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A Psicologia no

Enfrentamento da
Violência Sexual
LUDMILA MENEZES
COMO VOCÊS IMAGINAM A ATUAÇÃO DE UM
PSICÓLOGO EM UM CASO DE ABUSO SEXUAL
INFANTIL?
Possibilidades de atuação da Psicologia
PSICÓLOGOS NO SUAS (CRAS, CREAS, ACOLHIMENTO)
PSICÓLOGOS NA REDE DE SAÚDE (NASF, HOSPITAIS GERAIS, AMBULATÓRIOS)
PSICÓLOGOS NO SISTEMA DE JUSTIÇA E DIREITOS HUMANOS – VARAS DE INFÂNCIA E
JUVENTUDE E MINISTÉRIO PÚBLICO
PSICÓLOGOS CLÍNICOS

Psicologia elitista dos anos 80 vem se atualizando e o psicólogo passa a se envolver com políticas
públicas cada vez mais.
O que é o SUAS?
Todos os serviços ligados à Assistência Social no Brasil são organizados e regidos por um
Sistema que direciona toda a atuação dos profissionais que trabalham nestes serviços.
Dividido em:
Proteção básica: Centro de Referência de Assistência Social (CRAS)
Proteção especializada: Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS)
Qual o papel do Psicólogo no CREAS?
O psicólogo do CREAS trabalha com uma atuação focada e de abordagem psicossocial,
normalmente não acontece por demanda espontânea e funciona com os seguintes objetivos:
Orientações técnicas
• O Psicólogo deve atuar de forma a contribuir para que o
sujeito que sofreu a violação possa ressignificar sua história, dar
um novo sentido à ela, de forma que sua vivência não seja mais
prejudicada pela violência sofrida e esse sujeito possa seguir em
frente.
• É muito importante considerar não apenas a dimensão subjetiva,
mas também a objetiva dos fenômenos sociais.
Orientações técnicas
•Para sua atuação no CREAS, é preciso que o Psicólogo saiba
que o conceito de família sofreu algumas transformações e é
necessário compreender todas as singularidades e as
potencialidades existentes nas famílias atuais.
• Ao olhar para as potencialidades que encontra nas famílias, o
Psicólogo poderá realizar um trabalho que possa viabilizar “espaços
criativos e geradores de alternativas individuais e coletivas na
perspectiva da superação das situações de violação”
O QUE É VIOLÊNCIA?
VIOLÊNCIA
“Conceito de violência de Chauí (1985), que define violência não como violação
ou transgressão de normas, regras e leis, mas sob dois outros ângulos:
1. Em primeiro lugar, como conversão de uma diferença e de uma assimetria
numa relação hierárquica de desigualdade, com fins de dominação, de
exploração e opressão.
2. Em segundo lugar, como a ação que trata um ser humano não como sujeito,
mas como coisa. Esta se caracteriza pela inércia, pela passividade e pelo
silêncio de modo que, quando a atividade e a fala de outrem são impedidas
ou anuladas, há violência (Chauí, 1985, p. 35)
Para Chauí (1985) a violência é uma relação de forças caracterizada num pólo
pela dominação e no outro pela coisificação.”
INFÂNCIA
•O abuso viola aquilo que caracteriza a infância: dependência, vulnerabilidade e
inocência. O adulto explora o poder que tem sobre a criança e, ao fazê-lo, usa-a
como mero meio para obtenção de seus próprios fins, infligindo o seu direito à
autonomia (Ferreira & Schramm, 2000).
•A violência intrafamiliar origina-se de relações interpessoais hierarquicamente
assimétricas, marcadas por desigualdade e subordinação no contexto familiar
(Koller, 1999).
•O perpetrador utiliza-se do poder, da relação de confiança e/ou força física para
colocar a criança e/ou adolescente em situações para as quais não possui
condições maturacionais biológicas e psicológicas de enfrentamento.
ECA
O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), Lei n° 8.069, de 13
de julho de 1990, que dispõe sobre a proteção integral à criança e ao
adolescente, estabelece que crianças e adolescentes são considerados
sujeitos de direitos, que vivenciam condições especiais e particulares,
cujo desenvolvimento físico, mental, moral e social deve ser garantido
em
condições de liberdade e de dignidade. O ECA afirma ser dever de todos
(Estado, família e sociedade) livrar e proteger a criança e o adolescente
de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência,
crueldade e opressão. Ele trata a assistência social como política pública
que deve ser universalizada, com garantia de qualidade e integrada às
demais políticas públicas setoriais, no processo de construção da Rede
de Proteção Social.
QUAIS OS TIPOS DE VIOLÊNCIA?
TIPOS DE VIOLÊNCIA
Violência às quais crianças e adolescentes podem ser submetidos:
• Violência física
• Violência sexual
• Violência psicológica
•Negligência
• Violência institucional
Violência física
• O abuso físico é compreendido como qualquer ação, única ou repetida, não-acidental
(intencional), na qual o adulto usa de sua força física para causar dor e desconforto à criança. A
relação de força baseia-se no pretenso poder disciplinador do adulto e na desigualdade adulto-
criança.
• Progressão ascendente: podendo evoluir de um puxão de orelha a um tapa, uso de cinto, cabo
de vassoura, até atingir queimaduras por cigarros ou ferro elétrico, choques elétricos, água
fervente, etc.
• Além de causar lesões físicas, essa forma de abuso é extremamente danosa para a vítima do
ponto de vista emocional, pois é acompanhada de abusos emocionais
Violência psicológica
• O abuso emocional ou psicológico abrange rejeição, isolamento, depreciação, desrespeito,
discriminação, corrupção, punição ou cobranças exageradas do adulto em relação à criança ou
ao adolescente.
• Ele é evidenciado pelo prejuízo à competência emocional da vítima, isto é, à capacidade de
amar os outros e de sentir-se bem a respeito de si mesma. São atos de hostilidade e
agressividade que podem influenciar a auto-imagem e a auto-estima da criança ou do
adolescente (De Antoni & Koller, 2001)
Negligência
• A negligência é definida como toda omissão em termos de cuidados básicos por parte do
responsável pela criança ou pelo adolescente.
• Inclui atitudes como privar a criança de afeto, alimentos, medicamentos, proteção contra as
inclemências do meio (frio, calor), educação e higiene - todos necessários à sua integridade
física, intelectual, moral e social.
• Abandono
Violência institucional
• Esta última violência é caracterizada na Lei como aquela praticada por instituição pública ou
conveniada, inclusive quando gerar revitimização, apontando para as consequências maléficas
de um atendimento inadequado.
•Projeto de Lei 7.524/2006, que institui o depoimento especial (Brasil, 2006)
Síndrome de Münchausen por
procuração
• Esta forma de violência, menos comum, é caracterizada pela desordem psiquiátrica de um dos
pais, mais comumente da mãe: a criança é levada para cuidados médicos devido a sintoma e/ou
sinais inventados ou provocados por seus responsáveis, induzindo exames laboratoriais e
hospitalizações com procedimentos desnecessários (Gomes, Junqueira, Silva, Junger, 2002;
Pires, 1999).
A exploração infantil
• Nesses casos, fica evidente a tentativa do abusador em transformar a vítima em ator da
violência. A criança ou adolescente é induzido ou coagido a participar de ações ilícitas, com
prejuízo à sua integridade física, psicológica e moral.
• Destacam-se a exploração sexual infanto-juvenil, o uso e o tráfico de drogas e a exploração no
trabalho, que são atividades não condizentes com a idade, expõem a riscos físicos, exigem
ampla carga horária de trabalho e, em geral, são trocadas por algum amparo para sobrevivência
(casa, comida, etc.), mas não consistem em remuneração;
Violência Sexual
•Caracteriza-se violência sexual todo ato ou jogo sexual, hetero ou homossexual, cujo agressor
está em estágio de desenvolvimento psicossexual mais adiantado do que o da criança ou
adolescente.
• Baseia-se em relação de poder e pode incluir desde carícias, manipulação da genitália, mama
ou ânus, voyeurismo, pornografia, exibicionismo e até o ato sexual com ou sem penetração.
•Tais práticas eróticas e sexuais são impostas à criança ou ao adolescente pela violência física, por
ameaças ou pela indução de sua vontade.
• O abuso sexual infantil é freqüentemente praticado sem o uso da força física e não deixa marcas
visíveis, o que dificulta a sua comprovação, principalmente quando se trata de crianças
pequenas.
ESTUPRO DE VULNERÁVEL
Art. 217-A. Ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com menor de 14 (catorze) anos:
Pena - reclusão, de 8 (oito) a 15 (quinze) anos.
§ 1o Incorre na mesma pena quem pratica as ações descritas no caput com alguém que, por
enfermidade ou deficiência mental, não tem o necessário discernimento para a prática do ato,
ou que, por qualquer outra causa, não pode oferecer resistência.

SPINOZA: “... a liberdade não é a escolha voluntária ante várias opções mas a capacidade de
auto determinação para pensar, querer, sentir e agir. É autonomia. Não se opõe à necessidade
(natural ou social), mas trabalha com ela, opondo-se ao constrangimento e à autoridade.”
SINAIS
Abuso sexual infantil e pedofilia são
sinônimos?
PEDOFILIA?
Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento da CID 10 (Organização Mundial de
Saúde – 1993) descreve Pedofilia como uma parafilia ou transtorno de preferência sexual
(F.65.4) caracterizada por uma preferência sexual por crianças usualmente de idade pré-puberal
ou no início da puberdade.
Pode gerar semi-imputabilidade ou imputabilidade em casos de co-morbidade
Quem é geralmente o abusador da
criança?
Dados epidemiológicos
•A grande maioria dos abusos sexuais cometidos contra crianças e adolescentes ocorre dentro de
casa e é perpetrada por pessoas próximas, que desempenham papel de cuidador da vítima.
•As pesquisas apontam que, quando se trata de abuso sexual ocorrido no espaço doméstico e
familiar, há uma maior predominância do homem como agressor e da mulher como vítima.
•Os meninos também são vítimas de abuso sexual, mas a incidência maior acontece fora da
família, em geral perpetrado por adultos não parentes.
• Dentre os parentes envolvidos em abuso sexual intrafamiliar, o abusador normalmente é o pai,
conforme aponta pesquisa realizada por Saffioti (1997) no Município de São Paulo sobre abuso
incestuoso: 71,5% dos agressores eram pais biológicos e 11,1%, padrastos. Portanto, pai e
padrasto foram responsáveis por 82,6% do total de abusos sexuais.
Dinâmica do abuso
Abuso sexual supõe uma disfunção em três níveis:
1. O poder exercido pelo grande sobre o pequeno
2. A confiança que o pequeno (dependente) tem no grande (protetor)
3. O uso delinqüente da sexualidade - ou seja, o atentado ao direito que o indivíduo tem de
propriedade sobre o seu próprio corpo.
Dinâmica do abuso
• Mulheres que sofreram abuso sexual na infância tornam-se mais vulneráveis para estabelecer
relações com homens abusivos e, consequentemente, mostram se menos capazes de proteger
suas próprias filhas do abuso sexual.
• A repetição do abuso sexual com suas filhas é estatisticamente significativa (Fuks, 1998;
Hirigoyen, 2000; Soares, 1999). Essa repetição se observa também na história de vida de
homens abusadores.
Dinâmica de famílias abusivas
•Araújo: dois fatores se destacam: a questão de gênero e o fator econômico.
•A dominação masculina e a submissão feminina, cristalizadas, naturalizam a produção e
repetição de comportamentos abusivos por parte do homem detentor do poder de pai,
provedor material e chefe da família.
•Denunciar isso implica questionar esses próprios lugares, ou seja, desconstruir essa relação de
poder desigual.
TRANSGERACIONALIDADE
Dinâmica: contexto social
•Levar adiante a denúncia, exigir a punição do agressor e investir na mudança das relações
abusivas é algo mais complexo e esbarra, muitas vezes, em impedimentos concretos, onde o
fator econômico tem um enorme peso, principalmente quando o homem abusador é o único
provedor material da família.
• Na ausência de um entorno social, familiar, institucional e jurídico que ampare a família após a
denúncia, a mesma se vê sob ameaça do total abandono social e privação econômica. Nesses
casos, a violência social se sobrepõe à violência intrafamiliar.
A questão ética: O SIGILO
 Suponha que durante um atendimento a uma criança em uma unidade de saúde a mesma
demonstre sinais que lhe façam suspeitar de abuso sexual, e então o que fazer?
O SILÊNCIO
A violência intrafamiliar mantém-se também com a cumplicidade silenciosa dos
envolvidos:
• O silêncio da vítima, cuja palavra é confiscada pelo agressor através de
ameaças;
•O silêncio dos demais parentes não agressores, que fecham os olhos e se
omitem de qualquer atitude de proteção da vítima ou de denúncia do agressor;
•O silêncio dos profissionais que, em nome da ética e do sigilo profissional, se
refugiam muitas vezes numa atitude defensiva, negando ou minimizando os
efeitos da violência.
Silêncio
O “silêncio” segundo Ferreira (2010, p.859) significa “estado de quem cala”. O pacto de silêncio é
uma das possíveis atitudes tomadas por alguém quando algo incomoda. O psicólogo é um
profissional que deve utilizar de conhecimento científico para compreender o comportamento
humano, desenvolvendo e aplicando técnicas e instrumentos que ajudam o sujeito discutir e
compreender suas angústias. Ouvir a família e oferecer um lugar seguro, uma escuta acolhedora
que possibilite a quebra do pacto de silêncio desta família e a tomada de decisões mediante o
abuso sexual.
O código de ética
Art. 10 – Nas situações em que se configure conflito entre as
exigências decorrentes do disposto no Art. 9º e as afirmações dos
princípios fundamentais deste Código, excetuando-se os casos
previstos em lei, o psicólogo poderá decidir pela quebra de sigilo,
baseando sua decisão na busca do menor prejuízo.
Parágrafo único – Em caso de quebra do sigilo previsto no caput
deste artigo, o psicólogo deverá restringir-se a prestar as
informações estritamente necessárias.
Dificuldades enfrentadas
• A primeiro é que se trata de uma situação difícil de lidar e a maioria dos profissionais não têm
treinamento adequado para isso.
• Não há recursos institucionais para dar apoio às vítimas e/ou profissionais que assumem o risco
de levar adiante a denúncia.
• Muitas vezes a vítima, diante do dilema de denunciar e enfrentar as consequências do seu ato,
prefere silenciar ou mesmo retirar a denúncia já feita, diante da pressão e da falta de apoio
familiar, deixando os profissionais envolvidos desapontados e impotentes diante da situação.
Atendimento multiprofissional
• O atendimento do abuso sexual infantil gera muita ansiedade nas equipes de saúde e nas varas
da família, por conta das dúvidas levantadas sobre a veracidade ou não da denúncia, e,
principalmente, pela resistência das famílias diante da imposição judicial do atendimento.
• Na rede pública de assistência, esses casos em geral são submetidos a um "jogo-de-empurra"
entre os profissionais e as instituições
•A atuação da (o) psicóloga (o) não consiste somente em casos de abuso confirmados, mas é seu
dever agir em qualquer caso de suspeita. sofrem influências do pacto de silêncio dos familiares,
vizinhos, profissionais e até mesmo da própria vítima (AZEVEDO; GUERRA, 2004)
Atendimento psicológico
Existem profissionais que assumem duas posições extremas ao abuso, segundo Costa (2002):
1. A primeira delas é compor com o “pacto de silêncio”, seja negando a situação, buscando
explicações para o acontecido fora do âmbito do abuso sexual, por não suportar o peso da
questão ou por pura aversão.
2. Em segundo lugar, pode, de certa maneira, estigmatizar o sujeito, contribuindo para que ele
se perceba somente como uma vítima de abuso sexual. (COSTA 2002, p.19).

Torna-se fundamental aquele que vai atender uma criança sexualmente abusada poder olhar a
gravidade sim, mas não como algo irreparável, da ordem de uma anulação irreversível
Atuação profissional
•Desenvolver a empatia no atendimento a família.
• A criança diante do abuso apresenta vários sentimentos de culpa, desespero,
incapacidade, autoacusação e angústia e, com isso, a (o) psicóloga (o) será a (o)
profissional responsável pela ressignificação, dando à criança a possibilidade de
transformar o ocorrido, criando planos para o futuro e percebendo o abuso
como um obstáculo a ser superado (MARQUES et al, 2014).
•É essencial contextualizar e perceber que a rede de atendimento e até mesmo a
terapia só irão funcionar se a família e os profissionais envolvidos não
reprimirem a criança e não tiverem pudor mediante a violência, quebrando o
pacto de silêncio e unindo-se em busca de estratégias que possibilitem que a
criança passe por essa violência sem trazer graves danos à sua vida psíquica.
Era uma vez...
“Dá pra viver
Mesmo depois de descobrir que o mundo ficou mau
É só não permitir que a maldade do mundo
Te pareça normal
Pra não perder a magia de acreditar
Na felicidade real”

https://www.youtube.com/watch?v=xJNKT9HAXRc