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Adorável

Adorável Conquista

Conquista

Alaina Hawthorne

Adorável Adorável Conquista Conquista Alaina Hawthorne Copyright © 1995 by Alaina W. Richardson Originalmente publicado em

Copyright © 1995 by Alaina W. Richardson Originalmente publicado em 1995 pela Mills & Boon Ltd., Londres, Inglaterra Todos os direitos reservados, inclusive o direito de reprodução total ou parcial, sob qualquer forma. Esta edição é publicada através de contrato com a Mills & Boon Ltd. Esta edição é publicada por acordo com a Mills & Boon Ltd. Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas terá sido mera coincidência. Título original: My Dearly Beloved

Quem tinha tempo para casamento?

Certamente, não a mãe separada, Darian Conroy. Sua carreira encontrava-se num momento decisivo, e seu filho estava se tornando incontrolável. Nem sequer pensara em romance, até o rico caubói Tom Steinbuck fazer-lhe uma proposta surpreendente.

Quem falou em amor?

Tom acreditava que o casamento com Darian finalmente lhe daria o herdeiro que ele sempre quisera. Como fora informado de que não poderia ter filhos, a família de Darian passaria a ser sua. Mas Tom não havia calculado que se apaixonaria por sua bela esposa. Então, a verdadeira surpresa aconteceu ...

Quem falou em ter um bebê?

Adorável Adorável Conquista Conquista Alaina Hawthorne Copyright © 1995 by Alaina W. Richardson Originalmente publicado em

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CAPÍTULO I

— Telefonaram da escola, Darian. Duas vezes. Querem que você vá buscar Jason imediatamente. Darian Conroy parou e colocou sua pasta sobre a mesa da secretária. — O que disse?

Marty Forteck deu de ombros. — Eu disse a eles que você estaria no tribunal até a hora do almoço. Quem ligou pela segunda vez foi o próprio Dr. Bounds. Darian fechou os olhos por um momento. Ah, não! De novo, não! — Jason está doente? — perguntou com voz esperançosa, em- bora se odiasse por isso. Em vez de responder, Marty limitou-se a sacudir a cabeça. Seus olhos revelavam sua preocupação, bem como seu palpite. — Eu sabia que não — Darian admitiu com um suspiro. O telefone voltou a tocar, e o som emitido pelo aparelho indicava que a ligação era externa. — Atenderei em minha sala — Darian anunciou, apanhando os recados e entrando na sala. — Darian Conroy. — Sra. Conroy, aqui fala o Dr. Bounds. — A voz soava mais reprovadora que da última vez em que haviam conversado. — Sua secretária lhe disse que alguém precisa vir buscar Jason imediatamente? — Sim, Dr. Bounds, minha secretária me informou que o senhor ligou enquanto eu estava no tribunal. Jason ... — Desculpe-me por interrompê-la, mas algo terá de ser feito com relação ao seu filho, imediatamente. — O tom de voz começava a elevar-se. — Ele, não só, passou a manhã libertando os coelhos que pertencem aos alunos do primeiro ano, da Sra. Weldon, embora a

senhora possa imaginar a confusão que isso provocou

— Darian já

... vira os alunos da Sra. Weldon e, por isso, não ficou particularmente

aflita pelos coelhos. — ...

como

também, antes que a Sra. Weldon

conseguisse trazê-lo à minha sala, escondeu-se no banheiro dos

meninos. Para fumar um cigarro.

Uma leve dor de cabeça começou a incomodar Darian. O que estou fazendo de errado?

— Compreendo — murmurou. — O senhor tem certeza?

— Sim, Sra. Conroy, tenho certeza — Dr. Bounds respondeu, depois de um momento de silêncio gelado. — E devo dizer-lhe que, embora Jason tenha sido um de nossos alunos mais brilhantes, no passado, tenho de considerar os outros alunos da Fullingham. Assim como nossos padrões. A senhora conhece o clima que mantemos aqui:

o melhor aprendizado, com os melhores ideais.

Para não mencionar as mensalidades mais caras de Austin, ou melhor, do Texas.

CAPÍTULO I — Telefonaram da escola, Darian. Duas vezes. Querem que você vá buscar Jason imediatamente.

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— Compreendo perfeitamente, Dr. Bounds. Estarei aí em vinte minutos. Quando ele desligou, Darian ouviu o tom acusador do ruído da linha telefônica. Uma dor aguda subiu por entre seus ombros, até a

nuca, unindo-se à dor de cabeça, que já não era tão leve. O que dera errado? Jason sempre fora um garoto tão bom, carinhoso e responsável, para os seus dez anos de idade. Uma imagem do rosto de Joel Conroy cruzou-lhe a mente, e ela sentiu os maxilares tensos. Ele não telefonava para o filho há anos. Darian nem se lembrava quando fora a última vez em que o tinham visto. Perguntou-se se havia perdido cabelo, ou ficado mais gordo. Porém, não era boba. O ex-marido sempre mantivera o corpo elegante, e seus cabelos fartou certamente ainda caíam sobre a testa, emprestando aquele ar de colegial aos olhos grandes e de aparência tão sincera.

Não fique aí sentado, culpando outra pessoa. Tem mais o que

fazer, e essa atitude não ajuda em nada. Ficou de pé e apanhou o casaco. Jason era sua responsabilidade Aceitara o fato anos antes, enquanto lutava para terminar a faculdade de Direito, com um bebê nos braços, e um marido ausente. Era tão jovem, na época, tão

apaixonada

tão idiota

... Discou o número do ramal de Richard Acker e pediu-lhe que tomasse o seu lugar ao computador por duas horas. Então, apanhou a bolsa. Jason fumando? Parecia improvável, levando-se em conta como ele reclamava da fumaça, quando se encontravam em um restaurante. Trataria de investigar aquela questão detalhadamente, na escola. Depois, levaria o filho para o escritório. Então, terminaria o trabalho daquela tarde, e o levaria para jantar. Poderiam ter uma conversa longa e honesta e, quem sabe, ela conseguisse descobrir o que estava se passando. Mas, infelizmente, teria de voltar ao escritório, pois ela e Richard passariam o fim de semana revisando as provas que seriam apresentadas na segunda-feira. Não se tratava de um grande caso, mas o comitê da sociedade estava observando de perto cada passo dos associados envolvidos em julgamentos. Trabalhar nos fins de semana era comum para os associados da firma, especialmente para Darian, pois aquele era o seu sétimo ano ali: o ano em que se tornaria sócia. Ou não. Ao menos, Jason faria uma excursão com a escola, no fim de semana. Darian precisaria passar umas quinze horas no escritório, tanto no sábado, como no domingo. Já haviam reservado o com- putador. Assim que o pensamento cruzou-lhe a mente, ela fechou os olhos e suspirou. Era óbvio que não permitiriam a Jason participar da excursão. E não haveria ninguém em casa, para ficar com ele, pois Darian dera o fim de semana de folga à Sra. Steen. Encontrar uma babá na sexta-feira à tarde seria impossível. — Bem, meu filho — falou em voz alta —, parece que terá de acampar na sala dos associados. Ele ficaria irritado e entediado. Uma pena, Darian pensou. Jason poderia estar passando o fim de semana em Astroworld e no museu.

— Compreendo perfeitamente, Dr. Bounds. Estarei aí em vinte minutos. Quando ele desligou, Darian ouviu o

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Apertou o botão do elevador e, segundos depois, as portas me- tálicas se abriram. — Ah, Darian, era justamente você que eu estava procurando. Atwell Huntingdon, o sócio administrativo sênior, saiu do elevador. Dois associados carregando pastas saíram atrás dele e afastaram-se apressados. Ele fitou Darian nos olhos, com a frieza habitual. Parecia satisfeito, ela pensou, como um tubarão bem alimentado. Era evidente que tudo corria bem com o julgamento da Burton Oil. Darian sorriu. — Nesse caso, fico contente pelo encontro inesperado, Atwell. No que posso ajudá-lo? Ele inclinou a cabeça para o lado, e voltou a estudá-la com seu olhar profundo. O rosto anguloso e atraente não se suavizava com simpatia, nem humor. Os associados chamavam-no de Átila Huntingdon. — Tem um minuto? Parece estar de saída. Darian sentiu um aperto no estômago. Detestou o que tinha a

dizer.

— Estava apenas a caminho da escola de meu filho. Ele precisa de uma carona para casa. Percebeu a reação dele, sutil, porém inconfundível. Havia um leve toque de irritação, de reprovação. Darian sabia o que ele estava pensando: deveria haver alguém para cuidar daquele assunto. Questões pessoais jamais deveriam interferir nos negócios da firma. E, menos ainda, ocorrer durante o horário de trabalho. Bem, ele tinha uma esposa em casa, para cuidar de seus filhos.

— Espero que não seja nada sério — Atwell falou. — Não, não. Acho que não passou de uma falha de comunicação — ela respondeu, sem deixar de sorrir nem por um instante. Embora emitisse um som de simpatia, não havia o menor sinal de compaixão nos olhos dele. — Muito bom — murmurou. — Queria falar com você sobre a possibilidade de representar a firma num evento de caridade: leilão e churrasco no sítio de Tom Steinbuck, em Wimberley. Eu havia planejado comparecer pessoalmente, mas tenho de ir para o tribunal.

E eu não estou exatamente esperando o esmalte de minhas

unhas secar. Darian forçou-se a alargar o sorriso. Atwell Huntingdon fazia parte do comitê de sócios e, apesar da inconveniência de mais um compromisso, não havia dúvida de que ele não estava simplesmente designando-lhe uma tarefa. Os Steinbuck eram a aristocracia do Texas, pesos-pesados da política, e grandes nomes dos poços de petróleo. Além de tratar-se de um teste, esse tipo de tarefa trazia recompensas pequenas. Agora que Darian havia provado ser uma advogada eficiente, suas habilidades sociais estavam sendo postas à prova. — Ficarei honrada por representar a firma, Atwell. Obrigada por ter pensado em mim. — Temos a maior confiança em você, Darian, mas posso sugerir que leve outro associado com você? Richard Acker, talvez. Darian assentiu pensativa.

Apertou o botão do elevador e, segundos depois, as portas me- tálicas se abriram. — Ah,

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— Acho uma boa idéia. Richard e eu já estamos trabalhando juntos, e não será difícil coordenar nossos horários. — Ótimo. Bem, não quero atrasá-la. Conversaremos quando você

voltar. — Atwell endureceu as feições. — Está planejando voltar para o escritório, não está? Darian concentrou-se em manter uma expressão calma e tranqüila. — Claro. A que horas gostaria que nos encontrássemos?

— Digamos

...

duas e meia.

— Certo. Vejo você às duas e meia. Ela sentiu as mãos molhadas de suor, e a dor na nuca tornar-se quase insuportável. Teria de correr como louca, para ir e voltar a tempo. Assim que virou-se para chamar o elevador, ouviu a voz de Atwell:

— Ah, Darian ... Virou-se para ele a tempo de perceber-lhe o sorriso sarcástico. — Sim? — O leilão é amanhã. Ela engoliu seco. — Ótimo — falou. — Estou ansiosa. Atwell assentiu, e encaminhou-se para a sua sala, os sapatos italianos pisando silenciosamente no carpete espesso. O coração de Darian apertou-se. Wimberley ficava a quase uma

hora de Austin. Uma hora para ir, outra para voltar

Perderia, no

... mínimo, três horas de seu sábado num leilão ridículo, repleto de cães e pôneis. — Droga! — resmungou. — Perderemos a maior parte do dia. O que significava trabalhar a noite inteira. De novo. E, prova- velmente, a noite de domingo, também. A porta do elevador fechou-se atrás dela, e Darian permitiu-se vergar os ombros. Aquela não era a primeira vez em que as exigências de sua vida pareciam impossíveis de satisfazer. Na verdade, quanto mais se apro- ximava de seus objetivos, mais sua rotina tornava-se atribulada. E, agora, o problema com Jason. Estaria sendo uma mãe ruim? Perguntou-se se o trabalho a estaria levando a negligenciar o filho. Não, pensou. No papel de mãe separada, sem ninguém para ajudá-la, tinha de trabalhar duro, nas melhores circunstâncias possíveis. Além do mais, o tempo que dedicava à firma era justamente o que permitia a Jason freqüentar uma escola que o desafiaria e desenvolveria seu intelecto e talento. Viviam numa bela casa, num bairro seguro, e faziam viagens maravilhosas nas férias. E, ainda, Darian queria inspirar o filho, dando o exemplo, mostrando a ele que possuía uma vida completa, além de ser mãe. Além de tudo isso, Darian ainda tinha um compromisso muito importante consigo mesma: seus talentos e habilidades. Sentia que tinha a obrigação de desenvolver seu potencial. Afinal, Jason estava crescendo e, em poucos anos, sairia de casa para viver sua própria vida. E ela devia o máximo para si mesma, sua firma, seus clientes. Tinha obrigações para com a comunidade, assim como um compromisso especial com o trabalho voluntário, na assistência a

— Acho uma boa idéia. Richard e eu já estamos trabalhando juntos, e não será difícil

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mulheres e crianças abandonadas. Passaria a ser sócia da firma, desenvolveria seu potencial e seria uma boa mãe. Mostraria ao filho que é possível atingir o sucesso profissional, sem sacrificar a vida familiar. Provaria que Joel estava errado: não é preciso abandonar a família para alcançar o sucesso. Até então, Darian acreditava ter cumprido todos os seus com- promissos, além de ter feito tudo para ser uma boa mãe. Um ano antes, começara a sair do escritório à tarde, a fim de estar em casa quando Jason chegava da escola. Então, depois das nove, voltava ao escritório e trabalhava até a madrugada. Como a Sra. Steen morava no emprego, Jason jamais ficava sozinho. Então, por quê, justamente no ano mais importante de sua carreira, quando passara a ser candidata à sociedade, seu filho tinha de entrar numa crise de personalidade? Com um suspiro, Darian entrou no carro, e saiu do estacionamento para a Congress Street, enfrentando o trânsito da hora de almoço. Vinte minutos depois, estacionou o carro e subiu os degraus da Fullingham Academy. O interior do edifício silencioso cheirava a cera, papel de parede antigo e desinfetante. Darian caminhava com passos firmes, e o ruído dos saltos altos ecoavam pelo corredor, à medida que ela se aproximava da sala do diretor. Era a quarta vez que atravessava aquele corredor naquele ano, e outubro ainda nem havia terminado. Júlia, a recepcionista, sorriu para Darian ao vê-la aproximar-se. Era uma mulher de meia-idade, aparência tranqüila, com óculos de lentes grossas apoiados no nariz aquilino. — Avisarei que chegou — sussurrou. Darian jamais entendera porque Júlia sempre sussurrava. Ao virar-se, deparou com Jason, sentado na cadeira ao lado da porta, fitando-a com seus olhos enormes e trágicos, idênticos aos de Joel. Com um sorriso hesitante, ele ergueu a mão. — Oi, mamãe. Ela estreitou os olhos. — Olá, Jason. Imagino que saiba que não estou muito contente por estar aqui. — Sim, eu sei — ele admitiu, afastando os cabelos dos olhos. Assim como os da mãe, os cabelos de Jason eram fartos, loiros e lisos. — Sinto muito que tenha precisado vir. Estão muito zangados com você, no escritório? — Não tenho a menor vontade de discutir o meu trabalho com você, agora, Jason. Além disso, se estivesse mesmo interessado na minha carreira, não acho que faria coisas como o que fez hoje. Ouvi dizer que esteve fumando. Gostou? Terá muita sorte se não for expulso. Agora, terei de convencer o Dr. Bounds a permitir que continue na escola. Jason baixou os olhos para as mãos. Darian ouviu uma porta abrir-se às suas costas. — Sra. Conroy. — Dr. Bounds — falou, estendendo a mão. — Lamento ter demorado mais do que prometi, mas Atwell Huntingdon atrasou minha

mulheres e crianças abandonadas. Passaria a ser sócia da firma, desenvolveria seu potencial e seria uma

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saída do escritório. Conhece o Sr. Huntingdon, não? Os dois filhos dele estudaram em Fullingham. O Dr. Bounds mostrou-se ligeiramente contrafeito. Parecia saber que estava sendo manipulado, mas não conseguia definir exatamente como.

— Claro. Como vai Atwell? — Muito bem. — Darian passou por ele e entrou. — Mandou lembranças. Posso me sentar? Obrigada. Bem, o que aconteceu esta manhã? Meia hora depois, Darian estava na porta da sala do Dr. Bounds, apertando-lhe a mão. — Muito obrigada por ser tão compreensivo. Minha mãe sempre disse que a Fullingham é a única escola em Austin, provavelmente no Texas, capaz de desafiar crianças bem-dotadas. Acho que o acompanhamento que sugeriu é exatamente o que Jason precisa. Tenho de concordar que deve ser difícil para ele, às vezes, sem uma figura masculina para lhe fornecer valores. — Fico satisfeito por nos entendermos tão bem, Sra. Conroy. Espero não ter de fazer outra ligação como a de hoje. — Eu também, acredite. Mais uma vez, obrigada. Darian virou-se para Jason, que imobilizou-se e engoliu seco. — Vamos, Jason. Precisamos conversar. Na manhã seguinte, sentada no banco do passageiro, no carro de Richard Acker, Darian tentava ler seus relatórios, durante a viagem por Dripping Springs. — Já estamos chegando, Richard? — a voz de Jason soou entediada do banco de trás. — Para você, ele é o Sr. Acker, Jason — Darian corrigiu-o. Estavam no carro há menos de meia hora, mas Jason começara a reclamar logo no início da viagem. Ela sabia que o filho estava cansado, irritado e muito decepcionado por ter perdido a excursão a Houston. — Mais uns vinte minutos, garotão — Richard informou-o em tom animado. A voz de Richard mexeu com os nervos de Darian. Ele estava sempre de bom humor. Era solteiro, tinha trinta anos, e nenhum filho. Além de nenhum fio de cabelo branco, ela pensou. Desviou os olhos do contrato em suas mãos e olhou pela janela. Atravessavam os campos do Texas, uma paisagem escarpada, coberta de zimbro, carvalhos negros e cedros. Como mal erguera os olhos da leitura o tempo todo, Darian não percebera a mudança das colinas suaves e lagos límpidos de Austin, para o cenário rochoso do interior, com seus cânions e riachos rasos, ladeados de ciprestes. — Acho que estamos chegando — Richard anunciou. — Isso mesmo. Clearpool Creek Road. O sítio Clearpool teria sido encontrado com facilidade, naquele dia, mesmo que não existissem placas de indicação. Uma fileira de carros luxuosos e limusines seguiam pela estrada de terra com lentidão, a fim de evitar danos causados por mata-burros. Quando os

saída do escritório. Conhece o Sr. Huntingdon, não? Os dois filhos dele estudaram em Fullingham. O

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pneus de Richard passaram por cima da barreira antiquada, Darian abandonou de vez seu estudo do processo "Brookwood versus Timley". Cinco minutos depois, depararam com um segurança uniformizado, que instruía os motoristas para que estacionassem seus veículos nas posições corretas. Darian ergueu as sobrancelhas. Praticamente todos os carros exibiam as placas oficiais de juizes federais, juizes estaduais e senadores. Ela se empertigou no banco, perguntando-se se a saia jeans longa e a camisa de cambraia seriam adequadas à ocasião. Bastou uma olhada em volta para ela se sentir mais segura. Aquela era a alta sociedade do Texas. Todos estariam usando jeans. O que os distinguiria seriam os crachás. Ou as jóias. Assim que Richard desligou o motor, a voz entediada de Jason voltou a erguer-se do banco de trás. — Por quanto tempo teremos de ficar aqui? Darian virou-se e lançou ao filho um olhar duro e frio. — Trate de prestar atenção ao que vou lhe dizer, Jason McGreevy Conroy. Ontem à noite, expliquei a você quanto este evento é importante para mim. E também disse que haverá pôneis, muita comida e brincadeiras no feno, para as crianças. Mais uma coisa, jovenzinho. — Ela segurou-lhe o joelho com firmeza. — Tem sorte de

não estar passando o fim de semana trancado em seu quarto. Se fizer qualquer coisa para me envergonhar, ou se meter em qualquer tipo de encrenca, não só vai ficar sem mesada por mais seis semanas, como também não participará de nenhuma excursão da escola, durante os próximos seis meses. Está entendendo? As faces de Jason tornaram-se escarlate, e seus olhos se arre- galaram, como os do pai. — Sim, senhora. — Ótimo. Agora, siga-me e encontraremos os pôneis. Darian sentiu um aperto doloroso no peito. Detestava discutir com o filho. Ultimamente, discutir parecia ser a única coisa que conseguiam fazer juntos. Virou-se para Richard e revirou os olhos. Ele sorriu com aquela sua jovialidade enlouquecedora, e sugeriu:

— Vamos tentar ir embora por volta das três, Dee. Tudo bem para você? — Três é um horário razoável — ela concordou. — É meio-dia agora e marcaram o encerramento dos lances para duas e meia. Onde acha que vai ser o leilão? Richard deu uma volta em torno de si mesmo.

— Não pode ser na casa

...

Ali.

Veja,

há uma

tenda atrás do

estábulo. Darian virou-se. Logo atrás do estábulo vermelho, digno de um cartão postal, avistou a lona branca com listras azuis, que formava uma tenda redonda. Respirou fundo e, só então, percebeu como o ar era doce. Os aromas de outubro eram diferentes ali: o ar parecia mais limpo, e o perfume dos pinheiros enchia o ar. E, também, o clima era mais fresco do que em Austin.

pneus de Richard passaram por cima da barreira antiquada, Darian abandonou de vez seu estudo do

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— Sim, estou vendo. Vamos. — Olhou para o filho, que começava a demonstrar algum interesse pelo que via. — Vamos, querido, acho que vai se divertir. Imediatamente, Jason abaixou a cabeça e resmungou algo sobre estar com fome. Darian suspirou e seguiu Richard na direção da tenda. Enquanto os três atravessavam o gramado recém-aparado, Darian reconheceu alguns dos demais convidados, reunidos em grupos à sombra das árvores, ou apoiados na cerca branca. Era estranho, pensou, vê-los fora do tribunal, sem os ternos formais e as gravatas poderosas, sorrindo uns para os outros, sendo simpáticos. Lembrou-se da história da Segunda Guerra Mundial, sobre dois soldados, um alemão e, o outro, inglês, que haviam deixado as armas de lado, para jogar futebol, no dia de Natal. A esquerda, situava-se a casa de dois andares, construída com pedras da região, com grandes janelas e telhado vermelho. A varanda tinha piso de ardósia, e pilares de cedro rústico sustentavam a varanda do segundo andar. Vasos floridos preenchiam os espaços entre as peças de mobília de couro, de aparência confortável e, das paredes, pendiam arreios e implementos antigos. — Bela casa — Darian murmurou. — É maior do que eu imaginava. — Claro — Richard concordou. — Os Steinbuck estão por aqui há muito tempo, e sempre metidos nos melhores negócios: gado, petróleo, ferrovias, propriedades espalhadas por todo o Texas. Tudo isso, além dos excelentes contatos políticos. — Tuffy Steinbuck morreu há anos, não é? — Darian inquiriu, lembrando-se de que ele era chamado de Criador de Reis, por causa de sua influência na política do Texas, nas décadas de quarenta e cinqüenta. — Oito ou dez anos, eu acho — Richard informou-a. — Meu pai costuma vir aqui para caçar. Nunca participou de um evento como este?

— Não — Darian respondeu, esticando o pescoço, a fim de olhar por cima da multidão. — Minha família é de Dallas. Educação, em vez de política. Uma banda tocava na tenda. Darian ouviu os acordes alegres de um violino, bem como as batidas do baixo. Sorriu. Não sabia que haveria música ao vivo. Ao se aproximarem da tenda, viu um grupo de pessoas reunidas ao lado da lona listrada. Arregalou os olhos ao reconhecer dois sócios de uma das mais poderosas firmas de advocacia, conversando com uma ruiva exuberante, que ela tinha certeza de ter visto num anúncio de lingerie. Porém, o que mais lhe chamou a atenção, foi o homem alto, bronzeado, de ombros largos. Ele vestia jeans, mas não da maneira artificial daqueles à sua volta. Suas roupas haviam sido lavadas e disciplinadas até alcançarem total intimidade com cada músculo dos quadris e pernas longas. Os braços cruzados sobre o peito largo também eram longos e musculosos, e ele mantinha as costas eretas, enquanto se balançava de leve sobre os calcanhares. As botas eram exóticas, do tipo que

— Sim, estou vendo. Vamos. — Olhou para o filho, que começava a demonstrar algum interesse

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provavelmente haviam custado uma fortuna quando novas, assim como a jaqueta. E, embora o chapéu Stetson fizesse sombra sobre seu rosto, não obscurecia o brilho de seu sorriso, nem atenuava os ângulos das faces e do queixo. Darian franziu o cenho. Aquele homem não poderia ser classi- ficado como classicamente bonito, mas era definitivamente atraente. Carismático, mesmo à distância. Ela se descobriu incapaz de desviar os olhos.

— Quem é aquele? — perguntou. Richard olhou na direção indicada. — Nosso anfitrião, Tom Steinbuck. — Alto, não? Richard lançou-lhe um olhar malicioso. — Será que ouvi uma nota de interesse em sua voz, colega? Darian revirou os olhos. — Ora, Richard, eu só disse que achei o homem muito alto. Ele continuou a fitá-la com ar de zombaria. — Você nunca me achou alto. — Vamos procurar a churrasqueira — Darian ordenou em tom

seco.

Quando passaram perto do grupo, Darian sentiu uma sensação

de arrepio na nuca. Algo mais que pura visão periférica lhe disse que

Tom Steinbuck a vira

...

e a notara. Respirou fundo, tentando livrar-se

da sensação. — Não seja idiota, Darian — resmungou baixinho. — Já tem mais do que pode dar conta. O interior da tenda vibrava com o murmúrio de centenas de pessoas falando ao mesmo tempo. Também era possível ouvir o ruído de louças e copos. Por todos os lados, havia gente conversando, be- bendo e comendo comidas apetitosas, em pratos pequenos demais para as costelas e salada de batatas empilhadas sobre eles. Do outro lado da tenda, uma corda grossa, de veludo vermelho, esticada entre dois postes de aço inoxidável, separava os itens doados para o leilão. Darian pôde ver quadros, algumas estátuas, e diversas caixas de vidro, que ela supôs conterem jóias. — Vocês dois estão com fome, ou preferem dar uma olhada em tudo, antes de comer? — Estou faminto — Richard respondeu, olhando em volta com um ar predatório de um político nato. — Aquela ali é Carla Freeman. Acho que terei de abandonar você em breve. — Você é mesmo um tubarão! Pode ir. Vou registrar nossos lances. — A propósito, o que deve comprar? Darian respirou, dando-se ares de importância. — Bem, tenho seis mil dólares para comprar um conjunto de quinze bandeiras originais da Estrela Solitária, da era republicana. — Abriu o programa e leu: — Item número vinte e dois. Lances a partir de três mil, por favor. — Exatamente o que a firma precisa — Richard comentou. — Mais lixo para a sala dos sócios.

provavelmente haviam custado uma fortuna quando novas, assim como a jaqueta. E, embora o chapéu Stetson

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— Trate de demonstrar alguma reverência, Acker — Darian replicou, com ligeiro desgosto. — Isto é para caridade. De repente, Jason pareceu petrificado de entusiasmo. — Que legal! Mamãe, veja! — Por um momento, puxou a manga da blusa da mãe, e apontou para os itens do leilão. — Um Hummie. Então, atirou-se por entre a multidão à esquerda de Darian e desapareceu. Ela olhou em volta. — O quê? Aonde? Jason, espere. Conseguiu avançar o bastante para ver o filho passar por debaixo da corda que servia de barreira, e pousar as duas mãos sobre o chassi cor de cereja, de um veículo pequeno e atarracado. O pará-choque de aço inoxidável e os faróis em forma de bulbos, faziam a máquina parecer um gigante e alegre sapo alienígena. Jason olhou por cima do ombro. — É um Hummie, mamãe. Não é legal? Acha que posso andar nele? — A voz do menino baixou para um murmúrio fascinado. — Um Hummie. Darian sabia que parecia confusa. E estava. — Um o quê? — Desculpe, senhora, mas aquele é um Hummerfeldt Landskimmer automático, com motor de setenta e cinco cavalos de potência. A voz profunda atingiu Darian bem na nuca, fazendo todas as fibras ao longo de sua espinha reagirem como se fossem fios me- tálicos, atraídos por um ímã. Ela virou para encarar o barítono. Sabia que só poderia ser uma pessoa. Ele tocou a aba do chapéu. — Como o garoto disse, um Hummie. — Estendeu a mão. — Tom Steinbuck. — Darian Conroy — ela replicou, aceitando a mão estendida. Ele apertou-lhe a mão como teria feito com um homem: com força e firmeza. Darian gostou disso. — Então, este é o seu lar. Invejo-o por poder viver no campo. Algo indefinível brilhou nos olhos azuis. — Sim, senhora. Sou um homem de sorte. — Baixou os olhos para Jason e sorriu. — Então, gostaria de dar uma volta? Os olhos de Jason imploravam. — Ah, sim. Tenho certeza de que seria capaz. — Jason Conroy — Darian interferiu em tom de reprovação. — Você nunca dirigiu uma coisa como essa, antes. — Sorriu para o anfitrião. — Este é meu filho Jason. Jason, este é o Sr. Steinbuck. Jason endireitou-se. — Muito prazer em conhecê-lo, Sr. Steinbuck — falou e apertou a mão do anfitrião com ar solene. Então, o rostinho iluminado assumiu um ar trágico e urgente. — Posso dar uma volta? As feições de Tom Steinbuck tornaram-se falsamente descon- fiadas, e ele cruzou os braços, como Darian o vira fazer antes.

— Trate de demonstrar alguma reverência, Acker — Darian replicou, com ligeiro desgosto. — Isto é

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— Bem, Jason, não tenho certeza. Doei o Hummie para o leilão, e já foram feitos alguns lances. Portanto, ele não é mais meu. Mais tarde, quem sabe eu ... Tom foi interrompido por um ganido tão desesperado, que os três viraram-se para a área oposta à do pequeno veículo. Uma cadelinha malhada fitou-os por um momento e, ao perceber que fora notada, atirou-se com desespero contra a grade de sua gaiola de viagem. Um som suave, algo entre um gemido e um suspiro, escapou dos lábios de Jason, e ele abandonou o Hummie. Sem nem olhar para Darian, pôs-se de joelhos diante da gaiola e enfiou os dedos pela grade, para tê-los imediatamente envolvidos por uma frenética língua rosada. Sorrindo, Darian olhou para o homem a seu lado. — Bem, Sr. Steinbuck, acho que o seu Hummie foi esquecido —

falou.

Ele piscou com ar conspiratório. Embora tivesse um metro e setenta e nove, descalça, e quase cinco centímetros mais, com suas botas de vaqueiro, Darian ainda tinha de inclinar a cabeça para trás, a fim de fitar Tom Steinbuck nos olhos.

— São as paixões passageiras da juventude volúvel — ele co- ironizou com um sorriso. — Por favor, me chame de Tom. O modo como falou, como fez o pedido, não pareceu apenas uma gentileza de anfitrião. Soou mais como um favor, solicitado com muito respeito. O sorriso de Darian tornou-se mais largo, e ela se sentiu es- tranhamente elogiada. — Bem, obrigada. Mas só atenderei seu pedido, se me chamar de Darian. — Pensei que nunca ia dizer isso. Desta vez, quando ele sorriu, Darian pôde notar os vincos que o sol formara nos cantos dos olhos azuis. Trinta e cinco, ela pensou. Talvez quarenta. — Mamãe, venha aqui! Ela suspirou. — Ah, e agora? As feições de Jason estavam iluminadas. — Não é linda, mamãe? Aquele negócio de papelão do leilão diz que é uma Pastora Alemã de pêlos curtos. Não é demais? Antes que Darian pudesse responder, um homem gordo, de rosto vermelho, atravessou a multidão e parou diante da corda. A fivela do cinto, do tamanho de um pires de chá, quase não podia ser vista, por debaixo da barriga imensa, e a calça dele apresentava-se perigosamente baixa sobre seus quadris. A força da gravidade havia arrastado sua papada por cima do colarinho, e Darian calculou que seria apenas uma questão de tempo, para que o mesmo acontecesse à calça do sujeito. — Afaste-se daí, garoto — ele ordenou com sotaque carregado, apontando para Jason um osso de costela, quase brilhando de tão limpo, preso entre dedos engordurados de molho para churrasco. — Isso não é um brinquedo.

— Bem, Jason, não tenho certeza. Doei o Hummie para o leilão, e já foram feitos

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Jason lançou-lhe um olhar frio, e voltou a virar-se para o cachorro. — Não posso tirá-la da gaiola só um pouquinho? Ela quer muito brincar comigo. Assim que percebeu a presença do acompanhante de Darian, o sujeito tocou a aba do chapéu num gesto respeitoso. — Tom — falou. — Aquela é Princesa de Warwick, do canil Winfield. Maude e eu a doamos, além de dois anos de treinamento com Ed Sigafoos, no Round Top. Conhece Sigafoos, não? — Virou-se para Darian. — Aquele é seu filho, senhora? Diga-lhe que ela não é esse tipo de cachorro. É uma cadela de caça, com pedigree. Se for mesmo boa, será reprodutora. — Jason, venha — Darian falou com firmeza. — A cachorrinha pertence a este senhor. Ele ergueu os olhos para a mãe, com ar perdidamente apaixonado. — Ela quer sair, mamãe. Quer brincar comigo. Tom deu um passo à frente. — Luther, esta é Darian Conroy e seu filho, Jason. Darian, este é Luther Winfield. O homem estendeu-lhe a mão engordurada, e Darian teve de reprimir a reação de repulsa. Então, deu-se conta de que ele apenas lhe estendia seu cartão. — Winfield Petróleo, senhora. Com quem trabalha? — Sternwell e Haig, de Austin. Pelo canto do olho, ela notou que a informação fora registrada por Tom Steinbuck. E, pelo modo como o sorriso dele se alargou, Darian diria que a notícia o agradara, ou confirmara algo que ele já sabia ou suspeitava. — Bem, Sra. Conroy, diga ao seu filho que não se deve brincar com cães de caça, pois isso cria neles maus hábitos, como implorar mimos. — Venha, Jason — Darian falou com suavidade. — Desculpe, Sr. Winfield. Garotinhos simplesmente adoram filhotes. Jason levantou-se, o rosto muito vermelho, os lábios trêmulos. — Podemos ir embora? Quero ir para casa. Darian foi invadida pelo impulso quase incontrolável de estrangulá-lo. Por que ele tinha de agir daquela maneira? O que estava acontecendo com seu filho, afinal? — Não quer ir embora, Jason — a voz de Tom soou apaziguadora, embora apresentasse um leve toque de reprovação. — Estão selando os pôneis, atrás do estábulo, neste exato momento. Imediatamente, Jason ergueu os olhos para a mãe. — Posso ir? Darian lançou um olhar cansado para o relógio. — Claro, querido. Quer que eu vá com você? — Ora, mamãe, não sou um bebezinho. Posso ir sozinho. — Certo — ela concordou com relutância. — Mas esteja de volta às duas e meia.

Jason lançou-lhe um olhar frio, e voltou a virar-se para o cachorro. — Não posso tirá-la

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Jason assentiu para a mãe, ignorou Tom e lançou um olhar de desgosto para Luther. Winfield desapareceu na multidão, e Darian viu-se sozinha com seu anfitrião. — Meu filho não costuma ser tão temperamental — explicou. — Está passando por uma fase difícil. Tom Steinbuck fitou-a com olhar meigo, coçando o queixo com ar pensativo. — Gostei dele. Gosta de cachorros e sabe reconhecer uma boa máquina. Vai se tornar um bom homem. Embora fosse obvio que ele estivesse tentando ser conciliador, a compaixão de Tom emocionou-a. — Não sei se pensa mesmo o que disse, mas tenho certeza de que foram as palavras mais certas. — É claro que penso o que disse — Tom assegurou-a e olhou em volta, como se estivesse se sentindo perdido, ou irritado pela multidão à sua volta. — Gostaria de um copo de vinho? Ou um pouco de churrasco? Darian sorriu, perguntando-se há quanto tempo não comia na companhia de um homem, sem que a refeição ocorresse à mesa de negociações. Oito anos? Nove? De repente, deu-se conta de que a tensão costumeira entre seus ombros havia desaparecido. — Sua oferta é tentadora, mas não estou com fome. Acho melhor fazer o meu lance. — Tudo bem, mas, depois, já que não posso agradá-la com comida e vinho, que tal conhecer a casa? Lá é bem mais sossegado que aqui. De súbito, as risadas dos outros convidados passaram a parecer histéricas. — Eu adoraria — Darian respondeu, e olhou para os produtos expostos. — Sabe onde estão as bandeiras da Estrela Solitária? — Por aqui, madame. Tom ofereceu-lhe o braço, que ela aceitou prontamente. Apenas dois lances, pouco entusiásticos, haviam sido feitos pelas bandeiras. Assim, Darian preencheu o cartão e, sentindo-se mais livre do que nunca, acompanhou Tom para fora da tenda. — Espero não estar afastando você de seus convidados — falou. — De maneira alguma. Já fiz o papel de anfitrião por mais tempo do que poderia suportar em um dia. Quando ele a fitou, Darian percebeu que ali estava um espírito tão cansado quanto ela, de uma vida atribulada, e feliz pela opor- tunidade de passar algum tempo ao lado de uma pessoa desconhecida, atraente e interessante. Sorriu para ele, sem se ofender nem um pouco pela resposta direta que ouvira. Havia umas poucas pessoas na casa, e era evidente que todos eram amigos ou empregados de Tom. Ele apresentou Darian e, então, ela perdeu a noção do tempo, enquanto os dois exploravam cada cômodo da velha casa de pedras. Havia lindas obras de arte, fotografias e todo tipo de lembranças dos últimos oitenta anos:

grandes caçadas a veados e pombos, bailes, noivados, casamentos.

Jason assentiu para a mãe, ignorou Tom e lançou um olhar de desgosto para Luther. Winfield

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A mobília encerada exalava um odor agradável. As paredes eram cobertas por livros, tapeçarias indianas, coleções protegidas por caixas de vidro, fotografias, velhos troféus de caçadas. Havia também o clima sossegado e mágico de um pequeno museu, e o conforto convidativo de uma casa habitada há muito, muito tempo. Era o tipo de lugar onde se poderia encontrar um quarto quieto, deitar-se com um bom livro e dormir, pois ninguém se importaria. Sobre o piano antigo, Darian notou uma fotografia de Tom, com um homem muito idoso, usando chapéu de palha, ao lado de uma bela mulher de meia-idade. O sorriso dela era largo e brilhante, e os olhos eram os mais vivos que Darian já vira. — São seus pais? — perguntou. — Sim, Tuffy e Daphne. Mamãe vive em Corpus, agora. A voz de Tom soou um pouco melancólica, mas não realmente triste. — Sente falta dela? — Ah, não permito que ela fique longe pelo tempo suficiente para eu sentir sua falta. Mas sinto muita falta de papai. Quanto mais envelheço, mais lamento não ter feito uma porção de perguntas a ele. Darian pensou no próprio pai. — Sei do que está falando. — Olhou para o relógio. — Nossa! Já passa das duas. Tom franziu o cenho. — Droga. Acho que teremos de voltar. Afinal, sou o leiloeiro inicial. — Obrigada por ter me mostrado a casa. É maravilhosa. — Obrigado por ter achado minha velha casa maravilhosa. Enquanto voltavam para a tenda, Darian mal podia acreditar que havia passado tanto tempo conversando com Tom. Nem se lembrava quando fora a última vez em que rira com tamanha facilidade, ou se sentira tão relaxada. Então, deu-se conta de que, provavelmente, isso acontecera porque ela também o deixara muito a vontade. Seus instintos lhe diziam que ali estava um homem tipicamente reservado, sujeito a um bocado de pressões. Sentiu uma pontada de tristeza ao pensar que dificilmente voltaria a vê-lo. Bem, que diferença faria? Afinal, ela não tinha tempo para aquele tipo de coisa em sua vida. O sol já descia na direção do horizonte, e o ar fresco do outono tornava-se mais e mais frio. Tom parecia perdido em seus próprios pensamentos. Assim que entraram na tenda, Darian percebeu que algo havia acontecido. Dois seguranças uniformizados conversavam com Luther Winfield, que gesticulava com ar contrafeito. A medida que se aproximaram, ela viu o que o deixara tão furioso. A porta da gaiola da cachorrinha encontrava-se aberta, assim como o espaço antes ocupado pelo veículo antigo encontrava-se vazio. — Ah, até que enfim você voltou, Tom — Winfield falou, ao olhar na direção do casal. — Terá de chamar Joe Bob. Alguém levou Princesa, assim como aquela sua máquina esquisita. Darian permaneceu um pouco afastada, enquanto Tom juntava- se aos outros homens. Embora suas feições demonstrassem preocupação, ele não parecia nem perto de estar tão irritado quando Luther. Pequenos grupos de convidados, todos atentos, assistiam à cena. Darian notou que nenhum dos itens mais caros do leilão havia

A mobília encerada exalava um odor agradável. As paredes eram cobertas por livros, tapeçarias indianas, coleções

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desaparecido. Perguntou-se quem, de um grupo tão selecionado, seria capaz sequer de pensar em roubar artigos doados para caridade. O que mais lhe chamou a atenção foi o fato de os itens desaparecidos serem um tanto grandes, e nada caros. Ao menos, não se comparados às jóias e obras de arte em exposição. Afastou-se devagar, planejando misturar-se à multidão, combinar a entrega das bandeiras e voltar para Austin. Do outro lado da tenda, avistou Richard caminhando na sua di- reção. Ao passar por Tom, Luther e os seguranças, ele ergueu as sobrancelhas para o que era, obviamente, o início de um escândalo. Darian franziu o cenho, voltando a olhar para a gaiola vazia, bem como para onde o Hummie estivera estacionado. Naquele momento, em algum ponto das profundezas de seu ser, sentiu um toque de alarme. Richard parou ao lado dela, observando com curiosidade distante a discussão a respeito dos itens desaparecidos. — É melhor irmos embora, se pretendemos trabalhar esta noite. — Então, olhou para o grupo de homens reunidos em volta da gaiola e acrescentou: — A propósito, onde está Jason?

CAPÍTULO II

— Tom, pode me dar um minuto? Quando ele virou para Darian, ela percebeu a profunda preocupação nos olhos azuis. Os homens reunidos à sua volta nem sequer tentaram esconder a impaciência. — Com licença Luther, Joe, Bob. Darian recuou vários passos, cruzou os braços e falou:

— Acho que sei o que aconteceu com o Hummie e com a cachorrinha. A expressão de Tom não mudou em nada. — Jason? Ela assentiu. — Foi o que pensei — Tom confessou. — Quando vi o modo como ele olhou para aquela cachorrinha, soube que pretendia tirá-la da gaiola. — Havia um tom divertido em sua voz, até mesmo de admiração, embora algo em seu olhar o desculpasse por isso. Tom não parecia nem um pouco zangado. — Já pedi a alguns homens que saiam à procura dos itens desaparecidos. Não quero que essa história se torne embaraçosa para ninguém. Obrigada, Tom. — O coração de Darian batia descompassado, sua boca estava seca. Além de estar preocupada com Jason, sentia-se humilhada pelo inconveniente causado a Tom e seus convidados. Isso para não mencionar o que os sócios da firma diriam, quando descobrissem o que seu filho havia aprontado. — Não laço idéia de como ele conseguiu fazer o Hummie funcionar. Jason nunca dirigiu uma máquina como aquela.

desaparecido. Perguntou-se quem, de um grupo tão selecionado, seria capaz sequer de pensar em roubar artigos

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— Ficaria surpresa se soubesse como é fácil de operar uma coisa como aquela. Já dirigiu um kart?

A expressão de Darian foi a resposta que Tom esperava. Ele deu de ombros. — É a mesma coisa. Darian sentia-se mais e mais infeliz, com o passar dos minutos.

Como pôde ser tão irresponsável? Isso jamais teria acontecido se não tivesse ficado passeando e conversando com o anfitrião. Que tipo de mãe é você, afinal?

— Eu sinto muito — murmurou. — Quem está procurando por ele? Talvez fosse melhor eu ir junto. — Não fique nervosa, nem comece a se culpar — Tom falou. — Tenho certeza de que logo o encontrarão. E não será a primeira vez que um bom garoto decidiu se divertir um pouco. Antes que Darian pudesse dizer qualquer coisa, Luther Winfield iniciou um discurso mal-humorado sobre a ruína de sua cadela, bem como a degeneração generalizada das crianças de hoje em dia. Darian encolheu-se. Era óbvio que Luther chegara à mesma conclusão a que ela e Tom haviam chegado. Tom presenteou-a com um sorriso reconfortante. — Não se preocupe com aquele velho ranzinza. Tratarei de acalmar Luther, e logo encontraremos seu filho. Darian assentiu e tentou sorrir, mas foi em vão. Não seria possível esconder seus sentimentos, quando falavam de seu filho, e de seu evidente fracasso em educá-lo. — Obrigada. Vou esperar aqui. Quando Tom lhe deu as costas, Darian apertou os braços contra o corpo. Embora estivesse mais zangada do que preocupada com Jason, queria o filho de volta imediatamente. O sol descia para oeste, e ela estava cercada de homens e mulheres responsáveis e maduros. Portanto, se a situação piorasse, havia gente de sobra para ajudá-la a encontrar Jason. Além disso, mal conseguia esperar ali, parada. Queria agir, sair pelos pastos, encontrar o filho, e trazê-lo de volta pela orelha. Então, trataria de mandá-lo para uma ilha deserta. Assim que Tom se afastou, Richard aproximou-se. — Você estava certa, Dee. O rapaz que cuida dos pôneis disse que Jason cavalgou um pouco, mas saiu de lá há uma hora. Deve ter soltado a cachorrinha e fugido. Um dos cozinheiros diz tê-los visto no pasto atrás do estábulo. — Obrigada, Richard. Direi a Tom assim que puder. — Ora, vamos, colega — ele falou, com sua costumeira alegria. — Não se preocupe. Trata-se de um comportamento típico de garotos. Tenho certeza de que vamos encontrá-lo em menos de uma hora. — Eu sei que está tudo bem com ele, Richard, mas quero Jason aqui, agora mesmo. Richard consultou o relógio. — Bem, é verdade que ele escolheu o pior dia para desaparecer. Darian sabia que ele não queria parecer insensível, mas Richard também estava sujeito a pressões. Aliás, os dois já deveriam estar de volta a Austin, àquela hora. Tinham interrogatórios a revisar para o

— Ficaria surpresa se soubesse como é fácil de operar uma coisa como aquela. Já dirigiu

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julgamento de segunda-feira de manhã. As secretárias e OS computadores estavam à sua espera, no escritório. Darian respirou fundo e virou-se, a fim de verificar como Tom estava se virando com Luther. Winfield exibia a expressão teimosa e beligerante de uma crian- ça e, embora mal conhecesse Tom, Darian poderia dizer que ele estava começando a perder a paciência. Winfield continuava a falar alto e gesticular, a papada balançando e tremendo. Alguns convidados já começavam a apontar e murmurar comentários. Finalmente, com ar extremamente contrariado, Tom deu-lhe as costas e voltou para perto de Darian. — Como vai, Acker? — cumprimentou o conhecido. — E um prazer vê-lo de novo. Darian, eu sinto muito, mas Luther diz que vai embora agora, e exige o pagamento pela cadela. Está ameaçando tomar uma porção de atitudes estúpidas e, embora eu saiba que não será capaz de levar a maioria delas adiante, disse que vai ligar para a sua firma. Richard praguejou baixinho, enquanto Darian fechava os olhos,

aflita.

— Quanto? — Apesar de ninguém ter feito lance algum pela cachorra, ele diz que ela vale, no mínimo, oitocentos dólares. Se não for devolvida na hora marcada, ele perderá a dedução no imposto de renda. Richard voltou a praguejar, com intensidade bem maior, desta

vez.

— Oitocentos dólares por um cachorro? Furiosa, Darian abriu a bolsa, preencheu o cheque e estendeu-o a Tom. — Importa-se de cuidar disso para mim? Receio que, se me aproximar daquele sujeito ... — Deixe comigo — Richard interferiu. — Sou bom nessas coisas. Apanhou o cheque e afastou-se. Darian ergueu os olhos para Tom. — Bem, e quanto ao Hummie. Ele inclinou a cabeça por um momento. — Não vejo problema nenhum, desde que o tenhamos de volta. Dave Alexander fez o lance mais alto, e é um grande amigo meu. Tem três filhos e, provavelmente, será compreensivo. Mandei um empregado procurá-lo. Tenho de anunciar os lances mais altos, agora, mas voltarei assim que puder. Espere, aí vem Dave. Tom apresentou-os e, então, puxou o amigo por um momento. Assim que terminaram a breve conversa, Dave virou-se, fez um aceno de cabeça para Darian e partiu. — Ele vai mandar os filhos para casa, a fim de apanharem os cavalos — Tom informou-a. — Os meninos vão cavalgar ao longo das cercas. — Obrigada. Gostaria de fazer alguma coisa para ajudar, mas não sei bem o quê ... Ele a fitou com olhar de simpatia.

julgamento de segunda-feira de manhã. As secretárias e OS computadores estavam à sua espera, no escritório.

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— Pode ajudar muito não ficando nervosa. Vai dar tudo certo.

Darian assentiu sem muito entusiasmo. Apesar da gentileza de Tom, ela se sentia pior a cada minuto. Afinal, aquele era um evento social importante. O que Tom estaria pensando dela? De Jason? E o que Atwell Huntingdon diria, quando descobrisse? Ela teria de arranjar todo tipo de explicações embaraçosas e pedidos de desculpas. E quanto ao trabalho que ela e Richard deveriam estar fazendo? De repente, deu-se conta de que Tom falava, e que ela não estava prestando atenção.

...

Dave

vai levar você num dos jipes, enquanto termino por

aqui. — Tom pousou a mão no ombro de Darian, num gesto que quase

a levou às lágrimas. — Há um telefone no jipe. Se Jason aparecer por aqui, ligarei imediatamente. Naquele momento, Richard voltou. — Dee, já cuidei do assunto do cachorro — anunciou e lançou um olhar um tanto aflito para o relógio. — Ah, Richard, eu sinto muito. Sei que precisamos ir embora.

— Quero ficar e ajudar, mas

Tom olhou de um para o outro.

... — Vocês vieram juntos? Darian assentiu com ar infeliz. — Temos um julgamento na segunda-feira de manhã. Nossas secretárias estão à nossa espera no escritório. Deveríamos estar chegando lá, a esta hora. Tom já estava se afastando, mas olhou para Richard e falou:

— Por que não pega seu carro e vai embora? Terei prazer em

levar Darian e Jason de volta a Austin. Tenho certeza de que ela vai se sentir melhor, sabendo que você já voltou ao trabalho. — Está falando sério? Ora, isso seria ótimo — Richard concordou e voltando a olhar para Darian, deu de ombros, indicando que para ela seria mesmo a melhor solução. — É muita gentileza sua — Darian falou, sentindo-se ainda pior. Não só era uma mãe negligente, como também, agora, um de seus colegas teria de fazer o seu trabalho. Não consegue mesmo fazer nada certo, não é?

— Precisa de alguma coisa no carro? — Richard perguntou. — Não? Então, já vou. Estarei no escritório a noite toda. Portanto, sinta-se à vontade para aparecer a qualquer hora. — Não vou demorar — Darian afirmou com convicção. Assim que aquele problema estivesse resolvido, ela trataria de redobrar seus esforços no trabalho. Compensaria Richard e seu cliente. Durante as duas horas seguintes, Darian sacudiu no jipe de Dave Alexander, pelas terras do sítio Clearpool. De vez em quando, desligavam o motor e apuravam os ouvidos, à procura de algum sinal do Hummie. Um sentimento de desolação tomou conta de Darian, e Dave acabou desistindo de tentar animá-la com comentários tranqüilos. Às cinco e meia, o céu transformava-se num mistO de rosa e violeta, e um magnífico pôr-de-sol tomava conta da paisagem montanhosa de Cypress Creek Valley. Dave telefonou para o sítio, e a mulher que atendeu informou-o que nem Jason, nem a cachorra haviam aparecido. O leilão havia terminado, e logo dariam início ao baile. Como já quase não havia luz natural, Dave sugeriu que voltassem ao sítio, a fim de apanharem

— Pode ajudar muito não ficando nervosa. Vai dar tudo certo. Darian assentiu sem muito entusiasmo.

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lanternas. E, também, Darian precisava decidir se queria pedir ajuda da polícia, uma vez que estava ficando escuro e frio. Vinte minutos depois, entravam na cozinha, onde o delegado Joe Bob McAllister, Carl Thibodeux, Tony Royer e vários outros empregados de Tom encontravam-se sentados em volta da mesa, tomando café. Quando Darian entrou, um dos homens empurrou a cadeira, provocando um ruído que a fez estremecer. — Sente-se, Darian — Dave falou. — Vou lhe servir uma xícara de café. Onde está Tom? — Está a caminho — o delegado respondeu. — Só tinha de despedir-se de alguns convidados. A visão dos homens sentados confortavelmente em torno da mesa encheu Darian de indignação. Estava começando a perder a batalha contra o pânico de uma mãe pelo filho desaparecido. O sol baixara depressa e, embora a penumbra violeta ainda iluminasse o céu a oeste, algumas estrelas já brilhavam, e a lua também já podia ser vista. Darian estremeceu. Seu filho estava sozinho na escuridão, e ela queria todos os homens disponíveis lá fora, de quatro se necessário, à procura dele. Alguém abriu uma porta, e o som distante da música entrou, juntamente com risadas e conversas alegres. Quase cem pessoas haviam ficado para o baile, e os lados da tenda haviam sido erguidos.

Pela janela da cozinha, Darian podia ver o brilho amarelado e suave da luz, bem como os casais que dançavam. Por alguma razão, sentiu-se ainda mais desesperada. Detestou ver aquela gente alegre, dançando. Não via Jason há mais de seis horas. As lágrimas já formavam um nó em sua garganta, e ela sabia que não seria capaz de continuar a contê-las por muito tempo. Ele é apenas uma criança, e está sozinho em algum lugar, lá fora. Algo

terrível aconteceu a ele. E a culpa é minha. Naquele momento, a porta da cozinha se abriu, e Tom entrou. — Tom — foi tudo o que Darian conseguiu dizer, com voz estrangulada. — Estão todos aqui. Bom — ele falou com satisfação. — Diego já selou os cavalos. Tony, pegue o meu jipe e vá até Poolwood Story. Não creio que ele tenha ido tão longe, mas não custa nada dar uma olhada. Se esperar um minuto, Dominga está preparando garrafas térmicas com café. Tirou o chapéu, deixando à mostra os cabelos castanho- avermelhados, ligeiramente compridos na nuca. Então, encheu uma xícara de café. — Vou para oeste, pois é lá que estão a maioria dos leitos secos, e conheço a área melhor que todos aqui. Mike e Dave estão a caminho de Clearpool Source. Sabemos que ele não está na estrada, pois nin- guém atravessou a porteira dirigindo um Hummie. Certo, Rudy? Um homem magro, vestindo camisa xadrez e colete empertigou-

se.

— Não, senhor.

Fiquei

na porteira o

dia todo,

quelas máquinas passou por mim.

e nenhuma da-

lanternas. E, também, Darian precisava decidir se queria pedir ajuda da polícia, uma vez que estava

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Tom virou-se para Darian e sorriu, na tentativa de reassegurá-la, ao mesmo tempo em que afastava a jaqueta para exibir o telefone celular. — Veja. Estamos bem equipados. Darian tentou rir, mas o som que emitiu mais pareceu um soluço. — Também vou — falou. Tom fitou-a com ar cético. — Sabe cavalgar? — Claro. Bem, o cavalo faz o serviço, não faz? Em vez de responder imediatamente, Tom fitou-a nos olhos por um longo momento. Os homens trocaram olhares apreensivos e se levantaram com grande ruído. Joe Bob olhou para Tom e perguntou:

De quantos cavalos dispomos? Oito. Deixe Clyde para mim. Encontrarão tudo o que precisam no estábulo. — Virou-se para Darian. — Na verdade, cavalgar não é tão simples, especialmente no campo. E, esta noite, temos lua minguante e, conseqüentemente, pouca iluminação. Tem que saber muito bem o que está fazendo, para manter-se sobre um cavalo, Darian. — Mas não posso ficar aqui, sentada, esperando. Preciso fazer alguma coisa — ela argumentou, sabendo que soava patética, mas não se importando com isso. — Está bem — Tom concordou, depois de estudá-la por alguns instantes — Acho que podemos dar um jeito. Dez minutos depois, Darian encaminhava-se para o estábulo, vestindo uma calça jeans de Daphne Steinbuck, presa por um cinto de Tom. Ele também lhe emprestara um casaco, que emanava um odor másculo que Darian sentira nele antes. Todos os outros já haviam partido, encontraram apenas Rudy, esperando na porta, segurando os arreios de dois cavalos: uma égua não muito grande, toda preta, exibindo apenas uma mancha branca arredondada no focinho; o outro era o maior e mais feio cavalo que Darian já vira. — Este é Clyde — Tom informou-a. — E um percherão. — Hum — foi tudo o que Darian conseguiu dizer, sem o menor entusiasmo. O animal era enorme e musculoso, com longos pêlos cinza, e a crina quase prateada, caindo-lhe sobre os olhos. Lembrava um velho ranzinza e sonolento, vestindo pijama grande demais, e uma peruca de má qualidade. Não parecia nem um pouco amigável. — Veja o tamanho dos cascos dele — Tom falou. — E assim que se pode realmente avaliar o quanto ele é puro-sangue. Afinal, é um cavalo de tração. Os cascos eram mesmo do tamanho de pratos, quase totalmente cobertos por pêlos brancos e longos. — Está pronta? — Tom perguntou com um sorriso. — Sim. — Está com sua lanterna, Rudy? Ótimo. Conhece o pasto a leste e o bosque das nozes? Por que não vai naquela direção. Se não encontrar nada, ligue para mim, e venha nos ajudar.

Tom virou-se para Darian e sorriu, na tentativa de reassegurá-la, ao mesmo tempo em que afastava

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O homenzinho assentiu e montou a égua negra sem tocar nos arreios, ou na sela. Então, virou-a e desapareceu na escuridão a galope. Clyde olhou em volta e suspirou. — Venha para este lado — Tom instruiu Darian. — Montarei primeiro. Assim, está vendo? Ponha seu pé esquerdo aqui e dê um impulso com o corpo. Ao vê-lo montar com facilidade, Darian ergueu a cabeça. — É muito alto. Não sei se minha perna vai alcançar. — Vai sim. Dê-me sua mão e monte atrás de mim. O animal permaneceu imóvel, enquanto Tom ajudava Darian a montar. Assim que ela firmou o pé no estribo, ele a puxou para cima. Clyde resfolegou e abanou o rabo com violência. Darian não chegava perto de um cavalo desde os tempos dos acampamentos de férias, vinte anos antes. E não se lembrava de ter conhecido um tão grande ou feroz quanto Clyde. — Passe os braços em torno da minha cintura — Tom instruiu-a —, até você se acostumar com o movimento. Se conseguir relaxar o corpo, não vai sacudir na sela. A jaqueta de Tom estava desabotoada e, com as mãos na cintura dele, Darian sentia os movimentos dos músculos fortes, em perfeita sincronia com o ritmo do animal. Passaram pela tenda, e o som da música romântica e das pes- soas alegres lá dentro, seguiu-os pela escuridão. Pela primeira vez desde o desaparecimento de Jason, Darian perdeu o controle e deixou uma lágrima cair. Tentou esconder que chorava, mas Tom pousou a mão sobre a dela e assegurou-lhe:

— Vai ficar tudo bem. Não se preocupe. Momentos depois, deixaram o sítio para trás, mas ainda era possível ver a luz. Darian sentiu-se reconfortada, pois Jason também veria a claridade com facilidade. Os cascos enormes de Clyde estalavam sobre os pedregulhos e, quando Tom o incitou a galopar em campo aberto, o som tornou-se mais rápido e abafado. — Se Jason veio nesta direção, não demoraremos a encontrá-lo. O terreno é plano, com exceção de uns poucos riachos secos. Veja, uma coruja. Acima de suas cabeças, o pássaro noturno acompanhou-os com curiosidade por alguns momentos. Então, mudou de direção e desapareceu. — Existem muitos animais por aqui? — Darian perguntou. Mais uma vez, Tom apertou-lhe a mão. — Bem, temos veados, gambás, guaxinins, tatus, raposas, e alguns coiotes, além de muitos coelhos, mas nada que ofereça perigo. Os ursos e lobos desapareceram há muito tempo. — E cobras? Tom não respondeu, mas Darian sentiu os músculos de suas costas tensionarem e, no mesmo instante, Clyde acelerou o galope, comprimindo-a de encontro às costas de Tom. Ela teve de segurar-se com mais força. Importa-se se eu fizer uma pergunta pessoal? — Tom perguntou de repente.

O homenzinho assentiu e montou a égua negra sem tocar nos arreios, ou na sela. Então,

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— Claro que não. Ele hesitou. — Onde está o pai de Jason? — Joel? Em Seattle, eu acho — Darian respondeu. — Não tenho certeza, pois não recebemos notícias dele há anos. Joel abriu mão de

todos os direitos paternos, quando Jason tinha quatro anos, pois não queria pagar a pensão. — Sentiu-se contente por não ver o rosto de Tom. Detestava a expressão das pessoas, quando ouviam falar de Joel. — Ele era, ou melhor, é cantor de música country. Casei com ele quando estava no primeiro ano da faculdade, era muito jovem e ingênua. Naquela época, achava que era amor de verdade.

— Ele não queria

uma família?

... — Nas palavras dele, "esse negócio de família estava estrangulando sua criatividade". Viajou numa excursão, num mês de dezembro, e nunca mais voltou. Tom proferiu um palavrão. — Desculpe. Foi grosseria minha. — Foi, mas meus sentimentos são os mesmos. Não ligo por mim,

mas é muito difícil para Jason. E culpo Joel por isso. Jason é um bom garoto, muito inteligente, mas precisa de um pai. Precisa da figura

dele. Acho que está se sentindo

abandonado.

... — Sei que existem muitas pessoas que abandonam seus filhos — Tom comentou com evidente desagrado —, mas não consigo entender. Como alguém pode ter um filho, uma família, e simplesmente ir embora? — Ficaria surpreso se soubesse com que facilidade as pessoas fazem isso — Darian replicou. Continuaram galopando na escuridão, e o vento agitava os cabelos de Darian e fazia seus olhos arderem. Ela se sentiu feliz por ter o corpo de Tom a proteger o seu do vento frio. Não se sentia segura sobre o cavalo, e mantinha os braços firmes em torno da cintura dele. Ele cantarolava baixinho, e Darian mais sentia que ouvia a vibração sob seus dedos. Era estranho tocar alguém com tamanha intimidade. Quantos anos fazia que não abraçava um homem, por qualquer razão? Nossa, pensou, fazia oito anos. Nem vira o tempo passar. Os contornos do campo começaram a elevar-se ao redor deles. Cavalgaram por mais meia hora e, então, Tom parou o cavalo e retirou algo da sela. Em seguida, um facho de luz cortou a escuridão à sua frente. Darian não vira a lanterna antes. — Ele deve ter vindo por aqui, mas não sou especialista em rastros, portanto, não sei dizer há quanto tempo essas marcas estão aí, nem que tipo de pneu as fez. Droga — Tom resmungou. Suspirou, iluminou as árvores adiante e incitou o cavalo a rei- niciar Uma cavalgada lenta. Permaneceram em silêncio por algum tempo, enquanto Darian sentia o nó na garganta aumentar, pois cenas de pesadelo formavam-se em sua mente, com detalhes agonizantes:

relatórios de pessoas desaparecidas, fotografias em caixas de leite, o silêncio ensurdecedor de um quarto de criança vazio. Tom pôs-se de pé nos estribos, apontou a lanterna para um lado e para o outro. Então, com um suspiro desapontado, voltou a sentar-se.

— Claro que não. Ele hesitou. — Onde está o pai de Jason? — Joel? Em

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— Darian, sente-se segura o bastante para se segurar a mim com apenas uma das mãos e, com a outra, segurar a lanterna. Tenho medo de não vermos algum sinal. — Claro. Só não aumente a velocidade sem me avisar antes. Darian sabia que o tremor em sua voz indicava seu estado emocional, mas se Tom percebeu isso, não comentou. Durante as quatro horas seguintes, varreram cuidadosamente cada riacho seco e grupo de árvores. Nenhuma vez Tom queixou-se, ou usou qualquer palavra dura para referir-se a Jason. Hora após hora, Clyde seguia adiante, os cascos castigando o solo com seu ruído surdo e ritmado. Pararam três vezes para descansar e, a cada vez, Darian encontrava maior dificuldade em voltar a montar. Finalmente, pouco antes de meia-noite, chegaram ao ponto mais afastado de Clearpool Ranch, a quase vinte quilômetros da casa. — Acha que devemos chamá-lo mais vezes? — Darian perguntou. — Não faria mal algum. Quer que eu o chame, desta vez?

— Por favor. A voz de Tom soaria mais alta, e não tão rouca como a dela havia se tornado. Darian sentiu o peito largo expandir-se, quando ele respirou fundo. Porém, antes que qualquer som fosse emitido, Tom puxou as rédeas. Darian foi atirada para a frente, atingindo-o nas contas com violência. — O que foi? Tom?

— Eu

não estou bem certo.

... Apontou a lanterna para um pequeno grupo de cedros e, a principio, Darian não pôde distinguir o que lhe chamara a atenção. Então, viu os troncos descascados e os galhos quebrados. Algo passara com velocidade por entre as árvores, atingindo-as no tronco. A seiva pegajosa pingava lentamente dos cortes claros e recentes. Clyde emitiu um som estranho, e partiu num trote rápido. A ravina era invisível, até que se alcançasse sua entrada. Ali, havia mais galhos quebrados e, logo abaixo, a água do riacho que tinha transbordado subitamente, banhara as rochas ao redor. Mais ao fundo, caído de lado, estava o Hummie. Um dos faróis encontrava-se quebrado, e o pára-choque havia se partido. O sangue começou a rugir nos ouvidos de Darian. Ela sabia que Tom estava falando, mas não conseguia distinguir as palavras. Alguém gritava o nome de seu filho e, por um momento, Darian teve uma vaga noção de não estar mais sobre o cavalo, mas sim embaixo dele, fitando o ventre coberto de pêlos. Também se deu conta do casco imenso descendo na direção de suas costelas, e punindo no ar, com um toque de delicadeza, bem acima dela. Então, tudo girou, e ela viu árvores e rochas passando em alta velocidade, no mesmo tempo que um facho de luz desgovernado girava ao redor, antes de apagar-se. — Jason — ela soluçou. — Onde você está? Filhinho, por favor me responda. Está me ouvindo? É a mamãe. No fundo da ravina, Darian tateava a lataria fria e amassada, assim como o estofamento molhado, em busca do filho, soluçando seu nome.

— Darian, sente-se segura o bastante para se segurar a mim com apenas uma das mãos

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Então, Tom estava atrás dela, passando um braço em torno de sua cintura, enquanto o outro envolvia-lhe os ombros.

aqui.

...

não

aqui. Darian, ouça o que estou dizendo. Jason não está

O coração de Darian batia com tanta força, que seu peito chegava a doer. — O quê? Solte-me! O que disse? — Olhe em volta. Viu? Jason se foi. A cachorra também. Devem ter continuado a pé. A luz fraca da lua minguante e das estrelas tingia tudo à sua volta de prata. Mesmo assim, Tom tinha razão. Agora, ela podia ver. Como ele dissera, estavam sozinhos ali. Ergueu os olhos e descobriu que Tom havia perdido o chapéu, e que seus cabelos caíam desalinhados sobre a testa. Por um momento, tudo o que conseguiu ver foi o rosto prateado à sua frente. E tudo o que pôde ouvir, foi o chiado baixo da própria respiração. Então, um som cortou o silêncio da noite. Darian quase explodiu numa crise de gargalhadas histéricas. Um telefone tocava.

CAPÍTULO III

Os dois ficaram petrificados por um breve instante. Tom foi o primeiro a recuperar-se, e tirou o telefone da jaqueta depressa.

— Alô. Sim, no mínimo, meia hora. Estamos na fronteira a norte, na ravina. Verdade? Graças a Deus. Quando? Onde estava ... — Eles o encontraram? — Darian inquiriu. — Ele está ...

— A Sra. Conroy quer falar com o filho

Ah, certo, direi a ela.

... Pode mandar Rudy para cá com o reboque? Obrigado. — Tom desligou. — Jason está bem. Encontraram-no escondido no estábulo. Não pôde falar com você porque estava lá fora com o delegado. Algo sobre a cachorra, me parece. Darian sentiu o sangue aquecê-la, numa onda quente de emoção. Jason está bem. Encontraram-no escondido no estábulo. Quase gritou um agradecimento aos céus. Tivera tanto medo de que ele houvesse morrido. Por um momento medonho, chegara a ver o corpo do filho debaixo do Hummie tombado. Então, as palavras de Tom registraram-se por completo. — Escondido? Disse que ele estava escondido? — No estábulo — Tom repetiu. Embora os olhos de Darian estivessem se ajustando à escuridão, ainda não conseguia distinguir a expressão no rosto de Tom. Sentiu-se parcialmente satisfeita, pois concluiu que ele também não poderia ver a sua. — A égua atirou Rudy na estrada, e ele teve de voltar a pé, para apanhá-la. Encontrou Jason em uma das baias, com a cachorrinha. Aparentemente, estava lá há algumas horas.

Então, Tom estava atrás dela, passando um braço em torno de sua cintura, enquanto o outro

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— Quando o encontraram? — Por volta das onze. — O quê? Há mais de uma hora? Por que ninguém ... — Ninguém na casa tinha o número deste telefone. Tiveram de

esperar até Dave voltar. À medida que as palavras de Tom iam fazendo mais e mais sentido, a alegria de Darian começou a dissipar-se. Ela pensou nas horas que passara aterrorizada. Escondido no estábulo. Pensou nos homens que haviam passado horas procurando por Jason, na cachorrinha de oitocentos dólares, e no Hummie semidestruído. Escondido no estábulo.

Darian queria muito raciocinar com calma, ser razoável, e reagir de maneira sensata àquela situação. Queria torcer o pescoço de Jason. — Posso usar o telefone, por favor? Quero falar com meu filho. O telefone pareceu adquirir vida, quando Tom o abriu. Ele lhe estendeu o aparelho, os botões iluminados emprestando um pouco de seu brilho esverdeado à paisagem cinza e negra. — Basta apertar o "talk" — Tom explicou. — O número é cinco- cinco-cinco, vinte-vinte. Tenho certeza de que alguém vai ficar satisfeito em poder sair e levá-lo para dentro. As mãos de Darian tremiam, e ela não conseguia discar o nú- mero correto. Depois de duas tentativas frustradas, seguidas de palavras que ela raramente pronunciava em voz alta, Darian respirou fundo e desligou. Suas emoções ainda comandavam seus atos, e ela se deu conta de que precisava de tempo para pensar. Jason estava bem. Darian

curvou os lábios num sorriso maligno. Ele está lá fora, com o delegado. Certamente, Jason estava desfrutando de uma agradável conversinha com o delegado. — Na verdade, acho melhor esperar alguns minutos — falou,

devolvendo o telefone para Tom.

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Teve quase certeza de ter visto a sombra de um sorriso nos

lábios dele. E ouviu com clareza quando ele murmurou:

— Muito bom. — Então, ele se virou e começou a subir o bar- ranco. — Espere aqui, enquanto tento encontrar a lanterna. — Pouco depois, Tom voltou, iluminando o caminho. — Pode segurar isto, enquanto tento virar o Hummie?

— Ah, claro. Ah, meu Deus

...

Que estrago! Foi muito grande?

Tom deu de ombros. — Não sei. O eixo não parece quebrado. — Colocou o veículo na posição correta e virou a chave no contato. O motor tossiu uma vez e, então, começou a funcionar. Apesar de tudo, Darian sentiu os ânimos elevarem-se. — Incrível! — exclamou. — Quem diria! Talvez uma nova pintura e um farol resolvam o problema. — Tom estendeu o braço e desligou o motor. — Há um caminho fácil para o Hummie, mas vou deixar isso para um dos homens fazer pela manhã. — Tomou a lanterna de Darian e apontou a

— Quando o encontraram? — Por volta das onze. — O quê? Há mais de uma

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para cima. — Rudy deve chegar em uns vinte minutos. Acha que consegue subir? Darian olhou para o barranco íngreme. Parecia quase vertical.

— Meu Deus! Como foi que eu

...

Você me viu

...

Tom riu. — Não me pergunte. Tudo o que sei é que, num instante, você estava atrás de mim, na garupa de Clyde. No momento seguinte, estava voando por cima da beira do barranco, como o Homem-Aranha. — Nem sequer me lembro de ter descido. — Na verdade, você não desceu. Saltou. — É um milagre eu não ter nenhuma fratura. Tom subiu parte do barranco e estendeu a mão para Darian. — Vai sentir os efeitos amanhã — advertiu-a. Ela respirou fundo. — Acho que já estou começando a sentir. Aceitou a mão estendida e, minutos depois, os dois estavam no topo, parados ao lado de Clyde, que esperava com ar de paciência e tédio, exatamente onde Tom o deixara. —Você não o amarrou — Darian notou, vendo as rédeas soltas. Por que ele não voltou para casa? Tom afagou o animal com afeição. A maioria dos cavalos teria feito isso, menos este. É um bom garoto, não é, Clyde? Não voltaria para casa e deixaria seu velho dono aqui, para voltar a pé, voltaria? — O cavalo reagiu com um suspiro entediado e virou a cabeça para o outro lado. Tom olhou para Darian. — Ele é louco por mim. Darian riu. — Ah, sim, estou vendo! — Meu bom e velho Clyde — Tom murmurou, afagando o animal mais uma vez. — Sabe de uma coisa? — Darian falou pensativa. — Quando saltei da sela, caí debaixo dele, e acho que me lembro de um casco descendo sobre mim ... — Mas ele parou? — Sim. Ao menos, tenho uma imagem disso gravada na mente. — Tive a impressão de senti-lo hesitar. É um bom animal. — Tom ... — Sim? — Quero que saiba que estou muito grata por tudo o que você e seus amigos fizeram por mim, hoje. Não sei o que teria feito ... — Pode parar por aí — ele a interrompeu. — Fico feliz, todos ficamos felizes em ajudar. Sei que não há nada que eu possa dizer para fazer você se sentir melhor, mas acredite que eu e todos os outros tivemos prazer em fazer o que fizemos. Como já disse, esses acontecimentos sociais quase me matam de tédio. Fiquei mais que satisfeito pela chance de desaparecer. Darian suspirou. — Obrigada por dizer isso. Agora que sabia que Jason estava são e salvo, suas outras preocupações ameaçavam sufocá-la. Quanto custaria para consertar o Hummie? O que ia fazer com a cachorrinha? O que os sócios da firma diriam? Suspirou de novo. E quanto a Richard e o trabalho, que ela deveria estar fazendo naquele exato momento?

para cima. — Rudy deve chegar em uns vinte minutos. Acha que consegue subir? Darian olhou

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Após algum tempo parada na clareira, à espera de Rudy, Darian começou a tomar consciência de dores que estivera nervosa demais para perceber antes. Os músculos da parte interna das coxas pareciam em brasa, e seus braços doíam pelo esforço de segurar-se a Tom, durante tantas horas. As palmas das mãos encontravam-se esfoladas, por sua descida na ravina, e ela sentia as pontadas de grãos de areia nos cortes minúsculos. E, também, havia uma dor aguda na coluna, e a impressão de algo fora do lugar em um dos ombros. Pressionou as

mãos por trás dos quadris, e girou o corpo para um lado e para o outro. — Dolorida? — Tom perguntou. — Inteirinha. — Tenho uma banheira de água quente, em casa, mas acho que faria mais mal que bem. Darian suspirou. — Estou tão exausta, que provavelmente me afogaria.

— Estive pensando

...

Tom

falou

devagar.

Sei

que

planejamos voltar para Austin ainda esta noite, mas você e Jason poderiam passar a noite aqui. Temos, pelo menos, seis quartos disponíveis. — Obrigada. É uma idéia para se pensar. Darian afagou Clyde distraída. Talvez Tom tivesse razão. Já seria quase uma hora, quando chegassem de volta ao sítio. Então ela teria

de lidar com o problema de Jason e do delegado, agradecer a todos

que haviam ajudado na busca

e Tom. Ele também devia estar

... exausto. Não seria nada gentil esperar que ele, ou qualquer um dos outros, dirigisse até Austin para levá-la e, então, refazer o caminho de volta a Wimberley. — Na verdade, acho que vou aceitar seu convite. Passaremos a noite aqui. — Ótimo — Tom falou. — Muito bom. Darian teve a impressão de que ele soara mais que satisfeito. Por um momento, perguntou-se se tal reação devia-se ao simples fato de não ter de enfrentar a viagem cansativa, ou se haveria algum outro motivo. Antes que tivesse tempo de refletir sobre a questão, ouviu o

ruído de um motor. — Aí vem Rudy — Tom anunciou. — Levaremos um minuto para colocar Clyde no reboque e, então, voltaremos para casa. Voltaram em menos de meia hora. O delegado McAllister estava sentado em seu carro, falando no rádio. Quando os viu, pôs-se de pé e fechou a porta. — Sra. Conroy — cumprimentou-a. — Seu filho está na casa, com Dominga. Ela lhe deu um banho e preparou um sanduíche. Virou-se

para Tom. — Quer que eu registre o que aconteceu

...

dar queixa, ou

algo assim? Darian notou uma sombra de irritação no semblante de Tom. — Não será necessário, Joe Bob. A Sra. Conroy cuidará de tudo. A expressão de reprovação ficou evidente no rosto do delegado. — Você é quem sabe — ele resmungou. — Vou embora, então. Conversaremos amanhã. — Acenou com a cabeça na direção de Darian, sem realmente fitá-la. — Sra. Conroy.

Após algum tempo parada na clareira, à espera de Rudy, Darian começou a tomar consciência de

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— Obrigada pela ajuda, delegado — ela falou com voz cansada. — Obrigada por tudo. Há alguma coisa que eu precise ... — Nada, senhora. Boa noite para vocês. Tom. Quando entraram na cozinha, a primeira pessoa que Darian viu foi Dominga Villareal, a governanta de Tom. Ele as apresentara muito antes. A mulher de meia-idade estava parada junto da pia, lavando pratos, enquanto seis ou sete homens tomavam café, sentados em volta da mesa. A conversa morreu no momento em que avistaram Darian e, quando ergueu os olhos para a porta, Dominga virou-se devagar para Jason e cobriu os lábios com a mão. Ele estava sentado à cabeceira da mesa, parecendo pequeno e pálido, com os cabelos molhados, penteados de maneira estranha. Um sanduíche enorme, comido pela metade, encontra-se no prato à sua frente, e um copo de leite, também pela metade, logo adiante. Estivera balançando as pernas, mas parara imediatamente ao ver a mãe. Apesar do cansaço, no momento em que pôs os olhos no filho, Darian sentiu a raiva voltar com força total, trazendo consigo a ameaça das lágrimas contidas. Recorrendo a todo o controle que acumulara naqueles anos de tribunal, virou-se para Tom. A expressão dele era inescrutável. — Há algum lugar onde Jason e eu possamos conversar em particular? — perguntou. Embora estivesse de costas para o filho, o ruído de uma cadeira arrastando no chão indicou-lhe que Jason pusera-se de pé para segui- la.

Tom assentiu e levou-os por um longo corredor, até uma porta aberta. O quarto era decorado com tapetes mexicanos e mobília de pinho. As cortinas claras encontravam-se abertas, revelando janelas altas. Uma porta levava a um banheiro particular. Tom ficou parado na porta por um instante e, então, sacudiu a cabeça como se decidisse não dizer o que havia planejado. — Vou deixar vocês dois a sós. — Obrigada — Darian murmurou e virou-se para encarar o filho.

Tom fechou a porta atrás de si e, à medida que se afastava pelo

corredor, tentou imaginar o que Darian diria

e faria. Sabia o que sua

... mãe teria feito. Aquela altura, ele estaria apoiado na cama, conhecendo de perto as qualidades de um ramo de salgueiro, enquanto por entre lágrimas e exclamações irlandesas, sua mãe invocava todos os santos para testemunhar a maldade do filho, sua crueldade, o sofrimento não merecido enfrentado por ela. Tom sorriu. As pessoas agiam de maneira diferente, hoje em dia. Especialmente, gente como Darian Conroy. Uma mulher muito interessante, pensou. Desde o momento em que a vira entrar na tenda, bonita, com ar profissional, com os cabelos loiros ondulando em torno dos ombros, ela lhe parecera especial. Apesar das ridículas botas verdes. Não se surpreendera ao saber que ela trabalhava para a Sternwell e Haig, embora jamais a houvesse visto em suas visitas à firma. Bem, ela atuava no departamento de julgamentos, não de petróleo. Tom voltou a sorrir. Darian era uma típica advogada de

— Obrigada pela ajuda, delegado — ela falou com voz cansada. — Obrigada por tudo. Há

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tribunal: determinada, destemida, capaz de qualquer esforço para manter escondidas suas emoções. E que cérebro ela tinha!

Por outro lado, não pareceu nem um pouco impressionada com

você.

Mais uma vez, Tom sorriu consigo mesmo. Não era comum ele não ser capaz de despertar o interesse de uma mulher. Especialmente

quando se esforçava com tanto afinco, como fizera com ela. Mas isso acontecera porque ela estivera preocupada demais com o filho, disse a si mesmo.

Ah! Não adianta jogar a culpa nos outros. Muito antes disso, enquanto estavam juntos, conhecendo a casa, ela também não de- monstrou o menor interesse. Darian tem sua própria vida, um filho, uma carreira e, acredite ou não, simplesmente não ficou atordoada quando o viu, velho camarada.

Tom franziu o cenho. Talvez fosse mesmo verdade. Pelo que ela havia lhe contado, sua vida era cheia e atribulada, com o trabalho na firma, e mais o serviço voluntariado na ajuda a mulheres indigentes. E o filho. E quanto àquele garoto? Havia algo muito estranho acontecendo ali. Tom tinha plena confiança em sua capacidade de julgamento do caráter. Já avaliara muita gente: homens, mulheres e crianças, e Jason

Conroy não era um menininho mimado, nem um punk em miniatura, que fazia o que fizera, só pelo prazer de ser rebelde. Parecia um garoto sério, inteligente, e sem o menor sinal de medo. Mesmo quando Tom e Darian haviam entrado na cozinha, ele fitara a mãe nos olhos, contente por vê-la. Nada de abaixar a cabeça, ou desculpas bobas, nem ataques histéricos. Ele simplesmente se levantara e a seguira. Tom parou por um momento e olhou para trás, na direção do quarto que acabara de deixar. Perguntou-se se deveria aproximar Darian do filho, mas concluiu que seria melhor não interferir. Assim, abriu a porta à sua esquerda, acendeu a lareira e arrumou a cama. Lembrou-se de que Darian não teria roupa de dormir. Ao abrir a gaveta, a primeira coisa que viu foi uma de suas velhas camisetas, impecavelmente dobrada, perfumada pelo que quer que Dominga usasse na lavagem da roupa. Apanhou a camiseta e sorriu. A idéia de Darian dormir com uma de suas camisetas o agradava. Imaginou como seriam as pernas dela. Certamente, longas, pois mesmo sem as botas, ela linha por volta de um metro e setenta.

No que está pensando, seu cachorro? Ela passou horas aterro- rizada de preocupação pelo filho, e você, aqui, pensando nas pernas

dela? Deixou a camiseta sobre a cama, saiu e fechou a porta. Quando Tom entrou na cozinha, os homens sorriram e se acotovelaram. — Aposto que alguém vai precisar de uma almofada para se sentar, durante alguns dias — Arnold Eudman falou com uma risada. — Ah, a surra que minha mãe me daria! — Rudy exclamou, batendo as duas mãos nas nádegas. Todos caíram na gargalhada e puseram-se e relembrar as es- capadas da própria infância, e as conseqüentes surras.

tribunal: determinada, destemida, capaz de qualquer esforço para manter escondidas suas emoções. E que cérebro ela

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— O que acha, Thomas? — Dominga perguntou. — Ela vai surrar o menino? — Não sei — Tom respondeu, dando de ombros. Então, sorriu para a governanta. — Mas eu acho que não. O clima era de satisfação, como aquele que costumava marcar o final de uma caçada bem-sucedida. Tom sentou-se e esticou as pernas, saboreando uma xícara de café forte e fumegante. Algum tempo depois, alguém sugeriu que fizessem um brinde, e ele abriu uma garrafa de um bom uísque de Kentucky. Todos ficaram de pé, e brindaram ao sucesso. Outras caçadas não terminavam tão bem:

algumas no pronto-socorro, outras na delegacia, ou coisa pior. Durante a meia hora seguinte, Tom divertiu-se na companhia dos amigos e vizinhos, até que, um a um, eles se levantaram, apertaram as mãos e foram para suas casas. Tom saiu e observou cada automóvel com seus faróis acesos, sacudindo pela estrada de terra. Como Do- minga já fora dormir, pôs as xícaras na pia, juntamente com os copos de uísque vazios. Então, ficou esperando por Darian. Quando ela apareceu, havia lavado o rosto, escovado e prendido os cabelos. Estava pálida e tinha sombras escuras sob os olhos, mas Tom voltou a ficar fascinado por sua beleza natural, sua fibra, sua graça.

Darian olhou em volta. — Já foram todos embora? Nem tive a chance de ... — Não se preocupe com isso — Tom interrompeu-a. — Há tempo de sobra para agradecimentos. Quer um café? — Prefiro uma dose daquele uísque. Ele sorriu. — Boa idéia. Vou beber com você. — A segunda dose do líquido dourado aqueceu a garganta de Tom. — Isto é mesmo muito bom. — Tem razão — Darian concordou e colocou o copo na mesa. —

Tom, sei que já disse isso, mas não tenho palavras para expressar o quanto sou grata pelo que fez. — Tente — ele falou, com um largo sorriso. Ela tentou rir, mas o sorriso não alcançou seus olhos. — Estou falando sério. Você foi maravilhoso. Seus amigos, o delegado, todos. E a festa, espero não ter ... — Ora, chega! Já lhe disse que detesto essas coisas. Limito-me a dispor o espaço e a cumprimentar alguns convidados. Outras pessoas cuidam do trabalho propriamente dito. O acontecimento de hoje me deu algo interessante para fazer, enquanto aquela gente rica e tediosa trocava elogios falsos e fingia generosidade. Desta vez, Darian sorriu com os lábios e com os olhos. — Como está Jason? Ela baixou os olhos. — Bem, eu acho. Está preocupado com a cachorrinha. — O que houve com ela?

— Quando

— a voz de Darian pareceu presa na garganta, e

... Tom deu-se conta de que, mais uma vez, ela lutava contra as lágrimas.

— Quando percebeu que não conseguiria parar o Hummie antes da ravina, Jason atirou-a, antes de saltar ele mesmo. Agora, parece que há algo errado com uma das patinhas dela.

— O que acha, Thomas? — Dominga perguntou. — Ela vai surrar o menino? — Não

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— Não sei o que pretende fazer com ela, mas terei prazer em levá-la ao veterinário, amanhã. Darian sorriu. — Obrigada. Tom foi invadido pelo impulso de tomá-la nos braços. Se havia uma mulher que precisava ser abraçada, era Darian. Porém, algum instinto lhe disse para controlar-se. Não queria que ela o interpretasse mal. Serviu-se de café. — Vai mudar de idéia? — Sim, obrigada. — Darian aceitou a xícara de café. — Jason ... disse que quer conversar com você pela manhã. Queria que fosse ainda hoje, mas, depois do banho, mal conseguia manter os olhos abertos. — Terei prazer em conversar com ele. — Sabe o que ele disse? Que não pretendia roubá-la, mas apenas salvá-la. — Do quê? — Do Sr. Winfield, de ser um cão de caça e, depois, uma reprodutora de canil. — Bem, para falar a verdade, isso não me surpreende. Luther Winfield não passa de um velho gordo e extremamente desagradável. A única razão pela qual participa de eventos de caridade é a dedução que consegue no imposto de renda. Como Darian mantinha os olhos fixos no café, Tom não pôde verificar se suas palavras faziam alguma diferença para ela. — Quanto ao Hummie ... — Darian — ele a interrompeu —, estive pensando sobre isso e gostaria de lhe fazer uma proposta. Quando ela ergueu os olhos para fitá-lo, Tom foi atacado por uma súbita insegurança, como se estivesse prestes a dar um mergulho de um trampolim alto demais. Darian encarou-o com firmeza, com seus grandes olhos castanhos, circundados por cílios longos e espessos, ainda mais fascinantes pela ausência de maquiagem. — Sim?

Que mulher mais linda!

— Gostaria que Jason trabalhasse para ganhar o valor necessário

para consertar o Hummie. Ela arregalou os olhos.

— Aqui? Fazendo o quê? — Há muito trabalho por aqui: limpar as baias, secar o feno, polir os arreios, alimentar e cuidar das galinhas e porcos. Isso, para não falar dos gramados. São necessários dois cortadores de grama, só para manter os arredores da casa em ordem ...

— Obrigada ...

obrigada pela oferta, mas não sei

... — Se o problema for transporte, alguém do sítio vai a Austin todos os dias. Posso providenciar para que Jason seja apanhado na sexta-feira, e levado de volta para casa no domingo à noite. E ele será muito bem supervisionado. Dominga está sempre na casa, e seu marido e filhos também moram no sítio. Quando terminar o trabalho, Jason terá a companhia de garotos da sua idade.

— Não sei o que pretende fazer com ela, mas terei prazer em levá-la ao veterinário,

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— A idéia é interessante, mas não acha que parece mais uma recompensa do que uma punição? Afinal, brincar com galinhas, dirigir

tratores pelo campo ... — Tem razão, ele pode se divertir um bocado, mas o trabalho é duro, e ele receberá um pagamento por isso. Assim, poderá pagar, de maneira honesta, pelo que fez. E se aprender a gostar da terra, e ganhar alguma experiência no processo, um tanto melhor, não acha? Não sou nenhum psiquiatra, mas sei que um garoto precisa compreender que há sempre alguma coisa que ele possa fazer, a fim

de compensar seus

erros.

... Tinha de fazê-la entender a importância daquilo. Não queria trazer à tona velhas histórias, mas o faria se necessário. Darian desviou o olhar, e Tom percebeu que ela estava refletindo sobre sua proposta.

Diga sim. Por favor, diga sim. Posso ver que é exatamente o que você quer.

E, claro, você seria bem-vinda para passar todo o tempo que quiser por aqui. Ela revirou os olhos.

— Não faz idéia do quanto eu adoraria. E tão bonito aqui, mas tenho compromissos ... — Tem medo que isso o atrapalhe na escola? — Ah, não. Não é isso. Jason é inteligentíssimo. O único problema é mantê-lo interessado na escola. Essa é a única razão pela qual o matriculei em Fullingham. — Acha que ele se interessaria? Darian levou o polegar à boca, como se fosse roer as unhas. Então, pareceu lembrar-se de quem era, e cruzou os braços. — Não estou bem certa. Ele nunca fez algo parecido, antes. Há poucos dias, eu teria dito não, pois ele costumava participar de extra-

escolares, nos fins de semana. Mas, por enquanto

— Ergueu os olhos

... e Tom percebeu a dor que as palavras seguintes lhe causavam. — Jason está suspenso de todas as atividades extracurriculares. — Ah, isso é péssimo. Dorian calou-se, e era evidente que pensava em outras coisas, além da proposta de Tom. Seus olhos encheram-se de lágrimas, e ela engoliu seco. Tudo nela, a tensão nos ombros, o modo como apertava os lábios, tudo indicava a batalha dura que travava para manter a compostura. — Tenho me esforçado ao máximo — ela voltou a falar com voz embargada —, para fazer o melhor por Jason. Neste exato momento, acho a sua sugestão perfeita, mas não sei se estou raciocinando com clareza e objetividade. Jason é o que existe de mais importante em minha vida, mas, ultimamente, parece que estou fazendo tudo errado. Acho que você pode imaginar como uma mãe, especialmente uma mãe sozinha, se sente com relação ao seu único filho. Tom sentiu a dor aguda da ferida aberta muitos anos antes. Já estava tão habituado a ela, que mal se dava conta de sua presença. — Sim. Posso imaginar. Darian pôs a xícara na mesa, fechou os olhos e esfregou-os. Quando falou, sua voz soou rouca de emoção.

— A idéia é interessante, mas não acha que parece mais uma recompensa do que uma

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— Quando o pus na cama, agora há pouco, ele adormeceu

imediatamente. Estava tão cansado

É engraçado como as menores

... coisas nos perturbam tanto. Ele dorme de barriga para baixo, e com a mão no travesseiro, bem perto do rosto ... Uma mecha de cabelos de Darian havia se soltado. Tom queria estender a mão e afastá-la daquele rosto suave, ou melhor, precisava tocá-la. Deu-se conta de que ardia de desejo. Não se tratava de um ardor

sexual, mas de algo muito diferente. Precisava confortá-la, ser grande e forte como uma represa, a fim de conter a exaustão e o desespero contra os quais ela tinha de lutar sozinha. Deixe-me fazer isso por você, Tom queria dizer. Deixe-me ser quem sou. Somente o que sou. Deixe-me ajudá-la. Tom não falou, mas também pôs a xícara na mesa e aproximou-se dela. Poderia tê-la tocado naquele momento, mas uma voz interior advertiu-o: "Ainda não". Darian voltou a falar. — Tive vontade de pegá-lo no colo, como fazia quando ele era

um bebê. Se algo tivesse acontecido com ele, eu

...

eu

...

Agora. Tom não pronunciou uma palavra. Limitou-se a puxá-la para si e deixá-la chorar. Darian passou os braços em torno da cintura dele, enquanto os soluços silenciosos sacudiam seu corpo. Tom sacudiu a cabeça. Ela até chorava de maneira controlada, provavelmente, para não impor suas emoções a ele. — Solte-se — Tom murmurou. — Não faz sentido reprimir seus sentimentos. Darian moldava-se a ele com perfeição, com sua estatura incomum, curvas maravilhosas, pernas e braços graciosamente longos. Tom afagou-lhe os cabelos e respirou lentamente, sentindo o próprio peito erguer e baixar de encontro ao corpo dela. As lágrimas não duraram muito, e ele percebeu o momento em que ela se tornou infeliz consigo mesma, pelo modo como secou as lágrimas com gestos furiosos das mãos. — Estou agindo como uma tola — murmurou, afastando-se sem erguer os olhos. — Desculpe. — Não! Não é tolice. Quem não choraria? Afinal, "Aqui está meu filho que havia desaparecido, e foi encontrado. Que estava morto, mas, está vivo". Eu estaria enlouquecido de alívio. Embora continuasse de olhos baixos, Darian deu de ombros e emitiu um som baixo e abafado. — Deve estar exausta — Tom concluiu. — Venha. Vou lhe mostrar o quarto onde vai dormir. Ela finalmente ergueu os olhos para fitá-lo com gratidão. — É uma boa idéia. Quando Tom levou-a pelo corredor, pareceu-lhe que a casa os ouvia, observava e aceitava. Darian adorou a lareira em seu quarto, e voltou a agradecê-lo. Na porta, ficou na ponta dos pés e beijou-lhe a face, deixando os dedos demorarem-se por uma fração de segundo no pescoço dele. Mais tarde, Tom apagou a luz da cozinha e saiu, antes de deitar- se para dormir. Sua respiração congelou-se no ar, e os ruídos e

— Quando o pus na cama, agora há pouco, ele adormeceu imediatamente. Estava tão cansado É

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chamados das criaturas da noite o envolveram,

invisíveis, mas

familiares. Tocou o ponto em seu rosto onde ela o havia beijado, e olhou

para a janela do quarto onde ela dormia. Ficou ali parado, pensando e

relembrando,

até ver

a

luz

do quarto de Darian apagar-se.

Então,

sorrindo para si mesmo, recolheu-se para dormir em um dos quartos

de hóspedes.

CAPÍTULO IV

Darian despertou, sentindo os aromas de café fresco e bacon frito. A luz da manhã banhava o quarto, filtrada pelas cortinas leves que cobriam as duas janelas imensas, que davam para o sul e o leste. Sentou-se na cama e gemeu alto, pois todo o seu corpo doía. Olhou para o relógio. Faltava pouco para sete horas. Estaria de volta a Austin, em seu escritório, às nove e meia. — Está acordada, mamãe? — Jason chamou hesitante, do lado de fora da porta. — Claro. Entre. A porta se abriu e, segundos depois, um Jason sorridente e orgulhoso, entrou com uma bandeja contendo café, torradas, frutas e um jornal. Darian sorriu. — Obrigada, querido. Ele colocou a bandeja na cama. — Eu disse a Dominga que você gosta do café bem forte. Abraçou-a, e Darian inspirou-lhe os odores de xampu, pele queimada de sol, algo diferente em sua roupa. — De quem é a camisa? — De Edie, filho de Dominga. Ela tem três filhos. Dominga preparou mingau de aveia para nós. — Isso é bom. Alguém mais já acordou? — Sim, já faz tempo — Jason respondeu, fugindo do abraço que já se tornava longo demais.

— Bem, acho melhor eu tomar um banho e me vestir. Viu o Sr. Steinbuck? — Está na cozinha, com os outros. — Pode dizer a ele que estarei pronta em vinte minutos? Darian pôs as pernas para fora da cama, emitindo mais um gemido. — Você está bem, mamãe? Ela lançou um olhar duro ao filho. — Só dolorida. O sorriso de Jason se desfez e ele baixou os olhos.

— Eu

vou dizer ao Sr. Steinbuck.

... — Obrigada, querido.

chamados das criaturas da noite o envolveram, invisíveis, mas familiares. Tocou o ponto em seu rosto

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Durante a curta caminhada até o banheiro, e por todo o tempo que usou para o banho, Darian gemeu e resmungou, praguejou contra Clyde, Jason, a água quente ... Embora o banho aliviasse um pouco a dor em seus músculos, quando acabou de se vestir, Darian ainda se sentia dolorida e desconfortável. As roupas da véspera estavam usadas demais, e ela não tinha maquiagem alguma na bolsa. Depois de escovar os cabelos e passar apenas batom, foi para a cozinha, onde Dominga lavava uma imensa pilha de pratos, usados por pelo menos dez pessoas que haviam tomado café da manhã. Ao vê-la, Dominga abriu um largo sorriso. — Bom dia, Sra. Conroy. Sente-se melhor, hoje? — Muito melhor, obrigada. Viu meu filho e o Sr. Steinbuck? — Lá fora. Estão todos no estábulo. Darian encontrou os dois sentados no pára-choque de um trator,

profundamente envolvidos numa conversa que ela não podia ouvir da porta. A certa altura, Tom abraçou Jason, que pousou a cabeça no peito largo, sem deixar de sorrir nem por um segundo. Empatia masculina, ela pensou, sentindo a emoção apertar-lhe a garganta.

Se, ao menos, Jason tivesse um pai

...

Ora, ele tinha um pai.

Apenas, não tinha um pai que o amasse. Os olhos de Darian encheram-se de lágrimas. Jason tinha poucos contatos masculinos em sua vida: apenas professores e técnicos. Todos

os homens que dedicavam algum tempo a ele, eram pagos por Darian para isso. Foi invadida pelo familiar sentimento de culpa. Se houvesse se

casado de novo

...

Mas, nunca tinha tempo para nada. Mesmo se

quisesse ... — Ora, vejam que está aqui. Bom dia, Darian. Tom levantou-se, sorrindo. Estava de jeans, camisa e jaqueta. Parecia ainda mais bonito, confiante e tranqüilo. Darian devolveu-lhe o sorriso. — Bom dia, Tom. — Dormiu bem? — Muito. Infelizmente, todo o mal foi causado antes de me deitar. Ele riu. — Se pensa que está dolorida hoje, espere até amanhã. — Ora, com uma previsão tão otimista, vou esperar ansiosa. Só me falta entrar no tribunal, parecendo o corcunda de Notre Dame. — Você jamais se pareceria com ele. É muito alta.

Os três caíram na risada. — Tom, não quero apressá-lo, mas preciso voltar a Austin. Já tomou alguma providência com relação ao Hummie! E a cachorrinha? Ela está bem?

— Ah, sim. Os dois estão no estábulo, mas

...

poderíamos con-

versar por um minuto, em particular? Antes que Darian tivesse a chance de responder, Jason levantou-

se. — Vou ver Winnie. — Olhou para a mãe. — Posso? Darian teve a súbita impressão de que era a última pessoa a ser informada de um

Durante a curta caminhada até o banheiro, e por todo o tempo que usou para o

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plano já em ação, e a expressão angelical de Jason não aliviou em nada as suas suspeitas. — Quem é Winnie? — A cachorra — Tom respondeu. — Esteja de volta em cinco minutos — Darian sentenciou. — Está usando o seu relógio? Bom. Jason saiu correndo. Tom encarou-a com um largo sorriso. — Chegou a pensar no que conversamos? — Na verdade, não. Estava tão cansada, ontem ... — Como pensei. Bem, tenho uma sugestão. Vou levá-la para Austin agora. Rodrigo está hospedando um amigo de lá, pelo fim de

semana inteiro. Vai levá-lo de volta hoje à noite. Poderia levar Jason com ele, digamos, por volta de seis e meia. Ele passaria o dia conosco, conhecendo o que terá de fazer, no caso de você aceitar a minha proposta. E você teria o dia todo para trabalhar sem distrações, e algum tempo para pensar se deve ou não deixá-lo pagar seu débito com trabalho. — Quem é Rodrigo? — O filho mais velho de Dominga. E um bom garoto. Tem dezoito anos. Conheço-o desde que nasceu e, há dois anos, deixo que dirija todos os veículos do sítio. Darian precisava de mais tempo, pois seus pensamentos encontravam-se confusos demais. Muita coisa acontecera nas últimas vinte e quatro horas. — Não sei, não sei — murmurou. — E quanto ao Hummie! — Terá de ir para o mecânico, mas não parece muito ruim. Acho que uns duzentos dólares resolverão o problema. — Bem, ao menos, temos uma boa notícia? E a cachorrinha? Não havia se machucado? — Sim, feriu a pata, mas também não foi nada grave. Rudy cuidará dela. Havia tanto em que pensar, tantas coisas para cuidar. Os inter-

rogatórios para o dia seguinte

...

E o que ia fazer com um cachorro?

— Não sei, Tom ... — Jason quer ficar. Eu lhe disse que você ia pensar a respeito, e ele afirma que gostaria de pagar pelos danos que causou. Você tem um filho e tanto. Tentou negociar o salário por hora que receberia. Embora se sentisse irritada a princípio, por Tom não ter esperado que ela conversasse com Jason, Darian admitiu que, talvez, aquilo fosse exatamente o que seu filho estava precisando. Algumas horas seriam um bom teste. Se Jason detestasse, pensariam em outra solução. — Tem certeza de que não se importa? O sorriso de Tom foi a melhor resposta. — Adoro ter crianças por aqui. Bem, podemos partir quando quiser. Darian sentiu-se atordoada, e refletiu que era assim que o Dr. Bounds devia se sentir, cada vez que a chamava para uma de suas conferências.

plano já em ação, e a expressão angelical de Jason não aliviou em nada as suas

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Desta vez, Darian realmente apreciou a viagem pelo campo, descobrindo paisagens fascinantes. A certa altura, descobriu-se cantarolando, seguindo a música no rádio. — Essa música me parece familiar.

— É Alex Lockhart — Tom falou. — Estava tocando na festa, ontem. — Gostaria de ter podido ouvir mais. Gosto de música country. — Gosta de dançar? — Ah, não. Além de não dançar muito bem, não tenho tempo para socializar. — Como pensei — Tom murmurou com um suspiro. — O quê?

— Estive pensando

As horas que passamos cavalgando, ontem,

... foi o que tive de mais próximo a um encontro, em semanas, ou melhor, meses. Darian riu. — Eu também. Ora, nosso primeiro encontro. — Nada de flores, jantar e dança. Apenas as emoções de uma perseguição ao luar. — A emoção da manhã seguinte — Darian corrigiu-o com um careta. Após alguns momentos de silêncio, Darian falou:

— Tom, vou ser direta e objetiva e fazer uma pergunta pessoal. — Vá em frente. —Disse que adora ter crianças em Clearpool? — Ah, sim — ele respondeu em voz baixa, deixando claro que sabia o que ela ia perguntar. Por isso, Darian limitou-se a esperar. — Deve saber que sou divorciado. Nunca tivemos filhos. Quem sabe meu casamento tivesse dado certo, se houvéssemos formado uma família, mas eu duvido. Annalea e eu queríamos ter filhos. Simplesmente, não aconteceu. Talvez, tenha sido melhor assim. A esta altura, estaríamos brigando por onde e como criá-los. Brigávamos por tudo. — Eu sinto muito. Não tive a intenção ... — Ora, é mais que justo. Afinal, fiz uma porção de perguntas pessoais sobre você e Joel. E nada disso é segredo. Conheci Annalea no Mardi Gras, quando tinha vinte e sete anos. Estava trabalhando para meu pai, na Southern Louisiana Energy. Casamos depressa demais, e tudo foi bem, enquanto vivíamos em Nova Orleans. Annalea vinha de uma grande família católica: seis meninas e cinco meninos, todos muito chegados. Ela também queria uma família grande. A idéia me agradava, pois sempre detestei ser filho único. Finalmente, meu trabalho terminou, e viemos para cá. Ela não gostava de Austin, mas fez um esforço para se adaptar. Então, Tuffy ficou doente e morreu. Depois disso, tive de assumir o sítio, a corporação, tudo. Annalea sentia-se mais e mais isolada aqui, sem família, sem cultura ou festas, sem a atenção que esperava ter de mim. Partiu assim que ficou óbvio que minha vida não ia mudar. — Talvez tenha sido bom vocês não terem tido filhos. Sempre existem outras chances. Isto é, se você voltar a se casar. Tom fitou-a.

Desta vez, Darian realmente apreciou a viagem pelo campo, descobrindo paisagens fascinantes. A certa altura, descobriu-se

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— Não posso ter filhos, Darian.

Darian viu naqueles olhos a dor profunda, e descobriu que tocara uma ferida muito antiga.

— Eu

eu sinto muito. Não deveria ...

Ele deu de ombros.

... — Tudo bem. Não fique assim. Deve parecer estranho, um cara

grande e saudável como eu

...

Tive uma febre aos dez anos. Só descobri

depois de ter me casado. — Já ouvi histórias parecidas. Não existem tratamentos? Sei de laboratórios especializados ...

— Eu sei. Durante algum tempo, Annalea e eu tínhamos es-

peranças ...

Bem, não deu certo. Os remédios fizeram muito mal a ela. É

uma mulher frágil. Ficou apavorada. — Tem certeza? Existem muitos tipos ... — Deixe-me esclarecer. Fiz baterias dos testes mais humilhantes a que um homem pode se submeter, e o resultado foi que a proba-

bilidade de eu ser pai é mais ou menos a mesma de chover na lua. — Tom, lamento ter tocado no assunto ... — Esqueça. Talvez, tenha sido melhor assim. O sítio vive cheio de garotos o tempo todo. Os filhos de Dominga são como meus. Pelo menos vinte meninos passam muito tempo por lá. Portanto, o que não me falta é oportunidade para dar vazão aos meus instintos paternais. — Tom sorriu. — E quando eles começam a ficar levados demais, devolvo-os aos pais. O momento constrangedor não se dissipou com facilidade. Da- rian não conseguiu pensar em nada para dizer, e limitou-se a cantarolar junto com o rádio. Quando chegaram à bifurcação de Dripping Springs, Tom abai- xou o volume da música. — Agora, vou lhe fazer uma pergunta pessoal. Darian riu. — Vá em frente. — Disse que não socializa. Por quê? — Como já disse, não tenho tempo. — Tom ergueu uma so- brancelha com ar cético. — Pense bem. Como eu poderia manter um relacionamento? Trabalho, no mínimo, dez horas por dia, desde antes de terminar a faculdade. E, se tenho uma noite livre, quase sempre quero sair com Jason. Ele é uma ótima companhia. — Darian riu. — Quase sempre. Bem, não gosto de namorar. Acho essa coisa de "vamos nos conhecer melhor", um tanto ridícula. E, supondo-se que eu encontrasse alguém de quem gostasse, como o encaixaria em minha agenda? Tom assentiu. — Entendo perfeitamente o que está dizendo. Então, acha que nunca voltará a se casar? Darian suspirou. — De certa forma, gostaria de estar casada. Jason precisa de uma presença masculina. Quero fazer parte de uma família, mas não imagino como poderia dar certo. Não sou o tipo de esposa tradicional. Meus compromissos exigem muito de mim. — Sabe, tenho exatamente o mesmo problema. Gostaria de estar

casado, mas não tenho tempo para

...

cortejar alguém. Tenho de

— Não posso ter filhos, Darian. Darian viu naqueles olhos a dor profunda, e descobriu que

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administrar o sítio, além de todos os outros negócios da família. Foi o que fez Annalea ir embora. Ela precisava de mais atenção. Eu, simplesmente, não podia lhe dar. — Olhou para Darian e sorriu. — E quanto a romance, amor, essas coisas? Ela riu. — Bobagem. Uma vez, decidi experimentar amor, romance, es- sas coisas, e foi um desastre. Certamente, não é uma base sólida para o casamento. — A maioria das pessoas usa o amor como alicerce de seus casamentos. — Verdade, mas veja como a maioria dos casamentos termina. — Então, o que acha que deve ser a base de um bom casamento? — Bem, acho que deve ser uma parceria entre duas pessoas que partilham objetivos de vida semelhantes. Para mim, o relacionamento tem de se basear em compreensão, respeito e amizade. — Bem, foi assim no passado. Durante séculos, as pessoas ar- ranjavam casamentos por diversas razões: família, dinheiro, terras, mas nunca incluíam romance. — Sei que parece pouco romântico, mas um casamento baseado em elementos mais estáveis e permanentes, só pode ter chances maiores do que outro, baseado em motivos temporários, hormonais ou emocionais ... — Está falando de insanidade? — Tom sugeriu. Os dois caíram na risada. Às cinco horas da tarde, Darian já sentia a dor aguda e familiar nos ombros e na nuca. Não conseguia terminar seu trabalho, porque o cliente cometera erros ao responder o questionário. Também se sentia enjoada, depois de tanto café e um único pedaço de pizza. Às cinco e meia, depois de passar mais de vinte horas na firma, em dois dias, Richard interfonou para Darian, dizendo que atingira seu limite e decidira ir embora. Ao sair, parou na sala dela. — Não consigo nem enxergar direito, Dee. Vou para casa, e desmaiar por algumas horas. Por favor, diga de novo o que eu devo dizer, caso perguntem sobre ontem. — Se alguém fizer qualquer comentário, diga que Jason se perdeu, e Tom e seus amigos nos ajudaram a encontrá-lo. Estou decidida a abafar o caso. — Boa idéia. Nenhum de nós vai se tornar sócio, se Atwell começar a implicar. Até amanhã. — Até amanhã. Quando ele saiu, Darian apoiou a testa nas mãos. Sua concen- tração era quebrada a todo instante, por pensamentos sobre Jason e Tom. Agora, em seu escritório, a experiência parecia irreal, como um sonho. Por outro lado, as dores que sentia eram reais, bem como as decisões a tomar. Tom era um homem maravilhoso: forte, amável, inteligente e generoso. Tão diferente dos tipos sofisticados com quem ela lidava o

administrar o sítio, além de todos os outros negócios da família. Foi o que fez Annalea

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tempo todo: sempre negociando, lutando pelo poder, manipulando, buscando fraquezas. A vida no campo também parecia bem menos complicada. O

tempo, os animais, a terra e a água, embora fossem elementos naturais poderosos, apresentavam apenas desafios honestos e diretos. Assim como Tom. Darian sacudiu a cabeça. Você está devaneando. Não tem tempo para isso.

O telefone tocou. — Darian Conroy. — Darian? Não seria possível confundir aquela voz, pois o efeito que ela lhe provocava era mesmo incrível. — Tom. Estava justamente pensando em você. — Ora, acho que este é meu dia de sorte. Escute, decidi trazer Jason. Na verdade, estamos na estrada, e devemos chegar a Austin dentro de meia hora. Que tal jantarmos juntos, nós três? — Eu adoraria, mas a Sra. Steen está em casa, e já preparou o jantar. Não gostaria de se juntar a nós? — Aceito. Meia hora depois, Darian cumprimentava Tom e Jason na porta de casa. Enquanto o filho corria para mostrar Winnie à Sra. Steen, Darian apanhou o casaco de Tom. Embora sempre houvesse se orgulhado de sua casa, decorada por um dos melhores profissionais de Austin, sentiu-se insegura. Atribuiu o sentimento à insegurança de anfitriã. Afinal, era a primeira vez que Tom a visitava, e era importante que o lugar o agradasse. Durante o jantar, ele não teve dificuldade em conquistar a Sra. Steen, nem de arrancar suspiros e olhares de admiração de Jason. E Darian deu-se conta de que, pela primeira vez, tinham um homem à mesa.

Depois

do jantar,

Jason levou Winnie para um passeio,

e

foi

dormir. Darian e Tom sentaram-se na sala, conversando. — Acho que a Sra. Steen vai pedir demissão — Darian falou com um sorriso maroto. — Detesta animais. E, para ser sincera, embora goste da cachorrinha, não sei de devemos ficar com ela. Seria o mesmo que recompensar Jason pelo roubo. Além disso, o quintal é minúsculo, e Jason está envolvido em muitas atividades na escola, além dos esportes. Como vamos cuidar dela? — Não sei, mas como já disse, acho que garotinhos simples- mente adoram animais. — É verdade. — Por que não a levo para Clearpool? Ao menos, até você decidir o que fazer. — Obrigada, Tom. Mais uma vez, vem me resgatar. Quantas vezes vai me salvar, antes que se canse disso? — É um prazer — ele respondeu com um sorriso. — Bem, vou aceitar a oferta com relação a Winnie, até eu resolver o que fazer com ela. E, quanto a Jason, acho que será bom

tempo todo: sempre negociando, lutando pelo poder, manipulando, buscando fraquezas. A vida no campo também parecia

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para ele trabalhar no sítio. Isso, se você tiver certeza de que não haverá problemas. — É claro que tenho certeza. Pouco depois, Darian subiu para informar Jason sobre as decisões tomadas, e trouxe Winnie consigo. Depois de acomodá-la no carro, esperou ao lado da porta, enquanto Tom atirava o casaco no banco de trás.

— Bem, até logo e, mais uma vez, obrigada — disse. — Eu mesma levarei Jason, na sexta-feira. — Mas nos falaremos antes disso, não é? — Claro. Estavam muito próximos, e Darian voltou a sentir todas as fibras de seu corpo empurrá-la para Tom. Está brincando com fogo. Não seja tola. Ele só quer lhe dar um beijo de boa noite.

Sem perceber o que fazia, Darian inclinou a cabeça ligeiramente para trás. Foi o sinal que Tom estava esperando. Passando um braço em torno dela, ele a puxou para si e beijou-a. Foi como se houvessem se beijado milhares de vezes antes, como se ele soubesse exatamente do que ela gostava, do que precisava. Quando o beijo finalmente terminou, Darian afastou-se e baixou os olhos. — Eu ... — Sim, eu sei. Eu também. Ela ergueu os olhos e sorriu, tentando enfrentar o momento com humor. — Acho que nós dois precisamos sair mais. — Nem pense nisso. Ninguém iria nos querer. Na verdade, deveríamos nos casar. Somos perfeitos um para o outro. — Boa idéia. Seria engraçado ver as caras de nossos amigos. Darian foi se afastando. — Mais uma vez, obrigada por tudo. Ligarei para você. Tom entrou no carro, e Darian observou-o partir, pensando no quanto a noite fora agradável. Talvez a idéia de Jason passar algum tempo no sítio fosse a melhor solução. Tom Steinbuck seria uma influência perfeita, ainda que breve, na vida dele: um homem bom e decente, de princípios morais incorruptíveis, e sem segundas intenções. Além, claro, de beijar como ninguém. Sacudiu a cabeça. De nada adiantaria continuar pensando assim. Ela e Tom haviam esclarecido seus estilos de vida, durante a viagem, e ele jamais esperaria que um relacionamento se desenvolvesse entre eles.

Apagou

a

luz

do

hall

de entrada.

A casa estava quieta, mas,

antes de trancar a porta e ligar o sistema de alarme, Darian apurou os

ouvidos. Por um breve instante, teve a impressão de ouvir um som desconhecido, algo como um aviso distante.

para ele trabalhar no sítio. Isso, se você tiver certeza de que não haverá problemas. —

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CAPÍTULO V

— Bom dia, Darian. Nossa, que vestido lindo! — Obrigada, Marty. Como não teria de comparecer no tribunal naquele dia, Darian escolhera um vestido simples de cashmere cor-de-rosa, que acariciava a sua pele e era uma mudança bem-vinda, depois de semanas de terninhos sombrios, de cores apagadas. — Parabéns pelo caso Brookwood. Ela sorriu. — Obrigada. Tivemos um júri muito bom. — Tivemos uma boa advogada. — Ora, obrigada pelo elogio, mas não me dê tanto crédito. Fui apenas uma, na equipe. Marty fez uma careta e entregou os recados a Darian. — Você é modesta demais. Ouvi dizer que seu discurso de en- cerramento foi brilhante. Darian fez uma pose antipática. — Bem, isso lá é verdade! — Além de todos esses telefonemas, Tom Steinbuck ligou duas vezes, mas não deixou o número. Disse que estava em trânsito e que iria ligar de novo. Darian pôs a pasta na mesa. — Ele disse o que queria? Marty assumiu expressão dramática. — Pediu para dizer que seu futuro marido telefonou e está procurando por você desesperadamente. Darian caiu na risada. — Ora, Marty, é só uma brincadeira. Como nenhum de nós dois tem a menor chance de se casar de novo, brincamos que teremos de nos casar, pois ninguém mais vai nos querer. — Ah, sim, brincadeira. É uma pena, pois ele tem uma voz de derreter corações. — Para falar a verdade, ele é um gato. Bem que eu gostaria de ter uma amiga para apresentar a ele, mas Tom não tem tempo para ninguém. — Certo. Como vai Jason? Pela primeira vez em meses, Darian podia sorrir quando alguém lhe perguntava do filho. — Parece outro garoto. Está sempre contente, e suas notas

voltaram a subir. Eu não fazia idéia de que o simples fato de passar os

fins de semana com

Quero dizer, gostaria de ter percebido antes, a

... diferença que a vida do campo faria. Ele já aprendeu a dirigir um trator

e, agora, está aprendendo a montar. Tom é um homem ocupado, mas leva Jason e outros meninos para acampar, pescar e caçar. — Há quanto tempo ele está passando os fins de semana lá?

CAPÍTULO V — Bom dia, Darian. Nossa, que vestido lindo! — Obrigada, Marty. Como não teria

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— Esta será a quarta vez. Na verdade, ficarei lá, quando for levá- lo, na sexta-feira. Como não estamos em julgamento, terei algum tempo livre. E Jason está implorando para que eu vá. — Que bom. Está precisando. Darian apanhou a pasta. — Sim, acho que sim. Bem, é melhor eu começar a retornar esses telefonemas. Lembre-me de contar o que fizeram com Clyde, para o Halloween. — Quem é Clyde? Antes que Darian pudesse responder, o telefone tocou.

— Escritório de Darian Conroy. Aqui é Marty. Posso

Ah, sim. -

... Marty apertou um botão e olhou para Darian com um sorriso malicioso. — Seu futuro marido. Darian revirou os olhos e entrou em sua sala. — Olá, Tom. — Oi, advogada. Espero não estar ligando num momento ruim. — Bem, estou com os conselheiros na outra linha — ela fez uma pausa dramática —, mas, como é você, eles podem esperar. Tom riu. — E bom saber que sua lista de prioridades está bem arranjada. Agora, se está falando dos caras do comitê ... — Nem brinque! Só mais quatro meses. Acho que voltarei a roer unhas. — Tenho certeza de que não precisa se preocupar. Com a sua

ficha e todas as horas que dedica à firma, eles seriam loucos, se não a tornassem sócia. — Que Deus te ouça! A propósito, obrigada pelas flores e pelo vinho. Rosas amarelas são as minhas favoritas, e vou guardar o vinho até você poder bebê-lo comigo. — Negócio fechado. Mas eu preferia ter sabido do seu aniversário com antecedência. Jason só me contou no fim de semana seguinte. Darian soltou um suspiro melodramático. — Bem, daqui por diante, tratarei de garantir que você receba um daqueles calendários de contagem regressiva, como os de Natal. A contar de hoje, só lhe restam trezentos e cinqüenta e cinco dias para as compras. Ou melhor, por que não me dá o seu cartão de crédito, e eu mesma cuidarei disso para você? Ele riu com gosto.

— Sabe de uma coisa? Talvez eu faça isso

desde que consiga

... fazer você se encarregar de todas as minhas compras. — De jeito nenhum. Detesto fazer compras. — Eu também. Mais uma vez, Darian, fomos feitos um para o

outro.

O silêncio estendeu-se entre eles, e Darian sentiu que algo era esperado dela, mas não sabia exatamente o quê. — Telefonou por alguma razão especial, ou foi só para dar um motivo de fofoca à minha secretária? — Depois que desliguei, fiquei preocupado com a possibilidade de ela ter me levado a sério. Mas, então, achei que ela saberia reconhecer uma brincadeira.

— Esta será a quarta vez. Na verdade, ficarei lá, quando for levá- lo, na sexta-feira.

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— Eu disse a ela que foi só uma brincadeira, mas algo me diz que novos rumores começarão a ventilar por aqui. — Excelente publicidade para mim. Agora, falando sério, Darian, não quero fazer nada para embaraçá-la. Fui atrevido e burro e ... — Ah, não se preocupe. Afinal, os rumores só me fariam bem. Na verdade, todos na firma ficariam entusiasmados se eu me casasse. Não gostam de situações instáveis, e não há nada que detestem mais do que associados solteiros e divorciados. — Bem — Tom falou devagar —, já que consegui mimá-la com flores, vinho e uma proposta de casamento, talvez possa lhe pedir um favor.

— Terei prazer em atender, se puder. Do que se trata? Ele suspirou. — Você vai detestar a idéia, mas haverá um coquetel e recepção na Crocket Mansion, na quinta-feira à noite. Alguns anos atrás o sítio doou algumas terras para a universidade e, agora, farão uma homenagem. Alguém encomendou um busto de Tuffy, em bronze, e eu tenho de ir e, graciosamente, retirar o maldito pano de cima. Daphne, minha mãe, deveria representar a família, mas parece que pegou uma gripe, e está de cama. Bem, pensei em levar você como minha convidada. Será uma festa formal, mas prometo que não vai tomar a noite toda. — Será um prazer. E quinta-feira será ótimo. Desde que o julgamento terminou, tenho tido algum tempo livre. — Ótimo. Pego você às seis e meia. — Certo. Estarei esperando.

Quando Tom desligou, Darian continuou imóvel. Somente ao ouvir o ruído da linha cortada, ela sacudiu a cabeça e repôs o fone no gancho. Estranho, pensou, distrair-se daquela maneira. Muito estranho. Desde quando fico preocupada com o que vou vestir? Vestirei qualquer coisa e me apresentarei bem. Sempre me visto de maneira apropriada à ocasião.

Apropriada? Mas eu não quero parecer apropriada. Quero estar maravilhosa. Ora, acorde, Darian. Ninguém vai reparar em você. Se isso acontecer, será porque estará acompanhando o convidado de honra. Além do mais, você é inteligente, o que é muito melhor que ser bonita. Agora, trate de pôr a cabeça no lugar e ler sua correspondência. Passou o dia inteiro, ontem, apertando mãos e recebendo cumprimentos pelo resultado do julgamento. Nunca vai se tornar sócia da firma, se continuar olhando pela janela, tendo fantasias sobre vestidos de baile. Às onze horas, Darian havia ditado as respostas à correspon- dência do dia, escrito um memorando de fechamento do caso Brookwood, e calculado as horas extras que trabalhara no mesmo. Co- meçava a rascunhar sua proposta para o julgamento final, quando Marty anunciou uma ligação. — Marty, estou ficando maluca. Por favor, diga que ... — É o Sr. Huntingdon. — Ah, obrigada. — Empertigou-se na cadeira, como se ele pu- desse vê-la através do telefone. — Alô. Darian falando.

— Eu disse a ela que foi só uma brincadeira, mas algo me diz que novos

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— Darian, é Atwell. Pode comparecer a uma reunião no salão de conferências, ao meio-dia? — Claro. Estarei lá. O coração de Darian começou a bater mais depressa, e ela contou da sensação. Lembrou-se dos tempos em que fazia parte do time de natação, e ouvia o tiro de partida, atirava-se na água com braçadas poderosas, certa de que estava totalmente preparada, e que era muito boa no que fazia. Ao entrar no salão de conferências, não foi fácil manter o sorriso nos lábios. Estavam todos lá: Entodor Thorogood, almirante da es- quadra dos mais intrépidos advogados da firma. Ex-juiz da Suprema Corte do Estado, atual sócio sênior da firma, era alto, ligeiramente curvado, e apresentava um ar amável, como um professor, que levava muitos associados novos a subestimarem sua capacidade de ser cruel. Ao seu lado, encontravam-se Irvin Banes, Scott Kyle e os demais sócios sêniores do departamento de julgamentos. Richard e mais quatro associados sentavam-se espalhados pela sala. Aparentemente, a discussão já corria solta, pois nenhum deles sequer olhou para ela. Darian não viu nenhuma pasta aberta sobre a longa mesa oval, mas todos haviam levado seus blocos de anotações, assim como ela. Escolhendo a cadeira vazia mais próxima, ela se sentou e tentou pegar o fio da conversa. — Ah, Darian, aí está você — Atwell falou, como se ela houvesse aparecido do nada. — Por favor, considere esta reunião como es- tritamente confidencial. Os jornais de amanhã trarão manchetes chamativas sobre o processo que a Goldenair instaurou contra a Consolidated Skyway. Este será, sem contar a Usina Nuclear Four Corners, é claro — olhou diretamente para o juiz Thorogood —, o caso mais significativo que nossa firma já aceitou. Como já provou ser adepta de grandes descobertas, vai trabalhar na equipe de Endor. Tentaremos livrá-la de seus outros compromissos, é claro. Agora, senhoras e senhores, o que sabemos até agora é ... Quarenta e cinco minutos depois, Darian deixava o salão de conferências, junto de Richard. — E isso aí, Dee — ele falou, sem esconder a tensão e o en- tusiasmo. — Se trabalharmos bem, estaremos dentro. — Eu sei. A promoção estava próxima o bastante para que ela pudesse vê-la, e até, sentir-lhe o sabor. Seria a recompensa de anos e anos de estudos dedicados, sacrifícios e muito trabalho. Ao longo da- queles anos, Darian não se permitira olhar além do objetivo de tonar-se sócia. Agora, que chegava tão perto, já podia ter um vislumbre da vida além da condição de associada. Tendo provado seu valor à firma e, em conseqüência, a toda a comunidade do ramo, passaria a ser uma advogada mais respeitada e procurada. Poderia escolher seus casos, bem como a maneira de gastar sua energia considerável e seu tempo limitado. E, ainda, havia o prestígio e a recompensa financeira. Porém, também haveria um aumento de outros tipos de pressão. A vida no topo, geralmente, transformava as pessoas em alvos mais

— Darian, é Atwell. Pode comparecer a uma reunião no salão de conferências, ao meio-dia? —

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fáceis. Mas, tudo bem. Darian sabia que seu trabalho estaria constantemente sob escrutínio. — Vamos almoçar? — Richard convidou-a. — Estou pensando em comer no Pipphys. — Não, obrigada, Rich — ela respondeu pensativa. — Tenho algumas questões a definir, e vou comer na minha sala. A caminho de seu escritório, parou numa das máquinas auto- máticas, e comprou bolachas de queijo e batatas fritas. Na quinta-feira, às seis e vinte, a campainha da casa de Darian

tocou. — Eu mesma vou atender, Sra. Steen. Deve ser o Sr. Steinbuck. Ao abrir a porta, ficou imóvel e sem palavras. Era a primeira vez que

via Tom vestindo algo que não fosse jeans. E o resultado era de tirar o fôlego. Ele vestia um smoking, que caía com perfeição sobre o corpo bem-feito. O contraste do preto com a camisa branca fazia sua pele parecer mais bronzeada, e seus olhos, ainda mais azuis. — Tom — Darian finalmente conseguiu falar. — Entre. Em vez de mover-se, ele continuou parado, olhando fixamente para ela. — O quê? — Gostaria de entrar? — Ah, sim, claro. Desculpe. — Sacudiu a cabeça, como se es-

tivesse desgostoso consigo mesmo. — Desculpe, Darian. É que você está maravilhosa.

...

Bem,

— Obrigada. Você também está ótimo. — Gostou? — Tom afastou os braços do corpo. — É novo. Sempre me sinto ridículo nesse tipo de roupa. — Muito pelo contrário, devia vestir black tie mais vezes. Nunca o vi tão espetacular.

— Ora, obrigado, mas você

...

— segurou-lhe as mãos,

examinando-a da cabeça aos pés — ...

você,

sim, deveria ir a um lugar

especial, em vez de uma festinha tão frívola. Está deslumbrante. Deslumbrante. Darian sentiu a chegada de uma sensação mais que agradável. Sabia que não poderia apresentar-se melhor. Comprara o vestido um ano antes, sem saber se chegaria a ter uma oportunidade de usá-lo. Na ocasião, porém, fora incapaz de resistir ao vestido tomara-que-caia de seda azul-roial, que colava ao seu corpo, dos seios aos tornozelos, exceto pela abertura lateral que revelava uma porção escandalosa de perna e coxa. O vestido acentuava suas melhores características: ombros clás- sicos, braços longos e bem-feitos, e a pele lisa e clara. Embora as medidas perfeitas de busto que um dia Darian exibira, houvessem sido bastante alteradas após o nascimento de Jason, ela ainda mantinha o ventre liso e, apesar da falta de tempo para a prática de exercícios, suas pernas continuavam firmes e bem torneadas. Determinada a exibir os brincos de safira que haviam pertencido à sua avó, Darian prendera os cabelos num coque frouxo, no topo da cabeça, deixando apenas finas mechas soltas, para enfeitar-lhe o rosto. No pescoço, usava o diamante solitário que a mãe lhe dera de presente de

fáceis. Mas, tudo bem. Darian sabia que seu trabalho estaria constantemente sob escrutínio. — Vamos almoçar?

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formatura. Porém, melhor que tudo, era saber que exibia o brilho interior resultante da felicidade e satisfação com sua vida, em geral. — Obrigada pelo elogio — murmurou. — Sou eu quem deve agradecer. Todos os homens da festa vão me odiar de inveja! — Tom corrigiu-a com um sorriso largo. — Gostaria de beber alguma coisa, ou devemos sair imediatamente? — Na verdade, acho que devemos voar. Naquele momento, ouviram o som de passos rápidos na escada, e Jason apareceu no patamar. — Tom! — exclamou com os olhos brilhando, voou pelos últimos degraus, e atirou-se nos braços do amigo. Tom abraçou-o com afeição. — Olá, camarada. É bom ver você. Ansioso pelo fim de semana? — Claro! Assim como Tony. Contei a ele sobre Clyde, mas ele não acreditou que é tão grande. — Deixe que ele o veja com seus próprios olhos. — Isso mesmo. — Jason virou-se para a mãe. — Uau, mamãe! Você está linda! — Acotovelou Tom. — Não é uma gata? Darian revirou os olhos. — Jason Conroy, sou sua mãe. E que história é essa de "gata"? — Dois pares de olhos masculinos desviaram-se imediatamente dos dela. — Vou apanhar meu agasalho. O trajeto da casa de Darian até Crocket Mansion durou menos de vinte minutos. Uma fila longa e lenta de automóveis seguia pela entrada ladeada de carvalhos da mansão. Darian ficou surpresa ao ver tantos carros. — Quantas pessoas participarão do evento? Tom suspirou. — Gente demais, eu receio. Umas duzentas pessoas, eu acho. — O quê? — Isso mesmo. Sempre há uma multidão nessas festas de uni- versidades. E, sem dúvida, encontraremos gente da sua firma, Marva Wallace e David Thale são nossos representantes em assuntos relacionados a energia, e acho que já trabalhei com metade do pessoal do departamento de ações. É claro que Atwell virá com a esposa, pois ele é patrono da escola. O entusiasmo de Darian diminuiu um pouco. Deveria ter se dado conta de que encontraria gente da firma. A Sternwell era a maior e mais antiga firma de advocacia do Texas, e os sócios estavam envolvidos em todos os níveis da sociedade: educação, política, indústria. Mas, por que tinha de ser Atwell? Justamente quando ela havia sonhado com uma noite tranqüila, divertindo-se na companhia de um amigo atraente e interessante. Os convidados enchiam o hall e a sala de recepção da mansão e, assim que Darian e Tom entraram, o inconfundível murmúrio de interesse e curiosidade elevou-se dos pequenos grupos de pessoas elegantes. Imediatamente, Darian avistou Atwell e a esposa, conversando com um juiz distrital. Se Atwell Huntingdon era um tubarão, sua esposa, Lorelei, era um golfinho: roliça, sorridente e muito amigável. Soltou um gritinho ao

formatura. Porém, melhor que tudo, era saber que exibia o brilho interior resultante da felicidade e

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ver o casal e adiantou-se para eles, com sua taça de champanhe pela metade. — Darian. Tom. É um prazer ver vocês. Que vestido incrível, querida! Como tem passado?

— Muito b

Lorelei enroscou o braço no de Darian, e arrastou

... alguns passos, para perguntar em tom conspiratório:

— O que tem a dizer sobre os rumores interessantes que andam circulando a seu respeito e de nosso simpático e atraente amigo? Pelo que sei, receberemos os convites em breve. — Ora, Lorelei! Quem lhe disso isso?

— Ah, foi um passarinho! Não é maravilhoso? Tudo porque Atwell pediu que você fosse no lugar dele àquele leilão. Acho que é a história mais romântica que já ouvi. Já tem algum plano definido? Sabe que eu jamais contaria a ninguém.

Estou planejando assassinar minha secretária, amanhã de manhã.

— Lorelei — Tom interrompeu-as. — É muito bom ver você. Com um aperto de mão gracioso, libertou Darian das garras da outra, e levou-a para o fundo do salão. O resto da noite foi muito agradável, entre conversas triviais, olhares de admiração, champanhe e curiosidade cordial. Ninguém os questionou com a objetividade de Lorelei Huntingdon, mas os olhares inquisitivos e sussurros repentinos, toda vez que Tom e Darian aproximavam-se, eram inconfundíveis. Depois da inauguração do busto de bronze, uma belíssima obra assinada por Mercedes Tane, Tom e Darian agradeceram os anfitriões e, delicadamente, retiraram-se. Uma vez de volta à segurança de seu carro, Tom segurou a mão de Darian. — Muito obrigado por ter encarado tudo com tamanho bom humor. Eu não fazia idéia ... — Ah, tudo bem. — Apertou a mão dele e suspirou. — Como diz minha mãe, "Quando falam de você, estão pensando em você". — Nesse caso, devo agradecer sua mãe por ser tão sábia. Permaneceram em silêncio por alguns minutos, enquanto o au- tomóvel deslizava pelas ruas. Tom, porém, mostrava-se inquieto, e Darian sabia que ele a observava pelo canto do olho. Decidiu esperar que ele dissesse o que o incomodava. — Darian? — Sim? — Tem algum plano para o dia de Ação de Graças? — Este ano é minha vez de comemorar com mamãe. Tenho duas irmãs. Bea é editora da revista Businesswoman, em Nova York, e Johanna é cirurgiã-ortopedista, em San Diego. Como vivemos longe umas das outras, minha mãe passa o dia de Ação de Graças, cada ano na casa de uma filha. No Natal, todos se reúnem na casa dela, em Dallas. — Acha que sua mãe gostaria de festejar em Clearpool? É como um estouro de boiada. — Tom sorriu. — Um estouro muito amigável e pacífico, claro. Minha mãe vem todos os anos, mas desta vez, está

ver o casal e adiantou-se para eles, com sua taça de champanhe pela metade. — Darian.

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muito doente, e talvez não possa viajar. Sempre recebemos muitos amigos, com seus filhos. Tenho certeza de que Jason vai adorar. — Obrigada pelo convite. Eu adoraria, mas preciso falar com mamãe, primeiro. Darian refletiu sobre a oferta de Tom. O que Paulina Sedgewick diria, se a filha mais nova a levasse para Clearpool, no dia de Ação de Graças? Com certeza, seria uma bem-vinda quebra na rotina de seus jantares tradicionais: sempre muito quietos, com duas mulheres solitárias e um garoto entediado, remexendo a comida da qual ele não gostava. Chegaram à casa de Darian pouco depois das onze. Tudo se encontrava às escuras, exceto pela luz da entrada. — Aceita um café? — Adoraria, mas tem certeza de que não é muito tarde? — Não para mim, pois estou habituada a dormir pouco, desde os tempos de faculdade. Mas não quero que você pegue a estrada muito tarde.

— Para mim, também não é tarde, mas não quero lhe dar trabalho. — Ah, meu Deus, estamos parecendo aqueles personagens de quadrinhos, exageradamente formais. Por que não tomamos café instantâneo? Tom riu. — Perfeito. Conversavam em sussurros e, quando entraram na cozinha, Da- rian acendeu apenas a lâmpada que pendia sobre a mesa. Encontravam-se num estado de espírito leve e agradável, ligeiramente sonhador, as luzes muito claras, ou vozes muito altas quebrariam o encanto. Tom apoiou-se no balcão, enquanto ela se movimentava um silêncio pela cozinha. Darian encheu a chaleira elétrica, apanhou duas xícaras, o café e as colheres. Acima do fogão, o relógio em forma de

gato virava o rabo para um lado e para o outro, enquanto os olhos acompanhavam o movimento no sentido contrário. Em vez de sentar-se, ela ficou de pé, perto de Tom. Por alguma razão, teve medo de fitá-lo nos olhos. Estou me sentindo tímida, porque nunca recebi um homem em casa a esta hora da noite. Porém, a verdade era que pressentira que algo estava acontecendo. Algo sutil e profundo. Um ar de expectativa vibrava ao seu redor, e Darian começou a sentir-se ligeiramente desconfortável. Ouvindo o ronco baixo da chaleira, Darian mudou de posição, e tentou pensar em alguma coisa para dizer. Infelizmente, o silêncio se estendera demais, criando uma tensão semelhante àquela na borda de um copo que contém água demais. Se ela dissesse a coisa errada, algo se derramaria, criaria confusão, estragaria tudo Queria tirar as

sandálias, soltar os cabelos

qualquer coisa. O fecho da gargantilha

... enroscou-se em seus cabelos, e ela ergueu os braços para soltá-lo.

— Deixe-me fazer isso — Tom murmurou, fitando-a nos olhos e aproximando-se. As mãos dele deslizaram por debaixo das dela, quase tocando- lhe os ombros. Darian não pôde reprimir um leve tremor, quando

muito doente, e talvez não possa viajar. Sempre recebemos muitos amigos, com seus filhos. Tenho certeza

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sentiu os dedos fortes e quentes tocaram seu pescoço. A água ferveu e uma nuvem de vapor ergueu-se acima do fogão. Os dedos de Tom alcançaram o fecho, mas, em vez de soltá-lo, retiraram os grampos que prendiam os cabelos de Darian, massageando-os à medida que caíam livres.

Darian sentiu-lhe o hálito quente na têmpora, e inclinou a ca- beça, deixando que a sensação agradável envolvesse sua pálpebra ...

sua face

seus lábios.

... Tom puxou-a para si, e ela sabia o que ia acontecer. Lembrava- se de como fora na primeira vez, da insistência de seu corpo para que se colasse a ele. O beijo tornou-se mais e mais intenso e ardente. Tom virou-se e prendeu-a entre seu próprio corpo e o balcão. E ela sentiu a potente masculinidade intensificar-se, ouviu o próprio coração bater. Ou seria o dele? Sabia que, se permitisse que as sensações se libertassem, um desejo muito mais profundo tomaria vida. Por um momento, Darian quase cedeu. A tortura de se aproximar daquele limite era, por si mesma, deliciosa. Sim, era bom. E fazia tanto tempo, mas a força de seu próprio desejo exigia que ela tomasse uma decisão. Darian descolou os lábios dos dele, sem conseguir evitar um gemido. — Tom. Espere. Não posso. Eu ... Ele também gemeu no momento da separação. — Eu sei. Eu sei. Tom continuou a abraçá-la com imensa ternura, enquanto a respiração de ambos recuperava, lentamente, o ritmo normal. — Sinto muito, mas ...

— Nada disso. Sou eu quem deve se desculpar. — Não. — Darian deu um passo para trás, a fim de encará-lo. — Não faz idéia do quanto me sinto tentada ... — Não? — Tom fez uma careta. — Pois acho que faço, sim.

— Mas não posso fazer isso. Se eu

se nós ...

... — Não diga mais nada, Darian. Eu compreendo. Estragaríamos nossa amizade, e eu detestaria que isso acontecesse. — Sério? — ela inquiriu com olhar de gratidão.

— Claro. Bem, não estou dizendo que eu não queira

Afinal, que

homem, em sã consciência, não quereria

...

... A verdade é

que

o

que

temos, você, Jason e eu, é importante demais para mim. Não quero perder isso por nada. — Obrigada. — Sou eu quem agradece. Bem, acho que vou dispensar o café. Dormirá no sítio, na sexta-feira, certo? Ótimo. Nos veremos então. Mais uma vez, obrigado por esta noite. Sou invejado por todos os homens de Austin. Darian acompanhou-o até a porta, mas eles nem sequer troca- ram um aperto de mão. Ela sabia que haviam chegado a um impasse,

que levara à compreensão e a um acordo. Disse a si mesma que não se arrependia de nada. Bem, quase nada.

Todos sabem que o sexo acaba com as melhores amizades. Estou muito contente por termos resolvido isso de uma vez por todas.

sentiu os dedos fortes e quentes tocaram seu pescoço. A água ferveu e uma nuvem de

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De agora em diante, só terei de ser esperta e cuidadosa, e evitar

situações em que ele somos humanos.

...

qualquer um de nós, se sinta tentado. Afinal,

O dia de Ação de Graças em Clearpool parecia cada vez mais

interessante. Estava na hora de iniciar novas tradições, dar a Jason novas lembranças. E sua mãe adoraria a novidade. Tinha certeza disso.

CAPÍTULO VI

— Bem, não posso dizer que apreciei o dia de Ação de Graças, Sr. Steinbuck, mas foi mesmo muito diferente. — Agradeço a honestidade, Sra. Sedgewick. Esta formalidade está me deixando louco. Posso chamá-la de Paulina?

— Sim, claro ...

Tom — ela replicou, voltando a concentrar-se no

jogo de cartas. Já passava de meia-noite, na sexta-feira após o dia de Ação de Graças. Tom estava em sua biblioteca, jogando cartas com Paulina. Estavam na terceira rodada das finais, para decidir quem seria o campeão. No início, todos os convidados haviam participado com en- tusiasmo, exceto Darian, que nunca jogava cartas. Porém, na quarta- feira à noite, todos já haviam se desencorajado e, no dia de Ação de Graças, ninguém mais queria jogar com nenhum dos dois. — Que parte não gostou? — Tom inquiriu, estudando-a por cima das cartas. Magra e resistente, com cabelos grisalhos e olhos cinzentos, Paulina irradiava energia contida e intelecto muito afiado, sem a atenuante de qualquer sinal de paciência. No momento em que a vira sair do carro de Darian, Tom soubera que ela seria um grande desafio como hóspede. E, momentos depois, Paulina já havia demonstrado a amplitude e a ferocidade de sua língua ferina. No final do dia, todos os empregados de Tom a tratavam com o mesmo cuidado que teriam com uma bomba. Rudy, em particular, depois de carregar a bagagem dela para dentro da casa, desaparecera

no estábulo e não voltara a ser visto. — Bem, as mesmas coisas que fizeram de sua festa algo par- ticularmente diferente, também destruíram o clima tradicional do feriado. A começar pela comida: cabrito assado com batatas, bolinhos,

cerveja ...

E, também, fogos de artifícios, todas aquelas crianças

gritando e brincando naqueles jogos malucos

Definitivamente, não é

... assim que imagino os peregrinos fazendo seus agradecimentos. — Bem, na minha compreensão, a tradição do dia de Ação de Graças é agradecer pelo que se tem, com o que se tem. Acredito que as comidas que os peregrinos preparavam era o que tinham à disposição. Portanto, nesse sentido, acho que a nossa festa é a mais tradicional que conheço — Tom argumentou, sem se deixar intimidar. — Além do mais, também tivemos peru com molho.

De agora em diante, só terei de ser esperta e cuidadosa, e evitar situações em que

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Jogaram em silêncio por alguns momentos. Tom sabia que a mãe de Darian havia se tornado diferente ao longo dos dois últimos dias,

mas não estava disposto a facilitar as coisas para ela, uma vez que ela não facilitara nada para ninguém. Especialmente para Darian. Paulina limpou a garganta. — Meu neto parece gostar muito de você. Desde o momento em que ele e Darian me apanharam no aeroporto, só ouvi seu nome. Era "Tom isso" e "Tom aquilo".

Lá vamos nós.

— Fico lisonjeado ao ouvir isso. Jason é o garoto mais incrível que já conheci. Tem sido um prazer enorme tê-lo em Clearpool nos fins de semana. Ela ergueu a cabeça para fitá-lo através dos óculos trifocais. — Pelo que entendi, este é o último fim de semana que ele passa

aqui.

— Espero que não, mas Darian me disse que ele estará mais envolvido com as atividades da escola, por algum tempo. Ela sorriu. — É muita discrição de sua parte, mas fiquei sabendo dos pro- blemas de Jason em Fullingham. E, também, do que ele aprontou aqui. E sei como você lhe ofereceu a alternativa de trabalhar para pagar pelos danos. Sei de tudo. Tom encarou-a. — Sabe? — Sim. Embora Darian não tenha me contado nada, a irmã mais velha dela, Johanna, decidiu me contar, depois que Darian se abriu com ela. Eu sabia que algo estava errado com minha filha. Era possível perceber pelo tom de voz. De minhas três filhas, ela é a que mais se parece comigo. Em vez de comentar, Tom limitou-se a erguer uma sobrancelha com ar cético. Se Paulina se ofendeu com o gesto, não demonstrou. — Nem Johanna, nem Beatrice jamais sofreram os traumas que causaram tantos problemas a Darian. Mas ela era a mais nova, e o pai a mimava um bocado, enquanto era vivo. — Ela me contou que perdeu o pai aos dez anos. Deve ter sido muito difícil para você. Paulina voltou a sorrir. — Imagino que ela não tenha contado que ele nos abandonou, quando ela tinha quatro anos. Não? Foi o que pensei. Darian sofre de uma lealdade cega, que ultrapassa os limites do bom senso. Por um momento, Tom teve um vislumbre de Paulina, como ela devia ter sido: uma mulher jovem e bonita, com três filhas pequenas, e um marido ausente. Aterrorizada pelo abandono e desiludida em geral, protegeria as filhas de todas as maneiras possíveis e, se isso significasse transformá-las em adultas brilhantes a qualquer custo, melhor ainda. — Darian pagou um preço alto por suas fantasias românticas, mas já se livrou desse tipo de tolice. Adorava o pai, e acho que foi por isso que ficou tão atraída por Joel. Ele era muito parecido com Don. Ela

Jogaram em silêncio por alguns momentos. Tom sabia que a mãe de Darian havia se tornado

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também é muito teimosa. Quando põe uma idéia na cabeça, nada a faz mudar, mesmo que haja evidência em contrário. Mas, é claro, ela nega. Darian já lhe contou sobre o trabalho que faz junto a mulheres indigentes? Peça-lhe que conte. — Paulina fez uma pausa para estudar as cartas na mesa. — Ela se sente compelida a realizar esse tipo de trabalho comunitário porque acredita que aquele que tem o poder é aquele que tem a responsabilidade. Não concorda com isso? — Desculpe, Paulina, mas não concordo. Acredito que aquele que tem responsabilidade é quem tem responsabilidade. Todos os homens deveriam sentir-se compelidos a cumprir sua tarefa com relação a seus filhos.

— Isso serve para você, que veio de uma família que o amou e protegeu, e lhe deu segurança. Existem muitas pessoas, em sua maioria, mulheres e crianças, que não têm esse luxo. É por isso que aqueles de nós que podem, devem fazer o possível para proteger aqueles sob nossa responsabilidade. Não pude dar dinheiro às minhas filhas, mas pude incitá-las a se aplicarem, a serem responsáveis e independentes, e explorarem seus talentos ao máximo. Pude alertá-las sobre o quanto são estúpidos e destrutivos os relacionamentos errados. Tom teve a impressão de ver o brilho das lágrimas por trás das lentes grossas. — E, também — ela continuou —, o quanto é imperdoável desperdiçar suas habilidades. É claro que as experiências de Darian lhe ensinaram a lição. Embora a vida pessoal dela seja, de certa forma, um desastre, suas realizações profissionais são impressionantes, não acha?

Tom sorriu. — Sim, eu acho. Bati. Paulina examinou as cartas, respirou fundo e tirou os óculos. Então, sem dizer nada, retirou uma nota de cinco dólares da bolsa e a colocou sobre a mesa. Em vez de pegá-la imediatamente, Tom exibiu um sorriso largo, bebeu um longo gole de seu uísque, e sacudiu o copo para ouvir o tilintar do gelo. Paulina levantou-se. — Bem, vou me deitar. Já está ficando tarde. Isto é, se conseguir pegar no sono, pois estou certa de que você me deu a pior cama no quarto mais frio desta casa velha. — Fico contente que goste — Tom replicou com uma risada. — Boa noite, Tom. Não, não se levante. — Ao virar-se, ela acrescentou. — Devo confessar que foi o melhor campeonato de cartas de que já participei. Tom sabia que ela adoraria ser reconhecida como a boa adver- sária que fora. — Mas você perdeu — disse. — Perdi? — ela inquiriu por cima do ombro. Enquanto a observava sair da sala e desaparecer no corredor, Tom continuou sorrindo. — Ora, Darian — murmurou baixinho. — Foi isso o que acon- teceu. Agora, estou começando a compreender.

também é muito teimosa. Quando põe uma idéia na cabeça, nada a faz mudar, mesmo que

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No domingo à tarde, os outros convidados de Tom já haviam ido embora, deixando apenas Darian, Paulina e Jason. Passava um pouco das três horas, e Darian estava sentada na cadeira de balanço na varanda. O sol de novembro elevara a temperatura, tornando-a agradável. Winnie dormia no gramado, deitada de lado, o nariz e as patas sacudindo de leve. Jason e Eddie Villareal haviam saído a cavalo para Clearpool Source, para pescar, e Paulina retirara-se para seu quarto, para seu costumeiro cochilo, depois de um farto almoço. Assim, Darian ficara deliciosamente sozinha para apreciar uma última taça de vinho, antes da tarefa inevitável e desagradável de fazer as malas para ir embora. Atrás dela, a porta de tela se abriu. Passos de botas atravessaram a varanda e a velha poltrona rangeu sob o peso familiar. Darian não precisou virar-se. — De todas as refeições maravilhosas que fiz neste fim de se- mana, acho que o almoço de hoje foi o mais espetacular. — Estava mesmo muito bom. Adoro o peru com amêndoas de Dominga. Ela está embrulhando algumas coisas para você e Jason levarem. Ao que parece, ela pensa que você vai alimentar umas quinhentas pessoas. Ou então, deve achar que não come o bastante. — Ora, não seja ridículo. Você foi testemunha. Eu me empanturrei por três dias seguidos. Darian suspirou satisfeita, ouvindo os passarinhos cantando. Então, virou-se para Tom. — Quer se juntar a mim, aqui no balanço? Ele sorriu. — Pensei que nunca fosse perguntar. Ela se empertigou e apoiou os pés no chão. — Não faça isso. Vou me sentir culpado por tirá-la de uma posição tão confortável. Basta apoiar-se em mim. Darian sorriu, virou-se e apoiou as costas no ombro firme. — Não estou esmagando você, estou? — De jeito nenhum — ele respondeu. — Você é muito confortável. — A que horas tem de ir? — O avião de Paulina sai às sete horas. Portanto, é melhor não sairmos depois das cinco, pois podemos encontrar trânsito no caminho. — É verdade. — Vou sentir falta daqui — Darian murmurou. — E Jason, também, para não falar de Winnie. Espero que ela se adapte à vida na cidade. — Eu sentirei falta de todos vocês. Ter Jason aqui, preencheu um espaço que eu nem sabia estar vazio. Não dá para descrever como foi bom ensiná-lo a montar e atirar, mostrar-lhe a vida no sítio. Foi como seu eu houvesse voltado a ser criança de novo, experimentando todas aquelas coisas pela primeira vez. Ele suspirou, e sua voz tornou-se mais baixa e pensativa. — Há algumas semanas, quando isso começou, eu estava me parabenizando pelo cara legal que era. Não me dei conta do quanto eu mesmo ganharia com a experiência.

No domingo à tarde, os outros convidados de Tom já haviam ido embora, deixando apenas Darian,

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Não havia nada que Darian pudesse dizer. Era evidente que Tom havia se apegado a Jason. E quem não se apegaria? Jason era o garotinho mais maravilhoso na face da terra. Quantas vezes, nas peças da escola, ela não sacudira a cabeça, perguntando-se como os outros pais suportavam assistir a seus filhos comuns serem apagados pelo brilho de Jason? Sorrira para si mesma, então, admitindo que, provavelmente, todas as mães sentiam o mesmo com relação a seus filhos. Uma olhada rápida pelo auditório revelava rostos exuberantes e peitos estufados de orgulho. Porém, não lamentava por Tom, e sabia que não fora essa a intenção dele. Ainda assim, era uma pena. Um homem como Tom daria um excelente pai, e viver em Clearpool devia ser o sonho de toda criança. — Estou surpresa pelo fato de você nunca ter feito isso antes, nunca ter feito com outros meninos o que fez com Jason. — Falta de tempo, eu acho. Assumir as funções de Tuffy foi um pesadelo. Não havia me dado conta do quanto meu pai trabalhava. Ele costumava brincar, dizendo que havia me ensinado tudo o que eu sabia, mas não tudo o que ele sabia. Descobri, na dureza do dia-a-dia, que aquilo não era somente brincadeira. E, depois que assumi o controle da corporação, o mercado de petróleo enlouqueceu de novo. Então, tivemos a pior seca da história, na região. Sempre existe algum problema a resolver. Darian murmurou algo em concordância. Parecia que sempre ha- via algo complicado e inesperado, atirando-se no caminho de uma vida bem planejada. Consultou o relógio e suspirou profundamente. — Bem, é melhor eu começar a fazer as malas. — Virou-se e encarou Tom. — Talvez, mais adiante, quando nossas vidas estiverem mais estabilizadas, possamos voltar para um longo fim de semana. Adorei nossas conversas. Tom assentiu, mas seu sorriso não chegou aos olhos. — Gostaria muito que viessem, mas, pelo que você contou, esse caso da companhia aérea só vai trazer maiores exigências por alguns meses. — Receio que sim. Já recebi cinqüenta caixas de arquivos, re- pletas de relatórios para examinar nos próximos quatro meses. Sem contar meus outros casos. Então, terei de descobrir o que quer que seja que eles estejam esperando. Vai ser de enlouquecer. — Tem idéia de quando esse caso irá a julgamento? Darian sacudiu a cabeça. — Como se trata de um caso enorme e complicado, envolvendo milhares de implicações, levará, no mínimo, trinta e seis semanas. Talvez mais. Enquanto isso, esperam que eu resolva os outros casos sob minha responsabilidade. — Bem, imagino que nos feriados da primavera, você tenha a oportunidade de voltar. — Tom levantou-se e estendeu a mão para ajudá-la. — Até lá, ligarei sempre que for à cidade. Talvez a Sra. Steen me receba para jantar. — Vamos gostar muito. — Mamãe, por que fica fazendo isso? — Jason perguntou.

Não havia nada que Darian pudesse dizer. Era evidente que Tom havia se apegado a Jason.

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— Fazendo o quê? — Fica esfregando o pescoço, e balançando a cabeça para a frente e para trás. — Meu pescoço dói. Estou incomodando você? — Darian estava falando em tom rude, embora não tivesse a intenção. — Sempre dói — acrescentou em tom mais ameno. Sabia que Jason estava desapontado por ter de deixar o sítio. Ficara olhando pelo vidro traseiro por muito tempo, depois de o sítio já ter desaparecido de vista. Mesmo assim, nada desculpava sua atitude. Mal beijara a avó, ao despedir-se dela, no aeroporto. — É ridículo — ele declarou, cruzando os braços e olhando para a frente, com o queixo empinado. — Não fez isso nenhuma vez, durante o fim de semana. Darian contou até dez antes de responder. — Acho que tem razão, mas também acho que estou tão habi- tuada a fazer isso, que nem me dou conta. A dor familiar entre os ombros vinha aumentando de intensidade, à medida que ela se aproximava de Austin. — Acho que estou tensa porque tenho muitas coisas na cabeça. Contei a você sobre o grande caso que peguei, não? Estou um pouco assustada, mas muito entusiasmada. — Quem sabe envolvê-lo um pouco mais em sua vida profissional ajudasse a recuperar a proximidade que haviam partilhado durante o feriado. — Sim, e daí? Talvez não. Segunda-feira de manhã, uma semana depois, quando Darian retornava de uma audiência menor, os olhos arregalados e as faces pálidas de Marty indicaram-lhe que havia algo errado. — Darian, graças a Deus você chegou! O Sr. Huntingdon ligou três vezes. Foi grosseiro comigo na última ligação. Alguma coisa terrível aconteceu no tribunal, esta manhã, e ele disse que quer vê-la assim que chegar. — Marty torcia as mãos e sua expressão era de pura infelicidade. — E a Sra. Steen telefonou, dizendo que ... — Ligue para ela, por favor, e diga que entrarei em contato assim que resolver isso. Ah, meu Deus, o que será desta vez? Sem sequer olhar para os demais recados, Darian deixou a bolsa e a pasta na mesa de Marty, e foi diretamente para os escritórios dos sócios. A tensão no ar era palpável, quando a porta do elevador se

abriu. Ela pôde ouvir os gritos, muito antes de chegar perto da sala de Huntingdon. A secretária fez um sinal para que ela entrasse, sem sequer se dar ao trabalho de interfonar, anunciando sua chegada.

...

a

firma inteira — Atwell gritou. — Ele perdeu o juízo. É um

velho senil, um filho da

Darian. Onde diabos você estava?

... — Na audiência de Stiles e Overstreet, tomando ... — O juiz Fugate nos mandou a julgamento, dentro de onze meses. Está me ouvindo? Diga alguma coisa. Endor Thorogood inclinou-se na cadeira. — Acalme-se, Atwell. Darian, por favor, sente-se. Como pode ver, houve uma mudança de planos no caso Goldonnir. Todos terão de

— Fazendo o quê? — Fica esfregando o pescoço, e balançando a cabeça para a frente

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trabalhar mais depressa do que pretendíamos. O que queremos de você é isso ... Uma hora e meia depois, Darian saiu da sala com passos rápidos. Richard a seguia, parecendo tão atordoado quanto ela. — Passaremos vinte horas por dia, aqui. Não vamos coseguir. — Temos de conseguir — Darian corrigiu-o. — O caso é enorme, mas teremos um ano horrível. — Não acredito que eles esperem que você prepare o memorando sobre constitucionalidade para amanhã. E como vai examinar todos aqueles relatórios em trinta dias? São trinta ou quarenta caixas de ... — Cinqüenta — Darian interrompeu-o. — Não será mais fácil para você. Está na equipe de Atwell. — Minha cabeça vai explodir — Richard lamentou-se. — A minha também. — Quer almoçar? — Nunca mais vou comer, pois não terei tempo para essas banalidades. Assim que entrou em seu escritório, Darian sentiu os ânimos afundarem ainda mais. Marty havia chorado. Seu nariz estava vermelho, e o rimel formava círculos escuros em torno de seus olhos. — O que é, agora? — Darian inquiriu, lamentando o tom exasperado. — Ligaram da escola. Duas vezes. Da última, era o Dr. Bounds. Ele disse que, se você não chegar lá até as duas horas, vão chamar a polícia. — O quê?

— Não me olhe assim. Tentei avisar você, mas Roxanne recusou- se a levar um recado à sala do Sr. Huntingdon, e não me deixou entrar lá. — A voz de Marty foi se tornando aguda e estrangulada. — Não sei bem o que houve. Parece que foi uma briga. O Dr. Bounds parecia furioso, e falava muito depressa. Não consegui entender direito. Quando pedi que repetisse, ele desligou na minha cara. — Ah, meu Deus! Que horas são? — Uma e meia. — Tenho de ir. Onde está minha bolsa? — Na sua cadeira. Darian entrou em sua sala e atirou o bloco de anotações sobre a mesa, ouvindo os passos de Marty atrás de si.

— E a Sra. Steen telefonou

Darian virou-se como um furacão.

...

... — Pelo amor de Deus, Marty, não tenho tempo

A secretária

começou a gritar. — Sua cachorra fugiu e mordeu uma menininha da vizinhança. Os pais dela vão processar você, e precisa apresentar o certificado de vacinação, não sei aonde. Do contrário, vão prender a cachorra. Darian imobilizou-se. Seu coração batia com intensidade assusta- dora. É isso, pensou. Todos os departamentos de sua vida haviam se transformado em calamidade. Por alguns segundos, seus desespero foi tamanho, que ela quase explodiu em gargalhadas. Minha vida é uma grande catástrofe, pensou. Nada mais poderia dar errado.

trabalhar mais depressa do que pretendíamos. O que queremos de você é isso ... Uma hora

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Naquele momento, o telefone tocou, com o ruído de ligação externa. Marty atendeu. — O quê? — Ouviu por alguns momentos, e sua expressão tor- nou-se sombria quando ela estendeu o fone para Darian. — E sua mãe. Às oito horas daquela noite, Darian encontrava-se sentada em seu escritório, olhando fixamente para um furo de prego na parede. Na mão direita, segurava um lápis, com o qual batia metodicamente na mesa. Seu subconsciente tentava desesperadamente alertá-la de que o tempo corria, mas ela se rendera ao desespero imobilizante. Não fazia idéia do tempo que estava ali, sentada, olhando fixamente para a

parede, batendo com o lápis na mesa, quando a porta se abriu. Ela virou e sentiu o espírito alegrar-se.

É você.

Ele ficou parado na porta. — Oi — cumprimentou-a no tom que a maioria das pessoas usam em velórios, ou em quartos de hospital. Mesmo depois de ter ouvido a voz dele, Darian não tinha certeza de que ele estivesse mesmo ali. — Tom? Ele se aproximou, sem tocá-la. Parou bem perto e sentou-se na beirada da mesa. Quando ela ergueu os olhos, percebeu que ele sabia de tudo, mas tinha de falar assim mesmo. — Jason foi expulso de Fullingham, hoje. — Eu sei. — E a Sra. Steen pediu demissão. Houve um problema com

Winnie ... — Eu sei. E seu caso irá a julgamento muito antes do que você imaginava. Já sei de tudo. Sua mãe telefonou para mim. — Não sei o que vou fazer. Tom levantou-se e posicionou-se atrás da cadeira de Darian. — Por que não fica sentada aí, por algum tempo, enquanto eu ... Nossa! Seus ombros parecem pedras! — Eu sei. É sempre assim. Darian não havia chorado, pois a situação atingira um ponto muito além das lágrimas. Mas precisava conversar.

— Winnie não mordeu Shelly Winslow

a garotinha. Mas ainda é

... filhote, fugiu, e só queria brincar. Você sabe como os meninos brincam o tempo todo com ela. Quanto mais Shelly corria, mais Winnie se animava com a perseguição. A menina acabou caindo, e Winnie atirou- se sobre ela. Mas foi só brincadeira. O Sr. Winslow ficou enfurecido e gritou com a Sra. Steen. Bem, ela já estava querendo se demitir. Jason tornou-se demais para ela, e ela sempre detestou cachorros. As palavras se derramavam de seus lábios, como água trans- bordando de uma represa. Agora, que havia começado, não era capaz de parar. — Expulsaram Jason. Não compreendo. O Dr. Bounds nem me deixou falar. Disse que Tykie Wilguneski contou que Jason o forçou a encher os ralos com toalhas de papel e abrir as torneiras. Mas isso não faz o menor sentido. Jason morre de medo de Tykie, desde os seis

Naquele momento, o telefone tocou, com o ruído de ligação externa. Marty atendeu. — O quê?

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anos. Tykie é enorme. Disse que Jason o tem aterrorizado e tomado seu dinheiro. Pode acreditar? Eu não acredito, mas Jason admitiu tudo. O que vou fazer? Os dedos de Tom massageavam-lhe os ombros e a nuca. Darian descobriu-se balançando ao ritmo do movimento, e cedendo à pressão. Seus músculos se renderam, liberando a tensão. Tom não pronunciou uma palavra. Limitou-se a emitir sons de conforto, como se ela fosse um animal que ele tentava acalmar. Deixou-a falar, até ela ter contado tudo, pelo menos duas vezes. Então, deu a volta na cadeira, estendeu

a mão e ajudou-a a levantar-se. Em seguida, levou-a até o sofá debaixo da janela. — Sente-se aqui, por favor. Precisamos conversar. Só então, Darian percebeu que Tom vestia um terno cinza- chumbo, camisa branca e gravata vinho. Parecia poderoso, con- servador e confidente. Pronto para assumir o controle de qualquer corporação. Não se parecia com o Tom a quem ela estava acostumada. Passaria facilmente por um dos sócios da firma. — Estive pensando, e pretendia conversar com você na prima- vera, depois da revisão de sua posição na firma. Mas, ao que parece, os acontecimentos se adiantaram a nós. Tom limpou a garganta e baixou os olhos. Então, segurou uma das mãos de Darian entre as suas. Limpou a garganta de novo.

Talvez não tão confiante. O que pode estar incomodando-o tanto?

— Acho que deveríamos nos casar. Em vez de falar, Darian inclinou a cabeça para o lado. Não estou ouvindo bem, pensou. Estou tão exausta, que tenho alucinações auditivas. — O quê? — Estou pedindo você em casamento. — O quê? — ela repetiu, como se houvesse perdido de vez a capacidade de raciocínio. Ele sorriu e pareceu-se mais com o Tom que ela conhecia, com os olhos alegres, cercados de pequenas marcas. Era como se houvesse

se livrado de um peso enorme e, agora, pudesse relaxar. — Sei que parece repentino, mas, por favor, ouça o que tenho a dizer. Apesar de nos conhecermos há pouco mais de dois meses, já passamos muito tempo juntos. Conhecemos um ao outro. Tornamo-nos bons amigos. E nós dois gostaríamos de casar, mas temos o mesmo problema: falta de tempo para conhecer pessoas, namorar e tudo mais. Tenho um sentimento estranho com relação a isso, como se fosse o destino quem nos aproximou. Tom fez uma pausa, e Darian deu-se conta de que estava de boca aberta. Tratou de fechá-la e tentou se recompor. Provavelmente, seus olhos estavam prestes a saltar das órbitas.

— Tom, eu

...

eu

...

não sei o que dizer. Nunca pensei que você

...

que nós ... — Eu sei, eu sei. Por favor, escute. Existem muitas boas razões para nós nos casarmos ...

anos. Tykie é enorme. Disse que Jason o tem aterrorizado e tomado seu dinheiro. Pode acreditar?

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— Mas, Tom, o casamento é tão complicado e difícil. O com- prometimento, os laços necessários para que dê certo. Nós dois tivemos casamentos que não deram certo ... — Exatamente. E justamente por isso que tenho certeza de que este casamento daria certo. Somos adultos, pessoas maduras, que gostam uma da outra. Sofremos exigências e pressões parecidas em nossas vidas, e somos perfeitamente capazes de vivermos nossas vidas como elas são, mas temos a sensação de que nos falta alguma coisa.

Tom fitou-a nos olhos, e Darian sentiu-se atordoada, mirando os diversos tons de azul que se mesclavam nas íris brilhantes. — Tom — ela começou devagar —, talvez o que esteja dizendo

seja verdadeiro, mas, tem certeza de que é o bastante? Sei que gosta

de mim e que me respeita, mas

está certo de que não quer

... — Meus sentimentos por você vão muito além de simplesmente gostar e respeitar, Darian. Acho você maravilhosa. É inteligente e tem estilo. Adoro sua família: Jason e sua mãe. Não me olhe assim, eu realmente gosto de Paulina. E, além disso, você é linda, o que faz bem ao meu ego de macho. O último comentário fez Darian sorrir. Não havia a menor dúvida de que os dois formariam um casal invejável, e ela era humana o bastante, para possuir sua quota de vaidade. Tom Steinbuck era um homem e tanto: alto, forte, respeitado e estável. Mas, como seria Tom Steinbuck como marido? Seu marido. Marido implicava em casamento. Casamento im- plicava em noite de núpcias. Darian sentiu o rubor tomar conta de suas faces, e baixou os olhos, esperando que ele não houvesse lido a expressão em seus olhos. Quando voltou a fitá-lo, a expressão dele apresentava-se séria e

...

grave. — Serei um bom marido. Além de ser fiel, darei todo o apoio às suas decisões. Sei o que você quer da vida, o admiro o compromisso que tem com sua carreira, bem como o seu senso de responsabilidade com relação às habilidades que possui. Na verdade, essa é uma das coisas que mais me agradam em você. É brilhante, determinada e bem-sucedida. Transforma suas convicções em ação. Sabe quantas pessoas conseguem fazer isso? Poucas. Eu me sentiria muito orgulhoso em ser seu marido. Tudo começava a se encaixar. Ele estava falando sério e aquilo estava mesmo acontecendo. Tom Steinbuck estava lhe propondo casamento. Finalmente, o intelecto de Darian começava a absorver a situação. Ao mesmo tempo, outros processos recebiam a informação, e ela sentiu despertar de seu estado de torpor. Darian perdeu a noção do tempo, enquanto Tom falava, do seu jeito sincero e honesto. Ele havia considerado com todo cuidado cada

argumento a favor e contra o seu pedido. E, a conclusão era de que o casamento seria a melhor solução para ambos.

...

E,

como já disse, temos de considerar Jason. Ele é o tipo de

filho que eu sempre quis ter. Acho que precisa de uma influência

masculina forte na vida dele. — Tom apertou a mão de Darian.

— Mas, Tom, o casamento é tão complicado e difícil. O com- prometimento, os laços necessários

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— Não que você não seja uma excelente mãe, mas meninos pre- cisam de modelos masculinos. E você não precisaria se preocupar com a escola. Temos uma excelente em Wimberley. É pequena, mas os padrões acadêmicos são muito altos, e eles possuem um programa especial para crianças superdotadas. Darian deu-se conta de que estava inclinando a cabeça, da mesma forma que Winnie fazia, quando ouvia algum som estranho. — Esteve fazendo pesquisas sobre isso? Ele deu de ombros. — Sempre acreditei que se deve estar sempre bem prevenido e

preparado. Esta escola

...

a maioria dos alunos que saem de lá vão para

Pipkins ... — Meu Deus, Tom! Eu jamais poderia pagar as mensalidades de Pipkins! O sorriso de Tom falou mais que palavras: "Você não poderia, mas nós poderíamos". — Há mais uma coisa, Darian. Clearpool precisa de um filho. Não posso nem pensar naquele lugar sendo loteado e vendido aos pedaços, pois faz parte da história do Texas. Tem sua própria personalidade e magia. Quero passá-lo, assim como tudo o que o lugar significa, para meu herdeiro. E quero que meu herdeiro seja Jason! — Olhou para suas mãos entrelaçadas. — Eu nunca disse isso antes mas ele me faz lembrar de mim mesmo. Posso soar egoísta, mas é assim que os pais naturais se sentem. Vêem em seus filhos um reflexo e uma continuação de si mesmos, bem como das coisas que amam e tentam

construir. Em Jason, vejo o mesmo. Ele gosta das mesmas coisas que eu. E, como jamais terei um filho meu, acredito que foi mesmo o destino que o colocou no meu caminho. Acho Joel Conroy um idiota, mas se recebi esse presente divino graças à estupidez dele, devo agradecer a Deus por sua existência. Darian sentiu algo acelerar-se dentro dela. Durante toda a tarde, sofrera com sua absoluta infelicidade, e incapacidade de raciocínio.

Atwell, Jason, a escola, Winnie

Por muitas horas, seus pensamentos

... haviam vagado sem rumo, fragmentados. Porém, a proposta de Tom

tornara sua mente alerta, bem como suas emoções. Tom continuava falando.

...

E

nem falamos de nossas obrigações sociais. Quando for

promovida a sócia, terá de comparecer a diversas funções sociais. Tenho negligenciado esse aspecto de minha vida, e sei que vou pagar por isso. Poderíamos fazer tanto um pelo outro, em diversos aspectos.

Você quer ser parte de uma família. Eu também. Disse que queria se

casar. Eu também. Seria uma boa mudança para Jason

...

e

para

a

pobre Winnie. Enfiou a mão no bolso do paletó e retirou uma caixinha de veludo azul-marinho. — Tom! Era o maior diamante que Darian já vira de perto, cercado de pequenas safiras perfeitas. — Há mais uma coisa, Darian. Algo muito importante. Sei que nos sentimos atraídos um pelo outro. Bem, que homem não a

— Não que você não seja uma excelente mãe, mas meninos pre- cisam de modelos masculinos.

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desejaria? E sei que você sente o mesmo que eu, quando nos beijamos. Mesmo assim, quero que saiba que sou um homem delicado. Jamais faria qualquer coisa para machucá-la, ou assustá-la. Só quero fazer você feliz. Existem tantas maneiras de fazê-la feliz. Ao que parecia, Tom não se esquecera de nenhum detalhe. Exceto, talvez ... — Tom — Darian murmurou com voz suave. — Há uma coisa que não mencionamos. Amor. Embora seus olhos escurecessem, ele nem piscou, e continuou a

fitá-la. — Conheço seus sentimentos com relação a isso. Nós dois

tivemos casamentos baseados no que chamamos de amor. Sei que não

quer passar por tudo aquilo de novo

aquela insanidade hormonal. —

... Nesse momento, Tom baixou o olhar. — É claro que eu também não quero. — É por isso que acredito no futuro do nosso casamento. — Voltou a encará-la. — Gostamos de verdade um do outro. — Claro que gostamos. Embora não nos conheçamos há muito tempo, considero você um dos meus melhores amigos. — Bem, pode pensar em alguma razão pela qual não deveríamos nos casar? Darian estudou-lhe as feições, perguntando-se como seria ver aquele rosto ao acordar, todas as manhãs, pelo resto de sua vida. Seus lábios se curvaram. Ele oferecia tanto: sua força e seus recursos, um pai para Jason, fidelidade e respeito, segurança e dignidade, um refúgio. Porém, mais que tudo, um lar de verdade. Ela se deu conta de que tinha o mesmo a oferecer. E mais: sua amizade e afeição, a parte mais feminina que havia dentro dela, e que fora rejeitada por tanto tempo. Partilhariam tudo isso, sem a confusão, ciúmes e amargura da insanidade romântica. Tom oferecia uma parceria baseada em emo- ções e ideais mais sólidos e duradouros. Darian sentiu uma liberdade interior, como se houvesse passado anos lutando desesperadamente para manter sua vida caminhando, por pura determinação. Agora, podia relaxar e viver. As lágrimas formaram um nó em sua garganta, ao mesmo tempo que sua vista embaçava. Então, uma lágrima solitária desceu-lhe pela face. Tom secou-a com um dedo, mas Darian não tentou afastar-lhe a mão.

Ele se aproximou. — Quer se casar comigo? — perguntou num sussurro. À medida que o rosto de Tom aproximou-se do dela, Darian deixou o olhar pousar nos lábios másculos e suaves. Ele estava

repetindo a proposta, pela terceira vez. Só que, desta vez, o fazia com um beijo. Quer se casar comigo? Darian respondeu com um beijo.

Sim, sim, eu quero!

desejaria? E sei que você sente o mesmo que eu, quando nos beijamos. Mesmo assim, quero

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CAPÍTULO VII

Conversaram até quase meia-noite. Às onze, Tom desceu até o carro e apanhou a garrafa de champanhe que levara numa caixa de gelo.

— Veio preparado — Darian comentou. — Tratei de me manter cuidadosamente otimista — Tom replicou, enquanto enchia as taças de cristal, também levadas por ele. — Fico contente. É maravilhoso. Darian foi invadida por uma súbita dificuldade em encará-lo. Assim, pôs-se a examinar o anel em seu dedo. Como continuasse a sentir os olhos dele sobre si, o rubor tomou conta de suas faces. Sabia que, se não estivessem em seu escritório, já teriam feito amor. Porém, agora que estavam noivos, ela se tornara tímida. Os papéis haviam mudado de maneira dramática, e ela já não sabia exatamente como agir.

Tom ergueu sua taça. — A um casamento feliz e bem-sucedido!

Darian sorriu e brindou com ele e, depois de saborear o primeiro gole, falou:

— Sinto vontade de telefonar para as pessoas. — Eu também, mas todos que conhecemos estão dormindo, a esta hora. — Verdade — ela concordou com um sorriso. — Temos muitos planos a fazer. Quando acha que deveríamos ... — Definitivamente, antes do Natal — Tom interrompeu-a. — Eu ... Bem, precisaremos providenciar a escola para Jason imediatamente. E

passar o Natal no sítio, como uma família

...

Não acha que seria um

bom começo? O Natal chegaria em menos de quatro semanas. — Eu acho, mas não é muito tempo para se planejar um matrimônio. — Concordo. Temos de decidir alguns detalhes, como a cerimônia. — Deixe-me apanhar meu bloco. Vamos fazer uma lista. Co- meçaremos pelos convidados. — Quer que seja na igreja? — Não sei. Imagine um padre de batina e rendas, recitando as virtudes do amor eterno, com um órgão desafinado ao fundo. Não tem muito a ver conosco. Tom deu de ombros. — Bem, tenho muita fé, e gosto da igreja. Por outro lado, ne- nhum de nós dois freqüenta missas, não é? Que tal pagarmos alguém para cuidar de tudo? Não existem pessoas que vivem disso? — Está falando de organizadores de casamentos profissionais? Camadas e camadas de organdi e tule rosa. Querubins. A frase "Darian

CAPÍTULO VII Conversaram até quase meia-noite. Às onze, Tom desceu até o carro e apanhou a

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e Tom" gravada em letras prateadas nos guardanapos

...

Darian fez

uma careta. — Sei que nosso casamento não será tradicional, mas gostaria de ter parentes e amigos lá. Afinal, não se trata de uma transação comercial. Darian ignorou a irritação na voz de Tom, e olhou por cima do ombro dele, pela janela. A lua iluminava o céu negro, refletindo-se no lago. E, além da água, havia luzes que iam se tornando indistintas na direção da Highway 35, de onde se pegava a estrada para Winberley. — Quero me casar em frente à varanda, em Clearpool, debaixo daquela árvore imensa — falou devagar. — Você, eu e nossos bons amigos. E, para comer, quero um churrasco delicioso. E música. Quero que Dominga esteja lá, mesmo sabendo que vai se acabar de tanto chorar. E Paulina, também, mesmo sabendo que não derramará uma lágrima. E quero receber telegramas de minhas irmãs, pois sei que não poderão vir. E, quando todos forem embora, quero que digam que foi o melhor casamento que já viram. Tom beijou-lhe as mãos, e fitou-a nos olhos com muita ternura. — Nesse caso, querida, é exatamente assim que vai ser. E sei quem pode organizar tudo para nós. Minha mãe já se encarregou de tantos casamentos, recepções e comemorações de todo tipo, que seria impossível contar. — Tem certeza de que sua mãe não vai se importar? Não poderei ajudar em quase nada — Darian falou, apontando para as caixas de arquivos. — Cheguei a pensar em contratar alguém para cuidar das minhas compras de Natal. Tom sorriu. — Pode deixar tudo por conta de Daphne. Ela adora esse tipo de

coisa. Vir a Clearpool a deixa triste, às vezes, pois sente falta de Tuffy. Mas fica feliz em vir para casa, quando há algo excitante acontecendo. Vai gostar dela. É irlandesa. E parece estar ficando mais irlandesa à medida que envelhece. Não deixe que ela comece a lhe contar piadas e, aconteça o que acontecer, não jogue cartas com ela. Darian riu alto. — Nunca jogo cartas, mas não me importo de ouvir algumas piadas. — Sentia-se alegre e muito, muito leve. — Tom, estou me

sentindo

estranha. Acho que estou bêbada.

... — Eu também, mas só bebemos alguns goles. — Ele sorriu. — Deve estar intoxicada de felicidade. Darian retirou as mãos das dele e abraçou-o. Intoxicada de felicidade. Seu sorriso tornou-se diferente. Tom realmente a fizera feliz. De certo modo, era como se houvesse esperado por aquilo, ou como se houvesse desejado algo, sem saber exatamente o que era. Casar com Tom fazia sentido. Ela teria o que havia de melhor no mundo. Em vez de uma paixão infantil e passageira, ou do frenesi hormonal, teria um relacionamento maduro, ideais e pontos de vista muito parecidos, uma apreciação mútua de família e tradição. Seria um casamento sensato, entre duas pessoas que esperavam o mesmo da vida. Não havia a menor sombra de dúvida: Tom e ela formavam o casal perfeito.

e Tom" gravada em letras prateadas nos guardanapos ... Darian fez uma careta. — Sei que

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— Esta droga não me serve! Não acredito! Devo sair em quinze minutos, e não consigo subir este zíper! — Darian deu um puxão no zíper da saia. — Mamãe, por favor. — Darian Marie, pare de puxar com tanta força. E claro que a roupa serve em você. O zíper prendeu na calcinha, só isso. Tire as

mãos e deixe-me cuidar disso. Pronto. O que eu disse? — Ah, obrigada. Pode me ajudar a vestir o casaco? — Com a ajuda de Paulina, Darian pôs o casaco e abotoou-o. — E então? Como estou?

Paulina jamais fora do tipo sentimental.

Darian nunca a

vira

chorar, mas havia, definitivamente, um brilho de lágrimas em seus

olhos.

— Vire-se. Assim. Muito bom. Muito bom. Fez uma excelente escolha, Darian. — Você gostou? — Sim, querida. É um conjunto maravilhoso. Roupas de inverno

brancas ficam muito bem em você. E as linhas simples são perfeitas

para uma noiva

mais velha.

... — Obrigada. Acho que me sentiria ridícula num vestido de noiva. Darian estudou a mãe por um momento. Conhecia Paulina e tinha a intuição de que ela não se referira à roupa, ao dizer "excelente

escolha". Paulina sentou-se. — Daphne fez um belo trabalho com as flores. Espere até ver a varanda: um verdadeiro mar de cores. Só não entendo porque você insistiu tanto na música country. Daphne está lá fora, encorajando a banda a tocar as seleções menos adequadas a um casamento. — Ela é divertida, não é?

— Bem

...

Acho que pode-se dizer que é

...

divertida.

— Eu a adoro! — Darian declarou. — Você ficou zangada porque ela ganhou no jogo de cartas. — Não foi bem assim — Paulina resmungou. Naquele momento, ouviram uma leve batida na porta, e Dominga apareceu. — Está quase na hora — avisou. Paulina levantou, alisando o conjunto rosa-claro, com renda na gola alta e nas mangas. — Está parecendo Katharine Hepburn — Darian comentou com um sorriso. — Ora, obrigada. — Paulina virou-se na direção da porta. — Que música é essa? Darian riu. — Deve ser o tema de "Romeo e Julieta". Parece diferente, não é? A propósito, viu Jason? — Da última vez que o vi, estava andando de um lado para o outro, diante da porta de Tom. Não se preocupe, ele está maravilhoso. — Paulina consultou o relógio. — Cinco minutos. Darian respirou fundo. — Gostaria de poder pular a parte dos votos. A mãe lançou-lhe um olhar de reprovação.

— Esta droga não me serve! Não acredito! Devo sair em quinze minutos, e não consigo

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— Bem, do início ao fim, este é o casamento menos tradicional

que já vi. Sem ensaio, sem convites

Sim, sim, eu sei: já disse tudo

... isso antes. Não se preocupe. Só terá de repetir o que quer que aquele

velho fóssil disser. E é melhor se apressar e sair logo. O pobrezinho pode cair morto a qualquer momento. — Ora, seja simpática, mamãe. Daphne o adora. Foi ele quem realizou o casamento dela com Tuffy, há quarenta e tantos anos. — Provavelmente, ele realizou o casamento de George e Martha Washington. — Mamãe! Seja simpática. Tom ouviu a música alegre lá fora, e olhou-se no espelho. Vestia um terno azul-marinho, botas pretas, camisa branca e uma gravata cinza. Sua mãe escolhera sua roupa, de maneira que combinasse com

a de Darian. Ele se sentia satisfeito por Daphne ter assumido o controle

de tudo: flores, comida, papelada

tudo. Embora ela e Darian o

... houvessem mantido informado sobre os progressos, fora um alívio ter sido deixado de fora dos preparativos propriamente ditos, pois era o tipo de coisa que o fazia sentir-se como um touro, dentro de uma loja de cristais. Ao longo das três últimas semanas, Tom produzira sons entusias- mados, sempre que julgara necessário. Agora, porém, só queria atra- vessar a cerimônia e passar depressa às comemorações. A tensão em seu peito dificultava-lhe a respiração, e ele não conseguia livrar-se da preocupação com a possibilidade de Darian mudar de idéia. Chegara a sonhar com isso. Fora um sonho ridículo, em que Darian devolvia-lhe o anel porque o Hummie fora vendido, e ela queria mantê-lo. Ridículo! E outros sonhos, todos eles igualmente ridículos, apesar de assustadores, o haviam atormentado nos últimos dias. A única certeza que tinha era que queria ouvi-la dizer "sim". Então, poderia relaxar, esquecer a tensão, e dedicar-se a fazê-la feliz. Ouviu uma leve batida na porta. — Papai? — Ah, meu padrinho. — Tom sorriu. — Está muito elegante. — Obrigado. — Jason entrou de cenho franzido. — Dominga fica molhando meu cabelo a toda hora. Fico parecendo bobo. Não costumo fazer risca no cabelo. Tom riu. — Fique aqui. Estará seguro comigo. Bem, ao menos, acho que estará. Dominga pode entrar aqui e começar a molhar os cabelos dos dois. Ela gosta de lavar tudo o que vê, quando fica nervosa. E de resto, tudo bem? Jason sentou-se. — Tudo bem. Até agora, foi divertido. Todo mundo vem me perguntar para onde vocês vão, depois. Gostaria que você e mamãe pudessem ter uma lua-de-mel de verdade. — Eu também, filho. Faremos nossa lua-de-mel quando puder- mos. No momento, sua mãe está muito ocupada. Eu sei. Ela está sempre ocupada. — Jason balançou os pés no ar. — Papai? — Sim?

— Bem, do início ao fim, este é o casamento menos tradicional que já vi. Sem

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— Depois que você e mamãe se casarem, vão ter outros filhos? Por um momento, Tom estudou o rostinho tão parecido com o de Darian, e os olhos tristes e sérios que tentavam a todo custo esconder o medo e a vulnerabilidade. — Venha cá, filho. — Tom despenteou-lhe os cabelos, devol- vendo-os ao seu estado natural, sem risca. — Assim está melhor. Agora, ouça. Aconteça o que acontecer, você será sempre meu filho. Gostaria que você viesse a ter irmãos e irmãs, mas acho que isso não vai acontecer. Não gostaria que ficasse decepcionado. — Ajeitou a gravata de Jason e limpou o que pareciam farelos de biscoito da lapela

do paletó. — Lembra-se do que eu lhe disse, no dia em que sua mãe e eu contamos que íamos nos casar? — Sim. Você disse que, daquele momento em diante, eu seria

seu filho. Que você era o meu pai

meu pai de verdade, e que não

... precisávamos esperar pelo casamento, ou pelos papéis. Disse que, daquele dia em diante, eu era um Steinbuck como você, e que poderia contar a todos na nova escola que Steinbuck era o meu nome ... Também disse que eu podia chamar você de papai. Sentindo um nó na garganta, Tom abraçou Jason. — E isso nunca vai mudar. Sou o homem mais sortudo do mundo. Consegui casar com sua mãe e ter você como filho. Nada jamais mudará isso. Encabulado, Jason libertou-se e enfiou a mão no bolso, retirando um pequeno pacote. — Minha avó disse que eu deveria dar um presente a você, porque sou seu padrinho. — Ora, não precisava fazer isso, mas muito obrigado. Era evidente que o garoto embrulhara, ele mesmo, o pacotinho. Tom abriu-o com todo cuidado, encontrando um aro de prata muito pequeno. Notou que parte dele era achatado, e virou para ler a inscrição. — É a minha pulseira de bebê. Veja o nome: Jason. Quando eu era ainda pequeno, mamãe me deu, para eu guardar. Levei até o shoppingcenter e pedi para colocarem essa argolinha, para você poder pendurá-la no chaveiro. Assim, vai ter sempre uma coisa que o faça lembrar de mim. Tom engoliu o nó na garganta e guardou o pacote no bolso. — Obrigado, filho. Nunca a tirarei do meu chaveiro. Prometo. Agora, vamos fazer logo esse casamento. As forças da natureza haviam providenciado um dia ensolarado e, apesar do frio de dezembro, não havia vento. Oficialmente, a cerimônia já começara, e Tom esperava, como todos os homens o faziam, desde o início da humanidade. Ao avistar a mãe, estreitou os olhos com ar suspeito. Daphne parecia prestes a explodir em gargalhadas. E, provavelmente, era assim mesmo que se sentia. Encontrava-se à sombra do grande carvalho, e vestia, como em todas as ocasiões especiais, um vestido verde-esmeralda, que realçava os cabelos naturalmente vermelhos. Vários viúvos e solteirões de meia- idade acotovelavam-se à volta dela, lançando olhares ressentidos uns

— Depois que você e mamãe se casarem, vão ter outros filhos? Por um momento, Tom

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para os outros. Tratava-se de um flerte antigo e incurável, que a deixava mais que feliz e à vontade. Tom cruzou as mãos, forçando-se a não torcê-las, e não consultar o relógio. Jason já dava sinais de impaciência, e o reverendo Cooksey, provavelmente, não conseguiria manter-se de pé por muito mais tempo. Além da idade avançada, apresentava um brilho diferente no olhar. Sabendo que Lena Cooksey, filha solteira do reverendo, morava com ele e só permitia que o velho tomasse um pequeno cálice de licor, de vez em quando, Tom não tinha dúvidas de que Daphne já servira ao reverendo, pelo menos, duas doses do melhor uísque. Sempre, é claro, longe dos olhos de Lena. Momentos depois, exatamente à uma hora, a banda começou a tocar a versão mais excêntrica da marcha nupcial que Tom já ouvira. Paulina atravessou a porta, com sua postura rígida e, em seguida, saiu Darian. Tom sentiu a dor em seu peito transformar-se num calor agradável. Ela não mudara de idéia. Ia mesmo se casar com ele. Não saberia dizer o momento exato em que se dera conta de que Darian era a mulher para ele. Era como se a conhecesse, antes mesmo de terem se visto pela primeira vez, como se houvesse esperado por ela, sem saber que o fazia. Jamais em sua vida, Tom quisera algo com tanta intensidade. Ali estavam as respostas de todas as perguntas, seu futuro, a solução para o vazio que o acompanhara por tantos anos. Darian parou diante de Tom, que tomou-lhe a mão. Ambos sorriram. O reverendo Cooksey abriu o livro que tinha nas mãos e ajeitou a folha datilografada que Tom lhe entregara horas antes. A cerimônia seria simples, com um único verso de um poema de Byron. O velho limpou a garganta, aproximou o livro do rosto e, então, foi estendendo os braços, como se tocasse um trombone. Esforçou-se ao máximo para focalizar as letras miúdas. Não conseguiu. Então, resmungou algo para si mesmo e fechou o livro. — Sei tudo de cor. Já fiz isso centenas de vezes. Não preciso de nenhum papel idiota — murmurou. — Caros amigos e parentes — entoou, erguendo os braços. — Estamos reunidos aqui ... Darian começou a rir em silêncio. Tom manteve com bravura, uma expressão séria. Podia ouvir Daphne abafando as gargalhadas, em algum ponto à sua direita, mas não se atreveu a olhar para ela. Sentia

o coração prestes a saltar do peito, e teve receio de quebrar a mão de Darian. — Eu, Thomas Alexander Steinbuck ... Quando Darian segurou a mão de Tom, a fim de colocar a aliança em seu dedo, ele notou que ela tremia. Também notou que os olhos dela brilhavam e pareciam dilatados. Será possível que ela esteja nervosa? Só pode ser por causa de tanta gente em volta, prestando atenção. Quanto tempo mais teremos de agir como anfitriões? Bem, ele não apressaria as coisas, pois queria que Darian guardasse a lembrança de um casamento longo e feliz. E, também, estava determinado a proporcionar-lhe uma noite de núpcias inesquecível.

para os outros. Tratava-se de um flerte antigo e incurável, que a deixava mais que feliz

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Mesmo assim, queria que a cerimônia terminasse. Logo. Havia sempre uma chance, mesmo que mínima, de ela mudar de idéia.

Darian fitou-o nos olhos, dizendo:

— Com esta aliança, eu ... E foi somente então, que Tom conseguiu respirar fundo, com facilidade. É agora, pensou, que começamos. Então, foi a vez dele de colocar o anel no dedo de Darian. E, quando ela disse "sim", um brilho de felicidade iluminou-lhe os olhos. Bom, ele pensou. Que ela seja feliz. Deus, se estiver me ouvindo, por favor, permita que eu a faça feliz, que ela goste daqui e que queria vir para casa. A cerimônia foi breve, e Tom passou o resto da tarde dançando com sua esposa e entretendo os convidados que se refestelavam com champanhe, churrasco, comida mexicana e bolo. Às cinco e meia, o sol já se encontrava muito baixo no horizonte, e o vento começava a soprar frio. Os convidados que ainda se encontravam na festa entraram na casa, e Tom e Darian vestiram roupas mais quentes e confortáveis. Tom tentava insinuar despedidas sutis, quando o reverendo Cooksey aproximou-se, perguntando em voz alta:

— Onde vão passar a lua-de-mel? — Darian não pode viajar agora, por causa do trabalho. Assim, vamos apenas até a cabana, em Clearpool Source. — Boa idéia — o reverendo elogiou com uma piscadela. — Nos velhos tempos, todos aqui os acompanhariam até lá. Tom esforçou-se para sorrir, enquanto rezava para Lena aparecer e salvá-los de uma procissão até Clearpool Source. Afinal, estava pronto para ficar a sós com sua esposa. Havia providenciado que a cabana fosse aberta, limpa e preparada para os dois passarem a noite, uma vez que Darian insistira que preferia ficar no campo, do que em um hotel de luxo, em Austin. Para dar maior romantismo à noite, Daphne tomara emprestada uma graciosa charrete, e a decorara com guirlandas de Natal, e pedira a Rudy que preparasse Clyde para puxá-la. Já eram quase sete horas, quando Tom finalmente conseguiu fazer um sinal para Darian, indicando-lhe que estava na hora de desaparecerem. Quando saíram, sob uma chuva de arroz, encontraram latas amarradas à charrete, e uma placa dizendo "recém-casados" afixada a ela. Tom conhecia seu cavalo muito bem, para reconhecer seu olhar de desprezo. Riram e brincaram com Rudy, durante o trajeto até a cabana. A luz da varanda estava acesa, e Luz, irmã de Dominga, havia acendido a lareira e arrumado a cama. A moça corou ao sentar-se ao lado de Rudy, na charrete, mas gritou os adequados cumprimentos, desejando um casamento feliz, em espanhol, à medida que se afastavam. Tom combinara com Rudy para que ele fosse apanhá-los às três horas, no dia seguinte. Tom fechou a porta e olhou em volta. Não ia a Clearpool Source há anos. A cabana tinha oitenta anos de idade, era rústica, simples e pequena. Um único cômodo abrigava a cama, uma mesa e duas

Mesmo assim, queria que a cerimônia terminasse. Logo. Havia sempre uma chance, mesmo que mínima, de

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cadeiras sob uma das janelas, uma pia e um baú. A um canto, havia uma cozinha minúscula. Um banheiro havia sido adicionado à construção, nos anos cinqüenta, e modernizado trinta anos depois. O lugar cheirava a inverno: pinho, fumaça de lenha e cera de abelha. Darian parou diante da lareira, esfregando as mãos. Tom aproximou-se e notou que ela estava nervosa. Seu coração também batia descompassado, mas não por nervosismo. — Tudo bem? — Sim, claro — ela tentou sorrir, mas não conseguiu. — Estava pensando em tudo o que aconteceu hoje. Foi maravilhoso, não foi? — Foi o melhor casamento que já vi. Ela riu. — Foi mesmo. O fogo refletia-se nas faces de Darian. Ou ela estava ruborizada. Tom refletiu que suas próprias faces, certamente, apresentavam uma

tonalidade escarlate. Queria sugerir

...

Não, não queria assustá-la, ou

pressioná-la. — Quer alguma coisa? — Não, obrigada — ela respondeu depressa, mas, ergueu os olhos para os dele. — Quem sabe, um abraço. Ah, sim! Era disso que os dois precisavam. Abraçaram-se. — Quer ficar aqui, assim abraçadinha comigo, perto da lareira? — Boa idéia. Só quero me refrescar um pouco. Vinte minutos depois, Darian continuava no banheiro. Estudando

seu reflexo no espelho, notou que estava muito vermelha. Poderia ser

o champanhe

...

Ora, sabia que estava nervosa. Ah, meu Deus! Não

posso me esconder no banheiro para sempre! Tom vai pensar que

enlouqueci! Onde já se viu, quem já enfrentou dezenas de júris. Já

falou a tribunais cheios de gente

...

Sim, mas todos continuavam

vestidos, assim como eu! Abrir a porta exigiu-lhe toda a coragem que possuía, mas no momento em que olhou para ele, sentiu a tensão relaxar. Este é Tom, o homem mais gentil e carinhoso que conheço. Meu grande amigo, meu marido.

Ele havia tirado o paletó e a esperava próximo à lareira. Duas xícaras fumegantes encontravam-se na mesinha ao seu lado. — Fiz café — ele anunciou com um sorriso. — Ótimo. Ainda estou congelada. — Nesse caso — Tom falou com carinho —, venha cá. Tenho algo para aquecê-la. Darian aproximou-se devagar. Quanto mais perto chegava, mais quente a sala se tornava. Em vez de adiantar-se, ou de servir-lho o café, Tom limitou a tocar-lhe a face. Então, ergueu as mãos e pôs-se a retirar os grampos dos cabelos de Darian. Ela fechou os olhos e inclinou o rosto apenas um pouco, a fim de sentir as mãos delicadas libertarem os cabelos, que caíram em torno de seu rosto. Sentiu Tom retirar cuidadosamente as mãos de seus cabelos, segurando-lhe o rosto e forçando-a com gentileza a virar-se para ele. Depois de beijar- lhe o pulso, ela deixou-se virar, mas continuou de olhos fechados, pois não queria sair da escuridão quente e agradável do fogo e das mãos ternas que a acariciavam.

cadeiras sob uma das janelas, uma pia e um baú. A um canto, havia uma cozinha

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Teria permanecido assim por um longo tempo, pois sabia que não existiam segundas intenções, medo, ou recriminação. Porém, assim que o beijo começou a aprofundar-se, Tom pressionou o corpo contra o dela, acendendo em seu corpo uma chama devoradora. Darian envolveu-o com os braços, seus dedos explorando os músculos firmes e bem desenhados das costas largas e poderosas. Tom apertou-a contra si e, lentamente, deslizou a mão até cobrir- lhe um dos seios. Darian não pôde conter um gemido e, ao ouvi-lo, Tom inflamou-se, e enfiou a mão por debaixo do suéter, a fim de poder acariciá-la, sem a barreira das roupas. Imediatamente, Darian pôs-se a desabotoar a camisa de Tom. Quando ergueu os olhos para fitá-lo, viu que ele sorria. Porém, aquele sorriso continha muito mais que prazer: era um misto de satisfação, triunfo e antecipação. — Deixe que eu faça isso — ele murmurou. No entanto, em vez de desabotoar a própria camisa, Tom tirou o suéter de Darian e, em seguida, o sutiã. Momentos depois, ela usava apenas a fina e frágil calcinha de renda, e os lábios de Tom traçavam uma linha de fogo sobre seus seios e ventre. Então, ele se ajoelhou diante dela e, com movimentos gentis e, ao mesmo tempo, firmes, fez a calcinha deslizar para o chão. — Você é tão linda — murmurou repetidas vezes. Darian ajoelhou-se diante dele, moldando o corpo ao dele. A paixão quase incontrolável tornava os abraços, beijos e carícias mais e mais urgentes. Quando Tom tocou-a com intimidade máxima, Darian não foi capaz de controlar os movimentos instintivos de seu corpo. Há anos não era tocada por um homem, e sentiu-se deslizar devagar para uma espécie de loucura embriagante. — Deixe-me fazê-la feliz, minha querida — Tom repetiu muitas vezes, enquanto a levava a um outro mundo, onde só havia eles dois, e muita, muita paixão. Horas depois, encontravam-se deitados na velha cama de car- valho, seus corpos confortavelmente enroscados. Haviam feito amor, conversado e feito amor, até a lua brilhar alta no céu frio. — Nunca vi minha mãe chorar — Darian falou. — Nem mesmo hoje. Pensei que ela fosse chorar, quando me ajudava a me vestir, mas logo assumiu suas maneiras bruscas. Como sempre. Tom ficou pensativo. — Só vi Tuffy chorar três vezes na vida. A primeira, foi quando meu avô morreu. Mas, então, todos choraram, e eu não me assustei. Afinal, só tinha sete anos. A última vez, foi quando ele mesmo estava no hospital e sabia que estava morrendo. Chorou porque não queria deixar Daphne sozinha. A pior foi quando eu tinha onze anos e queria levar a égua de papai para nadar. Ela devia ter uns vinte anos, e Tuffy a amava como nunca vi outro homem amar um animal. Sunshine era famosa por sua inteligência. Às vezes, Tuffy cavalgava sem sela e sem arreios, e ela obedecia-lhe o comando da voz. Tom suspirou, lançando um olhar distante para o fogo na lareira. Darian manteve-se em silêncio, esperando.

Teria permanecido assim por um longo tempo, pois sabia que não existiam segundas intenções, medo, ou

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— Ela não queria — Tom continuou —, mas eu a forcei. Sunshine teve um ataque cardíaco, e morreu na água. Precisamos de um trator para tirá-la. — Que história triste, Tom. — Tuffy ficou arrasado, e eu quase morri de medo de que ele me odiasse pelo resto da vida. Tudo o que ele fez foi sentar-se no chão, com a cabeça de Sunshine no colo, e chorar. Nunca conversamos sobre isso, e eu sabia que não havia nada que eu pudesse fazer para compensar meu erro. Tive de aprender a viver com isso. Darian tocou-lhe a face. — Foi por isso que insistiu para que Jason trabalhasse no sítio, não foi? Para que ele não se sentisse culpado com relação ao Hummie. — Acho que, em parte, foi isso. Sei o que é não ser capaz de compensar um erro. — Tom fitou-a e, lentamente, sua expressão triste transformou-se num sorriso. — E claro que tive outros motivos. Seus dedos deslizaram pelas curvas do corpo de Darian, rea- cendendo a chama da paixão em ambos. — Fico contente por você não precisar de muitas horas de sono. Ela sorriu. — Eu também. No fim de dezembro, a paisagem do campo apresentava-se seca, exibindo poucas cores. Darian descobriu que adorava o campo assim mesmo. Toda vez que voltava da firma para o sítio, deleitava-se com aqueles momentos tranqüilos na estrada. A tensão que fazia seus ombros e pescoço doerem, sempre que deixava Austin, ia se dissipando devagar, ao longo do trajeto. Quando Darian estacionava seu carro ao lado da camionete de Tom, sentia-se como se houvesse tomado um banho quente e se submetido a uma sessão de massagem. Ao desligar o motor, Winnie aparecia correndo, assustando as galinhas gordas de Dominga, e aproximava-se descoordenada, em sua tentativa de oferecer a cabeça e a parte posterior do corpo, ao mesmo tempo, para ser afagada. — Calma, Winnie — Darian advertiu-a. — Winnie, quieta! Droga! Veja o que está fazendo ... Deixou a bolsa e a pasta na mesinha do hall de entrada. Na sala, encontrou Tom acomodado no sofá mais confortável, lendo uma publicação sobre petróleo. Tinha um copo de uísque a seu lado, e havia acendido a lareira. O modo como a fitou falou mais que todas as palavras. — Chegou cedo — ele comentou, levantando-se e adiantando-se para ela. — Quis fazer uma surpresa. Ainda tenho trabalho a fazer, hoje, mas posso perfeitamente fazê-lo aqui. Ele a beijou na boca. Várias vezes. — Minha vida fica melhor a cada dia — falou. — Só posso ser o homem mais sortudo do mundo. Uma mulher linda, sexy e inteligente vem à minha casa e dorme comigo, várias noites por semana. Darian riu. — E ela gostaria de vir todas as noites. Não vê a hora de acabar com esse vai-e-volta. Mais um pouco, vai arrancar os cabelos.

— Ela não queria — Tom continuou —, mas eu a forcei. Sunshine teve um ataque

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— Deixe que eu cuide deles. Adoro fazer isso. — Com um sorriso, Tom começou a soltar a trança que os prendia, massageando-lhe o couro cabeludo. — Gosta? — Adoro — Darian murmurou, fechando os olhos. — Onde está Jason? — Está observando o céu, com Rudy e Eddie. Pelo que entendi, algum evento astronômico está previsto para oito e meia. — Então, estamos sozinhos pelas próximas duas horas? — Completamente sozinhos — Tom confirmou, depois de beijá-la mais uma vez.

— O que eu teria de fazer para você preparar dois drinques e me encontrar na banheira? — Vou pensar no caso. Passava de meia-noite, quando Darian acordou, vestiu o robe e deixou o quarto em silêncio, sem acordar Tom. Tudo estava em seu devido lugar, ela pensou. Confiava em Tom, em seu comprometimento com ela, sua integridade. Como os dois haviam previsto, seu casamento trazia satisfação, admiração mútua e intensos prazeres físicos. Sorrindo para si mesma, verificou portas e janelas, e entrou no quarto de Jason, que dormia profundamente. Winnie ergueu a cabeça, mas não saiu da cama para fazer-lhe agrados.

Não sei o que fiz para merecer isto, mas muito obrigada, meu Deus. Minha vida é perfeita. Quero viver assim para sempre. Por favor, não permita que nada venha a mudar.

Aquele casamento não lembrava em nada o primeiro. Tom, cer- tamente, não se parecia em nada com Joel. Darian achou que, talvez, aquele fora um teste pelo qual ela tivera de passar, a fim de ganhar esta nova vida. Lembrou-se das infidelidades de Joel, sua indiferença, a zombaria com relação aos seus valores e habilidades. Até mesmo na cama. Perguntou-se se teria mudado tanto, mas concluiu que ninguém seria capaz de tamanha transformação. Tom era, simplesmente, um homem superior. Era fiel e honrado. Respeitava a si mesmo e, em conseqüência, tinha respeito por aqueles à sua volta. Era honesto e não tinha medo de dizer o que pensava, o que queria. Até mesmo na cama. Darian jamais se sentira tão sexy, inteligente e desejável. Em- bora já não fosse uma jovenzinha, não era capaz de entrar num aposento da casa, sem que Tom a devorasse com os olhos. E, se Jason não estivesse por perto, com suas mãos e lábios. Talvez não estivessem apaixonados, mas ele a tratava com uma paixão terna que a maioria dos amantes jamais partilhariam. Quando voltou para a cama, Tom murmurou um cumprimento e envolveu-a nos braços. — Por onde andou? — inquiriu sonolento. — Desculpe por tê-lo acordado. Achei que tinha ouvido um barulho. — Não ouvi nada. E tenho o sono leve. — Eu sei. — Estava tudo bem? Que barulho foi esse?

— Deixe que eu cuide deles. Adoro fazer isso. — Com um sorriso, Tom começou a

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— Não foi nada — Darian respondeu tranqüila. — Deve ter sido minha imaginação. Teria falado mais, mas a boca de Tom cobriu a sua e, em questão de segundos, seus pensamentos se desviaram do som imaginário. Por um breve instante, Darian pensou em perguntar aos outros, na manhã seguinte, se haviam ouvido algo: um ruído desconhecido, como um aviso distante.

CAPÍTULO VIII

— Olá, Marty. Seja bem-vinda.

— Olá, Darian. Nossa, você está ótima! A vida de casada deve lhe fazer bem. Darian nem tentou esconder o rubor que a atacava, sempre que seu casamento era mencionado, mesmo que dois meses já houvessem se passado.

— Obrigada. Tem sido

bom.

... — Bom? — Marty repetiu incrédula. — Ora, você está radiante,

mesmo com toda a loucura da Goldenair. Pensei que, quando voltasse, a encontraria acabada. — Bem, posso estar radiante por causa do casamento, mas aqui,

a loucura está cada vez pior. — Darian suspirou. — É um caos. Senti sua falta. Tive três secretárias flutuantes e duas temporárias, durante a sua ausência. Deram-me um apelido horrível, mas ninguém quer me contar. — Ah, vou descobrir e chantagear você — Marty falou rindo. Pôs a bolsa sobre a mesa e examinou as pilhas de correspondência e

arquivos. — É bom saber que sentiu minha falta

...

eu acho.

— Como estava no Colorado? — Espetacular, mas quatro semanas não são suficientes. Quando ganhar na loteria, vou passar o resto da vida perseguindo esquiadores. A propósito, eu adoraria um café e algumas fofocas, antes de voltar ao trabalho. Tem algum tempo? — Não, mas vamos fofocar assim mesmo. Pegue o café e vá para a minha sala. — Que horror! — Marty quase gritou, ao entrar na sala de Darian. — O que é isto? — Relatórios. Devia ver a sala de Richard. Está bem pior. — Bem, conte-me como foi o Natal e o Ano Novo. Darian contou a Marty tudo o que acontecera desde o casamento: as festas de Natal e Ano Novo, a nova escola de Jason, a paixão repentina e inexplicável de Rudy por Paulina. Winnie entrara no cio e tivera de ser trancada na lavanderia, por uma semana, enquanto todos os cachorros da vizinhança rondavam a casa.

— Não foi nada — Darian respondeu tranqüila. — Deve ter sido minha imaginação. Teria falado

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Na primeira semana de janeiro, aproximadamente vinte vacas haviam rompido a cerca, e os homens só haviam conseguido reuni-las de madrugada, usando cavalos e os Hummies que Tom comprara no Natal, a despeito dos protestos de Darian. Jason jamais se sentira tão orgulhoso de si mesmo, voltando para casa, às três horas da madrugada, sendo tratado como os demais empregados do sítio. Ele, agora, se mostrava mais confiante, menos infantil, e pouco discutia com a mãe. — Você tem sorte — Marty comentou. — A maioria dos homens não se dá bem com os enteados. — Eu sei, mas Tom é como um verdadeiro pai para Jason. Marty levantou-se, recolhendo as xícaras. — Você é a mulher mais sortuda que já vi. Não que não tenha dado duro e merecido tudo o que conquistou, mas tem uma vida perfeita, agora: uma grande carreira, beleza de dar inveja, um marido espetacular, que adora seu filho. E, é claro, a melhor secretária do mundo. Darian fez uma breve pausa. Um protesto vago quase se ma- terializou, mas ela não conseguiu focalizá-lo. — Certo. Agora, trate de se afundar no trabalho, antes que eu a acorrente à sua cadeira. — Sim, senhora! Darian passou o resto de janeiro, bem como as duas primeiras semanas de fevereiro, organizando depoimentos de especialistas, entrevistando testemunhas e trabalhando nas descobertas neces- sárias. Quase todos os dias, almoçava no escritório, mudando a rotina somente nos dias em que se encontrava no tribunal. Todos os sócios e associados trabalhando no caso Goldenair comiam em suas salas, e ninguém mais suportava a comida, embora as recepcionistas se esforçassem ao máximo para variar o cardápio. Darian começava a sentir as saias justas na cintura, por ficar sentada catorze horas por dia.

Numa quarta-feira, às cinco e meia, o telefone tocou. Darian sorriu. Tom sempre telefonava na mesma hora. — Darian Stéinbuck. — Belo nome, Sra. Steinbuck. Aposto que está casada com um homem maravilhoso.

— Pode apostar nisso — ela replicou, reclinando-se na cadeira. — Como vai? — Acabado. Estou em Austin desde as onze horas, tentando

concluir de vez essa fusão. Vocês advogados

...

Ah, se eu não fosse

casado com uma ... — Está criticando a minha honrada profissão? Que tal conver- sarmos sobre ladrões de gado, de terras e ... — Certo, certo. Importa-se de deixar os insultos para o jantar? — Jantar? Está falando de comida de verdade, em pratos de verdade? — Sim. E sei que estou mimando você demais. — É verdade, mas gosto de homens assim. — Sete horas?

Na primeira semana de janeiro, aproximadamente vinte vacas haviam rompido a cerca, e os homens só

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— Oito será melhor. Quando ele entrou, Darian foi tomada pela mesma reação de sempre. O cumprimento dos dois tornara-se um ritual: Tom parava na porta por um momento, examinava-a da cabeça aos pés, sem esconder desejo que brilhava em seus olhos, aproximava-se e, ao mesmo tempo em que a beijava na boca, soltava-lhe os cabelos e acariciava-lhe, primeiro, a face, depois o pescoço e, por fim, os seios. — Olá, advogada — murmurou de encontro aos lábios dela. — Você tem um gosto tão bom. — Deve estar com muita fome, para gostar do gosto de um rancheiro. — Estou faminta, mas sempre gosto do seu sabor. — Então, em vez de comer fora, o que acha do serviço de quarto? — Está brincando! — De jeito nenhum. Estamos na lua cheia, e sei como adora a

vista.

Uma sensação familiar tomou conta do peito de Darian. Desde que haviam se casado, Tom fazia o possível para levá-la para jantar, no mínimo, duas vezes por semana. E, pelo menos uma vez, reservava a suíte nupcial do Fallbrook, o magnífico hotel que dava vista para Town Lake. Havia sempre champanhe gelado, e essências perfumadas na banheira. Depois, Tom costumava voltar a Clearpool, e esperar acordado pela chegada de Darian. — Há um toque de aventura, em nos hospedarmos num hotel só por algumas horas — Darian comentou com uma risada. — Acha que os funcionários pensam que sou sua amante? Ele sorriu. — Espero que sim. Adoro o modo como todos os homens me olham. Posso até ouvi-los: "O que aquele sujeito horrível está fazendo com aquela mulher maravilhosa?" Darian estudou-o por um momento. — Sabe de uma coisa, Tom? De repente, perdi a fome. — Então, vamos — ele falou com voz rouca. — Não me faça esperar mais. Às dez e meia, estavam no carro de Tom, diante do escritório de Darian. — Gostaria que você não tivesse de voltar ao trabalho. — Eu também. Devo trabalhar mais umas duas horas e, então, voltarei para casa. — Se estiver cansada demais para dirigir ...

— Não. Você sabe como isso

me energiza. Tom sorriu.

... — Isso? O que quer dizer com "isso"?

— Pare com isso, seu pervertido! Dê-me um beijo, ou nunca vou chegar em casa. — Está bem. Vejo você em casa.

Fica

chateado,

por

eu

passar

tanto

tempo

fora?

... Imediatamente, Tom desviou o olhar. — Sou mais feliz que qualquer outro homem que conheço. Já discutimos isso há muito tempo. Sabemos o que esse julgamento significa, que vai garantir sua promoção a sócia. Jason também

— Oito será melhor. Quando ele entrou, Darian foi tomada pela mesma reação de sempre. O

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compreende. Apesar de todas as mudanças, está se adaptando bem.

Todos nós sabemos que, durante os próximos anos, sua carreira vai

exigir muito de você. Eu

nós aceitamos isso. Além do mais, você não

... é a única a estar sempre ocupada.

— Sei que sua vida é tão cheia quanto a minha, mas não quero ... — O quê? Darian baixou os olhos. De alguma maneira, o fato de ele se mostrar tão tranqüilo, deixava-a insatisfeita. Não seja tola. Como Marty disse, tem uma vida perfeita.

— Ah, nada. — Beijou-o. — Estou procurando desculpas para não voltar ao trabalho. Vejo você em casa, por volta de meia-noite. — Ao descer do carro, Darian virou-se e piscou. — Esquente a cama para mim.

Ele devolveu a piscadela. — Sempre.

Quando o relógio marcou meia-noite, Darian tirou os óculos e decidiu ir embora. A voz de Tom soou sonolenta, quando ela ligou para avisar que estava de saída. Detestava acordá-lo, mas ele insistia para que ela não saísse do escritório, sem avisá-lo. Ao entrar pela porta da cozinha, Winnie foi cumprimentá-la com entusiasmo. Ao abaixar-se para afagar a cachorra, Darian notou o bilhete de Dominga. Havia frango e pão caseiro na geladeira, além de sopa de feijão. Darian estava faminta, e seu estômago doeu diante da simples visão da comida apetitosa. Fez o prato, colocou-o no microondas e foi até a sala. Tom dormia no sofá, com Jason aconchegado na curva de seu braço. Tinha um livro aberto sobre o peito, e era evidente que acendera a lareira, cujas brasas ainda aqueciam o ambiente. Darian sentiu vontade de chorar, como se algum evento maravilhoso

houvesse ocorrido, e ela tivesse perdido

...

não fora convidada.

Suspirou, e Tom abriu os olhos. — Oi — murmurou. — Oi — ela replicou baixinho. — O que Jason está fazendo aqui? — Veio quando ouviu o telefone. Queria esperar por você acor- dado. — Ergueu a mão livre, fazendo-lhe um sinal para que ela se aproximasse e o beijasse. — Seus olhos estão vermelhos. Com um sorriso apressado, ela explicou:

— Cansaço. Tom estudou-a por um momento. — Bem, que tal colocarmos nosso amigo na cama? — Sim. Ah, deixei um prato no microondas e ... — Certo. Depois que comer, vá se encontrar comigo no quarto. É um belo quarto. Segunda porta à esquerda — ele brincou. — Vejo você lá. Porém, depois de comer, pôr os pratos na pia e tomar banho, encontrou Tom profundamente adormecido. Ao deitar-se ao lado dele, perguntou-se quanto tempo ele havia ficado acordado, antes de se cansar de esperá-la. No domingo, Darian entrou na bifurcação de Dripping Springs, e desligou o gravador. Esfregou a mão no pescoço, sentindo a dor

compreende. Apesar de todas as mudanças, está se adaptando bem. Todos nós sabemos que, durante os

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familiar aumentar. Toda vez que se dirigia para o escritório, aquela dor ia crescendo, crescendo, até tornar-se um ponto em brasa. Porém, desta vez, era diferente: não estava dirigindo na direção de Austin, mas sim, de Clearpool. Ia para casa e, em vez de sentir-se aliviada, a tensão parecia crescer mais e mais. Finalmente, quando a dor e a frustração se tornaram demais para ignorar, estacionou no acostamento, apoiou a cabeça no volante e chorou. — O que está errado comigo? — perguntou em voz alta e saiu do

carro. — Tenho uma vida perfeita — gritou para o vale à sua frente. — Serei promovida a sócia, Jason nunca foi tão feliz, e estou casada com um homem maravilhoso. Tenho uma carreira brilhante, estabilidade

financeira ...

tudo o que sempre quis. Tenho a vida perfeita.

Mal pronunciara as palavras, e Darian teve a impressão de que ia explodir. Palavras muito diferentes vinham crescendo dentro dela há semanas. E ela sabia que se as pronunciasse em voz alta, seu poder tomaria vida, e deixaria um rastro de destruição em sua vida tão perfeita. Por outro lado, de nada adiantaria reprimi-las. Desistiu de con- tinuar lutando contra elas, e afundou o rosto nas mãos. — Odeio minha vida. Odeio minha vida. — repetiu as palavras diversas vezes, por entre lágrimas e soluços, deixando que o vento as levasse. — Cometi um erro. Odeio minha vida. Darian chorou até não ter mais lágrimas. O que, exatamente, eu

odeio? O que está errado? A resposta era simples, e ela sabia há semanas, mas não queria admitir. — Amo Tom. Estou apaixonada pelo meu marido. A ironia da situação provocou-lhe uma risada amarga. — Estou apaixonada por meu marido. E isso, provavelmente, vai arruinar meu casamento. Como pude não perceber? Como pude ser tão estúpida? Mas não fora assim. Desde o início, Darian soubera que havia algo poderoso entre ela e Tom. Porém, estivera determinada a não enxergar. Sabia que seu amor por ele interferiria no que ela acreditava ser sua missão, sua responsabilidade. Sua força e independência. Ou seria mais que isso? Teria seu papel de profissional eficiente sido apenas um disfarce? Seria ela, na verdade, bem no fundo, uma pessoa fraca e dependente? E se alguém descobrisse a verdade sobre ela, seria abandonada mais uma vez. Como acontecera com seu pai. E com Joel. Seria isso? A verdade ressoou dentro dela. Nunca quisera amar alguém, ser dependente. Amar era sinônimo de perder. Fora essa fraqueza que ela conseguira esconder durante anos, sob a capa da competência e do controle. E era tudo verdade. Darian queria desistir.

— Ah, meu Deus — murmurou. — Sou tão ruim quanto

não

... a ex-mulher dele. Provavelmente, sou muito pior que

lembro o nome

... ela. Sou tão ruim quanto Joel. No fundo, o que mais quero, é largar

tudo e deixar que Tom cuide de mim ... de nós.
tudo e deixar que Tom cuide de mim
...
de nós.

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Passou as mãos pelos olhos, e descobriu que estavam borrados de rimel. — Posso muito bem imaginar minha aparência, agora! — res- mungou. — Isso é ridículo. Não posso desistir. Aliás, é tarde demais para mudar, mesmo que eu quisesse. Tom está feliz com as coisas do jeito que estão. Foi invadida por uma onda de raiva. Ora, claro que ele estava feliz. Tinha tudo: dinheiro, o sítio, o filho dela, uma esposa brilhante,

que o adorava. Certamente, Tom sabia o que ela sentia, e só fingia não saber, pois não queria mudar nada. — Ora, seja justa. Tem o que disse que desejava. É melhor parar com isso e agradecer aos céus pelo que tem. Está apaixonada por ele. E daí? Tom é um homem maravilhoso, o melhor pai que já houve. E, além disso, você consegue passar algum tempo junto dele. As vezes. É melhor recuperar o controle, ou vai acabar perdendo tudo o que tem. A caminho de casa, Darian parou num posto de gasolina e lavou o rosto no banheiro. Tinha os olhos vermelhos e inchados, e irritou-se consigo mesma. — Agora, trate de vestir sua máscara de tribunal. Não tem o

direito de deixar todo mundo infeliz, só porque seu marido não a

...

Não

era capaz de completar o pensamento, sem voltar a chorar. Deu a partida no motor, ligou o rádio bem alto, e cantou junto até chegar no sítio. Tom e Jason estavam sentados à mesa da cozinha, quando ela entrou. Darian tratou de estampar seu melhor sorriso. — Olá, garotões — cumprimentou-os com falsa alegria. — Mamãe! — Jason pulou da cadeira e correu para abraçá-la. — Chegou cedo. Tom levantou-se e abraçou-a. — Olá, advogada. É uma surpresa muito agradável. — Fitou-a diretamente nos olhos. — Você está bem? Sentindo o nó voltar à garganta, Darian desviou o olhar.

— Bem, mas cansada. — Afagou os cabelos de Jason. — Como foi o seu dia? — Ótimo. Encontramos duas flechas legítimas. Estou escrevendo um relatório para a escola. Vou buscar para você ver. — Não corra dentro de casa — ela o advertiu. — Dominga fez o jantar — Tom anunciou, retirando uma caçarola da geladeira. — Ela é um amor. Afinal, hoje é seu dia de folga. — Veja: Fetuccini Alfredo. — Não posso comer isso — Darian retrucou, surpreendendo-se com a própria grosseria. — Por quê? — Tom perguntou, ligeiramente irritado. — Pensei que gostasse de comida italiana. Dominga também. Foi por isso que preparou esse prato. Tom pôs a caçarola sobre a pia com força. Darian olhou para o chão. Não vou chorar.

tipo ...

— Eu

estou preocupada ...

... Acha que estou gorda?

tenho comido muita comida desse

Passou as mãos pelos olhos, e descobriu que estavam borrados de rimel. — Posso muito bem

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Ele a fitou com ar surpreso, embora continuasse ofendido. — O quê? — Acha que estou ganhando peso? — São duas perguntas diferentes. Eu sabia. — E? Ele limpou a garganta. — Sim, acho que ganhou peso. Não, não acho que esteja gorda.

Estava magra demais, antes. — Por que nunca me disse que me achava magra demais? Por favor, cale a boca.

Tom cerrou os punhos. — Vou até o estábulo, Darian — informou-a com voz calma. — Se me quiser, estarei de volta em uma hora. Sem esperar pela resposta, ele saiu. Jason entrou correndo, empunhando as duas flechas. — Papai me levou para cavalgar e nós as encontramos no leito de um riacho. — Olhou em volta. — Para onde ele foi?

Eu me odeio.

Mais tarde, quando se deitou, Darian sabia que Tom estava acordado, pois ele nunca dormia virado de costas para ela. — Tom? — Hum? — Desculpe. Ele suspirou, virou-se e tomou-a nos braços. — Tudo bem. Sei que está cansada. Darian estava deitada junto de Tom, como fazia todas as noites, durante os últimos três meses. Antes, sempre se sentira segura, senão

amada, querida e desejada. Agora, o braço dele parecia pesado, a

comida caíra como chumbo em seu estômago, e tudo

o corpo de

... Tom, as cobertas, a camisola fina, tudo parecia sufocante e opressor. Esperou que a respiração dele se tornasse profunda e regular, para então, afastar-se, encolher-se e chorar até dormir. Na manhã seguinte, não se sentia melhor. Na verdade, havia piorado. Acordou cansada e nauseada, sentindo-se atordoada e desorientada, embora não tivesse febre. Tom continuou consternado, mesmo depois de verificar o termômetro. — Quando foi ao médico pela última vez? — Acho que foi em setembro. Ele estreitou os olhos. — De que ano? — Tom, tenho certeza de que é só cansaço ... — Também acho. Está trabalhando quinze horas por dia. Sabia que a exaustão é a maior destruidora do sistema imunológico? — Vou ficar bem. — Vai ficar em casa e descansar, hoje? — Não posso. — Bem, então, você vai ao médico. Precisa de um exame geral, para o seguro. Darian respirou fundo, concluindo que de nada adiantaria discutir.

Ele a fitou com ar surpreso, embora continuasse ofendido. — O quê? — Acha que estou

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— Está bem. Vou marcar uma consulta. O que não significa que vou comparecer. Tom cruzou os braços. — Ótimo. Vou levá-la. Às onze e meia, estavam sentados na sala de espera da clínica médica. A Dra. Maggie Winstrom era médica da família há anos, e mudara seus horários, para poder encaixar Darian. Porém, os exames haviam demorado mais do que Darian imaginava, o que não ajudara a melhorar seu humor. Apanhando uma revista velha, suspirou e revirou os olhos para Tom, que a ignorou. A enfermeira abriu a porta. — Sra. Steinbuck, pode entrar. Darian levantou-se aflita. Por que a enfermeira a fitara daquela maneira? Devia haver algo muito errado com ela. A porta fechou-se atrás dela, e a primeira coisa que Darian viu, foi a caixa de lenços de papel sobre e mesa. — Darian — a médica falou com um sorriso. — Por favor, sente-

se.

Quinze minutos depois, Darian voltou para a sala de espera, muito, muito pálida. Ao fitá-la, Tom também perdeu a cor. — O que é? — Conhece algum bom meteorologista lunar? — O que está dizendo? Ela tentou sorrir. — Lembra-se de quando me disse que a probabilidade de você ter um filho era a mesma que chover na lua? — Sentou-se. — Pois pode verificar a previsão do tempo na lua, querido. Vamos ter um bebê.

— Está bem. Vou marcar uma consulta. O que não significa que vou comparecer. Tom cruzou

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CAPÍTULO IX

Naquela noite, deixaram as cortinas abertas, para que a luz do luar banhasse o quarto em seu brilho prateado. Tom não conseguia tirar os olhos de Darian e, cada vez que pousava a mão em seu ventre, seus lábios se curvavam num sorriso. — Minha família sempre foi muito fértil — Darian falou mais uma vez. — Já lhe disse que engravidei de Jason na lua-de-mel. — Deu-se conta de que ainda estava em estado de choque. Os dois haviam tirado o resto do dia de folga, e passado as horas juntos, na cama. — Contei sobre minha mãe, como ele engravidava com facilidade. E Johanna. Ainda não acredito. Deve ter acontecido em nossa lua-de-mel. Nunca me preocupei com atrasos, e essas coisas. Tenho estado tão ocupada. Eu lhe disse ... — Psiu! — Tom pousou um dedo nos lábios dela. — Está ficando nervosa de novo. Vai acabar chorando de novo. Darian encarou-o. — Qual o problema? Não seja rude. Tom sorriu. — Nenhum, mas você fica dizendo quanto se acha horrível quan- do seu rosto fica inchado. Acho você linda do mesmo jeito. Deslizou a mãos entre os seios de Darian, acariciando-os, até provocar a reação costumeira. Então, voltou a acariciar-lhe o ventre. — Fico imaginando o que vão dizer no escritório. Será que vai fazer alguma diferença? — Diga-me para parar. Peça para eu me demitir. — Às vezes, faz muita diferença. O sorriso de Tom se desfez. — Não precisa contar, por enquanto, se não quiser. Eles não vão anunciar as promoções em primeiro de abril? Falta um mês apenas. — Certo. — É claro que acho que você devia diminuir o ritmo de trabalho. — Acha? — Sim. Vou telefonar para o Fallbrook amanhã, e fazer uma reserva de seis meses da nossa suíte. Quero que possa desanuviar sempre que sentir necessidade. Darian engoliu o nó na garganta. Quanta consideração! — E, se ficar muito tarde, não precisará dirigir de volta para casa. Pode deixar várias mudas de roupas lá. — Tom voltou a sorrir. — Vai precisar de uma porção de roupas novas, não é? — Provavelmente — ela respondeu num sussurro. A mão de Tom voltou a passear pelos seios de Darian, e ela logo começou a emitir pequenos gemidos de prazer. Minutos depois, sentindo-o dentro de si, preenchendo-a com sua magia doce e po- derosa, ela não foi capaz de conter as lágrimas que estivera re- primindo. Se ele percebeu a diferença no modo como Darian soluçava de encontro a seu peito, não disse nada. Depois, porém, abraçou-a e mimou-a mais que o habitual.

CAPÍTULO IX Naquela noite, deixaram as cortinas abertas, para que a luz do luar banhasse o

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Darian não disse nada. Afinal, o que teria para reclamar? Agora, tinha ainda mais do que sempre desejara. Durante as duas semanas seguintes, Darian tentou diminuir o ritmo de trabalho, e cuidava de caminhar várias vezes por dia. Tomava as vitaminas enormes, de sabor horrível, que sua nova obstetra re- comendara, e bebia muita água. Comprava revistas sobre gravidez e maternidade, e as lia no escritório, sempre com a porta trancada. Não se atreveu a contar sequer para as irmãs que estava grávida, pois sabia que elas contariam a Paulina, que chegaria a Austin no dia seguinte, e infernizaria a vida de todos durante meses. Tom ia à cidade com maior freqüência, e Darian notou que ele parecia cansado. Sabia que haviam ocorrido algumas crises bancárias, bem como na área de petróleo, e tinha a noção de que as empresas Clearpool eram multinacionais e complicadas. Afinal, o acordo pré- nupcial que haviam assinado era tão espesso quanto uma lista te- lefônica. Ainda assim, atribuiu o cansaço que notara nele ao fato do ele estar tão atordoado quanto ela, com relação à sua gravidez. NOS primeiros dias, os dois haviam se comportado como crianças partilhando um segredo. Depois, um tipo diferente de energia tomou conta de ambos. Tom tornara-se pensativo e um pouco distante.

Darian estava sentada em seu escritório, observando o buraco de prego na parede, e batendo com o lápis na mesa. A mão esquerda apoiava-se no ventre. Vestia o casaco que menos gostava, a maior saia que possuía, que ela abotoara com um grande alfinete de fralda. Seus seios encontravam-se inchados, e certos odores a obrigavam a correr para o banheiro: bacon, cebola frita, repolho cozido. Imaginou o bebê se mexendo dentro dela. É menina. Eu sei. Reprimiu as lágrimas. Já amava a vida que se desenvolvia ali dentro, o bebê que era uma parte dela, outra de Tom, e muito mais que a simples soma dos dois. Queria uma vida diferente para aquela criança, regras e exigências diferentes. Queria proteger aquela criatura de tudo o que pudesse causar dor. Então, converse com seu marido. Dê-lhe uma chance.

Darian empertigou-se na cadeira. — Ora, mas é muito simples — falou em voz alta com um sorriso. Então, riu alto. — Eu nem sequer toquei no assunto com ele. Quem sabe, se Tom soubesse que mudei de idéia, compreenderia. Talvez ele também se sinta diferente, agora. Decidiu ir embora cedo. Consultou o relógio. Faltava pouco para a seis. Poderia terminar aquele memorando, colocar alguns relatórios na pasta e chegar em casa a tempo de jantar com Tom e Jason. Seu filho surpreendera a todos com seu entusiasmo em relação ao bebê. Ele e Tom pareciam partilhar um pacto, ou acordo secreto, sobre o irmãozinho, ou irmãzinha, a caminho. Darian pensou em telefonar, mas achou melhor fazer uma surpresa. Já podia imaginar a expressão de ambos, ao verem-na chegar com grandes bifes para churrasco. Afinal, um pouquinho de carne vermelha, só daquela vez, não faria mal a ninguém. Ah, não podia esquecer do osso de Winnie. Trabalhou depressa, tentando concentrar-se mais que o normal. O memorando já estava quase pronto. Mais duas ou três linhas

Darian não disse nada. Afinal, o que teria para reclamar? Agora, tinha ainda mais do que

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bastariam. Ela retirou a bolsa do armário e colocou-a no chão, ao lado da pasta. Darian ajeitou os papéis antes de colocá-los na pasta, juntamente com seu gravador, fitas e dois blocos. Cantarolando, trancou a gaveta de sua mesa. Quando a porta se abriu, ela se assustou. Não esperava ninguém àquela hora. Especialmente Endor Thorogood.

— Juiz Thoro

Endor. Eu não sabia que ainda estava aqui.

... — Boa noite, Darian. Não se levante. Tem razão, não costumo ficar por aqui depois das seis, mas preciso discutir um assunto com você. Algo vai surgir na reunião da manhã, e você precisa ser avisada. Avisada? A expressão dele a assustou. O juiz Thorogood gostava dela. Admirava seu trabalho. Fizera questão de dizer isso para quase todos na firma, incluindo a maioria dos sócios. Porém, era evidente que

algo estava errado. O semblante dele parecia do granito, e a linha dura de seus lábios indicavam que ele lutava para conter um grande nervosismo. Na mão direita, trazia papéis relacionados ao julgamento, onde Darian pôde divisar diversos círculos vermelhos, feitos a caneta. Ele colocou os papéis sobre a mesa, diante de Darian. — Leia o item oitenta e um. Darian passou os olhos pelo papel, coberto de respostas a inter- rogatórios. Ela mesma as preparara e entregara, três semanas antes.

página Neuhaven para

— ...

de referência número oito, na carta do Dr. Albert Ah, meu Deus! Ele é o nosso especialista.

... A expressão de Endor tornou-se, se possível, ainda mais gelada.

— Precisamente. Imagino que, como qualquer estudante do pri- meiro ano de direito saberia, você tenha se dado conta de que isso significa que você abriu as portas para toda a informação que o Dr. Neuhaven possui. Agora, eles podem investigar cada linha do material confidencial que fornecemos a ele, a fim de ajudá-lo a chegar às descobertas de que precisávamos. Assim como todas as anotações que ele fez, em reuniões particulares com nosso cliente. Darian sentiu o coração prestes a explodir em seu peito. Era como se um abismo houvesse se aberto debaixo de seus pés. Tratava- se de um erro estúpido, descuidado, absurdo.

— Eu

Não faço idéia de como isto me passou despercebido,

meu

... Endor. Não há desculpa para meu

... Ele ergueu a mão, suavizando a expressão apenas um pouco. — Darian, você sabe que admiro o seu trabalho, desde que entrou na firma. Sempre foi uma das mais brilhantes associadas, e eu detestaria que isso atrapalhasse sua carreira. Não creio que este erro tenha de ser um desastre. Afinal, o trabalho do Dr. Neuhaven é um mero detalhe dentro do caso. — Endor respirou fundo. — Pensei sobre isso a tarde toda, e quero concentrar esforços no controle de danos. Para você e para nós. Terá de separar tudo o que fornecemos a Neuhaven, e tirar cópias de todos os recibos que ele nos passou, bem como de suas folhas de registro de horas trabalhadas. Tem até amanhã de manhã para descobrir todos os ângulos pelos quais as informações de Neuhaven podem nos prejudicar. Já tem todos os arquivos dele, uma vez que foi você quem preparou os documentos. — Sim, tenho.

...

bastariam. Ela retirou a bolsa do armário e colocou-a no chão, ao lado da pasta. Darian

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— Ótimo — ele falou e levantou-se. Parou na porta e olhou para a bolsa e a pasta no chão. — Parece que a apanhei bem a tempo. Estava de saída? Darian fitou-o. — Não. Não vou a lugar algum. Darian deixou um recado na secretária eletrônica de Tom. Quando ele retornou a ligação, ela lhe contou o que acontecera, e Tom produziu ruídos de simpatia. Endor tinha razão. O dano não precisaria ser tão grande, desde que conseguissem trabalhar depressa, antes que os oponentes per- cebessem seu erro gritante. Fazendo acusações cruéis a si mesma, preparou um memorando, expondo todos os modos possíveis de seus concorrentes explorarem sua burrice. Trabalhou até quatro e meia, pegou um táxi e, chegando no Fallbrook, dormiu por duas horas. A reunião não foi menos cruel do que ela merecia. Atwell lan- çava-lhe olhares irados e falou tudo o que pensava de seu erro, diante de todos os outros associados. Em vez de tentar protegê-la, Endor deixou que o peso caísse todo sobre os ombros dela. No final da reunião, porém, cumprimentou-a pelo trabalho feito durante a noite e elogiou suas sugestões de controle de danos. Darian conseguiu exibir um meio sorriso. Não tinha dúvidas de que a notícia já teria corrido toda a firma, até a hora do almoço. Ao longo do dia, Darian executou suas tarefas com precisão militar, revisando cada linha à procura dos erros mais banais. Como sempre, às três e meia, telefonou para casa e falou com Jason, tentando soar animada. Tom fora resolver algo em Austin, e deixara um recado dizendo que pretendia passar a noite na cidade, com ela. Ele a esperou na suíte, depois do trabalho, e o jantar foi quieto e tenso. Tom tentava ser simpático e dar-lhe apoio, mas sabia que não havia muito a dizer. Já murmurara uma porção de frases encorajadoras, sem sentido. Até mesmo o ato de amor foi estranho, automático. No meio da noite, exausta, mas incapaz de dormir, Darian apoiou-se num cotovelo e estudou Tom, com lágrimas nos olhos. Amar tanto alguém doía. Pior ainda, era estar nos braços dessa pessoa e, ao mesmo tempo, fora de seu coração. Pensou em tudo o que planejara dizer a ele, e sentiu o desespero crescer. Para quê? Tom não a queria daquela maneira. Quantas vezes ele dissera quanto estava feliz? Quanto sua vida se tornara perfeita? O bebê o deixara mais que feliz. Darian teve a impressão de sentir um movimento no ventre e pousou a mão sobre ele. Era aquilo o que Tom queria: a esposa capaz e bem-sucedida, a mãe saudável e independente. Lembrou-se de Winnie no dia do leilão, atirando-se contra as grades da gaiola. As lágrimas caíram soltas, pois ninguém viria salvá-la de seu cativeiro. Na manhã seguinte, sozinha no chuveiro, Darian chorou de novo. Quando Tom saiu do banheiro, ela já estava vestida, a pasta e a bolsa ao lado da porta. Ele se sentou na cama, com uma toalha enrolada na cintura e, cantarolando, calçou as meias.

— Ótimo — ele falou e levantou-se. Parou na porta e olhou para a bolsa e

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— Querida, estive pensando

O que acha de chamarmos o bebê

... de Caroline? Se for menino, gostaria de dar-lhe o nome de meu pai, mas não gosto muito de Buford. Você gosta? Na verdade, não ligo muito para essas coisas. Vou amar Buford ou Caroline do mesmo jeito. — Ergueu os olhos com um sorriso. — Talvez sejam gêmeos: um menino e uma menina. Não seria ótimo? Ele continuou falando sobre colégios e universidades, mas Darian mal ouvia as palavras. Toda vez que ficavam sozinhos, ele falava do bebê. O desconforto da noite anterior havia passado, e Tom voltara a mostrar-se mais que entusiasmado com a perspectiva da paternidade. Sentado ali, seminu, ele irradiava felicidade e poder masculino. Mais uma vez, a visão daquele corpo provocou uma dor profunda em Darian. Não podia suportar a pressão no escritório, o bebê crescendo em seu ventre, e estar junto de Tom, sabendo que ele não a amava. Tom pertencia ao sítio, não à cidade. Darian sentia-se incapaz de enfrentar a situação ali, num lugar que deveria ser para amantes. Conseguia ser forte em Clearpool, longe de toda aquela pressão, mas não ali. — Tom. — Sim? — Estive pensando ... — No quê? Ele ficou de pé, vestiu a cueca e a calça. Então, virou-se para ela com expressão agradável. — Tenho estado muito cansada, trabalhando até tarde, toda noite. Tom imobilizou-se, alerta. — E? — Estive pensando e achei que talvez seja melhor não passar- mos mais tempo juntos aqui, em Austin. Sei que a viagem deve deixar você cansado e ... — Sei exatamente do que está falando. Se é o que você quer, é assim que vai ser. Ele voltou a sentar-se na cama e calçou uma das botas. Darian aproximou-se para dar-lhe um beijo, mas, no momento em que abaixou-se, Tom inclinou-se para apanhar a segunda bota. Na porta, ela virou e murmurou uma despedida. Aparentemente, Tom não ouviu. Darian ficou em Austin por mais dois dias. O Dr. Neuhaven foi chamado ao escritório, e ela, Richard, Atwell e Endor passaram as duas tardes ajudando-o a preparar respostas verdadeiras, embora não reveladoras, para quaisquer perguntas possíveis. Arquivos foram destruídos e tudo o que podia desaparecer sem ferir a lei, foi apagado. Diversas leis foram distorcidas, e interpretações extremamente criativas foram dadas a certos estatutos, mas cada ação permaneceu nos limites legais. Depois de tomadas todas as providências possíveis, concentraram-se em calcular quanto tempo teriam até os oponentes descobrirem o erro de Darian. Darian descobriu que a tarefa de esperar era emocionalmente e fisicamente exaustiva. Na sexta-feira à tarde, Endor ordenou-lhe que fosse para casa, e só aparecesse no escritório na segunda.

— Querida, estive pensando O que acha de chamarmos o bebê ... de Caroline? Se for

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Enquanto ela se preparava para sair, ele entrou e sentou-se. — Sabe que dia é segunda-feira? — perguntou com um sorriso maroto. Darian retribuiu o sorriso da mesma forma. — Sei. Dia quatro. Endor estreitou os olhos e alargou o sorriso. — Tom tem vindo a Austin? Não o tenho visto ultimamente.

— Está muito ocupado. Você deve saber da queda no preço do petróleo, bem como da crise bancária. — Por que não o convida para tomar alguns coquetéis conosco, na segunda à tarde, na sala dos sócios?

Na sala dos sócios?

Darian também alargou o sorriso. — Nas sala dos sócios? Endor estendeu a mão. — Parabéns. Seja bem-vinda à firma. É claro que o anúncio oficial

só será feito na segunda-feira, e você não deve dizer nada a ninguém, mas imagino que Tom gostaria de juntar-se à nossa comemoração, por volta das três horas.

— Obrigada, Endor. Juiz Thorogood. Eu

eu

... — Você está exausta. Agora, vá para casa, para o seu marido, e

...

aproveite o fim de semana. No papel de sócia, vai ter que trabalhar mais. Sempre se trabalha mais, quando se trabalha por si mesmo. Certo? — Certo. Ele parou na porta. — Ah, Darian, sabe que começaremos a escolher os jurados dentro de nove meses. Como se trata de um caso do tribunal federal, teremos o julgamento em Galveston. Seus sócios acham que seria boa idéia você começar a fazer algumas pesquisas preliminares antes disso. Vai precisar de poucas semanas, mas não deve passar de agosto. Pense nisso. Bom fim de semana. Quando a porta se fechou, Darian sentou-se devagar. Seria pro- movida a sócia. Quantos outros seriam? Três, quatro no máximo.

— Bem, minha vida fica melhor a cada minuto, não é? Sou sócia da Sternwell e Haig.

Agora, vá para casa, para o seu marido, e aproveite o fim de semana. No papel de sócia, terá de trabalhar mais. Sempre se trabalha mais quando se trabalha para si mesmo. Certo?

Foi tomada pela náusea a fechou a pauta com um movimento brusco. Venha aqui. Vá ali. Faça isso. Faca aquilo. Por que tenho de fazer tudo? Por que não posso ter sentimentos e necessidades de vez

em quando? A firma, Jason, Tom, Marty

até a maldita cachorra está

... sempre querendo alguma coisa. Acaricie -me, alimente-me, deixe-me entrar, deixe-me sair.

Saindo do escritório, pensou: "Estou cansada disso tudo. Sou gente, também. Mas posso reclamar? Posso ter sentimentos? Não. Tenho de ser mãe, advogada, esposa, chefe e empregada. Quando os pneus de seu carro rangeram no estacionamento, Darian deu-se conta de que estava pisando com força demais no acelerador.

Enquanto ela se preparava para sair, ele entrou e sentou-se. — Sabe que dia é segunda-feira?

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Durante todo o trajeto até Clearpool, tentou aplacar a raiva. Não está sendo razoável, pensou. Está apenas cansada e irritada. Se descontar em Jason ou em Tom, vai se sentir mais culpada. Respire fundo e relaxe. Quando estacionou ao lado da camionete de Tom, sua cabeça latejava e os ombros estavam rijos. Winnie encontrava-se lá fora e, ao ver Darian, aproximou-se alegre. Porém, assim que chegou perto o bastante para enxergar dentro do carro, interrompeu o trote, deu meia volta, e voltou nervosa para a varanda, lançando olhares receosos para trás. Darian estreitou os olhos para a cachorra. Assim que entrou na casa, ouviu o ruído da televisão e sentiu os

ombros ainda mais tensos. Colocou a bolsa e a pasta sobre a mesa da cozinha. Nunca permitia que Jason pusesse suas coisas na mesa onde comiam, mas o ato de desafio parecia justificado e, até, necessário. Notou o bilhete no balcão. "Darianita, precisa de alguma coisa do "

mercado? Amanhã é dia de frutas e verduras e pensei que

O bilhete

... de Dominga perguntava se ela queria algo especial, uma vez que

sábado era o dia das compras. Darian parou. Dominga sempre pensava em suas necessidades.

Era sempre paciente. Talvez eu deva esperar um minuto antes de entrar. Afinal, temos um belo fim de semana pela frente. Tenho boas notícias. Eu acho. Pedirei a Dominga que compre algo especial para o jantar de sábado. Algo fácil, que eu mesma possa preparar.

Abriu a pasta para apanhar um bloco e escrever um bilhete para

Dominga. O único que encontrou era velho, e tinha quase todas as páginas rabiscadas. Foi folheando, à procura de uma em branco, até parar na página onde anotara seus planos para o casamento com Tom. Passou os dedos pelas palavras. Sentira-se tão feliz, naquela noite. Mas sua felicidade não havia durado muito, pois não era amada, nunca seria.

Rasgou a metade da folha que continuava em branco, escreveu

um agradecimento para Dominga, acrescentando que não queria nada especial para o fim de semana. Então, foi ver o marido e o filho. Jason estava sentado no chão, segurando o controle remoto. Mal ergueu os olhos quando Darian entrou. — Oi, mamãe. — Olá, querido. O jogo está bom? — Sim. — Onde está Tom? — Não sei. Estava aqui quando você chegou, mas saiu da sala. Darian estreitou os olhos. Não perca a calma. — Sei. Foi até o quarto e, quando abriu a porta, Tom mal olhou para ela. Estava sentado na cama, falando ao telefone. Vestia calça jeans, camiseta branca e estava descalço. Darian foi invadida por uma irritação irracional, e bateu a porta. Sobressaltando-se com o barulho, Tom lançou-lhe um olhar irritado.

continuar mais tarde. Sim, fico agradecido, Ed. — Desligou e olhou para ela com expressão dura. — Seja bem-vinda.

— ...

Durante todo o trajeto até Clearpool, tentou aplacar a raiva. Não está sendo razoável, pensou. Está

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— Obrigada. — Qual é o problema, agora? — Nada. Estava apenas pensando nos seus pés. — Meus pés? — Sim. — E foi por isso que bateu a porta? — Bem, simplesmente, acho que não é justo. Veja os seus

sapatos e os meus. Sapatos femininos sem sequer têm a forma de pés. Tom arregalou o olhos e fitou-a, sem palavras. Darian abaixou-se e tirou um dos sapatos de duzentos dólares o par. — Quem tem um pé assim? Pode olhar todos os meus sapatos.

Todos os sapatos femininos. Bicos finos, tirinhas estúpidas, fivelas e

...

e

veja o que fizeram com os meus pés. Seus pés não estão arruinados.

Sapatos masculinos têm a forma dos pés masculinos. Não é justo. Tom ficou sentado, imóvel. — O que aconteceu no escritório, hoje? — perguntou. Darian hesitou. — Fui promovida a sócia. — Ah, claro. Eu deveria ter adivinhado. Parabéns. Estou vendo como isso a deixou feliz. — Obrigada. Ela queria gritar, mas tudo o que lhe ocorria dizer soava ridículo.

Tenho tudo o que sempre quis e mudei de idéia. Ou, então, Sei que prometi uma coisa, mas decidi que não quero mais nada que disse querer, e quero justamente o que eu disse que não suportaria. Tudo bem para você? Quer algo especial para o jantar?

Ficou ali parada, punhos cerrados, um forte aperto no peito. Tom fechou os olhos e apertou-os. Então, levantou-se e cruzou os braços. Quando voltou a fitá-la, seu olhar foi duro. — Não suporto viver assim, Darian. — Apontou para o telefone. — Era o meu advogado. Segunda-feira, entrarei com um pedido de separação de corpos. Depois que o bebê nascer, pedirei o divórcio.

CAPÍTULO X

Darian ficou imóvel. — O quê?

— Você ouviu. Não quero mais viver assim.

— Mas eu estou

o bebê

... — Sim, eu sei, e vou cuidar de nossos filhos. Isso não vai mudar,

...

mas me recuso a continuar vivendo desse jeito. — Tom baixou os olhos para o ventre de Darian, antes de voltar a fitá-la com expressão dura.

— Sinto muito pela inconveniência temporária. Darian foi invadida por uma onda de raiva. Como ele se atreve a falar assim comigo? Ele sabe o que sinto por esta criança.

— Obrigada. — Qual é o problema, agora? — Nada. Estava apenas pensando nos seus pés.

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A tensão entre os dois tornou-se quase palpável, até as palavras dele começarem a fazer sentido na mente de Darian. Acabou. Ele está me deixando. Respirou duas vezes, três. Como podia se sentir daquele modo? O sangue latejava em seus ouvidos, como se ela fosse desmaiar. O mundo havia parado, deixando-a presa numa ilha de infelicidade. Tom mantinha os ombros eretos e seu rosto exibia a mais pura determinação. — Tenho tanta culpa quanto você, e lamento minha parte nisso tudo. Não me dei conta do quanto estava sendo tolo. Pensei que arranjar este casamento sobre bases ideológicas e financeiras era um verdadeiro golpe de gênio. Tinha certeza de que um casal poderia planejar sua vida juntos, partilhar objetivos e o tempo que lhes restasse. Queria tanto isso, que me convenci de que seria o bastante para tornar nossa vida completa. — Fez uma pausa, sem desviar o olhar. — Mas, nada poderia ser mais vazio do que este casamento. Darian sentiu as palavras atingirem-na como flechas. Continue. Diga que não me ama e acabe logo com isso. Tentou manter a calma, embora só sentisse vontade de gritar. Sentiu um movimento no ventre e pousou a mão sobre ele. — Ela mexeu — murmurou. Os olhos de Tom baixaram para onde ela pousara a mão, e ele se encolheu, como se houvesse sido esfaqueado. — Não faça isso comigo — falou. — Já não fez o bastante? Foi a gota d'água. — O que está querendo dizer? Não fiz o bastante? Tem toda razão. Fiz demais. Fiz tudo o que uma mulher poderia fazer. Mais. Corro de um lado para outro, como uma louca, tentando ser advogada, mãe e esposa. Estou tentando fazer o que todos esperam que eu faça, e estou cansada disso tudo. Detesto tudo isso e não quero mais esta vida.

Pronto. Falara. Não fazia mais diferença. Tom a estava deixando, e ela não tinha mais nada a perder. — Ora, o que você quer, então? A expressão dele havia mudado, mas Darian nem tentou in- terpretá-la. Estava cansada de tentar ser tudo para todos. Não tinha nada a perder. A única coisa que mais queria já estava perdida, e nada mais importava. — Até um minuto atrás, eu saberia dizer. Agora, não sei exa- tamente. Sei que amo este bebê, amo meu filho e amo você, Tom. Mas não acho que queira a sociedade na firma. Sinto muito. Não planejei nada disso. Simplesmente, aconteceu. Sei que estraguei tudo, mas não pude evitar. Acabei me apaixonando por você, e isso mudou tudo para mim.

O silêncio encheu o quarto. Apesar da humilhação, Darian sentia- se mais leve, mais livre. — Foi tão difícil? — Tom perguntou. Darian ergueu os olhos e deparou com os dele, marejados de lágrimas. — O quê?

A tensão entre os dois tornou-se quase palpável, até as palavras dele começarem a fazer sentido

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— Foi tão difícil dizer? Ela suspirou. — Bem, na verdade, sim, foi difícil. Tom aproximava-se devagar, seus olhos já não pareciam gela- dos, sua expressão, não tão dura. — Achei que seria. Não sabia se você seria forte o bastante, mas tinha de correr o risco. Jamais conseguiríamos, se você não fosse forte. Darian cruzou os braços e afastou-se. — Espere. Do que está falando? — O que acha? Eu te amo, Darian. Sempre te amei. Desde o momento em que você entrou na tenda, usando aquelas ridículas botas verdes. Só precisei olhar para você, para me apaixonar. — Não entendo. Por que está dizendo isso agora? Não precisa ... — Ora, fique quieta. — Ele suspirou. — Tem estado tão ocupada, tentando ser forte e responsável, a melhor dos profissionais. Ser boa advogada, boa mãe, boa filha. Queria ser tão perfeita, que deixou de ser humana. E não se abria comigo. Como poderia me amar? Ela o fitou com ar suspeito. — Por que não me disse, antes? Teria sido muito mais fácil. — Não. Você jamais teria admitido para si mesma que me

amava, até que fosse forçada a isso. Em primeiro lugar, não queria me amar. E, admitir isso, seria o mesmo que dar as costas a tudo o que a mantivera de pé durante toda a sua vida. Eu não sabia se você admitiria, algum dia, para si mesma. Muito menos, para mim. Depois

daquela última noite no Fallbrook

Você me

disse para não voltar.

... Sabe o que um homem sente numa situação como essa? Especialmente depois do que havia se passado entre nós? Pensei que ...

— Mas eu tinha medo de que você não me amasse. Achei que

tinha ido ao hotel só para ser Queria ser ... — O quê? — Bobagem. — Diga.

...

legal, me dar apoio. E eu queria mais.

— Amada, amante. Queria ser sua amante. — Mas você é. Tom abriu os braços num convite.

Ele disse isso mesmo? Não estou sonhando?

Os olhos dele diziam que sim. Havia muito mais que admiração e respeito naquele brilho. Darian aproximou-se e deixou-se envolver pelos braços fortes. — Por que se casou comigo? —- perguntou. — Porque eu te amo. — Então, tudo o que disse sobre objetivos e pontos de vista ... — Bobagem. Eu teria dito qualquer coisa, feito qualquer coisa. Acho que comecei a planejar tudo, desde o primeiro dia. Fiquei contente que Jason tivesse decidido ... Tom parou de falar de repente, e franziu o cenho. — O quê? — Darian inquiriu. — Eu não deveria lhe contar, pois estaria traindo uma confidencia. — Do que está falando? Ele a encarou.

— Foi tão difícil dizer? Ela suspirou. — Bem, na verdade, sim, foi difícil. Tom aproximava-se

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— Contarei desta vez, mas nunca mais farei isso. Jason só me contou muito tempo depois, mas, aquela história com o garoto enorme ... — Tykie Wilguneski? — Sim. Foi um acordo. — Um acordo? — Jason pagou Tykie para contar a história, mas era tudo mentira. Ele estava tentando ser expulso de Fullingham. — Por quê? Jason adorava a escola. — Estava morrendo de preocupação por você. Temia que você estivesse se matando de trabalhar, para poder mantê-lo, e que você poderia morrer ou deixá-lo sozinho. — Ah, meu Deus! Por que ele pensou isso? Tom deu de ombros. — Ele se preocupa com você. Também disse que, como era o homem da casa, você era responsabilidade dele. Sabe que palavras ele usou? "Quem tem o poder é quem tem a responsabilidade." Não acha muito forte, para um garoto de dez anos? Achou que, tendo o poder de mudar a situação, tinha a obrigação de fazê-lo. — Ah, não! — Darian sentiu-se horrível. — Sei que disse isso, mas não me referia a ele. Jason nunca me falou nada.

— Não, mas falou para mim. Sabe o que ele disse? — Tom riu. — Que, agora, podia relaxar, pois você passou a ser minha responsabilidade. — Tom, eu nunca tive a intenção de passar isso para Jason, mas existe uma parte de mim que cresceu acreditando que eu não era capaz, ou merecedora de coisas boas. E eu lutei contra isso. Usei todos os meus talentos e habilidades para provar que não era verdade. Depois, durante anos, era assim que eu me via: inteligente, competente, uma grande profissional. Estava provando ao mundo que merecia reconhecimento e respeito, porque havia lutado ... — Sei de tudo isso. E é verdade. Conquistou tudo o que é hoje. Você é uma das melhores advogadas ... — Mas não é por isso que mereço respeito, e sim, porque sou uma pessoa decente. Não tenho de ser algum tipo de animal de circo, que precisa dançar para ganhar recompensas ... — Sei disso, também. Aliás, quem não sabe? — Eu. Eu não sabia. E quando me dei conta de que queria deixar o meu trabalho, achei que isso provaria que eu merecia ser abandonada. Que era uma fracassada. Tom apertou-a contra si, e Darian agarrou-se a ele, continuando a falar de encontro ao peito largo. — Sabe de uma coisa? Quero mesmo deixar o meu trabalho, Tom. Estou cansada de tudo isso, e não quero mais me submeter ao tipo de vida que tenho há anos. Minha vida mudou. Às vezes, acho que só quero ficar em Clearpool, com você e Jason e nosso bebê. Mas isso

me preocupa. Não sei se serei capaz. E se

— Apesar de toda a

... ternura de Tom, o desespero tomou conta de Darian. — Está vendo?

Sou pior que Joel. Como alguém vai poder viver comigo? Como vou viver comigo mesma? Não quero trabalhar quinze horas por dia ...

— Contarei desta vez, mas nunca mais farei isso. Jason só me contou muito tempo depois,

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— Chega — Tom murmurou, tomando-lhe o rosto nas mãos. — Existe uma outra resposta. — Qual? — Caso não tenha notado, a Steinbuck Enterprises se benefi- ciaria se tivesse uma boa advogada.

— O quê? — Sei que petróleo não é a sua área, mas é uma mulher in- teligente. Tenho certeza de que, se estudar o assunto e prestar

atenção aos detalhes

Não sei o que pensa de trabalhar nos negócios

... da família, mas os benefícios seriam enormes. — Tom beijou-a de leve

nos lábios. — E nossa política de licença-maternidade é excelente. Tire quantos anos de folga quiser, e volte quando tiver vontade. Sociedade

garantida. — A mão dele deslizou até o ventre já intumescido. — Isto poderá acontecer mais vezes, sabia? — Ah, espero que sim! — Darian concordou e abraçou-o. Porém, ainda tinha uma pergunta a fazer. Precisava saber. — Tom, até que ponto estava disposto a chegar? Ia mesmo solicitar separação de

corpos

Espere um instante. Não há nada sobre separação de corpos,

... em nosso acordo nupcial. Ele riu. — Eu sei. Estava com medo de que você se lembrasse. — Voltou a apertá-la contra si. — Não, meu amor. Não há nada a respeito, pois não será necessário. Nunca vou deixar você. E sei que me ama demais para me deixar. Eu sempre soube. — Por que disse isso, então? Foi muita crueldade. — Estava blefando, como num jogo de cartas. — Nunca jogo cartas. Ele sorriu. — Eu sei. — Diga de novo. — Minha amada. Minha amante. Prometo dizer que te amo todos os dias e todas as noites de minha vida.

ALAINA HAWTHORNE adora esquiar na neve, tomar chocolate quente no inverno, passear com seu husky-siberiano pelos arredores e escrever histórias de amor.

FimFim

— Chega — Tom murmurou, tomando-lhe o rosto nas mãos. — Existe uma outra resposta. —

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