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A convergência do Fim da História e do Choque das Civilizações na Nova Ordem Mundial Leonardo Luiz Silveira da Silva1 e Ana Paula Faria Rocha Vilas Boas2

Resumo Este trabalho tem como objetivo caracterizar e ressaltar aspectos convergentes das teorias apresentadas nas obras O Fim da Historia e o último homem, de Francis Fukuyama e O Choque das civilizações de Samuel Huntington. Ambas foram criadas em períodos próximos, final da década de 1980 e início de 1990, marcadas pelo fim da Guerra Fria. Após este período, findado em 1991 com a dissolução da URSS, o pensamento neoliberal se intensifica e torna-se hegemônico. A partir do rompimento do regime socialista, os Estados Unidos se tornam um importante ator do Sistema Internacional. Devido ao processo de globalização, intensificado pela derrubada das barreiras ideológicas da Guerra Fria e pela revolução dos sistemas de transportes e comunicação, os procedimentos político-econômicos norte-americanos transformaram-se em um modelo a ser seguido. Para Huntington, a Nova Ordem Mundial pós-Guerra Fria é organizada em civilizações, que são unidades de uma regionalização cujo critério é o cultural. O Choque das Civilizações seria o efeito da aculturação ocidental em diversas culturas, podendo ser mais ou menos conflituoso, sendo as culturas resistentes o grande empecilho para a consolidação do monopólio político-cultural do ocidente sobre o mundo. Para Fukuyama, o Fim da história é o triunfo do liberalismo e a incapacidade de um sistema para suplantá-lo. Segundo este autor, a ameaça ao Fim da História se manifesta em duas frentes: a primeira é existência de Estados fracos ou falidos, que são membros recalcitrantes de uma sociedade internacional pautada pelos valores defendidos pelas instituições e pelas grandes potências ocidentais; a segunda é o ressurgimento do nacionalismo e a disseminação do fundamentalismo, que são manifestações de resistência cultural. A leitura da teoria dos dois autores nos leva a um ponto comum no que diz respeito às forças que lutam contra a hegemonia ocidental.

1- Introdução
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Geógrafo pela UFMG, Especialista em Gestão de Políticas Sociais pela PUC-MG, Mestre em Relações Internacionais pela PUC-MG e graduando em Antropologia pela UFMG. 2 Graduanda do curso de Relações Internacionais pela PUC-MG.

David. Edições Loyola. argumenta David Harvey3: Se houve alguma transformação na economia política do capitalismo no final do século XX. (SANTOS.. São abundantes os sinais e marcas de modificações radicais em processos de trabalho. São Paulo. p. No Ocidente. Unipolaridade ou hegemonia compartilhada. 13ª Ed. . 2007. sociais e políticas globais que tendem a se reproduzir como fenômenos mundiais que transcendem as fronteiras nacionais. não ficou imune a estes acontecimentos. Como não podia ser diferente.46-47) O objetivo específico deste trabalho é a caracterização político-econômica do mundo pósGuerra Fria. Condição pós-Moderna. 3 4 Harvey. democracia e terrorismo. Vale ressaltar que o fim da Guerra Fria e a melhoria dos sistemas de transportes e comunicações produziram um efeito intensificador do processo. enquanto que o objetivo geral do trabalho é apontar. São Paulo: Companhia das letras. que foi sinalizada pelas reformas perestroyka e glasnost executadas por Mikhail Gorbachev na ex-União Soviética. (HARVEY. cabe-nos estabelecer quão profunda e fundamental pode ter sido a mudança. Eric. 2003. com conseqüências marcantes na economia. ainda vivemos em uma sociedade em que a produção em função de lucros permanece como o princípio organizador básico da vida econômica. apesar de que. O bloco socialista entrou em colapso pondo fim a ordem bipolar que vigorou desde o final da Segunda Grande Guerra Mundial. Theotonio dos. p. continua dependendo de sistemas nacionais ou locais para assegurar sua total reprodução. 2004. Sobre isso. São Paulo: Loyola. mais precisamente os últimos anos da década de 1970 assim como toda a década de 1980. poderes e práticas do Estado. 5 Santos. configurações geográficas e geopolíticas. como símbolo emblemático do fim do embate entre o capitalismo e o socialismo. As últimas décadas assistiram não somente a uma mudança política como também tecnológica. Hobsbawn. 2004. hábitos de consumo. in “os impasses da Globalização”. Theotônio dos Santos5 define globalização como sendo: O surgimento e o desenvolvimento de uma esfera de relações econômicas. formando um sistema global.2 A década de 1980 foi muito rica em mudanças. 2003. e que teve em 1989. tais inovações também tiveram impacto na organização social. etc. Batizada como “a década perdida” pelo fraco desempenho econômico de muitos países durante o período. a derrubada do muro de Berlim. vivenciou o crescimento do neoliberalismo como corrente importante do pensamento político-econômico. O final do período conhecido como a Guerra Fria. Globalização. ao mesmo tempo em que assistiu a derrocada do bloco socialista. dentro do mesmo período.117) As transformações destacadas por Harvey são algumas das forças constituintes do processo de globalização. Eric Hobsbawn4 considera que este processo vem se acentuando desde 1960.

. democracia e terrorismo.) A terceira é a crise dos Estados nacionais soberanos(. Francis. e com elas. pois o processo foi gradativo e iniciou6 7 Fukuyama. 1989).. Samuel P. acompanhada das tensões que surgiram.(.. Noam. é a análise das conseqüências da grande influência política....... como a britânica.) A segunda é o colapso do equilíbrio internacional de poder existente desde a Segunda Guerra Mundial que manteve ao largo tanto o perigo de uma guerra global quanto a desintegração de grandes áreas do mundo no rumo da desordem e da anarquia. que incluem expulsões de populações e genocídios. 1992. 2.) (. em muitos casos. 2003. concentradas que estão em algumas áreas do globo e visíveis nas telas de nossas casas quase ao mesmo tempo em que ocorrem.) O mundo entrou na era dos Estados incapazes e.(. Eric. O fim da história e o último homem.. em 1991. tecnológicos. 1997. 2003). Eric Hobsbawn difere a hegemonia americana do período pós-Guerra Fria em relação a outras hegemonias. Hobsbawn10 baseia o seu argumento em quatro premissas: (. 2007.3 elementos comuns nos trabalhos “O fim da história6” de Francis Fukuyama e “O choque das civilizações7” de Samuel Huntington. destacando como característica ímpar o fato de Washington ser a capital política de um império intensamente globalizado. Rio de Janeiro: Objetiva. 1989. (HOBSBAWN..) (.) (.) A quarta é o regresso das catástrofes humanas maciças. Não é a intenção deste trabalho discutir se a potência norte-americana é decadente ou não.. separadamente9 (CHOMSKY. A ascensão e queda das grandes potências – transformação econômica e conflito militar de 1500-2000. (. exercem sobre o público dos países ricos um impacto imediato e muito maior do que antes. Contendo a democracia. por conseqüência. econômica e cultural dos Estados Unidos no mundo pós-1991. a volta do medo generalizado.. 9 Chomsky.. 55-57) O fim da URSS.) Estas imagens desoladoras. como fez Noam Chomsky quando analisou a balança de poder a partir da ótica militar e da econômica..Contexto Político econômico do período pós-Guerra Fria Neste capítulo. como apontou Paul Kennedy8 a partir da premissa do declínio relativo do poder estadunidense (KENNEDY. Também não faz parte da metodologia analisar as forças constituintes do exercício do poder.) (... São Paulo: Companhia das letras. Paul... Rio de Janeiro: Campus.. culturais e outros desse processo e o principal campo da atividade humana que até aqui tem se mostrado impermeável a ela – a política. Globalização. Rio de Janeiro: Record. 10 Hobsbawn. O choque das civilizações e a recomposição da ordem mundial. p. Rio de Janeiro: Rocco. Huntington.) (. . 2007.(.. O que se faz necessário ao trabalho para o alcance do seu objetivo. a era dos Estados falidos ou fracassados. entre os aspectos econômicos.. partiremos do pressuposto teórico de que a atual configuração política do mundo é a unipolaridade a partir do exercício de poder dos Estados Unidos em escala mundial. não pode ser encarado como um ponto de ruptura drástica e consolidação dos Estados Unidos como potência hegemônica. 8 Kennedy.) A primeira é a extraordinária aceleração da globalização a partir da década de 60.

(CASTELLS. Eric. Se por um lado as instituições acabam por defender um comportamento por parte dos Estados que compartilhe os mesmos princípios defendidos pelos Estados Unidos. Sobre o tema. 2003. os EUA e o mundo capitalista foram sacudidos por uma grande crise econômica. Estas ajudaram a aumentar o descompasso entre o poder político-econômico norte-americano frente a URSS e romperam com o equilíbrio que se mantinha desde o início da Guerra Fria. por outro. O colapso da União Soviética coloca um ponto final na bipolaridade e inaugura um período em que as instituições ganham grande importância como novos atores do cenário político mundial. São Paulo: Companhia das letras. 2004. democracia e terrorismo. Globalização. de fluidez e de incerteza. 14 Hobsbawn. p.. 2007. David. p. Colabora com esta idéia o professor Manuel Castells12: (. 2007 12 . 2003. e de que esse conjunto pode com razão ser chamado de fordista-keynesiano. hábitos de consumo e configurações de poder político-econômico. como pudemos ver na ocasião da invasão do Iraque em 2003 e no recente caso da condenação dos Estados Unidos feita pela OMC no que diz respeito ao protecionismo (particularmente na questão dos subsídios aos produtores de algodão). Hobsbawn11 considera que “já na década de 70 o equilíbrio bipolar começava a fraquejar” (HOBSBAWN. A crise econômica que se manifestou em meados dos anos 70 e que teve como símbolo a crise do petróleo de 1972-73 forçou o sistema capitalista a adotar mudanças bruscas. sem dúvida. 2007). de tecnologias. São Paulo. que é uma instituição que permite a participação verticalizada dos seus membros à medida que concede o direito de veto a apenas cinco países que compõem o Conselho de Segurança. Essa motivou uma reestruturação drástica do sistema capitalista em escala global e. teve como base um conjunto de práticas de controle de trabalho. que se estendeu de 1945 a 1973.. induziu um novo modelo de acumulação em descontinuidade histórica com o capitalismo pós-Segunda Guerra Mundial. A ONU. dependem da decisão coletiva de Estados e podem ser bloqueadas pelo poder absoluto de veto que pode ser exercido por cinco 11 Hobsbawn. democracia e terrorismo. 13 Harvey.. São Paulo: Companhia das letras. considera Hobsbawn14: As Nações Unidas não têm poder ou autoridade próprios. Castells. 13ª Ed. A sociedade em rede. O colapso deste sistema a partir de 1973 iniciou um período de rápida mudança. Globalização. fica cada vez mais freqüentes os episódios em que estas instituições adotam posturas contrárias aos interesses americanos.97) E também David Harvey13: Aceito amplamente a visão de que o longo período de expansão do pós-guerra. Condição pós-Moderna. assistiu a ação militar dos Estados Unidos contra o Iraque em 2003. antecipando a decisão do Conselho e ignorando uma possível sentença contrária aos seus interesses.4 se anteriormente. 119) A balança de poder começou a pender para o lado dos Estados Unidos desde o fim da década de 1970. exemplificada (mas não causada) pela crise do petróleo em 197374. Manuel. Eric. São Paulo: Paz e Terra.) em meados da década de 70. Edições Loyola. 2004. (HARVEY.

p. 2007). 2007. o GATT (Acordo Geral de Tarifas e comércio – desde 1995 Organização Mundial do Comércio) tem encontrado obstáculos reais na oposição de países à conclusão de acordos. o desregulamento do setor financeiro. só funcionam com o patrocínio das grandes potências. O único órgão que não sofre esta limitação. 18 Casanova. de empresas bancárias. 2003. (HOBSBAWN. agropecuárias.191. Rio de Janeiro: Rocco. Francis. correios. Gilberto. praticada pelos Estados Unidos. a segunda é a opção por um modelo de Estado em que os caminhos institucionais feitos pelos agentes internos mediante pressões externas. sem ter sido precedido por nenhuma ampla consulta ou conferência internacional envolvendo os antigos parceiros e alianças. 2003). que cria Estados falidos ou fracassados. Globalização. 2007 17 Fukuyama. incapazes de superar crises econômicas e institucionais profundas. industriais. Editora Puc Rio. A nova doutrina de segurança internacional dos Estados Unidos e os impasses na governabilidade global in Os impasses da Globalização.5 membros. Rio de Janeiro. Petrópolis: Vozes. Gilberto Dupas15 considera que: A nova doutrina de segurança norte-americana altera drasticamente o ordenamento político iniciado com o fim da Segunda Guerra Mundial e define – pela primeira vez após o colapso do sistema soviético – um estilo de exercício hegemônico fronteiriço à coerção. neoliberalismo e democracia in Globalização excludente. Mesmo as ademais organizações como o FMI. (DUPAS. A crise da soberania pode se manifestar de duas formas claras: a primeira é a partir do processo chamado por Francis Fukuyama17 de “erosão da soberania”. Hobsbawn16 considera que a crise dos Estados soberanos é um elemento componente da construção do império globalizado norte-americano (HOBSBAWN. visto que o interesse da potência hegemônica pode entrar em choque com princípios de igualdade e participação efetiva dos demais membros. o que corrobora com a idéia da marginalização dos países que colaboravam para a regulação sistêmica mundial.58) A influência do poder hegemônico no sistema internacional passa a ser vista como uma ameaça a proposta democrática e participativa entre as nações pregada pela maior parte das instituições. Sobre esta problemática. . Eric. 16 Hobsbawn. Construção de Estados. democracia e terrorismo. São Paulo: Companhia das letras. Os únicos atores efetivos são os Estados. a privatização e desnacionalização de riquezas naturais. Globalidade. 2000. marginalizando os países com quem dividiam – ainda que formalmente – as responsabilidades pela regulação sistêmica mundial. Com a disposição de usar a força de forma unilateral e preventiva. só existe um Estado que pode desenvolvê-las: os Estados Unidos. os Estados Unidos tentam transformar sua soberania em valor absoluto. em termos de poder militar capaz de executar ações importantes em escala global. acabam construindo um ambiente propício para a deterioração da soberania Estatal. água 15 Dupas. Sobre esta segunda forma de manifestação da crise da soberania. pp. telefonia. 2005. E. Casanova18 relata com detalhes as escolhas institucionais que levam os Estados a enfrentá-la: A liberalização da economia. Pablo González. Banco Mundial. e de antigos serviços públicos como estradas de ferro. eletricidade.

2007). 20 Hobsbawn. As instituições como o Banco Mundial e o FMI serviram também a este propósito. A maior abertura dos mercados possibilitou a atuação das economias mais dinâmicas em escala global. A diminuição da autonomia estatal e a democratização19 dos regimes de diversos países em desenvolvimento criaram as condições ótimas para o vigor do que Hobsbawn 20 chamou de “império globalizado” (HOBSBAWN. foram orientados a retirar o peso do Estado da economia. democracia e terrorismo. 2007 . escolas. 2000. representavam cerca de 40% da produção industrial do mundo e em 2005 ainda eram o maior produtor. clássico de Robert Dahl. desnacionalização. integração e globalização coincidiram como uma nova política de cortes de gastos públicos para equilibrar o orçamento e para dedicar ao pagamento do serviço da dívida. São Paulo: Companhia das letras. 2007. A instalação de multi e transnacionais americanas em todos os continentes e em quase todos os países ajudou a consolidar um irresistível processo de aculturação que teve como ponto de partida o modo de vida estadunidense.6 potável. ao condicionar os empréstimos feitos aos Estados necessitados à adoção de medidas neoliberais como aquelas descritas por Pablo Gonzáles Casanova. Globalização. democracia e terrorismo.4% do “valor industrial agregado”. todas essas medidas de privatização. Globalização. que foi reforçada pelo discurso hegemônico que desencorajava o intervencionismo e louvava o livre mercado. como solução para superar a estagnação econômica. o Estado conta com o dinamismo de sua economia doméstica e com uma iniciativa privada que não faz somente do seu território nacional de origem a sua área de atuação. desta forma. Para tanto. que se intensificou na última década do século XX. Este processo. Foi criada uma imagem positiva do Estado vinculada a idéia liberal. Os países endividados e com as receitas comprometidas. traduz bem este pensamento. com conseqüências sócio-econômicas e culturais. ao enxergar a democracia em estágios e admitir a inviabilidade de uma democracia stricto sensu. Eric. O exercício da hegemonia norte-americana. A idéia liberal ganhou força no meio acadêmico à medida que a potência intervencionista bipolar fraquejava. São Paulo: Companhia das letras. o que foi uma das importantes forças motrizes da globalização. é baseado na atuação e poder exercido frente às instituições e na capacidade de exportar o seu modelo político-econômico ao mundo. Eric. pode ser entendido como uma força homogênea criada pelo poder econômico. no seu auge na década de 1920 e novamente depois da Segunda Guerra Mundial..61) 19 A democratização é entendida aqui como o avanço dos princípios democráticos e não como um ponto final a ser alcançado. 2007 21 Hobsbawn. Hobsbawn21 reforça este argumento apresentando números: Os Estados Unidos. p. o que explicaria a origem do termo.55) A experiência neoliberal norte-americana surgiu como um modelo dominante. A idéia da Poliarquia. (CASANOVA.. p. (HOBSBAWN. hospitais. embora apenas com 22.

condenada à morte por apedrejamento por ter cometido adultério. . Com o avanço do contato entre sociedades separadas por milhares de quilômetros. Huntington tem o cuidado de diferenciar o conceito de civilização no singular e no plural. enfoque e conceitos. 45). Este trabalho foi de grande repercussão. p. Segundo ele. o autor destaca que a distinção entre o sentido singular e o plural continua sendo relevante e a idéia de civilização no singular reapareceu no argumento de que existe uma civilização mundial universal. antropólogos e historiadores já discorreram sobre o significado de civilização. Contudo. Partindo da idéia defendida pelos pensadores franceses do século XVIII. 3. começou a ser criada uma idéia de comportamento ideal dos Estados e das sociedades. 1997. como idéias convergentes sobre a natureza. Huntington alerta que vários escritores como sociólogos. Para ser aceito como tal e ser considerado como parte do sistema internacional. identidade e dinâmica das civilizações. Pessoas passaram a utilizar o termo civilização no plural. Cada civilização era civilizada à sua própria maneira. o que tornou obsoleta a idéia européia de que existia apenas um padrão para o que seja civilizado. Samuel P. Com a intensificação do processo de globalização e com a relevante atuação das instituições no sistema internacional.7 Em relação ao período de hegemonia britânica. 1997. a sociedade civilizada diferia da sociedade primitiva porque era estabelecida. possibilitou um enquadramento da sociedade iraniana como não civilizada (bárbara) por diversos órgãos de imprensa 22 Huntington. urbana e civilizada (HUNTINGTON. era necessário seguir os critérios dos europeus do que é ser civilizado. o que encorajou o autor a desenvolver o seu livro: “O Choque das Civilizações e a Recomposição da Ordem Mundial22”. O recente caso da iraniana Sakineh Mohammadi Ashtiani. Países que desconsideram o que foi estabelecido em grandes convenções internacionais passam a ser mal vistos por outros países do sistema. Neste livro. que é uma definição que leva em conta o tema do relativismo cultural. Rio de Janeiro: Objetiva. nas obras de tais escritores é possível encontrar tanto diferenças de perspectiva. proporcionado pelos adventos tecnológicos. Huntington esclarece que a sua teoria do choque das civilizações se preocupa com o conceito de civilização no plural. a lógica européia de definição do que é civilizado passou a ser questionada. O choque das civilizações e a recomposição da ordem mundial. metodologia. os Estados Unidos ainda contam com a vantagem de possuírem em seu território as matérias-primas necessárias para fazerem do país a potência industrial que é.O choque das civilizações e a nova ordem mundial Samuel Huntington escreveu inicialmente seu trabalho para a revista Foreign Affairs.

religião. Neste caso. Huntington produz uma regionalização do mundo. Hindu. 1997. com exceção de Braudel24. Do ponto de vista da sociedade iraniana. (HUNTINGTON. As pessoas utilizam a política não só para servir aos seus interesses. Outro exemplo é a linha civilizacional entre a África negra e o Magrebe africano. Samuel. Ocidental e a Latino-Americana. o Chade e a Nigéria. grupos étnicos. 27 Huntington. Islâmica. nada mais é do que o cumprimento de uma longa tradição. história. idioma. como o Sudão. (HUNTINGTON. mas também para definir as suas identidades. Nós sabemos quem somos quando sabemos quem não somos e. a execução da mulher é um afronta. em que as regiões agrupadas existem a partir do mesmo critério: a afinidade cultural. civilizações. À medida que aumenta seu poder e auto-confiança. como é o caso da inexistência de um vínculo civilizacional entre a região do Tibete e a China.20) Huntington elenca sete civilizações e coloca a existência de uma outra civilização sob suspeita. p.20-21) Apesar de afirmar que “os Estados-nações continuam sendo os principais atores do relacionamento mundial” (p. Rio de Janeiro: Objetiva. p. especialmente na Ásia Oriental. A partir desta regionalização do mundo proposta por Huntington. Segundo o critério do autor23: As pessoas se definem em termos de antepassados. O choque das civilizações e a recomposição da ordem mundial. costumes e instituições. que corta diversos países daquela faixa. muitas vezes. fica evidente que à luz da definição do que seja os direitos humanos universais. São Paulo: Martins Fontes. 2004. comunidades religiosas. o autor constrói um mapa que não levam em conta os limites dos Estados. em nível mais amplo. 25 IDEM. Rio de Janeiro: Objetiva. nações e. Braudel. 24 . Sobre este raciocínio.8 e por governos ao redor do mundo. A reação universal quanto à execução ganha proporções jamais vistas justamente pelo fato de que fica cada vez mais forte a construção ideológica do que Huntington chamou de civilização universal. estão desenvolvendo a sua riqueza econômica e criando bases para um poder militar e uma influência política maiores. Ortodoxa. que se configura pelo grau das suas diferenças culturais e pela sua influência política.53)25. 1997. o autor26 considera que: As sociedades não-ocidentais. não reconhecem uma civilização africana distinta” (p. as sociedades não-ocidentais cada vez mais afirmam seus próprios valores culturais e repudiam aqueles que lhes foram impostos pelo ocidente. Japonesa. Gramática das civilizações. 26 IBIDEM. valores. 23 Huntington. Samuel. tendo no produto desta relação um convívio mais ou menos conflitante. São elas a Sínica. Fernand. 1997. Elas se identificam com grupos culturais: tribos. 1997.20)27. as civilizações se relacionam. O autor coloca em dúvida a existência de uma civilização africana sob a alegação de que “os principais estudiosos de civilização. O choque das civilizações e a recomposição da ordem mundial. quando sabemos contra quem estamos.

Peter. 2004. com a construção ideológica de Sayyid Qutb. Demant. Claramente é a intensificação da globalização e com ela o contato entre a diversidade cultural.205) Os movimentos de cunho fundamentalista. que possibilitou a sua existência. p. 2004. tiveram e continuam tendo grande influência na região que Huntington elenca como “civilização islâmica”. o que é explicado pelo seu poder econômico. 28 29 IDEM. pois torna mais intensa as relações intercivilizacionais.9 Considerando o fato dos limites das civilizações não coincidir com os limites dos Estados. Um dos mais antigos movimentos fundamentalistas sunitas surgiu na década de 1960. a islâmica. Os líderes políticos e intelectuais dessas sociedades reagiram ao impacto ocidental de uma dessas três formas: rejeitando tanto a modernização quanto a ocidentalização. que resulta na exportação de valores culturais. humilhado pelo racismo não menos explícito (Qutb era pardo) e escandalizado pela simpatia para com o sionismo que ele encontrou em toda a parte. por exemplo. 86) A intensificação do processo de globalização colabora para o surgimento destes movimentos de resistência cultural. O mundo muçulmano. 1997. (DEMANT. é plausível afirmar que as reações contrárias aos valores impostos pelo ocidente sejam somente localizadas em um determinado grupo social de um país. não estejam em harmonia com as intenções dos grupos minoritários no que diz respeito as suas ações políticas. São Paulo: Contexto. Na visão de Samuel Huntington. . Segundo o autor28: A expansão do Ocidente promoveu ao mesmo tempo a modernização e a ocidentalização das sociedades não-ocidentais. (HUNTINGTON. Segundo Peter Demant29: Na Califórnia. construídos por processos similares. Qutb se sentiu enojado frente à sexualidade aberta da sociedade ocidental. a civilização ocidental se coloca no centro das relações intercivilizacionais. Muitos dos envolvidos nos atentados de 11 de Setembro eram sauditas. Como os valores ocidentais são hegemônicos e elementos constituintes da expansão do capitalismo liberal. p. movimentos como o fundamentalismo surgem em civilizações culturalmente bem distintas da ocidental como. O bom relacionamento que o governo saudita goza em relação aos Estados Unidos não foi uma garantia para evitar a construção de movimentos de resistência cultural. O fundamentalismo islâmico não possui mais do que algumas décadas. incluindo Osama Bin Laden. colocando as diferenças culturais em confronto. abraçando ambas ou abraçando a primeira e rejeitando a segunda. Este fato abre espaço para os governos que representam a maioria em detrimento da minoria.

especialmente por aqueles interessados em desviar a atenção de si mesmos. e quando os Irmãos Muçulmanos na Síria tentaram derrubar o regime de Hafiz Al-Assad no ano seguinte. Uma história dos povos árabes. p. o segundo. Bernard Lewis aborda a temática.10 Segundo Albert Hourani30. Apesar de reconhecer a grandiosidade da obra de Said. agora apenas superficialmente disfarçada de “globalização”. Albert. segundo o mesmo autor. um imaginário ocidental acerca da construção do que seja o islã. Sobre o mesmo tema. Bernard. 2002. de que as culturas são híbridas e heterogêneas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Said considera esta visão um absurdo. É uma obra muito interessante pois o seu argumento possui muita substância e critica grandes nomes orientalistas. diante da rejeição de valores ocidentais como a democracia. Em “A crise do islã33” é possível ler: Quase todo muçulmano é afetado por pobreza e tirania.110) Historicamente. como por exemplo Bernard Lewis. Nesta obra o autor argumenta que: 30 31 Hourani. perante a dificuldade dos ocidentais de perceberem como que uma sociedade (ou civilização segundo Huntington) pode rejeitar valores tão obviamente “sensatos” à luz de uma ótica ocidental. Ambos os problemas são atribuídos. . “estes grupos estavam preparados para a violência e o martírio” e a mostra viva disso foi. Não poupa também Samuel Huntington ao argumentar que o autor acredita que as civilizações seriam compartimentos impermeáveis cujos membros estão interessados no fundo em afastar os seus rivais. 2007. Edward. a sexualidade e outros. segundo Bernard Lewis em “O que deu errado no Oriente Médio34”. 2004. São Paulo: Companhia das Letras. ao apoio norte-americano a muitos dos chamados tiranos muçulmanos que servem aos seus propósitos. 32 Nesta obra. o papel da mulher na sociedade. Orientalismo. outras potências ocidentais já foram culpadas pela percepção popular a respeito do fracasso do desenvolvimento social da região. não acho que Huntington tenha colocado as suas idéias exatamente desta forma. Uma das formas encontradas de defesa às ameaças de aculturação promovidas pela civilização ocidental é a acusação que recai sobre o ocidente a respeito do estado de estagnação econômica e de pobreza de alguns Estados islâmicos. São Paulo: Companhia das letras. o fato de que: Isso foi demonstrado quando membros de um deles assassinaram Sadat em 1981. à dominância e exploração econômica norte-americanas. 34 Lewis. pois um dos grandes progressos na moderna teoria cultural é a percepção. trabalha com primazia Edward Said31. foram capazes de produzir uma relação mais intensa entre as civilizações. Este fato aponta para um padrão de defesa da própria cultura contra processos de aculturação vindos de regiões mais desenvolvidas economicamente. Também produziram. Bernard. 33 Lewis. 2004. 1994. (LEWIS. juntamente com o afrouxamento das barreiras ideológicas. Said. aos Estados Unidos – o primeiro. O que deu errado no Oriente Médio? Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Said desmitifica a visão ocidental acerca do mundo islâmico. Em duas obras. p. A crise do islã: Guerra santa e terror profano. 1994. quase universalmente reconhecida.443) O aperfeiçoamento da tecnologia de transportes e comunicações. (HOURANI. em “Orientalismo – o oriente como invenção do ocidente32”.

(CASTELLS. A crise do islã: Guerra santa e terror profano. O choque das civilizações e a recomposição da ordem mundial. a percepção da aculturação via modo de vida ocidental é muito clara na sociedade árabe. 177) Os movimentos de resistência estão claramente relacionados à intensificação do processo de globalização. São Paulo: Paz e Terra. Este processo é ditado pela lógica ocidental de desenvolvimento e suas práticas políticoeconômicas. juntamente com outros aspectos da liderança do ocidente. a mudança para o pior começou muito tempo antes de sua chegada e não diminuiu após a sua partida. que. Inevitavelmente. Huntington35 considera que: O ocidente está tentando e continuará a tentar manter sua posição de preeminência e defender os seus interesses.33) 35 36 Huntington. a explosão dos movimentos islâmicos parece estar relacionada tanto à ruptura das sociedades tradicionais (inclusive o enfraquecimento do poder do clero tradicional) quanto ao fracasso do Estado-Nação. (LEWIS. p. o ocidente promove seus interesses econômicos e impõe a outras nações as políticas econômicas que ele considera apropriadas.. criado pelos movimentos nacionalistas com o objetivo de concluir o processo de modernização. p. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 37 IDEM. 38 Castells. (. estão correlatas ao processo de globalização políticoeconômica: Na verdade. o papel que lhes cabia como vilões foi assumido pelos Estados Unidos. Através do FMI e de outras instituições econômicas internacionais. Bernard. Lewis. Sobre a hegemonia da civilização ocidental e a sua capacidade de se impor sobre as demais civilizações. “a supremacia americana. indica para onde dirigir a culpa e a hostilidade”37 (p. tentando integrar as economias das sociedades não-ocidentais num sistema econômico global que é dominado por ele. 2002. 1999. p. O ocidente está.110) Manuel Castells38 credita os movimentos de resistência islâmicos às recentes mudanças na organização do Estado-nação. Rio de Janeiro: Objetiva. Samuel.) Mas o interlúdio anglo-francês foi relativamente breve e terminou meio século atrás. 176. por exemplo. como vimos. 2004. O autor considera que “a globalização tornou-se um dos temas mais importantes na mídia árabe”36 (p.) (. .228) Segundo Bernard Lewis. colocando em cheque instituições e costumes que são caros à tradição cultural islâmica. como o Oriente Médio a vê. (HUNTINGTON..11 O período da hegemonia francesa e britânica em grande parte do mundo árabe nos séculos XIX e XX produziu um bode expiatório novo e mais plausível – o imperialismo ocidental. Segundo o mesmo autor. Manuel.. desenvolver a economia e/ou distribuir os benefícios do crescimento econômico entre a maioria da população.. Esta expressão se tornou o substantivo coletivo eufemístico (substituindo o “mundo livre”) para dar legitimidade global às ações que refletem os interesses dos Estados Unidos e de outras potências ocidentais. definindo-os como os interesses da “comunidade mundial”. 1999. 1997.110) sendo inclusive relacionado com a penetração econômica norte-americana. 1997. O poder da identidade.

já haviam escrito sobre o assunto. 1999. Mesmo considerando que outros Estados incorporados a civilização ocidental possam participar do exercício desta hegemonia. também são fortes e claramente produzidos ou intensificados pela força da globalização. O fim da história e o último homem.12 Apesar de ter sido abordado até o momento apenas o movimento de resistência islâmico. Hegel e Kojeve. Rio de Janeiro: Rocco. Eric. outros movimentos que tem sua origem no seio de outras civilizações definidas por Huntington. Ásia Central e Sudeste da Ásia. que supera um bilhão de habitantes. Marx. manipulada pelo guru messiânico. 4. negócios e espiritualidade. em perspectivas mais ou menos próximas do que Fukuyama problematiza. o comunismo. 1992. (CASTELLS. Fukuyama. Movimentos como a Verdade Suprema no Japão. mais recentemente. que não é uma idéia original. constitui o “fim da história”. Francis. Oriente Médio. (. num misto de meditação e eletrônica. política informacional e guerra tecnológica. que se configura a partir do exercício de uma hegemonia feito pela civilização ocidental. Hobsbawn41 se questiona: 39 40 IDEM. São Paulo: Companhia das letras. (FUKUYAMA. motivada primeiramente pelo tamanho de sua população.131)39 Estes movimentos visam contestar a atual ordem política. à medida que ela conquistava ideologias rivais como a monarquia hereditária.) a democracia liberal pode constituir o “ponto final da evolução ideológica da humanidade” e “a forma final de governo humano”. democracia e terrorismo. p. O movimento islâmico é mais estudado pela sua grandiosidade e fartura de exemplos. Globalização. p. é plausível admitir que o que ocorre é uma reprodução da ordem imposta pelos Estados Unidos da América. que acaba sendo a força motriz das relações de conflito do mundo contemporâneo. . como também pela quantidade de Estados que engloba.O fim da história e a Nova ordem Mundial O fim da história. o fascismo e.. A idéia de Fukuyama40 se baseia em alguns princípios: Surgiu no mundo todo um notável consenso sobre a legitimidade da democracia liberal como sistema de governo.. e como tal. veio à tona novamente com o artigo que Francis Fukuyama escreveu para a revista The National Interest em 1989. 1992... no norte da África. não podem ser tratados apenas como um ato de alucinação coletiva. 2007.) (. 41 Hobsbawn.11) Sobre o papel da democracia liberal no mundo. mas sim de uma manifestação hiperbólica e amplificada de rebeldes com alto grau de escolaridade.

Poliarquia.) A democracia liberal estava aparentemente livre de contradições internas fundamentais.72) Assim como o socialismo e o intervencionismo eram considerados como componentes de uma fórmula de fracasso econômico. “mas da história como um processo único. em princípio. o autor considera que Na década de 50. considerando a experiência de todos os povos em todos os tempos.. a França ou a Suíça. 1992. (FUKUYAMA. As democracias são diferentes em sua essência. 1992. seriam bons exemplos de superação das seqüelas coloniais via liberalização econômica. os países que experimentaram o colonialismo atribuíam todo o problema do subdesenvolvimento à colonização. Robert. mais ou menos inclusivas. p. Os tigres asiáticos. essa forma de governo e nada indica que isso venha a ocorrer no futuro imediato. p. . Não significa que as democracias estáveis atuais. Dois importantes sinais de que o fim da história esteja ocorrendo são a fraqueza dos Estados não-liberais e a caducidade de teorias esquerdistas. como se esta fosse um obstáculo instransponível. mais ou menos legítimas e foram batizadas como poliarquias por Robert Dahl42. mesmo considerando que se localizavam em regiões estratégicas para a lógica da Guerra Fria. Argumentava-se que os iniciadores do sistema na Europa e nos Estados Unidos. já não há movimentos políticos poderosos que desafiem. e não oriundos de falhas nos próprios princípios. Quanto ao segundo.12). Exceto a teocracia islâmica.13 Qual é o futuro da democracia liberal? No papel ele não parece muito desanimador.. Fukuyama43 considera as falhas do sistema democrático: (. No começo da década de 90 essa idéia havia mudado completamente. condenando os que viessem depois a posições dependentes como fornecedores de matéria-prima. (FUKUYAMA. Porém são problemas de implementação incompleta dos princípios de liberdade e igualdade. Fukuyama. como os Estados Unidos. Fukuyama não considera que seja o fim da ocorrência de eventos. Francis. 1992. quando o economista argentino Raul Prebicsh presidiu o Comitê Econômico das Nações Unidas para a América Latina. Rio de Janeiro: Rocco. (HOBSBAWN. haviam estruturado a economia mundial a seu favor. era moda atribuir o subdesenvolvimento não só da América Latina mas do Terceiro Mundo principalmente ao sistema capitalista global.11) Na sua obra “O Fim da História”. São Paulo: Edusp. 2007.113) Fukuyama não se preocupa com o tipo de democracia que está presente como forma de governo na maioria das nações do mundo. nos quais essas democracias se baseiam. 44 IDEM. coerente e evolutivo”44 (p. estejam isentas de injustiças e de sérios problemas sociais. O fim da história e o último homem. Este termo virou um chavão da ciência política que refere-se ao fato das democracias efetivamente existentes serem pobres aproximações do ideal democrático. 42 43 Dahl. p. nem dos fatos grandes e importantes. 2005.

colocando em risco padrões culturais ortodoxos vinculados a um modus vivendi cuja manutenção pode ser entendida como uma forma de perpetuação política. 1992. (FUKUYAMA. o liberalismo pode fabricar uma nova entidade política no mundo. Contudo. não sendo. Uma questão crítica enfrentada pelos países pobres e que impede suas possibilidades de desenvolvimento econômico é seu nível inadequado de desenvolvimento institucional. Uma guerra contra um vizinho democrático e liberal pode significar uma crise econômica para ambos os países envolvidos.) Para as sociedades individuais e para a comunidade global. que pode estar a serviço da instabilidade política e de conflitos: os Estados fracos ou falidos. reforçam a estabilidade regional. prevalente entre as nações. Esta pode estar. racional. A defesa de uma liga internacional de democracias governadas por um domínio da lei foi esboçada por Immanuel Kant em seu famoso ensaio Paz perpétua. Kant argumentou que os princípios auferidos quando o homem passou do estado da natureza para a sociedade civil. bem como em sua idéia para uma história universal.. Em uma outra obra. dependendo do grau de entrelaçamento econômico. a estatidade tem se encontrado sob ataque e foi solapada por diversas razões. É o embate entre o ditador e 45 46 IBIDEM Fukuyama.339) A guerra impediria o desenvolvimento pleno da natureza humana. as barreiras ideológicas foram suplantadas para o exercício do pleno domínio do liberalismo econômico e de princípios democráticos. por sua vez. Estes Estados fracos têm representado ameaças à ordem internacional porque constituem a fonte de conflitos e graves abusos de direitos humanos e porque se transformaram em locais de procriação de uma nova espécie de terrorismo que pode alcançar o mundo desenvolvido. Francis. 2005. p. Em todo o mundo menos desenvolvido. (. 2005. a serviço da construção de uma paz perpétua45 como argumenta Fukuyama: A necessidade de cooperação dos Estados democráticos no sentido de promover a democracia e a paz internacionais é uma idéia tão antiga quanto o próprio liberalismo. Rio de Janeiro: Rocco. mas para o desastre.. portanto. Francis Fukuyama46 aborda esta temática: (..O lugar comum de Huntington e Fukuyama na Nova Ordem Mundial As relações entre as forças hegemônicas da economia e política mundial que estão vinculadas à globalização e as sociedades que produzem os movimentos de resistência cultural estão na raiz do raciocínio do choque das civilizações. teoricamente. Após o término da Guerra Fria. (FUKUYAMA. A formação de blocos econômicos comerciais e zonas de desenvolvimento em conjunto. 156) 5. o que impera é a racionalidade. p.) No sistema internacional.14 De acordo também com o raciocínio de “O Fim da História”. . com a prevalência da democracia liberal.. Construção de Estados. foram em grande parte anulados pelo Estado de guerra. os Estados são fracos e o fim da Guerra Fria levou ao surgimento de um grupo de Estados falidos e problemáticos da Europa ao sul da Ásia. o enfraquecimento do Estado não é um prelúdio para a utopia.

distúrbios civis Estados Fracos e Falidos Fundamentalismo religioso e fortalecimento do nacionalismo Movimentos de resistência cultural 47 Fukuyama. (FUKUYAMA. The end of history? Chicago: National Interest. são as conseqüências do processo descrito por Huntington e que tiveram em 11 de Setembro de 2001 um dos seus exemplos mais emblemáticos. entende que a globalização contribuiu de forma decisiva para por um fim aos Estados não-democráticos e propor a democracia liberal como alternativa mais sensata ao desenvolvimento socioeconômico. o autor do “fim da história” vê como ameaça à paz o fundamentalismo religioso e o nacionalismo nos anos recentes. entre o campo e a cidade. summer of 1989. a intensificação da globalização ocorrida a partir de 1991 contribui para que o exercício da hegemonia americana e do dogma democrático liberal. é a forma que se manifesta na Nova Ordem Mundial como conseqüência da globalização e que impede a consolidação da Paz Perpétua. Fukuyama. O processo de globalização serve ao raciocínio de Huntington como a força motriz que propaga o embate entre o que o autor chamou de “civilização ocidental” e as civilizações mais ortodoxas. O nacionalismo esteve envolto nas causas das duas Grandes Guerras Mundiais e complicam a integração regional do mundo moderno. mediante a impossibilidade de que outro sistema político econômico surgisse paralelamente ao capitalismo liberal como uma alternativa plausível. como é possível vislumbrar no esquema abaixo: Modelo de afinidade entre as teorias do Choque das civilizações e do Fim da história Animosidades entre grupos de civilizações distintas suplantam a tradicional forma de conflito Terrorismo. que surgem a partir do embate cultural entre o ocidente e culturas pouco ou não ocidentalizadas. como a islâmica. Contudo. entre o modo de produção artesanal e industrial e entre a fé e a ciência. Segundo o autor47. A resistência cultural. A outra grande contradição potencial e não resolvida pelo liberalismo é o nacionalismo e outras formas de consciência racial e étnica. Os movimentos de resistência cultural.15 a democracia. o mesmo processo foi fundamental para que Fukuyama vislumbrasse o fim da história. por sua vez. . Francis.16) Assim. pudessem ser entendidos como elementos cruciais do tipo de conflito definido por Huntington como Choque das civilizações. o recrudescimento da religião pode significar o desagrado com a falta de personalidade e vazio espiritual demonstrado pelo consumismo das sociedades liberais. também para Fukuyama. 1989. p. Ao mesmo tempo. entre a família tradicional e a moderna.

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