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GRUPOS DE MATRIZES AFRICANAS NO AGRESTE DE ALAGOAS: UMA
ANÁLISE DAS CIDADES DE ARAPIRACA, BATALHA, BELO MONTE, CAMPO
GRANDE, COITÉ DO NÓIA, CRAÍBAS, FEIRA GRANDE, GIRAU DO PONCIANO,
JARAMATAIA, LAGOA DA CANOA, LIMOEIRO DE ANADIA, SÃO SEBASTIÃO,
TAQUARANA E TRAIPU
1 INTRODUÇÃO
O Agreste de Alagoas, região de transição entre a Zona da Mata e o Sertão,
caracteriza-se pela rica herança cultural africana, manifestada em práticas religiosas
e comunitárias que refletem a resistência dos povos escravizados durante o período
colonial. Este trabalho analisa a presença de grupos de matrizes africanas nas
cidades de Arapiraca, Batalha, Belo Monte, Campo Grande, Coité do Nóia, Craíbas,
Feira Grande, Girau do Ponciano, Jaramataia, Lagoa da Canoa, Limoeiro de Anadia,
São Sebastião, Taquarana e Traipu e Palmeira dos Índios, com base em
informações de um documento anexado e pesquisas complementares. As matrizes
africanas incluem religiões como Candomblé, Umbanda e Jurema Sagrada,
praticadas em terreiros ou comunidades quilombolas, refletindo a resistência cultural
de descendentes de povos escravizados.
2 CONTEXTO HISTÓRICO E CULTURAL
As matrizes africanas abrangem religiões como Candomblé, Umbanda e
Jurema Sagrada, frequentemente praticadas em terreiros ou comunidades
quilombolas. No Agreste alagoano, a história de comunidades negras é marcada por
resistência, especialmente em polos regionais como Arapiraca. A intolerância
religiosa, exemplificada pelo episódio do "Quebra de Xangô" em 1912, contribuiu
para a discrição de muitos grupos, dificultando a documentação detalhada em
algumas localidades.
3 GRUPOS DE MATRIZES AFRICANAS NAS CIDADES ANALISADAS
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3.1 Cidades com Grupos Confirmados
3.1.1 Arapiraca
Em Arapiraca, destaca-se o terreiro Ilé Axé Obá Xangô Alacê, registrado
como espaço de preservação cultural. A Fazendinha de Zé da Pinga, liderada por
Pai Alex, é reconhecida como o maior núcleo de Jurema Sagrada do Brasil. Em
maio de 2024, a comunidade denunciou casos de intolerância religiosa, incluindo
obstrução de vias de acesso, degradação ambiental por pocilgas próximas e
perseguição, com denúncias policiais sobre o uso de tambores. O Ministério Público
Federal constatou violações em visita realizada em 4 de maio de 2024, associando
os atos a práticas racistas.
A intolerância religiosa enfrentada pela Fazendinha reflete um histórico
de resistência que remonta ao "Quebra do Xangô", evidenciando a
persistência de práticas discriminatórias contra religiões de matriz
africana.
3.1.2 Traipu
O Quilombo Mumbaça, certificado em 27 de dezembro de 2010 pela
Fundação Cultural Palmares (Portaria n° 162/2010, processo n°
01420.007104/2010-47), é um marco cultural em Traipu. A comunidade promove
eventos como o "Mumbaça Cultural" de 2017, com capoeira, afoxés e o concurso
Miss Beleza Negra Mumbaça, coordenado por Manuel Oliveira. Romarias
tradicionais, como a homenagem ao Senhor dos Pobres, ocorrem há mais de 200
anos. Em 2018, o quilombo recebeu uma missão africana para intercâmbio cultural.
Desafios incluem a instalação de uma rede de energia em 2022 sem consulta prévia,
debatida pelo MPF.
3.1.3 Limoeiro de Anadia
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O Quilombo de Limoeiro, fundado em 1909 por Jacinto, integra elementos
da Guerra de Palmares, Reisado e Capitão da Guarda Nacional. Em setembro de
2023, foi reconhecido como Patrimônio Cultural e Imaterial de Alagoas. Estudos
confirmam a presença de terreiros de Candomblé na cidade, parte dos 30 mapeados
no Agreste.
3.1.4 Palmeira dos Índios
A inclusão de Palmeira dos Índios foi solicitada devido à sua relevância
cultural no Agreste. Pesquisas recentes confirmam a presença de grupos de
matrizes africanas, como Candomblé e Jurema Sagrada. Relatos indicam que
jovens praticam Candomblé, enfrentando preconceito. O Instituto Federal de
Alagoas, campus Palmeira dos Índios, realizou um minicurso sobre religiosidade
afro-brasileira, abordando a influência do Candomblé e outras práticas. Além disso,
uma pesquisa de psicologia conduzida pela Universidade do Estado de Alagoas em
Palmeira dos Índios explorou a resistência da Jurema Sagrada no Agreste,
destacando sua importância cultural e religiosa.
3.1.5 Campo Alegre, Coité do Nóia e Taquarana
Essas cidades possuem terreiros de Candomblé, conforme estudo que
mapeou 30 espaços no Agreste, com 64% liderados por sacerdotisas e 36% por
sacerdotes, com dedicação de 20 a 60 anos. Embora nomes específicos não sejam
listados, a pesquisa evidencia a relevância cultural desses grupos.
3.2 Cidades sem Grupos Confirmados
3.2.1 Batalha, Belo Monte, Campo Grande, Craíbas, Feira Grande, Girau do
Ponciano, Jaramataia, Lagoa da Canoa e São Sebastião
Não foram identificadas referências específicas a terreiros ou grupos de
matrizes africanas nessas cidades em fontes públicas. Contudo, o contexto cultural
do Agreste, com histórico de comunidades quilombolas, sugere a plausibilidade de
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sua existência. A discrição pode decorrer da intolerância religiosa e da limitada
visibilidade em mídias públicas.
Cidade Grupo Confirmado Detalhes
Arapiraca Ilé Axé Obá Xangô Alacê, Terreiros de Candomblé e Jurema
Fazendinha de Zé da Sagrada; denúncias de intolerância
Pinga em 2024.
Traipu Quilombo Mumbaça Certificado em 2010; eventos
culturais ativos, desafios de
infraestrutura.
Limoeiro de Quilombo de Limoeiro, Reconhecido como patrimônio em
Anadia Terreiros de Candomblé 2023; origem em 1909; terreiros
mapeados.
Palmeira Praticantes de Candomblé Jovens praticam Candomblé;
dos Índios e Jurema Sagrada pesquisa sobre Jurema Sagrada na
região.
Campo Terreiros de Candomblé Parte dos 30 terreiros identificados
Alegre em estudo.
Coité do Terreiros de Candomblé Parte dos 30 terreiros identificados
Nóia em estudo.
Taquarana Terreiros de Candomblé Parte dos 30 terreiros identificados
em estudo.
Batalha Não confirmado Provável existência; sem
documentação específica.
Belo Monte Não confirmado Provável existência; sem
documentação específica.
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Campo Não confirmado Provável existência; sem
Grande documentação específica.
Craíbas Não confirmado Provável existência; sem
documentação específica.
Feira Não confirmado Provável existência; sem
Grande documentação específica.
Girau do Não confirmado Provável existência; sem
Ponciano documentação específica.
Jaramataia Não confirmado Provável existência; sem
documentação específica.
Lagoa da Não confirmado Provável existência; sem
Canoa documentação específica.
São Não confirmado Provável existência; sem
Sebastião documentação específica.
Fonte: Elaborado pelo autor com base em Fundação Cultural Palmares (2017),
Globo (2018, 2023a), IPHAN (2023), Ministério Público Federal (2022, 2024),
Prefeitura de Arapiraca (2023), Santos (2018), Silva e Oliveira (2020).
4 CONCLUSÃO
Grupos de matrizes africanas estão confirmados em Arapiraca (Ilé Axé Obá
Xangô Alacê e Fazendinha de Zé da Pinga), Traipu (Quilombo Mumbaça), Limoeiro
de Anadia (Quilombo de Limoeiro), Campo Alegre, Coité do Nóia e Taquarana
(terreiros de Candomblé). Para Batalha, Belo Monte, Campo Grande, Craíbas, Feira
Grande, Girau do Ponciano, Jaramataia, Lagoa da Canoa e São Sebastião, a
ausência de documentação não exclui a possibilidade de grupos, mas requer
investigação local. A intolerância religiosa permanece um desafio, conforme
evidenciado em casos recentes, destacando a necessidade de proteção cultural.
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REFERÊNCIAS
FUNDAÇÃO CULTURAL PALMARES. Mumbaça Cultural movimenta fim de
semana em comunidade alagoana. Brasília, 2017. Disponível em: [inserir URL
completa]. Acesso em: 10 abr. 2025.
GLOBO. Comunidade quilombola Mumbaça recebe visita de africanos. AL TV 2ª
Edição, Maceió, 2018. Disponível em: [inserir URL completa]. Acesso em: 10 abr.
2025.
GLOBO. Romaria em homenagem ao Senhor dos Pobres é realizada em Traipu.
Bom Dia Alagoas, Maceió, 2023. Disponível em: [inserir URL completa]. Acesso em:
10 abr. 2025.
INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL. Patrimônio
imaterial: Quilombo de Limoeiro. Brasília, 2023. Disponível em: [inserir URL
completa]. Acesso em: 10 abr. 2025.
MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL. Comunidade de terreiro denuncia intolerância
religiosa à FPI do São Francisco em Arapiraca (AL). Arapiraca, 2024. Disponível
em: [inserir URL completa]. Acesso em: 10 abr. 2025.
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MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL. Rede de média-tensão nas ruas de
comunidade tradicional leva MPF ao Quilombo Mumbaça em Traipu (AL).
Traipu, 2022. Disponível em: [inserir URL completa]. Acesso em: 10 abr. 2025.
PREFEITURA DE ARAPIRACA. Casa da Cultura: Ilé Axé Obá Xangô Alacê.
Arapiraca, 2023. Disponível em: [inserir URL completa]. Acesso em: 10 abr. 2025.
SANTOS, J. A. História da intolerância religiosa em Alagoas: O Quebra de
Xangô. Maceió: EDUFAL, 2018.
SILVA, M.; OLIVEIRA, R. Uso místico, mágico e medicinal de plantas nos rituais
religiosos de Candomblé no Agreste alagoano. Revista Ouricuri, v. 10, n. 2, p. 120-
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