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CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

H58 A história das barragens no Brasil, Séculos XIX, XX e XXI : cinquenta anos do Comitê Brasileiro de Barragens / [coordenador, supervisor, Flavio Miguez de Mello ; editor, Corrado Piasentin]. - Rio de Janeiro : CBDB, 2011. 524 p. : il. ; 29 cm Inclui índice ISBN 978-85-62967-04-7

1. Barragens e açudes - Brasil - História. 2. Comitê Brasileiro de Barragens - História. I. Mello, Flavio Miguez de. II. Piasentin, Corrado. III. Comitê Brasileiro de Barragens. III. Título: Cinquenta anos do Comitê Brasileiro de Barragens 11-6197. CDD: 627.80981 CDU: 627.82(81) 22.09.11 029752

20.09.11

Comitê Brasileiro de Barragens - CBDB
DIRETORIA CBDB Presidente: Erton Carvalho Vice-Presidente: Fabio De Gennaro Castro Diretor Secretário: Paulo Coreixas Junior Diretor Técnico: Brasil Pinheiro Machado Diretor de Comunicações: Miguel Augusto Z. Sória Diretor Adjunto: Marcos Luiz Vasconcellos Diretor Adjunto: Ademar Sérgio Fiorini

Agradecimentos
O Comitê Brasileiro de Barragens externa seus agradecimentos às empresas abaixo relacionadas pelo apoio que possibilitou a confecção deste livro que resume o desenrolar de importante segmento da História do Brasil.
Arcadis Tetraplan S/A Banco Bradesco S/A Camargo Corrêa Energia e Construções S/A CEMIG - Companhia Energética de Minas Gerais CESP - Companhia Energética de São Paulo CHESF - Companhia Hidro Elétrica do São Francisco Construtora Norberto Odebrecht S/A Construtora Queiroz Galvão S/A Construtora Andrade Gutierrez S/A COPEL - Companhia Paranaense de Energia DNOCS - Departamento Nacional de Obras Contra as Secas Eletrobras - Centrais Elétricas Brasileiras S/A Eletronorte - Centrais Elétricas do Norte do Brasil S/A Engevix Engenharia S/A Furnas Centrais Elétricas S/A Geobrugg Ag - Protection Systems Grupo Energia Intertechne Consultores S/A. Itaipu Binacional Jeene Juntas Impermeabilizações Ltda. Light S/A Mc Bauchemie Brasil Mendes Júnior Trading e Engenharia S/A Norte Energia S/A Pires Giovanetti Engenharia e Arquitetura Ltda. Sto Antonio Energia

FICHA TÉCNICA Coordenador / Supervisor: Flavio Miguez de Mello Editor: Corrado Piasentin Projeto Gráfico: Modonovo Design - Marina Hochman Diagramação: Modonovo Design - Marina Hochman / Natália Seiblitz Revisão de texto: Margarida Corção Gráfica: Impressul Indústria Gráfica

índice

Prefácio Apresentação Síntese do Desenvolvimento da Implantação das Barragens no Brasil A Comissão Internacional de Grandes Barragens Oitenta e Três Anos de Excelência História do Comitê Brasileiro de Barragens Um Século de Obras contra as Secas As Barragens Construídas pelo DNOCS Resumo da História Remota da Hidroeletricidade no Brasil Usina Hidroelétrica de Marmelos Usina Hidroelétrica de Angiquinho Usina Hidroelétrica de Itapecuruzinho A Light no Rio de Janeiro, a Cidade Luz Sulamericana A São Paulo Light, Fomentadora de Progresso As Barragens do Departamento Nacional de Obras de Saneamento - DNOS A História da CHESF, Indutora do Progresso do Nordeste Furnas no Século XX A Eletronorte e as Barragens da Região Amazônica A História das Barragens no Paraná Companhia Energética de Minas Gerais - CEMIG

9 12 16 48 56 66 76 88
98 112 124

130 142 150 166 188 206 226 250

CESP Companhia Força e Luz Cataguazes-Leopoldina .Energisa Companhia Paulista de Força e Luz .50 Anos de muito Trabalho Centro de Tecnologia de Furnas em Goiânia O Laboratório de Hidráulica HIDROESB - Saturnino de Brito SA O Instituto de Pesquisas Hidráulicas .Companhia Estadual de Energia Elétrica do Rio Grande do Sul .CEEE Companhia Energética de São Paulo .CPFL Breve Memória sobre a Usina de Itaipu 1966 .IPH 272 284 292 304 308 346 354 368 396 406 412 414 426 432 436 O Instituto de Pesquisas Tecnológicas do 446 Estado de São Paulo .Introdução CEHPAR .IPT .2010 As Pequenas Centrais Hidroelétricas no Brasil A Nova Face das Empresas Estatais frente à Expansão da Oferta de Energia Hidroelétrica no País As Barragens de Rejeitos no Brasil: Sua evolução nos últimos anos A Evolução do Licenciamento Ambiental de Barragens no Brasil A Evolução da Legislação Aplicada às Barragens Centros de Pesquisas Tecnológicas Aplicadas a Barragens .

Laboratório de Hidráulica Experimental e Recursos Hídricos de Furnas .Sócios Coletivos e Mantenedores 454 464 474 477 483 485 488 491 493 506 509 512 514 516 519 520 522 .Depoimentos José Gelazio da Rocha e Antônio Dias Leite Anexo 3 .Entrevistas Eduardo Larrosa Bequio Guy Maria Villela Paschoal Hélio Mendes de Amorim João Camilo Penna José Candido Capistrano de Castro Pessoa Luiz Carlos Queiroz Mario Santos Murillo Dondici Ruiz Olavo Augusto Vieira Anexo 2 .Diretorias do CBDB Anexo 4 .Simpósios sobre Pequenas e Médias Centrais Hidroelétricas Anexo 6 .Seminários Nacionais de Grandes Barragens Anexo 5 . LCEC Anexos Anexo 1 .LAHE O Laboratório CESP de Engenharia Civil .Congressos Internacionais e Reuniões Anuais e Executivas Anexo 7 .

XX e XXI .A História das Barragens no Brasil .Séculos XIX.

mas também empreendedores do setor privado e pesquisadores. O primeiro trabalho de inventário dos rios da Região Sudeste foi elaborado pela Canambra Engineering Consultants Limited. O aparecimento e o desenvolvimento das empresas construtoras de barragens constituem fatos de grande relevância. que colaborou. A SUDENE. dirigida pelo economista Celso Furtado na década de 1960. envolvendo mapeamentos pedológicos. Paralelamente. foram criados vários centros de pesquisas. águas de superfície e subterrânea. a partir de 1887. que previa a formação de reservatórios no semi-árido nordestino. juntamente com algumas empresas brasileiras. implementou um plano de desenvolvimento regional embasado em estudos dos recursos naturais. XX e XXI”. piscicultura. Pretendemos. entre outras ciências que serviram de suporte para projetos de irrigação e construção de barragens. O livro retrata as primeiras barragens construídas no Nordeste. teve como uma das principais finalidades a permanência do sertanejo no seu ambiente natural. Essa política. houve um grande desenvolvimento nas áreas de hidrologia e meteorologia. No Brasil foram iniciadas as construções de grandes barragens. os quais fazem parte dos pontos importantes abordados nesta publicação. grupo de grande competência. Além da contribuição nos métodos construtivos das barragens. para suporte tecnológico desses empreendimentos. onde o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS) teve um papel importante com a construção de açudes para irrigação. resgatando os principais personagens que contribuíram para o desenvolvimento da nossa engenharia. abastecimento de água das cidades e pequenos núcleos populacionais. climatologia. amenizando os processos migratórios para a Região Sudeste do País. registrar a história das barragens brasileiras. na formação dos nossos engenheiros na área de recursos hídricos e projetos de barragens. principalmente as de maciços de terra. 9 . Os técnicos brasileiros foram influenciados principalmente pelas organizações americanas United States Bureau of Reclamation e US Army Corps of Engineers. As barragens surgiram em decorrência da necessidade de se usufruir dos benefícios do uso múltiplo dos recursos hídricos para a população brasileira. envolvendo não só homens públicos.Séculos XIX. hidrologia. assim. O livro aborda com abrangência o desenvolvimento tecnológico para a construção das barragens brasileiras a partir de 1950. quando se iniciou o desenvolvimento do setor elétrico brasileiro. apresentamos o livro “A História das Barragens no Brasil . apoiadas em estudos e projetos de alta qualidade.Prefácio Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Em comemoração aos 50 anos de existência do Comitê Brasileiro de Barragens – CBDB – filiado à International Commission on Large Dams (ICOLD).

incluindo os empreendimentos realizados e as respectivas estratégias de desenvolvimento. é também citada nesta publicação. pertencente ao Brasil e ao Paraguai. XX e XXI Este livro registra as primeiras hidroelétricas construídas no país. principalmente. Erton Carvalho Presidente do CBDB 10 . Apresenta. que faz parte do programa de trabalho do CBDB. aparecem documentadas com a história de suas formações. A legislação sobre a segurança das barragens. As empresas subsidiárias da ELETROBRAS: FURNAS. São Paulo (CESP). o qual realizou vários trabalhos apreciáveis nas áreas de abastecimento de água. bem como as dos estados de Minas Gerais (CEMIG). Finalmente. uma significativa documentação sobre o Departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS) extinto no inicio da década de 1990. CHESF. a maior hidroelétrica brasileira. Destaca-se na Região Amazônica o relato do projeto e construção da usina de Tucuruí. este livro é dirigido a um público abrangente. como também para a integração dos dois países. A usina de Itaipu Binacional. visando. ELETRONORTE e ELETROSUL.Séculos XIX. não só para a geração de energia elétrica. está retratada com a sua história e importância. A preocupação do CBDB em defesa do desenvolvimento sustentável do País está comentada nos tópicos sobre a evolução do licenciamento ambiental para os empreendimentos hidráulicos. realçando a importância da Região Amazônica como continuidade do uso dos nossos recursos hídricos. sendo também responsável pelas obras de controle de cheias em todo país. também. no que se refere à construção das barragens e seus impactos. Rio Grande do Sul (CEEE) e Paraná (COPEL). sem a exigência de que ele seja possuidor de conhecimentos técnicos sobre o tema. selecionadas por região. irrigação e geração de energia elétrica. dotada de eclusas para a navegação do rio Tocantins.A História das Barragens no Brasil . o leitor interessado na história contemporânea do desenvolvimento brasileiro.

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Reservatório de Tucuruí .

. emocionalmente. e como o assunto a ser abordado no livro é demasiadamente extenso no tempo. a ministra Miriam Belchior. relatórios. 1500. fizeram com que a tarefa se tornasse árdua em função da busca de documentos. a aproveitar. Outras entidades publicaram livros de escopo semelhante: a ABMS publicou Cinquenta Anos de Geotecnia em 2000 e a ABGE publicou a Edição Comemorativa dos Trinta Anos. do Planejamento alertou (2011): “Acreditamos que será possível. O Brasil está desperdiçando importantes potenciais hídricos ao limitar. envolvendo todos os atores.” No mesmo sentido. o livro acabou apresentando uma certa concentração de capítulos em um autor. de fato. projeto. licenciamento e distorções legais que propiciam priorização soluções mais poluentes. Como voluntários não apareceram. tive que selecionar alguns voluntários que gentilmente aceitaram a tarefa e desempenharam a função de redatores com maestria e objetividade. Essa distorção já contaminou a legislação ambiental brasileira e. Essas perdas de quase uma geração inteira de notáveis pioneiros dos tempos das mais importantes conquistas tecnológicas e da fase pioneira da implantação de grandes barragens para as mais diversas finalidades bem como da época das grandes dificuldades para identificação. A propósito. presidente da FIESP ao analisar as tendências atuais (2011) do setor elétrico: “O Brasil assiste a desqualificação de suas fontes de energia mais competitivas e abundantemente disponíveis. em reunião do Conselho Deliberativo. Ao iniciar a tarefa me deparei com grandes dificuldades provenientes das importantes perdas para a Profissão de inúmeros expoentes da engenharia nesses pouco mais de dez anos que separam as publicações das outras associações da edição do livro do CBDB. planejamento. querendo. mesmo assim. para que a implantação de Belo Monte seja um sucesso de sustentabilidade social e ambiental. e no espaço. A proposição foi aceita com entusiasmo... o dimensionamento dos reservatórios das barragens. Com a proximidade do cinquentenário do Comitê Brasileiro de Barragens CBDB surgiu.. a Diretoria do CBDB emitiu uma circular a todos os sócios comunicando a intenção de publicar este livro e incentivou os associados a se apresentarem como voluntários na preparação dos diversos capítulos que haviam sido programados. a proposta do engenheiro Manuel de Almeida Martins de que se editasse um livro comemorativo versando sobre a história da engenharia de barragens no Brasil. em outubro de 2011. mais recentemente. Este livro é lançado em difícil momento para os investidores. em 1998. os demais serão convencidos Flavio Miguez de Mello de que está sendo feito todo o esforço. por abranger o vasto território nacional. por bem das águas que tem. superando um século. de questionável segurança e de menor economicidade.” No início dos trabalhos.CINQUENTA ANOS DO COMITÊ BRASILEIRO DE BARRAGENS Apresentação “Águas são muitas.” Pero Vaz de Caminha. estatais e privados. exceto os que tenham uma posição ideológica e não técnica (sobre meio ambiente). Entretanto. Belo Monte ser um exemplo de implantação de usina hidroelétrica na Região Amazônica . construção e operação de barragens e reservatórios. E em tal maneira é grandiosa que. dar-se-á nela tudo. comprometeu o planejamento energético. cabe realçar as palavras de Paulo Skaff. em empreendimentos para qualquer das diversas finalidades de barragens dadas às vigentes dificuldades de aprovação. cabendo a mim a tarefa de produzir o livro e publicá-lo no aniversário de cinquenta anos do CBDB. foto- 13 . infinitas. como são muitos os aspectos enfocados.

Arthur Crocchi. John R. José Machado e José Cândido Castro Parente Pessoa com os quais tive oportunidades de angariar valiosos depoimentos sobre aspectos de vivências profissionais passadas. Estive com alguns desses atores com frequência em certas longas fases do exercício profissional tais como os engenheiros Flavio H. César Cals de Oliveira Filho e consultores como Manuel Rocha e Porland Port Fox. Carlos Alberto Pádua Amarante. Por sorte tive o privilégio de conviver profissionalmente com alguns dos mais destacados atores daquele período e que já nos abandonaram. Lyra. Antônio José da Costa Nunes. Francisco de Assis Basílio. Os que atualmente atuam em implantação de barragens podem não imaginar que. Com vários outros atores do passado tive contatos menos extensos.A História das Barragens no Brasil . Usina hidroelétrica Serra do Facão 14 . XX e XXI grafias e depoimentos que formassem as bases para o relato de uma história de mais de um século de conquistas que merecem registro. Von Ranke.B. Victor F. Theophilo Benedicto Ottoni Netto. E. por exemplo. Epaminondas Mello do Amaral Filho. para visitar pela primeira vez o local da hidroelétrica de Salto Grande em Minas Gerais. Léo A. Penna. Cotrim.Séculos XIX. mas de elevado interesse no relato de experiências profissionais tais como Mário Penna Bhering. o engenheiro John Cotrim gastou duas semanas a cavalo. de Mello.

O presente livro é resultado do apoio e do incentivo de muitas pessoas entre as quais cabe destacar especialmente a constante compreensão e apoio de minha esposa. Viviani Siqueira Vecchi e Walton Pacelli de Andrade. Procurei congregar neste livro narrativas sucintas.. Heloisa Ottoni. se consideradas as barragens de rejeitos. José Gelazio da Rocha. Com uma longa história tão rica a ser resumida num espaço tão curto. O relato mais detalhado dessas barragens pioneiras retrata a imagem das imensas dificuldades logísticas de acesso. Carlos Henrique Medeiros. Mair Melo Andrade. construída ainda no Século XIX por Bernardo Mascarenhas. Agradeço também aos dirigentes e funcionários do CBDB. Flavio Pilz. só considerando as grandes barragens. foram em parte devidos à minha atuação profissional na engenharia. Delphim Mazon Fernandes. com destaque para as primeiras usinas hidráulicas para fornecimento público de energia elétrica: Marmelos no Sul-Sudeste. Alberto Sayão. Henrique Frade. Sandra Pereira. 15 . das quatro filhas que passaram mais de um ano sem minha participação em atividades de fins de semana. em quase todos os capítulos. Julia Ferrer Leal de Araujo. André Luiz Fabiani. para combate às trágicas consequências ocasionadas pelas secas e para produção de energia elétrica. John Denys Cadman. nas mais adversas condições. principalmente. Margaret Rose Mendes Fernandes. Considerando que a história recente é mais conhecida por aqueles que acessarem esse livro. Gualter Pupo. José Carlos de Miranda Reis Neto. Carlos Mazzaro. os que nos precederam conseguiram. ultrapassa-se a casa das duas mil grandes barragens. porém objetivas. Talvani Hipólito Nolasco Filho. Angiquinho implantada no Nordeste por Delmiro Gouveia e Itapecuruzinho. Leila Lobo de Mendonça. Alguns relatos apresentados em capítulos deste livro foram obtidos diretamente desses contatos dos que nos precederam na Profissão.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Desses contatos pude extrair há anos. Simone Idalgo Machado. uma ênfase maior na história remota. Sobre esse aspecto há um capítulo resumindo as primeiras hidroelétricas nas diversas regiões do País. Provavelmente foram esses fatores que levaram o Conselho do CBDB a me indicar como responsável pela edição desse livro. além de oposições dos auto-proclamados ambientalistas nacionais e estrangeiros. no Brasil há bem mais de mil dessas estruturas em operação e. O livro foi enriquecido com textos. Cavalcanti. à minha atuação na Universidade e às minhas atividades no CBDB e em outras entidades técnicas. Cabe ainda agradecer os importantes apoios recebidos de diversos profissionais entre eles Alberto Jorge C. presentes e atuantes desde a primeira hora. é de se notar que há. Não foi possível mencionar todos os atores e relatar todas as inúmeras atividades de implantação de barragens que ocorreram por mais de um século nesse tão vasto território nacional. Mesmo assim. o editor Corrado Piasentin. Fernando Pires de Camargo. de obtenção de materiais e de aquisição de equipamentos. Cleber José de Carvalho. para controle de cheias e. dos quais guardo recordações as mais preciosas. Teresa Malveira. Esses contatos. Dessa forma há uma ênfase nas primeiras barragens para saneamento. de todas as principais atividades que resultaram na implantação de tantas barragens que trouxeram progresso e bem estar ao nosso povo desde o Século XIX. informações de elevado conteúdo histórico. implantar barragens e hidroelétricas em até menos de um ano. Ricardo Ivan Bicudo. Jerson Kelman. algumas das quais relato neste livro. embora não seja o mais velho. Nicole Schauner. Og Pozzoli. devo certamente ser o mais antigo por ter sido chamado muito jovem a apoiar as atividades em sua sede. Agradecimentos são devidos aos autores dos capítulos e aos entrevistados que contribuíram decisivamente para a viabilização do livro. Paulo Coreixas Jr. José João Rocha Afonso. Gisele Miranda Gomes Reis. João Paulo Maranhão Aguiar. No CBDB. engenheiro Erton Carvalho. Rosana Libânio. Ana Teresa Ponte. de aprovação. de concessão e de licenciamento ambiental. o livro inevitavelmente contém omissões pelas quais desde já peço desculpas. Presentemente. a revisora de texto Margarida Corção e o conselheiro Aurélio Alves de Vasconcelos. de mais difícil caracterização. prazos presentemente ina- creditáveis dadas as atuais delongas e dificuldades legais. entrevistas e informações de alguns dos mais destacados profissionais que atuam na engenharia de barragens em nosso País. pai do atual presidente do CBDB. implementada na Região Amazônica por Newton Carvalho. Sérgio Pimenta. Vânia Rosa Costa. Gustavo Nasser Moreira. T. Hilton Ahiran da Silveira.

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Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens “We trust that the results of the study will help the power industry of South Central Brazil to develop on a sound basis in the years that lie ahead. a geologia.500 km. pode ser responsável pelo consumo de até 92% das precipitações. 1966. o relevo e a vegetação. o clima.” “Acreditamos que os resultados do estudo auxiliarão nos anos vindouros o desenvolvimento da indústria de geração do Centro-Sul do Brasil sobre uma base sólida” John K. há diferentes aspectos naturais tais como. juntamente com evapotranspiração. a precipitação média anual pode ser de 400 mm ou menos.  Síntese do Desenvolvimento da Implantação das Barragens no Brasil Flavio Miguez de Mello O País e seus recursos hídricos O Brasil é um território contínuo de forma quase quadrada. formado por dois grandes rios. variando de áreas úmidas ao vasto semi-árido do interior do Nordeste. a maior parte do qual se situa no hemisfério sul. compreendendo 8. Nessa área a evaporação média pode atingir 2000 mm/ano e. Nessa área. como o substrato cristalino é pouco permeável. A parte central da Região Amazônica é cortada de oeste para leste pelo rio Amazonas. desde 4° de latitude norte a 33º de latitude sul e de 40 º a 75º de longitude oeste. A maior parte dos seus 190 milhões de habitantes vive na Região Sudeste onde as maiores cidades estão localizadas. Quase todos os rios do Nordeste. por exemplo.5x106 km². só é possível acumular águas subterrâneas em regiões de rochas com fraturas profundas. A pequena espessura da cobertura de solo faz com que haja dificuldade em reter a umidade e. podendo apresentar descargas específicas médias tão baixas quanto 3 l/s. têm regime intermitente em pelo menos parte de seus cursos.km². engenheiro chefe da Canambra. o mais caudaloso e mais longo rio do mundo. O ambiente varia das planícies alagadas da Amazônia Equatorial e do Pantanal ao Planalto Central. O País abriga a quinta maior população do mundo.km². com uma extensa costa banhada pelo Oceano Atlântico ao longo de 8. os recursos hídricos. apresentando descarga específica média de 35 l/s. Sexton. a quantidade e frequência de precipitações. com exceção dos rios São Francisco (que é proveniente do Sudeste) e Parnaíba. A leste desta região encontra-se a região semi-árida do nordeste brasileiro cujos rios são em geral intermitentes. Como o País é de tão grande superfície. o Solimões que drena os Andes peruanos e bolivianos e o Negro. sendo geralmente esta água insuficiente e de baixa qualidade. da cadeia de montanhas próximas à costa no Sudeste até as planícies do Sul e do Meio Oeste. com uma descarga média superior a 200. constituem-se nos grandes recursos hídricos do norte do Brasil. Esse grande território tem uma longa fronteira com todos os países da América do Sul à exceção do Equador e do Chile. denominada Polígono das Secas. Os mais importantes tributários desses rios e os rios da bacia do rio Tocantins que flui de sul para norte. Barragem de finalidades múltiplas de Pedra do Cavalo no rio Paraguaçu na Bahia 17 .000 m³/s. a incidência solar supera as 3000 horas por ano.

Barragem de Apipucos na cidade do Recife. antes mesmo da invasão holandesa. A barragem original foi alargada e reforçada para permitir a construção de uma importante via de acesso ao centro do Recife.A História das Barragens no Brasil . o tratamento de fundação pode ser feito na primeira estação seca durante a construção e a barragem construída durante a estação seca seguinte. um braço do rio Capiberibe. A mais antiga barragem que se tem registro no Brasil 18 . No resto do País as descargas específicas variam de 12 l/s. variando entre a oitava e a décima maior economia do mundo.km². por Harman Agenau por 6000 florins para acesso a um forte também na atual região urbana do Recife. Figuras 1a e 1b . Nos últimos 40 anos o País tem participado intensamente da economia internacional. O dique tinha três metros de altura e cerca de 2 km de extensão. Há referências também ao dique Afogados construído no rio Afogados. XX e XXI Nesses rios intermitentes. tendo colapsado em vários pontos. tendo sido concluído em dezembro de 1644. possivelmente no final do Século XVI. muitas vezes sem requerer estruturas de desvio e ensecadeiras. aparece em um mapa holandês de 1577. PE. Conhecida presentemente como açude Apipucos. As secas no Nordeste e o desenvolvimento do País foram os fatores determinantes para a implantação do grande número de barragens construídas desde a última década do século XIX. Apipucos na língua tupi significa onde os caminhos se encontram.Séculos XIX. em 1650 sofreu transbordamento por ocasião de uma grande cheia.km² a 30 l/s. Um olhar para o passado remoto A mais antiga barragem que se tem notícia em território brasileiro foi construída onde hoje é área urbana do Recife. no caso de barragens não muito altas.

tem no seu trecho inferior uma descarga média de longo termo de cerca de 2000 m³/s. Isso marcou o início do planejamento e projeto de grandes barragens no Brasil. A rocha sã em geral encontrada nas ombreiras. No final do Século XX o DNOCS executou sua última barragem.5 milhão de habitantes. Figura 3 – Barragem de Castanhão para abastecimento de água à cidade de Fortaleza. Esse grande rio que nasce na Região Sudeste em Minas Gerais. Serão construídas diversas barragens. tendo sido palco de migrações em massa de flagelados. na época com 1. Em 1880. No seu estágio final a derivação será de 3. Muitos anos antes. uma das áreas mais atingidas. outro intenso El Niño foi responsável pela retirada dos invasores holandeses de onde é hoje a costa do Ceará. diques. A primeira dessas barragens foi Cedros. uma das duas mais antigas grandes barragens do Brasil (1906) Centenas de barragens foram construídas desde a Grande Seca no Nordeste. As principais recomendações foram a construção de estradas para que a população pudesse atingir o litoral e a construção de barragens para suprimento de água e irrigação no Polígono das Secas cuja área é superior a 950. CE Recentemente foi lançado o projeto de derivação de parte das descargas do rio São Francisco para o Polígono das Secas. Os anos 50 e 60 do século passado foram os anos dourados na construção de barragens para combate às secas. O estado do Ceará. Castanhão cuja finalidade principal foi o abastecimento de água da cidade de Fortaleza.CINQUENTA ANOS DO COMITÊ BRASILEIRO DE BARRAGENS As obras contra as secas O ano de 1877 foi o início da maior tragédia nacional devido a fenômeno natural: A Grande Seca no Nordeste com duração superior a três anos deixou cicatrizes que até hoje são nítidas. perdeu mais de um terço da sua população de maneira trágica. Somente a partir de meados dos anos oitenta do século passado passou-se a saber que as secas são devidas ao fenômeno conhecido por El Niño no Pacífico Sul. o Imperador D.000 km². em vários projetos. nomeou uma comissão para recomendar uma solução para o problema das secas no Nordeste.Barragem de Cedros. A pequena altura das barragens e a rocha sã nos leitos dos rios minimizavam a necessidade de tratamento de fundação. logo após a Grande Seca. Na primeira década do século XX uma membrana de alvenaria ou de concreto era usualmente usada como elemento impermeabilizante interno de barragens de terra. canais. situada no Ceará e concluída em 1906. Pedro II que esteve na área atingida. Figura 2 . estações de bombeamento e casas de força para 19 .2% desta descarga para as regiões de seca. conduziu à adoção de vertedouros de superfície simplesmente escavados em rocha sã.

a capacidade instalada no território nacional era de apenas 5. Em 1934 o decreto federal nº 24643 conhecido como Código de Águas e o cancelamento da cláusula ouro que protegia as empresas concessionárias dos efeitos da desvalorização da moeda nacional. Serão bombeados 63. Logo após a II Guerra Mundial. quando inaugurada. Devido à contenção tarifária e à fragilidade do capital nacional. sem serem muito altas. Por esse motivo as mais importantes contribuições no sentido de desenvolvimento de tecnologias de projeto.000 MW. a Light. Assim. sua barragem original com 12. no rio Tietê. todas com barragens de dimensões discretas. Em 1960. a usina. que entrou em operação em 1906 no estado do Rio de Janeiro com o objetivo de derivar as águas do ribeirão das Lajes para da usina de Fontes no Rio de Janeiro.A História das Barragens no Brasil . transmissão e distribuição de energia elétrica. concessionária da mais desenvolvida região do País. Em 1954 a antiga usina foi substituída por unidades de recalque e a barragem alteada para 18. A primeira usina da Light entrou em operação em 1901. Arthur Casagrande e Portland Port Fox. para suprimento de energia elétrica à cidade de São Paulo. passaram a desencorajar diretamente os investidores do setor elétrico.Séculos XIX. em grande parte de sua extensão. dessas unidades estão sendo agora reabilitadas e repotenciadas. na época uma das maiores do mundo. em função das intensas alterações nos coeficientes hidráulicos de sua área de drenagem devido à ur banização da cidade de São Paulo e das cidades vizinhas. tendo sido causado intenso estrangulamento na expansão de oferta de energia elétrica.700 MW provinham de hidroelétricas. Muitas 20 . A maioria das grandes barragens do Brasil (pela classificação da CIGB) encontra-se na Região Nordeste. As primeiras grandes barragens do País foram Cedros acima mencionada e Lajes. XX e XXI geração de energia. um vertedouro de soleira livre. era de alvenaria de pedra constituída por grandes blocos de rocha gnáissica solidarizados com argamassa. Até os anos cinquenta todas as empresas de energia elétrica eram privadas e as suas usinas eram situadas principalmente nas regiões Sul e Sudeste. Esse estrangulamento fez com que o governo federal e alguns governos estaduais criassem empresas de energia elétrica. construção e operação de barragens são principalmente devidas à implantação de hidroelétricas. o vertedouro foi redimensionado com considerável acréscimo de capacidade.5 m³/s do rio São Francisco. A maior parte das barragens eram estruturas de concreto gravidade ou de alvenaria de pedra.5 m através de reforços em contrafortes e com vertedouro com três comportas de segmento de capacidade conjunta de 800 m³/s. No final do século passado. Para esses empreendimentos consultores individuais prestaram importante apoio tais como Karl Terzaghi. não muito altas. a maior parte delas em aterro compactado.5 m de altura. passou a haver insuficiência de oferta de energia nas décadas seguintes. Durante as estações chuvosas na bacia do rio São Francisco poderão ser bombeadas até 127 m³/s . Os danos ao progresso da Nação foram intensos e irrecuperáveis. sendo. Presentemente (2011) há 1206 MW instalados em hidroelétricas de mais de 50 anos de idade. Desde o início dos anos cinquenta as concessionárias estatais passaram a se concentrar em empreendimentos de grandes vultos. construiu diversas barragens e grandes casas de forças subterrâneas no Rio de Janeiro e em São Paulo. o setor elétrico foi aos poucos sendo estatizado. As primeiras barragens para produção de energia elétrica Nas regiões Sul e Sudeste a implantação de barragens foi principalmente direcionada para produção de energia elétrica. tinha 2 MW instalados. dos quais 3. No final do Século XIX começaram a ser implantadas pequenas usinas para suprimento de cargas modestas e localizadas. devido à desastrosa e desastrada política de restrição tarifária iniciada pelo Código de Águas que incluiu o não reconhecimento de remuneração de capital empregado em obras de geração. Inicialmente denominada Parnaíba e depois Edgard de Souza.

tendo inclusive atingido as Sete Quedas. passaram a ser designados por estudos de inventário. dada a escassez de mapeamento e as dificuldades logísticas. O legado da Canambra Na primeira metade do século passado. a partir dos anos sessenta. Nessa expedição foi identificado o local de Furnas 21 . A Light. sem o conhecimento dos potenciais do rio Grande e do rio Paranaíba. os recursos hídricos em território brasileiro eram pouco conhecidos e não tinha havido ainda estudos sistemáticos que posteriormente. responsável pelo Figura 4 – Barragem e reservatório de Lajes. diretor técnico da Cemig. organizou uma expedição pelo rio Grande entre dois potenciais conhecidos: os locais das usinas de Itutinga e de Peixoto.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A evolução do conhecimento dos recursos hidroenergéticos. efetuava estudos dispersos. muito mais próximos. Nessa época. John Cotrim. uma das duas grandes barragens mais antigas do Brasil (1906) suprimento de energia elétrica às mais importantes regiões no Rio de Janeiro e em São Paulo.

Inicialmente conhecido como ONU-Cemig. a John Cotrim. Os estudos de inventário constituíram-se em atividade sem precedente. os estudos foram estendidos à toda a Região Sudeste através de um contrato assinado entre a Canambra e Furnas. Posteriormente. O relatório final foi entregue por J. Progressivamente as condicionantes ambientais foram ganhando espaço nas definições de projetos em inventários. englobando 510 locais de barragem dos quais 264 foram levantados com melhor precisão. o ministro Gabriel Passos das Minas e Energia e os governadores dos estados de Minas Gerais. diretor da Canambra. Nas fases posteriores de implantação das usinas. empresas nacionais realizaram estudos de inventário hidroenergéticos nas regiões Norte e Nordeste. em 3 de junho do ano seguinte. Com a sugestão do Banco Mundial que atuou nesse inventário como agente executivo do UNDP. Foram identificados como viáveis potenciais que somados atingiram 40. de estender os estudos à toda Região Sudeste considerando a importância desses estudos para a otimização dos investimentos em geração de energia elétrica e como todos os rios que nascem em Minas Gerais atravessam outros estados. em 2 de novembro de 1962.A História das Barragens no Brasil . os estudos passaram a ser conhecidos como Canambra. havendo a contrapartida em moeda nacional no equivalente a US$ 3. XX e XXI que posteriormente deu origem à empresa de mesmo nome. para formatar o programa final de desenvolvimento energético da Região Sudeste. Três grupos foram formados.Séculos XIX. em dezembro de 1966. Montreal Engineering Company Ltd. nos anos setenta. Considerando o sucesso dos estudos desenvolvidos na Região Sudeste. e a americana Gibbs & Hill Inc. um consórcio entre as empresas consultoras canadenses. Cemig assinou. usando 3. A área total investigada foi de 1. A partir de poucos anos Figura 5 – Grupo de Minas Gerais da Canambra trabalhando no escritório central da Cemig 22 . Ao abrigo desse recurso financeiro. A descoberta desse potencial causou espanto no meio técnico da época. São Paulo.8 milhões.7 milhões. um em Belo Horizonte.700 horas de voos de reconhecimento. Um exemplo típico foi a revisão do inventário do rio Paraibuna em Minas Gerais que havia sido feito nos anos oitenta. inclusive termoelétricas a carvão. a maioria esmagadora dos estudos realizados pela Canambra foi posteriormente aprofundada nas etapas sucessivas de projeto dentro das diretrizes inicialmente estabelecidas. o governo federal se interessou vivamente pela iniciativa da Cemig e. Como reflexo desse levantamento veio o objetivo da Cemig de efetuar um levantamento dos recursos hidroenergéticos de Minas Gerais. um em São Paulo e um no Rio de Janeiro. Com esse propósito. A partir dos anos oitenta os estudos anteriores começaram a ser revisados e densificados em quase todo o território nacional. Os dois primeiros grupos acima mencionados desenvolveram o inventário dos recursos hidroenergéticos em relatórios independentes e o grupo sediado no Rio de Janeiro usou os resultados obtidos adicionados a investigações de outras possíveis fontes geradoras. Rio de Janeiro e Guanabara assinaram em 1 de março de 1963 o Plano de Operação. e G. Para tanto. tendo direcionado o desenvolvimento hidroenergético da região. um contrato com a Canambra Engineering Consultants..000 km². para que fosse realizado o inventário dos recursos hidroenergéticos em Minas Gerais.000 km de rios. o que demandou aerofotografias de uma área de 516.000 MW. chefe do Comitê de Direção dos Estudos. o UNDP disponibilizou recursos da ordem de US$ 2. a Canambra foi contratada para efetuar estudo de mesmo escopo para a Região Sul. Sexton. Crippen & Associates Ltd.K. a óleo e usinas nucleares.E.1 milhão de quilômetros quadrados cobrindo 28. A Cemig solicitou apoio financeiro ao Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (UNDP sigla em inglês).

Foram definidos os aproveitamentos de Picada.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 6 . Apesar de pequena perda energética em relação à partição de queda proposta nos anos oitenta. os empreendimentos passaram a ser econômica e ambientalmente viáveis.PCH Santa Fé no rio Paraibuna. 7a 7b Figura 7a . Sobragy. Durante os dias de fim de semana. Cabuy. Monte Serrat. mostrando as dificuldades logísticas durante os levantamentos de campo efetuados pela Canambra após seu término. quase sempre objetivos antagônicos. são liberados para a canoagem pela barragem de derivação a descarga de 50 m³/s. Rio de Janeiro e Minas Gerais 7c Figura 7d – Rafting no rio Paraibuna sobre a soleira vertedora da barragem de derivação de Santa Fé 7d 23 . maior número de usinas com quedas mais modestas e pequenos trechos inaproveitados. feriados e noites de lua cheia. ideal para a prática da canoagem. Bonfante e Santa Fé com pequenas áreas inundadas. tendo sido implantados a partir do início dos anos noventa.PCH Bonfante no rio Paraibuna. os projetos que pelas exageradas dimensões de seus reservatórios inundariam centros urbanos e grandes extensões de obras de infraestrutura viária. foram progressivamente alterados para reservatórios de menores dimensões. garantindo melhores condições do que as condições naturais.John Cadman fotografado por John Cabrera. Rio de Janeiro e Minas Gerais Figura 7c . Rio de Janeiro e Minas Gerais Figura 7b . Na usina que fica mais a jusante foi possível a compatibilização inédita do aproveitamento energético com a canoagem.PCH Monte Serrat no rio Paraibuna. atolados na beira do rio.

Dessa revisão dos inventários existentes resultou o projeto de mais de cinquenta novos aproveitamentos.Séculos XIX. a ANEEL contratou a Es cola Politécnica da UFRJ em 2000 para reestudar toda a bacia do rio Paraíba do Sul com atenção especial aos impactos ambientais. XX e XXI Influenciada por essas alterações. Dentre os aproveitamentos de baixa queda destacam-se as PCHs gêmeas Queluz e Lavrinhas. Figuras 8a e 8b – PCH Queluz antes e depois do enchimento do reservatório. com 30 MW cada. a menos das usinas existentes ou aprovadas entre as quais o complexo de Simplício.PCH Lavrinhas antes e depois do enchimento do reservatório. Em primeiro plano a ferrovia de concessão da MRS e ao fundo a ponte da rodovia Presidente Dutra BR-116 Figuras 9a e 9b .A História das Barragens no Brasil . em sua maioria esquemas de baixa queda para torná-los ambientalmente viáveis. construídas no rio Paraíba do Sul a montante do reservatório do Funil. Em primeiro plano a ferrovia de concessão da MRS e ao fundo a rodovia Presidente Dutra BR-116 24 . assim denominadas por terem todos os equipamentos idênticos. foram concluídas em 2011 e tiveram seus reservatórios condicionados pela infraestrutura viária do local. Essas PCHs.

Figura 10 – Local da usina hidroelétrica de Furnas no início de sua construção. A partir da esquerda Flavio H. 25 . um impressionante número de grandes hidroelétricas foram construídas e entraram em operação. John R. Cotrim. Juscelino Kubitschek de Oliveira. Benedito Dutra e outros. resultando no que mostra a tabela a seguir. algumas das quais entre as maiores do mundo na época. Entretanto. continuou.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Alterações nos critérios tarifários e a consequente ampliação de implantação de hidroelétricas Nos anos sessenta e setenta. devido ao estabelecimento do critério da verdade tarifária introduzido no início do governo Castelo Branco por Bulhões de Carvalho e Roberto Campos. Lyra preocupado com a concepção do projeto Nos anos oitenta e noventa um menor número de hidroelétricas entraram em operação devido à carência de recursos financeiros das estatais causada principalmente pelos impactos na economia nacional devidos aos dois choques do petróleo e a crescente inflação. Todos olhando para o fotografo a menos de Flavio H.Lyra. a concentração de investimentos em poucos. mas grandes empreendimentos.

000 3.240 S SE S Marimbondo 1. XX e XXI TABELA 1 Maiores Hidroelétricas em Operação em 2011 Hidroelétrica Tucuruí Itaipu (Brasil) Ilha Solteira Xingó Paulo Afonso IV Itumbiara São Simão Foz do Areia Jupiá Porto Primavera Itá Itaparica Salto Santiago Água Vermelha Segredo Salto Caxias Furnas Emborcação Salto Osório Sobradinho Estreito Potência (MW) 8.420 1.479 NE 1.396 1.Séculos XIX.440 SE 1.551 SE/CO 1.050 NE 1.370 N 7.260 S 1.676 1.A História das Barragens no Brasil .216 SE 1.192 SE/CO 1.450 S 1.462 1.540 S SE/CO NE SE/CO S SE/CO TE/CG TE/CG BEFC TE/CG TE/CG TE/CG BEFC TE/ER/CG TE/CG BEFC TE/CG TE/CG ER TE/CG BEFC CCR ER ER ER TE/CG ER Figura 12 – Usina hidroelétrica de Salto Santiago no rio Iguaçu Figura 11 – Casa de força e vertedouro da usina hidroelétrica de Tucuruí GA/CG/CT/ER/TE Região Tipo de Barragem 3.078 S 1.444 2.162 NE 2.050 SE Legenda: N S SE NE CO TE ER BEFC CG CCR GA CF Região Norte Região Sul Região Sudeste Região Nordeste Região Centroeste barragem de terra barragem de enrocamento com núcleo de terra barragem de enrocamento com face de concreto barragem de concreto gravidade barragem de concreto compactado com rolo barragem de concreto em gravidade aliviada barragem de concreto em contrafortes Figura 13 – Usina hidroelétrica de Itá em final de construção 26 .710 1.082 SE/CO 1.

TABELA 2 Maiores Reservatórios Barragem Área (km²) Volume (km³) Extensão (km) 350 170 225 250 116 170 Figura 14 – Usina hidroelétrica de Sobradinho.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Extensos reservatórios foram criados para algumas dessas grandes hidroelétricas. Tais reservatórios passaram a propiciar benefícios de regularização de vazões e. consequentemente. Figura 15 – Reservatório da usina hidroelétrica de Serra da Mesa. o de maior volume do Brasil 27 .214 34 Tucuruí 3.350 29 *Incluindo a parte do reservatório sobre território paraguaio.250 1. otimização de operação e confiabilidade no suprimento de energia elétrica.784 20 54 Itaipu* 1.360 17 Porto Primavera Serra da Mesa 2.007 50 Balbina 2. Reservatório de maior área do Brasil Sobradinho 4.

Impostos. Presentemente empresas de geração. A hidroeletricidade nos anos recentes Em 1996. Nos últimos 10 anos a média anual do aumento da capacidade instalada foi de 3652 MW. ficando assim concessionário da usina ou do sistema de transmissão. Todo o planejamento concernente a privatização. um vasto sistema de transmissão em alta tensão e em extra alta tensão promove a interligação de várias regiões do País ao sul do rio Amazonas unindo os dois maiores sistemas nacionais: o Norte/ Nordeste ao Sul/Sudeste/Centroeste. ficando as demais obras federais sujeitas às verbas de desmobilização.Séculos XIX. é servido por mais de 90.816 MW em 1768 usinas geradoras das quais 706 eram hidroelétricas. Considerando as funestas e intensas consequências ao País em outros empreendimentos financiados pelo Banco Mundial. XX e XXI Desde pouco antes do início dos anos oitenta o governo federal e os governos estaduais passaram a enfrentar grandes dificuldades para prover recursos necessários para a implantação de novas usinas e de sistemas de transmissão. através da Lei 9427. de transmissão. 345 kV. teoricamente privada. Pouco depois foi instituída a Agência Nacional de Águas e o Operador Nacional do Sistema. a Eletrobras foi obrigada a cumprir o contrato. o que faz com que. que atua na coordenação e no controle da operação das geradoras e dos sistemas de transmissão. Como esses valores eram insuficientes para manter o ritmo ideal de construção. entidade. nomeadamente em Itaipu e Tucuruí. uma importante modificação ocorreu no setor elétrico com a criação da Agência Nacional de Energia Elétrica. Em abril de 2011 a capacidade total instalada no País passou a ser de 112. para concessões têm sido processado pela ANEEL. Uma segunda alteração na legislação ocorreu em 2004 mantendo o processo de licitação para novos projetos.A História das Barragens no Brasil .000 km de sistemas de transmissão interconectados em 230 kV. Um dos casos extremos ocorreu na implantação da hidroelétrica de Emborcação que. bem como comercializar a energia produzida ou transmitida. a energia elétrica disponibilizada no Brasil possa ser a mais cara do mundo devido principalmente a essa elevada carga tributária. com exceção de sistemas isolados na Região Norte. Ao final de 2008 essa proporção caiu para 74% devido ao planejamento para a diversificação de fontes geradoras e às dificuldades de obtenção de licenciamentos ambientais para barragens e reservatórios.398 MW. Entretanto. e depois em Xingó. promovem benefícios para outras áreas. mas tornando-se vencedor aquele que apresentasse a menor tarifa. as novas hidroelétricas. Está programada para futuro próximo a interligação entre a margem sul e a margem norte do rio Amazonas. de distribuição. de comercialização e outros investidores são encorajados a implantar usinas de geração e sistemas de transmissão. 440 kV. Uma empresa federal (EPE . Há poucos anos atrás bem mais de 90% da capacidade instalada provinha de usinas hidroelétricas. perante à reiterada ameaça da Eletrobras em não cumprir o contrato de financiamento com a Cemig. 500 kV e 750 kV. As transações de compra e venda de blocos de energia no sistema interligado de transmissão são feitas sob os auspícios do Mercado Atacadista de Energia através de contratos bi-laterais de curta duração. apesar do grande número das grandes usinas hidroelétricas que operam há mais de 30 anos estarem teoricamente depreciadas. a carga de impostos na geração de energia elétrica é de cerca de 45% da tarifa cheia. tendo afetado negativamente as empresas contratadas para fornecimento de serviços e de bens de capital. esta denunciou a Eletrobras ao Banco Mundial. Em novembro de 2008 a capacidade instalada no País era de 104. essas obras ficaram sujeitas a vultosos dispêndios devido aos acréscimos de custo de construção e à maior incidência de juros durante a construção. Em 2008 mais de 95% da população tinha acesso a serviço público de eletricidade compreendendo mais de 99% dos municípios. Uma grande parte do território brasileiro. Como resultado. 1042 termoelétricas e duas termonucleares. Nas obras federais houve intensa concentração de recursos na construção das maiores usinas. Essas verbas correspondiam aos valores que seriam despendidos caso as obras viessem a ser paralisadas.Empresa de Pesquisa Energética) foi criada para o desenvolvimento do planejamento do setor elétrico. além de suprirem energia na sua região. Devido ao sistema ser interligado em grande parte do território nacional. alterações operacionais e licitações 28 .

a FIESP entrou com representação no TCU solicitando intervenção para que providências sejam tomadas no sentido de garantir a execução das licitações de concessão.7/MWh. Furnas. 134% superior à média das tarifas industriais nos outros países do BRIC (Brasil. faria com que o governo perdesse arrecadação o que não costuma ser aceito pelos políticos da situação. com o elevadíssimo nível dos encargos sobre o fornecimento da energia elétrica. deverá fazer com que as tarifas venham a ser consideravelmente reduzidas. As atuais concessionárias terão que se adaptar à nova realidade. Índia e China) que se situam em R$140. pequenas barragens. compreendem a 5000 MW em seis usinas. o que. a intensa redução das tarifas que beneficiaria os contribuintes e recolocaria a competitividade da indústria nacional no mercado externo. além de ativos em sistemas de transmissão. A esmagadora maioria dessas pequenas usinas tem modestos reservatórios. Prevê-se que em 2015 cerca de 20% do parque gerador. Tem havido por parte das atuais concessionárias e de governos estaduais. intenso lobby para a manutenção das atuais concessões. Desde a última década do século XX. poderá perder até 52% do seu atual faturamento caso as concessões que vencem no período acima mencionado. não venham a ser renovadas.000 km de linhas de transmissão e 33% dos contratos de distribuição deverão ter suas concessões licitadas. Essas concessões. Rússia. Entre 2015 e 2017 muitas das concessões das maiores hidroelétricas e dos sistemas de transmissão estarão vencidas. pelo espírito da Lei. Pela legislação em vigor essas concessões retornarão à União que deverá efetuar licitações para definição de novos concessionários. Figura 16 . um grande número de investidores têm atuado na implementação de pequenas centrais hidroelétricas até o limite de 30 MW instalados. se situam no entorno de 85%. entre os estados do Rio de Janeiro e Espírito Santo Figura 17 – Barragem da PCH Ivan Botelho II (Palestina) em Minas Gerais 29 . CEMIG e COPEL formaram um grupo para discutir o problema e tentar influenciar uma alteração na legislação visando prorrogações das concessões. Entretanto. Por outro lado a FIESP defende que a legislação não venha ser alterada ou violentada e que as licitações sejam feitas. um dos principais problemas é que. 70. Em abril de 2011 as grandes concessionárias como CESP.PCH Calheiros 19 MW no rio Itabapoana. Para tanto. Em estudo recente a FIRJAN considerou críticos os níveis dos quatorze encargos cobrados sobre a energia elétrica. por exemplo. considera que com as licitações as tarifas despencarão a níveis de 20% dos atuais.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens taxas e contribuições mandatórias em uma conta de consumo de energia elétrica em residência de classe média quando comparada ao custo direto da energia fornecida. As hidroelétricas a serem licitadas já estarão totalmente depreciadas. vertedouros de superfície em lâmina livre e casas de força em posição remota em relação às barragens. Presentemente (meados de 2011) a tarifa média para a indústria no Brasil é de R$ 329/MWh. pois os investimentos na construção das usinas e nos sistemas de transmissão já foram amortizados há muito tempo. no caso de Furnas.

700 m³/s. Pelo projeto em processo de licenciamento. Ambas casas de força abrigarão unidades bulbo operando praticamente a fio d’água. uma com 11. situadas no rio Madeira a montante de Porto Velho terão. Monte que terá a capacidade instalada de 11. com 233 MW com unidades bulbo sob 11. que fluirão pela casa de força complementar.49 km²/MW. no seu conjunto. Por restrições ambientais e com a finalidade de se conseguir o licenciamento ambiental. inundarão terrenos da Floresta Amazônica. passou para 516 km². teve seu projeto abandonado e a área do reservatório de Belo Monte que inicialmente era de 1225 km². Esse aproveitamento está sendo estudado há trinta anos.600 m³/s e 84.10 km²/MW) e Serra da Mesa (1.5 m de queda líquida e outra. a barragem de Babaquara que regularizaria o rio Xingu a montante de Belo Monte. As hidroelétricas de Jirau e Santo Antônio.29 km²/MW). Figura 19 – Usina hidroelétrica de Monjolinho com vertedouro do tipo lateral Grandes hidroelétricas estão presentemente sendo construídas. Os reservatórios com área de 258 km² e 271. cerca de 30 .000 MW com unidades Francis sob 87.05 km²/MW.A História das Barragens no Brasil . O empreendimento afetará 4300 famílias urbanas e 800 famílias rurais. sendo cada um equipado com 20 comportas de segmento de 20 m x 25. A ausência de reservatórios de regularização no rio Xingu faz com que o fator de capacidade seja muito baixo.08.233 MW no rio Xingu. Outras grandes hidroelétricas como Tucuruí (0. Itaipu (0.5 m de queda líquida. Os vertedouros dessas duas barragens foram dimensionados para as descargas decamilenares de 82.3 km².40 km²/MW) embora com relações modestas. um dos maiores tributários do rio Amazonas.2 m. a usina aproveitará a queda na grande curva do Xingu. A média nacional é de 0. pequena estrutura (barragem) de derivação Hidroelétricas de porte médio são também atraentes a investidores privados por apresentarem. menores custos internos. O rio Madeira drena uma extensa área da Cordilheira dos Andes na Bolívia. serão implantadas duas casas de força. denominada casa de força complementar.Séculos XIX.000 m³/s. A hidroelétrica de Belo Monte terá baixa relação entre a área do reservatório e a capacidade instalada: 0. apresentam índices mais elevados. XX e XXI 6900 MW instalados. Encontra-se em início de construção a hidroelétrica de Belo 18 – PCH Cachoeira em Rondônia. A descarg a remanescente é a maior que se tem notícia. no Pará. a relação entre área inundada em km² e a capacidade instalada em MW é de cerca de 0. Localizada nas proximidades de Altamira. extremamente baixa em comparação com a média nacional. em relação às empresas estatais. Entretanto.

Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 20 – Usina hidroelétrica de Santa Clara em Minas Gerais Figura 21 – Barragem vertedoura da hidroelétrica de Picada em Minas Gerais Figura 22 – Obras da usina hidroelétrica de Santo Antônio no rio Madeira 31 .

a Petrobrás. XX e XXI A hidroelétrica de Estreito. em 1963 Fumaça com 36. Afirmou ainda que considerava estratégico ter a garantia de produção de pelo menos 50% da energia necessária à sua indústria. em 1978 Serraria com 24 MW. A concessão só foi outorgada em 1952. MG. indústria eletrointensiva. Nesse período. em 1989 Iporanga com 36. em 1974 Alecrim com 72 MW. a CBA deu início à implantação de uma série de usinas no rio Juquiá-Guaçu: em 1958 entrou em operação a hidroelétrica de França com 24 MW. em São Paulo 32 . No início dos anos quarenta a família Carvalho Dias e o empresário. também situada na Amazônia. SP. em 1982 Porto Raso com 28. Em conversa com o autor. sendo um empreendedor privado. Como a São Paulo Light não dispunha de energia para garantir o fornecimento à CBA.4 MW.4 MW. a Votorantim e muitas outras. Um exemplo marcante é a Companhia Brasileira de Alumínio CBA que por longo período foi o maior auto-produtor de energia elétrica do País. projetada para 1087 MW instalados encontra-se (maio de 2011) em início de operação comercial após quatro anos de atrasos devido a demoras no licenciamento ambiental e a paralisações referentes a ações judiciais e a atos de ocupação indevida de seu canteiro de obra. Figura 23 – Barragem da usina hidroelétrica de Barra no rio Juquiá. e montar uma fábrica de alumínio. finalmente. em 1986 Barra com 40. a CBA partiu para o médio rio Paranapanema. esta requereu a concessão do rio Juquiá-Guaçu e do seu afluente Assungi. engenheiro e político José Ermírio de Moraes fundaram a CBA para exploração da jazida de bauxita que havia sido identificada nas terras dos Carvalho Dias nas proximidades de Poços de Caldas. em 1974. tendo construído as hidroelétricas de Piraju com 80 MW que entrou em operação em 2002 e Ourinhos em operação desde 2006. a CSN. Assim.A História das Barragens no Brasil .87 MW. o engenheiro Antônio Ermírio de Moraes externou as dificuldades que encontrou.Séculos XIX. A auto-produção de energia elétrica tem movimentado em anos recentes várias empresas de grande vulto como a Vale. a CBA adquiriu da São Paulo Light a hidroelétrica de Itupararanga com 55 MW. Com os principais potenciais do rio Juquiá-Guaçu explorados. para a obtenção da concessão. Em 1942 o DNAEE determinou que a São Paulo Light suprisse de energia elétrica a fábrica que estava projetada para ser construída no município de Mairinque.4 MW e.

Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 24 . no rio Juquiá. em São Paulo Figura 25 – Projeto da barragem da usina hidroelétrica de Barra Figura 26 – Projeto da barragem da usina hidroelétrica de Fumaça 33 .Barragem da usina hidroelétrica de Fumaça.

Edilberto Maurer e Valério Mortara para o qual o autor teve o privilégio de entregar o título de engenheiro eminente pela Associação dos Antigos Alunos da Politécnica em 2000. que atualmente (maio de 2011) está com 155 m de altura é projetada para atingir 170 m de altura no seu estágio final. o executivo da empresa era o médico Miguel Carvalho Dias que contava com a importante colaboração de vários engenheiros de destaque na profissão entre eles Carlos Mazzaro. O método de construção mais empregado é o método de monFigura 27 – Antônio Ermirio de Moraes principal executivo do Grupo Votorantim. XX e XXI Os projetos das hidroelétricas da CBA no rio Juquiá-Guaçu foram todos de concepção italiana.Séculos XIX. Devido à legislação ambiental. A barragem do Germano. detentor da CBA Figura 28 . são conhecidas mais de 700 barragens em Minas Gerais e pelo menos 150 outras nos demais estados da Federação.Usina hidroelétrica de Piraju no rio Paranapanema entre São Paulo e Paraná 34 . com barragens de concreto de gravidade aliviada. Newton Sady Busetti. a maior do País.A História das Barragens no Brasil . Além do acompanhamento constante do engenheiro Antônio Ermírio de Moraes. Barragens de rejeitos Atividades de mineração representam um importante segmento na economia nacional. um grande número de barragens de rejeitos foram construídas ou estão presentemente em construção. Embora não haja um registro de barragens de rejeitos no País.

Os dois mais destacados empreendimentos foram o sistema de controle de cheias do rio Itajaí em Santa Catarina. 35 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens tante. os poucos empreendimentos de navegação interior existentes são em geral anexos a hidroelétricas. o sistema de proteção de cheias da cidade de Recife em Pernambuco. Vias navegáveis A navegação interior permanece sendo o método de transporte mais usual na Região Amazônica onde há longos e caudalosos rios que podem ser usados ao longo do ano todo. órgão do Ministério do Interior. o Departamento Nacional de Saneamento. seus formadores os rios Solimões e Negro. Presentemente estados e prefeituras que. Em 1990 as atividades desse Departamento foram abruptamente encerradas e o Departamento extinto. no Nordeste. em São Paulo e do São Francisco. em geral. O critério de projeto que em geral era adotado objetivava o controle das cheias de período de recorrência de 100 anos ou a maior cheia que tivesse sido registrada. da barragem de Pampulha em que criou um belo espelho d’água na cidade de Belo Horizonte. Um projeto não usual foi adotado para a disposição de rejeitos em mina de urânio em Poços de Caldas. Foi adotada uma barragem de terra e enrocamento compactados. Durante a estação chuvosa de 2009 uma grande cheia ocorreu na bacia do rio Itajaí e as três barragens não foram suficientes para controlar toda a descarga afluente. o método de jusante é empregado. algumas pequenas barragens foram construídas no coração de outras cidades para criação de lagos artificiais como elemento paisagístico. Nos primeiros anos dos anos noventa diversas barragens que antes eram controladas pelo DNOS ficaram sem qualquer controle e sem responsável pela operação e segurança. Para impedir que a água de chuva se misturasse com a água percolada pelo maciço da barragem e pela sua fundação. que compreende três barragens de terra. O maior e mais famoso desses lagos artificiais é o reservatório de Paranoá. para rejeitos finos a muito finos como na mineração de ouro.Eclusas da barragem de Três Irmãos sobre o rio Tietê Paisagismo Desde a construção. o talude de jusante da barragem foi projetado para ser coberto com uma face de concreto. foi ativo em empreendimentos de controle de cheias envolvendo a construção de barragens. com três filtros chaminé internos. Entretanto. não são capacitados técnica e financeiramente. polders e drenagens. As duas principais bacias com eclusas instaladas em hidroelétricas são as dos rios Tietê e Paraná. na capital federal. As barragens foram construídas principalmente com o objetivo de evitar cheias em áreas populosas. Nesse grupo de rios se encontram todo o rio Amazonas. Figura 29 . Severas consequências em grande área alagada no baixo vale do Itajaí compreenderam impressionantes perdas de propriedades. bem como extensos trechos inferiores dos seus afluentes. em 1958. Nas outras regiões. para ser construída em três fases. que inclui três barragens que são somente usadas para controlar as descargas afluentes. água esta que tem que ser tratada. Controle de cheias Por muitos anos desde 1944. têm de enfrentar por conta própria os problemas de controle de cheias. principalmente nos trechos sobre terrenos sedimentares recentes.

A História das Barragens no Brasil .5 m de altura e vertedouro de soleira livre sobre a barragem. represando 4. O mais destacado desses sistemas é o sistema de Cantareira para abastecimento de água da grande São Paulo e cidades do vale do Piracicaba. aproveitamento de finalidades múltiplas 36 . a qual é destinada ao abastecimento de água da cidade de Goiânia. com 53.46 bilhões de metros cúbicos de água sob uma superfície de 325 km² no nível d’água máximo normal. Outro sistema importante é o de Belo Horizonte compreendendo obras hidráulicas de vulto. com captações em barragens no rio das Velhas e no rio Manso. Os dois maiores sistemas do Rio de Janeiro aproveitam as barragens da Light construídas entre o início do século (sistema Lajes). O sistema inclui a barragem de terra do Castanhão com trecho em concreto compactado com rolo. O artigo técnico sobre o projeto e a construção desta barragem de CCR com 53. concluída em 1999 com 72 m de altura. concluida em 2009.Séculos XIX. Um sistema que merece menção é o sistema para o abastecimento d’água da cidade de Fortaleza.Barragem de Pindobaçu na Bahia. O mais recente Figura 30 – Barragem do Ribeirão João Leite para o abastecimento d’água da cidade de Goiânia empreendimento de vulto para abastecimento de água é a barragem João Leite construida em concreto compactado com rolo. XX e XXI Obras de abastecimento de água Barragens têm sido construídas como parte de sistema de abastecimento de água para zonas urbanas e industriais. Esse sistema foi construído nos anos setenta e compreende sete grandes barragens de terra. sete túneis escavados em rochas gnaíssicas e graníticas numa extensão total de 29 km e uma grande estação de recalque subterrânea com capacidade de 33 m³/s. O sistema necessitou da construção de 256 km de canais para suprimento de 22 m³/s para a cidade e para projetos de irrigação. e as barragens do sistema de derivação dos rios Piraí e Paraíba do Sul (sistema PPD). descarga essa que corresponde a 90% de permanência. A barragem possibilita o acréscimo de 5.   Figura 31 . Merece menção a barragem do Ribeirão João Leite.33 m³/s de reforço ao abastecimento das principais cidades do estado de Goiás.50 m de altura e alas de terra faz parte da publicação do CBDB Main Brazilian Dams III.

aproveitamento para irrigação e abastecimento de água 37 . Dessa forma. beneficiamento à navegação interior e geração de energia elétrica. Esse estudo da Agência prevê a necessidade de investimentos superiores a R$ 50 bilhões até 2025 tendo em vista o precário estado dos sistemas de esgoto sanitário de quase todos os municípios brasileiros. A esmagadora maioria dos esgotos é lançada em corpos d’água (rios. do vertedouro e do reservatório. O primeiro gran de exemplo de barragem implantada com finalidades múltiplas foi Três Marias com objetivos de regularização do rio São Francisco. premido por necessidade de iniciar as obras de Três Marias e de Furnas. Serão necessários investimentos de R$ 22 bilhões para garantir a oferta de água de qualidade adequada até o ano de 2025. enquanto a Cemig arcou com a casa de força. Figura 32 .Barragem de Mirorós na Bahia. Finalidades múltiplas Barragens com finalidades múltiplas eram raras no cenário nacional devido à estanqueidade dos órgãos federais e estaduais na definição dos empreendimentos hidráulicos. O maior problema da área de saneamento básico. o governo Juscelino Kubitschek foi forçado a definir recursos federais para a implantação da barragem. um estudo recentemente concluído pela Agência Nacional de Águas revelou que a situação do abastecimento de água em 55% dos 5565 municípios brasileiros está se agravando e deverá estar insuficiente em 2015. se concentra na coleta e tratamento de esgoto uma vez que são poucas as cidades que dispõem de estações com capacidade de tratamento de porcentagens consideráveis dos esgotos coletados. entretanto.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Entretanto. lagos e oceano) sem tratamento.

a se tornar uma das líderes mundiais nesse setor.A História das Barragens no Brasil . a regularização e a irrigação. XX e XXI Outro exemplo é a barragem de Pedra do Cavalo na Bahia que contribui para o controle de cheias.Séculos XIX. bem como em fabricação e montagem de equipamentos. a engenharia brasileira voltou a ter um mercado interno robusto com alguns dos maiores projetos do mundo atual tais como as hidroelétricas de Jirau. Estreito e Belo Monte. Nos últimos 20 anos do século passado o País atravessou um período de severa estagnação econômica quando vinte empreendimentos com barragens do setor elétrico tiveram sua construção suspensa por falta de recursos financeiros. geração de energia elétrica e possibilitam o abastecimento do Grande Rio de Janeiro. A evolução dos segmentos de bens de capital e de prestação de serviços Toda essa atividade em projeto. Jaguari e Funil que contribuem para a regularização de descargas. a engenharia brasileira. construção e operação de barragens. Santo Antonio. Muitas empresas brasileiras de projeto e construção se expandiram durante a segunda metade do século XX e presentemente ocupam relevante posição no cenário internacional. a produção de energia. Paraibuna. Importantes empreendimentos de finalidades múltiplas são as barragens do alto e médio rio Paraíba do Sul. Depois de passado esse período. o abastecimento de água. elétricos e eletrônicos se estabeleceram no País e têm suprido a demanda interna e exportado equipamentos para diversos outros países. Santa Branca. além de diversas hidroelétricas de pequeno e médio porte. Paraitinga. Neste mesmo período diversas fábricas de equipamentos mecânicos. tão dependente de apoio estrangeiro na primeira metade do século XX. Durante esses anos muitas empresas brasileiras desenvolveram com sucesso atividades no exterior em países de todos os continentes. controle de cheias. incentivou Figura 33b – Barragem e casa de força de Paraibuna Figura 33a – Barragem de Paraitinga no final de sua construção Reservatórios interligados de Paraibuna e Paraitinga Figura 33c – Diques durante o primeiro enchimento do reservatório 38 .

Quando finalmente foi enfrentado um projeto de grandes proporções. alemã. por americanos. Figura 35 . tanto no DNOCS quanto na CHESF. no rio Paraná. Paulo Afonso I. incentivou os consultores independentes das barragens do rio Pardo a formar uma empresa que pudesse desenvolver a contento o projeto da hidroelétrica de Jupiá. com influência de eventuais consultores provenientes do U. Em São Paulo. portuguesa e italiana. a força de trabalho e a responsabilidade técnica eram essencialmente nacionais. nesses dois casos.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A organização da AMFORP veio influenciar na organização da CEMIG. Bureau of Reclamation. os projetos da Light e da AMFORP eram nitidamente comandados.John Reginald Cotrim jovem na EBASCO 1942-44 39 . Entretanto. Outras empresas do setor elétrico contavam com projetos desenvolvidos por consultoras suíça. mesmo que inicialmente carentes de experiência. em seguida. Nota-se que os projetos do DNOCS eram feitos na sua sede no Rio de Janeiro antes da mudança para Fortaleza. havia predominância da engenharia nacional com grandes contingentes de engenheiros formados em nossas escolas. através do engenheiro John Cotrim que também trouxe. Os projetos da CHESF. em Minas Gerais. a equipe do contratante. No Nordeste. Figura 34 . foram se formando importantes e bem estruturadas empresas consultoras nacionais que passaram a atuar nas linhas de frente dos grandes empreendimentos hidroelétricos dessas duas empresas concessionárias.S. especialmente o engenheiro José Gelazio da Rocha. Aos poucos. de dimensões inusitadas para a época. foram feitos no canteiro de obra por equipe nacional com influência de alguns engenheiros estrangeiros recrutados como imigrantes após o término da Segunda Grande Guerra Mundial e de outros que trouxeram marcante influência francesa. essa experiência organizacional para Furnas. principalmente na sua primeira hidroelétrica. Tanto a CEMIG quanto Furnas tiveram seus primeiros grandes projetos elaborados por empresas consultoras americanas. por bacias hidrográficas. Na Região Sudeste.Barragem de finalidades múltiplas de Funil O desenvolvimento e o desmonte da engenharia consultiva Os estudos e projetos de barragens no País tiveram duas origens distintas. o governo estadual orientava os projetos dos anos cinquenta para empresas brasileiras ou para um conjunto de consultores individuais. no início do Século XX.

na época o general Figueiredo. tornou o contrabandista um herói nacional. de acordo com o então senador Roberto Campos. a inflação não era sentida e o risco de inadimplência era muito reduzido. com a adição do seu lucro em função do trabalho efetivamente desenvolvido. Essa lei só foi cancelada sem alarde e sem anúncio no governo Sarney para os projetos do programa de irrigação de um milhão de hectares. conseguida durante o governo de Costa e Silva. As consultoras a cada mês recebiam antecipadamente de acordo com a programação aprovada e prestava conta ao final de cada mês. os salários nas estatais passaram 40 . Por outro lado.Usina hidroelétrica de Volta Grande no rio Grande tratual foi introduzida pelas empresas americanas de consultoria na segunda metade dos anos cinquenta. Dessa forma passou a haver elevada segurança contratual mesmo em regime inflacionário que se acentuou a partir do governo JK.ABCE analisava cada contratação de consultoria externa para detectar se havia similar nacional. Essa modalidade conFigura 37 .A História das Barragens no Brasil . na Bahia Figura 36 . Esse desenvolvimento acelerado foi em parte condicionado por lei de proteção ao mercado de consultoria e projeto.Usina hidroelétrica de Itapebí no rio Jequitinhonha. A Associação Brasileira de Consultores de Engenharia . Em 1979 foi instituído o teto salarial nas empresas estatais. teto este que era o salário direto nominal do Presidente da República. esse tipo de contrato veio causar o desmanche das empresas consultoras na década seguinte. Entretanto. Os anos setenta se caracterizaram por um enorme desenvolvimento da consultoria brasileira. também já contavam com expressivo contingente de engenheiros brasileiros. Dessa forma praticamente não havia necessidade de capital de giro. XX e XXI As hidroelétricas projetadas pelo DNOS no Sul e na Bahia. os encargos sociais e as despesas diretas. Nos anos setenta quase dez consultoras brasileiras figuravam entre as maiores do mundo. as consultoras brasileiras tinham como obstáculo a lei da informática que prejudicou sobremodo o desenvolvimento da produção de projetos e.Séculos XIX. Por esse tipo de contrato a consultora era remunerada pelo custo do serviço baseado nos salários de suas equipes técnicas multiplicados por um fator que representava os impostos. Quase todo esse desenvolvimento era calcado em contratos cost plus com empresas estatais do setor elétrico. principalmente no setor elétrico. Nessa época as empresas de projeto assumiam crescentes responsabilidades em um grande número de projetos de envergadura. Como o salário direto nominal do Presidente não era muito elevado.

mesmo assim quando e só quando eram usados nos programas de privatização. Finalmente. Essa proposição sequer foi considerada e só após muito tempo. em geral cerca de 25%. para os que não vivenciaram. O equilíbrio financeiro dos contratos das consultoras foi rapidamente corroído. Entretanto. os seus técnicos não podiam acumular horas trabalhadas para somente faturá-las quando houvesse recursos nas caixas das contratantes. a crise financeira das estatais. nomeadamente as que não tinham grandes gerações de energia como era o caso da Light e de FURNAS. principalmente das federais. além do correto reajustamento. No advento do governo Sarney houve um dos muitos planos heterodoxos no qual teoricamente a inflação seria nula. Como a inflação era intensa. algumas foram reduzidas a níveis pequenos e várias fecharam. entretanto. não mais foram de remuneração pelo custo. Por terem salários achatados. Essas outras empresas passaram a atrasar sistematicamente o pagamento das faturas. nos anos oitenta. Incrivelmente neste País os impostos incidem no ato do faturamento.” Mas outros profissionais se reuniram em pequenas empresas. as consultoras passaram a sofrer pressões dos dois lados: as suas equipes demandando reajustes salariais corretos e os clientes não aprovando esses reajustes nos contratos. tendo originado forte desemprego no ramo da engenharia e tendo sido criado o termo “o engenheiro que virou suco. tendo chegado a um pico de mais de 80% ao mês e ao impressionante e quase inacreditável. nos contratos pelo custo. mesmo que não venha haver pagamento. A inflação se intensificava a cada período.ABCE. devido a essa experiência desastrosa. Algumas dessas empresas foram gradativamente crescendo e hoje já apresentam grande número de profissionais engajados. é que uma correção parcial foi admitida nos contratos. através da Associação Brasileira de Consultores de Engenharia . mesmo assim após 45 dias da entrega da respectiva fatura. houvesse também o justo reembolso dos elevados juros que as consultoras já estavam pagando ao sistema financeiro. corroídos por uma inflação galopante. Foram criados os “fiscais do Sarney” que acusavam às autoridades eventuais aumentos de preços. até 75 dias da execução dos serviços. os faturamentos tinham que ser mensais. os funcionários das estatais federais contratantes de serviços de consultoria passaram a não aprovar nos contratos reajustes salariais dos empregados das empresas contratadas. o governo federal desovou empresas nos programas de privatização ganhando dos dois lados. Os contratos. pois valiam no mercado apenas uma pequena fração de seu valor de face. algumas delas atuando em segmentos específicos. no auge da crise das contratantes estatais federais. índice de 13 trilhões e 342 bilhões por cento no período de apenas quinze anos que antecederam ao Plano Real. esses multiplicadores haviam sido estabelecidos nos anos cinquenta quando a inflação antes do governo Juscelino ainda era muito baixa. ou seja. As consultoras tinham que recolher impostos por serviços que não eram pagos ou que seriam pagos meses depois. Adicionando a esses aspectos deletérios. as consultoras foram chamadas para receber parte de alguns atrasados pagos em títulos que eram chamados de moeda podre. Nessas empresas uma posição de clarividência foi assumida pelo engenheiro João Alberto Bandeira de Mello que atuava na Eletrobras e que propunha que. Como para as consultoras. Dessa forma. Daquelas grandes empresas de consultoria de engenharia que figuravam como das maiores do mundo. A letra desse tipo de contrato pelo custo significava que deveria haver reembolso pelos acréscimos de custos devido à inflação. sobreveio.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens a ser achatados. já com as consultoras descapitalizadas e endividadas. em várias ocasiões por mais de cinco meses. pleiteavam incessantemente fórmulas de reajustes sem encontrar eco em muitas das empresas contratantes. presentemente a esmagadora maioria dos contratos por prestação de serviços de consultoria 41 . As consultoras. As contratantes do setor elétricos viraram “fiscais do Sarney” e unilateralmente abateram os multiplicadores dos contratos alegando que a partir daquele instante não mais haveria inflação.

estas passaram a ser contratadas para todas as demais obras. Para essa usina. A partir de sua fundação até a conclusão da hidroelétrica de Moxotó. o que transfere para a consultora um risco que deveria ser do empreendedor. uma construtora britânica associada a uma empreiteira brasileira. XX e XXI é por preço fixo. a construção de barragens no Nordeste foi efetivada principalmente com equipes do próprio empreendedor. outra empresa brasileira com experiência restrita à construção de estradas foi contratada para erguer a barragem auxiliar de Pium-I. Com a experiência adquirida essa empresa assim como outras que se capacitaram. 42 . No Sudeste as construtoras estrangeiras foram utilizadas pela Light e pela AMFORP em suas hidroelétricas que são mais antigas. empresas estrangeiras foram contratadas para executar as obras civis.A História das Barragens no Brasil . apenas em algumas poucas barragens consideradas de grande vulto na época. Furnas contratou para a usina que deu nome à empresa. tendo socorrido os empreiteiros principais na elevação rápida do núcleo da barragem de Furnas. No caso do DNOCS. na época uma das maiores do mundo em capacidade instalada. A partir dos anos oitenta as consultoras menos atingidas pelos impactos acima relatados voltaram-se para o mercado externo com o objetivo de substituir os contratos nacionais. ainda nos anos cinquenta. em altura da barragem e em potência dos seus equipamentos de geração. O desenvolvimento das empresas de construção Semelhantemente ao que ocorreu nas atividades de estudos e projetos. O DNOCS construiu mais de duas centenas de grandes barragens com recursos humanos e equipamentos próprios. as obras mais recentes que datam do final do século passado. já nas obras seguintes. foram implantadas por empresas privadas de construção. assumiram a condução das construções. seja o DNOCS ou a CHESF.Usina hidroelétrica de Xingó no rio São Francisco Figura 39 – Usina hidroelétrica de Furnas logo após o enchimento do reservatório Da mesma maneira. Figura 38 . todas com construções compreendidas do início até meados do século passado. Entretanto. dado o desenvolvimento das construtoras nacionais.Séculos XIX. A partir dessa época. a CHESF construiu com equipe própria suas barragens e usinas. Algumas empresas tiveram sucesso e hoje estão presentes em vários continentes.

Sua primeira grande obra. assumiu usinas de portes pequeno e médio que vinham sendo implantadas por empresas nacionais. 43 . A ampla dissemina- Figura 41 . Há duas usinas nucleares em operação e uma em construção. fez com que surgisse considerável número de novas construtoras no País. na época a segunda maior barragem desse tipo no País. São muitas novas centrais geradoras termoelétricas poluidoras. construído em 2002 A CHEVAP. ao assumir a responsabilidade da construção da usina do Funil. contratou uma empresa nacional para a barragem principal e outra empresa nacional para a barragem de terra de Nhangapi. foi construída por empreiteira americana.Barragem da usina hidroelétrica de Mascarenhas de Moraes. empresas brasileiras passaram a ser contratadas à exceção da hidroelétrica de São Simão que. partindo com muito sucesso para empreendimentos no exterior. Furnas. Perspectivas para o futuro As dificuldades no licenciamento ambiental e as incertezas que sempre rondam os processos de aprovação de projetos hidroelétricos têm causado impressionante perda na matriz energética limpa que costumava orgulhar o País. antiga Peixoto. ao ser instituída. Essas usinas têm sofrido das indecisões políticas. Na margem esquerda o vertedouro complementar. entretanto de muito mais fácil licenciamento ambiental e aprovação na ANEEL. as empresas construtoras têm atuado com intensidade semelhante à do passado. mas posteriormente. após acirrada concorrência internacional. substituiu a empresa construtora da barragem principal por uma empresa dinamarquesa. a usina de Três Marias. concluída em 1956. As grandes empresas brasileiras atravessaram a recessão econômica e a desaceleração das obras no País nas décadas de oitenta e noventa.Usina hidroelétrica de São Simão ção de pequenas e médias centrais hidroelétricas que ocorreu nas duas últimas décadas. foi delegada a uma empresa italiana. Com a intensificação dos investimentos em obras hidráulicas no País.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 40 . todas elas tendo tido seus cronogramas de implantação constantemente refeitos e suas obras se arrastado por duas a três décadas. inclusive as térmicas a óleo e a carvão. encarregada da implantação da barragem em abóbada de Funil. A CEMIG. nos anos setenta. hoje de controle nacional.

passando dos 456. Entretanto. o máximo histórico de 180 kWh/mês registrado antes do racionamento de 2001 só deverá ser ultrapassado em 2017. No passado recente (2000 a 2011) tem sido registrado impressionante número de apagões. nucleares e hidroelétricas a fio d’água. pode operar até hoje (maio de 2010) há mais de uma década sem licenciamento ambiental e sem licenciamento da CNEN.5 TWh verificados em 2010 para 730 TWh em 2020.8% ao ano. térmicas. O acréscimo de capacidade de geração em empreendimentos sem possibilidade de armazenamento de energia. verifica-se também que o consumo domiciliar médio no Brasil ainda é muito inferior ao de países desenvolvidos.Séculos XIX. 44 . Pelo atual planejamento energético o País enfrenta a necessidade de instalação de cerca de 5000 MW/ano. Estima-se que o consumo total de energia elétrica no País evolua em média com acréscimos de 4. Parcela expressiva dessa perda vem de ligações ilegais. com 2. prevê-se a continuidade e mesmo o agravamento dessa situação. O exemplo mais nítido são as hidroelétricas do vale do rio Paraíba do Sul cujo rio principal. contribuem para a elevação de prazos e de custos já que os juros reais no Brasil permanecem há décadas como o mais elevado do mundo.a. As perdas de energia elétrica no sistema interligado e nos sistemas de distribuição atingem em 2011 cifras elevadas. Angra II que levou 24 anos em construção. O controle de cheias permanece nebuloso no futuro próximo. A falta de um órgão de âmbito nacional para controlar e implementar obras hidráulicas com esse objetivo é imperioso já que os cursos d’água são em geral intermunicipais e mesmo inter estaduais.4% a. Além de serem esperados acréscimos de consumo devido ao desenvolvimento industrial. XX e XXI onerando sobremaneira os seus custos pela forte incidência dos juros sobre os capitais investidos durante as suas prolongadas construções. comprova a incerteza dos empreendedores em assumir tais riscos. de energia. Embates entre membros do governo e do licenciamento ambiental têm provocado demissões em vários níveis. há imperiosa necessidade de se ultrapassar as resistências dos que se dizem ambientalistas e se voltar à implantação de hidroelétricas com grandes volumes úteis de reservatório para se recuperar a capacidade de regularização de vazões e. entre 15% e 17% da geração. o que é no mínimo inusitado: o único licenciamento obtido até agora (maio de 2011) foi concedido em janeiro de 2011 para instalação do canteiro de obra. até no nível ministerial. Para o bem da economia e do meio ambiente.. O consumo médio residencial deverá passar dos 154 kWh/mês em 2010 para 191 kWh/mês em 2020. consequentemente. hoje em 6. associado às interrupções provenientes de ações judiciais ou do Ministério Público ocorrendo na maior hidroelétrica em construção. as classes dirigentes têm pressionado licenciamen tos ambientais de grandes centrais geradoras como ocorreu nas duas usinas em construção no rio Madeira e presentemente na hidroelétrica de Belo Monte cujo licenciamento está sendo obtido por etapas. tais como usinas eólicas. quase três vezes superior ao do segundo colocado. Considerando a relativa fragilidade dos sistemas de transmissão e as crescentes demandas na ponta de carga.a. Isso. sendo pouco mais de um décimo do americano. sinalizam para dificuldades de atendimento de demanda na ponta em diversos centros de carga no País. O setor elétrico através do ONS despacha algumas hidroelétricas levando em conta o controle de cheias. devidas à ação de vândalos em canteiros de obra e ao Ministério Público que questiona licenças ambientais. vários dos quais abrangendo extensas regiões densamente habitadas. Eventuais paralisações. Tendo em vista esse desafio. O atual modelo do setor elétrico contribui para essas dificuldades por não contemplar qualquer remuneração para a regularização de descargas que beneficiem a operação do sistema interligado. a Hungria.A História das Barragens no Brasil . e pouco inferior ao verificado na Rússia e na África do Sul. tem uma regra operativa que privilegia a regularização de vazões e o controle de cheias.8% a. por atravessar uma sucessão de importantes cidades de médio porte e servir de abastecimento de água a grandes núcleos urbanos. Entretanto.

por exemplo. As deficiências previstas no curto prazo para o abastecimento da crescente demanda por água nas cidades e distritos industriais. participam de juntas de consultores. engenheiros e geólogos consultores de grande projeção na profissão. Homenagem aos membros de juntas de consultores Durante o projeto e construção das mais importantes barragens brasileiras.A partir da esquerda os consultores da São Paulo Light: Samuel Chamecky. vindo como sub-produto a geração de energia elétrica. com grandes recalques (Juquiá para São Paulo) ou na regeneração de águas em estações de tratamento de esgotos (Alegria para o Rio de Janeiro). aduções e tratamentos de água. As constantes e recentes valorizações das commodities no mercado internacional indicam para o futuro a permanência das atividades em mineração e. consequentemente. brasileiros e estrangeiros. têm feito com que planejadores do setor considerem alternativas dispendiosas. onerando ainda mais as novas usinas hidroelétricas. tramita no Congresso um projeto de lei que obriga os investidores em hidroelétricas de implantar sistemas de navegação onde possível. da construção de barragens de rejeitos cada vez maiores e mais frequentes. Arthur Casagrande e Figura 42 . Othelo Machado e Casemiro Munarski (Foto do Acervo Paulo Chamecki) 45 . Karl Terzaghi. Consolidando essa deformação brasileira. onerando sobremaneira as futuras captações.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Historicamente a implantação de eclusas para navegação interior sempre vieram a reboque de algumas hidroelétricas ao contrário do que acontece em países europeus cuja tradição da navegação fluvial sempre esteve arraigada ao desenvolvimento viário. Depois de Karl Terzaghi. incluindo a captação de água de baixa qualidade a grandes distâncias (médio Tietê para São Paulo e sub-médio Paraíba do Sul para o Rio de Janeiro).

inclusive no Brasil.Séculos XIX.Professor Manuel Rocha. 46 .A História das Barragens no Brasil . fundador e diretor geral do Laboratório de Engenharia Civil sediado em Lisboa. XX e XXI Figura 43 . Lyra em inspeção de campo em Itaipu Figura 44 . Gurmukh Sarkaria e Flavio H. Destacada atuação na CIGB e em consultoria de barragens em vários paises. John Cabrera. pesquisador.Arthur Casagrande.

James Sherard.Consultor Roy Carlson por ocasião da sua condecoração pelo governo brasileiro entre Carlos Alberto de Padua Amarante e Victor F. Victor F. James Libby. Charles Blanchet. Flavio H. Figura 45 . Lyra que são aqui mencionados como homenagem àqueles que já faleceram. Don Deere. Arthur Casagrande e Julival de Moraes em inspeção nas obras de Itumbiara Figura 46 . de Mello durante o XII SNGB. Barry Cooke. B. Esses profissionais altamente qualificados deram valiosas contribuições ao projeto e construção de grandes barragens e formaram engenheiros e geólogos brasileiros que presentemente trabalham como consultores no Brasil e no exterior. Lyra.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Portland Fox mencionados acima. de Mello e Flavio H. B. em São Paulo abril de 1978 47 .Rubens Vianna de Andrade. outros consultores participaram de juntas tais como Roy Carlson. Manuel Rocha.

Coyne .Portugal . G. Pinto .1958-1961 3 4 5 .1931-1934 2. Hathaway .França .1952-1958 5. A.Os 5 primeiros presidentes da CIGB de 1931 a 1961 1 2 1.1937-1940 3.França .Itália .A. J.1946-1952 4.EUA . G.F. Mercier .R. M. Giandotti .

a delegação francesa apresentou formalmente a proposta de criação da Comissão Internacional de Grandes Barragens.Reunião Executiva no Rio de Janeiro. Em 1926. 49 . Flavio Lyra. presidente do CBGB.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A Comissão Internacional de Grandes Barragens Oitenta e três anos de excelência Flavio Miguez de Mello A Comissão Internacional de Grandes Barragens CIGB nasceu na França. Brown. os critérios de projeto de estruturas de concreto eram rudimentares e a hidráulica fluvial enfrentava pela primeira vez na maioria dos países que implantavam barragens e reservatórios. presidente de Furnas pela Conferência Mundial de Energia no ano seguinte. a mecânica Figura 1 . obras em rios muito caudalosos. presidente do CBGB e G. 1966 . 1966 Flavio Lyra. tendo sido instituído o Comitê Francês de Grandes Barragens sob a Societé Hydrotechnique de France. numa época em que havia intensa atividade em implantação de barragens. Brown. ministro de Minas e Energia e John Cotrim. em reunião da Associação Francesa para o Progresso da Ciência ocorrida em Grenoble. A proposta foi formalmente aceita Figura 2 .Reunião Executiva no Rio de Janeiro. presidente CIGB dos solos e a geologia de engenharia não haviam ainda sido fundadas. foi manifestada a importância do estabelecimento de uma comissão de caráter internacional voltada para grandes barragens. em assembléia da Conferência Mundial de Energia em Basel. notadamente na Europa e nos Estados Unidos. na assembléia de Cernobbio (Itália). Corria o ano de 1925 quando. Mauro Thibau. 1927. assim como o apoio ofertado pelo governo francês. presidente CIGB. A proposição foi aceita. Nos anos vinte muito havia que ser aprendido em projeto e construção de barragens e o intercâmbio de conhecimentos passou a ser de nítida importância. Na época.G.

tendo atingido 26 países antes da II Guerra. Apesar do registro das barragens no Brasil estar incompleto. assim. de 1940 a 1944. a CIGB vem continuamente crescendo. 81 países em 2000 e 92 países em 2010.Séculos XIX. Desde então a cada três anos a CIGB promove seus congressos que são. Romênia e Suíça. Em 1967. Do seu primeiro estatuto até o estatuto de 1967 poucas alterações significativas ocorreram. de elevado interesse técnico sobre assuntos os mais atuais. Itália. 72 países em 1990. ­ Além dos seus anais de congressos e simpósios. a CIGB publica boletins sobre temas específicos. reconhecidamente. 56 países em 1980.A História das Barragens no Brasil . considerando seu já grande vulto. Desde então. XX e XXI Figura 3 . Encontra-se presentemente (2011) em propo- 1 2 4 5 6 8 9 China USA Japão Coréia do Sul Canadá Brasil Espanha > 40 000 9 265 5 101 3 076 1 302 1 166 1 114 1 011 987 741 623 583 542 519 507 501 3 Índia 7 África do Sul 10 Turquia 11 França 12 México 13 Itália 14 Reino Unido 15 Austrália 16 Irà 50 . Reino Unido. reuniões executivas foram realizadas todos os anos a menos dos anos exceto durante a II Guerra Mundial. A CIGB mantém atualizado o registro mundial de grandes barragens (barragens com mais de 15 m de altura ou em condições especiais) contendo as principais características das barragens em todos os países membros e em alguns países não membros da CIGB. 56 países em 1967. Desse registro não constam apenas as barragens de rejeitos. Já demonstrando seu dinamismo. cifra esta que representa mais de 90% da população mundial. a CIGB promoveu seu primeiro congresso internacional em Estocolmo em 1933. a CIGB passou a se tornar independente da Conferência Mundial de Energia. esses documentos em relatórios do estado da arte sob o ponto de vista global. Como exemplos históricos pode-se mencionar os trabalhos de Karl Terzaghi de 1933 sobre as investigações das características dos solos quanto a sua viabilidade para a construção das barragens de terra e de Wolmar Fellenius sobre cálculo de estabilidade de barragens de terra. Desde sua fundação com apenas cinco países membros.14° Congresso CIGB Rio de Janeiro 1982 – Pierre Londe (presidente) e Joannes Cotillon (secretário geral) sição por um comitê ad hoc novo estatuto que vem corrigir lacunas do estatuto vigente. França. A assembléia do Conselho Executivo da Conferência Mundial de Energia aprovou a CIGB por unanimidade em Londres no dia 3 de outubro de 1928. fruto do trabalho dos seus comitês técnicos que congregam profissionais os mais destacados em diversos países do mundo. Seus anais são verdadeiras seções transversais da tecnologia de cada época que nos permitem visualizar o desenvolvimento dos conceitos e critérios de projeto e de construção de barragens. o registro da CIGB atualizado em 2010 revela a importante posição do Brasil relativa a outros países com mais de mil grandes barragens construídas: A assembléia que constituiu a CIGB ocorreu no dia 6 de julho de 1928 com a participação de seis países: Estados Unidos. tornando.

nos anos setenta passou a ser grande divulgadora de progressos na engenharia ambiental. Miguez. D. Lyra e C. C. 126 vice presidentes. ex-presidente da CIGB Figura 5 . Figura 4 .K.F. Lyra. A participação brasileira se fez sentir desde os anos sessenta em participações em diversos comitês da CIGB. 1973. J. Höeg. Lyra e Pierre Londe. F. A CIGB sempre teve como foco a promoção e divulgação da tecnologia de planejamento. Miguez. todos franceses. conscientização do público e na primeira década do Século XXI.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Desde a sua fundação a CIGB teve 22 presidentes. construção e operação de barragens. sendo dois brasileiros (F. Silveira e F. F. sendo seis brasileiros (F. F. projeto. nos anos noventa também abriu os campos de compartilhamento dos recursos hídricos de rios transnacionais e de gestão integrada da água. Lyra. Viotti e E. abriu discussão sobre mudanças climáticas globais e planejamento de recursos hídricos escassos. Nos anos sessenta a CIGB passou também a enfatizar a segurança e a reabilitação de barragens. Na foto os dois primeiros presidentes deste Comitê Flavio H. Entre os dois. o autor 51 .Reunião do Comitê de Meio Ambiente da CIGB em Madrid. Viotti). Fernandes. Budweg. Desde o final dos anos 60 a CIGB dedica especial atenção aos temas socioambientais. Desses comitês foram coordenadores (chairmen) F. nos anos oitenta liderou a divulgação tecnológica aplicada a barragens de rejeitos de mineração. Maurer) e dez secretários gerais. Budweg.

universidades.Congresso de Brasília 23O CIGB 2009 – Mesa da Questão 90 .Arthur Walz. fabricantes.70° Reunião Anual CIGB . congregam mais de 10. agências governamentais e organizações não governamentais.Ospina (ex vice-presidente) recebendo homenagem do presidente Varma A CIGB fechou o ano de 2010 com 92 comitês nacionais que. consultoras.Séculos XIX. instituições de pesquisa. Flavio Miguez de Mello. Margaret Rose Mendes Fernandes 52 .000 membros individuais dentre os mais destacados profissionais que presentemente atuam em empresas públicas e privadas. construtoras. no seu conjunto. Maria Bartsch.A História das Barragens no Brasil . Figura 7 . XX e XXI Figura 6 .Foz do Iguaçu 2002 .

Brasília 2009 53 . Luis Berga (pres. B. de Mello no 23O CIGB. Pham Hong Giang (pres. Jia Jinsheng (pres.eleito CIGB) Figura 9 .Congresso de Brasília 23o CIGB 2009 – Da esquerda para direita Edilberto Maurer (pres.CBDB).Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 8 .Homenagem ao professor Victor F. CIGB). Comitê do Vietnam).

Lecornu e a secretária Nicole Schauner Figura 12 .A secretária Margarite Chapelle recebendo homenagem em 1967.A História das Barragens no Brasil . secretário geral J. As duas foram responsáveis pelo eficiente suporte à CIGB ao longo dos últimos 63 anos 54 .Michel de Vivo secretário geral e Luis Berga presidente da CIGB Figura 10 . uma placa entregue por sua filha Nicole Schauner (ao microfone) que a substituiu após 25 anos de serviço desde 1948. XX e XXI Figura 11 .Congresso de Brasília 23O CIGB 2009 .Séculos XIX. Nicole assumiu a secretaria da CIGB em 1967 permanecendo até o presente (2011).Presidente Varma.

Noruega . Lyra . Dagenais .2006-2009 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 .Brasil .1979-1982 13. F.Espanha . C. L.EUA .Suíça . Toran .Índia .J. J. Londe . W.V.A.P.F. G.Itália .1961-1964 7. McCarthy . K.1964-1967 8.A. J.Presidentes de 1961 a 2009 6. C.H.1970-1973 10.C.1973-1976 11. Guthrie Brown .EUA .T.1991-1994 17. van Robbreck .1997-2000 19. P.2003-2006 21. Lombardi . J.Espanha . C.1994-1997 18.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens CIGB . Gröner .Noruega . Veltrop . C.Reino Unido .1985-1988 15.Brasil . Pircher .Áustria .1988-1991 16. Berga .B.1976-1979 12. Varma .Canadá . T.1967-1670 9.1982-1985 14. G.África do Sul . Marcello . Höeg .França . C. Viotti .2000-2003 20.

Os responsáveis pela consolidação e pelos primeiros anos de sucesso do CBDB 56 56 . Lyra e Delphim M. XX e XXI Flavio H. Fernandes.A História das Barragens no Brasil .Séculos XIX.

a Comissão Brasileira de Grandes Barragens teve suas atividades paralisadas. envidou esforços para conjugar essa associação com a Comissão. Por esse motivo havia dificuldades da 57 . o engenheiro Francisco Saturnino de Brito Filho. que presidia a Associação Brasileira de Mecânica dos Solos. Figura 1 – Saturnino de Brito Filho e Theophilo Benedicto Ottoni Netto empreendimento de maior destaque no País. por iniciativa do engenheiro José Cândido Castro Parente Pessoa. tendo convidado a Associação Brasileira de Mecânica dos Solos para integrar esse grupo. Na época a CIGB tinha apenas 26 comitês nacionais e havia intensa atividade de projeto e construção de barragens em todos os países mais evoluídos. com o afastamento do engenheiro Luiz Vieira do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas DNOCS. USA. Nesse período de cinco anos a Comissão ficou vinculada ao Ministério de Viação e Obras Públicas. Saturnino de Brito. maravilhado com as perspectivas dos benefícios para o Brasil que eram decorrentes da ampla divulgação de experiências de outros países. a Comissão Brasileira de Grandes Barragens veio a ser reativada. trouxe consigo o firme propósito de criar em nosso País uma entidade filiada à CIGB. O engenheiro Chamenski. conseguiu encontrar receptividade do engenheiro Luiz Vieira que conduziu a então instituída Comissão Brasileira de Grandes Barragens. convocou um grupo para reorganizar a Comissão. ao regressar do Segundo Congresso Internacional de Grandes Barragens realizado pela Comissão Internacional de Grandes Barragens CIGB em Washington. após poucos anos e ainda nos anos trinta. Entretanto. que presidia a Associação Brasileira de Pontes e Grandes Estruturas. então diretor geral do DNOCS. O engenheiro Antônio Alves de Noronha.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens História do Comitê Brasileiro de Barragens Flavio Miguez de Mello A pré-história Em 1936. Somente em 1957. não mais tendo contato com a CIGB e acumulando seguidos débitos financeiros não cobertos por mais de vinte anos referentes às contribuições anuais à CIGB. Foi indicado para presidente da Comissão o engenheiro Casemiro José Munarski que na época estava fazendo o projeto da barragem de Orós.

XX e XXI O estatuto do CBGB foi aprovado em assembléia realizada no Clube de Engenharia no dia 25 de outubro de 1961. A CIGB retirou da pauta a nova exclusão da representação brasileira e o CBGB pode participar dessa reunião executiva e do VII Congresso Internacional. três indicados pela APGE e seis eleitos em assembléia pelos sócios individuais. Nessa primeira assembléia foi eleita por aclamação uma diretoria presidida por Antônio Alves de Noronha que teve como secretário o engenheiro Lucio Washington. três indicados pela ABMS. tendo como diretor secretário Sydney Gomes dos Santos que foi substituído por Delphim Mazon Fernandes a partir de 25 de março de 1963. Pelo estatuto o conselho era composto por 12 membros.Antônio Alves de Noronha.Séculos XIX. os recursos levantados junto a empresas privadas foram entregues à CIGB no dia anterior à abertura da reunião executiva de 1961. composta pelo presidente. Os primeiros anos da história O grupo constituído pelas associações de Pontes e Grandes Estruturas e de Mecânica dos Solos elaborou os estatutos do Comitê Brasileiro de Grandes Barragens CBGB e trabalhou para que fossem arrecadados recursos financeiros que cobrissem os débitos com a CIGB. primeiro presidente do CBDB de outubro de 1961 a início de 1962 . 58 Figura 3 .A História das Barragens no Brasil . A diretoria. dois vice-presidentes. Nessa segunda assembléia foi eleita a diretoria presidida pelo engenheiro Flavio Henrique Lyra da Silva. A assembléia seguinte foi convocada para o dia 24 de janeiro de 1962. na última hora. época em que a CIGB apresentava crescente participação de comitês nacionais que naquele ano já eram 48. ambos realizados em Roma. um diretor secretário e dois diretores tesoureiros era eleita pelo conselho. obrigações estas que novamente não vinham sendo cumpridas. sendo os membros da diretoria participantes do conselho. Figura 2 – Casemiro José Munarski ao lado de João Alberto Bandeira de Mello manutenção das obrigações financeiras da Comissão com a CIGB. Constava da pauta da reunião executiva a nova exclusão da representação brasileira dos quadros da CIGB. Dessa forma.

Antes dessa fase. Dessa forma. Os engenheiros Flavio Lyra e Delphim Fernandes. Nos primeiros cinco seminários os temas eram limitados a apenas três. o número de trabalhos passou a ser expressivo. Os temas foram: Métodos de investigação de fundações de barragens. com parcos recursos humanos. as barragens eram de dimensões mais modestas (a primeira barragem com altura superior a 50 m foi Boqueirão das Cabaceiras. a partir do Sexto Seminário em 1970. presidente e diretor secretário respectivamente. no Brasil de organizações e de equipamentos para construção de grandes barragens. Nos primeiros O grande impulso que estava ocorrendo no Brasil no campo da implantação de barragens no pós-guerra e principalmente nos anos cinqüenta. seminários o número de trabalhos era modesto mas. Foi nessa época que. notadamente no Nordeste com a construção de açudes com dimensões sensivelmente superiores aos anteriormente construídos e com a necessidade de promover a instalação de grandes hidroelétricas. Em cada sessão técnica sempre houve um relato do respectivo tema feito por um profissional de reconhecida experiência e destaque no âmbito nacional. A sede do CBGB passou a ser parte de uma sala da diretoria técnica de Furnas. no Brasil. ligados ao projeto e à construção de barragens. de laboratórios para ensaios e experiências. permaneceram nesses cargos por quatro diretorias até 1976 quando o engenheiro Flavio Lyra. Disponibilidade. Disponibilidade. se afastou da presidência do CBGB. o estágio inicial da tecnologia no País. A partir do VI Seminário realizado no Rio de Janeiro em novembro de 1970 e até a presente data. Três Marias. por ter sido eleito presidente da CIGB. uma atuação efetiva junto à CIGB foi encarada como uma necessidade premente. tornou-se necessária a difusão de conhecimentos na área da engenharia de barragens e de tecnologias correlatas. Os eventos nacionais Desde 1962 o CBGB passou a atuar nos moldes da CIGB. 59 . os seminários passaram a ter quatro temas. constituindo uma importante contribuição para a divulgação de experiências profissionais. Jupiá e Paulo Afonso. O País estava entrando em uma era de realizações de grande vulto. O CBGB passou a ter importante suporte de Furnas já que o presidente do CBGB era diretor técnico de Furnas e seu diretor secretário no CBGB era seu principal assistente na diretoria técnica de Furnas. Os trabalhos apresentados nos seminários são o perfil do desenvolvimento da tecnologia aplicada a projeto e construção de barragens no País. em 1956) e as hidroelétricas eram de pequeno e médio portes para os padrões atuais. e hidroelétricas de grandes projeções a nível internacional estavam começando a ser projetadas e construídas como Furnas. vice-presidente do CBGB em vários mandatos promovendo seminários nacionais de grandes barragens e apoiando atividades de comissões técnicas. na Paraíba. ambos no Ceará.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A necessidade de uma associação técnica ativa no campo das barragens era indispensável para a evolução da tecnologia nacional. grandes açudes começaram a ser construídos como Orós e Banabuiú (Arrojado Lisboa). Figura 4 – Antônio José da Costa Nunes. Interessante notar pelo temário do primeiro seminário realizado em julho de 1962.

Essa dedicação passou a ser manifestada em diversos seminários posteriores assim como temas relativos à tecnologia de estudos. Considerando a importância da maximização de benefícios propiciados pelas barragens. Os esforços do CBDB pelo estabelecimento de uma legislação sobre a segurança de barragens e das interfaces com órgãos concedentes e de licenciamento ambiental passaram a ser debatidos nos seminários mais recentes já no Século XXI.Séculos XIX. A auscultação de barragens apareceu a partir do IV Seminário realizado no Rio de Janeiro em outubro de 1985. a diretoria do CBGB passou a realizar seminá- 60 . r e a l i z a d o em S ã o P a ul o em junho de 1963 aparece a dedicação do CBGB à segurança de barragens com o tema Acidentes em barragens. Amarante. Licinio M. A partir de 1980. concepção. no XIII Seminário realizado no Rio de Janeiro. barragens de rejeitos passaram a freqüentar os temários.A História das Barragens no Brasil . Após os nove primeiros seminários realizados no eixo Rio de Janeiro e São Paulo. a partir de 1997 passaram a serem discutidos temas institucionais e o retorno com maior intensidade de investimentos privados na implantação e operação de barragens hidroelétricas. Fernandes. desde o XIV Seminário realizado em Olinda os usos múltiplos de reservatórios passaram a ser realçados. Análises de risco começaram a ser discutidas desde 1987 no XVII Seminário Nacional realizado em Brasília. XX e XXI Figura 5 – Mesa de abertura do XIII SNGB – Rio de Janeiro 1980 – Flavio H. Temas sobre meio ambiente passaram a ser freqüentes já a partir do VIII Seminário. Delphim M. P. realizado em São Paulo em novembro de 1972. Lyra. cálculo e construção de barragens e operação de reservatórios. Como reflexo das alterações no modelo do setor elétrico. Carlos A. Seabra J á n o S eg u n d o S e m i n á r i o .

oportunidade de visitar obras de grande vulto que estavam em construção no País. Large Brazilian Spillways (2002). seguida de um congresso internacional. Também foram publicadas diversas traduções dos boletins técnicos do CIGB. o CBGB tem colaborado efetivamente com a CIGB pela participação em diversos comitês técnicos desde os anos sessenta. O Simpósio foi sobre arranjos de barragens em vales estreitos.Rio de Janeiro 1966 Flavio Lyra e J. dois em Curitiba. Dams in the Northeast of Brazil (1982). pela primeira vez foi realizado um simpósio em reunião executiva da CIGB. Mais uma vez os participantes ficaram vivamente impressionados com o vulto das obras que foram incluídas nas diversas viagens de estudo. Dams in Brazil (1982). com grande sucesso.34a Reunião Executiva . Considerando as crescentes atividades de implantação de pequenas centrais hidroelétricas. um em Foz do Iguaçu. Dicionário de Barragens (2010). 3 em São Paulo. dois em Fortaleza. Main Brazilian Dams II (2000). o CBGB teve seu batismo em 1966 na reunião executiva da CIGB realizada no Rio de Janeiro com extremo sucesso. Quanto a eventos internacionais. Desvios de Grandes Rios Brasileiros (2009). Com esse mesmo objetivo. dois em Belo Horizonte. Dessa forma foram realizados 10 seminários no Rio de Janeiro. o CBGB editou importantes livros sobre barragens brasileiras: Topmost Dams of Brazil (1978). as duas edições de Highlights of Brazilian Dam Engineering (2000 e 2006). Guthrie Brown 61 . um em Aracajú.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens rios em diversos outros centros. Em 1982 o CBGB foi novamente anfitrião de uma reunião executiva no Rio de Janeiro. o que se tornou prática em reuniões posteriores. um em Olinda. Diversion of Large Brazilian Rivers (2009). Main Brazilian Dams (1982). um em Brasília. o CBGB passou a organizar simpósios sobre pequenas e médias centrais hidroelétricas a partir de 1998. Os eventos internacionais Consolidando sua projeção internacional. um em Salvador e um em Belém. Na ocasião os participantes tiveram a Figura 6 . Main Brazilian Dams III (2009). Nessa ocasião.

Fernandes. XX e XXI Figura 7 – Simpósio Internacional sobre Arranjos de Barragens em Vales Estreitos – Rio de Janeiro 1982 – Marcos Schwab e Leo Penna Em 2002 novamente o CBDB promoveu uma reunião anual da CIGB. John Cotrim e Pierre Londe 62 . desta vez em Foz do Iguaçu com o International Symposium on Reservoir Management in Tropical and Sub-Tropical Regions. João Alberto Bandeira de Mello. Carlos Alberto de Padua Amarante. Figura 8 . Delphim M. Em 2009 novamente o Brasil foi sede de reunião anual e do congresso internacional da CIGB. general Costa Cavalcanti.14o Congresso Internacional CIGB – Rio de Janeiro 1982 – coronel Mauro Moreira. tendo também realizado o International Symposium on Dams and Reservoirs for Multiple Purposes.Séculos XIX.A História das Barragens no Brasil .

70a Reunião Anual CIGB – Foz do Iguaçu 2002 – Cassio Viotti (presidente CBDB) A evolução institucional do Comitê Semelhantemente à CIGB que se separou da Conferência Mundial da Energia. com o objetivo de dinamizar a atuação do CBDB em todas as regiões.Goiais/Distrito Federal Núcleo Regional . Presentemente são os seguintes núcleos regionais: Núcleo Regional .Rio De Janeiro Núcleo Regional . passando os sócios coletivos e mantenedores serem restritos a elegerem seis membros do conselho. uma chapa montada pela Eletrobras colocou no conselho todos os membros menos o Flavio Lyra. Objetivando uma ampliação de suas atividades que demandariam maiores recursos financeiros. Pouco depois houve nova alteração dos estatutos.Minas Gerais Núcleo Regional . 63 .São Paulo Os núcleos têm mantido importantes atividades em suas regiões.Santa Catarina Núcleo Regional . A partir dos anos noventa. Em 1999 o nome do Comitê Brasileiro de Grandes Barragens CBGB foi alterado para Comitê Brasileiro de Barragens CBDB de forma a abranger também as barragens de menor porte inclusive aquelas da grande maioria das pequenas centrais hidroelétricas.Bahia Núcleo Regional . destacando-se palestras e simpósios de elevado interesse.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 9 . Na primeira eleição de conselho realizada em Fortaleza em 1976. em 1976 o Comitê lançou a campanha de angariação de sócios coletivos e mantenedores que. foram criados os núcleos regionais. pelo estatuto da época tinham tantos votos em assembléias quanto as cotas subscritas. no final dos anos sessenta. o Comitê deixou de ter os conselheiros indicados pela ABMS e pela ABPGE.Pernambuco Núcleo Regional .Paraná Núcleo Regional .Ceará Núcleo Regional .Rio Grande Do Sul Núcleo Regional .

Homenagem ao dr. onde Flávio H. XX e XXI Figura 10 .A História das Barragens no Brasil . Lyra se formou em engenharia) Figura 11 . 18 sócios coletivos e 35 sócios mantenedores. Marconi Perillo governador de Goiás. Flavio H. Lyra – Rio de Janeiro 2004 – Maria Lyra e Heloi José Fernandes Moreira (diretor da Escola Politécnica da UFRJ. visita técnica a obras ( barragem de Itaipu) 64 .Como sempre realizado em eventos do CBDB. tem seis de seus conselheiros eleitos pelos sócios mantenedores e coletivos e doze eleitos pelos sócios individuais. Os ex-presidentes são membros do conselho. Da esquerda para direita: José Pedro Rodrigues de Oliveira presidente de Furnas.Sessão de abertura do XXVI Seminário Nacional de Grandes Barragens Goiânia 2005. A cada período de três anos. Figura 12 . ao renovar seu conselho. havendo a possibilidade de serem nomeados até dois diretores adjuntos com funções específicas.Séculos XIX. Edilberto Maurer presidente do CBDB Em 1999 o nome do Comitê Brasileiro de Grandes Barragens CBGB foi alterado para Comitê Brasileiro de Barragens CBDB de forma a abranger também as barragens de menor porte inclusive aquelas da grande maioria das pequenas centrais hidroelétricas. Os membros da diretoria saem desses conselheiros eleitos. Presentemente (março de 2011) o CBDB conta com um quadro social composto por 1088 sócios individuais. o CBDB. Dilma Roussef ministra de Minas e Energia.

Dirigentes e ex-dirigentes do CBDB em exposição técnica. Flavio H. simpósios e congressos Figura 15 .Conselheiros do CBDB com familiares em um dos eventos sociais que são sempre realizados em seminários. Cassio Viotti (presidente da CIGB) e Delphim Fernandes (ex-presidente do CBGB) Figura 14 .Homenagem ao dr. Nos eventos nacionais e internacionais o CBDB promove sempre exposições técnicas de elevado interesse 65 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 13 . Lyra – Rio de Janeiro 2004 – Erton Carvalho (diretor CBDB).

Em operação desde 1906. Primeira obra de barragem para combate às secas no País. do seu dique e de seu sangradouro. no estado do Rio de Janeiro.66 Açude de Cedros. a barragem é. Vista da barragem. no Ceará. juntamente com Lajes. a mais antiga grande barragem construida no Brasil .

000 km² e o úmido com os restantes 200. essa tentativa fracassou pela falta de adaptação dos camelos ao solo duro e pedregulhoso. mais de cem anos depois. a instalação de estações meteorológicas e a transposição das águas do rio São Francisco para a bacia do rio Jaguaribe. o Nordeste pode ser dividido em três partes: O semi-árido com cerca de 800. Dessa forma.548. Em função de características climáticas.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Um Século de Obras contra as Secas “O sertanejo é. A primeira seca historicamente constatada foi em Pernambuco em 1583. antes de tudo. A Grande Seca que ocorreu de 1877 a 1879 ceifou a vida de mais da metade das 1.754. Na seca de 1915 pereceram 27 mil cearenses e 75 mil emigraram para a Amazônia. Ceará. Sergipe e Bahia.000 km².2% do território nacional. Quanto à construção de açudes. O semi-árido é compreendido pelo Polígono das Secas que tem 936. A Comissão recomendou que fossem efetuadas a melhoria do sistema de transportes.933 km² e onde chove em média menos do que 800 mm/ano. Rio Grande do Norte. Em 1856 o Governo Imperial instalou a Comissão Científica de Exploração para coordenar os estudos e analisar as soluções para o problema das secas. As secas são registradas desde o descobrimento. Seguiramse quatorze secas no Século XVIII. As melhorias nos sistemas de transporte foram discretas em função inicialmente da precária situação financeira ocasionada pela Guerra da Tríplice Aliança e. no início do Século XXI. no Ceará. incluindo a totalidade dos estados do Maranhão. um forte” Engenheiro Euclides da Cunha Flavio Miguez de Mello O Nordeste é uma região com 1. Piauí. As obras de transposição das águas do rio São Francisco só agora. pelo governo republicano. mesmo assim sob forte oposição ambiental. quando a mais intensa e prolongada seca atingiu o semi-árido. foram iniciadas apenas as obras da barragem de Cedro em 1884 que só foram concluídas em 1906. Uma das secas remotas foi responsável pela expulsão dos holandeses que tentaram se estabelecer no Ceará.000 pessoas que residiam na área atingida pela tragédia. Alagoas. posteriormente. Antes dessa Comissão havia apenas um posto pluviométrico em Recife operando desde 1842 e outro em Fortaleza desde 1849. estão sendo iniciadas. O primeiro posto no interior já sob influência da Comissão foi o de Quixeramobim. o paratifo e a varíola. As secas deixaram marcas que não se apagam por mais que os anos passem. Entretanto. Paraíba. em 1877. A tentativa de debandada da população interiorana redundou na morte pelos caminhos e na proliferação de doenças como o tifo. o semi-úmido com cerca de 600. instalado em 1896. por encomenda do Governo Imperial. não havia meios de transporte eficientes para a retirada das popula- 67 . a construção de açudes. Esses postos em áreas litorâneas não eram referências para a região do semiárido. Pernambuco. o navio francês Splendide desembarcou no porto de Fortaleza 14 camelos que vieram para procriarem e apoiar as populações no transporte pela caatinga do semi-árido. Em números redondos.672 km² que corresponde a 18. Uma curiosa tentativa de minorar o sofrimento dos sertanejos com as secas ocorreu em julho de 1859 quando. doze no Século XIX e dezoito no Século XX. Esse foi de longe a maior catástrofe gerada por fenômenos naturais que ocorreu no País. áreas do norte do estado de Minas Gerais e leste do estado de Tocantins são assemelhadas ao Nordeste.000 km².

O geólogo Silva Coutinho também defendeu a construção de grandes barragens. o engenheiro Gonçalves Aguiar elaborou notável análise hidrológica de caráter determinístico publicada em trabalho intitulado Estudo Hidrométrico do Nordeste Brasileiro. ocasionando mortes em larga escala. O primeiro inspetor chefe da IOCS foi o dinâmico engenheiro Miguel Arrojado Ribeiro Lisboa que.A História das Barragens no Brasil . implantação de ferrovias e até dessalinização de água do mar. a botânica. ambos no Ceará. em 21 de outubro de 1909. não mais conseguiu se retirar para o litoral. a pedologia. Nesse período de carência de recursos sobressai-se. principalmente naquela época de início de mais uma seca. foi debatido amplamente o problema das secas no Nordeste. Registra-se que durante os oito anos desses dois mandatos. seu sucessor. Cabe aqui realçar algumas posições decorrentes desses debates. foram criadas três comissões: a Comissão de Açudes e Irrigação. eleito em 1926. tendo o próprio imperador Pedro II estado no local assolado pela seca. A Grande Seca (1877-1879) de devastadoras conseqüências impactou o Governo Imperial. devida à carência de recursos humanos na época. O professor André Rebouças havia escrito em 1877 o trabalho “As Secas nas Províncias do Norte”. o primeiro açude não estava concluído e não havia registros pluviométricos no semi-árido. defendendo a implantação de açudes menores e estradas distritais. Washington Luiz. enfatizou também a necessidade de construção de abrigos e de alimentação para os flagelados. defendia a construção de obras estruturais. da Inspetoria de Obras Contra as Secas IOCS. A população do interior. integradas e definitivas. construção de barragens e canais. O Século XX foi iniciado com outra seca no Nordeste. Como de costume. Rebouças reconhecia a necessidade de ações imediatas. Os debates retroagiram à proposta de Gabaglia de 1861 que compreendia a perfuração de poços artesianos e a implantação de barragens. a sociologia. e a Comissão de Estudos e Obras Contra as Secas. Essas comissões foram aglutinadas em 1906 na Superintendência de Obras Contra os Efeitos das Secas. a partir de 1904. O engenheiro e escritor Manuel Buarque de Macedo preconizou que o tesouro imperial não dispunha de recursos para implantar tantos projetos. embrião do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas DNOCS. a geologia. XX e XXI ções interioranas. Os precários resultados observados levaram. a antropologia e a economia. o aparecimento da “Formula de Aguiar” que serviu de base aos estudos posteriores de hidrologia e dimensionamento de açudes por muitas décadas ao longo do Século XX. só em época de calamidades é que obras e organismos governamentais são efetivados. em desenvolvimento tecnológico. Processando dados hidrológicos principalmente das bacias hidrográficas dos rios Quixeramobim e Jaguaribe. Com a eleição de Artur Bernardes à presidência da República em 1922. Pires do Rio e Arrojado Lisboa. Importante consignar que em sessões sob o comando do Conde D’Eu no Instituto Politécnico situado na Corte. Assim. esse órgão passou a se denominar Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas IFOCS. à criação pelo governo de Nilo Peçanha. pela idealização de Francisco Sá. incluindo poços artesianos. A IFOCS manteve a construção de açudes.Séculos XIX. no governo de Epitácio Pessoa. houve a suspensão de todas as obras e a IFOCS quase desaparece. tendo implantado mais de vinte açudes públicos com destaque para Forquilha e Quixeramobim. O engenheiro Zózimo Barroso propôs a construção de uma rede de grandes açudes. depois de meses de seca. complementando alguns dos açudes com piscicultura incipiente e mesmo irrigação que já havia sido iniciada no açude de Cedro. convocou renomados profissionais do Sudeste e do exterior para o desenvolvimento de estudos bastante completos. residências cujos telhados captassem águas de chuva direcionadas para cisternas. Durante dez anos a IOCS se dedicou a obras de infra-estrutura e promovia apoio aos flagelados assolados pelas secas. abrangendo a hidrologia. O senador Pompeu e o engenheiro Henrique de Beaurepaire Rohan salientaram a importância do reflorestamento extensivo da região. a soma dos recursos destinados à IFOCS representou apenas 20% dos recursos despendidos nos dois últimos anos do governo de Epitácio Pessoa que os antecedeu. a Co- missão de Perfuração de Poços. dá prosseguimento ao processo de inanição da IFOCS. 68 . O professor André Rebouças destacou também a importância da instalação de rede telegráfica e melhorias nos portos da província do Ceará para possibilitar a implantação de vias férreas. Em 1919.

Barragem Lima Campos em construção em 1932 Figura 2 Barragem do Choró em construção em 1933. Face de montante com lajes de concreto 69 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 1 .

A História das Barragens no Brasil .Séculos XIX.Inauguração do Açude Público Boqueirão em 1957 com a presença do pres. Juscelino Kubitschek e do ministro Lúcio Meira da viação e obras públicas Figura 4 . XX e XXI Figura 3 .Açude Choró – Vista do talude de montante ao final da construção em 1934 70 .

Cercados por muros e por arames farpados. Ipu. por sua vez nomeia o engenheiro Artur Fragoso de Lima Campos inspetor geral da IFOCS. segundo Francisco Luís de Araújo.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Com o golpe de estado de 1930. no Ceará. Os detentos nos campos de concentração eram reduzidos a pele e osso como os filmados pelas tropas americanas ao chegarem aos campos de concentração nazistas na II Guerra Mundial. não houve financiamento para a mecanização para a lavoura e a pecuária. foi duplicado em relação ao orçamento deixado pelo seu antecessor. A seca de 1932 marcou profundamente os que sobreviveram aos campos de concentração. morriam de desnutrição e de doenças diversas nos “currais de fome”. depósito de explosivos e casas para seus executivos. Seu reservatório. o que comprova a prática nos primeiros anos da República. Era comum passarem em redes mais de trinta mortos por dia cujos corpos eram jogados em valas comuns. 65 anos após o início de suas obras. os Descaminhos de uma Obra”. Propositalmente ignorados pela historiografia oficial. o orçamento do DNOCS. Uma epidemia de piolho levou o governo a ordenar que as cabeças fossem raspadas. quando apenas 36 famílias são presentemente beneficiadas com a irrigação. onde a empresa inglesa Dwight P. tendo sido substituído pelo engenheiro Augusto da Silva Vieira. sendo violentamente penalizados e recolhidos ao sebo. Nesse período de penúrias o Departamento foi dirigido por Luiz Vieira e Vinícius Berrêdo. Em dezembro de 1945 o presidente José Linhares e seu ministro Maurício Joppert da Silva transformam a Inspetoria no Departamento Nacional de Obras Contra as Secas DNOCS que. antes da seca de 1932. com 71. uma pequena gaiola de varas. Em 1932 ocorreu uma seca severa e o canteiro de obra da barragem de Patu que havia sido paralisada em 1923. um cemitério de quinze mil mortos-vivos. Entretanto. não havendo recursos para formação de mão de obra. uma usina termoelétrica. escritório. assume a presidência Getúlio Vargas que nomeia José Américo de Almeida para o Ministério de Viação e Obras Públicas que. Cariús. não aconteceu a difusão de insumos. Com o retorno de Getúlio Vargas à presidência. Em 1932 Lima Campos faleceu em acidente aéreo. a partir do ano seguinte sob o governo Dutra se mantém com recursos exíguos e praticamente limitados às obras de construção de açudes. não houve meios suficientes para a expansão de observações e estudos hidrológicos. não foram criadas estruturas de estocagem. A barragem foi concluída em 1986. Os guardas só davam um farelo amarelo. os campos de concentração ainda estão vivos na memória dos poucos sobreviventes. Raquel de Queiroz usou a expressão campo de concentração em seu romance “O Quinze” escrito em 1930. Quixadá. Robinson implantou um canteiro de obra. para evitar que os flagelados inchassem as cidades. eram classificados como infratores. Patu e Crato. sangue de boi e carne da cabeça de gado como comida. sem dar seguimento a obras de irrigação e de piscicultura. Adriano Bezerra relata o ocorrido em 1932 no campo de concentração em Senador Pompeu onde os corpos das vítimas da sede e da fome eram jogados em valas coletivas após a extração dos fígados que eram destinados a exames médicos. No livro “Barragem do Patu. desta vez eleito. não se promoveu acesso a crédito. Naquela época Fortaleza era conhecida por “loura despojada pelo sol” e como ninguém gostaria de visitar a cidade inundada por flagelados. Os campos foram criados pela IFOCS em Fortaleza. Há relatos de mortes por febre tifóide de mil pessoas em uma só noite no campo do Urubu. Dessa maneira 71 . O maior campo de concentração era o de Crato que chegou a ter 65 mil flagelados. a irrigação se devidamente implantada poderia beneficiar três mil famílias. os flagelados se espremiam como uma massa esquálida e faminta. Os ingleses se retiraram com a paralisação das obras ordenada pelo governo de Artur Bernardes. não se promoveu a monetarização do mercado interiorano que funcionava à base de escambo. o primeiro campo de concentração que se tem notícia foi o campo de Urubu que foi instalado na seca de 1915. Hoje há esforços para que seja tombado o conjunto de edificações na barragem de Patu. ainda que insuficiente. portanto.8 milhões de metros cúbicos de capacidade daria para atender 60% da atual população de Senador Pompeu mas. residente da Empresa de Assistência Agropecuária do Ceará. se transformou em um campo de concentração. Os flagelados que reclamavam das condições a que eram sujeitos. Quixeramobim. foi formado o campo de concentração do Urubu.

Banabuiu. A mais notável delas. obcecado pela sua meta síntese de construção de Brasília. depois incorporada à CHESF. Juscelino Kubitschek. drenou de todos os lados recursos necessários para a implantação da nova capital. Ao assumir o governo federal.Barragem Quixeramobim 72 .Séculos XIX. Boqueirão das Cabaceiras e Cocorobó.A História das Barragens no Brasil . Araras. XX e XXI foram retomadas ou iniciadas as obras de diversas barragens tais como Orós. Figura 5 . Nesse período tiveram início os estudos da hidroelétrica de Boa Esperança. O DNOCS não ficou isento a essa insaciável drenagem de recursos e algumas de suas obras ficaram sem recursos e sem crédito. Orós. teve o seu colapso anunciado com meses de antecedência pelos dirigentes do DNOCS dada a incapacidade financeira e de crédito para concluir a barragem antes do período de chuvas. posteriormente transferida para a COEBE e.

em paralelo ao segundo choque do petróleo. antes do enchimento do reservatório.4 bilhões de metros cúbicos de acumulação. com a capacidade de 2. apesar das advertências da empresa encarregada da fiscalização e de seu consultor Mr.Açude Mãe d’Água Figura 7 . Bureau of Reclamation. O governo Jânio Quadros. brecada até que as secas intensas ocorridas no início dos anos oitenta demonstraram o equívoco dessa postura. a inocência do referido consultor que havia desaconselhado a execução do tapete. A política de implantação de açudes foi. engenheiro de carreira no U. mas o engenheiro José Candido Castro Parente Pessoa logrou provar na delegacia perante a um juiz de direito. houve o colapso do talude de montante da barragem por falta de resistência da camada de solo do tapete impermeabilizante. inter- 73 . No governo de João Goulart o DNOCS passa à categoria de autarquia em junho de 1963 e passa a trabalhar sob a coordenação da SUDENE em ocasiões de emergência.S. então. Nos governos seguintes a maior atribuição do DNOCS foi a de implantar perímetros irrigados.Açude Banabuiu A SUDENE concorreu com eficiência para a divulgação leviana da idéia de que a capacidade dos açudes então existentes seria suficiente para atender à demanda de água do semi-árido para qualquer seca que viesse a acontecer. Durante a construção.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens rompeu em 1961 a concessão de subsídios à construção de açudes particulares por regime de cooperação e desacelerou a implantação de açudes públicos. uma argila de baixa resistência foi colocada anexa ao núcleo da barragem se prolongando para montante em forma de tapete impermeabilizante. Diversas empresas consultoras estrangeiras desembarcaram no País para surpresa da Associação Brasileira de Consultores Figura 6 . A modalidade tradicionalmente adotada de executar os empreendimentos por administração direta foi abolida e o efetivo do Departamento passou a entrar em ociosidade. o DNOCS passa a ser gerido por sucessivos coronéis do Exército pouco versados nos problemas do semi-árido. além de praticar uma injustificada caça às bruxas com relação aos dirigentes do período anterior. Após a deposição do governo Goulart. A mais importante obra desse período foi a construção da barragem de Açu no Rio Grande do Norte. As autoridades tentaram culpar o consultor. ocorreu a severa seca entre os anos de 1980 a 1983. em seguida. Com a chegada de José Sarney à presidência da República é lançado o programa de irrigação de um milhão de hectares. Para esse programa foi sorrateiramente e oficiosamente quebrada a proteção à engenharia brasileira conseguida por lei no governo Costa e Silva. Holtz. Em 1999 assumiu o governo o general João Batista Figueiredo e. Ao final da construção.

a era FHC deixou duas grandes marcas na Autarquia: a sua traumática dissolução com seu posterior ressurgimento e a construção da maior barragem do semi-árido brasileiro que incluiu a utilização rara em nosso País. laboratórios e obras. Nesta época o autor desse capítulo era o diretor da ABCE encarregado da proteção à engenharia nacional. Na sua época mais ativa. Cabe realçar a influência do United States Bureau of Reclamation USBR no combate às secas do Nordeste brasileiro. Esse açude e o longo canal de adução das águas à cidade de Fortaleza executado em tempo recorde de acordo com o planejamento do engenheiro José Cândido Pessoa. Depois de passar trinta anos sem renovar seus quadros. bastou que as precipitações em 2009 fossem 59% superiores à média anual para que houvesse o colapso de 50 açudes só em Canindé. pois vinham prestando serviços para a atividade fim do órgão. Engenheiros do DNOCS e de outras instituições brasileiras. Alguns dos mais destacados profissionais do USBR. o que é vedado pela legislação em vigor. e do peso do Nordeste no parlamento. apesar de neste governo ter ocorrida significativa redução de diretores e cargos gratificados. com equipe própria. Em Targinos. XX e XXI de Engenharia. ficando o órgão nos limites da sobrevivência. Hoje os funcionários da ativa não passam de mil e oitocentos. W. John Wesley Powell deu origem a uma das mais destacadas instituições de engenharia já formada. entre 1940 a 1960. o DNOCS foi ressuscitado em maio de 1999. Nos dois governos Lula houve reestruturação do DNOCS. 14 barragens colapsaram. A diretoria do DNOCS alertou em 2008 que eram urgentes as obras de recuperação dos açudes Estevam Marinho e Mãe D’Água sob o risco de se tornarem inoperantes e causarem danos irreparáveis a bens e a vidas humanas. A SUDENE que havia sido extinta por medida provisória em maio de 2001. foi novamente criada em janeiro de 2007 com o objetivo de reassumir o planejamento regional.A História das Barragens no Brasil . Holtz e Hoffmann. A única obra importante foi conseguida pela bancada cearense no congresso: o açude Castanhão inaugurado ao apagar das luzes do segundo governo de Fernando Henrique. 1 de janeiro de 1999. pois há mais de 40 anos não eram feitas manutenções nessas barragens. mas sujeito a profundas modernizações. o órgão chegou a ter dezessete mil funcionários e fazia as obras por administração direta. devido a impressionante mobilização de diversos setores da sociedade civil do Nordeste. Assim. Ao ser lançado o PAC – Plano de Aceleração do Crescimento com uma verba de um bilhão de reais em 2010. A viabilidade da existência do DNOCS passou a ser agenda do governo Fernando Collor de Mello que se instaurou em 1991. de diques fusíveis.Séculos XIX. Essa medida não substituiu devidamente os terceirizados. Ceará. As modernizações foram estudadas. Implantados em condições questionáveis. mas o Ministério do Planejamento limitou a 92. O USBR foi a primeira instituição americana dedicada ao estudo e desenvolvimento de recursos hídricos. inclusive o autor. Ao longo do Século XX o USBR implantou centenas de barragens e mais de duzentos projetos de irrigação no oeste americano. O diretor geral Elias Fernandes lamenta: “todos os meus funcionários têm cabeça branca”. havendo mais de doze mil aposentados e pensionistas. Da falta de condições do DNOCS e dos perversos cenários das secas surgiram construções de açudes particulares e por outros órgãos federais e estaduais. fortaleceu politicamente o então governador Ciro Gomes e o lançou na política Federal. Foi instalada uma comissão parlamentar mista tendo resultado daí o relatório de Beni Veras que recomendava a manutenção do DNOCS. Sua missão é o desenvolvimento de projetos de barragens de regularização e irrigação do árido oeste dos Estados Unidos. 74 . Dois anos depois as obras foram feitas com dispensa de licitação. a DNOCS pediu abertura de concurso para seiscentas vagas. o DNOCS é finalmente extinto por medida provisória. foram treinar nos seus escritórios. Seu criador em 1898. mas sem dotações orçamentárias suficientes. tais como Jack Hilf. no sertão central do Ceará. mas não houve obras de barragens. que tiveram que ser demitidos. muitas delas do INCRA. os recursos humanos da instituição não puderam acompanhar a disponibilidade financeira pela sua carência de estrutura e de pessoal. No primeiro dia do segundo governo Fernando Henrique Cardoso. mas não foram implantadas no curto governo Itamar Franco nem no primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso. acabando longa agonia. Entretanto. estiveram dando assistência técnica às obras de barragem do DNOCS.

A partir dessa época as secas passaram a ser previsíveis. A barragem de Orós cuja proposição é dessa época. Um El Niño mais prolongado causa no território brasileiro secas no Norte e Nordeste e cheias no Sul. Figura 8 . como engenheiro sênior. o que significa cerca de 20% das grandes barragens brasileiras. fenômeno conhecido desde os tempos coloniais como El Niño. Exemplo de colaboração do US Bureau of Reclamation para o DNOCS 75 .Jack Hilf e José Candido Pessoa. nasceu no canteiro de obra o Theophilo Benedicto Ottoni Netto que. nas fases em que o governo federal propiciou condições financeiras adequadas. Barragens iniciadas ou projetadas no governo de Epitácio Pessoa como Pedra Branca e Patu foram concluídas muitas décadas depois. A barragem de Castanhão teve sua construção proposta em 1910 e só foi executada quase 100 anos depois. teve suas obras interrompidas.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens As causas das secas no Nordeste ficaram desconhecidas até a primeira metade dos anos 80 quando foi detectada a influência da permanência de temperaturas mais elevadas da água no oceano Pacífico na latitude do Peru. sendo responsável pela implantação de mais de 220 grandes barragens (de acordo com a classificação da CIGB). a IFOCS e seu sucessor DNOCS mostrou intensa atividade. Quando da primeira fase de construção que eram para ser uma barragem de alvenaria. Entretanto. Ao analisar as atividades realizadas no combate às secas verifica-se que a descontinuidade na administração das agências de fomento e a alternância dos recursos disponibilizados fazem com que obras iniciadas há várias décadas são descontinuadas ou retardadas. viria projetar o vertedouro da barragem.

76 76 .

que flui desde Minas Gerais e o rio Parnaíba que divide os estados do Piauí do Ceará são perenes. então o sertão virará praia e a praia virará sertão. no segundo ano. dispensando-se revestimentos. Dentre os locais selecionados sobressaiu-se o sítio onde foi implantado o açude de Cedro. ou maciços baixos de terra cujo elemento impermeabilizante era um diafragma central de alvenaria. Flavio Miguez de Mello O Departamento Nacional de Obras Contra as Secas e as inspetorias que o antecederam foram os órgãos que mais barragens implantaram no Brasil. o sangradouro podia ser simplesmente escavado numa das ombreiras. em 1880. 214 grandes barragens (de acordo com a classificação da Comissão Internacional de Grandes Barragens) foram implantadas até 1982. a barragem de Cocorobó pelos motivos que determinaram a sua implantação e a barragem do Castanhão por ser a última grande barragem construída pelo DNOCS antes da publicação deste livro. No caso de haver ombreira em rocha sã. Considerando que apenas os rios São Francisco. Nos primeiros anos do século passado as barragens eram de alvenaria de pedra. a barragem de Engenheiro Ávidos pelo seu arrojado projeto original. Com o objetivo de promover condições de fixação dos nordestinos cultivando o semi-árido. As barragens do açude de Cedro Logo após o término da Grande Seca. foi modificado pelo engenheiro Ulrico Mursa. em função do maior ou menor interesse do governo federal. Até meados do século passado as barragens eram de alturas modestas. muitas barragens com características extremamente interessantes foram construídas. entretanto. chamadas na época de barragens de peso. atividades que foram originadas das drásticas conseqüências da Grande Seca que ocorreu de 1877 a 1889. foi implantada a primeira barragem de altura superior a 50 m. para o presente livro o autor selecionou as barragens do açude de Cedro por terem sido as primeiras grandes barragens do Nordeste e as mais bonitas até hoje. Nos cento e vinte anos de atividades no combate aos malefícios das secas.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens As Barragens Construídas pelo DNOCS “Em 1896 há de haver mil rebanhos correndo da praia para o sertão. Já em 1882 o primeiro projeto estava pronto. da Comissão de Açudes e Irrigação. sendo que só nos anos 50. feita em duas etapas: no primeiro ano se procedia a limpeza e o tratamento de fundação e. o Governo Imperial encomendou ao engenheiro Jules Revy uma seleção de locais para implantação de barragens com o objetivo da formação de açudes. Como são muitas barragens. se fazia as obras no leito do rio e nas margens. Esse projeto. As obras foram iniciadas em novembro de 1890 e foram concluídas em 1906. Sangradouro de Castanhão 77 . após o recuo das águas. em geral.” Antônio Conselheiro a construção de barragens era. Essa cifra mostra intensas fases de elevada atividade e outras fases de estagnação. em Boqueirão das Cabaceiras. a barragem de Orós por ter tido impressionante acidente durante sua construção. os demais cursos d’água do Nordeste são de regime intermitente.

sua altura é de 18 m sobre as funda- ções em sienito são.925 m³.473 m³ de volume. com uma superfície de 17. XX e XXI sob a direção do engenheiro Bernardo Piquet Carneiro.724 m³ e Barragem da Lagoa do Forbes com 4 m de altura. com 7. O açude se localiza no rio Sitiá do sistema Jaguaribe. seu comprimento é de 209 m e seu volume é de 9.000.45 km². pela falta de dados hidrológicos na época do projeto.000 m³ e uma profundidade média pouco superior a 7 m. 464 m de extensão e 8. A barragem principal é em arco gravidade de alvenaria.Séculos XIX. comprimento de crista de 243 m e volume de 40. seu volume é de 60. sua extensão de crista é de 415 m.5 m de altura e com lâmina livre pela crista. controlando uma área de drenagem de 224 km².000 m³. Figura 1 – Açude de Cedro 78 . uma capacidade de acumulação de 126. de gravidade. denominados Barragem Sul com altura de 17 m. O vertedouro (sangradouro) é também em alvenaria.A História das Barragens no Brasil . o açude ficou super-dimensionado. seu eixo curvo e os pequenos pilares com as grossas correntes aliados à Pedra da Galinha Choca na margem direita da barragem e à esquerda do vertedouro formam um conjunto arquitetônico de rara beleza. O açude só foi verter (sangrar) pela primeira vez em 1924 o que demonstra que. após paralisações. Há ainda dois diques de terra. de longo raio de curvatura de 254 m. um em cada margem do rio. A alvenaria de pedra em sua crista.

000 m³. No local da barragem a margem esquerda é composta por um quartzito decomposto. após a cheia. tendo sido definida uma hidrógrafa com pico de 1610 m³/s.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A barragem de Engenheiro Avidos. O vertedouro era de crista livre. Regis Bittencourt e Lohengrin Chaves. como a descarga de projeto deveria ser o dobro da descarga original e como essa descarga de projeto era quase 30 vezes superior à descarga ocorrida em 1963. o reservatório era mantido em nível baixo a maior parte do tempo. Foi efetuado um novo estudo hidrológico para verificação da hidrógrafa de projeto. As tomadas d’água são em duas torres cilíndricas controladas por comportas que aduzem a água para duas tubulações em células de concreto armado. controlando uma área de drenagem de 1124 km². Nesse ano. Realmente. nos países ocidentais. Esses deslocamentos se acentuaram após a passagem da cheia de 1963 que chegou. Rice do US Bureau of Reclamation.6:1. com ogiva de concreto de 160 m de extensão e cuja calha era constituída por um revestimento do talude jusante em lajes articuladas de concreto armado projetado para um pico de cheia da ordem de 800 m³/s e situado na parte central do corpo da barragem. A barragem havia sofrido recalques e os movimentos provocaram a abertura de juntas na laje do vertedouro. Consta que o padre Cícero havia dito que a barragem iria colapsar. O projeto original da barragem compreende um maciço de terra a montante com talude variável de cima para baixo de 2:1. de 2. o que correspondeu a uma hidrógrafa defluente com pico de apenas 55 m³/s. o que correspondeu a uma escavação de 300. um núcleo de concreto sob a linha de centro da barragem constituindo-se o principal elemento de impermeabilização. no município de Cajazeiras. a uma sobre-elevação de cerca de 0. e um maciço de enrocamento no espaldar de jusante com talude de 1. no seu pico. em inspeção à barragem.30 m sobre a crista do vertedouro. Figura 2 – O engenheiro Moacyr Monteiro Avidos As principais condicionantes do projeto eram: não exigir fundação em rocha sã e o elevado custo devido às dificuldades logísticas para suprimento de cimento ao local da barragem. tando muitos matacões e elevada permeabilidade e a margem direita é constituída por um gnaisse intemperizado. apresen- 79 . como as sondagens no aterro da barragem revelaram graus de compactação inadequados. antiga São José de Piranhas A barragem é localizada no rio Piranhas.5:1 e de 3:1. A barragem tem 44 m de altura e 340 m de extensão. foi decidido que o vertedouro sobre a barragem seria substituído por um vertedouro lateral provido de duas comportas de segmento de 9 m x 10 m que descarregam as descargas vertidas em uma calha em concreto armado e dissipação em salto de esqui.000 m³ e a um volume de concreto de 16. Na ombreira esquerda as escavações atingiram a 14 m de profundidade. com a colaboração de Moacyr Avidos. Paraíba. uma das quatro barragens com vertedouro sobre o aterro e a única das quatro que sobreviveu durante quase 30 anos de uso. recomendou que fosse construído um novo vertedouro na ombreia direita. O projeto foi concebido pelos engenheiros Luis Vieira e Vinícius Berrêdo. o engenheiro O. Como esta era.

Açude Piranhas durante sua construção em 1936. XX e XXI Figura 4 .Séculos XIX.Açude Piranhas – Saída das galerias da tomada de água Figura 3 . Vista do talude de montante Figura 5 . Vista do talude de jusante 80 .Açude Piranhas durante sua construção em 1936.A História das Barragens no Brasil .

Em 1932 materiais e equipamentos foram retirados de Orós para as construções dos açudes de Pilões. A cerca de 200 m a jusante do eixo retilíneo original essa cavidade apresenta profundidades de até 80 m. Em 1930 estudos adicionais foram realizados sob a orientação do engenheiro Luis Augusto Vieira. incluindo seus filhos. ferrovia. a 450 km da capital Fortaleza. Em 1919. P. o governo federal contratou a empreiteira americana Dwight P.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A barragem de Orós A barragem de Orós é situada no rio Jaguaribe. Todos os trabalhos de levantamentos e prospecções e de projetos de infra-estrutura tais como as instalações das residências e escritórios. acessos rodoviários. eletrificação e canteiro de obra. Como finalidades secundárias há a piscicultura e aproveitamento hidroelétrico. Para fugir da cavidade duas alternativas de eixo foram indicadas: eixo reto na parte jusante do boqueirão ou eixo acentuadamente curvo na entrada do boqueirão. Robinson & Co. formando um sem número de engenheiros. Em outubro de 1958 as fundações da barragem estavam escavadas e tratadas. Curiosamente. Cunha. como será mencio­ nado adiante. motivado pela intensa seca que impactou a região. A excepcional cheia ocorrida em 1924 destruiu ensecadeiras e parte do canteiro de obra. A barragem seria em alvenaria de concreto ciclópico executada com apoio de cabo aéreo cujas torres foram instaladas nas duas ombreiras. Estudos e investigações geotécnicas efetuadas pelo engenheiro Arthur W. no interior do Ceará. Em 1940 foi concluído um túnel com 1600 m de extensão ligando Orós ao açude de Lima Campos cuja capacidade de irrigação estava esgotada. Nessa fase inicial de construção participava da equipe o engenheiro Augusto Benedicto Ottoni. uma neta e o autor desse capítulo. drástico corte de verbas e a conseqüente paralisação das obras no governo de Arthur Bernardes. José Wright e George Shobinger. Desde os tempos do Império e nos primeiros anos da república uma barragem no boqueirão de Orós vinha sendo considerada. C. Posteriormente equipe do engenheiro Luiz Vieira elaborou dois estudos. Essas sondagens indicaram no leito do rio uma cavidade no seu topo rochoso de 40 m preenchida por aluviões. A. José Visetti. Theophilo Benedicto Ottoni Netto. Apesar de dispor de um túnel de desvio. Sargent. o engenheiro Theophilo teria atuação de destaque no projeto do vertedouro da barragem de Orós quase cinqüenta anos depois do seu nascimento. que viria a ser destacado engenheiro hidráulico e professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro. nasceu seu filho. conhecido como o maior rio intermitente do mundo. A barragem de Orós deixou de ser prioridade mesmo com a intensa seca de 1932. Houve um primeiro anteprojeto desenvolvido no início da Inspetoria de Obras Contra as Secas do qual não se tem notícia por ter se perdido em incêndio ocorrido em dezembro de 1912 na Primeira Seção dessa Inspetoria. em vista dos resultados das sondagens executadas pelo engenheiro britânico Louis Philips e pelo engenheiro José Gomes Parente. Sua principal finalidade é perenizar o rio e promover a irrigação nos trechos médio e baixo de seu vale. tendo havido. Schneider levaram a professor Casemiro José Munarski a conceber o projeto de uma barragem de terra zonada com grande curvatura em planta para montante com o objetivo de fugir da espessa camada de aluvião. foram feitos pelos engenheiros A. um com barragem de terra e outro com barragem de concreto gravidade. Comstock e J. Pyles. no decorrer de 1959. no interior do estado do Ceará. Piranhas e São Gonçalo. O maciço da barragem seria erguido após a estação chuvosa seguinte. como 81 . Orós foi programada para ter seu maciço totalmente construído em um período seco. para elaborar um novo projeto e implantar a obra sob a supervisão dos engenheiros Charles W. Durante essa fase. no janeiro seguinte. A idéia inicial de uma barragem de eixo reto situada na entrada do boqueirão foi abandonada em 1913. ambos com eixo retilíneo a jusante do boqueirão para evitar a espessa camada de aluvião que havia sido detectada nos estudos iniciais.

A campanha em muitas cidades do País tinha o lema “Orós precisa de nós”. projetada com 54 m de altura e taludes de 2. O DNOCS passou a ter sérios problemas na manutenção do ritmo de construção por falta de recursos financeiros para concluir a barragem a tempo. Figura 7 . quanto ao perigo da não conclusão da barragem antes do período chuvoso. tendo perdido também o crédito junto a fornecedores. zonas de solo arenoso compactados em camadas de 30 cm de espessura. apresentando a jusante uma bifurcação para um descarregador de fundo e para a instalação de uma pequena hidroelétrica que só foi licenciada cinqüenta anos depois. No final do período chuvoso.A História das Barragens no Brasil . Cerca de 40% do volume do maciço já executado foi erodido.Séculos XIX. A barragem.Galgamento da barragem de Orós Destaca-se a eficiente atuação das forças armadas no resgate das populações residentes a jusante da barragem. com a barragem ainda incompleta e sem ser possível as águas afluentes atingirem a cota da soleira do vertedouro ainda em escavação. As informações disponíveis dão conta de que apenas um óbito foi registrado. foi executada com espesso núcleo de argila arenosa compactada em camadas de 15 cm e taludes externos em enrocamento que envelopava. engenheiro José Cândido Castro Parente Pessoa. Como mencionado acima. Várias cidades situadas a jusante foram invadidas pelas águas oriundas do colapso da barragem. os demais empreendimentos governamentais ficaram com desmedidas carências de recursos. realçam-se as atitudes de países no apoio às vítimas do rompimento 82 . na margem direita do reservatório havia sido construído um túnel que conduz descargas do rio Jaguaribe ao açude de Lima Campos com o objetivo de reforçar as vazões para irrigação das áreas a jusante desse açude. O próprio DNOCS construía a barragem com equipamentos provenientes da recém concluída construção da barragem de Araras. Debalde foram os alertas da direção do DNOCS e de seu diretor geral. tornou-se a tomada d’água e foi revestido posteriormente com chapa de aço. ambos abrandados em cotas inferiores. denominada pelo presidente Juscelino Kubitschek de meta síntese. No âmbito externo.Barragem de Orós após a ruptura Figura 6 . nos espaldares de montante e de jusante. a barragem começou a ser galgada. Era nos primeiros minutos da madrugada do dia 26 de março de 1960. Entretanto.5:1 e 2:1 respectivamente a montante e a jusante. XX e XXI era comum nos rios intermitentes do Nordeste. Os esforços para conter o colapso da barragem foram inúteis. O acidente e suas conseqüências impactaram a opinião pública e muitos recursos foram angariados de populares e remetidos às vítimas do acidente. O túnel de desvio situado na ombreira esquerda. tendo sido por infarto. devido à incrível concentração de recursos federais para a construção de Brasília.

Figura 8 . o vertedouro apenas escavado. Entretanto. era protegido por uma pequena ensecadeira. A barragem foi rapidamente reconstruída entre julho de 1960 e janeiro de 1961. A rocha local é composta por xistos da série Ceará. Theophilo Benedicto Ottoni Netto e José Cândido Parente Pessoa em visita ao modelo hidráulico reduzido do vertedouro de Orós erosão regressiva que quase comprometeu a estabilidade da ombreira esquerda.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens da barragem de Orós: Estados Unidos.Erosão na área do vertedouro antes do revestimento de concreto 83 . O projeto foi encomendado ao Laboratório Hidrotécnico Saturnino de Brito – HIDROESB e idealizado pelo Professor Theophilo Benedicto Ottoni Netto aproveitando em parte a configuração da encosta erodida e desenvolvendo uma concepção de elogiável arquitetura hidráulica. Pouco após a reconstrução da barragem. A água escoando a elevadas velocidades sobre a rocha altamente fissurada. recursos foram destinados a concluir a obra do vertedouro. União Soviética e Vaticano. provocou grande Figura 9 – Saturnino de Brito Filho. Em visita ao local em época em que o reservatório estava com elevado nível d’água. França. Juarez Távora. testada em modelo reduzido. Mais uma vez. Alemanha Ocidental. destacando-se quartzitos xistosos dobrados e extremamente fraturados. Apesar de ter sido o responsável pela carência de recursos que ocasionou o colapso da barragem com graves consequências para as populações de jusante. após a emergência. uma alta autoridade federal mandou abrir a ensecadeira. tendo sido inaugurada pelo presidente Juscelino Kubitscheck. o sangradouro permaneceu sem ser revestido de concreto. há um monumento em bronze com a estátua do presidente em tamanho natural. Reino Unido.

Séculos XIX.A História das Barragens no Brasil . XX e XXI Figura 10 – Açude de Orós Figura 11 – Vertedouro de Orós em operação 84 .

construído em 1909 por parentes e sobreviventes do massacre. com 34 m de altura. do Exército Brasileiro contra jagunços seguidores da figura mística de Antônio Vicente Mendes Maciel. tendo sido finalmente aniquilados em seu arraial denominado Belo Monte. conhecido por Antônio Conselheiro. incontestavelmente de elevado valor histórico. em nenhum momento foi cogitado que o sítio selecionado iria submergir o que havia restado de Belo Monte. é uma estrutura de terra compactada. aparecendo as antigas construções. em 1940. o corta cabeças. havendo duas correntes distintas: a primeira acusa o governo federal de tentar apagar da memória nacional o triste incidente de Canudos.” Os estudos do DNOCS indicaram o boqueirão Cocorobó como o sítio mais indicado para a construção da barragem. concluída em 1968. Na época. e. escondendo sob as águas a participação do Exército no conflito. tendo ao fundo o açude de Cocorobó Figura 12 – Prisoneiros da guerra de Canudos 85 . que já havia assassinado mais de cem habitantes de Nossa Senhora do Desterro. A segunda defende a idéia de que o boqueirão era o local mais apropriado para a implantação do açude. Getúlio teria perguntado a Isaias Canário o que poderia ser feito por Canudos e recebeu como resposta: “Um açude Senhor Presidente. Principalmente após a construção. Mesmo no local selecionado. há acumulado pelo açude não é suficiente para atender a exploração de todo potencial de solo agricultável a jusante. desarmados e militarmente despreparados. Figura 13 – Estátua de Antônio Conselheiro. Esse terrível episódio de nossa história é magistralmente narrado por Euclides da Cunha que foi testemunha ocular da terceira expedição comandada pelo sanguinário coronel Antônio Moreira César. Na realidade. prêmio Nobel de literatura em 2010. do presidente Getúlio Vargas à região e ao segundo Arraial de Canudos. principalmente a parte superior da igreja de Antônio Conselheiro bombardeada por canhões do Exército. os seguidores de Antônio Conselheiro rechaçaram quatro investidas e expedições das forças armadas.3 milhões de metros cúbicos. cidade posteriormente denominada Florianópolis em homenagem ao ditador da ocasião. 643 m de extensão de crista e volume de reservatório de 245. a seleção do local foi questionada por diversos pesquisadores e historiadores. Consta que o pedido da construção da barragem de Cocorobó partiu do chefe político local durante a visita. também descrita com maestria por Mario Vargas Llosa. o volume d’água A barragem.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A barragem de Cocorobó Na última década do Século XIX foram travados vários combates entre forças militares do estado da Bahia e. como ficou evidenciado nas estiagens ocorridas entre 1994 e 2000 quando as demandas fizeram com que o espelho d’água atingisse níveis muito baixos. cem anos após. Inicialmente pacíficos. posteriormente.

Barragem do Castanhão Os primeiros estudos do Castanhão datam de 1910 quando o geólogo americano Roderic Crandall realizou para a Inspetoria de Obras Contra as Secas. mulheres e crianças foram cruelmente degolados pelas tropas do Exército sob o comando do general Artur Oscar de Andrade Guimarães no incidente conhecido por gravata vermelha. principal jagunço de Antônio Conselheiro na fase final dos confrontos com o Exército. mesmo aqueles que se renderam com a promessa de não serem mortos. Como havia sido o primeiro a falecer após a conclusão do cemitério. que certificam que o local selecionado é na realidade o mais apropriado para a implantação da barragem: a jusante o vale é muito aberto e com espessas camadas de sedimentos e a montante não havia local tão propício para um reservatório. homens. Após o aniquilamento do arraial e de seus ocupantes. se refugiou nos limites do Piauí com o Maranhão até que uma anistia permitiu que ele retornasse a Canudos. Pedrão faleceu e inaugurou o modesto cemitério que havia sido feito como um dos equipamentos urbanos necessários para a construção da barragem. Pouco tempo depois adentra um coronel do Exército no escritório do referido engenheiro e passa uma descompostura nele por ter enterrado na primeira cova do longínquo cemitério da obra “um inimigo da república”. houve um depoimento do diretor geral do DNOCS no início da construção da barragem ao autor deste capítulo.Séculos XIX. Ao final da guerra. o engenheiro José Cândido candidamente indicou a cova número um para acolher o falecido. XX e XXI pareceres de engenheiros e mesmo de arqueólogos como Paulo Zanettini e Erica Gonzáles.” O engenheiro José Cândido Castro Parente Pessoa contou que no início das obras da barragem conversou muitas vezes com o Pedrão. que justifica a interpretação de que a barragem teria sido construída para afogar a memória da Guerra de Canudos concluída em 5 de outubro de 1897. Nesse trabalho ele identificou o boqueirão do Cunha como sendo um local para implantação de uma barragem que promovesse alguma regularização e que Figura 14 – Açude de Castanhão 86 . Entretanto. estudos de locais para implantação de açudes no Nordeste. “aquela campanha (do Exército) foi o maior crime praticado em território brasileiro. Segundo o engenheiro Euclides da Cunha que esteve no teatro da guerra. Pedrão que havia saído para combater a quinta expedição que chegava com soldados do Rio Grande do Sul. Era mesmo tentador tentar apagar qualquer registro do massacre dos habitantes de Belo Monte.A História das Barragens no Brasil .

tendo capacidade de escoar a descarga de projeto de 12. O vertedouro em concreto gravidade é provido de 12 comportas de segmento de 10 m por 11. acompanhando as obras com reuniões públicas mensais em que as manifestações eram livres. O projeto foi aprovado no Conselho Estadual do Meio Ambiente em dezembro de 1992 por doze votos a favor e oito contra. A barragem do Castanhão foi concluída em 1999. Além da extensa área do reservatório.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens derivasse as águas do rio Jaguaribe. F. 1982 Llosa.345 m³/s com sobre-elevação de 6 m. Referências Cunha. incluindo a totalidade da sede municipal de Jaguaribara. Em novembro de 1995 foi expedida a ordem de serviço autorizando o início da construção. E. 2009 Lima. – Canudos. P. Para contornar essas dificuldades foi constituído um colegiado que funcionou como um parlamento. com 3. Nesse aspecto foi importante a transferência de áreas dos municípios vizinhos de Alto Santo. H. – La Guerra del Fin del Mundo – Seix Barral. incluindo a seleção do local de cada nova moradia. uma Utopia no Sertão – Editora Contexto. – Cocorobó. além do redesenho do município de Jaguaribara que teve cerca de 60% de sua área alagada. As principais decisões do colegiado foram relativas ao estabelecimento de uma tabela para indenizações de propriedades. o projeto da barragem foi concluído e submetido a intensas e extensas discussões para a obtenção do licenciamento ambiental. A descrença e a desconfiança permaneciam na população local e os opositores mantinham todas as ações possíveis para evitar que a obra fosse iniciada. M. 2009 Paulino. Histórico sobre a Construção do Açude. 2009 Sola J. 2007 Departamento Nacional de Obras Contra as Secas – Barragens no Nordeste do Brasil.46x109 m³. A barragem é uma longa estrutura de terra compactada com um trecho em concreto compactado com rolo. nos anos noventa. A. Morada Nova e Jaguaretama para o município de Jaguaribara. à seqüência de pagamentos e às prioridades no processo de transferência da população. Oitenta anos após. nona edição. Agradecimento O autor agradece à engenheira Ana Teresa Ponte pelas fotografias e informações. P. Conviver. – Orós. – A Century of Dam Construction in Brazil – Topmost Dams of Brazil. – Castanhão – Conviver. O reservatório na El. o principal impacto foi a necessidade de reassentamento de quinze mil pessoas que eram residentes na área a ser alagada. Conviver.55 m.450 m de extensão e 72 m de altura. 300 páginas de atas de reunião e 360 fitas gravadas. – Os Sertões – Editora Record. 1991 Miguez de Mello. M. V. 1989 Figura 15 – Açude de Castanhão 87 . uma Barragem Projetada para Reacender as Esperanças no Futuro ou Apagar o Passado. 1978 Monteiro. 100 (nível máximo normal de regularização) possui uma área de 325 km² e represa 4. A. As discussões que foram mantidas no colegiado se transformaram em um documento de importância histórica com 6000 páginas de transcrições de debates. O canal de derivação se estende por 256 km com a capacidade adução de 22 m³/s. F.

88 .

foi realizada em pú- blico. É do conhecimento de historiadores o intenso interesse do Imperador pelos desenvolvimentos tecnológicos que na época encontravam ampla divulgação na Escola Central. Cinco anos depois. no coração da cidade do Rio de Janeiro. Vista do canal de adução para a casa de força. Nessa época o Brasil vivia no segundo reinado sob um imperador extremamente interessado em todos os domínios da cultura. certamente não poderiam imaginar a dependência que a sociedade viria a ter da eletricidade nos dias atuais. em 1862. no Rio de Janeiro. demonstrando que a eletricidade poderia trazer benefícios inestimáveis à sociedade. por ocasião da viagem de Dom Pedro II a Minas Gerais. Essa foi a primeira instalação de iluminação elétrica de caráter permanente que foi instalada no País. por ocasião de uma homenagem ao Imperador Dom Pedro II no prédio da Escola Central. fez acender uma lâmpada com energia proveniente de um dínamo acionado pelos detentos da cadeia local. em Nova York. ocorreu na Praça da Proclamação.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Resumo da História Remota da Hidroeletricidade no Brasil Flavio Miguez de Mello Os primeiros tempos . pela primeira vez no País. Os que presenciaram a experiência. na época sob a direção de Francisco Pereira Passos. atualmente Praça da República. hoje Praça Tiradentes. A primeira instalação no País de iluminação com base em energia elétrica em área externa foi efetivada em 1881 no Jardim do Campo da Aclamação. prédio da UFRJ hoje tombado pelo seu valor histórico e conhecido como Alma Mater da Engenharia Brasileira. da ciência e da tecnologia. No ano de 1857. A Escola Central era situada no Largo de São Francisco de Paula. Não raro Dom Pedro II freqüentava eventos técnicos na Faculdade de Medicina e na Escola Central. Em 1879 foi efetuado o primeiro emprego comercial do dínamo pela Edison Electric Light Co. por ocasião da inauguração da estátua eqüestre de Dom Pedro I. 89 . de onde despachava com sua equipe de governo. uma experiência de geração e utilização de energia elétrica que se tem notícia em território nacional. embora surpresos. próxima ao prédio da Escola Central. Nesse mesmo ano. uma nova demonstração pública de iluminação baseada em energia elétrica. Em 1881. Dom Pedro II concedeu a Thomas Alva Edison a concessão para introduzir no Brasil os equipamentos de sua revolucionária invenção e inaugurou a iluminação elétrica da estação da Estrada de Ferro Pedro II. o Imperador chegava a ocupar a sala frontal do segundo pavimento (na época o prédio era de dois pavimentos). A energia gerada foi utilizada para acender uma lâmpada. até hoje conhecida como a sala do trono. Usina hidroelétrica de Tombos em Minas Gerais. Por ocasião de eventos no prédio. esta precursora das atuais Academia Militar das Agulhas Negras e Escola Politécnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ. atual estação ferroviária situada na Avenida Presidente Vargas. o diretor Claude Henry Gorceix da Escola de Minas e Metalurgia de Ouro Preto.Século XIX Recuamos à distante época dos meados do Século XIX quando não havia ainda exploração econômica de energia elétrica no mundo. no Rio de Janeiro.

através de 16 lâmpadas de arco voltáico supridas por dois dínamos acionados por um locomóvel. Rio Grande do Sul. à iluminação das residências do acampamento da empresa. uma usina termoelétrica dotada de três dínamos. o Professor Armand de Bovet. com 2 km de extensão (a transmissão da primeira usina de Niagara Falls tinha 1. Minas Gerais. na zona urbana da cidade de Piracicaba. instalou no ribeirão do Inferno. A energia era destinada às atividades de mineração. sendo a primeira verificada nas noites de 10 e 11 de junho de 1901. Em 1887 foi instalada uma pequena usina termoelétrica no Largo de São Francisco de Paula. no município de Diamantina. pioneira de um desenvolvimento impar no século seguinte. A adução era feita por um desvio no 90 . acionadas por uma roda d’água de madeira com 3. Nessa data foi colocada em operação no rio Paraibuna. A barragem. este devido a Mariano Procópio que obteve do governo imperial concessão para construir e explorar a rodovia inicialmente utilizada por viaturas de tração animal. São Paulo. posteriormente. através de 10 lâmpadas de arco voltaico de 2000 velas cada. No dia 24 de junho de 1883. no Rio de Janeiro. de propriedade da Companhia Força e Luz. Dom Pedro II acionou a ligação de 60 lâmpadas da Edison Electric Co. atual município de Nova Lima.Séculos XIX.25 m de diâmetro. na bacia hidrográfica do rio Jequitinhonha. Entretanto. Ao longo de todo Século XIX a iluminação não sofreu sequer uma paralisação noturna. No dia 7 de setembro de 1889 teve início o emprego da hidroeletricidade para serviço público no País pela iniciativa de Bernardo Mascarenhas. na Exposição Industrial que foi instalada no edifício do Paço. a empresa Real & Portella colocava em funcionamento a iluminação pública da cidade de Rio Claro no Estado de São Paulo. A usina. Dom Pedro II inaugurou. a usina hidroelétrica Marmelos com 252 kW de capacidade em duas unidades geradoras acionadas por duas rodas d’água. localizada em Honório Bicalho. Essa foi a primeira usina hidroelétrica no Brasil. Em 1887 a empresa Companhia Fiat Lux iniciou um serviço de iluminação pública em Porto Alegre. após pouco tempo. industrial estabelecido em Juiz de Fora. XX e XXI pela Diretoria Geral dos Telégrafos. A usina dispunha de uma barragem que criava uma queda de cerca de 5 m. no Rio de Janeiro. da Escola de Minas e Metalurgia de Ouro Preto. contratado na Europa diretamente pelo governo imperial como um dos docentes para aquela Escola. A transmissão era a mais longa do mundo na época. era um maciço de enrocamento impermeabilizado na face de montante por uma laje de madeira composta de pranchas aparelhadas. Ainda em 1887.A História das Barragens no Brasil . passou a ser utilizada também em iluminação. com energia elétrica gerada por uma termoelétrica com capacidade instalada de 160 kW. casa de força abrigando duas máquinas Gramme de 8 CV cada. Em 1893 era colocada em operação a hidroelétrica Luiz Queiroz no rio Piracicaba. hoje substituída por uma estrutura de concreto gravidade. sendo hoje um pequeno museu mantido pela CEMIG à beira da rodovia União Indústria. gerando em corrente contínua. em Campos dos Goytacazes. na atual Praça 15 de Novembro.5 km). com 1500 rpm. a mais antiga usina hidroelétrica do País e uma das mais antigas do mundo. A iluminação pública contava com 39 lâmpadas de 2000 velas cada. A energia gerada movimentava duas bombas de desmonte a jato d’água para exploração de diamante e. iluminação e esgotamento de água nos túneis da mina de ouro e. de propriedade da Compagnie des Mines d’Or du Faria. não chegando a durar um ano sequer. aproveitava uma queda de cerca de 40 m acionando uma roda d’água de 20 pás que movimentava dois dínamos Gramme com potência total de 500 CV. Essa usina manteve uma centena de lâmpadas na região central da cidade com energia produzida por um dínamo de 50 CV. com capacidade total de 52 kW. Não havia barragem. então ocupado pelo Ministério da Viação. Também em 1887 entrou em operação a usina hidroelétrica do ribeirão dos Macacos. Minas Gerais. a operação dessa usina teve vida efêmera. No dia 15 de novembro de 1884. outro marco histórico do progresso nacional. Em 1883. A usina encontra-se desativada há décadas.

Rio Claro. Juiz de Fora. Nessa época estavam sendo iniciadas várias atividades de implantação de novos serviços de energia elétrica principalmente no Rio de Janeiro. independente da nacionalidade. Essa concessão da São Paulo Railway Light and Power Co.7 MW. uma no ribeirão Claro e outra no rio Corumbataí. Destes últimos. São Paulo. no Paraná (1892). formada em Toronto. por parte do poder público. propiciou a vinda do principal executivo Frederick Pearson que trouxe o advogado e empreendedor 91 . Campos dos Goytacazes. uma das mais extensas do mundo na época. Com uma atividade de exploração puramente extrativista dos recursos florestais com base em desmatamento da Mata Atlântica de forma dispersa e sem registros oficiais. no Rio Grande do Sul (1887). por governos estaduais e mesmo por governos municipais. situada não muito afastada do extenso litoral nacional e servida por uma rede ferroviária de 14.88 MW. em Alagoas (1895) e Estância. em São Paulo e em Minas Gerais por empreendedores nacionais e estrangeiros. as concessões de serviços de energia elétrica eram dadas pelo governo central. pela ordem cronológica. em São Paulo (1884). para serviços públicos e exploração de recursos naturais. Ltd. tinham seus pequenos reservatórios unidos por um túnel escavado em rocha. Canadá.000 km. A casa de força abriga quatro unidades de potências e procedências diversas somando 2. em Sergipe (1900). A primeira concessão do grupo foi dada pela Câmara Municipal de São Paulo para serviços de transporte urbano em veículos movidos a eletricidade. não se desenvolvia a mineração de carvão e nem se considerava possibilidades da existência de reservas de petróleo. Até a virada do Século XIX para o Século XX as primeiras cidades por unidades da Federação que tiveram serviços públicos contínuos de força e luz foram. Figura 1 – Usina hidroelétrica de Marmelos O início do Século XX (até 1913) Na virada do Século XIX para o Século XX a população brasileira de 17 milhões de habitantes era predominantemente rural. destaque é devido ao grupo que se tornou a São Paulo Light e a Rio Light. O ambiente político era favorável a concessão a empresas privadas. Curitiba. no município de Rio Claro. no Rio de Janeiro (1883). Porto Alegre. A casa de força abriga duas unidades de capacidades distintas que somam 1. Maceió. Como não havia legislação específica. Em 1895 entrou em operação a hidroelétrica de Corumbataí.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens curso do rio próximo à sua margem esquerda. Duas barragens.. preocupações com o suprimento de energia. em Minas Gerais (1889). A abundância de lenha e a aparente ausência de reivindicações populares para universalização dos serviços de eletricidade faziam com que não houvesse. A energia representava pouco na economia nacional retratada pelas importações de carvão e de querosene que atingiam a apenas 6% e 2% do total das importações do País.

na quase totalidade. sendo ampliada para 24 MW em 1909. instalada pela Light em 1905 com a finalidade de proporcionar iluminação pública e residencial bem como tração para os bondes da capital federal. Nos últimos anos do Século XIX foram iniciadas as obras da primeira usina hidroelétrica da empresa no Brasil. a implantação das hidroelétricas de Piabanha. A segunda hidroelétrica instalada no estado foi Piabanha. a jusante da cidade de São Paulo. as hidroelétricas eram em geral de portes muito modestos e tinham casas de força em posição remota em relação às barragens. tendo sido instaladas por prefeituras ou por pequenos empresários para atendi­ mento às demandas das suas fábricas. Em 1908 a usina já tinha 12 MW instalados. Hans e Coronel Fagundes. No Estado do Rio de Janeiro nesse início do Século XX destacamse. XX e XXI Figura 2 Barragem e Reservatório de Lajes canadense Alexander Mackenzie e os engenheiros Hugh Cooper e Robert Brown. construída no rio Piabanha pelos Guinle em 1908.000 kW instalados. a de Lajes. Com esse perfil de consumo e com os elevados custos da época em que todos os equipamentos eram importados. tornando-se uma das maiores hidroelétricas do mundo. Desta maneira surgiram os primeiros concessionários privados nacionais de energia elétrica nas regiões Sul e Sudeste. hoje Edgard de Souza. A barragem é uma soleira vertedoura de gravidade em pedra arga- 92 . com vertedouro de lâmina livre em sua crista. A empresa passou a operar no País ao abrigo da autorização concedida em 1895 pelo presidente Campos Sales. Essa usina foi sucessivamente ampliada até atingir 16 MW instalados. A quase totalidade delas e suas áreas de concessão foram sendo incorporadas por empresas maiores. Seu objetivo inicial era atender às necessidades da rede de transportes urbanos e iluminação da cidade de São Paulo. no rio Tietê. denominada na época Parnaíba. que teria inicialmente 2.Séculos XIX. A barragem era em arco-gravidade situada no alto Ribeirão Das Lajes. As hidroelétricas que eram instaladas no início do Século XX eram destinadas a suprir de energia elétrica centros isolados.A História das Barragens no Brasil . o excesso de energia era destinado à iluminação pública e domiciliar. Nesses casos. No Rio de Janeiro a primeira hidroelétrica foi Fontes. tendo sido. desativadas anos depois.

Casa de Força de Fontes 93 . município de Friburgo com o objetivo de suprir a fábrica de linhas de energia. Nessa obra trabalhou o engenheiro Flavio Lyra. município de Paraíba do Sul. em Muri.7 m. A barragem é em gravidade de pedra argamassada e concreto. campo de conhecimento em que se tornaria uma das mais altas expressões mundiais a partir da segunda metade do Século XX. Em 1911 os Arp instalaram a hidroelétrica de Hans no ribeirão Santo Antônio. Figura 3 . A casa de força abriga duas unidades Francis duplas gêmeas de 3 MW cada. muito próxima à hidroelétrica de Piabanha. com altura de 13 m e 80 m de extensão. tendo assumido em seguida a concessão de serviço público do município.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens massada com 25 m de extensão e altura de 6. pai do então menino Flavio Henrique Lyra que brincava no canteiro de obra e já se familiarizava com barragens e hidroelétricas. A barragem é em concreto gravidade com soleira vertente livre e a casa de força abriga uma unidade Francis horizontal de 294 kW. Em 1912 os Guinle implantaram a hidroelétrica de Coronel Fagundes no rio Fagundes.

Com capacidade de 510 kW. A hidroelétrica de Maurício foi implantada em 1908 no rio Novo. município de Leopoldina pela Cia. Alfredo do Paço. assessorado pelos engenheiros Pedro Leivas. Os contrafortes em primeiro plano são reforços recentes Nos 30 m centrais a barragem é vertedoura em crista livre. A barragem com 6 m de altura era vertedoura com crista livre situada na crista da cachoeira da Fumaça. Em 1911 foi inaugurada a hidroelétrica de Pitangui para suprir de energia elétrica a cidade de Ponta Grossa.3 MW. Osvaldo Lynch e Henrique Fox Drumond. No início do Século XX em Minas Gerais destacam-se as hidroelétricas de Maurício e Tombos.Barragem de Coronel Fagundes 94 . instalada por ingleses em 1910 na vertente da Serra do Mar em Paranaguá.Barragem de Piabanha. município de Tombos. Força e Luz Cataguazes-Leopoldina. para o Departamento de Águas e Energia Elétrica e para a COPEL. A construção foi supervisionada pelo engenheiro Otávio Carneiro. Em 1912 foi instalada a usina hidroelétrica de Tombos no rio Carangola. No estado do Paraná há referência à hidroelétrica Serra da Prata. XX e XXI A barragem. A potência instalada era de 1.88 MW instalados.A História das Barragens no Brasil . para a prefeitura de Paranaguá. A casa de força abriga duas unidades Francis de eixo horizontal de 2. constituindo-se em vertedouro de soleira livre. sendo desativada em 1970.4 MW cada. Figura 5 . situada na crista da cachoeira de Tombos. Figura 4 . a hidroelétrica passou em 1932 da Cia Melhoramentos Urbanos de Paranaguá para a Cia Melhoramentos Paulistas. A casa de força abriga dois grupos geradores num total de 2. é em concreto gravidade de pequena altura.Séculos XIX.

A barragem é uma soleira vertedoura de altura apenas suficiente para promover a derivação de parte das descargas para a tomada d’água que conduz as águas captadas para as turbinas que são alojadas em casa de força abrigada na margem direita. mas sempre ficando com potências inferiores a 6 MW. San Juan. foi construída no município de Dois Irmãos tendo sua usina a capacidade de 200 kW. O destaque dentre essas usinas é Itatinga. Salto Pinhal e Bocaina foram desativadas nos anos oitenta e noventa do século passado. em alvenaria de pedra. Itatinga. envolvida por densa floresta da Mata Atlântica. A barragem Inglês com 4 m de altura e 55 m de extensão. As turbinas de fabricação J. a metade Figura 6 . em alvenaria de pedra e concreto ciclópico foi implantada no município de Cruz Alta tendo sua casa de força a potência instalada de 268 kW e a barragem Picada 48. Rio Novo e Monjolinho. com apenas 2. Capitão Preto. São Valentim e Marmelos II em 1910. Marmelos II. A maioria dessas usinas tinha menos do que 1000 kW instalados em sua primeira etapa. Esmeril.5 m de comprimento. Turvinho Batista e Sodré. as usinas de Socorro. São Joaquim e Brotas. Boa Vista e Quilombo.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens O Estado de São Paulo se destaca nos primeiros anos do Século XX por um expressivo números de pequenas hidroelétricas como as usinas de Santa Alice que começou a operar a partir de 1907. com cinco unidades Pelton com potência nominal de 3 MW cada sob 640 m de queda br uta. em 1909. Voith são Francis gêmeas de eixo vertical com potência de 1470 kW cada sob a queda nominal de 10. as hidroelétricas de Monjolinho. em 1912. em 1911.M. 10 MW de potência efetiva.4 m³/s. As barragens dessas usinas eram de altura modesta.Barragem vertedoura e canal de adução de Tombos Em Santa Catarina. entrou em operação em 1913 a primeira unidade da hidroelétrica de Salto Weissbach no rio Itajaí Açú. Salto Grande. A usina encontra-se implantada na vertente oceânica da Serra do Mar. Macaco Branco. no município de Figura 7 – Usina hidroelétrica de São Valentim 95 . poucas com contrafortes localizados. sendo soleiras livres implantadas nos leitos dos rios. em geral de gravidade em alvenaria de pedra. Gavião Peixoto. Chibarro.7 m de altura e 41. Votorantim. Bocaina. para suprimento de Blumenau. Desse conjunto de usinas pioneiras.5m com engolimento de 19. em 1913. A maioria dos vertedouros era sem controle. Salto Pinhal. No estado do Rio Grande do Sul as primeiras barragens que se tem notícia para produção de energia elétrica foram construídas a partir de 1911 e entraram em operação em 1912. delas tive ampliações de capacidade instalada em etapas posteriores. mas apresentando no conjunto.

Séculos XIX. XX e XXI Figura 8 – Usina hidroelétrica de Brotas Figura 9 – Usina hidroelétrica de Gavião Peixoto Figura 10 – Usina hidroelétrica de Boa Vista 96 .A História das Barragens no Brasil .

. – Pequenas Centrais Hidrelétricas no Estado de São Paulo – Comissão de Serviços Públicos de Energia. Miguez de Mello. tendo passado de 306 em 1920 para 1009 em 1930. Memória da Eletricidade . – A Century of Dam Construction in Brazil – Comitê Brasileiro de Grandes Barragens.A. construída por Delmiro Gouveia na margem alagoana da cachoeira de Paulo Afonso. – A Energia do Brasil.A. Essas pequenas hidroelétricas aproveitando quedas d’água naturais e operando seus reservatórios a fio d’água. Figura 11 – Usina hidroelétrica de Angiquinho 97 . tiveram expressivo desenvolvimento nos primeiros anos do Século XX.A. O conjunto arquitetônico da casa de força é majestoso. hoje Delmiro Gouveia. 2000. A.Sinopse Histórica da Eletricidade no Brasil. feito por via férrea a partir da margem direita do rio Itapanhau. A casa de força foi implantada no trecho médio da escarpa granítica da margem esquerda do salto principal. A energia produzida era direcionada para a fábrica de linhas e para a vila residencial na localidade de Pedra. F. . sendo o acesso o mesmo utilizado desde o início das obras em 1890.Reflexos da Cidade. Referências Dias Leite. M. 1976. F. F. com 1. A. A usina foi implantada com o objetivo principal de suprir o porto de Santos de energia elétrica. – Pequenas Centrais Hidrelétricas no Estado de São Paulo Governo do Estado de São Paulo. 2009. 1979. Saveli. Comitê Brasileiro de Barragens.1 MW instalados. O reservatório é formado por duas barragens de alvenaria de pedra argamassada com vertedouro de soleira livre. 1997.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Bertioga. SP. A. – Brazilian Development in Engineering for Dams – Comitê Brasileiro de Grandes Barragens. – The Development of the Brazilian Dam Engineering . C. Miguez de Mello. 1982. Ee Amaral C.Main Brazilian Dams III. próximo à rodovia BR-101. A. Prado Junior F. F. 1999. 2000 Prado Jr. Miguez de Mello. Em 1913 entra em operação a primeira hidroelétrica do Nordeste Angiquinho. e Amaral.

98 98 .

nesse período. Em 1881. na cidade de Diamantina. afluente do rio Jequitinhonha. foi a Usina Hidroelétrica Marmelos no rio Paraibuna. em 1879. hoje Marmelos-Zero. Pedro II inaugurou. na Estação Central da Estrada de Ferro D. a construção de unidades de produção de energia hidroelétrica visando a autoprodução. Essa história iniciou-se no final do século XIX. o primeiro serviço público municipal de iluminação elétrica do Brasil e da América do Sul. A usina de Marmelos. Posteriormente mais algumas usinas entram em operação. Neste mesmo ano Thomas Alva Edison havia construído a primeira central elétrica para utilização na iluminação pública na cidade de Nova Iorque. A energia era fornecida por uma usina termoelétrica.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Usina Hidroelétrica de Marmelos Adelaide Linhares de Carvalho Carim Introdução O Brasil foi um dos pioneiros na exploração da energia elétrica. em trecho da atual Praça da República.Primeira Usina Hidroelétrica da América do Sul destinada à produção de energia para utilidade pública foi desativada cento e quatro anos mais tarde em 1987. ambas em Minas Gerais e a Usina Termoelétrica Velha Porto Alegre. Pedro II. localizada no Ribeirão do Inferno.“Marmelos Zero” . atual Estrada de Ferro Central do Brasil no Rio de Janeiro. o interesse pela nova fonte de energia intensificouse. entrou em operação em 99 . Em 1883 o imperador Dom D. a Usina Hidroelétrica Ribeirão dos Macacos. destinada à produção de energia para utilidade pública. às margens da estrada União e Indústria. no Rio Grande do Sul. na cidade de Juiz de Fora (MG). em 1885 a Usina Hidroelétrica da Companhia Fiação e Tecidos São Silvestre. foi instalada pela Diretoria Geral dos Telégrafos a primeira iluminação externa pública do país. destinada à extração de minério na região. quando Dom Pedro II inaugura. na cidade de Campos (RJ). a primeira instalação de iluminação elétrica permanente do país. Em Minas Gerais. em substituição aos 46 bicos de gás existentes. Empresas de mineração e fábricas têxteis promoveram. No ano de 1883 entrou em operação a primeira usina hidroelétrica no país. em 1887. no município de Viçosa. na cidade do Rio de Janeiro. em 1887. Esta usina Figura 1 . Mas a primeira hidroelétrica de maior porte construída na América do Sul.

Diamantina e tantas outras). como Matias Barbosa.Barbacena e outras. A Companhia Mineira de Eletricidade foi de extrema importância para a industrialização de Juiz de Fora. Dom Pedro II e representantes ilustres da Corte e da Companhia União Indústria percorreram em diligência os 144 quilômetros da primeira rodovia macadamizada brasileira.A História das Barragens no Brasil . Neste ano. Bernardo Mascarenhas foi o responsável pela instalação de Marmelos. até a principal região mineradora (Vila Rica. havia grandes fazendas de café que eram as bases da economia local. construída pelo engenheiro Mariano Procópio Ferreira Lage e pela Companhia União Indústria. Por meio deste caminho que efetivamente a história de Juiz de Fora se inicia.Séculos XIX. entre as cidades de Petrópolis e Juiz de Fora. Juiz de Fora prosperou grandemente devido à cafeicultura. Mariana. XX e XXI 5 de setembro de 1889. Sua inauguração trouxe a mão de obra qualificada dos imigrantes alemães.Juiz de Fora em 1875 100 . marco zero da energia hidroelétrica no Brasil. Ao longo deste caminho. às margens do Paraibuna. dois meses antes da proclamação da república e apenas 7 anos depois da hidroelétrica de Appleton em Wisconsin na America do Norte. em 1861. novos investimentos foram trazidos para a cidade. que começou a ser escrito quando o bandeirante Garcia Dias Paes traçou o chamado Caminho Novo que passava pela margem do Rio Paraibuna. e fundador da já extinta CME . com a inserção de A cidade de Juiz de Fora no final do século XIX A inauguração da usina de Marmelos veio se somar ao pioneirismo desta cidade. que iniciaram o processo industrial da cidade. foram erguidos pequenos povoados. Sabará. como a Rodovia União Indústria. para ligar o porto do Rio de Janeiro Figura 2 . Santo Antônio do Paraibuna . por iniciativa do industrial Bernardo Mascarenhas.Companhia Mineira de Eletricidade em 1888.que em 1965 se tornava Juiz de Fora . Com a cafeicultura. Estes eram locais de descanso dos tropeiros que passavam pela região.

Mais tarde vieram os italianos e com eles ampliaram outros setores como o comércio e a prestação de serviços. fórum e jornais.Guia do Viajante de Petrópolis a Juiz de Fora”. tendo sido substituída como ligação rodoviária entre Petrópolis e Juiz de Fora pela BR-040. fotógrafo do imperador. A cidade de Juiz de Fora se iluminava para o mundo. Barão de Rio Branco -1903 101 . Em 1888 Juiz de Fora ganhava a Companhia Têxtil Bernardo Mascarenhas e o Banco de Crédito Real.Panorâmica de Juiz de Fora – 1893 usina hidroelétrica para iluminação pública da América do Sul. A estrada deu origem também ao primeiro guia de viagens do Brasil. Em 1878 funcionavam seis estabelecimentos de ensino. Posteriormente.Av. As figuras a seguir mostram Juiz de Fora em 1893 e a Av. Todos estes empreendimentos foram realizados por iniciativa do industrial Bernardo Mascarenhas. e em 1889 a primeira Figura 3 . que ficava neste momento no Rio de Janeiro. Em 1980 os serviços urbanos foram ampliados com bondes de tração animal. promoveu a comunicação entre a cidade e a corte. A Estrada União Indústria existe até hoje em vários e extensos trechos. telefones urbanos. Outro beneficio da estrada foi a melhoria no escoamento da produção cafeeira da Zona da Mata Mineira até o Rio de Janeiro. a construção da ferrovia Dom Pedro II em 1875. e intitulado “Doze Horas em Diligência . Figura 4 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens algumas fábricas. e em 1884. antes mesmo até que algumas importantes cidades européias. em 1881 ganhava telégrafo. o telégrafo. escrito pelo alemão Revert Henrique Klumb. em 1883. Barão de Rio Branco em 1903 ambas pertencentes ao acervo do Museu Mariano Procópio.

Para aprender sobre tecelagem. considerado à época.Séculos XIX. viaja para a Europa e Estados Unidos com a incumbência de atualizar-se. dinheiro para iniciar a vida como criador de gado e comércio de sal. mecânica. visitou fábricas.A História das Barragens no Brasil . privada no país. Neste período estudou idiomas. viajou para os Estados Unidos onde ficou por 1 ano e meio. É criada então em Curvelo a companhia Cachoeira (1877). Com 18 anos.Bernardo Mascarenhas Aos 12 anos iniciou seus estudos no colégio Caraça. XX e XXI Figura 5 . constituindo a primeira S. adquiriu os maquinários desejados e voltou para o Brasil e. física. Figura 6 . convida dois irmãos para montarem em sociedade uma indústria têxtil. A partir da experiência adquirida com os teares de madeira. tocados a mão na fazenda de seu pai. no ano de 1872 em Sete Lagoas. Bernardo Mascarenhas Bernardo Mascarenhas nasceu em 1846. utilizando as mais novas tecnologias da época. região de Curvelo. Em 1882 foi aprovada a lei das sociedades anônimas no Brasil e em 1883 fez-se a fusão das empresas (Cedro e Cachoeira). recebeu de seu pai 26 contos de reis. adquirir novos equipamentos e conhecer a utilização da eletricidade na indústria textil. na fazenda São Sebastião. um dos melhores de Minas Gerais. inaugurou as instalações da fábrica têxtil da companhia Cerdo. é o décimo filho dentre os 13 filhos do casal. Alguns anos mais tarde.A. filho de Antônio Gonçalves da Silva Mascarenhas e de Policena Moreira da Silva Mascarenhas.Companhia Têxtil Bernardo Mascarenhas inaugurada em maio de 1888 102 . como fazia com os demais filhos ao completar esta idade.

Esboço da hidroelétrica Marmelos Zero por Bernardo Mascarenhas 103 . inaugurada em maio de 1888. em substituição à iluminação a gás. foi realizada a primeira experiência com a eletricidade e em 5 de setembro de 1889 ocorreu a inauguração oficial. tendo em vista o uso da iluminação elétrica.. Doou este terreno para a CME Companhia Mineira de Eletricidade. local mais propício para o escoamento da produção de tecidos. No dia 22 de agosto de 1889. que se localizava próximo à cachoeira de Marmelos. encomendando o material para a usina) Figura 7 . devendo ter força bastante para alimentar 50 lâmpadas de arco de 1000 velas e quinhentas ditas incandescentes de 16 velas. A antiga Companhia Têxtil Bernardo Mascarenhas apresenta rigorosa simetria com um corpo central em três pavimentos e ladeado por suas extensas alas horizontais em dois pavimentos. mais tarde. no Brasil ou talvez na América do Sul” (trecho da carta de Mascarenhas em 1887). aproveitando os recursos naturais de seu terreno.” (Trecho de memorial de Bernardo Mascarenhas para Max Nothman & Co. Neste local. A CME foi a responsável pela construção da usina de Marmelos Zero e foi presidida por Mascarenhas até seu falecimento. Mascarenhas e o banqueiro Francisco Batista de Oliveira recebem aprovação junto à câmara municipal para explorar a Cachoeira dos Marmelos para produção elétrica e a concessão para a iluminação da cidade e obteve a revisão do contrato original. seria erguida a primeira usina hidroelétrica da América do Sul. “A fábrica de eletricidade será provida de dois excelentes dínamos movidos por duas turbinas verticais ou de eixos horizontais. Em 1886. O empresário adquiriu outro terreno perto da estação ferroviária. “Me considerarei muito feliz se for o primeiro a transmitir força elétrica.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Bernardo Mascarenhas mudou-se para Juiz de Fora em 1886 e adquiriu o terreno próximo do Rio Paraibuna e da Rodovia União Indústria. Bernardo Mascarenhas buscava outras fontes de energia em substituição à energia usada que até então era à base de querosene. Bernardo Mascarenhas projetou e especificou a usina. praticamente utilizável. A nova usina além de atender à iluminação pública da cidade atenderia as máquinas da Companhia Têxtil Bernardo Mascarenhas. fazendo um esboço de próprio punho de como ela seria. Bernardo Mascarenhas faleceu no dia 9 de outubro de 1899 de um ataque cardíaco fulminante. onde pretendia montar uma indústria de tecidos. também fundada por ele em janeiro de 1888.

gabro e outras rochas básicas e ultrabásicas. em dois pavimentos. planos de fraqueza e a típica esfoliação esferoidal que se interceptam originando blocos de rocha sã de dimensões variadas. A edificação. quando ocorreu a inauguração do motor elétrico. lembra a arquitetura medieval . Mineira de Eletricidade. Figura 8 . quartzito e entrecortados por diques de anfibolito.Séculos XIX. de cor amarelada com alto grau de erodibilidade. como será descrito em seguida.Edifício da Cia. denominado “Castelinho”. foi construído em 1890. Mineira de Eletricidade. O edifício da Cia. gnáissicas.Usina de Marmelos . o relevo nas proximidades das usinas caracteriza-se por altas colinas de topos arredondados. Este complexo charnockítico acha-se intercalado por faixas com espessuras variádas de granulitos. migmatito. foram montadas outras usinas no mesmo local para atender inteiramente à crescente demanda de consumo. O solo residual é constituído de areia siltosa. denominado “Castelinho”. As rochas charnockíticas são gnaisses que sofreram desidratação e descalcinação durante metamorfismo de alta temperatura e pressão média a alta (fácies granulito). 104 . Nas ombreiras e encostas da barragem é comum um manto de solo de 5 a 10 m de espessura. As rochas do complexo charnockítico e do embasamento cristalino possuem sistemas de fraturas.Primeira usina hidroelétrica da América do Sul destinada à produção de energia para utilidade pública e força motriz para indústria Posteriormente.A História das Barragens no Brasil . que iria ser colocado na fábrica Bernardo Mascarenhas como força propulsora. De modo geral. ambos de idade Pré-Cambriana. Figuras 9 e 10 . granulitos e anfibolitos do Complexo Juiz de Fora e parte do embasamento Pré-Cambriano indiferenciado. vertentes concavo-convexo e drenagem dentrítica. disseminados no manto intemperizado ao longo das encostas e principalmente soltos no leito do rio Paraibuna. XX e XXI Descrição geral da usina Geologia A geologia ao longo do rio e suas margens é constituída por afloramentos de rochas charnockíticas.

Esta unidade geradora era composta por uma turbina tipo Francis dupla. ampliou-se a potência da usina de Marmelos 2 com a instalação da terceira e quarta unidades geradoras. Outro motor elétrico de 20 HP. última usina construída pela CME. tornando-se concessionária dos serviços de eletricidade de Matias Barbosa. foi adquirido na ocasião pela fir ma Pantaleone Arcuri & Timponi. Em 1905 foi instalada a terceira unidade com capacidade de 300 kW. fabricados pela Westinghouse. a cidade de Juiz de Fora passou a viver um intenso desen­ volvimento industrial o que demandava aumento na oferta de energia. tem como coordenadas geográficas Latitude 21º 43’ Sul e Longitude 43° 19’ Oeste. fabricadas pela alemã J. pois a maioria das indústrias têxteis era movida a vapor com complicados sistemas de transmissão para as máquinas e muitas ainda eram acionadas por rodas d’água. A usina de Marmelos como é denominada atualmente é composta pelas antigas Usinas 2 e 1-A e passou a ser operada pela CEMIG em 1980. após a inauguração de Marmelos 1. na frequência de 60 Hz. fabricados pela empresa americana General Electric e turbinas tipo Francis de 1000 HP. As figuras a seguir ilustram os equipamentos eletromecânicos da usina de Marmelos. A usina foi projetada inicialmente com uma capacidade de geração de 250 kW distribuída em dois grupos geradores monofásicos de 125 kW. foi desativada em 1896. 105 . Um terceiro grupo gerador com a capacidade de 125 kW foi instalado em 1892. Marmelos 2 passou então a dispor de capacidade instalada de 4. Nesta época. afluente do rio Paraíba do Sul a 7 km de Juiz de Fora e a 290 km de Belo Horizonte MG. Com o aumento da geração a CME ampliou sua área de influência na Zona da Mata Mineira. Em 1948. quando obteve a sua concessão através do decreto MME 700725 de 08/07/80. Marmelos atinge a potência de 1200 kW com a entrada em operação da quarta máquina de fabricação da Westinghouse. construída pouco abaixo da usina desativada. a usina de Marmelos 1 foi desativada. no momento em que a CME adquiria a companhia de bondes de tração animal de Juiz de Fora. foi construída a quinta unidade. Bicas e Guarará. Mar de Espanha. dois anos após a construção da usina de Joasal. Marmelos 1 contou inicialmente com duas unidades geradoras bifásicas de 300 kW cada.000 kW. Em 1921 e 1922. instalada em uma casa de força adjacente à Usina 1. Voith. que foi inaugurada inicialmente com dois grupos geradores de 600 kW de potência cada. Em 1910. com capacidade de 1600 kW. quando Juiz de Fora possuia 180 lâmpadas na iluminação pública e 700 para uso particular. visando transformá-la em linhas elétricas. como as demais. O acionamento elétrico dessas fábricas representou à época outro marco histórico. A casa de força foi construída em prédio contíguo ao da usina Marmelos 1. Em 1915 o engenheiro Asdrúbal Teixeiras de Souza projetou a segunda usina Marmelos 2. também em Juiz de Fora. Esta usina. fabricada pela empresa americana James Leffel e um gerador de fabricação da General Electric. com capacidade de 600 kW cada uma com as mesmas características técnicas das duas anteriores. acionadas por turbinas Francis. Em 1952. M. Em 1898.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Localização e dados técnicos históricos A usina hidroelétrica de Marmelos está localizada no rio Paraíbuna. sendo denominada Usina 1-A. a usina iniciou o fornecimento de energia para a fábrica de Mascarenhas após a aquisição do primeiro motor elétrico instalado no Brasil. de fabricação italiana. Este motor de 30 HP de potência era de fabricação da Westinghouse. denominada Usina Zero. operada sob tensão de 1000 Volts.

Interior da casa de força da antiga Usina 2 de Marmelos Figura 12 -Turbina e gerador da unidade 5 da antiga Usina 1 A Figura 13 . XX e XXI Figura 11 .Gerador da unidade 1 a 4 da antiga Usina 2 106 .A História das Barragens no Brasil .Séculos XIX.

Excitatriz nº 2 semelhante a uma unidade geradora hidráulica .Regulador de velocidade da excitatriz Usina 2 Figura 16 . inoperante 107 .Usina 2 Figura 15 .Painel original das unidades 1 a 4 e excitatrizes 1 e 2.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 14 .

localizada na margem direita.5m). com capacidade de 58 m³/s. Barragem e vertedouro A barragem é do tipo gravidade. A tomada de água do túnel adutor. e por um trecho. com um trecho em crista livre vertente com comprimento de 20 m e vazão de 134 m³/s. é composto por um túnel escavado em rocha. vencendo um desnível de 51 m entre o nível máximo do reservatório e o eixo das tubulações forçadas na entrada das turbinas. é uma estrutura em alvenaria de pedra possuindo uma comporta moto- 108 . localizado na margem direita. O arranjo da barragem partindo da ombreira esquerda para a direita se constitui por uma descarga de fundo de acionamento motorizado (2. onde estão localizadas a antiga tomada de água para o canal de adução da usina Zero e a tomada de água do túnel de adução da usina de Marmelos. Possui uma descarga de fundo motorizada (2. de alvenaria de pedra. XX e XXI Figura 17 – Vista aérea de montante da usina adução e duas tubulações forçadas que conduzem a água até as unidades geradoras.A História das Barragens no Brasil .5 x 2.5 m). Tomada de água Arranjo geral atual A barragem para a formação do reservatório operado a fio d’água é constituida por uma estrutura do tipo gravidade em alvenaria de pedra com 51 m de extensão e altura máxima de 7. seguida por um vertedouro de crista livre com 20 m de comprimento.5 x 2.Vista de jusante da barragem e do descarregador de fundo na margem esquerda. fundada em rocha sã pouco fraturada.Séculos XIX.5 m. seguido por um canal de Figura 18 .5 m de altura divididos em 10 vãos ao longo de todo o comprimento da estrutura. também em alvenaria de pedra. Sobre o vertedouro existe uma passarela que possibilita a colocação de flash-boards de até 2. O circuito hidráulico de geração. que permitem o aumento da capacidade do reservatório em períodos secos. localizada na margem esquerda.

80 m e seção em ferradura com 10 m².40 m de extensão. com área total de 273 m². Marmelos 1A e Marmelos 2) estão localizadas ao longo do rio Pa­ raibuna e foram assentadas em maciços rochosos sãos.40 m. Suas paredes são em alvenaria de tijolos maciços aparentes. e uma terceira comporta para a regularização do nível de água. sobre embasamento de pedra. de eixo horizontal e engolimento de 4. de eixo horizontal e engolimento de 1. operadas manualmente. também em alvenaria de pedra.67 m³/s. abriga quatro unidades geradoras de 600 kW cada e casa de força da antiga Usina 2. Uma pequena torre de seção quadrada e telhado de quatro águas marca a construção. A casa de força de Marmelos Zero foi edificada em nível abaixo da Estrada União e Indústria.30 m e 81. Possui duas comportas na tomada de água. situado sob a rodovia. em alvenaria de pedra. o circuito hidráulico de geração conta com uma câmara de carga em alvenaria de pedra. Hoje é Museu da Usina de Marmelos. sendo vazadas por vãos com vergas em arcos abatidos em seqüência ritmada. abriga uma unidade geradora de 1600 kW. Próximo a essa estrutura existe um descarregador de fundo. Túnel e canal de adução O túnel adutor tem extensão de 215.76 m². O outro bloco. em alvenaria de pedra. O trecho a céu aberto. Na parte direita da estrutura existe um vertedouro complementar. A casa de força da antiga Usina 1. tem seção de 3. na sua margem direita e junto à tomada de água do túnel adutor. que alimenta a unidade geradora nº 5. possui uma área total de 201. O Museu Usina de Marmelos Zero A CEMIG (na época Centrais Elétricas de Minas Gerais) adquiriu a usina em 1980. O trecho coberto. totalmente escavado em rocha e revestido lateralmente com concreto. tem seção em ferradura semelhante à do túnel.9 m³/s. situada na Casa de Força 1-A.20 m.60 x 3. Marmelos 1.40 m são a céu aberto.50 x 4. Na continuação do túnel existe um canal de adução com 283.30 m (tubulação 1) e outra com diâmetro de 1. possui uma comporta de madeira acionada manualmente e muro em alvenaria de pedra. A cobertura de duas águas é recoberta por telhas francesas e tem os beirais ornamentados por lambrequim.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens rizada tipo deslizante (4. 189 m. As turbinas são tipo Francis. uma com diâmetro de 1. que foi a casa de força da Usina 1-A. Casa de força As estruturas da usina de Marmelos (Marmelos Zero. Canal de adução desativado Localizado e incorporado à barragem.20 m) formada por painéis de madeira. A usina de Marmelos Zero se transformou em 109 . Canal de fuga As paredes do canal de fuga das antigas Usina 1-A e Usina 2 são em alvenaria de pedra. em planta. Tubulações forçadas Existem duas linhas de tubulações forçadas partindo da câmara de carga.50 m (tubulação 2). hoje é utilizada como almoxarifado. cujas vazões são absorvidas por um canal de concreto. A casa de força da usina de Marmelos. A turbina é tipo Francis.44 m de comprimento. Câmara de carga Entre o canal de adução e as tubulações forçadas. Na tubulação nº 2 existe uma bifurcação com diâmetro de 1. dos quais 94. é formada por dois blocos distintos: um deles. A Figura 19 a seguir é uma vista geral da usina de Marmelos (casas de força e tubulações forçadas). O comprimento de cada uma delas é de 125.

cuja fabricação era da Westinghouse.Séculos XIX. assim como fotos de Bernardo e sua família e painéis com pequenos textos infor mativos. XX e XXI Desde o ano 2000. por meio do telefone (31) 3229-7606. Figura 20 . próximo ao trevo da cidade de Bicas. mantendo-o aberto diariamente. desta vez. Após a morte de Mascarenhas o prédio passou por Figura 19 – Vista geral das casas de força da usina hidroelétrica de Marmelos: antigas casa de força 1.A História das Barragens no Brasil . a administração do museu está a cargo da Universidade Federal de Juiz de Fora UFJF. Em 2005. De segunda a sexta-feira podem ser agendadas visitas monitoradas por acadêmicos da UFJF. O museu tem como propósito preser var a memória tecnológica e científica da cidade. no bairro Retiro. painel de controle de energia e uma réplica de um gerador utilizado na época. teodolito. Esses tombamentos demonstram a suma relevância de sua preservação como um prédio histórico. assim como destacar a figura importante de Bernardo como sendo o precursor desta idealização e realização deste sonho. livros de ata e contabilidade dos primeiros acionistas da CME. Está aberto das 8:30 h às 17:00 h. além de várias fotografias que mostram a construção da usina. O Museu Usina Marmelos Zero encontra-se localizado às margens da Rodovia União-Indústria. O convênio firmado entre a UFJF e CEMIG (atualmente Companhia Energética de Minas Gerais) tem como meta aprimorar o atendimento ao público que visita o museu. O prédio da fábrica de tecidos de Mascarenhas também se encontra preservado. rascunho da planta da usina. após seu tombamento. pelo Patrimônio Histórico Artístico e Cultural do município de Juiz de Fora. 2 e 1A. neste mesmo ano. tripés de madeira. a usina ganhou um segundo tombamento. concedido pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA).Museu de Marmelos Zero (antiga casa de força Marmelos Zero) 110 . inclusive nos finais de semana e feriados. máquina de escrever e de calcular. contas de luz. 1983 num espaço cultural e museu. O acervo do museu é composto por objetos particulares de Mascarenhas. no qual a cidade de Juiz de Fora foi escolhida para ser a primeira a se iluminar.

Universidade Tecnológica Federal do Paraná Campo Mourão. localizado na Avenida Getúlio Vargas 200.CCBM .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 21 .memoria.Canal de adução desativado 111 . Silvânia Duarte – Educação e Turismo uma Forma de Conhecer a História da Usina de Marmelos – Departamento de Geociências – UFJF.br/juizdefora.com. Cemig Notícia – Mais Energia Para uma Grande Cidade Juiz de Fora .asminasgerais.com.gov.História das Hidrelétricas no Brasil .pjf. Lima.Estudo de Viabilidade de Recapacitação e Modernização .eletrobras. fosse transformado em um centro cultural em 1987. deixando como patrimônio sua sede.org/701437/pt/Usina-Marmelos http://www.1ª Etapa : Diagnóstico da Situação Atual da Instalação . ampliações e modernizações.br/historia-das-hidreletricas-no-brpdf-a91646. 2009.com.Edição Especial Junho de 1980. Fernanda Borges Ferreira Murilo Keith .br Figura 22 .ufjf.Usina de Marmelos .htm www. CEMIG . Umada.html www.html http://www.asp http://www.conotec.ebah. A fábrica encerrou suas atividades em janeiro de 1984. jornalistas e intelectuais fizeram com que o imponente prédio.Centro Cultural Bernardo Mascarenhas Referências CEMIG – Inventário civil – SR/SE Usina Hidrelétrica de Marmelos Relatório Final Novembro 1983.php http://www.portalsaofrancisco.com/index.com.br/alfa/historia-daeletricidade-no-brasil/historia-da-eletricidade-no-brasil-5.mg.br/centrodeciencias/museu-usina-marmelos-zero/ http://wikimapia.Setembro 1993.br/patrimonio/usina_marmelos. 2001 http://www. que foi utilizada para pagamento de dívidas junto ao governo. A mobilização de artistas.

Usina hidroelétrica de Angiquinho na cachoeira de Paulo Afonso em diferentes regimes do rio São Francisco .

localizada na margem alagoana da cachoeira de Paulo Afonso. de 625 kVA. a bomba d’água que abastecia a cidade. Sua energia era suficiente para suprir. atual Delmiro Gouveia em sua homenagem.000 Volts.102 KW). subestação elevadora. com tensão de saída em 3. no estado de Alagoas. um com 11 casas e 1 escola. Angiquinho foi a primeira usina hidroelétrica do Nordeste. e outro com 2 casas. Tinha como objetivo fornecer energia elétrica a indústria têxtil Companhia Agro Fabril Mercantil de propriedade do industrial Delmiro Gouveia. constituída por três grupos geradores sendo o primeiro de 175 kVA. que continua de pé no meio da caatinga. o último. distante aproximadamente 24 km da cachoeira. localizada na cidade de Pedra. as edificações com o acervo interno e externo e toda a área do Complexo de Angiquinho foi tombado e integrado ao Patrimônio Histórico Artístico e Natural do Estado de Alagoas. A usina ocupava uma área de 253 hectares e possuía dois conjuntos de instalações. A partir de 30 de novembro de 2006. no Rio São Francisco. aproveitando uma queda d’água de uma altura de 42 metros. próximo ao atual Complexo Hidrelétrico de Paulo Afonso. O ousado projeto.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Usina Hidroelétrica de Angiquinho Aurélio Alves de Vasconcelos Figura 1 – Vista geral da Usina Hidroelétrica de Angiquinho Introdução Inaugurada em 26 de janeiro de 1913. casa de bomba e escada de acesso à casa de força. almoxarifado. operado pela Chesf.500 HP (1. e também a Vila Operária da fábrica. o segundo de 450 kVA e. além da indústria. A Usina Hidroelétrica de Angiquinho tinha capacidade de gerar 1. com sua casa de força encravada nas rochas 113 .

levou o desenvolvimento para a região que até então só conhecia a luz tênue de candeeiro. Hoje. Angiquinho. além de ser área de preservação cultural.Séculos XIX. é um pólo de turismo histórico. Figura 3 . ambiental e cultural.Guindaste usado na fase de construção e montagem da casa de força 114 . educacional. XX e XXI Figura 2 – Casa de força da Usina Hidroelétrica de Angiquinho íngremes nas margens do cânion do rio São Francisco. Resgata e cria uma grande oportunidade para todos que desejam conhecer a história da eletricidade do Brasil.A História das Barragens no Brasil .

115 . Era descrito como um homem sempre disposto a assumir grandes compromissos. Apesar dessas considerações. Dantas Barreto. Assim. seria instalado um curtume para armazenar peles. com a expressa autorização dos estados fronteiriços ao rio. construir o empreendimento pioneiro no campo da hidroeletricidade em pleno sertão nordestino. em grande escala. cujo objetivo principal era “empreender. onde foi bem recebido pela oligarquia local. Logo. Sabe-se que os estudos contemplaram a viabilidade do aproveitamento hidrelétrico de um trecho do rio. cuja finalidade seria fornecer energia para a fábrica têxtil produtora das linhas Estrela. o referido projeto consistia em abastecer e iluminar cidades da região. com investimentos no comércio exportador de “courinhos” (artigos de pele de bode e cabra) e com amparo financeiro de ricos financiadores norteamericanos. de fato. Essa foi a condição para a participação do capital norte-americano no projeto. além de mover indústrias próximas à cachoeira e a outros planos de irrigação de terras locais. Inicialmente. em virtude do surgimento de condições técnicas e econômicas. quando fixou residência no vilarejo denominado Pedra. Delmiro Gouveia refugiou-se no sertão alagoano. Contudo. ambas da Pedra. restou acertar as condições comerciais. em caráter sigiloso. Moore e sob a supervisão técnica do engenheiro Stewart. Delmiro chegou até a justificar a proposta do projeto de eletrificação Figura 4 . a Usina Angiquinho. chefiada pelo capitalista Mr. no Ceará. sua vida não seria senão uma conseqüência da prática de ousar. Por volta de 1909. com sua proeza de transformar as idéias em realidade. a industrialização da energia hidroelétrica da cachoeira de Paulo Afonso e um vasto plano agrícola-industrial conexo”. bem como iluminar sua Vila Operária. constituída com capital nacional e estrangeiro. Confirmadas as vantagens. Delmiro procurou sondar as potencialidades da região para poder colocar em ação a realização de seu sonho. para estudos no rio São Francisco e na cachoeira de Paulo Afonso. coube ao capitalista Delmiro Gouveia (18631917). os norte-americanos só participariam. recebeu uma delegação de técnicos norte-americanos. consegue recuperar a fortuna perdida no Recife. Diante da negativa. o aproveitamento e exploração do vale do rio São Francisco. onde. precisamente em 1903.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens História No início do século XX. em breve.Fruto de um caso extraconjugal. não contava Delmiro com a recusa do Governador de Pernambuco. ele buscou refúgio em Alagoas. Tomado pelo ímpeto de realizar proezas. Fugido do Recife por desavenças políticas. no sertão alagoano. em 5 de junho de 1863. ou seja. Delmiro Augusto da Cruz Gouveia nasceu em Ipu. visando uma cooperação sob a forma de joint-venture. hoje distrito de Pires Ferreira.

Delmiro resolveu. todas essas concessões foram transformadas em decretos-lei pelo Estado de Alagoas. as caixas com as máquinas e equipamentos. Worth e a suíça Piccard Pictet & Co. do mesmo ano. A tribuna da Câmara Federal também foi palco de embaraçosos discursos. Superada a recusa. Para construir Angiquinho. e a isenção de impostos referentes à sua fábrica de linhas de costura Estrela. M.. Também foram contratados engenheiros e técnicos franceses para montar a usina. R. Equipamentos elétricos ficaram a cargo da empresa alemã Bergmann & Co. junto à firma inglesa W. não passando de lenda o lançamento dos equipamentos da fábrica e da usina. para alimentar uma fábrica de linhas em pleno sertão. cruzaram o Atlântico até o porto da cidade de Penedo (AL). A parte hidráulica com a alemã J. Por conseguinte. XX e XXI do Recife. da Alemanha. Para a montagem dos equipamentos da usina. Contrataram-se. entre os quais o direito de explorar as terras improdutivas na cidade de Água Branca. mas não foi suficiente. já que o Governador categoricamente relutou: “O negócio que o senhor propõe é tão vantajoso para o Estado que deve envolver alguma velhacaria”. coube a Delmiro. então. Entre 1910 e 1911. Como a casa de máquinas da usina ficaria no paredão do cânion do São Francisco. da Inglaterra. os equipamentos foram transportados de trem através da Estrada de Ferro Paulo Afonso até chegar na estação da Vila da Pedra. houve quem duvidasse do sucesso da obra. em carroções puxados por juntas de bois. Alagoas. os projetos iniciais das obras. As turbinas foram encomendadas às casas Bromberg e Siemens Schukert & Co. Já o maquinismo da fábrica veio da companhia Dobson & Barlow. voltou-se para um projeto de construção de uma usina hidroelétrica. pelos ingleses. dentro da cachoeira de Paulo Afonso. vindos da Europa. Em seguida. sobretudo por parte das imprensas alagoana e carioca que publicavam manchetes com veementes protestos sobre o assunto. a produção de linha de coser foi prejudicada. Após a morte por assassinato de Delmiro Gouveia. A usina permaneceu no local e os equipamentos da fábrica anos depois foram levados para São Paulo. Então. O decreto nº 503. Luigi Borella. concretizar o so- nho da eletrificação.A História das Barragens no Brasil . o engenheiro italiano Luigi Borella veio treinar o corpo técnico e dirigir o complexo hidrelétrico. o deputado federal Demócrito Gracindo e o consultor jurídico do Estado Alfredo de Maya. Em decorrência. Piranhas. Na etapa seguinte. os estrangeiros pularam fora. Boa parte desse aval deve-se aos esforços e à petulância de dois alagoanos. No entanto. Geralmente. para projetar a empreitada. na localidade de Pedra. e do engenheiro Emilio Levermann. situada a 23 km da cachoeira. 116 . havia concedido a isenção de impostos pelo período de dez anos para a exploração de uma fábrica de linhas de costura. foram colocadas em uma barca que subiu o rio São Francisco até atracar na lapinha do sertão. mas a usina permaneceu intacta. Bland & Co. local de difícil acesso. e da suíça Brown Boveri & Co. Em 1912. encabeçar outro projeto ousado. a concessão para captar o potencial hidrelétrico da cachoeira de Paulo Afonso e produzir eletricidade. para a conclusão da longa travessia. A obra foi realizada mediante concessão do estado de Alagoas ao abrigo do decreto nº 520 de 12/08/1911 de acordo com a Constituição Federal de 1891. e acabou por contratar um engenheiro italiano. com a necessária construção de pontes e estradas adequadas para permitir sua passagem. As tubulações foram fabricadas pela competente empresa alemã Mannesmann. o maquinário da usina percorreu os 24 quilômetros que os separavam até a Cachoeira de Paulo Afonso. furiosos debates e fracassadas conclusões acerca da célebre concessão de aproveitamento da maravilhosa queda d’água. os quais souberam como poucos resistir às críticas e fundamentar seus argumentos na Câmara e na Imprensa.Séculos XIX. o discurso girava em torno da responsabilidade jurídica sobre a exploração do Rio São Francisco. Delmiro requisitou a experiência estrangeira do técnico Anton Wer. através da firma Iona & Cia. bem como dos consequentes impactos ambientais e econômicos. Houve reações contrárias à implantação desse aproveitamento hidrelétrico da cachoeira. Delmiro conseguiu obter vários privilégios do Governo do Estado de Alagoas. Por fim. Delmiro foi à Europa adquirir o maquinário necessário.

onde só havia manguezais: abriu estradas. Interessado na compra e venda de couro e peles de cabras e ovelhas vai para o interior de Pernambuco. a Casa Delmiro Gouveia & Cia. Em 1875. ruas.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Quem foi Delmiro Gouveia (1863-1817) Delmiro Augusto da Cruz Gouveia nasceu no dia 5 de junho de 1863. na fazenda Boa Vista. onde adquiriu posteriormente. na cidade de Pesqueira. Trabalhou ainda como despachante de barcaças. o Mercado Coelho Cintra. um palacete que hoje é propriedade da Fundação Joaquim Nabuco. quando já acumulava riqueza suficiente.  Dispondo de capital. com Anunciada Cândida de Melo Falcão. conflitos com o poderoso Rosa e Silva. passando a destruir a concorrência no setor e ficando conhecido como o Rei das Peles. Foi bilheteiro da estação Olinda do trem urbano chamado maxambomba. em 1883. base de sua capacitação necessária a vencer os diversos desafios com que sonhava e que nele tinham a firmeza das idéias-fixas. Os baixos preços praticados no mercado incomodaram a concorrência. teve que trabalhar cedo para se manter e ajudar a mãe. em Pernambuco e depois para o Recife. tangidos pelas secas que periodicamente ocorrem no sertão nordestino e pela morte do pai. quando tinha apenas 12 anos de idade abandona o lar materno e se lança no mundo à procura de emprego que lhe permitisse sobreviver com o mínimo de folga para proporcionar o seu aprendizado. presidente do Senado Federal e vicepresidente da República. se engajou politicamente e partiu para outros empreendimentos. 117 . o que culminou com o incêndio do mercado. casando-se. transferiu-se com sua mãe para a cidade de Goiana. Em 1872 muda-se para Recife. Foi o responsável pela urbanização do bairro Figura 5 . bairro do Recife. com 264 compartimentos alugados a comerciantes de alimentos e de outros tipos de mercadoria. Dedicou-se ao comércio e exportação de couro e peles. quando ele tinha apenas quatro anos de idade. havendo por isso desentendimentos com o então prefeito do Recife. Esmeraldino Bandeira e em decorrência. trabalhando também na estação de Apipucos. mantendo um grande número de compradores por toda a região Nordeste do Brasil. em 1896. De família pobre. Em 1868. construiu casas e um grande mercado modelo sem similar no Brasil. inaugurado no dia 7 de setembro de 1899. inicialmente como empregado da família Lundgren e depois por conta própria. Fundou.Delmiro da Cruz Gouveia do Derby. filho natural de Delmiro Porfírio de Farias e Leonilda Flora da Cruz Gouveia. no Recife. onde funciona o Instituto de Documentação. no início de 1900. Ceará. município de Ipu.

depois Bolívia.  A fábrica era um modelo de organização. no lado alagoano. uma pequena fábrica têxtil para produção de linha. Embarcava sua produção através de porto de Piranhas. que o acusava de estar procurando aproveitar-se do seu governo e. Não querendo ficar isolado e para ajudar no desenvolvimento das suas atividades industriais. Figura 6 . Em 1901. por isso. produziram uma série de atritos e inimizades. Levou a energia elétrica para a povoação onde ficava a fábrica e depois até a Vila da Pedra. uma vila operária. após a reforma realizada em 1924.  ambulatório médico. aos 39 anos. no terraço da sua casa na Vila da Pedra. construiu cerca de 520 km de estradas carroçáveis e introduziu o automóvel no sertão. além da tensão em que vivia. Inaugurou. com a marca Estrela. Em 26 de janeiro de 1913. Barbados e até nas Antilhas e Terra Nova.A História das Barragens no Brasil . Autoritário e de temperamento difícil. através de uma pequena usina geradora de eletricidade. mas con- 118 . Dantas Barreto. utilizando o Porto de Jaraguá. em 1914. o que causou desentendimentos com o então governador de Pernambuco. rompeu relações com o industrial.Séculos XIX. utilizando a ferrovia que ligava Jatobá (atual Itaparica) a Piranhas para transportá-la. e da falta de apoio governamental. com diversos pavilhões onde ficavam os teares. cinema e ringue de patinação. o prédio do antigo mercado abriga o quartel general da Polícia Militar de Pernambuco (Figura 6). Seu temperamento sempre difícil. em 1902. Em 1909. Chile. puxando a rede elétrica até a sua fazenda. Separado da esposa. em Maceió. aos 54 anos de idade. impondo-se também nos mercados da Argentina.Prédio do antigo mercado que agora abriga o quartel general da Polícia Militar de Pernambuco Angiquinho atualmente Em outubro de 1958 a usina Angiquinho perdeu a concessão do aproveitamento parcial da cachoeira de Paulo Afonso. fugindo para Alagoas e fixando-se na Vila da Pedra. que logo dominou o mercado nacional. Passou a idealizar e desenvolver projetos para a implantação de uma hidroelétrica que abastecesse o Recife de energia. raptou a adolescente Carmela Eulina do Amaral Gusmão. uma localidade a cerca de 280 km de Maceió e que na época só possuía seis casas. Passou a comprar e exportar couro e peles. XX e XXI Hoje. hoje município de Delmiro Gouveia. inicia os estudos para aproveitamento econômico da cachoeira de Paulo Afonso. capta energia elétrica na queda do Angiquinho. que culminaram com o seu assassinato à bala. no dia 10 de outubro de 1917. à medida que enriquecia criava mais inimigos. Peru. perseguido e com problemas no casamento refugiou-se durante um ano na Europa.

foi elaborado um projeto de recuperação histórica que inclui a restauração da usina.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens tinuou a distribuir eletricidade para a cidade de Delmiro Gouveia (antiga vila da Pedra) até 1960. Além disso. 119 . bem como atrair profissionais e leigos com interesse de conhecer a história das hidreléricas no Brasil. Segundo o projeto de recuperação denominado “Projeto de gestão de Angiquinho”.Escada de acesso à casa de força Furna dos Morcegos.A casa força de Angiquinho localizada à margem alagoana da cachoeira de Paulo Afonso Figura 8 . mas nunca se esconderam na Figura 7 . da Furna dos Morcegos. Por intermédio da CHESF e da prefeitura de Delmiro Gouveia. que além de proporcionar ao turista comum uma vista diferenciada da cachoeira. contudo a presença dos cangaceiros na área de Angiquinho já foi praticamente desmentida. seria incoerente um bando tão articulado como o de Lampião se esconder em um local que tem apenas uma única entrada. Depoimentos de cangaceiros do bando afirmaram que estiveram naquela área. pois não se encontrou qualquer indício dessa passagem. onde dizem que Lampião se escondeu. a usina foi transformada em um ponto de visitação turística. quando foi por fim desativada.

São pedras e rochas e tocas de rio para todos os lados (Figura 13).5 milhão na recuperação da usina. XX e XXI Figura 9 – Prédios da usina recuperados Figura 10 – Interior da casa de força A Chesf. Nas entranhas da usina saem paisagens lunáticas. coordenador da FDG. águas muito limpa mostram o fundo translúcido do Velho Chico.Séculos XIX. passou a gestão de Angiquinho à Fundação Delmiro Gouveia (FDG). assinala Edvaldo Nascimento. “A luta agora é para que Angiquinho deixe a fila de espera pelo decr eto do gover no federal e Ministério da Cultura para o tombamento nacional” . 120 . que investiu R$ 1.A História das Barragens no Brasil . Passear no sítio histórico de Angiquinho é mover as rodas da história. que liderou o movimento pelo resgate do acervo.

Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 11 – Gerador Figura 12 – Turbina de eixo horizontal 121 .

XX e XXI Figura 13 .Vista do cânion a partir da casa de força 122 .Séculos XIX.A História das Barragens no Brasil .

).br 12. São Paulo: hucitec/Abphe. Antônio – Mascarenhas. que iluminou boa parte da região até nos anos 60. Ousadia no Nordeste: A Saga Empreendedora de Delmiro Gouveia. Governador de Alagoas assina decreto de tombamento do complexo Angiquinho (HTML). Página visitada em 6 de janeiro de 2008. 2008. 2007. Szmrecsányi. Maceió: Fiea/ Gijs. e uma cachoeira transborda na entrada do lago da usina. Gildo. Magalhães. Folha Sertaneja (03 de dezembro de 2006). o “Rei do Sertão”. Entrar naquele prédio arrojado e quase secular é sentir segurança e êxtase. 11. de Barros – Dalla Costa. 2000. empresários e desenvolvimento econômico no Brasil. http://basilio. Moacir Medeiros de. Rio de Janeiro: Centro da Memória da Eletricidade no Brasil.al. de onde os olhos captam uma imagem inesquecível do que resta da cachoeira de Paulo Afonso.Câmara Municipal de Paulo Afonso. Silva. Fernandes. A visão do Velho Chico cercado por cânions e corredeiras é colossal. 9.controvérsia.br/pesquisaescolar/index. Armando. Tamás (orgs. Sant’ana. Referências 1. Adriana Sbicca. que desce 45 metros abaixo das rochas. 13. Paulo Afonso-BA. A casa de máquinas continua presa às rochas e é o ponto culminante do passeio.gov. Jornal Chesf – CER – Ano IV – nº 235 – junho a novembro/2006.gov. Figura 14 . 1961. Galdino. ou parte dela. php?option=com content&vieu=article&id=6068Itemid =195(Texto de Semira Adler Vainsencher pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco) Acessado em 17/02/2011. 5. 4. no rio e na bela cachoeira. Maceió: imprensa oficial. Unesp. Sávio. Site www. que abriga os três geradores Brown Boveri e as turbinas Piccard Pictet. São Paulo: ed. 1995. Principalmente ao abrir as janelas da casa e correr o olho nas rochas. Paulo Afonso: de pouso de boiadas a redenção do Nordeste . Pequena história de Delmiro Gouveia. 3. escadas em espiral.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens O coração começa a bater mesmo na escadaria de metal. 7. Revista Continente Documento – Ano I. 8. nº 11 – 2003.fundaj. com plataforma para mirante.Subestação Elevadora de Angiquinho 123 . fruto da cabeça do cearense Delmiro Gouveia.com. 10. A descida é adrenalina pura. que alimentavam a usina. Projeto Gestão de Angiquinho (HTML) (2008).br/sala-de-imprensa/noticias/ noticias-2008/angiquinho-atrai-turismo-de-aventurasem-delmiro-gouveia/(Texto de Mário Lima) acessado em 17/02/2011). 6. Página visitada em 6 de janeiro de 2008. Força e luz: eletricidade e modernização na República Velha. Empresas. Cachapuz. 2.turismo. Paulo B. http://www. Davi Roberto Bandeira. 2008. Paulo Afonso I: Imagens de uma epopéia. no caminho da velha casa das máquinas.

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380/220 V. com uma pequena subestação que tinha um único transformador trifásico de 11.50 m (Figura 1).44 m3/s. A linha de transmissão da usina para a cidade de Carolina tinha Figura 1 . 4 e 5 mostram a casa de força e seu interior. no município de Carolina. No local foi implantada uma casa de força que abrigava uma turbina Francis de 110 kW.000 V. dimensionado para aduzir uma vazão de 2. com rendimento de 75%. que terminava com uma pequena tomada d’água seguida de um conduto forçado com capacidade de 1. 3. através de um sistema de polias. Foi concebida e projetada no período de 1937/1938 e teve a sua construção realizada no período de 1939/1940. hoje completamente abandonada e em péssimo estado de conservação. afluente do rio Manoel Alves Grande.22 m3/s. acionando.30 m. A usina foi construída aproveitando uma queda de 11.Cachoeira do Itapecuruzinho 125 . um gerador de 120 kVA. freqüência de 50 Hz e com a velocidade de 750 rotações por minuto. Contava.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Usina do Itapecuruzinho A primeira hidroelétrica da Amazônia Erton Carvalho Esta usina está localizada no rio Itapecuruzinho. O quadro de comando era de ferro perfilado com painel de mármore polido. também. que desemboca no rio Tocantins pela margem direita. estado do Maranhão. As obras civis foram constituídas por um canal lateral de forma trapezoidal. com 88 m de comprimento e um desnível de 0. As Figuras 2.

XX e XXI Figura 2 .Séculos XIX.Casa de força Figura 3 .Turbina Francis 110Kw 126 .A História das Barragens no Brasil .

A partir daí. através de uma subestação abaixadora. Na cidade. Newton Carvalho. a audiência acabou sendo realizada Figura 5 . Tratava-se. Excluindo os grandes centros urbanos. e sua classe política bastante temerária quanto às atitudes do citado interventor.Gerador de 120 KVA necessidade de construir em Carolina uma usina hidroelétrica. para aquela sociedade local de uma obra bastante audaciosa.2%. na maioria das cidades. A linha foi implantada com postes de aroeira a uma distância média de 50 m. Os sócios pretendentes exigiram que Newton Carvalho obtivesse do interventor uma autorização para que a usina fornecesse energia para a cidade. Por interferência de Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta. Paulo Ramos. Naquela época (1937). como a maioria das cidades ribeirinhas banhadas pelo grande rio.5 km. único meio de transporte existente na região. situada a 33 km da cidade. Em 1937. História A cidade de Carolina. situada no extremo sul do Maranhão. arcebispo do Maranhão. correspondendo a 0. a rede pública de distribuição de energia era de 220/110 V. 127 .75% da atual.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens 28. o Brasil possuia apenas uma potência instalada de 847 MW. à margem direita do rio Tocantins. homem de idéias progressistas. conheceu. nos anos quarenta. Newton Carvalho colocou esse empreendimento como a grande meta de sua vida. portanto. capital do estado. ele fez várias viagens a São Luiz. o fornecimento de energia era restrito ao período das 18 às 21 horas. sendo que as perdas no transporte da energia foram estimadas em 5. Mesmo assim. sua fase áurea.Gerador e painel de controle com sucesso. o que permitiu dar andamento ao início dos trabalhos. sendo 192 MW em usinas térmicas e 755 MW em hidroelétricas. não tendo conseguido ser recebido por aquela autoridade. aproveitando a bela cachoeira existente no rio Itapecuruzinho. Vale ressaltar aqui que Carolina era uma das cidades consideradas de oposição ao interventor do estado. iniciou sua luta para convencer um grupo de conterrâneos da Figura 4 .

A empresa de nome Hidroelétrica Itapecuru Ltda. foi então organizada para fornecer energia elétrica ao município de Carolina. na Junta Comercial do Maranhão. O rumo da linha de transmissão foi definido por um piloto da Condor. Após verdadeira epopéia. cada um contribuindo com 10 contos de réis. em 26 de julho de 1900. Newton Alcides de Carvalho provinha de família numerosa. então capital federal. a qual nunca saiu do papel. Newton Carvalho foi ao Rio de Janeiro. às margens do pequeno rio Itapecuruzinho. totalizando 14 sócios. Em sua grande maioria esses marcadores não foram encontrados. Era um dos onze filhos do casal Alípio Alcides de Carvalho e Rosa Sardinha de Carvalho. finalmente o maquinário chegou a Carolina. dentre elas a de Itaboca. para estudar junto à companhia alemã Siemens a viabilidade do empreendimento. Quando passava pela cachoeira de Itaguatins.. Biografia Por detrás desta pequena central hidroelétrica. foi empreendida uma luta titânica para retirá-lo da água. assim. 128 . elaborou a planta da cidade e implantou a rede pública e o sistema de distribuição de energia residencial. Para alcançar o lugar escolhido.Séculos XIX. Seu idealizador e executor (Figura 6) teve que vencer obstáculos quase intransponíveis para implantar na Região Amazônica a primeira usina hidroelétrica. a primeira usina hidroelétrica da Amazônia. de novembro de 1941. Viajou às próprias custas e contou com a ajuda de um comerciante alemão. esvaziava a embarcação. com uma linha de transmissão de aproximadamente 30 km. Voltando novamente à capital federal. Desprovido de equipamentos para içá-lo. Newton Carvalho. autorizou o funcionamento da usina e a sua inauguração se deu em 15/11/1941. em seguida. seguiram através do rio Tocantins até Carolina. posteriormente. com o auxílio de um velho teodolito de propriedade do professor José Queiroz. O Decreto nº 15. registrando-a no dia 11 de julho do mesmo ano. Retornando do Rio de Janeiro com os dados da usina nas mãos. para negociar com a empresa a consolidação do projeto e a compra dos equipamentos necessários para a construção da usina. Foi assim instalada. se esconde um episódio heróico que bem reflete a época e o momento histórico em que foi construída. que o equipamento subisse pelo empuxo a que era submetido. companhia aérea alemã. que outorgou à sociedade o direito de explorar o referido aproveitamento até a potência de 285 kW. perto da cidade de Porto Franco. dividido inicialmente entre oito sócios. onde hoje está localizada a usina de Tucuruí. A concessão para o empreendimento ocorreu em 16 de novembro de 1939. publicado no Diário Oficial do dia 8 de fevereiro de 1940. tendo as embarcações atravessado várias cachoeiras. O projeto previa a colocação de duas unidades de 143 kW. travou-se outra batalha com o transporte dos equipamentos em pequenos caminhões através de caminhos intricados. quando o presidente Getúlio Vargas e seu ministro Fernando Costa assinaram o decreto n o 4. Foram lançados sacos de areia com bandeiras vermelhas para demarcar o referido caminho. em plena ditadura do então presidente Getúlio Vargas. Newton Carvalho adquiriu da Siemens todos os equipamentos para a instalação da usina. proprietário da Casa Beckgis. mas inicialmente só foi instalada uma unidade de 110 kW. que fazia voos entre Carolina e Belém. utilizado em um trabalho de topografia para a ferrovia Pirapora-Belém. permitindo. organizou a firma em 1939. O capital inicial de 340 contos de réis. XX e XXI Em 1938. Transportados por via marítima até o porto de Belém.888. utilizados pelos sertanejos locais. ele mesmo. esvaziava-as e enchendo-as de água até chegar ao limite de transbordamento tracionava o transforma- dor e. O sucesso dessa operação só foi possível pelo fato de Newton Carvalho conhecer e fazer uso do princípio de Arquimedes. a cooperação de mais seis sócios. um dos pesados transformadores da subestação caiu no rio.790. Para a construção da linha de transmissão foi aberta uma picada da cidade até o local da usina. Com auxilio de mais uma embarcação. Nasceu em Carolina. teve. com o aproveitamento da referida cachoeira.A História das Barragens no Brasil .

Em 1949. um projeto para a exploração industrial do babaçu. em 1944. também. já radicado em Goiânia. participou. da construção de uma usina açucareira. não era comum à época: tinha concluído apenas o curso ginasial. Não tendo sido ressarcido de seus investimentos. Memória Técnica da Usina de Itapecuruzinho. a esposa Eliza Ayres de Carvalho e seus filhos. antes mesmo de completar 70 anos. vítima de acidente automobilístico. resolveu transferir-se com a família. 3. principalmente com a da iluminação pública. o qual lhe proporcionou sólida base cultural voltada para as ciências exatas. Newton Carvalho.Newton Alcides de Carvalho Referências 1. determinado. Ali. Figura 5 . Ainda não havia atingido quarenta anos quando resolveu vender todos os seus bens para conseguir tornar real o sonho de executar o projeto da construção da pequena usina hidroelétrica em Carolina. trabalhou na Secretaria de Educação no planejamento e construção de 248 prédios escolares na zona rural. também. nascida em Vianna do Castelo. corajoso e realizador. 2. ainda. para o interior do estado de Goiás. ao mesmo tempo em que desenvolvia atividades comerciais. projetos para as usinas de Campos Belos e Babaçulândia. 4. decepcionado com a alta inadimplência dos consumidores de energia. cópia datada de 1939. apresentando um estudo sobre o aproveitamento do mesmo. Deixou para a posteridade um exemplo de homem probo. através de tratamento mecânico e biológico. Diversificando suas atividades. Estruturou o serviço de coleta e destino do lixo. obras porém não realizadas. Elaborou. Autodidata. conhecido por “Dano”. altamente avançado para a época. norte de Portugal. A formação do homem visionário. lecionou matemática e escrituração mercantil a jovens conterrâneos. baseado no método dinamarquês. Em sua cidade natal.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Seu pai era originário da cidade de Caxias do Maranhão e sua mãe era oriunda de berço português. da física e da engenharia. elaborou. Notas da família Carvalho Artigo do jornalista Waldir Braga no jornal “Folha do Maranhão do Sul” (25/Julho a 03/Agosto de 1996) Revista Século XX “Gente que fez Carolina” de Paulo Noleto Queiroz. dedicou-se com afinco ao estudo da matemática. No período de 1961 a 1965 exerceu a função de chefe-geral da limpeza pública da capital do estado. tendo adquirido por conta própria noções de inglês e alemão. que pensava adiante do seu tempo. Faleceu em 25 de outubro de 1969. construiu as usinas hidroelétricas das cidades de Anicuns (1948/1949) e de Santa Cruz de Goiás. Outubro de 2000. 129 . Ali.

130 .

O gerente do Figura 1 . Ltd.Alexander Mackenzie. Kearny. Em 1908 foi lançado o primeiro grande desafio: a construção no Ribeirão das Lajes. no Estado do Rio de Janeiro. recomendado pelo engenheiro Pearson. primeiro presidente (1904-15) 131 . na época de sua instalação era a maior hidroelétrica da América Latina e a segunda maior do mundo. Essa usina. mesmo em comparações internacionais. 2007 A Light no Rio de Janeiro. elevando sua capacidade para 24 MW. da usina de Fontes. mas podendo chegar a 15 MW.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens “Ter-se-á de reconhecer a importância da contribuição da Light. coube a tarefa de implantar e Casa de força de Fontes. que deu grandeza ao sistema elétrico brasileiro com projetos ousados. O desenvolvimento da construção.Frederick Stark Pearson. Concepção artística do engenheiro José Carlos de Miranda Reis Neto Figura 2 .” Antonio Dias Leite. fundador e segundo presidente (1915-28) empreendimento foi o engenheiro Clint H. Em 1909 foi ampliada com a instalação de mais três unidades geradoras. Liderada pelo advogado canadense Alexandre Mackenzie e pelo engenheiro americano Frederick Stark Pearson. residentes no Brasil havia cinco anos. operação e manutenção de usinas hidroelétricas no Brasil tem um dos capítulos mais importantes na criação de uma empresa chamada The Rio de Janeiro Light and Power Co. em 30 de maio de 1905. A potência instalada era de 12 MW. A barragem era uma estrutura de concreto gravidade em arco de 100 m de raio. com 32 m de altura e crista com 234 m dos quais 134 m eram vertedouro de lâmina livre. a Cidade Luz Sulamericana Armando José da Silva Neto e Flavio Miguez de Mello por em funcionamento no Brasil a empresa que seria referência no desenvolvimento da engenharia brasileira de barragens e usinas hidroelétricas. no Município de Piraí.

Barragem de Lajes construída em 1906 Figura 5 – Saída do túnel de Tócos Em 1914 foi concluída a barragem de Tócos no rio Pirai e um túnel com 8. 132 .A História das Barragens no Brasil .Séculos XIX. XX e XXI Figura 4 . possibilitando o aumento de capacidade de Fontes para 55 MW.Barragem de Tócos vista de montante Figura 3 . na época o mais longo túnel hidráulico do mundo. Esse túnel passou a derivar as águas do rio Pirai para o reservatório de Lajes. Os dois escritórios da LIGHT nas cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo foram reunidos em um só visando a ampliação da geração de energia hidráulica já que a demanda naquela época não parava de aumentar em função do desenvolvimento que estava ocorrendo no País.4 km de extensão.

Construção da usina hidroelétrica Ilha dos Pombos em 1924 133 . MG no rio Paraíba do Sul a 150 km da cidade do Rio de Janeiro.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Em 1921 a LIGHT foi autorizada a construir uma nova usina hidroelétrica nos municípios de Carmo. do lado norte. As comportas se encontram em operação até os dias de hoje.Engenheiro Asa White Kenney Billings Figura 7 . Kenney Billings. Inaugurada em julho de 1924. o vertedouro principal é localizado na margem esquerda. Com três comportas tipo setor que até hoje são as maiores do mundo. que era especializado em obras hidráulicas e seus equipamentos. a usina tem um canal de adução com 2.5 km de extensão constituído por diques de terra compactada e trechos em concreto. Há vertedouros de menores capacidades equipados com comportas Stoney. RJ e Além Paraíba. A construção da usina ficou a cargo do engenheiro Asa W. Figura 6 .

Usina hidroelétrica de Ilha dos Pombos – Uma das três comportas setor. foi executada uma reabilitação completa da barragem e de suas comportas.Séculos XIX. XX e XXI Figura 8 . bem como uma repotenciação da usina com aumento da capacidade instalada. Figura 9 . 134 . Em março de 1940. a usina de Ilha dos Pombos atingiu a potência instalada de 167 MW sob 31 m de queda bruta.A História das Barragens no Brasil . as maiores do mundo Com as ampliações realizadas em setembro de 1937. Vista de montante. a LIGHT foi autorizada a ampliar a Usina de Fontes. nos anos 90.Usina hidroelétrica de Ilha dos Pombos tendo seus vertedouros reabilitados. Após mais de 55 anos de operação.

aumentando a capacidade de armazenamento do reservatório para 1.Barragem de Lajes após a conclusão do alteamento 135 . Figura 10 . o reservatório jamais foi completamente cheio por dois motivos: o abastecimento de água para a cidade do Rio de Janeiro havia passado a depender das descargas efluentes da casa de força de Fontes sem outro tratamento que não a cloração e a necessidade de obras adicionais para garantir a estabilidade da barragem de Cacaria e do Dique 4. cada uma com 39 MW.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens O projeto do engenheiro Billings elevou em 26 m a Barragem de Lajes. na barragem do Rio da Prata.052 milhões de metros cúbicos. Entretanto. O reservatório havia sido idealizado para ser utilizado para regularizar as descargas que seriam derivadas do rio Paraíba do Sul. O alteamento da barragem que passou da soleira vertedora livre em arco gravidade para uma barragem em contrafortes de 63 m de altura.Início do alteamento da barragem de Lajes Figura 11 . Essas obras foram finalmente executadas nos anos 80. implicou também na construção da barragem e do dique de Cacaria. no Dique 4 e no Dique 5. Para permitir a construção foi necessário desocupar a pequena cidade tombada de São João Marcos no município de Rio Claro. elevando a potência instalada para 172 MW. A ampliação constou de três novas unidades. A obra foi concluída em 1958.

Figura 12 . embora ela tenha estudado em detalhe potenciais no médio rio Paraíba do Sul (Funil.Casa de força de Fontes 136 . resultou na ampliação de geração em Fontes com a instalação de três unidades Francis de 39 MW cada. à Light não eram concedidas novas concessões. Essa foi a obra de engenharia mais importante no final dos anos 40 e início dos anos cinqüenta. Carlos Lacerda. que se referia a ela como “o Polvo Canadense”. a Light enfrentava opositores de todas as correntes políticas. todas Francis de eixo vertical. Esse cerceamento de novas concessões e a necessidade de ampliação da geração determinaram a adoção do artifício de se conceber uma ampliação da usina de Fontes pela derivação de descargas dos rios Pirai e Paraíba do Sul. aumentou em 378 MW o Complexo de Lajes. XX e XXI Apesar dos bons serviços prestados e do estrangulamento das tarifas a partir do Código de Águas em 1934. Inaugurada em 1953. Presentemente as antigas unidades Pelton de Fontes estão desativadas. restando apenas as três unidades Francis de Fontes Nova e as seis unidades de Nilo Peçanha. sob a queda bruta de 310 m. denominada Fontes Nova e na implantação da casa de força subterrânea de Nilo Peçanha que. desde a vertente oceânica da Serra do Mar até as Sete Quedas. até o líder da UDN. desde extremados esquerdistas que se intitulavam de nacionalistas.A História das Barragens no Brasil .Séculos XIX. Sapucaia e Simplício) e efetuado estudos que cobriram extensas áreas do território nacional. Nesse cenário.

Embora constasse do projeto original. ficando as usinas de Fontes Nova e Nilo Peçanha com elevado fator de capacidade. as terceiras instaladas no mundo depois das unidades de Traição e Pedreira em São Paulo.Barragem Santana 137 . projeto em que Karl Terzaghi introduziu filtros chaminés em barragens de terra. e a casa de força subterrânea de Nilo Peçanha. Figura 13 . no rio Pirai construída em apenas dois meses. a elevatória de Vigário que dispõe de unidades reversíveis. a construção da barragem Terzaghi e do dique Vigário.Barragem de Santa Cecília Figura 14 . também instaladas pela Light. que contou com a importante colaboração do geólogo Portland Port Fox. a segunda casa de força de Nilo Peçanha ainda não foi construída.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Para esta fase da ampliação uma série de obras foram executadas. a barragem de Sant’Ana. de grandes dimensões para a época. destacando-se a elevatória de Santa Cecília.

XX e XXI Em fevereiro de 1967 intensa precipitação provocou inúmeros deslizamentos nas encostas da Serra das Araras na área das usinas. ambos de elevada competência e dedicação.Séculos XIX. Realça-se a coragem dos operadores e a tenacidade da equipe da Light na recuperação das instalações cuja operação era comandada pelos engenheiros Walter Stukembruk e Henrique Smoka. bloqueando os canais de fuga de Fontes e de Nilo Peçanha.Elevatória de Vigário.Desvio Paraíba-Piraí . a Light teve que promover a regularização do rio pela implantação da barragem de Santa Branca e contribuído com 40% do Figura 15 .A História das Barragens no Brasil . O refluxo de lama inundou a casa de força de Nilo Peçanha causando a paralisação da usina por vários meses para a recuperação dos equipamentos totalmente feita pelos técnicos da Light. Para que a derivação das águas do rio Paraíba do Sul fosse licenciada. ao fundo dique do Vigário e a barragem Terzaghi 138 .

são situadas na margem esquerda do reservatório.Canal de fuga de Nilo Peçanha em 1967 Foto 18 .Inauguração da hidroelétrica Nilo Peçanha. Somente nos anos 90 a Light instalou as unidades geradoras em Santa Branca. Figura 16 .R. essa usina foi inicialmente denominada Lajes Auxiliar. no trecho paulista da bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul. J. com 99 MW instalados sob 36 m de queda bruta. Nicholson. Considerando as dificuldades acima mencionadas na obtenção de novas concessões. João Monteiro 139 . Ministro Apolonio Salles.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens investimento na construção das barragens de Paraitinga e Paraibuna. As estruturas de concreto da tomada d’água e do vertedouro. A barragem de terra tem 52 m de altura e 231 m de crista. posteriormente denominada de Pereira Passos. este com 330 m³/s de capacidade de descarga. Em 1961 foi concluída a usina de Ponte Coberta. Curiosamente a Light esperou a posse do presidente Castelo Branco em 1964 para oficialmente inaugurar a usina. aproveitando as águas turbinadas do Complexo de Lajes.Presença do Terzaghi (ao fundo) no campo durante a construção da barragem que tem o nome em sua homenagem Figura 17 .

presidente da República. chefe da casa militar.João Gonçalves de Sousa. mais uma hidroelétrica no leito do ribeirão Das Lajes que presentemente (2011) encontra-se em construção. Antônio Gallotti. Figura 20 . General Ernesto Geisel. após os acidentes ocasionados pelas intensas precipitações. presidente da Light. Castelo Branco e Gallotti. XX e XXI No final do século passado foi desenvolvido o projeto da PCH Paracambi. Essa hidroelétrica terá 25 MW instalados com elevado fator de capacidade. americano e nacional para. Figura 19 . Marechal Castelo Branco. tendo passado de grupos francês. ministro extraordinário para coordenação dos órgãos regionais. presentemente. ser de controle integralmente nacional.A História das Barragens no Brasil . em visita de inspeção após o acidente de 1967 140 . presidente da Light e Geremias Fontes. governador do Estado do Rio de Janeiro em inspeção nas usinas geradoras da Light no dia 4 de fevereiro de 1967.Séculos XIX.Pres. A Light foi estatizada em 1966 e privatizada em maio de 1996.

Jerson Kelman. professor da UFRJ.Construção da barragem de terra de Ponte Coberta.O atual presidente da Light após ter dirigido a ANA e a ANEEL.Inundação da casa de força de Nilo Peçanha. ao ser agraciado com o título de Engenheiro Eminente pela Associação dos Antigos Alunos da Politécnica.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 21 . em 2010 141 . parte da hidroelétrica Pereira Passos Figura 22 . inspeção de barco Figura 23 . Dr.

fundador e segundo presidente (1915-28) 142 .Alexander Mackenzie.

Nos anos 80. Foram introduzidas três comportas de segmento com capacidade de 800 m³/s. Light & Power Company e iniciou imediatamente a construção da hidroelétrica de Parnaíba. Armando José da Silva Neto e Flavio Flavio Miguez Miguez de de Mello Mello Em 1899 o advogado canadense Alexander Mackenzie fundou a The São Paulo Railway. tesoureiro presidente da Companhia Telefônica Brasileira. nova importante reabilitação foi feita. e esse é apenas um dos diversos lugares que se situam no entorno de São Paulo e que poderão vender mais energia para todos seus cantos. considerando a extrema alteração nos coeficientes de escoamento da área de drenagem devida à intensa ocupação urbana da cidade de São Paulo e de cidades vizinhas. passando a ter 18. tendo sida aumentada a capacidade de descarga do vertedouro. serviços de bondes e ônibus. and this is but one of the several places that stand around São Paulo and sell more power to its elbow”  Rudyard Kipling* * “Eles (Light) afirmam agora que podem fornecer meio milhão de cavalos-vapor somente deste local (Cubatão). no rio Tietê e inaugurada em 1901. situada na cachoeira do Inferno. A barragem foi construída em alvenaria de pedra com vertedouro de superfície livre em quase toda a extensão de sua crista. Em 1954 a antiga casa de força foi substituída por uma estação de recalque com unidades reversíveis e a barragem foi alteada em seis metros através de contrafortes e lajes planas. Anderson.5 m de altura.” Figuras 1a e 1b .Desde os primeiros anos a Light constituiu diversas outras empresas de serviços em São Paulo e no Rio de Janeiro. A capacidade instalada inicial era de 2 MW. Seylaz. Nas fotografias L. Edgard de Souza foi a primeira de uma série de obras hidráulicas executadas nas proximidades da cidade de São Paulo dos últimos dois anos do século XIX até meados do Século XX. incluindo fornecimento de gás.E.H. 143 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A São Paulo Light. posteriormente denominada Edgard de Souza. superintendente geral da São Paulo Gas Company e G. telefonia. Fomentadora de Progresso “They (Light) say now that they could deliver half a million more horse-power from this place alone (Cubatão).

construísse. a maior carroça transportava no máximo 15 toneladas e as estradas eram de tráfego precário. A intensa estiagem de 1924 fez com que Asa White Kenney Billings. De montante para jusante.A História das Barragens no Brasil . O canal ficou sendo conhecido por Rasgão. foi construída em 1906 a barragem de Guarapiranga situada no principal afluente do rio Pinheiros. aproveitando canal escavado pelos escravos de um proprietário de terras na região de nome Fernão Paes de Barros quase um século antes com a esperança nunca concretizada de achar ouro no leito do rio Tietê. com duas unidades de 9.G. inaugurada em 1925. em apenas onze meses. o circuito inicia-se pela barragem de Figura 2 – Ferdinand M. mas operou até 1961 quando foi paralisada devido a excesso de percolação sob a tomada d’água da usina. A Light descobriu duas unidades Francis de 9 MVA em fabricação no exterior.Séculos XIX. O canal aberto à mão teve que ser ampliado e as fundações escavadas. A usina. Nos anos oitenta as estruturas civis da barragem e das duas tomadas d’água do canal de adução e da casa de força foram reabilitadas tendo em vista o elevado estado de deterioração e os preocupantes resultados das análises de estabilidade que foram realizadas. injeções de calda de cimento sob a laje executada no pé de montante e teve reforço por atirantamento. as comprou e as trouxe para São Paulo.3 MW. a hidroelétrica de Rasgão. A barragem teve tratamento de concreto projetado no paramento de montante. XX e XXI Com o objetivo de regularizar as afluências à usina de Edgard de Souza. A barragem é de terra com 15. A época era convulsionada por movimentos revolucionários tenentistas como o de 5 de julho que ocupou São Paulo por semanas. No início da segunda década do século passado. a tomada d’água do canal de adução teve reforço em seus contrafortes e a tomada d’água da casa de força teve tratamento de sua fundação por injeção de calda de cimento a alta pressão com cracagem do solo. O País entrava em estado de sítio. A coluna Miguel Costa – Prestes iniciava a sua longa marcha. Seu volume de 505. Uma cheia extraordinária nos anos oitenta fez com que fosse executado um vertedouro adicional na ombreira esquerda. tratamento este que só havia sido feito na fundação da barragem de Balbina. o que demandava explosivos nessa época tão explosiva. engenheiro americano de elevada competência que vinha de obras na Espanha e no México. O maior empreendimento foi conduzido por Billings: o chamado Projeto da Serra que aproveitava descargas derivadas da bacia do rio Tietê para a baixada Santista. O empreendimento foi feito em duas etapas: a usina de Cubatão e a usina de Henry Borden que operavam em paralelo.000 m³ foi proveniente de área de empréstimo escavada à mão. o solo foi transportado por tração animal e compactado apenas com a passagem das carroças. A casa de força foi também reabilitada e voltou a operar em 1989. tendo posteriormente dado nome à barragem e à usina. tributário do rio Tietê. a Light adquiriu da Empresa de Eletricidade de Sorocaba a concessão da hidroelétrica de Itupararanga e concluiu as obras em 1914 com três unidades de 11. com 20 m de altura é em arco gravidade. tinha o caráter provisório. Como elemento de impermeabilização foi executada uma cortina de estacas prancha na linha de centro da barragem.6 m de altura e 1500 m de crista. A barragem. Budweg 144 . A logística era muito difícil.1 MW cada.

Essa barragem represa as águas até a estação de recalque de Edgard de Souza. revertendo o curso do rio Tietê. Essa barragem de 43 m de altura em concreto gravidade. Considerando a impossibilidade do deplecionamento do reservatório durante a construção por serem baixas (6. houve a necessidade de ampliação da capacidade de descarga vertida e a proteção à cidade de Pirapora do Bom Jesus que se situa logo a jusante da barragem.40 m) as duas comportas de segmento que ocupam quase toda extensão da crista da barragem. a solução Figura 5 – Instante da detonação do septo de rocha Figura 4 – Execução da ensecadeira dentro do túnel 145 . é provida de um vertedouro de superfície com duas comportas de segmento de 830 m³/s de capacidade. concluída em 1956. Essa cidade era inundada a partir de descargas de 480 m³/s.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Pirapora no rio Tietê a montante do reservatório de Rasgão.6 milhões de habitantes em 1955 para 15 milhões em 1990. A condicionante de projeto era conseguir um esquema que permitisse Figura 3 – Esquema do lake piercing o deplecionamento do reservatório antes da chegada do pico da cheia. sendo esta amortecida no reservatório previamente rebaixado. Com as expressivas alterações dos coeficientes de escoamento que ocorreram em sua área de drenagem devido à intensa ocupação urbana que passou de 3.

G. As obras foram realizadas no início dos anos noventa.Vertedouro da barragem de Pirapora 146 146 . solução única no País. foi construída uma ensecadeira de terra no interior Figura 6 – Saída do túnel em operação Figura 7 . Em seguida foram instaladas duas comportas de segmento no interior do túnel. deveria ter sido escavada uma depressão (rock trap) para receber a rocha quando da abertura final. Budweg foi a execução de um lake piercing.A História das Barragens no Brasil . de acordo com o projeto original.Séculos XIX. XX e XXI encontrada pelo engenheiro Ferdinand M. tendo sido escavado um túnel de jusante para montante com extensão de 168 m e seção de 48 m² pela ombreira direita até bem próximo ao fundo rochoso do reservatório onde.

Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 8 – A estação de recalque de Edgard de Souza Figura 9 . A capacidade de descarga da barragem passou para 1450 m³/s. O circuito hidráulico do Projeto da Serra inclui a barragem e a estação de recalque de Edgard de Souza. Essas duas barragens fazem com que o rio Tietê flua de jusante para montante.Barragem de Pedreira ou do Rio Grande do túnel para proteção das comportas quando da detonação final e detonada uma carga que abriu a entrada do túnel pelo fundo do reservatório. não mais ocorrendo inundações na cidade de Pirapora do Bom Jesus. situada a montante de Pirapora. penetrando no rio PinheiFigura 10 – Miller Lash. presidente de 1925 a 1941 147 . foi concluída com sucesso em 1993. A obra que incluiu também alargamento da calha natural do rio a jusante da barragem.

Gallotti. com 25 m de altura e contendo um diafragma de concreto armado central que vai das fundações até o nível d’água máximo normal do reservatório de Billings. presidente de 1941 a 1944 e formigas) como afirmou Billings em palestra realizada em Londres em 1936. As águas estocadas na represa de Billings acessam o reservatório da barragem de Pedras situada na crista da serra do Mar onde o rio das Pedras inicia uma sucessão de cachoeiras e corredeiras em direção à Baixada Santista. represando as águas na elevação 728. último presidente da Light envolvendo Rio de Janeiro e São Paulo (1965 a 1974) Figura 11 – Sir Herbert Couzens. o reservatório de Billings é fechado por outras 13 barragens ou diques. subterrânea. Além dessa barragem. um em cada lado das estruturas de concreto da estação de recalque. alimentando a represa de Billings e daí o reservatório da barragem de Rio Das Pedras. O Projeto da Serra era concluído pela condução das vazões com 710 m de queda bruta para as casas de força de Cubatão. A barragem de Pedras é uma estrutura de concreto em arco gravidade com 35 m de altura concluída em 1926. XX e XXI ros que também flui de jusante para montante pela ação das elevatórias de Traição e Pedreira implantadas no período 1938-1940.A. e Henry Borden. com seis unidades idênticas de 88 MW 148 .50 m. além de ser um elemento impermeabilizante.Séculos XIX.A História das Barragens no Brasil . foi também concebido como “protection against burrowing animals and ants” (proteção contra roedores Figura 13 . A barragem de Pedreira ou do Rio Grande é constituída por dois aterros hidráulicos. O diafragma. a céu aberto com oito unidades no total de 661 MW. quatro dos quais feitos como aterros hidráulicos e os restantes por transporte animal e compactação apenas pelo tráfego das carroças.

sendo restrito a ocasiões de ocorrência de precipitações intensas com o objetivo de minimizar as consequências das enchentes na cidade de São Paulo e no vale do rio Tietê. Dignas de nota são as unidades das elevatórias de Traição e Pedreira que foram as primeiras unidades reversíveis a serem instaladas no mundo. A instabilidade natural das encostas da Serra do Mar foi um dos fatores para que Karl Terzaghi recomendasse que a casa de força de Henry Borden fosse subterrânea. Houve. o bombeamento para o reservatório de Billings foi praticamente suprimido.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens cada. seguidas pelas quatro unidades da elevatória de Vigário. por imposições ambientais. portanto. Nos anos recentes. Figura 12 .Seção transversal da elevatória de Traição 149 . perda de geração do Projeto da Serra que tanto progresso garantiu a São Paulo. instaladas pela Rio Light em 1953. A usina de Henry Borden era a ampliação da usina de Cubatão. Todas unidades são com turbinas Pelton.

150 .

cujos extensos alagadiços formavam um ambiente favorável à procriação de mosquitos transmissores da malária. em certos casos.DNOS foi um órgão federal que. em grande parte devido à atuação de seu diretor. que não levaram em conta a vulnerabilidade a inundações de parte da área.DNOS Paulo Poggi Pereira A origem O Departamento Nacional de Obras de Saneamento . o que faz com que hoje muitos logradouros. após a Segunda Guerra Mundial. Com a redução da população de mosquitos a malária foi erradicada a ponto de muitas pessoas não saberem hoje que ela existiu. criada em 1933. entre 1940 e 1990. Ele originou-se de uma comissão. A ênfase no objetivo sanitário levou. principalmente mediante abertura de canais e construção de diques.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens As Barragens do Departamento Nacional de Obras de Saneamento . que na época era doença endêmica na região em torno da cidade do Rio de Janeiro. os municípios da Baixada Fluminense permitiram a urbanização destas terras com loteamentos inadequados. moradias e empresas sejam periodicamente inundados. foi transformada no Departamento 151 . incluindo grande número de barragens. Engenheiro Hildebrando de Araujo Góes. Por outro lado. para o saneamento da baixada fluminense. a dimensionar a drenagem apenas para escoar as águas da chuva em um prazo que impossibilitasse a reprodução dos mosquitos e permitisse a utilização da terra para criação de gado. Os trabalhos se destinavam a drenar as terras e protegê-las contra inundações. que na época era a principal atividade econômica da região. Figura 1 – Barragem de Macabú Em 1940 a Comissão para o Saneamento da Baixada Fluminense. construiu obras hidráulicas para diversos fins em todo o Brasil.

que continuou trabalhando ativamente na Baixada. Uma solução interessante foi a estabilização provisória do teto de um túnel que tinha 1200 m de extensão e seção circular com 9. é do tipo arco-gravidade. são pequenas. Hidroeletricidade Quando acabou a Segunda Guerra Mundial o DNOS começou a construir barragens do programa de eletrificação do estado do Rio Grande do Sul. XX e XXI Nacional de Obras de Saneamento. mas com fissuras. passando depois a atuar em outros estados. primeira obra não foi feito com a necessária impermeabilidade. adotou-se dosagens modestas. A rocha local era basalto. e evitar que o aquecimento que ocorre durante sua hidratação aquecesse o concreto além do limite aceitável. Nos itens seguintes são apresentadas informações sobre estas barragens. e ao final será descrita sumariamente a sistemática utilizada para realizar os trabalhos de construção e a atuação dos engenheiros que lideraram o DNOS. em todas as outras obras foi utilizado equipamento capaz de preparar e colocar concreto feito com agregados maiores. concluída em 1949. reunidas de acordo com suas finalidades. Alguns dias após a escavação de alguns metros do túnel. bastante resistente. soltavam-se blocos de rocha do teto. o que poderia resultar na abertura de trincas no maciço. com este mesmo objetivo limitava-se a espessura de cada camada de concreto colocada durante a construção. os operários colocavam manualmente pedras de mão. e não foram adicionadas as pedras de mão. mas estendeu sua atuação para todo o território nacional. o concreto desta 152 . O Quadro 1 apresenta a localização e as características principais destas obras. Não se dispunha de areia adequada no local nem muita experiência neste tipo de concreto na época. Uma providência necessária nas obras feitas no planalto do Rio Grande do Sul foi interromper a concretagem quando a temperatura ambiente ficava muito próxima de zero graus centígrados. com boas condições de fundação para barragens deste tipo. tendo sido impermeabilizado posteriormente mediante injeções de calda de cimento. por este motivo. A partir de 1944 o DNOS foi encarregado de construir barragens para usinas hidroelétricas.00 m de diâmetro após ser revestido. os quais foram sendo resolvidos pelos engenheiros do órgão. Com uma única exceção todas elas foram feitas de concreto.A História das Barragens no Brasil . naquela época ainda não existia a Eletrobras nem outro organismo com a atribuição de aplicar recursos federais em eletrificação.Séculos XIX. apoiando programas de eletrificação dos estados. construída em concreto simples com relativamente pouco cimento. aproveitando o fato de que os locais de implantação eram rochosos. para fazer frente ao alto custo do cimento na época. logo após seu lançamento e durante sua vibração. A primeira barragem de grande porte foi a de Capingui. Duas destas barragens foram feitas com concreto ciclópico. ocorreram problemas técnicos imprevistos nas obras. Depois foram sendo atendidas solicitações para construção de barragens de outras finalidades. o que eventualmente acidentou alguns operários. Era difícil fiscalizar os trabalhos de modo a garantir a correta colocação das pedras de mão. não muito alta. ao longo de seus 50 anos de existência. porque o cimento poderia ter sua pega prejudicada pelas temperaturas excessivamente baixas. o que fez do DNOS. não exigindo grande resistência. confeccionado com brita de granulometria pouco mais graúda do que o normal no qual. a entidade nacional que construiu barragens com a maior diversidade de funções. Como de costume. não mais que 200 kg de cimento por m 3. Uma vez que as tensões que ocorrem numa barragem tipo gravidade. havendo casos em que foi de apenas um metro. face à necessidade de cumprir prazos.

O sistema empregado evitou colocar os operários em risco perfurando o teto do túnel. impedindo quaisquer outros desabamentos. Nos Estados Unidos eram realizadas estabilizações deste tipo perfurando a rocha do teto do túnel e introduzindo nos furos hastes metálicas especiais.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A solução encontrada foi implantar uma abóbada de concreto simples bombeado. dispensou a importação de roof bolts. foi executado com equipamento e material disponível na obra. Uma novidade tecnológica que o DNOS precisou enfrentar foi a construção da barragem de Ernestina. na concorrência para execução da obra. que prendiam os blocos de rocha superficiais à rocha mais distante da superfície da escavação. chamadas roof bolts. engastado na rocha de fundação. apoiando o teto nas paredes laterais. algumas horas após a abertura de cada trecho de túnel. e funcionou perfeitamente. O projeto foi proposto como variante. que consistia em um muro vertical de concreto protendido. pela empresa Estacas Franki. cujo diretor técnico Figura 2 – Barragem de Glicério 153 .

na Bahia. O diretor geral do DNOS na época. foi admitida a apresentação de variantes na concorrência para execução da obra. construídas em concreto simples. e venceu a barragem tipo gravidade aliviada. Como não havia condições para alterar o projeto. todas as demais obras para hidroeletricidade foram do tipo gravidade. britas e pedras arrumadas separando o enrocamento da areia da fundação.Séculos XIX. que foi construída em contrafortes sustentando lajes planas de concreto armado.A História das Barragens no Brasil . que foi ao longo de toda a vida um grande engenheiro entusiasta de tecnologia de ponta. com uma delgada camada de barragens destinadas a hidroeletricidade. mas este tipo de obra nunca mais foi adotado. no Rio de Contas. o DNOS ficou encarregado apenas da orientação técnica e da fiscalização das obras. preferindo-se sempre soluções mais simples e menos ousadas. Figura 3 . comentou que só ficaria tranqüilo se o projeto previsse a remoção da areia e a colocação do enrocamento diretamente sobre a rocha subjacente. Na última obra de que participou. com uma altura máxima de 65 m a partir da fundação rochosa.Seção transversal da barragem de Pedra 154 . ficou compreensivelmente apreensivo com relação à solução dada para a fundação. A barragem foi construída pela empresa proponente e funcionou adequadamente. provindo os recursos da Eletrobras e do governo do estado do Rio Grande do Sul. Em 1973 o DNOS encerrou suas atividades na construção de A única barragem mais sofisticada foi a de Pedra. Engenheiro Camilo de Menezes. barragem de Passo Fundo. Com exceção da barragem de Canastra. uma estrutura tipo gravidade aliviada. O projeto original desta obra previa um maciço de enrocamento apoiado em fundação de areia. XX e XXI à época era o professor Costa Nunes. uma vez que já existia entidade federal com a incumbência específica de promover a eletrificação do país.

a qual é depois aduzida por gravidade. e tem fundação em terra. Sua característica mais marcante é a calha do rio ter sido bifurcada em duas alças mediante dragagem. através de um túnel. a duplicação destina-se a ter uma alça conduzindo lentamente água para ser captada. integrante da tomada d’água do sistema adutor constr uído pelo DNOS para abastecer Belo Horizonte. e escoam para jusante as vazões excedentes do rio. o sangradouro foi localizado. Ceará. informando a localização das mesmas. enquanto na outra alça vão sendo removidos os sedimentos que se depositaram enquanto ela esteve em operação. Minas Gerais. é de concreto armado. A Barragem do Rio das Velhas. dotada de comportas. formado por um muro vertical engastado em uma laje horizontal ancorada na rocha de fundação. O sangradouro é do tipo labirinto. suas características e os anos de conclusão das obras. algumas delas têm características interessantes.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 4 – Barragem de Pedra Abastecimento de água a cidades O Quadro 2 relaciona as barragens construídas pelo DNOS para abastecer cidades. que regulariza a contribuição do Rio Pacoti. As barragens de Riachão e Pacoti formam um único reservatório. ponto este 155 . ao reservatório que abastece Fortaleza. no único local da área onde existe rocha a profundidade adequada.

A barragem do Arroio Duro fornece água para essa irrigação. O restante da barragem foi construído em terra.casa de força e adução encontrado através de uma extensa. no rio São João. realizados ao longo do eixo previsto para Figura 5b – Usina hidroelétrica de Passo Fundo . dispensou-se o revestimento do canal de restituição. com o objetivo de conhecer os locais onde havia rocha subjacente. no Rio Grande do Sul. XX e XXI a obra. autorizandose então o respectivo plantio. com base no volume acumulado.A História das Barragens no Brasil . com fundação em rocha. sobre fundação de argila mole. deixando-se a água escoar pelo terreno após seu vertimento. A barragem é de terra. pesquisa realizada por sondagens a percussão. Irrigação O grande sucesso do DNOS em matéria de irrigação foi o projeto que irriga aproximadamente 15. obras estas realizadas em concreto. Aproveitando a existência de rocha de boa qualidade no local. só tomando precauções para impedir que a água se aproximasse do maciço da barragem do Pacoti. em cada ano. a tomada d’água e a descarga de fundo. ela foi projetada após uma campanha de furos de sondagem a percussão. na qual foi então implantado o sangradouro em labirinto. A barragem de Juturnaíba.Séculos XIX. porém simples. fornece água para abastecimento das cidades da Região dos Lagos. no Estado do Rio de Janeiro. com funda- Figura 5a – Usina hidroelétrica de Passo Fundo . a área que pode ser irrigada.000 hectares de arroz no município de Camaquã.condutos forçados 156 . Da mesma for ma que a bar ragem acima mencio­­ nada. Só foi encontrada rocha em uma pequena ilha. é avaliada.

Alguns anos depois os jornais noticiaram a chegada de mico-leões dourados importados da Flórida. O Quadro 3 relaciona as barragens construídas pelo DNOS para irrigação. foi desapropriada uma área de mais de 20. sem beneficiar esta última cidade nem a área a jusante da mesma. abortando assim o projeto de irrigação. o projeto previu uma cortina delgada de solo-cimento para vedação e um filtro instalado em uma trincheira situada no pé do talude de jusante. para depois constr uir em terra a Barragem Sul e finalmente a Barragem Norte. que é liberado somente quando as vazões do rio Capibaribe aumentam a ponto de serem capazes de diluir e dar escoamento ao vinhoto sem criar problemas ambientais. para povoar a reserva de Poço D’Antas. mediante substituição por outra área equivalente para compor a reserva. planejou-se implantar irrigação de hortigranjeiros em uma área localizada na margem esquerda do canal do rio São João. Tapacurá é utilizada também para fornecer água destinada ao abastecimento de Recife. para abaixar satisfatoriamente o nível d’água naquela cidade. Esta área podia ser abastecida de água por gravidade.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens ção também em terra. em concreto gravidade. Controle de cheias As primeiras barragens para controle de cheias do DNOS foram construídas no Vale do Itajaí. graças ao bom funcionamento do filtro. Para controlar as infiltrações na fundação. esta desapropriação incluiu a área onde se previa o projeto de irrigação. Iniciou-se pela Barragem Oeste. a partir da barragem. A atual contribuição da barragem para irrigação resume-se em disponibilizar água para os fazendeiros que quiserem irrigar suas plantações captando água no rio São João. a canalização do rio Capibaribe na área urbana daquela cidade. não indicaram funcionamento adequado da cortina de vedação. realizadas após a entrada em operação da obra. em Santa Catarina. que recolheria as infiltrações. imediatamente a jusante da barragem. Infelizmente o DNOS foi extinto antes de completar esta dragagem. Outras barragens para controle de cheias foram as de Tapacurá. com o crescente desenvolvimento de Cabo Frio e outras cidades litorâneas. o DNOS não terminou a construção desta última. características e ano de conclusão. e informa suas localizações. para implantar o projeto. relativamente curtas. mas este pedido não foi atendido. Foi solicitada a sua liberação. mas a barragem não apresentou nenhum problema. Quando foi projetada a barragem de Juturnaíba. como também operar as mesmas liberando vazões 157 . além de outros cuidados habituais. o rio teve sua capacidade aumentada mediante regularização e alargamento de sua calha. a jusante da barragem. caso a cortina não funcionasse adequadamente. O controle de cheias de Recife incluiu. e substituição de duas pontes. sub-produto malcheiroso da indústria de cana de açúcar. Quando estavam terminando as negociações com uma cooperativa. mencionada no ítem sobre abastecimento urbano. Goitá e Carpina. Entretanto. Estados Unidos. mas o Estado de Santa Catarina a concluiu em 1992 e ela está funcionando a contento. Algumas medições de pressão intersticial na fundação. na bacia do Rio Capibaribe. por outras de maior vão. o reservatório de Juturnaíba tornou-se fundamental para abastecimento urbano de água na denominada Região dos Lagos do Estado do Rio.000 ha para formar a reserva de mico-leão dourado de Poço d’Antas. e Goitá é utilizada para reter vinhoto. para proteger Blumenau e outras cidades do Vale. que só foi executada entre as cidades de Blumenau e Gaspar. Terminou sendo necessário complementar as barragens com dragagem do rio Itajaí a jusante de Blumenau. possibilitando não só escoar sem extravasamento as vazões provenientes da área da bacia contribuinte não controlada pelas barragens. o que é indispensável para evitar a salinização do solo. e sua cota era suficientemente alta para ter boa drenagem. Infelizmente os locais onde podiam ser construídas barragens naquele vale não possibilitavam controlar a maior parte da bacia contribuinte. Estas obras aumentaram a capacidade da calha. no Estado de Pernambuco. além das barragens.

Trata-se de uma barragem de concreto simples tipo gravidade. RS. 158 . cujo reservatório só enche quando ocorrem chuvas fortes. Flores. A última barragem de controle de inundações construída pelo DNOS foi Arroio Gontam. sendo o caso das barragens de Pedra. O Quadro 4 relaciona as barragens construídas pelo DNOS para controle de cheias e informa suas localizações. na cidade de Bagé. Algumas outras barragens do DNOS fazem controle de cheias como objetivo secundário. inundações a jusante. retendo os deflúvios e liberando-os aos poucos. Pampulha. que permitiu sua eventual inundação. A característica especial desta obra é o fato do reservatório estar situado em terras do Exército. evitando assim. características e ano de conclusão. XX e XXI Figura 6 – Barragem e diques de Tapacurá relativamente grandes. retendo em seus reservatórios apenas uma fração da cheia condizente com a capacidade dos mesmos. para evitar enchentes na cidade. concluída em 1982.A História das Barragens no Brasil .Séculos XIX. Passaúna e Juturnaíba.

nos parágrafos abaixo menciona-se a finalidade das mesmas e acrescenta-se alguns detalhes. frequentemente entrava água salgada do oceano na lagoa. características técnicas e ano de conclusão. pelo Canal de São Gonçalo. prejudicando a irrigação. o qual drena a Lagoa Mirim. A mais importante destas barragens é a do Canal São Gonçalo. Esta lagoa é usada intensivamente como fonte de água para irrigação de arroz em ambos os países. situada no extremo sul do Brasil e é partilhada com o Uruguai. Figura 7 – Barragem e Sangradouro de Arroio Duro Figura 8 – Barragem de Carpina 159 . informando suas localizações. e. durante a estiagem.CINQUENTA ANOS DO COMITÊ BRASILEIRO DE BARRAGENS Finalidades diversas O Quadro 5 relaciona barragens construídas com finalidades diversas.

o grande desenvolvimento que aconteceu recentemente nesta última cidade aumentou a importância da disponibilidade garantida de água doce criada pela barragem. produziam muitos sedimentos que assoreavam a calha do rio. uma fábrica de cimento situada em Porto Alegre é abastecida com matéria prima vinda do Uruguai em barcaças que passam pelo Canal. com 231 m de comprimento. Para manter a navegação. e. de modo a não interferir no acesso marítimo àquela cidade. que resultam em retração da lâmina d’água do alagado e intrusão de língua salina proveniente do oceano. existe ali uma área alagada. Em cota um pouco mais alta há uma passarela onde estão instalados mecanismos de comando das comportas. mantendo o espelho d’água. criação de gado e irrigação. Para executar a obra foi aberto um canal de desvio com 120 m de largura e a calha do rio foi inteiramente aterrada no local previsto para a barragem. A região é aluvionar. houve empenho em construir a obra exatamente na calha do rio. prejudicando seu escoamento. engastada em fundação de areia e cascalho. O projeto previu uma eclusa. ao longo destes anos a urbanização ficou mais consolidada e diminuiu a produção de sedimentos que causavam problemas. Periodicamente ocorrem grandes estiagens. na região de Campos – Rio de Janeiro. A barragem foi localizada a montante da cidade de Pelotas. que recebe a contribuição de grande parte dos rios e canais da planície existente entre a margem direita do rio Paraíba do Sul e o mar.A História das Barragens no Brasil . MG. e atravessa o canal. o reservatório da referida barragem ficou completamente assoreado. A barragem possui comportas que são fechadas por ocasião das estiagens. no topo da qual foram instaladas comportas basculantes. rompeu por erosão interna em 1954. XX e XXI Após entendimentos com a República do Uruguai. o alagado também é utilizado para navegação. Outra barragem que impede a salinização de manancial de água doce é a do rio Pericumã. e o DNOS a reconstruiu. com a dupla finalidade de controlar as cheias do rio Leitão e reter seus sedimentos. as comportas são abertas para deixarem escoar o eventual excesso de água da Lagoa Mirim. Maranhão. o que proporciona um acréscimo de energia firme em cinco usinas hidroelétricas existentes a jusante. para permitir a continuação da navegação fluvial. por causa disso. onde é obtida água para o abastecimento da cidade. A barragem de Chapéu D’Úvas controla parcialmente as cheias do rio Paraibuna e aumenta a vazão de estiagem do rio. Após a conclusão dos trabalhos a areia usada para o aterramento foi retirada completamente e o canal de desvio foi reaterrado. para permitir fácil captação e adução de água doce para abastecimento de Pelotas e do porto de Rio Grande. mas serve também como fonte de água para irrigação. Quando necessário. o Governo incumbiu o DNOS de construir uma barragem para impedir a entrada de água salgada na Lagoa. mas a curta distância. em Belo Horizonte. impedindo a penetra ção da língua salina e garantindo a disponibilidade de água doce. Suas 160 . ao lado da cidade de Pinheiro. um dos dissipadores de energia das comportas funciona também como eclusa. durante a urbanização da mesma. A barragem é constituída por uma estrutura de concreto com uma cortina profunda de concreto armado. Por outro lado. MG. depois de alguns anos. o que torna importante controlar seu nível. prejudicando ou interrompendo as utilizações de água acima mencionadas. A barragem do Canal da Flecha tem como finalidade controlar o nível da água na Lagoa Feia. além de aumentar a disponibilidade de água para o abastecimento de água de Juiz de Fora. A barragem que existia na Pampulha. Os movimentos de terra realizados na bacia do rio Leitão.Séculos XIX. possibilitando o acesso de embarcações vindas do mar até a cidade de Pinheiro. uma vez que qualquer mudança de posição poderia provocar divagações do leito do rio com graves conseqüências. O barramento é de pequena altura. e são fechadas na estiagem para impedir que a água salgada do Oceano Atlântico penetre na Lagoa. A pequena Barragem de Santa Lucia foi construída na zona urbana de Belo Horizonte. esta lagoa integra a drenagem da área. Esses sedimentos passaram a ficar retidos no reservatório da barragem de Santa Lúcia.

Sempre foi uma preocupação dos dirigentes promover a capacitação dos engenheiros do órgão. a empresa consultora procurou evitar relacionamento entre seus engenheiros e os engenheiros da empresa construtora. mas nos primeiros 25 anos de construção de barragens os trabalhos de fiscalização. de laboratório. incluindo a locação. as quais.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens finalidades são recreação. etc. seus engenheiros tinham que viajar com freqüência. Neste sentido recorreram. para que pudessem cumprir adequadamente suas tarefas. Tendo em vista que as atividades do DNOS se desenvolviam em praticamente todos os estados da Federação. Ele dirigia o Distrito do Rio Grande do Sul. foram realizados por funcionários do próprio DNOS. Os engenheiros do órgão passaram a fiscalizar o trabalho das consultoras que realizavam os trabalhos topográficos. A orientação técnica do DNOS foi muito influenciada pelo Engenheiro Otto Pfafstetter. e realiza também controle de cheias. Nos seus últimos 15 anos de atividade o DNOS passou a contratar empresas para realizar os trabalhos técnicos de controle da construção de barragens. o DNOS montou uma rede de rádio que chegou a ter 50 estações. e face à precariedade do Departamento dos Correios e Telégrafos (DCT) e do sistema telefônico. face às grandes distâncias a percorrer e à deficiência das estradas. autor de muitos projetos de obras importantes. que tinham assim possibilidade de comunicação diária com os escritórios regionais e mesmo com a sede do órgão. o topógrafo. lazer e paisagismo. para comunicação entre seus escritórios. fornece água para irrigação. mas meia dúzia de outros países o adotaram. são de difícil definição. Em pelo menos duas obras. e seu nome foi dado a uma barragem que o DNOS construiu naquele estado. A barragem do Flores. existentes na época. Outro trabalho muito interessante dele foi um sistema para designação de número de registro de trechos de cursos d’água. que bateu em um morro tentando pousar em Porto Alegre com pouca visibilidade. entre outras entidades. medição e controle de qualidade das obras. para proporcionar estágios em 161 . amortecendo as vazões do rio Pampulha. de controle dos serviços. ajudando a diminuir as enchentes que inundam a cidade de Bacabal e pode ser usada para aumentar a vazão do rio Mearim durante a estiagem. como o livro “Chuvas Intensas no Brasil”. facilitando assim a navegação. que correm paralelamente à pista do aeroporto da cidade a jusante da barragem. O primeiro deles foi com José Maia Filho. A organização dos trabalhos A construção das barragens sempre foi realizada por empresas empreiteiras. As instalações para construção de cada barragem incluíam um conjunto de casas onde ficavam alojados o engenheiro residente. morto em 1950 ao regressar de uma viagem para contato com a Administração Central do DNOS. o laboratorista e os demais funcionários. muitas vezes. Foi autor de importantes trabalhos técnicos. controla parte das vazões que escoam pelo rio Mearim. Havia estações de rádio nas barragens e outras obras importantes. no Rio de Janeiro. em um avião Constellation da VARIG. além disso. ao US Bureau of Reclamation dos Estados Unidos e até mesmo à UNESCO. A Barragem Mãe D’Água foi construída para fornecer água para o laboratório do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. funcionário do órgão. destinado à organização de cadastro nacional de cursos d’água. podendo-se citar as barragens Engenheiro José Batista Pereira. ao invés de partir das cabeceiras. Não se sabe se esses cuidados eram realmente necessários. ao IPT de São Paulo. Este sistema não é utilizado no Brasil. esta numeração parte da foz dos rios e segue para montante. Sendo o DNOS um órgão nacional. seus laboratórios de solos e concreto. mas ambas as barragens ficaram em excelentes condições. que é um afluente do rio Mearim. Tapacurá e São Gonçalo. proibindo inclusive que fizessem refeições juntos. Antes da adoção de motores a jato e equipamentos modernos para voo por instrumentos aconteciam muitos acidentes. quase sempre de avião.

Os funcionários do DNOS orientavam e fiscalizavam os trabalhos. engenheiro Raimundo Cláudio Correia Leitão a uma barragem que ia ser construída no estado onde ele havia nascido. fazendo inclusive os levantamentos topográficos necessários para isto. Ele estabeleceu o sistema de trabalho pelo qual as obras eram executadas por empresas.A História das Barragens no Brasil . Os Gestores O primeiro Diretor do DNOS foi Hildebrando de Araújo Góes. Muitos anos depois houve um abaixo assinado pedindo para dar o nome do Diretor de Obras do DNOS na época. o DNOS começou a adquirir este equipamento e contratar sua operação com empreiteiros. foi presidente da CHEVAP e diretor da Escola de Engenharia da Universidade Federal Fluminense. Diretor-Geral do DNOS de 1946 a 1961 162 . que assumiu a chefia da Comissão de Saneamento da Baixada Fluminense na sua fundação em 1933. engenheiro do órgão. Figura 9 Hildebrando de Araújo Góes. a quem se queria homenagear. após passado um ano. quando Getúlio Vargas era Presidente da República. tendo ficado 15 anos no cargo. como fazia o Departamento Nacional de Obras contra as Secas naquela época. primeiro Diretor do DNOS Camilo de Menezes. Como a grande maioria das empresas não dispunha de escavadeiras para abertura de canais. morreu num desastre de avião em serviço.Engenheiro Camilo de Menezes. que na época era a capital federal. foi o Diretor-Geral seguinte. com problemas tecnológicos ainda pouco conhecidos no país. Antes de transcorrer um ano o engenheiro Leitão. Expandiu as atividades do DNOS para quase todos os Estados e enfrentou com sucesso o desafio da construção de grande número de barragens. como às vezes fazia. que respondeu escrevendo que preferia continuar vivo. Após deixar a direção do DNOS. uma vez que há uma lei proibindo dar nome de pessoas vivas a obras do governo. quando foi ser prefeito do Rio de Janeiro. O Diretor Geral encaminhou o assunto ao homenageado.Séculos XIX. Dirigiu o Figura 10 . XX e XXI órgão até o ano de 1946. e promoveu sua transformação em Departamento Nacional de Obras de Saneamento em 1940. Uma característica comum aos dois primeiros diretores foi continuar estudando assuntos de engenharia enquanto exerciam a direção do órgão. Foi então dado o seu nome à barragem. O Diretor-Geral solicitou que o arquivo lhe remetesse os documentos referentes a este assunto de volta. conforme havia sido solicitado. em vez de serem construídas por administração direta.

determinou a extinção do DNOS. com a missão de transformar o órgão em autarquia. depois ministro de Minas e Energia e deputado federal. que aumentou substancialmente o abastecimento de água a Belo Horizonte. que deu prosseguimento às atividades relacionadas à irrigação no Nordeste e deu grande impulso às obras de controle de cheias no Vale do Itajaí. Na sua gestão foram concluídas as barragens de Carpina. saiu para ser superintendente da Sudene. engenheiro do DNOS que imprimiu notável organização aos trabalhos. Diretor Geral do DNOS 163 . governador do estado do Maranhão. Harry Amorim Costa.José Reinaldo Carneiro Tavares. inaugurou as obras da adutora do rio das Velhas. Figura 11 . incluindo a Barragem de Pedra. em cuja gestão foram executados aterros para saneamento de favelas no Rio de Janeiro. que desenvolveu atividades voltadas para irrigação no Nordeste e deixou a direção para ser ministro da Irrigação. Na sua gestão foi concluída a construção da Barragem do São Gonçalo. . Foram eles: . Provavelmente o fabricante das máquinas não empregava técnicas de obsolescência programada. ajudado por sua longa experiência como Diretor Geral Substituto. Deixou o cargo para assumir o governo do estado de Mato Grosso do Sul. Faziam parte da compra peças sobressalentes no valor de um milhão de dólares. que seria o último engenheiro da casa a dirigir o DNOS. necessitando como grandes reparos apenas a substituição periódica dos motores quando acabava sua vida útil e a recomposição da mesa sobre a qual girava o conjunto formado pela cabine e a lança. no rio de Contas. Ao tomar posse em 1990 o presidente Collor. As obras e os serviços que o órgão estava executando Nos governos dos presidentes João Figueiredo e José Sarney sucederam-se no DNOS diretores que não eram engenheiros do serviço público federal. Pacoti e Riachão acima mencionadas. Em 1974 outro engenheiro da casa. o que fez com grande competência. Após a revolução de 1964 sucederam-se na direção do órgão quatro diretores que ficaram pouco tempo. Goitá. estado da Bahia e a Barragem de Tapacurá. mas que se dedicaram ao trabalho com afinco e realizaram excelentes administrações. mais tarde. ao preço total de sete milhões de dólares.Geraldo Bastos da Costa Reis. o que conseguiu fazer apesar da renúncia de Jânio Quadros. no estado de Pernambuco. sendo três deles militares. Fez com que as obras e serviços executados para o órgão fossem pagos na ordem cronológica da apresentação das respectivas medições e faturas na tesouraria. Assumiu então Jefferson de Almeida.Vicente Fialho . Estas máquinas prestaram bons serviços de 1964 até a extinção do DNOS em 1990.Paulo Baier. foram realizadas obras de defesa contra inundações em cidades às margens do rio São Francisco e tiveram início os estudos do governo federal para transposição do rio São Francisco para o Nordeste semi-árido. Um aspecto interessante de sua gestão foi a compra de 200 escavadeiras marca Nobas. . Em 1967 assumiu o cargo Carlos Krebs Filho. depois ministro dos Transportes e. dirigiu o DNOS até sua extinção. da Alemanha Oriental. assumiu a direção do DNOS e manteve a mesma sistemática de trabalho. Na sua gestão foram concluídas dez barragens. pagos em café.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Em 1961 o presidente Jânio Quadros nomeou Diretor Geral do DNOS o engenheiro do DNER Geraldo Bastos da Costa Reis.

000 155 150 220 100 125 239 600 400 174 896 200 507 164 432 200 113 188 256 100 193 440 582 646 505 582 3.000 16.000 80.500. Diretor-Geral do DNOS de 1967 a 1974 e o engenheiro Jefferson de Almeida. F.000 350.Séculos XIX. vendo-se da esquerda para a direita o Gen.000..750.275 22.000 15. XX e XXI foram paralisados.000 57. a construção dessas duas barragens foi concluída alguns anos mais tarde.000.Inauguração de uma barragem no Nordeste. que tinha perto de 40.700. ficando sem condições de ser consultado. até enferrujar completamente no lugar onde se encontravam..000 3.000 1.000 370.000.000 61.50 3 22 4.000 30..000 26.800 76.00/511. graças à atuação dos estados mencionados. em Minas Gerais e a Barragem Norte.000 539.500 119. O arquivo técnico do DNOS.000 4.000 250.000 IVAÍ IJUIZINHO CAPINGUÍ GUARITA FORQUILHA DIVISA SALTO / BUGRES ERNESTINA CANASTRA SANCHURI JOÃO AMADO BLANG PASSO DO AJURICABA JOSÉ MAIA FILHO BORTOLAN ANIL PAI JOAQUIM MACABU GARCIA LARANJEIRAS 1948 1948 1949 1949 1949 1950 1951 1954 1956 1956 1957 1957 1960 1961 1956 1959 1960 1960 1962 1965 1970 1972 1973 .000.000 6.000 17. José Costa Cavalcanti. Entretanto. Muitas empresas de engenharia que estavam prestando serviços ou executando obras ficaram numa situação financeira dificílima. Figura 12 .000. foi destruída uma organização que produzia obras e serviços extremamente benéficos e necessários. Paula Passo Fundo Canela Uruguaiana Passo Missões S..000. Resumindo.000. sem que fosse criada uma alternativa.000 31..000 4.000.000 130.BARRAGENS PARA HIDROELETRICIDADE LOCALIZAÇÃO Nº 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 CARACTERÍSTICAS NOME CURSO D'ÁGUA Ivaí Ijuizinho Capinguí Guarita Forquilha Divisa Santa Cruz Jacuí Santa Maria Sanchuri Guarita Santa Cruz Ijuí Jacuí Antas Jacaré Araguari Macabu Garcia Santa Maria Contas MUNICIPIO Julio Castilhos Santo Ângelo Passo Fundo Passo Missões Marc.50 15 24 6 11 17 9 24 11 8 15 20 19 24.000. Ministro do Interior.800 2.000 5.A História das Barragens no Brasil .000.000 800 10.800/14.000 58. foi entregue ao Arquivo Nacional. F.500 80.000 1.000 Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Ciclópico Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Ciclópico Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Simples Gravidade Aliviada / Concr.50 65 22 40 15 22 38.900 5.000 10.560.000.700 35.000. 51. Ramos S.250 20.000 40.000 400.000.30 42. Mais de cem escavadeiras de propriedade do DNOS ficaram paradas no campo.500 8.000 15. o engenheiro Carlos Krebs Filho.500 2. .600 9.000.900 18. em Santa Catarina.300 24.000 390.500 11.. Simples Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto / Terra PEDRA PASSO FUNDO XANXERÊ FURNAS DO SEGREDO Jaguarí Passo Fundo Chapecozinho Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Simples ITÚ Itaquí Itaquí 164 . Por sorte. F.000 1.000.000. Paula Ijuí Espumoso Poços Caldas Oliveira Sacramento Glicério Angelina Canela Jequié Jaguarí São Valentim Xanxerê UF RS RS RS RS RS RS RS RS RS RS RS RS RS RS MG MG MG RJ SC RS BA RS RS SC RS TIPO / MATERIAL Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Simples Muro de Concreto Protendido Contrafortes / Concreto Armado Terra Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto / Terra ANO DE ALTURA ACUMULAÇÃO CONCLUSÃO VOLUME DO EXTENSÃO RESERVATÓRIO COROAMENTO MÁXIMA MACIÇO(m³) (m³) (m) (m) 3. que viria a ser Diretor-Geral do DNOS em 1978-1979 QUADRO 1 .000 10..50 3 25 11. Esta última chegou a ter sua vila residencial do canteiro de obras invadida por índios naquela ocasião. somente duas barragens estavam em construção naquele momento: a Barragem de Chapéu D’Uvas. Paula S.000 50.000 desenhos de projeto de obras....

000 **** 16.500 2.000.500 3.000 422 438 1720 220 150 365 25 43.000.000 1.000 8.BARRAGENS PARA CONTROLE DE CHEIAS LOCALIZAÇÃO Nº 1 2 3 4 5 6 OESTE SUL CARPINA GOITÁ GONTAN NORTE CARACTERÍSTICAS NOME CURSO D'ÁGUA Itajai Oeste Itajai Sul Capibaribe Goitá Gontan Hercilio MUNICIPIO Taió Ituporanga Carpina Gloria do Goitá Bagé Ibirama UF SC SC PE PE RS SC TIPO / MATERIAL Gravidade / Concreto Simples Terra Terra / Zoneada Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto simples Terra ANO DE ALTURA ACUMULAÇÃO CONCLUSÃO VOLUME DO EXTENSÃO RESERVATÓRIO COROAMENTO MÁXIMA MACIÇO(m³) (m³) (m) (m) 93.000 430.000.340 105.000 775.053.000 3.000 27.4 43 700. Dilúvio São Gonçalo Canal Flexa Pericumã Flores Paraibuna MUNICIPIO Belo Horizonte Belo Horizonte Viamão Pelotas Campos Pinheiro Joselandia Juiz de Fora UF MG MG RS RS RJ MA MA MG TIPO / MATERIAL Terra Homogênea Terra Homogênea Terra Homogênea Concreto Armado Concreto Armado Concreto Armado Terra Homogênea Terra Homogênea ANO DE ALTURA ACUMULAÇÃO CONCLUSÃO VOLUME DO EXTENSÃO RESERVATÓRIO COROAMENTO MÁXIMA MACIÇO(m³) (m³) (m) (m) 60.000 570.800 2.000.000 148.000.500.360 1.000.000 **** **** 63.450 920 12 14 17 21 45 4.20 3 29.000 108.000 13.000 1956 1958 1962 1977 1980 1982 1988 1994 SANTA LÚCIA PAMPULHA MÃE D'ÁGUA SÃO GONÇALO FLEXA PERICUMÃ FLORES CHAPÉU D'UVAS 165 .000 5.000 **** 196.50 42 38 16 63 78.000 370.000 2.500 41.000.BARRAGENS PARA ABASTECIMENTO URBANO LOCALIZAÇÃO Nº 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 BATATÃ PRETO DO CRICIUMA SANTA BÁRBARA RIO DAS VELHAS RIO DAS VELHAS II MAESTRA VACACAÍ MIRIM VAL DE SERRA TAPACURÁ RIO DAS VELHAS III PACOTI RIACHÃO JUTURNAIBA XARÉU PASSAÚNA CARACTERÍSTICAS NOME CURSO D'ÁGUA Batatã Rio Preto Santa Bárbara Velhas Velhas Maestra Vacacaí Mirim Ibicuí Tapacurá Velhas Pacotí Riachão São João Água Pluvial Passúna MUNICIPIO São Luís Jequié Pelotas Nova Lima Nova Lima Caxias do Sul Santa Maria Santa Maria São Lourenço Nova Lima Pacatuba Pacatuba Silva Jardim Fern.000 93.000.000 1.000.BARRAGENS COM FINALIDADES DIVERSAS LOCALIZAÇÃO Nº 1 2 3 4 5 6 7 8 CARACTERÍSTICAS NOME CURSO D'ÁGUA Leitão Pampulha Afl.900.BARRAGENS PARA IRRIGAÇÃO LOCALIZAÇÃO Nº NOME CARACTERÍSTICAS CURSO D'ÁGUA Truçu Carnauba Condado Duro MUNICIPIO Acopiara Acopiara Catarina Camaquã Poço Branco UF CE CE CE RS RN TIPO / MATERIAL Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Simples Terra Homogênea Terra Zoneada ANO DE ALTURA ACUMULAÇÃO CONCLUSÃO VOLUME DO EXTENSÃO MACIÇO(m³) COROAMENTO MÁXIMA RESERVATÓRIO (m³) (m) (m) 7.000 7. / Concreto Ciclópico Terra Homogênea Enrocamento Concreto Armado Terra Zoneada Terra Homogênea Concreto Armado Gravidade / Concreto Simples Concreto Armado Terra Terra Terra Gravidade / Concreto Simples Terra QUADRO 3 .000.000. Noronha Araúcária UF MA BA RS MG MG RS RS RS PE MG CE CE RJ PE PR Terra TIPO / MATERIAL ANO DE ALTURA ACUMULAÇÃO CONCLUSÃO VOLUME DO EXTENSÃO MACIÇO(m³) COROAMENTO MÁXIMA RESERVATÓRIO (m³) (m) (m) 390.5 9 28 28.000 150 40 390 1.800 **** **** 17 10 10 1.400 16.000 500.000 2.000 135.000 **** **** 485 104 715 100 42 295 300 438 320 42 1595 650 3.5 400 20 15 9 6.000.500.000 290.000.000.000 153.950.887.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens QUADRO 2 .000 1.800.000.000 1972 1975 1978 1978 1982 1992 QUADRO 5 .500.264.000 52.000 70.450.000 **** 165.440 1.000 16.000 270.000 97.500.000 167.000 126.000 186.000 1955 1956 1965 1965 1970 1 2 3 4 5 CEDRO CARNAUBA RIVALDO CARVALHO ARROIO DURO JOSÉ BATISTA PEREIRA Ceará Mirim QUADRO 4 .3 15 35 9 30 30 12 **** **** 4.000.000 30.000 263.000 3.000.000 758.940.580.350.000 5.000 **** **** 1957 **** 1969 1970 1970 1971 1972 1972 1973 1977 1979 1979 1979 **** 1989 Arco Gravid.000.000 500 12.000 115 400 200 218 130 137.000 2.

166 .

Pedro II. Em meados do século passado a cachoeira ainda despertava admiração. Indutora do Progresso do Nordeste “O rio São Francisco é o mais brasileiro dos rios” Engenheiro Euclides da Cunha Flavio Miguez de Mello O Nordeste na primeira metade do século XX Até a entrada dos anos 50 do século XX o Brasil permanecia sendo um arquipélago de regiões economicamente ativas com parcas conexões entre si a menos da malha ferroviária que integrava a Região Sudeste. As geradoras de energia elétrica na primeira metade do Século XX eram de pequeno porte e de operação precária. um hindu exclamava “It is just wonderful” e um americano perguntou “How much hydropower is lost here every day?” . a exemplo das diversas bitolas das ferrovias implantadas no país. O requerimento foi também indeferido pelo governo federal em 1913.500 HP (1. Na virada do Século XIX para o Século XX já se destacava o potencial hidroenergético da cachoeira de Paulo Afonso na qual o rio São Francisco despencava com uma vazão média plurianual superior a 2000 m³/s em vários braços por sobre uma espessa camada de rocha granítica sã.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A História da CHESF. Neste contexto. castigado pelas freqüentes secas resultantes de extensas estiagens o desenvolvimento do Nordeste era incipiente. os sistemas elétricos operavam em 60 Hz e 50 Hz. O requerimento foi indeferido em 1910. Nessa época. Foi nesse contexto que também em 1913. no dia 20 de outubro de 1859.102 KW) para gerar energia para 167 . atravessando com dificuldades o sertão nordestino. ainda no Século XIX. Anos antes. com 1. Essa visão do americano foi percebida bem antes. O jornalista Alceu Amoroso Lima relatou no periódico “O Jornal” declarações de três estrangeiros que estiveram a admirar a pujança da queda d’água: um francês disse “C’est très chic”. a imponente e magnífica queda d’água chamava atenção dos Figura 1 – Usina de Angiquinho visitantes que para lá se deslocavam enfrentando grandes distâncias dos centros urbanos. Pouco após o engenheiro Francisco Pinto Brandão solicitou a concessão do aproveitamento da cachoeira para produção de energia elétrica para uma empresa sua a ser implantada na região com a denominação de Empresa Hidro Elétrica Agrícola Industrial do Brasil. escassas rodovias rudimentares regionais e o transporte de cabotagem que atingia o litoral mais povoado e penetrava pelos rios amazônicos. o cearense Delmiro Gouveia colocou em operação a pequena usina hidroelétrica de Angiquinho. Dentre esses visitantes o de maior destaque foi o Imperador D. nos primeiros anos do Século XX pelo inglês Richard George Reidy que requereu ao governo federal a concessão para exploração do potencial da cachoeira de Paulo Afonso para instalação progressiva de indústrias e serviços.

a cujo ministério a política de energia elétrica estava subordinada. A usina. a capitaneada pelo engenheiro civil e economista por vocação Eugênio Gudin com a justificativa de que os parcos recursos federais deveriam ser concentrados no Sudeste onde já havia grande demanda reprimida de energia elétrica. não passando de lenda o lançamento dos equipamentos da fábrica e da usina. pelos ingleses da Machine Cotton. anos depois. erguida na cachoeira. cujo Ministério incluía o Setor Elétrico comandou a campanha para a construção de uma hidroelétrica na cachoeira de Paulo Afonso. 168 . Forte oposição a essa idéia veio de diferentes áreas. Em 1945. o Brasil questionava o regime de exceção do Estado Novo que havia marcado eleições para dezembro.Séculos XIX. autarquia americana implantada pelo presidente Franklin D. o contra almirante Jaigen Rohwer. mesmo em países mais evoluídos. o que ainda não havia em outras partes do território nacional cuja economia era essencialmente agrícola. procurava sensibilizar as lideranças políticas para a idéia da exploração do potencial da cachoeira de Paulo Afonso. Mário Barbosa de Moura e Mengalvio da Silva Rodrigues. Jayme Martins de Souza. O desequilíbrio entre o Nordeste e o Sudeste do país passou a ser cada vez mais nítido. aproveitava uma queda parcial e uma pequena parcela da vazão afluente. Apolônio. com o fim da II Grande Guerra. O Imperador quando a visitou. No início dos anos quarenta a tendência era a de promover a construção de uma grande usina em Itaparica (que só se tornou realidade nos anos setenta). Após a morte por assassinato de Delmiro Gouveia. mas que. precursora do Departamento Nacional de Águas e Energia Elétrica DNAEE que por sua vez. 520 de 12/08/1911 de acordo com a Constituição Federal de 1891. foram levados para São Paulo. com a conhecida pobreza de combustíveis fósseis da época. O levantamento foi um marco para o desenvolvimento do Nordeste. onde coletou subsídios para a entidade a ser criada para atuar no vale do São Francisco no Brasil. mas a usina permaneceu intacta. uma das mais importantes.A História das Barragens no Brasil . A usina permaneceu no local e os equipamentos da fábrica. A partir de 1943 o ministro da Agricultura. não havia tecnologia para a implantação de geração de energia hidroelétrica. Apolônio Sales. devoto de Santa Terezinha. dentro da cachoeira de Paulo Afonso. Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) e Nacional de Águas (ANA). O Serviço Geológico e Mineralógico deu origem mais tarde à Divisão de Águas. Naquela época. mesmo na monarquia. Apolônio Sales esteve. em 1944. A equipe era constituída pelos engenheiros Antonio José Alves de Souza. O Presidente Getúlio Vargas comandava o Estado Novo no qual Apolônio Sales era Ministro da Agricultura. inclusive do bando de Virgulino Ferreira. A obra foi realizada mediante concessão do estado de Alagoas ao abrigo do Decreto nº. submarinos esses abastecidos por navios argentinos sob o manto de sua neutralidade. Isto possibilitaria a irrigação das áreas ribeirinhas e também o início de industrialização do Nordeste. após a Constituição de 1934. a omissão passou a ser pouco compreensível. durante a Segunda Grande Guerra. O ministro Apolônio Sales. agravado pela dificuldade nos transportes que se faziam sobretudo por mar. o Lampião. no Tennessee Valley Authority. ficaram prejudicados devido aos ataques de submarinos alemães e italianos nas nossas águas costeiras. Na República. Jorge de Menezes Werneck. nas proximidades da cachoeira de Paulo Afonso. as concessões para geração de energia elétrica passaram a ser federais sob atribuição do Ministério da Agricultura. não houve nenhuma idéia de aproveitamento do potencial da cachoeira. XX e XXI sua fábrica de linhas de costuras situada na localidade de Pedra. Antes disso. a produção de linhas de costura foi prejudicada. O Nordeste ficou isolado do resto do país. No início dos anos vinte do século passado o Serviço Geológico e Mineralógico do Ministério da Agricultura efetuou um levantamento preliminar do potencial hidroenergético do rio São Francisco entre Juazeiro e Paulo Afonso que concluiu com a possibilidade de implantação de grandes centrais hidroelétricas. tendo sido efetuado em região agreste no tempo do cangaço. foi substituído em passado recente pelas Agências. maiores do que as existentes na época. Roosevelt como indutora de desenvolvimento para a saída da grande depressão econômica que ocorreu a partir de 1929 nos Estados Unidos. Esse abastecimento em alto mar foi confirmado em 1982 pelo oficial da marinha alemã que comandava as operações no Atlântico Sul. Há versão que narra que Apolônio Sales havia solicitado a Getúlio Vargas a assinatura do Decreto de criação da CHESF em 30 de setembro por ser ele.

depois de um árduo trabalho. Posteriormente esse círculo expandiu-se até atingir Natal – capital do Rio Grande do Norte e finalmente Fortaleza – capital do Ceará. O Decreto 8. por linha de transmissão e por subestação a CHESF era responsável por produzir e transportar energia elétrica para 8 estados do Nordeste (Piauí. Daniel de Carvalho. sendo o General Eurico Gaspar Dutra. Já Apolônio Sales em conversa informal em 1976 com Eunápio Queiroz. que atravessava intenso racionamento e não o Nordeste onde nem mercado havia. quase três anos após sua criação. o advogado Afrânio de Carvalho. mas o Estado Novo estava próximo do fim. indicações de origem político partidárias ficaram afastadas. para transmitir e comercializar a energia hidroelétrica produzida em Paulo Afonso. ou seja. Bahia. Esse fato originou a negativa do ministro da fazenda Correia e Castro do pedido de verbas para o Ministério da Agricultura para a execução do projeto. Diversos depoimentos dão conta de que um forte argumento que sensibilizou o general Dutra com relação a Paulo Afonso pode ter sido o que aventava a possibilidade de uma secessão do Nordeste das demais regiões do Brasil. então diretor superintendente de Sobradinho. Entretanto. também comandado por Apolônio Sales. usou o seguinte argumento – “Presidente. continuava a oposição ao empreendimento hidrelétrico no Nordeste e à empresa criada em 3 de outubro de 1945. Rio Grande do Nor te. a idéia de considerar como projeto definitivo um estudo extremamente sumário da usina localizada no Braço da Velha. Mantinha-se a oposição do agora ministro Eugênio Gudin por considerar que este tipo de empreendimento deveria ser feito pela iniciativa privada e que os investimentos em geração de energia elétrica deveriam priorizar a região Sudeste. Ceará. também assinada no mesmo dia 3 de outubro de 1945. narrou que. eleito e empossado Presidente da República. obtendo a adesão de estados e municípios do Nordeste para a integralização do capital da empresa. no final de 1946. no Nordeste. ainda no submédio rio São Fran- 169 . o que seria agravado num tipo de empreendimento em que nunca antes havia se envolvido. A concessão. no dia 15 de março de 1948. no Centro Oeste. mas com data do dia anterior.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens na época. Pernambuco e Sergipe. Paraíba. Alagoas. Dificuldades adicionais também proviam do próprio ex-ministro Apolônio Sales a apoiar. Ele ficará contente vendo que o senhor criou no Nordeste do Brasil uma companhia com o nome dele”. chefe de gabinete do ministro da Agricultura. dada a disparidade daquela região com as regiões Sul e Sudeste. Pernambuco. foi realizada a Assembléia Geral de Constituição da CHESF. afirmara que seria um desperdício gastar recurso no projeto. O ministro Souza Costa. A empresa podia ser formada. este para suprimento do que seria a futura capital brasileira no Planalto Central. embora conhecedor de que Getúlio Vargas era agnóstico e que o dia de Santa Terezinha havia passado. O Decreto Lei º 8. por exemplo. No final do século XX quando entrou em vigor o novo modelo do setor elétrico com concessões por usina. procurou incluir como prioritários os aproveitamentos hidrelétricos de Paulo Afonso.031 de criação da CHESF foi assinado no dia 4 de outubro de 1945. festejada naquela data (hoje é 01 de outubro). Getúlio Vargas foi deposto e tomou posse como Presidente da República o ministro José Linhares do Superior Tribunal Federal. Superadas todas as dificuldades. Com a posse do Gal. e Cachoeira Dourada no rio Paranaíba. Sergipe e Bahia). Dutra. Na seqüência ocorreram eleições gerais no país. amanhã é dia de São Francisco. O início da CHESF O Presidente Dutra entregou o comando da CHESF a um profissional de reconhecida capacidade e idoneidade com total liberdade de indicar os demais membros da diretoria e dessa maneira. Ao trecho de concessão Piranhas – Juazeiro foram acrescentados em 1972 mais 350 quilômetros. definiu um círculo inicial de cerca de 450 quilômetros de raio no interior do qual se inseriam as capitais dos estados de Alagoas. Outros opositores combateram a idéia usando como argumento a reconhecida incapacidade gerencial do governo.031 de 03/10/1945 concedia à CHESF a exploração de um trecho de cerca de 500 quilômetros entre Piranhas – Alagoas no baixo rio São Francisco e Juazeiro – Bahia no sub-médio rio São Francisco.

resultando que entre Xique Xique (limite montante) e Piranhas (limite jusante) se inserem as usinas hidroelétricas de Sobradinho. Alves de Sousa assumiu o comando da empresa com o programa inicial de destinar o fornecimento de Figura 2 . primeiro presidente da CHESF Figura 3 . efetuado um levantamento topográfico da Cachoeira de Paulo Afonso. onde tinha sido encarregado das concessões de energia elétrica.A História das Barragens no Brasil .Séculos XIX. foi eleito Presidente da CHESF o engenheiro Antônio José Alves de Sousa. Esse engenheiro. Paulo Afonso I.A cachoeira de Paulo Afonso antes das obras da CHESF. III e IV e Xingó. em 1921. XX e XXI cisco entre as cidades de Juazeiro e Xique Xique. ambas na Bahia. formado na Escola de Minas de Ouro Preto. do Ministério da Agricultura. Piloto. Luiz Gonzaga (Itaparica). onde a CHESF construiu e opera a hidroelétrica de Sobradinho.Engenheiro Antônio Alves de Souza. Na margem esquerda as instalações de Angiquinho e no cânion a casa de força 170 . Apolônio Sales (Moxotó). no governo Epitácio Pessoa. obedecidas às orientações do Presidente Dutra. tinha. II. Em 1948.

8 no braço Quebra. Posteriormente. Hilton Fiúza de Castro. De início. Gentil Norberto. Somente após a posse do presidente Jânio Quadros. logo nos primeiros meses após o início de operação. a diretoria passaria a sofrer modificações. foi substituído pelo consultor jurídico. sendo 10 delas no braço principal. Entre as alternativas de projetos que foram consideradas para construção da usina de Paulo Afonso. constituindo-se em uma barragem móvel. Dermeval Resende. realizados em 1951. o braço do Quebra e o braço do Taquari. Para suprimento de energia ao acampamento e ao canteiro de obra da primeira usina. foi implantada mais uma usina denominada Paulo Afonso IV. formando um funil num comprimento total de 4394m. transformando o centro da cidade de Paulo Afonso em uma ilha. a diretoria técnica. passando a original a ser denominada de Paulo Afonso I. através de um canal artificial. realizando ensaios de deformação diametral sofrida por câmaras escavadas em rocha. Hermínio Lorentz Kerr. uma adução em túneis. foi selecionada a que previa uma extensa barragem de concreto de gravidade com um vertedouro de superfície incorporado e atravessando um arquipélago de ilhas a montante da cachoeira. marcaram o nascimento da Mecânica das Rochas no Brasil. Estes ensaios. sediada no Rio de Janeiro. Um aspecto a destacar foi o fato do IPT ter prestado assistência tecnológica à construção dessa usina. além de Pernambuco. atingindo as proximidades da cachoeira. Othon Soares. A adução é feita por três túneis verticais de 4. no próprio local das obras. Alagoas e Sergipe foram beneficiados com a energia elétrica gerada em Paulo Afonso. Adozindo Magalhães de Oliveira (diretor de administração) e Octávio Marcondes Ferraz (diretor técnico) e como consultor jurídico Afrânio de Carvalho. pelo seu falecimento. em 1961.8m de diâmetro com joelho de 90° para alimentar três turbinas Francis situadas em casa de força subterrânea. Hélio Gadelha de Abreu e Nédio Lopes Marques. Dentro da concepção original foram posteriormente executadas outras duas casas de força também subterrâneas denominadas Paulo Afonso II e Paulo Afonso III. passou a atuar mais diretamente. II e III. com a colaboração dos engenheiros Domingos Marchetti. O reservatório assim formado tem apenas 11 km² de área. A outra parte da barragem.1 MW que havia sido instalada por Delmiro Gouveia em 1913 e de outra pequena hidroelétrica denominada Usina Piloto. em fins de 1954. A Usina de Moxotó. foi implantada a montante da bacia de decantação (reservatório Delmiro Gouveia). Juraci Magalhães e Pereira Lira. Alves de Souza compôs a sua diretoria com o coronel engenheiro Carlos Berenhauser Junior (diretor comercial).Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens energia exclusivamente a Pernambuco e imediatamente propôs estender o fornecimento a outros pontos do nordeste inclusive a Salvador. São 26 comportas de vertedouro. a partir de 1949. tendo 171 . A tomada d’água fica situada no encontro desses dois trechos da barragem. cercada por usinas hidroelétricas. a CHESF contou com a geração da usina de Angiquinho com 1. construída no início dos anos 70 do século passado. quando submetidas a pressão interna. 6 no Taquari e 2 no Capuxu. O presidente Dutra manteve a sua palavra de não interferir na composição da diretoria. Graças à vigilância do governador Otávio Mangabeira. O diretor de administração. uma casa de força subterrânea e a restituição a jusante da cachoeira. esta com operação iniciada em outubro de 1949. da Bahia. A barragem atravessa diversas ilhas e suas comportas assinalam os braços originais do rio. atinge a margem direita atravessando o braço Capuxu. e é constituída de barragem. cujo reservatório foi formado captando águas do reservatório de Moxotó. Ao longo do tempo outros engenheiros foram incorporados à diretoria técnica como Hernani Gusmão. adotando essa postura até o final do seu mandato. A barragem Leste com 3117m de extensão tem sua ombreira na margem esquerda e atravessa o braço principal onde escoava cerca de 90% da descarga do rio. com 1277m de comprimento. uma casa de força e um descarregador de fundo provido de comportas de segmento. os estados da Bahia. que alimenta as usinas de Paulo Afonso I. Clemente Mariani. e políticos como Luiz Vianna Filho. José Villela e Júlio Miguel de Freitas.

Usina piloto 172 . apesar de serem esses estados e municípios os mais beneficiados com a implantação da primeira usina de Paulo Afonso. para a cidade de Glória e. Ao longo de todo o projeto e construção de Paulo Afonso I e continuando durante quatro décadas. Esse desinteresse financeiro permaneceu mesmo após a entrada em operação da usina. permaneceu em operação no Centro de Formação da CHESF em Paulo Afonso. as instalações do modelo reduzido das usinas de Paulo Afonso podem ser vistas durante visitas turísticas e escolares agendadas previamente com a CHESF. após seus equipamentos terem sido danificados por uma forte enchente. O sítio desta usina teve seu tombamento histórico decretado pelo estado de Alagoas e atualmente é ponto de visitação turística na região. para a fábrica de linhas que havia sido implantada por Delmiro Gouveia no povoado de Pedra (hoje cidade de Delmiro Gouveia. de inestimável valor para as definições de projeto e construção. Além da previsão insuficiente de recursos por parte do governo federal.Séculos XIX.0 MW. no BIRD e no Banco Nacional de Desenvolvimento Industrial.A História das Barragens no Brasil . Leal Corrêa e Leopoldo Schimmelpheng e passou a fornecer energia elétrica para a obra e seu acampamento. a usina de Angiquinho foi desativada pela CHESF. um laboratório de modelos hidráulicos reduzidos. XX e XXI uma unidade geradora de 2. ocorreu ainda pronunciada inadimplência de aportes financeiros que haviam sido assumidos por estados e municípios nordestinos por subscrição de ações da CHESF. complementando Angiquinho. depois de quase 47 anos de operação. Em março de 1960. Atualmente. foram efetuados aumentos de capital e conseguidos empréstimos junto ao Eximbank. com possibilidade de instalação de uma segunda máquina. No início da construção de Paulo Afonso I as escavações para a implantação da casa de força subterrânea foram comandadas pelo enge- Figura 4 . Alagoas). Além do capital financeiro inicialmente subscrito para formação da CHESF e reconhecidamente insuficiente. para permitir a construção da usina e funcionamento da empresa. A Usina Piloto foi projetada e construída pelos engenheiros J. sob a administração da Fundação Delmiro Gouveia.

À medida que as células iam sendo 173 . devido à velocidade de escoamento (cerca de 3. tendo contribuído em inúmeros empreendimentos hidrelétricos. uma vez que foi bastante reduzida a velocidade das águas nestes locais.Visita do pres. A CHESF participou do apoio à melhoria de vida dos moradores das novas vilas. contribuindo com assistência social e a Figura 5 . Marcondes Ferraz implantação de recursos básicos requeridos. Os estudos hidráulicos para o barramento do rio determinaram a aplicação de ensecadeiras celulares de estacas prancha. foram executadas sob a supervisão dos engenheiros Roberto Montenegro e Reginaldo Sarcinelli. esquerda e direita. um crescente conjunto de casebres.Início da obra em 1950 com Marcondes Ferraz e Alves de Souza (primeiro e segundo da esquerda) Figura 6 . Dutra ao lado de Alves de Souza. além da irregularidade do fundo rochoso. De costas. em parte cobertos por sacos de cimento vazios surgindo no linguajar popular a Vila Poty e a Vila Zebu. construído na França e montado no local da obra. O flutuante afundado desviou as correntes mais intensas e possibilitou a instalação das estacas prancha sem que essas vergassem. e a vila Zebu. Esse flutuante foi imerso no rio em posição previamente definida através de controle por cabos de aço fixados nas margens. As ensecadeiras propostas pelo engenheiro Gentil Norberto. dentro das realidades da época.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens nheiro Domingos Marchetti. A vila Poty é hoje o centro da cidade de Paulo Afonso. O modelo reduzido definiu a solução considerando a montagem de um flutuante chamado localmente de “Navio”. uma das mais prósperas do estado da Bahia. ambas marcas de cimento. povoado do município de Delmiro Gouveia. 12 m de altura e peso de 350 t.5 m/s) e profundidade do rio nas imediações das cachoeiras (10 m a 12 m). A construção de Paulo Afonso exigiu a presença de milhares de trabalhadores e também atraiu outros milhares de pessoas que afluíam ao local da usina à procura de trabalho. principalmente através de empresas de consultoria. dificultavam a execução da ensecadeira como fora projetada. com 18 m de comprimento. especialista em túneis. André Balança se fixaria no Brasil até seu falecimento. Importante contribuição para a concepção do projeto e para a execução das obras foi dada pelos que trabalharam no modelo reduzido sob a orientação do engenheiro francês André Balança. A impossibilidade de execução de batimetria. estabelecendo-se ao lado do acampamento da CHESF. detentor de profundos conhecimentos de hidráulica adquiridos na sua formação em Grenoble.

Em depoimento ao autor o engenheiro Rubens Vianna de Andrade que. disse que o esquema de desvio tinha sido realmente muito ousado. e que uma escavação de canal com estrutura de desvio como feito em Itaipú teria sido um esquema mais garantido.5 m/s.Montagem do navio defletor Figura 8 . posicionada a jusante da linha de centro da ensecadeira celular em construção. Essa treliça passou a reter blocos de pedra de grandes dimensões lançados na corrente do rio e retidos por redes apoiadas na treliça. com o término da ensecadeira foi divulgado para toda a nação e meio técnico de engenharia. XX e XXI executadas barrando e estrangulando a seção do rio.Construção da ensecadeira celular com apoio do navio defletor 174 . a velocidade da água ia aumentando progressivamente.Séculos XIX. A solução do “Navio” que protegera a construção das células por montante não mais seria aplicável. a qual foi interrompida para que a notícia fosse conhecida pelos presentes que vibraram com o êxito da solução de engenharia.A História das Barragens no Brasil . Com a diminuição da velocidade de escoamento. quando jovem participou da construção de Paulo Afonso I. com calorosos aplausos. Decidiu-se pela implantação de uma estrutura metálica em treliça semi-flexível. atingindo valores de 8. Outra alternativa que havia sido estudada para fechamento desse trecho final do rio era a da construção de um obelisco com uma das Figura 7 . O fechamento do rio São Francisco. Essa vitória da engenharia brasileira foi comunicada durante uma sessão do Clube de Engenharia no Rio de Janeiro.Montagem da guia das estacas prancha Figura 9 . a ensecadeira de estacas prancha pôde então ser concluída.

Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 10 .Construção da ensecadeira celular 175 .Construção da ensecadeira celular Figura 11 .

A História das Barragens no Brasil .Séculos XIX. XX e XXI Figura 12 .Construção da ensecadeira celular Figura 14 .Construção da ensecadeira celular – Carga hidráulica de 9 m Figura 13 .Ensecadeira celular concluída e fase inicial do fechamento do rio 176 .

Início do lançamento da treliça para fechamento do rio Figura 16 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 15 .Treliça posicionada para fechamento do rio Figura 17 .Fase final do fechamento do rio 177 .

Quando.A História das Barragens no Brasil . 178 . participou da epopéia do desvio em Paulo Afonso. Além do francês André Balança que chegou com 29 anos e ficou para sempre no Brasil. o engenheiro Rubens Vianna de Andrade que. Cinquenta anos após o desvio do rio. Aproveitando o fato de que o banco havia chamado Alves de Souza a Washington sem dar conhecimento da pauta da reunião e sem a convocação do diretor técnico. a jusante das comportas o leito do rio ficou seco. durante a visita a Washington do presidente da CHESF.” No dia 20 de setembro de 1954 foi iniciado o enchimento do reservatório. a common and generous inspiration is the source of both your and our success. da American Engineering Co. João Café Filho. XX e XXI faces reproduzindo da melhor maneira possível. com sua vasta experiência posteriormente em diversos desvios de grandes rios inclusive o desvio do rio Paraná em Itaipú. como o laboratório de modelo reduzido e a fazenda modelo. o fundo do rio e colocado em pé em uma das margens do rio. Mr. we are pleased to note that. antecipando-se a John Lennon: “As the World Power Conference represents the triumph of cooperation over isolationism. engenheiro Alves de Souza. Essa posição fora transmitida ao ministro Oswaldo Aranha que tivera contato com Mr. Considerando essa afluência de visitantes. com o fechamento das comportas. Let us hope that in the passing of time the same ideal penetrates into the mind and heart of all men so that mankind may live in peace. um dos muitos que estavam assistindo o evento atravessou a pé o leito do rio empunhando a bandeira nacional. Além de sua vital importância econômica e social para todo o Nordeste. o professor Amauri Menezes que assumiu a diretoria técnica durante as ampliações de Paulo Afonso. decency and liberty. para atender a convocação feita pelo banco. Dunn. uma legião estrangeira prestou importantes serviços para a CHESF nos seus primeiros anos. na fase final de construção e com o desvio já equacionado. requisitados na Ilha das Flores. demonstrando a importância daquele momento histórico. No dia 4 de agosto de 1954. reduto na baía da Guanabara onde os estrangeiros eram recebidos e triados. Black. por Mr.Séculos XIX. efetuou uma visita técnica a Paulo Afonso. de elevada competência e distinto cavalheirismo. criada por Apolônio Sales para difusão de conhecimento e transferência de tecnologia para produtores rurais e pecuaristas do sertão do São Francisco. admitiu ao autor que o esquema que foi empregado em Paulo Afonso não teria sido o mais recomendado nem o mais seguro. além de preservar as realizações da diretoria anterior. Mr. Adolph Acker mann que se opusera ao esquema de desvio do rio. desaconselhara os dois métodos para o ensecamento do leito do rio. o que foi caracterizado como deslize de ética.. o esquema de desvio foi mantido. in a way. quando jovem na profissão. Paulo Afonso passou a ser visitado por vastos contingentes de pessoas para apreciar a grandeza das obras ali implantadas. Dessa legião estrangeira participaram Cyrill Iwanow. Abdank Abzantovsky e Andre Bijnik. Nessa visita. Ao ser derrubado esperava-se que esse obelisco obstruísse quase totalmente o fluxo de água. A inauguração de Paulo Afonso ocorreu no dia 15 de janeiro de 1955 em solenidade comandada pelo Presidente da República. formada principalmente por imigrantes europeus após a II Grande Guerra Mundial. o diretor da CHESF. a Conferência Mundial de Energia que na época ainda incluía a Comissão Internacional de Grandes Barragens. Bass. Importante realçar que o consultor do Banco Mundial. Pensava em esquema semelhante ao de Itaipú com escavação de canal de desvio com aplicação da rocha escavada na barragem e a construção de estrutura de fechamento nesse canal. advogado Afranio de Carvalho. iniciou uma grande transformação do entorno da usina em vasto ambiente de agradável paisagismo implantando dezenas de pequenos lagos. Esse fato gerou a substituição do representante do banco em Paulo Afonso. engenheiro Marcondes Ferraz. presidente do banco. No dia 1° de dezembro era ligado o primeiro circuito que atenderia Recife e poucos dias após era energizada a linha de transmissão para Salvador. intensa arborização pública e jardim zoológico. concluiu o discurso de recepção à delegação com as seguintes palavras.

Lott que depôs dois presidentes. Ao saberem que haveria mudanças na diretoria. no seu efêmero governo de dois dias e participado da fuga no cruzador Tamandaré após o primeiro dos dois golpes desferidos pelo general Henrique D. o ministro João Agripino. notável pintor vindo na comitiva pessoal de Maurício de Nassau. todos os diretores se demitiram e realçaram a importância da Figura 18 . Quando Jânio Quadros foi eleito em 1960. tendo convidado Marcondes Ferraz para a presidência. por ter Marcondes Ferraz apoiado o presidente da República Carlos Luz. A expansão da CHESF A partir de 1953 a CHESF iniciou as negociações para obtenção de recursos junto ao governo federal para o primeiro plano de expansão de Paulo Afonso que incluía a terceira unidade da primeira casa de força e a construção da segunda casa de força denominada Paulo Afonso II que. A primeira imagem da cachoeira foi captada em 1647 pelos pincéis de Franz Post. Marcondes Ferraz foi destituído em 1960 por Juscelino Kubitschek como presidente da república.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A notável beleza da cachoeira com suas diferentes quedas em seu estado natural ainda hoje pode ser vista por ocasião de cheias extravasadas pelos vertedouros.O aproveitamento de Paulo Afonso em seu estágio final 179 . como as que se seguiriam. Após doze anos na direção técnica da CHESF e sendo um dos principais artífices do que ficou sendo conhecida como a epopéia de Paulo Afonso. Dom Pedro II quando esteve na cachoeira em 1859 reproduziu a imagem que vislumbrava a lápis em seu diário de viagens. O afastamento teve motivação política. seria também subterrânea. promoveu alterações na diretoria da CHESF. convite declinado com o argumento de que não se deveria deslocar um homem do gabarito de Alves de Souza. T.

situada a cerca de 1.Séculos XIX. XX e XXI Figura 19 – A usina hidroelétrica de Moxotó continuidade de gestão que seria garantida pela permanência de Alves de Souza na presidência. água no nível do reservatório da usina de Moxotó implantada a montante da bacia de decantação Paulo Afonso I. Ao se projetar a barragem de Paulo Afonso IV verificou-se que. 180 A usina de Paulo Afonso IV. as ampliações que se sucederam foram muito mais simples.A História das Barragens no Brasil . II e III. devido principalmente às características torrenciais do rio Moxotó. o vertedouro de Moxotó foi dimensionado para a mesma descarga de projeto da barragem das usinas de Paulo Afonso I.000 m³/s). descargas de até 10. Para garantir o escoamento da cheia máxima possível. Paulo Afonso III inaugurada em 1972 pelo presidente Emílio Garrastazu Médici. o canal de adução entre os reservatórios de Moxotó e . tendo a última das seis unidades geradoras entrado em operação em 1983. Ele foi mantido e os demais diretores foram substituídos por Amauri Menezes. na diretoria técnica.5 km a jusante das suas precursoras. Com o rio São Francisco domado em 1954. e concluída em 1974. e a usina inaugurada em 1980 pelo presidente João Batista Figueiredo. Paulo Afonso IV cujas obras civis foram concluídas em 1979. II e III (25. Novas casas de força subterrâneas foram se sucedendo. Como essa condição excepcional não havia sido considerada no projeto da barragem de Paulo Afonso. Paulo Afonso II concluída em 1968.000 m³/s em hidrógrafas de cheia de pequenos volumes poderiam se somar ao pico de cheia afluente ao reservatório de Moxotó. por meio de um canal. afluente pela margem esquerda do rio São Francisco na região de Paulo Afonso. difere destas por captar. Fausto Alvim na diretoria administrativa e Ivan Macedo Melo na diretoria comercial.

em empreendimentos de engenharia. A usina é composta por duas barragens de enrocamento com núcleo de argila. que haviam sido companheiros no Congresso Nacional. Posteriormente foi constatada a presença de reação álcali-agregado ocasionando expansão do concreto. separadas por uma ilha. o que exigiu a execução de serviços para convivência com esse fenômeno e manutenções periódica nas unidades geradoras.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens de Paulo Afonso IV foi ampliado para permitir o fluxo adicional de 10. III. Eunápio Queiroz e Ernani Gusmão. foi construído para promover a regularização semanal das vazões e possibilitar através do canal de adução acima descrito. ocorrendo o enchimento do reservatório de Sobradinho em 1978 e início de geração de energia em 1979. que entre outros motivos buscava tirar do comando da Diretoria Técnica da CHESF uma das duas obras gigantescas e simultâneas (Sobradinho e Paulo Afonso IV). formando um apreciável acervo sobre a reação álcali-agregado. presentemente em fase de inventário. então presidente da CHESF. dedicaram-se aos estudos e acompanhamento. Alberto Jorge Cavalcanti. As obras civis da usina de Moxotó foram iniciadas em 1971 e concluídas em 1974. Essa decisão da Eletrobras. uma das barragens contendo a tomada d’água e casa de força e a outra o descarregador de fundo (barragem móvel) controlado por comportas de segmento. Ricardo Barbosa e João Francisco Silveira). entraram em operação em 1977. na Bahia. causou constrangimentos na subsidiária. monitorando os efeitos da expansão e garantindo o aumento da vida útil da casa de força. II. O reservatório da barragem de Moxotó. II e III. e implantado com sucesso a hidroelétrica de Funil e que teria como missão implantar o empreendimento de Sobradinho. ou de Sobradinho ambas no rio São Francisco e a montante de Paulo Afonso e Moxotó. A barragem de Moxotó se situa a cerca de 2 km a montante da barragem do Complexo Paulo Afonso I. Uma equipe de técnicos da CHESF e consultores (Aurélio Vasconcelos. mais econômica. Gláucio Furtado. Norman Costa. O planejamento energético foi influenciado também pelo baixo custo do petróleo. época do chamado “milagre brasileiro“. situado a montante de Paulo Afonso I. Essa opção não prosperou em função do aumento de preços pela OPEP e da deflagração da guerra do Yom Kippur. recomendações plenamente atendidas. Japhet Diniz. de 100 MW cada. inundada com a formação do reservatório. Em maio de 1974 a CHESF recebeu instruções para motorizar Sobradinho. e criaram. Os dirigentes da Eletrobras. sendo projetado e construído um vertedouro de 10 000 m³/s de capacidade na barragem de Paulo Afonso IV. uma solução de compromisso: a concessão da hidroelétrica de Sobradinho seria da CHESF. Paulo Pacheco e Margarida Maria Dantas de Oliveira.000 m³/s. As sucessivas ampliações em Paulo Afonso passaram a demandar descargas afluentes mais regularizadas. As alternativas seriam a construção das hidroelétricas e reservatórios de Itaparica (em cota elevada). A solução adotada pelo setor elétrico. conduziram a implantação da hidroelétrica de Sobradinho. garantindo também o simultâneo escoamento de possível cheia gerada na bacia do rio Moxotó. Xingó já em operação e Pão de Açucar. a derivação do fluxo d’água para a tomada d’água e vertedouro da usina de Paulo Afonso IV. estimulando a construção de usinas termoelétricas junto aos grandes centros de consumo. a partir de relatório do Comitê de Estudos Energéticos do Nordeste foi a construção da barragem de Sobradinho inicialmente sem casa de força por ser a solução de menor investimento para a regularização do rio. 181 . com apoio de Léo Amaral Penna. Em 1983 a usina de Moxotó passou a ser denominada oficialmente de Usina Apolônio Sales em homenagem ao criador da CHESF. Em meados de 1971 a Eletrobras havia determinado a estruturação de uma superintendência sob o comando do engenheiro Eunápio Peltier de Queiroz que havia criado a Centrais Elétricas do Rio de Contas.00. As quatro unidades geradoras. Na ocasião da concepção do projeto não foi considerada a construção de um obra de barragem para o controle de cheias do rio Moxotó que teria trazido importantes benefícios econômicos à construção de Paulo Afonso IV e aos vertedouros de jusante. Além disso. neutralizou as componentes negativas desta divisão. Mário Bhering e Pinto Aguiar foram sensibilizados pelos argumentos de Apolônio Sales. quando o barril de petróleo foi cotado a menos de US$ 2. o trabalho conjunto de Apolônio Sales e Eunápio Queiroz. Hilton Silveira. Foi necessária a construção de um núcleo urbano para transferência da população da cidade de Glória-BA. além de João Paulo Maranhão de Aguiar.

214 km2 possibilitando. A casa de força de Sobradinho teve a entrada de sua primeira máquina em operação em novembro de 1979 e a última unidade geradora em março de 1982. que na época era um sistema isolado do resto do País. o que. sucedido pela Portobrás. exigiu e assumiu os custos de implantação de uma grande eclusa de navegação.Séculos XIX. Remanso. portos terminais do trecho navegável entre Pirapora . mesmo limitando a altura da barragem e definindo a usina como de baixa queda.1 bilhões de metros cúbicos e extensa área alagada de 4. tão importante para a segurança do suprimento de energia ao Nordeste. gerou um reservatório de grandes dimensões com volume acumulado de 34. O reservatório de Sobradinho. num arranjo característico de hidroelétrica brasileira em vale aberto. um significativo aumento de descargas garantidas para as usinas a jusante.A História das Barragens no Brasil . gerou impactos sócio-ambientais de porte. atingindo seus 1050 MW de capacidade instalada. concluída em 1980.Minas Gerais e o sub médio rio São Francisco.A usina hidroelétrica Sobradinho 182 . Foi necessário a relocação das cidades de Casa Nova. Sento Sé e Pilão Arcado e de outros pequenos povoa- Figura 20 . o Departamento Nacional de Portos e Vias Navegáveis. XX e XXI Uma barragem de terra zoneada flanqueia as estruturas de concreto gravidade da tomada d’água e dos vertedouros de fundo e superfície. com uma depleção de até 12 metros. No local da barragem de Sobradinho e em toda a área do seu reservatório o rio São Francisco apresentava margens abatidas em vale muito aberto. Apesar de se situar a cerca de 50 km a montante de Juazeiro (BA) e Petrolina (PE).

Sherard. a cidade de Belém do Pará e cidades vizinhas foram abastecidas com energia elétrica gerada em Sobradinho.000 hectares. O usina de Sobradinho permitiu a interligação das regiões Nordeste e Norte através de linha de transmissão entre Sobradinho e Tucuruí.000 pessoas) reassentadas para formação do reservatório. avaliações e tarefas de controle de laboratório e construção dos maciços. Como Tucuruí ainda estava em construção quando Sobradinho iniciou sua operação.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 21 . antecedendo à inauguração de Tucuruí. Hilton Silveira. A construção da barragem de Sobradinho trouxe importante contribuição para a engenharia nacional de barragens ao ter seu núcleo impermeável executado com argila dispersiva.400 famílias (cerca de 70. durante cerca de quatro anos. com área irrigável de 25. desenvolveram estudos.A usina hidroelétrica de Itaparica dos situados às margens do rio São Francisco. Hiromito Nakao. Ao todo foram 11. que garantiram todos os requisitos de qualidade e segurança na utilização de argila dispersiva. Com Sobradinho ainda em fase de construção a CHESF iniciou em 1975 no rio São Francisco e a cerca de 40 km a montante de 183 . em Sobradinho foi construída a tomada d’água que abastece o mais bem sucedido projeto público de irrigação no Brasil – o Projeto Nilo Coelho. Guy Bordeaux e Pedro Tanajura) com a consultoria e acompanhamento de um dos mestres mundiais da engenharia de solos – James L. no escritório e no campo. o canteiro e acampamento dessa hidroelétrica. Hamilton Oliveira. única disponível na área em quantidades compatíveis com os volu- mes requeridos. com a transferência das suas populações. Antonio Martins. proporcionando significativa economia de petróleo. Além do papel importante na redução de piques de cheia e interligação Norte – Nordeste. Técnicos brasileiros da CHESF e da Projetista (Esmeraldino Pereira.

XX e XXI Paulo Afonso as obras para implantação da hidroelétrica de Itaparica. recomendou. a construção de uma barragem em abóbada com casas de forças subterrâneas nas duas margens. sob comando de Eunápio Queiroz. Nesse ano a usina foi inaugurada pelo presidente José Sarney e atingiu plena capacidade em 1990 com seis unidades geradoras de 246. O Empreendimento Itaparica foi realizado num período de intensas dificuldades financeiras do setor elétrico estatal. abrigando seis unidades de 527 MW cada que entraram em operação entre 1994 e 1997. que teve sua operação iniciada em 1913 e desativada em 1960 devido a uma inundação. o engenheiro Gerdes. A concessão teria sido para autoprodutor por 30 anos e reverteria à União no entorno de 1985. Essas hidroelétricas foram: Bananeiras (inundada pela usina hidroelétrica Pedra de Cavalo.A História das Barragens no Brasil . com a empresa consultora. homenagem ao grande compositor e cantor nordestino.000 pessoas. da Kaiser. Rodelas e o povoado de Barra do Tarrachil. constituída por uma barragem com 145 m de altura. a usina e a indústria não foram adiante. os estudos preliminares para seleção de local e de alternativas de projeto. motivo pelo qual as obras se prolongaram muito além do que fora previsto no planejamento de construção. houve a necessidade do assentamento da população ribeirinha que teve que ser desalojada. Essas usinas. Itacuruba. Tendo em vista a extensa área de reservatório de 834 km². abrigando cerca de 36.6 MW cada. Somente em 1988 foi fechado o reservatório e entraram em operação as primeiras unidades. e da antiga pequena usina existente em Itaparica. outras foram incorporadas à CHESF ao longo dos anos.Séculos XIX. O vale aberto do rio foi barrado por um extenso maciço de enrocamento com núcleo de saprolito compactado ladeando as estruturas de concreto gravidade da tomada d’água e do vertedouro. A jusante de Paulo Afonso o rio São Francisco escavou profundo e estreito cânion de paredes rochosas de elevadas qualidades geomecânicas. A indústria americana Reynolds Metals propôs a construção dessa hidroelétrica numa das partes mais estreitas do cânion com uma barragem em arco. a Usina de Xingó. por mais econômica. vislumbrou a construção de uma hidroelétrica nesse cânion. que abastecia um núcleo agrícola e operou de 1945 até a década de 1970 e foi alagada pelo reservatório da nova hidroelétrica em 1988. No após guerra. todas as demais usinas incorporadas pela CHESF se situam em outros rios do Nordeste. de enrocamento com face de concreto e com desvio por túneis escavados na margem direita onde também foi localizada a casa de força. Foram construídas as novas cidades de Petrolândia. Ao lado da tomada d’água para geração de energia elétrica foram implantadas duas tomadas para os projetos de irrigação Califórnia e Jacaré Curituba. O nível d’água do reservatório da hidroelétrica de Xingó foi definido pelo valor aceitável de afogamento do canal de fuga de Paulo Afonso IV com conseqüente redução de geração nessa usina. Além das hidroelétricas acima mencionadas e implantadas pela CHESF. Os trabalhos foram apoiados por uma junta de consultores composta por James Libby. Armando Lencastre e Don Deere que. Boa Esperança no rio Parna- 184 . sob a supervisão de Felício Limeira de França e a coordenação do engenheiro José Geraldo Araújo. Dada a carência de experiência nacional em barragens em abóbada e como o esquema com barragem de enrocamento no final do cânion era viável. já com a denominação de Usina Hidroelétrica Luiz Gonzaga. do Grupo Votorantim) no rio Paraguaçu na Bahia. Essa usina teria como finalidade a geração de grandes blocos de energia para uma unidade fabril de produção de alumínio a ser implantada na região. Com tanta oposição. James Sherard. Clemente Mariano e pelo industrial e político paulista José Ermírio de Moraes com os argumentos de que haveria prejuízo da incipiente indústria nacional e que absorveria grande consumo de energia com pequena utilização de mão de obra. que atingem até 200m de altura. Manuel Rocha. capitaneada pelo político baiano. Houve forte resistência política dos que consideravam que essa concessão não atendia aos interesses do Brasil e do Nordeste. foi decidida a implantação dessa segunda alternativa de projeto que se situa imediatamente a montante das sedes municipais de Piranhas – Alagoas e Canindé do São Francisco – Sergipe. em 1951. ambos no estado de Sergipe e viabilizados pela elevação de mais de 120 metros no nível d’água no cânion. a menos de Angiquinho já mencionada. Somente em 1975 foram contratados pela CHESF.

situada no rio Paraguaçu. com a participação dos estados do Piauí e Maranhão e do Ministério de Minas e Energia. teve origem na iniciativa do DNOCS de criar uma comissão para inventariar as possibilidades de implantação de hidroelétricas no rio Parnaíba. A usina de Boa Esperança teve suas obras iniciadas em 1964. Hilton Ahiran da Silveira e Ebenezer Gueiros. e sua Figura 22 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens íba na divisa dos estados do Maranhão e Piauí. a partir de Grupo de Trabalho formado pelo DNOCS e pela SUDENE.A usina hidroelétrica de Xingó 185 . de maior potência. A hidroelétrica de Bananeiras. havia entrado em operação em 1920 e teve 9 MW instalados para suprir o Recôncavo Baiano. Essa usina foi transferida da COELBA para a CHESF em 1967 e desativada em 1981 por interferência com a hidroelétrica de Pedra do Cavalo. Dessa iniciativa nasceu a Companhia Hidro Elétrica de Boa Esperança COHEBE. as Funil e Pedra no rio de Contas no sul da Bahia. situada no rio Parnaíba entre os estados do Maranhão e do Piauí. representado pela Eletrobras. Curemas a partir dos açudes públicos Estevam Marinho e Mãe-d’água do DNOCS nos rios Piancó e Aguiar na Paraíba e Araras no açude público Paulo Sarasate do DNOCS no rio Acaraú no Ceará. Em julho de 1963 a COHEBE foi formalmente constituída e sua primeira diretoria foi composta por César Cals de Oliveira Filho. que foi implantada no local. A usina hidroelétrica de Boa Esperança. Walter Barros da Silva. a montante da cidade de Cachoeira.

atendida pelas hidroelétricas do rio São Francisco através de linha de transmissão 500 kV Sobradinho – Boa Esperança. assumiu a presidência da COHEBE avançando no processo de absorção dela pela CHESF. haviam os que alegavam que a usina seria um investimento pioneiro fomentador de progresso para a região. As obras foram iniciadas pelo DNOCS em 1956. a construção de Boa Esperança sofreu grande oposição dos que consideravam que a demanda dos estados do Nordeste Ocidental (Maranhão e Piauí) não justificava a implantação de um empreendimento desse vulto. 186 . atingida com a energização de LT 230 kV Teresina – Sobral – Fortaleza. grande defensor desta usina. no sul da Bahia. nos rios Piancó e Aguiar. A barragem tem múltipla finalidade e além de geração de energia. A usina hidroelétrica de Funil no rio de Contas. e com a passagem para o Patrimônio da União do imobilizado não ligado diretamente à geração. Jirau e Belo Monte. dotados de comportas de segmento. sendo acionista minoritária nas usinas hidroelétricas de Dardanelos. então vice presidente executivo da CHESF. que foi homenageado com a denominação Barragem Milton Brandão. possui apenas uma unidade geradora de 20 MW cuja entrada em operação aconteceu em novembro de 1978. A usina de Curemas com duas unidades geradoras totalizando 3. Somente em 1991 as duas últimas unidades geradoras de 63. A usina de Pedra também no rio de Contas. a CHESF voltou a investir e participar de grandes empreendimentos de geração de energia elétrica. De modo semelhante ao que aconteceu com Paulo Afonso na década de 1940. Em 1957 a hidroelétrica entrou em operação tendo sido incorporada pela CHESF em 1969. no Ceará. Em oposição a esses. Anteriormente. complementando a necessidade de expansão da geração para a região. Em 1973 a COHEBE foi então absorvida pela CHESF. a casa de força passara a ser denominada Presidente Castelo Branco.5 MW encontra-se situada a jusante da barragem dos açudes públicos Estevão Marinho e Mãe-d’Água. composta por três unidades geradoras de 10 MW cada. formando sociedades de propósito específico (SPE). mantendo-se para o empreendimento a denominação Usina de Boa Esperança. per mite a regularização do rio para controle de enchentes. previsto no planejamento do setor elétrico e reforçado pela interligação elétrica CHESF – COHEBE. o que explica a grande defasagem entre as instalações das unidades geradoras. Ela encontrou apoio na Eletrobras através dos seus diretores Mario Bhering. com duas unidades geradoras totalizando 4 MW.65 MW cada. foi implantada inicialmente com 20 MW em 1962 e posteriormente ampliada para 30 MW em 1970. no estado da Paraíba. Pinto Aguiar e Antônio Carlos Bastos. A hidroelétrica de Araras. entraram em operação.Séculos XIX. Em 1972 Alde de Castro Salgado. o passivo da COHEBE foi coberto com recursos da reserva legal para desapropriação de empresas de energia elétrica. Esse procedimento foi replicado quando da morte do deputado federal Milton Brandão. após a morte do ex-presidente Castelo Branco. Teve suas obras iniciadas pelo DNOCS em 1939. abastecimento d’água e ir rig ação ag rícola.A História das Barragens no Brasil . todas na modalidade de consórcio privado. Novos tempos – século XXI A partir de 2006. encontra-se situada a jusante da barragem do açude público Paulo Sarasate. A barragem é do tipo contrafortes de concreto com 24 blocos dos quais os sete blocos centrais são vertentes. Para não onerar os consumidores. sendo suas obras civis iniciadas em setembro de 1976. A usina só entrou em operação em 1967 e em 1969 foi incorporada à CHESF. sendo transferida da COELBA para a CHESF em 1980. dentro do novo modelo do Setor Elétrico Brasileiro. A barragem é uma estrutura de concreto gravidade incluindo a tomada d‘água e o vertedouro em vale relativamente fechado. a montante da usina de Funil. XX e XXI primeira etapa com duas unidades de 54 MW de potência unitária foi concluída em 1970 proporcionando energia abundante e confiável aos estados do Maranhão e Piauí . no rio Acaraú.

dispostas em duas casas de força. Finalmente. uma na margem esquerda e outra na margem direita. Figura 23 .233 MW.450 MW com 46 unidades Bulbo de 75 MW cada.85 MW. no rio Madeira. com unidades Bulbo na casa de força complementar.800 m3/s. possuindo três sítios.1 MW. Sua capacidade instalada é de 3. composto de casa de força complementar e vertedouro. em Rondônia. com dezoito unidades geradoras de potência unitária 611. outro composto do canal de adução e interligação e o último composto do reservatório intermediário e sítio Belo Monte com a usina principal. na região amazônica. a 120 km de Porto Velho. com turbinas Francis na casa de força principal denominada Belo Monte e 6 unidades geradoras de potência unitária 38. a Eletrosul e a Camargo Corrêa. no noroeste do Mato Grosso. tendo uma capacidade instalada de 261 MW. um deles denominado Pimental onde ocorrerá o barramento do rio Xingu. Na usina hidroelétrica Jirau a CHESF participa em sociedade com a GDF Suez. Seu vertedouro possui 44 vãos e permite uma descarga de vazão de projeto de 85.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Na usina hidroelétrica Dardanelos a CHESF participa em sociedade com a Neoenergia e a Eletronorte. quatro delas de 58 MW cada e uma de menor porte de 29 MW. na Região Amazônica. A usina está sendo construída no local denominado ilha do Padre. na região amazônica. A potência instalada total de Belo Monte é de 11. sendo composta de 5 unidades geradoras. no Complexo Hidrelétrico de Belo Monte a CHESF se associou a outras 18 empresas. A usina será construída no rio Xingu. A usina está localizada na margem esquerda do rio Aripuanã.Vista aérea da hidroelétrica de Xingó 187 . no Pará.

188 .

a energia elétrica era praticamente só gerada por empresas privadas. Nessa época o País começou a deixar de ser apenas essencialmente rural para iniciar a industrialização que. já nos anos 40.” Leopoldo Miguez Desde os primórdios da produção de energia elétrica no País até pouco depois da II Grande Guerra Mundial. criou desequilíbrio econômico nos contratos de concessão de fornecimento de energia elétrica. Reservatório de Serra da Mesa. mas as duas maiores eram de capital canadense (Light) e americano (AMFORP American Foreign Power). Com as restrições tarifárias. fazendo com que. essa oferta era inferior à demanda que crescia acima da capacidade de investimento da concessionária. as companhias de energia elétrica passaram a enfrentar problemas no atendimento da crescente demanda.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Furnas no século XX Flavio Miguez de Mello “No Brasil nunca se fez nada demasiadamente grande. começassem a criar empresas estatais de energia elétrica. Havia também inúmeros pequenos autoprodutores rurais. evidenciava esse cenário. tendo sido adotado em 1934.4 x 109 m3 189 . por sua vez. transmissão e distribuição de energia elétrica. o maior do País com capacidade de 54. por exemplo. gerou crescente aceleração urbana que passou a pressionar por demanda de energia elétrica. alguns estados como São Paulo e Minas Gerais principalmente. tirando o incentivo da iniciativa privada em promover acréscimos de investimento de geração. a maioria delas nacionais. a maior concessionária do País na época. Apesar de procurar aumentar sua oferta de energia elétrica. A situação da Light. Esse cenário começou a se tornar crítico a partir do Código de Águas que.

Este se mostrou excepcional para uma grande usina com grande reservatório de regularização. As sinalizações de déficit passaram a ser evidentes. havia cerca de 100 MW instalados pela indústria em grupos Diesel que representavam quase 20% da capacidade instalada da São Paulo Light. EFE (1954). os sistemas do Rio de Janeiro e de São Paulo eram em frequências diferentes. CHERP (1955) e Escelsa (1956). Só em São Paulo. No início do governo Kubitschek. Os estudos iniciais mostraram que a capacidade instalada seria quase um terço da capacidade instalada nacional. A solução estava no local recém descoberto pela CEMIG. em muito curto prazo. nas proximidades de sua fazenda.A História das Barragens no Brasil . o governo federal que havia criado a CHESF para explorar o potencial do rio São Francisco em Paulo Afonso. estimuladas pela própria Light e com perspectivas de racionamentos. Mesmo na Light. Havia apenas uma pequena conversora de muito baixa capacidade entre os dois sistemas.Séculos XIX.Francisco Noronha e Anton Rydland no local de Furnas 190 . O local foi identificado por Francisco Noronha e Anton Rydland em viagem exploratória sugerida por John Cotrim. em 1954. USELPA (1953). foi seguido pelas fundações da CEMIG (1951). as indústrias passaram largamente a instalar grupos geradores Diesel. ficou claro que a diferença entre a capacidade em construção e a demanda projeta- da exigia o início. em 1956. em reconhecimento do potencial do rio Grande entre a hidroelétrica de Itutinga e o remanso do reservatório de Peixoto. de obra que acrescentasse cerca de 1000 MW na Região Sudeste. O vulto das obras que seriam necessárias para erguer uma das maiores hidroelétricas do mundo na época era muito superior à capacidade das empresas Figura 1 . COPEL (1953). No local havia as corredeiras de Furnas que se situavam em vale apertado de encostas íngremes. Nos anos cinquenta. XX e XXI Desse modo. em cujas margens o engenheiro José Mendes Júnior costumava pescar. sendo agravadas pela inexistência de interligação dos sistemas das concessionárias. Os dois engenheiros pernoitaram na fazenda e receberam de Mendes Júnior indicações sobre o local das corredeiras. então diretor técnico da CEMIG.

Essa situação só foi normalizada cerca de vinte anos depois com a transferência oficial da sede para o Rio de Janeiro. sendo pessoas perfeitamente intercambiáveis dadas a formação e a experiência dos três. foi selecionado como diretor técnico. a sede foi para Passos. pequena cidade nas proximidades do local da usina.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens estaduais na época. Lucas Lopes. e John Cotrim. A Comissão pagaria pelo reservatório e pela barragem. Flavio Lyra que residia no Rio de Janeiro. depois de serem mostrados os benefícios para o estado que seriam trazidos por Furnas. então presidente do BNDE. à época exercido por Bias Fortes. A primeira oposição a Furnas veio do governo de Minas Gerais. Jânio disse que só entraria no projeto se houvesse garantias que o governo federal investisse também nos projetos do estado que eram os aproveitamentos hidroelétricos de Urubupungá e Caraguatatuba. o que foi um presente do governo federal para a CEMIG. veio a idéia de finalmente concordar com o governador que então parou de se opor e a empresa pode ser finalmente constituída. Mas a oposição do governador Bias Fortes continuava. Quando tudo estava pronto para a fundação da empresa. Seu derradeiro lance foi exigir que a sede de Furnas fosse localizada em Minas Gerais. Ele queria garantir que Três Marias fosse feita antes de Furnas para ter certeza de que seria concluída. em cumprimento à promessa feita ao professor Cândido Holanda. Esses aspectos fizeram com que ficasse claro que a empresa a ser constituída deveria ser federal. ele era contra grandes áreas alagadas em Minas para gerar energia para outros estados: costumava dizer que queriam “fazer de Minas a caixa d’água do Brasil”. Além disso. enquanto que a CEMIG apenas aportaria recursos para a construção da casa de força situada ao pé da barragem. mas também tiveram seu preço. o governador Jânio Quadros disse que só autorizaria a participação de São Paulo na empresa se Lucas Lopes fosse falar com ele pessoalmente. O famoso tripé de Furnas estava formado. sem influências políticas e procurando não sacrificar a CEMIG. selecionaram os principais membros da nova empresa. Lucas Lopes articulou um esquema de participação da Comissão do Vale do São Francisco em Três Marias. No impasse. Apesar de ser diretor da CEMIG. Candido Holanda e Flavio H. sucessor de Lucas Lopes na presidência da CEMIG. Bias Fortes. de diretor técnico da CEMIG para presidente de Furnas. Os três constituiriam a diretoria executiva de Furnas. Ele temia que o governo federal não tivesse recursos para as duas obras simultaneamente e criou toda sorte de obstáculos para atrasar o início de Furnas até que Três Marias estivesse em construção e em estágio irreversível. tendo resultando nas usinas de Jupiá e Ilha Solteira. Lyra dispunha da infra-estrutura adequada. das finanças e dos suprimentos. As negociações políticas com São Paulo foram mais fáceis. Lopes e Cotrim foram a São Paulo e. O aproveitamento de Urubupungá foi feito. Lucas Lopes teve que concordar. O aproveitamento de Caraguatatuba não saiu do papel por ser derivação de descargas 191 . Isso tinha justificativa uma vez que Três Marias era um empreendimento de finalidades múltiplas. O mercado a atender era primeiramente São Paulo que se encontrava em situação mais crítica e depois os demais estados da Região Sudeste. já que Belo Horizonte na época não Figura 2 – John Cotrim . As atas das assembléias eram referidas a Passos apenas nominalmente. e o escritório central ficou instalado no Rio de Janeiro. foi convidado o engenheiro Benedito Dutra. Enquanto ele pensava que tinha trazido a empresa para Belo Horizonte. Para cuidar da administração.

chefe do planejamento elétrico do governo de São Paulo. Além desses diretores executivos. foi apresentada por Lucas Lopes a estrutura organizacional da empresa. Juscelino então perguntou: “E eu? Não sobrou nada para mim aí nessa diretoria?” Lucas Lopes esclareceu: “Não temos Figura 3 – JK e Lucas Lopes reunidos com os indicados para diretoria de Furnas por ocasião da constituição da companhia. empresa de energia do estado de São Paulo. José Luiz Bulhões Pedreira. para qualquer aumento de capital. Flavio Lyra e Benedito Dutra 192 . o advogado Noé Azevedo se tornou patrono de muitos proprietários e municípios em uma ação cominatória que visava impedir a construção da barragem de Furnas. Emerson Nunes Coelho. Essas alterações foram impedidas pelos parlamentares que se designavam como nacionalistas e a participação dessas duas empresas foi sendo diluída pela renúncia de investimentos adicionais. Em reunião com o presidente JK realizada no palácio Rio Negro. além do engenheiro Souza Dias. L. Menção é devida a outras pessoas que tiveram destaque na formação da empresa. necessitariam de alteração no gargalo tributário a que eram sujeitas. bem como políticos que tinham suas bases na área. diretor da Light. Uma reunião em Alfenas com a comunidade local foi a antevisão das atuais audiências públicas. Participaram da reunião que se estendeu até a madrugada muitos proprietários de terras da região e advogados que os incitavam com o objetivo de angariar clientes em ações contra a empresa que estava sendo constituída. C. foram negociadas as participações da Light e da AMFORP que. Delphim Mazon Fernandes e Jarbas Di Piero Novaes. Carlos Mário Faveret. Maurício Bicalho. Mário Lopes Leão. Sérgio Otaviano de Almeida. Ernani da Motta Rezende. XX e XXI da bacia do rio Paraíba do Sul para o oceano. A diretoria executiva seria composta por John Cotrim na presidência. pelas suas mãos. Resolvidas as participações estaduais. diretor da CEMIG. haveria diretores representando os outros principais investidores: a Light. tais como João da Silva Monteiro. Da esquerda João Monteiro. José Pilz Filho.Séculos XIX. e os estados de Minas Gerais e São Paulo. diretor da CELUSA. em Petrópolis. John Cotrim. Lucas Lopes. com graves impactos para as regiões a jusante no Vale do Paraíba. Juscelino Kubitschek.A História das Barragens no Brasil . Flavio H. que defendia que era melhor para São Paulo que investimentos fossem feitos em obras estaduais e não em obras federais. Lyra. Barreto de Carvalho e Julival de Moraes que encontraram um clima de hostilidade inédito até aquela época. Lyra na diretoria técnica e Benedito Dutra na diretoria de administração e finanças. Por Furnas participaram os engenheiros Cotrim.

Delphim Mazon Fernandes e senhora em 1966 Figura 5 .Flavio H.Assis Chateaubriand e Flavio H. Lyra em solenidade no canteiro de obra de Furnas 193 . Lyra. piloto e convidado Figura 6 .CINQUENTA ANOS DO COMITÊ BRASILEIRO DE BARRAGENS Figura 4 . José Pilz Filho.

” Disse então o presidente Juscelino: “Ah bom. o maior empréstimo feito pelo BIRD para um só empreendimento até então. O canal de adução a essas estruturas foi escavado em cota elevada. Os recursos em moeda nacional vieram do BNDE e do Fundo Federal de Eletrificação.000 m³/s. concentrando na margem esquerda as estruturas do vertedouro e da tomada d’água. Além da barragem principal e do conjunto tomada d’água e vertedouro. propiciando enrocamento para a barragem. XX e XXI Figura 7 . Furnas conseguiu do BIRD.500 m³/s no local da barragem.” E indicou alguns nomes para compor os dois conselhos respeitando os que. Esse foi o primeiro grande passo para a formação de várias gerações de excelentes engenheiros hidráulicos no País. Como o laboratório era instalado no subsolo de um prédio situado na rua Araujo Porto Alegre. Com isso. um empréstimo de US$ 73 milhões. representando os investidores.Visita do presidente Juscelino Kubitscheck à hidroelétrica de Furnas no início de sua obra como mexer na diretoria. mas o engenheiro responsável por esse empreendimento no BIRD. no Centro da cidade do Rio de Janeiro. A indicação dos projetistas era de um laboratório nos Estados Unidos. mais convencional na época. foi enviado às pressas. Inicialmente essa barragem seria construída nas cercanias da pequena cidade de Capitólio. Flavio Lyra. Entretanto. traumatizado por já ter perdido uma barragem por ruptura causada por transbordamento. já constavam das duas relações. situado no Caju. Um marco importante para a engenharia hidráulica brasileira foi a seleção do laboratório que deveria desenvolver os ensaios em modelo hidráulico reduzido. quero você na presidência do Conselho de administração.A História das Barragens no Brasil . um dos arranjos que estavam sendo considerados: barragem de concreto gravidade. no início dos estudos. Com o aprofundamento dos estudos hidrológicos verificou-se que não seria possível a ocorrência de uma descarga superior a 10.Séculos XIX. o concreto e a comporta do vertedouro e do acréscimo de calha desnecessários. em outubro de 1958. houve inflação de capacidade de descarga nos vertedouros a jusante. Na maior parte do tempo os residentes de Furnas na obra foram Rodrigo Mário Penna de Andrade e Franklin Fernandes Filho. houve a necessidade de se construir os modelos em área do laboratório do Departamento Nacional de Portos e Vias Navegáveis. para se candidatar ao empréstimo do BIRD. não aceitou que a redução fosse efetuada. mas você tem as vagas do conselho de administração e do conselho fiscal. O projeto teve que ser mudado devido à pressão da população da cidade. uma vez que não havia experiência nesse setor da engenharia no Brasil para encarar os ensaios de uma obra dessa magnitude. e vertedouro com seis comportas de segmento com capacidade total de 13. conhecedor da capacidade do professor Theophilo Benedicto Ottoni Netto e de seus ex-alunos. assumiu a responsabilidade da execução dos ensaios no Brasil pelo Laboratório Saturnino de Brito. O diretor técnico propôs ao BIRD a eliminação de um vão do vertedouro. quantia impressionante para a época. então Lucas. A construção seguiu um projeto muito bem concebido que resultou em uma alta barragem de enrocamento com núcleo de terra no leito do rio. o reservatório é fechado com a barragem de terra de Pium-I que impede que as águas afluam para a área de drenagem do rio São Francisco. além dos gastos com a escavação. revoltada com a 194 .

Vista aérea de Furnas nos primeiros anos de operação. sujeita à imagem desagradável das áreas que afloravam quando o reservatório era deplecionado.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens possibilidade de ser impactada pela obra. A montante do canal de acesso à tomada d’água e ao vertedouro. com o passar do tempo. a população verificou as muitas melhorias que Furnas havia introduzido em outras cidades na área do reservatório e pressionou em sentido contrário para que a barragem retornasse ao local originalmente selecionado para que houvesse em Capitólio os benefícios propiciados às outras cidades. sido deslocado para um local onde ocorria rocha competente. A cidade de Capitólio ficou às margens do reservatório. Tarde demais. sendo o vertedouro. na reconstrução da barragem. não mais havia tempo para alterações. assumiu a vicepresidência da República e o Ministério de Minas e Energia o político mineiro e engenheiro Aureliano Chaves que pressionou Furnas para construir a pequena barragem de Boa Esperança com a finalidade de manter o nível d’água constante em frente à cidade de Capitólio. Figura 8 . Entretanto. Durante a construção houve uma ruptura da fundação em argila muito compressível. Cerca de vinte anos após o reservatório ter sido formado. um de seus redutos políticos. o morro dos Cabritos em fase inicial de erosão. 195 .

Poucos dias depois começou o pesadelo na execução dos plugues dos dois túneis de desvio. a começar por Furnas.A História das Barragens no Brasil . O governo Fernando Henrique Cardoso se propunha privatizar o setor elétrico estatal federal. disse para o guarda abrir a cancela. ao final desse período tivesse ficado grisalho. mobilizou uma força policial para a região de Pium-I com equipamentos de terraplanagem e ameaçou abrir a barragem fazendo com que as águas do rio Grande represadas pela barragem de Furnas fossem afluir para a bacia do rio São Francisco. Tempos depois. já sem problemas de oposição ao empreendimento. saberia efetuar essa sabotagem com eficiência. nessa ordem. Flavio Lyra. se realmente executada. Como havia oposição ao empreendimento mesmo depois dele já consolidado. os vazamentos foram controlados pela colocação de tetrápodos. Flavio Lyra disse a ele que ele havia chegado tarde pois não havia mais qualquer possibilidade física de retirar as comportas que já estavam com bem mais de 20 m de água sobre elas. John Cotrim disse para o guarda: “Eu sou o Cotrim”. prejudicaria enormemente todas as usinas a jusante de Furnas. o oficial de justiça entregou o mandato. No dia anterior membros da diretoria se deslocaram para a obra. Em cada um dos dois túneis. concessionária de várias hidroelétricas em Minas Gerais. na época governador de Minas Gerais. Quando foi impedido de entrar. Após extensos trabalhos. o engenheiro Franklin 196 . Voltando aos anos sessenta. apesar de ter iniciado o programa de grandes privatizações quando era presidente. A pressão política foi grande e a privatização de geradoras do setor elétrico nessa fase se limitou à Eletrosul. Flavio Lyra ficou na obra para acompanhar o desempenho do fechamento. Depois de perder muito tempo na operação padrão da portaria. na parte a montante dos plugues. No meio do dia chegou na obra o então governador de Minas Gerais. que não conhecia o presidente da empresa e seguindo instruções disse: “Nem Cotrim nem Delphim. passou uma descompostura no diretor presente. que vinha atrás em outro carro. comentou que deveria ser para o fechamento do reservatório.Séculos XIX. se colocou frontalmente contrário à privatização do setor elétrico. principalmente de Furnas. vendo os VIPs congregados no avião. quando os plugues estavam quase concretados. ocorreram explosões que acarretaram acréscimos substanciais e crescentes de vazão que indicavam que alguma coisa havia colapsado no túnel. O esquema funcionou muito bem. Essa longa operação para solucionar o mais importante acidente que até então havia ocorrido em obras no País fez com que o engenheiro Flavio Lyra. Ao adotar essa inédita postura afirmava que por ser engenheiro. por ocasião da inauguração da usina. o fechamento do reservatório foi sigilosamente programado para o dia 9 de janeiro de 1961. O piloto afirmou que ele não sabia de nada e que apenas supôs que o fechamento do reservatório iria ocorrer vendo quem eram os passageiros no avião. ou comprometido com o mandato de segurança acima mencionado ou querendo ter colhido dividendos políticos na operação de fechamento. a montante das comportas de desvio. inclusive a usina de Furnas. pois até o carro que conduzia o Cotrim foi barrado. O avião de Furnas não pôde decolar do aeroporto Santos Dumont. Ainda não havia amanhecido quando chegou na portaria um oficial de justiça com um mandato para impedir o fechamento do reservatório. Na conclusão dos serviços. areia e argila. que. só tendo sido liberado quando Flavio Lyra. Na guarita da obra foi montado um esquema do tipo operação padrão para impedir ou retardar ao máximo a entrada de qualquer pessoa estranha.” Perto das 24 horas. com a bem sucedida privatização da CSN. John Cotrim também saiu no meio da manhã. ministros e demais autoridades. O piloto que naturalmente acompanhava as atividades de construção. A derivação do rio Grande. Esse ingênuo comentário fez com que Cotrim entrasse em desespero dizendo que a operação já era do conhecimento geral. A operação ocorreu com sucesso. No seu esforço político contra a privatização. O guarda. XX e XXI A respeito da barragem de Pium-I um episódio interessante ocorreu muitos anos depois de sua construção. enrocamento fino. que aguentou firme tal estupidez. três das quais concessões da CEMIG. Flavio Lyra com um megafone começou a comandar o fechamento dos dois túneis de desvio. O oficial de justiça se retirou. O ex-presidente Itamar Franco. Magalhães Pinto. Foi acionado um avião da Líder que costumava fazer o trajeto entre Rio e Furnas. aqui não pode entrar ninguém. o governador Magalhães Pinto foi convidado junto a outros governadores. enrocamento grosso.

Se a água vier até aqui eu bebo ela todinha. Cenas como essas não eram incomuns na época. Com a elevação do nível d’água na área do reservatório. quase frontal à barragem apresentava constante e acelerada erosão com desplacamento de material. não foi construída por ter sido criado um parque nacional na área que seria o reservatório. Eu peguei a estaca e finquei ela lá em baixo. Toda a área instável foi então removida. estava mais bem estruturada para executar a construção. permaneciam na área que estava sendo alagada. embora avisadas. que vai trazer água até a minha roça. Furnas contou com o canadense Richard L. para a visualização dos residentes antes do fechamento do reservatório de Peixoto. Foi então descoberta a causa das explosões: mistura de oxigênio com gás metano acumulado nos túneis. Hearn. do grupo AMFORP. Muitos anos se passaram e a encosta do morro dos Cabritos. ambas com largos canais de acesso que propiciaram os enrocamentos necessários à barragem. A obtenção dessa concessão foi obtida graças ao elevado desempenho da empresa na construção de Furnas e quebrou a orientação governamental de que Furnas se limitaria à implantação da usina de Furnas e à sua operação. Aos que lá foram ter com ele.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Fernandes Filho. hidroelétrica anterior e a jusante de Furnas. A Companhia Paulista de Força e Luz detinha a concessão do aproveitamento hidroelétrico de Estreito situado no rio Grande a jusante da usina de Peixoto. naquela vila. Apesar do importante acidente nos túneis de desvio.” O projeto e a obra de Furnas foram executados com grande sucesso. proveniente da decomposição de matéria orgânica da área do reservatório. Dizia ele que “nem a cheia de 1930 trouxe água até aqui e não será essa tal de Furnas que fica a léguas de distância. se incidisse no reservatório poderia. A regularização promovida pelo reservatório beneficiou sobremodo os potenciais a jusante propiciando a ampliação da capacidade instalada de Peixoto (Mascarenhas de Moraes) e viabilizando os muitos e grandes aproveitamentos a jusante que foram todos construídos até Itaipu com exceção de Ilha Grande no rio Paraná que. provocar uma onda de até 30 m sobre a barragem. 1965. ele acrescentou: “Pois assim seja. A barragem de enrocamento com núcleo de terra fecha o vale e as estruturas do vertedouro com capacidade de 12. naquela época.” Teve que ser tirado à força. o senhor não garantiu que as águas iriam subir até a estaca branca?” Após a resposta afirmativa.950 m³/s e da tomada d’água foram implantadas cada uma em uma das margens. por exemplo. viu uma delas cair. havia um habitante que teimava em permanecer na casa que já havia sido comprada e paga por Furnas. A Companhia Paulista de Força e Luz. Centros urbanos como a cidade de Guapé e a vila de São José da Barra haviam sido reconstruídas com melhores habitações e equipamentos urbanos às margens do reservatório. Nessa obra 197 . a concessão foi transferida para Furnas que. Nessa ocasião eram impressionantes as fotografias dos reservatórios em São Paulo completamente deplecionados. fincou estacas brancas de madeira em diversos pontos onde a linha d’água iria atingir quando da formação do reservatório. tendo salvado o estado de São Paulo de uma concreta ameaça de forte racionamento. Um desses desplacamentos causou uma onda que incidiu contra a barragem. Com o progresso da erosão foi se formando um grande monólito que. A usina foi inaugurada pelo presidente Castelo Branco em 12 de maio de 1965. foi dito: “Seu Doutor. o austríaco Arthur Casagrande e o americano Portland Port Fox. A partir de acordo entre as duas companhias. Mais uma vez houve uma corrida contra o tempo para que a usina de Estreito entrasse em operação para evitar colapso no suprimento de energia elétrica à Região Sudeste. Na última hora foi reportado que ainda havia um teimoso na área do reservatório. apesar de ter tido iniciadas as obras. de acordo com o modelo hidráulico reduzido. houve efetiva colaboração das Forças Armadas na retirada de algumas pessoas que. Entretanto. Como consultores internacionais para o projeto e a obra. com barcos encalhados na lama do fundo dos reservatórios. ao adentrar num túnel com outras pessoas. principalmente os da São Paulo Light. a usina e seu sistema de transmissão associado entraram em operação como programado.

Naquela época esses governos eram de diferentes correntes políticas. também estava com considerável atraso. Furnas Figura 10 – Ministros Mauro Thibau e Roberto Campos. O rio Paraíba do Sul após a cidade de Cruzeiro (SP) passa a apresentar gradientes progressivamente mais acentuados até pouco a montante da cidade de Itatiaia (RJ) onde se localizavam três corredeiras que despertaram o interesse da Estrada de Ferro Central do Brasil e da Light. sendo que o mais elevado não ultrapassava a cota do piso dos geradores. John Cotrim e presidente Castelo Branco na inauguração da usina hidroelétrica Estreito 198 . em 1967. em 1969. a tempo de se evitar uma crise de suprimento de energia em toda Região Sudeste. São Paulo e de Minas Gerais além do governo federal. com capacidade final de 1050 MW (duas unidades foram montadas em segunda fase) entrou em operação antes da data programada. A usina. Rio de Janeiro. transferiu essa responsabilidade a Furnas. presidente Castelo Branco e ministro Mauro Thibau em visita a Estreito foi usado pela primeira vez no País rigoroso planejamento e controle de construção em PERT/CPM permitindo que a obra tivesse controle de prazos.Séculos XIX. no ano seguinte. No final dos anos 50 foi criada a CHEVAP. A Eletrobras assumiu a construção da hidroelétrica de Funil e. Consta que a diretoria abrigava indicações dos governos dos estados da Guanabara. Nessa época apenas sete dos dezessete blocos da barragem principal haviam sido concretados. XX e XXI Figura 9 – John Cotrim. empresa estatal destinada a desenvolver os aproveitamentos no Vale do Paraíba. na época a segunda maior barragem de terra do País. principalmente quando comparada à eficiência demonstrada por Furnas. ambas tendo desenvolvido estudos preliminares.A História das Barragens no Brasil . A barragem de Nhangapi. o que pode ter gerado ineficiência de gestão.

por falta de inundações periódicas. Presentemente a usina com 210 MW instalados é também e principalmente usada como elemento de regularização de vazões e de controle de cheias. o reservatório de Funil amorteceu totalmente a cheia afluente.Barragem de Funil 199 . Entretanto. esse eficiente controle de cheias tem feito com que o leito secundário do rio. Um místico chamado Savananda que se assemelhava a um guru indiano e residia em Resende. tendo tido excelente desempenho. Por ocasião da maior cheia registrada no rio Paraíba do Sul. portanto Figura 12 . Episódio pitoresco ocorreu a partir das primeiras investigações realizadas no local da barragem. venha sendo ocupado por construções irregulares e até por instalações da Prefeitura de Resende. Santa Branca e Jaguari. ocorrida em fevereiro de 2000.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 11 – Luiz Carlos Barreto de Carvalho aplicou um verdadeiro choque de gestão e iniciou a geração comercial em dezembro de 1969. A barragem principal com altura de 85 m permanece sendo a única barragem em abóbada no País. assim como as usinas e os reservatórios de Paraitinga/Paraibuna. beneficiando as cidades a jusante. situados a montante.

O ministro afirmou que “palavra de ministro não volta atrás. capitaneou um movimento de oposição à alternativa de barragem a jusante da foz do rio Pardo. pudesse amortizar as cheias do rio Pardo por elevação de seu nível d’água acima do nível máximo normal por ocasião da afluência das cheias. seriam de pouca expressão as áreas a serem inundadas no vale do rio Pardo. Ao serem iniciados os estudos de campo. portanto. ambas situadas no rio Grande entre São Paulo e Minas Gerais. Furnas recebeu as concessões de Porto Colômbia e Marimbondo. A barragem não rompeu. Em 1968. afirmava que a barragem iria romper causando um desastre sem precedentes. e. A construção e montagem da usina foram feitas sem maiores problemas. Essa operação não pode ser efetuada devido à interferência da ponte Gumercindo Penteado sobre o rio Grande entre as cidades de Planura e Colômbia. Após a decisão do ministro. a alternativa propiciava uma pequena regularização das vazões do rio Pardo que beneficiaria todas as usinas a jusante.Séculos XIX. o ministro Costa Cavalcanti das minas e energia. paralisando o desenvolvimento da vossoroca. após a cheia de 2000. situado a jusante. diretores e assessores de Furnas mostraram a conclusão dos estudos que demonstrava que a inundação no vale no rio Pardo seria muito menor do que estava sendo alardeada. o prefeito da pequena cidade de Guaira. No inventário realizado pela Canambra o aproveitamento de Porto Colômbia foi situado pouco a montante da foz do rio Pardo no rio Grande. afirmasse que a usina de Porto Colômbia seria implantada a montante da foz do rio Pardo. que providenciou a devida correção.Usina hidroelétrica de Porto Colômbia a jusante do local da barragem. o autor por acaso esteve em ponto remoto do reservatório e verificou que estava se desenvolvendo uma grande vossoroca que se formava a jusante de uma estreita sela topográfica. Entretanto. A usina de Porto Colômbia é de queda modesta. O movimento conseguiu que. julgando que a inundação das terras do seu município seria grande.” Até a presente data (maio de 2011) cerca de 25 milhões de megawatts hora deixaram de ser economicamente gerados. Os primeiros estudos de Furnas visaram o confronto do arranjo do inventário com uma alternativa de projeto situada logo a jusante da confluência dos dois rios. Flavio Lyra propôs que o reservatório de Marimbondo. numa solenidade em Jupiá. Poucos dias depois. Foi produzida vasta documentação fotográfica enviada ao engenheiro Erton Carvalho. cinquenta e um dias antes do inicialmente programado. na época chefe do Departamento de Engenharia Civil. A usina entrou em operação no dia 29 de junho de 1973. XX e XXI Figura 13 . muitos anos depois.A História das Barragens no Brasil . Além do considerável acréscimo de energia gerada em Porto Colômbia. 200 . O rio Pardo contribui com cerca de 30% da descarga média do rio Grande. pouco superior a 20 m.

tem potência 175 vezes superior à antiga usina de 1928. Apesar das análises energéticas e econômicas internas não terem recomendado essa alternativa. No local de Marimbondo havia a primeira usina de Marimbondo. Figura 14 – Usina hidroelétrica de Marimbondo 201 . foram iniciadas em 1971 e a usina foi inaugurada em 28 de maio de 1976. ela foi selecionada para construção. a perspectiva era de que essa usina supriria de abundante energia todo interior paulista na região de influência de São José do Rio Preto até o Século XXI. dentro do previsto na programação. Essa alternativa teria barragem e reservatório muito ampliados. Logo a seguir dessa decisão. após o primeiro choque do petróleo ocorrido no final de 1973. palavra indígena que significa o caminho da cachoeira. sendo desativada após a construção da barragem da margem esquerda. implantada pelo governador de São Paulo Armando de Salles Oliveira em 1928 com 8 MW instalados.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A hidroelétrica de Marimbondo foi implantada em paralelo com Porto Colômbia. Porto Colômbia com 320 MW e Marimbondo com 1440 MW foram as últimas usinas de Furnas no rio Grande. As obras que transcorreram sem atropelos. Flavio Lyra recomendou que fosse estudada uma alternativa de projeto que englobasse a usina prevista a montante pelo inventário da Canambra. A antiga usina foi adquirida por Furnas. Assim que foram iniciados os estudos. Ao inaugurar essa usina. A usina aproveitava parte das descargas do rio Grande no seu braço esquerdo. A nova usina que começou a ser construída 30 anos antes da virada do século. mas com ligeira defasagem. A concessão seguinte foi o aproveitamento de Itumbiara.

Em Itumbiara foram ultrapassados os recordes de concretagem anteriores e foram instaladas as maiores turbinas já fabricadas até então. XX e XXI Figura 15 . pela primeira vez. Na implantação de Itumbiara. A obra foi iniciada no final de 1973 e.Usina hidroelétrica de Itumbiara nova análise energética e econômica revelou que essa alternativa adotada era muito mais viável do que a do inventário. pode se lançar com vigor ao mercado externo obtendo resultados compensadores.A História das Barragens no Brasil . Furnas instituiu um concurso/concorrência entre empresas consultoras. denominado Serra da Mesa. foi ultrapassado o índice de 90% de nacionalização nos equipamentos permanentes. Nessa época as indústrias de bens de capital.Séculos XIX. baseada no desenvolvimento que experimentou nas décadas anteriores. em 1980 as primeiras unidades geradoras entraram em operação comercial dentro da programação original. com excepcionais características geológicas. Essa marca foi muito importante para a indústria porque nas últimas duas décadas do século passado o País vivenciou forte recessão. tendo sido definido um aproveitamento designado como São Felix. sendo que pelo menos duas recomendaram a adoção de um eixo a montante do local de São Felix. muito superiores às do local de São Felix. Em 1981. o setor elétrico não sendo exceção. Os estudos conduziram a uma barragem de enrocamento com núcleo de terra com 154 m de altura represando 202 . Furnas recebeu a concessão do aproveitamento do alto rio Tocantins em trecho que havia sido estudado inicialmente pela CELG e posteriormente pela ELETRONORTE.

Os consultores Don Deere e Arthur Casagrande em Itumbiara com o engenheiro Ludgero Pimenta de Ávila 203 . As ensecadeiras e a parte da barragem construída foram galgadas por cinco vezes por descargas de até 6. A usina foi concluída em 1997. A recessão acima referida e a falência do Banco Nacional fizeram com que a obra fosse paralisada de 1990 a 1994.24 bilhões de metros cúbicos de volume útil para efeitos de regularização de descargas. Essa foi a primeira usina em que Furnas se associou a uma empresa privada. Figura 18 .5 m de altura com o objetivo de permitir a passagem de cheias no período construtivo sem danificar o aterro da barragem que seria executado.571 m³/s.4 bilhões de metros cúbicos que possibilitam a utilização de 43.4 m.5 m e 16. no mesmo ano. Em 1988 foram executadas as ensecadeiras de terra e rocha que permitiram. A elevada qualidade do granito do local permitiu a adoção de casa de força subterrânea abrigando três unidades de 431 MW cada na margem esquerda e desvio por dois túneis escavados na margem direita. no caso inicialmente ao grupo do Banco Nacional. João Alberto Bandeira de Mello e Don Deere inspecionando a barragem de Itumbiara 54. Agenor Antônio Bailão Galletti.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 16 – Arthur Casagrande e Guy Bordeaux na área de empréstimo de Itumbiara Figura 17 – Arthur Casagrande. a construção de duas ensecadeiras de concreto compactado com rolo com 25. com tirantes de água de até 12.

A História das Barragens no Brasil .Séculos XIX.Usina hidroelétrica de Serra da Mesa 204 . Figura 19 . XX e XXI Em paralelo à construção de Serra da Mesa. A obra começou a ser implantada pela CELG e interrompida em dezembro de 1982. A barragem de enrocamento com núcleo de terra teve também na sua construção ensecadeiras galgáveis. No Século XXI Furnas passou a atuar com frequência associada a empresas privadas para implantação de novas hidroelétricas como reportado por Márcio Porto nesse livro. No ano seguinte a Eletrobras solicitou a Furnas para examinar a partição de quedas do rio. Atenção especial foi dedicada à preservação das águas termais da região de Caldas Novas. Furnas implantou a usina hidroelétrica de Corumbá sobre o rio Corumbá em Goiás com potência instalada de 375 MW. estas de terra e rocha.

2011 205 . 1967 Miguez de Mello. Desvio do Rio.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 20 . Ensecadeiras Galgáveis – Desvio de Grandes Rios Brasileiros – CBDB. F. Closure of Diversion Tunnels – Institution of Civil Engineers. – Furnas Hydroelectric Scheme. J. 2009 Cotrim.A.R. E. – A História de Furnas das Origens à Fundação da Empresa – Comitê Brasileiro do Conselho Mundial da Energia. _ O Aproveitamento Hidroelétrico de Porto Colômbia – Construção Pesada n° 27. – Barragem da Usina de Serra da Mesa. 1973 Miguez de Mello. F. et al.A.H. F. et al. 1975 Miguez de Mello. – A Nova Face das Empresas Estatais Frente à Expansão da Oferta de Energia Elétrica no País – A História das Barragens no Brasil – CBDB. – Grandes Barragens Brasileiras – Construção Pesada n° 47. – General Paper – XIII International Congress on Large Dams. 1994 Lyra. – O Aproveitamento Hidroelétrico de Itumbiara – Construção Pesada n° 26.Usina hidroelétrica de Corumbá Referências Carvalho. F. F. M. 1979 Porto. 1973 Miguez de Mello.

Usina Hidroelétrica de Tucurui .

“Rio de Janeiro. podemos perceber. assim incluindo o norte do Brasil. já tivesse em seu cur­ rículo importantes obras tanto em porte quanto em quantida­ de. na época. Llano recebendo o presidente João Figueiredo em Tucuruí A Eletrobras anunciou a intenção de construir a usina Tucuruí. como neste trecho de uma delas. Os saudosos tempos das marchinhas de carnaval bem humoradas. a Eletronorte já nasceu com o duplo desafio de constituir a empresa propriamente dita e. 207 . foi criada a Centrais Elétricas do Norte do Brasil S. mas neste histórico. não será contada de forma linear. Raul Garcia Llano (Fi­ gura 1). no governo Costa e Silva. –  Eletronorte. – Eletrobras. será simplesmente Eletronorte. O início Estávamos na época do chamado Brasil Grande depois que. Embora a engenharia nacional. em 2011. ao mesmo tempo.Cel. Optou-se por descrever alguns fatos relacionando-os aos grandes eventos e obras que marcaram a empresa entremeados por comentários dos tempos atuais. Era o início da inte­ gração do Brasil como um todo. os militares assumiram o poder e deram grande impulso às obras de infraestrutura no País.A. Para isso. Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 1 . resumida nas linhas que se seguem. pois foi sua capacidade empreendedora que consolidou a empresa executando Tucuruí e outras obras a serem relatadas adiante. cidade que me seduz. sociedade anônima de economia mista e subsidiária da Centrais  Elétricas Brasileiras S. Hoje o nome da empresa é Eletrobras Eletronorte. em 1964. A presidência da empresa coube ao Cel. de dia falta água. construir o maior projeto inteiramente nacional: a usina de Tucuruí. de noite falta luz”. em 20 de junho  de 1973. como  concessionária de serviço público de energia elétrica com sede em Brasília no Distrito Federal. os governos da épo­ ca incentivaram a marcha para o oeste. caminhando para o que hoje. mostravam a situação que havia no País antes desse impulso. mas bastante críticas.A. mais precisamente a Amazônia. Alvaro Lima de Araujo e Humberto Rodrigues Gama A história da Eletronorte.A Eletronorte e as Barragens da Região Amazônica Alexandre Magno Rodrigues Accioly. Encampando a ideia do presidente Juscelino. nome que se confunde com a própria Eletronorte. baseada em estudos do Comitê Coordenador de Estudos Ener­ géticos da Amazônia (Eneram) que havia sido criado em 1968.

e mais duas unidades auxiliares com 22. João Eduardo de Moura Guido. Enfim.000 m³/s registrados até então).000 m³/s exigiu a construção de 40 adufas sob o vertedouro. Curiosamente. Depois de longa confabulação. capital do Estado do Pará. como já dito anteriormente. Embora ainda não tenha sido testado para os limites de vazão. Dário Gomes (Fi­ gura 2). A vazão de desvio de 51. projetado e construído para a vazão de 110. que garantiriam o consumo de boa parte da produção. foi posterior­ mente tomada num ambiente muito mais bucólico do que técnico.245 MW. XX e XXI A concessão para a construção de Tucuruí foi outorgada à Eletro­ norte. entre outros. A usina foi concebida para ser construída em duas etapas.5 m de largura por 13 m de altura. o projeto foi as­ sociado ao fornecimento de energia para indústrias de alumínio eletrointensivas.5 MW de potência nominal cada. cada uma com 350 MW de potência nominal. A cota de coroamento da barragem de terra seria de 78 m acima do nível do mar sendo que. A usina teria. A primeira missão O batismo de fogo da empresa. foi a usina de Tucuruí.000 m³/s era o maior do mundo na ocasião.370 MW de potência instalada. a evolução do desempenho do vertedouro vem correspon­ dendo às previsões do modelo hidráulico reduzido. Albrás e Alumar. José Augusto Pimentel Pessoa. em alguns trechos. na carta elaborada pelos topógrafos. inicialmente com a instalação de 12 unidades geradoras princi­ pais. pelo decreto 74. Para viabilizar a produção de tamanha quantidade de energia. a Amazônia. José Antônio da Silveira.A História das Barragens no Brasil . em boa parte. mais 11 unidades de 375 MW totalizando 8. canalões de até 40 m abaixo do nível do mar. sendo o último aproveitamento hidrelétrico antes da foz do Tocantins. para funcionar com uma carga de 32 m.000 m³/s e picos de mais de 40. o diretor técnico da Eletronorte. profissionais egressos da Cemig. a decisão de maior significado daquela fase. A execução da obra de Tucuruí Não bastasse o porte do rio Tocantins quanto à largura (mais de 2 km) e vazões (média de longo termo da ordem de 11. era uma região carac­ terizada por inóspitas florestas tropicais com quase nenhuma infraestrutura. distando aproximadamen­ te 300 km de Belém.279 em julho de 1974. o topógrafo Geraldo Magela Barbosa. Humberto Rodrigues Gama. e a alta diretoria executiva das empresas escolhidas para o proje­ to e a construção de Tucuruí.Séculos XIX. As vazões específicas adotadas foram pionei­ ras e ousadas. consultores brasileiros e estrangeiros contratados para assessorá-lo. Érico Bittencourt de Freitas. a que determinaria o local exato da barragem. Do tipo vertedouro em salto de esqui. naqueles tempos. totalizando uma potência instalada de 4. Berilo Mamoré Pereira Belo. Isso tornava o desafio importante. especialmente em termos logísticos. Logo. a barragem chegou a ter quase 120 m de altura. Esta obra foi concebida para ser construída em duas etapas. previa o descarregamento de toda essa energia ao pé da própria obra. O vertedouro da usina. em alguns trechos do leito do rio havia A Eletronorte formou seus primeiros quadros buscando. na segunda etapa. Foi assim que vieram para a empresa os engenheiros Geraldo Afonso Pra­ tes. eles localizaram precisamente. À sombra de uma grande árvore da margem esquerda do rio. 208 . as duas pontas de terra separadas por quase dois quilômetros de água revolta entre as quais seria feito o barramento do Tocantins. cada uma com 6. reuniu os futuros comandantes da obra. era um empreendimento caracterizado pelo pioneirismo em vários aspectos.

em 1977.Engenheiro Dário Gomes na cabeceira da mesa em reunião no escritório da vila pioneira Figura 3 . a ensecadeira de primeira fase do desvio do rio. Transpor­ tes. Durante o período de trabalho mais intenso. em 1977 (Figura 3). Cel. marcando o início dos trabalhos de terraplenagem. o 8º. e que precisou ser treinado para as tarefas específicas de uma construção. uma mul­ tidão de mais de 30. o 5º Fausto Cesar Vaz Guimarães. energia elétrica confiável e saneamento básico não existiam. sr. Sebastião Camargo. Geraldo Afonso Prates. para ensecar a superfície em que as estruturas de concreto e a barragem seriam assentadas sobre a rocha do fundo do rio. Era um grupo heterogêneo. sem nenhuma experiência.000 pessoas enxameava em torno do canteiro da obra. O primeiro desvio do Tocantins. Nesse am­ biente foi construída. foi feito em 1975. em 1975. Sebastião Florentino da Silva durante celebração do lançamento da 1ª caçamba de concreto em Tucuruí O principal obstáculo à construção do novo complexo residencial de apoio às obras da usina foi o isolamento de Tucuruí. Mas somente quando as obras civis foram efetivamente iniciadas.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 2 .Da direita para a esquerda: o 2º. o que marcou o início das obras civis. comunicações. Somente dois anos depois. 209 . Érico Bittencourt de Freitas. a Amazônia começou a revelar aos pioneiros o tipo de dificuldades que eles podiam esperar no futuro imediato. que tivera de ser recrutado em locais próximos. Llano e o último. seriam efetivamente começadas as obras civis.

durante a construção. Mas. o rio Tocantins teve um verdadeiro acesso de mau humor. estava Osório Ferrucci (Figura 4). Sobretudo. José Armando Del Greco Peixoto. que foi substituído em 1977 pelo engenheiro residente Érico Bittencourt de Freitas responsável pela condução da obra até 1982 quando passou a gerente do Departamen­ to de Construção da Eletronorte. Érico Bittencourt de Freitas. Contudo. que ficou na memória do alto comando técnico da obra como uma espécie de marco do empreendimento. Essa ruptura causou danos materiais relativamente pequenos. XX e XXI por piping inundando o trecho de jusante da obra. 210 . em 1980. Luiz Fernando Rufato.Séculos XIX. a área afetada permaneceu pouco tempo inundada porque o acidente ocorreu ao final da cheia. afogaria cinco anos do trabalho de dezenas de milhares de homens e uma considerável fatia do orçamento da Eletronorte. a única voz que Sebastião Camargo. Humberto Gama. Ser viços de alteamento e proteção das ensecadeiras foram feitos com sucesso durante dez dias de trabalho ininterrupto sob violento estresse. revelava uma situa­ ção inquietante. o sistema de previsão de vazões a partir da Também entre os primeiros a entrar no grande palco que o governo montara em plena selva para a encenação da primeira grande aventura tecnológica na Amazônia. Por coincidência. em março de 1980. Entre elas. preenchidos com material aluvionar e seixos rolados que difi­ cultaram a execução das ensecadeiras. As obras de concreto e terra na área ensecada já estavam adiantadas Figura 4 . inclusive a maior de todas. vindo uma delas a se romper leitura das réguas linimétricas a montante da obra. O desvio do rio foi um dos grandes desafios superados apesar das adversidades. Gilson Nakamura e mais um punhado de executivos sabiam muito bem o que aconteceria se a água que chegava a perigosos 15 centímetros do topo da enseca­ deira conseguisse galgá-la.Sebastião Camargo e Osório Ferrucci. ouvia sem contestar. Por isso. os encarregados de turmas convocaram seus homens para enfrentar o problema. O rio estava desviado por ensecadeiras e a tempora­ da de chuvas mais copiosas já parecia ter chegado ao fim. da Camargo Corrêa. visto que o mo­ nitoramento das estruturas detectou em tempo hábil o problema possibilitando a retirada de pessoas e equipamentos. Osório Ferrucci. um com até 40 m abaixo do nível do mar. Os homens do alto comando da obra. o lendário capitão da grande empreiteira. O céu carregado e a cheia. José Antônio da Silveira. tendo sob sua responsabilidade as demais obras além de Tucuruí. as condições do leito do rio. nos dias 2 e 3 daquele mês. com vários canalões muito profundos. que já ultrapassara o nível da maior enchente observada em 1926. O Tocantins levaria por água abaixo equi­ pamentos e materiais. o residente da Eletronorte também se chamava Osório Correa Neto. às ordens dos chefes.400 m³/s contra uma vazão de projeto de desvio de 51. ocorreram três das quatro maiores cheias do histórico.A História das Barragens no Brasil .000 m³/s. Além disso. Ele era funcionário da Camargo Corrêa desde 1947 e. Outro fato relevante foi que. segundo seus companheiros em Tucuruí. a capacidade técnica e in­ tegração das equipes de projeto e principalmente de construção possibilitaram atravessar esse imprevisto sem maiores transtornos. construtora de Tucuruí quando. ameaçavam as ensecadeiras que protegiam as obras em construção. que alcançou 68.

percebeu claramente que “aqueles senhores (Balança e sua equipe) mesmo com toda a experiência mostravam uma preocupação excepcional com o projeto”. Nelson Souza Pinto. Da esquerda Don Deere. João Ângelo Casagrande (mecânico) e Leôncio Gotti (planejamento). Milton Vargas e Flavio H. O projeto da usina foi desenvolvido pelo Consórcio Engevix-The­ mag tendo pelo lado da Engevix o comando do engenheiro francês radicado no Brasil André Jules Balança. essa equipe iria compreender a dimensão de sua primeira experiência. Por conta de sua formação e gosto pessoal. na manhã do décimo dia da operação. o engenheiro Balança se interessava pessoalmente pelos estudos hidráulicos em modelo reduzido de Tucuruí realizados pelo Hidroesb – Laboratório Hidrotécnico Saturnino de Brito SA. no Rio de Janeiro. ainda.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Finalmente. Lyra. a água parou de subir. presidente da empresa e detentor de profundos conhecimentos de hidráulica adquiridos na sua formação em Grenoble e na experiência iniciada no Brasil na construção de Paulo Afonso da CHESF. de Mello. Na Eletronorte.B. O episódio ficou poeticamente conhecido como “águas de março”. Mais tarde. James Libby e Milton Vargas 211 . Don Deere. O projeto contou. o gerenciamento do projeto foi feito pelos en­ genheiros João Eduardo de Moura Guido (civil). e que era Figura 5 . As ensecadeiras haviam sido alteadas em três metros e o nível d’água alcançara dois metros acima do topo da ensecadeira original.Os consultores examinando os testemunhos de sondagem. a equipe de engenheiros que operava o mode­ lo e não tinha elementos de comparação com outros projetos. A superação dessa ocorrência excepcional em 1980 foi fundamental para a equipe concluir a construção de Tucuruí com êxito. O engenheiro Fausto César Vaz Guimarães. Somente para corroborar comentários anteriores sobre as dimensões do empreendimento. sucessor do engenhei­ ro Dário Gomes na Diretoria Técnica da Eletronorte. com um board internacional de consulto­ res composto por James Libby. Victor F.

Nesta etapa. Balbina e Samuel. nível máximo normal. Figura 6. A Figura 6 dá idéia da dimen­ são do estator de uma forma lúdica muito bem compreendida pelo brasileiro em geral. quando a Eletronorte construía simultaneamente com Tucuruí. Em 1982. então condutor dos três empreendimentos Tucurui. houve um grave acidente aéreo que causou a morte dos diretores da Eletronorte Fausto César Vaz Guimarães (diretoria técnica) e Jayme Barcessat (diretoria de Suprimentos) e do chefe do Departamento de Construção. A chefia da obra de Tucuruí foi assumida pelo engenheiro Humberto Rodrigues Gama. atingindo a cota 72. O engenheiro Kerman José Machado assu­ miu a Diretoria Técnica e o engenheiro Érico Bitencourt de Freitas foi empossado chefe do Departamento de Construção.00 m. as usinas de Samuel em Rondônia e Balbina no Amazonas.Séculos XIX. apesar da importante perda.A História das Barragens no Brasil . engenheiro Geraldo Afonso Prates. a usina foi inaugurada pelo Presidente da República João Figueiredo em 22 de novembro de 1984.Jogo de futebol de salão dentro do estator de uma máquina da primeira etapa 212 . imprimia seu dinamismo aos trabalhos contagiando toda a equipe envolvida no empreendimento. a obra continuou em ritmo normal. XX e XXI responsável pelas construções. justamente em momento festivo de conclusão do desvio de Samuel. a Eletronorte já contava com funcionários dos mais diversos rincões do país chamados para auxiliar nas tare­ fas da empresa e. com duas unidades de 350 MW em operação comercial. em março de 1985. O enchimento do reservatório teve início em setembro de 1984. Entretanto.

José Antônio Muniz (presidente da Eletronorte) e governador do Pará. com um ganho de energia firme de 109 MW. A unidade geradora 13 (Figuras 7. A motorização da primeira etapa foi concluída em 1992.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens O coronel Raul Garcia Llano. estando em operação comercial desde abril de 2003. Almir Gabriel em visita às obras da segunda etapa de Tucuruí. As obras de terra­ plenagem e escavação em rocha foram concluídas no ano de 2002.00 m.Descida do estator da unidade 13 em 3 de maio de 2002 Figura 8 .Presidente da República Fernando Henrique Cardoso. o nível máximo normal operacio­ nal foi elevado para a cota 74. 8 e 9) teve sua montagem concluída no final de novembro de 2002. Em junho de 1998 as obras de expansão de Tucuruí foram autorizadas e iniciadas. ao centro.Equipe com o José Antônio Muniz. tendo ao seu lado esquerdo Adailton de Sousa Pinto. Essa elevação aumentou a área de inundação de 2. 213 . por conta do destino não chegou a ver concluída a obra que hoje tem seu nome. Figura 7 .007 km². porém. Posteriormente.875 km² para 3. grande incentivador do empreendimento. residente da obra da segunda etapa de Tucuruí celebrando a descida do estator da unidade 13 Figura 9 . presidente da Eletronorte.

XX e XXI A unidade 23 entrou em operação em julho de 2006. Em 2011. com as indústrias do alumínio Albrás e Alumar. totalizando 8.A História das Barragens no Brasil . Tucuruí tem hoje os maiores contratos de fornecimento de energia elétrica em bloco do mundo.370 MW de potência instalada. Maranhão e Tocantins.Séculos XIX. e é segmentado em prestadores de serviços públicos de energia elétrica e indústrias eletrointensivas. foi concluída a eclusa constituída de duas câmaras que vencem um desnível de cerca de 68 m e são separadas por um ca­ 214 . O mercado principal de Tucuruí é o sub-mercado Norte de energia que abrange os estados do Pará.

Atualmente.400. a cada semana de trabalho era aplica­ do o equivalente ao volume empregado na construção do estádio do Maracanã. ou seja. em 2002. isto é Manutenção Total Produtiva).O volume máximo diário de concreto lançado na obra foi de 11.000. .000 m³. é a principal responsá­ vel pelo intenso desenvolvimento regional. Tucuruí (Figuras 10 e 11) responde por 28. e daí ao oceano Atlântico.O aço aplicado totaliza cerca de 222.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens nal intermediário. Os números do empreendimento impressionam. Figura 11 . da ordem de 9. fruto da abundante oferta de energia e recolhimento de impostos resultantes da comercialização e compensação pela utilização de recursos hídricos.800. A Vale e outras empresas da região já iniciaram o transporte de seus produtos pelo rio Tocantins de Marabá até Belém utilizando a eclusa. foi a primeira hidroelétrica do mundo certificada pela JIPM (Japan Institute of Plant Maintenance) com Prêmio Excelência em TPM – 1 a Categoria (Total Productive Maintenance. .O cimento empregado na obra. equivale a 28.400 sacos de 50 kg. . e a primeira unidade do setor elétrico brasileiro a conquistar o Prêmio de Qualidade do Governo Federal – PQGF. além dos programas socioambientais.000 m³ e o volume de concreto utilizado. Essa obra é fundamental para a implantação da hidrovia do Tocantins.Tucuruí .200 m³.O volume total dos aterros executados na obra foi da or­ dem de 59. como podemos ver a seguir: .000 t.vista do vertedouro em operação 215 .4% do faturamento global de toda empresa.Tucuruí Casa de Força Figura 10 .

com população esparsa e arrecadação ínfima até o início dos anos 1970. com a conclusão da Interligação Norte-Sul.500 MW médios mensais. o rio Araguari submeteu a obra a uma cheia de cerca de 4.000 m³/s escoava as águas para um braço do rio diferente da casa de força. entrasse incontestavelmente para o mapa do Brasil. suficiente para apontar graves defeitos do vertedouro. Logo no início da vida da usina. Como a usina foi construída por vários empreiteiros numa obra que levou mais de quinze anos para ser concluída. a usina exporta energia para os sistemas Nordeste. Hoje se pode comemorar dois fatos indiscutíveis: Tucuruí foi a obra isolada de maior impacto sobre a Amazônia.A História das Barragens no Brasil . com cerca de 4. a documenta­ ção técnica que a Eletronorte conseguiu obter foi muito precária. A contribuição dos engenheiros da Eletronorte formou assim. apesar da importância que tem tido para a Eletronorte e para o estado do Amapá. Ainda hoje há certos aspectos do projeto e da construção sobre os quais não se tem informação precisa. apesar de seu gigantismo. a usina vem operando desde a inauguração sem apresentar problemas relevantes. esta obra não foi submetida a estudos em modelo hidráulico reduzido. Em segundo lugar. Maranhão e Tocantins. Isso ao mesmo tempo em que construíam Tucuruí. Esta missão surgiu numa época em que todos os olhos estavam voltados para Tucuruí de modo que a história dessa usina foi de certa forma ofuscada. um simples entreposto de pesca e castanhas. Finalmente.Séculos XIX.000 m³/s. Sudeste e Centro-Oeste. Outro exemplo significativo dos benefícios trazidos pela usina é a própria cidade de Tucuruí. A energia firme e renovável de Tucuruí é escoada por linhas de trans­ missão de 230 kV e 500 kV. o município veio a ser o segundo maior arrecadador do Pará – só perde para Belém – e abriga 80 mil habitantes que dispõem do primeiro hospital modelo da região. 216 . tinha duas máquinas de 20 MW e previsão de ampliação para mais uma máquina de 30 MW. o Brasil e muitos de seus filhos – aqueles que influiram diretamente sobre a monumental empreitada da usina e os que hoje estão sob sua influência – vivem melhor do que viviam antes dela. XX e XXI Principal geradora do Sistema Norte-Nordeste. praticamente não havia obra para dissipação de energia: as águas vertidas eram lançadas no canal do rio constituído de material rochoso com um ligeiro salto ao pé da superfície de vertimento. Essa linha permite a preservação de  energias estocadas em reservatórios de hidroelétricas situadas em outras regiões durante o período hidrológico favorável no rio Tocantins. com o uso inteligente de sua especialidade. Com os impostos locais pagos pela Eletronorte. Mais que isso. O vertedouro (Figura 10) com capacidade para 12. a mais significativa coleção de tecnologias para a construção de grandes barragens em am­ biente remoto. Além de atender os mercados do Pará. Mesmo sendo um vertedouro com o porte citado. a Eletronorte recebeu da Eletrobras a incumbência de operar a usina de Coaracy Nunes situada no rio Araguari no Amapá. mas ela foi também a de melhor repercussão socioambiental e econômica entre todas as que foram feitas na região. Tucuruí passou a fazer parte do Sistema Interligado Nacional – SIN em março de 1999. e passou a ser servido por extensa rede de estradas e tem uma pista de pouso capaz de receber aeronaves de grande porte. ocupando efetivamente um território que já vinha sendo invadido­ desordenadamente e acrescentando uma formidável potência de geração ao sistema elétrico nacional. A usina hidroelétrica Coaracy Nunes Em 1975. construída por terceiros. O reservatório tem 120 km² e a operação é a fio d’água. Como ca­ racterística. Esta usina. Tucuruí fez com que uma imensa região coberta de densa floresta. mas sem expressiva identidade geográfica.

Figura 13 .Vertedouro da Usina Hidroelétrica Coaracy Nunes 217 . Em 2004.Casa de Força Figura 12 . Na Eletronorte o funcionário que todos identificamos com Coaracy Nunes é o engenheiro Mário Dias Miranda que tem sido o grande entusiasta do empreendimento. as máquinas de 20 MW foram recapacitadas aumentan­ do sua potência para 24 MW cada uma e a terceira máquina com 30 MW foi instalada entrando em operação em 2000 e aumentando a potência instalada da usina para 78 MW (Figura 12). A recomendação do CEHPAR foi executada e. laboratório hidrotéc­ nico da UFPR na ocasião sob a direção dos engenheiros Nelson Pinto e Sinildo Hermes Neidert que ofereceram uma solução para o problema.Usina Hidroelétrica Coaracy Nunes . desde então. não ocorreram incidentes com o vertedouro embora a vazão não tenha alcançado o valor que causara os danos iniciais.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A Eletronorte contratou então o CEHPAR.

foi resultado de um embate do cel.840 m³/s com bacia de dissi­ pação convencional. O segundo aspecto foi a área do reservatório. em uma época em que a situação da balança de pagamentos do País era um fator de entrave ao desen­ volvimento. Balbina é mais uma usina pioneira que coube à Eletronorte construir. fato não divulgado convenientemente para o público. quando comparadas com as alternativas de geração para atendimento da evolução das cargas locais.A História das Barragens no Brasil . destinava-se a abastecer Manaus visando solucionar o caos energético ainda reinante na região no final da década de setenta. O vertedouro com capacidade para 5. Com capacidade instalada de 250 MW composta por 5 unidades de 50 MW. eram obras sem nenhum aspecto inovador ou preocupante. mas sim o presidente da província do Amazonas. quando os atuais estados eram chamados de província na época do Império. No momento. O Consórcio havia elaborado os estudos de inventário e recomen­ dado a construção da usina de Katuema no rio Jatapu como hidro­ elétrica prioritária para suprir Manaus. XX e XXI Devido às características hidrológicas do rio Araguari. Ademais. os projetistas haviam recomendado que fosse A usina hidroelétrica Balbina A decisão sobre a construção da Usina Hidroelétrica Balbina. apesar de tudo. como citado no capítulo dedicado aos estudos ambien­ tais. para obturar esses canalículos. A solução. essas hidroelétricas foram escolhidas para construção por serem as mais econômicas do País na época. a usina trouxe muitos benefícios socioambientais à região. no entanto a escolha recaiu sobre Balbina que era o menor investimento e a menor distância de transmissão e de acesso. Situada no rio Uatumã. Contudo dois aspectos mereceram considerações especiais. critério básico do setor elétrico de então.Séculos XIX. bem como a de Samuel. 218 . Entretanto. O projeto foi executado pelo Consórcio Monasa . economizando divisas. O problema não era totalmente novo para a empresa uma vez que algumas ocorrências do fenômeno haviam sido constatadas em Tucuruí. Concebida numa época em que não havia as agências reguladoras e controladoras com os poderes de hoje nem tampouco a consciência ambiental havia se desenvolvido nos níveis atuais.Enge Rio. Balbina era uma obra comum para o estado da arte de então. foi a execução de uma cortina por injeção de calda de solo cimento com ruptura hidráulica do solo (cracagem). Enfim. Considerando a provável área do reser­ vatório de Balbina. que se mostrou eficiente. Os benefícios econômicos das hidroelétricas de Balbina e de Samuel se acentuaram pela substituição do óleo importado para termoelé­ tricas. Esse proble­ ma viria a nos assombrar com mais intensidade na construção de Samuel como veremos oportunamente. não o Presidente da República da década de 80. a usina foi projetada e executada apesar da área inundada ser exagerada para a potência instalada. O primeiro por não ser totalmente conhecido de nossos técnicos: a existência abundante de canalículos com diâmetro de até 5 cm no solo de fundação que tornava a construção de barragem altamente problemática. que na época era contra as construções de hidroelétricas na Amazônia por julgar que usinas térmicas a carvão em Manaus e Porto Velho com transporte do carvão do sul pelos navios da Vale (então Vale do Rio Doce) seriam mais vantajosas. Seria como construir uma barragem sobre um “queijo suíço”. Raul Garcia Llano com a Eletrobras. assim como a casa de força e a tomada d’água. mas a quantidade tornava muito sério o problema. já se havia vis­ lumbrado a possibilidade de ampliação do aproveitamento por meio de uma segunda casa de força com potência instalada superior à atual. município de Presidente Figueiredo. a Eletronorte vem se dedicando à análise mais aprofundada dessa possibilidade tendo em vista que a região está para ser interligada ao SIN o que tornará ainda mais interessante o investimento.

Figura 14 – Usina Hidroelétrica Balbina A usina (Figuras 14 e 15) vem operando desde a inauguração sem apresentar problemas relevantes. Figura 15 . mas isto só foi feito após o início da construção por restrições financeiras.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens feito levantamento da área a ser alagada. com a primeira máquina entrando em operação em fevereiro de 1989.vista de jusante 219 . O grande maestro da construção de Balbina por parte da Eletronorte foi o engenheiro Francisco Nelson Queiroga da Nóbrega. tendo em vista o elevado custo de restituições aerofotogramétricas em função da espessa cobertura vegetal que  acarretava dificuldades logísticas ainda não enfrentadas até aquela época. A construção se iniciou em 1º de maio de 1981. Este atraso deveu-se à falta de recursos para sua realização em prazos normais. problema constante na época.Usina Hidroelétrica Balbina – Casa de Força . A construtora foi a Andrade Gutierrez cujo residente geral se destacou como responsável pela execução da obra a contento.

quando entrou em operação a primeira máquina. Esta solução vem funcionando satisfatoriamente. A usina foi projetada pela Sondo­ técnica S/A. XX e XXI A usina hidroelétrica Samuel Situada no rio Jamari no Estado de Rondônia. mas tem exigido muita atenção das equipes de instrumentação e manutenção da usina.A História das Barragens no Brasil . cujo coordenador geral foi o engenheiro Paulo Pinho Lopes e a obra foi feita pela Construtora Norberto Odebrecht. a solução adotada foi a construção de tapetes impermeáveis a montante das obras de terra para au­ mentar a distância de percolação. a usina hidroelétri­ ca Samuel (Figura 16) tem como particularidade ter sido a única usina da Eletronorte a contar com o apoio popular e do governo local personificado no governador Jorge Teixeira. em linhas gerais. Com capacidade instalada de 220 MW. era uma obra comum para o estado da arte de então. Contudo o aspecto dos canalículos já constatados em Tucuruí e em Balbina mereceu considerações e esforços especiais pela sua incidência em quantidades exageradas e pela quantidade de diques que compunham o projeto. Figura 16 – Usina Hidroelétrica Samuel – Vista panorâmica de jusante 220 220 . Tal como Balbina.820 m³/s e um reservatório de cerca de 600 km². a usina hidroelétrica Samuel foi construída no período de 31 de março de 1982 a 31 de julho de 1989 (última unidade) sob o comando do engenheiro Adailton de Souza Pinto residente da Eletronorte.Séculos XIX. Neste caso. tornando a extensão do problema ainda maior que o usual. vertedouro para 4.

Apenas foi construída uma soleira vertente mais com o intuito de nivelar o leito natural do rio para garantir o nível normal de montante. Esta foi uma das primeiras usinas desse porte construídas na Amazônia. no noroeste do Mato Grosso e tem capacidade instalada de 261 MW. PA tem três unidades de 10 MW e previsão de insta­ lação de uma quarta unidade de 11 MW. Atualmente. a Eletronorte foi responsável pelos estudos de inventário e viabilidade. quatro delas de 58 MW cada e uma de menor porte de 29 MW. situada no rio de mesmo nome no município de Santarém. O usina hidroelétrica Dardanelos A usina está localizada na margem esquerda do rio Aripuanã. Enfim.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 17 – Usina Hidroelétrica Curuá Una – Casa de Força A usina hidroelétrica Curuá Una Adquirida em 2005 da CELPA em permuta de dívidas. a Eletronorte está em vias de executar a instalação desta quarta máquina. não tem reser­ vatório. participa minoritariamente em sociedade com a Neoenergia e a CHESF. No momento. a usina de Curuá Una (Figura 17). Como peculiaridade é uma usina construída sobre uma gran­ de queda d’água natural de cerca de 90 m de altura apro­ veitando esta queda como vertedouro. é uma usina que além de não ter um vertedouro clássico. 221 . composta por 5 unidades geradoras. No AHE Dardanelos (Figura 18).

O grande mentor deste projeto cuja personalidade se identifica com o empreendimento é o engenheiro José Antônio Muniz Lopes. composto de casa de força complementar e vertedouro. Desde os tempos em que foi diretor de engenharia da Eletronorte no final da década de 80. junto com outras 18 empresas. A Eletronorte participou. com unidades Bulbo na casa de força complementar. outro composto do canal de adução e interligação e o último composto do reservatório intermediário e sítio Belo Monte com a usina principal. um deles denominado Pimental onde ocorrerá o barramento do rio Xingu. ele não mediu esforços até levar o projeto a ser leiloado pela ANEEL com sucesso. com turbinas Francis na casa de força principal denominada Belo Mon­ te e 6 unidades geradoras de potência unitária 38.85 MW. mostra a equipe de residentes das obras da Eletronorte.1 MW. presidente da empresa no final da déca­ da de 90 e início dos anos 2000 e finalmente como presidente da Eletrobras. possuindo três sítios. desde 1975. A potência instalada total de Belo Monte é de 11. com dezoito unidades geradoras de potência unitária 611.233 MW. no Pará. a participação da empresa é minoritária.Figura 18 . seja pela alta diversidade biológica e 222 . dos estudos de inventário do rio Xingu e das otimizações de projeto realizadas desde então que culminaram com o leilão da ANEEL realizado em 20 de abril de 2010. Finalmente. a seguir. No empreendimento.Usina Hidroelétrica Dardanelos A usina hidroelétrica Belo Monte O aproveitamento hidrelétrico Belo Monte será construído no rio Xingu. Aspectos sócioambientais comuns aos diversos empreendimentos “Preservando a biodiversidade amazônica e a cultura brasileira” A geração de energia hidroelétrica na Amazônia é um tema que sempre estará presente nas discussões sobre meio ambiente e de­ senvolvimento sustentável. a Figura 19.

a formação de reservatórios que modificam a paisagem.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens cultural encontrada na região. As Unidades de Conservação tem o objetivo de manter a diversi­ dade biológica regional. projetos de desenvolvimento das populações resi­ dentes. A legislação ambiental brasileira determina que empreendimentos de grande impacto compensem os danos causados ao meio ambiente com a implantação e apoio a unidades de conservação. com foco na qualidade de vida dos seres humanos. e equipes técnicas com profissionais especiali­ zados nas mais diversas áreas do conhecimento ambiental. atividades de proteção e vigilância às áreas. São áreas que aliam o desenvolvimento de pesquisas com uso racional dos recursos naturais.000 hectares protegidos. as águas e as tradições amazônicas. Gustavo Reis Lobo de Vasconcelos (Manso enquanto era da Eletronorte). desenvolvimento de técnicas racionais do uso dos recursos naturais e formação de recursos humanos. Em to­ dos os seus projetos são realizados estudos ambientais. a Eletronorte apoia as seguintes atividades em unidades próximas a seus empreendimentos: demar­ cação das terras. centros de proteção ambiental em suas maiores usinas. Dezessete unidades de conservação ambiental.Residentes da Eletronorte: da esquerda para a direita. Atendendo a essas exigências. seja pelo grande potencial de geração hidráulica da Região Norte do Brasil. a Eletronorte criou uma ampla organização interna. Adailton de Sousa Pinto (Samuel e Tucuruí II e Humberto Rodrigues Gama (Tucuruí) 223 . Luiz Fernando Rufato (Tucuruí). Vanderlei Ângelo de Menezes (Ávila – convênio com a CERON). a fim de aliar desenvolvimento e conservação da natureza. Fauna . todas na Amazônia Legal. Francisco Nelson Queiroga da Nóbrega (Balbina). foram ou são apoiadas financeiramente pela Eletronorte. José Antônio da Silveira (Tucuruí). A Eletronorte é grande conhecedora da região amazônica.A geração de energia hidroelétrica requer. res­ ponsável pelos estudos ambientais. e atividades de educação ambiental às populações locais. a flora. Érico Bittencourt de Freitas (Tucuruí). inun­ Figura 19 . sendo treze de proteção integral e quatro de uso sustentável. em parceria com as mais capacitadas instituições técnicas e científicas. na maioria das vezes. Isso significa 4.700. Com o objetivo de conservar a fauna.

Para isso. Banco de Germoplasma . e investir na capacitação de novos profissionais. conhecidas como áreas de soltura. E essa diferença começou a ser construída em 1980. criado a partir da construção da Usina Hidroelétrica Balbina. A Eletronorte conduziu três grandes operações de resgate da fauna.A Eletronorte é responsável pelo desen­ volvimento de dois programas indígenas cujos resultados apresentados desde o final da década de 1980 são considerados referência no Brasil e no mundo. O plantio foi feito numa área dividi­ da em quadras e a Ilha passou a abrigar a parte nativa (in situ) e a plantada (ex situ). estabeleceu orientações pioneiras para resgates futuros. mais de 16 mil animais foram resgatados. Os ani­ mais resgatados foram de suma importância para pesquisas realizadas em diversas áreas de conhecimento. atendimento vete­ rinário. Para evitar o afogamento da fauna habitante desses ecossistemas. o monitoramento e manejo dos animais. como genética. apoio à 224 . com a identificação e marca­ ção de 100% das árvores com diâmetro igual ou superior a 25 cm. Foi um trabalho de resgate. realizada em Tucuruí. manejo de filhotes. e Parakanã. No banco ex situ estão representadas 28 famílias botânicas e 82 espécies. foram plantadas aproximadamente 15 mil mudas distribuídas em 29 quadras. zoologia. Em Bal­ bina. A primeira e a mais importante delas é dar prioridade às espécies raras ou ameaçadas de extinção. Esse procedimento faz parte do Programa de Resgate da Fauna. Os bancos de germoplasma mantidos pela Eletronorte permitirão que a região de Tucuruí e outras regiões recuperem sua vocação natural de uso sustentável de florestas nativas”. fisiologia e taxonomia (identificação e classificação dos animais) e ecologia. Para esse fim. XX e XXI dando áreas de florestas. envolveu aproximadamente 60 instituições nacionais. monitoramento e estudos científicos. A Operação Curupira. que vão elaborar. muitas ilhas seriam formadas. é possível conhecer cada uma das ‘árvores-mães’ que geram sementes saudáveis e que estão sendo utilizadas para reflorestamentos com objetivos ecológicos. “Esta é uma conservação consciente. com a participação de outras instituições de pesquisa. Para o analista ambiental da Eletronorte. no entorno da Usina Hidroelétrica Tucuruí.Muita gente não sabe que Tucuruí guar­ da boa parte do DNA da Amazônia na Ilha de Germoplasma. O banco de conservação in situ compreende 32 ha de floresta nativa. E em Samuel. são delimitadas e o trabalho começa antes mesmo da formação do lago. As novas áreas que receberão os animais. resgatou 300 mil animais. saúde. deu início ao processo de resgate do material genético das principais espécies florestais existentes na área de inundação e de plantio em local específico. sociais e comerciais. no Amazonas.A História das Barragens no Brasil . Era sabido que. no Pará. afirma. Programas indígenas . as espécies de árvores mantidas nas áreas de coleta de sementes florestais da Ilha de Germoplasma. a Eletronorte realiza o resgate dos animais. incluindo soltura. com área total de 22. que tem o objetivo de conservar as espécies da região. das áreas de soltura e da Terra Indígena Parakanã. pois por meio dos inventários florestais e o monitoramento fenológico das matrizes de sementes. perten­ centes a 221 espécies botânicas distribuídas em cinquenta famílias.6 ha. em conjunto com outras instituições ligadas ao meio ambiente. quando uma parceria entre a Eletronorte e o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia – Inpa. é preciso criar e conso­ lidar unidades de conservação para compensar a perda do habitat. a Operação Muiraquitã resgatou 26 mil animais. com a Operação Jamari. Foram identificados e mapeados 2. A Operação Jamari. as ações dos resgates são baseadas em conservação e aproveitamento científico e cultural da fauna local.Séculos XIX. com as ações de identificação das áreas. garantem a perpetuação dos recursos da floresta em seu estado natural. São os programas Waimiri Atroari.914 indivíduos adultos. A do Germoplasma foi uma delas. Os dois programas envolvem ações de educação. A Eletronorte. espécie por espécie. alimentação e remessa de animais para instituições de pesquisa e preservação. Uma das 1. Rubens Ghilardi Ju­ nior.600 ilhas que formam o Mosaico de Tucuruí é especial. incluindo o aproveitamento científico. A área da Ilha é de 129 hectares. As principais atividades desenvolvidas nas operações de resgate são a triagem e manejo. depois do enchi­ mento do reservatório da Hidroelétrica Tucuruí. pré-resgate. Atualmente. conduzir e supervisionar esses procedimentos.

No campo da saúde o quadro era grave: epidemias de sarampo. A população era de 247 pessoas. 63. A língua estava sendo perdida gradativamente bem como os conhe­ cimentos dos mais velhos sobre a natureza.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens produção e proteção ambiental. estoque de animais para abate (peixes e gado) e total independência alimentar. controle in­ formatizado da saúde dos índios e um programa de saúde bucal preventivo. e ritos de passagem e morte. além do aumento populacional. e controle informatizado da saúde dos índios. homologada. a população era de 374 pessoas. sua tecnologia. sem nenhum invasor e com fiscalização sistemática dos seus limites e dos transeuntes das estradas existentes dentro das terras indígenas Waimiri Atroari. casta­ nha entre outros. A situação dos Parakanã antes do início do Programa. a situação é totalmente diferente. A redução populacional chegava a 20 % ao ano. o que resultou em total independência alimentar. controle to­ tal da hepatite B. Na educação são 21 escolas com 60 professores indígenas. Na saúde. Em julho de 2010 a população dos índios Parakanã era de 840 pessoas. nenhum atendi­ mento odontológico.77% ao ano. era totalmente diferente. enfim sua história. controle total de doenças respiratórias. Na cultura houve o resgate de todas as práticas culturais e de sua dignidade como povo indíge­ na. Antes do início do Programa. Hoje. boa nutrição. malária e gripes. No campo da saúde.404 pessoas. As escolas não existiam e a escrita era desconhecida. diarreias crônicas. A cultura encontrava-se em processo de perda dos seus valores. Na produ­ ção havia dependência total dos alimentos fornecidos pela Funai. além da situação fundiária totalmente irregular. A terra era demarcada. não se realizando mais as principais manifestações de seu patrimônio cultural e em fase de desmoralização como etnia. nem demarcada e com processo de invasão em andamento. vacinação de 100% da população. falta de vacinação e qualquer controle so­ bre a saúde. foi regatada a prática do extrativismo e coletas de frutos para comercialização como açaí. curativo e corretivo. 225 . das terras e da dignidade daqueles povos indígenas. Em julho de 2010. Na pro­ dução havia pequenas roças e dependência alimentar externa. vacinação de 100% da população. Na saú­ de não se observa nenhuma doença imunoprevenível nos últimos 12 anos. pinturas corporais. com fiscalização sistemática dos seus limites e dos transeuntes da rodovia Transamazônica. a população dos Waimiri Atroari era de 1. boa nutrição. A terra está demarcada. nenhuma doença imunoprevenível nos últimos 15 anos. cupuaçu. Na produção observase grandes roças. A terra não estava delimitada. com uma taxa de crescimento de 5. sua medicina. homologada. além de uma grande parte da população em processo de alfabetização. subnutrição. com registro em cartório de imóveis e serviço de patrimônio da União. resultado de uma taxa de crescimento de 4.40% da população Waimiri Atroari alfabetizada e o restante em processo de alfabetização. A cultura encontrava-se em processo de perda dos seus valores como festas tradicionais. que faz limite com a Terra Indígena Parakanã. controle de malária e de outras doenças endêmicas. Na educação são doze escolas com 57. falta de vacinação e qualquer controle sobre a saúde. mas com pendências de registros e regularização. o quadro era de epidemias de sarampo. A terra está demarcada. possibilitando o resgate das tradições. subnutrição. Na educação. as escolas eram inexistentes e a escrita desconheci­ da. A situação fundiária está totalmente regularizada. com registro em cartório de imóveis e serviço de patrimônio da União. hepatite B. nenhum atendi­ mento odontológico. seus mitos. em 1988.8% ao ano. malária e gripe. Hoje.86% da população Paraka­ nã alfabetizada na língua materna e em português. grandes roças têm tido produção de excedentes. Também na cultura houve o resgate de todas as práticas culturais. A situação fundiária está totalmente regularizada. sem nenhum invasor. controle da malária e de outras doenças endêmicas. em 1986. diarreias crônicas. controle total de doenças respiratórias.

primeiro vertedouro do Brasil com aeração da calha .Calha do vertedouro de Foz do Areia.

que se desenvolve paralelamente ao litoral Atlântico. A drenagem em relação ao rio Paraná é conformada pela Serra do Mar. O aproveitamento dos recursos hídricos do estado foi fundamen­ talmente ligado à geração hidroelétrica.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens História das Barragens no Paraná Brasil Pinheiro Machado e Denise Araújo Vieira Krüger Introdução O Paraná é um estado rico em recursos hídricos. Isto faz com que os principais cursos d’água do estado nas­ çam próximo ao litoral e se desenvolvam em direção ao inte­ rior. 227 . Figura 1. Isto foi no trecho superior do rio Iguaçu. onde o rio flui no planalto e não se requeriam obras específicas para permitir a navegação. Ivaí e Paranapanema. com altitudes da ordem de 800 m e desenvolve em direção ao litoral entrando no estado de São Paulo através de uma região onde a Serra do Mar permite uma passagem. este último formando a divisa entre os estados do Paraná e São Paulo. particularmente Curitiba. A orografia que cria a barreira da Serra do Mar e faz com que os rios se afastem do litoral não favorece à navegação fluvial. e. com desníveis de 500 a 800 m vencidos em percursos menores de 80 quilômetros. entre os quais se destacam os rios Iguaçu. PontaGrossa e Londrina. a oeste de Curitiba com altitudes entre 1200 a 1800 m acima do nível do mar.Estado do Paraná à criação de pequenos reservatórios para o suprimento de água potável a algumas comunidades. que nasce a noroeste de Curitiba. e em muito menor grau. no planalto. em sua margem esquerda. em­ bora tenha havido um período histórico em que esta atividade ocorreu. os cursos d’água apresentam elevados gradientes. entre União da Vitória e Curitiba. A leste da Serra do Mar. dotado de um sis­ tema fluvial importante. A maior parte de seu território pertence à bacia hidrográfica do rio Paraná. os principais cursos de água que formam a hi­ drografia paranaense. Piquirí. Este rio faz a divisa do esta­ do com o Paraguai e com Mato Grosso do Sul e recebe. vencendo desníveis da ordem de 800 a 1000 m e com isso favorecendo a instalação de aproveitamentos hidroelétricos. A exceção é o rio Ribeira. havia interesse econômico no transporte de erva-mate da região sul para as indústrias de beneficiamento instaladas em Curitiba. além disso.

originadas ou Figura 2 . Ponta-Grossa. XX e XXI Com a diminuição do valor desta atividade econômica. Em função destas peculiaridades a implantação de obras de eletrificação no Paraná ocorreu inicialmente. desenvolvida a partir dos anos 30-40 com base na agricultura do café atingindo seu pico econômico nos anos 50 e estreitamente vincula­ da economicamente ao estado de São Paulo.A História das Barragens no Brasil . (ii) a região norte. a história das barragens no Paraná se confunde com a história da implantação da geração de energia elétrica para o atendimento público. (iii) a região sudoeste. a navegação neste trecho desapareceu e não prosperou de forma significativa em nenhum outro local do Estado. a partir dos anos 40. de colonização antiga.Usina Termoelétrica de Curitiba . Curitiba. Apesar desta diversidade.1901 228 . o poder político sempre esteve em Curi­ tiba e as ações de governo. incluindo a implantação de obras de infraestrutura. Os primórdios da geração elétrica no Paraná Historicamente o estado do Paraná se desenvolveu em três regi­ ões economicamente distintas: (i) o leste incluindo o litoral e os planaltos que formam o primeiro e o segundo degraus em direção ao rio Paraná. que se desenvolveram a partir dos anos 50-60. enfrentando grandes dificuldades até pelo menos o início dos anos 70. onde se destacam as cidades de Foz do Iguaçu e Cascavel. na região leste do estado. inicialmente desenvolvidas a partir do comércio de tropas entre o Rio Grande do Sul e São Paulo. e durante muitos anos. onde se destacam a cidades de Paranaguá.Séculos XIX. sempre tiveram a preocupação da integração das regiões. União da Vitória. Por estas razões. com a agricultura de ce­ reais entre os quais trigo e soja. centrada em Curitiba. colonizada a partir de Londrina e incluindo cidades como Maringá e Apucarana. e colonizada com deslocamentos populacionais originados principalmente no Rio Grande do Sul.

os serviços de suprimento e distribuição diretamente aos consumido­ res finais. e com uma conces­ são por 20 anos. pertenciam a empreendedores priva­ dos locais que contratavam. Blitzkow e Schlemm tiveram papel importante nas iniciati­ vas pioneiras no final do século XIX e primeiras décadas do século XX. para abastecer a cidade de Paranaguá. propriamente dita. 3b e 3c . com 760 kW de potência. A usina começou a funcionar. Vicente Machado. em 12 de outubro de 1892. Nomes como Hauer. localizada atrás do então Congresso Estadual.Usina Hidroelétrica Serra da Prata – 1910 A primeira usina hidroelétrica do estado foi Hidroelétrica Serra da Prata. Outras cidades na região. instaladas no estado. construída por técnicos ingleses. União da Vitória e Campo Largo. entrou em operação a usina de Pitangui. até 3 de agosto de 1970. assinou o contrato com a Companhia Água e Luz do Estado de São Paulo. 229 . num terreno próximo à antiga estação ferrovi­ ária. Grollmann. Ponta Grossa. termoelé­ trica.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens O primeiro esforço para eletrificação ocor­ reu no dia 9 de setembro de 1890. Figuras 3a. Em 1901 foi instalada a primeira usina. com dois conjuntos geradores de 200 cavalos-vapor cada. a citada companhia instalou a primeira usina elétrica do Paraná. Um ano mais tarde. Dr. na região de Ponta Grossa. quando o presidente da Intendência Municipal de Curitiba. no litoral paranaense. oficialmente. que começou a operar em 1910 com a potência de 510 kW. geralmente com as prefeituras dos municípios corres­ pondentes. A maior parte destes empreen­ dedores era imigrante de origem alemã ou da Europa Central. entre elas Pa­ ranaguá. para iluminar a cidade com “uma força iluminativa de onze mil velas”. Baseada nesse contrato. As primeiras usinas geradoras. somente dispuseram de geração elétrica na segunda década do século vinte. térmi­ cas ou hidráulicas.

“as quedas d’água existentes no Rio Capivary. XX e XXI Figura 4 . no município de São José dos Pinhais. a AMFORP – American Foreign Power . no Rio Paraná para exploração energética (hoje inundadas pelo reservató­ rio de Itaipu). Logo em seguida constituiu uma empresa com o nome de Companhia Força e Luz do Paraná (CFLP) e a ela transferiu a concessão. Efetivamente.. mu- nicípios de Campina Grande e Bocaiuva com capacidade de 30. sobre o qual tinha “direito de posse”. telegrafou ao presidente daquele estado dizendo que este era um recurso paranaense. com a finalidade de “interessar a todos nossos industriais na organização de uma sociedade anonyma que tome a seu cargo a construção de uma usina hydro-eletrica e sua exploração”..uma usina para geração de energia eletrica por força hydraulica .A História das Barragens no Brasil . Em 1926 o governo do estado adquiriu de particulares. na Serra do Mar. Neste contrato o governo do estado requeria que a concessionária construísse “. em 1928. quando então o rio Capivari foi aproveitado para geração de energia elétrica com um esquema muito diferente do que foi imaginado originalmente.Séculos XIX. O ano de 1910 marca a entrada das grandes empresas internacio­ nais no negócio de energia elétrica no Paraná. Nada resultou desta iniciativa até 50 anos depois. embora as insta­ lações geradoras existentes e em estudo fossem todas privadas.. no rio São João.. iniciada em 1929 230 . Neste ano a con­ cessão do suprimento elétrico da cidade de Curitiba foi adquirida do empresário local José Hauer pela empresa anglo-francesa South Brazilian Railways Company Ltd.000 c.. pela soma de 500 contos de réis.v. Em 1913. disto resultou a constru­ ção da usina hidroelétrica de Chaminé. que também implantava a ligação ferroviária entre São Paulo e o Rio Grande do Sul. a associação da geração de energia elétrica com recursos hidráulicos começa a aparecer no Paraná na segunda década do século XX. um braço da empresa americana Electric Bond & Share Company se estabele­ ceu no Brasil e. Em 1927. o presidente do estado sabendo que o estado de Mato Grosso pretendia outorgar a concessão das Sete Quedas.Usina Hidroelétrica Pitangui – 1911 É interessante observar que no discurso político.” no prazo máximo de 3 anos. com o nome de Empresas Elétricas Brasileiras contratou com o governo do Paraná a concessão da distribuição de energia elétrica em Curitiba. na máxima estiagem” situadas próximas a Curitiba.

quando esta realiza­ va estudos no rio São João. Mr. o trole é acionado por motores que liberam e recolhem cabos de aço.” O trabalho de construção durou três anos e.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figuras 5a e 5b . foi construído um trole. ao centro. formados pelas barragens de Salto do Meio e Voçoroca. Fry era o engenheiro residente e assistente do superinten­ dente geral. Howell Lewis Fry – Visita a Chaminé em outubro de 1978 motores eram operados a vapor na época da obra e foram automatizados em 1999. usava-se o cavalo.Mr. para a segunda a bicicleta e para a terceira. ven­ cendo declives de até 55 graus. e “em 1930 havia três escalas de prioridades para serviços urgentes: para a primeira.Mr. de aprova­ ção das fundações da barragem e da casa de força e. O vertedouro fica no trecho central da barragem e é equipado por flash-boards perfazendo 34 m de vão. Howell Lewis Fry. como o aces­ so era difícil para transportar pessoal. Aproveitando um desnível de mais de trezentos metros. 231 . ia-se a pé. suficiente apenas para regularização diária. Howell Lewis Fry. nascido nos Estados Unidos. máquinas e peças. Em 1928 começou a trabalhar nas Empresas Elétricas Brasileiras. que resultaram na usina de Chaminé. Operando desde 1929. Seu reservatório tem um volu­ me útil de 500 mil m³.. responsável por todo serviço de campo. Esses Figura 6 . ligando os escri­ tórios à casa de força. preparando acampamento (1928) e na inauguração da usina de Guaricana (1957) e concluída em 1931. A barragem de Salto do Meio é do tipo concreto gravidade. por uma exuberante reserva da Mata Atlântica. vagonete sobre trilhos. a usina gera 18 MW através de quatro unidades Pelton. 12 km a montante. A usina hidroelétrica Chaminé é atualmente alimentada por dois reservatórios no rio São João. com 12 m de altura e 92 m de extensão. com capacidade máxima de descarga de 360 m³/s. O trole acabou se tornando a principal característica de Chaminé por proporcionar uma viagem de 720 m. desde os 22 anos trabalhou e se dedicou ao Brasil. Mr. segundo ele: “Em 1929 nós tivemos que colocar cascalho na avenida principal de São José dos Pinhais para poder passar com os equipamentos que seriam usados na construção da usina de Chaminé”..

4 m para uma capacidade máxima de descarga 495 m3/s. Esta usina comissionada em 1957 utiliza as águas do rio Arraial. Conforme explicado por ele. além da usina de Chaminé.Trole para acesso à casa de força – Usina hidroelétrica Chaminé Figura 7 b – Barragem de Salto do Meio A barragem de Voçoroca foi iniciada somente em 1947. tam­ bém projetada e construída por Mr. Em 1954 contratou um levanta­ mento de possíveis locais nos rios Iguaçu e Tibagi.Séculos XIX. na parte central. Durante os 45 anos em que foi responsável por este mercado. também sob a responsabilidade de Mr. “na região destas usinas havia uma palmeirinha que os colonos usavam para fazer paredes e coberturas de casas e se chamava Guaricanga. Este estudo foi contratado com a firma americana de consultoria EBASCO International Corporation e nas suas conclusões há a iden­ tificação das possibilidades técnicas de implantação de projetos de grande porte no rio Iguaçu. Fry. A CFLP continuou com a concessão e o suprimento de energia elé­ trica à região de Curitiba até a década de 70 quando foi absorvida pelo governo do estado através da COPEL.5 x 6. possui três vãos de 12.5 m de altura e 95 m de extensão. Fry. XX e XXI Figura 7a . mencionada anteriormente. a CFPL construiu. cujo reservatório é criado por uma barragem de concreto a gravidade. po­ deriam no futuro vir a ser alimentadores do seu sistema. Daí surgiu o nome Guaricana. onde hoje se situam as usinas 232 .A História das Barragens no Brasil . com 21 m de altura e 152 m de comprimento tendo em seu trecho cen­ tral. é de concreto a gravidade. a usina hidroelétrica de Guaricana.3 m de largura e flash boards de 2 m de altura. três vãos vertedores com comportas radiais de 5. a 75 km de Curitiba. gerando os 36 MW com quatro turbinas Pelton. com 36 MW instalados também na Serra do Mar. com 29. A usina aproveita uma queda superior a trezentos metros. Além destas duas usinas hidráulicas.” O vertedouro. que embora distantes da região de Curitiba. a CFLP desenvolveu outros estudos visando identificar locais promissores para a instalação de reservatórios e usinas geradoras. onde era concessionária.

Interior da casa de força com os grupos geradores de Segredo (chamada na ocasião de Encantillado) e Salto Santiago. nos anos 70. As conclusões deste relatório não ge­ raram nenhuma ação específica e a CFLP continuou operando unicamente as hidroelétricas da Serra do Mar e instalações térmicas a Diesel em Curitiba até desa­ parecer como empresa concessionária.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 8a – Usina hidroelétrica Chaminé – Casa de força Figura 8b . com a criação do Serviço de 233 . O desenvolvimento dos recursos hídricos do estado para fins energéticos passou a ser explicitamente considerado como preocupação política governa­ mental nos anos 40.

os dois interligados em Teixeira Soares. este departamento governamental encampou incipientes serviços em municípios que não eram atendidos por empresas privadas organizadas como os das regiões de Curitiba. do norte pelas usinas de Salto Grande do Paranapanema. XX e XXI Energia Elétrica do estado. Tibagi (36 MW). a curto prazo. Lon­ drina. Nos municípios em que atuou instalou geradores Diesel e realizou um único projeto hidráulico. Figura 9 – Usina hidroelétrica Presidente Vargas – Rio Tibagi – Grupo Klabin de Papel e Celulose (1947) 234 . tais como Capivari-Cachoeira (105 MW). a ser cumprido em duas etapas: a primeira. e do oeste com centros gera­ dores isolados. dependente de financiamentos especiais. previa a cons­ trução das centrais de maior porte.Séculos XIX. União da Vitória e cidades do chamado norte-velho. Ponta Grossa. a mini-usina de Cotia. Capivara e Mourão. Posteriormente. Caverno­ so no rio Laranjeiras e Melissa em Cascavel. desativada para a formação do lago de Itaipu. O Departamento foi responsá­ vel pela construção das usinas hidroelétricas de Ocoí em Foz do Iguaçu. Caiacanga e Laranjinha) e a segunda. com recursos orçamentários do DAEE. com previsão dos sistemas elétricos do sul apoiados nas usinas de Capivari-Cachoeira e Salto Grande do Iguaçu.A História das Barragens no Brasil . em nível estadual. no litoral do estado. do suprimento de energia elétrica e do desenvolvimento de projetos hidroelétricos. previa a construção de pequenas hidroelétricas (Cavernoso. bem como pelo início das usinas de Chopim I em Pato Branco e Mourão I em Campo Mourão que foram posteriormente concluídas pela COPEL. O primeiro Plano Hidroelétrico do Estado foi elaborado em 1948. este plano transformou-se em outro. na região de Antonina. em 1952. transformado em 1948 no Departa­ mento de Águas e Energia Elétrica (DAEE) com a atribuição de cuidar. Na realidade. Carvalhópolis (27 MW) e a termo­ elétrica de Figueira (20 MW).

O professor Parigot tinha já. seguindo o exemplo de Minas Gerais. cate­ drático da cadeira de hidráulica na Escola de Engenharia da Uni­ versidade do Paraná (atualmente Universidade Federal do Paraná). uma empresa de econo­ mia mista que teria a atribuição de implementar o suprimento de energia elétrica do estado. transmissão e transformação.” e teve como seu presidente nomeado The­ místocles Linhares. Esta empresa seria uma instituição mais flexível que os órgãos governamentais tradicionais e poderia. A primeira diretoria da COPEL incluiu como diretor técnico. 235 . o professor Pedro Viriato Parigot de Souza. era extremamente precária.COPEL. uma reputação técnica ligada a questões energéticas por ter participado da discussão de planos governamentais envolvendo usinas hidroelétricas na Serra do Mar. o governo do es­ tado criou a Companhia Paranaense de Energia Elétrica . En­ tretanto.917 de 26 de outubro. Nesta primeira diretoria da COPEL foi de sua res­ ponsabilidade a formulação técnica racional de uma evolução objetiva e realista da oferta de energia elétrica no estado que. A nova sociedade se destinava a “planejar. distribuição e comércio de energia elétrica e serviços correlatos. habilitar-se de maneira mais eficaz aos financiamentos requeridos para a realização de obras de geração e transmissão. na época. in­ clusive. como indicado anteriormente. mudanças no governo do estado afastaram a diretoria inicial da empresa em menos de um ano após sua instalação. através do decreto n°14. construir e explorar sistemas de produção. do então gover­ nador Bento Munhoz da Rocha Neto.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 10 – Usina hidroelétrica de Ocoí A era da COPEL Em 1954.

Outras soluções propostas consideravam várias usinas menores em sequência. no litoral. no litoral. na curta gestão de sua participação inicial na em­ presa. que tinham sido admitidos na empresa entre 1955-60 e neste período desenvolveram estudos importantes que deram origem às obras executadas no período seguinte. Fizeram parte deste grupo os engenheiros Hiran Lamas. foram chamadas e encarregadas de propor soluções técnicas para o aproveitamento.Séculos XIX. Para isto três empresas internacionais. Nel­ son Luiz de Sousa Pinto. atualmente denominado usina hidroelétrica Governador Parigot de Souza. que corre relativamente próximo a Curitiba.Mapa de 1915 com os primeiros estudos para o aproveitamento do Rio Capivari 236 . a derivação para o litoral vencendo desnível importante foi nesta ocasião revista e estudada detalhadamente. XX e XXI Não obstante. de países diferentes. A idéia do aproveitamento do rio Capivari. vencen­ do o degrau de mais ou menos 800 m da Serra do Mar. Entretanto. o professor Parigot implantou uma filosofia de seriedade e respeito técnico. era antiga. A solução que prevaleceu foi proposta pela SOGREAH. subterrânea. agora como presidente e go­ zando da inteira confiança do governador. e consiste em uma barragem no rio Capivari e desvio para o rio Cachoeira. entre outros. Isto fez com que a COPEL pudesse atrair um con­ junto de engenheiros que teve uma atuação decisiva na evolução bem sucedida da empresa especialmente nos anos 60. Entre estas obras destaca-se o aproveitamento hidroelétrico CapivariCachoeira. através de sistema de túneis de grande extensão e casa de força única. Figura 11 . Maurício Schulman. Péricles Tourinho e Clodoveu Holz­ mann. francesa. instalada com quatro grupos Pelton somando 260 MW de potência. para o rio Cachoeira. como mencionado anteriormente. que consiste na derivação do rio Capivari que se desenvolve no planalto. instaladas ao longo da encosta da serra.A História das Barragens no Brasil . quando novamente este voltou à empresa.

no início dos anos 60. contro­ lado por comportas vagão.Cachoeira – Perfil esquemático Para a construção do aproveitamento a COPEL criou. Tem 60 m de altura. na divisa com Santa Catarina. Apesar de inusitada e mesmo arriscada. naquela época. é de terra homogênea e dispõe de vertedouro de superfície em canal. Foi decidido desenvolver o projeto detalhado com esforço próprio. prescindindo da contratação de uma empresa de projeto. se estudou um aproveitamento de porte médio que foi considerado muito grande para atender a demanda existente. Logo a jusante desta cidade o rio entra na região dos basaltos e aí ocorre o primeiro salto abrupto dos vários que o rio apresenta ao longo de percurso. Este é o chamado Salto Grande do Iguaçu. Juntamente com as demais obras do aproveitamento a barragem começou a operar em outubro de 1970 e ao longo deste período demonstrou um desempenho excelente sem nenhum incidente. assistido por consultores pessoas físicas e não empresas. Apesar da relevância de Capivari-Cachoeira. conquistando dois recordes para a época: maior avanço médio em escavação subterrânea em obras do gênero e maior volume de concretagem mensal no interior dos túneis.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 12 – Usina hidroelétrica Capivari . uma subsidiária específica a ELETROCAP e outorgou a Hiran Lamas e Nelson de Sousa Pinto a responsabilidade de sua implementação. CEPHH (mais tarde CEHPAR e hoje Lactec) recebeu a incumbência de realizar os estudos hidráulicos em mode­ lo reduzido. Dispõe também de um descarregador de fundo. Na construção desta usina a Copel se projetou no panorama da energia brasileira. não só foi muito bem sucedida como também foi importante na for­ mação e desenvolvimento de quadros técnicos locais treinados em empreendimentos de dimensões e de grande complexidade. A barragem do Capivari pode ser considerada como a primeira bar­ ragem de porte realizada no Paraná. Imaginou-se então 237 . a decisão de executar o projeto e a supervisão da construção com equipe pró­ pria. Milton Vargas como consultor para a barragem de terra no rio Capivari e o incipiente laboratório de hidráulica da Universidade do Paraná. Neste local. que foi utilizado para o desvio e suple­ menta a capacidade do vertedouro em 250 m3/s. Maurice Bouvard foi contratado como consultor ge­ ral do projeto. para uma vazão de projeto de 750 m3/s. não foi este o único empreendimento desenvolvido pela COPEL no início dos anos 60. que nunca haviam sido feitos no estado. O rio Iguaçu nasce na região urbana de Curitiba e se desenvolve em uma região do planalto com baixas declividades até as imediações da cidade de União da Vitó­ ria. A chamada Usina Piloto do Salto Grande do Iguaçu foi também nesta época projetada e construída. controla­ do por duas comportas de segmento.

000 MW instalados e restituição através de túneis de fuga descarregando próximo a Garuva. entre outras razões.8 MW cada um. XX e XXI Figura 13 – Usina hidroelétrica Capivari Cachoeira – fotos da casa de força uma usina menor que serviria como passo inicial para um apro­ veitamento futuro de maiores dimensões. 15 anos mais tarde. na divisa entre o Paraná e Santa Catarina.Séculos XIX. O conceito do projeto previa um canal de adução de pare­ des curvas na margem esquerda. O projeto de características hidráulicas e constru­ tivas complicadas foi estudado no laboratório de hidráulica do CEHPAR. alimentando uma barragem-tomada d’água em arco com 4 grupos geradores de 3. túneis de adução e casa de força subterrânea com aproximadamente 4. Outra iniciativa importante nesta época foi a contratação de um estudo para verificar a viabilidade técnica e econômica da reversão do alto rio Iguaçu para o litoral. que tinha contratos em andamento com Furnas e grande repu­ tação técnica. O empreendimento não prosperou porque. O projeto foi contratado com o engenhei­ ro Cardellini. São Paulo. O estudo final viabilizava o empreendimento (supondo a existência de demanda) com três barragens no alto Iguaçu associadas a estações elevatórias. de formação italiana e radicado em São Carlos. Por isso foi chamada de “usina piloto”. Para isto foi contratada a IECO – International Engineering Company. não existia demanda para tal potência. foi construído a partir de 1962 e entrou em operação em setembro de 1967. num esquema semelhante ao projeto CapivariCachoeira. O fluxo principal do rio não era afetado e continuava livre so­ bre o salto. foi inundado pelo reservatório de Foz do Areia.A História das Barragens no Brasil . dos Estados Unidos. Este empreendimento. mas agora revertendo uma vazão muitas vezes maior. Houve tentativas 238 .

através da participação da COPEL na USELPA – Usinas Elétricas do Paranapanema. com base na qual foi possível o suprimento de energia elétrica à região de Londrina e Maringá a partir da usina de Salto Grande do Paranapanema. Entretanto. do governo paulista. Figura 15 . entre os estados de São Paulo e do Paraná.Vista da casa de força da usina de Salto Grande do Iguaçu – 15.200 kW 239 . no rio Paraná (Jupiá e Ilha Solteira) que. embora mais distantes da capital do estado e mais caros que a alternativa do Iguaçu. houve uma parceria importante para ocasião.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 14 – Barragem de Capivari-Cachoeira modestas de acordo com o estado de São Paulo para o desenvolvi­ mento em parceria. mas que também não progrediram porque este estado estava iniciando na ocasião os grandes projetos do Complexo Urubupungá. não podiam politicamente ser trocados por projeto em outro estado.

a vazão do rio Chopim é encaminhada por meio de canal aberto e conduto forçado a uma casa de força equipada com dois grupos de 22 MW cada. Piquiri 240 . situada na margem esquerda do rio Iguaçu. com 44 MW. chamada pos­ teriormente de Júlio de Mesquita Filho. que mais tarde viria a ser presidente da empresa e responsável pelas obras subsequentes no rio Iguaçu até o final dos anos 70. para desenvolvimento hidro­ elétrico. Com uma pequena barragem-tomada d’água na última curva. atingindo este rio após desenvolvimento em várias curvas (falsos meandros) ocasionadas pela orografia da região basáltica. XX e XXI Na segunda metade dos anos 60 a COPEL desenvolveu o projeto e construiu a usina hidroelétrica de Foz do Chopim.Séculos XIX.Inauguração de Salto Grande do Iguaçu em 29 de setembro de 1967. general José Costa Cavalcanti e governador Paulo Pimentel do Sul. sediado em Curitiba e organizado sob a gestão da COPEL.Usina hidroelétrica de Foz do Chopim . de São Paulo. Pela COPEL o responsável foi o engenheiro Arturo Andre­ oli.A História das Barragens no Brasil . O rio Chopim é um afluente pela margem esquerda do rio Iguaçu. Da esquerda para direita: professor Parigot de Souza. foi a constituição do Comitê de Estudos Energéticos da Região Sul – Comitê Sul. O estudo desenvolvido entre 1967 e 1969 identificou as principais obras no curso principal e afluentes dos rios Iguaçu.casa de força e barragem Figura 16 . além de alguns designados pelas empresas de Santa Catarina e do Rio Grande Figuras 17a e 17b . e foi formado por engenheiros canadenses e americanos que haviam atuado no Sudeste e por profissionais locais designados pela COPEL. no oeste do Estado. Este empreendimento foi projetado pela SERETE Engenharia. Um fato extremamente relevante ocorrido na segunda metade dos anos 60. O Comitê Sul era a continuação dos estudos executados na região Sudeste pela CANAMBRA. técnica e economicamente. O objetivo do Comitê Sul era o levantamento das principais bacias hidrográficas dos três estados sulinos (menos os rios que já tinham sido considerados no estudo do sudeste: Tibagi e Ribeira do Iguape e dos trechos que formam fronteira internacional) com o propósito de identificar e avaliar os locais potencialmente ade­ quados.

Ela obteve sucesso em seu pleito pela concessão do aproveitamento e contratou os estudos de engenharia de projeto com a Milder-Kaiser Engenharia S. Canoas e Uruguai. quase todos os potenciais identificados estão hoje aproveitados. pois iniciava o desenvolvimento do rio com uma obra situada longe das cabeceiras. Esta junta era formada pelos engenheiros J. a COPEL não aceitou a sugestão. O projeto de engenharia de Salto Osório foi contratado com o consórcio SERETE (que já atuava em Foz do Chopim) e Kaiser Engineers Corp.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens e Ivaí. Ibirapuitã e Camaquã. e dois vertedouros com capacidade con­ junta de descarga de 27. Nas discussões para a formulação do arranjo e do tipo de barragem. com 56 m de altura máxima e 750 m de comprimento. A solução técnica do projeto inclui uma barragem de enrocamen­ to com núcleo inclinado de argila. Apesar de ter havido revisões nos resultados dos estudos. de Mello. que também teriam um papel muito importante nas obras subsequentes.050 MW) foi a grande realização da COPEL no início dos anos 70 e o ponto de partida para os sucessos seguintes. houve a sugestão da junta de consultores para adoção de uma barragem de enrocamento com face de concreto. entretanto.Usina hidroelétrica de Salto Osório Antes do final de Salto Osório. A ELETROSUL fixou seu objetivo na usina de Salto Santiago (1. no Rio Grande do Sul. A decisão e a implementação com su­ cesso das gestões voltadas para a realização da obra são devidas ao engenheiro Arturo Andreoli. Pela primeira vez no Paraná. Jacuí. conseguiu ser designada a “gestora” do empreendimento e seguiu assim até o final da obra. no Paraná. a recente criação.420 MW). Salto Osório (1. que poderia parecer injustificada. Um outro aspecto relevante no desenvolvimento deste projeto foi o fato de que. dos Estados Unidos. na época. James Libby. foi tomada por razões prá­ ticas uma vez que no local estava sendo finalizada a construção de Foz do Chopim e existia uma estrutura de apoio para o início de um novo empreendimento. apesar da COPEL ter tido a iniciativa do empreen­ dimento. Thomas Leps e Victor F. A ELETROSUL. No final dos anos setenta. que re­ tomou alguns estudos preliminares já executados para a ELETRO­ SUL em anos anteriores. Esta decisão. e Rio Grande do Sul. Figura 18 . A COPEL. em 1974. foi estabelecida pela COPEL uma junta de consultores independentes. com base no resultado dos estudos do Comitê Sul – CANAMBRA. O gerente do projeto do consórcio projetista foi o engenheiro Warren Schumann que teve um papel fundamental no desenvolvimento da maioria das obras do rio Iguaçu. a COPEL decidiu pleitear e cons­ truir a usina hidroelétrica de Salto Osório.A. então diretor técnico da empre­ sa. situada imediatamente a montante de Salto Osório com a possibilidade de iniciar serviços de campo a partir da base estabelecida em Salto Osório. em Santa Catarina. a ELETROSUL e a COPEL se mobilizaram politicamente para realizar outras obras no rio Iguaçu tomando sempre por base a previsão de obras formulada pelo Comitê-Sul – CANAMBRA. Depois de Capivari-Cachoeira. fez com que a concessão fosse transferida para a ELETRO­ SUL. de uma empresa federal que teria a exclusividade na geração de obras de propósito supra-esta­ dual.. em 1974. Barry Cooke. naquela 241 .000 m3/s. pela SERETE. B. mas como não havia antecedentes deste tipo de obra no Brasil.

Machado. James Libby. Engenheiros e consultores (a partir da esquerda: Brasil P. O projeto incluiu uma barragem principal de enrocamento com núcleo de argila. com a primeira unidade entrando em operação no final de 1980. Salto 242 .000 MW. de Mello e Thomas Leps.A História das Barragens no Brasil . Barry Cooke. B. e uma barragem de terra homogênea fechando um ponto baixo no reservatório. Thelmo Thompson Flores. Kamal Kamel. era dirigida pelo engenheiro Mario Lannes e seu diretor técnico era o engenheiro Fernando Correa de Azevedo. A MilderKaiser que tinha sido organizada em São Paulo por Isaac Milder.Obra e fechamento do desvio do rio da usina hidroelétrica de Salto Santiago.Séculos XIX. Victor F. com 80 m de altura. Lança a montante de União da Vitória. seguindo a prática de Salto Osório contratou o mesmo grupo de consultores especiais daquela obra: J. projetada para uma insta­ lação de 2. oriundo da SERETE. montou uma estrutura técnica no Rio de Janei­ ro e designou para a gerência do Projeto Salto Santiago o engenheiro Jaime Leivas Piuma que foi o principal responsável pela engenha­ ria desta obra. XX e XXI Figura 19 . foi construída pela Camargo Correa estrita­ mente no cronograma estabelecido inicialmente. Piuma. Jaime L. Arturo Andreoli) época. A usina hidroelétrica de Salto Santiago. A ELETROSUL. A COPEL centrou sua atenção nas obras previstas no trecho ini­ cial do rio Iguaçu.

como gerente do projeto. Barry Cooke. Em 1973 contratou os serviços de engenharia da Milder-Kaiser e assegurou a participação técnica. Definidas as características energéticas e orográficas de Foz do Areia a seleção do tipo de barragem que teria 160 m de altura demandou longas discussões técnicas. Victor F. inundasse o Salto Grande do Iguaçu estabelecendo o nível máximo em cota compatível com a cidade de União da Vitória. que não só seria a primeira do tipo no país. Milder-Kaiser. mas seria na época a mais alta do mundo neste tipo. da Kaiser Engineers. que tinha experiência 243 . teve o gran­ de mérito de assegurar o projeto para o Paraná e de convencer a ELETROBRAS a criar uma exceção à regra que determinava que só empresas federais poderiam construir obras de geração que ultra­ passassem a demanda do estado onde se situam.Usina hidroelétrica Salto Santiago Grande do Iguaçu e Foz do Areia a jusante desta cidade. presidente da COPEL na época. mas resultava economica­ mente menos atraente que uma variante de Foz do Areia que. Esta alternativa. como fizera em Salto Osório. A COPEL contratou. além de criar um reservatório regulador semelhante ao previsto para Lança. com uma barragem muito mais alta. Isto tudo fez com que o grupo técnico envolvido na concepção e desenvolvimento da obra fosse formado e mantido com pessoal de alta qualificação. uma junta de consultores especiais. A projetista. tinha menor área e criava uma queda aproveitável para geração de energia. prevaleceu pois. chamada na época Foz do Areia Alto. Os estudos realizados pela Milder-Kaiser mostraram que Lança. A influência de Barry Cooke fez com que se decidisse por uma barragem de enrocamento com face de concreto. de Mello e Nelson Luiz de Sousa Pinto. agora formada por J. uma barragem baixa criando um reservató­ rio de área muito extensa tinha méritos. B.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 20 . O engenheiro Arturo Andreoli. de Warren Schu­ mann. já dis­ punha de um quadro técnico de primeiro nível e a COPEL trouxe da Colômbia o engenheiro Bayardo Materón.

estrita­ mente de acordo com o cronograma formulado 5 anos antes. tais como Barbearia Sandra Bréa e Bar Pedro Azulão. cerca de 12 km da obra. A usina. em janeiro de 1975. XX e XXI Figuras 21a e 21b – Obras da usina hidroelétrica Foz do Areia neste tipo de obra nas realizações na­ quele país. A construção da obra foi dividida em dois contratos: o primeiro para os túneis de desvio e préensecadeiras foi realizado pela Andrade Gutierrez.A História das Barragens no Brasil . projetada para 2.600 residências e to­ dos os serviços urbanos necessários. “Fogo sobre Terra”. para o restante das obras civis foi outorgado à CBPO hoje uma empresa do Grupo Odebre­ cht. Para que a obra começasse a deslan­ char. Um pouco antes da implantação da planejada Faxinal. a Copel ini­ ciou a implantação das obras de infraestrutura que incluíam uma verdadeira cidade. com 1. com o interesse da população ribeirinha por Foz do Areia. para o acompanhamento e controle dos ma­ teriais de enrocamento e questões ge­ ológicas associadas. a pequena vila em formação recebeu o nome de Nova Divinéia e seus principais personagens inspiraram nomes de bares. pensões e outros ramos comerciais.Séculos XIX. Faxinal do Céu.500 MW teve sua primeira unidade entrando em operação em outubro de 1980. o segundo. Figura 22 . e designou o experiente en­ genheiro Pedro Marques Filho. em busca de um novo “Eldorado” iniciou-se a formação de um pequeno povoado próximo ao canteiro da usina. Com a influência da novela da época (1973).Usina hidroelétrica Foz do Areia 244 .

governador Ney Braga e o presidente João Figueiredo discursando as empresas MDK (sucessora da Milder-Kaiser agora parte do grupo CNEC) e CENCO.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Desta forma. Segredo e desta obra so­ mente conseguiu executar os túneis de desvio e escavações preliminares para a barragem. O projeto incluiu uma barragem de enrocamento com face de concreto com 145 m de altura formulada com os mesmos conceitos de Foz do Areia. Salto Osório. com potência prevista à época de 2. De 1982 a 1987 o projeto foi desenvolvido sob a gerência do engenheiro Kamal Kamel. A usina de Segredo. Para isso foram contratadas Figura 23 – Visita às obras de Foz do Areia em 31 de agosto de 1979. Durante a visita do então presidente da re­ pública João Figueiredo à obra de Foz do Areia. Entretan­ to. foi confir­ mada a concessão da usina de Segredo para a COPEL. Em 1985 foi contratada Figura 24 – Assinatura do contrato do projeto da usina hidroelétrica Segredo em 19 de março de 1980. Da esquerda para direita Lindolfo Zimmer (diretor de engenharia e construções da COPEL). na MDK. naquele tempo. Se­ gredo seria uma obra da ELETROSUL que efetivamente realizou estudos incluindo al­ ternativas com barragens de concreto em abóbada propostas pela Enge-Rio. Brasil Pinheiro Machado (diretor técnico da Milder Kaiser). por problemas econômico-financeiros. governador Ney Braga assinando. Neste conceito. A partir da esquerda Douglas Souza Luz. a obra de Segredo foi postergada. em 31 de agosto de 1979. Fernando Luiz Correa de Azevedo (presidente Milder Kaiser) e Willian Simonsen (diretor comercial da Milder-Kaiser) 245 . a jusante de Foz do Areia tinha sido planejada para ser cons­ truída contemporaneamente com Salto Santiago. hoje denominada usina hidroelétrica Go­ vernador Bento Munhoz da Rocha Netto. no princípio da década de oitenta as grandes barragens do Paraná vinculadas à COPEL e ELETROSUL eram Capivari.100 MW e foram iniciadas as ativida­ des de projeto. que por isso tinha tido a cota má­ xima do seu reservatório aumentada em 15 m de modo que numa operação conjunta houvesse ganho de volume em Santiago e de queda em Segredo. A década de oitenta foi marcada pela crise da dívida externa brasileira que fez com que as fontes de financiamento do governo secas­ sem e poucas obras pudessem ser realizadas. Douglas Souza Luz (presidente da COPEL). Salto Santiago e Foz do Areia. na qual foi confirmada a concessão da usina hidroelétrica Segredo. No Paraná a COPEL fez várias tentativas de viabilizar financiamentos para a próxima usina do rio Iguaçu. Manteve a mesma junta de consultores especiais de Foz do Areia.

XX e XXI Figuras 25a e 25b – Obras da usina hidroelétrica Segredo a construção das obras do desvio com a Construtora CR Almeida S. A obra foi concluída em 1992 e a geração inicial ocorreu em julho daquele ano sendo hoje denominada Usina Hidroelétrica Governador Ney Braga. Com a definição da implantação da usina de Salto Santiago em cota mais alta que a originalmente prevista.Séculos XIX. Estas obras duraram aproximadamente um ano e a continuação não pode ser realizada por problemas políticos e econômico-financeiros. Em 1988 foi possível a retomada da obra que foi contratada com um consórcio de empresas do Paraná: DM Construtora de Obras.A. Durante a implantação da hidroelétrica de Segredo. Desde o inventário. vertedouro e túnel de interligação entre os dois reservatórios. por questões ambientais. permi­ Figura 26 . O conjun­ to de obras de derivação do rio Jordão contempla ainda uma pequena central hidroelétrica para aproveitamento da vazão mínima de 10 m3/s necessária à pereni­ zação do trecho a jusante do rio Jordão. o eixo da usina de Segredo foi modificado para montante da foz do rio Jordão. que é um tributário importante do rio Iguaçu. a motorização e energia da usina hidroelétrica Segredo consideraram as águas do rio Jordão.A História das Barragens no Brasil . CESBE e SINODA. A obra foi iniciada em maio de 1994 e concluída em outubro de 1996. considerou-se para efeito de motorização a derivação das águas do rio Jordão através de conjunto barra­ gem.Usina hidroelétrica Segredo 246 .

e o projeto executivo foi feito internamente pela COPEL . concessionária dos dois apro­ veitamentos do complexo. O túnel da derivação tem extensão de 4.p.5 MW e queda líquida de 71. considerando o arranjo utilizando barragem de concreto compacta­ do com rolo.000 m3 de concreto convencional. Figura 28 – Derivação do rio Jordão 247 .A. A PCH entrou em operação em 2 de dezembro de 1997 comple­ tando o complexo energético SegredoJordão. utilizando 570.000 m3 de concreto compactado com rolo e 80. um com solução da barragem em enrocamento com face de con­ creto e o outro arranjo em barragem de concreto compactado com rolo. O projeto básico foi executado pela MDK Engenharia de Projetos.800 m e diâmetro de 9 m. com uma potência instalada de 6. que possui altura máxima de 95 m. Barragem e túnel de derivação tindo a geração na usina hidroelétrica Segredo com as águas derivadas do rio Jordão. A proposta vencedora foi apresentada pelo consórcio formado pela empresa paranaense Ivaí Construtora de Obras e pela italiana Del Favero S. O arranjo selecionado tem o vertedouro em soleira livre incorporado à barragem.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figuras 27a e 27b – Derivação do rio Jordão durante a construção.Companhia Paranaense de Energia.5 m. A licitação para contratação das obras permitiu a escolha pelo empreiteiro entre dois projetos.

A última barragem realizada no curso do rio Iguaçu foi a usi­ na hidroelétrica de Salto Caxias.000 m3/s. Leps e Paolo Cassano. A usina entrou em operação em 1998 seguindo estritamente o cronograma de obras pré-determinado. LEME e ESTEIO.083 m de comprimento. da INTERTECHNE. XX e XXI Figura 29 – Engenheiros da COPEL e consultores durante reunião da junta de consultores da derivação do rio Jordão O projeto executivo foi gerido e coordenado pelo engenheiro José Marques Filho da COPEL. Barry Cooke. que havia ven­ cido a licitação promovida pela COPEL.000 de m³ e em capacidade do vertedouro incorporado. Thomas M.A História das Barragens no Brasil . à contratação do consórcio projetista liderado pela INTERTECHNE e formado adicionalmente por ENGEVIX. Esta foi a solução adotada e que deu origem. e a primeira que demonstrou a competitividade deste tipo de solução. Paulo José Melaragno Monteiro e Brian Forbes. mencionada anteriormente. atualmente usina hidroelétrica Governador José Richa. Na época de sua construção foi um passo muito significativo em termos de volume da barragem com cerca de 1. os consultores Walton Pacelli de Andrade.000. levando o re­ manso até Salto Osório e inundando Foz do Chopim. A barragem selecionada foi de concreto compactado a rolo (CCR) com 67 m de altura e 1. porém com nível de represamento mais baixo. Esta obra estava prevista na divisão de quedas proposta pelo Comitê-Sul – CANAMBRA. em 1992. permitindo a construção de uma outra obra – Cruzeiro – a jusante de Salto Osório e a mon­ tante de Foz do Chopim. Colaboraram.Séculos XIX. tendo como consultor de mate­ riais para a barragem o engenheiro Francisco Rodrigues Andriolo. Esta foi a primeira barragem de porte expressivo de CCR no Brasil. Este consórcio realizou os estudos de engenharia e meio-ambiente incluindo projeto básico e executivo civil e eletromecânico. Estudos realizados ao longo da década de oitenta pela COPEL indicaram a conveniência de aumentar o nível de represamento. também. no processo de definições da barragem de CCR. O gerente do projeto foi o engenheiro Kamal Kamel. Uma característica significativa é o vertedouro controlado por comportas com vazão de projeto de 50. 248 . A junta de consultores foi composta pelo renomado engenheiro paranaense Nelson Luiz de Sousa Pinto e os con­ sultores internacionais J. A construção foi contratada com a DM Constru­ tora de Obras que já havia atuado no Projeto Segredo.

Usina hidroelétrica Salto Caxias 249 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figuras 30a e 30b – Obras da usina hidroelétrica Salto Caxias Figura 31 .

250 .

nas pro­ ximidades de Juiz de Fora. criado em 1934 com o pretexto de disciplinar o regime de concessões dos serviços de eletricidade que até então era anárquico. Essas empresas passaram a sofrer as consequências funestas do Código de Águas.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Companhia Energética de Minas Gerais – CEMIG “Trata-se (a Cemig) da mais bem sucedida história dentre todas as experiências em âmbito estadual” Antonio Dias Leite Jr. A mais importante usina da Cemig: a de maior produção de energia e a mais rentável 251 . Dentre as Figura 1 – Início da obra da hidroelétrica de Gafanhoto sobre o rio Pará em Divinópolis. Destacava-se na época a Zona da Mata que era suprida pela Companhia Força e Luz Cataguazes Leopoldina CFLCL no vale do rio Pomba e pela Companhia Mineira de Eletricidade no vale do rio Paraibuna. A capital do estado era suprida pelo grupo da AMFORP. Muitas micro-usinas hidroelétricas supriam a necessidade de energia de fazendas isoladas e mesmo de pequenas cidades. Fazendo progresso com energia Flavio Miguez de Mello A pré-história No estado de Minas Gerais antes da II Gran­ de Guerra Mundial a energia elétrica era escassa. 2007. inaugurada em 1946 Usina hidroelétrica de São Simão. pois as concessões eram dadas por estados e municípios..

Para tanto foi criada a Divisão de Águas no Ministério da Agricul­ tura. Foi feito um detalhado levantamento das vocações econômicas mineiras e dos locais onde essas vocações deveriam ter o suporte de energia elétrica. Entretanto. consequente­ mente.Séculos XIX. Figura 2 – Lucas Lopes. XX e XXI consequências funestas estava a eliminação da cláusula ouro que ga­ rantia às empresas o reajustamento das tarifas. passou a haver dificuldades para o correto equilíbrio econômico e financeiro dos contratos de con­ cessão na medida em que a inflação. O Código de Águas estabeleceu determinados princípios tais como o de que todos os recursos hídricos eram da União e. trans­ missão e distribuição de energia elétrica. Mas o Plano de Eletrificação garantiu a energia necessária para a instalação da Mannesmann em Minas Gerais. Das empresas privadas que atuavam em Minas Gerais. Águas era só o pretexto. Na formação da equipe foram incluídos os engenheiros Mauro Thibau e John Cotrim. o poder concedente passou a ser exercido pela União. O gargalo acima mencionado propiciou o aparecimento do estado na geração de energia elétrica. apenas a CFLCL sobreviveu ao Código de Águas que era mais de energia do que de águas. A esse respeito. época em que houve forte incremento da economia em quase todos os outros países. Como as empresas acima mencionadas eram privadas. Pela primeira vez foi feito no Brasil um plano de obras públicas tão abrangente. ainda que nos níveis modestos da época. desestimulava novos empreendimentos de geração. antecessora do Departamento de Águas e Energia Elétrica DNAEE que deu origem às atuais Agências Nacionais de Águas ANA e de Energia Elétrica ANEEL. O secretário de viação e obras públicas entre 1947 e 1951. os mineiros não perdoaram Getúlio Vargas por não instalar a primeira grande siderúrgica em Minas Gerais apesar do Macedo Soares ter explicado inúmeras vezes que foi selecionado o local de Volta Redonda por questões de mer­ cado pois siderúrgicas devem ficar próximas ao mercado e não ao minério. nem a consultora nem Lucas Lopes tinham experiência na elaboração de planos dessa natureza. desaceleração no desenvolvimento econômico no pós guer­ ra. primeiro presidente da CEMIG 252 . O principal objetivo do Código de Águas era a paralisação das empresas privadas do setor elétrico o que gerou considerável gargalo na expansão da oferta de energia elétrica e. No estado de Minas Gerais o início da participação do estado na geração de energia elétrica começou a ocorrer no governo Milton Campos que formulou um plano de maior envergadura para aten­ dimento das necessidades de eletrificação do estado. A intenção do engenheiro Seabra era que o engenheiro Lucas Lopes se encarregasse de comandar a elaboração do plano com o apoio da consultora.A História das Barragens no Brasil . consequen­ temente. engenheiro José Rodrigues Seabra contratou a consultora Companhia Brasileira de Engenharia para elaborar o Plano de Eletrificação de Minas Ge­ rais. A idéia era criar a infra­ estrutura energética para incentivar a implantação de indústrias e de atividades de mineração.

Indústria. Foram criadas empresas estatais estaduais para implantação das primeiras hidroelétricas estatais em Minas Gerais que posteriormente foram incorporadas pela CEMIG quando esta foi criada no governo Juscelino Kubitschek. Juscelino afirmou aos alemães: “Podem instalar a usina que nós garantimos a energia”. Em resposta Getúlio disse “Eu dou tudo que os senhores quiserem contanto que essa usina vá para Minas”.Bilhete do governador Juscelino Kubitschek. Comércio e Trabalho. titular da Secretaria de Agricultura. Desde o seu início até 1955/1956 a CEMIG dedicou-se basicamente à construção de usinas hidroelétricas. Grato. algumas das quais já se encontravam em Figura 3 . a Companhia de Eletricidade do Médio Rio Doce para a construção da hidroelétrica de Tronqueiras. foram diretores dessas empresas Lucas Lopes. então presidente da República.CINQUENTA ANOS DO COMITÊ BRASILEIRO DE BARRAGENS Na campanha presidencial de 1950 Getúlio se disse em dívida com Minas Gerais e prometeu a instalação de uma segunda siderúrgica em território mineiro. Empossado no governo Milton Campos. A CEMIG em seus primeiros anos A CEMIG foi fundada em 22 de maio de 1952. dirigido ao seu secretário de Viação e Obras Públicas. Getúlio disse aos alemães que procurassem o recém governador de Minas Gerais pois ele havia mencionado o Plano de Eletrificação elaborado no governo Milton Campos. Peço combinar com eles e assentar em definitivo as medidas. Júlio Soares e José de Castro. Assim. Pedro Laborne Tavares. Como essas empresas existiam e como era necessário haver recursos para o pagamento dos salários dos executivos que iriam comandar a CEMIG que ainda não existia. Essa garantia dada pelo governador foi a principal razão do sucesso inicial da CEMIG uma vez que passou a haver a necessidade de promover o suprimento de energia elétrica tão logo que a siderúrgica ficasse pronta. Para facilitar-lhe a organização e dar-lhe o caráter comercial que possibilite entendimentos com firmas financiadoras. dava início a algumas hidroelétricas. o engenheiro Américo René Gianetti. Assim. os membros da equipe de transição ficaram sendo diretores dessas empresas. enquanto o Plano de Eletrificação era formulado.” 253 . A Mannesmann tinha planos de se instalar no Rio de Janeiro e foi ao Getúlio. Os alemães argumentaram que em Minas Gerais não havia energia elétrica. datado de 22 de fevereiro de 1951: “O Sílvio Barbosa e o Júlio vão lhe falar sobre os planos que desejo pôr em execução no sector de energia elétrica. José Esteves. foram criadas a Companhia de Eletricidade do Alto Rio Doce para implantar a hidroelétrica de Santo Antônio. a Companhia de Eletricidade do Alto Rio Grande para implementar a hidroelétrica de Itutinga. para pedir apoio federal para implantação da nova siderúrgica. John Cotrim. precisamos estabelecer um “holding” que controle as atividades gerais das diversas centraes elétricas que pretendemos construir.

XX e XXI Figura 4 . vendo-se o governador Bias Fortes descerrando a placa inaugural. presidente do Eximbank Figura 5 . Cândido Hollanda de Lima 254 .Assinatura de contrato para financiamento no Export Import Bank para construção da usina de Camargos. Da esquerda para a direita: Mário Bhering. Cândido Hollanda de Lima. vice-presidente da Cemig. presidente da Cemig.Inauguração da Usina Hidroelétrica de Camargos em janeiro de 1961. Wangh.A História das Barragens no Brasil .Séculos XIX. ao lado do presidente da Cemig. e S.

Mauro Thibau e Mario Bhering. Após a constituição da CEMIG foram agregados ao grupo de diretores anteriormente composto os engenheiros Flavio H. Das obras iniciadas no governo anterior a que demandou mais trabalho foi a hidroelétrica de Salto Grande. Troqueiras. vendo-se o governador Juscelino Kubitschek no momento simbólico em que aciona a chave. 255 . Os passos iniciais da CEMIG na implantação de suas usinas eram apoiados por recursos diretamente destinados à empresa sem pas­ sar pela Secretaria de Finanças para desespero do secretário José Maria Alkmin. deputado federal. Na realidade havia uma disputa nesse sentido entre o secretário de finanças Alkmin e o engenheiro Lucas Lopes que conse­ guiu manter os recursos financeiros diretamente alocados à CEMIG. John Reginald Cotrim. Entre os primeiros engenheiros que foram contratados estavam Camilo Penna e Henrique Guatimosin. estando há mais de um ano abandonados em caixotes em terreno marginal à ferrovia em Coronel Fabriciano sem qualquer identificação. não haviam sido executadas prospecções geológicas e geotécnicas. Piáu e Cajuru. os equipamentos permanentes já haviam sido comprados e entregues. Lyra. em 3 de fevereiro de 1955. os túneis estavam mal locados. Tancredo Neves. colocando a usina em operação. vice-presidente da Cemig construção. a casa de força estava em terreno não apro­ priado. Seu programa inicial compreendia a construção ou a conclusão das hidroelétricas de Itutinga. Da esquerda para a direita. Vários equipamentos elétricos estavam estragados. Há relatos de que os estudos existentes eram muito superficiais. não havia levantamento topográfico completo da área de implantação da usina.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 6 – Inauguração da Usina de Itutinga. Salto Grande. totalizando quase 150 MW instalados.

econômica e financeira que nunca antes havia sido feito em empreendimento não privado no País. foram contratadas a IECO de São Fran­ cisco e a Morrison & Knudsen. outro 256 .Séculos XIX. John Cotrim como diretor técnico. a obra de Salto Grande que envolvia duas barragens. Um dos fatores que garantiram o sucesso nos primeiros anos da CEMIG foi o criterioso processo de contratação. Como na época não havia empresas nacio­ nais com reconhecidas capacitações para o desenvolvimento do projeto e da construção.A História das Barragens no Brasil . a implantação de Itutinga não causou problemas como os verificados em Salto Grande. se tornar uma empresa com gestão moderna para a época. Após a instituição da CEMIG surgiu a oportunidade do Banco Mundial financiar a aquisição dos equipamentos e de alguns serviços de engenharia. Mário Bhering como responsável pelas compras e uma equipe de supervisão de obras que contava com Camilo Penna. Juscelino Kubitschek. Os padrões exigidos pelo Banco Mundial fizeram com que a CEMIG fosse obrigada a. dois túneis de adução e uma casa de força foi concluída com sucesso. Numa oportu­ nidade o governador Israel Pinheiro. Com uma nova estrutura geren­ cial que compreendeu a contratação de novos quadros da CEMIG foram incluídos engenheiros civis que permaneceram no setor elétrico como Carlos Alberto Pádua Amarante e João Alberto Bandeira de Mello. Com isso foi necessário que se fizesse um estudo completo de viabilidade técnica. des­ de seu início. através de Julio Soares. candidato a presidente da República do Brasil e Mario Bhering.Inauguração da barragem de Cajuru em 1959. vice-presidente da Cemig A Techint italiana foi contratada e o projeto foi alterado e detalhado. Flavio H. Carlos Gomes foi o engenheiro eletricista encarregado de identificar. pois uma obra iniciada no governo da UDN estava sendo novamente concebida e projetada num governo do PSD. estocar e recuperar os equipamentos que haviam se estragado pela chuva no matagal marginal à ferrovia. ambas americanas que já estavam engajadas em outros contratos no Brasil. XX e XXI Figura 7 . A implantação da hidroelétrica de Itutinga teve uma história diversa. Lyra acumu­ lando a diretoria financeira da CEMIG com a superintendência de Itutinga. Essa indispensável alteração teve suas implicações políticas.

Figura 8 – Escavação do túnel de adução da hidroelétrica de Salto Grande 257 .

autarquia destinada ao desenvolvimento do vale do rio São Fran­ cisco. posteriormente denominada SUVALE. contraparente e amigo do governador Bias Fortes e ex-professor de muitos que compunham os quadros técnicos da CEMIG. inclusive Vítor Cataldo que veio de Porto Rico organizar a operação e Mr. lembrou-se do ocorrido anteriormente e per­ guntou ao Júlio Soares: “Como é que se chama aquilo que o Cotrim pede quando não quer contratar alguém?” Cabia ao engenheiro Mauro Thibau a organização das equipes de operação das primeiras usinas. pois na hora de desempatar a disputa por recursos. desempatava sempre a favor da CEMIG. mas grande parte do pessoal veio de fora. Leslie T. essa companhia não vai funcionar nunca. Israel comentou “Que bobagem é essa que o Cotrim está inventando?” Julio Soares explicou: “É o curriculum vitae. assumiu o BNDE (hoje BNDES). A barragem de Três Marias deveria ter sido uma obra da SUVALE. Ele conseguiu alguns poucos veteranos de outras empresas que operavam no Brasil como Mr.A História das Barragens no Brasil . O governo federal passou a atuar no sentido de viabili­ zar dois grandes empreendimentos de geração com grandes reservatórios em Minas Gerais: Três Marias com objetivos de regularizar e melhorar as condições de navegabilidade do rio São Francisco e Furnas com objetivo de vir a ser o principal regularizador de todo rio Grande onde muitas hidroelétricas grandes viriam a se localizar. Itutinga e Tronqueiras. Como o Israel queria se livrar do referido cidadão. foi alvo de ferrenha oposição a partir do governo estadual. Três Marias – A primeira grande obra Desde 1946 foram acentuadas as discussões sobre os problemas de controle das vazões do rio São Francisco que desembocaram na criação. John Cotrim e Flavio H. indicou um engenheiro para contratação. na Comissão do Vale do São Fran­ cisco CVSF. Tornovsky e os Popof. situada em uma área pobre de recursos naturais e com baixíssima ocupação demográfica.” Israel con­ cluiu: “Ah. 258 . Nessa época a atuação de Júlio Soares. Lucas Lopes. Veio a posse do Juscelino como presidente da República e um natural esvaziamento da CEMIG com a drenagem de seus quadros para o governo federal. foi de fundamental importância. Schnaptis. cunha­ do do Juscelino e responsável por sua educação. A solução encontrada para a CEMIG foi a colocação do professor Cândido Holanda de Lima na presi­ dência uma vez que. em dezembro de 1948. A ferrenha oposição à implantação de Furnas fez com que o governo federal firmasse um acordo muito vantajoso com a CEMIG para a implantação de Três Marias pelo qual o governo federal custeou o reservatório e a obra civil. por ser destinada a atender a demanda regional e principalmente socorrer centros de carga situados em outros estados estrangulados pelos efeitos do Código de Águas em empresas privadas do setor elétrico.” Passado algum tempo o próprio Israel foi assediado por um cidadão que queria um emprego em qualquer lugar. nome­ adamente a Light e as empresas do grupo AMFORP. Crowl que trouxe a disciplina financeira do TVA. presidente da CEMIG. John Cotrim pediu inicialmente que lhe enviassem o currículo do referi­ do engenheiro. Dificuldades iniciais existiram com a Comissão do Vale do São Francisco que queria gerenciar a obra civil e com ofertas de fabricantes despreparados para o fornecimento de equipamentos. a única fonte de receita operacional vinha da venda de energia da usina de Gafa­ nhoto herdada do DAE. era um empreendimento simpático aos mineiros enquanto que Furnas. Os primeiros estudos foram concluídos em 1952. Smith. Também vieram mais de dez russos após a revolução chinesa de 1949 como Alissof. Três Marias. A receita era insuficiente para os gastos da recém criada CEMIG.Séculos XIX. Quando os esforços estavam direcionados para a conclusão das usinas de Salto Grande. tinha as condições de bom trânsito interna­ mente na empresa e externamente junto ao governo do estado. XX e XXI diretor da empresa. e a CEMIG se encarregou apenas da casa de força. Lyra começaram a trabalhar para viabilizar a hidro­ elétrica de Furnas. contador inglês vindo da Light.

no caminho para a obra. Em outra opor­ tunidade.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 9 – Visita presidencial às obras de Três Marias. Mário respondeu que estava fazendo o controle de compactação pelo método Hilf. ao saber quem era o pretenso carona. o vice-presidente da Cemig. novidade na época. Os principais equipamentos permanentes vieram da Voith e da Siemens da Alemanha e contribuíram decisivamente para 259 . retirando com um cilindro na praça de compactação da barragem. Ao aparecer o veículo salvador levantando uma nuvem de poeira. Shoeller. C. Como ele sabia que uma viatura da CEMIG passaria por ali naquele dia.P. Galdino Mendes. tremia de medo.” Para a implantação de Três Marias foi repetida a estrutura que teve excelente desempenho em Itutinga: o projeto pela IECO que insta­ lou um escritório em Belo Horizonte e a construção pela Morrison Knudsen. numa visita do presidente Juscelino ao canteiro de obra. ficou aguardando. em voz baixa. Da esquerda para a direita: o embaixador dos EUA no Brasil. o presidente da Cemig. ele viu Mário. Júlio Soares. explicou o método. Consta que o diretor técnico John Cotrim. Ao se apresentar ao Cotrim. o presidente da República. os dirigentes da CEMIG lhe dispensavam toda atenção. Cautelosamente ele se aproximou do técnico e. diretor da Cemig. ele começou a fazer sinais para que o veículo parasse. em construção. e que havia expedido circular proibindo que veículos da empresa dessem carona. Embora o local de Três Marias fosse na época considerado remoto. o superintendente da CVSF. Cândido Hollanda de Lima. Juscelino não entendeu nada mas disse ao pé do ouvido: “A qualidade é importante mas não retarde a construção. Muitas horas depois Cotrim chegou na obra e mandou chamar o motorista do veículo que. um técnico de solos que posteriormente trabalhou no IPT e na Enge-Rio. O veículo diminuiu a marcha mas não parou. este elogiou o motorista que havia cumprido o que determinava a circular apesar da difícil situação daquele que pedia carona e que ele não conhecia. engenheiro da CVSF e Henrique Guatimosin. superintendente de construções da Cemig Três Marias era obra estratégica para o governo federal e se situava a meio do caminho entre a então capital federal e a futura capital. Mario Penna Bhering. vice-presidente da MorrisonKnudsen. perguntou o que ele estava fazendo. teve seu carro danificado em uma das longas estradas não pavimentadas. tido como nervoso e bravo. Assis Scafa. Juscelino Kubitschek de Oliveira.

além dos mais novos colaboradores do CBDB como Ricardo Aguiar Magalhães. e principalmente nas usinas que se seguiram. ocorreram incorporações de pequenas usinas. Paulo e Mario Mafra. Roberto Fonseca. que esses fabricantes posteriormente instalassem fábricas no Brasil. cooperativas de eletrificação rural e de empresas e Jaguara e Volta Grande. o governador José de Magalhães Pinto e o presidente da Cemig. não sem dificuldades políticas pois a Bragantina apelou para congressistas ligados a Paulo Maluf e ao ministro Murilo Badaró da Indústria e Comércio. Mais tarde a CEMIG assumiu a área de concessão da Bragantina em território mineiro. entre outros. Celso Melo de Azevedo. a Ebasco de Nova Iorque efetuou um estudo dos recursos hidroenergéticos do esti­ rão de 33 km do rio Grande nas proximidades da cidade de Rifaina concluindo pela recomendação da implantação de uma hidroelétrica 260 .A História das Barragens no Brasil . Marcou também a evolução da engenha­ ria geotécnica em obras de terra. Guy Vilella. A partir de Três Marias a CEMIG foi gradativamente passando a contratar consultoria nacional. Wellington Sebastião Jacarandá. em 25 de julho de 1962. José Augusto Pimen­ tel. O desvio do rio foi feito no término do governo Juscelino e a inauguração da usina pouco antes da revolução de 31 de março de 1964. Logo após dava início às hidroelétricas no rio Grande. Paulo do Val. meses depois Magalhães participaria ativamente da deposição de Goulart usinas geradoras como as da Companhia Mineira de Eletricidade. Marcos Vasconcelos e Gilson de Almeida Furtado e muitos outros. seguidas das hidroelétricas no rio Paranaíba. Sérgio Brito. importantes passos no rio Grande Sob encomenda da Companhia Geral de Minas. da Sul-Mineira de Eletricidade e da Companhia Força e Luz de Minas Gerais. São Simão e Emborcação. Pouco após essa época. Sorridentes na fotografia. Archimedes Viola. este por estar em oposição a Trancredo Neves. Octávio Mello Areas. acionando a chave de funcionamento da usina. vendo-se o presidente João Goulart. Cássio Viotti.Inauguração de Três Marias. XX e XXI Figura 10 . Licínio Marcelo Seabra. Construtoras nacionais passaram a ser con­ tratadas com uma única exceção: a construção da hidroelétrica de São Simão. Em Três Marias. Vinício Noce de Magalhães Gomes. Luiz Francisco Gualda Pereira. José Maria Baptista. Três Marias marcou a transição da CEMIG na implantação de obras de porte modesto para grandes usinas e obras de grande vulto. resultante de concorrência internacional em que o fator financiamento e contrapartidas pesaram na decisão da concorrência. esta vinda do grupo AMFORP. começaram a aparecer as segunda e terceira gerações de engenhei­ ros e gestores nas quais despontaram nomes de projeção tais como.Séculos XIX. nomeadamente Jaguara e Volta Grande. já com a CEMIG estabelecida como grande empresa.

e Israel Pinheiro. A necessidade de deslocamento do eixo para montante por motivos geológicos em sua fundação demandou tempo para tomada de decisão e ocasionou importante retardo no cronograma inicial de construção. A queda nesse trecho do rio Grande foi dividida em três locais com quedas brutas modestas. a primeira unidade entrou em operação. presidente da Cemig. em 1971. No início de 1969 foi assinado com o consórcio TAMS/ENGEVIX o contrato para desenvolvimento do projeto 261 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 11 – Usina hidroelétrica de Jaguara Figura 12 – Inauguração da usina de Jaguara. A construção foi iniciada pela Mendes Jr em 1966 e. No estirão do rio Grande entre Jaguara e as cachoeiras Dos Patos e Das Andorinhas (local da antiga e da nova hidroelétrica de Marim­ bondo) não havia nenhuma concentração de queda natural no rio Grande. Coube inicialmente à CEMIG a hidroelétrica de Volta Grande com 27. em 1964. O projeto foi contratado à Eletroprojetos/ Eletrowatt associada à Geotécnica. Em primeiro plano Mario Bhering.50m de queda bruta como recomendada pelos estudos de inventário hidroenergéticos feitos pela Canambra em 1966. governador de Minas Gerais que veio a ser confirmada pelo inventário da Canambra realizado a partir de 1963 e confirmada pelo Comitê Energético da Re­ gião Centro-Sul. Sua segunda hidroelétrica com capacidade acima de 600 MW propiciou à CEMIG importante desenvolvimento nos campos de barragens de enrocamento com núcleo de terra e de mecânica de rochas.

A História das Barragens no Brasil . XX e XXI Figura 13 – Usina hidroelétrica de Volta Grande 262 .Séculos XIX.

No dia 24 de fevereiro de 1974 foi sentido na cidade de Conceição das Alagoas pouco ao norte dos dois reservatórios um sismo de intensidade VIII na escala Mercalli modificada. se constituiu em excelente local para implantação econô­ mica de hidroelétrica de elevada capacidade instalada.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 14 . Pela primeira vez a CEMIG ultrapassou os 1000 MW instalados em uma única casa de força. Poucos problemas ocorreram na construção.17x109 m³). As consequências na cidade foram pequenas e os tremores não se repetiram desde então. totalizando 380 MW.Assinatura de contrato de financiamento com o Banco Mundial. Esse local não passou desapercebido no inventário da Canambra e resul­ tou na hidroelétrica de São Simão com capacidade instalada de 1608 MW na primeira etapa (projetada capacidade de 2680 MW na segunda etapa). com importante operação de reassentamento populacional. Os primeiros levantamentos de campo visando a implantação de uma hidroelétrica foram efetuados a partir de 1960 pela Comissão da hidroelétrica de Volta Grande e no início de 1970 começou a construção pela Mendes Jr. para a construção da usina hidroelétrica de São Simão. podendo ser citadas as erosões nos blocos de impacto da bacia de dissipação e a ocorrência de sismos induzidos pelos reservatórios de Volta Grande (2.5x109 m³). de im­ pressionante riqueza cênica pelo fato do rio Paranaíba despencar em saltos verticais pelos dois lados de longa fenda longitudinal em seu leito. O reservatório com área de 674 km² demandou a relocação das cidades de São Simão e Paranaiguara. na cidade de Washington. além das vilas de Chaveslândia e Gouveilândia. Tremores se seguiram nos últimos dias de fevereiro e no início de março. cujo enchimento foi iniciado em junho de 1973. em 14 de junho de 1972 A conquista do rio Paranaíba: as hidroelétricas de São Simão e Emborcação O local das quedas conhecidas como Canal de São Simão. 263 . Esse foi o maior sismo induzido por reservatórios no Brasil. cujo enchimento foi iniciado em novembro de 1973 e de Porto Colômbia (1. As unidades geradoras entraram em operação entre julho de 1974 e agosto de 1975.

apresentando toda documentação: “a primeira referência é do Banco do Brasil.”. Por mais de duas vezes o Camilo Penna desconversou. Seu investimento era equivalente a todo capital da CEMIG. Camilo Penna disse que a CEMIG sempre pedia em suas concor­ rências referências bancárias dos concorrentes. Em 1970 foi assinado o contrato com o consórcio projetista composto pela IECO e sua filial brasileira. teriam sido dadas por um “banquinho vagabundo”. o presidente do Banco Central.Séculos XIX. Em depoimento ao Congresso Nacional o presidente da CEMIG foi argüido por horas. se realmente existiam. mas o deputado irado pros­ seguia pedindo as referências e afirmou “denuncio o Sr. Nessa hora Camilo Penna solicita a Licínio Marcelo Seabra que mostre as garantias. tendo a Mendes Júnior em segundo lugar com uma diferença de apenas cerca de 2%. ao valorizar o Cruzado aumentou a diferença a favor da Impregilo/CR Almeida. em 14 de junho de 1973 Interestadual da Bacia do Paraná-Uruguai CIBPU. Estes vieram de financiamento do Banco Mundial que exigiu uma concorrência internacional. XX e XXI Figura 15 .A História das Barragens no Brasil . 264 . São Simão era um empreendimento gigantesco para a CEMIG.. Foi necessário grande esforço para captar recursos externos para equi­ pamentos e para a obra civil. Paulo Lyra.. Interessante realçar que dias depois da abertura das propostas. O Banco Mundial foi inflexível e a CEMIG teve que reconhecer a Impregilo/CR Almeida como vencedora. Camilo Penna por estar escondendo documentos que são solicitados”. em consórcio com a CR Almeida. Isso gerou muita reclamação das empreiteiras nacionais.O governador Rondon Pacheco e o presidente da Cemig. construtora italiana. Camilo Penna. Um dos mais ferrenhos argüidores foi o deputado Sylo Costa disse que a CR Almeida não tinha referências bancárias. Licínio começou. a terceira é do Banco Nacional. Em 1969 a CEMIG desenvolveu estudos visando a obtenção da concessão. assinam o contrato com a Impregilo para a construção das obras civis da usina hidroelétrica de São Simão. O referido deputado insistiu várias vezes e Camilo Penna desconversava até que o depu­ tado repetiu a afirmação de que as referências. A pressão sobre a diretoria da CEMIG foi grande. a segunda é do Bradesco.. A concorrência foi vencida pela Impregilo. a quarta é do Banco Real.

Em junho de 1978 a primeira unidade entrou em operação comercial após cinco anos de construção.” O País atravessava a segunda metade dos anos setenta com dificuldades econômicas geradas a partir do primeiro choque do petróleo (1973). O aproveitamento de Igarapava havia sido identificado pela COBAST em 1960 e reavaliado pela Canambra em 1964/1965. São Simão conferiu à CEMIG nova importante ampliação em sua escala de obras civis e principalmente em equipamentos permanentes. João Eduardo de Moura Guido. Retorno às hidroelétricas de porte médio Após São Simão e Emborcação a CEMIG passou a implantar hidroelétricas de porte médio em território mineiro. O governo Figueiredo passou a se interessar intensamente por obtenção de empréstimos externos o que endividou as estatais federais. com a obra sendo iniciada dois meses depois. John D. desde o governo Geisel. desvio e adução subterrânea e capacidade de 1192 MW. em seu trecho inferior dividia os estados de Minas Gerais e São Paulo. Nessa ocasião foram da CEMIG para a Eletronorte os engenheiros Dário Gomes. a CEMIG que havia contratado a TAMS em 1976 para projetar a hidroelétrica de Emborcação a partir dos estudos de inventário da Canambra no rio Paranaíba a montante de São Simão. que havia sofrido uma sangria de recursos humanos quando da formação de Furnas. Cadman que havia trabalhado na CEMIG quando da realização do inventário da Canambra. Inicialmente relegado a um segundo plano por causa de sua baixa queda e potência inferior a de outros aproveitamentos. Pimentel. João Camilo Penna afirmou que “Da luta por Estreito a CEMIG ganhou Jaguara e depois ganhou Volta Grande. Figura 16 . Outro erro dessa época foi. voltou a perder quadros técnicos com a instituição da Eletronorte.João Camilo Penna. O rio Grande. tendo que transferir recursos através da Reserva Global de Garantia. A hi­ droelétrica de Emborcação se caracteriza pela alta barragem de enrocamento com núcleo de terra. foi ao longo do início da obra de São Simão que a CEMIG. Érico Bitencourt entre outros. Igarapava 265 . E tanto lutamos por Marimbondo que acabamos ganhando São Simão. o de ligar a rentabilidade das empresas de energia elétrica ao esquema de tarifa única. onde havia empresas importantes na geração de energia elétrica. presidente da Cemig na época da usina hidroelétrica São Simão Dentro dessas perspectivas sombrias para o setor elétrico. contratou a Construtora Andrade Gutierrez que construiu a usina de Emborcação entre 1977 e 1982. por exemplo. Cachoeira Dourada e Itumbiara. o que penalizou a CEMIG como empresa de elevada eficiência. Naquela época a disputa por concessões era intensa entre as prin­ cipais empresas do setor elétrico que se concentravam na Região Sudeste. Entretanto. Desde 1976 as tarifas passaram a ser manipuladas pelo governo federal longe do princípio de serviço pelo custo. também foi da UFRJ para a Eletronorte levando consigo o geólogo Homero Teixeira. estando também na área de Furnas.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Em junho de 1973 o consórcio construtor composto pela Impregilo e a CR Almeida foi contratado para a execução das obras civis.

a Enge-Rio desen­ volveu o estudo de viabilidade com aplicação de unidades bulbo. 266 . Morro Velho e Cia Mineira de Metais). A partir de 1986 a IESA foi contratada para o desenvolvimento do projeto e em 1995 a Queiroz Galvão iniciou a construção. CSN. afluente do rio Paranaíba. A usina.Séculos XIX.A História das Barragens no Brasil . por carência de recursos. XX e XXI Figura 17 – Usina hidroelétrica de Emborcação foi o último aproveitamento a ser desenvolvido no baixo rio Grande.5 MW cada entraram em operação. tendo conseguido viabilizar o até então “patinho feio” do rio Grande. entrou em operação no final de 1988 e passou a ser referência para outros projetos posteriores de usinas de baixa queda. Durante o ano de 1998 as três unidades Francis de 132. teve o aprofundamen ­ to técnico inicial em 1985 pelo consórcio Leme-EPC. com quatro unidades bulbo de 40 MW cada sob a queda bruta de 17m. No final de 1987 a IESA foi contratada para o desenvolvi­ mento do projeto mas. sob a coordenação de José Turco Neto e a liderança técnica de Joaquim Pimenta de Ávila. Em 1985. a usina de Miranda no rio Araguari. Também identificada pela Canambra. a construção só foi iniciada em 1987 pela CNO após a CEMIG se associar outros inves­ tidores (Vale.

os estudos foram retomados. A primeira das três unidades geradoras Kaplan entrou em operação em fevereiro de 2006. no que se refere à asso­ ciação com outros investidores.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens O exemplo das hidroelétricas anteriores. Esses estudos foram complementados em 1996 indicando uma barragem em concreto compactado com rolo. a Cemig e a Vale implantaram a hidroelétrica de Aimorés denominada Elie­ zer Batista em homenagem ao engenheiro que fez carreira na Vale atingindo a sua presidência e exercendo cargos públicos de relevância política no cenário federal. O baixo rio Doce envolvendo Figura 18 – Usina hidroelétrica de Igarapava 267 . frutificou também em Funil do rio Grande. A capacidade instalada da usina é 180 MW. Já nos anos 2000 foi formado o consórcio construtor composto que teve como projetista a SPEC que alterou o projeto adotando uma barragem de terra com­ pactada. Após 20 anos. Após reconheci­ mento preliminar executado pela IECO em 1955. em 1991. o local foi adotado pelos estudos da Canambra nos anos sessenta. Vale e CEMIG se associaram para a implantação da hidroelétrica de Funil situada no rio Grande. Em 1971 a CEMIG encaminhou ao DNAEE relatório de pré-via­ bilidade. túnel de desvio e estruturas de concreto situadas na margem direita. como construtor foi contratada a Servix/Mendes Jr. Prosseguindo com a associação bem sucedida com a Vale.

A História das Barragens no Brasil . XX e XXI Figura 19 . no rio Grande Figura 22 – Usina hidroelétrica de Irapé 268 .Séculos XIX. ex-presidente da Cemig Figura 20 – Usina hidroelétrica de Miranda Figura 21 – Usina hidroelétrica de Funil.Guy Maria Villela Paschoal.

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Mario Penna Bhering. XX e XXI Figura 23 . Wilson Bruner Figura 24 . Djalma Bastos de Morais.A História das Barragens no Brasil . com a presença de ex-presidentes e do atual presidente da Cemig. realizada na Sociedade Mineira dos Engenheiros – SME. a filha de Juscelino Kubitschek. no dia 22 de fevereiro de 2001.Solenidade de entrega da “Medalha Lucas Lopes” à família de Licínio Seabra. Francisco Afonso Noronha e Guy Maria Villela Paschoal 270 .Inauguração da Usina de Irapé. Aparecem na fotografia o presidente da Cemig. no momento simbólico de acionamento das unidades geradoras. Hidroelétrica Presidente Juscelino Kubitschek. o governador Aécio Neves. Maristela Kubitschek Lopes e o presidente do conselho de administração da Cemig. Da esquerda para a direita: Celso Mello de Azevedo. João Camilo Penna.Séculos XIX. Djalma Bastos de Moraes. no dia 8 de junho de 2006.

os da IESA para a Eletrobras entre 1985 e 1989. tradicional e importante empresa do setor elétrico no Estado do Rio de Janeiro. os da CEMIG entre 1975 e 1980. a hidroelétrica de Irapé representou um investimento de cerca de R$ 1 bilhão dos quais R$ 250 milhões foram destinados a programas sócio-ambientais. a CEMIG ultra­ passou as fronteiras do Estado de Minas Gerais com importantes participações em grandes empreendimentos como sua participação de 10% no aproveitamento hidroelétrico de Santo Antônio no rio Madeira. implicando em derivação das descargas por vales laterais situados na margem esquerda do rio. área que supera em quatro vezes a área ocupada pelo reservatório. A barragem de enrocamento com nú­ cleo de terra com 208m de altura é a mais alta do País e a segunda mais alta da América Latina.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens o local de Aimorés foi alvo de diversos estudos sendo os principais os da Servix em 1963/1964. As 638 famílias que ocupavam a área da hidroelétrica foram reassentadas em proprie­ dades que ocupam sessenta mil hectares. tecnológica. A implantação dessa usina fez jus ao prêmio Puente de Alcántara que a cada dois anos é entregue a obras que congreguem grande importância cultural. os da Canambra a partir de 1964. tendo vindo ter grande participação na Light. funcional e social. Implantada em uma das regiões mais carentes do Estado de Minas Gerais. Todos esses estudos e projetos revelam que a concepção da hidroelétrica sofreu grandes alterações ao longo do tempo em função das interferências e dos impactos sócio-ambientais com a cidade de Aimorés e com a fer­ rovia da Vale. Essa derivação per­ mite o aproveitamento de uma queda bruta de 26. A constru­ ção foi feita pela Queiroz Galvão e a primeira unidade entrou em operação em fevereiro de 2006. estética. os da Themag/Montreal no mesmo período para a Portobrás. Em 2002 a CEMIG iniciou a construção da usina de Irapé no vale do Jequitinhonha com projeto Leme/ Intertechne e construção Andrade Gutierrez/CNO. os da Monasa para a CEMIG e Vale em 1992 e finalmente os da Promon SPEC em 1997 para a CEMIG que resultaram no projeto executivo da SPEC.9m resultando em três unidades geradoras Kaplan com 110 MW cada. . Ao final desse meio século de intensas atividades.

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lançado em 1945. o aproveitamento dos potenciais hidráuli­ cos e carboníferos para a produção de energia.CEEE Lúcia Wilhelm Véras de Miranda A história da Companhia Estadual de Energia Elétrica do Rio Gran­ de do Sul se apresenta em cinco principais períodos. As hidroelétricas construídas no estado. Saltinho. era inaugurada a primeira unidade geradora de energia elétrica da Companhia. Capingui. bem como inte­ grar esforços para a eletrificação dos municípios riograndenses através do Plano de Eletrificação do Estado.520 kW) Usina hidroelétrica de Itauba. Bugres. pertencen­ tes aos municípios e empresas privadas. Santa Rosa e Guari­ ta.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Companhia Estadual de Energia Elétrica do Rio Grande do Sul . Touros.Barragem Capingui no rio do mesmo nome (2. vinculada à Secretaria de Estado dos Negócios e Obras Públicas com a finalidade de prever e sistematizar. Andorinhas e Herval. seguida pelas hidroelétricas de Ernestina. Picada 48. Vertedouro. acompanhado dos engenheiros Primeiro período: A CEEE como Comissão Estadual de Energia Elétrica Criada em 1º de fevereiro de 1943 através do decreto lei n. Ivaí. totalmente projetada e construída pela Companhia. com a participação do DNOS. construídas pelo DNOS ou empresas privadas. elas foram basicamente repassadas para a CEEE. tomada d’água. Pirapó. estando. Toca. Guaporé. em plano geral elaborado para todo o estado. Figura 1 . Seriam seguidas por Ijuizinho. casa de força e subestação 273 . condutos forçados.º 328. Forquilha. que acompanhou a história da CEEE até a sua gestão como diretor de obras no período de 1965 a 1970. sendo assumidos seus passivos e encargos trabalhistas. foram encampadas pelo valor histórico menos a depreciação. vinculada à hidroeletricidade. Canastra. projetista nesse período. Como se tratava de unidades antigas. Em 1948. a termoelétrica de São Jerônimo e a usina Diesel de Porto Alegre. desde o seu início. anteriores à formação da CEEE. como Inglês. a usina do Passo do Inferno. Iniciava uma vida profissional talentosa o engenheiro Pedro Holtermann Netto.

A disponibilidade de um empréstimo do Banco Mundial arquite­ tada por Assis Chateaubriant. Heinrich Kotzien e Silvio Freitas.A História das Barragens no Brasil . Mario Lanes Cunha. em 1948. da energia necessária para o atendimento do seu mercado. Segundo período: A CEEE como autarquia Em 20 de fevereiro de 1952. um empréstimo con­ cretizado por parte do BNDE permitiu o desenvolvimento de projetos diferenciados. pela Lei n. pois já no ano de 1950 a CEEE supria a Companhia de Energia Elétrica Rio Grandense – CEERG. primeiro presidente da CEEE quando assinava o contrato da usina hidroelétrica Jacuí 274 . Interventor Federal no governo do estado. A foto foi tirada em 23 de julho 2011 em sua residência. quando foi diretor de obras. de capital americano. apresen­ tara ao Coronel Osvaldo Cordeiro de Farias.especialmente entre os anos de 1965 e 1970. a CEEE foi conver­ tida em autarquia. É neste período que começam a se materializar as intenções da comunidade gaúcha de agregar à CEEE esses serviços. No entanto. XX e XXI Figura 2 – Engenheiro Pedro Holtermann Netto iniciou sua atividade profissional como estagiário da CEEE. que era basicamente Porto Alegre. um estudo sobre os contratos de concessão Figura 3 . Dietrisch Kuhlmann. atuando inclusive em Tucuruí. Já em 1939 o então Prefeito de Porto Alegre. em valores da época de 30 milhões de dólares não foi viabilizado. Após essa data. tendo cada vez mais importância devido ao seu crescimento.Séculos XIX.Noé de Melo Freitas.º 1744. como engenheiro civil. e logo formado.   Jorge Ernesto Dreher. Participou ativamente de todas as obras relacionadas à hidroeletricidade da CEEE. José Loureiro da Silva. continuou atuando como projetista de hidroelétricas.

passando a denominar-se Companhia Estadual de Energia Elétrica – CEEE. No dia 21 de outubro de 1997 ocorreu o leilão na sede da FIERGS. que passou a ser considerado bem pú­ blico e promotor do desenvolvimento nacional. transmissão e distribuição de energia elétrica no estado. a Companhia Sul-Sudeste de Distribuição de Energia Elétrica. 3 . com tubulação adutora de 7 km.09. Bugres e Canastra.  destinada a projetar. como o setor elétrico. através do decreto n. O modelo adotado desenvolveu-se sob a égide das empresas multinacionais e do setor produtivo estatal. em docu­ mento enviado ao secretário de obras públicas do estado. Com o objetivo de melhorar a infra-estrutura para o desenvolvimento na­ cional. Noé de Mello Freitas.º 10. 4 . começaram a ser privatizados. a qual foi efetivamente criada  em 19 de dezembro de 1963. Na década de setenta as concessionárias do setor de energia elétrica passaram a ter capital nacional. desempenhou um papel fundamental neste processo.º 4.1961. sendo que em 11 de maio de 1959. A Centro-Oeste foi vendida à AES Guaíba Empreendimentos e a Norte-Nordeste foi adquirida pelo consórcio formado pela VBC (Votorantim. controladas ou subsidiárias. acontece a Revolução de 1964. a Companhia Transmissora de Energia Elétrica. que é a Companhia Estadual de Energia Elétrica.º 10.136 de 13.  O engenheiro-chefe da CEEE.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens dos serviços públicos de energia elétrica com a CEERG. No ano de 1957 inicia-se o processo de encampação. extinção. construir e explorar sistemas de produção. em 1965 o governo federal passou a estatizar os serviços de energia elétrica. Somado a isso. Foram criados o Ministério das Minas e Energia e a Eletrobras. com túnel de importante valor técnico para a época. Foi então discutida a encampação dos serviços de energia elétrica prestados pela CEERG. os bens da CEERG.900 autorizando o poder executivo a reestruturar societariamente e patrimonialmen­ te a CEEE. no qual a Companhia Centro-Oeste de Distribuição de Energia Elétrica e a Companhia Norte-Nordeste de Distribuição de Energia Elétrica foram adquiridas por capital privado. Um ano após a transformação da CEEE em sociedade de econo­ mia mista. para fins de desapropriação.uma sociedade anônima de transmissão de energia elétrica.três sociedades anônimas de distribuição de energia elétrica. a Companhia Centro-Oeste de Distribuição de Energia Elétrica e a Companhia Norte-Nordeste de Distribuição de Energia Elétrica. fusão. Walter Jobim. ção de um novo pacto político com a participação preponderante dos militares. A CEEE viabilizava a construção de obras relevantes como as hidroelé­ tricas de Ernestina. através de cisão.duas sociedades anônimas de geração de energia elétrica. sob controle acionário do Estado do Rio Grande do Sul. podendo criar sociedades coligadas.uma sociedade controladora (holding) das sociedades de energia elétrica. redução ou aumento de capital ou a combinação destes instrumentos. havia a discutível alteração de valores de tarifas nos contratos. incorporação. através da lei estadual n. Em 26 de dezembro de 1996 a lei estadual n. assim discriminadas: 1 . sacramentava-se a en­ campação de contratos de concessão e declarava-se de utilidade pública. a Companhia de Geração Hídri­ ca de Energia Elétrica e a Companhia de Geração Térmica de Energia Elétrica. Terceiro período: a CEEE como sociedade de economia mista Na década de 60 ocorreram profundas mudanças no setor elé­ trico em âmbito nacional. Em 1961 o então governador Leonel de Moura Brizola foi autoriza­ do a criar uma sociedade por ações para os serviços de eletricidade. determinando a forma­ 275 . pois já no ano de 1945 se pronunciava a respeito da encampação. e Maia Filho. Quarto período: a privatização Nos anos 90 setores antes considerados estratégicos para a economia. 2 . transformação.466 assinado pelo então governador Leonel Brizola.

Previ (fundo de pensão dos fun­ cionários do Banco do Brasil) e Community Energy Alternatives. foram eleitos os conselheiros de administração e fiscalização da companhia.593. uma vez que a data-limite ini­ cial para a adequação da empresa ao novo modelo expirou em 15. atendendo aos argumentos apresentados pela CEEE concedeu a prorrogação solicitada até 30.CEEE. c) constituição de uma sociedade por ações. através de uma assembléia geral de constituição. a qual será controladora das duas sociedades referidas nos itens seguintes. de distribuição de energia elétrica.  Em 26 de outubro de 2006. a Diretoria da CEEE aprovou  os organogramas iniciais para a CEEE-Par. Uma vez que a CEEE era uma empresa verticalizada.2% dos lares urbanos e 84% das economias rurais abastecidos com energia elétrica.848. rogação de prazo à ANEEL. CEEE-GT e CEEE-D.CEEE-D -. assim discriminadas: a) constituição de uma sociedade por ações holding. Em 20 de outubro de 2006. data limite para a cisão. O modelo societário adotado compreendeu a criação de uma empresa holding com duas subsidiárias. para adequar-se à lei. a Assembléia Legislativa aprovou a Lei n. Para viabilizar a adequação societária da companhia à legis­ lação federal e implantar o modelo proposto havia. Em 13 de setembro de 2006. XX e XXI Bradesco e Camargo Correa). mais uma empresa. deno­ minada Companhia Estadual de Energia Elétrica Participações . possuia na mesma empre­ sa atividades de distribuição. exigida pela legislação federal.CEEE-Par. em 1997. transmissão e venda de energia a consumidores livres. geração.º 12. anteriormente citada. No final de 2004. fato que levou a CEEE a solicitar pror­ 276 . dentre outras restrições. controlada. permanecendo o Governo do Estado do Rio Grande do Sul com o controle acionário das empresas oriundas do processo de reestruturação. A CEEE havia chegado. entretan­ to. fa­ zendo com que o estado alcançasse um dos mais altos índices de eletrificação rural do país. b) alteração da denominação da atual Companhia Estadual de Energia Elétrica . criando.2005. a necessidade de realização de plebiscito ou de alterações na Constituição Estadual e de promulgação de Lei Esta­ dual específica.para Companhia Estadual de Geração e Transmissão de Energia Elétrica . no mínimo.CEEE . transmissão e venda de energia a consumi­ dores livres.6. ou seja. Nesta ocasião. A ANEEL. a segregação da atividade de distribuição.2006.09.CEEE. de 15 de março de 2004. autorizando o Poder Executivo a promover a re­ estruturação societária e patrimonial da Companhia Estadual de Energia Elétrica . para separar a distribuidora de energia das demais. com 99. dois terços da área de Distribuição deixaram de pertencer à CEEE. A Centro-Oeste alterou sua razão social para AES Sul Distribuidora Gaúcha de Energia S/A e a Norte-Nordeste passou à denomina­ ção de Rio Grande Energia S/A. ela teve que desverticalizar-se. em espe­ cial. a CEEE-Par foi declarada formalmente constituída. Quinto período: a desverticalização Em 15 de março de 2004 foram aprovadas pelo Congresso Nacional novas regras para o setor elétrico brasileiro.A História das Barragens no Brasil . a CEEE procedeu à contratação de consultoria para indicar alternativas para a desverticalização da empresa. com a finalidade de segregar as ativi­ dades de distribuição de energia elétrica das demais atividades por ela exercidas.º 10. mediante altera­ ção de sua denominação e constituição de duas outras sociedades.CEEE-GT. para ajustá-la ao disposto na Lei Federal n. denominada Companhia Estadual de Distribuição de Energia Elétrica . a qual será resultante da cisão parcial da atual Companhia Estadual de Energia Elétrica .Séculos XIX. Desta forma. Em seus dispositivos a Lei proíbe que uma empresa de distribuição de energia exerça atividades de geração.

também criador da cadeira de mecânica dos solos na Universidade do Rio Grande do Sul. Na década de 60 foi dado o início da operação da usina hidroe­ létrica do Jacuí e gerado o projeto da usina de Passo Real. Passo Real foi o segundo aproveitamento do rio Jacuí. foi aprovada a mudança de denominação social da CEEE para Companhia Estadual de Geração e Transmissão de Energia Elétrica – CEEE-GT. conjugando-os a usinas termoelétricas a vapor. Com o advento da república entrou o Rio Grande do Sul na fase da industrialização.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Em 27 de novembro. tendo como base dados hidrológicos desde o ano de 1917. O estudo das diversas centrais foi baseado em investigações cui­ dadosas. 277 . O prazo de vigência deste ter­ mo é de dois anos a partir da data de sua assinatura. que tolhia o desenvolvimento econômico do Rio Grande do Sul. a industrialização da carne era feita nos grandes frigo­ ríficos. Em 1° de dezembro de 2006 foi assinado um termo de com­ promisso e cooperação entre a CEEE-GT e a CEEE-D. Touros. A etapa seguinte do Plano de Eletrificação trouxe as hidroelétri­ cas do Jacuí. Canastra. Ivaí. ocorreu a constituição formal da Companhia de Distribuição de Energia Elétrica – CEEE-D. com a conseqüente alteração do estatuto social. o braço do colono foi sua força propulsora. engenhos de farinha. ou estavam construídas. a atividade relacionada com a suinocultura e laticínio demandava energia. As obras tiveram início em 1972 e a operação comercial ocorreu em 1978. Na Colônia Antiga do norte do estado. Guarita. Pirapó. Nesse período. Na Colônia Nova a noroeste do estado se desenvolviam a opulen­ ta riqueza madeireira e o desenvolvimento das serrarias. assim como de inúmeros pequenos estabelecimentos fabris completavam a feliz diversidade de atividades econômicas que asseguravam o progresso da região.850 m de barramento. ficando estabele­ cido que a companhia deveria iniciar as atividades previstas em seu objeto social a partir do dia 1. Na mesma assembléia. que se constituiriam em centrais destinadas a abastecer as zonas de maior densidade demográfica. em etapa inicial de urgência. houve a participação consultiva do engenheiro Casemiro Munarski. Assim vieram as hidroelétricas de Passo do Inferno. Na transformação de povo pastoril para povo agrícola e industrial. as hidroe­ létricas dos Bugres. Sendo então anunciado em 1945 o Plano de Eletrificação. do endereço da sede social e objeto social. Preocupados com a falta de energia. não somente sob o ponto de vista técnico. Todos os projetos hidroelétricos foram feitos. colaborando com o seu conhecimento em barragens de terra.º de dezembro de 2006. resolveu o governo do estado estudar o aproveitamento racional de seus potenciais hidráulicos. enquanto já estavam sendo construídas. poden­ do ser prorrogado por até igual período ou rescindido de comum acordo entre as empresas. Capingui e Santa Rosa. colonizada por ale­ mães e italianos. Forquilha e Ijuizinho. Na fronteira. Os estudos de viabilidade técnico-econômica da usina hidroelétrica de Itaúba foram iniciados em 1969. pois ali se localizava a bacia carbonífera. Ernestina. As hidroelétricas no plano de eletrificação do estado Em 1824 chegaram ao Rio Grande do Sul os primeiros colonos alemães e da mesma forma os italianos em 1874. Saltinho. assim como a maior produção agrícola. Na Zona Central encontravam-se as indústrias transformativas. com o objetivo de ressarcir e compartilhar o exercício de ativi­ dades comuns e de apoio necessárias à consecução dos seus respectivos objetos sociais. criando o maior lago artificial do estado através dos 3. Forquilha e o segundo grupo de Capingui. através de uma assembléia geral extraordiná­ ria de acionistas. como princi­ palmente de potencialidade econômica das zonas de influência de cada usina.

Usina hidroelétrica de Itaúba Figura 5 .A História das Barragens no Brasil . XX e XXI Figura 4 .Barragem Dona Francisca em concreto compactado com rolo. no rio Jacui 278 .Séculos XIX.

em 1995.Vertedouro da barragem de Ernestina antes das obras de reforço 279 . com a permissão de parceria com in­ vestidores privados por meio de lei. e a possibilidade de formação de consórcios.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A história do empreendimento de Dona Francisca iniciou em 1980. extensão compreendendo trecho retilíneo na região das comportas e tomada d’água. A barragem foi concebida com extensão de 400 m e altura de 14. um projeto único no mundo A barragem de Ernestina sobre o Rio Jacuí está localizada no atual município de Tio Hugo. com eixo curvo. a execução do projeto ficou a cargo deste segundo.A. – DFESA. o sistema estrutural foi concebido de forma a ter-se toda a estrutura em concreto protendido. O grupo investidor deu origem à Dona Francisca Energética S.Vertedouro da barragem de Ernestina antes das obras de reforço Figura 7 . tem-se 44 m na ombreira direita. Através de convênio firmado entre CEEE e o extinto DNOS. 145. Segundo o memorial descritivo da obra. alternativa escolhida em substituição ao projeto original do tipo enrocamento com núcleo de argila.32 m. mediados por pilares com 1.75 m de Figura 6 .50 m de largura também protendidos que são independentes. a quem coube realizar a correspondente con­ corrência. ao norte do Estado do Rio Grande do Sul. Na variante apresentada pelo consórcio contratado. As cortinas possuem protensão nas A barragem de Ernestina e sua concepção original. a barragem é configurada por cortinas protendidas com cabos curvos com painéis de 15 m de largura. No seu comprimento. quando a CEEE obteve a concessão para implantar a usina. A barragem foi construída em concreto compacta­ do com rolo. A barragem de Ernestina foi originalmente concebida como bar­ ragem de gravidade. Para ga­ rantir a estabilidade externa essa estrutura é atirantada por uma linha de cabos verticais ancorados na rocha 4 metros abaixo do embutimento em concreto. 65. no Planalto Rio . No final da década de 1990. O consórcio entre a filial brasileira das Estacas Franki e empresa Campenon Bernard francesa foi o vencedor da licitação.Grandense. a construção da usina se viabilizou.25 m de trecho retilíneo sem vertedores e 46 m de ombreira esquerda. 99 m em curva.

a fim de elucidá-las. realizado pela empresa gaucha Azambuja Engenharia e Geotécnica. detalhando o estado da prática na épo­ ca da construção. a corrosão dos cabos de protensão e suas consequ­ ências. Em 2008. várias dúvi­ das quanto à estabilidade estrutural da barragem de Ernestina foram levantadas e. foi realizada uma reavaliação do projeto estrutural original concluindo que nenhuma tensão de tração deveria ser esperada para as cortinas ou pilares. os fios de aço empregados em cabos.A História das Barragens no Brasil . a sistemática do atiran ­ tamento dos cabos verticais na rocha adotados assim como os cabos transversais e as cabeças de ancoragem. à semelhança de uma laje armada em duas direções. mesmo estimando a relaxação dos cabos de protensão e as acomodações por fluência e retração do concreto após 40 anos de construção. Durante o seu período de operação. a própria equipe de Eugéne Freyssinet foi responsável pela elaboração do projeto. Figura 8 – Planta da barragem e seção típica do vertedouro Figura 9 – Seções transversais típicas dos pilares do vertedouro da barragem de Ernestina. O reservatório passou a ser operado com rebaixamento de 1. O trabalho apresentou as estruturas pro­ tendidas em barragens. já que eram consultores associados à Campenon Bernard. Seguiu-se a apresentação do sistema de injeção dos cabos de proten­ são. O laudo consistiu na recuperação dos documentos de projeto originais. geologia e geotecnia da região de Ernestina. XX e XXI duas direções: na direção vertical para resistir aos principais esfor­ ços e na direção transversal para garantir comportamento uniforme sem fissuração. qualidade do concreto e dos agregados. a CEEE contratou a execução de um completo lau­ do técnico de avaliação da estrutura da barragem de Ernes­ tina.Séculos XIX. na década de 90. Ao que tudo indica. Em 1963 foram instalados clinômetros junto aos pilares para co­ nhecimento dos deslocamentos e. Foi sugerido que fosse realizado monitoramento das vibrações para verificar o risco de amplificação dinâmica. com a posição dos cabos de protensão 280 . o sistema de protensão empregado. alguns estudos foram elaborados.00 m por medida de segurança. coordenado pelo engenheiro Marco Aurélio Azambuja. iniciado em 1954.

A solução para o reforço do vertedouro foi a transformação do mesmo em um maciço de concreto gra­ vidade com perfil Creager. sendo previstas fraturas na face de montante. A solução adotada para reforçar a barragem fora da região do vertedouro foi a construção Figura 11 – Fundação da barragem 281 . Os ensaios dinâmicos das cortinas mostravam perda grave de rigidez. de soleira vertente. os estudos hidrológicos e hidráulicos sugeriram capacidade insuficiente do vertedouro. sendo possível muitos desses cabos já tivessem se rompido ou viriam a fazê-lo brevemente. As condições de ve­ dação das cabeças de ancoragem e a presença de fluxo d’água nos bicos de injeção denunciavam que a corrosão nos cabos estaria avançada. Foi realizado um diagnóstico da qualidade dos materiais. Da mesma for ma. com a posição dos cabos de protensão de um maciço de enrocamento reforçado com grelhas metálicas. a estrutura poderia entrar em ressonância com o galgamento dos vertedores. foi desenvolvido projeto de reforço. A condição de ancoragem dos tirantes na rocha sugeria uma grande vulnerabilidade à corrosão. Com a estabilidade crítica para excitações dinâmicas. exigindo intervenções de manutenção. podendo ser esse fenômeno progressivo para os painéis e pilares. à semelhança de uma barragem convencional de enrocamento com face de concreto. Ao final do estudo foram apresentadas as informações que con­ cluiam estar Ernestina no final de sua vida útil. prova de carga dinâmica e verificação estrutural.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 10 . restauração e reforço. Assim. retirando-se as comportas e a passarela.Seções transversais típicas dos paineis do vertedouro da barragem de Ernestina. utilizando o paramento existente apenas como paramento de veda­ ção.

XX e XXI Figura 12 – Seção transversal típica do vertedouro reabilitado Figura 13.Séculos XIX.Obras de reforço do vertedouro 282 .A História das Barragens no Brasil .

Com a reforma. Figura 15 – Obras de reforço da barragem no trecho não submersível 283 . também concepção única no mundo. prolongando-se assim a vida útil da barragem.Seção transversal típica do trecho não submersível A obra de reforço estrutural en­ contra-se em fase de finalização (julho de 2011). a bar­ ragem em seu trecho não submer­ sível passará a ser uma barragem de enrocamento com face de mon­ tante verticalizada em concreto protendido.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 14 . A barragem de Ernestina pode ser considerada como a única no mun­ do com essa concepção original executada.

284 .

por meio de um amigo comum e também presidente do São Paulo Futebol Clube. Deposto o governador Adhemar de Barros. 285 . Laudo Natel. de chapéu. Bandeirante de Eletricidade (Belsa).A. Dai foi criada a CESP. advogado e são paulino! Souza Dias foi designado como o primeiro Diretor Técnico. Souza Dias. Companhia Luz e Força de Jacutinga e Figura 1 – Souza Dias. são paulino que era. Souza Dias. Seu idealizador foi o Dr. Francisco Lima de Souza Dias Filho. com Garcez em visita às obras de Ilha Solteira Usina hidroelétrica de Ilha Solteira a maior do sistema CESP Empresa Luz e Força de Mogi Mirim Centrais Elétricas de Urubupungá (Celusa). Em 27 de outubro de 1977 a CESP passou a ser Companhia Energética de São Paulo. sendo seu primeiro presidente Henry Aidar. inicialmente foi deno­ minada CESP Centrais Elétricas de São Paulo S. Empresa Melhoramentos de Mogi Guaçu.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Companhia Energética de São Paulo – CESP Fabio De Gennaro Castro A CESP Centrais Elétricas de São Paulo foi criada em 5 de dezembro de 1966. no governo Laudo Natel. vindo a exercer a terceira presidência entre 23 de março de 1979 a 27 de maio de 1982. em 1966. com área de atuação mais abrangente. pela unificação de todas as empre­ sas estatais de energia elétrica então existentes. os seus sonhos de unificação das empresas de energia elétrica do estado. As onze empresas que formaram a CESP eram: Usinas Elétricas do Paranapanema (Uselpa). que detinha o controle acionário de: Central Elétrica de Rio Claro (Sacerc) e de suas associadas. fez chegar ao então governador. Companhia Hidroelétrica do Rio Pardo (Cherp). que controlava: Companhia Luz e Força de Tatuí e Empresa Luz e Força Elétrica de Tietê Companhia Melhoramentos de Paraibuna (Comepa). assumiu seu vice.

Logo no início de seu mandato de governador criou o Departamento de Águas e Energia Elétrica DAEE. Foi também formadora da CESP. re­ motamente iniciando pela inauguração da Usina Hidroelétrica do Corumbatai. em Santa Rita do Passa Quatro.Séculos XIX.Fantinatto. e em 1923 a Empresa Melhoramentos de Mogi Guaçu.A.A História das Barragens no Brasil .A. Em 1931 foi fundada a Companhia Sanjoanense de Eletricida­ de. Souza Dias. incorporada à CESP em 1973. Figura 3 . todas formadoras da CESP. originando em 1962 a empresa estadual Bandeirante de Eletricidade S. encampada em 1953 pelo governo do paulista.A. assim como em 1919 também foi criada a Companhia Luz e Força de Jacutinga S. em 1895. Em 1915 foi fundada a Companhia Luz e Força de Tatuí.A. Arqueológico e Turístico do Estado de São Paulo. com o objetivo de ser a grande distribuidora de energia no estado. Em 1909 foram fundadas de forma independente a Empresa Luz e Força Elétrica de Tietê S. BELSA. pela sua visão técnica e também por ser formador e agregador de ca­ pacitações. Darcy Andrade de Almeida e Reynaldo de Barros em Jupiá 286 . interior do estado e pertencente à Com­ panhia Força e Luz São Valentim. que governou o estado de São Paulo de 1951 a 1955. Esta usina atualmente encontra-se totalmente res­ taurada e tombada pelo Patrimônio Histórico. XX e XXI Em 1912 Eloy de Miranda Chaves e outros empresários paulis­ tas adquiriram o controle acionário da Central Elétrica Rio Claro e a reorganizaram como SACERC. que foi comprada em 1923 pela Companhia Prada de Eletricidade. na função de diretor geral. chefiado pelo engenheiro Octávio Sampaio Ferraz. propriedade da Central Elétrica de Rio Claro. Em 1911 foi inaugurada a Usina Hidroelétrica São Valentim. Justiça deve ser feita à figura pública do professor Lucas Nogueira Garcez. José Gelazio da Rocha. e a Empresa Luz e Força de Mogi Mirim S. Figura 2 – Os engenheiros Souza Dias e Gelazio da Rocha em avião de Furnas Primórdios da geração hidroelétrica no estado de São Paulo Relevante também relembrar a situação anterior à criação.

Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens

As estaduais de economia mista foram:

Usinas Elétricas do Paranapanema S.A. USELPA
Nascera objetivando a eletrificação da Estrada de Ferro Sorocabana e tendo como meta a implantação da Usina Salto Grande no rio Para­ napanema, inaugurada em 28 de abril de 1958 e hoje merecidamente chamada Lucas Nogueira Garcez. Importante registrar a Comissão Mista Brasil Estados Unidos, instituída logo após o término da Segun­ da Guerra Mundial e sediada na então capital do País, Rio de Janeiro. Tal comissão canalizava recursos para auxiliar o desenvolvimento bra­ sileiro. Os dirigentes da Estrada de Ferro Sorocabana desenvolveram estudos para eletrificação da ferrovia e para tal conceberam que seria construída uma usina hidroelétrica no rio Paranapanema, Salto Grande. Foram pleitear recursos financeiros na referida Comissão Mista Brasil Estados Unidos. Junto com a negativa recebe­ ram a orientação que somente poderiam obter financiamento se fosse organizada uma empresa de economia mista espe­ cífica para tal finalidade. Daí foi criada a USELPA em 1953,
Figura 4 - Professor Lucas Nogueira Garcez

que obteve os recursos necessários e construiu Salto Grande. O principal executivo da USELPA era Dagoberto Salles Filho, o qual se apoiou na SERVIX, como projetista e construtora para as duas primeiras barragens e início da terceira. Posteriormente os planos feitos foram concretizados com a Usina de Jurumirim, hoje Armando A. Laydner,tendo a seguir iniciado a usina Chavantes, também no mesmo rio Paranapanema. Desnecessário mencionar que o objetivo de eletrificação da Estrada de Ferro Sorocabana deixou de ser prioritário.

O DAEE era organizado por Serviços de Vales. Quatro eram os vales abrangidos, a saber do Rio Pardo, chefiado pelo enge­ nheiro Souza Dias, o do rio Tietê, chefiado pelo engenheiro Catullo Branco, o do rio Paraiba, chefiado pelo engenheiro Antonio Graef Borba e o do rio Ribeira de Iguape, chefiado pelo en­ genheiro Dagmar Malet de Andrade. Foi o DAEE o embrião das mais importantes empresas de economia mista na área de energia elétrica do Estado de São Paulo, como será exposto neste texto. No governo Garcez também foi realizado o primeiro Plano de Eletrificação do Estado de São Paulo, que embora somente tenha sido formalizado no mandato sucessivo, em 1956, já fora posto em prática enquanto elaborado. Garcez também foi presidente da CESP por dois mandatos sucessivos, de 16/02/1967 a 20/03/1975, o que contribuiu fortemente para a continuidade da gestão. Onze foram as empresas agregadas para formar a CESP, cinco estaduais e seis empresas privadas, porém controladas pelas estaduais.

Companhia Hidroelétrica do Rio Pardo CHERP
Como já mencionado o Serviço do Vale do rio Pardo do DAEE era chefiado pelo engenheiro Souza Dias, o qual também participava da Comissão Mista Brasil Estados Unidos. Em 1952, o jovem engenheiro José Gelazio da Rocha foi convidado para integrar a equipe de Souza Dias e designado para estudar o

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A História das Barragens no Brasil - Séculos XIX, XX e XXI

aproveitamento de Limoeiro, hoje Armando de Salles Oliveira, dizendo que havia sido encarregado pelo Lucas Nogueira Garcez para construir as usinas do rio Pardo. Assim sendo acrescentou: “Você vai projetando e eu vou dando as orientações que você precisar.” Para realizar a missão foi constatado que não existia nem levantamento topográfico e menos ainda o perfil do rio em toda sua extensão. Gelazio contratou então o engenheiro Gustavo Pratti para tal escopo, ou seja, fazer o perfil do rio que daria assim origem ao plano de aproveitamento integrado de toda a bacia, com Graminha, duas barragens menores a jusante de Graminha, Euclides da Cunha e Limoeiro. Em 1954 o DAEE iniciou Euclides da Cunha, mesmo antes de ser criada a CHERP em 1955. Essa barragem teve o projeto de seu túnel de desvio feito pela TECHINT e executado pela NORENO do Brasil. Para construir o túnel de desvio de Graminha Gelazio fez um contato com Sebastião Camargo, com o objetivo de obter uma proposta, enquanto Dr. Souza Dias fez o mesmo com a Noreno. Ao ser procurado Sebastião perguntou ao interlocutor quem era seu chefe e por que o mesmo não estava presente, sugerindo que fosse marcada outra reunião com Souza Dias presente. Na segun­ da reunião Souza Dias acompanhou Gelazio e a Camargo Correa decidiu apresentar proposta. Venceu a concorrência por ter sido a única empresa proponente. O projeto da barragem de terra de Graminha foi feito pelo Professor Milton Vargas e o projeto das estruturas de concreto pelo engenheiro Henrique Herweg, ambos contratados com a chancela do IPT. Em 1955 era criada a CHERP, que embora somente tivesse rio Pardo em seu nome posteriormente também incorporou toda a responsabilidade do rio Tietê. A necessidade de sua criação foi decorrente de apresentar ao BNDES uma empresa de economia mista que tivesse projetos sólidos para obter seus recursos. Parale­ lamente às atividades do rio Pardo, o Serviço do Vale do rio Tietê, chefiado por Catullo Branco, realizou estudos à semelhança da­ queles do Tennessee Valley Authority TVA, que contemplassem o desenvolvimento integrado do vale, com barragens e usinas que gerassem energia e tivessem eclusas que viessem permitir

a navegação interior. Assim, em 1957, iniciavam-se as obras de Barra Bonita, com projeto da TECHINT. Em 1959 tiveram início as obras de Bariri, hoje Engenheiro Álvaro de Souza Lima, antigo diretor do DAEE e pai do professor Victor de Souza Lima. E em 1963 foram iniciadas as obras de Ibitinga. Os quadros da CHERP no setor Tietê contaram com ilustres engenheiros, tais como Geraldo Queiroz Siqueira, Jacob Leiner, Julio Petenucci e Reolando Silveira, além de Darcy Andrade de Almeida, que foi da área do rio Pardo.

Centrais Elétricas do Urubupungá S.A. CELUSA
Uma palavra inicial sobre a CIBPU Comissão Interestadual da Bacia Paraná Uruguai. Tal comissão, chefiada pelo Professor Paulo Mendes da Rocha, criada em 1952, tinha por objetivo o estudo e o desenvolvimento dos estados brasileiros que pertenciam às bacias dos rios Paraná e Uruguai. A CIBPU tinha recursos e contratara a empresa italiana Edison de Milão para desenvolver os estudos do aproveitamento do Salto de Urubupungá, no rio Paraná, junto à foz do rio Tietê. Em 1961 foi lançada a concorrência para as ensecadeiras da usina de Jupiá, no rio Paraná, concorrência essa vencida pela Camargo Correa. Lançada a concorrência para a obra principal, a vencedora Camargo Correa apresentou uma variante que fora estudada na França pela SOGREAH, pelo engenheiro Charles Blanchet. Tal alternativa apresentava vantagens sobre aquela estudada por Edison de Milão para a CIBPU. A variante foi aceita e exe­ cutada a usina de Jupiá que hoje é denominada Engenheiro Francisco Lima de Souza Dias. Eleito Carvalho Pinto como governador do estado, Plínio de Ar­ ruda Sampaio, de sua equipe, foi motivado por Gelazio para levar ao coordenador do Plano de Ação do Governo, Diogo Gaspar, a idéia de construir a usina hidroelétrica de Jupiá. Assim nasceu a CELUSA. Posteriormente, ainda no governo Adhemar de Bar­

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Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens

Figura 5 – Usina hidroelétrica de Jupiá

ros, foram iniciados os estudos e as obras de Ilha Solteira, com projeto THEMAG e obras da Camargo Correa. A THEMAG foi criada como um departamento técnico da CELUSA e também em caráter de exclusividade, o qual somente foi extinto por decisão da CESP, por ocasião do projeto do Metrô de São Paulo, quando a projetista ficou desobrigada de sua cláusula de exclusividade.

das cheias e contenção de várzeas, tendo construído com ma­ estria muitos quilômetros de “polders”. A COMEPA realizou ainda a usina de Jaguari e iniciou as de Paraitinga e Paraibuna, duas barragens formando um único reservatório com só uma casa de força ao pé de Paraibuna, com projeto Hidroservice e construção Camargo Correa.

Outras empresas de energia elétrica
Em 1962 foi criada a Bandeirante de Eletricidade S.A. BELSA. Em 1963 foi criada a Companhia Melhoramentos de Paraibuna COMEPA, por inspiração de Plinio de Queiroz. O antigo Serviço do Vale do Paraíba, que ocupava-se do rio Paraíba do Sul, preocupou-se prioritariamente com o problema

Estudos de inventário
Ainda na década de 60, foram desenvolvidos os estudos da Canambra, primeiros estudos de planejamento integrado, com critérios uniformes, que propiciaram condições técnicas de com­ paração e priorização de usinas em uma mesma bacia hidrográ­ fica. Na área de São Paulo foram muito importantes e também com papel de formação de técnicos.

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A História das Barragens no Brasil - Séculos XIX, XX e XXI

Figura 6 a – Barragem de Três Irmãos no rio Tietê com suas eclusas na margem direita

Figura 6 b – Barragem de Três Irmãos - entrada da eclusa inferior no lago intermediário

Consultores que atuaram nas hidroelétricas na área de São Paulo
Menção deve ser feita sobre os consultores independentes que atuaram na área de São Paulo, contribuindo para a garantia da qua­ lidade dos projetos e obras, assim como na formação de pessoas que com eles conviveram. Dentre eles podem ser citados Karl Terzaghi, Arthur Casagrande, Tom Leps , James Sherard, Victor de Mello, Don Deere, Milton Vargas, Roy Carlson, Manuel Rocha, Fernando de Oliveira Lemos, Charles Blanchet, Flavio H. Lyra, Ven Te Chow, Araken da Silveira, Evelina Bloem Souto, Vic­ tor Souza Lima e inúmeros outros que no dia a dia contribuíram para colocar a CESP na posição de destaque que ocupa.

senvolvimento do Canal Tietê-Paraná, como também pelas inúmeras eclusas construídas. Pode também ser afirmado que ela foi pioneira nos estudos ambientais. Chegou a ter vinte e cinco usinas, todas com alta expressão técnica e padrão de projetos, construção e operação.

Anos recentes
Em 1996 iniciou-se o processo de privatização do setor de energia do Estado de São Paulo. Em 1999 CESP passou por uma cisão parcial, sendo criada a Companhia de Transmissão de Energia Elétrica Paulista, a CTEEP e três empresas de geração. Hoje a CESP possui apenas seis usinas e sete barragens, pelo fato de Paraitinga não ter casa de força.

Navegação interior
A CESP detém o mérito de ter contribuído de forma ampla para o desenvolvimento da navegação interior no país, não só pelo de­

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Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens

Figura 7 – Usina hidroelétrica Porto Primavera (Sergio Motta)

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Usina Mauricio, primeira hidroelétrica da CFLCL

Usina hidroelétrica de Nova Maurício. Primeiro financiamento do BNDE para empresa privada, em 24 de agosto de 1954. Em operação desde março de 1956

Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens

Companhia Força e Luz Cataguazes Leopoldina – Energisa - Cem anos de luz na Zona da Mata
“A trajetória da CFLCL é exemplar para demonstração de que a livre iniciativa tem tanta vitalidade quanto a vida.” João Camilo Penna Flavio Miguez de Mello

Na virada do Século XIX para o Século XX o Brasil tinha apenas dez usinas geradoras totalizando 12.085 kW instalados. Nesse início de século na Zona da Mata Mineira, incentivados pelo agente executivo (equivalente ao atual cargo de prefeito) de Ca­ taguazes, Araújo Porto, destacavam-se o Senador José Monteiro Ribeiro Junqueira, o Dr. Norberto Custódio Ferreira e o comer­ ciante, político e banqueiro João Duarte Ferreira como homens que gerenciavam seus negócios com clarividência e se interes­ savam pelo desenvolvimento da tecnologia, principalmente pela incipiente aplicação da energia elétrica. Em 26 de fevereiro de 1905 os três fundaram a Companhia Força e Luz Cataguazes Le­ opoldina com capital de 400 contos de réis em quatro mil ações adquiridas por 263 investidores, com o objetivo de “exploração da eletricidade para fins industriais em suas diversas aplicações e comércio de materiais elétricos, dentro ou fora da república, principalmente nos municípios de Cataguazes e Leopoldina.” Pouco após um ano da fundação da empresa, dois dos três fundado­ res, João Duarte Ferreira e Norberto Custódio Ferreira renunciam a seus cargos de diretores para, respectivamente, cuidar de seus empreendimentos particulares e para assumir elevada posição no Banco do Brasil do qual assumiu a presidência em 1910.

Foi lançada concorrência (mesmo sem projeto) para a construção da primeira usina geradora, a hidroelétrica de Maurício, na cacho­ eira da Fumaça, no rio Novo. Oito concorrentes se apresentaram, tendo a obra sido alocada à Trajano de Medeiros & Cia, destacada indústria metalúrgica para os padrões do início do século passado. O contrato foi assinado em maio do ano seguinte. Pela primeira vez uma usina hidroelétrica foi construída por uma empreiteira ge­ nuinamente brasileira. Os primeiros estudos para o aproveitamento parcial da queda natural da cachoeira da Fumaça no distrito de Leopoldina foram desenvolvidos pelo engenheiro Eupídio de Lacerda Werneck, na época recém formado nos Estados Unidos. O potencial a ser aproveitado foi definido como sendo de 1,3 MW, suficiente para suprir de energia elétrica outros muni­ cípios da região como Rio Novo e São João Nepomuceno, bem como a fábrica do industrial Daniel Sarmento que fez um contra­ to de pré-venda de energia. A organização geral e as compras de materiais ficaram a cargo do engenheiro Otávio Carneiro e a res­ ponsabilidade da construção com o engenheiro Ferreira Martins. O engenheiro L. Luck, enviado pela Westinghouse, supervisionou as instalações elétricas. O engenheiro Paulo Saboia, recém chega­ do dos Estados Unidos, supervisionou as montagens. A primeira unidade geradora entrou em operação em 7 de julho de 1908.

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A História das Barragens no Brasil - Séculos XIX, XX e XXI

Figura 1 - Cachoeira da Fumaça no rio Novo, local da hidroelétrica de Maurício

Figura 2 - Cachoeira da Fumaça no rio Novo, local da hidroelétrica de Maurício

Figura 3 – Casa de força da hidroelétrica de Maurício

Figura 4 - Geradores da hidroelétrica de Maurício

Os primeiros anos consolidaram a empresa e, em 1915, apenas dez anos após sua fundação e sete anos de geração e distribui­ ção de energia elétrica, a empresa contava com ilustres investi­ dores de outras localidades de Minas Gerais, do Rio de Janeiro e de São Paulo entre eles o então presidente de Minas Gerais, Raul Soares de Moura, e o presidente da república, Wenceslau Braz. Em 1918 a empresa adquiriu a usina Coronel Domiciano de 360 HP que era concessão da Câmara Municipal de Muriaé, o que possibilitou que seus serviços fossem estendidos às localidades de Piedade, Laranjal, Palma, Guarani e Tebas, além da cidade de Coronel Domiciano.

Os anos vinte do século passado propiciaram expressivo crescimen­ to da indústria de energia elétrica. Uma das principais causas foi a rápida difusão dos serviços de bondes e de iluminação pública. Além disso, o perfil das indústrias modificava-se rapidamente; o recensea­ mento de 1920 revelara que a energia elétrica já assumia 47% da força motriz consumida pelas fábricas no País. Com o objetivo de su­ prir esse acentuado acréscimo de demanda, ocorreu intenso surto de instalações de novas hidroelétricas que ultrapassaram com folga a geração térmica.

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CINQUENTA ANOS DO COMITÊ BRASILEIRO DE BARRAGENS

Figura 5a – Barragem da hidroelétrica Coronel Domiciano Figura 5b - Usina hidroelétrica Coronel Domiciano

Imagens dos aspectos logísticos dos primeiros tempos da CFLCL

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A História das Barragens no Brasil - Séculos XIX, XX e XXI

Aquisições de empresas e de concessões foram realizadas pela Light nesse período principalmente no eixo Rio de Janeiro e São Paulo. A Cataguazes Leopoldina também entendeu o momento e adquiriu em 1920 a Companhia Pombense de Eletricidade que detinha a hidroelétrica de Santo Antônio situada no município de Rio Pomba e que, dada as suas desfavoráveis condições geotécnicas, teve que ser desativada. Iniciaram-se as atividades visando a implan­ tação de uma nova usina: a hidroelétrica de Ituerê que aproveita a queda natural da cachoeira do Sumidouro. A barragem de concreto tem 15 m de altura, imponente para a época, e 74 m de comprimen­ to de crista, fechando um vale estreito. O projeto foi comandado pelo engenheiro Vanor Ribeiro Junqueira, os equipamentos foram

contratados junto à Siemens e as obras ficaram a cargo da Christia­ ni Nielsen e da Trajano Medeiros & Cia. Inicialmente foi instalada uma unidade Francis dupla horizontal de 2,83 MW. A adução era feita com um trecho inicial de conduto em concreto armado com 3 m de diâmetro e 600 m de extensão; a adução em alta pressão foi executada em aço vindo da Alemanha. Entretanto foi verificado no início da montagem que não havia luvas de dilatação da tu­ bulação forçada. As luvas foram fabricadas em Jundiaí. A usina foi inaugurada em 16 de agosto de 1928 pelo presidente de Mi­ nas Gerais, Antônio Carlos Ribeiro de Andrade que, em discurso solene, afirmou que teve “a grande ventura (...) de acionar as máquinas da monumental instalação de Ituerê”.

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Construção do vertedouro de Ituerê com o desvio num vão rebaixado Figura 8 .A barragem de Ituerê e o vertedouro de soleira livre Figura 10 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens 6 7 8 9 10 Figura 6 .Cinematografando a inauguração da usina hidroelétrica de Ituerê 11 297 .Casa de força da usina hidroelétrica de Ituerê Figura 11 .Construção do vertedouro de Ituerê Figura 9 .Cachoeira do Sumidouro no rio Pomba. local da hidroelétrica de Ituerê Figura 7 .

O Código introduziu o absurdo instrumento do reconhecimento apenas dos custos histó­ ricos dos investimentos realizados pelos concessionários no am­ biente inflacionário vigente no País. estabelecendo a legitimidade da intervenção do Estado em atividades consideradas de importância para o interesse nacio­ nal. A situação de carência de energia perdurou até março de 1956 quando entrou em operação a primeira uni­ dade de 5. Nesse longo período. candidatura esta que foi oficialmente derrotada nas urnas.A História das Barragens no Brasil . O quadro estatizante do setor elétrico foi ampliado nos anos cin­ quenta. houve a expansão da intervenção do estado na economia a partir da promulgação da constituição de 1934 que.Séculos XIX. fortemente influenciada pela doutrina fascista e que instituíu um regime de exceção. mes­ mo porque nesse período se instalou a inadimplência no pagamento de energia fornecida para o serviço público de prefeituras. XX e XXI Os anos vinte foram também importantes para os funcionários da empresa que passaram a ter participação nos lucros. promulgado em 1934. Já em 1950 a empresa obteve permissão para proceder a um racionamento preventivo que se estendeu às fábricas de tecido em até três ve­ zes por semana. pela proibição de rea­ juste de tarifas de serviços públicos em função da inflação. A segunda unidade geradora só entrou em operação em abril de 1958. após trinta anos de intensa dedicação à empresa e com o ambiente economicamente hostil à iniciativa privada no setor elétrico. iniciati­ va patronal de vanguarda para a época. Foi datado do dia 24 de agosto de 1954. Norberto Custódio Ferreira faleceu e abriu caminho para o encerramento do ciclo dos fundadores da empresa na sua direção. Em 5 de fevereiro de 1935. passou a presidência para seu sobrinho. o contrato de empréstimo do Banco Nacional de Desenvolvimento para a construção da hidroelétri­ ca de Nova Maurício. tendo sido eleito pela Assembléia Constituinte em 1934 e se tornado ditador de 1937 até a queda do Estado Novo. A empresa ultrapassara a marca de 9. A crise econômica mundial de 1929 gerou profundas conseqüências nos cenários econômicos e políticos no Brasil que acarretaram con­ flito aberto com lançamento de candidatura de oposição na figura de Getúlio Vargas à presidência da república. O Código havia inicialmente sido preparado por Alfredo Valadão em 1907 com colaboração de Inácio Verís­ simo de Melo e José Castro Nunes. o que penalizou sobremodo as empresas privadas.000 consumidores e havia instalado mais de 900 km de redes de transmissão e de distribuição. além dos desconfortos que haviam sido introduzidos pelo Código de Águas e pela inflação que passou a ser acelerada nesse governo. dia do suicídio de Getúlio Vargas. já que João Duarte Ferreira havia falecido em 1924 e José Monteiro Ribeiro Junqueira. cerceando a expansão da capacidade instalada com nefastos reflexos na evolução do crescimento da economia nacional. Ormeo Junqueira Botelho ajustou a empresa às condições políticas e econômicas advindas da Constituição Federal de 1937. O Código de Águas gerou o confronto entre uma corrente interessada em manter os serviços de eletricidade com a iniciativa privada e outra corrente radical que pugnava por uma profunda intervenção estatal com a encam­ pação de concessionárias estrangeiras. o engenheiro Ormeo Junqueira Botelho forma­ do pela Escola Politécnica da Universidade do Brasil (UFRJ) em 1918. em 1945. pela primeira vez. tendo tido como uma das principais dificuldades a entrega dos equipa­ mentos encomendados em 1938 a países que se envolveram na II Guerra Mundial. a Cataguazes Leopoldina não passou incólume por essa legislação equivocada e pela II Guerra Mundial e teve que reduzir gastos. inserira um capítulo sobre a ordem econômica e social. Como as demais empresas do setor elétrico. A empresa se voltou à ampliação das capaci­ dades instaladas das usinas de Ituerê e Coronel Domiciano. Esse ambiente foi propício ao aparecimento do Código de Águas. tendo Getúlio assumido o comando de um governo provisório em novembro de 1930 com plenos po­ deres.58 MW da hidroelétrica de Nova Maurício que apro­ veita a queda total de 90 m da cachoeira da Fumaça. no governo Juscelino Kubitscheck. profundas modificações econômicas. Com a eclosão da revolução de 1930. aí incluídas a “exploração de quedas d’água para geração de energia”. 298 . o primeiro financiamento do Banco para uma empresa privada. investimentos e distribuição de dividendos aos acionistas. garantindo a manutenção dos serviços e não mais podendo expandi-los por longo período. sociais e políticas ocorreram no País.

Ormeo Junqueira Botelho na campanha eleitoral Figura 14 . engenheiro também formado pela Escola Politécnica da Universidade do Brasil (UFRJ). Figura 13 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 12 .Engenheiro Ormeo Junqueira Botelho No início dos anos sessenta o agravamento do cenário político e a aceleração da inflação que atingiu 80% ao ano com a impossibilidade de se obter a devida correção tarifária. No período entre 1962 e 1965 o engenheiro Ormeo Junqueira Botelho foi eleito deputado federal pela UDN. a presidência da empresa.Ormeo Junqueira Botelho com Tancredo Neves 299 . encontrou totalmente descapitalizadas as empresas priva­ das de energia elétrica. tendo nesse período transferido para o engenheiro Vanor Ribeiro Junqueira.

principalmente nas estatais federais. Esse decreto acabou com a concorrência e com os esforços para redução de custos. A empresa nesse novo cenário pode ampliar seu parque gerador instalando mais duas unidades geradoras em Maurício Nova que passou a ter 31 MW de capacidade instalada. que ocasionaram elevados índices de inadimplência que geraram o colapso da engenharia consultiva no País. Passou a haver a concentração de investimentos estatais em grandes obras hidroelétricas e no pro­ grama nuclear com a construção das usinas de Angra 1. Os constantes abatimentos nas tarifas produziram intensas cri­ ses de liquidez nas concessionárias.Engenheiro Ivan Müller Botelho 300 . implantado pelo ministro Mauro Thibau das Minas e Energia. tendo vindo a tempo de salvar as empresas de energia elétrica da destruição devida ao arrocho tarifário tão prolongado. A Brascan respondeu que venderia se tivesse o consenti­ mento do governo federal. Vanor teve como sucessor o enge­ nheiro Ivan Müller Botelho. Em 1977 a em­ presa ofereceu ao grupo Brascan US$ 330 milhões para adquirir a Light. XX e XXI Ao se aposentar em 1965. Em dezembro de 1974 veio novo golpe para as empresas eficientes: passa a vigorar a tarifa unificada independentemente das diferenças geográficas. A orientação do governo federal passou a ser voltada para a contenção da inflação e a reto­ mada do desenvolvimento. O Decreto 54936 de novembro de 1964. Somente em 1993 pela Lei 8631 é que as tarifas diferenciadas vol­ taram a ser praticadas. Bulhões de Carvalho e Roberto Campos. No final desse período o próprio governo federal adquiriu por US$ 380 milhões a Light. Em 1976 a Cataguazes Leopoldina adquiriu a Companhia Leste Mineira de Eletricidade na região de Manhuaçu. Durante um ano a empresa consultou o ministério de Minas e Energia sob Shigeaki Ueki sem obter qual­ quer resposta. nessa década o governo federal passou a utilizar as tarifas de energia elétrica para controle da inflação que retomava o ritmo do início dos anos sessenta. 2 e 3. autorizou a correção monetária do valor original do ativo imo­ bilizado. O Decreto 1383 passou a fazer com que a parcela da remuneração que ultrapassasse 12% ao ano fosse revertida para subsidiar as empresas com retorno inferior a 10% ao ano sobre os investimentos num cenário chama­ do de Robin Hood em que as empresas mais eficientes passaram a socorrer as menos eficientes. climáticas. A então chamada de realidade tarifária e serviço pelo custo veio proporcionar novo desenvolvimento do setor elétrico. No ano seguinte a empresa tentou adquirir a Companhia Mineira de Eletricidade. geomorfológicas. Entretanto. no Centro-Oeste e no Nordeste.A História das Barragens no Brasil . Com o advento do governo Castelo Branco ocorreu profunda e benéfica alteração na política eco­ nômica do País por terem composto o ministério dois políticos. esta até hoje (2011) ainda inacabada. Figura 15 . Entretanto. culturais e sociais. Os anos setenta foram iniciados sob o signo do Brasil Grande com Estado todo poderoso sob o excesso de consumo deno­ minado de milagre brasileiro. identificados com o li­ beralismo econômico mais ortodoxo.Séculos XIX. muitas delas concentradas no Norte.

a empresa ampliou as capacidades ins­ Figura 16 . Em 1997 a em­ presa adquiriu a Companhia de Eletricidade de Nova Friburgo CENF e a Empresa Energética de Sergipe ENERGIPE. localizadas em Santos Dumont e colocou em operação a hidroelétrica de Ervália de 6 MW instalados. No início dessa década a empresa começou o projeto da hidroe­ létrica do Gloria com barragem de concreto com 14 m de altura e taladas das hidroelétricas de Coronel Domiciano e Neblina II e adquiriu.02 por ação. Em 1999 a empresa criou a Cat-Leo para operar como produtor independente de energia elétrica. Catete e Xavier. Ituerê e Nova Maurício. concessões de serviço público. Com a aquisição da CENF a empresa passou a operar as hidroelétricas de Hans. estado do Rio de Janeiro.5 MW).8 MW instalados. como auto-produtora para suprir parte da carga de sua fábrica no Rio de Janeiro.Engenheiro Manoel Otoni Neiva em manobra considerada pela Comissão de Valores Imobiliários como tendo sido “ao arrepio da lei”. subsi­ diária da Vale. A usina. em 1999. as hidroelétricas de Anna Maria e Guary (6. a Cemig arrematou a Mineira de Eletricidade por Cr$ 2.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens adução por túnel. Nessa década. foram vendidas à Valesul. Com o falecimento de seu pai em fevereiro de 1990. somente em 1983 entrou em operação comercial com 13. o engenheiro Ivan Botelho assumiu a presidência do Conselho do grupo de em­ presas e o engenheiro Manoel Otoni Neiva assumiu a presidência da CPFL Minas onde se concentravam as hidroelétricas. projeto da Promon. Em 1991 as hidroelétricas do Gloria. Em 1999 a empresa adquiriu a Companhia Figura 17a – Barragem da hidroelétrica Sinceridade Figura 17b – Barragem da hidroelétrica Santa Cecilia 301 . todas situadas no rio Grande.

instalou as PCHs Ivan Botelho I. a Sociedade Anônima de Eletrificação da Paraíba Saelpa. tendo assumido a presidência da Energisa Minas o engenheiro José Antônio da Silva Marques. em apenas dois anos. Em segui­ da.5 MW instalados. Em 2004 o engenheiro Manoel Otoni Neiva se aposentou. Ivan Botelho II. Túlio Cordeiro de Melo. carinhosamente chamado de Zé Tunim. Ormeo Junqueira Botelho e Ivan Botelho III. o grupo. que veio a falecer prematuramente em 2009.Barragem da hidroelétrica Túlio Cordeiro de Mello (Granada) 302 .Séculos XIX. tendo sido substituído pelo engenheiro Gabriel Pereira. teve que se desfazer de algumas hidroelétricas acima em favor do grupo Brascan.A História das Barragens no Brasil . hoje Brookfield. Em 2000 a Cat-Leo construiu em 362 dias a PCH Benjamin Ma­ rio Baptista com 9. em 2000. XX e XXI de Eletricidade de Borborema CELB e. Figura 18 . para se capitalizar. Considerando a grande expansão do grupo em diversos ramos industriais e nas diversas aquisições de conces­ sões de distribuição de energia elétrica em outros estados.Engenheiro José Antônio da Silva Marques (Zé Tunim) Figura 19 . em Manhuaçu.

5 MW com apenas uma única unidade geradora 303 .Barragem da hidroelétrica Ivan Botelho I (Ponte) Figura 22 – Casa de força da hidroelétrica Benjamim Mario Baptista (Nova Sinceridade) de 9.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 20 Barragem da hidroelétrica Ormeo Junqueira Botelho (Cachoeira Encoberta) Figura 21 .

304 .

com foco na produção de energia elétrica por iniciativa dos engenheiros Manfredo Antonio da Costa. pelas mãos de Ataliba Vale. Fonseca Rodrigues e Usina hidroelétrica de Campos Novos. foi criada a Companhia Paulista de Força e Luz. direta ou indiretamente. O ponto de partida da CPFL foi a Empresa Força e Luz de Botucatu. em 1912 era criada a Empresa de Eletricidade de Araraquara. seguida da Empre­ sa Força e Luz Agudos-Pederneiras. José Balbino de Siqueira e outros capitalistas. na capital de São Paulo. para em 1919 incorporar a Empresa de Eletricidade de Bauru. isto em 1914. onde atual ou futuramente se possa explorar tal indústria. O artigo 3º de seu Estatuto Social dispunha que a empresa “terá por fim a exploração industrial da eletricidade em todas as suas variadas aplicações no Estado de São Paulo. promovendo ou auxiliando. exemplo recente de parceria da CPFL com outros agentes do setor elétrico na implantação de grandes hidroelétricas 305 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Companhia Paulista de Força e Luz . Já em 1913 incorporou a Empresa Força e Luz de São Manoel e a Companhia Elétrica do Oeste de São Paulo. Paralelamente.CPFL Fabio De Gennaro Castro No dia 16 de novembro de 1912. quaisquer empreendimentos que possam contribuir para o desenvolvimento do consumo de energia elétrica e também comércio de mercadorias relativas à indústria da eletricidade”. com ou sem privilégio.

Sistel.Usina hidroelétrica de Americana com 30 MW 306 . XX e XXI Ramos de Azevedo. em 1920. Petros e Sabesprev). sendo criada em 1875 a Companhia Campineira de Iluminação a Gás. Em 1957 entra em operação Peixoto. Em 1975 o controle acionário passa a ser exercido pela CESP. Bradesco e  Camargo Corrêa). Nos anos recentes a CPFL passou a atuar intensamente com outros parceiros em grandes hidroelétricas. e pela Bonaire Participações (que reúne os fundos de pensão Funcesp. atual Mascarenhas de Moraes.A História das Barragens no Brasil .Séculos XIX. no rio Atibaia Em novembro de 1997. que atuava em parte do vale do Paraíba. sem conseguir atender Campinas. Figura 1 – Barragem de Lavrinha Em 1927 o controle acionário da CPFL passa para a CAEEB. com a privatização. passou a controlar a Empresa de Eletricidade de São Paulo e Rio. Figura 2 . Em 1904 a firma Cavalcante Byington & Cia construiu a Usina Salto Grande no rio Atibaia também para iluminação pública. pois esta deveria ser atendida pela Companhia de Iluminação a Gás. em 1871 fora implantada a iluminação pública a querosene em Campinas. American & Foreign Power Company. inicia-se a construção da usina de Americana e da termoelétrica de Carioba. Em 1946 inaugurou-se a usina Avanhandava no rio Tietê. pelo Fundo de Pensão dos Funcionários do Banco do Brasil (Previ). Companhia Auxiliar de Empresas Elétricas Brasileiras S A. tais como as usinas hidro­ elétricas de Campos Novos e Foz do Chapecó. po­ rém de Itatiba e Souzas.55 MW. Por outro lado. o controle da com­ panhia passou para o atual grupo composto pela VBC Energia (Grupo Votorantim.Usina hidroelétrica de Salto Grande com 4. subsidiária da AMFORP. a qual. Figura 3 .

com 21 MW. São Gonçalo e Ninho da Águia. Paiol.Visão artística do arranjo da usina hidroelétrica de Foz do Chapecó 307 .Barragem da PCH Alto Irani. Varginha. Cocais Grande.Barragem de São Gonçalo com 11 MW Figura 5 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Em 2011 ocorreu a fusão da CPFL com a ERSA dando origem à CPFL Reno­ váveis. Figura 4 . tais como Alto Irani. Com isso o parque gerador foi ampliado com diversas outras usinas de pequeno porte. Corrente Grande. Arvoredo. Esta usina foi agregada a CPFL Renováveis pela fusão da ERSA e CPFL Figura 6 . Plano Alto.

308 .

desde e inclusive o Salto Grande de Sete Quedas ou Salto de Guaíra até a foz do rio Iguaçu. Como são Usina hidroelétrica de Itaipú.2011 Miguel Augusto Zydan Sória 1. o Anexo B – Des­ crição das instalações destinadas à produção de energia elétrica e das obras auxiliares. representando o Brasil. Introdução A hidroelétrica de Itaipu é fruto do Tratado celebrado em 26 de abril de 1973 pelo Brasil e pelo Paraguai para o aproveitamento dos recursos hídricos do rio Paraná. Com a finalidade de realizar o aproveitamento hidroelétrico. (Eletrobras).Itaipu Binacional 309 . e Alfredo Stroessner. no Brasil.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Breve Memória sobre a Usina de Itaipu 1966 . eram presidentes Emílio Garrastazu Médici. Fazem parte do Tratado o Anexo A – Estatuto. representando o Paraguai. pertencentes em condomínio aos dois países.A. e Raúl Sapena Pastor. Apresentamos neste capítulo um breve relato histórico sobre a obtenção desse ingente resultado por ambos os países. Barragem principal e condutos forçados Foto de Caio Francisco Coronel . notas reversais. pelo Brasil. pelo Paraguai. e o Anexo C – Bases financeiras e de pres­ tação de serviços de eletricidade. leis e protocolos. Nesse período. o Tratado cria a entidade binacional Itaipu. no Paraguai. instalada em 15 de maio de 1974 e constituí­ da com igual participação em seu capital pela Centrais Elétricas Brasileiras S. O Tratado é complementado por acordos. tendo como signatários os chanceleres Mário Gibson Barboza. e pela Administración Nacional de Electricidad (ANDE).

Registra a concepção da idéia e prescreve as estratégias de alto nível a serem seguidas. decorrentes estas das escolhas julgadas mais favoráveis. Fonte: livro “Usina Hidroelétrica de Itaipu . a qual constitui também o texto-guia deste trabalho. das referências bibliográficas exis­ tentes recomendamos pesquisa no livro “Itaipu Hydroelectric Project – Engineering Features” . Sugerimos que os leitores que esti­ verem interessados em conhecer informações técnicas sobre o projeto Itaipu consultem outras publicações.A História das Barragens no Brasil . abaixo. e o Quadro II. de modo resumido. mostram. Cronologia do Projeto Itaipu O Quadro I. nominando alguns de seus inúmeros protagonistas. limitamo-nos a apresentar refe­ rências sobre detalhes técnicos do empreendimento quando as descrições assim o exigirem.Aspectos de Engenharia”. publicada em 2009. XX e XXI muitos os aspectos da Itaipu possíveis de serem explorados. realizada em conjunto com o Paraguai -. ITAIPU Binacional 2009. 2. no caso de Itaipu. Como nosso intento é o de dissertar sobre a história da constru­ ção da hidroelétrica de Itaipu.Séculos XIX. Aspectos de Engenharia”. As menções feitas a eles devem ser consideradas uma homenagem a todos os que indistintamente participaram no esforço de construir Itaipu. A assinatura da Ata de Iguaçu. onde as encontrarão fartamente. Esses marcos nos permitem separar com nitidez as diferentes fases do processo de construção de Itaipu. as principais etapas e datas relativas ao Projeto Itaipu. anexo. por isso mais ligada à engenharia civil e à geologia. descreveremos as motivações e a concepção do projeto e enfatizamos os tópicos relacionados aos estudos prévios realizados e às obras civis. que possui versão em português “Usina Hidroelé­ trica de Itaipu. pode ser considerada como o momento que encerra a fase estratégica do processo. e considerando que a presente publicação se propõe a organizar em um único volume a memória das principais barragens cons­ truídas no Brasil para várias finalidades . editado pela Itaipu Binacional em 1994.e. Nesse sentido. 310 . em 1966.

Prevaleceu. (Itália). O entendimento diplomá­ tico abriu caminho para o início dos estudos técnicos. Em 26 de abril de 1973. porém. era impreciso ao determinar os limites entre os territórios na margem direita do rio Paraná. em vez de medir forças. colocando ambos os países em oposição. optaram por unir forças. a disposição de construir uma hidroelétrica para atender à demanda de energia elétrica foi motivo de desa­ cordo entre Brasil e Paraguai nos anos 60. A inauguração da Ponte da Amizade em 1965 alimentou o clima de cooperação ao oferecer a perspectiva de facilitar o intercâmbio comercial entre eles. e pelo cume da Serra de Maracaju. os dois go­ vernos. pela sua enorme importância. O entendi­ mento da questão sob esse prisma acabou por reverter totalmente a situação. E foi justamente o que aconteceu com Brasil e Paraguai no início da década de 60 com a desco­ berta do potencial hidroelétrico do rio Paraná. pois a indefinição quanto à posse das Sete Quedas interferia nos planos de um e de outro para o aproveitamento pretendido. (EUA) e ELC – Electroconsult SpA. Como resultado de intensas negociações. da socioeconomia. foi escolhido para a realização dos estudos de viabilidade e para a elaboração do projeto da obra. Em 1967. Mas. em 1966 foi assinada a Ata de Iguaçu pelos ministros das Relações Exteriores do Brasil. primeira descrição minuciosa da fronteira brasileiro-paraguaia. O consórcio formado pelas empresas IECO – International Engineering Company Inc. Motivação decorrente da política externa Para explicar a origem da motivação fundamentada na política externa remontamos a 1750. depois de adequada avaliação das propostas de diversos grupos qualificados. devido a circunstâncias intrínsecas. 3. No entanto. ano em que Espanha e Portugal assinaram em Madri o Tratado de Limites. as quais. Raúl Sapena Pastor. encerrou a disputa por terras na fronteira. Ao investigarmos a formação da demanda de energia naquele mo­ mento da história. Motivação decorrente da socioeconomia Conforme assinalado. o detalhamento completo dos limites da fronteira jamais foi concluído em face de desacordo entre as partes em relação à demarcação da Serra de Maracaju no trecho em que ela se divide em dois ramos. e a segunda. A solução proposta por um consórcio de empresas estrangeiras. no trecho do rio Paraná “desde e inclusive o Salto de Sete Quedas até a foz do rio Iguaçu”. sabiamente. energia em conjunto. con­ vergiram e se somaram. deparamo-nos com hábitos da sociedade que 311 . logo após o término da Guerra do Paraguai (1865-1870). uma Comissão Mista foi criada para implementar a Ata do Iguaçu. Em 1962. A declaração conjunta manifestava a disposição de estudar o apro­ veitamento dos recursos hidráulicos pertencentes em condo­ mínio aos dois países. pode dar causa a signi­ ficativos conflitos de interesses. Principais motivações para a construção de Itaipu A análise mais profunda dos acontecimentos que levaram à construção de Itaipu revela que duas foram as suas motivações primordiais. Esse brevíssimo repasse pela história nos serve para compreen­ der que a possibilidade de exploração de um grande potencial hidroelétrico. Brasil e Paraguai assinam então o Tratado de Itaipu. É importante frisar que era central nessa discussão a estratégica aspiração de suficiência no suprimento futuro de energia elétrica para os dois países. porém. O Tratado de Paz assinado em 1872. Juracy Magalhães. e do Paraguai. A primeira dessas motivações é oriunda da política externa. até o Salto.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens 3. pela pri­ meira vez cogitou-se de os dois países se unirem para produzir 3. um acima e outro abaixo das Sete Quedas.1. acabou por reabrir a polêmica em torno da fronteira na região das Sete Quedas porque estabelecia que os territórios deveriam dividir-se pelo rio Paraná. O texto. que pre­ via o alagamento de grande parte da área em litígio.2. a inteligência política quando se estabeleceu que a construção e o uso da futura instalação seriam realizados em conjunto.

dos citados fatores políticos e socioeco­ nômicos formaram o argumento de base para Brasil e Paraguai decidirem pela construção em conjunto de uma usina hidroelétri­ ca sobre o rio Paraná. tendo como pontos altos justamente o início. preponderantemente). de construção do futuro dos dois países. portanto. e de suas implicações nas demais infra-estruturas públicas e privadas que foram posteriormente implantadas. geotermia. Pelo lado da oferta. os dados da questão eram razoavelmente claros. ondas. A iniciativa de criação do CBGB foi dos engenheiros que naquela época estavam assumindo gradativamente a respon­ sabilidade pelas atividades técnicas relacionadas à implantação dessas barragens no País. que perdura até então mundo afora. sobreveio a crise mundial do petróleo. a segunda.A História das Barragens no Brasil . têm início a produção de etanol de cana-de-açúcar (Pró-Álcool – 1975). A decisão de construir Itaipu A conjugação. o que indicava autossuficiência de energia elétrica a médio prazo. numa miría­ de de aplicações cotidianas. A essas formas acresce-se hoje o emprego da biomassa e de outras fontes alternativas (eólica. E as previsões sobre a importância que viria a ter a hidroeletricici­ dade acabaram por se confirmar. O contraste. 3. incluindo o de Itaipu. Secundariamente. no trecho de fronteira fluvial entre os dois países. a pro­ dução de energia elétrica com base em energia atômica (Usina de Angra I – 1976) e a expansão da geração de energia de base hidráulica. de longo alcance. etc. onde disponível e viável.). proporcionadas por tecnologias cada vez mais inovadoras e sofisticadas. objeto de nosso relato. Paulo Afonso I (1954). en­ quanto a água que corre nos rios o é. A visão de “seguran­ ça energética” tomou então contornos dogmáticos. a primeira na inexplorada região Norte do País. A hidroeletricidade é. estimulando o rápido desenvolvimento de iniciativas em diversos segmentos no campo da produção de energia. Mas considerava-se também a possibilidade de aprovei­ tamento conjunto dos rios compartilhados com países vizinhos. A experiência na execução desses projetos proporcionou adicionalmente a acumulação do capital inte­ lectual. XX e XXI requeriam crescentes níveis de uso da eletricidade. um predicado. Foi antes de tudo. de profundos impactos na economia e no ordenamento social de muitas nações. uma decisão de cunho macroeconô­ mico. gás e petróleo. solar. É nesse clima de grande atenção ao tema energético nacional que foi criado em 1961 o Comitê Brasileiro de Grandes Barra­ gens (CBGB). Àquela época já se sabia que o potencial hidroelétrico dos rios interiores brasileiros era imen­ so. na região Sul. é a de produzir energia elétrica com o emprego de combustíveis fósseis (carvão. Três Marias (1962). consiste no fato de que os combustíveis fósseis não são renováveis.Séculos XIX. faz valer sua visão de “se­ gurança energética”. Em razão disso. que se inscreve na magnanimidade das políticas de estado. pelo lado da procura. Esse preciso diagnóstico feito com competência pelo meio téc­ nico acabou por ser em grande parte internalizado pela classe dirigente do país. em sociedade com o Paraguai. Dessa presciente decisão maior decorreram todas as demais. Ou seja. e constrói hidroelétricas de grande por­ te. portanto. que naquele momento não pas­ sou despercebido pelos estrategistas mais argutos. um diferencial competitivo. já nas décadas de 50 e 60. pois o Brasil evoluía da construção de barragens baixas e médias para barragens e hidroelétricas de grande vul­ to. A forma preferen­ cial. tendo reflexos profundos nas decisões toma­ das sobre a matriz energética brasileira. da construção das mega-hidroelétricas de Tucuruí e de Itaipu. de caráter mais técnico. Entre as principais. em 1975. que serviu mais tarde para os outros tantos projetos que foram realizados. coincidentemente o mesmo ano em que é assinado o Tratado de Itaipu. vem a pro­ dução de energia elétrica de base hidráulica e atômica. principalmente com a Argentina e o Paraguai. pois em 1973.3. Furnas (1963) e Jupiá (1968). o que podia ser feito de diferentes formas. não restava alternativa a não ser incrementar a produção maciça de energia elétrica nos níveis demandados. o Brasil. voltadas para a substituição de importações do petróleo. abrangendo os entendimentos prévios entres 312 .

assinada em 22 de junho de 1966. . dentro de um mesmo espírito de boa-vontade e de concórdia.. que intercedeu a favor do projeto perante o Congresso Nacional brasileiro. a produção de eletricidade. o vivo desejo de superar. traduzido pela Ata de Iguaçu. por sua vez.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens os dois países. o que revela o reconhecimento explícito das partes de que. tais como a decisão de dar início ao estudo e levantamento das possibilidades econômicas de uso dos recursos hidráulicos comuns. 313 . Para esse fim foi então contratado.2. a divisão da energia em partes iguais. então. projetista. no princípio da década de 60 cresce com rapidez a demanda de energia elétrica na metade Centro-Sul do Brasil. que se encerra com o Tratado de Itaipu.1. já estava ciente das potencialidades energéticas que representavam os aproximadamente 100 me­ tros de queda existentes no Salto Grande de Sete Quedas. Período preparatório Conforme salientado. complementado depois pelo Acordo Tripartite. na região mais meridional da porção brasileira da imen­ sa bacia hidrográfica do rio Paraná. documento que marca o início do período preparatório. fundada antes de tudo na amizade e no respeito mútuo cultivado entre os dois países. a contratação de estudos de alternativas de locali­ zação da obra. num projeto daquela envergadura. por fim. a execução da obra e montagem dos equipamentos e. o registro do entendimento a que chegaram os governos do Brasil e do Paraguai e que expressa irrefutavelmente o amadurecimento da ideia de construir Itaipu. O governo brasileiro. Foi. desviando-se o rio em trecho de fronteira e desconsideran­ do-se o aspecto binacional do sítio. 4. por conseguinte.200 kW de potência instala­ da em um dos braços das Sete Quedas. Ministro de Minas e Energia do Brasil de 1969 a 1974... a cessão da energia não utilizada e a necessidade de entendimentos com os estados ribeirinhos da Bacia do Prata. 4. não pode ser aceito porque se pre­ via sua implantação exclusivamente em território brasileiro. em 1967 foi criada a Comissão Mista Técnica Brasileiro-Paraguaia com a finalidade de realizar o estudo e o levantamento das possibilidades econômicas do aproveitamento hidroelétrico pretendido e apresentar o resul­ tado aos dois governos. contratada a empresa EMF. o Serviço de Navegação da Bacia do Prata já havia construído uma pequena hidroelétrica com 1. entre outras obras. é. quaisquer dificuldades ou problemas. Cabe destacar a atuação do engenheiro e economista Antonio Dias Leite Júnior. na época. faz prescrições sobre alguns aspec­ tos relevantes do empreendimento. visando ao aproveitamento hi­ droelétrico conjunto. 4. Foram esses os principais antecedentes do acordo prévio que Brasil e Paraguai alcançaram em 1966.. da usina de Paulo Afonso. com a supervisão de uma firma de consultores de engenharia. A Comissão Mista Técnica. em 10 de abril de 1970. O convênio estabelecia que o trabalho fosse realizado por um gru­ po de técnicos de ambos os países. por ocasião do enchimento do reservatório de Itaipu. a qual foi desmontada em 1982. o consórcio ítalo-americano IECO-ELC. A EMF propôs um aproveitamento hidroelétrico da ordem de 10 mil MW. sob a direção geral e coordenação de um Comitê Executivo. em 1959. A Ata de Iguaçu A “Ata de Iguaçu: Brasil – Paraguai”. que. a assinatura do Tratado de Itaipu. a constituição da Itaipu Binacional. eram esperados óbices de diversas naturezas para sua concretização. No documento consta “. O papel da Comissão Mista Técnica Para cumprir o disposto na Ata de Iguaçu. tal como será visto na con­ tinuidade deste trabalho. achando-lhes solução compatível com os interesses de ambas as Nações. em 18 de novembro de 1970. ”. porém. A Ata de Iguaçu. dirigida pelo engenheiro Octávio Marcondes Ferraz. após alguns estu­ dos realizados em 1955-56. a elaboração dos estudos e projeto de en­ genharia. Esses aspectos serão tratados com mais detalhes nas seções seguintes deste capítulo. portanto. Antes disso. firma convênio de cooperação com a Eletrobras e com a ANDE.

4. fluviometria. Santa Maria. 314 . XX e XXI Figura 1 . Laguna Verá. Foi então feita a classificação e análise das informações existentes e aquisição de dados adi­ cionais envolvendo a meteorologia. que envolveram levantamentos de campo. com todo o potencial concentrado em uma única usina hi­ droelétrica e (ii) Itaipu Baixo e Santa Maria. Disso resultou a indicação de dez locais possíveis para a construção de barragens (Guaíra. Itaipu. Os estudos de viabilidade Em 1 de fevereiro de 1971 foram iniciados os estudos do aprovei­ tamento. Além disso. os saltos hidráulicos líquidos seriam menores e os custos da potência instalada maiores. investigações geotécnicas e um inventário completo de al­ ternativas possíveis de projeto.Comissão Mista-Técnica Brasileiro-Paraguaia 4. condições geológicas e geotécnicas. duas barragens.3. A escolha do local Itaipu No cotejamento entre as duas alternativas finais selecionadas. assim como a disponibilidade de materiais de construção e seus meios de transporte. as estimativas de custos e os resul­ tados das simulações operacionais. Alex Gage.Séculos XIX. pluviometria. Arroio Guaçu. topografia. Porto Mendes. São Francisco. duas soluções se mostraram preferenciais: (i) Itaipu Alto. uma única barragem na ilha de Itai­ pu. a solução Itaipu Baixo e Santa Maria mostrou-se menos competi­ tiva porque os custos dos desvios do rio e dos vertedouros seriam duplicados. Puerto Embalse e Ilha Acaray) e 50 diferentes arranjos. a topografia. Comparando-se os arranjos. a serem desenvolvidos em quatro fases metodológicas. uma na ilha de Itaipu e outra 150 km a montante em Santa Maria.A História das Barragens no Brasil . com o potencial dividido em duas hidroelétricas. sedimentação. análises hidrológi­ cas.4.

Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 2 .5% maior e a energia firme por volta de 33% superior à da combinação Itaipu Baixo e Santa Maria. Ou seja. No final de dezembro de 1972. W. que deu nome ao empreendimento. que significa na língua tupi “a pedra que canta”. foi apresentado o relatório sobre o estu­ do preliminar de viabilidade. a pouco mais de 20 quilômetros da confluência com o rio Iguaçu. Por outro lado. A partir daí passou-se a utilizar a denominação Itaipu simplesmente. quase sem­ pre submersa. Delgado. que indicou como mais favorável o projeto Itaipu Alto. Figura 4 . o que foi aceito pela Comissão Mista Técnica. a capacidade instalada para Itaipu Alto seria 5.Trabalhos de sondagem na Ilha de Itaipu .1972 a geologia e as condições de vazão do rio também encareceriam os custos em Santa Maria.A partir da direita: Pierucci. R. Giovanni Salerno e Piero Sembenelli (todos da IECO-ELC). cujo maru­ lhar provocado pela correnteza inspirou os indígenas a chamá-la “Itaipu”. 315 .Ilha de Itaipu – rio Paraná Figura 3 . A ilha de Itaipu. o consultor Arthur Casagrande e outros não reconhecidos – 1973. após a realização das três primeiras fases previstas na metodologia. concluiu-se que o esquema com uma única barragem fornecia maior capacidade instalada ao menor custo por quilowatt (kW). era localizada logo após uma curva acentuada do rio Paraná. Ela consistia em um afloramento de rocha. Taboada.

Séculos XIX. 316 . oportunidade em que se optou pelo prosseguimento do projeto Itaipu. e em igualdades de condições. sendo seus documentos oficiais redigidos em português e espanhol. XX e XXI oportunidades iguais para mobilização da força de trabalho e para a realização dos fornecimentos em geral. didas prévias que o viabilizaram. não aplicação de impostos (mediante isenções fiscais) e de algumas restrições administrativas. o que inviabilizava investimentos com uso de recursos próprios.A História das Barragens no Brasil . Essa deci­ são possibilitou o avanço dos entendimentos que resultaram na redação do Tratado de Itaipu. Essa harmonização de interesses contribuiu para que se estabelecesse o “espírito binacional” que reinou durante toda a empreitada e perdura até hoje. tendo-se como limite apenas a capacidade de cada um. O Tratado de Itaipu O Tratado de Itaipu. regendo-se por normas esta­ belecidas no próprio Tratado e seus anexos. para detalhar o “como fazer” no empreendimento.6. O acordo foi feito de modo equilibrado. atribuindo a ambos os países o mesmo poder de decisão e. Essas altas cifras. A singular engenharia econômico-financeira do projeto As simulações de custo do projeto que foram feitas na fase inicial dos estudos de viabilidade já indicavam a necessidade de recur­ sos financeiros da ordem de bilhões de dólares americanos para a execução das obras. com igual participação no capital. com detalhamento e profundidade adequados à obtenção de empréstimo perante os organismos financeiros internacionais. A ITAIPU foi então constituída pela Eletrobras e pela ANDE. Na continuidade. a divisão da energia pro­ duzida em partes iguais e o estabelecimento da obrigação de aqui­ sição por um país da energia não utilizada pelo outro país para seu próprio consumo. basicamente. 4. ultrapassavam em muito a própria economia do Paraguai. 4. se já eram onerosas para o Brasil.Consultor Arthur Casagrande (à esquerda) e Piero Sembenelli (IECO-ELC) na travessia do rio Paraná .1973 Administração e uma Diretoria Executiva integrados por igual número de nacionais de ambos os países. foi apresentada uma minuta do re­ latório final de viabilidade à Comissão. Os três anexos do Tratado servem. em julho de 1974. O Tratado também define que a ITAIPU é administrada por um Conselho de Figura 5 . portanto. o instru­ mento-chave de consolidação do acordo alcançado pelo Brasil e pelo Paraguai para a execução do aproveitamento hidroelétrico.5. que são: a possibilidade de aporte de recursos financeiros mediante operações de cré ­ dito. é. a Comis­ são Mista Técnica determinou que fosse realizado pelos con­ sultores estudo completo de viabilidade para confirmação da alternativa escolhida. na medida do possível. de 26 de abril de 1973. De modo a conferir a adequada segurança jurídica ao acordo. O relatório final dos consultores foi apresentado posteriormente. superando divergên­ cias pretéritas. Algumas disposições do Tratado refletem a adoção das me­ Em 12 de janeiro de 1973. o Tratado foi ratificado pelos poderes legislativos de ambos os países no mesmo ano de 1973.

utilizando aproximadamente 92% da energia gerada pela usina. Para garantir que a totali­ dade da potência disponível da ITAIPU fosse sempre contratada. Para que se alcançasse a constância de receitas almejada. enquanto o Paraguai não conseguiria fazer o mesmo. com uma média estimada da ordem de 70 milhões de megawatts-hora por ano (MWh/ano). Para aferir o grau dessa responsabilidade. va­ riável -. dependendo das condições hi­ drológicas na bacia do rio Paraná e do grau de regularização a montante da barragem. Essas duas disposições viabilizaram economicamente o empreendimento. respectivamente.medida em MWh. com 18 unidades geradoras operando. acompanhados pelos chanceleres Raúl Sapena Pastor (esquerda da foto) e Mário Gibson Barboza.Assinatura do Tratado de Itaipu em 26 de abril de 1973 . produziria anualmente uma quantida­ de variável de energia. o Brasil em 2011 assume cerca de 95% de todos os encargos da ITAIPU. encargos financeiros e demais itens de custeio do empreendimento se­ riam depois pagos com as receitas resultantes da produção de energia elétrica da própria usina. assegurando assim o necessário suporte dos gastos a serem realizados nas diversas frentes de obra. portanto. os gover­ nos do Brasil e do Paraguai resolveram então adotar um modelo de comercialização pelo qual as contratações anuais seriam feitas não pela produção de energia . pois o Brasil. o Brasil e o Paraguai se comprometeram a contratar conjuntamente o total da potência instalada da usina. pelo financiamento integral do Projeto Itai­ pu por meio de empréstimos bancários. passou a assumir todas as incertezas financeiras e de mercado associadas a um empreendi­ mento desse porte. medido 317 . por meio da Eletrobras. Optou-se. o Brasil estaria apto a ab­ sorver a metade que lhe corresponderia. Paralelamente.Presidentes Alfredo Stroessner (Paraguai) e Emílio Garrastazu Médici (Brasil). mas pela potência do conjunto gerador da usina. o Brasil. quando estivesse completa. na prática. e. concordou em celebrar contratos com a ITAIPU de forma que o total da potência contratada fosse igual à potência instalada. assim. Dessa imensa quantidade de energia. e assim viabilizar economicamente o empreendimento. pois só utilizaria para consumo próprio algo em torno de 10% de sua metade. Ficou definido que os empréstimos.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 6 . Os modelos matemáticos utilizados nos estudos de viabilidade indicaram que a hidroelétrica.

Isso acarretava para o comprador au­ mento do componente de custeio devido à energia adquirida da Itaipu sempre que o consumo fosse inferior à capacidade contratada. as avaliações feitas indicaram que. Figura 7 . A prestação do serviço de eletricidade seria então remunerada pela capacidade de produção posta à disposição do usuário. esta pagaria sempre pelo direito de ter potência energética à sua disposição. 5. às demais enti­ dades compradoras a elas vinculadas. tornando suportável desse modo os efeitos da contratação por potência sinalizado para o Projeto Itaipu. por sua vez. ele teria condições de absorver e diluir eventuais variações de demanda para menos que viessem a ocorrer. Constituição da Itaipu Binacional Cumprindo o disposto no Tratado e seus anexos. em razão de o setor elétrico brasileiro ser de grandes proporções. O Paraguai ficava.1. praticamente blindado contra os efeitos dessas sazonalidades. XX e XXI em MW. e Enzo Debernardi. em 15. assim. mesmo que nada fosse consumido pela entidade compradora. em uma fase predominantemente de intervenção na realidade. Tal modelo acabou por constituir o fator diferencial que selou a decisão de construir Itaipu. é claro. Como o Brasil consumiria a maior parte da energia produzida. do Brasil. Ou seja. com a presença dos Presidentes Ernesto Geisel.A História das Barragens no Brasil . na transferência das incertezas para a Eletrobras e para a ANDE. e Alfredo Stroessner. sendo nomeados Diretores-Gerais José Costa Cavalcanti. Contudo.Constituição da Itaipu Binacional em 17de maio de 1974: Presidentes Alfredo Stroessner (Paraguai) e Ernesto Geisel (Brasil) 318 . do Paraguai. grandeza invariável cujo valor seria fixado nos limites de potência necessários à produção da “energia garantida”. viabilizando-o defini­ tivamente. e destas. exemplificandose pelo extremo. os Ministros das Relações Exteriores e de Minas e Energia do Brasil conjuntamente com os Ministros de Relações Exteriores e de Obras Públicas e Comunicações do Paraguai deram posse nos respectivos cargos aos Membros do Conselho de Administração e da Diretoria Executiva.1974 é efetuada a instalação da ITAIPU Binacional. pelo Brasil. o maior impacto dessas incer­ tezas recairia sobre seu setor elétrico. Execução do projeto Atendidas as condições necessárias ao desenvolvimento do proje­ to. e estar em expansão. independente­ mente do que fosse consumido de energia. 5.05.Séculos XIX. em seu patamar mais elevado. pelo Paraguai. passou-se então à sua execução. Para esse fim. Esse modelo implica.

José Costa Cavalcanti (1974-85). Figura 8 . Jorge Nacli Neto (1991-93). para instalação dos serviços administra­ tivos. Euclides Girolamo Scalco (1998-2002). tendo sido posteriormente definida a área total delimitada. são destinadas áreas de terras no Paraguai.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Logo após. para a edificação da vila residencial para os trabalhadores. e. Estavam desse modo estabelecidos o local. 319 . Antonio José Correia Ribas (2002-03). são então destinadas áreas de terras no Brasil para a construção da hidroelétrica. posteriormente. para as instalações do aproveitamento hidroelétrico e suas obras auxiliares. organização e direção das atividades da Itaipu. Ney Aminthas de Barros Braga (1985-90).Organograma geral da ITAIPU Binacional Foram Diretores-Gerais Brasileiros. o orçamento inicial. Francisco Luiz Sibut Gomide (1993-95). Desde 2003 o cargo é ocupado por Jorge Miguel Samek. Altino Ventura Filho (1998). a estratégia de alto nível. Fernando Xavier Ferreira (1990-91). para a formação do reservatório. em caráter parcial. De igual manei­ ra. Euclides Girolamo Scalco (1995-98). o aparato organizacional e o instrumental necessários ao início da execução do projeto. responsáveis pela coorde­ nação.

A partir da esquerda: Luis Carlos Domenicci (Unicon). (v) os ensaios em modelo de regulari­ zação do rio e instalações para navegação. José Roberto Monteiro (Itaipu) e Flavio H. 5. Belloni.2. P. concluindo pela instalação de Figura 10 . (iii) os estudos da frequência das enchentes. Esse relatório final incorporou: (i) os estudos hidrológicos levados adiante. passou-se à realização da quarta e última fase dos estudos de viabi­ lidade do projeto. na ordem de 62.Séculos XIX. Edwin Smith . Superintendente da Obra). de maneira concatenada. (viii) o arranjo geral. (ix) o vertedouro.3. e (xi) a casa de força. portanto logo após a instalação da ITAIPU Binacional. decorrente do fato de que o Brasil adota a frequência de 60 Hz e o Paraguai de 50 Hz. Arthur Casagrande (consultor). Nauroz Khan (gerente do estudo de viabilidade). Arthur Casagrande. na escala 1:100. vários grupos especialistas. Rubens Vianna de Andrade (Itaipu. Estudos e investigações confirmatórios Com vistas a cumprir a determinação da Comissão Mista Técnica para que fossem desenvolvidos pelos consultores estudos de viabilidade adicionais e de confirmação da alternativa escolhida.Grupo de engenheiros com os consultores. na margem direita. Projeto de engenharia: dados básicos e características Com base nas prescrições do relatório final de viabilidade do em­ preendimento a partir do segundo semestre de 1974 deu-se início a ampla mobilização de pessoas e empresas no Brasil. detento­ res de conhecimentos compatíveis com as necessidades técnicas de Figura 9 . (ii) a enchen­ te de projeto do vertedouro. Superintendente de Engenharia).1974 5. com o emprego de técnicas apuradas de gerenciamento de projetos. (vi) as unidades geradoras principais. José Gelazio da Rocha (Itaipu. Gallico . A. (vii) a dupla frequência. Sembenelli.600 m3/s.A História das Barragens no Brasil . Piasentin. A partir da esquerda: Castro. no Paraguai e em outros países. (iv) a capacidade instalada da usina. (x) as barragens. Lyra (Chairman do Board de Consultores da Itaipu) – outubro de 1977 320 . cujo relatório foi apresen­ tado em julho de 1974. XX e XXI 18 unidades de 700 MW. Don Deere. foram forma­ dos. Consoante a complexidade e importância da tarefa. para elaborar o projeto de engenharia de Itaipu.

Arthur Casagrande. e mediante os resultados dos testes e verificações feitos na fase de projeto. relacionando somente as principais empresas participantes. em razão do aprofundamento dos estudos. Fernão Paes de Barros. por sua vez. reservatório. Lyra (Chairman do Board de Consultores da Itaipu) – outubro de 1977 321 . Don Deere. Orlando Gomes dos Santos e Flavio H. igualmente tratadas por especialistas de diversas áreas. desempenhou a função de Coordenador-Geral do Projeto. Figura 11 . naquela fase. A diretriz geral que marcou essa etapa essencialmente conceptiva do Projeto Itaipu foi a do emprego incondicional de critérios de excelência técnica mundialmente disponíveis para projetos des­ sa natureza. foram subdivididas em diversas outras. Essas partes principais. que. casa de força e equipamentos de geração de energia. Klaus John. vertedouro. anexo. que se refletiram posteriormente em toda a cadeia de processos.A partir da esquerda: Corrado Piasentin. o arranjo geral das instalações permanentes foi diferente em alguns aspectos daquele definido durante a fase de viabilidade.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens dimensionamento e especificações das principais partes da hidroe­ létrica: estruturas de desvio. O Quadro III. Isso necessariamente implicou o atendimento de rigorosas exigências. Conforme mencionado. barragens e ensecadeiras. Cabe destacar que a Itaipu manteve a liderança do processo a cargo do consórcio internacional IECO-ELC. pois não se revela possível nes­ ta memória resumida listar as muitas outras empresas e profissionais que participaram do esforço. de subprojetos e de esquemas organizacionais do empreendimento. apresenta uma síntese das principais atividades desenvolvidas nessa etapa de estudos e projetos. Gurmukh Sarkaria (Coordenador-Geral da IECOELC). representado pelo experiente Engenheiro Gurmukh Sarkaria.

a geometria e a disposição territorial do conjunto. exigiram o emprego de tratamen­ tos subterrâneos para assegurar sua estabilidade frente às cargas a serem suportadas. Superintendente da Obra). que jazem sobre grandes derrames basálticos da bacia superior do rio Paraná. que definiram a deformabilidade e a resistência dos diversos tipos de brecha. o cálculo e dimensionamento das fundações das barragens e das demais estruturas a serem erigidas. por conse­ guinte. poço de investigação e de acesso. Esses consultores. escavações de trincheiras. por meio de sondagens e perfurações. áreas fraturadas e zonas cisalhadas. Dessas investigações. Essas descontinuidades. partiu-se para as investigações geotécnicas. encontradas na forma de juntas. e.4. apre­ senta uma relação dos principais ensaios e estudos especiais realizados e das instituições que os conduziram. relacionados no Quadro IV. basalto vesicular e basalto denso. e Diretores-Gerais José Costa Cavalcanti (Brasil) e Enzo Debernardi (Paraguai) – dezembro de 1977 A Itaipu manteve um painel permanente de consultores inter­ nacionais (Board). que foram devidamente instrumentadas para posterior monitoramento. contatos. os recursos de simulação auxiliaram significativamen­ te nas decisões dos projetistas. Caracterizada a geologia da área do projeto e do reservatório. bem como identificaram as principais descontinuidades existentes no subsolo de assentamento das fundações. especialistas e firmas encarregadas dos ensaios em modelos para resolverem problemas específicos de engenharia civil e aspectos ligados ao projeto. foi também prescrita a execução de injeções. poços e túneis para verificação e a realização de ensaios in situ e ensaios em laboratório. com o emprego principalmente de chavetas de con­ creto na descontinuidade da margem direita. Fundações: investigações geológicas e geotécnicas Definido o arranjo geral das instalações permanentes e.Séculos XIX. As­ sim. 5. XX e XXI Figura 12 . anexo. complementares às estruturas das fundações. representativos do conhecimento acumulado no mundo até aquela época em projetos hidroelétricos. tendo em vista 322 . fabricação e funcionamento dos geradores. Foram também mobilizados muitos consultores. de maior extensão e volume.Rubens Vianna de Andrade (esquerda. O Quadro V. anexo. bem como do projeto e da fabricação das unidades geradoras. cortinas de injeção e de drenagem.A História das Barragens no Brasil . se reuniam re­ gularmente para analisar aspectos especiais do projeto e da cons­ trução das obras civis. furos e túneis de drenagem. pôde-se dar início ao aprofundamento das investigações geológicas e geo­ técnicas feitas na Fase 1 dos estudos de viabilidade. nas fundações da barragem principal no leito do rio.

John Cabrera. 5. Flávio Decat de Moura (1993-95). e Maurício Muller – maio de 1977 ainda não existiam normas avançadas de controle de qualidade. merece menção especial a contribuição do La­ boratório de Materiais e Concreto da Itaipu (que atualmente se denomina Laboratório de Tecnologia do Concreto da Itaipu – LabTecon). Planejamento e organização dos trabalhos A Itaipu. e com dinâmica adequada à velocidade de construção da obra. Roberto Ramón Acosta Alvarez. tais como as séries ISO. Nesse sentido. a calha do vertedouro e a fundação da barragem de enrocamento. que tiveram seu advento nos anos seguin­ tes. se previsse o início em 1975 de diferen­ tes frentes de trabalho em paralelo. Márcio de Almeida Abreu (1991-92). o que permitiu que.6. passou-se para a cons­ trução da barragem principal e do vertedouro e da casa de força. definiu que no ano de 1983 seria iniciada a operação da primeira unidade geradora. suas ensecadeiras em arco e a estrutura de controle nele existentes. construção das obras e operação das instalações: John Reginald Cotrim (1974-85). Desde 2002 o cargo é ocupado por Antonio Otelo Cardoso. Sendo a construção do canal de desvio a atividade mais crítica. e desviado o rio. Marcos Antônio Schwab (1995-96) e Altino Ven­ tura Filho (1996-2002). em 1975.5. foram en­ tão separadas as atividades que dela independiam. No laboratório foram adotados padrões até mais exigentes do que aqueles que essas normas depois vieram a estabelecer. A partir da esquerda: Minervino Buosi. as obras civis tiveram início com a execução de vá­ rias frentes conjuntas de escavações. Tratava-se de uma operação complexa. a cronologia e a organização dos trabalhos a serem realizados. Szolt Gombosy. 323 . Rubens Vianna de Andrade (1990-91). Conclu­ ído o canal de desvio. era importante assegurar direitos laborais e proteção social que favorecessem a recepção e a perma­ nência do expressivo contingente de trabalhadores e suas famílias na área do projeto. pela expressiva monta das di­ mensões e volumes envolvidos na construção da usina. Essa decisão determinou o planeja­ mento. situado no contexto geral do Sistema de Qualidade das Construções de Concreto. 5. envolvendo algumas importantes obras civis e diversas encomendas de equipamentos e componentes eletromecânicos com perfil de fornecimento de longo prazo. Nelson Infanti Jr. no programa de construção.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Por essa lógica. tendo como mais volumosas o próprio canal de desvio.Grupo de geólogos das projetistas se apronta para inspecionar os túneis e poços. O material das escavações foi utilizado para a construção das ensecadeiras principais no leito do rio Para­ ná e da barragem de enrocamento na margem esquerda. Foram Diretores Técnicos brasileiros da Itaipu. Relações do trabalho e previdência social Para o normal andamento da obra. Na época de sua implantação (1975-76) Figura 13 . parte desta última no leito do rio ao pé da barragem principal e parte dela ao pé da estrutura do desvio. Roberto Lei­ te Schulman (1985-90). segundo indicou a rede CPM (Critical Path Method) elaborada. responsáveis pela condução do projeto.

No Quadro VI. é também assinado. iniciando-se em outubro de 1975 pela escavação do canal de desvio e terminando em julho de 1979 com o esgotamento da área de trabalho entre as ensecadeiras principais. XX e XXI Para tanto. hospitais. em 11.09. Na mesma linha. as matérias relativas a higiene e a segurança do trabalho são objeto de acordo complementar ao Protocolo. com a constru­ ção do canteiro e da infraestrutura. água. o Protocolo Adicional so­ bre Relações do Trabalho e Previdência Social relativo aos contratos de trabalho dos trabalhadores. em maio do mesmo ano.1974. foi assinado pelo Brasil e pelo Paraguai. as conhecidas CIPAs.Séculos XIX. segurança física e de assistência social aos trabalhadores e suas famílias.A História das Barragens no Brasil . e estradas pavimentadas permanentes para garantir o transporte de pessoal. clubes e áreas de lazer. independentemente de sua nacionalidade. aos trabalhadores contratados pela Itaipu. escolas.7. Foi também melhorada e expandida a rede viária existente para integrar as instalações do projeto com as cidades da área e organizados serviços de coleta de lixo. dos empreiteiros e subem­ preiteiros de obras e locadores e sublocadores de serviços.1974. em matéria do direito de trabalho e previdência social. à época. creches. Execução das obras civis As obras tiveram início em janeiro de 1975. 5.02. em 10. centros comunitários. que foram concluídas em 1991. começaram as obras civis propriamente ditas.5 acima. Logo depois. Figura 14 . Por sua impor­ tância e complexidade. como mencionado no item 5. em ambas as margens. o Protocolo sobre Relações de Trabalho e Previdência Social. Roberto Monteiro. anexo. materiais e equipamentos. redes de serviços de eletricidade.Ultima inspeção das adufas e do canal antes do desvio do rio Paraná em outubro de 1978. uma vez que as cidades de Foz do Iguaçu e Puerto Stroessner. Da esquerda para a direita: José Augusto Braga (Itaipu).8. O desvio do rio Paraná se deu em quatro etapas. Essas obra incluíram conjuntos habitacionais. estabelecendo as normas jurídicas aplicáveis. em que também é previsto a constituição de comissões de prevenção de acidentes de trabalho. consta a relação dos consórcios e empresas que as executaram. não dispunham de condições de absorver os contingentes humanos que a elas afluiriam em breve. Ronan Rodrigues da Silva (Diretor de Construção da Unicon). Infraestrutura de apoio Foram implantadas obras de infraestrutura destinadas a abrigar e dar assistência aos trabalhadores brasileiros e paraguaios das várias empresas contratadas para executar as obras e serviços. esgoto e comunicação. Francisco Andriolo e Ademar Sonoda (todos da Itaipu) 324 . As obras do desvio têm como elementos 5.

observar seu desempenho hidráulico e seu desempenho estrutural e os processos erosivos de jusante. testes de funcionamento e seu fechamento final que aconteceu em 13. que compõem o arranjo geral da Itaipu. Foram então executados a estrutu­ ra da crista.200 m3/s por meio de três calhas com trampolim. as calhas. sendo reali­ zados ensaios e estudos em modelo hidráulico necessários ao projeto e fabricação de seus componentes. que são os principais componentes que formam a geometria dessas estruturas. os trampolins e as galerias. os muros. A barragem de enrocamento da margem esquerda (1.984 m de com­ primento) e as barragens de terra existentes na margem esquerda (2. Don Deere e Arthur Casagrande – outubro de 1978. o túnel rodoviário. Atenção es­ pecial foi dada às comportas de desvio e seu fechamento. com capacidade de evacuar 62.294 m) e na margem direita (872 m). a estrutura de controle do desvio. e que depois receberam as respecti­ vas comportas e equipamentos associados. requereram em suas extremidades zonas de transi­ ção para contato entre si e dispositivos de abraço para contato com as estruturas de concreto (barragem de contrafortes e vertedouro). localizado na margem direita do rio Paraná. que exigiram os cuidados executivos de costume para terraplenos com essa tipologia. com o enchimento do reservatório.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 15 . testes nos trampolins e análises dos efeitos erosivos a jusante. Uma das fases mais importantes e críticas foi o fechamento do rio Paraná e seu desvio para o canal e a estrutura de desvio. As comportas de desvio foram posteriormente recuperadas e recondicionadas para uso como comportas de tomada d´água. construtivos principais o canal de desvio.Consultores Klaus John (à esquerda). evento que marca o início do enchimento do reservatório de Itaipu. gerando imagens que ficaram famosas devido à ampla divulgação do fato na mídia) e as ensecadeiras principais de montante e de jusante no rio.10. 325 . teve seu arranjo final precedido de ensaios em mo­ delo hidráulico em escala 1:100. as ensecadeiras auxiliares em arco de montante e de jusan­ te no canal de desvio (demolidas a fogo posteriormente.1982. foi possível operar o vertedouro. O vertedouro. A partir de 1982. A experiência de operar a contento o vertedouro durante muitos anos atestou sua absoluta confiabilidade para extravasar as descargas necessárias.

sobre esta.A História das Barragens no Brasil . associada às inspeções dos engenheiros e técnicos da Itaipu. foram se erigindo gra­ dualmente as estruturas das tomada d’água e dos demais blocos de concreto. enquanto o longo segmento em curva que liga a barragem ao vertedouro na margem direita e a estrutura de desvio na margem esquerda foram dotados de barragens de concreto de contrafortes. O desempenho da barragem durante a fase de construção e o enchimento do reservatório foram avaliados pela instrumenta­ ção de monitoramento instalada nas estruturas e suas fundações. hidráulico e térmico das barragens pelos resultados da instrumentação.Maquete da escavação da barragem de Itaipu . que aloja a casa de força e. Enquanto eram executadas as escavações para as fundações. o Edifício da Produção. Essa atividade de auscultação da barragem continua na fase atu­ al de operação e inclui a avaliação do comportamento estrutural.Séculos XIX. 6. em grande volume.Consultores Charles Blanchet (à esquerda). e feitas as injeções.5 milhões de metros 326 . tratamentos e construção de chavetas sob o leito do rio. Essas obras civis envolveram colossais quantidades: mais de 23 mi­ lhões de metros cúbicos de escavação em terra. quase 32 milhões de metros cúbicos de escavação em rocha. XX e XXI Figura 16 . Arthur Casagrande e Gurmukh Sarkaria (IECO-ELC) no canal de desvio – outubro de 1978 Figura 17 .Paul Joachim Folberth (à esquerda) e Gurmukh Sarkaria (ambos da IECO-ELC) – abril de 1979 A parte central da hidroelétrica. foi dotada de uma barragem de concreto de gravidade aliviada.

O objetivo é monitorar a even­ tual ocorrência de sismos induzidos pelo reservatório.5 milhões de toneladas de peso.Milão). 5. pois a leitura manual obriga os técnicos a visitar roti­ neiramente toda a barragem. assegurando assim a observação direta das estruturas e fundações e dos próprios instrumentos. não identificado. Ricardo Abrahão (Promon).Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens cúbicos de argila compactada e 15 milhões de metros cúbicos de enrocamento. denomi­ nados blocos-chave. Dillo Rocha (Engevix) – outubro de 1982. (motorista IECO-ELC). posição. Libero Medaglia (IECO-ELC). Fernão Paes de Barros (Itaipu). É importante salientar a decidida atuação do Engenheiro Rubens Vianna de An­ drade. No projeto original de Itaipu foi adotado o critério da leitura manual da instrumentação. foram selecionados levando em conta altura. em vez da leitura centralizada e automática. Figura 18 . A partir da esquerda: Adão K. o que consumiu mais 2. tipo. até hoje não 327 . 12. Giacomo Re (Themag). Alessandro Gallico (Engenheiro Chefe da ELC . Engenheiro Gurmukh Singh Sarkaria (Coordenador Geral IECO-ELC). A auscultação da barragem e a junta de consultores civis O projeto de auscultação da represa de Itaipu busca a garantia da segurança da barragem.9. não identificado.6 milhões de metros cúbicos de concreto com 31. Existe também uma rede de sismômetros que cobre a área da bar­ ragem e do reservatório de Itaipu. Superintendente de Obras. Os blocos mais instrumentados.Enchimento do reservatório. representatividade de um trecho e peculiaridades da fundação.5 milhões de toneladas de cimento e 481 mil toneladas de aço. nessa complexa etapa do projeto. Michael Sucharov (Engevix). José Antônio Rosso (Itaipu). Hilário Da Fré (motorista IECO-ELC).

que não foram isentas de momentos tensos. A Junta realizou 20 reuniões entre 1975 e 2010. em que “As deliberações (do Acordo) caracterizam-se por um espírito de boa vizinhança e de cooperação na busca de uma solução que representasse. As questões estavam centradas no estabeleci­ mento de um nível de água de operação de Itaipu que permitisse a viabilidade do futuro aproveitamento hidroelétrico argentinoparaguaio de Corpus. Criado em 1974. Entre estes men­ cionamos: do Brasil. ciente das expressivas dimensões da barragem de Itaipu e de sua capacidade de armazenamento e de contro­ le dos caudais. Brasil e Paraguai avocavam direitos de uso das águas do rio. Lyra (1974 a 1992).1979 pela Argentina. celebrado em 19. As reuniões da Junta são precedidas de acurados preparativos. tendo participado dos trabalhos de engenharia desde o início do projeto. O Acordo Tripartite A Argentina. sem dúvida os mais qualificados para exercer a gestão técnica do empreendimento. a Itaipu mantém um painel permanente de consultores inter­ nacionais especialistas em engenharia de barragens. Os equipamentos são capazes de registrar terremotos que ocorrem inclusive em regiões distantes. bem como na adoção de medidas de segurança e de preservação ambiental. Marcos Antonio Daniel Damus e Roberto Ramón Acosta Alvarez. mobilizou-se para assegurar uma regulação do fluxo que não prejudicasse seus direitos e interesses sobre as águas do rio Paraná. conforme citado no Quadro IV do item 5. como a Cordilheira dos Andes e as Filipinas. que. mais uma vez triunfou. a efetiva convergência de interesses e a obtenção de benefícios recíprocos.10.10. exigiram mais um tour de force da área diplomática. e do Paraguai. Isso se deu em boa parte graças ao hábil uso pelos diplomatas dos elementos fornecidos pelo meio técnico que possibilitaram o alcance de entendimentos operativos que vieram a pacificar a questão.3. As negociações. 328 . que se reunia com frequência maior durante a fase de estudos e projetos e iní­ cio da construção das obras. em cujos traba­ lhos participaram trinta consultores. 5. os consultores recomendam eventuais ações de melhoria e correção. Deve-se destacar a presença no Projeto Itaipu desses renomados engenheiros. feitas por consultores especialistas que acompanham por anos o cotidiano da aus­ cultação da barragem e apóiam as equipes técnicas da Itaipu. Alguns desses profissionais são colaboradores de longa data da Itaipu. João Francisco Al­ ves da Silveira. Corrado Piasentin. A Junta realiza inspeções técnicas e analisa os dados da auscultação para aferir as condições de uso e segurança da usina. Michael Maxwell Dayan Dermont Sucharov. Embora nessa oportunidade a obra de Itaipu já estivesse em andamento. montagem e operação da usina. levantamentos e pré-análises técnicas. passando depois pelas fases de construção.Séculos XIX. de Souza Pinto (2010). conhecidos in­ ternacionalmente. Gurmukh S. Sarkaria (1995 a 2006) e Nelson L.A História das Barragens no Brasil . Foram presidentes da Junta Flavio H. Se necessário. Ao término de cada reunião é elaborado um relatório técnico sobre a segurança da barragem e seus temas correlatos. para satisfação de todos os interessados. para as três Partes. Os argumentos se contrapunham ao ponto de o assunto ter sido debatido inclusive durante a Assembléia Geral da ONU realizada em 1972. na manutenção da viabilidade da navegação e do abastecimen­ to de água. Nascia desse modo o Acordo sobre Cooperação Técnico-Opera­ tiva entre os Aproveitamentos de Itaipu e Corpus. que consideravam igualmente legítimos e pertinentes. atualmente se reúne a cada qua­ tro anos aproximadamente para verificar o desempenho das estruturas civis da Itaipu. a ser erigido logo a jusante de Itaipu. XX e XXI registrados. pelo Brasil e pelo Paraguai.”. Essa Junta de consultores. Por outro lado. a natureza do assunto o insere ainda como última providência do período preparatório. também chamado de “Junta de Consultores Civis” ou “Board de Con­ sultores Civis”.

no prazo de 15 dias.11. que enfim transborda da calha do rio.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 19 . justamente por Itaipu.1979 – Chanceleres Alberto Nogués (Paraguai. O cânion. dentro de um espírito de cooperação entre os países do Cone-Sul da América do Sul. A formação do reservatório Conforme mencionado. fundamentais para que a operação fosse bem-sucedida. que drenam os cursos de água de uma vasta área com mais de 820 mil quilômetros quadrados a montan­ te de Itaipu. Esse lago. Carlos Washington Pastor (Argentina) e Ramiro Saraiva Guerreiro (Brasil). em direção ao Paraguai e à Argentina. da mais alta importância para todo o projeto. em 13 de outubro de 1982 as comportas de desvio foram completamente fechadas e teve início o enchimento do reservatório de Itaipu. 329 . A cessão desse benefício é feita pelo Brasil sem ônus para a Argentina e para o Paraguai. passa a ser insuficiente para a água que se acumula. capaz de armazenar 29 bilhões de metros cúbicos de água. sendo por isso o último de um conjunto de 47 reservatórios de usinas com potência maior que 30 MW existentes na Região Hi­ drográfica do Paraná.350 km2 (780 km2 no Brasil e 570 km2 no Paraguai). 5. compartilhado pelo Brasil e pelo Paraguai. com elevado grau de regu­ larização. que antes comportava inte­ gralmente o veloz rio Paraná. foi antecedido de uma série de preparativos.10. Cabe salientar que a existência desses reservatórios faz com que o rio Paraná saia do Brasil. Formou-se desse modo um lago artificial de expressivas dimensões: 170 km de comprimento. O rio Paraná. Esse evento. em pé). que se deu em três etapas. então. profundidade máxima de 180 m e su­ perfície de 1. situa-se na porção mais a jusante do rio Paraná ainda em território brasileiro. passou da cota 109 me­ tros para a cota 205. tal como ocorreu. elevandose em quase 100 metros . invade e se espraia com rapidez nas adjacências mais altas e mais planas. a montante e a jusante da barragem.80 metros (acima do nível do mar).Assinatura do Acordo Tri-Partite Argentina-Brasil-Paraguai em 19.

em 1973. a elaboração de um plano-mestre para utili­ zação da área do reservatório e a aplicação de medidas de prote­ ção ambiental. Essa avaliação serviu principalmente para definir qual estru­ turação seria mais adequada ao Plano-Mestre de utilização da área do reservatório. conforme estabelecido no Anexo A do Tratado. As informações e os resultados obtidos com os levantamentos realizados mostraram quais seriam as várias utilizações possíveis do reservatório.C. é claro. Essas considerações ambientais. pesca. Ltda.A História das Barragens no Brasil . além. O plano também estipula os procedimentos de gestão dos usos múltiplos pela Itaipu e a coordenação dessa com as autoridades das diversas esferas de governo. tiveram reflexo inclusive na estrutura organizacional da Itaipu. biológicos e sociais e traçou diretrizes para a proteção e valorização do meio ambiente na área do projeto e nas regiões afetadas. inusuais à época. 330 . não ocorrem fenômenos geofísicos que afetem adversamente a segurança e a estabilidade das estruturas da represa. efeitos climáticos e transporte de sedimentos. 5. suas formas de ocupação e usos permitidos. o qual posteriormente publicou o livro “Hidroelétricas. O plano definiu então os usos múltiplos do reservatório.12. que já havia alterado significativamente o meio ambiente local. turismo e lazer. se aprofundaram no assunto e apresentaram à Comissão Mista Técnica Brasileiro-Paraguaia estudo elaborado pelo Dr. levantamento da fauna e levan­ tamento da pesca) e ao meio ambiente social (programas sanitários e de saúde pública e investigações arqueológicas). limpeza da área do reservatório. que serão apresentados na sequência. meio ambiente e desenvolvimento”. A possibilidade de adoção de medidas voltadas ao meio ambien­ te deu o tom para toda a ação que se seguiu. entre cujas atribuições está a de ser responsável “pelos serviços relacionados com a preservação das condições ambientais na área do reservatório”. A medição desses parâmetros tem indicado que. ainda que naquela época parte da região registrasse importante inter­ venção humana. como se previa. A partir dos estudos de 1973. na agricultura e na pecuária. Robert Goodland e por especialistas da própria IECO-ELC. o pro­ jeto previu também a avaliação do desempenho geofísico do reservatório no que se refere a recalques da crosta terrestre devido ao peso da água e à atividade sísmica relacionada ao reservatório (sismo induzido). Isso foi percebido pelos projetistas que. setores de lazer e setores de integração urbana. XX e XXI Afora os aspectos ambientais relacionados à formação do lago de Itaipu. Esse estu­ do categorizou os possíveis efeitos físicos. algumas delas potencialmente conflitantes entre si. Cabe men­ cionar a participação do Engenheiro Arnaldo Carlos Muller na liderança desses trabalhos.Séculos XIX. abastecimento de água para consumo doméstico e irrigação. Os levantamentos previstos se deram então quanto ao meio am­ biente físico (qualidade da água. a aqui­ cultura (tanques-rede e canal de migração e desova – Canal da Piracema) e a recuperação e paisagismo da área de construção da obra. que definiu a política ambiental da Itaipu a partir de 1975. principalmente na mar­ gem brasileira. e prescreveu a realização de levantamento ambiental na área do projeto. foi criada a Diretoria de Coordenação. o resgate de animais (operação Mymba Kuera – pega-bicho). da geração de energia elétrica: nave­ gação. Definiu também um zoneamento territorial do reservatório: (1) zona do reservatório e (2) zona do litoral (onde se encontra a área de proteção do reservatório): setores especiais. setores de aproveitamentos múltiplos. As medidas de proteção e valorização do meio ambiente envolveram a proteção das florestas existentes e reflorestamento (que nos dias atuais contabiliza 44 milhões de árvores plantadas). ao meio ambiente biológico (levantamento florestal. a constru­ ção de Itaipu inevitavelmente interviria no ambiente natural. Meio ambiente e ecologia Como a maioria dos empreendimentos de grande porte. projeto em que atuou o arquiteto e paisagista Fernando Magalhães Chacel e que foi executado pelas empresas PARELC – GCAP e Arquitetura Ambiental S. tendo o relató­ rio referente a esse último item sido elaborado pelos consultores James Albert Harder e Hans Albert Einstein). a implantação de reservas e refúgios (em um total de oito no Brasil e no Paraguai). pois. foi elaborado o “Plano Básico de Conservação do Meio Ambiente”.

Esses valores possibilitaram que os deslocados comprassem em média uma metade a mais em relação às terras que possuíam antes. por­ tanto. próximas a elas. Nessas cidades e em outras. Alia-se ao fato da Itaipu ter sido construída na região que abriga as mundialmente famosas Cataratas do Iguaçu . A atividade turística. verifica-se que. para a maior permanência de turistas na região da fronteira trinacional Argentina-Brasil-Paraguai. uma vez que o nível de água do reservatório permanece pratica­ mente inalterado ao longo do tempo. Antonio José Correia Ribas (2000-2002) e Olivo Zanella (2002). água. Brasílio de Araújo Neto (1995-97). A Itaipu contribui.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens principalmente em Foz do Iguaçu e em Ciudad del Este (anti­ ga Puerto Stroessner). Entre os impactos físicos de repercussão social. com balneários e marinas. Desde 2003.1). produtivas) nas áreas que seriam inunda­ das pelo lago. cuja compensação paga pela Itaipu foi equivalente a US$ 190 milhões. além do aumento populacional. no entanto. a tal ponto de ter sido visitada por cerca de 16 milhões de pessoas de 1977 a 2010. não se limita ao sítio da usina. e a grande maioria deles permaneceu nas proximidades da área do projeto. o cargo é ocupado por Nelton Miguel Friedrich. Desenvolvimento regional e turismo No que se refere ao desenvolvimento econômico e social da re­ gião com a implementação do Projeto Itaipu. ou seja. ele­ tricidade.6 mil urbanas). a grande atratividade que a represa exerce sobre os turistas. Nos dois municípios foram construídas 10 mil casas nas áreas residenciais. o que de­ senvolveu o comércio e a prestação de serviços locais. o que exigiu que outros 390 km fossem reabertos com novo traçado. Luiz Eduardo Veiga Lopes (1985-90).13. 331 . Tércio Alves de Albuquerque (1991). foram também submersos 577 km de estradas. da submersão de equipamentos urbanos e de construções lo­ cais de valor cultural ou afetivo. Figura 20 . responsá­ veis pelos serviços relacionados com a preservação das condições ambientais na área do reservatório e à execução de projetos e obras fora da área das instalações destinadas à produção de energia elétrica: Cássio de Paula Freitas (1974-85).9 mil rurais e 1. Além da perda das áreas cultiváveis (a maior parte no Brasil). houve melhorias e expansão da infra-estrutura nos municípios da área de influência do reservatório. Nelson Farhat (1990-91). talvez o mais im­ portante tenha sido a necessidade de reassentamento de pessoas que residiam ou tinham suas posses ou desenvolviam suas atividades (majoritariamente agrícolas.Faixa de proteção do reservatório. o que coopera também para o processo de desenvolvimen­ to da região. onde exis­ tiam 8. esgoto e demais equipamentos urbanos. proporcionando assim um uso regular de sua linha costeira para atividade de turismo e lazer. Tais áreas requeridas pelo projeto perfaziam em torno de mil qui­ lômetros quadrados no lado brasileiro (ver item 5. com uma média histórica por volta de meio milhão de pessoas por ano. houve notório incremento da circulação econômica. 5.5 mil propriedades (6. Márcio de Almeida Abreu (1994-95). com vias pavimentadas. como pelo consumo de bens e serviços proporcionados pelos milhares de trabalhadores que recebiam salários e benefícios de seus empregadores vinculados ao projeto. Foram Diretores de Coordenação brasileiros da Itaipu. estendendo-se também às localidades próximas ao lago.e por isso forte­ mente turística -. José Luiz Dias (1997-2000). cuja densidade demográfica era de 35 habitantes/km2. tanto pelo atendimento da diversidade de suprimentos necessários às diversas frentes das obras. com reflexos socioeconômicos locais.

esses portos eram bastante afastados da região das obras. deu-se continuidade à montagem dos equipamentos de geração da casa de força e dos equipamen­ tos e sistemas auxiliares desta. boa parte das peças eletromecânicas provém de centros industriais ou do exterior. no setor de 50 Hz. foram também iniciadas as montagens eletromecânicas. ela passou a transmitir energia em caráter experimental para São Paulo. As obras de montagem eletromecânica foram iniciadas em 1980 e concluídas em 1991. em 17 de dezembro de 1983 ocorre o primeiro giro mecânico da turbina da unidade geradora U1. O Quadro VIII e o Quadro IX. utilizando o sistema de corrente contínua (HVDC – High Voltage Direct Current). Desse modo. e os segmentos da construção foram sendo liberados. também anexos. Obede­ cendo-se os delays programados.Entra em operação a primeira unidade geradora em 05. A montagem eletromecânica À medida que obras civis foram avançando. Foi um importante marco na história do empreendimento. ao passo que foram também sendo instalados os sistemas de controle. 332 .14. alguns dias depois.15. Figura 21 . XX e XXI 5. e. sincronizada com a rede da ANDE. por meio das subestações construídas na margem brasileira e na margem paraguaia.A História das Barragens no Brasil .Séculos XIX. em 5 de maio de 1984. à direita). supervisão e proteção. A usina alcançava desse modo autonomia parcial.1984 – Congratulações dos Diretores-Gerais José Costa Cavalcanti (Brasil) e Enzo Debernardi (Paraguai. pondo em funciona­ mento a primeira de suas 18 unidades geradoras contratadas à época. passando por portos marítimos. foram então montadas as tomadas de água. foi iniciada sua operação efetiva.05. O Quadro VII. Conforme é característico dessa fase da construção de uma hidro­ elétrica. localizada na extremidade direita da Casa de Força. acarretando para a Itaipu dispêndios em obras de acon­ dicionamento de rodovias e de pontes no Brasil para a passagem dessas cargas de grandes dimensões e peso.. Superintendente de Engenharia da Itaipu em 1974. No caso de Itaipu. contêm as relações dos consórcios e empresas que fizeram respectivamente o controle de qualidade e inspeção e exe­ cutaram a montagem propriamente dita dos equipamentos. Logo depois. Foram também montadas as linhas de transmissão que conectam a usina ao sistema elétrico interligado. Esses trabalhos contaram com a experiente atuação do engenheiro José Gelazio da Rocha. pertencente a empresa Furnas Centrais Elétricas S. contém a relação dos consórcios e empresas fabricantes. 5. Funciona a primeira unidade geradora Cumprindo o cronograma de montagem. o que exigia transportes de longa distância em veículos especiais. de acordo com o cronograma geral. os condu­ tos forçados e os equipamentos na barragem de concreto. anexo.A.

totalizam a cifra de US$ 27 bi­ lhões de recursos utilizados no empreendimento. foi então iniciada a comercializa­ ção da energia produzida pelas duas primeiras unidades geradoras (U1 e U2). em 6 de maio de 1991. sem fins lu­ crativos.600 megawatts (MW) que consta no Anexo B. decorridos.2. montantes da ordem de US$ 26. O Governo Federal Brasileiro apoiou integralmente o esforço de captação de recur­ sos para o financiamento da construção e o Tesouro Nacional do Brasil ofereceu todas as garantias para os empréstimos.1. Desse modo. em 25 de outubro de 1984 foram então oficialmente inauguradas as unidades geradoras U1 e U2. Custo direto de Itaipu De acordo com o item 4. alcançando. o que resu­ me o histórico do endividamento da Itaipu. anexo.1.5 acima. sua potência máxima de 14.000 megawatts (MW).1. ainda em 1984 foram produzidos por Itaipu 277 gigawatts-hora (GWh) de energia. Desse montante. com o atendimento de 26% da demanda do setor elétrico do país. 6. utilizando as receitas a serem geradas com a própria produção da usina.1. de 2000 a 2007. ambas em 50 Hz. foram captados. de 1974 a 2008. Na margem paraguaia foram criadas para as mesmas finalidades a Caja Paraguaya de Jubilaciones y Pensiones del Personal de la Itaipu Binacional (Cajubi) e a Fundación de Salud Tesai . uma entidade fechada de previdência privada (fundo de pensão). Posteriormente. que seria de longa duração. 6. portanto. por volta de 1982. que somados aos US$ 100 milhões relativos ao capital social inicial. Início da operação comercial da usina A partir de 1 de março de 1985. assim. Nesse sentido. O ápice da participação da Itaipu Binacional no mercado brasilei­ ro foi então alcançado em 1997. entregues ao sistema interligado. para efeitos de faturamento. gradualmente constituído o quadro de trabalhadores per manentes da usina. muitos deles vindos de outras empresas do setor elétrico.2 bilhões correspondem aos investimentos diretos. porém. Nessa linha foi também criada em 1994 no Brasil a Fundação de Saúde Itaiguapy. última das 18 unidades previstas do conjunto gerador principal com 12. e US$ 14. Antes. mostra a relação dos consórcios e empresas que executaram a instalação das unidades de reserva. que via­ bilizaram a obra. A exemplo dessas empresas. a Itaipu começou o processo de mobilização da força de trabalho necessária para a futura ope­ ração e manutenção da usina. Mantido o ritmo de montagem de duas a três unidades por ano. Operação da usina e desenvolvimento organizacional 6.9 bilhões. Foi. fase que exigiria competências e relações de trabalhos diferentes das aplicáveis aos trabalhado­ res que atuaram durante o tempo que durou a construção e a montagem. que passou a adminis­ trar o Hospital Ministro Costa Cavalcanti. A operação da usina Decorrido o breve período inicial.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens 6.8 bilhões ao pagamento dos encargos e rolagem da dívida durante a construção. os governos do Brasil e do Paraguai resolveram realizar a obra mediante a obtenção de emprés­ timos a serem pagos a longo prazo. ativando assim a contabilidade dos suprimentos de ele­ tricidade da Itaipu às entidades compradoras Eletrobras e ANDE. a Itaipu instituiu a Fundação Itaipu-BR de Previdência e Assistência Social. US$ 12. assim. em face do novo vínculo emprega­ tício. 333 . O Quadro X. para atender aos empregados do quadro permanente da Entidade binacional. é enfim inaugurada a uni­ dade geradora U18. cuja descrição será apresentada adiante. sete anos da entrada em operação das duas primeiras unidades. foram também montadas as unidades U9A e U18A. passando a hidroelétrica a contar en­ tão com 20 unidades geradoras.

Essa excepcional condição fez com que desde 1997 a Itaipu venha gerando em torno de 90 mil gigawatts-hora (GWh) por ano. Paulo Teixeira da Cruz. 6. Esse efeito pode ser constatado pela elevação verificada no IDH (Índice de Desenvolvimento Humano do PNUD . como a maior usina hidroelétrica do mundo em geração de energia. Vidal Galeano. Pinto. devido.1. Os valores transferidos a título de Royalties entre 1991 e 2010 ao Brasil e ao Paraguai. ao regime hidrológico favorável do rio Paraná e à regularização do fluxo a montante na Região Hidrográfica do Paraná e.Séculos XIX. Nelson L. é superada nesse quesito somente pela Usina de Três Gargantas. proporcionam um aumento da capacidade realizadora dos dois países. o Tratado de Itaipu estabeleceu os royalties em seu Anexo C como mecanismo compensatório pelo uso do potencial hidráulico do rio Paraná no trecho em condomínio entre os dois países. A partir da esquerda: Victor de Souza Lima. A Itaipu se consagra desse modo. em montantes iguais. de S. Recorde operativo e comparações A Usina de Itaipu. atualmente. O pagamento dos royalties é então feito às Altas Partes Contratantes.4.685 gigawatts-hora (GWh) de energia.A História das Barragens no Brasil . a usina chinesa dificilmente superará a de Itaipu em geração anual de energia. que auferem inegáveis benefícios para sua população. ao fato de que o projeto de Três Gargantas prioriza o controle de cheias em detrimento da geração de energia.3. Mas. na assessoria aos consultores.000 MW de capacidade.600 MW para 14. XX e XXI Figura 22 . alcançado seu recorde operativo em 2008 com a produção de 94. sendo contabilizado no custo anual do serviço de eletricidade prestado pela Itaipu. que passa então de 12. Pagamento dos “royalties” e seus benefícios Conforme mencionado. João Francisco Alves Silveira (consultor especialista) e Carlos Leonardo (Itaipu). 334 . de um lado.Reunião do Board de Consultores Civis em novembro de 2006. localizada na China. Juan Bosio. de outro lado. questão primordial quando se trata de hidroeletricidade.1. que possui 18. em valor equivalente a US$ 650 por gigawatt-hora (GWh) gerado e medido na central elétrica. e. principalmente por parte dos municípios da região impactada.2 mil megawatts (MW) de potência instalada. Gurmukh Sarkaria (Chairman). acrescido do respectivo fator de ajuste. que alcançaram a casa dos US$ 7 bilhões.Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) de vários municípios da região. 6.

não impede o desenvolvimento endógeno da Itaipu como organização empresarial. mantendo ele­ vados níveis de produção. Isso é sobremaneira reforçado pelas Notas Reversais sobre Responsabilidade Social e Ambiental. 6. porém.” . a construção da barragem sobre o rio criou dois ambientes bastante distintos. sob determinados parâmetros e normas. novo.1. um. a partir do início da operação da usina. com águas calmas.05.. Cabe registrar que. Esses dois ambientes perma­ neceram originalmente incomunicáveis entre si. no lago.2005. Essa limitação.2007 – Presidentes Luis Inácio Lula da Silva (Brasil) e Nicanor Duarte Frutos (Paraguai).2.Inauguração das duas últimas unidades geradoras em 17.2002. conforme será percebido pelas ações mostradas cronologicamente na seqüência. da ordem de 80 milhões de megawattshora (MWh) por ano. assinadas em 31. que as iniciativas no campo da responsabilidade social e ambiental devem inserir-se como componente permanente na atividade de geração de energia. na restituição do fluxo de água no leito do rio Paraná. conseguindo desse modo mitigar sobre­ maneira os efeitos da redução da oferta de energia no sistema interligado brasileiro naquele momento crítico. Tal fenômeno. decorrente da escassez de chuvas naquele período e conseqüente dificuldade de reposição da água armazenada nos reservatórios da maior parte das hidroelétricas do País. que é uma vereda pela 6. qual a Entidade tem experimentado significativo êxito.. pelas quais o Brasil e o Paraguai defi­ nem “.. praticamente também ocorria na região de Guaíra. acompanhados dos respectivos Diretores-Gerais da Itaipu Jorge Miguel Samek e Victor Luis Bernal Garay.. a montante.2. e outro a jusante. O canal de transposição de peixes Em termos de ictiofauna. com mais intensidade durante os períodos secos do rio Paraná. Itaipu pôde deplecionar seu reservatório. na crise de abastecimento de energia elétrica vi­ vida pelo Brasil em 2001 . A Itaipu se desenvolve organizacionalmente O Tratado de Itaipu define como propósito específico da Enti­ dade Binacional construir e operar unicamente a hidroelétrica de Itaipu. todavia.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 23 .03. já antes da construção da usina. não prevendo sua expansão para outros negócios. 335 .

construídas para essa finalidade. John Gummer.5 km a jusante da usina. a desempenhar um papel importante para a conservação da biodiversidade. firmadas em 2003. no Brasil e no Paraguai. mesmo nas épocas de estiagem. inserindo nela. idéia que surgiu depois de muitas discussões. Vidal Galeano. 336 . cuja foz se localiza na margem esquerda do rio Paraná. com 10 km de extensão. o PTI. Giuseppe Stevanella. em parte artificial e em parte regularizando o rio Bela Vista. complexo. Desse processo. O Canal foi inaugurado em 2002.Séculos XIX. a Itaipu encerrou suas obras principais da usina. 2. resultou apreciável acúmulo de conhecimento por parte dos profissionais e da organização. 6. embora sua execução tenha sido iniciada em 1997 pelo Governo do Estado do Paraná. cuja reutilização é indispensável ao adequado funcionamento da empresa. como um espaço para a integração educacional.2. a administração da Itaipu deu. em corredeiras especialmente Figuras 24 e 25 .Reunião do Board de Consultores Civis em novembro de 2010 – foto da esquerda (a partir da esquerda). enunciado mais amplo à Missão da Entidade. os consultores em túnel de drenagem. na foto da direita. A partir daí foi implantado em 2003 o Parque Tecnológico Itaipu. Selmo Kuperman. como canoagem de rafting e slalom. mediante acordo deste com a Itaipu. portanto. Ruben Brasa Soto (Diretor Técnico de Itaipu) e João Francisco Alves Silveira (consultor especialista da assessoria ao Board).A História das Barragens no Brasil . A comunicação estabelecida finalmente entre o lago e o rio passa. Pinto (Chairman). o necessário impulso ao desenvolvimento tecnológico sustentável no Brasil e no Paraguai. foi projetado e construído pela Itaipu o Canal da Piracema. tecnológica e cultural da América Latina. XX e XXI Por isso. Assim. hoje e no futuro e pode ser útil ao meio externo à Itaipu. de S. No Canal da Piracema são também praticados esportes náuticos. Antonio Otelo Cardoso (Diretor Técnico Executivo da Itaipu). hoje é livre a migração de peixes de jusante para montante e vice-versa. Nelson L. logo depois. Com essas concepções. entre outros aspectos. As competições ali realizadas também contribuem para o desenvolvimento do turismo regional. inclusive na região de Guaíra.2. O Canal da Piracema permite então que os peixes migradores cheguem às áreas de reprodução e berçários acima da usina no período da piracema (migração reprodutiva). O parque tecnológico Itaipu Ao por em operação suas duas últimas unidades geradoras. Paulo Teixeira da Cruz. e retornem no outono e inverno (migrações ascendente e descendente). Essa decisão foi precedida do estudo denominado “A ictiofauna de ocorrência do rio Bela Vista”.

produtores rurais. Em decorrência desse conceito. ONGs. com responsabilidade social e ambiental. desde e inclusive o Salto Grande de Sete Quedas. após reflexões feitas por parte de sua Direção. avaliar resultados das medições efetuadas. o que inclui também o CBDB. impulsionando o desenvolvimento econômico. que organizados em Comitês Gestores em cada um dos 29 municípios. que se justifica a existên­ cia de Itaipu. A Missão ampliada da Itaipu e seus reflexos Conforme citado nos itens anteriores. os comporta­ mentos das estruturas de barragens e seus respectivos materiais.2003 aprovou a revisão de seu planejamento estratégico. em 05.09. O CAB define como território de atuação a unidade de planejamen­ to da natureza: a bacia hidrográfica. pela Universida­ de Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste) e por instituições parceiras. O CEASB conta com alunos de graduação. além dos comitês específicos dos programas transver­ sais. até a foz do rio Iguaçu. em que a Itaipu. à educação. representantes da sociedade civil organizada e outros. no Brasil e no Paraguai”.que tiveram áreas inundadas pelo  reservatório da usina. 6. Trata-se. 337 . para “Gerar energia elétrica de qualidade. turístico e tecnológico. que permeiam todo o tecido social da BP3. do Po­ der Judiciário e dos órgãos ambientais para ajudarem a encaminhar soluções. de um movimento de participação permanente. trabalha com a sociedade para mudar os seus valores e sua maneira de se conduzir. de produzir e de consumir. a área de influência de atuação direta de Itaipu deslocou-se dos 16 mu­ nicípios conhecidos como lindeiros . proporcionando desse modo uma fonte de receitas que ajuda no financiamento de suas atividades) e ao empreendedorismo. doutores. a organização exterioriza para as sociedades de Brasil e Paraguai valores convergentes com uma governança corporativa atualizada. portanto. na margem brasileira - para os 29 municípios da Bacia Hidrográfica do Paraná 3 (BP3). a Itaipu. A Missão ampliada da Itaipu passa então de: “Aproveitamento hidroelétrico dos recursos hídricos do rio Paraná. enfim.2. Essa Missão ampliada obrigou o reajustamento das políticas e di­ retrizes fundamentais da Itaipu e influiu diretamente na redefinição de seus objetivos estratégicos. Os membros do Comitê Gestor se reúnem periodicamente para dialogar sobre o an­ damento das ações do CAB no município. correlacionar me­ dições com as prováveis causas e desenvolver técnicas de inteligência computacional relacionadas ao comportamento e segurança de barragens. associações de classe. entre outros. à pesquisa. moldando-se assim uma nova maneira de operar a 6. ao turis­ mo (em 2007 foi repassada à Fundação PTI a exploração do Complexo Turístico Itaipu. o que passou a exigir determinados resultados empresariais antes não requeridos ou requeridos de for­ ma diferente. de especial interesse para a engenharia de barragens. mestres. que era a reprodução do objeto do caput do Tratado de Itaipu. com qua­ lidade. Nas atividades de pesquisa conta com o CEASB – Centro de Estudos Avançados em Segurança de Bar­ ragens. ou Salto de Guaíra. O objetivo do CEASB é estudar. Atualmente. que consiste em uma das 16 bacias hidrográficas instituídas oficialmente no Estado do Paraná. na forma de uma Missão ampliada em relação ao enunciado anterior. entre prefei­ turas. pelo PTI. o CAB conta com mais de 1.”. cooperativas. de viver. além de mitigar e cor­ rigir passivos ambientais existentes nas comunidades da região.600 parceiros. O Programa Cultivando Água Boa Considerando-se que é pela água. sustentável. O comitê faz também a articulação perante os órgãos públicos do Poder Executivo.2. nele explicitando aquelas ini­ ciativas que já vinha conduzindo. hoje e sempre. foi então criado o Programa Cultivando Água Boa (CAB). principalmente relacionadas às pequenas propriedades. pós-doutores e profissionais de notório saber. portanto.4.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens O PTI se dedica. pertencentes em condomínio aos dois países. para que ela se mantenha abundante.3. atuam nos programas e ações que estão sendo de­ senvolvidos. Desse modo. próprias de qualquer empresa contemporânea. órgãos governamentais. que se constitui em um espaço técnico-científico implantado pela Universidade Corporativa Itaipu. com o propósito final de dedicar cuidados extremos à água de que dispomos.

próprios de uma atuação empresarial moderna. Isso reafirma a visão de que a responsabilidade social não é apenas um conjunto de ações. que a todos tanto impressiona. Embora essa concepção não seja novidade na Itaipu.. com a cooperação do PTI. dentre os quais se encontra o próprio PTI. mas sim eri­ gir uma das obras de engenharia mais portentosas existentes no planeta.. mas aproveitando-se sua estrutura organizacional.Séculos XIX. o Brasil teria que queimar 536 mil barris de petróleo por dia para obter em plantas termoelétricas a mesma produção de energia de Itaipu. Contudo.A História das Barragens no Brasil . o projeto do veículo elétrico. quer sob a de pesquisa.03.”. o volume de escavações de terra e rocha em Itaipu é 8. XX e XXI empresa. E. o ferro e aço utilizados permitiriam a construção de 380 Torres Eiffel. em 2003. dentro de um espírito de cordialidade e os laços de fraternal amizade.. a capacidade de descarga máxima do vertedouro de Itaipu (62. subjacentes à exatidão dos números e de seus resul­ tados materiais. que estabelece também o “.ASCE). Esses projetos estratégicos. mas uma forma de gestão da empresa na sua inte­ gralidade.. partem da Universidade Corporativa Itaipu (UCI) para seu de­ senvolvimento. Consoante a Missão ampliada. 338 . com poucas alterações para atender a essas demandas. Portanto. Foi a solidez dessa base de entendimento e de união que verdadeiramente permitiu que 6. que são considerados estratégicos para a organização porque estão alinhados com objetivos da organização e procuram apresentar os resultados que se pretende obter com o desenvolvimento tecnológico da usina e do seu entorno. Epílogo Os números de Itaipu suscitam impressionantes comparações: o volume total de concreto utilizado na construção da usina seria suficiente para construir 210 estádios de futebol como o do Maraca­ nã. de grandeza obliterante. em 31.  Em razão disso.. quer sob a linha da educação corporativa. tecnológico . a Itaipu. com nível de superintendência. Responsabilidade social e ambiental De acordo com a Missão ampliada da Itaipu. desenvolvimento .2 mil metros cúbicos por segundo) corresponde a 40 vezes a vazão média das Cataratas do Iguaçu. em 1995 classificaram a Itaipu como “uma das sete maravilhas do mundo moderno”. sob o título “Missão da Itaipu Binacional no campo da responsabilidade socioambiental”. desenvolve alguns projetos. estão sendo conduzidos o projeto de modernização da usina (atualização tecnológica).. de desenvolvimento e inovação e de gestão do conheci­ mento. essas comparações. a Plataforma Itaipu de Energias Re­ nováveis. Nesse sentido. 7.5. o fato de ela passar a constar na Missão serve para reiterar a convicção das Altas Partes Contratantes quanto à necessária e contínua assimilação desses valores pela Itaipu. a Itaipu criou a Coordenação dos Progra­ mas de Responsabilidade Social. que selam o acordo celebrado pelos dois países quanto à conduta de ambos no campo da responsabilidade socioambiental na Itaipu. e o volume de concreto é 15 vezes maior. a revista norte-americana Popular Mechanics e a Associação Norte-Americana de Engenheiros Civis (American Society of Civil Engineers .2005 o Brasil e o Paraguai trocaram notas diplomáticas reversais. o projeto do Centro Internacional de Hidroinformática (junto com a UNESCO) e a Uni­ versidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA). o projeto de software livre. comentários e adjetivos servem para demonstrar que o Brasil e o Paraguai decidiram construir juntos não só uma hidroelétrica de extragrande porte.5 vezes superior ao do Eurotúnel no Canal da Mancha. dada à importância do assunto.2. a ação de gerar energia pressupõe que sua execução se dê com responsabilidade social e ambiental. estão os valores maiores do acordo que os cidadãos brasileiros e paraguaios souberam consolidar. A altura da barragem principal (196 metros) equivale à altura de um prédio de 65 andares. Com esse ordenamento conceitual.

que foi fundamental para a concretização do Projeto Itaipu. José Ricardo da Silveira. de Mendonça. Flavio Miguez de Mello. Marco Aurélio Vianna de Escobar. Esperamos que esse texto tenha sido útil ao leitor. S. Agradecimentos Pelas contribuições ao texto e quadros anexos: a Margaret Mussoi Luchetta Groff. na pessoa de seu gerente Jorge Henn. Pela cessão das fotografias: à Assessoria de Comunicação Social. 339 . Joran Alfredo Sachs e ao Centro de Documentação da margem brasileira. José Augusto Braga e a Corrado Piasentin (álbum particular). Superintendência de Engenharia e Superintendência de Obras. Corrado Piasentin. principalmente para a com­ preensão desse aspecto sinérgico. João Emílio C. Ademar Sérgio Fiorini. todos órgãos da Itaipu.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens ambos os países convergissem para o interesse comum de re­ alizar o aproveitamento hidroelétrico. Cláudio Porchetto Neves.

ITAIPU Binacional 2009. 340 . XX e XXI Continuação da página anterior Fontes: livro “Usina Hidrelétrica de Itaipu . Centro de Documentação da ITAIPU Binacional.Séculos XIX. margem brasileira.A História das Barragens no Brasil .Aspectos de Engenharia”.

Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Fontes: livro “Usina Hidrelétrica de Itaipu . ITAIPU Binacional 2009. 341 . Centro de Documentação da ITAIPU Binacional.Aspectos de Engenharia”. margem brasileira.

Aspectos de Engenharia”. 342 . XX e XXI Fontes: livro “Usina Hidrelétrica de Itaipu . Fontes: livro “Usina Hidrelétrica de Itaipu Aspectos de Engenharia”. ITAIPU Binacional 2009. Centro de Documentação da ITAIPU Binacional.A História das Barragens no Brasil . Centro de Documentação da ITAIPU Binacional. ITAIPU Binacional 2009. margem brasileira.Séculos XIX. margem brasileira.

Centro de Documentação da ITAIPU Binacional. Itaipu . margem brasileira.vista aérea 343 . ITAIPU Binacional 2009.Aspectos de Engenharia”.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Fontes: livro “Usina Hidrelétrica de Itaipu .

A História das Barragens no Brasil . ITAIPU Binacional 2009.Séculos XIX. Centro de Documentação da ITAIPU Binacional. 344 . XX e XXI Fontes: livro “Usina Hidroelétrica de Itaipu Aspectos de Engenharia”. margem brasileira.

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PCH Ivan Botelho III (Triunfo) no rio Pomba em Minas Gerais .

As usinas. Naquela época. complexidades e tecnologia que orgulham a engenharia nacional e são referência internacional. Neste capítulo são enfocados o nascimento. Quadro 1 – Quadro comparativo UHE x PCH 347 . com mais de 10 anos de história na defesa das PCHs. o desenvolvimento. a força motriz do Brasil no final do século XIX e no início do século XX. Até 1930 mais de mil diferentes empre­ sas de geração e distribuição de energia elétrica estavam ativas. a geração de energia elétrica era eminentemente privada. Naquela época. a crise das pequenas centrais hidroelétricas. Para demonstrar a atual importância das PCHs na matriz elétrica brasileira.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens As Pequenas Centrais Hidroelétricas no Brasil Ricardo Nino Machado Pigatto Introdução As pequenas centrais hidroelétricas sempre fizeram parte da his­ tória do Brasil no que diz respeito à geração de energia elétrica. Pela definição atual. operando hidroelétricas de pequeno ou médio portes. atualmente. algumas poucas indústrias e iluminação pública. além de fornecerem força motriz para bondes nas cidades maiores. O desenvolvimento do país sempre esteve ligado diretamente à expansão da geração de energia. mas com características. muito mais importante pelo pio­ neirismo e como alavanca do desenvolvimento. A caracterização e definição do conceito de pequenas centrais hidroelétricas – PCHs só foi criado no Brasil nos anos 80 do século XX. Foi um período notável para o País. as pequenas cen­ trais hidroelétricas PCHs são de até 30 MW e são chamadas de “pequenas”.000 kW instalados. ultrapassa­ vam 1. as usinas eram de potências modestas porque alimentavam pequenas cidades. relaciona a soma das PCHs em operação no Brasil com as grandes hidroelétricas e apresenta o conjunto das PCHs como a terceira maior fonte geradora de energia hidráulica nacional. do que os em­ preendimentos dos dias de hoje. Foram. o apogeu e. antes denominada APM­ PE – Associação Brasileira dos Pequenos e Médios Produtores de Energia. literalmente. com raras exceções. um quadro elaborado pela ABRAGEL – Associação Brasileira de Geração de Energia Limpa. Entre 1901 e 1910 foram construídas em todo o Brasil setenta e sete usinas hidroelétricas. No início do século passado as usinas hidroelétricas eram referidas como “pujantes e estru­ turantes”.

Mas. para construir uma PCH era necessário capital intensivo e financiamento de longo prazo. tanto para produtores independentes de energia. etc. a industrializa­ ção do País exigia maior expansão da geração e o braço forte estatal migrou dos pequenos aproveitamentos para as grandes hidroelétricas. mas como garantir a entrega da energia contratada de uma PCH se tratava-se de empreendimentos dependentes da hidraulicidade e de variáveis climáticas? E mais. aproveitamentos com potência superior a 1. por serem também novos assuntos tratados no âmbito dos órgãos li­ cenciadores. Muitos novos projetos de PCHs foram desenvolvidos. mas faltava alguma coisa. posteriormente. somente seria possí­ vel havendo geração de energia garantida. foi descortinado. aquele que poderia escolher seu fornecedor de energia elétrica. Para autoprodutor seria autorização. permaneceram ativas. através da Lei das Concessões. Os licenciamentos ambientais. Para produtores independentes seriam concedidos. Havia um nicho para ser explorado pelas PCHs. Realmente uma equação difícil e de contornos assustadores diante dos desafios das soluções possíveis. é claro. após a criação da ANEEL (1996). sem licitação. Para haver um fluxo financeiro previsível era necessária receita previsível e não sujeita a sazonalidades ou a variáveis climáticas. Neste ano. e isto as PCHs não tinham. 348 .000 kW. não havendo qualquer estímulo para aderir ao novo programa criado.A História das Barragens no Brasil . Passou a ser atri­ buição da ANEEL conceder outorgas de autorização. Mas vieram os questiona­ mentos ambientais. Mesmo que tenha havido um programa de pequenas centrais nos anos 1980’s. com características de concessão de serviço público. até 10. um marco para o setor. os questionamentos sobre os “danos” dos grandes reservatórios e o retorno do conceito de que muitas peque­ nas usinas poderiam ser melhores do que uma grande usina. estes limites foram mudados. Em suma. Esse debate alimentou os ambientes acadêmicos e ainda nos anos oitenta o governo federal buscou criar um programa de pequenas usinas denominado de Programa Nacional de Pequenas Centrais Hidroelétricas que buscava incentivar a autoprodução de energia. O desenvolvimento das PCHs Em 1998 também foi criado o MAE – Mercado Atacadista de Energia. Já estava criado o conceito de consumidor livre. geologia. com geração de empregos e renda para especialistas nessas áreas de desenvolvimento de projetos. Um novo horizonte para o desenvolvimento de profissionais nas áreas de engenharia. Havia sobra de energia. tendo sido analisados e aprovados pela ANEEL. desati­ vados. como para auto­ produtores de energia APEs de usinas hidrelétricas com potên­ cia igual ou maior que 1. Neste período muitos dos pequenos aproveita­ mentos foram caindo no ostracismo e. foi a partir de 1998 que passou a ser definida comercialmente como PCH as usinas com capacidade instala­ da acima de 1 MW e até 30 MW.Séculos XIX. Para haver uma receita previsivelmente segura para fins de garantias de financiamento. Para haver um project finance era necessário um fluxo-de-caixa previsível. Para obter financiamento de longo prazo era fundamental ter garantias de pagamento num conceito moderno denomina­ do project finance (onde o próprio negócio gera suas condições de financiabilidade).000 kW. ser um con­ sumidor livre. o momento econômico do Brasil não era fa­ vorável para quaisquer investimentos que necessitassem de capi­ tal intensivo e retorno de longo prazo. cinquenta e sessenta. infelizmente. O Brasil cresceu muito nos anos setenta e consolidou o conceito de que usina “boa” era usina grande. meio-ambiente. assim como o conceito de autoprodutor que poderia vender exce­ dentes de energia elétrica.000 kW. E assim a implantação de novas pequenas usinas hidráulicas foram se arrastando até 1995.000 kW cabia (e ainda permanece assim) apenas comunicação ao poder concedente. PIEs. mas faltava o essencial: o comprador da energia. XX e XXI Nos anos seguintes. Em 1998. Poderia. Algumas poucas usinas. Para os aproveitamentos com potên­ cia inferior a 1.000 kW e menor ou igual a 30. estavam em andamento. havia um grande potencial de empreendimentos para serem construídos. foi criado o conceito de produtor independente de energia elétrica. mediante licitação. com restrições quanto às áreas  de seus reservatórios nos níveis d’água máximos normais. mesmo que difíceis. Era uma mu­ dança de paradigmas e um mundo novo a ser explorado. os valores praticados como tarifas eram relativamente baixos e aplicados pelas distribuidoras.

mas com ares de sécu­ lo XXI. Era um programa no qual a Eletrobras garantia a compra da energia gerada pelas PCHs. as fontes biomassa e eólicas. pela modelagem pro­ posta pela Eletrobras na época. o PROINFA. geologia. ONS.500 MW. A questão ambiental foi foco de discussões acaloradas e ainda assim permanece. este perfil. Ainda século XX. haja vista que a quase totalidade dos reservatórios de PCHs eram projetados para operar a fio d’água. um cír­ culo virtuoso desde o ano 2000 até 2008. Este programa.Programa de Incentivo (de geração de ener­ gia elétrica através) de Fontes Alternativas. Neste período muito se aprendeu. Para financiar com segurança era necessário um comprador/garantidor com bom rating na praça e contratos de compra e venda de energia de longo prazo. hidrologia.: consideradas apenas as PCH .setembro/10 Obs. Mais um dos grandes marcos do setor. o programa não progrediu. resultava em fatores de capaci­ dade muito baixos para as usinas. talvez o mais importante sob o ponto de vista regulatório e viabilizador dos empreendimentos de hoje. produtos financeiros e muito mais. mas dentro de certos limites garantidos de geração que. em 2002 e consolidado em 2004. que se encerra neste ano de 2011. sem adotar o conceito de project finance.ANEEL . não havia como vender a energia para consumidor livre por não haver uma energia garantida e também não havia como vender para a Eletrobras porque a forma que esta estava pensando em adotar para calcular a energia firme das PCHs não era su­ ficiente para garantir o pagamento dos financiamentos. Foram contrata­ dos 3. era impossível. já então confiantes da capacidade das PCHs atenderem suas demandas de energia. O Brasil tinha cerca de 850 MW em operação de PCHs em 1998 passando para 3. numa ação conjunta e bem conduzida pelo MME. gerando uma receita incapaz de suportar as exigências do agente financiador de longo prazo. Atualmente (2011) está em torno de 3. serviços ambientais. assim como os agentes financiadores confiarem nos mecanismos de atenuação de riscos e garantias de pagamentos.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Já era o ano de 2000. de serviços especializados. Pelo critério de cálculo ado­ tado para as hidroelétricas de maior porte. mas altamente preparador para o atendimen­ to do mercado dos consumidores livres. Os empreendedores de PCHs foram convidados para apoiar uma iniciativa louvável da Eletrobras de criar um programa chamado de PCH-Com. O denomina­ do “aproveitamento ótimo”. tais como projetos. no caso o BNDES. além das PCHs. Desta forma. Ter uma energia de placa. Então. Ou seja. Como vender para consu­ midor livre ainda era uma novidade. Um crescimento digno de nota e de reconhecimento. divididos entre as três fontes. as PCHs passaram a fazer parte do MRE (Mecanismo de Realocação de Energia) com o cálculo da energia média através da Resolução ANEEL 169/2001 de 3 de maio de 2001. Apenas o governo tinha. Quadro 2 – Evolução das pequenas centrais hidroelétricas Qtde Total até 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 189 15 12 23 7 11 18 17 38 30 22 189 204 216 239 246 257 275 292 330 360 382 Potência (MW) 831 69 51 268 68 126 228 253 650 463 248 Total (MW) 831 900 952 1219 1287 1413 1641 1894 2544 3007 3256 Fonte: BIG . Ou seja.000 MW em 2008. que então englobou. o grande problema a ser solucionado era firmar a energia das PCHs.300 MW. topografia. da construção civil.setembro/10 Relatório Acompanhamento da Expansão da Oferta de Geração de Energia Elétrica . Logo. na época. de forma a assegurar uma expansão do setor de PCHs com segurança para o mercado cativo (ambiente regulado). Mas ainda não estava tudo resolvido. segu­ ros. exige o estudo e a definição de uma sucessão de aproveitamentos no 349 . estabelecido por Lei em 1995. com controle de re­ servatórios. o agente financiador exigia garantias corporativas dos empreendedores.1 a 30 MW A figura na página a seguir é o resultado desta expansão e mostra as localizações das PCHs no Brasil em 2011. ANEEL e Eletrobras com seus corpos técnicos qualificados e empenhados em dar as condições necessárias para a expansão do setor. teve um caráter didático e de­ senvolvimentista que permitiu a expansão da indústria de equipa­ mentos. E então foi criado. um dos programas mundiais mais importantes de geração de energia através de fontes ambientalmente corretas e socialmente justas.

454 1.725 1. de forma cíclica. Prazo (1) (anos) Com autorização (com LP/LI) 2.:Dados ANEEL Janeiro/2011.705 1.271 170 7 Potencial Teórico 15.ANEEL (com LP/LI) 856 66 5 Aguardando Análise ANEEL 3. Entretanto há movimentos firmes e sérios na agência para redução drástica dos prazos de tramitação. mas no sentido inverso. salvo o Potencial Teórico. 350 .A História das Barragens no Brasil . houve uma avalanche de novos projetos e inventários junto à agencia reguladora ANEEL que resultou no enorme potencial identifica­ do no Brasil.início da construção Obs. Com o grande desenvolvimento das PCHs. Nesta área. As teses do passado voltaram a as­ sombrar novamente. baseada em mé­ dia histórica de 2007 até 2010.458 TOTAL 23.Localizações das PCHs no Brasil em 2011 Quadro 3 – Situação dos projetos de PCH em tramitação na ANEEL em janeiro de 2011 Potência (MW) Quant.035 194 6 Subtotal 1 5.980 473 Em Elaboração/Complementação 2. ou apogeu.089 213 3 Análise/Aceite . ques­ tionam se não seria melhor um grande reservatório ao invés de uma sequência de pequenos.: não foi considerado potencial em fase de inventário Obs. certamente. as discussões nunca terão fim. Os ór­ gãos ambientais e ONGs ambientais questionam se esta é melhor condição ambiental para o curso d’água e. Em janeiro de 2011 encontravam-se em tramitação dentro da ANEEL projetos conforme tabela abaixo: Figura 1 .Séculos XIX.288 15 Subtotal 2 17. XX e XXI mesmo curso d’água.931 (1) prazo estimado de maturação dos projetos . provocando uma cascata de usinas. Agora há necessidade de um profundo estudo para cada inventário de rio denominado de análise ambiental integrada – AAI que ampliou os limites das discussões. Figura 2 – Distribuição das PCHs nos diversos estados Fonte: Abragel / 2011 Na tabela acima a coluna prazo é uma estimativa de tramitação na ANEEL até a emissão da outorga de autorização. que é um estudo do CERPCH de Itajubá.

levando o potencial de geração através de PCHs no Brasil aos almejados 25. à perda de mão-de-obra qualificada desenvolvida ao longo dos últimos anos e ao desenvolvimento de outras fontes ambientalmente menos qualificadas. no mercado livre (as PCHs são denominadas como fonte incentiva­ da pois há desconto de 50% nos custos de transporte da energia). então este ciclo se encerrou. sem levar em consideração as características e as regionalidades de cada fonte. de forma abrupta.não foram mais capazes de viabilizar a cons­ trução dos empreendimentos. Mas como “não há mal que sempre dure. também agravada por desequilíbrios tributários. Passou a ter excesso de oferta de energia e o mercado spot desde então esteve. A esperança no futuro Não há dúvidas de que as PCHs são fontes de geração de energia limpa. Mas ainda existia (e existe) o ACR ..000 MW em 20 anos. desde 1883. foi capaz de desenvolver o estado da arte na engenharia hidroelétrica.. a busca de fornecedores incentivados. além da disponibilidade internacional de equipamentos. redução da atividade econômica. Naturalmente esta crise teve reflexo no desenvolvimen­ to do Brasil e estancou. sem impactos de êxodos rurais. O Governo passou a fazer leilões de energia tendo como competição apenas o valor do MWh.que são os leilões de energia levados a efeito pelo poder conce­ dente. ficaram sem mercado potencial de comercialização de seu produto. tudo em nome da “modicidade tarifária”. houve uma importante e fatal perda de compe­ titividade em função da evolução tecnológica de outras fontes.. renovável. As PCHs.” certamente as PCHs retomarão o mes­ mo caminho virtuoso que. fazendo competir entre si diversas fontes de geração e.ambiente de contratação livre . Nem tudo estava perdido. capaz de construir usinas memoráveis do passado e brilhantes. em média. descentralizada. que vinham se desenvolvendo muito bem através da venda antecipada de sua energia e assim viabilizando os project finance. a expansão industrial. não induzindo aos consumidores livres. fiquem completamente alijadas dos processos de leilões no ACR.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A crise das PCHs Em 2008 o mundo foi sacudido por uma crise econômico-finan­ ceira que envolveu os principais bancos internacionais e provocou uma falta de liquidez e. As cir­ cunstâncias atuais levam à desindustrialização do setor.ambiente de contratação regula­ da . atualmente. Ledo engano. Os valores que passaram a ser negociados no ACL . Figura 3 – PCH Antônio Brennand no rio Jauru 351 . além de outros adjetivos qualificativos favoráveis ao seu desenvolvimento. socialmente inseridas nas comunidades. sustentável. fazendo com que as PCHs. com va­ lores modestos. no caso das PCHs. por consequência.

PCH São Joaquim no rio Benevente. XX e XXI Figura 4 – PCH Irara com 30 MW no rio Doce.Séculos XIX. no Espírito Santo Figura 7 – PCH Anna Maria no rio Pinho em Minas Gerais 352 . em Goiás Figura 5 – PCH São Simão com 27 MW no rio Itapemirim Braço Norte Esquerdo.A História das Barragens no Brasil . no Espírito Santo Figura 6 .

2005 Figura 9 . Edson – Centrais Hidrelétricas – Ed.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 8 – PCH Ivan Botelho I (Ponte) no rio Pomba em Minas Gerais Referências (1) Tiago. Rio de Janeiro e Minas Gerais 353 . Camila . Bortoni.Pequenas Centrais Hidroelétricas do Estado de São Paulo – 2. Ferrari. Jason.000 – Governo do Estado de São Paulo (4) Souza. Nascimento. Galhardo. Santos. Maurício – Geração de Energia Elétrica no Brasil – Ed. Fernando. José Guilherme. Afonso Henriques.– CERPCH – Itajubá/MG (2) ABRAGEL – Associação Brasileira de Geração de Energia Limpa – Diversas apresentações em palestras (3) Prado Jr. Amaral. Zulcy. Geraldo.A Evolução Histórica do Conceito das PCHs no Brasil. Cristiano . Interciência .PCH Santa Fé no rio Paraibuna. Interciência – 2009 (5) Site da ANEEL – Agência Nacional de Energia Elétrica (6) Tolmasquim.

354 .

O contexto de mudanças A partir da década de 1990 a estrutura regulatória e funcional do setor elétrico brasileiro foi profundamente modificada. que em um desenho inicial da reestruturação seriam todas privatizadas. a meta era retirar completamente do Estado o papel de agente econômico no setor. a empreendimentos relacionados à empresa Furnas Centrais Elétricas. extensão continental. Neste capítulo procura-se discutir. tanto no plano da expansão da oferta de energia elétrica (geração). diversida­ de de hidrologias entre regiões. dessa forma. sob Usina hidroelétrica de Anta 355 . No primeiro movi­ mento da reestruturação. Tal reestrutu­ ração teve por objetivo promover a criação de um mercado competitivo de energia elétrica no país. atrair os capitais privados para o setor. à época. Essa reestruturação setorial viveu dois momentos distintos. Ao Estado restaria o papel da regulação. desverticalizando as empresas. as adaptações às quais tiveram que se submeter para se manterem como agentes importantes no setor elétrico e as carac­ terísticas (e desafios) para a gestão dos empreendimentos no novo contexto. desse modo. Dada a natureza peculiar do sistema brasileiro – forte prevalência da hidroeletricidade.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A Nova Face das Empresas Estatais frente à Expansão da Oferta de Energia Hidroelétrica no País Márcio Antônio Arantes Porto e João Batista Gribel Soares Neto O setor elétrico brasileiro vivenciou mudanças profundas em sua orga­ nização estrutural a partir de meados da década de 1990. inspiração de experiências desenvolvidas em outros países oci­ dentais. em sua maio­ ria. atrair os investimentos privados. dada a dificuldade de o poder público continuar a arcar com os vultosos recursos demandados pelo setor. tendo sido criada. sob amplamente majoritário controle estatal. com foco particular nas novas usinas hidroelétricas. dando oportunidade de acesso a novos agentes às receitas expressivas dessa atividade econômica. As atividades de geração. essas experiências das empresas públicas no novo ambiente setorial. A partir de então as empresas públicas. tiveram que se adap­ tar às mudanças de cenários e às diferentes lógicas às quais o setor elétrico foi submetido nos anos seguintes. privatizando todas as empresas públicas então existentes. na qual os autores exercem suas atividades profissionais. ten­ do como grande divisor de águas o traumático racionamento de energia elétrica vivenciado em 2001 e 2002. especialmente aqueles voltados à sua ex­ pansão. A justificativa para essa reestruturação era introduzir uma maior competitividade nesse importante segmento da infraestrutura e. como nos segmentos de transmissão e distribuição. a ANEEL – Agência Nacional de Energia Elétrica. por certo de forma muito bre­ ve. todos. com a consequente redução da presença do Estado nesse segmento da economia. sob esse contexto político e econômico. transmissão e distribuição seriam segregadas. então. buscando. que seriam gradualmente privatizadas. entre outras – a adaptação dos modelos importados mostrou-se particularmente desafiadora e não isenta de riscos. Os exemplos contidos no texto que se segue referem-se.

que devem ser regulados. a menor Receita Anual Permitida ou RAP.03. enfim. investidores nacionais e estrangeiros para os leilões de outorga das concessões dos ativos de transmissão. É esse o ambiente competitivo complexo onde hoje convivem empresas privadas e públicas. que desaguou no racionamento de 2001-2002. Mudanças culturais importantes.2004. conforme ocorria anteriormente sob a égide da prestação do serviço público – onde não havia uma preocupação dominante com a minimização dos custos. XX e XXI A privatização conforme originalmente planejada.Séculos XIX. Esse equilíbrio entre a qualidade e os investimentos – custos. ao tratar-se dos Modelos de Gestão dos empreendi­ mentos e da Engenharia do Proprietário. No segmento da Transmissão a concorrência se dá através de leilões para outorga das novas obras de ampliação do sistema. com o setor público. ou seja. introduziu uma nova regula­ mentação para a outorga de concessões de geração e para a comercialização de energia no país. O modelo de competição na Transmissão se consolidou primeiro. para o empreendedor – é um dos grandes desafios a ser en­ frentado nas obras do setor. mas agora sob uma lógica que priorizava a segurança energética. atraindo. Tais parcerias tem-se mostrado não somente rentáveis. Requisitos essenciais para o sucesso das empresas públicas no novo modelo O modelo setorial vigente tem por base a competição nos segmentos de Geração e Comercialização. determinados pelo planejamento setorial. Os novos empreendimentos. Estabeleceu dois ambientes de comercialização. foram necessárias às empresas estatais para adaptar sua atuação ao novo contexto. enquanto no ACL se daria a comercialização direta de energia pelos agentes de geração aos consumidores livres. A concorrência tornou-se notoriamente mais acirrada. alguma reflexão. Em especial quando se consorciam com empresas privadas para a exploração dos novos empreendimen­ tos. que seriam repassados. tema ao qual será dedicada. são outorgados aos agentes que se dispuserem a realizálos pela menor tarifa para os usuários. com a comple­ ta retirada do Estado da atividade econômica na área da energia elétrica. somando experiências e capacitações que se complementam.848. ficou em meio do caminho com a ascensão de um novo governo a partir de 2003 e após o fracasso do modelo anterior. O movimento de privatização das empresas públicas foi suspenso. observandose maiores deságios sobre os tetos de remuneração estabelecidos pela ANEEL. Em verdade elas vem sendo particularmente bem sucedidas nessa nova configuração do setor. adiante. de 15. após liberada a participação das empresas públicas nos leilões. A Lei n o 10. causando prejuízos profundos à economia do país. ainda em curso. aos consumidores. o “Ambiente de Contratação Regulada (ACR)” e o “Ambiente de Contratação Livre (ACL)”. 356 . enquanto a Trans­ missão e a Distribuição são consideradas monopólios naturais. o planejamento do setor pelo Estado foi retomado (com a criação da EPE – Empresa de Pesquisa Energética) e o modelo setorial radicalmente revisto. embora mantida a ênfase na competição. O ACR para a compra e venda de energia elétrica por concessionárias. Ou seja. insumo essencial para o desenvolvimento econômico e social do país. o desafio imenso que é expandir a oferta de energia para o vigoro­ so mercado brasileiro. enfim.A História das Barragens no Brasil . que era inicialmente vedada. desde o início. um compromisso entre qualidade (regulada) e o preço (tarifa) do serviço. permissionárias e autorizadas do serviço público de distribuição de energia elétri­ ca. mas – e até mesmo mais importante – tem atraído a participação dos investidores privados para compartilhar. As tarifas aos consumidores não tem mais como base os custos incorridos na construção dos empreendimentos (a tarifa pelo cus­ to). no modelo competitivo busca-se a efici­ ência econômica.

através de contratos bilaterais registrados no Mercado Atacadista de Energia – MAE. em virtuosa complementaridade. com 855 MW de capacidade. no rio Uruguai. podem justificar o sucesso das empresas públicas nos certames para expansão da oferta de energia. finalmente. em Goiás. Nesse novo contexto setorial. a parceria das empresas estatais. prejudicados pela mudança de modelo. as SPE podem exercer uma gestão do projeto moderna e dentro das melhores práticas. O desenvolvimento dos projetos através de SPE As SPE – Sociedades de Propósito Específico são empresas priva­ das quando apresentam. Aquelas usinas mais atraentes. mas ainda há muito por avançar frente às exigências do mercado. teriam dificuldades. recebia a concessão para as novas usinas hidroelétricas aquele inves­ tidor que ofertasse o maior valor pelo Uso do Bem Público (UBP). Alguns fatores de sucesso Relacionam-se. liberadas para participar dos leilões de novas concessões. de forma sinérgica. dentro das estruturas funcionais de suas organizações.090% sobre o piso de UBP estabelecido – agregando elevação de cerca de 30% aos seus custos de produção. motivado pela competição acirrada por sua outorga. sempre cara. ressurgiram como agentes de relevo. as 357 . em muitos casos. Houve necessidade de mudanças culturais profundas no modo de atuar das empresas públicas com vistas à sua adaptação e sobrevi­ vência no novo modelo competitivo setorial. Os parceiros individualmente. alguns fatores que se consideram essenciais para o desenvolvimento favorável dos novos projetos de geração no ambiente competitivo e que. não obstante aplicáveis a todos os agentes. que teve ágio de 554%. as empresas públicas. Ou seja. a seguir. Caso típico foi a excelente usina de Serra do Facão (210 MW). participa­ ção minoritária das empresas públicas. com a reformulação do modelo setorial introduzida a partir de 2004. Daí o agente negociaria sua energia livremente. estando presentes em vários empreendimentos importantes. Aliam. em especial no que se refere às novas usinas hidroelétricas. sob uma estrutura organizacional projetada. com cus­ to de produção mais econômico. em sua constituição societária. a partir de um piso. ficavam oneradas por um ágio elevado na UBP. Outro exemplo.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Já no segmento de Geração houve. a usina de Foz do Chapecó. muitas dessas usinas. Na transição de modelo ocorrida após 2003. Para resgatar esses projetos. As parcerias com a iniciativa privada e o contexto de com­ petição pelas novas outorgas de concessão proporcionaram um importante aprendizado às empresas públicas. A ótica do “negócio” e sua rentabilidade tiveram que prevalecer frente à tradição das obras de altíssima qualidade. Por desenvolver um empreendimento específico. muitas vezes. Podem incorporar parceiros com perfis bastante distintos. mas que eram construídas com elevados custos. devido às características do modelo seto­ rial. uma mudança radical de con­ ceitos. que teve um ágio de 3. de receitas antecipadamente estabelecidas e de longo prazo. fornecedores de bens e serviços e concessionárias. ou seja. as melhores características das empresas privadas e das empre­ sas públicas em prol do desenvolvimento do projeto. Ademais. No modelo competitivo inicial a outorga das concessões se dava àquele agente que mais pagasse por essa outorga. tanto em parceria com a iniciativa privada – maio­ ria dos casos – como através de empreendimentos corporativos. Nesse ambiente a energia disponibilizada ao mercado acabava. no rio São Marcos. outorgadas sob o modelo anterior – e que ficaram conhecidas como “Botox” – encontraram dificuldades para se viabilizar e comercia­ lizar sua energia no novo ambiente. por disporem. foi necessário um forte empenho no âmbito da regulação bem como. valor de referência estipulado pelo governo. em gerir o projeto com tais ca­ racterísticas – fato especialmente verdadeiro para as empresas públicas. 100% estatais. como investi­ dores puros.

em suas várias disciplinas. o que acarreta em menores prêmios de risco e melhores condi­ ções de contratações das obras e outros serviços – enfim. As interações com os órgãos ambientais devem ser constantes e tecnicamente elevadas. mas não exclusivamente. que muitas vezes são o grande diferencial que define o vencedor de um leilão de outor­ ga. bem como o que não é viável. Investir. com a possível profundidade que os prazos em geral escassos permitem. e deixando claro à população o que é factível realizar a título de compensação. com­ prometer fortemente sua rentabilidade. face aos baixos riscos envolvidos. que deve inserir-se de forma sustentável no contexto regional ao qual que se incorpora. Engenharia financeira do projeto O equacionamento financeiro do projeto talvez seja o ítem mais importante.Séculos XIX. paralisações. Há necessidade de transparência no trato com os órgãos ambientais e com os afetados. definidor do sucesso e da rentabilidade empreendimento no ambiente competitivo existente em nosso modelo setorial. A qualidade dos estudos ambientais deve ser a melhor possível. dando agilidade na realização de estudos complementares àqueles disponibilizados pela ANEEL. negociando prioridades de forma aberta com a sociedade organizada. O papel do financial advisor é essencial. técnico-econômica e ambiental. o melhor perfil da dívida e dos desembolsos. Um ambiente de mútua confiança e de aceitação do empreendimento é construído a partir do tratamento respeitoso às partes interessa­ das. dá ensejo aos agentes a propor soluções inovadoras para sua execução. a ANEEL disponibiliza participar dos leilões de outorga dos novos empreendimentos de geração um con­ 358 . Não observar essa “regra de ouro” significa condenar o projeto a atrasos no seu licenciamento. e seus riscos. a antecipação da produção e a eventual geração de caixa durante Conhecimento aprofundado do projeto Aos agentes interessados. no conhecimento técnico que envolve o pro­ jeto. embargos. não obstante sua utilidade pública. são necessárias compensa­ ções àqueles atingidos pelo empreendimento. Con­ templa os Estudos de Viabilidade Técnico-Econômica (EVTE). É preciso reconhecer que toda e qualquer obra de infraestrutura. ademais. os incentivos fiscais. por isso. Tratamento da questão ambiental O tratamento adequado da questão ambiental – aí incluídos. A adequada modelagem financeira do negócio. impacta o meio ambiente – físico. redução dos riscos associados ao projeto. a melhor solução tributária. direta e indiretamente pelo empreendimento. construção e operação. sua otimização energética. Assim conseguem. com avaliação de benefícios e custos associados à nova usina cuja outorga será licitada. as empresas públicas são naturalmente fortes. biológico e social – e que. quer nas áreas ambiental e fundiária – e pela grande intimidade que muitas vezes tem com as regiões de desenvolvimento dos projetos. a colocação de parcela de energia no ACL. agregando-se sempre. os Estudos de Impacto Ambiental (EIA) e o Relatório de Im­ pacto Ambiental (RIMA). com toda a ênfase.A História das Barragens no Brasil . com o adequado atendimento às condicionantes de licencia­ mento. Vantagens essas que são potencia­ lizadas através de parcerias venturosas. enfim. os aspectos sociais – é absolutamente determinan­ te no sucesso dos empreendimentos hidrelétricos na atualidade. alavancar seus projetos com custos de financiamento bastante atraentes. que se somam ao expertise das empresas públicas. maior competitividade nos leilões. Permite. XX e XXI SPE podem usar tais receitas futuras como garantia para obter os financiamentos. Nesse aspecto. junto de estudos nos quais é definida a concepção global da usina. em geral. o conhecimento científico existente na região do empreendimento. envolve várias componen­ tes: a busca pelas melhores fontes de financiamento. por disporem de equipes próprias e capacitadas – quer na engenha­ ria.

a fim de contribuir para que o tema seja analisado sob vários ângulos pelos profissionais do setor. buscando e testando fórmulas que possam viabilizar os novos negócios de maneira a reduzir riscos e atender aos objetivos de todas as partes interessadas. podemos elencar as perdas de receita de geração por atrasos das obras. multas impostas pelos órgãos públicos de fiscalização e regulação. o que pressupõe que: (i) não há uma única modalidade que possa ser considerada como ideal para o atingimento dos objetivos e atendimento das necessidades de todas as partes interessadas no negócio. podemos citar os aumentos dos prêmios de seguros. efetivamente. Igualmente. jun­ tamente com seus parceiros. em que todos os envolvidos perdem. No primeiro caso.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens a construção – tudo isso é absolutamente crucial para a proposição de uma tarifa módica e tecnicamente sustentável nos leilões. Furnas adotou a modalidade de contratação mista com EPC – Engineering. no modelo competitivo em vigor. Portanto. Estes devem procurar blindar todas as partes interessadas. tendo em mira benefícios mútuos para as partes. que pagará por uma energia mais cara e menos favorável sob o ponto de vista ambiental. tanto durante a implantação quanto na fase de operação. A não observância desses preceitos tem como consequência perdas diretas para os empreendedores e indiretas para o negócio de geração de energia no país. Modelos de gestão recentemente utilizados Percebe-se. Na discussão que se segue procura-se identificar alguns dos mo­ delos já utilizados ou em utilização. perde a sociedade brasileira. Sendo de risco moderado os retornos dos investimentos em geração hidroelétrica. no fim da linha. na atualidade. através de uma atuação em parceria entre os proprietários dos empreendimentos e os consórcios contratados para a execução. de buscar soluções que garan­ tam a conclusão das obras conforme os preços e prazos definidos nos planos de negócios (uma vez que a energia já está vendida com preço e data de entrega contratados). sacrificar margens e compartilhar ganhos. Modelos de gestão dos empreendimentos As características atuais do modelo setorial reforçam a necessida­ de. que tem sido desenvolvidas desde 2001. é preciso gestão consistente dos projetos no sentido de assegurar a qualidade dos serviços. · Modernização de usinas existentes Em suas obras de modernização de usinas hidroelétricas (usina hidro­ elétrica Mal. Independentemente de outras possibilidades. para vencer os leilões de outorga dos novos empreendimentos. os participantes que se consorciam para a competição – investidores e fornecedores de bens e serviços – identificam a necessidade de atuar de forma solidária. No segundo caso. As empresas públicas incorporaram e vem aperfeiçoando essa abordagem financeira “privada” nos leilões do setor elétrico. prejuízos à imagem das empresas envolvidas. dentre outros – com sacrifícios à rentabilidade dos projetos. não ha­ vendo. com reflexos positivos para a sociedade. por parte dos empreendedores. 359 . a existência de várias modalidades de gestão de empreendimentos na área de geração. os agentes devem compartilhar a visão de longo prazo que as inversões no setor elétrico requerem. maior preocupação da sociedade civil quanto à segurança dos empreendimentos e maiores cuidados dos organismos de licenciamento ambiental. combinando aspectos positivos de modelos de gestão já utilizados e minimizan­ do seus pontos falhos. ganha importância a busca por modelos de gestão apropriados. para o sucesso efetivo dos empreendimentos. Mascarenhas de Moraes – MG e Luiz Carlos Barreto de Carvalho – MG/SP). o fato é que. espaço para retornos espetaculares e em curto prazo. e (ii) os empreendedores estão. Regidos pela modelagem financeira abrangente e detalhada. necessidade de aquisição de energia no mercado livre para suprir os compromissos assumidos. pois.

pela construção e pela montagem eletromecânica.A História das Barragens no Brasil . concluída ao longo de 2006. com contratos a preços globais. o projeto. pela gestão fundiária e pelos programas ambientais. Os contratados só podem desenvolver suas intervenções nos equipamentos após aprovação de Furnas. a Enerpeixe (parceria entre Energias do Brasil e Furnas) contratou. ini­ ciada em 2002.Séculos XIX. separadamente. · Novas usinas hidroelétricas Na implantação da usina hidroelétrica Peixe Angical. a preço global. Fornecimentos e Construção) e execução direta. Já na modernização e ampliação da UTE Santa Cruz (RJ). pelos fornecimentos dos equipamentos. incluindo as obras de reservatório. À Concessionária coube a responsabilidade pelo controle da qualidade das obras. reservando para si os licenciamentos ambientais e os fornecimentos dos turbo-geradores. Furnas adotou o regime de EPC. Figura 1 – Usina hidroelétrica Peixe Angical 360 . Os Consórcios contratados respon­ sabilizam-se pelo projeto. todas a preços globais. o fornecimento/mon­ tagem e a construção civil. XX e XXI Procurement and Construction (Engenharia. Furnas resguardou para si a prerrogativa de apro­ vação de todos os projetos. da execução dos comissionamentos e dos licenciamentos ambientais. pelo licenciamento ambiental.

do 361 . a preço global.A. Na construção da usina hidroelétrica Simplício (RJ/MG). No caso da usina hidroelétrica Serra do Facão (GO). pela gestão fundiária. sob sua tutela direta. Camargo Corrêa Cimentos). (pertencente à Alcoa. também reservou para si as responsabilidades pelo licenciamento ambiental. que iniciou as obras em março de 2007. a preço global. CEEE e Fur­ nas) optou pela contratação de um EPC tradicional (engenharia. cujas obras foram iniciadas em janeiro de 2007. fornecimentos e construção. incluindo o contro­ le da qualidade). incluindo o controle da qualidade). as res­ ponsabilidades pelo licenciamento ambiental. Analogamente ao caso anterior. similarmente a Foz do Chapecó. pela execução dos programas ambientais e das obras de reservatório. optou pela contratação de um EPC tradicio­ nal (engenharia. pela gestão fundiária e pela execução dos programas ambientais e das obras de reservatório. o Consórcio Empresarial Foz do Chapecó (pertencente à CPFL. DME.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 2 – Usina hidroelétrica de Foz do Chapecó Para a implantação da usina hidroelétrica Foz do Chapecó (SC/ RS). manteve. a Serra do Facão Energética S. No entanto. cuja obra teve início em janeiro de 2007. fornecimentos e construção. Furnas. a empresa decidiu pelas contratações separadas do projeto (preço global). concessão 100% de Furnas.

Tal opção foi feita buscando eliminar volumes significativos de verbas de contingenciamento relativas a riscos geotécnicos. 362 . A contrapartida é que tal risco está sendo assumido por Furnas. de um sistema misto de preços: parte do contrato é por um preço global e parte é por preços unitários. Além disso. O contrato da construção civil não inclui o controle da qualidade das obras. Furnas se responsabiliza pelo licenciamento ambiental.Usina hidroelétrica de Serra do Facão no rio São Marcos fornecedor/montador (preço global) e das obras civis (misto de preço global e preços unitários). no contrato das obras civis. A novidade no caso de Simplício foi a utilização. pela gestão fundiária e pelos programas ambientais. A integração das responsabilida­ des que se interfaceiam é gerida diretamente pela própria conces­ sionária.A História das Barragens no Brasil . XX e XXI Figura 3 – Barragem de Foz do Chapecó Figura 4 . nem as obras de reservatório.Séculos XIX. anterior mente embutidos no preço global da empreiteira.

possui a seguinte formatação atual: contratações separadas do projeto (preço global). Analogamente à usina hidroelétrica Simplício. A integração das responsabilidades que se interfaceiam também será gerida diretamente pela própria concessionária. pela gestão fundiária e pelos programas ambientais. optou pela contratação de um EPC mais amplo. outra concessão 100% de Furnas. também denominado internamente por Turn Key.Usina hidroelétrica de Retiro Baixo 363 . a Retiro Baixo Energética S.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Já a implantação da usina hidroelétrica Batalha (GO/MG).A. obras iniciadas em março de 2007. Figura 5 – Obras da barragem e usina de Anta do aproveitamento hidroelétrico de Símplicio Figura 6 . Na usina hidroelétrica Retiro Baixo (MG). Furnas se responsabiliza pelo licenciamento ambiental. do fornecedor/ montador (preço global) e das obras civis (preço unitário). incluindo o controle da qualidade.O contrato da construção civil não inclui as obras de reservatório.

No entanto. os exemplos acima não encerram todos os ca­ sos recentemente utilizados ou em implantação atual no Brasil. Não obstante. a Companhia Hidroelétrica Teles Pires (FURNAS. mostrando. as responsabi­ lidades sobre os licenciamentos ambientais. a Santo Antônio Energia S. licenciamento ambien­ tal. projeto. para si. bastante ricos em diversidades de modelos de ges­ tão. · Tendências Obviamente. pela execução dos programas ambientais e das obras de reservatório. (parceria de FURNAS. Percebe-se. fornecimentos e construção. que findam por gerar: (i) preços mui­ to avultados em função de grandes contingenciamentos embutidos pelos construtores. dado o caráter crítico dessas atividades para o sucesso dos empreendimentos e para a imagem da empresa na região de inserção dos projetos. São. ou por alterações de projeto ou por situações reais distintas daquelas previstas nos projetos básicos. os concessionários reservam. uma das exigências que A questão das obras de reservatório não tem uma tendência defini­ da. incluindo o controle da qualidade). Por tal motivo. pode-se afirmar que ela ainda é a que mais agrada aos investidores. que recebem tal exigência dos órgãos financiadores. com foco na hidroeletricidade. comissionamentos. manteve sob sua tutela direta as responsabilidades pelo licenciamento ambiental. em nossa opinião. CEMIG. no entanto. cuja obra foi iniciada em setembro de 2008. por ser entendida como a que melhor transfere os riscos de execução e integração dos empreende­ dores aos contratados. em que o contratado se responsabiliza pelo projeto. ELETROSUL. As experiências têm mostrado que os regimes de preços globais fixos não eliminam por completo possibilidades de situações como acima relatadas. Manteve também sob responsabili­ dade direta da SPE o licenciamento ambiental.A. ou seja. Tal constatação deve-se ao fato de que as obras de reservatório tem uma dependência direta da área afetada e dos condicionantes 364 . incluindo o controle da qualidade – a preço global. programas ambientais e obras de reservatório. percebe-se algum movimento no sentido de se incluir preços unitários em partes do projeto mais sensíveis a previsões muito antecipadas. ou (ii) pleitos de reequilíbrios econômicofinanceiros em função de serviços adicionais imprevisíveis. ratificando a inquietude dos diversos empreendedores quanto à busca pelo melhor modelo a ser utilizado para os negócios de geração de energia elétrica no país. XX e XXI onde o contratado responsabiliza-se pela integralidade das ações necessárias à implantação completa do empreendimento. algumas fortes tendências. FIP. já há movimentos mais recentes no sentido de se mesclar os regimes de preço global com partes por preços unitários. montagem eletromecânica. com obras previstas para iniciar em julho de 2011. tudo por um preço global. No caso da usina hidroelétrica Teles Pires (MT/PA). Uma delas é a adoção da modalidade de preço global. as gestões fundiárias e os programas ambientais. controle da qualidade. Para a implantação da usina hidroelétrica Santo Antônio (RO). OII. Outra modalidade comumente observada é a utilização de contrata­ ções do tipo EPC.Séculos XIX. construção civil e montagem eletromecânica.A História das Barragens no Brasil . fornecimento. construção civil. Via de regra. pela gestão fundiária. CNO e AG). a gestão fundiária a execução dos programas ambientais e das obras de reservatório. fornecimentos e construção. uma tendência para o futuro próximo. Tal tendência tem forte relação com a transferência de riscos do empreendedor para o construtor. gestão fundiária. incluin­ do o controle da qualidade das obras. a preço global. Mesmo havendo variações percebidas em tal modalidade de contratação. os organismos financiadores dos projetos tem colocado para as viabilizações dos empréstimos. em substituição aos preços unitários. optou pela contratação de um EPC tradicional (engenharia. NEOENERGIA e ODE­ BRECHT) igualmente optou pela contratação de um EPC tradicio­ nal – engenharia. contudo. fornecimentos.

com a ocorrência de inúmeros acidentes em obras de grande porte. fornecimento. a engenharia do proprietário deve disponi­ bilizar informações para subsídio técnico ao empreendedor na to­ mada de decisões frente ao construtor. em outros casos. por meio do monitoramento adequado dos processos empregados. visto que as incertezas inerentes à execução dos serviços de construção. sendo. Complementarmente. é secundária. montagem.Vista aérea das obras da usina hidroelétrica de Santo Antônio sobre o Rio Madeira dos licenciamentos. incluindo eventos em usinas hidroelétricas e também no metrô de São Paulo. Entendemos que a engenharia do proprietário tem como principal papel a atenuação de riscos envolvidos quanto a prazos e confor­ midade de produtos contratados. comissionamento e operação de empreendimentos de geração devem ser controladas. impossível uma orçamentação isenta de riscos. possíveis as prédefinições necessárias aos orçamentos seguros pelas construto­ ras e. sob o ponto de vista da engenharia. e não a vitória na batalha dos tribunais.Figura 7 . bem como a preservação de sua imagem. pois o interesse do investidor é o empreendimento concluído da forma como foi planejado. com base no contrato EPC. que fatalmente elevaria o preço proposto em função de contingenciamentos altos. A questão da responsabilidade integral do contratado. fizerem parte do mesmo grupo responsável pela execução das obras o construtor e o projetista. em alguns casos. Fica patente que. especialistas passaram a questionar esse modelo sob a ótica da segurança. para o emprego desse modelo de contrato. o empreendedor deve ter em seu auxílio equipe técnica que exerça a engenharia do proprietário de forma ostensiva. ainda mais quando 365 . Entretanto. de forma a atender aos objetivos previamente estabelecidos para o empreendimento e aos critérios de segurança operativa definidos Engenharia do proprietário Não resta dúvida quanto às inúmeras vantagens que o modelo de contrato EPC – Turn key trazem ao empreendedor sob o ponto de vista econômico.

data book Acompanhamento das obras e serviços em face das normas de higiene e segurança industrial pertinentes. Análise e emissão de pareceres relativos a fornecimentos ne­ cessários que estejam fora do escopo do Contrato EPC. os conceitos anteriormente apresentados não encontram discordâncias entre os diversos segmentos e atores envolvidos nas gestões de empreendimentos de grande porte. Acompanhamento de liberações de serviços por parte da projetista.A História das Barragens no Brasil . Atividades contempladas na Engenharia do Proprietário Dessa forma. as seguintes atividades: Acompanhamento das obras civis e eletromecânicas. caso requerido pelo empreendedor. quando na entrega do empreendimento para operação comercial. Análise dos métodos e resultados relativos ao controle de qualidade dos materiais de construção desenvolvido pelo laboratório contratado pelo contratado. Acompanhamento de quantitativos dos serviços executados das obras civis e de montagem eletromecânica. a engenharia do proprietário deverá exercer. Emissão de relatórios técnicos destinados à análise de pleitos. quanto à conformidade em relação aos documentos de projeto. Acompanhamento do pré-comissionamento. quanto a alterações no projeto básico consolidado e/ou especifica­ ções técnicas. Análise dos dossiês de qualidade . Análise de planejamentos executivos elaborados pelo cons­ trutor. registros fotográficos. Seleção de assuntos de interesse do empreendedor para serem discutidos nas reuniões de produção (semanal) e de coordenação (mensal). XX e XXI nos procedimentos de rede do ONS e nas regulamentações da ANEEL e MME. emitidos pelo contratado.Séculos XIX. Emissão de relatórios. A forma de atuação da Engenharia do Proprietário De modo geral. fornecedor e montador e emissão de pareceres ao empreendedor. subsidiando-o de elementos necessários para análise econômico-financeira afetos à relação contratual estabelecida com o contratado. Análise de redes de precedência emitidas pelo contratado e emissão de pareceres ao empreendedor. filmes e vídeos relativos à obra. quanto a questões técnicas no âmbito das atividades no local da implantação. para subsidiar solu­ ção de impasses ou divergências que possam ocorrer entre o empreendedor e o construtor. Análise e parecer sobre relatórios de progresso emitido pelo empreendedor. comissionamento e pré-operação. normas técnicas aplicáveis e aos demais documentos técnicos contratuais. Certificações parciais dos produtos entregues pelo contratado e certificação global. Por outro lado. Com a en­ trada de diversos agentes econômicos no setor de energia elétrica 366 . Emissão de relatórios e documentações específicos para os órgãos financiadores. Emissão de pareceres ao empreendedor quanto a pedi­ do de modificação de projeto – pedido de modificação de campo. Acompanhamento rigoroso dos processos executivos emprega­ dos pelo contratado previstos nos anexos da qualidade. Organização das reuniões de coordenação e de produção. plano de inspeções e testes. quando solicitados. Emissão de pareceres. Atendimento às solicitações do empreendedor. especificações técnicas. há grandes divergências com relação à forma e/ou intensidade de atuação da engenharia do proprietário. sem se limitar a elas.

vindo a manifestar suas consequências danosas apenas na fase de operação.Usina hidroelétrica de Serra do Facão no rio São Marcos com 212 MW de capacidade instalada 367 . uma vez que não interfere diretamente na execução das atividades das obras. acompanhando a integralidade das obras. A interferência direta se dá apenas em casos extremos. Figura 8 . desenvolvendo um trabalho de verificação de aderência das atividades às normas e especificações técnicas. O termo “fiscalização” passou a sofrer forte preconceito por trazer consigo a ideia da presença da mão-forte do empreendedor nas de­ cisões de obra. a exemplo do que sempre ocorria nas gestões de grandes obras no Brasil. traduzido do inglês owner’s engineering. o emprego do neologismo “engenharia do proprietário”. as equipes de engenharia do proprietário. ficaram reduzidas a poucos profissionais. Entendemos que as equipes de engenharia do proprietário deverão ser dimensionadas de maneira a que as obras sejam fiscalizadas em sua integralidade. diretamente pelo “olho do dono”. de então. atuar de maneira mais consistente. com a intensidade devida. sem um acompanhamento passo a passo da obra. Com isso. em que se verificam riscos às obras e às pessoas. e deve. uma das principais alterações conceituais percebida foi no enfoque dado à questão da engenharia do proprietário. Eventuais defeitos poderão ficar ocultos por vários anos. a partir das mudanças no marco regulatório observadas desde 1995. uma vez que importantes etapas das obras deixam de ser acompanhadas. dimensionadas dentro desse conceito de atuação extremamente distante e pontu­ al. A engenharia do proprietário pode. Vem. mas tão somen­ te verifica o atendimento às normas e especificações executivas. acompanhando o emprei­ teiro em todos os turnos de trabalho. sem que isso traga ao empreendedor a assunção de riscos que não são de sua responsabilidade.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens no Brasil. muitas vezes quando o construtor já estiver isento de qualquer responsabilidade legal sobre o problema. com atuação restrita aos horários comerciais. Com receio de trazer para o empreendedor riscos contratualmente definidos como de responsabilidade dos fornecedores/construto­ res. apontando eventuais não-conformidades para subsidiar as decisões do proprietário. Vemos uma grave omissão dos empreendedores em tal tipo de atuação. Tal tipo de atuação não transfere riscos sob responsabilidade dos construtores para o empreendedor. sem acompanhamento integral das obras. o exercício da engenharia do proprietário passou a ser defini­ do como de spot check. onde se faz a checagem do atingimento de grandes marcos.

368 .

e o Grupo Caraça (Formação Moeda e Batatal) ou Grupo Nova Lima (Supergrupo Rio das Velhas). a mina também passou a ser utilizada para mergulho nas galerias e túneis inundados pelas águas do lençol freático. vá­ rios mineiros obtiveram concessões para explorar a propriedade mineral da Passagem até que em 1819 ela foi adquirida. ficando a exploração paralisada em alguns momentos devido à conjuntura econômica do Brasil e à baixa cotação do ouro no mercado. junto com algumas concessões vizinhas. o que já é bastante difundido na Europa. entre a Forma­ ção Cauê. Esta mina é descrita a seguir. Entre 1729 e 1819. Eschwege aplicou técnicas modernas para a época. Antes até da corrida do ouro no oeste americano. em Mariana. Introdução O presente capítulo apresenta um sumário da experiência brasileira em barragens de contenção de resíduos de mineração e de indús­ tria. [Ref. conforme é descrito adiante neste capítulo. e instalou um engenho com nove pilões e moinhos para pedras. de forma sintética. As barragens de rejeitos no Brasil surgiram das atividades de mi­ neração. o ouro primário foi descoberto na região no início do século XVIII. pelo Barão de Eschwege. sendo que uma lavra rudimentar foi iniciada em 1729. Eschwege deixou o Brasil e desta época em diante a propriedade passou pelas mãos de vários mineradores. A mineralização está inserida no Supergrupo Minas. as quais tiveram seu início em épocas que remontam a cerca de 300 anos atrás. A Mina da Passagem está localizada na Vila da Passagem. 1].Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens As Barragens de Rejeitos no Brasil: Sua evolução nos últimos anos Joaquim Pimenta de Ávila e Marta Sawaya 1. De acordo com Ruchkys e Renger [Ref. lugar da passagem da estrada entre Ouro Preto e Mariana. com o nome de Sociedade Mineralógica da Passagem. Atualmente. Até essa época. a sudeste de Belo Horizonte. Descreve. a evolução histórica das barra­ gens de rejeitos no Brasil. pela importância histórica que tem na mineração brasileira. Em 1821. no topo. O acesso é feito por meio de um trolley. até então não usados no Brasil. e a estrutura é a mesma uti­ lizada na época de Eschwege. sob o Ribeirão do Carmo.2005 369 . a exploração do ouro utilizava técnicas e ferra­ mentas rudimentares na lavagem e beneficiamento do minério. a atividade de mineração de ouro no Brasil já ha­ via se iniciado com a Mina da Passagem. com foco em seu desenvolvimento de tecnologias de disposição e na aplicação das técnicas da engenharia de barragens ao projeto e construção de barragens de rejeitos. 1] Barragem São Bento . que criou a primeira companhia mineradora do País de capital pri­ vado. A Mina da Passagem é um bom exemplo de iniciativa de valorização e utilização de minas antigas para geoturismo. Há alguns anos. dando inicio a uma profunda galeria para esgotamento de água e elaborou o primeiro plano de lavra subterrânea em Passagem. a Mina da Passagem foi transformada num complexo turístico onde os equipamentos desativados foram requalificados.

A partir do século XV. Foi somente a partir do início do século XX. pois os rejeitos frequentemente acumulados no solo obstruíam os poços de irrigação. equipamentos para movimentação de terras não eram acessíveis para a construção das barragens. quando fortes chuvas ocorriam. para a manutenção da mineração e a mitigação dos impactos ambientais. algumas destas práticas acontecem até hoje em muitos países em desenvolvimento. atualmente mecanizado. XX e XXI Em relação aos rejeitos gerados. ainda prevalece em minas de tecnologia mais rudimen­ tar a construção empírica. por mui­ to tempo descartaram seus resíduos na natureza. Esse procedimento de construção. Antes do século XV. Precedentes legais gradativamente trouxeram um fim à dispo­ sição incontrolada de rejeitos na maioria dos países ocidentais. e a evolução deste assunto no panorama mundial pode ser percebida por um levantamento feito pelo USCOLD. particularmente por inte­ resses agrícolas. atraindo indústrias de apoio e desenvolvendo a comunidade local. O desenvolvimento da tecnologia para construção de barragens de contenção de rejeitos ocorreu de modo empírico. Raramente existiam engenheiros ou critérios técnicos envolvidos nas fases de construção e de operação. poucas destas barragens permaneciam estáveis. continua sendo utilizado. como descrito a seguir. com cada vez menor granulometria. Consequentemente. a geração de rejeitos pelas empresas de mi­ neração e os impactos decorrentes de sua disposição no meio ambiente eram considerados desprezíveis. com a introdução da força a vapor e com o aumento significativo da ca­ pacidade de processamento dos minerais de interesse econômico. tornou possível a construção de barragens de con­ tenção de rejeitos com técnicas de compactação e maior grau de segurança.Séculos XIX. mais rejeitos estavam sendo depositados e transportados por distâncias cada vez maiores das fontes geradoras para os cursos d’água. lagos e oceanos. que abriram caminho para elaboração das primeiras legislações sobre o gerenciamento de resíduos da mineração. em cursos d’água ou lançando-os em terrenos adjacentes. que se desenvolveu a partir da década 370 . engrena­ do pelas práticas de construção e equipamentos disponíveis em cada época. Surgiram também conflitos pelo uso da terra e da água. geralmente próximo aos rios ou cursos d’água. como resultado. Na diversidade das condições brasileiras. sendo então enca­ minhados para algum local conveniente. em 2004 [Ref. Os produtores rurais começaram a associar a diminui­ ção da colheita nas terras impactadas aos rejeitos. de maneira similar às barragens convencionais. No entanto. as práticas de dispo­ sição de rejeitos permaneceram inalteradas e. Entretanto.3]. a geração de rejeitos aumentou significativamente e estes pre­ cisavam ser removidos da área de produção. Um pequeno dique era inicialmente preenchido com rejeitos hidraulicamente depo­ sitados e depois incrementado por pequenas bermas. Esse desenvolvimento ocorreu ainda sem a aplicação das técnicas da engenharia de barragens. formando depósitos sem nenhuma preocupação de ordenação e sistematização. As barragens construídas no início do século XIX geralmente eram projetadas transversalmente aos cursos d’água. Foi a partir da década de 30 que. as atividades de mineração. Na década de 40.A História das Barragens no Brasil . A situação no Brasil não foi diferente do resto do mundo. com considerações limitadas apenas para inundações. Até meados de 1930. além de contaminar as áreas a jusante. embora em algumas mi­ nas sejam hoje aplicadas tecnologias disponíveis de implantação de barragens. o desenvolvimento tecnológico aumen­ tou ainda mais a habilidade de minerar corpos com baixo teor mineral. as indústrias investiram na construção das primeiras barragens de contenção de rejeitos. que os pequenos dis­ tritos minerários começaram a se desenvolver. com o cessamento de práticas inadequadas que ocorriam até 1930. resultando na produção ainda maior de rejeitos. especialmente em minas a céu aberto. e os aspectos relacionados ao uso da terra e da água conduziram os confli­ tos iniciais. a disponibilidade de equipamentos de alta ca­ pacidade para movimentação de terras. Entretanto.

Com o passar do tem­ po. em geral. [Ref. culminando no desenvolvi­ mento dos projetos de engenharia permitindo a construção de barragens com alturas cada vez maiores. o qual se resumia a operações de britagem e peneiramento com lavagem. Entretanto. introdução de equipamentos cada vez mais robustos para movimentação de terra. por causa de recentes acidentes com barragens de rejeitos que ganharam amplo espaço na mídia. recebendo considerável atenção e tornou-se um fator chave na pesquisa sobre as causas das rupturas. Assim. embora nem sempre fossem usados os conhe­ cimentos sobre a engenharia de barragens. em Nova Lima. e às populações residentes nos vales a jusante. uma segurança satisfatória. Em 1965. construindo aterros com o material estéril removidos da mina e lançados em forma de aterros. os quais sempre foram catalisadores do progresso tec­ nológico da engenharia de barragens. muitas vezes.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens de 30. falhas ocorrem. 2 e 3] 371 . mui­ tos dos princípios fundamentais de geotecnia já eram compre­ endidos e aplicados em barragens de contenção de rejeitos. Entretanto. devido à falta de aplicação adequada dos métodos conhecidos. construção e operação como for­ ma de garantir à sociedade. a construção de barragens de rejeitos no Brasil teve por muitos anos aplicada a prática de utilizar os equipamentos de la­ vra. da então MBR Minerações Brasileiras Reunidas. a produção de rejeitos aumentou. e Germano. trans­ versalmente aos vales. A partir da década de 80. Posteriormente. as atividades eram bem sucedidas. para criar volumes de retenção dos rejeitos do beneficiamento do minério. da Samarco. infiltração. ou negligência das características vitais incorporadas na fase de construção. Numa primeira fase. novos desenvolvimentos na ciência de mecânica do solo. um terremoto causou rompimento de muitas barra­ gens no Chile. os aspectos ambientais também cresceram em importância. Enquanto estas barragens rudimentares se resumiam a estruturas baixas e de menores volumes de represamento. Exemplos desta aplica­ ção são as barragens de: Pontal. resultando em volumes de resíduos a serem represados pelas barragens. O progresso das tecnologias de implantação de barragens de re­ jeitos foi sempre entremeado pelos acidentes com rupturas de barragens. em Itabira. com implicações financeiras severas em muitos casos. os problemas estruturais destas barragens passaram a representar riscos maiores e rupturas significativas começaram a ocorrer. de supervisão deficiente durante a construção. e as áreas para disposição se tornaram cada vez mais escassas. Aspectos de estabilidade física têm permanecido na vanguar­ da. de projetos mal elaborados. a maioria dos aspectos técnicos (por exemplo. pela exigência da sociedade de eliminação desses desastres. com o progres­ so das atividades de mineração e aumento da escala de operações. A atenção foi amplamente voltada para estabili­ dade física e econômica das barragens. na década de 50. especiali­ zados nas técnicas de lavra. abordados em outras áreas como a de geração de energia elétrica. em que a característica básica era investir contra a causa potencial da ruptura da barragem. considerando o potencial de dano ambiental e os mecanismos de transporte de contaminan­ tes. A regra era optar pelo controle rigoroso do projeto. quando o progresso na fabricação dos equipamentos de terraplenagem foi aproveitado nas operações de lavra e constru­ ção de barragens. Assim. as técnicas de observação do comportamento das barragens durante a operação vieram reforçar a necessidade do controle da segurança em longo prazo. da Vale. tais como melhor compreensão do comportamento dos materiais. com orientação técnica dos engenheiros de minas. liquefação e estabilidade da fundação) já eram bem entendidos e controlados pelos projetistas. Esses projetos se torna­ ram possíveis com a ampliação contínua do conhecimento e con­ trole dos aspectos de segurança. compatível com probabilidade de ruptura adequadamente baixa. o controle da segurança das barragens era basicamente orientado para a segurança estrutural e hidráulicooperacional. em Mariana. Na década de 70. Águas Claras. sem grandes acidentes.

em suas particularidades principais. XX e XXI A ocorrência destes acidentes tem tido grande influência na atitu­ de dos profissionais de geotecnia de barragens.Principais Acidentes com Mortes (1970-2001) Ano 1985 1972 1970 1994 1974 1995 1986 2001 1978 Barragem / País Stava / Itália Buffalo Creek / USA Mufilira / Zambia Merriespruit/ África do Sul Bakofeng / África do Sul Placer / Filipinas Fernandinho / Brasil Rio Verde / Brasil Arcturus / Zimbabwe No de mortes 269 125 89 17 12 12 7 5 1 (dados segundo ICOLD-2001) 2. foram preparadas as duas tabelas apresentadas a seguir. Risk of Dangerous Occurrences. são mostrados os acidentes com maior número de mortes. durante cinco anos. em grande parte. representaram. 372 . o que tem catalisado uma evolução positiva da própria tecnologia de rejeitos. que colaboraram com informações sobre acidentes e incidentes. tanto na direção da redução do potencial de dano dos reservatórios de rejeitos. Participaram deste inventário represen­ tantes de 52 países. portanto. que marcaram. desde os anos 70. Os métodos de disposição de rejeitos têm também evoluído po­ sitivamente. em termos de aplicação de engenharia: Buffalo Creek era uma pilha de estéril que estava operando como dique de contenção dos rejeitos.A História das Barragens no Brasil . As causas des­ tes acidentes têm sido atribuídas. po­ rém em uma situação de ocorrência de uma geologia complexa e materiais de fundação com comportamento de difícil análise. A partir dos resultados apresentados. à época dois extremos. muitas das quais catastróficas. nas ações preven­ tivas. e no estabelecimento de regulamentações específicas sobre a segurança de barragens de rejeitos.1. Fatos relevantes na evolução recente da geotecnia de barragens de rejeitos 2. embora seja observado o aparecimento em número crescente de publicações específicas sobre barragens de rejeitos e temas correlatos. o panorama desta área da engenharia. e Buffa­ lo Creek. Stava foi uma barragem projetada segundo a prática corrente da engenharia. na Itália. como do aumento da segurança das estruturas de contenção dos mesmos. nos EUA. sem qualquer engenharia de barragem. Lessons Learnt From Practical Experiences ) com o resultado de um trabalho da comissão de barragens de rejeitos que. Tabela 1 . aspectos que são abordados resumidamente. inventariou os acidentes e incidentes ocorridos desde 1970. atingindo. até 2001. o ICOLD ( International Commission on Large Dams ). O melhor conhecimen­ to do comportamento geotécnico dos rejeitos vem permitindo implantar estruturas mais seguras. Observa-se que o Brasil comparece na tabela com dois casos: Fernandinho e Rio Verde. Na primeira tabela. Cerca de 400 casos foram analisados para identificar as causas principais destes eventos.Séculos XIX. o limite do “estado da arte” vigente à época. Rupturas e incidentes em barragens de rejeitos A apresentação destes fatos relevantes inicia-se obrigatoriamente pelos acidentes com rupturas. à não aplicação das tecnologias existentes. publicou um boletim (Bulletin 121: “Tailings Dams. quando esta estatística foi atualizada. Em 2001. As duas maiores catástrofes ocorridas: Stava.

para redução de riscos. mas ocorre o vazamento de sólidos para jusante com conseqüências variáveis.2 milhões de m³ de lama com cianeto (dados segundo ICOLD-2001) 2006 2003 2000 2000 2000 1999 1998 1998 1995 Romênia Romênia Filipinas Haelva/ Espanha Aznalcóllar/ Espanha Omai / Guiana Os acidentes em barragens de rejeitos continuam insistente­ mente a ocorrer no Brasil. com consequências indesejáveis para a sociedade e para o setor de mineração e indústria. sem mortes. e as defici­ ências decorrem da não aplicação de ações voltadas a garantir a segurança de estruturas. porém com degradação ambiental significativa. Além destes acidentes ocorrem incidentes . pro­ duziu nos últimos anos 10 boletins. Esta situação não é exclusiva do Brasil.0 milhões de m³ de água ácida liberada 4.Acidentes Recentes com Contaminação Ano Local Consequência 2007 Mirai / Brasil Mirai / Brasil Cataguases/ Brasil Kentucky/ Usa Vazamento de rejeitos de bauxita Interrupção de fornecimento de água Vazamento de rejeitos de bauxita Interrupção de fornecimento de água Lixívia negra liberada Interrupção de fornecimento de água Mortalidade de peixes Interrupção no fornecimento de água Contaminação das águas c/ metais pesados 100.estes mais nume­ rosos . em forma de recomen­ dações de boa prática para projeto. tirando a chance de aprendizado com suas causas. infelizmente.onde não ocorre a ruptura.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A segunda tabela mostra os aciden­ tes. Tabela 2 . como um todo. e outros países já identifi­ caram as mesmas deficiências de proprietários e operadores.000m³ de cianeto contaminando águas 700. composto de especialistas de diversos países. que falham na sua responsabilidade de adotar procedimentos gerenciais de segurança. não são informados. de cianeto contaminando águas 50. As causas desses acidentes incluem. 373 . Várias entidades internacionais têm trabalhado para a cons­ cientização dos proprietários e têm produzido excelentes contri­ buições sobre a segurança das barragens de rejeitos. porque os proprietários não os revelam. com três casos. na grande maioria dos ca­ sos. Existem ain­ da numerosos incidentes que.000 t. Alguns são citados a seguir: O ICOLD. situações já resolvidas pela tecnologia disponível. Observa-se que o Brasil compa­ rece novamente na tabela. construção e operação de barragens de rejeitos.000 m³ de água ácida tóxica liberada 5.

DN 65/2003. sobre a segurança de barragens A Lei 12. XX e XXI Dentre os 10 boletins.FEAM. onde são apresentados e analisados os acidentes e incidentes com barragens de rejeitos nos últimos anos. (www. por meio do IFC (International Finance Corporation). O Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM) tem incentivado debates sobre o tema de segurança de barragens.feam. · Aplica-se às barragens destinadas à acumulação de água para quaisquer usos. com recomendações sobre a melhor prática para a segurança. com forte influência da ocorrência de acidentes e da atuação dos órgãos re­ guladores e fiscalizadores como o Ministério Público Estadual e a Fundação Estadual do Meio Ambiente . Canadá. em 2001. No Brasil. As regulamentações resultantes deste processo estão hoje nas Delibe­ rações Normativas. O ICMM (International Council on Mining Metals) criou. que podem ser consultadas pelo site da FEAM: www. algumas empresas de menor porte. a comissão de barragens de rejei­ tos do ICOLD publicou o boletim 121.334/2010).Séculos XIX. 87/2005 e 124/2008.goodpracticemining. Embora as ações para implantação de uma legislação federal de segurança de barragens tenham já cerca de 30 anos no Brasil (basi­ camente. a FEAM coordenou a elaboração de regulamenta­ ção específica. em 2001. diversos países da Europa. somente em 2010 foi criada uma lei federal de segurança de barragens (Lei 12. ações do CBDB junto ao governo). A lei federal 12. já mencionado. levando a tentativas diversas de regulamentação legal que obrigue os proprietários de barragens a tomarem providências efetivas de redução de riscos. com a colaboração do ICOLD. Nos países mais desenvolvidos. A MAC (Mining Association of Canada) produziu vários trabalhos de interesse aos procedimentos de segurança de barragens para uso de seus associados. Após o acidente com a barragem de rejeitos da Mineração Rio Verde. um website de boas práticas para a engenharia de barragens de rejeitos. 2. O Banco Mundial. desde diretores até operadores de barragens de rejeitos. à disposição final ou temporária de rejeitos e à acu­ mulação de resíduos industriais que apresentem pelo menos uma das características abaixo:  374 . Embora existam algumas empresas de grande desempenho. As barragens de rejeitos em MG somente são licenciadas se atenderem aos requisitos das regulamentações. No estado de Minas Gerais. Austrália.334/2010. promovendo se­ minários e workshops específicos e instituiu cursos de treinamento para empresas de mineração em todas as esferas hierárquicas. como EUA. em 2010. do corpo docente de universidades e de empresas de engenharia.3. que conhecem a necessidade de uma boa gestão da segurança.com/tailings). constata-se um maior progresso na regulamentação. No Brasil. a situação não é diferente.334/2010 tem as características a seguir listadas.2. DN 62/2002. que financia o setor privado. e contou com consultoria especializada. concentrada nas barragens de rejeitos. resultaram em uma legislação federal sobre segurança de barragens.A História das Barragens no Brasil . essas ações resultaram em regulamentações sobre a segurança de barragens e esses países contam com legislação sobre o assunto. as tentativas que vêm sendo feitas há mais de trinta anos somente agora. infelizmente ainda desconhecem os aspectos principais da técnica de segurança de barragens. estabeleceu requisitos mínimos de segurança que as barragens de rejeitos devem atender para receberem empréstimos daquela instituição. África do Sul 2. entretanto. Implementação de legislação e regulamentação de segurança de barragens Os acidentes em barragens provocaram sempre reações da sociedade em todo o mundo. que foi discutida com representantes das empresas mineradoras.br.

III .  II . ICOLD Committee on Tailings Dams and Waste Lagoons.O Cadastro Técnico Federal de Atividades e Instrumentos de Defesa Ambiental. REGEO e COBRAMSEG´s. VII . Design and Analysis of Tailings Dams ( 1983). Jr (Ed. ambientais ou de perda de vidas humanas.  III .O sistema de classificação de barragens por categoria de risco e por dano potencial associado. Jr (Ed. direta ou indiretamente. conforme definido no art. opera­ ção e fechamento de barragens de rejeitos.O Sistema Nacional de Informações sobre o Meio Ambiente.  III .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens I . Planning. Colorado University. II . Volume 1. G.). a Comissão de Barragens de Rejeitos do ICOLD. e vá­ rios projetos com aplicação de novos métodos de disposição têm resultado em significativa evolução das práticas de engenharia de barragens de rejeitos. ICMM site: www. primeiro enchimento e primeiro vertimento.L.000.Categoria de dano potencial associado.  IV . Proceedings: Tailings and Mine Wastes.A promoção de mecanismos de participação e controle social. Volume 2: Proceedings of the Second International Symposium. sociais. construção. Os principais estão listados a seguir: • • • • • • C. (1987 e seguintes).O Relatório de Segurança de Barragens. maior ou igual a 15 m (quinze metros). de início como Uranium Mill Tailings Management.).goodpracticemining. (1978).O empreendedor é o responsável legal pela seguran­ ça da barragem.A segurança de uma barragem influi diretamente na sua sustentabilidade e no alcance de seus potenciais efeitos sociais e ambientais. indicando as principais referências bibliográficas sobre cada um destes estágios. IV . 10 boletins a partir de 1982.  II .A população deve ser informada e estimulada a participar.O Plano de Segurança de Barragem.Reservatório que contenha resíduos perigosos conforme normas técnicas aplicáveis. Argall. construção. Desenvolvimento de tecnologia específica sobre barragens de rejeitos Vários trabalhos têm sido publicados sobre a tecnologia de pro­ jeto. V . Argall. médio ou alto. operação e fechamento de barragens de rejeitos. A partir dos anos 80. em todos os aspectos de seu comportamento geotécnico. S.  · Os fundamentos da Política Nacional de Segurança de Barragens – PNSB são: I . concluiu o boletim Improving Tailings Dams Safety. Tailing Disposal Today. das ações preventivas e emergenciais. construção. trabalhos de pesquisa nas universidades brasileiras passaram a enfocar o comportamento dos rejeitos.000 m³ (três milhões de metros cúbicos). Tailing Disposal Today. que aborda os aspectos relevantes relacionados ao projeto. VI .Altura do maciço. 6o. em termos econômicos.com/tailings Recentemente.A segurança de uma barragem deve ser considerada nas suas fases de planejamento. Volume 1: Proceedings of the First International Symposium (1972). cabendo-lhe o desenvolvimento de ações para garanti-la. contada do ponto mais baixo da fundação à crista.Capacidade total do reservatório maior ou igual a 3.  IV . Aplin e George O. ABMS (Associação Brasileira de Mecânica dos Solos e Engenharia Geotécnica). George O.O Cadastro Técnico Federal de Atividades Potencialmente Poluidoras ou Utilizadoras de Recursos Ambientais. 375 . operação. vários anos a partir de 1978.  V . • • Proceedings of an International Bauxite Tailings Workshop (1992).  · Os instrumentos da Política Nacional de Segurança de Barragens são: I .O Sistema Nacional de Informações sobre Segurança de Barragens (SNISB). 3. Vick. desativação e de usos futuros. projeto.

Várias teses de mestrado e doutorado foram desenvolvidas sobre esse tema. ou armazenavam os rejeitos em reservatórios cria­ dos por aterros de estéril de lavra. já produziram dezenas de teses so­ bre o comportamento de rejeitos. UFOP. UFOP Universidade Federal de Ouro Preto. pois apresentam redução do custo de implantação e têm o custo de construção e custo operacional distri­ buído no tempo.A História das Barragens no Brasil . para a previsão das densidades e cálculos da vida útil dos reservatórios. 3. o principal elemento instabilizador. a disposição de rejeitos era feita sem uma abordagem de engenharia adequada. após a ocorrência de grandes rupturas com mortes e grandes impactos ambientais. a aplicação da tecnologia disponível de engenharia de barragens ao problema. Entretanto. a partir dos trabalhos pioneiros do professor Robert Schiffman. No Brasil.Séculos XIX. Alguns projetos simplesmente lançavam os rejeitos nos cursos de água existentes. UnB Universidade de Brasília e UFV Univer­ sidade Federal de Viçosa. A disposição de rejeitos em pasta ainda não conseguiu superar os problemas do seu custo alto. mento por diferenças finitas. UFV. Na área de novos métodos de disposição. Vários aspectos importantes têm sido pesquisados. embora tecnicamente este método seja uma solução muito favorável. XX e XXI Na área da pesquisa as universidades PUC-Rio Pontifícia Uni­ versidade Católica Rio de Janeiro. pela aplicação da teoria do adensamento a grandes deformações. Cerca de 50 dissertações de mestrado até o presente. com importantes contribui­ ções ao conhecimento deste comportamento e possibilitando a implantação de projetos de novos métodos de disposição. baixo potencial de dano e benefícios ambientais que estes métodos proporcionam. passou-se a considerar e. Conforme já mencionado. podem ser encontrados em trabalhos produzidos pela UNB e UFOP. a de rejeitos finos com secagem e a aplicação de empilhamento drenado merecem des­ taque pelas características de economia. a polpa represada em barragem convencional (projetada como barragem para água) ou como parte do maciço do barramento.1. pesqui­ sando as características de compressibilidade de rejeitos com uti­ lização de ensaios de adensamento em laboratório (inicialmente CRD e atualmente HCT). inicialmente na PUC-Rio (anos 80). Aplicação de novos métodos de disposição de rejeitos Os métodos mais comuns de disposição de rejeitos consideram. algumas universidades passaram a dar atenção à geotecnia de disposição de rejeitos. como nos casos de alteamento por linha de centro e alteamento por montante. e posteriormente de forma mais intensa na UFOP (anos 90 e atual) e UFV. elaborando projetos de pesquisas em co­ laboração com empresas de mineração e indústria. Comportamento geotécnico dos rejeitos Nos anos anteriores à década de 70. UNB. Os métodos de alteamento por montante e por linha de centro têm vantagens econômicas. foram desen­ volvidas nos últimos 25 anos. Deve ser mencionado que o desenvolvimento dessas pesquisas tem sido aplicado tanto para determinação de características geo­ técnicas dos rejeitos.2. têm na água dos poros do rejeito e do reservatório. 376 . Estudos em laboratório sobre secagem de rejeitos (Lúcio Villar) também foram desenvolvidos. como para aplicação de métodos de análises dos problemas de disposição. em um núme­ ro crescente de casos. na Universidade do Colorado. Nos aspectos de compressibilidade de rejeitos. um grande pro­ gresso foi possibilitado. Estudos sobre a influência da mineralogia na resistência ao cisalha­ mento de rejeitos granulares. com os modelos de simulação de adensa­ 3. assim como de potencial de liquefação. abordando estas características dos rejeitos nas universidades: PUC/Rio. em geral.

Este método tem sido utiliza­ do no Brasil. e b) os que contêm maior conteúdo de material mais fino. foram iniciados há algumas décadas e vêm sendo aprimorados ao longo do tempo. nestes casos. Este tipo de disposição é o mais utilizado. da Samarco (altura de 175. Nos anos mais recentes. a disposição é mais econômica por tonelada de rejeito disposto. com baixo risco de liquefação e de ruptura. portanto. também da Samarco. Os dois tipos de rejeitos podem ser dispostos por métodos que retiram água dos mesmos. os métodos que utilizam a disposição com menor grau de saturação dos rejeitos têm assumido maior importância por introduzirem situações de menor risco. surgiu recentemente a expres­ são pervious dam para designar um “novo método”. • Obter maior facilidade para o fechamento e recuperação ambiental. O projeto da barragem. • Obter maior densidade e. Os objetivos principais do método de empilhamento drenado são: • Obter um maciço não saturado. embora em poucos casos. Desta forma. ao invés de utilizar uma estrutura impermeável de barramento. é semelhante ao de uma barragem para retenção de água. Os objetivos principais dos novos métodos de disposição são: • Redução do custo. 3. Empilhamento drenado Neste método. com baixo teor de argila e de grande conteúdo de fração granular. A expressão “novos métodos de disposição” contém implícita uma expectativa de inovação na técnica de disposição.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Os novos métodos de disposição procuram reduzir o grau de satu­ ração da polpa de rejeitos por meio da drenagem da água dos poros ou da evaporação. adota-se uma estrutura drenante. É interessante notar que na Europa. envolvendo os dois tipos básicos de rejeitos: a) os que contêm uma fração expressiva de material arenoso/siltoso. • Maior aproveitamento da água. predominando argila e silte. • Obter menor potencial de dano em uma eventual ruptura. mas libera essa água através de um sistema de drenagem interna. • Maior capacidade do reservatório. mais vantajoso é o método. maior capacidade e vida útil. • Vantagens para o fechamento. São exemplos principais.1.0 m). a água é retirada por drenagem e no caso dos rejeitos argilosos a evaporação é o principal agente da retirada da água. de forma que inovações estão presentes em processos antigos de disposição. com fração mínima de areia. Além destas características. Em conseqüência. São apresentadas aqui duas situações de projeto. deste método. Entretanto.2. e Pilha da Cava do Germano (altura de 160 m). 377 . No caso dos rejeitos arenosos. com a mesma in­ tenção de diferenciar do método clássico de bombear lama de alto grau de saturação para uma barragem impermeável que retém os sólidos e a água. quanto mais água for retirada dos rejeitos. • Aumento da segurança. desde a década de 80. Na presente abordagem. al­ guns dos métodos hoje chamados de novos. assumiu uma expressão maior e vem condicionando várias escolhas na seleção de alternativas. as pilhas do Xin­ gu (Mina de Alegria). no Brasil. de grande capacidade de vazão. • Menor chance de contaminação. que não retém a água livre que sai dos poros dos rejeitos. Pilha da Barragem do Germano. o que se pretende apresentar são méto­ dos que priorizam a disposição com menor grau de saturação dos rejeitos. que está sendo proposto para reduzir o potencial de dano. Monjolo (Mina de Água Limpa). portanto com maior estabilidade. ligada aos rejeitos do reservatório. Há também a expressão “métodos alternativos”. • Aplicação segura do método de montante. o problema da segurança das barragens de rejei­ tos. embora contenham aspectos de desenvolvimento recente. sendo que a polpa de rejeito fica retida com praticamente o mesmo grau de saturação da ocasião do bombeamento.

O dreno de base é implantado no fundo do reservatório e recebe toda a água drenada dos rejeitos. na umidade natural.Aspecto do rejeito após a drenagem Figura 3 . Figura 1 .Empilhamento drenado após drenagem Figura 2 .Correia transportadora implantada sobre a pilha de rejeitos 378 . sem risco de ruptura que provoque uma onda de lama para jusante.Séculos XIX. onde duas áreas são preenchidas com pilha drenada. que devem ter suas características de drenabilidade bem estudadas previamente no projeto. O maciço de rejeitos obtido ao final é uma pilha de material arenoso. XX e XXI Nas figuras a seguir são apresentadas fotos das pilhas da Samarco.A História das Barragens no Brasil .Superfície final do talude da pilha Figura 4 .

procura-se bombear a lama na máxima densidade bombeável com bombas centrífugas. São exemplos deste tipo de disposição os projetos da MRN. em Porto Trombetas. com vantagens em relação ao bombeamento convencional de lama. 379 . Figura 5 . A disposição com secagem apresenta diferenças em relação ao método de dry stacking de lama vermelha. em Paragominas. os resíduos da lavagem do minério é tam­ bém uma lama com sólidos de granulometria fina. procurando-se obter um teor de sólidos entre 30 e 35% para então ser submetido à evaporação no reservatório final. acima de 50%. passando na #400. pois suas características podem inviabilizar em custo uma so­ lução.2. devendo a escolha ser feita pela combinação do menor custo com a viabilidade da secagem com menores densidades. Disposição de rejeitos finos com secagem O método de disposição chamado de dry stacking é antigo e muito utilizado pelas empresas de alumínio para disposição econômica de rejeitos de resíduo de produção de alumina (red mud). Basicamente. Neste método o rejeito fino (em geral de granulometria passando na peneira 400) é adensado em espessadores até teores de sóli­ dos elevados. O Método de Secagem pode também ser aplicado.Vista geral da pilha a jusante da barragem Figura 6 .Lançamento de lama de bauxita no reservatório 3. A solução de projeto depende do comportamento reológico da lama.2.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Em minas de bauxita. e bombeado para um reservatório onde sua superfície é exposta à evaporação com o teor de sólidos crescendo até valores da ordem de 80%. As figuras e as fotos a seguir mostram as características de secagem das lamas da MRN e Paragominas. e da Vale.

Séculos XIX.Lama em estágio final de secagem Figura 9 . a qual contém a barragem de rejeitos mais alta do Brasil. Minas Gerais. em Nova Lima. atualmente com cerca de 175.Lama lançada. da Samarco. XX e XXI Figura 7 . Algumas barragens de rejeitos representativas Apresenta-se aqui um resumo das informações de duas dessas barragens: uma que pode ser considerada como o primeiro siste­ ma de rejeitos implantado no Brasil. A descri­ ção apresentada é do sistema em sua configuração atual. A segunda barragem aqui apresentada é a barragem do Germano. em processo inicial de secagem Figura 8 .Aterro construído sobre lama após a secagem Figura 10 . na Mina de Morro Velho (Mina do Queiroz). em 1944.0 m de altura.Teste piloto de secagem 4. no município de Mariana. 380 .A História das Barragens no Brasil .

O acesso ao empreendimento. que liga Nova Lima a Belo Horizonte a uma distância aproximada de 30 km. denominado Cuia­ bá .Raposos. será abordado o tratamento na planta industrial do Queiroz. em região da bacia hidrográfica do Córrego do Queiroz. A planta possui duplo circuito.Anglo Gold Ashanti Este item foi redigido pelo engenheiro Murilo Amorim Costa e gentilmente cedido pela Anglo Gold Ashanti. incluindo. além da planta de beneficiamento industrial propriamente dita. pode ser feito pela rodovia MG-030. 4 a 8]. principal unidade em operação no Brasil (Figura 11). Localização e acessos A Anglogold Ashanti Córrego do Sítio Mineração (AGACSM) ope­ ra algumas minas e plantas metalúrgicas para beneficiamento de minério aurífero na região de Minas Gerais e Goiás.000 m2. próximo à divisa com o Município de Raposos.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens 4. alimentado pelo minério sulfetado da Mina de Cuiabá.1 Mina do Queiroz . três barragens e seis valas para disposição de rejei­ tos.MG. A planta industrial do Queiroz está situada no Município de Nova Lima . Figura 11 .Sistema de disposição de rejeitos – foto aérea das instalações A planta metalúrgica do Queiroz possui uma área útil de 480. através das etapas de ustulação (que corresponde à Figura 12 – Localização da planta industrial do Queiroz (AngloGold Ashanti) 381 . O concentrado do minério da Mina de Cuiabá. transportado por meio de um teleférico com 15 km de extensão e capacidade no­ minal instalada de 830.000 toneladas de minério por ano.MG . afluente do Rio das Velhas (Figura 12). partindo-se de Belo Horizonte. Em particular aqui. Os dados aqui apresentados têm como base os documentos mencionados nas referências desta publicação [Ref. na região do chamado Quadrilátero Ferrífero de Minas Gerais.Nova Lima .

A operação deste sistema foi iniciada no ano de 1944. Inicialmente. (denominada Barragem de Queiroz) a qual assegurou a deposi­ ção dos rejeitos da Empresa até meados do ano de 1954. Histórico A AGACSM mantém. e o ácido sulfúrico. No futuro. que se situa na mesma bacia hidrográfica da planta in­ dustrial do Queiroz. 382 .A História das Barragens no Brasil . Parte do material resultante da ustulação volta para receber o processo de cianetação. A partir de 1981. inserindo nestes a criação de uma equipe permanente de fiscalização e controle. suportadas por estruturas metálicas por um caminhamento sempre em nível ascendente. Uma vez que o processo de ustulação retém os gases de SO2.500 toneladas de ácido sul­ fúrico.Barragem de Queiroz .Barragem de Cocuruto . exaurida a capacidade de deposição na barragem de Rapaunha. Essas barragens. de um modo geral. A partir do ano de 1995. O rejeito gerado no processo de beneficiamento do minério é conduzido para tanques na unidade industrial e então bombeado para as barragens por meio de tubulações em PEAD ou aço car­ bono.capacidade total de . construída em 1986. o que irá capacitar aquele reservatório a um incremento de deposição de cerca de 12 x 106 m3. que passaram a operar no final do ano de 1982. com a acumulação. O circuito Raposos é alimentado por minérios não-sulfe­ tados extraídos de minas menores do entorno de Nova Lima e está atualmente paralisado. foi via­ deposição previu uma sequência de lançamentos com os consequentes alteamentos dos maciços. No circuito de Cuiabá. de cerca de 2. um sistema de deposição de seus rejeitos industriais na região do vale do Queiroz. encontram-se sob utilização os reservatórios das barragens de Rapaunha e Calcinados. de for­ ma a adequar o sistema às necessidades decorrentes da expansão da Empresa (Projeto Cuiabá/ Raposos).capacidade de . Hoje con­ templa as seguintes unidades: barragem de rejeitos de Cocuruto.capacidade total de . virá a ser pro­ movido o alteamento da barragem de Cocuruto. desde o ano provável de 1944. o programa de Descrição do sistema O sistema de deposição de rejeitos industriais processados pela An­ gloGold Ashanti Brasil Mineração na sua Instalação de Beneficia­ mento localizada no Queiroz é contido em 03 reservatórios e mais um sistema de valas fechadas. constava este de uma barragem interposta ao vale do Queiroz. a saber: . a barragem de rejeitos Calcinados. neste período.Séculos XIX. de Rapaunha. A produção média mensal (2010) é de 800 kg de ouro.capacidade total de ~4 x 106 m3 17 x 106 m3 12 x 106 m3 12 milhões de m³. com a primitiva barragem ali existente. O produto final obtido são os metais ouro e prata. o que dará vez à chamada barragem do Queiroz. e os resíduos são encaminhados para barragem de Calcinados e valas de lama arsenical. XX e XXI oxidação ou queima do minério na presença de oxigênio e tempera­ tura elevada) e a hidrometalurgia (responsável pela extração do ouro contido no minério). para a recuperação do ouro no processo industrial.Barragem de Calcinados . foi necessário introduzir a tecnologia de ustulação. de Calcinados e o conjunto de valas de deposição de arsenato férrico (lama de gesso). além de uma outra. denominadas Rapaunha e Cocuruto.5 x 106 m3. foram concebidas de forma a serem alteadas à medida em que venha a ocorrer a ocupação do seu reservatório pelos rejeitos lançados: para isso. 60 kg de prata e 17. No momento atual.Barragem de Rapaunha . à altura do antigo bairro do Galo. bilizada a construção de uma fábrica de ácido sulfúrico. este sistema foi ampliado com a construção de mais duas barragens. foram sistematicamente instituídos pro­ cedimentos de gerenciamento das atividades de operação e moni­ toração das barragens de rejeitos integrantes do sistema. todos eles localizados no vale do Queiroz. em Nova Lima.

Desde a Figura 13 . A capacidade total de deposição em seu reservatório é de cerca de 17 milhões de toneladas de rejeitos.1 Barragem do Rapaunha A barragem de rejeitos de Rapaunha. no momento. que consiste em um alteamento da antiga barragem da MMV. quando teve esgotada a sua capacidade adicional do alteamento. construída a montante e simultaneamente com a barragem de Cocuruto.50 m. o aporte de rejeitos foi interrompido. formando a partir daí a praia. Na posição a montante e mais próximo da ombreira esquerda. os rejeitos eram conduzidos por gravidade por meio de canaletas construídas em concreto e lançadas tal como em Rapaunha na posição mais a montante possível. Após esse período. que veio a operar até o ano de 1957. prevê-se disponibilizar a barragem do Queiroz. esses são lançados na posição mais a montante possível. entrada em operação da planta metalúrgica de Cuiabá. havendo sido utilizada até o final do ano de 1985.50 m (topo do muro de concreto. um lago protegido por dique é formado e o sobrenadante é bombeado para uma estação de tratamento de efluentes.Seção esquemática da barragem do Rapaunha 383 . encontra-se no momento sem receber aporte de rejeitos. sendo que 4. O final de sua vida útil está previsto para se dar até o ano de 2025. e foi concebida para que sua construção ocorresse em fases.1. teve sua construção e início de operação em meados de 1983. que abriga rejeitos não inertes. Sua elevação de crista encontra-se na cota 856.2 Barragem do Cocuruto A barragem de Cocuruto. de acordo com a necessidade de enchimento do reservatório. esses são lançados por meio de espigotes posicionados sobre o barra­ mento. de tal ma­ neira que a formação da praia ocorra de montante para o barra­ mento. Na barragem de Calcinados. que abriga os rejeitos inertes. 4. como abordado anteriormente. dos quais 5 milhões encontram-se ocupados por rejeitos depositados no período de 1986 até a presente data.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Na barragem do Rapaunha. posicionado sobre a crista da barragem) e o nível d’água do reservatório na elevação 853. aproximadamente 10 milhões de metros cúbicos. A barragem de rejeitos de Rapaunha situa-se no vale Queiroz.1. não recebe rejeitos por estar com sua capacidade volumétrica tomada. Quando de sua operação. onde está posicionado o lago e o sistema de recirculação de água para aproveitamento nas operações industriais. A barragem do Cocuruto. servindo apenas como reservatório de água para suprimento à planta metalúrgica. mantidas as taxas de produ­ ção previstas até o momento.

A História das Barragens no Brasil . A partir desta elevação. 384 . de acordo com as condições de projeto. ocorreu até a cota 860 m. na forma de camadas descontínuas ou lentes de médio porte.Seção da barragem de Calcinados Os filitos apresentam-se alterados.Séculos XIX. graças a sua maior resistência aos processos de erosão e denudação. Quanto às propriedades hidráulicas do solo da fundação. é relativamente homogêneo. tendo sua crista situada na cota 830 m. os alte­ amentos passaram a ser realizados por jusante.Seção da barragem do Cocuruto 4. passando a operar desde então. em conseqüência da elevação de sua crista em mais 20 m. mantendo bombeamentos dos fluxos internos e do excedente da fração líquida do reservatório de retorno para a planta industrial. a partir de quando terá sua capacidade acrescida em aproxi­ madamente 12 milhões de metros cúbicos. A cons­ trução do maciço ciclonado. devido à presença de siltes micáceos. com predominância de rochas do Grupo Nova Lima. Os filitos se apresentam menos alterados na ombreira esquerda e na região de descarga das vazões. caracterizados geomorfologicamente por cristas ou cordões realçados na topografia. A barragem do Cocuruto tem previsão de alteamento no futu­ ro. A área da bacia de deposição de rejeitos é caracterizada pela ocor­ rência da série Rio das Velhas. Esse grupo é representado principalmente por xistos e filitos metassedimentares e metavulcanicos e. O maciço original foi construído de um núcleo de aterro argiloso compactado. Esta barragem não descarta efluen­ tes para jusante. o mesmo apresentabaixas permeabilidades. Geologia e Fundação O maciço de fundações. utilizando como material de cons­ trução o underflow da ciclonagem dos rejeitos gerados na Planta ocorreu por meio do método construtivo centerlining (linha-decentro) até atingir a cota 846 m. apresentandobons parâmetros de resistência à penetração. excetuado seu recobrimento coluvionar e horizontes superficiais mais alterados. O alteamento da barra­ gem de Calcinados. embora anisotrópico devido à xistosidade.1. Figura 15 . XX e XXI a disposição desses rejeitos passou a ser feita no reservatório da barragem Rapaunha. destinando-se aos depósitos de rejeitos calcinados pro­ cessados na planta do Queiroz. por Formação Ferrífera laminada e conglomerado de matriz xística. por vezes na forma de solo re­ sidual resistente. O pacote estratigráfico do Grupo Nova Lima é local­ mente cortado por diques metadiabásicos e veios de quartzo de espessura métrica. contendo para isso dispositivos especiais que lhe asseguram a operação em regime de “circuito-fechado”. da ordem de 10-5 cm/s. competentes para garantir a estabilidade das fun­ dações das barragens de terra. secundaria­ mente. Figura 14 .3 Barragem de Calcinados A barragem de Calcinados foi construída em 1986. utilizando para o alteamento material ciclonado do rejeito originário do circuito de Raposos e do Rejeito da Flotação.

Estação de tratamento de efluentes. marrom ou amarela. uma camada de silte arenoso. Monitoramento e controle do sistema O monitoramento e o controle do sistema de contenção de rejeitos são realizados na seguinte seqüência: a) Inspeções periódicas de campo. e fi­ nalmente o xisto são. A margem esquerda apresenta inclinação acentuada. A calha do rio apresenta material impenetrável a percussão em profundidades de 5 a 15 metros – xisto alterado. até a superfície da rocha alterada. que assumem localmente direção variando de N10 a N30. Cada uma delas é abordada de forma conveniente. sendo coberta por manto de intemperismo de espessu­ ra de 15 a 25 metros. pro­ veniente da alteração dos xistos metassedimentares.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A área é recoberta por espesso manto de intemperismo. geralmente róseo. O perfil típico do manto de intemperismo apresenta. que se apresenta descontínua em face de escavações anteriormente re­ alizadas na área. com coloração variegada (rosa. A margem direita do vale apresenta inclinação média. A estrutura mais marcante dos xistos é a foliação. Sobrejacente ao solo residual de xisto. sem estrutura preservada. a partir da super­ fície. na utilização de ferramentas auxiliares como as ”cartas de risco”. sendo que o índice de resistência à penetração SPT cresce com a profundida­ de. 385 . pouco espessa. O coeficiente de permeabilidade é da ordem de 10-5 cm/s. d) Aplicação de medidas de controle. amarela ou mar­ rom. uma camada de silte argiloso vermelho. o coeficiente de permeabilidade dos solos varia de 3 x 10-5 cm/s a 2 x 10-4 cm/s. com trechos bastante íngremes. Reservatórios das barragens. Tubulação de recirculação de água. quando for o caso. com espessura média de 2 metros. pouco compac­ to. com espessura média de 2 m. até ser alcançado o impenetrável. vermelho. constituído inicialmente por uma camada de silte argiloso de consistência média. pouco consistente. Sobre esse ma­ terial. com coloração esverdeada. O perfil do subsolo apresenta basicamente uma camada superficial de argila siltosa mole. marrom. Sob essa camada. representado pela superfície de rocha alterada. uma camada de argila pouco arenosa. amarelo). nas leituras dos instrumentos. De uma maneira geral. representada pelos seus planos de xistosidade. c) Avaliação das condições de funcionamento e/ou de segurança da estrutura. uma camada de xisto alterado. Tubulação de rejeitos. ocorrem solos silto argilosos de consistência rija a média. Sistema de coleta e bombeamento de água percolada. aparecendo ainda uma camada superficial descontínua de argila sil­ tosa mole. constituídos de silte argiloso de consistência média a rija. Corta-rio. na sequência do Manual de Operação: Barragens de rejeitos. com mergulhos acentuados para SE. passando gra­ dativamente a rijo e duro com xistosidade preservada. Vertedouro de emergência. de consistência mole. apresentando índice de resistência à pe­ netração crescente com a profundidade. com espessura de poucos metros. ocorrem solos residuais de xisto. As estruturas seguintes são objeto de monitoramento e controle. onde são feitas observações superficiais nas várias estruturas que constituem o sistema de con­ tenção de rejeitos. Existe uma camada superficial de argila. da ordem de 11º. compacto. b) Leituras sistemáticas dos instrumentos. em destacado. entre outras. feita com base nas inspeções periódicas. Bombas flutuantes. no conhecimento teórico e na experiência acumulada tanto com as atuais estruturas quanto com estruturas semelhantes.

Séculos XIX. seja por erosão interna. Régua graduada e pluviômetro. Piezômetros e medidores de nível d’água. Medidor de vazão.A História das Barragens no Brasil . Com as informações obtidas nas inspeções periódicas e na leitura dos instrumentos pode-se então avaliar a segurança da barragem para as condições de ruptura por erosão interna. Figura 16 . cisalhamento ou galgamento. A figura 16 apresenta a localização dos pontos de monitoramento ambiental. cisalhamento ou galgamento. Sistema de vertimento O sistema de disposição de rejeitos do Queiroz. para avaliação do potencial de ruptura. tem seu sistema extravasor. conforme adiante descrito: 386 .Pontos de monitoramento ambiental Diante das dificuldades de detecção de problemas pela simples inspeção visual. XX e XXI O monitoramento da segurança da barragem é feito utilizando-se dos seguintes tipos de instrumentos: Marcos superficiais. foi preparada uma carta de risco. constituído pelas três barragens e mais seis valas de lama.

responsável por lançar os vertimentos no córrego do Queiroz a jusante da barragem.50 52 41 FS 1. ver­ timento de seu reservatório. que é direcionada para jusante para um poço. para o fechamento da barragem. A água acumulada no reservatório é encaminhada ao sistema de tratamento de efluentes por meio de bombeamento e posteriormente conduzida à barragem do Rapaunha. 628 1. o vertedouro permite operação até quando o nível do rejeito atingir a elevação 859. O fluxo oriundo das águas de percolação. Como foi construído contemplando o arranjo inicial.55 Construção Aterro compactado Rejeito ciclonado Aterro compactado Altura m 50. À medida que são dispostos rejeitos no interior do reservatório. em seção retangular com base igual a 1. Calcinados e Cocoruto Barragem Status Volume m3 Área km2 Rapaunha Operação 12 x106 4 x 106 4. 592 1.80 m e declividade igual a 22%. Ficha Técnica Plano de Fechamento Com vistas no futuro. onde os fluxos são coletados e bombeados para a estação de tratamento de efluentes. que atravessa o maciço e liga-se a uma tubulação em aço. 560 Drenagem Filtro vertical e tapete Tapete Filtro inclinado e tapete Classe III III III Calcinados Operação Cocuruto Fechada FS = Fator de segurança 387 . com ori­ fícios verticais duplos com dimensões iguais a 2. vão sendo adicionadas placas de concreto na torre de captação dessa estrutura para evitar o vertimento de rejeitos.50 m.00 m. portanto. com diâmetro igual a 1.0 m.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Barragem de Calcinados É uma barragem em circuito fechado. sendo que está prevista a construção de outro vertedouro de superfície. garantindo uma borda livre igual a 3. seja pelo maciço.40 m x 1. incluindo o sistema de disposição de rejeitos. é captado a jusante em poço e bombeado para o reservatório.5%. foi elaborado um plano de fechamen­ to para a Planta Metalúrgica do Queiroz. não havendo. Barragem do Rapaunha Esta barragem possui a missão de armazenar rejeitos e água para uso na planta metalúrgica e utiliza um vertedouro tipo poço. seja pelas fundações. com seção transversal igual a 2. Muito embora haja outros orifícios inferiores a esta elevação.3 m e soleira na elevação 802.9 x 106 1.60 0.20 m e declividade igual a 2. Barragem do Cocuruto O barramento é dotado de um vertedouro tipo poço.4.60 4.0 m x 1. apenas drena­ gem interna. construído na ombreira esquerda da barragem. estes encontram-se selados por stop-logs em virtude do avanço de rejeitos. A torre do vertedor acopla-se a uma galeria em concreto arma­ do. Tabela 3 – Ficha Técnica das Barragens Rapaunha. 4.1. Valas de lama As valas de lama não possuem sistema de vertimento. suficiente para amor­ tecimento de uma PMP (Precipitação Máxima Provável).20 m e altura igual a 1.0 m.

denominado lama e um rejeito com granulometria mais grosseira.A é uma empresa brasileira de mineração que extrai minério de ferro das frentes de lavra do complexo de Alegria. Além da função de reservação de água. Com o início de operação da segunda unidade de beneficiamento (Planta II) da Samarco. para ade­ quação da dinâmica das operações e atendimento às novas leis ambientais que venham a ser aprovadas. a barragem do Santarém tem como finalidade a contenção dos sedimentos provenientes destes reservatórios. são gerados dois tipos de rejeitos com ca­ racterísticas bastante distintas: um rejeito mais fino. que levam o minério para a planta de beneficiamento. A empresa realiza lavra a céu aberto por meio de equipamentos móveis e por correias de banca­ da. alimentando um sistema de correias transportadoras de longa distância. 9 a 11]. Localização do sistema O reservatório do Germano é formado pela barragem prin­ cipal. Esse fato. fez surgir a necessidade de um novo local para a disposição dos rejeitos gerados pelas duas unidades de beneficiamento (Planta I e Planta II).2 Sistema de Disposição de Rejeitos do Germano Samarco Mineração S. somado à proximidade do final da vida útil do Reservatório do Germano.A Introdução A Samarco Mineração S. XX e XXI Esse plano de fechamento é revisado periodicamente.MG. Neste contexto surge o Sistema de Rejeitos do Fundão. A seguir estão apresentadas as informações do sistema do Ger­ mano. que está localizada a jusante dos reservatórios do Germano e do Fundão. posicionados sobre três antigas selas Figura 17 – Mapa com a localização da Unidade Operacional Germano 388 . como uma nova área para a disposição dos rejeitos granulares (arenosos) e finos (lamas). houve um aumento na geração de rejeitos. Este sistema não faz parte da presente descrição.A História das Barragens no Brasil . Esse plano de fechamento atende também o disposto no Código Internacional de Cianeto. que fecha o vale no lado extremo leste. em Mariana . A partir do processo de beneficiamento do minério de ferro. Tulipa e Selinha. Na Samarco. ex­ traído pela Samarco. o reaproveitamento da água utilizada no processo de beneficiamento do minério de ferro é realizado através de um sistema de recirculação com captação no reservatório da barragem do San­ tarém. com base nos documentos mencionados no item 6 deste capítulo [Ref. e pelos diques da Sela. 4. localizados a montante. denominado rejeito arenoso. aos sistemas de certificações obtidos e implementados pela empresa. na Unidade Germano.Séculos XIX. no final de 2008. em um horizonte de operação de aproximadamente 9 anos. gerados pelas Plantas I e II.

A partir daí. sem comprometer a estabilidade da barragem.Vista geral do sistema de disposição de rejeitos da Samarco O reservatório do Germano foi formado a partir da construção da barragem Princi­ pal do Germano. A partir de 1993 o alteamento da barragem principal. finos e granulares. A mesma entrou em operação em 1977. construído com aterro compactado. impermeabilizado por um núcleo de material argiloso a 389 . passou a ficar inviável por razões de estabilidade da barragem.0 m. o empilhamento drenado de rejeitos arenosos. com uma camada de transição entre o núcleo e o enrocamento. os alteamentos sub­ sequentes foram executados com afastamento entre 60 e 100 metros para montante da crista existente na elevação 886 m. A Figura 18 ilustra a configuração das estruturas. A crista da barragem alcançou a elevação 899 m com aproximadamente 120 metros de altura. foi a alternativa adotada para postergar a implantação de uma nova área de disposição de rejeitos e me­ lhorar as condições de estabilidade da barragem principal.5H e crista na cota 790 m. foi necessária a construção dos diques da Sela. na medida em que se elevava o nível de rejeitos arenosos. Com o ob­ jetivo de garantir a continuidade do lançamento dos rejeitos no reservatório. com o ponto mais baixo das funda­ ções na elevação 745. Este dique foi construído com crista na elevação 849.1 Barragem principal e empilhamento a jusante Generalidades A implantação da barragem do Germano foi iniciada com a construção de um dique de partida de enrocamento. em 1976. visando a situação de fechamento. montante. provenientes da planta de beneficiamento de minério de ferro.2. Tulipa e Selinha para o fechamento das três selas topográficas existentes na região nordeste do reservatório. Posteriormente. no sistema do Germano. foram realizados altea­ mentos sucessivos para montante.5 m e altura máxima igual a 70 m. com a subida do nível de rejeitos no interior do reservatório do Germano. com a finalidade de receber os rejeitos. até ser atingida a elevação 886 m. O dique Auxiliar atravessa o reser­ vatório do Germano. por diques a montante junto à crista do estágio anterior. Os alteamentos foram realizados através de diques de aterro com­ pactado com altura variável entre 4 e 6 metros. 4. O sistema de drena­ gem interna deste dique de partida consistia em Figura 18 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens topográficas na margem nordeste do reservatório. lançados no interior do seu reservatório. com inclinação dos taludes igual a 1V:1. separando uma área do reservatório a montante e servindo de estrada de acesso para o lado norte. O empilhamento de rejeitos a jusante da barra­ gem principal teve início a partir de um dique de partida. A partir daí. a jusante da barragem do Germano.

blocos passados em gre­ lha e blocos de maior dimensão. O sistema de drenagem superficial é constituído por uma escada de descida d’água.Séculos XIX. em um maciço não saturado estável e de baixo potencial de dano. o maciço de rejeitos é drenado constituindo-se.0 m. posicionada na ombreira esquerda. portanto. A partir da construção deste dique de partida foram feitos alteamentos consecutivos para montante. a altura total atual é de 175. Com este sistema de drenagem interna. No contato dos rejeitos do reservatório da Pilha a Jusante com o talude de jusante da barragem prin­ cipal do Germano há um dreno interligado ao dreno de fundo. disposta perpendicularmente às canaletas lon­ gitudinais das bermas. XX e XXI um filtro inclinado no talude de montante e na crista do dique. além do dreno do dique de partida.A História das Barragens no Brasil . de um dreno situado no fundo do vale. O sistema de drenagem interna do empilhamen­ to consiste. a cada 5 m de altura. O talude de jusante foi protegido com blocos. em seu ponto mais baixo. O núcleo dos diques é constituído por rejeito arenoso. O sistema será expandido à medida que os alteamentos forem sendo implantados Na figura 19 está apresentada uma seção típica da barragem principal do Germano incluindo o empilhamento de rejeitos a jusante. composto por camadas de oversize fino e grosso. Considerando a cota de fundação. Figura 19 – Seção transversal típica da barragem principal do Germano com o empilhamento a jusante Figura 20 – Foto de estrutura construída sobre o empilhamento drenado 390 . desde o dique de partida do empilhamento até o offset de jusante da barragem do Germano.0 m. O reservatório da barragem do Germano unificará com o reservatório da barragem do Fundão na cota 920. pro­ tegido na face de jusante por solo argiloso compactado Os taludes de jusante possuem inclinação igual a 1V:2H com um talude médio global igual a 1V:3H.

A frequência das leituras é mensal.00 m 300. 4. Na pilha a jusante do Germano. No final de 2010. Os materiais de construção disponíveis para a implantação dos maciços de alteamento dos dois diques conduziram a uma geo­ metria em blocos sujos com uma faixa de material argiloso im­ Etapa Construtiva Atual Data Conclusão Cota Atual da Crista Altura Atual do Maciço Comprimento Atual da Crista Sistema Extravasor - 919. comprovando a boa drenagem do maciço de rejeitos. tanto do dique da Sela. quanto do dique da Tulipa. A parte superior das ombreiras é formada por filito decomposto. Os piezômetros instalados na pilha de jusante indicam leitu­ ras com poropressões nulas.2 Dique da Sela e Dique da Tulipa Devido à existência de duas selas topográficas na margem norte do re­ servatório do Germano.0 m e nas bermas do talude de jusante. Monitoramento O monitoramento da barragem principal do Germano consiste na leitura dos piezômetros instalados. em geral são constituídos em seção mista. sendo alterada para cada 15 dias em caso de anomalias.0 m. com crista na El. Devido ao início de operação da segunda planta de beneficia­ mento de minério de ferro da Samarco e o conseqüente aumento na geração de rejeitos. Na barragem principal do Germano foram instalados 14 piezôme­ tros do tipo Casagrande. À medida que o nível de rejeitos dentro do reservatório do Germa­ no foi sendo elevado foram necessários vários alteamentos. funcionando como núcleo. localizados no patamar da cota 886. foi necessária a construção de dois diques.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Ficha Técnica Na Tabela 4 estão apresentadas as principais características da barragem principal do Germano.0 m 169.913.0 m Tipo tulipa com galeria de descarga (localizado adjacente ao dique da Tulipa) Geologia e fundações A fundação da barragem principal do Germano é composta por fili­ to são. 391 . Em toda a região de fundação da barragem foi removida a camada superficial de material orgânico. e uma zona em enrocamento no espaldar de jusante. Na região do fundo do córrego foram removidos blocos de rocha.2. denominados dique da Sela e dique da Tulipa. os dois diques foram alteados pelo método de mon­ tante. nas porções inferiores das ombreiras esquerda e direita e em todo o fundo do vale. com uti­ lização de uma zona impermeável em aterro argiloso compacta­ do. foram necessários novos alteamentos dos diques da Sela e da Tulipa. para possibilitar a continuidade do lançamento de rejeitos no interior do reservatório. areia e cascalho. matacões. foram instalados 6 piezômetros Tabela 4 – Características da Barragem do Germano (maio/2008) Dados gerais Finalidade Empresas Projetistas Contenção de rejeitos Bechtel / Pimenta de Ávila Consultoria do tipo Casagrande. Os maciços.

0 m 450.913.913.0 m concluído Março de 2011 913.na extremidade de jusante da Baia 3. na confluência do acesso ao Empi­ lhamento de Rejeitos Granulares de Germano Jusante e do acesso à mina de Fábri­ ca Nova (Vale). c). em soleira construída sobre a encosta rochosa.0 m Ficha Técnica Nas Tabelas 5 e 6 estão apresentadas as princi­ pais características do dique da Sela e do dique da Tulipa. com cota 392 . No dique da Tulipa estão instalados 3 piezômetros de Casagrande e 3 indicadores de nível de água. b). Na fundação do alteamento dos dois diques foi implantada uma base constituída de blocos sujos. supõe a distribuição dos deflúvios nas várias sub-áreas. respectivamente. conectada a um canal rápido e uma bacia de dissipação à jusante deste. ambos em concre­ to celular pré-fabricado PÁDUA e um trecho de galeria em concreto armado.2. apenas para dar suporte ao alteamento. XX e XXI permeabilizante a montante.na área imediatamente a montante da tulipa.0 m dos diques da Sela e Tulipa é composto por uma galeria ligeiramente inclinada associada a uma torre vertical.no local do antigo túnel bala. a sul do reservatório do dique auxiliar.0 m Sistema extravasor As condições de amortecimento das cheias.3 Dique da Selinha Na região sudeste do reservatório do Germano. Monitoramento No dique de Sela estão instalados 3 piezômetros de Casagrande e 3 indicadores de nível de água.0 m concluído Março de 2011 913.0 m 41. no reserva­ tório do Germano. O sistema extravasor construído na ocasião do alte­ amento para El. Tabela 5 – Características do Dique da Sela Dados gerais Finalidade Empresas Projetistas Etapa Construtiva Atual Data Conclusão Cota Atual da Crista Altura Atual do Maciço Comprimento Atual da Crista Contenção de rejeitos Figueiredo Ferraz / Pimenta de Ávila Consultoria Alteamento para El.Séculos XIX.A História das Barragens no Brasil .0 m 375. controladas por soleiras vertentes situadas nas seguintes posições: a). Tabela 6 – Características do Dique da Tulipa Dados gerais Finalidade Empresas Projetistas Etapa Construtiva Atual Data Conclusão Cota Atual da Crista Altura Atual do Maciço Comprimento Atual da Crista Contenção de rejeitos Figueiredo Ferraz / Pimenta de Ávila Consultoria Alteamento para El. foi verificada a existência de uma nova sela topográfica.0 m 23. 4.910.

O sistema de drenagem interna é composto por tapete horizontal de areia.0 m 23.4 Dique Auxiliar O dique Auxiliar foi implantado.0 m Atualmente.50 m em julho de 2010. em Fá­ brica Nova.913.2. A drenagem interna do dique foi prolongada nesse trecho.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens de topo posicionada na elevação 901. No final de 2010 a crista do dique da Selinha foi alteada pelo método de montante para a El. dos rejeitos da flotação em célula. Dessa forma tornou-se necessário im­ plantar um dique de sela nesta região. foi executado um alteamento emer­ gencial de 0. Extravasor Até dezembro de 2010 o dique Auxiliar possuía um sistema extravasor composto por três tubos ARMCO’s (Ø 1. retendo as lamas na área de montante do reservatório do Germano e ficando o restante do reservatório para a descarga.913. inicialmente para se­ parar as lamas dos rejeitos arenosos.50 m). em ambos os lados do dique auxiliar. Na fundação do alteamento do dique foi implantada uma base constituída de blocos sujos. simultaneamente aos alteamentos a serem implantados nos diques da Sela e da Tulipa. Monitoramento No dique da Selinha estão instalados 4 piezômetros de Casagrande e 5 indicadores de nível de água. A jusante do dique foi im­ plantada uma berma de blocos sujos afim dar estabilidade à estrutura alteada.0 m 135. Atualmente a cota da crista do dique Auxiliar está na elevação 917.0 m. Para o estabelecimento de uma borda livre. Tabela 7 – Características do Dique da Selinha Dados gerais Finalidade Empresas Projetistas Etapa Construtiva Atual Cota Atual da Crista Altura Atual do Maciço Comprimento Atual da Crista Contenção de lama Pimenta de Ávila Consultoria Alteamento para El. resultou em uma estrutura submersa tanto a montante como a jusante. encontram-se instalados e funcionando corretamente 3 indicadores de nível d’água. atra­ vés de tubulação. Os materiais de construção disponíveis para a implantação do maciço de altea­ mento do dique conduziu a uma geometria com utilização de uma faixa imper­ meável de material argiloso a montante e em blocos sujos no espaldar de jusante. O dique da Selinha foi construído utilizando uma seção composta por aterro compactado de material argiloso proveniente da pilha de estéril da Vale. Monitoramento Ficha técnica Na Tabela 7 estão apresentadas as principais características do dique da Selinha. 393 . O dique não possui sistema de drenagem interna. e filtro vertical de areia. de aproximadamente 1. sendo alteada sucessivamente. o lançamento simultâneo de lamas e rejeitos arenosos.50 m. sendo utiliza­ do laterita na sua construção. Ao longo do tempo. denominado dique da Selinha. Ficha Técnica A Tabela 8 apresenta as características gerais do dique Auxiliar. apenas como suporte ao alteamento.0 m.0 m concluído 913. 4.0 m de espessura. que conectam o reservatório do dique Auxiliar ao reservatório do dique da Sela/Tulipa.

2.00 m. A pilha de rejeito atingirá a elevação 1.00 m de extensão e para montante. vislumbra-se a possibilidade de implantação de um canal trapezoidal em enrocamento.0 m.5 m concluído 917. com taludes de 5. exaurida no final da década de 80.00 m de altura. Em 2006 iniciou-se o empilhamento de rejeito arenoso da segunda fase da Cava do Germano. com superfície da funda­ ção na elevação 945.00 m) com o intuito de melhorar a eficiência de extravasão desse reserva­ tório. com o objetivo de manter a linha de saturação afastada do talude externo da pilha.00 m e os diques de alteamento da pilha. denominadas de primeira e segunda fase. 4. A crista do dique de partida foi posicionada na elevação 955. com base menor de 5. alteados para montante.50 m de altura em substituição aos três tubos ARMCO’s (Ø 1. Recentemente. foram projetados com suas bermas com declividade de 2% para sul.50 m e 4 tubos ARMCO’s Ø 1.50 m). Além disso. Esse projeto de recuperação foi divido em duas partes. sendo desenvolvido um projeto de recuperação. Como a fundação é em solo.00 m material proveniente da erosão das suas paredes.917. O dique de partida e o tapete drenante são os principais dispositivos de drenagem interna da pilha de primeira fase.50 m 820.A História das Barragens no Brasil . XX e XXI Tabela 8 – Características do Dique Auxiliar Dados gerais Finalidade Empresas Projetistas Etapa Construtiva Atual Cota Atual da Crista Altura Atual do Maciço Comprimento Atual da Crista Sistema Extravasor Contenção de rejeitos Figueiredo Ferraz / Pimenta de Ávila Consultoria Alteamento para El.5 Cava do Germano A Cava do Germano é uma antiga área de lavra. dando continuidade ao projeto de reabilitação dessa área degradada. A partir dessa época a cava passou a ser assoreada pelo Figura 22 – Seção transversal típica da Cava do Germano Figura 21 – Vista da Cava do Germano 394 . foram instalados mais quatro ARMCO’s (Ø 1.00 m de largura da crista e uma inclinação média de 1V:3H. 5.100 m. O material assoreado funcionou como a fundação da pilha de re­ jeitos na primeira fase de recuperação da cava.Séculos XIX. tanto o dique quanto o tapete possuem camadas de transição fina junto a fundação da pilha.50 m 37.00 m e o tapete drenante com 30. A cota de crista do dique foi projetada na elevação 950.0 m 3 tubos ARMCO’s Ø 1. taludes 1V:1H e 2.

Revisão ano 2009. 10.0 m concluído Março de 2011 992.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens O sistema de drenagem interna é constituído de tapete drenan­ te associado a drenos de fundo e por um dique de partida com paramento de montante drenante. 8.br. 395 . SA-410-RL-22801-0C .Bacia de Acumulação de Rejeitos.RT-039-5133-1310-0007-00-B . Setembro de 2010. de Setembro de 2004. 2008. Barragem do Queiroz. Dezembro de 2003. SA-901-RL-4596-0C – Sistema de Rejeitos – Rejeito Arenoso – “Manual de Operação da Barragem do Germano”.icold. SA-410-LT-22349-00 . Minas Gerais.O sistema de drenagem su­ perficial do talude de jusante da pilha é composto por canaletas e escadas em concreto estrutural.913.Pimenta de Ávila Consultoria. Março de 2011. Tailings Dams Incidents. Agradecimentos Agradecemos à Pimenta de Ávila Consultoria Ltda a utilização de informações de seu arquivo técnico e a preparação dos textos aqui publicados. Classificação das Barragens de Contenção de Rejeitos de Mineração e de Resíduos Industriais no Estado de Minas Gerais em Relação ao Potencial de Risco. 7. Potencial Para Criação de Um Geoparque da UNESCO. Programa Preliminar de Estudos Geológico-Geotécnicos. 9. Referências 1.Anderson Pires Duarte.Manual de Operações do Sistema de Rejeitos da Planta Metalúrgica do Queiroz.0 m 325.Estudos de Descomissionamento das Barragens de Rejeitos da Área da Planta do Queiroz. UFMG.PI-PR-130005/78. 11. 3. 2004. da Golder Associates.Avaliação do Trânsito de Cheias nos Reservatórios da Barragem do Germano – Atualização Base Topográfica – Dezembro 2010.MMVREPAA. da Geotécnica de Novembro de 1978. 2. 6. R. U. UFMG. Julho /2002. Rapaunha e Cocuruto da CMEC. 4. 2007. Barragem do Queiroz.Pimenta de Ávila Consultoria.G3-PR-13-0017/79. 5.Azevedo. Tese de Doutorado.0 m 54.Pimenta de Ávila Consultoria. Sistema extravasor O sistema extravasor é composto por tubo flauta acoplado a uma galeria de concreto posicionada na parede direita da cava (sul).0 m Tubo flauta conectado a uma galeria de concreto Monitoramento O monitoramento na Cava é realizado através de instrumentos insta­ lados sendo dez piezômetros do tipo Casagrande e dois indicadores de nível de água. Ficha técnica As principais informações da Cava do Germano estão apresentadas na Tabela 9.UNITED STATES COMMITTEE ON LARGE DAMS – USCOLD. Relatório Final de Estudos Geológico-Geotécnicos. Tabela 9 – Características da Cava do Germano Dados gerais Finalidade Empresas Projetistas Etapa Construtiva Atual Data Conclusão Cota Atual da Crista Altura Atual do Maciço Comprimento Atual da Crista Sistema Extravasor Empilhamento de rejeito arenoso Pimenta de Ávila Consultoria Ltda Alteamento para El. Geotécnica de Maio de 1980.Laudo Técnico de Segurança de Barragem – Barragem do Germano.Estudo de Operação dos Reservatórios das Barragens de Calcinados. 82p. Patrimônio Geológico e Geoconservação no Quadrilátero Ferrífero. Disponível em: http://www.Bacia de Acumulação de Rejeitos.

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em seguida o canal para peixes e mais abaixo o lago e a represa. Em primeiro plano o lago de Itaipu e a tomada de água do canal. com plena dominância estatal dos investimentos em grandes obras públicas. vivia sob um regime ditatorial. poluição de mares e oceanos e ocupação urbana desordenada. uma significativa quantidade de usinas hidroelétricas teve sua construção iniciada na década de 70. utilizado para competições esportiva desaguando no rio Bela Vista (foto Caio Francisco Coronel) Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Homero André dos Santos Teixeira em larga escala. a necessidade de acelerar a disseminação de tecnologias ambientalmente amigáveis e de desenvolver tecnologias alternativas àquelas danosas ao meio ambiente. A jusante do lago. à custa de endividamento externo. O Brasil. em 1972. mas não visível na foto. em 1968. não haver exigência legal de licenciamento ambiental. predominantemente com o objetivo de formação de reservatórios para geração de energia elétrica. Além desses temas. foi construído o canal de águas bravas. criando condições de grande risco para a própria sobrevivência da humanidade. as mais destacadas: usina hidroelétrica Itaipu e usina hidroelétrica Tucuruí. pela Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). de forma a minimizar os riscos ambientais de suas estratégias de desenvolvimento. ficou estabelecido como o Dia Mundial do Meio Ambiente. ficou patente a divisão de enfoque entre os representantes de países desenvolvidos e de países em desenvolvimento. é preciso lançar um olhar histórico sobre a questão do meio ambiente como um todo e situá-lo no contexto político do País. Nesse evento. Os primeiros externaram suas preocupações com os danos impostos ao ambiente pelo modelo de desenvolvimento predatório por eles próprios empreendido. ao mesmo tempo em que os demais não queriam que se impusessem limitações ao seu próprio desenvolvimento. em junho de 1972. foram definidos vários tópicos que requeriam atenção urgente e ações O canal da Piracema de Itaipu. entre elas. via fluvial para migração de peixes. ELETRONORTE. CESP. que veio a realizar-se em Estocolmo. Dessa Conferência. a necessidade de somente aceitar a introdução de novas tecnologias após a avaliação das consequências de sua utilização sobre o ambiente. além da ITAIPU 397 . as empresas do chamado setor elétrico de então (FURNAS. do Sistema ELETROBRAS. ELETROSUL. As primeiras manifestações de preocupação com o meio ambiente podem ser identificadas na convocação.Evolução do Licenciamento Ambiental de Barragens no Brasil Para abordar o tema do licenciamento ambiental de barragens no Brasil. quando foi realizada a primeira plenária dessa Conferência. com cerca de 10 km de extensão e desnível médio de 120 m. Como resultados. foram identificados como prioritários a necessidade de compreensão e controle das modificações ambientais produzidas pela humanidade nos principais sistemas ecológicos. como suprimento de água. àquela época. COPEL e CEEE. e a necessidade de prestar assistência a países em desenvolvimento. e as principais geradoras estaduais como CEMIG. a necessidade de encorajar a distribuição internacional da capacidade industrial. CHESF. O Governo impunha a sua vontade e. em que se incluíam as barragens. da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano. O dia 5 de junho de 1972. Apesar de. participaram representantes de 113 países e de cerca de 250 organizações não-governamentais e o seu foco de atenção principal foi a constatação de que a ação do homem vinha produzindo severa degradação da natureza. conecta o lago de Itaipu ao rio Paraná aproveitando em seu trecho inferior o leito natural do rio Bela Vista.

em setembro de 1977. para soltura em áreas protegidas ou aproveitamento científico. ligadas principalmente à qualidade da água e à introdução de peixes em reservatórios. Iniciativas anteriores de preservação ambiental. a ELETRONORTE. na companhia de profissionais da ELETRONORTE. que já havia prestado consultoria para FURNAS. CEMIG e ITAIPU. Consultor de meio ambiente Robert Goodland em 2011 Consultor ambiental Robert Goodland (à direita) junto com Rupert Spearman (Ieco-Elc) na primeira inspeção a Itaipu em 1972 398 . O ecólogo Goodland. A implantação da usina hidroelétrica Tucuruí. Simultaneamente.A História das Barragens no Brasil . XX e XXI BINACIONAL) já demonstravam alguma consciência da importância do componente ambiental em seus empreendimentos. Esse despertar para o meio ambiente foi iniciado pelos problemas de conflitos de reassentamentos de populações desalojadas pela formação de reservatórios e pela necessidade de compatibilizar a eventual explotação de recursos minerais em áreas alagáveis antes de sua inundação. contratou o ecólogo Robert Goodland. que abrangeram estudos a montante e a jusante da barragem. Rio Tocantins. A partir desse relatório. o tratamento das questões ligadas aos povos indígenas foi. para elaborar um relatório diagnóstico da problemática ambiental relativa à implantação da usina hidroelétrica Tucuruí e recomendar ações para minimizar os potenciais impactos ambientais identificados. bem como o reflorestamento de suas margens. o relatório Environmental Assessment of the Tucuruí Hydroelectric Project. avaliação de impactos a montante e a jusante da barragem e monitoramento ambiental. quando do enchimento do reservatório. também. seriam indispensáveis para o sucesso do projeto. que teve por objetivo promover o salvamento do maior número possível de indivíduos da fauna silvestre.Séculos XIX. abordado. continuou ações ambientais sistematizadas em nove subprojetos. a ELETRONORTE criou. Amazônia (Avaliação ambiental do aproveitamento hidroelétrico de Tucuruí – Rio Tocantins). realizou várias campanhas de campo na região e apresentou. conceituado profissional ligado ao Cary Arboretum of the New York Botanical Garden. em um bioma sensível – Floresta Amazônica. Com o início do aproveitamento de potenciais hidrelétricos na Região Amazônica.430 km2. já eram objeto de ações das empresas do Setor Elétrico desde a década de 60. que já vinha enfrentando a problemática ambiental. Assim. uma Divisão de Ecologia que passou a concentrar as atividades ligadas ao meio ambiente. despertou nos responsáveis pelo empreendimento a certeza de que ações de diagnóstico dos meios físico e biótico. com um reservatório da ordem de 2. em 1976. culminaram na denominada Operação Curupira. Essas ações desenvolvidas entre 1978 e 1984.

à imposição. a primeira lei que trata.ao estabelecimento de critérios e padrões de qualidade ambiental e de normas relativas ao uso e manejo de recursos ambientais. já restabelecida a democracia no Brasil. a instituição do licenciamento ambiental de atividades efetiva ou poten cialmente poluidoras.ao desenvolvimento de pesquisas e de tecnologias nacionais orientadas para o uso racional de recursos ambientais. visando assegurar. esta lei estabelece: “A Política Nacional do Meio Ambiente tem por objetivo a preservação. portanto. dos Territórios e dos Municípios.” E o inciso IV do Art. objetivando capacitá-la para participação ativa na defesa do meio ambiente. que dispõe sobre critérios básicos e diretrizes gerais para a avaliação de impacto ambiental. do subsolo. somente em 17. com resgate de 36.450 indivíduos.educação ambiental a todos os níveis de ensino. à divulgação de dados e informações ambientais e à formação de uma consciência pública sobre a necessidade de preservação da qualidade ambiental e do equilíbrio ecológico.EIA e respectivo Relatório de Impacto Ambiental – RIMA.938.” Já o Art.à preservação e restauração dos recursos ambientais com vistas à sua utilização racional e disponibilidade permanente. da Política Nacional do Meio Ambiente . A Lei 6. aos interesses da segurança nacional e à proteção da dignidade da vida humana.ação governamental na manutenção do equilíbrio ecológico.. V . e da Secretaria Especial do Meio Ambiente – SEMA em caráter supletivo.02. tais como: 399 . 2º. que: “Dependerá de elaboração de Estudo de Impacto Ambiental . o licenciamento de atividades modificadoras do meio ambiente. IX . II . Ill .proteção de áreas ameaçadas de degradação. 2º. a serem submetidos à aprovação do órgão estadual competente.recuperação de áreas degradadas. condições ao desenvolvimento sócio-econômico. IV . melhoria e recuperação da qualidade ambiental propícia à vida. no Brasil. Somente nove anos após a realização da Conferência de Estocolmo é que surge. 9º. 01. X . atendendo aos interesses da União.controle e zoneamento das atividades potencial ou efetivamente poluidoras. inclusive a educação da comunidade. ao poluidor e ao predador.DOU a Resolução CONAMA n o.81). de forma integrada. Em seu Art. da contribuição pela utilização de recursos ambientais com fins econômicos. VII . considerando o meio ambiente como um patrimônio público a ser necessariamente assegurado e protegido.à difusão de tecnologias de manejo do meio ambiente. atendidos os seguintes princípios: I . III . no País. é publicada no Diário Oficial da União . II . do Distrito Federal. define que são instrumentos da PNMA “o licenciamento e a revisão de atividades efetiva ou potencialmente poluidoras”.proteção dos ecossistemas. VIII . VII . pela primeira vez no Brasil. com a preservação de áreas representativas. define que a PNMA visa: “I . VI . concorrendo para a manutenção do equilíbrio ecológico propício à vida. também foi realizada operação de salvamento de animais silvestres. V . de 31.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Na implantação da usina hidroelétrica Itaipu.planejamento e fiscalização do uso dos recursos ambientais. tendo em vista o uso coletivo.à compatibilização do desenvolvimento econômico-social com a preser vação da qualidade do meio ambiente e do equilíbrio ecológico. IV .acompanhamento do estado da qualidade ambiental.racionalização do uso do solo. VI .PNMA (Lei 6. ao usuário.86. da obrigação de recuperar e/ou indenizar os danos causados e. da água e do ar .08. encampa os resultados da Primeira Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano e estabelece. cujo fechamento do desvio e enchimento do reservatório ocorreu em 1982.à definição de áreas prioritárias de ação govername tal relativa à qualidade e ao equilíbrio ecológico.938. e define no Art. 4º. dos Estados.incentivos ao estudo e à pesquisa de tecnologias orientadas para o uso racional e a proteção dos recursos ambientais. No entanto.

Apesar de o número de barragens para outros fins. contudo estabelece-lo. uma análise dos empreendimentos considerados de maior impacto social e ambiental e propunha medidas mitigadoras e compensatórias. Na mesma data de publicação da Resolução CONAMA no. Determina. que terá prazo para essa análise. apresentando. elaborado por um grupo de trabalho constituído por profissionais de empresas do setor. analisando os aspectos de suas especialidades. também. O órgão estadual competente.90. que estabelece a exigência de licenciamento para barragens e diques.Séculos XIX. embora tenha sido objeto da Resolução CONAMA no. de saneamento ou de irrigação. em 05. promoverá a realização de Audiência Pública para informação sobre o projeto e seus impactos ambientais e discussão do RIMA. quando couber. no processo de licenciamento ambiental.. uma vez mais não o estabelecendo. Em novembro de 1986. Esse documento orientava a forma de conduzir o Setor sob a égide das diretrizes que o norteavam. XX e XXI .. Com o objetivo de organizar a estrutura gerencial e executiva para o trato da temática ambiental. receberão cópia. bastante inconsistente. com predominância daquelas para abastecimento de água (açudes). o licenciamento ambiental de barragens no Brasil. Esse Comitê. prestou assessoria à alta direção da ELETROBRAS. que o RIMA deverá ser dado a público e que os órgãos públicos que manifestarem interesse. em junho de 1986. ainda. do Departamento Nacional de Águas e Energia Elétrica – DNAEE. a ELETROBRAS publicou o primeiro Plano Diretor para Proteção e Melhoria do Meio Ambiente nas Obras e Serviços do Setor Elétrico (I PDMA). tinham em foco o licenciamento dos empreendimentos. composto por técnicos de notório saber nas áreas social e ambiental. foi criado. inserção regional. em fevereiro de 1987. pela sua importância. Assim. sem vínculos com o setor. também. 09. para conhecimento e manifestação. articulação interinstitucional e com a sociedade. o Departamento de Meio Ambiente – DEMA. manual esse previsto para ser revisado em 1991.” . tais como: barragens para fins hidrelétricos. 400 .1997. foi publica- do o Manual de Estudos de Efeitos Ambientais dos Sistemas Elétricos. em agosto de 1989. que propôs uma política socioambiental para o Setor. VII – Obras hidráulicas para exploração de recursos hídricos. e eficácia gerencial. além de demonstrarem a importância atribuída ao tema. liderou uma série de ações que..12.. que dispõe sobre a aprovação de modelos para publicação de pedidos de licenciamento. A realização de Audiências Públicas. ou pela SEMA ou. 06/86. e alinhado com as preocupações com o meio ambiente.07. sempre que julgar necessário. Define. construção e projeto nas décadas de 70 e 80 do século passado. baseando-a em quatro diretrizes: viabilidade ambiental. Essa Divisão tornou-se. o município. que dispõe sobre a revisão e complementação dos procedimentos e critérios utilizados para o licenciamento ambiental. O setor elétrico. foi promulgada a Resolução CONAMA no.A História das Barragens no Brasil .. ainda. O esforço de um trabalho conjunto de representantes das principais empresas do setor elétrico. cuja regulamentação se apresentava. Em 19. diagnosticando problemas e propondo soluções. assim. em dezembro de 1986. representar cerca de duas vezes o das barragens para geração de energia elétrica. em decorrência da evolução esperada para o assunto. 01/86 determina que o Estudo de Impacto Ambiental e respectivo RIMA devam ser analisados pelo órgão estadual competente. pelo município.12. a SEMA ou. 237. sem. pela sua importância e estruturação por concessionárias estatais. uma Divisão de Meio Ambiente ligada ao Departamento de Estudos Energéticos. coordenado pela Eletrobras. 01/86. Nasce. só veio a se tornar efetiva quando de sua publicação no DOU. quando couber..87. A mesma Resolução CONAMA no. o Comitê Consultivo de Meio Ambiente da ELETROBRAS – CCMA. foi o setor elétrico que comandou as ações para estruturar o seu processo de licenciamento ambiental. o DOU publicou a Resolução CONAMA no. acima de 10MW. de 03. . que esses órgãos públicos e demais interessados deverão ter prazo para se manifestarem. Imediatamente após a publicação do I PDMA. responsável por considerável quantidade de barragens em operação. a ELETROBRAS criou. ou tiverem relação direta com o projeto.

110.02.10. o Código de Águas (Decreto 24. o que determina a Lei 8. essa resolução é um marco histórico. cada vez mais com a presença de atores que são determinantes para o sucesso.09. de 09. Essa lei particularizou.65 e suas modificações).09.12. os trâmites e a responsabilidade pela obtenção das licenças ambientais. a possibilidade de o empreendedor debater essas exigências. os Órgãos Estaduais do Meio Ambiente – OEMAs.85). de 22. que devem ser consi derados na elaboração dos estudos ambientais e formam um elenco legislativo de grande porte.197. o Códig o Florestal (Lei 4.347. de 30. a FUNAI. a Lei de Proteção à Fauna (Lei 5. Ficou também estabelecido que o órgão ambiental competente definirá. etc.TR.01.643.987. Destacam-se o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis – IBAMA.96). bem como nos próprios órgãos ambientais licenciadores. 01/86. de 05. diploma que também disciplinou o regime de concessões de serviços públicos de energia elétrica. Licença de Instalação – LI e Licença de Operação – LO). de 27. Para as barragens. o que hoje se denomina discussão do Termo de Referência .371. com a criação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – SPHAN (Decreto-Lei 25. A modificação do marco regulatório das concessões vem alterando.07. A partir do estabelecimento das exigências de produção de estudos e projetos ambientais para o licenciamento de barragens e outras atividades consideradas “modificadoras do meio ambiente”. 06/87 não tornou. que absorveu as atribuições do IBDF.10. destacando-se o Estudo de Impacto Ambiental e o RIMA para a LP e o Projeto Básico Ambiental para a LI. É de ressaltar que essa modificação é marcante para as barragens para fins de 401 . Resguardou-se. ao consumidor. histórico e paisagístico (Lei 7. bem como o nível de detalhe dos programas do Projeto Básico Ambiental.88). o conteúdo. cuja ementa informa que dispõe sobre o licenciamento ambiental de obras do setor de geração de energia elétrica. de 28. estabelecendo os documentos necessários a cada solicitação.87.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens da Secretaria Especial de Meio Ambiente – SEMA e de órgãos ambientais estaduais resultou na elaboração e publicação da Resolução CONAMA no. para o setor elétrico. no entanto. a criação do Instituto de Colonização e Reforma Agrária – INCRA (Decreto-Lei 1. da Superintendência de Desenvolvimento da Pesca – SUDEPE e da Superintendência da Borracha – SUDHEVEA. a criação da Fundação Nacional do Índio – FUNAI (Lei 5. contudo. de cada processo individualmente.12. hoje IPHAN.902.67 e suas modificações). da SEMA. desde a promulgação dessas leis. em que se incluem.04. O estabelecimento das diretrizes da Resolução CONAMA n o. de 22.34). ou não. de 03. a bens e direitos de valor artístico. o IPHAN. As empresas estatais de água e energia perdem a exclusividade de receber concessões e os agentes privados entram em cena.89. foi desencadeado um processo de formação de equipes técnicas multidisciplinares em empresas de consultoria e nas empresas e autarquias estatais. que dispõe sobre o regime de concessão e permissão de serviços públicos. a abrangência e a profundidade dos estudos ambientais.08.11.70). resguardado o disposto na Resolução CONAMA no. criado pela Lei 7. 127 a Art.02. de 10.67). Os mais variados diplomas legais de proteção ambiental. estético.37). conforme atribuições constantes da Constituição Federal de 1988 (Art.427. Essa resolução.07. contudo. a FCP e o Ministério Público. 130). foi criada a Agência Nacional de Energia Elétrica – ANEEL (Lei 9. de 24.73).81 e suas modificações). a Lei de Criação de Estações Ecológicas e Áreas de Proteção Ambiental (Lei 6. o licenciamento ambiental de barragens uma questão simples e pacífica.030. Em 1996. 06. de 26. de 13.87. a criação da Fundação Cultural Palmares – FCP (Lei 7.668. abrange também obras de transmissão. a organização do patrimônio histórico e artístico nacional.735. pois pela primeira vez os tipos de licenças são correlacionados a etapas de desenvolvimento do empreendimento (Licença Prévia – LP. publicada no DOU em 22.07.771. de 16. O aprendizado das partes envolvidas no processo de licenciamento ambiental de barragens vem sendo paulatino.95.02. entre outros. de 30. a criação da Secretaria Especial do Meio Ambiente – SEMA (Decreto-Lei 73.67). de 15. a criação do Instituto Brasileiro do Desenvolvimento Florestal (Decreto-Lei 289. a promulgação da lei que disciplina a ação civil pública de responsabilidade por danos causados ao meio ambiente.

847. especialmente para as barragens que formam reservatórios. em audiências públicas. da LI e da LO para cada empreendimento. em geral. à proteção da flora nativa e da fauna silvestre e à preservação da qualidade dos recursos hídricos. Essa Resolução. organização que milita pelos direitos dos afetados pelas barragens. um complicador no processo de licenciamento. conforme inciso VI do Art. 395. Ita e Machadinho) construídos por empresas estatais. objeto de legislação elaborada por diversas entidades que interferem diretamente no grau de detalhamento do Estudo de Impacto Ambiental.03. Historicamente. necessários. especialmente. Itaipu. Nas décadas de 1970 e 1980. conforme disposto na Resolução Normativa no. estabelece que a obtenção do licenciamento ambiental pertinente é de responsabilidade do interessado. (Art. biótico e antrópico. Eles estão ligados à remoção de populações das áreas dos reservatórios. para PCHs. inciso IV). embora lhe caiba a obtenção das demais licenças ambientais. que trata dos procedimentos gerais para registro e aprovação de Estudos de Viabilidade e Projeto Básico de empreendimentos de geração hidroelétrica. tanto dos empreendedores quanto dos analistas dos órgãos ambientais. com evidente desperdício de recursos. às interferências com populações indígenas. tem feito exigências de estudos etnoecológi- 402 . implantadas. os principais problemas ligados aos potenciais impactos dessas obras se focavam em aspectos ambientais ligados aos meios físico. a cada dia. do Projeto Básico Ambiental e dos Relatórios de Acompanhamento da Implantação dos Programas Ambientais. paleontológicos e espeleológicos e com áreas de preservação ambiental. 12. de 09. que permite a apresentação de mais de um estudo ou projeto para uma única usina hidroelétrica ou PCH. “obter a licença prévia ambiental e a declaração de disponibilidade hídrica necessárias às licitações envolvendo empreendimentos de geração de energia elétrica e de transmissão de energia elétrica. cria. incrementos de prazos e custos para a obtenção das licenças ambientais. 343. com voz presente. a FUNAI. que se manifesta necessariamente na análise do Estudo de Impacto Ambiental. de 15. não tendo sofrido alterações para barragens de outras finalidades. em especial as de proteção integral. Mesmo não havendo interferência direta com essas unidades. Esse requisito se aplicava tanto para em preendimentos a serem colocados em licitação (Usinas Hidroelétricas) quanto àqueles com características de Pequena Cen tral Hidroelétrica. assim como autorização para exploração de Centrais Hidroelétricas até 30 MW. selecionados pela EPE” . respectivamente à emissão da LP. passou a ser de sua competência. XX e XXI geração hidroelétrica. É dessa época a fundação do MAB – Movimento dos Atingidos por Barragens. Com a criação da Empresa de Pesquisa Energética – EPE. implica o licenciamento ambiental do mesmo objeto por mais de um interessado. Tem-se conhecimento que a ANEEL está estudando uma modificação nas diretrizes de apresentação de projetos para permitir que apenas um empreendedor autorizado seja o responsável pelo licenciamento ambiental. tendo sido. desde a publicação da Resolução CONAMA no. Os aspectos ambientais mais importantes atrás mencionados estão diretamente ligados ao processo de licenciamento. mesmo antes da existência de legislação referente ao licenciamento ambiental de barragens. às margens dos lagos formados. 01/86. garantindo ao empreendedor a certeza da viabilidade ambiental do empreendimento. geralmente por meio de desapropriação por utilidade pública. Sobradinho.08.A História das Barragens no Brasil .98.04. expressa pela LP. ao longo dos anos. a LI e a LO. obviamente. Os problemas de interferências com aldeias e terras indígenas vêm sendo. com comunidades quilombolas.Séculos XIX. Essa situação perdura. quando da implantação de grandes barragens e imensos reservatórios (usinas hidroelétricas Tucuruí. Em 04. Essa legislação. muitas remoções foram feitas para novas vilas ou cidades.12. Itaparica. A remoção e o reassentamento de populações para implantação de reservatórios de barragens vêm sendo feitos mediante acordos dos empreendedores (públicos ou privados) com os atingidos. cada vez mais. 4º. Essa determinação está sendo seguida para a licitação de concessões de geração hidroelétrica. a Resolução Normativa ANEEL no. pela Lei 10. com sítios arqueológicos. sendo hoje muito atuante e geradora de dificuldades nos processos de licenciamento ambiental.12.

de 17. de 10.03. Com esse Decreto.09. Mesmo não havendo evidências da existência de vestígios arqueológicos relatada no Diagnóstico Arqueológico. Esse tipo de omissão pode acarretar atraso no processo. em seu Art. com a edição do Decreto 6. a aprovação dos seus relatórios. inviabilizava a implantação de empreendimentos em regiões dotadas de cavernas naturais. a realização de diagnóstico das Áreas de Influência da barragem.08. que. inicialmente. modificação e operação de empreendimentos e atividades.640.12. instalação. sendo obrigatória. reconhecimento. cujos serviços só podem ser iniciados após a publicação da mesma no DOU. bem como desenvolver um Programa de Educação Patrimonial a ser implantado nas comunidades próximas ao achado. de 01. Para a realização dos trabalhos de arqueologia. para a obtenção da LI é requerida a realização de Prospecção Arqueológica que. foi regulada.11. A Fundação Cultural Palmares tem necessariamente que ser ouvida no processo de licenciamento.90. que oneram o empreendedor e que são motivo de atraso no licenciamento.146. O patrimônio paleontológico é protegido. pela Resolução CONAMA n o.02. com o atraso na emissão das Portarias e. considerados efetiva ou potencialmente poluidores ou degradadores do patrimônio espeleológico ou de sua área de influência dependerão de prévio licenciamento pelo órgão ambiental competente. que regulamenta o procedimento para identificação. a cargo do IBAMA. deverá promover o seu salvamento e deposição em instituição de pesquisa. Depois de muita discussão. Para a realização dos trabalhos de arqueologia é necessário submeter ao IPHAN um projeto de pesquisa que. para inclusão no Estudo de Impacto Ambiental. tem havido imposição de “compensações”. caso identifique algum vestígio.556.08. A implantação de barragens e reservatórios.. nos termos da legislação vigente”.11. que modificou a redação do anterior Decreto 99. Mesmo após estudos antropológicos conclusivos. que dispõem sobre os procedimentos para obtenção de licenças ambientais referentes à apreciação e acompanhamento das pesquisas arqueológicas no País. que são passíveis de autorreconhecimento. submetidos a qualquer tipo de impacto. de 15. 347. que provam não haver impacto. o IPHAN vem atrasando a análise dos projetos de pesquisa. independente de seu porte. em áreas cujas rochas apresentem potencial paleontológico.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens cos dos grupos indígenas que se encontram. A proteção do patrimônio espeleológico. A proteção das cavidades naturais subterrâneas existentes no território nacional foi estabelecida pelo Decreto 99.12. a mais de 20 km de distância da barragem e seu reservatório e que não seriam. para fins de liberação das LP e LI.04. delimitação.88 e IPHAN no. gera uma Portaria específica para o arqueólogo responsável. de 07. A definição dos critérios para estabelecimento da relevância das cavidades na turais subterrâneas foi feita através da Instrução Normativa do Ministério do Meio Ambiente no. demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentes de comunidades quilombolas.887. de 20. exceto nas de relevância máxima. construção. uma vez autorizado. 230. em qualquer hipótese. muitas vezes.09.10. deve-se obedecer ao disposto nas Portarias SPHAN no. As comunidades remanescentes de quilombos. 403 .556. mediante o Decreto-Lei 4. definindo. de 20. desde que sejam implementas medidas e compensações. realizados em atenção ao Termo de Referência específico. desde 1942. Essa Resolução institui o Cadastro Nacional de Informações Espeleológicas – CANIE. foi definido que deveriam ser criados critérios de relevância para a classificação das cavidades naturais subterrâneas e a possibilidade de implantar empreendimentos em áreas em que elas ocorram. havendo sempre o risco de existir algum processo de autorreconhecimento em andamento e isso não ser informado na consulta prévia que as consultoras costumam fazer na fase inicial de elaboração do EIA. considerando-o dentro do processo de licenciamento ambiental de empreendimentos. ampliação. 2. 4º. que “a localização. Esses procedimentos oneram e atrasam o processo de licenciamento ambiental das barragens. requer a identificação e o resgate dos fósseis. passou a ser possível a convivência de barragens e outros empreendimentos com a proteção às cavidades naturais subterrâneas. também. O patrimônio arqueológico é protegido. são amparadas pelo disposto no Decreto 4. ou até inviabilizar um empreendimento. para a obtenção da LP. 07. Devido à falta de quadros técnicos. praticamente.

02.10.06. abrangendo mamíferos.05.recuperar ou restaurar ecossistemas degradados.valorizar econômica e socialmente a diversidade biológica.proporcionar meios e incentivos para atividades de pesquisa científica.EIA/RIMA. IX . a execução de um processo dispendioso e demorado. estabeleceu. para qualquer empreendimento. VI .00. devem possuir uma zona de amortecimento e. de 22.340. Essa IN veio sendo aplicada. 2/96).promover o desenvolvimento sustentável a partir dos recursos naturais. A Instrução Normativa do MMA n o. finalmente. Outra limitação à implantação de barragens e outros empreendimentos é a que define critérios de distância para proteção do entorno de Unidades de Conservação.985. IV .contribuir para a preservação e a restauração da diversidade de ecossistemas naturais. o assunto está finalmente regulado pela Resolução CONAMA no.12. X . V . de 05.12. geomorfológica.proteger as espécies ameaçadas de extinção no âmbito regional e nacional. corredores ecológicos.01. A Portaria Normativa do MMA no. estudos e monitoramento ambiental. 36. passando o assunto a ser regulado pela Resolução CONAMA no. exceto Área de Proteção Ambiental e Reserva Particular do Patrimônio Natural. 371. em 10 quilômetros.contribuir para a manutenção da diversidade biológica e dos recursos genéticos no território nacional e nas águas jurisdicionais. XIII .90. XII .proteger os recursos naturais necessários à subsistência de populações tradicionais. VII . o empreendedor é obrigado a apoiar a implantação e manutenção de unidade de conservação do Grupo de Proteção Integral.Séculos XIX. de 18. requerendo-se. respeitando e valorizando seu conhecimento e sua cultura e promovendo-as social e economicamente. répteis e peixes.10. de 11.proteger e recuperar recursos hídricos e edáficos. a recreação em contato com a natureza e o turismo ecológico. que caíram para 3 km no caso de empreendimentos sujeitos a elaboração de EIAe RIMA e para 2 km para os de reduzido impacto ambiental. 428.promover a utilização dos princípios e práticas de conservação da natureza no processo de desenvolvimento. Nos casos de licenciamento ambiental de empreendimentos de significativo impacto ambiental. 404 . A proteção da fauna silvestre é um tema que passou a ser encarado com extremo rigor no âmbito do licenciamento ambiental de barragens. depois de várias determinações exaradas em Resoluções do CONAMA para o tema (Resolução CONAMA n o. 4 o o SNUC tem os seguintes objetivos: I .08. de 22. que estabeleceu critérios para definição das distâncias a serem consideradas para as zonas de amortecimento.proteger as características relevantes de natureza geológica. para tal. embora o seu espírito original fosse de que deveria ser aplicada a barragens formadoras de reservatórios. transporte e exposição de grupos da fauna. aves. 13. regulamentada pelo Decreto 4.” Como houve muita discussão quanto aos critérios de cálculo da compensação financeira. XX e XXI O Sistema Nacional de Unidades de Conservação – SNUC foi estabelecido pela Lei 9. como definido na Lei do SNUC. XI . VIII . paleontológica e cultural. espeleológica.07. coleta. Essa distância foi estabelecida sem qualquer critério de avaliação de impactos ambientais. em seu “Art. foi revogada. quando conveniente. com captura. Essa Resolução. assim considerado pelo órgão ambiental competente. em 17. Esses diagnósticos só podem ser realizados mediante autorização do IBAMA. 25.09. indistintamente.” No apoio às Unidades de Conservação de Proteção Integral.07. de 06. arqueológica. ou seja. a obrigatoriedade de realizar diagnósticos da fauna. de acordo com o disposto neste artigo e no regulamento desta Lei. 10/87 e Resolução CONAMA n o. De acordo com seu “Art. 146. a chamada Lei do SNUC estabelece: “Art. restringiu a sua aplicação a empreendimentos de geração hidroelétrica. As unidades de conservação. II . com fundamento em Estudo de Impacto Ambiental e respectivo relatório .A História das Barragens no Brasil . III . a qualquer tipo de empreendimento. a barragens com essa finalidade.favorecer condições e promover a educação e interpretação ambiental.04.proteger paisagens naturais e pouco alteradas de notável beleza cênica.” Essa zona de amortecimento foi estipulada na Resolução CONAMA no.

Stockholm 1972: Brief summary of the general debate. Pelo exposto. jun. Rio de Janeiro.asp?DocumentID=97&ArticleID=1497&l=en Acesso em: mar. que estabelece procedimentos para o licenciamento ambiental simplificado de empreendimentos elétricos com pequeno potencial de impacto ambiental. por receio de ação do Ministério Público que.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Finalmente. UNEP. 1990. tornando os processos demorados e. exigindo.06. Rio de Janeiro. uma evolução sustentável. Brasília. Disponível em: http://www. consequentemente. efetivamente. principalmente. 405 . restando às partes envolvidas. Essa Resolução vem sendo aplicada. praticamente. dez. Relatório Condensado. como elemento base para a concessão da LP e Relatório de Detalhamento dos Programas Ambientais – RDPA para a solicitação da LI. consultores ambientais.279. 1987. 1984. como as manifestações da FUNAI. 1986. bem como sobre a fauna silvestre. é exigida por praticamente todos os órgãos ambientais licenciadores. Entendendo o meio ambiente: principais Conferências Internacionais sobre o meio ambiente e documentos resultantes. intervém na maioria dos processos como guardião da lei. elaboram pareceres sobre estruturas de pequeno porte semelhantes aos aplicáveis a grandes barragens.br/biblioteca/ fe_e_meio_ambiente/principais_conferencias_internacionais_ sobre_o_meio_ambiente_e_documentos_resultantes. em atenção a ações do Ministério Público. empreendedores. O processo é penoso.html Acesso em: mar. muitas vezes esses de qualidade duvidosa. detalhamentos incompatíveis com o porte dos empreendimentos e. analistas dos órgãos licenciadores. Disponível em: http://www. posto que com o aumento da demanda. São Paulo: Novo Grupo Editora Técnica.com. Topmost dams of Brazil.cndpch. que. Rio de Janeiro. Plano Diretor de Meio Ambiente do Setor Elétrico 1991/1993. se pode dizer que a “evolução” tenha um sentido de aprimoramento. ELETRONORTE/ENGEVIX. nem sempre atendendo aos requisitos exigíveis. os órgãos ambientais sofrem de falta de pessoal qualificado para analisar os estudos ambientais que são apresentados para instruir os processos de licenciamento. A legislação aplicável é vasta. no entanto. promoverem constante troca de experiências no sentido de que o licenciamento sofra. Ela instituiu o Relatório Ambiental Simplificado – RAS. O processo de licenciamento simplificado não desobriga. 2011.com.br/ zpublisher/paginas/legislacao_ambiental. bem como da avaliação fundamentada dos impactos sobre o patrimônio paleontológico e espeleológico e as Unidades de Conservação. ELETROBRAS. 1977. a consideração de todos os aspectos ambientais atrás mencionados. hoje. ______. 1978. o mercado de consultoria ambiental cresceu. Relatório Geral. Os prazos constantes dos diplomas legais não são cumpridos. Em substituição à Audiência Pública. caros. em geral. Brasília. verifica-se que a evolução do licenciamento ambiental de barragens no Brasil é um tema complexo e. nem sempre. Relatório Final. 2011. Plano Nacional de Energia Elétrica 1987/2010: Plano 2010. demais instituições intervenientes e à sociedade civil. da FCP e do IPHAN. Estudos Tocantins: inventário hidrelétrico das bacias dos rios Tocantins e Araguaia. Centro nacional de desenvolvimento de PCH. ELETRONORTE. out. Disponível em: http://www. Ecclesia. Legislação ambiental.ecclesia. às PCHs com pequenas barragens e reservatórios. 2011.01. Inventário do baixo Araguaia – Tocantins.org/DocumentsMultilingual Default. ______. Referências CBGB.asp Acesso em: mar. Livro Branco sobre o Meio Ambiente na Usina Hidrelétrica de Tucuruí. essa Resolução introduz a Reunião Técnica Informativa – RTI. para a concessão das licenças. cabe mencionar a Resolução CONAMA no. Os analistas tendem a se resguardar.unep. de 27. pelos órgãos licenciadores.

Figuras selecionadas dos resultados da instrumentação Deslocamentos horizontais máximos para jusante (períodos de inverno) .uma barragem densamente monitorada com elevado nível de segurança.Itaipu .

que seguramente contribuirá para reduzir os riscos de acidentes nas nossas barragens. edição de boletins e organização de congressos. destacam-se: “Lessons from Dams Incidents” (1974). Introdução Obras de tamanha importância devem ter a sua segurança gerenciada ao longo de toda a sua vida. Todavia. O Comitê Brasileiro de Barragens sempre esteve atento à necessidade da implantação de uma política e de uma legislação que tratassem do aspecto de segurança de barragens. industrial e irrigação. com graves conseqüências ocorridas na época. Existem aproximadamente 45. construção e operação desses empreendimentos são tratados com seriedade. Histórico da legislação sobre segurança de barragens 2. Durante o Congresso Internacional de Grandes Barragens. seminários e cursos. não haveria desenvolvimento humano. 2003). em Nova Delhi. III World Water Fórum (Kyoto. empreendimentos que tem papel relevante no desenvolvimento do nosso país. 2. deixa claro a grande responsabilidade das concessionárias e proprietárias quanto à preservação da segurança das barragens. assim como levanta a importância do papel da Comunidade Técnica e dos pertinentes órgãos governamentais no sentido de minimizar a possibilidade da ocorrência de eventos desta natureza. além do incremento da quantidade de barragens sendo construídas em países com pouca ou nenhuma experiência em engenharia de barragens.A Evolução da Legislação Aplicada às Barragens “A História prova que se as barragens não fossem construídas. aumento nas dimensões das novas barragens e envelhecimento de uma quantidade apreciável de outras. tendo atuado neste campo com a formação de diversos comitês. promovido pelo ICOLD em 1979. foi decidido investir maiores esforços no âmbito de segurança em função de: diversos incidentes em barragens. danos ambientais e conseqüências de elevado valor econômico decorrentes de uma eventual ruptura. Ciro Humes Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens 1.000 grandes barragens ao redor do mundo servindo a sociedade por meio do fornecimento de água para uso doméstico. “Automated Observations for Safety Control of Dams” (1982). “Deterioration 407 . Neste capítulo será resumidamente apresentada a atuação do CBDB na evolução dos aspectos ligados à implantação de uma política de segurança de barragens no Brasil. o imenso potencial de perdas de vida. Dentre as diversas publicações do ICOLD relacionadas à segurança de barragens.1 Panorama internacional O ICOLD (Inter national Commission on Lar ge Dams) sempre esteve preocupado com a segurança de barragens. A ruptura de barragens é uma hipótese pouco provável e de baixíssima probabilidade de ocorrência quando os aspectos de projeto. gerando energia elétrica e controlando enchentes”.

No Canadá. “Risk Assessment in Dams Safety Management . Revisão de critérios de segurança. em intervalos pré-fixados.Séculos XIX. Publicação do Water Resources Development Act . XX e XXI of Dams and Reservoirs” (1983). em um intervalo de cinco anos. organizada em 1979. principalmente no tocante aos planos de ações emergenciais em barragens. Kelley Barnes (causando 39 mortes) e Teton (causando 14 mortes e danos avaliados em um bilhão de dólares). revisado em 1997. 408 . a FERC (Federal Energy Regulatory Commission) também atua na área.A História das Barragens no Brasil . verificou que a legislação de todas as províncias e territórios era genérica e continha poucos artigos específicos sobre programas de segurança e monitoramento. “Dam Monitoring-General Considerations” (1988). o Comitê de Segurança de Barragens do Canadian National Commitee on Large Dams. Constituição de um plano de observação e sua adaptação quando necessário. “Inspection of Dams Following Earthquake” (1988). obrigatoriamente a cada 20 anos. Methods and Current Applications” (2005). Army Corps of Engineers a inventariar e inspecionar barragens não federais (1972). revisão dos procedimentos adotados por agências federais (1977) por junta de consultores independentes. foram criados outros dois organismos encarregados de desenvolver. passando as autoridades municipais a arcar com a responsabilidade pela supervisão. “Monitoring of Dams and Their Foundations” (1989). tendo sido preparado o Dam Safety Guidelines em 1995. em 1972. Foi organizado um serviço especial de inspeção de barragens pertencentes aos “State Power Board” que passou a inspecioná-las com especialistas. para que as barragens existentes passassem a aplicar as imposições do regulamento. autorizando o financiamento federal a programas estaduais de segurança de barragens (1986). Em Portugal foi promulgado. em 1980. as rupturas das barragens de Buffalo Creek (causando 125 mortes e enormes prejuízos materiais) e Canyon Lake. o Serviço Nacional de Proteção Civil. coordenação centrali zada de programas de segurança de barragens. Inspeções periódicas por meio da autoridade competente. Entre as iniciativas adotadas pelo governo americano figuram: Lei autorizando o U.S. Na Suécia o controle de construção e manutenção é regido pelo Water Rights Act de 1918. o decreto-lei sobre o “Regulamento de Segurança de Barragens”. “Dam Failures Statistical Analysis” (1995). Os mesmos procedimentos foram seguidos pelas companhias associadas à Swedish Power Association. A legislação sobre recursos hídricos foi reformulada no início da década de 80. “Dam Safety Guidelines” (1987). Ordem presidencial para que o Guia de Segurança de Barragens fosse aplicado e que suas conclusões fossem encaminhadas à nova agência FEMA (Federal Emergency Management Agency).A Reconnaissance of Benefits. supervisionar e divulgar a segurança de barragens: o ICODS ( Interagency Committee on Dam Safety ) e a ASDSO (Association of State Dam Safety Officiais). na década de 70. Um terceiro órgão. o LNEC – Laboratório Nacional de Engenharia Civil. Aprovação do National Dam Safety Act e respectivas dotações orçamentárias (1997). em 1976. “Rehabilitation of Dams and Appurtenant Works – State of the Art and Case Histories” (2000). Além da FEMA. inspeção e eventuais medidas a serem tomadas junto aos proprietários das barragens. a Comissão de Segurança de Barragens e o proprietário da obra. em 1990. Entre estas imposições pode-se destacar: Designação dos responsáveis pela segurança englobando o governo (representado pela Direção Geral dos Recursos Naturais). Nos Estados Unidos da América. A partir desta constatação foi dada maior ênfase aos aspectos de segurança. “Dams less than 30 m high – Cost Savings and Safety Improvements” (1998). contribuíram decisivamente para uma revisão geral da legislação para a segurança e inspeção de barragens no país.

através de decreto real de 1980. foram muito importantes para nortear os procedimentos de segurança adotados por algumas organizações brasileiras.articulará com a União. foi emitido o Decreto nº.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A Noruega adotou. em 1995 o Cadastro Brasileiro de Deterioração de Barragens e Reservatórios e. Posteriormente. quanto à garantia de segurança e saúde pública. a pr e venção de inundações. q u e o f e r e ç a m riscos à saúde e segurança pública. atuação para apr oveitamento e controle dos recursos hídricos em seu território . a Itália editou um decreto aplicável e barragens com altura superior a 10 m e reservatórios com capacidade superior a 100. outr os Estados viz inhos e Municípios. quando de eventos hidrológicos indesejáveis. em 1986. tais como os que dizem que: o Estado assegurará meios financeiros e institucionais para “defesa contra eventos hidrológicos c r í t i c o s . Estas publicações. Alguns trechos de certos artigos podem ser aplicáveis à segurança de barragens e ao seu funcionamento adequado. bem como enfoca a segurança durante a operação e aborda aspectos técnicos. elaboradas por comissões do CBGB. em 1977. que se mostraram eficazes. nº. editou em 1979 e 1983 as Diretrizes para a Inspeção e Avaliação da Segurança de Barragens em Operação. O Ministério de Minas e Energia. e dr enagem e à correta utilização das várzeas”. propostas em 1975. Em 1982. 10752 dispondo sobre segurança das barragens no Estado e recomendando auditorias técnicas permanentes. ambos de 1984. 210.. com vistas.000 m 3. Especificamente no Estado de São Paulo... A Inglaterra possui várias barragens muito antigas e a ruptura de algumas delas deu origem a uma legislação especifica sobre segurança de barragens. que editou em 1992 o Projeto Norueguês de Segurança de Barragens que estabelece responsabilidade e respectivos impactos. em 1994. em 1996. em 1930. 739. criou um grupo de trabalho com o objetivo de normalizar procedimentos preventivos e de manutenção voltados à segurança 2. o Dam Safety Code of Pratice obrigando que o mesmo fosse obedecido em conjunto com o Dam Safety Act e o Dam Safety Decree. Outras rupturas ocorreram no início da década de 70 dando ensejo a mudanças legais.. como não houve a regulamentação deste decreto. na época CBGB: Comitê Brasileiro de Grandes Barragens. 409 . o Estado realizará pr ogramas conjuntos com os Municípios mediante convênios . O mesmo nível de abordagem consta da Lei 7663 que esta belece normas de orientação à Política Estadual de Recursos Hídricos bem como ao Sistema Integrado de Gerenciamento de Recursos. o Regulamento para Planejamento.. Entretanto.implantação de sistemas de alerta e defesa civil para garantir a segurança e a saúde pública. o Estado .. A Finlândia editou. com vista a . A Constituição do Estado de São Paulo aborda de maneira indireta o assunto ao se referir. ele nunca foi implementado. quando de eventos hidr ológicos indesejáveis . onde são indicadas as responsabilidades que envolvem os diversos organismos nas várias fases de um empreendimento. logo após os acidentes ocorridos com as barragens de Euclides da Cunha e Armando de Salles Oliveira... no art. O CBDB. assim como prejuízos econômicos e sociais. editou as Recomendações para a Formulação e Verificação de Critérios e Procedimentos de Segurança de Barragens. a contr ole de cheias.. seguindo a tendência mundial da década de 70. de 1988. formalmente. através da Portaria nº. Construção e Operação de Barragens. Auscultação e Instrumentação de Barragens no Brasil..2 Histórico da segurança de barragens no Brasil e o papel do CBDB Os fatos mostram que as demandas por programas de segurança de barragens ocorrem principalmente após a ocorrência de acidentes de vulto.

órgão do Ministério de Minas e Energia. aceitou o substitutivo proposto pelo Conselho Nacional de Recursos Hídricos. Encaminhado para o Senado. um relatório que abordou entre outros aspectos importantes: estabelecimento de mecanismo de monitoração e da instrumentação. por meio do Núcleo Regional de São Paulo. coordenador do projeto de lei. o projeto de lei passou pelas comissões do Meio Ambiente e Infraestrutura. o qual não conseguiu dar prosseguimento a esta proposta do CBDB. Em 2003. Este documento foi apresentado para debate no XXII Seminário de Grandes Barragens realizado na cidade de São Paulo e posteriormente foi consolidado com as sugestões recebidas de vários associados e encaminhado para a análise do DNAEE . definição das responsabilidades pela execução das ações. Este instrumento previa que o CNSB providenciaria a redação de um Regulamento de Segurança de Barragens e Reservatórios e na etapa seguinte seria responsável pela supervisão da correta aplicação deste regulamento. Meio Ambiente e Constituição e Justiça. com base nos diversos trabalhos pertinentes já desenvolvidos. novamente confirma-se que a demanda por programas de segurança de barragens ocorrem principalmente após a ocorrência de acidentes de vulto. foi a elaboração do Guia Básico de Segurança de Barragens pela sua Comissão de Segurança. elaborado com participação do CBDB.Departamento Nacional de Águas e Energia Elétrica. XX e XXI das diversas barragens existentes. Após este acidente o Deputado Leonardo Monteiro propôs o projeto de lei (PLC-168) com foco na Segurança de Barragens. cujo relator foi o deputado Arnaldo Jardim. em 1989. 410 . com apoio de outras entidades como a ABMS (Associação Brasileira de Mecânica dos Solos) e com o apoio importante da ANA (Agência Nacional de Águas). O relatório previa a criação de uma Sub-Comissão de Segurança de Barragens. de onde saiu aprovado em março de 2010 e recebeu a sanção presidencial em 21/09/2010 que conferiu ao projeto de lei. Em 1996 o CBGB. Este guia foi desenvolvido com base no Canadian Dam Safety Guidelines com a incorporação da cultura e experiência nacional. Ele foi apresentado à nossa comunidade no XXIII Seminário Nacional de Grandes Bar ragens que aconteceu em Belo Horizonte em 1999. Foi realiza do um processo de aproximação e apoio a esta iniciativa. Este projeto passou pelas Comissões de Minas e Energia.Séculos XIX. definição da periodicidade de inspeção. Coordenado pela Eletrobras o grupo publicou em 1987 a publicação Avaliação da Segurança de Bar ragens Existentes que é uma tradução do Manual SEED (Safety Evaluation of Existing Dams) do Bureau of Reclamation dos Estados Unidos da América. Outra importante iniciativa do CBDB. Nesta ocasião O CBDB deslumbrou a oportunidade de suportar tecnicamente a implantação desta lei. estabelecendo as diretrizes para a avaliação da segurança das barragens e propondo a criação do Conselho Nacional de Segurança de Barragens (CNSB). Neste momento o deputado Leonardo Monteiro. Este acidente espalhou resíduos no rio Paraíba do Sul e causou graves danos ao meio ambiente e à sociedade. através da Comissão de Deterioração e Reabilitação de Barragens. procedimentos gerais a serem seguidos em casos de acidentes. a instalação de um Cadastro Nacional de Barragens e a caracterização do potencial de risco de cada barragem. hoje ANEEL Agência Nacional de Energia Elétrica).A História das Barragens no Brasil . a uniformidade e a posição de lei que estabelece a Política Nacional de Segurança de Barragens. deixando uma vasta população sem água nos Estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro. elaborou minuta de Portaria do Ministério de Minas e Energia. Neste ano ocorreu a ruptura de uma barragem de rejeitos situada no rio Pombas no município de Cataguases no Estado de Minas Gerais. Também concluiu.

O CBDB continuará atento para que a concretização da legislação que cria uma política de Segurança de Barragens seja efetivada. Vale registrar que a caminhada ainda não está finalizada. promovendo o debate deste tema nos seus seminários e simpósios. Precursor das atividades sobre implantação de legislação aplicada a barragens no Brasil Figura 2 .Ferdinand M. por meio de publicação de documentos técnicos consistentes e atuando firmemente para a criação de uma legislação específica. foi relevante e fundamental para que após uma luta de décadas uma lei sobre segurança de barragens fosse promulgada.Fábio De Gennaro Castro.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens 3. pois falta a regulamentação da lei. Considerações finais A atuação do CBDB na área de segurança de barragens. Budweg. Figura 1 . coordenador da Comissão Técnica de Segurança de Barragens do CBDB e membro do Comitê de Segurança de Barragens da CIGB 411 .G.

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junto à subestação de Jacarepaguá. dando continuidade aos estudos em modelo reduzido das hidroelétricas da empresa. Em 1983. Dentre eles. O Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo (IPT). hoje denominado Fundação Centro Tecnológico de Hidráulica (FCTH) que. teve as suas instalações ampliadas visando a atender o desenvolvimento de ensaios e pesquisas que permitiram subsidiar principalmente os grandes projetos de aproveitamentos hidrelétricos construídos pela Companhia Energética de São Paulo (CESP) bem como várias obras no país. Dentre os vários estudos realizados em modelo reduzido des tacam-se os ensaios para a hidroelétrica de Itaipu. na sua maioria. O Centro de Estudos e Pesquisas de Hidráulica e Hidrologia (CEPHH). Furnas implantou no Rio de Janeiro. serviços a outras empresas do setor elétrico. IPT e LCEC. A seguir. localizado junto à hidroelétrica de Ilha Solteira. O Departamento de Águas e Energia de São Paulo (DAEE) em convênio com a Universidade de São Paulo (USP) implantou um importante laboratório de hidráulica. o Laboratório Hidrotécnico Saturnino de Brito SA (Hidroesb) que teve sua origem no Escritório Saturnino de Brito Filho. Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) do Rio Grande do Sul. também. Furnas (DCT e LAHE). Furnas agrupou em Goiânia os seus laboratórios em um moderno centro de pesquisas (DCT) e passou a atender os projetos e construções das barragens de Furnas. prestando. que trabalhava desde 1938 em investigações geotécnicas para a construção de barragens e obras de terra de um modo geral. complementado pelo Laboratório CESP de Engenharia Civil (LCEC). Os laboratórios de hidráulica experimental foram surgindo para atender à exigência da ampliação do setor elétrico no Sudeste Brasileiro. mecânica dos solos e mecânica das rochas. desenvolveram praticamente todos os estudos em modelo reduzido das usinas da CESP. desenvolveu importantes estudos para as Companhia Paranaense de Energia (COPEL). sendo o responsável pelos estudos em modelo reduzido da Usina de Furnas. estão apresentados os textos específicos dos centros de pesquisas: CEHPAR. No sul do país. implantados a partir da década de 1950. Pela necessidade de se ter um grande desenvolvimento na área tecnológica de concreto massa.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Centros de Pesquisas Tecnológicas Aplicadas a Barragens . 413 . que estavam sendo estudadas pelo Hidroesb.Introdução Erton Carvalho A história das barragens brasileiras contempla os centros de pesquisas que foram. o laboratório. posteriormente denominado Centro de Hidráulica e Hidrologia professor Parigot de Souza. devido à necessidade de se ter um apoio tecnológico para o desenvolvimento dos estudos. dos projetos e das construções de barragens. (CEHPAR). ficou mais dedicado ao desenvolvimento de pesquisas no campo da hidráulica experimental. tornando-se um laboratório de grande importância nacional a partir de 1965. Hidroesb. seu Laboratório de Hidráulica Experimental e Recursos Hídricos (LAHE). IPH.

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Em todo o processo é indiscutível a importância que teve o professor Nelson Pinto. mas o presente texto enfoca basicamente o caminho percorrido pelo laboratório de Hidráulica. diretor do Centro por quase trinta anos. no CEHPAR. estavam sendo estudadas em modelos reduzidos as obras de Salto Osório e São Simão.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens CEHPAR . que posteriormente foi Presidente da COPEL e Governador do Estado do Paraná e seu assistente professor Isaac Milder grande idealista que mais tarde veio a presidir a SERETE e a MILDER KAISER. Desde então. Os estudos das usina hidroelétrica Itaipu e Foz do Areia estavam para se iniciar. Na época. O Centro passou a ser chamado de Centro de Hidráulica e Hidrologia professor Parigot de Souza . 415 . com mostra a Figura 1. o CEPHH iniciou suas atividades dentro do Campus Universitário. responsável pela implantação do trabalho sério. o Centro de Hidráulica conta com uma história de mais de 50 anos. com uma liderança inquestionável. Teve como fundadores o Catedrático da Cadeira de Hidráulica Teórica e Aplicada. em homenagem ao seu fundador que faleceu enquanto Governador do Estado. professor Pedro Viriato Parigot de Souza. com preocupação universitária permanente de seus membros. Cabe a ele o mérito do Laboratório ter conquistado o reconhecimento internacional. realizando trabalhos considerados úteis à sociedade e ainda respeitando os limites do mercado das empresas de engenharia. fruto do convênio Figura 1 – Primeiro modelo em operação no Centro Politécnico da UFPR. Em 1976 o Centro passou a ser administrado pela Companhia Paranaense de Energia – COPEL.50 Anos de muito Trabalho André Luiz Tonso Fabiani e José Junji Ota Introdução Em 14 de março de 1959 o Centro de Estudos e Pesquisas de Hidráulica e Hidrologia CEPHH passou a existir legalmente com a aprovação do seu primeiro estatuto. preciso e eficiente no Laboratório de Hidráulica. em 1961. Antes mesmo da inauguração do Centro Politécnico. As atividades de Hidrologia também começaram logo em seguida e a Divisão de Hidrologia tem uma história de muitas realizações. Outra grande personagem foi o professor Sinildo Neidert.CEHPAR em julho de 1973.

O convênio garantiu também a existência Figura 3 – Testes em modelo reduzido escala 1:8 do aerador da usina hidroelétrica Foz do Areia. eliminando o risco da perda dos seus seletos e treinados profissionais para o mercado externo. na consolidação da metodologia para os estudos de fechamento de grandes rios com a construção de ensecadeiras em água corrente. 416 . por exemplo. Os estudos sobre aeração de fluxos de altas velocidades para evitar cavitação em descarregadores de cheias se desenvolveram nos anos setenta e oitenta. Nos anos setenta o CEHPAR teve um considerável avanço. No Seminário CEHPAR 30 anos.Séculos XIX. deu estabilidade ao emprego dos engenheiros e técnicos do laboratório. como mostrado na Figura 2. De fato. entre a Universidade Federal do Paraná e a empresa de energia. houve quem afirmasse que “o Centro de Hidráulica jamais teve uma fase de baixa” .A História das Barragens no Brasil . O convênio com a COPEL foi bastante favorável ao Centro pois tornou os salários dos funcionários mais competitivos. a Figura 3 apresenta estudos de aeração para Foz do Areia. até aquela data o laboratório vinha mantendo um ritmo acelerado de sucessos. XX e XXI Figura 2 – Fechamento do Rio Uruguai para a construção da usina hidroelétrica Itá.

dos 33 engenheiros que trabalharam na Divisão de Hidráulica. São José. seguindo a própria orientação do Reitor da época. Estados Unidos. professor Carlos Roberto Antunes dos Santos. conhecidos como P&D ANEEL foram essenciais. Com a vinda do modelo reduzido de Paute Mazar. Por uma época. Nesse período o CEHPAR teve a satisfação de ver lançado dois de seus grandes líderes a serviço da Diretoria da COPEL. reuniu 108 pessoas inscritas e se desenvolveu em grande estilo. o aquecimento do mercado trouxe também alguns problemas. que nem teve uma comemoração formal. CHESF. uma obra importante do Equador. foi dos mais difíceis para o Centro. os professores Francisco Gomide e Sinildo Neidert que deixaram as chefias das Divisões de Hidrologia e de Hidráulica. Ironicamente. uma associação civil. Projetos da ELETRONORTE. com palestras de professores estrangeiros (Maurice Bouvard da França e Vujica Yevjevich dos Estados Unidos). período negro que se estenderia até a virada do milênio. em maio de 2000 o CEHPAR passou a ser administrado pelo LACTEC. 14 de Julho) e estrangeiras. pois o Governo Estadual estava prestes a privatizar a própria COPEL e o processo começou pelos laboratórios que hoje compõem o LACTEC – Instituto de Tecnologia para o Desenvolvimento. O curso de pós-graduação em engenharia hidráulica foi criado em 1986 e patrocinado pelo CEHPAR que colocou seus engenheiros à disposição do curso. auto-sustentável e sem fins lucrativos que também nasceu da privatização dos laboratórios da COPEL e da Universidade. O aniversário de 40 anos. de direito privado. tanto para ministrar aulas como para administrar o curso. Nos primeiros anos da privatização o período era de muitas dificuldades para o setor de construção de usinas e o CEHPAR teve que buscar outra forma de garantir o caráter de auto-sustentabilidade. O LACTEC é uma OSCIP . o laboratório investiu na formação dos seus engenheiros. CERJ e CEB foram desenvolvidos com muito empenho e eficiência na Divisão de Hidráulica. incentivando a realizar seus cursos pós-graduação. Aos poucos o CEHPAR começou a ser procurado para realizar estudos hidráulicos de várias obras brasileiras (Itapebi. Mesmo nesse período difícil. respectivamente. 30 tiveram algum tipo de apoio para a sua formação no seu mestrado ou doutorado. O CEHPAR trouxe vários professores. o laboratório poderia ter entrado em colapso. Se não fosse a competência dos que os substituíram. como Foz do Areia e Segredo. França e Holanda para o curso de mestrado.Organização da Sociedade Civil de Interesse Público. O laboratório e a oficina foram também disponibilizados para se desenvolver pesquisas na área de Hidráulica. os projetos de pesquisa e desenvolvimento. A Universidade não pôde assumir o CEHPAR e. da Inglaterra. São João. O Centro sempre apoiou a formação de seus engenheiros . o CEHPAR 417 . realizado nos dias 24 e 25 de novembro de 1989. O Seminário 30 anos do CEHPAR. o laboratório começou a recuperar o seu ânimo. Nesse aspecto. A passagem do CEHPAR da COPEL para o LACTEC foi gerenciada pelo engenheiro Ralph Carvalho Groszewicz que soube conduzir a transição com muita habilidade e paciência. A Universidade teve o seu retorno com o aperfeiçoamento do seu quadro de docentes do Departamento de Hidráulica e Saneamento e dos seus estudantes através de estágios.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens de trabalhos de modelos reduzidos das usinas da COPEL que estavam em acelerado processo de projeto e de construção no rio Iguaçu. Entretanto o Brasil estava em recessão em termos de construção de hidroelétricas desde 1982 (ano do enchimento do reservatório de Itaipu). Castro Alves. Ficaram nas chefias os professores Marcos Tozzi (Hidráulica) e Heinz Fill (Hidrologia) até suas aposentadorias em 1999. COPEL. Havia até quem dissesse que os estudantes deveriam pagar para es tagiar no Centro pois sempre foi um invejável treinamento reservado a poucos selecionados entre os bons alunos do curso de engenharia civil. que provê seus recursos através da venda de projetos de pesquisa e desenvolvimento e outros serviços tecnológicos. Os engenheiros do Laboratório começaram a ser procurados por empresas que ofereciam melhores oportunidades e salários. Brilhou aqui o caráter universitário do CEHPAR que jamais limitou suas atividades aos estudos em modelo reduzido e procurou sempre investir e dar um passo a mais para desenvolver conhecimentos.

que mostra o fechamento do rio na usina hidroelétrica Itapebi. mostrando. o de estudar em modelo hidráulico as condições de assoreamento na tomada de água da Termoelétrica de Figueira. mas com objetivo bem claro. Ituango da Colômbia) até o início dos estudos para a usina hidroelétrica Belo Monte. Gibe III da Etiópia.A.Séculos XIX. Presidente da Central Elétrica de Figueira S.A História das Barragens no Brasil . o primeiro projeto do Laboratório de Hidráulica foi um trabalho singelo. Cambambe da Angola. o Centro utiliza essa técnica para reproduzir o aluvião em modelo reduzido. Hoje o laboratório está bastante ativo. realizou ensaios com fundo móvel utilizando serragem de imbuia peneirada e tratada para Figura 4 – Teste de fechamento na usina hidroelétrica Itapebi. com representação de aluvião realizar estudos sobre erosão ao redor de pilares de pontes. Pedro Viriato Parigot de Souza e Nelson Luiz de Sousa Pinto. – UTELFA que apoiou os primeiros passos do CEHPAR. Esta foi uma iniciativa do engenheiro Leão Schulman. o engenheiro Octavio Marcondes Ferraz (na época da usina e depois presidente da Eletrobras) e um técnico do Laboratório 418 . recém retornado dos EUA. Lista-se a seguir. como pode ser visto na Figura 4. XX e XXI passou a ter mais estudos de obras estrangeiras do que brasileiras (Palomino da República Dominicana. uma série de estudos que relatam os passos da Divisão de Hidráulica do CEHPAR. O Professor Nelson Pinto. com seus funcionários trabalhando com bastante otimismo. Figura 5 – Modelo de Salto Grande do Iguaçu. Primeiros estudos do Laboratório de Hidráulica e estudos sobre erosão ao redor de pilares de pontes Segundo o que consta nos anais do Seminário CEHPAR 30 anos. da esquerda para a direita os professores Sinildo Hermes Neidert. Ainda hoje.

duas para a ensecadeira de montante e duas para a de jusante. o CEHPAR enviou o seu engenheiro Sinildo Neidert para aperfeiçoamento na Alemanha. caracterização do vertedouro e erosão da rocha a jusante do vertedouro com material coesivo. construída na década de sessenta (1963-1970). os estudos de grandes obras do rio Iguaçu. O laboratório fez também estudos sobre vórtice na tomada de água. Nessa época. Hoje o Centro executa com seções transversais de Duratex. de Grenoble. Um dos modelos foi implantado no interior do pavilhão com estrutura em madeira com grande vão. Um pavilhão de 70 m por 50 m em estrutura metálica foi construído especialmente para abrigar o grande modelo. e a estrutura de dissipação de energia na restituição ao rio Cachoeira. a chaminé de equilíbrio com câmara de expansão. o sistema de restituição das águas das turbinas Pelton ao túnel de fuga. Nelson Pinto e Sinildo Neidert. A contratação do Centro para os estudos para a hidroelétrica de São Simão em 1971 foi um marco que levou o CEHPAR para além dos limites do Estado do Paraná. O relevo do modelo foi feito com fitas de aço niveladas segundo as curvas de nível. Como havia uma camada de sedimentos na região. O modelo contribuiu com a definição do esquema de desvio que era sofisticado. constituiu a primeira experiência concreta de participação no desenvolvimento e otimização de um projeto de grande porte. um grupo de engenheiros e bem intencionados técnicos começaram seus trabalhos em 1972 para a maior obra hidroelétrica do mundo. Os estudos da hidroelétrica Capivari-Cachoeira marcaram o início das relações do Centro com o engenheiro Maurice Bouvard. A Figura 5 apresenta uma visita do representante da empresa de Salto Grande do Iguaçu ao modelo.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A usina de Capivari-Cachoeira. Dirigido pelo professor Sinildo Neidert. Para fechamento de rios com considerável profundidade. 419 . onde pode-se ver ainda os professores Parigot de Souza. Estudos hidráulicos para o aproveitamento hidroelétrico de Itaipu Itaipu foi um marco importante para o setor elétrico e foi sem dúvida um ponto alto para o CEHPAR. Os estudos em modelo incluíram a descarga de fundo e o vertedouro. Foram importantes os estudos para Salto Grande do Iguaçu (estudos de vórtices na tomada de água) e de Mourão. O primeiro modelo foi destinado ao estudo do desvio. na seqüência. Foram cinco modelos reduzidos. no início da década de 1960. Os ensaios dinâmicos foram feitos de maneira ininterrupta. O custo dessas instalações foi financiado pela COPEL e pago posteriormente pelos trabalhos realizados pelo CEHPAR. que não só orientou o desenvolvimento geral desse projeto como participou em diversas atividades didáticas promovidas pelo CEHPAR. como Estudos hidráulicos de Salto Osório e São Simão A hidroelétrica de Salto Osório é uma grande obra do rio Iguaçu. Havia também uma preocupação com a ponte que tinha seus pilares fixados dentro do canal. um prédio que merece ser visitado. uma região de corredeira e cachoeira foi feita de forma muito minuciosa numa época em que não se dispunham de técnicas eletrônicas de levantamento e de registro de imagens. Essas construções podem ser vistas na Figura 6. mas ainda foi usado muito cedro nas partes importantes das estruturas. capaz de circular 1000 l/s. com duração de três dias. acumulando conhecimentos para que fossem confiados. a construção das préensecadeiras devia proporcionar uma limpeza automática através da apropriada escolha da seqüência de avanço nas pontas de aterro. Testes de fechamento requeriam um controle dinâmico das pontas de aterro com medições de níveis de água e de velocidades do escoamento. da estrutura das comportas até dos detalhes da construção das ensecadeiras. analisando-se a estabilidade do enrocamento a cada deposição de material. O fechamento do rio foi feito em avanços simultâneos de quatro pré-ensecadeiras. A técnica de construção de modelos de estruturas com acrílico estava sendo consolidada na época. cujos estudos se desenvolveram no começo dos anos setenta. A reprodução do leito. desde a verificação do grande canal. Foi instalado um novo sistema de recalque.

420 . Para o arranjo final do vertedou ro foram feitos testes de erosão com leito coesivo envolvendo enorme volume de material. que o diâmetro do enrocamento necessário para o fechamento com um desnível é da ordem de 30% a 40% desse valor. com defletores em salto de esqui nas extremida des de jusante. Com o intuito de Figura 6 – Construção do pavilhão para o modelo tri-dimensional de Itaipu e a a instalação de recalque. Para escoamentos com pequenas profundidades essa regra não parece ser válida. A tomada de água e a casa de força foram ensaiadas extensivamente. começou a tornar um consenso uma “regra prática”. .A História das Barragens no Brasil . Foram feitos os testes de verificação das tendências à formação de vórtices e condições de aproximação. assunto que foi também explorado no modelo parcial da tomada de água. No modelo geral de Itaipu foram desenvolvidos os estudos do vertedouro de encosta com 14 comportas e calhas bem longas de concreto. a Figura 8 apresenta um dos resultados obtidos nos ensaios. Grandes planilhas bem estruturadas foram utilizadas para gerenciar esses testes de fechamento. A capacidade de descarga do vertedouro foi cuidadosamente verificada no modelo geral e confirmada também no modelo parcial construído em escala maior.Séculos XIX. Vários arranjos foram verificados uma vez que a equipe de projeto se preocu- pava muito com a erosão provocada pela enorme concentração de energia do jato efluente do vertedouro. que pode ser visto na Figura 7. XX e XXI é o caso de Itaipu. ou seja.

Foz do Areia trazia uma novidade que é a barragem de enrocamento com face de concreto (na época. Estudos hidráulicos de Foz do Areia. por exemplo). compensar possíveis efeitos de escala. os cálculos sobre índices incipientes de cavitação indicaram que a configuração da calha do vertedouro de Itaipu é favorável. Figura 8 – Resultado dos testes de erosão a jusante do vertedouro de Itaipu. o laboratório realizou ensaios com distorção da escala das velocidades. o Centro conduziu os ensaios para Foz do Areia e Salto Santiago. 421 . Influenciado pela cavitação ocorrida em grandes obras da época. cogitou-se instalar no vertedouro de Itaipu um sistema de auto-aeração das calhas. Emborcação e Sabaneta – estudo sobre aeração Figura 7 – Modelo tri-dimensional do AHE Itaipu em operação De forma paralela aos estudos para Itaipu. a exemplo do adotado em Foz do Areia. com a reprodução de três vãos. (Karun no Irã. foram feitos testes em um modelo parcial construído na escala 1:50. Entretanto. O Centro teve a oportunidade de contribuir com vários ensaios sobre juntas da laje de concreto da barragem. forçando intensificar no modelo a formação de vórtices aumentando a vazão de teste.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Para o vertedouro. não necessitando a implantação de aeradores. a maior área de laje do mundo).

Xingó foi outra usina que o CEHPAR veio a contribuir decisivamente. Estudos hidráulicos de Segredo e Xingó No estudo do desvio de Segredo os túneis foram reproduzidos por tubos de acrílicos dotados de rugosidades em forma de tiras. Mas a contracurva. Até no dia do fechamento. O laboratório levou o programa adiante e efetuou estudos em modelos parciais de escalas maiores (1:15 a 1:8 – Figura 3) que culminou na publicação do trabalho: Pinto et al. Coincidência ou não. mas estavam prejudicando a sua capacidade de descarga. Os estudos em modelo tornaram possível um dos mais complicados esquemas de fechamento do rio. as cristas tinham como carga de projeto a carga máxima de operação (enchente de 10. Com estudos feitos posteriormente. A pressão sobre a crista que deveria ser nula pelo conceito original.Séculos XIX. o CEHPAR sugeriu uma redução da carga de projeto da crista. que faz a ligação da estrutura da crista com a longa calha inclinada. Até então. orifício. O CEHPAR efetuou uma série de ensaios medindo a vazão de ar no modelo utilizando medidores simples (bocal. venturi) com manômetro dotado de micrômetro. hoje muitas obras brasileiras adotam como padrão a carga de projeto igual a 75% da carga máxima de operação. O laboratório também se despertou no uso de modelo matemático (elementos finitos e elementos de contorno) para estudos dessa natureza. Estudo semelhante. O laboratório também teve uma contribuição importante para a definição do aerador do descarregador de cheias no túnel de Sabaneta (República Dominicana). Em 1991 realizou os primeiros ensaios de vertedouros em degraus para fins de pesquisa utilizando como projeto piloto o vertedouro de Cubatão. O laboratório teve a oportunidade de estudar os aeradores da calha do vertedouro de Foz do Areia e de medir a vazão correspondente de ar no protótipo. Esse estudo foi realizado a título de mestrado por um aluno que veio a desistir do curso. quando desejável. O estudo sobre vertedouro em degraus culminou em mais uma tese de doutorado. a sobrescavação do túnel e a rugosidade. o CEHPAR estava realizando testes para instruir o passo seguinte na obra. mais um engenheiro do CEHPAR defendeu sua tese de mestrado. pela Universidade de São Paulo. o perfil seria desenhado mais delgado de forma que a pressão final fosse razoável e garantisse uma boa capacidade de descarga. O laboratório desenvolveu uma técnica própria para dimensionar a espessura dessas tiras e passou a considerar. pitot. provocava um aumento excessivo das pressões que atingia a linha da crista. Estudos sobre vertedouros em degraus Já em 1985 o CEHPAR defrontou com o estudo de barragens de concreto compactadas com rolo (CCR). Em conjunto com a COPEL. de forma a produzir um escoamento mais próximo do esperado para o protótipo. concluiu-se que as pressões registradas na crista estavam totalmente a favor da segurança. A crista do vertedouro foi redimensionada com uma carga de projeto 25% menor que a carga máxima de operação. feito para o vertedouro de Emborcação foi também confirmado no protótipo. O mesmo pesquisador veio a atuar na pesquisa e desenvolvimento ANEEL para a Eletronorte. recorrência).A História das Barragens no Brasil . estava majorada pela presença da contracurva. A cavitação e aeração tornaram-se assuntos muito enfocados na época. Estudou-se também uma descarga de fundo instalada em um dos túneis de desvio. isto é. Este estudo permitiu a caracterização do escoamento conhecido como skimming flow. Analisando-se a crista do vertedouro que seguia aproximadamente o padrão US Army Corps of Engineers.000 anos de 422 . engenheiro Marcos Tozzi. Assim. (1982) na revista Water Power & Dam Construction (Aeration at High Velocity Flow). XX e XXI Os desastres devido à cavitação ocorridos na calha do vertedouro de Karun do Irã e nos túneis americanos de Palisades e Yellowtail preocuparam o meio técnico e já se sabia que a solução é a aeração do escoamento. o CEHPAR iniciou seus primeiros testes de aeração no modelo reduzido (escala 1:30) do descarregador de fundo de Foz do Areia. do engenheiro Júlio César Olinger que se preocupou em estudar as pressões nos degraus. Mas logo concluiu que os efeitos de escala são consideráveis e que não há correspondência entre modelo e protótipo em termos de demanda de ar em testes realizados em modelos construídos nas escalas usuais. conforme havia mostrado os russos no vertedouro de Nurek e Bratsk. mas foi retomado como um estudo mais aprofundado para a tese de doutorado do então chefe da Divisão de Hidráulica. estudando a possibilidade de se operar os vertedouros com degraus de grandes dimensões para fins de economia.

o CEHPAR chegou a construir um modelo reduzido de Itá na escala 1:300 para verificar a viabilidade de estudo em modelo em escala mais reduzida visando a economia no estudo. que a erosão a jusante do vertedouro. de comportas. como de praxe. O outro projeto que foi um desafio interessante foi o da definição do esforço no servomecanismo de acionamento da comporta da tomada de água de Tucuruí (Figura 9). que não se limitasse ao resgate manual dos peixes aprisinados. O laboratório reativou o modelo e prestou uma contribuição importante à usina. Machadinho e Barra Grande O CEHPAR teve a oportunidade de trabalhar com as obras catarinenses dos rios Canoas. Estudos hidrodinâmicos de movimentação de comportas O CEHPAR. Estudos das hidroelétricas de Itá. Campos Novos. que veio trabalhando essencialmente com engenheiros civis. tendo em vista o cuidado com que as estruturas foram executadas. que não apresenta semelhança física e não pode ser transposto ao protótipo. após o fechamento das comportas do vertedouro. Começou nos anos noventa e só foi demolido em 2010. no entanto. e a tão esperada redução do custo não ocorreu a contento.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Estudos hidráulicos para a hidroelétrica de Salto Caxias O modelo de Caxias foi o que permaneceu mais tempo no CEHPAR. A título de pesquisa de mestrado. Caxias representou o último grande estudo da fase do convênio entre a Universidade e a COPEL que terminou em maio de 2000. Nos modelos de Itá e Machadinho foram realizados ensaios de erosão em rocha utilizandose materiais coesivos. teve a preocupação de contratar um engenheiro eletrônico para dar assistência à instrumentação. O CEHPAR estudou o downpull e catapultamento da comporta da tomada de água de Segredo. do vertedouro. O material erodido e depositado a jusante (barra) tornou-se também um obstáculo para a saída dos peixes. Neste projeto o grande problema foi o atrito do modelo da comporta. tornou-se um problema para a usina devido ao aprisionamento de peixes nas fossas de erosão e em locas. Mas o talento dos engenheiros fez surgir uma nova oportunidade 423 . A COPEL procurou uma medida definitiva. A conclusão foi que modelos muito pequenos não conduzem a bons resultados. com o engº Edie Taniguchi em primeiro plano Pesquisa e desenvolvimento: projetos ANEEL e modelos matemáticos A Divisão de Hidráulica passou por uma fase difícil no período em que no Brasil o ritmo de construção de usinas teve acentuada queda. Realizaram-se testes de abertura e de fechamento da comporta para extrair o atrito do modelo. Pelotas e Uruguai. Foram estudados os problemas de desvio. realizando ensaios para várias alternativas de canais para a liberação dos peixes. em geral por efeito de escala mais pronunciados. da tomada de água e do canal de fuga. Esse engenheiro foi fundamental no desenvolvimento de ensaios hidrodinâmicos de movimentação Figura 9 – Estudo da Comporta de Fechamento daTomada de Água de Tucuruí – 2a fase. Os ensaios mostraram que água acumulada nas vigas constituía um peso adicional exigindo que aumentasse a capacidade do servomecanismo. Depois recebeu o desafio de estudar a comporta do aqueduto da eclusa de Porto Primavera. Destaca-se. perfeitamente aceitável sob o ponto de vista da engenharia.

Trata-se de uma barragem de concreto em arco. Com a CHESF o Centro executou um interessante trabalho sobre a capacidade natatória de peixes. O Coordenador do CEHPAR no período de 1999 a 2008 tomou uma iniciativa bastante positiva à Divisão de Hidráulica com a aquisição do modelo computacional DELFT 3D. mas em vista de que já havia experimentado um desastre com rompimento de uma barragem natural formada pelos restos de um desmoronamento de encostas. As duas estruturas são objetos de estudo no CEHPAR. Foi feita uma pesquisa para a COPEL um estudo sobre sedimentação na baia de Antonina utilizando o DELFT 3D. Para a LIGHT o laboratório fez estudos sobre escadas de peixes. ELETRONORTE. A passagem dessa vazão tornou-se requisito para o vertedouro. vertedouro não convencional em curva e vertedouro de ogiva baixa. CHESF. o projetista foi forçado a sugerir uma configuração não convencional semelhante a um vertedouro lateral. Sendo o vertedouro construído em um reduzido espaço devido aos íngremes taludes das encostas. Cambambe é uma obra da Angola que estava inacabada por anos. do U. Pela primeira vez o CEHPAR realizou um ensaio de purga de sedimentos conhecida como flushing. Modelos de Paute Mazar. LIGHT. Para o rio Paute havia sido calculada uma vazão decamilenar de 2. sendo necessária a operação sem comportas. utilizando o HEC-RAS e o DELFT-3D. sobre dissipadores de energia em fenda e pilares defletores e sobre vertedouros labirinto que haviam sido submetidos anteriormente. Assim. Figura 10 – Modelo de Gibe III em operação uma dessas obras estudadas pelo CEHPAR. uma pesquisa aplicada ao rio São Francisco. A CERJ e a CEB foram as empresas que estudaram metodologias para repotenciação de usinas antigas. Para a Duke está sendo desenvolvido um equipamento para geração de energia elétrica. XX e XXI para Centro. S. Principalmente a ELETRONORTE propiciou três estudos. em cujo topo pretende-se instalar um vertedouro orifício. Ao estudar o habitat de peixes no projeto de P&D ANEEL da Chesf o CEHPAR deparou com o modelo RIVER 2D. Cambambe.340 m3/s. Um dos engenheiros começou os estudos em modelos matemáticos com o uso do modelo RMA. Foram os projetos de pesquisa e desenvolvimento da ANEEL. O Centro fez também um estudo do escoamento no rio Iguaçu para a usina de Baixo Iguaçu da COPEL. na escala 1:60 mostrou que essa configuração não é propícia e contribuiu na seleção de uma nova forma aceitável sob o ponto de vista técnico e econômico. foi concluído que o rio tem um potencial de gerar uma vazão de 7. De certa forma essa é também uma contribuição importante do CEHPAR ao setor elétrico. Atualmente o Centro faz um estudo sobre geração de energia alternativa.A História das Barragens no Brasil . O modelo de Palomino (República Dominicana) trouxe um novo desafio. de vertedouro em degraus. em modelo reduzido construído na escala 1:70. O modelo CFX deu origem a uma tese de mestrado de um bolsista LACTEC. Palomino. um software livre bastante útil em projetos. Está programado também implantar um vertedouro de encosta.500 m3/s.Séculos XIX. CERJ. Ituango e Gibe III A demanda de energia em vários países fez com que as empresas brasileiras encontrassem um excelente mercado. O modelo reduzido. Com a COPEL o Centro desenvolveu um estudo sobre o uso de perfilador acústico ADCP como medidor de transporte de sedimentos e outro estudo sobre assoreamento de reservatório (parte de um projeto maior do CEHPAR). CEB e DUKE firmaram parcerias que deram oportunidades de pesquisa ao Centro. Desde então muitos engenheiros passaram a usar esse modelo. Army Corps of Engineers em uma aplicação à sua tese de mestrado e ao projeto de P&D ANEEL com a COPEL. Depois a COPEL liberou mais dois projetos. a COPEL. Paute Mazar no Equador foi 424 .

Os estudos se- Figura 11 – construção do modelo reduzido do sítio Pimental do AHE Belo Monte 425 . levando em conta a inclusão iminente da unidade III. são responsáveis pela precisão dos resultados. visto que a de Itaipu está localizada na fronteira entre o Brasil e o Paraguai. Sua potência instalada será de 11. Atrás do reconhecimento internacional do Centro de Hidráulica está o apoio imprescindível dos artífices que contribuem a cada dia com excelentes idéias dentro de suas especialidades. A seleção de bons estagiários é uma contribuição importante para o setor elétrico. a ser construída no Rio Xingu. Segundo palavras do seu fundador. a humildade e o compromisso com a verdade têm ajudado em muito o CEHPAR. incluindo a sua capacidade de descarga. Modelo reduzido da hidroelétrica de Belo Monte O CEHPAR está iniciando os estudos para a terceira maior hidroelétrica do mundo. A Figura 11 apresenta o trabalho de construção do modelo principal (sítio Pimental) no pavilhão antes ocupado por 13 outros estudos. pressões e erosão provocada pelo jato efluente e a operação da usina. simulando paradas instantâneas das usinas e levando em conta as condições de maré na região de descarga da água. mas a privatização do laboratório tornou o grupo mais forte e fez descobrir que seus integrantes têm potencial para ampliar seus campos de atuação. o “CEHPAR faz trabalhos úteis à sociedade. O termo “pesquisa aplicada útil” sempre foi o foco do CEHPAR. e a medida dessa utilidade é a vontade da sociedade pagar por estes trabalhos”. normalmente considerados modestos em outras áreas de atuação. Os trabalhos dos serventes. no Estado do Pará. professor Parigot. Construiu-se no laboratório um modelo com 4. rão feitos em 5 modelos reduzidos e levará um tempo total de 3 anos. Modelo reduzido do sistema de refrigeração da usina nuclear de Angra dos Reis A ELETRONUCLEAR procurou o Centro de Hidráulica para realizar os estudos em modelo reduzido do sistema de refrigeração da usina nuclear de Angra dos Reis.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens O projeto Gibe III é uma contratação feita diretamente por uma empresa italiana que faz serviços para a obra a ser construída na Etiópia. o que fará dela a maior capacidade instalada em hidroelétrica inteiramente brasileira. pedreiros e artífices. A seriedade. Está em estudo o desempenho do vertedouro. Observações finais O laboratório de hidráulica do CEHPAR faz questão de lembrar que os sucessos dos estudos em modelos reduzidos não se devem apenas aos engenheiros.5 m de altura. O laboratório fez questão de oferecer uma solução para realizar testes dinâmicos do sistema de refrigeração.233 MW. pois uma boa maioria dos estagiários do CEHPAR escolhe o setor elétrico para desenvolver seus talentos. O ponto forte do laboratório são ainda os estudos hidráulicos em modelos reduzidos.

Corumbá Marimbondo Serra Mesa Itumbiara .

os aproveitamentos de Porto Colômbia e de Marimbondo. A documentação foi enviada para o engenheiro Humberto Pate coordenador do grupo de estudo dos novos projetos de Furnas. Até então Furnas mantinha nas suas barragens que na época estavam em estágios avançados de construção (Estreito. Os equipamentos foram instalados no acampamento de Marimbondo em 1968. Em Marimbondo outro jovem engenheiro.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Centro de Tecnologia de Furnas em Goiânia . Os ensaios especiais eram contratados junto a laboratórios de empresas ou a institutos de pesquisa. recebeu uma solicitação vinda da obra da hidroelétrica de Estreito. a solicitação percolou sem despertar interesse no sentido do seu atendimento tendo por destino o seu arquivamento. O engenheiro Flavio H. com pouca perda de carga. com maior disponibilidade de execução de ensaios. Pate entregou a documentação a um engenheiro recém formado que acabara de integrar o grupo dos novos projetos. para aquisição de equipamentos para ensaios triaxiais em amostras de solo. Agenor Bailão Galletti ficou encarregado do laboratório de solos. Funil e Nhangapi) laboratórios de campo apenas para os controles de liberação de obra. Flavio Miguez de Mello 427 . Com instruções de apenas tomar ciência antes do arquivamento. Esses foram os primeiros equipamentos de laboratório de Furnas além dos equipamentos de ensaios correntes em obras. O pedido de aquisição dos equipamentos e o trabalho sobre ensaios triaxiais percolou em sentido contrário ao anterior mas dessa vez atingindo a Diretoria Técnica.Resumo histórico e atividades de pesquisa Resumo histórico O início dos ensaios especiais O ano de 1968 estava iniciando quando o Departamento de Obras de Furnas. Lyra concedeu a permissão para a aquisição. obter informações necessárias e abundantes para o desenvolvimento dos projetos das hidroelétricas de Marimbondo e de Porto Colômbia cujos estudos preliminares indicavam grandes maciços de terra com extensas fundações em solo. chefiado por Geofredo de Moraes. depois denominada Luiz Carlos Barreto. A referida solicitação foi enviada ao Departamento de Engenharia chefiado por Franklin Fernandes Filho que passou a documentação para a Divisão de Engenharia Civil sob o comando do engenheiro Adolfo Szpilman. Ao longo desse percurso. além de prever a aplicação em eventuais projetos futuros. Esse engenheiro preparou um trabalho com considerações teóricas sobre os diversos tipos de ensaios triaxiais e desenvolveu um estudo do aproveitamento da instalação desses aparelhos em laboratório próprio para.

Com a aposentadoria dos engenheiros Pacelli e Caproni em dezembro de 2002.Séculos XIX. A construção inicial foi concluída em 1985 já abrigando também o laboratório de mecânica de rochas. Na fase de Itumbiara houve expansão da capacidade dos laboratórios. Inicialmente o centro foi comandado pelo engenheiro Ludgero Pimenta de Ávila. Figura 1 – Engenheiro Walton Pacelli de Andrade. Quanto ao engenheiro recém formado mencionado acima. ele ficou sempre ligado profissionalmente à engenharia de barragens embora. Figura 2 – Ambiente de trabalho no DCT As instalações definitivas Com o término da obra de Itumbiara foi pensada a criação de um centro tecnológico. Lyra recomendou a Rubens Vianna de Andrade. tendo sido decidida pela instalação em área anexa à subestação de Furnas. Nessa época estava começando a obra da hidroelétrica de Serra da Mesa e em seguida Corumbá. entre outros. tendo sido presidente do Instituto Brasileiro do Concreto IBRACON. superintendente das obras do rio Grande. XX e XXI Os laboratórios nos seus primeiros anos Em 1969 Furnas acelerava as obras e montagens da hidroelétrica de Funil para que pelo menos uma das três unidades entrasse em operação antes do fim do ano para que os custos de construção já incidissem na tarifa do ano seguinte. A partir de dezembro de 1992 o centro foi chefiado já em nível de departamento (Departamento de Apoio e Controle Técnico – DCT) pelo engenheiro Walton Pacelli de Andrade que acumulava a chefia do laboratório de concreto.A História das Barragens no Brasil . Em 1975 os laboratórios de solos e de concreto foram transferidos para Itumbiara onde Furnas passou a implantar sua maior hidroelétrica. não tenha trabalhado com o DCT e aqui relata o início dessa história de sucesso. expoente na construção de barragens. destaque na tecnologia do concreto e Epaminondas Mello do Amaral Filho. cargo que exerce presentemente (agosto de 2011). que incorporasse o engenheiro Walton Pacelli de Andrade para atuar na tecnologia do concreto nas novas obras que se iniciavam. A usina entrou em operação comercial nos últimos dias de dezembro de 1969. Com a obra tendo sido concluída em 1970. Flavio H. Belo Horizonte e Goiânia. Três locais foram considerados: Brasília. É importante realçar as contribuições dos consultores Roy Carlson e Paulo Monteiro para o DCT e os laboratórios que o antecederam. em Goiânia. por capricho do destino. A destacada atuação do engenheiro Pacelli no DCT projetou-o como consultor no País e no exterior. De 1970 a 1975 Pacelli melhorou a capacitação do laboratório de concreto com a instalação de prensas de grande capacidade e estudos de propriedades térmicas. assumiu a chefia do DCT o engenheiro Rubens Machado Bitencourt. O DCT passou a dar crescentes e importantes contribuições técnicas para os projetos e obras. presidente do CBDB e do IBRACON 428 . tendo como assistente o engenheiro Nelson Caproni que acumulava a chefia dos laboratórios de solos e rocha.

foi implantado e inaugurado o laboratório de concreto compactado com rolo. No início dos anos noventa os processos foram mais bem estruturados dentro de padrões internacionais de gestão da qualidade. Alguns exemplos destes avanços são descritos a seguir. os laboratórios também participaram de estudos e desenvolvimentos da tecnologia para as usinas hidroelétricas Itaipu e Tucuruí. PUC-RJ. esta tecnologia foi intensificada com a aplicação da metodologia do concreto compactado com rolo na construção das ensecadeiras galgáveis da barragem de Serra da Mesa. tendo como intuito o incremento do 429 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Atividades de pesquisa do DCT Furnas constituíu o DCT. um laboratório singular. incluindo-se acreditações junto ao INMETRO. UFG. o DCT implantou e inaugu rou o seu laboratório de mecânica das rochas. de cisalhamento e de compressão unidirecional em rochas. capaz de executar pistas experimentais de concreto compactado com rolo em laboratório. em operação. direcionadas aos novos empreendimentos com foco nas aplicações de engenharia civil e correlatas. Europa e África. como por exemplo: O único equipamento do mundo. além da central nuclear de Angra dos Reis que já se encontrava em curso e que demandava padrões de garantia de qualidade estabelecidos pela Agência Internacional de Energia Atômica. Em meados dos anos noventa. O mais bem equipado laboratório do Brasil na área de mecânica das rochas e enrocamento. A partir dos anos 90 consolidou-se com a participação em mais de 200 empreendimentos hidrelétricos no seu acervo de serviços prestados em países da América. Em paralelo. diversos ensaios na área de geotecnia iniciaram o processo de informatização e automação. Extraido de texto redigido pela equipe do DCT No limiar da década de 70. O DCT é hoje reconhecido nacionalmente como uma das mais importantes instituições tecnológicas em sua área de atuação. como a COPPE/UFRJ. Realização de pesquisas e desenvolvimentos em parceria com as principais universidades e centros de tecnologia do Brasil. UFSC. UnB. possibilitando a obtenção da acreditação junto ao Inmetro em 1994 e a sua certificação ISO 9000 no ano de 1996. USP. Ao final da década de 80. UFRGS. que possibilita um conjunto de análises aplicadas que vão desde a análise em nível microscópico por análise eletrônica de varredura até a análise de resistência por meio de ensaios triaxiais. Ao longo de sua história. A área de instrumentação e segurança de barragens com a certificação ISO 9001 Sistema de gestão implantado com reconhecimentos obtidos desde o ano de 1994. Posteriormente. desenvolvimento e inovação. único do mundo em funcionamento. Diversos estudos para a construção de barragens de enrocamento com face de concreto foram desenvolvidos com o apoio desse laboratório. implicando em relevantes benefícios de segurança no empreendimento. certificação segundo as normas da série ISO 9000 e premiações pelo Prêmio Nacional da Gestão Pública do Governo Federal. no final da década de 90. Possui alguns diferenciais. unidade criada para atuar no desenvolvimento de serviços tecnológicos e atividades de pesquisa. dentre outras. o DCT sempre procurou identificar e acompanhar os avanços necessários à superação dos desafios que a evolução do setor de energia impunha. também em meados dos anos noventa.

aditivos. além de avaliar a qualidade especificada dos materiais utilizados nas obras civis. Do ponto de vista tecnológico. No final dos anos noventa e no início da década seguinte. A junção destes três pilares. prazo e qualidade global das estruturas. por toda sua vida útil.991 e outras que se seguiram. o desenvolvimento de pesquisas na área de durabilidade de estruturas. conduz estudos e pesquisas de materiais para subsídios ao projeto. A atuação da equipe do controle tecnológico durante a construção. permite a obtenção de um empreendimento “saudável”. prevenção e correção de reações álcalis-agregado e também na área de sulfetos. Análises microscópicas e mineralógicas.A História das Barragens no Brasil . Estes estudos possibilitam os seguintes diferenciais competitivos: 430 . custos e confiabilidade dos resultados e análises realizados. para as obras civis. pela dinâmica que é a escolha e emprego dos materiais. A proficiência e a competência nesta nova linha de trabalho foi reconhecida em 2004. Análises que chegam próximo ao nível nano possibilitaram o desenvolvimento de competências únicas no Brasil nesta área. buscando o domínio e aplicação de técnicas em tecnologia dos materiais em nano e microtecnologia. O adequado emprego dos materiais disponíveis nos locais onde os grandes empreendimentos deverão ser construídos leva à otimização de estruturas. fica sob a responsabilidade da equipe do controle tecnológico. com destaque para técnicas de diagnóstico. à redução de impactos ambi entais e a estruturas mais seguras e mais duráveis. quando obteve a extensão do escopo certificado segundo a ISO 9000 para essa atividade. Três pilares sustentam bons empreendimentos no que tange à sua qualidade: um bom projeto. XX e XXI desempenho em prazos. O aprimoramento de tecnologias existentes e o desenvolvimento de outras novas tecnologias se seguiram desde então. o DCT desenvolve um conjunto de estudos e pesquisas avançadas. O DCT possui equipe qualificada e infraestrutura adequada para o desenvolvimento deste processo. areias. a utilização de métodos e técnicas construtivos adequados e a qualidade e uso dos materiais empregados. possibilitou o exercício do papel de controle e apoio tecnológico à execução dessa solução de engenharia. que em casos de barragens estima-se da ordem de 100 anos. adequadamente gerenciados. Dando continuidade a conhecimentos técnicos pré–existentes na análise da microestrutura dos materiais. na segunda metade dos anos noventa. Uma intensa atividade de pesquisa e desenvolvimento foi desenvolvida aproveitando os estímulos trazidos pela lei 9. outra área que ganhou impulso foi a de instrumentação e auscultação de barragens e estruturas anexas. sinalizando no momento atual desenvolvimentos ainda maiores. Visando aprimorar o conhecimento dos materiais e dos métodos construtivos a serem implementados nos diversos empreendi mentos da empresa.Séculos XIX. O desenvolvimento de um projeto de P&D desta tecnologia. que desempenhará suas funções com o mínimo de intervenções externas pela equipe de ma nutenção. à construção e à otimização do custo final do empreendimento. os projetos de P&D desenvolvidos possibilitaram o exercício de um importante papel na construção da usina hidroelétrica Foz do Chapecó. água e asfalto. O primeiro está basicamente sob a responsabilidade da projetista e o segundo basicamente sob a responsabilidade da construtora. juntamente com o setor de análises de materiais. O co nhecimento das características técnicas dos materiais do local do empreendimento permite subsidiar análises de custo. incluindo reatividade potencial. Análises químicas para caracterização dos materiais de construção. o DCT intensificou. anterior ao empreendimento. O terceiro pilar. cimento. à redução de custos. Dentro desta área de competência encontram-se estruturadas as seguintes linhas de trabalho: Ensaios físicos de caracterização de rochas. empreendimento que utilizou a solução do núcleo asfáltico pela primeira vez no País. ampliando a busca de agregação de valor por este centro de tecnologia.

é o capital humano. dos empreendimentos em construção e à sociedade.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Dentro desta área de competência encontra-se estruturadas as seguintes sub-áreas: Ensaios Especiais. Assessoria em tecnologias de gestão. Confiabilidade metrológica e calibração de instrumentos de medição. são os seguintes: Estudos e pesquisas avançadas como subsídios às otimizações de projeto e de custos dos empreendimentos. Baseado na premissa de que nos tempos atuais. por intermédio da qual se busca a garantia e a precisão de todos os processos de medição técnica voltados aos empreendimentos. em consonância com as equipes técnicas em todas as áreas de atuação do DCT é implementado e desenvolvido um conjunto de atividades que visam à identificação de necessidades e demandas de co nhecimento e capacitação. Capacitação e treinamento voltados aos empreendimentos e às atividades de tecnologia. o seu conhecimento e a sua cultura. no âmbito desta área de competência. Tecnologia do Ambiente Construído. Estudos e pesquisas do ambiente construído voltado às instalações de FURNAS. Vista aérea do DCT 431 . Essa área de competência tem os seguintes produtos principais: Padrões de trabalho adequados e atualizados. Desenvolvimento de Novas Soluções de Engenharia. Uma das áreas de competência decorrente desta atividade é a de confiabilidade metrológica. Os principais produtos entregues. em especial na área de serviços. como elementos agregadores de valor aos serviços prestados. a base para o sucesso de qualquer organização.

Ensaio em modelo reduzido e o protótipo em operação .Sangradouro do açude de Orós.

decidiu criar. até hoje. Inglaterra e Estados Unidos. 1929) considerado o “Patrono da Engenharia Sanitária Brasileira”.CINQUENTA ANOS DO COMITÊ BRASILEIRO DE BARRAGENS O Laboratório de Hidráulica HIDROESB – Saturnino de Brito SA Luiz Felipe Pierre O HIDROESB – Saturnino de Brito SA . na zona sul da cidade do Rio de Janeiro. Na década de 50 a empresa foi pioneira na realização das primeiras medições de descarga sólida em rios brasileiros e foi responsável por projetos de destaque como a tomada d’água do rio Guandu. com o aumento no volume de serviços. Sua origem remonta ao Escritório Saturnino de Brito fundado por Francisco Rodrigues Saturnino de Brito (Campos dos Goytacazes. pelo projeto de saneamento básico de várias cidades brasileiras. 1977). já então sob a supervisão direta de Theophilo Benedicto Ottoni Neto (Porangaba. o laboratório de hidráulica. Desenvolveu ao longo da vida intensa atividade em associações de engenheiros tendo sido fundador da FEBRAE (Federação Brasileira de Associações de Engenheiros) e da UPADI (Associação Panamericana de Associações de Engenheiros). o primeiro laboratório de hidráulica do país. no centro da cidade do Rio de Janeiro. Presidiu o Clube de Engenharia do Rio de Janeiro e foi membro de várias outras associações como ASCE (American Society of Civil Engineers) e AWWA (American Water Works Association). 1921 . Ceará. Seu fundador desenvolveu técnicas de projetos de saneamento que vieram a ser adotadas em países como França. com o apoio de seu assistente Theophilo Benedicto Ottoni Neto. no Rio de Janeiro. no estado da Bahia. responsável. Há indicações de que o Escritório Saturnino de Brito foi a primeira empresa constituída no Brasil com a finalidade específica de atuação na engenharia consultiva tendo sido responsável. no sub-solo do prédio ocupado pelo Escritório Saturnino de Brito. então recém formado. Após a morte de seu fundador. 1899 – Rio de Janeiro. Formado em 1º lugar na turma de 1923 da Escola de Minas de Ouro Preto foi professor catedrático da cadeira de Higiene e Saneamento da Escola Politécnica da Universidade do Brasil e teve onze livros publicados. se transferiu para uma grande área no bairro do Andaraí. onde havia espaço suficiente para expandir suas atividades. Saturnino de Brito Filho. A partir do final da década de 40 a empresa desenvolveu diversos estudos hidrológicos e hidráulicos aplicando técnicas inovadoras no Brasil para a época como foi o caso da utilização do método do hidrograma unitário nos estudos hidrológicos do rio Joanes. 2009).foi a mais importante instituição privada de hidráulica experimental no Brasil.Rio de Janeiro. embrião do que viria a se transformar no Hidroesb. ainda ligado ao Escritório Saturnino de Brito. Em 1946. o Escritório passou a ser dirigido por Francisco Saturnino de Brito Filho (Campos dos Goytacazes. desde o final do século XIX. 433 . pela captação de parcela significativa da água potável consumida na cidade do Rio de Janeiro e pelo projeto do sistema hidráulico de renovação das águas da lagoa Rodrigo de Freitas. Em 1959. 1864 – Pelotas.

no Ceará. no rio Parnaíba e Balbina. modelos para estudos especiais como as eclusas do AHE Tucuruí e do AHE Boa Esperança Figura 1 . CBDB . Seu maior destaque. no rio Piracicaba. para a CSN. No ano de 1962 desenvolveu os estudos hidráulicos em modelo reduzido e os projetos hidráulico e estrutural para reconstrução do sangradouro do açude de Orós.Juarez Távora. Jaguara. se deu no campo da hidráulica experimental. Grandes Vertedouros Brasileiros pág.123 a 128). hidrometria e sedimentometria bem como a estudos e projetos hidráulicos. Nas décadas de 60 e 70 desenvolveu estudos hidráulicos em modelo reduzido de vários dos mais importantes aproveitamentos hidroelé tricos projetados na época dentre os quais Estreito. páginas 68 a 70.A História das Barragens no Brasil . que havia sido destruído por uma cheia ocorrida em 1960 (ver ICOLD – “Lessons from Dam Incidents” – 1974.Main Brazilian Dams II pág. em Volta Redonda e para a usina termoelétrica de Santa Cruz. XX e XXI Em 1965 foi criado o Laboratório Hidrotécnico Saturnino de Brito SA . Na década de 60 o Hidroesb realizou projetos e estudos hidráulicos em modelo reduzido de tomadas d’água para fins industriais para as instalações da USIMINAS. todos no rio Grande. ministro de viação e obra públicas.293 a 300. Boa Esperança. Mascarenhas.Séculos XIX. Porto Colômbia e Ma rimbondo. também. Ottoni Netto sobre o modelo reduzido do vertedouro de Orós 434 . empresa independente do Escritório Saturnino de Brito. em Ipatinga. no rastro dos grandes projetos que o País desenvolveu na época. no rio Doce. O Hidroesb construiu. porém. no rio Jaguaribe. Volta Grande.Hidroesb. no Rio de Janeiro. no rio Paraíba do Sul. A nova empresa se dedicou a estudos de campo nas áreas de topografia. no canal de São Francisco. ouvindo a explicação do professor Theophilo B. no rio Uatumã.

atuou profissionalmente na área da Educação Superior e na prestação de ser viços de Engenharia Consultiva. Engenharia Costeira. Seu principal executivo. do Conselho Diretor da Fundação de Ensino Especializado de Saúde Pública e coordenador da Sub-Comissão da Associação Brasileira de Normas Técnicas para Projeto de Construção de Órgãos Auxiliares de Barragens. Hidrotécnica. Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz e SUDENE. Planejamento Integrado dos Recursos Hídricos. como Escola Técnica do Exército (Ministério da Guerra). 435 . do Conselho de Pesquisas e Ensino para Graduação da UFRJ.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 2 . envolvendo Hidráulica. Recursos Hídricos. Empreendimentos Hidráulicos. Saneamento Ambiental. Saneamento. Abastecimento d’Água de Cidades e Impactos Ambientais. Controle de Enchentes e de Secas. Pelo pioneirismo de sua atuação o Hidroesb deu importante contribuição ao desenvolvimento da engenharia hidráulica no país. professor Theophilo Ottoni. UFF. Hidrologia Geral. UnB e em instituições oficiais. O Hidroesb e o professor Theophilo Benedicto Ottoni Netto. PUC. Como docente. Perenização e Regularização Fluvial. em universidades como UFRJ. vice-presidente da Associação de Antigos Alunos da Politécnica. Foi professor titular e emérito da UFRJ. membro do Conselho de Curadores da UFRJ. Fluviometria. com a sua experiência prática de engenharia e acadêmica de professor pesquisador. Aproveitamentos Hidroelétricos. desempenharam importante papel na evolução da engenharia hidráulica e na formação de novos profissionais na área. chefe do Departamento de Hidráulica e Saneamento do Curso de Engenharia Civil da UFRJ. Em 1978 a empresa teve sua razão social alterada para Hidroesb – Saturnino de Brito SA. em temas de Hidráulica. Ecologia Aplicada e Engenharia Sanitária.Professor Theophilo Benedicto Ottoni Netto tendo à sua esquerda os engenheiros Lúcio Washington e Olívio Kalckman e a tomada d’água do AHE Fur nas visando avaliar a possibilidade de redução da cota do seu nível mínimo operativo. Hidrologia. ministrou aulas em cursos de graduação e pósgraduação.

436 .

A sua criação tomou corpo em 1953. Em 1962. planejado pelo engenheiro Pierre Engeldinger do Laboratoire National d’Hydráulique de Chatou . Luiz Augusto Magalhães Endres e André Luiz Lopes Silveira setores das obras marítimas. navegação. hidroelétricas e assemelhados na região sul do Brasil e da América Latina. assim como de um laboratório de hidráulica para ensino. estudos e treinamento que atuasse nos 437 . entre outros. de que havia necessidade do domínio da técnica dos modelos reduzidos. termina do em 1955 e inaugurado oficialmente em 1957 pelo Presidente Juscelino Kubitschek. de pesquisa. irrigação. realizando atividades de ensino. Desta forma. que começou em 1956 para o DEPRC (Figura 2) com a ajuda de pesquisadores franceses. Barragem Bom Retiro do Sul (Figura 5). Barragem do Arroio Duro para o DNOS (Figura 4). todos os prédios do projeto original (Figura 1) estavam concluídos e operando. Em seguida outros estudos foram realizados em modelo reduzido. pois a universidade aprovou. em função de um oficio do professor Adolfo Laranjeira Mariante solicitando a criação de um centro destinado às questões hidráulicas. a localização da nova Cidade Universitária junto à área destinada à implantação do IPH. que designou uma comissão para criação deste novo instituto em 7 de agosto de 1953. seus anseios tiveram eco no reitorado do Professor Elyseu Paglioli. tais como: Travessia do Delta do Jacuí para o DAER (Figura 3).IPH Marcelo Giulian Marques. Vários docentes de então atuavam simultaneamente na referida secretaria e na universidade. O primeiro prédio do IPH foi o Pavilhão Marítimo. entre outros). de extensão e de prestação de serviços em hidráulica. incluindo o Laboratório de Ensino. Figura 1 – Vista geral do Instituto de Pesquisa Hidráulicas da UFRGS (1962) Um breve histórico O Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) é o instituto das águas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). O primeiro trabalho realizado foi sobre o estudo da desembocadura do Rio Tramandaí. também em 1953. abastecimento de água. A conjuntura histórica da época ajudou nesse objetivo. fluviais. na então Universidade do Rio Grande do Sul. recursos hídricos e meio-ambiente atuando ativamente em diferentes setores (elétrico brasileiro. em função de uma idéia circulante na Escola de Engenharia e na Secretaria de Obras Públicas do Estado do Rio Grande do Sul.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens O Instituto de Pesquisas Hidráulicas .França.

Vista do modelo da travessia do Jacuí (DAER) .escoamento com comporta de fundo e lâmina vertente.Barragem do Arroio Duro (extinto DNOS) – estudo do vertedouro 438 .A História das Barragens no Brasil . XX e XXI Figura 3 .Séculos XIX.estudo da proteção com enrocamento – DAER Figura 2 .Barragem Bom Retiro do Sul (DEPREC) . Figura 4 .Desembocadura do rio Tramandaí RS – DEPREC Figura 5 .

modelos reduzidos de obras hidráulicas. e a meta: “A capacitação de indivíduos e de instituições aptas a lidar com os problemas que envolvem o uso da água”.Barragem do Anel de Dom Marco Rio Jacuí . pr eser vação e conser vação” .Barragem do Anel de Dom Marco (CEEE) . com o apoio da UNESCO. Em 2006. navegação. que passa a ser um instituto de pesquisas também em recursos hídricos e saneamento ambiental. além de dar novo impulso e amplitude às pesquisas. atuando no ensino (técnico. único na América Latina. atuando ativamente em diferentes setores: hidrelétrico. 439 .RS * Departamento Estadual de Portos.AHSUL . Destes. sobretudo franceses. abastecimento de água. Esse convênio com a UNESCO.Barragem eclusa do canal São Gonçalo Lagoa dos Patos e Lagoa Mirim . usina hidroelétrica Itaúba .Rio Jacuí –RS (Figura 8). ainda hoje. e está em fase de implantação o curso de engenharia hídrica. Em 1989 o doutorado foi implantado no seu programa de pós-graduação. o IPH também se tornou um pólo de capacitação e pesquisa em hidrologia no âmbito do Decênio Hidrológico Internacional 1965-1975. completando efetivamente todos os níveis de ensino e diplomação.RS * ELETROSUL . graduação e pósgraduação) e apoiado por ampla atividade em pesquisa e extensão.Rio Jacuí –RS. Em função da visão de tratar de maneira mais ampla os recursos hídricos. usina hidroelétrica Passo Real .RS Figura 6 .ex-Usina Hidroelétrica do Jacuí . podendo-se citar: * Administração das Hidrovias do Sul .Rio Jacuí –RS.RS * Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE) – Barragem do Anel de Dom Marco – Rio Jacuí (Figura 6). entre outros. Cerca de um terço destes trabalhos são referentes ao setor elétrico brasileiro e as obras hidráulicas ligadas a barragens. Desta forma. Barragem Laranjeira .escoamento no vertedouro As pesquisas O IPH como instituto de pesquisa sempre teve a visão: “O uso da água com sustentabilidade. tem um acervo de centenas de trabalhos de prestação de serviços à comunidade nas áreas de hidráulica. em 1969.rio Santa Cruz. foi criado o curso de pós-graduação do IPH e o Curso Técnico em Hidrologia. Rios e Canais (DEPRC) Barragem de Bom Retiro do Sul . até o presente momento. usina hidroelétrica Dona Francisca 1º arranjo de obra (Figura 7) .Barragem do Arroio Ribeiro -RS * Instituto de Pesquisa Hidráulicas (IPH) . usina hidroelétrica Passo Fundo – rios Passo Fundo e Erechim . irrigação. de recursos hídricos e de meio-ambiente.Rio Taquari .RS.Rio Jacuí – RS (Figura 9). O IPH. usina hidroelétrica Leonel de Moura Brizola . 15 foram estudos em modelo reduzido de barragens. juntamente com a reforma universitária de 1970 marca uma segunda fase do IPH.RS (Figura 5) * Departamento Nacional de Obras de Saneamento (DNOS) Barragem do Arroio Duro –RS (Figura 4) * Departamento Nacional de Portos e Vias Navegáveis (DNPVN) .Barragem do Arroio Mãe D’água . usina hidroelétrica Salto Grande – Rio Santa Cruz .usina hidroelétrica Machadinho (1º arranjo de obra) – Rio Pelotas –RS (Figura 10) * Garcia de Garcia . com apoio de pesquisadores estrangeiros. foi implantado o curso de engenharia ambiental.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Os anos 60 consolidam o IPH como referência nacional e sulamericana para estudos hidráulicos.

Séculos XIX. XX e XXI Figura 7 – Usina hidroelétrica Dona Francisca (CEEE) 1º arranjo escoamento no vertedouro Figura 8 – Usina hidroelétrica Itaúba (CEEE) – erosão a jusante do salto de esqui 440 .A História das Barragens no Brasil .

ex-Jacuí (CEEE) .apresentação do modelo pela equipe do IPH durante vista técnica Isto levou o IPH a desenvolver uma ampla gama de especialidades nas ciências da água. Figura 9 – Modelo da usina hidroelétrica Leonel de Moura Brizola . influenciando diretamente os projetos e a operação das barragens e do setor elétrico. * Preservar a sua qualidade e * Promover a gestão integrada dos mesmos. ao armazenamento e ao controle das águas fluviais. à qualidade. * Projetar obras e sistemas para aproveitá-los. 441 . Para isso reuniu e busca atualizar o seu conhecimento para: * Avaliar as disponibilidades desses recursos.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 10 – Usina hidroelétrica Machadinho (ELETROSUL) – escoamento pelo vertedouro. necessárias para uma abordagem integrada dos problemas que envolvem os recursos hídricos ligados à quantificação. da forma mais eficiente possível.

verificar e comparar os critérios de dimensionamento existentes na literatura. 442 .br/apresentacao/) conta com diferentes laboratórios e núcleos de pesquisa que trabalham de forma integrada nas diferentes áreas dos recursos hídricos: * Laboratório da Estação Recuperadora da Qualidade da Água da UFRGS (ERQA) * Laboratório de Clima e Recursos Hídricos * Laboratório de Eficiência Energética e Hidráulica (LENHS) * Laboratório de Engenharia de Água e Solo * Laboratório de Ensino de Hidráulica * Laboratório de Hidráulica Marítima (LAHIMA) * Laboratório de Hidrometria * Laboratório de Instrumentação e Canal de Velocidade * Laboratório de Limnologia * Laboratório de Obras Hidráulicas (LOH) * Laboratório de Processos Erosivos e Deposicionais * Laboratório de Saneamento * Laboratório de Sedimentos * Núcleo de Águas Urbanas * Núcleo de Estudos em Correntes de Densidade (NECOD) * Núcleo de Estudos em Transição e Turbulência (NETT) * Núcleo de Planejamento e Gestão de Recursos Hídricos Aproximadamente 35 pesquisas desenvolvem-se regularmente nesses laboratórios e núcleos. obras hidráulicas. O acervo de dissertações de mestrado e teses de doutorado do curso de pós-graduação do IPH é resumidamente de cerca: 110 teses de doutorado e 315 dissertações (http://www. planos nacionais e estaduais de recursos hídricos e de meio-ambiente. o IPH vem desenvolvendo projetos através do seu Laboratório de Obras Hidráulicas (LOH). aprimorando os conhecimentos sobre fenômenos hidráulicos. As pesquisas têm sido desenvolvidas dentro das seguintes Linhas Mestras: * Esforços Hidrodinâmicos: em Dissipadores de Energia Hidráulica e a Jusante de comportas. * Transientes Hidráulicos em Usinas Hidroelétricas e em Eclusa.Mecanismo de Transposição para Peixes (MTPs).ufrgs. com cerca de 150 publicações anuais entre periódicos e anais de eventos. o IPH (http://www. foram desenvolvidas nove teses e mais de dezesseis dissertações.A História das Barragens no Brasil . Há participação efetiva dos professores e alunos nos principais eventos na cionais e internacionais no domínio das águas. assim como nos principais fóruns de discussões sobre hidráulica. Vertedouro em Degraus e Salto esqui a Jusante de comportas. a fim de gerar soluções técnicas que sejam eficientes.ufrgs. * Vibração em Estrutura Hidráulica em Cilindro e em Comporta. XX e XXI Hoje.lume.iph. Entre os trabalhos dos últimos 10 anos referentes diretamente ao setor elétrico brasileiro e as obras hidráulicas ligadas às barragens. seguras e de menor custo para o dimensionamento de obras hidráulicas. Esses projetos de P&Ds visam: * compreender os processos físicos envolvidos nos fenômenos hidráulicos. * Eco Hidráulica . Na área de pesquisa e desenvolvimento (P&D) relacionados a empreendimentos no setor elétrico. * desenvolver ferramentas e metodologias de previsão de esforços hidrodinâmicos provocados pelo escoamento. * desenvolver linhas de pesquisa na área de eficiência energética e hidráulica.Séculos XIX. * desenvolver.br/handle/10183/2).

Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Titulo do P&Ds Análise da macro turbulência em dissipadores por ressalto hidráulico (Figura 11) Análise das características macro turbulentas ao longo da calha de um vertedouro em degrau e no ressalto hidráulico formado a jusante. (Figura 12) Análise do comportamento hidráulico dos sistemas de enchimento e esgotamento de eclusas de navegação (Figura 13) Análise do escoamento em mecanismo de transposição para peixes – MTPs (Figura 14) Análise dos processos físicos envolvidos na formação de fossas de erosão em leito Coesivo a jusante de salto de esqui .Análise de vibrações induzidas pelo escoamento sobre uma comporta 443 . aplicados a barragens no setor elétrico estão listados acima. Figura 11 . PUC/Rio e UFMG UFSM (colaborador) LAHE/FURNAS LAHE/FURNAS e IME LAHE/FURNAS e IME Os P&Ds desenvolvidos ou em desenvolvimento nos últimos 10 anos pelo LOH.em desenvolvimento Estudo dos processos geomecânicos provocados por esforços hidrodinâmicos em fossas de erosão a jusante de saltos de esqui .em desenvolvimento (Figura 16) Padrões de vibração em estruturas hidráulicas por ação de escoamentos (Figura 17) Transientes hidráulicos em circuitos de usinas hidroelétricas Utilização de modelos numérico e experimental para dimensionamento e otimização de bacias de dissipação Parceiros LAHE/FURNAS INA e IST (colaboradores) DFESA IST (colaborador) LAHE/FURNAS e UFMG URI e UNISINOS (colaboradores) CPH/UFMG IST (colaborador) LAHE/FURNAS UFSM (colaborador) LAHE/FURNAS IST (colaborador) DFESA IST (colaborador) LAHE/FURNAS.em desenvolvimento (Figura 15) Características de escoamentos sobre vertedouros em degraus Determinação das características geométricas da soleira terminal em bacias de dissipação a jusante de vertedouro em degraus .

Figura 14 – Análise do escoamento a jusante de uma comporta tipo segmento invertida de uma eclusa 444 . XX e XXI Figura 12 – Análise da macro turbulência em dissipadores por ressalto hidráulico Figura 13 – Análise das características macro turbulentas ao longo da calha de um vertedouro em degrau e no ressalto hidráulico formado a jusante.A História das Barragens no Brasil .Séculos XIX.

Análise das pressões dinâmicas em um jato direcionado Figura 15 – Análise do escoamento em mecanismo de transposição para peixes – MTPs Em resumo. o controle e a gestão deste recurso de maneira a tornar os empreendimentos sustentáveis.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 16 – Análise das pressões dinâmicas a jusante de um salto esqui Figura 17 . o IPH construiu uma história voltada às águas buscando a quantificação. 445 . a qualidade. o armazenamento.

446 .

fundou o laboratório da I. Nos levantamentos geológicos dos locais das obras. No ano seguinte. o engenheiro Mario Brandi Pereira. Em 1953. Esta atuação se realizou no reconhecimento geológico dos locais. dando as primeiras contribuições ao avanço da área de hidrogeologia no País. dando origem à CESP – Companhia Energética de São Paulo.Inspetoria Nacional de Obras Contra a Seca. na cons trução da Usina de Salto Grande. em Campina Grande. no rio Paranapanema.S. as barragens de Poço Preto e Piraçununga. concreto e estruturas. sem dúvida. o primeiro laboratório de solos a se dedicar ao apoio tecnológico das barragens no Brasil. Ronaldo Rocha e Antonio Marrano Pela sua característica de instituto pioneiro no Brasil na tecnologia da engenharia civil.N. A participação do IPT se desenvolveu nas áreas de geotecnia.C. destacou-se a atividade do engenheiro Ernesto Pichler. com a construção de usinas hidroelétricas construídas no estado de São Paulo pelas empresas CHERP – Centrais Elétricas do Rio Pardo.IPT Carlos de Sousa Pinto. além da consultoria técnica na formulação e a adaptação dos projetos durante a construção. no controle de execução dos maciços de terra e das estruturas de concreto e no monitoramento das obras. .O. tanto pelo seu envolvimento direto em muitas obras. após estagiar no IPT. Mas a atuação mais marcante do IPT nas obras de barragens passou a ocorrer a partir da década de 1950. Paraíba. na barragem de Barra Bonita (rio Tietê). em 1938. USELPA – Usinas Elétricas do Paranapanema e de outras que foram unidas. que já em 1947 havia publicado um conjunto de conferências intitulado “Elementos básicos de Geologia Aplicada”. O maior ensaio in situ de resistência ao cisalhamento feito no mundo 447 . o IPT estudou fundações e solos de empréstimo para duas pequenas barragens de terra. na determinação das propriedades de comportamento de solos. rochas e agregados para concreto. Pichler iniciou a prática de estudos geológicos para projeto e construção de barragens baseados em sondagens rotativas adaptadas aos fins de engenharia civil. CELUSA – Centrais Elétricas de Urubupungá SA. Ensaio de cisalhamento de grandes dimensões do maciço rochoso num bloco de rocha de 6 m x 6 m de seção por 4 m de altura. Ainda no final da década de 1940. o IPT teve atuação relevante no desenvolvimento das barragens no país. realizou. pioneiro da geologia aplicada às obras hidráulicas. na caracterização das jazidas naturais. este. geologia de engenharia. No início da década de 1940. professor da Escola Politécnica do Rio de Janeiro.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens O Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo . o primeiro ensaio de perda d’água sob pressão em furo de sondagem. Geotecnia e geologia de engenharia Um exemplo do papel difusor de conhecimentos do IPT se fez notar logo após a fundação de sua Seção de Solos. realizado em Ilha Solteira em 1969. como pelo seu papel de difusor de conhecimentos técnicos.

sob a liderança do engenheiro Murilo Ruiz. 448 . enquanto que no laboratório de mecânica das rochas toda a equipe era do IPT. passou-se a usar piezômetros de corda vibrante. dentre as investigações realizadas pela equipe do IPT. o que caracterizava o maior ensaio in situ de resistência ao cisalhamento feito no mundo. importados da Suíça. diversas pesquisas foram realizadas durante a obra. inclusive um ensaio de grandes dimensões. Seus resultados tiveram repercussão internacional. com desenvolvimento de pressões neutras baixas quando devidamente compactados. No laboratório de solos de Ilha Solteira. XX e XXI Pichler foi também pioneiro na implantação da mecânica das rochas no Brasil. Os laboratórios de Ilha Solteira. com extensômetros elétricos colados em membrana de aço inoxidável. com equipamentos da mais alta qualidade. Em reconhecimento à relevante contribuição. Os laboratórios foram muito bem equipados. Além da determinação das propriedades mecânicas dos solos usados na barragem. Faleceu. Euclides da Cunha (1956 a 1960) e Graminha (1959 a 1966). em 1959. tendo se notabilizado pela determinação das tensões in situ e realização de ensaios de deformação de maciços rochosos nas escavações da casa de força da usina de Paulo Afonso. principalmente o de Ilha Solteira. a partir da característica de “duplo manômetro”. por ele batizada de “célula DM”. Notável foi o conjunto de ensaios de cisalhamento do maciço rochoso.Séculos XIX. fato totalmente inesperado. num bloco de rocha de 6 m x 6 m de seção por 4 m de altura (Figura 1). atualmente. com câmaras de ensaios triaxiais. o IPT coordenou todo o controle de compactação dos maciços. O engenheiro Pacheco Silva analisou este comportamento. em virtude da deformação lenta. obtendo o desenvolvimento das pressões neutras durante o alteamento do aterro e o enchimento do reservatório. Nesta ocasião. que passou a ser adotada em muitas obras. Barra Bonita (1952 a 1962) e Promissão (1966 a 1975) envolveu a supervisão do controle de compactação e a instrumentação dos maciços. o engenheiro Hamilton de Oliveira fez uma adaptação para solos brasileiros do método de Hilf de controle de compactação. A atuação do IPT nas barragens do rio Tietê. merecem destaques as relacionadas com as características das fundaçõesdas barragens de Jupiá e Ilha Solteira. três pesquisadores do IPT ficaram permanentes. a influência das condições de compactação nas propriedades geotécnicas do solo compactado e a comparação entre as características apresentadas pelos corpos de prova compactados em laboratório com as dos corpos de prova moldados a partir de blocos indeformados extraídos do maciço. Cinco piezômetros deste tipo foram instalados na barragem de Ilha Solteira Nas barragens de Jupiá (1961 a 1969) e de Ilha Solteira (1966 a 1973) o IPT especificou e colaborou na instalação dos laboratórios de solos e de mecânica das rochas instalados pela CESP. Observou que as pressões neutras decresciam inicialmente durante o alteamento do aterro. Bariri (1959 a 1960). o seu nome foi atribuído ao aeroporto de Jupiá. para só passarem a aumentar após ser atingido um certo nível de carregamento. fazendo levantamento geológico no local da barragem de Jupiá. por exemplo. Estes trabalhos passaram a ser referência para projetos de outras obras. No campo da mecânica das rochas. equipamentos de cisalhamento direto e de adensamento.A História das Barragens no Brasil . Frustrado com a perda de algumas destas células. Limoeiro (1953 a 1958). o que serviu de orientação para o projeto de barragens posteriores. Tendo notado que primeiros piezômetros instalados nas barragens do rio Pardo não se mantinham confiáveis por muito tempo. o engenheiro Pacheco Silva instalou piezômetros de sua própria idealização. pelo efeito de descargas elétricas nas proximidades das barragens. onde se sucediam camadas de constituição bem distintas. tornou-se laboratório do curso de engenharia civil da UNESP. esclarecendo. passaram a prestar assistência tecnológica a outras barragens e. Nas barragens do Rio Pardo. Pacheco dedicou-se ao desenvolvimento de outra. característico de solos tropicais. na coordenação dos trabalhos. em plena atividade no campo. um manômetro lendo diretamente a pressão neutra no maciço e o outro acionado por ação pneumática a partir da superfície fazendo a leitura do primeiro. após a conclusão da barragem. introduzindo no Brasil esta técnica. Ibitinga (1964 a 1969). com algumas alterações propostas pelo engenheiro Pacheco Silva e aceitas pelo fabricante. Já na barragem de Limoeiro. Estes estudos foram fundamentais para a definição das cotas de fundação dos diversos setores da obra.

Na década de 1970. Avanços significativos na compreensão do comportamento dos basaltos como fundações de barragens foram obtidos com os estudos a respeito das estruturas circulares em Água Vermelha. Na década de 1990. destacaram-se a formulação das primeiras orientações técnicas de normatização dos ensaios de permeabilidade em furos de sondagens. os estudos de caldas de cimento e argamassa para tratamento de maciços de fundações e análise da eficiência dos tratamentos de fundações de barragens. especialmente na identificação de ar gilominerais expansivos. empregado com sucesso na fundação de Ilha Solteira e posteriormente adotado em todas as demais obras da CESP com fundação em maciço basáltico. na compreensão do comportamen to das juntas-falhas e na avaliação da rápida decomposição das rochas basálticas (alterabilidade). as lavas em almofadas (pillow lavas) em Nova Avanhandava e os basaltos leves de Porto Primavera. com a colaboração do consultor alemão Klaus W. 449 . rio Paraná. destacaram-se os trabalhos junto à Centrais Elétricas de São Paulo (CESP) que possibilitaram o desenvolvimento de especificações de sondagens e de critérios para a classificação dos graus de alteração e de fraturamento das rochas. John. Contribuições significativas decorrentes da experiência com grandes obras envolveram desenvolvimentos na caracterização geológico-geotécnica de basaltos. assim como na caracterização tecnológica de agregados naturais. Também foi desenvolvido o primeiro sistema de classificação de maciços rochosos utilizados no Brasil. destacam-se o desenvolvimento dos obturadores de impressão e um protótipo de equipamento para o televisionamento de furos de sondagens. bem como a definição de vários outros procedimentos até hoje utilizados.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 1 – Usina hidroelétrica de Ilha Solteira. Ensaio de cisalhamento em bloco de grandes dimensões (1969) Também a partir do final da década de 1960. estabelecendo uma prática brasileira para os estudos e investigações de eixos de barragens.

no Paraná. que passou a dar assistência a várias obras de engenharia. estudos para identificar as características da percolação. são apresentados a seguir. Após a execução de cortina de solo-cimento nas ombreiras e fundações. Na execução desta obra. podendo ser operadas de maneira distinta. em 450 . permitiu assegurar a estabilidade da barragem e a plena utilização do reservatório na cota de projeto. passando de montante para jusante. localizada na Baixada Fluminense. em que se compactou o solo com umidade muito acima da ótima. de difícil secagem em virtude do clima na região e com peculiaridades de compactação (grande alteração dos parâmetros de compactação com ligeira secagem a partir da umidade natural). A experiência da obra anterior possibilitou ao IPT atuação importante na construção da Barragem do Rio Verde. constituindo o Laboratório Rankine.Departamento de Águas e Energia Elétrica do estado de São Paulo. as infiltrações cessaram e o monitoramento posterior. inclusive rodoviárias e de fundações. feito pelo IPT. e área de empréstimo de solo muito argiloso. A partir da década de 2000. muito úmido. realizou. garantindo-se a estabilidade dos taludes do maciço. resultantes de antigas colônias de formigas. o IPT instalou e operou piezômetros que registravam o crescimento e a dissipação da pressão neutra após cada lançamento do aterro. Alguns destes casos. a profundidades de cerca de 3 m. no seu aproveitamento no suprimento de água na região. teve a assistência do IPT tanto nos ensaios dos materiais como no controle de compactação. mas deve-se registrar que igualmente importante para o próprio IPT foi o apoio recebido da CESP para o desenvolvimento desta instituição.Séculos XIX. Além dos trabalhos para as barragens da CESP. o DAEE optou pela instalação de laboratório de solos completo no local.A História das Barragens no Brasil . a melhoria e desenvolvimento das técnicas da geofísica e as primeiras pesquisas desenvolvidas no Brasil para estudo da permeabilidade tridimensional dos maciços rochosos que começaram em 1984. dividindo a represa em duas áreas. O IPT contribuiu muito no campo da geotecnia e geologia de engenharia nas barragens da CESP. em 1970. Foram realizados. cuja primeira aplicação com equipamentos idealizados e construídos pelo IPT foi na barragem de Porto Primavera. juntamente com a inspeção de amostras indeformadas. próxima às nascentes do rio Tietê. para abastecimento de água para a Refinaria Duque de Caxias. pioneiramente no Brasil. liderado pelo engenheiro Murilo Ruiz. Após diversas tentativas de impermeabilização das ombreiras. proporcionando a oportunidade para a formação de especialistas que vieram posteriormente contribuir para a engenharia nacional em diversas atividades. Em virtude das peculiaridades da obra. com poucos centímetros de diâmetros. construída pela Petrobrás. Este laboratório foi posteriormente vendido a um consórcio de empresas empreiteiras. o desenvolvimento e aplicação da geologia estrutural para a análise dos condicionantes geológico-geotécnicos. em 1989. A barragem de Ponte Nova. quando atingida cota parcial de enchimento do reservatório. sem sucesso. permitiram a identificação de pequenos túneis. projetado de maneira a poder ser transformado numa posterior barragem. XX e XXI Igualmente importante foram os estudos de sismicidade induzida decorrente da instalação de reservatórios de barragens. destacam-se estudos voltados ao monitoramento dos processos erosivos nas margens do reservatório de Porto Primavera. como nos recursos humanos. pelas suas peculiaridades. construída pelo DAEE . como reguladora do rio e parte do sistema de abastecimento da cidade de São Paulo. fundação em sedimentos arenosos (que requereu paredes diafragma para vedação). nas ombreiras. já acima do nível d’água em função do que era liberado o lançamento de novas camadas. tanto no investimento em recursos materiais. ensaios de injeção de corantes e de traçadores radioativos que. Na construção da rodovia dos Imigrantes os projetistas optaram por fazer a travessia da Represa Billings por meio de um aterro lançado dentro d’água. o grupo de geologia aplicada e de geotecnia do IPT. de 1960 a 1962. apresentou infiltração e surgimento de água a jusante. A barragem de Saracuruna. o IPT teve a oportunidade de participar de diversas obras de barragens de outras entidades.

451 . o que foi adotado. solicitou ao IPT um modelo dos apoios das comportas nos contrafortes da barragem. empregados pelo ISMES. conforme descrito a seguir. Papel importante ocorreu nas barragens de Jupiá e Ilha Solteira. representando a barragem numa escala de 1:100 e foi carregado por meio de pesos mortos até serem atingidas as pressões na escala empregada. Medido res de recalque e piezômetros mostraram o comportamento adequado da barragem. Em 2010. Esta técnica se caracteriza pela utilização de modelos de grandes dimensões. Conhecer o estado de tensões nos maciços rochosos é particularmente importante para o projeto de túneis de alta pressão. no modelo. em substituição às pedras-pomes diatomito. O contraforte da barragem. No Brasil. e para o seu desenvolvimento. Posteriormente. segundo a técnica de ensaios em modelo desenvolvida pelo Istituto Sperimentale Modelli e Strutture (ISMES). sendo um trabalho que na época. foi desenvolvido um material básico com micro-concreto de argila expandida. devido às características dos agregados. o que requereu um estudo preliminar para a determinação da adequada proporção dos componentes e dos procedimentos de cura. Coube a ele. O modelo foi de comportamento elástico. o professor Telêmaco van Langendonck. a partir de matérias primas. foram executados dois modelos para o projeto da barragem de Itaipu. de maneira que resulte em material com propriedades reológicas adequadas à escala do modelo. onde se constatou. na realidade um pórtico de reação que permite ensaio de modelos de até 3 m. ou o gesso. Quando o material deveria ter módulo de deformação muito baixo. constituiu-se no primeiro modelo estrutural voltado a barragens no Brasil. Restringem-se a casos especiais. cimento e pérola de isopor. Itália. O modelo foi moldado com as dimensões estudadas. o IPT. O conhecimento sobre o estado de tensões do maciço também contribui significativamente para o dimensionamento da blindagem do conduto forçado.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens virtude das condições de umidade muito elevada na região. Os micro-concretos utilizados para a representação das fundações e do elemento estrutural em estudo são executados com materiais especiais e misturas adequadas. com o consequente abatimento dos taludes do maciço para garantir a estabilidade. por parte da empresa projetista. que foi construído pelo IPT. construiu um equipamento para realização de ensaios de medidas de tensões in situ por meio de fraturamento hidráulico. Conduzido com sucesso. a realização dos ensaios. foram realizados dois estudos com modelos físicos de características diferentes. formas de resina. com o ganho adicional de redução da temperatura do concreto durante a cura e o endurecimento. de 1977 a 1979. apresentava muita dificuldade em virtude da pouca disponibilidade de materiais. A técnica de ensaio é extremamente complexa. também. Tecnologia de concreto No campo de concreto o IPT contribuiu na consultoria e supervisão das dosagens e no controle dos materiais constituintes. tendo sido construído com poliéster. No caso específico dos modelos da barragem de Itaipu. depois de um estágio na Itália. projetou um laboratório especial. justificando a solução adotada. conciliando-se esta solução com a baixa resistência do solo da fundação. quando os projetistas recorrem a eles para esclarecer dúvidas sobre o comportamento da estrutura em obras cujo valor e importância os justifiquem. a possibilidade de reações álcali-agregados que comprometeriam a durabilidade das obras. o engenheiro Fausto Tarran do IPT. Modelos físicos estruturais Modelos físicos de estruturas de barragens não são rotineiros nos projetos destas obras. de Bergamo. colaborando para o contínuo desenvolvimento tecnológico das barragens brasileiras. micro-concreto de pedra pomes e sistema especial de aplicação de cargas de peso próprio. Para a barragem de Jupiá. utilizado pelo Laboratório Nacional de Engenharia Civil de Lisboa. Os estudos apontaram para a incorporação de pozolanas na constituição dos concretos. utilizou-se argamassa de areia. onde é necessário evitar que a pressão hidráulica interna conduza à ruptura do maciço. tinha cerca de 50 cm de altura. que não precisou ser escavado. 1968.

a aplicação mais importante e extensiva ocorreu nas barragens do Jaguari e Jacareí da SABESP. Nesta fase. o ensaio foi até a ruptura da junta vertical de concretagem dos contrafortes. Em seguida. da estrutura do modelo a ser construído. No corpo dos modelos foram introduzidos tirantes para simulação do peso próprio da estrutura. foram instalados instrumentos pneumáticos tipo IPT ao lado de instrumentos elétricos de corda vibrante tipo Maihak.A História das Barragens no Brasil . estas uma réplica. As primeiras utilizações destes instrumentos pneumáticos em barragens foram nas barragens de Rio Verde da Petrobrás.Séculos XIX. Os ensaios foram conduzidos até a observação de indícios de ruptura nas fundações. a semelhança do ocorrido na barragem de Piraquara onde se utilizou piezômetros elétricos tipo Geonor. as importações de instrumentos geotécnicos eram difíceis e tal fato favoreceu o crescimento e aplicação dos instrumentos fabricados no Brasil. foram desenvolvidas as células de pressão total que. foram nomeados de instrumentos pneumáticos tipo IPT. pelo engenheiro Alinor Figueiredo e equipe. Figura 2 – Usina hidroelétrica Itaipu. em 1979. entre elas destaca-se a barragem de Itaparica da CHESF onde foram instalados quase duas centenas de instrumentos pneumáticos. Foram muitas as barragens instrumentadas com piezômetros e células de pressão tipo IPT. Nas barragens da SABESP. As formas das estruturas foram construídas sobre contra-formas. em madeira. No modelo do contraforte.Figura 2). foram aplicados 22 macacos. em 1978 (Figura 3). juntamente com os aperfeiçoamentos na unidade de leitura. As cargas hidrostáticas na face do modelo foram aplicadas por pequenos macacos hidráulicos. Rio Paraná Modelo reduzido do bloco da barragem principal (1978) 452 . Também foram instrumentadas barragens na América do Sul com Instrumentação de barragens Em meados da década de 1970. A comparação dos resultados alcançados revelou o bom desempenho dos pneumáticos. incluindo as fundações .5 m (bloco de gravidade aliviada da barragem principal. e Piraquara da SANEPAR. foi desenvolvido o primeiro piezômetro pneumático no IPT. no modelo da estrutura de desvio. No entanto. em função do que foi feita modificação do projeto estrutural da obra. em 1976. No modelo do corpo da barragem. XX e XXI Os modelos tinham alturas de 1. de maneira a simular o empuxo correspondente ao reservatório em plena altura.8 m (estrutura de controle do desvio do rio) e 2.

São Paulo. em 21 de novembro de 1977. Referências Figura 4 – Barragem de Pedro Beicht. Mapeamento de fissuras no paramento de jusante (1992). Instalação de piezômetro pneumático (1978) companhias em cujo capital o Estado tivesse participação majoritária. que também foram aplicados em várias barragens nacionais e internacionais. por exemplo. IPT 100 anos de Tecnologia. 24/06/1999 453 . atendendo solicitação da SABESP. para monitorar a segurança das barragens dessa companhia responsável pelo abastecimento da Grande São Paulo. constituindo-se este projeto num exemplo da auditoria externa de segurança de barragem (Figura 4). Paso Severino no Uruguai. entre outras. SABESP. em razão da automação das medidas e não em função do desempenho deste tipo de instrumento. Além dos instrumentos pneumáticos. A partir dos anos 2000 os instrumentos pneumáticos perderam espaço para os instrumentos elétricos de corda vibrante.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens estes pneumáticos como.752. Segurança de barragens Após os acidentes ocorridos com as barragens de Euclides da Cunha e Armando de Salles Oliveira (Limoeiro). com princípio de transdução por strain-gauge . SANEPAR. Dentro destes conceitos de segurança de barragens também foi objeto de continuidade dos trabalhos a barragem de Saracuruna da Petrobrás. Em 1978. Vinte e três barragens na região metropolitana de São Paulo tiveram suas características técnicas levantadas e passaram a ser vistoriadas anualmente. Publicação IPT no 2600. o IPT também desenvolveu instrumentos elétricos. o governo de São Paulo promulgou o decreto estadual no 10. Por falta de regulamentação este decreto não foi implementado por todas as autarquias e companhias. dispondo sobre a realização de auditoria técnica externa permanente em autarquias e Figura 3 – Barragem de Piraquara. o IPT organizou uma equipe formada por especialistas de diversas áreas do próprio instituto acrescida de consultores externos. em 1977. duas barragens em cascata no Rio Pardo.

Vista aérea do LAHE .

em área própria da empresa. Furnas começou a supervisionar diretamente os testes realizados para a validação e otimização dos projetos de seus empreendimentos e a atividade de desenvolvimento de estudos hidráulicos em modelo reduzido passou a ser de responsabilidade do seu Departamento de Engenharia Civil. Essa medida se apoiou Figura 1 LAHE – Sede em Jacarepaguá – Instalações 455 . Com isso. sendo inicialmente desenvolvida através da contratação do laboratório Hidroesb. Visando exercer maior controle técnico sobre os trabalhos realizados e manter os modelos de suas usinas construídos mesmo após as definições de projeto das mesmas. em 26 de dezembro de 1983 foi iniciada a implantação do Laboratório de Hidráulica Experimental (LAHE) de Furnas. Furnas foi.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Laboratório de Hidráulica Experimental e Recursos Hídricos de Furnas . pouco a pouco.LAHE Fátima Moraes de Almeida e Marcos da Rocha Botelho Para atender necessidades específicas que foram surgindo ao longo de seus projetos. no Rio de Janeiro. aumentando o seu grau de participação nos estudos em modelo até assumir integralmente a coordenação dos mesmos. junto a subestação de Jacarepaguá.

criado com objetivo de atender exclusivamente aos empreendimentos da empresa.A. A construção da sede própria do LAHE foi iniciada somente após três anos de funcionamento efetivo do laboratório. Ressalta-se. contou com a prestação de serviços do Laboratório Hidroesb Saturnino de Brito S.Engenheiro Erton Carvalho (segundo à frente. Usina Luiz Carlos Barreto de Carvalho (Estreito). em operação. no início desse período. Furnas os teria disponíveis para atender a qualquer necessidade que surgisse durante ou mesmo após a construção das suas usinas. Nos seus primeiros quatro anos de funcionamento. da esquerda para direita). Responsável pela criação do LAHE – Visita ao modelo vertedouro da usina hidroelétrica de Batalha no fato do modelo reduzido também se revelar uma importante ferramenta de trabalho para as fases de construção e operação dos empreendimentos hidráulicos. e pelo engenheiro Carlos Alfredo de Almeida Paiva. então chefe da Divisão de Estudos e Projetos Hidrotécnicos de Furnas. a importante atuação do engenheiro Dirceu Pennafirme Teixeira (do Hidroesb) que ao lado da equipe de Furnas colaborou ativamente no processo de implantação do laboratório. em projeto e Usinas de Anta e Simplício. em operação. No modelo de conjunto da usina de Serra da Mesa foi feito o acompanhamento dos projetos básico e executivo e de alguns pro- 456 . Com a construção dos modelos em área própria. Usina de Porto Colômbia. XX e XXI Figura 2 . Esse trabalho foi coordenado pelo engenheiro Erton Carvalho. nas fases de projeto e construção. Usina de Furnas. o LAHE.Séculos XIX. Nas instalações de Furnas esse laboratório desenvolveu as atividades de projeto. Usina de Cana Brava. em operação. fez-se necessário um enorme trabalho de mobilização dos recursos internos da empresa. a saber: Usina de Serra da Mesa. construção e operação dos modelos dos empreendimentos em estudo àquela época. em projeto. seu substituto imediato.A História das Barragens no Brasil . em suas instalações. Para o desenvolvimento do projeto e construção de toda a infraestrutura necessária ao funcionamento de um laboratório de hidráulica.

Detalhe da reprodução da tomada d’água Foram pesquisados também. esse estudo 457 . o balanço de materiais.Modelo de conjunto da usina Luiz Carlos Barreto de Carvalho (Estreito) Figura 3 . modificando assim as características de lançamento do jato. entre outras coisas. Isso permitiu a integração entre as diversas etapas de construção da usina. de fácil execução e baixo custo. Foram estudadas as ondas geradas por esse deslizamento e que poderiam ameaçar seriamente as estrutura da barragem. Além da aproximação com outro centro de tecnologia. a instrumentação necessária às medições de ondas. os coeficientes de forma que alimentaram o modelo matemático adotado para a simulação dos transientes hidráulicos a que a usina estaria submetida durante a sua operação. trazendo assim grande economia ao empreendimento. Sem os recursos de instrumentação necessários às medições a serem realizadas. Já a COPPE contribuiu com o desenvolvimento de parte da instrumentação necessária ao LAHE e com o estudo teórico do fenômeno em estudo. os danos que ocorreriam a montante da barragem e os níveis de segurança do reservatório. o LAHE contou com o apoio técnico e logístico do INPH (Instituto de Pesquisas Hidroviárias) e da COPPE (Coordenação de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro). num modelo de detalhe de seu circuito de geração. foi a alteração da geometria da concha de arremesso do vertedouro. Diversas possibilidades de queda desse maciço rochoso foram estudadas. otimizando. Figura 4 . No modelo da usina Luiz Carlos Barreto de Carvalho as pesquisas foram direcionadas para eliminar as erosões regressivas que ameaça- Para a usina de Furnas foi analisada a ameaça de desmoronamento de parte da encosta do Morro dos Cabritos. por empréstimo.CINQUENTA ANOS DO COMITÊ BRASILEIRO DE BARRAGENS cessos construtivos utilizados pela obra. Foram avaliadas as alturas das ondas. A solução encontrada. vam comprometer a estabilidade da estrutura de seu vertedouro em salto de esqui. Com o INPH foi obtida.Modelo de conjunto da usina hidroelétrica de Serra da Mesa.

A História das Barragens no Brasil - Séculos XIX, XX e XXI

marcou assim a primeira interface do LAHE com um centro acadêmico de pesquisa. Nessa ocasião, os dados obtidos no modelo físico foram confrontados com o resultado de estudos em modelos matemáticos desenvolvidos pela COPPE. No modelo bidimensional do vertedouro de Porto Colômbia foi diagnosticada a causa das erosões existentes no concreto da bacia de dissipação do vertedouro. Os estudos que conduziram à solução adotada na obra foram complementados em um modelo de conjunto da usina que permitiu, inclusive, direcionar as obras de ensecamento da bacia. Em parceria com outros laboratórios e entidades de pesquisa, após a realização da obra corretiva sugerida pelo modelo, foi realizada uma campanha de medição de pressões instantâneas na bacia de dissipação do empreendimento.

Tirando partido das informações modelo-protótipo, os dados de pressão obtidos em Porto Colômbia foram posteriormente utilizados na calibração de um modelo matemático de previsão do campo de pressões, velocidades e níveis d’água em bacias de dissipação. Com orientação do IME, esse estudo gerou a tese de mestrado intitulada “Estudo Numérico e Experimental de Bacia de Dissipação” da Renata Cavalcanti Rodrigues, na época engenheira do LAHE. No modelo da usina de Cana Brava, construída a jusante de Serra da Mesa, no rio Tocantins, foi feito o acompanhamento de toda a fase de estudo do projeto básico.

Figura 6 - Modelo da usina de Cana Brava

Figura 5 - Modelo de conjunto da usina de Porto Colômbia. Medição de pressões instantâneas na bacia de dissipação

Nos modelos onde foram estudados os arranjos originais da usinas de Anta e Simplício, no rio Paraíba do Sul, foram otimizados os projetos básicos das mesmas. Após quatro anos de existência do LAHE, e num momento em que alguns dos estudos acima citados ainda se encontravam em andamento, Furnas se deparou com o término do contrato com a Hidroesb e com a impossibilidade de sua renovação. Diante desse impasse, parte da mão de obra especializada da Hidroesb acabou

Esses dados foram disponibilizados para a comunidade científica que não dispunha, até aquele momento, de dados suficientes de protótipo que pudessem validar os estudos teóricos que vinham sendo desenvolvidos nessa área de atuação.

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Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens

Figura 7 - Engenheiros Marcos da Rocha Botelho e Fátima Moraes de Almeida, técnicos pioneiros do LAHE

por ser absorvida por Furnas que, contando com o apoio de seus técnicos locais, passou a se responsabilizar pelo completo desenvolvimento dos estudos em modelo. Dentre esses técnicos, responsáveis pela supervisão dos serviços do laboratório, destacam-se como pioneiros os engenheiros Marcos da Rocha Botelho (atual gerente do LAHE) e Fátima Moraes de Almeida (que atua ainda hoje na coordenação de estudos em desenvolvimento no laboratório). Esse foi um dos momentos decisivos para a constituição da atual identidade do laboratório de Furnas que, ainda sob a condição de uma atividade de uma divisão de projeto da empresa, precisou obter recursos para a aquisição de todo o ferramental, equipamento e instrumentação eletrônica indispensável aos estudos em modelo. Itens esses que antes eram fornecidos através do contrato com o laboratório Hidroesb. Nessa ocasião, mais uma vez o espírito empreendedor do engenheiro Erton Carvalho entrou em ação. Como chefe da divisão responsável pelo Laboratório e tendo em mãos uma carteira de trabalhos já realizados, ele foi buscar junto aos órgãos superiores de Furnas os recursos necessários à consolidação do controle total pela empresa de todos os estudos hidráulicos em modelo reduzido de seus empreendimentos. A superação dessa fase acabou por trazer ao LAHE alguns grandes benefícios, tais como: modernização da instrumentação utilizada nos seus processos de construção e operação de modelos, reformulação dos processos de construção de modelos que geraram facilidades construtivas e operativas dos mesmos e maior possibilidade de investimento no aperfeiçoamento de seu quadro técnico. Quanto à usina de Manso, estudada pelo CEHPAR quando de propriedade da Eletronorte, ao assumir 70% de seus investimentos em parceria com o consórcio PROMAN, Furnas decidiu pela construção de um novo modelo da usina em seu laboratório para a realização de estudos complementares, acompanhamento do término da construção e fornecimento de subsídios para a operação da mesma. Visando subsidiar o projeto, construção e operação de um vertedouro complementar que compatibilizasse a capacidade de vertimento da usina com os demais aproveitamentos da cascata, foi construído e operado no LAHE um modelo de conjunto da Usina Marechal Mascarenhas de Moraes, inicialmente em concessão da CPFL e que, a partir de 1973, passou a ser operada por Furnas. Em 1994, o LAHE foi procurado pela Light para subsidiar, através de estudos hidráulicos em modelo reduzido, o projeto de reabilitação da Usina de Ilha dos Pombos. Esses estudos foram realizados entre os anos de 1995 e 1996. Essa primeira solicitação de desenvolvimento de um serviço externo motivou o LAHE a investir, a partir de 1997, na melhoria contínua de seus processos e produtos por meio da busca pela certificação através da Norma NBR ISO 9001. Esse projeto, incentivado pelo engenheiro Erton Carvalho, chefe do Departamento de Engenharia Civil de Furnas, foi desenvolvido na gestão do engenheiro Danilo Lopes Marques da Silva que exercia, àquela época, a chefia da divisão responsável pelas atividades do Laboratório. Para alcançar esse objetivo fez-se

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A História das Barragens no Brasil - Séculos XIX, XX e XXI

Figura 8 - Modelo da usina Marechal Mascarenhas de Moraes (Peixoto)

necessário, além de um intenso treinamento de sua equipe, a elaboração de instruções de trabalho prescritivas de cada uma das etapas dos estudos. Tecnicamente apoiada nos fundamentos teóricos da hidráulica, da mecânica dos fluidos e de outras disciplinas afins, a realização de estudos hidráulicos em modelo reduzido não possui um conjunto rígido de critérios ou normas próprias que norteiem ou que, obrigatoriamente, devam ser aplicadas nas fases de projeto e construção dos modelos e durante a fase de estudos propriamente dita. Toda a fundamentação teórica em que se baseiam os estudos experimentais é extraída dos manuais clássicos tanto de hidráulica, quanto de projeto de estruturas hidráulicas, de trabalhos e pesquisas acadêmicas e, ainda, de publicações de estudos específicos realizados em diversos laboratórios do ramo.Embora possam ser encontrados alguns trabalhos esparsos, em que se procurou reunir o maior número possível das informações em que se baseiam os estudos em modelo físico, os mesmos estão longe de se constituírem num compêndio

ou num manual clássico dessa disciplina. Por essa razão, as dificuldades encontradas na sistematização dessas tarefas foram enormes tendo em vista que, ao longo de anos, elas se basearam unicamente na experiência profissional dos técnicos envolvi dos nos serviços de modelo. A elaboração dessas “normas” de projeto, construção e realização de ensaios em modelo, além de consolidar a experiência adquirida pelo LAHE ao longo dos seus, até então, 16 anos de serviços prestados a Furnas, contribuiu de forma marcante, não só para o auxílio à formação de seus profissionais iniciantes, como também para o trabalho daqueles que já atuantes na área, passaram a poder contar com um roteiro organizador de suas atividades. Após três anos de trabalho nesse sentido o laboratório, ainda na condição de uma atividade de uma divisão, obteve em outubro de 2000 a sua Certificação ISO 9001. A partir desse momento o Laboratório de Furnas, apresentando como diferencial o fato de ser o primeiro laboratório de hidráulica

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Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens

experimental do Brasil certificado pela ISO 9001, passou a participar de várias concorrências para a prestação de serviços externos, colocando-se lado a lado com os tradicionais laboratórios brasileiros já citados. Logo após a sua primeira prestação de serviço externo, foram estudados no LAHE: A usina de São Gabriel da Cachoeira para a qual, por solici-

de energia elétrica as concessionárias de geração e empresas autorizadas à produção independente de energia elétrica ficaram obrigadas a aplicar, anualmente, o montante de, no mínimo, um por cento de sua receita operacional líquida em pesquisa e desenvolvimento do setor elétrico. O primeiro ciclo de participação de Furnas nesse programa compreendeu os anos de 2000/2001. Com o programa de P&D assim implementado por Furnas, o LAHE passou também a participar dos projetos anuais de pesquisas que utilizassem os estudos hidráulicos em modelo reduzido como ferramenta de trabalho. Desde então, em parceria com universidades e entidades afins, o LAHE vem realizando estudos em pesquisa e desenvolvimento que abrangem, dentre outros temas, as áreas de: Transientes hidráulicos em circuitos de usinas hidroelétricas; Escoamento sobre vertedouros em degraus;

tação do Ministério da Aeronáutica, foi avaliado num modelo bidimensional o comportamento de seu vertedouro de superfície com paramento de jusante em degraus; A usina Cana Brava, da Tractebel. Esses estudos foram reto-

mados para atender ao projeto executivo e fases construtivas da usina. A usina de Monte Claro, da CERAN (Companhia Energética

Rio das Antas), localizada no Rio das Antas, no Rio Grande do Sul, cujos estudos objetivaram o diagnóstico do projeto, a otimização e a caracterização dos vertedouros da usina; As usinas de Capim Branco I e II, ambas da CEMIG, lo-

Padrões de vibração em estruturas hidráulicas por ação de escoamentos; Dimensionamento e otimização de bacias de dissipação através da utilização de modelos numérico e experimental;

calizadas no Rio Araguari, em Minas Gerais. Para a realização desses estudos o LAHE foi contratado pela Intertechne visando o diagnóstico dos arranjos propostos e a otimização das estruturas hidráulicas e A usina de Foz do Rio Claro, localizada a montante da foz

Análise de macroturbulência em estrutura de dissipação de energia; Eclusa de navegação; Previsão de erosões a jusante de vertedouros

do Rio Claro (afluente do Rio Paranaíba pela margem direita), no estado de Goiás. Esse estudo foi desenvolvido para a Alusa Engenharia Ltda e teve por objetivo fornecer informa ções de interesse ao projeto executivo do aproveitamento no sentido de avaliar, otimizar e consolidar o projeto das estruturas hidráulicas do mesmo. Com a implementação da lei 9.991, de 24 de julho de 2000, que dispõe sobre a realização de investimentos em pesquisa e desenvolvimento e em eficiência energética por parte das em presas concessionárias, permissionárias e autorizadas do setor

Os assuntos abordados nas pesquisas que vem sendo desenvolvidas pelo LAHE são aqueles em que o laboratório sente maior necessidade de aprofundamento para o desempenho de suas atividades e os que, por apontarem para tendências futuras, possam permitir o seu desenvolvimento e expansão. Os parceiros tecnológicos foram, inicialmente, aqueles com os quais o LAHE havia desenvolvido trabalhos em conjunto e onde as exigências de cumprimento de cronograma e metas haviam se

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A História das Barragens no Brasil - Séculos XIX, XX e XXI

Figura 9 - Modelo físico utilizado no P&D sobre eclusa de navegação

Nessa mesma época o LAHE havia recebido outro grande desafio: realizar o diagnóstico do projeto de viabilidade da usina hidroelétrica de Jirau, no rio Madeira, projeto esse que Furnas vinha desenvolvendo em parceria com outras empresas do ramo. Para atender a essa solicitação o LAHE precisou, num exíguo espaço de tempo, ampliar as suas instalações adequando-as às necessidades de área, volume d’água e vazão exigidas por um empreendimento do porte das usinas da Região Amazônica. Esses estudos foram concluídos em dezembro de 2006. Posteriormente, a topobatimetria implantada nesse modelo foi aproveitada para o estudo do sistema de interceptação e coleta de troncos que estava sendo estudado em conjunto com os empreendedores das usinas de Jirau e de Santo Antônio, ambas no rio Madeira. Foi também estudado no LAHE o modelo de conjunto da usina de Anta, de concessão de Furnas e integrante do complexo Simplício. Esse modelo foi utilizado para o estudo de desvio do rio, diagnóstico das estruturas e definição do plano de operação das comportas do seu vertedouro. Logo a seguir surgiu outro grande desafio: a construção de um posto avançado de trabalho para o desenvolvimento dos estudos em modelo da usina hidroelétrica de Santo Antônio. Somente o modelo de conjunto da usina hidroelétrica de Santo Antônio, na escala 1:80 por exigência da empresa projetista, compreende uma área útil de 4.000 m². Como, para atender a toda essa demanda, as instalações existentes em Jacarepaguá se mostraram insuficientes, o LAHE viabilizou a utilização de outra área de Furnas localizada ao lado da Subestação de São José, em Belford Roxo. Nesse local, com o apoio dos parceiros de Furnas nesse empreendimento, foi montada uma nova unidade do

revelado satisfatórias. Posteriormente foram feitos contatos com outros centros de pesquisa em função das áreas de estudo a que estes estavam se dedicando e novas parcerias surgiram. A diversidade de parceiros é vista como benéfica, pois cada instituição de pesquisa tem características e excelências próprias que aumentam as perspectivas e os horizontes do LAHE. Em parceria com o IPH (Instituto de Pesquisas Hidráulicas) da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), o IME (Instituto Militar de Engenharia) e a UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), os projetos de P&D desenvolvidos geraram doze teses de mestrado e quatro de doutorado. Após 22 anos de existência, em janeiro de 2005 o LAHE foi transformado num órgão oficial de Furnas. Na qualidade de escritório regional da empresa, incorporou em suas atribuições as atividades da área de recursos hídricos da extinta DEPH.T, divisão a qual pertencia. Nessa ocasião, para atender a demanda de serviços e poder fornecer acomodações adequadas ao seu novo corpo técnico, o LAHE teve a área de suas instalações prediais duplicada.

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LAHE para atendimento exclusivo dos estudos da usina hidroelétrica de Santo Antônio. Em contribuição ao projeto dessa usina já foram realizados em modelo: O diagnóstico e otimização do arranjo geral das estruturas; O levantamento da capacidade de vazão dos seus vertedouros; As simulações das condições de desvio do rio; O diagnóstico e otimização do sistema de transposição de peixes;

O último projeto diagnosticado e otimizado no LAHE foi o da usina hidroelétrica Batalha, concessão de Furnas. Encontra-se hoje em andamento a realização dos estudos hidráulicos em modelo reduzido da usina hidroelétrica de Teles Pires, localizada no Rio Teles Pires.

A trajetória do LAHE, desde a sua criação em 1983 até a presente data, esteve calcada na competência e dedicação dos profissionais que atuam nos diversos setores que o compõem, a saber: estudos, projeto, construção e modelagem, operação, documentação cinefotográfica, instrumentação, pesquisa e desenvolvimento, administração e qualidade. Foi com o traba lho e o comprometimento desses profissionais que o laboratório de Furnas conseguiu, ao longo de sua existência, se colocar no patamar de visibilidade em que se encontra. Todo o seu histórico de serviços realizados, tanto para Furnas quanto para clientes externos, sua iniciativa em pesquisas voltadas ao setor de energia, sua política de valorização de pessoal, sua respon sabilidade técnica e, principalmente, seu compromisso com os princípios éticos na condução de seus trabalhos, consolidaram a imagem do LAHE a nível nacional e o tornou conhecido internacionalmente.

Figura 10 - LAHE – Unidade Belford Roxo

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Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens

O Laboratório CESP de Engenharia Civil - LCEC
Flávio Moreira Salles, Wanderley Ognebene, Luiz Morita
O Laboratório CESP de Engenharia Civil - LCEC, instalado em Ilha Solteira/SP, é o mais antigo laboratório de tecnologia das empresas ligadas ao setor elétrico no país, tendo completado 40 anos de existência em agosto de 2009, e considerado uma referência na prestação de serviços tecnológicos para os empreendimentos da CESP e de terceiros. Reviver a história do Laboratório CESP é passar a limpo o desenvolvimento da tecnologia de construção de barragens no Brasil. É verificar como se deu a transposição da ponte do desenvolvimento - passando da total dependência dos estrangeiros ao domínio da arte de construir hidroelétricas no Brasil e permitir a participação em obras de usinas no exterior. Na seqüência foram construídas usina hidroelétrica Jurumirim no rio Paranapanema e usina hidroelétrica Euclides da Cunha no rio Pardo. A partir da segunda metade dos anos 50 foram tomadas algumas iniciativas governamentais, como a instalação da CIBPU - Comissão Interestadual da Bacia Paraná-Uruguai, para estudar o desenvolvimento sócio-econômico e os aproveitamentos energéticos dessa importante bacia hidrográfica. Por solicitação da CIBPU, a Societá Edison de Milão-Itália desenvolveu estudos para o aproveitamento das quedas de Urubupungá, contemplando a construção de duas barragens: uma em Jupiá e outra em Ilha Solteira. Aprovada a construção, realizadas as investigações geológicas, iniciou-se a construção da usina hidroelétrica Jupiá em 1961, que sem dúvida, constituiu-se num marco na história das grandes hidroelétricas do país, quer pela dimensão do projeto e o desenvolvimento técnico que propiciou, quer pelas dificuldades enfrentadas para sua execução. Ainda vivia-se sob forte dependência tec nológica do exterior. O projeto foi desenvolvido no Brasil, mas modelo hidráulico foi feito na França, os estudos de mecânica das rochas realizados no Laboratório Nacional de Engenharia Civil, de Lisboa, e o concreto e seus constituintes estudados na Universidade de Berkeley, nos Estados Unidos. Os frutos desses investimentos foram colhidos a partir do projeto executivo de Ilha Solteira, a hidroelétrica de maior capacidade de geração da CESP, que foi desenvolvido no Brasil.

O início do laboratório com o IPT
A década de 50 se notabilizou pelas iniciativas empreendedoras, destacadas pelo início dos trabalhos de projeto e construção das grandes barragens no Brasil. Particularmente no Estado de São Paulo, a Usina Hidroelétrica Salto Grande no rio Paranapanema foi a primeira, tendo sido totalmente projetada no exterior. Depois se seguiram as usinas Barra Bonita (1952) no rio Tietê e Limoeiro (1953) no rio Pardo, que tiveram assistência de técnicos estrangeiros, principalmente nas questões de hidráulica e de equipamentos.
Usina hidroelétrica de Porto Primavera (Sérgio Motta)

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A História das Barragens no Brasil - Séculos XIX, XX e XXI

Na ocasião da obra, instalou-se em Jupiá, ainda na CELUSA, um laboratório de hidráulica, com a consultoria francesa da SOGREAH (Société Grenobloise d’Etudes et d’Applications Hydrauliques) onde foram estudados os modelos hidráulicos reduzidos da Usina hidroelétrica Ilha Solteira, e posteriormente das usinas Promissão, Água Vermelha, Capivara, Nova Avanhandava, Porto Primavera,Taquaruçu, Rosana e Três Irmãos. Posteriormente, tal laboratório foi incorporado ao CTH, da USP. Em Jupiá foram instalados laboratórios de concreto e solos, formando o Laboratório de Obras, com a colaboração do Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo - IPT: o Laboratório de Solos, implantado quando as ensecadeiras começaram a ser construídas em Jupiá, era caracterizado como área de apoio do Setor de Terraplenagem da obra, e seu quadro era formado por técnicos especializados do IPT que supervisionavam os empregados da recém formada CELUSA - Centrais Elétricas de Urubupungá S.A., proprietária da obra, orientando-os nos ensaios de controle de qualidade. Eram de sua responsabilidade, compreendendo tanto as atividades de campo como as de laboratório, os serviços de controle de qualidade das barragens de terra e de enrocamento, os filtros, drenos e transições e a proteção de taludes, além das sondagens nas jazidas e áreas de empréstimo da barragem e das estradas da região, executados como serviços de apoio para outros setores do empreendimento. A necessidade de se contar com gente experiente em algumas atividades, trouxe para trabalhar na CELUSA e se incorporar à equipe do Laboratório de Obras o técnico Agostinho Maldonado Guirão, com a missão de adequar os ambientes físicos e os equipamentos e implantar os métodos de ensaios, consolidando a Área de Solos. Papel semelhante cumpriu, à época, o técnico Clarindo Brandão na Área de Concreto. O Laboratório de Concreto se instalou no mesmo ano de 1961, sob a supervisão do engenheiro Fausto Cesar Vaz Guimarães. Destacam-se na época, as relevantes análises de aplicabilidade dos materiaisdisponíveis na região da obra para confecção do concreto.

As seções do laboratório de concreto foram implantadas e incrementadas com suas diferentes modalidades e especialidades, para possibilitar o adequado controle de qualidade dos materiais, da produção dos aglomerantes e dos concretos lançados. Foram desenvolvidos estudos multidisciplinares para determinação do mecanismo de desagregação das rochas basálticas e a sua influência no comportamento do concreto, quando usadas como material de construção. Deve-se ressaltar a participação do ilustre professor Arthur Casagrande, que em muito contribuiu para o sucesso dessas pesquisas com suas opiniões e ensinamentos. Importante contribuição foi oferecida pelo engenheiro Heraldo de Souza Gitahy do IPT, em visitas sistemáticas à obra, por suas obser vações e pesquisas da reatividade potencial do seixo rolado do rio Paraná para a reação álcali-agregado, oferecendo ao Brasil o conhecimento dessa anomalia recém descoberta e as conseqüências para o concreto. A constatação de que a composição mineralógica dos terraços aluvionares da região de Jupiá era constituída em grande parte por minerais deletérios, sujeitos a reações químicas com os álcalis do concreto, intensificou a pesquisa para obtenção do inibidor da reação. Após pesquisa com emprego da pozolana artificial produzida no canteiro de obras, a partir da argila calcinada e moída, comprovou-se os benefícios desse material, impulsionando a tecnologia do uso da pozolana, que adicionada à mistura de concreto provoca a mitigação do processo expansivo da reação. Em 1964, o técnico Adonis Thimóteo dos Santos dedicouse à tradução das normas da ASTM - The American Society for Testing Materials e do US Army Corps of Engineers , para a adaptação e implantação dos métodos de ensaios de tecnologia do concreto no Laboratório de Obras, que foram usados por mais de duas décadas no país, suprindo a necessidade de metodologia referência para os ensaios em concreto no Brasil.

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Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens

Figura 1 - Vista aérea do canteiro de obras de Ilha Solteira, mostrando localização do LCEC

O laboratório da CESP
Em 1969, os laboratórios de Concreto e Solos foram transferidos para o canteiro de obras de Ilha Solteira, constituindo-se formalmente o Laboratório da CESP para fazer frente às experiências tecnológicas que aquele projeto exigia, e se consolidando a partir de então, em local para ensaios de materiais da própia CESP, das congêneres no Brasil e do exterior. O Complexo Urubupungá, integrado por Jupiá e Ilha Solteira, se destacou nesse contexto como um marco brasileiro na construção das grandes barragens. E o Laboratório se notabilizou pelo suporte oferecido àqueles empreendimentos, quer pelas inovações tecnológicas conquistadas, quer pela conduta do experimentar para aplicar, desenvolvendo técnicas construtivas e empregando materiais alternativos, e pela metodologia de ensaios oferecida ao meio técnico nacional. Esse processo se deu com maestria, capitaneado por técnicos dedicados e competentes, aos quais muito se deve por essa jornada desenvolvimentista.

O professor Roy Carlson, da Universidade da Califórnia em Berkeley, se destacou neste período, na transferência da tecnologia do concreto para os engenheiros brasileiros, particularmente do concreto-massa, e teve no Laboratório CESP guarida para seus experimentos e ensinamentos. Menção para o engenheiro José Florentino de Castro Sobrinho, idealista determinado, que naquela época como gerente do laboratório estabeleceu os contornos da independência tecnológica externa e a forma de trabalho do Laboratório idealizado, sustentado pelas viagens de intercâmbio aos Estados Unidos, especificamente na Universidade da Califórnia em Berkeley. É inegável a contribuição oferecida por Ilha Solteira à engenharia nacional, com as inovações tecnológicas e novas técnicas construtivas, o emprego de equipamentos e materiais não convencionais. E a participação do Laboratório CESP foi intensa e fundamental, oferecendo suporte para as decisões e garantindo a qualidade do empreendimento. Na construção de Ilha Solteira foi empregado pela primeira vez no Brasil o concreto refrigerado com gelo em escamas, marco pioneiro da CESP, introduzido pelo seu Laboratório de Concreto.

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teve início um notável programa de ensaios com a moldagem de blocos para verificar o comportamento de concretos confeccionados com diferentes composições de agregados e de aglomerantes. Mecânica das Rochas. com os seus diversos barramentos.Cemitério de blocos de concreto integral. Juquiá. confeccionados com diversos agregados e aglomerantes (desde 1971) Período bastante promissor para o laboratório de ensaios tecnológicos da CESP. Sobradinho. Sapucaí. particularmente da reação álcali-agregado. Geologia Aplicada. para uma no Alto rio Tietê e realizava as investigações no Canal Pereira Barreto. instalava o canteiro para as obras da usina hidroelétrica Nova Avanhandava e concluía os projetos básicos para as três obras do Pontal. Promissão e Paraibuna/Paraitinga. levantamento e liberação das fontes de agregados e controle das resistências dos concretos. Registra-se importante participação do Laboratório CESP. o Laboratório reuniu vinte e quatro colaboradores com formação superior em atividades permanentes nas salas de ensaios e nos canteiros de obras. Tucuruí. Esse trabalho.LCEC. As malhas de linhas de transmissão de responsabilidade da CESP se espalhavam pelo interior do Estado. reconstruía as usinas acidentadas do rio Pardo. Diversos foram os clientes. As subestações se multiplicavam. pela forma e disposição dos espécimes. Segurança e Controle de Barragens e Instrumentos e Modelos Estruturais. construía a usina hidroelétrica Água Vermelha. 468 . Aqueles blocos de concreto foram expostos ao tempo e assim estão até hoje. e o LCEC realizava os trabalhos de controle da compactação das suas áreas de implantação. Figura 2 . Mecânica dos Solos. Alto e Baixo Pardo. com quadros especializados e atividades específicas: Concreto e Materiais. nos trabalhos de investigação e levantamento de campo nos estudos de viabilidade de aproveitamentos hidráulicos no Estado de São Paulo. com avanços para os estados circunvizinhos. desenvolvido pela CESP nos anos 80. pois a Companhia vivia época de franca expansão: terminava as construções das usinas hidroelétricas Capivara.Séculos XIX. destacando-se as obras das barragens: Itaipu. Médio Tietê. Em área de destaque. acompanhamento da produção e qualidade dos maciços e dos concretos. possibilitou mapear o potencial energético remanesceste nas bacias dos rios Turvo. O Laboratório Central de Engenharia Civil – LCEC No ano de 1976. e certificar a eficiência da aplicação de material pozolânico nas misturas para inibir os processos expansivos. a partir de 1971. a Unidade foi denominada Laboratório Central de Engenharia Civil . o conjunto de blocos de concreto é conhecido por “cemitério”. XX e XXI Naquela oportunidade existiam seis áreas distintas.A História das Barragens no Brasil . Ribeira e Alto Mogi-Guaçú. particular mente da equipe de Geotecnia. Couto Magalhães. com atribuições para atender as demandas internas da CESP e com estrutura que possibilitou intensificar a prestação de serviços a projetos externos nacionais e internacionais. e instalando instrumentos ou realizando provas de carga nas estruturas. tendo a participação do Laboratório em testes de arrancamento em bases das torres. realizando pesquisas e análises em materiais. ou liberando escavações e tratamentos geológicos. Sob o comando do engenheiro George Antonio Mellios. Nesse período. Itaparica. possibilitando acompanhar eventual fissuração e sua evolução.

Nova Avanhandava. Dilermando Hermínio Bispo. Assim como foi mencionada a colaboração dos professores Arthur Casagrande e Roy Carlson. Sérgio Silva Macedo. Taquaruçu. O Laboratório CESP de Engenharia Civil realizou investigações e pesquisas em materiais e jazidas. Assim como a construção das Figura 3 . Taylor Castro Oliveira. Bento Carlos Sgarbosa. de concessão do Consórcio CESP . Francisco Rodrigues Andriolo.Ensaio de cisalhamento direto em materiais rochosos 469 .CBA . reconstrução de Limoeiro e Euclides da Cunha.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Começaram suas atividades profissionais no Laboratório CESP e de lá partiram para outras conquistas em novos desafios: Ademar Sonoda. não pode ser omitida a participação do professor Manuel Rocha.Companhia Brasileira de Alumínio teve a participação do Laboratório nas atividades de controle de qualidade. entre outros. Paraibuna. além de Jupiá e Ilha Solteira. As escavações no Canal Pereira Barreto também contaram com os serviços do LCEC. verificações de processos construtivos e testes para controle de qualidade e acompanhamento das obras das hidroelétricas e barragens da CESP: Capivara. em modelo diferente daquele praticado até então nas obras da Companhia. Francelino Fernandes Neto. Miguel Normando Abdalla Saad. Horácio Sverzut Júnior. José Eduardo Costanzo.Ensaios geotécnicos especiais triaxiais sobre amostras indeformadas usinas hidroelétricas Canoas I e Canoas II. Luércio Scandiuzzi. Luiz Carlos Mendes. Porto Primavera e Mogi Guaçu. Três Irmãos. Água Vermelha. João Luiz Armelin. Figura 4 . Adilson Barbi. Rosana. Paraitinga. Promissão. Regis Frota. particularmente na caracterização das propriedades geodinâmicas dos arenitos da escavação do Canal Pereira Barreto.

XX e XXI compatibilizados com o cronograma de obras.Ensaio de módulo de elasticidade de corpo de prova de concreto de grandes dimensões (450 mm x 900 mm) Estruturas para o controle tecnológico Concluídas as usinas Jupiá e Ilha Solteira. reduzindo o índice de homens/hora por tonelada de barras de aço aplicada. Emprego de aglomerante em concreto abaixo do limite de 100 kg/m3. O emprego de armadura pré-montada. O emprego de concreto com agregado pré-colocado. com uso de 84 kg/m3. em alguns pilares da subestação de Ilha Solteira. e a possibilidade de se contar com os serviços de um Laboratório. Benefícios técnicos e vantagens econômicas O desenvolvimento de um eficiente Controle Tecnológico dos materiais e produtos aplicados nas estruturas construídas. praticado nos anos 70.A História das Barragens no Brasil . e controle da qualidade do produto. com a finalidade de melhor explorar toda a potencialidade do cimento. outras obras de hidroelétricas de concessão da CESP se seguiram. devidamente b Usina hidroelétrica Três Irmãos Emprego racional e seletivo de alguns basaltos e recusa de outros. com grandes contribuições aos empreendimentos e à Engenharia Nacional. através da montagem de moinhos de cimento e pozolana em Jupiá. Desenvolvimento de técnicas de produção. Ao seu tempo. os canteiros das obras tinham Laboratório de Campo para o acompanhamento das construções e o LCEC em Ilha Solteira executava os ensaios especiais e não corriqueiros. que tiveram a participação do LCEC. peculiares a cada empreendimento. identificadas 470 . e oferecia metodologia e procedimentos para padronização das atividades em campo. com estruturas específicas e atribuições definidas. acima das recomendações das normas. desenvolvendo pesquisas e avaliando os materiais e os processos executivos empregados nas obras. A utilização de caldas refrigeradas e técnicas de injeção a vácuo em cabos de protensão. Uso de cimento de alta finura. A aplicação de pré-moldados incorporados à barragem. resultou em benefícios técnicos (bons desempenhos e eficiência dos concretos). Figura 5 . a saber: a Usinas hidroelétricas Jupiá e Ilha Solteira A identificação da reatividade potencial álcali-agregado do seixo rolado do rio Paraná e o emprego de material pozolânico para o combate desta reação. Podem ser citados alguns exemplos na CESP.Séculos XIX. pela formação heterogênea e alterabilidade. conseqüentes vantagens econômicas. O controle tecnológico sempre mereceu atenção e destaque.

susceptível ao intemperísmo. minimizando descarte de materiais. A economia resultante dessa seleção foi de aproximadamente US$ 1 milhão. garantindo o produto requerido e evitando-se rejeições. com condição de restrição. Considerações finais A atuação do LCEC acompanhando par e passo a evolução da obra. Taquaruçu. Desenvolvimento de cimento pozolânico com características específicas de finura e teor de adição do material pozolânico. Vantagens que se apresentaram também junto aos fornecedores. d Complexo Canoas Confecção de concretos convencional e bombeado com emprego de areia artificial como agregado miúdo. Porto Primavera e Canoas. avaliando soluções para as mais diferentes situações e controlando os materiais e suas aplicações. após longo período de exposição.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens a partir de estudos conduzidos no Laboratório. .000 m3 e ampliação da pedreira com decape superior a 10 m. Alternativa aprovada pelos ensaios desenvolvidos no Laboratório. Verificação da condição aceitável para manutenção dos perfis de veda-junta e de barras de aço aplicadas nos blocos. atrasos no cronograma e retrabalho. no concreto da barragem. que foi superior se considerados transporte e criação de bota-fora com volume de 160. empregado nos diferentes concretos da obra de Porto Primavera. com economia da ordem de US$ 30 milhões. trouxe benefícios técnicos com vantagens econômicas significativas. c Usina hidroelétrica Porto Primavera Estudo da viabilidade de emprego do basalto de escavação. E também nas construções das hidroelétricas Rosana. computando-se o volume de escavação. resultando cimento Portland CP IV de excelente qualidade. Pesquisa de mercado para definição de cimento a ser aplicado com material potencialmente reativo com os álcalis.

.

Sócios Mantenedores e Coletivos 473 . Diretorias do CBDB Anexo 4 . Congressos Internacionais e Reuniões Anuais e Executivas Anexo 7 . Seminários Nacionais de Grandes Barragens Anexo 5 . Simpósios sobre Pequenas e Médias Centrais Hidroelétricas Anexo 6 .Anexos Anexo 1 . Entrevistas Anexo 2 . Depoimentos Anexo 3 .

na fronteira entre Brasil e Uruguai. então. em 1968 Entrevistador: Flavio Miguez de Mello Abril de 2010 FMM . A necessidade de regulamentar o dispositivo constitucional incorporou varias leis. Como foi a época em que a implantação de usinas hidroelétricas era feita com as verbas de desmobilização? ELB . no Mato Grosso e de Samuel. entre outros. Santa Isabel. com a criação da ANEEL. irrigação. Exerci também a presidência do Comitê de Irrigação do Leste do Uruguai. como foi a sua formação profissional? ELB .A História das Barragens no Brasil . estudo de desenvolvimento integrado desta bacia internacional. também no Rio de Janeiro. tendo sido gerente do Departamento de Estudos e Projetos de Geração onde foram desenvolvidos empreendimentos em bacias hidrográficas e de usinas. FMM . economia. na sua maioria estatais (lei 8631/97). Entre 1980 e 1991 atuei na Eletronorte. meio ambiente.Em 1974 vim trabalhar na Sondotécnica no Rio de Janeiro em estudos. A sequência de tarefas que surgiram depois foi imensa e é difícil escolher a mais interessante. entre outros. XX e XXI Anexo 1 Entrevista com o engenheiro Eduardo Larrosa Bequio Formação: Faculdade de Engenharia da Universidad de la Republica Oriental del Uruguay.Larrosa.Ante à falta de recursos.E quando você veio para o Brasil? ELB . FMM .Art 175. portarias e outros tipos de disposições. FMM . contacto com mais de 50 técnicos nacionais e estrangeiros nas diversas disciplinas de uso de recursos naturais. No final de 1997.Exatamente. no Projeto Lagoa MirimBrasil/Uruguai/FAO/PNUD. surgiram ações implantadas para resolver a situação de falência econômico-financeira das empresas concessionárias. fui chefe do departamento de Estudos de Recursos Naturais da ECP/Projest. Tive. Em 1991 fui convidado para trabalhar no DNAEE. etc. qual foi a mais interessante tarefa que você vivenciou? ELB .Depois dessas experiências em consultoria. 474 . Em paralelo à regulamentação do Art 175.Como consequência da necessidade de reestruturar o setor elétrico diversas disposições legais foram estabelecidas a partir do final da década de 80. do Vale do Paraíba do Sul e dos aproveitamentos hidroelétricos de Manso. Desse arcabouço sobressai-se a Constituição de 1988. Posteriormente fui co-diretor pela contrapartida uruguaia dos estudos dos aproveitamentos hidroelétricos de Salto Centurião e Talavera no rio Jaguarão. Em 1968 cursei uma pós-graduação em hidrologia e hidráulica em Madri. onde fui Coordenador Geral de Concessões. decretos. entre 1978 e 1980. da qual participo da direção até hoje. Posteriormente. hidroeletricidade. em Rondônia. sempre através de licitação.Séculos XIX. sai do setor estatal e fundei a Larrosa & Santos Engenheiros Consultores.Larrosa.Nos anos oitenta havia sérias dificuldades de investimento na quase totalidade das empresas estatais. destacando-se as UHE’s Belo Monte.que estabeleceu que os serviços de energia elétrica são responsabilidade da União e podem ser outorgados em regime de concessão ou permissão. Jirau e Santo Antônio.Na sua trajetória no DNAEE. antes de sua vinda para o Brasil como foi a sua carreira no Uruguai? ELB . entidade esta responsável pelas outorgas de água para irrigação. mas essa vez.Sou engenheiro civil formado em 1968 pela Faculdade de Engenharia da Universidad de la Republica Oriental del Uruguay FMM . ELB . FMM . você veio para Brasília e permanece aqui até hoje. as empresas estatais partiram para a paralisação total de seus estudos e obras ou a manutenção em ritmo lento e ajustes no planejamento setorial GCPS (Grupo Coordenador do Planejamento do Sistema). no período 1966/1973. sem este acerto era impossível pensar em reestruturação do setor elétrico. Lajeado.De inicio trabalhei.

No âmbito do modelo foram definidas as bases para estabelecer entidades como a ANEEL em 1996 (Lei 9427/96). processos estes que poderiam criar dificuldades no atendimento ao mercado. Havia poucas empresas privadas. distribuição e comercialização.Como a legislação viabilizou a figura do produtor independente no aspecto de implantação