FORMAÇÃO HISTÓRICA DA LÍNGUA PORTUGUESA I.

ORIGEM DA LÍNGUA PORTUGUESA A língua portuguesa está intimamente relacionada com os acontecimentos históricos que se sucederam na Península Ibérica. Pouco se sabe acerca dos povos que teriam habitado o solo peninsular antes da chegada dos romanos (séc. III a. C.). De entre esses faz-se referência aos iberos, aos celtas, aos fenícios, aos gregos e aos cartagineses. A Península Hispânica fora habitada, em tempos muito remotos, pelos Iberos, povo agrícola e pacífico. Por volta do século VI antes de Cristo, este território fora invadido pelos Celtas, um povo turbulento e guerreiro. E a prolongada permanência provocou o cruzamento entre estes dois povos, dando origem à denominação de Celtiberos. Depois, os Fenícios, os Gregos e os Cartagineses estabeleceram colónias comerciais em vários pontos da Península. Como estes últimos pretendiam apoderar-se de todo o solo peninsular, os Celtiberos pediram socorro aos Romanos. ROMANIZAÇÃO DA PENÍNSULA IBÉRICA É assim que os Romanos invadem a Península, no século III antes de Cristo, com o intuito de travar a expansão dos Cartagineses, dado que estes constituíam uma séria ameaça ao domínio do mundo mediterrâneo pretendido por Roma. Vencidos os Cartagineses, os Romanos acabaram por dominar toda a Península, tanto no aspecto político-militar quanto no aspecto cultural, nomeadamente no que respeita à língua. A civilização latina foi-se impondo através da abertura de escolas, da construção de estradas e de templos, pela incrementação do comércio, pelo serviço de correio, etc. Consequentemente, a sua língua, o Latim tornou-se indispensável e obrigatório, suplantando os idiomas já existentes. Mas como é fácil prever, o Latim dos soldados romanos não era o mesmo dos escritores. Era o Latim usado pelo povo, chamado Latim Vulgar. Já o povo peninsular se encontrava totalmente romanizado, quando, no século V da era cristã, a Península voltara a ser invadida e assolada, desta vez pelo povos bárbaros germanos (alanos, suevos, vândalos, visigodos), gente essencialmente guerreira e de cultura inferior à alcançada ao longo do processo de romanização. Daí que os bárbaros, apesar de vencedores, acabassem por adoptar a civilização e

por as considerar contaminadas pelo espírito pagão. algema. O DESPERTAR DA EMANCIPAÇÃO DA LÍNGUA PORTUGUESA O processo de expulsão do povo árabe da Península foi longo e penoso. uma forte influência no tocante à língua portuguesa. ao longo dos mais de sete séculos de ocupação peninsular (expulsos em 1492. sobretudo devido à invasão bárbaro-germânica. algodão. No entanto. álcool. A maioria dos vocábulos que o nosso idioma absorveu desse povo caracaterizam-se pelo prefixo AL. o . algarismo. como documentam os seguintes exemplos: álgebra. Nos finais do século XI. não aceitaram a sua civilização e continuaram a falar o "romance" (o Latim Vulgar. eles tentaram impor a sua língua como oficial. mas mantendo independência quanto ao culto religioso. que. alqueire. e. conde de Borgonha. Se este facto motivou o enfraquecimento da nobreza romana. de língua e de religião que os separavam do povo vencedor. basedos no pressuposto de que a instrução fragilizava o espírito bélico dos soldados. formando uma espécie de comunidades mistas. sob a bandeira de D. muitos fidalgos acorreram em auxílio do monarca para libertar o reino da presença do infiel. decretaram o encerramento das escolas. Como a sua cultura era superior à que o povo peninsular possuía. o Latim Vulgar. Afonso VI. uma vez que os bárbaros. somar-se-lhe-ia entretanto um outro que a condenaria ao seu desaparecimento: as letras latinas. Chegados ao século VII. alfinete. não tenha tido. sentindo as enormes oposições de raça. viriam a ser proibidas por um cristianismo radical e exacerbadamente purificador. invadiram a Península. alcachofra. Isto é. algibeira. Entre eles destaca-se D. Porém. os árabes. denominadas "moçárabes". alface. pelos serviços à coroa e à causa cristã. Isto equivalerá a dizer que o Latim vulgar se dialectou. cultural e civilizacionalmente superior. Henrique. os habitantes da Península. etc. rei de Leão e Castela. D. alfazema. vindos do Norte de África. preservadas e cultivadas no silêncio dos mosteiros. que corresponde ao artigo definido árabe. almofada. algumas povoações acabaram por receber directamente a influência dos árabes. Mas isto não impediu a dissolução da unidade política do império. por Fernando de Aragão e Isabel de Castela). TRANSFORMAÇÃO DO LATIM VULGAR EM DIALECTO À queda e fragmentação do Império Romano sucede-se a supressão dos elementos unificadores do idioma. perde progressivamente terreno e desenvolve-se diferentemente em cada região. recebera em casamento a filha do rei.a língua latinas. contaminado por diversos substratos). Por estas razões se compreende que o povo árabe. por dote. Tareja. já substancialmente modificado pela acção do substrato linguístico peninsular. II. alcatifa.

Mas só em 1143 seria reconhecida a independência do Condado Portucalense e D. expressão linguística comum à Galiza e Portugal. palavras e expressões originárias dos romances locais. ganhou particular importância a batalha de Ourique. filho do conde D. um pequeno território situado na costa ocidental da Península.governo do Condado Portucalense. amante de D. entre os rios Douro e Minho. Nesta fase encontram-se já. Entre o século V e o século IX temos o que geralmente se denomina romance lusitânico. ia absorvendo os falares (ou romances) que aí existiam e. entre os quais aquele que dera origem ao Português. Pensou-se durante muito tempo tratar-se da Cantiga da Guarvaya. De entre os inúmeros combates. consequentemente. Maria Paes Ribeiro. Afonso Henriques proclamado rei. . ia-se diferenciando do galego. e o português. nos documentos redigidos em Latim Bárbaro (o Latim dos notários e tabliães da Idade Média). FASES DE EVOLUÇÃO DA LÍNGUA PORTUGUESA Segundo Leite de Vasconcelos. também chamada "Cantiga da Ribeirinha". Nessa região. Afonso Henriques de rei de Portugal. até se constituirem como línguas independentes: o galego acabou por ser absorvido pela unidade castelhana. tornar-se-ia a língua de uma nação. Afonso Henriques. __ Fase Proto-histórica: estende-se do século IX ao século XIII. há a considerar na evolução da língua portuguesa três fases: pré-histórica. Sancho I: "No mundo non me sei parelha. __ Fase Histórica: inicia-se no século XII e estende-se até aos nossos dias. quer pela vitória alcançada sobre os árabes. em 1139. Mas. D. mas não escrita. Período do Português Arcaico: vai do século XII ao século XV. a «Ribeirinha». antes de se iniciar o combate. III. Henrique. falava-se um dialecto denominado galaico-português. porque dedicada a D. Esta fase compreende dois períodos: 1. terem aclamado D. continuando a sua evolução. Ao longo deste período encontramos somente documentação em Latim Vulgar. pretendendo transformar o reino de Leão e Castela num estado independente. continuou a luta contra os mouros. E daqui nasceria Portugal. O primeiro texto inteiramente redigido em português data do século XII. __ Fase Pré-Histórica: começa com as origens da língua e vai até ao século IX. à medida que Portugal alargava os seus domínios para Sul. onde fora fundada a monarquia portuguesa. quer também pelo facto de os soldados. proto-histórica e histórica. Donde se deduz que a língua já era falada.

mi = mim. ao considerar esta cantiga como escrita em 1189 ou 1198. segundo López Aydillo datada de 1196. aparecem outros textos de poesia e. queredes = quereis. como Carolina Micaëlis havia suposto. o século XV ficou marcado por um aperfeiçoamento e enriquecimento linguísticos. semelha = parece.] Porém. mha senhor. A partir dessa altura. torna obrigatório o uso da língua portuguesa e funda. Ao . que uos enton non ui fea = que então vos vi linda (por litote). retraya = retrate. mentre = enquanto.mentre me for' como me uay ca ia moiro por uos e ay! mha senhor branca e uermelha. guaruaya = manto escarlate próprio dos reis. o tempo veio provar que o autor desta composição. d' alfaya nunca de uos ouue nem ei ualia d' üa correa. Período do Português Moderno: do século XVI até aos nossos dias. filha de don Paay Moniz. Dinis. pensa-se que João Soares de Paiva. moiro = morro. porque. mais tarde. As poesias reunidas nos "Cancioneiros" e as "Crónicas" de Fernão Lopes. entrementes." (colocámos o ü por não dispormos de meios para grafar u com til. Quanto às composições de carácter literário. D. Paio Soares de Taveirós. Gomes Eanes de Zurara e Rui de Pina são textos que documentam este período arcaico. o rei 'Trovador'. queredes que uos retraya quando uos eu ui en saya! Mao dia me leuantei.) Cancioneiro da Ajuda [VOCABULÁRIO: parelha = semelhante. terá sido o primeiro poeta a escrever em idioma português. 2. mha senhor. igual. que uos enton non ui fea! E. ca = pois. des aquel di' ay! me foi a mi muyn mal. a primeira Universidade. a quem se deve uma cantiga de maldizer. evoque. em Coimbra. surgem os primeiros textos em prosa. Para já. e ben uus semelha d' auer eu por uos guaruaya pois eu. e uos. Por influência dos humanistas do Renascimento. Em 1290. tudo parece indiciar que a a Notícia de Torto (antes de 1211?) e o Testamento de Afonso II (1214) serão os mais antigos documentos não literários escritos em Português. se situa no segundo terço do século XIII e não no século XII.

. intitulada «Gramatica da Lingoagem Portugueza». com mais ou menos alterações relativamente à do povo que a divulgou. imitar os modelos latinos. em 1536. A partir do século XV. a obra de Luís de Camões. Em 1540. tentava-se igualmente aproximar a Língua Portuguesa da língua-mãe. a segunda gramática da língua portuguesa. Fernão de Oliveira edita. João de Barros escreve. em 1572. É neste mesmo século que surgem as primeiras tentativas de gramaticalização da língua. estendendo deste modo o espaço geográfico em que a Língua Portuguesa serve. ao nível das artes e das Letras. a primeira Gramática da língua portuguesa. de língua de comunicação em várias nações do mundo. com o mesmo título. «Os Lusíadas». através da expansão marítima. marco histórico do nosso idioma e monumento literário e linguístico. aparece. os portugueses descobrem novas terras e a elas levam a sua língua.mesmo tempo que se procurava. Como a coroar esse processo.

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