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Avaliação Psicológica com

Mulheres Vítimas de Violência


Célia Santos
Dulcimar Silva
Simone Pimentel
Violência
Segundo, a Organização Mundial de Saúde, a
violência é definida como o uso internacional de força
ou poder físico, de fato ou como ameaça, contra si
mesmo, outra pessoa ou grupo ou comunidade. Que
cause ou tenha muita probabilidade de causar lesões,
morte, danos psicológicos, transtornos de
desenvolvimento ou privações.
C Como entender a violência
contra a mulher

A violência pode ser entendida a partir de


aspectos individuais, psicológicos, biológicos
e familiares, assim como, fatores culturais,
sociais e econômicos.
A violência é um fenômeno social que historicamente
se apresenta nas relações. Manifesta-se de formas
diferentes nas relações entre parceiros, expressa uma
dinâmica de afeto e poder patológica, e denuncia
relações de subordinação e dominação.

A violência doméstica contra a mulher acontece independente


da posição social e econômica ao qual pertença na sociedade.

A violência contra a mulher pode ser realizada de forma sútil, atingindo-a


moral e psicologicamente e alcançar as formas de violência mais explícitas,
que coloca em risco a integridade física e, até mesmo, a vida.

A violência moral, psicológica e física é geralmente realizada por pessoas


que convivem diariamente e intimamente com as mulheres (marido,
namorado, companheiro), e trata-se de um fenômeno difícil de ser
denunciado e rompido. O sentimento de fragilidade e inferioridade, a
dependência emocional e/ou econômica, fazem com que muitas vítimas
permaneçam em silêncio.
Uma volta no tempo
“Em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”

Década de 70. “ O silêncio é


Durante muito tempo a
cúmplice da violência.”
mulher encarou a
violência como um Constituição Federal
fenômeno natural, Brasileira de 1988
Através dos
principalmente quando movimentos
acontecia no contexto feministas, a violência
doméstico. O poder contra a mulher ganha Criação da Leis dos
judiciário não visibilidade e passou a Juizados Especiais. A
intervinha. ser tratada como violência doméstica passa
problema social É a ter um tratamento
criado em São Paulo o diferenciado. Criação de
SOS Mulher. leis que institui como
medida cautelar o
afastamento do agressor
da vítima e acrescenta a
lesão corporal leve ao
delito da violência
doméstica.
L Lei Maria da Penha
11.340/2006

 Lei promulgada em 07 de agosto de 2006 que prevê a punição dos agressores


que cometam qualquer ato de violência doméstica contra a mulher. Aplica-se,
também, a casais homoafetivos formados por duas mulheres ou transgêneros.

 O ponto de partida para a criação desta lei foi a história da farmacêutica


cearense Maria da Penha Maia Fernandes, que sofreu durante
aproximadamente 23 anos de violência doméstica pelo ex-marido. Foram duas
tentativas de assassinato. Ficou paraplégica, após um tiro, na primeira
tentativa e após a segunda tentativa de assassinato, quando foi vítima
de eletrocussão e afogamento, Maria da Penha teve coragem para denunciar
o seu agressor e começar o processo que demoraria quase 20 anos para ser
finalizado. 
Violência contra
a mulher
Lei Maria da Penha, 11340/06, art. 5º, configura violência
doméstica e familiar contra a mulher qualquer ação ou omissão
baseada no gênero que lhe cause morte, lesão, sofrimento
físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial.
O que pode estimular o
comportamento violento?
Alcoolismo
Pobreza
Desemprego
Acesso a armas de fogo
e autorização para porte
de armas
A violência pode levar a problemas,
com consequências imediatas ou se
estender por muitos anos.

Físicos Lesão

Psíquicos Invalidez

Sociais Morte
Tipos de violências contra a mulher
 Física - comportamento que causa dano físico a integridade da mulher;

 Moral – é qualquer forma de agressão à dignidade da mulher;

 Patrimonial e econômica - atitudes que impliquem na retenção, subtração


desautorizada, inutilização parcial ou total de objetos, documentos
pessoais, bens, valores de posse legítima da mulher;

 Sexual - atitudes que obriga a mulher a manter contato sexual ou a


participar de outras relações sexuais com uso da força, intimidação,
coerção, chantagem sem respeitar a opinião da parceira;

 Psicológica – é todo comportamento que resulte em rejeição, depreciação,


desrespeito, cobranças exageradas e humilhação da mulher.
A violência contra a mulher acontece a
partir da ação do homem

 Física Psicológica
Moral Empurra Humilha
Calúnia Chuta Insulta
Injuria Amarra Isola
Difamação Bate Persegue
Ameaça
Sexual Xinga
Pressiona
Exige praticas com Patrimonial e Econômica
uso da força Controla o dinheiro
Nega o uso de preservativo Destrói objetos
Contato sexual sob coerção Não permite trabalhar
Oculta bens e propriedades
Metodologia na Avaliação Psicológica
com Mulheres Vítimas de Violência
 A violência contra a mulher precisa ser tratada sob um enfoque
integral. Conforme essa concepção, a mulher deve ser acolhida
por uma equipe multidisciplinar, na qual atuem médicos,
enfermeiros, psicólogos e assistentes sociais.
 A avaliação psicológica tem como objetivo orientar uma intervenção
que promova mudanças nas crenças e atitudes, assim como, a
superação do sofrimento psicológico nas mulheres vítimas das
agressões.
 O acolhimento e atendimento psicológico tem o propósito de
oferecer apoio e auxiliar no fortalecimento das mulheres para o
enfrentamento das situações de violência. Promover o resgate ou o
fortalecimento da auto-estima, da autonomia, superação da
condição de vítima, mudanças nos padrões de relacionamento
familiar e conjugal.
Instrumentos de Avaliação Psicológica
Relatório de Indicadores Sociais
Refere-se à coleta de dados pessoais e sobre o perfil da violência,
história prévia de uso de drogas pelo companheiro agressor; tipo de
agressão, se foi vítima de violência doméstica na infância, frequência da
violência.
Inventário de Depressão de Beck
Avalia os sintomas depressivos e a intensidade dos sintomas (leve,
moderada ou grave).
Inventário de Ansiedade de Beck
Avalia os sintomas de ansiedade e sua intensidade
Atuação do Psicólogo
 A atuação do psicólogo nesse contexto é realizada em ambientes
diferenciados. Pode ser realizado atendimento individual ou em
grupos. Através da escuta terapêutica o psicólogo pode fazer
intervenções com o objetivo de fazer a mulher pensar de maneira
diferente. Tem o papel de auxiliar a fazê-la perceber que foi vítima
de violência e, assim, reduzir o grau de culpa que ela atribui a si
mesma. A psicoterapia tem o objetivo de ampliar a consciência da
vítima em relação as agressões praticadas pelo companheiro,
superar processo de negação da experiência e minimizar o
sofrimento e o conflito com o outro. A intervenção psicossocial tem
o objetivo de empoderar a vítima para transformar ou sair da
situação de violência.
Questões Éticas

O psicólogo baseia sua atuação na observância dos princípios e


dispositivos definidos no Código de Ética do Profissional Psicólogo,
enfatizando os cuidados no que se refere aos seus deveres na relação
com a vítima de violência.

A violência doméstica é um fenômeno social e um problema de saúde


púbica. O psicólogo que trabalha nesse contexto, necessita de capacitação em
relação às questões de violência doméstica e embasamento teórico de psicologia
social para atuar e intervir de maneira eficaz. Deve estar preparado para acolher a
mulher que encontra-se em sofrimento psíquico no espaço físico no qual ela se
encontra, pois o atendimento às vítimas de violência doméstica difere do modelo
tradicional.

O acolhimento e a orientação prestada pelo profissional é de fundamental


importância, para que a vítima sinta-se segura e confiante para denunciar a
agressão, fortalecer-se através do acompanhamento psicológico e compreender
que pode mudar a sua realidade.
Questões Éticas
O psicólogo precisa respeitar o silêncio da vítima, se essa
for sua decisão em relação a publicidade da experiência
de violência vivida. O psicólogo deve se concentrar, assim,
no acolhimento, orientação e fortalecimento da autonomia da
mulher.

O Conselho Federal de Psicologia aprovou no 16º Plenário do


Conselho, realizado em 26 de novembro de 2016, nota técnica que
prevê os casos para quebra do sigilo profissional e orienta a denúncia
em situações em que a vida da mulher corra sério risco ou ainda a de
seus filhos ou de pessoas próximas. Aplica-se, também, o mesmo
entendimento nos casos de tentativa ou ideação suicida da paciente.

O CFP explica que a comunicação externa é enviada para o exterior dos


serviços de Saúde e aciona a Polícia, a Justiça e o Ministério Público.
Na rede pública, pode ser realizada pelo órgão superior da instituição na
qual o psicólogo trabalha.
A

E Exemplo Clínico

Pesquisa realizada na Delegacia de Polícia Civil da cidade de Goiandira/Go, parceria entre o


delegado de polícia e a Universidade Federal de Goiás – CAC, no segundo semestre de
2010.
Foram realizados encontros semanais com mulheres que registraram Boletim de Ocorrência,
contra seus parceiros por motivo de violência doméstica sendo, portanto, amparadas pela Lei
Maria da Penha.
Participante E M. L., 30 anos, do lar, esposa do “agressor”, 8 anos de relacionamento, vítima
de violência física, ouvida duas vezes em Escuta Terapêutica;
E.M.L afirma que seu marido é agressivo apenas quando esta embriagado e que após ter
sido preso, W.C.L. não agrediu mais seu filho. Entretanto, a violência contra ela é constante.
O marido, em algumas agressões, já lhe quebrou um dedo, é bastante ciumento e
diariamente lhe agride verbalmente reduzindo ao máximo sua auto-estima, mas nunca lhe
forçou a ter relações sexuais contra sua vontade. E. M. L. está desempregada e, portanto,
dependente financeiramente do marido. Denunciou o marido após ter agredido fisicamente o
seu filho. Segundo os relatos de E.M.L., seu esposo é um bom homem e possui o ‘coração
humilde’ (Cf. Diário de Campo, 28/10/10), sendo o seu problema o envolvimento com a
bebida alcoólica.
Resultado da Pesquisa
Considerando-se o relato da participante, percebe-se nas suas falas o papel de mulher
vítima de violência continuada. Não pensava em separar-se do marido e, apenas o
denunciou após a agressão contra o filho.
 “Eu só denunciei depois que ele passou a ameaçar e quis machucar meu filho. Porque se
ele não tivesse agredido o menino, eu não denunciaria. Eu amo ele e às vezes acho que
ele me ama também, ou não, porque quem ama, não faz isso. (E.M.L. Cf. Diário de
Campo, 28/10/10).”
Não consegue se conscientizar que o amor que ela sente pelo marido pode ser um dos
fatores que a mantém dentro do ciclo ininterrupto de violência, característica da
dependência emocional. Percebe-se que se esforça em encontrar motivos para a
violência que sofre dentro de casa pelo marido, sendo a justificativa mais forte a bebida
alcoólica. Demonstra a falta de consciência de que a situação de violência não é
resultado apenas da bebida alcoólica e, que envolve questões mais complexas, como
processos traumáticos vividos na infância e a relação de poder e dominação do homem
sobre a mulher, baseada no patriarcado.
 “No dia da audiência eu retirei a queixa porque W. tava bonzinho, mas depois desse dia,
virou tudo de novo” (E.M.L. Cf. Diário de Campo, 28/10/10).”
Mulheres que retiram a queixa contra seus parceiros podem expressar diversos motivos
como o medo, a situação financeira, sua condição social, o constrangimento de uma
separação e a forte dependência afetiva.
Referências Bibliográficas
 http://repositório.uniceub.br/bitstream/123456789/2593/3/20820746.pdfO
 PAPEL DO PSICÓLOGO NO ATENDIMENTO A VÍTIMAS E AUTORES DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

 Atalla, A.; Amaral, S.. VIOLÊNCIA DOMÉSTICA CONTRA A MULHER: ASPECTOS


ECONÔMICOS, SOCIAIS, PSICOLÓGICOS E POLÍTICOS DO AGRESSOR E DA VÍTIMA. ETIC
- ENCONTRO DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA - ISSN 21-76-8498, América do Norte, 1 1 07 2009.