de ferro, cobre e latão. Arame de ferro, cobre e latão.
§
COMMISSÔES E CONSIGNAÇÕES $ Folha de Flandres. Material fixo e circulante para caminhos de ferro. Rails de
aço e diversos perfis e pesos, vias portáteis. Machinas de vapor, gaz e petró­
leo. Caldeiras. Botnbas. Machinas para industrias e agricultura. Machinas. Fer­
Promove vendas de cereaes. manteigas, queijo, etc., etc. ramentas. Vidros polidos, foscos e de phantasia. Vidraça, lages de vidro (dalles).
Fornece todos os generos d'esta capital, consumidos nos Açores, nas me­
lhores condições, levando aos seus fregnezes os minimos preços do mercado. Assucar, arroz, especiarias, drogas, productos chimicos. Ascensores hydraulicos,
Edoux & C.”
Cl M E H T O
Rua dos Correeiros, 6 —LISBOA Únicos importadores em Portugal e colonias do CIMENTO da Compagnie
Adresse telegrapbico ACHE — LISBOA 5 des Ciments Parisiens, fabricado pelo notável engenheiro E. CANDLOT.
Fabrica de sabão •—Telbal (Poço do Bispo)
lllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllr
Fabrica da licores, aguardente, genebra e cognacs — TELHAI (POÇO DO BISPO)'
Typ. — Lisboa

DRaC-CCA
O que também sua achada Imagem, nunca (por mais que remavão) poderam sahir
de riquezas se per- com a Imagem da freguezia de Guarachico; e dando conta de
deo, foi muito, de que tudo ao Parocho, e ao povo, lhes entregarão a Imagem, que com
algumas se acharão solemne procissão foi posta no altar-mór da freguezia, e egreja
ainda á borda do de Santa Anna; e succedendo depois ir lá gente da dita Villa
mar. e muitas na Franca, por sinaes certos que tinhão, conhecerão a Imagem, pu­
fatal cava, mas por blicarão mais o caso, e augmentou-se muito a devoção d’esta
mais que se elegeo Senhora.
depositário do di­ E porque a primeira cousa que se fez, logo em entrando o dia
nheiro que se acha­ depois da tremenda noite do terremoto, e diluvio, foi ir á nova Er­
va, ainda muitos que mida da Virgem Senhora do Rosário, (como já dissemos) e todos
de antes eram po­ fizerão então voto á Senhora, de em todas as quartas-feiras de
bres, sahirão d’aqui noite, ou de madrugada, irem áquella Senhora em procissão, e
ricos, outros com acção de graças: o que prudentemente se commutou em irem huma
muitas propriedades vez todos os annos com procissão solemne, e Missa. O que tudo
que herdarão, mas sabendo El-Rei de Portugal, concedeo logo tantos privilégios, fa­
dos mais foi a pcrda vores, e exempções aos moradores que ficarão da dita Villa
Villa Franca.— Largo das Freiras mui geral, e muito Franca, e a tornassem a reedificar sem se irem a outras terras, e
grande. Porém a ainda aos que de novo fossem viver n’ella, que dentro de poucos
maior que faltou na Villa, foi huma Imagem da Virgem Senhora annos, e no lugar do arrabalde que escapou, da outra banda da
nossa, de vulto, que parecia de cinco annos, indo sobre o diluvio ribeira para o Poente, se levantou a mesma, e tanto outra Villa
da terra ao mar, e passado quasi hum anno, appareceo em huma Franca, que a excedeo, e excede nos edifícios, commercio, povo,
praia de arêa branca, da Ilha de Tenerife, (huma das Canariasj riqueza e nobreza, que concorreo para ella, com que esta segunda
da parte do sul, e achando-a huns pescadores, que do norte da Villa Franca vence muito á primeira, e logra privilégios, e fóros
dita Ilha tinhão vindo alli pescar, e levando-a comsigo para o seu muito maiores, e maior religião ainda, e piedade.
Norte a Guarachico, onde hião vender o peixe, e d’ahi querendo
ir a Orotiva, freguezia dos ditos pescadores, e n ella collocar a (Século xvn) Padre Cordeiro.

N? 25

DRaC-CCA
DR. PEREIRA ATHAYDE PADRE CHRISTIANO

nicamente pelo seu ta­ m orador sagrado dis-


U lento e pelo seu traba­ U tincto, um espirito cul­
lho, o conselheiro Francisco tivado de sciencia moderna,
Pereira Lopes de Bettencourt um jornalista conspícuo.
Athayde tem ascendido, em Em terras da Ribeira
S. Miguel, aos mais altos car­ Grande nascido, Christiano
gos públicos que n’aquella de Jesus Borges, essa figura
terra a um homem podem de alto valor intellectual,
ser confiados. E porque o sympathica e insinuante,
seu caracter independente que, sem exemplo, tanto no­
nunca lhe consentiu o entrar bilitou a imprensa michae-
na política mesquinha do lense e alentou quantos n’ella
facciosismo, a sua carreira militavam com sincero em­
publica, que ainda hoje con­ penho de bem servir os in­
tinua, tem sido modelar e teresses públicos, quando
sobejamente proveitosa em director do interessante se-
serviços prestados á sua manario O Norte, é actual-
terra. Basta citar esse que mente conego da Sé d’An­
a S. Miguel levou as vantajosas regalias de districto auto- gra do Heroísmo. Os seus discursos são sempre um primor de
nomo. forma e idéa. A sua palavra cheia de fogo e vida tem o poder da
Foi um dos tres deputados que o partido autonomista enviou suggestão: domina os auditórios, fascinando-os; fascina-os, deslum­
ás cortes, onde, com o seu verbo eloquente e patriótico, se houve brando-os. E tal é a justa reputação do seu nome, que ainda ha
por modo tão brilhante, que a concessão da autonomia do dis­ pouco, o padre Christiano, quando em viagem de recreio pela
tricto de Ponta Delgada em grande parte lhe é devida. Tem sido grande Republica Norte-Americana, foi alvo d’uma manifestação de
na sua terra Governador Civil e administrador do concelho, in­ alto apreço e estima por parte da colonia portugueza residente
terino; secretario, vogal e depois presidente da Junta Geral; pre­ em New Belford, numa sessão litteraria que lhe era dedicada
sidente da Camara Municipal; provedor da Santa Casa da Mise­ Por todos esses titulos, pois, e ainda mais pela excellencia do seu
ricórdia, e presidente da Sociedade dos Aniigqs das Lettras e caracter, o conego Christiano Borges distingue-se flagrantemente,
Artes, que Castilho fundara em S. Miguel. brilhantemente se destaca dentre o clero açoriano.

'94

DRaC-CCA
DR. MONTALVERNE DE SEQUEIRA MOYSÉS BENSAUDE

entre a galeria vasta dos aço­ rtista lyrico de subido valor.

medica, é certamente, figura de


A Nasceuonde,nacomo
D rianos illustres na sciencia Delgada, cidade de Ponta
amador dra­
destaque, o dr. Gil MonfAlverne mático, se salientava entre um
de Sequeira. grupo de amadores da boa so­
Na escola medica de Lisboa, ciedade, que por muito tempo, no
onde se formou, foi o dr. Mont'- theatro michaelense e por palcos
Alverne de Sequeira o primeiro particulares, representavam com
classificado no seu curso. Espi­ amor, alguns mesmo com muita
rito claro, intelligencia lúcida, arte.
não é sómente a medicina que D’estes últimos era Moysés
o torna um homem de valor Bensaude. que, conscio da sua
incontestado: No livro, no jor­ vocação scenica, mal descoberto
nal, na tribuna, o dr. MonfAI- ainda o segredo da sua vóz, par­
verne tem demonstrado por forma tiu para Lisboa, estreiando-se no
superior que é um publicista sa­ theatro da Trindade. Passou de­
bedor, um polemista energico, um orador empolgante. O seu pois para o D. Maria, representando sempre com agrado publico.
verbo é sempre quente, cheio de fogo, á maneira do seu tempera­ Moysés Bensaude, porém, sentindo-se com envergadura para
mento ardente, duma actividade exuberante. diverso genero de arte, resolveu passar ao theatro lyrico, estreian­
Tem publicado vários folhetos, subordinados ao titulo— Ques­ do-se em 1891, na Italia, após algum tempo de escola de canto, no
tões Açorianas, onde o seu amor e o seu interesse pelo progresso Escumilha da Carrnen. Tal se tornou, a breve trecho, a sua repu­
da terra adoptiva, transparece sempre claramente. tação de cantor, que foi escripturado em seguida na grande com­
Filho de açorianos, o dr. MonfAlverne nasceu sobre o mar, panhia Grau, de New York, a maior do mundo n aquelia epocha
indo seus paes em viagem para o Brazil. D’ahi provém, talvez, organizada.
aquelle seu temperamento de revoltado, aquella viveza de pala­ D’então para cá, fazendo sempre consideráveis progressos ar­
vra e gesto que o distinguem na tribuna dos comicios e na con­ tísticos, tem colhido fartos loiros pelos palcos nacionaes e estran­
versação intima. geiros, cantando na Inglaterra, na Italia, na America, na Rússia,
Foi elle a alma da Autonomia dos Açores, jornal fundado para em Portugal, sendo sempre ouvido com agrado, porque á sua vóz
combater em pró da administração dos Açôres pelos açorianos. de barytono, fresca e harmoniosa, allia a arte de ser actor.

DRaC-CCA
GASPAR FRUCTUOSO
oi em Ponta Delgada, então villa do mesmo onde ficou por muitos annos, até á sua morte, em i5ç>i , sendo se­
nome, no anno de i522, que nasceu Gaspar pultado na capella mór da sua egreja.
Fructuoso, o primeiro historiador açoriano, A livraria de Gaspar Fructuoso compunha-se de cerca de qui­
um dos maiores vultos intellectuaes que os nhentos volumes, que legou aos jesuítas estabelecidos em Ponta
Açores produziram no seu passado. Delgada. N’ella se achavam as suas obras manuscriptas entre
Seu pae, senhor de muitas terras, que­ as quaes uma com o titulo — Descobrimento das Ilhas, ou Sau­
ria-o para lavrador como elle; mas Gaspar dades da terra, de que se tiraram várias copias, mais ou me­
Fructuoso desde a primeira infancia tanto nos incompletas. O original tem-no hoje o sr. Marquez da Praia
se affeiçoou aos livros, que elle então resol­ e de Monforte, tendo andado em poder de algumas pessoas que
veu-se a mandá-lo estudar, vendo que ao o foram adquirindo por compra ou por legados. Das copias, uma
filho só os estudos abririam caminho na possuem-na os herdeiros de José do Canto, outra existe na biblio-
vida. E abriram, mas caminho largo e cheio theca de Lisboa.
de gloria. Numerosos annos se passaram, sem que as Saudades da Terra
A universidade de Salamanca, sem duvida o primeiro estabe­ viessem a lume de publicidade. Foi devido aos esforços dos srs.
lecimento de educação então na Península, abriu as suas portas ao Francisco Maria Supico e José Pedro Cardozo que se publicou a
novo estudante, que lá cursou philosophia, voltando depois á pa- parte referente á historia genealógica de S. Miguel, que é um do­
tria, onde se ordenou sacerdote. cumento perfeito e vasto da origem e formação da familia mi
Feito padre, e tendo recebido em philosophia o grau de Mes­ chaelense. Se não fora isso, as Saudades da Terra seriam uma
tre em Artes, partiu novamente para Salamanca, onde se formou obra que só raríssimas pessoas lograriam consultar em manus-
em theologia, tendo por mestre o celebre frade Domingos de criptos, quando é certo que a sua publicação veiu prestar um
Sotto. grande beneficio ao publico amante do passado da sua terra, que
Gaspar Fructuoso distingui-se sempre, em primeiro plano, nos Gaspar Fructuoso reconstruiu sábiamente no seu livro, que ainda
seus estudos universitários, considerando-o bastante o alto clero hoje é a melhor fonte da genealogia açoriana.
d’aquelles tempos, pelo seu profundo saber e grandes virtudes. E foi assim que esse virtuoso, esse sabio do século xvi,
Quizeram fazê-lo bispo, mas Gaspar Fructuoso preferiu ser vinculou de tal sorte o seu nome á posteridade, que ainda
dos mais humildes pastores d’almas, e foi provido vigário da fre- hoje o consulta com interesse e aproveitamento a gente do sé­
guezia de Nossa Senhora da Estrella, na villa da Ribeira Grande, culo xx.

106

DRaC-CCA
RECORDAÇÕES DE S. MIGUEL parte por entre plantações ubérrimas. São já decorridos dois in­
vernos desde que te disse o derradeiro adeus, envolto n uma der­
radeira esperança de te voltar a ver e admirar; e quantas vezes
A MINHA PRIMEIRA COMARCA em dias tristes e pardacentos, sentindo a carne retalhada pelo frio
e vendo um lençol de neve extendido pelos campos, tenho estabe­
lecido comparação com o teu clima dôce e privilegiado, dedicando
() presente artigo sobre a Villa da Povoação é devido ã penna
d um continental, o sr. dr. Valle e Sousa, que por algum tempo ali
o meu saudoso pensamento a essa scintillante villasinha, de costa
residiu na qualidade de delegado. Elle mostra bem como, até aos debruada de azul, que tanto me embalou os sonhos e em que ini­
que não são filhos da formosa ilha, as bellczas de S. Miguel segra
*
vam tão fundo nos espíritos, que não mais se olvidam. As gravuras
ciei a minha vida de magistrado, gosando, encerrado a dentro dos
intercaladas no texto são reproduções de aguarellas do sr. Valle e seus oiteiros, um tranquillo encanto I
Sousa, o qual gentilmente as cedeu ao Álbum, que muito se com­
praz em publicar esta sua homenagem á terra de S. Miguel.
Que fundas recordações das deliciosas revertes á beira mar em
dias azues de um sol brilhante que alagava o oceano, das excur­
ovoação' Vou evocar as tuas lembranças, numa saudação fes­ sões ás suas lombas, aos seus picos e âs ribas alcantiladas da sua
P tiva e alegre, subjugado ainda pelos sentidos aos encantos fas- costa, e dos passeios pelas suas ladeirentas estradas em tardes
cinadores da tua amenidade campestre e á poesia grandiosa dos serenas do outomno em que o sol, mergulhando no oceano, entor­
pontos mais bellos de nava pelas nuvens tin­
pittoresco que offereces tas de côres incom
aos excursionistas que paraveis e produzia
te visitam. vagas fulgurações dia­
Breves têm porém mantinas, ou em noites
que ser estas paginas límpidas de um luar
vividas, escriptas ao sa claro em que o mar
bor de impressões que lembrava uma alcatifa
jamais esquecem a de escamas de aço re­
quem como eu ama a fulgente.
boa e simples natureza Que cantinhos la se
michaelense, cheia de encontram, por toda
trillos d’aves, de paisa­ essa terrinha, de deixar
gens florescentissimas e um mortal doidamente
de aguas que marulham namorado! Que trechos
e cantam, brotando encantadores, dignos de
crvstallinas de toda a A P . —V ovoação L
ista da P
omba do omar serem interpretados e

DRaC-CCA
fixados na teia por uma alma eleita de artista! A Povoação, que mais fresco e mimoso, onde as arvores e plantas ostentem com
em 1Õ2Õ era uma simples freguesia pertencente a Villa Franca do mais garbo a fecundidade da terra.
(Lampo, como consta do Livro do Almoxarife João Tavares, (i) Mas se por um lado apresenta maravilhas de vegetação de
foi elevada á categoria de villa em 3 de julho de i83p. uma luxuria farta, por outra, nenhuma villa michaelense está em
Demora a beira mar n'um pequenino e viçoso valle, sulcado de peior situação. Com effeito, a villa, entalada entre altos morros que
ribeiras e limitado por uma cadeia de sete oiteiros de fórma alon­ parecem esmagal-a e atravessada por algumas d’aquellas ribeiras,
gada, e coroados de casaes que ao sol refuigem_como
pérolas.
Esses oiteiros, que lá denominam lombas, observados
d um pico como o dos Bodes, são a nota mais typica,
mais original e pittoresca da encantadora villa, formando
como que uma cintura de esmeraldas que em verdejante
amplexo a envolve por toda a parte, excepto pelo sul
que é banhado pelo mar.
Essas lombas, que convergem todas, mais ou menos
para a Povoação, levam a partir de leste para oeste as
seguintes denominações: Lomba dos Pós, do Alcaide,
de João Loução, do Pomar, do Botão, do Carro e do
Cavalleiro. Entre umas e outras ha profundas gargan­
tas. atapetadas por luxuriosa vegetação, e que na ilha
são denominadas grotas, por onde vão correndo várias
ribeiras, entoando, em seus murmurios, doces bailadas
pelos echos dos seus declives, alcatifados de fetos. Essas
ribeiras são: a do Purgar que corre entre a Lomba de
João Loução e a do Pomar; a dos Lagos entre a Lomba
do Pomar e a do Botão; a dos Poisos dos Pombos entre
a Lomba do Botão e a do Carro; e a dos Pelames entre
a Lomba do Carro e a do Cavalleiro.
Esta exuberância d aguas produz uma grande fertili­
dade, não havendo na ilha solo mais rico de verdes,

(i) publicado no Archivo dos Açores, vol. IV, pag. 109. Villa da Povoação. — Icrfja de Nossa Senhora do Rosário

198

DRaC-CCA
é excessivamente húmida, com a aggravante de estar sujeita a acampamento, transformado depois em aldeia que apparece nas
inundações, algumas terríveis, provocadas pelas enxurradas d’in- chronicas com o nome de Povoação velha, em homenagem áquella
verno. circumstancia e á de ter sido o primeiro sitio habitado em territó­
N?aquelle encerro, porém, apinha-se a mais alegre e deliciosa rio michaelense.
casaria, muito caiada, que, no seu ar fresco, reluz ao sol, já São direitos adquiridos que ninguém contesta a esta antiga
arruando-se. já formando largos como o do Município e o da fidaiga michaelense, recatada e formosa, e que lhe são reconheci­
Praça Velha, arborisado com araucarias, onde se ergue graciosa­ dos não só na obra d’aquelle escriptor, Saudades da Terra, mas
mente, de côr de rosa, a Egreja na Historia Insulana do padre
do Rosário, beijada pelas boas Antonio Cordeiro e na Des:ri-
brisas do oceano que circulam pção da Ilha de S. Miguel de
em liberdade. Francisco Affonso de Chaves e
Esta é a parte baixa da villa, Mello, auctor também da Mar­
porque a Povoação, com o de­ garida Animada, ou biographia
senvolver se, foi alongando pe­ da venerável Margarida de
las lombas, onde também ha Chaves.
edificações que se estendem lan- Este ultimo, que íoi capitão
guidamente pelo seu dorso, se­ de ordenanças cm Rasto-de-
guindo as accidentações do ter­ Cão, juiz e contador da Fazenda
reno. Real em Ponta Delgada, escreve
Mas, para lá chegar, que fa­ a este respeito:
digas, trepando pelas ladeiras «Tomaram terra os nossos
íngremes das lombas, cheias de Argonautas, e novos descobri­
tortuosidades escabrosas, com P
ovoação .—U
m trecho daR ’A
ibeira d lém dores, no lugar onde agora se
altos e baixos que favorecem o chama a Povoação, que fica ao
pittoresco, e dispostas em contínuos zig-zags que acompanham em Sul duas léguas distante da ponta do Nordeste, desembarcando
curvas violentas as anfractuosidades das accidentadas collinas. entre duas doces, e cristallinas ribeiras, que com suave murmurio-
A Povoação anda envolvida n uma doce tradição documentada de suas correntes formavam uma capelia, que com solfa natural
em pergaminhos honrosos. e musica alternada lhes decantavam parabéns á sua vinda, e en­
Segundo assevera o mais antigo dos chronistas michaelenses, o toavam salvas á sua chegada, servindo-lhes as agigantadas arvores,
dr. Fructuoso, foi a Povoação o ponto que Gonçalo Velho Cabral por entre as quaes soavam estas citaras de prata, de verde pavi­
escolheu para desembarque, quando descobriu a ilha de S. Miguel. lhão, que os eximia das inclemências do sol. Disse a primeira
Alli estabeleceram os primeiros descobridores da ilha o seu missa o capellão da nau em um logar aonde hoje está uma ermida

>99

DRaC-CCA
de Santa Barbara, e depois de correrem parte da ilha por mar
por lhe ser impossível o fazerem-n’o por terra, por causa do es­
pesso arvoredo, tornaram a largar as vellas ao vento e chegaram
a Sagres com a noticia do descobrimento, e como testemunho da
verdade do descobrimento, levaram uns ramos de arvores e outras
cousas da terra.»
Affirma o padre Antonio Cordeiro que os primitivos povoado-
res da terra de que nos occupamos foram uns mouriscos alli dei­
xados por occasião do seu descobrimento.
Em breve deviam ter conhecido a natureza vulcanica do solo
pelos violentos abalos de terra e fortes estampidos, provenientes
dos vulcões em actividade no seu interior e que ouviam atravez as
Povoação. — Ermida de Santa Barbara
densas florestas virgens, apavorando-os e custando a familiari-
sar-se com elles. quarta feira, ás dez horas, começou a tremer a terra com tão
A natureza absolutamente vulcanica da ilha que nos tempos grande furia, que em vários logares se arruinaram muitos edifícios
longínquos da sua constituição geologica, devia ter sido theatro e no da Povoação entrou no mar a terra noventa braças (1).
de convulsões pavorosas, tem originado grandes commoçÕes e Em fevereiro de 1881 a ilha de S. Miguel foi violentamente
enormes abalos de terra na Povoação, cujas desegualdades do solo agitada por terremotos que fizeram desabar o monte Fojo e pro­
são prova bem manifesta. duziram grandes prejuisos em diversos pontos da ilha.
Em i563, por occasião dos enormes e contínuos abalos de Na Povoação houve abalos enormíssimos, sobretudo o que se
terra que houve em S. Miguel, cahiu na Povoação muita cinza e deu no dia 9 de manhã que ia derribando todas as casas se se
grande quantidade de pedras pomes, algumas de enorme tamanho, prolongasse mais alguns segundos, obrigando os moradores a
cobrindo casas, arrasando grotas e arvores e tornando esteril o abandonal-as e a vir para a rua, onde acamparam, implorando a
solo (i). compaixão divina.
Em setembro de i63o «o logar da Povoação ficou sem casas De muito valeram aos povoacenses os soccorros da metropole
nem commodo de se viver n’ella, pela incapacidade das terras e as subscripçÕes publicas que então se realisaram.
para fructificarem», diz a Relação feita pelo licenceado João Gon­ Outras catastrophes tão terriveis como os terremotos tem sof-
çalves Homem, cidadão da cidade de Ponta Delgada; — (M. S. da frido a Povoação — as inundações, devidas á baixa situação em
Bibliotheca Publica de Evora, Códice CIX/i,i3). que está relativamente ás collinas que a cercam.
«Em 2 de setembro de i63o, na noite de uma terça para a Em 5 de outubro de 1744. por occasião de grandes tempestades

(i) Dr. Gaspar Fructuoso, Saudades da Terra, L.® 4.0 cap. 87. (t) Archivo dos Açores, vol I, pag. 225.)

200

DRaC-CCA
FASCICCIX) Tf.' Z5

álbum Açoriano

DRaC-CCA
LOMBADAS IFSSE
GRAHD PRJX
fflfflfE lEfflffl
t I
Kxposiçào Internacional ile S. Luiz, em 1904
MEDALHA DE OURO
11
Exposição do Palacio de Cryslal de Londres em 1904 A LEITURA ILLUSTRADA
Revista quinzenal —96 pag. cheias de gravuras
ft Kainha das aguas de meza 200 RÉIS
Assigna-se na

Leve, estomacal e digestiva, pura, límpida & ANTIGA CASA BERTRAND —JOSÉ BASTOS

0 acido carbonico não é introduzido artiflcialmente R- fiarrell, 73 e 7a —Lisboa

Recommendada por todos os médicos

DEPOSITO GERAL
106, AVENIDA DA LIBERDADE, 110 C. MAHONY & AMARAL
LISBOA
70, Knsi Augusta. 3.° — IjISBOA
TELEPHONE 5B6
METAES EM BRUTO: Aço, cobre, latào, estanho, chumbo em chapa, bar­
ras lingots.
FERRO: Ein barras quadradas, redondas e vergalhão. Vigamento de ferro

SOBRE A ILHA TERCEIRA em Ti u; cantoneiras e todos os mais aprestos para construcções. Ferro em
lingots para fundição. Chapas galvanisadas lisas e onduladas Chapas de aço
para caldeiras. Tubos de ferro, cobre e latào. Arame de ferro, cobre e latão.
*
por Alfredo da Silva Sampaio Folha de Flandres. Material fixo e circulante para caminhos de ferro. Rails de
aço e diversos perfis e pesos, vias portáteis. Machinas de vapor, gaz e petio-
Angra do Heroísmo, 1904, 8." gr — XI — 833 paginas
leo. Caldeiras. Bombas. Machinas para industrias e agricultura. Machinas. Fer­
2$5OO RÉIS ramentas. Vidros polidos, foscos e de phantasia. Vidraça, lages de vidro (dalleu).
A’ venda na
Assucar, arroz, especiarias, drogas, productos chimicos. Ascensores hydraulicos,
Edoux & C.’
ANTIGA CASA BERTRAND JOSÉ BASTOS CIMENTO
Rua Garrett, 73 73 — Li»bon Únicos importadores em Portugal e eolouias do CIMENTO da Compagnie
* des Ciments Parisiens, fabricado pelo notável engenheiro E. CANDLOT.
Fabrica de sabão — Telhai (Foço do Bispo)
Fabrica de licores, aguardente, genebra e cognacs — TELHAI (POÇO 00 BISPO)
Typ. d» A Editora» — Lisboa
em toda a ilha, houve na Povoação uma enorme inundação que victimas, presidida pelo chefe do districto, que se desempenhou
arrastou para o mar, na sua corrente impetuosa, 52 casas, junta­ nobremente da sua missão.
mente com 66 pessoas. Esta inundação foi devida á Ribeira d’Alem Com os donativos recolhidos dentro e fóra de Portugal, que
ter centuplicado o volume das suas aguas. montaram a cêrca de 3o contos, a commissão adquiriu por com­
E’ o que consta do As­ pra uma porção de terreno
sento das pessoas quefal- na villa, no local denomi­
leceram na tempestuosa nado Pé do Salto, em si­
inundação de vento e agua tio elevado, lavado d’ares,
que houve neste logar da onde mandou construir 20
Povoação, que se lê no casas para outras tantas
livro d obitos da Povoação famílias pobres que ha­
dos annos de 1686 a 174b. viam ficado sem lar. O
O assento que é assignado conjuncto das casas, dis­
pelo Vigário Manuel do postas em linha, foi deno­
Rego Tavares, traz a re­ minado Bairro da Cari­
lação das pessoas que pe­ dade. Em frente do bairro
receram e das missas di­ ergue-se uma fonte de
tas por sua alma. duas bicas.
No dia 2 de novembro A parte da fonte vol­
de 1896 houve na Povoa­ tada para a villa, tem um
ção uma medonha inunda­ ingénuo baixo-relevo, re­
ção que assignala uma presentando uma casa
epocha de lucto e de de­ inundada, pessoas e ani-
solação. maes luctando com as
A cheia que inundou aguas e a inscripção;
horrivelmente a villa, tor­
II-XI-MDCCCXCVI
nou-se imponentemente
P
ovoação. —S
ala do Tribunal Judicial Destruens, — hic tempestas
terrível, arrebatando mui­
Aqua miseriam aflert.
tas pessoas e casas de
muitos desgraçados que ficaram sem lar e na mais negra mi­ O lado opposto, que fica voltado para o Bairro da Caridade,
séria. tem a figura da caridade em baixo relevo e a seguinte inscri­
Em Ponta Delgada creou se uma commissão de soccorros ás pção:

N.° 26 201

DRaC-CCA
XV-VIII-MDCCCXCIX o seu branco
Construens—, humana caritas campanario em
Hic sitim aqua depellit. que ha palpita­
ções de sinos,
Ao cimo da alcantilada Lomba do Carro ergue-se, modesta e cantantes e fres­
despretenciosa, a Ermida de Santa Barbara, construída no logar cas, que se re­
onde foi dieta a primeira missa, quando os primeiros descobrido­ percutem na
res abordaram á Povoação. athmosphera pu­
Foi a primeira egreja construída em S. Miguel e reedifi­ ra e leve, embal­
cada depois dos tremores de terra de 1881, faltando lhe ainda samada pela bri­
a torre, para cuja construcção uma dama piedosa deixou um do­ sa do mar.
nativo. Mais aquém
A ermida nada tem que a recommende. Encerra apenas um as lombas, com a
altar, extremamente modesto, com uma antiga e grosseira imagem sua vegetação es­
de Santa Barbara. plendida, o ce­
Está, porém, n’uma posição magnifica, desfructando-se d’ella mitério de João
um bello e larguíssimo panorama. Loução, (1) estu­
A vista alonga-se até ás altíssimas montanhas que fecham ao fas d’ànanazes, o
longe o quadro, constituindo lhe um fundo azulado escuro gran­ jacto volumoso
dioso, duma scenographia bizarra. da cascata do
Entre esses longínquos montes, sempre namorados de grandes Pé do Salto e o
massas de nuvens que muitas vezes descem até á sua base, Bairro da Cari­
surge magestosamente a cabeça altiva do Pico da Vara, ponto dade.
culminante da ilha, de 1:700 metros d'altura, parecendo irrom­ Aos nossos
, Povoação. — Igreja de Nossa Senhora da Mãe de Deus
per das nuvens esbranquiçadas com o sobrccenho d’um verda­ pes ostenta-se,
deiro rei. feiticeira e risonha, a villa, o Largo da Praça Velha, onde se des­
A’s gigantescas montanhas vão prender-se por curvas suaves dobram contra a muralha as ondas do oceano, brancas e espu­
pittorescos montes e outeiros, sobresahindo mais perto da costa o mosas, e a bonita enseada, formada pela cerúlea immensidade do
Pico dos Bodes e o Pico da Caldeira, que se desenham garbosa­
mente ao oriente da villa.
N’um fundo ridentissimo desenha-se a Egreja de João Lou­ (1) Na Povoação ha mais dois cemitérios: o do Lanço e o de Santa Bar­
ção, uma d’aquellas sete risonhas e encantadoras lombas, com bara, que fica juncto da ermida.

202

DRaC-CCA
oceano, que por vezes toma tons de saphira e azul ferrete em O edifício dos Paços do Município é extremamente elegante,
que se reflectem, n um contraste esplendido, as velas brancas dos d um gosto moderno. Tem bellas salas, n uma das quaes está o
barquinhos ligeiros. tribunal judicial, lindamente decorado, e de que publico um dese­
Panorama semelhante, embora mais vasto, contempla-se da nho, como recordação do tempo em que alli fui representante da
Lomba do Cavalleiro, onde estiveram Suas Magestades quando da sociedade. Sob o tribunal fica a cadeia, magnifica, mas sem fre­
sua visita aos Açores. quentadores, porque o movimento criminal é, por assim dizer, nullo,
Comquanto um denso nevoeiro cobrisse as montanhas longín­
quas, o surprehendente panorama impressionou vivamente Sua
Magestade a Rainha.
Na Povoação ha ainda duas egrejas: a de Nossa Senhora do
Rosário, antiga matriz, que muito se damnificou com uma inunda­
ção que arrebatou o archivo; e a de Nossa Senhora da Mãe de
Deus, orago da Povoação.
A egreja do Rosário é de simples mas graciosa fabrica, com al­
tares de talha curiosa.
A de Nossa Senhora da Mãe de Deus, construída em meiados
do século xix pela traça da da Ribeira Grande, sendo as suas fa­
chadas inteiramente eguaes, é um templo bastante vasto, d’uma
certa grandiosidade. Tem bellas imagens como a do Coração de
Jesus e a de Nossa Senhora, que está no altar mór, decorado com
as corôas de prata que figuram nas festas do Espirito Santo.
Ambas as igrejas teem o typo de todas as egrejas michaelen-
ses, com as suas fachadas constelladas dornatos, de recortes ex-
quisitos, em tufo basaltico, d’um effeito decorativo interessante, Um moinho, junto á Lomba do Pomar

tendo ao lado a sua torre quadrada, que acaba em eirado rodeado


d’uma balustrada, imprimindo tudo isto aos edificios um cachet e o que brada bem alto em favor d’esse sympatico povo em que
uma originalidade apreciáveis. tudo respira tranquillidade, bem estar e conforto.
As igrejas michaelenses tem uma architectura de estylo muito Ha na Povoação sitios encantadores, recantos que mereciam
simples e caracteristico, cheio de ingenuidade e graça ineffavel, e ser pintados. Eu vi para além da cascata do Pé do Salto, n'uma
differençam-se facilmente das igrejas da Terceira, que geralmente noite de luar, desmaiada como uma mortalha de virgem, uma gar­
tem duas torres lateraes e terminam em zimborio ou pyramide ganta entre a Lomba do Loução e a do Alcaide, que lembrava um
muito alta. cantinho do paraiso terreal, um verdadeiro labyrintho de verdura

203

DRaC-CCA
luxuriantissima, que parecia formar mysteriosa gruta, toda fres­ dade, que esplendidos passeios até á Lombra do Alcaide, tendo á
cura e sombras, onde residissem fadas. esquerda as encostas dos montes, por onde se sobrepõem as cul­
Pelo formoso desfiladeiro, de paredes atapetadas, com grandes turas em socalcos, e á direita, na profundidade do valle, apittoresca
fetos e arvores em ondulações suaves, corriam aguas produzindo casaria da villa, interpolada com verdura, e um immenso taboleiro
doces e melancholicos murmurios. de quintas, pomares e hortas com talhões d’hortaliças, enquadra­
O começo da encosta da Lomba de João Loução é dos mais dos em longos macissos de palmeiras e bananeiras collossaes, e
pittorescos. A rampa é ingreme e aspera; mas as suas escarpas outras arvores, notando-se alguns cafezeiros que ostentam as suas
guarnecidas de verdura, são ladeadas de mattas frondosas de in- frondes, sobranceiras aos muros de limite, debruados de horten-
censos e faias. cias e outras flores.
Ao lado d’esta Lomba levanta-se uma altíssima encosta de que Aqui e além, d’entre as folhagens, surgem, todas de branco,
se debruçam arvores, como accacias, cryptomerias, carvalhos e eu- reluzentes ao sol, grandes estufas d’ananazes que se exportam em
calyptos, elevando-se lá no alto renques de pinheiros marítimos. larga escala.
O caminho para a mesma Lomba vae mesmo à beira da ri­ Na verdejante encosta fronteira veem-se pittorescamente alcan­
beira, cujo leito se corta de quedas d’agua que ladea enormes pe­ dorados alguns mirantes, e compridos renques de bananeiras.
dras negras. Um pouco adiante, ao cimo da Lombra do Carro, alveja de
D’um e doutro lado, plantações de inhames, que erguem mages- longe, como um farrapo branco, a ermida de Santa Barbara.
tosamente as suas largas folhas verdes; e moinhos d’onde a agua E a estrada que liga a Povoação ás Furnas? Mas o espaço
salta rumorejando, em catadupas que se despenham na ribeira em não dá para mais e, por agora, temos de nos abster de fallar
toalhas de espuma. d’esse surprehendente scenario que se desenrola ora á beira mar,
Ao Pé do Salto, n’um sitio muito pittoresco, presencea-se o ora entre montanhas em que se levantam, triumphaes, arvores de
soberbo espectaculo d’uma magnifica cascata, que brota crystallina grande porte, alamos brancos, faias, accacias, cryptomerias, cy-
d’entre rochas alcatifadas de fetos e á sombra de accacias e incen- prestes, e plantas mais modestas, mas não menos bellas, fetos,
sos, despenhando-se de 20 metros d’altura. lindas urzes e hortencias floridas!
E as estradas, tão lindas 1 Sabugal, março de igo5.
Pela do Pé do Salto, contornando a collina do Bairro da Cari­ Antonio Julio do Valle e Sousa.

204

DRaC-CCA
THEOPHILO BRAGA
heophilo Braga, michaelense de nascimento, é, sem contesta- dade portugueza tem produzido, na historia, na poesia, na critica
TTheophilo
cão, o primeiro cerebro portuguez da actualidade.
Braga fez-se por si, luctando sempre contra os re-
e na philosophia. Animada por um saber forte e por uma orienta-
cão segura, essa obra impõe-se aos estudiosos como um documento
vezes da sorte; e pelo esforço da vontade inquebrantavel. alliado certo em que palpita toda a alma portugueza, na sua formação,
ao poder forte da sua intelligencia, ergueu-se nas suas aspirações, na sua evolução.
bem alto, paira acima de todos os que traba­ A attestá-lo, ahi estão esses livros que se
lham neste campo ingrato das letras, e assim, chamam Historia da Litteratura Portuguesa,
conseguiu já ha muito impor-se ao respeito e (9 volumes), Idéas Republicanas em Portugal,
á admiração incondicional da sua patria, con­ Visão dos Tempos, Historia Universal. (Es­
seguiu ser discutido e acatado em todo o boços de Sociologia Descriptiva), Historia do
mundo culto na sciencia e nas letras. Direito Português, Soluções Positivas da Po­
Vem muito de baixo, da camada dos po­ lítica Portuguesa, (3 volumes), Cancioneiro e
bres: tanto mais gloriosa é a sua ascenção! Romanceiro Geral Português, volumes), e
O seu passado não tem que o envergonhar, muitos outros, que me abstenho de mencio­
antes é para o envaidecer, se a vaidades fôsse nar, por fastidioso, nos quaes ha sempre a
afleito o seu espirito superior. idéa fundamental de utilidade para os que
Sem poder deixar de trabalhar, porque era estudam e para os que trabalham, conforme
pobre, nunca deixou de estudar, porque tinha os assumptos de que os livros versam — his­
sede de saber. toria, philosophia, litteratura, por um lado;
Foi, por isso, typographo, ao mesmo tempo pelo outro, problemas sociaes — estes não só
que era estudante do lyceu em S. Miguel. tratados no papel, mas ainda em conferen­
Depois, em Coimbra, ao cursar direito, como cias, em comicios, onde quer que o grande
era insignificantissima a sua mesada, via-se mestre sinta necessária a sua intervenção de
obrigado a leccionar para viver! Era ardua a pensador, de amigo d’essa classe obscura e
tarefa, mas foi brilhante a victoria! forte que a má orientação, resultante da parca
A sua obra é, já hoje, das mais vastas, e cultura intellectual, traz vergada sempre a um
certamente a mais solida que a intellectuali- destino miserando.

205

DRaC-CCA
Theophilo Braga é um erudito. Sabem-no todos os que sabem da ilha de S. Miguel, no anno 1843, a 24 de Fevereiro, e
alguma coisa! E se ha homem em Portugal a quem possa dar-se formou se em direito na Universidade de Coimbra em 1867.
o nome de sabio, certamente será a esse glorioso filho de S. Mi­ Já de ha muitos annos, desde 1872, occupa distinctamente o
guel. logar de lente de litteraturas modernas no Curso Superior de
Mas não é só na lingua patria que elle expande o seu saber: Letras, tendo n’elle os seus discípulos um caracter honesto e um
Os seus artigos são sempre acceites insistentemente nas revistas mestre sem egual. Do homem e da sua obra, outros têm dito e
litterarias e scientificas da França, Allemanha, Inglaterra, Italia e dirão melhor do que eu: O que nem todos poderão sentir, como
Hespanha, pois que cerebros como o de Theophilo Braga não eu sinto, é este orgulho, este prazer intimo de ser filho da mesma
brotam com grande abundancia por esse mundo. terra que lhe foi berço.
Joaquim Theophilo Braga nasceu na cidade de Ponta Delgada, Raposo de Oi.ivtiRA.

206

DRaC-CCA
MANOEL DA CAMARA PADRE MANOEL VICENTE

adado para mais alevantada car­ o prototypo do sacerdote, moderno, sem olhos no chão, sem
F reira, a que o seu talento lhe
dava jús, Manoel da Camara, de­
Eattitudes de falsos extasis, exercendo a sua missão sem fana-
tisar, mas instruindo, sendo mais um padre de acçÕes de bem fa­
pois de ter entrado pelas lettras zer do que de theorias místicas.
adentro, com um certo cunho Entende que mais vale dar a um faminto uma migalha de pão,
muito pessoal e um ardor pessoal- do que dizer-lhe que deve ser resignado como Christo.
lisissimo, está em S. Miguel exer­ Assim, na direcção da Cosinha Economica de Ponta Delgada,
cendo um modesto cargo publico que elle tem secretariado, os effeitos dos seus bons esforços são
— a estiolar-se. bem manifestos, angariando fartos donativos, que revertem a favor
Começando, por mero dilletan- do sustento, muitas vezes gratuito, dos indigentes.
tismo, a rabiscar nos periódicos da Tem realizado, promovido e auxiliado varias conferencias de
sua terra — com um cunho muito caridade, no theatro e nos templos; e sempre que se faz ouvir é
pessoal, como dito fica — foi de­ com agrado manifesto do auditorio, pois que reveste sempre os
pois chamado por Armando da seus discursos duma linguagem do­
Silva, outro rapaz michaelense de ce, fluida, cheia de harmonias. Ha
raro valor, para ir para Lisboa re­ no padre Manoel Vicente uma alma
digir O Jornal de Lisboa, de que elle era director. de poeta, vibrante de enthusias-
Foi, salientou-se, entrou pela vida chic e alegre da capital, mos pelas obras de bem, cheia de
mais do que lhe permittiam as forças da sua bolsa, mas não tanto, arrebatamentos pelas coisas de
talvez, como pedia o seu feitio de bom vivant, e abalou de novo arte.
para a pacatice de S. Miguel, onde foi administrador do concelho A imprensa de S. Miguel deve-
interino, primeiro na Villa da Lagoa, depois em Ponta Delgada. lhe boa collaboração, sobre assum­
Decidido, finalmente, a ficar-se pela terra-mãe, nunca abando­ ptos profanos e religiosos.
nou a penna, collaborando brilhantemente em vários jornaes, e fun­ Por tudo isso que ahi fica ligei­
dando uma folha política, que viveu pouco. ramente apontado, é bem visivel
Orador-improvisador, Manoel da Camara destaca-se pela fluên­ que o padre Manoel Vicente tem
cia e scintillancia da sua phrase. Conversador e clubman, distin­ o seu logar assignalado honrosa­
gue-se entre a fina sociedade de S. Miguel. mente, entre os representantes da
Estas as suas qualidades, que não são pequenas nem vulgares. sua classe.

DRaC-CCA
JOÃO MACHADO F. MAIA DR. GUILHERME POÇAS

uito lido, muito conhecedor dvogado de mérito e homem


M de toda a litteratura da não
França, da Inglaterra e Portugal,
A seide quê
sociedade. Ha nelle um
de que captivante, na
João Machado de Faria e Maia affabilidade do trato, na maneira
obtem notável preponderância no de dizer, no sorriso claro do seu
meio dos litteratos de S. Miguel. rosto, que logo nos prende por
Companheiro de Anthero, de uma facil, irresistível sympathia.
Oliveira Martins, de Theophilo Independente pela fortuna,
Braga, de Eça de Queiroz, nos mas sabendo fazer bom uso do
tempos áureos de Coimbra, elle seu dinheiro e da sua independên­
seguiu de visu todo esse movi­ cia, o dr. Guilherme Poças Fal­
mento de renovação de processos cão pouco desconhece de quanto
artísticos, que soffreram as lêttras o mundo tem que seja digno de
patrias, emancipando-se, pelo ta­ vêr-se: E elle não passa em frente
lento d’uma geração nova, das das maravilhas como um simples
velhas convenções da escola ro­ e fatuo touriste; observa, indaga,
mântica. analysa, estuda, trazendo sempre,
Lendo, escrevendo, viajando, a sua bagagem de conhecimentos no regresso das suas excurções, farta cópia de notas interessantes
é bastantemente valiosa. Não sabemos que possua obras impres que transmitte depois aos seus patrícios, pondo as, na sua prosa
sas; mas pelo que d’elle temos lido em jornaes e revistas, pelo elegante, em columnas de jornaes, ou narrando-as na sua lingua­
que temos colhido da sua conversação, em nada exageramos. gem brilhantemente colorida.
Entre os artigos que no livro In Memoriani as mais brilhantes Em Paris, onde se encontrava de visita á Exposição de 1900,
pennas escreveram sobre Anthero de Quental, o de João Machado foi o dr. Guilherme Poças convidado pelo governo francez para
de Faria e Maia, que foi intimo do grande poeta, é, sem duvida, fazer parte do jury encarregado de classificar os productos portu-
dos mais bellos que lá apparecem. guezes da secção de vinhos e azeites, sendo-lhe por essa occasião
Verso e prosa, sciencia e arte, todas as formas e todos os offerecido o officialato da Legião d’Honra. Em certos períodos da
assumptos lhe são familiares. Rabuscador de antiguidades e ver­ sua vida, tem sido em S. Miguel jornalista profissional, ou por
sado em genealogias michaelenses, ainda n’esse campo tem feito simples dilletantismo. Presidente da Camara Municipal, por vêzes,
interessantes trabalhos. ninguém o tem excedido em zelo pelos interesses dos seus munícipes.

208

DRaC-CCA
I 'A *í. ‘
.O T 26

a rbom Açoriano

DRaC-CCA
LOMBADAS
GRANEI PRIX
Exposição Internacional de S. Luu em 1904 MAGAZINE BERTRAND
* MEDALHA DE OURO
Exposição do Paiacio de Crystal de Londres etn 4904
A LEITURA ILLUSTRADA
Revista quinzenal —96 pag. cheias de gravuras
A Rainha das aguas de meza 200 RÉIS
Assigna-se na

Leve, estomacal e digestiva, pura, limpida ANTIGA CASA BERTRAND — JOSÉ BASTOS I!
0 acido carbonico não é introduzido artiflcialmente 5^'tí.- R- fiarrelt, 73 e 75-Lisboa 0
Recommendada por todos os médicos

DEPOSITO GERAL
106, AVENIDA DA LIBERDADE, 110 I G. MAHÕNY & AMARAL
IiISBOA
70, Rua Augusta. 3.° — I^ISBOA
TELEFHOME 586

IBHOI♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦WMW . METAES EM BRUTO: Aço, cobre, latào, estanho, chumbo em chapa, bar­
ras lingots.
FERRO: Em barras quadradas, redondas e vergalhào. Vigamento de ferro

< MEMDRIA SDBRE A ILHA TERCEIRA > em TI Ui cantoneiras e todos os mais aprestos para construcções. Ferro em
lingots para fundição. Chapas galvanisadas lisas e onduladas Chapas de aço
para caldeiras. Tubos de ferro, cobre e latão. Arame de ferro, cobre e latào.
por Alfredo da Silva Sampaio Folha de Flandres. Material fixo e circulante para caminhos de ferro. Rails de
aço e diversos perfis e pesos, vias portáteis. Âlachinas de vapor, gaz e petio-
Angra do Heroísmo, 1904, 8," gr — XI — 833 paginas
|| 2$500 RÉIS leo. Caldeiras. Bombas. Machinas para industrias e agricultura. Machinas. Fer­
£ ramentas. Vidros polidos, foscos e de phantasia. Vidraça, lages de vidro (daUsn).
, A’ venda na
SW.
Assucar, arroz, especiarias, drogas, productos chimicos. Ascensores hydraulieos,
i ANTIGA CASA BERTRAND JOSÉ BASTOS Edoux & C.*
CIMENTO
Rua Garrett, 73 e 73 — Linboa Únicos importadores em Portugal e colonias do CIMENTO da Compagnie
des Ciments Parisiens, fabricado pelo notável engenheiro E. CANDLOT.
Fabrica de sabão — Telhai (Poço do Bispo)
Fabrica de licores, aguardente, genebra e cognacs — TELHAI (POÇO 00 BISPO)
Tvp. d'»A Editora» — Lisboa

DRaC-CCA
A MORTE D’UM CACHALOTE
(Clichés do sr. Amancio Julio Cabral)

oi a 18 de julho de 1895. Tinha largado na madrugada o an­ lho começado, ateou-se o fogo nas fornalhas, e o meu navio
F coradouro de Angra, a capital da ilha Terceira, para reali-
sar uma exploração zoologica nos grandes fundos do alto mar,
aproou para as canoas.
Tive, porém, o cuidado de não me lançar no meio dos perso­
quando a minha attenção foi absorvida por duas pequenas velas nagens, que forneciam a acção d'esta caça, porque sabia que a
que se desligaram do costa, surda resonancia duma
afastando se rapidamente helice, mesmo longínqua,
delia, passando além da transmittida pelas camadas
estreita zona onde a pesca liquidas, perturbaria os ca­
costeira se realisa; depois chalotes no seu somnolento
por outras duas embarca­ torpôr, que permitte ás em­
ções, também á vela, que barcações o d’elles se ap-
partiram d um outro ponto proximarem, e assim com
da costa, e tomaram a mes­ bom exito realisarem uma
ma direcção seguida pelas empreza de tão grande im­
duas primeiras. portância para a vida dos
Julgando que eram ba­ pobres baleeiros. Conser­
leeiros insulanos, aos quaes vei-me, pois, afastado mi­
os seus vigias tinham dado lha e meia, d’onde podia
signal do apparecimento de observar o que ia succeder.
cachalotes, e que avança­ Então, duas das canoas
vam para a região na qual caçaram as velas, e com o
se vira o poderoso resfo­ oculo pude vêr que uma
legar d estes animaes, eu delias alcançara os cacha­
quiz assistir ao drama pro- lotes, cujo resfolego repu­
ximo. xava periodicamente n um
Suspendeu-se o traba- S. M .— P
icuel S
orto de I
anta ria jacto de branco vapor; vi

N.° 27 209

DRaC-CCA
Desde então começou junto a nós a agonia d'um gigante.
Este monstro que parecia inerte e que por vezes submergia
n’esse mar ensanguentado, oscillou pesadamente; a enorme cauda

S. Miguel. —Na Costa das Capellas

mais o trancador prestes a atacar. Este drama tornava-se emo­


cionante. Fiz avançar o navio logo que julguei ter sido o animal
arpoado.
Antes que eu chegasse perto da victima, as canoas do se­
gundo grupo tinham-se afastado para o largo, perseguindo os ce­
táceos que fugiam. O animal ferido diminuía já a carreira, no co­
meço vertiginosa, com que tinha arrastado a canôa dos seus per­
seguidores, e recebia, quando cheguei, a primeira lançada do
trancador.
Pouco depois a sua respiração apressava-se, e a columna d'a-
gua vaporisada que sahia do seu respiro, elevando se no ar, tingiu-
se de côr de rosa, côr que em breve era vermelha; e o proprio
mar envermelheceu em torno do animal que se esgotava em sangue. Porto de Santa Iria. - Uma Baleia

210

DRaC-CCA
bateu com violência esse vasto lençol vermelho, e no revolver das la elle quebrar a quilha do navio, o leme ou helice com o ro­
aguas via-se apparecer turbilhões de branca espuma. çar do seu dorso ou com uma pancada da sua cauda? Taes fo­
As cincoenta pessoas que eu tinha a bordo estavam mudas de ram os meus cuidados durante dez segundos, findos os quaes o
espanto, umas agrupadas á proa e outras dispersas até na mastrea­ animal reappareceu do outro lado do navio então parado. Os ba­
ção. Perturbado também pela inaudita grandeza d este especta- leeiros approximam-se para o ferir mais uma vez com a sua lan­
culo, seguia com ardor a sua marcha, como a d uma visão prestes ça, e a morte invadiu todos os seus orgãos, emquanto que os es­
a desapparecer para sempre; commovia-me este soffrer manifes­ pectadores vibravam numa commoção que lhes suspendia até o
tado tão amplamente, e que na grandeza dos seus detalhes me respirar. O navio e os actores do drama fluctuavam n um lençol
parecia mais intenso que o dos seres da mais
infima especie.
Lastimava este poderoso do mar, que du­
rante séculos, talvez, tinha levado o seu corpo
para tantos horizontes, aos mais profundos abys-
mos, sem nunca recear um inimigo; que tinha
folgado por entre as encapelladas ondas de mil
tempestades, e que vinha succumbir sob a lança
d um pygmeu.
Todo este sangue espalhado, toda esta carne
morta, traziam á mente uma catastrophe como
a queda d uma arvore possante ou o naufragio
d um navio.
Subitamente, o cachalote cessou de fustigar
as aguas, e como se a visinhança do navio ti­
vesse reanimado o seu cerebro, dirigiu-se ra­
pidamente para nós.
N um relampago de inquetação, perguntei a
mim mesmo que effeito ia produzir o choque
d'esse monstruoso corpo lançado contra o na­
vio. fosse por um acto da sua vontade, íosse por
um acaso das suas convulsões, quando repen­
tinamente o animal, a vinte metros de nós, des-
appareceu. S. Miguel. — O Môrro das Capellas

DRaC-CCA
d’agua ensanguentado, que continuava ainda a ser sulcado por mer o desapparecerem antes do bote chegar ao seu alcance,
jorros mais vermelhos, que borbotavam do animal e se perdiam quando tive uma inspiração: como os cephalopodos eram visíveis
naquelle ambiente, como os nuvens que descem das montanhas a uma distancia de dez metros do lado da pôpa, fiz recuar o na­
se confundem pouco a pouco na bruma das planícies. vio para que o movimento da helice envolvesse num turbilhão os
A sua enorme cabeça apparecia junto á popa do navio, e a exemplares tão cubicados, que effectivamente passaram repetidas
maxilla inferior, separada vezes quasi á superfície, e
da outra pela relaxação dos assim puderam ser apa­
musculos, balanceava agi­ nhados com uma rede.
tada pelas vagas. Os cinco polvos e cal­
Vi então a sua bocca mares com os quaes se en­
qual immensa caverna riqueceu o meu laborato-
hiante, vomitar maisduma rio, em virtude d’esta cir-
vez vários cephalopodos, cumstancia imprevista,
polvos, lulas de propor­ foram classificados por
ções extraordinárias. M. Joubin, professor da
O cetáceo entregava- Universidade de Rennes;
nos assim a sua ultima ex­ são novidades, quer como
cursão aos abysmos: a re­ especie, quer como gene-
cente refeição que ainda ro. e o seu aspecto, no es­
não passara além do eso- tado de vida devia ser bem
phago. extraordinário. Um d'elles,
Comprehendi o valor que perdeu infelizmente a
scientifico d'estes objectos cabeça, é um caso unico
trazidos das regiões inter­ na sciencia: tem o corpo
médias do mar profundo de tamanho não inferior a
onde vivem seres protegi­ Porto de Santa Iria. — Canoas balieiras dois metros, coberto par­
dos até hoje, peio poder da cialmente de escamas, e
sua natação, contra todos os nossos meios de captura, e cuja exis­ apresenta a forma d’um cartucho, munido d’uma immensa barba­
tência só se revela em aventuras julgadas fabulosas. tana redonda. De um outro, cujo corpo desappareceu, só se pôde
Mandei arrear immediatamente um bote para colher todos es­ colher a sua corôa tentacular, isto é a cabeça, com oito braços tão
tes animaes golphados pelo cachalote, mas a densidade d estes grandes e grossos como os d’um homem. Cada um d estes é
preciosos vomitos, conservava-os só á flôr dagua, sendo para te­ coberto com cem ventosas armadas de garras acuminadas e for­

212

DRaC-CCA
tes, como as dos carnívoros. A’ medida que as peripécias d'esta ameaçando juntar causas de novo cansaço, á fadiga )á grande de
colheita faziam ir a minha alma da esperança ao temor, eu ava­ tão valentes marinheiros.
liava melhor a importância de taes exemplares; e certamente Para um Príncipe que o seu dever obriga a conhecer bem as
nunca vomitos foram vistos com mais interesse! vilezas do mundo, que gôso o de colher da alma dhomens sim­
Fiz então aos baleeiros uma surpreza agradavel, em troco das ples e bons, as flôres d’uma alegria sincera, duma gratidão que
sensações que lhes devia: offereci-lhes o rebocar o seu cachalote sobe espontaneamente do coração aos lábios, e desabrocha na
até ao logar onde o queriam conduzir. Logo, com effeito, a ale­ claridade dos seus olhos!
gria se mostrou em todas as feições, e vibrou nas mais calorosas
manifestações, porque uma brisa contraria começava a soprar, Príncipe de Monaco.

DRaC-CCA
PADRE SENNA EREITAS CONSELHEIRO LUIZ POÇAS

religião tem no padre uas palavras o pintam:


A Senna Freitas um dos oDdefenia
seus mais estremados defen­
sobrio e sério. Assim
algures o dr. Luiz
sores: Ao serviço d’ella tem de Bettencourt. De facto.
este escriptor publicado vá­ não se podia com mais ver­
rios livros, (a maior parte da dade, com mais precisão,
sua obra) paginas e paginas debuxar e synthetisar sua
de sã douctrina e de preciosa brilhante individualidade.
linguagem portugueza, como Ergue-se como um
esses que se chamam — Dia exemplo, impõe se como
a dia d’um Espirito Chris- um irrefragavel testemu­
tão, no Presbyterio e no nho do quanto pode valer,
Templo, Escriplos Catholi- só por si, o esforço pes­
cos d' Hontem, etc. Ao duplo soal dalguem, pela intel-
amor, da patria e da religião, ligente disciplina da von
consagra o padre Senna Frei tade, e sem o mais leve
tas o melhor dos seus affectos desvio na linha do dever.
e o mais nobre da sua intelli- Nas colonias, onde ad­
gencia. ministrou justiça, o seu
E’ assim que o clero de Portugal, que aliás possue gente de nome de magistrado ficou lembrado com saudade e respeito. Pre­
real valor, tem no padre Senna Freitas uma figura que altamente sidente da camara dos deputados na ultima situação progressista,
o nobilita, e lhe deve ser um bom titulo de orgulho. par do reino, demonstraram e têm-lhe demonstrado sempre es­
O conego Senna Freitas nasceu na cidade de Ponta Delgada, tima os mais facciosos adversários. Ao seu talento unicamente, ao
no anno de 1840. Lisboa tem sido depois o seu campo de acção: seu caracter immaculado deve o conselheiro Luiz Poças a alta
Orador sacro de raros dotes, tem produzido no púlpito discursos posição que hoje occupa na política portugueza, a sympathia e
que são verdadeiras obras primas, em que explendidamente se ca consideração que o seu nome suscita em toda a gente.
sam a idéa, a forma, a inspiração e a eloquência. Polemista, dis­ E’ por todos estes titulos, pois, que, na actualidade, é justa­
tinguem-no o saber fundo e a energia da phrase, que o tornam um mente considerado o conselheiro Poças Falcão, um dos filhos da
adversario de temer-se. E’, por fim, um erudiro e um estylista. terra de S. Miguel muito illustre e prestigioso.

214

DRaC-CCA
ROBERTO IVENS JOSÉ CORDEIRO

e braço dado com Brito Capello, o michaelense Roberto Ivens ovo, cheio de vigor, de
D metteu hombros á temeraria empreza de devassar os pontos aoNtrabalho,
ainda desconhecidos das terras d!Africa, empreza que, após tan­
actividade, de amor
José Cordeiro
tos perigos vencidos, constituiu uma verdadeira victoria para os é um protesto flagrante con •
ousados exploradores. tra o a^orean torpor tão
A travessia de Angola a Moçambique trouxe o conhecimento fallado, que faz amollecer
valioso d’essa parte do continente africano, para o desenvolvi­ nervos e adormecr espíri­
mento do nosso commercio e alargamento da acção civilisadora tos privilegiados.
dos portuguezes. Fez os seus estudos,
O diário d'essa viagem, primeiramente na Univer­
passo a passo, pelas regiões sidade de Gand, para onde
virgens de pés europeus, os partiu em 1885, tirando ali
mappas que depois se fize­ o curso de pontes e calça­
ram, foram trabalho de tal das, e continuou-os em Pa-
monta, que o geographo alle- riz, cursando a Escola Cen­
mão Winchamam disse que tral d'esta cidade, sendo,
nenhum documento se publi- na sua especialidade o pri­
cára, de tão grande importân­ meiro classificado, (Major
cia, que tanto viesse enrique­ chimist) e o terceiro na clas-
cer a carta da África, como os sificação geral, obtendo nos três annos de curso a média de 18,6
resultados da exploração de sobre 20.
Capello e Ivens. Portugal, ao Esses estudos, porém, arduamente trabalhosos, em que José
seu regresso, recebeu festiva­ Cordeiro não se permittia descanço, foram interrompidos por mo­
mente os triumphantes explo­ tivo de doença, que o obrigou a regressar á patria, onde perma­
radores, como quem sabia de neceu dois annos em convalescença.
quanto lhes era devedor, pois Foi em 1894 que elle concluiu brilhantemente o seu curso de
que o serviço prestado á pa- engenheiro, seguindo então para a Allemanha, onde esteve empre­
tria por Capello e Ivens, foi gado numa fabrica de cerveja e álcool, em Munich, e depois para
d esses que logo se impõem. DELGADA. —
PoNTA ESTATUA DE ROBERTO IVENS
A a França, trabalhando ali em fabricas de assucar e stearina.

DRaC-CCA
D’ahi passou de novo a S. Miguel, entrando para chimico da haveres dispendidos, (porque os capitalistas michaelenses são
fabrica de distillação, na villa da Lagoa, até que em 1896 foi cha­ afincadamente rotineiros!) deve-se a illuminação electrica, publica
mado a Lisboa, indo occupar o logar de sub-director da compa­ e particular, de Villa Franca do Campo, em 1899, que foi a pri­
nhia do Gaz e Electricidade, por occasião das celebres greves meira terra dos Açores a possuir aquella luz.
dos operários d’essa companhia. Audaces fortuna juvat!
Em 1897 foi enviado ao Chili, em missão especial, por um Seguidamente, possuíram aquella regalia a Ribeira Grande.
grupo de capitalistas de Paris e Londres, para fazer estudos sobre em 1901, e Ponta Delgada em 1904, mas esta apenas em casas
minas de oiro, cobre e salitre, regressando a Paris mezes depois. de commercio e particulares, por não ter findado ainda o prazo
No anno seguinte voltou de novo á sua terra natal, então com do contracto da illuminação publica com a empreza do gaz.
o arrojado plano de montar em S. Miguel a electricidade, para Nos trabalhos executados sob as suas ordens, José Cordeiro
illuminação publica e particular. nunca descança. Activamente, nervosamante, surge em toda a
E aqui que tem começo o periodo glorioso da sua carreira de parte, examina tudo, ajuda o mais infimo dos seus operários,
trabalhador de larga acção. Luctando com enormes difficuidades, apressa, manda, discute. E o verdadeiro typo de dirigente.
entre as quaes avultava a de falta de capital sufficiente para a A terra de S. Miguel tem muito para ufanar-se com este seu
realização do seu plano, o engenheiro José Cordeiro conseguiu em filho, que ainda ha de, por certo, com o seu saber c com a sua
pouco tempo, mercê da sua força inquebrantável de querer, ins- iniciativa, transformá-la a ponto de se tornar uma terra invejável,
tallar em S. Miguel as machinas productoras de luz electrica, com a electricidade que faz mover fabricas, que encurta distancias,
pondo em çerviço dezenas de homens, fazendo viagens ao estran­ que dá claridade ás noites.
geiro. para a compra de materiaes, contractando gente experi­ Accresce a tudo isto que José Cordeiro tem actualmente 38
mentada. E ao seu longo trabalho, ao seu crédito e aos seus annos, apenas. Tanto basta para que muito haja a esperar d’elle.

DRaC-CCA
FASCÍCULO TV' 27

DRaC-CCA
LOMBADAS
GRAND PRIX
Exposição Internacional de S. Luiz, em 1904 li MAGAZINE BERTRAND
MEDALHA DE OURO
Exposição do Palacio de Cryslal de Londres em 1904 A LEITURA ILLUSTRADA
Revista quinzenal —96 pag. cheias de gravuras
k Sainha das aguas de meza 200 RÉIS
? Assigna-se na
Leve, estomacal e digestiva, pura, limpida fe., ANTIGA CASA BERTRAND — JOSÉ BASTOS

0 acido carbonico não é introduzido artlflclalmente Tr?7L- R- Garrett, 73 e 75 —Lisboa

Recommendada por todos os médicos


a

DEPOSITO GERAL
106, AVENIDA DA LIBERDADE, 110 C. MAHONY & AMARAL
X.ISBOA
70, Rua Augusta. Q.° — IjISBOA
TELEPHONE 586
METAES EM BRUTO: Aço, cobre, latão, estanho, chumbo em chapa, bar­
A A A A A A AA A A L ras lingots.
FERRO: Em barras quadradas, redondas e vergalhão. Vigamento de ferro
21 MEMÓRIA SOBBE A ILHA TERCEIRA ||{ em TIU; cantoneiras e todos os mais aprestos para construcções. Ferro em
lingots para fundição. Chapas galvanisadas lisas e onduladas Chapas de aço
® A _ - Alfredo
Au-.j. jda- e.r.— c-__ . A. a para caldeiras. Tubos de ferro, cobre e latão. Arame de ferro, cobre e latão.
por Silva Sampaio
■b-' Folha de Flandres. Material fixo e circulante para caminhos de ferro. Rails de
aço e diversos perfis e pesos, vias portáteis. Machinas de vapor, gaz e petró­
Angra do Heroísmo, 1904, 8.° gr — XI — 833 paginas A
fi leo. Caldeiras. Bombas. Machinas para industrias e agricultura. Machinas. Fer­
2$5OO RÉIS ramentas. Vidros polidos, foscos e de phantasia. Vidraça, lages de vidro (dalles).
A’venda na Assucar, arroz, especiarias, drogas, productos chimicos. Ascensores hydraulieo.»,
ANTIGA CASA BERTRAND JOSÉ BASTOS Edoux & C.*
CIM E11T O
Rua Garrett, 73 e 73 — Linboa Únicos importadores em Portugal e colonias do CIMENTO da Compagnie
des Ciments Parisiens, fabricado pelo notável engenheiro E. CANDL0T.
>. <• (wfâ fovtè Fabrica de sabão—Telhai (Poço do Bispo)
Fabrica de licores, aguardente, genebra e cognacs — TELHAI (POÇO 00 BISPO)
Tvp. d'
*
A Editora» — Litboa

DRaC-CCA
S. Miguei .—Valle das Furnas.—Vista geral

N.° 28 217

DRaC-CCA
NOTICIA SOBRE AS FURNAS
edaço encantador da terra michaelense. Em baixo o valle, Cratera immensa d um vulcão, as Furnas offerecem ainda, pela
P onde, d’entre o arvoredo luxuriante, alvejam, aqui, além, bôca das suas caldeiras, uma sensação de pavor e de mysterio. Elias
amontoadas, isoladas, casitas brancas, elegantes chalets. vomitam lava e agua a ferver, n’um resfolegar ruidoso e tétrico.
Sobe no ar o fumo das caldeiras; cruzam-se ribeiros em to­ E é este mysto de belleza e de horrores — arvoredo, ribeiros,
das as direcções; a musica das aves é um hymno constante de montanhas, flores, roncos de caldeiras, fumo que sahe da terra,
gloria, e o perfume das plantas e das flôres enche todo o valle, mysterio que vive alli em tudo — é tudo isso que torna as Furnas
que uma fila ininterrupta de altas e garridas montanhas fecha num uma terra sem igual, de inegualaveis encantos.
largo abraço!
Do alto d estas cumiadas desfructam-se pontos de vista mara­
vilhosos, sendo dos melhores o que das Pedras do Gailego, prin­
cipio da descida para o valle, indo pela estrada do norte, se des­
enrola aos olhos do espectador. As aguas das Furnas, ferreas e
sulphurosas, têm já fama lendaria em curas de doenças várias.
Ha um bello estabelecimento de banhos, espaçoso e aceiado,
onde nada se paga para fazer uso das aguas.
As Furnas têm um razoavel hotel, um hospital, lindíssimos jar­
dins, onde a arte e a natureza pródiga puzeram encantos infinitos.
A um kilometro distante do valle, fica a linda lagôa que tem
tres kilometros e meio de circumferencia. Na sua margem se
ergue a encantadora ermida da familia Canto, tendo ao fundo
o esplendido jardim do valle dos fetos, e das encostas viridentes
da lagôa, alguns brancos chalets espreitam por entre a verdura.
As Furnas, esse pedaço encantador da terra michaelense, são
conhecidas em todo o mundo. Por gente de todas as nações
têm sido visitadas; e, embora venha o touriste de percorrer as
mais deslumbrantes paysagens, perante a magestosa belleza das
Furnas, fica fatalmente deslumbrado. Valle das Furnas. — Uma caldeira

218

DRaC-CCA
O ERMITA DO VALLE DAS FURNAS
iLENDA AÇORIANA,

a costa meridional do Reino dos Algarves nascera o ermita como se fosse a musa Erato, coroada de myrto e rosas, empu­
N Diogo do Amor de Deus, pelos últimos annos do terceiro nhando a lyra anacreôntica. Enternecido, construía na alma d’ella
quartel do século xvi. Seu pae era ourives. Logo no alvor da ju­ um altar para pendurar preces e votos. Cresceram juntos, sen­
ventude, Diogo sentira inclinação para uma visinha de olhos ver­ tindo no alto espaço, comprehendido entre o céo, a terra e o mar,
des côr de pedra de jade, e ambos moços amaram-se com um af- o ruido alegre e ensurdecedor das ondas que se chegam umas
fecto recendendo á amendoeira em flôr. Subjugado, idolatrava-a as outras, para morrerem na areiosa praia. O rugido do mar e a

l'l RNAS. — NO JARDIM DO MaRQVEZ DA PRAIA. — BÓDO AOS DOBRES. POR OCCAS1ÁO DA VISITA REGIA

DRaC-CCA
luz do sol, fundiam-se n uma incessante agitação d’alegria vivifica- na morte poder subir tua alma a Deus, necessitas affastar-te de toda
dora. a idéa das coisas sensíveis e deleitosas, approximando-te na vida
Na officina do ourives estava desde manhã d’um dia de abril do fogo do inferno, afim de te purificares d:esse peccado sacrí­
um calix de prata para dourar, que viera da egreja matriz, e lego. Os proprios gentios necessitam de atravessar a ponte Isi-
que ainda n esse dia recebera a especie eucharistica. Pois os dois noat, que leva ao paraiso, passando sobre os abysmos do inferno.
enamorados beberam vinho Com effeito, Diogo entrou
e mel em amorosa libação, na congregação dos irmãos
pelo sagrado vaso. Diogo, de S. Paulo, chamada dos
como intrépido legionário do ermitas da morte porque
primeiro combate do amor, traziam no escapulário a fi­
não temeu o sacrilégio, mas gura d uma caveira e tinham
n’essa noite teve uma appa- por missão dar sepultura aos
rição ameaçadora, uma visão mortos. Pensou em ir para a
horrível. Na parede do seu Trappa no Perche, França.
quarto viu em lettras de fogo O trappista todos os dias
escriptas as palavras conta­ deve profundar a cova em
do, pesado, dividido. Cheio que ha de ser lançado o seu
de temor de Deus correu de cadaver. Quando nos pas­
madrugada a ouvir um sabio seios solitários estes cenobi­
monge, que ponderadamente tas se encontram uns com
lhe disse serem aquellas pa­ os outros, quebram o silen­
lavras o annuncio d’um cas­ cio, unicamente para dize­
tigo celeste, e que elle as rem: Irmão é preciso mor­
interpretava á similhança do rer.
propheta Daniel: contados os O sacrílego Diogo aspi­
teus dias, pesados na balan­ Um jardim nas Furnas. — Queda d’agua rava a passar os seus dias
ça divina, dividida a casa pa- no duro asceterio da peni-
terna pelos inimigos. Diogo queria pela penitencia conjurar ta­ tencia, até que o nevoento frio da morte lhe cahisse como manto
manhos infortúnios, e orou ao monge que lhe traçasse o aspér­ fúnebre sobre o seu corpo, remido por angustioso remorso.
rimo caminho. O monge exclamou: Felizes os que vivem segundo O velho monge, antigo missionário das índias occidentaes,
a regra de S. Paulo de Thebas; quanto mais a alma se afasta do conjurou Diogo do Amor de Deus a embarcar para as regiões do
corpo e dos sentidos, tanto mais ella se approxima de Deus! Para rio Missourí, cuja nascente é um respiradouro do inferno. Efte-

220

DRaC-CCA
ctivamente, Diogo partiu para lá a exercer sua fúnebre missão. durante a noite, sobre o pèllo dum animal, para produzir faiscas
Onde é esse respiradouro do inferno, conhecido pelo missioná­ electricas.
rio christão do século xvi? O ermita Diogo de Amor de Deus passou alguns annos n’esta
E a região vulcanica dos Montes Rochosos no Yellowstone, infernal região, exercendo entre os indígenas o seu caridoso
que a America moderna denominou Parque Nacional. O Yel­ mister.
lowstone é um affluente do alto Missouri cujas vertentes consti­ Com o coração saturado de dôr servia os enfermos e enter­
tuem a bacia dos maiores geyseres do globo. Tem uma cataracta rava os mortos- O seu corpo obedecia á severa regra da ordem,
em que a agua do leito se despenha numa declividade de 14 me­ soffrendo as intemperies e o vento áspero como um açoite do in­
tros d’altura. Depois dos geyseres do Yellowstone seguem-se em ferno. Modificado no asceterio do arrependimento pela lembrança
grandeza os da Islandia e os da Nova Zelandia. O Parque Na­ do sacrilégio, sentia augmentar pouco a pouco a paz da alma.
cional tem 84 repuxos thermaes. O repuxo gigante eleva-se a 60 Na ordem moral a verdadeira paz não vem de não combater
metros de altura, o da Colmeia da
Abelha attinge 70 metros, o Velho
Fiel funcciona periodicamente cada
65 minutos, o Architectural é notável
pela disposição desordenada dos seus
jactos múltiplos. Ha exactos clepsy-
dros que servem de relogio aos indí­
genas. Ha geyseres que teem segundo
a côr da agua que espadana: Bacia
d’Esmeralda, Lago de Sangue, Len­
çol de Turquia, Tinteiro do Diabo,
pela lama preta que esfusia. As eru­
pções umas são perennes, outras pe­
riódicas, bramindo com horrível e
súbito estampido, que vindo das en­
tranhas da terra reveste um caracter
aterrador como um funesto aviso do
outro mundo. O Parque Nacional tem
quasi a area da Bélgica, o seu céo é
roseo como na Noruega. A região é
tão secca que basta passar a mão, S. Miguel. — Vai.le das Furnas. — Trècho d’um parque

221

DRaC-CCA
mas de vencer. Cansado de enormes fadigas e exhausto de forças seu estrepito rouco, pareciam-lhe os derradeiros arrancos d um
embarcou n’uma galera em direitura a Portugal, com escala pelo monstro luctando com a morte. As columnas d’agua férvida,
archipelago pçorico. Essa viagem fortificara-lhe a saude. como matéria transparente, serviam de corpo prismático decom­
O ermita Diogo do Amor de Deus desembarcou em Villa pondo pela refracção a luz solar. Outros repuxos thermaes espa­
Franca do Campo a 6 de maio de 1614, indo habitar uma chou­ danavam para cima, formando columnas opalinas d'agua, rompendo
pana, junto da Ermida de Nossa Senhora da Consolação no valle o azul do céo.
das Furnas. A ilha estava ainda coberta d’arvores da flora indí­ No valle, o verde avelludado da junca regada por agua cor de
gena, zimbro, freixo, faia, louro, folhado, azeviche, sanguinho, so laranja, devida ao oxido de ferro, recordava o lago de sangue.
bresaindo os alterosos cedros agitados por impetuosos ventos. Outros terrenos avermelhados constituíam Mozzolanas. As regiões
Deante dos repuxos thermaes do valle das Furnas lembrou-se vulcânicas de lava recente mostram mais claramente nos seus ta­
do Yellowstone; os jactos negros da caldeira de pomes, com o ludes a natureza eruptiva. A ilha apresentava as montanhas cóni­
cas, as muralhas massiças ou dykes, as columnas gigantes­
cas. Os muros lavosos das crateras de alteamento revestem
a forma circular ou elliptica, ás vezes interrompidos por
altos renques de círculos concêntricos, e de comoros hoje
verdejantes. O observador esclarecido das Furnas medita
hoje nas energias grandiosamente formidáveis da natureza
de que aquelle sitio foi outrora theatro, comparando-o com
a formusura serena e com a compostura pacifica das lin­
das habitações e jardins ulteriormente espalhados n‘aquelle
mesmo valle. Acceita a theoria geognostica de que os vul­
cões são devidos a focos ignivomos, isto é, a reservatórios
igneos subcorticaes; o valle das Furnas é um foco ignivo-
mo. Parece demonstrado que as crateras não estão em
contacto directo com a pyrosphera central.
O ermita em terra portugueza não podia escolher logar
mais adequado para a sua penitencia, nem sitio melhor para
render louvores ao altíssimo. Tão rigorosas eram as mor­
tificações d este anachoreta que attrahiram a sympathia e
a piedosa protecção do capitão donatario da ilha, Conde de
Villa Franca, D. Manuel da Camara, edificando um mos­
Tanque no jardim do Marquez da Praia teiro para elle e para os outros ermitas.

222

DRaC-CCA
Sendo visitado o cenobio pelo bispo D. Jeronymo Teixeira,
permaneceu n’elle este prelado dois mezes, e concedeu-lhe o
desobrigarem os fieis dos arredores, e terem a sagrada Eucharis-
tia e os Santos Oleos.
No dia de Santo Estevão, rei da Hungria, pelas 9 horas da noite
de 2 de setembro de i63o, começa a terra a tremer formidavel­
mente e as crateras do valle a expellirem lava; pouco a pouco as
ladeiras e as colinas são assoladas por ondas de matéria ignea.
Da garganta da terra sahiam urros aterradores. Alli e n outros
pontos da ilha cahiam, como chuveiros seccos, nuvens bastas de
cinza sobre os campos e os povoados, soterrando homens, gados
e plantações. Num abrir e fechar de mão os ermitas recolheram o
sacrario, as imagens e relíquias, levando, como diz um chronista:
«cada qual a sua por bordão, allivio e socorro da morte». Em

Furnas. — Trecho d’u.m jardim Furnas. — Chalet do dr. Ernesto do Canio

2í3

DRaC-CCA
côro exclamavam: Senhor Deus, misericórdia! Senhor Deus, mise- Todos os anachoretas abandonam o eremiterio e vão tixar-se
ricordia! em Valle de Cabaço, salvante Diogo do Amor de Deus, que dan-
Sobre Pompeia e Herculamun, no século i, cahiu uma camada dose como holocausto, em extase, fica ajoelhado em oração, até
de lava de 20 metros d’espessura. Onde hoje estão as villas de que no dia seguinte uma onda lavosa o abrasou completamente.
Resina e de Portici vêem se os cadaveres mumificados na alti­ Então espalhou-se por toda a ilha de S. Miguel uma delicada fra-
tude da fuga, do trabalho ou de roubo, que nos fazem assistir ao grancia nunca sentida, um como perfume celeste, talvez symbolo
momento preciso do formidável drama. Nas Furnas ainda os pe­ da suavidade de tão glorioso arrependimento. O corpo do peni­
ritos não fizeram escavações. Quantos morreriam calcinados em- tente aromatisára a terra e a alma voára purificada para o seio de
quanto se vae da Achada para os Fanaes da Ajuda! Deus. As nuvens negras sumiram-se, a erupção acalmara de todo,
o céo clareou, as açucenas e os lyrios reverdeceram, as aves can­
taram. a paz consoladora reinou em toda a ilha.
E’ n’este local, junto do cenobio, que está erigido o templo de
Santa Anna, egreja parochial das Furnas.
Ferreira Deusdado.

Lagoa das Furnas.— Capei.i.a de José do Canto

224

DRaC-CCA
ASí<DTOTTI\O IV.'
28

ORI ANO

DRaC-CCA
LOMBADAS
GRAND FRIX
Exposição Internacional (lo S. Luiz em <904 MAGAZINE BERTBAND
MEDALHA DE OURO
Exposição do Paiacio de Crystal de Londres em 19(14
A LEITURA ILLUSTRADA

& lainha das aguas de meza Revista quinzenal—96 pag. cheias de gravuras
200 RÉIS
Assigna-se na

Leve, estomacal e digestiva, pura, límpida g., ANTIGA CASA BERTRAND — JOSÉ BASTOS

0 acido carbonico não é Introduzido artiflcialmente R- fiarrell, 73 e 75 —Lisboa

Recommendada por todos os médicos

DEPOSITO GERAL
106, AVENIDA DÃ LIBERDADE, 110 C. MAHONY & AMARAL
LISBOA
70, ESusi A.ng-ugita. 8.°— L3SBOA
TELEPHONE 586
METAES EM BRUTO: Aço, cobre, latão, estanho, chumbo em chapa, bar­
ras lingots.
FERRO: Em barras quadradas, redondas e vergalhão. Vigamento de ferro

1
MEMÓRIA SOBRE A ILHA TERCEIRA em TIU; cantoneiras e todos os mais aprestos para construcções. Ferro em
lingots para fundição. Chapas galvanisadas lisas e onduladas Chapas de aço
para caldeiras. Tubos de ferro, cobre e latão. Arame de ferro, cobre e latão.
por Alfredo da Silva Sampaio Folha de Flandres. Material fixo e circulante para caminhos de ferro. Rails de
aço e diversos perfis e pesos, vias portáteis. Machinas de vapor, gaz e petró­
Angra do Heroismo, 1904, 8." gr — XI — 833 paginas
leo. Caldeiras. Bombas. Machinas para industrias e agricultura. Machinas. Fer­
2$5OO RÉIS ramentas. Vidros polidos, foscos e de phantasia. Vidraça, lages de vidro (dalles).
A’ venda na
Assuear, arroz, especiarias, drogas, productos chiinicos. Ascensores hydraulioos,
ANTIGA CASA BERTRAND JOSÉ BASTOS Edoux & C.*
CIMENTO
Rua Garrett, 73 e 73 — lAnhoa Únicos importadores em Portugal e eolonias do CIMENTO da Compagnic
des Ciments Parisiens, fabricado pelo notável engenheiro E. CANDLOT.
Fabrica de sabão — Telhai (Poço do Bispo)
Fabrica de licores, aguardente, genebra e cognacs — TELHAI (POÇO 00 BISPO)
Trp. d'>A Editoras — Lisboa

DRaC-CCA
NO VALLE DAS FURNAS
valle das Furnas, minuciosamente descripto em meiado do
O século xvi pelo celebre padre michaelense, o dr. Gaspar
Fructuoso. no fim do século passado pelo medico da Madeira.
Guilherme Gurlay e em 1840 por Senna Freitas, originou-se, com
o decorrer dos séculos, pela acção do fogo subterrâneo (a ultima
erupção que alli houve foi ha cerca de tres séculos) e da agua
athmospherica, e desdobra o seu fundo encantador numa superfi-

Furnas. — Estabelecimento balnear

cie de cerca de 7 kilometros de comprido por 5 de largo. A oes


noroeste, ou á entrada, vindo pelo caminho que seguimos, alar­
ga-se uma vasta e pittoresca lagoa de i3oo a i5oo metros de
comprido, que medimos a passo, percorrendo a pé a estrada que
a ladeia. A largura d esta lagôa varia entre 3oo a 5oo metros e a
sua profundidade chega a attingir 10 metros mas em geral é muito
menor. Em seguida e inferiormente a esta lagôa, estende-se o
resto do valle. cuja casaria, disposta em ruas irregulares ou dis­
Furnas. — Casa de banhos do sr. Marquez da Praia persa, mas toda ella muito bem caiada a branco ou a côr de rosa,

N.° 29 215

DRaC-CCA
espontâneo enthusiasmo, caloroso, franco e expan­
sivo !

O valle das Furnas, que pelo instantâneo que d elle


dêmos revelou certamente o seu aspecto crateriforme,
deve o seu nome á existência de tres solfatáras acom­
panhadas de nascentes (Furnas) de aguas mineraes. A
maior, é situada no valle das Furnas, propriamente
dito; a segunda existe na lagoa, na raiz do pico do
Ferro, a terceira na falda E. do pico de Duarte Pa­
checo, junto da ribeira quente e ao pé da ponte dos
tambores.

dá, no seu conjuncto, visto de cima, uma nota alegre e quente ao Em todas ellas
resto da paisagem cuja belleza é mais magestosa mas mais severa. se produzem os
Cordilheiras com mais de 3oo metros de altura cercam a ampla phenomenos dos
bacia por todos gs lados e estão revestidas até aos cumes pelas geysers que, como
mais espessas florestas! Em torno das casas e formando a porta se sabe, são nas­
principal do fundo do valle, prados verdejantes e parques formo centes de agua em
sissimos e vastos ! Ao fundo as afamadas caldeiras ou geysers, lan­ ebulição, intermi
çando turbilhões de fumo branco! E em volta de tudo uma ame­ tentes, situadas na
nidade, uma frescura, um encanto, tão suaves e inebriantes, visinhança dos vul­
que logo nos deixamos arrebatar incondiccionaimente pelo mais cões ou sobrevi­ Parque r><> Marquez. — Memória ao visconde da Praia

226

DRaC-CCA
vendo á actividade propriamente dita nas regiões onde esta ultima
deixou de se manifestar. E na Islandia que ha as emanações gey-
serianas mais notáveis, e onde o typo d’estas nascentes foi primeiro
estudado.
Na solfatára do valle, além das nascentes importantes de agua
a ferver, situadas em urn espaço escalvado de um hectare, quasi
que por toda esta superfície se vê borbulhar pequenos olhos das
mesmas aguas, assim como pelas margens da ribeira, a jusante
d aquelle ponto. O solo está coberto de orifícios e quando por elles
não sae agua fervente desenvolvem-se vapores aquoscs e vapores
de enxofre sublimado, que cristalisa pelas bordas.
Mas o que de tudo mais impressiona e domina, e o que aterro-

Valle das Furnas. — A assembleia

risa os espíritos ignorantes, são as Furnas ou Caldeiras, entre as


quaes as mais notáveis são a Caldeira Grande, a caldeira dos Vi­
mes, a do Tronco, a de Asmodeu e a caldeira de Pedro Botelho.
Todas ellas emittem agua fervente, limpida ou lodosa, e desen­
volvem densos turbilhões de vapor, sendo estas emissões acompa­
nhadas de ruidos subterrâneos, roucos e magestosos, que resoam
a uma grande profundidade e se ouvem a distancia. A mais notável
das caldeiras pelo seu aspecto verdadeiramente medonho, é a de
Pedro Botelho, que o vulgo considera como um respiradouro do
inferno!
A bacia d esta caverna abre-se de encontro a uma rocha argi­
Vai.i.e das Furnas — Um ribeiro n’um jardim losa que, em parte, lhe serve de parede; do fundo da caverna

DRaC-CCA
Valle das Furnas.—Aspecto geral das caldeiras

22S

DRaC-CCA
repincha a grande pôde fazer á lagôa,
altura, com um som onde se encontra
roufenho e atroador, sempre uma barca
um borbulhão de cedida por um dos
agua lamacenta e seus amaveis donos,
fervente, que de no­ c a bordo da qual
vo cae dentro da se teria a illusão de
caverna. O fumo bordejar num tre­
que sahe d este an­ cho do Lago dos
tro é espesso e quatro cantões, se
quentíssimo e exha- as encostas apre­
la um cheiro sul- sentassem mais al­
phuroso que a pi­ gumas habitações.
tuitária a custo sup- A' excepção das dos
porta. srs. José do Canto
Por toda a parte e George Hayes, os
o solo esta quente, montes que nos cer­
o que os nossos pés cam só nos dão o
facilmente avaliam. bello aspecto das
se nos detemos pa­ suas umbrosas flo­
rados alguns mo­ restas, as quaes por
mentos. Em volta certo mais realçarão
Valle das Furnas. — Uma avenida. Caminho para os banhos quando ali forem
da solfatára, a na­
tureza torna a ser construídas algu­
viçosa e ridente como ella sabe sel o em toda esta formosíssima mas rillas e chalets (i). O passeio no lago deve ter como remate
e original estancia. E’ de noite que o espectaculo das furnas mais a visita das mattas e da capella do sr. José dolCanto, que este
impressiona e por isso o forasteiro que chega ao valle é logo lá cavalheiro mandou edificar á beira do lago perto da casa em que
conduzido por algum amavel cicerone, algumas horas depois do reside parte do verão.
sol posto. A capella, sob a invocação de N. S. das Victorias, representa

(i) Hoje existe ali também a villa S.tns Souci, propriedade do sr. Alfredo
l’ma das excursões mais encantadoras, é por certo a que se Ferin.

229

DRaC-CCA
um voto da esposa do sr. José do Canto, a sr.a D. Maria Guilher- allemães. O altar mór tem o frontal de carvalho do norte e n’elle
minaTaveira Brum do Canto, fallecida em Paris em 1887, e que ali estão praticados cinco nichos que receberam as estatuetas de
está sepultada em um carneiro, coberto por uma tampa de már­ Christo e dos evangelistas, executadas em mármore de Garrara e
more branco e polido. Esta capella é, pela sua architectura, o edi- tendo meio metro de altura, esculpturas que devem ser florenti-
nas e da epoca da capella.
Sobre o altar mór uma estatua da mesma pedra, re­
presentando a padroeira da capella. Um púlpito, á di
reita do altar, e a balaustrada, que separa este do resto
da capella, são de carvalho do norte muito bem escul­
pido e de industria franceza.
.(Trechos do livro S. Miguel em

Emygdio da Silva.

0 PARQUE 1)0 MARQUEZ, NAS FURNAS

m poucos paizes, e porventura em mais nenhum


E outro, considerada a curta extensão territorial da
de S. Miguel, — cerca de quinhentos kilometros qua­
drados,— se ostentam tantos jardins e tantos parques,
qual d’elles o mais formoso, qual d’elles o mais cuida­
do, todos revelando o gosto raffiné, o peculiar pendor
do genio michaelense por estas manifestações da flóra
e da arboricultura, pendor que transparece até nos
Valle das Furnas.—Rua d'um jardim mais minúsculos quintalinhos. que são o recreio das
nossas modest. s vivendas.
ficio mais notável da ilha. E’ no estylo gothico do norte e toda Entre os diversos parques, que tornam o Valle das Furnas um
ella, tanto interior como exteriormente, revestida de cantaria ás verdadeiro Eden, na accepção hebraica do Genesis, o Parque do
fiadas e de excellente tufo. As suas paredes são rasgadas por i3 Marque^ é dos mais frequentados pela colonia balnear, não só em
janellas ogivaes, guarnecidas de vitraes modernos francezes ou razão das suas sombras refrigerativas, mas da prioridade de an­

23o

DRaC-CCA
tigo ponto de diversões campezinas. E' certo que as condições palmides encrespam-lhe a face, como uma ruge de vestido de gi-
climatologicas e as de formação organica de solo, constituem o ganta. As franças do arvoredo, como melenas soltas das frontes
mais poderoso agente para a acclimação, a creação e o desenvol­ de Ondinas, mergulham-se, na corrente, como sequiosas da fres­
vimento rápido do arvoredo. Com estas circumstancias concorrem cura dos seus beijos.
as da humidade constante que se nota n’aquella região, onde são De bom gosto e esplendido effeito, o agrupamento das plan­
ephemeras as estiagens. tas. Vêem-se os arbustos delicados, entremeados com as acacias e
Por isso, ali ha arvores que parecem seculares, e que só teem os pinheiros, as camélias e os rhododendros com as pereiras e os
umas dezenas de annos. pecegueiros, uma miscellanea e um matiz surprehendentes, como
No esplendor d’aquella natureza, tão luxuriante, rica, maravi­ nas hortas sicilianas.
lhosa, quasi phantastica, o Parque do Marque^ allia-se, todavia, A sciencia do jardineiro inglez que dirigiu o delineamento do
á arte, no que ella tem de moderno, no genero. As ruas são tra­ parque moderno, soube aproveitar com excellentes resultados a
çadas n’uma ele­ situação topogra-
gância de curvas; phica e as bellezas
a disposição do ac- naturaes da locali­
cidentado do terre­ dade.
no, foi admiravel­ E disse parque
mente aproveitado; moderno, por que
como bem aprovei­ a actual forma d’es-
tadas as aguas das ta propriedade não
ribeiras adjacentes é a sua forma pri­
que formam o lago mitiva. Conheci a
artificial, bem re­ antiga, quando elle
cortado de mar­ se chamava o Tan
gens, que vae col- que, designação de­
leando pelas planí­ rivada do seu gran­
cies em miniatura, de tanque, que ain­
ao sopé das colli- da hoje conserva.
nasinhas verdejan­ Ao centro desse
tes, coroadas de ar­ grande repositorio
vores. Vogando do- d’agua, havia, como
nairosamente na agora, uma ilhota,
lympha do lago, os Tanque no parque do sr. Marquez da Praia mas muito mais

231

DRaC-CCA
elevada, e praticável por uma alta ponte de cantaria. Ali vi eu. se não esfumaram ainda, sem embargo dos horizontes já ficarem
quantas vezes, os bailados do povo, como se viam na rua margi­ a tão remota distancia!
nal do tanque, sob a cópa frondente dos grandes carvalhos. No O inicio da transformação do Tanque deve-se ao saudoso ti­
tanque havia uns botes elegantes, que a jeunesse dorée d‘aquelles tular, visconde da Praia, que n’aquelle tempo era a alma de to­
bons tempos tripulava para gáudio das damas, á semelhança de das as iniciativas alegres, de todas as diversões, com o enthu-
gondolas nas lagunas da Veneza dos doges. siasmo de alma que não envelhecia, tomando parte nas regatas
Na eminencia que domina o parque, onde hoje é a Villa, des­ da Lagoa, nos pic-nics, nos grandes passeios, nas soirées, abrindo
tacava-se outrora uma modesta habitação, na qual se dava ren- as suas salas quando a deshoras da noite a rapasiada lhe ia dar
de^vous a sociedade de elite, então denominada do bom tempo, umas serenatas, como nos bons tempos da romantica patria do
que o era realmente no agrupamento de famílias que constituíam Cid.
a colonia frequentadora das preciosas thermas. Se eu deixasse
correr a penna, o que não escreveria ella de reminiscências que Augusto Loureiro.

Furnas. — Palacete e jardim no sr. Marquez i>a Praia

23í

DRaC-CCA
FASCTCUEO IV29

album Açoriano

DRaC-CCA
.14^44^4^4^ 4444444444444444444444444444.

LOMBADAS
GRANQ PRJX
Exposição Internacional do'S.
*Lui« em 4904 111 MAGAZINE BEBTRAND
MEDALHA DE OURO
Exposição do 1'alacio de Cryslal de Londres em 1904 J
A LEITURA ILLUSTRADA
Revista quinzenal —96 paq. cheias de gravuras
A Rainha das aguas de meza 200 RÉIS
Assigna-se na

Leve, estomacal e digestiva, pura, limpida ANTIGA CASA BERTRAND - JOSÉ BASTOS

0 acido carbonlco não é introduzido artiflcialmente R- ^ai rell, 73 e 7o —Lisboa

Recommendada por todos os médicos

DEPOSITO GERAL
106, AVENIDA DA LIBERDADE, 110 C. MAHONY & AMARAL
LISBOA
70, Rua Augusta. ã.° — B IS BOA.
TBLEPHOKE 586

1 A ♦* A A A. ♦ A. ♦ ♦ ♦ A ♦ METAES EM BRUTO: Aço, cobre, latão, estanho, chumbo em chapa, bar­

◄i nllif ras lingots.


FERRO: Em barras quadradas, redondas e vergalhão. Vigamento de ferro
£ MEMÓRIA SOBRE A ILHA TERCEIRA em Ti u; cantoneiras e todos os mais aprestos para construcçòes. Ferro em
lingots para fundição. Chapas galvanisadas lisas e onduladas Chapas de aço
para caldeiras. Tubos de ferro, cobre e latão. Arame de ferro, cobre <■ latão.
por Alfredo da Silva Sampaio Folha de Flandres. Material fixo e circulante para caminhos de ferro. Rails de
aço e diversos perfis e pesos, vias portáteis. Machinas de vapor, gaz e petio-
Angra do Heroísmo, 1904, 8," gr — XI — 833 paginas
leo. Caldeiras. Bombas.'Machinas para industrias e agricultura. Machinas. Fer­

« w, A' venda na
2$5OO RÉIS ramentas. Vidros polidos, foscos e de phantasia. Vidraça, lagcs de vidro (dallex).
Assucar, arroz, especiarias, drogas, productos chimicos. Ascensores hydraulicos,
§ ANTIGA CASA BERTRAND JOSÉ BASTOS Edoux & C.*
CIMENTO
Rua Gnrrett. 7.3 o 7i — Lisboa Únicos importadores em Portugal e colonias do CIMENTO da Compagnie
5 des Ciments Parisiens, fabricado pelo notável engenheiro E. CANDLOT.
Fabrica de sabão—Telhai (Poço do Bispo)
s
Fabrica de licores, aguardente, genebra a cognacs — TELHAI (POÇO 00 BISPO)
Tvp. d'eA ra» — Lisboa

DRaC-CCA
Ponta Delgada. S Miguel — Procissão do Santo Christo —A festa mais popular dos Açores
■ >

233
N.° 30

DRaC-CCA
A PROCISSÃO
campo regorgita de povo, e ainda raldino dos prados, ao azul saphira das
O das cinco artérias, que n’elle veem ondas do atlantico. Anda n’elle como que
desembocar, como que descem avalan­ a nostalgia de ethereas e incognosciveis
ches de seres humanos, a entrar na massa regiões, que, mal desperto o espirito, se
compacta que atulha o vasto quadriláte­ esvaem na penumbra do sonho.
ro. Da ramaria dos copados olmeiros Começa a formar-se o préstito. Na
pendem as folhas tranquillas; e, onde frente ergue-se o pendão de Christo. No
em onde, põem tons alacres as pintalga­ damasco vermelho, a fluctuar ao vento,
das ornamentações da illuminação da destacam-se as quatro significativas maius­
vespera. Columnas se erguem capitadas culas— S- P. Q. R.—, Senatus, populus
de montões de flores; e, na egreja do que romanus. As opas, em longas filas,
mosteiro, pendem colgaduras escarlates, ora vermelhas, ora azues e brancas, vão
em destaque com as brancuras lacteas torneando o Campo de S. Francisco, e
das paredes do templo. No alto sobre­ põem nota alegre nas alas cerradas e ne­
puja uma grande cruz vermelha, da cor gras do povo. Outro guião se segue. De­
do sangue derramado pelo divino Mes­ pois, cruzes e ciriaes. Brilham varas de
tre. prata nas mãos dos mesarios. Aqui e
A multidão placida e reverente, aguar­ alem destacam-se as bandas de musica,
da a sahida do préstito. Não se elevam estrugindo os ares com os sons clango-
gritos; não surgem exclamações; não ha rosos dos instrumentos de metal. Estoi­
mesmo uma ondulação nesta massa cer­ ram girandolas de foguetes e fere o ou­
E C
greja do . —C
ollegio S
ápella do P
enhor dos assos
rada. E é assim este povo! Comtempla- vido o troar secco e forte dos morteiros.
tivo, estático; teem os novos a gravidade dos velhos. O impeto, O préstito segue em ordem, apertado comtudo entre a compacta
que faz levantar um bordão; a chufa a que corresponde o secco massa de povo. Anjos conduzem, em salvas de prata, os emble­
estalido de uma bofetada, não está no sangue das suas veias, nem mas da paixão de Christo, Senhor nosso.
na grave^brandura dos seus costumes. Tristes como o ceu, quasi No largo portico da egreja do mosteiro surge o busto venerando
sempre obumbrado de nuvens, não pedem risos ao verde esme­ do miraculoso Ecce Homo. Todas as frontes se curvam; todos os

DRaC-CCA
joelhos batem em terra. Ha, na multidão, exclamações surdas; As alas vão em continuado crescendo. As musicas rompem
preces a flor dos lábios; lagrimas a deslizar por adustas faces. em ralentadas marchas. Estrondeiam foguetes e morteiros. Parece
Uns veem que o Christo sorri, outros que os seu divinos olhos que vão alegrias no ether, emquanto surgem tristezas no solo. O
estão empanados da mais negra tristeza. Assim assemelham ao corpo dos seminaristas branco e negro, enfia no préstito duas fitas
aspecto da veneranda imagem o sentir intimo dos seus corações, symboiicas. A completai-as, o antistite açoreano com as vestes sa­
da sua fé no Homem-Deus. gradas, a mitra e o báculo, acompanhado dos seus capitulares.
A procissão vae em marcha. O andor e a imagem rutilam com Depois, as brilhantes fardas dos generaes, as negras becas dos
as faiscações das preciosas geminas. As flores, de múltiplas colo­ juizes, as apertadas e esguias casacas dos buiocratas graduados e
rações, acercam o Santo Christo, e sobem, em aspiraes, a afestoar os convidados envergando vermelhas opas. No coice povo, muito
o camarim. Segue, após o andor, o negro massame das penitentes povo.
em promessa. Vae alli muita angustia que o Christo consolou; E vae a procissão em marcha.
muita magua que se evolou no recesso da prece ' Mendo Bem.

DRaC-CCA
FRANCISCO DE PAULA E OLIVEIRA DR. VERÍSSIMO D’AGUIAR CABRAL

asceu em Ponta Delgada a 4 d’outubro de i85i, e morreu a Dr. Veríssimo Cabral, era cavalheiro muito distincto e devi­
N 25 de maio de 1888. O capitão Paulo e Oliveira era distincto O damente considerado pelos seus primorosos dotes. Exerceu
por bastantes annos a advocacia na comarca de Ponta Delgada,
antropologo e geologo. Publicou os seguintes trabalhos:
Note sur les ossements humains, qui se trouvent dans le musée como ornamento da sua classe, e em cargos electivos, como presi­
de la section geologique á Lisbonne— memória que foi lida ao dente da camara do concelho e de vogal, por varias vezes, e pre­
congresso antropologico de Lisboa em 1880, a que assistiram sidente no penúltimo triennio da Junta Geral do Districto. pôz sem­
alguns dos mais eminentes sábios da Europa. Esta memória, con­ pre ao serviço publico as suas bellas faculdades, elevada illustração
siderada desde logo um trabalho d'alto saber scientifico, foi pu­ e extremo zelo.. Na qualidade de governador civil effectivo d’este
blicada no respectivo Conipte ‘Tfyndu do districto, desde 1879 até 1881, apesar dos
congresso, publicado em 1884. exaltamentos partidários da época, a sua
Na Era Nova (1881) se publicou um auctoridade foi benévola e tolerante, pro­
notável trabalho seu, sobre as raças dos movendo quanto poude os interesses do
Kyaé Kkenmoeddings de Mugem, impor­ districto. N'esta qualidade e como parti­
tante contribuição para o estudo das ra­ cular, teve sempre grande desvelo pelo
ças prehistoricas que habitaram o valle Asylo de Mendicidade de l onta Delga­
do Tejo. Em 1886 publicou um estudo da, considerando o esta instituição como
intituladoLes ossements humains du um de seus mais dedicados protectores.
musée geologique de Lisbon— que cons- O conselheiro Aguiar Cabral, já adian­
titue um capitulo do notável livro de tado no seu curso de direito em Coim­
Cartilhac :—Les ages prehistoriques de bra, alistou se no Batalhão Académico,
lEspagne et de Portugal. Em 1888 pu­ que na Revolucção do Minho tão assi-
blicou-se outro trabalho de Paula de gnalados serviços prestou á liberdade; e
Oliveira: — Note sur les ossements hu­ só depois da convenção de Gramido de-
mains existantes dans le musée de la poz a arma dos combates, onde tantos
Commission de traveaux geologiques. de seus camaradas pagaram com a vida
Tinha já deduzido notáveis conclusões as dedicações á patria.
de estudo na sua grande collecção de Militou no partido progressista, de que
craneos, e deixou inéditos de subido foi Testa ilha dos mais esclarecidos, de­
valor. S. Miguei.. —Descendo para as Seu: Cidades dicados e prestantes dirigentes.

236

DRaC-CCA
TRES ARTISTAS
(FRANCISCO, JOAQUIM E ANNIBAL BARBOSA)

sta família dos Barbosas, é, in­ tensa dor, cantos de doçura intensa. Fazia-o murmurar doces har­
E discutivelmente, uma familia de monias, fazia-o rugir agonias profundas, — tão priviligiado era o
artistas de raça. Parece que a mu­ talento de Francisco Barbosa.
sica é uma parte integrante do seu As ovações consagradoras de quantos o ouviram extasiados, a
sêr: Vem-lhe do berço, está lhe no admiração de quantos sabiam apreciar o seu valor musical, foram
sangue. em vida a sua gloria. A memória do artista e do homem é ainda
Cesses tres irmãos artistas, Fran­ lembrada com saudade e respeito.
cisco, Joaquim e Annibal Barbosa,
são vivos os dois últimos, tendo o
primeiro morrido em 1898. Joaquim de Bettencourt Barbosa, eximio pianista, nasceu em
Francisco Borbosa era um violi­ 1841.
nista de primeira plana. Ninguém, O seu primeiro estudo foi de ra­
na sua terra, attingiu aquelle seu grau beca, como o seu irmão Francisco,
de perfeição musical, como violinis­ F
ranciscoB arbosa mais velho.
ta, porque nenhum possuia tamanho Com elle tocou a primeira vez
talento, tão grande intuição de arte, alma tão bem servida por do­ em publico, executando um dueto
tes de inspiração. de violino, num beneficio realisado
Com fiel observação, lemos algures que na familia Barbosa no theatro de S. Sebastião, em favor
não ha um só representante que não toque qualquer instrumento; e do Asylo de Infancia Desvalida.
já ao pae dos tres artistas a que nos vimos referindo, não havia Começou o estudo de piano, sen­
um só que lhe não fosse familiar. do seu primeiro professor Guilher­
O violino de Francisco Barbosa fez por muito tempo as deli­ me Pereira Rangel, que foi em 1848
cias dos michaelenses, se bem que raramente, em festas theatraes estabelecer-se em Ponta Delgada,
de intuitos caridosos. a leccionar piano e canto.
E d aquelle violino elle tirava vozes estranhas, gemidos de in­ A B
nnibal arbosa Depois foi discípulo de Oscar

DRaC-CCA
Pfeiffer, na segunda epoca em que residiu em S. Miguel (1807 a O mais novo dos tres irmãos, Annibal Barbosa, tem actual-
i858). mente 49 annos.
Considerava tanto Pfeiffer esta distincta vocação de pianista, O seu instrumento é o contrabasso. em que é realmente notável.
que o convidou a assistir diariamente ao seu longo exercício de E mais se destaca essa notabilidade, sendo certo que aquelle
arte, e assim se lhe formou o gosto e aperfeiçoou a technica da instrumento ingrato é pomo vedado para muito bons artistas, tra­
especialidade artística. tando-se de o tocar a solo.
Também recebeu lições de Antonio Ma­ Instrumento para acompanhamentos de
ria Eduardo Fuschini, pianista d’alto valor, orchestra, muito pouca gente se atreve a to­
e do eminente padre Serrão, que o conside­ cá-lo isoladamente, ante um publico sabedor,
rava como discípulo dilecto. com peças de exigências de execução; e cre­
Joaquim Barbosa foi o unico dos pianis­ mos mesmo que em Portugal este artista
tas seus contemporâneos que em publico to­ amador distinctissimo é dos raros, senão o
cou grandes peças concertantes dos maes­ unico, que se tem atrevido, aliás com exito
tros mais notáveis. brilhante, a realisar esse quasi milagre mu­
Dedicou-se posteriormente ao violoncello, sical.
de que havia falta, para constituir na terra Sim, quasi milagre. Annibal Barbosa,
um bom sextecto, tendo por mestre os Ca- curvado sobre o seu contrabasso, faz verda­
sellas, Cesar e Joaquim, que muitíssimo lhe deiros prodígios: o seu arco parece tocado
apreciavam mais esta pronunciada aptidão, de estranha magia, ao transformar a voz ca­
tendo hoje com aquelle instrumento inspira- vernosa do instrumento, a ponto de se che­
doras familiaridades. gar a confundir com o som fino e suave d um
Jã n’uma memorável palestra litteraria, violino!
realisada por Bulhão Pato no theatro Mi- Tira do contrabasso, feito para rugir tem­
chaelense, em janeiro de 1808, Joaquim Bar­ pestades, ondas de harmonia suavíssima, no­
bosa se notabilisou. desempenhando elle e seu irmão Francisco tas d’uma doçura de sonho.
toda a extensa e apreciável parte musical do sarau. Para mais, este grande artista revella se também compositor
Frondoni, Sá Noronha, os Casellas e varias outras summidades de mérito, escrevendo peças de raro sentimento, para as executar
artísticas que por S. Miguel passaram, todas o instigaram a que com raro brilho.
deixasse a terra e corresse mundo, a fazer profissão d’artista. Fóra de S. Miguel, Annibal Barbosa seria algueni, como seus
Nunca se decidiu a espatriar-se. irmãos, como tantos artistas michaelenses, em tantissimas mani­
A arte para elle tem sido culto intimo, que pratica com devo­ festações de arte, que nos Açores se estiolam, illuminados fugi­
tado amor. diamente por fugidios clarões de triumpho.

238

DRaC-CCA
ENTALHADORES MICHAELENSES
JOÃO ERNESTO DE CARVALHO e JOÃO SOARES CORDEIRO

nfileiram agora, na vasta e dis- olhos poisam n’ellas e param delei­


E tincta galeria de artistas que tados na contemplação da finura dos
o Alburn Açoriano vem pondo em desenhos, na elegancia dos recortes.
merecida evidencia, os dois homens E não precisa ser-se muito enten­
que, na sua especialidade, mais no­ dido na matéria, para se vêr que
táveis se tornam em S. Miguel. n’esses trabalhos andou a mão habil
O valor de João Ernesto de d um artista perfeito, como este o é,
Carvalho, roça pela grandeza da sem duvida.
sua modéstia. *
Entalhador de real mérito, tudo
quanto faz num pedaço informe de João Soares Cordeiro, na mesma
madeira, tudo especialidade, é
deve a si, á sua outro artista de
intuição natu­ comprovado va­
ral, sem que lor. Muito estima­
nada lhe tenham ensinado os mestres, que não do como homem, como entalhador tem a sa­
os teve. tisfação de ver devidamente apreciados os pro-
Mas isso não admira, tratando-se d’aquelle ductos do seu trabalho. E’ da sua lavra a mol­
temperamento artístico dos açorianos, que por dura que reproduzimos n’esta pagina, e na
si se fazem, adivinhando segredos, desven­ qual se nota a caprichosa phantasia do auctor
dando mysterios, resolvendo por estranhas re­ e a mestria meticulosa de execução Muitos
velações as maiores difficuldades da arte. outros trabalhos tem feito; e porque realmente
Por casas michaelenses existem moveis vale, occupa ha tempos o logar de professor
preciosos, lindas obras de talha, trabalhadas de talha na Escola de Desenho Industrial —
pelas mãos de João Ernesto de Carvalho. Os U —T
ma moldura rabai ho de à S. C
Jo o ordeiro
Gonçalo Velho Cabral, em Ponta Delgada.

'AJO

DRaC-CCA
PADRE JOAO JOSE DAMARAI
'entre os homens do seu tempo, destacou-se, como figura pri­ tallada 110 mesmo edifício. Como político, foi ainda dos principaes
D macial, o padre João José d’Amaral, que durante a sua vida
foi dos mais prestantes
vultos do partido cartista em S. Miguel, que tinha alli como chefe
o visconde da Praia.
cidadãos michaelenses. Mas é como homem
Nasceu na antiga villa de sciencia e como ho­
d’Agua de Pau, no anno mem de lettras que o pa­
de 1782, e falíeceu em dre Amaral ficou notável
1853. Intelligencia viva, entre a sua geração, e
actividade forte, critério mais ainda, como peda­
seguro e patriota arrei­ gogo distincto, como in­
gado, o padre Amaral foi cansável pugnador do en­
o inspirador e o principal sino publico.
organisador dos estudos N’este campo, a sua
públicos na sua terra. acção fez-se sentir profi-
Aos 18 annos de eda- cuamente, sem exemplo,
de, era já professor de até então.
lógica, e por carta regia O padre João José
de 3o de agosto de 1802 d’Amaral era um erudi­
foi nomeado commissario to: Eram-lhe da mesma
dos estudos no districto forma familiares a scien­
de Poma Delgada. cia e as lettras, e sabia a
Foi elle quem, n’esse fundo o latim, o francez
anno, organisou o lyceu e o inglez, coisa aliás ra­
d’aquella cidade, fazendo ra, n’aquelle tempo e n’a-
também parte da com- quellas terras. Deixou pu­
missão que elaborou o blicados alguns livros de
plano para a fundação da poesia, mas a maior parte
bibliotheca publica, ins- Moinhos michaelenses. (Desenho do . V
uk . S
aij e e ouza
da sua obra ficou inédita.

240

DRaC-CCA
TT ASCTCUIX) TV? 3U

DRaC-CCA
LOMBADAS
GRAWD PRIX
Exposição Internacional de.S. Luu em 1901 III MAGAZINE BERTRAND
MEDALHA DE OURO
Exposição do Paiacio de Cryslal de Londres em 1904
A LEITURA ILLUSTRADA
Revista quinzenal —96 paq. cheias de gravuras
A ?ainha das aguas de meza 200 RÉIS
Assigna-se na

Leve, estomacal e digestiva, pura, límpida ANTIGA CASA BERTRAND — JOSÉ BASTOS
IL fiarrell, 73 e 73 —Lisboa
0 acido carbonlco não é introduzido artiflcialmente

a
Recommendada por todos os médicos

DEPOSITO GERAL
106, AVENIDA DA LIBERDADE, 110 C. MAHONY & AMARAL
LISBOA
70. líiui Angusta. 3.° — IUSHOA
TKLEPHONE 586
METAES EM BRUTO: Aço, cobre, latào, estanho, chumbo em chapa, bar­
ras lingots.
FERRO: Em barras quadradas, redondas e vergalhao. Vigamento de ferro

MEMÓRIA SOBRE A ILHA TERCEIRA |Í em T I U i cantoneiras e todos os mais aprestos para eonstrucções. Ferro em
lingots para fundição. Chapas galvanisadas lisas e onduladas Chapas de aço
w por Alfredo da Silva Sampaio
M- para caldeiras. Tubos de ferro, cobre e latão. Araine de ferro, cobre e latão.
Folha de Flandres. Material fixo e circulante para caminhos de ferro. Rails de
aço e diversos perfis e pesos, vias portáteis. Machinas de vapor, gaz e petio-
Angra do Heroísmo, 1904, 8." gr — XI — 833 paginas
«e ÉA A’ venda na
2$5OO RÉIS
leo. Caldeiras. Bombas. Machinas para industrias e agricultura. Machinas. Fer­
ramentas. Vidros polidos, foscos e de.phantasia. Vidraça, lages de vidro (dalles).
Assucar, arroz, especiarias, drogas, productos chimicos. Ascensores hydraulicor,
Edoux & C.*
$ ANTIGA CASA BERTRAND JOSÉ BASTOS CIM E K T O
* Rua Garrett, 73 •• 7» — Li
*boa
❖ Únicos importadores em Portugal e colonias do CIMENTO da Compagnie
des Cimenta Parisiens, fabricado pelo notável engenheiro E. CANDLOT.

«il
X1OIIIffílHf 1K»IfM>■ MB StMM Fabrica de «nbão—Telbal (Poço do Bi«po)
Fabrica da licores, aguardente, genebra e cognace — TELHAL (POÇO DO BISPO)
Tvp. d'tA Editoras — Lisboa
JOÃO DE MORAES PEREIRA

uando eu fui para S. Miguel, já lá vão bons dez annos, conhe­


Q cia João de Moraes Pereira de nome, apenas, por algumas
noticias publicadas na Sociedade Astronómica de França; e foi
por acaso, numa festa de egreja na cidade de Ponta Delgada, que
m’o mostraram, junto ao orgão, cantando, com uma bella voz de
barytono, uma cantilena qualquer, julgo eu, adquada ao acto que
então se representava.
Não o conhecia, nem podia conhecer, n’aquella especialidade;
sabia-o unicamente astronomo amador, e amador distincto. De resto,
não sei qual a rasão porque a musica tem uma certa sympathia
pela astronomia e pelos astronomos.
O que é facto é que o descobridor da Nebulosa de Andro-
meda era musico, o grande Hereschel passava por sel-o, Goli-
nod chorava ao comprehender as grandes leis que regem os as­
tros e, ainda hoje, Camille Saint-Saens deixa-se frequentemente
seduzir pela magnificência do espectaculo astronomico, ou, como
dizia Kepler, pela harmonia da Natureza.
A primeira vez que fallei com o Moraes foi no Castello de
S. Braz; lembro-me como se fosse hontem. E em seguida á apre­
sentação do costume, por signal sobre uma grande cisterna que
ha na parada do dito Castello, vejo-o de braços abertos, como
um Christo sem Cruz nem pregos: — Pois V. é Fulano? Oh meu
caro amigo, venha de lá um grande abraço!
Era assim, assim ha de sempre sel-o. Durante nove annos,
em que nos vimos quasi todos os dias, passando muitas vezes ho
ras esquecidas pela noite dentro, em palestra e estudo, nunca
houve qualquer questão azeda, e o que é mais, nunca tivémos
uma d essas conversas vulgares, banaes e estúpidas, a que raríssi­
No 2.® plano, a direita do observador, joao de Moraes Pereira; ao centro, o dr. Bruno I.
Carreiro; a esquerda, dr. Álvaro Athayde. No 1.® plano, também á direita do abserva- mas vezes deixamos de assistir em qualquer sociedade, despedin-
dor. Francisco 1‘eixoio da Silveira; á esquerda, dr. Aristides da Moita.

N,® 31 241

DRaC-CCA
do-nos no fim, obrigados pela força das circumstancias e lucta Em S. Miguel, póde bem classificar-se de unica, a sua organi-
pela vida, com um abraço não menos fraternal do que o primeiro, sação artística. Descendente duma nobre familia da ilha das Flo­
e sem invejas nem emulações. res, (seu pae foi o barão de Santa Anna) Peixoto da Silveira
Moraes Pereira não se recommenda apenas pelo caracter que manifesta bem, no porte e no proceder, que sabe ser requintada-
acabo de deixar entrever. Além de ser um musico e cantor apre­ mente fidalgo.
ciável, cubicado por todos e para todas as reuniões, é também A sua primeira educação foi feita em Lisboa, aperfeiçoada na
um astronomo amador distinctissimo. Feito apenas com o seu tra­ Bélgica, continuada em Paris. Tem, pois, uma illustração brilhan­
balho, conseguindo só com elle, devassar segredos no terreno te, da qual emerge, mais salientemente, a qualidade de musico,
arido do calculo e da mechanica, é considerado, no estrangeiro, que o torna, no seu meio, um mestre conceituado e querido.
auctoridade em vários ramos de astronomia de observação. Algu­ Por dilletantismo, toma parte, com grande alegria do publico,
mas das memórias da British Astronomical Association sobre es- em concertos musicaes de intuitos caridosos, ou em saraus de élite.
trellas variaveis e Sol, são-lhe quasi exclusivamente devidas, e E um acompanhador consumado, firme na execução, inexcedi-
W. Pickering, director do observatorio de Harvard College, vel no brilho. Palaciano, clubman, é uma figura querida nas salas.
(o primeiro dos Estados Unidos) não desdenha pedir-lhe collabo- Para supprir faltas, ás vezes, por amor da arte, tem discípulos
ração para os trabalhos monumentaes que aquelle observatorio de canto e de piano, a quem são proveitosíssimas as licções do
executa sobre a variabilidade de estrellas. Como professor do lyceu, mestre.
que digam os que lhe passaram pela aula, se é facil encontrar E o que é mais notável, é que, sem incentivos e sem longas
quem mais se interesse pelo aproveitamento dos alumnos. meditações de estudo, envolto no prosaismo da burocracia, Pei­
Emfim,— o espaço, fixo de antemão, não sobra, —tem dois de­ xoto da Silveira não é um amador distincto, mas um distincto
feitos : não gosta que se occupem da sua pessoa (e eu não sei bem artista.
o que me espera ao escrever estas linhas) e conhece demasiada­ *
mente o nosso meio scientifico, d onde, immediatamente, a rasão
porque não é conhecido, vulgarmente, entre nós. Duas palavras também, a respeito do dr. Álvaro Pereira
Quanto a mim, é dos homens de maior valor scientifico dos Athaide:
Açores, um dos que mais profundamente conhece o assumpto da N’elle, o homem e o magistrado são igualmente sympaticos —
especialidade a que se dedica, o que, entre nós, diga-se de passa­ uma dualidade que se impõe á consideração e á estima de quantos
gem, não é positivamente uma recommendação. com elle tratam.
Mello e Simas. Cantor amador, é dos mais perfeitos de S. Miguel; porque á
*- sua bella vóz de baixo cantante, junta toda a mestria de saber
cantar.
Francisco Peixoto da Silveira é um pianista distincto, composi­ O dr. Álvaro Athayde enfileira guapamente no distincto grupo
tor cheio de delicadezas, regente cheio de enthusiasmos. da anterior gravura.

242

DRaC-CCA
DIÁRIO DOS AÇORES •»

0 JORNAL A REDACÇAO

imprensa açoriana, tão falha de emprezas Diário dos Açores, em que muitas das
A
O
valiosas e de jornaes que se imponham ao melhores pennas michaelenses collaboram,
applauso publico, como orgãos sérios, orienta­ tem dois redactores effectivos: Manuel Pereira
dores da opinião, competentemente redigidos. de Lacerda e Marianno Victor de Cabral.
tem no Diário dos Açores um dos seus melho­ Pereira de Lacerda, antigo jornalista já, traz
res representantes. de ha muitos annos o seu nome ligado ao jor­
A sua empreza é a unica que tem resistido nal. Intelligente, trabalhador e bom, tem a esti­
por mais annos, nos Açores, desafogadamente. ma absoluta de todos os seus patrícios. Poz sem­
com lucro para pagar a uma redacção, o que não pre a sua penna criteriosa ao serviço do bem
é vulgar. publico, como abre a sua bolsa e reparte do seu
O Diário dos Açores possue casas de otlici- pão pela pobreza, a quem nunca fechou a porta.
nas bem montadas, com grande pessoal. E' hoje
uma empreza solida, a primeira das ilhas. *
Tavares de Rezende, cujo retrato vae junto Pereira de Lacerda

á gravura do jornal, foi o fundador do jornal, que Victor Cabral é um espirito culto, um tem­
conta 35 annos de existência. Emprezas de mais alevantados ideaes peramento de artista que o ronceiro materialismo da imprensa
artísticos se têm montado em S. Miguel, infructiferamente; e vem local anda estragando. Alguma coisa de mais elevado lhe estava
a proposito citar aqui as iniciativas de Ferreira Cordeiro, homem destinado na litteratura, se não fôra a sua indolência, o seu feitio
de rasgados planos de arte typographica, que cheio de amor adqui­ de sonhador, de phantasista, que alimenta planos e não tem cora­
riu as melhores machinas, os melhores materiaes typographicos, gem de seguir avante, possuindo, alliás, explendidas qualidades
inclusive a lytographia, que os Açores possuíram. para produzir obra de vulto.
Sem grandes pretensões, séria e acreditada, a empreza do Intelligencia lúcida, tem lido, lê muito, digere, sabe, emtim.
Diário dos Açores caminha desassombrada e o jornal vive numa Victor Cabral, innegavelmente. salienta-se entre os poucos bons
louvável linha de conducta. jornalistas dos Açores.

243

DRaC-CCA
85,’anDO —1905 Quinta-feira. 6 de Julho Serie V -N.’t239 RAPOSO DE OLIVEIRA

DIÁRIO DOS AÇORES oetei, na mais nobre significação do

Quintas-feiras
P termo. Novo nos annos— velho no
pensar. Os seus grandes olhos scisma-
Impressões de Lisboa
dores, mostram, na serenidade do bri­
lho, a candura, a bondade da sua alma.
Nevrotico, affectuoso, fortemente
emotivo, — os seus versos são como elle
é: nevroticos affectuosos, banhados de
emoção. Michaelense por nascimento, é
muito açoreano por indole, muito por-
tuguez pela sua arte. Aos 17 annos. em
1898, publicou o seu primeiro livro de
versos — Ardentias. A critica, unanime-
mente, recebeu-o com applausos, de braços abertos. Do mesmo
modo entrou no mercado litterario o seu poemeto — Natal, em
Sup plica igoo, e as Orações do Amor, em 1900. Com este ultimo livro, fi­
cou definitivamente affirmada a sua reputação de lyrico brilhante,
porventura a mais authentica gloria dos Açôres, na actualidade, e
com logar marcado entre a nova geração dos poetas portuguezes
de real valor. Com rara vocação para o jornalismo, collaborou lar­
0 amor no casamento A dôce amargura
GiernJimtir>-*l>r-
gamente na imprensa michaelense e açoreana, redigindo com Au­
le de D. Joio—Áilhe-
ro de OaeaUl gusto Loureiro um dos melhores jornaes açoricos — O Heraldo.
Fundou e redigiu, por ultimo, A Nova, patenteando sempre,
com flagrante brilho, as suas qualidades de escriptor moderno.
Mas um campo mais largo de acção chamava por elle. Aba­
lou em 1904 para Lisboa, onde hoje faz parte da redacção dum
Lyrics
jornal conceituadíssimo — o Jornal das Colonias, onde, como
em toda a parte, continúa a ser querido e apreciado.
Antonio Baptista.

244

DRaC-CCA
; tu? Entra e descança no meu lar. Sim, para a morte! E, pois, o que faremos,
Ha muito já que eu era triste, meu amor. Corpos sem alma, sem ideaes, sem luz,
Na escuridão da vida, ébrio de dôr, Se ambos vergámos sob a mesma cruz,
A luz do olhar gastei-a em te buscar. E nem é nossa a vida que vivemos?.. .
(I

Mas como tu vens pallida e cançada, Fatal noivado é este, minha amante,
E que sinaes profundos de tristeza Ao qual nem um sorriso faz cortejo!
Trazes no olhar! Foi longa, com certeza, Troquemos o primeiro e ultimo beijo,
E cheia de tormento, a caminhada... Neste angustioso, neste doce instante.

Vem para aqui, e ao fogo da lareira Empallideces mais. Vem no meu leito,
Aquece o corpo virginal, perfeito. Por um pouco, ao meu lado, repoisar.
Calor não tenho eu, que no meu peito Póe a cabeça aqui, sobre o meu peito:
Morreu ha muito a chamma derradeira. — Basta cerrar, por um momento, o olhar. .

Sem que nunca te visse, todavia, E logo pai tiremos para a Vida,
Desde a infancia conheço quem tu és! Por estradas de luz e de mistério...
Por caminhos sem fim rasguei meus pés, — Nem sequer uma cruz compadecida
Clamanuo em vão por ti, de noite e dia. .. Que mostre ao mundo o nosso cemiterio.

eu-te a minha alma em lindos sonhos, Espera. Pede commigo a Deus, nesta hora,
inda assim, assim pura qual te vejo... Antes que sobre nós descenda o véu:
— Acha-se estanque a fonte do desejo,
Mortos de sede meus ideaes risonhos!
— Não nos deixes, Senhor, perder agora,
Pelos caminhos que vão dar ao ceu!
scavas-me também? — Maldita sorte
r legado do ceu nós recebemos, (Das Orações do Amor.)
Que, buscando um ao outro, nos perdemos,
Raposo de Oliveira.
—E-só nos-encontrámos paTa"ã~fhorte...

DRaC-CCA
ARMANDO DA SILVA
em actualmente 34 annos de edade, o director Lobo d’Avila foi ministro das Obras Publicas, e pediu a Armando
político do Economista Portugue^, o illustre da Silva para ser seu secretario, logar que desempenhou até o
jornalista Armando da Silva, nascido em fallecido estadista passar para a pasta dos estrangeiros.
S. Miguel em janeiro de 1871. Foi em Ha alguns annos já que Armando da Silva se conserva arre­
Ponta Delgada que encetou a sua carreira dado do jornalismo activo, e se dedica ao estudo da Historia Na­
jornalística. Muito novo ainda, teve n’aquella tural. Como director do Aquário Vasco da Gama, tem publi­
cidade vários jornaes, entre elles, o Vigilan­ cado alguns trabalhos de grande valor scientifico, como o é, por
te, onde publicou as celebres polemicas com o exemplo, o relatorio apresentado ao ministro da marinha, Teixeira
fallecido poeta Costa Rezende, que então redigia de Sousa, em 1899. Publicou mais as Explorações Submarinas, e
a Ventosa Sarjada; e collaborou no Diário dos Açores, na Per­ os Moluscos, dois pequenos volumes preciosos, que attestam de
suasão, no Diário de Annuncios, onde se encontram vários folhe­ sobejo as aptidões de Armando da Silva, que transita da litteratura
tins e artigos seus, assignados Dr. Gil Demonio, Figaro, etc. Em para a sciencia, sem difficuldades, mercê da sua intelligencia ar­
1888 veio para Lisboa, entrando para a redacção do Commercio guta, que, applicada a qualquer ramo de estudo, entra por elle
de Portugal; mais tarde, depois de voltar de S. Miguel, para onde adentro, como esses cosmopolitas que em todos os paizes se dão
tinha ido tomar a direcção de um jornal progressista, (Correio bem.
Michaelense) passou para o Tempo e depois para as Novidades. E o que ha, sobre tudo, a admirar em Armando da Silva, é o
Quando Navarro foi ministro para Paris, e Barbosa Colen assu­ facto de se ter feito por si, de ter subido á custa do seu talento
miu a direcção d’aquella folha, Armando da Silva foi feito secre­ apenas, a ponto de se tornar na capital do reino um jornalista te­
tario da redacção. E’ ahi e depois no Jornal de Lisboa, de que mido no combate, apreciado pelo estylo, conceituado pelo saber.
foi director, que se encontra a parte mais brilhante da sua obra Não esquecendo nunca a terra natal, por ella tem trabalhado
de jornalista. Nas Novidades, foi elle quem fez a celebre campa­ amorosamente, em várias e meritórias obras de propaganda, pela
nha da Irmã Coleta, o caso das Trinas. Por esse tempo, Carlos imprensa e pelo livro.

246

DRaC-CCA
AUGUSTO CABRAL

omo é natural, occupa um emprego pu­


C blico em Ponta Delgada, pois que pela
sua arte, de que tanta gente, por esse grande
mundo, vive folgadamente, só poderia morrer
de fome na sua terra.
As caricaturas de Augusto Cabral, são re­
vestidas sempre d um humor fino e leve, d’uma
graça mordaz, mas que não magôa.
Já têm sido várias as tentativas para man­
ter em S. Miguel um jornal de caricaturas, sem­
pre malfadadamente. Augusto Cabral foi cha­
mado para essas emprezas, deixando, em tres
ou quatro folhas do genero, bellas paginas saty-
ricas, que uma parte do publico admirava, mas
que escandalisavam a outra parte, a attingida.
Meio pequeno, onde todos se conhecem,
meio contaminado pelas dependencias, a arte
de Augusto Cabral, applicada ao periodico de
vulgarisação, é impossível de manter-se ali,
senão cuidando de assumptos banaes, fóra da
política, do commercio, do capitalismo...
Por isso mesmo, morre á mingua de recur­
sos a publicação d'esse genero. como aliás já
aconteceu ao Binoculo e ao Pist! — jornaes
michaelenses de caricaturas, em que Augusto
Cabral collaborou brilhantemente.
N’outro meio, certo que Augusto Cabral
lograria impor-se; na sua terra, contenta-se
em fazer arte. . . para os amigos.

247

DRaC-CCA
PONTA DELGADA
capital dos Açores orientaes, Ponta Delgada, gósa legio, (antigo convento de jesuítas) o bello hospital, o theatro, os
dos fóros de terceira cidade do reino. palacios Fonte Bella e Jacome Correia.
| • Assentada á beira mar, na costa Ha em Ponta Delgada uma importante fabrica de distillação
sul da ilha de S. Miguel, é uma ci­ de álcool, uma de cerveja, duas de tabaco, fabricas de queijo e
dade populosa, limpa, arejada, risonha. Orça por manteiga, de chapéus, de moagem, e outras para pequenas indus­
18 a 20 mil almas, a sua população. trias locaes. Os seus jardins têm larga e merecida fama.
Cidade industrial e commercial, tem um ma­ Ponta Delgada é a sede do departamento marítimo doeste e
gnifico porto artificial, vasto e seguro, com esta­ do tribunal da relação dos Açores. Tem lyceu central, museu, ob­
leiros, officinas de fundição, armazéns, posto de servatório metereologico e bibliotheca publica. A caridade é am­
desinfecção, etc. plamente exercida. E para nada faltar, o povo é dócil, hospitaleiro,
Entre os edifícios de maior vulto, destacam-se a egreja do Col- laborioso, intelligente.

S. Miguel.—-Vista geral da cidade de Ponta I Ielgada

248

DRaC-CCA
FASCÍCULO TV.°

DRaC-CCA
LOMBADAS
GRÁND PR1X
Exposição Internacional do’S. Luiz em 1904 II MAGAZINE BERTRAND
MEDALHA DE OURO
A LEITURA ILLUSTRADA

& Rainha das aguas de meza Revista quinzenal —96 pag. cheias de gravuras
200 RÉIS B
Assigna-se na
Leve, estomacal e digestiva, pura, limpida ANTIGA CASA BERTRAND— JOSÉ BASTOS
k- II. fianelt, 73 e 75 —Lisboa
0 acido carbonico não é introduzido artiflcialmente

Recommendada por todos os médicos

DEPOSITO GERAL
106, AVENIDA DA LIBERDADE, 110 C. MAHONY & AMARAL
IiXSBOA
70, Run Augiisla. 3.° — IjISBOA
TELEPHONE 586
METAES EM BRUTO: Aço, cobre, latão, estanho, chumbo em chapa, bar­
ras lingots.
FERRO: Em barras quadradas, redondas e vergalhào. Vigamento de ferro
em TI U; cantoneiras e todos os mais aprestos para eonstrucções. Ferro em
lingots para fundição. Chapas galvanisadas lisas e onduladas Chapas de aço
para caldeiras. Tubos de ferro, cobre e latão. Arame de ferro, cobre « latão.
Folha de Flandres. Material fixo e circulante para caminhos de ferro. Rails de
« S aço e diversos perfis e pesos, vias portáteis. Machinas de vapor, gaz e petio-
leo. Caldeiras. Bombas. Machinas para industrias e agricultura. Machinas. Fer­
s ramentas. Vidros polidos, foscos e de phantasia. Vidraça, lages de vidro (dalles).
Assucar, arroz, especiarias, drogas, productos ehiinicos. Ascensores hydraulicos,
Edoux & C.*
§ CIM E Jl T Q
Únicos importadores em Portugal e colonias do CIMENTO da Compagnie
I des Cnnents Parisiens, fabricado pelo notável engenheiro E. CANDLOT.
Fabrica de sabão — Telbal (Poço do Bispo)
d Fabrica de licores, aguardente, genebra e cognacs — TELHAI (POÇO DO BISPO)

Trp. d'» A Editora» — Lisboa

DRaC-CCA
Aos nossos assignantes
Devido á demora que tem tido a remessa d’alguns retratos e
originaes pedidos para S. Miguel, e para que o «Álbum» não
tenha de interromper a sua regular publicação, vamos entrar
na ilha de Santa Maria, no proximo fascículo.
Fica, por tal motivo, um pouco incompleta, a parte de
S. Miguel, falta a que proveremos depois, em appendice ao
«Álbum Açoriano».
Pouco mais ha a fazer, é certo; mas como desejamos não
deixar lacunas, pedimos aos cavalheiros a quem solicitámos
coadjuvação, e que tão obsequiosamente a prometteram, a fineza
de não fazerem demorar a remessa, se bem que já pequena, de
original e retratos, para o perfeito acabamento d’esta obra de
intuitos patrioticamente nobres.
A Empreza.

DRaC-CCA
N.° 32 249

DRaC-CCA
ILHA DE SANTA MARIA
a primeira das ilhas dos Açores, na ordem do descobrimento, Sobre este basalto ha uma pedra arenosa, aspera e de cor
E que teve logar no dia i5 de agosto de 1402, por Gonsalo Ve­ avermelhada, passando a amygdaloide pardo-poroso, cujos favos,
lho Cabral, senhor de Pias, Beselga c Cardiga, commendador na parte mais dura, encerram crystaes de aragonite, zeolites, au-
do castello de Almourol, e que foi o seu primeiro capitão dona­ calcima, e carbonato de cal.
tário. Segue-se uma acamaçao calcarea muito interessante pelos seus
Mede uns 20 kilometros de comprimento por 15 de largura. restos orgânicos. Esta pedra é quasi que inteiramente composta
A ilha tem a fórma tra- de conchas marinhas, debil­
pesoide irregular, sendo a mente ligadas entre si por ci­
parte de Oeste dominada por mento arenoso. N’algumas
uma planície ondulada, e a partes existem signaes de que
outra parte pelo Pico Alto, a acção do calor a tem subju­
um monte biforme com 070 gado, tornando-a extrema-
metros de elevação, e por mente dura, principalmente
uma cordilheira que corre quando encerra, o que é fre­
para S. S. E., terminando na quente, seixos de basalto ou
Ponta do Castello. amygdaloide.
Um dos melhores estudos O terreno, na superfície,
que se ha feito sobre a curio­ é de argilla parda misturada
sa constituição geologica da e coberta de bolinhas de ba­
ilha de Santa Maria, é o de salto.
Thomas Carew Hunt. As conchas da pedra cal­
Segundo este auctor, a pri­ carea são os únicos signaes
meira indicação que se en­ de vida animal primitiva,
contra é uma base de basalto observados até hoje nos Aço­
compacto e escuro, com pe­ res. E’ difíicil a sua extrac-
queníssimos crystaes de oli- ção de modo que se possam
vina. S
axtaM — V
aria ista gerai, P
da viela do orto classificar, por causa da soli-

25o

DRaC-CCA
dez da matriz. Ainda as­ conforme seus hábitos peculiares ; e a elevação de parte do baixio
sim, examinando-se a pe­ fóra da agua, deu logar a margens e depois a calhau misturado
dra por differentes partes, com as conchas dos diversos mariscos, que o habitavam.
reconhecem-se exemplares E’ de suppor que a fusão mais ao menos parcial d’esta mistura
de pecten, cardium, turitel- fosse o effeito d’uma erupção vulcanica; e pelo seu calor os sei­
la, trochus, tornatella, cy- xos basalticos tornaram-se mais refractarios, amassando-se mais
therea c natica. as conchas com a matéria semi-calcarea. Assim se poderá expli­
As camadas observadas car a formação da pedra calcarea, que se encontra na ilha de
sobre a base basaltica, na Santa Maria.
parte plana da ilha, desap- Também a effeito das mesmas forças vulcânicas se deve attri-
parecem na outra, debaixo buir a formação da cordilheira do Pico Alto, e a injecção de ma­
da cordilheira. A pedra téria nova em fendas abertas na base e que, n’algumas partes, se
d esta parece-se com o por- encontram em fórma de diques estreitos, e veios que só na maior
íido pardo compacto, mui­ dureza diflerem do basalto que os soterra.
tas vezes amygdaloidal e
com crystaes de augite,
cujos fragmentos estão es­
palhados por todos os de­
clives e mesmo nos cumes
I ' C
razão d armas da Mamara
dos picos.
unicipal
. . P
da vii i a do orto
Comtudo ha veios que
se formaram no basalto, e
a infiltração de que se originaram as grandes columnas stalacti-
ticas da furna do ilheu do Romeiro, em San Lourenço, indicam
a presença do elemento calcareo.
Da formação d’esta ilha deduz-se que d’uma primeira erupção
submarina resultaram as duas camadas de basalto e amygdaloide,
que chegaram quasi á flor d’agua, altura própria para a existência
de mariscos, cujas conchas denunciam actualmente o que então
seria superfície do baixio.
Muitos annos depois a trituração da amygdaloide e dos despo­
jos testaceos produziu a areia, em que os mariscos se enterraram, Vli.l.A |>O Pomo. — Ri a de Santo Anionio

2’n

DRaC-CCA
usados principalmente pelos camponezes, que cosidos com a carne
de porco dão a esta um sabor deveras agradavel.

Santa Maria. — Um trecho da villa do Pomo

O panorama que se desfructa do Pico Alto é surprehendente,


porque se vê toda a ilha rodeada de mar, observando-se um largo
horisonte, e quasi todas as povoações, nomeadamente Santa Bar­
bara, n'um verdejante valle, a Almagreira com as suas quintas, e
a villa do Porto, occupando, n’um conjuncto agradavel, o monte
onde está edificada, com as suas duas ribeiras marginaes — San­
dio e Calhau da roupa, á beira-mar.
O solo mariense é fértil em producções vegetaes, notando-se
entre estas algumas plantas medicinaes e outras próprias para tin­
turaria. Ha abundancia de excellente trigo, que se exporta, e de
legumes, fazendo-se d’aquelle uma massa denominada cuscus,
que substitue vantajosamente o arroz, e que é muito apreciada,
bem como uma certa qualidade de nabos, muito substanciaes, c Egreja Matriz da villa do Porto

232

DRaC-CCA
A população regula entre sete a oito mil habitantes.
A villa do Porto, capital da ilha de Santa Maria, é a primeira
povoação que existiu nos Açores. Está muito bem situada, como
já indicámos, sobre um monte á beira-mar, marginada por duas
ribeiras, e voltada ao S. O.
O brazao d’armas d’esta villa vê-se em uma bandeira, que
existe na camara municipal, mas não se sabe como ou quando foi
adquirida, nem existe acta que falle d’ella.
E’ de damasco de seda carmezim, bordada a retroz de co­
res e lantejoulas d’ouro, tendo dum lado as armas reaes, e do
outro o brazão da villa, que consiste numa imagem de Nossa
Senhora da Assumpção, lendo-se em volta a phrase: I.aetitio
Angelorum.

Vii.i.a i>o Porto. — Caes da Alfandega

E' abundante em gados, principalmente o vaccum. que se ex­


porta em grande escala, e o ovelhum que veste com a sua lã
grande parte dos habitantes, que d elia fazem um tecido mais
grosseiro — a estamenha, e outro mais fino e menos compacto —
a serguilha. Também fazem excellentes cobertores e colchas.
Do leite das vaccas e ovelhas fazem-se queijos, que são muito
apreciados.
E’ abundante de caça, principal mente, coelhos, perdizes e
pombas, bem como de peixe, que é variado e muito saboroso.
A argilla parda, — barro—serve para louça vermelha, canos,
tijolo e telha, exportando-se para as outras ilhas.
O clima é muito saudavel, e os habitantes muito hospitaleiros,
briosos e pacatos. Santa Maria. — L‘ma feira de gado

DRaC-CCA
D. LUIZ DE FIGUEIREDO DE LEMOS
Luiz de Figueiredo de Lemos nasceu na villa do Porto da meiras ordens sacras recebeu-as em Portalegre, do bispo D. An­
D , ilha de Santa Maria a 21 de agosto de D44, tendo por pro­ dré, e as seguintes em Lisboa.
genitores a Miguel de Figueiredo de Lemos e O bispo dos Açores, D. Gaspar de Faria,
sua mulher Ignez Nunes Velho, pessoas da me­ nomeou-o vigário da freguezia de S. Pedro, cm
lhor nobreza d’aquella pequena ilha — uma terra Ponta Delgada, e ouvidor ecclesiastico em toda
pobre e modesta, onde certamente devia cau­ a ilha de S. Miguel, pela muita consideração
sar assombro o apparecimento d’um homem da em que tinha suas lettras e virtudes.
sua elevada estatura; homem que soube alliar D. Pedro de Castilho, que succedeu na ca­
o lustre que lhe dava a fidalguia do nascimento deira episcopal dos Açores a D. Gaspar de Fa­
com as predilecções pelo estudo, honrando com ria, fel o deão da Sé d* Angra, c quando foi á
os seus dotes excepcionaes a nobreza dos seus ilha de S. Miguel levou-o como visitador, não
tempos, a que também pertencia. voltando os dois á Terceira, por causa dos acon­
Principiou os seus estudos aos 5 annos de tecimentos que se deram n’esta ilha, a proposito
edade, e aos 12 já lia algumas humanidades de D. Antonio, prior do Crato.
com o castelhano João Rodrigues da Veiga, a D. Pedro nomeou-o então vigário geral e
quem acompanhou para Villa Franca do Cam­ provisor, e mais tarde governador do bispado.
po. Aos 17 annos entrava para o collegio de quando retirou dos Açores, por ter sido trans­
Santo Antão, em Lisboa, onde obteve prémios, ferido para a diocese de Leiria.
seguindo mais tarde para Coimbra onde tam­ Tomada a ilha Terceira pelo marquez de
bém foi premiado, na faculdade de Cânones, Santa Cruz, D. Luiz de Figueiredo regressou a
em que se formou com applauso de lentes e Angra, continuando com aquelle governo; e
condiscípulos, pois que a vocação própria e os por tal fórma se desempenhou do cargo, no
desejos de seu pae o levaram a seguir a vida meio das dissensões c intrigas que por então
I>. I.ciz > F
i e L
igueiredo de emos
ccclesiastica, apesar das insinuações cm con­ havia rfaquella cidade, procedendo com a me­
trario do seu parente D. Luiz Coutinho, filho de lhor prudência e o mais elevado critério, que
D. Francisco Coutinho, que era commendador da ilha de Santa El-Rei o propoz para bispo da Madeira, cm 1585, sendo breve­
Maria. Entrando n’essa carreira sob tão bons auspícios, as pri­ mente confirmado pelo papa Xisto V, pois que foi sagrado na

254

DRaC-CCA
4-a dominga da quaresma (dominga da Rosa) no mosteiro da San •
tissima Trindade, em Lisboa, contando pouco mais de 41 annos
de edade.
A sua sagração foi uma grande festa, revestida de sumptuosidade.
O novo bispo partiu de Lisboa para a sua diocese em 27 de
julho do referido anno, desembarcando no Funchal a 4 de agosto,
dia de Nossa Senhora das Neves.
Foi d uma imponência desusada o desembarque, encorporando-
se no grande préstito, que se organisou desde a praia dos I 'ara-
douros até á Sé, o capitão general Tristão Vaz da Veiga, a Ca-
mara, toda a nobreza, dignidades e cabido, muitos padres e o povo
que. abrindo alas respeitosamente, se curvava com a veneração
que inspira um príncipe da Egreja, notável pelas suas virtudes, c
cuja figura inspirava a maxima sympathia.

Santa Maria. — Festas do Espirito Santo

A primeira missa de pontifical, que celebrou na Sé, teve logar


no dia i5 de agosto, dia de Nossa Senhora da Assumpção, orago
da mesma Sé.
D. Luiz de Figueiredo prégava muitas vezes na sua cathedral,
dominando com a palavra insinuante e com a voz bem timbrada o
auditorio. Além d’isso era grande thcologo e improvisava com fa­
cilidade. Era alto e de boa presença, dominando os ângulos no perfil.
Bonita figura, da mais pura e aristocratica raça, a d’esse bispo
que, levado pela sua fé, pela sua vida, pelo seu dever, e pelo seu
coração, tão bem soube acarinhar, como filhos, os que foram con­
fiados á sua direcção espiritual, exercendo n’elles grande influen­
cia, pela critica dos costumes, que procurou aperfeiçoar, expedindo
Santa Maria. — Extincto convento dos Fra ;. is< anos ordens muito criteriosas, visitando todas as egrejas da ilha da Ma­

255

DRaC-CCA
deira, onde collocou parochos que. como elle, apresentassem am­ 1608; e o sr. commendador Luiz de Figueiredo e Lemos do Canto
plo ideal de justiça e de bondade, corrigindo os costumes, com inal­ Côrte-Real, affirma ter a certeza de que elle fez testamento, insti­
terável dedicação pelos seus freguezes e escrupulosa probidade nos tuindo um legado para a creação d'uma escola para educação de
seus actos. creanças do sexo masculino, com a clausula de que teriam prefe­
Convocou um synodo, que se celebrou na Sé do Funchal cm rencia para a matricula os parentes do instituidor, que de tal be­
29 de junho de 1697, synodo cm que se fizeram e publicaram al­ neficio quizessem utilizar-se.
gumas constituições, em additamento ás feitas em 1378, no tempo O sr. commendador Figueiredo também assegura que a escola
do seu antecessor, D. Jeronymo Barreto. se estabeleceu e que n’ella foi educado um seu parente; e que seu
Em 1601 reimprimiram-se estas constituições, accrescentadas pae, João Soares de Figueiredo, quiz habilitar-se para que o filho
com as feitas no tempo de D. Luiz de Figueiredo de Lemos, que alli fosse educado, ao que se oppoz um irmão, o morgado Luiz de
foi o 8.° bispo da Madeira, e o primeiro açoreano que logrou as­ Figueiredo Velho Mello Falcão.
cender a uma cadeira episcopal, porque o terceircnse fr. João Es­ Diz ainda aquelle cavalheiro que o bispo D. Luiz deixou outros
taco, eleito por Filippe II, bispo de Puebla de los Angelos, em 1552, legados e que, pelas investigações a que mandou proceder, se não
não chegou a tomar posse do cargo, fallecendo a 4 de abril encontra o referido testamento ou copia d’elle.
de 1553. A escola, se existiu, já não existe, mas é de suppor que o pre­
O nosso biographado deixou de existir em 1608. na sede da lado madeirense se não esquecesse nas suas ultimas disposições.
diocese, sepultando-se, ao que consta, na ermida de S. Luiz, por dos pequenos, a quem tanto quiz, e dos pobres, que formaram
elle mandada edificar, junto do seminário. Succumbiu portanto alas para lhe soluçarem os responsos de sepultura.
aos 64 annos. Vem a propósito, e em conclusão, salientar que o fallecido
A morte de D. Luiz de Figueiredo não enlutou sómente a dio­ bispo é um dos antepassados do sr. commendador Luiz, de Fi­
cese da Madeira, os pobres que sempre encontravam refugio na gueiredo, ultimamente agraciado com o foro de fidalgo cavalleiro
sua caridade. A sua morte, pode dizer-se, enlutou o episcopado da Casa Real — um novo excepcional pelas suas excepcionaes
portuguez, de que elle foi uma gloria, honrando-o com a sua intel- qualidades de caracter e de virtude, desvelado protector da po­
ligencia e com as suas virtudes. breza da sua terra — a ilha de Santa Maria, que tem a luzida e
O fallecido mariense Manoel Barboza da Camara Albuquerque, alta honra de ter sido a patria de D. Luiz de Figueiredo de Lemos.
n uns apontamentos inéditos sobre cousas e pessoas da sua terra.
diz constar que D. Luiz fizera testamento em 20 de outubro de Jui.10 Cabral.

2:6

DRaC-CCA
FASCICCEO IX.oó-

DRaC-CCA
LOMBADAS
GRAND FRIX
Exposição Inleniaciunai do,S. Luh en> 1904 II MAGAZINE BERTRAND
MEDALHA DE OURO
Exposição do Palacio de Crystal de Londres em 1904 A LEITURA ILLUSTRADA
Revista quinzenal —96 paq. cheias de gravuras
Rainha das aguas da moza 200 RÉIS
Assigna-se na
Leve, estomacal e digestiva, pura, límpida ANTIGA CASA BERTRAND — JOSÉ BASTOS
Tc R. fiarielt, 73 e 73-Lisboa
0 acido carbonico não é introduzido artiflcialmente

Recommendada por todos os médicos


a

DEPOSITO GERAL
106, AVENIDA DA LIBERDADE, 110 C. MAHONY & AMARAL
X.ISBOA
70, Run â.° — LISBOA
TELEPHONE 586
METAES EM BRUTO: Aço, cobre, latão, estanho, chumbo em chapa, bar­
.'1^ ã________
;dA® W; _ _____________________________ ____ ___-, Ãtó ras lingots.
FERRO: Em barras quadradas, redondas e vergalhào. Vigamento de ferro

MEMÓRIA S0B3& A ILHA TERCEIRA | > em Ti U; cantoneiras e todos os mais aprestos para construeções. Ferro em
lingots para fundição. Chapas galvanisadas lisas e onduladas Chapas de aço
para caldeiras. Tubos de ferio, cobre e latão. Arame de ferro, cobre e latão.
por Alfredo da Silva Sampaio [j |B *
Folha de Flandres. Material fixo e circulante para caminhos de ferro. Rails de
aço e diversos perfis e pesos, vias portáteis. Machinas de vapor, gaz e petio-
Angra do Heroísmo, 1904, 8." gr — XI — 833 paginas leo. Caldeiras. Botnbas. Machinas para industrias e agricultura. Machinas. Fer­
A’ venda na
2$5OO RÉIS
jB ramentas. Vidros polidos, foscos e de phantasia. Vidraça, lages de vidro (dalles).
Assuear, arroz, especiarias, drogas, productos chimicos. Ascensores hydraulicos,

ANTIGA CASA BERTRAND JOSÉ BASTOS 8


Edoux & C.‘
CIM B H T O
«I Rua Garrett. 73 « 75— Linboa Únicos importadores em Portugal e colonias do CIMENTO da Coinpagnie
des Ciments Parisiens, fabricado pelo notável engenheiro E. CANDLOT.
€ Bwmw:w 10? * & * w * *5®
. ®Tp ©Tfc®w.®w w® ,®W, ,®w.®¥á .JW, Ssw .«W m ®W. ®w®w ©Te ám> ©W. ©W. Wr- ®Tí
5
Fabrica de sabão —Telbal (Poço do Bispo)
Fabrica da licoret, aguardente, genebra a cognacs — TELHAI (POÇO 00 BISPO)

Trp- d'tA Edílorat — Lisboa

DRaC-CCA
Santa Maria. — Ecreja e extincto convento dos Franciscanos

N.° 33

DRaC-CCA
EXT1NCTO CONVENTO DOS FRANCISCANOS
s chronistas dão tres fundações a este convento: a primeira fr. Ignacio de Santa Maria, e sendo a construcção dirigida pelo
Opresume-se que remonta a 1446, ficando depois extincto por padre mestre fr. Antonio de San João Evangelista, conhecido no
alguns annos, de modo que novamente se fundou em 1608, mas mundo profano por padre Antonio Joaquim Rebello, grande pre­
em 1616 foi destruído pelos mouros, datando a terceira fundação gador, illustrado latinista, e theologo distincto, que foi professor
d’este anno, ou alguns annos depois. do padre mestre João José de Amaral, um notável michaelense
Por um escripto do padre Manoel Delgado Fragoso consta a quem as lettras açorianas e a mocidade estudiosa muito deve­
que o convento e respectiva egreja foram edificados por fr. Agos­ ram.
tinho de San Francisco, com O nome de padre mestre Evangelista, como era vulgarmente
esmolas suas e dos povos conhecido, ficou obscuro, porque elle, quando conheceu que a
da ilha de Santa Maria, em morte se approximava, pediu a um noviço, o padre José Antonio
1720, conservando-se o sa­ Soares Coutinho, conhecido pelo padre Cupertino, que queimasse,
crário, emquanto se fizeram na sua propria cclla, todos os seus papeis, onde existiam sermões
as obras, na capella do capi­ de grande merecimento, obras theologicas d'alto valor, e aponta­
tão donatario, João Soares de mentos interessantes para a historia do convento, da ilha de Santa
Albergaria, onde então se ce­ Maria, e dalguns frades que se salientaram por seus talentos e
lebraram os officios divinos, e virtudes.
pelo que se presume ser o dito Frei Evangelista deixou ao convento a que pertencia o seu pa­
donatario o fundador do con­ trimónio, calculado n’uns oito contos de réis.
vento, para o qual deu o ter­ Frei Ignacio de Santa Maria deixou dois manuscriptos interes­
reno, dotando-o. Este dote po­ santes, em que descrevia as suas viagens, mas que se perderam.
rém cessou em tempos remo­ Um d‘elles estava no convento de Nossa Senhora da Esperança, de
tos, ignorando-se a causa. Ponta Delgada, a quem foi offerecido; o outro desappareceu da li­
De 1808 a 1822 foram o vraria d’um velho fidalgo mariense, parente proximo de fr. Ignacio.
convento e egreja accrescenta- Foi este frade, segundo consta, que adquiriu na Italia e no
dos, sendo a despesa feita com Brazil, as imagens de Nossa Senhora da Conceição, do Senhor
esmolas dos marienses e dos Jesus do Bomfim e do Senhor dos Terceiros, que ainda hoje se ve­
fieis do Brazil, obtidas por I S
magem do B F
enhor do om im neram na egreja do extincto convento, bem como a de Nossa Se-

258

DRaC-CCA
nhora da Victoria, que era o Orago da mesma egreja, e que hoje
se venera no altar-mór da egreja matriz da villa do Porto, para onde
foi substituir a de Nossa Senhora da Assumpção, que se queimou
por occasião de um incêndio na capella-mór da dita matriz. Estas
imagens são de aprimorada esculptura, c das melhores obras que,
em Portugal, temos visto em tal genero. A fronte da Virgem
Santa da Conceição attrahe naturalmente o christão devoto, e a
magestade da Rainha dos Anjos, numa expressão de bondade
inimitável, revela-nos o coração da mãe de misericórdia, que vale
aos desgraçados, a consoladora dos afflictos!
A imagem do Senhor Jesus dos Passos, que se venera na
egreja da Santa Casa da Misericórdia da mesma villa, também
foi adquirida por fr. Ignacio, e pelos frades vendida á irmandade
da referida Santa Casa, bem como as de Nossa Senhora das Dores
e Nossa Senhora da Piedade, que estão na egreja do extincto con­
vento dos franciscanos de Ponta Delgada, e que os frades d’este
roubaram quando vieram do Brazil,
chegando por isso a haver demanda
entre os mesmos e fr. Ignacio.
O convento foi extincto quando
foram os outros conventos de Portu­
gal, no tempo de D. Pedro IV, sendo
o seu ultimo guardião fr. Manuel de
Santa Rita, illustrado e virtuoso ma-
riense, a quem a sua patria deveu re­
levantes serviços.
Posteriormente foi este egresso
vigário da matriz da villa do Porto,
e ouvidor ecclesiastico na ilha de
Santa Maria. Alto, delgado, imberbe,
cabeça levantada, ostentando alvos
Convento dos Franciscanos.— Capella-Móe cabellos dum prateado brilhante, era Imagem do Senhor dos Terceiros

2Í9

DRaC-CCA
o padre Santa Rita considerado por nobres e plebeus, pelos ricos No convento dos extinctos franciscanos estão actualmente instal-
e pelos pobres, como homem de virtudes excepcionaes, e de illus- ladas as repartições publicas de Santa Maria, para o que foi con­
tração pouco vulgar no seu tempo. cedido provisoriamente á respectiva camara municipal por portaria
Não era político, mas dominava no seu meio, impondo-se pela de 17 de junho de 1842, e definitivamente por decreto de 3o de
austeridade do seu caracter, pela correcção do seu procedimento, maio de 1908.
pelo seu bom senso e pela sua energia, de modo que muito con­ Foi assim que, como tantos outros, o Convento viu por fim
correu para os progressos da sua terra, a que dedicou grandes materialmente profanado o seu mystico recinto, onde se tinham ou­
esforços e a sua influencia pessoal, que era muita. vido tantas preces.

260

DRaC-CCA
JOSÉ IGNACIO DANDRADE
asceu na villa do Porto da ilha de Santa Maria a 28 de outu­ de reflexões eruditas, e muitas vezes judiciosas, que ainda assim
N bro de 1779, e falleceu em Lisboa, na casa que então tinha estão longe de contentar egualmente todos os leitores. Alguns
o n.° 6q, na rua de San Francisco de Salles, ás Amoreiras, no dia 1 mais escrupulosos divisam nas ideias do auctor certa tendencia
de janeiro de i863, ás 5 horas da tarde. Foram seus paes José mais ou menos pronunciada para o materialismo, e nas suas dou­
Ignacio de Andrade e D. Eugenia Soares, trinas philosophicas um reflexo da escola sen-
ambos também naturaes de Santa Maria. sualista, no século decimo-oitavo, de cujos
Dedicou-se á vida commercial e maríti­ mestres parece ás vezes mostrar-se adepto
ma, adquirindo fortuna. fervoroso e enthusiastico.»
Viajou muito nas costas da índia e da E’ de grande valor esta apreciação de
China, e em resultado d’essas viagens es­ Innocencio Francisco da Silva, pois sabe-se
creveu e publicou um interessante livro in­ que este auctor era ultra-rigorista nas suas
titulado : Cartas escriptas da índia e da criticas, de que geralmente se absteve no
China, nos annos de i8i5 a i835, a sua Diccionario Bibliographico.
mulher D. Maria Gertrudes de Andrade. Além da obra citada, José Ignacio de
Sobre esta obra escreve Innocencio Fran­ Andrade também publicou uma Memória
cisco da Silva, no Diccionario Bibliogra- sobre a destruição dos piratas da China, e
phico: o desembarque dos ingleses na cidade de
«Refundindo habilmente no seu livro, Macau, e sua retirada, cuja segunda edição
de mistura com suas próprias observações appareceu com o seguinte titulo: Memória
locaes, o que a leitura lhe deparou de mais dos feitos maenses contra os piratas da Chi­
curioso e verosímil nas relações dos viajan­ na, e da entrada violenta dos ingleses na
tes, e nas obras de outros escriptores que cidade de Macau.
trataram do Império Celeste, o sr. Andrade Ainda publicou a Biographia de Ro­
conseguiu apresentar um quadro interessan­ drigo Ferreira da Costa, conjunctamente
te, bem que resumido, descriptivo da histo­ com a Aventura de Helvecio, que o biogra-
ria civil e política da China, de suas leis, phado tinha traduzido.
costumes, religião, etc., acompanhando tudo Foi membro da direcção do Banco de

261

DRaC-CCA
Lisboa, e por ultimo da direcção do Banco de Portugal. Anterior- deza d um philosophico ideal, e com a epopeia das grandes e ar­
mente havia sido eleito vereador da Camara Municipal de Lisboa, riscadas viagens. Sabia ler as cartas de marcar com tanto critério
exercendo o alto cargo de presidente da mesma vereação no trien- e engenho, como sabia ler as obras dos grandes épicos e dos fa­
nio de i838-i83g. mosos chronistas. Calculava uma derrota e descrevia uma singra-
No acto do encerramento da vereação de 1838 e investidura da dura com o mesmo brilhante espirito, com que avocava, em reptos
que entrou em exercício em i83g, José Ignacio de Andrade reci­ de talento, as mais notáveis obras da Philosophia, as sonoras in-
tou um discurso, que está publicado na Synopse dos actos admi­ tercadencias dos melhores poetas, e os trabalhos mais luzidos dos
nistrativos da Camara Municipal de Lisboa de i838. grandes prosadores.
Foi um distincto official de marinha mercante, e não menos O seu elogio, como marinheiro, como escriptor e como homem
distincto escriptor, porque as suas obras não são das que ruti­ publico, não é dos que se barateiam, nem se adjudicam a reputa­
lam e se apagam; pelo contrario, ficaram e illuminam-lhe a me­ ções panicas.
mória. As Cartas escriptas da índia e da China, a sua obra de maior
De José Ignacio de Andrade pode dizer-se que foi um mari­ folego, não precisaram de tempo, nem de caricias da fortuna, para
nheiro e um escriptor, que exaggeradamente correspondeu á admi­ consagrarem o auctor como escriptor distincto e investigador sin­
ração dos seus contemporâneos, realçando a sua obra com a gran­ cero, que muito honra a sua patria, a ilha de Santa Maria.

262

DRaC-CCA
MORGADO LAUREANO FALCAO
asceu na villa do Porto, pertencendo a uma das mais nobres Nacional de voluntários de artilharia de Ponta Delgada, cujas
N famílias da ilha de Santa Maria, pois que era filho do capi-
tão-mór, Manuel José Pinto da Gamara Coutinho e de D. Bernarda
honras e privilégios lhe foram garantidos por diploma regio.
Em 1842 foi agraciado com a commenda da ordem de Christo.
Miquelina do Canto Corte Real. A ilha da Madeira deve-lhe o estabelecimento da cultura do
Estudou no Collegio dos Nobres, em Lisboa, e quando regres­ milho, em 1847, cultura que primeiramente se fez, no districto do
sou á sua patria, foi nomeado capitão de orde­ Funchal, no prédio vincular denominado Ilha,
nanças. pertencente ao morgado Laureano. Sementes,
Era intelligente e muito patriota, empenhan­ trabalhadores, e instrumentos de lavoura, le­
do-se pelo desenvolvimento da agricultura da vou-os da ilha de S. Miguel, e tão bons resulta­
sua terra, e ainda pela das ilhas de S. Miguel e dos deu este acto de sua iniciativa, que foi por
Madeira, onde possuia grandes propriedades. isso louvado pelo governador civil do districto,
Em 1824, por carta patente de El-Rei D. João VI, pelas camaras municipaes do Funchal e de Sant-
foi nomeado tenente-coronel do regimento de Mi­ Anna, e em portaria do Ministério do Reino de
lícias de Ponta Delgada, e em 1820 foi agraciado 8 de março de 1849.
com o grau de cavalleiro da ordem de Christo. Em diversas épocas foi conselheiro do distri­
N'este ultimo anno justificou a nobreza dos cto de Ponta Delgada, exercendo n’essa quali­
seus antepassados em arvore de costados, até aos dade as funeçoes de governador civil, com ele­
seus avós no decimo grau, com dois brazÕes de vado critério e grande energia, principalmente
armas, cartas de filhamentos de fidalgos, e no­ em ]85i, por occasião d’uns graves motins po­
meações de capitães e sargentos-móres, juizes pulares, que houve em Villa Franca do Campo,
dos orphãos, resíduos, e outros cargos públicos. o que lhe valeu uma portaria de louvor em 1 de
Em 1826 encartou-se no fôro grande de fi­ agosto do dito anno.
dalgo cavalleiro da Casa Real, por successão, Por varias vezes foi procurador á junta ge­
sendo o diploma assignado pela Infanta regente ral e presidente da Camara Municipal de Ponta
do reino, D. Izabel Maria, e peio mordomo-mór, Delgada, em cuja comarca exerceu durante de­
marquez de Torres Novas. zoito annos consecutivos o logar de primeiro sub­
Em 1840 foi nomeado coronel do Batalhão Morgado Laureano Francisco da Camara Falcão stituto do juiz de direito.

263

DRaC-CCA
Em 1861 foi eleito deputado ás Cortes pelo circulo de Ponta a Ilha, ou visconde da Almagreira, sitio da ilha de Santa Maria,
Delgada. A legislatura terminou em i865, e n’esse período teve onde tinha um magnifico prédio, que foi vinculado por seu 12.0 avô,
logar a assignatura do auto de reconhecimento do então Príncipe Heitor Gonçalves Minhoto, casado com D. Joanna Soares de Souza,
Real, D. Carlos, como o successor á Coroa d’este Reino, sendo o filha do segundo capitão donatario, João Soares de Albergaria e
auto entregue a El-Rei por uma deputação, de que fez parte o mor­ de D. Branca de Souza Falcão.
gado Laureano, que era um distincto palaciano. Pelo que vem referido se vê o alto valor do morgado Laureano
Como deputado conseguiu que se creasse o curato da Alma- da Camara Falcão, que deixou de existir em 1868, na sua casa da
greira, na ilha de Santa Maria, que se fizessem varias dotações Quinta do Tanque, ás Larangeiras, suburbios da cidade de Ponta
para obras publicas, etc., etc. Como político, era carlista conser­ Delgada, ficando sepultado em jazigo de familia, no cemiterio de
vador, o partido de F’ontes Pereira de Mello, a que se conservou S. Joaquim da mesma cidade, onde ihe prestou as devidas honras
fiel, apesar do duque de Loulé querer attrahil-o para o seu lado, o extincto batalhão de caçadores n.° 11, que fazia a guarnição da
chegando a offerecer lhe o titulo de visconde de S. Jorge, nome ilha de S. Miguel.
da freguezia da ilha da Madeira, onde possuia o seu prédio vincular, L. M. Bettencourt.

DRaC-CCA
FASCrCUTA) IV.0 33

DRaC-CCA
LOMBADAS
GR.AND FRJX
Exposição Internacional de S. Luiz, em 1901 ■ MTxM BERTRAND
MEDALHA DE OURO
Exposição do Paiacio de Crystal de Londres em 1904 |
A LEITURA ILLUSTRADA
Revista quinzenal —96 pag. cheias de gravuras
A Rainha das aguas do meza 200 RÉIS
Assigna-se na

Leve, estomacal e digestiva, pura, limpida ^ANTIGA CASA BERTRAND —JOSÉ BASTOS
R- Garrelt, 73 e 75 — Lisboa
0 acido carbonico não é introduzido artiflcialmente

Recommendada por todos os médicos


y.;; T TY Y Y''YlY'Y Y'i Y Y’Y Y Y Y Y YY ;'Y Y Y'Y Y Y Y Y * Y
DEPOSITO GERAL
106, AVENIDA DA LIBERDADE, 110 I
LISBOA
0. MAHONY & AMARAL
70, litisi Augusta. a.° — IjISBOA
TBLEFHOKE 5S6
METAES EM BRUTO: Aço, cobre, latão, estanho, chumbo em chapa, bar­
ras lingots.
FERRO: Em barras quadradas, redondas e vergalhão. Vigamento de ferro

MEMÓRIA SOBRE A ILHA TERCEIRA <‘m TI U; cantoneiras e todos os inais aprestos para eonstrucçSes. Ferro em
lingots para fundição. Chapas galvanisadas lisas e onduladas Chapas de aço
para caldeiras. Tubos de ferro, cobre e latão. Arame de ferro, cobre h latão.
por Alfredo da Silva Sampaio $ Folha de Flandres. Material fixo e circulante para caminhos dc ferro. Rails de
aço e diversos perfis e pesos, vias portáteis. Machinas de vapor, gaz e petio-
Angra do Heroísmo, 1904. 8." gr — XI — 833 paginas
leo. Caldeiras. Bombas. Machinas para industrias e agricultura. Machinas. Fer­
2 $5 500 RÉIS ramentas. Vidros polidos, foscos e de phantasia. Vidraça, lages de vidro (daller).
A' venda na
Assucar, arroz, especiarias, drogas, productos chimicos. Ascensores hydraulieos,
ANTIGA CASA BERTRAND JOSÉ BASTOS Edoux & C.‘
CI M E H T O
Rua Garre,tt, 73 e 75 — lAxboii Únicos importadores em Portugal e colonias do CIMENTO da Compagnie
W |I.___ ;_____________ w
des Ciments Parisiens, fabricado pelo notável engenheiro E. CANDLOT.
4444 4 6 4 4 64 4 4V46 6 Fabrica de sabão —Telbal (Poço do Bispo)

sg Fabrica de licores, aguardente, genebra e cognacs — TELHAI (POÇO 00 BISPO)


Trp. d'tA — Lisboa

DRaC-CCA
FESTEJOS DO ESPIRITO SANTO
a ilha de Santa Maria, como em todas as do archipelago dos Os imperadores são nomeados num anno para servirem no se­
N Açores, se festeja largamente o Espirito Santo, havendo ce­
rimonias religiosas, actos de caridade, e folguedo popular.
As festas religiosas e
guinte, recahindo geralmente a nomeação em pessoas que para
tanto se offerecem ao padre, em cumprimento de qualquer pro­
messa.
os bodos realisam-se As copeiras (casas on­
n'esta ilha, tão sómente de se arrecadam as es­
no domingo de Pente­ molas) são, para o dia da
costes, na primeira oita­ festa, muito enfeitadas,
va, e na dominga da San­ e ali concorrem muitas
tíssima Trindade. Nos pessoas para verem o
dois primeiros dias cele­ bodo.
bram-se as festas nas po­ No dia, de manhã, pro­
voações ruraes, e no ul­ cede-se á coroação, que
timo na villa do Porto e se realisa na egreja do
nas egrejas parochiaes. santo protector, e que
Ha diversos impérios, consiste em collocar na
que tomam o nome do cabeça do imperador, ou
seu santo protector, que na de uma creança por
se venera em qualquer elle escolhida, uma corôa,
egreja ou ermida. Assim e nas mãos um sceptro
ha os impérios: do Se­ encimado, como a corôa,
nhor do Bomfim, de San­ por uma pomba, entoan­
to Antonio, de Nossa Se­ do-se por então o 'TJeni
nhora Mãe de Deus, de creator spiritus. Seguida­
Nossa Senhora dos An­ mente realisa-se uma pro­
jos, de SanfAnna, etc., cissão, indo na frente os
etc. Festas do Espiruo Sanio. — Uma coroacão
>
foliões, depois os irmãos

N.° 34 265

DRaC-CCA
ou devotos que queiram encorporar-se, e por ultimo o coroado,
no centro d’um rectangulo formado por quatro varas pintadas
a vermelho, que conduzem quatro das pessoas mais dignas,
e atraz do qual segue o padre e outros. Esta procissão vae da
egreja para o theatro, uma especie de alpendre onde ha uma mesa
coberta com toalha alvíssima, onde se colloca a corôa. o sceptro,
um enorme pão, uma grande rôsca, um frasco com vinho branco
e uma bandeja com uns pequeníssimos pães ázimos — a que cha­
mam brindeiros, etc., e que também são conduzidos na procissão.
O padre abençoa a mesa, o trinchante occupa a cabeceira,
tendo ao seu lado direito o coroado; aos assistentes distribuem-se
os brindeiros, e segue-se durante o dia a distribuição de pão, ros­
cas e vinho, aos que visitam o theatro, bem como um lauto jantar
aos pobres, na copeira.
A’ noite termina a festa, indo o imperador com grande acom­
panhamento, entregar a corôa ao que o deve substituir no anno
seguinte.
Durante o dia sahem das copeiras differentes offertas, chama­
das serviços, que são conduzidas por irmãos, que se distinguem
por terem no braço esquerdo uma toalha branca em fórma de laço,
segura por fita encarnada, e são acompanhados por tres cantores,
os foliões, um dos quaes toca num tambor, outro n’uns bocados
de bronze, especie de hemispherios de Magdeburgo, a que cha­
mam os testos, e o terceiro leva uma bandeira encarnada com uma
pomba bordada a branco, no centro.
As offertas, para os pobres, consistem em carne e pão; e para
as pessoas de certa distincção, em pedaços de pão da mesa, rós­
eas, dôces, queijos, etc. Os foliões dirigem cantigas ás pessoas da
casa, que lhes agradecem offerecendo-lhes aguardente.
Os pães da mesa, uns grandes pães, que levam cerca de meio
alqueire de farinha, se não mais, bem como as roscas, ou rosqui-
lhas, teem a fórma redonda, e são amassados com ovos e algum Ti.ua de Santa Maria. — Foliões do Espirito Santo

266

DRaC-CCA
assucar. E’ uma massa gostosa, principalmente depois de torrada, Eui ao tronco d’uma planta
para servir ao chá. Para o teu nome gravar,
A mesma planta chorou
Nas vesperas e nos dias do Espirito Santo ha grandes balhos
Só em vêr-me suspirar.
em casa do imperador, onde a corôa se conserva alumiada em
um pequeno throno.
Tres vezes a maré vasa
Os balhos são simples: homens e mulheres emparelhados num Lá n’esses mares salgados,
circulo, girando concentricamente, cada par fazendo-se mutua fren­ Só para mim não se acabam
te, todos em pulo, alegres, caminhando n’uma e n’outra rotação, Os meus dias desgraçados.
cruzando-se, parando, e obedecendo n’estas evoluções a singulares
descantes, que acompanham o som agudo da viola de cordas d'ara- Meu lenço de barra azul
me. São muito variados os balhos, na musica, porque a dança é a Cahiu no mar e alagou-se ;
Diga o mundo o que disser,
mesma em quasi todos. Assim temos: o Pésinho, a Sapateia, a
Quero-te bem, acabou se.
Chamarrita, o Manjaricão, a ‘Bella-aurora, etc.
Ahi vão algumas cantigas:

Já lá vae pelo mar fóra


Minha doce companhia,
Lume de meus claros olhos,
Lindo espelho em qu’eu me via.

Se ouvires tocar os sinos


Não perguntes quem morreu;
Ausente de ti, meu bem,
Ninguém morre, se não eu !

Se os sonhos sahissem certos


Como a vida ha de acabar,
Eu só para sonhar comtigo
Quizera nunca acordar.

Os cravos do meu jardim


Vão-se tornando cinzentos;
Quando os craveiros se mudam,
Que farão os pensamentos ? ! Santa Maria. — Bodas do Espirito Santo

267

DRaC-CCA
Ainda depois da morte, N’esses serões, d’uma originalidade typica, em que se juntam
Debaixo do frio chão, as visinhas, dizem-se lendas curiosissimas, attrahentes pelo enre­
Has de achar teu nome escripto
do, que perpassam como a leitura de romances desenfastientos,
Dentro do meu coração.
com o abrir e cardar da lã, referindo-se a ilhas encantadas, a for­
O mar, quer manso, quer bravo, tunas encontradas no fundo do mar, a santos que appareceram,
Deita chicharro na pôça; a sereias, a feiticeiras, a phantasmas, a viagens arriscadas, a sce-
P’ra se amar e querer bem, nas amorosas e a tantas outras cousas. Os contistas são verbo­
E’ bom ter geito, e não força. sos, e as suas palavras calam no animo dos ouvintes, deslisando
Por entre pedras miudinhas
depois a conversação sem qualquer desaguisado, n’uma serenida­
Nasce a viçosa salsa;
Péga-te á feia, que é fiel,
Deixa a bonita, que é falsa.

Do que vem dito não se deduza que descrevemos,


em todos os seus pormenores, as festas do Espirito
Santo. Apresentamos apenas uns traços geraes— o
bastante para se fazer ideia do que ellas são em Santa
Maria, porque variam de ilha para ilha, sendo certo
que taes festejos, devidamente observados e estuda­
dos, dariam um interessantíssimo livro, onde se po­
deriam compendiar os costumes e a vida das ilhas dos
Açores, apesar de que actualmente já se não fazem
com a typica accentuação d’outros tempos, substituin­
do-se os velhos foliões por creanças, arranjando novos
balhos e musicas, etc.
A ilha de Santa Maria é fértil em lendas e canti­
gas populares, sendo muito curioso o seu cancioneiro,
que merece estudo; e nas festas do Espirito Santo,
a verdadeira época dos balhos, é que elle mais se
póde admirar, bem como, nos grandes serões de in­
verno, na debulha dos milhos, e nas matanças dos
porcos. Ii.ha de Santa Maria. — Festas do Espirito Santo. — O bodo

268

DRaC-CCA
de triste ou alegre, conforme a lenda, a que por vezes o girar da seroes do inverno, nos gracejos por occasião das matanças dos
dobadoura ou do fuso, de mistura com o espreguiçar do linho na porcos, e nas variadas cantigas, que bellas vozes de tenor e de so­
roca, dão um colorido singular, que sensibilisa o coração ainda prano cantam ao som da viola, nos balhos, e nas debulhas dos trigos
dos menos affectos a estas velharias que todos, mais ou menos, e e dos milhos, póde dizer-se que se encerra a alma popular do
por estes ou outros modos, poderiam ver nos seus tempos de in­ mariense, que em regra é religioso sem fanatismo, alegre sem ex­
fância. cesso, arrojado e trabalhador como poucos.
Na alegria das festas do Espirito Santo, nas lendas ditas nos Julio Cabral.

269

DRaC-CCA
VALVERDE E ALMAGREIRA
Valverde é um sitio da ilha de Santa Maria, proximo da do tempo, e as primaveras da vida — raparigas viçosas, com as

O villa do Porto, que, como o nome indica, está situado num saias arregaçadas, fartos collos, cabellos apanhados sem arte, oc-
valle verdejante, banhado pelas aguas d’um extenso riacho, que cultos por grandes chapéus de palha ou por lenços d uma alvura,
deslisam por entre as pedras, onde mulheres saudaveis lavam a que se destaca, cantando umas, rindo outras, todas ellas torcendo
roupa. e batendo a roupa.
Admira-se o panorama que offerece, principal e melhormente Além fica a Almagreira, curato suffraganeo á villa, do orago
do Alto da cMãe de Deus, d’onde a brancura das casas parece at- de Nossa Senhora do Bom Despacho, um sitio aprasivel, onde se
testar a pureza encontram as me­
d’aquelles ares, e lhores quintas da
onde verdeja a ilha de Santa Ma­
luxuriante vege­ ria. e para onde
tação, que debrua nos conduz uma
a estrada e a ri­ larga estrada, des­
beira com rosas afogada, aberta a
de mil folhas, as toda a luz do sol,
rosas de abril, e ás irradiações
perfumando o am­ suaves da lua.
biente, de mistura Muitas famí­
com a madresilva lias ali passam a
e as giestas. estação calmosa,
E’ muito agra- em bellas quintas,
davel um passeio cheias de arvores
nas tardesquentes de variados fru-
áquelle alto, para ctos, onde o aro­
se admirar o Val­ ma, a sombra e
verde, para ver­ ar puro, conso­
se a primavera S
anta M —F
aria V
reguezia do alverde lam.

DRaC-CCA
JOAO S. DE SOUZA C. ALBUQUERQUE
ra um homem de bem, filho do morgado Bernardo do Couto cia e lettras, outros para a industria ou agricultura, e finalmtnte

E Soares de Sousa Albuquerque e de D. Umbelina Michaela


da Camara e Medeiros. Nasceu na fregue-
zia de S. Pedro da ilha de Santa Maria
outros para defensores da religião e da patria.
Foi em toda a sua vida um exemplar
modelo de virtudes, sobresahindo entre
em 1786 e falleceu com 85 annos de edade estas a da caridade, que exerceu larga­
na ilha de S. Miguel. mente.
Casou n’esta ilha, onde quasi sempre A expensas suas se ordenaram os re­
residiu, com a margada D. Isabel Maria verendos José Ulysses da Normandia, An-
Rodovalho Mello Cabral, senhora de ele­ tonio Almeida Sousa, Manoel Muniz de
vadas virtudes e grande nobreza, de quem Sousa e Angelo Soares da Camara, actual
não houve descendencia. ouvidor ecclesiastico na ilha de Santa Ma­
A sua casa vincular era a primeira da ria.
ilha de Santa Maria, e o morgado João Devido a elle, e por sua iniciativa, se
Soares, possuindo uma avultada fortuna, formaram na Universidade de Coimbra
reunia á natural perspicácia de seu espi­ os sobrinhos de sua virtuosa esposa, o
rito culto, os mais elevados dotes de cora­ dr. Agostinho Leite Pacheco de Betten-
ção, que eram timbre de sua grandeza. court, que ha poucos annos falleceu em
A sua alma revestida de modéstia an­ Lisboa, com o posto de general, e o dr.
dou sempre illibada do orgulho a que os Francisco Leite Pacheco de Bettencourt,
pergaminhos muitas vezes encaminham os empregado superior das alfandegas.
espíritos fracos, e a actividade do seu es­ Educou, além de outros indivíduos,
pirito jamais o deixou adormecer na ocio­ seus sobrinhos : o morgado Luiz de Figuei­
sidade que a fortuna garante ao homem redo Velho Mello Falcão e Manuel Del­
que esquece o seu dever social. gado Fragoso.
Coração aberto a todas as impressões Quem entrasse nas quintas do mor­
do bem, levantou da obscuridade muitos gado João Soares de Sousa Couto Albu­
indivíduos, preparando uns para a scien- J
oãoS S
oares de ouza C. A
lbuquerque
querque, demorando a vista na immensa

271

DRaC-CCA
variedade de arvores fructiferas e sua disposição, na encantadora ral e da Commissão districtal de Ponta Delgada, onde exerceu
ornamentação das ruas, vastos caramanchões, tanques, etc., tudo com distincção o logar de Juiz de Direito substituto e Governador
delineado por elle, divisava logo o seu bom gosto. Civil, evidenciando o seu bello talento e o seu espirito conciliador.
Concorreu muito para o desenvolvimento da agricultura da ilha Com notável imparcialidade foi promotor de justiça militar, e
de Santa Maria, onde introduziu uma grande variedade de plan­ por diploma régio de 12 de junho de 1841, foi nomeado vitalicia-
tas de todas as especies, ensinando a sua cultura e tratamento, com mente tenente-coronel honorário do batalhão nacional de voluntá­
bons resultados. rios de Ponta Delgada, em cujo posto falleceu, sendo-lhe presta­
Zeloso membro de diversas commissões, a que também pre­ das as devidas honras fúnebres.
sidiu, por vezes fez parte do Conselho de districto, da Junta Ge­ L. M. Bettencourt.

272

DRaC-CCA
FASCICUEO ]X7 34

DRaC-CCA
Àtk&k&k44444441444444444444444444444444444 4,

LOMBADAS
GRAND FRIX
Exposição Internacional do,S. Lui/. em 1904 II MAGAZINE BERTRAND
MEDALHA DE OURO
Exposição do Palacio de Cryslal de Londres em 4904 ||
A LEITURA ILLUSTRADA
Revista quinzenal — 96 pag. cheias de gravuras
4 Rainha das aguas da meza 200 RÉIS
Assigna-se na
Leve, estomacal e digestiva, pura, límpida ANTIGA CASA BERTRAND — JOSÉ BASTOS
i>- R. fiarrcll, 73 e 75- Lisboa
0 acido carbonlco não é introduzido artiflcialmente

Recommendada por todos os médicos «w a

DEPOSITO GERAL
106, AVENIDA DA LIBERDADE, 110 C. MAHONY & AMARAL
XiISBOA
70, Rua Augusta. s2.°— KISBOA
THLEFHCNE 586
METAES EM BRUTO: Aço, cobre, latào, estanho, chumbo em chapa, bar­
ras lingots.
FERRO: Em barras quadradas, redondas e vergalhão. Vigamento de ferro

MEMÓRIA SOBRE A ILHA TERCEIRA em TI U; cantoneiras e todos os mais aprestos para construcções. Ferro em
lingots para fundição. Chapas galvanisadas lisas e onduladas Chapas de aço
para caldeiras. Tubos de ferro, cobre e latão. Arame de ferro, cobre e latão.
poi Alfredo da Silva Sampaio
Angra do Heroísmo, 1904, 8." gr — XI — 833 paginas * Folha de Flandres. Material fixo e circulante para caminhos de ferro. Rails de
aço e diversos perfis e pesos, vias portáteis. Machinas de vapor, gaz e petio-
leo. Caldeiras. Boinbas. Machinas para industrias e agricultura. Machinas. Fer­
2$5OO RÉIS ramentas. Vidros polidos, foscos e de phantasia. Vidraça, lages de vidro (dalles).
A’ venda na
Assucar, arroz, especiarias, drogas, productos chimicos. Ascensores hydraulieos,

$
ANTIGA CASA BERTRAND JOSÉ BASTOS
Rita, Garrett, 73 e 7» — hixboa
Edoux & C.a
CI M E H T O
Únicos importadores em Portugal e colonias do CIMENTO da Compagnie
« des Ciments Parisiens, fabricado, pelo notável engenheiro E. CANDLOT.
Fabr ica de sabão — Telhai (Poço do Bispo)
Fabrica de licores, aguardente, genebra e cognacs — TELHAI (POÇO 00 BISPO)

* A
Tvp. d' 1» — Lisboa

DRaC-CCA
MANOEL B. DA GAMARA ALBUQUERQUE
ra natural da villa do Porto, e filho do capitão de ordenanças Dedicou-se com perseverança a estudos genealógicos e outros
E Ignacio Manoel da Camara e de D. Eugenia Eufrasia da Ca­
mara Albuquerque. Em Santa Maria teve como
trabalhos históricos respeitantes á ilha de Santa Maria, compul­
sando todos os documentos existentes nas re­
seus professores o major Antonio Bonifácio partições publicas e cartorios da mesma ilha,
Julio Guerra, que foi deputado por aquella d onde colligiu importantes apontamentos, indi­
ilha, e que era muito illustrado, e Antonio cações de grande valor, que não chegou a pu­
Lucio Pinto, que foi secretario da camara mu­ blicar, e que estão em poder da sua viuva,
nicipal, e que lhe forneceu algumas noções de D. Eugenia Violante da Camara Albuquerque.
pilotagem. No jornal A Tersuação, de Ponta Delga­
Em S. Miguel aperfeiçoou-se no estudo das da, publicou alguns folhetins referentes a cou­
mathematicas elementares com seu cunhado sas históricas d aquella ilha.
Joaquim Manoel Eernandes Braga, pae do Era um caracter probo e honesto, com ri­
dr. Theophilo Braga, que durante muitos an- gidez de princípios, grande força de vontade e
nos foi professor do lyceu de Ponta Delgada. bastante intelligencia. Possuia uma instrucção
Mais tarde arranjou carta de piloto, chegan­ variada, e os seus trabalhos inéditos, embora
do a commandar um navio de pequena lotação. não chegassem a ter a fórma exigida para ve­
Reconhecendo, porém, que não tinha voca­ rem a luz da publicidade, são de valor indis­
ção para a vida marítima, abandonou-a e foi cutível, e certamente dos mais exactos para a
tentar fortuna no Brasil. historia da ilha de Santa Maria, principalmente
N'este grande paiz, conseguiu effectiva- na parte genealógica.
mente arranjar um bom pecúlio, chegando a Manoel Barbosa da Camara Albuquerque
occupar, no Rio de Janeiro, o logar de agri­ merece, pois, pelos serviços prestados á sua
mensor da Casa Imperial. terra natal — a ilha de Santa Maria — entrar
Relativamente rico, regressou á sua patria Manoel Barbosa da Camara Albuquerque na galeria de homens de reconhecido patrio­
em 1860, e ali exerceu criteriosamente os lo- tismo, aqui postos em fóco a par d’outros que
gares de Provedor da Santa Casa da Misericórdia, i.° substituto por variadas manifestações teem honrado ou honram as terras do
do juiz de direito e presidente da camara municipal. formoso e rico archipelago açoreano.

N.° 35

DRaC-CCA
Ilha de Santa Maria — Freguezia de S. I.ourenco
>

274

DRaC-CCA
SAN LOURENÇO
um pittoresco sitio da ilha de Santa Maria, muito aprazível ornados de stalactites e de stalagmites, que parecem columnatas
E pela sua extensa e arenosa bahia, e pelas numerosas e excel- mutiladas; do outro lado fendem a rocha sinuosas veredas; de
espaço a espaço notam-se como que umas mesas, bancos e sophás
lentes vinhas, que elevando-se gradualmente revestem os roche­
dos. que as dominam em fórma semi circular. de mármore. Ao fundo torna-se o espectaculo mais maravilhoso,
Da cristã dos mon­ porque as sinuosidades
tes desprendem-se, por são mais pronunciadas.
vezes, jorros d'agua, e as petrificações mais
que deslisando fórmam variadas; a vista não
como que umas casca­ cança de admirar visto­
tas. sas stalactites, penden­
Não ha por ali ali­ do do tecto como fios
nhamentos de ruas, sy- de crystal, e grossas
metria de edifícios, nem stalagmites brotando do
a artística cultura dos chão.
jardins, que a natureza A natural vegetação
substituiu, em toda a da furna serpenteia em
sua creadora pujança. grinaldas, verde mari-
Na entrada da bahia no, atapetando, forran­
de San Lourenço ha um do e toldando o vasto
ilheu, hoje pertencente sobterraneo.
ao sr. Victor Gago da Não é facil o acces-
Camara — o ilheu do so á furna, tornando-se
Romeiro—, onde existe preciso aguardar occa-
uma furna, que se as- sião do mar se conser­
simelha a um palacio var muito sereno, para
subterrâneo. Dividem- se ir admirar a linda
n‘a d um lado aposentos I R
lhéu do ,
omeiro na Bahia SdeL an ourenço gruta mystcriosa.

275

DRaC-CCA
DR. JOAO SOARES DALBERGARIA
asceu na Villa do Porto denominação de — Emprega União Mercantil —; e também po­
N da ilha de Santa Maria derosamente concorreu para a promulgação do decreto auctori-
em 1817, e falleceu em Ponta sando a construcção do grandioso porto artificial de Ponta Del­
Delgada, ilha de San Miguel, gada.
em 1902. Não foram, porém, só obras de grande alcance que lhe mere­
Foram seus paes, o capi­ ceram attenção. Não se esqueceu da sua terra natal, apesar de ha
tão Bento Soares d’Alberga- muitos annos longe d elia; conseguiu que dos fundos d'Obras Pu­
ria, commendador da Ordem blicas fossem enviadas algumas verbas para as obras de maior
de Christo, moço fidalgo da
Casa Real e Governador da
ilha de Santa Maria, e D. Mar­
garida Soares da Gamara Al­
bergaria.
Era nobilíssima a sua as­
cendência, pois que foram seus
avós os primeiros capitães do­
natários daquclla ilha e da de
l)n. J
oãoS 'A
oares d lbergaria San Miguel.
Frequentou o (Lollegio dos
Nobres, seguindo depois para Coimbra, onde se formou em Direi­
to; completa a sua formatura fixou residência cm Ponta Delgada,
onde estabeleceu banca de advogado. Eleito deputado em 185'2
e i853, deu no Parlamento sobejas provas de quanto tomava a
peito os interesses dos povos que tão distinctamente representava.
Foi elle quem apresentou ás Cortes o projecto da concessão d’um
subsidio á empreza que quizesse estabelecer uma carreira a vapor
entre a Metropole e os Açores, empreza que se constituiu com a Igreja de Nossa Senhora da Purificação

2JÕ

DRaC-CCA
Para se ajuizar da maneira como desempenhou tantos e tão
honrosos cargos e da dedicação e amor que votava ás cousas pu­
blicas, basta referir que de bom grado cortou os seus interesses
legítimos, fechando o seu escriptorio de advogado, sempre que se
tinha de dedicar á administração publica, á qual votava a maior
solicitude e louvável dedicação.
Amava em extremo a sua terra natal, que todos os annos vi­
sitava, e quando procurador á Junta Gera), apesar de já velho
e cançado, dispensou-lhe sempre um particular affecto, interes­
sando-se com o ardente fervor d um novo por tudo o que lhe dizia
respeito.
O dr. João Soares era um espirito culto, e liberal por excel-

O Loural. — Freguezia de Santo Espirito

importância de Santa Maria, taes como: caes, estradas, etc.; e em­


penhou-se também para que fosse creada na Villa do Porto uma
escola de latim, de que infelizmente pouco se souberam aprovei­
tar os marienses, sendo em consequência d'isso transferida para
San Miguel.
Cumprindo tão conscienciosamente o honroso mandato de que
fôra incumbido, retirou-se para Ponta Delgada e não mais voltou
a ser deputado, desligando-se da política.
Com o mais subido critério exerceu cargos de confiança no
districto, como o de Presidente da Camara Municipal, Provedor
da Santa Casa da Misericórdia, Juiz de Direito, Conselheiro dis-
trictal. Governador substituto em exercício, e por ultimo o de pro­
curador á Junta Geral pela ilha de Santa Maria. Um aspecto da freguezia de S. Pedro

DRaC-CCA
lencia. Amava apaixonadamente a liberdade, com um tanto ou Era lhano e affavel no seu tracto, modesto, despretencioso,
quanto de philosopho, caracterisado no seu viver mais intimo. sobretudo um caracter sincero, honestíssimo e bom. Era homem
Dizia elle muitas vezes: «Se houvesse frades, fazia me frade loyo; de bem, cheio d’aquellas antigas virtudes que eram o apanagio dos
era uma ordem cuja regra não era muito apertada e que permittia nossos maiores e tão raras hoje são.
rios seus membros uma tanta ou quanta liberdade.» J. C. Cabral.

278

DRaC-CCA
Não sabemos porque, o morgado retirou-se para a ilha de
PICO DA BELLA VISTA San Miguel, indo viver n uma freguezia rural, triste, isolado, sem
affectos, não sabemos se descontente de si, se descontente com o
mundo. Mas elle devia ter saudades da sua bella casa e dos seus
stá situado no coração da freguezia de S. Pedro da ilha de aspectos, que tanto o embriagaram em tempos de mais moci­
E Santa Maria. O morgado Luiz de Figueiredo Velho Mello
Falcão mandou ali (no planalto) construir uma bella vivenda, hoje
dade.
Na sua bella vivenda do Pico da Bella Vista, dera o morgado
pertencente ao commendador Albino Augusto Pereira, casado com Luiz de Figueiredo Velho Mello Falcão, varias reuniões, entre el-
uma irmã daquelle fidalgo, que por esse facto a herdou, pois que las a da inauguração da pittoresca casa, reunião que ficou memo­
o morgado Figueiredo morreu sem descendencia e ab intestato. rável.
Goza-se do Pico da Bella Vista um excellente panorama, Ao destino aprouve, porém, transformar num misantropo o
avistando se quasi toda a freguezia, e a visinha ilha de San Miguel. alegre fidalgo, que foi morrer n’um voluntário exílio, como um
Respira-se n'aquella altura livremente, e para todos os lados antigo asceta, desilludido dos enganos da vida.
se vèem excellentes aspectos da natureza. As casinhas brancas re­
luzem banhadas na frescura dos prados, abrindo as suas janellas
sobre as-hortas, cercadas pela madre-silva. Ondulam as papoulas e
extensas cearas, com a viração da tarde. As vaccas regressam do
trabalho ou da pastagem, abeberando-se nos regatos esverdeados
pela sombra do arvoredo. O trigo loureja nas eiras batidas pelo sol.
Passa-se muito bem, na solitaria vivenda, um d’esses dias de
agosto, tropicalmente quentes, á sombra das arvores, que nos dão
uma excitação penetrante, envolvendo-nos num banho de suaves
sensações, com a viva representação da natureza e da vida rústi­
ca, no murmurio das aguas, no gotejar das fontes, nos regatos que
correm, no rumor das arvores, no chilrear dos canarios, no asso­
bio dos melros pela espessura dos pomares, no mugir das boia­
das, no latir dos cães de vigia. Respiram-se, num banho da atmos-
phera, os acres aromas do campo espalhados pela resina dos
pinhaes, pela seiva dos castanheiros, pela folha dos eucalyptos,
pela flor das larangeiras e dos limoeiros, pela salsa, pela terra re­
movida de fresco, e pelos fructos, que as raparigas arrecadam, á
tarde, cantando, sentadas nas lareiras. Pico da Bella Vista

279

DRaC-CCA
DR. LUIZ DUARTE DA CAMARA
asceu em 1822 na villa do Porto da ilha de Santa Maria. Era Dotado d uma memória prodigiosa, sabia o nome de todos os
N filho do sargento-mór Matheus Duarte Rebello da Gamara e seus condiscípulos e d’alguns contemporâneos, as suas naturalida­
de D. Anna Izabel Rebello da Camara. des, profissões, collocaçoes, etc., etc., narrando com verbosidade
Formou-se na faculdade de Direito da Universidade de Coim­ actos picarescos da sua vida.
bra, para onde foi cm 1840, recebendo o grau de Era um excêntrico de illustração variada, e
bacharel em 1846. grande maçador, mas era um homem serio e
As luctas politicas de então afastaram-n’o correcto, incapaz de conscienciosamente praticar
d’aquella cidade, onde só voltou em 1849, f°r" uma injustiça.
mando se em i85o. Em 1858 foi nomeado admi­ Tinha uma livraria escolhida, onde aproveitava
nistrador do concelho da sua terra natal, logar os seus ocios, e a sua conversação era faiscante
que exerceu por espaço de 3q annos, a contento de ditos espirituosos e de interessantes aneedotas.
de todos, pois que serviu com todos os partidos Em 1899 falleceu na cidade de Ponta Delgada.
e com todos os governos. para onde tinha ido tratar-se. Quando li nos jor-
Varias crises alimentícias se deram na ilha de naes michaelenses a noticia da sua morte, expressa
Santa Maria, no tempo do dr. Luiz Duarte, crises na algida sequidão da prosa banal destinada a in­
que elle procurou sempre debellar, sendo a maior formar o publico, lembrei-me com saudade do Ba­
a de 1878. Por esta occasião mandou ir milho por charel, como lhe chamava o povo de Santa Maria,
sua conta, acudindo aos pobres necessitados, que recordei-me da sua bella palestra, e ainda me não
nunca llío pagaram. esqueci das grandes estopadas, que elle me pre­
Devem-se-lhe alguns melhoramentos de interes­ gava, quando eu ia a ferias, e de alguns embara­
se publico, como a feira de gado, que se realisa ao ços em que me vi para responder a questões que
cimo da villa, proximo á ermida de Santo Antão, D . L
r uizD uarte Rebello C da me apresentava.
amara

o aperfeiçoamento da cultura da batata, etc. Em Santa Maria ainda todos se lembram do


Não era político e servia com todos os partidos, como dissemos, Luiy Duarte, um agente do ministério publico que nunca estra­
porque encarava a sua auctoridade por um prisma philosophico, gou papel sellado e sempre fez justiça.
que se não sujava no pútrido enxurro, onde alguns espertos tra­
tam de comer á sombra dos tolos fracos, que são muitos. Julio Cabral.

DRaC-CCA
FASCICUI.O IX? 35

DRaC-CCA
LOMBADAS
(GRÃND FRIX
Exposição Internacional de S. Luix em 1901 AZ1NE BERTRAND
MEDALHA DE OURO
Exposição do 1'aEcio de Crystal de Londres em <904 A LEITURA ILLUSTRADA
Revista quinzenal —96 pag. cheias de gravuras
1 |ainha das aguas de meza 200 RÉIS
Assigna-se na
Leve, estomacal e digestiva, pura, limpida ANTIGA CASA BERTRAND — JOSÉ BASTOS
15. Garrett, 73 e 75 —Lisboa
0 acido carbonico não é introduzido artlflcialmente

Recommendada por todos os médicos

DEPOSITO GERAL
106, AVENIDA DA LIBERDADE, 110 C. MAHONY & AMARAL
X.ISBOA
70, Rusi Augusta, 2.° — LISBOA
TELEPHONE 586
METAES EM BRUTO: Aço, cobre, lataò, estanho, chumbo em chapa, bar-
A’ i ras lingots.
FERRO: Em barras quadradas, redondas e vergalhão. Vigamcnto de ferro
<1
MEMÓRIA SDBRE A ILHA TERCEIRA f em TI Ui cantoneiras e todos os tnais aprestos para construcções. Ferro em
lingots para fundição. Chapas galvanisadas lisas e onduladas Chapas de aço
para caldeiras. Tubos de ferro, cobre e latão. Arame de ferro, cobro <■ latão.
oor Alfredo da Silva Sampaio [| Folha de Flandres. Material fixo e circulante para caminhos de ferro. Rails de
i aço e diversos perfis e pesos, vias portáteis. Machinas de vapor, gaz e petró­
Angra do Heroísmo, 1904, 8.° gr — XI — 833 paginas
leo. Caldeiras. Bombas, Machinas para industrias e agricultura. Machinas. Fer­
2$5OO RÉIS w ramentas. Vidros polidos, foscos e de phantasia. Vidraça, lages de vidro (dulles)
A' venda na ' ®ys Assucar, arroz, especiarias, drogas, productos chiinieos. Ascensores hydraulicos.

ANTIGA CASA BERTRAND - JOSÉ BASTOS |


Rua Garrett, 73 e 73 — l^inboa
*
Edoux .& C.
Cl M E 11 T O
Únicos importadores em Portugal e colonias do CIMENTO da Compagnie
des Cnnents Parisiens, fabricado pelo notável engenheiro E. CANDL0T.
Fabrica de sabão — Telhai ^Poço do Bispo'
Fabrica da licores aguardente, genebra e cognacs — TELHAI (POÇO 00 BISPO)

Trp. d'» A Editora» — Lisboa

DRaC-CCA
Santa Maria. — Uma caçada no Barreiro da Faneca

N.° 36 281

DRaC-CCA
exquisito da região, pela singularidade, e pelo contraste que esta­
FANECA belece com o terreno contíguo.
Presta-se a grandes caçadas aos coelhos, que abundam no si­
tio, facilitando uma digressão agradavel, que muito apreciam os
rC um sitio pertencente á freguezia de San Pedro da ilha de Santa forasteiros.
Maria, á distancia de umas duas horas de viagem da villa do Julio Cabral.
Porto.
Torna-se notável por causa de uma especie de deserto, que
lhe fica adjacente, á beira-mar (o Barreiro da Faneca), formado MORGADO LUIZ DE FIGUEIREDO FALCÃO
por uma grande extensão de terreno de côr amarellenta, tendendo
para vermelho, e que não é cultivado. De espaço a espaço encon­
tram-se uns montículos com algumas urzes e tamujos rasteiros, idalgo de nobilíssima estirpe, é descendente
formando como que uns oásis.
Tem um aspecto impressionante o Barreiro da Faneca, pelo
F dos primeiros donatários da ilha de Santa
Maria, onde nasceu em 1825.
Filho do Morgado Luiz de Figueiredo Ve­
lho Mello Falcão e de D. Joanna Emilia do
Canto Côrte Real, n’elle terminou a casa vin­
cular dos Figueiredos, de que foram instituido­
res em 1585, Miguel de Figueiredo Lemos e
D. Ignez Nunes Velho, paes do il lustre e virtuoso
Bispo do Funchal, D. Luiz de Figueiredo Lemos.
Era enthusiasta pelas viagens ao extrangeiro, e por mais d uma
vez visitou as principaes cidades da Europa e algumas da Asia,
e notavelmente a Palestina.
N’estas viagens, adquiriu alguns conhecimentos sobre o desen­
volvimento agrícola, transportando para a sua patria algumas va­
riedades de animaes, plantas e instrumentos agrícolas, de que fez
uso com bons resultados, incitando os seus patrícios a sahirem do
lethargo em que jaziam e a afastarem-se de processos rotineiros,
usados até então na cultura dos cereaes e outras plantas fructife-
ras e industriaes.
Sitio de Nossa Senhora da Gloria Da explendida casa, que, sob a sua direcção, se edificou no

^•82

DRaC-CCA
cimo do monte denominado «Pico da Bella Vista», disfructa-se Nobre pelo nascimento e pelas acçÓcs, o morgado Figueiredo
um dos melhores panoramas da ilha de Santa Maria. soube insinuar-se a todos que o conheciam, não só na sua terra,
Como patriota pugnou sempre pelos interesses da sua terra, como também fóra d’ella.
onde exerceu diversos cargos públicos, nos quaes assignalou bri­ Na ilha de San Miguel, onde muitos annos residiu, occupou
lhantemente a sua passagem. sempre um logar distincto na primeira sociedade, assegurando
Presidente da Camara Municipal, fez com que se construísse o assim os pergaminhos dos seus antepassados, hoje representados
antigo caes da Villa do Porto e desenvolveu a viação. na pessoa do seu unico sobrinho, o commendador Luiz de Figuei­
Extremamente bondoso, protegeu muito os pobres, proporcio­ redo Lemos do Canto Côrte-Real.
nando-lhes trabalho e incitando-os a procurarem fortuna, ainda
que fóra da patria. L. M. Bettencourt.

283

DRaC-CCA
NOSSA SENHORA DOS ANJOS
rei Gonçalo Velho Cabral desembarcou pela primeira vez na altar, do lado do Evangelho, recordando em linguagem e escripta
F ilha de Santa Maria, pela parte de Oeste, n’uma pequena
praia, a que deram o nome de Praia dos Lobos, por alli encon­
da epocha, o modo porque os mouros entraram no sitio de Nossa
Senhora dos Anjos, e a maneira por que d'aqui foram expulsos,
trarem alguns lobos marinhos, e ao local proximo chamaram dizendo a tal Memória que deixaram ficar o chicote com que es­
Cabrestanlante, por assim pancaram os habitantes, e
parecerem, como diz o pa­ que existiu junto da Sacra,
dre Cordeiro na Historia onde o vi, mas ha annos
Insulana, as pontas da tal desappareceu, suppondo-se
praia. que foi destruído pelos de­
Seguidamente a esta votos !
encontra-se o sitio de Nos­ O sitio é tristonho e ári­
sa Senhora dos Anjos, onde do, tendo apenas umas tres
se edificou uma ermida, a casas de habitação. Antiga­
primeira que houve em ter­ mente produzia algum vi­
ras açoreanas. nho, mas hoje pouco dá.
Ainda vi rfesta egreja Fica a uns dez kilometros
um missal, velho mas bem da villa do Porto, e algu­
conservado, que também se mas pessoas (poucas) vão
diz ser o primeiro que exis­ alli fazer uso de banhos do
tiu nos Açores, mas não mar.
sei que destino teve. Alegra se porém a insi­
Na mesma egreja existe gnificante localidade, no dia
uma Memória sobre um do Espirito Santo, reves­
assalto que os mouros de­ tindo-se de galas desusa­
ram á ilha de Santa Ma­ das, e accorrendo á capella
ria — uma especie de sacra, muitos devotos, que alli vão
que está collocada junto do Praia e ermida de Nossa Senhora dos Anjos cumprir as suas promes­

284

DRaC-CCA
sas, além dos forasteiros, organisando se balhos e outros diverti­ LUIZ DE FIGUEIREDO
mentos populares, que n'estes festejos açoreanos, são como que o
complemento das festas religiosas, e do bodo que se dá aos pobres.
a pleiade dos benemeritos
Julio Cabral. N mais distinctos, dos mais in­
confundíveis evangelisadores do
progresso da sua terra natal, so-
bresáe a individualidade distincta
do sr. Luiz de Figueiredo Lemos
Kianoutedorp:’ozttiadc jbeie do Canto Corte Real.
iNi&7$deràò osMouros húasz Descendente em linha rccta
íãltoncfte citio deita Em tida a das mais nobres famílias da ilha
descudo dasouardas; entra de Santa Maria, o seu espirito
rao pelo porto ca liuarioi í. culto tem-se revelado em superio­
peífo as.eriTrr i nolhcre.çemeninos res manifestações de grande al­
ccoeíto chicote ascípancauao truísmo e philantropia, dignas do mais incondicional elogio.
oqual seposaciiupWmoriado Fundindo admiravelmente os dotes do seu espirito com os se­
Sliccfio p"q.cftcjapTc^mdoquc. gredos da política, é hoje o sr. Figueiredo, n’aquella ilha, o chefe
Sc DS.logoteuantou oaftiepfòí do partido Regenerador, que n'elle possue um valente caudilho.
tal ucs pomao enwluernws in: Dispondo de uma boa fortuna, ninguém melhor do que elle a
nocètcs; todaiúa deixou ficat c tem sabido applicar criteriosamente em beneficio da causa publica.
terra oacoute cod. cafitÂOU ixs. De uma grande popularidade e de trato ameno, o sr. Figueiredo
ta Ermídaiiàò tocarab. paíía. é sem duvida um dos vultos mais respeitáveis da sua patria.
do cletodo porjuto dela; como Ainda no vigor da edade, já tem o seu nome vinculado a gran­
ta bem noanno dció’i6. saque­ des e perduráveis melhoramentos, que lhe deve a ilha de Santa
ado toda ajlb^he tradiçao Maria.
dLte anâb mrâo uendo osato O hospital da Santa Casa da Misericórdia, por tantos annos
aos quem dentro estaua. abandonado, como injuria aos bemfeitores que lhe tinham legado
o producto de suas economias, deve o seu engrandecimento rela­
tivo, o respeito aos instituidores de seus bens, e a sabia adminis­
tração de suas rendas, ao sr. Figueiredo, que a partir de 2 de ju­
Memória existente na ermida lho de 1893, epocha em que foi eleito seu Provedor, se não tem

DRaC-CCA
poupado a esforços para lhe introduzir importantes melhoramen­ Por vezes lhe tem sido olTerecido o logar de Presidente da
tos, desempenhando com o mesmo enthusiasmo, com as mesmas Camara Municipal, de Administrador do Concelho e Procurador a
idéas e com o mesmo vigor, ainda hoje, esse elevado cargo. Junta Geral, cargos que, por sua singular modéstia, nunca quiz
Homem com um só ideal, dotado d’um caracter sincero, lucta- acceitar.
dor assiduo, o sr. Figueiredo, na consciência do dever cumprido, Tem presidido a differentes commissões de serviço publico,
não recúa perante as contrariedades que sempre apparecem a commemorativas de datas notáveis, como a
qualquer instituição ou idéa benemerita em seus princípios. sub-commissão Colombiana para celebração
Nasceu na Villa do Porto em 1870 e é filho de João Soares de do 4.0 centenário do descobrimento da Ame­
Figueiredo do Canto e de D. Joanna Jacintha da Camara Falcão, rica, etc., etc., prestando importantes servi­
descendentes dos i.os capitães donatários e povoadores da dita ços e recebendo em troca honrosas manifes­
ilha. tações de louvor e agradecimento.
Completou a sua educação litteraria em San Miguel, onde fre­ Também presidiu, na ilha de Santa Ma­
quentou o lyceu. ria, á commissão encarregada dos festejos
A morte prematura de seu extremoso pae e de seu padrinho, para a recepção do prelado diocesano, quan­
o morgado Luiz de Figueiredo Velho M. Falcão, fizeram com que do este, em 1890, alli esteve em visita pas­
não continuasse os estudos, regressando á sua terra natal. toral.
Pouco depois de ter attingido a maior edade foi nomeado juiz Por decreto de 19 de dezembro de 1901 foi agraciado com a
de direito, i.° substituto, cargo que tem exercido por muitas vezes Commenda da Ordem Militar de Nossa Senhora da Conceição de
com notável imparcialidade, zelo e distincção, não recebendo das Villa Viçosa, e por despacho de 17 de junho de 1903 foi nomeado
partes emolumentos alguns. Fidalgo Cavalleiro da Casa Real, por successão de familia.

286

DRaC-CCA
sta freguezia da ilha de Santa Maria, fica a uns dois kilome-
E tros da villa do Porto, e está situada em terreno elevado e
aprasivel. Os seus habitantes dedicam-se á lavoura, creação de ga­
dos e cultivo de cereaes, a que principalmente se presta o sitio
das Courelas, onde também ha ferteis quintas.
N esta freguezia gosam os marienses parte da estação calmosa
e offerece curiosidade, em noites de luar, ir ás eiras, onde se jun-

F.grfja Parociiial da Freguezia de S. Pedro

tam ranchos de senhoras e de rapazes, que em alegre convívio,


ouvem os descantes dos trabalhadores, até que estes vão descançar
nos palheiros, para no dia seguinte continuarem na faina das de­
bulhas.
E uma freguezia alegre, muito frequentada, saudavel, com al­
guns pinheiraes, muitas arvores de fructo, e grandes espaços
Sani a Maria.— Fhegeezia de S. Pedro cultivados de cereaes, principalmente de trigo.

287

DRaC-CCA
Ermida e logar de Nossa Senhora dos Anjos

288

DRaC-CCA
FASCICUIA) TN-.» 36

DRaC - CCA
LOMBADAS
"GOKD FBJX
Exposição Internacional de S. Luiz em 1904 ilMAGAZINH BERTRAND
MEDALHA DE OURO
Exposiçío do Palacio de Cryslal de Londres em 4904 A LEITURA ILLUSTRADA
Revista quinzenal — 96 pag. cheias de gravuras
A tainha das aguas de meza 200 RÉIS
Assigna-se na

Leve, estomacal e digestiva, pura, limpida ANTIGA CASA BERTRAND — JOSÉ BASTOS
R. Garrett, 73 e 75 — Lisboa
0 acido carbonico não é introduzido artiflcialmente

Recomtnendada por todos os médicos

DEPOSITO GERAL
106, AVENIDA DA LIBERDADE, 110 C. MAHONY & AMARAL
LISBOA
70. Rua Augusta, 2.° — LISB<
TBLEPHONE 586

METAES EM BRUTO: Aço, cobre, latào, estanho, chumbo em chapa, bar­


ras lingots.
FERRO: Em barras quadradas, redondas e vergalhão. Vigamcnto de ferro
3MEMÓRIA SOERE A ILHA TEREElRâ1|| em TIU; cantoneiras e todos os mais aprestos para eonstrueções. Ferro em
lingots para fundição. Chapas galvanisadas lisas e onduladas. Chapas de aço
para caldeiras. Tubos de ferro, cobre e latão. Arame de ferro, cobre e latào.
nor Alfado da Silva Sampaio p Folha de Flandres. Material lixo e circulante para caminhos de ferro. Rails de
® iÉ Anqra do Heroísmo, 1904, 8.° qr. — XI — 833 paqinas A' aço e diversos perfis e pesos, vias portáteis. Machínas de vapor, gaz c petró­
Angra do Heroísmo, 1904, 8.° gr. — XI — 833 paginas leo. Caldeiras. Boinbas. Machínas para industrias e agricultura. Machínas. Fer­
■' 2$5OO RÉIS ramentas. Vidros polidos, foscos e de phantasia. Vidraça, lages de vidro (dalles)
A’ venda na
Assucar, arroz, especiarias, drogas, productos chimicos. Ascensores hydraulicos.
& f ANTIGA CASA BERTRAND JOSE BASTOS
Rua Garrett. 79 75 — jLinboa e
Edoux & C.*
CIMENTO
Únicos importadores em Portugal e colonias do CIMENTO da Compagnie
des Ciments Parisiens, fabricado pelo notável engenheiro E. CANDLOT.
Fabrica de sabão — Telhai (Poço do Bispo'
Fabrica da licores aguardente, genebra e cognacs — TELHAL (POÇO 00 BISPO)
Trp. d'.A Editora» — Lisboa

DRaC-CCA
PADRE EEANDRES DE SOUZA
uma individualidade distincta que, em Eleito em i de junho de i885 membro da Sociedade de Geo-
Elucta com a escassez de meios e com os
minguados recursos da sua terra natal, am­
graphia de Lisboa, ahi prestou também valiosos serviços.
Tendo nasci­
parado sómente por uma mão bemfazeja, do em i831, fal-
avançou, conseguindo incorporar se trium- leceu em 1890 na
phantemente na classe sacerdotal. cidade de Lisboa,
Trabalhador infatigável e luctador cons­ onde residia, sen­
tante, o padre Leandres conseguiu alcançar do sepultado no
fóra da patria uma grande fortuna, depois de cemiterio Occi­
ter soffrido as contrariedades de que amar­ dental da mesma
gamente se queixam todos os que impcllidos pela necessidade ou cidade.
pela corrente da emigração, trocam os carinhos da familia pelo ri­ Ao nome do
gor dos extranhos, e as doçuras da patria pelas amarguras que se padre Antonio
offerecem fóra d'ella. Protegeu largamente a sua familia e muitos Coelho de Sousa
pobres que o procuravam. Leandres se acha
Em seu testamento, datado de 16 de fevereiro de 1889, em intimamente li­
que também contemplou a egreja Matriz e o hospital da Villa do gado o do seu
Porto, de onde era natural, com importantes legados, mostrou o protector, mes­
quanto amava as lettras e os cuidados que lhe merecia a educação tre e guia, o pa­
da mocidade da sua patria. dre Antonio do
Desde os bancos da escola primaria, que frequentou na cidade Canto Lacerda
de Ponta Delgada, ilha de San Miguel, para onde foi aos nove annos Soares Albu­
de edade, até ás cadeiras de theologia que cursou na cidade do querque, filho do
Rio de Janeiro, onde recebeu ordens de prcsbytero, revelou sem­ morgado Bernar­
pre o padre Leandres uma cerebração bem equilibrada, e o seu do do Canto Soa­
espirito culto manifestou-se desde logo nos múltiplos actos em que res de Sousa Al­
a sua actividade se desenvolveu. buquerque e de COSTUMES MAÍIIENSES

N." 37 289

DRaC-CCA
D. Umbelina Michaela da Camara Medeiros, descendentes de uma
das mais nobres famílias da ilha de Santa Maria.
O padre Canto era natural da freguezia de San Pedro da dita
ilha, e foi ainda creança para Pernambuco, entrando para o Se­
minário d’esta cidade, onde estudou o curso theologico e recebeu
ordens sacras.
Falleceu no Rio de Janeiro em 187a, mas os seus restos mor-
taes estão depositados no cemitério de Santa Rosa da Villa
do Porto.
Dotado de uma mentalidade sã, o padre Canto soube, pelas
bellas qualidades do seu caracter e da sua intelligencia, alcançar
um Ipgar de honra na sociedade e na classe a que pertenceu, e da
qual foi um precioso ornamento.
Como benemerito inconfundível, vinculou para sempre cm

Parte sul da ireguezia de Santo Espirito

lettras de ouro o seu nome á Santa Casa da Misericórdia da Villa


do Porto da ilha de Santa Maria, sua patria, legando-lhe todos os
bens, que possuia na dita ilha.
Interpretando magistralmente a missão do verdadeiro padre,
do verdadeiro christão e do verdadeiro crente, póde dizer-se que
o padre Canto foi um modelo de virtudes, não só para a sua
classe, mas também para o grande publico.
O seu amor pátrio e a sua hospitalidade provou-os no então
erande império do Brasil.
Alli acolheu muitos dos seus patrícios, a quem protegeu, in­
cutindo-lhes na alma o amor do trabalho, da família, da religião e
da patria.
Homens semelhantes, principalmente em terras assim peque­
l'.M TRECHO DA TREGITZIA DE SANTO EsPIRITO nas, são sempre um exemplo fecundante e salutar.

290

DRaC-CCA
SANTO ESPIRITO
uma freguezia da ilha de Santa Maria, situada uns 18 kilome- tre-mostrando uns braços roliços, namorando com uns olhares fais­
E tros a N. E. da Villa do Porto.
O seu terreno é fértil em cevada, trigo, milho e legumes, a
cujo cultivo se dedicam os habitantes, bem como á pastoreação de
cantes, que parecem tremeluzir ao cstridulo som da viola, abai-
xando-sc vagamente no sapateado d um pésinho, ou elevando-se
com ardor na volta d um mangericão, ou ainda ondulando por
gados e á pesca. todo o terreiro no
As melhores bai­ braço dado d’uma
ladeiras de Santa Ma­ praga!
ria são dos sitios da Encantadores di­
Calheta e de Santo vertimentos, na sua
Antonio, pertencen­ maior simplicidade, e
tes a esta freguezia. encantadoras mulhe­
Ha por alli lindas ra­ res na belleza dos
parigas e bei las vo­ seus olhares, na sin­
zes. Mulheres na pu­ geleza dos seus cos­
jança da vida, com a tumes, na ingenuida­
natural alegria dos de dos seus devaneios,
campos, formosas na sinceriedade dos
sem atavios, e bran­ seus affectos!
cas sem pó darroz! Nesta freguezia,
Simplesmente vesti­ no sitio da Q/l\enha,
das e penteadas, saias encontra-se a melhor
redondas, com as suas agua potável; e no
meias brancas d uma sitio da Maj'a ha ex-
alvura que se salienta cellentes vinhas, sen­
no decote da chinella do magnificas as cra­
de cordovão, ellas cas que se apanham
bailam c cantam, en- Fregvezia de Santo Espirito. — Estrada keai no porto d’este logar.

291

DRaC-CCA
INDUSTRIA MARIENSE
argila parda, a que os ilhéus dão o nome de barro, encon­
A tra se por quasi toda a ilha de Santa Maria, exportando se
em grande escala para as outras ilhas dos Açores, nomeadamente
para S. Miguel.
Esta argila é excellente matéria para louça vermelha, canos.
tijolos e telha, de que também se abastecem as mesmas ilhas, e
para cujo fabrico existem diversos estabelecimentos (as olarias) e
fornos, para a cozedura.

Uma imbrica de telha

Póde affirmar-se ser esta a principal industria da ilha de Santa


Maria, onde se empregam algumas dezenas de homens.
A chamada pinta do barro (imposto sobre a argila que se ex­
portava') constituía a principal verba de receita da camara muni­
cipal da Villa do Porto, orçando por uns ãoo-rooo réis. A louça
é ordinaria, mas são notáveis, pela sua grandeza e duração, as
talhas para depositos d'agua potável, guarda e conservação do tri­
Villa do Porto. — Uma olaria go, e os alguidares, que se empregam em usos domésticos.

292

DRaC-CCA
A IMPRENSA EM SANTA MARIA

meio mariense é demasiadamente pequeno para


O n'elle se desenvolver, mesmo em grau de me­
nor prosperidade, o gosto pelas lettras, e ainda menos
pela simples leitura de quaesquer jornaes.
No tempo dos frades circumscrevia-se a littera-
tura ao unico convento que havia em Santa Maria,
conservando-se em manuscriptos que desappareceram
quasi todos com o mesmo convento, se não com os
proprios auctorcs, como os do padre mestre frei
Evangelista. Nada resta d’essas obras; nem as de
frei Ignacio de Santa Maria, que chegaram a transpor
a portaria do convento, indo sumir-se na livraria d"um
velho fidalgo mariense.
Os profanos nem quizeram ler os frontispícios
d‘esses cadernos, que devidamente arrecadados, hon­
rariam a terra de seus auctores, constituindo como
que uns obeliscos levantados á memória d'estes illus-
tres marienses.
Fora do convento, que eu saiba, apenas se apre­
senta José Ignacio de Andrade, que se illustrou em
viagens marítimas, desenvolvendo-se c salientando-se
na capital do reino, onde publicou as suas Cartas da
índia e da China.
Posteriormente aos conventos, em tempos idos.
distinguiu-se Luiz. José Cabral, como poeta satyrico

203

DRaC-CCA
e epigrammatico, um tanto repentista, mas também nada existe
das suas producçÕes, que certamente haviam de soffrer incorrec-
ções de fórma.
Modernamente apparece-nos Manoel Barbosa da Camara Albu­
querque, que também versejou, dedicando-se especialmente a es­
tudos genealógicos, cujos apontamentos se conservam em poder
da sua viuva, e que pouco publicou n um periodico de Ponta Del­
gada— A Persuasão.
Na ilha de S. Miguel publicou-se a primeira folha periódica
em «835; mas em Santa Maria só cincoenta annos depois, em i885,
que me conste, é que se publicou um quinzenario litterario e no­
ticioso, O Mariensc, cujo i.° numero appareceu no dia 9 de
abril, sendo editor e proprietário J. Monteiro, e redactor principal

X ii.i.a do Porto. — Ri a da Coxcek ão

Urbano de Medeiros, que não teve, apesar dos seus esforços, a


dita de lhe vêr longa vida.
Pouco tempo durou esta publicação.
Mais tarde, em 16 de novembro de 1901, appareceu o i.° nu­
mero de O Echo Mariensc, folha semanal e independente, que
depois se transformou em regeneradora, sendo seu editor e admi­
nistrador, Januario Soares de Figueiredo, e director e redactor.
Manoel do Nascimento.
Ainda durou uns dois annos este jornal, e de então para cá
nada se ha publicado pela imprensa em Santa Maria.
Deve porém dizer-se que n esta ilha, desde tempos immemo
Egreja de No«sa Senhora da Conceicão da Rocha e casa do Castello riaes, era de costume fazer-se um relato, em prosa rimada, dos

294

DRaC-CCA
quanto, adaptavel qualquer publicação pela imprensa. E’ muito-
pequeno para isso, com os grandes inconvenientes que ao jorna­
lista traz com certeza esta circumstancia, além de que a fortuna
não o poderá proteger, nem á própria officina, ainda que fosse
uma simples Minerva para bilhetes de visita.
Não é agradavel a confissão do facto, mas também ella nada
depõe em desfavor, do povo mariense.
E’ a exiguidade do meio, a vida rudimentar e simples da po­
pulação, que para tal concorre.
No emtanto, santa gente e santos costumes.

Jui.io Cabral.

|-’re<;> ezia de Santa Bardara. — Paute nome

factos mais escandalosos, ou interessantes, que durante o anno se


haviam dado. Este relato intitulava se A Comedia, e os comedian­
tes Os mascarados, porque punham mascara, vestindo mal e á
antiga.
Luiz José Cabral deu grande contingente, com a sua prosa,
para estas festas, populares, que se realisavam na rua, ao ar livre,
nas tardes dos dias de S. João e Santíssima Trindade, com acom­
panhamento certo do 1’elho Mardu e do Marianno do Farro-
pio, dois tvpos popularíssimos da Villa do Porto, entretenimento
do rapazio estouvado e alegre, que, á pedrada, alvejava o chapéu
alto d’aquelle, ou o barril cm que este conduzia agua potável para
os seus freguezes.
Repito, não me parece que ao meio mariense seja, por em- Jr)EBULHA DE TRIGO. — U.MA EIRA

2<) >

DRaC-CCA
Santa Maria. — Vista geral da i regi ezia i>e Santi Bardara

DRaC-CCA
I^VSíCíIClIX» N.1 3?

AkBUM Açoriano

DRaC-CCA
LOMBADAS
:grahd fr.jx
Exposição Internacional do S. Luiz em 1904 AZINE BERTRAND
MEDALHA DE OURO
Exposição do Palacio de Crystal de Londres cm 1904 I
A LEITURA ILLUSTRADA
Revista quinzenal — 96 pag. cheias de gravuras
A Kainka das aguas de meza 200 RÉIS
Assigna-se na

Leve, estomacal e digestiva, pura, limpida AMIGA CASA BERTRAND — JOSÉ BASTOS
R. Garrett, 73 e 7a-Lisboa
0 acido carbonico não é introduzido artiflcialmente

Recommendada por todos os médicos

DEPOSITO GERAL
106, AVENIDA DA LIBERDADE, 110 C. MAHONY & AMARAL
X.1SBOA
70, Rua JVug-usta, 2."— RISBOA
TELEPHONE 586
METAES EM BRÚTO: Aço, cobre, latào, estanho, chumbo em chapa, bar­
ras lingots.
FERRO: Em barras quadradas, redondas e vergalhão. Vigamcnto de ferro

MEMÓRIA SOBRE A ILHA TERCEIRA em T I U; eantoneiras e todos os mais aprestos para eonstrucções. Ferro em
lingots para fundição. Chapas galvanisadas lisas e onduladas. Chapas de aço
para caldeiras. Tubos de ferro, cobre e latào. Arame de ferro, cobre e latão.
oor Alfredo da Silva Sampaio Folha de Flandres. Material fixo e circulante para caminhos de ferro. Rails de
aço e diversos perfis e pesos, vias portáteis. Maehinas de vapor, gaz e petró­
Angra do Heroísmo, 1904, 8,° gr. — XI — 833 paginas leo. Caldeiras. Bombas. Maehinas para industrias e agricultura. Maehinas. Fer­
2$5OO RÉIS ramentas. Vidros polidos, foscos e de phantasia. Vidraça, lages de vidro (dalles)
A' venda na
Assucar, arroz, especiarias, drogas, productos ehimicos. Ascensores hydraulieos.

i ANTIGA CASA JOSÉ BASTOS


BERTRAND -JLiuboa
Rua. Garrett, 79 e 75—Liiboa
Rua ,&tíA(r
Edoux & C.a
CIM E H T O
Únicos importadores cm Portugal e colonias do CIMENTO da Compagnie
4 - _____ -J dos Ciments Parisicns, fabricado pelo notável engenheiro E. CANDL0T.
x x x. x x x v. v X V x x. v V. x. x x. Fabrica de sabão — Telhai (Poço do Bispo'
Fabrica de licores aguardente, genebra e cognacs— TELHAI (POÇO 00 BISPO)
*
Trj>. d' A — Lisboa

DRaC-CCA
MAJOR JULIO CABRAL
a serie de homens illustres da ilha de Santa Maria, occupa Conjunctamente com outros escriptores, redigiu na mesma
N um logar de honra, como militar brioso e distincto escriptor, cidade d’Angra o jornal litterario Lui{ de Camões, e em Ponta
o sr. Julio Angelo Borges Cabral. Delgada collaborou na Persuasão, T)iario dos Açores e Gaveta
Como militar, tem sido alvo de muitas ovações, taes são os de Noticias, e no Funchal, no Direito. Actualmente é collaborador
serviços prestados na carreira das armas, que do Portugal, Madeira e Açores, escrevendo
seguiu por natural vocação, e como escriptor, também para o Diário de Noticias, de Lisboa,
primam os seus trabalhos litterarios, pela lin­ no qual dirigiu a secção da visita régia aos Aço­
guagem, pela fórma e pelas idéas. res, em 1901.
N uma terra pequena, como esta, e afas­ Pelo fallecido ministro da guerra, o conde
tada de todos os recursos scientificos, é honroso de S. Januario, foi incumbido de escrever a
encontrar entre os seus filhos um que, pelo seu Geographia, Historia e Estatística, das ilhas
talento e erudição, dê uma nota tão brilhante dos Açores, de que apresentou um excellente
na historia da nossa litteratura. volume sabiamente correcto, não tendo con­
Apaixonado pelas obras dos nossos melho­ cluído a obra, porque a isso se oppôz a crise
res clássicos, que constituem o enlevo do seu financeira, devido á qual o Governo não poude
espirito, tem colhido no vasto campo das scien- abonar as despezas de impressão e reproducção
cias e lettras a mais completa variedade de co­ de mappas, etc.
nhecimentos, e, assimilando-os na robusta e Trabalha ha tempos o sr. Julio Cabral, em
bem orientada actividade do seu espirito, d’elles uma obra de grande merecimento, intitulada In­
dispõe com admiravel perfeição de linguagem e sulares, de que o Portugal, Madeira e Açores,
clareza de pensamentos. tem publicado vários trechos.
Começou a escrever para o publico aos qua- Não só como escriptor se tem distinguido
torze annos de edade, apparecendo o seu pri­ o sr. Julio Cabral, mas também como orador
meiro artigo n’um jornal de estudantes, da cidade d Angra, e col- tem dado exuberantes provas do seu talento e erudição: em Angra
laborou depois em differentes jornaes da mesma cidade, principal­ do Heroísmo pronunciou elle vários discursos, em diversas associa­
mente no Terceira e no Imparcial, de que também foi redactor ções litterarias, os quaes, pela clareza do assumpto, correcção da
principal, pondo bem em evidencia o seu talento. phrase e grandeza de pensamentos, mereceram justas apreciações.

N.° 38 297

DRaC-CCA
Também em diversas conferencias militares tem a sua elo­
quente voz chamado a attenção do auditorio, sendo muito de no­
tar o brilhante discurso que ha poucos annos proferiu no Porto,
em o salão do Instituto Portuense de Estudos e Conferencias, ao
qual se referiram todos os jornaes d’aquella cidade e muitos dos
de Lisboa, constituindo tal conferencia um volumoso folheto pu­
blicado no Boletim d’aquelle Instituto.
Nasceu o sr. Julio Angelo Borges Cabral na Villa do Porto
da ilha de Santa Maria, a 14 de fevereiro de i856.
Começou os seus estudos para a instrueçao primaria na ilha
de Santa Maria, suá patria, e completou-os no Seminário de An­
gra, onde se internou em 1807.
No lyceu da mesma cidade cursou a instrueçao secundaria
até 1874, época em que seguiu para Lisboa a completar os prepa­
ratórios para a matricula na Escola do Exercito.
Em 15 de setembro de 1887 assentou praça como voluntário
no antigo batalhão de caçadores n.° 5, aquartellado no Castello de
S. Jorge em Lisboa, e no mesmo anno se matriculou no curso de
cavallaria e infantaria, que completou em 1879, sendo premiado.
Sendo i.° sargento graduado daquelle batalhão, foi promovido
a alferes para caçadores n.° 10 em 1880; em :885 adquiriu o
posto de tenente, e em 1894 foi promovido a capitão.
Com muita proficiência tem desempenhado varias commis-
sões, taes como ajudante de campo do commandante da extincta
divisão dos Açores, professor e director da escola regimental,
adjuncto do quartel general, commissario de policia no districto do
Funchal, etc., e exerce actualmente as funcçÕes de major da 2.a bri­
gada de infantaria, em Lisboa, logar que também desempenhou na
de Aveiro.
E’ cavalleiro da Real Ordem Militar de S. Bento de Aviz e
da de Nossa Senhora da Conceição de Villa Viçosa, e condecorado
com medalha militar de prata de exemplar comportamento. Ilhéu do Romeiro. — Gruta de stalactiies e stalagmites

298

DRaC-CCA
CAES E POSTO DE DESPACHO
m e outro foram mandados construir pelo Governo, que satis­ chitectura, mas é elegante, e tem as necessárias acommodações
U fez assim uma urgente necessidade dos marienses. A cons-
trucção da casa que
para gabinete do chefe, secretaria, arrecadação de bagagens e mer­
cadorias, secção da
serve de Posto de Des­ guarda fiscal, quartel
pacho (casa da alfan- para os soldados, etc.
dega) foi delineada e E’ claro que isto é
dirigida peloentãocon- quanto basta para o
ductor de obras publi­ movimento do porto,
cas, Jacintho Ignacio que quasi se resume
Cabral, michaelense, em pequenas embar­
mas oriundo de famí­ cações de bocca aber­
lia mariense, que mais ta, que transportam a
tarde estudou enge­ carga entre esta ilha e
nharia civil na Uni­ S. Miguel, com a qual
versidade de Gand, faz quasi todo o seu
sendo hoje chefe d uma commercio.
das secções da repar­ Vapores, só alli
tição de industria do aportam os daEmpre-
Ministério das Obras za Insulana, que fa­
Publicas, e engenheiro zem carreiras entre a
das Companhias Reu­ metropole e as ilhas.
nidas Gaz e Electrici- Ainda assim, o caes
dade, de Lisboa. e o Posto de Despacho
A construcção data da ilha de Santa Ma­
de 1874 a 1875. A do ria, foi um optimo ser­
caes é mais antiga. A viço prestado ao com­
casa é de simples ar- VÍLLA DO 1’CRTO. — CAES E POSTO DE DESPACHO mercio local.

299

DRaC-CCA
LAGOINHAS
um sitio da ilha de Santa Maria, pertencente á freguezia de
1 Santa Barbara, notável por uns ilhéus, que lhe ficam adjacen­
'j

tes, e por que se regulam os habitantes para preverem o bom ou


mau tempo.
N’esta previsão adquiriu popularidade um homem, a quem os
indígenas chamavam Pato, e que por muitas pessoas de Santa Ma­
ria era consultado.
O Pato era uma especie de bohemio, que também teve sem
duvida o seu período aureo de popular celebridade.

Ilha de Santa Maria. — Ilhéus das I.agoinhas

Embora tomasse a serio o seu papel de saragoçano, tinha


certa graça, entrando para isso, como collaborador importante, o
especial feitio da cara, e o modo de olhar.
Era, por vezes, um contemplativo, que se isolava no seu para­
deiro das Lagoinhas, circumscrevendo-se na observação dos ilhéus,
onde aspirava a exótica Horescencia da sua arte de adivinhar o
tempo, o que lhe conferia um logar unico entre os typos popula­
res da sua terra.
Nos ilhéus das Lagoinhas vão fazer os seus ninhos centenas de
gaivotas, aves marítimas de que o Pato também se utilisava mui­
Ilha de Santa Maria. — Sitio das I.agoinhas tas vezes para as suas afamadas previsões.

3oo

DRaC-CCA
CAPOTE E CAPELLO
arecem-se com os usados pelas michaelenses, mas o capello (a porque se o vento se introduzir no vasio do capello, como já tem
P que os indígenas chamam capucho) é mais alto, e mais duro,
de modo que não per-
succedido, pôde atirar com a mulher a terra.
A cor do panno em­
mitte que se faça o ca­ pregado é azul escuro.
nudo, como nos de S. Mi­ Já se vêem poucos ca-
guel, para que a mulher pellos e capotes, á moda
veja o que se passa na de Santa Maria, dando-se
sua frente, não podendo preferencia aos que se
ser vista. usam em S. Miguei, que,
Capote e capello são apesar de feios, ainda as­
feitos de baeta ou panno sim apresentam melhor
ri no, o que os torna dis­ aspecto e são menos in-
pendiosos: aquelle muito commodos e perigosos.
rodado, descendo dos D’antes, este traje era
hombros até aos pés, e um objecto de luxo, que
este com o panno assente nem a todas era dado
em grosso papelão, tendo possuir, constituindo até
na parte inferior uma es- um dote de casamento,
pecie de dobradiças, no que os paes davam ás
mesmo panno, com fê­ rilhas. Era caríssimo, o
meas e colchetes, para panno muito fino. Quem o
depois de coliocados so­ não possuísse, era pobre.
bre os hombros ficarem Tè-lo, era um signal evi­
os dois papelões ligados dente de abastança. Hoje,
e o capello seguro. a gente rica baniu-o, e
Este traje é feio, in- até na classe pobre, tende
cómmodo, e até perigoso, Costumes marienses. — Capote e capello a desapparecer.

3o I

DRaC-CCA
RECOLHIMENTO DE S.™ MARIA MAGDALENA
oi instituído pelo padre Manuel Corvello, e por seu irmão An- Além d isso foram os bispos dos Açôres que formularam os
F tonio Corvello de Rezende, que lhe legaram os seus bens,
a fim de alli viverem em communidade as suas sobrinhas, filhas
estatutos
das
acerca do regimen interno e sobre a educação religiosa
recolhidas.
de Filippe Jacomo e Maria de Souza, a quem succederam mais O ouvidor ecclesiastico, como delegado do bispo, assistia ás
tarde outros parentes d aquelles citados instituidores. eleições tricnnaes da regente, vigaria e porteira; concedia licenças
A fundação data de para as recolhidas sahi-
1594, achando-se o mos­ rem, apreciando os moti­
teiro edificado n’um largo vos justificativos da peti­
proximo da egreja matriz ção, que tíesse sentido
da vil la do Porto, muito se lhe dirigia; decretava
mais tarde aformoseado a expulsão daquellas
com o principal chafariz que, pelo seu mau com­
da mesma villa. portamento, não deviam
Embora n’este reco­ continuar no goso das
lhimento não houvesse regalias que lhes dava
profissões, é certo que tão benefica instituição;
pertencia á ordem de e intervinha em outros
Santa Clara, com a in­ actos, recorrendo para el-
vocação de Santa Maria les á auctoridade civil.
Magdalena, e que estava No côro entoavam-se
subordinada á auctorida- diariamente os divinos of-
de ecclesiastica, sendo a ficios, tomando parte só
sua fundação confirmada as recolhidas, que tam­
por um breve apostolico, bém cantavam nas diver­
que o padre Corvello so­ sas festividades, que se
licitou, e para o que teve realisavam na egreja de
de ir a Lisboa. Ilha de Santa Maria. — Recolhimento de Santa Maria Magdalena Santa Maria Magdalena.

302

DRaC-CCA
Em tempo pretendeu-se justificar que tal recolhimento e seus voltar para o mosteiro, a fim de não perderem os seus direitos.
bens constituíam um vinculo. Tentou a questão, n‘este sentido, Em 17 de agosto de 1870, confirmou o tribunal da Relação dos
Francisco Affonso Chaves e Mello, que pretendia ser o adminis­ Açores, n’esta parte, a dita sentença.
trador dos bens, allegando ser o parente mais proximo dos insti­ Hoje, indubitavelmente, está o recolhimento secularisado, ape­
tuidores; mas por sentença de 3o de outubro de 1844 ficou assente, sar de alli viverem ainda as parentas dos instituidores, não havendo
em vista dos testamentos d aquelles e outras provas, que elles não para ellas serviço do côro, nem outras obrigações impostas pelos
pretenderam com a fundação do recolhimento crear um vinculo, estatutos.
mas estabelecer uma casa de caridade e beneficencia, onde pu­ Hoje, nas grades do velho edificio, já se não veem os hábitos
dessem viver, emquan- de Santa Clara, mas
to durar o mundo, as as mulheres, mesmo
suas parentas pobres, sem poderem dar as
que em communidade inspirações d'um rigo-
usufruiriam os rendi­ so soprano ou d'um fi­
mentos dos bens do- no contralto, seduzem
taes. alguns homens, tendo
Mais tarde as re­ algumas já esvoaça­
colhidas fizeram uma do d aquellas gaiolas
escriptura de partilhas, até ás cristãs do hy-
em que dividiam entre mineu.
si os respectivos bens, Dentro em pouco,
resolvendo abandonar não tardará o recolhi­
o mosteiro; a fazenda mento de Santa Maria
nacional, porém, de­ Magdalena a ficar em
mandou as, e por sen­ completo abandono,
tença do juiz de pri­ perdendo-se nas suas
meira instancia, Pio ruinas uns restos d’a-
z\ntonio Lobo, datada quella antiga poesia
de 2 5 de abril de 1868, religiosa que perfu­
venceu a fazenda a mou esses bons tem­
questão, ficando as par­ pos idos.
tilhas sem effeito, ven­
do-se cilas obrigadas a SantaM .— C
aria emiterio da Villa do Porto Julio Cabral.

3o3

DRaC-CCA
Santa Maria. — Egreja parochial de Santa Barbara

□04

DRaC-CCA
F ASCKHIA) TX.’3S

DRaC-CCA
LOMBADAS
[GRANO PRIX
Exposição Internacional de S. Luiz em 1904 II MAGAZINE BERTRAND
MEDALHA DE OURO
Exposição do 1’alacio de Cryslal de Londres em 1904 A LEITURA ILLUSTRADA
Revista quinzenal — 96 pag. cheias de gravuras
ft Rainha das aguas de meza 200 RÉIS
Assigna-se na

Leve, estomacal e digestiva, pura, limpida ANTIGA CASA BERTRAND — JOSÉ BASTOS
-T-?7L- R. Garrelt, 73 e 75-Lisboa
0 acido carbonico não é introduzido artiflcialmente

llecominendada por todos os médicos |

DEPOSITO GERAL
106, AVENIDA DA LIBERDADE, 110 C. MAHONY & AMARAL
IiISBOA
70, IZíust Augusta, 2.°— IuISB(
TBLEPHONE 586
METAES EM BRUTO: Aço, cobre, latão, estanho, chumbo em chapa, bar-
; ras iingots.
FERRO: Em barras quadradas, redondas e vergalhào. Vigamcnto de ferro

* MEMÓRIA SD2RE A ILHA TERCEIRA em TI Ui cantonèiras e todos os mais aprestos para construeções. Ferro em
liugots para fundição. Chapas galvanisadas lisas e onduladas Chapas de aço
para caldeiras. Tubos de ferro, cobre e latão. Arame de ferro, cobre <• latão.
í1 nor Alfredo da Silva Sampaio
Angra do Heroísmo, 1904. 8.° gr — XI — 833 paginas
Folha de Flandres. Material fixo e circulante para caminhos de ferro. Rails de
aço e diversos perfis e pesos, vias portáteis. Machinas de vapor, gaz e petró­
leo. Caldeiras. Bombas. Machinas para industrias e agricultura. Machinas. Fer­
2$5OO RÉIS ramentas. Vidros polidos, foscos e de phantasia. Vidraça, lages de vidro (dalles)
A’ venda na
Assucar, arroz, especiarias, drogas, productos chiinicos. Ascensores hydranlicos.
>?■
<| ANTIGA CASA BERTRAND - JOSÉ BASTOS Edoux & C.*
CIMENTO
Rua tíarrett, 78 e 7» —Alafcow Únicos importadores em Portugal e colonias do CIMENTO da Coinpagnie
des Cnnents Parisiens, fabricado pelo notável engenheiro E. CANDL0T.
Fabrica de sabão — Telhai (Poço do Bispo^
Fabrica da licores aguardente, genebra e cognacs — TELHÃL (POÇO 00 BISPO)
Trp. d >A JEdilorat — Lisboa

DRaC-CCA
SANTA BARBARA

ituada num pittoresco valle, é a mais pobre das freguezias da


S ilha de Santa Maria, distando uns doze kilometros da Villa
do Porto.
Os seus habitantes dedicam-se principalmente ao cultivo do
trigo e da batata, bem como á creação de gados.
A egreja parochial, um templo modesto, é da mais simples
architectura, mas reveste-se d’um notável asseio, digno de notar-
se, o que é devido ao vice-vigario, o padre Angelo Soares da
Camara, um mariense, que reune á distincção do porte, ao cará­
cter integro e aos dotes d’um espirito profundamente esclarecido,
a lhaneza de trato, a affabilidade de phrases, e primacialmente a
dedicação inalterável pela sua egreja e pelos seus freguezes, que
o adoram.
O fallecido bispo, D. Francisco Maria de Souza do Prado de
Lacerda, agraciou-o com a murça de beneficiado, em attenção aos
seus relevantes serviços, e essa distincção assenta-lhe nos hom-
bros com toda a justeza, sendo certo que, se não fôra a sua ex­
cessiva modéstia, ha muitos annos teria umas meias encarnadas,
com que se enfileirasse nas grandes sés ao lado dos padres, que
se distinguem pelos seus estudos, ou pelos seus serviços á Egreja.
A freguezia de Santa Barbara deve-lhe grandes serviços, e os
seus parochianos também lhe devem muito, porque o padre An­
gelo não é sómente, para elles, um cura de almas: attende-os em
tudo, chegando a sacrificar as commodidades da vida ao que, em
sua consciência, entende ser para o bem estar dos seus freguezes.
Por sua iniciativa e instancias, varias obras se teem alli feito,
como um chafariz ao lado da egreja parochial, um novo cemité­
rio, e vários outros melhoramentos importantes. Kgrfja de Nossa Senhora de I.ouudes. — Cadeli.a Mor

N.° 39

DRaC-CCA
JOSE MONTEIRO DE BETTENCOURT
ertenceu ao numero dos trabalha­ outros, exercendo-os com não vulgar
P dores, este mariense dotado em intelligencia e muito critério.
faculdades intellectuaes. Desde a sua creação que era agen­
Foi seu mestre o major Antonio te da Empreza Insulana de Navega­
Bonifácio Julio Guerra, que por mui­ ção.
tos annos residiu na ilha de Santa Ma­ Consorciou-se, em i863, com a
ria, por onde foi deputado ás cortes, senhora D. Maria Guilhermina Tavei-
e a quem a mesma ilha deveu inolvi ra Galvão de Bettencourt, de quem
dáveis serviços. houve um filho, já fallecido, e uma
José Monteiro entrou muito cedo filha, que é extremecida esposa do
na vida commercial, desenvolvendo sr. commendador Luiz de Figueiredo
grande energia. No seguimento d’essa e Lemos do Canto Côrte-Real.
carreira, não havia fadiga que o ven­ Falleceu na cidade de Ponta Del­
cesse, nem difficuldade que o enfra­ gada, em 28 de abril de 1 go5, com 69
quecesse nas lides do seu assíduo tra­ annos, tendo alli ido procurar reme-
balho, chegando a ser o maior nego­ dio para antigos padecimentos.
ciante e capitalista de Santa Maria. A sua morte impressionou doloro­
Intelligente e perspicaz, activo e samente a quantos o conheciam, pois
energico, soube impôr-se no pequeno José Monteiro de Bettencourt era mui­
meio em que vivia, gosando da geral to estimado nas duas ilhas de S. Mi­
consideração, e dispondo por isso de guel e de Santa Maria, pela honesti­
grande preponderância política. Cor- dade do seu caracter, pelos dotes do
recto no trato, primoroso na conver seu espirito, e pela sua fina amabili­
sacão, sabia ser obsequiador, prestan­ dade, que tantas sympathias lhe con­
do muitos serviços á sua patria, á sua quistava, fazendo-o respeitado e que­
familia e a particulares. rido de todos os que o conheciam.
Desempenhou, por vezes, o cargo
de presidente da camara municipal, e José Monteiro he Bettencourt Julio Cabral.

3o6

DRaC-CCA
HOSPITAL DA VILLA DO PORTO

alcula-se que o Hospital da Santa mentos fundados para


C Casa da Misericórdia da Villa do
Porto seria fundado em t5oo, mas não
idênticos fins.
E’ pobre, tendo
ha d’isso a certeza, pois não existem apenas um rendimen­
documentos que o comprovem no res- to annual duns qui­
pectivo archivo. nhentos mil réis insu­
E’ pequeno, podendo comportar uns lanos. De futuro deve
dezeseis doentes. Além d’isso está mal dispôr de mais alguns
situado, e em condi­ meios, quando possa
ções hygienicas me­ auferir o rendimento
nos regulares, porque d um legado feito pelo
só tem ventilação pelo fallecido mariense,
lado do nascente, vis­ padre Antonio do
to que do outro lado Canto.
fica a egreja e sala Antigos provedo­
das sessões, que oc- res da Santa Casa, e
cupam toda a frente outros mezarios, al­
do edifício, na rua i5 guns benefícios pres­
de agosto. H V
ospital da P
illa do orto
taram ao hospital, e
O edifício é ve­ actualmente o sr.
lho, acanhado e, na commendador Luiz de Figueiredo e Lemos do Canto Côrte
sua construcção, em Real, tem sido um desvelado protector dos seus interesses
nada obedece aos e dos pobres hospitalisados, conseguindo regulamentar de­
princípios hygienicos vidamente o serviço interno, algumas esmolas, reparos, con­
que regulam a cons­ servação e cuidados de hygiene compatíveis com a dispo-
trucção de estabeleci- S anta Casa da Misericórdia sição do edifício, e as suas más condições.

307

DRaC-CCA
AUGUSTO BORGES CABRAL
ste maricnse foi um valente marinheiro, pequeno de estatura, pirito e do seu caracter honesto, possuia um genio alegre e obse-
E mas grande na coragem com que sabia affrontar os perigos, quiador, e era d’uma fina amabilidade, o que lhe grangeava ge-
raes sympathias.
guiando-se pela luz intensa do talento.
Entrou muito cedo para a vida marítima, onde desenvolveu Intelligente, como disse, cheio de brios e de coragem, e muito
toda a sua energia, onde empregou todos os seus recursos intel- respeitador, Augusto Borges Cabral soube conquistar a estima e
lectuaes, de modo que em pouco tempo obteve a carta de official consideração dos seus superiores, e o affecto respeitoso de eguaes
de marinha mercante, chegando, ainda novo, a capitanear navios e subordinados, mercê de tão bellas qualidades.
de alto bordo, que singravam entre os Aço­ Casou com sua prima, D. Maria Rita dos
res e as duas Américas. Reys Cabral, uma das mais formosas senho­
Que nos lembre foi elle commandante do ras da ilha de Santa Maria que, envolta em
hyate Tres aniigos, da escuna Emma, do pa­ grande modéstia, praticou a virtude inaltera-
tacho Jorgense, da barca Parary, da barca velmente, semeando bons e generosos sen­
Amizade e do vapor Lidador. Este perten timentos, sem preoccupações, sem idéas de
cente á Companhia Brasileira de Navegação gloria.
Transatlantica, e aquelles da praça de Ponta Esta senhora foi uma esposa modelar, e
Delgada. uma mãe incomparavelmente educadora, no
O Lidador naufragou no porto de Angra pequeno meio em que viveu, elevando a alma
do Heroísmo, e este facto impressionou deve­ dos seus filhos para as noções do bem.
ras Augusto Cabral, pelo que abandonou as A ilha de Santa Maria e os marienses de­
viagens, occupando por fim o logar de piloto da doka de Ponta veram bastante a Augusto Borges Cabral, que empregou muitos
Delgada. nos navios do seu commando, e a outros arranjou diversas col-
Era apaixonado pela vida que abraçou, como em geral o eram. locações no Brasil e nos Estados Unidos da America.
no seu tempo, todos os marienses, e identificava-se com a alma da Ahi por 1875, salvo erro, estava aquella ilha sem medico, pois
tripulação do seu navio, que o adorava, considerando-o o seu pri­ que então nenhum para lá queria ir, por que havia falta de mé­
meiro amigo e protector. dicos nos Açores, e não offerecia garantias o respectivo partido,
Nos Açores e no Brasil era muito estimado, bem como por que se limitava a uma pequena pensão da camara municipal, e a
toda a parte onde apparecia, porque além dos seus dores de es­ algum trigo, que pagavam os clientes. Tinha fallecido já havia

3o8

DRaC-CCA
alguns annos o dr. Fernando José Rodrigues Moreira, o unico Foi tão boa esta acquisição, que ainda hoje se recorda com
medico existente em Santa Maria, onde estabeleceu residência, saudade, n’aquella ilha, o dr. Vieira, que prestou serviços distin-
porque indo para aquella ilha, como miguelista, no tempo da ctos como medico e como cirurgião, alliando ao seu muito saber
revolução liberal, casou com uma senhora, natural e proprietária um caracter serio e honesto, um espirito trabalhador, uma alma
d'alli. generosa, uma educação aprimorada.
Augusto Cabral impressionou-se com o facto de não haver Augusto Cabral, que por seu pae,* Manuel Ignacio Cabral,
medico na sua patria, onde se manifestavam, por vezes, febres ainda se aparentava com os descobridores e primeiros povoado-
de caracter epidemico, e outras doenças; e só, sem qualquer res de Santa Maria, e que por sua mãe, D. Catharina Borges de
auxilio, que não fosse a sua tenacidade, a sua boa vontade e o Oliveira Frazão, descendia dos mais lídimos fidalgos da Beira,
seu amor pátrio, conseguiu levar para Santa Maria um excellente morreu novo, em novembro de 1882, na cidade de Ponta Del­
medico pela escola do Funchal, o dr. João de Deus Vieira, que gada, ilha de S. Miguel. Contava então 49 annos de edade.
mais tarde foi medico do vapor Lidador, e hoje é guarda-mór
de saude na ilha Graciosa. F. de A.

3oo

DRaC-CCA
PADRE MANUEL ANTONIO DOS REIS
eve grande popularidade E o povo adorava o padre Manuel, consultava-o, admirando-
T na ilha de Santa Maria, lhe a abnegação generosa em que elle se esquecia de si para só­
sua patria, este sacerdote que, mente se lembrar dos pobres doentes, dos desvalidos, a quem
embora não fosse um intelli- sempre acariciava, animando-os e esmolando-os.
gente, era um nobre exemplo Todos os marienses apreciavam a innata bondade da sua
de infatigável dedicação, de alma; e ainda hoje, apesar de desapparecido ha alguns annos, se
perseverança, no desempenho recordam com saudade e gratidão da hospitalidade franca da sua
dos seus deveres parochiaes, casa, do seu alegre convívio
e na sua missão de pastor e da sua conversação despre-
d’almas. tenciosa, que se desenvolvia
Por muitos annos desem em impetos de franqueza e
penhou as funcçÕes de vice- da mais caracteristica leal­
vigario e coadjuctor do vigá­ dade.
rio da freguezia matriz da A política nunca poude
Villa do Porto, bem como as empolgar o padre Manuel,
de ouvidor ecclesiastico e pro­ apesar dos assaltos de mui
motor, na dita ilha; e no exer­ tos, que viam n’elle um in­
cício d’estes cargos póde di­ fluente de primeira ordem.
zer-se que chegava a exceder Alheiou-se sempre de todas
os proprios deveres, chegan­ as cousas que se referissem
do muitas vezes a sacrificar a PadreM A
anuel R
ntonio dos eis quer á política local, quer a
saude, o preciso repouso, o outra, nunca perdendo a sua
seu bem estar, para ouvir de confissão um doente, ou para mi­ rija tempera, nem o seu na­
nistrar sacramentos a um agonisante; de dia por um sol ardente, tivo vigor.
de noite com um frio cortante; se não, quer de dia quer de noite, A um medico que lhe que­
debaixo de chuva, a léguas de distancia, e por caminhos quasi que ria incutir no espirito, perante
intransitáveis. alguns assistentes, idéas repu- I S
magem do P
enhor dos assos

3lO

DRaC-CCA
blicanas, ouviu elle com a maior placidez, limitando-se por fim não podia attender os freguezes, quer todos unidos e concordan
a dizer: tes, respeitando a religião de que era sacerdote, e não se impor­
— «Oh senhor doutor, haja saude, carne, pão, vinho, paz e tando que governasse Pedro, Sancho ou Martinho, comtanto que
concordia entre os príncipes christãos, e viva a republica!» governasse bem, e mantivesse a paz que, dizia elle, devia haver
Esta nota dá uma perfeita idéa do caracter e do feitio do pa­ na terra.
dre Manuel Antonio dos Reis — ser robusto para nunca dizer que J. Cabral.

3i i

DRaC-CCA
DR. MANUEL VELHO MONTEIRO ARRUDA
escendente d uma das *
* *
D principaes famílias da
Da Historia Insulana, por Gaspar Fructuoso:
Villa do Porto, ilha de Santa
Maria, Manuel Velho Mon­ «Tem os Velhos seu brazão authentico de sua nobreza e fidal­
teiro Arruda é hoje, na sua guia de cotta de armas, e solar conhecido: e por armas um es­
terra, pequena terra d'onde cudo de campo vermelho, e cinco vieiros de ouro em aspa. A sa­
raros sahem para os cursos ber: uma no. meio, as outras nos cantos; e algumas tem uma es-
superiores, um justo orgulho trella branca; tem um quadrado preto por divisa; e outros tem
da medicina. outras divisas differentes; não tem elmo, nem paquife, nem tim­
Em Coimbra, cujos ban­ bre, do que não poude saber a razão: se não é por que n‘aquelle
cos universitários inda ha pou­ tempo antigo, não se costumavam pôr nas armas, que no escudo
co abandonou, o illustre e com sua insígnia se punham, presando-se trazer as outras nos
sympathico mariense deixou hombros, antes que nos brazões: e depois, pelo tempo adiante,
de si nome saudoso, não só se costumai am pôr
como estudante laureado, mas rfelles os mais si-
ainda como fino causeiir, en­ gnaes de honra, co­
tre a colonia académica aço­ mo em outros seus
riana, entre os seus lentes, brazões achei, que
condiscípulos e contemporâ­ tem elmo de prata
neos. aberto, guarnecido
E’ que, na verdade, Manuel Velho (que assim conhecido é), al- de ouro, paquife de
lia, como poucos, á fidalguia e nobreza do seu caracter, verdadei­ ouro, vermelho, pra­
ros primores de intelligencia. ta e purpura; e por
E porque assim é, na villa da Povoação, da ilha de S. Mi­ timbre um chapéo
guel, onde exerce actualmente clinica, com toda a pericia e de­ pardo com uma
dicação, soube, para logo, impôr-se á estima e consideração de olheira de ouro na
quantos com elle privam. borda de volta.»

DRaC-CCA
1’ASCICIEO TV.»
39

DRaC-CCA
LOMBADAS
GRAND FR1X
1'xposiçào internacional do S. Luiz em 4901 IIBffi BEfflffl
MEDALHA DE OURO
Exposição do Palacio de Cryslal de Londres em 4904
A LEITURA ILLUSTRADA
Revista quinzenal —96 pag. cheias de gravuras
A Rainha das aguas de meza 200 RÉIS
Assigna-ae. nu
Leve, estomacal e digestiva, pura, límpida ANTIGA CASA BERTRAND —JOSÉ BASTOS
II. Garrei!, 73 e 75 - Lisboa
0 acido carbonico não é introduzido artiflcialmente

Recommendada por todos os médicos

DEPOSITO GERAL
106, AVENIDA DA LIBERDADE, 110 C. MAHONY & AMARAL
LISBOA
70, Rua uíVug-iiíBita, 3.” — IjISB < > _A.
TELEPHONE 586

METAES EM BRUTO: Aço, cobre, latào, estanho, chumbo em chapa, bar­


AAAA A AAA $■’ ♦ A AA ♦. A ♦. A ras lingotS.
FERRO: Em barras quadradas, redondas e vergalltào. Vigamcnto de ferro
| MEMDRIâ SOBRÍâ ILHA TSRCB1RÃ em T I U i Cantóneiras e todos os mais aprestos para coi>strueçò<-s. Ferro em
lingots para fundição. Chapas galvanisadas lisas e onduladas Chapas de aço
para caldeiras. Tubos de ferro, cobre e latào. Arame de. ferro, cobre •• latào.
" £ oor Alfredo da Silva Sampaio Folha de Flandres. Material fixo e circulante para caminhos de ferro. Rails de
aço e diversos perfis e pesos, vias portáteis. Machinas de vapor, gaz e petró­
Angra do Heroísmo, 1904 8.° gr — XI — 833 paginas
leo. Caldeiras. Bombas. Machinas para industrias e agricultura. Machinas. Fer­
O : 2$5OO RÉIS ramentas. Vidros polidos, foscos e de phantasia. Vidraça, lagos de vidro fdulle.s)
Ws' H A'venda na ” k Assuear, arroz, especiarias, drogas, productos chimicos. Ascensores hydraulieos.

I ANTIGA CASA BERTRAND - JOSÉ BASTOS \ * «


Rua Garrett, 73 e 75 — lAnbua
Edoux & C.»
C I M E lí T O
Únicos importadores em Portugal e eolonias do CIMENTO da Compagnie
i des Cnnents Parisiens, fabricado pelo notável engenheiro E. CANDLOT.
Fabrica de sabão —Telhai (Poço do Bispo'
Fabrica da licores aguardente, genebra e cognacs — TELHAI (POÇO DO BISPO)

• — Lisboa

DRaC-CCA
N.« 40

3i3

DRaC-CCA
DISTRICTO DE ANGRA DO HEROÍSMO

Ilhas — Terceira, S. Jorge e Graciosa

Superfície: 72:770 hectares. População: 73:452 ha­


bitantes. Freguezias: 41. Círculos eleitoraes: 3. Bis­
pado de Angra. Commando Militar dos Açores,

3.4

DRaC-CCA
Descobrimento do Grupo Central dos Açores
II Antonio Cordeiro (1), a este respeito, resumindo as opiniões dos que
o precederam n’este campo, reconhecer-se-ha facil e promptamente
Ão é possível dizer com exactidão a em presença dos documentos já publicados, que nada do que elle
data precisa em que foram des­ diz é verdadeiro.
cobertas estas ou aquellas ilhas A ilha Terceira não podia estar muito tempo encoberta, depois
do archipelago dos Açores. Tudo do descobrimento das duas primeiras, não só porque a investiga­
quanto a tal respeito nos dizem os ção d’aquelles mares não ficaria interrompida depois do primeiro
chronistas e historiadores que pri­ successo tão favoravel, mas porque, sendo certo, como me affir-
meiro tentaram lustrar este assum­ mam alguns compatrícios, que em dias muito claros se avista
pto, não passa de um tecido de in­ algum ponto de uma a outra, em breve seria procurada.
venções insubsistentes ou de conje- Deixando, porém, supposições e atendo-nos aos factos prova-
cturas, hoje justamente rejeitadas.
Como dissemos, foi a ilha de Santa Ma­
(1) Historia Insulana, composta pelo padreAntonio Cordeiro. Lisboa, 1717.
ria a primeira encontrada em 1432, e logo Liv. VI.
em seguida a de S. Miguel, cujos nomes ou
designações lhes não provieram de haverem sido descobertas
em dias de quaesquer festividades d’aquellas invocações, mas sim,
quanto á primeira, porque o infante D. Henrique dedicava a
Santa Maria o primeiro templo em qualquer descoberta ou con­
quista; quanto á segunda, porque o infante D. Pedro tendo tomado
para si o encargo da cultura e povoamento d’ella, lhe deu 0 nome
do santo seu protector.
Foi a terceira na ordem do descobrimento a que foi designada
pelo nome de Jesus Christo, ou Terceira, designação que por fim
veiu a prevalecer definitivamente.
Quando foi descoberta ? ninguém poderá responder hoje com
segurança a tal pergunta. Vendo-se a embrulhada que faz o padre Ilha Terceira. — S. Matheus da Calheta

3i5

DRaC-CCA
dos e positivos, é certo que an­ do infante, e que provavelmente
tes, e de certo muito anterior- querendo-o auxiliar nos seus des­
mente ao anno de 1489, o in­ cobrimentos e favorecer os seus
fante D. Henrique havia man­ súbditos e bons servidores, lhe
dado lançar ovelhas nas sete recommendaria aquelle, casado
ilhas dos Açores, já descober­ com uma portugueza, que tal­
tas, preparação evidente para o vez a houvesse acompanhado a
seu povoamento. Do documento Flandres. Parece-nos este o ca­
que nos comprova este facto, de­ so mais provável, visto não se
duz-se com a maior evidencia encontrar nas chancellarias ré­
que a ilha Terceira deve ter gias noticia de tal indivíduo.
sido descoberta por 1433 a 1435, Descoberta a ilha Terceira^
e não de 1444 a * 4^°, como diz sem grande intervallo devia pro-
o padre Cordeiro, por isso que seguir o descobrimento das duas,
no decurso de seis a sete annos S. Jorge e Graciosa, que pela
o estavam as sete que formam proximidade formam o segun­
os tres grupos de que são ca­ do grupo do archipelago. Devia
beças S. Miguel, Terceira e ser a de S. Jorge a primeira en­
Fayal. contrada, e cuja denominação
Se não ha razão plausível para acreditar na data do descobri­ lhe provém, de certo, da circumstancia de ser aquelle santo o pa­
mento, tão posterior ás affirmações d’aquelle documento, também droeiro do reino, desde que n’elle começou a reinar a dynastia de
a não ha para pretender que fosse Jacome de Bruges o seu des­ Aviz.
cobridor, ainda mesmo considerando verdadeira e não apocrypha a Esta circumstancia determinaria com toda a evidencia a certeza
Carta de doação que se diz a elle feita pelo infante D. Henrique d’este descobrimento pelos marítimos do infante D. Henrique, se
em 2 de março de 1460. o mesmo santo não fosse egualmente o patrono da cidade de Gé­
Dizemos que a Carta parece apocrypha, ou pelo menos adulte­ nova, a cujos naturaes se pretende attribuir o descobrimento do
rada, por conter clausulas insólitas, algumas das quaes o infante archipelago açoriano. Segundo certas indicações de alguns mappas
não podia consignar, por serem de unica e exclusiva competência anteriores bastantes annos ao tempo do infante, encontram-se duas
do poder real, cuja confirmação se não invoca nem apresenta. ou tres designações que se podem identificar, com as que foram
Não repugna acreditar que o infante desse a capitania da ilha dadas pelos portuguezes a estas ilhas, apesar da situação irregu­
ao dito cavalleiro flamengo, sabendo nós que era duqueza de Bor- lar com que n’elles ellas estão lançadas. Ninguém tem examinado
gonha a infanta D. Izabel, dama do mais elevado espirito, irmã de visn com todo o escrupulo essas designações, para nos dar­

3i6

DRaC-CCA
mos por convencidos da sua contemporaneidade, ficando nos, por­ a todas as vistas até o século findo, não parece provável que fos­
tanto, o direito de as julgarmos, como já o disse o nosso illustre sem devidos a elles os descobrimentos realisados pelos nossos
patrício José de Torres, accrescentamentos posteriores, devidos a conterrâneos.
noticias colhidas e transmitidas, por alguns dos muitos italianos Quando, porém, se pudesse provar que alguns italianos ha­
que desde o tempo, pelo menos, de D. Diniz, vinham a Portugal viam tocado aquellas paragens em tempos anteriores, esse facto
ou aqui residiam. não invalida os trabalhos e a gloria d’aquelles, que aproveitaram
Não tendo os portuguezes o dom de adivinhar, fazendo-se essas esses formosos torrões, e os souberam tornar uteis ao paiz e á
cartas ou mappas para uso dos seus auctores, e jazendo occultas humanidade.
Brito Rebello.

DRaC-CCA
Ilha Terceira. — Porto e vista da cidade de Angra do Heroísmo

318

DRaC-CCA
A FAMÍLIA BRUGES
ão se póde o morgado Theotonio d’Ornellas
N falar na Bruges Avila Paim da Camara(t8o7-
historia da ilha 1870), ministro do governo proviso-
Terceira sem rio de 1828, visconde de Bruges (dos
recordar os re­ primeiros titulos concedidos por sua
levantes servi­ magestade o imperador regente em
ços prestados á nome de D. Maria II), conde da Praia
independencia e á liberdade pela fa­ da Victoria e par do reino. O mor­
mília Bruges, do primeiro donatario gado Theotonio d’Ornellas, na flor
Jacome de Bruges, a qual já nas me­ dos annos, dispondo de uma enorme
moráveis luctas do século xvi teve fortuna (na sua casa estavam reuni­
brilhante evidencia na pessoa dos dos mais de vinte e cinco vínculos),
illustres capitães João d’Avila e Fran­ foi, por assim dizer, a alma da re­
cisco d’Ornellas. Este principalmente volução constitucional na Terceira.
occupou logar distinctissimo na pha- A sua fortuna foi posta generosa­
lange dos defensores da Terceira mente ao serviço da rainha e, mais
contra os hespanhoes e na conquista d’úma vez, contribuiu poderosamente
do castello de Angra (1642), e mere­ para evitar actos que seriam fataes
ceu a El-Rei D. João IV especiaes pro­ á causa que personificava, designa-
vas de amisade e apreço, recebendo damente quando se tentou fazer em­
d'elle as maiores distincções e hon­ barcar para Inglaterra uma parte da
rarias. guarnição da Terceira.
No movimento libei al de 1828 No palacio de Santa Luzia, solar
tomou parte activa e preponderante, da sua familia, tiveram sempre a
tendo sido o heroico e desinteressado mais franca hospitalidade os emigra­
fiador da integridade da causa da rai­ dos e a hospitalidade alli era das mais
nha nos Açores, outro descendente largas e das mais bizarras. Quando
dos fortes capitães do século xvj, a regencia da Terceira resolveu man-
2.0 Conde da Praia da Victoria
3i9

DRaC-CCA
dar a Paris uma deputação afim de convidar o imperador a vir deixou larga e distincta descendencia, mas como nunca pediu cousa
collocar-se á frente das tropas leaes (i83i), o morgado Theo alguma nem fez valer os seus serviços, deixou-os em circumstan-
tonio cTOrnellas foi escolhido para presidente e D. Pedro nunca cias da representação titular não poder ser continuada, por desis­
esqueceu a boa impressão que tência do herdeiro, depois de morto o primogénito, 2.0 visconde
lhe causou a figura insinuante de Bruges e 2.0 conde da Praia da Victoria, por se tornar oneroso
e sympathica do joven fidalgo encargo para aqueile a quem de direito ella pertenceria (1).
terceirense, nem o enthusias- Além de seis filhas, senhoras distinctissimas, houve o conde
mo com que lhe falou da causa da Praia da Victoria mais os seguintes filhos : — 2.0 visconde de
da rainha. Bruges e 2.0 conde da Praia da Victoria (2), (fallecido, deixando
De todos é sabido que as quatro filhos: — Theotonio, capitão de infanteria, Jacome e João
momentosas urgências de di­ (sendo o primeiro o herdeiro do titulo), e conselheiro Theotonio de
nheiro, determinadas pelos Ornellas Bruges (que vive ha annos em Lisboa, com descenden-
preparativos para a expedição
a Portugal, foram largamente
(1) O titulo de visconde de Bruges foi re­
satisfeitas por quatro ou cinco novado, por decreto de 6 de fevereiro de 1880,
morgados açorianos, figurando na pessoa do filho primogénito do 2.0 visconde
no primeiro plano o visconde de Bruges e 2.c conde da Praia da Victoria, Theo­
de Bruges (1832); Duarte Bor- T
conselheiro . O
heoton o d rnellas bruces
tonio Octavio d’Ornellas Bruges Avila Paim da
Camara Noronha Ponce de Leão Borges de Sousa
ges, depois visconde da Praia
e Saavedra, ao tempo alferes de infanteria, que
(184b), pae do actual marquez da Praia e Monforte; Jacintho Igna- o declinou por força de circumstancias. Este
cio Rodrigues da Silveira, depois barão de Fonte Bella (1836); official, hoje capitão, teve a honra de comman-
Manuel de Medeiros, depois barão das Larangeiras (1836); Pedro dar a guarda de honra a SS. MM. no paço
Homem, barão de Noronha (1832). E’ egualmente sabido, que d’Angra do Heroísmo no dia da recepção e do
banquete official. Por uma coincidência, também
estes benemeritos açorianos se recusaram sempre a acceitar quaes-
digna de menção, o coronel de infanteria 25,
quer titulos ou documentos representando os largos supprimentos que commandava a guarda de honra do desem­
dados por elles para o successo da causa liberal. barque de SS. MM. em Angra do lleroismo, Theotonio Octavio de O. Bruges
Deve notar-se que os titulos de visconde de Bruges e de barão Elias José Ribeiro Júnior, também é neto e re-
de Noronha foram dados pela regencia do imperador, já no Porto, presentante directo de um dos principaes factores do movimento liberal de
1828, o tenente de caçadores 5, Francisco Eleutherio Lobão Merens e Castro.
ambos em 8 de dezembro de 1832, um mez depois do titulo de
(2) Jacome de Bruges Ornellas Avila Paim da Camara Hon em da Costa
Duque da Terceira, dado ao glorioso conde de Villa Flor. Os tí­ Noronha Ponce Leão Borges de Sousa e Saavedra, 2.0 visconde de Bruges
tulos a Sá de Bandeira, a Saldanha, a Paimella e a Ficalho foram (1864), 2.0 conde da Praia da Victoria (1870), fidalgo cavalleiro da casa real,
posteriores. O conde da Praia da Victoria, visconde de Bruges, addido á legação de S. M. F. em Bruxellas, commendador das ordens de Christo

320

DRaC-CCA
FASCÍCULO TV.’ 40

DRaC-CCA
n

LOMBADAS
iGRÂMD PRIX
Exposição Internacional de S. Luiz en> 1904 AZINE BERTRAND
MEDALHA DE OURO
Exposição do Palacio de Cryslal de Londres em 1904 A LEITURA ILLUSTRADA
Revista quinzenal —96 pag. cheias de gravuras
i Rainha das aguas de meza 200 RÉIS
F * Assigna-se na

Leve, estomacal e digestiva, pura, limpida ^ ANTIGA CASA BERTRAND — JOSÉ BASTOS
R. Garrett, 73 e 75 - Lisboa
0 acido carbonico não é introduzido artiflcialmente

Hecommendada por todos os médicos

DEPOSITO GERAL
106, AVENIDA DA LIBERDADE, 110 C. MAHONY & AMARAL
LISBOA
70, Rua Augusta. 3."— IjISBOA
TELEFHONE 586

METAES EM BRUTO: Aço, cobre, latào, estanho, chumbo em chapa, bar­


ras lingots.
FERRO: Em barras quadradas, redondas e vergalhào. Vigamento de ferro
t MEMÓRIA SOBRE A ILHA TERCEIRA | em T I U i cantoneiras e todos os mais aprestos para eonstrueçòes. Ferro em
lingots para fundição. Chapas galvanisadas lisas e onduladas Chapas de aço

vor Alfredo da Silva Sampaio » para caldeiras. Tubos de ferro, cobre e latão. Arame de ferro, cobre <■ latào.
Folha de Flandres. Material fixo e circulante para caminhos de ferro. Rails de
aço e diversos perfis e pesos, vias portáteis. Machinas de vapor, gaz c petró­
Angra do Heroísmo, 1904, 8.” gr — XI — 833 paginas leo. Caldeiras. Bombas. Machinas para industrias e agricultura. Machinas. Fer­
2$5OO RÉIS tB ramentas. Vidros polidos, foscos e de phantasia. Vidraça, lagcs de vidro (dalles)
A’ venda na
Assucar, arroz, especiarias, drogas, productos chimicos. Ascensores hydraulicos.

ANTIGA CASA BERTRAND - JOSÉ BASTOS | >$ Edoux & C.*

S Rua Garrett, 73 75 — lAnboei e


C X X BIIT O
Únicos importadores em Portugal e colonias do CIMENTO da Compagnie
des Ciments Parisiens, fabricado pêlo notável engenheiro E. CANDLOT.
Fabrica de sabão —Telbal (Poço do Bispo^
Fabrica da licores aguardente, genebra 8 cognacs — TELHAI (POÇO 00 BISPO)
Typ. d'eA Editora» — Lisboa

DRaC-CCA
c a) ; Theotonio Simão Paim de Ornellas Bruges (que vive na THEOTONIO PAIM DE BRUGES
T erceira, com descendencia); João de Avila de Ornellas Bruges
(que vive na Beira Alta, com descendencia); André Eloy Homem
de Ornellas Bruges (que vive na Ilha Terceira (com descenden­ heotonio Paim de Bruges, é um cavalheiro distinctissimo, jor­
cia). nalista primoroso, orador eloquentíssimo e político sincero.
Augusto Ribeiro. Na sociedade, cm que occupa proeminente logar, é um ver­
dadeiro homem moderno, perfeitamente do
seu tempo, doublée d um fidalgo antigo, rieil-
e da Conceição, gran-cruz da imperial ordem de Fran­
cisco José, d’Austria, por distinctos serviços presta­ le-roche, — genero hoje muito adulterado —
dos, deputado da nação, governador civil dos distri- com todos os primores da delicadeza e da
ctos d’Angra do Heroísmo e de Ponta Delgada, fun­ distineção de raça.
dador dos Asylos de Mendicidade da Praia da Victoria Como jornalista, é um burilador de arti­
e de Ponta Delgada, iniciador da primeira exposição gos, um polemista de extraordinário valor, de
de agricultura, artes e industrias dos Açores (Angra
do Heroísmo, 29 de outubro de i863), fundador da largos recursos e, indiscutivelmente, o vulto
Sociedade Promotora de Artes e Lettras, d’Angra do mais notável da imprensa terceirense.
Heroísmo (1866), nasceu no palacio de Santa Luzia Como orador, não nos consta que alguém
da cidade de Angra aos 14 de dezembro de 1833. Ca­ da nossa terra como elle attingisse, pelos seus
sou, na mesma cidade, em 1860, com D. Maria Jgna-
discursos, nos tempos que vão correndo, o
cia de Menezes Pacheco de Mello Lemos e Carvalho
Pereira Forjaz Sarmento de Lacerda, filha do mor­ respeito contido nos auditórios, o agrado dos
gado João Pereira Forjaz Sarmento de Lacerda e de que, de proposito, o vão ouvir. A sua palavra
sua consorte, D. Maria José Pacheco de Mello Mene­ ardente e enthusiastica, inílamma, convence
zes Lemos e Carvalho, fallecida em Lisboa aos 29 de e arrebata. Porque a sua eloquência não está
junho de 1S82. O conde da Praia da Victoria falleceu
só na pureza do estylo, na enunciação clara
na ilha da Madeira em 20 de janeiro de 1889. El-Rei Theotonio Paim de Bruges
D. Luiz tinha pelo conde da Praia da Victoria dis- c synthetica dos argumentos e no calor com-
tincta consideração pessoal, e, mais d’uma vez mani­ municativo das suas convicções, mas nos ar­
festa sympathia. Depois d’esta noticia, falleceu na ilha de S. Miguel o 2.0 filho roubos da palavra, nos transportes ousados do tribuno, na exhibi-
do conde da Praia da Victoria, Jacome de Bruges, e sahiu do reino para os ção apaixonada dos seus conceitos.
Estados Unidos da America o mais novo, João d’Ornellas Bruges. Tanto
Como político, segue por tradição e por convicção a bandeira
d’este como d’aquelle ha filhes, vivendo em Angra do Heroísmo com suas
mães, as ex."1*' sr.a" D. Guiomar da Fonseca Carvão Paim (Ramalho) e D. Ma­ progressista, a cujo partido tem dado todo o esforço da sua pode­
ria Seraphina do Carvalhal Bettencourt Vasconcellos e Lemos (casa da Madre rosa intelligencia, da sua incondicional dedicação, todo o valor do
de Deus). seu nome prestigioso.
A R, Sieuve de Menezes.

N.° 41

DRaC-CCA
CONDES DE SIEUVE DE MENEZES
osé Maria Sieuve de Menezes, bacharel primeira vez deputado, n’ella se conservou até que falleceu, sem­
J formado em Direito pela Universidade de pre com a maior lealdade e dedicação ao seu partido, prestando
Coimbra, antigo deputado da nação em va­ ao referido districto, com a sua grande influencia e prestigio, im­
rias legislaturas, Moço Fidalgo da Casa Real, portantíssimos e inegualaveis serviços, pois póde dizer-se, sem con­
com exercício no Paço, Cavalleiro de Nossa testação, que a maior
Senhora da Conceição de Villa Viçosa e Com- parte dos melhoramen­
mendador da mesma Ordem, primeiro vis­ tos públicos feitos na
conde e primeiro conde de Sieuve de Mene­ ilha Terceira, no largo
zes, Par do Reino, era filho do morgado João periodo de 33 annos,
Sieuve de Seguier Camello Borges e de sua foi devida á sua inicia­
segunda consorte D. Gertrudes de Menezes tiva, como muralhas
Lemos e Carvalho. Nasceu em Angra do Heroísmo aos 20 de no­ nos portos, a grande
vembro de 1826, onde falleceu a 4 de novembro de ibgS. rêde de estradas que
O conde de Sieuve de Menezes, por seu pae, os Seguier, pro­ cortam a ilha em di­
vinha dos marquezes de Saint Brisson, fidalgos francczes, e por versas direcções, en­
sua mãe, os Menezes, descendia de el rei D. Ordonho, do an­ canamentos d’agua po­
tigo reino de Leão (Hespanha); por que a familia Menezes, se­ tável em todas as fre-
gundo conta Damião de Goes no seu Nobiliário, e Pinho Leal no guezias, a creação da
Portugal Antigo e Moderno, descende pela infanta D. Ximenes comarca da Praia da
d’aquelle rei; foi casado com sua prima D. Anna Raymundo Mar­ Victoria, a elevação de
tins Pamplona Côrte Real, condessa de Sieuve de Menezes. 1.° Conde de Sieuve CUratOS a parochias, a
O conde de Sieuve de Menezes foi administrador do concelho construcção de novas
d’Angra do Heroísmo, presidente da camara da mesma cidade, egrejas, reparação de outras, obras e funccionamento do Seminário
membro da Junta Geral e do Concelho do Districto, vice-presi- diocesano, etc., etc.
dente da Camara dos Deputados, primeiro juiz substituto, e serviu Respectivamente a serviços individuaes, póde dizer-se afouta-
de Governador Civil por differentes vezes. mente, que centenas de pessoas lhe deveram a sua posição, e con­
Era o chefe do partido regenerador no districto d’Angra, e sequentemente o sustento de suas famílias.
tendo entrado na política cm 1860, época em que foi eleito pela Foi amigo intimo de Joaquim Antonio d’Aguiar, Fontes Pe­

DRaC-CCA
reira de Mello, Hintze Ribeiro e d'outros em destaque na política 2.° CONDE DE SIEUVE DE MENEZES
portugueza, que o tinham em grande consideração.
Para se avaliar o seu elevado caracter e o amor que tinha á
sua patria, basta citar o que d’elle diz o talentoso escriptor tercei- aymundo Sieuve de Menezes, filho dos primeiros condes de
rense, Alfredo Luiz Campos, na Memória da Visita Regia á ilha R Sieuve de Menezes, nasceu em i85b em Angra do Heroísmo,
Terceira, quando se lhe refere : e indo para Coimbra____________________________________
«Patriota devotado, liberal convicto, não duvidou reagir com muito novo, não poude
os proprios amigos políticos, com o proprio governo, sahindo do proseguir nos seus es­
seu partido, quando se tratava dos interesses directos da sua es­ tudos por incommodos
tremecida ilha Terceira. Reagia e conseguia obter o que tinha por de saude, voltando pa­
justo e recto.» ra a terra natal, onde
E ainda a seu respeito, diz em um primoroso artigo, com muita entrou na política, fa­
razão e justiça, o nosso compatriota e distinctissimo escriptor Au­ zendo parte da redac-
gusto Ribeiro: ção do jornal official do
«Açorcano dos mais iIlustres de todos os tempos e terceirense partido regenerador, A
cujos serviços relevantes á sua terra nunca foram nem serão sufti- Terceira, sendo por
cientemente reconhecidos e agradecidos.» vezes seu director po­
A ilha Terceira consagra á honrada memória d‘este seu illustre lítico e collaborando
filho a maior veneração e respeito. cm vários jornaes.
E que, quando alguém, como o conde de Sieuve de Menezes, Exerceu o logar de
consegue, n’um meio pequeno, impor se pelo seu caracter, dedican­ chefe do corpo fiscal
do-se ao progresso da terra natal, pondo o bem d’ella acima de de rondas volantes,
tudo, esse alguém tem sempre, incondicionalmente, a abençoar- com sede cm Extre-
lhe a vida e a lemhral-o saudosamente na morte, as bênçãos e moz, de chefe fiscal
saudade d um povo inteiro. das alfandegas de
E o povo terceirense assim o tem feito sempre. Ponta Delgada e An­
gra do Heroísmo, de 2." Coniie de Sieuve
*
recebedor em Angra e
Do seu casamento houve dois filhos: Raymundo Sieuve de Me­ de thesoureiro pagador no Funchal, revelando sempre muita com­
nezes, segundo conde de Sieuve de Menezes, e D. Maria Sieuve petência, bom critério e notável integridade de caracter.
de Menezes, condessa de Rego Botelho, casada com o conde do Foi procurador á Junta Geral do districto d'Angra, presidente
mesmo titulo. da camara da mesma cidade e governador civil do districto, ele­

023
vado e espinhoso cargo que soube desempenhar a aprazimento dos CONDESSA DE SIEUVE DE MENEZES (D. ANNA)
povos seus administrados. E’ director da Caixa Economica d'An­
gra do Heroísmo, o primeiro estabelecimento de credito dos Aço­
res. Anna Raymundo Martins Pamplona Côrte Real, nasceu em
Rcalisou o seu consorcio com a ex.nia sr.a D. Genoveva de
Bettencourt Vasconcellos e Lemos, condessa de Sieuve de Mene­
D. Angra do Heroísmo aos 6 de fevereiro de 1832 ; é viuva
do primeiro conde do mesmo titulo, e pertence a uma das mais
zes, do qual houve dois filhos: D. Maria Benedicta Sieuve de Me­ distinctas famílias dos Açores.
nezes Lemos e Carvalho Sá Coutinho Bettencourt, casada com o Foram seus progenitores os morgados commendador Ray­
conselheiro dr. Manuel Victorino de Bettencourt, e D. José Maria mundo Martins Pamplona Côrte Real e D. Maria Benedicta de
Sieuve de Menezes Lemos e Carvalho da Camara Sá Coutinho, Sousa de Menezes Lemos e Carvalho da Camara Rocha Sá Cou­
de 12 annos de edade, Moço Fidalgo da Casa Real, creança de tinho.
uma bondade ingenita e de uma educação primorosissima. A senhora' condessa de Sieuve Menezes, recebeu uma primo­
Tal é o perfil biographico do i.° conde de Sieuve. rosa educação no convento do Bom Successo, para onde foi em
tenra edade, e é uma das damas mais consideradas e respeitadas
na alta sociedade angrense, não só pelos elevados dotes do seu
espirito superior, como pela proverbial gentileza com que a todos
recebe.

CONDESSA DE SIEUVE DE MENEZES (D. GENOVEVA)

senhora condessa de Sieuve de Menezes, D. Genoveva de


A Bettencourt Vasconcellos e Lemos, nasceu em Angra do He­
roísmo em 1861, sendo a sua familia uma das mais nobres e illus-
tres dos Açores. E’ filha do morgado Vital de Bettencourt Vascon­
cellos e Lemos e de sua consorte, D. Maria Serafina do Carvalhal.
Casada com o actual conde do mesmo titulo, gósa na ilha
Terceira da affectuosa estima e elevada consideração de todas as
classes sociaes, pela bondade indefinível do seu genio altamente
caritativo e pelos primores do seu espirito sempre jovial e scintil-
Kesideni ia i>a eamilia Sieuve de Menezes lante.

DRaC-CCA
Um jornal d’Angra apresentou, a seu respeito, o seguinte perfil, De Noblesse, lhe exorna a fronte risonha, não é certamente a que
attribuido ao distincto escriptor Gaspar Falcão Cotta Bourbon e mais a ennobrece; outra por ventura mais fulgida e gloriosa com-
Menezes, que durante alguns pete á esposa exemplar e á mãe
annos residiu em Angra do He­ previdente e dedicada.»
roísmo :
N’estas phrases, cuja correc-
«Affavel e de uma lhanesa ção e elegancia primam pela dis-
extrema, usando com modera­ tineção, estão artisticamente bu­
ção d’essa causticidade fina que rilados os preclaros dotes que
discretamente sabe applicar aos enaltecem a iilustre titular, que
ridículos sociaes, a sua convi­ por fórma tão superior sabe oc-
vência recommenda-se á sym- cupar o seu logar na sociedade
pathia geral. angrense, onde o seu caracter
«Na primeira sociedade, on­ diamantino e o seu porte nobi­
de é muito querida e apreciada, líssimo lhe dão o primeiro logar.
sabe s. ex.“ conciliar as exigên­ E’ por tão distinctas qualida­
cias de uma posição superior des que a sua figura se salienta
com a mais captivante amabili­ e é querida, numa terra onde,
dade do trato, alliada a uma des- aliás, tantas outras nobres da­
pretenciosa simplicidade de ma­ mas se distinguem.
neiras.
«Essa coroa que, Par Droit Ancha. —Um trecho do Jardim Publico Estevam Borges do Canto.

DRaC-CCA
VESTIARIA AÇORIANA-0 MANTO E O CAPOTE
os Açores, como em quasi todas as terras das varias provín­ largura i"1. E’ dividida cm 5 pannos, ficando portanto cada um com
N cias de Portugal, ha umas excentricidades de trajos, que aos a altura de im,25, tendo de se fazer um refego, que envolve o ex­
cesso da altura competente, pela frente, e que cáe logo acima da
•estranhos, á primeira vista, impressionam pela originalidade.
Essas duas gravuras que il- roda, fazendo a parte de traz uma pequena cauda. O capello leva
lustram esta pagina do Álbum i"‘,5 de fazenda, talhada em semi circulo, fazendo se na curva um
Açoriano, representam o man­ corredor, onde se enfia um nastro preto, como nas sacas, e jun­
to e o capote, sendo o pri­ tando-se, é atado sobre o cós
meiro, na ilha Terceira, espe­ da sáia e eleva-se para a ca­
cialmente na cidade d’Angra, beça, formando um telheiro,
ainda hoje o trajo mais geral­ para o que tem entre o forro
mente usado pelo sexo femini­ um papellão flexível, em pe­
no, fazendo por vezes uso d elle queno semi-circulo, ficando pa­
as principaes damas, quando ra traz a parte curva.
por commodidade o preferem E’ uma variante das anti­
aos atavios do vestuário em gas mantilhas de coca, usadas
corpo, como classificam aquelle por nossas avós.
que condiz com o uso do cha­ A flexibilidade do papellão,
péu. permitte á pessoa esconder-se
O capote, hoje, só é usado ou propriamente embiocar-se,
pelas mulheres de mais de meio unindo os lados do capello, de
século, que o usam ainda como fórma que, sem ser conhecida,
recordação dos tempos de en­ póde vêr tudo o que a cérca,
tão, não podendo d'elle deshabituarem-se. o que não deixa de ser um/er-
Desconhece-se como e quando se deu a introducção destes tra­ ro para os curiosos, que espe­
jos nos Açores, sendo fóra de duvida que vieram de Portugal, onde rando a sahida da missa ou
em algumas terras se encontram ainda vestuários semilhantes. qualquer festividade religiosa para admirarem a belleza das mu­
O manto é composto de uma sáia e um capello de merino preto lheres açorianas, se deixam enlevar pela bella fórma do corpo que
— a sáia de grande roda, leva geralmente 6"’,5, tendo a fazenda de alli vae n’aquelle involucro, e, quando menos o esperam, depara-

320

DRaC-CCA
se-lhes um rosto de velha esmirrada; emquanto que outros, mais não podiam andar no rigor da moda. Hoje são bem poucos os
adestrados, se não illudem pela apparencia do muitas vezes mal exemplares de capotes que apparecem.
trajado enveloppe e gosam a vista de O uso dos mantos decresce mui va­
uns olhos vivos, lábios roseos, feições garosamente, servindo-se quasi toda a
frescas, e plastica cheia de viço. população feminina, alternadamente,
O capote, feito quasi sempre de do manto e do chapéu, conforme o seu-
baeta castanho escura, compõe-se de commodo ou a solemnidade a que se
uma larga capa franzida em volta do destinam.
pescoço, com grande cabeção do mes­ Nas freguezias ruraes o uso do cha­
mo panno. Egualmente franzida em lé e lenço, baniram, por completo, o
volta do pescoço prende o capuz, de pittoresco uso do manto e do capote.
fórma cylindrica, quasi, cahido sobre E’ certo, porém, que o uso do cha­
as costas e aberto por fórma a deixar péu, tem nos últimos annos avançado
completamente descoberta a cara. immenso e não virá muito longe a data
Era este, n’outros tempos, o trajo em que só pela historia dos trajos po­
das mulheres mais edosas, ou das que pulares, se terá conhecimento do que é
pela sua posição ou modo de vida, A . —U
ncha D
m trecho da rua ireita manto e capote.
Vieira Mendes.

DRaC-CCA
QUEM DEU O NOME AO LABRADOR?
ob esta epigraphe publicou o dr. Ernesto do Canto, no Ar­ tou no descobrimento do norte. De modo que, d’algum proveito fo­
S chivo dos Açores, um breve estudo em que pretende reivindi­ ram para Portugal os trabalhos que padeceu Pedro de Barcellos
em tal descobrimento, aliás D. Manuel, tão avaro na concessão de
car para os dois illustres portuguezes Pedro de Barcellos e João
Fernandes, Labrador, a gloria d’este ultimo ter dado o seu nome á graças e privilégios, não os concederia ao filho do ousado mari­
península norte-americana, antes da descoberta de Colombo. nheiro.
Vi este curioso trabalho na selecta livraria do sabio e vene­ Não é, porém, meu intento, occupar-me n’este pequeno estudo
rando professor bracharense, sr. Pereira Caídas, mas não acom­ do ponto capital da questão pendente, isto é, discutir e affirmar a
panhei de perto a discussão havida sobre este interessante assum­ prioridade da descoberta da terra do Labrador pelos portuguezes
pto, entre alguns dos nossos mais distinctos escriptores de Lis­ nomeados, antes de Christovam Colombo abordar á America.
boa. Dos documentos citados pelo Para mim, o ponto é vêr Pedro
dr. Ernesto do Canto, no Archivo, Pinheiro, ou antes Pedro de Barcel­
se deprehende que Pedro de Barcel­ los, nome porque é mais conhecido,
los, por mandado d'El-Rei D. João II, sobre outro aspecto menos lumino­
partiu da ilha Terceira com João so, mas também interessante para a
Fernandes, Labrador, a descobrir nos biographia do illustre portuguez, que
primeiros mezes de 1492, e, como é andou bons tre\ annos (1) a servir El-
sabido, o celebre navegador geno- Rei D. João II no seu grandioso pla­
vez chegou á America no dia 12 de no da nossa epopeia marítima.
outubro d’este mesmo anno. O distincto escriptor, dr. Ernesto
No citado Archivo (no ultimo nu­ do Canto, diz no Archivo, a pagi­
mero desta publicação, 1894) vem nas 365:
publicada uma carta d’EI-Rei D. Ma­
nuel, datada d Evora, de 7 de junho (1) A phrase — bons tre^ annos — é al-
de i5o8, na qual o venturoso mo- legada por Pedro de Barcellos nos autos
da demanda que elle houve na Terceira
narcha concede privilégios a Diogo com vários indivíduos, que lhe disputaram
de Barcellos, filho de Pedro de Bar­ umas terras. (Vide Archivo dos Açores, a
cellos, pelos serviços que este pres­ Cidade de Angra.—Egreja da Misericórdia paginas 362.)

□2S

DRaC-CCA
IV/ 41

álbum Açoriano

DRaC-CCA
LOMBADAS FRIX
Kxposiçào Internacional de S. Luiz em 1904 AZ1NE BERTRAND
MEDALHA DE OURO
Exposição do Palacio de Crystal de Londies em 1904 A LEITURA ILLUSTRADA
Revista quinzenal — 96 pag. cheias de gravuras
i lainha das aguas de meza 200 RÉIS
Assigna-se na
Leve, estomacal e digestiva, pura, limpida ANTIGA CASA BERTRAND — JOSÉ BASTOS
h- R. Garrett, 73 e 7o - Lisboa
0 acido carboníco não é Introduzido artiflcialmente

Recommendada por todos os médicos

DEPOSITO GERAL
106, AVENIDA DA LIBERDADE, 110 C. MAHONY & AMARAL
I.ISBOA 70, Rua Augusta, Q.°—
TKLEFHONE 586
METAES EM BRUTO: Aço, cobre, latào, estanho, chumbo em chapa, bar-
, ras lingots.
FERRO: Em barras quadradas, redondas e vergalhão. Vigamcnto de ferro
21! MEMÓRIA SOBRE A ILHA TERCEIRA ! em T I U; cantoneiras e todos os mais aprestos para oonstrueçõrs. Ferro em
liugots para fundição. Chapas galvanisadas lisas e onduladas Chapas de aço
para caldeiras. Tubos de ferro, cobre e latão. Arame de ferro, cobre latào.
vor Alfredo da Silva Sampaio Folha de Flandres. Material fixo e circulante para caminhos de f> rro. Rails de
aço e diversos perfis e pesos, vias portáteis. Machinas de vapor, gaz e petró­
Angra do Heroísmo, 1904, 8." gr — XI — 833 paginas leo. Caldeiras. Boinbas. Machinas para industrias e agricultura. Machinas. Fer­
2$5OO RÉIS ramentas. Vidros polidos, foscos e de phantasia. Vidraça, lages de vidro (dalles)
A
* venda na Assucar, arroz, especiarias, drogas, productos chimicos. Ascensores hydraulieos.

ANTIGA CASA BERTRAND - JOSÉ BASTOS Edoux & C.‘


CI M E lí T Q
Rua Garrett, 73 e 7S—JLiabou >&
Únicos importadores em Portugal e colonias do CIMENTO da Compagnic
des Cnner.ts Parisiens, fabricado pelo notável engenheiro E. CANDLOT.
Fabrica de sabão —Telbal (Poço do Birpo'
Fabrica de licores aguardente, genebra e cognacs — TELHAI (POÇO 00 BISPO)

Trp. d» A Editora» — Lisboa

DRaC-CCA
«Na Phenix Angrense, do padre Ma­ paterno de Diogo. segundo o presente tra­
nuel Luiz Maldonado, no vol. genealógi­ balho, é Álvaro Fernandes de Barcellos.
co, apparece um Pedro de Barcellos, filho Manuseando os meus calhamaços, notei
de Pedro Pinheiro, natural de Barcellos, algumas contradições e lacunas no ponto
um dos primeiros colonos da ilha Ter­ aberto ao meu estudo, e por isso recorri
ceira, e de sua mulher Ignez Gonçal­ á competência d’um amigo em trabalhos
ves Machado. Ahi se vê que Pedro de d'esta natureza. O sr. dr. Antonio Mi­
Barcellos casou com Joanna Cardoso, fi­ guel da Costa Ferraz d’Almeida, de Bar­
lha de Sebastião Cardoso e Catharina cellos, o qual junta á nobreza herdada a
França, com descendencia na Terceira e illustração própria, revellada em trabalhos
S. Jorge. de paciente investigação, honrou-me com
«Sem se poder afiirmar a perfeita iden­ a carta que, gostosamente, publico:
tidade de Pedro de Barcellos, da deman­ «Meu presadissimo amigo: E’ tempo
da, com o filho de Pedro Pinheiro, com- de dar conta a V. dos meus trabalhos d’in-
Angra. — Um trecho da rua da Sé
tudo, attendendo ao tempo e ao logar, vestigação genealógica, a proposito de Pe­
torna-se provável que seja o mesmo.» dro de Mariz Pinheiro, o supposto desco­
Em outro lanço da mesma obra, a paginas 029, accrescenta o bridor, juntamente com João Fernandes, Labrador, da península
erudito escriptor, no final d’uma nota, que o actual representante norte-americana, em abril de 1492. Guiado, apenas, pelos appelli-
da familia Barcellos, que teve morgados, é o sr. Francisco de dos de familia, tratei de ler no Nobiliário do Gayo, e ainda em
Paula Barcellos: vê-se, pois, que esta illustre familia da Terceira, outros que possuo, os titulos de Madrizes, Pinheiros, Barcellos,
descende de Pedro Pinheiro, natural de Barcellos. Marizes e Farias.
Quem era este homem ? «No primeiro nada vi que esclarecesse o assumpto em questão,
Tal é a pergunta que me fazem alguns illustrados cavalheiros, a não ser aquillo que V. conhece. Outro tanto direi dos titulos de
e eis a resposta, que, se não é decisiva e completa, esclarece, tal­ Farias e Barcellos.
vez, o assumpto de que se trata. «Em Pinheiros encontrei um Pedro de Mariz Pinheiro, que foi
Antes, porém, de a expôr, faço reparo n’aquelles dois Pe­ 3.° neto de Álvaro Pinheiro, de Pouve, o qual, embora tenha o
dros do linhagista Maldonado. Parece me que ha um Pedro de mesmo nome, não pode ser o nosso Pedro de Barcellos, porque,
mais. sendo irmão de um Paulo de Mariz Pinheiro, e, tendo este vivido
O de Barcellos e Pedro Pinheiro deve ser uma e a mesma pes­ em o século xvn, pois nasceu em 1601, é muito posterior áquella
soa, pois já sabemos pelo documento, atraz citado, que o Pedro, data da descoberta (1492).
mandado por D. João II a descobrir, houve um filho de nome Dio- «Passei ao titulo de Marizes, e ahi creio ter sido um pouco
go, em quem D. Manuel recompensou os serviços do pae, e o avô mais feliz, por que consegui descobrir um Pedro de Mariz, que

N. 42

DRaC-CCA
bem podia ter sido o companheiro de João Fernandes, Labra- pção de Pedro ter abandonado, ainda moço, a patria e a familia, para
dor. emprehender talvez uma viagem de que não mais voltou ao reino ?
«E' verdade que Felgueiras Gayo, tratando da descendencia de Procedendo elle d’uma familia illustre, mas pobre, não é também
Fernão Affonso de Mariz, que diz ter possuído ríeste reino uma provável que tentasse também fortuna pelas viagens, mormente
pequena casa, e foi casado com D. Filippa d’Azevedo, apenas lhe numa epocha, em que tanto se pensava na colonisação dos archi-
menciona dois filhos: — Nuno e Lopo Fernandes de Mariz; mas pelagos da Madeira e dos Açores, recentemente descobertos ?
é certo que teve ainda um terceiro, cujo nome o Gayo ignorava, «Os filhos de seus irmãos, João e Manuel de Mariz, não foram
pois que em outro § do mesmo titulo diz: uns para Goa e outros para diversos pontos da índia, onde vive­
«D. Camilla de Mariz, filha de... e sobrinha de Nuno Fer­ ram e constituíram familia? E não seria o exemplo do tio que os
nandes de Mariz, e de Lopo Fernandes de Mariz, casou em Bar- incitou a tão longas viagens? Do que ninguém poderá duvidar é
cellos com Álvaro Fernandes, natural d’esta villa, de quem teve: que este Pedro de Mariz podia ser vivo ahi por 1492, anho em
João Fernandes ou Alvares de Mariz, etc.» — E’, pois, positivo que Colombo chegou á America; porque é a epocha em que vi­
que um dos paes de Camilla de Mariz era irmão d’aquelles Nuno veram seus tios Nuno e Lopo de Mariz, e pelo computo que fiz,
e Lopo de Mariz. Foi nos descendentes d’esta senhora que eu en­ creio mesmo que o Pedro tivesse então de 3o a 40 annos. Pode­
contrei um Pedro de Mariz, de quem o Gayo nenhuma noticia nos rão, finalmente, objectar-me que Pedro de Barcellos se chamava
dá, não obstante conhecer bem seus irmãos — Manoel, João e N... Pedro de Mari\ Pinheiro, e o de que venho fallando não appa-
de Mariz, de quem refere a des­ rece no Gayo com este ultimo ap-
cendencia até seus netos. Mas por pellido, nem mesmo o acharmos
ventura este Pedro de Mariz será em seus ascendentes directos;
o celebre Pedro de Mariz Pi­ mas responderei que tal omissão
nheiro, a que allude o Archivo não invalida de modo algum a
dos Açores? hypothese de Pedro de Mari\
«E’ possível que não seja; ser o Pedro de Mari\ Pinheiro,
mas eu nenhuma repugnância da Terceira, por que este appel
tenho em acreditar que é, pelo lido talvez lhe viesse por um dos
menos emquanto não tiver pro­ seus avós maternos, cujo nome
vas em contrario. Em primeiro o Gayo ignorava. Eis, meu bom
logar, o facto de Felgueiras Gayo amigo, o que a tal respeito pude
não dizer o destino d’este Pedro averiguar nas poucas horas con­
de Mariz, conhecendo aliás muito sagradas ao estudo de tão interes­
bem seus irmãos e esposas, filhos sante quanto difficil assumpto. E,
e netos, não auctorisa a presum- I
lha T .—E
erceira strada deS. M
atheus
como é grande o empenho que

33o

DRaC-CCA
tenho no descobrimento d’esta gloria para Barcellos, peço a V. dor da Terceira, embora aquelle vivesse muito tempo depois d'este;
que continue a confiar-me as suas noticias, que por ventura fôr por que isto indica a observância do uso e costume das famílias
colhendo, e que possam auxiliar-nos na solução d este difficil pro­ fidalgas honrarem assim a memória dos seus parentes distinctos.
blema. Barcellinhos, 7-3-gç). — Sou, etc. (a) Antonio Miguel da E’ certo que houve alliança entre os Marizes e os Pinheiros, de
Costa d'Almeida Ferrari Barcellos, posterior á data de 1492, mas tudo leva a crer que já
Por ultimo agradeço muito ao meu amigo, sr. dr. Antonio eram parentes por um dos avós de Pedro de Barcellos. Este, que
Ferraz, o seu interessante estudo, que ahi fica transcripto, feito era portuguez de lei e andou por bons tre\ annos a descobrir, por
com luminosa critica, que leva ao espirito do leitor a maxima pro­ mandado d’El-Rei D. João II, morre esquecido e talvez tão pobre
babilidade, e direi até a certeza, emquanto não vir provas em con­ como sahiu de Barcellos; ao passo que muytos vinham pera estes
trario, de ser uma e a mesma pessoa o Pedro de Mari\, do No­ remos cobertos de oução (lendeas) e se iam ao despois todos aga-
biliário do Gayo, e o Pedro de Barcellos, da Terceira. Favorece lanados e mui paraltas, como resa a chronica.
muito a argumentação do sr. dr. Antonio Ferraz o nome que elle
cita de Pedro de Mari\ Pinheiro, homonymo do celebre navega­ José d’Azevedo e Menezes.

33»

DRaC-CCA
CONSELHEIRO LUIZ DE TAVORA
em no aspecto marcada a distincção dominadora, Bom Jesus, edificada por Matheus de Tavora em 1682, cumprindo
o aprumo fidalgo e a affabilidade communicativa. assim um voto do recontro da Salga em i58i. (í)
Pertence á primeira fila da elite açoreana. Foi O conselheiro Luiz de Tavora prefere a vida de Lisboa á de
logo na aurora da sua mocidade um dos mais Angra, mas como dizem os francezes: II est aisé d'aller á pie<d
celebrados rapazes do mundo ciegante-dc Lis­ quand 011 tient sou cheval par la bride.
boa. As narrativas das famosas esperas de tou­ E’ assaz conhecido como grande amador de dilferentes generos
ros de outrora ainda hoje invocam o garboso de sport, joga- as armas, tem montado cavallos que poucos mon­
arrojo de Merens de Tavora. Educado nos sen­ tariam, entrou em touradas e foi um dos iniciadores das corridas
timentos christaos e na obediência á Egreja, pa­ de cavallos em Portugal.
tenteia-se, sem respeitos humanos, um caracter Na primeira corrida em 1873, em Cintra, em que entraram os
recortado nos moldes da galhardia antiga; está principaes gentlemen-riders portuguezes d'aquelle tempo, ganhou
de pé, bem de pé, deante dos homens; de joe­ o prémio das senhoras que foi dispu­
lhos, bem de joelhos, deante de Deus. tado em duas provas, um cofre artís­
Como patriota, tem o sangue da fé e da intrepidez dos caval- tico de prata que elle conserva em
leiros d’Arzii!a a circular nas artérias d’um engenheiro moderno. grande estimação.
A gcntilhomnierie d um preclaro descendente de mesnadeiros Na ilha Terceira, numa espera
ama sobretudo o seu Deus e o seu rei. Luiz de Tavora é o ultimo de touros pertencentes ao visconde
immediato successor d’uma dupla linhagem vincular de senhorio de Bettencourt, tendo fugido um touro
inalianavel — o morgado dos Meyrelles e dos Merens de Tavora (e touro de muito pé) no logar deno­
da ilha Terceira. Tem o seu elegante manoir em S. Matheus, po­ minado Biscouto da Achada, lançou-se
voação occidua da cidade de Angra. Annexa á casa solarenga só em sua perseguição, para mostrar
existiu outrora a formosa ermida de Nossa Senhora de Guadalupe,
invocação da Virgem, fervorosamente levada para os Açores pelo
dominio hespanhol. Hoje a capella da sua casa de S. Matheus tem (1) Batalha entre os partidários do Prior
do Crato e as tropas de Phiiippe II, na qual
a invocação de Nossa Senhora da Candelaria e a linda proprie­ se assignalou Briando Pereira, antepassado
dade é mesmo chamada Quinta da Candelaria. Possue nas suas do conselheiro Luiz de Tavora, como vem
propriedades, visinhas da villa de S. Sebastião, a ermida do Senhor Conselheiro Luiz de Tavora na Revista Militar (n."’ 6 e 7, 1870).

332

DRaC-CCA
a uns amigos como se cercava a cavallo um touro no continente; de Ponta Delgada, a i5 milhas de distancia, um barco de pesca,
na Terceira, a conducção dos touros é feita a pé pelos pastores; recolhendo a tripulação, pelo que foi agraciado com a medalha de
o terreno era de tal modc accidentado e rôto que, quando voltou, prata — Philantropia.
a egua que montava trazia apenas mal preza uma ferradura. Em A Luiz de Tavora foi offerecida a mercê de conde, mercê que
maio de 1874, estando na cidade da Guarda, lançou se com risco declinou. Elle é neto do conde da Barca. O conde da Barca, morto

Ilha Terceira. — Freguezia de S. Matheus

de vida, juntamente com o medico Soveral, ás redeas d’um ca­ sem descendencia, era irmão do notável capitão-general dos
vallo que se desbocou, proximo d’um dos lacetes da estrada que Açores, Francisco Antonio dAraujo e Azevedo, avô materno de
conduz ao Mondego e que era montado por um amigo d’ambos, a Luiz de Tavora. O conde da Barca foi diplomata de agudo enge­
quem salvaram. nho e erudito socio da nossa Academia Real das Sciencias. Luiz
Em 21 de janeiro de 1887 salvou, debaixo de grande temporal, de Tavora teve outros avós lettrados. O commendador Luiz Mey-
n um pequeno rebocador que estava ao serviço do porto artificial relles do Canto e Castro era socio da VAcadémie d’Horticulture,

333

DRaC-CCA
Vista do Pico dos Merens. — Quinta da Candelaria (S. Matheus)

334

DRaC-CCA
de Paris, eleito em 1834. O conselheiro Tavora possue esse flo­ obras publicas do districto de Ponta Delgada, do de Angra, etc.
rente diploma. E’ também esse seu avô, auctor duma interes­ E’ actualmente inspector da 5.a circumscripção industrial, com
sante Memória sobre as Ilhas dos Açores, impressa em Paris sede em Angra.
em 1834. Desempenhou a commissão de governador civil do Funchal a
Luiz do Canto e Castro Merens de Tavora concluiu o curso de contento de todos. Teve um voto de louvor da Associação Com-
engenheiro civil em 1872 e entrou no anno seguinte para o serviço mercial da capital da Madeira, approvado por unanimidade.
do Ministério das Obras Publicas como engenheiro do districto da
Guarda. Foi director das obras do porto artificial e director de Dr. Ferreira-Deusdado.

Casa e ermida da quinta da Candelaria

335

DRaC-CCA
D. VIGILANTE DO CANTO animados, brilhantes e cheios de vida. Pouco depois
dos navios deitarem ferro, sulcava as ondas um es­
(1581-1583)
caler dourado, em cuja prôa ondeava a bandeira de
Portugal; ia líelle um cavalleiro, alto, de cabellos
e bigode grisalhos, de tez morena e olhos negros.
ertence á ilha Terceira, tão notável por seus pri­
P mores de lealdade, valor e civismo, a gloria de Trajava de general do mar. Era o provedor das ar­
madas reaes nos Açores, João da Silva do Canto.
haver sido o berço d’esta illustre dama, cujo nome ve­ A seu lado via-se uma creança de nove annos, del­
nerando a historia apresenta em caracteres d’ouro ao gada, delicada, esbelta, dolhos e cabellos castanho-
nosso respeito e admiração, como brilhante exemplo claros, de feições distinctas, de nariz aquilino, de
de heroísmo e santo amor pela independencia da pa- physionomia viva, animada e graciosa. D. Violante do
tria contra a invasão estrangeira. Desde a quadra Canto, que esta era a joven senhora, ia com seu pae,
sorridente da infancia, habituara-se a amar a patria que a estremecia, visitar a armada d’EI-Rei. No trato
com todos os extremos do seu affecto, no trato com dos homens do mar, rudes mas leaes, generosos e
cavalleiros da África, da índia, do Brazil, e ousados patrióticos, foi D. Violante aprendendo a amar a pa­
navegadores, cobertos de glorias e triumphos, que tria e a dedicar-se por ella: nascera com um amor
em soberbos galeões e alterosas naus aportavam instinctivo do bello, creou-se na admiração das qua­
áquella ilha. lidades heroicas dos velhos soldados e marinheiros,
Vejamos agora de relance uma d’essas visitas que vinham dos theatros gloriosos das façanhas dos
aos referidos navios, que velejavam um dia nos ma­ nossos bravos e destemidos avós.»
res açorianos, e que tendo ancorado primeiro na ilha
de Santa Maria, partiram depois para a ilha Terceira. *
«Era meio dia, quando alli chegaram, refere um dis- * *
tincto éscriptor michaelense (i); o sol dourava com
seus raios as ondas do oceano, que pareciam seres A 25 de julho de 1581 feria-se a primeira bata­
lha da Salga, em que foram derrotadas as tropas
(i) Sr. Faria e Maia — Açorianos em África. hespanholas, commandadas pelo mestre de campo
FASCÍCULO IX.’ 42

DRaC-CCA
LOMBADAS
GRAND FRIX
Exposição Internacional de S. Luiz em 1904 GAZINE BERTRAND I
MEDALHA DE OURO
Exposição do Paiacio de Cryslal de Londres em 1904 A LEITURA ILLUSTRADA
Revista quinzenal —96 pag. cheias de gravuras
1 Rainha das aguas de meza . 200 RÉIS
Assigna-se na
Leve, estomacal e digestiva, pura, limpida Sj, ANTIGA CASA BERTR AN D — JOSÉ BASTOS
' R- Garretl, 73 e 7o-Lisboa
O acido carbonico não é introduzido artiflcialmente

llecommendada por todos os médicos

DEPOSITO GERAL
106, AVENIDA DA LIBERDADE, 110 C. MAHONY & AMARAL
riSBOA
70, Rua Augusta. 2."—
TELEFHONE 586
METAES EM BRUTO: Aço, cobre, latào, estanho, chumbo em chapa, bar­
ras lingots.
FERRO: Em barras quadradas, redondas e vergalhào. Vigamcnto de ferro
em TI Ui cantoneiros e todos os mais aprestos para construcções. Ferro em
MEMÓRIA SOBRE A ILHA TERCEIRA lingots pura fundição. Chapas galvanisadas lisas e onduladas Chapas de aço
para caldeiras. Tubos de ferro, cobre e latão. Arame de ferro, cobre <* latão.
nor Alfredo da Silva Sampaio Folha de Flandres. Material fixo e circulante para caminhos de ferro. Hails de
aço e diversos perfis e pesos, vias portáteis. Machinas de vapor, gaz e petró­
Angra do Heroísmo, 1904. 8.° gr — XI — 833 paginas leo. Caldeiras. Bombas. Machinas para industrias e agricultura. Machinas. Fer­
2$5OO RÉIS ramentas. Vidros polidos, foscos e de phantasia. Vidraça, lages de vidro (d<dles)
A' venda na Assucar, arroz, especiarias, drogas, productos chimicos. Ascensores hydraulieos.

J. i ANTIGA CASA BERTRAND - JOSÉ BASTOS


£ '-S» Rua tíarrett, 73 e 75 — Livbaa
Edoux & C.*
CI» B K T O
Únicos importadores em Portugal e colonias do CIMENTO da Compagnie
des Cnnents Parisiens, fabricado pelo notável engenheiro E. CANDLOT.
Fabrica de sabão —Telhai (Poço do Bispo'
Fabrica de licores aguardente, genebra e cognacs — TELHAI (POÇO 00 BISPO)

Typ. d» A Edilorat — Lisboa


D. João de Valdez, os A ilha Terceira re-
cabos de guerra D. João pellia victoriosamente o
de Bazan e os sobrinhos dominio de Filippe II e
do marquez de Santa não se lhe submettia.
Cruz e do duque d’Alva,
bem como outros fidal­ *
gos, que ficaram todos
mortos no campo da ba­
talha, o que causou pro­ Corria o anno de
fundo desgosto ao com- 158-2. D. Antonio, prior
mandante D. Pedro de do Crato, desembarca­
Valdez, por o monarcha va na ilha Terceira, no
hespanhol diminuir, por dia 26 de julho, no pro-
causa da perda d’csta posito de fazer trium-
batalha, o conceito, que phar os seus direitos ao
d’elle fazia. Dos mil sol­ throno portuguez. Pou­
dados que desembarca­ cos dias após o seu des­
ram, não escapou um só. embarque, dirige-se ao
Foi n‘esta memorável ba­ palacio dos Remedios,
talha que se empregou o solar de D. Violante do
estratagema de lançar Canto, por lhe constar
grande quantidade de que a il lustre terceirense
gado bravo contra o era muito affeiçoada á
acampamento do inimi­ sua causa, e agradecen­
go para estabelecer a do tão penhorante gen­
desordem, o que succe- tileza, obteve d’aquella
deu, dando excellente re­ senhora o mais valioso
sultado. auxilio, pondo a mesma
E esse resultado bem á sua disposição a con­
depressa se patenteiou, G N
ruta de S
ossa L ,
enhora de C
ourdes na quinta da (P
andelaria M T
ropriedade do conselheiro ) siderável fortuna que
erens de avcra

por fôrma decisiva, fa- possuia. Assim, poude


zendo com que a victoria fôsse, desde logo, das armas portuguezas. D. Antonio, dispondo de avultadas sommas, generosamente offe-

N. 43

DRaC-CCA
recidas, sustentar as tropas francezas e inglezas, que alli se achavam, cidade d'Angra, que immediatamente mandou saquear, foi apo­
mandadas por Henrique III e pela rainha Isabel de Inglaterra. sentar-se no palacio de D. Violante, que por essa occasião já se
A 26 e 27 de julho de 1583 feria se no Campo da Salga a achava recolhida a um convento, e tendo d'isto noticia, mandou
memorável batalha e desembar­ logo postar alli duas companhias,
cava vencedor o marauez de para que estivesse em segurança,
Santa Cruz, I) Álvaro de Ba- ordenando juntamente o seques­
zan, almirante da poderos;i es­ tro de todos os seus bens. Uma
quadra, que Filippe II enviara das ordens especiaes, que Filip­
pela terceira vez á ilha Terceira, pe II dera ao marquez, e que
unico ponto da monarchia portu- este immediatamente cumpriu,
gueza que não queria submet- foi que, tomada a ilha, tivesse o
ter-se ao dominio hespanhol! maior cuidado em D. Violante
Infelizmente, as tropas de do Canto, porquanto era ella que,
D. Antonio foram derrotadas, e a expensas suas, sustentava con­
vencidas, pela péssima direcção tra elle as tropas alli existentes.
e vergonhosa fuga de Manuel da Assim, o marquez avisou logo a
Silva, conde de Torres Vedras, illustre terceirense que se prepa­
que nunca devera ser nomeado rasse para seguir viagem para
superintendente da guerra. Hespanha, ao que ella respondeu
Commetteu-se um grande com varonil coragem, que tudo
erro político e militar substi­ cumpriria.
tuindo o illustre e venerando go­ Grandiosos na verdade foram
vernador Cyprião de Figueiredo os preparativos feitos em Angra
e Vasconcellos, que, sendo con­ por ordem do general, quando
servado no seu cargo, como man­ ella embarcou, e egualmente os
dava a justiça e a sua folha de que houve a bordo da armada,
serviços impunha, outra teria sido a sorte d'aquella batalha, como segundo a noticia que dá o historiador padre Cordeiro, e que n'este
succedêra antes. ponto seguimos.
* O préstito foi imponente. Designou-se a grande nau de Biscaya
« * e alli se lhe preparou uma camara real.
No antigo porto da Prainha, esperava-a uma rica galeota, com
Entrando o marquez de Santa Cruz poucas horas depois na estrado coberto de alcatifas chinezas e almofadas de velludo. Ha-

338

DRaC-CCA
via também barcos para a creadagem. Estando tudo disposto e de­ tendo alli uma recepção brilhantíssima c principesca, dirigindo sc
terminado, á hora marcada sahiu a respeitável dama do convento, depois para o convento de religiosas, que lhe destinaram, e onde
acompanhada por sete creadas. duas damas de honor, cinco aias, foi recebida desde o porlico com solemne Te-Deum.
e vinte e um creados, entre escudeiros, pagens e homens de espo- Tempos depois, por ordem régia, passou a Jaen, onde egual-
ras, faltando outros, muitos de mente lhe foi feita grande rece­
seus familiares, com receio de se­ pção, offerecendo-lhe o duque de
rem presos. Mcdma Sidonia um rico côche
Acompanhavam-n a ainda na para seu serviço, além d outras va­
viagem os seus parentes Manuel liosas offcrtas. Finalmente, quan­
Borges da Costa e Vasconcellos, do sc esperava um tremendo cas­
Gonçalo Correia de Sousa, Braz tigo, foi-lhe concedido o régio in­
Dias Rodovalho, e outros. D. Vio- dulto, e cm carta que o monar-
lante trajava de preto: triste, como cha lhe dirigiu, demonstrava-lhe
a imagem da Saudade, seguia in­ grandes desejos de que esta illus-
temerata ao seu destino, cujos tre dama contrahisse o matrimo­
horisontes assomavam profunda­ nio, promettendolhe muitas mer­
mente carregados e tétricos. Ves­ cês depois de casada, ao que ef-
tiam de roxo as damas, que a fectivamcnte annuiu, realisando o
acompanhavam. Antes do embar­ seu consorcio, por procuração, cm
que, é novamente cumprimentada Lisboa, com o seu parente Simão
pelos grandes de Hespanha e de Sousa e Tavora, sobrinho do
principaes da esquadra, e durante marquez de Castello Rodrigo,
a viagem são-lhe dispensadas to­ D. Christovam de Moura, do qual
Angra.—Caes e Ai pandega
das as honras de pessoa real, não houve dcscendencia.
chegando finalmente a Cadiz no D. Violante do Canto e Silva
fim de trinta dias. Alli, no acto do desembarque, o marquez de era filha do provedor das armadas rcacs nos Açores, João da Silva
Santa Cruz ordenou se repetissem as mesmas honras, e assim do Canto, c sua mulher D. Isabel Correia. Falleceu no anno de
formou-se uma rica escada, desde meia nau, por onde D. Violante 1600, na edade approximada de annos. E' neta de Pedro An-
sahiu para a sumptuosa galeota, que a devia conduzir a terra com nes do Canto e bisneta de Vasco Affonso do Canto, cavaileiro de
a sua comitiva, c n esse momento houve salva real de toda a ar­ Guimarães, antiga côrte do conde D. Henrique.
mada. Que viva c pungente saudade não sentiria esta senhora ao vêr
Desembarcou a illustre terccirense no porto de Santa Maria, Portugal conquistado pela Hespanha, e reduzido a ser uma sua

DRaC-CCA
província; ella, a patriótica fidalga, que offerecera a sua fortuna a de onze mezes e sete dias, cerco notável por muitos titulos em que
D. Antonio, impulsionada pelo amor da patria, que ardia no cora­ o peito illustre lusitano mostrou mais uma vez o seu valor e bra­
ção dos nossos velhos navegadores, dos nossos antigos cavai lei ros. vura em prol da autonomia portugueza.
Na ilha Terceira, nos últimos palmos de terra portugueza, Duzentos e noventa e sete annos, quasi tres séculos, são já
unica que reconhecia os direitos do principe D. Antonio e onde volvidos por sobre a data do fallecimento da illustre terceirense,
tremulava a bandeira das quinas, erguiam-se agora triumphantes de quem temos falado até aqui, não podendo a acção do tempo
os leões de Castella, até que, volvidos annos, surgiu o memorável obliterar jamais este sublime exemplo d’amor da patria, nem o
e glorioso dia 4 de março de 1642 em que elles capitularam como esplendor das suas virtudes, nem a gloria do seu nome. E’ que
vencidos; então voltou de novo a nobre bandeira de Portugal a nas paginas brilhantes, nas paginas sublimes, nas paginas d’ouro
ondear victoriosa e altiva sobre as velhas ameias do castello de da historia açoriana, palpita gloriosa e ardente a alma da patria
S. João Baptista, tomado depois de um porfiado e renhido cerco na sua vibrante grandeza.
Porto — Novembro de 1904.
A. B. do Canto Moniz.

DRaC-CCA
BATALHA DA SALGA
memorável nos fastos da Terceira a primeira batalha ferida Os capitães inimigos, quando conheceram o estratagema, logo
E pelas hostes castelhanas para submetter esta ilha ao dominio disseram dos portuguezes — vien com gado, ganados somos.
de Filippe II. Quando pensaram em reembarcar era tarde, porque largando
O general D. Pedro de Valdez, commandando uma esquadra os portuguezes com muito impeto atraz dos animaes, em breve
de sete naus com mil homens de desembarque e muita gente da ficaram senhores do campo. Dizem as chronicas que os que iam
nobreza, que vinha á conquista da gloria, appareceu nas aguas na rectaguarda quando chegaram já não acharam a quem matar;
terceirenses no dia 6 de julho. pois aos que se rendiam vivos, perdoaram.
Por alli pairou esperando tempo e dia e escolhendo logar op- Até os sobrinhos do marquez de Santa Cruz e do conde d’Alva
portuno para desembarque. mataram a sangue frio e da mesma fôrma o mestre de campo Val­
Este effectuou-se a 25, perto da villa de S. Sebastião, em sitio dez e outros muitos fidalgos hespanhoes.
conhecido pelo nome de Casa da Salga. «Muitos, diz um chronista, se lançaram ao mar, e como esta­
Desprevenidos os de terra, não lhe fizeram opposição. A’ frente vam armados, facilmente iam ao fundo; outros, querendo largar as
das forças hespanholas achava-se o bravo mestre de campo D. João armas, não o podiam fazer tão depressa, que os não matassem
de Valdez e os esforçados cabos de guerra D. João de Bazan, sem que os barcos e bateis se pudessem approximar, pelo muito
sobrinho do marquez de Santa Cruz, um sobrinho do conde d’Alva, fogo que de terra se lhes fazia.»
e outros aguerridos capitães. Dos mil homens que desembarcaram não escapou nenhum.
Pelejava-se a acção e a fortuna era duvidosa para os portu- Como é de ver, este grande desastre mortificou profundamente
guezes. a D. Pedro de Valdez, e muito lhe fez perder no conceito de El-
O religioso frei Pedro, da Ordem de Santo Agostinho, d’An- Rei Filippe, seu amo.
gra, suscitou ao governador Cyprião de Figueiredo a lembrança Mais tarde o marquez de Santa Cruz desforçou-se cruelmente
de mandar lançar grande quantidade de gado vaccum no acampa­ d’este morticínio de seus compatriotas e dos ulteriores excessos
mento do inimigo para o desordenar. dos terceirenses.
Assim se fez e o exito foi completo. No dia 26 de julho houve muitas festas e procissões na cidade,
O gado, espicaçado por aguilhões e espantado com tiros de celebrando a victoria. Voltaram ao campo da batalha todos os
arcabuz, por tal modo se arrojou contra os hespanhoes, que em moradores, homens, mulheres e meninos, e todas as ordens reli­
pouco os pôz em debandada, seguindo-se então um morticínio giosas, excepto os jesuitas, para verem os mortos, «em torno dos
atroz. quaes dançaram ao som de instrumentos, depois de se terem dado

34i

DRaC-CCA
entrincheiramento em que estava era provocado por um inimigo
com palavras deshonestas, dizendo-lhe que naquelle mesmo dia
faria mau uso de sua mulher.
O bom do velho, para vingar se d’esta affronta, disse aos que
estavam junto d’elle: «Tende-me tento rfaquelle castelhano.» E
apenas lhe descobriu a cabeça, vindo também ao mesmo tempo
com o arcabuz apontado para llío disparar, desfechou o valente
velho, lançando por terra o inimigo sem vida. Depois proferiu es­
tas palavras:
Antonio Gonçalves depois de velho cavalheiro e minha mulher
velha me quereis enxo­
valhar? Não cumprireis
já o vosso damnado in­
tento.
Brianda Pereira,
moça nobre, e muito for­
Angra. —Estrada á Beira Mau mosa, era casada com
Bartholomeu Lourenco,
aos últimos excessos que lhes inspirava o contentamento de se abastado lavrador, resi­
verem victoriosos». dente ao Valle, perto
Um tal Mathias Dias deixou o nome commemorado por um de S. Sebastião, onde já
acto de crueldade: sacando o coração do corpo de um hespanhol, tinham desembarcado
o comeu ás dentadas. quatrocentos hespa­
Houve vários episodios de valentia entre os quaes referiremos nhoes. D’estes fôra obje-
os seguintes: cto de curiosidade a bel-
Gonçalo Annes Machado, de mais de 6o annos de edade, vendo leza de Brianda, sendo
que lhe mataram um filho, investiu com uma lança na mão pelo ella o primeiro despojo
meio d’um esquadrão de cincoenta castelhanos e nelle fez espan­ que desejavam saquear
tosa carnificina, até cahir de costas; e nesta posição foi visto a de sua casa. Pôde esca­
pelejar até morrer também. par-se dos inimigos que
Antonio Gonçalves, lambem já edoso, tinha com grande fortu­ levavam prisioneiro o
na disparado o seu arcabuz sobre muitos hespanhoes. Porém no marido a quem haviam AS A
é de ngra

342

DRaC-CCA
ferido gravemente, e a um filho. Estando senhores da sua casa e Porém, quando foram chegando as ordenanças da cidade e
de quanto n’ella havia a saqueavam e destruíam, largando até o Villa da Praia a engrossar as forças combatentes, as mulheres
fogo aos frescaes de trigo, que estavam na eira. denodadas foram retiradas do combate e recolhidas na ermida de
Mas a heroina, com animo verdadeiramente varonil, que mais S. João, pouco distante do logar onde se deu a batalha.
lhe realçava a formosura, excitava os portuguezes a que pelejas­ A historia não refere a sorte que tiveram o marido e filho de
sem com vigor e se defendessem com intrepidez. As ameaças á Brianda Pereira.
sua honra de esposa e de mãe deram-lhe extremo vigor de elo­ Diz apenas que foram poucos os portuguezes sacrificados pela
quência. N'esta conjunctura já D. Pedro de Valdez se achava em independência do torrão natal. Menciona só 17. E’ provável que
terra á frente de mil combatentes dispostos e entrincheirados para os zelos de patriotismo e de valor amesquinhassem o numero; o-
a batalha. que não se amesquinhou foi o ardor de Filippe II em submetter
Muitas outras mulheres se lhe associaram logo, as quaes pro- ao seu domínio a ilha Terceira, o que conseguiu em segunda ten­
miscuamente com os homens disputavam com mão armada o passo tativa e com terríveis desforços da terra, que se manifestara tão-
ao inimigo, resolvidas a venderem-lhe caras as vidas e a honra. rebelde como indómita.
Produziu o devido effeito este valoroso procedimento das ma­
tronas terceirenses. Francisco Maria Supico..

DRaC-CCA
LENDA AÇORIANA

Uma caçada ducal


o dia 22 de março, dia consagrado pela Egreja a Santo Emy- Manuel Gonçalves de Miranda, era o presidente da commissão
N gdio, do anno de 1832, o imperador D. Pedro I, que habitava
a cidade d'Angra, quiz ir como particular a uma caçada ao Pico
dos emigrados. Reuniu-os em Belle-Isle e trouxe-os a bordo do
Fluminense, para a Terceira, (i)
do Selleiro, sitio onde pouco tempo antes, em som de guerra, por- Acompanhavam o imperador, além dos tres transmontanos,
tuguezes despojaram da vida a outros portuguezes. dois terceirenses, para servirem de guias, um capitão de ordenan­
Essa caçada foi um capricho imperial: era uma caçada como ças e outro tenente de milícias.
duque de Bragança, como antigo senhor feudal, acompanhado Quando sahiam do palacio de Angra, munidos de petrechos
sómente dos seus tres vassallos do ducado de Bragança. venatorios, em direitura ao monte, o sol apparecia, cortando a li­
Esses fidelíssimos vassallos, e gloriosos companheiros d’armas nha do horisonte, semeado de nuvens. Nas visinhanças dos pastos
eram, com effeito, filhos de terra de Bragança: João Ferreira Sar­ do Paul encontraram um rico camponez, lhano e obsequiador.
mento, seu ajudante de campo, natural de Vinhaes, secretario da Tinha na cabeça, similhante a um solidéo, um barrete preto com
regencia na Terceira, depois feito conde de Sarmento; o briga­ uns enfeites lateraes de panno vermelho, em fórma de meia lua,
deiro Bernardo Baptista da Fonseca e Sousa, natural de Bragança, revirada para cima. Vestia uma camisa de linho caseiro, cujo col-
commendador de S. Bento de Aviz, depois agraciado por valor larinho era ligado ã frente por botões de filigrana de oiro, de fórma
em campanha com o titulo de barão de Santa Barbara, na ilha cónica e grandes, como campainhas. Calças de briche azul. Os
Terceira, e o conselheiro Manuel Gonçalves de Miranda, natural pés nús. Oftereceu chãmcnte á comitiva um tarro de leite, pois
do concelho de Bragança, par do reino, antigo ministro da guerra tinha uma junta de vaccas em apojadura. Affirmou que são quatro
com D. João VI, depois ministro da fazenda e marinha com os licores mais necessários ao homem: agua, leite, vinho e azeite.
D. Maria II. Todos eram senhores de casa e haviam feito com dis- O abegão apojou as vaccas, tarros de leite espumante, rega­
tincção a campanha da guerra da península contra os francezes. lando o duque e o séquito rusticamente acampados. Aspiravam a
Tres homens de musculatura de aço, tão rija, como a sua vontade. plenos pulmões um ar fragrante, junto dum renque de Myrica
Eram filhos da vigorosa raça da província transmontana, almas Sagus entrelaçada com o Pittasporum ondulatum. A folha acerosa
fortes, como o granito dos seus fragaredos, e límpidas como a
agua dos seus ribeiros. (i) Archivo dos Açores, pag. .'42, vol. 6.°.

344

DRaC-CCA
FASCICUEO TV.° 43

arrom Açoriano

DRaC-CCA
LOMBADAS lii ■■BfflW
QRAKD PRIX
Exposição Internacional de.S. Luú em 1901
MEDALHA DE OURO
ExposicSo do Palacio de Crystal de.Londres em 4904
A LEITURA ILLUSTRADA
Revista quinzenal —96 paq. cheias de gravuras
A Rainha das aguas de meza 200 RÉIS
Assigna-ae na

Leve, estomacal e digestiva, pura, limpida k ANTIGA CASA BERTRAND — JOSÉ BASTOS

0 acido carbonlco não é introduzido artlflclalmente -JAtI R- Garrétt, 73 e 7o —Lisboa

Recommendada por todos os médicos

DEPOSITO GERAL
106, AVENIDA DA LIBERDADE, 110
LISBOA
C. MAHONY & AMARAL
70, Rua Augusta. ã.° — IjISBOA
TELEPHONE 586
METAES EM BRUTO: Aço, cobre, latào, estanho, chumbo em chapa, bar­
ras lingots.
FERRO: Em barras quadradas, redondas e vergalhào. Vigamento de ferro

♦ MEMÓRIA SOBRE A ILHA TERCEIRA em TIU; cantoneiras e todos os mais aprestos para construcções. Ferro em
lingots para fundição. Chapas galvanisadas lisas e onduladas Chapas de aço
' por Alfredo da Silva Sampaio » para caldeiras. Tubos de ferro, cobre e latão. Araine de ferro, cobre « latào.
Folha de Flandres. Material fixo e circulante para caminhos de ferro. Rails de
Af Angra do Heroísmo, 1904. 8.° gr — XI — 833 paginas aço e diversos perfis e pesos, vias portáteis. Machinas de vapor, gaz e petio-
M 2 $500 RÉIS leo. Caldeiras. Boinbas. Machinas para industrias e agricultura. Machinas. Fer­
•- ramentas. Vidros polidos, foscos e de phantasia. Vidraça, lages de vidro (dalles).
Bi I A’ venda na \&
4 Assucar, arroz, especiarias, drogas, productos chimicos. Ascensores hydraulieos,
4 ANTIGA CASA BERTRAND JOSÉ BASTOS í í Edoux & C.‘
CIMENTO
Rua Onrrett, 73 f. 73 — Li
*bon ,|s Únicos importadores em Portugal e colonias do CIMENTO da Cotnpagnie
4 ®»,
a.
* des Cnnents Parisiens, fabricado pelo notável engenheiro E. CANDLOT.
Fabrica de sabão — Telhai (Poço do Bispo)
4
Fabrica da licores, aguardente, genebra e cognacs — TELHAI (POÇO 00 BISPO)
Typ. d' >A Editora» — Litboa

DRaC-CCA
do espinheiro e a lanceolada da murta imprimiam um tom
agudo e vibratil a paizagem. Na phrase dum poeta terceirense
ouviam se:
Mugindo, os mattos te abalam
Bravos touros musculosos,
E teus cavallos formosos
Lume dos olhos exhalam.

Nas manadas travara-se um duello.


Os abegões e vaqueiros, como homens, espelham-se nos
combates de touros, que elles travam frequentemente entre
si. Quando dois touros pelejam nas campinas, as outras rezes
formam um circulo, assistindo todos quedos, attentos, alguns
absortos, ao curioso espectaculo. A rez fraca ou infeiiz, que
ficou vencida no combate, apressa-se a fugir, solitaria e ve­
lozmente, para não ser apupada, escarnecida e espancada
por uma floresta d'armas fabricadas com os galhos dos cruéis
espectadores. Ao contrario, a rez triumphadora permanece
com serena altaneria a receber as mesuras c os çalamale-
ques de cumprimentadores tão pouco generosos.
Similhante procedimento parece mais humano que bo­
vino. Os animaes conhecem a covardia, mas desconhecem a
inveja.
Só o homem é invejoso, só elle sente contentamento com
a dor alheia e desgosto com as alegrias do proximo. Os
animaes, ao contrario, compadecem-se do soffrimento do seu
similhante, acercam-se d'elle como para o consolar.
O duque e o seu séquito fizeram varias perguntas aos
zagaes, ao maioral, exercendo a sua critica sobre a pugna,
a que acabavam de assistir. Viram objectivamente que Eso-
po, Phedro e Lafontaine, ensinando a moral por fabulas,
Ilha Terceira. — Uma paysagem tinham razão.

N. 44 345

DRaC-CCA
Não obstante a conversa ser erudita, o lavrador de barrete soli- sonoro. As rezes novas soltam do fundo innocente da sua dòr
deo, com adornos escarlates á guisa d’orelhas, comprehendeu que, gemidos agudos, estridulos; as rezes velhas, com os olhos can-
depois do duello, a reputação das suas manadas não ficara em bom çacos de tanto ver, gastos de tanto lidar, embaciados de magoa,
terreno. Picado de pundonor mandou immediatamente a um pe­ emittem sons graves e dolentes. Dos seus grandes olhos meigos
gureiro matar uma rez no sitio, onde se dera o combate singular, caem lagrimas que lhes sulcam a angustiada fronte de fitas de se-
para que o Duque e a sua comitiva assistissem ao curioso es- tim negro. Nunca mais verão a puxar á charrua nem a pastar na
pectaculo do fazer do pranto, no qual sempre as suas manadas relva a que cahiu prostrada pela morte. Acompanhadas pelo sibi­
mostravam clamorosamente óptima indole. O quadro ia desen­ lar do vento na clareira da floresta, soluçam e gemem lugubrcs
rolar-se. nenias, como outrora as entoavam os antigos druidas do paga­
Quando o boi se affirma mais espontâneo, do que o homem, nismo celtico. Os de pellagem branca, similhando o arminho, pa­
é esse facto que os boeiros da ilha Terceira, poeticamente cha­ recem sacerdotes d’essa poética idolatria da vetusta Galiia, mur­
mam fa\er o pranto. Logo que uma rez morre, as outras reu- murando hieráticos hymnos. Outros negros, malhados de branco,
nem-se em volta do cadaver a fazer o pranto, e cada uma como recordam o eleito boi Apis da zoolatria egypcia, recebendo culto
carpideira sincera faz fervoroso nos templos
sentir o seu gemido pharaonicos do alto Ni­
rfaquelle côro funerá­ lo. Apis, segundo o
rio. Choram mais duma mytho grego, era filho
hora a triste socia mor­ de Niobe, governou com
ta. Esse mugir plan­ tanta doçura que o povo
gente e fúnebre, como o teve na conta d’um
dobre de finados, chora deus, adorando-o de­
o companheiro da in­ baixo da figura d um
fância. boi. porque na occa-
O mugir modifica-se sião, em que Júpiter
segundo o animal é agi • desbaratou os antigos
tado pela cólera, pelo deuses, elle escapara
amor ou pelo soffri- assim transformado.
mento, sendo ora rou O céo dos pastos
co, ora terno, ora plan • terceirenses cobrira-se
gente. Na vacca c no de crepes n'esse dia
boi o mugir é velado, nublado, gottejando
emquanto no touro é Angra. — Salão nobre da Camada Municipal pranto, e nos ares pas-

DRaC-CCA
savam, adejando em bando silenciosamente, os priolos, as alve- essas exequias se celebraram, tinha por vasta cupula o azul do
loas, os estorninhos e as toutinegras, deixando apenas ouvir o ba­ céo e por amplas naves as altas collinas sulcadas de valles. Nos
ter das azas. Ao longe ouvia-se o latir sinistro d’alguns cães de declives destacava-se a côr alvacenta do mofedo, as rampas e ta­
guarda, e o sussurro do faial era como um côro de finados. Uma ludes avermelhados de bagacina, lembrando montes esparsos de
nuvem pardacenta como manto funerário envolvia aquelle lugubre sarro de vinho.
recinto, aljofrando a relva e as urzes e misturando o seu orvalho As rezes teem o instincto do escuro problema da morte. Todos
com as lagrimas sinceras das enlutadas rezes. A deusa Bubona,
protectora das manadas, no pantheon romano, certamente não fi­
cou insensível a tamanha dor.
Havia uns touros enormes que lembravam as figuras sym-
bolicas dos palacios assyricos, outros elegantes como a tela de
Potter do museu de Haya, alguns de linhas correctas, parecendo
a celebre esculptura em mármore do touro de Farneso. Bello as­
sumpto para um quadro de cunho mais original, que os Bois indo
para o trabalho, de Trogon. Este famoso quadro existe no museu
do •Luxemburgo. E’ tela de grandeza e de simplicidade magistral.
Desponta a claridade matutina, caem gottas d'orvalho e passam
curvados, pesadamente, quatro AriÕes jungidos para a lavoura,
lançando pelas narinas jactos de bafo que o frio condensa em pe­
quenos nevoeiros, formando caprichosas espiraes n’uma paisagem
de frescura matinal. O lavrador segue-os.
Era uma verdadeira elegia bucólica que só um estro vergi-
iiano, resurgido na Terceira, poderia repetir. O quadro que fica
esboçado não tem firmeza nas linhas nem esplendor nas tintas.
Vale por tremido escorço.
Como enxame de abelhas que sae d uma colmeia, a manada
deixa o cadaver, vae-se afastando e dispersando melancholica-
mente, uma a uma, duas a duas, em surda angustia, levando nos
grandes olhos, ellipticas clarabóias do seu cerebro, estampado o
dó e a lastima.
Esta commovedora scena representada pelo instincto bovino,
exprime o profundo arcano da morte. O augusto templo, onde Angra. — Egreja do Collegio

DRaC-CCA
os seres vivos estão ligados por cadeias de ouro, tecidas por mão Manuel Gonçalves de Miranda recordava lições da Universi­
mysteriosa, provando que o universo é um incomprehensivel poema, dade de Coimbra, das faculdades de Philosophia e de Mathema-
cujo poeta é Deus. tica, nas quaes era bacharel formado.
Existe no seio da immensidade um grão de areia que se chama O capitão de ordenanças e o tenente de milícias citavam, sobre
a terra: semeou a um grande semeador com a sua mão potente. o pranto bovino, idênticos factos a que haviam assistido. Se uma
Nada sabemos de positivo nem sobre a origem, nem sobre o des­ rez caia n’um algar despedaçada, o pastor era avisado pelo/hçer
tino das suas creaturas. Só a fé o sabe. do pranto das outras, postadas á beira do algar, ululantes, como
A zoopsychologia, estudada na philosophia moderna, podia con­ á beira d’um ataúde sem fundo.
tribuir para a resolução do universal problema da morte. O imperador, que sentia na alma o fél da ingratidão, o travo
A comitiva do Duque permaneceu vivamente interessada em do desalento e o acre sabor dos desenganos, disse para os inter­
tão inesperado espectaculo. Em vez de caçarem galinholas e co- locutores:— As manadas deram-me uma inesperada lição de phi­
dernizes, vieram para uma caça de idéas. O boi é o symbolo do losophia. Comprehendi agora que a vida do homem consiste como
trabalho pacifico. a do boi, em adular os vencedores, rir dos vencidos e chorar os
Os condiscípulos de S. Thomaz d’Aquino chamavam-lhe o boi mortos. Em que se distingue a especie humana dos outros ani-
mudo, porque estudava muito e silenciosamente. Os de Bossuet maes ? Unicamente no sentimento religioso. O homem sem a crença
no collegio dos jesuítas de Dijon, chamavam-lhe por egual motivo immortal no além, é um boi inconsciente, que puxa a canga da
boi aratro assuetus: boi atrelado á charrua. vida sob o aguilhão dos instinctos.

Dr. Ferreira Deusdado.

DRaC-CCA
NA ILHA TERCEIRA
As toiradas á corda

a estação primaveril com o seu bello sol peninsular, tão sua- tensa serie de casas, tendo na fachada exterior uns graciosos bal­
vemente temperado n’esta região portugueza, vem iniciar em cões, que se ostentam cheios das mais bellas terceirenses nas tar­
cada anno a quadra de suas diversões festivas, ali apreciadas ge­ des destinadas á celebre diversão. Não nos deteremos a encarecer
ralmente n’um verdadeiro culto pelos usos e pela tradição local. o que haja de originalmente pittoresco na estructura d’este singu­
De diversa ordem são as manifestações do genio alegremente lar torneio, a cujo conjuncto a mocidade indígena e ainda o con­
folgasão d este bom povo, que sabe divertir-se na expansão de sua curso dos forasteiros, que temporariamente por alli estacionam,
mocidade despreoccupada sem jamais dar ensejo á intervenção da
auctoridade, a quem cumpre fazer respeitar a lei.
D'entre ellas daremos preferencia a uma, cuja feição caracte-
ristica constitue um atractivo exclusivo d’esta região insular.
E’ das toiradas á corda, que vamos fallar, procurando dar aos
leitores, desconhecedores do assumpto, a impressão exacta d’essa
extraordinaria festa, que, ha annos, nos cauzou a mais extranha
surpreza.
Não julguem v. ex.as que lhes vamos fallar da belleza mais
ou menos phantastica d’uma praça modelar, onde em vistosos ca­
marotes brilhem em todo o esplendor de seus attractivos as'gra­
ciosas filhas d'esta heroica e leal cidade, nem dos logares de som­
bra e sol, repletos de afficcionados d’este ramo de sport insular.
Não, senhores, não vamos, por que d isso não carecemos. O que
lhes podemos, porém, assegurar é que, a praça de toiros serán’este
caso excedida pela originalidade imprevista com que duma sim­
ples estrada publica se faz a indispensável arena, onde tem logar
a tradicional toirada.
Ao longo d’essa estrada, d’um e outro lado estende-se uma ex­ Ilha Terceira. — Aspecto dTma toirada

349

DRaC-CCA
Ilha Terceira. —Uma toirada á corda

35o

DRaC-CCA
prestam sempre a ho­ cm meio da sua afa­
menagem da sua com­ nosa missão, — acom­
parência. — Do toiril, panhar, correndo, o
proximamente colloca- valente animal, ou,
do, sahe em carreira quando este retrocede
veloz, dado o compe­ e corre á desfilada,
tente signal de alarme, tropeçar, cahir e quan­
um cornupeto por ve­ do menos, sentir os
zes airoso, e bem ta­ calafrios dum boléu
lhado, e com elle se em perspectiva.
dá principio á lide, não N'estes lances de
descripta nem com- occasião, aliás frequen­
prehendida sequer nos tes, offerecem-se aos
tratados do toireio, en­ olhos da multidão es-
tre nós. pectante, sem risco e
Tendo já fallado da sem cuidados, as si­
arena, e dos toiros, tuações mais engraça­
resta-nos falar dos ar­ Ilha Terceira. — Toirada á corda das, e todas de molde
tistas, o que não si­ a fazer explodir a gar­
gnifica menos consideração por uma classe, que, em Hespanha, galhada franca e espontânea. O trambulhão inesperado d’este, a
sede da tauromachia, tem logar proeminente, deixando tão so­ desordenada fuga d’aquelle e a insania geral doutros, que buscam
mente de fazcl-o mais cedo para não offendermos a reconhecida guarida onde de modo algum a poderiam obter, tudo concorre
modéstia d'esses alentados mocetões que alli convergem das al­ para dar ao recinto o aspecto hilariante, que, só de per si, faria o
deias próximas, sem a preoccupação da farpa, dos ferros curtos, elogio retumbante de tal genero de diversão.
da muleta ou do capote, mas tão somente para tomar parte na Tentamos dar uma idéa approximada d’este singular e cara-
diversão, segurando o logar que lhe cabe na immensa corda, que cteristico divertimento, que na ilha Terceira deve considerar-se o
o animal traz presa ás hastes, ou, por seu turno, incital-o, segundo primeiro entre os mais queridos de seus habitantes, sempre ávidos
os preceitos d essa original lide, não contida nos tratados especiaes de goso e de aprasiveis momentos.
do genero. Pelo que respeita á definição exacta da toirada á corda, diz-nos
O seu trabalho, não sem certo risco ás vezes, seria certamente a consciência que nos mantivemos na estricta linha da veracidade,
inglorio se, a compensal-o, não houvera para elles a sorridente advertindo-nos ella, em seu veredictum, que, ao fazer-se referen­
imagem das suas apaixonadas, cuja presença os fortalece, e anima cia a esta formosa capital açoriana, se impõe a necessidade de fa­

DRaC-CCA
lar d’esta sua diversão tão querida, cuja existência actual repre­ expresso fallando, ou escrevendo, á mingua de palavras que inter­
senta certamente um preito devido á tradição e uso secular alli pretem os lances inesperados d esse espectaculo.
tão intimamente arreigado. Sendo certo, como nos parece, que este passatempo, é exclu­
Deixamos, porém, ao leitor a inteira liberdade de exercer so­ sivo da bella ilha Terceira, não será talvez descabida a supposi-
bre o que deixamos exposto a judiciosa critica d’este singular genero ção de que ahi o deixasse o genio e a indole castelhana, durante
de sport, cujo effeito é muito mais para a vista, do que para ser a sua permanência, aliás demorada, líesta região portugueza.

Lisboa — Agosto de 1906.


Bourbon e Menezes.

<3~5

352

DRaC-CCA
FASCÍCULO TN7 44

DRaC-ÇCA
LOMBADAS
OBAND prjx
Exposição Internacional de S. Luiz em 1904 MAGAZINE BERTRAND
/3

BI
MEDALHA DE OURO
Exposição do 1’alacio de Cryslal de Londres em 1904 i
A LEITURA ILLUSTRADA

i lainha das aguas de meza Revista quinzenal — 96 pag. cheias de gravuras


200 RÉIS
■ Assigna-se na
Leve, estomacal e digestiva, pura, limpida k ANTIGA CASA BERTRAND — JOSÉ BASTOS
R- Garrett, 73 e 7o —Lisboa
0 acido carbonico não é introduzido artiílcialmente

Recommendada por todos os médicos

DEPOSITO GERAL
106, AVENIDA DA LIBERDADE, 110 C. MAHONY & AMARAL
LISBOA
70, Rua Augusta. 3."—
TELEPHONE 586
WWWWWWWW WWW wwwwwwwwww METAES EM BRUTO: Aço, cobre, latão, estanho, chumbo em chapa, bar­
ras lingots.
FERRO: Em barras quadradas, redondas e vergalhào. Vigamcnto de ferro

MEMÓRIA SOBRE A ILHA TERCEIRA w ®w


em Tl Ui cantoneiras e todos os inais aprestos para eonstrueções. Ferro em
i lingots para fundição. Chapas galvanisadas lisas e onduladas. Chapas de aço
para caldeiras. Tubos de ferro, cobre e latão. Arame de ferro, cobre e latão.
vor Alfredo da Silva Sampaio Folha de Flandres. Material fixo c circulante para caminhos de ferro. Rails dc
Angra do Heroísmo, 1904. 8.° gr. — XI — 833 paginas
aço e diversos perfis e pesos, vias portáteis. Machinas de vapor, gaz c petró­
leo. Caldeiras. Rombas. Machinas para industrias e agricultura. Machinas. Fer­
2$5OO RÉIS ramentas. Vidros polidos, foscos e de phantasia. Vidraça, lages de vidro (dalles)
A' venda na
Assuear, arroz, especiarias, drogas, productos chimicos. Ascensores hydraulicos.

i i ANTIGA CASA JOSÉ BASTOS B


BERTRAND -Littboa
Rua Garrett, 73 e 7ã Litiboa e 7.5 —
Edoux & C.*
CI M E K T Q
Únicos importadores em Portugal e colonias do CIMENTO da Compagnie
des Cnnents Parisiens, fabricado pelo notável engenheiro E. CANDLOT.
Tf. WWW
WW -y. X X W
X W
XXWW
XW XXW
X WW XW
XW XW
X. w
X ww Xw
X- X w Xw
X Fabrica de sabão — Telbal (Poço do Bispo'
Fabrica da licores aguardente, genebra e cognacs — TELHAI (POÇO DO BISPO)

Typ. d'eA — Lisboa

DRaC-CCA
BARAO DO RAMALHO
enho na verdade grande satis­ levei a cabo. O sr. Antonio da Fonseca Carvão Paim da Camara, se­
T fação em escrever algumas no­ gundo barão do Ramalho (1865), nasceu em Angra do Heroismoem
tas ácerca do illustre terceirense 18 de setembro de 1836, isto é, vae fazer 70 annos. Fidalgo pelo nas­
sr. barão do Ramalho, a quem me cimento, filho do morgado Antonio Thomé da Fonseca Carvão Paim
prendem antigos laços de sympa- da Camara e de D. Maria Isabel
thia, de consideração e de amisade, Leopoldina de Ornellas Bruges
inalteravelmente mantidos ha mais Avila Paim da Camara e Noro­
de trinta annos e tendo eu tidoocca- nha, da nobilíssima casa de Santa
sião de bem conhecer os seus ele­ Luzia, irmã do grande cidadão e
vados dotes de espirito e de cara- glorioso patriota o 1.° visconde
de Bruges e i.° conde da Praia da
racter em estreita cordealdade de Victoria, conselheiro Theotonio
relações em época, que vae longe, d Ornellas Bruges, e por seus
em que s. ex.a exercia altas func- avós intimamente ligado com a
çÕes administrativas no districto não menos nobre familia do mor­
de Angra do Heroísmo e era uma gado José de Sieuve Lemos e
das personalidades mais em evi­ Carvalho, hoje representado pelo
dencia e eu, político militante c sr. conde de Sieuve de Menezes,
jornalista, um pouco clubista, oc- o sr. barão do Ramalho, douto­
cupando como um modesto sol­ rou-se em sciencias naturaes na
dado os postos avançados do libe­ Universidade de Bruxellas, foi de­
ralismo açoriano, numa lucta, de putado da nação, governador civil Dr. Antonio Carvão

que me não arrependo, antes me dos districtos de Angra do He­


desvaneço, porque alguma cousa roísmo e de Ponta Delgada, presidente da camara municipal, do con­
se ganhou para os princípios e selho de districto e da antiga junta geral d’Angra do Heroísmo e tem
muito para a tradicção liberal da desempenhado muitas e importantes commissões de serviço publico
Terceira, na ardua e por vezes ar­ na terra da sua naturalidade. Por muitos annos foi redactor princi­
riscada campanha que iniciei e Barão do Ramalho pal do jornal A Terceira, orgão do partido regenerador do districto.

N.° 45 353

DRaC-CCA
depois, têm outra educação, outras ideias, outros processos, outros
objectivos, perderam a linha, deixaram-se avassalar pelo individua­
Intelligente e illustrado, o sr. barão do Ramalho, que, nc rela­ lismo e pelo utilitarismo, dando frequentemente mais razão ás conve­
tivamente largo periodo da sua actividade política, conservou com niências do que aos princípios, embora quebrando as tradicções ou es­
notável constância a forte impressão da sua educação na Bélgica, quecendo os exemplos antigos. Comprehende-se assim que o sr. ba­
é um espirito esclarecido, estudioso, de um critério seguro, com rão do Ramalho, um dos últimos representantes da gentilhommerie
fortes inclinações liberaes, de conselho avisado e prudente, foi, açoriana, tenha preferido isolar-se e esquecer-se. No entretanto, a
menos por indole, temperamento e educação do que pela influencia sua distincta individualidade, que a muitos talvez pareça como
do meio, no seu tempo e na sua geração, o typo do conservador apagada, quanto a mim, que estou longe, mas vendo serenamente
liberal belga da velha escola e foi a isso talvez que deveu princi­ os factos e ponderando bem as circumstancias, conserva intactas
palmente a sua retirada da vida política e ter-se restringido ao as suas grandes linhas caracteristicas, sendo o que sempre foi na
exercício das funcçÕes de empregado superior da alfandega, alheian- firmeza dos seus princípios, na elevação do seu espirito e na energia
do-se completamente a tudo o que a ellas e honestidade dos seus sentimentos.
não importasse, e isso ainda assim quanto
possível menos intensamente. Vivendoqua- *
si isolado, no conforto do seu lar, que a fa­
talidade mais duma vez tem ennublado, — O sr. barão do Ramalho casou (i863)
a perda de sua estremecida esposa e de seu com a ex.ma sr.a D. Maria Domitilia de Bet-
genro e o desapparecimento de outros pa­ tencourt Teixeira de Sampayo de Almeida
rentes e amigos muito queridos, — o sr. ba­ Monjardino, pertencente por sua mãe á
rão do Ramalho vive n uma completa in- illustre casa da Madre de Deus (Betten-
differença, pelo menos apparente, a tudo court Vasconcellos e Lemos) que por seu
e a todos. Estamos certos, comtudo, de turno se achava ligada a outra distincta
que no intimo, elle terá horas desolado­ família, a dos Teixeira Sampayo, (barões
ras, de saudade pelo passado e de desil- de Sampayo, condes da Povoa e viscon­
lusão e desconforto pelo presente. Dos ho­ des do Cartaxo). D’este casamento houve
mens do seu tempo, seus primos os con­ dois filhos: — o sr. Antonio da Fon­
des da Praia da Victoria e de Sieuve de seca Carvão Paim da Camara, bacharel
Menezes e Manuel Homem de Noronha e formado em direito, antigo governador ci­
outros amigos e companheiros de infancia, vil do districto de Angra do Heroísmo,
quasi todos desappareceram. A sua gera­ e a ex.ma sr.a D. Maria Guiomar da
ção pode dizer-se extincta. Os que vieram Residência do Barão do Ramalho Fonseca Carvão Paim da Camara, hoje

354

DRaC-CCA
viuva de seu primo o sr. Jacome de Bruges Ornellas Avila Paim rém, a que, apesar de novo, pois nasceu em 18(54, já tem vivido
da Camara, filho dos segundos condes da Praia da Victoria. O e experimentado bastante para conhecer os homens da sua geração
sr. bacharel Antonio da Fonseca—que me acostumei a estimar e da sua terra e que não será preciso muito tempo para reconhecer
desde muito novo, tendo sido meu discípulo — tem apreciáveis praticamente a rasão que teve seu pae para. . . isolar-se e esque­
qualidades pessoaes e não menos distinctos dotes de caracter. cer-se.
Desejo e quero testemunhar-lhe aqui a sympathia que me inspirou
a sua firmeza n’uma das mais difficeis conjuncturas da sua vida Lisboa, agosto igoõ.
official como primeira authoridade do districto. Inclinamo-nos, po­ Augusto Ribeiro.

355

DRaC-CCA
O PADRE ROGÉRIO
galeria das proeminentes figuras, que hon­ predominante era a espontaneidade. Os seus mais
A raram a terra açoriana por distinctas quali­ famosos discursos foram menos o resultado d’um
dades, ficaria incompleta se lhe faltasse o meda­ reflexionado plano, demoradamente disposto no
lhão do conego honorario Francisco Rogério da silencio do seu presbyterio, do que a consequên­
Costa, vigário da freguezia de Nossa Senhora da cia imprevista d uma circumstancia d occasião que
Conceição, da cidade de Angra. lhe despertava o genio e o guindava ás culminân­
Foi tão intensa, tão poderosa e tão singular cias da inspiração.
a acção da sua palavra nos púlpitos das igrejas Duma causticidade crudelíssima para a impie­
das duas mais importantes ilhas do archipelago, dade, brilhava-lhe nos olhos um raio d'alegria
que seria não só injustiça, mas até falta de probi­ intensa e brotava-lhe a palavra em vibrações d'um
dade histórica, delir o seu nome da lista d’honra zelo de fogo toda a vez que se defrontava com um
das glorias açorianas. erro ou preconceito dos inimigos da sua fé. Nas­
O nome do padre Rogério está ainda tão vivo sas occasioes os ouvintes esqueciam-se das horas
na memória de todos e os triumphos da sua privi­ e saboreavam em delicioso extase a impetuosa
legiada palavra são ainda de tal maneira lembra­ corrente dhdeias provocada por uma argumenta­
dos, que ninguém dirá que são já decorridos cerca ção, ora grave ora chistosa, que o padre Rogério
de dezoito annos, depois que a morte o roubou sabia formular com tamanha arte e graça tal que
ao púlpito por elle tão notavelmente nobilitado. O padre Rogério até os proprios alvejados o acclamavam.
Parece reboar ainda o ecco da sua voz pela nave Foi artista da palavra por natureza e lutador da
dos nossos templos, cujos recintos nem sempre bastavam para ideia por missão. Aquelle dote natural valeu-lhe o amor e a admi­
conter os auditórios nunca saciados de o ouvir. ração dos seus contemporâneos e por elle soube alcançar o respeito
Singelo e espontâneo, actual e individualista, imaginoso e inte­ e o culto para os elevados princípios da religião, em que consti­
ressante nas criações, impressionista e communicativo, fugindo ás tuirá o seu nobre e formoso ideial, combatendo por elle até á morte.
generalidades que fatigam o gosto e aos logares communs que o A memória do padre Rogério viverá por largo tempo entre nós;
embotam, tal deve ser o orador para alcançar popularidade e o fructo das suas licçÕes ainda opera no espirito dos que invocam
manter em prestigiosa consideração o seu ministério. o seu nome saudoso.
E o padre Rogério foi assim. N’elle, todavia, a caracteristica Conego Chistiano.

356

DRaC-CCA
COSTUMES AÇORIANOS h

Festas do Espirito Santo

um acto de devoção para com a Terceira Pessoa da San­ Ajoelhado o pobre no rico cochim, destinado a D. Diniz, o
E tíssima Trindade, e hoje especial das ilhas dos Açores. celebrante tomou a coroa real de cima da credencia, e collocando-
Iha na cabeça cantou o hymnoVeni Creator Spiritus. O pobre e
Na colonia açoriana da America do Norte e ilhas de Sandwich,
também se tem desenvolvido essa devoção tão querida dos filhos humilde imperante assim assistiu á missa, levando na sua própria
dos Açores, e por elles alli implantada. cabeça a coroa real para o paço, onde lhe foi offerecido um ban­
Antes de descrevermos a Coroação do Espirito Santo, diremos quete, servindo á mesa a rainha de Portugal.
aos leitores a origem d’esse tão popular acto, que enche de jubilo
religioso as famílias que o exercem.
Parece que sendo especialidade dos Açores as festas do Espi­
rito Santo, e desconhecidas em Portugal, alli deviam ter o seu
inicio. Não é assim.
Foi no tempo de D. Diniz. A instancias de sua esposa a rainha
D. Izabel, acquiesceu o monarcha ao exercício de um acto de hu­
mildade que ella se lembrou de praticar.
Estava-se proximo do domingo de Pentecostes; a rainha santa
pedira a seu augusto esposo para n’esse dia ser procurado, na
capella real de Coimbra, o indivíduo mais pobre que alli se achasse
para ser conduzido a tomar logar no banco real onde El-Rei lhe
serviria de condestavel e de pagens os cavalieiros da sua côrte.
A' hora de tercia, subiu ao altar mór da Sé de Coimbra o
bispo da diocese, para celebrar missa a que assistiram os augustos
imperantes. Em seguida, dirigido pelo mestre-sala do paço, subia
os degraus da capella um pobre andrajoso e de pés desnudados,
que foi tomar logar na cadeira real que o monarcha desoccupou,
ficando este de pé e tomando o logar de condestavel. Festas do Espirito Santo. — O cortejo

DRaC-CCA
quatro aros que no alto, ponto de juncção, têm uma cruz ou pom-
ba ; e na frente, abaixo, e em direcção d’onde parte um dos aros
têm uma pomba, e em opposição, collocado um laço de larga fita,
cujas pontas caem sobre as costas, quando a corôa é collocada na
cabeça.
*
* *

Costumados os póvos a esses actos de devoção particular pelos


ricos, que exerciam sob o pretexto de festas ao Divino Espirito
Santo, actos generosos de caridade, a impressão naturalmente que
lhes ficava, erà de grande respeito e especial devoção para com o
Emblema que representava a maior devoção dos poderosos, e com
o respeito e veneração a estes, desenvolvia-se a maior devoção para
com a Pessoa da Santíssima Trindade, a que elles tamanho culto
prestavam.
Na ilha de S. Miguel, na noute de 21 para 22 de outubro de
1522 a primitiva Villa Franca do Campo, em consequência de dois
Festas do Espirito Santo. — Distribuição
>
de esmolas
violentos e successivos terramotos, foi arrasada pelo deslocamento
das coroas de dois montes, Louriçal e Rabaçal, sepultando por
Foi tal a sensação produzida por esse acto de tanta humildade, completo os seus magestosos templos, edifícios e população !
que immediatamente os fidalgos pediram ao seu real amo para Em presença de tão grandioso cataclismo, todas as preces e
egualmente o praticarem em pobres da sua escolha. promessas foram dirigidas ao Divino Espirito Santo.
Essa petição teve deferimento, e permittiu-lhes El-Rei o man­ Todas as ilhas se emocionaram com tal noticia, e os fidalgos
darem fazer uma coroa, semelhante á portugueza, que n’esse tempo cedendo ao pedido do povo emprestavam-lhe as suas coroas, que
tinha só um aro e na frente um medalhão, onde se devia esculpir este collocava em pequenos estrados cobenos de suas melhores
o grupo da Santissma Trindade, para poder receber bênção da colchas e que fizeram erguer em altar no campo, reunindo-se em
egreja e que se passaria a chamar: Corôa Real do Divino Espirito volta, implorando a misericórdia do Divino Paraclito, rogando os
Santo. livrasse dos terramotos, que faziam recear o desapparecimento
Os primeiros donatários das ilhas dos Açores, fidalgos da casa das ilhas açoreanas.
real, que foram os seus primeiros povoadores, é que trouxeram Naturalmente vulcânicas estas ilhas, varias teem sido as epo-
d’estas coroas. As de hoje já não são eguaes ás de então, tendo chas da agitação produzida pelos tremores de terra. Assim, suc-

35S

DRaC-CCA
cessivamente augmentavam as supplicas e devoção para com o 7 bilhetes em que estão escriptos desde o i.° ao 7.0 domingo, que
Divino Espirito Santo. tantos são os de Pentecostes, isto para os impérios que teem de
Aos estrados de madeira, seguiram-se as capelias feitas em fazer o festejo n’aquelle domingo; e mais um 8.° para os que o
pequenas casas, ou pequeninas ermidas, com um altar onde é col- hão de fazer no domingo da Trindade; os restantes bilhetes são
locada a Coroa ; e assim, na ilha Terceira, ha actualmente fregue- em branco.
zias que teem 6 e 7 impérios, como chamam a essas casas ou er­ Procede-se ao sorteio, e o nome que tira o i.° domingo é o
midas, tendo cada uma a sua corôa de prata, que é sorteada pelos que leva a corôa n’esse dia, e a terá em casa todo o anno, tendo
membros da irmandade. de a entregar no anno seguinte, n’esse domingo, ao imperador do
Todos os Irmãos de cada Império, e ha-os que são de 3 e 4, 2.0, d'onde sahirá para o do 3.° e assim seguidamente.
pagam annualmente a sua quota, ordinariamente quinhentos réis Os premiados estão isentos da quota; os demais, além de não
fortes, e além d'isso pede-se geralmente esmola aos habitantes, que terem o gosto de lhes sahir a corôa teem de pagar a quota.
conforme os seus haveres contribuem, sendo o producto para dis­ O irmão que fôr contemplado com a corôa, arma-lhe um lindo
tribuição de pão e carne aos pobres. Essas esmolas são dispostas
em mesas, que occupam as ruas cuja area pertence ao Império.
Conforme os donativos colhidos varia o numero de esmolas de
trezentas a oitocentas e mil, para o que faz abater cada Império
de 4 a 8 rezes.
O acompanhamento é composto de todas as pessoas que con­
tribuíram com esmolas para a festa, e que recebem um pão doce
ou rosquilha, ao deporem a tocha com que se incorporaram no
préstito, algo imponente, acompanhado por uma philarmonica.
Estas festas fazem-se no domingo de Pentecostes e da Trindade,
havendo além da distribuição de esmolas, fogo de artificio, illumi-
nações e musica.
Sóbe a mais de trinta contos de réis o movimento produzido
pelos populares festejos.
*
* *

Como dissemos, cada Império tem a sua irmandade, composta


de homens, mulheres e creanças. A corôa é sorteada, entrando
n uma urna, em bilhetes, os nomes dos Irmãos, e n’outra entram Festas oo Espirito Santo. — CoroacÁo

DRaC-CCA
Ordinariamente são distribuídas esmolas de pão e carne aos
pobres.
As coroações do Espirito Santo nas freguezias do campo, são
obrigações para todos a quem sae a sorte de terem a Corôa.
Alli, é que a usança é inalterável. Não ha irmandades nem se
dão esmolas por conta do Império.
Entram em sorte os 7 domingos, incluindo o da Trindade, e
os nomes são os das pessoas que por devoção ou promessa que­
rem tirar pelouro.
Nunca falta quem queira sujeitar-se ás grandes despesas de
uma coroação para ter o Senhor Espirito Santo oito dias em casa.
Os que teem de pagar promessa levam annos á espera que a sorte
os contemple.
Ricos ou pobres, todos teem os mesmos deveres a cumprir.
Hão de matar um bezerro, para dar esmolas no dia da coroação,
e farto jantar aos parentes e conhecidos.
Era um sacrilégio não ir á egreja coroar. Leva-se o anno a
fazer economias, a preparar para aquelle dia.
Festas do Espirito Santo. — Os bezerros A musica é substituída por foliões, 3 homens com opas de
chita encarnada e que a custo arrastam uns sapatos, levando um
altar cheio de luzes e flores, e durante a semana as pes­ tambor, bandeira e pandeiro.
soas de suas relações reunem-se á noute para cantarem o ter­ Esses pobres homens são quem tudo manda. Nada se move,
ço, findo o qual, dança-se, baila-se e jogam-se uns jogos de pren­ nada, sem a ordem que elles dão por cantigas a toque de tam­
das. bor.
Na cidade )á são pouco usadas as coroações, mas quem leva a Durante a semana os rapagões com as suas galochas, o seu
rigor a devoção ou tem promessa de coroar, vae no domingo com chaile por cima dos hombros, empunhando compridos varapaus,
o seu acompanhamento, levando tochas, á egreja, assistir á missa, acompanham as robustas e alegres moçoilas ao terço, á noite.
no fim da qual o sacerdote pega na corôa e colloca-a na cabeça A alegria reina em todos os semblantes, e os jogos e bailaricos
do Imperador, cantando o Ueni Crentes Spiritus. completam a satisfação.
Regressando a casa é distribuída aos convidados uma offerta, As casas, de ordinário pequenas, empilham-se de gente, e nin­
pão doce ou rosquilha, e segue cada um para sua habitação, ha­ guém se acha com calor, nem incommodado!
vendo o jantar intimo, animado e cheio de alegria. A semana é de um trabalho aturadíssimo. Os donos da casa

36o

DRaC-CCA
EASCICII -O TV.‘ 45

DRaC-CCA
LOMBADAS
GRÁND PRIX
I 1! MAGAZINE BETONE jfill
lill
MEDALHA DE OURO 1^---- -----------
!/;KZ®58íf a | FIT1IRA II I IIRTRARA
A LEITURA ILLUSTRADA
Revista quinzenal —96 paq. cheias de gravuras
lill
ft Rainha das aguas de meza 200 RÉIS lill
lill
Leve, estomacal e digestiva, pura, limpida ANTIGA CASA BERTRAND —JOSÉ BASTOS lill
§4>i- R. Garrett, 73 e 75 - List oa
0 acido carbonlco não é introduzido artificialmente

Recommendada por todos os médicos

DEPOSITO GERAL
106, AVENIDA DA LIBERDADE, 110 C. MAHONY & AMARAL
XXSBOA
70, Rua A.iiafiiwta., s3.°— LISBOA
TKLEPHONE 586
1 ♦ I X m E ♦ :< 1 1 ♦ 1 ♦ >::< ♦ METAES EM BRUTO: Aço, cobre, latão, estanho, chumbo em chapa, bar­
ras lingots.
FERRO:. Em barras quadradas, redondas e vergalhão. Vigamento de ferro
MEMÓRIA SOBRE A ILHA TERCEIRA ♦ f em TlUi cantoneiras e todos os mais aprestos para construeçòes. Ferro em
lingots para fundição. Chapas galvanisadas lisas e onduladas. Chapas de aço
por Alfredo da Silva Sampaio ,S * parã caldeiras. Tubos de ferro, cobre e latão. Arame de ferro, cobre e latão.
Folha de. Flandres. Material fixo e circulante para caminhos de ferro. Rails de
Angra do Heroísmo, 1904. 8.° gr. — XI — 833 paginas aço e diversos perfis e pesos, vias portáteis. Machinas de vapor, gaz e petró­
leo. Caldeiras. Bombas. Machinas para industrias e agricultura. Machinas. Fer­
2 $500 RÉIS ramentas. Vidros polidos, foscos e de phantasia. Vidraça, lages de vidro (dalles)
Assucar, arroz, especiarias, drogas, productos chimicos. Ascensores hydraulicos.
ANTIGA CASA BERTRAND - JOSÉ BASTOS
Kua Garrett. 73 e 75 - Lisboa,
Edoux & C.‘

Únicos importadores em Portugal e colonias do CIMENTO da Compagnie


des Ciments Parisiens, fabricado pelo notável engenheiro E. CANDLOT.
Fabrica de sabão — Telhai (Poço do Bispo)

Typ. d'» A Editora» — Lisboa

DRaC-CCA
andam com a cabeça em agua, mas não ousam soltar um queixu­ pessoa de distincção que da cidade vá honrar a sua festa ; a ban­
me com medo do Senhor Espirito Santo, que é muito vingativo! deira pertencente á corôa, da mesma fórma; em seguida seis to­
A despeza de toda a festa é com o jantar. chas de madeira, pintadas de branco a fingir cera, tendo em cima
Desde a quarta feira povoa-se a casa do imperador de mulhe­ um toco de vella, são destinadas aos parentes, e depois uma quan­
rio, para se começar a amassar e cozer o pão. As raparigas á por­ tidade de varas delgadas de madeira pintadas a vermelho com uma
fia, com os desejos de adquirirem fama de valentes e governadas, pomba também pintada a branco na mesma vara, para os restan­
esfalfam-se a amassar pão, com a apparencia de não lhes custar tes convidados.
o trabalho. As velhas dão sentenças e brigam por despeitos de Os foliões vão á frente tocando e cantando, e o acompanha­
mais experiencia e pratica. mento vae entoando o terço até á egreja, onde o parocho á porta
Por toda a freguezia, chovem presentes de leite para o pão do o recebe, aspergindo-o com agua benta. A corôa é collocada no
Senhor Espirito Santo, e cada portador leva uma merendeira amar­ altar, em logar apropriado.
rada á cabeça. E’ um inferno de raparigas que não param a furtar
maça para ferrumecos e a vigiar os namorados para llíos offere-
cerem.
Chega o domingo, dia de coroação. De manhã muito cedo, ainda
escuro, um formigueiro de raparigas que passaram a noute a tra­
balhar, saem a levar por toda a freguezia as sopas do Espirito
Santo.
Todos os imperadores teem de cumprir esse dever; a festa é
geral. As portas das casas ficam só no picca porta, para as rapa­
rigas as abrirem e despejarem numa sopeira, deixada á entrada
para esse fim, as sopas que levam.
Os foliões correm a freguezia, cantando em differentes casas,
recebendo em troca algumas offertas. Vão depois almoçar para a
casa do imperador; no entanto chega a hora de ir a corôa para a
egreja.
Fóra da porta estão os convidados aos grupos, conversando
nos seus bois, sementeiras, na funcção do ultimo domingo onde o
vinho não foi a botar fóra!
Os foliões aprumam-se, empunham a bandeira, tambor e pan­
deiro ; começam o canto e ordenam a distribuição das insígnias. A
Corôa é offerecida pelo imperador ao parente mais chegado ou a Chegada da coroacÃo ao
>
Império

N.° 46 361

DRaC-CCA
Resa-se a missa, e no fim o imperador ajoelha em uma almo­
fada. O sacerdote, pegando no sceptro beija-o e colloca-lh’o dei­ Santa e inoffensiva devoção que traz alegria tão excepcional
tado no braço; beija a pomba da coroa, dá-a a beijar ao impera­ ao pobre povo, tão sobrecarregado de trabalhos.
dor, e collocando-llía na cabeça canta oVeni Creator Spiritus.
Põe-se em ordem o préstito e o imperador corado lá vae com *
a sua comitiva a caminho de casa. * *
Chegado alli, começa a cerimonia da descoroação, que é feita
methodicamente, entregando se a corôa, o sceptro e as demais Nos domingos do bodo, Pentecostes e Trindade, as festas no
insígnias ao som do tambor e dos descantes da folia. campo constam de distribuição de pão e vinho a todos os assis­
O jantar é brutalmente farto e servidos os pratos com tal abun- tentes, que formam arraial, em frente do império, onde passam o
dancia que parece ser para gastronomos. dia em alegre convívio, comendo e bebendo.
Nada se põe na meza sem ordem cantada dos foliões.
Terminado o jantar, procede-se á mudança da corôa para casa Angra do Heroísmo.
do imperador do domingo seguinte. Vieira Mendes.

362

DRaC-CCA
Decreto da Junta Provisória, declarando a Ilha Terceira a unica sede do Governo legitimo
Junta Provisória encarregada de manter a legitima auctoridade Reino de Portugal e que não existe em território algum da Europa
A d El-Rey o Sr. D. Pedro IV e de Sua Magestade a Rainha e do mar Atlântico outro governo portuguez, declara e determina,
a Senhora D. Maria 2.a, tendo em vista a occupaçao da sede do em nome dos mesmos Augustos Senhores, que esta cidade de An­
gra é a Sede do Governo
dos portuguezes, legitima-
mente auctorisado para sus­
tentar os direitos do Senhor
D. Pedro IV e da Senhora
D. Maria 2.a, e que assim
deve ser considerada em-
quanto se não estabelecer
em Portugal o legitimo go­
verno dos mesmos Augus­
tos Senhores.
As auctoridades a quem
competir assim o tenham
entendido, cumpram e fação
executar e o secretario dos
negocios internos faça diri­
gir copia d’este decreto ás
mais secretarias e auctorida­
des na fórma do estylo.
Angra, vinte e oito de ou­
tubro de mil oitocentos vinte
e oito. Diocleciano Leão Ca-
breira, José Antonio da Silva
Torres, (Referendado) Ale­
Angri to Heroísmo Os Pacos do Co.\celho xandre Martins Pamplona.

363

DRaC-CCA
Decreto que concedeu a cidade d’Angra o titulo de Heroísmo
esejando que na lembrança dos vindouros fique memória de Mi­ motivos, e não menos pela heroica firmeza com que durante tantos
D nha gratidão, assim como perpetuamente ha de ficar na histo­ annos permaneceu inabalavel em sua constância aquelle pequeno
ria a dos extraordinários serviços e sacrifícios que á Minha Causa, rochedo no meio do^Oceano, dando um exemplo de constância, e
e á de toda a Nação de tão subida lealda­
Portugueza, que é a de, como não se recor­
Santa Causa da Liber­ dará nunca igual: e já
dade e da Civilisação, que todo esse tempo
fizeram os leaes habi­ foi a Cidade de Angra
tantes da Ilha Tercei­ da referida Ilha Ter­
ra, unico refugio que ceira a Sede do Legi­
em toda a vasta Monar- timo Governo e Capital
chia Portugueza acha­ do Reino; e também á
ram os poucos leaes, Villa da Praia coube a
que no meio da difu­ fortuna de ser theatro
são de tantos, ahi foram de uma das mais pas-
prostestar por sua hon­ mosas façanhas, que
ra, e pela do Povo ainda obrou a lealdade
Portuguez, a qual tão e valor Portuguez, na
nobremente rehabilita- memorável Batalha do
ram depois, levando dia onze de agosto de
aos combates e á victo- mil oitocentos vinte e
ria a flor da mocidade nove: é devido que a es­
daquella Ilha, assim na tas duas mais conside­
reconquista do Archi- A
ngra doH . O A
eroísmo C .
lto das ovas
ráveis Povoações da
pelago dos Açores, no dita Ilha fique Padrão
memorável cerco do Porto, como em todos os illustres feitos que do muito que ahi se fez, e de tanto que ellas bem mereceram da
se fizeram até á completa restauração do Reino: por todos estes Patria e do Príncipe; e Ordeno por tanto:

□64

DRaC-CCA
Artigo i.° A respeito da sahindo da parte inferior
Cidade de Angra: da Corôa, com a tenção
i.° A Cidade de Angra da em letras de ouro — Va­
Ilha Terceira será denomi­ lor, Lealdade, e Mérito —,
nada d'ora em diante — tendo pendente a insígnia
Cidade de Angra do He­ da Grão-Cruz da Antiga e
roísmo. Mui Nobre Ordem da
§. 2.0 Ao titulo de Mui Nobre Torre e Espada do Valor,
e Leal que já tinha a Ci­ Lealdade, e Mérito.
dade referida, se accres- Artigo 2.° A respeito da
centará o de — Sempre Villa da Praia:
Constante. §. i.° A Villa da Praia da Ilha
§. 3.° As Armas da Mui No­ Terceira será d'ora em
bre, Leal, e Sempre Cons­ diante denominada a —
tante Cidade de Angra Villa da Praia da Victo-
do Heroísmo serão, em ria—, e ficará tendo o ti­
vez das que d'antes ti­ tulo de—Muito Notável—
nha, um escudo esquar- §. 2.° As Armas da Muito
tellado, tendo no primeiro Notável Villa da Praia da
quartel, em campo verme­ Victoria serão um escudo
lho, um braço de prata ar­ partido em facha: na pri­
mado com uma espada na meira, em campo verme­
mão; no segundo quartel, lho, uma torre de ouro;
em campo de prata, um na segunda, em campo de
Açôr de sua côr; e assim prata, um Navio negro as­
os contrários: e sobre tudo sentado sobre um mar de
um escudete com as quinas prata e azul, e sobre tudo
de Portugal, e em remate um escudete de prata, com
uma Corôa Mural; e por a legenda em letras azues
timbre o braço armado das — Onze de Agosto de mil
Armas, em roda do es­ oitocentos vinte e nove — ;
cudo uma fita azul ferrete, Angra do Heroísmo. Egreja de S. Francisco. sendo coroado o escudo

365

DRaC-CCA
de uma Corôa Naval, e por timbre uma Torre negra com ban­ *
deira bi-partida de azul e prata. Assim se communicará por Estes decretos são um flagrante e vivo testemunho dos grandes
Carta Minha ás Gamaras Municipaes respectivas. serviços prestados á causa da monarchia pelo heroísmo patriótico
E o Secretario d’Estado dos Negocios do reino o tenha enten­ dos filhos da Terceira. A mui Nobre, Leal, e Sempre Constante
dido, e faça executar com os Despachos necessários. cidade de Angra do Heroísmo tem muito que orgulhar-se dos seus
Palacio das Necessidades, em doze de Janeiro de mil oitocen­ brazÕes honrosos. A historia portugueza tem gravados os seus fei­
tos trinta e sete.=RAINHA. = A7«noeZ da Silva Passos. tos nas suas paginas mais brilhantes.

366

DRaC-CCA
A CIDADE DE ANGRA DO HEROÍSMO
JAs-pectos vários
bella cidade açoreana, d’este nome, cuja descoberta pelo be- de seus habitantes, em extremo correctos, sempre inexcediveis na
Anemerito patriota, Gonçalo Velho Cabral, em 1450, pouco mais affabilidade do trato.
ou menos, veio trazer á coroa portugueza uma das suas mais ful­ E’ que n’esta sociedade existe e conserva-se ainda o quer que
gidas e valiosas joias, é, sob o ponto de vista esthetico, a primei­ seja denunciador de uma existência senhorial, já finda, é certo,
ra d’aquelle archipelago. mas que n’ella se affirma n’esses mil nadas que se não ensinam,
A pródiga natureza recommenda-a pela amenidade do seu cli­ que são innatos em quem quer que seja.
ma, pela fulgurante belleza dos seus arredores e pela exuberância Vêr, assistir alli a um baile, a uma d’essas recepções onde
do proprio solo. mais amplamente se pode definir o homem no seu aspecto moral
A maior parte do que possue, quasi tudo o
que em Angra se vê, é resultante exclusivo da
própria iniciativa, secundada eflicazmente pelo
esforço dedicado da sua administração local.
O bello traçado das ruas principaes de An­
gra do Heroísmo, não tem rival nas demais
cidades, exceptuando Lisboa ou Porto.
A realçar-lhes o interesse e animação local
são algumas d elias notavelmente embellesadas
por estabelecimentos dignos de reparo pela sua
importância.
Mas, de justiça é dizei o: Não é isto, ou só
isto, o que captiva os visitantes ou forastei­
ros, que o acaso ou o dever alli trouxe.
Acima dos predicados que certamente se
apreciam no meio em que vivemos, sobresahe
na risonha capital açoreana a fidalga gentileza Angra. Castello de S. Sebastião e Caes do Porto de Pipas.

367

DRaC-CCA
e nas correlações que o ligam aos bons usos da sociedade, é quanto na dilatada extensão do mar profundo e grandioso, ou mergu­
basta para justificar o que deixamos exposto. Dos arrabaldes, que lhando a na vasta galeria dos campos adjacentes, contemplou ao
diremos ? longe o recorte vario das alcantiladas serras, que os emmolduram
O campo, em suas múltiplas e variadas perspectivas, evocou e os limitam no extremo horisonte, ha de por momentos alheiar-se
em nós justificadas lembranças da formosa provinciado Minho. da inanidade ephemera da própria existência transitória e vã!
O Pico da Urze, a dois passos da cidade, n’uma verdejante co­ Alli, em face da magestade augusta de um quadro assim, re­
lina próxima, domina um panorama digno do pincel dos mestres. conhece-se o homem pequeno de mais em sua contingente e limi­
Quem por algum tempo se quedou no alto da formosa quinta tada acção, incapaz de conceber e explicar maravilhas taes!
do estimável cavalheiro, o sr. José Luiz de Sequeira, e, d'alli, Lisboa.
junto da pequena ermida na mesma erecta, deixou alongar a vista G. F. de Bourbon.

36S

DRaC-CCA
F" A SCTCUT TV.° 46

DRaC-CCA
LOMBADAS
GRAKD FRIX
Exposição Internacional de S. Luiz. cm 1904 MAGAZINE BERTRAND
MEDALHA DE OURO
ExposiçSo do 1’aiacio de Cryslal de Londres em 1904 I
A LEITURA ILLUSTRADA
Revista quinzenal —96 pag. cheias de gravuras
& Rainha das aguas de meza 200 RÉIS
Assigna-se na
Leve, estomacal e digestiva, pura, limpida ANTIGA CASA BERTRAND —JOSÉ BASTOS
< R. Garrett, 73 e 75-Lisboa
0 acido carbonlco não é Introduzido artificial mente

Recommendada por todos os médicos

DEPOSITO GERAL
106, AVENIDA DA LIBERDADE, 110 C. MAHONY & AMARAL
I.XSBOA
70. L£u;i ?i. 3.°— LISBOA
TEL3FHONE 586
METAES EM BRUTO: Aço, cobre, latào, estanho, chumbo em chapa, bar­
ras lingots.

t MEMÓRIA SOBRE A ILHA TERCEIRA


I ate '
llf f
n ãre r
FERRO: Em barras quadradas, redondas e vergalhão. Vigamento de ferro
em T I U i cantoneiras e todos os mais aprestos para construcções. Ferro em
lingots para fundição. Chapas galvanisadas lisas e onduladas. Chapas de aço
para caldeiras. Tubos de ferro, cobre e latão. Arame de ferro, cobre e latão.
poi Alfredo da Silva Sampaio Folha de Flandres. Material fixo e circulante para caminhos de ferro. Rails de
& Angra do Heroísmo, 1904, 8.° gr. — XI — 833 paginas aço e diversos perfis e pesos, vias portáteis. Machinas de vapor, gaz e petró­
leo. Caldeiras. Bombas. Machinas para industrias e agricultura. Machinas. Fer­
2$5OO RÉIS ramentas. Vidros polidos, foscos e de phantasia. Vidraça, lages de vidro (dalles)
A' venda na Assucar, arroz, especiarias, drogas, productos chiinicos. Ascensores hydraulicos.
ANTIGA CASA BERTRAND-JOSÉ BASTOS
Uua Garrett, 73 Vã — Lisboa e
Edoux & C.*
CIAÍEMTO
Únicos importadores em Portugal e colonias do CIMENTO da Compagnie
des Ciments Parisiens, fabricado pelo notável engenheiro E. CANDL0T.
Fabrica de sabão — Telbal (Foço do Bispo)
Fabrica da licores aguardente, genebra e cognacs — TELHAL (POÇO 00 BISPO)

Typ. d’.A — Lisboa

DRaC-CCA
A MINHA QUERIDA TERRA
o vivo ondeado dó amplo circulo verde, scintil- como a lendaria caravella em que os Corte-Reaes descobriram a
lante do oiro do sol, condensa se uma nuvem America, á indicação do cavalleiro mythico petrificado, da Ilha do
mordendo a orla azul-clara do horisonte, e vae Corvo, corpori-
atfirmando-se á medida que dão as aguas a illu- sação da idéa das
são de correrem, emquanto rasga o vapor a va­ descobertas, ar­
ga, repuchando jactos de glauca transparência, rojando á lucta,
florações de leitosa espuma. ao mysterio, a in­
Sobre o distante e desmaiado fundo verde-azul-alaranjado rompe domável cavalla-
das alvas cristãs da resaca um pico negro, desenrolando-se de­ ria do oceano.
pois em barrentas ribas, empennachadas de canaviaes, precedidas No grande
de negras rochas com que as aguas se travam, atirando-se-lhes Mar Tenebro­
bravamente, abraçando-as, envolvendo-as, parecendo tercm-as sub­ so, povoado de
jugado e irem arrastai-as comsigo; mas que abandonam sempre, monstros e terro­
cahindo ao desamparo com estrondo, para voltarem incansáveis no res, a Ilha Ter­
impetuoso rhythmo da eterna refrega. ceira e as com­
íngremes penedias de negrumes humedecidos e avivados por panheiras do ar-
espumantes brancuras rendilhadas; planos distantes de serras azul- chipelago são
ferrete; e a Ilha Terceira franqueia o pequeno recorte da Angra como a symbo-
por entre ilhéus, castellos, boccas negras de canhões, carretas ver­ lica frota das ca­
melhas ; na aspereza de baluarte inexpugnável, por barbacan o ca­ ravelas da des­
lhau bravio, e como fosso o abysmo verde-escuro, na fundura da coberta rondan­
rocha viva. do o famoso de­
Imprimiu o mar o espirito de combatividade, a ancia do des­ serto d’agua por
conhecido aos primitivos habitantes, que a tornaram base das via­ onde fomos alar­
gens do occidente, em cujo exemplo confessa Colombo ter apren­ gando o mundo.
dido. Reproduziu-
E assim a Ilha Terceira, na sua pequenez de grande nau, é se o nativo im- T Q
recho da . J Á C
uinta do sr S
o o .
arlos da ilva

N. 47

DRaC-CCA
Palácio dos Remedios, solar dos Canios, onde nasceu I). Violante do Canto, e onde koi recebido D. Antonio, Prior do Crato, a 26 de julho de i85s

J70
na florescência de oásis desejado pelo viajante do
deserto das aguas; foi a hospitalidade e a espe­
rança, o amor, para os emigrados da revolução
liberal, que alli reencontraram a patria portu-
gueza na solidariedade dos seus heroicos filhos,
no infinito encanto das suas mulheres. Trans­
fundira-se na mais pura raça portugueza do sé­
culo xv o sangue flamengo, que dera o typo es­
belto, a frescura da tez ás deslumbrantes lou­
ras; dotara-a o Brasil da exhuberancia dolente
das creoulas, cabello de azeviche, dentes miudi­
nhos, fundas olheiras; trouxera-lhe a domina­
ção hespanhola o galante requebro da andalu-
za, e o preto dos seus olhos sonhadores; e o dos
hebreus fugidos transmittira á sadia carnação
das morenas, olhos apaixonados de judia, onde
esvoaça a nuvem da saudade.
Angra do Heroísmo. R. de S. João
Assim é a esperança de repouso para nós. os
emigrados de hoje, que por entre a nevoa da
peto na resistência á invasão hespanhola, quando o proprio gado, emoção, no fundo sulco em que a amargura da saudade avinca os
na revolta collectiva da terra, combateu na batalha da Salga; quando traços da memória, a vemos no seu repouso de rochedo ao fim da
a gente da cidade accommeteu a immensa fortaleza castelhana, ao viagem fatigante, no sagrado direito de a amarmos em globo, em
grito de Restauração; quando os bravos do Mindello se lançaram, todos os seus actos, e em todos os ,seu filhos.
cantando, á redempção de Portugal. 3o-11-906.
Na pequenez de rochedo, aonde corre a agarrar-se o naufrago; Faustino ha Fonseca.

DRaC-CCA
FAUSTINO DA FONSECA Os seus livros de mais renome são a Igne\ de Castro, poema
da raça amorosa; a Arraia Miuda; a Descoberta do Brasil, epo­
peia da civilisação portugueza; e Os Bravos do Mindello, sentida
romance historico portu- evocação da terra patria, nunca esquecida e sempre muito amada
O guez tem em Faustino por Faustino da Fonseca.
da Fonseca um dos seus me­
lhores e mais infatigáveis cul­
tores, o que claramente se mos­ D. VIRGÍNIA DA FONSECA
tra na longa lista de obras d’es-
te genero, devidas á sua penna.
Roça por 3o volumes o pro- scriptora e pintora, D. Maria
ducto do seu trabalho littera- E Virgínia Teixeira de Sousa
rio, alguns dos quaes alcança­ Adão da Fonseca, nasceu em
ram grande voga, como a Igne\ Angra do Heroísmo a 14 de ou­
de Castro. Neto e bisneto de tubro de 1875. Discipula do pin­
bravos do Mindello, as crenças tor Conceição e Silva, concorreu
liberaes que de pequeno lhe incutiram e d’elle fizeram o republi­ ás exposições do Grémio Artís­
cano convicto e intransigente que é, levam-no de preferencia a tico de 1896 e 1897. Illustrou a
escrever o romance social, fazendo-o, aliás, com raro exito. i.a edição do romance Igne\ de
Nasceu em Angra do Heroísmo, em 1871, e foi ahi que fez a Castro, de seu marido, Faustino
sua estreia jornalística, continuando depois em Lisboa, onde reside, da Fonseca. Dirigiu a Modalllus-
tendo dirigido o diário republicano, oA "Vanguarda e collaborado trada nos annos de 1901, 1902 e
largamente em muitos outros. 1903, tornando-a a nossa primeira publicação feminista. Traduziu
Em Lisboa tomou parte activa nos acontecimentos de 90 e 91, os Dramas da Corte, de Ladoucette, Os amores de Pedro o Gran­
e pelo ideal da causa republicana se viu já por vezes nos ferros de, de Launay; Casta e Deshonrada, de Merouvel; Os amores de
de El-Rei, por processos movidos contra cA Vanguarda, quando Napoleão, de Carolus; D. Quixote de la Mancha, de Cervantes
a dirigia. etc.

DRaC-CCA
OS AÇORES
uasi a meia distancia entre a Europa e a America, erguem-se lhe corroia o ventre e semeando de píncaros vulcânicos o Oceano
Q nove topos penhascosos. São, segundo uns, vestígios alcan­ revolto.
tilados dum velho e amplo continente submerso; são, segundo A ib de agosto de 1402, Gonçalo Velho Cabral, um dos de­
votados collaboradores do infante D. Henrique, aportava ao mais
oriental d’esses enormes cachopos, e, em honra da festa que o dia
commemorava, baptisou-o com o nome de Santa Maria. Açores
chamaram os primeiros viajantes ao grupos dos alterosos recifes
então conhecidos, e hoje cada ilha do archipelago é designada,
partindo do levante para o poente, além da que já citámos, por
-S. Miguel, Terceira, S. Jorge, Graciosa, Pico, Fayal, Corvo e
Flores
Esmiuçar como se effectuou a colonisação, não cabe aqui. Ha,
entretanto, uma nota typica a registar. Quem emigrava para o
Brazil ou para as colonias não apartava o pensamento da mãe pa-
tria; quem se destinava para as ilhas enraizava-se no solo, numa
aspiração latente em todo o portuguez de fundar um lar; era fas­
cinado pela altivez das crateras extinctas, vaga imagem do que
fôra a indole rapace e de extermínio dos primeiros dominadores
da índia; deixava-se attrahir pelo contraste brusco da natureza,
ora fértil e ridente, ora escalvada e sombria, reflexo da vida his­
tórica do paiz; sentia-se embalado pelo marulhar constante das
vagas, que ainda hoje lhe entorpece a alma num mysticismo do­
Angra. Procissão de Corpus Christi
lente, que o obriga a sonhar com tentativas arrojadas, que o
desafia a lançar-se no turbilhão dos perigos, turbilhão que fizera
outros, resultado d'um pavoroso abalo cosmico, que rasgou as en­ dos seus compatriotas do continente um bando de aventureiros e
tranhas da terra com inaudita furia, erguendo-lhe a crosta em tu- um punhado de heroes, tão grandiosos como os da Iliada.
mescencias abrazadas, lançando por ellas uma parte do fogo que O ilhéo, esse colono do século XV e XVI, conserva na actualida-

373

DRaC-CCA
de as varonis qualidades dos portuguezes d"aquella quadra. Raça das. Tão caprichoso como o pensamento de mulher hysterica, o
progressiva, tenaz, intelligente, valorosa, trabalhadora, que vae dei­ mar, ora afaga meigo, a oscular a embarcação que nos transporta
xando após si a que lhe foi ascendente; que, confiando n’um beijo maternal, unido, chão, pacifico, terno, quasi
na força do seu intellecto e na robustez do seu physico, brinquedo infantil, rolando manso e manso n’um ennove-
se espalha pelo orbe, levando na intrepidez do intento lar de gato a espreguiçar-se em macia alfombra; ora surge
e na pertinácia da realisação uma parcella da terra na­ como uma caricia de Deus, simultaneamente majestosa e
tal; que hombreia, imperturbável, serena, com todos doce, que tenta a alma em voluptuoso convite de nos en­
os povos; que não encontra barreiras á sua tendencia tregarmos a elle, de nos deixarmos envolver no véo tenu­
expansiva, nem peias á sua actividade maravilhosa; íssimo da sua escuma, de adormecermos eternamente na
que scisma com mais larga emancipação e que calcula exótica vegetação dos seus pélagos, amortalhados no sudá­
obter em futuro não mui remoto, a sua independencia rio azulado das suas aguas, sepultado no jazigo incom-
como Estado; que é realmente uma raça predestinada. mensuravel das suas profundezas; ora obedecendo a as­
A rodear os nove rochedos, marcos miliarios ergui­ soladora phantasia, irado como um epiléptico, medonho
dos entre dois mundos por mão gigantesca, desdobra-se de cólera, cresce n’um embate de catapulta, prestes a
a toalha ondeante do Atlântico que cobre, á laia de me- destruir a frágil nave que nos abriga, alteroso, arrogante,
za, abysmos imperscrutáveis; adamascada com os cam­ cruel, vingativo, azorrague brandido por esforço de titan.
biantes que formam o matiz do firmamento; bordada revolvendo-se de instante a instante em acessos de fera ar­
com os lavores que o vento lhe imprime; nas orlas da dendo em sanha, que prende e despedaça nas garras a
qual se assentam, dum lado, como heterogeneos convi­ victima inoffensiva; ora se approxima como um castigo do
vas, os gêlos do Canadá, as savanas do México, as flo­ Eterno, ao mesmo tempo horrendo e ironico,que apavora
restas brazileiras, os pampas argentinos, e d outro, os o espirito na feroz ameaça de nos tragar, na idéa que nos
sertões de África e as metrópoles européas. hemos de extinguir lacerados nos impetos do seu rancor,
Essa enorme superfície liquida possue encantos irre­ de succumbirmos irremediavelmente aos açoites implacá­
sistíveis. Contemplar, uma vez que seja, a sua gran­ veis da sua furia, absorvidos num relance pelas suas fau­
diosa immensidade, é ceder para sempre ao império ces esverdeadas, devorados pelos monstros marinhos, ou
com que nos domina as reminiscências mais arreiga­ arremessados, reduzidos a massa inerte, ás arestas dos es­

574

DRaC-CCA
colhos, que retalharão cruelmente as carnes outrora delicadas e des emerjem lentamente das aguas; o casario alveja como bandos
appetecidas. de gaivotas, empoleiradas pelas vertentes ou em fila pela beiramar;
De apparencia adusta, os Açores, enxergados de longe, revelam as janellas principiam a semear de pequeninos pontos negros a bran­
logo, á medida que nos acercamos, a feracidade da producção no cura immaculada das paredes; os telhados enrubescem-se e agu­
interior. Ainda a distancia, quando a bruma cinge como uma man­ çam-se em pyramides, truncadas ou não; os edifícios esquadram-
tilha de sevilhana garrida o contorno sinuoso da penedia, chega se, separam-se uns dos outros, dividem-se em arruamentos; os
até nós um suave perfume que delicia o olfacto. Os pomares car­ caes prolongam pelo Atlântico dentro os massiços braços de alve­
regados de laranjas; os campos de linho em ílôr; os trigaes bal­ naria; as embarcações baloiçam nos fundeadouros e confundem,
sâmicos; as plantações de canna; as culturas de pastel, hoje em emmaranhadas linhas, a mastreação. O que era de exiguas
escassas; os outeiros revestidos de cepas d’onde se extráe o deli­ dimensões ha minutos, engrandece agora, augmenta cada vez mais;
cioso vinho de cheiro; as quintas onde verdeja o chá; os faiaes o navio que, horas antes representava para nós um colosso, estaca
enramalhados; enviam os seus amesquinhado, debil, receoso,
aromas, célebres arautos, a insecto no rasto d’um elephan-
proclamar a bizarra hospitali­ te, grão de areia a emparelhar
dade com que os insulares pri­ com assombrosa mole
mam em receber os forastei­ Então o olhar busca pene­
ros. Depois, quando a distancia trar nas anfractuosidades dos
encurta, as montanhas accen penhascos, desvendar o mys-
tuam se nitidas recortando na terio das praias, conhecer o se­
atmosphera translúcida o deli­ gredo dos primeiros povoado-
neamento rendilhado; a verdu­ res, internar-se nas brenhas,
ra accusa com mais vigor os trepar até as subidas cumeadas.
tons, de começo simples relva­ E, sem grande esforço de in­
dos, que tomam corpo, avolu vocação, assiste, como succedia
mam, esbatem-se em arvore­ outrora, á chegada de impro­
do, desenrolam-se em hortas viso, dos chavecos e faluchos
amanhadas com esmero, a con­ argelinos. Vê os corsários lan­
trastar com a terra denegrida; çarem um golpe de gente na
as rochas purpurisam-se como enseada, assaltarem de súbito
se estivessem ainda encandes- os povoados, incendiar, rou­
centes pela inflammação ignea bar, matar quanto encontram,
do periodo primitivo; as cida­ Angra. Procissão do Couros C
hristi impellir para bordo as mana­

DRaC-CCA
das que pastam, transportar com elles as alfaias de que lançam este aguaceiro, sobe uma columna de fogo, dum encarnado som­
mão e arrastar para os porões quantas raparigas reputam dignas brio, avermelha o espaço, e illumina com sinistro clarão as solidões
dos serralhos dos beys. Nem sempre os piratas eram moiros. Em do Oceano. Os flancos da montanha gretam-se, e pelos interstí­
1697, no Fayal, a incursão que devastou uma parte da ilha foi cios côam-se torrentes de matéria inflammada. As chammas, que
praticada por inglezes. durante algum tempo se conservam unidas, abandonam a posição
Se ao espirito lhe acudirem os annos de IÒ22, i5Ó2, 1614, 1672 vertical, abrem em leque, pendem em chorão, deslizam pelas en­
e 1808, ficará aterrado. Alguns dos altos picos do archipelago costas, fendem, calcinam, destroem o que se oppôe á sua carreira
corôam-se de fumo, á guisa de cabelleira lugubre de qualquer di­ de extermínio, e a lava, que, vagarosa ao iniciar a queda, se
vindade infernal. De surpresa, sente o chão tremer como n’um apressa em seguida, alaga as faldas e plainos adjacentes, enche as
arrepio de frio; agita-o dum para outro lado ignota força; o mo­ campinas d'uma inundação de labaredas.
vimento pára um segundo como para tomar folego; repete as os- Se apartámos a imaginação d’estes quadros horríveis, lembram-
cillações com mais braveza; redobra na vehemencia da intento; nos os raptos das freiras, que de tão boa mente trocaram a disci­
sacode; faz vacillar; balança; convulsiona a ilha em impulsos plina austera do convento pela existência aventurosa dos seus
desencontrados; o solo desaggrega-se; excavam-se boqueirões; os raptores, todos extrangeiros; os impérios do Espirito Santo, com
prédios cambaleiam como ébrios; as mattas são derrubadas; a os seus foliões, festa religiosa das mais pinturescas; as folgas do
gente foge espavorida sem saber onde ha de refugiar-se. Medonho casamento da aldeia; os entremeies ao ar livre, com os avisos,
estampido ribomba pelos ares; a cumieira rasga-se em escancarada embaixadas, villãos, uma especie de revista do anno; e as toiradas
voragem. Projectadas com sobrenatural violência, ensombra-se o á corda.
céo de pedras, cinzas, vapores sulfurosos, corpos que veem do Aqui fica uma rapida e tosca impressão sobre os Açores.
amago do globo, que pairam em instantes nas alturas, e se preci­
pitam depois em tormentosa chuva pelos declives e valles. Após Eduardo de Noronha.

DRaC-CCA
l ASCK I I .O tx.° 47

OR1ANO

-atgt

^T^^TtjTIGA casa bertrand


< JOSÉ BASTOS

DRaC-CCA
LOMBADAS
lixposiçào Internacional de S. LuU em <904 II MAGAZINE BERTRAND |
MEDALHA DE OURO
Exposição do Palacio de Cryslal de Londres em 4904 A LEITURA ILLUSTRADA
Revista quinzenal —96 paq. cheias de gravuras
A Xainha das aguas de meza 200 RÉIS
Assigna-se na
Leve, estomacal e digestiva, pura, limpida k ANTIGA CASA BERTRAND —JOSÉ BASTOS
R- Garrett, 73 e 7o — Lisboa
0 acido carbonico não é Introduzido artlficialmente

Recommendada por todos os médicos

DEPOSITO GERAL
106, AVENIDA DA LIBERDADE, 110 C. MAHONY & AMARAL
LISBOA
70. Eluab Augusta. 2."— LISBOA
T3LEFHOHE 586
METAES EM BRUTO: Aço, cobre, latão, estanho, chumbo em chapa, bar­
ras lingots.
FERRO: Em barras quadradas, redondas e vergalhão. Vigamento de ferro

MEMÓRIA SOBRE A ILHA TERCEIRA em TI Ui cantoneiras e todos os mais aprestos para construcções. Ferro em
lingots para fundição. Chapas galvanisadas lisas e onduladas. Chapas de aço
para caldeiras. Tubos de ferro, cobre e latão. Arame de ferro, cobre e latão.
por Alfredo da Silva Sampaio
Angra do Heroísmo, 1904, 8.° gr. — XI — 833 paginas
lá!
• 1 ■1 ®
Folha de Flandres. Material fixo e circulante para caminhos de ferro. Rails de
aço e diversos perfis e pesos, vias portáteis. Machinas de vapor, gaz e petró­
leo. Caldeiras. Bombas. Machinas para industrias e agricultura. Machinas. Fer­
2 $500 RÉIS ramentas. Vidros polidos, foscos e de phantasia. Vidraça, lages de vidro (dalles)
A’ venda na
Assucar, arroz, especiarias, drogas, productos ehiinicos. Ascensores hydraulicos.
li; ANTIGA CASA BERTRAND JOSÉ BASTOS
Hua Garrett, 73 e 75 — Lisbon
Edoux & C.*
CIMBMTO .
Únicos importadores em Portugal e colonias do CIMENTO da Compagnie
des Cimenta Parisiens, fabricado pelo notável engenheiro E. CANDLOT.
Fabrica de Rabão —Telbal (Poço do Bispo)
Fabrica de licores aguardente, genebra e cognacs — TELHAI (POÇO 00 BISPO)

Typ, d'
*
A *
Editora — Lisboa

DRaC-CCA
CHANTRE JOSE DOS REIS FISHER

ma das inteilectualidades do clero açôreano dade do seu caracter, pela sua illustração, con­

U mais justamente consagradas, o chantre da


Sé de Angra, reverendo snr. José dos Reis
ferem-lhe o encargo do discurso de sapiência na
abertura das aulas do seminário.
Fisher. N’aquelle estabelecimento de instrucção, o
Pessoalmente, não conheço este illustre ter- snr. conego Fisher lançou os fundamentos de
ceirense. Rasão de imparcialidade no meu lado. um muzeu, importantíssimo recurso para os es­
Da proeminência da sua individualidade tudos de historia natural.
como sacerdote e como homem, tradicional­ E' professor, ali, de sciencias ecclesiasticas,
mente. sei o quantum satis para lhe tracejar um e conjuntamente de physica, aula fundada por
perfil, porventura desprimoroso na forma, mas sua iniciativa. Este ultimo facto revela bem a
verdadeiro nas cores. sabia orientação do seu esclarecido espirito, na
* comprehensão nitida das necessidades da egreja
* * em face das sociedades modernas.
Antigamente a physica parecia uma heresia :
Estudante distinctissimo em todas as discipli­ Franklin e Galileu uns heresiarchas. Mas, como
nas, diplomou-se em theologia e em direito. Re­ a luz se impõe ás trevas, o grande poder da
gressando a Angra com a valiosa bagagem do ChantreJ osé dos ReisF isher
natureza, cêdo ou tarde tinha que impôr-se, na
seu saber, foi pelo fallecido prelado D. Francisco sua eloquente evidencia, aos espíritos aberrativos
Maria do Prado Lacerda, chamado a exercer as altas funcçoes de da verdade demonstrada, refractarios ao providencial progredior.
vigário geral da diocese e as de governador do bispado, por oc- Leão XIII, esse grande espirito, cuja vista de aguia soube
casião da visita a Roma d'aquelle funccionario. observar o torvelinho das paixões em que se revolvem as socieda­
Estas mesmas funcçoes continuou sempre exercendo-as a des­ des modernas, Leão XIII, o grande Pontífice, comprehendendo a
peito da mudança de prelados, a geral contento, na hierarchia alliança do progresso com o christianismo, ensinou aos mentores
ecclesiastica, ascendente e descendente, sem exclusão feita da da Christandade, o novo caminho a seguir, evitando o veredear
sociedade secular. Um valiososissimo auxiliar para os superiores, pelas escabrosidades da intransigência, que tamanho damno tem
nas obras de Deus, da religião, da humanidade. Pela respeitabili­ causado ás sociedades. D’ahi a conjugação da religião com a

N.° 48 3/7

DRaC-CCA
Ilha Terceira. Jantar no Paul, por occasião da visita de Suas Magestades aos Acòres, em igoi

3/8

DRaC-CCA
sciencia; facto este que constitue a moderna doutrina da igreja. seio do Padre Eterno, resgatou os homens do materialismo secular.
O conego Fisher, espirito lapidado para a diplomacia, concilia­ O snr. conego José dos Reis Fisher, é um padre do seu tempo.
dor também, inspirado nos salutares princípios do actual pontifi­ Bem-dizendo-o, apontamol-o ao clero como um modelo que se
cado, devotou-se ao ensino das sciencias naturaes, ao par das impõe á consideração de todos. No seu amor de Deus, não olvida
sciencias ecclesiasticas. E’ tolerante, sem de forma alguma expun- o amor do proximo. Na sua alma ha todas as vibrações generosas.
gir a integridade das doutrinas da orthodoxia da igreja. Augusto Loureiro.
Diga muito embora o contrario o
facciosismo das eras que de ha muito
transcorreram na ampulheta do passado,
a verdade incontroversa é que, na actuali-
dade, a missão do clero no temporal é
mui outra do que o foi então, nas so­
ciedades decahidas perante a acção civi-
lisadora dos povos christãos. Os povos
não se conduzem já, como Panurgo le­
vava os seus rebanhos. A luz do sol da
civilisação já lhes não causa deslumbra­
mentos. Rasga-lhes, serenamente, com-
prehensivelmente, largos horizontes, faz-
lhes projecções luminosas no porvir.
O. padre moderno precisa ser huma­
nista. Sem renegar do passado o que elle
tinha de bom e de util, tem de acompa­
nhar as sociedades para a perfectibili-
dade humana.
Christo, o Grande Martyr de Golgo-
tha, percorreu a via dolorosa, e succum-
biu sobre aquella montanha, exactamente
porque era humano. O derradeiro alento
da sua vida, foi a scentelha sacrosanta
que illuminou o mundo; e a sua alma, a
parte divina do seu ser, ao evolar-se ao F
reguezia das Quati>o Ripeiras. Fonte de Agua Medicinal, (Agua Santa.)

DRaC-CCA
VIDA DO PADRE ANTONIO CORDEIRO
(Extrahido da Bibliolheca Lusitana do abbade Diogo Barbosa Machado)

Padre Antonio Cordeyro nasceu na cidade de Angra, capital celebres de lettras humanas, admirado da feliz memoria e rara
O da ilha Terceira no anno de 1641, sendo o sexto e ultimo
filho de Manuel Cordeyro Moutozo, e Maria Espinosa, os quaes
comprehensão, que em annos tão tenros mostrava, lhe deu passa­
porte para Portugal. Chegando ao Algarve, como estivesse inficio-
descubrindo n’elle rara comprehensão e
agudo engenho o mandaram estudar a
Coimbra em companhia de seu irmão Pe­
dro Cordeyro de Espinosa, que depois de
ser Doutor em Cânones, e substituído algu­
mas cadeiras na Universidade de Coimbra,
foi eleito Deão da Bahia, e Commissario
da Crusada d’aquelle Estado. Ao tempo
que embarcado buscava no anno de i65ó
a armada de Portugal, de que era general
Antonio Telles de Menezes, encontrou a
de Castella, d’onde ficou prisioneiro; e pas­
sados dezeseis dias se avistou esta com a
de Inglaterra, que estava á vista de Cadiz,
e depois de um porfiado combate escapou
unicamente a capitania castelhana, na qual
se recolheu a Cadiz, onde foi sentenciado
á morte por ter sahido a terra sem licença;
e appellando para o Duque de Medina-Celi,
capitão geral das costas de Andaluzia, como
o ouvisse repetir com summa viveza e agi­
lidade o poema de Virgílio, e outros livros Ilha Terceira. — Monte da frecuezla da Serreta

38o

DRaC-CCA
nado de peste este reino, passou a Setúbal, onde foi prezo e obri­ no collegio de Santo Antão da cidade de Lisboa a 2 de Fevereiro
gado pelo receio do contagio a fazer quarentena. Depois de ter de 1722, com 81 annos de idade. Entre os varões celebres da
tolerado tantos infortúnios, entrou em Coimbra, cm cuja Univer­ companhia o numera o Padre Antonio Franco na Imagem da Vir­
sidade se matriculou na faculdade de Cânones, ouvindo primeira­ tude 110 noviciado de Coimbra, tom. 2. pag. 612, e in Synops, an-
mente filosofia no collegio dos Padres Jesuítas; e continuando com nal. Societ. Jesu in Lusitan, pag. 464. Imprimiu:
genio, este estudo lhe levou maior applicação o sagrado instituto Cursus Philosophicus Conimbricensis. Ulyssipone ex officina
dos mestres, que o ensinavam, até que resoluto a largar o mundo regali Desllandesiana 1714. foi.
se alistou em tão douta Companhia a 12 de Junho de 1657. Notá­ Inprcecipuapartium D. Thomce theologia scholastica. Ulyssipone
vel foi o progresso, que n’esta palestra fez o seu talento assim nas apud Josephum Lopes Ferreira Serenissimae Reginae Typ. 1716. foi.
lettras humanas e faculdades escolásticas, das
quaes começou em Coimbra no anno de 1676
a ser mestre, lendo pelo largo espaço de vinte
annos rhetorica, filosofia, theologia especulativa
e moral não sómente em Coimbra, mas nas
cidades de Braga, Porto e Lisboa, admirando
assim os domésticos, como os extranhos a no­
vidade das suas opiniões subtilmente ventila­
das, e nervosamente defendidas. A estas litte-
rarias occupaçÕes succederam outras apostóli­
cas, discorendo por Viseu, Pinhel, Torres-Ve-
dras, todo o Arcebispado de Braga, como mis­
sionário por obedecer ás instancias do seu Ar­
cebispo Primaz D. Verissimo d’Alancastre,
chegando aos últimos instantes da vida pela
violência do veneno, que lhe deram em hum
lugar d’este arcebispado, de que escapou quasi
milagrosamente. Já quando a idade por ser
provecta o dispensava da applicação do estudo,
como se d’elle recebera novos espíritos, se oc-
cupava em escrever diversas matérias, humas
históricas, outras theologicas e jurídicas, com
que illustrou o seu nome, até que acabou a vida Freguezia da Serreta. - Distribuição de leite

381

DRaC-CCA
Historia Insulana das ilhas a Portugal sojeitas no Occeano Resoluções theo iuridicas. Lisboa, pelo mesmo impressor.
Occidental, Lisboa por Antonio Pedrozo Gairão. 1717. foi. 1718. foi.
D’esta obra, como do auctor, faz memória o moderno addicio- Loreto Lusitano, Virgem Senhora da Lapa em a Província da
nador da Biblioth. Occid. de Antonio de Leão. tom. 2. tit. 2. Beira, Bispado de Lamego. verdadeira, e puramente de novo his­
col. 581. toriada. Lisboa por Filippe de Souza Villela. 1719. foi.

382

DRaC-CCA
HISTORIA INSULANA
Do primeiro donatario, e povoadores de toda a Ilha

5 D?esta matéria tratão Gomes de Zurara, Chronista-mór do les que de sua geração descenderem, e tenha a Capitania, e go­
Reino, e Goes, e Barros, e Guedes, e o nosso Fructuoso, liv. 6, vernança da dita Ilha como a tem por mim João Gonçalves
cap. i, e no cap. 7, traz o primeiro provimento que o infante Zarco na Ilha da Madeira, na parte do Funchal; e Tristão na
D. Henrique fez de primeiro Capitão Donatario da Ilha Terceira, parte de Machico, e Perestrelo no Porto Santo, meus Cavai.
em 21 de Março de 1450, cujo inteiro, e formal traslado, he o leyros; e depois delle a qualquer pessoa que da geração delle des­
seguinte: cender; e a hajão assim pela guiza que a estes Cavalleyros a tenho
6 «Eu o Infante D. Henrique, Regedor, e Governador da Or­ dada, e que da dita Ordem a hão; e quero que elle tenha todo o
dem de Cavallaria de N. Senhor Jesus Christo, Duque de Vizeu, meu poder, e regimento de justiça na dita Ilha, assim no civel
e senhor da Covilhãa, faço saber aos que esta minha carta virem, como no crime, salvo que venhão por appellação de ante elle os
que Jacome de Bruges, meu servidor, natural do Condado de feytos de mortes de homens, e talhamento de membros, que re-
Flandres, veio a mim, e me disse, que por quanto d’esde ab initio, salvo para mim, e para maior alçada, assim como nas ditas Ilhas
e memória dos homens, se não sabião as Ilhas dos Assores sob da Madeira, e Porto Santo. E me apraz, por alguns serviços que
outro aggressor senhorio, salvo meu, nem a Ilha de Jesu Christo, do dito Jacome de Bruges tenho recebido, por quanto me disse
terceira das ditas Ilhas, a não souberão povoada de nenhuma que elle não tinha filhos legítimos, e somente duas filhas de San-
gente que atégora fosse no mundo, e ao presente estava erma, e cha Rodriguez sua mulher, que, se elle não houver filhos varões
inhabitada; que me pedia por mercê que por quanto elle a que­ da dita sua mulher, que, a sua filha maior haja a dita sua mulher
ria povoar, que lhe fizesse delia mercê, e lhe desse minha Real que a sua filha maior haja a dita Capitania, e os que da sua ge­
authoridade para ello, como senhor das Ilhas. E eu vendo o que ração descenderem, e não havendo sua filha maior filhos, have­
me assim pedia, ser serviço de Deos, e bem, e proveito da dita mos por bem que a filha segunda, que depois da morte da pri­
Ordem, querendo-lhe fazer graça, e mercê, me apraz de lho ou­ meira ficar, possa haver a dita Capitania para filhos, e filhas,
torgar, como ma elle pedio. E tenho por bem, e me apraz que netos, e descendentes, e ascendentes, que das ditas descenderem,
elle a povoe de qualquer gente que lhe a elle aprouver, que seja com aquellas liberdades, e poderes, que aos ditos Capitães tenho
da Fé Catholica, e santa de N. Senhor Jesu Christo, e por ser dadas, porque assim o sinto por serviço de Deos, e accrescenta-
causa da primeira povoação da dita Ilha, haja o dizimo de todos mento de Santa Fé Catholica, e meu, pelo dito Jacome de Bru­
os dizimos, que a ordem de Christo houver, para sempre, e aquel- ges povoar a dita Ilha tão longe da terra firme, bem duzentas e

383

DRaC-CCA
sessenta legoas do mar Oceano; a qual Ilha se Infante, e natural do Condado de Flandres, mas tão
nunca soube povoada de nenhuma gente que no bom fidalgo, e tão conhecido já em Portugal, que
mundo fosse atégora: e rogo aos Mestres, e Gover­ cá casou com huma fidalga portugueza, Dama da
nadores da dita Ordem que depois de mim vierem, Senhora Infanta D. Brites, e a Dama se chamava
que fação dar, e pagar ao dito Jacome de Bruges, Sancha Rodriguez de Arca; e juntamente era tão
e seus herdeyros, que delle descenderem, a dita rico, e tão Catholico, que fiou d’elle o povoar a Ilha,
dizima do dizimo, que a dita Ordem na dita Ilha levar bons povoadores, e ir para ella, tudo á sua
houver, como lhe por mim he dada, e outorgada, custa, o que não fez outro algum Descubridor Do­
e não consintão lhe ser feito sobre elle nenhum natário; e por isso mercê maior que a algum outro,
aggravo; e peço por mercê a EIRey meu Senhor, pois lhe concedeo a Capitania não só para elle, e
e sobrinho, e aos Reis que delle vierem, que ao para o filho varão mais velho que d’elle ficasse, mas
dito Jacome de Bruges, e aos herdeyros que delle também para a filha maior, em caso que não ti­
descenderem, fação pagar o dito dizimo á dita Or­ vesse filho varão, e para seus descendentes, sem
dem do que na dita Ilha se houver, e que fação excepção alguma, exceptuando d’esde já então a
pagar a dita dizima do dito dizimo aos Mestres, successão d’esta casa da lei mental do Reino; cousa
ou Governadores da dita Ordem, como lhe por que se não concedeo a outro algum Capitão, senão
mim he dado, e outorgado para sempre, em todo depois de muitos annos, e de muito antiga posse, e
lhe faça ter, e tenha a dita mercê, que lhe por mim de muitos repetidos serviços.
he feyta. E por segurança lhe mande}'' ser feyta esta 8 E quanto ao que diz a Doação, que a Ilha
minha carta, assignada por minha mão, e sellada Terceira está bem duzentas e sessenta legoas pelo
do sello de minhas armas. Feyta em a cidade de mar Oceano dentro, e assim se supponha então;
Silves, a 2 dias do mez de Março. Pedro Lourenço porém hoje dizem alguns, que está de Portugal
a fez, anno do nascimento de nosso Senhor Jesu trezentas e dez legoas, e a Ilha de São Miguel du­
Christo de mil e quatrocentos e cincoenta annos.» zentas e oitenta, trinta legoas antes da Terceira, e
quasi na mesma carreira; outros affirmão que a Ilha
7 O dito Jacome de Bruges, a quem se fez tão de São Miguel está de Portugal duzentas e cincoenta
Real mercê, não só era Cavalleyro do serviço do legoas, e a Terceira duzentas e oitenta; e os mais con-
iascicii.o iv.» 48

álbum Açoriano

DRaC-CCA
Xá X XXXXXXXXXXX X XXXXX XX XXXX X XXX XXX XX XXX XX XX XX ®

LOMBADAS
GRARD FRIX
Exposição lutei nacional de S. L i em l90í
i,_. . . .... —

III! MAGAZINE IMÁND I


....■■■. ■ ■ ■ —r-iis
-
*

MEDALHA DE OURO
Expnsiçàj, do P.4. < io J<- Crysiai <!• Londres em 19H A LEITURA ILLUSTRADA
Revista quinzenal —96 pau cheias de gravuras
ft Rainha das aguas de mcza 200 RÉIS
Assigna-se na
Leve, estomacal e digestiva, pura, limpida ANTIGA CASA BERTRAN9 —JOSÉ BASTOS
;lí^,v
R. íiarrptt, 73 e 73 - Lis1 oa
0 acido carbonlco não é introduzido artifLlalmente

Recommendada por tod< s os médicos ww ? iw w w mwiWtwR


DEPOSITO GERAL
106, AVENIDA DA LIBERDADE, 110 C. MAHONY & AMARAL
LISBOA
70. Rua A-iiarix^ta. 3.°— 1-iUSBO-A.
TSLEPHONE 586
METAES EM BRUTO: Aço, cobre, latão, estanho, chumbo em chapa, bar­
©T« ©Ta t*>W ©W. ©Tc
SÁg - -
* ©W ©Tc
*
----------
©w. «w <w .«T

* ©Tfe .«»W <éTê ©T?(©W, ©Tc- ©Te ©w ©T& ©T® ©T&
—----------------------------------------------------------- . ras lingots.
FERRO: Em barras quadradas, redondas e vergalhão. Vigamento de ferro
«!
MEMÓRIA SOBRE A ILHA TERCEIRA em TI Ui cantoneiras e todos os mais aprestos para eonstrueções. Ferro em
lingots para fundição. Chapas galvanisadas lisas e onduladas Chapas de aço
para caldeiras. Tubos de ferro, cobre e latão. Arame de ferro, cobre e latão.
por Alfredo da Silva Sampaio Folha de Flandres. Material fixo e circulante para caminhos de ferro. Rails de
Angra do Heroísmo, 1904. 8.° gr. — XI — 833 paginas aço e diversos perfis e pesos, vias portáteis. Machinas de vapor, gaz e petró­
« A* vinda na
2$5OO RÉIS
leo. Caldeiras. Bombas. Machinas para industrias e agricultura. Machinas Fer­
ramentas. Vidros polidos, foscos e de phantasia. Vidraça, lages de vidro (dalles)
©1© Assuear, arroz, especiarias, drogas, productos chimicos. Ascensores hydraulicos.
«
4
ANTIGA CASA BERTRAND
JKua Garrett.
- JOSÉ BASTOS
t- Vi —Lisboa 73
Edoux & C.*
C Ut E II T O
Únicos importadores em Portugal e colonias do CIMENTO da Compagnie
§ des Ciments Parisiens, fabricado pelo notável engenheiro E. CANDL0T.
m M MmM M m m m M O >« M Fabrica de sabão — Telhai (Foço do Bispo)
Fabrica de licores aguardente, genebra e cognacs — TELHAL (POÇO 00 BISPO)
*
"W
K-V “*
~w -*
Typ. d'tA Editora
* — Lisboa

DRaC-CCA
cordão, que S. Miguel está duzentas e setenta legoas de Portugal, a casta, de vacas, porcos, ovelhas, etc. e lançando tudo em a
e a Terceira trezentas; e isto he o mais certo, e experimentado; Ilha, se voltou a Portugal a buscar gente capaz de a povoar; e
e que fóra d’estas Ilhas Terceiras, se não sabe de outra alguma por não tão facilmente a achar, se foi á Madeira com alguns
Ilha mais distante de toda a terra firme: pois as de Cabo Verde Flamengos; n’ella tomou amizade com hum bom fidalgo, cha­
estão mais perto d elia: as Canarias mais perto da barbara Mou- mado Diogo de Teve, e com elle, e outros nobres da Madeira
rama: as da Madeira muito menos longe da Mourisca África: e se veio á Terceira, aonde já achou grande multiplição de gados:
ainda as de Inglaterra estão mais perto de França, e muito mais e estando na Terceira algum tempo lhe chegarão cartas, (que dis-
as de Italia, de Alemanha, de Olanda, e das índias Orientaes, e scrão alguns, serem fingidas pelo amigo Teve) em que se lhe
Occidentaes, a respeito de outras terras firmes, e vizinhas: e por dizia ser morto hum tio seu em Flandres, e tão rico que lhe dei-
isso também esta razão assina o nosso Infante para tão ampla xára a elle hum morgado de muita renda: o que sabido, ou crido
mercê fazer logo ao primeiro Capitão Jacome
de Bruges.
9 Por tradição de alguns velhos (refere Fru-
ctuoso liv. f>, cap. 7.) depois de descuberta, como
já dissemos, a Terceira, veio a ella hum Fernão
Dulmo, de nação Flamengo, ou Francez, e en­
trando pelo Norte habitou no lugar que alli se
fez, das quatro Ribeiras, e com trinta pessoas
que comsigo trouxera; e póde ser que este fosse
o que alli levantou a primeira Ermida, ou Igreja
dedicada a Santa Beatriz, primeira Freguezia
que houve em toda a Ilha; e querendo abrir, e
cultivar a terra, (de que parece não entendia
muito) impaciente de logo lhe não responder
como elle desejava, se voltou a Portugal: e ou
d’este, ou de outrem, informando-se o fidalgo
Jacome de Bruges, se offereceo ao Infante a ir
povoar a dita Ilha, e lhe pedio, e alcançou a
Doação referida.
10 Feito pois este Capitão, Donatario de toda
a Ilha Terceira, partio logo para ella com dous
navios á sua custa, carregados de gado de toda Angra. — Antigo Palacio do Marquez de Castello Rodrigo

N.° 49 385

DRaC-CCA
u Succedeo depois ir Diogo de Teve a Lisboa, e ser lá preso
por culpas lá commettidas, e então a Dama mulher do Bruges, se
foi queixar a El-Rei de que Diogo de Teve lhe matára seu marido,
e requerer-lhe c mandasse notificar que désse conta d’elle: e assim
o fez El-Rei, e á prizão lhe mandou dizer, que dentro de dez dias
désse copia do Capitão Bruges, ou aonde estava, vivo ou morto,
sob pena de mandar fazer justiça d elle Teve; e tanta pena tomou
o fidalgo Teve d'esta Real notificação, que ao sexto dia morreo.
E assim não apparecendo o Capitão Bruges, a viuva fidalga sua mu­
lher casou a mais velha filha Antonia Dias de Arce com hum fidalgo
inglez, chamado Duarte Paim, Commendador da Ordem de San­
tiago, e filho de outro fidalgo Inglez, por nome Thomás Elim Paim,
que tinha vindo a Portugal por Secretario da Rainha Dona Fellipa
de Lencastro, mulher d’El-Rei D. João I, e o tal Duarte Paim
começando a demanda com os possuidores da Capitania da Ter­
ceira, morreo, e continuou a hum filho seu, chamado Diogo Paim,
e por se não achar a própria Doação feita a Jacome de Bruges,
(que dizem lh’a furtarão, e queimarão) foi excluído Diogo Paim do
direito que tinha á tal Capitania.
12 Estando pois vaga a Capitania da Terceira pela falta do
primeiro Capitão Jacome de Bruges, succedeo aportarem á Ter­
ceira dous fidalgos, que vinhão da terra do bacalháo, que por
mandado d’El-Rei de Portugal tinhão ido descubrir, hum se chamava
João Vaz Cortereal, e o outro Álvaro Martins Homem, e informan-
Cão de Fila. — Raça Especial da Terceira do-se da terra, lhes contentou tanto, que em chegando a Portugal, a
pedirão de mercê por seus serviços: e por ser então já morto o nosso
pelo bom Bruges, se embarcou logo, e em tal conjuncção, que até Infante Dom Henrique, e lhe ter succedido no governo da Ordem
hoje nunca mais se soube d’elle: e accrescentão alguns que o de Christo o Infante D. Eernando, de quem era já viuva a Infante
Diogo de Teve o mandou matar, por se levantar com a Capitania: D. Brites, e por isso Tutora, e Curadora de seu filho menor o Du­
e com effeito se levantou logo com huma serra chamada de San­ que D. Diogo, fez esta Infante mercê aos dous fidalgos pertendentes
tiago, que o Capitão Bruges tinha tomado para si, e rende até da Capitania da Terceira, repartindo-a entre ambos em duas Capi­
quatrocentos moios de trigo cada anno. tanias, huma de Angra, outra da Praia. Padre Cordeiro.

386

DRaC-CCA
VILLA DA PRAIA DA VICTORIA
xfum vasto plano á'beira mar, semeada d’areias e orlada de Que ruinas vulcânicas se abrigam no seu solo; que ri-
I montes revestidos d’arvoredo, fica a notável villa da Praia da cos apontamentos históricos nos dá a tradição; que linda paiza-
Victoria.
Poucos logares de Portugal poderão
apresentar ao visitante um panorama
tão bello e assumpto tão vasto para re­
flexões.
Aquelles campos atapetados de rel­
va, ondeantes de searas, matizados de
flores; o seu espaçoso areal recamado
de conchas, bordado de fortalesas fen
didas, beijado continuamente pela onda
acariciadora, as rochas alcantiladas onde
a vaga se quebra em vagalhões de es­
puma, foram outr’ora o palco das mais
emocionantes tragédias, dos mais com-
moventes dramas de que resa a histo­
ria.
As lagrimas da dôr e o sangue da
lucta bastas vezes orvalharam as faldas
serra, o lençol d’aquella ba-
hia, e as ameias d’aquelles fortes.
Os campos como que nos estão fal-
lando; as ruinas como que estão teste­
munhando o passado, offerecendo thema
ao geologo, notas ao historiador, estro
ao poeta. Ilha Terceira. —Villa da Praia da Victoria. Vista Geral

387

DRaC-CCA
gem — pradaria viçosa, casaes e edifícios debruçados no mar Foi ali que ressoou o clarim cujos echos se foram repercutir em
espelhante! Lisboa e Porto, Almoster e Asseiceira, e deu inicio á convenção
d’Evora Monte que assegurou o triumpho definitivo do regimen
A Praia da Victoria foi rica, acastellada. com as suas mura­ liberal.
lhas, as suas portas, os seus conventos, os seus edifícios pompo­ E quantos d’esses bravos prostrados pela lucta, dormem o
sos, capitaneando toda a ilha. eterno somno sepultados nas fortalesas onde o mar psalmodia do­
Os horrorosos terramotos que por vezes a assaltaram tudo fi­ lente, soluçante, como que chorando-os...
zeram desapparecer. O de 24 de maio de 1614 não só abateu o
seu solo, abrindo franca entrada ao mar, como arrazou muros, Se a Praia não fosse rica de tradições históricas era-o de bel-
baluartes e edifícios, sepultando em seus entulhos mais de 200 ha­ lesa e poesia.
bitantes; e quando depois do de 24 de junho de 1801 os seus mo­ Quando a. vaga se espreguiça melancólica, num rithmo plan­
radores a reedificaram, aformoseando-a, eis que nova catastrophe gente e doce, diluindo turquesas, acaridiando a areia ruiva, mur­
(15 de junho de 1841) a reduzio a um montão de ruinas. Era en­ murando não sei que estranha elegia, a nossa alma, como que
tão governador civil do districto um vulto cujo nome está no co­ electrisada, sente esse inefável goso que só a poesia nos pode
ração de todos os praienses —José Silvestre Ribeiro — a quem se offerecer.
devem os esforços para a sua completa reedificação. A prova d'essa E quando, vindo o dia, os barcos regressam da sua faina do
immensa gratidão dos praienses, está na estatua que fizeram erigir alto mar, as veilas brancas como as espumas cortando as aguas
no seio da sua villa, para recordar aos vindouros e mostrar ao de saphira, formam um quadro inspirador, digno do pincel dum
viajeiro — um benemerito. artista, merecedor dum poema.

Quando se contempla aquella bahia larga... muito larga, E’ que o mar, como escreveu Castellar: é na vida da naturesa
aquelle areal extenso, quando se olha os restos d’aquellas fortale- o que mais se aproxima da vida do espirito, dos matizes do sen­
sas, desmanteladas, surge no nosso espirito a tragica recordação timento, dos sonhos da imaginação, da profundidade das ideias,
d’aquelle dia memoravel — 11 d’agosto de 1829 — em que um pu­ do nosso infinito amor e das nossas infinitas esperanças.
nhado de bravos patriotas, ennegrecido o rosto pela fumaria da
batalha, húmidas as vestes pela resaca das vagas, se debateu Praia da Victoria.
pela Liberdade! Gekvasio Lima

388

DRaC-CCA
Angra. — Um trecho do Jardim Duque da Terceira

389

DRaC-CCA
AUGUSTO RIBEIRO
ntre as individualidades que honram hoje a ilha Terceira, vae forma que, n’este particular, o seu nome passou já as fronteiras
E na vanguarda Augusto Ribeiro, nascido na cidade de Angra
do Heroísmo em i853. Duas palavras a seu respeito:
e é conhecido e citado em importantes centros coloniaes.
A justa consagração da sua competência na matéria, ainda ha
Possuidor d’um talento solido e pouco lhe foi prestada, cabendo-lhe
tendo uma grande bagagem de co­ a regencia d’uma das cadeiras do
nhecimentos scientificos e litterarios, curso da Escola Colonial, recente­
de ha muito conseguiu fazer impor mente creada e installada na Socie­
o seu nome á consideração publica. dade de Geographia de Lisboa.
Em Lisboa, onde ha muito resi­ Com aquelle patriotismo cara-
de, occupa Augusto Ribeiro uma cteristico dos insulares, Augusto
brilhante posição, mercê dos seus Ribeiro não sabe esquecer a terra
muitos merecimentos. que lhe foi berço; e, assim, ao bem
Como escriptor, um dos ramos da gloriosa ilha Terceira, sempre
em que mais se tem distinguido é que para isso se lhe depara ensejo,
em trabalhos coloniaes, que lhe têm offerece todo o valioso préstimo do
grangeado justa reputação, não só seu talento. Modesto no seu valor,
em Portugal, mas também no es­ não é por favores de cotterie que
trangeiro. elle tem conseguido impor-se, mas
No Diário de Noticias e na sim por um trabalho persistente e
Revista Portuguesa Colonial e Ma­ probo, e de tal valia que lhe creou
rítima, tem Augusto Ribeiro dei­ o renome que hoje tem.
xado largamente comprovada a sua Justa é, pois, esta simples home­
competência como colonial illustre, nagem que lhe presta o Album Aço­
tratando com invulgar proficiência riano, dando-lhe logar condigno
dos mais variados problemas res­ n’esta galeria de homens que, por
peitantes ás colonias nacionaes e variados merecimentos, illustram e
estrangeiras, e fazendo o por tal A
ugusto R
ibeiro honram o nome da terra açoriana.

DRaC-CCA
VILLANCETE
Haveis de tocar, Senhora,
com esses dedos de aneis,
e as minhas penas reveis
fugirão por ahi fora.
Haveis de tocar, Senhora,
com esses dedos de aneis.

Voltas:
Com esses dedos de aneis Tocareis, que eu bem o sei;
tocareis a toda a hora; e tocando a toda a hora,
assim as maguas reveis vós fareis, bella Senhora,
fugirão por ahi fóra, escravos em toda a grei;
como fogem, de longada, e em meu peito, agradecido,
por branca, serena estrada, haverá um preito erguido
os mais fogosos corseis. a quem toca com tal lei.

Haveis de tocar, Senhora,


Haveis de tocar, Senhora: com esses dedos de aneis:
tocareis, que eu bem o sei; e dos meus ditos vereis,
tendes no peito essa lei vereis que sou, hora a hora,
de tocar a toda a hora; escravo de vós, Senhora,
de consolar a desdita escravo das vossas leis.
de quem vae por ahi fóra Haveis de tocar, Senhora,
sem eira, sei lar, sem lei. com esses dedos de aneis.

Mendo Bem.

DRaC-CCA
FRANCISCO JOAQUIM MONIZ DE BETTENCOURT contam-se as seguintes: Valle das Furnas, Capellãs, Cosinha
Economica, Notas de Viagem, etc.
(Mendo Bem) Tal foi, em synthese, Francisco J. Moniz de Bettencourt, o
lyrico cheio de sentimento, o filho por tantos titulos illustre, da
terra terceirense.
ntre os mortos illus-

E tres pelo nascimento


e pelo talento, da ilha Ter­
PADRE THOMAZ BORBA
ceira, figura brilhante­
mente Moniz de Betten- m padre que é um ar­
court, poeta distincto e
prosador apreciado.
U tista. Fallar d’elle, é
fallar d’um delicado tem­
O seu caracter de ve­ peramento musical, sobe-
lho portuguez salientou-se jamente e distinctamente
pela nobreza d’alma e pe­ comprovado.
las adoraveis qualidades Thomaz Borba não é
de coração. só um executante distin­
Moniz de Bettencourt cto: regente, critico mu­
foi um dos filhos dos Aço­ sical e compositor, em to­
res que mais prezou a sua dos estes aspectos artísti­
patria e que com mais entranhado affecto lhe dedicou os seus mais cos elle se salienta á ma­
intimos pensamentos. Foram, na realidade, os Açores o objecto ravilha.
querido do seu lúcido espirito. Mas é, talvez, como
E assim n’uma affirmação gentilíssima do seu profundo amor compositor que Thomaz
pela terra natal, lega á Bibliotheca da Camara Municipal de Angra Borba mais tem posto em evidencia o seu nome, hoje deveras
do Heroísmo, a sua selecta livraria — cerca de 3.ooo volumes, conhecido e admirado.
muitos dos quaes de inextimavel valor historico, litterario e scien- Rege o padre Thomaz Borba uma cadeira no Conservatorio
tifico. de Lisboa, com indiscutível proficiência. E por que elle, novo e
Sob o pseudonymo de Mendo Bem e em vários livros e publi­ cheio de vida, é já, no meio musical portuguez, uma figura de
cações, Moniz de Bettencourt mostrou altamente o valor da sua destaque, entra bellamente na pleiade illustre de illustres tercei-
mentalidade. Entre suas composições poéticas, na maioria inspi­ renses, havendo ainda muito a esperar do seu bello talento, que já
radas nessas terras que elle tanto amou e tão bem soube servir, hoje se aflirma em brilhantes fulgurações de arte.

392

DRaC-CCA
FASCJICITIuO tv.° 49

DRaC-CCA
LOMBADAS
GRî FRIX
Exposição Internacional de S. Luú em 1904 MAGAZINE BERTRAND |
MEDALHA DE OURO
Exposição do PaiaciO de Crystal de Londres em 1904 A LEITURA ILLUSTRADA
Revista quinzenal — 96 paq. cheias de gravuras
fi Xainha das aguas de meza 200 RÉIS
Assigna-se na

Leve, estomacal e digestiva, pura, limpida ANTIGA CASA BERTRAND —JOSÉ BASTOS
57A7T- R- Garrelt, 73 e 75 — Lisboa
ÈIPBHD/S 0 acido carbonico não é Introduzido artiflcialmente

Recommendada por todos os médicos

DEPOSITO GERAL
106, AVENIDA DA LIBERDADE, 110 C. MAHONY & AMARAL
LISBOA
-usta.
70. EJ.na, A_ii£
* ã.” — I S 15 O A.
T3LEPHOIIE 586
ixt METAES EM BRUTO: Aço, cobre, latào, estanho, chumbo em chapa, bar­
ras lingots.
FERRO: Em barras quadradas, redondas e vergalhão. Vigamento de ferro

wX MEMÓRIA SOBRE A ILHA TERCEIRA em TIU; cantoneiras e todos os mais aprestos para eonstrucções. Ferro em
lingots para fundição. Chapas galvanisadas lisas e onduladas. Chapas de aço

W
s
por Alfredo da Silva Sampaio
Angra do Heroísmo, 1904. 8.° gr. — XI — 833 paginas
para caldeiras. Tubos de ferro, cobre e latão. Arame de ferro, cobre e latão.
Folha de Flandres. Material fixo e circulante para caminhos de ferro. Rails de
aço e diversos perfis e pesos, vias portáteis. Machinas de vapor, gaz e petró­
leo. Caldeiras. Boinbas. Machinas para industrias e agricultura. Machinas. Fer­
2$5OO RÉIS ramentas. Vidros polidos, foscos e de phantasia. Vidraça, lages de vidro (dalles)
*
 venda na

« o ANTIGA CASAtíarrett,
BERTRAND —JOSÉ BASTOS r Assuear, arroz, especiarias, drogas, productos chiinicos. Ascensores hydraulicos.
Edoux & C.a
CIM B H T O
* Mwa 73 e 75 — Lisboa Únicos importadores em Portugal e colonias do CIMENTO da Compagnie
O des Ciments Parisiens, fabricado pelo notável engenheiro E. CANDLOT.
•íÁC- *
^,4 Fabrica de sabão — Telbal (Poço do Bispo)
Fabrica da licores aguardente, genebra e cognacs — TELHAI (POÇO DO BISPO)

Typ. d'. A • — Lisboa

DRaC-CCA
O ESPIRITO SANTO-ADVOGADO DA INNOCENCIA

(Lenda Açoriana)

rancisco Ornellas da Camara, capitão mór da villa da Praia, na para rendel-o, e elle só se rendeu honrosamente n'um ultimo e
F Ilha Terceira, foi um dos fidalgos que se achou no acto da ac- nobre extremo. A sua bravura foi a de um heroe !
Francisco Ornellas, como
clamação de D. João IV em
Lisboa, e foi tão particular o fiel e zeloso patriota, não afrou­
zelo que mostrou, que El-Rei xou na lucta contra os hespa-
lhe deu o encargo de reduzir nhoes. Finalmente venceu. Ul­
á obediência o castello de An­ timada a expulsão extrangeira
gra. N’este intento deixou a surgem os emulos domésticos
côrte e velejou para a Ter­ de Francisco Ornellas. E’ ac-
ceira, narrando a seu cunhado cusado com D. Pedro Ortiz e
João de Bettencourt, capitão outros de desleal á patria e de
mór de Angra, o occorrido em vendido a Castella. Essa in­
Lisboa e entregando-lhe uma justa quão vil intriga levou-os
carta do soberano, que o fez a um rigoroso cárcere. Quem
dedicado parcial. capitaneava essa iniqua perse­
Governava a fortaleza de guição era o governador do
Angra, D. Álvaro de Viveiros, castello, Manuel de Souza Pa­
official bravíssimo e castelhano checo.
inquebrantável. A magistratura de Angra
A resistência d’este official houve-se tristemente. Os ac-
ao sitio, durante doze mezes, cusados, condemnados á morte,
é uma das paginas épicas da appellaram para os tribunaes
>
Angra do Herolsmo. — Coroação de Espirito Santo
historia militar de Castella. da côrte. Essa iniqua persegui-
A guarnição sitiada e apertada pela fome chegou a comer ra­ cão fazia suar a alma de Francisco de Ornellas gottas de im-
tos. mensa amargura.
Os nossos empregaram todos os meios bellicos e seducçÕes Quem pedia ao céo justiça, invocando a intercessão do Espi-

N.° 50

DRaC-CCA
rito Santo, era sua dilecta filha D. Emilia de Ornellas. Esta alma enorme rimava elegíacas estrophes. E essa musica enternecia-a, ao
candida era feita de lyrios como a tez do seu rosto, e seus espiri- mesmo tempo que lhe alimentava a fé.
tuaes irmãos, os celestes cherubins, levavam-lhe as luminosas pre­ O monte Brazil apparecia-lhe sempre verde, symbolo do an-
ces ao throno do Altíssimo. Quantas vezes ajoelhou deante do al­ ceio da sua alma, emquanto que o castello com as suas ameias
tar a sua figura airosa de flexi­ que cingem os torreões, as mu­
bilidade viminea, sempre numa ralhas, o portico com os mimo­
attitude de nobre elegancia e de sos rendilhados e sua ponte le-
humildade christã! vadiça sempre lhe apparecia
Quantas vezes em seus ar- sombrio. O monte era obra de
roubamentos mysticos, com os Deus, o castello obra dos ho­
olhos escuros de doçura húmida, mens.
via o cárcere aberto a seu pae, Ella tinha doçura de alfe-
já gozando a liberdade como o nim na voz. Balbuciava na so­
primeiro dos bens do mundo! ledade como uma outra alma
A dedicação inspirada pelo re­ feminina, meiga, delicadíssima:
conhecimento ou pelo amor
puro, é uma religião nas almas Tudo o que ha triste no mundo
Quizera que fosse meu,
elevadas.
Para ver se tudo junto
Por mercê do céo o sol ful­ Era mais triste do que eu.
gurante da verdade ia inun­
dando a sua alma de luz con­ No campo da fé, quem se­
soladora. Deus, que ouve oecho meia com lagrimas de dor, cei­
melodioso das queixas das aves, fará com sorrisos de alegria. A
com maioria de razão escuta as resignação é uma graça sobre­
preces dos anjos terrestres. T .—D
erceira S. M
estroços da fkeguezia de 28
atheus, causados pelo cyclonb de i8y3 natural, concedida por Deus ás
de agosto de

A gentil donzella D. Emilia almas doloridas, que lhe suppli-


de Ornellas, sentia que a tristeza era o veneno da alma e a cam, e o milagre apparece sempre que se saiba merecel-o.
esperança a mãe acariciadora da alegria. Em 23 de março de 1648, o tribunal da relação de Lisboa, pro­
De dia o sentimento da esperança, de noite o somno da inno- feriu a sentença no pleito de Francisco Ornellas da Camara e co-
cencia; sem a esperança e sem o somno, impossível seria a vida. réus.
Encostada á sua varanda em flor, olhava melancholicamente o O debate do processo levára dias. Havia grandes duvidas no
oceano, parecendo-lhe que pelo marulhar das vagas, esse poeta animo dos juizes. Chegaram a lavrar a sentença condemnatoria

’94

DRaC-CCA
Francisco de Ornei las fôra sempre devoto do Espirito Santo e
para commemorar este milagre prometteu: primeiro, dar annual-
mente um grande bodo aos pobres, em que elle descalço os havia
de servir: segundo, edificar em honra do Espirito Santo, na rua dos
Quatro Cantos da cidade de Angra uma solida e formosa ermida de
abobada e pedra, que affrontasse os tempos futuros; terceiro, tra­
zer pintado nas suas armas o emblema do Espirito Santo.
Todas estas clausulas da promessa foram por elle cumpridas
de um modo integral e escrupulosamente religioso.
O rei reconheceu-lhe os grandes serviços, fez-lhe varias mer­
cês. A capitania-mór da villa da Praia voltou para a sua geração.
Aos descendentes de Francisco de Ornellas ficaram pertencendo
a mór parte dos bens, confiscados em 1642 ao donatario Marquez
de Castello Rodrigo, que permaneceu em Hespanha, optando por
aquella nacionalidade.
Francisco de Ornellas foi depois governador do castello. Fal-
leceu em Angra a 24 de abril de 1664 e foi sepultado na villa da
Angra. Festas do Espirito Santo. Esmolas de pão e carne
Praia, levando na sua alma duas irmãs gemeas, imagens de grata
saudade: a pomba, emblema do Espirito Santo, e a sua filha, sym-
com fundamentos expressos no processo, e quando iam a assi- bolo da candura da pomba. Muito podem a crença e a oração, nas
gnar entrou por uma das janellas da sala uma pomba e entornou o almas formadas de candura e luz!
tinteiro sobre ella. Tão maravilhoso successo, julgaram os desem­
bargadores ser um signal celeste da innocencia dos réus. Lavra­ Angra — igo3.
ram nova sentença, baseada no processo, e os absolveram. Dr. . Ferreira Deusdado.

395

DRaC-CCA
CONSELHEIRO JOSE PEREIRA DA CUNHA
senhor conselheiro José Pe­ No entanto não des­
O reira da Cunha da Silveira animou. Affastado da ro­
e Sousa Jr., incontestavelmente um tação política, por se
dos illustres filhos do districto de não conformar com a
Angra, depois de terminado bri­ orientação que ella to­
lhantemente c curso de agronomia, mou, eil-o á frente do
tem-se dedicado com inexcedivel movimento ultimamente
zelo ao estudo das questões que iniciado, applicando-se
mais interessam aos Açores, em tenaz e intelligentemente
geral, e em especial a este distri­ a estudar os meios de
cto. Evidenciou-o, como deputado, debellar a crise que atra­
tratando com lucidez os assumptos vessamos.
que mais de perto se prendiam E’ por isso que o
com a nossa prosperidade e previu prestigio do seu nome se
então que da falta de activase bem eleva cada vez mais. C J
onselheiro P osé Cereira da unha

combinadas medidas tomadas pelo que o seu reconhecido


governo cahiriamos no plano incli- talento, illustração e trabalho o impõem á consagração publica
nado de decadência d’onde mui difficilmente nos levantaríamos. como um verdadeiro homem de bem c um benemerito aço-
Assim succedeu, infelizmente. reano.

3g6

DRaC-CCA
Extracto da Proclamação do Senhor D. Pedro IV aos Portuguezes
nha Augusta Filha e Pupilla, e pela da Causa Constitucional, de-
«Neste meio tempo, a Regencia, que Eu havia creado para vos cidi-Me a embarcar em Belle-Isle, e a fazer-Me á vela, logo que
governar, enviou uma Deputação á Presença de Minha Augusta pude, para esta Ilha, egregio baluarte da Fidelidade e da Liber­
Filha e á Minha, a pedir-Me em nome da mesma Regencia, e em dade Portugueza.
vosso nome, que Me pozesse ostensivamente á frente dos Negocios «Acudindo deste modo ao chamamento dos seus Povos, venho
de sua Magestade Fidelíssima. Este desejo tão expressamente ma­ em Nome da Vossa Rainha, e Pessoalmente agradecer á Regen-
nifestado por vós, não podia cia, a todos os habitantes das
deixar de mover meu Impe­ Ilhas dos Açores, e ás valo­
rial Coração e condescender rosas tropas que as guarne­
com elle, e a ajuntar gosto­ cem, tantos sacrifícios, tan­
samente aos disvellos e cui­ ta fidelidade provada, tanta
dados, que já Me devia tão constância desenvolvida, que
sagrada causa, o sacrifício seguramente vos tornam aos
da Minha tranquillidade pes­ olhos do mundo civilisado
soal, e dos interesses que Me vivos exemplos d’aquella he­
são mais caros. roicidade e amor da Patria,
«Concluído que foi o em­ com que os Albuquerques
préstimo, e apenas por meio e os Castros se distingui­
d’elle, e á custa de bastantes ram na índia.
trabalhos, e de não poucas
difficuldades, se pôde conse­ «Bordo da Fragata Rai­
guir que se apromptasse uma nha de Portugal surta no
Esquadra capaz de sustentar Porto d’Angra, aos 3 de
os direitos da Senhora D. Ma- Março de 1882.
aria II, e os dos seus fieis
súbditos, e guiado pelo amor D. Pedro,
da humanidade, pelo da Mi- Ilha Terceira.—Edifício do Lyceu i>e Angra Duque de Bragança.»

397

DRaC-CCA
IOSE SEBASTIAO DE CASTRO DO CANTO
urocrata, floricultor, aguarelista, photogra- cia de porte absolutamente sua, verdadeiro ho­
B pho-amador hors-ligne, cavalheiro distin-
ctissimo, eis em dois traços o croquis de José
mem da sociedade, o seu modo, o seu feitio, são
inconfundíveis.
Sebastião de Castro do Canto. Observador consciencioso dos homens e das
cousas, na sua critica acerada e finamente mor­
* daz, mas sempre cortez, esfuzia a nota scintil-
lante do seu bello espirito, dentro da linha da
Na arte tem elle a comprehensão pura do sua seriedade imperturbável, a que a luneta põe
bello, na fórma mais brilhante e rutila que nos tons burocráticos.
é dado admirar, quer a observemos sob o aspe­ Nas elevadas funcções de secretario da ca-
cto encantador de um desenho primoroso, quer mara municipal de Angra do Heroísmo, o nosso
sob a feição nitidamente perfeita de uma photo- illustre amigo gosa de geraes sympathias e pro­
graphia de tons impeccaveis. funda estima, pelas suas extraordinarias e inve­
Floricultor de um gosto requintado e exqui- jáveis faculdades de trabalho, pelo seu saber
sito, ama cariciosamente as rosas nos seus ma­ profissional, pela rectidão extrema e escrupulosa
tizes mais ternos e mais tensos. O que não im­ do seu proceder, pela lealdade nunca desmen­
pede que tenha uma certa adoração pelos chry- tida que preside a todos os seus actos. Estas
santemos e veneração, por demais comprovada, supremas qualidades conquistaram-lhe a mais
pelos amores perfeitos. absoluta e incondicional confiança das vereações
Como que uma consubstanciação da pureza que se succedem periodicamente na administra-
d’essas flores suas apaixonadas, tem a brancura lidima das gran­ ção do município angrense. Taes predicados tornam-no, pois, no seu
des almas no seu coração de ouro. Alvura que nenhuma nuvem meio, uma figura de elevado destaque.
macula, pureza que por mil fôrmas se manfesta. De uma elegan- Sieuve de Menezes.

3g8

DRaC-CCA
POESIA

A uma cadeirinha velha, que seu dono tinha em grande estimação

(Por Joào Miguel Coelho Borges, antigo poeta, natural da ilha Terceira)

O traste mais velho e pobre


Que a natureza continha,
Era, segundo nos consta,
De João Pedro a cadeirinha.

Dizem uns que foi pedida Sustentam que de Sabá


Por um mui grave senhor, A magnifica Rainha,
Que nella foi ao banquete A visitar Salomão
De Nabucodonosor. Fora na tal cadeirinha.

Que para dar em pantana Que fôra fama fundada


Com a teimosa obstrucção, E não quimera ou tramoia,
Nella dera os seus passeios Que Anchises nella escapara
A avó de Jeroboão. Do bravo cerco de Troia.

Que d’uns restos delia, foram Um que foi do mesmo tempo


Feitos por mui habil mão, Do terceiro avô de Sara,
Os andaimes para a obra Disse que seu quinto avô
Do templo de Salomão. A conhecel-a chegara.

399

DRaC-CCA
Mas este mesmo, deixou Que já nesse tempo estava
Escripto que era mentira, Comprovado mais que bem,
Pois já seu decimo avô Que era coeva da sogra
Fallar delia mal ouvira. Do avô de Mathusalem.

Muitos dizem, pelo ter Que já quando Adão entrára


Assim visto por escripto, No terreal Paraizo
Que existiu séculos antes De muito velha que a achára
Das pyramides do Egypto. Se escangalhára com riso.

Acha-se mais que provado Que Deus engendrára o mundo


Por penna, tinta e papel, Com mão sabia e não mesquinha,
Que era muito mais antiga Muito depois de haver
Do que a torre de Babel; Sido feito a cadeirinha.

Porque no seu tempo fora Outros souberam e tem


Opinião universal, Por mais que certa verdade,
Que a cadeirinha foi feita Que a tal cadeirinha fôra
Em era immemorial. Bisavó da Antiguidade.

Gentes do seu tempo affirmam, Emfim, que mil arithmeticos


Entre nós dignas de fé, Egypcios, gregos, romanos
Que fôra contemporânea Suaram, mas não puderam
Da gaiola de Noé. Dar-lhe na conta dos annos.

400

DRaC-CCA
I'AS<I<I!.<> IX.1
50

DRaC-CCA
LOMBADAS
GRAKD FRIX
Expusiçâu luierudciuual de S. L<>| em 190
* II MAGAZINE BERTHAND
MEDALHA DE OURO
Exposição do PhI.iciO de Cryslal d<- Londres em 1904 A LEITURA ILLUSTRADA
Revista quinzenal — 96 paq. cheias de gravuras
A lainha das aguas de meza 200 RÉIS
Assigna-se na
Leve, estomacal e digestiva, pura, limpida & ANTIGA CASA BERTRAND —JOSÉ BASTOS

R. Garrett, 73 e 75 —Lisboa
0 acido carbonico não é introduzido artiíicialmente ?-

Recommendada por todos os médicos

DEPOSITO GERAL
106, AVENIDA DA LIBERDADE, 110 C. MAHONY & AMARAL
X.XSBOA
70, Rua Q.°— I^TSBOA
TKLEPHOKE 586
METAES EM BRUTO: Aço, cobre, latão, estanho, chumbo em chapa, bar­
% > ras lingots.

MEMÓRIA SOBRE A ILHA TERCEIRA g »


FERRO: Em barras quadradas, redondas e vergalhão. Vigamento de ferro
« em T I U; cantoneiras e todos os mais aprestos para construcções. Ferro em
lingots para fundição. Chapas galvanisadas lisas e onduladas. Chapas de aço
por Alfredo da Silva Sampaio i
71 para caldeiras. Tubos de ferro, cobre e latão. Arame de ferro, cobre e latão.
Folha de Flandres. Material fixo c circulante para caminhos de ferro. Rails de
Angra do Heroísmo, 1904, 8.° gr. — XI — 833 paginas , aço e diversos perfis e pesos, vias portáteis. Machinas de vapor, gaz e petró­
leo. Caldeiras. Bombas. Machinas para industrias e agricultura. Machinas. Fer­
2 $500 RÉIS y ramentas. Vidros polidos, foscos e de phantasia. Vidraça, lages de vidro (dalles)
Assucar, arroz, especiarias, drogas, productos ehimicos. Ascensores hydraulieos.
- JOSÉ BASTOS j
BERTRAND7»-Lisbon
ANTIGA CASAGnrrett, 73 e
Edoux & C.*
CIMENTO
4 Únicos importadores em Portugal e eolonias do CIMENTO da Compagnie
des Ciments Parisiens, fabricado pelo notável engenheiro E. CANDL0T.
S
Fabrica de sabão — Telhai (Poço do Bispo)
Fabrica de licorss aguardente, genebra e cognacs — TELHAL (POÇO DO BISPO)

Typ. d'tA Editora» — Lisboa

DRaC-CCA
CASTELLO DE S. JOAO BAPTISTA
Áo se sabe ao certo o dia em que se lançou a primeira pedra hoje que os hespanhoes tencionavam cingir todo o monte com o
N do castello de S. Filippe, que assim se denominou primitiva­
mente a fortaleza por ordem do monarcha hespanhol, que man­
perímetro fortificado, e mais tarde talvez levantar algumas obras
exteriores, senão avançadas, quando a vigorosa revolução de 1640
dava erguer. os expulsou do nosso sólo pátrio. A bateria denominada da Que­
Rezam as chronicas ser coeva de D. Sebastião a idéa de levan­ brada, e as dos extremos ou pontas denominadas de Santo &4n-
tar-se sobre o monte do
Brasil alguma fortificação,
mas parece que divididos
os pareceres entre os da
governança da cidade an-
grense, se representou ao
soberano e elle deferiu por
carta de 4 de julho de 1672,
ordenando que apenas no
porto de ‘Pipas e no porto
dos Fenaes fizessem duas
estancias para ter ríellas
peças d’artilheria.
O castello d’Angra não
é uma praça de guerra regu­
lar. E’ uma cidadella para a
ilha, como a ilha o é pela
najtur(eza de suas costas
aprumadas, impervias, al­
tíssimas, em relação aos
Açores.
E' facil reconhecer ainda Ilha Terceira. Angra. O Monte Brazil. (Lado da Bahia do Fanal.

N.° 51 401

DRaC-CCA
tonio e de S. Diogo encerram vestígios mais seguras resistências contra a pos­
claros de que os traçados do enge- sibilidade de brecha, que assim se
nheiro-mór de Hespanha não chega­ torna impraticável.
ram a concluir-se. Alem do fosso corre a estrada
O castello apresenta portanto como coberta de acanhado e pouco util tra­
elementos principaes da sua força de­ çado, pois as suas praças d’armas ou
fensiva, uma frente principal, voltada reductos, de construcção recente e pe­
á cidade, e dois ramaes ou linhas de quena amplitude, difficilmente presta­
fortificação marítima, uma defendendo rão o serviço proprio de taes obras.
a bahia d’Angra e destinada a cruzar E' humilde opinião de quem traça estas
seus fogos com o castello de S. Sebas­ linhas não ser o caminho coberto tra­
tião: outra, a oeste da montanha, e balho da epoca hespanhola, o que con­
adaptada a bater de flanco a costa que firma em parte pela observação de que
se estende até ao logar de S. Matheus. nem o fosso nem o caminho coberto se
A frente principal, disposta desde a acham concluídos por forma a abran­
bahia do Fanal até á d?Angra, apresenta ger toda a frente principal que deve­
tres baluartes, o de D. Pedro IV, S. Pe­ riam proteger.
dro e Santa Catharina com suas corti­ No largo interior ou parada, e em
nas e flancos altos e baixos, ficando frente da porta a que acima nos refe­
no centro da cortina intermédia aos rimos, está a egreja de S. João Ba-
dois primeiros baluartes, a elegante ptista, ficando ao nascente a ermida do
porta principal, guardada por uma Espirito Santo, e secretaria do bata­
ponte levadiça, que dá entrada para a lhão de caçadores n.° 10, e ao poente
praça. o palacio do governo do castello. Na
Circula a frente principal um fosso encosta do Monte Brazil e sobran­
Monte Brazil. Ermida de Santo Antonio da Grota
de singular aspecto, pois sem ser de ceira á bahia d’Angra ha ainda a er­
excessiva ou mesmo regular profundi­ mida de Santo Antonio da Grota,
dade, se acha quasi todo profundado por cavas ou poços qua- onde todos os annos se faz uma pittoresca romaria, e sob a
drangulares, abertos na rocha. qual demoram tristes e soturnas as ruinas da casa do regalo, an­
Cabe aqui dizer que a escarpa e contra-escarpa da praça são tigo palacio ou residência de verão dos governadores, mandada.
talhadas egualmente na rocha, e que as muralhas, apenas revesti­ construir por D. Gonçalo Mexia em i6i5, e da qual dilatada­
das pela cantaria sobre o tufo, apresentam a maior solidez e as mente escreveu o padre Maldonado.

402

DRaC-CCA
A egreja de S. João Baptista, cuja fundação é coeva dos pri­ flancos, onde baterias de boa protecção reciproca se vão dispondo
meiros tempos da restauração, e cujo monumento é, levou largos em linha continua, e de difficultoso senão impraticável accesso, até
annos a edificar-se, julgando-se que só ficou acabada ao findar o ao extremo da bahia.
■século xvn. A linha de S. Diogo, menos extensa, é orlada de baterias, que
Em 28 de setembro de 1818 foi destruída por um incêndio, e durante a campanha liberal foram modificadas umas, reconstruídas
■de novo voltou a um longo periodo d’abandono — triste documento sob diverso traçado outras. As principaes são a da F'idelidade e
da desidia tão vulgar em nossas cousas publicas. a da Constituição, devidas aos talentos do habil engenheiro José
Apoz largos esforços foi restaurada, e em 1 de dezembro de Dionisio da Serra, mas hoje tidas como pouco seguras pelos estra­
1867 solemnemente restituída ao culto com uma esplendida festi­ gos que o mar tem feito a rocha subjacente. Ha traçados para
vidade. O seu frontespicio é vistoso, posto que pouco elegante e novas baterias em situação mais elevada, na encosta do monte do
de indefinido cunho architectonico. Duas torres ladeiam a fachada Zimbreiro, e destinadas a substituir aquellas outras.
principal, onde se mostra o escudo das armas portuguezas, e o O lado sul do monte Brazil é formado por escarpas uaturaes,
o logar outr’ora occupado pelo relogio: uma unica porta dá accesso
ao templo, que é interiormente amplo, modesto, e alegre nas suas
tres naves.
Dentro da fortaleza distendem-se as varias ruas da povoação
militar, onde se alojam em casas, quasi todas hoje novas, os offi-
ciaes da guarnição, e em casernas, umas antigas e deficientes,
outras modernas e hygienicas, o batalhão de caçadores n.° 10 e a
companhia d’artilheria n." 1 dos Açores.
Dois paioes grandes e outros dois menores, uma vasta cisterna,
que se diz poder conter 3:ooo pipas d’agua, diversos armazéns,
um grande deposito de material de guerra, casas de guarda, alo­
jamentos para soldados casados etc. são construcções internas
d’alta valia.
Saindo da praça propriamente dita para 0 lado do’Monte Bra-
zil encontram-se duas estradas que conduzem ás baterias maríti­
mas: a do lado esquerdo conduz á ponta de SantojAntonio: a do
lado direito á ponta de S. Diogo. A primeira d‘estas duas commu-
nicações apresenta um extensissimo ramal de fortificações, forma­
das em amphiteatro, e comprehende um largo baluartekhato sobre
o Relvão, ou campo de exercícios exterior ao castello, cortinas e Monte Brazil. Sinaleiro i>t. Navios

403

DRaC-CCA
a alma. N este ponto existe uma peça curiosa do tempo de Hen- rique 11 de França, cuja cifra se vê alli entrelaçada á da celebre
altissimas e inaccessiveis, tendo no centro, e na falda d um dos Diana de Poitiers: é um raro e precioso exemplar aquelle d’arti-
dois montes, que ahi se ligam, uma bateria denominada da (Que­ Iheria antiga, e, junto a outros não menos valiosos, existentes
brada e própria para jogar contra os navios, que surjam no alto no armazém do material de guerra, vantajosamente figurariam
mar em frente da montanha. E’ este um dos locaes mais interes­ no nosso museu militar, se devidamente organisado o tivésse­
santes do monte Brazil, pelo vasto horisonte que ahi se nos anto­ mos.
lha, pelo silencio e recolhimento que ahi se disfructam, quando a
meditação nos ameigue, ou a contemplação da natureza nos encha Rodrigues da Costa.

Angra do Heroísmo. O Monte Brazil. (Lado da Bahia de Angra.)

404

DRaC-CCA
DE BRACO DADO 5

1 III
inham os dois de braço dado, muito unidos e acon- A breve trecho tinham sustado os passos.
chegadinhos. Novos pareciam, tanto lhes brilha­ Estavam em face duma vasta quadra, onde sibilavam as
vam nos olhos fulgores da mocidade, tanto se machinas, onde se ouvia o ruido cadenciado dos êmbolos dos
avigoravam os corpos no passo, cadenciado e rôlos.
terso, com que iam pela estrada fóra. Entraram despercebidos e foram pelas officinas a den­
Passaram gentes despreoccupadas, na faina tro, ouvindo, graves e encantados, o bater do typo nos com-
de procurar sua vida, ou prazer; mas, ao topa­ ponedores.
rem o par, novo e vigoroso, diziam de si para si: No cylindro das machinas esbatia-se, como borrão enorme, a
— Bellos, casadinhos de fresco, vão por’hi fóra na romagem negra e brilhante tinta, e logo surgiam, cheias de caracteres, as
da felicidade. brancas, immaculadas folhas de impressão.
II Presto sahiram, em pregões cantantes, os distribuidores dos
jornaes, a correr e dissiminar a Luz por todas as artérias da
Poucos passos vencidos chegavam a uma grande cidade, onde grande cidade.
pompeavam palacios de mármore e granito, se estadeavam praças Então elles encantados ante essa festa perenne, rejubilando por
vastas e acolumnadas, e formigavam gentes num borborinho atroa­ vêr coroados os seus esforços de séculos, disseram, descerrando
dor e vivo. os lábios n um sorriso de desvanecimento:
Iam alheiados de tudo, vivendo um para o outro, nessa pro­ — Mal sabem elles quem nós somos. Ao adivinhal-o deviam
miscuidade d'affectos que faz esquecer o que em volta passa, para curvar se a nossos pés como ante o solio augusto dos deuzes. So­
só pensar no que infimamente se sente. mos os senhores do Universo, e despoticamente lhe fazemos cum­
A multidão, celere, volteava em torno dos seus troncos cingi­ prir nossas Leis. Contra o nosso poder não ha reductos nem fron­
dos, vozeava alto, parecia querer colhê-los nas suas malhas uni­ teiras. Guerreiem-se as Nações, degladiem se os Povos:
das; mas ao notar-lhes a natural impassibilidade, o fulgor das pu- Nós marchamos sempre na mesma senda de Luz, sem que nos
pillas, o correcto e nobre das faces, a imponência e aprumo dos tolham os giganteos passos. Somos, ó Povos, a Imprensa e a Ci­
bustos, abria alas respeitosas e deixava-os passar, commentando vil isacão !
silenciosamente:
— Parecem Reis ao descer d'um throno augusto. Mendo Bem.

4o5

DRaC-CCA
CENTENÁRIOS NOS AÇORES
S

THEOTONIO DE ORNELLAS
(1807=1907)

a histórica cidade de Angra do Heroís­ mada das abnegações e com a mais in­

N mo, na heroica ilha Terceira, celebra-se


hoje o primeiro centenário do nascimento do
grande cidadão e glorioso caudilho liberal,
quebrantável das lealdades.
Nascido aos 25 de abril de 1807 no pala-
cio de Santa Luzia da cidade de Angra, no
o conselheiro Theotonio de Ornellas Bruges solar dos seus maiores, descendente e repre­
Avila Paim da Camara Homem da Cesta sentante directo dos antigos donatários da
Noronha e Ponce de Leão, i.° visconde de Terceira e dos fortes capitães Francisco de
Bruges, i.° conde da Praia da Victoria, 1." Ornellas e João de Avila que no século xvi
ministro da guerra do regimen constitucio­ tão heroicamente sustentaram a defeza da
nal (governo provisorio de 1828), membro do independencia nacional contra a dominação
primeiro conselho de estado político da na­ estrangeira, proclamados benemeritos da na­
ção (regencia de t83o a 1832), deputado ás ção, Theotonio de Ornellas, talvez sob a
cortes geraes de 1834, par do reino de influencia das ideias levadas para a Terceira
1835, tendo tomado assento em 1836, cujo em 1810 pelos deportados da fragata Ama­
nome illustre e relevantes serviços á nação, zona, cedo começou a manifestar as ideias
á dynastia e á liberdade, estão intimamente liberaes, fazendo parte do grupo de opposi-
vinculados á historia das luctas, energica e ção ao despotismo dos capitães-generaes,
firmemente empenhadas nos Açores em de- designadamente de Stockler. Alferes de mi­
feza da rainha e da carta. E’ uma figura ex­ lícias de Angra em 1823, capitão em 1825,
traordinária a d’este joven fidalgo, senhor foi dos primeiros a jurar a carta constitucio­
de uma casa opulenta, com pouco mais de vinte annos, sacrifi­ nal de 1826, preparando desde esse momento o celebre pronuncia­
cando nome, vida e fortuna, com o mais absoluto desinteresse, col- mento de 22 de junho de 1828, cujo exito assegurou, tendo feito
locando-se á frente do movimento liberal da Terceira de 1828 e conservar em Angra o bravo regimento de caçadores 5, o fiador mi­
sustentando-o, atravez todas as difficuldades, com a mais extre­ litar da revolução, que se pretendia fazer embarcar para Inglaterra.

DRaC-CCA
N'este difticil periodo de 1828 a i832, em que a Terceira foi Terceira á rainha e ao imperador duque de Bragança e pedir a
o refugio e o baluarte da liberdade portugueza, os serviços presta­ este que se fosse collocar á sua frente. A escuna de guerra Ilha
dos pelo conselheiro Theotonio de Ornellas, não podem ser es- Terceira, que o conduziu a França, foi o primeiro navio nacional
quecidos, tão extraordi­ que ostentou nos mares
nários foram. Ajudante a bandeira azul e bran­
d'ordens do governo pro- ca. A impressão que o
visorio, ministro da guer­ conselheiro Theotonio de
ra, coronel de milícias, Ornellas causou na rai­
provedor da Casa da nha e no imperador, não
Moeda do castello de An­ podia ser nem mais li-
gra, recebendo o titulo songeira, nem mais sym-
do conselho (1829), to­ pathica. Tendo sido re­
mando parte activa na cebido por suas mages-
famosa batalha da Villa tades no palacio de Meu-
da Praia (11 de agosto de don em 10 de outubro de
1829), inspector geral das i83i, conhecida a sua
ordenanças (i83o), pre­ presença em Paris, o glo­
sidente da camara muni­ rioso general Laffayette
cipal electiva do paiz (An­ concede-lhe a honra de o
gra, i83i), fazendo parte receber, dando-lhe teste­
da divisão libertadora, munho do alto apreço
que sob o commando do em que tinha o seu valor.
conde de Villa Flor foi O imperador, responden­
proclamar a liberdade nas do ao appello dos heroi­
ilhas occidentaes (i83i), cos defensores da Ter­
Theotonio de Ornellas ac- ceira, parte para os Aço­
crescentou notavelmente Palacio de Santa Luzia. — Solar da Família Bruges res e chega a Angra em
a sua brilhante folha de 3 de março de t832, as-
serviços á causa nacional, batendo-se como um verdadeiro sol­ sumindo a regencia do reino. Em 5 de março o conselheiro Theo­
dado. tonio de Ornellas offerece-lhe um sumptuoso baile no palacio de
Em 1831 é nomeado presidente da deputação da regencia, que Santa Luzia, a 25 de abril é nomeado coronel dos voluntários
foi a França apresentar as homenagens dos leaes defensores da nacionaes da Terceira, S. Jorge e Graciosa, a 17 de outubro com-

407

DRaC-CCA
mandante general dos corpos nacionaes, a 7 de dezembro pre­ conde de Bruges exerceu grande numero de cargos de eleição po­
sidente da commissão encarregada de contrahir nos Açores o pular, presidiu a commissões de melhoramentos públicos, ligou o
empréstimo de um milhão para as despezas da causa, emprés­ seu nome á fundação de benemeritas instituições, asylos, caixa
timo que, conjunctamente com outros fidalgos terceirenses e mi- economica, sociedades de instrucção, centros promotores de agri­
chaelenses, tomou firme, recusando todos generosamente as ga­ cultura, etc. A sua fidalga generosidade era proverbial. Fallecido
rantias offerecidas pela regencia, declarando que cumpriam apenas em 2d de outubro de 1870 os seus funeraes foram uma verdadeira
o seu dever patriótico. Entre os seus illustres collaboradores figu­ apotheose. Mais de 20:000 pessoas fizeram a guarda de honra ao
ravam o i.° visconde da Praia (pae do actual sr. marquez da Praia seu cadaver. Foi um dia de luto geral. A familia real, o governo,
e Monforte), o i.° barão de Fonte-Bella, o i.° barão das Laran- as camaras legislativas, a imprensa, foram unanimes em prestar
geiras e o i.° barão de Noronha. homenagem aos inolvidáveis serviços do velho e glorioso caudilho
Governador civil e administrador geral de Angra do Heroísmo da liberdade portugueza.
em 1836 adhere á revolução de setembro, recusa approvar o pro­
testo de vários pares do reino contra essa revolução. Assim foi o Tal foi o grande liberal cujo centenário é hoje celebrado, com
chefe do partido liberal nos Açores. Promove e realisa a construc- a maior solemnidade, em Angra do Heroísmo, como homenagem
ção do primeiro monumento erigido em Portugal á memória do egre- de admiração, de respeito e de reconhecimento dos seus concida­
gio imperador-soldado (1845). dãos. Estamos certos de que elle
Em 1847 adhere ao movimento não passará indifferente aopaiz,
da patuleia sendo presidente da ao partido liberal, que tão no­
Junta Governativa de Angra do bre e exemplarmente serviu. A
Heroísmo. Presidente da ca- sua memória illustre fica perpe­
mara municipal d’esta cidade tuada na historia da liberdade
acclamaem i855 rei dePortugal portugueza, venerada por quan­
o sr. D. Pedro V e em 1862 o tos a amam e bem querem. Gran­
sr. D. Luiz I, que teve a honra des foram os seus exemplos, ex­
de receber na Terceira em i858 traordinárias as provas que exhi-
quando infante, duque do Por­ biu de valor, de firmeza, de leal­
to, commandante da corveta dade e desinteresse, e com tão
Bartholomeu Dias. Em 1863 foi brilhantes affirmaçÕes de patrio­
dos primeiros condecorados com tismo é impossível que elíe possa
a medalha das campanhas da ser esquecido.
liberdade (algarismo 9). Du­ Lisboa, 25 de abril de 1907.
rante este largo periodo, o vis­ A . — C
ngra aes do Porto de Pipas Augusto Ribeiro.

408

DRaC-CCA
SCTCUEO IV.0 51

DRaC-CCA
LOMBADAS
GRAKD FRIX
Exposição internacional de S. Luix en> 1904 1 MAGAZINE BERTHAND
MEDALHA DE OURO
Exposição do Palacio de Cryslal de Londres em 1904 A LEITURA ILLUSTRADA
Revista quinzenal — 96 paq. cheias de gravuras
& Rainha das aguas de meza 200 RÉIS
Assigna-se na

Leve, estomacal e digestiva, pura, limpida fe. ANTIGA CASA BERTRAND —JOSÉ BASTOS
R- Garrett, 73 e 75 — Lisboa
0 acido carbonico não é Introduzido artlficlalmente

Recommendada por todos os médicos


y yyyyyypyyjyyy fçy?yyyyyyy^yy^vy^çyy/yy?y
DEPOSITO GERAL
106, AVENIDA DA LIBERDADE, 110
XISBOA
C. MAHONY & AMARAL
70, Rua A_u«
*-uLstfi., 3.’— LISBOA
TELEPHONE 586
METAES EM BRUTO: Aço, cobre, latào, estanho, chumbo em chapa, bar­
ras lingots.

0
FERRO: Em barras quadradas, redondas e vergalhão. Vigamento de ferro

Jw MEMÓRIA SOBRE A ILHA TERCEIRA gt


por Alfredo da Silva Sampaio í® t
pui Tl Uí cantoneiras e todos os mais aprestos para ewnstrucções. Ferro em

lingots para fundição. Chapas galvanisadas lisas e onduladas. Chapas de aço


para caldeiras. Tubos de ferro, cobre e latào. Arame de ferro, cobre e latão.
Folha de Flandres. Material fixo e circulante para caminhos de ferro. Rails de

íi Angra do Heroismo, 1904, 8.° gr. — XI — 833 paginas (® aço e diversos perfis e pesos, vias portáteis. Machinas de vapor, gaz e petró­

A‘venda na
2$5OO RÉIS W> |||w lL
leo. Caldeiras. Bombas. Machinas para industrias e agricultura. Machinas. Fer­
ramentas. Vidros polidos, foscos e de phantasia. Vidraça, lages de vidro (dalles)
Assucar, arroz, especiarias, drogas, productos chimicos. Ascensores hydraulieos.
ANTIGA CASA BERTRAND-JOSÉ BASTOS Í>
Uua Garrett, 73 e 75-Lisboa j j t®
Edoux & C.a
CIMENTO

jji -.......... -_______________ ___________________ ___________ =_____ l|W • Únicos importadores em Portugal e eolonias do CIMENTO da Compagnie
des Cimenta Parisiens, fabricado pelo notável engenheiro E. CANDLOT.
Fabrica de sabão — Telhai (Poço do Bispo)
Fabrroa da licores aguardente, genebra e cognacs — TELHAI (POÇO DO BISPO)
Typ. d',A Editora, — Lisboa

DRaC-CCA
DR. ANTONIO MONIZ BARRETO CORTE-REAL
--------- - —---------- Explevit têmpora multa

Áo se pode falar na historia do mo­ gressando á patria (1834) ali advogou até que foi nomeado pro­
derno desenvolvimento da instrucção fessor do Lyceu Nacional (1847) e seu reitor (1848). A este tempo
publica nos Açores e particularmente já collaborava activamente na imprensa periódica. Tinha publicado
no districto de Angra do Heroísmo, em Coimbra, esse adoravel livro, tão citado e hoje tão raro —
sem recordar os relevantes serviços As Belle\as de Coimbra, (1831) um encanto de proza descriptiva,
que a esta nobre causa prestaram os duas preciosas traducções de Gessner (1844) e iniciado a serie de
dois primeiros reitores do lyceu interessantes livros para as escolas: A Bibliothe casinha da infan­
d’aquella illustre cidade — o beneme- da (1846) — A Selectasinha da infanda (1847). Depois publicou,
rito padre Jeronymo Emiliano de An­ grammatica, selecta em verso, arithmetica (que teve dezenas de
drade (1789-1847) e o dr. Antonio edições), collecção de discursos, primoroso livro consagrado á me­
Moniz Barreto Côrte-Real. Este ulti­ mória de sua filha Maria das Mer­
mo, porém, teve uma vida mais inten­ cês, fallecida prematuramente
siva, a sua acção poude ter um maior em Lisboa em 1863, com um
alcance, a sua influencia foi mais directa, mais decisiva e mais ex­ prefacio encantador, o bello jor­
tensa. O dr. Antonio Moniz Barreto Côrte-Real foi dos mais; bri­ nal litterario O Lyceu (1807),
lhantes talentos e das mais solidas illustraçoes da sua geração. etc., etc. Professor de portuguez
Além de possuir uma vasta erudição classica, latinista profundo, e de philosophia, as suas lições
hellenista sabedor, tendo um devotadíssimo culto pela historia, o eram eruditissimas e os exercí­
eminente professor conhecia a fundo a litteratura nacional e poucos cios escriptos, mandados fazer
da sua geração usaram tão esmerada ’e proficientemente a bella por elle aos alumnos da primeira
lingua portugueza. Os seus escriptos em geral e em especial os das duas cadeiras, especialmente
seus discursos, que os teve notabilíssimos, podem e devem con­ sobre historia terceirense, con­
siderar-se modelares. tribuíram muito efficazmente para
Nascido na cidade de Angra em 8 de dezembro de 1804, filho incitar nas novas gerações o inte­
de uma das famílias mais distinctas da Terceira, formou-se em câ­ resse e o gosto pelas investiga­
nones na Universidade de Coimbra em 1831, entrando logo depois, ções e estudos históricos. Con­
por concurso, no professorado secundário. (Evora 1831-1834). Re­ fessamos que foi elle, o mestre

N.° 52 400

DRaC-CCA
auctorisado e o amigo inolvidável, que creou em nós a paixão pe­ perder em inutilidades de exterioração. Não raro vinha para a ci­
las especialidades geographicas e históricas. dade com o fato de trazer por casa!
Dispondo de uma vasta e selectissima livraria, estava a par de Dado o prestigio do seu talento e a sua elevada posição social,
todos os trabalhos do seu tempo. I.embra-nos perfeitamente que o dr. Antonio Moniz Barreto Côrte-Real entrou directamente na
foi elle o primeiro que na Terceira adquiriu e leu com vivo inte­ vida publica desempenhando importantes commissões de serviço
resse as obras de Theophilo Braga, cuja leitura nos facilitou, fa­ official e exercendo diversos cargos de eleição popular. Tanto
zendo excepção ao habito de não emprestar livros. No seu gabi­ quanto a nossa memória alcança, parece-nos ter sido da sua ini­
nete de trabalho, primeiro na ultima sala á direita do andar nobre ciativa, como vereador da camara municipal de Angra do He­
da sua casa da rua da Sé, depois no rez-do-chão (um corredor es­ roísmo, a moderna nomenclatura das praças, largos e ruas da his­
treito com uma pequena sala ao fundo) recebia jovialmente os ra­ tórica cidade, querendo assim, por uma forma intuitiva, perpetuar
pazes do meu tempo, que o iam ouvir e que o iam consultar. Ti­ a recordação dos inolvidáveis serviços prestados pelos terceirenses
nha uma memória prodigiosa, citando de cór trechos clássicos, e á independencia e á liberdade da nação. Fundamentalmente con­
muitas vezes o vimos, para resolver certas duvidas ou para justi­ servador nos princípios, elle foi, comtudo, um espirito eminente­
ficar certos assertos, ir á estante, sem hesitação, buscar o livro re­ mente liberal, na justa expressão do termo, e esta foi uma das
cordado e achar, com enor- caracteristicas da sua nota-
me facilidade, o trêcho pre­ vel individualidade. Perten­
ciso. Nunca o encontrámos cendo a uma família de in­
sem um livro aberto e lendo quebrantáveis tradições
attentamente. Tendo muda­ realistas, soube sempre con­
do a residência para a sua ciliar o seu respeito pelo
pequena casa da Silveira, vi­ passado com a sua lealdade
nha de madrugada para o para com o existente, mas
escriptorio da rua da Sé e sem abdicações, sem tran­
muitas vezes no verão vinha sigências, sem accommoda-
a ler pelo caminho para não ções,j—jno seu logar como
interromper um estudo que homem, comocidadão,como
o interessava. Nas aulas pri­ professor — the right man
mava pela pontualidade. Um in the right place, — sem
pouco philosopho, muito dis- perder a linha, á maneira
trahido, nunca teve as pre- antiga, cujos moldes a sub­
occupaçÕes da toilette, di­ serviência e o egotismo que­
zendo não ter tempo para A . — E
ngra N. S.a no L
greja de A
ivramento e I
sylo de Dnfancia esvalida braram para sempre.

410

DRaC-CCA
Morreu ao cabo de oitenta e quatro annos de uma vida nobre cidadão e sabio mestre, que os seus restos mortaes, recolhidos no
e exemplarmente cheia (23 de setembro de 1888), podendo ter o modestíssimo jazigo de familia, que mandou construir no cemité­
desvanecimento de haver sempre cumprido o seu dever, tendo rio do Livramento e a que elle chamava a sua casa do poente da
sido um trabalhador incansável e benemerito, com gloria para a vida, fossem trasladados para um condigno monumento erigido
patria e lustre para as sciencias e para as lettras e manifesta uti por subscripção de todos os seus discípulos sobreviventes. Bem
lidade para o desenvolvimento da educação e da instrucção nos merecia elle que já se tivessem lembrado de assignalar com uma
Açores. Dos seus numerosos discípulos, uns no reino, outros em lapide commemorativa a casa onde elle passou os últimos annos da
distantes paizes, outros dispersos pelas ilhas do archipelago, anti­ sua laboriosa existência e onde para sempre fechou os olhos á luz,
gos ministros, deputados, professores, magistrados, membros do que elle tanto amava, e ás flores, que eram a sua predilecção e o
alto clero, altos funccionarios, etc., etc., não ha um só que não seu encanto e que elle tão primorosamente descrevia!
tenha pela memória do dr. Antonio Moniz Barreto Côrte-Real a
mais vivida saudade vinculada á maior veneração e ao mais sincero Lisboa, 1 de maio de 1907.
reconhecimento. Bem merecia o illustradissimo terceirense, grande Augusto Ribeiro.

4'1

DRaC-CCA
FITANDO O CEO
Noite. A vida é interminável; é imprescrutavel. Além da distancia
Archipelagos innumeraveis de estrellas rolam no céo d’anil. que o telescópio desvenda, ha mais ether, ha mais soes; a matéria
Milhões d’astros — milhões d’atomos — gravitando no espaço, em­ cósmica faz surgir mundos em seu infinito laboratorio. Abaixo dos
balados na doce modulação das brisas, brilham como grãos de pó seres que o microscopio descobre, myriades de vidas se agitam
ás ondulações da luz. em espantoso turbilhão.
Céo e mar! Que panoramas edificáveis! , A natureza não tem limites; o pensamento humano, sim.
Suspenso o homem entre duas eminências, a seus pés o grande A visão do espirito, serena e profunda, abrange este panorama
oceano, esse tumulo sem flores — o mar; — por sobre sua cabeça immenso.
o céo infinito — laboratorio d’astros, ideal supremo, torna-se um #
eremita. Tem a sua biblia — a Natureza; o seu evangelho — o
mundo; a sua historia —a humanidade; o seu codigo — a consciên­ E’ n’esta hora melãncholica, em que o mundo parece convidar-
cia; e, n’este campo, por sobre elle paira a aza suavíssima do nos á meditação, que o homem pensa na pequenez do seu ser; vê
amor — o divino artista. desfilar ante seus olhos os continentes e as raças, a humanidade e
Que milhões de mundos pullulam na infinidade do ether! Que sua historia, todos os quadros da sua vida, sombrios e tristes, sau­
mysteriosos seres os povoam! dosos e risonhos; as doces reminiscências do seu passado, as in­
Que monstros horríveis se agitam na profundidade das aguas! quietadoras soluções do seu futuro; e, reflectindo no grande pro­
Que bosques deliciosos formarão as algas marinhas, ornadas de blema universal, não satisfeita ainda a debil suggestão dos seus
pérolas reluzentes e coral brilhante! desejos, da sua ambição, procura desvendar a origem — abysmo
Por toda a parte o incommensuravel, o incomprehensivel sempre. de trevas onde fallece o pensamento.
Nasce o homem ávido de saber, vive estudando e acaba igno­
rando. *
Forma-se um planeta, brilha e some-se. Um século é um mi­
No maravilhoso mecanismo celeste os corpos congregam-se
nuto na eternidade. A vida tem o mesmo analogismo, quer no as­
pela attracção, numa harmonia deleitosa e pacifica que encanta.
tro, quer no homem, quer no atomo.
Decomposições continuas; transformações successivas. Tudo
desapparece; e, todavia, nada morre. Praia da Victoria.
O mundo contém moléculas; uma molécula contém mundos. Gervasio Lima.

412

DRaC-CCA
Ilha Terceira. — 1’reci fzia i>e S. Maiheus

DRaC-CCA
PADRE JERONYMO EMILIANO DE ANDRADE
a galeria de homens que, por A mais longe, porém, chegou o
Ntantos titulos illustres, foram
honra e gloria da sua terra, e cujo
talento e saber do padre Jerony­
mo, o que bellamente se manifesta
nome ficou na memória grata de nos seus livros — Primeiros Ele­
um povo, atravessando gerações mentos d'Elhica, de Lógica, de
— occupa, indubitavelmente, logar Metaphysica e de Historia da Phi-
de destaque o padre Jeronymo Emi- losophia.
liano de Andrade. Escreveu ainda A Topographia
Trazer, pois, para este Album, da Ilha Terceira, livro que conta
o seu retrato e estas ligeiras notas duas ediços, e depois da sua morte
relativas ao seu valor intellectual e foram publicados os seus Aponta­
serviços por elle prestados ao paiz, mentos, destinados a servirem de
é tarefa consoladora e justiceira continuação áquella obra.
missão.
*-

O padre Jeronymo Emiliano de Razões de sobejo tem, pois, a


Andrade nasceu na nobre cidade Ilha Terceira para orgulhar-se d’este
de Angra do Heroísmo e alli mesmo seu filho que, pondo o seu talento
falleceu também. fecundo ao serviço da causa da
Foi elle o primeiro reitor do Ly- instrucção, muito contribuiu para
ceu de Angra. Escreveu diversos o engrandecimento moral da sua
compêndios para o estudo das hu- terra.
manidades e muitos outros diversos. Uma obra sua. destinada a A memória do padre Jeronymo Emiliano de Andrade, é des­
ensino nas escolas, foi adoptada em todo o reino, tendo alcança­ tas que ficam e vivem no coração dum povo, atravessando gera­
do, desde a data da sua publicação, em 1841, até 1868. o bonito ções, pois que a ella andam ligados sentimentos de orgulho e de
exito de onze edições, caso raríssimo no nosso paiz. gratidão, que difficilmente podem esquecer-se.

4'4

DRaC-CCA
Numero Sextx-feira 17 de maio XLIX \nno — 1907 A IMPRENSA TERCE1RENSE

FhBtiTMt
Manuel > leira dn Silva
A TERCEIRA Volba política, aarlcola. eoaimcrclal e noticio*»
('«ontrTíiuo
Jonó Ylarin Branll E
ntra na ilha Terceira, com a emigração liberal, a primeira ty-
pographia; é na defeza da liberdade, na propagação da pri­
meira legislação constitucional que começa a imprensa periódica.
*.* 3 t J t■ j^upntdudc J<.
C^poih t impresso na TypqjrapKia Tvctircff. Rua Ju Infanu t>. Lua,' Jon1 Iam Brasil

t Betam» *fJu
Wni«iMr —Rn ta lohilc I) Luiz ■ " I c II
Fiel á tradição, distingue-se geralmente a imprensa açoreana
*
Ugn de HrrMMD irtnugcocú com » entrada de eorrohgio. cia» que .irompantuui n» novo» m m»tn»s *
vc
T de contentar-ac com •• «gua-
pela sua orientação liberal.
4o leite do «biberon» íranquista

A resolução da crise
nirni» scos para o g>i«eroo ; cratn ellss
ainda qu* nln escondiam a pootuma de
troça cm qnc <e releriam à >'IO1Ç* ” d<
e ta rrpulsto tnanif<!>t»d. pio parGta
progtessbta
A conrrmraçlo 'ipral li pitau . a re Ainda do meano prcaado collega .
Ao contrario do que succede em terras pequenas, não a inspi­
llicil e embir.tço»! em que se loconlrara comi«isiç>’ e um retneo io m.l latsçata
Apta 13 d«a» de grande» Mig--
” <-■!->'-< iraa para n ir. Juiin Franco,
u aliiado que. íYidcnieaenir. queriam <!<
l»r morrer de tti-niçta
* E e n uma Mtuaçto d esta» que o go­
verno di: -m mxa olfv.-j-a que va» pu
• Porque 0 sonho, u dehr-j do u A4o
Franco e ikK « *u> «nugO» cr
* nrfiamn
ram os odios de caciques locaes, mas a grande linha da política
(<u «final, roohida n criac tniniste- Em quanto u orgkn Ufinoso do gor- *r- fdicar cm duiadnri um decreto mbre a
risl. «aindu o» ara. aniiialrou da íi-
tenda. jn»iíçi
* e eatrnngciroa que fu­
no nega»» a riisiencú da crise. «• jor
naes que <o»í<i inani oliier infiirmaç!-» nas
*
cri»
entaçto!
nnicola • eapóe *0 pu a >ua 00
p»ri 0 sppclcciJo concerto do» ro­
tativas E cs»j «rutura .uprruu calur-
»• .Am em c *-». «unu oova dad.va ta *
geral, e um anceio ardente de progresso.
ram reapeciicomente aubetituidoa pe­ *
alta n giôe» ta partido (irogressoia. tr *- <Xto acnsliiiamos na veracidade da nota
lo» an Martin» de Carvalho.
*
X'11» d Abreu « Luciano 'Monteiro.
Tei- nam e«n detalhe todo o aftaigaAi traiu-
IIki dcscnvubiAi pelo »r prcflilrtte do
eoo.elhv pra levar o eorafta rttarecidn
Uficito» <».•*■ rhircxaitar mau uma io-
li-lix eihtaçto ta hab-hdntas da plitic»
Nav»g>nic» ' * lu-to. a tig-çki c«ii uta
w partido, noro. ctioo <!■ fixça c cm lu­
ta o 00.. .rotativo• 0 »col» calnu por
Principal alavanca do desenvolvimento local, devem-lhe as ilhas
Dum judicioao artigo do non« fretador» ’ lerrj <ob I» rej^ li,. <fo rhefo d *
* 10 *
ta
■ilustrado «.><lega ■Noticiai de Li»-
• h>. seu» alludro a deuar-se eiiteinicer
c •euccr 0 partiAi progressista nàn deu
M». 0 *
çar w n este c
r kki Franro nto <.nk '»•
*inmlw>, »c il<» ipiri >mr
Navegante
*
*>M»ii..
1.» piugrt
r pi <ui ipalmente ta
* mago
*
que se Jcfmtaram 1
os seus mais importantes melhoramentos materiaes, e o que repre­
bôi.- dc 2 de maio, •llractaiiioa o»
*•cguinte |h.tiu<1us que te referem a
nunotru» ao sr Jota 1’rinro, mas !rz lu- mais -,1'iduodain-nic a digmibta d<. pn<kr
tempo e c *uirk»amcu'e i» m» comp­
*»«
c •vluçúo
Ai quanto era necessário pra rliliettari
sar a ntnsçta do governo e prs moUrar
«> paii '.|n« repudiava as rcopnwbili-
e se nJo quer e *
|ta a i>mO< » tafiõrtta
ta» ta qu' deve »cr abMada IhuaAara *
Eutto 0 sr kito franco quix 0 poAr
ita 1 '«
senta a elevação de vida própria, como, por exemplo, a autonomia
V «r Jta fcraco. tenta ao poder mi- M.ia o que teoi ginga d que ano oa
Oirolv eia ntxnr di roMXiiw-ofõ-fiAcKK'
en nome .1 * jll mç» com o pxudo pro-
ilades ouis ostensivas rom um gabioH
que. esnnta imeiramente compromhta
* em nome ta unu nn«i vida libeiat. em
nom. ta um abwluto r»pudto de proc<v-
fiariqiútln
*
. em vaiiantc ds rapom e
■■ uvaa, que ditem ngora Ante»
administrativa.
('««Mta. que IM tan. «Iruieniui <te gu-
v roo que italaumente ta) etceMeavain.
ui u|»n to publn
*. apenas servia p»m
>_'cravur a» «nas ji graude. r»«pon‘»bdi-
da-k» Ma * do luta »e ve que o sr pre-
r
n» de governo que nk> sejaa parlamen­
tar». tu da ir.ter |»<r •• propno 0 1.1
itmo n>«i»o de Jescrcdito |>ulib.o. furo
<«• qm- uuil ,,<:<<—,p
*r.liado 1
Em vez de mera copia da imprensa de Lisboa, como succede
*
«
ta| <k l*x-r uma proiufkul • pcrigu-
»» |*r<nrfu'k> ‘« * ■ilmuiiMr«{to ta É.u
'tjisiu ta cuu»elbo. iiki podendo ciiiar 4 ta daclafairo U :::: :: :::u hsku
d... prorte» mau ta uma «et a tagener»
rai gr >«e tawitCem. inraoo * cuD<er *«-
crise drntro ta go«erno. MJ sujeitava >0
de.preii.gm phino reaultaote dn gastar
cerca de qoinse <l-s a pc-lir inmi-tros ao
Entto este p.verno totns por pendJ»
d«» suas glona» o respeito pcl>« per
gitirai pailamenur-» e pcl» ler, cuja in- Coruo era eajterado, chegou a eatn
nas pequenas localidades, a imprensa açoriana tem sustentado no­
çi« Ju govenw iooompMóal com iro» 3u *
cidade no -Funclial, acompanhado
n. cotapi, o» mioi-irot da ju.iiç», d»
bicada » ta * estraugoro». Ha rerca <k
urildu progreAMsta, por.pio, rndcniu-
immie. rrcoohocia que mm-tro. nto linha
(racçto reputara mn crime, a que lama
vexe
*
*
a»Mnii« a Coroi. e ra-gaiido luta de sua «xm 'eaposn, o no**
" ptesado
táveis polemicas, a respeito de todas as grandes questões, com os
qvmedui que a cnw *c nuurf-Muu, Ir *
no eu gremi'i poKlico XJ» cnn»la qua
antes da» diligenuis empregadaf jumo do
esse compromisso, sejrnlt wik a <liçnnbA
do poder. 1.3 ta b»r diladur. ?
smign •» Juad 1'aulino de Sou»a Pe­
reira, i'i
|iector
* superior dn» ulfau-
dottta i|e»d.< pelo riteoso testamento
A” tnioólrot deuKsXonaruH c pela» rc-
í*ii<b» cocíerrtkcui do sr prestante ta
partil. progressista os seu» coeielignm.i-
r»i» «e Pio recus.vs»»m 1 entrar para o
Xto , scrl 0 ultimo acto <1© rematada
luirora
dega»; ultiaianicntc aposentado.
Funucianário distnicto e ctu extre­
proprios recursos das suas relações.
fedelho com o sr Jo>é Loctanu de C
tro. Cèrca de quio«e d.a» gastei em dili
*>-
giiterno. An contrario. n'-lle» rnointram
* maiores facilidades A » tr-. hora» ta
a
0 pivrrne peitara pnikal 0. n»>» trm
«•brigaçto de afastar da ônúa a qndira
mo aetòso no cumprimento do» seua
dcvvrro, cavalheiro bemquisto c do­ Do valor d’essas relações, que teem sido como viveiros de jor­
tarde teve kijar boctem a u iim»«dil g«n- Je prestigio, que n-mr
* b. maia prrcix>
gentia» para c chrlc do governo enam * udo de um genio ob*equi-dor e al-
na <f.i prtidu progie«xu.i . pouc>« luwai dO iplC b<-C < IDMUtCDÇSO ta» itlsWUKÚe»
irar os thBeolut que reputara mditpen
sare» para pnJcr cootutuar » (reole du»
DCgtK»» poblrfO» '
ileiicta * ya ta conselho dc <n *nisUOl
nota Ulu.msa du que. oram novo» noms
» motnrih<ca«
0 gov-roo. pne sai inniatira e resp.«-
*
favel. er o »r. Jnad PnuliDO slta-
mente cutndo 110 no>»<> mundo buro-
crniicei. tendo em cada cu 1 lega um
nalistas, fala bem alto a pleiade de escriptores açorianos, que se
tro. <!• srs. Lucuiio Monteiro. Tnxeír * ulili-lata, lr «me para fxiblka um»
Xuoca se presenteara um wpecteruhi
•ta atuo.tatMio do prestigio do poder ro
mv csie cm que o ctkle ta g *biarte |w.te,
<le Abreu s Mailm» de Carv-lbo, Purqne
nto («rauí oinvnbtaí logot Porque desta
Carta ta F.l llri pin i- sr. Hui
txe Ribeira, cm qo> o chrb de Eaudo
tumjto e um ndiuiradôi.
Prova exulierautetncnte o qus af- estreiaram na imprensa local, e occupam em Lisboa, nas diversas
*j;m o gvvcroo com ellct $e uto recuan- pu tal maneira toamu ciiinprumi»»o» a hiiiiainnn a signitwalica e imponente
implora, aigoiarnta, Aseiite. bnç» mto
de iodo» o» loeu-., pr * )uc o prtido pio
pt|»u lhe fixnecc.se <x mmolro» ik
pc t
Mo (Hidia ser outra a raik>' 0 clufe
ta governo rntentau que dVssa m.ne ra
que o governo uto tare aconselhar qne niatuleriaçilo dc intima, apreço e
auiixade de que foi alvo, não por
especialidades da imprensa, os primeiros logares.
O gi-seroo tem ta qneimir »s m5u» nn ••ccasiib' dc deixar o logar que ião
que carros pra substituir o> di<nii» *ui-
oarios. como v- oatrvi mc«i» ota Iim-mo
para se rocMqiòi. nwt prque ««itaair.
»a.i corre«p'<.ha j confiança da Cutóa
nrm juxlia bem servir 0 pu
XJu 0 I Ii. ioot m>. . tamoctnnr-a,
braxeiro «|tM mipnt knicmn.te asMipron
Sc faw dictalur». nrobu-n bem far»
pair, mu Uri um gtinta d *»erriço ao
ntce
*
biilh lutelligeutemeute uccupuu
na alfandega d- Lisbú», como nm-
Na pequenez e pacatez do meio, onde raríssimo surdem acon­
m-aie recnuhccu .;u« no sce grupo jitfi- da por vccaaiAo da sua paibdad'»-
Ikd nl< Atpr.lt i ta» Ufanemos n-«c».
sanos paia completar o gvrcfnu por lur
v.iu u na rara liaMidadr ■' »r proshien-
!.< •!.. .onsvKio, O» ire
i»Ui> ah |Xirqu>
*
*
río
*
Ai|«u
novos tnuii-iros
11 »r. presidente do r>m-
fiança
ta |«^er de quen» recebe «mi-
quelU cidade.
Aqui tauiliem, nu sua terra natel,
tecimentos de vivo interesse para a opinião publica, os jornaes
nur a merecer a confiança da Coió * r * Cor nrost prte ctKOMnr n<H-lito ro­
I- m trr».r o pia Xegar c»«o fat lo scra
cii«‘»no 0» jnanee» d>a > dia trapatn a
m lho. durantr qoasi quinie b«i dc nlta
r»<ta> dihgcncta». nto enenotrua outros
E |ue o pau inteiro «• . e o * que o»
ta .etnpre Cstivemo
* >cm ligaçiks nem
aliança» foca do nosso partido, cui atrm-
pnra annde v.m desoançar doa acus
■turados c longos neiviçoa, conta «1
José Psiilino gernvs »ytnpalhi>a
açorianos resentem-se da falta de vivacidade e brilho que lhes não
■Dliroaçte unDucmsa dat cunfcreMiai, lut» miran.igenri< p u ..nn um governo,
d». dii<;tn>u. ■apegadas, ta» reitera­
das foHnu(K&H e das couxiaohs reauas
d- prtidd pogrv»>»ia em querer »ci
pniprii» mtnirtroB que entraram agora
pra 0 gorçruo aentuk1
Estio octa innguem qua estar. Estb>
cup wnsrrvaçao 00 |<od»r >ó iirvjixLcar . e grande numero Ju amigo» t admi­
* uarôs e 0 pau radores du ku bcllo curacter.
U» rcccuivindus eram aguardados
pode dar a vida local, tão falha de emoções.
Esta enodusio « liraiia pclu paix m
compru cia con *fi<otf« ta mmisteno.
Air liontem as diligencias eonlinnarara
f>. rr. Moreira Jmitor um para o w cou
ali, »-m que iuo represente a rooliaiKa
ta chefe ta gnvenio cwu<» elemento» ta teiro, e denv * *mrr.u>
do rvcaihec
(orça e valia pra u <nioi»lcno, mas por w que gnccium carecem absoluteOcate
d-.
* qu-
no caca de desembarque por muitas
■eiilioras e cavalheiros que os acom­
panharam ao Hotel Açurcano.
E’, pois, quasi exclusivamente o bem material que interessa o
de qualidade» par» governar
que mnguem quix os ligares que taje-
de ta Pcsiba Garci» ; deste pia o sr
Astocn Cabral. ta sr Artliur Miuime-
gro pr» uuiro» progressistas, ub» harrn-
vccupm Sto iDimainu que eucnntram a
■tone pcfiiica na maneiracooao Maceram
Como homenagrm dc respeito a
estima, o • Funchal
* logo que fun­ jornalista;das ilhas, e n’esse campo devem-se-lhe bellas conquistas.
Do «Jornal dc Noticiai
*
, do Por­ deou na baluu denta cidade, rmbvn-
p
*ra v miuiiteno
ta solíiataçúes que losscm atiaidula. nem
rogos que eomm-restem. Tn *io rspreta-
cuio e»»r. pmau ate agora conbecita na
U»am comogo 0 altcslado ta fraqueza
que, co«n ta»u»ada pbiicadaJ
*. 0 sr pfl
to cu artigo editorial, n ropcito da» deirou em aico, ate que o illustro
• détnarebes
* do ar presidente do icrciircnie deu entrada, com sua di­
Publicações de arte, não vivem entre um povo trabalhador e
biuori» dos nráísiwns rm IVriugal conselho para » rccompo«içl<>- gna espôsa, no caculer que oa cun»
Er»» os oui- graduatas progressista»
que se ttuumbum da |vt tod.» a» tua
sttanl® do conwllio lhes passou N‘c>Us
circauuuiKia». 0 go»vn>v. }J fraco po» • Foram-lbe negados o« trr» mi­ diitiu a terra
lauifts erros praiKaAM, e»ti agora fia- nistros coro os quae» contava beber E’ iMissuido» do maior prster que
algo rotineiro. Do mal o menos; e a imprensa das ilhas, orienta­
cc-m deutvusiuiru a tua abrchiU <u- *|l|i»aiuio, u iju» íCiUlta da» circvtbslan- O IçiU furtifivautc do lotalivtscuu- appivsctilauiu» as” cx. ’ 06 UOMOa
dora e honesta, já constitue um grande bem.

4'5

DRaC-CCA
PENHA DE FRANCA DA ILHA TERCEIRA >

curta distancia da cidade de Angra, fica o zi), faziam os nossos maiores, attestadas por numerosos monumen­
Pico da Ur^e, em cujo cimo assenta a ermida tos erguidos por essas asperas e alcantiladas costas.
de Nossa Senhora da Penha de França. Conta-se d esta ermida, que tendo um dos muitos navios por-
Aprazível é o sitio, rodeiado de pinheiraes tuguezes, de volta da Índia ou do Brazil, sido assaltado por vio­
e pomares, descortinando um vasto horisonte, lenta tempestade, proximo dos Açores, o seu capitão tomara o
que convida á contemplação de uma pródiga voto de erigir'uma egreja a Nossa Senhora da Penha de França
natureza, nas suas mais variadas e complexas no local de terra, que primeiramente avistasse, se um milagre da
bellezas. Virgem lhe salvasse as vidas e as fazendas.
Ao avistar-se do mar, parece que d’entre Estava para isso destinado o Pico da Ur\e, que, volvidos sé­
o verde-negro daquelle amontoado de arvo­ culos, serve ainda de marca aos navegantes, quando demandam a
redo, salpicado das brancas casitas dos po­ bahia do Fanal, situada ao oeste do porto d’Angra.
voados proximos, nasce graciosamente a pe­ Pelo capitão foi adquirido aquelle sitio e construída a pequena
quena ermida para marca dos navegantes; e, ermida, tal como ainda hoje existe; e que, apesar de muitos an-
é isso, sem duvida, que justifica a sua simples nos decorridos, tem a sua romaria no segundo domingo do mez de
e commovedora historia, conservada até nós setembro, em que o povo devoto recorda, com veneração, a pie­
pela tradição oral. dade do seu fundador.
Eram as terras dos Açores balisas naturaes do rumo de Lis­ Angra do Heroísmo.
boa, nas perigosas e demoradas travessias,1 que, da índia e do Bra- Luiz de Castro.

416

DRaC-CCA
FASCTCUrX) TV.” 52

DRaC-CCA
LOMBADAS
GRÃO FRIX
Exposição Internacional de S. Luu em 4904 1 MAGAZINE BERTRAM
MEDALHA DE OURO
Exposição do Paiacio de Cryslal de Londres em 4904 A LEITURA ILLUSTRADA
Revista quinzenal — 96 paq. cheias de gravuras
& Rainha das aguas de meza 200 RÉIS
Assigna-se na

Leve, estomacal e digestiva, pura, limpida ANTIGA CASA BERTRAND —JOSÉ BASTOS
R. Garrett, 73 e 75 —Lisboa
0 acido carboníco não é Introduzido artificlalmente

Recommendada por todos os médicos yyyyy yyyyyyy yyyy yyyyyyyyyyyyyyyyyy


DEPOSITO GERAL
106, AVENIDA DA LIBERDADE, 110 O. MAHONY & AMARAL
I.ISBOA
70, Etna A-iis; insta.. 3.’—
TELEPHONE 586
METAES EM BRUTO: Aço, cobre, latão, estanho, chumbo em chapa, bar­
ras lingots.
FERRO: Em barras quadradas, redondas e vergalhão. Vigamento de ferro
em T I U í cantoneiras e todos os mais aprestos para construcções. Ferro em
lingots para fundição. Chapas galvanisadas lisas e onduladas Chapas de aço
para caldeiras. Tubos de ferro, cobre e latão. Arame de ferro, cobre e latão.
Folha de Flandres. Material fixo e circulante para caminhos de ferro. Rails de
aço e diversos perfis e pesos, vias portáteis. Machinas de vapor, gaz e petró­
leo. Caldeiras. Bombas. Machinas para industrias e agricultura. Machinas. Fer­
ramentas. Vidros polidos, foscos e de phantasia. Vidraça, lages de vidro (dalles)
Assucar, arroz, especiarias, drogas, productos chimicos. Ascensores hydraulieos.
Edoux & C.*
CIM B H T O
Únicos importadores em Portugal e eolonias do CIMENTO da Compagnie
des Ciments Parisiens, fabricado pelo notável engenheiro E. CANDL0T.
Fabrica de sabão— Telhai (Poço do Bispo)
Fabrica de licores aguardente, genebra e cognacs — TELHAI (POÇO 00 BISPO)

Typ. d'»A Editora» — Lisboa

DRaC-CCA
ANDRÉ MEIRELLES DE TAVORA
Áo ficaria completa a nossa resenha de Fundador em Angra do jornal A Terceira, que redigio du­
terceirenses illustres se deixássemos de rante alguns annos sustentando a política regeneradora, e em Lis­
consagrar algumas li­ boa da Opinião Popular e do Diário Portugue^,
nhas á memória de um foi sobretudo com a creação do Jornal das Co­
açoriano que, como es- lónias, que ainda hoje vive apoz 32 annos de co­
criptor e como funccio- rajosa e brilhante defeza dos interesses ultrama­
nario, fez honra á ter­ rinos, que André Meirelles conquistou direito a
ra do seu nascimento. perdurável recordação nos fastos do jornalismo
Pertencente á mais portuguez.
velha aristocracia an- Funccionario distincto do Ministério das Obras
grense, filho do Mor- Publicas, muitos são os trabalhos da especialidade
Luiz Meirelles do Canto com que illustrou o seu nome.
>tro e de D. Francisca Casado com a sr.a D. Anna de Menezes Le­
Meirens de Noronha, mos e Carvalho, filha do fallecido Conselheiro
senhora de varias cazas vinculares da maior anti­ Francisco de Menezes Lemos e Carvalho, o
guidade e opulência, o sr. André Francisco Mei­ sr. André Meirelles deixou trez filhos: a sr.a
relles de Tavora do Canto e Castro nasceu na D. Maria Francisca Paula, o sr. visconde de
quinta da Candelaria, em São Matheus, na Ter­ Meirelles, e o sr. André Meirelles de Tavora.
ceira, em i3 de julho de 1820 e fez a sua educa­ Além de vários diplomas de ordens extran-
ção em França, no Prytannée de Menars, perten­ geiras, foi commendador da ordem de Christo, e
cente ao príncipe José de Chimay, e depois em Fontenay-aux-Roses, teve o foro de Fidalgo da Casa Real, herança de seus antepassados.
sob a dirccção do afamado pedagogo Frei José da Sacra Familia. O sr. André Meirelles falleceu em Lisboa em 3 de Março de i898.

N.° 53 4'7

DRaC-CCA
VISCONDES DE MEIRELLES
rancisco de Menezes de Carvalho, Urbano de Castro, Fernandes Costa e Jayme de
F Meirelles do Canto e
Castro, visconde de Mei­
Seguier e outros ainda.
Como redactor do antigo Jornal da Noite o sr. visconde de
relles, do Conselho de S. Meirelles occupou-se quasi exclusivamente de critica litteraria,
M., fidalgo da Casa Real, substituindo muitas vezes o velho e respeitado mestre nos artigos
por antigo fôro herdado tão anciosamente esperados e que n esse periodo de maior fulgor
de seus antepassados, nas­ iitterario tinhgm o valor dc verdadeiras sentenças.
ceu na Ilha Terceira aos Breve, porém, o tentou
21 de novembro de 185o a África, e em tempos em
no seio de familia que ás que era considerada ver­
prerogativas da posição dadeira temeridade arros­
social, juntou sempre re­ tar com o clima, com a
putação justificada de me­ escassez de communica-
recimentos pouco vulga­ çÕes e com os mil descon­
res. fortes inherentes a viver
E’ nos livros onde mui differente do de hoje,
correm as narrações his­ em 1870, emfim, no mes­
tóricas das glorias aço­ mo anno em que se esta­
rianas que podem desde belecera communicação
os primeiros séculos da regular a vapor entre a
nossa occupação ler-se a cada passo alguns dos nomes de mem­ metropole c os portos de
bros d’esta familia, que occuparam as mais elevadas e privilegiadas Moçambique.
situações. Successivamente em­
Antigo alumno da Escola Polytechnica, o sr. visconde de Mei­ pregado superior de fazen­
relles desde muito moço occupou logar distincto na pleiade de jor­ da, director da alfandega
nalistas creada por Antonio Augusto Teixeira de Vasconcellos e principal de Moçambique,
d'onde sahiram escriptores do valor de Eça de Queiroz, Marianno membro da junta de justi-

418

DRaC-CCA
ça, vogal do conselho da adjuncto n’esta melindrosa
Província, fundador da Es­ missão.
cola de Oíficios, poucos fo­ Foi o sr. visconde de
ram os ramos de adminis­ Meirelles o escolhido, e gra­
tração em que Francisco ças ás suas qualidades de
Meirelles do Canto, então homem do mundo e ao per­
muito joven, deixou de to­ feito conhecimento que já
mar parte, adquirindo com­ tinha de varias linguas es­
pleta confiança dos gover­ trangeiras, começou desde
nadores geraes com quem logo a assignalar o seu tacto
serviu, e grangeando affe- diplomático, adquirindo tan­
ctuosàs manifestações da to na Índia portugueza como
mais bem merecida popu­ na ingleza, grande numero
laridade. de relações e desempenhan­
Assignara-se em 1879 do a pleno contento do go­
um tratado com a Inglater­ verno a commissão de que
ra, relativamente ás alfan- fôra encarregado.
degas da índia e áconstruc- As circumstancias polí­
ção do caminho de ferro de ticas determinaram pouco
Mormugão, e o conselheiro depois a creação de um lo-
Antonio Augusto d'Aguiar, gar de cônsul de i.a classe
um dos mestres mais notá­ na índia ingleza, e o nome
veis da sciencia portugueza, do sr. visconde de Meirelles
fôra escolhido como pleni­ estava naturalmente indi­
potenciário para pôr em cado.
execução na Índia esse ac- Effectivamente, após um
cordo diplomático. concurso dos melhores que
Procurou então o go­ se teem feito no Ministério
verno em todo o ultramar dos Negocios Estrangeiros,
o empregado superior adua­ foi o sr. visconde de Mei­
neiro que estivesse no caso relles nomeado em 2 de
de exercer as funeções de outubro de 1882 para esse
Palácio da Quinta de S. Matheus, no Dafundo, (arredcres de Lisboa) protriedade e residência

dos Viscondes de Meirelles

4'9

DRaC-CCA
importante cargo, que desempenhou a sua missão por extenso e meditado relatorio que revelava n este
por largos annos, por modo que lhe funccionario conhecimento profundo dos negocios, cujo estudo lhe
creou logar excepcionai entre os côn­ havia sido commettido.
sules do nosso paiz. Fundou-se em 1892 a Companhia de Moçambique, e a respe-
Está ainda na memória dos que ctiva direcção, que se encontrou em frente de gravíssimos proble­
n’esse periodo tiveram contacto com mas de administração, carecia de um empregado superior em Lis­
a índia, a maneira brilhante com que boa que reunisse qualidades excepcionaes.
o joven diplomata representou alli o Homem de lettras, diplomata, administrador, fallando as linguas
seu paiz, adquirindo o respeito e estrangeiras como se fossem a sua própria, conhecedor das coló­
consideração de todos e occupan- nias portuguezas e extranhas, viajante experimentado a quem o
do na alta socie­
dade de Bom­
baim um dos
primeiros loga-
E M
rancisco de eirelles
res. N esse tem­
po levantaram
se graves questões acerca do Padroado Por-
tuguez no oriente e foi sobretudo durante as
respectivas negociações que o sr. visconde de
Meirelles mereceu os mais calorosos elogios
do governo, pela actividade e inteiligencia, que
desenvolveu, pelo tacto com que harmonisou
interesses oppostos, pela maneira lúcida com
que em otHcios e telegrammas punha o go­
verno e o paiz ao facto das diversas phases
por que ia passando essa importante questão
que muito apaixonou a opinião publica em
Portugal e na índia.
Em 1891 foi o sr. visconde de Meirelles
enviado á Allemanha, como cônsul geral em
Stettin, afim de estudar as relações commer-
ciaes entre aquelle paiz e o nosso, terminando Quinta oe S. Matheus. — Pateo de Entrada

420

DRaC-CCA
serviço de sua carreira fizera estudar quasi todos os paizes da 1894, não, porém, sem emprehender uma trabalhosa viagem em
Europa e do Oriente, Francisco Meirelles do Canto foi escolhido territorios da British South África C.°, visitando Umtali, Salisbury
e em 20 de maio de 1892 era nomeado secretario geral em Lis­ e Bulawayo e encontrando por toda a parte a recepção devida a
boa da Companhia de Moçambique, logar que exerceu a contento quem em tão curto tempo soubera conquistar fóros de adminis-
geral. rador energico e intelligente. Uma recepção significativa.
De 1894 para Foi em 15 de ja­
1895 exerceu de mo­ neiro de 1897 que os
do muito distincto o habitantes da Beira,
cargo de governador tiveram o prazer de
dos territorios de vêr de novo abordar
Manica e Sofala e a ás suas praias o go­
sua administração vernador que deixara
assignalou-se pela dos seus merecimen­
energia e pelo tacto tos tão boa recorda­
durante um periodo ção.
em que os recursos Do que fezn’esse
da Companhia e as tempo da sua admi­
circumstancias do nistração, quasi nem
território não offe- é necessário fallar.
reciam uma sombra Foi tão extraordiná­
da prosperidade que rio o progresso do
hoje se affirma. território e o gover­
Datam d'este nador Meirelles as­
tempo muitas medi­ signalou-se por me­
das de caracter ci- didas tão rasgadas e
vilisador, como por Quinta de S. Matheus. — Fachada em azulejos antigos, estvlo Luiz XVI, deitando para o jardim reveladoras de tanta
exemplo, a creação coragem e de tanto
da policia puramente civil, o estabelecimento de escolas, bibliothe- talento, que melhor é não sacrificarmos á concisão d este artigo
cas. o serviço de pharmacia, a arborisação da Beira, a inaugura­ uma revista de acontecimentos forçadamente incompleta.
ção do hospital, sem fallar nas medidas geraesde administração que Voltou o conselheiro Meirelles (assim ficou sendo sempre o seu
imprimiram cunho inteiramente novo ao governo da Companhia. nome conhecido na Costa Orientai de África) a governar o terri­
Regressou o sr. visconde de Meirelles á Europa em fins de tório de Manica e Sofala em 1889, 1900 e 1901.

42 1

DRaC-CCA
Coincidio esse tempo de governo com E’ o sr. visconde de Meirelles casado com a sr.a viscondessa
a guerra entre a Inglaterra e os boers. D. Maria Carlota da Costa Freitas, de uma distincta famili 1 do
Como se sabe, foi a Beira o ponto escolhido Algarve, e é já hoje numerosa a sua descendencia.
para o desembarque dos contingentes da Seu filho primogénito, o sr. Frantisco de Meirelles do Canto e Cas­
Australia e do Canadá que, sob o com­ tro, fidalgo cavalleiro da Casa Real por alvará de 9 de Maio de 1900,
inando do general Carrington, iam pelo in­ é agronomo pelo Instituto de Agricultura de Lisboa e desde k>o3
terior da Rhodesia reforçar a posição das funccionario do Ministério das Obras Publicas Commercio e In­
forças britannicas. Foi n’essa occasião que dustria. Casou em 28 de Setembro de 1899 com Miss Sophia
se estreitou e definio a alliança entre Por­ Henrietta Bleck, filha de mr. J. W. H. Bleck, banqueiro e abastado
tugal e a Inglaterra, e a primeira pedra para esse edifício, hoje capitalista. Ultimo descendente em linha varonil d’esta família é o
base da nossa situação internacional, foi posta na Beira, graças ao filho do sr. Francisco de Meirelles, André Luiz de Meirelles do
tacto, ao corajoso patriotismo com que o governador portuguez, Canto e Castro, que nasceu em 16 de Agosto de 1900.
vendo nessa occasião mais longe do que a maior parte dos seus
compatriotas, acolheu como alliados e amigos, entre revistas e ban­ O sr. visconde de Meirelles é filho do sr. André Francisco Meirelles de Ta-
vora do Canto e Castro, Fidalgo da Casa Real por alvará de 3o de Maio de 1875,
quetes festivos, aquelles que muitos quereriam ver recebidos sob e Commendador da Ordem de Christo, e da sr. * D. Anna de Menezes Lemos e
protesto e como se fossem portadores de imperdoável affronta. Carvalho, descendente da casa dos srs. da Trofa ; neto de Luiz Meirelles do Canto
e Castro, Fidalgo da Casa Real por alvará de i3 de Agosto de i8j8, 8.° sr. do
No fim da campanha, Francisco Meirelles do Canto era citado morgado dos Meirelles, da Terceira, e de sua mulher D. Francisca Paula Mei-
(unico paisano e unico extrangeiro) na Ordem do Dia rens de Noronha e Tavora ; bisneto de Luiz Francisco de Meirel­
les do Canto e Castro, Fidalgo da Casa Real por alvará de 20 de
do exercito inglez assignada pelo generalíssimo Lord outubro de 1817, Coronel de Melicias, 7.® sr. do mesmo morgado
Roberts. A curto trecho Eduardo VII conferia-lhe a e de sua mulher D. Joanna Eu-ebia de Ornellas Paim da Gama­
ra ; 3.® neto de Luiz Boaventura Meirelles do Canto e Castro, Fi­
Commenda de S. Miguel e S. Jorge, a mesma com dalgo da Casa Real, 6.° sr. do mesmo morgado e de sua mu­
que fôra honrado Mousinho de Albuquerque, e El-rei lher D. Rosa Marianna do Canto Munhoz; 40 neto de An­
dré Francisco Luiz Meirelles do Canto e Castro, Fidalgo da Casa
de Portugal, por iniciativa própria, agraciava-o com o Real (alvará de 29 de outubro de 1709) e 5.° sr. do mesmo mor­
titulo de visconde. gado e de sua mulher e prima D. Francisca do Canto e Castro;
5 0 neto de Boaventura Meirelles do Canto e Vasconcellos, (alvará
Restituído ao serviço diplomático de que havia de 21 de janeiro de 1678) Fidalgo da Casa Real, e 4." sr do mesmo
muito andava affastado, foi em 9 de Maio de 1902 o © O i morgado e de sua mulher e prima D. Jacinra Maria do Canto e
O Castro ; 6.° neto de André Luiz da Fonseca de Meirelles, Fidalgo
visconde de Meirelles collocado na Legação de Berlim Cavalleiro da Casa Real 3.® sr. do mesmo morgado, e de sua mu­
na qualidade de Addido especial, encarregado dos ne­ lher D. Iria do Canto e Vasconcellos; 7." neto de André Fernan-
des da Fonseca, Fidalgo Cavalleiro da Casa Real, bargento mór
gócios commerciaes. Numerosos relatórios illustram a d’Angra, e de sua mulher D. Beatriz Meirelles, 2.
* sr.
* do morgado
gerencia d’esse cargo, cujo exercício lhe valeu a sua re­ dos Meirelles, instituído em 20 de março de 1634, 8.® neto de
Domingos Martins da Fonseca, Cavalleiro da Ordem de Santia­
cente nomeação de Enviado Extraordinário e Minis­ go, logar-tenente do capitão Donatario d’Angra, e de sua mulher
tro Plenipotenciário em Buenos-Ayres e Montevideu. D. Catharina Vaz; 9.0 neto de João Martins da Fonseca, Procurador
do Senado de Angra em 1534, e de sua mulher D. Mécia Nunes.

422

DRaC-CCA
ANGRA DO HEROÍSMO
ngra do Heroísmo está situada ao sul da ilha As egrejas que mais se destacam são a cathedral, espaçoso
Terceira do archipelago dos Açores, a 38°38' templo de tres naves, S. Francisco, Real. Capella do Colle
lat. n., e i8"4, long. O. de Lisboa. Foram os gio e a Misericórdia.
cavalleiros de Christo que deram Na egreja do convento de S. Francisco repou­
o nome de Angra á primitiva po­ sam os ossos de Paulo da Gama, irmão de Vasco
voação costeira, elevada a cidade da Gama, que morreu em Angra quando voltava
por D. João III em 1534, e que do descobrimento do caminho marítimo para a índia.
é capital do districto central dos Prendem-se a esta cidade interessantes factos
Açores, sede do bispado e do da historia de Portugal: em i58o o governador dos
cominando militar do archipelago. Açores, Cypriano de Figueiredo, depois elevado a
A cidade, abrangendo quatro fre- conde de S. Sebastião por D. Antonio, repelliu
guezias, está situada á beira mar, Filippe II de Hespanha e seguiu a facção de D. An­
desenrolando-se graciosamente em amphitheatro en- tonio Prior do Crato. Houve pelejas sangrentas.
tre o castello de S. Sebastião, do lado do oriente, D. Antonio, reconhecido em Angra como rei, achou
e o de S. João Baptista, no monte Brasil, do lado do em i58'2 n'esta cidade sincero gasalhado, quando
occidente. Pelo seu arruamento regular e elegante, acabava de ser profundamente desbaratada a sua
apresenta o cunho duma cidade da Renascença. frota na batalha naval de Villa Franca do Campo.
E, sem duvida, a mais formosa cidade dos Açores. Em 1583 a cidade foi conquistada pelo almirante
Os melhores edifícios civis da cidade de Angra hespanhol Marquez de Santa Cruz.
são os paços do concelho, o governo civil, a aifan- De 1641 a 1642 luctou valorosamente por expul­
dega, o lyceu nacional. Os mais formosos e amplos sar os hespanhoes e acclamar D. João IV. Este so­
pontos de vista são o pico do Facho, no monte berano, como galardão, concedeu-lhe o titulo de
Brasil, e o castello de S. Luiz, hoje praça de r muito nobre e sempre leal cidade. Os hespanhoes,
D. Pedro IV, onde está erguida uma pyramide de rendidos, sahiram do castello a 4 de março de 1642.
forma quadrangular, com datas allusivas á vida do Duque de Bra- De 1669 a 1674 deu hospitalidade na fortaleza de S. João
gança. A cidade ostenta se aprazível e garbosamente, contemplada Baptista ao infeliz rei D. Affonso VI, quando seu irmão o infante
d esses dois píncaros dominadores. D. Pedro o fez prisioneiro, assumindo a regencia.

423

DRaC-CCA
A 2 de abril de 1821 é acclamada a constituição, que só durou A Terceira serviu de refugio aos emigrados constitucionaes e
dois dias, sendo deposta pelos realistas a quatro do mesmo mez e os seus rochedos basalticos converteram-se em escudo inquebran­
morto o chefe liberal, o general Francisco Antonio d’Araujo. Em tável da causa liberal. Em Angra organisou-se a regencia em
16 de maio de 1828 foi em Angra proclamado D. Miguel 1, rei de nome de D. Maria II. N’esta cidade foi acolhido o Imperador
Portugal. D. Pedro 1 e preparado o núcleo do exercito que desembarcou no
A data mais celebrada é 22 de junho de 1828, dia em que Mindello.
foi acclamada rainha D. Maria II e jurada a Carta Constitu­ D. Maria II accrescentou ao titulo de muito nobre e leal, que
cional. Angra já tinha, o de sempre constante.

Ilha 'Iebceira. Vista geral da cidade de Angra do Heroísmo

424

DRaC-CCA
FASCICUEO TV.° 53

ORIANO

DRaC-CCA
LOMBADAS
GRAND FRIX
Exposição Internacional de S. LuU em 490
* 11 MAGAZINE BERTRAND
í!]

MEDALHA DE OURO
Exposição do Paiacio de Crystal de Londres em 1904 A LEITURA ILLUSTRADA
Revista quinzenal —96 pag. cheias de gravuras
ft Rainha das aguas de meza 200 RÉIS
Assigna-ae na

Leve, estomacal e digestiva, pura, limpida ^ ANTIGA CASA BERTRAND — JOSÉ BASTOS
R. Garrelt, 73 e 7o-Lisboa
0 acido carbonlco não é introduzido artlficialmente

Recommendada por todos os médicos


yyyyyyyyyy^^
DEPOSITO GERAL
106, AVENIDA DA LIBERDADE, 110
XJSBOA
C. MAHONY & AMARAL
70. Rua Augusta. 2."— LISBOA
T3LEPHONE 586
METAES EM BRUTO: Aço, cobre, latão, estanho, chumbo em chapa, bar­
ras lingots.
FERRO: Em barras quadradas, redondas e vergalhào. Vigamento de ferro

MEMÓRIA SOBRE A ILHA TERCEIRA em T I U 5 cantoneiras e todos os mais aprestos para eonstrucções. Ferro em
lingots para fundição. Chapas galvanisadas lisas e onduladas. Chapas de aço
para caldeiras. Tubos de ferro, cobre e latão. Arame de ferro, cobre e latão.
por Alfredo da Silva Sampaio Folha de, Flandres. Material fixo e circulante para caminhos de ferro. Rails de
Angra do Heroísmo, 1904, 8.° gr. — XI — 833 paginas aço e diversos perfis e pesos, vias portáteis. Machinas de vapor, gaz e petró­
leo. Caldeiras. Bombas. Machinas para industrias e agricultura. Machinas. Fer­
2$5OO RÉIS ramentas. Vidros polidos, foscos e de phantasia. Vidraça, lages de vidro (dalles)
Assucar, arroz, especiarias, drogas, productos chimicos. Ascensores hydraulieos.
ANTIGA CASA BERTRAND - JOSÉ BASTOS
Bua Gnrrett, V3 e 75-Liaboa
Edoux & C.-
CIMENTO
Únicos importadores em Portugal e colonias do CIMENTO da Cotopagnie
des Cimenta Parisiens, fabricado pelo notável engenheiro E. CANDLOT.
Fabrica de rabão — Telhai (Poço do Bispo)
Fabrica de licores aguardente, genebra e cognaci — TELHAL (POÇO DO BISPO)

Typ. d‘tA » — Lisboa

DRaC-CCA
Ilha de S. Jorge

N.o 54 425

DRaC-CCA
VILLA DAS VELAS

villa das Velas é a capital da ilha de S. Jorge, sede do con­ zível, sendo a villa grande e bella e de não vulgar importância no
Acelho e da comarca da ilha. Situada nas faldas d’uma mon­ seu commercio. Os seus principaes artigos de exportação, são os
tanha, á beira mar e duma larga enseada, o seu aspecto é apra­ queijos e a manteiga, que têm largo consumo nas outras ilhas e
no continente do reino,
pela excellencia da sua
qualidade. A villa das
Velas é a povoação mais
antiga da ilha, conforme
o indicava a primeira
egreja de S. Jorge, que
o infante D. Henrique
mandou construir, como
elle mesmo o declarou
em seu testamento, de 16
de outubro de 1460. As
suas armas, bordadas so­
bre a antiga bandeira mu­
nicipal velense, são: d’um
lado as armas reaes, e do
outro a cruz de Christo,
com dois açores ao pé da
haste, um de cada lado,
voltados para eila. A crea-
ção da villa data de i5oo.
Não se conhece ao certo
Ilha de S. Jorgf.. — Villa das Velas a origem do seu nome.

4?C>

DRaC-CCA
ILHA DE S. JORGE (CALHETA)
alvez que as condições internas do globo, que fizeram sub­ do reconhecimento do archipelago, em varias epochas, correram
T mergir a Atlantida, modificando consequentemente a bacia do lavas das montanhas, alterando a feição primitiva d’estas terras.
mediterrâneo, e determinando o diluvio biblico, fizessem em mais A uma d’estas modificações posteriores, parece-nos, deve a
remota epoca, e por um derivativo necessário, sair dos abysmos Calheta sua formação. Assenta numa orla de terreno, no litoral
do oceano consideráveis ja­ médio do sul da ilha, tendo
ctos de lava, que no andar por fundamento um irregu­
do tempos, e completo o lar plaino de recifes basalti-
periodo de seu arrefecimen­ cos. num declive precipitado
to, se converteram nos ri- para o fundo do oceano.
dentissimos Açores da actua- E, pois, a Calheta o re­
lidade. corte e base d’uma encosta
E uma hypothese geoló­ mais ou menos suave, esten-
gica alço verosímil. dendo-se numa distancia de
Aos companheiros de tres kilometros por cem me­
Gonçalo Velho, é certo, já tros de largo
não foi dado contemplar o O arvoredo que reveste
horisonte em fogo projecta- as ladeiras que lhe ficam so­
do até ás nuvens por outras branceiras, e em que pre­
tantas parallelas de vulcões domina a faia, dá-lhe uma
quantas as ilhas dos grupos vista alegre e aprazível, dis­
oriental e médio. simulando a aspereza da
Pelo exame attento de configuração.
seu todo orographico, dum Quem foram seus pri­
relevo irregularíssimo, e seu mitivos povoadores ?
litoral caprichosamente re­ Consta que os Dias, os
cortado, se conhece á evi­ Affonsos e os Eannes, de
dencia que, mesmo antes I S. J
lha de . —V
orge C
illa da alheta Valença do Minho, e os Fer­

427

DRaC-CCA
nandes d’Agueda, d’Aveiro. Quanto á sua vida industrial, política
ou militar, pode dizer-se que a Calheta não tem historia. Terra
pequena n’uma ilha de segunda ordem, viveu o longo lapso de
tres para quatro séculos enfeudada á Terceira, que, como capital
e sede do governo açoriano, exerceu em todo o archipelago um
predomínio incontestado. O pastel, vinhos, gados e lacticinios
constituíam a unica fonte de sua riqueza.
Todavia, o viver d’este povo foi algumas vezes perturbado por
occorrencias notáveis, senão épicas para os filhos d’esta terra, ao
menos dignas de se registar.
No anno de 1610, em que morreu Henrique IV de França, foi
a Calheta investida por sete naus da armada ingleza que nave-

Velas. — Morro de Lemos

gava n’estas paragens a procurar, como boa presa, as naus da Ín­


dia; e que annualmente exigia dos calhetenses cereaes, vinhos e
gado para abastecimento de seus navios.
Aos calhetenses, porém, esgotada a paciência, inspirou-lhes
bellicosos brios a injusta extorção. Descendo em som de guerra
receberam d’esta vez os bretões nas pontas dos piques, tomando-
lhes uma bandeira, obrigando-os a embarcar á pressa, e tão escar­
mentados que não voltaram a este porto.
Mais tarde, em 1689, o templo d’esta villa foi pasto das cham-
mas, dando-se o milagre evidente de se encontrar no brazeiro. e
de se retirar d’elle, absolutamente intacta, a hóstia do sacrario.
S. Jorge. — Festas do Espirito Santo A commemoração d'este prodígio, por meio duma festividade re-

428

DRaC-CCA
Rercorda-lhes a assolação que soffreu a ilha com um medonho
terramoto, a que o povo ficou chamando o Mandado de Deus, e
que n’esta freguezia victimou 136 pessoas, passando de i:ooo o
numero dos mortos em todo o concelho.
Tinha a Calheta tres fortes que defendiam a sua costa contra
a invasão dos moiros. E era tal a preoccupação d’esta gente a res­
peito d’argelinos e saletinos, que até em seus bailes recordavam os
inimigos, cantando á viola:
Justa pares, justa pares,
Justa pares, não é assim ;
Justa, justa com cuidado
Que ahi vem o Saletim!

Velas. — Rua no Caes

ligiosa a 8 de janeiro, em que se deu o caso, durou dois séculos


quasi, acabando no i.° quartel do século xix.
Com justa razão se ufana a cidade d'Angra por contar entre
seus heroes a S. João Baptista Machado, martyrizado no Japão
pela fé de Christo.
Também á Calheta assiste igual titulo de gloria na pessoa
do P.e Lazaro Nunes de Sousa. Era natural d’esta villa; e exer­
cendo o logar de vigario do Cabo da Praia, na Terceira, fez uma
viagem a Jerusalem, sendo na volta captivo dos turcos, que o
martyrizaram em Chypre no anno de 1704.
Foi declarado Venerável pela Santa Sé.
O anno de 1767 recorda aos calhetenses uma data calamitosa. Varadouro das Velas. —F.m dia de i esta

429

DRaC-CCA
com a entrada d’um piquete, fracção da expedição liberal em
S. Jorge, ás ordens de Villa Flôr. Seus commandantes, Nogueira
e Borges, fizeram espingardear inutilmente a dois officiaes realistas
— os capitães Mendonça e Almeida, e ao Provincial d’Angra P.e
Fr. João da Purificação.
E com estes assassinatos revoltantes fecha a Calheta o cyclo
de seus obscuros annaes.
A villa da Calheta é sede de julgado municipal. Tem dois
médicos e duas pharmacias, estação telegraphica, quatro escolas
primarias e um theatro-club.

>
Velas. — Praça Municipal

Foi em i8i(5 o ultimo acommettimento á Calheta por navios


inimigos. Um brigue de corso da Argentina, sob pretexto de re-
haver parte de sua guarnição a bordo d’uma escuna, prêsa do cor­
sário, e que se havia refugiado líeste porto ao abrigo da artilharia
do forte de Santo Espirito, tentou um desembarque. Os calheten-
ses, porém, receberam-nos com a mesma gentileza com que ou-
trora receberam os inglezes. Obrigaram-nos á retirada com notá­
vel perda, porquanto custou esta funcção aos inimigos i3 homens
entre mortos e feridos.
Em 1831, finalmente, observou a Calheta os horrores da guerra S. Jobge. — Festas do Espirito Santo

430

DRaC-CCA
DR. ARMELIM JÚNIOR
is ahi um nome que designa um dos mais conhecidos e popu­ sempre se reflectem. Tudo quanto é e vale, scientifica e profis­
E lares, um dos mais proficientes e eruditos, e dos mais pres­ sionalmente, a si o deve, ao seu proprio esforço e valia; mas, —
tigiosos advogados portuguezes, que tudo quanto é e quanto vale, ouro sobre azul — tem uma hereditariedade nobre, tem uma no­
a si o deve, ao seu proprio esforço, ao seu proprio merecimento bre ascendência.
e valor; nome que ao mesmo passo designa uma das mais fortes Açoriano, nasceu na villa das Velas capital da ilha de S. Jorge,
organisaçÕes de luctador, uma actividade in- no i.° de fevereiro de 1857. E’ filho legitimo
defessa, uma força de vontade ingente, uma do sr. Manoel Velloso d’Armelim, proprietá­
das mais solidas e variadas illustrações que rio, fidalgo cavallciro da Casa Real, por suc-
conhecemos, um dos mais nobres e leaes ca­ cessão de seus maiores, e da Sr.a D. Maria
racteres que admiramos. Januaria Aveilar d’Armelim.
Jurisconsulto insigne, advogado distinctis- Descende, por seu pae, das nobre familias
simo, orador espontâneo, d'improviso, d uma de Vasco Gil Sodré, fidalgo cujo brazão data
eloquência natural e suggestiva; escriptor pri­ de 1519; de Mendo Furtado de Mendonça,
moroso, vernáculo, de grande talento e vasta também fidalgo por mercê regia de 1619; de
erudição; orador e escriptor philosopho, con- Álvaro Pires, sargento-mór do Algarve; de
ceituoso e profundo; apostolo do bem e da João Valido, de Pedro Luiz de Sousa, pri­
virtude, da verdade e da justiça, da regenera­ meiro fundador do castello de S. João Ba-
ção pela Moral e da paz pelo Direito — o ptista, da cidade de Angra do Heroísmo, ca­
dr. Armelim Júnior destaca-se, n’este meio, pital da ilha Terceira, (Açores); de Francisco
como um nobre exemplo e alta licção. Luiz de Sousa, da antiga e nobillissima fami-
E’ em toda a parte e sempre um evangeli- lia dos Sousas, que em Portugal foram fidal­
sador, um moralista revolucionário, sem preconceitos, sem respei­ gos de solar e cotta de armas, da illustre familia Armelim, cujo
tos humanos, numa grande independencia de critica, com extraor­ appellido ainda hoje usa sua familia, oriunda, pela linha paterna,
dinária isenção e hombridade, dizendo alto o que pensa e sente da Italia, onde ainda hoje existe a illustre familia Armelini, da
baixo: — no jornal e no livro, na tribuna académica como na do qual foi um dos mais preclaros membros o grande jurisconsulto e
fôro, nos comícios como nas associações populares. estadista Carlos Armelini.
A luz do seu espirito e a grandeza do seu caracter, em tudo e Por sua mãe, o Dr. Armelim Júnior descende de uma das

DRaC-CCA
verino d’Avellar, e médicos do valor dos drs. José, Francisco, e
Emilio Severino d’Avellar.
O Dr. Armelim Júnior matriculou-se em outubro de 1882, na
Faculdade de Direito, da Universidade de Coimbra, formando-se
em 8 de julho de 1887.
No i.° de outubro d’esse mesmo anno, assentou banca de
advogado em Lisboa.
Nunca no fôro portuguez se fez tão rapida e brilhante carreira.
O seu talento e saber, que já pujantemente se affirmára, an­
tes e depois de ir para Coimbra, no jornal, no livro, e na ora­
tória académica, mais se evidenciaram nas luctas incruentas do
fôro.
Foram-lhe desde logo confiadas importantes causas, não só
criminaes, mas civis e commerciaes, administrativas e fiscaes,
tanto da capital como das províncias, e obtendo verdadeiros trium-
phos.
E não foram fugazes esses triumphos e ephemera a sua gloria,
— como a tantos outros seus collegas no fôro, passando rápidos
como um meteoro — pois que apesar de tantos novos, e alguns,
illustres, mantem-se sempre prestigioso o nome do dr. Armelim
Júnior, que continua sempre a ser reclamado de differentes pon­
tos da província como na capital.
Longa seria a enumeração—-e já tem sido por varias vezes
feita — de todas as causas celebres, criminaes, civis e commerciaes,
em que tem intervindo, como advogado dos auctores ou dos reus,
Um trecho da villa das Velas
o nosso biographado; como longa seria a indicação de toda a sua
obra forense — mais de cem volumes — de minutas e contra mi­
mais distinctas famílias açorianas, onde se contam jurisconsultos nutas impressas.
da plana dos drs. José Severino d’Avellar e Manoel Aprigio Se­ Antonio Cabreira

402

DRaC-CCA
FASCICUEO TY.° 54

DRaC-CCA
LOMBADAS
GBAHD FR1X
liipusiçào luleruaciunal dc S. L»l. em 1904 MAGAZINE BERTRAND •
MEDALHA DE OURO líl
Exposiçà» <lo Pal 'CiO d<- Crystal de Londres em 19C4 A LEITURA ILLUSTRADA
Revista quinzenal — 96 paq. cheias de gravuras
& Xainha das aguas de meza 200 RÉIS
Assigna-se. na
Leve, estomacal e digestiva, pura, límpida K ANTIGA CASA BERTRAND —JOSÉ BASTOS

0 acido carbonlco não é Introduzido artifklalmente


;~<'v
'ÍAvV tt. fiarrett, 73 e 75 —Lis'oa iíiih
Recommendada por tod<s os médicos JW
DEPOSITO GERAL
106, AVENIDA DÃ LIBERDADE, 110
LISBOA
C. MAHONY & AMARAL
70, E2.ua> Aui£rti«sta. ^2-°— LISBOA
TSLEPHONE 586
METAES EM BRUTO: Aço, cobre, latào, estanho, chumbo em chapa, bar­
ras lingots.
FERRO: Em barras quadradas, redondas e vergalhão. Vigamento de ferro
em Tl U; cantoneiras e todos os mais aprestos para construcções. Ferro em
lingots para fundição. Chapas galvanisadas lisas e onduladas Chapas de aço
para caldeiras Tubos de ferro, cobre e latão. Arame de ferro, cobre e latão.
Folha de Flandres. Material fixo e circulante para caminhos de ferro. Rails de
aço e diversos perfis e. pesos, vias portáteis. Machinas de vapor, gaz e petró­
leo. Caldeiras. Bombas. Machinas para industrias e agricultura. Machinas Fer­
ramentas. Vidms polidos, foscos e de phantasia. Vidraça, lages de vidro (dalles)
Assuear. arroz, especiarias, drogas, productos chimicos. Ascensores hydraulicos.
Eduux & C.a
CI MB It T O
Únicos importadores em Portugal e colonias do CIMENTO da Compagnie
des Ciments Parisiens, fabricado pelo notável engenheiro E. CANDL0T.
Fabrica de sabão—Telhai (Poço do Bispo)
Fabrica de licores aguardente, genebra e cognacs — TELHAI (POÇO DO BISPO)

Typ. d',A * — Lisboa


ra

DRaC-CCA
G.________________ ______________________________________________________________________________ 5
G~'------------- ----------------------------------------------------------------------------------------------------- ----- —0

Ilha Graciosa
C——----------- ------ -- ------------------------- ------------------- ---- ----------------------- ----- ---------- ------ 3

N. 55

DRaC-CCA
ILHA GRACIOSA
dez léguas de distancia da ilha Terceira fica O solo da ilha é feracissimo. Produz abundantemente uma
situada a ilha Graciosa. qualidade de uva de que alli se fabrica um typo especial de vinho
O seu nome de Graciosa deve-o ella á branco, que é também exportado para as outras ilhas, e excellente
belleza dos seus contornos, ao risonho as­ qualidade de milho, trigo e feijão.
pecto que offerece a quem do mar a con­ Da Graciosa exporta-se ainda aguardente e algum gado.
templa, verdejantemente garrida em meio A imprensa da ilha é agora representada por um bem escripto
do oceano azul. semanario, A Ilha Graciosa, de que é director o illustre jornalista
Tem i3 kilometros de comprimento por sr. dr. João Aivaro Brito de Albuquerque.
7 de largura. A sua superfície é de 98 ki­
lometros. E’ das mais planas ilhas do archipelago. *
A sua capital é a pittoresca villa de Santa Cruz, * *
sendo a villa da Praia a segunda povoação em impor­
tância.
Além d’estas duas villas tem a ilha quatro fregue- Como todas as suas irmãs do archipelago, a ilha Graciosa é de
zias. Todas as povoações da ilha são constituídas por solo essencialmente vulcânico. Pela sua constituição geologica é a
cêrca de 2:700 fogos, habitados por 8:5oo indivíduos. freguezia da Luz a que mais tem soffrido com os phenomenos sis-
micos que alli se tem produzido.
* A sua actual e modesta egreja é já a terceira que a freguezia
* * tem possuído, visto terem sido as duas primeiras arruinadas por
violentos abalos de terra.
A tres kilometros da villa da Praia existe a cratera Esta freguezia é a de terreno mais pobre da ilha, mas bonita
d’um vulcão extincto, tendo no fundo uma enorme e e rica em outros dons da natureza. Estão dentro da sua area as
curioza gruta onde existe muito enxofre, e de cuja aguas minero-medicinaes do Carapacho e o porto da Folga. A ella
abobada pendem estalactites c estalagmites. pertencem metade da magestosa Caldeira e metade da bella pas­
Não é facil a descida, sendo necessário ir-se amar­ tagem da Serra Branca, ambos logradoiros públicos.
rado a um cabo. No emtanto, raro é o touriste que O encanto, pois, que de fóra se apossa de quem contempla a
pela ilha passe, que deixe de vêr a interessante gruta. ilha, mantem-se lá dentro, ante a belieza suave dos seus campos.

434

DRaC-CCA
Ilha Graciosa. — Villa de Santa Cruz. — Pbaca Fonies Pereira Mello
> de

435

DRaC-CCA
poeta dos maiores e um dos
mais gloriosos filhos de Portu­
gal.
Para coinmemorar esse
acontecimento, mandou a ca-’
mara municipal da villa de Santa
Cruz, a requerimento d’um aço-
rianista, o sr. Antonio Borges
do Canto Moniz, collocar na
casa onde alli residiu o auctor
do Camões e da D. Branca,
uma lapide com os dizeres se­
Ilha Graciosa. — Um trecho da villa da Praia
guintes:

MOROU NESTA CASA EM l8lO

O 1MM0RTAL VISCONDE DE ALMEIDA


GARRETT
Em 1791 arribou á ilha Graciosa, para fazer aguada, o navio UMA DAS GLORIAS PORTUGUEZAS
em que se dirigia para a America o auctor do Génio do Cristia­
Villa de Santa Cruz. — Cruzeiro
nismo, o grande Chateaubriand. A ilha Graciosa foi a quinta S. Sde ebastião

Também esteve na mesma ilha, Almeida Garrett, esse que de na ordem dos descobrimentos,
pois disparou num dos maiores vultos da litteratura portugueza, sendo povoada por Vasco Gil Sodré e depois doada a Duarte Barreto.

436

DRaC-CCA
UM TRECHO DO CARAPACHO
oi o Carapacho a primeira povoação da Graciosa. Alli apor­ São prodigiosos os resultados obtidos com o uso d’aquellas
F tou, vindo da Terceira, o primeiro colono, Vasco Gil Sodré, aguas, e mais largos seriam os seus benefícios, por maior con­
algarvio, acompanhado de sua mu­ corrência, se a junta geral do distri-
lher, filhos e creados, e alli teria fun­ cto não tivesse descurado tanto o edi­
dado uma importante e bonita povoa­ fício balnear, e se a iniciativa parti­
ção, em amphitheatro, dispondo de cular não se mostrasse tão retrahida.
um excellente porto, voltado ao sul, Ainda assim, alli vão todos os an­
se não tivesse de retirar-se para a nos forasteiros doentes de toda a ilha,
Praia, onde, depois, viera estabele­ d’outras ás vezes, em busca de alli-
cer-se Duarte Barreto, casado com vios que quasi sempre encontram.
uma irmã de Sodré. O Carapacho, por muitos moti­
Abandonada e situada n’um ex­ vos, constitue um dos mais interes­
tremo da ilha, a povoação do Cara- santes pontos da ilha Graciosa.
pacho só de ha um século, e princi­ Certamente que, pela sua situa­
palmente desde ha uns vinte annos, ção, pelo pittoresco da sua paysagem
é que começou a ter nomeada e a um tanto rude, o Carapacho concorre
florescer um pouco, mercê das já á maravilha para manter os créditos
hoje afamadas aguas termaes que alli existem, conhecidas vulgar­ de graciosa, que tem a ilha de que faz parte.
mente pelo nome de Aguas Novas, derivadas da celebre Furna Para mais, com a virtude das suas aguas, melhor lustre dá á
do Enxofre da Caldeira, que pelo norte lhe fica quasi sobranceira. linda ilha.

DRaC-CCA
VILLA DE SANTA CRUZ
villa de Santa Cruz, capital da Graciosa, sede do concelho de tempo que em Santa Cruz costumam demorar-se os vapores
A e comarca, é, sem duvida, uma das melhores e mais bonitas da carreira, aquelle monte é magnifico, proporcionando a vista de
villas do paiz. quasi toda a ilha em menos de uma hora, nos seus mais interes­
Com algumas ruas regulares e bons edifícios, contém o maior santes aspectos panorâmicos. Eis o que é Santa Cruz.
largo das povoações açorianas —
a praça de Fontes Pereira de
Mello, nome dado ao antigo ro­
cio em memória do grande es­
tadista e desvelado protector da
Graciosa.
Santa Cruz foi a terceira po­
voação fundada na Graciosa, tendo
sido seu fundador Pedro Correia
da Cunha, fidalgo algarvio, como
Barreto, fundador da Praia, e
Sodré, fundador do Carapacho
e primeiro habitador da ilha.
Sobranceiro á villa, pelo sul,
está o monte da Ajuda, em cujos
tres pontos mais elevados se er­
guem tres rústicas ermidinhas, e
o qual proporciona um bello pa­
norama sobre Santa Cruz, os lin­
dos campos da ilha e sobre a fre-
guezia de Guadalupe.
Para quem visita de passagem
a Graciosa, só no curto espaço Ilha Graciosa. — Panorama da Villa de Santa Cri z

438

DRaC-CCA
Ilha Graciosa. — Villa de Santa Cruz. —O Monte de Ajuda

4>9

DRaC-CCA
ARCHIPELAGO DOS AÇORES
archipelago açoriano acha-se situado no oceano Atlântico, me, tendo no bico uma estrella maior, e a cercal-a symetricamen-
O entre i5° 46' e 22" de longitude Occidental, e 36° e 39o 41' te, oito estrellas mais pequenas.
de latitude septentrional. Os terrenos sobranceiros ao oceano, são, principalmente nas
Fica a 2do léguas ao oeste da Europa, a 3oo ao noroeste da ilhas de São Miguel e Terceira, formados de basaltos, com crys-
África, a 340 a leste da America do Norte, e a 640 ao sul do taes de amphybole e pyroxene, sobre os quaes apparecem cama­
Brasil. das de grés, aptas a servirem de cantaria ou argilla.
Deve o nome á prodigiosa quantidade de açores que n’elle en­ Tem este archipelago abundancia de aguas mineraes, que se
contraram os seus povoadores; mas antigos escriptores o denomi­ encontram nas ilhas de São Miguel, Terceira, Graciosa e Pico,
naram também Terceiras, Flamengas e Cabralias. sendo d’estas as mais afamadas pelas suas propriedades mediei-
Baseava-se o primeiro d’estes nomes na prepotência que a ilha naes as da ilha de São Miguel, nos sitios denominados: Furnas,
Terceira exercia então sobre as demais. Caldeiras, Lombadas e Ferraria.
Segundo antigos geographos, as ilhas dos Açores são os restos O terreno é accidentado e vulcânico, o clima muito temperado,
ou porções mais elevadas da grande ilha Atlantida, submergida e o solo feracissimo, de uma producção muito superior em cereaes
por um terramoto; segundo outros, são jactos de vulcões subma­ e excellentes fructas, ao consumo.
rinos. Esta ultima opinião, correntia no mundo scientifico, é forta­ Quasi todas as ilhas dão bons vinhos, devendo especialisar-se
lecida pelos repetidos tremores de terra que n’ellas se realisam entre todos, o vinho do Pico, cujas videiras, se não mente a tra-
com bastante violência. O celebre naturalista francez, Mr. Fouqué, dicção, foram importadas de Chypre, pelo anno de 1470.
o qual esteve nos Açores em 1867, confirma esta derradeira hy- Os mares que rodeiam os Açores são abundantes de pescados,
pothese. sendo as suas costas, em geral, asperas e pouco praticáveis. Teem,
Nos Açores realisou este sabio importantes estudos. não obstante, alguns portos naturaes e dois artificiaes, um em
Ponta Delgada, na ilha de São Miguel, e outro na cidade da Hor­
*
ta, capital do districto do mesmo nome, cuja navegação se tem
As armas do archipelago são um açôr, cercado de nove estrel- ultimamente tornado muito importante. No porto de Ponta Del­
las, que representam o numero de ilhas de que se compõe. Outras gada, onde as embarcações encontram excellente abrigo, foram
armas dos Açores são: numa circumferencia, uma ave d’este no­ já despendidos para cima de 3:ooo contos.

440

DRaC-CCA
FASCICUI.O JV.» 55

DRaC-CCA
Qasa Tjertrand- José Bastos A C
RUA GARRETT, 73 E 75-LISBOA

€ncvclopedia de Hpplicações Usuaes


for JOÃO BONANÇA
Historia, Geographia, Estatística, Astronomia, Pliysica e Chimica, Agricultura, Hygieue, Medicina pratica, Coinmercio, Artes, Lettras, Portugal uittoresco, etc, etc.

Livro de tudo e para todos, de immediata consulta e de incontestável utilidade

Um único volume-Esplendidas illustpaçòes


Com a diffusào da presente obra, verdadeirameníe util e indispensável a Ioda a gente, uniea em lingua porlugueza, orgulhamo-nos em poder
affirmar que um bom serviço prestamos ao publico. Para mais, tem a abonal-a o nome do auctor. E’ elle João Bonança, um dos escriptores
de mais solidos conhecimentos que enriquecem as lettras portuguezas e um investigador da mais admiravel persistência e aptidão.
A Eucyelopedia de Applieações Vsuaes fórma um volume portátil, repleto de noções uteis nas diversas praticas
da vida diaria. E’ um livro para ignorantes e sábios; educa uns e rememora os outros promptamente, sem dispêndio de muito tempo e
trabalho. O commerciante, o agricultor, o jornalista, o homem de lettras, o professor, o clinico, o marinheiro, o militar, o viajante, o
operário, etc, ahi encontram uma instrucçào variada e solida e regras para se conduzirem na pratica dos seus misteres e nos actos da
vida publica e particular. O que apenas tiver uma educação elementar, completal-a-ha com pequeno dispêndio de trabalho, de tempo e
de dinheiro, na Vncyclopedia de Applicações Vsuaes.

PUBLICA ÇÃ O BARA TISSIMA


Cada fascículo de -16 paginas, 30 réis Cada tomo de 80 paginas, 150 réis
O volume de mais de 1:600 paginas, encadernado em pelle, custa 26000 réis!!!

Typ. de “A Editora"- LISBOA

DRaC-CCA
N. 56 44í

DRaC-CCA
DISTRICTO DA HORTA
Iehas—Fayal, Pico, Flores e Corvo

Extensão: 25g kilometros. População: 58:700 habi­


tantes. Concelhos: 7. Exportação principal: queijo e
vinhos.

442

DRaC-CCA
Descobrimento do Grupo Occidental dos Açores
eferindo-me ao descobrimento e povoa­ dos Açores juntos a outros dos da Madeira e Canarias, como os
ção da ilha Terceira (antes nomeada de outras imaginarias de S. Brandão, Maias, Lono ou L’uovo,
de Jesus Christo) toquei de leve na cuja lenda atravessou todo o século xv e parte do xvi, como se
pretendida doação d’ella a Jacome de verifica pelo proprio Livro de Marinharia, que tive a satisfação
Bruges, e na problemática successão de publicar em 1908.
d este, confutada pela sentença do du­ Se quando os mares já eram quasi todos devassados, a maior
que de Vizeu, D. Diogo, de 1483; indo parte das terras do nosso globo reconhecidas, as derrotas para
agora referir-me ao descobrimento todos esses pontos marcadas, ainda se mencionavam nos tratados
das outras ilhas que formam o grupo
ou grupos occidentaes dos Açores,
não menores difficuldades se encon­
tram para lhe assignalar a verdadeira
data.
Certo é que de 1482 a 1489 haviam, como já dissemos, sido
descobertas sete das nove ilhas, que formam o archipelago dos
Açores, que então começavam a ser povoadas. Nenhuma duvida
póde restar de que, fossem quaes fossem os indivíduos que as re­
conheceram ou assignalaram para sempre nos mappas geographi-
cos, esse facto se deve ao infante D. Henrique, a cujas ordens
esses indivíduos serviam, por isso que foi a clle que se fez a doa­
ção d'essas novas joias, que vieram engastar-se na coroa fulgente
de Portugal.
Antes, e ainda alguns tempos depois a insersão d’essas novas
insulas nas cartas mais ou menos phantasticas dos cartographos
particulares d'esse escuro periodo, é não só pouco menos que ar­
bitraria, mas fórma como que uma miscellanea confusa, encon­
trando-se no mesmo grupo, tanto alguns nomes de certas ilhas Ilha do Faval. —Um trecho da Cidade da Horta

443

DRaC-CCA
e cartas marítimas, ilhas phantasticas ou imaginarias, que muito vel. Começando em 1432 ou 33 a exploração d’aquelles mares,
que os espíritos da idade media, de envolta com uma ou outra sendo feliz no encontro das duas primeiras ilhas, que necessaria­
noção verdadeira, misturassem os productos da imaginativa de mente deveria ter succedido em poucos dias, e por consequência
frades alucinados ou viajantes phantasiosos ou crédulos que in­ inevitável o achamento da terceira, é de primeira intuição que,
conscientemente os desvairavam? attentos os desejos do infante, o Commendador de Almourol, não
Poderia ser que um corsário, levado por temporaes ou corren­ se quedaria em culposa inércia, e ao passo que ia lançando gados
tes, tocasse em algum d’esses pontos perdidos no meio do Oceano nas novas terras, — proporcionando com elles alimento e algum
como quer Alberto de Albertis; podem ainda os sábios e eruditos conforto aos futuros povoadores,—procuraria ver se não existi­
identificar com a errada orientação e designação d’essas ilhas nas riam por aquelles arredores, mais alguns terrenos aproveitáveis.
referidas cartas, as verdadeiras como hoje são conhecidas; todos Não são grande espaço, para aquelles tempos e atrazados meios
esses esforços de be­ de navegação, seis a
nevolência para os des­ sete annos para a bus­
varios alheios, ou de ca de tamanho numero
boa vontade para al­ de ilhas, se descontar­
tear feitos de compa­ mos d'elles as necessá­
trícios, completamente rias viagens ao conti­
ignorados durante sé­ nente para reparação
culos, são impotentes da gente e navios,
perante o facto certo, transporte de manti­
sabido, e incontestável mentos e gado. Infe-
do aproveitamento lizmente os contempo­
d’esses ferazes terroes râneos nenhuma noti­
para a utilidade mun­ cia nos deixaram a tal
dial, e civilisação do respeito, e os que vie­
universo pelos portu- ram depois, não pude­
guezes, guiados pelo ram ou não souberam
genio previdente do in­ procural-as, contentan­
fante D. Henrique. do-se com tradições e
Quem seria o des­ lendas inexactas, que
cobridor d’essas novas durante séculos desvai­
ilhas? Gonçalo Velho? raram e desnortearam
É mais do que prova- C H
idade da . —R
orta C
ibeira da onceicão os historiadores me­

444

DRaC-CCA
nos criteriosos, cujas asserções já hoje tem que ser postas de do Corvo. E inegável que esta ilha do Corvo já estava descoberta an­
parte. tes de 20 de janeiro de iq53, quando D. Affonso V fez doação d’ella
Do que temos dito segue-se que as ilhas do Fayal e Pico já ao duque de Bragança, o que importa dizer que já era conhecida
haviam sido descobertas, e estavam habitadas por algum gado a ilha das Flores, por que não se podia ver uma sem ver a outra.
manso, quando, em 1489, solicitou o infante D. Henrique, e lhe foi São pois inexactas as expressões do mesmo monarcha na carta
concedido por carta régia de 2 de julho, auctorisação para mandar de doação da ilha das flores a Fernão Telles, de 28 de janeiro de
povoar sete das ilhas dos Açores. 1473, —as ilhas que chamam das Flores, que pouco ha que achára
Não se fez esperar o aproveitamento d‘esta auctorisação, por Diogo de Teive e João de Teive seu filho, — porque esse facto,
isso que, não sendo ainda decorridos quatro annos, a 5 de abril de como se deduz da outra carta passada ao duque de Bragança,
1448 já era feita mercê ao referido Gonçalo Velho, commendador deve ter-se realisado, pelo menos vinte e dois ou vinte e tres annos
dos Açores, por pedido do infante D. Henrique, e a todos os po- antes, sem se poder affirmar se foram aquelles ou não que as en­
voadores que estavam e viviam n’aquellas ilhas de isenção de pa­ contraram, visto na carta do duque nada se dizer a esse respeito.
garem dizima e da portagem durante cinco annos de quaesquer De tudo o exposto tira-se com certeza: Fayal, a linda ilha, o
coisas que d'alli trouxessem ao reino. O que prova não só que a Pico magestoso, foram descobertas antes de 1489; as duas senti-
povoação ia em progresso, mas que a cultura da terra dava pro- nellas occidentaes Flores e Corvo devem ter sido achadas em
ductos abundantes para os incolas, sobejando ainda o sufficiente 1452 pelo menos.
para exportar. Não falarei da lenda, da estatua do Corvo, porque não quero
Não foi, portanto, Jooz ou Jobz d’Utra o descobridor e pri­ enfadar mais os leitores, apenas lembrarei, por ser caracteristico,
meiro povoador das ilhas do Fayal e Pico, mas sim, lhe foi dada que o grande patriota e reformador Mousinho da Silveira, deixou
a capitania d’ellas, como o fora a da ilha Terceira a Jacome de em testamento que o sepultassem n’esse pequeno ilheu. Resta me
Bruges, provavelmente por influencia da duqueza de Bor- agora fazer votos, pela prosperidade d’esses preciosos ter-
gonha irmã do infante D. Henrique. rões semeados no Oceano, onde vi a primeira luz e onde
Annos depois foram descobertas as duas que se achavam desejaria se me apagasse a ultima.
muito mais afastadas ao occidente, isto é, a ilha das Flores e a Brito Rebello.

445

DRaC-CCA
Lapide Sepulchral de Jos Dutra
tradição constante, consignada nos Annaes do Mu­ dicada a S. Thiago. Joz da Terra, também nas proximi­
E nicípio da Horta, que o primeiro donatario das ilhas
do Faial e Pico (que uns, com P. J. Baudet, chamam
dades da sua residência, construio uma ermida dedicada
á Virgem, ermida que mais tarde se transformou na
«Josse de Hurtere» ou «Joost van Hurter», outros com actual egreja de N. S.a da Conceição.
Valentim Fernandes Allemão—«Jost de Utre», outros A tradição, a que acima alludimos, e que consta dos
ainda com Jeronymo Miinzer «Jodocus de Hurter» e nós Annaes do Município, diz mais que a meia distancia,
portuguezes Jos ou Jorge Dutra) estabeleceu a sua resi­ entre a parte norte da bahia e a residência do donatario,
dência para os lados da actual freguezia das Angustias, mandou este edificar uma ermida, dedicada a S. Carlos,
nas proximidades do sitio de Santa Cruz. onde foi sepultado, no local mais tarde doado por um
Da mesma fonte também consta que seu filho primo­ seu descendente, Francisco Dutra de Coadros, aos Jesuí­
génito, de igual nome, se estabeleceu a meia distancia, tas, que alli edificaram o magestoso edifício, bem conhe­
entre a residência de seu pae e a parte norte, confinada cido pelo primitivo nome de Collegio, apezar de servir
pela extensa lomba da Espalamaca, junto á qual se esta­ desde longo tempo de Matriz da Horta, Governo Civil e
beleceu um dos illustres companheiros do donatario, de Camara Municipal.
origem flamenga, chamado Joz da Terra. Foi precisamente nos baixos d’este edifício que se en­
E também tradição recolhida pelo nosso tallecido controu a lapide, a que allude o titulo que epigrapha estas
mestre sr. Commendador Macedo, na sua a Historia das linhas, e de que vamos tratar.
4 Ilhas», que o filho do donatario levantou a sua re­
sidência no local da antiga Misericórdia, sitio onde
actualmente existem as casas de moradia dos srs. Al­
fredo Augusto Ribeiro e Visconde de Borges da Silva, Tendo sido creada uma aula de latim na Horta, du­
edifican­ rante algum
do nas­ tempo func-
sas cer- cionou ella,
can ias sob a regên­
uma er­ cia do extin-
mida de- cto professor

446

DRaC-CCA
dissemos, está installada a repartição de Fazenda do Concelho,
a pouca altura abaixo da superfície, acharam os operários uma
grande pedra, que trataram de remover. Essa pedra, na parte que
estava voltada para baixo, era coberta de letras, tendo n’uma das
cabeceiras, que era escavada, um objecto qualquer que parecia
uma ave sobre um globo.
Immediatamente foi o facto participado ao então Director de
Obras Publicas, o capitão de Engenheiros sr. Miguel Henriques,
que aqui chegara em Março de 185:, o qual compareceu logo no
local.
Não se tendo podido decifrar bem a legenda, mas conhecen­
do-se que uma parte da lapide era um brazão dharmas, mandou o
sr. Miguel Henriques continuar a escavação, encontrando-se na al-

Horta.—Um trecho do jardim publico

sr. Cypriario Joaquim da Silveira, no rez do chão do citado edifício


do Governo Civil, na parte onde actualmente estão installadas as
repartições da Recebedoria e Fazenda do concelho.
Entre 1848 e 1851 realisaram-se importantes melhoramentos
na parte superior do edifício e, por essa epocha, deixou de funccio-
nar na parte inferior a aula de latim, sendo o local concedido á
alfandega, que estava installada na casa em que actualmente está
a estação policial, para n’elle armazenar mercadorias.
Com o decorrer do tempo conheceu-se a necessidade de subs­
tituir o sobrado por um lageamento, para cuja collocaçao foi pre­
ciso estender em todo o pavimento uma grossa camada de terra.
Abriram-se no pavimento valias para a extracção da terra, que
foi substituída por alvenaria e outros diversos maçames.
Ao escavarem uma d’essas valias, e a meio do local onde, como Horta. — Rua de D. Pedro IV

447

DRaC-CCA
tura de um homem, pouco mais ou menos, alguns detrictos que veio «ad rem», o pensamento de se levantar aquella lapide, archi-
pareciam restos d’um cadaver, entre os quaes existia ainda uma vando-a na Camara Municipal, prestando-se o Rev.0 Veríssimo
porção de cabello. Ribeiro a fazer a substituição da lapide por uma pequena calçada,
Removida a pedra para o logar que então servia, e durante o que se realisou, archivando-se então a pedra numa dependen-
muitos annos depois, até o anno de 1901. serviu de deposito de cia da camara, até que se procurasse logar apropriado para a sua
utensílios e madeiras das Obras Publicas, nos baixos do mesmo collocação.
edificio do Governo Civil, para o lado da terra, viu-se que o con- Aquelle monumento historico é curioso sob todos os aspectos,
juncto era formado de duas pedras: brazão d'armas e inscripção porque é uma pagina da nossa historia, e é, como pela legenda se
tumular. vê, a lapide sepulchral — «de Jos Dutra, capitam que foi do Faial
Manifestando desejos de ver as pedras que nos diziam ter uma e Pico», — não andando longe da verdade quem interpretar o resto
legenda intrincada, soubemos que durante muitos annos essas pe­ da inscripção por — «Aqui lhe a mandou fazer seu neto».
dras alli tinham estado, até que uma, a que tinha as armas (que
pela descripção que nos fizeram não podiam deixar de ser — um P. Manuel José d’Avila.
açor sobrepujando um capacete de cavalleiro — como ainda hoje
existem sobre a porta da entrada da Camara Municipal) se extra­
viou e a outra fora dada com outras pedras para a Egreja da
Conceição, por occasião dumas importantes reparações alli rea-
lisadas, achando-se na sapata, junto á egreja, pelo lado do
oeste.
Immediatamente fomos a esse local e lá encontrámos, no lo­
gar designado, uma lapide com uma legenda que tratamos de co­
piar com a maior exactidão possível.
Na epocha em que tirámos a copia ainda existia na parte su­
perior da pedra um pequeno fragmento, que parecia ter os restos
da letra S., por sem duvida abreviatura da palavra «Sepultura.»

Fazendo parte da vereação municipal que tomou posse em ja­


neiro de 1896, quem estas linhas escreve, bem como o rev.
sr. José Veríssimo Ribeiro, que por essa epocha servia de vice-vi-
gario da Conceição, suscitaram, n’uma das sessões em que isso Porto da Cidade da Horta. — A Doca

448

DRaC-CCA
FASCICUIA) TV.» 5 6
jfíntiga Casa gertrctnd- José Bastos $ C
RUA GARRETT, 73 E 75 — LISBOA

€ncydopedia de flpplicações Usuaes


for JOÃO BONANÇA
Historia, Geographia, Estatística, Astronomia, Pnysica e CHimica, Agricultura, Hygiene, Medicina pratica, Commercio, Artes, Lettras, Portugal pittoresco, etc., etc.

bivro de tudo e para todos, de immediata consulta e de incontestável utilidade

Um unico volume - Esplendidas illustuaçòes


Com a diffusão da presente obra, verdadeiramente util e indispensável a Ioda a gente, uniea em língua poríugueza, orgulhamo-nos em poder
affirmar que um bom serviço prestamos ao publico. Para mais, tem a abonal-a o nome do auctor. E’ elle João Bonança, um dos escriptores
de mais-solidos conhecimentos que enriquecem as lettras portuguezas e um investigador da mais admiravel persistência e aptidào.
A Encyclopedia de Applicações Usuaes fórma um volume portátil, repleto de noções uteis nas diversas praticas
da vida diaria. E’ um livro para ignorantes e sábios; educa uns e rememora os outros promptamente, sem dispêndio de muito tempo e
trabalho. O commerciante, o agricultor, o jornalista, o homem de lettras, o professor, o clinico, o marinheiro, o militar, o viajante, o
operário, etc., ahi encontram uma instrucção variada e solida e regras para se conduzirem na pratica dos seus misteres e nos actos da
vida publica e particular. O que apenas tiver uma educação elementar, completal-a-ha com pequeno dispêndio de trabalho, de tempo e
de dinheiro, na Encyclopedia de Applicações Usuaes.

PIHLICA ÇÃ O BARA TISSIMA


Cada fascículo de 16 paginas, 30 réis Cada tomo de 80 paginas, 150 réis
O volume de mais de 1:600 paginas, encadernado em pelle, custa 2$000 réis! I!

Typ. de “A Editora” - LISBOA

DRaC-CCA
TERRAS, CUNHAS E SILVEIRAS
orgado Jorge da tão-mór do Fayal e depois coronel de milícias,
M Cunha Brum Ter­
ra e Silveira, fidalgo ca­
cavalleiro da Conceição e cavalleiro professo de
Christo. Foi administrador da maior casa vin­
valleiro da Casa Real culada do Fayal, vivendo sempre com fausto e
por successão de seus grandeza, tendo ao seu serviço vinte creados,
antepassados. (Este fazendo também uso dos seus grandes rendi­
fôro de fidalgo foi con­ mentos em soccorrer os desvalidos. Foi casado
cedido, por alvará de com D. Ursula de Menezes Lemos e Carvalho,
2i de Maio de 1689,30 da Ilha Terceira, descendente, por seu pae, de
seu antepassado Anto- Bernardo de Carvalho de Lemos, senhor da
nio da Cunha e An­ casa da Trofa por mercê d’El-Rei D. Pedro II.
drade, almirante gene­ Falleceu este morgado Jorge da Cunha Brum
ral da armada de An­ Terra e Silveira em 1828, sendo sepultado no
tuérpia em Flandres, carneiro de sua família na egreja do Carmo,
commendador de duas commendas na ordem de debaixo da capella-mór, que lhe pertencia, por
Christo, filho de Fernando da Cunha e Andrade, ser o padroeiro d’aquella egreja.
natural do Porto, e de D. Helena Carneiro, da
Torre de Moncorvo. Este Antonio da Cunha e *
Andrade foi agraciado com estas duas com­ JORGE DA CUNHA MENEZES BRUM
mendas pelos relevantes serviços que prestou Morgado Jorge da C
unha Brum Terra e Silveiba

offerecendo a El-Rei uma náu, sua equipada e Jorge da Cunha de Menezes Brum, fidalgo
artilhada, para conducção ao Brazil dos soldados para esse fim cavalleiro da Casa Real, filho d’este acima, cavalheiro muito res­
alevantados nos Açores, emprestando n’essa occasião ao Estado peitável, falleceu a 27 de Março de i865. Foi casado com D. Maria
seis mil cruzados, e entrar em batalhas navaes com navios arma­ José de Terra Brum e Cunha, filha do morgado José Francisco
dos á sua custa, correndo elle com todas as despezas, como tudo da Terra Brum, do conselho de sua magestade, i.° barão de Ala-
consta de registos nos livros da Camara Municipal.) gôa, e que morreu a i5 d'abril de igo3.
O Morgado Jorge da Cunha Brum Terra e Silveira foi capi- Era fidalgo de gentilíssimos e nobres predicados.

N.° 57 419

DRaC-CCA
o morgado Terra se achava preso em S. Miguel, sendo no emtanto
este grande caudilho da causa liberal hospedado em sua casa pela
MORGADO JOSÉ FRANCISCO sua familia.
TERRA BRUM Quando, porém, o Imperador sr. D. Pedro IV, que veio em
1802 em inspecção aos trabalhos da armada que se aprestou no
Morgado José Francisco da Terra arsenal de Santa Cruz e que levou os 7:000 bravos a Arenosa de
Brum, fidalgo da Casa Real por Pampelide, já se achava então no seio de sua familia, tendo a dis-
successão de seus ascendentes, foi tincta honra de hospedar em sua casa o mesmo Augusto Senhor e
Capitao-Mór do Fayal (patente de sua comitiva.
14 de março de 1818, quando seu O Imperador voltando depois d’isto á Ilha Terceira e sabendo
primo o morgado Jorge da Cunha que o Morgado Terra dava todos os annos um grande baile no
Brum Terra e Silveira foi promo­ dia dos annos de sua filha mais velha, D. Joaquina Emilia, em 22
J
orge daC M
unha de Benezes rum
vido a coronel de milícias, deixando de maio, e querendo dar ao Morgado Terra uma prova de consi­
por isso o cargo de Capitão-Mór). deração, aqui veio n’esse dia no vapor Superb, chegando cerca das
Depois da implantação do regimen liberal, em 1832 foi nomeado 11 horas da noute, dirigindo-se a casa do Morgado Terra, onde
pelo Imperador D. Pedro IV, coronel de voluntários. Pelo governo entrou de surpresa no meio do baile para que ia preparado de
de D. Maria II foi agraciado com a carta de conselho e o titulo casaca e grã cruz de Christo, retirando-se no dia seguinte para a
de Barão de Alagôa em duas vidas, por decreto de 22 de dezem­ Terceira. Era o maior viticultor
bro de 1841. e vinicultor da Ilha do Pico e foi
Foi casado com D. Francisca Paula Brum da Silveira Terra muito bom administrador das im­
Leite e Noronha, sua prima, filha do morgado, fidalgo e cavalleiro portantes casas vinculadas, sua e
da Casa Real, Doutor de Capello, João José Brum e de D. Marianna de sua esposa, fazendo sempre o
Victoria de Noronha, da Ilha Terceira. melhor uso dos importantes rendi­
Foi este morgado José Francisco da Terra Brum muito perse­ mentos d’essas casas, sobretudo
guido pelas suas ideias liberaes, sendo preso e enviado para S. Mi­ actos de caridade em que era
guel com outros liberaes d’esta ilha do Fayal, e d’ahi para Lisboa, exemplar, bem como sua esposa.
voltando a S. Miguel para serem julgados, sendo porém postos em Falleceu a 22 de janeiro de 1842
liberdade quando a divisão liberal entrou em Ponta Delgada, depois deixando de si a melhor fama.
de ganhar a batalha da Ladeira da Velha, voltando em seguida á Sua esposa, a morgada D. Fran­
sua casa n’esta ilha. cisca Paula, senhora de grandes
Quando o Conde de Villa Flôr, depois Duque da Terceira, oc- virtudes e que sobreviveu a seu ma­
cupou militarmente esta ilha em nome da Sr.a D. Maria II, ainda 1). M
aria J T
osé da B erra rido, morreu a 24 de junho de 1858.
rum

DRaC-CCA
* phyloxera, quem na vanguarda
animou da mesma forma todos a
MANOEL MARIA T. BRUM proseguirem na mesma cruzada.

Manuel Maria de Terra Brum, fidalgo cavalleiro da Casa Real, *


filho do Morgado i.° Barão de Alagôa, José Francisco da Terra MANUEL JOSÉ MACHADO
Brum, foi o 2.0 Barão de Alagôa, em quem se verificou a segunda
vida do titulo concedido a seu Pae em 1841, pelos relevantes ser­ Poucas são hoje as pessoas no
viços por elle prestados á causa liberal. Fayal que se lembram do «Ma
Foi agraciado com esta segunda vida do referido titulo em igoi nuel José» —; mas todos aquelles
por decreto de 27 de julho, por occasião da visita de Suas Mages- que, em annos que já lá vão, fre­
tades os Reis de Portugal aos Açores. Nunca até então tinha que­ quentaram a casa Terra, teem
rido acceitar a verificação da 2/ vida do titulo de seu Pae, que por necessariamente associado com as
varias vezes e por vários ministros lhe fôra ofterecida, ou outro D. F P
rancisca aula recordações da hospitalidade pró­
qualquer titulo que quizesse n’essa occasião; porém, quando da vi­ diga, que lhes foi offerecida por
sita régia, sendo solicitado pelo conselheiro Hintze Ribeiro, então aquella familia, o attencioso velho, o creado grave —Manuel José
presidente do conselho de ministros, para acceitar essa mercê, em Machado.
nome de Suas Magestades, não se poude recusar. E’ com prazer que escrevo
Este distincto cavalheiro sendo, como seu Pae, o maior pro­ estas palavras, comemoran­
prietário de vinhas da Ilha do Pico, foi um verdadeiro benemerito, do um d'aquelles typos de leal­
pois a restauração d’essa cultura, de­ dade e honradez, que vão des-
pois da completa destruição dos vinhe­ apparecendo entre nós, talvez
dos pelo oidium em 1864, que foram para sempre.
inteiramente abandonados, a elle se Manuel José, assim como
deve; e pelo exemplo de tenacidade e seus paes, serviu a casa dos
o arrojo com que arcou com essa res­ Terras toda a sua vida, com a
tauração, sacrificando a isso grandes proverbial amizade, dedicação
capitaes, constituiu um incentivo para e probidade de velhos servos.
que todos o seguissem n’esse caminho. Foi em casa de Manuel
Foi, não ha muito, ainda elle, na Maria da Terra Brum, 2.0 Ba­
nova lucta da replantação com castas J
osé F T
rancisco da erra
rão de Alagôa mais tarde, que
resistentes das vinhas aniquiladas pelo i ( .° B A
arão de lagôa eu o conheci. M
anuelJ M
osé achado

DRaC-CCA
Quando creança, gos­ como um foguete de uma resposta, tapei a bôcca e o nariz com
tava de ouvil-o contar o a travesseirinha. Não sei que casta de bulha fiz, mas sei que, de
que aqui tinha acontecido repente, S. M. appareceu ao reposteiro e eu fiquei mais morto do
no «tempo dos miguelis- que vivo, quando elle, a rir, mc perguntou eu que tinha. Foi-se-me
tas» —: Mais duma vez a falia mas não faltou o espirro, e S. Magestade deu uma garga­
o fiz repetir o que elle lhada que ainda me atrapalhou mais, e eu não sei o que disse; só
chamava «O episodiodo sei que S. Magestade quando me via depois d’isto, se punha a rir,
rapé». e que me mandou dar uma caixa para rapé — e que aprendi a to­
«Pois eu não tomava mar rapé sem espirrar!»
rapé, mas não queria
dormir quando estava de *
serviço á noite, á porta * *
do quarto de S. Mages-
tade, e Maria Angélica
Enfileira honrosamente ao lado d’esta nobre familia, que honra­
— da sr.a morgada, em­
damente serviu, o honrado e bello servo que se chamou Manuel
prestou me a sua caixa José Machado.
de rape e disse-me que
Estes servos antigos, capazes de dedicar-se até o sacrifício pe­
de tempos a tempos to­
las pessoas que serviam, de tal forma se integravam na vida, no
masse uma pitada para
M
anuel M T
aria daU erra rum respeito e no amor d’essas famílias, annos e annos seguidos, que
(2." B ’A
arão d) lagoa
me despertar. Em má dir-se-hia serem seus membros e não seus servos.
hora tomei o concelho
d’ella, porque me deu, sr. Joãosinho, para espirrar! Ora, como
eu não queria que S. M. me ouvisse, e quando eu espirrava era Emerson Ferreira.

4Õ2

DRaC-CCA
ANTIGO COLLEGIO DOS JESUÍTAS NA HORTA
sem duvida um dos melhores edifícios públicos do archipelago Jesus, partiu do Fayal para aquella ilha, afim de convidar alguns
Eaçoriano, o primeiro pela sua grandeza, architectura e ma-
gestade, que tem merecido a alta admiração de todos os visitantes.
padres jesuitas para a Horta, a estabelecer um collegio, prestando-
lhes elle o necessário terreno e protecção.
Foi elle o antigo Collegio dos Jesuitas, quando governava en­ Pouco depois, regressando á Horta, testou com sua consorte
tão Portugal, por Filippe III, a archiduqueza de Mântua, Marga­ D. Izabel da Silveira, em abril de 1684, a favor da companhia de
rida d’Austria. Era n’essa epocha bispo dos Açores D. Fr. Anto- Jesus, uma parte dos seus bens, para a fundação da egreja, de
nio de Resurreiçao, e Capitão-Mór do Fayal, Francisco d’Utra e que se instituíram padroeiros, e d’um collegio em que os padres
Quadros, que, vendo o progresso que a instrucção publica apre­ instruíssem a mocidade.
sentava na ilha Terceira, com a admissão, alli, da companhia de A receber a doação e construir o edifício, vieram d’Angra do
Heroísmo, em 1641, dois padres da companhia, começando então
a ensinar á mocidade fayalense — portuguez, latim, philosophia,
theologia, e rhetorica, operando-se uma considerável reforma na
instrucção.
Mais tarde, no anno de 1680, como augmentassem os rendi­
mentos da ordem, com as continuas doações, trataram os jesuitas
de ampliar o seu convento e egreja, reconstruindo assim o mages-
toso edifício que actualmente existe.
N’este magnifico edifício, que tem o comprimento de 122 metros,
estão estabelecidas as principaes repartições publicas, sendo á di­
reita os Paços do concelho, Tribunal judicial, Conservatória e Bi-
bliotheca Municipal, e á esquerda o palacio do Governo Civil, Re­
partição de Fazenda, Agencia do Banco de Portugal e Recebedoria.
Também n’elle se acha installado, provisoriamente, o observató­
rio metereologico, de que é director o padre sr. iManuel José d’Avila.
Serviu também este sumptuoso edifício, de Paço Real, por
occasião da visita de Suas Magestades aos Açores, em 1901

Egreja Matriz. — (Antigo Convento dos Jesuitas) Horta. M. S.

453

DRaC-CCA
Ilha do Fayal. — Vista geral da cidade da Horta

DRaC-CCA
INDUSTRIAS CASEIRAS
m industrias caseiras, principalmente as nascidas e mantidas de seda branco ou preto, que possuem um aspecto mui caracteris-
E pelo delicado labor feminino, que possue subtilezas artísticas, tico, mui interessante de ver. No seu todo vaporoso, o tom ama-
rello claro e luzente da palha sobresae lindamente, derramado
infinitas perfeições, inimitáveis segredos de frescura, graça, natu­
ralidade, como colhidos nos mil primores da simples Natureza — em recortes, salpiques, flores, ramagens, umas largas, outras mi­
é o Fayal, das ilhas aço­ núsculas, e todas de fan­
rianas, um dos logares onde tasiadas linhas; —e esses
se ha ganho nomeada de perfusos desenhos, ao te-
não somenos vulto. nue adejar diaphano do te­
Bulindo n’este assum­ cido, como despegadas illu-
pto, occorre logo apontar minuras, palpitam e sor­
de inicio os nossos tão riem, adquirem um vistoso
apreciados bordados, de e solto mover de burni-
uma belleza sem igual, de dos recames de oiro cho­
generos diversos, de mo­ vendo.
delos e em pannos varia­ Fazem-se tiras, chailes,
dos, e que formam um no­ mantas do pescoço, enfei­
tável ramo de commercio tes para chapéus, manti­
nosso. lhas, vestidos etc., estando
Antes, porém, de pas­ a sua exportação, que min­
sal-os em revista, desvie- guou do que já foi, limitada
mo-nos a caminho de diffe- ao Brasil, em especial ao
rentes referencias. Rio de Janeiro.
D'elles ha a destacar Do emprego da palha
uma especie original, que — da nossa palha de trigo
nos parece só aqui se en­ realmente de um brilho pu­
contra. São os bordados a ríssimo— resulta uma ou­
palha, executados sobre filó F
ayal. —C P
asa do ,
ilar A
propriedade da família do conselheiro E A
ntonio mílio d tra
velar industria, hoje algum

455

DRaC-CCA
tanto decadente, mas que representou, rfoutros tempos, de curta dade, que sensivelmente se obliterou, causando assim o atrophia-
distancia ainda, a mais impulsionada, a mais fértil das nossas in­ mento de tão lucroso negocio.
dustrias caseiras, chegando mesmo a constituir uma fonte de abun­ Os seus exemplares agora correndo voga, são os chapéus de
dante auxilio para a vida economica do Fayal e Pico. Ninguém, palha em canudo, producto de merecimento na verdade, nascendo
por certo, se esqueceu já da extraordinária quantidade de tranças de entre as mãos mulheris das camponezas, na afastada freguezia
e chapéus de palha que se fabricavam em quasi todas as casas, dos Cedros. D'estes chapéus, algumas remessas, insignificantes,
por esses campos fóra, occupando velhos e novos, creanças, ho­ porém, entram no continente e nas outras ilhas. Já tiveram com-
mens até, desde o romper do dia e por demorados serões; todos tudo larga e promettedora acceitação; mas, embora variando os
se lembram ainda da avultada exportação que d’estes artigos se feitios, como artigo sujeito aos ephemeros sabores da moda, baixou
fazia para os E. U. da America, e, consequentemente, do muito a segundo plano de estima.
dinheiro que, em troca, ia cahindo nos modestos mealheiros das Uma outra industria, quasi extincta também, e todavia digna
habitações ruraes. de sorte favoravel, são os trabalhos em miolo de figueira, cuja fei­
Era uma riqueza pora aquella gente. Mas, no seu cubiçoso afan tura demanda raras aptidões artísticas, e uma delicadeza e finura
de muito ganhar, productores e exportadores descuraram a quali- muitíssimo particulares.
Apenas manuseando uma navalha afiadissima, um estilete, uma
pinça e um pouco de gomma, é singularmente maravilhoso o que
mãos hábeis architectam com aquelle simples producto vegetal,
tão alvo, tão frágil, duma lactescencia de hóstia, mais puríssimo
do que a immaculada neve — flores, emblemas, escudos, embar­
cações, açafates, bustos, passaros, insectos, tudo quanto o enge­
nho apetece, com uma perfeição que encanta, com uma naturali­
dade rigorosa, desde as amplas formas até aos nadas mais miúdos
e tenues, desde o geito encolhido d’uma ave que poisa, azas meio
abertas ainda, até á debil suavidade duma pequenina pétala trans­
parente.
Meros objectos de luxo, um tanto caros, como facilmente se
prevê, hoje só se executam satisfazendo alguma encommenda.
Uma industria que mais ou menos se tem mantido, todavia em
modesta escala, a contar de apartada data, são as rendas de pita,
que logram também, na epoca que vae correndo, regular venda-
gem na America. Estes finos artefactos, tecidos com fios de folha
Fayal.—Uma paysagem de Castello Branco de piteira, e cuja confecção requer grande aceio e esrnero, não

456

DRaC-CCA
FASCIC t I .O "IV.» 57

DRaC-CCA
Casa gertrand- José Bastos C
RUA GARRETT, 73 E 75 — LISBOA

Cncydopedia de Rpplicações Usuaes


por JOÃO BONANÇA
Historia, Geograpliia, Estatística, Astronomia, Pliysica e Clúmica, Agricultura, Hygiene, Medicina pratica, Commercio, Artes, Lettras, Portugal pittoresco, etc., etc.

Livro de tudo e para todos, de immediata consulta e de incontestável utilidade

Um único volume -Esplendidas illustraçòes


Com a diffusâo da presente obra, verdadeiramente ulil e indispensável a toda a gente, unica em lingua portugueza, orgulhamo-nos em poder
affirmar que um bom serviço prestamos ao publico. Para mais, tem a abonal-a o nome do auctor. E’ elle João Bonança, um dos escriptores
de mais solidos conhecimentos que enriquecem as lettras portuguezas e um investigador da mais admiravel persistência e aptidão.
A Encyclopedia de Applicações Usuaes fórma um volume portátil, repleto de noções uteis nas diversas praticas
da vida diaria. E’ um livro para ignorantes e sábios; educa uns e rememora os outros promptamente, sem dispêndio de muito tempo e
trabalho. O commerciante, o agricultor, o_ jornalista, o homem de lettras, o professor, o clinico, o marinheiro, o militar, o viajante, o
operário, etc., ahi encontram uma instrucção variada e solida e regras para se conduzirem na pratica dos seus misteres e nos actos da
vida publica e particular. O que apenas tiver uma educação elementar, completal-a-ha com pequeno dispêndio de trabalho, de tempo e
de dinheiro, na Encyclopedia de Applicações Usuaes.

PUBLICAÇÃO BARATÍSSIMA
Cada fascículo de 16 paginas, 30 réis Cada tomo de 80 paginas, 150 réis
O volume de mais de 1:600 paginas, encadernado em pelle, custa 2$000 réisll!

Typ. de “A Editora” — LISBOA

DRaC-CCA
menos despertam bem intimo apreço pelo seu todo de incompará­ aperfeiçoamento, e portanto da progressiva estima desta industria:
vel delicadeza, pela sua maciez, pelo seu ar leve de rendas fofas. não a produzem por seu exclusivo talante, as campezinas borda-
E não esqueça apontar também, n’esta resenha estreita dos deiras. As pessoas, senhoras de provada competência, encarrega­
nossos productos caseiros, alguns outros egualmente apreciáveis, das de attender ás encommendas do estrangeiro, fornecem-lhes os
embora de divulgação escassa: os panos grosseiros de linho e de materiaes, os panos e as linhas, e conjunctamente os riscos (dese­
lã, cujo fabrico, dia a dia, mais frouxo se vae tornando; as piugas nhos) para reproduzir nos bordados; a ellas nada mais cabe do
e as camisas da mesma matéria, essas fartas e agasalhadoras ca­ que executar; cifra-se a sua actividade ao papel de operarias. Como
misas, a ponto de meia, que nos vêm da freguezia de S. Matheus, tal, pois, são dirigidas, fiscalisadas, ensinadas; e acham-se na es-
na ilha do Pico; e as colchas de retalho; e as esteiras de junco; tricta contingência de conseguir a maxima correcção dos produ­
e as pesadas colchas de lã urdidas n’aquella ilha, valiosas colchas ctos, visto que os apresentados defeituosos são lhes regeitados.
fortes e duradouras como um apertado tecido de trama de aço, de Pertencem a esta classe de refugo, informemos em parenthesis
uma original singeleza nas variadas combinações, em gerai aos e com pezar, os poucos exemplares que apparecem no Continente.
quadradinhos, das suas garridas cores — o verde, o vermelho, o Sob semelhante plano era natural o aperfeiçoamento. Actual-
branco, o azul, o roxo, o amarello, o carmesim, toda uma gamma
de tons festivos, inalteráveis.
Mas, é tempo já, fallemos da nossa mais importante industria
caseira, os bordados propriamente ditos — aquelles que figuram
com notável giro commercial.
As especies que maior e animador consumo encontram na Ame­
rica do Norte, seu exclusivo mercado, por assim dizer, particular­
mente em New-York, Chicago, Bosron, Philadelphia, são os bor­
dados de crivo, ou ponto aberto, e os de ponto real, ou ponto
alto, aquelles sobretudo, executados em panos de linho branco ou
crú, de seda, de algodão, de cambraia, e outros, quer combi­
nando-as, quer em separado, as duas qualidades.
Occupam-se n’isto as raparigas do campo, principalmente as
das freguezias em mais frequente contacto com a cidade. D’antes
limitava-se a um escolhido numero d’ellas, das quaes até se cita­
vam os nomes; hoje, em virtude da crescente procura, generali-
sou-se, contando-se como excepção aquellas que tal mister ignoram.
Com estes trabalhos ha a notar uma circumstancia, a que os
outros não obedeceram, e que representa a causa essencial do Fatal. — Boca e cidade da Horta

N.° 58

DRaC-CCA
mente trabalha-se dez vezes melhor do que ha uma dezena de crescente, das encommendas. E’ pena não existir fieis elementos
annos passados. estatísticos que nos desvendassem o valor dos bordados que sahem
E’ realmente maravilhoso o que aquellas raparigas fazem de do Fayal, durante a roda do anno. Representa, ao certo, segundo
paciente, tirando e contando os fios para formar o crivo; de mi­ se calcula, uma boa somma de contos de réis.
moso, de impeccavel, de divino, tecendo o bordado de motivos os
mais variados, n’essa rede circundada de recortes, ora de silvas, *
ora de ramagens,—ellas, que a cada momento são sollicitadas * *
pelas suas incessantes lides domesticas e de lavoura, e na maioria
dos casos vivendo em habitações cujos interiores acanhados mal Cabia também, n'esta mal alinhavada noticia, fazer menção de-
adivinham o aceio! muitos outros generos de bordados, o mais artístico possível, como
E, todavia, como tudo aquillo é encantador e immaculado ’ melhor ninguém fará, em qualquer parte que seja, e que se con-
Dir-se-hia terem purificado ainda mais, n’um requinte de frescura, feccionam na cidade — bordados a ouro e prata, de froco e laias,
a própria alvura do algodão. Como o baixo relevo dos desenhos de missangas, de applicação, a ponto de Bolonhe, ponto de Hes-
a ponto real, sobresahe nitido e gentil, com uma preciosidade vir- panha, ponto russo, ponto Gobelin, etc.; de muitos outros traba­
ginia de formas nativas, urna sublime harmonia de contornos, e lhos interessantes — as rendas de bilros, rendas inglezas, as flores
mais formoso, mais puro do que a neve ou do que camélias bran­ de penas, de papel, de casulos de seda e de aranha —; mas estes
cas, descerrando a sua innocencia sob a angélica doçura d’uma fina fabricos de pericia feminina apenas se eflectuam, alguns cumprindo
e translúcida manhã de ceu lavado!. .. uma ou outra encommenda particular, e, certos, podendo consi­
Teem estes trabalhos utilidades diversas, especialmente em derar-se significativos de meras curiosidades engenhosas.
cobertas de mezas, de travesseiros, de cadeiras, guardanapos, len­ Todavia, terminando, cumpre indicar, em ligeiro trecho, um
ços, toalhas, obtendo bons preços lá fóra, quando em excellentes trabalho, do genero arrendado, e que logra também favoravel con­
condições de execução. sumo na America : são umas franjas, denominadas macramé, com-
Aqui, a media de cada salario que póde uma mulher colher, mummente de algodão, feitas aos nós, e, servindo, em geral, para
contando que emprega dia completo, regula entre ibo a 200 réis. guarnecer cobertas ou toalhas. O seu aspecto é seductor, sobre­
E’ pouco; mas também não é desanimadora retribuição, se consi­ tudo delicado, e são d’uma frescura extrema, como se lhes não.
derarmos a norma dos lucros femininos, e o quanto, ainda ha cinco houvessem tocado mãos humanas, fazendo lembrar o viço e a im--
annos, ganhavam essas mesmas bordadeiras, retirando entre 80 a peccavel pureza de mimosas flores brancas acabadas de nascer.
100 réis diários, em igualdade de circumstancias.
A causa d’esta melhoria tem sido o augmento, cada vez mais Marcelij.no Lima.

458

DRaC-CCA
ANTONIO DA CUNHA DE MENEZES BRUM
idalgo dos quatro costados, e homem alegre e viva a sua conversação entre ami­

F de bem a valer. São authenticos os


seus pergaminhos, dos mais antigos de
Portugal; é diamantino o seu caracter, dos
gos, em plena sociedade: se casualmente
allude á mãe extremosa, á nobre e santa
senhora, modelo de todas as virtudes, que
mais apreciados da nossa terra. a morte ha annos lhe roubou, os seus olhos
Fidalgo em toda a extensão da palavra: enchem-se de lagrimas, a commoção em­
pelo nascimento, pela indole e pela con- barga-lhe as palavras. Que maior prova de
ducta. A’ nobreza heraldica allia a nobreza sentimentos affectivos, de brandura de co­
de sentimentos. Correcto, culto, generoso, ração! ?
lhano — e trabalhador. Tem a linha da mo­ Por todos estes titulos superiores o
delar aristocracia franceza, que, arrazada presa a terra faylense.
pela revolução, resurgiu pelo trabalho: — E presa-o verdadeiramente, ardente-
paladinos dum novo ideal, mais justo e mente, porque em Antonio da Cunha de
mais profiquo, heróes das novas conquistas, Menezes Brum se conjugam, n’um fecho
erguendo sobre os escombros dos seus cas. luminoso, quantos predicados podem con­
tellos feudaes as fabricas triumphantes, que correr n’um homem para o tornar alta­
os engrandeceram, engrandecendo ao mes­ mente estimado e querido em todas as
mo tempo o seu paiz. classes duma sociedade, desde o mais ele­
Obreiro habil e incançavel, austero e vado e culto até ao mais humilde e igno­
consciencioso; cavalheiro extremado em rante dos seus membros.
tudo. Coração d’ouro, alma sensitiva — N’isto consiste o grande valor moral
apasiguando, contemporisando, relevando, d’esse caracter de eleição.
perdoando, — tanto quanto é possível. Prestando-lhe, portanto, esta homena­
Tem soffrido — e não conhece o ran­ Antonio da Cunha de Menezes Brum gem, desatavida mas sincera, interpreta­
cor: victima, ás vezes, de injustiças,— mos, certamente, o sentir de todos os
nunca em toda a sua vida deixou de ser justo para todos. fayalenses, deixando aqui registado o nosso.
Na sua ternura filial impoz-se á admiração dos bons. Póde ser Antonio Baptista.

459

DRaC-CCA
FLORENCIO JOSE TERRA
erece-me Florencio Terra a mais subida es­ faculdades nitidas de observador. Não é só um objectivo quando
ii
tima pelas suas qualidades e a maior admi­ nos dá a cor e o sentimento da paisagem, quando a sua alma de
ração pelo seu talento. E’ dos poucos que poeta comprehende e transmitte as vozes do mar e do arvoredo,
teem amenisado a quasi solidão em que vi­ ou o silencio do céu e do valle; é também um subjectivo, arran­
vo, vindo á minha cando com a sua psychologia tão fina as
casa da quinta da mais doces vibrações do coração humano.
Hermitagem a ani­ Modernamente orientado, exerce a acção
mar-me em traba­ do seu espirito sobre o geral do povo, e
lhos litterarios, para no coração do marinheiro, ou na alma sin­
que sentia pouco ou nenhum estimulo. Li- gela da rapariga do campo, sabe colher a
UTos alguma vez, e na sua critica franca flôr do sentimento, como um pescador de
sentia sempre vibrar a sua alma de artista. pérolas nos mares orientaes. Como elle
Agradava-me,- quer concordássemos, quer realizaria a aspiração de Alvares d’Aze-
não. vedo, perante uma mulher cahida:
Relacionei-me muito com Florencio Terra
«............................... Quem poder?,
ha bons vinte annos, quando elle redigia o
Ditoso pescador, achar no lodo
Açoriano, em que eu também collaborei. O ramo de coral dos teus amores!
Desde esse tempo a sua amisade teve sem­
pre para mim um perfume de modesta Se Florencio Terra um dia fizer um
violeta. Conheci muito de perto o seu ca­ conto sobre essas borboletas que o brilho
rácter integro e esse conhecimento não fez da luz attrae e queima, ha de achar esse
mais que accentuar-se em tão largo de­ Florencio José Terra ramo de coral.
curso de tempo. Estas são, em poucas palavras, as minhas
Este é o homem. Do professor, ajuizo por taes qualidades c pe­ impressões ácêrca de Florencio Terra. São, foram e serão. De mui­
las largas e variadas palestras que algumas vezes temos tido. tos, não sei que fiz á sua amisade. D'este, conservo-a e cultivo-a,
Resta-me faliar do escriptor. Outros melhor o têm feito, mas tanto quanto me permitte o coração.
sempre consigno aqui a minha impressão. Florencio Terra tem Manoel Joaquim Dias.

460

DRaC-CCA
E, ao pensar naquelle pobre tisico, cuja existência
TÍSICO era um deserto de affectos, marejavam-se de lagrimas
os olhos das mães, achegando ao seio os pequeninos.
E queriam-lhe todos, com aquella piedade doce e
inguém o conhecia na pequenina povoação á beira- profunda que se abriga no peito rude dos marinhei­
N mar.
Havia mezes que para alli viera, não se sabia de
onde, talvez na esperança de que as brisas do oceano
ros.
Era vêl-o, á tarde, depois de recolhidas as embar­
cações, rodeado pelos pescadores que o escutavam em
lhe levassem, ao peito exhausto, a vida que a tisica de­ silencio, contar casos d’essas terras grandes, como elles
vorava na sua marcha implacável. diziam numa simplicidade ingénua de almas sãs.
Ninguém o conhecia, mas amavam-n’o todos, atrahi- E contava e recontava scenas do grande mundo, de
dos, decerto, pela vaga melancholia — a melancholia onde elie, talvez, viera...
doce dos tisicos — que se espalhava no rosto sereno e Queriam-lhe também as creanças, as creancitas loi­
pallido d’aquelles dezoito annos. Era, diziam os velhos ras, quasi todas, como raios de sol poente.
marinheiros, os velhos lobos do mar, na sua linguagem A ouvil-o calava-se o riso crystallino nas boquitas
pittoresca — um barquito novo a despedaçar-se contra de coral, e os olhos irrequietos, grandes, grandes e lu­
os fraguedos, nos embates da procella.— E agonisava minosos como auroras de innocencia, fixavam-se rfelle,
lentamente aquella primavera, no despedir saudoso de interrogadores, na avidez de comprehender coisas igno­
cada dia! radas... E, quando o não viam á hora habitual, cor­
Era um desfolhar triste de rosas, cujas pétalas soltas riam, em revoadas, á pequena casa isolada, a ver se
se perdiam, esquecidas, no seio escuro dos crepúsculos. estaria mais doente.. .
Só!... Seria, talvez, um engeitado, um pária des­ Eram alegres, aquellas creanças, como passaros, e
ses que a sociedade escorraça... loiras, loiras quasi todas, como raios de sol poente...
Talvez!... E o seu desvelo desabrochava sorrisos na alma triste
Não teria, pois, em olhos de mãe que o affagassem, do pobre tisico, enchendo-a de claridades doces, assim
leito de repoiso onde lhe ficasse o derradeiro como beijos cândidos de luar em concavos som-
olhar. Misérrima condicção a sua! brios de rochedos.
Ilha do Faval. — Cidade da H< rta. — Alameda da Gloria

462

DRaC-CCA
Como elle se recordava, o pobre moribundo!... A imaginação
febril recortava-lhe, rfaquelle explendido quadro, cm traços rubros
Naquella tarde, viram-no descer a praia silenciosamente e sen­ de aurora, o perfil insinuante e mimoso da mulher que tanto
tar-se á beira-mar. O cotovello apoiado sobre a areia quasi tocava amara!
a orla das ondas, que desprendiam suspiros de entre as rendas Loira, d'aquelle loiro fulvo, ardente, em que o sol, ao expirar,
macias de espuma. A fronte descoberta, levemente inclinada, dei­ põe reflexos de fogo; e a natureza, caprichosamente, pozera-lhe
xava os olhos vagarem, errantes, pela vastidão do mar tranquillo nos olhos o brilho das estrellas e a negrura dos abysmos.
e deserto. Adorára-a como a um ser divino. O coração, ao vêl-a, tinha
Recordava... recordava sonhos do passado, que parecia ir já um palpitar doce de ave em ninho flaccido. Se ella o envolvia na
tão longe, tão longe!... risos diamantinos de alvorada em que se caricia
lhe descerrara a alma juvenil. ave linda­
E um sorriso — doce e triste saudade — desenhava-se lhe, li­ da de um
geiramente, nos lábios pallidos de tisico. olhar, sen­
E as ondas, em suaves murmurios, continuavam sobre a praia tia dilatar-
o seu affago eterno. se lhe a al­
Recordava ainda, o pobre tisico... ma, avida
Era, agora, o despertar amaríssimo d’aquelles sonhos. de conter
E nos olhos negros, nos olhos tristes
accendiam-se scintillações dum fogo ex-
tranho que, pouco a pouco, se extinguiam
na contemplação da magestosa tela.
O sol declinava na curva azul do
poente.
Sob a luz, que se despedia em jor­
ros, o mar tinha fulgurações de saphira
facetada. E doiravam-se, a espaços, no
arqueado harmonioso, as ondas que vi­
nham espreguiçar-se sobre a areia, em
lentidões de indolência.
Na amplidão do azul silencioso es­
voaçavam idcaes, sonhos castos de vir-
.gens, orações de mães angustiadas. Ilha do Fayal. — Uma debulha de trigo

463»

DRaC-CCA
até ao infinito o fluido voluptuoso que derramavam aquelles olhos Das bandas do oriente começava a descer, n’uma lentidão ma-
negros. gestosa, o largo veu sombrio do crepúsculo.
E no seio d aquella alma, que os sorrisos d’ella emballavam em Olhos fechados, numa visão longiqua de febre, passaram-lhe
suavidades de crença, cahiu, em gotas amargas, o pranto d’uma pela mente, como nuvem d'oiro, os cabellos d’ella, desenrolando-se,
desillusão cruelissima. mordendo-lhe a epiderme na alvura impeccavel do collo.
E, ao recordar, sentia desprender-se-lhe a vida, como perfume E um suspiro — derradeiro lampejo de luz que se apaga — in­
subtil que, lentamente, lentamente, se evapora dum crystal aber­ flou-lhe o peito numa inspiração tremula, e não mais abriu os
to, ai! porque os sorrisos e a luz dos olhos negros... negros... olhos!
continham o veneno do mal... Lá no alto as estrellas scintillavam, como lagrimas de luz na
E o olhar febril fixava-se-lhe, agora, n’um ponto indefinido do face serena do firmamento.
horisonte. O mar entoava um psalmo triste, cujas harmonias mysteriosas
Pouco a pouco, os pescadores recolheram-se, não ousando per­ iam morrer ao longe, muito ao longe...
turbar aquelle scismar que parecia de oração.
A praia ficou deserta.
Havia um perfume de paz no esmaecer tranquillo d’aquella
tarde de outomno. No pequeno cemiterio da povoação existe ainda, sobre uma
Na limpidez da atmosphera fluctuavam, em farrapos dispersos, sepultura rasa, uma cruz singella que a piedade dos pescadores
nuvemsitas vaporosas, como pedaços arrancados a alvos veus de alli collocou, e onde se fixam ás vezes os olhos innocentes das
noivas. ( creancitas loiras...
O azul empallidecia. Sii-vina de Sousa.

4G4

4 DRaC-CCA
ANTIGA casa bertrand
JOSÉ BASTOS
jfíntigct Casa gertrand-José Bastos C.a
RUA GARRETT, 73 E 75 — LISBOA

€ncyclopedia de Hpplicações Usuaes


por JOÃO BONANÇA
Historia, Geograpliia, Estatística, Astronomia, PHysica e Cliímica, Agricultura, Hygiene, Medicina pratica, Commercio, Artes, Lettras, Portugal pittoresco, etc., etc.

bivro de tudo e para todos, de immediata consulta e de incontestável utilidade

Um único volume - Esplendidas illnstr*açôes


Com a diffusão da presente obra, verdadeiramente util e indispensável a toda a gente, unica em lingua portugueza, orgulhamo-nos em poder
affirmar que um bom serviço prestamos ao publico. Para mais, tem a abonal-a o nome do auctor. E’ elle João Bonança, um dos escriptores
de mais solidos conhecimentos que enriquecem as lettras portuguezas e um investigador da mais admiravei persistência e aptidão.
A Encyclopedia de Applicações Usuaes fórma um volume portátil, repleto de noções uteis nas diversas praticas
da vida diaria. E’ um livro para ignorantes e sábios; educa uns e rememora os outros promptamente, sem dispêndio de muito tempo e
trabalho. O commerciante, o agricultor, o jornalista, o homem de lettras, o professor, o clinico, o marinheiro, o militar, o viajante, o
operário, etc., ahi encontram uma instrucção variada e solida e regras para se conduzirem na pratica dos seus misteres e nos actos da
vida publica e particular. O que apenas tiver uma educação elementar, completal-a-ha com pequeno dispêndio de trabalho, de tempo e
de dinheiro, na Encyclopedia de Applicações Usuaes.

PUBLICA ÇÃ O BABA TISSIAIA


Cada fasciculo de 16 paginas, 30 réis Cada tomo de 80 paginas, 150 réis
O volume de mais de 1:600 paginas, encadernado em pelle, custa 2$O0O réis!!!

Typ. de "A Editora" - LISBOA

DRaC-CCA
família dabney
urante quasi um scculo vi­ promoverem a sua própria riqueza e abastança, por meio de um

D veu na Horta a familia Da­


bney, de origem americana e. tal­
vasto trafego commcrcial; essa prosperidade conseguiu exalçar.
entre os Açores, esta ilha, que se tornou a mais conhecida e pro­
vez. mais remotamente, segundo curada da navegação, e dos estrangeiros.
alguns auctores, do celebre d'Au- O Fayal era como que a ilha dos Dabneys; parece que por
bigné. toda a parte se notava aquella graça, aquelle mimo, aquella dis-
O primeiro Dabney chegou tineção de paysagem e de sentir do povo, que eram, dir se hia, o
ao Fayal pelos princípios do sé­ reflexo das casas dos Dabneys, da alma dos Dabneys. Ninguém,
culo dezenove, e toda a familia como elles, conhecia onde a natureza apresentava seus mais im-
que restava em 1891, n’essa épo­ ponentes ou carinhosos aspectos;
ca se retirou para os Estados e ninguém, como elles, sabia apre-
Unidos, abandonando assim a sental-os aos forasteiros, porque
ilha, onde tão longo periodo lhe também ninguém, como elles,
decorrera, no meio de uma vida amava estas ilhas.
principesca. O amor, o amor pela terra:
Aqui possuíam as mais bel- eis ahi o segredo de tudo. Terra
las casas e as mais lindas quin­ C ARI ES
h llABXEY
WlLtlAM amada é como gente amada, que
tas, c para escolha dos logares até parece que por si se alegra
em que as edificavam e plantavam, tinham um gosto artístico raro, c floresce.
um sentimento muito apurado do conforto e da belleza. Por isso, Não foi sem uma viva dôr que
nenhum estrangeiro que aportasse á Horta, deixava de visitar a familia Dabney resolveu aban
essas vivendas, que eram verdadeiros palacetes, e onde a par dos donar o Fayal, e essa partida foi
encantos naturacs, encontrava os que provinham do trato distincti - particularmente angustiosa para
s.simo d esta familia, na qual se conglobavam todas as virtudes, Samuel Dabney, porque elle bem
desde o trabalho, a coragem e a honra, que tanto nobilitam o ho­ sabia que, na sua edade e já
mem, até ãs suaves virtudes que fazem anjos das mulheres. doente como se sentia, aquella des
A prosperidade que os Dabneys trouxeram ao Fayal, com o JOHN POMEROY 1>ABMEY pedida era a ultima! E foi; por-

N.o 59 405

DRaC-CCA
que falleccu em S. Diogo da Cali­
fórnia no dia 26 de dezembro de
1893. As suas ultimas palavras
foram de saudade pelo Fayal.
O Açoriano, no seu numero
de 18 de fevereiro de 1894, pro­
moveu uma subscripção publica
com o fim de ser collocada no
tumulo de Samuel Dabney uma
coroa de mármore, attcstando a
piedosa estima dos habitantes
do Fayal e Pico.
Essa corôa foi com effeito
adquirida e deposta na alludida
sepultura, no dia 2 de abril de
1896, perante toda a familia Da­
S
amuel D abney bney, que assistiu commovida
áquella tocante cerimonia.
Desde a partida d’esta familia seguiu-se, consequência talvez,
ou acaso, um estado decadente destas ilhas, que cada vez mais se
accentua, e que já se tornou anormal, a ponto de ser este o unico
districto do paiz onde a população constantemente diminue, desde
ha cincoenta annos.
Muitos escriptores e viajantes escreveram da familia Dabney,
e entre elles sua alteza o príncipe de Monaco e o sr. visconde de
Castilho (Julio) que se alongaram em elogiosas e justíssimas refe­
rencias, que podem ler-se na Carrière d’nn navigateur e nas Car­
ias dos Açores.
Ainda hoje, nos Estados Unidos da America do Norte, se en­
contram alguns membros da familia Dabney, que alli manteem as
suas altas tradições.
Familia Dabney. — De pé: D. Alice Dabney, D. Rosa Dabney e Samuel Dabney.
Fayal, 1907. Florencio Terra. Sentadas: D. Rosa Dabney e D. Roxana Dabney

4C6

DRaC-CCA
JESUÍTAS
(.Da l^istOFia e leç)da dos Açores)

dia 14 de Agosto de 1760 era a vespera da grande festa dos as pratas muito brilhantes e os vidros multicores dos candelabros,
O jesuitas — a Assumpção da Virgem. Todo o esmero, todo o assim illuminados, espalhavam um fausto e uma grandeza que não
esplendor de que dispunha a Companhia de Jesus, dentro dos desmentiam a riqueza do convento.
templos e dos collegios; todo o apparato das grandes solemnida- A’ noite fizeram-se matinas. As janellas do templo illumina-
des, emfim, ia exhibir-se n’esse dia grande, solemnissimo, dedicado vam-se phantasticamente, e as torres, dando os repiques festivos,
festivamente á recepção da Virgem na estancia celeste. iam levar uma nota de duvida e commiseração ao sentimento do
Por isso mesmo, era bellissimo o dia, aquella quinta feira de commendador João de Brito, o qual, junto da amura de estibordo
Agosto, cheia de um sol de verão que abraçava, jubilosamente da nau Natividade, investigava e lia, como em livro aberto, atra­
forte, o panorama encantador da villa da Horta. vez a serenidade da noite, os movimentos de luzes e de sombras
A nau portugueza Nossa Senhora da Natividade acabava de em toda a face do vasto edifício.
lançar ferro na vasta bahia, atravez uma nuvem de ferrugem, in­ A cidade em peso accorria ao templo, desde o abastado mor­
tensa e denunciadora de uma larga viagem. Era um dos alterosos gado ao mais simples plebeu, semi escravo das ambições e justi­
navies que compunham a esquadra dos portuguezes, n’essa epocha ças morgadias. Os padres, entretanto, com aquella finura que os
de conquista e expansão nacional. Ostentava duas ordens de gar­ caracterisava, transitavam dentro do edifício num movimento des­
bosa artilharia por cada lado e tinha por commandante o official usado, em opposição á sua proverbial serenidade e placidez. Os
de marinha João da Costa Brito. gestos eram mais rápidos. A voz menos pausada. As cerimonias
No mesmo dia, e parece que á mesma hora, duas outras naus da lithurgia mais breves, parecendo que presentiam toda a gran­
entravam nos portos de Angra do Heroísmo e Ponta Delgada. deza do perigo que tinham alli, no mar, na bahia, a dois passos
Na egreja do collegio, magestosamente edificada no meio da da capella-mor illuminada e magestosa.
cidade da Horta, celebravam os padres jesuitas as vesperas so- Terminadas as cerimonias, evacuado o templo e fechadas to­
lemnes da Assumpção — a sua grande festa annual, cuja excellen- das as portas da egreja e do collegio, a attenção dos padres fi­
cia, cuja pompa attingia um aspecto phantastico. Uma enorme pro­ xou-se profundamente na velha nau Natividade, ancorada na bahia
fusão de luzes derramava uma claridade immensa pelas altas na­ vasta e escura.
ves. As ricas alfaias, os paramentos luxuosos, as franjas de ouro, A que viria aquelle navio de el-rei D. José? Ninguém o sabia.

DRaC-CCA
O povo fazia sobre o caso desen­ do camarim punham tons de opa­
contrados juízos, ao passo que se la; a soberba taça de ouro com
manifestara já, entre elle, um ru­ as nove pedras preciosas que re­
mor incerto, estranho, que fazia presentavam as nove ilhas do ar-
prever um facto anormal. chipelago — taça esta que consti­
tuía a unica ambição do antigo ou­
vidor da Horta, frei Henrique da
Pureza Greaves, que só desejava
essa taça para a mandar de pre­
Assim dotados de uma subtili- sente a Pio IX. Alli desceu, á co­
dadc e lucidez, que, em verdade, va, a riquíssima alampada do Sa­
muito distinguia os padres da Com cramento, a mais valiosa que exis­
panhia de Jesus; orientados como tia nas ilhas, as admiráveis casti-
estavam, desde tempos, sobre a çaleiras de prata lavrada que se
política e as aspirações do Marquez, exhibiam nas grandes festas, as
o odiado Marquez de Pombal, os centenas de cruzados que repre­
padres decidiram intimamente pre­ sentavam as rendas e economias
venir-se. Auxiliados por um creado do collegio, e os outros objectos
preto, sahiram com ferramentas valiosos do culto, os quacs o pre­
para a egreja e numa das sachris- to, servo fiel e ajuramentado, au­
tias abriram uma profunda valia, xiliou a subterrar na valia enorme,
para onde removeram, cautelosa­ aberta n'essa sachrislia desconhe­
mente encaixotada, a enorme ri­ cida.
queza que se ostentara no templo *
momentos antes. * *
D’este modo, sepultaram alli a
pesada custodia de ouro, cravejada Amanheceu explendido o dia
de pedras preciosas, que encimava 15. A nau de el-rei balouçava se
o riquíssimo camarim nas festas serenamente na bahia, semelhando
pomposas; a bancada de castiçaes o espectro do odiado Marquez, e
de prata c as estrellas do cereame Horta. — Estante da capeixamór da matriz da Horta, (Jacarandá
trazendo ao pensamento dos pa­
de cónes de ouro, onde as luzes (OM EMBUIIDOS DE MARFIM) dres toda a grandeza do enygma

468

DRaC-CCA
que elles procuravam decifrar nos movimentos de bordo. Preve­
nidos contra o futuro, preparados para as surprezas do dia, foram
os padres para a festa da Virgem. Mal terminara, porém, a ultima
cerimonia, a egreja e o convento rodeara-se immediatamente de
tropa, em virtude de uma ordem confidencial entregue ao gover­
nador pelo commandante João de Brito.
Logo os padres, intimados pelo commandante da força, sahi-
ram incorporados da sachristia para bordo, levando unicamente
sobraçado o seu breviário. Da egreja para o caos entoavam os des­
terrados o psalmo In exilu Israel de Egypto.
Momentos depois a nau levantava ferro, e d'ahi a poucas horas
singrava por entre canaes, impellida por um vento favoravel.. .

Entre os livros religiosos de uma velha freira do convento da


Gloria, que conheceu o preto, e alli veiu a morrer ha mais de meio
século, foi encontrado um breviário e dentro d’elle, amarellecido
pelo tempo, um pequeno papel onde se lê muito bem: ;<O preto
disse-me que ajudou a enterrar, na sachristia X, uns caixotes com
o thesouro do collegio.»
O preto era o fiel servo dos jesuítas. Julga-se que tivesse feito
o juramento de nunca revcllar o segredo, mas à hora da sua mor­
te, a que lhe assistiu a freira da Gloria, talvez não querendo que
ficasse perpetuamente ignorado um tal segredo, confessou-o á
freira em juramento, a qual, por seu turno, deixou o escripto no
retalho de papel cnygmatico.
«A sachristia X» — qual será, das cinco sachristias da egreja, a
que guarda esse thesouro?! Nunca se soube. Alguns dos nossos
antigos parece que tentaram profundar o mysterio, secretamente,
removendo o solo de algumas sachristias: baldado trabalho!
Nem do thesouro, nem dos padres, houve mais noticias.

Manuel Greaves. Faval. — Uma procissão. A direita o antigo convénio da Gi.okii. hoje demolido

469

DRaC-CCA
JOSÉ MARIA DA ROSA
otado de invulgares faculdades, intelligente Jornalista intemerato e sabedor, redigiu com
D e habil, estudioso e activo, o sr. José Maria
da Rosa, por esforço proprio, conscio do seu va­
notável energia o Atlântico, velho orgão do par­
tido progressista, a União, a Lucta, o Debate,
lor, sahiu da humildade de professor de instruc- e ultimamente, o Globo, Correio da Semana e
ção primaria e chegou á culminância relativa de Açoriano.
Reitor do Lyceu da Horta, de que era professor No ardor da peleja, feriu com rudeza, mas
effectivo, regendo distinctamente as cadeiras de sem rancor. Da mesma fórma o trataram os seus
Geographia e Historia. contendores. Nenhum dos que existem deixam
Ao mesmo tempo, impondo-se, pelo seu largo de sentir a sua morte e de reconhecer os seus
préstimo, á consideração dos agrupamentos po­ méritos. Todos lhe fazem justiça, como clle a
líticos, eram-lhe confiados alguns dos mais im­ todos sabia fazel-a, apenas cessada a lucta.
portantes cargos do districto, taes como Pro­ Era também um orador fluente e empolgante.
curador á Junta Geral, de 1882 a 1883; presi­ Entre os seus mais notáveis discursos, destaca­
dente da Camara Municipal da Horta, de 1890 mos o que proferiu no Grémio Litterario Faya-
a 1892; Administrador do Concelho, em 1904. lense, por occasião dos festejos do Centenário
Era membro da Commissão dos Annaes do do Infante D. Henrique, e de que ainda hoje
Município e foi por differentes vezes presidente ahi se falia com verdadeiro enthusiasmo.
da Sociedade Luz e Caridade. Advogou por uns J
osé M aria da Rosa Cheio de talento e de coração, foi um traba­
poucos de annos, com reconhecida proficiência, lhador incansável e um chefe de familia modelar.
nos auditórios da comarca da Horta e regeu, desde o fallecimento Falleceu na cidade da Horta, a 23 de julho de 1907.
do sr. João José Furtado, a Capella da Horta, sendo muito apre­ Horta — 1907.
ciados os seus dotes vocacs e bom gosto musical. Antonio Baptista.

•xintx?
r—1,1 —----- - ------

470

DRaC-CCA
POLIT1COMANIA
ntendamo-nos. Isto de se propôr a

E gente bacharelar, por desfastio e


corrente calamo, sobre motivos políti­
cos, vários e algo avariados, não é o
mesmo que querer também fazer um
poucocinho de política. Parece, mas
não é; não é, meus senhores.
Porque, em verdade, de mau aviso
seria desnaturar, desta feita, o patrió­
tico alcance do selecto Album; de pés­
simo gosto engastar falsa pedra n’esse
custoso escrínio, semear ruim grâma
na productiva seara, dispor murcha
flôr no viçoso jardim litterario, aguar,
alfim, a concepção primacial e o colo­
rido da sécia e iriada tela.
Longe, portanto, o intento de, —
como se traz cm dizer em phrase chã,
borrar a pintura, aquella tão suggestiva
pintura dos aspectos e feição locaes,
artisticamente gisada, ricamente em-
moldurada.
Sem embargo, o seu delineamento
comporta, cuido eu, singelas e, sobre­
tudo, innocentes referencias a uma
idiosyncrasica variante, melhor, a uma
anormalidade, quiçá doentia, do nosso Canal entre o Eayal e Pico. Ao fundo, a ilha d’este nome

471

DRaC-CCA
giro social. Por apercebei a no seu labor funccional e correspon­ transformações fregolinas, quasi de improviso, desafivclam o N. e X.
dentes derivativos, não se faz mister versar exóticas psychiatrias, do anonymato, da obscuridade e da incapacidade para se aureo­
pois vingam alcançal-a olhos profanos. larem dos resplendores do poderio e da infallivel auctoridade dos
oráculos.
Aqui, como em toda a parte, isso a que vulgarmente se chama O novo estado, cujos reflexos cégam o gentio idólatra, con-
política, é um vinho. quistam-o elles com maior facilidade do que aquella com que, por
Comtudo, aqui, mais do que no resto do mundo, é vinho ma­ força de geniacs tendências, Shakespeare passou de guardador de
rinheiro, a calcular pelo muito que bordejamos em zig-zagues de cavallos a immortal creador d'um theatro immortal, e Rosseau de
desencontrado rumo, sem taramela na boca nem papas na lingua, escrevente de tabellião a philosopho.
mas sem ideias na cabeça e sem firmeza nos movimentos. E, ao Enche-os de transparente satisfação, só comparável á do Akr-
conceito de outros mais entendidos, sem lastro na barriga. coni, praticando a telegraphia sem fios, ou á de Santos Dumont.
Traiçoeira pinga da adega do demonio, que em tentações faz manobrando a sua barquinha em direcção ao eixo da torre Eiffel,
cair clero, nobreza e, por debaixo de todos, o povo. a possibilidade de fazerem, á sua imagem e similhança, um regedor
Aquillo, porém, não é só vinho de pasto das nossas refeições. terrível ou de roubarem a urna, honradamente e a salvo d’uma carga
Duplica se, desdobra-se em outro vicio: jogo de vaza, em que as de pau.
cartas são representadas peios proprios parceiros como, segundo No caldo gelatinoso do seu mesquinho egoismo e da sua des-
recente e original invenção sportiva, o Whist o é por damas aris­ marcada prosapia, filha da ignorância que sempre foi e ha de ser
tocráticas no Castelio de Arundel, dos duques de Norfolk. atrevida, cultivam, estes badamecos e politicotes, os vibnões e
Por emquanto, a batota é apenas servida e accionada pelo sexo bactérias do mexerico e da suspeita, logrando por este geito divi­
macho c feio; mas não morreremos antes que, cá no burgo, as dir para reinar.
theorias e reivindicações femenistas se exemplifiquem, ruidosamen­ E todos nós creditamos de raras prendas taes ousadias e de­
te, nas eleições das juntas de parochia e nos syndicatos para em­ feitos, do mesmo modo que as mulheres da côrte siameza têm
barque de milho molle e partidário. para si como lei de esthetica e preceito de formosura escancarar
Joguinho do pilha; e assim quem não pilhou, pilhasse. dentes negros e lábios artificialmente desbotados!
Jogo do gallo, já por causa da guerra encarniçada, já por via Ao grito do convencional Danton: «audacia, audacia, sempre
do poleiro, onde todos querem subir. audacia», ajusta-se aqui esfoutro: «poliiicar, poliiicar, sempre po-
Afinal, duas modalidades que para uns tantos do fios político- liticar.» Porque da politiquice, como da intriga, sempre fica al­
rum se integram em rendoso e divertido ofiicio, unico que lhes guma cousa. .. para elles.
prende a attenção. D’est’arte subscrevem o pensamento de E. Gon- Mas, simultaneamente, muito de bom e util podia e devia ficar
court, quando preconisa a necessidade de cada qual só ter um of- para a nossa terra, se esta predestinada ingerência na Coisa Pu­
ficio, pena de inanidade. blica se pautasse por mais são e elevado critério ou, por outra, se
Então, maravilha como esses taes, após rapidas e successivas não fossem veneno o vinho, azar o jogo, interesse o encargo,

472

DRaC-CCA
FASCÍCULO TV.° 59

DRaC-CCA
j/tniiga Casa Tjerirand - José Bastos
RUA GARRETT, 73 E "7E> — LISBOA

€ncydopedia de Hpptkações Usuaes


for JOÃO BONANÇA
Historia, Geograpliia, Estatística, Astronomia, Pliysica e CMmica, Agricultura, Hygiene, Medicina pratica, Commercío, Artes, Lettras, Portugal Díttoresco, etc., etc.

Liivro de tudo e para todos, de immediata consulta e de incontestável utilidade

Um unico volume — Esplendidas illustnaçòes


Com a diffusão da presente obra, verdadeiramente ulil e indispensável a toda a gente, uniea em lingua portugueza, orgulhamo-nos em poder
affirmar que um bom serviço prestamos ao publico. Para mais, tem a abonal-a o nome do auctor. E’ elle João Bonança, um dos escriptores
de mais solidos conhecimentos que enriquecem as lettras portuguezas e um investigador da mais admiravel persistência e aptidão.
A Encyclopedia de Applicações Usnaes fórma um volume portátil, repleto de noções uteis nas diversas praticas
da vida diaria. E’ um livro para ignorantes e sábios; educa uns e rememora os outros promptamente, sem dispêndio de muito tempo e
trabalho. O commerciante, o agricultor, o jornalista, o homem de lettras, o professor, o clinico, o marinheiro, o militar, o viajante, o
operário, etc., ahi encontram uma instrucção variada e solida e regras para se conduzirem na pratica dos seus misteres e nos actos da
vida publica e particular. O que apenas tiver uma educação elementar, completal-a-ha com pequeno dispêndio de trabalho, de tempo e
de dinheiro, na Encyclopedia de Applicações 1'suaes.

PUBLICA ÇÁ O BABA TISSIMA


Cada fascículo de -16 paginas, 30 réis Cada tomo de 80 paginas, 150 réis
O volume de mais de 1:600 paginas, encadernado em pelle, custa 2$O0O réis!!!

Typ. de "A Editora" — LISBOA

DRaC-CCA
abuso o uso, desregramento a regra, artimanha a tarefa, enerva- possa germinar e fructificar em pro geral, se restricta ao apertado
ção a energia, vicio o que devera ser virtude. çirculo de enrêdos bairristas.
De facto, assim como nem as experiencias da psychologia Assim, normalisar as nossas congénitas, mas desconcertadas
scientifica se contêm na rotineira experiencia da mesa de pé de vocações políticas, ordenar os effeitos de tão pronunciada bossa,
gallo, nem o altruísmo orientado se resolve em distribuir aos sab- seria aproveitar um factor potencial de almejado e fecundo loca-
bados, á chusma de rôtos mendigos, uma mão-cheia de rodellas lismo.
de cobre, assim também não parece que a governança indígena J. Machado de Serpa.

N.° 60 473

DRaC-CCA
DUQUES D’AVILA E BOLAMA
senhor duque!... dirigidos dirigentes. Só por esta forma se logra ascender a culmi­
O E veio assim d um
lar modesto até aos fastí­
nâncias como as attingiu o duque d Avila.
Lucta-se hora a hora ante a meza do estudo, queimadas as pes­
gios do poder. Da humilde tanas na dubia luz nocturna, estioladas as forças physicas no titâ­
casa de seus paes, escon­ nico esforço intellectual, e quando se attinge o derradeiro momento
dida n’esse formoso am- da batalha, ou se cae no campo cerrado, morto pelo ultimo tiro
phytheatro, que se chama de fusil, ou se levanta a fronte, cercada pelos immarcessiveis lou­
a cidade da Horta, subiu, ros da victcria. E eis o ver-
subiu, até penetrar nos pa­ dadeiro triumpho.
ços dos nossos reis, e ser,
após elles, a mais culmi­ O senhor duque!...
nante figura de uma nação. E assim, numa progres­
Que lição de historia! são natural, expontânea, veio
A evolução, porém, este illustre açoriano desde
fez-se n’um cyclo de lus­ a humilde e honesta casa de
tros, em periodos determi­ artistas fayalenses até á di-
nados e successivos, como recção suprerna da nação
que acompanhando o des­ portugueza; porque, nas li­
envolvimento animal do in­ bérrimas fôrmas constitucio-
divíduo. As circumvoluções D 'A
vque d B
vila e olama naes, emquanto el-rei reina­
cerebraes marcaram lenta- va, elle governava Portugal
mente essa ascenção periódica e natural, que só o talento e a e seus domínios.
força moral são capazes de determinar. Mas, para tanto, fôra ne­
Não é a sorte, nem o acaso que assignalam no berço os mimo­ cessário abandonar a terra
sos da gloria. Para ascender ao capitolio, para se ir d’um colmado da patria, onde exercêra já
ao palacio dos reis, da humildade á grandeza, é necessária aquella funcçÕes publicas, onde mos­
força de vontade e de talento, que avassalla os espiritos e faz dos Duqueza d’Avila e Bolama trara as raríssimas qualida­

DRaC-CCA
des do seu fino engenho, e, mares em fóra, buscar nos longínquos conselho de ministros, de simples bacharel formado em philosophia
horisontes o incomensurável espaço em que, aguia altaneira, po- a duque d Avila e Bolama.
desse librar o vôo colossal.
Campo asado para os seus grandes méritos, lá estava a ca- O senhor duque!...
mara popular, como lidimo representante do povo, donde sahira; E foi elle, n'este século que vae findar, a mais nobilitada figura
dos Açores, de que seria o mais illustre filho. Arena para o lidar de açoriano que ascendeu aos conselhos da corôa.
da palavra haviam de ser os congressos no estrangeiro, nos quaes Duque... só elle! E ante esse venerando vulto, que tão distin-
mostraria a vasta erudição e o primor com que manejava linguas cto logar occupou durante a sua gloriosa vida, que tanto honrou a
que não eram a sua própria. patria açoriana, sobe-nos ao coração uma onda de enthusiasmo e
E d’aqui aos conselhos da corôa e á direcção suprema do es­ temos vontade de proclamar a todo o mundo:
tado não foi mais que um passo, encetado n"essa carreira de glo­ — Aqui ha talento!
rias que o conduzio de sub-prefeito nos Açores a presidente do Mendo Bem.

475

DRaC-CCA
MARQUEZES D’AVILA E BOLAMA
eleccionar o mérito e distinguir o labor civico constitue uma fazem esmorecer as

S prestimosa funcção social. Reconhecem-a e exemplificama as


modernas collectividades no justo apreço que votam aos seus mais
operosos, intelligen-
ingratidões.
Quanto mais as­
cende a culminantes
tes e desinteressados posições, quanto
cooperadores. mais se eleva e se
D’aqui a legitimi­ superiorisa, tanto
dade com que nas pa­ mais n’elle se radica
ginas d’este Q/llbum a ambição de ser
se enquadra a figura util ao seu districto,
resaltante do sr. Mar- e aos seus conter­
quez d’Avila e Bola- râneos. E tem-o sido
ma, que do Duque, bastas vezes, de va­
seu venerando tio, pa­ rias e productivas
rece ter herdado, tam­ formas.
bém, o nunca des­ Se o acercam
mentido aílecto ao desprotegidos patrí­
torrão natal. cios seus, logo o ve­
Ao serviço d’essa mos derramar-se em
devoção patriótica ha mostras de capti-
elle posto, ininterru­ vante benevolencia
ptamente, o melhor M
arquez d 'A B
vila e olama
e de estimulante e
dos seus esforços e do benefica orientação.
seu provado valimen­ Se uma crise im­
to. N’essa boa e bella prevista enerva estas ilhas, perdidas no meio do oceano e não raro
tarefa nemoentibiam nas aguas turvas da política e da politiquice, ninguém, primeiro do que
as difficuldades nem o M 'A
arqueza d B
vila e olama elle, acorre a solicitar, energica e delicadamente, o auxilio governativo-

476

DRaC-CCA
Assim, quando do cyclone que, ha annos, assolou estas para­ ferencia do illustre titular, junto do chefe do gabinete, Sr. conse­
gens pela completa devastação das colheitas e por estragos de toda lheiro Hintze Ribeiro, seu amigo político e pessoal.
a especie, o nobre Marquez, avisado telegraphica e officialmente Essa interferencia ainda mais se vinculou, por modo indesata-
por seu irmão, o então capitão do porto da Horta, conselheiro José vel, á execução do problema da pharolisação e telegraphia sema-
d’Almeida d’Avila, desenvolve uma notável diligencia no só e lou­ phorica do Fayal e Flores. Todos o sabem, embora muitos finjam
vabilíssimo empenho de desanuviar as cores carregadas do quadro, ignoral-o. E que é mais facil desvendar as trevas do mar, do que
onde já se desenhava o espectro da fome. Depressa vae á Arca­ a cegueira dos que não querem vêr. ..
da, ingressa os Ministérios e de lá não sae senão com a formal pro­ Outros effeitos, bem visíveis e palpaveis, da sua exclusiva e
messa, que em promessa não ficou, de promptas e efficazes pro­ accurada intercessão, foram as cedencias, pelo Estado, dos edifí­
videncias. Seguidamente congrega os deputados e pares dos Aço­ cios da Gamara Municipal, Alfandega Velha, conventos e cercas
res e pelos Açores, a alli, n’essa reunião, sob o influxo da sua com- de S. Francisco e da Gloria.
movida e auctorizada palavra, se concerta um plano que resultou Mal se fallou na construcção d’um novo estabelecimento hos­
fructifero em valiosos do- pitalar, promove e con­
nativos. segue a isempção de di­
Mas não se julgue que reitos para todo o mate­
o move e interessa ape­ rial a importar a tal fim.
nas uma súbita anormali­ Em 1894, o governo
dade da sua terra. Não. ordena ás Obras Publi­
Olha-a sempre com per­ cas que formulasse um
sistente attenção, por fa- projecto de canalisação
vorecel-a em seus pro- de agua potável para a
gredimentos. cidade da Horta, e no
Abundam as provas mesmo anno é auctoriza­
d'este meritorio patrocí­ da a respectiva despeza.
nio: Tudo a instancias do sr.
Em i8g3 a rede dos Marquez d’Avila. O que
cabos submarinos cinge se sabe é que não foi elle
os Açores em abraço que retardou tão apreciá­
mundial. Pois é de saber vel melhoramento.
que na concessão de tão Na longa lista do seu
magno commettimento esforçado patronato ante
muito zelosa foi a inter- F
ayal — R
ibeiraG — F
ranoe C
recuezia de B astello ranco os poderes públicos, cum­

477

DRaC-CCA
pre incluir a creação de escolas e muitas verbas para estradas, nhecimento a quem de tanta maneira a serve, e de nenhuma ma­
egrejas c portos. neira a explora. E devem ser estes os desejos de todos os que
Em verdade, não sei de ahi haver quem tenha, tanto como o bem presam o bem d’esta terra.
sr. Marquez d’Ávila e Bolama, integrado o seu nome nos augmen- Horta.
tos e na vitalidade da sua terra. Oxalá saiba ella pagar com reco­ Visconde de Borges da Silva.

DRaC-CCA
Faval — Estrada do Ribeiro Secco

479

DRaC-CCA
Conselheiro dr. Antonio Emílio Severino d’Avellar
conselheiro dr. Avellar é filho do foi nomeado sub-delegado de saude d’este
O antigo escrivão de direito e tabel-
lião, já fallecido, Antonio Severino d’Avel-
concelho. Em tres épocas diferentes exer­
ceu o alto cargo de reitor do lyceu nacional,
lar Júnior e de D. Rachel Emilia de Sousa, sendo em 23 de abril de 1868, i5 de feve­
tendo nascido em 29 de janeiro de 1843. reiro de 1872, e em 27 de junho de 1881, em
Depois de ter completado o curso do que elaborou importantes relatórios.
lyceu, onde já se manifestou pelo seu talento Foi presidente da commissão executiva
como uma futura intelligencia, matriculou-se da junta geral d’este districto, por varias
na escola medico-cirurgica de Lisboa, onde vezes; eleito deputado ás cortes por este
teve por condiscípulo a grande notabilidade circulo em 20 de outubro de 1889, eleito
medica dr. Sousa Martins, sendo conside­ chefe do partido regenerador, em 20 de
rados os dois estudantes pelo mesmo grau outubro de 1895, governador civil do dis­
de erudição e capacidade; e com laureada tricto, por decreto de 3i de janeiro de 1896,
distincção terminaram os seus cursos em agraciado com a carta de conselho por
21 de julho de 1866. decreto de 1 de fevereiro de 1897 e n0’
O distincto medico, tendo regressado ao meado agente consular de Italia, em 1 de
Fayal, d’onde é natural, em 24 de fevereiro novembro de igo3.
de 1866, casou com D. Jesuina da Silva Os pergaminhos do conselheiro dr. An­
Avellar, começando desde aquella data a tonio Emilio Severino d'Avellar, são a no­
exercer clinica com actividade e muita mes­ breza do talento, a illustração, a vasta scien-
tria. cia do seu espirito lúcido, qualidades estas
Foi nomeado em 5 de janeiro de 1876 que, conjugadas com um coração d'ouro e
medico municipal, em 4 de dezembro de 1887 Conselheiro Antonio Emílio Severino d'Avellar magnanimo, o tornam credor do máximo
cirurgião do Real Hospital da Santa Casa prestigio e respeitabilidade de todas as
da Misericórdia; por decreto de 24 da janeiro de 1879 despachado ilhas de que se compõe o nosso districto, sendo o político
guarda-mór da estação de saude d'esta cidade, sendo aposentado açoreano mais popular e eminente da actualidade, n’estas pa­
em 16 de junho de tgo3. Por decreto de 18 de agosto de 1900, ragens.

480

DRaC-CCA
FASCICUIX) IV.» í) ()

DRaC-CCA
Casa gertrand- José Bastos á, C
RUA. GARRETT. 73 E 75 — LISBOA

€ncyclopedia de flpplicações Usuaes


por JOÃO BONANÇA
Historia, Geograpliia, Estatística, Astronomia, Pliysica e Cliimica, Agricultura, Hygiene, Medicina pratica, Commercio, Artes, Lettras, Portuial pittoresco, etc., etc.

Livro de tudo e para todos, de immediata consulta e de incontestável utilidade

Um único volume — Esplendidas illustuaçòes


Com a diffusào da presente obra, verdadeiramente util e Indispensável a toda a gente, uniea em lingua portugueza, orgulhamo-nos em poder
affirmar que um bom serviço prestamos ao publico. Para mais, tem a abonal-a o nome do auctor. E’ elle João Bonança, um dos escriptores
de mais solidos conhecimentos que enriquecem as lettras portuguezas e um investigador da mais admiravel persistência e aptidão.
A Encyclopedia de Applicações Usuaes fórma um volume portátil, repleto de noções uteis nas diversas praticas
da vida diaria. E’ um livro para ignorantes e sábios; educa uns e rememora os outros promptamente, sem dispêndio de muito tempo e
trabalho. O commerciante, o agricultor, o jornalista, o homem de lettras, o professor, o clinico, o marinheiro, o militar, o viajante, o
operário, etc., ahi encontram uma instrucção variada e solida e regras para se conduzirem na pratica dos seus misteres e nos actos da
vida publica e particular. O que apenas tiver uma educação elementar, completal-a-ha com pequeno dispêndio de trabalho, de tempo e
de dinheiro, na Encyclopedia de Applicações llsuaes.

PUBLICA ÇÃ O BABA TISSIMA


Cada fascículo de 16 paginas, 30 réis Cada tomo de 80 paginas, 150 réis
O volume de mais de 1:600 paginas, encadernado em pelle, custa 2$O0O réis 111

Typ. da ‘‘A Editora” — LISBOA

DRaC-CCA
VULCANISMO NOS AÇORES
ssENCiAi.MENTE vulcanica é natureza dos Aço­ directamente sob a fôrma de vulcões e tremores de terra. E’ só
res, o que se manifesta a cada passo, em cada extraordinário que a tão pequenas distancias como as que sepa­
pedra; nas fontes d aguas mineraes c ferven­ ram as differentes ilhas do archipelago, as duas occidentaes pare­
tes, como na configuração do terreno e çam achar-se fóra d’este systema.
nas innumeraveis crateras formadas por Uma nota publicada no Archivo dos Açores, (a nota que segue)
erupções antigas, que cobrem a superfície dos phenomenos vulcânicos mais notáveis, aqui observados, é elo­
das suas ilhas. quentemente significativa; infelizmente, porém, a boa vontade não
Aqui, uma abertura diminuta enci­ consegue descobrir ahi qualquer periodicidade provável.
mando um outeiro pequeno, dá ideia como Desde 1867, ultimo d’essa nota, apenas se citam, como impor­
de bolha rebentando na superfície de tantes, os tremores de terra em S. Miguel em 1880, sentidos par­
uma camada pastosa; além, uma porção de terreno, onde a lava ticularmente na Ribeira Quente e Povoação, terminados por uma
liquida, surprehendida pelo resfriamento sob a acção de ventos pequena erupção submarina muito ao largo d’esta villa; comtudo,
impetuosos, solidificou, aparece-nos perpetuando altas ondas de raro é o anno em que n'um ou n’outro ponto a actividade continua
vertices esfrangalhados e espumosos; n’outro ponto ainda, uma do globo não se manifeste por oscillações de terreno, geralmente
immensa cratera de kilometros de diâmetro aterra o espirito na fracas. Ainda ultimamente, a interrupção do cabo transatlântico,
comparação dos resultados das forças monumentaes da natureza coincidindo com as erupções na Martinica, e a discussão de obser-
com as das modernas machinas da industria actual, fundadas no vações depois feitas, tornam acceitavel a ideia da intervenção de
mesmo principio da expansão do vapor d'agua a alta tensão, e que qualquer movimento eruptivo diminuto.
já se nos afiguram collossaes. As descripçÕes dos phenomenos apontados na lista seguinte
As duas linhas hypotheticas de actividade vulcanica que encontram-se, geralmente, no monumento mais notável da historia
atravessam o Atlântico, de N. a S. ligando a Islandia a Santa He­ açoriana (o Archivo dos Açores) e são especialmente instructivas,
lena, e de E. a W. unindo os vulcões das margens do Mediterrâneo sob o ponto de vista scientifico, as dos tres últimos; relativamente
aos da America central e cuja continuação envolve a terra seguindo ás anteriores, é o espirito supresticioso da epocha que as torna
os bordos das grandes depressões geographicas, passam sensivel­ singularmente curiosas.
mente nos Açores, e estas ilhas, participando duma e d’outra, Momentos em que o homem mais se amesquinha em presença
acham-se duplamente sujeitas á influencia d‘essas pressões late- das grandes manifestações da natureza, e em que o espirito mais
raes, resultantes dores friamento da crosta terrestre e manifestadas se identifica com a ideia da intervenção de algum poder sobrena-

N.° 61 481

DRaC-CCA
tural, não podiam deixar de ser aproveitadas para arreigar crenças tério da Prainha. Notável pela sua duração (cerca de dois ân­
ou salvaguardar interesses. O menor tremor de terra representava uos);
então um castigo do ceu ; ceu que se tornava necessário acariciar i563, junho e julho — Erupções em S. Miguel, entre Ribeira
por meio de jejuns e penitencias, e na verdade, mais cedo ou mais Grande e Villa Franca e entre Ribeira Grande e Lagoa. Foram
tarde, sempre apaziguado com o concurso supplementar de preces encontradas pedra pomes, em quantidade, até i5o milhas.
e procissões. i5yi, junho — Tremores de terra na Terceira.
Não admira, porém, que a cada passo se encontrem milagres i58o, maio — Erupção em S. Jorge por varias crateras, en­
e previsões extraordinárias, transformando factos verdadeiros em tre Queimada e Ribeira do Nabo. Formou o mistério da Quei­
verdadeiras fabulas, porque até á Renascença, que só mais tarde mada.
devia manifestar-se no meio do oceano, era este o systema de es­ 15g 1, julho — Tremor de terra em S. Miguel. Pela segunda
crever historia em quasi todos os paizes civilisados. O vulcão aço­ vez foi Villa Franca em parte arrasada.
riano parece longe de ser considerado extincto. O proprio vertice 1614, maio — Tremor de terra na Terceira, onde ficou destruída
do Pico, a perto de 2800 metros de altura, cuja cratera não se a villa da Praia.
tem manifestado ha muito mais de tres séculos, mas onde se nota
uma temperatura cerca de 4o.0 superior á do ambiente, apresenta
mais actividade do que a do Vesuvio em vesperas da destruição
de Herculanum e Pompeia, e cuia cratera cheia de vegetação luxu­
riante era ponto de preferencia escolhido para festas e diversões.
Felizmente, o homem, deixando escapar facilmente recordações
de factos passados, adormece na esperança constante d’essa ultima
phase de estabilidade, que afinal tanto indica a ausência de vida
nos mundos, como caracterisa a morte em todos os seres animados.

Mello e Simas.

Nota chronologica dos phenomenos vulcânicos nos Açores:


1444? — Erupção em S. Miguel, coincidindo sensivelmente com
a data da descoberta.
1522, outubro — Violento tremor de terra em S. Miguel, arra­
sando Villa Franca.
1047, ma>° — Tremor de terra na Terceira.
i5Õ2, setembro — Erupção na ilha do Pico, formando o mis­ FAVAL.—Ao FUNDO VE-SE O P1CO, COM NUVENS

482

DRaC-CCA
1710, novembro — Tremores de terra em S. Miguel.
1718, fevereiro — Erupções no Pico, entre Santa Luzia e Ban­
deiras., por varias crateras entre S- Matheus e S. João, e submarina
em frente de S. Matheus. Durou mais de um anno. Parece ter
sido a manifestação mais importante depois da descoberta.
1720, julho — Erupção no Pico, perto da Silveira. Provavel­
mente restos da antecedente.
1720, outubro — Erupção submarina perto de S. Miguel, a
quatorze léguas ao largo da Ferraria.
1755, novembro — Tres ondas do mar, enormes, são observa­
das em todas as ilhas, incluindo Flores e Corvo, coincidindo com
o celebre terremoto de Lisboa.
1757, julho — Grande tremor de terra sentido em todas as ilhas,
excepto Flores e Corvo, ficando destruída a povoação da Calheta
em S. Jorge.
1759, dezembro — Principiaram tremores de terra no Fayal,
que só acabaram em maio do anno seguinte.
1760, novembro — Tremores de terra na Terceira, terminados
pelas erupções perto da Serra de Santa Barbara e perto dos Bis­
Ilha i>o Fayal. —Um aspecto da costa
coitos, em abril do anno seguinte.
i63o, setembro — Erupção em S. Miguel, perto das Furnas, 1793? — Tremor de terra nas Flores, sentido especialmente no
destruindo esta povoação e Ponta Garça. Lagedo. Notável por ser o unico registado n’esta ilha. Duvidoso
1638, julho — Erupção submarina perto de S. Miguel, a duas por ninguém d’alli se recordar de ouvir falar em tal.
léguas ao largo da Ferraria. 1800, junho a setembro — Tremores de terra na Terceira.
1647, janeiro a junho — Tremores de terra na Terceira. 1808, maio — Erupção em S. Jorge, por cima da Urselina, que
IÕÕ2, outubro — Erupção em S. Miguel. No pico do Fogo, ficou em parte destruída.
perto de Ponta Delgada. 1811, fevereiro — Erupção submarina perto de S. Miguel, a
1656, outubro — Tremores de terra em S. Miguel. meia legua ao largo dos Ginetes. A pag. 64 d’este Álbum pode
1672, abril — Erupção no Fayal, entre Capello e Praia do Norte, ver-se a reproducção do desenho que d’ella fez o commandante
destruindo estas duas povoações. da fragata ingleza Sabrina.
1682, dezembro — Erupção submarina perto de S. Miguel, a 1841, junho — Violento tremor de terra na Terceira, onde a
quatro léguas ao largo da Ferraria. villa da Praia da Victoria foi, pela segunda vez, destruída.

483

DRaC-CCA
1848, outubro a dezembro — Tremores de terra em S. Mi­ 1867, junho — Erupção submarina perto da Terceira, a cinco
guel. kilometros ao^largo da Serreta.
1852, abril — Violentos tremores de terra em S. Miguel.
1862, setembro — Principiaram tremores de terra no Fayal, (Extrahido do Archivo dos Açores, pelo Dr. Ernesto do Canto
prolongando-se até janeiro de 1863. e da Historia das quatro ilhas, por A. L. da Silveira Macedo.)

484

DRaC-CCA
MARCELINO LIMA plausos, pois que no jornalismo fayalense se tem affirmado escri-
ptor de largo folego e no theatro da Harta ou nos saraus dos clubs,
amador correcto, revelando amplas qualidades de artista.
cima de todas as ou­ Pô-lo em destaque, pois, na galeria seleccionada do Álbum,

A tras qualidades que o


distinguem no seu meio,
não é mais do que prestar-lhe a devida justiça.

está, porventura, o seu


caracter diamantino.
Marcelino Lima, é um PADRE MANOEL JOSÉ D’AVILA
dos mais lúcidos e cultos
espíritos da sua terra. O
seu temperamento artís­ um dos muitos espíritos cultos da Horta. Nascendo n’esta
tico fez d’elle um estheta.
É tão modesto quanto E pequena, mas encantadora cidade, o padre Manuel José
d’Avila frequentou o lyceu da Horta e concluiu com distineção
apreciado, tão despreten- o seu curso theologico no seminário de Angra, recebendo as sa­
cioso quanto prestável. gradas ordens para o
Correcto em tudo: no ministério sacerdotal.
trabalho intelectual, como A sua vida e os
na vida social; impecável, seus serviços públi­
M L
arcelino ima
desde a maneira de vestir cos, tanto ecclesiasti-
á maneira de tratar, desde a forma de escrever á forma de pro­ cos como civis, são
ferir; inquebrantavelmente distincto, seja no exercício das suas livro aberto para to­
funcções publicas, seja no desempenho dos seus encargos parti­ dos.
culares— mesmo os de mero divertimento — na secretaria e na Caracter probo e
redacção, no palco e na sala, em caza e na rua, onde quer que trabalhador infatigá­
figure, onde quer que apareça. vel, grangeou de ha
Marcelino Lima é um bom, sem exageros de sentimento, e um muito o respeito e es­
util, sem esforços de vontade. tima dos seus patrí­
Mercê duma organisação admiravelmente equilibrada, tem cios.
lato préstimo, moldavel a todas as suas alternadas preferencias Apesar da sua mo­
d’arte ou de officio. déstia, hoje o seu no­
Na imprensa e no palco tem elle conquistado merecidos ap- me é conhecido em

485

DRaC-CCA
todo o archipelago, pelos importantes trabalhos scientificos da Ainda além de tudo isto tem o padre Manuel José d’Avila os
metereologia, a que se tem dedicado com disvelo e sem remu­ seus importantes trabalhos jornalísticos como redactor do diário
neração alguma. O Telegrapho, da Horta, que dirige desde a sua fundação, em
E director do observatorio metereologico da Horta, por pro­ 1892.
posta do distincto homem de sciencias michaelense, major Fran­ Jornalista consciencioso e litterato distincto, as suas produ-
cisco Affonso de Chaves, que reconheceu os seus merecimentos e cções são sempre apreciadas, tendendo na quasi totalidade para
os aproveitou n’uma obra tão importante, não só para este archi- o bem e prosperidade do districto, que muito deve ao seu traba­
pelapo, mas principalmente para a Europa e America, pela situa­ lho e aos seus talentos.
ção em que elle foi collocado pela pródiga natureza. Turibio Fulvio.

4S6

DRaC-CCA
SOBRE A CALDEIRA
romaria é por S. João. E' a mais movimentada e bella de neando as terras de semeadura, bordando as estradas, riscando

A toda a ilha.
Torneando os outeiros do matto, subindo sempre, a viagem
os montes, a hortênsia ostenta por toda a parte o brilho cândido
da sua floração d’anil. E pelo velho caminho que conduz á Cal­
faz-se por caminhos velhos, fundos, sulcados pela agua dos inver­ deira, fundo, húmido, barrento, a hortênsia adquire uma incompa­
nos. A ascenção— rável beileza, aconche­
muito suave — tem o gada nas moitas da
fundo encanto espiri­ sua folhagem verde-
tual que nos dá a com- negro, onde o sol não
plexão da natureza em penetra a roubar a
volta. mocidade sempre fres­
A paysagem va­ ca do seu viço, nem a
riada em formas, gar­ gracilidade sempre no­
rida em côres, dilata-se va da sua tinta.
aqui, aperta-se acolá, Aqui e alli, sob o
sempre pittoresca sob pallio verde das arvo­
a tonalidade azul dos res, erguem-se dos
ceus, sempre sadia sob musgos perpetuamen-
a frescura amena das te frescos os altos fe­
brisas que vêm de lon­ tos mimosos, debeis
ge, do vasto oceano, na sua tristeza e tão
lambendo os perfumes saudosos do seu re­
da terra em fiôr. canto humilde que se
A nota caracteris- deixam murchar peno­
tica do matto fayalen- samente, mal a mão os
se é a hortênsia, a hor­ acaba de colher.
tênsia azul, opulenta, Já no alto, muito
volumosa, fértil. Tor­ Ilha Do Faval.—No Fi ndo da Caldeira proximo do termo, al-

487

DRaC-CCA
cançado o cabeço, a vista dilata-se numa paysagem ampla. E os meiras — em rancho — vão entoando alegremente. Os passaros gor-
olhos vão pairando demoradamente sobre os quadros sadios das geiam em festa. Faz frio.
terras de cultivo onde a aragem ondeia a cabeleira verde dos Agora a vegetação é mais rara. A paysagem começa a lan­
novos trigaes. Ha pequenos trechos de terra fresca, escura, que guescer.
os velhos arados vão rasgando pesadamente. Ouve-se o gemido *
nostálgico dos bois, prezos á beira dos outonos onde o chexarão
se enriça, semeando por entre a flôr branca do tremoçal as pintas Estamos na borda da Caldeira. O nevoeiro envolve-nos, deso­
vivas das suas pétalas de sangue. rientando-nos. O frio aperta. A humidade é geral.
Mais abaixo, pelas encostas verdejantes do valle das Flamen­ Pelo andar do dia os nevoeiros dissipam-se. O sol entorna a
gas, aninham-se os povoados alegres, modestos, d’onde se evola sua luz pelo longo descampado.
um ar de paz.
A’ beira d'agua, adorando o nas­
cente, o panoramma garrido da Hor­
ta, limpido na alvura da sua casaria,
onde o sol põe em cada manhã luci-
lações festivas de claridade.
E ao fundo, rompendo castellos
de nuvens, a massa gigantesca do
Pico, erguendo-se altaneira do seio
das ondas frisadas do Atlântico, do
mar que abraça toda a paysagem
açoriana com a mancha dolente do
seu azul, que dá relevo a todo o sen­
timento ilheu, quer na serenidade molle
das grandes calmarias, quer na agita­
ção nervosa dos negros cyclones.
O dia rompe serenamente. A borda
da Caldeira está próxima, envolta na
poeira alva dos seus nevoeiros. An­
dam pelo ar sons conhecidos de canti­
gas nossas, de chama-ritas, de desgar­
radas, de velhas canções que as ro- Ii.ha do Faval.— A Caldeira

488

DRaC-CCA
FASCÍCULO IX.’ 6 i

DRaC-CCA
Casa T}ertrand-José Bastos $ C
RUA G-ARRETT, 73 E *75 — LISBOA

Gncyclopedia de flpplicações Usuaes


por JOÃO BONANÇA.
Historia, Geocrachia, Estatística, Astronomia, Physica e Ctiimica, Agricultura, Hygiene, Medicina pratica, Commercio, Artes, Lettras, Portugal píttoresco, etc., etc.

Livro de tudo e para todos, de immediata consulta e de incontestável utilidade

Um único volume — Esplendidas illustraçòes


Com a diffusâo da presente obra, verdadeiramente util e indispensável a toda a gente, unica em iingua porlugueza, orgulhamo-nos em poder
affirmar que um bom serviço prestamos ao publico. Para mais, tem a abonal-a o nome do auctor. E’ elle João Bonança, um dos escriptores
de mais solidos conhecimentos que enriquecem as lettras portuguezas e um investigador da mais admiravel persistência e aptidão.
A Encyclopedia de Applicações Usuaes fórma um volume portátil, repleto de noções uteis nas diversas praticas
da vida diaria. E’ um livro para ignorantes e sábios; educa uns e rememora os outros promptamente, sem dispêndio de muito tempo e
trabalho. O commerciante, o agricultor, o jornalista, o homem de lettras, o professor, o clinico, o marinheiro, o militar, o viajante, o
operário, etc., ahi encontram uma instrucção variada e solida e regras para se conduzirem na pratica dos seus misteres e nos actos da
vida publica e particular. O que apenas tiver uma educação elementar, completal a-ha com pequeno dispêndio de trabalho, de tempo e
de dinheiro, na Encyclopedia de Applicações Usuaes.

PUBLICA ÇÃ O BARA TISSIMA


Cada fascículo de 16 paginas, 30 réis Cada tomo de 80 paginas, 150 réis
O volume de mais de 1:600 paginas, encadernado em pelle, custa 2$O0O réis I! I

Typ. dt “A Editora-- LISBOA

DRaC-CCA
A abysmal cratera paten­ posterior ao cataclysmo cos-
teia-se em toda a sua soberba micoque devastou tuAtlantide,
imponência. devia illuminar — por séculos
E’ esta uma das occasiÕes talvez — o vasto oceano. A sua
em que o que vemos, o que extineção foi lenta, demorada.
sentimos e o que pensamos, A pressão scismica foi-se ali­
é conducente ao mesmo fim. viando pouco a pouco por ou­
Vendo o relevo em toda a sua tros pequenos vulcões, por fen­
imponente plenitude, sentindo das submarinas e descarregou-
a natureza em todo o engenho se por fim pela cratera do Pico,
da sua força immensa, pen­ que líuma época muito mais
sando no cataclysmo voragi- recente devia de ter uma as­
noso que deixou de si um tão sustadora actividade.
assoberbante testemunho, vi­ Toda a borda da Caldeira
bramos por todo o nosso sêr tem um ar melancholico e doce.
uma sensação extranha de iso­ Não tem aquelle aspecto feroz
lamento, de aniquilamento, de dosMysterios do Capello, onde
um não sei quê de indefinido, I F
lha do .— A
ayal F
egreja dos lamengos a lava recente escaldou a terra
de sui generis. sepultando-a sob a caparigida
A Caldeira tem i.85o metros de diâmetro e i.o5o de profun­ da sua massa rochosa, folhada e negra. Não tem esse tom doloroso,
didade. A fôrma interna é sensivelmente afunilada. As encostas esse arrepio envenenado dos Myslerios do Pico, onde pelos soes
razas de vegetação são abruptas, caprichosas em sinuosidades. de verão a vida foge por completo, ficando apenas á flôr da pedra
Aqui e alli a rocha apparece nua, formando uma fita lavada de os braços estereis das urzes seccas, como hastes de veado perdi­
cima a baixo pelas chuvas dos invernos. Ha pequenos fios d’agua das por entre as pregas da lava. Não, esse grosso lombo que cir­
permanentes, friíssimos, d’uma sonorosidade harmoniosa, que for­ cunda a Caldeira e donde se observa todo o relevo da ilha e ao
mam cascata para dentro da bacia, cahindo numa poeira de prata longe o desenho nitido do Pico, de S. Jorge, da Graciosa e a
por entre uma vegetação mais forte e mais escura. O fundo é mancha escura da Terceira junta ao horisonte, tem no verde da
constituído por lagos onde as plantas aquaticas se aggregam em sua vegetação rasteira um tom suavemente consolador.
volta dos juncaes, pondo no espelho limpido da agua a graça verde Pelos arreboes do poente — sempre festivos e sumptuosos em
da sua côr viçosa. todo o archipelago, na coloração vigorosa dos ceus e na fulgura­
A Caldeira foi o centro de formação da ilha. A sua actividade ção infinda das aguas — o sol espalha em leque mil fitas de luz que
devia de ser immensa, collossal. E um dos grandes vulcões que, cortam os arminhos que languescem na serenidade do espaço e

N.° 62 489

DRaC-CCA
veem até nós rfuma ondulação rutila d’ouro. Então, é d’uma edifi­ tores erram sob um frio intenso, afogados na nevoa, seguindo os
cante belleza observar o correr lento das nuvens que de longe — signaes dos rebanhos — sem rumo d’aldeia nem noticia das ovelhas
da fartura do oceano — véem tombar na conca gigantesca da Cal­ fugidas á neve.
deira, pairando umas sobre outras como bandos de gaivotas que Com os primeiros soes da primavera a vegetação rebenta farta,
procuram na escarpa a fenda do seu ninho. Assim, quando a noute estendendo pelo vasto dorso a frescura dos seus musgos e da sua
cae serena e negra, já toda a Caldeira é envolta na capa húmida relva.
dos pesados nevoeiros. Reina então por aquellas solidões uma paz Desdobra-se por toda a paysagem, suavemente ondulada, o
religiosa, ascética, que creou a lenda do velho frade eremita que mesmo tapete verde macio e pomposo. Adoça-nos o olhar aquella
depois de longos mezes de privações e de ardente theosophismo monotonia de cor d’onde se evola um perfume capitoso, que nos
deixou de ser visto, sem mais se encontrar o seu corpo nem a cruz enche d’uma amoravel e infinita ternura. Viça-nos uma ideia cari­
tosca que lhe servia de cajado. nhosa d’um noivado realisado alli sob 0 azul vivo do infinito, entre
Pelo inverno, as neves descem a estender o seu lençol alvís­ aquella plumagem branda e opulenta. Aflora-nos o sonho excitado
simo pela suave cumieira que circunda o abysmo, abafado na massa do amor que desfallece, na saciedade dos beijos e no calor das
pardacenta dos húmidos nevoeiros. caricias, adormecido de paz e de claridade.
Não se pensa então na Caldeira, onde por vezes os raros pas­ Euclides Costa.

490

DRaC-CCA
A PRIMEIRA GALINHOLA
Extrahido da carteira d’um velho caçador

«— A’manhã, rapazes... ao meio dia... sem falta!...» Ao atravessar sobre o Alto da Lomba, iamos dominando lá em
E por aquclla noute de luar claro, numa rua deserta da pe­ baixo, á esquerda, o formosíssimo valle dos Flamengos — a riso­
quena cidade já adormecida, despedimo-nos os tres, sob aquella nha povoação de casas brancas irradiando pelo valle, pousadas,
recommendação. Ao meio dia, em ponto. aninhadas na verdura ubérrima que reveste o solo, e ora se estende
Assim foi. em lisos prados de esmeralda, ora avulta, carregando-se aqui e ali
No dia seguinte, uma manhã dos fins de fevereiro alvorava em em manchas de arvoredo.
claridades festivas, alegrias de luz juvenil, labores pelos campos,
chilreadas novas de passarada.
Este prenuncio satisfez-me quando cedo me ergui; e tratei sem
demora dos preparativos para a caçada da tarde, uma caçada ás
galinholas, na corrida, nos matos do Chão-Frio.
Cousa curiosa: —nós tres experimentávamos, ao partir, um
sobresalto, uma commoção de noivas, porque nenhum de nós ma­
tara nunca uma galinhola. Com os nossos quinze annos, apenas
contávamos no passado — bem curto como veem — caçadas aos
passaros, os maiores dos quaes eram os melros.
Façam ideia, pois, do alvoroço com que seguimos por essa es­
trada fóra, escarranchados em tres burricos de aluguer, que fazia-
mos galopar o mais que elles podiam, e que um garoto guiava, cor­
rendo atraz, de grande bordão na mão, gritando de vez em quando:
«— Sa-ca-iá!
«— E'ga-t' istipôrl...» (a)

(aj Traducção:
— Passa cá, asno!
— Chega-te, estupor Faval. — Lavadeiras na Ribeirinha

491

DRaC-CCA
Depois, enfiámos pelo velho caminho da Caldeira, pedregoso e Em outros sitios, os porcos lançados a pasto nos montados, des­
áspero, e em breve descíamos para o Chão-Frio — larga região de troem todos os ovos de galinhola que encontram; no Chão-Frio,
matas succedendo-se n um valle sombrio e deserto, frio e triste, porém, ha logares onde elles nunca conseguem ir, e isso ajuda a
apertado entre duas altas serras de severo aspecto. augmentar ali o numero d’aquellas aves. E’, todavia, difficil caçal-as
Pelas condições especiaes do terreno, agreste, selvático, alaga­ de «levante» por causa das condições já ditas do terreno — matas
diço, verdadeiro «chão frio», é aquelle um dos pontos da ilha que fechadas; profundas ravinas; grotas; ribeiras; campos de musgões
as galinholas, entre nós sedentárias, preferem. encharcados; caminhos escavados pelas aguas; difliculdade de

Ilha do Fayal. — Entrada para o Valle do Chão Frio

402

DRaC-CCA
transitar por cerrados litteralmente cobertos de silvas emmaranha-
das, como uma cabelleira agressiva de espinhos.
Assim, escolhe-se a época da corrida, de fevereiro a maio,
quando o amor as faz abandonar os sombrios esconderijos em que
se guardam, e levantar o seu voo de núpcias, ao pôr do sol, ao
fechar do dia, piando e roncando na noute que desce, com o des­
taque do seu vulto negro adejando contra o ceu claro. E’ então
que se lhes atira, e muitas vezes quebra-se, pela morte, o doce
idylio de duas galinholas que se perseguem no ar, em pios apres­
sados e amorosos como beijos.
Um pretenso philosopho disse-me um dia que em muitas occa-
sioes, de noute, nos matos distantes, longe de todo o povoado, só,
no silencio das montanhas, se punha a pensar n’esse eterno Amor
que faz morrer, n’essa a mais poderosa e fecunda força da natu­
reza que tanta vez conduz á morte...
Palavra que n'aquelle dia da minha primeira caçada ás gali­
nholas nunca pensei n’isso.
Como vinha dizendo, acontece frequentemente que muitas das
galinholas, cahidas n’aquellas matas, se torna impossível encon-
tral-as; ninguém as acha por si, e não ha cães, principalmente dos
nossos perdigueiros, que as tragam, por se não atreverem a arros­
tar com os bastos arvoredos e os picos agudos dos silvados. E lá
ficam aquelles preciosos productos da caçada, que bastante nos ha­
viam custado a abater.
E’ sempre desagradavel para todo o caçador perder a
caça morta; mas muito mais o é quando se tem apenas quinze
annos e a caça de que se trata é a galinhola, tão rara e apete­
cida.
Por isso, avaliem do meu caso:
Quando cheguei aos matos do Chão-Frio, n’aquella tarde de
fevereiro, com os meus dois companheiros, era ainda cedo, ainda
sol fóra. Pelos caminhos desertos, pelas clareiras do mato, fomos, Faval. — Um trecho da povoacÃo dos Flamengos

493

DRaC-CCA
pé ante pé, cada um para seu lado, vigiando aqui e ali se algum salto:—um pio forte fez-se ouvir mesmo atraz de mim; quasi
coelho apparecia e se deixava matar. suffocado pelas pancadas do coração, voltei-me rápido, e avistei
A’ minha parte avistei alguns e atirei-lhes; elles, porém, corriam, uma galinhola que fugia rasteira, rente do mato, bem visivel, com-
e a minha pericia não chegara ainda a matal-os na carreira. Ne­ tudo, no espaço lúcido em que se projectava. Desfechei com ella,
nhum pêllo, pois, manchou a virgindade da minha bolsa de caça. e oh ! ventura, via-a dobar abandonada, e enfiar-se numa terra
A tarde descera entretanto; o sol encobrira-se por detraz da de lenhas baixas, que ficava do lado opposto ao caminho.
elevada serra cuja larga sombra se projectava por todo o valle. O O cão precipitou-se logo; eu segui-lhe no encalço. Mas breve
ar arrefecia; e no azul esmaecido a lua, em quarto, branca ainda, percebi que o animal avançava com difficuldade, embaraçado pelas
sem luz, parecia uma metade d’hostia erguida por mãos invisíveis urzes e os tamuges que enredavam os seus ramos seccos, agar­
ao ceu immaculado, n’aquella oração da tarde expirante, n’aquella rado, picado pelas silvas.
prece da natureza ao despedir-se do sol. Eu, já inquieto, animava-o:
De repente — «Pihi!...» — «Pihi!...» — — Anda Boj-, anda, Boysinho!
e a primeira galinhola atravessou ao longe Aventurei-me também a entrar; porém,
por sobre a rama basta de um pinhal. O também a mim, o mato e os silvados não
coração saltou-me no peito, e o perdigueiro me deixaram dar um passo. Augmentou a
que me acompanhava, com as orelhas le­ minha inquietação com a perspectiva de não
vantadas, a cauda batendo para um e outro achar a galinhola, e quiz forçar o caminho;
lado as hervas e arbustos proximos, seguiu- apenas consegui ficarem-me lá pedaços das
lhe o vôo com o olhar. calças. Embrenhei-me, gritei pelo cão que
Outras galinholas passaram, sirandaram se safara já, chamei-o, primeiro com palavras
como morcegos; atabalhoadamente, a algu­ doces, depois descompul-o, mostrei-lhe soc-
mas atirei; nenhuma cahiu. cos, apontei-lhe a espingarda, (elle, sentado,
A noute avisinhava-se cada vez mais; o desconfiado, apenas desviava os olhos...) —
ceu claro como um crystal sobre o dorso e finalmente, tendo tentado penetrar por todos
escuro, ondulante das montanhas, picava-se os sitios que se me figuraram mais accessi-
de estrellas ainda raras; e algumas delias, veis, mas sempre em vão; finalmente, perante
alguns d'esses astros límpidos, palpitantes, a certeza de haver perdido a querida gali­
scintillando sobre a ramaria negra dos pi- nhola... chorei!
nhaes, pareciam outras aves de luz batendo Será vergonha confessal-o. Desculpem.
as azitas de oiro por cima da frança das ar­ Era a minha primeira galinhola...
vores, como se quizessem poisar... Só quem alguma vez verdadeiramente
Mas de novo experimentei outro sobre- Faval. — Lavadeiras dos Flamengos teve a paixão da caça, sabe quanto representa

494

DRaC-CCA
a primeira peça de valor morta, façanha que nos illustra, que nos Submisso, obedeceu logo.
consagra, em que se falia por toda a parte, no nosso meio: — «— Este cãosinho traz bem á mão... E’ bãosinho, sim sr.. .
«Sabes? F... matou uma galinhola, um coelho, um torca\...» Agarra bem um coelho e vae pôl-o em casa... Manda-se-lhe bus­
Chegamos a adquirir as proporções de um heroe. Mas não trazer car uma gallinha, ali, á terra, e elle caminha, e no meio de um
essa caça, equivale a uma derrota, á perda de uma batalha já monte d’ellas não traz senão a que se quer... E voccmecê hade
ganha, e sujeitamo-nos ainda por cima a que nos chamem menti­ perder uma navalha ahi n’esses matos e elle ha de ir achal-a antes
rosos : — «Ora adeus! Mataste lá nada... Isso diçes tu, mas não que seja no fim de dias. E’ bãosinho... Agora em «paparroias»
acreditamos...» E o peior é que elles tcem razão, porque todo o (b) nunca pegou, mas vamos ver o que elle faz. Foi acolá, ao pé
caçador é mais ou menos mentiroso:— Qui dit chasseur dit bla- d’aquelle cedreiro, que ella cahiu, não foi?
gueur. — Sim, — confirmei.
Eu via, d’estc modo, em volta de mim, uma irreparável des­ O homem atirou duas pedras na direcção indicada e mandou:
graça e julgava-me, a sério, a creatura mais infeliz deste mundo. — «Anda, Leão, vae buscar!»
— Lindos quinze annos!... O cão saltou immediatamente, e com raro vigor, decisão e co­
N’isto, sinto passos descendo o caminho. Olho e distingo um ragem, atirou-se á lucta com o mato, onde logo desappareceu.
homem com um grande feixe de lenha á cabeça. Decorreram para mim muitos minutos de anciedade, que me
Hesitei um momento, mas chamei: pareceram séculos.
— O’ tio! O’ tiosinho! O’ senhor! De repente, o olhar do dono fixou-se, por cima do meu hom-
— Que é lá ?... bro, para o lado para onde eu voltava as costas; e elle exclamou:
Approximei-me e contei-lhe o que me succedera, na esperança — «Dá cá, Leão, dá cá, marau!»
de que elle encontrasse algum remedio. Virei-me. O cão acabava de pular ao caminho, a uns dez me­
O homem desembaraçou-se do feixe, tirou da cabeça a jaqueta tros por detraz de mim, e trazia a galinhola na bocca! Ah! valente
com as mangas amarradas que lhe servira de rodilha, sacudiu-se animal! N’um impulso de reconhecimento, de alegria, atirei-me a
da fagulha, e assobiou vivamente. elle para o abraçar, para o beijar, positivamente para o cobrir de
Quasi no mesmo instante saltou do mato um podengo de pello beijos. Mas perante este gesto, que lhe pareceu talvez aggressivo,
áspero e amarellado, patas brancas, orelha aguda e empinada, ou não querendo festas de quem não conhecia (nós não tínhamos
corpo vigoroso e elástico, focinho de lobo, olhar vivo, cheio de in- sido apresentados. ..) o certo é que largou a galinhola e ferrou-me
telligencia. n’um braço a mais formidável dentada de que tenho memoria.
Apenas avistou o perdigueiro, tomou um ar torvo, retezou o Abençoada dentada!
corpo, erriçou-se-lhe o pêllo, rosnou, mostrou os dentes brancos e O camponez quiz castigal-o; eu, evidentemente, não consenti.
fortes, em successivos arregaçamentos dos beiços.
O dono, porém, chamou-o: (b) Os nossos camponeses dão ãs galinholas os nomes mais extraordiná­
— «Aqui, Leão!» rios:— paparraças; paparroias; cagarrôas; marrecas; pica-paus.

495

DRaC-CCA
O Leão tornou a pegar na galinhola e só na mão do dono a deixou. Eu queria que vissem a cara dos outros dois companheiros,
Propuz comprar-lhe o cão. quando voltaram sem terem morto nada!
«—Ah nan sr.— respondeu elle—o cãesinho é bãosinho e os
pequenos lá em casa gostam d’elle. E’ o seu espairecimento. E o ... Montámos nos burros para o regresso... Como um campo
mais bonito é que elle faz com elles o que não faz com ninguém. azul onde brotassem flores d’oiro, o ceu florirã-se de estrellas; a‘
A’s vezes, quando os rapazes veem p’ra casa co’o gado lembram- lua creara toda a sua luz, e quebrava, de uma claridade vaporosa,
se de brincar... isto, creanças!... e largam as cordas no chão. a vasta sombra do valle; a agua luzia no leito das ribeiras e nos
Pois o cãesinho agarra as todas e lá vem co’as rezinhas, e os ra­ sulcos do caminho; saudosamente, alguns melros cantavam ainda
pazes brincando!.. . E é um cão pr’á porta do que se chama bão. no silencio magestoso da noite e d’aquella selvatica natureza; uma
N’uma terra ou ahi n’esse mato, um home qu’está trabalhando frescura, um bem estar, uma felicidade pura enchia a minha alma;
bota a vestia contra um canto, e manda-o guardar, e elle deita-se e cantei durante todo o trajecto como um triumphador que volta
ali, e não vá lá vocemecê que elle investe-lhe. E’ só bãosinho...» coroado de louros.
O Leão entrara já no mato onde se entretinha de certo a pro­ N’essa mesma noite fui proclamado «grande caçador» á face
curar coelhos; o homem tornou a carregar a lenha e despediu-se. do meu circulo de amigos.
Agradeci-lhe bem do coração, e quando elle desappareceu, dei Mas, acima de tudo, o olhar agradecido da minha amada de
pulos de contentamento, cortei o silencio dos montes com gritos doze annos, quando, no dia seguinte, lhe offereci esse lindo pri­
de alegria, abracei e beijei a galinhola — a ave triste, com a sua meiro fructo das minhas caçadas!.. Tenho ainda no coração a
plumagem macia, que tomou o tom e a côr dos matos onde vive, doçura fina d’aquelle olhar; e ao lembrar hoje a minha primeira
os olhos abertos, emmurchecidos e ja frios, o comprido bico pres- galinhola, é a figura luminosa, a figura resplandecente da minha
crutador que procura e suga os alimentos nos terrenos alagados. amiguinha de infancia, que offusca todas as outras recordações.
Mas mais clara, mais doce, mais «intima», mais amorosa, a plu­ Porque Ella foi também o meu primeiro amor...»
magem do peito ainda morno e onde não ha muito batia de amor Fayal.
o coração... Florencio Terra.

496

DRaC-CCA
FASCICUEO W." 62

DRaC-CCA
X
jffntiga Qasa ^ertrand- José Bastos £ C
RUA GARRETT, 73 E 5
7
* — LISBOA

Gncydopedia de flpplkações Usuaes


for JOÃO BONANÇA
Historia, Geocrapliia, Estatística, Astronomia, Pliysica e Chimíca, Agricultura, Hygiene, Medicina pratica, Commercio, Artes, Lettras, Portugal uittoresco, etc., etc.

Livro de tudo e para todos, de immediata consulta e de incontestável utilidade

Um unico volume — Esplendidas illustraçòes


Com a diffusão da presente obra, verdadeiramente util e indispensável a toda a gente, uniea em lingua portugueza, orgulhamo-nos em poder
affirmar que um bom serviço prestamos ao publico. Para mais, tem a abonal-a o nome do auctor. E’ elle João Bonança, um dos escriptores
de mais solidos conhecimentos que enriquecem as lettras portuguezas e um investigador da mais admiravel persistência e aptidão.
A Encyclopedia de Applicações Usuaes fórma um volume portátil, repleto de noções uteis nas diversas praticas
da vida diaria. E’ um livro para ignorantes e sábios; educa uns e rememora os outros promptamente, sem dispêndio de muito tempo e
trabalho. O commerciante, o agricultor, o jornalista, o homem de lettras, o professor, o clinico, o marinheiro, o militar, o viajante, o
operário, etc., ahi encontram uma instrucção variada e solida e regras para se conduzirem na pratica dos seus misteres e nos actos da
vida publica e particular. O que apenas tiver uma educação elementar, completal-a-ha com pequeno dispêndio de trabalho, de tempo e
de dinheiro, na Encyclopedia de Applicações XJsuaes.

PUBLICA ÇÃO BABA TISSIMA


Cada fascículo de 16 paginas, 30 réis Cada tomo de 80 paginas, 150 réis
O volume de mais de 1:600 paginas, encadernado em pelle, custa 2$O0O réis 111

Typ. da "A Editora" — LISBOA

DRaC-CCA
O MORANGO SILVESTRE

charrette rodava agora docemente so­ Ao longe, na


bre um saibro macio, entre hortenses vasta plainez
em flor. A manhã, que rasgara carran­ azul do mar
cuda, purificava-se ao sopro propicio do sereno, uma
Norte; o sol ia doirando glorioso toda a vela branca,
vasta campina murmurosa. alongada e fi­
Assaltaram-me de súbito recorda­ na, semelhan­
ções vagas de tempos distantes... Cla­ te á aza alvi-
ros dias da infancia; phantasticos cre­ nitentede uma
púsculos da mocidade... tudo perdido grande ave
numa neblina de sonho... E numa doce aquatica, su-
melancolia alheiei-me da ventura presente, evocando as visões pal- mia-se pouco
lidas do passado... a pouco nos
— Em que pensa, cardeal? vapores diffu-
Despertei, sorrindo, á voz ciciante da minha gentil companhei­ sos do hori-
ra. Beijei com enthusiasmo os olhos que mc fitavam amorosamen­ sonte. Pou­
te, e, indicando: sando a cabe­
— Vês aquelle magote de pinheiros, além, a meio da encosta? ça sobre os
Lembro uma tarde de primavera que ali passei... Foi ha dez an- joelhos da mi­
nos. Eu estava então muito doente; abatimento geral; hemopty- nha enfermei­
ses frequentes;—julgava-me perdido. Subi a custo, apoiado ao ra, os olhos fi­
braço de solicita enfermeira, a vereda sinuosa, que ora se desenha tos na vela
— repara — n’um risco esbranquiçado, sobre o fundo verde-ne­ branca, muito
gro. Sentámo-nos lá em cima, junto de um tronco lanhado, sob branca, que
a ramagem gemedora... O dia expirava. O ultimo beijo do fugia sobre o
sol enrubescia o cone arenoso do Cabeço do Fogo; as vidraças azul infinito,
das casas, abertas sobre o poente, fulguravam como espelhos. chorei as mi- Capello. — Monte Verde

N.° 63 497

DRaC-CCA
— Afinal, estás aqui são, cheio de vida.. .
— E ella morreu I...
Ficámos calados alguns momentos, ambos fe­
ridos pelo mesmo sentimento. E, todavia, a minha
querida companheira nem conhecera sequer a po­
bre extincta. Coração de oiro, abria-se em reco­
nhecimento para a que me fôra de corpo e alma
dedicada.
Depois, com os olhos húmidos, os lábios tre­
mentes de commoção, n’uma voz de estranhas
modelações subjugadoras:

A CAMINHO DA FONTE DOS NAMORADOS

nhas primeiras lagrimas de enfermo sem espe­


rança. ..
Dois soluços fundos, irreprimíveis, agitaram
todo o corpo da minha enfermeira. Voltei me.
Ella chorava também, chorava desesperadamen­
te, numa angustia extrema. Todo o receio, todo
o pesar a custo dissimulados durante longos,
amargos dias, para não augmentar o desanimo
do seu pobre doente querido, ella desabafava
agora n’uma impetuosidade avassaladora do grande
esforço sobrehumano. Foi o triste condcmnado.
que teve de consolar a amoravel enfermeira... Capello. — A Fonte dos Namorados

498

DRaC-CCA
— Havemos de ir lá cima, logo, sim? Sentar-nos-hemos no
mesmo sitio: deitarás a cabeça nos meus joelhos... Relembrare­
mos a tua enfermeira... Queria-te deveras... Respeito a sua me­
mória. Falaremos muito d"ella... Não tenho ciúmes... Morreu!...
Coitada!...
Apertei, reconhecido, a mão generosa que procurava as minhas
numa viva expressão de convencimento e conforto.
— Iremos. Sempre o que tu quizeres.
Fomos, emquanto se preparava o almoço. Trepámos, enlaça-

Capello. — Egreja parochial Capello. — Uma queda d’agua

499

DRaC-CCA
— Ah! não podia mais ! O sitio... o sitio !...
Olhei em volta, orientei-me.
— Aqui. O mesmo tronco rugoso... a mesma ramagem sus­
surrante.
Sentámo-nos, reconstituindo o quadro intimo d’aquella tarde
remota.
Ah! mas agora o sol erguia-se radioso; a vida expandia-se em
toda a plenitude; a esperança fulgurava sem a mais pequenina
sombra. E em vez de soluços de dor, soaram na quietação da na­
tureza longos beijos de amor...
Um rancho de creanças brincava perto. Uma trouxe-me um
grande morango silvestre, resaltando muito rubro entre duas fo­
lhas verdes. Leveio-o aos lábios da minha adorada companheira.
Ella pegou-lhe e, por sua vez, offereceu-m’o.

dos, o atalho escabroso, orlado de silvas, de urzes e de giestas.


N’uma facha da colina, batida do sol, havia um pequeno campo
de linho, crescido, todo verde, que ondulava brandamente. Um
aroma penetrante de seivas silvestres enchia o ar morno e calmo.
Os nossos peitos arfavam desafogadamente, n’um contentamento
infantil. A’s vezes, corríamos, anciosos de chegar. Estranho en­
canto nos attrahia. A’ nossa passagem brusca por uma leiva re-
volvosa, um rebanho de ovelhas fugiu espantado. O que nós ri­
mos !
— Eil-os, os pinheiros !
Mais duas corridas. Um combro a galgar... E penetrámos na
pequena matta.
Então ella, num largo hausto de cansaço: Capello. — Chalet do sit. Freitas Eduardo

5 00

DRaC-CCA
— Não, não! come-o tu. Afflicta, pegou-me na mão, e n’um impulso ardente de carinho
Insistiu e eu insisti. Querendo á força introduzir-me o morango e magua, collou os lábios sobre o golpe, sorvendo o sangue...
na bocca, furtei-me n’um movimento tão desastrado que tombei Louco de amor, de paixão, apertei-a nos braços longamente e
sobre uma mouta espinhosa. busquei os seus lábios tintos do meu sangue.
Accudiu-me, estendendo-me as mãos, rindo alto do fracaço O grande e profundo beijo!...
comico; mas, súbito, empallideceu. — Minha para sempre?
De uma funda incisão no pulso direito, corria-me o sangue bor- — Tua para sempre!
bulhante.. . As creanças sorriam attonitas...
— Feriste-te! Antonio Baptista.

5o i

DRaC-CCA
PAYSAGEM FAYALENSE
gravura que illustra esta pagina do Album Açoriano, representa para marginar léguas de caminho, perfumando o ar e alegrando
AHaummuitas
pequeno lanço de estrada florida de hortenses.
d’estas flores no Fayal, que o bom gesto aproveitou
a vista do viajeiro.
Veem-se por toda a parte: na estrada da Praia do Norte e do
Capello, na estrada da Caldeira,
da Ribeirinha, dos Cedros.. .
E é um encanto visitar essas
freguezias ruraes, pobres, mas
pittorescas, cheirosas a flores,
pelo verão, passando entre as filas
das hortenses, cujas alas massiças,
dum tom azul claro, riscando o
escuro da paysagem, lhe dão um
aspecto deveras curioso.
Ha, então, pedaços de estrada
em que mais se agglomeram estas
flores, onde ainda o encanto é
maior, porque se lhes juntam as
roseiras, irrompendo garridamen­
te d’aquella massa azul.
Este aspecto das estradas con­
stituo o maior attractivo dos pas­
seios áquellas freguezias. Mas, a
paysagem fayalense, tem os seus
principaes encantos nas vizitas á
Lamba e á Caldeira, d'onde o
espectaculo é grandioso, com o
mar aos pés e as ilhas ali pro-
ximo, emergindo das aguas.

502

DRaC-CCA
VULCÃO DA PRAIA DO NORTE

brar uma solemne missa com sermão e procissão, em acção de


graças, no dia de Pentecostes e de distribuírem pelos pobres uma
inham até agora os fayalenses sido perseverados das calami­ parte de seus fructos, se parassem os effeitos destruidores do vul­
T dades naturaes que por varias vezes haviam flagelado os po­ cão. E partiram para aquellas freguezias os principaes da villa
vos das mais ilhas; estava, porém, reservada a occasião de soflre- com soccorro áquelles povos e muitos padres seculares e regula­
rem eguaes afflições para o anno de 1672, em que começaram a res para os consolarem.
sentir-se amiudados terramotos desde o dia 12 de abril (terça-feira
da Semana Santa) c com mais violência nas freguezias da Praia
do Norte e Capello, onde cahiram muitas casas, a egreja da San­
tíssima Trindade da Praia do Norte e parte da de Nossa Senhora
da Esperança do Capello, continuando a terra a tremer em horrí­
veis convulsões até á noite de 23 para 24 do mesmo mez (domingo
de Paschoa) em que rebentou um horrível vulcão entre a Praia
do Norte e Capello, atroando os ares com espantosos estrondos,
vomitando lava que cobriu vastas campinas, deixando seus donos
reduzidos á miséria, arrojando por toda a ilha ardentes cinzas que
estragaram as cearas, occasionando a morte de muito gado; numa
palavra, levando o terror e a desolação a todos os habitantes do
Eayal.
Foi então que a Gamara, tendo já antes promovido preces pu­
blicas, procissões e outros actos de piedade e devoção, convocou
as tres classes em que então se dividia a população e unanime-
mente invocaram a especial protecção do Divino Espirito Santo.
Trataram de renovar a sua irmandade antigamente instituída em
idênticas circumstancias, mas já decahida, e fizeram um solemne
voto de por si e seus descendentes fazerem todos os annos cele­ Um aspecto da freguezia da Praia do Norte

5o3

DRaC-CCA
Felizmente cessou desde então a acção destruidora do vulcão e da Esperança reparada e aquelles povos coadjuvados na reedifica-
aquelles povos faltos de meios de subsistência, se espalharam pe­ ção de suas casas.
las mais freguezias, sendo os inválidos recolhidos pela Santa Casa
da Misericórdia. (Historia das quatro ilhas do grupo Occidental.)
Por ordem do Príncipe Regente foi a egreja de Nossa Senhora A. L. da Silveira Macedo.

5 04

DRaC-CCA
DRaC-CCA
Casa gertrand- José Bastos C
RUA GARRETT, 73 E 75-LISBOA

€ncydopedia de flpplicações Usuaes


por JOÃO BONANÇA
Historia, Geograpliia, Estatística, Astronomia, Physíca e Cliimica, Agricultura, Hygiene, Medicina pratica, Commercio, Artes, Lettras, Portugal pittoresco, etc., etc.

Livro de tudo e para todos, de immediata consulta e de incontestável utilidade

Um unico volume — Esplendidas illustraçòes


Com a diffusão da presente obra, verdadeirameníe util e indispensável a toda a gente, uniea em lingua portugueza, orgulhamo-nos em poder
affirmar que um bom serviço prestamos ao publico. Para mais, tem a abonal-a o nome do auctor. E’ elle João Bonança, um dos escriptores
de mais solidos conhecimentos que enriquecem as lettras portuguezas e um investigador da mais admiravel persistência e aptidão.
A Encyclopedia <le Applieações Usuaes fórma um volume portátil, repleto de noções uteis nas diversas praticas
da vida diaria. E’ um livro para ignorantes e sábios; educa uns e rememora os outros promptamente, sem dispêndio de muito tempo e
trabalho. O commerciante, o agricultor, o jornalista, o homem de lettras, o professor, o clinico, o marinheiro, o militar, o viajante, o
operário, etc., ahi encontram uma instrucção variada e solida e regras para se conduzirem na pratica dos seus misteres e nos actos da
vida publica e particular. O que apenas tiver uma educação elementar, completal-a-ha com pequeno dispêndio de trabalho, de tempo e
de dinheiro, na Encyclopedia de Applicações IJsuaes.

PUBLICAÇÃO BARATÍSSIMA
Cada fascículo de 16 paginas, 30 réis Cada tomo de 80 paginas, 150 réis
O volume de mais de 1:600 paginas, encadernado em pelle, custa 2$000 réis III

Typ. de "A Editora" — LISBOA

DRaC-CCA
Conselheiro Manoel Francisco de Medeiros
conselheiro Manuel Francisco de Medeiros era bacharel da sua intelligencia e espirito lúcido ás aggremiações que se pro­
O formado em medicina e phylosophia pela Universidade de
Coimbra, antigo deputado da nação e foi governador civil do dis-
punham a um fim civilisador. E’ por isso que elle foi presidente
da Sociedade Phylantropica Luz e Caridade, Grémio Litterario
tricto da Horta. Fayalense e Secção da Sociedade de Geagraphia
Pertencia a uma das famílias mais distinctas da de Lisboa líesta ilha.
Horta, onde era muito estimado pelo seu caracter Ainda como homem publico apresentou uma
honestíssimo e impolluto. outra feição que o torna recommendavel a quantos
Exercia os logares de facultativo municipal e ainda hoje são capazes de abrir lucta e sustental-a
da Santa Casa da Misericórdia, estabelecimento de contra a auctoridade. Pois ainda no tempo em que
caridade que lhe deve importantíssima coadjuva- era ella mais prestigiosa, foi n’este campo que du­
çao. Durante muitos annos exerceu também as rante muitos annos redigiu o semanal Atlântico,
funcções de delegado de saude, em cujo desem­ que fôra fundado por um jornalista bastante dis-
penho se houve com bem reconhecida proficiência tincto, de que já hoje poucos lembram o nome e
e zelo. . o talento — João José da Graça.
Era, realmente, como homem publico, um cara­ A phase, porém, não menos sympathica do
cter integro e escrupuloso. Nas duas vezes que ac- conselheiro Medeiros, é a que elle apresenta no
ceitou o elevado cargo de governador civil d’este sanctuario da familia. Se como homem publico lhe
districto, recusou accumular o exercicio de outras podem negar alguns dos dotes e requisitos que tor­
funcções, que, a exemplo de vários cavalheiros, nariam completo um chefe de um partido, mesmo
também respeitáveis, podia simultaneamente con­ Conselheiro M anoel Francisco de M I
edeii oa
nos acanhados limites d’este pequeno districto, não
tinuar a desempenhar. concedemos que se lhe recuse inteira justiça á alta
O sr. conselheiro Medeiros foi desde 1879 o chefe do partido comprehensão dos seus deveres como exemplar chefe de familia.
progressista do districto da Horta. Educou os seus filhos; desempenhou elle mesmo as funcções de
Entrou immaculado na política. Sahiu d’ella honrado e pelos seu professor, reservando de suas múltiplas occupaçoes uma boa
proprios adversários venerado. Não obstante os seus traços cara- parte de tempo para instruir aquelles que, por mão de mestre
cteristicos de político definido, não deixou de prestar o concurso guiados, occupam já uma invejável posição na sociedade.

N- 64 5o5

DRaC-CCA
ERNESTO REBELLO
oi, como escriptor, laboriosissimo e prestou assignalados ser­ da manha. Era realmente um estudioso infatigável. A não ser este
F viços á litteratura açoriana, dedicando-se, como se dedicou, a amor pelas lettras e os seus affectos da familia, o campo prendia-o
um trabalho de investigação minuciosa de len­ mais do que tudo.
das e tradições, rebuscando antigualhas e des­ Gostava do socego e da solidão e trazia
bravando corajosamente o caminho, facilitando-o sempre gratas impressões do viver simples do
a outros que venham depois e que assim pode­ povo, cujos costumes, lendas e crenças, descre­
rão proseguir mais seguros. veu com todo o cuidado.
O fundo dos seus escriptos é uma moral Era um scismador e um solitário, o que não
singela e crente, a sua poesia é doce, contem­ quer dizer que não fosse espansivo com os ami­
plativa e de affectos serenos, achegada ao ge- gos, porque o era, e contava então cousas anti­
nero romântico a cuja escola Ernesto Rebello gas, numa inexgotavel copia de factos curiosos,
pertencia convictamente e sinceramente. muitos dos quaes se perderam com elle.
Em geral, os escriptores açorianos não são Resumindo:
exclusivamente escriptores, porque, se em Por­ Ernesto Rebello foi, como homem e como
tugal se não pode viver da penna, aqui é isso escriptor, um infatigável trabalhador, um cora­
muito menos realisavel. O escriptor açoriano ção bondosíssimo, alma crente e cheia daffe-
é, pois, por via de regra, um curioso litterario ctos para todos os seus, a quem tinha verda­
que consagra ás lettras o só tempo que lhe deira veneração e amor, poeta delicado e terno,
sobeja de outras occupações em que ganha a investigador tenaz que lega á sua patria muitos
vida. factos que trouxe para a luz, arrancando-os de
Ainda assim alguns ha que produzem mui­ archivos poeirentos e desconhecidos e colligindo
to, e n’esse numero está Ernesto Rebello, que alguns delles da tradicção oral.
deixa um numero avultado de obras não desti­ Ernesto Rebello Foi, portanto, um homem util na sua modés­
tuídas de valor e interesse, e nas quaes se en­ tia e na sua obscuridade de cargos sociaes, que
contram subsídios importantíssimos para ulteriores trabalhos. se costumam considerar altos, e um cidadão prestante, que baixou
Toda a gente, que mais ou menos privava com elle, sabe quanto serenamente á sepultura, sem levar comsigo malquerenças de nin­
trabalhava, não sendo raro estar ainda a escrever ás 2 ou 3 horas guém, mas sim pezares e saudades.

5 06

DRaC-CCA
A Escola do Padre José Daniel
uem ha ahi que, ao menos tradicionalmente, a não soubesse desvelos, diligencias, estímulos, branduras, e grandíssima e escla­

Q uma das melhores cousas da nossa terra?


Instituto de aprendizagem elementar, creditou-se logo de prin­
recida devoção.
Aquillo era um methodo sui generis, o methodo do padre José
cipio como posto inicial de muitos que, extra et intra muros, oc- Daniel.
cupam hoje logares de representação nos domínios da actividade Com que arte e habilidade e finura o auctorizadissimo pedagogo
intellectual. torcia, amoldava e affeiçoava as tenras vergonteas entregues a seu
Fechada ha annos, é ainda agora por todos rememorada com cuidado!
duradoiro e saudoso reconhecimento, a documentar eloquente e Da sua escola quiz e soube fazer uma estancia de attracções
compridamente a sua proverbial prestancia. instructivas e educativas. Porque o nosso respeitável padre foi,
Cá no Fayal, aforava-se de escola primaria de primeiras letras, além de mestre, um perfeito educador.
— escola das escolas.
Quem se dissesse discípulo do padre José
Daniel, infirmava qualquer suspeita de madra-
çaria.
Acolá estudava-se com aproveitamento, por­
que acolá se sabia instruir com critério.
E assim como a eflicacia do principio iguali­
tário da lei depende da orientação do julgador,
na apreciação da relatividade das circumstan-
cias, assim também as differentes normas de
leccionamento só logram fructificar-se compe­
tentemente accionadas.
Na acreditadissima aula da rua de Sant’An-
na, o methodo escolar desdobrava-se em tantos
aspectos quantas as idoneidades e aptidões dos
pequeninos alumnos. Mas a tão desejada unidade
na variedade informava-se na somma total dos Fayal. — Fheouezia da ribeirinha

507

DRaC-CCA
Capaci- E porque conscienciosa e sabiamente exercitou uma alta funcção
dade pro­ social, tem jus a geraes homenagens, que, em particular, se crys-
va dissima talizam em lidimo culto dos seus estudantes, que são e sempre
em diver­ serão os seus melhores amigos. Não pode, não deve, viver igno­
sos ramos rado quem, como o padre José Daniel, foi, sem alarde nem escar-
de conhe­ ceos, um dos mais fecundos influenciadores da instrucção local.
cimentos, Honra, pois, á memória do padre José Daniel, que foi dos
não desa- mais fervorosos apostolos da instrucção na cidade da Horta.
dorava ali­ Horta —1908.
geirar, co- Visconde de Borges da Silva

Capello. — Pharol dos Capellinhos

mo explicador, a tarefa lyceal dos que uma vêz


frequentaram os seus bancos. Queria-lhes muito
para que podesse repudial-os quando elles o re­
queriam.
E também os que um dia foram seus discí­
pulos queriam-lhe e querem-lhe muito, porque
elle os via, não atravez os olhos d’uma classica
e anachronica palmatória, mas pelo prisma da
sua adoravel amisade e affeição.

*
* *

Do labor afadigoso a que todo se entregava,


modestamente, sem pregões de reclamo, des-
cança hoje o exemplar obreiro. Fayai — Estrada da Praia do Norte

5o8

DRaC-CCA
Ilha do Fayal. — Estuada do Ribeiro Secco

DRaC-CCA
GARCIA MONTEIRO

asceu na Horta a 29 de ju­

N nho de 1859, sendo seus


paes José Leal Monteiro e D. Ma­
ria Joaquina da Piedade.
Muito novo ainda começou a
publicar diversas poesias nos jor-
naes fayalenses, revelando desde
logo apreciáveis dotes de escri-
ptor, especialmente no genero
satirico. Exerceu por algum tem­
po, na Horta, um modesto em­
prego publico, o qual abandonou,
pois confessava não ter vocação
alguma para a vida burocrática,
indo então residir em Lisboa.
Em 1883 regressou ao Fayal
e fazendo acquisição d’um excel- G
arciaM onteiro

lente prelo Marinoni, tornou-se o


proprietário e editor do Açoriano, cujo primeiro numero tem a
data de 9 de setembro de i883. Até ao numero 3/ foi elle o re-
dactor e typographo, vendendo em seguida o prelo e empreza do
Açoriano a Jacintho Augusto de Bettencourt. Em 10 de julho de
1884 embarcou para a America do Norte. Antes da partida pu­
blicou na sua imprensa, denominada Guttemberg, um folheto com
o titulo Versos, que contém 62 paginas e 19 poesias. Na noite de
29 d’abril de 1880 representou-se com applauso no theatro União
Fayalense a sua comedia em um acto, Sem cerimonia. O seu tra­
balho mais notável e mais recente são as Rimas de Ironia Alegre,
Fayal. —Na Ribeira de Santa Catharina versos com muita graça, filiados na escola de João Penha.

5io

DRaC-CCA
CONSELHEIRO TERRA PINHEIRO
uma das mais distinctas individualidades d’esta terra. No seu Ha muito retirado da política e quasi da sociedade, por des­
Eporte despretenciosamente nobre, como na sua conversação crença ou talvez por tedio, — sentimentos aliás justificados, — na
naturalmente captivante, revela-se o homem leitura de obras e revistas escolhidas tem
fino e culto, de educação e de saber, que entretido os seus ocios de homem rico.
mais aproveita os meios de fortuna para en­ Fez-se, agora, quasi phylosopho e quasi
grandecimento do espirito do que para re­ monge.
galo do corpo. Sahindo pouco e convivendo pouco,
Tem viajado muito e lido muito. Obser­ comprehende que é no recolhimento que
vou com rigor; commenta com critério. As está a maior ventura e a maior tranquili­
suas apreciações são vividas; os seus juizos dade, elle, que largo tempo consumiu em
seguros. Sobrio em tudo, até de palavras, contacto com varias sociedades e por varias
ninguém melhor do que elle, por uma fôrma terras do mundo.
mais concreta e clara, mais interessante e Sente-se bem assim, n’esse recolhimento
precisa, transmitte uma impressão ou conta intimo, sentindo a vida atravez as paginas
uma passagem. Sabe dar a nota do Bello dos livros e vivendo-a quasi exclusivamente
num simples traço, e fazer a critica do facto pelas recordações do passado.
n'um breve parenthesis. Ainda assim, a sympathia e a admira­
Foi político, no tempo em que só eram ção que o Fayal lhe consagra, rompe as
políticos os homens de valor. Exerceu com paredes da sua casa e entra no seu lar,
extrema hombridade e rara dedicação os n’um murmurio de affecto que muito deve
cargos de governador civil e de presidente enternecer a sua bella alma.
da camara. Em ambos prestou relevantes E é n’esse lar tranquilo que elle recebe
C onselheiro TerraP inheiro
serviços á terra, principalmente no de pre­ ainda alguns raros intimos, com quem ex­
sidente da camara, em que, com pouco, fez pande os primores do seu espirito, ainda
muito, e em que a sua generosidade, não apregoada mas latente, juvenil e fresco, como nos tempos em que brilhou em toda a sua
se manifestou numa das maiores crises alimentícias que ahi se scinctilante pujança.
deram. Horta —1908. António BaPTISTA.

DRaC-CCA
PADRE OSORIO GOULART professor da escola de ensino normal, e membro da commissão
dos Annaes do Município da Horta.
A. Baptista.
rador sagrado, dos mais

O distinctos; escriptor e
poeta dos mais apreciados. Corona Estellarum
Escreve com elegancia;
diz com sentimento. Tem ta­
lento e coração. Os cabellos loiros da Senhora
Os seus discursos são, São uma cascata luciolante,
em regra, peças perfeitas, em Onde escorrem lagrimas da Aurora,
que o rendilhado da phrase Onde estalam beijos do Levante.
corresponde justamente á ele­
vação do pensamento. Estalam beijos do Levante,
A sua exposição é mo­ Escorrem lagrimas da Aurora,
derna como o seu estylo; N’essa cascata luciolante,
não atordoa, encanta. Foge N’esses cabellos da Senhora...
da ameaça antiga e busca
convencer pela forma nova:
Estrellas que os cercaes!
Argumentos fortes e entoa­
— Diadema illuminado a pérolas sideraes —
P
adre O G
sorio oulart ção branda. Na Verdade se
O vosso brilho augusto, o vosso brilho estranho
inspira; na Arte se apoia; por
Vem do galvanismo d’esse banho
isso prende. E prender, n'este caso, é vencer.
De scintillaçoes auroreaes.
Modesto, simples, amigo dos seus amigos, benevolo para com
todos, affavel, serviçal, escrupuloso cumpridor dos seus deveres
o padre José Osorio Goulart impõe-se á estima publica, como Quem poderá beijar esses cabellos flavos?
pelo seu talento e illustração se impoz ao respeito de quantos ahi Quem poderá beber o néctar d’esses favos?
presam estes dotes. Só vós, só vós, Estrellas que os cercaes,
Pela nossa parte, desde a infancia, desde os bancos da escola, Formoso bando de alexandrinaes.
o apreciamos e lhe queremos como amigo dos mais sinceros, dos Só vós, ó Boccas incendiadas,
mais certos e dos mais illustres que temos possuído. Beijaes o Leito das Alvoradas:
O padre José Osorio Goulart, é capellão fidalgo da casa real, Osorio Goulart.

DRaC-CCA
rAseicuix) 4

DRaC-CCÁ
X
jfintiga Qasa £ertrcmd-]teá Bastos $ C
RUA GARRETT, 73 E 75-LISBOA

Gncyclopedia de flpplkações Usuaes


for JOÃO BONANÇA
Historia, Geoerapliia, Estatística, Astronomia, Physica e Chimica, Agricultura, Hygiene, Medicina pratica, Commercio, Artes, Lettras, Portugal uittoresco, etc, etc.

bivro de tudo e para todos, de immediata consulta e de incontestável utilidade

Um unico volume — Esplendidas illustraçòes


Com a diffusão da presente obra, verdadeiramenie util e indispensável a toda a gente, unica em lingua portugueza, orgulhamo-nos em poder
affirmar que um bom serviço prestamos ao publico. Para mais, tem a abonal-a o nome do auctor. E’ elle João Bonança, um dos escriptores
de mais solidos conhecimentos que enriquecem as lettras portuguezas e um investigador da mais admiravel persistência e aptidào.
A Encyclopedia de Applicações Usuaes fórma um volume portátil, repleto de noções uteis nas diversas praticas
da vida diaria. E’ um livro para ignorantes e sábios; educa uns e rememora os outros promptamente, sem dispêndio de muito tempo e
trabalho. O commerciante, o agricultor, o jornalista, o homem de lettras, o professor, o clinico, o marinheiro, o militar, o viajante, o
operário, etc, ahi encontram uma instrucção variada e solida e regras para se conduzirem na pratica dos seus misteres e nos actos da
vida publica e particular. O que apenas tiver uma educação elementar, completal-a-ha com pequeno dispêndio de trabalho, de tempo e
de dinheiro, na Encyclopedia de Applicações Usuaes.

PUBLICAÇÁO BABA TISSIMA


Cada fascículo de 16 paginas, 30 réis Cada tomo de 80 paginas, 150 réis
O volume de mais de 1:600 paginas, encadernado em pelle, custa 2$O0O réis! II

Tvp. de “A Editora” - LISBOA

DRaC-CCA
SOBRESALTOS
em ! Ahi vem o João. — Mas, de quem é que você fala?

B Que diabo me quererá o philosopho ás nove horas da noite,


quando eu começo a trabalhar ? Grave coisa traz João, a horas
—... E fugiram, os cobardes! Nem ao menos tiveram a gran­
deza de caracter de entregar o corpo á expiação dos crimes — já
mortas, á minha residência... que a alma evaporou-se em podridões, em ruinas, em misérias !
A estas horas—rebentou a revolução medonha. São os instinctos brutaes da má besta humana, crescentes, indo-
(J Fagulha anda-lhe no encalço.
João Ribas vem refugiar-se em minha casa.
Preparou o terreno, armou a populaça, e fugiu !
Não é outra coisa.

* *

— Está tudo prompto.


— Que é que você diz ?
— Que está tudo prompto. Ou, por outra, o mais
dillicil está conseguido.
— O quê ! Então, sempre é certo ?!
— E. E deixá-los trabalhar por sua conta. O fu­
turo agora parece-me risonho, encantador, estrelado.
Ha gritos de alegria na atmosphera que me cerca,
meu rico amigo! Quando disparei o primeiro tiro.
alguma coisa me disse — Avante! A realidade as­
sassinou. ..
— Quem foi que vocês assassinaram, diabos? O
que foram vocês fazer, assassinos? homens sem
coração, sem fé, sem religião, descrentes, perdi­
dos ?! Ilha do Fayal. — Cidade da Horta. — Largo de 1). C
arlos

N. 65

DRaC-CCA
maveis! Em breve, todos vocês ex­
piarão na masmorra, no presidio,
os crimes commettidos — ainda que
em quadra revolucionaria... O Fa­
gulha já deve andar perto!

*
* *

— Não percebo nada do que


você diz.
— Não percebes ? Não queres
perceber, talvez. Quando apodrece­
res nos horrores da penitenciaria,
ou quando te separarem a cabeça
do corpo — tu perceberás, João ! E
ahi que se liquidam as grandes con­
tas perante a Humanidade julgado­
ra, e perante a Historia! Fazer a
revolução de facto é seguir mau ca­
minho : mau pensamento — levara
extremos sanguinários o povo revo­
lucionado, que não reme o sabre,
nem a bala; que não ouve a cons­
ciência, nem o grito da Ordem. Os
que sublevaram o Porto, em 3i de
Janeiro, não edificaram nada; an­
tes, destruíram as boas crenças, e fortificaram o Poder. Não *
serve a revolução de facto, implicando imperícia e falta de * *
previsão nos orientadores: loucos — não veem a trave nos
olhos! — O que verão vocês, desordenados e desorientados ? Nevoa,
—!.. carvões, círculos empanados e sanguíneos ! Hão de vêr peitos cor­

5'4

DRaC-CCA
tados, cercbros abertos, corpos mutilados — em atroz espectaculo. — Mas, você falou me de assassinatos, de gritos, de que estava
Que grite a mãe, a mulher, o filho, o irmão! Não ha soccorro! tudo prompto...
emparedou-se o Sentimento! abysmou-se a Ideia! Aqui, fazem-se — Homem ! vinha eu contar-te que a realidade assassinou os
Victimas! meus sonhos negros, que se conseguiu tudo !
—! ...
— E o Ideal esfacelado: toda a Obra do Pensador inutilisada — E porque não disse você isso ha mais tempo?...
em momentos de loucura; as cadeias abertas; erguidas as guilho­ Manoel Greaves.
tinas ! Miserável resvalo ás represálias de facto, em que se não
guardam innocencias, e se não respeitam crenças, e se não prote­
gem fraquezas! Só ha um caminho — anniquilar; só um ideal — MANOEL GREAVES
a Morte!
_ i Á não é pequena a
# J bagagem litteraria
* * de Manoel Greaves:
Notas d'Aiie (1000),
— Depois, na vertigem, ha cegueira: não se calcula, nem se Vigílias (1900), De
auscultam as represálias da distancia: é só varrer, só esfacelar! O Bond (1901), e o Meu
homem é má besta — dizem os Outros, e digo eu. Sem freio — é tempo (1902); quatro
temível. Convém que o não assanhemos, assim, contra o Estabe­ volumes facturados
lecido. Bem sei que vocês não comprehendem essa gravidade, n’um espaço de tempo
esse attentado gigantesco da Revolução... Os diabos não com­ relativamente peque­
prehendem o perigo, não veem, não ouvem, despiram a vestidura no e dos quaes, como
humana: ficou só a besta! dos de poucos cama­
* radas, se póde dedu­
* * zir o seu interessante
e másculo perfil de
— Mas, a que proposito vem isso ? Manoel Greaves trabalhador da penna.
— A que proposito?! Pois você não vem da Revolução? Você Construídos com no­
não assassinou tanta gente? não destruiu o Ideal? tas varias sobre os diversos factos da vida intellectual dos nossos
— Eu venho agora de casa... Não sei se assassinaram alguém... dias, de perfis de alguns escriptores contemporâneos, modos de
__ ! apreciar a sociedade, chronica alegre sobre alguns picarescos ca­
— Não sei lá de Ideal, nem meio Ideal! sos da orgia nacional, — os livros de M. Greaves deixam-nos bem

DRaC-CCA
dispostos, resultando isto da maneira como elle faz resaltar o
Facto, o Homem ou o Livro, por uma simples linha da sua prosa
elegante, duma construcção original, sem arrebiques de innocen-
tes figuras, nem redundâncias ocas e banaes.
Uma das melhores qualidades d’cste meu camarada, — quali­
dade que resumbra das paginas dos seus livros, é a franqueza com
que diz as coisas; porque eu creio que, quando elle falia com be­
nevolência, (esta benevolencia que todos nós algum dia temos para
com certos estafermos) é sincero.

Seguindo as pisadas de Silva Pinto — Manoel Greaves é já


n'este momento um escriptor dotado de largas faculdades de cri­
tico, contista e poeta nas horas que os seus trabalhos de autopsia
social lhe deixem livres.
Nos bocados de prosa que ha escripto sobre o seu torrão, im­
pregnados da natureza açoriana, vê-se bem uma modalidade do
seu temperamento: a emotividade, que transparece também nos
raros versos que ha deixado nas columnas de algumas publica­
ções, encoberto pelo pseudonymo de Narciso Rosado. Comtudo, é
como critico que a personalidade de M. Greaves mais se destaca,
no mare magnuni dos novos publicistas. Pessimista e sarcasta,
por vezes, M. Greaves falla-nos d’um futuro melhor: é então que
a sua penna — que lembra afiado bisturi — revolve a sociedade
contemporânea e anatomisa as suas complexas doenças, os seus
egoísmos, as suas torpezas e os seus crimes, do mesmo modo que
os phisicos nos corpos das adoentadas gentes. E um revoltado,
um descontente do meio e, assim, a causa dos espoliados e dos
desherdados, — de todo o proletariado, — merece-lhe especial cui­
dado.
Gonçalves Dias. Ilha do Fayal. — Ribeira dos Flamengos

5i6

DRaC-CCA
MANOEL JOAQUIM DIAS PADRE LEAL FURTADO

epresenta, este nome, uma ntre as quatro paredes da sua modesta casa da rua de Jesus,

R das mais poderosas men­


talidades fayalenses, um dos E onde systematicamente se isola do mundo, para poder viver
mais proximo de Deus, este padre exemplar e grande homem de
talentos que mais pujante­ bem, passa uma existência quasi collocada fóra da humanidade
mente se tem affirmado, ulti- pela energica e violenta paixão da caridade, que arde constante­
mamente, como poeta, nas mente no seu espirito e no fundo do seu ser. E ouvidor ecclesias-
lettras açorianas. tico, predomina no clero da ilha; mas, na sua humildade evangé­
A afiançar esta asserção, lica, na simplicidade do seu coração, a essa supremacia oílicial,
ahi está o seu livro — Apo- por gosto da virtude, talvez preferisse ser um voluntário da misé­
theose Humana, que é a his­ ria, como Labre, uma especie de Diogenes christão. E a suprema­
toria da humanidade, nas suas cia moral que o impõe ao nosso respeito e á nossa estima. Não se
varias evoluções progressivas. accommodam os tempos agora
desde o seu nebluso inicio até com a grandeza c o desinteresse
ao presente, marcando com de tal milicia de mendigos do céo.
arte as mil étapes da marcha Que importa! Se elle tem a alma
gloriosa do homem. cheia do amor de Deus, que orde­
Falar d’este livro, é apre­ M J
anoel D
oaquim ias nou aos homens a mortificação e
sentar o auctor, em toda a a pobreza! A fonte da sua cari­
grandeza do seu talento; porque, se outros cerebros de insulanos dade nunca se esgota. A sua mão
produziram obra de maior vulto, como Anthero e Theophilo, es­ direita, com ignorância da esquer­
ses. largaram o torrão natal, foram robustecer-se n’outro meio, na da, dá tudo, ás vezes metade da
convivência com gerações de sábios e de artistas, perto dos livros capa, como S. Martinho. E assim
e junto do embate das ideias. que a sua predicação de exemplo
Manoel Joaquim Dias, não; nunca largou a sua terra, a pe­ é tão eloquente com os seus ser­
quena ilha do Fayal, sequestrada, pela immensidade das aguas, mões mais eloquentes. Quando o
do convívio dos centros onde a ideia cria forma, se materializa, ad­ padre José Leal Furtado préga e
quire azas e desfere vôo, por entre os apupos da troça ou as aconselha, como velho e born pas­
ovações da consagração. tor, não se pode dizer: «Morali­
O seu livro, por isso, mais o ergue no conceito da gente culta. P I.
adre F eal urtado dade de Frei Thomaz. ..»

5>7

DRaC-CCA
ANTONIO DE SOUSA HILÁRIO
omquanto nao nascesse no Fayal, pela longa permanência que, vra sua, dedicado á Santíssima Virgem das Angustias, impresso
C desde creança, aqui tem tido, aonde estudou e aonde reside,
pode considerar-se como de casa.
na typographia Fayalense.
Isto deu então muito que falar, pela novidade do facto, mas,
Nasceu no logar do Norte-Grande, ilha emfim, o sr. Hilário, que era da Junta de
de S. Jorge, a 10 de dezembro de 1841. Fo­ Parochia, lá saberia as razões do seu pro­
ram seus paes Hilário José de Sousa e D. cedimento, e se a doutrina era boa, sã e
Maria Delfina da Conceição. adquada á festa religiosa que se effectua-
Vindo em tenra edade residir com sua va, entendeu-se que com o seu sermão não
mãe para a cidade da Horta, aqui cursou pereclitava pessoa alguma.
com muito aproveitamento as disciplinas do Foi proprietário e redactor do semana-
Lyceu Nacional, sendo nomeada official da rio O Direito Popular, que existiu desde
bibliotheca d'aquelle estabelecimento littera- 1879 a 1881.
rio. por carta regia de 27 de setembro de Apreciáveis qualidades de cidadão estu­
1866, e servindo esse cargo até janeiro de dioso e trabalhador tem sempre revelado o
1879. o sr. Antonio de Sousa Hilário.
Collaborou assiduamente nos semanários Homens, como este, quando assim, por
O Fayalense, O Atlântico, Verdade e Im­ tão longo periodo de tempo, ligam o seu
parcial, de que foi redactor, e geralmente nome a uma terra, e n ella e por ella tra­
os seus substanciosos artigos eram firmados balham com amor, afincadamente, bem se
com a inicial H. pode dizer que d’ella são filhos e bem
Em 1876 publicou um livro com o titulo pode essa terra orgulhar-se de ter mere­
Educação Paterna, dedicado ao 1.° barão cido as honras de ser assim tão querida por
de Roches, e mais tarde um outro trabalho elles.
consagrado á instrucção primaria. D'ahi a grande estima e apreço em que
No dia 9 de maio de 1875, por occasião de uma festa religiosa os fayalenses teem Antonio de Sousa Hilário.
na parochia das Angustias, suppriu a falta de prégador, mandando
distribuir pelo atrio do templo e outros logares, um sermão de la­ (Das Notas Açorianas).

518

DRaC-CCA
O POCO DAS AZAS
4

assim denominado, na ilha do Fayal, um ninho de verdura e A denominação d’aquelle Poço causava-me certa curiosidade e
E flores, uma formosa gruta, contendo no seu limitado seio um por varias vezes tratei, ainda que infructiferamente, de obter al-
deposito natural de crystalina agua, circundado
de arvoredo, nos mattos do Chão-frio, na fre-
guezia da Praya do Almoxarife.

Apesar da amenidade d’aquelle sitio e das


muitas bellezas que encerra, raras vezes, devido
talvez á distancia em que fica, é visitado pelos
habitantes da cidade e apenas algum caçador
bate o matto visinho, ali descança alguns mo­
mentos.
*
* *

Ao sol posto, na hora em que vários bandos


de galinhoias selvagens veem no Poço das zdçizs
mitigar a sêde, é encantador o panorama que
d’este sitio descortinamos: uma planície im-
mensa perfumada com o acre e saudavel cheiro
das plantas do matto, cortada a oeste pelo as­
pecto profundamente severo da gigantesca lom­
ba do Stafoneiro, que se vae, muito ao longe,
perder no interior da ilha.
Fayal. —Na estrada da Ribeirinha

3I9

DRaC-CCA
guma explicação a semelhante respeito. Uma vez, porém, n’uma Poço, contendo na sua superfície algumas pennas brancas, como a
explendida noite de estio, achando-me por aquelles mattos, quando geada, o que desde então muitas vezes acontece.
o meigo clarão da lua vinha espelhar-se tranqui liam ente no pe­ Dos assassinos, dois fugiram, emquanto que o terceiro, ralado
queno lago, perguntei a um ancião do logar qual a origem de se­ de remorsos, dentro em pouco enlouqueceu e vinha quasi diaria­
melhante nome. mente sentar-se n’estas pedras, fitando horas e horas- consecutivas
— Foi uma historia triste — respondeu-me o velho; — ainda me a superfície d’essa agua, no fundo da qual parecia buscar o quer
lembro de meu pae, quando eu era creança, muitas vezes, ao se­ que fosse.
rão, fazer-nos essa narrativa. Aquelles que passavam, dizia que viessem vêr as pennas cahi-
* das das azas de um anjo, que ali estavam á tona d’agua, e accu-
* * sando-se do seu crime accrescentava que a camponeza quando
fôra morta trazia no seio uma creança e que o anjinho, ao despe­
Havia, segundo parece, nesta povoação, uma formosa e mo­ dir-se dolorosamente da vida, havia deixado cahir algumas bran­
rena rapariga, á qual não fal­ cas pennas das azas na super­
tavam requestadores, mas que fície da agua.
infelizmente já tinha dado cor­ Tornou-se então legendá­
po e alma a um fidalgo da villa, ria a narrativa do louco e é
que em determinadas noites por isto que, ainda hoje, cha­
vinha occultamente aguardai a mamos a este sino, o Poço
n’este sitio. das Aças.
Descobriram os malogra­ Ficou-me bem impressa na
dos amantes o mysterio d’a- mente esta simples historia,
quellas nocturnas entrevistas contada pelo camponez, e ali,
e uma noite, acontecendo que muitas vezes, tenho pensado
a rapariga já aqui se achava n’aquelles infelizes amores,
sósinha, esperando o seu apai­ entre os quaes se divisa o sor­
xonado, elles a assassinaram rir immaculado dum anjo, as­
barbaramente. cendendo para a celeste mo­
No dia seguinte, de ma­ rada, sem ao menos ter á par­
drugada, quando a gente da tida um derradeiro e saudosis-
povoação veiu buscar agua, simo beijo materno.
encontraram o cadaver da Ilha do Fayal.
camponeza e bem assim o F .—E
aval grem dos Cedros Ernesto Rebeli.o.

520

DRaC-CCA
DRaC-CCA
Gcrscr Tjertrand- José Bastos £ C.a
RUA. G-ARRETT, 73 E 75 — LISBOA

Cncyclopedia de Hpplkações Usuaes


por JOÃO BONANÇA
Historia, Geograpliia, Estatística, Astronomia, Physica e Ckimica, Agricultura, Higiene, Medicina pratica, Commercio, Artes, Lettras, Portugal pittoresco, etc., etc.

bivro de tudo e para todos, de immediata consulta e de incontestável utilidade

Um unico volume - Esplendidas illustraçòes


Com a diffusão da presente obra, verdadeiramente util e indispensável a íotla a gente, uniea em língua portugueza, orgulhamo-nos em poder
affirmar que um bom serviço prestamos ao publico. Para mais, tem a abonal-a o nome do auctor. E’ elle João Bonança, um dos escriptores
de maissolidos conhecimentos que enriquecem as lettras portuguezas e um investigador da mais admtravel persistência e aptidão.
A Encyclopedia de Applicações Usuaes fórma um volume portátil, repleto de noções uteis nas diversas praticas
da vida diaria. E’ um livro para ignorantes e sábios; educa uns e rememora os outros promptamente, sem dispêndio de muito tempo e
trabalho. O commerciante, o agricultor, o jornalista, o homem de lettras, o professor, o clinico, o marinheiro, o militar, o viajante, o
operário, etc., ahi encontram uma instrucção variada e solida e regras para se conduzirem na pratica dos seus misteres e nos actos da
vida publica e particular. O que apenas tiver uma educação elementar, completal-a-ha com pequeno dispêndio de trabalho, de tempo e
de dinheiro, na Encyclopedia de Applicações Usuaes.

PUBLICAÇÃO BARATÍSSIMA
Cada fascículo de 16 paginas, 30 réis Cada tomo de 80 paginas, 150 réis
O volume de mais de 1:600 paginas, encadernado em pelle, custa 2$O0O réis!!!

Typ. de "fí Editora" — LISBOA

DRaC-CCA
BARAO DE SANT ANNA (RODRIGO)
escendente d’uma das principaes famílias fayalen- balado da musica, na doçura perfumada do gracioso circulo de
ses, occupava entre nós logar escolhido, e tinha o flores feminis em torno... Deixando-nos, indo para longes terras,
seu nome fama respeitada. De illustração aprimo­ talvez para nunca mais aqui voltar, quantos d’elles, quantos guar­
rada, caracter bom e serio, sabendo como poucos daram inolvidavelmente no intimo bellas impressões — impressões
salientar-se e captivar pela fina affabilidade do seu que nunca mais se apagam, porque, como todos os adoraveis mo­
trato, da sua conversação espirituosa, da sua ma­ mentos da vida, ficam gravadas bastante fundo, doirada e harmo­
neira distincta de receber, distincta em correcção e singeleza, deixa niosamente, no espirito, no coração!...
uma lacuna bem sensível, quiçá não facil de preencher, pois era Não é pouco isto, vem de alguém, pela sua liberalidade e pela
ainda um dos raros que conservava illesas as nossas cavalheires­ sua gentileza, illustrar o nome e elevar a créditos dignos a fama
cas tradições de outr’ora, que as sabia manter, hospitaleira e fidalga d’uma terra, fazendo com
representando-nos mui brilhantemente aos olhos que, aquelles que a visitem, d’ella se não esque­
de estranhos. çam, d’ella evoquem a lembrança, sob a subsis­
E assim se tem ido desfolhando, n’este pobre tência saudosa de gratas recordações.
meio, a gentileza, o franco e delicado espirito de Tinha a commenda da ordem de Christo, e
sociabilidade! possuia, concedidas pelo governo francez, em re­
A todos se abriam affectuosamente as portas compensa de serviços prestados, as palmas de
das suas salas; — e, dos muitos navios de guerra official de instrucção publica. Além de presidente
estrangeiros que aqui aportavam, e de cujas na­ da camara, foi governador civil substituto e fez
cionalidades era cônsul, n’ellas a officialidade tinha parte de diversas corporações locaes.
pleno acolhimento, encontrava uma fidalguia ge­ Era agente consular de França, vice-consul da
nerosa, de braços que se abrem offerecendo o que Rússia, da Dinamarca, da Suécia e Noruega, e
de bom possuem. Esses homens afeitos á solidão, representante de diversos bancos e companhias
caminhando em luctas continuas com a rudeza de seguro.
dos elementos, por noites negras, batidos pelo Regia no nosso lyceu, desde dezembro de
vendaval e pelo mar enfurecido, colhiam alli ca­ 1888, a cadeira de inglez, em que havia sido
ridosas horas de repouso, entre luzes e risos provido por concurso.
amaveis, no voltear das danças levadas pelo em­ B
arão de Sant’Anna Marcellino Lima.

N. 66 521

DRaC-CCA
MOISÉS CONEGO SILVA REIS

(Do livro Apotheose Humana)


a que an-
Moisés, octogenário, ia com passo incerto,
Curvo a um cajado tosco, a custo, no deserto,
Das tribus de Israel o povo conduzindo.
H nos o co-
nhecemos na
Sentou-se n’uma pedra; a tarde ia caindo;
vigararia da
A luz do sol obliqua a barba lhe doirava. Praya do Al­
Em seu olhar profundo ainda scintillava moxarife ! Era
Sua alma luminosa. Outr’ora junto ao Nilo um rapaz quan­
Elle fascinaria ingente crocodilo, do alli se col-
Tal como fascinou do Pharaó a filha.
Pediu de beber; chegaram-lhe a bilha
lou; hoje é um
A bocca sequiosa. Então, erguendo o braço, velho; mas um
Apontou ao poente. O luminoso espaço velho com a jo­
Era puro de azul como um enorme espelho. vialidade, a ro­
«Já longe, ó filhos, diz, nos fica o mar Vermelho; bustez, a fres­
Recusam-se meus pés a andar n’este deserto:
A hora se avisinha; eu sinto-me já perto
cura, quasi, do
«Da grande eternidade. Ao cimo d’esta serra rapaz d’outr’o-
«Ajudae-me a subir; verei de longe a terra ra. Um velho
«De Chanaan refulgir ao meu olhar já fosco; que encanta os
«As aguas do Jordão não passarei comvosco.» novos e causa
Então, subindo ao monte, ao expirar do dia,
Sentiu passar-lhe na alma uma ultima alegria
Conego Silva Reis inveja aos ve­
E os braços estendeu na direcção do Norte. lhos.
«Filhos, continuou, antes que chegue a morte, Algarvio de nascimento e d'origem, atravez dos annos e do tor­
«Acercae-vos de mim; ouvi o meu conselho; por açoriano, tem conservado inalterável todo o caracteristico d’a-
«Gravae bem na memória a falta d'este velho quella raça forte. Activo, loquaz e generoso.
«Que, desde o Egypto aqui, foi vosso companheiro
«E padeceu comvosco a dôr do captiveiro:
Com os seus setenta annos puxados, o conego Feliciano Anto-
«Sois irmãos; como taes amae-vos n’este mundo». nio da Silva Reis é ainda o prototypo do padre moderno: correcto
E Moisés expirou. Um sentimento fundo e culto, crente e tolerante; trajando bem, dizendo bem, fazendo
Cortou os corações; as lagrimas cairam, bem. E um bello padre. Assim conquistou a estima geral.
E as tribus de Israel, a soluçar, partiram.
Manuel Joaquim Dias. A. B.

522

DRaC-CCA
VISCONDES DE BORGES DA SILVA
ela sua situação política e so­ Em todas as manifestações do
P cial, pelo seu caracter e pelas
suas relações, occupa, osr. visconde
progresso, em todas as commemo-
rações patrióticas que a Horta tem
de Borges da Silva, logar distincto celebrado, ou onde seja preciso o
ao lado dos seus patrícios, que mais seu auxilio pecuniário, que a sua
se teem dedicado ao engrandeci­ fortuna pessoal largamente lhe per-
mento e aos progressos materiaes e mitte prestar, apparece sempre, en­
moraes da terra natal. tre os mais enthusiastas e mais de­
Extremamente obsequiador e dicados, o nome do sr. visconde
affavel, põe sempre o seu alto va­ de Borges da Silva.
lor e reconhecida influencia ao ser­ D’ahi a estima de que geral­
viço dos seus conterrâneos. mente gosam, tanto o sr. visconde
A villa das Lages, da ilha do como sua ex.ma esposa, que a uma
Pico — patria da sr.a viscondessa e grande bondade de coração allia
seus illustres ascendentes — tem uma extrema gentileza de trato —
merecido a sua ex.a particular e os caracteristicos da nobreza an­
desvelada attencão. Viscondes de borges da Silva tiga.
Ainda ha pouco, a municipali­ Em caza do sr. visconde de Bor­
dade lagense, querendo dar um publico testemunho da gratidão ges da Silva recebe-se sempre fidalgamente, com requintes d’uma
d'aquelles povos aos nobres titulares, pela generosa doação de ter­ amabilidade que encanta.
renos, no logar de Santa Catharina, para o cemiterio da villa,— O sr. visconde é uma d'estas figuras insinuantes, que sabe fa­
o maior e melhor da ilha — deu o nome do sr. visconde de Bor- zer com que não mais o esqueça e sempre d’elle guarde grata re­
ges da Silva á rua de S. Francisco, na sede do concelho. cordação, quem, uma vez que seja, com elle tenha tratado.
Em differentes cargos públicos, de commissão e de eleição, Bastos titulos, pois, o impõem ao respeito e ao amor dos seus
tem o sr. visconde affirmado as suas óptimas qualidades de espi­ conterrâneos, em cada qual tem o sr. visconde um amigo.
rito e a sua acção sempre criteriosamente orientada e impeccavel- E assim, toda originada pela bondade, que se creou a reputação
mente dirigida. d'esse filho illustre da terra fayalense.

523

DRaC-CCA
IMPRENSA FAYALENSE
ornaes publicados no Fayal desde 1887 até dezembro de 1906: 1896; Sal e Pimenta, semanal, 1895-1896; Correio da Semana,
J A Borboleta, semanal, 1887-1889; A Folha Insulana, sema­
nal, redactor José Machado de Serpa, 1888; A Verdade (2/),
1896-1897; A Revista Fayalense (i.a) quinzenal, publicada pelo
extincto Gymnasio Club, 1896; O Globo, diário, redactor principal
semanal, 1888-1889; O Açor, diário, director Olympio Labath, José Maria da Rosa, 1896-1899; O Occidente dos Açores, quinze­
1889-1892; O Arauto, semanal, redactores, Antonio Baptista, Mar- nal e depois semanal, redactor principal Manoel Greaves, 1897-
cellino Lima e José Filipe da Graça, 1889-1892, O Torpedeiro, 1898; A Revista Fayalense (2.a), semanal, 1898; O Proscénio, se­
semanal, redactor Antonio Baptista, 1889-1890; O Debate, sema­ manal, redactor principal Humberto Correia, 1898-1904; O Atlân­
nal, redactor José Maria tda Rosa, 1889; Actualidade, redactor tico (2.0), diário, redactor principal Manuel Greaves, 1898-1899;
Antonio Baptista, 1890-1891; O Recreio (2.0), semanal, redactor A Regeneração (2?) bi-semanal, redactor principal José Cândido
João Pereira Forjaz, 1892-1894; A d’Avellar, 1900; Lettras, quinze­
Chronica, semanal, redactor An­ nal, redactor principal Euclides
tonio Baptista, 1891-1892; A Pri­ Costa, 1900; O Fayalense (2.0) se­
mavera, semanal, 1892; Vida No­ manal, publicação do Grémio Lit-
va, semanal, 1892; O Fayal, se­ terario Fayalense, 1900; O Sécu­
manal, redactor Antonio Baptista; lo XX, semanal, 1901-1902; O
O Telegrapho, diário, existente, Açoriano (3.°) semanal, redactor
1893. Teve como redactores prin- principal Manuel Emilio Thomaz
cipaes, em períodos diversos, An­ da Silveira, igoí-igoõ; O Porto
tonio Baptista, padre Manoel José da Horta, semanal, redactor prin­
d’Avila e Manoel Greaves. cipal Osorio Goulart, 1902; O Po­
O Muséo, semanal, redactor pular, semanal, redactor principal
José Filippe da Graça, 1894; O Manuel Emilio Thomaz da Silvei­
Correio Hortense, semanal, 1804; ra, 1902-1903; Jornal Açoriano,
A Discussão, semanal, 1894; A Es- semanal, depois diário, acabando
tudantina, semanal, 1894-1895; O em semanal, redactor principal Ma­
Açoriano, (2.0) diário, redactor, nuel Greaves, 1903-1906; O Faya­
principal Florencio Terra, 1896- Palacio
deS 'A
ant .—P
nna ropriedade do dr. Manuel Francisco Neves J
únior lense (3.°) diário, existente, 1906.

524

DRaC-CCA
0 FAYALENSE DIÁRIO DA MANHAN ANT0N10 BAPTISTA

ÀMO 49.’ — \uiucro H6 |5.’ serie) Domingo. 16 «Ir dezembro de 1906 Redaclor-fdilor — Ãnlonio Baplisla

b.ra costureira, a »< «vai -utos mentos frios e em pouco uns sto não é o caso do
O retrato do dr. Xavier i
I
n *ntadcrxt, de roseo» dedos tinos • b-Xis dias
* mais amigavei» Depm«.
e -lelÃtados, "»m umas mios patre sucederam uns breve» dialogo» ba-
cia» nacsl r por fim a declararão de a — amor com amor
de Mesquita T-lo modesta como Unda Um
tudo nada *coquenc, náo a eokia
vam galanceibs Bem peto contra­
irar do poeta c a do estudante a
medo e em adorsçáo
Ouviu os ella com intenção egual. se paga. Não: é um
rio Mas qual o preferido, nem mesmo
Perdóí me o illu»tre clinico Fu em vmte e tantos annos de reto pro II ella o saberia dizer O que i certo
é que desde então ficaram rodos ensejo que se me offe-
>a que hoje. mau do que nunes. fissional e abnrqaçío evangehca Endoudectam por ella tudo» os tres amigos
incorto no seu desagrado; mas não
pude revivnr a tentação
Ahi vae o retrato, sem mai» na que a viam, fosse uma vez somen Agora esperavam na os dois na
escada Acnbot subiam a trapeira e
rece, e que eu gosto­
Quando ha tre» anãos andava ahi assim faltavam com ella A porta do
na fama de colhe
* elementn’ para
seu quarto. Finda a conversa, vol­
tavam o» dois apaixonados
samente aproveito,
o «Álbum Acor>ano>. deparou te­ Lmo dizendo
me um dia. n uma das casas mais — Esteve hoje mats amavel cocn-
migo Pobre Florencio'
para dizer aos outros
nobres d esta terra, o seu rftrato
E Florencio
•Namoret-o
* ummomento. aproti-
mindo-o e afastando o da mta. pro- —Com certeza sou eu o feliz Po­ o que d’elle penso.
bre Ltno'
p*c;andofbe a lua Acabei por V
pedil-o 1 veneranda e distincu Se Por vezes ouando o estudante re­
E penso isto: que
nhora que me "fizera a honra de cebia a mezada, o poeta a impor
receber tancia d alguns versos ou de qual­
quer noveila, e a costurara a féna,
Antonio Baptista é, na
Recusou mo. aliegando o lustifi
ceias-im juntos, os ires, no «Flor
cado receio «de contrariar o dou
tor. de S- Roque». sua terra, uma das
Nunca, -«pesar das supplicas ar­
>.-£ k n 9 roubasse ’
Eito ecicolbeu os hombros, sor-
dentes de Lmo e Florencio consen­
tira em cciar a sôs cotn qualquer organisações mais
rmdo benevolamente dclle
*.
com o ccUâto atopard-do VI amoldáveis a todos
no bolso interior do fraque Alegre como uma toutinegra, co-
coroo uma toutinegra a rapariga
Ninguém soube do Ragicio A
bondosa Senhora caiou-se. relevou cantava infallivelmcnte ao levantar- os generos em que,
se para ir para o trabalho, com
mo. certamente, pela pureza da in­
tenção Eu sinto, porém, um cer­
uma voz harmoniosa, perolada, de
liciosamente sã pela penna, o talento
to aliino em confessai o
Mande, fazer a photogravura pa
ra u «Album». e enviou m a ha pou­
No coração da mulher.
Por mais íno que toca. se pode manifestar.
Ha sempre calor bastante
co. com outras, a casa Editora, afim
de orgaonar a maqueta do primei­
Para aquecer a desgraça. Jornalista de com­
ro fascículo referente ao distncto E a sua alegria matutina era jâ
da Horta DR XEATÔR AUGUSTO XAVIFR DE MESQtTTA bem conhecida na casa.
• * •
bate, já em Lisboa,
Tis-e então a ideu de a publicar Agora, porem havia o quer que
*.
no 'Fayaicasc tambem. N um jor
nal oe lucia Cma inconveniência, da. Pcrdde me o generoso medico te. Dois homens sobretudo a ama fosse que a preoccupav». tornando-
a pensatm O seu rostinho gaiato
em jornaes de idéas
o egoísmo. vam, perdidos Lmo de Magalhães.
talvez Hectei.
■ Mas não pude resistir A tenta­ Vou ter hote o prazer exquisrto um poeta, e Florencio Telles, um
estudante Rtvacs no amor, e»t ma-
empanava-se lhe n uma ligeira som­
bra — prompto dissipada •- como avançadas, patenteou
ção. de náo encontrar olhares hostis. vam «c como irmãos. se tristonho pensamento lhe mor­
Tenho desagradado a tanta gen Moveu me simplesmente o desejo
de saborear este remanso cm dia
Eram ambos pobres, como Mana
moravam todos no mesmo prédio.
desse o espirito
VII
OS seus méritos ; e no Antonio Baptista
te . A uns. porque aconteceu elo- Florencio num quarto do segundo
g.u os que lhe são adversos; a ou
rros. porque Ȓiu a talho de foice
santificado. — que a admiração c o
reconhecimento, para com homens andar. Lino num do terceiro e M.i
na da Graça na trapeira. dia
E elles disseram lhe um bello Fayal, onde fundou,
censurar os que lhes são aflectos. como o dr. Nestor Augusto Xavier O primeiro, e»se. era occupado —Mana, cciarcmos juntos ama­
Sou um impulsivo; náo posso calar de Mesquita, náo se expressam em E,um banqueiro, viuvo e nco,
chupado, em arco e sem den
nhã.
F ella. após um silencio respon­
dirigiu e redigiu vários periódicos, tem prestado, e presta ainda,
impressões Afinal, desagrado a to­ palavras, guardam-se no fundo do deu
da a gente coração.
Ãnloiia
te». Tambem fazia olhos ternos a
pequena, sem nunca lhe ter faltado. — E’ preciso acabarmos com isto.
Amam me ambos e atpbos me a^
bons serviços á sua terra.
E dominou me. de súbito, a an- María na»se d'aquella feialdaae. d'
gradam. Preciso escolher. Amanhã
oa estranha de a todos — a todos !
— agradar um dia—um dia ape­ Ima historia lisboeta
aquela cara, n uma palavra, escar
necia-o . ceiarei só com um.
Ambos se fizeram horrivelmente
Temperamento de revoltado, elle assusta, pela audacia das suas
nas 1 III pallidos. Ella proseguiu.
A unica maneira de obter sal ef- A Rapoeo de Oliveira.
Resta a sobroloja. Devoluta ao
tempo, ninguém a occopava.
—Não vejo motivo» de preferen­ doutrinas, o convencionalismo burguez do meio.
feito era esta: dar no «Fayalense. cia, a sympathia que lhes tributo é
o retrato do dr. Nestor Augusto
Xavier de Mesquita
I

Chamava se Maria da Graça. Era IV egual. Decidam-se. Façam valer os


rtus direitos. Empreguem toda a Trabalha, por igual, com arte e amor, o drama pungente, que
loira, tão loira como uma gavela Todas as manhãs levantava se sua eloqdencia e, .< hora d> ceia, a-
Só assim, a todos, podia agredar
d uma vez; — porque todos o res­
de trigo de ha muito ceifada. Olhos
azues laoçndos, extraordmariamen
Maria da Graça âs seis e meia. Lt
no c Florencio adivinhavam na, a
companharei... Ate lã náo lhe’
concedo entrevista alguma. Vão pa­ arranca lagrimas, e a comedia jocosa, que faz esfuziar a garga­
peitam e amam, pelo muito que va­ te doces. Nunca conhecera a famí­ vestir-se alegre e ligeira. ra os seu» quartos, escrevam o que
le e peto muito que lhe devem. lia, nem delia ouvira fallar Era
simplesmente Mana da Graça-
A s sete sahia para a modista e
só As 8 da noite voltava. *
lhe parecer mais tocante, roais con­
vincente. Logo pela manhã entre­
lhada.
Pncnores de talento e de cara- Pobre, trabalhava para levar a Conhecera os dois amigos na es­ guem me »s cartas. Lerei c resol-
cter, sempre vividos, refulgentes, vida. cada. A principio, meios cumpri- verei. Tenho dito.

«O Fayalense». — Fundado em i85? pelos drs. Miguel Street d’Arriaga 5a5


e José Affonso Botelho d Andrade

DRaC-CCA
Peças d’elle se têm representado, no theatro da Horta, com E creio que mais não será preciso para se vêr que isto não
invejável successo. Representadas por amadores, é Antonio Ba- é o caso do — amor com amor se paga, mas um simples acto de
ptista, amador também, e muito habil, dos que mais se têm dis­ justiça prestado a quem, pelo seus talentos, a ella tem incontes­
tinguido no seu desempenho. tado jús.
Contista, ahi está o seu recente livro Em flagrante, a eviden­ Lisboa, 1908.
ciar bellas qualidades de delicado artista. Raposo de Oliveira.

526

DRaC-CCA
DR. GABRIEL SAMORA MUNIZ
ntre os homens de bem que ahi viveram, na ultima metade do O seu primeiro cargo publico foi o de administrador do conce­

E século passado, destacava-se o sr. Gabriel Samora Muniz. En­


tre os fayalenses mais illustres do nosso tempo, avulta o sr. dr. Ga­
lho da Horta, o qual exerceu com extraordinária independencia e
correcção. Repugnando-lhe, sem duvida, os dualismos e transigên­
briel Samora Muniz. O pae foi chefe de familia cias da política, abraçou a carreira da magistra­
e cidadão exemplar; o filho é modelo de esposos, tura, em que tem brilhado pelos seus juizos cla­
de filhos, de irmãos — e de magistrados; teve ros e rectos.
outro destino, mas obedece ao mesmo principio Foi delegado do procurador régio nas Flores
d’honra, de nobreza de sentimentos. e no Pico, onde bem serviu a Justiça, merecendo
Não tem filhos o sr. dr. Gabriel Samora Mu­ o conceito unanime dum dos primeiros delegados
niz; mas o carinho com que os cobriria, se Deus do paiz. Depois, foi successivamente juiz das exe­
lh’os houvesse concedido, não é desperdiçado: cuções fiscaes no Funchal e Angra, e juiz de di­
divide-o em partes eguaes, rigorosamente equita­ reito em Villa Franca do Campo. Em toda a
tivas, pela esposa, pela mãe e pelo irmão, res­ parte, como funccionario e como cavalheiro, go-
tando-lhe ainda, no fundo d’alma, muita benevo­ sou da maior consideração e deixou profundas
lência para os que erram e muita compaixão para sympathias.
os que padecem. Coração douro resumbrando Por morte do sr. dr. Julio Pereira de Carva­
dum aspecto grave, que infunde respeito e ao lho e Costa, foi collocado, em commissão, no lo-
mesmo tempo captiva pelo fogo do sentimento gar de procurador régio, fazendo-se notar pelos
trasbordante! seus trabalhos jurídicos junto da Relação dos Aço­
Em Coimbra, onde deixou nota de estudante res, e como chefe tão disciplinador quanto amigo
consciencioso, seguro, sendo sobremodo estimado D . G
r abriel SamoraM uniz dos seus delegados.
por toda a Academia, desde o primeiro lente ao Magistrado sabedor e integro, correcto e leal,
ultimo «caloiro», viveu o sr. dr. Gabriel Samora Muniz em cama­ bondoso e justo,"o sr. dr. Gabriel Samora Muniz, honra a magis­
radagem intima com a «elite» inteilectual do tempo: Carlos Lobo tratura, honra a humanidade — honra a terra em que nasceu.
d'Avila, Thomaz Pizarro, Luiz de Magalhães, Eduardo d’Abreu,
Jacintho Cândido, etc., e foi sempre dos corpos gerentes do «Club
Académico» e da «Associação Académica». Antonio Baptista.

DRaC-CCA
DR. EDWIGES GOULART PRIETTO
lma aberta a todos os nobres sentimentos, possue a consa­ passou sem um unico desaire, sem um desfallecimento, sob a ado­

A gração de quantos o conhecem, tal o préstimo de que é


capaz e o enorme prestigio que, só porjsi e pelo proprio traba­
ração de condiscípulos e contemporâneos.
Apesar da epoca tumultuosa em que cursou a Universidade,
lho, tem conquistado. de 1890 a 1895, n’um verdadeiro temporal de chumbos, poude
Temperamento apaixonado e viril, duma forte organisação arrostar com triumpho os odios e rancores dos lentes, que pomba­
verdadeiramente máscula, energico e activo^em extremo, não o linamente cevavam as suas iras, quer nos alumnos partidários da
intimidam ataques de adversários nem as infecçoes perniciosas da greve, quer nos indifferentes, aproveitando o dr. Edwiges esse
hydra roedora da inveja. fatal anno, para si o 2.0, não obstante os ataques
Cerebro magnifico, duma memória tenacís­ formidáveis do, então terrível, Guilherme Morei­
sima, ao serviço de lúcida intelligencia, a sua ex­ ra. E assim, até ao final do quinto anno, orientou
traordinária retentiva aponta-o um repositorio util a sua carreira por forma que obteve os louros
de profundo saber, methodicamente architectado, da Universidade unanimente, tendo sabido até
verdadeiro arsenal jurídico, prompto a patentear- hoje corresponder ao mérito obtido. Nunca teve
se e resolver as mais difficeis e complexas ques­ senão amigos nos condiscípulos e contemporâ­
tões de jurisprudência. neos, com uma vida exemplar, modelo completo
Bondade sem par, modéstia sem limites, o seu de sensatez e de probidade.
juizo imparcial e severo imprime ás suas conce­ A revista forense, Mundo legal e judiciário,
pções um cunho de verdade e de exemplo que tendo em attenção o enormíssimo cabedal de
torna a sua convivência util educadora. conhecimentos jurídicos de que tem dado prova
Joven ainda, sem pedantismos nem plastrons, cabal e completa, traçou-lhe o perfil como advo­
honra a toga que enverga e a terra seu berço. gado. A sua poderosa resistência cerebral trans­
Vê-lo na tribuna forense, dando largas ao seu forma-o n’uma força supremamente necessária ao
profundo saber, ornando-o com os voos da sua futuro individual e social d’este torrão que o viu
fértil imaginação, é sempre motivo de orgulho nascer.
para os seus collegas, conterrâneos e amigos. Por muitas vezes apontado pela élite intelle-
Bacharel formado em direito pela Universi­ ctual e política do districto da Horta para ser o
dade de Coimbra, toda a sua vida académica per­ D .E
r G
dwiges P
oulart chefe político d’uma das duas facções políticas
rietto

528

DRaC-CCA
fascículo tk." 0 (;

DRaC-CCA
Casa gertrand - José Bastos £ C
RUA GARRETT, 73 E 75-LISBOA

Cncydopedia de flpplkações Usuaes


por JOÃO BONANÇA
Historia, Geograpliia, Estatística, Astronomia, Physica e Chimica, Agricultura, Hygiene, Medicina pratica, Commercio, Artes, Lettras, Portugal pittoresco, etc, etc.

bioro de tudo e para todos, de immediata consulta e de incontestável utilidade

Um unico volume -Esplendidas illustraçòes


Com a diffusào da presente obra, verdadeirameníe uíil e indispensável a toda a gente, unica em língua portugueza, orgulhamo-nos em poder
affirmar que um bom serviço prestamos ao publico. Para mais, tem a abonal-a o nome do auctor. E’ elle João Bonança, um dos escriptores
de mais solidos conhecimentos que enriquecem as lettras portuguezas e um investigador da mais admiravel persistência e aptidão.
A Encydopedia de Applicações Usuaes forma um volume portátil, repleto de noções uteis nas diversas praticas
da vida diaria. E’ um livro para ignorantes e sábios; educa uns e rememora os outros promptamente, sem dispêndio de muito tempo e
trabalho. O commerciante, o agricultor, o jornalista, o homem de lettras, o professor, o clinico, o marinheiro, o militar, o viajante, o
operário, etc., ahi encontram uma instrucção variada e solida e regras para se conduzirem na pratica dos seus misteres e nos actos da
vida publica e particular. O que apenas tiver uma educação elementar, completal-a-ha com pequeno dispêndio de trabalho, de tempo e
de dinheiro, na Encydopedia de Applicações Usuaes.

PUBLICA ÇÃ O BA RA TISSIMA
Cada fascículo de 16 paginas, 30 réis Cadq tomo de 80 paginas, 150 réis
O volume de mais de 1:600 paginas, encadernado em pelle, custa 2ÊOOO réis!!!

Tvp. de “A Editora"—LISBOA

DRaC-CCA
predominantes, nunca a modéstia de s. cx.a permittiu que essa lhe a maxima consideração e estima, querendo-lhe como ao futuro
felicidade sorrisse para o futuro do Fayal. da sua importantíssima casa.
No inénage, todos os actos da sua vida intima, norteiam-se Por tudo isto, e pelas fidalgas famílias a que pertence, e por
pelos mais salutares princípios de honestidade e vigor, sendo a aquellas a quem se alliou pelo seu consorcio, o seu logar é privi-
sua existência perfeitamente modelar e um perenne exemplo para legiadissimo, par droit de naissance et de conquéte, na vida illus-
os seus concidadãos. tre dos Açores.
D’um civismo a toda a prova, nunca a mais leve macula en­ Horta, i4-3.®-go8.
sombrou o seu diamantino caracter— e dahi a confiança que nelle J. Mendes d'Araújo.
deposita a casa Bensaude, que o tem como seu advogado, ligando-

N. 67 529

DRaC-CCA
DR. IDUINO ROCHA MANUEL ZERBONE

m clinico habil e um Ão fui seu companheiro, mas fui seu admirador. Relações su-
U caracter diamanti­ N perficiaes, de mera cortezia, apenas, que a differença de
no. Homem de bem em edades justificava; entretanto, tive ensejo de apreciar os elevados
toda a extenção da phrase. dotes do seu espirito e do seu coração.
Amigo affectuosissi- Era um estheta e um bom. O seu porte nobre, casava-se
mo da sua terra e dos admiravelmente com a sua maneira de proceder. Na exteriori­
seus companheiros de in­ dade transluzia-lhe o intimo. Lhano, sem affectacão; insinuante,
fância, d’ella e d’elles, sem esforço; sensível, sem fingimento.
bem a seu pesar, tem vi­ Adorava as creancinhas, pela sua graça simples, pela expon-
vido afastado. Os estra­ taneidade dos seus risos e das suas lagrimas, das suas inclinações
nhos, como os seus pa­ e das suas repulsões.
trícios, de vida mente o Vi-o um dia, ha muitos annos já, acariciar a cabecita loira de
apreciam e honram, ca- uma pequerrucha an­
ptivos da sua lealdade já- drajosa, que brincava,
mais desmentida e da sua á solta, pela rua, e dar-
dedicação- sempre pro­ lhe depois dinheiro.
vada. Dizia-nos, ha annos, Pouco o conhecia en­
em Lisboa, o dr. José de tão; mas, esse acto des-
I> . I
r R
duino ccha
Lacerda, com toda a con­ pretencioso, impressio-
vicção da sua bella alma nou-me deveras, e foi a
de poeta e psychologo: base da sincera sympa-
— Iduino Rocha foi um dos estudantes mais distinctos e talvez thia que lhe tributei.
o mais querido do nosso curso, na Escola Medica. Escriptor e cava-
Mais tarde, em S. Miguel, affirmou-nos Francisco Maria Su- queador brilhante, con­
pico, o illustre decano dos jornalistas açorianos, que o dr. Iduino tava com nitidez, sem
Rocha era um dos médicos mais sympathicos e mais considerados exaggeros, singelamen­
d’aquella formosa ilha. te; criticava com cons­
Repetimos estas referencias com o prazer com que as ou­ ciência, sem aggravo.
vimos. A. B. Manuel Zerbone Antonio Baptista.

53o

DRaC-CCA
ao hombro, n uma corrida oftegante, sem dar pala­
A pesca da baleia vra.
— Nosso Senhor os faça felizes... Então com um
tempo tão feio como está!. . .
or sobre o somnolento socego usual da pequena vil- O tempo era tristonho, desagradavel. Havia já dois

P la, ouviu-se o inopinado alarme de dois foguetes es-


talejando no ar sombrio.
dias que o espaço se fizera côr do estanho, tapando o
sol, e a produzir lufadas agrestes, que desconcertavam
Era aviso de baleia á vista. o arvoredo, levantando vôos de folhas secas. O mar es­
Uma corrente célere de interesse despertou os ha­ tava inquieto, n uma agitação enegrecida, sob o ceu
bitantes. baixo, atulhado de grossas nuvens apressadas.
Dentro em pouco começou a fazer-se pelos cami­ Isto foi ali no Pico, em S. Roque, por volta dos fins
nhos desertos um tal ou qual movimento. Appareciam de outono.
indivíduos com modos interrogativos, pedindo esclare­ As elegantes e esguias embarcações, sempre prom-
cimentos, — em que altura andavam as baleias, se se­ ptas, com todos os seus aprestes sempre cuidados e nos
riam muitas, se eram grandes — a par de outros, im­ devidos logares — o mastro apparelhado, os remos, ar­
pulsionados pela parte directa que tinham na pesca, pões, lanças, bonibe-lance, as celhas com os dois gran­
■que surdiam azafamados, importantes, jubilosos. De des novellos de linha, a cuja ponta, distanciados alguns
casa e na beira-costa algumas pessoas investigavam o metros, vão atados os dois arpões que se arremessam
indeciso horisonte, de binoculos assestados. Mostra­ um atraz do outro, os cantis da agua, o caixote das bo­
vam-se pelas portas ou pelas janellas vultos de mulhe­ lachas, o barril resguardando a lanterna e os phospho-
res. com o feitio desataviado de quem interrompeu o ros n’uma cama de aparas, a faca numa bainha de
seu trabalho, cercadas de petisada agarrando-se-lhes ás coiro, á proa, para cortar a linha que vae correndo, em
saias, curiosas, tagarelando com as visinhas: e fica­ caso extremo, quando é forçoso abandonar a presa —
vam-se absortas, como a pensarem no desconhecido, escorregaram num instante dos armazéns até á beira
«juando um ou outro marinheiro passava, de jaleca do porto. Os tripulantes não se haviam feito esperar.

53i

DRaC-CCA
Mal teve tempo cada um de escapar ao seu mister, deixando a passo, habilmente, agil; outras vezes rachava-os, iiuma machadada
plaina ou o pincel de caiador, ou largando o sacho no meio do certeira que a fazia vibrar desde a quilha ao tope do mastro, sob-
campo, plantado com a ultima sachadela, e abalar, num lampejo uma salseirada de respingos.
de fortuna, tal qual como estava, — apenas entrando em casa para Os marinheiros empoleiravam-se sobre a banda de barlavento,
prevenir a familia e metter no bolso alguns pedaços de bolo. dando assim maior resistência á embarcação para ella aproveitar
Houve um curto tumulto antes de partirem, esse inevitável re­ da refrega o máximo possível — puxar por si á vontade. Iam todos
boliço de actos que se executam precipitadamente, por diversa callados, olhando em frente por debaixo das abas descahidas dos
gente. Breve, porém, tudo se arranjou, saltando todos para os seus chapéus de palha, enterrados até ás orelhas, absorvidos pelo
seus postos. valioso cardume de baleias, que lá andavam, espadanando, brin­
Afastaram-se a desfraldar os panos; — e partiram em seguida, cando, talvez, a formarem momentâneos estendaes de espuma.
ligeiros, esperançosos, velas ao vento, enfunadas. A distancia mingava a pouco e pouco: alcançavam-as, sem
Os de terra esqueceram-se a olhal-os, de binócu­
los em punho, apreciando as manobras, captivados
pelo deligente fugir das canoas, cortando a agua em
dois rolos esbranquiçados, graciosamente deitadas,
suavemente balanceando ao crescer e baixar das on­
das. Ausentavam-se velozes; corriam, corriam, dimi­
nuindo no esfumamento da nevoa... Por fim, per-
deram-as de vista, rumo de leste, encobertas por uma
ponta da terra.
Das canoas, uma das que melhor navegava, era a
governada pelo mestre Francisco, o Espingardeiro.
A delgada e pequena embarcação avançava pres­
surosa, sempre firme, incançavel, reclinada sempre.
Para ella não havia difiiculdades nem vacillações. A
cada impeto da brisa, toda se deitava, crescendo de
enthusiasmo, a borda a beijar a agua, á semelhança
de animal acariciado que se roça de goso. Leve, obe­
diente, galgava caminho, ora subindo alterosos mon­
tes, ora passando valles, vales onde descia, varejada
como setta, com um ruidoso ferver do mar rasgado
pela proa fina: e esgueirava se aos cachões, a cada Fayal. — Praya do Almoxakiee

532

DRaC-CCA
duvida. E os olhos de todos aquelles homens dilatavam-se n'uma •— Puxa, estupores!. . .
immobilidade de avidez; os amplos peitos fortes palpitavam de an- Faltava pouco: mais duas remadas. Andavam já ali as baleias,
ciedade e commoção. que eram muitas, d’um lado para o outro, — mas pequenas, no
Todavia, a uma ou duas centenas de metros afastados do sitio, final de contas.
pararam. Agora tinham de vencer o resto a remos. Arrearam o — Devagar...
pano e baixaram o mastro, que tombou sobre a ré, dobrando pela Estavam chegados ao cardume; era preciso, Teste momento.
dobradiça do banco; o leme foi substituído pelo remo de espar­ manobrar com cautela e habilidade, para ganhar a distancia reque­
rela. Aqui e acolá outras canoas rida, evitando espantar os peixes,
faziam manobra idêntica. que, surprehendidos, deitariam en­
— Rema! tão a fugir. Os remos entraram a
Ao mesmo tempo, as cinco pás padejar, lentos, docemente, quasi
cahiram, e começaram a fender a sem ruido.
agua, sempre certas, decididas, Foram-se approximando cm
como n’um esforço de tensão ner­ profundo e vigilante silencio, até
vosa. A conoa, a malhar, a bater, junto dos paciíicos monstros. Uma
chocalhada pelo encontro das va­ das outras canoas acabava de ar­
gas. investia com animo, ainda que poar.
trabalhosamente. — Espera, não tranques — re-
— Pull ahead!. ■ . Força rapa­ commendou o mestre Francisco ao
zes !. -. trancador, que, já de pé, á proa,
E aquelles corpos robustos, pés se dispunha a arremeçar o arpão.
espetados á frente, dentes cerra­ São muito pequenas; não vale a
dos, arfando, dispendendo o máxi­ H .— B
orta P
ahia de P . U P
orto im m S .
ôr de oi pena. E’ melhor com a espingar­
mo de energia que comportavam, (Reproducção photographica de um quadro a oleo, original do sr. dose Lui\ de Lemos)
da. ..
iam e vinham, afincadamente, uni­ E saltou a diante, para ir. clle
formemente, em arrancos successivos e duros, como peças justas proprio, fazer fogo. Assim, de tiro, tinham a vantagem de pode­
d‘uma só machina. De pé, governando o remo de esparrela, cur­ rem matar mais alguma. Antes, porém, pesquisou ao redor, esco­
vando-se sem descanço a acompanhar cada esticão impetuoso dos lhendo. Depois, decidiu se: poz a arma á cara, visando uma das
remadores, o mestre, n’um desvario crescente, com o desesperado baleias, — e, Tum balanço favoravel, certa a pontaria, desfechou.
empenho de chegar primeiro, não cessava de despejar, de gritar Mal acabava o estrondo, um estranho choque arrebatado e sú­
os seus incitamentos, aos quaes misturava vulgares obscenidades bito, convulsionou-os aterradoramente. Alguns tripulantes foram ao
e pragas extraordinárias. ar. Logo comprehenderam a causa: um dos cetáceos, sobresaltado

DRaC-CCA
talvez pelo estampido, ao metter-se por debaixo d’elles, de fugida, Segundo previam, os seus ephemeros apoios acabaram por se
tocara o frágil barco, numa das amplas e pesadas evoluções da desmantelar de vez. Cada qual tratou então de apanhar aquillo
cauda. A canoa partira-se pelo meio. Quizeram ainda, na atrapalha­ que melhor lhe parecia e encontrava as alcance: este aferrou-se a
ção apavorada do desastre, atamancal-a, amarrando-a, até chegar au­ um banco, outro a um remo; pairava descançado um de barriga
xilio. Mas (a pancada fora assaz brutal) dahi a nada o barco aca­ sobre o xadrez; aquelle lidava por abraçar o barril da lanterna.
bou por dividir-se em dois pedaços, que ficaram cada um para a que não queria socegar, que rolava, que escorregava, que fugia a
sua banda, fluctuando desamparados á mercê do mar turbulento. todo o instante.
Os naufragos agarraram-se a elles. E o tempo a passar... E sem ninguém apparecer!
E assim esperaram, dependurados, segurando-se com denodo. Sentiam-se exhaustos.
Mas o mar era muito, como tomado de propositada excitação; O Jesuino desfallecia, prostrado da alma, mais pallido do que
custava a manter o apoio; para se aguentarem, consumiam não pe­ cêra, o olhar enorme, fixo, nem que estivesse mesmo encarando a
quena força e trabalho, pois as mãos, de vez em quando, apezar morte. Era um inevitável e mudo apagar de forças. As vagas acce-
de firmadas tenazmente, escapavam a cada sacudidela mais arro­ leradas abafavam-no. De resto, quasi inerte, perfeitamente pesado,
gante, mais brusca. Depois a roupa, collada ao corpo, embrulhada, baixava na agua uma vez por outra, bebendo-a invencivelmente.
embaraçava-lhes os movimentos. apenas mostrando á superfície os negros cabellos remechidos, as
Andavam espalhados em redor os diversos pertences, os xa­ mãos fechadas. Houve uma occasião cm que elle se afundou, ani­
drezes, o cantil, as celhas, os baldes, o leme, os remos, jogando quilado, sem nenhuma deligencia ; — mas resurgiu após curto in­
com o desconcerto das ondas, vagueantes, subindo e descendo. tervalo, debatendo-se desvairado, num esgotante empenho tumul-
Uma das linhas, desenrolada, estendia se serpenteando; o mastro tuario e alllicto. Accordara-o com certeza a sensação medonha do
e mais a vela com a retranca e respectivos cabos, enxarcias e abysmo. No emtanto, pouco espaço teve esse impeto fugace de
adriças, formavam um volume emmaranhado, á semelhança de vida; o infeliz, cerrando os olhos, escancarando a boca para o ceu
meada que pessoa doida houvesse revolvido. inclemente, de novo cahiu examine, immovel — e mergulhou...
Os fracos restos da canoa, de tanto acomettidos pelo embate Passou-se uma pausa. Depois, apenas viram sobrenadar o volúvel
do mar, sempre crescente, já pouco poderiam resistir — não tarda­ pedaço de madeira a que elle se segurava.. .
ria a serem uns soltos fragmentos numerosos e inúteis. Elles bem O Godemes, a pequena distancia, presenceando este lugubre
percebiam, de momento a momento, as tabuas cedendo, como quadro, succumbia também, transido de terror, apoquentado pe­
amolecidas, ao estalar das desconjunctadas cavernas que se des­ las vagas incessantes que lhe cortavam o folego. Os queixos ba­
pegavam da pregadura. E a fadiga já era grande; tinham os bra­ tiam com ininterrupta vivacidade; uma tolhedora frieza cadavérica.
ços entorpecidos; o corpo enregelava. Havia mesmo longo tempo, mais cortante do que o penetrar agudo de lamina afiada, repassa­
uma hora, talvez duas, que ali estavam, perdidos, num desespe­ va-o de cima a baixo, até á medula dos ossos, enrijecendo-lhe as
rante abandono, sem que nenhuma embarcação amiga viesse sal- juntas doridamente. Sentia-se enfraquecer, sem remedio, meio
val-os. Que seria feito d’ellas? Por onde andavam?... turva a vista pela lividez revolta do cerebro. No ceu punha então

534

DRaC-CCA
o espirito, para o ceu abria todo o alento e toda a angustia da conservação da vida. E a luz baça do ceu sombrio, e a fera irri­
alma, bem fundo envolvida pela nitida imagem da sua pobre casa, tação do mar, tornavam mais tenebrosa ainda esta estranha scena
da mulher, dos filhos queridos, ainda tão creanças, a implorar assassina, que durou breves instantes, arrasando de dôr o coração
com balbuciante fervor o auxilio infinito e misericordioso da Vir­ dos companheiros, ali perto, consternados e impotentes. Rolavam,
gem— Santa Maria, Mae de Deus, cheia de graça... embrulhando-se nas desordenadas ondas; ora mergulhavam, que­
— Ahi vem uma canoa! dos, ora regressavam á tona da agua, sempre unidos, no seu ba­
Este grito súbito, estimulante lampejo de soccorro, chamou-o á talhar convulso; — e já se ouviam as vozes insistentes, as vozes
realidade. Renasceu-lhe a coragem; tomando-se de suprema von­ amigas da canoa salvadora, que rapidamente se aproximava! Se
tade, reuniu com obstinação, concentrava com afinco e esperança resistissem só mais um nada...
o seu cançado vigor. E media já os poucos minutos que faltavam Houve um momento que fez suppor que isso assim fosse; to­
para ser recolhido, os arrebatados abraços de alegria ao entrar davia, os movimentos, alem de abrandarem, eram frouxos, já quasi
em casa — quando das mãos lhe escapou, sem saber como, o remo inúteis. Os outros bem viam que os dois se iam esquecendo da
que o mantinha. Afferrou-se, pois, ao Ambrosio, que estava pro- lucta e só procuravam agora a superfície, uma restea de luz e ar;
ximo, enleando-o de braços e pernas, com um aperto nervoso de mas reuniam-se, submergiam-se cada vez mais, os desgraçados,
epiletico. Este, mal o sentiu sobre si, tentou logo saccudil-o, li­ sob o balbuciante cachoar da agua, sempre unidos no seu indisso­
vrar-se d elle a todo o transe. lúvel abraço de morte... Até que chegou uma occasião em que não
Eoi vehemente o esforço dos dois, frenetica a lucta, lucta cruel, tornaram a apparecer...
anciada, horrorosa — sem comtudo o misero despegar-se. Era o
verdadeiro selvagem instincto do animal, em todo o seu furor pela Ilha do Fayal. Marcellino Lima.

535

DRaC-CCA
umuactos

0 TELEGRAPHO
ISMKK1TUR1
' 4,1- >>t .... !i0 >01 hr l..h I. 10 !* •• •
F«4 »• JoifriMrs. •• •
*»■! Uri «rirntr« pi.» pr “
* f »»-p«l<, ,ii'ul.< Imxix pi. 10 m» i In •
DIÁRIO INDEPENDENTE Rui Coii.‘ Bedfiros, 13
faH EoMfo Coatilrts
I •> ’ HORTA -Quarta, 11 Je Março de 1908 -ÁÇÕKÉS N- I 238

pau ã beir.i de um pavoroso na rccon-trucçAu 103 d<dl.ns


Sejamos portugueses precipício
Foi um republicano patrio­
ECHOS P1T0DH PARTE
Um corpo de exercito cuin-
pur minuto.
A nrea dcflruida pelo m
ta que salvou a It.ilia c talvez ■ |U»it«> dc 4 000 soldados fran­ cendin, na cidade de S l*r.in
U partido republicano da Cisco, c umilr» mai-ir que a
Horta apresenta como candi­ a monajxhia italiana Admi­ ceses destruiu c occupmi a parta destruída pelas « li.im.iw
datos pj próxima eleição dc rável exemplo dc grandeza dc cidade Lollat, distante Gtl ki- nas cidulcs «lê Chiraçu. B->s-
deputad >■» dni» cidadãos de alma e dc patr1mi»mo! Ininetr.is para o interior de ’ ton c Baltnnore; nins o t'.d"
um aito \jlor moral e intelle- Precisamos deputados que C.i>4 Branca e que era defen­ • lho dc reèdificaçJu em S
ctuai, os drs Manoel d’Arna- apoiem com lealdade
* o gover­ dida por 40 000 ai,ibe«, parti­ I Francisco trin prugri-duln. sc-
dários dc Muley Hafid.
ga, nos>o ÍBustrc patrícia e no, que lhe dèein a força, de O» arabes foram completa- ,i gundo aqurlL cstaii-tica, com
iniior rapidez do que em «piai
Sebastião dc Magalhães Lima, que tanto carece, no que fôr mente derrotados
o enihu>i.i'ta de todas as justo c que se lhe opponham — Está averiguado que a quer *las referidas entad.-s
ideias generosas, que tem sa­ no que fôr injusto. arlilhena do Muley Hafid e
bido honrar a patria portu- O» nossos condida tos repu­ manejada por cx-sargentus xl- Monle-pio Geral
gueza cm ditTcrcntcs congres­ blicanos são homens para h- lvm;b-s.
sos no estrangeiro 50. O passado abona o futu­ — Em fins de janeiro enca­ Re'atorij e contas rti g^roncia
lhou em Las Palmas, u vapor no anno ds 1907
*,
As ideias grande c justas ro. Não terão galopins pelo
seu la Jn Nada promettem; allcm.lo «Erna Woermann». 2) CAIXA EC0N0MÍCA
fazem nos bem. kofTrrndo grnssas avarias.
Ate que, cmfiu, entnc tan­ nada darão; mas os eleitores Saldo dot dep isito
* «m 31 d»
— Em New Yurk foi decre­
AGUARELLA tos prov uradores da fazenda
alheia, entre tantos agentes
de negocio; escuros, entre
honestos e patriotas terão pe­
*nos desta vez cm quem
lo m.
votar com n consciência de
tada uma lei prohibindo as
damas fumarem cm publico.
— Pro.ximo do g.dí. da Gui-
doz. di líKhl, i».ô‘26 lOâjMlO,
em 1907 houve 68:970 ontrivk»
no valor J.i reis 24.00».►*'IO:
juros npiuh.iados :w7 02O-450<>
tantos representantes da re- que cumprem um dever náo i»é naufragou o vajmr allcinlo ToUl. 38 91S rfi.
gcdvrij que têm sido manda­ partidário, mas patriótico .4scan U'o(rninn», que'trans- Pagaram so duranta o mino
Assim fez o honrado Thicrs portava materiaes para us ca 95:211 MqiwH, na impurtsnciiidn
dos votar por essas egrejas 21 217.16•»jl.2O. saldo dos dopo-
pela inconsJcncia c pela cor­ para salvar a França Sendo minhot de fviru de l.oan la c «los, An» 31 de d-‘Zomhru do
N'um berço caprichoso e rendilhado, rupção, apparecc uma lista monarchico, votou pela repu­ iMossainedes.
—Coin a rcparliç »•» d«» po­ 1907. 11.701 32)j’>3">. ••Ido rm
blica Lembn mo-nos dc que 31 d» dozrmliro <!■> ItKlG. »«•!•
Sob um veo de escumilha côr de rosa, insuspeita, digna dos votos
de todos os homens de bem antes de sermos partidários, voamento do s.du do Br.uit, 11 5*26 lúJ.tflO, dilRr^ma para
S4i.foram gastos alêagura cer mau, om IW7 I 75 217Ã725
Envolvida nas dobras d’um brocado, Um facto real ‘entre tantas somos portuguezes.
Sejamos portuguezes ca de mil eoulus reis
Dormita uma creança graciosa. ficções, uma verdade entre —Nu Natal cada jonul dia- Juros espitaluaJus «m
tantas mentiras D. rio que se ipirirapublicar b-in 3S7.O2O.«5O5; juros capitahsado-i
Nj momento grave que a que pagai 23 libras de licen- «rn li»»'. 3S3 25'‘;U»; diíT-.ença
*A
/:/í f/{/OS p.sra ni.ns. em 1907. 3-761 •>.>«»
*
nação .atravessa, os deputa rei« Na v *bi do jnrns capita
O cabellinho louro e perfumado, rdos repoblicanos podem pres­
Fazem amanlift ann Beconatrucção da cidado lisados incluo M a do nvz. -lo
tar grandes serviços ao paiz. dozómbro cotnpttta<ta om i—is
Na alvura da cambraia setinosa, São exceUentes ficaes dos a- D. Maria Flora Botelho.
I) Rita Trindade do Sousa
de S. Francisco 3L000W».
Traduzido o movim int > <11
Dir-se-ha um finíssimo bordado ctos do governo e ardentes
defensores dos interesses do
Martins.
D. Violento de Barcellos.
Progndo com grande acti-
vidade a rrcon-Urucçío da ri-
cm» oconomic» comparado c<»m
o di anno anl-nor, tom -s
De fios d'ouro, em seda primorosa. povo AntoriO do Mello Corrêo
Poncio Oacer R R. Annas.
dadu d<j S. Franci-cu. des­ Augmmto- No numero do «m
Sc todos tivessem a fc que truída pur um t« *rr unotii in­ iradas, 2 139 ou 3,6 p c. »;•
«lies têm n’u-n melhor futuro Marcollino d'Alinci<ta Lima. cêndio subsequente nos dias numoro do «a pios, 4111 on 1,7.
Cainillo Oliveira Nano» A vila. IH a 20 dc abril de 1906 p. c , na» quantias dnpjaitxdas.
para a nação, sc todo$, como
Na bocca pequenina e carminada, eiles, vivessem um bcllo Uma carta do sr. conselhnro Segundo uma interessante I OfD cont n ou 4.7 p_ c . ua«
quantias lovant.i las. 726 coii
estatística, publicada pclu en­
Espraia-se numa onda embalsamada mundo dc cgualdade, de fra­
ternidade, de liberdade, que
João Franco
*--- genheiro Marsden *Manson. tos ou 3.09 p c
O numoro do dep »nt *ntes on
Um sorriso tranquillo e angelical. Senhor Dirojtob da eis o estado dos tr.ihilhíis; 31 do dezembro <lo 1306, oro
coojuncto de energias nos da­ .V,cra Edifícios erigidos ou •altera­ •19.321), em 31 d* dvzombro <!-•
ria força para vencer as ditfi- Senhor dos ilcsde a cntiflagr.Tçsio a I I'»ú7 <t do 52 688: houve poi-- o
culdades que nos assoberbam. de janeiro dc 1908. 12.126 augtnonto do 3.368
r.s misérias qúe nos abatfm! <0 seu jornal tom sido utn d' D esta numero 60 s2o darias- Continuou durante o ann■ ’•
Na face transparente e alabastrina, Conquistaríamos o respeito aquoltei que, em Hospanha. jul­
garam tnais duramente a minha se A. ou sejam ISmaisdu ipic augmeuto nn onmaro dn <i«*|1< hi
Uma lagrima brilha, crystallina, do mundo civilisado e a nos­ conducta; nAo lho guardo por is­ *
havia nu tampo do lerrcnvdo
91 edifícios <l.i classe B. I 019
taotrv e na imp>rlancia '!■- d-
positoa na Caixa KcouCBin«.
sa própria regeneração so o menor resentiiaonto, por­
Como um raio de luz auroreal. Os dois candidatos encon­ que creio qno os meus com da classe C. 7.4 5'1 edifícios c*ijo taldu chegou o attingu, n«»
dm 15 de julho, • import aut<»
trarão os forças organisadas patriotas,, com <> andar dos tem cnn«lruulua de madeira c *1n
•otnms da 15 456 Contos
pos, poderio fazqr justiça á mi­ 3;483 alterações cm edifícios uugmento qno .te ver *o rj’i'i
do interesse pessoal, da- vena­ nha obra. Não ruceio a Historia damnifícados pelo ah.du c !'••-
Oscrio Goulart. lidade e da ignorância, mas Semente'lho peço que d<>«n:ula miaria na sua escala a\c<mdrii’*.
Faval ai «cenas que to disso haviam oc- go A despeza feita c<»m aqind »o rMtivos de ordem política mV»
nem por isso a su.i lista deixa las conslrucçues e alterai,níes viessam ombaraç d q, prodiixm
de ser uma aspiração patrió­ c irrido entra as rainhas l» Ma­ durante aipicllc lapso de tem­ do so no» nltimos tr-» mozr.nun
tica e nobre ria Pia, D. Amelu o a minha po importou cm 91."02.240 * decruseimo «ooi dnvtd
* fum çiV»
pnssua Seja qual fôr a opinião d aquellas causai
O paiz desperta com ditTi- que a meu respeito fermurn, <1 dullars, ou sviain perto de
culdade, mas desperta. cilas não recebi scnÃo deferên­ «2.000 contos dc reis. O Monto pio continua, porom.
cias A minha sahida do Portu­ Durante esse tampo leni sc a marancr a confiançi o favor
Não se trata, agora de. fa­ gal obedece a rasôos que n tem construído um novo prcdiO públicos, favor » contiauça alii»
zer a republica. Os fructos po osplarecorá T«nho a convic por cad i hora e tres qn iri is bom f iudados nas oxcepeinnnos
caem quando amadurecem. çAodo haver sido «"ropra um Coml-into, porem, edilicins garantiu qna alto otfaroco; o pa­
bom portuguer ra n confirmar basta o simple»
Mas trata-se, no bem de to­ Cumprimenta-o nnvns v. altarações rm edifi exame dos seguinte» nuin-To *
dos. de attenuar a acção fu­ cios esrsteotes, reduz-sc aquel- qno mostram-o debito da depo­
nesta da desmoralisação dos- Jião Franca lo numero a uma hora e um sitas a p»r dos pridciptos v <!'»•
partidos que arrastaram o Madrid 6 do fvrejeiro de 100A quartil T<*m sc despendido r,i q-n os gi.-.xnte-n
«O Ti lacrai ho». — Jornal fundado em iSg3e por Antonio Baptista, redactor principal,
e Manuel Emygdio Gonçalves
>
, gerente
536

DRaC-CCA
Tf.’

DRaC-CCA
»25 Casa gertrand- José Bastos A C
RUA. G-ARRETT, 73 E 75 — LISBOA

Cncyclopedia de Hpplkações Usuaes


for JOÃO BONANÇA
Historia, Geograpliia, Estatística, Astronomia, Physica e Ctiimica, Agricultura, Hygiene, Medicina pratica, Commercio, Artes, Lettras, Portngal pittoresco, etc., etc.

bivro de tudo e para todos, de immediata consulta e de incontestável utilidade

Um único volume — Esplendidas illustraçòes


Com a diffusão da presente obra, verdatleirameníe util e indispensável a toda a gente, unica em lingua portugueza, orgulhamo-nos em poder
affirmar que um bom serviço prestamos ao publico. Para mais, tem a abonal-a o nome do auctor. E’ elle João Bonança, um dos escriptores
de mais solidos conhecimentos que enriquecem as lettras portuguezas e um investigador da mais admiravel persistência e aptidão.
A Encyclopedia de Applicações Usuaes fórma um volume portátil, repleto de noções uteis nas diversas praticas
da vida diaria. E’ um livro para ignorantes e sábios; educa uns e rememora os outros promptamente, sem dispêndio de muito tempo e
trabalho. O commerciante, o agricultor, o jornalista, o homem de lettras, o professor, o clinico, o marinheiro, o militar, o viajante, o
operário, etc., ahi encontram uma instrucção variada e solida e regras para se conduzirem na pratica dos seus misteres e nos actos da
vida publica e particular. O que apenas tiver uma educação elementar, completal-a-ha com pequeno dispêndio de trabalho, de tempo e
de dinheiro, na Encyclopedia de Applicações Usuaes.

PUBLICAÇÃO BABATISSIMA
Cada fascículo de 16 paginas, 30 réis Cada tomo de 80 paginas, 150 réis
O volume de mais de 1:600 paginas, encadernado em pelle, custa 2$O0O réis!!!

Typ. de "A Editora” — LISBOA

DRaC-CCA
DR. MANUEL FRANCISCO NEVES JÚNIOR E o dr. Neves Júnior actualmente guarda-mór de saude. me­
dico dum dos partidos da Camara Municipal d’este concelho e da
Real Santa Casa da Misericórdia d’esta cidade, logares que
ntre as individualida­ exerce com todo o zelo e proficiência.
E des mais em evidencia
no nosso meio, destaca-se o
Honra, pois, a quem tão bem tem sabido comprehender a sua
nobre missão, e que o distincto clinico e amigo me releve o desa-
dr. Neves Júnior, medico linhavo d:estas singelas phrases, que representam a expressão
distinctissimo, político di­ franca e sincera do meu sentir.
gno e honesto. Borges l>e Lacerda.
Como medico, formou -
se na Universidade de
Coimbra em 3o de Julho
de 1901, sendo sempre um
dos alumnos mais bem JOSÉ GARCIA 1)0 AMARAL
classificados do seu curso.
Como político, tem sem­
pre militado no partido re­ edem-me algumas palavras
generador, onde gosa das
maiores sympathias pela
rD . M
anuelF N J
rancisco eves únior

P que acompanhem o re­


trato de José Garcia do Ama­
sua seriedade, proceder sempre correcto e valiosa cooperação. ral. Nenhuma missão mais
Intelligencia lúcida, trabalhador incansável e operador dos honrosa para mim. nenhuma
mais distinctos, gosa o dr. Neves Júnior da consideração de todos me collocaria em embaraços
os seus collegas, pela sua leal camaradagem, e da estima dos seus mais graves. Honrosa, porque
amigos, que são muitos, pela dedicação de que lhes tem sempre se me offerece o ensejo de
dado sobejas provas e pelo interesse que lhe tem sempre mere­ manifestar a s. ex.a os pro­
cido o bem d’esta terra, que se orgulha de ter sido o seu berço. testos da minha muita consi­
Foi o primeiro medico que n’esta ilha iniciou variadas opera­ deração e estima; embara­
ções da mais alta cyrurgia, de que sempre se tem saido brilhante­ çosa, porque me obriga a
mente, apesar da falta de recursos com que tem tido de luctar no deslustrar com a minha pro­
nosso meio acanhado e falho de tudo, mas a sua vontade de ferro sa rude os primores das suas
tem sabido vencer todas as enormes difliculdades que se lhe anto­ qualidades peregrinas.
lham. De resto, anima-me uma José Garcia do Amaral

N ’ 68 «7

DRaC-CCA
esperança, consola-me uma ideia. É que não se tornam aqui ne­ acreditar, pelos seus predicados, em muitas «passionettes» que s. ex.a
cessárias boas palavras, posto que dictadaspor um coração amigo. deveria ter visto brotar a seu lado.
Todos o conhecem. Em todos os corações s. ex.a tem um altar, Aos primores da sua educação e ás qualidades elevadas do seu
em todas as almas estão a seu respeito gravadas impressões mais caracter, José Garcia do Amaral allia uma intelligencia pouco vul­
vivas, sympathias mais delicadas, affeições mais ternas do que gar, que se revela em tudo, desde a conversa mais futil em que
quantas eu poderia traduzir aqui. s. ex.a põe sempre o interesse do seu espirito, até ao seu vasto
Nem era preciso mais. Bastava o seu retrato. A todos elle re­ conhecimento das linguas, que na phrase de Victor Hugo o faz
cordará a sua imagem e o coração de cada um lhe formará a alma. valer não sei por quantos homens, e aqui lhe vale a grande profi­
Que me resta, pois? ciência de professor habilíssimo que é, e que conta um amigo em
Tornar-me interprete d’esse culto que cada fayalense lhe tri­ cada alumno e em cada collega um admirador.
buta e profanal-o aqui com as minhas palavras sacrílegas? Em todos os aspectos, em summa, da sua vida, apparece sem­
Seria uma irreverencia. pre como norma aquella correcção e dignidade que justificam a
Que hei-de, pois, fazer? sympathia que claramente transparece na pagina dourada que estou
Solletrar, apenas solletrar no livro do coração fayalense a pa­ lendo no coração de todos.
gina que lhe é consagrada. Que s. ex.a mo não leve a mal. Bem sei que não solletrei como devia. A pagina era tão grande
E uma pagina grande, iriada de luz; e que a intensidade do e eu reduzi-a a tão pouco. Sempre tive a tendencia para «comer»
seu brilho offuscante sirva de desculpa á escassez da minha leitura. palavras. Tinha um brilho tão intenso, e eu deslustrei-o tanto !
Cavalheiro de primorosa educação, conhece como poucos o «sa- Nunca as minhas palavras me pareceram tão descoradas. S. ex.a
voir-vivre» da sociedade: d’uma «tenue» irreprehensivel, numa sala que me perdoe. Eu sempre li muito mal.
captiva e suggestiona; galanteador correcto, é a vergonha de mui­
tos rapazes novos; e sem que eu conheça a sua vida galante, quero Lucio Agnello Casimiro.
THEATRO FAYALENSE
Theatro Fayalense foi Horta um segundo theatro, denominado Theatro Constitucional
construído por um par­ Boa União, na casa que hoje pertence á Sociedade Cooperativa
ticular, o sr. João de Artista Fayalense, no Largo do Bispo D. Alexandre, o qual func-
Bettencourt Vasconcel- cionou regularmente até 1828, fazendo ainda a política com que
losCorreiae A vila, prin­ fossem interrompidos os seus espectaculos até ao anno de 1832,
cipiando a funccionara em que novamente funccionou, passando mais tarde para o pri­
lõdesetembrode i856. meiro andar, lado do norte, do Collegio dos Jesuítas.
Em 1884 fez-lhe o Pelos annos de 1843 e 1846 levantaram se também os theatros
seu actual proprietário, de Santo Antonio, no
sr. José de Bettencourt extincto convento do
Vasconcellos Correia e mesmo nome, o Thalia,
Avila, importantes melhoramentos. Tem 15 camarotes de i.a ordem, n uma casa pertencente
15 de 2?, e 12 frisas;80 logares de superior e 104 dt geral. Têm-no ao sr. João de Betten­
pisado algumas notabilidades artísticas, taes como Emilia Adelaide, court Vasconcellos Cor­
Sá Noronha, Gabriella Neusser (violinista) e Angela Pinto. reia e Avila, na alameda
Ha na Horta pronunciado gosto pelo theatro, sendo os espe- do barão de Roches, en­
ctaculos, em regra, muito concorridos. tão Praça Velha. Dura­
Jámais, n’esta cidade, deixou de haver uma ou outra sala de diver­ ram alguns annos.
sões scenicas, seja em casas particulares ou em sociedades recreativas. Uma sociedade de
Data de 1814 a inauguração do primeiro theatro, na então villa artistas fayalenses, em
da Horta, levantado a expensas e na residência do morgado José 185o, começou a dar re­
Erancisco da Terra Brum, depois barão da Lagoa. citas na mesma casa em
Em 1824, com a queda, em Portugal, das instituições liberaes que trinta annos antes
e com as animadas dissençÕes políticas que agitavam o continente havia funccionado o thea­
e ilhas, não mais alli se representou, sendo em seguida desman­ tro Boa União, passando
chado aquelle theatro, que se chamava Thalia. em seguida, no anno de
.losi: de Beti encourt de
Vasconcellos Correia e Avila y-
Já promulgada a Carta Constitucional, em 1826, levantou se na Actual proprietário do «Theatro Fayalense» '--^7’ ^O mesmo SltlO,

53q

DRaC-CCA
para a parte inferior de umas pertenças do convento da Glo­ geralmente por artistas, as quaes tiveram, apesar de muitos es­
ria. forços, uma duração ephemera.
A classe artista da Horta já naquelle tempo era bastante ins­ As sociedades, Humanitaria, extincta, e o Grémio Litterario
truída e comprehendedora, tanto assim que, faltando-lhe musica Fayalense, nos seus melhores tempos, tiveram também pequenos
para os seus divertimentos scenicos, creou para esse fim a phylar- theatros em que se deram recitas muito apreciáveis.
monica Artista Fayalense, que ainda ha pouco festejou o seu 5o." E' manifesto o gosto que os hortenses professam por tão civi-
anniversario. lisador genero de passatempo.
Em 1882 houve também na sala do antigo theatro Thalia um
*
segundo theatro de pequenas dimensões, de que era proprietário
* *
o habil artista e amador dramatico Francisco Augusto de Oliveira,
mas que pouca duração teve, bem como em diversas épocas, na A proposito do theatro Boa União, conta Ernesto Rebello, nas
freguezia das Angustias, algumas salas de espectaculos, mantidas suas Notas Açorianas, o seguinte facto:
«A construcção de um theatro, ainda que de pequenas dimen­
sões, era um dos grandes desejos do major Luna, (João Pedro
Soares Luna, commandante da força de artilharia de guarnição na
Horta) porquanto no Fayal, embora, já desde 1817, tivesse havido
um theatro na vasta residencia do morgado José Francisco da Terra
Brum, ha alguns annos que no mesmo não se representava, desde
que começára a agitar-se a questão política e a reinar mais accen-
tuadas dissidências entre a pequena familia fayalense.
«O major Luna, porém, em se tratando de espectaculos sceni­
cos, tinha alma até Almeida, como vulgarmente se diz; andou, pa­
rafusou, acercou-se de rapazes, mettendo-os a fogo messe empe­
nho, leu-lhes dramas, comedias, conseguiu arranjar uma vasta casa,
própria para tal fim, (hoje pertencente á Sociedade Cooperativa,
no Largo do Bispo D. Alexandre) pintou os bastidores e o panno
de bocca, arranjou dinheiro, e o governador das armas, Rochele-
ben, ajudou também, poderosamente, a empreza, e afinal o thea­
tro Boa União achou-se completo.
«A escada, porém, pela qual se subia para o primeiro andar,
que servia de sala de espectaculo, é que estava ainda uma verda­
Horta. — Alameda Visconde de Leite Perry deira miséria, estreita, mal geitosa, velha.

540

DRaC-CCA
Ilha do Fayal. — Visia da bahia da cidade da Horta

54!

DRaC-CCA
«Na vespera da primeira recita e )á findo o ensaio geral, Luna primeiro andar, declarou positivamente que dali não desce­
estava radiante: aquillo ia ser um acontecimento, uma coisa muito ria senão por uma escada nova c espaçosa.
falada; os bilhetes tinham sido «Trabalharam com alma,
muito disputados, o drama pro- desde logo, os carpinteiros, e
mettia correr regularmente, Ro- Luna, para os animar, mandou
cheleben, o governador, con­ buscar uma boa porção de gar­
tava maravilhas ]da orchestra rafas de optimo vinho, do qual
por elle ensaiada, e na qual tam­ lhes dava amiudadas libações.
bém ^figurava como primeiro «O milagre operou-se, os
violino, e tudo annunciava uma mestres desempenharam se, e
bella e aprasivel noite. effectivamente, ás seis horas da
«E, comtudo, havia ahi um manhã seguinte, descia o dedi­
ponto negro, disforme — a mal­ cado amante da arte scenica
dita escada. pela nova escada, triumphante
«Ao major Luna, apesar de e satisfeito.
já ter gasto uma boa porção de «O theatro de Luna, como
patacas em coadjuvar a feitura ainda hoje na Horta é designado
do theatro, não lhe soffria o pela gente d'aquelle tempo, te­
animo generoso que substisse ve épocas Horescentes, ainda
aquelle aborto no meio de uma actualmente recordadas com
elegante obra. verdadeira saudade, tornando-
«Mandou, pois, chamar, se n um poderoso elemento ci-
áquella mesma hora, alguns F . — A
aval ntiga ponte no V F
alle dos lamengos vilisador e contribuindo, porven­
carpinteiros e, como hou­ tura, para esse decidido gosto
vesse uns restos de madeira limpa, ordenou-lhes que destruís­ pela arte de Talma, aqui existente.» Que para este pequeno meio,
sem, immediatamente, a velha escada, e indo collocar-se no o theatro é ainda a mais preferida distraeção.

542

DRaC-CCA
CIDADE DA HORTA AGOSTO
equena, a mais pequena das nossas cidades insulanas, mas
P d'um encantador aspecto. A casaria muito branca, de janellas Grandes dias de sol e de calor!
Rútilo azul! densas alegrias!
bem rasgadas, sorrindo por entre a ramagem dos quintaes, en­
costa acima. Os templos magestosos, dominando tudo. Em volta, Enervantes e róseas symphonias!
n um crescente regular, montanhas de longos dorsos verdejantes, Loucos suspiros na azulada côr!
sobrepostas ao fundo, prolongando-se de cada lado, como braços
protectores, até formarem a explendida bahia, ampla, funda, abri­
gada. Na frente, tres milhas distante apenas, o Pico, sobranceiro, Túmidas pompas do primeiro alvôr!
imponente, que as nuvens quasi sempre enlaçam pela cintura. A Beijos! canções! surprezas e magias!
oeste, mais além, as costas escarpadas de S. Jorge, extensa cordi­ Espasmos! retardadas psalmodias
lheira rochosa da lendaria Atlantida submersa. Sobre o Norte, ao As socegadas horas do Sol-pôr!
longe, esfumadas no azul, as duas montanhas distinctas da Gra­
ciosa. figurando ilhotas afastadas.
Ah! o panorama que se disfructa da bahia da Horta, em uma Afasta-se o rumor, desmaia a vida,
doce madrugada de primavera, ou numa calma tarde de outomno, Recolhem aves cautelosamente,
em que a atmosphera é mais pura e a luz mais propicia, vasto, Cahe uma nota de canção perdida!
ridente, ricamente colorido, não sejpóde abranger n’uma simples
photographia.
E ao largo vae, numa distancia ingente,
Os habitantes da formosa cidade, são calmos,—não desmen­
tindo a origem flamenga,— honestos e laboriosos. As festas popu­ Como n uma saudade esmaecida,
lares teem um extraordinário cunho de gravidade. Ha pequena O derradeiro abraço do Poente!
diffusao de alegria. Relativamente cultos, o theatro e a musica
constituem as suas diversões predilectas. Manoel Greaves.

543

DRaC-CCA
DR. MANUEL DARRIAGA
asta olhar para aquelle olhar vivo e verbo eloquente, pregando o evangelho da
B para aquella bella cabeça branca, para moderna redempção, tem sempre um es­
pecial interesse para a parte mais intelli-
desde logo se ficar sympathisando com esse
homem. gente da democracia, que não corre atraz
Velho apostolo da causa democrática, o das girandolas de rhetorica de muitos palra-
partido republicano tem n’elle um dos seus dores da praça publica, mas acode pressu­
mais valiosos caudilhos, um dos seus mais rosa a ouvir, dos lábios d’esse homem, as
illustres ornamentos, um dos seus mais le­ palavras de um credo novo, pronunciadas
gítimos titulos de orgulho. com o calor de uma crença austera c gran­
Tendo deixado, ha muito, a sua terra de, e, por isso mesmo, mais nobres e mais
natal, a risonha cidade da Horta, a que o sinceras.
prendem os laços de uma familia das mais Manuel d’Arriaga, pela sua edade, é já
illustres dos Açores, o dr. Manuel d’Ar- quasi que um general reformado da hoste
riaga estabeleceu banca de advogado em republicana; mas, creio que a sua voz, bra­
Lisboa, adquirindo, na sua profissão, uma dando — ás armas! — seria a que maior nu­
das maiores famas e um dos mais raros mero de militantes reuniria em volta da ban­
conceitos que se tem logrado alcançar, fama deira republicana.
e conceito que não ganhou com reclamos, E’ que elle norteou sempre a sua vida,
nem conquistou com exhibiçoes espalhafa­ que se impõe como um exemplo, pelos
tosas, antes obteve com a imposição do seu mais sãos e claros princípios da verdade e
talento, com os raros primores do seu cara-. da honra. D’ahi, esse culto que o povo lhe
ctef e com a bondade grande do seu cora­ rende — culto que é uma verdadeira consa­
ção bom. Dn. M 'A
anuel d rriaga gração.
São estas tres qualidades que o tornam Honra e gloria do seu partido, lustre da
querido entre o povo, que pronuncia o seu nome com respeito, e sua classe, o dr. Manuel d’Arriaga é, mais do que tudo isso, para
á sua passagem, com respeito, se descobre. o coração dos seus patrícios, gloria e honra da terra que o viu nascer.
Comicio a que elle presida, reunião em que elle faça ouvir o seu Lisboa — 1008. Raposo de Oliveira.

544

DRaC-CCA
FASCICUEO K-’68

DRaC-CCA
.......... .................. 'X
jftntiga Casa Tjerirand- José Bastos £ C.a
RUA GARRETT, 73 ZE 75 — LISBOA

€ncyclopedia de flpplicações Usuaes


por JOÃO BONANÇA
HistoriaÇGeograDliia, Estatística, Astronomia, Ptiysica e CMmica, Agricultora, Hygíene, Medicina pratica, Commercio, Artes, Lettras, Portugal pittoresco, etc., etc.

íiiuro de tudo e para todos, de immediata consulta e de incontestável utilidade

Um unico volume — Esplendidas illustpaçòes


Com a diffusão da presente obra, vertladeiramenle util e indispensável a toda a gente, unica em lingua poríugueza, orgulhamo-nos em poder
affirmar que um bom serviço prestamos ao publico. Para mais, tem a abonal-a o nome do auctor. E’ elle João Bonança, um dos escriptores
de mais solidos conhecimentos que enriquecem as lettras portuguezas e um investigador da mais admiravel persistência e aptidão.
A Encyclopedia de Applicações Usuaes fórma um volume portátil, repleto de noções uteis nas diversas praticas
da vida diaria. E’ um livro para ignorantes e sábios; educa uns e rememora os outros promptamente, sem dispêndio de muito tempo e
trabalho. O commerciante, o agricultor, o jornalista, o homem de lettras, o professor, o clinico, o marinheiro, o militar, o viajante, o
operário, etc., ahi encontram uma instrucção variada e solida e regras para se conduzirem na pratica dos seus misteres e nos actos da
vida publica e particular. O que apenas tiver uma educação elementar, completal-a-ha com pequeno dispêndio de trabalho, de tempo e
de dinheiro, na Encyclopedia de Applicacões Usuaes.

PUBLICA ÇÃ O BARA TISSIMA


Cada fascículo de -16 paginas, 30 réis Cada tomo de 80 paginas, 150 réis
O volume de mais de 1:600 paginas, encadernado em pelle, custa 2$OOO réis!!!

Typ. de "A Editora"—LISBOA

DRaC-CCA
RECORDACAO
onservoas mais agradaveis recorda­ foi a bondade serena e affa-
C
ções do meu querido districto da
Horta. Lá estive, faz agora trinta annos,
vel d’aquellas nossas gentes
de além do Oceano, a sua do­
e nunca deixo de ver estampadas na ca- cilidade, a intelligencia natu­
mara escura da memória aquellas terras ral do povo, e a hospitaleira
abençoadas: o risonho aspecto das povoa­ bemquerença, tão nobre, tão
ções, com as suas gelosias verdes, as suas natural, das classes elevadas.
fachadas muito brancas; os campanarios Tristíssimo é, que de tan­
a chilrear, e a apontar para o ceo; os cam­ tas pessoas que tive a honra
pos muito verdes e cultivados, ostentando e o gôsto de conhecer e tra­
J >. M C
aria 'A
hristina d uma VC-
rriaga tar no Fayal, nas inolvidá­
getação veis reuniões da cidade da
riquíssima tão diversa da nossa; Horta, quasi todas desappa-
a luminosa bahia da cidade da receram já d’este mundo no
Horta, entre as grandiosas arri­ lapso de trinta annos; con­
bas da Espalamaca e do Monte servo-as, porém, tão vivas na
queimado; o azul nacarado do retentiva, que me parece ás B
rigadeiroS J
ebastião'A osé d rriaga

seu mar; ao fundo a linha bolea­ vezes vel-as e escutal-as.


da das montanhas; e ao longe o O venerando Governador Civil, Conselheiro Antonio José Vieira
vulto azulado e atrevido do Pico Santa Rita, decano dos Governadores Civis d’esse tempo, homem
sempre toucado de neves; espe- talentoso e culto, amigo do grande Marechal Saldanha, cheio de
ctaculo admiravel, conjunto de­ boníssimas intenções, e com umas maneiras graves que impunham
veras unico, de que os meus im- veneração, e se chamam hoje «da corte antiga».
moveis lisboetas não podem for­ O intelligente, buliçoso, e sagacíssimo Secretario Geral Dr. Mi­
mar ideia exacta. guel Street d’Arriaga, caracter modesto e distinto, a quem só fal­
Sim; de tudo, porém, o que rD . M
anuel J
osé d 'Arriaga tou que o acaso o tivesse collocado na posição elevada que tanto
melhor se me gravou no coração, chefe da casa Arriaga merecia, e onde poderia ter prestado ao districto e ao Paiz os

N “ 69 545

DRaC-CCA
mais relevantes serviços, mercê das O excellente e palaciano Manuel Maria da Terra Brum da Sil­
suas altas qualidades. veira, Barão hereditário da villa da Lagôa, meu amigo, e cuja alta
Samuel Dabney, Cônsul dos Es­ probidade e dedicação ás Instituições sabia manter com brilho as
tados Unidos da America do Norte, velhas tradições dos do seu sangue.
uma das almas puras e santas que O talentoso e mallogrado Ernesto Rebello, tão bom rapaz, de
tenho conhecido, um benéfico á ma­ tão agradavel companhia, poeta e romancista de tanto mérito, a
neira christã, americano por nasci­ quem a falta de convivência n’um centro grande impediu de subir
mento e educação, e já açoriano por aos altos píncaros litterarios, a que o seu provado engenho lhe
affecto e caridade. dava juz.
Seu cultíssimo cunhado, Oliver, O estudioso Silveira Macedo.
outro amavel americano, cuja linda E como estes, quantos mais!
casa em «Bagatelle» respirava toda E todos esses... victimados já pela morte!!...
a elegancia dos centros europeus, A cima d’esse grupo, a figura veneranda do honrado estadista
1 >n. M Street d’A
iguel rriaga
e era pra^o-dado da melhor socie­ Duque d’Avila e de Bolama, açoriano sempre lembrado da sua
dade da Horta. cidade natal, e que, embora lá não residisse, a todos estava pre­
O Conselheiro Dr. Antonio Maria de Oliveira, sujeito admira­ sente, pois fomentou e acompanhou constantemente os progressos
velmente orientado, e que o nosso Governo elevou depois á pri­ intellectuaes e materiaes da sua terra.
meira magistratura districtal.
O Dr. Manuel Francisco de Medeiros, também Governador,
pessoa de notável intelligencia e boas intenções.
O velho e respeitável Visconde de SanfAnna, que na sua apa­ Se eu me atrevesse a mencionar o elemento feminino, que
laçada residência se mantinha alheio á política militante, mas pro­ n’esse tempo abrilhantava a sociedade da
movia indirectamente com muito critério todos os progressos da Horta, referir-me-hia ás senhoras Avilas, cujo
sua Ilha. nome andava com respeito na bocca de todos,
O bom Florencio José Terra, valente «lobo de mar», então ás nobres senhoras Arriagas, sempre tão ca­
commandante de um dos vapores da carreira, respeitoso e cum­ ridosas para a pobreza da Ilha, á senhora
pridor, modelo de officiaes de marinha, com quem tive a honra D. Maria de Santa Rita, herdeira da intelli­
de embarcar, e a quem fiquei devendo mil provas de sincera gencia de seu pae, e á talentosa poetisa a se­
amisade. nhora D. Hermenegilda de Lacerda.
O estimável Coronel Commandante da Subdivisão militar, Ca- D’essas pessoas todas, tão queridas e es­
simiro Barreto dos Santos. timadas, algumas felizmente vivem.
0 austéro Juiz de Direito, Dr. Relego Arouca. Visconde de Santa A
nna Entre os homens com quem mantive rela-

346

DRaC-CCA
ções cordeaes, especialiso o sympa- buliçosa criança a desabrochar, tem
thico e amabilíssimo engenheiro An- revelado os mais poderosos dotes
tonio da Cunha de Menezes Brum, de colorista do estylo, de pensador,
membro de uma das mais antigas e de artista inconfundível. Os qua­
casas do archipélago, e funccionario dros que tem publicado de costu­
dedicado e cumpridor; o bom Kopke, mes e paizagens da sua Ilha (eu ia
director das obras publicas, tão fino escrevendo «da nossa Ilha»), são
e intelligente; e Maximiliano de Aze­ perfeitos, e teem de ficar como ver­
vedo, hoje coronel, e então um ga­ dadeiros modelos.
lante mancebo instructor de milita­
res; então um agradavel conversa­ *
dor nas salas, e hoje um notável * *
escriptor militar e dramaturgo.
Especialiso mais, no campo lite­ r D . A M
ntonio 'O
aria d liveira
Quasi tudo isto, como se vê, é his­ F J
lorencio Tosé erra

rário, outro insulano, grande e ro- toria antiga; ao menos por esse moti­
busto talento, Florencio Terra, filho dilecto do commandante acima vo merece ser perpetuado, como o ficou para sempre na minha alma.
citado, e que hoje homem, e professor do Lyceu, e então uma Visconde de Castilho.

547

DRaC-CCA
CÂNDIDO MARIA DE SOUSA
ntre a pleiade dc rapazes de valor de ha nenhuma das companhias dramaticas, que até
E vinte e tantos annos, destaca o vulto sym-
pathico, a figura insinuante de Cândido Maria
então nos tinha visitado, trouxera um galan
comico que o egualasse.
de Sousa. Amarguras da existência o fizeram aban­
Socio fundador do Grémio Litterario Faya- donar o seu querido Fayal, de que tanto fal-
lense e seu secretario desde 1876 até á epocha lava aos seus amigos, nas suas cartas repas­
da sua retirada para Lisboa, deveu lhe esta sadas de funda saudade, e fixar a sua residência
associação, em grande parte, o seu desenvolvi­ em Lisboa, onde exercia o cargo de escrivão
mento. do crime na Boa Hora, á epocha do seu falle-
Empregado da alfandega da Horta durante cimento em 1898.
annos, foi sempre muito considerado pelos seus Intelligente e bom, pertence a essa rara
chefes, sendo por muitas vezes encarregado de qualidade de homens que, uma vez entrados
serviços, que competiam aos mais graduados, na nossa alma, nunca mais de lá sahem,
e nos quaes revelava sempre a sua muita apti­ muito embora a morte os tenha roubado ao
dão e superior intelligencia. mundo.
Foi assiduo collaborador de vários jornaes, E na nossa está sempre a imagem do que­
e dos seus artigos resaltava sempre o grande rido morto.
amor que tinha pela sua terra. Não representam estas linhas uma biogra-
Distincto amador dramatico, ainda hoje phia. São apenas uns leves traços, tributo de
muitos se recordam com saudade do seu admi­ C
andidoM aria de Sousa
saudade de um dos seus amigos e compa­
rável desempenho nas comedias «Um fura vi- nheiros d’essas epochas que tão longe vão,
das», «Quem tem medo», «O Diabo no moinho» e tantas outras, mas cuja recordação fica indelevelmente gravada na nossa
em que a plateia do nosso theatro sc levantava cm pezo para mente.
o applaudir freneticamente, sendo todos unanimes em dizer que Horta, de março de 1908. José Garcia do Amaral.

'------- 'XJOEX^------- '


548

DRaC-CCA
UMA EXCURSÃO AOS AÇORES 9

A ILHA DO FAYAL — (Excerpto)


ogo o aspecto da cidade, num e Pico, canal que mais parece um
L amphitheatro risonho, predis­
põe bem o espirito do viageiro
rio, pela pequena distancia das
costas, sente o contagio d’aquelle
que n’ella vae desembarcar. riso, torna-se alegre também.
Caiada de branco, a estreita Aproamos á Horta. Entramos
fila da casaria, á beira mar, com na vasta e abrigada bahia, de­
suas persianas verdes, parece que pois no porto artificial, apenas
tem um sorriso de boas vindas defendido por um estreito molhe,
para o forasteiro. que mais não é preciso, mercê
E o forasteiro, como nós, a- das suas naturaes condições de
travessando o canal entre o Fayal segurança.
Desembarcamos. E, uma vez
em terra, vamos dar um passeio
pela pequena cidade. Confrater-
nisemos com os habitantes, veja-
nPin„ ...c t mos a sua vida. Poucas ruas te-
mos a correr, nenhuns edifícios a
admirar, a não ser, pela sua grandeza, esse antigo convento de je­
suítas, constituído pela egreja matriz e pelas repartições publicas.
A egreja é notável pelos seus azulejos e velhos quadros, pela
magestade severa das suas naves.
Toda a cidade, á beira mar, c orlada por um areial. Dá-
lhe relativa importancia o ser estação central do cabo submari­
no, imprimindo-lhe certa vida o elemento estrangeiro, empregado
nas companhias ingleza, americana e allemã.
De resto, o commercio, tanto marítimo como terrestre, é pe­
queno, e a vida decorre ali serena e monotona, como n’uma
Faval. — Granja, Freguezia da Feteira grande, mas garrida aldeia.

549

DRaC-CCA
O traço mais caracteristico da população é o da intelligencia, da Lomba, que n’um instante podemos galgar. Venha a carrua­
d’um certo grau relativo de instrucção, superior ao dos habitantes gem, e subamos.
das outras terras açorianas. Chegados ao cimo da Lomba, que uma estrada pinturesca
As pessoas mais bem cotadas da Horta, na intellectualidade, atravessa longitudinalmente, ficam nossos olhos inebriados ante a
no commercio e no funccionalismo, findos, pela tarde, os seus la­ belleza, a grandeza phantastica do quadro:
bores, passam o tempo nos tres clubs da cidade, jogando, lendo, Para um e outro lado, muito em baixo, estendem-se duas vas­
ou conversando, até ás 10 horas da noite, hora a que o pe­ tas planícies, cujos campos, em verdes quadrados, que a brancura
queno movimento da Horta se extingue, e tudo entra burguezmente das cazas pica, a espaços, nos dão um bello aspecto de alegria e
na quietação e no repoiso. fartura.
Eis a cidade. Voltemo-nos para o mar: Surge lá em baixo, a facha da ci­
Agora, o campo. dade e o porto. Depois, o canal azul e vasto, e em frente o Pico,
Temos, logo aqui bem perto, abrigando a cidade, o dorso alto que, á medida que vamos subindo, mais alto e mais próximo nos

Ilha do Faval —O Valle dos Flamengos. Vista tirada do cimo da I.omda

55o

DRaC-CCA
uma alegre romaria, a que vae quasi toda a população da ilha. Pelo
inverno, os gelos e os nevoeiros cerrados afugentam da serra
toda a nota humana.
A desolação é completa.
Mas, deixemos esta paisagem, que impressiona pela grandeza
e pelo mysterio; voltemos á cidade e, tomando carruagem, mar­
chemos para um passeio impressionante, também, mas pela ale­
gria, apenas:—ao Capelo.
A principio, a estrada é banal, a vegetação insignificante; mas,
percorrido meio caminho, a segunda metade é dum encanto in-
narravel. Esta parte é toda plana e com poucas curvas. Caminha-

parece, rasgando o azul com o seu cabeço agudo. Por detraz, es­
tende-se S. Jorge, cujas cazas se veem bem nos dias claros, e ao
fundo avista-se a massa escura da Graciosa.
Viram já mais surprehendente quadro? Desconfio bem que
não.
Seguindo estrada acima, para o interior, e entrando por ata­
lhos quasi intransitáveis, conduzem-nas as muares, praticas no ca
minho da serra, até á bocca da Caideira, cuja cratera se escan­
cara no mais alto do matto, descampado e triste. Sentamo-nos á
sua borda. São 1.800 metros de circumferencia por 1.000 de pro­
fundidade, aproximadamente. Pelas encostas, vegetação rasteira,
e, lá no fundo, a agua das lagoas brilhando ao sol. Em volta pe­
las fragosidades da serra, silencio absoluto, desolação. Ao longe,
o mar, as tres ilhas já vistas, e mais distante a Terceira, esfu­
mada na curva distante do horisonte.
Na pequenina ermida, que ali se ergue, celebra-se pelo S. João Fayal — Alto i>a Ribeirinha

DRaC-CCA
mos entre duas grossas e altas filas de hortencias, de cujo seio Pelo Capelo adentro, ainda as hortencias continuam a abrir
irrompem milhares de roseiras floridas. alas. A freguezia é deveras pinturesca, como os Flamengos, como
E assim vamos caminhando por duas horas, até ao Capelo, Castello Branco e a Ribeirinha; como os Cedros, na parte norte,
n’um encanto de sonho, na estrada plana e recta, por entre a mu­ onde a vegetação manifesta maior pujança, tendo trêchos de es­
sica vibrante das aves e o perfume inebriante das flores. trada encantadores.
No emtanto, o arvoredo é escasso. D’um lado, o terreno desce, Um encanto, finalmente, é toda esta terra, em que eu passei
em suave declive, até ao mar; do outro, erguem-se pequenos mon­ bellos dias de inolvidável prazer espiritual, que lembro com sau­
tes, de graciosos contornos, d’um queimado negro ou rubro, de­ dade, e que talvez não voltem mais. Cumpram-se os fados.
nunciador da acção dos vulcões, que por ali se fizeram intensa­
mente sentir. Raposo de Oliveira.

552

DRaC-CCA
FASCÍCULO jN.° 69

DRaC-CCA
jfíntiga Casa j^erirancl- José Bastos í, C.a
RUA GARRETT, 73 E 75 — LISBOA

€ncydopedia de flpplkações Usuaes


por JOÃO BONANÇA
Historia, Geograpliia, Estatística, Astronomia, Pliysica e Chimíca, Agricultura, Hygiene, Medicina pratica, Commercio, Artes, Lettras, Portugal pittoresco, etc., etc.

Livro de tudo e para todos, de immediata consulta e de incontestável utilidade

Um único volume — Esplendidas illustraçòes


Com a diffusão da presente obra, verdadeiramente util e indispensável a Ioda a gente, unica em língua portugueza, orgulhamo-nos em poder
affirmar que um bom serviço prestamos ao publico. Para mais, tem a abonal-a o nome do auctor. E’ elle João Bonança, um dos escriptores
de mais solidos conhecimentos que enriquecem as lettras portuguezas e um investigador da mais admiravel persistência e aptidão.
A Encyclopedia de Applicações Usuaes fórma um volume portátil, repleto de noções uteis nas diversas praticas
da vida diaria. E’ um livro para ignorantes e sábios; educa uns e rememora os outros promptamente, sem dispêndio de muito tempo e
trabalho. O commerciante, o agricultor, o jornalista, o homem de lettras, o professor, o clinico, o marinheiro, o militar, o viajante,.o
operário, etc., ahi encontram uma instrucção variada e solida e regras para se conduzirem na pratica dos seus misteres e nos actos da
vida publica e particular. O que apenas tiver uma educação elementar, completal-a-ha com pequeno dispêndio de trabalho, de tempo e
de dinheiro, na Encyclopedia de Applicações Usuaes.

PUBLICAÇÃO BARATÍSSIMA
Cada fascículo de 16 paginas, 30 réis Cada tomo de 80 paginas, 150 réis
O volume de mais de 1:600 paginas, encadernado em pelle, custa 2$OOO réis!!!

T\>p. de "A Editora” — LISBOA

DRaC-CCA
BARÕES DA RIBEIRINHA
BARONEZA DA RIBEIRINHA E’ isto invulgar na mulher por-
tugueza: d’ahi a admiração e par­
todos os dotes de caracter ticular respeito que tributamos á
A e de coração, a todas as vir­ sr.a Baroneza da Ribeirinha.
tudes de esposa e mãe, de exem­
plaríssima domna de casa, a sr.a *
Baroneza da Ribeirinha allia os
altos attributos d’um espirito lú­ BARÃO DA RIBEIRINHA
cido e culto.
No remanso do seu lar, — rande proprietário e grande
primor dordem e de bom gosto
— um tanto affastada da sociedade B > R
aroneza i a ibeirinha
G influente eleitoral. Milita no
partido progressista, que lhe deve
pelos seus incommodos physicos, muita dedicação.
a sr.a Baroneza da Ribeirinha emprega todas as horas que lhe Tem sido administrador de concelho em varias situações diffi-
restam do labor domestico, que nunca quiz confiar em absoluto a ceis, desempenhando-se sempre de espinhosos cargos com prudên­
mãos mercenárias, no estudo constante, não só da língua patria, cia e discreção. E’ dos poucos que não abusam do logar em tra-
como do francez e italiano, cujos clássicos conhece e distingue ficancias de emigração clandestina.
com notável critério. Foi provedor da Santa Casa da Misericórdia, e da sua gerên­
Quando acontece falar de litteratura, o espirito da excellente cia resultou um bello exemplo de zelo e rectidão, que sobremodo
senhora anima-se extraordinariamente, sem affectação, e podemos o honra.
então apreciar, atravez da sua natural modéstia, a somma de lei­ E’ indiscutivelmente um dos homens ricos e dos homens bons
tura escolhida que ella possue. da cidade. Como tal o destacamos.

N ° 70

DRaC-CCA
EUCLIDES COSTA OSCAR RIBEIRO

uando Euclides ra um dos rapazes mais apreciáveis da nossa terra: intelli-

Q Costa publi­
cou dois volumes de
E gente e culto, correcto e fino, distincto sem affectaçao.
Alma d’artista, amava o Bello e cria no Bem. Viveu amando e
prosa, Escarvoádas crendo... Um sonhador! Quando despertou, suicidou-se.
e Lyrios, já a im­ Que terrível despertar!
prensa açoriana con­ Caracter nobre, de esquisita meticulosidade, soffreu e calou-se.
tava n’elle um dos Nem uma queixa, um desabafo; nem um gesto menos delicado, um
seus nomes mais pro- simples impeto de revolta!
mettedores. De joelhos, as mãos postas, pediu, supplicou que lhe confes­
Foi depois para sassem a verdade. — Oh! a incerteza! o supplicio atroz da incer­
o continente termi­ teza !... Mas a verdade mata. .. Embora! Ouviu-a, sem esgares,
nar os seus prepara­ chorando silenciosa­
tórios, e ali, no con­ mente. Levantou-se,
vívio espiritual dos brando e grave: —
livros e dos profes­ Adeus!—Beijou os fi­
sores, a sua educa­ lhos, os innocentes, e
ção humanista foi-se EuclidesC osta
partiu, poupando af­
aperfeiçoando, e o rontas aos culpados.
seu cerebro ganhando novos elementos de estudo, que o dirigis- Sahiu para nunca
sem pela vida fóra. mais voltar!
Acabaram os preparatórios, e elle seguiu para o Curso Supe­ Morreu corno sem­
rior de Lettras. pre vivera — sem mal­
Ha quem vá para lá, com botas de verniz e monoculo, — por tratar pessoa alguma.
luxo. Elle foi, com o seu talento e os seus livros, — para estudar. Era um bom e um es-
E, como nunca abandonou o seu primeiro desígnio, o resultado theta: retirou-se com
foi que, ao terminar o seu curso, alguns saíram com uma farda de brandura e correcção.
addido de legação, elle — com uma carta cheia de distincçÕes e o
apreço dos seus professores. Antonio Baptista. Oscar Ribeiro

554

DRaC-CCA
RODRIGO GUERRA
em sombra de lisonja,

S está aqui o nome


d’um litterato a va­
ler; nome que dispensa
reclamos espaventosos,
mas que o Álbum Açoriano
tem o dever de pôr em
alto destaque, erguendo-o
tanto como os mais il-
lustres que honram, actual-
mente, as lettras insulares.
Rodrigo Guerra é um
excepcional temperamento
de artista, manifestado bri­
lhantemente n’essa manei­
ra bella e difficil de traba­
lhar o conto—romance
minusculo e, por isso mes­
mo, de mais extenuante
RodrigoG uerra
trabalho, — pois que o ar­
tista tem de engendrar
enredo, traçar caracteres, descrever o local da scena com meticu­
losidades de observação, o que só o espaço de largas paginas con­
sente fazer com a perfeição indispensável — a quem o souber fazer!
Melhor do que eu, fala este trecho duma carta de D. João da
Camara — querido amigo de nós ambos e nome saudoso e illustre
nas iettras patrias, que tão briosamente honrou:

555

DRaC-CCA
E é principalínente no conto regional, líesse que dá ao leitor Depois d’isto, não ha palavras: haverá apenas vontade de lêr
a idéa d’uma paysagem especial, de especiaes costumes e hábitos, os contos exparsos de Rodrigo Guerra, — visto que a sua indolên­
d’uma linguagem typica e d’um viver caracteristico — é n’esse ge- cia, genuinamente açoriana, ainda não se atreveu a fazer um vo­
nero litterario que Rodrigo Guerra amplamente revela faculdades lume. . .
raras de artista, que não permittem que entre elle e outros escri- Por volumes valem, todavia, alguns dos seus contos, pelo es­
ptorès, de nome cotado na litteratura portugueza, se possam fazer tudo e pela forma doce que os revestem.
muitos confrontos vantajosos para os últimos.
A affirmá-lo de sobejo, ahi está esse bello conto—O F'eitor, Lisboa — 1908
flagrante de realidade, de beleza, de observação e de arte. Raposo de Oliveira

556

DRaC-CCA
O FEITOR
Vida açoriana

ra realmente um verdadeiro encanto de olhos ver todo aquelle De cima, da varanda, vê-se o pequenino regimento subir um
E vasto terreno vulcânico coberto de cachos de uvas, dourados
como o ouro.
rochedo, descer outro, perder-se de vista para tornar a surgir,
sempre debaixo de forma, em fila uns atraz dos outros, brilhando
Ia-se já por julho adeante. Era nos tempos em que a «doença» ao sol a côr viva da sua plumagem, echoando no ar azul da ma­
não atacara ainda as vinhas. nhã o seu hymno festivo de «quá.. . quá. .. quà. ..,» que apenas
Aquelle era mesmo o maior corpo de terreno de toda a ilha. a pancada do martello nos arcos de ferro acompanha, como se fosse
Vinha de lá de cima, da grande montanha, em declive, largo, toque de pratos.
vasto, clareado de sol, cheio da linda côr da folhagem e dos ba­ Sentia-se bem a frescura da sua entrada na agua, percebiam-se
gos da uva, debruçando-se caprichosamente sobre paredinhas em bem esses deliciosos momentos de mergulhar os pescoços, de na­
angulo recto, sobre lages, formando grinaldas, formando cachos, dar sob a superfície liquida, de sacudir depois as azas, cahindo a
perfumando o ar, terminando quasi á beira-mar, alargando-se
para o norte e para o sul, não se vendo os muros que o cir-
cumdam, perdendo-se os olhos no caminho que o atravessa
até lá cima, ao portão verde de enorme fechadura, que dá
para a canada, — velho caminho que um carro de bois sobe
aos solavancos, como navio sobre mar tempestuoso.
Em baixo, contra o mar, fica a velha casa do «senhor mor­
gado», rodeada de pateos e de varandas.
Na luminosa manhã de julho, ouve-se o bater metallico
dos arcos de ferro no bojo do vasilhame.
Pelo portão, que abre para a costa, sahe um rancho de
patos, a um de fundo, caminhando vagarosamente, a passo
balanceado, sacudindo o rabo, alegre n’esse goso antegostado
da entrada na agua viva da maré cheia, enchendo a poça de
um lado a outro... Ilha do Fayal. — Lameiros. — Flamengos

557

DRaC-CCA
agua em gottas iriadas. Elles desappareciam por vezes, appareciam milhafres no vasto espaço, o branquear de uma véla ou o risco
depois, corriam em todas as direcções, voavam por sobre a agua, negro do fumo de um vapor, no horizonte longínquo...
perseguiam-se, quietavam-se, indo ao sabor da pequenina onda, Como se chegasse ao tempo das vindimas e o anno fosse de
que a vaga vinda de fóra produzia; apanhavam pequeni­ farta colheita, o «senhor morgado» convidara o major,
nos peixes, comiam limos que a maré vasante ia deixando o velho major, que fôra do tempo do «Senhor D. Pe­
a descoberto: e, assim, passavam as horas de maior ca­ dro», e vários parentes, com familia e criados.
lor n’aquelle bem estar, até se resolverem a sahir da A velha casa, isolada n’aquella parte da ilha do Pico,
agua e voltarem para casa, sempre na mesma forma, com duas ou tres pequeninas casas em volta, e que fôra
num «quá... quá...» que era para elles como que uma antigo convento de frades Franciscanos, tinha vastos
marcha de guerra, a animar-lhes o passo dobrado com corredores, vastas salas, janellas abrindo para o campo
que recolhiam ao quartel. e para o mar.
Não fôra preciso mais do que uma vez para lhes en­ Se nas vinhas ia já a labuta da apanha da uva, na
sinar o caminho. Agora, em cada manhã, elles iam sós grande cozinha do convento accendia-se lareira logo de
para o seu banho, vistosos como soldados hespanhoes, manhã cedo e não se apagava senão alta noite. Todos
cheios da sua pessoa, aprumados como velhos granadei­ os dias se mettiam viandas e pão ao forno. Faziam-se
ros, á conquista do mar que era d’elles e que elles sau­ bolos de milho em tijolos, para o almoço; faziam-se do­
davam com mostras de viva e doudejante alegria. ces de pera e de amora, com que se enchiam boiões de
Que simplicidade de vida a d’aquella barro vidrado, com que se enchiam tige­
casa e a d’aquellas varandas, deitando las, que se punham depois ao sol, sobre
para os pateos e para o mar, deitando os balcões; matavam-se gallinhas, co­
para as vinhas, só tendo a entretel a o ziam-se ovos, fervia-se leite, fazia se café
labutar das vindimas, o sol que illumina no tradiccional sacco, lavavam-se queijos,
ou a chuva que cahe, a onda que abranda punha-se manteiga fresca nos mantei-
ou que embravece, a noite de estrellas gueiros, enchiam-se garrafas com o vi­
ou a noite de luar, o silencio dos cam­ nho do anno passado, que se ia buscar
pos, sob o cantar dos grillos, o vôo dos ao armazém, degollavam-se patos, — po­
bre pequeno exercito, que assim ia sendo

558

DRaC-CCA
desbastado — que lá iam para o forno, a assar com arroz, e que o
major comia a «lamber-lhe os dedos».
Os criados e as creadas andavam de um lado para o outro,
chamados d’aqui, chamados d’acolá, descendo escadas, subindo es­
cadas, indo á sala de jantar, indo á cozinha, estendendo a toalha
sobre a mesa, pondo as louças, enfeitando os vasos com as flores
silvestres trazidas do matto pelos leiteiros, pondo nas fructeiras
deliciosas peras, ameixas, ainda frescas do orvalho da manhã, amo­
ras de arvore que alguém ferisse, com o sangue a gottejar, figos
brancos e pretos, enrugados, com a viva côr da sua carne a pôr
um destaque frisante na verdura da folha, as uvas apanhadas ali
perto da casa, trazidas pela neta do feitor, a mais linda rapariga
de quantas viviam em redor, e que eram dispostas artisticamente,
como se se debrussassem ainda sobre a pedra dos murositos de
abrigo, e o enorme queijo de São Jorge, como uma roda de carro,
inteiro ainda, e os pequeninos queijos de S. João do Pico, delga­
dos, desfazendo se em manteiga, saborosos, apparecendo entre as
fructeiras, entre as garrafas, entre os pratos, entre os copos, e a
fumarada apetitosa das iguarias, enchendo o ar, enchendo a sala
de aromas queridos ao mais rebelde fastio d este mundo e do ou­
tro !
Em cada manhã, eram assim os almoços, com vinte e mais
pessoas sentadas em volta da mesa, a aguçar-lhes a vontade de
comer o ar fresco do mar a entrar pelas janellas — esse delicioso
mar que elles tinham ao alcance da mão, podendo-o apanhar como
se apanha um fructo.
O velho morgado, antes de principiar a comer, tinha o parti­
cular gozo de beber um copazio cheio com agua salobra do seu
poço, que lhe trazia a neta do feitor.
Tinha o seu quê de solemnidade o acto. A agua era tirada mo­
mentos antes de bebida, trazida para cima no proprio balde de
cedro, deitada no copo, em frente do «senhor morgado», que só a Ilha do Faval. — SalÃo. —A festa da corôa

DRaC-CCA
bebia depois de a olhar á transparência da luz e de a vêr emba­ tomarem por menina educada na alta roda, fazendo-lhe alguns
ciar o vidro. Bebia-a primeiro aos goles, a saborear-lhe a fres­ uma côrte insistente, mas improfícua.
cura, a dar estallos com a lingua, como se fosse prova de vinho, Se em casa ia esta azafama, em baixo, nos lagares, nos arma.
entornando depois o copo de vez, a ver-se quasi correr a agua zens, nos pateos, nas vinhas, não era menos animado o quadro.
atravez da pelle magra do pescoço. Presidia a essa labuta o velho feitor, companheiro de infancia
A agua era para elle um medicamento, talvez mesmo o unico do senhor morgado, do senhor major e de outros senhores.
medicamento que tomava para o Muitas senhoras, que lá esta­
estomago. vam em cima, andára elle com
Dizia muita vez, a rir, que ellas ao collo.
aquella agua e a neta do feitor Vão-se perdendo hoje estes
é que lhe curavam o estomago... typos caracteristicos da ilha do
O major, que para a agua ti­ Pico, que eram como uma parte
nha sempre a velha crença de de velhas casas, dos velhos pa­
que «agua arromba navios», res­ teos, das velhas varandas.
pondia, a rir: A este de quem lhes fallo, não
— «Com o que tu estás... lhe vergaram a espinha os se­
Para o meu estomago... a ne­ tenta annos de edade.
ta... A agua... bebe-a... Parecia ter ainda a força dos
Mas isto era dito sem segun­ quarenta. De barba sempre feita,
das intenções, porque a neta do tinha a face lisa e corada. O
feitor, afilhada do velho morga­ olhar era azul e vivo. Nunca ti­
do, era estimada em casa como vera uma doença, e os dentes
se fosse pessoa da familia. tinha-os todos sãos e brancos
As filhas do morgado ti­ como o cabello.
nham-lhe amizade de irmãs. No No L
cimo da . — C
omba . M
asa do sr T
achado eixeira
De estatura alta, era figura
Fayal levaram-n’a ao theatro. que se impunha ao respeito de
Em uma noite, contava-se, vestiram-na á moda da cidade, com todos. E todos o respeitavam... Vivêra sempre ali, a tratar das vi­
o cabello muito bem penteado para cima, cahindo-lhe em caracoes nhas do «senhor morgado» e a cultivar de batatas e de milho um
sobre a testa, vestido de cassa branca, meio decotado, e levaram- cerrado que tinha perto de casa, uma pequenina casa, de balcão,
n’a para o camarote. que nunca fora caiada e que uma trepadeira alegrava em cada
Ensinaram-lhe ademanes de senhora, e a rapariga, desenvolta primavera, dando bonitas flores lilazes. Ficava lá em cima, na fre-
como era, desempenhou-se do seu papel, a ponto de os janotas a guezia, quasi debaixo da egreja. Em volta estavam as casas dos

56o

DRaC-CCA
FASCICI I A) jX.» 70

DRaC-CCA
Qasa gertrand- José Bastos á, C
RUA GARRETT. 7*3 2B 7*5 — LISBOA

€ncydopedia de flpplkações Usuaes


for JOAO BONANÇA
Historia,’; Geographia, Estatística, Astronomia, Pliysíca e Cliimica, Agricultura, Hygiene, Medicina pratica, Commercío, Artes, Lettras, Portugal pittoresco, etc,, etc.

Biuro de tudo e para todos, de immediata consulta e de incontestável utilidade

Um único volume -Esplendidas illustraçòes


Com a diffusào da presente obra, verdadeiramente util e indispensável a toda a gente, uniea em lingua portugueza, orgulhamo-nos em poder
affirmar que um bom serviço prestamos ao publico. Para mais, tem a abonal-a o nome do auctor. E’ elle João Bonança, um dos escriptores
de mais solidos conhecimentos que enriquecem as lettras portuguezas e um investigador da mais admiravel persistência e aptidão.
A Encyclopedia de Applicações Usuaes forma um volume portátil, repleto de noções uteis nas diversas praticas
da vida diaria. E’ um livro para ignorantes e sábios; educa uns e rememora os outros promptamente, sem dispêndio de muito tempo e
trabalho. O commerciante, o agricultor, o jornalista, o homem de lettras, o professor, o clinico, o marinheiro, o militar, o viajante, o
operário, etc., ahi encontram uma instrucçào variada e solida e regras para se conduzirem na pratica dos seus misteres e nos actos da
vida publica e particular. O que apenas tiver uma educação elementar, completal-a-ha com pequeno dispêndio de trabalho, de tempo e
de dinheiro, na Encyclopedia de <Ie Applicações Usuaes.

PUBLICAÇÃO BABA TISSIMA


Cada fascículo de 16 paginas, 30 réis Cada tomo de 80 paginas, 150 réis
O volume de mais de 1:600 paginas, encadernado em pelle, custa 2$00O réis!!!

Typ. de "fí Editora" — L1SBOP

DRaC-CCA
filhos e das filhas que haviam casado. Era como um velho a cêlha como agua da fonte. E assim se ia fazendo o bom
patriarca, no meio da grande e abençoada prole. vinho, que depois envelhecia nas adegas, tornando-se precioso.
A neta chama­ Lá fóra, por en­
va-se Thereza, no­ tre as paredinhas,
me da madrinha, fi­ por entre o verde-
lha mais nova do claro das vinhas,
velho Morgado. vêem-se mover co­
A familia do fei­ res vistosas, como
tor vivia toda alli se fantasioso paisa­
junta. Empregava- gista se entretives­
se no trabalho das se a espalhar tintas
vinhas. por de sobre aquel-
N’aquella ma­ les campos. Era o
nha, quem entras­ vestuário alegre
se na casa dos la­ das moçoilas a ver­
gares enchia as na­ se aqui e além, su­
rinas do cheiro acre bindo, descendo,
do mosto. Alenta­ desapparecendo,
dos moços, de ce­ apparecendo, mo­
roulas arregaça­ vimentando-se, es­
das, em camisolas, tendendo-se em fai­
pisavam a uva, ba­ xas coloridas, ilhi-
tendo ora com um minando-se, escu­
pé, ora com outro, recendo, perden­
vagarosamente ao do-se, voltando a
principio, mais ra­ ferir a retina na
pidamente depois, variedade das suas
encostando-se á va­ cores, approximan-
ra para poderem F
ayal.— P R
alacete dos barões da ibeirinha
do-se, affastando-
bater com os dous se, formando cír­
pés ao mesmo tempo, animando-se de palavras, cantando por ve­ culos, formando quadrados, accentuando-se depois nos variados
zes, rindo e folgando na fartura do vinho, que se sentia correr para tons: saias azues com barras amarellas, amarellas com barras

N-° 71 56!

DRaC-CCA
azues, brancas com barras vermelhas, casabeques de chita claros, pareciam procurar, na quietação absoluta da sua verdura e das
pintalgados de vários matizes, chapéos de palha branca, abeira­ suas arvores, a frescura de uma sombra, ou de uma gotta d’agua,
dos, de aba grande, enfeitados na cópa, a laias de vários cambian­ ou de uma leve brisa.
tes, e por ahi adiante, toda a pintura phantastica de um impres­ No balcão, os braços pendidos, as pernas estendidas, adorme­
sionista. ceram sobre cadeiras de balanço o Morgado e o velho major.
O feitor commandava alegremente este pequenino batalhão de De baixo, dos armazéns, sobe para os quartos de cama, para
raparigas, quasi todas bonitas, todas sadias, tendo na cara e nos as salas, o cheiro quente e picante do vinho novo a fermentar nas
olhos o sol das manhãs luminosas, trazendo á cabeça, como se pipas.
nada fosse, pezados cestos com uva, que iam despejar no tanque *
dos lagares. * *
Nos armazéns encontravam-se pipas com o vinho novo a fer­
mentar. Faz annos o «menino João», filho mais novo do velho Morgado.
Iam para cima, á hora do almoço e á hora do jantar, jarros com O «menino João» veiu ao mundo passados sele annos depois do
vinho que se bebia em tijelas de barro, turvo ainda, de.gosto pi­ ultimo filho. Era o querido da casa. Não havia vontade que se lhe
cante, sabendo bem em cima do encharéu de vinha d’alhos ou da não fizesse. Todos lhe obedeciam, desde o pae até ao ultimo criado.
garoupa com molho crú. Fora da criação de Thereza, neta do feitor. Tendo já dezoito an­
O morgado e os convidados bebiam a ficar folgasões. nos, parecia ter quinze na perfeição effeminada: face imberbe e
Esfusiavam então ditos picantes. A uma velha creada, que branca, olhos azues e cabello louro.
trouxera, já no fim de certo almoço, lagosta com molho cru, disse O anniversario do «menino João», que nascera no velho con­
o major recostando-se na cadeira, em voz de velho militar: vento, fôra sempre motivo de grandes festejos, desde o primeiro
— «Ai! Joaquina... que já nem com isto podemos batalhar...» anno. Logo ao romper d’alva, tiros de morteiro punham a pé se­
As vezes também pela hora quente do meio dia, no balcão que nhores e criados. Os balcões e os pateos saudavam-no já, na fes­
dava para o lado da terra, se entretinham os senhores da casa a tiva coloração de bandeiras, de arcos de verdura c flores.
comer e a beber. Com o subir da manhã ia chegando gente de vários pontos da
Eram melancias que se abriam, mais vermelhas do que lábios ilha, com carneiros, com patos, com gallinhas, com ovos, com
de mulher nova; eram melões de aromas vários; eram pecegos de fructas em açafates floridos, com queijos, com bolos em pratos,
casca avelludada, levamente colorida; eram enormes cachos de com pequenas lembranças, representando todas amizade singela e
uvas, dourados, destacando sobre o tom azul escuro dos pratos de franca. Até os pescadores traziam ao filho do senhor Morgado o
de porcellena antiga da índia; eram os jarros com vinho novo; melhor peixe apanhado durante a noite, fresco ainda da agua do
eram as tijelinhas de barro, que se enfileiravam sobre o muro. .. mar.
Os trabalhadores repousavam da labuta dos campos. Era realmente quadro digno de se pintar, o de todos esses ho­
A vinha, a montanha, os mattos, cheios de sol de lado a lado, mens e de todas essas mulheres, no variado tom dos seus vestua-

502

DRaC-CCA
rios, a entrarem no largo portão, a encher os pateos, a subir as guma cousa de extraordinario se passava. O Morgado, debruçan­
escadas, a irem até á vasta cozinha, onde deixavam as offértas e do-se da varanda, perguntou o que era. De baixo, responderam-lhe:
onde bebiam um copo de vinho velho á saude do «menino dos — Ahi vem o feitor, senhor, ahi vem o feitor...
annos». Abriram alas. Por entre ellas avançava a figura alta do velho
Naquelle anno estranhava-se que não tivessem ainda apparecido feitor, de cabeça descoberta, vestido com a melhor roupa, calçado
o feitor e a neta. de alpercatas, aguentando com mão firme um novilho que cabrio­
Na varanda que deitava para o lado do mar e para o pateo lava, procurando livrar-se das flores e da verdura com que o ha­
grande da entrada, estavam o sr. Morgado e o sr. major, as filhas viam enfeitado, desde os pequeninos chifres até ao rabo.
da casa e os convidados, como senhores feudaes vendo o desfilar Ao lado do avô, procurando socegar o animal com mimos, vi­
de seus vassallos. nha a Thereza. Vestia a mais alegre saia, o mais alegre casabe-
Na turba, que sahia o largo portão, fez-se uma paragem. Al­ que, puzera na cabeça o lenço mais florido e o abeiro mais gra­
cioso. Não havia alli nenhuma outra rapariga mais esbelta de
corpo, tão brilhante de olhos, tão colorida de faces e de cabel-
los, que se lhe pudesse comparar.
Era de um cunho bem antigo e bem feudal o grupo do ve­
lho e da neta, offertando ao seu senhor um novilho coberto de
flores, a cabriolar no pateo da entrada, sob a varanda do velho
solar.
A Thereza, alta e sorridente, offerecia um ramo de flores
ao «menino dos annos».
E a festa continuou pelo dia adeante, com um almoço que
se prolongou até tarde, e com um jantar que durou dois dias!

*
* *

Pela sombria manhã de novembro veiu o feitor até á casa


do «senhor Morgado», atravessando a vinha.
Quem, como elle, não estivesse habituado a ver a paisa­
gem vulcanica, agora sem uma unica verdura a alegral a, senti­
ria, com certeza, confranger-se-lhe a alma, na desolada negrura
FAYAL. — Xo AMANHO DAS TERRAS das pedras.

563

DRaC-CCA
Elle trazia as chaves da casa, que ia abrir para arejar. — Avô... contar-lhe as minhas maguas...
Subindo as escadas e entrando na sala e tirando as portas de — Maguas na tua idade!... ora o com o que tu estás... dei­
madeira, que substituíam as vidraças, não lhe disse aquella soli­ xa-te d’isso...
dão de paredes e de moveis nada que o pudesse commover. — Pois avô... tenho de lhe contar o que não contei a meu pae
Que lhe importava que aos campos faltasse a alegria e a e a minha mãe... o que não contei a ninguém...
verdura dos tempos de verão? — Mau vae ella... temos por
Que lhe importava que áquel- ahi algum rapaz que quer casar
las janellas não assomassem o se­ comtigo...
nhor morgado e as filhas do se­ — Não, avô... antes fora
nhor morgado? isso...
Que lhe importava que nos O feitor, então, que até alli
pateos se não ouvisse o cacarejar fallara de animo leve, carregou o
das gallinhas. O «quá.. . quá...» semblante, antevendo qualquer
dos patos, o cantar dos gallos, o cousa de mais serio e de mais
bater dos arcos no bojo do va­ grave.
silhame, que a erva crescesse e Havia muitos annos que a
subisse as escadas e o muro? vida se lhe não ensombrara como
Que lhe importava que a vaga n’aquelle momento.
batesse estrondosamente na cos­ A Thereza, na ancia de con­
ta, e saltasse por cima do portão, fessar tudo, tudo, disse os seus
e se espalhasse por cima dos ar­ amores com o «menino João», a
mazéns? sua culpa, a sua deshonra, a sua
Elle não sentia a tristeza da desgraça!
casa fechada e das janellas entai- Estava reservado para o ve­
padas. F
ayal . — C A
halet maral, NA ESTRADA DA CALDEIRA lho feitor o duro golpe!
Uma cousa, só uma cousa o Que trágico quadro esse dos
preoccuva: certo ar doentio e triste com que andava a neta. O dois, caminhando agora silenciosos pela vinha, deixando atraz de
que seria? si a casa isoiada e negra, entre rochedos batidos pelo mar, rodea­
O que teria a neta, tão alegre d’antes ? dos de pedras, açoutados pelo vento, sem uma arvore, sem uma
Ha scenas, que o diabo não as prepara; prepara-as o acaso: á erva, com a montanha a sombrear-se no escuro da tarde!
porta apparece-lhe Thereza de olhar triste. Ao velho feitor fôra aquella caminhada a ultima da sua vida!
— Sabes? estava pensando em ti; que vens tu fazer?... Quanto á Thereza, diz a lenda que, em certa manhã de dezem­

504

DRaC-CCA
bro, contando ella ao mar a sua vida, uma onda a levou ao seu E não assomou á janella nem cá varanda a figura afemiminada
amante, não apparecendo mais. do «menino João», a face imberbe e branca, os olhos azues e o
Nessa manha, a velha casa, sem vidraças, com as portas de cabello louro ..
madeira pintadas de cinzento a tapar as janellas, negra entre as Assim se perdeu aquella radiosa e florida mocidade, por quem
pedras negras, com a erva a crescer nos muros e nas escadas, choraram largos dias as moças de toda a ilha.
sorriu-lhe ainda de longe, na pungente recordação dos tempos idos... Rodrigo Guerra

5h5

DRaC-CCA
MELLO E S1MAS
a homens, cuja grande modéstia roça pela publicada nas Astronomische Abhaudlungeu e Astronomische Na
grandeza do seu valor, e só raros, conhecen­ chrichleu.
do-lhes o talento, sabem avaliar essa des- Elementos e ephemerides dos planetas G. V., T. S. e T. V.—
pretensão. publicado nas Astronomische Nachrichteu.
N’este caso está o capitão Mello e Si- Elementos e ephemerides para diversas opposições do planeta
mas— sem duvida a figura mais importante Tergeste — publicado no mesmo jornal.
da sua terra, visto que é das mais salientes Sobre a decimalisação do tempo e do arco — memória publi­
que, no campo da sciencia, Portugal pos- cada no Boulletin de la Societé Astronomique de F'rance.
sue— sem licença das cotteries. Acharão pouco, os profanos? Talvez. Todavia, os versados
Não era a mim, simples touriste no campo n’esta sciencia complicada, mas encantadora, sabem o que valem
arido e vasto da sciencia, que deveria caber esses trabalhos — producto d’uma observação, d’um estudo, d’um
a tarefa de dizer dos seus méritos: a alguém, calculo e d’uma previsão que
em melhores graças com a astronomia, devia caber tal encargo — satisfazem plenamente os mais
pois que é n’esse ramo da sciencia que mais se impõe o seu ta­ exigentes em matéria de tal
lento, tendo ahi produzido trabalhos de incontestado valor, publi­ monta.
cados, na sua maior parte, em revistas estrangeiras da especiali­ Apertam-lhe com orgulho a
dade. mão, as mais altas capacidades
A seguinte nota, se bem que incompleta, mostra a importancia scientificas de Lisboa; correspon­
d'esses trabalhos e a consideração que lhes prestam publicações dem-se com elle os mais cotados
de indiscutível crédito: astronomos do mundo; recebeu-o
Methodos para observar o sol —publicado em Les Sciences po- orgulhosamente a Academia das
pulaires. Sciencias e acatam com prazer os
Resumo das observações da estrella Nova Persei— publicado seus estudos as sociedades scien­
nas Astronomische Nacrichlen. tificas do estrangeiro.
Observações de estrellas variaveis, publicado nos annaes do Mas, o capitão Mello e Simas
Harvard College Observalorp. é, além d’isso, um erudito e um
Elementos definitivos da orbita do cometa 1900 II — memória emotivo, merecendo lhe particu­ M S
ello e imas

566

DRaC-CCA
lar attenção as questões d’arte, que estuda e segue, e com amor a outro, que não a mim, simples tourisle no campo arido e vasto
discute. da sciencia — mas seu amigo no coração.
Por todos estes titulos, nobilíssimos todos, e mais pela ami- Assim o attesto e juro, em publico e razo.
sade que mutuamente nos consagramos (revelação que guardei
para fim, para que primeiro a justiça falasse), apraz-me prestar Lisboa — 1908.
aqui esta homenagem aos seus talentos, tarefa que melhor caberia Raposo de Oliveira.

D----- — CZZZZ1 — <]


—~^x] tx^~——■'

DRaC-CCA
Uni trecho da “Apoteose Humana"

Phantasmas vãos de pó que os séculos consomem, Como sae de uma flôr o aroma delicioso,
Heroes feitos de sangue, abri logar ao homem; Sairá da esperança um raio luminoso
Descei dos pedestaes, parti os diademas, Que a alma inundará de azul serenidade.
Rasgae a folha e folha os vossos velhos poemas. O homem, conforme ao mundo e á grande immensidade,
Fostes da mão humana a obra inconsciente, Contemplará sereno a vasta natureza,
Tivestes um momento um esplendor fulgente, Deslumbrado na luz d’essa immortal belleza.
Mas escurece a luz da vossa antiga gloria. Homem ! filho do sol, vôa pelo infinito
Ampara-vos na queda a compaixão da historia. De pé sobre o planeta, em azas de granito!
Logar á intelligencia, á alma do universo, Personagem fatal do drama do universo,
Ao supremo esplendor no seu raiar diverso! Nas sombras e na luz, na vastidão immerso,
Caí phantasmas vãos no Bárathro do escuro, Abre ao radiante sol o peito crystallino
Deixae a immensidade e o homem no futuro. E radioso, como elle, espera o teu destino.

Esforço, esforço sempre; o timido desanimo Kant illudiu-se vendo a ordem moral do mundo
Não entibíe jamais esse esforçado animo N’um dualismo do ser transcendental, profundo;
Que venceu, sobrehumano, o espantoso, o horrível. O cosmos nos faz ver a lei egual em tudo.
Tornou-se o fogo em luz e a luz tornou visivel Que mais são do que a flôr os olhos de veludo ?
O esteiro que nos leva ás regiões doiradas Que ha de mais bello ? A flôr que a natureza lavra
Onde a sombra esmorece á luz das madrugadas E o homem que articula o facho da palavra.
E o eden de paz e amor se estende luminoso.
Descansarás ahi teu coração ancioso,
Peregrino do mundo, e sonharás, seguro, As concepções de Dante haveis de todas vcl-as
Uma vida de amor nos braços do Futuro. Sumirem-se ao fulgor das lúcidas estrellas.
Tivera eu o poder d’essa alma soberana,
Iria á grande estrella, a consciência humana,
O áspero caminho aos nossos pés se aplana Lançar em sua luz, em fulgidas torrentes,
Sob o nive) de luz da sympathia humana. Verdade, Bem e Bello. os sóes resplandecentes.
Sem amor faltaria o polo do altruísmo;
Tudo resvalaria em revoltoso abysmo;
Seria então o mundo um infernal presidio Fayal.
E reinariam n’elle a dôr e o suicídio. Manuel Joaquim Dias.

DRaC-CCA
DRaC-CCA
jfíntiga Qasct gertrand- José Bastos C
RUA GARRETT, 73 E 75-LISBOA

encyclopedia de flpplicações Usuaes


for JOÃO BONANÇA
Historia, GeograpMa, Estatística, Astronomia, Physíca e Chimica, Agricultora, Hygiene, Medicina pratica, Commercío, Artes, Lettras, Portugal pittoresco, etc., etc.

Laivro de tudo e para todos, de immediata consulta e de incontestável utilidade

Um único volume -Esplendidas illustraçòes


Com a diffusão da presente obra, verdadeiramenle utii e indispensável a toda a gente, unica em lingua portugueza, orgulhamo-nos em poder
affirmar que um bom serviço prestamos ao publico. Para mais, tem a abonal-a o nome do auctor. E’ elle João Bonança, um dos escriptores
de mais solidos conhecimentos que enriquecem as lettras portuguezas e um investigador da mais admiravel persistência e aptidão.
A Encyclopedia de Applicações Usuaes fórma um volume portátil, repleto de noções uteis nas diversas praticas
da vida diaria. E’ um livro para ignorantes e sábios; educa uns e rememora os outros promptamente, sem dispêndio de muito tempo e
trabalho. O commerciante, o agricultor, o jornalista, o homem de lettras, o professor, o clinico, o marinheiro, o militar, o viajante, o
operário, etc., ahi encontram uma instrucçào variada e solida e regras para se conduzirem na pratica dos seus misteres e nos actos da
vida publica e particular. O que apenas tiver uma educação elementar, completal-a-ha com pequeno dispêndio de trabalho, de tempo e
de dinheiro, na Encyclopedia de Applicações Usuaes.

PUBLICAÇÃO BARATÍSSIMA
Cada fascículo de 16 paginas, 30 réis Cada tomo de 80 paginas, 150 réis
O volume de mais de 1:600 paginas, encadernado em pelle, custa 2$O0O réis!!!

Typ- de "A Editora" — LISBOA

DRaC-CCA
NUNES SOBRINHO
oncluido o seu curso de pintura deco- cidade, e tudo respirando pureza e ternura,
rativa, o sr. Nunes Sobrinho começou por entre esmaltes d’oiro, que dão á alma
de espalhar por todo o districto os fructos crente aquelle assombro de grandeza e
do seu talento e do seu trabalho. aquella suggestão de riqueza que arrebatam
Inteligente e honesto, sem pretenções a e avigoram essa flor ideal sahida da dór, da
nomeadas que por vezes desvirtuam, o sr. Nu­ dòr creadora de todo o sentimento religioso.
nes Sobrinho conquistou, no emtanto, uma Nunes Sobrinho — dedicando-se espe­
rara reputação de artista decorador de ine­ cialmente á decoração dos templos sagrados
gável mérito. Poucas são as egrejas do dis­ — não tem comtudo abandonado os outros
tricto que não attestam o valor do seu tem­ generos de pintura, tendo já affirmado, tam­
peramento de artista finamente orientado bém, as suas qualidades de esculptor em
por uma especial educação esthetica e pelo imagens d uma concepção justa.
seu espirito caprichoso e sabedor. N’uma terra pequena, como o Fayal,
Colorista excellente, os altares decorados falha por completo de todos os incentivos,
pela sua mão impõem-se á admiração dos a figura artística de Nunes Sobrinho tem
devotos, por esse admiravel effeito de con- logar de realce, conquistado pelos seus ra­
juncto que tanto aquece os affectos religio­ ros méritos ahi postos em evidencia.
sos da alma christã, sonhadora e feliz na Outros, com menos talento e aptidões
sua inebriação mystica. artísticas, teem trabalhado e triumphado em
Formosos, variados, doces e vigorosos Nunes Sobrinho terras de amplos recursos. Elle ficou n’este
em applicações, em adornos, em cambean- cantinho de estiolamento, onde não podem
tes de tinta, os altares tocados pelo seu pincel afiguram-se-nos medrar tentativas arrojadas, nem podem brilhar rasgos de talento
trespassados d’uma atmosphera luminosa, cheia d’uma consoladora e de inspiração. Destinos a que ninguém foge.
beatitude, onde se idealisam recantos da morada celestial, trechos Lisboa — 1908.
de milagres, perfumes de candura, transparências inefáveis de feli­ Euclides Costa.

N.» 72 5õ9

DRaC-CCA
DR. URBANO DA SILVA
e intelligencia clara e caracter diamantino, o traste, o que não é mais do que um estado psy-
D dr. Urbano da Silva distingue-se entre os
homens da sua terra, pela ponderação dos seus
chico de opposição social.
E’ o estado de resignação soffredora, de des­
actos e subtileza dos seus conselhos. interesse pela vida, de desprendimento dos ho­
Ha annos que exerce, com superior proficiên­ mens, de descrença no futuro, de indifferença geral.
cia e exemplar modéstia, o melindroso cargo de E digo assim para o distinguir de outra forma
secretario geral do districto da Horta. E é ahi — de manifestação do descontentamento, a forma
no escrupuloso desempenho d’essa alta funcção normal, activa, sadia, que leva á rebellião.
do organismo districtal — que o dr. Urbano da A despeito d’isto, o dr. Urbano da Silva é um
Silva tem evidenciado as suas qualidades de ho­ util, tão incapaz de negar um conselho sincero,
mem superior, zeloso no cumprimento dos seus como de se recusar-se a um bom serviço.
deveres, leal para com os seus superiores, dedi­ Assim, se as suas qualidades de caracter e
cado para com os seus subordinados. intelligencia o impõem ao respeito de todos os
Jornalista e advogado, em ambos os campos seus patrícios, o préstimo dos seus conselhos e
o dr. Urbano da Silva merece — sem favor — a acções torna-o querido de todos os seus amigos,
attenção e o respeito que o publico lhe vota. que são muitos.
O dr. Urbano da Silva tornou-se um reser­ I) . U
r S
rbano da ilva
Tenho um justo respeito e uma natural admi­
vado, um retrahido, como tantos outros que, to- ração pelo secretario geral do districto da Horta,
cados pela dôr social que forma a trama da historia do nosso mas parece-me que nunca lhe falei. Digo-o aqui, como testemu­
constitucionalismo, se quedaram n’um ar de contemplação, con- nho de valor a comprovar a sinceridade das minhas palavras.
vertendo-se numa especie de mysticos, a que Rossi chama de con- Lisboa —1908. EucLIDES CoSTA.

DRaC-CCA
PADRE JOSE LEAL FURTADO
asceu este illustradissimo e talentoso sacerdote na freguezia Fayal do Bispo D. Jose Pegado, teve este Prelado, que também
N de Praynha do Norte, no concelho de São Roque da ilha do
Pico, no anno de 1760.
era excellente musico, occasião de ouvir cantar em diversas festi­
vidades religiosas, o padre beneficiado José Leal Furtado, causan­
Foram seus progenitores o alferes de ordenanças João Qua­ do-lhe viva sensação a mestria da sua execução e explendida voz,
resma e sua consorte D. Jacintha Rosa, gente abastada e da prin­ a ponto de instar muito para que elle o acompanhasse para a Sé
cipal da ilha. d’Angra, onde lhe arranjaria boa collocação.
Depois de haver cursa­ Escusou-se, porém, muito respeitosamente, o Prelado benefi­
do com distincção os ne­ ciado, e continuou aqui a viver junto da sua familia.
cessários estudos, mostran­ Por vezes apossava-se tanto das partes musicaes que desem­
do rara propensão para a penhava, como cantor, na liturgia
musica e poesia, ordenou- da egreja, que ficava extremamen­
se aquelle talentoso picoen- te commovido e nervoso.
se, conseguindo ser provi­ Conta-se, a este respeito, que
do como beneficiado na Ma­ no enterro de uma formosíssima
triz da Horta, cargo que donzella da Horta, filha de uma
exerceu com muita digni­ casa que elle muito frequentava,
dade e diligencia. tinha de cantar um solo, o Dies
Alem d’isso era cavalhei­ irae.
ro de fino trato e delica­ Do coreto do orgão, onde se
das maneiras, sendo muito achava, o P.c Leal via, no corpo
estimado da sociedade ele­ da egreja, sobre a elevada eça,
gante da Horta e frequen­ toda cercada de lumes, aquella
tando as primeiras casas mimosa creança a quem tivera
d’esta localidade, nas quaes sincero e desinteressado affecto,
sempre foi recebido com aquelle angélico rosto que a morte
consideração. D. L F
vdia .
urtado beijara tão prematuramente, a ca-
F > . J
ilha i o sr C
oão F
ândido .
urtado
D. S
Durante a estada no DlSTINCTA AMADORA DE CANTO pella florida que lhe cercava a E
F
ylvina .urtado
scriptora e pianista de valor

DRaC-CCA
fronte, o veu que devia ser do noivado, e que, Aquelle espirito, até alli tão lúcido, apaga­
tão cêdo, volvido fôra em triste mortalha! ra-se no seio d’um temporal medonho de idéas,
O Padre, debruçado sobre a balaustrada do tão revoltas e encontradas como as vagas do
coreto, com o rosto entre as mãos, esteve oceano, á beira do qual vivia, quando acossa­
muito tempo de olhos fitos naquelle compun- das por forte ventania.
gente espectaculo, parecendo inconsciente de Permaneceu assim dois mezes, até que a
quanto em seu redor se passava. naturesa, por um esforço supremo, o restituiu
Chegou, porém, a occasião de elle evocar ao uso da razão e aos seus queridos estudos
a misericórdia do Altíssimo para essa pudi­ litterarios.
bunda dor que se desprendera saudosamente Aquelle anomalo estado ficou, porém, d’alli
da vida; o Padre ergueu-se então, inspirado nos em diante, repetindo-se-lhe em determinados
resplendores do seu portentoso talento e com periodos e conhecia o proprio enfermo, pri­
voz commovida e repleta de sentimento pro­ meiro do que ninguém, a sua approximação,
feriu as primeiras notas do lugubre canto. dispondo os seus negocios para o tempo que
O numeroso e selecto concurso que assis­ durasse tão terrível doença.
tia aos funeraes, em breve sentio que seme­ Uma vez, já não andando bom, foioccultar
lhantes palavras lhe entravam n’alma, tinham J C
osé B
ândido de F
ettencourt urtado
o seu relogio e cadeia d’oiro, diversos anneis
o quer que fosse de extraordinário, communi- HÁBIL PIANISTA E PROFESSOR DE MUSICA e alguns outros objectos de valor, em casa da
cavam a todos a melancolia e o sentir do le­ distincta família Arriaga, enterrando-os, sem
vita que as cantava, e tudo se quedou attentamente, para melhor que alguém désse por isso, debaixo da soleta de uma porta da
as escutar. rua.
Quando o cantor, terminada a dolorosa invocação, baixou o pa­ Quando, passados tempos, recuperou a rasão, conservava ainda
pel de musica, tinha o rosto sulcado de lagrimas. a reminiscência do que havia feito, e foi elle proprio, acompanhado
Não estivera alli; a sua alma de artista, nas azas da fé, havia d’um trabalhador, descobrir o esconderijo do seu thesouro.
subido muito alem dos paramos da terra. Occorreu, assaz tragica, a sua morte em 1816, contando en­
Aquella naturesa essencialmente impressionavel devia-lhe ser tão sessenta e seis annos de edade.
fatal, porquanto o genio nem sempre poupa os seus eleitos e, não Herdaram, se não os dotes da poesia, ao menos o talento mu­
raro, os consome na sua própria chamma. sico do Padre José Leal Furtado, alguns dos seus parentes, cujos
O P.e José Leal Furtado soffreu um primeiro ataque de alie­ retratos acompanham esta noticia, os quaes, na sublime arte de
nação mental, no começo do qual, ainda assim, compoz deliciosas Verdi, se teem tornado distinctos no Fayai.
poesias, até que em breves dias tornou-se furioso, sendo preciso
vestir-lhe uma camisa de força e conserval-o preso. Ernesto Rebello.

DRaC-CCA
JOAO JOSE DA GRACA
asceu na cidade da Horta a 15 de abril de i836, sendo filho quer, não faltariam morcegos que, volteando-lhe em redor, ten­

N d’um honrado náutico do mesmo nome e de sua consorte


D. Roza da Graça.
tassem apagar com as estendidas azas aquelle ponto luminoso.
Foi o que aconteceu.
Dotado de notável talento e amor pelo estudo, bem novo ainda O primeiro prelo emperrou, puchou o folgo a si, como diz o
e apezar da sua constituição assaz debil, começou o sr. Graça, na povo, as rémoras que se lhe haviam introduzido nos gonsos não o
sua residência, da rua do Arco, a leccionar parti­ deixavam alçapremar-se nem á voz de Deus Pa­
cularmente tanto a lingua patria, como francez e dre, e o marulhar das ondas na praia indicava que
inglez, estes dois idiomas pelo methodo de Ollen- a frágil embarcação iria em breve desfazer-se con­
dorff, então uma innovação n’esta ilha, que se tor­ tra agudos alcantis.
nou proveitosa, tanto pelas condições de semelhante Lembro-me, perfeitamente, então, do sr. Gra­
svstema de ensino, como pela rivalidade que le­ ça, de quem eu era um pouco applicado discípu­
vantou entre a nova aula e uma outra existente no lo, da sua figura extremamente magra, pallido,
Lyceu da Horta, da qual era professor o sr. João nervoso, com um longo casaco preto, que lhe che­
Hermetto Coelho d’Amarante, esclarecido escri- gava abaixo dos joelhos, com o seu chapéu de fel­
ptor açoriano. tro de largas abas, absorvido na sua idéa fixa de
Como lhe affluissem numerosos alumnos, mudou implantar a imprensa na Horta, luctando para isto
o sr. Graça a sua aula para mais espaçosa casa, conseguir, com gregos e troyanos, chasqueado
na rua da Mizericordia, pertencente á camara mu­ por uns, admirado por outros, levantando uma poei­
nicipal do concelho. rada em seu redor, mas sempre firme e inabala-
D’alli foi que no anno de i856 sahiu n’uma vel no seu proposito.
viagem aos Estados Unidos da America, d’onde Estes combates, este periodo de illusoes e tam­
em breve regressava para o Fayal, acompanhado bém de descrenças, este grande arroteamento no
d um prelo que, coadjuvado por um amigo, conseguira adquirir. campo das letras, poucos, sei bem, hoje aqui os levam em conta,
A introducção, porém, da imprensa, em terra costumada ao mas ainda assim rememoral-os é um prazer para o visionário que
reinado das trevas, não era empreza facil e devia, necessariamen­ escreve estas toscas linhas.
te, levantar attritos, animadversões e receios, da mesma sorte que, O sr. Graça, n’aquella epocha, tinha o quer que fosse d’um
se no cimo de alpestres rochedos accendessemos um lume qual­ apostolo tentando abrir caminho por entre fechados matagaes, e,

573

DRaC-CCA
diga-se a verdade, havia muita Esta publicação durou até abril de i858 e devemos confessar
gente pacata, muita gente séria, que se lhe fizeram guerra, também, por vezes, com menos pru­
que o considerava um refinado dência, foi arrumando bordoada de cego.
doido. Mas emfim, e esta era a magna questão: estava implantada a
E não sei até se, n’estas chris- imprensa na ilha do Fayal, e cumulativamente com O Incentivo,
tandades das ilhas de baixo, al­ tres mezes apenas depois d’este sahir a lume, tínhamos o sema­
guém não se lembraria, uma vez nário O Fayalense e logo em seguida outros diversos periódicos.
por outra, de fazer então ao jo- Ninguém pode negar ao sr. João José da Graça a verdadeira
ven e arrojado fayalense o mes­ gloria d’este grande melhoramento para a sua terra natal, que se­
mo que outros povos, em outras ria suficiente para illustrar o nome de qualquer cidadão, se muitos
terras, fizeram de Savanarola. outros e valiosos predicados não possuísse este notável açoriano,
Isto, porém, não está ainda cuja erudição e elevado talento é incontestável e dos quaes bem
bem averiguado. publicas e bem distinctas provas tem dado.
Afinal, o sr. Graça, exhaustos Da sua carreira publica eis a resenha do que podemos respi­
todos os recursos de catechése e gar, em terreno um tanto sáfaro, para taes commettimentos:
vendo em seu redor mais ener­ Empregos e profissão. — Pro­
gúmenos do que convertidos á D. H R
elena G
odrigues da raca fessor de linguas, inglez e francez,
FILHA DO SR JoÃO JOSÉ DA G ACA. ESCRIPTORA
r
sua boa nova, mandou-os fran­ E CARICATURISTA I>E MÉRITO com titulo datado de 3o de setem­
camente ao diabo. A montanha bro de 1862.
não queria vir até junto d elle; pois muito bem: seria elle que iria Professor proprietário da 2?
até junto da montanha, conseguindo arranjar, obter, possuir, um cadeira do Lyceu Nacional da Hor­
segundo prelo, não sabemos de que fabrica, mas em mais seguras ta, nomeado em 27 de julho de 1867.
condições, izento de espasmos, que não embuchasse e que sou­ Idem de economia política, no
besse marinhar valentemente, embora atravez d’um dédalo de mesmo lyceu, por portaria de 3 de
syrtes. janeiro de 1871.
A visinhança da casa n.° 2 da rua do Collegio, incommodada Idem de historia, oratoria e lit-
na sua nocturna e legendária tranquillidade, levantava então, admi­ teratura classica, durante os annos
rada, a cabeça do travesseiro de musgos, para ouvir os baques de 1873 a 1879.
soturnos e cavos de uma machina movida a braços... a imprensa! Advogado nos auditórios da
No dia 10 de janeiro de 185;, pelas 4 horas da tarde, era dis­ comarca de Villa Franca de Xira
tribuído pelas ruas da Horta o primeiro numero do seu primeiro José Filirre da Graça de 1866 até i3 d’agosto de 1867.
JORNALISTA JÁ FALLECIDO. È FILHO
periodico, O Incentivo. do sr. João José da Graca Idem nos auditórios da comarca

5/4

DRaC-CCA
da Horta, de 20 d’abril de 1868 até ao anno de 1886, havendo na typographia do Futuro, na ilha Graciosa, e a 2.a edição, em
substituído, por mais de uma vez, o delegado do procurador 1870 na ilha do Fayal, com a tiragem de 200 exemplares.
regio. Methodo de Ollendorff. — para aprender inglez — Horta, 1858,
Commissões de serviço publico. — Promotor da subscripção que typographia do Incentivo, 3oo exemplares.
em 1858 se promoveu n’esta ilha a favor das victimas da febre Arithmetica oral e escripta.— Horta, em 1870, typ. de J. B.
amarella, em I.isboa. Badella, 200 exemplares.
Membro da commissão para estudar a construcção da cadeia Elementos de grammatica francesa para uso das escolas de
publica, 1860. ensino secundário, approvada pela Junta Consultiva d’Instrucção
Secretario da Sociedade Agrícola d’Angra do Heroísmo, em Publica. — (Vid. Diário do Governo n.° 64, de 22 de março de
1862. 1870) Horta, em 18Ó9, typ. de J. B. Badella, 3oo exemplares, edi­
Membro da commissão, creada em Angra, no mesmo anno de ção esgotada.
1862, para desenvolver a instrucção geral do povo e em especial Elementos de grammatica inglesa, Horta, 1870, typ. de J. J.
a bibliotheca d’aquella cidade. da Graça, 3oo exemplares.
Membro da commissão de inquérito de cereaes, n’esta cidade Discursos forenses nos crimes de envenenamento e de bigamia,
da Horta, em 1868. nos auditórios da comarca da Horta, em 1876. — Typ. de C. A.
Presidente da Junta Geral do Districto da Horta, em 1878. Pestana, 200 exemplares.
Presidente da Camara Municipal da Horta, desde 1882, e re­ A Existência de Deus pela simples indicação das numerosas
eleito para o quadriénio de 1886 a 1889. maravilhas da natureza. Este excellente trabalho, que é uma imi­
Sociedades. — Foi socio do Centro Promotor das classes labo­ tação de Paley, ainda que sob uma nova forma, foi impresso em
riosas, em Lisboa, e da Civilisação Popular, aonde foi apresen­ Lisboa, na typ. dos Mariannos, tem a data de 1877 e do mesmo
tado pelo grande poeta Antonio Feliciano de Castilho, no anno foram tirados 1.000 exemplares.
de i85q. Prefacio á poesia de R. Barcia «O Tejo», traduzida por Au­
Socio honorário do Grémio Litterario Fayalense e presidente gusto Bulcão: é um folheto de 46 pag. com longa introducção,
do mesmo em 1877 e 1878. publicado na Horta, em 1877, na typographia de F. P. de Mello
Socio correspondente da Sociedade de Geographia de Lisboa e cuja tiragem foi de 200 exemplares.
por diploma de 2 d’abril de 1880. Jornaes. — Além do Incentivo, de que já tratámos n’outro lo-
Socio honorário da Sociedade Fraternidade Açoriana, do Rio gar d’esta referencia, e que se publicou na Horta, desde 10 de ja­
de Janeiro, per diploma de i5 d’agosto de 1882. neiro de 1857 a 20 d’abril de i858, conhecemos João José da
Socio fundador, honorário e presidente da Sociedade Humani- Graça como redactor da Horta, no anno de 1862, epocha também
taria de Litteratura e Agricultura, na Horta, de 1878 a 1882. em que na mesma localidade fundou O Atlântico jornal que se
Obras que tem publicado. —Xs primeiras lettras, methodo rá­ distinguiu sempre pela sua excellente redacção.
pido para ensinar a ler, publicada a i.a edição, no anno de i865, Desde 1868 e em diversos períodos, foi o sr. Graça redactor

DRaC-CCA
dos seguintes periódicos fayalenses:—A Palavra, Correio da Como acabamos de ver, elle foi, apesar da sua debil consti­
Horta, Tribuno, A Verdade, O Observador, Porto Franco, A tuição, um incançavel trabalhador, tanto no publico ensinamento,
Regeneração, isto além de em outros ter collaborado. como na arena da imprensa.
Ainda n’estas lides, mas fóra d’esta ilha, registamos também Nascido n’uma pequena ilha, relativamente pobre, e n'um meio
que foi redactor principal do periodico A Terceira, em i863, re- pouco propicio a litterarios commettimentos, abriu caminho es­
dactor e proprietário do Ecco Açoriano, em 1864, do Ecco Agrí­ cudado somente na applicação e no estudo.
cola, pelo mesmo tempo, e do Futuro, em 1865, na ilha Graciosa. Assim succede quasi sempre a quem tem talento e vontade de
Caminhando para além dos cincoenta annos de edade e pos­ trabalhar. Aquella vida é um grande exemplo,
suidor de bastante força moral, consoante ás suas aptidões, a vida
publica d’este prestimoso fayalense teve ainda dias assaz brilhan­ (Das Notas Açorianas.)
tes e uteis á sua patria. Ernesto Rebello.

DRaC-CCA
lASCICIEO TJC’

ORIANO

DRaC-CCA
Casa 7$erirancl—José Bastos S, C.a
RUA GARRETT, 73 E 75 —- LISBOA

Cncydopedia de Applicações Usuaes


for JOÃO BONANÇA
Historia, GeograpMa, Estatística, Astronomia, Physica e Cinmica, Agricultura, Hygiene, Medicina pratica, Commerclo, Artes, Lettras, Portugal pittoresco, etc., etc.

Bivro de tudo e para todos, de immediata consulta e de incontestável utilidade

Um único volume — Esplendidas illustpaçòes


Com a diffusão da presente obra, verdadeiramente util e indispensável a toda a gente, uniea em lingua portugueza, orgulhamo-nos em poder
affirmar que um bom serviço prestamos ao publico. Para mais, tem a abonal-a o nome do auctor. E’ elle João Bonança, um dos escriptores
de mais solidos conhecimentos que enriquecem as lettras portuguezas e um investigador da mais admiravel persistência e aptidão.
A Encyclopedia de Applicações Usuaes fórma um volume portátil, repleto de noções uteis nas diversas praticas
da vida diaria. E' um livro para ignorantes e sábios; educa uns e rememora os outros promptamente, sem dispêndio de muito tempo e
trabalho. O commerciante, o agricultor, o jornalista, o homem de lettras, o professor, o clinico, o marinheiro, o militar, o viajante, o
operário, etc., ahi encontram uma instrucçào variada e solida e regras para se conduzirem na pratica dos seus misteres e nos actos da
vida publica e particular. O que apenas tiver uma educação elementar, completal-a-ha com pequeno dispêndio de trabalho, de tempo e
de dinheiro, na Encyclopedia de Applicações Usuaes.

PUBLICA ÇÃ O BARA TISSIAIA


Cada fascículo de -16 paginas, 30 réis Cada tomo de 80 paginas, 150 réis
O volume de mais de 1:600 paginas, encadernado em pelle, custa 2$O0O réis!!!

Typ. de "A Editora”— LISBOA

DRaC-CCA
DR. JOSÉ CURRY DA GAMARA CABRAL
Áo é um açoriano, porquanto nasceu em
N
ARTICULARES E A CIRURGIA CONSERVADORA, ap-
Lisboa, em maio de 1844; mas por seu provação plena com louvor.
pae, Alberto Curry da Camara Cabral, faya­ Nomeado cirurgião do Banco do Hospital
lense; por ter vivido no Fayal até á edade de de S. José em 1870 e promovido a director
i5 annos, e sobretudo pelo encendrado amor de enfermaria em 188Õ, ainda hoje dirige
que lhe mereceu sempre a terra que, não com proficiência a enfermaria de Santa Qui-
tendo sido seu berço, o fôra no emtanto dos teria do Hospital Estephania.
seus maiores, bem merece ser considerado Em fevereiro de 1876, depois de ter pres­
como tal. tado provas n’um concurso, que foi uma consa­
De resto, s. ex.a é para toda a gente um gração do seu valor, é nomeado lente substituto
açoriano; e assim é que, tratando-se ainda para a secção cirúrgica da Escola Medica de
ha pouco tempo de solemnisar o centenário Lisboa. Intitulava-se a these do concurso: Do
d’um fayalense illustre — o duque d’Avila — valor do methodo numérico em medicina em
foi o dr. Curry Cabral convidado a fazer geral e especialmente em cirurgia. Regeu
parte da commissão promotora. E’ pois, um como substituto as cadeiras de chimica me­
açoriano, occupando, entre os mais illustres, dica e pathologia externa, e como lente ca-
um logar de destaque. thedratico, as cadeiras de anatomia patholo-
Não pretendemos aqui fazer a sua bio- gica primeiro e a de operações depois, até á
graphia. sua jubilação.
Seria empreza dilbcil seguir passo a passo Socio titular da Sociedade de Sciencias
todas as manifestações em que se affirmou Medicas, exerceu ahi os cargos de i.° e 2.0
a sua poderosa individualidade. Foi um estu­ D . C
r urry Cabral
secretario, vice-presidente e presidente. E’,
dante distincto, tanto no Lyceu e Polytechnica desde abril de 1876, socio correspondente da
como na Escola Medica de Lisboa, que o classificou com louvor Academia Real das Sciencias, e desde 1874, das Sociedades Espanho­
em quasi todas as cadeiras, conferindo-lhe o i.° prémio em oito. las da Gynocologia e Antropologia. E’ membro associado estrangeiro
Em julho de 1869 fecha com chave d’ouro a sua brilhante car­ da Sociedade Franceza de Hygiene, membro do Instituto de Coim­
reira de estudante, obtendo na dissertação inaugural, as feridas bra, e socio honorário do Grémio Litterario Fayalense, desde 1877.

N-’ 73

DRaC-CCA
Na Assistência Nacional aos Tuberculosos, em que s. ex.a tra­ A’ boa e illustrada vontade de Hintze Ribeiro deveu s. ex.a o
balha desde a sua fundação, occupa os cargos de vice-presidente poder crear:
da commissão de propaganda, presidente da commissão de divul­ i.° O laboratorio de analyses chimicas, para que se fizeram ins­
gação e vogal do conselho central. talações próprias e que tem ido em successivas ampliações. Foi
E se é verdade que, pelo seu aturado estudo e muito saber, da maior importancia e veiu prehencher uma vasta lacuna nos
soube s. ex.a conquistar um logar primacial no seu meio, cremos nossos meios de investigação, aliviando e facilitando extraordina­
firmemente que a sua passagem pelo logar de enfermeiro-mór do riamente os serviços chimicos a creação d’este estabelecimento.
Hospital de S. José e annexos, em que a sua poderosa iniciativa 2.0 A repartição d’estatistica medica, com a publicação mensal
tanto e tanto se teem evidenciado, constituirá um dos seus mais de um boletim hospitalar.
belios titulos de gloria. 3.° Uma escola profissional de enfermagem.
Não é que seja a sua obra isenta de erros; — errare humanum 4.0 A fundação de uma cooperativa hospitalar, dando-lhe casa
est — mas a magnitude do trabalho feito é tal que escurece os bem como todo o auxilio e protecção de que hoje gosa.
erros commettidos. Levar-nos hia demasiado longe historiar o que, 5.° O alargamento da area hospitalar, com a construcção de
desde janeiro de 1902, cpoca em que a instancias de Hintze Ri­ dois novos hospitaes, Rego e Santa Martha, aquelle já concluído e
beiro foi nomeado enfermeiro-mór, até hoje, tem sido a sábia e in- a funccionar, este em vesperas de conclusão.
telligente direcção de todos os serviços inherentes ao cargo para A creação de novos hospitaes impunha-se como uma necessi­
que tão acertadamente foi escolhido. dade inadiavel, para obviar á accumulação de doentes nos já exis­
Reformou desde logo os regulamentos da administração e dos tentes, e que em janeiro de 1901 tinha attingido o limite máximo.
serviços clínicos, tanto externos como internos, dando com elles lo­ Destinado ao tratamento das doenças infecto-contagiosas, o hos­
gar official ás consultas externas, melhorando a situação do corpo pital do Rego, modelar no seu genero, satisfaz as necessidades de
de enfermagem, libertando a gerencia administrativa de peias isolamento e é ampla provisão para epidemias. Comporta 728
burocráticas, pelo estabelecimento de relações directas entre esta doentes além de vastas installaçÕes para empregados.
e o ministério do reino, dando-lhe assim a maior autonomia pos­ O vasto plano de reformas emprehendidas por s. ex.a ainda
sível. não attingiu o seu termo, e sabemos que, para o completar, pensa
Como effeitos d estas reformas e modo de execução dos servi­ s. ex.a entre outras muitas coisas, na construcção de uma mater­
ços, a situação financeira da administração, sobrecarregada em nidade.
1901 com um déficit de i3o contos, logo em 1900 melhorava de Em signal de apreço e como galardão de tão revelantes servi­
um modo assaz notável, pela reducção d aquelle déficit a metade, ços, foi-lhe conferida a commenda de S. Thiago, bem como varias
e hoje, não obstante a creação de novos hospitaes, a renovação dos portarias de louvor.
já existentes, em que procurou realisar todos os preceitos hygienicos S. ex.a é vogal effectivo do Conselho Superior de Instrucção
modernos, e a melhoria de todos os serviços, essa situação é muito Publica, e como enfermeiro-mór, faz parte dos Conselhos Superior
desafogada. de Saude e Beneficencia Publica.

DRaC-CCA
Além das duas dissertações já citadas, a inaugural e a do con­ Sciencias Medicas de Lisboa, em 26 de novembro de 1898. — Home­
curso, alem de vários artigos dispersos pelas revistas de medicina, nagem á memória do professor Antonio Bento Ribeiro Vianna
escreveu e publicou as seguintes obras: — Elogio historico do professor Manuel Bento de Sou\a.
Discurso recitado na Escola Medico-Cirúrgica de Lisboa na Em igot: —A tuberculose. — Defeca individual.
sessão solemne de abertura, no dia 5 de outubro de i8~~. — Pre­ Em tgo5: — Hospital de doenças infecto-contagiosas.
liminares do curso de medicina operatória, em i8c)~]-i8g8. Em igo7.- — Relatorio do primeiro anuo de funccionamento do
De collaboração com os eminentes professores Souza Martins hospital de doenças infecto-contagiosas.
e Manuel Bento de Souza, a proposito do processo Joanna Pereira E eis aqui muito schematicamente esboçada a larga folha de
em que os tres tomaram parte como peritos, publicou: serviços com que s. ex.a se tem nobilitado e pela qual bem merece
Questão do Inquérito— Gabriel e Lusbel— Questão de peritos. do seu paiz.
Em 1898: — A medicina legal no processo Joanna Pereira.— Lisboa — 1908.
Discurso lido na sessão solemne da abertura da Sociedade de Hermano de Medeiros.

DRaC-CCA
dos descobrimentos feitos pelos portuguezes, e só a ver
Historia Açoriana terras e a aprender linguas, como costumavam então fa­
zer os illustres e ricos fidalgos em sua mocidade.
Passadas pois as cartas de Capitão Donatario do Fayal
ao dito Joz de Utra, na forma em que se tinham passado
Os primeiros Capitães Donatários do Fayal aos Donatários da Madeira e mais ilhas, voltou de Lisboa
a Flandres o dito Utra, e vendendo o muito que lá ti­
stando já em parte (ainda que pouco) povoado o nha, metteu suas riquezas em navios, tomou por com­
E Fayal por particulares portuguezes, que da Tercei­
ra, S. Jorge e Graciosa lhe foram; tratavam as pessoas
panheiros a muitos outros fidalgos e parentes seus, de
que abaixo trataremos, e a outros mais ordinários povoa-
reaes de nomear algum Capitão Donatario da ilha, para dorés, e com tudo á sua custa se tornou a Lisboa, e com
que, com mais riqueza e nobreza, a povoasse toda; e sua mulher se veiu metter em o Fayal, e porque tinha
porque então andava em Lisboa e no serviço das pessoas em Flandres convidado também a outro rico fidalgo,
reaes um grande fidalgo flamengo, chamado Joz de Utra chamado Guilherme Vandaraga (sic), com promessa de
(ou, como diz Guedes em sua Historia, Jorge de Utra, lhe dar parte da ilha; e este Vandaraga, preparando
dando a entender que em flamengo o nome Joz é o primeiro tres navios á sua custa, n’elles, com muitos
mesmo que Jorge em portuguez), a este fidalgo nomeou casaes de flamengos, veiu pouco depois ao Fayal, onde
el-rei de Portugal por Capitão Donatario de toda já achou ao Utra, e ambos com suas gentes continua­
a ilha do Fayal e o casou com uma portugueza, ram logo e acabaram de povoar toda a ilha: o Utra,
dama do Paço, chamada Brites de Macedo, da como Capitão Donatario, e o Vandaraga, como prin­
antiga fidalguia dos Macedos. D’este Joz de Utra, cipal povoador.
diz o citado Barros, que era flamengo, natural da Primeiro Capitão, pois, e Donatario da tal
cidade de Bruges, no ducado de Flandres, e que ilha, foi o dito Joz de Utra e a dita sua mu­
era senhor de certas villas do mesmo ducado, e lher Brites de Macedo, dama do Paço, porque
que tinha vindo mancebo a Portugal, com fama ainda que Barros diz que se chamava Izabel

58o

DRaC-CCA
e este foi o que casou com aquella Corte-Real, como já dissemos
nos Corte-Reaes, Capitães de Angra.
Do tal Capitão Joz de Utra e da dita Brites de Macedo, nas­
ceram varias filhas, que casaram com outros fidalgos em Portugal,
e uma com um illustre allemão chamado Martim de Bohemia, a
quem El-Rei de Portugal estimava muito por sua grande nobreza
e singular sciencia, de que trataremos em seu logar; e do mesmo
primeiro Joz de Utra e Brites de Macedo nasceu mais um filho
varão, que se chamou também Joz de Utra, como o pae, com que
muitos se equivocaram, e foi segundo Capitão Donatario do Fayal.
Terceiro Capitão do Fayal foi Manuel de Utra Corte-Real, le­
gitimo filho do segundo, e este se casou na mesma ilha do Fayal
com uma Maria Vicente, filha de um grande lavrador chamado
Joane Anes das Grotas e de sua mulher Catharina Vicente, e
d’esta teve tres filhos varóes, Gaspar de Utra Corte-Real, Hiero-
nymo de Utra Corte-Real e Salvador de Utra Corte-Real, e teve
mais quatro filhas, D. Catharina, D. Barbara, D. Antonia e D. Iza-
bel, que falleceu sem descendencia. O primeiro Manuel de Utra,

Fayal — Casa de campo

de Macedo, Guedes, e a constante tradição, e mais provável, affir-


mam chamar-se Brites de Macedo: e ainda que dizem alguns que
Joz de Utra casara com uma chamada Corte-Real, enganaram-se,
não distinguindo o primeiro Joz de Utra e Capitão primeiro, de
um seu filho, e do mesmo nome, que lhe succedeu na Capitania, Fayal —O alto da Lomba

581

DRaC-CCA
legitima mulher do Donatario morto, e d elle eram legítimos seus
filhos, os que lhe ficaram, e a dama do Paço nunca sua mulher
legitima, e assim se julgou tudo por final sentença, e a fidalga
dama se metteu freira.
Oppoz-se logo á demanda da Capitania do Fayal Gaspar de
l'tra Corte-Real, filho mais velho do terceiro Donatario morto, e
no meio da demanda falleceu também; e posto que já era casado
com uma fidalga sua parenta, d’ella não deixou mais que uma fi­
lha. Seguiu a demanda Hieronymo de 1'tra Corte-Real, segundo
irmão legitimo do que na demanda tinha fallecido, e comtudo con­
tra elle se deu a sentença pela Corôa, e para esta se julgou por
vaga a Capitania, e alcançando Hieronymo de l'tra revista da
causa, alcançou também final sentença por si contra a Corôa; po­
rém, correndo a revista, deu El-Rei D. João 3.° a dita Capitania
a outro fidalgo chamado D. Álvaro de Castro.
Quarto Capitão Donatario do Fayal foi este dito D. Álvaro, e
a teve cinco annos, até que o mesmo D. Álvaro de Castro (e di­
zem que por grave escrupulo) largou a dita Capitania a El-Rei,
e seguindo-se na Corôa luzitania El-Rei D. Sebastião, fez quinto
Donatario do Fayal a D. Francisco Mascarenhas, que vinha então
da índia e do cerco de Chaul.
Não desistindo, porém, mas perseverando na demanda o dito
Hieronymo de Utra Corte-Real, foi-lhe emfim restituída a Capi­
tania do Fayal, anno de 1582, reinando já Castella.
Fayal— Paisagem de Castello Branco
Sexto Capitão, pois, foi este Hieronymo de l'tra, que casou em
indo a Lisboa a confirmar-se na Capitania, se houve na Côrte de Portugal com a filha de um fidalgo, N. Figueira, e o quinto Capi­
tal modo, que chegou a El-Rei ter elle uma filha de uma dama do tão, D. Francisco Mascarenhas, foi despachado por Viso Rei da
Paço e não ser casado legitimamente com a dita Maria Vicente; índia, e só com o titulo de conde da Villa da Horta no Fayal...
o que ouvindo El-Rei, mandou-lhe que logo recebesse a dama do
Paço, e o fidalgo o fez com tal temor e pena, que d’esta em breve (Da Historia Insulana).
tempo falleceu; e chegando a nova de sua morte á dita Maria Vi­
cente, veiu varonilmente logo a Lisboa, a provar como tinha sido Padre Cordeiro.

582

DRaC-CCA
Dr. Alberto Goulart de Medeiros
aracter da mais fina tempera, medico Amigo da sua terra, amigo dos seus

C consciencioso e sabedor, ainda não re­


conheci no dr. Alberto de Medeiros uma
amigos, o dr. Alberto de Medeiros bem
merece a singela homenagem que lhe presta
qualidade que não manifestasse uma virtude. o Álbum Açoriano, pela acção humanitaria
Austero sem deixar de ser Bom, modesto que exerce entre os pobres da sua ilha —
sem pretenções á popularidade, o dr. Al­ sem outra recompensa que não seja o re­
berto de Medeiros sabe conservar com su­ conhecimento que lhe tributam e que tanto
perior correcção o respeito e sympathia que sensibilisa o seu coração de homem modesto
acompanha a memória de seu Pae e collega. e de medico consciencioso — e pelas suas
Medico dos pobres e medico dos ricos, qualidades de intelligencia e de caracter,
elle não distingue classes no exercício es­ mantidas com rara tenacidade atravez dis­
crupuloso da sua missão, creando, pela no­ sabores e sacrifícios.
breza e desinteresse do seu procedimento, Mas são principalmente os pobres do
uma invejável notaricdade e um alto pres­ Fayal os que mais lhe devem em benefícios
tigio moral, nunca beliscado por qualquer nunca negados e despidos de interesse; e,
desconfiança ou calumnia. D . A
r G
lberto M
oulart de edeiros
por isso mesmo, maior é a sua consagração
Medico naval de i.a classe, elle tem a na alma fayalense, que o admira e o presa,
constelar-lhe o peito — em medalhas e commendas — a documen­ e rendidamente venera esse caracter nobre e esse coração bom.
tação insuspeita dos serviços prestados á nossa marinha de guerra
e da subida consideração que gosa entre os seus camaradas. Lisboa — 1908. Euclides Costa.

AAA

583

DRaC-CCA
ILHA DO FAYAL-O CAPELLO
caprichosas, uns de escorias vulcânicas de côr avermelhada, um
Há um ponto do Fayal digno de menção especial pela sua tom quente que embelleza a paisagem, e outras pretas, ás quaes
particular feição. E’ o Capello. nas ilhas chamamos cascalho, solidificando-se em lagêdo ou em
O millionario americano Forbes ficou tão encantado com este pedra solta nas terras baixas, até ao mar.
sitio, que disse ao cavalheiro que ahi o hospedou no seu chalet, Com o decurso do tempo, irrompeu d’esta enorme crosta de
que, se não tivesse familia, acabava ahi os seus dias. pedra escalvada uma fraca vegetação, em que predominam a faia
Dista da Horta cêrca de quinze kilometros. e a urze, com- pouco mais de um metro d’altura.
Atravessando os ferteis campos da Feteira e Castello Branco, Eis o que é o Capello; mas a sua belleza selvatica não se
julgámo-nos transportados, como por encanto, a um paiz inteira­ imagina: é preciso presenceal-a para não ser classificada um de­
mente differente. serto árido, um montão de pedra sob differentes formas.
Aquella parte da ilha, convulsionada, haverá dois séculos, por Ir á Horta e não visitar o Capello, é o mesmo que ir a Lisboa
uma violentíssima acção plutonica, tornou-se um mar de fogo e e não ir a Cintra.
de lava escandecente, que deixou léguas de terreno alastradas de (Das Glorias e Primores de ‘Portugal).
pedra derretida, formando no centro da erupção montes de fôrmas Read Cabral.

A cidade da Horta

584

DRaC-CCA
FASCICLIX» TV.» 7 3

DRaC-CCA
-------------------- " " ........................................................................................

jfintiga Casa gertrand - José Bastos £ C.a


RUA GARRETT, 7'8 E 75-LISBOA

encyclopedia de flpplicações Usuaes


por JOÃO BONANÇA
Historia,'GeograDliia, Estatística, Astronomia, Piiysica e CMmica, Agricultura, Hygiene, Medicina pratica, Commercio, Artes, Lettras, Portugal pittoresco, etc., etc.

Livro de tudo e para todos, de immediata consulta e de incontestável utilidade

Um unico volume — Esplendidas illustpaçòes


Com a diffusão da presente obra, verdatleirameníe util e indispensável a toda a gente, unica em língua portugueza, orgulhamo-nos em poder
affirmar que um bom serviço prestamos ao publico. Para mais, tem a abonal-a o nome do auctor. E’ elle João Bonança, um dos escriptores
de mais solidos conhecimentos que enriquecem as lettras portuguezas e um investigador da mais admiravel persistência e aptidão.
A Encyclopedia de Ai>plicações Usuaes fórma um volume portátil, repleto de noções uteis nas diversas praticas
da vida diaria. E’ um livro para ignorantes e sábios; educa uns e rememora os outros promptamente, sem dispêndio de muito tempo e
trabalho. O commerciante, o agricultor, o jornalista, o homem de lettras, o professor, o clinico, o marinheiro, o militar, o viajante, o
operário, etc., ahi encontram uma instrucção variada e solida e regras para se conduzirem na pratica dos seus misteres e nos actos da
vida publica e particular. O que apenas tiver uma educação elementar, completal-a-ha com pequeno dispêndio de trabalho, de tempo e
de dinheiro, na Encyclopedia de Applicações Usuaes.

PUBLICA ÇÃ O BA RA TISSIAIA
Cada fascículo de 16 paginas, 30 réis Cada tomo de 80 paginas, 150 réis
O volume de mais de 1:600 paginas, encadernado em pelle, custa 2$O0O réis!!!

Typ. de "A Editora”— LISBOA

DRaC-CCA
Q.____
_______ .e-.....—....................... ........ — - ------— --------------------------- g_____________ £)
g—--------------------------- -------- -------------------------------------------------------------------- 9

Ilha do Pico
_ e—~. ----- ------ - ---------------- ----------o

N.° 74 5b 5

DRaC-CCA
A VILLA DAS LAGES

a mais antiga da ilha do Pico e afora-se com o titulo de Sem­ terra, e a dos juizes pedaneos para as freguezias, assim como a
Epre nobre e leal. Os seus primeiros habitantes, segundo rezam dos juizes dos officios ou procuradores dos misteres, representan­
as chronicas, foram todos portuguezes e de sangue limpíssimo, e tes das suas classes.
a darmos credito ao padre Cordeiro, na sua Historia Insulana, Em i55g, por mercê régia, servia o logar de escrivão e ta-
salientava-se como a figura mais prestigiosa do logar, no periodo bellião da Camara, Balthazar Dias, no impedimento do pro­
da colonisação, André Rodrigues, amigo do primeiro donatario do prietário de tal cargo, Adrião de Barros, preso em Lisboa nos
Fayal e Pico, Joz Van Huerte, e do
qual Rodrigues descendem os Madru-------------------------- —
gas.
Grandes eram as prerogativas de que
se orgulhava a villa. Assim, elegia os ma­
gistrados e oíliciaes que tinham de diri­
gir o governo local.
Já em i,5oi, época em que começa­
ram a funccionar os juizes do município,
gosava não só da regalia de communi-
cação directa com o soberano, mas tam­
bém da de cobrança, inspccção e admi­
nistração dos direitos reaes.
Competia também á Camara conce­
der ou denegar licença para a importa­ A I
lha do Pico

ção e exportação de cereaes e resolver


sobre tudo que respeitasse a construcção e conservação dos seus cárceres da Inqui­
edifícios, ruas, estradas, muralhas e fortalezas. sição.
Na esphera de suas attribuiçÕes incluia-se a das nomeações de As funcções
almotacés, de guarda-mór, que até 1809 fazia os despachos em de capitão militar

586

DRaC-CCA
zelo. N'essa carta pedia-se que o capitão e governador da ilha,
Jeronymo Corte-Real, então ausente, viesse sem perda de tempo
occupar o seu cargo, pois não podiam os povos estar sem cabeça
que os reja e governe, visto correr o perigo de serem entrados de
luteranos. Pedia-se mais: armamento para defeza; o desterro
de muitos homens vadios que se escondiam em palhoças para nos
mattos roubarem os gados, e alvitrava-se que fossem taes homens
obrigados a morar na villa, onde se lhe daria trabalho.
No capitulo dos impostos, a Camara, na alludida carta, e a
pretexto da pobreza da terra, representava contra as devassas que
cada anno se tiravam dos compradores de trigo para revender,
bem como dos que «caçam com redes e pés e buril e almaneza».
Mais lembrava a Camara a necessidade dos almotacés servirem

Pico — Prainha do Norte

foram primeiramente investidas em Pedro Tristão Gularte; e a


Maria Dias de Brites, ama do príncipe, concedeu El-Rei, por al­
vará de 12 de novembro de i56o, o almoxarifado da villa, vago
por fallecimento de Francisco Soares, com a condição de passar
para quem casasse com uma tal Maria Gulart, parenta da referida
ama.
A um frade natural d’aquella localidade, Pedro Gogante, se
deve a importação de alguns bacellos da Madeira, iniciando-se por
tal forma a cultura de vinhedos por toda a ilha, que d’ella derivou
uma abundantíssima producção, que chegou ao montante de 25:ooo
pipas de precioso verdelho, que abastecia os mercados nacionaes
e estrangeiros.
Não descuravam os seus deveres os primeiros governos locaes.
E‘ d’isso prova a carta que a Camara, em 3o de junho de 1586,
dirigiu a El-Rei em termos de frisante independencia e eloquente Pico — Santo Amaro

58Z

DRaC-CCA
tres mezes, isto para remediar a bro de 1392 foram attribuidos á
falta de homens nobres e dos que Misericórdia das Lages os mes­
se escusam por privilégios. mos privilégios e liberdades de
Sempre no empenho de acau- que usavam o provedor e irmãos
tellar os interesses de seus admi­ da confraria da Misericórdia de
nistrados, a Camara, por seu Angra e do Fayal.
accordão de 4 de novembro de A ermida mais antiga do Pico
15o3, prohibiu aos christãos no­ e que, segundo a tradição, era a
vos o venderem suas fazendas, parochia de toda a ilha, é a de
a não ser por preços honestos, São Pedro, situada n’uma pe­
sob pena de retirada no praso de quena elevação junto da Maré.
dois mezes e multa de 2C?ooo réis, E do seu primeiro parocho guar­
conforme a lei de 1497, que de­ dava-se, não ha ainda muitos an-
cretou a expulsão de judeus e nos, na sachristia, como relíquia,
mouros. parte da ossada, que attrahia o
Vem de longe o espirito re­ respeito e veneração das gerações
ligioso que sempre animou e que se seguiram.
anima a gente da villa, origi­ Afóra esta ermida, ha no si­
nando o seu zelo cultual. Para tio da Ribeira do Meio a de
o estimular e garantir, em 1586 São Bartholomeu, e uma outra
o governo municipal das Lages no monte de Santa Catharina,
lembrou que, sendo El-Rei o go­ d’onde, como da ladeira da For­
vernador e perpetuo administra­ ca, se divisa toda a casaria e se
dor do mestrado de Christo, e disfructa um pittoresco e lindís­
como tal com obrigação de favo­ simo panorama, a desdobrar-se
recer as egrejas pobres, pois para na vastidão do mar e na larga e
tanto recebia os dizimos, devia matisada esteira de campos de
conceder que o rendimento dos semeadura e luxuriante arvoredo.
benefícios da ilha não servidos, No convento de São Francis­
fossem dados ás fabricas das di­ co, que domina a villa, creado
tas egrejas. em 1690 por beneplácito régio e
Por alvará de 14 de novem- licença do provincial da ordem,
Pico.— Galganeo a montanha —A 2:100 metros

588

DRaC-CCA
estabeleceu-se uma communidade de religiosos, vindos em 1700 Contíguo á egreja do convento demora o cemiterio, o maior
dos conventos da Terceira e Fayal, e foram seus, primeiro guar­ da ilha, em terrenos para tal fim doados em 24 de abril de 1896
dião, Frei José d’Avé Maria, e provincial, Frei Antonio do Céu. e 20 de agosto de 1899.
A egreja d’este convento, que só foi concluída em 1804, era A laborosidade dos lagenses decorre entre a tarefa agrícola e
consagrada a Nossa Senhora da Conceição, e da capella mór foi a piscatória.
protector Frei Antonio do Sacramento. Notável interiormente pelo E’ numerosa a colonia marítima. Parte delia occupa se na na­
seu relevo artístico, em obra de vegação costeira e outra na pes-
talha e douramento, foi aquella : caria do littoral e na da baleia,
egreja preza d’um voraz incên­ sendo Lages a povoação dos
dio, em fevereiro de i83c. Da Açores onde se acha alistado o
sua reconstrucção em 1S43 se maior numero de embarcações
encarregou o ultimo gurdião do para a pesca ou caça dos cetá­
convento, padre Francisco de ceos. N’este ramo de actividade
Salles, que veiu a fallecer no da gente da beira-mar, ha a no­
hospital d'esta cidade. tar uma ou outra variante assaz
A velha egreja Matriz, onde curiosa, qual a da pesca dos bo­
por vezes chegava o mar, inun­ tos. Cercado pelas tripulações
dando-a, e que era mais que de­ dos bateis, entra em cardume
ficiente para o serviço religioso aquelle peixe pela bocca da La­
e parochial da maior povoação goa, vasta bacia natural, especie
da ilha, foi demolida para em de doca, onde ancoram e se abri­
seu logar se levantar, como se gam os barcos. Uma vez na La­
está levantando, uma outra de Pico. — s goa, é arpoado o peixe, cujo azeite
maior area e de esbeltas linhas serve para illuminação domestica.
architectonicas, a expensas dos fieis e por iniciativa e esmerado Das cagarras que alli, de noite, apparecem em grande quan­
empenho do actual e activo parocho, padre Manuel José Lopes. tidade, extrahe-se um oleo popularmente reputado medicinal e de
No convento de São Francisco, o mais vasto edifício da villa effeitos eflicazes no rheumatismo.
e convenientemente reparado, acham-se installadas todas as repar­ Da villa é suburbio encantador o logar da Silveira, recanto
tições publicas, incluindo a da Camara, de que foi presidente o privilegiado pela frescura da viração e pelas nuances da paisagem.
commendador Antonio Homem da Costa, que tem o seu nome E’ esta a instancia veraneai de muitas famílias da villa, que quasi
ligado a vários melhoramentos locaes, entre elles a illuminação da todas possuem alli suas adegas e casas de campo.
villa. Ahi se acha installada uma fabrica de queijos, cujos productos

DRaC-CCA
teem largo consumo nas ilhas e em Lisboa; e é o populoso arra­ A origem toponímica da villa filia-se na existência d’uma larga
balde servido por uma egreja nova, de São Bartholomeu, ha pou­ faixa de lagedo que a «borda pela frente».
cos annos construída com donativos dos moradores. Ahi deixo exposta, como esbatida cercadura da estampa da
Ao concelho das Lages, além da villa, pertencem as freguezias villa, a summula resumidissima do seu passado e do seu presente,
das Ribeiras, Calheta, Piedade e a de São João. que, a conjugarem-se patrióticos esforços e iniciativas, são garan­
E’ esta ultima separada das Lages por um mysterio—tracto de tia d’um melhor e mais risonho futuro.
campos maninos e de lava, a attestar a erupção vulcanica de Horta.
1720. Visconde de Borges da Silva.

DRaC-CCA
D. João Paulino d’Azevedo e Castro
a muitos annos, no tempo em que zes das grandezas e vaidades do mun­

H me diziam, minha mãe e o meu


padre cura, que viria eu a ser sacer­
do; quando ouvi a parabola da ovelha
perdida, do Bom Pastor, e a pergunta
dote da Religião Catholica e na Sé de Jesus a Simão Pedro, com a en­
Cathedral veria, sentado, rodeado de trega do aprisco dos cordeiros e das
muitos padres, o Bispo, imaginava que ovelhas; quando li a epistola aos Ro­
havia de ser um velho de cabellos manos, de S. Paulo, que tudo se fez
muito brancos, revestido de roupagem para a todos converter, converter as
cor de roza, de olhar muito meigo, de gentes e santificar o Evangelho; quan­
sorriso muito doce, de linguagem muito do li que os padres e os bispos só­
attrahente; imaginava um padre cari­ mente são ministros de Christo e dis-
nhoso, muito amigo das creanças e pensadores dos mysterios de Deus,
dos estudantes, de mãos muito ma­ não se pregando a si mesmos, mas a
cias, como as de Esaú, e com sanda- Jesus Christo, homens de oração; que
lias da côr do arminho branco, com a um Bispo da Egreja Catholica deve
sua cruz muito brilhante e com o seu ser irreprehensivel, casto, sobrio, pru­
báculo, para segurar os vagarosos pas­ dente, grave, modesto, hospitaleiro
sos; que todos andariam em volta d’el- e douto; equitativo, moderado, não
le, em silencio, para o ouvir muito de cúpido dos bens d'este mundo, mas
perto; que havia de ser pobre e en- desinteressado, então comprehendi que
geitado da fortuna, como o meu padre no mundo, nem na religião não pode
cura. Assim criei o ideal do Bispo da haver outra magestade, nem outro
Egreja; assim o encontrei, uma figura com qualquer coisa de hu­ principado de tanta altitude e tão digno da veneração dos fieis da
mano e qualquer coisa de divino, de magestoso, de solemne, de Egreja de Deus.
grande e de imponente. O Bispo é o presbytero, o ancião, o pae, o pastor, o vigilante,
Depois, quando ouvi cantar pelos levitas do Senhor a Divina o antistite, o pontífice, o grande sacerdote. O Bispo é mestre, dou­
Palavra da pobreza: considerae os lírios do campo; e os despre­ tor, apostolo; discípulo immediato de Christo, primeiro ministro

DRaC-CCA
do Altíssimo: o guarda, o conductor, trabalho, o estudo, a erudicção e vir­
o defensor do rebanho só a elle con­ tude provada.
fiado; é aquelle a quem o Papa cha­ Uma qualidade moral traça o per­
ma irmão e não filho, cooperador e fil d’este digno padre: é a bondade do
não fiel, amigo e não servo. coração. A phrase é vulgar e entende-
Com o mais sincero e profundo se bem.
respeito me curvo perante o successor É um padre cheio de confiança em
dos Apostolos, que em nome da Egreja Deus; um para quem o dinheiro é nada
portugueza acaba de ser eleito e a quem e a vontade é tudo. Não é tão pobre
o Primaz da Universal Egreja confir­ como o pobre São Pedro; mas deixou,
mou em Bispo e Prelado de Ma­ a seu tempo, os confortos d’uma famí­
cau. lia amavel, para receber as sagradas
ordens, o que significa um grande sa­
Pouco importa saber, senão para crifício.
nossa honra, que o Ex.rao e Rev.mo Para este homem, para este cava­
Sr. D. João Paulino d’Azevedo e lheiro, a polidez é um effeito, um fru-
Castro, nasceu na viila das Lages, da cto que se estima e que elle preza.
ilha do Pico, e muito menos a data Parece timido; porém, é cautello-
do seu nascimento (1802), nem quem so; é uma funeção do meio e da ex-
são seus paes (Amaro Adrião d’Aze­ periencia. Não tem a frieza dos asce­
vedo e Castro e D. Maria Albina Car- tas; é Francisco de Assis na vontade de
lota de Bettencourt). Importa, sim, sa- abandonar tudo pelos ardores da Fé.
ber-se que teve uma educação christã E mystico; sente-se bem junto do
e uma mãe piedosa; qUe, emquanto Altar, ou no côro, pelo silencio pro­
estudante (1869-1874), foi um moço fundo da noite, a contemplar a lam-
de conhecida seriedade e bom juizo; pada do sanctuario, brilhando e scin-
que em Coimbra (1874-1879) era apon­ tillando no escuro, como uma estrella
tado por seu porte modesto e conhe­ nos ceus.
cido por sua longa barba paulina. O Entre o Apostolado tem o seu lo-
que é certo também é que desde que gar, pela mansidão, rectidão de cará­
é professor no Seminário (1879-1902) cter; pela simplicidade a que é incli­
tem gosado da consideração que dá o nado, apesar de, como pessoa de bom

592

DRaC-CCA
DRaC-CCA
Casa gertrand- José Bastos £ C
RUA GARRETT, 78 E 75-LISBOA

€ncydopedia de flpplkações Usuaes


por JOÃO BONANÇA
Historia, Geograpliia, Estatística, Astronomia, Physíca e Ciúmica, Agricultura, Hygiene, Medicina pratica, Commercio, Artes, Lettras, Portugal pittoresco, etc., etc.

hivro de tudo e para todos, de immediata consulta e de incontestável utilidade

Um unico volume - Esplendidas illustraçòes


Com a diffusão da presente obra, verdatleirameníe util e indispensável a toda a gente, uniea em língua portugueza, orgulhamo-nos em poder
affirmar que um bom serviço prestamos ao publico. Para mais, tem a abonal-a o nome do auctor. E’ elle João Bonança, um dos escriptores
de mais solidos conhecimentos que enriquecem as lettras portuguezas e um investigador da mais admiravel persistência e aptidão.
A Encyclopedia de Applicações Usuaes fórma um volume portátil, repleto de noções uteis nas diversas praticas
da vida diaria. E’ um livro para ignorantes e sábios; educa uns e rememora os outros promptamente, sem dispêndio de muito tempo e
trabalho. O commerciante, o agricultor, o jornalista, o homem de lettras, o professor, o clinico, o marinheiro, o militar, o viajante, o
operário, etc., ahi encontram uma instrucção variada e solida e regras para se conduzirem na pratica dos seus misteres e nos actos da
vida publica e particular. O que apenas tiver uma educação elementar, completal-a-ha com pequeno dispêndio de trabalho, de tempo e
de dinheiro, na Encyclopedia de Applicações Usuaes.

PUBLICA ÇÃ O BARA TISSIMA


Cada fascículo de -16 paginas, 30 réis Cada tomo de 80 paginas, 150 réis
O volume de mais de 1:600 paginas, encadernado em pelle, custa 2$000 réis!!!

Typ. de "A Editora” — LISROA

DRaC-CCA
gosto que é, parecer estimar a arte religiosa e as pompas do culto cemos no novo bispo de Macau, a quem desejo todas as felicida­
religioso. O contraste agrada-lhe mais; a pobreza amiga, casta, des no Extremo Oriente, n’aquelle boccado da Patria, que se
religiosa, d'uma capellinha d’aldeia, o attrahe devéras. Por isso é honra de o ter por um dos seus filhos que a nobilitam.
inclinado á paz e á meditação. Comtudo, é activo; e tendo almas
amigas e corações sinceros a seu lado, é zeloso, activo, bom e se­ Agosto de 1908.
guro nas obras de fé e caridade. Esbeltos predicados que reconhe­ Conego J0Á0 Pereira Damaso.

N. 75 593

DRaC-CCA
A SAHIDA DO BARCO sar na quentura d'um beijo. Terra e mar dormem o mesmo somno
consolador, n’um abraço de noivado.
No Pico, que eu vejo subir alli ao pé de mim, sem uma unica
Conto açoriano nuvem a manchar-lhe a pureza das suas linhas, adivinha-se o que
quer que seja de vida na luz doirada que nasce, desfazendo aos
a claridade indecisa da madrugada, eu debruço-me na janella poucos o tom violeta com que elle adormecêra...
N da pequenina casa que deita para
o porto, olhando contemplativo para o
mar que parece ter acordado commigo,
tao preguiçosamerite se espraia...
Na linha branca do horisonte, onde o
azul do alto esmaece — a pallidez limpha-
tica d’um despertar doentio — tremem
frouxas, no vento calmo, as velas d’um
navio.
Eu tenho a sensação de que a natu­
reza se levantou ha pouco, molle como
eu, enervada pela dormida da noite, po­
voada do delicioso sonho da lua e das
estrellas, apagando-se no azul, que se
aviva mais e mais...
No porto as embarcações varadas,
que eu hontem vi correr, airosas como
gaivotas, sobre o mar cheio de brisa,
alegres e vivas, quietam-se agora no si­
lencio da noite não interrompido.
E’ perfeitamente um quadro vago e
indistincto, misturado do sonho e da
realidade, despertando reminiscências
de musica wagneriana, dando-nos por
vezes a impressão de lábios frios e des­
corados, para, em outras, nos sensuali- Preparativos da viagem

594

DRaC-CCA
Ouvem-se agora as vozes dos marinheiros que chegam, o ruido A meio do porto vão já para a pesca pequenas embarcações,
de correntes, o arrastar de embarcações, o gritar das contendas. com a rede ao lado, ouvindo-se o ranger do remo nos toletes.
Vejo as mulheres depondo sobre os calháus os cestos da fructa, Ha brisa: o mar é agora azul, levemente encrespado.
Os Ilhéus, batidos do sol, vermelham de fogo.
Nos mirantes, sob as barracas de faia, os senhores do
Fayal acestam os oculos. No horisonte bem illuminado as
vélas do navio, enfunadas, semelham placas de cobre.
Eu vim para a rua, esperto, desentorpecido, participando
inconscientemente do crescer do dia. O mar todo se illumi-
nou, como n’uma apotheose de luz; na terra o verde claro
das vinhas, por entre as pequenas paredes, põe largas man­
chas coloridas n’aquelles quadrados escuros; mais acima o
arvoredo, em uma variada tonalidade, sombreia toda a en­
S 3 « 1 I costa do monte n’uma sensação boa de frescura.

Pico. — P
orto e villa da Magdalena

sentando-se ao pé d’elles, rindo e palrando á espera da sahida


do barco; vejo os marinheiros, de calça arregaçada até ao
joelho, perna musculosa e trigueira, com os remos ao hom-
bro, entrando na agua...
Depois a chegada dos passageiros de mais consideração,
que apanham o barco já no mar, de pôpa virada para a terra,
mestre em pé, firme, de vara empunho, a aguentar o balanço.
O mestre grita, gritam os marinheiros: em terra correm
mulheres e homens, retardatarios. Pico. — Areia Larga

595

DRaC-CCA
Da costa, riçada de rochedos, cheia de pôças, cheia de peque­ A pequenina cidade, então, tem mesta hora, pela disposição
ninos canaes, de furnas, de grutas, onde o mar vem insinuar-se, da luz, o aspecto rubro de um incêndio. As janellas chammejam.
saltando aqui em gottas espumosas, brincando acolá em correrias, Está-se em plena festa do colorido e da luz! Os olhos sen­
roncando além, verdejando mais o livido verde dos musgos — da tem-se satisfeitos perante aquella feerica illuminação, que mais c
costa assim de cor tão local, sobe no ar fresco o aroma capitoso mais vae subindo na serenidade da manhã, espalhando as ogivaes
de mariscos. claridades dos templos!
A ilha do Fayal, na minha frente, emerge doirada e ridente, Abençoada madrugada, que soubeste reviver em mim a infân­
em uma frescura juvenil. Os contornos desenham-se-lhe nitida­ cia da minha vida, por entre estas pedras onde brinquei.
mente nos mais pequenos pormenores: é como se a estivesse vendo
desenhada em relevo. Pico — Areia Larga.
A fita cor de telha das estradas colleia-se por entre os montes. Rodrigo Guerra.
MIGUEL ANTONIO DA SILVEIRA vel tino, impoz-se ao respeito dos partidos militantes. Serviu mui­
tos apaniguados: poucos lhe foram fieis nas occasiões graves; ra­
ros lhe ficaram gratos. E’ sempre assim. Falleceu a 2 de março
conselheiro Miguel de 190b.
O Antonio da Silveira
nasceu em 12 de maio de
(852, filho legitimo de DR. JOSÉ MACHADO DE SERPA
Miguel Antonio da Silvei­
ra, cavalleiro da Torre e
Espada, um dos bravos Figura distincta na brilhante galeria dos nossos intellectuaes
do Mindello, e de D. Ma­ ilhéus, e não menos distincta na galeria dos homens que têm cons­
ria do Carmo da Silveira, tituído o fôro açoriano.
todos naturaes da ilha do Nasceu o dr. José Ma­
Pico. Cursou as aulas de chado de Serpa na fregue-
portuguez, latim e francez zia da Prainha do Norte,
da Villa da Magdalena. ilha do Pico, em 9 de março
Em 1S79 foi nomeado ad­ de 1864, sendo seus paes
ministrador d’aquelle con­ o fallecido proprietário José
celho e depois eleito Pro­ Antonio de Serpa e D. Iza-
curador á Junta Geral, pelo bel Leal de Serpa. E’ for­
mesmo concelho, 1880- mado em direito pela Uni­
1881 e 1886-1889. Sahiu versidade de Coimbra, on­
deputado pelo circulo da MiguelA S
ntonio da ilveira de completou essa forma­
Horta, em 6 de março de tura em 1 de julho de 1886.
1887, sendo reeleito em 20 de outubro de 1889. Exerceu o cargo N’esta cidade da Hor­
de chefe do districto em 97-99 pelo que foi agraciado com a carta ta publicou um jornal se­
de conselho. Em 26 de junho de 1904 foi novamente eleito depu­ manal O Insulano, que teve
tado, mas renunciou a sua candidatura em favor do conselheiro pequena duração, e onde
José Maria d’Oliveira Mattos. Era agente do Banco de Portugal, escreveu vigorosos artigos
vogal da Commissão Districtal, Provedor da Real Santa Casa da políticos, havendo também
Misericórdia e cônsul do Chile. de sua lavra um interes­
Como homem politico, de extraordinária energia e incontesta- sante folheto intitulado A D . J
r M
osé S
achado de erpa

597

DRaC-CCA
industria piscatória nas ilhas do Fayal e Pico, impresso em Coim­ E’ um orador distincto, e os seus discursos forenses, expostos
bra. da sua carteira de delegado do procurador régio na comarca da
O dr. José de Serpa tem collaborado em muitos jornaes, prin­ Horta, e ainda em varias festas centenárias ou de inauguração, e
cipalmente da Horta. Lembra-nos entre essa collaboração uma ainda de caridade, são um documento brilhantíssimo e vasto da
série de artigos, que publicou no Fayalense, (a esse tempo sema­ sua complexa cerebração e profundos conhecimentos. Pena é que,
nário da Sociedade Luz e Caridade), a respeito dos milagres e da hoje, desde que é juiz no quadro da magistratura, se deixe ouvir
cidade de Lourdes, que visitou durante a Exposição Universal tão espaçadamente.
de Paris de 1900. Não se enganou o nosso saudoso escriptor Ernesto Rebello
E’ um escriptor de excellentes recursos intellectuaes, sempre (que sabia o que dizia), quando previu na mocidade do dr. José
lido com prazer quando faz o favor d’um artiguinho de collabora­ de Serpa o seu incontestável mérito e quanto de proveitosa se­
ção para alguns jornaes da nossa terra. A sua maneira litteraria é ria para a nossa terra a sua carreira profissional.
agradavel e correcta. Preoccupa-o, quasi sempre, a originalidade
de estylo. Manoel Greaves.

598

DRaC-CCA
Ilha do Pico. — Um aspecto da costa

DRaC-CCA
A ILHA DO PICO
Soberbo lance de vista é esse, que se depara ao viajeiro, quan­ Podia e devia ser esta uma terra de previlegio, principal mente
do, da ponte dum navio, fatigado de vêr apenas o azul do mar e pela creação de sanatórios para doenças que demandassem o puro
o azul do ceu, descortina o massiço negro d’essa pyramide mons­ ár dos mares e das grandes altitudes.
truosa, que tem a sua base nas aguas e o seu vertice nas nuvens Talvez o venha a ser. Por agora, é uma terra ingénua de pes­
— o Pico! cadores e de camponezes, sem ambições e sem preoccupaçoes,
Quando ainda mal definidos os contornos, e, de muito longe, vivendo do pão de cada dia, no prazer casto que é a grande sa­
a ilha apenas lembra uma tenue sombra triangular, não acreditará tisfação dos que são humildes e bons.
o viajante, despercebido ou desconhecedor do archipelago, que Mas, ainda assim pobre e humilde, não precisa o Pico do favor
está em frente duma ilha, tão alta é a sombra e tão correcta é a alheio, pois que de si vive e para as ilhas visinhas exporta em
sua sua fórma geométrica. quantidade alguns dos seus bons productos, como são as fructas,
A distancia, porém, que encurta ao passo que o navio, rom­ os queijos, os vinhos e outros mais.
pendo as aguas, mais se approxima da terra estranha, faz desap- Felizes e despreoccupados na sua vida simples, os habitantes
parecer do cerebro do viajante a duvida que d’elle se apossara: do Pico mal se lembram de que possuem uma terra de eleição, e
Definem-se contornos; a terra patenteia-se em toda a sua mages- de que, apezar da sua humildade e condição, essa ilha é das
tade; o arvoredo mostra-se a matisar a negrura do sólo, e a casa­ que mais podem orgulhar-se d’um previlegio em que a natu­
ria pica de branco a orla escura da ilha. reza não tem sido pródiga: a grande altitude n'um clima aben­
E’ a terra! é o Pico! çoado.
Pequena, humilde e pobre é a ilha; mas nenhuma, no archipe­ Que os homens aproveitem tão raro acaso, em proveito de
lago, offerece mais soberbo panorama. Vê-se de muitas léguas em tantos desgraçados!
redor, c dos pontos mais elevados d’ella se descortina a maior O Pico! Terra linda de vêr, e terra para ser querida pelos
parte do archipelago dos Açores, vendo-se quasi a seus pés as ilhas que soffrem e pelos que amam a natureza, em todo o esplendor
do Fayal, S. Jorge, Graciosa e Terceira. da sua arrojada phantasia!

ÓOO

DRaC-CCA
jfíntiga Qasa ^erfrand-José. Bastos S, C
RUA GARRETR 73 E 75 — LISBOA

€ncyclopedia de flpplicações Usuaes


por JOÃO BONANÇA
Historia, Geograpliía, Estatística, Astronomia, Pbysica e CMmica, Agricultura, Hygiene, Medicina pratica, Commercio, Artes, Lettras, Portugal pittoresco, etc., etc.

bivro'de tudo e para todos, de immediata consulta e de incontestável utilidade

Um unico volume - Esplendidas illustraçòes


Com a diffusão da presente obra, verdadeirameníe util e indispensável a toda a gente, uniea em lingua portugueza, orgulhamo-nos em poder
affirmar que um bom serviço prestamos ao publico. Para mais, tem a abonal-a o nome do auctor. E’ elle João Bonança, um dos escriptores
de mais solidos conhecimentos que enriquecem as lettras portuguezas e um investigador da mais admiravel persistência e aptidão.
A Encyclopedia de Applicações Usuaes forma um volume portátil, repleto de noções uteis nas diversas praticas
da vida diaria. E’ um livro para ignorantes e sábios; educa uns e rememora os outros promptamente, sem dispêndio de muito tempo e
trabalho. O commerciante, o agricultor, o jornalista, o homem de lettras, o professor, o clinico, o marinheiro, o militar, o viajante, o
operário, etc., ahi encontram uma instrucção variada e solida e regras para se conduzirem na pratica dos seus misteres e nos actos da
vida publica e particular. O que apenas tiver uma educação elementar, completal-a-ha com pequeno dispêndio de trabalho, de tempo e
de dinheiro, na Encyclopedia de Applicações Usuaes.

PUBLICAÇÃO BARA TISSIMA


Cada fasciculo de 16 paginas, 30 réis Cada tomo de 80 paginas, 159 réis
O volume de mais de 1:600 paginas, encadernado em pelle, custa 2$O0O réis! I!

Typ. de "A Editora" — LISBOA

DRaC
Ilha das flores

N.° 76 6o i

DRaC-CCA
A ILHA DAS FLORES
Desembarcamos em Santa Cruz, a capital da ilha, que é onde
o vapor aporta, quando o tempo lhe dá licença para isso.
Além d’esta villa, teem as Flores ainda outra, a das Lagens, e
as freguezias da Fajansinha, Fajã Grande, Mosteiro, Lagedo,
Lomba, Caveira, Cedros e Ponta Delgada.
Por todas ellas, para qualquer lado que nos encaminhemos, a
paizagem tem magníficos aspectos, a vegetação manifesta-se pu­
jantemente, as flores irrompem por toda a parte, matizando a

Ilha das Flores. — Villa de Santa Cruz

is nos na pequena e linda ilha das Flores, penúltima étape

E d'esta deliciosa viagem, que tanto tem deleitado, impressio­


nado, encantado o espirito do leitor.
Não é verdade ?
Ilha das Flores! Nunca nome algum foi tão bem applicado
como este. De flores está coberta a ilha, que, á maneira que d’ella
mais nos approximamos, mais temos a impressão de que vamos
desembarcar n’um jardim, que a natureza tivesse plantado alli,
em pleno oceano. Flores. — Fajà Grande

602

DRaC-CCA
verdura do solo ubérrimo. O terreno é accidentado, ravinoso, e curiosos da pequena ilha. A principal industria é a da manteiga,
aguas abundantíssimas, despenhando-se de alturas de 3oo metros, que se exporta para Lisboa e para as outras ilhas.
formam quedas --------------- Onze a doze mil habitantes; pequenas industrias
magestosas e gi­ locaes; trabalhos do campo; pesca da baleia; emi­
gantescas, como gração para a America.
essa da cascata Nada mais.
da Ribeira Gran­
de, e alastram-se A vós, o que vos interessa, porém, é essa paiza-
em ribeiros por gem grande e original, que torna a ilha das Flores
toda a ilha, ris­ a mais bella e interessante do archipelago dos
cando-a de bran­ Açores.
co em todas as Por isso mesmo, o touriste a quem a actividade
direcçoes. e a riqueza d’um povo são coisas que pouco inte­
Na ilha das ressam, deve
Flores ha 7 bel- sentir-se bem
las lagoas, uma dentro do buco­
das quaes é tão lismo quasi pri­
importante que a mitivo que lhe
sua massa d’agua WiaiBIIMMIM'111111111............. offerece a ilha
tem 112 metros das Flores,—tão
F . —I
lores M
lheu de V aria az
de profundidade. pequena nassuas
Quando o verão começa e a natureza mostra, dimensões, mas
em todo o seu esplendor, as galas de que se tão grande nos
veste, as alcantiladas rochas da ilha cobrem-se to­ quadros de ma­
talmente de flores, por entre as quaes os regatos ravilhoso impre­
crystalinos serpenteiam, de queda em queda, des- visto, que se des­
penhandose no fundo dos valles ou no mar re­ enrolam deante
volto, que de encontro aos rochedos basalticos dos olhos des­
quebra as suas ondas, desfazendo-as em espu­ lumbrados de
ma. quem visita a
As communicaçÕes são difficeis, de maneira que ilha encanta­
só custosamente podemos vêr todos estes aspectos Flores — Poio
de Moreno dora.

6o3

DRaC-CCA
ANDRE DE FREITAS
sr. André de Freitas é um vel, tão leal aos marechaes do seu partido como sensível ás home­
Opolítico e, como tal, se não nagens dos seus patrícios, o sr. André de Freitas é — por uma
tem feito de todos os seus pa­ modalidade caracteristica dos que só pelo seu trabalho e pelas
trícios seus correligionários, tem suas qualidades conquistam uma posição de relativa superioridade.
feito de todos os seus correligio­ No seio da familia a sua figura reveste um aspecto encantador
nários seus amigos. Isto demons­ quer na pureza da sua affeição quer na modesta compostura com
tra a lealdade que usa para com que cultiva todas as virtudes do lar.
todos e o préstimo que a todos Euclides Costa.
dispensa.
Ponderado, sabendo calar o
que se não deve dizer, sabendo
dizer o que se não póde calar,
muito amigo da harmonia, muito
sensível á benevolencia, traba­
lhando muito, trabalhando mais
do que póde, o antigo deputado
A F
ndré de reitas e ailtigO governador civil da
Horta tem sido sempre util ao
seu districto. Sendo um dos açorianos mais dedicados á causa
do archipelago, o sr. André de Freitas é também um dos políti­
cos mais mal recompensados, dado o valor dos seus serviços, a
honestidade do seu caracter e o timbre da sua dedicação.
Funccionario d’obras publicas muito sabedor e applicado, tem
a provar a sua competência technica os planos gráficos e descri-
ptivos porque se construíram os edifícios do Hospital e Asylo de
Inválidos da cidade da Horta.
Sem fazer reclame dos seus serviços, tão modesto como afa- Flores. — Caldeira Comprida

604

DRaC-CCA
G--------------------------------- -—.—----------------------------------------------------- ------------------------------------------------------- 0

Ilha do Corvo
________ C—--------------------------------------------- - -... ■ —----------- ~----------------------------------- ---- ----- -------------------- 3
(o G 0 ■£)

6o 5

DRaC-C.CA
A ILHA DO CORVO
Corvo é a mais pequena de todas as ilhas dos Açores. A pessoas só d’elle teem noticia quatro vezes por anno, se o mar
O mais pequena e a mais curiosa na sua organisação social. consentir, ainda assim, que em todas essas quatro vezes o vapor
Tem duas léguas de comprido por uma de largo. da carreira possa communicar com a terra.
Alta e defendida do mar por uma rocha basaltica de mais de Ali não se rouba, não se matta, não se diffama. Raríssimo é
25o me- que a justiça tenha de intervir em qualquer conflicto, e, n’este
tros de caso, essa justiça é exercida pelas tres entidades superiores da
altura, a ilha, que são o administrador do concelho, o padre e o regedor.

Corvo. — Um aspecto da Ilha

ilha semelha uma verdadeira fortaleza. Tem uma po­


voação unica: a Villa do Rosário, onde vivem, na
santa paz do Senhor, virgens de ambições e limpas
de maus instinctos, 800 pessoas.
Dizer da sua existência é apresentar ao leitor uma
pequena familia de socialistas, trabalhando commum-
mente aterra, e em commum dividindo os seus fructos.
Sequestradas ao convivio do mundo, essas 800

606

DRaC-CCA
São elles que decidem da sorte do delinquente; e, se este tem tureza caprichosa ali collocou, com a mesma forma e a mesma
que soffrer pena de reclusão, vae para uma cadeia, com porta disposição das nove ilhas do archipelago, que nós acabamos de
aberta e sem guarda, d’onde pode fugir com a maior facilidade. visitar, e cujas bellezas, surprehendentes para ti, leitor amigo,
Mas não o faz. Impõe-se o dever de cumprir a pena, e cum­ e para mim sempre novas, passaram ante os nossos olhos, ra­
pre-a. pidamente e deslumbradoramente — como se as víssemos atravez
Mesmo de noite, não se trancam as portas das habitações. Fi­ um kaleidoscopio.
cam no trinco, porque não ha odios que justifiquem um attenta- *
do, nem necessidades ou instinctos que conduzam ao roubo.
A seguinte nota friza bem a honestidade d’aquelle bom povo: Fatigado o corpo e encantado o espirito, digamos adeus ás
Sendo a santa do logar a que mais oiro possue nos Açores, a chave lindas terras dos Açores.
da egreja fica sempre n’um prego da porta da sacristia, pela parte E, agora, finda a viagem, certamente que os leitores irão apre­
de fóra. Quem quer, seja a que hora fôr, tira a chave, abre a por­ goar, por toda a parte, as maravilhas que seus olhos viram, em
ta, entra na egreja para rezar. E nunca á santa faltou nem uma terra portugueza, de portuguezes tão ignorada — terra eleita e tão
so das suas joias ! linda que, por si só, basta para constituir o orgulho d’uma nação.
N’um dos extremos da ilha ha um pedaço de rocha que seme­ Tão prodigo para Portugal, foi, com certeza, o céu, que er­
lha uma estatua grandiosa, voltada para a America, como que gueu, n’um gesto inspirado, o braço do infante de Sagres, e que
apontando aos navegantes o caminho do Novo Mundo. abriu nas aguas o trilho luminoso que até aos Açores sulcou a nau
Digna de vêr-se também, é essa cratera enorme, no centro e gloriosa de Frei Gonçalo!
no mais elevado da ilha, e que se denomina Caldeirão. Lá no Lisboa, 1009.
fundo, a emergir das aguas, ha nove pequenas ilhotas, que a na­ Raposo de Oliveira.

607

DRaC-CCA
O "ÁLBUM AÇORIANO” >

Explicação necessária

hi fica, nessas seiscentas e tantas paginas, não a historia dos Tem lacunas, não ha duvida; mas não as poderia deixar de
A Açores — d’essas pérolas preciosas que á flor do mar rebrilham
— mas a resenha simples, e por vezes magnifica — quando feita por
ter uma obra d’esta natureza, sem subordinação a plano algum,
que não fosse o de pôr em fóco, com dados precisos, ou com
mãos de mestres, como o são alguns dos primeiros escriptores in­ ligeiros apontamentos, as figuras mais em destaque em cada ilha,
sulares que n’este Album deixaram documentado, por varias formas, as obras de maior vulto e a paizagem de mais relevo.
o seu talento e o seu sabei''—dos homens de valor, da paizagem Se, individualmente, tocando em todas as classes, alguma
encantadora, das artes, das sciencias, das industrias, de todas as d'ellas pudesse resentir-se por qualquer falta sensível, servir-nos-hia
manifestações, emfim, da actividade intellectual e moral d’esse de desculpa o facto de ser absolutamente impossível não deixar no
bom e laborioso povo, que a natureza se compraz, como prémio olvido alguém que, pelo seu trabalho materialmente profícuo, ou
unico, em cercar de inapreciáveis encantos. pelo seu talento manifestamente provado, tivesse merecido, ou
O Album Açoriano não é, certamente, um livro de historia, mereça ainda hoje, as honras duma consagração. Para tal, seria
sisudo e documentado, citando cronologicamente factos e datas, necessário um conhecimento profundo e minucioso, principalmente
mas apenas um livro recreativo, para maravilhar olhos de homens da vida actual de todas as nove ilhas, e o auxilio indispensável que
e de creanças — livro de sala, perfumado e leve, para ser folheado em algumas d’ellas nos faltou.
rapidamente, fazendo passar ante o olhar curioso a reproducção, Ainda assim, este livro representa muito trabalho e muita tena­
mais ou menos nitida, das vistas panoramicas e dos monumentos cidade, e só com um esforço verdadeiramente patriótico se conse­
insulares. guiu, bem que demoradamente, levá-lo a cabo, o mais completo
Livro para servir de orgulho aos que não abandonaram o lar que possível foi.
açoriano, ou de consoladora saudade áquelles que longe d!essas Com patriotismo, pois, e com amor o folheiem todos os insu­
terras ha longos annos habitam — o Album Açoriano é também, lanos e todos os portuguezes, porque n’elle palpita latente a alma
do mesmo passo, uma obra que póde bem servir de alicerce a açoriana — que ainda é dos melhores pedaços da alma nacional.
uma nova historia das ilhas, de base para modernos estudos que Abril—1909.
da vida açoriana se pretendam fazer. A Empreza.

608

DRaC-CCA
FASCICUIA) W.« 76
jfíntiga Casa £erfrand- José Bastos í, C
RETA GARRETT, 73 E 75 — LISBOA

Gncydopedia de Hpplkações Usuaes


por JOÃO BONANÇA
Historia, Geograuliia, Estatística, Astronomia, Physica e Chimica, Agricultura, Hygiene, Medicina pratica, Commercio, Artes, -Lettras, Portugal pittoresco, etc., etc.

bivrtfde tudo e para todos, de immediata consulta e de incontestável utilidade

Um único volume — Esplendidas illusti?a.ções


Com a diffusão da presente obra, verdadeirameníe util e indispensável a toda a gente, unica em língua portugueza, orgulhamo-nos em poder
affirmar que um bom serviço prestamos ao publico. Para mais, tem a abonal-a o nome do auctor. E’ elle João Bonança, um dos escriptores
Paramais,
los conhecimentos
de mais solidos conhecimentos que enriquecem as lettras portuguezas e um
---------------------------------- — investigador
■ da mais admiravel persistência e aptidào.
A Encyclopedia de Applicações Usuaes fórma um volume portátil, repleto de noções uteis nas diversas praticas
da vida diaria. É5 um livro para ignorantes e sábios; educa uns e rememora os outros promptamente, sem dispêndio de muito tempo e
trabalho. O commerciante, õ agricultor, o jornalista’ o homem de lettras, o professor, o clinico, o marinheiro, o militar, o viajante, o
operário, etc.,
UMViailV, VIV., ahi encontram uma
Í4.ÍI VlIWiaVIMIl, VIA.IMMU e
U.Í.U instrúcçàó variada V solida e W regrasI Ow conduzirem
para sê X.V ■ ... W
*. . .1 na pratica dos
«V- seus misteres
■ *. nos
e MX.XX.W da
,,w actos “d
vida puolica e particular. O que apenas tiver uma educação elementar, completal-a-ha com pequeno dispêndio de trabalho, de tempo e
de dinheiro, na Encyclopedia de Applicações Usuaes.

PUBLICAÇÃO BARA TISSIMA


Cada fasciculo de -16 paginas, 30 réis Cada tomo de 80 paginas, 150 réis
O volume de mais de 1:600 paginas, encadernado em pelle, custa 2$O0O réis 111

Tvp. de "A Editora" - LISBOA


ÍNDICE
TEXTO Antonio da Silva Cabral (Dr.), Contos populares....................... 41 João Ernesto de Carvalho e
prosa de Ernesto Ferreira . . 191 Costumes populares michaelen­ João Soares Cordeiro........... 239
Aristides da Motta (Dr.) .... n3 se s, por Joaquim Cândido Ermita do Valle das Furnas (O)
Armando da Silva.................... 246 Abranches................................ 87 — Lenda açoriana, por Fer­
Álbum açoriano, por João da
Arruda Furtado.......................... 123 Cultura do ananaz (A), por Eva- reira Deusdado....................... 219
Camara................................... 5
Artistas (Tres) : — Francisco, risto Soares de Menezes ... 07 Eugênio Pacheco (Dr.)............ 172
El-Rei.—A Rainha.................... 8
Joaquim e Annibal Barbosa . 237 Cumieiras (Nas) das Sete Cida­ Fabrica de Cerveja Michaelense 95
Família Real Portugueza. ... 10
Os CANTOS POPULARES DOS AÇO-
Augusto Cabral.......................... 247 des, por Augusto Loureiro. . i5q Fabrica de Tabacos Michaelen­
Augusto Loureiro....................... 149 De joelhos, versos de Raposo de se, por A. Baptista................. 73
RES, por Theophilo Braga . . 11
Bento de Goes, prosa de Raposo Oliveira..................................... 101 Família Canto............................. 166
de Oliveira............................. i85 De Ponta Delgada ás Sete Ci­ Felix Borges de Medeiros .... 180
Districto de Ponta Delgada . 18
Bretanha michaelense (A)—Um dades, prosa de Emygdio da Filomeno Bicudo e D. Anna Lei­
Açores Orientnes: — S. Miguel problema etnographico, por Silva....................... ................. i55 te do Couto Bicudo. . , . . . 173
Eugênio Pacheco................. 49 Decano (O) dos jornaes açoria­ Filomeno da Camara (Dr.), por
Acção da Ladeira da Velha, Bruno Carreiro (Dr.)................. 147 nos ........................................... 94 Manuel da Camara............... . u3
prosa de Read Cabral............ 129 Cachalote (A morte de um) . . 209 Democracia (A) nascolonias,por Francisco de Bettencourt. . . . 140
Açores (Os), prosa de Aristides Caldeiras (As)............................. i35 João Machado de Faria e Maia 117 Francisco Maria Supico, prosa
Moreira da Motta................. 97 Carlos Machado (Dr.).............. 141 Descobrimento do grupo orien­ de Raposo de Oliveira............ 102
Albuquerques (Laranjeiras). . . i3y Cetologia dos Açores, porF. A. tal dos Açores, por Brito Re- Francisco de Paula e Oliveira . 236
Alice Moderno (D.).................... 116 Chaves...................................... 37 bello........................................ 19 Furnas (Noticia sobre as) .... 218
Amadores de pintura................. 104 CommemoraçÕes cívicas nos Diário dos Açores.................... 243 Furnas (No Valle das), por Emy­
Andrades Albuquerques............ 70 Açores, por M. Pereira de Discurso de Luiz Bettencourt gdio da Silva.......................... 225
André do Canto.......................... 169 Lacerda................................... 77 (Excerpto d’um) . . ........... 91 Furnas (O parque do Marquez
Anthero do Quental................. 47 Conde de Jacome Corrêa, prosa Duarte (Dr.) e D. Maria Anna de nas), por Augusto Loureiro . 23o
Anthero (A memória d’), versos de Bulhão Pato....................... 61 Andrade................................... 179 Gaspar Fructuoso.................... 196
de Humberto de Bettencourt. 89 Conde da Ribeira Grande, prosa Echos (Os), versos de José Bruno 146 Guilherme Poças (Dr.).............. 208
Antonio Borges da Camara Me­ de Bulhão Pato....................... 25 Encontro, versos de Alice Mo­ Hintze Ribeiro............................. 108
deiros ...................................... 39 Consummatum, versos de Ra­ derno........................................ 116 «Historia Insulana» (Excerpto
Antonio de Jesus S. Bento ... 128 poso de Oliveira.................... 24? Entalhadores michaelenses : da), pelo padre Cordeiro ... 192

609

DRaC-CCA
Humberto de Bettencourt (Dr.) 90 Morte d’um cachalote (A), pro- Roberto Ivens 215 Hospital da Villa do Porto . . . 007-
Ilha Sabrina 64 sa do Principe de Monaco . . 209 Santo Christo, prosa de F. M. Ilha de Santa Maria 25o
Ilheu de Villa Franca (O), por Moysés Bensaude 1 p5 Supico 33 Imprensa (A) em Santa Maria,
Manuel Ernesto Ferreira . . . i83 Mythographia açoriana (contos Saudades, versos de José Bruno 146 por Julio Cabral 293
João da Camara (D.), prosa de populares da ilha de S. Mi- Silveiras (Fonte Bella), prosa de Industria mariense 292.
Raul Brandão 26 guel), por Armando da Silva 41 F. M. Supico e Corrêa de Men­ João S. de Sousa C. Albuquer­
João Machado F. e Maia . . . . 208 Natureza da ilha de S. Miguel donça 79 que, prosa de L. M. Betten­
João de Moraes Pereira, prosa (Aspectos geraes da), por Hen- Theophilo Braga, prosa de Ra- court ................... 271
de Mello e Simas 241 rique das Neves 65 poso de Oliveira 2o5 João Soares d'Albergaria (Dr.),
Joaquim Cândido Abranches . . 114 Nicolau Antonio Borges 132 Torre autonômica 124 prosa de J. C. Cabral 273-
José Cordeiro 215 Padre Christiano 194 Veríssimo d’Aguiar Cabral (Dr.) 236 José Ignacio d’Andrade 261
José Pereira Botelho (Dr.) . . . 99 Padre João José d’Amaral . . . 240 Victoriano Sequeira 149 José Monteiro de Bettencourt,
José de Torres 203 Padre Manuel Vicente 207 Villa Franca do Campo 181 prosa de Julio Cabral 3o6
Julio Pereira (Dr.) 99 Padre Senna Freitas 214 Villa da Lagoa 125 Lagoinhas 3oo
Lavandeira — Nunc et semper Parallelos, prosa de A. Moderno io3 Villa de Nordeste i5o Luiz Duarte da Camara (Dr.),
—Cofre de beijos, versos de Pereira Athayde (Dr.) 194 Villa da Povoação 148 prosa de Julio Cabral 280
Manuel Augusto d’Amaral . . 127 Pianíssimo, versos de João da Villa da Ribeira Grande, por Luiz de Figueiredo 285
Lenda açoriana 219 Camara 26 Christiano de Jesus Borges. . i33 Luiz de Figueiredo de Lemos
Lenda das Sete Cidades i5g Pintura (Amadores de) 104 Virgem Santíssima (A’), versos (D.), prosa de Julio Cabral. . 254
Lendas da minha terra—Um Poesia popular nos Açores. — de Anthero do Quental .... 47 Major Julio Cabral 297
milagre, prosa de Raposo de Os repentistas, prosa de Ra- Visconde da Palmeira, pelo Pa- Manuel B. da Camara Albuquer­
Oliveira 15o poso de Oliveira 174 dre Manuel José Pires 187 que........................................... 273
Luiz de Bettencourt (Dr.). . . . 90 Ponta Delgada 248 Visconde da Praia 36 Manuel Velho Monteiro Arruda
Luiz Poças (conselheiro) . . . . 214 Ponta Delgada (A cidade de), Zara, versos de Anthero do (Dr.) 312
Major Francisco Affonso da Cos­ por Alfredo Mesquita 27 Quental, com oito traducções 48 Morgado Laureano Falcão, prosa
ta Chaves e Mello 100 Primeiro (O) jornalista em S. Mi­ de L. M. Bettencourt 263
Manuel Antonio de Vasconcel- guel, por Francisco M. Supico ■42 Açores Orientaes: — Santa Maria Morgado Luiz de Figueiredo Fal­
los, prosa de Manuel Augusto Problema etnographico (Um) . 49 cão, prosa de L. M. Betten­
d’Amaral n5 Procissão (A), por Mendo Bem 234 Almagueira 270 court 282
Manuel Augusto d’Amaral . . . 127 Raposo de Oliveira, prosa de Augusto Borges Cabral, prosa de Nossa Senhora dos Anjos, por
Manuel da Camara 207 Antonio Baptista 244 F. de A 3o8 Julio Cabral 284
Mariano Henriques daSilva,pro­ Read Cabral 129 Caes e posto de despacho. . . . 299 Padre Leandres de Sousa. . . . 289
sa de Alfredo de Sarmento. . 161 Recordação de S. Miguel — (A Capote e capello 3o 1 Padre Manuel Antonio dos Reis,
Maria da Graça, prosa de Ra­ minha primeira comarca), por Convento dos Franciscanos (Ex- prosa de J. Cabral 310
poso de Oliveira 107 Antonio Julio do Valle e Sousa 197 tincto) 258 Pico da Bella Vista 279
Marquezes da Praia e Monforte. 55 Repentistas (Os) 174 Faneca5 por Julio Cabral .... 282 Recolhimento de Santa Maria
Milagre (Um) ............. i5o Retratos, versos de Humberto Festejos do Espirito Santo, por Magdalena, por Julio Cabral . 302.
MonfAlverne de Sequeira (Dr.). 195 de Bettencourt 89 Julio Cabral 265 San Lourenço 273-

610

DRaC-CCA
San Pedro................................... 287 única sede do governo legi­ Padre Rogério (O), prosa do Açores Centraes: —Graciosa
Santa Barbara............................. 3o5 timo. ........................................ 363 Conego Christiano................. 356 Archipelago dos Açores........... 440
Santo Espirito............................. 291 Decreto que concedeu á cidade Padre Thomaz Borba.............. 892 Carapacho (Um trecho do) . . . 487
Valverde e Almagueira.............. 270 de Angra o titulo de Heroísmo 364 Penha de França da ilha Ter­ Ilha Graciosa............................. 434
Descobrimento do grupo central ceira, por Luiz de Castro. . . 416 Villa de Santa Cruz................. 384
Districto de Angra do Heroísmo 314 dos Açores, por Brito Rebello 315 Poesia — A uma cadeirinha ve­
Espirito Santo (O) advogado da lha, por João Miguel Coelho Districto da Horta.............. .. 442
Açores Centraes:— Terceira
Innocencia............................ 3q3 Borges..................................... 899
Açores Oeeidentaes: — Fayal
Açores (Os), por Eduardo de No­ Familia Bruges (A), prosa de Proclamação do Senhor D. Pe­
ronha......................................... 373 Augusto Ribeiro.................... 319 dro IV aos portuguezes (Ex- Alberto Goulart de Medeiros
André Meirelles de Tavora. . . 417 Faustino da Fonseca................. 872 tracto da)................................ 897 (Dr.), prosa de Euclides Cos­
Angra do Heroísmo.................... 423 Festas do Espirito Santo .... 337 Quem deu o nome ao Labra- ta............................................ 583
Angra do Heroísmo (A cidade Fitando o céu, por Gervasio dor?, por José d’Azevedo e Agosto, versos de Manoel Grea­
de) — Aspectos vários, por Lima........................................ 412 Menezes................................... 828 ves ........................................... 543
G. F. de Bourbon................. 367 F rancisco J oaquim Moniz de Bet- Theotonio d’Ornellas............... 406 Agua relia, versos de Osorio
Antonio Moniz Barreto Corte- tenc.ourt .(Mendo Bem) .... 392 Theotonio Paim de Bruges, Goulart................................... 536
Real (Dr.), prosa de Augusto «Historia Insulana» — Do pri­ prosa de Sieuve de Menezes . 321 Antonio Baptista, prosa de Ra­
Ribeiro...................................... 409 meiro donatário e povoadores Toiradas á corda (As), de Bour­ poso d’01iveira....................... 525
Augusto Ribeiro.......................... 3qo de toda a ilha, pelo Padre bon e Menezes....................... 849 Antonio da Cunha de Menezes
Barão do Ramalho, prosa de Cordeiro................................ 383 Vestiaria açoriana—O manto e Brum, prosa de Antonio Ba-
Augusto Ribeiro •.................... 353 Imprensa Terceirense (A). ... 415 o capote, por Vieira Mendes . 826 ptistá........................................ 4’9
Batalha da Salga, por Francisco José Pereira da Cunha (Conse­ Vida do P.c Antonio Cordeiro Antonio Emilio Severino d’Avel-
Maria Supico.......................... 341 lheiro) ..................................... 396 (Extrahida da«Bibliotheca Lu­ lar (Conselheiro Dr.)............... 480
Caçada ducal (Uma).................. 344 José Sebastião de Castro de sitana», de Barbosa Machado) 38o Antonio de Sousa Hilharco ... 518
Capote (O)................................ 32b Couto, prosa de Sieuve de Villa da Praia da Victoria, por «Apotheose Humana» (Um tre­
Castello de S. João Baptista, por Menezes.................................. 398 Gervasio Lima....................... 887 cho da), versos de Manuel
Rodrigues da Costa.............. 401 Lenda açoriana. — O Espirito Vil lance te, versos de Mendo Joaquim Dias...............• . . . 568
Centenário nos Açores.—Theo- Santo advogado da Innocen- Bem ............... 391 Barão de SanfAnna (Rodrigo),
tonio d'Ornellas (1807-1907), cia, por Ferreira Deusdado. . 898 Violante do Canto (D.), prosa prosa de Marcellino Lima . . 521
por Augusto Ribeiro.............. 406 Lenda açoriana. — Uma caçada de A. B. do Canto Moniz . . . 336 Barões da Ribeirinha.............. 553
Chantre José dos Reis Fisher, ducal, por Ferreira Deusdado 844 Virgínia da Fonseca (D.) .... 872 Caldeira (Sobre a), por Eucli­
prosa de Augusto Loureiro. . 377 Luiz de. Tavora (Conselheiro), Viscondes de Meirelles........... 418 des Costa ............................. 487
Condes de Sieuve de Menezes . 322 prosa de Ferreira Deusdado 332 Cândido Maria de Sousa, prosa
Açores Centraes:— S. Jorge.
Costumes açorianos — Festas Manto (O)....................... •. . . . 826 de José Garcia do Amaral . . 548
do Espirito Santo................. 887 Minha querida terra (A), por Armelim Júnior (Dr.), prosa de Capello (O), prosa de Read Ca­
De braço dado, por Mendo Bem 403 Faustino da Fonseca.............. 369 Antonio Cabreira................. 431 bral........................................... 584
Decreto da Junta Provisória, de­ Padre Jeronymo Emiliano d’An­ Calheta........................................ 427 Collegio de jesuítas na Horta
clarando a ilha Terceira a drade........................................ 4'4 Villa das Velas............................ 426 (Antigo), por M. S................. 453

DRaC-CCA
Conego Silva Reis, prosa de A. B. 522 João José da Graça, prosa de Padre José Leal Furtado, prosa tro (D.), pelo conego João Pe­
Corona Estellam, versos de Oso- Ernesto Rebello.................... 573 de Ernesto Rebello.............. 571 reira Damaso......................... 591
rio Goulart............................. 512 Jos Dutra................................... 446 Poço das Azas (O), por Ernesto José Machado de Serpa (Dr.),
Descobrimento do grupo Occi­ José Curry da Camara Cabral Rebello................................... 519 prosa de Manuel Greaves . . 597
dental dos Açores, por Brito (Dr.), prosa de Hermano de Padre Leal Furtado................. 517 Miguel Antonio da Silveira . . . 597
Rebello..................................... 44-' Medeiros.................................. 577 Padre Manuel José d’Avila, pro­ Sahida do barco (A), conto de
Duques d’Avila e Bolama, prosa José Garcia do Amaral, prosa sa de Turibio Fulvio........... 485 Rodrigo Guerra................... 594
de Mendo Bem....................... 474 de Lucio Agnello Casimiro. . 537 Padre Osorio Goulart, prosa de Villa das Lages, pelo Visconde
Edwiges Goulart Prietto (Dr.), José Maria da Rosa, prosa de A. Baptista............................. 512 de Borges da Silva.............. 586
prosa de J. Mendes d’Araujo . 518 Antonio Baptista.................... 470 Paisagem Fayalense................. 502
Açores Oecidentaes:— Flores
Ernesto Rebello.......................... 5o6 Eapide sepulchral de Jos Du­ Pesca da baleia (A’), por Mar­
Escola do Padre José Daniel tra, pelo Padre Manuel José cellino Lima.......................... 53i André de Freitas, prosa de Eu­
(A), pelo Visconde de Borges d'Avila..................................... 446 Politicomania, por J. Machado clides Costa............................ 604
da Silva.................... .... 5oy Manuel d’Arria ;a (Dr.), prosa de Serpa............. 471 Ilha das Flores (A).................... 602
Euclides Costa.......................... 554 de Raposo d’01iveira........... 544 Primeira gallinhola (A), por
Açores Oecidentaes : — Corvo
Excursão aos Açores (Uma) — Manuel Francisco de Medeiros Florencio Terra.................... 491
A ilha do Fayal, prosa de Ra­ (Conselheiro).......................... 5o5 Recordação, pelo Visconde de Ilha do Corvo (A), prosa de Ra­
poso d’Oliveira....................... 549 Manuel Francisco Neves Júnior Castilho.................................. 545 poso d’01iveira....................... 606
Familia Dabney, prosa de Flo- (Dr.), prosa de Borges de La­ Rodrigo Guerra, prosa de Ra­
rencio Terra.......................... 465 cerda........................................ 53/ poso d’OIiveira....................... 555 Album açoriano — Explicação
NECESSÁRIA................................................... 608
Feitor (O) — Vida açoriana, Manuel Greaves, prosa de Gon­ Sobresaltos, por Manuel Grea­
prosa de Rodrigo Guerra. . . 55y çalves Dias............................ 515 ves ........................................... 5i3
Florencio José Terra, prosa de Manuel Joaquim Dias.............. 517 Terra Pinheiro (Conselheiro),
Manuel Joaquim Dias............ 460 Manuel Zerbone....................... 53o prosa de Antonio Baptista . . 3n GRAVURAS
Gabriel Samora Moniz (Dr.) Marcellino Lima....................... 485 Terras, Cunhas e Silveiras,
prosa de Antonio Baptista . . 527 Marquezes d’Avila e Bolama, prosa de Emerson Ferreira . 449
Garcia Monteiro....................... 510 prosa do Visconde de Borges Theatro Fayalense.................... 53g S.S. M.M. El-Rei D. Carlos e
«Historia insulana» — Os pri­ da Silva ................................ .. 476 Tisico, por Silvina de Sousa . . 461 Rainha D. Amélia................. 7
meiros capitães donatários do Mello e Simas, prosa de Raposo Urbano da Silva (Dr.).............. 570 Família Real Portugueza : —
Fayal, pelo padre Cordeiro . . 58o d’01iveira............................... 566 Visconde de Borges da Silva. . 513 S. A. o Príncipe da Beira,
Horta (Cidade da).................... 543 Moisés, versos de Manuel Joa­ Vulcanismo nos Açores, por S. A. o Infante D. Manuel,
Ilha do Fayal (A)....................... 549 quim Dias............................... 522 Mello e Simas...................... 481 S. M. a Rainha D. Maria Pia
Iduino Rocha (Dr.).................... 53o Morango silvestre (O), por An­ Vulcões da Praia do Norte, por e S. A. o Infante D. Affonso. 9
Imprensa Fayalense................. 524 tonio Baptista....................... 497 A. L. da Silveira Macedo . . 5o3 Viagem regia aos Açores. — A
Industrias caseiras.................... 455 Nunes Sobrinho, prosa de Eu­ esquadrilha (Hiate D. Amé­
Açores Oecidentaes: — Pico
Jesuítas (Antigo collegio de). . 453 clides Costa............................ 569 lia, cruzador D. Carlos, cru­
Jesuítas (Da historia e lenda dos Oscar Ribeiro, prosa de Antonio Ilha do Pico (A)....................... 600 zador D. Amélia e cruzador
Açores), por Manuel Greaves. 467 Baptista................................... 554 João Paulino d'Azevedo e Cas­ S. Gabriel)................................ 16

DRaC-CCA
Açores Orientaes: — S. Miguel Cachalote (Um).................... 37 e 38 Decano dos jornaes portugue- Furnas: — Casa de banhos do
Caetano d'Andrade Albuquer­ zes (O)........................................... 94 Marquez da Praia.................... 225
Açoriano Oriental (O)................. 94 que Bettencourt (Dr.) .... 71 Diário dos Açores.................... 244 Furnas: — Chalet do Dr. Er­
Algar (Um)..................................... 22 Caldeiras :—Assembleia............. 136 Duarte (Dr.) e D. Maria Anna nesto do Canto.......................... 22.3
Alice Moderno (D.)....................... 116 Caldeiras: — Banhos.................... 136 d’Andrade..................................... 179 Furnas :—Estabelecimento bal­
Ananaz: — aborto....................... 5y Caldeiras:—Nascente da agua Ernesto do Canto (Dr.)............. 171 near .............................................. 225
Ananaz : — estufa de 2:000 plan­ das Lombadas........................... 136 Ernesto Pacheco (Dr.)................. 172 Furnas: —Um jardim — Queda
tas .................................................. 59 Caldeiras : — Vista geral............. 135 Exposição de Ponta Delgada em d’agua........................................... 220
Annibal Barbosa........................... 287 Carlos Machado (Dr.)................. 141 1901: — Feira Franca............. i_|5 Furnas: — Palacete e jardim do
Anthero do Quental.................... 47 Casa pobre d’aldeia....................... 165 Exposição de Ponta Delgada cm Marquez da Praia.................... 2'2
Antonio Borges da Camara Me­ Clemente Antonio de Vascon- 1901: — Redil.............................. 144 Furnas :—Parque do Marquez—
deiros e esposa........................... 39 cellos............................................... 125 Fabrica de Cerveja........................ 96 Memória ao Visconde da Praia 226
Antonio de Jesus S. Bento ... 128 Como se conserva o milho ... i3o Fabrica de Tabacos: — Escrip- Furnas: — Rua d’um parque . . 226
Antonio da Silva Cabral (Dr.) . 191 Conde dos Fenaes....................... 84 torio e seu pessoal.................... 74 Furnas: — Tanque no jardim
Aristides da Motta (Dr.).............. n3 Conde dos Fenaes:—Brazão Fabrica de Tabacos: — Uma do Marquez da Praia............. 222
Arruda Furtado............................... r>3 d’armas........................................ 86 officina............................................ 74 Furnas : —Tanque no parque do
Arthur Hintze Ribeiro (conse­ CondedosFenaes: — Residência 85 Fabrica de Tabacos: — Offici- Marquez da Praia.................... 231
lheiro) ........................................... 109 Conde dos Fenaes: — Sala do na de cigarros........................... 74 Furnas: —Trecho d’Um jardim 223
Augusto Loureiro........................... 149 palacio........................................... 84 Fabrica de Tabacos: — Offici­ Furnas (Lagôa das).................< '>5
Barão de Fonte Bella (i.°) ... 79 Conde de Fonte Bella................. 82 na de empacotamento............. 76 Furnas (Lagôa das): —Capella
Barão de Fonte Bella (2.°) ... 81 Conde de Jacome Corrêa. . . . 61 Fabrica de Tabacos : — Pes­ de José do Canto.................... 224
Baroneza de Nossa Senhora da Condes da Ribeira Grande ... 25 soal................. ,............................. 75 Furnas (Valle das) :—Aspecto
Oliveira........................................ 82 Costa (Um aspecto da)............. 176 Fabrica de Tabacos : — Pessoal geral das Caldeiras................. 228
Barão das Laranjeiras (i.°) . . . 137 Costa das Capellas (Na).............. 210 superior........................................ 73 Furnas (Valle das) : — A Assem­
Barão das Laranjeiras (2.0) e 1." Costa Occidental........................... 20 Fabrica de Tabacos: — Resi­ bleia .............................................. 227
Visconde, com seus filhos o Costa do sul..................................... 21 dência do fundador e gerente 73 Furnas (Valle das):—Uma aveni­
2." Visconde e o 3." Barão . . 13p Costumes:—A caminho da fonte 88 Fabrica de Tabacos: — Typo- da — Caminho para os banhos 229
Baroneza das Laranjeiras (2.") . 138 Costumes : — Capote de capuz. 31 litographia..................................... 76 Furnas (Valle das):—Uma cal­
Botelho (Capella do) — Palacio Costumes : — Costume popu­ Felix Borges de Medeiros. . . . 180 deira ............................................. 218
Fonte Bella.................................. 83 lar ........................................ 97 e 98 Filippe d’Andrade Albuquerque Furnas (Valle das) : — Caldeiras 66
Botelho (Jardim do), 85,91,92 e 142 Costumes : — Os foliões na festa Bettencourt.................................. 72 Furnas (Valle das): — Um ribei­
Bretanha: — Caminho do Moi­ do Espirito Santo.................... 88 Filomeno • Bicudo . e D. Anna ro n’um jardim........................... 227
nho.................................................. 4<) Costumes: — Lavandeiras. ... 27 Leite do Canto Bicudo .... 173 Furnas (Valle das): — Rua d’um
Bretanha : — Carro e petrechos Costumes: — Trajo popular . . 87 Filomeno da Camara (Dr.) ... n3 jardim.......................................... 23o
de lavoura.................................... 5o Costumes : —Vendedor de con­ Francisco Barbosa........................ 237 Furnas (Valle das): — Trecho
Bretanha : — Lavrador................. 51 feitos .............................................. 29 Furnas: — Bodo aos pobres por d'um parque.............................. 221
Bretanha: — Trabalhadores. . . 53 Costumes:—Vendedeira de gal- occasião da visita régia — No Furnas (Valle das):—Vista ge­
Bruno Carreiro (Dr.).................... 147 linhas............................................ 28 jardim do Marquez da Praia 219 ral.................................................... 217

DRaC-CCA
Guilherme Paços (Dr.)...............208 Major Francisco Affonso da Pintura :—Tvpo michaelense.— Ponta Delgada: — Governo Civil 60
Hintze Ribeiro (Conselheiro) . . 108 Costa Chaves e Mello........... 100 Quadro do conde dos Fenaes 104 Ponta Delgada:—Jardim Bor­
Humberto de Bettencourt (Dr.) 90 Manuel Antonio de Vasconcel- Pintura : — Quadros de D. Maria ges — Alameda das Palmei­
Ilha Sabrina (Vista da erupção los........................................... 115 Anna d’Andrade.................... io5 ras ........................................... 40
de que resultou a)................. 64 Manuel Augusto d’Amaral ... 127 Ponta Delgada: — Bahia e porto Ponta Delgada:—Jardim Bor­
Jacintho Leite de Bettencourt . 106 Manuel Augusto Hintze Ribeiro 111 artificial.................................. 24 ges— As estufas.................... 39
Jacintho Teves Adam (Dr.)... 110 Manuel da Camara.................... 207 Ponta Delgada:—Porto artifi­ Ponta Delgada: — Jardim Bor­
Joanna Hintze Ribeiro (D.) . . . 108 Marciano Henriques da Silva . . 161 cial— Ponte em construcção 17.5 ges— As grutas....................... 40
João da Gamara (D.)................. 26 Margarida Brum do Canto H. Ponta Delgada:—Caes da Al­ Ponta Delgada : —Lado oriental
João Ernesto de Carvalho. . . . 209 Ribeiro (D.)............................ 109 fândega .................................. 27 da cidade................................ 3i
João Machado F. Maia.............. 208 Marquez de Jacome Corrêa . . 62 Ponta Delgada : — Caes da sar­ Ponta Delgada: — Palacete do
João de Mello Abreu................. 95 Marquez da Praia e Monforte e dinha— Mercado do peixe . . 78 Marquez de Jacome Corrêa. . 62
João de Moraes Pereira e ou­ suas irmãs............................... 56 Ponta Delgada : — Campo de Ponta Delgada: — Palacio do
tros........................................... 241 Marquezes da Praia e Monforte 55 S. Francisco e Hospital .... 29 Marquez da Praia................. 56
João Soares Cordeiro.............. 289 Matheus d'Andrade Albuquer­ Ponta Delgada : — Cemitério de Ponta Delgada : — Uma rua. . . 143
João Soares Cordeiro (Uma mol­ que Bettencourt (Dr.)........... 70 S. Joaquim............................. 46 Ponta Delgada:—Santo Christo 33
dura— Trabalho de).............. 23o Milho (Como se conserva o)... 13o Ponta Delgada : — Convento da Ponta Delgada: — Procissão do
Joaquim Barbosa . .................... 238 Moinhos michaelenses.............. 240 Esperança................................ 34 Santo Christo.......................... 233
Joaquim Cândido Abranches . . 114 MonfAlverne de Sequeira (Dr.) ip5 Ponta Delgada : — Egrcja do Ponta Delgada: — Solar da Fa­
Jorgina T. Adam H. Ribeiro (D.) 110 Morgado José Caetano (Canto) 167 Collegio............................... .. 3o mília Bicudo............................ 173
Jornalistas michaelenses (Gru­ Morro das Capellas (O)........... 211 Ponta Delgada:—Egreja do Ponta Delgada:—Theatro mi­
po de)..................................... 14.1 Moysés Bensaude....................... 195 Collegio — Altar-mór........... 3o chaelense............................... -. 77
José d’Arruda Pereira............... 10G Nicolau Antonio Borges........... 02 Ponta Delgada : — Egreja do Ponta Delgada: — Uma vista. -. 60
José Bruno....................... ... 147 Non plus ultra.......................... 247 Collegio—Capella do Senhor Ponta Delgada :—Vista geral da
José do Canto............................. 168 Nordeste:—Um aspecto da villa 151 dos Passos............................... 234 cidade................. .................... 248
José Cordeiro............................. 21; Nordeste: — O pharol.............. i52 Ponta Delgada : — Egreja da Porto da Calheta....................... 60
José Jacome Corrêa................. 61 Nordeste : — Paços do concelho 151 Conceição — Interior........... 138 Porto de Santa Iria.................... 209
José Pereira Botelho (Dr.). . . . 39 Nova (A)..................................... 140 Ponta Delgada : — Egreja da Porto de Santa Iria:—Canoas
Julio Pereira (Dr.).................... 00 Padre Christiano....................... 194 Conceição — Brasão existente 13p balieiras.................................. 212
Lagoa (Villa da)......................... 125 Padre Manuel Vicente.............. 207 Ponta Delgada:—Egreja do Con­ Porto de Santa Iria : — Uma ba­
Lagoa (Villa da):-—Aspecto . . 126 Padre Senna Freitas................. 214 vento de St." André — Interior 78 leia ........... ........... 210
Lagoa (Villa da) : — Mercado do Pereira Athayde (Dr.)............... 194 Ponta Delgada:—Egreja matriz 60 Povoação (Villa da)................... 148
peixe........................................ 126 Pereira de Lacerda.................... 243 Ponta Delgada : — Egreja matriz Povoação (Villa da): — Egreja
Lagoa (Villa da) : — Uma rua. 170 Persuasão (A)............................. 102 — Porta manuelina........... . . 28 de N. S. da Mãe de Deus . . . 202
Luiz de Bettencourt (Dr.). . . . 90 Pintura :—Furnas—Banhos Ve­ Ponta Delgada : — Egreja de S. Povoação (Villa da): — Egreja
Luiz Filippe d’Andradc Albu­ lhos, quadro de Julio Pereira 104 Pedro........................................ 77 de N. S. do Rosário.............. 198
querque Bettencourt.............. 72 Pintura: — Miniaturas de Jacin­ Ponta Delgada : — Estatua de Povoação (Villa da) : —Ermida
Luiz Paços (conselheiro)- .... 214 tho Leite................................ 106 Roberto Ivens.......................... 215 de Santa Barbara.................... 200

DRaC-CCA
Povoação (Villa da):—Um moi­ Sete Cidades (Descendo para as) 236 Villa Franca do Campo :-—Uma Freguezia de Santa Barbara:
nho junto á Lomba do Pomar 2o3 Theophilo Braga 2o5 rua 190 — Egreja paro chiai 304
Povoação (Villa da): — Sala Torre autonômica (A) 124 Villa Franca do Campo :—Vista Freguezia de Santa Barbara:
do Tribunal Judicial 201 Victoriano Sequeira 149- geral 181 — Parte norte 295
Povoação (Villa da): — Um tre­ Villa Franca do Campo: — Visconde da Palmeira 187 Freguezia de Santa Barbara:
cho da ribeira d’Alem 199 O aterro 189 Viscondes da Praia 35 — Vista geral 296
Povoação (Villa da) :—Vista da Villa Franca do Campo : — Ave- Freguezia de Santo Espirito:
Açores Orientaes : — Santa liaria
Lomba do Pomar 197 nidaAntonio da Silva Cabral. 191 —Estrada real >91
Prestes: — Palacete da Familia Villa Franca d o C a m p o : —* Augusto Borges Cabral e esposa 3o8 Freguezia de Santo Espirito:
Canto 169 O caes 186 Caçada no Barreiro da Faneca — O Loural 277
Raposo d'Oliveira 244 Villa Franca do Campo : — (Uma) 281 Freguezia de Santo Espirito:
Read Cabral 129 Egreja matriz 189 Convento dos Franciscanos — Parte sul 290
Ribeira Grande (Villa da): — Villa Franca do Campo : — Es- (Extincto) 255 Freguezia de Santo Espirito:
Egreja matriz 104 trada para as Furnas 186 C o n v e n t o dos Francisca­ — Um trecho 290
Ribeira Grande (Villa da): — Villa Franca do Campo : — Hos- nos (Egreja e extincto) .... 257 Freguezia de S. Lourenço. . . . 274
Egreja da Misericórdia .... 133 pitai e Egreja da Misericórdia. 188 Convento dos Franciscanos: Freguezia de S. Pedro 287
Ribeira Grande (Villa da): — Villa Franca do Campo: — O Capella mór 259 Freguesia de S. Pedro : — Um
Ponte sobre a ribeira 134 ilheu e vista parcial da villa. 190 Convento dos Franciscanos (Ex­ aspecto 277
Ribeira Grande (Villa da): — Villa Franca do Campo : — Um tincto):—Imagem do Senhor Freguezia de S. Pedro: —Egreja
Um trecho da villa i33 aspecto do ilheu j 83 dos Terceiros 259 parochial 287
S. Roque : — Praia de banhos . 164 Villa Franca do Campo : — Ou- Costumes marienses 289 Freguezia de Valverde 270
S. Roque :—Grupo de banhistas 174 tro aspecto do ilheu 187 Costumes marienses : — Capote Ignacio José d’Andrade 261
Sete Cidades: — Um aspecto das Villa Franca do Campo: — Ba- e capello 3o 1 Ilha de Santa Maria 249
Cumieiras 153 cia do ilheu 182 Debulha de trigo — Uma eira. . 295 Ilheu do Romeiro, na bahia de
Sete Cidades: — Caminho da Villa Franca do Campo : —Ex- Echo Mariense (O) 293 S. Lourenço 275
Egreja ....................... 156 tremo avançado do ilheu. . . 184 Egreja de N. S. de Lourdes — Ilheu do Romeiro :—Gruta. . . 298
Sete Cidades : — Chalet da Fa­ Villa Franca do Campo : — Par- Capella mór 3o5 Ilhéus das Lagoinhas 3oo
milia Andrade Albuquerque . i5p te do ilheu 177 Egreja de N. S. da Purificação. 276 Imagem do Senhor dos Passos. 310
Sete Cidades: —Hospedaria . . 157 Villa Franca do Campo : —Um Feira de gado (Uma) 253 João Soares d’Albergaria (Dr.). 276
Sete Cidades: — Lagôa 67 jardim 192 Festas do Espirito Santo .... 255 João Soares de Sousa C. Albu­
Sete Cidades : — A lagôa vista Villa Franca do Campo : — Lar- Festas do Espirito Santo :—Bo- querque 271
das Cumieiras 154 go Bento Goes i85 das .................................... 267 José Monteiro de Figueiredo . . 3o6
Sete Cidades : — Uma margem Villa Franca do Campo : — Lar- Festas do Espirito Santo: — O Luiz Duarte Rebello da Ca-
da lagôa i56 go das Freiras.............................. 193 bodo 268 mara (Dr.) 280
Sete Cidades : — Um trecho da Villa Franca do Campo:—Paços Festas do Espirito Santo:—Uma Luiz de Figueiredo 285
lagôa 158 do Concelho e Jardim publico 188 coroação 265 Luiz de Figueiredo de Lemos
Sete Cidades: —Alto dos Moi­ Villa Franca do Campo : — Um Festas do Espirito Santo :—Fo­ (D-).............................. • 254
nhos (A caminho das) 68 trecho do jardim publico. . . 192 liões 266 Major Julio Cabral . 297

6i5

DRaC-CCA
Manuel Barbosa da Camara Al­ Villa do Porto : — Rua da Con­ Angra do Heroismo : — Palacio Cão de fila—Raça especial da
buquerque .................................... 2/3 ceição .......................................... 294 dos Remedios — Solar dos Terceira....................................... 386
Manuel Velho Monteiro Arruda Villa do Porto: — Rua de Santo Cantos........................................... 370 Chantre José dos Reis Fisher . . 377
(Dr.)............. ................................ 3i2 Antonio....................................... 251 Angra do Heroismo:—Palacio Conde de Sieuve (i.°)................. 322
Mariense.................................. 2q3 Villa do Porto: — Santa Casa de Santa Luzia — Solar da Conde de Sieuve (2.0)................ 323
Morgado Laureano Francisco da Misericórdia e Hospital . . 3oy familfe Bruges............................. 407 Conde da Praia da Victoria (i.°) 406
da Camara Falcão.................... 263 Villa do Porto: — Um trecho. . 252 Angra do Heroismo : —Passeio Conde da Praia da Victoria (2.0) 319
Morgado Luiz de Figueiredo Fal­ Villa do Porto:—Vista geral. . 25o Duque da Terceira............. ... 316 Costumes : — O manto e o ca­
cão ................................................. 282 Angra do Heroismo : —Porto e pote ............................................. 326
Açores Centraes: — Terceira
N. S. dos Anjos : —Praia e Er­ vista da cidade............. ... 318 -Estrada de S. Matheus............. 33o
mida ............................................. 284 André Meirelles de Tavora ... 417 Angra do Heroismo : — Procis­ Faustino da Fonseca................ 372
N. S. dos Anjos : — Ermida e Angra do Heroísmo:—Alto das são de Corpus Christi, 373 e 375 Festas do Espirito Santo: — Os
logar.............................................. 288 Covas.............................................. 364 Angra do Heroismo: — Residên­ bezerros....................................... 36o
N. S. dos Anjos: —Memória Angra do Heroísmo : — Antigo cia do Barão do Ramalho . . 35q Festas do Espirito Santo: —
existente na ermida................. 285 palacio do Marquez de Cas­ Angra do Heroismo : — Resi­ Coroação....................... 35p c 3p3
Padre Leandres de Sousa. . . . 289 tello Rodrigo................................ 385 dência da familia Sieuve de Festas do Espirito Santo: —
Padre Manuel Antonio dos Angra do Heroísmo : — Caes e Menezes . . . .............................. 324 Chegada da Coroação ao Im­
Reis................................................. 310 Alfandega.................................... 33g Angra do Heroismo : — Rua de pério .............................................. 361
Pico da Bclla Vista....................... 279 Angra do Heroísmo:—Caes do S. João........................................ 371 Festas do Espirito Santo : — O
Recolhimento de Santa Maria Porto das Pipas....................... 408 Angra do Heroismo : — Salão cortejo........................................... 357
Magdalena.................................... 302 Angra do Heroísmo: — Castello nobre da Camara Municipal . 346 Festas do Espirito Santo t-—Dis­
Sitio das Lagoinhas.................... 3oo de S. Sebastião e Caes do Angra do Heroismo:—Sé. . . 342 tribuição de esmolas............. 358
Sitio de N. S. da Gloria............. 282 Porto das Pipas ........................ 367 Angra do Heroismo : — Trecho Festas do Espirito Santo :—Es­
Villa do Porto............................. 19 Angra do Heroísmo :—Edifício do jardim Duque da Ter­ molas de pão e carne .... 3g5
Villa do Porto : —Brazão dur­ do Lyceu.................................... 397 ceira ............................................... 389 Francisco Joaquim Moniz de
mas da Camara Municipal . . 251 Angra do Heroismo : — Egreja Angra do Heroismo : — Trecho Bettencourt (Mendo Bem). . 392
Villa do Porto : — Caes e posto do Collegio................................. 347 do jardim publico. . . . 3a5 c 338 Francisco de Meirelles............. 420
de despacho..........................' . . 299 Angra do Heroismo: — Egreja de Angra do Heroismo : — Trecho Freguezia das Quatro Ribeiras :
Villa do Porto : — Caes da Al­ N. S. do Livramento e Asylo da rua Direita............................. 327 — Agua Santa.......................... 379
fândega ........................................ 253 da Infancia Desvalida............. 410 Angra do Heroismo : —Trecho Freguezia de S. Matheus, 333 e 413
Villa do Porto :—Cemitério. . 3o3 Angra do Heroismo : — Egreja da rua da Sé.............................. 329 Freguezia de S. Matheus : Des­
Villa do Porto : — Egreja de N. de S. Francisco........................ 365 Angra do Heroismo: — Vista ge­ troços causados pelo cyclone
S. da Conceição da Rocha e Angra do Heroismo : — Egreja ral da cidade . . . •.................... 424 de 1893 . ....................... ’. • • • 394
casa do Castello....................... 294 da Misericórdia.......................... 3,28 Antonio Carvão (Dr.)................ 353 Freguezia da Serreta : — Distri­
Villa do Porto :—Egreja matriz 252 Angra do Heroismo :—Estrada Antonio Moniz Barreto Côrte buição de leite........................... 381
Villa do Porto: —Uinà fabrica á beira-mar................................. 342 Real (Dr.).................................... 409 Freguezia da Serreta : — Monte 38o
de telha....................................... 292 Angra do Heroismo:—Paços do Augusto Ribeiro.......................... 3go Jantar no Paul por occasião da
Villa do Porto . —Uma olaria. 292 Concelho.................................... 363 Barão do Ramalho....................... 353 visita régia em 1901................. 378

616

DRaC-CCA
Jpsé Pereira da Cunha (Conse­ Viscondes de Meirelles 418 Açores Occidentaes:— Faynl Capello: — Uma queda d’agua. 499
lheiro) 3g6 Viscondes de Meirelles : — Pala- Casa de campo 58i
José Sebastião de Castro do cio da Quinta de S. Matheus Alberto Goulart de Medei­ Charles William Dabney .... 465
Canto. . 7 3g8 no Dáfundo (Lisboa) 419 ros (Dr.) 583 Conego Silva Reis 522
Luiz de Tavora (Conselheiro). . 332 Viscondes de Meirelles:—Quinta Amanho das terras (No) . . . 563 Curry Cabral (Dr.) 5/7
Monte Brazil: —Ermida de San- de S. Matheus—Fachada de Antonio Baptista 525 Debulha de trigo (Uma) .... 463
tQ-Antonio da. Grota 402 azulejo antigo 421 Antonio Maria d’Oliveira (Dr.) . 547 Duques d’Avila e Bolama . . . 474
Monte Brazil: —-Lado da bahia Viscondes de Meirelles: — Antonio de Sousa Hilário .... 518 Edwiges Goulart Prietto (Dr.). 528
de Angra •................. 404 Quinta de S. Matheus—Pa- Antonio da Cunha de Menezes Egreja dos Cedros 520
Monte Brazil : — Lado da bahia teo d’entrada 420 Brum........................................ 459 Ernesto Rebello 5oó
do Fanal 401 Antonio Emilio Severino d’Avel- Euclid.es Costa 554
Monte Brazil: —Sinaleiro de na­ Açores Ceiitraes: — S. Jorge lar (Conselheiro) 480 Família Dabney 466
vios 4o3 Aspecto da costa (Um) 483 Fayalense (O) 525
Armelim Júnior (Dr.) 431
Padre Jeronymo Emiliano d'An- Barão d’Alagôa (i.“) .............. 451 Flamegos (Um trecho da povoa­
Festas do Espirito Santo, 428 e 43o
drade 414 Barão d’Alagôa (2.“) 452 ção dos) 493
Villa da Calheta 427
Padre Rogério 356 Barão de Sant’Anna 521 Flamengos (A egreja dos). . . . 489
Villa das Velas 426
Padre Thomaz Borba 3<j2 Barões da Ribeirinha 553 Flamengos (Lavandeiras dos). . 494
Villa das Velas: Morro de Le­
Paisagem 345 Barões da Ribeirinha (Palacete Flamengos : — Lameiros 557
mos 428
Pico dos Merens: — Quinta da dos) 561 Flamengos (Ribeira dos) 516
Villa das Velas: Praça Munici­
Candelaria 334 pal............................................. 430 Brigadeiro Sebastião José de Flamengos (Vallc dos) 55o
Pico dos Merens: — Casa e er­ Arriaga 545 Flamengos (Antiga ponte do
Villa das Velas: — RuadoCaes. 429
mida da Quinta da Candelaria 335 Caldeira (A) 488 Valle dos) 542
Villa das Velas: — Trecho da
Pico dos Merens: — Gruta deN. Caldeira (Na estrada da):—Cha- Florencio José Terra . . 460 e 547
Villa 432
S. de Lourdes na Quinta da let Amaral 564 Francisco Paula (D.) 451
Villa das Velas: — Vasadouro
Candelaria 33y Caldeira (No fundo da) .... 487 Freguezia de Castello Branco . 477
Em dia de festa 429
Quinta de João Carlos da Silva Canal entre o Fayal e o Pico . 471 Freguezia de Castello Branco :
(Trecho da) 36g Açores Centraes: — Graciosa Cândido Maria de Sousa .... 548 —Paisagem 456 e 582
S. Matheus da Calheta 3i5 Capello:—Chalet do sr. Freitas Freguezia da Feteira: — Granja 549
Terceira (A) 415 Carapacho (Um trecho do) . . . 437 Eduardo 5oo Freguezia da Feteira: — Ribeira 551
Theotonio Octavio de O. Bruges 320 Villa da Praia (Um trecho da) . 436 Capello: — Chalet do conselhei­ Freguezia de Pedro Miguel . . . 514
Theotonio d’Ornellas Bruges Villa de Santa Cruz:—-Cru­ ro Terra Pinheiro 5oo Freguezia da Praia do Norte : —
(Conselheiro) 320 zeiro de S. Sebastião 436 Capello: — Egreja paroehial . . 499 Um aspecto 5o3
Theotonio Paim de Bruges . 321 Villa de Santa Cruz: — O monte Capello :—Fonte dos namorados 498 Freguezia da Praia do Norte:—
Toirada (Aspecto d’uma).... 349 da Ajuda 439 Capello: — A caminho ca Fonte T recho d’estrada marginada
Toirada á corda 35o e 351 Villa de Santa Cruz: — Pano­ dos namorados 498 de hortenses 5o2
Villa da Praia da Victoria (Vis­ rama 438 Capello: — Monte Verde. . . . 497 Freguezia da Praia do Norte:
ta geral) 387 Villa de Santa Cruz: — Praça Capello : Pharol dos Capelli- — Estrada da Praia do Norte 5 08
Virgínia da Fonseca (D.) .... a3y Fontes Pereira de Mello. . . 435 nhos 5o8 Freguezia da Ribeirinha 5o7

DRaC-CCA
Freguezia da Ribeirinha : — Alto Horta : — Um trecho do jardim Manuel Zerbone....................... 53o Visconde de SanfAnna........... 546
da Ribeirinha.......................... 5õi publico..................................... 447 Marcellino Lima...................... 485 Viscondes de Borges da Silva 523
Freguezia da Ribeirinha : —Na Horta : — Vista geral.............. 454 Maria Christina d’Arriaga (D.) . 545
Maria José da Terra Brum (D.) q5o Açores Occldentaes:—Pico
estrada da Ribeirinha ..... 519 Iduino Rocha (Dr.).................... 53o
Freguezia da Ribeirinha : — La­ João José da Graça................. 573 Marquez d’Avila e Bolama . . . 476 Areia larga.............. ............... 5g5
vandeiras na Ribeirinha. . - 491 John Pomeroy Dabney........... 465 Marqueza d’Avila e Bolama. . . 476 Aspecto da costa (Um)........... 599
Gabriel Saniora Moniz (Dr). . . ri-j Jorge da Cunha de Menezes Mello e Simas............................ 566 Galgando a montanha.............. 588
Garcia Monteiro....................... 510 Brum........................................ 45o Miguel Street d’Arriaga (Dr.) . 5q6 Ilha do Pico (A)....................... 586
Helena Rodrigues da Graça (D.) 5;g José de Bettencourt de Vascon- Morgado Jorge da Cunha Brum João Paulino (D.).................... 5gi
Horta........................................... 584 cellos Corrêa e Avila........... 53g Terra e Silveira....................... 449 José Machado de Serpa (Dr.). . 597
Horta: —Alameda da Gloria . 462 José Cândido Bettencourt Fur­ Nunes Sobrinho.......................... 56g Miguel Antonio da Silveira . . . 507
Horta : — Ala m c d a Visconde tado ........... .. ......................... 572 Oscar Ribeiro............................. 554 Porto e vil la da Magdalena. . . 5q5
Leite Perry............................. 040 José Filippe da Graça.............. 574 Padre Leal Furtado................. 517 Prainha de Norte....................... 587
Horta : —Bahia......................... 541 José Garcia do Amaral........... 537 Padre Manuel José d’Avila . . . 485 Preparativos de viagem........... 594
Horta : — Bahia de Porto Pico José Maria da Rosa................. 470 Padre Osorio Goulart.............. 512 Santo Amaro............................. 587
— Um pôr do sol................. 533 Lomba (O alto da).................... 58i Palacio de SanfAnna.............. 524 Santa Luzia................................ 58q
Horta : — Gasa do Pilar .... 455 Lomba (No cimo da) — Casa Pico, com nuvens (Ao fundo Volta do matto (A)................. 592
Horta : — Boca e cidade .... 45- do sr. Machado Teixeira . . . 56o vê-se o)................................... 482
Horta : — Egreja matriz — An­ Lomba (O Pico visto de cima Praia do Almoxarife................. 532 Açores Occidentaes: — Flores
tigo convento dos jesuítas . . g53 da)........................................... 549 Ribeira de Santa Catharina (Na) 510
Horta : — Estante da capella Lydia Furtado (D.).................... 571 Ribeiro Secco (Estrada do),479 e 5og André de Freitas....................... 604
mór da matriz....................... 468 Manuel d'Arriaga (Dr.)........... 544 Rodrigo Guerra .......................... 555 Caldeira comprida.................... 604
Horta : — Largo de S. Carlos. . 513 Manuel Francisco Neves Júnior Salão — A festa do corôa. . . . 55g Fajã Grande............................. 602
Horta : — Porto — A doca . . . 448 (Dr.)........................................ 537 Samuel Dabney.......................... 466 Ilheu de Maria Vaz.................. 6o3
Horta : — Uma procissão — O Manuel Francisco de Medeiros Silvina Furtado (D.)................. 5yi Poio de Moreno....................... 6o3
antigo convento da Gloria . . 469 (Conselheiro)......................... 5o5 Telegrapho (O).......................... 536 Villa de Santa Cruz................. 602
Horta : — Ribeira da Concei­ Manuel Greaves......................... 5i5 Terra Pinheiro (Conselheiro). 5ii
Açores Occidentaes : — Corvo
ção ........................................... +44 Manuel Joaquim Dias.............. 517 Urbano da Silva (D.)................. 570
Horta : — Rua de 1). Pedro IV . 447 Manuel José d’Arriaga (Dr.) . . 545 Valle do Chão Frio (Entrada Aspecto da ilha (Um).............. 606
Horta : — Um trecho da cidade 44? Manuel José Machado.............. 451 para o)..................................... 492 Caldeirão (O)............................. 606
O ÍBII61UM BERIRftNO ®
Ezcito e3ctra.orcLixxa.rio

LIVRO DE OURO DA MULHER


ENCICLOPÉDIA UNIVERSAL
ILUSTRADA
mulher meòica > sua casa EDIÇÃO ESPASA, DE BARCELONA

Livro de hygiene e medicina familiar


AA mais completa,
DOUTORA ANNA FISCHER-DUCKELMANN economica e ricamente illustrada encyclopedia do mundo

Preniioòo na exposição òe Eeipsig òe 1904 10.000 biographias rigorosaménk inéditas


Tradueido e adequado pelo Or. Ardlsson torreira, medico da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa 100.000 palavras só na tetra fl
Obra publicada com gran/de successo A parte que diz respeito a Portugal e Brasil------- —r —
na AHemanha, Rússia, Hollppda, França -------- ;-■■■• tratada cuidadosamente por pessoas próprias
e Hespapha
Etymologia: sanscrlto, liebren. grego, latim, arabe,
INDISPENSÁVEL
... L
EM TODAS AS CASAS línguas indígenas americanas, etc. Vers.ào da_maioria <las
palavras em francas, italiano, iiiirlês. allemio. catalão,
Centenares de gravuras—Lindíssimos,çhromos
português e esperanto !

Assigna-se ci.fascículos de 16 pug. a 60 réis


ou a lomos.de 80 pag. <1 300 réis
Vejam-se os álbuns specimens
Cada tomo semanal de 80 paginas ou 0 seu equivalente
O&RA COMPLETA: Um lindo volume de 916 pag„ encadernado representado por lindíssimos chromos e mappas a côres
com capa artística, 4$000 réis

1 200 réis i= •

"TZB. CS-eirrett, 75
LISBOA ® ® gí

Você também pode gostar