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A Historia Das Barragens No Brasil

A Historia Das Barragens No Brasil

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CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

H58 A história das barragens no Brasil, Séculos XIX, XX e XXI : cinquenta anos do Comitê Brasileiro de Barragens / [coordenador, supervisor, Flavio Miguez de Mello ; editor, Corrado Piasentin]. - Rio de Janeiro : CBDB, 2011. 524 p. : il. ; 29 cm Inclui índice ISBN 978-85-62967-04-7

1. Barragens e açudes - Brasil - História. 2. Comitê Brasileiro de Barragens - História. I. Mello, Flavio Miguez de. II. Piasentin, Corrado. III. Comitê Brasileiro de Barragens. III. Título: Cinquenta anos do Comitê Brasileiro de Barragens 11-6197. CDD: 627.80981 CDU: 627.82(81) 22.09.11 029752

20.09.11

Comitê Brasileiro de Barragens - CBDB
DIRETORIA CBDB Presidente: Erton Carvalho Vice-Presidente: Fabio De Gennaro Castro Diretor Secretário: Paulo Coreixas Junior Diretor Técnico: Brasil Pinheiro Machado Diretor de Comunicações: Miguel Augusto Z. Sória Diretor Adjunto: Marcos Luiz Vasconcellos Diretor Adjunto: Ademar Sérgio Fiorini

Agradecimentos
O Comitê Brasileiro de Barragens externa seus agradecimentos às empresas abaixo relacionadas pelo apoio que possibilitou a confecção deste livro que resume o desenrolar de importante segmento da História do Brasil.
Arcadis Tetraplan S/A Banco Bradesco S/A Camargo Corrêa Energia e Construções S/A CEMIG - Companhia Energética de Minas Gerais CESP - Companhia Energética de São Paulo CHESF - Companhia Hidro Elétrica do São Francisco Construtora Norberto Odebrecht S/A Construtora Queiroz Galvão S/A Construtora Andrade Gutierrez S/A COPEL - Companhia Paranaense de Energia DNOCS - Departamento Nacional de Obras Contra as Secas Eletrobras - Centrais Elétricas Brasileiras S/A Eletronorte - Centrais Elétricas do Norte do Brasil S/A Engevix Engenharia S/A Furnas Centrais Elétricas S/A Geobrugg Ag - Protection Systems Grupo Energia Intertechne Consultores S/A. Itaipu Binacional Jeene Juntas Impermeabilizações Ltda. Light S/A Mc Bauchemie Brasil Mendes Júnior Trading e Engenharia S/A Norte Energia S/A Pires Giovanetti Engenharia e Arquitetura Ltda. Sto Antonio Energia

FICHA TÉCNICA Coordenador / Supervisor: Flavio Miguez de Mello Editor: Corrado Piasentin Projeto Gráfico: Modonovo Design - Marina Hochman Diagramação: Modonovo Design - Marina Hochman / Natália Seiblitz Revisão de texto: Margarida Corção Gráfica: Impressul Indústria Gráfica

índice

Prefácio Apresentação Síntese do Desenvolvimento da Implantação das Barragens no Brasil A Comissão Internacional de Grandes Barragens Oitenta e Três Anos de Excelência História do Comitê Brasileiro de Barragens Um Século de Obras contra as Secas As Barragens Construídas pelo DNOCS Resumo da História Remota da Hidroeletricidade no Brasil Usina Hidroelétrica de Marmelos Usina Hidroelétrica de Angiquinho Usina Hidroelétrica de Itapecuruzinho A Light no Rio de Janeiro, a Cidade Luz Sulamericana A São Paulo Light, Fomentadora de Progresso As Barragens do Departamento Nacional de Obras de Saneamento - DNOS A História da CHESF, Indutora do Progresso do Nordeste Furnas no Século XX A Eletronorte e as Barragens da Região Amazônica A História das Barragens no Paraná Companhia Energética de Minas Gerais - CEMIG

9 12 16 48 56 66 76 88
98 112 124

130 142 150 166 188 206 226 250

Energisa Companhia Paulista de Força e Luz .IPH 272 284 292 304 308 346 354 368 396 406 412 414 426 432 436 O Instituto de Pesquisas Tecnológicas do 446 Estado de São Paulo .50 Anos de muito Trabalho Centro de Tecnologia de Furnas em Goiânia O Laboratório de Hidráulica HIDROESB - Saturnino de Brito SA O Instituto de Pesquisas Hidráulicas .2010 As Pequenas Centrais Hidroelétricas no Brasil A Nova Face das Empresas Estatais frente à Expansão da Oferta de Energia Hidroelétrica no País As Barragens de Rejeitos no Brasil: Sua evolução nos últimos anos A Evolução do Licenciamento Ambiental de Barragens no Brasil A Evolução da Legislação Aplicada às Barragens Centros de Pesquisas Tecnológicas Aplicadas a Barragens .Companhia Estadual de Energia Elétrica do Rio Grande do Sul .CPFL Breve Memória sobre a Usina de Itaipu 1966 .CESP Companhia Força e Luz Cataguazes-Leopoldina .Introdução CEHPAR .CEEE Companhia Energética de São Paulo .IPT .

Sócios Coletivos e Mantenedores 454 464 474 477 483 485 488 491 493 506 509 512 514 516 519 520 522 .LAHE O Laboratório CESP de Engenharia Civil .Simpósios sobre Pequenas e Médias Centrais Hidroelétricas Anexo 6 .Diretorias do CBDB Anexo 4 .Depoimentos José Gelazio da Rocha e Antônio Dias Leite Anexo 3 . LCEC Anexos Anexo 1 .Seminários Nacionais de Grandes Barragens Anexo 5 .Entrevistas Eduardo Larrosa Bequio Guy Maria Villela Paschoal Hélio Mendes de Amorim João Camilo Penna José Candido Capistrano de Castro Pessoa Luiz Carlos Queiroz Mario Santos Murillo Dondici Ruiz Olavo Augusto Vieira Anexo 2 .Congressos Internacionais e Reuniões Anuais e Executivas Anexo 7 .Laboratório de Hidráulica Experimental e Recursos Hídricos de Furnas .

A História das Barragens no Brasil .Séculos XIX. XX e XXI .

Os técnicos brasileiros foram influenciados principalmente pelas organizações americanas United States Bureau of Reclamation e US Army Corps of Engineers. apresentamos o livro “A História das Barragens no Brasil . houve um grande desenvolvimento nas áreas de hidrologia e meteorologia. foram criados vários centros de pesquisas. que previa a formação de reservatórios no semi-árido nordestino. Essa política. climatologia. resgatando os principais personagens que contribuíram para o desenvolvimento da nossa engenharia. onde o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS) teve um papel importante com a construção de açudes para irrigação. implementou um plano de desenvolvimento regional embasado em estudos dos recursos naturais.Séculos XIX. teve como uma das principais finalidades a permanência do sertanejo no seu ambiente natural. os quais fazem parte dos pontos importantes abordados nesta publicação. hidrologia. mas também empreendedores do setor privado e pesquisadores. apoiadas em estudos e projetos de alta qualidade. envolvendo não só homens públicos. O aparecimento e o desenvolvimento das empresas construtoras de barragens constituem fatos de grande relevância. A SUDENE. principalmente as de maciços de terra. a partir de 1887. envolvendo mapeamentos pedológicos. 9 . dirigida pelo economista Celso Furtado na década de 1960. No Brasil foram iniciadas as construções de grandes barragens. para suporte tecnológico desses empreendimentos. amenizando os processos migratórios para a Região Sudeste do País. O primeiro trabalho de inventário dos rios da Região Sudeste foi elaborado pela Canambra Engineering Consultants Limited. XX e XXI”. na formação dos nossos engenheiros na área de recursos hídricos e projetos de barragens. quando se iniciou o desenvolvimento do setor elétrico brasileiro. Paralelamente. assim. entre outras ciências que serviram de suporte para projetos de irrigação e construção de barragens.Prefácio Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Em comemoração aos 50 anos de existência do Comitê Brasileiro de Barragens – CBDB – filiado à International Commission on Large Dams (ICOLD). O livro retrata as primeiras barragens construídas no Nordeste. registrar a história das barragens brasileiras. águas de superfície e subterrânea. que colaborou. abastecimento de água das cidades e pequenos núcleos populacionais. Além da contribuição nos métodos construtivos das barragens. As barragens surgiram em decorrência da necessidade de se usufruir dos benefícios do uso múltiplo dos recursos hídricos para a população brasileira. O livro aborda com abrangência o desenvolvimento tecnológico para a construção das barragens brasileiras a partir de 1950. piscicultura. juntamente com algumas empresas brasileiras. Pretendemos. grupo de grande competência.

não só para a geração de energia elétrica. selecionadas por região. São Paulo (CESP). uma significativa documentação sobre o Departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS) extinto no inicio da década de 1990. CHESF. ELETRONORTE e ELETROSUL. também. Erton Carvalho Presidente do CBDB 10 . irrigação e geração de energia elétrica. a maior hidroelétrica brasileira. visando. dotada de eclusas para a navegação do rio Tocantins. XX e XXI Este livro registra as primeiras hidroelétricas construídas no país. que faz parte do programa de trabalho do CBDB. este livro é dirigido a um público abrangente. Rio Grande do Sul (CEEE) e Paraná (COPEL). sendo também responsável pelas obras de controle de cheias em todo país. o leitor interessado na história contemporânea do desenvolvimento brasileiro. pertencente ao Brasil e ao Paraguai. é também citada nesta publicação. bem como as dos estados de Minas Gerais (CEMIG). A usina de Itaipu Binacional. sem a exigência de que ele seja possuidor de conhecimentos técnicos sobre o tema. no que se refere à construção das barragens e seus impactos. Finalmente. Destaca-se na Região Amazônica o relato do projeto e construção da usina de Tucuruí. principalmente.Séculos XIX. realçando a importância da Região Amazônica como continuidade do uso dos nossos recursos hídricos. incluindo os empreendimentos realizados e as respectivas estratégias de desenvolvimento. A legislação sobre a segurança das barragens. o qual realizou vários trabalhos apreciáveis nas áreas de abastecimento de água. A preocupação do CBDB em defesa do desenvolvimento sustentável do País está comentada nos tópicos sobre a evolução do licenciamento ambiental para os empreendimentos hidráulicos. As empresas subsidiárias da ELETROBRAS: FURNAS. está retratada com a sua história e importância. como também para a integração dos dois países. Apresenta.A História das Barragens no Brasil . aparecem documentadas com a história de suas formações.

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Reservatório de Tucuruí .

a ministra Miriam Belchior. tive que selecionar alguns voluntários que gentilmente aceitaram a tarefa e desempenharam a função de redatores com maestria e objetividade. O Brasil está desperdiçando importantes potenciais hídricos ao limitar. Como voluntários não apareceram. Ao iniciar a tarefa me deparei com grandes dificuldades provenientes das importantes perdas para a Profissão de inúmeros expoentes da engenharia nesses pouco mais de dez anos que separam as publicações das outras associações da edição do livro do CBDB. Essas perdas de quase uma geração inteira de notáveis pioneiros dos tempos das mais importantes conquistas tecnológicas e da fase pioneira da implantação de grandes barragens para as mais diversas finalidades bem como da época das grandes dificuldades para identificação. relatórios. de questionável segurança e de menor economicidade.. comprometeu o planejamento energético. em 1998. cabendo a mim a tarefa de produzir o livro e publicá-lo no aniversário de cinquenta anos do CBDB. Essa distorção já contaminou a legislação ambiental brasileira e. os demais serão convencidos Flavio Miguez de Mello de que está sendo feito todo o esforço.CINQUENTA ANOS DO COMITÊ BRASILEIRO DE BARRAGENS Apresentação “Águas são muitas. planejamento. em empreendimentos para qualquer das diversas finalidades de barragens dadas às vigentes dificuldades de aprovação. E em tal maneira é grandiosa que.” No mesmo sentido. do Planejamento alertou (2011): “Acreditamos que será possível. dar-se-á nela tudo. para que a implantação de Belo Monte seja um sucesso de sustentabilidade social e ambiental. presidente da FIESP ao analisar as tendências atuais (2011) do setor elétrico: “O Brasil assiste a desqualificação de suas fontes de energia mais competitivas e abundantemente disponíveis. fizeram com que a tarefa se tornasse árdua em função da busca de documentos.” Pero Vaz de Caminha. querendo. e como o assunto a ser abordado no livro é demasiadamente extenso no tempo. A proposição foi aceita com entusiasmo.. e no espaço. por abranger o vasto território nacional. por bem das águas que tem. cabe realçar as palavras de Paulo Skaff. o livro acabou apresentando uma certa concentração de capítulos em um autor. estatais e privados. Este livro é lançado em difícil momento para os investidores. superando um século. Belo Monte ser um exemplo de implantação de usina hidroelétrica na Região Amazônica . mesmo assim. emocionalmente. a aproveitar. A propósito. 1500. a Diretoria do CBDB emitiu uma circular a todos os sócios comunicando a intenção de publicar este livro e incentivou os associados a se apresentarem como voluntários na preparação dos diversos capítulos que haviam sido programados. infinitas. envolvendo todos os atores. Com a proximidade do cinquentenário do Comitê Brasileiro de Barragens CBDB surgiu. de fato. Entretanto.” No início dos trabalhos. em reunião do Conselho Deliberativo. em outubro de 2011. a proposta do engenheiro Manuel de Almeida Martins de que se editasse um livro comemorativo versando sobre a história da engenharia de barragens no Brasil.. construção e operação de barragens e reservatórios. o dimensionamento dos reservatórios das barragens. como são muitos os aspectos enfocados. exceto os que tenham uma posição ideológica e não técnica (sobre meio ambiente). projeto. licenciamento e distorções legais que propiciam priorização soluções mais poluentes.. Outras entidades publicaram livros de escopo semelhante: a ABMS publicou Cinquenta Anos de Geotecnia em 2000 e a ABGE publicou a Edição Comemorativa dos Trinta Anos. mais recentemente. foto- 13 .

Arthur Crocchi. para visitar pela primeira vez o local da hidroelétrica de Salto Grande em Minas Gerais. Francisco de Assis Basílio. E. de Mello. Carlos Alberto Pádua Amarante. Léo A.Séculos XIX. John R. Usina hidroelétrica Serra do Facão 14 . mas de elevado interesse no relato de experiências profissionais tais como Mário Penna Bhering.B. Von Ranke. Por sorte tive o privilégio de conviver profissionalmente com alguns dos mais destacados atores daquele período e que já nos abandonaram. Com vários outros atores do passado tive contatos menos extensos. por exemplo. Epaminondas Mello do Amaral Filho. Estive com alguns desses atores com frequência em certas longas fases do exercício profissional tais como os engenheiros Flavio H. o engenheiro John Cotrim gastou duas semanas a cavalo. Cotrim. Theophilo Benedicto Ottoni Netto. César Cals de Oliveira Filho e consultores como Manuel Rocha e Porland Port Fox. Os que atualmente atuam em implantação de barragens podem não imaginar que. Antônio José da Costa Nunes. Lyra.A História das Barragens no Brasil . Penna. Victor F. XX e XXI grafias e depoimentos que formassem as bases para o relato de uma história de mais de um século de conquistas que merecem registro. José Machado e José Cândido Castro Parente Pessoa com os quais tive oportunidades de angariar valiosos depoimentos sobre aspectos de vivências profissionais passadas.

Alguns relatos apresentados em capítulos deste livro foram obtidos diretamente desses contatos dos que nos precederam na Profissão. se consideradas as barragens de rejeitos. Henrique Frade. Esses contatos. Procurei congregar neste livro narrativas sucintas. das quatro filhas que passaram mais de um ano sem minha participação em atividades de fins de semana. Sérgio Pimenta. para controle de cheias e. a revisora de texto Margarida Corção e o conselheiro Aurélio Alves de Vasconcelos. Presentemente. ultrapassa-se a casa das duas mil grandes barragens. John Denys Cadman. Ricardo Ivan Bicudo. Margaret Rose Mendes Fernandes. Agradeço também aos dirigentes e funcionários do CBDB. Hilton Ahiran da Silveira. só considerando as grandes barragens. Carlos Henrique Medeiros. devo certamente ser o mais antigo por ter sido chamado muito jovem a apoiar as atividades em sua sede. Rosana Libânio. dos quais guardo recordações as mais preciosas. Teresa Malveira. informações de elevado conteúdo histórico. Provavelmente foram esses fatores que levaram o Conselho do CBDB a me indicar como responsável pela edição desse livro. Alberto Sayão. além de oposições dos auto-proclamados ambientalistas nacionais e estrangeiros. construída ainda no Século XIX por Bernardo Mascarenhas. foram em parte devidos à minha atuação profissional na engenharia. o editor Corrado Piasentin. Gualter Pupo. Heloisa Ottoni. Cabe ainda agradecer os importantes apoios recebidos de diversos profissionais entre eles Alberto Jorge C. embora não seja o mais velho. O livro foi enriquecido com textos. José João Rocha Afonso. 15 . de obtenção de materiais e de aquisição de equipamentos. O presente livro é resultado do apoio e do incentivo de muitas pessoas entre as quais cabe destacar especialmente a constante compreensão e apoio de minha esposa. Não foi possível mencionar todos os atores e relatar todas as inúmeras atividades de implantação de barragens que ocorreram por mais de um século nesse tão vasto território nacional. pai do atual presidente do CBDB. Vânia Rosa Costa. Sandra Pereira. de aprovação. João Paulo Maranhão Aguiar. Sobre esse aspecto há um capítulo resumindo as primeiras hidroelétricas nas diversas regiões do País. Gisele Miranda Gomes Reis. T.. implantar barragens e hidroelétricas em até menos de um ano. Ana Teresa Ponte. O relato mais detalhado dessas barragens pioneiras retrata a imagem das imensas dificuldades logísticas de acesso. Mair Melo Andrade. Dessa forma há uma ênfase nas primeiras barragens para saneamento. Talvani Hipólito Nolasco Filho. Leila Lobo de Mendonça. Cavalcanti. Viviani Siqueira Vecchi e Walton Pacelli de Andrade. José Gelazio da Rocha. Flavio Pilz. José Carlos de Miranda Reis Neto. Fernando Pires de Camargo. prazos presentemente ina- creditáveis dadas as atuais delongas e dificuldades legais. com destaque para as primeiras usinas hidráulicas para fornecimento público de energia elétrica: Marmelos no Sul-Sudeste. Simone Idalgo Machado. algumas das quais relato neste livro. é de se notar que há. André Luiz Fabiani. porém objetivas. Carlos Mazzaro. implementada na Região Amazônica por Newton Carvalho. de todas as principais atividades que resultaram na implantação de tantas barragens que trouxeram progresso e bem estar ao nosso povo desde o Século XIX. Com uma longa história tão rica a ser resumida num espaço tão curto.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Desses contatos pude extrair há anos. Paulo Coreixas Jr. Og Pozzoli. Julia Ferrer Leal de Araujo. principalmente. Gustavo Nasser Moreira. Considerando que a história recente é mais conhecida por aqueles que acessarem esse livro. para combate às trágicas consequências ocasionadas pelas secas e para produção de energia elétrica. presentes e atuantes desde a primeira hora. Angiquinho implantada no Nordeste por Delmiro Gouveia e Itapecuruzinho. engenheiro Erton Carvalho. de concessão e de licenciamento ambiental. entrevistas e informações de alguns dos mais destacados profissionais que atuam na engenharia de barragens em nosso País. Cleber José de Carvalho. em quase todos os capítulos. no Brasil há bem mais de mil dessas estruturas em operação e. Jerson Kelman. Delphim Mazon Fernandes. uma ênfase maior na história remota. de mais difícil caracterização. Nicole Schauner. à minha atuação na Universidade e às minhas atividades no CBDB e em outras entidades técnicas. nas mais adversas condições. Agradecimentos são devidos aos autores dos capítulos e aos entrevistados que contribuíram decisivamente para a viabilização do livro. os que nos precederam conseguiram. No CBDB. o livro inevitavelmente contém omissões pelas quais desde já peço desculpas. Mesmo assim.

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a geologia. com exceção dos rios São Francisco (que é proveniente do Sudeste) e Parnaíba. formado por dois grandes rios. como o substrato cristalino é pouco permeável. O ambiente varia das planícies alagadas da Amazônia Equatorial e do Pantanal ao Planalto Central. apresentando descarga específica média de 35 l/s. o mais caudaloso e mais longo rio do mundo. denominada Polígono das Secas.  Síntese do Desenvolvimento da Implantação das Barragens no Brasil Flavio Miguez de Mello O País e seus recursos hídricos O Brasil é um território contínuo de forma quase quadrada. podendo apresentar descargas específicas médias tão baixas quanto 3 l/s. O País abriga a quinta maior população do mundo. da cadeia de montanhas próximas à costa no Sudeste até as planícies do Sul e do Meio Oeste.” “Acreditamos que os resultados do estudo auxiliarão nos anos vindouros o desenvolvimento da indústria de geração do Centro-Sul do Brasil sobre uma base sólida” John K. o Solimões que drena os Andes peruanos e bolivianos e o Negro. Quase todos os rios do Nordeste. a quantidade e frequência de precipitações. o clima.km². há diferentes aspectos naturais tais como. pode ser responsável pelo consumo de até 92% das precipitações. por exemplo. A parte central da Região Amazônica é cortada de oeste para leste pelo rio Amazonas. A pequena espessura da cobertura de solo faz com que haja dificuldade em reter a umidade e. a precipitação média anual pode ser de 400 mm ou menos. compreendendo 8. Como o País é de tão grande superfície. com uma extensa costa banhada pelo Oceano Atlântico ao longo de 8.000 m³/s. juntamente com evapotranspiração.km². variando de áreas úmidas ao vasto semi-árido do interior do Nordeste. a incidência solar supera as 3000 horas por ano. Os mais importantes tributários desses rios e os rios da bacia do rio Tocantins que flui de sul para norte. engenheiro chefe da Canambra. com uma descarga média superior a 200.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens “We trust that the results of the study will help the power industry of South Central Brazil to develop on a sound basis in the years that lie ahead. A leste desta região encontra-se a região semi-árida do nordeste brasileiro cujos rios são em geral intermitentes. Barragem de finalidades múltiplas de Pedra do Cavalo no rio Paraguaçu na Bahia 17 . os recursos hídricos.500 km. o relevo e a vegetação. só é possível acumular águas subterrâneas em regiões de rochas com fraturas profundas. têm regime intermitente em pelo menos parte de seus cursos.5x106 km². desde 4° de latitude norte a 33º de latitude sul e de 40 º a 75º de longitude oeste. Sexton. Esse grande território tem uma longa fronteira com todos os países da América do Sul à exceção do Equador e do Chile. A maior parte dos seus 190 milhões de habitantes vive na Região Sudeste onde as maiores cidades estão localizadas. constituem-se nos grandes recursos hídricos do norte do Brasil. Nessa área a evaporação média pode atingir 2000 mm/ano e. 1966. Nessa área. a maior parte do qual se situa no hemisfério sul. sendo geralmente esta água insuficiente e de baixa qualidade.

A História das Barragens no Brasil . A mais antiga barragem que se tem registro no Brasil 18 . As secas no Nordeste e o desenvolvimento do País foram os fatores determinantes para a implantação do grande número de barragens construídas desde a última década do século XIX. tendo colapsado em vários pontos. O dique tinha três metros de altura e cerca de 2 km de extensão. por Harman Agenau por 6000 florins para acesso a um forte também na atual região urbana do Recife.km². XX e XXI Nesses rios intermitentes. PE. aparece em um mapa holandês de 1577. um braço do rio Capiberibe. Há referências também ao dique Afogados construído no rio Afogados.Barragem de Apipucos na cidade do Recife. Um olhar para o passado remoto A mais antiga barragem que se tem notícia em território brasileiro foi construída onde hoje é área urbana do Recife. Figuras 1a e 1b .Séculos XIX. variando entre a oitava e a décima maior economia do mundo. muitas vezes sem requerer estruturas de desvio e ensecadeiras. Nos últimos 40 anos o País tem participado intensamente da economia internacional. no caso de barragens não muito altas. possivelmente no final do Século XVI. Conhecida presentemente como açude Apipucos. tendo sido concluído em dezembro de 1644. o tratamento de fundação pode ser feito na primeira estação seca durante a construção e a barragem construída durante a estação seca seguinte. Apipucos na língua tupi significa onde os caminhos se encontram. antes mesmo da invasão holandesa. em 1650 sofreu transbordamento por ocasião de uma grande cheia. No resto do País as descargas específicas variam de 12 l/s. A barragem original foi alargada e reforçada para permitir a construção de uma importante via de acesso ao centro do Recife.km² a 30 l/s.

nomeou uma comissão para recomendar uma solução para o problema das secas no Nordeste. Na primeira década do século XX uma membrana de alvenaria ou de concreto era usualmente usada como elemento impermeabilizante interno de barragens de terra. tendo sido palco de migrações em massa de flagelados. A pequena altura das barragens e a rocha sã nos leitos dos rios minimizavam a necessidade de tratamento de fundação. conduziu à adoção de vertedouros de superfície simplesmente escavados em rocha sã. Castanhão cuja finalidade principal foi o abastecimento de água da cidade de Fortaleza. estações de bombeamento e casas de força para 19 . uma das áreas mais atingidas. diques. tem no seu trecho inferior uma descarga média de longo termo de cerca de 2000 m³/s. A rocha sã em geral encontrada nas ombreiras. Figura 3 – Barragem de Castanhão para abastecimento de água à cidade de Fortaleza.CINQUENTA ANOS DO COMITÊ BRASILEIRO DE BARRAGENS As obras contra as secas O ano de 1877 foi o início da maior tragédia nacional devido a fenômeno natural: A Grande Seca no Nordeste com duração superior a três anos deixou cicatrizes que até hoje são nítidas. No final do Século XX o DNOCS executou sua última barragem. Somente a partir de meados dos anos oitenta do século passado passou-se a saber que as secas são devidas ao fenômeno conhecido por El Niño no Pacífico Sul.Barragem de Cedros. O estado do Ceará. Serão construídas diversas barragens. canais. perdeu mais de um terço da sua população de maneira trágica. Figura 2 .5 milhão de habitantes. logo após a Grande Seca. Pedro II que esteve na área atingida. A primeira dessas barragens foi Cedros. Esse grande rio que nasce na Região Sudeste em Minas Gerais. na época com 1. No seu estágio final a derivação será de 3. Em 1880. situada no Ceará e concluída em 1906. em vários projetos. Muitos anos antes. Os anos 50 e 60 do século passado foram os anos dourados na construção de barragens para combate às secas.2% desta descarga para as regiões de seca. As principais recomendações foram a construção de estradas para que a população pudesse atingir o litoral e a construção de barragens para suprimento de água e irrigação no Polígono das Secas cuja área é superior a 950. CE Recentemente foi lançado o projeto de derivação de parte das descargas do rio São Francisco para o Polígono das Secas.000 km². Isso marcou o início do planejamento e projeto de grandes barragens no Brasil. o Imperador D. outro intenso El Niño foi responsável pela retirada dos invasores holandeses de onde é hoje a costa do Ceará. uma das duas mais antigas grandes barragens do Brasil (1906) Centenas de barragens foram construídas desde a Grande Seca no Nordeste.

Assim. Em 1954 a antiga usina foi substituída por unidades de recalque e a barragem alteada para 18. o vertedouro foi redimensionado com considerável acréscimo de capacidade. A maioria das grandes barragens do Brasil (pela classificação da CIGB) encontra-se na Região Nordeste. a maior parte delas em aterro compactado. Em 1934 o decreto federal nº 24643 conhecido como Código de Águas e o cancelamento da cláusula ouro que protegia as empresas concessionárias dos efeitos da desvalorização da moeda nacional. Para esses empreendimentos consultores individuais prestaram importante apoio tais como Karl Terzaghi. não muito altas. concessionária da mais desenvolvida região do País. passou a haver insuficiência de oferta de energia nas décadas seguintes. No final do século passado. devido à desastrosa e desastrada política de restrição tarifária iniciada pelo Código de Águas que incluiu o não reconhecimento de remuneração de capital empregado em obras de geração. No final do Século XIX começaram a ser implantadas pequenas usinas para suprimento de cargas modestas e localizadas. tinha 2 MW instalados. passaram a desencorajar diretamente os investidores do setor elétrico.000 MW. Inicialmente denominada Parnaíba e depois Edgard de Souza. Até os anos cinquenta todas as empresas de energia elétrica eram privadas e as suas usinas eram situadas principalmente nas regiões Sul e Sudeste. As primeiras grandes barragens do País foram Cedros acima mencionada e Lajes. em função das intensas alterações nos coeficientes hidráulicos de sua área de drenagem devido à ur banização da cidade de São Paulo e das cidades vizinhas. A primeira usina da Light entrou em operação em 1901. Durante as estações chuvosas na bacia do rio São Francisco poderão ser bombeadas até 127 m³/s . construiu diversas barragens e grandes casas de forças subterrâneas no Rio de Janeiro e em São Paulo. XX e XXI geração de energia. Arthur Casagrande e Portland Port Fox. Logo após a II Guerra Mundial. sem serem muito altas. a Light. Desde o início dos anos cinquenta as concessionárias estatais passaram a se concentrar em empreendimentos de grandes vultos. que entrou em operação em 1906 no estado do Rio de Janeiro com o objetivo de derivar as águas do ribeirão das Lajes para da usina de Fontes no Rio de Janeiro. transmissão e distribuição de energia elétrica. a capacidade instalada no território nacional era de apenas 5. a usina. todas com barragens de dimensões discretas. o setor elétrico foi aos poucos sendo estatizado.5 m³/s do rio São Francisco.700 MW provinham de hidroelétricas. Devido à contenção tarifária e à fragilidade do capital nacional. construção e operação de barragens são principalmente devidas à implantação de hidroelétricas. sua barragem original com 12. era de alvenaria de pedra constituída por grandes blocos de rocha gnáissica solidarizados com argamassa. Serão bombeados 63. para suprimento de energia elétrica à cidade de São Paulo. Por esse motivo as mais importantes contribuições no sentido de desenvolvimento de tecnologias de projeto.5 m através de reforços em contrafortes e com vertedouro com três comportas de segmento de capacidade conjunta de 800 m³/s. A maior parte das barragens eram estruturas de concreto gravidade ou de alvenaria de pedra. tendo sido causado intenso estrangulamento na expansão de oferta de energia elétrica. dessas unidades estão sendo agora reabilitadas e repotenciadas. As primeiras barragens para produção de energia elétrica Nas regiões Sul e Sudeste a implantação de barragens foi principalmente direcionada para produção de energia elétrica. Os danos ao progresso da Nação foram intensos e irrecuperáveis.A História das Barragens no Brasil . sendo.Séculos XIX. Esse estrangulamento fez com que o governo federal e alguns governos estaduais criassem empresas de energia elétrica. em grande parte de sua extensão.5 m de altura. quando inaugurada. Presentemente (2011) há 1206 MW instalados em hidroelétricas de mais de 50 anos de idade. Muitas 20 . na época uma das maiores do mundo. dos quais 3. um vertedouro de soleira livre. no rio Tietê. Em 1960.

dada a escassez de mapeamento e as dificuldades logísticas. passaram a ser designados por estudos de inventário.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A evolução do conhecimento dos recursos hidroenergéticos. tendo inclusive atingido as Sete Quedas. os recursos hídricos em território brasileiro eram pouco conhecidos e não tinha havido ainda estudos sistemáticos que posteriormente. Nessa expedição foi identificado o local de Furnas 21 . uma das duas grandes barragens mais antigas do Brasil (1906) suprimento de energia elétrica às mais importantes regiões no Rio de Janeiro e em São Paulo. O legado da Canambra Na primeira metade do século passado. organizou uma expedição pelo rio Grande entre dois potenciais conhecidos: os locais das usinas de Itutinga e de Peixoto. muito mais próximos. John Cotrim. Nessa época. A Light. efetuava estudos dispersos. a partir dos anos sessenta. diretor técnico da Cemig. sem o conhecimento dos potenciais do rio Grande e do rio Paranaíba. responsável pelo Figura 4 – Barragem e reservatório de Lajes.

em dezembro de 1966.000 MW. Cemig assinou. havendo a contrapartida em moeda nacional no equivalente a US$ 3. Com a sugestão do Banco Mundial que atuou nesse inventário como agente executivo do UNDP. e a americana Gibbs & Hill Inc. a John Cotrim.000 km de rios.000 km². Progressivamente as condicionantes ambientais foram ganhando espaço nas definições de projetos em inventários. empresas nacionais realizaram estudos de inventário hidroenergéticos nas regiões Norte e Nordeste. Crippen & Associates Ltd. tendo direcionado o desenvolvimento hidroenergético da região. A partir de poucos anos Figura 5 – Grupo de Minas Gerais da Canambra trabalhando no escritório central da Cemig 22 . Inicialmente conhecido como ONU-Cemig. usando 3. a Canambra foi contratada para efetuar estudo de mesmo escopo para a Região Sul. em 3 de junho do ano seguinte. Sexton. em 2 de novembro de 1962. São Paulo. um consórcio entre as empresas consultoras canadenses. um contrato com a Canambra Engineering Consultants. XX e XXI que posteriormente deu origem à empresa de mesmo nome. e G. Os dois primeiros grupos acima mencionados desenvolveram o inventário dos recursos hidroenergéticos em relatórios independentes e o grupo sediado no Rio de Janeiro usou os resultados obtidos adicionados a investigações de outras possíveis fontes geradoras.E. inclusive termoelétricas a carvão. nos anos setenta. Como reflexo desse levantamento veio o objetivo da Cemig de efetuar um levantamento dos recursos hidroenergéticos de Minas Gerais.700 horas de voos de reconhecimento. Ao abrigo desse recurso financeiro. Os estudos de inventário constituíram-se em atividade sem precedente. os estudos passaram a ser conhecidos como Canambra. os estudos foram estendidos à toda a Região Sudeste através de um contrato assinado entre a Canambra e Furnas. chefe do Comitê de Direção dos Estudos. a maioria esmagadora dos estudos realizados pela Canambra foi posteriormente aprofundada nas etapas sucessivas de projeto dentro das diretrizes inicialmente estabelecidas. um em São Paulo e um no Rio de Janeiro. um em Belo Horizonte. Posteriormente.7 milhões. Com esse propósito. o que demandou aerofotografias de uma área de 516. diretor da Canambra. Para tanto. A Cemig solicitou apoio financeiro ao Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (UNDP sigla em inglês). A partir dos anos oitenta os estudos anteriores começaram a ser revisados e densificados em quase todo o território nacional. a óleo e usinas nucleares.A História das Barragens no Brasil .K. Rio de Janeiro e Guanabara assinaram em 1 de março de 1963 o Plano de Operação. O relatório final foi entregue por J. o UNDP disponibilizou recursos da ordem de US$ 2. Nas fases posteriores de implantação das usinas.8 milhões. o governo federal se interessou vivamente pela iniciativa da Cemig e. de estender os estudos à toda Região Sudeste considerando a importância desses estudos para a otimização dos investimentos em geração de energia elétrica e como todos os rios que nascem em Minas Gerais atravessam outros estados. Um exemplo típico foi a revisão do inventário do rio Paraibuna em Minas Gerais que havia sido feito nos anos oitenta. Considerando o sucesso dos estudos desenvolvidos na Região Sudeste.Séculos XIX.. A descoberta desse potencial causou espanto no meio técnico da época. Montreal Engineering Company Ltd. Três grupos foram formados. o ministro Gabriel Passos das Minas e Energia e os governadores dos estados de Minas Gerais. A área total investigada foi de 1. para formatar o programa final de desenvolvimento energético da Região Sudeste.1 milhão de quilômetros quadrados cobrindo 28. para que fosse realizado o inventário dos recursos hidroenergéticos em Minas Gerais. Foram identificados como viáveis potenciais que somados atingiram 40. englobando 510 locais de barragem dos quais 264 foram levantados com melhor precisão.

quase sempre objetivos antagônicos. são liberados para a canoagem pela barragem de derivação a descarga de 50 m³/s. garantindo melhores condições do que as condições naturais. mostrando as dificuldades logísticas durante os levantamentos de campo efetuados pela Canambra após seu término. feriados e noites de lua cheia. Apesar de pequena perda energética em relação à partição de queda proposta nos anos oitenta. 7a 7b Figura 7a . foram progressivamente alterados para reservatórios de menores dimensões. atolados na beira do rio.PCH Santa Fé no rio Paraibuna. Rio de Janeiro e Minas Gerais Figura 7b . os empreendimentos passaram a ser econômica e ambientalmente viáveis.John Cadman fotografado por John Cabrera. Rio de Janeiro e Minas Gerais 7c Figura 7d – Rafting no rio Paraibuna sobre a soleira vertedora da barragem de derivação de Santa Fé 7d 23 . Bonfante e Santa Fé com pequenas áreas inundadas. Foram definidos os aproveitamentos de Picada.PCH Bonfante no rio Paraibuna.PCH Monte Serrat no rio Paraibuna.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 6 . Na usina que fica mais a jusante foi possível a compatibilização inédita do aproveitamento energético com a canoagem. maior número de usinas com quedas mais modestas e pequenos trechos inaproveitados. Rio de Janeiro e Minas Gerais Figura 7c . os projetos que pelas exageradas dimensões de seus reservatórios inundariam centros urbanos e grandes extensões de obras de infraestrutura viária. ideal para a prática da canoagem. Sobragy. Monte Serrat. Cabuy. tendo sido implantados a partir do início dos anos noventa. Durante os dias de fim de semana.

com 30 MW cada. foram concluídas em 2011 e tiveram seus reservatórios condicionados pela infraestrutura viária do local. em sua maioria esquemas de baixa queda para torná-los ambientalmente viáveis. a ANEEL contratou a Es cola Politécnica da UFRJ em 2000 para reestudar toda a bacia do rio Paraíba do Sul com atenção especial aos impactos ambientais. Essas PCHs.PCH Lavrinhas antes e depois do enchimento do reservatório. construídas no rio Paraíba do Sul a montante do reservatório do Funil. assim denominadas por terem todos os equipamentos idênticos. Em primeiro plano a ferrovia de concessão da MRS e ao fundo a rodovia Presidente Dutra BR-116 24 . Em primeiro plano a ferrovia de concessão da MRS e ao fundo a ponte da rodovia Presidente Dutra BR-116 Figuras 9a e 9b . a menos das usinas existentes ou aprovadas entre as quais o complexo de Simplício. Figuras 8a e 8b – PCH Queluz antes e depois do enchimento do reservatório. XX e XXI Influenciada por essas alterações.A História das Barragens no Brasil . Dentre os aproveitamentos de baixa queda destacam-se as PCHs gêmeas Queluz e Lavrinhas.Séculos XIX. Dessa revisão dos inventários existentes resultou o projeto de mais de cinquenta novos aproveitamentos.

Figura 10 – Local da usina hidroelétrica de Furnas no início de sua construção. Benedito Dutra e outros. John R. Juscelino Kubitschek de Oliveira. A partir da esquerda Flavio H. devido ao estabelecimento do critério da verdade tarifária introduzido no início do governo Castelo Branco por Bulhões de Carvalho e Roberto Campos.Lyra. continuou. Todos olhando para o fotografo a menos de Flavio H. Cotrim. resultando no que mostra a tabela a seguir. 25 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Alterações nos critérios tarifários e a consequente ampliação de implantação de hidroelétricas Nos anos sessenta e setenta. um impressionante número de grandes hidroelétricas foram construídas e entraram em operação. mas grandes empreendimentos. Lyra preocupado com a concepção do projeto Nos anos oitenta e noventa um menor número de hidroelétricas entraram em operação devido à carência de recursos financeiros das estatais causada principalmente pelos impactos na economia nacional devidos aos dois choques do petróleo e a crescente inflação. a concentração de investimentos em poucos. Entretanto. algumas das quais entre as maiores do mundo na época.

082 SE/CO 1.000 3.420 1.396 1.444 2.551 SE/CO 1.462 1.479 NE 1.050 NE 1.A História das Barragens no Brasil .Séculos XIX.162 NE 2.450 S 1.240 S SE S Marimbondo 1.676 1. XX e XXI TABELA 1 Maiores Hidroelétricas em Operação em 2011 Hidroelétrica Tucuruí Itaipu (Brasil) Ilha Solteira Xingó Paulo Afonso IV Itumbiara São Simão Foz do Areia Jupiá Porto Primavera Itá Itaparica Salto Santiago Água Vermelha Segredo Salto Caxias Furnas Emborcação Salto Osório Sobradinho Estreito Potência (MW) 8.710 1.078 S 1.192 SE/CO 1.370 N 7.216 SE 1.540 S SE/CO NE SE/CO S SE/CO TE/CG TE/CG BEFC TE/CG TE/CG TE/CG BEFC TE/ER/CG TE/CG BEFC TE/CG TE/CG ER TE/CG BEFC CCR ER ER ER TE/CG ER Figura 12 – Usina hidroelétrica de Salto Santiago no rio Iguaçu Figura 11 – Casa de força e vertedouro da usina hidroelétrica de Tucuruí GA/CG/CT/ER/TE Região Tipo de Barragem 3.050 SE Legenda: N S SE NE CO TE ER BEFC CG CCR GA CF Região Norte Região Sul Região Sudeste Região Nordeste Região Centroeste barragem de terra barragem de enrocamento com núcleo de terra barragem de enrocamento com face de concreto barragem de concreto gravidade barragem de concreto compactado com rolo barragem de concreto em gravidade aliviada barragem de concreto em contrafortes Figura 13 – Usina hidroelétrica de Itá em final de construção 26 .440 SE 1.260 S 1.

Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Extensos reservatórios foram criados para algumas dessas grandes hidroelétricas. otimização de operação e confiabilidade no suprimento de energia elétrica. consequentemente. o de maior volume do Brasil 27 .350 29 *Incluindo a parte do reservatório sobre território paraguaio. TABELA 2 Maiores Reservatórios Barragem Área (km²) Volume (km³) Extensão (km) 350 170 225 250 116 170 Figura 14 – Usina hidroelétrica de Sobradinho. Figura 15 – Reservatório da usina hidroelétrica de Serra da Mesa. Tais reservatórios passaram a propiciar benefícios de regularização de vazões e.360 17 Porto Primavera Serra da Mesa 2.784 20 54 Itaipu* 1.214 34 Tucuruí 3.007 50 Balbina 2.250 1. Reservatório de maior área do Brasil Sobradinho 4.

345 kV. 440 kV. alterações operacionais e licitações 28 .A História das Barragens no Brasil . promovem benefícios para outras áreas. XX e XXI Desde pouco antes do início dos anos oitenta o governo federal e os governos estaduais passaram a enfrentar grandes dificuldades para prover recursos necessários para a implantação de novas usinas e de sistemas de transmissão. com exceção de sistemas isolados na Região Norte. Está programada para futuro próximo a interligação entre a margem sul e a margem norte do rio Amazonas. Todo o planejamento concernente a privatização. as novas hidroelétricas. Nas obras federais houve intensa concentração de recursos na construção das maiores usinas. teoricamente privada. Entretanto. Nos últimos 10 anos a média anual do aumento da capacidade instalada foi de 3652 MW. entidade. Como resultado. uma importante modificação ocorreu no setor elétrico com a criação da Agência Nacional de Energia Elétrica. perante à reiterada ameaça da Eletrobras em não cumprir o contrato de financiamento com a Cemig. Devido ao sistema ser interligado em grande parte do território nacional. a carga de impostos na geração de energia elétrica é de cerca de 45% da tarifa cheia. 1042 termoelétricas e duas termonucleares. ficando assim concessionário da usina ou do sistema de transmissão.Empresa de Pesquisa Energética) foi criada para o desenvolvimento do planejamento do setor elétrico. Em 2008 mais de 95% da população tinha acesso a serviço público de eletricidade compreendendo mais de 99% dos municípios. Essas verbas correspondiam aos valores que seriam despendidos caso as obras viessem a ser paralisadas. Impostos. a Eletrobras foi obrigada a cumprir o contrato. A hidroeletricidade nos anos recentes Em 1996. Em abril de 2011 a capacidade total instalada no País passou a ser de 112. e depois em Xingó. tendo afetado negativamente as empresas contratadas para fornecimento de serviços e de bens de capital. para concessões têm sido processado pela ANEEL. Uma grande parte do território brasileiro. apesar do grande número das grandes usinas hidroelétricas que operam há mais de 30 anos estarem teoricamente depreciadas.816 MW em 1768 usinas geradoras das quais 706 eram hidroelétricas. de transmissão.398 MW. de comercialização e outros investidores são encorajados a implantar usinas de geração e sistemas de transmissão. Considerando as funestas e intensas consequências ao País em outros empreendimentos financiados pelo Banco Mundial. Presentemente empresas de geração. Ao final de 2008 essa proporção caiu para 74% devido ao planejamento para a diversificação de fontes geradoras e às dificuldades de obtenção de licenciamentos ambientais para barragens e reservatórios. através da Lei 9427. o que faz com que. um vasto sistema de transmissão em alta tensão e em extra alta tensão promove a interligação de várias regiões do País ao sul do rio Amazonas unindo os dois maiores sistemas nacionais: o Norte/ Nordeste ao Sul/Sudeste/Centroeste. esta denunciou a Eletrobras ao Banco Mundial. a energia elétrica disponibilizada no Brasil possa ser a mais cara do mundo devido principalmente a essa elevada carga tributária. que atua na coordenação e no controle da operação das geradoras e dos sistemas de transmissão. Uma empresa federal (EPE . Há poucos anos atrás bem mais de 90% da capacidade instalada provinha de usinas hidroelétricas. 500 kV e 750 kV. ficando as demais obras federais sujeitas às verbas de desmobilização. As transações de compra e venda de blocos de energia no sistema interligado de transmissão são feitas sob os auspícios do Mercado Atacadista de Energia através de contratos bi-laterais de curta duração. de distribuição. nomeadamente em Itaipu e Tucuruí. mas tornando-se vencedor aquele que apresentasse a menor tarifa. Uma segunda alteração na legislação ocorreu em 2004 mantendo o processo de licitação para novos projetos. bem como comercializar a energia produzida ou transmitida. essas obras ficaram sujeitas a vultosos dispêndios devido aos acréscimos de custo de construção e à maior incidência de juros durante a construção. é servido por mais de 90. além de suprirem energia na sua região. Em novembro de 2008 a capacidade instalada no País era de 104. Um dos casos extremos ocorreu na implantação da hidroelétrica de Emborcação que. Como esses valores eram insuficientes para manter o ritmo ideal de construção.000 km de sistemas de transmissão interconectados em 230 kV. Pouco depois foi instituída a Agência Nacional de Águas e o Operador Nacional do Sistema.Séculos XIX.

no caso de Furnas. vertedouros de superfície em lâmina livre e casas de força em posição remota em relação às barragens. um grande número de investidores têm atuado na implementação de pequenas centrais hidroelétricas até o limite de 30 MW instalados. pois os investimentos na construção das usinas e nos sistemas de transmissão já foram amortizados há muito tempo. por exemplo. Tem havido por parte das atuais concessionárias e de governos estaduais. Presentemente (meados de 2011) a tarifa média para a indústria no Brasil é de R$ 329/MWh.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens taxas e contribuições mandatórias em uma conta de consumo de energia elétrica em residência de classe média quando comparada ao custo direto da energia fornecida. Pela legislação em vigor essas concessões retornarão à União que deverá efetuar licitações para definição de novos concessionários. Índia e China) que se situam em R$140. pequenas barragens. entre os estados do Rio de Janeiro e Espírito Santo Figura 17 – Barragem da PCH Ivan Botelho II (Palestina) em Minas Gerais 29 . As atuais concessionárias terão que se adaptar à nova realidade. poderá perder até 52% do seu atual faturamento caso as concessões que vencem no período acima mencionado. CEMIG e COPEL formaram um grupo para discutir o problema e tentar influenciar uma alteração na legislação visando prorrogações das concessões. Essas concessões. Entretanto. se situam no entorno de 85%. Figura 16 . A esmagadora maioria dessas pequenas usinas tem modestos reservatórios. Rússia. o que. faria com que o governo perdesse arrecadação o que não costuma ser aceito pelos políticos da situação. a intensa redução das tarifas que beneficiaria os contribuintes e recolocaria a competitividade da indústria nacional no mercado externo. As hidroelétricas a serem licitadas já estarão totalmente depreciadas. deverá fazer com que as tarifas venham a ser consideravelmente reduzidas. pelo espírito da Lei. considera que com as licitações as tarifas despencarão a níveis de 20% dos atuais. um dos principais problemas é que. com o elevadíssimo nível dos encargos sobre o fornecimento da energia elétrica. a FIESP entrou com representação no TCU solicitando intervenção para que providências sejam tomadas no sentido de garantir a execução das licitações de concessão. 70. Furnas. compreendem a 5000 MW em seis usinas. intenso lobby para a manutenção das atuais concessões. Em abril de 2011 as grandes concessionárias como CESP. Desde a última década do século XX. Para tanto.7/MWh. além de ativos em sistemas de transmissão. 134% superior à média das tarifas industriais nos outros países do BRIC (Brasil. Prevê-se que em 2015 cerca de 20% do parque gerador. não venham a ser renovadas. Por outro lado a FIESP defende que a legislação não venha ser alterada ou violentada e que as licitações sejam feitas.PCH Calheiros 19 MW no rio Itabapoana. Entre 2015 e 2017 muitas das concessões das maiores hidroelétricas e dos sistemas de transmissão estarão vencidas.000 km de linhas de transmissão e 33% dos contratos de distribuição deverão ter suas concessões licitadas. Em estudo recente a FIRJAN considerou críticos os níveis dos quatorze encargos cobrados sobre a energia elétrica.

no Pará.5 m de queda líquida. com 233 MW com unidades bulbo sob 11. serão implantadas duas casas de força. Outras grandes hidroelétricas como Tucuruí (0.000 MW com unidades Francis sob 87. O rio Madeira drena uma extensa área da Cordilheira dos Andes na Bolívia.10 km²/MW) e Serra da Mesa (1.A História das Barragens no Brasil . A média nacional é de 0. teve seu projeto abandonado e a área do reservatório de Belo Monte que inicialmente era de 1225 km². menores custos internos.600 m³/s e 84. que fluirão pela casa de força complementar. A hidroelétrica de Belo Monte terá baixa relação entre a área do reservatório e a capacidade instalada: 0.40 km²/MW) embora com relações modestas. A descarg a remanescente é a maior que se tem notícia. A ausência de reservatórios de regularização no rio Xingu faz com que o fator de capacidade seja muito baixo. Monte que terá a capacidade instalada de 11.000 m³/s. situadas no rio Madeira a montante de Porto Velho terão. Os reservatórios com área de 258 km² e 271. apresentam índices mais elevados. Esse aproveitamento está sendo estudado há trinta anos.Séculos XIX. Encontra-se em início de construção a hidroelétrica de Belo 18 – PCH Cachoeira em Rondônia. Ambas casas de força abrigarão unidades bulbo operando praticamente a fio d’água. a relação entre área inundada em km² e a capacidade instalada em MW é de cerca de 0. Localizada nas proximidades de Altamira. denominada casa de força complementar. Entretanto. Os vertedouros dessas duas barragens foram dimensionados para as descargas decamilenares de 82. em relação às empresas estatais. O empreendimento afetará 4300 famílias urbanas e 800 famílias rurais.5 m de queda líquida e outra. extremamente baixa em comparação com a média nacional. passou para 516 km². Itaipu (0. XX e XXI 6900 MW instalados.08. inundarão terrenos da Floresta Amazônica. no seu conjunto.233 MW no rio Xingu.2 m. a usina aproveitará a queda na grande curva do Xingu. 700 m³/s. um dos maiores tributários do rio Amazonas. Figura 19 – Usina hidroelétrica de Monjolinho com vertedouro do tipo lateral Grandes hidroelétricas estão presentemente sendo construídas. Pelo projeto em processo de licenciamento. As hidroelétricas de Jirau e Santo Antônio.05 km²/MW. a barragem de Babaquara que regularizaria o rio Xingu a montante de Belo Monte. sendo cada um equipado com 20 comportas de segmento de 20 m x 25.29 km²/MW).49 km²/MW. cerca de 30 .3 km². pequena estrutura (barragem) de derivação Hidroelétricas de porte médio são também atraentes a investidores privados por apresentarem. Por restrições ambientais e com a finalidade de se conseguir o licenciamento ambiental. uma com 11.

Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 20 – Usina hidroelétrica de Santa Clara em Minas Gerais Figura 21 – Barragem vertedoura da hidroelétrica de Picada em Minas Gerais Figura 22 – Obras da usina hidroelétrica de Santo Antônio no rio Madeira 31 .

4 MW e.4 MW. finalmente. Em 1942 o DNAEE determinou que a São Paulo Light suprisse de energia elétrica a fábrica que estava projetada para ser construída no município de Mairinque. Assim. em 1963 Fumaça com 36. Figura 23 – Barragem da usina hidroelétrica de Barra no rio Juquiá. Um exemplo marcante é a Companhia Brasileira de Alumínio CBA que por longo período foi o maior auto-produtor de energia elétrica do País. a CBA partiu para o médio rio Paranapanema. em 1986 Barra com 40. indústria eletrointensiva. a CSN. MG. Como a São Paulo Light não dispunha de energia para garantir o fornecimento à CBA. também situada na Amazônia. tendo construído as hidroelétricas de Piraju com 80 MW que entrou em operação em 2002 e Ourinhos em operação desde 2006. esta requereu a concessão do rio Juquiá-Guaçu e do seu afluente Assungi.Séculos XIX. a Petrobrás. em 1974 Alecrim com 72 MW. Afirmou ainda que considerava estratégico ter a garantia de produção de pelo menos 50% da energia necessária à sua indústria. SP. em São Paulo 32 . em 1989 Iporanga com 36. A auto-produção de energia elétrica tem movimentado em anos recentes várias empresas de grande vulto como a Vale. em 1978 Serraria com 24 MW. sendo um empreendedor privado. A concessão só foi outorgada em 1952. e montar uma fábrica de alumínio.87 MW. No início dos anos quarenta a família Carvalho Dias e o empresário.4 MW. o engenheiro Antônio Ermírio de Moraes externou as dificuldades que encontrou. a CBA deu início à implantação de uma série de usinas no rio Juquiá-Guaçu: em 1958 entrou em operação a hidroelétrica de França com 24 MW. engenheiro e político José Ermírio de Moraes fundaram a CBA para exploração da jazida de bauxita que havia sido identificada nas terras dos Carvalho Dias nas proximidades de Poços de Caldas.A História das Barragens no Brasil . para a obtenção da concessão. XX e XXI A hidroelétrica de Estreito. em 1982 Porto Raso com 28. Nesse período. Com os principais potenciais do rio Juquiá-Guaçu explorados. Em conversa com o autor. em 1974. projetada para 1087 MW instalados encontra-se (maio de 2011) em início de operação comercial após quatro anos de atrasos devido a demoras no licenciamento ambiental e a paralisações referentes a ações judiciais e a atos de ocupação indevida de seu canteiro de obra. a CBA adquiriu da São Paulo Light a hidroelétrica de Itupararanga com 55 MW. a Votorantim e muitas outras.

em São Paulo Figura 25 – Projeto da barragem da usina hidroelétrica de Barra Figura 26 – Projeto da barragem da usina hidroelétrica de Fumaça 33 . no rio Juquiá.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 24 .Barragem da usina hidroelétrica de Fumaça.

a maior do País. detentor da CBA Figura 28 . Edilberto Maurer e Valério Mortara para o qual o autor teve o privilégio de entregar o título de engenheiro eminente pela Associação dos Antigos Alunos da Politécnica em 2000. Newton Sady Busetti. são conhecidas mais de 700 barragens em Minas Gerais e pelo menos 150 outras nos demais estados da Federação. Barragens de rejeitos Atividades de mineração representam um importante segmento na economia nacional. que atualmente (maio de 2011) está com 155 m de altura é projetada para atingir 170 m de altura no seu estágio final. Além do acompanhamento constante do engenheiro Antônio Ermírio de Moraes. com barragens de concreto de gravidade aliviada.A História das Barragens no Brasil .Usina hidroelétrica de Piraju no rio Paranapanema entre São Paulo e Paraná 34 . O método de construção mais empregado é o método de monFigura 27 – Antônio Ermirio de Moraes principal executivo do Grupo Votorantim. um grande número de barragens de rejeitos foram construídas ou estão presentemente em construção. A barragem do Germano. Embora não haja um registro de barragens de rejeitos no País. XX e XXI Os projetos das hidroelétricas da CBA no rio Juquiá-Guaçu foram todos de concepção italiana.Séculos XIX. Devido à legislação ambiental. o executivo da empresa era o médico Miguel Carvalho Dias que contava com a importante colaboração de vários engenheiros de destaque na profissão entre eles Carlos Mazzaro.

algumas pequenas barragens foram construídas no coração de outras cidades para criação de lagos artificiais como elemento paisagístico. Nos primeiros anos dos anos noventa diversas barragens que antes eram controladas pelo DNOS ficaram sem qualquer controle e sem responsável pela operação e segurança. seus formadores os rios Solimões e Negro. em São Paulo e do São Francisco. que inclui três barragens que são somente usadas para controlar as descargas afluentes. não são capacitados técnica e financeiramente. em geral. o talude de jusante da barragem foi projetado para ser coberto com uma face de concreto.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens tante. principalmente nos trechos sobre terrenos sedimentares recentes. Nesse grupo de rios se encontram todo o rio Amazonas. órgão do Ministério do Interior. o sistema de proteção de cheias da cidade de Recife em Pernambuco. Foi adotada uma barragem de terra e enrocamento compactados. Entretanto. Severas consequências em grande área alagada no baixo vale do Itajaí compreenderam impressionantes perdas de propriedades. água esta que tem que ser tratada. Vias navegáveis A navegação interior permanece sendo o método de transporte mais usual na Região Amazônica onde há longos e caudalosos rios que podem ser usados ao longo do ano todo. foi ativo em empreendimentos de controle de cheias envolvendo a construção de barragens. na capital federal. da barragem de Pampulha em que criou um belo espelho d’água na cidade de Belo Horizonte. os poucos empreendimentos de navegação interior existentes são em geral anexos a hidroelétricas. Os dois mais destacados empreendimentos foram o sistema de controle de cheias do rio Itajaí em Santa Catarina. Figura 29 . polders e drenagens. que compreende três barragens de terra. 35 . O maior e mais famoso desses lagos artificiais é o reservatório de Paranoá. para ser construída em três fases. têm de enfrentar por conta própria os problemas de controle de cheias. Presentemente estados e prefeituras que. em 1958. Controle de cheias Por muitos anos desde 1944. para rejeitos finos a muito finos como na mineração de ouro. o Departamento Nacional de Saneamento.Eclusas da barragem de Três Irmãos sobre o rio Tietê Paisagismo Desde a construção. Para impedir que a água de chuva se misturasse com a água percolada pelo maciço da barragem e pela sua fundação. com três filtros chaminé internos. As barragens foram construídas principalmente com o objetivo de evitar cheias em áreas populosas. Um projeto não usual foi adotado para a disposição de rejeitos em mina de urânio em Poços de Caldas. no Nordeste. Nas outras regiões. bem como extensos trechos inferiores dos seus afluentes. As duas principais bacias com eclusas instaladas em hidroelétricas são as dos rios Tietê e Paraná. Durante a estação chuvosa de 2009 uma grande cheia ocorreu na bacia do rio Itajaí e as três barragens não foram suficientes para controlar toda a descarga afluente. O critério de projeto que em geral era adotado objetivava o controle das cheias de período de recorrência de 100 anos ou a maior cheia que tivesse sido registrada. Em 1990 as atividades desse Departamento foram abruptamente encerradas e o Departamento extinto. o método de jusante é empregado.

a qual é destinada ao abastecimento de água da cidade de Goiânia. O sistema inclui a barragem de terra do Castanhão com trecho em concreto compactado com rolo. XX e XXI Obras de abastecimento de água Barragens têm sido construídas como parte de sistema de abastecimento de água para zonas urbanas e industriais.Séculos XIX. O mais destacado desses sistemas é o sistema de Cantareira para abastecimento de água da grande São Paulo e cidades do vale do Piracicaba.A História das Barragens no Brasil . O artigo técnico sobre o projeto e a construção desta barragem de CCR com 53. e as barragens do sistema de derivação dos rios Piraí e Paraíba do Sul (sistema PPD).50 m de altura e alas de terra faz parte da publicação do CBDB Main Brazilian Dams III.33 m³/s de reforço ao abastecimento das principais cidades do estado de Goiás. sete túneis escavados em rochas gnaíssicas e graníticas numa extensão total de 29 km e uma grande estação de recalque subterrânea com capacidade de 33 m³/s. represando 4.46 bilhões de metros cúbicos de água sob uma superfície de 325 km² no nível d’água máximo normal. Os dois maiores sistemas do Rio de Janeiro aproveitam as barragens da Light construídas entre o início do século (sistema Lajes). O mais recente Figura 30 – Barragem do Ribeirão João Leite para o abastecimento d’água da cidade de Goiânia empreendimento de vulto para abastecimento de água é a barragem João Leite construida em concreto compactado com rolo. A barragem possibilita o acréscimo de 5. Outro sistema importante é o de Belo Horizonte compreendendo obras hidráulicas de vulto.   Figura 31 . com captações em barragens no rio das Velhas e no rio Manso. concluida em 2009. com 53. Merece menção a barragem do Ribeirão João Leite. Esse sistema foi construído nos anos setenta e compreende sete grandes barragens de terra. descarga essa que corresponde a 90% de permanência. aproveitamento de finalidades múltiplas 36 .5 m de altura e vertedouro de soleira livre sobre a barragem.Barragem de Pindobaçu na Bahia. Um sistema que merece menção é o sistema para o abastecimento d’água da cidade de Fortaleza. O sistema necessitou da construção de 256 km de canais para suprimento de 22 m³/s para a cidade e para projetos de irrigação. concluída em 1999 com 72 m de altura.

A esmagadora maioria dos esgotos é lançada em corpos d’água (rios. beneficiamento à navegação interior e geração de energia elétrica. o governo Juscelino Kubitschek foi forçado a definir recursos federais para a implantação da barragem.Barragem de Mirorós na Bahia. O primeiro gran de exemplo de barragem implantada com finalidades múltiplas foi Três Marias com objetivos de regularização do rio São Francisco. lagos e oceano) sem tratamento. O maior problema da área de saneamento básico. entretanto. enquanto a Cemig arcou com a casa de força. se concentra na coleta e tratamento de esgoto uma vez que são poucas as cidades que dispõem de estações com capacidade de tratamento de porcentagens consideráveis dos esgotos coletados. Finalidades múltiplas Barragens com finalidades múltiplas eram raras no cenário nacional devido à estanqueidade dos órgãos federais e estaduais na definição dos empreendimentos hidráulicos. aproveitamento para irrigação e abastecimento de água 37 . Figura 32 . premido por necessidade de iniciar as obras de Três Marias e de Furnas. Serão necessários investimentos de R$ 22 bilhões para garantir a oferta de água de qualidade adequada até o ano de 2025. Dessa forma.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Entretanto. do vertedouro e do reservatório. um estudo recentemente concluído pela Agência Nacional de Águas revelou que a situação do abastecimento de água em 55% dos 5565 municípios brasileiros está se agravando e deverá estar insuficiente em 2015. Esse estudo da Agência prevê a necessidade de investimentos superiores a R$ 50 bilhões até 2025 tendo em vista o precário estado dos sistemas de esgoto sanitário de quase todos os municípios brasileiros.

além de diversas hidroelétricas de pequeno e médio porte. XX e XXI Outro exemplo é a barragem de Pedra do Cavalo na Bahia que contribui para o controle de cheias. elétricos e eletrônicos se estabeleceram no País e têm suprido a demanda interna e exportado equipamentos para diversos outros países. incentivou Figura 33b – Barragem e casa de força de Paraibuna Figura 33a – Barragem de Paraitinga no final de sua construção Reservatórios interligados de Paraibuna e Paraitinga Figura 33c – Diques durante o primeiro enchimento do reservatório 38 . a se tornar uma das líderes mundiais nesse setor. a engenharia brasileira voltou a ter um mercado interno robusto com alguns dos maiores projetos do mundo atual tais como as hidroelétricas de Jirau. Santo Antonio. Nos últimos 20 anos do século passado o País atravessou um período de severa estagnação econômica quando vinte empreendimentos com barragens do setor elétrico tiveram sua construção suspensa por falta de recursos financeiros. A evolução dos segmentos de bens de capital e de prestação de serviços Toda essa atividade em projeto. Depois de passado esse período. Importantes empreendimentos de finalidades múltiplas são as barragens do alto e médio rio Paraíba do Sul. Muitas empresas brasileiras de projeto e construção se expandiram durante a segunda metade do século XX e presentemente ocupam relevante posição no cenário internacional. geração de energia elétrica e possibilitam o abastecimento do Grande Rio de Janeiro.Séculos XIX. bem como em fabricação e montagem de equipamentos. construção e operação de barragens. a engenharia brasileira. a produção de energia. Neste mesmo período diversas fábricas de equipamentos mecânicos. Jaguari e Funil que contribuem para a regularização de descargas. a regularização e a irrigação. tão dependente de apoio estrangeiro na primeira metade do século XX.A História das Barragens no Brasil . Durante esses anos muitas empresas brasileiras desenvolveram com sucesso atividades no exterior em países de todos os continentes. Santa Branca. o abastecimento de água. Paraitinga. Estreito e Belo Monte. controle de cheias. Paraibuna.

Paulo Afonso I.John Reginald Cotrim jovem na EBASCO 1942-44 39 . alemã. os projetos da Light e da AMFORP eram nitidamente comandados. de dimensões inusitadas para a época. Figura 35 . Nota-se que os projetos do DNOCS eram feitos na sua sede no Rio de Janeiro antes da mudança para Fortaleza. Na Região Sudeste. Quando finalmente foi enfrentado um projeto de grandes proporções. No Nordeste. Em São Paulo. tanto no DNOCS quanto na CHESF.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A organização da AMFORP veio influenciar na organização da CEMIG. por bacias hidrográficas. em seguida.Barragem de finalidades múltiplas de Funil O desenvolvimento e o desmonte da engenharia consultiva Os estudos e projetos de barragens no País tiveram duas origens distintas. essa experiência organizacional para Furnas. Outras empresas do setor elétrico contavam com projetos desenvolvidos por consultoras suíça. no rio Paraná. foram se formando importantes e bem estruturadas empresas consultoras nacionais que passaram a atuar nas linhas de frente dos grandes empreendimentos hidroelétricos dessas duas empresas concessionárias. havia predominância da engenharia nacional com grandes contingentes de engenheiros formados em nossas escolas. a equipe do contratante. Os projetos da CHESF. incentivou os consultores independentes das barragens do rio Pardo a formar uma empresa que pudesse desenvolver a contento o projeto da hidroelétrica de Jupiá. nesses dois casos.S. Entretanto. Bureau of Reclamation. através do engenheiro John Cotrim que também trouxe. Figura 34 . Aos poucos. no início do Século XX. mesmo que inicialmente carentes de experiência. Tanto a CEMIG quanto Furnas tiveram seus primeiros grandes projetos elaborados por empresas consultoras americanas. a força de trabalho e a responsabilidade técnica eram essencialmente nacionais. principalmente na sua primeira hidroelétrica. por americanos. especialmente o engenheiro José Gelazio da Rocha. o governo estadual orientava os projetos dos anos cinquenta para empresas brasileiras ou para um conjunto de consultores individuais. em Minas Gerais. com influência de eventuais consultores provenientes do U. foram feitos no canteiro de obra por equipe nacional com influência de alguns engenheiros estrangeiros recrutados como imigrantes após o término da Segunda Grande Guerra Mundial e de outros que trouxeram marcante influência francesa. portuguesa e italiana.

Por esse tipo de contrato a consultora era remunerada pelo custo do serviço baseado nos salários de suas equipes técnicas multiplicados por um fator que representava os impostos. XX e XXI As hidroelétricas projetadas pelo DNOS no Sul e na Bahia. Em 1979 foi instituído o teto salarial nas empresas estatais. tornou o contrabandista um herói nacional. esse tipo de contrato veio causar o desmanche das empresas consultoras na década seguinte. Essa lei só foi cancelada sem alarde e sem anúncio no governo Sarney para os projetos do programa de irrigação de um milhão de hectares. Dessa forma praticamente não havia necessidade de capital de giro. os encargos sociais e as despesas diretas. Os anos setenta se caracterizaram por um enorme desenvolvimento da consultoria brasileira. Esse desenvolvimento acelerado foi em parte condicionado por lei de proteção ao mercado de consultoria e projeto. a inflação não era sentida e o risco de inadimplência era muito reduzido. Quase todo esse desenvolvimento era calcado em contratos cost plus com empresas estatais do setor elétrico. Entretanto. na Bahia Figura 36 . teto este que era o salário direto nominal do Presidente da República. os salários nas estatais passaram 40 . de acordo com o então senador Roberto Campos.ABCE analisava cada contratação de consultoria externa para detectar se havia similar nacional. Nos anos setenta quase dez consultoras brasileiras figuravam entre as maiores do mundo. Por outro lado. A Associação Brasileira de Consultores de Engenharia . Nessa época as empresas de projeto assumiam crescentes responsabilidades em um grande número de projetos de envergadura. Dessa forma passou a haver elevada segurança contratual mesmo em regime inflacionário que se acentuou a partir do governo JK. também já contavam com expressivo contingente de engenheiros brasileiros.A História das Barragens no Brasil . Como o salário direto nominal do Presidente não era muito elevado. as consultoras brasileiras tinham como obstáculo a lei da informática que prejudicou sobremodo o desenvolvimento da produção de projetos e.Séculos XIX. na época o general Figueiredo.Usina hidroelétrica de Itapebí no rio Jequitinhonha. principalmente no setor elétrico. com a adição do seu lucro em função do trabalho efetivamente desenvolvido. As consultoras a cada mês recebiam antecipadamente de acordo com a programação aprovada e prestava conta ao final de cada mês. Essa modalidade conFigura 37 . conseguida durante o governo de Costa e Silva.Usina hidroelétrica de Volta Grande no rio Grande tratual foi introduzida pelas empresas americanas de consultoria na segunda metade dos anos cinquenta.

ou seja. As consultoras. pleiteavam incessantemente fórmulas de reajustes sem encontrar eco em muitas das empresas contratantes. algumas foram reduzidas a níveis pequenos e várias fecharam. Nessas empresas uma posição de clarividência foi assumida pelo engenheiro João Alberto Bandeira de Mello que atuava na Eletrobras e que propunha que. Daquelas grandes empresas de consultoria de engenharia que figuravam como das maiores do mundo. Como para as consultoras. as consultoras foram chamadas para receber parte de alguns atrasados pagos em títulos que eram chamados de moeda podre. Essa proposição sequer foi considerada e só após muito tempo. No advento do governo Sarney houve um dos muitos planos heterodoxos no qual teoricamente a inflação seria nula. a crise financeira das estatais. esses multiplicadores haviam sido estabelecidos nos anos cinquenta quando a inflação antes do governo Juscelino ainda era muito baixa. os faturamentos tinham que ser mensais. mesmo assim após 45 dias da entrega da respectiva fatura. Entretanto. As consultoras tinham que recolher impostos por serviços que não eram pagos ou que seriam pagos meses depois. A letra desse tipo de contrato pelo custo significava que deveria haver reembolso pelos acréscimos de custos devido à inflação. As contratantes do setor elétricos viraram “fiscais do Sarney” e unilateralmente abateram os multiplicadores dos contratos alegando que a partir daquele instante não mais haveria inflação. mesmo que não venha haver pagamento. já com as consultoras descapitalizadas e endividadas.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens a ser achatados. O equilíbrio financeiro dos contratos das consultoras foi rapidamente corroído. para os que não vivenciaram. algumas delas atuando em segmentos específicos. Algumas dessas empresas foram gradativamente crescendo e hoje já apresentam grande número de profissionais engajados. as consultoras passaram a sofrer pressões dos dois lados: as suas equipes demandando reajustes salariais corretos e os clientes não aprovando esses reajustes nos contratos. até 75 dias da execução dos serviços. Foram criados os “fiscais do Sarney” que acusavam às autoridades eventuais aumentos de preços. houvesse também o justo reembolso dos elevados juros que as consultoras já estavam pagando ao sistema financeiro. Adicionando a esses aspectos deletérios. pois valiam no mercado apenas uma pequena fração de seu valor de face. Incrivelmente neste País os impostos incidem no ato do faturamento. presentemente a esmagadora maioria dos contratos por prestação de serviços de consultoria 41 . Como a inflação era intensa. nos anos oitenta. através da Associação Brasileira de Consultores de Engenharia . os seus técnicos não podiam acumular horas trabalhadas para somente faturá-las quando houvesse recursos nas caixas das contratantes. mesmo assim quando e só quando eram usados nos programas de privatização.” Mas outros profissionais se reuniram em pequenas empresas.ABCE. não mais foram de remuneração pelo custo. nomeadamente as que não tinham grandes gerações de energia como era o caso da Light e de FURNAS. Dessa forma. Essas outras empresas passaram a atrasar sistematicamente o pagamento das faturas. os funcionários das estatais federais contratantes de serviços de consultoria passaram a não aprovar nos contratos reajustes salariais dos empregados das empresas contratadas. tendo chegado a um pico de mais de 80% ao mês e ao impressionante e quase inacreditável. além do correto reajustamento. devido a essa experiência desastrosa. em geral cerca de 25%. sobreveio. Finalmente. Por terem salários achatados. entretanto. Os contratos. corroídos por uma inflação galopante. principalmente das federais. é que uma correção parcial foi admitida nos contratos. no auge da crise das contratantes estatais federais. o governo federal desovou empresas nos programas de privatização ganhando dos dois lados. nos contratos pelo custo. tendo originado forte desemprego no ramo da engenharia e tendo sido criado o termo “o engenheiro que virou suco. em várias ocasiões por mais de cinco meses. A inflação se intensificava a cada período. índice de 13 trilhões e 342 bilhões por cento no período de apenas quinze anos que antecederam ao Plano Real.

uma construtora britânica associada a uma empreiteira brasileira. as obras mais recentes que datam do final do século passado. A partir dos anos oitenta as consultoras menos atingidas pelos impactos acima relatados voltaram-se para o mercado externo com o objetivo de substituir os contratos nacionais. o que transfere para a consultora um risco que deveria ser do empreendedor. na época uma das maiores do mundo em capacidade instalada. 42 .A História das Barragens no Brasil . No caso do DNOCS. a construção de barragens no Nordeste foi efetivada principalmente com equipes do próprio empreendedor. dado o desenvolvimento das construtoras nacionais. estas passaram a ser contratadas para todas as demais obras. já nas obras seguintes. O DNOCS construiu mais de duas centenas de grandes barragens com recursos humanos e equipamentos próprios. apenas em algumas poucas barragens consideradas de grande vulto na época. Furnas contratou para a usina que deu nome à empresa. seja o DNOCS ou a CHESF. ainda nos anos cinquenta. a CHESF construiu com equipe própria suas barragens e usinas. O desenvolvimento das empresas de construção Semelhantemente ao que ocorreu nas atividades de estudos e projetos. todas com construções compreendidas do início até meados do século passado. A partir de sua fundação até a conclusão da hidroelétrica de Moxotó.Usina hidroelétrica de Xingó no rio São Francisco Figura 39 – Usina hidroelétrica de Furnas logo após o enchimento do reservatório Da mesma maneira. A partir dessa época. No Sudeste as construtoras estrangeiras foram utilizadas pela Light e pela AMFORP em suas hidroelétricas que são mais antigas. foram implantadas por empresas privadas de construção. assumiram a condução das construções. empresas estrangeiras foram contratadas para executar as obras civis. Figura 38 . tendo socorrido os empreiteiros principais na elevação rápida do núcleo da barragem de Furnas. em altura da barragem e em potência dos seus equipamentos de geração. XX e XXI é por preço fixo. Com a experiência adquirida essa empresa assim como outras que se capacitaram. Algumas empresas tiveram sucesso e hoje estão presentes em vários continentes. Para essa usina. Entretanto.Séculos XIX. outra empresa brasileira com experiência restrita à construção de estradas foi contratada para erguer a barragem auxiliar de Pium-I.

ao ser instituída.Usina hidroelétrica de São Simão ção de pequenas e médias centrais hidroelétricas que ocorreu nas duas últimas décadas. antiga Peixoto. contratou uma empresa nacional para a barragem principal e outra empresa nacional para a barragem de terra de Nhangapi. as empresas construtoras têm atuado com intensidade semelhante à do passado. empresas brasileiras passaram a ser contratadas à exceção da hidroelétrica de São Simão que. na época a segunda maior barragem desse tipo no País. inclusive as térmicas a óleo e a carvão. todas elas tendo tido seus cronogramas de implantação constantemente refeitos e suas obras se arrastado por duas a três décadas. Há duas usinas nucleares em operação e uma em construção. encarregada da implantação da barragem em abóbada de Funil. substituiu a empresa construtora da barragem principal por uma empresa dinamarquesa. foi construída por empreiteira americana. partindo com muito sucesso para empreendimentos no exterior. Furnas. a usina de Três Marias.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 40 . As grandes empresas brasileiras atravessaram a recessão econômica e a desaceleração das obras no País nas décadas de oitenta e noventa. construído em 2002 A CHEVAP. assumiu usinas de portes pequeno e médio que vinham sendo implantadas por empresas nacionais. Sua primeira grande obra. ao assumir a responsabilidade da construção da usina do Funil. Essas usinas têm sofrido das indecisões políticas. Perspectivas para o futuro As dificuldades no licenciamento ambiental e as incertezas que sempre rondam os processos de aprovação de projetos hidroelétricos têm causado impressionante perda na matriz energética limpa que costumava orgulhar o País.Barragem da usina hidroelétrica de Mascarenhas de Moraes. após acirrada concorrência internacional. fez com que surgisse considerável número de novas construtoras no País. A CEMIG. entretanto de muito mais fácil licenciamento ambiental e aprovação na ANEEL. A ampla dissemina- Figura 41 . concluída em 1956. São muitas novas centrais geradoras termoelétricas poluidoras. nos anos setenta. Na margem esquerda o vertedouro complementar. foi delegada a uma empresa italiana. hoje de controle nacional. 43 . mas posteriormente. Com a intensificação dos investimentos em obras hidráulicas no País.

hoje em 6. tem uma regra operativa que privilegia a regularização de vazões e o controle de cheias. O acréscimo de capacidade de geração em empreendimentos sem possibilidade de armazenamento de energia. associado às interrupções provenientes de ações judiciais ou do Ministério Público ocorrendo na maior hidroelétrica em construção.8% a. A falta de um órgão de âmbito nacional para controlar e implementar obras hidráulicas com esse objetivo é imperioso já que os cursos d’água são em geral intermunicipais e mesmo inter estaduais. por atravessar uma sucessão de importantes cidades de médio porte e servir de abastecimento de água a grandes núcleos urbanos. passando dos 456. verifica-se também que o consumo domiciliar médio no Brasil ainda é muito inferior ao de países desenvolvidos. 44 .Séculos XIX. e pouco inferior ao verificado na Rússia e na África do Sul. Além de serem esperados acréscimos de consumo devido ao desenvolvimento industrial. o que é no mínimo inusitado: o único licenciamento obtido até agora (maio de 2011) foi concedido em janeiro de 2011 para instalação do canteiro de obra. Eventuais paralisações. Pelo atual planejamento energético o País enfrenta a necessidade de instalação de cerca de 5000 MW/ano. nucleares e hidroelétricas a fio d’água. consequentemente.A História das Barragens no Brasil . Entretanto. Estima-se que o consumo total de energia elétrica no País evolua em média com acréscimos de 4. sendo pouco mais de um décimo do americano. Tendo em vista esse desafio. com 2. pode operar até hoje (maio de 2010) há mais de uma década sem licenciamento ambiental e sem licenciamento da CNEN. O consumo médio residencial deverá passar dos 154 kWh/mês em 2010 para 191 kWh/mês em 2020. térmicas. O exemplo mais nítido são as hidroelétricas do vale do rio Paraíba do Sul cujo rio principal. entre 15% e 17% da geração. Para o bem da economia e do meio ambiente. devidas à ação de vândalos em canteiros de obra e ao Ministério Público que questiona licenças ambientais. Entretanto.5 TWh verificados em 2010 para 730 TWh em 2020. Considerando a relativa fragilidade dos sistemas de transmissão e as crescentes demandas na ponta de carga. XX e XXI onerando sobremaneira os seus custos pela forte incidência dos juros sobre os capitais investidos durante as suas prolongadas construções. o máximo histórico de 180 kWh/mês registrado antes do racionamento de 2001 só deverá ser ultrapassado em 2017. vários dos quais abrangendo extensas regiões densamente habitadas. Parcela expressiva dessa perda vem de ligações ilegais. No passado recente (2000 a 2011) tem sido registrado impressionante número de apagões. há imperiosa necessidade de se ultrapassar as resistências dos que se dizem ambientalistas e se voltar à implantação de hidroelétricas com grandes volumes úteis de reservatório para se recuperar a capacidade de regularização de vazões e. de energia. O controle de cheias permanece nebuloso no futuro próximo. Embates entre membros do governo e do licenciamento ambiental têm provocado demissões em vários níveis. a Hungria.8% ao ano. prevê-se a continuidade e mesmo o agravamento dessa situação. comprova a incerteza dos empreendedores em assumir tais riscos.. contribuem para a elevação de prazos e de custos já que os juros reais no Brasil permanecem há décadas como o mais elevado do mundo. as classes dirigentes têm pressionado licenciamen tos ambientais de grandes centrais geradoras como ocorreu nas duas usinas em construção no rio Madeira e presentemente na hidroelétrica de Belo Monte cujo licenciamento está sendo obtido por etapas. Isso.4% a. tais como usinas eólicas. quase três vezes superior ao do segundo colocado. O atual modelo do setor elétrico contribui para essas dificuldades por não contemplar qualquer remuneração para a regularização de descargas que beneficiem a operação do sistema interligado.a. As perdas de energia elétrica no sistema interligado e nos sistemas de distribuição atingem em 2011 cifras elevadas. O setor elétrico através do ONS despacha algumas hidroelétricas levando em conta o controle de cheias. até no nível ministerial. Angra II que levou 24 anos em construção.a. sinalizam para dificuldades de atendimento de demanda na ponta em diversos centros de carga no País.

Arthur Casagrande e Figura 42 . tramita no Congresso um projeto de lei que obriga os investidores em hidroelétricas de implantar sistemas de navegação onde possível. Othelo Machado e Casemiro Munarski (Foto do Acervo Paulo Chamecki) 45 . brasileiros e estrangeiros. consequentemente. têm feito com que planejadores do setor considerem alternativas dispendiosas.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Historicamente a implantação de eclusas para navegação interior sempre vieram a reboque de algumas hidroelétricas ao contrário do que acontece em países europeus cuja tradição da navegação fluvial sempre esteve arraigada ao desenvolvimento viário.A partir da esquerda os consultores da São Paulo Light: Samuel Chamecky. Consolidando essa deformação brasileira. Depois de Karl Terzaghi. com grandes recalques (Juquiá para São Paulo) ou na regeneração de águas em estações de tratamento de esgotos (Alegria para o Rio de Janeiro). onerando sobremaneira as futuras captações. As deficiências previstas no curto prazo para o abastecimento da crescente demanda por água nas cidades e distritos industriais. As constantes e recentes valorizações das commodities no mercado internacional indicam para o futuro a permanência das atividades em mineração e. da construção de barragens de rejeitos cada vez maiores e mais frequentes. engenheiros e geólogos consultores de grande projeção na profissão. vindo como sub-produto a geração de energia elétrica. onerando ainda mais as novas usinas hidroelétricas. participam de juntas de consultores. incluindo a captação de água de baixa qualidade a grandes distâncias (médio Tietê para São Paulo e sub-médio Paraíba do Sul para o Rio de Janeiro). Homenagem aos membros de juntas de consultores Durante o projeto e construção das mais importantes barragens brasileiras. Karl Terzaghi. por exemplo. aduções e tratamentos de água.

XX e XXI Figura 43 .Arthur Casagrande. fundador e diretor geral do Laboratório de Engenharia Civil sediado em Lisboa. pesquisador. Lyra em inspeção de campo em Itaipu Figura 44 .A História das Barragens no Brasil . Destacada atuação na CIGB e em consultoria de barragens em vários paises.Séculos XIX.Professor Manuel Rocha. 46 . John Cabrera. Gurmukh Sarkaria e Flavio H. inclusive no Brasil.

James Sherard. de Mello durante o XII SNGB. Figura 45 . B. de Mello e Flavio H. Esses profissionais altamente qualificados deram valiosas contribuições ao projeto e construção de grandes barragens e formaram engenheiros e geólogos brasileiros que presentemente trabalham como consultores no Brasil e no exterior. Flavio H.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Portland Fox mencionados acima. Lyra que são aqui mencionados como homenagem àqueles que já faleceram. Manuel Rocha. em São Paulo abril de 1978 47 . outros consultores participaram de juntas tais como Roy Carlson.Consultor Roy Carlson por ocasião da sua condecoração pelo governo brasileiro entre Carlos Alberto de Padua Amarante e Victor F. B. Victor F. Barry Cooke. Charles Blanchet. Arthur Casagrande e Julival de Moraes em inspeção nas obras de Itumbiara Figura 46 . Lyra. Don Deere.Rubens Vianna de Andrade. James Libby.

J.1958-1961 3 4 5 . M. Giandotti . A.1946-1952 4.França .Itália .1931-1934 2. Coyne . Pinto .Os 5 primeiros presidentes da CIGB de 1931 a 1961 1 2 1. Hathaway .EUA .A.Portugal . G.França .1937-1940 3. G.F.R.1952-1958 5. Mercier .

Brown. tendo sido instituído o Comitê Francês de Grandes Barragens sob a Societé Hydrotechnique de France. ministro de Minas e Energia e John Cotrim. presidente do CBGB. a mecânica Figura 1 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A Comissão Internacional de Grandes Barragens Oitenta e três anos de excelência Flavio Miguez de Mello A Comissão Internacional de Grandes Barragens CIGB nasceu na França. foi manifestada a importância do estabelecimento de uma comissão de caráter internacional voltada para grandes barragens. assim como o apoio ofertado pelo governo francês. em reunião da Associação Francesa para o Progresso da Ciência ocorrida em Grenoble.Reunião Executiva no Rio de Janeiro. Mauro Thibau. obras em rios muito caudalosos. na assembléia de Cernobbio (Itália). Nos anos vinte muito havia que ser aprendido em projeto e construção de barragens e o intercâmbio de conhecimentos passou a ser de nítida importância. os critérios de projeto de estruturas de concreto eram rudimentares e a hidráulica fluvial enfrentava pela primeira vez na maioria dos países que implantavam barragens e reservatórios. Na época. 49 . Corria o ano de 1925 quando.G. 1927. numa época em que havia intensa atividade em implantação de barragens.Reunião Executiva no Rio de Janeiro. presidente do CBGB e G. presidente CIGB. notadamente na Europa e nos Estados Unidos. presidente CIGB dos solos e a geologia de engenharia não haviam ainda sido fundadas. 1966 . a delegação francesa apresentou formalmente a proposta de criação da Comissão Internacional de Grandes Barragens. Brown. em assembléia da Conferência Mundial de Energia em Basel. presidente de Furnas pela Conferência Mundial de Energia no ano seguinte. A proposição foi aceita. 1966 Flavio Lyra. Flavio Lyra. Em 1926. A proposta foi formalmente aceita Figura 2 .

­ Além dos seus anais de congressos e simpósios. Desde então. cifra esta que representa mais de 90% da população mundial. Encontra-se presentemente (2011) em propo- 1 2 4 5 6 8 9 China USA Japão Coréia do Sul Canadá Brasil Espanha > 40 000 9 265 5 101 3 076 1 302 1 166 1 114 1 011 987 741 623 583 542 519 507 501 3 Índia 7 África do Sul 10 Turquia 11 França 12 México 13 Itália 14 Reino Unido 15 Austrália 16 Irà 50 .Séculos XIX. 56 países em 1967. Desde sua fundação com apenas cinco países membros. França. 56 países em 1980. reconhecidamente. assim. A assembléia do Conselho Executivo da Conferência Mundial de Energia aprovou a CIGB por unanimidade em Londres no dia 3 de outubro de 1928. reuniões executivas foram realizadas todos os anos a menos dos anos exceto durante a II Guerra Mundial. a CIGB vem continuamente crescendo. Seus anais são verdadeiras seções transversais da tecnologia de cada época que nos permitem visualizar o desenvolvimento dos conceitos e critérios de projeto e de construção de barragens.A História das Barragens no Brasil . Desse registro não constam apenas as barragens de rejeitos. esses documentos em relatórios do estado da arte sob o ponto de vista global. A CIGB mantém atualizado o registro mundial de grandes barragens (barragens com mais de 15 m de altura ou em condições especiais) contendo as principais características das barragens em todos os países membros e em alguns países não membros da CIGB. a CIGB passou a se tornar independente da Conferência Mundial de Energia. Desde então a cada três anos a CIGB promove seus congressos que são. Itália.14° Congresso CIGB Rio de Janeiro 1982 – Pierre Londe (presidente) e Joannes Cotillon (secretário geral) sição por um comitê ad hoc novo estatuto que vem corrigir lacunas do estatuto vigente. tendo atingido 26 países antes da II Guerra. 72 países em 1990. Em 1967. Como exemplos históricos pode-se mencionar os trabalhos de Karl Terzaghi de 1933 sobre as investigações das características dos solos quanto a sua viabilidade para a construção das barragens de terra e de Wolmar Fellenius sobre cálculo de estabilidade de barragens de terra. Apesar do registro das barragens no Brasil estar incompleto. de elevado interesse técnico sobre assuntos os mais atuais. a CIGB publica boletins sobre temas específicos. considerando seu já grande vulto. Já demonstrando seu dinamismo. fruto do trabalho dos seus comitês técnicos que congregam profissionais os mais destacados em diversos países do mundo. Do seu primeiro estatuto até o estatuto de 1967 poucas alterações significativas ocorreram. tornando. o registro da CIGB atualizado em 2010 revela a importante posição do Brasil relativa a outros países com mais de mil grandes barragens construídas: A assembléia que constituiu a CIGB ocorreu no dia 6 de julho de 1928 com a participação de seis países: Estados Unidos. 81 países em 2000 e 92 países em 2010. de 1940 a 1944. Reino Unido. a CIGB promoveu seu primeiro congresso internacional em Estocolmo em 1933. Romênia e Suíça. XX e XXI Figura 3 .

nos anos setenta passou a ser grande divulgadora de progressos na engenharia ambiental. C. Desde o final dos anos 60 a CIGB dedica especial atenção aos temas socioambientais. Desses comitês foram coordenadores (chairmen) F. Figura 4 . J. Viotti). Entre os dois. Budweg. Viotti e E. A CIGB sempre teve como foco a promoção e divulgação da tecnologia de planejamento.Reunião do Comitê de Meio Ambiente da CIGB em Madrid. D. F. Lyra e C. Na foto os dois primeiros presidentes deste Comitê Flavio H. sendo seis brasileiros (F. o autor 51 . Miguez. Lyra. F. nos anos oitenta liderou a divulgação tecnológica aplicada a barragens de rejeitos de mineração. sendo dois brasileiros (F.F. projeto. Nos anos sessenta a CIGB passou também a enfatizar a segurança e a reabilitação de barragens. conscientização do público e na primeira década do Século XXI. F. A participação brasileira se fez sentir desde os anos sessenta em participações em diversos comitês da CIGB. todos franceses. 126 vice presidentes.K. Höeg. abriu discussão sobre mudanças climáticas globais e planejamento de recursos hídricos escassos. Lyra.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Desde a sua fundação a CIGB teve 22 presidentes. Lyra e Pierre Londe. 1973. Budweg. Maurer) e dez secretários gerais. ex-presidente da CIGB Figura 5 . nos anos noventa também abriu os campos de compartilhamento dos recursos hídricos de rios transnacionais e de gestão integrada da água. Silveira e F. Fernandes. Miguez. construção e operação de barragens.

consultoras.Séculos XIX. universidades.000 membros individuais dentre os mais destacados profissionais que presentemente atuam em empresas públicas e privadas. instituições de pesquisa. Margaret Rose Mendes Fernandes 52 . fabricantes. congregam mais de 10. no seu conjunto. XX e XXI Figura 6 .A História das Barragens no Brasil . Flavio Miguez de Mello. Figura 7 .Ospina (ex vice-presidente) recebendo homenagem do presidente Varma A CIGB fechou o ano de 2010 com 92 comitês nacionais que.Arthur Walz.Foz do Iguaçu 2002 . agências governamentais e organizações não governamentais.70° Reunião Anual CIGB .Congresso de Brasília 23O CIGB 2009 – Mesa da Questão 90 . Maria Bartsch. construtoras.

de Mello no 23O CIGB.Congresso de Brasília 23o CIGB 2009 – Da esquerda para direita Edilberto Maurer (pres. Pham Hong Giang (pres.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 8 . B.Homenagem ao professor Victor F. Brasília 2009 53 . Luis Berga (pres. CIGB). Jia Jinsheng (pres.eleito CIGB) Figura 9 .CBDB). Comitê do Vietnam).

A História das Barragens no Brasil .Michel de Vivo secretário geral e Luis Berga presidente da CIGB Figura 10 .Presidente Varma. secretário geral J.A secretária Margarite Chapelle recebendo homenagem em 1967. Nicole assumiu a secretaria da CIGB em 1967 permanecendo até o presente (2011). XX e XXI Figura 11 . Lecornu e a secretária Nicole Schauner Figura 12 .Congresso de Brasília 23O CIGB 2009 . uma placa entregue por sua filha Nicole Schauner (ao microfone) que a substituiu após 25 anos de serviço desde 1948.Séculos XIX. As duas foram responsáveis pelo eficiente suporte à CIGB ao longo dos últimos 63 anos 54 .

Guthrie Brown . P.A. W. C. C.Itália .Espanha . Lombardi . C.2006-2009 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 .Presidentes de 1961 a 2009 6.V. Pircher . L.B. G.1994-1997 18.2000-2003 20.1988-1991 16. J.Noruega . C. J.1967-1670 9. van Robbreck . F.1961-1964 7.1976-1979 12.Suíça . T.1985-1988 15. Dagenais .T.EUA .1970-1973 10.1973-1976 11.1997-2000 19.1982-1985 14.África do Sul .Reino Unido .A. G. Berga . Marcello .F. Gröner .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens CIGB . Lyra .Canadá . K.H. Viotti .Espanha .Brasil . J.Brasil . Veltrop .2003-2006 21.1991-1994 17.P. Höeg .1964-1967 8.C.Noruega . Toran . Varma .Áustria . Londe .EUA . McCarthy . C.J.França .Índia .1979-1982 13.

Lyra e Delphim M.A História das Barragens no Brasil . Os responsáveis pela consolidação e pelos primeiros anos de sucesso do CBDB 56 56 . XX e XXI Flavio H.Séculos XIX. Fernandes.

trouxe consigo o firme propósito de criar em nosso País uma entidade filiada à CIGB. ao regressar do Segundo Congresso Internacional de Grandes Barragens realizado pela Comissão Internacional de Grandes Barragens CIGB em Washington. Figura 1 – Saturnino de Brito Filho e Theophilo Benedicto Ottoni Netto empreendimento de maior destaque no País. convocou um grupo para reorganizar a Comissão. a Comissão Brasileira de Grandes Barragens veio a ser reativada. Somente em 1957. após poucos anos e ainda nos anos trinta. com o afastamento do engenheiro Luiz Vieira do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas DNOCS. então diretor geral do DNOCS. maravilhado com as perspectivas dos benefícios para o Brasil que eram decorrentes da ampla divulgação de experiências de outros países. O engenheiro Antônio Alves de Noronha. Por esse motivo havia dificuldades da 57 . o engenheiro Francisco Saturnino de Brito Filho.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens História do Comitê Brasileiro de Barragens Flavio Miguez de Mello A pré-história Em 1936. envidou esforços para conjugar essa associação com a Comissão. que presidia a Associação Brasileira de Pontes e Grandes Estruturas. tendo convidado a Associação Brasileira de Mecânica dos Solos para integrar esse grupo. Foi indicado para presidente da Comissão o engenheiro Casemiro José Munarski que na época estava fazendo o projeto da barragem de Orós. Saturnino de Brito. não mais tendo contato com a CIGB e acumulando seguidos débitos financeiros não cobertos por mais de vinte anos referentes às contribuições anuais à CIGB. Na época a CIGB tinha apenas 26 comitês nacionais e havia intensa atividade de projeto e construção de barragens em todos os países mais evoluídos. Entretanto. USA. Nesse período de cinco anos a Comissão ficou vinculada ao Ministério de Viação e Obras Públicas. que presidia a Associação Brasileira de Mecânica dos Solos. por iniciativa do engenheiro José Cândido Castro Parente Pessoa. conseguiu encontrar receptividade do engenheiro Luiz Vieira que conduziu a então instituída Comissão Brasileira de Grandes Barragens. O engenheiro Chamenski. a Comissão Brasileira de Grandes Barragens teve suas atividades paralisadas.

Dessa forma. na última hora. primeiro presidente do CBDB de outubro de 1961 a início de 1962 . dois vice-presidentes. A CIGB retirou da pauta a nova exclusão da representação brasileira e o CBGB pode participar dessa reunião executiva e do VII Congresso Internacional. XX e XXI O estatuto do CBGB foi aprovado em assembléia realizada no Clube de Engenharia no dia 25 de outubro de 1961. três indicados pela ABMS. Nessa primeira assembléia foi eleita por aclamação uma diretoria presidida por Antônio Alves de Noronha que teve como secretário o engenheiro Lucio Washington.Antônio Alves de Noronha.A História das Barragens no Brasil . Figura 2 – Casemiro José Munarski ao lado de João Alberto Bandeira de Mello manutenção das obrigações financeiras da Comissão com a CIGB. sendo os membros da diretoria participantes do conselho. A assembléia seguinte foi convocada para o dia 24 de janeiro de 1962. três indicados pela APGE e seis eleitos em assembléia pelos sócios individuais. Pelo estatuto o conselho era composto por 12 membros. 58 Figura 3 . época em que a CIGB apresentava crescente participação de comitês nacionais que naquele ano já eram 48. ambos realizados em Roma. um diretor secretário e dois diretores tesoureiros era eleita pelo conselho. Nessa segunda assembléia foi eleita a diretoria presidida pelo engenheiro Flavio Henrique Lyra da Silva. A diretoria. os recursos levantados junto a empresas privadas foram entregues à CIGB no dia anterior à abertura da reunião executiva de 1961.Séculos XIX. obrigações estas que novamente não vinham sendo cumpridas. tendo como diretor secretário Sydney Gomes dos Santos que foi substituído por Delphim Mazon Fernandes a partir de 25 de março de 1963. composta pelo presidente. Os primeiros anos da história O grupo constituído pelas associações de Pontes e Grandes Estruturas e de Mecânica dos Solos elaborou os estatutos do Comitê Brasileiro de Grandes Barragens CBGB e trabalhou para que fossem arrecadados recursos financeiros que cobrissem os débitos com a CIGB. Constava da pauta da reunião executiva a nova exclusão da representação brasileira dos quadros da CIGB.

Os trabalhos apresentados nos seminários são o perfil do desenvolvimento da tecnologia aplicada a projeto e construção de barragens no País. de laboratórios para ensaios e experiências. no Brasil. Antes dessa fase. A partir do VI Seminário realizado no Rio de Janeiro em novembro de 1970 e até a presente data. permaneceram nesses cargos por quatro diretorias até 1976 quando o engenheiro Flavio Lyra. Interessante notar pelo temário do primeiro seminário realizado em julho de 1962. Os eventos nacionais Desde 1962 o CBGB passou a atuar nos moldes da CIGB.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A necessidade de uma associação técnica ativa no campo das barragens era indispensável para a evolução da tecnologia nacional. vice-presidente do CBGB em vários mandatos promovendo seminários nacionais de grandes barragens e apoiando atividades de comissões técnicas. constituindo uma importante contribuição para a divulgação de experiências profissionais. Disponibilidade. ambos no Ceará. Figura 4 – Antônio José da Costa Nunes. Em cada sessão técnica sempre houve um relato do respectivo tema feito por um profissional de reconhecida experiência e destaque no âmbito nacional. A sede do CBGB passou a ser parte de uma sala da diretoria técnica de Furnas. o número de trabalhos passou a ser expressivo. a partir do Sexto Seminário em 1970. Três Marias. O CBGB passou a ter importante suporte de Furnas já que o presidente do CBGB era diretor técnico de Furnas e seu diretor secretário no CBGB era seu principal assistente na diretoria técnica de Furnas. presidente e diretor secretário respectivamente. Jupiá e Paulo Afonso. em 1956) e as hidroelétricas eram de pequeno e médio portes para os padrões atuais. por ter sido eleito presidente da CIGB. Nos primeiros O grande impulso que estava ocorrendo no Brasil no campo da implantação de barragens no pós-guerra e principalmente nos anos cinqüenta. O País estava entrando em uma era de realizações de grande vulto. Nos primeiros cinco seminários os temas eram limitados a apenas três. notadamente no Nordeste com a construção de açudes com dimensões sensivelmente superiores aos anteriormente construídos e com a necessidade de promover a instalação de grandes hidroelétricas. Os temas foram: Métodos de investigação de fundações de barragens. Disponibilidade. tornou-se necessária a difusão de conhecimentos na área da engenharia de barragens e de tecnologias correlatas. o estágio inicial da tecnologia no País. seminários o número de trabalhos era modesto mas. Foi nessa época que. e hidroelétricas de grandes projeções a nível internacional estavam começando a ser projetadas e construídas como Furnas. Os engenheiros Flavio Lyra e Delphim Fernandes. na Paraíba. 59 . Dessa forma. no Brasil de organizações e de equipamentos para construção de grandes barragens. se afastou da presidência do CBGB. os seminários passaram a ter quatro temas. as barragens eram de dimensões mais modestas (a primeira barragem com altura superior a 50 m foi Boqueirão das Cabaceiras. grandes açudes começaram a ser construídos como Orós e Banabuiú (Arrojado Lisboa). ligados ao projeto e à construção de barragens. com parcos recursos humanos. uma atuação efetiva junto à CIGB foi encarada como uma necessidade premente.

Lyra.A História das Barragens no Brasil . Delphim M. Amarante. P.Séculos XIX. A auscultação de barragens apareceu a partir do IV Seminário realizado no Rio de Janeiro em outubro de 1985. realizado em São Paulo em novembro de 1972. a partir de 1997 passaram a serem discutidos temas institucionais e o retorno com maior intensidade de investimentos privados na implantação e operação de barragens hidroelétricas. Essa dedicação passou a ser manifestada em diversos seminários posteriores assim como temas relativos à tecnologia de estudos. Análises de risco começaram a ser discutidas desde 1987 no XVII Seminário Nacional realizado em Brasília. Carlos A. r e a l i z a d o em S ã o P a ul o em junho de 1963 aparece a dedicação do CBGB à segurança de barragens com o tema Acidentes em barragens. a diretoria do CBGB passou a realizar seminá- 60 . Como reflexo das alterações no modelo do setor elétrico. no XIII Seminário realizado no Rio de Janeiro. Temas sobre meio ambiente passaram a ser freqüentes já a partir do VIII Seminário. Seabra J á n o S eg u n d o S e m i n á r i o . Após os nove primeiros seminários realizados no eixo Rio de Janeiro e São Paulo. concepção. desde o XIV Seminário realizado em Olinda os usos múltiplos de reservatórios passaram a ser realçados. Os esforços do CBDB pelo estabelecimento de uma legislação sobre a segurança de barragens e das interfaces com órgãos concedentes e de licenciamento ambiental passaram a ser debatidos nos seminários mais recentes já no Século XXI. Considerando a importância da maximização de benefícios propiciados pelas barragens. Licinio M. XX e XXI Figura 5 – Mesa de abertura do XIII SNGB – Rio de Janeiro 1980 – Flavio H. A partir de 1980. barragens de rejeitos passaram a freqüentar os temários. Fernandes. cálculo e construção de barragens e operação de reservatórios.

o CBGB teve seu batismo em 1966 na reunião executiva da CIGB realizada no Rio de Janeiro com extremo sucesso. dois em Belo Horizonte.Rio de Janeiro 1966 Flavio Lyra e J. Em 1982 o CBGB foi novamente anfitrião de uma reunião executiva no Rio de Janeiro. O Simpósio foi sobre arranjos de barragens em vales estreitos. Dessa forma foram realizados 10 seminários no Rio de Janeiro. um em Brasília. Large Brazilian Spillways (2002). Os eventos internacionais Consolidando sua projeção internacional. as duas edições de Highlights of Brazilian Dam Engineering (2000 e 2006). Mais uma vez os participantes ficaram vivamente impressionados com o vulto das obras que foram incluídas nas diversas viagens de estudo.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens rios em diversos outros centros. dois em Fortaleza. um em Aracajú. Main Brazilian Dams (1982). o CBGB passou a organizar simpósios sobre pequenas e médias centrais hidroelétricas a partir de 1998. Main Brazilian Dams III (2009). um em Foz do Iguaçu. Diversion of Large Brazilian Rivers (2009). oportunidade de visitar obras de grande vulto que estavam em construção no País. Dicionário de Barragens (2010). seguida de um congresso internacional. Nessa ocasião. pela primeira vez foi realizado um simpósio em reunião executiva da CIGB. um em Olinda.34a Reunião Executiva . o CBGB editou importantes livros sobre barragens brasileiras: Topmost Dams of Brazil (1978). Quanto a eventos internacionais. Dams in Brazil (1982). dois em Curitiba. 3 em São Paulo. Também foram publicadas diversas traduções dos boletins técnicos do CIGB. Desvios de Grandes Rios Brasileiros (2009). Considerando as crescentes atividades de implantação de pequenas centrais hidroelétricas. Dams in the Northeast of Brazil (1982). o que se tornou prática em reuniões posteriores. com grande sucesso. Na ocasião os participantes tiveram a Figura 6 . Guthrie Brown 61 . Com esse mesmo objetivo. o CBGB tem colaborado efetivamente com a CIGB pela participação em diversos comitês técnicos desde os anos sessenta. Main Brazilian Dams II (2000). um em Salvador e um em Belém.

John Cotrim e Pierre Londe 62 . João Alberto Bandeira de Mello.14o Congresso Internacional CIGB – Rio de Janeiro 1982 – coronel Mauro Moreira.Séculos XIX. XX e XXI Figura 7 – Simpósio Internacional sobre Arranjos de Barragens em Vales Estreitos – Rio de Janeiro 1982 – Marcos Schwab e Leo Penna Em 2002 novamente o CBDB promoveu uma reunião anual da CIGB. Delphim M. general Costa Cavalcanti. desta vez em Foz do Iguaçu com o International Symposium on Reservoir Management in Tropical and Sub-Tropical Regions. Carlos Alberto de Padua Amarante. Figura 8 . Em 2009 novamente o Brasil foi sede de reunião anual e do congresso internacional da CIGB. Fernandes. tendo também realizado o International Symposium on Dams and Reservoirs for Multiple Purposes.A História das Barragens no Brasil .

passando os sócios coletivos e mantenedores serem restritos a elegerem seis membros do conselho.Pernambuco Núcleo Regional . no final dos anos sessenta. foram criados os núcleos regionais. Objetivando uma ampliação de suas atividades que demandariam maiores recursos financeiros.Goiais/Distrito Federal Núcleo Regional . A partir dos anos noventa.70a Reunião Anual CIGB – Foz do Iguaçu 2002 – Cassio Viotti (presidente CBDB) A evolução institucional do Comitê Semelhantemente à CIGB que se separou da Conferência Mundial da Energia. Pouco depois houve nova alteração dos estatutos. 63 . Presentemente são os seguintes núcleos regionais: Núcleo Regional .Santa Catarina Núcleo Regional .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 9 . Na primeira eleição de conselho realizada em Fortaleza em 1976. em 1976 o Comitê lançou a campanha de angariação de sócios coletivos e mantenedores que.Bahia Núcleo Regional . pelo estatuto da época tinham tantos votos em assembléias quanto as cotas subscritas.Ceará Núcleo Regional . destacando-se palestras e simpósios de elevado interesse. o Comitê deixou de ter os conselheiros indicados pela ABMS e pela ABPGE.Minas Gerais Núcleo Regional . uma chapa montada pela Eletrobras colocou no conselho todos os membros menos o Flavio Lyra. com o objetivo de dinamizar a atuação do CBDB em todas as regiões.Rio Grande Do Sul Núcleo Regional .Paraná Núcleo Regional . Em 1999 o nome do Comitê Brasileiro de Grandes Barragens CBGB foi alterado para Comitê Brasileiro de Barragens CBDB de forma a abranger também as barragens de menor porte inclusive aquelas da grande maioria das pequenas centrais hidroelétricas.Rio De Janeiro Núcleo Regional .São Paulo Os núcleos têm mantido importantes atividades em suas regiões.

Os membros da diretoria saem desses conselheiros eleitos. Edilberto Maurer presidente do CBDB Em 1999 o nome do Comitê Brasileiro de Grandes Barragens CBGB foi alterado para Comitê Brasileiro de Barragens CBDB de forma a abranger também as barragens de menor porte inclusive aquelas da grande maioria das pequenas centrais hidroelétricas. ao renovar seu conselho.Homenagem ao dr. Presentemente (março de 2011) o CBDB conta com um quadro social composto por 1088 sócios individuais. o CBDB. tem seis de seus conselheiros eleitos pelos sócios mantenedores e coletivos e doze eleitos pelos sócios individuais. Os ex-presidentes são membros do conselho.Como sempre realizado em eventos do CBDB. visita técnica a obras ( barragem de Itaipu) 64 . havendo a possibilidade de serem nomeados até dois diretores adjuntos com funções específicas. Lyra se formou em engenharia) Figura 11 . Figura 12 . Dilma Roussef ministra de Minas e Energia. onde Flávio H. Lyra – Rio de Janeiro 2004 – Maria Lyra e Heloi José Fernandes Moreira (diretor da Escola Politécnica da UFRJ. XX e XXI Figura 10 . 18 sócios coletivos e 35 sócios mantenedores.A História das Barragens no Brasil .Sessão de abertura do XXVI Seminário Nacional de Grandes Barragens Goiânia 2005. Marconi Perillo governador de Goiás. Da esquerda para direita: José Pedro Rodrigues de Oliveira presidente de Furnas. Flavio H.Séculos XIX. A cada período de três anos.

Lyra – Rio de Janeiro 2004 – Erton Carvalho (diretor CBDB). Flavio H.Dirigentes e ex-dirigentes do CBDB em exposição técnica. Nos eventos nacionais e internacionais o CBDB promove sempre exposições técnicas de elevado interesse 65 . Cassio Viotti (presidente da CIGB) e Delphim Fernandes (ex-presidente do CBGB) Figura 14 . simpósios e congressos Figura 15 .Conselheiros do CBDB com familiares em um dos eventos sociais que são sempre realizados em seminários.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 13 .Homenagem ao dr.

66 Açude de Cedros. do seu dique e de seu sangradouro. Em operação desde 1906. a mais antiga grande barragem construida no Brasil . juntamente com Lajes. no Ceará. Vista da barragem. no estado do Rio de Janeiro. a barragem é. Primeira obra de barragem para combate às secas no País.

o semi-úmido com cerca de 600. Uma curiosa tentativa de minorar o sofrimento dos sertanejos com as secas ocorreu em julho de 1859 quando. Rio Grande do Norte. A Comissão recomendou que fossem efetuadas a melhoria do sistema de transportes.548. mesmo assim sob forte oposição ambiental.000 pessoas que residiam na área atingida pela tragédia. estão sendo iniciadas. A Grande Seca que ocorreu de 1877 a 1879 ceifou a vida de mais da metade das 1.2% do território nacional. por encomenda do Governo Imperial. Dessa forma. o Nordeste pode ser dividido em três partes: O semi-árido com cerca de 800. Paraíba. Alagoas.000 km². Em números redondos. Seguiramse quatorze secas no Século XVIII. As secas deixaram marcas que não se apagam por mais que os anos passem. Pernambuco. Antes dessa Comissão havia apenas um posto pluviométrico em Recife operando desde 1842 e outro em Fortaleza desde 1849. Esse foi de longe a maior catástrofe gerada por fenômenos naturais que ocorreu no País. pelo governo republicano.000 km². A primeira seca historicamente constatada foi em Pernambuco em 1583. Em função de características climáticas. As secas são registradas desde o descobrimento. antes de tudo. doze no Século XIX e dezoito no Século XX.672 km² que corresponde a 18. não havia meios de transporte eficientes para a retirada das popula- 67 . Em 1856 o Governo Imperial instalou a Comissão Científica de Exploração para coordenar os estudos e analisar as soluções para o problema das secas. As obras de transposição das águas do rio São Francisco só agora. a instalação de estações meteorológicas e a transposição das águas do rio São Francisco para a bacia do rio Jaguaribe. o navio francês Splendide desembarcou no porto de Fortaleza 14 camelos que vieram para procriarem e apoiar as populações no transporte pela caatinga do semi-árido.000 km² e o úmido com os restantes 200. um forte” Engenheiro Euclides da Cunha Flavio Miguez de Mello O Nordeste é uma região com 1. áreas do norte do estado de Minas Gerais e leste do estado de Tocantins são assemelhadas ao Nordeste. Esses postos em áreas litorâneas não eram referências para a região do semiárido. posteriormente. quando a mais intensa e prolongada seca atingiu o semi-árido. Quanto à construção de açudes. essa tentativa fracassou pela falta de adaptação dos camelos ao solo duro e pedregulhoso.754. em 1877. o paratifo e a varíola.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Um Século de Obras contra as Secas “O sertanejo é. no início do Século XXI. Entretanto. mais de cem anos depois. Ceará. O semi-árido é compreendido pelo Polígono das Secas que tem 936. Piauí. incluindo a totalidade dos estados do Maranhão. a construção de açudes. Na seca de 1915 pereceram 27 mil cearenses e 75 mil emigraram para a Amazônia. instalado em 1896. A tentativa de debandada da população interiorana redundou na morte pelos caminhos e na proliferação de doenças como o tifo. foram iniciadas apenas as obras da barragem de Cedro em 1884 que só foram concluídas em 1906. O primeiro posto no interior já sob influência da Comissão foi o de Quixeramobim. Sergipe e Bahia.933 km² e onde chove em média menos do que 800 mm/ano. Uma das secas remotas foi responsável pela expulsão dos holandeses que tentaram se estabelecer no Ceará. As melhorias nos sistemas de transporte foram discretas em função inicialmente da precária situação financeira ocasionada pela Guerra da Tríplice Aliança e. no Ceará.

tendo o próprio imperador Pedro II estado no local assolado pela seca. Importante consignar que em sessões sob o comando do Conde D’Eu no Instituto Politécnico situado na Corte. defendia a construção de obras estruturais. não mais conseguiu se retirar para o litoral. O primeiro inspetor chefe da IOCS foi o dinâmico engenheiro Miguel Arrojado Ribeiro Lisboa que. O Século XX foi iniciado com outra seca no Nordeste. ocasionando mortes em larga escala. em desenvolvimento tecnológico. O engenheiro Zózimo Barroso propôs a construção de uma rede de grandes açudes.Séculos XIX. eleito em 1926. Com a eleição de Artur Bernardes à presidência da República em 1922. Os precários resultados observados levaram. a Co- missão de Perfuração de Poços. à criação pelo governo de Nilo Peçanha. O professor André Rebouças destacou também a importância da instalação de rede telegráfica e melhorias nos portos da província do Ceará para possibilitar a implantação de vias férreas. no governo de Epitácio Pessoa. ambos no Ceará.A História das Barragens no Brasil . principalmente naquela época de início de mais uma seca. o engenheiro Gonçalves Aguiar elaborou notável análise hidrológica de caráter determinístico publicada em trabalho intitulado Estudo Hidrométrico do Nordeste Brasileiro. implantação de ferrovias e até dessalinização de água do mar. complementando alguns dos açudes com piscicultura incipiente e mesmo irrigação que já havia sido iniciada no açude de Cedro. da Inspetoria de Obras Contra as Secas IOCS. O senador Pompeu e o engenheiro Henrique de Beaurepaire Rohan salientaram a importância do reflorestamento extensivo da região. houve a suspensão de todas as obras e a IFOCS quase desaparece. Essas comissões foram aglutinadas em 1906 na Superintendência de Obras Contra os Efeitos das Secas. Washington Luiz. seu sucessor. Os debates retroagiram à proposta de Gabaglia de 1861 que compreendia a perfuração de poços artesianos e a implantação de barragens. embrião do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas DNOCS. devida à carência de recursos humanos na época. Registra-se que durante os oito anos desses dois mandatos. Nesse período de carência de recursos sobressai-se. A população do interior. convocou renomados profissionais do Sudeste e do exterior para o desenvolvimento de estudos bastante completos. pela idealização de Francisco Sá. tendo implantado mais de vinte açudes públicos com destaque para Forquilha e Quixeramobim. integradas e definitivas. A Grande Seca (1877-1879) de devastadoras conseqüências impactou o Governo Imperial. Processando dados hidrológicos principalmente das bacias hidrográficas dos rios Quixeramobim e Jaguaribe. O engenheiro e escritor Manuel Buarque de Macedo preconizou que o tesouro imperial não dispunha de recursos para implantar tantos projetos. Rebouças reconhecia a necessidade de ações imediatas. a botânica. a pedologia. Em 1919. 68 . a sociologia. Como de costume. O geólogo Silva Coutinho também defendeu a construção de grandes barragens. residências cujos telhados captassem águas de chuva direcionadas para cisternas. a soma dos recursos destinados à IFOCS representou apenas 20% dos recursos despendidos nos dois últimos anos do governo de Epitácio Pessoa que os antecedeu. depois de meses de seca. foram criadas três comissões: a Comissão de Açudes e Irrigação. Cabe aqui realçar algumas posições decorrentes desses debates. em 21 de outubro de 1909. incluindo poços artesianos. dá prosseguimento ao processo de inanição da IFOCS. O professor André Rebouças havia escrito em 1877 o trabalho “As Secas nas Províncias do Norte”. só em época de calamidades é que obras e organismos governamentais são efetivados. esse órgão passou a se denominar Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas IFOCS. Durante dez anos a IOCS se dedicou a obras de infra-estrutura e promovia apoio aos flagelados assolados pelas secas. o aparecimento da “Formula de Aguiar” que serviu de base aos estudos posteriores de hidrologia e dimensionamento de açudes por muitas décadas ao longo do Século XX. abrangendo a hidrologia. enfatizou também a necessidade de construção de abrigos e de alimentação para os flagelados. A IFOCS manteve a construção de açudes. Assim. o primeiro açude não estava concluído e não havia registros pluviométricos no semi-árido. defendendo a implantação de açudes menores e estradas distritais. XX e XXI ções interioranas. e a Comissão de Estudos e Obras Contra as Secas. Pires do Rio e Arrojado Lisboa. a antropologia e a economia. a partir de 1904. foi debatido amplamente o problema das secas no Nordeste. a geologia. construção de barragens e canais.

Face de montante com lajes de concreto 69 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 1 .Barragem Lima Campos em construção em 1932 Figura 2 Barragem do Choró em construção em 1933.

A História das Barragens no Brasil .Inauguração do Açude Público Boqueirão em 1957 com a presença do pres.Açude Choró – Vista do talude de montante ao final da construção em 1934 70 . XX e XXI Figura 3 . Juscelino Kubitschek e do ministro Lúcio Meira da viação e obras públicas Figura 4 .Séculos XIX.

Raquel de Queiroz usou a expressão campo de concentração em seu romance “O Quinze” escrito em 1930. Naquela época Fortaleza era conhecida por “loura despojada pelo sol” e como ninguém gostaria de visitar a cidade inundada por flagelados. No livro “Barragem do Patu. morriam de desnutrição e de doenças diversas nos “currais de fome”. Era comum passarem em redes mais de trinta mortos por dia cujos corpos eram jogados em valas comuns. A barragem foi concluída em 1986. segundo Francisco Luís de Araújo. não houve financiamento para a mecanização para a lavoura e a pecuária. não foram criadas estruturas de estocagem.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Com o golpe de estado de 1930. Os detentos nos campos de concentração eram reduzidos a pele e osso como os filmados pelas tropas americanas ao chegarem aos campos de concentração nazistas na II Guerra Mundial. o que comprova a prática nos primeiros anos da República. sendo violentamente penalizados e recolhidos ao sebo. Os guardas só davam um farelo amarelo. residente da Empresa de Assistência Agropecuária do Ceará. Ipu. 65 anos após o início de suas obras. Com o retorno de Getúlio Vargas à presidência. Dessa maneira 71 . para evitar que os flagelados inchassem as cidades. Os campos foram criados pela IFOCS em Fortaleza. Cariús. A seca de 1932 marcou profundamente os que sobreviveram aos campos de concentração. Em 1932 ocorreu uma seca severa e o canteiro de obra da barragem de Patu que havia sido paralisada em 1923.8 milhões de metros cúbicos de capacidade daria para atender 60% da atual população de Senador Pompeu mas. uma usina termoelétrica. uma pequena gaiola de varas. Uma epidemia de piolho levou o governo a ordenar que as cabeças fossem raspadas. com 71. quando apenas 36 famílias são presentemente beneficiadas com a irrigação. sangue de boi e carne da cabeça de gado como comida. tendo sido substituído pelo engenheiro Augusto da Silva Vieira. por sua vez nomeia o engenheiro Artur Fragoso de Lima Campos inspetor geral da IFOCS. Hoje há esforços para que seja tombado o conjunto de edificações na barragem de Patu. Nesse período de penúrias o Departamento foi dirigido por Luiz Vieira e Vinícius Berrêdo. assume a presidência Getúlio Vargas que nomeia José Américo de Almeida para o Ministério de Viação e Obras Públicas que. desta vez eleito. não havendo recursos para formação de mão de obra. foi formado o campo de concentração do Urubu. Os ingleses se retiraram com a paralisação das obras ordenada pelo governo de Artur Bernardes. Patu e Crato. Cercados por muros e por arames farpados. Seu reservatório. o primeiro campo de concentração que se tem notícia foi o campo de Urubu que foi instalado na seca de 1915. antes da seca de 1932. Os flagelados que reclamavam das condições a que eram sujeitos. não houve meios suficientes para a expansão de observações e estudos hidrológicos. Quixadá. O maior campo de concentração era o de Crato que chegou a ter 65 mil flagelados. Robinson implantou um canteiro de obra. foi duplicado em relação ao orçamento deixado pelo seu antecessor. ainda que insuficiente. Adriano Bezerra relata o ocorrido em 1932 no campo de concentração em Senador Pompeu onde os corpos das vítimas da sede e da fome eram jogados em valas coletivas após a extração dos fígados que eram destinados a exames médicos. portanto. os Descaminhos de uma Obra”. a partir do ano seguinte sob o governo Dutra se mantém com recursos exíguos e praticamente limitados às obras de construção de açudes. depósito de explosivos e casas para seus executivos. eram classificados como infratores. os flagelados se espremiam como uma massa esquálida e faminta. não se promoveu a monetarização do mercado interiorano que funcionava à base de escambo. se transformou em um campo de concentração. Em 1932 Lima Campos faleceu em acidente aéreo. Quixeramobim. no Ceará. não se promoveu acesso a crédito. Entretanto. Propositalmente ignorados pela historiografia oficial. o orçamento do DNOCS. sem dar seguimento a obras de irrigação e de piscicultura. onde a empresa inglesa Dwight P. um cemitério de quinze mil mortos-vivos. os campos de concentração ainda estão vivos na memória dos poucos sobreviventes. a irrigação se devidamente implantada poderia beneficiar três mil famílias. não aconteceu a difusão de insumos. Há relatos de mortes por febre tifóide de mil pessoas em uma só noite no campo do Urubu. Em dezembro de 1945 o presidente José Linhares e seu ministro Maurício Joppert da Silva transformam a Inspetoria no Departamento Nacional de Obras Contra as Secas DNOCS que. escritório.

XX e XXI foram retomadas ou iniciadas as obras de diversas barragens tais como Orós. Nesse período tiveram início os estudos da hidroelétrica de Boa Esperança.A História das Barragens no Brasil . A mais notável delas. teve o seu colapso anunciado com meses de antecedência pelos dirigentes do DNOCS dada a incapacidade financeira e de crédito para concluir a barragem antes do período de chuvas.Séculos XIX. Araras. Figura 5 . Ao assumir o governo federal.Barragem Quixeramobim 72 . Juscelino Kubitschek. obcecado pela sua meta síntese de construção de Brasília. drenou de todos os lados recursos necessários para a implantação da nova capital. Banabuiu. Boqueirão das Cabaceiras e Cocorobó. O DNOCS não ficou isento a essa insaciável drenagem de recursos e algumas de suas obras ficaram sem recursos e sem crédito. Orós. depois incorporada à CHESF. posteriormente transferida para a COEBE e.

Holtz. Diversas empresas consultoras estrangeiras desembarcaram no País para surpresa da Associação Brasileira de Consultores Figura 6 . inter- 73 . a inocência do referido consultor que havia desaconselhado a execução do tapete. com a capacidade de 2. mas o engenheiro José Candido Castro Parente Pessoa logrou provar na delegacia perante a um juiz de direito.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens rompeu em 1961 a concessão de subsídios à construção de açudes particulares por regime de cooperação e desacelerou a implantação de açudes públicos.4 bilhões de metros cúbicos de acumulação. Em 1999 assumiu o governo o general João Batista Figueiredo e. Com a chegada de José Sarney à presidência da República é lançado o programa de irrigação de um milhão de hectares. houve o colapso do talude de montante da barragem por falta de resistência da camada de solo do tapete impermeabilizante. em seguida. além de praticar uma injustificada caça às bruxas com relação aos dirigentes do período anterior. uma argila de baixa resistência foi colocada anexa ao núcleo da barragem se prolongando para montante em forma de tapete impermeabilizante.S. O governo Jânio Quadros. brecada até que as secas intensas ocorridas no início dos anos oitenta demonstraram o equívoco dessa postura. então. antes do enchimento do reservatório. No governo de João Goulart o DNOCS passa à categoria de autarquia em junho de 1963 e passa a trabalhar sob a coordenação da SUDENE em ocasiões de emergência. Durante a construção. Para esse programa foi sorrateiramente e oficiosamente quebrada a proteção à engenharia brasileira conseguida por lei no governo Costa e Silva. A modalidade tradicionalmente adotada de executar os empreendimentos por administração direta foi abolida e o efetivo do Departamento passou a entrar em ociosidade.Açude Mãe d’Água Figura 7 . Ao final da construção. Nos governos seguintes a maior atribuição do DNOCS foi a de implantar perímetros irrigados. As autoridades tentaram culpar o consultor. apesar das advertências da empresa encarregada da fiscalização e de seu consultor Mr. A mais importante obra desse período foi a construção da barragem de Açu no Rio Grande do Norte. ocorreu a severa seca entre os anos de 1980 a 1983. A política de implantação de açudes foi. Após a deposição do governo Goulart. em paralelo ao segundo choque do petróleo. o DNOCS passa a ser gerido por sucessivos coronéis do Exército pouco versados nos problemas do semi-árido.Açude Banabuiu A SUDENE concorreu com eficiência para a divulgação leviana da idéia de que a capacidade dos açudes então existentes seria suficiente para atender à demanda de água do semi-árido para qualquer seca que viesse a acontecer. Bureau of Reclamation. engenheiro de carreira no U.

No primeiro dia do segundo governo Fernando Henrique Cardoso. Esse açude e o longo canal de adução das águas à cidade de Fortaleza executado em tempo recorde de acordo com o planejamento do engenheiro José Cândido Pessoa. A diretoria do DNOCS alertou em 2008 que eram urgentes as obras de recuperação dos açudes Estevam Marinho e Mãe D’Água sob o risco de se tornarem inoperantes e causarem danos irreparáveis a bens e a vidas humanas. W. mas não houve obras de barragens. Da falta de condições do DNOCS e dos perversos cenários das secas surgiram construções de açudes particulares e por outros órgãos federais e estaduais. o que é vedado pela legislação em vigor. Cabe realçar a influência do United States Bureau of Reclamation USBR no combate às secas do Nordeste brasileiro. a era FHC deixou duas grandes marcas na Autarquia: a sua traumática dissolução com seu posterior ressurgimento e a construção da maior barragem do semi-árido brasileiro que incluiu a utilização rara em nosso País. no sertão central do Ceará. de diques fusíveis. o DNOCS foi ressuscitado em maio de 1999. foi novamente criada em janeiro de 2007 com o objetivo de reassumir o planejamento regional. A SUDENE que havia sido extinta por medida provisória em maio de 2001. o DNOCS é finalmente extinto por medida provisória. e do peso do Nordeste no parlamento. laboratórios e obras. Depois de passar trinta anos sem renovar seus quadros. foram treinar nos seus escritórios. A única obra importante foi conseguida pela bancada cearense no congresso: o açude Castanhão inaugurado ao apagar das luzes do segundo governo de Fernando Henrique. pois vinham prestando serviços para a atividade fim do órgão. Implantados em condições questionáveis. Foi instalada uma comissão parlamentar mista tendo resultado daí o relatório de Beni Veras que recomendava a manutenção do DNOCS. inclusive o autor. Dois anos depois as obras foram feitas com dispensa de licitação. mas não foram implantadas no curto governo Itamar Franco nem no primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso. a DNOCS pediu abertura de concurso para seiscentas vagas. Ceará. Sua missão é o desenvolvimento de projetos de barragens de regularização e irrigação do árido oeste dos Estados Unidos. Na sua época mais ativa. 1 de janeiro de 1999. pois há mais de 40 anos não eram feitas manutenções nessas barragens. entre 1940 a 1960. Seu criador em 1898. fortaleceu politicamente o então governador Ciro Gomes e o lançou na política Federal. mas o Ministério do Planejamento limitou a 92. os recursos humanos da instituição não puderam acompanhar a disponibilidade financeira pela sua carência de estrutura e de pessoal. John Wesley Powell deu origem a uma das mais destacadas instituições de engenharia já formada. ficando o órgão nos limites da sobrevivência. Entretanto. apesar de neste governo ter ocorrida significativa redução de diretores e cargos gratificados. havendo mais de doze mil aposentados e pensionistas. o órgão chegou a ter dezessete mil funcionários e fazia as obras por administração direta. 14 barragens colapsaram. Nos dois governos Lula houve reestruturação do DNOCS. Nesta época o autor desse capítulo era o diretor da ABCE encarregado da proteção à engenharia nacional. estiveram dando assistência técnica às obras de barragem do DNOCS. acabando longa agonia. Ao ser lançado o PAC – Plano de Aceleração do Crescimento com uma verba de um bilhão de reais em 2010. que tiveram que ser demitidos. muitas delas do INCRA. mas sujeito a profundas modernizações. Assim. com equipe própria. Ao longo do Século XX o USBR implantou centenas de barragens e mais de duzentos projetos de irrigação no oeste americano.A História das Barragens no Brasil . 74 . A viabilidade da existência do DNOCS passou a ser agenda do governo Fernando Collor de Mello que se instaurou em 1991. bastou que as precipitações em 2009 fossem 59% superiores à média anual para que houvesse o colapso de 50 açudes só em Canindé. tais como Jack Hilf. O USBR foi a primeira instituição americana dedicada ao estudo e desenvolvimento de recursos hídricos. XX e XXI de Engenharia. Essa medida não substituiu devidamente os terceirizados. mas sem dotações orçamentárias suficientes.Séculos XIX. O diretor geral Elias Fernandes lamenta: “todos os meus funcionários têm cabeça branca”. Engenheiros do DNOCS e de outras instituições brasileiras. devido a impressionante mobilização de diversos setores da sociedade civil do Nordeste. As modernizações foram estudadas. Hoje os funcionários da ativa não passam de mil e oitocentos. Em Targinos. Holtz e Hoffmann. Alguns dos mais destacados profissionais do USBR.

nas fases em que o governo federal propiciou condições financeiras adequadas. A barragem de Orós cuja proposição é dessa época.Jack Hilf e José Candido Pessoa. viria projetar o vertedouro da barragem. Um El Niño mais prolongado causa no território brasileiro secas no Norte e Nordeste e cheias no Sul. A barragem de Castanhão teve sua construção proposta em 1910 e só foi executada quase 100 anos depois. Entretanto. Figura 8 . o que significa cerca de 20% das grandes barragens brasileiras. A partir dessa época as secas passaram a ser previsíveis. Quando da primeira fase de construção que eram para ser uma barragem de alvenaria. como engenheiro sênior. Ao analisar as atividades realizadas no combate às secas verifica-se que a descontinuidade na administração das agências de fomento e a alternância dos recursos disponibilizados fazem com que obras iniciadas há várias décadas são descontinuadas ou retardadas. nasceu no canteiro de obra o Theophilo Benedicto Ottoni Netto que. Exemplo de colaboração do US Bureau of Reclamation para o DNOCS 75 . a IFOCS e seu sucessor DNOCS mostrou intensa atividade.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens As causas das secas no Nordeste ficaram desconhecidas até a primeira metade dos anos 80 quando foi detectada a influência da permanência de temperaturas mais elevadas da água no oceano Pacífico na latitude do Peru. sendo responsável pela implantação de mais de 220 grandes barragens (de acordo com a classificação da CIGB). teve suas obras interrompidas. Barragens iniciadas ou projetadas no governo de Epitácio Pessoa como Pedra Branca e Patu foram concluídas muitas décadas depois. fenômeno conhecido desde os tempos coloniais como El Niño.

76 76 .

Considerando que apenas os rios São Francisco. em função do maior ou menor interesse do governo federal.” Antônio Conselheiro a construção de barragens era. atividades que foram originadas das drásticas conseqüências da Grande Seca que ocorreu de 1877 a 1889. após o recuo das águas. foi implantada a primeira barragem de altura superior a 50 m. Nos cento e vinte anos de atividades no combate aos malefícios das secas. se fazia as obras no leito do rio e nas margens. foi modificado pelo engenheiro Ulrico Mursa. 214 grandes barragens (de acordo com a classificação da Comissão Internacional de Grandes Barragens) foram implantadas até 1982. o Governo Imperial encomendou ao engenheiro Jules Revy uma seleção de locais para implantação de barragens com o objetivo da formação de açudes. da Comissão de Açudes e Irrigação. Como são muitas barragens. a barragem de Orós por ter tido impressionante acidente durante sua construção. chamadas na época de barragens de peso. dispensando-se revestimentos. ou maciços baixos de terra cujo elemento impermeabilizante era um diafragma central de alvenaria. a barragem de Cocorobó pelos motivos que determinaram a sua implantação e a barragem do Castanhão por ser a última grande barragem construída pelo DNOCS antes da publicação deste livro. feita em duas etapas: no primeiro ano se procedia a limpeza e o tratamento de fundação e. Nos primeiros anos do século passado as barragens eram de alvenaria de pedra. Essa cifra mostra intensas fases de elevada atividade e outras fases de estagnação. Com o objetivo de promover condições de fixação dos nordestinos cultivando o semi-árido. Já em 1882 o primeiro projeto estava pronto. o sangradouro podia ser simplesmente escavado numa das ombreiras. os demais cursos d’água do Nordeste são de regime intermitente. a barragem de Engenheiro Ávidos pelo seu arrojado projeto original. que flui desde Minas Gerais e o rio Parnaíba que divide os estados do Piauí do Ceará são perenes. Dentre os locais selecionados sobressaiu-se o sítio onde foi implantado o açude de Cedro. Sangradouro de Castanhão 77 . em geral. no segundo ano. em 1880. Flavio Miguez de Mello O Departamento Nacional de Obras Contra as Secas e as inspetorias que o antecederam foram os órgãos que mais barragens implantaram no Brasil. muitas barragens com características extremamente interessantes foram construídas. entretanto. Esse projeto. As barragens do açude de Cedro Logo após o término da Grande Seca.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens As Barragens Construídas pelo DNOCS “Em 1896 há de haver mil rebanhos correndo da praia para o sertão. para o presente livro o autor selecionou as barragens do açude de Cedro por terem sido as primeiras grandes barragens do Nordeste e as mais bonitas até hoje. No caso de haver ombreira em rocha sã. sendo que só nos anos 50. em Boqueirão das Cabaceiras. As obras foram iniciadas em novembro de 1890 e foram concluídas em 1906. então o sertão virará praia e a praia virará sertão. Até meados do século passado as barragens eram de alturas modestas.

o açude ficou super-dimensionado. Há ainda dois diques de terra. A alvenaria de pedra em sua crista. O vertedouro (sangradouro) é também em alvenaria. 464 m de extensão e 8. um em cada margem do rio. Figura 1 – Açude de Cedro 78 .473 m³ de volume.724 m³ e Barragem da Lagoa do Forbes com 4 m de altura.45 km². de longo raio de curvatura de 254 m.000 m³.5 m de altura e com lâmina livre pela crista. com uma superfície de 17. O açude se localiza no rio Sitiá do sistema Jaguaribe. com 7. de gravidade. comprimento de crista de 243 m e volume de 40. uma capacidade de acumulação de 126. XX e XXI sob a direção do engenheiro Bernardo Piquet Carneiro.Séculos XIX. sua extensão de crista é de 415 m.A História das Barragens no Brasil . seu eixo curvo e os pequenos pilares com as grossas correntes aliados à Pedra da Galinha Choca na margem direita da barragem e à esquerda do vertedouro formam um conjunto arquitetônico de rara beleza.000 m³ e uma profundidade média pouco superior a 7 m. controlando uma área de drenagem de 224 km². pela falta de dados hidrológicos na época do projeto. seu comprimento é de 209 m e seu volume é de 9.000. O açude só foi verter (sangrar) pela primeira vez em 1924 o que demonstra que. denominados Barragem Sul com altura de 17 m.925 m³. após paralisações. A barragem principal é em arco gravidade de alvenaria. seu volume é de 60. sua altura é de 18 m sobre as funda- ções em sienito são.

6:1. apresen- 79 . com ogiva de concreto de 160 m de extensão e cuja calha era constituída por um revestimento do talude jusante em lajes articuladas de concreto armado projetado para um pico de cheia da ordem de 800 m³/s e situado na parte central do corpo da barragem. Esses deslocamentos se acentuaram após a passagem da cheia de 1963 que chegou. nos países ocidentais. com a colaboração de Moacyr Avidos. As tomadas d’água são em duas torres cilíndricas controladas por comportas que aduzem a água para duas tubulações em células de concreto armado. O projeto foi concebido pelos engenheiros Luis Vieira e Vinícius Berrêdo. Figura 2 – O engenheiro Moacyr Monteiro Avidos As principais condicionantes do projeto eram: não exigir fundação em rocha sã e o elevado custo devido às dificuldades logísticas para suprimento de cimento ao local da barragem.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A barragem de Engenheiro Avidos.000 m³ e a um volume de concreto de 16. Realmente. a uma sobre-elevação de cerca de 0. um núcleo de concreto sob a linha de centro da barragem constituindo-se o principal elemento de impermeabilização. o engenheiro O.5:1 e de 3:1. o que correspondeu a uma escavação de 300. Na ombreira esquerda as escavações atingiram a 14 m de profundidade. tendo sido definida uma hidrógrafa com pico de 1610 m³/s. como a descarga de projeto deveria ser o dobro da descarga original e como essa descarga de projeto era quase 30 vezes superior à descarga ocorrida em 1963. e um maciço de enrocamento no espaldar de jusante com talude de 1. O vertedouro era de crista livre. recomendou que fosse construído um novo vertedouro na ombreia direita. Regis Bittencourt e Lohengrin Chaves. Paraíba. O projeto original da barragem compreende um maciço de terra a montante com talude variável de cima para baixo de 2:1. Nesse ano. antiga São José de Piranhas A barragem é localizada no rio Piranhas. como as sondagens no aterro da barragem revelaram graus de compactação inadequados. Foi efetuado um novo estudo hidrológico para verificação da hidrógrafa de projeto. o que correspondeu a uma hidrógrafa defluente com pico de apenas 55 m³/s. Rice do US Bureau of Reclamation. uma das quatro barragens com vertedouro sobre o aterro e a única das quatro que sobreviveu durante quase 30 anos de uso. em inspeção à barragem. o reservatório era mantido em nível baixo a maior parte do tempo. A barragem tem 44 m de altura e 340 m de extensão.000 m³. controlando uma área de drenagem de 1124 km². após a cheia. Como esta era. no município de Cajazeiras. no seu pico.30 m sobre a crista do vertedouro. foi decidido que o vertedouro sobre a barragem seria substituído por um vertedouro lateral provido de duas comportas de segmento de 9 m x 10 m que descarregam as descargas vertidas em uma calha em concreto armado e dissipação em salto de esqui. A barragem havia sofrido recalques e os movimentos provocaram a abertura de juntas na laje do vertedouro. de 2. tando muitos matacões e elevada permeabilidade e a margem direita é constituída por um gnaisse intemperizado. Consta que o padre Cícero havia dito que a barragem iria colapsar. No local da barragem a margem esquerda é composta por um quartzito decomposto.

Séculos XIX.Açude Piranhas durante sua construção em 1936. XX e XXI Figura 4 .Açude Piranhas durante sua construção em 1936.A História das Barragens no Brasil .Açude Piranhas – Saída das galerias da tomada de água Figura 3 . Vista do talude de jusante 80 . Vista do talude de montante Figura 5 .

drástico corte de verbas e a conseqüente paralisação das obras no governo de Arthur Bernardes. Em 1932 materiais e equipamentos foram retirados de Orós para as construções dos açudes de Pilões. a 450 km da capital Fortaleza. Em 1940 foi concluído um túnel com 1600 m de extensão ligando Orós ao açude de Lima Campos cuja capacidade de irrigação estava esgotada. no janeiro seguinte. Durante essa fase. Em 1919. incluindo seus filhos. um com barragem de terra e outro com barragem de concreto gravidade. A barragem seria em alvenaria de concreto ciclópico executada com apoio de cabo aéreo cujas torres foram instaladas nas duas ombreiras. Orós foi programada para ter seu maciço totalmente construído em um período seco. para elaborar um novo projeto e implantar a obra sob a supervisão dos engenheiros Charles W. Apesar de dispor de um túnel de desvio. Schneider levaram a professor Casemiro José Munarski a conceber o projeto de uma barragem de terra zonada com grande curvatura em planta para montante com o objetivo de fugir da espessa camada de aluvião. A idéia inicial de uma barragem de eixo reto situada na entrada do boqueirão foi abandonada em 1913. em vista dos resultados das sondagens executadas pelo engenheiro britânico Louis Philips e pelo engenheiro José Gomes Parente. Essas sondagens indicaram no leito do rio uma cavidade no seu topo rochoso de 40 m preenchida por aluviões. como será mencio­ nado adiante. A excepcional cheia ocorrida em 1924 destruiu ensecadeiras e parte do canteiro de obra. Todos os trabalhos de levantamentos e prospecções e de projetos de infra-estrutura tais como as instalações das residências e escritórios. o governo federal contratou a empreiteira americana Dwight P. acessos rodoviários. Estudos e investigações geotécnicas efetuadas pelo engenheiro Arthur W. A cerca de 200 m a jusante do eixo retilíneo original essa cavidade apresenta profundidades de até 80 m. que viria a ser destacado engenheiro hidráulico e professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro. foram feitos pelos engenheiros A. Desde os tempos do Império e nos primeiros anos da república uma barragem no boqueirão de Orós vinha sendo considerada. tendo havido. formando um sem número de engenheiros. Para fugir da cavidade duas alternativas de eixo foram indicadas: eixo reto na parte jusante do boqueirão ou eixo acentuadamente curvo na entrada do boqueirão. Curiosamente. no interior do Ceará. Em 1930 estudos adicionais foram realizados sob a orientação do engenheiro Luis Augusto Vieira. Theophilo Benedicto Ottoni Netto. Sua principal finalidade é perenizar o rio e promover a irrigação nos trechos médio e baixo de seu vale. ambos com eixo retilíneo a jusante do boqueirão para evitar a espessa camada de aluvião que havia sido detectada nos estudos iniciais. Houve um primeiro anteprojeto desenvolvido no início da Inspetoria de Obras Contra as Secas do qual não se tem notícia por ter se perdido em incêndio ocorrido em dezembro de 1912 na Primeira Seção dessa Inspetoria. Pyles. ferrovia. Nessa fase inicial de construção participava da equipe o engenheiro Augusto Benedicto Ottoni. no interior do estado do Ceará. A barragem de Orós deixou de ser prioridade mesmo com a intensa seca de 1932. o engenheiro Theophilo teria atuação de destaque no projeto do vertedouro da barragem de Orós quase cinqüenta anos depois do seu nascimento. uma neta e o autor desse capítulo. O maciço da barragem seria erguido após a estação chuvosa seguinte. Robinson & Co. Piranhas e São Gonçalo. C. no decorrer de 1959. José Wright e George Shobinger. Como finalidades secundárias há a piscicultura e aproveitamento hidroelétrico. Posteriormente equipe do engenheiro Luiz Vieira elaborou dois estudos. Cunha. P. Em outubro de 1958 as fundações da barragem estavam escavadas e tratadas. conhecido como o maior rio intermitente do mundo. nasceu seu filho.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A barragem de Orós A barragem de Orós é situada no rio Jaguaribe. motivado pela intensa seca que impactou a região. Comstock e J. Sargent. como 81 . eletrificação e canteiro de obra. A. José Visetti.

quanto ao perigo da não conclusão da barragem antes do período chuvoso. Como mencionado acima. engenheiro José Cândido Castro Parente Pessoa. Debalde foram os alertas da direção do DNOCS e de seu diretor geral. O DNOCS passou a ter sérios problemas na manutenção do ritmo de construção por falta de recursos financeiros para concluir a barragem a tempo. projetada com 54 m de altura e taludes de 2. O acidente e suas conseqüências impactaram a opinião pública e muitos recursos foram angariados de populares e remetidos às vítimas do acidente. O próprio DNOCS construía a barragem com equipamentos provenientes da recém concluída construção da barragem de Araras. O túnel de desvio situado na ombreira esquerda. devido à incrível concentração de recursos federais para a construção de Brasília. No final do período chuvoso. tendo sido por infarto. tornou-se a tomada d’água e foi revestido posteriormente com chapa de aço. foi executada com espesso núcleo de argila arenosa compactada em camadas de 15 cm e taludes externos em enrocamento que envelopava.Séculos XIX.Galgamento da barragem de Orós Destaca-se a eficiente atuação das forças armadas no resgate das populações residentes a jusante da barragem. ambos abrandados em cotas inferiores. Entretanto. A barragem. na margem direita do reservatório havia sido construído um túnel que conduz descargas do rio Jaguaribe ao açude de Lima Campos com o objetivo de reforçar as vazões para irrigação das áreas a jusante desse açude. Figura 7 . tendo perdido também o crédito junto a fornecedores. A campanha em muitas cidades do País tinha o lema “Orós precisa de nós”. com a barragem ainda incompleta e sem ser possível as águas afluentes atingirem a cota da soleira do vertedouro ainda em escavação. XX e XXI era comum nos rios intermitentes do Nordeste. denominada pelo presidente Juscelino Kubitschek de meta síntese. a barragem começou a ser galgada. nos espaldares de montante e de jusante. zonas de solo arenoso compactados em camadas de 30 cm de espessura.5:1 e 2:1 respectivamente a montante e a jusante.Barragem de Orós após a ruptura Figura 6 . apresentando a jusante uma bifurcação para um descarregador de fundo e para a instalação de uma pequena hidroelétrica que só foi licenciada cinqüenta anos depois. As informações disponíveis dão conta de que apenas um óbito foi registrado. os demais empreendimentos governamentais ficaram com desmedidas carências de recursos. No âmbito externo. Várias cidades situadas a jusante foram invadidas pelas águas oriundas do colapso da barragem.A História das Barragens no Brasil . Era nos primeiros minutos da madrugada do dia 26 de março de 1960. realçam-se as atitudes de países no apoio às vítimas do rompimento 82 . Os esforços para conter o colapso da barragem foram inúteis. Cerca de 40% do volume do maciço já executado foi erodido.

França. era protegido por uma pequena ensecadeira. O projeto foi encomendado ao Laboratório Hidrotécnico Saturnino de Brito – HIDROESB e idealizado pelo Professor Theophilo Benedicto Ottoni Netto aproveitando em parte a configuração da encosta erodida e desenvolvendo uma concepção de elogiável arquitetura hidráulica. Alemanha Ocidental. o vertedouro apenas escavado. Apesar de ter sido o responsável pela carência de recursos que ocasionou o colapso da barragem com graves consequências para as populações de jusante. o sangradouro permaneceu sem ser revestido de concreto. após a emergência. testada em modelo reduzido. A água escoando a elevadas velocidades sobre a rocha altamente fissurada. Em visita ao local em época em que o reservatório estava com elevado nível d’água. Pouco após a reconstrução da barragem. recursos foram destinados a concluir a obra do vertedouro. A barragem foi rapidamente reconstruída entre julho de 1960 e janeiro de 1961. Mais uma vez. provocou grande Figura 9 – Saturnino de Brito Filho. destacando-se quartzitos xistosos dobrados e extremamente fraturados. tendo sido inaugurada pelo presidente Juscelino Kubitscheck. A rocha local é composta por xistos da série Ceará. Theophilo Benedicto Ottoni Netto e José Cândido Parente Pessoa em visita ao modelo hidráulico reduzido do vertedouro de Orós erosão regressiva que quase comprometeu a estabilidade da ombreira esquerda. União Soviética e Vaticano. Entretanto.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens da barragem de Orós: Estados Unidos. Juarez Távora.Erosão na área do vertedouro antes do revestimento de concreto 83 . há um monumento em bronze com a estátua do presidente em tamanho natural. uma alta autoridade federal mandou abrir a ensecadeira. Reino Unido. Figura 8 .

A História das Barragens no Brasil . XX e XXI Figura 10 – Açude de Orós Figura 11 – Vertedouro de Orós em operação 84 .Séculos XIX.

é uma estrutura de terra compactada. o volume d’água A barragem. também descrita com maestria por Mario Vargas Llosa. do presidente Getúlio Vargas à região e ao segundo Arraial de Canudos. principalmente a parte superior da igreja de Antônio Conselheiro bombardeada por canhões do Exército. Esse terrível episódio de nossa história é magistralmente narrado por Euclides da Cunha que foi testemunha ocular da terceira expedição comandada pelo sanguinário coronel Antônio Moreira César.3 milhões de metros cúbicos. há acumulado pelo açude não é suficiente para atender a exploração de todo potencial de solo agricultável a jusante. cem anos após. incontestavelmente de elevado valor histórico. Figura 13 – Estátua de Antônio Conselheiro. cidade posteriormente denominada Florianópolis em homenagem ao ditador da ocasião. prêmio Nobel de literatura em 2010. tendo ao fundo o açude de Cocorobó Figura 12 – Prisoneiros da guerra de Canudos 85 . Na época. havendo duas correntes distintas: a primeira acusa o governo federal de tentar apagar da memória nacional o triste incidente de Canudos. Consta que o pedido da construção da barragem de Cocorobó partiu do chefe político local durante a visita. Inicialmente pacíficos. como ficou evidenciado nas estiagens ocorridas entre 1994 e 2000 quando as demandas fizeram com que o espelho d’água atingisse níveis muito baixos. 643 m de extensão de crista e volume de reservatório de 245. em 1940. e. em nenhum momento foi cogitado que o sítio selecionado iria submergir o que havia restado de Belo Monte. com 34 m de altura. desarmados e militarmente despreparados. que já havia assassinado mais de cem habitantes de Nossa Senhora do Desterro. conhecido por Antônio Conselheiro. Na realidade. Principalmente após a construção.” Os estudos do DNOCS indicaram o boqueirão Cocorobó como o sítio mais indicado para a construção da barragem. o corta cabeças. do Exército Brasileiro contra jagunços seguidores da figura mística de Antônio Vicente Mendes Maciel. construído em 1909 por parentes e sobreviventes do massacre. escondendo sob as águas a participação do Exército no conflito. tendo sido finalmente aniquilados em seu arraial denominado Belo Monte. Mesmo no local selecionado. aparecendo as antigas construções.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A barragem de Cocorobó Na última década do Século XIX foram travados vários combates entre forças militares do estado da Bahia e. posteriormente. os seguidores de Antônio Conselheiro rechaçaram quatro investidas e expedições das forças armadas. Getúlio teria perguntado a Isaias Canário o que poderia ser feito por Canudos e recebeu como resposta: “Um açude Senhor Presidente. concluída em 1968. a seleção do local foi questionada por diversos pesquisadores e historiadores. A segunda defende a idéia de que o boqueirão era o local mais apropriado para a implantação do açude.

que justifica a interpretação de que a barragem teria sido construída para afogar a memória da Guerra de Canudos concluída em 5 de outubro de 1897. o engenheiro José Cândido candidamente indicou a cova número um para acolher o falecido. Como havia sido o primeiro a falecer após a conclusão do cemitério. Nesse trabalho ele identificou o boqueirão do Cunha como sendo um local para implantação de uma barragem que promovesse alguma regularização e que Figura 14 – Açude de Castanhão 86 .” O engenheiro José Cândido Castro Parente Pessoa contou que no início das obras da barragem conversou muitas vezes com o Pedrão. “aquela campanha (do Exército) foi o maior crime praticado em território brasileiro. estudos de locais para implantação de açudes no Nordeste. Pouco tempo depois adentra um coronel do Exército no escritório do referido engenheiro e passa uma descompostura nele por ter enterrado na primeira cova do longínquo cemitério da obra “um inimigo da república”. principal jagunço de Antônio Conselheiro na fase final dos confrontos com o Exército. Era mesmo tentador tentar apagar qualquer registro do massacre dos habitantes de Belo Monte. Pedrão que havia saído para combater a quinta expedição que chegava com soldados do Rio Grande do Sul. mulheres e crianças foram cruelmente degolados pelas tropas do Exército sob o comando do general Artur Oscar de Andrade Guimarães no incidente conhecido por gravata vermelha. mesmo aqueles que se renderam com a promessa de não serem mortos.A História das Barragens no Brasil . que certificam que o local selecionado é na realidade o mais apropriado para a implantação da barragem: a jusante o vale é muito aberto e com espessas camadas de sedimentos e a montante não havia local tão propício para um reservatório. Barragem do Castanhão Os primeiros estudos do Castanhão datam de 1910 quando o geólogo americano Roderic Crandall realizou para a Inspetoria de Obras Contra as Secas. Após o aniquilamento do arraial e de seus ocupantes. se refugiou nos limites do Piauí com o Maranhão até que uma anistia permitiu que ele retornasse a Canudos. XX e XXI pareceres de engenheiros e mesmo de arqueólogos como Paulo Zanettini e Erica Gonzáles. Entretanto. Pedrão faleceu e inaugurou o modesto cemitério que havia sido feito como um dos equipamentos urbanos necessários para a construção da barragem. Ao final da guerra. homens.Séculos XIX. Segundo o engenheiro Euclides da Cunha que esteve no teatro da guerra. houve um depoimento do diretor geral do DNOCS no início da construção da barragem ao autor deste capítulo.

nona edição. A barragem é uma longa estrutura de terra compactada com um trecho em concreto compactado com rolo. incluindo a seleção do local de cada nova moradia. E. P. 100 (nível máximo normal de regularização) possui uma área de 325 km² e represa 4.46x109 m³. Agradecimento O autor agradece à engenheira Ana Teresa Ponte pelas fotografias e informações. O canal de derivação se estende por 256 km com a capacidade adução de 22 m³/s. acompanhando as obras com reuniões públicas mensais em que as manifestações eram livres. nos anos noventa. 300 páginas de atas de reunião e 360 fitas gravadas. M. com 3.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens derivasse as águas do rio Jaguaribe. – Os Sertões – Editora Record. Conviver. 2007 Departamento Nacional de Obras Contra as Secas – Barragens no Nordeste do Brasil. Para contornar essas dificuldades foi constituído um colegiado que funcionou como um parlamento. Conviver. incluindo a totalidade da sede municipal de Jaguaribara. 1982 Llosa. Morada Nova e Jaguaretama para o município de Jaguaribara.55 m. Oitenta anos após. M. V. A. o projeto da barragem foi concluído e submetido a intensas e extensas discussões para a obtenção do licenciamento ambiental. 1989 Figura 15 – Açude de Castanhão 87 . uma Barragem Projetada para Reacender as Esperanças no Futuro ou Apagar o Passado. As discussões que foram mantidas no colegiado se transformaram em um documento de importância histórica com 6000 páginas de transcrições de debates. 2009 Sola J. O projeto foi aprovado no Conselho Estadual do Meio Ambiente em dezembro de 1992 por doze votos a favor e oito contra. – Orós. O reservatório na El. Em novembro de 1995 foi expedida a ordem de serviço autorizando o início da construção. Histórico sobre a Construção do Açude. – Canudos. 1991 Miguez de Mello. 2009 Lima. A descrença e a desconfiança permaneciam na população local e os opositores mantinham todas as ações possíveis para evitar que a obra fosse iniciada. Além da extensa área do reservatório. H. A.345 m³/s com sobre-elevação de 6 m. tendo capacidade de escoar a descarga de projeto de 12. 1978 Monteiro. A barragem do Castanhão foi concluída em 1999. F. o principal impacto foi a necessidade de reassentamento de quinze mil pessoas que eram residentes na área a ser alagada. Nesse aspecto foi importante a transferência de áreas dos municípios vizinhos de Alto Santo. Referências Cunha. 2009 Paulino. As principais decisões do colegiado foram relativas ao estabelecimento de uma tabela para indenizações de propriedades. P. à seqüência de pagamentos e às prioridades no processo de transferência da população. – Cocorobó. – A Century of Dam Construction in Brazil – Topmost Dams of Brazil. além do redesenho do município de Jaguaribara que teve cerca de 60% de sua área alagada. F. O vertedouro em concreto gravidade é provido de 12 comportas de segmento de 10 m por 11. – Castanhão – Conviver. uma Utopia no Sertão – Editora Contexto.450 m de extensão e 72 m de altura. – La Guerra del Fin del Mundo – Seix Barral.

88 .

por ocasião da viagem de Dom Pedro II a Minas Gerais. A Escola Central era situada no Largo de São Francisco de Paula. Por ocasião de eventos no prédio. Cinco anos depois. esta precursora das atuais Academia Militar das Agulhas Negras e Escola Politécnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ. o diretor Claude Henry Gorceix da Escola de Minas e Metalurgia de Ouro Preto. pela primeira vez no País. em Nova York. uma nova demonstração pública de iluminação baseada em energia elétrica. certamente não poderiam imaginar a dependência que a sociedade viria a ter da eletricidade nos dias atuais. uma experiência de geração e utilização de energia elétrica que se tem notícia em território nacional. Os que presenciaram a experiência. foi realizada em pú- blico. A energia gerada foi utilizada para acender uma lâmpada. no Rio de Janeiro. até hoje conhecida como a sala do trono. de onde despachava com sua equipe de governo. Nessa época o Brasil vivia no segundo reinado sob um imperador extremamente interessado em todos os domínios da cultura. atualmente Praça da República.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Resumo da História Remota da Hidroeletricidade no Brasil Flavio Miguez de Mello Os primeiros tempos . o Imperador chegava a ocupar a sala frontal do segundo pavimento (na época o prédio era de dois pavimentos). Vista do canal de adução para a casa de força. Dom Pedro II concedeu a Thomas Alva Edison a concessão para introduzir no Brasil os equipamentos de sua revolucionária invenção e inaugurou a iluminação elétrica da estação da Estrada de Ferro Pedro II. Em 1881. na época sob a direção de Francisco Pereira Passos. Não raro Dom Pedro II freqüentava eventos técnicos na Faculdade de Medicina e na Escola Central. A primeira instalação no País de iluminação com base em energia elétrica em área externa foi efetivada em 1881 no Jardim do Campo da Aclamação. fez acender uma lâmpada com energia proveniente de um dínamo acionado pelos detentos da cadeia local. no coração da cidade do Rio de Janeiro. demonstrando que a eletricidade poderia trazer benefícios inestimáveis à sociedade. prédio da UFRJ hoje tombado pelo seu valor histórico e conhecido como Alma Mater da Engenharia Brasileira.Século XIX Recuamos à distante época dos meados do Século XIX quando não havia ainda exploração econômica de energia elétrica no mundo. atual estação ferroviária situada na Avenida Presidente Vargas. É do conhecimento de historiadores o intenso interesse do Imperador pelos desenvolvimentos tecnológicos que na época encontravam ampla divulgação na Escola Central. Essa foi a primeira instalação de iluminação elétrica de caráter permanente que foi instalada no País. Nesse mesmo ano. No ano de 1857. Usina hidroelétrica de Tombos em Minas Gerais. no Rio de Janeiro. por ocasião da inauguração da estátua eqüestre de Dom Pedro I. da ciência e da tecnologia. embora surpresos. próxima ao prédio da Escola Central. Em 1879 foi efetuado o primeiro emprego comercial do dínamo pela Edison Electric Light Co. hoje Praça Tiradentes. em 1862. 89 . por ocasião de uma homenagem ao Imperador Dom Pedro II no prédio da Escola Central. ocorreu na Praça da Proclamação.

da Escola de Minas e Metalurgia de Ouro Preto. através de 16 lâmpadas de arco voltáico supridas por dois dínamos acionados por um locomóvel. Essa usina manteve uma centena de lâmpadas na região central da cidade com energia produzida por um dínamo de 50 CV. A usina dispunha de uma barragem que criava uma queda de cerca de 5 m. pioneira de um desenvolvimento impar no século seguinte. posteriormente. localizada em Honório Bicalho. Minas Gerais. A adução era feita por um desvio no 90 . hoje substituída por uma estrutura de concreto gravidade. No dia 15 de novembro de 1884. outro marco histórico do progresso nacional. Também em 1887 entrou em operação a usina hidroelétrica do ribeirão dos Macacos. industrial estabelecido em Juiz de Fora. Em 1887 foi instalada uma pequena usina termoelétrica no Largo de São Francisco de Paula. atual município de Nova Lima. com energia elétrica gerada por uma termoelétrica com capacidade instalada de 160 kW. após pouco tempo. através de 10 lâmpadas de arco voltaico de 2000 velas cada.25 m de diâmetro. Em 1883. no Rio de Janeiro. acionadas por uma roda d’água de madeira com 3. a usina hidroelétrica Marmelos com 252 kW de capacidade em duas unidades geradoras acionadas por duas rodas d’água. então ocupado pelo Ministério da Viação. XX e XXI pela Diretoria Geral dos Telégrafos. Ao longo de todo Século XIX a iluminação não sofreu sequer uma paralisação noturna. à iluminação das residências do acampamento da empresa. Ainda em 1887. era um maciço de enrocamento impermeabilizado na face de montante por uma laje de madeira composta de pranchas aparelhadas. este devido a Mariano Procópio que obteve do governo imperial concessão para construir e explorar a rodovia inicialmente utilizada por viaturas de tração animal. Dom Pedro II acionou a ligação de 60 lâmpadas da Edison Electric Co. casa de força abrigando duas máquinas Gramme de 8 CV cada. aproveitava uma queda de cerca de 40 m acionando uma roda d’água de 20 pás que movimentava dois dínamos Gramme com potência total de 500 CV.5 km). A iluminação pública contava com 39 lâmpadas de 2000 velas cada. Entretanto. na Exposição Industrial que foi instalada no edifício do Paço. São Paulo. de propriedade da Compagnie des Mines d’Or du Faria. passou a ser utilizada também em iluminação. uma usina termoelétrica dotada de três dínamos.Séculos XIX. a empresa Real & Portella colocava em funcionamento a iluminação pública da cidade de Rio Claro no Estado de São Paulo. a operação dessa usina teve vida efêmera. na zona urbana da cidade de Piracicaba. na bacia hidrográfica do rio Jequitinhonha. não chegando a durar um ano sequer. em Campos dos Goytacazes. a mais antiga usina hidroelétrica do País e uma das mais antigas do mundo. com capacidade total de 52 kW. Minas Gerais. No dia 24 de junho de 1883. Em 1887 a empresa Companhia Fiat Lux iniciou um serviço de iluminação pública em Porto Alegre. Rio Grande do Sul. iluminação e esgotamento de água nos túneis da mina de ouro e. Não havia barragem. no Rio de Janeiro. gerando em corrente contínua. A energia gerada movimentava duas bombas de desmonte a jato d’água para exploração de diamante e. A energia era destinada às atividades de mineração. A barragem. com 2 km de extensão (a transmissão da primeira usina de Niagara Falls tinha 1. sendo a primeira verificada nas noites de 10 e 11 de junho de 1901. A transmissão era a mais longa do mundo na época. sendo hoje um pequeno museu mantido pela CEMIG à beira da rodovia União Indústria. A usina encontra-se desativada há décadas. A usina. o Professor Armand de Bovet. Essa foi a primeira usina hidroelétrica no Brasil. no município de Diamantina.A História das Barragens no Brasil . Dom Pedro II inaugurou. Nessa data foi colocada em operação no rio Paraibuna. No dia 7 de setembro de 1889 teve início o emprego da hidroeletricidade para serviço público no País pela iniciativa de Bernardo Mascarenhas. com 1500 rpm. contratado na Europa diretamente pelo governo imperial como um dos docentes para aquela Escola. instalou no ribeirão do Inferno. na atual Praça 15 de Novembro. de propriedade da Companhia Força e Luz. Em 1893 era colocada em operação a hidroelétrica Luiz Queiroz no rio Piracicaba.

Rio Claro. destaque é devido ao grupo que se tornou a São Paulo Light e a Rio Light.88 MW. formada em Toronto. A abundância de lenha e a aparente ausência de reivindicações populares para universalização dos serviços de eletricidade faziam com que não houvesse. Nessa época estavam sendo iniciadas várias atividades de implantação de novos serviços de energia elétrica principalmente no Rio de Janeiro. em São Paulo (1884). uma das mais extensas do mundo na época. em Sergipe (1900).. Campos dos Goytacazes. Essa concessão da São Paulo Railway Light and Power Co. Como não havia legislação específica. situada não muito afastada do extenso litoral nacional e servida por uma rede ferroviária de 14. Figura 1 – Usina hidroelétrica de Marmelos O início do Século XX (até 1913) Na virada do Século XIX para o Século XX a população brasileira de 17 milhões de habitantes era predominantemente rural. Curitiba. A casa de força abriga duas unidades de capacidades distintas que somam 1. por governos estaduais e mesmo por governos municipais.7 MW. Porto Alegre. Ltd.000 km. no Rio Grande do Sul (1887). tinham seus pequenos reservatórios unidos por um túnel escavado em rocha. pela ordem cronológica. não se desenvolvia a mineração de carvão e nem se considerava possibilidades da existência de reservas de petróleo. em Minas Gerais (1889). em São Paulo e em Minas Gerais por empreendedores nacionais e estrangeiros. A energia representava pouco na economia nacional retratada pelas importações de carvão e de querosene que atingiam a apenas 6% e 2% do total das importações do País. Em 1895 entrou em operação a hidroelétrica de Corumbataí. por parte do poder público. Destes últimos. no Paraná (1892). Maceió. para serviços públicos e exploração de recursos naturais. independente da nacionalidade. no município de Rio Claro. as concessões de serviços de energia elétrica eram dadas pelo governo central. Duas barragens. no Rio de Janeiro (1883). A casa de força abriga quatro unidades de potências e procedências diversas somando 2. uma no ribeirão Claro e outra no rio Corumbataí. Juiz de Fora. propiciou a vinda do principal executivo Frederick Pearson que trouxe o advogado e empreendedor 91 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens curso do rio próximo à sua margem esquerda. O ambiente político era favorável a concessão a empresas privadas. São Paulo. Com uma atividade de exploração puramente extrativista dos recursos florestais com base em desmatamento da Mata Atlântica de forma dispersa e sem registros oficiais. A primeira concessão do grupo foi dada pela Câmara Municipal de São Paulo para serviços de transporte urbano em veículos movidos a eletricidade. Canadá. em Alagoas (1895) e Estância. Até a virada do Século XIX para o Século XX as primeiras cidades por unidades da Federação que tiveram serviços públicos contínuos de força e luz foram. preocupações com o suprimento de energia.

Seu objetivo inicial era atender às necessidades da rede de transportes urbanos e iluminação da cidade de São Paulo. denominada na época Parnaíba. que teria inicialmente 2. a jusante da cidade de São Paulo. A segunda hidroelétrica instalada no estado foi Piabanha. As hidroelétricas que eram instaladas no início do Século XX eram destinadas a suprir de energia elétrica centros isolados.A História das Barragens no Brasil . No Rio de Janeiro a primeira hidroelétrica foi Fontes. Desta maneira surgiram os primeiros concessionários privados nacionais de energia elétrica nas regiões Sul e Sudeste. tendo sido. A quase totalidade delas e suas áreas de concessão foram sendo incorporadas por empresas maiores. tornando-se uma das maiores hidroelétricas do mundo. A empresa passou a operar no País ao abrigo da autorização concedida em 1895 pelo presidente Campos Sales. desativadas anos depois. Nos últimos anos do Século XIX foram iniciadas as obras da primeira usina hidroelétrica da empresa no Brasil. A barragem era em arco-gravidade situada no alto Ribeirão Das Lajes.000 kW instalados.Séculos XIX. a implantação das hidroelétricas de Piabanha. sendo ampliada para 24 MW em 1909. Hans e Coronel Fagundes. No Estado do Rio de Janeiro nesse início do Século XX destacamse. Em 1908 a usina já tinha 12 MW instalados. instalada pela Light em 1905 com a finalidade de proporcionar iluminação pública e residencial bem como tração para os bondes da capital federal. as hidroelétricas eram em geral de portes muito modestos e tinham casas de força em posição remota em relação às barragens. construída no rio Piabanha pelos Guinle em 1908. no rio Tietê. tendo sido instaladas por prefeituras ou por pequenos empresários para atendi­ mento às demandas das suas fábricas. Nesses casos. a de Lajes. hoje Edgard de Souza. A barragem é uma soleira vertedoura de gravidade em pedra arga- 92 . o excesso de energia era destinado à iluminação pública e domiciliar. com vertedouro de lâmina livre em sua crista. Essa usina foi sucessivamente ampliada até atingir 16 MW instalados. XX e XXI Figura 2 Barragem e Reservatório de Lajes canadense Alexander Mackenzie e os engenheiros Hugh Cooper e Robert Brown. na quase totalidade. Com esse perfil de consumo e com os elevados custos da época em que todos os equipamentos eram importados.

7 m. município de Paraíba do Sul. A barragem é em gravidade de pedra argamassada e concreto. campo de conhecimento em que se tornaria uma das mais altas expressões mundiais a partir da segunda metade do Século XX. A barragem é em concreto gravidade com soleira vertente livre e a casa de força abriga uma unidade Francis horizontal de 294 kW. Figura 3 . A casa de força abriga duas unidades Francis duplas gêmeas de 3 MW cada. muito próxima à hidroelétrica de Piabanha. com altura de 13 m e 80 m de extensão. município de Friburgo com o objetivo de suprir a fábrica de linhas de energia.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens massada com 25 m de extensão e altura de 6. em Muri. Em 1912 os Guinle implantaram a hidroelétrica de Coronel Fagundes no rio Fagundes. tendo assumido em seguida a concessão de serviço público do município. Nessa obra trabalhou o engenheiro Flavio Lyra. pai do então menino Flavio Henrique Lyra que brincava no canteiro de obra e já se familiarizava com barragens e hidroelétricas.Casa de Força de Fontes 93 . Em 1911 os Arp instalaram a hidroelétrica de Hans no ribeirão Santo Antônio.

A hidroelétrica de Maurício foi implantada em 1908 no rio Novo.A História das Barragens no Brasil . situada na crista da cachoeira de Tombos.Barragem de Coronel Fagundes 94 .88 MW instalados. No estado do Paraná há referência à hidroelétrica Serra da Prata. assessorado pelos engenheiros Pedro Leivas.4 MW cada.3 MW. município de Leopoldina pela Cia. No início do Século XX em Minas Gerais destacam-se as hidroelétricas de Maurício e Tombos. para a prefeitura de Paranaguá. Alfredo do Paço. A casa de força abriga dois grupos geradores num total de 2. Osvaldo Lynch e Henrique Fox Drumond. Figura 5 . sendo desativada em 1970. XX e XXI A barragem. Em 1911 foi inaugurada a hidroelétrica de Pitangui para suprir de energia elétrica a cidade de Ponta Grossa. Os contrafortes em primeiro plano são reforços recentes Nos 30 m centrais a barragem é vertedoura em crista livre. Com capacidade de 510 kW. Força e Luz Cataguazes-Leopoldina. A construção foi supervisionada pelo engenheiro Otávio Carneiro. A barragem com 6 m de altura era vertedoura com crista livre situada na crista da cachoeira da Fumaça. Figura 4 . A casa de força abriga duas unidades Francis de eixo horizontal de 2. constituindo-se em vertedouro de soleira livre.Barragem de Piabanha. município de Tombos. Em 1912 foi instalada a usina hidroelétrica de Tombos no rio Carangola. para o Departamento de Águas e Energia Elétrica e para a COPEL. instalada por ingleses em 1910 na vertente da Serra do Mar em Paranaguá. a hidroelétrica passou em 1932 da Cia Melhoramentos Urbanos de Paranaguá para a Cia Melhoramentos Paulistas. A potência instalada era de 1. é em concreto gravidade de pequena altura.Séculos XIX.

Salto Pinhal. em alvenaria de pedra e concreto ciclópico foi implantada no município de Cruz Alta tendo sua casa de força a potência instalada de 268 kW e a barragem Picada 48. O destaque dentre essas usinas é Itatinga. A barragem é uma soleira vertedoura de altura apenas suficiente para promover a derivação de parte das descargas para a tomada d’água que conduz as águas captadas para as turbinas que são alojadas em casa de força abrigada na margem direita. as hidroelétricas de Monjolinho. sendo soleiras livres implantadas nos leitos dos rios. em geral de gravidade em alvenaria de pedra. entrou em operação em 1913 a primeira unidade da hidroelétrica de Salto Weissbach no rio Itajaí Açú. Salto Grande. No estado do Rio Grande do Sul as primeiras barragens que se tem notícia para produção de energia elétrica foram construídas a partir de 1911 e entraram em operação em 1912. Itatinga. 10 MW de potência efetiva. em 1912. Bocaina. poucas com contrafortes localizados. Chibarro. Esmeril. As turbinas de fabricação J. mas sempre ficando com potências inferiores a 6 MW. envolvida por densa floresta da Mata Atlântica. as usinas de Socorro. Rio Novo e Monjolinho. Boa Vista e Quilombo. As barragens dessas usinas eram de altura modesta. Desse conjunto de usinas pioneiras. com cinco unidades Pelton com potência nominal de 3 MW cada sob 640 m de queda br uta.5 m de comprimento. em alvenaria de pedra. Votorantim.7 m de altura e 41.5m com engolimento de 19. a metade Figura 6 .4 m³/s. Turvinho Batista e Sodré. São Joaquim e Brotas. A usina encontra-se implantada na vertente oceânica da Serra do Mar.Barragem vertedoura e canal de adução de Tombos Em Santa Catarina. A maioria dos vertedouros era sem controle. mas apresentando no conjunto. foi construída no município de Dois Irmãos tendo sua usina a capacidade de 200 kW. em 1913. Macaco Branco. em 1909. Voith são Francis gêmeas de eixo vertical com potência de 1470 kW cada sob a queda nominal de 10. São Valentim e Marmelos II em 1910. San Juan. com apenas 2. A barragem Inglês com 4 m de altura e 55 m de extensão. delas tive ampliações de capacidade instalada em etapas posteriores. Capitão Preto.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens O Estado de São Paulo se destaca nos primeiros anos do Século XX por um expressivo números de pequenas hidroelétricas como as usinas de Santa Alice que começou a operar a partir de 1907. Salto Pinhal e Bocaina foram desativadas nos anos oitenta e noventa do século passado.M. Marmelos II. Gavião Peixoto. A maioria dessas usinas tinha menos do que 1000 kW instalados em sua primeira etapa. para suprimento de Blumenau. no município de Figura 7 – Usina hidroelétrica de São Valentim 95 . em 1911.

XX e XXI Figura 8 – Usina hidroelétrica de Brotas Figura 9 – Usina hidroelétrica de Gavião Peixoto Figura 10 – Usina hidroelétrica de Boa Vista 96 .A História das Barragens no Brasil .Séculos XIX.

A energia produzida era direcionada para a fábrica de linhas e para a vila residencial na localidade de Pedra. – The Development of the Brazilian Dam Engineering . – Brazilian Development in Engineering for Dams – Comitê Brasileiro de Grandes Barragens.Main Brazilian Dams III. 2000. feito por via férrea a partir da margem direita do rio Itapanhau. Miguez de Mello. . com 1.Reflexos da Cidade. Ee Amaral C.A. Figura 11 – Usina hidroelétrica de Angiquinho 97 . 1997. 2000 Prado Jr. e Amaral. 1976. – Pequenas Centrais Hidrelétricas no Estado de São Paulo – Comissão de Serviços Públicos de Energia. 1982. Memória da Eletricidade . próximo à rodovia BR-101. hoje Delmiro Gouveia. tendo passado de 306 em 1920 para 1009 em 1930. C. 1999.Sinopse Histórica da Eletricidade no Brasil.1 MW instalados. M. A casa de força foi implantada no trecho médio da escarpa granítica da margem esquerda do salto principal. A. tiveram expressivo desenvolvimento nos primeiros anos do Século XX. A. Prado Junior F.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Bertioga. F. Miguez de Mello. O reservatório é formado por duas barragens de alvenaria de pedra argamassada com vertedouro de soleira livre. SP. F. Em 1913 entra em operação a primeira hidroelétrica do Nordeste Angiquinho.. construída por Delmiro Gouveia na margem alagoana da cachoeira de Paulo Afonso. – A Century of Dam Construction in Brazil – Comitê Brasileiro de Grandes Barragens. F. Saveli. 2009. O conjunto arquitetônico da casa de força é majestoso. – Pequenas Centrais Hidrelétricas no Estado de São Paulo Governo do Estado de São Paulo. Essas pequenas hidroelétricas aproveitando quedas d’água naturais e operando seus reservatórios a fio d’água. Comitê Brasileiro de Barragens. – A Energia do Brasil. 1979. A.A. A. Referências Dias Leite. Miguez de Mello. A usina foi implantada com o objetivo principal de suprir o porto de Santos de energia elétrica.A. sendo o acesso o mesmo utilizado desde o início das obras em 1890. F.

98 98 .

Essa história iniciou-se no final do século XIX. Esta usina Figura 1 . entrou em operação em 99 . em 1887. o primeiro serviço público municipal de iluminação elétrica do Brasil e da América do Sul. Mas a primeira hidroelétrica de maior porte construída na América do Sul. Neste mesmo ano Thomas Alva Edison havia construído a primeira central elétrica para utilização na iluminação pública na cidade de Nova Iorque. quando Dom Pedro II inaugura. foi a Usina Hidroelétrica Marmelos no rio Paraibuna. na cidade de Juiz de Fora (MG). Em 1881. Pedro II. em 1879. Posteriormente mais algumas usinas entram em operação. No ano de 1883 entrou em operação a primeira usina hidroelétrica no país. às margens da estrada União e Indústria. a primeira instalação de iluminação elétrica permanente do país. em trecho da atual Praça da República. hoje Marmelos-Zero. foi instalada pela Diretoria Geral dos Telégrafos a primeira iluminação externa pública do país. em 1885 a Usina Hidroelétrica da Companhia Fiação e Tecidos São Silvestre. em 1887. afluente do rio Jequitinhonha. nesse período. no município de Viçosa. na cidade do Rio de Janeiro. Em 1883 o imperador Dom D. A usina de Marmelos.Primeira Usina Hidroelétrica da América do Sul destinada à produção de energia para utilidade pública foi desativada cento e quatro anos mais tarde em 1987. na cidade de Campos (RJ). o interesse pela nova fonte de energia intensificouse.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Usina Hidroelétrica de Marmelos Adelaide Linhares de Carvalho Carim Introdução O Brasil foi um dos pioneiros na exploração da energia elétrica.“Marmelos Zero” . em substituição aos 46 bicos de gás existentes. no Rio Grande do Sul. a Usina Hidroelétrica Ribeirão dos Macacos. A energia era fornecida por uma usina termoelétrica. Pedro II inaugurou. ambas em Minas Gerais e a Usina Termoelétrica Velha Porto Alegre. na cidade de Diamantina. na Estação Central da Estrada de Ferro D. localizada no Ribeirão do Inferno. Em Minas Gerais. destinada à produção de energia para utilidade pública. destinada à extração de minério na região. a construção de unidades de produção de energia hidroelétrica visando a autoprodução. Empresas de mineração e fábricas têxteis promoveram. atual Estrada de Ferro Central do Brasil no Rio de Janeiro.

XX e XXI 5 de setembro de 1889. como a Rodovia União Indústria. Santo Antônio do Paraibuna . às margens do Paraibuna. foram erguidos pequenos povoados. Sabará. Dom Pedro II e representantes ilustres da Corte e da Companhia União Indústria percorreram em diligência os 144 quilômetros da primeira rodovia macadamizada brasileira. que começou a ser escrito quando o bandeirante Garcia Dias Paes traçou o chamado Caminho Novo que passava pela margem do Rio Paraibuna. dois meses antes da proclamação da república e apenas 7 anos depois da hidroelétrica de Appleton em Wisconsin na America do Norte. Sua inauguração trouxe a mão de obra qualificada dos imigrantes alemães. construída pelo engenheiro Mariano Procópio Ferreira Lage e pela Companhia União Indústria. Neste ano. novos investimentos foram trazidos para a cidade. em 1861. Bernardo Mascarenhas foi o responsável pela instalação de Marmelos. Com a cafeicultura.Séculos XIX. que iniciaram o processo industrial da cidade. havia grandes fazendas de café que eram as bases da economia local. Mariana.A História das Barragens no Brasil . por iniciativa do industrial Bernardo Mascarenhas. e fundador da já extinta CME . marco zero da energia hidroelétrica no Brasil. Diamantina e tantas outras). Por meio deste caminho que efetivamente a história de Juiz de Fora se inicia. como Matias Barbosa. entre as cidades de Petrópolis e Juiz de Fora.que em 1965 se tornava Juiz de Fora . Ao longo deste caminho. Estes eram locais de descanso dos tropeiros que passavam pela região. com a inserção de A cidade de Juiz de Fora no final do século XIX A inauguração da usina de Marmelos veio se somar ao pioneirismo desta cidade.Companhia Mineira de Eletricidade em 1888.Juiz de Fora em 1875 100 . para ligar o porto do Rio de Janeiro Figura 2 . até a principal região mineradora (Vila Rica.Barbacena e outras. Juiz de Fora prosperou grandemente devido à cafeicultura. A Companhia Mineira de Eletricidade foi de extrema importância para a industrialização de Juiz de Fora.

Em 1980 os serviços urbanos foram ampliados com bondes de tração animal. Em 1888 Juiz de Fora ganhava a Companhia Têxtil Bernardo Mascarenhas e o Banco de Crédito Real. Mais tarde vieram os italianos e com eles ampliaram outros setores como o comércio e a prestação de serviços. Todos estes empreendimentos foram realizados por iniciativa do industrial Bernardo Mascarenhas.Guia do Viajante de Petrópolis a Juiz de Fora”. fórum e jornais. Barão de Rio Branco -1903 101 . fotógrafo do imperador. Posteriormente. o telégrafo. e intitulado “Doze Horas em Diligência . e em 1889 a primeira Figura 3 . A estrada deu origem também ao primeiro guia de viagens do Brasil.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens algumas fábricas. promoveu a comunicação entre a cidade e a corte. Figura 4 . A Estrada União Indústria existe até hoje em vários e extensos trechos. Barão de Rio Branco em 1903 ambas pertencentes ao acervo do Museu Mariano Procópio. Em 1878 funcionavam seis estabelecimentos de ensino. a construção da ferrovia Dom Pedro II em 1875. As figuras a seguir mostram Juiz de Fora em 1893 e a Av. telefones urbanos.Panorâmica de Juiz de Fora – 1893 usina hidroelétrica para iluminação pública da América do Sul. que ficava neste momento no Rio de Janeiro. tendo sido substituída como ligação rodoviária entre Petrópolis e Juiz de Fora pela BR-040. escrito pelo alemão Revert Henrique Klumb. em 1883. A cidade de Juiz de Fora se iluminava para o mundo.Av. em 1881 ganhava telégrafo. e em 1884. Outro beneficio da estrada foi a melhoria no escoamento da produção cafeeira da Zona da Mata Mineira até o Rio de Janeiro. antes mesmo até que algumas importantes cidades européias.

É criada então em Curvelo a companhia Cachoeira (1877). considerado à época. Para aprender sobre tecelagem.A. na fazenda São Sebastião. recebeu de seu pai 26 contos de reis.Séculos XIX. física. Com 18 anos.Companhia Têxtil Bernardo Mascarenhas inaugurada em maio de 1888 102 . filho de Antônio Gonçalves da Silva Mascarenhas e de Policena Moreira da Silva Mascarenhas. dinheiro para iniciar a vida como criador de gado e comércio de sal. adquiriu os maquinários desejados e voltou para o Brasil e. convida dois irmãos para montarem em sociedade uma indústria têxtil. Alguns anos mais tarde. utilizando as mais novas tecnologias da época. Em 1882 foi aprovada a lei das sociedades anônimas no Brasil e em 1883 fez-se a fusão das empresas (Cedro e Cachoeira). constituindo a primeira S. como fazia com os demais filhos ao completar esta idade. Bernardo Mascarenhas Bernardo Mascarenhas nasceu em 1846. visitou fábricas. é o décimo filho dentre os 13 filhos do casal. viaja para a Europa e Estados Unidos com a incumbência de atualizar-se. Figura 6 . Neste período estudou idiomas. adquirir novos equipamentos e conhecer a utilização da eletricidade na indústria textil. tocados a mão na fazenda de seu pai.A História das Barragens no Brasil . mecânica. privada no país.Bernardo Mascarenhas Aos 12 anos iniciou seus estudos no colégio Caraça. A partir da experiência adquirida com os teares de madeira. viajou para os Estados Unidos onde ficou por 1 ano e meio. inaugurou as instalações da fábrica têxtil da companhia Cerdo. região de Curvelo. XX e XXI Figura 5 . no ano de 1872 em Sete Lagoas. um dos melhores de Minas Gerais.

também fundada por ele em janeiro de 1888. praticamente utilizável. Bernardo Mascarenhas faleceu no dia 9 de outubro de 1899 de um ataque cardíaco fulminante. fazendo um esboço de próprio punho de como ela seria. no Brasil ou talvez na América do Sul” (trecho da carta de Mascarenhas em 1887). que se localizava próximo à cachoeira de Marmelos. Em 1886. local mais propício para o escoamento da produção de tecidos. A antiga Companhia Têxtil Bernardo Mascarenhas apresenta rigorosa simetria com um corpo central em três pavimentos e ladeado por suas extensas alas horizontais em dois pavimentos. O empresário adquiriu outro terreno perto da estação ferroviária. devendo ter força bastante para alimentar 50 lâmpadas de arco de 1000 velas e quinhentas ditas incandescentes de 16 velas.Esboço da hidroelétrica Marmelos Zero por Bernardo Mascarenhas 103 . Doou este terreno para a CME Companhia Mineira de Eletricidade. em substituição à iluminação a gás. aproveitando os recursos naturais de seu terreno. tendo em vista o uso da iluminação elétrica. Neste local. foi realizada a primeira experiência com a eletricidade e em 5 de setembro de 1889 ocorreu a inauguração oficial. inaugurada em maio de 1888. mais tarde.” (Trecho de memorial de Bernardo Mascarenhas para Max Nothman & Co. “Me considerarei muito feliz se for o primeiro a transmitir força elétrica. No dia 22 de agosto de 1889.. Mascarenhas e o banqueiro Francisco Batista de Oliveira recebem aprovação junto à câmara municipal para explorar a Cachoeira dos Marmelos para produção elétrica e a concessão para a iluminação da cidade e obteve a revisão do contrato original. seria erguida a primeira usina hidroelétrica da América do Sul. A CME foi a responsável pela construção da usina de Marmelos Zero e foi presidida por Mascarenhas até seu falecimento. A nova usina além de atender à iluminação pública da cidade atenderia as máquinas da Companhia Têxtil Bernardo Mascarenhas. Bernardo Mascarenhas projetou e especificou a usina. “A fábrica de eletricidade será provida de dois excelentes dínamos movidos por duas turbinas verticais ou de eixos horizontais.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Bernardo Mascarenhas mudou-se para Juiz de Fora em 1886 e adquiriu o terreno próximo do Rio Paraibuna e da Rodovia União Indústria. encomendando o material para a usina) Figura 7 . Bernardo Mascarenhas buscava outras fontes de energia em substituição à energia usada que até então era à base de querosene. onde pretendia montar uma indústria de tecidos.

disseminados no manto intemperizado ao longo das encostas e principalmente soltos no leito do rio Paraibuna. gnáissicas.A História das Barragens no Brasil . A edificação. gabro e outras rochas básicas e ultrabásicas. o relevo nas proximidades das usinas caracteriza-se por altas colinas de topos arredondados. ambos de idade Pré-Cambriana. quartzito e entrecortados por diques de anfibolito. 104 . XX e XXI Descrição geral da usina Geologia A geologia ao longo do rio e suas margens é constituída por afloramentos de rochas charnockíticas. de cor amarelada com alto grau de erodibilidade. lembra a arquitetura medieval . denominado “Castelinho”. Este complexo charnockítico acha-se intercalado por faixas com espessuras variádas de granulitos. em dois pavimentos. foram montadas outras usinas no mesmo local para atender inteiramente à crescente demanda de consumo. vertentes concavo-convexo e drenagem dentrítica.Séculos XIX. que iria ser colocado na fábrica Bernardo Mascarenhas como força propulsora. Mineira de Eletricidade. quando ocorreu a inauguração do motor elétrico. As rochas charnockíticas são gnaisses que sofreram desidratação e descalcinação durante metamorfismo de alta temperatura e pressão média a alta (fácies granulito).Edifício da Cia.Primeira usina hidroelétrica da América do Sul destinada à produção de energia para utilidade pública e força motriz para indústria Posteriormente. O solo residual é constituído de areia siltosa. foi construído em 1890. Figuras 9 e 10 . O edifício da Cia. como será descrito em seguida. granulitos e anfibolitos do Complexo Juiz de Fora e parte do embasamento Pré-Cambriano indiferenciado. Figura 8 . Nas ombreiras e encostas da barragem é comum um manto de solo de 5 a 10 m de espessura. migmatito. planos de fraqueza e a típica esfoliação esferoidal que se interceptam originando blocos de rocha sã de dimensões variadas. denominado “Castelinho”.Usina de Marmelos . De modo geral. Mineira de Eletricidade. As rochas do complexo charnockítico e do embasamento cristalino possuem sistemas de fraturas.

última usina construída pela CME. A casa de força foi construída em prédio contíguo ao da usina Marmelos 1. Em 1905 foi instalada a terceira unidade com capacidade de 300 kW. foi desativada em 1896. ampliou-se a potência da usina de Marmelos 2 com a instalação da terceira e quarta unidades geradoras.000 kW. Em 1910. Esta unidade geradora era composta por uma turbina tipo Francis dupla. Em 1952. denominada Usina Zero. de fabricação italiana. foi adquirido na ocasião pela fir ma Pantaleone Arcuri & Timponi. com capacidade de 1600 kW. acionadas por turbinas Francis. que foi inaugurada inicialmente com dois grupos geradores de 600 kW de potência cada. Esta usina. fabricadas pela alemã J. Este motor de 30 HP de potência era de fabricação da Westinghouse. pois a maioria das indústrias têxteis era movida a vapor com complicados sistemas de transmissão para as máquinas e muitas ainda eram acionadas por rodas d’água. tem como coordenadas geográficas Latitude 21º 43’ Sul e Longitude 43° 19’ Oeste. sendo denominada Usina 1-A. operada sob tensão de 1000 Volts. a usina de Marmelos 1 foi desativada. As figuras a seguir ilustram os equipamentos eletromecânicos da usina de Marmelos. 105 . também em Juiz de Fora. como as demais. A usina de Marmelos como é denominada atualmente é composta pelas antigas Usinas 2 e 1-A e passou a ser operada pela CEMIG em 1980. Marmelos 2 passou então a dispor de capacidade instalada de 4. Com o aumento da geração a CME ampliou sua área de influência na Zona da Mata Mineira. visando transformá-la em linhas elétricas. quando Juiz de Fora possuia 180 lâmpadas na iluminação pública e 700 para uso particular. Marmelos atinge a potência de 1200 kW com a entrada em operação da quarta máquina de fabricação da Westinghouse. Em 1915 o engenheiro Asdrúbal Teixeiras de Souza projetou a segunda usina Marmelos 2. afluente do rio Paraíba do Sul a 7 km de Juiz de Fora e a 290 km de Belo Horizonte MG. Em 1898. Mar de Espanha.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Localização e dados técnicos históricos A usina hidroelétrica de Marmelos está localizada no rio Paraíbuna. Voith. no momento em que a CME adquiria a companhia de bondes de tração animal de Juiz de Fora. Um terceiro grupo gerador com a capacidade de 125 kW foi instalado em 1892. fabricados pela Westinghouse. Nesta época. com capacidade de 600 kW cada uma com as mesmas características técnicas das duas anteriores. a usina iniciou o fornecimento de energia para a fábrica de Mascarenhas após a aquisição do primeiro motor elétrico instalado no Brasil. tornando-se concessionária dos serviços de eletricidade de Matias Barbosa. A usina foi projetada inicialmente com uma capacidade de geração de 250 kW distribuída em dois grupos geradores monofásicos de 125 kW. fabricados pela empresa americana General Electric e turbinas tipo Francis de 1000 HP. Em 1948. Bicas e Guarará. Marmelos 1 contou inicialmente com duas unidades geradoras bifásicas de 300 kW cada. Outro motor elétrico de 20 HP. na frequência de 60 Hz. quando obteve a sua concessão através do decreto MME 700725 de 08/07/80. foi construída a quinta unidade. M. fabricada pela empresa americana James Leffel e um gerador de fabricação da General Electric. construída pouco abaixo da usina desativada. a cidade de Juiz de Fora passou a viver um intenso desen­ volvimento industrial o que demandava aumento na oferta de energia. após a inauguração de Marmelos 1. instalada em uma casa de força adjacente à Usina 1. dois anos após a construção da usina de Joasal. Em 1921 e 1922. O acionamento elétrico dessas fábricas representou à época outro marco histórico.

XX e XXI Figura 11 .A História das Barragens no Brasil .Interior da casa de força da antiga Usina 2 de Marmelos Figura 12 -Turbina e gerador da unidade 5 da antiga Usina 1 A Figura 13 .Séculos XIX.Gerador da unidade 1 a 4 da antiga Usina 2 106 .

Regulador de velocidade da excitatriz Usina 2 Figura 16 .Excitatriz nº 2 semelhante a uma unidade geradora hidráulica . inoperante 107 .Usina 2 Figura 15 .Painel original das unidades 1 a 4 e excitatrizes 1 e 2.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 14 .

com um trecho em crista livre vertente com comprimento de 20 m e vazão de 134 m³/s. Sobre o vertedouro existe uma passarela que possibilita a colocação de flash-boards de até 2.Vista de jusante da barragem e do descarregador de fundo na margem esquerda. vencendo um desnível de 51 m entre o nível máximo do reservatório e o eixo das tubulações forçadas na entrada das turbinas. O circuito hidráulico de geração.Séculos XIX. Possui uma descarga de fundo motorizada (2.5 m).5 m. é composto por um túnel escavado em rocha. fundada em rocha sã pouco fraturada. de alvenaria de pedra. com capacidade de 58 m³/s. localizada na margem direita. que permitem o aumento da capacidade do reservatório em períodos secos. localizada na margem esquerda. onde estão localizadas a antiga tomada de água para o canal de adução da usina Zero e a tomada de água do túnel de adução da usina de Marmelos.A História das Barragens no Brasil . e por um trecho. Barragem e vertedouro A barragem é do tipo gravidade.5m). O arranjo da barragem partindo da ombreira esquerda para a direita se constitui por uma descarga de fundo de acionamento motorizado (2. é uma estrutura em alvenaria de pedra possuindo uma comporta moto- 108 .5 x 2. A tomada de água do túnel adutor. Tomada de água Arranjo geral atual A barragem para a formação do reservatório operado a fio d’água é constituida por uma estrutura do tipo gravidade em alvenaria de pedra com 51 m de extensão e altura máxima de 7.5 x 2. também em alvenaria de pedra. localizado na margem direita. seguida por um vertedouro de crista livre com 20 m de comprimento. seguido por um canal de Figura 18 . XX e XXI Figura 17 – Vista aérea de montante da usina adução e duas tubulações forçadas que conduzem a água até as unidades geradoras.5 m de altura divididos em 10 vãos ao longo de todo o comprimento da estrutura.

189 m. Hoje é Museu da Usina de Marmelos.67 m³/s. Marmelos 1.20 m.30 m (tubulação 1) e outra com diâmetro de 1. cujas vazões são absorvidas por um canal de concreto.76 m². abriga quatro unidades geradoras de 600 kW cada e casa de força da antiga Usina 2. A casa de força de Marmelos Zero foi edificada em nível abaixo da Estrada União e Indústria. As turbinas são tipo Francis. tem seção de 3. possui uma área total de 201. o circuito hidráulico de geração conta com uma câmara de carga em alvenaria de pedra. Na parte direita da estrutura existe um vertedouro complementar.9 m³/s. O comprimento de cada uma delas é de 125. que alimenta a unidade geradora nº 5. Marmelos 1A e Marmelos 2) estão localizadas ao longo do rio Pa­ raibuna e foram assentadas em maciços rochosos sãos. que foi a casa de força da Usina 1-A. de eixo horizontal e engolimento de 4. totalmente escavado em rocha e revestido lateralmente com concreto. dos quais 94.40 m de extensão. e uma terceira comporta para a regularização do nível de água. O trecho a céu aberto. Canal de adução desativado Localizado e incorporado à barragem.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens rizada tipo deslizante (4. Uma pequena torre de seção quadrada e telhado de quatro águas marca a construção. Túnel e canal de adução O túnel adutor tem extensão de 215.40 m são a céu aberto. tem seção em ferradura semelhante à do túnel. Na continuação do túnel existe um canal de adução com 283. com área total de 273 m². A turbina é tipo Francis. na sua margem direita e junto à tomada de água do túnel adutor. A Figura 19 a seguir é uma vista geral da usina de Marmelos (casas de força e tubulações forçadas). em planta. O Museu Usina de Marmelos Zero A CEMIG (na época Centrais Elétricas de Minas Gerais) adquiriu a usina em 1980.20 m) formada por painéis de madeira.50 x 4. é formada por dois blocos distintos: um deles. também em alvenaria de pedra. A usina de Marmelos Zero se transformou em 109 . Câmara de carga Entre o canal de adução e as tubulações forçadas.50 m (tubulação 2). de eixo horizontal e engolimento de 1. sobre embasamento de pedra. Canal de fuga As paredes do canal de fuga das antigas Usina 1-A e Usina 2 são em alvenaria de pedra. A cobertura de duas águas é recoberta por telhas francesas e tem os beirais ornamentados por lambrequim.80 m e seção em ferradura com 10 m².60 x 3. Possui duas comportas na tomada de água. O trecho coberto.30 m e 81. abriga uma unidade geradora de 1600 kW. situado sob a rodovia.40 m. Suas paredes são em alvenaria de tijolos maciços aparentes. hoje é utilizada como almoxarifado. Na tubulação nº 2 existe uma bifurcação com diâmetro de 1. em alvenaria de pedra. A casa de força da antiga Usina 1. uma com diâmetro de 1. possui uma comporta de madeira acionada manualmente e muro em alvenaria de pedra. Tubulações forçadas Existem duas linhas de tubulações forçadas partindo da câmara de carga. Casa de força As estruturas da usina de Marmelos (Marmelos Zero. sendo vazadas por vãos com vergas em arcos abatidos em seqüência ritmada. Próximo a essa estrutura existe um descarregador de fundo. A casa de força da usina de Marmelos. em alvenaria de pedra. operadas manualmente.44 m de comprimento. situada na Casa de Força 1-A. O outro bloco.

Está aberto das 8:30 h às 17:00 h. livros de ata e contabilidade dos primeiros acionistas da CME. Figura 20 . cuja fabricação era da Westinghouse. tripés de madeira. após seu tombamento. concedido pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA). a usina ganhou um segundo tombamento. no bairro Retiro. O museu tem como propósito preser var a memória tecnológica e científica da cidade. 1983 num espaço cultural e museu. próximo ao trevo da cidade de Bicas. painel de controle de energia e uma réplica de um gerador utilizado na época. neste mesmo ano. desta vez. rascunho da planta da usina. O prédio da fábrica de tecidos de Mascarenhas também se encontra preservado. por meio do telefone (31) 3229-7606. Após a morte de Mascarenhas o prédio passou por Figura 19 – Vista geral das casas de força da usina hidroelétrica de Marmelos: antigas casa de força 1.A História das Barragens no Brasil . mantendo-o aberto diariamente. O acervo do museu é composto por objetos particulares de Mascarenhas. teodolito.Séculos XIX. O convênio firmado entre a UFJF e CEMIG (atualmente Companhia Energética de Minas Gerais) tem como meta aprimorar o atendimento ao público que visita o museu. De segunda a sexta-feira podem ser agendadas visitas monitoradas por acadêmicos da UFJF. inclusive nos finais de semana e feriados. máquina de escrever e de calcular. 2 e 1A.Museu de Marmelos Zero (antiga casa de força Marmelos Zero) 110 . XX e XXI Desde o ano 2000. assim como fotos de Bernardo e sua família e painéis com pequenos textos infor mativos. Em 2005. a administração do museu está a cargo da Universidade Federal de Juiz de Fora UFJF. além de várias fotografias que mostram a construção da usina. no qual a cidade de Juiz de Fora foi escolhida para ser a primeira a se iluminar. pelo Patrimônio Histórico Artístico e Cultural do município de Juiz de Fora. Esses tombamentos demonstram a suma relevância de sua preservação como um prédio histórico. contas de luz. assim como destacar a figura importante de Bernardo como sendo o precursor desta idealização e realização deste sonho. O Museu Usina Marmelos Zero encontra-se localizado às margens da Rodovia União-Indústria.

Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 21 .Centro Cultural Bernardo Mascarenhas Referências CEMIG – Inventário civil – SR/SE Usina Hidrelétrica de Marmelos Relatório Final Novembro 1983.CCBM .pjf. jornalistas e intelectuais fizeram com que o imponente prédio.ebah. Lima. deixando como patrimônio sua sede.História das Hidrelétricas no Brasil . Cemig Notícia – Mais Energia Para uma Grande Cidade Juiz de Fora .htm www.br/juizdefora.com.com. CEMIG . ampliações e modernizações.html www.com. 2001 http://www.Universidade Tecnológica Federal do Paraná Campo Mourão.Estudo de Viabilidade de Recapacitação e Modernização .mg.br/patrimonio/usina_marmelos.br/alfa/historia-daeletricidade-no-brasil/historia-da-eletricidade-no-brasil-5.br/centrodeciencias/museu-usina-marmelos-zero/ http://wikimapia.eletrobras. A fábrica encerrou suas atividades em janeiro de 1984.ufjf.gov. fosse transformado em um centro cultural em 1987.portalsaofrancisco.Edição Especial Junho de 1980. A mobilização de artistas. 2009.memoria.html http://www. localizado na Avenida Getúlio Vargas 200.asp http://www.com. Fernanda Borges Ferreira Murilo Keith .1ª Etapa : Diagnóstico da Situação Atual da Instalação .Setembro 1993. que foi utilizada para pagamento de dívidas junto ao governo. Umada.br/historia-das-hidreletricas-no-brpdf-a91646.br Figura 22 .com/index.php http://www.asminasgerais.org/701437/pt/Usina-Marmelos http://www. Silvânia Duarte – Educação e Turismo uma Forma de Conhecer a História da Usina de Marmelos – Departamento de Geociências – UFJF.Canal de adução desativado 111 .Usina de Marmelos .conotec.

Usina hidroelétrica de Angiquinho na cachoeira de Paulo Afonso em diferentes regimes do rio São Francisco .

um com 11 casas e 1 escola.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Usina Hidroelétrica de Angiquinho Aurélio Alves de Vasconcelos Figura 1 – Vista geral da Usina Hidroelétrica de Angiquinho Introdução Inaugurada em 26 de janeiro de 1913. operado pela Chesf. Sua energia era suficiente para suprir. Tinha como objetivo fornecer energia elétrica a indústria têxtil Companhia Agro Fabril Mercantil de propriedade do industrial Delmiro Gouveia. no Rio São Francisco. de 625 kVA. com sua casa de força encravada nas rochas 113 . além da indústria. casa de bomba e escada de acesso à casa de força. subestação elevadora. localizada na cidade de Pedra. o segundo de 450 kVA e. A usina ocupava uma área de 253 hectares e possuía dois conjuntos de instalações. A Usina Hidroelétrica de Angiquinho tinha capacidade de gerar 1. que continua de pé no meio da caatinga. a bomba d’água que abastecia a cidade. almoxarifado. Angiquinho foi a primeira usina hidroelétrica do Nordeste. o último. constituída por três grupos geradores sendo o primeiro de 175 kVA.500 HP (1. A partir de 30 de novembro de 2006. distante aproximadamente 24 km da cachoeira. as edificações com o acervo interno e externo e toda a área do Complexo de Angiquinho foi tombado e integrado ao Patrimônio Histórico Artístico e Natural do Estado de Alagoas.000 Volts. e outro com 2 casas. no estado de Alagoas. aproveitando uma queda d’água de uma altura de 42 metros. atual Delmiro Gouveia em sua homenagem. com tensão de saída em 3. localizada na margem alagoana da cachoeira de Paulo Afonso. próximo ao atual Complexo Hidrelétrico de Paulo Afonso.102 KW). e também a Vila Operária da fábrica. O ousado projeto.

é um pólo de turismo histórico.Guindaste usado na fase de construção e montagem da casa de força 114 . ambiental e cultural. Hoje. educacional. levou o desenvolvimento para a região que até então só conhecia a luz tênue de candeeiro. além de ser área de preservação cultural.A História das Barragens no Brasil . Resgata e cria uma grande oportunidade para todos que desejam conhecer a história da eletricidade do Brasil. Angiquinho. Figura 3 . XX e XXI Figura 2 – Casa de força da Usina Hidroelétrica de Angiquinho íngremes nas margens do cânion do rio São Francisco.Séculos XIX.

precisamente em 1903. a industrialização da energia hidroelétrica da cachoeira de Paulo Afonso e um vasto plano agrícola-industrial conexo”. restou acertar as condições comerciais. Assim. chefiada pelo capitalista Mr. Era descrito como um homem sempre disposto a assumir grandes compromissos. 115 . Contudo. em 5 de junho de 1863. Tomado pelo ímpeto de realizar proezas. Delmiro chegou até a justificar a proposta do projeto de eletrificação Figura 4 . Confirmadas as vantagens. no sertão alagoano.Fruto de um caso extraconjugal. Delmiro procurou sondar as potencialidades da região para poder colocar em ação a realização de seu sonho. em virtude do surgimento de condições técnicas e econômicas. em breve. Essa foi a condição para a participação do capital norte-americano no projeto. em grande escala. o aproveitamento e exploração do vale do rio São Francisco. com sua proeza de transformar as idéias em realidade. Inicialmente. Sabe-se que os estudos contemplaram a viabilidade do aproveitamento hidrelétrico de um trecho do rio. onde foi bem recebido pela oligarquia local. Moore e sob a supervisão técnica do engenheiro Stewart. cujo objetivo principal era “empreender.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens História No início do século XX. Delmiro Gouveia refugiou-se no sertão alagoano. hoje distrito de Pires Ferreira. Dantas Barreto. cuja finalidade seria fornecer energia para a fábrica têxtil produtora das linhas Estrela. ele buscou refúgio em Alagoas. consegue recuperar a fortuna perdida no Recife. de fato. quando fixou residência no vilarejo denominado Pedra. além de mover indústrias próximas à cachoeira e a outros planos de irrigação de terras locais. a Usina Angiquinho. com investimentos no comércio exportador de “courinhos” (artigos de pele de bode e cabra) e com amparo financeiro de ricos financiadores norteamericanos. o referido projeto consistia em abastecer e iluminar cidades da região. não contava Delmiro com a recusa do Governador de Pernambuco. em caráter sigiloso. construir o empreendimento pioneiro no campo da hidroeletricidade em pleno sertão nordestino. com a expressa autorização dos estados fronteiriços ao rio. coube ao capitalista Delmiro Gouveia (18631917). ambas da Pedra. Por volta de 1909. ou seja. seria instalado um curtume para armazenar peles. Fugido do Recife por desavenças políticas. Delmiro Augusto da Cruz Gouveia nasceu em Ipu. no Ceará. os norte-americanos só participariam. Logo. onde. constituída com capital nacional e estrangeiro. Apesar dessas considerações. para estudos no rio São Francisco e na cachoeira de Paulo Afonso. sua vida não seria senão uma conseqüência da prática de ousar. recebeu uma delegação de técnicos norte-americanos. visando uma cooperação sob a forma de joint-venture. bem como iluminar sua Vila Operária. Diante da negativa.

para projetar a empreitada. O decreto nº 503. Piranhas. Delmiro resolveu. houve quem duvidasse do sucesso da obra. A obra foi realizada mediante concessão do estado de Alagoas ao abrigo do decreto nº 520 de 12/08/1911 de acordo com a Constituição Federal de 1891. Worth e a suíça Piccard Pictet & Co. Boa parte desse aval deve-se aos esforços e à petulância de dois alagoanos. mas não foi suficiente. XX e XXI do Recife. M. bem como dos consequentes impactos ambientais e econômicos. furiosos debates e fracassadas conclusões acerca da célebre concessão de aproveitamento da maravilhosa queda d’água. da Inglaterra. sobretudo por parte das imprensas alagoana e carioca que publicavam manchetes com veementes protestos sobre o assunto. todas essas concessões foram transformadas em decretos-lei pelo Estado de Alagoas. e do engenheiro Emilio Levermann. Houve reações contrárias à implantação desse aproveitamento hidrelétrico da cachoeira. A usina permaneceu no local e os equipamentos da fábrica anos depois foram levados para São Paulo. Após a morte por assassinato de Delmiro Gouveia. do mesmo ano. e acabou por contratar um engenheiro italiano. não passando de lenda o lançamento dos equipamentos da fábrica e da usina. entre os quais o direito de explorar as terras improdutivas na cidade de Água Branca. Superada a recusa. Delmiro conseguiu obter vários privilégios do Governo do Estado de Alagoas. já que o Governador categoricamente relutou: “O negócio que o senhor propõe é tão vantajoso para o Estado que deve envolver alguma velhacaria”. dentro da cachoeira de Paulo Afonso. cruzaram o Atlântico até o porto da cidade de Penedo (AL). através da firma Iona & Cia.A História das Barragens no Brasil . vindos da Europa. Em decorrência. os quais souberam como poucos resistir às críticas e fundamentar seus argumentos na Câmara e na Imprensa. os projetos iniciais das obras. Equipamentos elétricos ficaram a cargo da empresa alemã Bergmann & Co. Por fim. Como a casa de máquinas da usina ficaria no paredão do cânion do São Francisco. As turbinas foram encomendadas às casas Bromberg e Siemens Schukert & Co. Também foram contratados engenheiros e técnicos franceses para montar a usina. 116 . para a conclusão da longa travessia. A parte hidráulica com a alemã J.Séculos XIX. Entre 1910 e 1911. Bland & Co. e a isenção de impostos referentes à sua fábrica de linhas de costura Estrela. o discurso girava em torno da responsabilidade jurídica sobre a exploração do Rio São Francisco. Geralmente. os estrangeiros pularam fora. encabeçar outro projeto ousado. coube a Delmiro. a produção de linha de coser foi prejudicada. a concessão para captar o potencial hidrelétrico da cachoeira de Paulo Afonso e produzir eletricidade. na localidade de Pedra. Para a montagem dos equipamentos da usina. Na etapa seguinte. então. pelos ingleses. com a necessária construção de pontes e estradas adequadas para permitir sua passagem. Luigi Borella. Delmiro requisitou a experiência estrangeira do técnico Anton Wer. Em 1912. A tribuna da Câmara Federal também foi palco de embaraçosos discursos. havia concedido a isenção de impostos pelo período de dez anos para a exploração de uma fábrica de linhas de costura. R. Já o maquinismo da fábrica veio da companhia Dobson & Barlow. junto à firma inglesa W. As tubulações foram fabricadas pela competente empresa alemã Mannesmann. o maquinário da usina percorreu os 24 quilômetros que os separavam até a Cachoeira de Paulo Afonso. situada a 23 km da cachoeira. e da suíça Brown Boveri & Co. mas a usina permaneceu intacta. para alimentar uma fábrica de linhas em pleno sertão. Delmiro foi à Europa adquirir o maquinário necessário. voltou-se para um projeto de construção de uma usina hidroelétrica. em carroções puxados por juntas de bois. o deputado federal Demócrito Gracindo e o consultor jurídico do Estado Alfredo de Maya.. os equipamentos foram transportados de trem através da Estrada de Ferro Paulo Afonso até chegar na estação da Vila da Pedra. as caixas com as máquinas e equipamentos. foram colocadas em uma barca que subiu o rio São Francisco até atracar na lapinha do sertão. Alagoas. concretizar o so- nho da eletrificação. da Alemanha. No entanto. Contrataram-se. Para construir Angiquinho. o engenheiro italiano Luigi Borella veio treinar o corpo técnico e dirigir o complexo hidrelétrico. Então. Em seguida. local de difícil acesso. Por conseguinte.

Esmeraldino Bandeira e em decorrência. De família pobre. havendo por isso desentendimentos com o então prefeito do Recife. teve que trabalhar cedo para se manter e ajudar a mãe. ruas. 117 . presidente do Senado Federal e vicepresidente da República. bairro do Recife. inaugurado no dia 7 de setembro de 1899. filho natural de Delmiro Porfírio de Farias e Leonilda Flora da Cruz Gouveia. casando-se. passando a destruir a concorrência no setor e ficando conhecido como o Rei das Peles. o Mercado Coelho Cintra. Foi bilheteiro da estação Olinda do trem urbano chamado maxambomba. Dedicou-se ao comércio e exportação de couro e peles. em 1896. no início de 1900. onde só havia manguezais: abriu estradas. transferiu-se com sua mãe para a cidade de Goiana.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Quem foi Delmiro Gouveia (1863-1817) Delmiro Augusto da Cruz Gouveia nasceu no dia 5 de junho de 1863.  Dispondo de capital. com 264 compartimentos alugados a comerciantes de alimentos e de outros tipos de mercadoria. inicialmente como empregado da família Lundgren e depois por conta própria. Foi o responsável pela urbanização do bairro Figura 5 . quando ele tinha apenas quatro anos de idade. trabalhando também na estação de Apipucos. quando já acumulava riqueza suficiente. quando tinha apenas 12 anos de idade abandona o lar materno e se lança no mundo à procura de emprego que lhe permitisse sobreviver com o mínimo de folga para proporcionar o seu aprendizado. tangidos pelas secas que periodicamente ocorrem no sertão nordestino e pela morte do pai. um palacete que hoje é propriedade da Fundação Joaquim Nabuco. se engajou politicamente e partiu para outros empreendimentos. mantendo um grande número de compradores por toda a região Nordeste do Brasil. conflitos com o poderoso Rosa e Silva. Os baixos preços praticados no mercado incomodaram a concorrência. Em 1872 muda-se para Recife. com Anunciada Cândida de Melo Falcão. no Recife. em 1883. base de sua capacitação necessária a vencer os diversos desafios com que sonhava e que nele tinham a firmeza das idéias-fixas. construiu casas e um grande mercado modelo sem similar no Brasil. a Casa Delmiro Gouveia & Cia. Trabalhou ainda como despachante de barcaças. na fazenda Boa Vista. em Pernambuco e depois para o Recife. município de Ipu. Em 1868. onde adquiriu posteriormente. Interessado na compra e venda de couro e peles de cabras e ovelhas vai para o interior de Pernambuco.Delmiro da Cruz Gouveia do Derby. Em 1875. onde funciona o Instituto de Documentação. na cidade de Pesqueira. Fundou. Ceará. o que culminou com o incêndio do mercado.

Inaugurou. Passou a idealizar e desenvolver projetos para a implantação de uma hidroelétrica que abastecesse o Recife de energia. no lado alagoano. construiu cerca de 520 km de estradas carroçáveis e introduziu o automóvel no sertão. Chile. em 1914. inicia os estudos para aproveitamento econômico da cachoeira de Paulo Afonso. Embarcava sua produção através de porto de Piranhas. Em 1901.  A fábrica era um modelo de organização.Prédio do antigo mercado que agora abriga o quartel general da Polícia Militar de Pernambuco Angiquinho atualmente Em outubro de 1958 a usina Angiquinho perdeu a concessão do aproveitamento parcial da cachoeira de Paulo Afonso.Séculos XIX. uma localidade a cerca de 280 km de Maceió e que na época só possuía seis casas. em Maceió. por isso.  ambulatório médico. uma pequena fábrica têxtil para produção de linha. Seu temperamento sempre difícil. Figura 6 . Dantas Barreto. utilizando o Porto de Jaraguá. Levou a energia elétrica para a povoação onde ficava a fábrica e depois até a Vila da Pedra. o que causou desentendimentos com o então governador de Pernambuco. produziram uma série de atritos e inimizades. cinema e ringue de patinação. utilizando a ferrovia que ligava Jatobá (atual Itaparica) a Piranhas para transportá-la. com a marca Estrela. XX e XXI Hoje. no terraço da sua casa na Vila da Pedra. Em 1909. e da falta de apoio governamental. mas con- 118 . além da tensão em que vivia. que culminaram com o seu assassinato à bala. raptou a adolescente Carmela Eulina do Amaral Gusmão. à medida que enriquecia criava mais inimigos. em 1902. fugindo para Alagoas e fixando-se na Vila da Pedra. através de uma pequena usina geradora de eletricidade. depois Bolívia. Barbados e até nas Antilhas e Terra Nova. capta energia elétrica na queda do Angiquinho. perseguido e com problemas no casamento refugiou-se durante um ano na Europa. uma vila operária. que logo dominou o mercado nacional. Passou a comprar e exportar couro e peles. o prédio do antigo mercado abriga o quartel general da Polícia Militar de Pernambuco (Figura 6). Separado da esposa. hoje município de Delmiro Gouveia. puxando a rede elétrica até a sua fazenda. rompeu relações com o industrial.A História das Barragens no Brasil . Autoritário e de temperamento difícil. aos 39 anos. após a reforma realizada em 1924. que o acusava de estar procurando aproveitar-se do seu governo e. no dia 10 de outubro de 1917. Peru. Em 26 de janeiro de 1913. aos 54 anos de idade. Não querendo ficar isolado e para ajudar no desenvolvimento das suas atividades industriais. com diversos pavilhões onde ficavam os teares. impondo-se também nos mercados da Argentina.

Por intermédio da CHESF e da prefeitura de Delmiro Gouveia. mas nunca se esconderam na Figura 7 . da Furna dos Morcegos. Além disso. a usina foi transformada em um ponto de visitação turística.Escada de acesso à casa de força Furna dos Morcegos. bem como atrair profissionais e leigos com interesse de conhecer a história das hidreléricas no Brasil.A casa força de Angiquinho localizada à margem alagoana da cachoeira de Paulo Afonso Figura 8 . Depoimentos de cangaceiros do bando afirmaram que estiveram naquela área. onde dizem que Lampião se escondeu. Segundo o projeto de recuperação denominado “Projeto de gestão de Angiquinho”. seria incoerente um bando tão articulado como o de Lampião se esconder em um local que tem apenas uma única entrada. quando foi por fim desativada.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens tinuou a distribuir eletricidade para a cidade de Delmiro Gouveia (antiga vila da Pedra) até 1960. contudo a presença dos cangaceiros na área de Angiquinho já foi praticamente desmentida. 119 . pois não se encontrou qualquer indício dessa passagem. que além de proporcionar ao turista comum uma vista diferenciada da cachoeira. foi elaborado um projeto de recuperação histórica que inclui a restauração da usina.

120 .A História das Barragens no Brasil . Passear no sítio histórico de Angiquinho é mover as rodas da história.5 milhão na recuperação da usina. Nas entranhas da usina saem paisagens lunáticas. que investiu R$ 1. águas muito limpa mostram o fundo translúcido do Velho Chico. XX e XXI Figura 9 – Prédios da usina recuperados Figura 10 – Interior da casa de força A Chesf. passou a gestão de Angiquinho à Fundação Delmiro Gouveia (FDG). coordenador da FDG. que liderou o movimento pelo resgate do acervo. “A luta agora é para que Angiquinho deixe a fila de espera pelo decr eto do gover no federal e Ministério da Cultura para o tombamento nacional” .Séculos XIX. São pedras e rochas e tocas de rio para todos os lados (Figura 13). assinala Edvaldo Nascimento.

Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 11 – Gerador Figura 12 – Turbina de eixo horizontal 121 .

A História das Barragens no Brasil .Vista do cânion a partir da casa de força 122 .Séculos XIX. XX e XXI Figura 13 .

Fernandes. Cachapuz.br/pesquisaescolar/index.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens O coração começa a bater mesmo na escadaria de metal. que abriga os três geradores Brown Boveri e as turbinas Piccard Pictet. 4. Armando. 2. fruto da cabeça do cearense Delmiro Gouveia. 3. 1961. com plataforma para mirante. Maceió: Fiea/ Gijs. Sant’ana. de onde os olhos captam uma imagem inesquecível do que resta da cachoeira de Paulo Afonso. 5.br/sala-de-imprensa/noticias/ noticias-2008/angiquinho-atrai-turismo-de-aventurasem-delmiro-gouveia/(Texto de Mário Lima) acessado em 17/02/2011).). 6. Paulo Afonso: de pouso de boiadas a redenção do Nordeste . 2008. o “Rei do Sertão”. Principalmente ao abrir as janelas da casa e correr o olho nas rochas. 7. Governador de Alagoas assina decreto de tombamento do complexo Angiquinho (HTML). Referências 1. Gildo. Revista Continente Documento – Ano I. que alimentavam a usina. Site www. 2008. que iluminou boa parte da região até nos anos 60. Silva. Antônio – Mascarenhas. 13. Entrar naquele prédio arrojado e quase secular é sentir segurança e êxtase. Tamás (orgs. Página visitada em 6 de janeiro de 2008. empresários e desenvolvimento econômico no Brasil. 10. nº 11 – 2003.gov. Magalhães. Paulo Afonso-BA. Maceió: imprensa oficial. 11. escadas em espiral. A casa de máquinas continua presa às rochas e é o ponto culminante do passeio. Unesp. A visão do Velho Chico cercado por cânions e corredeiras é colossal. Jornal Chesf – CER – Ano IV – nº 235 – junho a novembro/2006. Moacir Medeiros de. Figura 14 . 1995. no rio e na bela cachoeira. Rio de Janeiro: Centro da Memória da Eletricidade no Brasil.controvérsia. 2007. 2000. http://www.com. Folha Sertaneja (03 de dezembro de 2006). Força e luz: eletricidade e modernização na República Velha. Paulo B. Sávio. Página visitada em 6 de janeiro de 2008. php?option=com content&vieu=article&id=6068Itemid =195(Texto de Semira Adler Vainsencher pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco) Acessado em 17/02/2011. Empresas. e uma cachoeira transborda na entrada do lago da usina.Subestação Elevadora de Angiquinho 123 . Davi Roberto Bandeira. http://basilio. no caminho da velha casa das máquinas. Galdino. de Barros – Dalla Costa. Adriana Sbicca. 9. Projeto Gestão de Angiquinho (HTML) (2008). Pequena história de Delmiro Gouveia. que desce 45 metros abaixo das rochas. Ousadia no Nordeste: A Saga Empreendedora de Delmiro Gouveia. A descida é adrenalina pura.gov.fundaj. São Paulo: ed. São Paulo: hucitec/Abphe.br 12. Szmrecsányi.al.Câmara Municipal de Paulo Afonso. 8.turismo. Paulo Afonso I: Imagens de uma epopéia. ou parte dela.

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Cachoeira do Itapecuruzinho 125 . freqüência de 50 Hz e com a velocidade de 750 rotações por minuto. afluente do rio Manoel Alves Grande. através de um sistema de polias.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Usina do Itapecuruzinho A primeira hidroelétrica da Amazônia Erton Carvalho Esta usina está localizada no rio Itapecuruzinho.44 m3/s. 380/220 V.000 V. também. que desemboca no rio Tocantins pela margem direita. hoje completamente abandonada e em péssimo estado de conservação. As Figuras 2. no município de Carolina. No local foi implantada uma casa de força que abrigava uma turbina Francis de 110 kW. O quadro de comando era de ferro perfilado com painel de mármore polido. Foi concebida e projetada no período de 1937/1938 e teve a sua construção realizada no período de 1939/1940. com 88 m de comprimento e um desnível de 0. dimensionado para aduzir uma vazão de 2. 4 e 5 mostram a casa de força e seu interior. A linha de transmissão da usina para a cidade de Carolina tinha Figura 1 . que terminava com uma pequena tomada d’água seguida de um conduto forçado com capacidade de 1. com rendimento de 75%.22 m3/s. acionando. estado do Maranhão. um gerador de 120 kVA.50 m (Figura 1). 3. As obras civis foram constituídas por um canal lateral de forma trapezoidal.30 m. com uma pequena subestação que tinha um único transformador trifásico de 11. A usina foi construída aproveitando uma queda de 11. Contava.

XX e XXI Figura 2 .Casa de força Figura 3 .Séculos XIX.Turbina Francis 110Kw 126 .A História das Barragens no Brasil .

para aquela sociedade local de uma obra bastante audaciosa. através de uma subestação abaixadora. a audiência acabou sendo realizada Figura 5 . situada no extremo sul do Maranhão.5 km. aproveitando a bela cachoeira existente no rio Itapecuruzinho. na maioria das cidades. capital do estado. Mesmo assim. a rede pública de distribuição de energia era de 220/110 V. correspondendo a 0. Tratava-se. e sua classe política bastante temerária quanto às atitudes do citado interventor. não tendo conseguido ser recebido por aquela autoridade. o que permitiu dar andamento ao início dos trabalhos. Paulo Ramos.Gerador de 120 KVA necessidade de construir em Carolina uma usina hidroelétrica. Newton Carvalho colocou esse empreendimento como a grande meta de sua vida. Os sócios pretendentes exigiram que Newton Carvalho obtivesse do interventor uma autorização para que a usina fornecesse energia para a cidade. Em 1937. 127 . nos anos quarenta. sendo que as perdas no transporte da energia foram estimadas em 5. situada a 33 km da cidade.75% da atual. único meio de transporte existente na região. sua fase áurea.2%. à margem direita do rio Tocantins.Gerador e painel de controle com sucesso. Excluindo os grandes centros urbanos. portanto. A linha foi implantada com postes de aroeira a uma distância média de 50 m. arcebispo do Maranhão. Por interferência de Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta. A partir daí. Newton Carvalho. como a maioria das cidades ribeirinhas banhadas pelo grande rio. sendo 192 MW em usinas térmicas e 755 MW em hidroelétricas. História A cidade de Carolina. Na cidade. homem de idéias progressistas. iniciou sua luta para convencer um grupo de conterrâneos da Figura 4 . Vale ressaltar aqui que Carolina era uma das cidades consideradas de oposição ao interventor do estado. Naquela época (1937). o Brasil possuia apenas uma potência instalada de 847 MW. ele fez várias viagens a São Luiz. o fornecimento de energia era restrito ao período das 18 às 21 horas. conheceu.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens 28.

A História das Barragens no Brasil . um dos pesados transformadores da subestação caiu no rio..790. teve. dividido inicialmente entre oito sócios. companhia aérea alemã. A empresa de nome Hidroelétrica Itapecuru Ltda. Biografia Por detrás desta pequena central hidroelétrica. Newton Alcides de Carvalho provinha de família numerosa. Nasceu em Carolina. quando o presidente Getúlio Vargas e seu ministro Fernando Costa assinaram o decreto n o 4. que outorgou à sociedade o direito de explorar o referido aproveitamento até a potência de 285 kW. Desprovido de equipamentos para içá-lo. onde hoje está localizada a usina de Tucuruí. esvaziava-as e enchendo-as de água até chegar ao limite de transbordamento tracionava o transforma- dor e.Séculos XIX. a qual nunca saiu do papel.888. utilizado em um trabalho de topografia para a ferrovia Pirapora-Belém. Seu idealizador e executor (Figura 6) teve que vencer obstáculos quase intransponíveis para implantar na Região Amazônica a primeira usina hidroelétrica. organizou a firma em 1939. então capital federal. elaborou a planta da cidade e implantou a rede pública e o sistema de distribuição de energia residencial. O sucesso dessa operação só foi possível pelo fato de Newton Carvalho conhecer e fazer uso do princípio de Arquimedes. registrando-a no dia 11 de julho do mesmo ano. em seguida. finalmente o maquinário chegou a Carolina. O projeto previa a colocação de duas unidades de 143 kW. publicado no Diário Oficial do dia 8 de fevereiro de 1940. Quando passava pela cachoeira de Itaguatins. se esconde um episódio heróico que bem reflete a época e o momento histórico em que foi construída. mas inicialmente só foi instalada uma unidade de 110 kW. que o equipamento subisse pelo empuxo a que era submetido. Com auxilio de mais uma embarcação. Newton Carvalho adquiriu da Siemens todos os equipamentos para a instalação da usina. A concessão para o empreendimento ocorreu em 16 de novembro de 1939. para estudar junto à companhia alemã Siemens a viabilidade do empreendimento. de novembro de 1941. O Decreto nº 15. Em sua grande maioria esses marcadores não foram encontrados. em 26 de julho de 1900. proprietário da Casa Beckgis. Foi assim instalada. a primeira usina hidroelétrica da Amazônia. foi empreendida uma luta titânica para retirá-lo da água. assim. às margens do pequeno rio Itapecuruzinho. Após verdadeira epopéia. O rumo da linha de transmissão foi definido por um piloto da Condor. posteriormente. que fazia voos entre Carolina e Belém. autorizou o funcionamento da usina e a sua inauguração se deu em 15/11/1941. Viajou às próprias custas e contou com a ajuda de um comerciante alemão. Retornando do Rio de Janeiro com os dados da usina nas mãos. na Junta Comercial do Maranhão. Newton Carvalho foi ao Rio de Janeiro. tendo as embarcações atravessado várias cachoeiras. com o aproveitamento da referida cachoeira. dentre elas a de Itaboca. em plena ditadura do então presidente Getúlio Vargas. utilizados pelos sertanejos locais. com uma linha de transmissão de aproximadamente 30 km. com o auxílio de um velho teodolito de propriedade do professor José Queiroz. ele mesmo. O capital inicial de 340 contos de réis. esvaziava a embarcação. Voltando novamente à capital federal. para negociar com a empresa a consolidação do projeto e a compra dos equipamentos necessários para a construção da usina. cada um contribuindo com 10 contos de réis. totalizando 14 sócios. Newton Carvalho. Transportados por via marítima até o porto de Belém. Para alcançar o lugar escolhido. foi então organizada para fornecer energia elétrica ao município de Carolina. 128 . perto da cidade de Porto Franco. Para a construção da linha de transmissão foi aberta uma picada da cidade até o local da usina. permitindo. travou-se outra batalha com o transporte dos equipamentos em pequenos caminhões através de caminhos intricados. a cooperação de mais seis sócios. seguiram através do rio Tocantins até Carolina. Era um dos onze filhos do casal Alípio Alcides de Carvalho e Rosa Sardinha de Carvalho. XX e XXI Em 1938. Foram lançados sacos de areia com bandeiras vermelhas para demarcar o referido caminho.

em 1944. lecionou matemática e escrituração mercantil a jovens conterrâneos. também. o qual lhe proporcionou sólida base cultural voltada para as ciências exatas. Em sua cidade natal.Newton Alcides de Carvalho Referências 1. não era comum à época: tinha concluído apenas o curso ginasial. 3. dedicou-se com afinco ao estudo da matemática. determinado. decepcionado com a alta inadimplência dos consumidores de energia. a esposa Eliza Ayres de Carvalho e seus filhos. 129 . baseado no método dinamarquês. ao mesmo tempo em que desenvolvia atividades comerciais. altamente avançado para a época. Outubro de 2000. já radicado em Goiânia. que pensava adiante do seu tempo. corajoso e realizador. da física e da engenharia. A formação do homem visionário.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Seu pai era originário da cidade de Caxias do Maranhão e sua mãe era oriunda de berço português. cópia datada de 1939. também. Estruturou o serviço de coleta e destino do lixo. apresentando um estudo sobre o aproveitamento do mesmo. antes mesmo de completar 70 anos. ainda. Em 1949. 4. Ainda não havia atingido quarenta anos quando resolveu vender todos os seus bens para conseguir tornar real o sonho de executar o projeto da construção da pequena usina hidroelétrica em Carolina. Ali. Ali. norte de Portugal. resolveu transferir-se com a família. tendo adquirido por conta própria noções de inglês e alemão. Newton Carvalho. participou. trabalhou na Secretaria de Educação no planejamento e construção de 248 prédios escolares na zona rural. No período de 1961 a 1965 exerceu a função de chefe-geral da limpeza pública da capital do estado. elaborou. da construção de uma usina açucareira. Autodidata. Deixou para a posteridade um exemplo de homem probo. para o interior do estado de Goiás. obras porém não realizadas. Não tendo sido ressarcido de seus investimentos. projetos para as usinas de Campos Belos e Babaçulândia. Elaborou. principalmente com a da iluminação pública. Figura 5 . um projeto para a exploração industrial do babaçu. Diversificando suas atividades. vítima de acidente automobilístico. construiu as usinas hidroelétricas das cidades de Anicuns (1948/1949) e de Santa Cruz de Goiás. nascida em Vianna do Castelo. 2. Notas da família Carvalho Artigo do jornalista Waldir Braga no jornal “Folha do Maranhão do Sul” (25/Julho a 03/Agosto de 1996) Revista Século XX “Gente que fez Carolina” de Paulo Noleto Queiroz. Faleceu em 25 de outubro de 1969. Memória Técnica da Usina de Itapecuruzinho. através de tratamento mecânico e biológico. conhecido por “Dano”.

130 .

a Cidade Luz Sulamericana Armando José da Silva Neto e Flavio Miguez de Mello por em funcionamento no Brasil a empresa que seria referência no desenvolvimento da engenharia brasileira de barragens e usinas hidroelétricas. Em 1908 foi lançado o primeiro grande desafio: a construção no Ribeirão das Lajes. no Município de Piraí. no Estado do Rio de Janeiro. Essa usina. na época de sua instalação era a maior hidroelétrica da América Latina e a segunda maior do mundo. fundador e segundo presidente (1915-28) empreendimento foi o engenheiro Clint H.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens “Ter-se-á de reconhecer a importância da contribuição da Light. Em 1909 foi ampliada com a instalação de mais três unidades geradoras. Kearny. Concepção artística do engenheiro José Carlos de Miranda Reis Neto Figura 2 . recomendado pelo engenheiro Pearson. coube a tarefa de implantar e Casa de força de Fontes.” Antonio Dias Leite.Alexander Mackenzie. elevando sua capacidade para 24 MW. 2007 A Light no Rio de Janeiro. da usina de Fontes. que deu grandeza ao sistema elétrico brasileiro com projetos ousados. O desenvolvimento da construção. mas podendo chegar a 15 MW. O gerente do Figura 1 .Frederick Stark Pearson. com 32 m de altura e crista com 234 m dos quais 134 m eram vertedouro de lâmina livre. residentes no Brasil havia cinco anos. A potência instalada era de 12 MW. operação e manutenção de usinas hidroelétricas no Brasil tem um dos capítulos mais importantes na criação de uma empresa chamada The Rio de Janeiro Light and Power Co. em 30 de maio de 1905. Liderada pelo advogado canadense Alexandre Mackenzie e pelo engenheiro americano Frederick Stark Pearson. Ltd. mesmo em comparações internacionais. primeiro presidente (1904-15) 131 . A barragem era uma estrutura de concreto gravidade em arco de 100 m de raio.

Barragem de Lajes construída em 1906 Figura 5 – Saída do túnel de Tócos Em 1914 foi concluída a barragem de Tócos no rio Pirai e um túnel com 8.Séculos XIX.A História das Barragens no Brasil . XX e XXI Figura 4 . Esse túnel passou a derivar as águas do rio Pirai para o reservatório de Lajes. Os dois escritórios da LIGHT nas cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo foram reunidos em um só visando a ampliação da geração de energia hidráulica já que a demanda naquela época não parava de aumentar em função do desenvolvimento que estava ocorrendo no País. possibilitando o aumento de capacidade de Fontes para 55 MW. na época o mais longo túnel hidráulico do mundo. 132 .Barragem de Tócos vista de montante Figura 3 .4 km de extensão.

5 km de extensão constituído por diques de terra compactada e trechos em concreto. que era especializado em obras hidráulicas e seus equipamentos. A construção da usina ficou a cargo do engenheiro Asa W. RJ e Além Paraíba. Kenney Billings.Construção da usina hidroelétrica Ilha dos Pombos em 1924 133 . As comportas se encontram em operação até os dias de hoje. Figura 6 . Inaugurada em julho de 1924. a usina tem um canal de adução com 2.Engenheiro Asa White Kenney Billings Figura 7 . Há vertedouros de menores capacidades equipados com comportas Stoney. o vertedouro principal é localizado na margem esquerda. Com três comportas tipo setor que até hoje são as maiores do mundo. do lado norte.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Em 1921 a LIGHT foi autorizada a construir uma nova usina hidroelétrica nos municípios de Carmo. MG no rio Paraíba do Sul a 150 km da cidade do Rio de Janeiro.

XX e XXI Figura 8 . foi executada uma reabilitação completa da barragem e de suas comportas. a usina de Ilha dos Pombos atingiu a potência instalada de 167 MW sob 31 m de queda bruta.Séculos XIX. as maiores do mundo Com as ampliações realizadas em setembro de 1937.Usina hidroelétrica de Ilha dos Pombos tendo seus vertedouros reabilitados.Usina hidroelétrica de Ilha dos Pombos – Uma das três comportas setor. bem como uma repotenciação da usina com aumento da capacidade instalada. nos anos 90.A História das Barragens no Brasil . Vista de montante. Após mais de 55 anos de operação. Em março de 1940. 134 . a LIGHT foi autorizada a ampliar a Usina de Fontes. Figura 9 .

Figura 10 . A ampliação constou de três novas unidades. O reservatório havia sido idealizado para ser utilizado para regularizar as descargas que seriam derivadas do rio Paraíba do Sul. cada uma com 39 MW. implicou também na construção da barragem e do dique de Cacaria. aumentando a capacidade de armazenamento do reservatório para 1. na barragem do Rio da Prata. Essas obras foram finalmente executadas nos anos 80.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens O projeto do engenheiro Billings elevou em 26 m a Barragem de Lajes. O alteamento da barragem que passou da soleira vertedora livre em arco gravidade para uma barragem em contrafortes de 63 m de altura.052 milhões de metros cúbicos.Barragem de Lajes após a conclusão do alteamento 135 . o reservatório jamais foi completamente cheio por dois motivos: o abastecimento de água para a cidade do Rio de Janeiro havia passado a depender das descargas efluentes da casa de força de Fontes sem outro tratamento que não a cloração e a necessidade de obras adicionais para garantir a estabilidade da barragem de Cacaria e do Dique 4. elevando a potência instalada para 172 MW. Para permitir a construção foi necessário desocupar a pequena cidade tombada de São João Marcos no município de Rio Claro. A obra foi concluída em 1958.Início do alteamento da barragem de Lajes Figura 11 . no Dique 4 e no Dique 5. Entretanto.

Essa foi a obra de engenharia mais importante no final dos anos 40 e início dos anos cinqüenta. Inaugurada em 1953. Presentemente as antigas unidades Pelton de Fontes estão desativadas. denominada Fontes Nova e na implantação da casa de força subterrânea de Nilo Peçanha que. desde extremados esquerdistas que se intitulavam de nacionalistas. a Light enfrentava opositores de todas as correntes políticas. Esse cerceamento de novas concessões e a necessidade de ampliação da geração determinaram a adoção do artifício de se conceber uma ampliação da usina de Fontes pela derivação de descargas dos rios Pirai e Paraíba do Sul. Sapucaia e Simplício) e efetuado estudos que cobriram extensas áreas do território nacional. aumentou em 378 MW o Complexo de Lajes. Figura 12 . Carlos Lacerda. sob a queda bruta de 310 m. à Light não eram concedidas novas concessões. até o líder da UDN.A História das Barragens no Brasil . todas Francis de eixo vertical.Casa de força de Fontes 136 . Nesse cenário. resultou na ampliação de geração em Fontes com a instalação de três unidades Francis de 39 MW cada. desde a vertente oceânica da Serra do Mar até as Sete Quedas. que se referia a ela como “o Polvo Canadense”. restando apenas as três unidades Francis de Fontes Nova e as seis unidades de Nilo Peçanha. embora ela tenha estudado em detalhe potenciais no médio rio Paraíba do Sul (Funil. XX e XXI Apesar dos bons serviços prestados e do estrangulamento das tarifas a partir do Código de Águas em 1934.Séculos XIX.

Figura 13 . de grandes dimensões para a época. as terceiras instaladas no mundo depois das unidades de Traição e Pedreira em São Paulo.Barragem de Santa Cecília Figura 14 . e a casa de força subterrânea de Nilo Peçanha.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Para esta fase da ampliação uma série de obras foram executadas. também instaladas pela Light. Embora constasse do projeto original. a elevatória de Vigário que dispõe de unidades reversíveis. a construção da barragem Terzaghi e do dique Vigário. destacando-se a elevatória de Santa Cecília. a segunda casa de força de Nilo Peçanha ainda não foi construída. ficando as usinas de Fontes Nova e Nilo Peçanha com elevado fator de capacidade. a barragem de Sant’Ana. no rio Pirai construída em apenas dois meses. que contou com a importante colaboração do geólogo Portland Port Fox. projeto em que Karl Terzaghi introduziu filtros chaminés em barragens de terra.Barragem Santana 137 .

Elevatória de Vigário. Realça-se a coragem dos operadores e a tenacidade da equipe da Light na recuperação das instalações cuja operação era comandada pelos engenheiros Walter Stukembruk e Henrique Smoka. ambos de elevada competência e dedicação. O refluxo de lama inundou a casa de força de Nilo Peçanha causando a paralisação da usina por vários meses para a recuperação dos equipamentos totalmente feita pelos técnicos da Light. bloqueando os canais de fuga de Fontes e de Nilo Peçanha.A História das Barragens no Brasil . a Light teve que promover a regularização do rio pela implantação da barragem de Santa Branca e contribuído com 40% do Figura 15 . Para que a derivação das águas do rio Paraíba do Sul fosse licenciada. ao fundo dique do Vigário e a barragem Terzaghi 138 .Séculos XIX. XX e XXI Em fevereiro de 1967 intensa precipitação provocou inúmeros deslizamentos nas encostas da Serra das Araras na área das usinas.Desvio Paraíba-Piraí .

são situadas na margem esquerda do reservatório. Figura 16 . Ministro Apolonio Salles. Considerando as dificuldades acima mencionadas na obtenção de novas concessões. Somente nos anos 90 a Light instalou as unidades geradoras em Santa Branca. com 99 MW instalados sob 36 m de queda bruta. J.Inauguração da hidroelétrica Nilo Peçanha. As estruturas de concreto da tomada d’água e do vertedouro.R. Nicholson. Curiosamente a Light esperou a posse do presidente Castelo Branco em 1964 para oficialmente inaugurar a usina. no trecho paulista da bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul. este com 330 m³/s de capacidade de descarga. A barragem de terra tem 52 m de altura e 231 m de crista. Em 1961 foi concluída a usina de Ponte Coberta.Presença do Terzaghi (ao fundo) no campo durante a construção da barragem que tem o nome em sua homenagem Figura 17 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens investimento na construção das barragens de Paraitinga e Paraibuna. posteriormente denominada de Pereira Passos. João Monteiro 139 . aproveitando as águas turbinadas do Complexo de Lajes. essa usina foi inicialmente denominada Lajes Auxiliar.Canal de fuga de Nilo Peçanha em 1967 Foto 18 .

Pres. General Ernesto Geisel. Marechal Castelo Branco. XX e XXI No final do século passado foi desenvolvido o projeto da PCH Paracambi. Figura 19 . A Light foi estatizada em 1966 e privatizada em maio de 1996. governador do Estado do Rio de Janeiro em inspeção nas usinas geradoras da Light no dia 4 de fevereiro de 1967. ministro extraordinário para coordenação dos órgãos regionais. presidente da Light. ser de controle integralmente nacional.A História das Barragens no Brasil . Figura 20 .Séculos XIX. tendo passado de grupos francês. Antônio Gallotti. em visita de inspeção após o acidente de 1967 140 . presidente da Light e Geremias Fontes. presentemente. chefe da casa militar. presidente da República. Castelo Branco e Gallotti. Essa hidroelétrica terá 25 MW instalados com elevado fator de capacidade.João Gonçalves de Sousa. mais uma hidroelétrica no leito do ribeirão Das Lajes que presentemente (2011) encontra-se em construção. americano e nacional para. após os acidentes ocasionados pelas intensas precipitações.

professor da UFRJ. ao ser agraciado com o título de Engenheiro Eminente pela Associação dos Antigos Alunos da Politécnica.Construção da barragem de terra de Ponte Coberta.O atual presidente da Light após ter dirigido a ANA e a ANEEL. parte da hidroelétrica Pereira Passos Figura 22 . Jerson Kelman.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 21 . Dr.Inundação da casa de força de Nilo Peçanha. inspeção de barco Figura 23 . em 2010 141 .

Alexander Mackenzie. fundador e segundo presidente (1915-28) 142 .

A capacidade instalada inicial era de 2 MW. no rio Tietê e inaugurada em 1901.5 m de altura. Seylaz. serviços de bondes e ônibus. Nos anos 80. Armando José da Silva Neto e Flavio Flavio Miguez Miguez de de Mello Mello Em 1899 o advogado canadense Alexander Mackenzie fundou a The São Paulo Railway. incluindo fornecimento de gás. Light & Power Company e iniciou imediatamente a construção da hidroelétrica de Parnaíba. considerando a extrema alteração nos coeficientes de escoamento da área de drenagem devida à intensa ocupação urbana da cidade de São Paulo e de cidades vizinhas. telefonia. Fomentadora de Progresso “They (Light) say now that they could deliver half a million more horse-power from this place alone (Cubatão). and this is but one of the several places that stand around São Paulo and sell more power to its elbow”  Rudyard Kipling* * “Eles (Light) afirmam agora que podem fornecer meio milhão de cavalos-vapor somente deste local (Cubatão). situada na cachoeira do Inferno. Anderson.” Figuras 1a e 1b . superintendente geral da São Paulo Gas Company e G. Nas fotografias L.H. e esse é apenas um dos diversos lugares que se situam no entorno de São Paulo e que poderão vender mais energia para todos seus cantos.Desde os primeiros anos a Light constituiu diversas outras empresas de serviços em São Paulo e no Rio de Janeiro. nova importante reabilitação foi feita. Em 1954 a antiga casa de força foi substituída por uma estação de recalque com unidades reversíveis e a barragem foi alteada em seis metros através de contrafortes e lajes planas.E. tendo sida aumentada a capacidade de descarga do vertedouro. posteriormente denominada Edgard de Souza. Edgard de Souza foi a primeira de uma série de obras hidráulicas executadas nas proximidades da cidade de São Paulo dos últimos dois anos do século XIX até meados do Século XX. passando a ter 18. tesoureiro presidente da Companhia Telefônica Brasileira.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A São Paulo Light. 143 . A barragem foi construída em alvenaria de pedra com vertedouro de superfície livre em quase toda a extensão de sua crista. Foram introduzidas três comportas de segmento com capacidade de 800 m³/s.

engenheiro americano de elevada competência que vinha de obras na Espanha e no México. No início da segunda década do século passado. as comprou e as trouxe para São Paulo.000 m³ foi proveniente de área de empréstimo escavada à mão. Uma cheia extraordinária nos anos oitenta fez com que fosse executado um vertedouro adicional na ombreira esquerda. A Light descobriu duas unidades Francis de 9 MVA em fabricação no exterior. tratamento este que só havia sido feito na fundação da barragem de Balbina. A usina. em apenas onze meses. com 20 m de altura é em arco gravidade. A intensa estiagem de 1924 fez com que Asa White Kenney Billings. A casa de força foi também reabilitada e voltou a operar em 1989.6 m de altura e 1500 m de crista. inaugurada em 1925. De montante para jusante. o que demandava explosivos nessa época tão explosiva. a Light adquiriu da Empresa de Eletricidade de Sorocaba a concessão da hidroelétrica de Itupararanga e concluiu as obras em 1914 com três unidades de 11. tendo posteriormente dado nome à barragem e à usina. O empreendimento foi feito em duas etapas: a usina de Cubatão e a usina de Henry Borden que operavam em paralelo. a maior carroça transportava no máximo 15 toneladas e as estradas eram de tráfego precário. o solo foi transportado por tração animal e compactado apenas com a passagem das carroças. O canal ficou sendo conhecido por Rasgão. mas operou até 1961 quando foi paralisada devido a excesso de percolação sob a tomada d’água da usina. A logística era muito difícil. A barragem. tinha o caráter provisório.Séculos XIX. foi construída em 1906 a barragem de Guarapiranga situada no principal afluente do rio Pinheiros. Budweg 144 . O País entrava em estado de sítio. A barragem é de terra com 15. o circuito inicia-se pela barragem de Figura 2 – Ferdinand M. A barragem teve tratamento de concreto projetado no paramento de montante. A época era convulsionada por movimentos revolucionários tenentistas como o de 5 de julho que ocupou São Paulo por semanas. O canal aberto à mão teve que ser ampliado e as fundações escavadas.G. com duas unidades de 9. a hidroelétrica de Rasgão. A coluna Miguel Costa – Prestes iniciava a sua longa marcha. Nos anos oitenta as estruturas civis da barragem e das duas tomadas d’água do canal de adução e da casa de força foram reabilitadas tendo em vista o elevado estado de deterioração e os preocupantes resultados das análises de estabilidade que foram realizadas.3 MW. Como elemento de impermeabilização foi executada uma cortina de estacas prancha na linha de centro da barragem. injeções de calda de cimento sob a laje executada no pé de montante e teve reforço por atirantamento. O maior empreendimento foi conduzido por Billings: o chamado Projeto da Serra que aproveitava descargas derivadas da bacia do rio Tietê para a baixada Santista. XX e XXI Com o objetivo de regularizar as afluências à usina de Edgard de Souza.1 MW cada. aproveitando canal escavado pelos escravos de um proprietário de terras na região de nome Fernão Paes de Barros quase um século antes com a esperança nunca concretizada de achar ouro no leito do rio Tietê. Seu volume de 505.A História das Barragens no Brasil . a tomada d’água do canal de adução teve reforço em seus contrafortes e a tomada d’água da casa de força teve tratamento de sua fundação por injeção de calda de cimento a alta pressão com cracagem do solo. construísse. tributário do rio Tietê.

Essa barragem represa as águas até a estação de recalque de Edgard de Souza. Considerando a impossibilidade do deplecionamento do reservatório durante a construção por serem baixas (6. revertendo o curso do rio Tietê. Com as expressivas alterações dos coeficientes de escoamento que ocorreram em sua área de drenagem devido à intensa ocupação urbana que passou de 3. Essa barragem de 43 m de altura em concreto gravidade. a solução Figura 5 – Instante da detonação do septo de rocha Figura 4 – Execução da ensecadeira dentro do túnel 145 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Pirapora no rio Tietê a montante do reservatório de Rasgão. concluída em 1956. houve a necessidade de ampliação da capacidade de descarga vertida e a proteção à cidade de Pirapora do Bom Jesus que se situa logo a jusante da barragem. sendo esta amortecida no reservatório previamente rebaixado. é provida de um vertedouro de superfície com duas comportas de segmento de 830 m³/s de capacidade.6 milhões de habitantes em 1955 para 15 milhões em 1990. A condicionante de projeto era conseguir um esquema que permitisse Figura 3 – Esquema do lake piercing o deplecionamento do reservatório antes da chegada do pico da cheia.40 m) as duas comportas de segmento que ocupam quase toda extensão da crista da barragem. Essa cidade era inundada a partir de descargas de 480 m³/s.

As obras foram realizadas no início dos anos noventa. solução única no País.Vertedouro da barragem de Pirapora 146 146 . tendo sido escavado um túnel de jusante para montante com extensão de 168 m e seção de 48 m² pela ombreira direita até bem próximo ao fundo rochoso do reservatório onde.Séculos XIX. foi construída uma ensecadeira de terra no interior Figura 6 – Saída do túnel em operação Figura 7 . XX e XXI encontrada pelo engenheiro Ferdinand M. de acordo com o projeto original. Budweg foi a execução de um lake piercing. deveria ter sido escavada uma depressão (rock trap) para receber a rocha quando da abertura final.G. Em seguida foram instaladas duas comportas de segmento no interior do túnel.A História das Barragens no Brasil .

foi concluída com sucesso em 1993.Barragem de Pedreira ou do Rio Grande do túnel para proteção das comportas quando da detonação final e detonada uma carga que abriu a entrada do túnel pelo fundo do reservatório.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 8 – A estação de recalque de Edgard de Souza Figura 9 . A capacidade de descarga da barragem passou para 1450 m³/s. não mais ocorrendo inundações na cidade de Pirapora do Bom Jesus. penetrando no rio PinheiFigura 10 – Miller Lash. presidente de 1925 a 1941 147 . A obra que incluiu também alargamento da calha natural do rio a jusante da barragem. Essas duas barragens fazem com que o rio Tietê flua de jusante para montante. situada a montante de Pirapora. O circuito hidráulico do Projeto da Serra inclui a barragem e a estação de recalque de Edgard de Souza.

Além dessa barragem. XX e XXI ros que também flui de jusante para montante pela ação das elevatórias de Traição e Pedreira implantadas no período 1938-1940.A História das Barragens no Brasil . O Projeto da Serra era concluído pela condução das vazões com 710 m de queda bruta para as casas de força de Cubatão. represando as águas na elevação 728. além de ser um elemento impermeabilizante. a céu aberto com oito unidades no total de 661 MW. A barragem de Pedreira ou do Rio Grande é constituída por dois aterros hidráulicos. A barragem de Pedras é uma estrutura de concreto em arco gravidade com 35 m de altura concluída em 1926. com seis unidades idênticas de 88 MW 148 . foi também concebido como “protection against burrowing animals and ants” (proteção contra roedores Figura 13 .Séculos XIX. As águas estocadas na represa de Billings acessam o reservatório da barragem de Pedras situada na crista da serra do Mar onde o rio das Pedras inicia uma sucessão de cachoeiras e corredeiras em direção à Baixada Santista. quatro dos quais feitos como aterros hidráulicos e os restantes por transporte animal e compactação apenas pelo tráfego das carroças. presidente de 1941 a 1944 e formigas) como afirmou Billings em palestra realizada em Londres em 1936.50 m. subterrânea. um em cada lado das estruturas de concreto da estação de recalque. Gallotti. último presidente da Light envolvendo Rio de Janeiro e São Paulo (1965 a 1974) Figura 11 – Sir Herbert Couzens. o reservatório de Billings é fechado por outras 13 barragens ou diques. alimentando a represa de Billings e daí o reservatório da barragem de Rio Das Pedras.A. e Henry Borden. O diafragma. com 25 m de altura e contendo um diafragma de concreto armado central que vai das fundações até o nível d’água máximo normal do reservatório de Billings.

Nos anos recentes. por imposições ambientais. perda de geração do Projeto da Serra que tanto progresso garantiu a São Paulo.Seção transversal da elevatória de Traição 149 . Dignas de nota são as unidades das elevatórias de Traição e Pedreira que foram as primeiras unidades reversíveis a serem instaladas no mundo. seguidas pelas quatro unidades da elevatória de Vigário.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens cada. A instabilidade natural das encostas da Serra do Mar foi um dos fatores para que Karl Terzaghi recomendasse que a casa de força de Henry Borden fosse subterrânea. A usina de Henry Borden era a ampliação da usina de Cubatão. sendo restrito a ocasiões de ocorrência de precipitações intensas com o objetivo de minimizar as consequências das enchentes na cidade de São Paulo e no vale do rio Tietê. instaladas pela Rio Light em 1953. o bombeamento para o reservatório de Billings foi praticamente suprimido. Houve. Todas unidades são com turbinas Pelton. portanto. Figura 12 .

150 .

em grande parte devido à atuação de seu diretor. foi transformada no Departamento 151 . que não levaram em conta a vulnerabilidade a inundações de parte da área. principalmente mediante abertura de canais e construção de diques. que na época era doença endêmica na região em torno da cidade do Rio de Janeiro.DNOS foi um órgão federal que. que na época era a principal atividade econômica da região. entre 1940 e 1990. Ele originou-se de uma comissão. após a Segunda Guerra Mundial. cujos extensos alagadiços formavam um ambiente favorável à procriação de mosquitos transmissores da malária. Engenheiro Hildebrando de Araujo Góes. em certos casos.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens As Barragens do Departamento Nacional de Obras de Saneamento . os municípios da Baixada Fluminense permitiram a urbanização destas terras com loteamentos inadequados. Por outro lado. Com a redução da população de mosquitos a malária foi erradicada a ponto de muitas pessoas não saberem hoje que ela existiu. moradias e empresas sejam periodicamente inundados. Figura 1 – Barragem de Macabú Em 1940 a Comissão para o Saneamento da Baixada Fluminense. para o saneamento da baixada fluminense. criada em 1933.DNOS Paulo Poggi Pereira A origem O Departamento Nacional de Obras de Saneamento . incluindo grande número de barragens. a dimensionar a drenagem apenas para escoar as águas da chuva em um prazo que impossibilitasse a reprodução dos mosquitos e permitisse a utilização da terra para criação de gado. A ênfase no objetivo sanitário levou. Os trabalhos se destinavam a drenar as terras e protegê-las contra inundações. o que faz com que hoje muitos logradouros. construiu obras hidráulicas para diversos fins em todo o Brasil.

Nos itens seguintes são apresentadas informações sobre estas barragens. não muito alta. para fazer frente ao alto custo do cimento na época. reunidas de acordo com suas finalidades. O Quadro 1 apresenta a localização e as características principais destas obras.Séculos XIX. não mais que 200 kg de cimento por m 3. apoiando programas de eletrificação dos estados. Depois foram sendo atendidas solicitações para construção de barragens de outras finalidades. Uma solução interessante foi a estabilização provisória do teto de um túnel que tinha 1200 m de extensão e seção circular com 9. tendo sido impermeabilizado posteriormente mediante injeções de calda de cimento.A História das Barragens no Brasil . os quais foram sendo resolvidos pelos engenheiros do órgão. o que poderia resultar na abertura de trincas no maciço. passando depois a atuar em outros estados. com este mesmo objetivo limitava-se a espessura de cada camada de concreto colocada durante a construção. face à necessidade de cumprir prazos. logo após seu lançamento e durante sua vibração. os operários colocavam manualmente pedras de mão. aproveitando o fato de que os locais de implantação eram rochosos. Alguns dias após a escavação de alguns metros do túnel. por este motivo. construída em concreto simples com relativamente pouco cimento. Uma providência necessária nas obras feitas no planalto do Rio Grande do Sul foi interromper a concretagem quando a temperatura ambiente ficava muito próxima de zero graus centígrados. adotou-se dosagens modestas. XX e XXI Nacional de Obras de Saneamento. não exigindo grande resistência. em todas as outras obras foi utilizado equipamento capaz de preparar e colocar concreto feito com agregados maiores. Não se dispunha de areia adequada no local nem muita experiência neste tipo de concreto na época. ocorreram problemas técnicos imprevistos nas obras. e evitar que o aquecimento que ocorre durante sua hidratação aquecesse o concreto além do limite aceitável. são pequenas. soltavam-se blocos de rocha do teto. o que eventualmente acidentou alguns operários. e ao final será descrita sumariamente a sistemática utilizada para realizar os trabalhos de construção e a atuação dos engenheiros que lideraram o DNOS. Como de costume. o concreto desta 152 . mas com fissuras. e não foram adicionadas as pedras de mão.00 m de diâmetro após ser revestido. Uma vez que as tensões que ocorrem numa barragem tipo gravidade. o que fez do DNOS. A partir de 1944 o DNOS foi encarregado de construir barragens para usinas hidroelétricas. Duas destas barragens foram feitas com concreto ciclópico. é do tipo arco-gravidade. porque o cimento poderia ter sua pega prejudicada pelas temperaturas excessivamente baixas. bastante resistente. naquela época ainda não existia a Eletrobras nem outro organismo com a atribuição de aplicar recursos federais em eletrificação. com boas condições de fundação para barragens deste tipo. A rocha local era basalto. A primeira barragem de grande porte foi a de Capingui. havendo casos em que foi de apenas um metro. Era difícil fiscalizar os trabalhos de modo a garantir a correta colocação das pedras de mão. confeccionado com brita de granulometria pouco mais graúda do que o normal no qual. mas estendeu sua atuação para todo o território nacional. a entidade nacional que construiu barragens com a maior diversidade de funções. que continuou trabalhando ativamente na Baixada. ao longo de seus 50 anos de existência. concluída em 1949. Com uma única exceção todas elas foram feitas de concreto. Hidroeletricidade Quando acabou a Segunda Guerra Mundial o DNOS começou a construir barragens do programa de eletrificação do estado do Rio Grande do Sul. primeira obra não foi feito com a necessária impermeabilidade.

O projeto foi proposto como variante. na concorrência para execução da obra. Uma novidade tecnológica que o DNOS precisou enfrentar foi a construção da barragem de Ernestina. dispensou a importação de roof bolts. engastado na rocha de fundação. que prendiam os blocos de rocha superficiais à rocha mais distante da superfície da escavação. Nos Estados Unidos eram realizadas estabilizações deste tipo perfurando a rocha do teto do túnel e introduzindo nos furos hastes metálicas especiais. O sistema empregado evitou colocar os operários em risco perfurando o teto do túnel. impedindo quaisquer outros desabamentos. apoiando o teto nas paredes laterais. foi executado com equipamento e material disponível na obra. algumas horas após a abertura de cada trecho de túnel. chamadas roof bolts. e funcionou perfeitamente.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A solução encontrada foi implantar uma abóbada de concreto simples bombeado. cujo diretor técnico Figura 2 – Barragem de Glicério 153 . pela empresa Estacas Franki. que consistia em um muro vertical de concreto protendido.

no Rio de Contas. foi admitida a apresentação de variantes na concorrência para execução da obra. e venceu a barragem tipo gravidade aliviada. com uma delgada camada de barragens destinadas a hidroeletricidade. O projeto original desta obra previa um maciço de enrocamento apoiado em fundação de areia. provindo os recursos da Eletrobras e do governo do estado do Rio Grande do Sul. que foi ao longo de toda a vida um grande engenheiro entusiasta de tecnologia de ponta.Seção transversal da barragem de Pedra 154 . todas as demais obras para hidroeletricidade foram do tipo gravidade. Com exceção da barragem de Canastra. XX e XXI à época era o professor Costa Nunes. que foi construída em contrafortes sustentando lajes planas de concreto armado. Em 1973 o DNOS encerrou suas atividades na construção de A única barragem mais sofisticada foi a de Pedra. o DNOS ficou encarregado apenas da orientação técnica e da fiscalização das obras. Como não havia condições para alterar o projeto. preferindo-se sempre soluções mais simples e menos ousadas. uma estrutura tipo gravidade aliviada.A História das Barragens no Brasil . Figura 3 . comentou que só ficaria tranqüilo se o projeto previsse a remoção da areia e a colocação do enrocamento diretamente sobre a rocha subjacente. O diretor geral do DNOS na época. ficou compreensivelmente apreensivo com relação à solução dada para a fundação. uma vez que já existia entidade federal com a incumbência específica de promover a eletrificação do país. Engenheiro Camilo de Menezes. Na última obra de que participou. barragem de Passo Fundo. A barragem foi construída pela empresa proponente e funcionou adequadamente. mas este tipo de obra nunca mais foi adotado. construídas em concreto simples.Séculos XIX. britas e pedras arrumadas separando o enrocamento da areia da fundação. na Bahia. com uma altura máxima de 65 m a partir da fundação rochosa.

enquanto na outra alça vão sendo removidos os sedimentos que se depositaram enquanto ela esteve em operação. A Barragem do Rio das Velhas. suas características e os anos de conclusão das obras. e tem fundação em terra. algumas delas têm características interessantes. informando a localização das mesmas. Sua característica mais marcante é a calha do rio ter sido bifurcada em duas alças mediante dragagem. é de concreto armado. O sangradouro é do tipo labirinto. e escoam para jusante as vazões excedentes do rio. dotada de comportas. integrante da tomada d’água do sistema adutor constr uído pelo DNOS para abastecer Belo Horizonte. Minas Gerais. a duplicação destina-se a ter uma alça conduzindo lentamente água para ser captada. a qual é depois aduzida por gravidade. que regulariza a contribuição do Rio Pacoti. Ceará.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 4 – Barragem de Pedra Abastecimento de água a cidades O Quadro 2 relaciona as barragens construídas pelo DNOS para abastecer cidades. ponto este 155 . através de um túnel. no único local da área onde existe rocha a profundidade adequada. ao reservatório que abastece Fortaleza. formado por um muro vertical engastado em uma laje horizontal ancorada na rocha de fundação. o sangradouro foi localizado. As barragens de Riachão e Pacoti formam um único reservatório.

fornece água para abastecimento das cidades da Região dos Lagos. XX e XXI a obra. a área que pode ser irrigada. com funda- Figura 5a – Usina hidroelétrica de Passo Fundo .A História das Barragens no Brasil . com o objetivo de conhecer os locais onde havia rocha subjacente. A barragem de Juturnaíba. porém simples. com fundação em rocha. autorizandose então o respectivo plantio. realizados ao longo do eixo previsto para Figura 5b – Usina hidroelétrica de Passo Fundo . Irrigação O grande sucesso do DNOS em matéria de irrigação foi o projeto que irriga aproximadamente 15. obras estas realizadas em concreto. é avaliada. só tomando precauções para impedir que a água se aproximasse do maciço da barragem do Pacoti.condutos forçados 156 . A barragem é de terra. Da mesma for ma que a bar ragem acima mencio­­ nada. Aproveitando a existência de rocha de boa qualidade no local. A barragem do Arroio Duro fornece água para essa irrigação.000 hectares de arroz no município de Camaquã. na qual foi então implantado o sangradouro em labirinto.casa de força e adução encontrado através de uma extensa. sobre fundação de argila mole. no Rio Grande do Sul.Séculos XIX. em cada ano. pesquisa realizada por sondagens a percussão. O restante da barragem foi construído em terra. com base no volume acumulado. no rio São João. a tomada d’água e a descarga de fundo. no Estado do Rio de Janeiro. Só foi encontrada rocha em uma pequena ilha. deixando-se a água escoar pelo terreno após seu vertimento. ela foi projetada após uma campanha de furos de sondagem a percussão. dispensou-se o revestimento do canal de restituição.

planejou-se implantar irrigação de hortigranjeiros em uma área localizada na margem esquerda do canal do rio São João. Para controlar as infiltrações na fundação. Iniciou-se pela Barragem Oeste. Entretanto. para proteger Blumenau e outras cidades do Vale. além de outros cuidados habituais. caso a cortina não funcionasse adequadamente. Esta área podia ser abastecida de água por gravidade. Infelizmente os locais onde podiam ser construídas barragens naquele vale não possibilitavam controlar a maior parte da bacia contribuinte. características e ano de conclusão. Goitá e Carpina. Estas obras aumentaram a capacidade da calha. Algumas medições de pressão intersticial na fundação. para abaixar satisfatoriamente o nível d’água naquela cidade. sem beneficiar esta última cidade nem a área a jusante da mesma. possibilitando não só escoar sem extravasamento as vazões provenientes da área da bacia contribuinte não controlada pelas barragens. para depois constr uir em terra a Barragem Sul e finalmente a Barragem Norte. sub-produto malcheiroso da indústria de cana de açúcar. Outras barragens para controle de cheias foram as de Tapacurá. relativamente curtas. a partir da barragem. mas a barragem não apresentou nenhum problema. e sua cota era suficientemente alta para ter boa drenagem. em Santa Catarina. imediatamente a jusante da barragem. mas este pedido não foi atendido.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens ção também em terra. o reservatório de Juturnaíba tornou-se fundamental para abastecimento urbano de água na denominada Região dos Lagos do Estado do Rio. e Goitá é utilizada para reter vinhoto. esta desapropriação incluiu a área onde se previa o projeto de irrigação. a canalização do rio Capibaribe na área urbana daquela cidade. o projeto previu uma cortina delgada de solo-cimento para vedação e um filtro instalado em uma trincheira situada no pé do talude de jusante. Quando estavam terminando as negociações com uma cooperativa. realizadas após a entrada em operação da obra. Tapacurá é utilizada também para fornecer água destinada ao abastecimento de Recife.000 ha para formar a reserva de mico-leão dourado de Poço d’Antas. no Estado de Pernambuco. o que é indispensável para evitar a salinização do solo. para povoar a reserva de Poço D’Antas. mediante substituição por outra área equivalente para compor a reserva. Terminou sendo necessário complementar as barragens com dragagem do rio Itajaí a jusante de Blumenau. em concreto gravidade. e substituição de duas pontes. como também operar as mesmas liberando vazões 157 . e informa suas localizações. Alguns anos depois os jornais noticiaram a chegada de mico-leões dourados importados da Flórida. o DNOS não terminou a construção desta última. por outras de maior vão. Estados Unidos. A atual contribuição da barragem para irrigação resume-se em disponibilizar água para os fazendeiros que quiserem irrigar suas plantações captando água no rio São João. com o crescente desenvolvimento de Cabo Frio e outras cidades litorâneas. Controle de cheias As primeiras barragens para controle de cheias do DNOS foram construídas no Vale do Itajaí. que recolheria as infiltrações. graças ao bom funcionamento do filtro. mas o Estado de Santa Catarina a concluiu em 1992 e ela está funcionando a contento. para implantar o projeto. Quando foi projetada a barragem de Juturnaíba. além das barragens. O controle de cheias de Recife incluiu. foi desapropriada uma área de mais de 20. Infelizmente o DNOS foi extinto antes de completar esta dragagem. a jusante da barragem. que é liberado somente quando as vazões do rio Capibaribe aumentam a ponto de serem capazes de diluir e dar escoamento ao vinhoto sem criar problemas ambientais. na bacia do Rio Capibaribe. O Quadro 3 relaciona as barragens construídas pelo DNOS para irrigação. que só foi executada entre as cidades de Blumenau e Gaspar. o rio teve sua capacidade aumentada mediante regularização e alargamento de sua calha. não indicaram funcionamento adequado da cortina de vedação. mencionada no ítem sobre abastecimento urbano. abortando assim o projeto de irrigação. Foi solicitada a sua liberação.

Flores.Séculos XIX. Passaúna e Juturnaíba. A última barragem de controle de inundações construída pelo DNOS foi Arroio Gontam. O Quadro 4 relaciona as barragens construídas pelo DNOS para controle de cheias e informa suas localizações. para evitar enchentes na cidade. sendo o caso das barragens de Pedra. RS. inundações a jusante. Algumas outras barragens do DNOS fazem controle de cheias como objetivo secundário. concluída em 1982. Trata-se de uma barragem de concreto simples tipo gravidade.A História das Barragens no Brasil . na cidade de Bagé. XX e XXI Figura 6 – Barragem e diques de Tapacurá relativamente grandes. A característica especial desta obra é o fato do reservatório estar situado em terras do Exército. cujo reservatório só enche quando ocorrem chuvas fortes. evitando assim. retendo em seus reservatórios apenas uma fração da cheia condizente com a capacidade dos mesmos. características e ano de conclusão. retendo os deflúvios e liberando-os aos poucos. que permitiu sua eventual inundação. 158 . Pampulha.

prejudicando a irrigação.CINQUENTA ANOS DO COMITÊ BRASILEIRO DE BARRAGENS Finalidades diversas O Quadro 5 relaciona barragens construídas com finalidades diversas. nos parágrafos abaixo menciona-se a finalidade das mesmas e acrescenta-se alguns detalhes. frequentemente entrava água salgada do oceano na lagoa. Esta lagoa é usada intensivamente como fonte de água para irrigação de arroz em ambos os países. durante a estiagem. Figura 7 – Barragem e Sangradouro de Arroio Duro Figura 8 – Barragem de Carpina 159 . situada no extremo sul do Brasil e é partilhada com o Uruguai. informando suas localizações. e. o qual drena a Lagoa Mirim. A mais importante destas barragens é a do Canal São Gonçalo. características técnicas e ano de conclusão. pelo Canal de São Gonçalo.

na região de Campos – Rio de Janeiro. o que proporciona um acréscimo de energia firme em cinco usinas hidroelétricas existentes a jusante. o alagado também é utilizado para navegação. mantendo o espelho d’água. Os movimentos de terra realizados na bacia do rio Leitão. depois de alguns anos. ao longo destes anos a urbanização ficou mais consolidada e diminuiu a produção de sedimentos que causavam problemas. em Belo Horizonte. um dos dissipadores de energia das comportas funciona também como eclusa. A barragem que existia na Pampulha. produziam muitos sedimentos que assoreavam a calha do rio. MG. A barragem é constituída por uma estrutura de concreto com uma cortina profunda de concreto armado. houve empenho em construir a obra exatamente na calha do rio. e. existe ali uma área alagada. o Governo incumbiu o DNOS de construir uma barragem para impedir a entrada de água salgada na Lagoa. A pequena Barragem de Santa Lucia foi construída na zona urbana de Belo Horizonte. com 231 m de comprimento. durante a urbanização da mesma.Séculos XIX. A barragem foi localizada a montante da cidade de Pelotas. além de aumentar a disponibilidade de água para o abastecimento de água de Juiz de Fora. Suas 160 . prejudicando seu escoamento. Quando necessário. possibilitando o acesso de embarcações vindas do mar até a cidade de Pinheiro. O barramento é de pequena altura. A barragem do Canal da Flecha tem como finalidade controlar o nível da água na Lagoa Feia. ao lado da cidade de Pinheiro. que recebe a contribuição de grande parte dos rios e canais da planície existente entre a margem direita do rio Paraíba do Sul e o mar. uma vez que qualquer mudança de posição poderia provocar divagações do leito do rio com graves conseqüências. mas serve também como fonte de água para irrigação. esta lagoa integra a drenagem da área. O projeto previu uma eclusa. no topo da qual foram instaladas comportas basculantes. Outra barragem que impede a salinização de manancial de água doce é a do rio Pericumã. que resultam em retração da lâmina d’água do alagado e intrusão de língua salina proveniente do oceano.A História das Barragens no Brasil . Maranhão. Por outro lado. Periodicamente ocorrem grandes estiagens. XX e XXI Após entendimentos com a República do Uruguai. para permitir fácil captação e adução de água doce para abastecimento de Pelotas e do porto de Rio Grande. com a dupla finalidade de controlar as cheias do rio Leitão e reter seus sedimentos. o grande desenvolvimento que aconteceu recentemente nesta última cidade aumentou a importância da disponibilidade garantida de água doce criada pela barragem. A região é aluvionar. de modo a não interferir no acesso marítimo àquela cidade. onde é obtida água para o abastecimento da cidade. A barragem possui comportas que são fechadas por ocasião das estiagens. por causa disso. MG. engastada em fundação de areia e cascalho. prejudicando ou interrompendo as utilizações de água acima mencionadas. impedindo a penetra ção da língua salina e garantindo a disponibilidade de água doce. e o DNOS a reconstruiu. rompeu por erosão interna em 1954. para permitir a continuação da navegação fluvial. Para executar a obra foi aberto um canal de desvio com 120 m de largura e a calha do rio foi inteiramente aterrada no local previsto para a barragem. as comportas são abertas para deixarem escoar o eventual excesso de água da Lagoa Mirim. mas a curta distância. e são fechadas na estiagem para impedir que a água salgada do Oceano Atlântico penetre na Lagoa. Em cota um pouco mais alta há uma passarela onde estão instalados mecanismos de comando das comportas. e atravessa o canal. o reservatório da referida barragem ficou completamente assoreado. o que torna importante controlar seu nível. Após a conclusão dos trabalhos a areia usada para o aterramento foi retirada completamente e o canal de desvio foi reaterrado. criação de gado e irrigação. uma fábrica de cimento situada em Porto Alegre é abastecida com matéria prima vinda do Uruguai em barcaças que passam pelo Canal. Esses sedimentos passaram a ficar retidos no reservatório da barragem de Santa Lúcia. A barragem de Chapéu D’Úvas controla parcialmente as cheias do rio Paraibuna e aumenta a vazão de estiagem do rio. Para manter a navegação.

o topógrafo. em um avião Constellation da VARIG. o DNOS montou uma rede de rádio que chegou a ter 50 estações. A barragem do Flores. a empresa consultora procurou evitar relacionamento entre seus engenheiros e os engenheiros da empresa construtora. seus laboratórios de solos e concreto. no Rio de Janeiro. Nos seus últimos 15 anos de atividade o DNOS passou a contratar empresas para realizar os trabalhos técnicos de controle da construção de barragens. lazer e paisagismo. Antes da adoção de motores a jato e equipamentos modernos para voo por instrumentos aconteciam muitos acidentes. existentes na época. podendo-se citar as barragens Engenheiro José Batista Pereira. facilitando assim a navegação. Em pelo menos duas obras. são de difícil definição. que tinham assim possibilidade de comunicação diária com os escritórios regionais e mesmo com a sede do órgão. além disso. fornece água para irrigação. face às grandes distâncias a percorrer e à deficiência das estradas. de controle dos serviços. morto em 1950 ao regressar de uma viagem para contato com a Administração Central do DNOS. ao invés de partir das cabeceiras. ajudando a diminuir as enchentes que inundam a cidade de Bacabal e pode ser usada para aumentar a vazão do rio Mearim durante a estiagem. autor de muitos projetos de obras importantes. muitas vezes. quase sempre de avião. Tendo em vista que as atividades do DNOS se desenvolviam em praticamente todos os estados da Federação. medição e controle de qualidade das obras. que correm paralelamente à pista do aeroporto da cidade a jusante da barragem. mas nos primeiros 25 anos de construção de barragens os trabalhos de fiscalização. Foi autor de importantes trabalhos técnicos. e realiza também controle de cheias. Este sistema não é utilizado no Brasil. ao US Bureau of Reclamation dos Estados Unidos e até mesmo à UNESCO. para comunicação entre seus escritórios. A Barragem Mãe D’Água foi construída para fornecer água para o laboratório do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. funcionário do órgão. Tapacurá e São Gonçalo. etc. e seu nome foi dado a uma barragem que o DNOS construiu naquele estado. o laboratorista e os demais funcionários. destinado à organização de cadastro nacional de cursos d’água. como o livro “Chuvas Intensas no Brasil”. seus engenheiros tinham que viajar com freqüência. foram realizados por funcionários do próprio DNOS. e face à precariedade do Departamento dos Correios e Telégrafos (DCT) e do sistema telefônico. ao IPT de São Paulo. que é um afluente do rio Mearim. esta numeração parte da foz dos rios e segue para montante. A orientação técnica do DNOS foi muito influenciada pelo Engenheiro Otto Pfafstetter. As instalações para construção de cada barragem incluíam um conjunto de casas onde ficavam alojados o engenheiro residente. que bateu em um morro tentando pousar em Porto Alegre com pouca visibilidade. para que pudessem cumprir adequadamente suas tarefas. Sempre foi uma preocupação dos dirigentes promover a capacitação dos engenheiros do órgão.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens finalidades são recreação. Os engenheiros do órgão passaram a fiscalizar o trabalho das consultoras que realizavam os trabalhos topográficos. A organização dos trabalhos A construção das barragens sempre foi realizada por empresas empreiteiras. Sendo o DNOS um órgão nacional. Outro trabalho muito interessante dele foi um sistema para designação de número de registro de trechos de cursos d’água. incluindo a locação. controla parte das vazões que escoam pelo rio Mearim. de laboratório. mas ambas as barragens ficaram em excelentes condições. Neste sentido recorreram. entre outras entidades. Não se sabe se esses cuidados eram realmente necessários. Ele dirigia o Distrito do Rio Grande do Sul. O primeiro deles foi com José Maia Filho. proibindo inclusive que fizessem refeições juntos. as quais. para proporcionar estágios em 161 . amortecendo as vazões do rio Pampulha. mas meia dúzia de outros países o adotaram. Havia estações de rádio nas barragens e outras obras importantes.

uma vez que há uma lei proibindo dar nome de pessoas vivas a obras do governo. O Diretor-Geral solicitou que o arquivo lhe remetesse os documentos referentes a este assunto de volta. como às vezes fazia. primeiro Diretor do DNOS Camilo de Menezes. fazendo inclusive os levantamentos topográficos necessários para isto. Ele estabeleceu o sistema de trabalho pelo qual as obras eram executadas por empresas. conforme havia sido solicitado. Os funcionários do DNOS orientavam e fiscalizavam os trabalhos. Foi então dado o seu nome à barragem. O Diretor Geral encaminhou o assunto ao homenageado. após passado um ano. Como a grande maioria das empresas não dispunha de escavadeiras para abertura de canais. que na época era a capital federal. o DNOS começou a adquirir este equipamento e contratar sua operação com empreiteiros. foi o Diretor-Geral seguinte. Uma característica comum aos dois primeiros diretores foi continuar estudando assuntos de engenharia enquanto exerciam a direção do órgão. em vez de serem construídas por administração direta.Séculos XIX. Diretor-Geral do DNOS de 1946 a 1961 162 . foi presidente da CHEVAP e diretor da Escola de Engenharia da Universidade Federal Fluminense. quando Getúlio Vargas era Presidente da República. como fazia o Departamento Nacional de Obras contra as Secas naquela época. Antes de transcorrer um ano o engenheiro Leitão. engenheiro do órgão. XX e XXI órgão até o ano de 1946.A História das Barragens no Brasil . que respondeu escrevendo que preferia continuar vivo. a quem se queria homenagear. tendo ficado 15 anos no cargo. Muitos anos depois houve um abaixo assinado pedindo para dar o nome do Diretor de Obras do DNOS na época. quando foi ser prefeito do Rio de Janeiro. com problemas tecnológicos ainda pouco conhecidos no país. Expandiu as atividades do DNOS para quase todos os Estados e enfrentou com sucesso o desafio da construção de grande número de barragens. Dirigiu o Figura 10 . engenheiro Raimundo Cláudio Correia Leitão a uma barragem que ia ser construída no estado onde ele havia nascido. que assumiu a chefia da Comissão de Saneamento da Baixada Fluminense na sua fundação em 1933. Figura 9 Hildebrando de Araújo Góes. Após deixar a direção do DNOS. Os Gestores O primeiro Diretor do DNOS foi Hildebrando de Araújo Góes. e promoveu sua transformação em Departamento Nacional de Obras de Saneamento em 1940. morreu num desastre de avião em serviço.Engenheiro Camilo de Menezes.

Em 1967 assumiu o cargo Carlos Krebs Filho. Pacoti e Riachão acima mencionadas. em cuja gestão foram executados aterros para saneamento de favelas no Rio de Janeiro. Faziam parte da compra peças sobressalentes no valor de um milhão de dólares. Harry Amorim Costa. Um aspecto interessante de sua gestão foi a compra de 200 escavadeiras marca Nobas. Diretor Geral do DNOS 163 .Paulo Baier. depois ministro dos Transportes e. engenheiro do DNOS que imprimiu notável organização aos trabalhos. governador do estado do Maranhão.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Em 1961 o presidente Jânio Quadros nomeou Diretor Geral do DNOS o engenheiro do DNER Geraldo Bastos da Costa Reis. dirigiu o DNOS até sua extinção. o que fez com grande competência. com a missão de transformar o órgão em autarquia. Goitá. depois ministro de Minas e Energia e deputado federal. assumiu a direção do DNOS e manteve a mesma sistemática de trabalho. .Vicente Fialho . incluindo a Barragem de Pedra. Após a revolução de 1964 sucederam-se na direção do órgão quatro diretores que ficaram pouco tempo. Ao tomar posse em 1990 o presidente Collor. que desenvolveu atividades voltadas para irrigação no Nordeste e deixou a direção para ser ministro da Irrigação. que aumentou substancialmente o abastecimento de água a Belo Horizonte. Na sua gestão foi concluída a construção da Barragem do São Gonçalo. da Alemanha Oriental. Fez com que as obras e serviços executados para o órgão fossem pagos na ordem cronológica da apresentação das respectivas medições e faturas na tesouraria. pagos em café. sendo três deles militares. Estas máquinas prestaram bons serviços de 1964 até a extinção do DNOS em 1990. inaugurou as obras da adutora do rio das Velhas. Na sua gestão foram concluídas as barragens de Carpina. no estado de Pernambuco. Figura 11 . estado da Bahia e a Barragem de Tapacurá. As obras e os serviços que o órgão estava executando Nos governos dos presidentes João Figueiredo e José Sarney sucederam-se no DNOS diretores que não eram engenheiros do serviço público federal. mais tarde.Geraldo Bastos da Costa Reis. Assumiu então Jefferson de Almeida. Deixou o cargo para assumir o governo do estado de Mato Grosso do Sul. determinou a extinção do DNOS. saiu para ser superintendente da Sudene. mas que se dedicaram ao trabalho com afinco e realizaram excelentes administrações. o que conseguiu fazer apesar da renúncia de Jânio Quadros. Foram eles: . Em 1974 outro engenheiro da casa. Na sua gestão foram concluídas dez barragens.José Reinaldo Carneiro Tavares. ao preço total de sete milhões de dólares. . foram realizadas obras de defesa contra inundações em cidades às margens do rio São Francisco e tiveram início os estudos do governo federal para transposição do rio São Francisco para o Nordeste semi-árido. que deu prosseguimento às atividades relacionadas à irrigação no Nordeste e deu grande impulso às obras de controle de cheias no Vale do Itajaí. Provavelmente o fabricante das máquinas não empregava técnicas de obsolescência programada. que seria o último engenheiro da casa a dirigir o DNOS. ajudado por sua longa experiência como Diretor Geral Substituto. necessitando como grandes reparos apenas a substituição periódica dos motores quando acabava sua vida útil e a recomposição da mesa sobre a qual girava o conjunto formado pela cabine e a lança. no rio de Contas.

Por sorte.000..000.600 9. F.000. Diretor-Geral do DNOS de 1967 a 1974 e o engenheiro Jefferson de Almeida. . Muitas empresas de engenharia que estavam prestando serviços ou executando obras ficaram numa situação financeira dificílima. Simples Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto / Terra PEDRA PASSO FUNDO XANXERÊ FURNAS DO SEGREDO Jaguarí Passo Fundo Chapecozinho Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Simples ITÚ Itaquí Itaquí 164 ..000 1.000. Ministro do Interior.250 20..000 5.700 35. até enferrujar completamente no lugar onde se encontravam.000 57.000. o engenheiro Carlos Krebs Filho.000.000 10.800 76. Paula Ijuí Espumoso Poços Caldas Oliveira Sacramento Glicério Angelina Canela Jequié Jaguarí São Valentim Xanxerê UF RS RS RS RS RS RS RS RS RS RS RS RS RS RS MG MG MG RJ SC RS BA RS RS SC RS TIPO / MATERIAL Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Simples Muro de Concreto Protendido Contrafortes / Concreto Armado Terra Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto / Terra ANO DE ALTURA ACUMULAÇÃO CONCLUSÃO VOLUME DO EXTENSÃO RESERVATÓRIO COROAMENTO MÁXIMA MACIÇO(m³) (m³) (m) (m) 3.000 390. em Minas Gerais e a Barragem Norte.000 1.000.500 119.000 80.500 80. Ramos S.000 17.000.750.000..000 IVAÍ IJUIZINHO CAPINGUÍ GUARITA FORQUILHA DIVISA SALTO / BUGRES ERNESTINA CANASTRA SANCHURI JOÃO AMADO BLANG PASSO DO AJURICABA JOSÉ MAIA FILHO BORTOLAN ANIL PAI JOAQUIM MACABU GARCIA LARANJEIRAS 1948 1948 1949 1949 1949 1950 1951 1954 1956 1956 1957 1957 1960 1961 1956 1959 1960 1960 1962 1965 1970 1972 1973 . F.50 3 22 4. ficando sem condições de ser consultado.000 370.000 3. Entretanto.000.BARRAGENS PARA HIDROELETRICIDADE LOCALIZAÇÃO Nº 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 CARACTERÍSTICAS NOME CURSO D'ÁGUA Ivaí Ijuizinho Capinguí Guarita Forquilha Divisa Santa Cruz Jacuí Santa Maria Sanchuri Guarita Santa Cruz Ijuí Jacuí Antas Jacaré Araguari Macabu Garcia Santa Maria Contas MUNICIPIO Julio Castilhos Santo Ângelo Passo Fundo Passo Missões Marc. graças à atuação dos estados mencionados. que tinha perto de 40.000 50.000 800 10.000 15. 51.000.000 250.30 42..00/511..000 539.000 400.500 8.000 4.275 22.000 58.. XX e XXI foram paralisados. vendo-se da esquerda para a direita o Gen.000.000 155 150 220 100 125 239 600 400 174 896 200 507 164 432 200 113 188 256 100 193 440 582 646 505 582 3.500 11.Séculos XIX.. Paula S.000 16. foi destruída uma organização que produzia obras e serviços extremamente benéficos e necessários.000 61.900 5.000 30.560. em Santa Catarina.000 desenhos de projeto de obras.000..50 65 22 40 15 22 38.000.000 40. Mais de cem escavadeiras de propriedade do DNOS ficaram paradas no campo.500 2.Inauguração de uma barragem no Nordeste.50 15 24 6 11 17 9 24 11 8 15 20 19 24. a construção dessas duas barragens foi concluída alguns anos mais tarde.000 15. somente duas barragens estavam em construção naquele momento: a Barragem de Chapéu D’Uvas.. O arquivo técnico do DNOS.000. Resumindo. que viria a ser Diretor-Geral do DNOS em 1978-1979 QUADRO 1 .700.800/14. Esta última chegou a ter sua vila residencial do canteiro de obras invadida por índios naquela ocasião. sem que fosse criada uma alternativa. Paula Passo Fundo Canela Uruguaiana Passo Missões S.000 4.000 350.000 6. foi entregue ao Arquivo Nacional.800 2.500.000 31. Figura 12 .000 1.000 10.A História das Barragens no Brasil .000.000 130.000 Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Ciclópico Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Ciclópico Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Simples Gravidade Aliviada / Concr. José Costa Cavalcanti.50 3 25 11.900 18.000 26. F.300 24.

500.000 290.000 430.000 775.000 3.000 2.BARRAGENS PARA IRRIGAÇÃO LOCALIZAÇÃO Nº NOME CARACTERÍSTICAS CURSO D'ÁGUA Truçu Carnauba Condado Duro MUNICIPIO Acopiara Acopiara Catarina Camaquã Poço Branco UF CE CE CE RS RN TIPO / MATERIAL Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Simples Terra Homogênea Terra Zoneada ANO DE ALTURA ACUMULAÇÃO CONCLUSÃO VOLUME DO EXTENSÃO MACIÇO(m³) COROAMENTO MÁXIMA RESERVATÓRIO (m³) (m) (m) 7.000 70.000.500.000.000 150 40 390 1.000 **** **** 485 104 715 100 42 295 300 438 320 42 1595 650 3.000.887.000 13.000.000 135.000 97.000 126.940.000 30.000 270.000 1.000.000 1972 1975 1978 1978 1982 1992 QUADRO 5 .3 15 35 9 30 30 12 **** **** 4.053.360 1.000 108.900.450.000.800 **** **** 17 10 10 1.000.000 153.950. / Concreto Ciclópico Terra Homogênea Enrocamento Concreto Armado Terra Zoneada Terra Homogênea Concreto Armado Gravidade / Concreto Simples Concreto Armado Terra Terra Terra Gravidade / Concreto Simples Terra QUADRO 3 .5 9 28 28.000 27.000.580.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens QUADRO 2 .000 148.500.440 1.000 2.000.340 105.000.000 167.BARRAGENS PARA ABASTECIMENTO URBANO LOCALIZAÇÃO Nº 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 BATATÃ PRETO DO CRICIUMA SANTA BÁRBARA RIO DAS VELHAS RIO DAS VELHAS II MAESTRA VACACAÍ MIRIM VAL DE SERRA TAPACURÁ RIO DAS VELHAS III PACOTI RIACHÃO JUTURNAIBA XARÉU PASSAÚNA CARACTERÍSTICAS NOME CURSO D'ÁGUA Batatã Rio Preto Santa Bárbara Velhas Velhas Maestra Vacacaí Mirim Ibicuí Tapacurá Velhas Pacotí Riachão São João Água Pluvial Passúna MUNICIPIO São Luís Jequié Pelotas Nova Lima Nova Lima Caxias do Sul Santa Maria Santa Maria São Lourenço Nova Lima Pacatuba Pacatuba Silva Jardim Fern.000.000 263.264.50 42 38 16 63 78.000 1.000 370.350.BARRAGENS PARA CONTROLE DE CHEIAS LOCALIZAÇÃO Nº 1 2 3 4 5 6 OESTE SUL CARPINA GOITÁ GONTAN NORTE CARACTERÍSTICAS NOME CURSO D'ÁGUA Itajai Oeste Itajai Sul Capibaribe Goitá Gontan Hercilio MUNICIPIO Taió Ituporanga Carpina Gloria do Goitá Bagé Ibirama UF SC SC PE PE RS SC TIPO / MATERIAL Gravidade / Concreto Simples Terra Terra / Zoneada Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto simples Terra ANO DE ALTURA ACUMULAÇÃO CONCLUSÃO VOLUME DO EXTENSÃO RESERVATÓRIO COROAMENTO MÁXIMA MACIÇO(m³) (m³) (m) (m) 93.000 7.000 93.500 41.800.500 2.000.000 186.500.000.000 **** **** 1957 **** 1969 1970 1970 1971 1972 1972 1973 1977 1979 1979 1979 **** 1989 Arco Gravid.000.000 115 400 200 218 130 137.000 8.000 1956 1958 1962 1977 1980 1982 1988 1994 SANTA LÚCIA PAMPULHA MÃE D'ÁGUA SÃO GONÇALO FLEXA PERICUMÃ FLORES CHAPÉU D'UVAS 165 .000 **** 16.000 3.000.000 52.000 500.000 422 438 1720 220 150 365 25 43.000 570.000 1955 1956 1965 1965 1970 1 2 3 4 5 CEDRO CARNAUBA RIVALDO CARVALHO ARROIO DURO JOSÉ BATISTA PEREIRA Ceará Mirim QUADRO 4 .000. Noronha Araúcária UF MA BA RS MG MG RS RS RS PE MG CE CE RJ PE PR Terra TIPO / MATERIAL ANO DE ALTURA ACUMULAÇÃO CONCLUSÃO VOLUME DO EXTENSÃO MACIÇO(m³) COROAMENTO MÁXIMA RESERVATÓRIO (m³) (m) (m) 390.000 5.000.000.20 3 29.000 16.000 758.000 500 12.5 400 20 15 9 6.000 5.000 2.000 1.000 **** **** 63.4 43 700.400 16.000 **** 165.800 2.BARRAGENS COM FINALIDADES DIVERSAS LOCALIZAÇÃO Nº 1 2 3 4 5 6 7 8 CARACTERÍSTICAS NOME CURSO D'ÁGUA Leitão Pampulha Afl.500 3. Dilúvio São Gonçalo Canal Flexa Pericumã Flores Paraibuna MUNICIPIO Belo Horizonte Belo Horizonte Viamão Pelotas Campos Pinheiro Joselandia Juiz de Fora UF MG MG RS RS RJ MA MA MG TIPO / MATERIAL Terra Homogênea Terra Homogênea Terra Homogênea Concreto Armado Concreto Armado Concreto Armado Terra Homogênea Terra Homogênea ANO DE ALTURA ACUMULAÇÃO CONCLUSÃO VOLUME DO EXTENSÃO RESERVATÓRIO COROAMENTO MÁXIMA MACIÇO(m³) (m³) (m) (m) 60.000 **** 196.450 920 12 14 17 21 45 4.

166 .

As geradoras de energia elétrica na primeira metade do Século XX eram de pequeno porte e de operação precária. os sistemas elétricos operavam em 60 Hz e 50 Hz. no dia 20 de outubro de 1859. Nessa época. Neste contexto. atravessando com dificuldades o sertão nordestino. o cearense Delmiro Gouveia colocou em operação a pequena usina hidroelétrica de Angiquinho. Essa visão do americano foi percebida bem antes. nos primeiros anos do Século XX pelo inglês Richard George Reidy que requereu ao governo federal a concessão para exploração do potencial da cachoeira de Paulo Afonso para instalação progressiva de indústrias e serviços. ainda no Século XIX. escassas rodovias rudimentares regionais e o transporte de cabotagem que atingia o litoral mais povoado e penetrava pelos rios amazônicos. Dentre esses visitantes o de maior destaque foi o Imperador D.102 KW) para gerar energia para 167 . Pouco após o engenheiro Francisco Pinto Brandão solicitou a concessão do aproveitamento da cachoeira para produção de energia elétrica para uma empresa sua a ser implantada na região com a denominação de Empresa Hidro Elétrica Agrícola Industrial do Brasil. Indutora do Progresso do Nordeste “O rio São Francisco é o mais brasileiro dos rios” Engenheiro Euclides da Cunha Flavio Miguez de Mello O Nordeste na primeira metade do século XX Até a entrada dos anos 50 do século XX o Brasil permanecia sendo um arquipélago de regiões economicamente ativas com parcas conexões entre si a menos da malha ferroviária que integrava a Região Sudeste. O jornalista Alceu Amoroso Lima relatou no periódico “O Jornal” declarações de três estrangeiros que estiveram a admirar a pujança da queda d’água: um francês disse “C’est très chic”. a exemplo das diversas bitolas das ferrovias implantadas no país. Em meados do século passado a cachoeira ainda despertava admiração. com 1. O requerimento foi também indeferido pelo governo federal em 1913. Pedro II.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A História da CHESF. a imponente e magnífica queda d’água chamava atenção dos Figura 1 – Usina de Angiquinho visitantes que para lá se deslocavam enfrentando grandes distâncias dos centros urbanos. Anos antes. castigado pelas freqüentes secas resultantes de extensas estiagens o desenvolvimento do Nordeste era incipiente. Foi nesse contexto que também em 1913. Na virada do Século XIX para o Século XX já se destacava o potencial hidroenergético da cachoeira de Paulo Afonso na qual o rio São Francisco despencava com uma vazão média plurianual superior a 2000 m³/s em vários braços por sobre uma espessa camada de rocha granítica sã. um hindu exclamava “It is just wonderful” e um americano perguntou “How much hydropower is lost here every day?” . O requerimento foi indeferido em 1910.500 HP (1.

Naquela época. cujo Ministério incluía o Setor Elétrico comandou a campanha para a construção de uma hidroelétrica na cachoeira de Paulo Afonso. não houve nenhuma idéia de aproveitamento do potencial da cachoeira. em 1944. Em 1945. no Tennessee Valley Authority. Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) e Nacional de Águas (ANA). o contra almirante Jaigen Rohwer. Antes disso. o Brasil questionava o regime de exceção do Estado Novo que havia marcado eleições para dezembro. XX e XXI sua fábrica de linhas de costuras situada na localidade de Pedra. mas que. A equipe era constituída pelos engenheiros Antonio José Alves de Souza. a capitaneada pelo engenheiro civil e economista por vocação Eugênio Gudin com a justificativa de que os parcos recursos federais deveriam ser concentrados no Sudeste onde já havia grande demanda reprimida de energia elétrica. Há versão que narra que Apolônio Sales havia solicitado a Getúlio Vargas a assinatura do Decreto de criação da CHESF em 30 de setembro por ser ele. Na República. inclusive do bando de Virgulino Ferreira. a produção de linhas de costura foi prejudicada. Jorge de Menezes Werneck. Esse abastecimento em alto mar foi confirmado em 1982 pelo oficial da marinha alemã que comandava as operações no Atlântico Sul. erguida na cachoeira. não passando de lenda o lançamento dos equipamentos da fábrica e da usina. O Imperador quando a visitou. procurava sensibilizar as lideranças políticas para a idéia da exploração do potencial da cachoeira de Paulo Afonso. Jayme Martins de Souza. A usina permaneceu no local e os equipamentos da fábrica. Forte oposição a essa idéia veio de diferentes áreas. anos depois. Após a morte por assassinato de Delmiro Gouveia. foram levados para São Paulo. submarinos esses abastecidos por navios argentinos sob o manto de sua neutralidade. ficaram prejudicados devido aos ataques de submarinos alemães e italianos nas nossas águas costeiras. O ministro Apolônio Sales.Séculos XIX. 168 . Apolônio Sales. mas a usina permaneceu intacta. 520 de 12/08/1911 de acordo com a Constituição Federal de 1891. tendo sido efetuado em região agreste no tempo do cangaço. maiores do que as existentes na época. devoto de Santa Terezinha. não havia tecnologia para a implantação de geração de energia hidroelétrica. agravado pela dificuldade nos transportes que se faziam sobretudo por mar. Mário Barbosa de Moura e Mengalvio da Silva Rodrigues. com a conhecida pobreza de combustíveis fósseis da época. Apolônio. mesmo em países mais evoluídos. O desequilíbrio entre o Nordeste e o Sudeste do país passou a ser cada vez mais nítido. O Serviço Geológico e Mineralógico deu origem mais tarde à Divisão de Águas. A obra foi realizada mediante concessão do estado de Alagoas ao abrigo do Decreto nº. precursora do Departamento Nacional de Águas e Energia Elétrica DNAEE que por sua vez. A usina. nas proximidades da cachoeira de Paulo Afonso. autarquia americana implantada pelo presidente Franklin D. O levantamento foi um marco para o desenvolvimento do Nordeste. a cujo ministério a política de energia elétrica estava subordinada. uma das mais importantes.A História das Barragens no Brasil . A partir de 1943 o ministro da Agricultura. pelos ingleses da Machine Cotton. onde coletou subsídios para a entidade a ser criada para atuar no vale do São Francisco no Brasil. mesmo na monarquia. o que ainda não havia em outras partes do território nacional cuja economia era essencialmente agrícola. O Nordeste ficou isolado do resto do país. após a Constituição de 1934. com o fim da II Grande Guerra. Roosevelt como indutora de desenvolvimento para a saída da grande depressão econômica que ocorreu a partir de 1929 nos Estados Unidos. foi substituído em passado recente pelas Agências. Isto possibilitaria a irrigação das áreas ribeirinhas e também o início de industrialização do Nordeste. O Presidente Getúlio Vargas comandava o Estado Novo no qual Apolônio Sales era Ministro da Agricultura. Apolônio Sales esteve. dentro da cachoeira de Paulo Afonso. No início dos anos quarenta a tendência era a de promover a construção de uma grande usina em Itaparica (que só se tornou realidade nos anos setenta). as concessões para geração de energia elétrica passaram a ser federais sob atribuição do Ministério da Agricultura. a omissão passou a ser pouco compreensível. aproveitava uma queda parcial e uma pequena parcela da vazão afluente. durante a Segunda Grande Guerra. No início dos anos vinte do século passado o Serviço Geológico e Mineralógico do Ministério da Agricultura efetuou um levantamento preliminar do potencial hidroenergético do rio São Francisco entre Juazeiro e Paulo Afonso que concluiu com a possibilidade de implantação de grandes centrais hidroelétricas. o Lampião.

chefe de gabinete do ministro da Agricultura. festejada naquela data (hoje é 01 de outubro). Pernambuco. Mantinha-se a oposição do agora ministro Eugênio Gudin por considerar que este tipo de empreendimento deveria ser feito pela iniciativa privada e que os investimentos em geração de energia elétrica deveriam priorizar a região Sudeste. então diretor superintendente de Sobradinho. indicações de origem político partidárias ficaram afastadas. amanhã é dia de São Francisco. depois de um árduo trabalho. O início da CHESF O Presidente Dutra entregou o comando da CHESF a um profissional de reconhecida capacidade e idoneidade com total liberdade de indicar os demais membros da diretoria e dessa maneira. mas com data do dia anterior. no dia 15 de março de 1948. Ele ficará contente vendo que o senhor criou no Nordeste do Brasil uma companhia com o nome dele”. a idéia de considerar como projeto definitivo um estudo extremamente sumário da usina localizada no Braço da Velha. obtendo a adesão de estados e municípios do Nordeste para a integralização do capital da empresa. usou o seguinte argumento – “Presidente. Getúlio Vargas foi deposto e tomou posse como Presidente da República o ministro José Linhares do Superior Tribunal Federal. Na seqüência ocorreram eleições gerais no país. O Decreto 8. sendo o General Eurico Gaspar Dutra. dada a disparidade daquela região com as regiões Sul e Sudeste. definiu um círculo inicial de cerca de 450 quilômetros de raio no interior do qual se inseriam as capitais dos estados de Alagoas. afirmara que seria um desperdício gastar recurso no projeto. no Nordeste. eleito e empossado Presidente da República. por exemplo. Já Apolônio Sales em conversa informal em 1976 com Eunápio Queiroz. no final de 1946. Alagoas. Dutra. embora conhecedor de que Getúlio Vargas era agnóstico e que o dia de Santa Terezinha havia passado.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens na época. no Centro Oeste. também assinada no mesmo dia 3 de outubro de 1945. Posteriormente esse círculo expandiu-se até atingir Natal – capital do Rio Grande do Norte e finalmente Fortaleza – capital do Ceará. Rio Grande do Nor te. o advogado Afrânio de Carvalho. Com a posse do Gal. Dificuldades adicionais também proviam do próprio ex-ministro Apolônio Sales a apoiar. A concessão. Daniel de Carvalho. Bahia. este para suprimento do que seria a futura capital brasileira no Planalto Central. mas o Estado Novo estava próximo do fim. que atravessava intenso racionamento e não o Nordeste onde nem mercado havia. Superadas todas as dificuldades. para transmitir e comercializar a energia hidroelétrica produzida em Paulo Afonso. Ao trecho de concessão Piranhas – Juazeiro foram acrescentados em 1972 mais 350 quilômetros.031 de 03/10/1945 concedia à CHESF a exploração de um trecho de cerca de 500 quilômetros entre Piranhas – Alagoas no baixo rio São Francisco e Juazeiro – Bahia no sub-médio rio São Francisco. ou seja.031 de criação da CHESF foi assinado no dia 4 de outubro de 1945. Ceará. por linha de transmissão e por subestação a CHESF era responsável por produzir e transportar energia elétrica para 8 estados do Nordeste (Piauí. continuava a oposição ao empreendimento hidrelétrico no Nordeste e à empresa criada em 3 de outubro de 1945. Esse fato originou a negativa do ministro da fazenda Correia e Castro do pedido de verbas para o Ministério da Agricultura para a execução do projeto. O Decreto Lei º 8. Diversos depoimentos dão conta de que um forte argumento que sensibilizou o general Dutra com relação a Paulo Afonso pode ter sido o que aventava a possibilidade de uma secessão do Nordeste das demais regiões do Brasil. foi realizada a Assembléia Geral de Constituição da CHESF. A empresa podia ser formada. No final do século XX quando entrou em vigor o novo modelo do setor elétrico com concessões por usina. procurou incluir como prioritários os aproveitamentos hidrelétricos de Paulo Afonso. O ministro Souza Costa. quase três anos após sua criação. Pernambuco e Sergipe. o que seria agravado num tipo de empreendimento em que nunca antes havia se envolvido. ainda no submédio rio São Fran- 169 . também comandado por Apolônio Sales. e Cachoeira Dourada no rio Paranaíba. narrou que. Paraíba. Outros opositores combateram a idéia usando como argumento a reconhecida incapacidade gerencial do governo. Entretanto. Sergipe e Bahia).

Piloto. onde tinha sido encarregado das concessões de energia elétrica. Na margem esquerda as instalações de Angiquinho e no cânion a casa de força 170 .Engenheiro Antônio Alves de Souza. formado na Escola de Minas de Ouro Preto. Luiz Gonzaga (Itaparica).Séculos XIX. ambas na Bahia. resultando que entre Xique Xique (limite montante) e Piranhas (limite jusante) se inserem as usinas hidroelétricas de Sobradinho. XX e XXI cisco entre as cidades de Juazeiro e Xique Xique.A História das Barragens no Brasil . Paulo Afonso I. no governo Epitácio Pessoa. primeiro presidente da CHESF Figura 3 . Esse engenheiro. Alves de Sousa assumiu o comando da empresa com o programa inicial de destinar o fornecimento de Figura 2 . foi eleito Presidente da CHESF o engenheiro Antônio José Alves de Sousa. obedecidas às orientações do Presidente Dutra. Apolônio Sales (Moxotó). III e IV e Xingó. em 1921. do Ministério da Agricultura. tinha. efetuado um levantamento topográfico da Cachoeira de Paulo Afonso.A cachoeira de Paulo Afonso antes das obras da CHESF. onde a CHESF construiu e opera a hidroelétrica de Sobradinho. Em 1948. II.

em 1961. esta com operação iniciada em outubro de 1949. uma casa de força e um descarregador de fundo provido de comportas de segmento. O diretor de administração. Entre as alternativas de projetos que foram consideradas para construção da usina de Paulo Afonso.1 MW que havia sido instalada por Delmiro Gouveia em 1913 e de outra pequena hidroelétrica denominada Usina Piloto. logo nos primeiros meses após o início de operação. foi selecionada a que previa uma extensa barragem de concreto de gravidade com um vertedouro de superfície incorporado e atravessando um arquipélago de ilhas a montante da cachoeira. cujo reservatório foi formado captando águas do reservatório de Moxotó. São 26 comportas de vertedouro. Dentro da concepção original foram posteriormente executadas outras duas casas de força também subterrâneas denominadas Paulo Afonso II e Paulo Afonso III.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens energia exclusivamente a Pernambuco e imediatamente propôs estender o fornecimento a outros pontos do nordeste inclusive a Salvador. Dermeval Resende. transformando o centro da cidade de Paulo Afonso em uma ilha. que alimenta as usinas de Paulo Afonso I. no próprio local das obras. a diretoria passaria a sofrer modificações. Somente após a posse do presidente Jânio Quadros. Para suprimento de energia ao acampamento e ao canteiro de obra da primeira usina. adotando essa postura até o final do seu mandato. Hilton Fiúza de Castro. A Usina de Moxotó. 6 no Taquari e 2 no Capuxu. sendo 10 delas no braço principal. O reservatório assim formado tem apenas 11 km² de área. pelo seu falecimento. Hermínio Lorentz Kerr. Gentil Norberto. e políticos como Luiz Vianna Filho. A barragem Leste com 3117m de extensão tem sua ombreira na margem esquerda e atravessa o braço principal onde escoava cerca de 90% da descarga do rio. Alagoas e Sergipe foram beneficiados com a energia elétrica gerada em Paulo Afonso. II e III. tendo 171 . a CHESF contou com a geração da usina de Angiquinho com 1. da Bahia. com 1277m de comprimento. atingindo as proximidades da cachoeira. 8 no braço Quebra. Posteriormente. além de Pernambuco. a partir de 1949. A outra parte da barragem. passando a original a ser denominada de Paulo Afonso I. uma adução em túneis. passou a atuar mais diretamente. foi substituído pelo consultor jurídico. Graças à vigilância do governador Otávio Mangabeira. os estados da Bahia. através de um canal artificial. Estes ensaios. quando submetidas a pressão interna. realizados em 1951.8m de diâmetro com joelho de 90° para alimentar três turbinas Francis situadas em casa de força subterrânea. realizando ensaios de deformação diametral sofrida por câmaras escavadas em rocha. Othon Soares. A barragem atravessa diversas ilhas e suas comportas assinalam os braços originais do rio. e é constituída de barragem. constituindo-se em uma barragem móvel. Adozindo Magalhães de Oliveira (diretor de administração) e Octávio Marcondes Ferraz (diretor técnico) e como consultor jurídico Afrânio de Carvalho. construída no início dos anos 70 do século passado. Um aspecto a destacar foi o fato do IPT ter prestado assistência tecnológica à construção dessa usina. foi implantada a montante da bacia de decantação (reservatório Delmiro Gouveia). De início. Juraci Magalhães e Pereira Lira. Hélio Gadelha de Abreu e Nédio Lopes Marques. cercada por usinas hidroelétricas. sediada no Rio de Janeiro. José Villela e Júlio Miguel de Freitas. A tomada d’água fica situada no encontro desses dois trechos da barragem. com a colaboração dos engenheiros Domingos Marchetti. Ao longo do tempo outros engenheiros foram incorporados à diretoria técnica como Hernani Gusmão. Alves de Souza compôs a sua diretoria com o coronel engenheiro Carlos Berenhauser Junior (diretor comercial). formando um funil num comprimento total de 4394m. em fins de 1954. uma casa de força subterrânea e a restituição a jusante da cachoeira. foi implantada mais uma usina denominada Paulo Afonso IV. O presidente Dutra manteve a sua palavra de não interferir na composição da diretoria. atinge a margem direita atravessando o braço Capuxu. Clemente Mariani. A adução é feita por três túneis verticais de 4. marcaram o nascimento da Mecânica das Rochas no Brasil. a diretoria técnica. o braço do Quebra e o braço do Taquari.

Alagoas). Ao longo de todo o projeto e construção de Paulo Afonso I e continuando durante quatro décadas. um laboratório de modelos hidráulicos reduzidos. Em março de 1960. permaneceu em operação no Centro de Formação da CHESF em Paulo Afonso. para permitir a construção da usina e funcionamento da empresa. sob a administração da Fundação Delmiro Gouveia. A Usina Piloto foi projetada e construída pelos engenheiros J. Esse desinteresse financeiro permaneceu mesmo após a entrada em operação da usina. apesar de serem esses estados e municípios os mais beneficiados com a implantação da primeira usina de Paulo Afonso. O sítio desta usina teve seu tombamento histórico decretado pelo estado de Alagoas e atualmente é ponto de visitação turística na região.Usina piloto 172 .0 MW. após seus equipamentos terem sido danificados por uma forte enchente. a usina de Angiquinho foi desativada pela CHESF. complementando Angiquinho. XX e XXI uma unidade geradora de 2. as instalações do modelo reduzido das usinas de Paulo Afonso podem ser vistas durante visitas turísticas e escolares agendadas previamente com a CHESF. de inestimável valor para as definições de projeto e construção.A História das Barragens no Brasil .Séculos XIX. para a cidade de Glória e. Além da previsão insuficiente de recursos por parte do governo federal. Leal Corrêa e Leopoldo Schimmelpheng e passou a fornecer energia elétrica para a obra e seu acampamento. depois de quase 47 anos de operação. Atualmente. para a fábrica de linhas que havia sido implantada por Delmiro Gouveia no povoado de Pedra (hoje cidade de Delmiro Gouveia. ocorreu ainda pronunciada inadimplência de aportes financeiros que haviam sido assumidos por estados e municípios nordestinos por subscrição de ações da CHESF. no BIRD e no Banco Nacional de Desenvolvimento Industrial. foram efetuados aumentos de capital e conseguidos empréstimos junto ao Eximbank. No início da construção de Paulo Afonso I as escavações para a implantação da casa de força subterrânea foram comandadas pelo enge- Figura 4 . Além do capital financeiro inicialmente subscrito para formação da CHESF e reconhecidamente insuficiente. com possibilidade de instalação de uma segunda máquina.

dificultavam a execução da ensecadeira como fora projetada. O flutuante afundado desviou as correntes mais intensas e possibilitou a instalação das estacas prancha sem que essas vergassem. tendo contribuído em inúmeros empreendimentos hidrelétricos. As ensecadeiras propostas pelo engenheiro Gentil Norberto. Dutra ao lado de Alves de Souza. e a vila Zebu. esquerda e direita. contribuindo com assistência social e a Figura 5 . Marcondes Ferraz implantação de recursos básicos requeridos. Importante contribuição para a concepção do projeto e para a execução das obras foi dada pelos que trabalharam no modelo reduzido sob a orientação do engenheiro francês André Balança. ambas marcas de cimento.Início da obra em 1950 com Marcondes Ferraz e Alves de Souza (primeiro e segundo da esquerda) Figura 6 . foram executadas sob a supervisão dos engenheiros Roberto Montenegro e Reginaldo Sarcinelli. Os estudos hidráulicos para o barramento do rio determinaram a aplicação de ensecadeiras celulares de estacas prancha.5 m/s) e profundidade do rio nas imediações das cachoeiras (10 m a 12 m). André Balança se fixaria no Brasil até seu falecimento. O modelo reduzido definiu a solução considerando a montagem de um flutuante chamado localmente de “Navio”.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens nheiro Domingos Marchetti. A construção de Paulo Afonso exigiu a presença de milhares de trabalhadores e também atraiu outros milhares de pessoas que afluíam ao local da usina à procura de trabalho. além da irregularidade do fundo rochoso. uma vez que foi bastante reduzida a velocidade das águas nestes locais.Visita do pres. povoado do município de Delmiro Gouveia. A CHESF participou do apoio à melhoria de vida dos moradores das novas vilas. especialista em túneis. À medida que as células iam sendo 173 . detentor de profundos conhecimentos de hidráulica adquiridos na sua formação em Grenoble. dentro das realidades da época. um crescente conjunto de casebres. uma das mais prósperas do estado da Bahia. devido à velocidade de escoamento (cerca de 3. Esse flutuante foi imerso no rio em posição previamente definida através de controle por cabos de aço fixados nas margens. principalmente através de empresas de consultoria. construído na França e montado no local da obra. estabelecendo-se ao lado do acampamento da CHESF. 12 m de altura e peso de 350 t. em parte cobertos por sacos de cimento vazios surgindo no linguajar popular a Vila Poty e a Vila Zebu. A impossibilidade de execução de batimetria. A vila Poty é hoje o centro da cidade de Paulo Afonso. com 18 m de comprimento. De costas.

e que uma escavação de canal com estrutura de desvio como feito em Itaipú teria sido um esquema mais garantido. A solução do “Navio” que protegera a construção das células por montante não mais seria aplicável. Em depoimento ao autor o engenheiro Rubens Vianna de Andrade que. Outra alternativa que havia sido estudada para fechamento desse trecho final do rio era a da construção de um obelisco com uma das Figura 7 .Séculos XIX. quando jovem participou da construção de Paulo Afonso I.5 m/s.Construção da ensecadeira celular com apoio do navio defletor 174 . Com a diminuição da velocidade de escoamento.Montagem do navio defletor Figura 8 . O fechamento do rio São Francisco. a ensecadeira de estacas prancha pôde então ser concluída. com calorosos aplausos. disse que o esquema de desvio tinha sido realmente muito ousado. posicionada a jusante da linha de centro da ensecadeira celular em construção. Essa vitória da engenharia brasileira foi comunicada durante uma sessão do Clube de Engenharia no Rio de Janeiro. a qual foi interrompida para que a notícia fosse conhecida pelos presentes que vibraram com o êxito da solução de engenharia. com o término da ensecadeira foi divulgado para toda a nação e meio técnico de engenharia.A História das Barragens no Brasil . Decidiu-se pela implantação de uma estrutura metálica em treliça semi-flexível. a velocidade da água ia aumentando progressivamente.Montagem da guia das estacas prancha Figura 9 . Essa treliça passou a reter blocos de pedra de grandes dimensões lançados na corrente do rio e retidos por redes apoiadas na treliça. atingindo valores de 8. XX e XXI executadas barrando e estrangulando a seção do rio.

Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 10 .Construção da ensecadeira celular Figura 11 .Construção da ensecadeira celular 175 .

Construção da ensecadeira celular – Carga hidráulica de 9 m Figura 13 .A História das Barragens no Brasil . XX e XXI Figura 12 .Ensecadeira celular concluída e fase inicial do fechamento do rio 176 .Construção da ensecadeira celular Figura 14 .Séculos XIX.

Fase final do fechamento do rio 177 .Treliça posicionada para fechamento do rio Figura 17 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 15 .Início do lançamento da treliça para fechamento do rio Figura 16 .

o diretor da CHESF. um dos muitos que estavam assistindo o evento atravessou a pé o leito do rio empunhando a bandeira nacional. 178 . Dunn.” No dia 20 de setembro de 1954 foi iniciado o enchimento do reservatório. Mr. Nessa visita. reduto na baía da Guanabara onde os estrangeiros eram recebidos e triados. Let us hope that in the passing of time the same ideal penetrates into the mind and heart of all men so that mankind may live in peace. durante a visita a Washington do presidente da CHESF. Pensava em esquema semelhante ao de Itaipú com escavação de canal de desvio com aplicação da rocha escavada na barragem e a construção de estrutura de fechamento nesse canal. Mr. da American Engineering Co. Adolph Acker mann que se opusera ao esquema de desvio do rio. criada por Apolônio Sales para difusão de conhecimento e transferência de tecnologia para produtores rurais e pecuaristas do sertão do São Francisco. No dia 1° de dezembro era ligado o primeiro circuito que atenderia Recife e poucos dias após era energizada a linha de transmissão para Salvador. Importante realçar que o consultor do Banco Mundial. a jusante das comportas o leito do rio ficou seco. efetuou uma visita técnica a Paulo Afonso. Quando. engenheiro Marcondes Ferraz.A História das Barragens no Brasil . na fase final de construção e com o desvio já equacionado. o engenheiro Rubens Vianna de Andrade que. XX e XXI faces reproduzindo da melhor maneira possível. o que foi caracterizado como deslize de ética. engenheiro Alves de Souza. in a way. com sua vasta experiência posteriormente em diversos desvios de grandes rios inclusive o desvio do rio Paraná em Itaipú. com o fechamento das comportas. presidente do banco. a Conferência Mundial de Energia que na época ainda incluía a Comissão Internacional de Grandes Barragens. A inauguração de Paulo Afonso ocorreu no dia 15 de janeiro de 1955 em solenidade comandada pelo Presidente da República. além de preservar as realizações da diretoria anterior. quando jovem na profissão. Paulo Afonso passou a ser visitado por vastos contingentes de pessoas para apreciar a grandeza das obras ali implantadas. decency and liberty. como o laboratório de modelo reduzido e a fazenda modelo. demonstrando a importância daquele momento histórico. Black. intensa arborização pública e jardim zoológico. we are pleased to note that. Bass. o esquema de desvio foi mantido. antecipando-se a John Lennon: “As the World Power Conference represents the triumph of cooperation over isolationism. Abdank Abzantovsky e Andre Bijnik. o professor Amauri Menezes que assumiu a diretoria técnica durante as ampliações de Paulo Afonso. de elevada competência e distinto cavalheirismo. formada principalmente por imigrantes europeus após a II Grande Guerra Mundial. Esse fato gerou a substituição do representante do banco em Paulo Afonso. uma legião estrangeira prestou importantes serviços para a CHESF nos seus primeiros anos. Além do francês André Balança que chegou com 29 anos e ficou para sempre no Brasil. a common and generous inspiration is the source of both your and our success. João Café Filho. Dessa legião estrangeira participaram Cyrill Iwanow. por Mr. desaconselhara os dois métodos para o ensecamento do leito do rio. Considerando essa afluência de visitantes. para atender a convocação feita pelo banco. concluiu o discurso de recepção à delegação com as seguintes palavras. No dia 4 de agosto de 1954. Aproveitando o fato de que o banco havia chamado Alves de Souza a Washington sem dar conhecimento da pauta da reunião e sem a convocação do diretor técnico.Séculos XIX. Cinquenta anos após o desvio do rio.. Além de sua vital importância econômica e social para todo o Nordeste. advogado Afranio de Carvalho. Ao ser derrubado esperava-se que esse obelisco obstruísse quase totalmente o fluxo de água. o fundo do rio e colocado em pé em uma das margens do rio. admitiu ao autor que o esquema que foi empregado em Paulo Afonso não teria sido o mais recomendado nem o mais seguro. participou da epopéia do desvio em Paulo Afonso. requisitados na Ilha das Flores. Essa posição fora transmitida ao ministro Oswaldo Aranha que tivera contato com Mr. iniciou uma grande transformação do entorno da usina em vasto ambiente de agradável paisagismo implantando dezenas de pequenos lagos.

o ministro João Agripino. Lott que depôs dois presidentes.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A notável beleza da cachoeira com suas diferentes quedas em seu estado natural ainda hoje pode ser vista por ocasião de cheias extravasadas pelos vertedouros. promoveu alterações na diretoria da CHESF. no seu efêmero governo de dois dias e participado da fuga no cruzador Tamandaré após o primeiro dos dois golpes desferidos pelo general Henrique D. tendo convidado Marcondes Ferraz para a presidência. convite declinado com o argumento de que não se deveria deslocar um homem do gabarito de Alves de Souza. notável pintor vindo na comitiva pessoal de Maurício de Nassau.O aproveitamento de Paulo Afonso em seu estágio final 179 . Marcondes Ferraz foi destituído em 1960 por Juscelino Kubitschek como presidente da república. Dom Pedro II quando esteve na cachoeira em 1859 reproduziu a imagem que vislumbrava a lápis em seu diário de viagens. como as que se seguiriam. Quando Jânio Quadros foi eleito em 1960. Após doze anos na direção técnica da CHESF e sendo um dos principais artífices do que ficou sendo conhecida como a epopéia de Paulo Afonso. T. Ao saberem que haveria mudanças na diretoria. A expansão da CHESF A partir de 1953 a CHESF iniciou as negociações para obtenção de recursos junto ao governo federal para o primeiro plano de expansão de Paulo Afonso que incluía a terceira unidade da primeira casa de força e a construção da segunda casa de força denominada Paulo Afonso II que. A primeira imagem da cachoeira foi captada em 1647 pelos pincéis de Franz Post. O afastamento teve motivação política. por ter Marcondes Ferraz apoiado o presidente da República Carlos Luz. todos os diretores se demitiram e realçaram a importância da Figura 18 . seria também subterrânea.

A História das Barragens no Brasil . Paulo Afonso IV cujas obras civis foram concluídas em 1979. Para garantir o escoamento da cheia máxima possível. Ao se projetar a barragem de Paulo Afonso IV verificou-se que. o canal de adução entre os reservatórios de Moxotó e . tendo a última das seis unidades geradoras entrado em operação em 1983. II e III (25. Fausto Alvim na diretoria administrativa e Ivan Macedo Melo na diretoria comercial. Paulo Afonso III inaugurada em 1972 pelo presidente Emílio Garrastazu Médici. II e III. o vertedouro de Moxotó foi dimensionado para a mesma descarga de projeto da barragem das usinas de Paulo Afonso I. água no nível do reservatório da usina de Moxotó implantada a montante da bacia de decantação Paulo Afonso I. Ele foi mantido e os demais diretores foram substituídos por Amauri Menezes. Como essa condição excepcional não havia sido considerada no projeto da barragem de Paulo Afonso. e a usina inaugurada em 1980 pelo presidente João Batista Figueiredo.5 km a jusante das suas precursoras. Paulo Afonso II concluída em 1968. Com o rio São Francisco domado em 1954. 180 A usina de Paulo Afonso IV. por meio de um canal. afluente pela margem esquerda do rio São Francisco na região de Paulo Afonso. devido principalmente às características torrenciais do rio Moxotó. e concluída em 1974.000 m³/s em hidrógrafas de cheia de pequenos volumes poderiam se somar ao pico de cheia afluente ao reservatório de Moxotó.000 m³/s). as ampliações que se sucederam foram muito mais simples. situada a cerca de 1. Novas casas de força subterrâneas foram se sucedendo. XX e XXI Figura 19 – A usina hidroelétrica de Moxotó continuidade de gestão que seria garantida pela permanência de Alves de Souza na presidência.Séculos XIX. descargas de até 10. difere destas por captar. na diretoria técnica.

Essa decisão da Eletrobras. monitorando os efeitos da expansão e garantindo o aumento da vida útil da casa de força. Xingó já em operação e Pão de Açucar. Mário Bhering e Pinto Aguiar foram sensibilizados pelos argumentos de Apolônio Sales. causou constrangimentos na subsidiária. formando um apreciável acervo sobre a reação álcali-agregado. Em maio de 1974 a CHESF recebeu instruções para motorizar Sobradinho. Norman Costa. III. a derivação do fluxo d’água para a tomada d’água e vertedouro da usina de Paulo Afonso IV.000 m³/s. quando o barril de petróleo foi cotado a menos de US$ 2. mais econômica. II. Em meados de 1971 a Eletrobras havia determinado a estruturação de uma superintendência sob o comando do engenheiro Eunápio Peltier de Queiroz que havia criado a Centrais Elétricas do Rio de Contas. o trabalho conjunto de Apolônio Sales e Eunápio Queiroz. o que exigiu a execução de serviços para convivência com esse fenômeno e manutenções periódica nas unidades geradoras. então presidente da CHESF. A solução adotada pelo setor elétrico. estimulando a construção de usinas termoelétricas junto aos grandes centros de consumo. dedicaram-se aos estudos e acompanhamento.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens de Paulo Afonso IV foi ampliado para permitir o fluxo adicional de 10. a partir de relatório do Comitê de Estudos Energéticos do Nordeste foi a construção da barragem de Sobradinho inicialmente sem casa de força por ser a solução de menor investimento para a regularização do rio. e implantado com sucesso a hidroelétrica de Funil e que teria como missão implantar o empreendimento de Sobradinho. II e III. ocorrendo o enchimento do reservatório de Sobradinho em 1978 e início de geração de energia em 1979. garantindo também o simultâneo escoamento de possível cheia gerada na bacia do rio Moxotó. Paulo Pacheco e Margarida Maria Dantas de Oliveira. Gláucio Furtado. com apoio de Léo Amaral Penna. Hilton Silveira. As alternativas seriam a construção das hidroelétricas e reservatórios de Itaparica (em cota elevada). A usina é composta por duas barragens de enrocamento com núcleo de argila. As obras civis da usina de Moxotó foram iniciadas em 1971 e concluídas em 1974. Uma equipe de técnicos da CHESF e consultores (Aurélio Vasconcelos. conduziram a implantação da hidroelétrica de Sobradinho. O reservatório da barragem de Moxotó. O planejamento energético foi influenciado também pelo baixo custo do petróleo.00. Essa opção não prosperou em função do aumento de preços pela OPEP e da deflagração da guerra do Yom Kippur. recomendações plenamente atendidas. Japhet Diniz. neutralizou as componentes negativas desta divisão. A barragem de Moxotó se situa a cerca de 2 km a montante da barragem do Complexo Paulo Afonso I. em empreendimentos de engenharia. entraram em operação em 1977. época do chamado “milagre brasileiro“. Além disso. Foi necessária a construção de um núcleo urbano para transferência da população da cidade de Glória-BA. sendo projetado e construído um vertedouro de 10 000 m³/s de capacidade na barragem de Paulo Afonso IV. inundada com a formação do reservatório. Ricardo Barbosa e João Francisco Silveira). Alberto Jorge Cavalcanti. presentemente em fase de inventário. ou de Sobradinho ambas no rio São Francisco e a montante de Paulo Afonso e Moxotó. uma das barragens contendo a tomada d’água e casa de força e a outra o descarregador de fundo (barragem móvel) controlado por comportas de segmento. separadas por uma ilha. Na ocasião da concepção do projeto não foi considerada a construção de um obra de barragem para o controle de cheias do rio Moxotó que teria trazido importantes benefícios econômicos à construção de Paulo Afonso IV e aos vertedouros de jusante. que haviam sido companheiros no Congresso Nacional. de 100 MW cada. situado a montante de Paulo Afonso I. As sucessivas ampliações em Paulo Afonso passaram a demandar descargas afluentes mais regularizadas. foi construído para promover a regularização semanal das vazões e possibilitar através do canal de adução acima descrito. uma solução de compromisso: a concessão da hidroelétrica de Sobradinho seria da CHESF. Em 1983 a usina de Moxotó passou a ser denominada oficialmente de Usina Apolônio Sales em homenagem ao criador da CHESF. Eunápio Queiroz e Ernani Gusmão. que entre outros motivos buscava tirar do comando da Diretoria Técnica da CHESF uma das duas obras gigantescas e simultâneas (Sobradinho e Paulo Afonso IV). além de João Paulo Maranhão de Aguiar. Posteriormente foi constatada a presença de reação álcali-agregado ocasionando expansão do concreto. e criaram. Os dirigentes da Eletrobras. As quatro unidades geradoras. na Bahia. 181 .

A usina hidroelétrica Sobradinho 182 .Séculos XIX. com uma depleção de até 12 metros.214 km2 possibilitando. tão importante para a segurança do suprimento de energia ao Nordeste. Remanso. Sento Sé e Pilão Arcado e de outros pequenos povoa- Figura 20 . XX e XXI Uma barragem de terra zoneada flanqueia as estruturas de concreto gravidade da tomada d’água e dos vertedouros de fundo e superfície. o Departamento Nacional de Portos e Vias Navegáveis. A casa de força de Sobradinho teve a entrada de sua primeira máquina em operação em novembro de 1979 e a última unidade geradora em março de 1982. exigiu e assumiu os custos de implantação de uma grande eclusa de navegação.Minas Gerais e o sub médio rio São Francisco. Apesar de se situar a cerca de 50 km a montante de Juazeiro (BA) e Petrolina (PE). gerou um reservatório de grandes dimensões com volume acumulado de 34. No local da barragem de Sobradinho e em toda a área do seu reservatório o rio São Francisco apresentava margens abatidas em vale muito aberto. sucedido pela Portobrás. o que. portos terminais do trecho navegável entre Pirapora . O reservatório de Sobradinho. atingindo seus 1050 MW de capacidade instalada. concluída em 1980. mesmo limitando a altura da barragem e definindo a usina como de baixa queda.1 bilhões de metros cúbicos e extensa área alagada de 4.A História das Barragens no Brasil . um significativo aumento de descargas garantidas para as usinas a jusante. num arranjo característico de hidroelétrica brasileira em vale aberto. Foi necessário a relocação das cidades de Casa Nova. gerou impactos sócio-ambientais de porte. que na época era um sistema isolado do resto do País.

Sherard. o canteiro e acampamento dessa hidroelétrica. a cidade de Belém do Pará e cidades vizinhas foram abastecidas com energia elétrica gerada em Sobradinho. desenvolveram estudos. Ao todo foram 11. A construção da barragem de Sobradinho trouxe importante contribuição para a engenharia nacional de barragens ao ter seu núcleo impermeável executado com argila dispersiva. Hilton Silveira. única disponível na área em quantidades compatíveis com os volu- mes requeridos.400 famílias (cerca de 70. Hamilton Oliveira. proporcionando significativa economia de petróleo. com área irrigável de 25. Hiromito Nakao. Técnicos brasileiros da CHESF e da Projetista (Esmeraldino Pereira. O usina de Sobradinho permitiu a interligação das regiões Nordeste e Norte através de linha de transmissão entre Sobradinho e Tucuruí. Como Tucuruí ainda estava em construção quando Sobradinho iniciou sua operação. em Sobradinho foi construída a tomada d’água que abastece o mais bem sucedido projeto público de irrigação no Brasil – o Projeto Nilo Coelho. antecedendo à inauguração de Tucuruí. Com Sobradinho ainda em fase de construção a CHESF iniciou em 1975 no rio São Francisco e a cerca de 40 km a montante de 183 . que garantiram todos os requisitos de qualidade e segurança na utilização de argila dispersiva.A usina hidroelétrica de Itaparica dos situados às margens do rio São Francisco. com a transferência das suas populações.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 21 . Guy Bordeaux e Pedro Tanajura) com a consultoria e acompanhamento de um dos mestres mundiais da engenharia de solos – James L. durante cerca de quatro anos.000 pessoas) reassentadas para formação do reservatório. Antonio Martins. avaliações e tarefas de controle de laboratório e construção dos maciços.000 hectares. Além do papel importante na redução de piques de cheia e interligação Norte – Nordeste. no escritório e no campo.

Com tanta oposição. o engenheiro Gerdes. homenagem ao grande compositor e cantor nordestino. capitaneada pelo político baiano. e da antiga pequena usina existente em Itaparica. do Grupo Votorantim) no rio Paraguaçu na Bahia. James Sherard. todas as demais usinas incorporadas pela CHESF se situam em outros rios do Nordeste. Clemente Mariano e pelo industrial e político paulista José Ermírio de Moraes com os argumentos de que haveria prejuízo da incipiente indústria nacional e que absorveria grande consumo de energia com pequena utilização de mão de obra.000 pessoas. abrigando seis unidades de 527 MW cada que entraram em operação entre 1994 e 1997. Além das hidroelétricas acima mencionadas e implantadas pela CHESF. No após guerra. que atingem até 200m de altura. ambos no estado de Sergipe e viabilizados pela elevação de mais de 120 metros no nível d’água no cânion. Nesse ano a usina foi inaugurada pelo presidente José Sarney e atingiu plena capacidade em 1990 com seis unidades geradoras de 246. sob a supervisão de Felício Limeira de França e a coordenação do engenheiro José Geraldo Araújo. A indústria americana Reynolds Metals propôs a construção dessa hidroelétrica numa das partes mais estreitas do cânion com uma barragem em arco. Essas hidroelétricas foram: Bananeiras (inundada pela usina hidroelétrica Pedra de Cavalo. constituída por uma barragem com 145 m de altura.6 MW cada. sob comando de Eunápio Queiroz. de enrocamento com face de concreto e com desvio por túneis escavados na margem direita onde também foi localizada a casa de força. O vale aberto do rio foi barrado por um extenso maciço de enrocamento com núcleo de saprolito compactado ladeando as estruturas de concreto gravidade da tomada d’água e do vertedouro.Séculos XIX. Essa usina teria como finalidade a geração de grandes blocos de energia para uma unidade fabril de produção de alumínio a ser implantada na região. Somente em 1988 foi fechado o reservatório e entraram em operação as primeiras unidades. que teve sua operação iniciada em 1913 e desativada em 1960 devido a uma inundação. Foram construídas as novas cidades de Petrolândia. Boa Esperança no rio Parna- 184 . a Usina de Xingó. por mais econômica. outras foram incorporadas à CHESF ao longo dos anos. Tendo em vista a extensa área de reservatório de 834 km². a usina e a indústria não foram adiante. Somente em 1975 foram contratados pela CHESF. que abastecia um núcleo agrícola e operou de 1945 até a década de 1970 e foi alagada pelo reservatório da nova hidroelétrica em 1988. abrigando cerca de 36. XX e XXI Paulo Afonso as obras para implantação da hidroelétrica de Itaparica. Armando Lencastre e Don Deere que. Houve forte resistência política dos que consideravam que essa concessão não atendia aos interesses do Brasil e do Nordeste. recomendou. Manuel Rocha. os estudos preliminares para seleção de local e de alternativas de projeto. a menos de Angiquinho já mencionada. Dada a carência de experiência nacional em barragens em abóbada e como o esquema com barragem de enrocamento no final do cânion era viável. da Kaiser. vislumbrou a construção de uma hidroelétrica nesse cânion. houve a necessidade do assentamento da população ribeirinha que teve que ser desalojada. O nível d’água do reservatório da hidroelétrica de Xingó foi definido pelo valor aceitável de afogamento do canal de fuga de Paulo Afonso IV com conseqüente redução de geração nessa usina. já com a denominação de Usina Hidroelétrica Luiz Gonzaga. em 1951. motivo pelo qual as obras se prolongaram muito além do que fora previsto no planejamento de construção. Ao lado da tomada d’água para geração de energia elétrica foram implantadas duas tomadas para os projetos de irrigação Califórnia e Jacaré Curituba. a construção de uma barragem em abóbada com casas de forças subterrâneas nas duas margens. Rodelas e o povoado de Barra do Tarrachil.A História das Barragens no Brasil . A jusante de Paulo Afonso o rio São Francisco escavou profundo e estreito cânion de paredes rochosas de elevadas qualidades geomecânicas. Itacuruba. A concessão teria sido para autoprodutor por 30 anos e reverteria à União no entorno de 1985. O Empreendimento Itaparica foi realizado num período de intensas dificuldades financeiras do setor elétrico estatal. com a empresa consultora. Essas usinas. foi decidida a implantação dessa segunda alternativa de projeto que se situa imediatamente a montante das sedes municipais de Piranhas – Alagoas e Canindé do São Francisco – Sergipe. Os trabalhos foram apoiados por uma junta de consultores composta por James Libby.

Hilton Ahiran da Silveira e Ebenezer Gueiros. que foi implantada no local. representado pela Eletrobras. a montante da cidade de Cachoeira. teve origem na iniciativa do DNOCS de criar uma comissão para inventariar as possibilidades de implantação de hidroelétricas no rio Parnaíba. A usina hidroelétrica de Boa Esperança.A usina hidroelétrica de Xingó 185 . com a participação dos estados do Piauí e Maranhão e do Ministério de Minas e Energia. situada no rio Paraguaçu. as Funil e Pedra no rio de Contas no sul da Bahia. A usina de Boa Esperança teve suas obras iniciadas em 1964. situada no rio Parnaíba entre os estados do Maranhão e do Piauí. Em julho de 1963 a COHEBE foi formalmente constituída e sua primeira diretoria foi composta por César Cals de Oliveira Filho. de maior potência. Essa usina foi transferida da COELBA para a CHESF em 1967 e desativada em 1981 por interferência com a hidroelétrica de Pedra do Cavalo. e sua Figura 22 . havia entrado em operação em 1920 e teve 9 MW instalados para suprir o Recôncavo Baiano. Curemas a partir dos açudes públicos Estevam Marinho e Mãe-d’água do DNOCS nos rios Piancó e Aguiar na Paraíba e Araras no açude público Paulo Sarasate do DNOCS no rio Acaraú no Ceará. Walter Barros da Silva.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens íba na divisa dos estados do Maranhão e Piauí. A hidroelétrica de Bananeiras. a partir de Grupo de Trabalho formado pelo DNOCS e pela SUDENE. Dessa iniciativa nasceu a Companhia Hidro Elétrica de Boa Esperança COHEBE.

5 MW encontra-se situada a jusante da barragem dos açudes públicos Estevão Marinho e Mãe-d’Água. no rio Acaraú. assumiu a presidência da COHEBE avançando no processo de absorção dela pela CHESF. haviam os que alegavam que a usina seria um investimento pioneiro fomentador de progresso para a região. A barragem tem múltipla finalidade e além de geração de energia. Em 1972 Alde de Castro Salgado. todas na modalidade de consórcio privado. dotados de comportas de segmento. As obras foram iniciadas pelo DNOCS em 1956. A usina de Curemas com duas unidades geradoras totalizando 3. mantendo-se para o empreendimento a denominação Usina de Boa Esperança. encontra-se situada a jusante da barragem do açude público Paulo Sarasate. no sul da Bahia. a construção de Boa Esperança sofreu grande oposição dos que consideravam que a demanda dos estados do Nordeste Ocidental (Maranhão e Piauí) não justificava a implantação de um empreendimento desse vulto. A barragem é do tipo contrafortes de concreto com 24 blocos dos quais os sete blocos centrais são vertentes. Ela encontrou apoio na Eletrobras através dos seus diretores Mario Bhering. dentro do novo modelo do Setor Elétrico Brasileiro. a casa de força passara a ser denominada Presidente Castelo Branco. após a morte do ex-presidente Castelo Branco. então vice presidente executivo da CHESF. sendo transferida da COELBA para a CHESF em 1980. XX e XXI primeira etapa com duas unidades de 54 MW de potência unitária foi concluída em 1970 proporcionando energia abundante e confiável aos estados do Maranhão e Piauí . grande defensor desta usina. no Ceará. previsto no planejamento do setor elétrico e reforçado pela interligação elétrica CHESF – COHEBE. o que explica a grande defasagem entre as instalações das unidades geradoras.A História das Barragens no Brasil . Teve suas obras iniciadas pelo DNOCS em 1939. Em oposição a esses. atingida com a energização de LT 230 kV Teresina – Sobral – Fortaleza. Novos tempos – século XXI A partir de 2006. complementando a necessidade de expansão da geração para a região. atendida pelas hidroelétricas do rio São Francisco através de linha de transmissão 500 kV Sobradinho – Boa Esperança. abastecimento d’água e ir rig ação ag rícola. Em 1957 a hidroelétrica entrou em operação tendo sido incorporada pela CHESF em 1969. De modo semelhante ao que aconteceu com Paulo Afonso na década de 1940. Pinto Aguiar e Antônio Carlos Bastos. A usina hidroelétrica de Funil no rio de Contas. a CHESF voltou a investir e participar de grandes empreendimentos de geração de energia elétrica. sendo acionista minoritária nas usinas hidroelétricas de Dardanelos. composta por três unidades geradoras de 10 MW cada. e com a passagem para o Patrimônio da União do imobilizado não ligado diretamente à geração. Esse procedimento foi replicado quando da morte do deputado federal Milton Brandão. sendo suas obras civis iniciadas em setembro de 1976. entraram em operação. possui apenas uma unidade geradora de 20 MW cuja entrada em operação aconteceu em novembro de 1978. A barragem é uma estrutura de concreto gravidade incluindo a tomada d‘água e o vertedouro em vale relativamente fechado. Anteriormente. nos rios Piancó e Aguiar. Para não onerar os consumidores. que foi homenageado com a denominação Barragem Milton Brandão. formando sociedades de propósito específico (SPE). A usina só entrou em operação em 1967 e em 1969 foi incorporada à CHESF. 186 .65 MW cada. Somente em 1991 as duas últimas unidades geradoras de 63. A usina de Pedra também no rio de Contas. o passivo da COHEBE foi coberto com recursos da reserva legal para desapropriação de empresas de energia elétrica. A hidroelétrica de Araras. foi implantada inicialmente com 20 MW em 1962 e posteriormente ampliada para 30 MW em 1970. Em 1973 a COHEBE foi então absorvida pela CHESF.Séculos XIX. per mite a regularização do rio para controle de enchentes. Jirau e Belo Monte. a montante da usina de Funil. com duas unidades geradoras totalizando 4 MW. no estado da Paraíba.

na região amazônica. a Eletrosul e a Camargo Corrêa. em Rondônia. na Região Amazônica. Seu vertedouro possui 44 vãos e permite uma descarga de vazão de projeto de 85. no rio Madeira. outro composto do canal de adução e interligação e o último composto do reservatório intermediário e sítio Belo Monte com a usina principal.1 MW. com unidades Bulbo na casa de força complementar. Sua capacidade instalada é de 3. com dezoito unidades geradoras de potência unitária 611. na região amazônica. com turbinas Francis na casa de força principal denominada Belo Monte e 6 unidades geradoras de potência unitária 38. possuindo três sítios.Vista aérea da hidroelétrica de Xingó 187 . um deles denominado Pimental onde ocorrerá o barramento do rio Xingu. uma na margem esquerda e outra na margem direita. A usina será construída no rio Xingu. no Pará. no Complexo Hidrelétrico de Belo Monte a CHESF se associou a outras 18 empresas. A usina está sendo construída no local denominado ilha do Padre. sendo composta de 5 unidades geradoras. a 120 km de Porto Velho.800 m3/s.85 MW. composto de casa de força complementar e vertedouro.450 MW com 46 unidades Bulbo de 75 MW cada. Na usina hidroelétrica Jirau a CHESF participa em sociedade com a GDF Suez. quatro delas de 58 MW cada e uma de menor porte de 29 MW.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Na usina hidroelétrica Dardanelos a CHESF participa em sociedade com a Neoenergia e a Eletronorte. tendo uma capacidade instalada de 261 MW. no noroeste do Mato Grosso. A potência instalada total de Belo Monte é de 11. A usina está localizada na margem esquerda do rio Aripuanã. dispostas em duas casas de força. Finalmente.233 MW. Figura 23 .

188 .

Havia também inúmeros pequenos autoprodutores rurais. Apesar de procurar aumentar sua oferta de energia elétrica. Nessa época o País começou a deixar de ser apenas essencialmente rural para iniciar a industrialização que. por sua vez. já nos anos 40. Esse cenário começou a se tornar crítico a partir do Código de Águas que. A situação da Light.4 x 109 m3 189 . começassem a criar empresas estatais de energia elétrica. Reservatório de Serra da Mesa. a maior concessionária do País na época. Com as restrições tarifárias.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Furnas no século XX Flavio Miguez de Mello “No Brasil nunca se fez nada demasiadamente grande.” Leopoldo Miguez Desde os primórdios da produção de energia elétrica no País até pouco depois da II Grande Guerra Mundial. transmissão e distribuição de energia elétrica. alguns estados como São Paulo e Minas Gerais principalmente. fazendo com que. tirando o incentivo da iniciativa privada em promover acréscimos de investimento de geração. as companhias de energia elétrica passaram a enfrentar problemas no atendimento da crescente demanda. mas as duas maiores eram de capital canadense (Light) e americano (AMFORP American Foreign Power). por exemplo. criou desequilíbrio econômico nos contratos de concessão de fornecimento de energia elétrica. a energia elétrica era praticamente só gerada por empresas privadas. evidenciava esse cenário. tendo sido adotado em 1934. a maioria delas nacionais. gerou crescente aceleração urbana que passou a pressionar por demanda de energia elétrica. o maior do País com capacidade de 54. essa oferta era inferior à demanda que crescia acima da capacidade de investimento da concessionária.

de obra que acrescentasse cerca de 1000 MW na Região Sudeste. As sinalizações de déficit passaram a ser evidentes.Francisco Noronha e Anton Rydland no local de Furnas 190 . No local havia as corredeiras de Furnas que se situavam em vale apertado de encostas íngremes. EFE (1954). Mesmo na Light. os sistemas do Rio de Janeiro e de São Paulo eram em frequências diferentes. Os estudos iniciais mostraram que a capacidade instalada seria quase um terço da capacidade instalada nacional. em cujas margens o engenheiro José Mendes Júnior costumava pescar. USELPA (1953). nas proximidades de sua fazenda. A solução estava no local recém descoberto pela CEMIG. Os dois engenheiros pernoitaram na fazenda e receberam de Mendes Júnior indicações sobre o local das corredeiras. as indústrias passaram largamente a instalar grupos geradores Diesel. COPEL (1953). sendo agravadas pela inexistência de interligação dos sistemas das concessionárias. Este se mostrou excepcional para uma grande usina com grande reservatório de regularização. estimuladas pela própria Light e com perspectivas de racionamentos. o governo federal que havia criado a CHESF para explorar o potencial do rio São Francisco em Paulo Afonso. havia cerca de 100 MW instalados pela indústria em grupos Diesel que representavam quase 20% da capacidade instalada da São Paulo Light. Só em São Paulo. XX e XXI Desse modo.Séculos XIX. O vulto das obras que seriam necessárias para erguer uma das maiores hidroelétricas do mundo na época era muito superior à capacidade das empresas Figura 1 . No início do governo Kubitschek. foi seguido pelas fundações da CEMIG (1951).A História das Barragens no Brasil . Nos anos cinquenta. ficou claro que a diferença entre a capacidade em construção e a demanda projeta- da exigia o início. CHERP (1955) e Escelsa (1956). em reconhecimento do potencial do rio Grande entre a hidroelétrica de Itutinga e o remanso do reservatório de Peixoto. então diretor técnico da CEMIG. em muito curto prazo. O local foi identificado por Francisco Noronha e Anton Rydland em viagem exploratória sugerida por John Cotrim. em 1954. em 1956. Havia apenas uma pequena conversora de muito baixa capacidade entre os dois sistemas.

enquanto que a CEMIG apenas aportaria recursos para a construção da casa de força situada ao pé da barragem. O famoso tripé de Furnas estava formado. selecionaram os principais membros da nova empresa. Além disso. sem influências políticas e procurando não sacrificar a CEMIG. No impasse. das finanças e dos suprimentos. mas também tiveram seu preço. o governador Jânio Quadros disse que só autorizaria a participação de São Paulo na empresa se Lucas Lopes fosse falar com ele pessoalmente. Flavio Lyra que residia no Rio de Janeiro. Seu derradeiro lance foi exigir que a sede de Furnas fosse localizada em Minas Gerais. em cumprimento à promessa feita ao professor Cândido Holanda. ele era contra grandes áreas alagadas em Minas para gerar energia para outros estados: costumava dizer que queriam “fazer de Minas a caixa d’água do Brasil”. a sede foi para Passos. veio a idéia de finalmente concordar com o governador que então parou de se opor e a empresa pode ser finalmente constituída. Lucas Lopes. Mas a oposição do governador Bias Fortes continuava. Os três constituiriam a diretoria executiva de Furnas. Ele temia que o governo federal não tivesse recursos para as duas obras simultaneamente e criou toda sorte de obstáculos para atrasar o início de Furnas até que Três Marias estivesse em construção e em estágio irreversível. à época exercido por Bias Fortes. Bias Fortes. foi convidado o engenheiro Benedito Dutra. Ele queria garantir que Três Marias fosse feita antes de Furnas para ter certeza de que seria concluída. A Comissão pagaria pelo reservatório e pela barragem. As atas das assembléias eram referidas a Passos apenas nominalmente. sucessor de Lucas Lopes na presidência da CEMIG. Essa situação só foi normalizada cerca de vinte anos depois com a transferência oficial da sede para o Rio de Janeiro. Lyra dispunha da infra-estrutura adequada. Quando tudo estava pronto para a fundação da empresa. As negociações políticas com São Paulo foram mais fáceis. Para cuidar da administração. o que foi um presente do governo federal para a CEMIG. Lucas Lopes teve que concordar. depois de serem mostrados os benefícios para o estado que seriam trazidos por Furnas. pequena cidade nas proximidades do local da usina. então presidente do BNDE. Enquanto ele pensava que tinha trazido a empresa para Belo Horizonte. O aproveitamento de Urubupungá foi feito. O mercado a atender era primeiramente São Paulo que se encontrava em situação mais crítica e depois os demais estados da Região Sudeste. Lucas Lopes articulou um esquema de participação da Comissão do Vale do São Francisco em Três Marias. Isso tinha justificativa uma vez que Três Marias era um empreendimento de finalidades múltiplas. Apesar de ser diretor da CEMIG.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens estaduais na época. e o escritório central ficou instalado no Rio de Janeiro. A primeira oposição a Furnas veio do governo de Minas Gerais. já que Belo Horizonte na época não Figura 2 – John Cotrim . de diretor técnico da CEMIG para presidente de Furnas. foi selecionado como diretor técnico. tendo resultando nas usinas de Jupiá e Ilha Solteira. Lopes e Cotrim foram a São Paulo e. Candido Holanda e Flavio H. Esses aspectos fizeram com que ficasse claro que a empresa a ser constituída deveria ser federal. O aproveitamento de Caraguatatuba não saiu do papel por ser derivação de descargas 191 . e John Cotrim. Jânio disse que só entraria no projeto se houvesse garantias que o governo federal investisse também nos projetos do estado que eram os aproveitamentos hidroelétricos de Urubupungá e Caraguatatuba. sendo pessoas perfeitamente intercambiáveis dadas a formação e a experiência dos três.

A diretoria executiva seria composta por John Cotrim na presidência. e os estados de Minas Gerais e São Paulo. diretor da CEMIG. Da esquerda João Monteiro. tais como João da Silva Monteiro. Juscelino Kubitschek. C. o advogado Noé Azevedo se tornou patrono de muitos proprietários e municípios em uma ação cominatória que visava impedir a construção da barragem de Furnas. diretor da Light. diretor da CELUSA. Essas alterações foram impedidas pelos parlamentares que se designavam como nacionalistas e a participação dessas duas empresas foi sendo diluída pela renúncia de investimentos adicionais. Por Furnas participaram os engenheiros Cotrim. L. Uma reunião em Alfenas com a comunidade local foi a antevisão das atuais audiências públicas. Menção é devida a outras pessoas que tiveram destaque na formação da empresa. José Luiz Bulhões Pedreira. John Cotrim. Resolvidas as participações estaduais. Barreto de Carvalho e Julival de Moraes que encontraram um clima de hostilidade inédito até aquela época. necessitariam de alteração no gargalo tributário a que eram sujeitas. empresa de energia do estado de São Paulo. pelas suas mãos. Carlos Mário Faveret. Lucas Lopes. além do engenheiro Souza Dias. Mário Lopes Leão. Flavio H. Emerson Nunes Coelho. chefe do planejamento elétrico do governo de São Paulo. Flavio Lyra e Benedito Dutra 192 . Ernani da Motta Rezende. Juscelino então perguntou: “E eu? Não sobrou nada para mim aí nessa diretoria?” Lucas Lopes esclareceu: “Não temos Figura 3 – JK e Lucas Lopes reunidos com os indicados para diretoria de Furnas por ocasião da constituição da companhia. foram negociadas as participações da Light e da AMFORP que. que defendia que era melhor para São Paulo que investimentos fossem feitos em obras estaduais e não em obras federais. com graves impactos para as regiões a jusante no Vale do Paraíba. XX e XXI da bacia do rio Paraíba do Sul para o oceano. foi apresentada por Lucas Lopes a estrutura organizacional da empresa. Sérgio Otaviano de Almeida. em Petrópolis.Séculos XIX. para qualquer aumento de capital. Participaram da reunião que se estendeu até a madrugada muitos proprietários de terras da região e advogados que os incitavam com o objetivo de angariar clientes em ações contra a empresa que estava sendo constituída. Em reunião com o presidente JK realizada no palácio Rio Negro. Lyra na diretoria técnica e Benedito Dutra na diretoria de administração e finanças. Lyra. haveria diretores representando os outros principais investidores: a Light. Além desses diretores executivos. Delphim Mazon Fernandes e Jarbas Di Piero Novaes.A História das Barragens no Brasil . José Pilz Filho. Maurício Bicalho. bem como políticos que tinham suas bases na área.

Lyra em solenidade no canteiro de obra de Furnas 193 .Flavio H. Lyra.CINQUENTA ANOS DO COMITÊ BRASILEIRO DE BARRAGENS Figura 4 .Delphim Mazon Fernandes e senhora em 1966 Figura 5 . piloto e convidado Figura 6 . José Pilz Filho.Assis Chateaubriand e Flavio H.

Flavio Lyra. no Centro da cidade do Rio de Janeiro. A indicação dos projetistas era de um laboratório nos Estados Unidos. o reservatório é fechado com a barragem de terra de Pium-I que impede que as águas afluam para a área de drenagem do rio São Francisco. propiciando enrocamento para a barragem. Esse foi o primeiro grande passo para a formação de várias gerações de excelentes engenheiros hidráulicos no País. traumatizado por já ter perdido uma barragem por ruptura causada por transbordamento. foi enviado às pressas.000 m³/s. já constavam das duas relações. representando os investidores.500 m³/s no local da barragem. mas você tem as vagas do conselho de administração e do conselho fiscal. concentrando na margem esquerda as estruturas do vertedouro e da tomada d’água. Furnas conseguiu do BIRD. no início dos estudos. quero você na presidência do Conselho de administração. o concreto e a comporta do vertedouro e do acréscimo de calha desnecessários. Como o laboratório era instalado no subsolo de um prédio situado na rua Araujo Porto Alegre. mais convencional na época. para se candidatar ao empréstimo do BIRD.Séculos XIX. situado no Caju. revoltada com a 194 .” Disse então o presidente Juscelino: “Ah bom. Entretanto. A construção seguiu um projeto muito bem concebido que resultou em uma alta barragem de enrocamento com núcleo de terra no leito do rio. então Lucas. O canal de adução a essas estruturas foi escavado em cota elevada. mas o engenheiro responsável por esse empreendimento no BIRD. houve a necessidade de se construir os modelos em área do laboratório do Departamento Nacional de Portos e Vias Navegáveis. um dos arranjos que estavam sendo considerados: barragem de concreto gravidade. conhecedor da capacidade do professor Theophilo Benedicto Ottoni Netto e de seus ex-alunos. assumiu a responsabilidade da execução dos ensaios no Brasil pelo Laboratório Saturnino de Brito. Inicialmente essa barragem seria construída nas cercanias da pequena cidade de Capitólio. em outubro de 1958.” E indicou alguns nomes para compor os dois conselhos respeitando os que. uma vez que não havia experiência nesse setor da engenharia no Brasil para encarar os ensaios de uma obra dessa magnitude. o maior empréstimo feito pelo BIRD para um só empreendimento até então. e vertedouro com seis comportas de segmento com capacidade total de 13. Os recursos em moeda nacional vieram do BNDE e do Fundo Federal de Eletrificação.Visita do presidente Juscelino Kubitscheck à hidroelétrica de Furnas no início de sua obra como mexer na diretoria.A História das Barragens no Brasil . não aceitou que a redução fosse efetuada. Com isso. quantia impressionante para a época. Com o aprofundamento dos estudos hidrológicos verificou-se que não seria possível a ocorrência de uma descarga superior a 10. O diretor técnico propôs ao BIRD a eliminação de um vão do vertedouro. além dos gastos com a escavação. Um marco importante para a engenharia hidráulica brasileira foi a seleção do laboratório que deveria desenvolver os ensaios em modelo hidráulico reduzido. Além da barragem principal e do conjunto tomada d’água e vertedouro. O projeto teve que ser mudado devido à pressão da população da cidade. um empréstimo de US$ 73 milhões. houve inflação de capacidade de descarga nos vertedouros a jusante. Na maior parte do tempo os residentes de Furnas na obra foram Rodrigo Mário Penna de Andrade e Franklin Fernandes Filho. XX e XXI Figura 7 .

não mais havia tempo para alterações. na reconstrução da barragem. Figura 8 . Durante a construção houve uma ruptura da fundação em argila muito compressível. sendo o vertedouro. A cidade de Capitólio ficou às margens do reservatório.Vista aérea de Furnas nos primeiros anos de operação. a população verificou as muitas melhorias que Furnas havia introduzido em outras cidades na área do reservatório e pressionou em sentido contrário para que a barragem retornasse ao local originalmente selecionado para que houvesse em Capitólio os benefícios propiciados às outras cidades. assumiu a vicepresidência da República e o Ministério de Minas e Energia o político mineiro e engenheiro Aureliano Chaves que pressionou Furnas para construir a pequena barragem de Boa Esperança com a finalidade de manter o nível d’água constante em frente à cidade de Capitólio. sujeita à imagem desagradável das áreas que afloravam quando o reservatório era deplecionado. com o passar do tempo. Tarde demais. sido deslocado para um local onde ocorria rocha competente. um de seus redutos políticos. o morro dos Cabritos em fase inicial de erosão. 195 . A montante do canal de acesso à tomada d’água e ao vertedouro. Cerca de vinte anos após o reservatório ter sido formado. Entretanto.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens possibilidade de ser impactada pela obra.

Depois de perder muito tempo na operação padrão da portaria. três das quais concessões da CEMIG.A História das Barragens no Brasil .Séculos XIX. o fechamento do reservatório foi sigilosamente programado para o dia 9 de janeiro de 1961. inclusive a usina de Furnas. enrocamento fino. Após extensos trabalhos. No seu esforço político contra a privatização. O ex-presidente Itamar Franco. Quando foi impedido de entrar. O esquema funcionou muito bem. Flavio Lyra. o oficial de justiça entregou o mandato. O guarda. na época governador de Minas Gerais. Magalhães Pinto. A operação ocorreu com sucesso. O piloto que naturalmente acompanhava as atividades de construção. pois até o carro que conduzia o Cotrim foi barrado. A derivação do rio Grande. se realmente executada. saberia efetuar essa sabotagem com eficiência. Flavio Lyra ficou na obra para acompanhar o desempenho do fechamento. principalmente de Furnas. comentou que deveria ser para o fechamento do reservatório. nessa ordem. que. quando os plugues estavam quase concretados. aqui não pode entrar ninguém. o engenheiro Franklin 196 . Essa longa operação para solucionar o mais importante acidente que até então havia ocorrido em obras no País fez com que o engenheiro Flavio Lyra. XX e XXI A respeito da barragem de Pium-I um episódio interessante ocorreu muitos anos depois de sua construção. No meio do dia chegou na obra o então governador de Minas Gerais. Esse ingênuo comentário fez com que Cotrim entrasse em desespero dizendo que a operação já era do conhecimento geral. Flavio Lyra disse a ele que ele havia chegado tarde pois não havia mais qualquer possibilidade física de retirar as comportas que já estavam com bem mais de 20 m de água sobre elas. O avião de Furnas não pôde decolar do aeroporto Santos Dumont. disse para o guarda abrir a cancela. a começar por Furnas. por ocasião da inauguração da usina. ministros e demais autoridades. Ainda não havia amanhecido quando chegou na portaria um oficial de justiça com um mandato para impedir o fechamento do reservatório. se colocou frontalmente contrário à privatização do setor elétrico. o governador Magalhães Pinto foi convidado junto a outros governadores. ocorreram explosões que acarretaram acréscimos substanciais e crescentes de vazão que indicavam que alguma coisa havia colapsado no túnel. O piloto afirmou que ele não sabia de nada e que apenas supôs que o fechamento do reservatório iria ocorrer vendo quem eram os passageiros no avião. Voltando aos anos sessenta. que vinha atrás em outro carro. passou uma descompostura no diretor presente. Flavio Lyra com um megafone começou a comandar o fechamento dos dois túneis de desvio. os vazamentos foram controlados pela colocação de tetrápodos. Ao adotar essa inédita postura afirmava que por ser engenheiro. que não conhecia o presidente da empresa e seguindo instruções disse: “Nem Cotrim nem Delphim. Tempos depois. Foi acionado um avião da Líder que costumava fazer o trajeto entre Rio e Furnas. Na conclusão dos serviços. A pressão política foi grande e a privatização de geradoras do setor elétrico nessa fase se limitou à Eletrosul. com a bem sucedida privatização da CSN. No dia anterior membros da diretoria se deslocaram para a obra. Como havia oposição ao empreendimento mesmo depois dele já consolidado. ao final desse período tivesse ficado grisalho. enrocamento grosso. Poucos dias depois começou o pesadelo na execução dos plugues dos dois túneis de desvio. O governo Fernando Henrique Cardoso se propunha privatizar o setor elétrico estatal federal. John Cotrim disse para o guarda: “Eu sou o Cotrim”. mobilizou uma força policial para a região de Pium-I com equipamentos de terraplanagem e ameaçou abrir a barragem fazendo com que as águas do rio Grande represadas pela barragem de Furnas fossem afluir para a bacia do rio São Francisco. O oficial de justiça se retirou. vendo os VIPs congregados no avião.” Perto das 24 horas. prejudicaria enormemente todas as usinas a jusante de Furnas. apesar de ter iniciado o programa de grandes privatizações quando era presidente. areia e argila. ou comprometido com o mandato de segurança acima mencionado ou querendo ter colhido dividendos políticos na operação de fechamento. John Cotrim também saiu no meio da manhã. concessionária de várias hidroelétricas em Minas Gerais. que aguentou firme tal estupidez. Em cada um dos dois túneis. na parte a montante dos plugues. só tendo sido liberado quando Flavio Lyra. Na guarita da obra foi montado um esquema do tipo operação padrão para impedir ou retardar ao máximo a entrada de qualquer pessoa estranha. já sem problemas de oposição ao empreendimento. a montante das comportas de desvio.

naquela época. Foi então descoberta a causa das explosões: mistura de oxigênio com gás metano acumulado nos túneis. se incidisse no reservatório poderia. Cenas como essas não eram incomuns na época. hidroelétrica anterior e a jusante de Furnas. A Companhia Paulista de Força e Luz detinha a concessão do aproveitamento hidroelétrico de Estreito situado no rio Grande a jusante da usina de Peixoto. estava mais bem estruturada para executar a construção. ambas com largos canais de acesso que propiciaram os enrocamentos necessários à barragem. A regularização promovida pelo reservatório beneficiou sobremodo os potenciais a jusante propiciando a ampliação da capacidade instalada de Peixoto (Mascarenhas de Moraes) e viabilizando os muitos e grandes aproveitamentos a jusante que foram todos construídos até Itaipu com exceção de Ilha Grande no rio Paraná que. principalmente os da São Paulo Light. Muitos anos se passaram e a encosta do morro dos Cabritos. provocar uma onda de até 30 m sobre a barragem. Um desses desplacamentos causou uma onda que incidiu contra a barragem.” Teve que ser tirado à força. Furnas contou com o canadense Richard L. não foi construída por ter sido criado um parque nacional na área que seria o reservatório. para a visualização dos residentes antes do fechamento do reservatório de Peixoto. Aos que lá foram ter com ele. Como consultores internacionais para o projeto e a obra. por exemplo. com barcos encalhados na lama do fundo dos reservatórios. ao adentrar num túnel com outras pessoas. A partir de acordo entre as duas companhias. Com o progresso da erosão foi se formando um grande monólito que. fincou estacas brancas de madeira em diversos pontos onde a linha d’água iria atingir quando da formação do reservatório. A obtenção dessa concessão foi obtida graças ao elevado desempenho da empresa na construção de Furnas e quebrou a orientação governamental de que Furnas se limitaria à implantação da usina de Furnas e à sua operação. naquela vila. foi dito: “Seu Doutor. ele acrescentou: “Pois assim seja. do grupo AMFORP. Entretanto. permaneciam na área que estava sendo alagada. Toda a área instável foi então removida. 1965. houve efetiva colaboração das Forças Armadas na retirada de algumas pessoas que. a usina e seu sistema de transmissão associado entraram em operação como programado.950 m³/s e da tomada d’água foram implantadas cada uma em uma das margens. A usina foi inaugurada pelo presidente Castelo Branco em 12 de maio de 1965. Nessa ocasião eram impressionantes as fotografias dos reservatórios em São Paulo completamente deplecionados. Mais uma vez houve uma corrida contra o tempo para que a usina de Estreito entrasse em operação para evitar colapso no suprimento de energia elétrica à Região Sudeste. Nessa obra 197 . Hearn. havia um habitante que teimava em permanecer na casa que já havia sido comprada e paga por Furnas.” O projeto e a obra de Furnas foram executados com grande sucesso. A barragem de enrocamento com núcleo de terra fecha o vale e as estruturas do vertedouro com capacidade de 12. Se a água vier até aqui eu bebo ela todinha. Dizia ele que “nem a cheia de 1930 trouxe água até aqui e não será essa tal de Furnas que fica a léguas de distância. quase frontal à barragem apresentava constante e acelerada erosão com desplacamento de material. apesar de ter tido iniciadas as obras.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Fernandes Filho. que vai trazer água até a minha roça. embora avisadas. Na última hora foi reportado que ainda havia um teimoso na área do reservatório. o austríaco Arthur Casagrande e o americano Portland Port Fox. Com a elevação do nível d’água na área do reservatório. de acordo com o modelo hidráulico reduzido. tendo salvado o estado de São Paulo de uma concreta ameaça de forte racionamento. Eu peguei a estaca e finquei ela lá em baixo. a concessão foi transferida para Furnas que. Centros urbanos como a cidade de Guapé e a vila de São José da Barra haviam sido reconstruídas com melhores habitações e equipamentos urbanos às margens do reservatório. viu uma delas cair. proveniente da decomposição de matéria orgânica da área do reservatório. A Companhia Paulista de Força e Luz. Apesar do importante acidente nos túneis de desvio. o senhor não garantiu que as águas iriam subir até a estaca branca?” Após a resposta afirmativa.

A História das Barragens no Brasil . Naquela época esses governos eram de diferentes correntes políticas. A Eletrobras assumiu a construção da hidroelétrica de Funil e. transferiu essa responsabilidade a Furnas. principalmente quando comparada à eficiência demonstrada por Furnas. em 1969. o que pode ter gerado ineficiência de gestão. No final dos anos 50 foi criada a CHEVAP.Séculos XIX. com capacidade final de 1050 MW (duas unidades foram montadas em segunda fase) entrou em operação antes da data programada. sendo que o mais elevado não ultrapassava a cota do piso dos geradores. Nessa época apenas sete dos dezessete blocos da barragem principal haviam sido concretados. também estava com considerável atraso. São Paulo e de Minas Gerais além do governo federal. Consta que a diretoria abrigava indicações dos governos dos estados da Guanabara. A barragem de Nhangapi. Rio de Janeiro. John Cotrim e presidente Castelo Branco na inauguração da usina hidroelétrica Estreito 198 . a tempo de se evitar uma crise de suprimento de energia em toda Região Sudeste. XX e XXI Figura 9 – John Cotrim. O rio Paraíba do Sul após a cidade de Cruzeiro (SP) passa a apresentar gradientes progressivamente mais acentuados até pouco a montante da cidade de Itatiaia (RJ) onde se localizavam três corredeiras que despertaram o interesse da Estrada de Ferro Central do Brasil e da Light. Furnas Figura 10 – Ministros Mauro Thibau e Roberto Campos. no ano seguinte. A usina. na época a segunda maior barragem de terra do País. em 1967. empresa estatal destinada a desenvolver os aproveitamentos no Vale do Paraíba. ambas tendo desenvolvido estudos preliminares. presidente Castelo Branco e ministro Mauro Thibau em visita a Estreito foi usado pela primeira vez no País rigoroso planejamento e controle de construção em PERT/CPM permitindo que a obra tivesse controle de prazos.

esse eficiente controle de cheias tem feito com que o leito secundário do rio. Por ocasião da maior cheia registrada no rio Paraíba do Sul. venha sendo ocupado por construções irregulares e até por instalações da Prefeitura de Resende. beneficiando as cidades a jusante. Episódio pitoresco ocorreu a partir das primeiras investigações realizadas no local da barragem. Presentemente a usina com 210 MW instalados é também e principalmente usada como elemento de regularização de vazões e de controle de cheias. Entretanto. por falta de inundações periódicas. situados a montante. Um místico chamado Savananda que se assemelhava a um guru indiano e residia em Resende.Barragem de Funil 199 . A barragem principal com altura de 85 m permanece sendo a única barragem em abóbada no País. ocorrida em fevereiro de 2000. o reservatório de Funil amorteceu totalmente a cheia afluente. portanto Figura 12 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 11 – Luiz Carlos Barreto de Carvalho aplicou um verdadeiro choque de gestão e iniciou a geração comercial em dezembro de 1969. tendo tido excelente desempenho. Santa Branca e Jaguari. assim como as usinas e os reservatórios de Paraitinga/Paraibuna.

Os primeiros estudos de Furnas visaram o confronto do arranjo do inventário com uma alternativa de projeto situada logo a jusante da confluência dos dois rios. portanto. O rio Pardo contribui com cerca de 30% da descarga média do rio Grande. Poucos dias depois.Séculos XIX. A usina de Porto Colômbia é de queda modesta. seriam de pouca expressão as áreas a serem inundadas no vale do rio Pardo. pudesse amortizar as cheias do rio Pardo por elevação de seu nível d’água acima do nível máximo normal por ocasião da afluência das cheias. muitos anos depois. XX e XXI Figura 13 . Após a decisão do ministro. afirmava que a barragem iria romper causando um desastre sem precedentes. capitaneou um movimento de oposição à alternativa de barragem a jusante da foz do rio Pardo. na época chefe do Departamento de Engenharia Civil.Usina hidroelétrica de Porto Colômbia a jusante do local da barragem. o ministro Costa Cavalcanti das minas e energia. O ministro afirmou que “palavra de ministro não volta atrás. pouco superior a 20 m. cinquenta e um dias antes do inicialmente programado. A usina entrou em operação no dia 29 de junho de 1973. Essa operação não pode ser efetuada devido à interferência da ponte Gumercindo Penteado sobre o rio Grande entre as cidades de Planura e Colômbia. Entretanto. A barragem não rompeu. Em 1968. a alternativa propiciava uma pequena regularização das vazões do rio Pardo que beneficiaria todas as usinas a jusante. diretores e assessores de Furnas mostraram a conclusão dos estudos que demonstrava que a inundação no vale no rio Pardo seria muito menor do que estava sendo alardeada. Foi produzida vasta documentação fotográfica enviada ao engenheiro Erton Carvalho. 200 . Além do considerável acréscimo de energia gerada em Porto Colômbia. que providenciou a devida correção.” Até a presente data (maio de 2011) cerca de 25 milhões de megawatts hora deixaram de ser economicamente gerados. O movimento conseguiu que. o prefeito da pequena cidade de Guaira. No inventário realizado pela Canambra o aproveitamento de Porto Colômbia foi situado pouco a montante da foz do rio Pardo no rio Grande. julgando que a inundação das terras do seu município seria grande. o autor por acaso esteve em ponto remoto do reservatório e verificou que estava se desenvolvendo uma grande vossoroca que se formava a jusante de uma estreita sela topográfica. A construção e montagem da usina foram feitas sem maiores problemas. Furnas recebeu as concessões de Porto Colômbia e Marimbondo. afirmasse que a usina de Porto Colômbia seria implantada a montante da foz do rio Pardo. paralisando o desenvolvimento da vossoroca. Ao serem iniciados os estudos de campo. numa solenidade em Jupiá. após a cheia de 2000. situado a jusante. Flavio Lyra propôs que o reservatório de Marimbondo. ambas situadas no rio Grande entre São Paulo e Minas Gerais.A História das Barragens no Brasil . e.

Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A hidroelétrica de Marimbondo foi implantada em paralelo com Porto Colômbia. Porto Colômbia com 320 MW e Marimbondo com 1440 MW foram as últimas usinas de Furnas no rio Grande. A antiga usina foi adquirida por Furnas. sendo desativada após a construção da barragem da margem esquerda. No local de Marimbondo havia a primeira usina de Marimbondo. Flavio Lyra recomendou que fosse estudada uma alternativa de projeto que englobasse a usina prevista a montante pelo inventário da Canambra. foram iniciadas em 1971 e a usina foi inaugurada em 28 de maio de 1976. dentro do previsto na programação. palavra indígena que significa o caminho da cachoeira. mas com ligeira defasagem. tem potência 175 vezes superior à antiga usina de 1928. após o primeiro choque do petróleo ocorrido no final de 1973. A nova usina que começou a ser construída 30 anos antes da virada do século. a perspectiva era de que essa usina supriria de abundante energia todo interior paulista na região de influência de São José do Rio Preto até o Século XXI. ela foi selecionada para construção. A concessão seguinte foi o aproveitamento de Itumbiara. Ao inaugurar essa usina. Essa alternativa teria barragem e reservatório muito ampliados. As obras que transcorreram sem atropelos. Apesar das análises energéticas e econômicas internas não terem recomendado essa alternativa. implantada pelo governador de São Paulo Armando de Salles Oliveira em 1928 com 8 MW instalados. A usina aproveitava parte das descargas do rio Grande no seu braço esquerdo. Figura 14 – Usina hidroelétrica de Marimbondo 201 . Logo a seguir dessa decisão. Assim que foram iniciados os estudos.

A obra foi iniciada no final de 1973 e. denominado Serra da Mesa. Os estudos conduziram a uma barragem de enrocamento com núcleo de terra com 154 m de altura represando 202 .A História das Barragens no Brasil . Em Itumbiara foram ultrapassados os recordes de concretagem anteriores e foram instaladas as maiores turbinas já fabricadas até então. muito superiores às do local de São Felix. baseada no desenvolvimento que experimentou nas décadas anteriores. pode se lançar com vigor ao mercado externo obtendo resultados compensadores.Usina hidroelétrica de Itumbiara nova análise energética e econômica revelou que essa alternativa adotada era muito mais viável do que a do inventário.Séculos XIX. Furnas instituiu um concurso/concorrência entre empresas consultoras. Na implantação de Itumbiara. Essa marca foi muito importante para a indústria porque nas últimas duas décadas do século passado o País vivenciou forte recessão. Nessa época as indústrias de bens de capital. XX e XXI Figura 15 . em 1980 as primeiras unidades geradoras entraram em operação comercial dentro da programação original. sendo que pelo menos duas recomendaram a adoção de um eixo a montante do local de São Felix. o setor elétrico não sendo exceção. Furnas recebeu a concessão do aproveitamento do alto rio Tocantins em trecho que havia sido estudado inicialmente pela CELG e posteriormente pela ELETRONORTE. foi ultrapassado o índice de 90% de nacionalização nos equipamentos permanentes. Em 1981. tendo sido definido um aproveitamento designado como São Felix. com excepcionais características geológicas. pela primeira vez.

Os consultores Don Deere e Arthur Casagrande em Itumbiara com o engenheiro Ludgero Pimenta de Ávila 203 .24 bilhões de metros cúbicos de volume útil para efeitos de regularização de descargas.571 m³/s. João Alberto Bandeira de Mello e Don Deere inspecionando a barragem de Itumbiara 54. A recessão acima referida e a falência do Banco Nacional fizeram com que a obra fosse paralisada de 1990 a 1994. Essa foi a primeira usina em que Furnas se associou a uma empresa privada. no mesmo ano.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 16 – Arthur Casagrande e Guy Bordeaux na área de empréstimo de Itumbiara Figura 17 – Arthur Casagrande. Figura 18 . no caso inicialmente ao grupo do Banco Nacional. A usina foi concluída em 1997. a construção de duas ensecadeiras de concreto compactado com rolo com 25. As ensecadeiras e a parte da barragem construída foram galgadas por cinco vezes por descargas de até 6.5 m de altura com o objetivo de permitir a passagem de cheias no período construtivo sem danificar o aterro da barragem que seria executado.4 m. com tirantes de água de até 12. Em 1988 foram executadas as ensecadeiras de terra e rocha que permitiram. Agenor Antônio Bailão Galletti. A elevada qualidade do granito do local permitiu a adoção de casa de força subterrânea abrigando três unidades de 431 MW cada na margem esquerda e desvio por dois túneis escavados na margem direita.4 bilhões de metros cúbicos que possibilitam a utilização de 43.5 m e 16.

Usina hidroelétrica de Serra da Mesa 204 .A História das Barragens no Brasil .Séculos XIX. A barragem de enrocamento com núcleo de terra teve também na sua construção ensecadeiras galgáveis. No ano seguinte a Eletrobras solicitou a Furnas para examinar a partição de quedas do rio. Figura 19 . XX e XXI Em paralelo à construção de Serra da Mesa. Furnas implantou a usina hidroelétrica de Corumbá sobre o rio Corumbá em Goiás com potência instalada de 375 MW. No Século XXI Furnas passou a atuar com frequência associada a empresas privadas para implantação de novas hidroelétricas como reportado por Márcio Porto nesse livro. A obra começou a ser implantada pela CELG e interrompida em dezembro de 1982. estas de terra e rocha. Atenção especial foi dedicada à preservação das águas termais da região de Caldas Novas.

E. 1967 Miguez de Mello.R.H.A. – Grandes Barragens Brasileiras – Construção Pesada n° 47. – A História de Furnas das Origens à Fundação da Empresa – Comitê Brasileiro do Conselho Mundial da Energia. 1973 Miguez de Mello. F. 2009 Cotrim. F. M. 1994 Lyra. 1979 Porto. 2011 205 . F. Closure of Diversion Tunnels – Institution of Civil Engineers.Usina hidroelétrica de Corumbá Referências Carvalho. F. – A Nova Face das Empresas Estatais Frente à Expansão da Oferta de Energia Elétrica no País – A História das Barragens no Brasil – CBDB. 1973 Miguez de Mello. – General Paper – XIII International Congress on Large Dams. 1975 Miguez de Mello. – O Aproveitamento Hidroelétrico de Itumbiara – Construção Pesada n° 26. et al.A.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 20 . Ensecadeiras Galgáveis – Desvio de Grandes Rios Brasileiros – CBDB. – Barragem da Usina de Serra da Mesa. F. – Furnas Hydroelectric Scheme. et al. Desvio do Rio. _ O Aproveitamento Hidroelétrico de Porto Colômbia – Construção Pesada n° 27. J.

Usina Hidroelétrica de Tucurui .

A Eletronorte e as Barragens da Região Amazônica Alexandre Magno Rodrigues Accioly. construir o maior projeto inteiramente nacional: a usina de Tucuruí.A. O início Estávamos na época do chamado Brasil Grande depois que. ao mesmo tempo. foi criada a Centrais Elétricas do Norte do Brasil S. não será contada de forma linear. como  concessionária de serviço público de energia elétrica com sede em Brasília no Distrito Federal. em 1964. Raul Garcia Llano (Fi­ gura 1). “Rio de Janeiro. Optou-se por descrever alguns fatos relacionando-os aos grandes eventos e obras que marcaram a empresa entremeados por comentários dos tempos atuais. –  Eletronorte. no governo Costa e Silva. Encampando a ideia do presidente Juscelino. Para isso. Hoje o nome da empresa é Eletrobras Eletronorte. assim incluindo o norte do Brasil. 207 . de noite falta luz”. caminhando para o que hoje. de dia falta água. em 20 de junho  de 1973. Llano recebendo o presidente João Figueiredo em Tucuruí A Eletrobras anunciou a intenção de construir a usina Tucuruí. os militares assumiram o poder e deram grande impulso às obras de infraestrutura no País. Embora a engenharia nacional. Os saudosos tempos das marchinhas de carnaval bem humoradas. Era o início da inte­ gração do Brasil como um todo. pois foi sua capacidade empreendedora que consolidou a empresa executando Tucuruí e outras obras a serem relatadas adiante. A presidência da empresa coube ao Cel.Cel. baseada em estudos do Comitê Coordenador de Estudos Ener­ géticos da Amazônia (Eneram) que havia sido criado em 1968. – Eletrobras.A. os governos da épo­ ca incentivaram a marcha para o oeste. a Eletronorte já nasceu com o duplo desafio de constituir a empresa propriamente dita e. como neste trecho de uma delas. cidade que me seduz. sociedade anônima de economia mista e subsidiária da Centrais  Elétricas Brasileiras S. Alvaro Lima de Araujo e Humberto Rodrigues Gama A história da Eletronorte. na época. podemos perceber. resumida nas linhas que se seguem. mas neste histórico. mais precisamente a Amazônia. Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 1 . mas bastante críticas. será simplesmente Eletronorte. nome que se confunde com a própria Eletronorte. em 2011. mostravam a situação que havia no País antes desse impulso. já tivesse em seu cur­ rículo importantes obras tanto em porte quanto em quantida­ de.

Séculos XIX. distando aproximadamen­ te 300 km de Belém. totalizando uma potência instalada de 4. a Amazônia. sendo o último aproveitamento hidrelétrico antes da foz do Tocantins. que garantiriam o consumo de boa parte da produção. o projeto foi as­ sociado ao fornecimento de energia para indústrias de alumínio eletrointensivas. era um empreendimento caracterizado pelo pioneirismo em vários aspectos.000 m³/s e picos de mais de 40. Dário Gomes (Fi­ gura 2). O vertedouro da usina. A vazão de desvio de 51. Humberto Rodrigues Gama. na carta elaborada pelos topógrafos. profissionais egressos da Cemig. em alguns trechos. como já dito anteriormente. a evolução do desempenho do vertedouro vem correspon­ dendo às previsões do modelo hidráulico reduzido. A cota de coroamento da barragem de terra seria de 78 m acima do nível do mar sendo que. previa o descarregamento de toda essa energia ao pé da própria obra.000 m³/s exigiu a construção de 40 adufas sob o vertedouro. a decisão de maior significado daquela fase. inicialmente com a instalação de 12 unidades geradoras princi­ pais. cada uma com 6.000 m³/s era o maior do mundo na ocasião. Curiosamente.370 MW de potência instalada. Albrás e Alumar.5 m de largura por 13 m de altura. Embora ainda não tenha sido testado para os limites de vazão. A usina teria. Do tipo vertedouro em salto de esqui. A primeira missão O batismo de fogo da empresa. projetado e construído para a vazão de 110. José Augusto Pimentel Pessoa. XX e XXI A concessão para a construção de Tucuruí foi outorgada à Eletro­ norte. para funcionar com uma carga de 32 m.245 MW. Enfim.279 em julho de 1974. Logo. naqueles tempos. 208 . a que determinaria o local exato da barragem. Berilo Mamoré Pereira Belo. eles localizaram precisamente.A História das Barragens no Brasil . era uma região carac­ terizada por inóspitas florestas tropicais com quase nenhuma infraestrutura. As vazões específicas adotadas foram pionei­ ras e ousadas. foi a usina de Tucuruí.000 m³/s registrados até então). José Antônio da Silveira. A usina foi concebida para ser construída em duas etapas. cada uma com 350 MW de potência nominal. na segunda etapa. pelo decreto 74. Depois de longa confabulação. mais 11 unidades de 375 MW totalizando 8. o diretor técnico da Eletronorte. em boa parte. capital do Estado do Pará. e mais duas unidades auxiliares com 22. A execução da obra de Tucuruí Não bastasse o porte do rio Tocantins quanto à largura (mais de 2 km) e vazões (média de longo termo da ordem de 11. Érico Bittencourt de Freitas. as duas pontas de terra separadas por quase dois quilômetros de água revolta entre as quais seria feito o barramento do Tocantins. o topógrafo Geraldo Magela Barbosa. especialmente em termos logísticos. canalões de até 40 m abaixo do nível do mar. Isso tornava o desafio importante. Para viabilizar a produção de tamanha quantidade de energia. reuniu os futuros comandantes da obra. foi posterior­ mente tomada num ambiente muito mais bucólico do que técnico. consultores brasileiros e estrangeiros contratados para assessorá-lo.5 MW de potência nominal cada. a barragem chegou a ter quase 120 m de altura. entre outros. em alguns trechos do leito do rio havia A Eletronorte formou seus primeiros quadros buscando. À sombra de uma grande árvore da margem esquerda do rio. Esta obra foi concebida para ser construída em duas etapas. e a alta diretoria executiva das empresas escolhidas para o proje­ to e a construção de Tucuruí. João Eduardo de Moura Guido. Foi assim que vieram para a empresa os engenheiros Geraldo Afonso Pra­ tes.

Geraldo Afonso Prates. e que precisou ser treinado para as tarefas específicas de uma construção. Somente dois anos depois. foi feito em 1975. sem nenhuma experiência. Durante o período de trabalho mais intenso. 209 . Érico Bittencourt de Freitas. uma mul­ tidão de mais de 30.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 2 . o 8º. em 1977. o 5º Fausto Cesar Vaz Guimarães. em 1977 (Figura 3). Mas somente quando as obras civis foram efetivamente iniciadas. em 1975.Da direita para a esquerda: o 2º.000 pessoas enxameava em torno do canteiro da obra. para ensecar a superfície em que as estruturas de concreto e a barragem seriam assentadas sobre a rocha do fundo do rio. O primeiro desvio do Tocantins. Sebastião Camargo. a Amazônia começou a revelar aos pioneiros o tipo de dificuldades que eles podiam esperar no futuro imediato. Transpor­ tes. seriam efetivamente começadas as obras civis. comunicações.Engenheiro Dário Gomes na cabeceira da mesa em reunião no escritório da vila pioneira Figura 3 . sr. Cel. energia elétrica confiável e saneamento básico não existiam. Era um grupo heterogêneo. Nesse am­ biente foi construída. o que marcou o início das obras civis. Sebastião Florentino da Silva durante celebração do lançamento da 1ª caçamba de concreto em Tucuruí O principal obstáculo à construção do novo complexo residencial de apoio às obras da usina foi o isolamento de Tucuruí. marcando o início dos trabalhos de terraplenagem. que tivera de ser recrutado em locais próximos. a ensecadeira de primeira fase do desvio do rio. Llano e o último.

que já ultrapassara o nível da maior enchente observada em 1926. ocorreram três das quatro maiores cheias do histórico.Sebastião Camargo e Osório Ferrucci. Outro fato relevante foi que. As obras de concreto e terra na área ensecada já estavam adiantadas Figura 4 . Ele era funcionário da Camargo Corrêa desde 1947 e. preenchidos com material aluvionar e seixos rolados que difi­ cultaram a execução das ensecadeiras. Luiz Fernando Rufato. Érico Bittencourt de Freitas. Os homens do alto comando da obra. revelava uma situa­ ção inquietante. um com até 40 m abaixo do nível do mar. as condições do leito do rio. Ser viços de alteamento e proteção das ensecadeiras foram feitos com sucesso durante dez dias de trabalho ininterrupto sob violento estresse. Humberto Gama. Sobretudo. o rio Tocantins teve um verdadeiro acesso de mau humor. Mas. Além disso. Contudo. José Armando Del Greco Peixoto. em 1980. vindo uma delas a se romper leitura das réguas linimétricas a montante da obra. Essa ruptura causou danos materiais relativamente pequenos.A História das Barragens no Brasil .400 m³/s contra uma vazão de projeto de desvio de 51. Gilson Nakamura e mais um punhado de executivos sabiam muito bem o que aconteceria se a água que chegava a perigosos 15 centímetros do topo da enseca­ deira conseguisse galgá-la. XX e XXI por piping inundando o trecho de jusante da obra. estava Osório Ferrucci (Figura 4). o sistema de previsão de vazões a partir da Também entre os primeiros a entrar no grande palco que o governo montara em plena selva para a encenação da primeira grande aventura tecnológica na Amazônia. O rio estava desviado por ensecadeiras e a tempora­ da de chuvas mais copiosas já parecia ter chegado ao fim. que alcançou 68. segundo seus companheiros em Tucuruí. que foi substituído em 1977 pelo engenheiro residente Érico Bittencourt de Freitas responsável pela condução da obra até 1982 quando passou a gerente do Departamen­ to de Construção da Eletronorte. construtora de Tucuruí quando. Por isso. o residente da Eletronorte também se chamava Osório Correa Neto. afogaria cinco anos do trabalho de dezenas de milhares de homens e uma considerável fatia do orçamento da Eletronorte. a área afetada permaneceu pouco tempo inundada porque o acidente ocorreu ao final da cheia. o lendário capitão da grande empreiteira. O desvio do rio foi um dos grandes desafios superados apesar das adversidades. em março de 1980. O céu carregado e a cheia. 210 . a única voz que Sebastião Camargo. O Tocantins levaria por água abaixo equi­ pamentos e materiais. às ordens dos chefes. Entre elas. os encarregados de turmas convocaram seus homens para enfrentar o problema. durante a construção.000 m³/s. Osório Ferrucci. ouvia sem contestar. que ficou na memória do alto comando técnico da obra como uma espécie de marco do empreendimento.Séculos XIX. nos dias 2 e 3 daquele mês. tendo sob sua responsabilidade as demais obras além de Tucuruí. com vários canalões muito profundos. da Camargo Corrêa. a capacidade técnica e in­ tegração das equipes de projeto e principalmente de construção possibilitaram atravessar esse imprevisto sem maiores transtornos. inclusive a maior de todas. Por coincidência. ameaçavam as ensecadeiras que protegiam as obras em construção. visto que o mo­ nitoramento das estruturas detectou em tempo hábil o problema possibilitando a retirada de pessoas e equipamentos. José Antônio da Silveira.

Na Eletronorte. Milton Vargas e Flavio H. Somente para corroborar comentários anteriores sobre as dimensões do empreendimento. percebeu claramente que “aqueles senhores (Balança e sua equipe) mesmo com toda a experiência mostravam uma preocupação excepcional com o projeto”. na manhã do décimo dia da operação. Mais tarde. presidente da empresa e detentor de profundos conhecimentos de hidráulica adquiridos na sua formação em Grenoble e na experiência iniciada no Brasil na construção de Paulo Afonso da CHESF.Os consultores examinando os testemunhos de sondagem.B. O projeto da usina foi desenvolvido pelo Consórcio Engevix-The­ mag tendo pelo lado da Engevix o comando do engenheiro francês radicado no Brasil André Jules Balança. A superação dessa ocorrência excepcional em 1980 foi fundamental para a equipe concluir a construção de Tucuruí com êxito. Don Deere. ainda. a equipe de engenheiros que operava o mode­ lo e não tinha elementos de comparação com outros projetos. no Rio de Janeiro. com um board internacional de consulto­ res composto por James Libby. O episódio ficou poeticamente conhecido como “águas de março”. O engenheiro Fausto César Vaz Guimarães. Nelson Souza Pinto. O projeto contou. e que era Figura 5 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Finalmente. o engenheiro Balança se interessava pessoalmente pelos estudos hidráulicos em modelo reduzido de Tucuruí realizados pelo Hidroesb – Laboratório Hidrotécnico Saturnino de Brito SA. James Libby e Milton Vargas 211 . Victor F. As ensecadeiras haviam sido alteadas em três metros e o nível d’água alcançara dois metros acima do topo da ensecadeira original. Por conta de sua formação e gosto pessoal. Lyra. o gerenciamento do projeto foi feito pelos en­ genheiros João Eduardo de Moura Guido (civil). a água parou de subir. João Ângelo Casagrande (mecânico) e Leôncio Gotti (planejamento). de Mello. essa equipe iria compreender a dimensão de sua primeira experiência. sucessor do engenhei­ ro Dário Gomes na Diretoria Técnica da Eletronorte. Da esquerda Don Deere.

a Eletronorte já contava com funcionários dos mais diversos rincões do país chamados para auxiliar nas tare­ fas da empresa e. em março de 1985. então condutor dos três empreendimentos Tucurui. XX e XXI responsável pelas construções. apesar da importante perda. Figura 6.Séculos XIX. com duas unidades de 350 MW em operação comercial. atingindo a cota 72.00 m. as usinas de Samuel em Rondônia e Balbina no Amazonas.A História das Barragens no Brasil . Entretanto.Jogo de futebol de salão dentro do estator de uma máquina da primeira etapa 212 . a obra continuou em ritmo normal. engenheiro Geraldo Afonso Prates. a usina foi inaugurada pelo Presidente da República João Figueiredo em 22 de novembro de 1984. houve um grave acidente aéreo que causou a morte dos diretores da Eletronorte Fausto César Vaz Guimarães (diretoria técnica) e Jayme Barcessat (diretoria de Suprimentos) e do chefe do Departamento de Construção. nível máximo normal. A Figura 6 dá idéia da dimen­ são do estator de uma forma lúdica muito bem compreendida pelo brasileiro em geral. Nesta etapa. quando a Eletronorte construía simultaneamente com Tucuruí. O enchimento do reservatório teve início em setembro de 1984. Em 1982. imprimia seu dinamismo aos trabalhos contagiando toda a equipe envolvida no empreendimento. O engenheiro Kerman José Machado assu­ miu a Diretoria Técnica e o engenheiro Érico Bitencourt de Freitas foi empossado chefe do Departamento de Construção. Balbina e Samuel. A chefia da obra de Tucuruí foi assumida pelo engenheiro Humberto Rodrigues Gama. justamente em momento festivo de conclusão do desvio de Samuel.

Descida do estator da unidade 13 em 3 de maio de 2002 Figura 8 . por conta do destino não chegou a ver concluída a obra que hoje tem seu nome. tendo ao seu lado esquerdo Adailton de Sousa Pinto. estando em operação comercial desde abril de 2003.00 m. com um ganho de energia firme de 109 MW. Essa elevação aumentou a área de inundação de 2. Em junho de 1998 as obras de expansão de Tucuruí foram autorizadas e iniciadas.Presidente da República Fernando Henrique Cardoso.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens O coronel Raul Garcia Llano. As obras de terra­ plenagem e escavação em rocha foram concluídas no ano de 2002. 213 .875 km² para 3. Posteriormente.007 km². residente da obra da segunda etapa de Tucuruí celebrando a descida do estator da unidade 13 Figura 9 . presidente da Eletronorte. o nível máximo normal operacio­ nal foi elevado para a cota 74. ao centro. Figura 7 . Almir Gabriel em visita às obras da segunda etapa de Tucuruí.Equipe com o José Antônio Muniz. grande incentivador do empreendimento. José Antônio Muniz (presidente da Eletronorte) e governador do Pará. 8 e 9) teve sua montagem concluída no final de novembro de 2002. A unidade geradora 13 (Figuras 7. A motorização da primeira etapa foi concluída em 1992. porém.

Maranhão e Tocantins. Em 2011. Tucuruí tem hoje os maiores contratos de fornecimento de energia elétrica em bloco do mundo. XX e XXI A unidade 23 entrou em operação em julho de 2006.A História das Barragens no Brasil . totalizando 8.Séculos XIX. e é segmentado em prestadores de serviços públicos de energia elétrica e indústrias eletrointensivas.370 MW de potência instalada. O mercado principal de Tucuruí é o sub-mercado Norte de energia que abrange os estados do Pará. com as indústrias do alumínio Albrás e Alumar. foi concluída a eclusa constituída de duas câmaras que vencem um desnível de cerca de 68 m e são separadas por um ca­ 214 .

além dos programas socioambientais. equivale a 28.O volume máximo diário de concreto lançado na obra foi de 11. A Vale e outras empresas da região já iniciaram o transporte de seus produtos pelo rio Tocantins de Marabá até Belém utilizando a eclusa.O volume total dos aterros executados na obra foi da or­ dem de 59. Tucuruí (Figuras 10 e 11) responde por 28. e a primeira unidade do setor elétrico brasileiro a conquistar o Prêmio de Qualidade do Governo Federal – PQGF.000 m³.000. Figura 11 . Essa obra é fundamental para a implantação da hidrovia do Tocantins.400.4% do faturamento global de toda empresa. é a principal responsá­ vel pelo intenso desenvolvimento regional. isto é Manutenção Total Produtiva). Os números do empreendimento impressionam.800. . da ordem de 9. em 2002. .000 t. como podemos ver a seguir: .000 m³ e o volume de concreto utilizado.O aço aplicado totaliza cerca de 222. a cada semana de trabalho era aplica­ do o equivalente ao volume empregado na construção do estádio do Maracanã. .Tucuruí Casa de Força Figura 10 .Tucuruí .400 sacos de 50 kg.vista do vertedouro em operação 215 . foi a primeira hidroelétrica do mundo certificada pela JIPM (Japan Institute of Plant Maintenance) com Prêmio Excelência em TPM – 1 a Categoria (Total Productive Maintenance. fruto da abundante oferta de energia e recolhimento de impostos resultantes da comercialização e compensação pela utilização de recursos hídricos.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens nal intermediário. ou seja.200 m³.O cimento empregado na obra. e daí ao oceano Atlântico. Atualmente.

com o uso inteligente de sua especialidade. tinha duas máquinas de 20 MW e previsão de ampliação para mais uma máquina de 30 MW. apesar de seu gigantismo. Logo no início da vida da usina. Esta missão surgiu numa época em que todos os olhos estavam voltados para Tucuruí de modo que a história dessa usina foi de certa forma ofuscada. Mais que isso. o Brasil e muitos de seus filhos – aqueles que influiram diretamente sobre a monumental empreitada da usina e os que hoje estão sob sua influência – vivem melhor do que viviam antes dela. A energia firme e renovável de Tucuruí é escoada por linhas de trans­ missão de 230 kV e 500 kV. Hoje se pode comemorar dois fatos indiscutíveis: Tucuruí foi a obra isolada de maior impacto sobre a Amazônia. com população esparsa e arrecadação ínfima até o início dos anos 1970. praticamente não havia obra para dissipação de energia: as águas vertidas eram lançadas no canal do rio constituído de material rochoso com um ligeiro salto ao pé da superfície de vertimento. Como a usina foi construída por vários empreiteiros numa obra que levou mais de quinze anos para ser concluída. mas ela foi também a de melhor repercussão socioambiental e econômica entre todas as que foram feitas na região. Como ca­ racterística. Essa linha permite a preservação de  energias estocadas em reservatórios de hidroelétricas situadas em outras regiões durante o período hidrológico favorável no rio Tocantins. Sudeste e Centro-Oeste. a usina vem operando desde a inauguração sem apresentar problemas relevantes. Finalmente. XX e XXI Principal geradora do Sistema Norte-Nordeste. Além de atender os mercados do Pará. construída por terceiros. 216 . o rio Araguari submeteu a obra a uma cheia de cerca de 4. a usina exporta energia para os sistemas Nordeste. Tucuruí fez com que uma imensa região coberta de densa floresta. Em segundo lugar. com cerca de 4. a documenta­ ção técnica que a Eletronorte conseguiu obter foi muito precária. A usina hidroelétrica Coaracy Nunes Em 1975. Tucuruí passou a fazer parte do Sistema Interligado Nacional – SIN em março de 1999. a mais significativa coleção de tecnologias para a construção de grandes barragens em am­ biente remoto.A História das Barragens no Brasil . o município veio a ser o segundo maior arrecadador do Pará – só perde para Belém – e abriga 80 mil habitantes que dispõem do primeiro hospital modelo da região. com a conclusão da Interligação Norte-Sul. A contribuição dos engenheiros da Eletronorte formou assim. mas sem expressiva identidade geográfica. entrasse incontestavelmente para o mapa do Brasil. Outro exemplo significativo dos benefícios trazidos pela usina é a própria cidade de Tucuruí. Mesmo sendo um vertedouro com o porte citado. O vertedouro (Figura 10) com capacidade para 12. apesar da importância que tem tido para a Eletronorte e para o estado do Amapá. O reservatório tem 120 km² e a operação é a fio d’água.000 m³/s. ocupando efetivamente um território que já vinha sendo invadido­ desordenadamente e acrescentando uma formidável potência de geração ao sistema elétrico nacional. Ainda hoje há certos aspectos do projeto e da construção sobre os quais não se tem informação precisa.000 m³/s escoava as águas para um braço do rio diferente da casa de força. Isso ao mesmo tempo em que construíam Tucuruí. e passou a ser servido por extensa rede de estradas e tem uma pista de pouso capaz de receber aeronaves de grande porte. Esta usina.500 MW médios mensais. um simples entreposto de pesca e castanhas. suficiente para apontar graves defeitos do vertedouro. Com os impostos locais pagos pela Eletronorte.Séculos XIX. a Eletronorte recebeu da Eletrobras a incumbência de operar a usina de Coaracy Nunes situada no rio Araguari no Amapá. esta obra não foi submetida a estudos em modelo hidráulico reduzido. Maranhão e Tocantins.

Na Eletronorte o funcionário que todos identificamos com Coaracy Nunes é o engenheiro Mário Dias Miranda que tem sido o grande entusiasta do empreendimento. desde então.Usina Hidroelétrica Coaracy Nunes . Em 2004.Vertedouro da Usina Hidroelétrica Coaracy Nunes 217 .Casa de Força Figura 12 . laboratório hidrotéc­ nico da UFPR na ocasião sob a direção dos engenheiros Nelson Pinto e Sinildo Hermes Neidert que ofereceram uma solução para o problema. A recomendação do CEHPAR foi executada e. as máquinas de 20 MW foram recapacitadas aumentan­ do sua potência para 24 MW cada uma e a terceira máquina com 30 MW foi instalada entrando em operação em 2000 e aumentando a potência instalada da usina para 78 MW (Figura 12).Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A Eletronorte contratou então o CEHPAR. não ocorreram incidentes com o vertedouro embora a vazão não tenha alcançado o valor que causara os danos iniciais. Figura 13 .

apesar de tudo. O vertedouro com capacidade para 5. a usina trouxe muitos benefícios socioambientais à região. O Consórcio havia elaborado os estudos de inventário e recomen­ dado a construção da usina de Katuema no rio Jatapu como hidro­ elétrica prioritária para suprir Manaus. a Eletronorte vem se dedicando à análise mais aprofundada dessa possibilidade tendo em vista que a região está para ser interligada ao SIN o que tornará ainda mais interessante o investimento. O projeto foi executado pelo Consórcio Monasa .840 m³/s com bacia de dissi­ pação convencional. critério básico do setor elétrico de então. essas hidroelétricas foram escolhidas para construção por serem as mais econômicas do País na época. Raul Garcia Llano com a Eletrobras. já se havia vis­ lumbrado a possibilidade de ampliação do aproveitamento por meio de uma segunda casa de força com potência instalada superior à atual. os projetistas haviam recomendado que fosse A usina hidroelétrica Balbina A decisão sobre a construção da Usina Hidroelétrica Balbina. No momento. economizando divisas. Contudo dois aspectos mereceram considerações especiais. a usina foi projetada e executada apesar da área inundada ser exagerada para a potência instalada. que se mostrou eficiente. mas a quantidade tornava muito sério o problema. eram obras sem nenhum aspecto inovador ou preocupante. Os benefícios econômicos das hidroelétricas de Balbina e de Samuel se acentuaram pela substituição do óleo importado para termoelé­ tricas. Situada no rio Uatumã. Concebida numa época em que não havia as agências reguladoras e controladoras com os poderes de hoje nem tampouco a consciência ambiental havia se desenvolvido nos níveis atuais. A solução. em uma época em que a situação da balança de pagamentos do País era um fator de entrave ao desen­ volvimento. foi a execução de uma cortina por injeção de calda de solo cimento com ruptura hidráulica do solo (cracagem). como citado no capítulo dedicado aos estudos ambien­ tais. Balbina é mais uma usina pioneira que coube à Eletronorte construir. XX e XXI Devido às características hidrológicas do rio Araguari. município de Presidente Figueiredo. para obturar esses canalículos. mas sim o presidente da província do Amazonas. Enfim. Esse proble­ ma viria a nos assombrar com mais intensidade na construção de Samuel como veremos oportunamente. quando os atuais estados eram chamados de província na época do Império. no entanto a escolha recaiu sobre Balbina que era o menor investimento e a menor distância de transmissão e de acesso. O problema não era totalmente novo para a empresa uma vez que algumas ocorrências do fenômeno haviam sido constatadas em Tucuruí.Enge Rio. quando comparadas com as alternativas de geração para atendimento da evolução das cargas locais. Ademais. assim como a casa de força e a tomada d’água. não o Presidente da República da década de 80. Balbina era uma obra comum para o estado da arte de então. 218 . foi resultado de um embate do cel.A História das Barragens no Brasil .Séculos XIX. fato não divulgado convenientemente para o público. bem como a de Samuel. Entretanto. Com capacidade instalada de 250 MW composta por 5 unidades de 50 MW. Considerando a provável área do reser­ vatório de Balbina. O primeiro por não ser totalmente conhecido de nossos técnicos: a existência abundante de canalículos com diâmetro de até 5 cm no solo de fundação que tornava a construção de barragem altamente problemática. Seria como construir uma barragem sobre um “queijo suíço”. que na época era contra as construções de hidroelétricas na Amazônia por julgar que usinas térmicas a carvão em Manaus e Porto Velho com transporte do carvão do sul pelos navios da Vale (então Vale do Rio Doce) seriam mais vantajosas. O segundo aspecto foi a área do reservatório. destinava-se a abastecer Manaus visando solucionar o caos energético ainda reinante na região no final da década de setenta.

tendo em vista o elevado custo de restituições aerofotogramétricas em função da espessa cobertura vegetal que  acarretava dificuldades logísticas ainda não enfrentadas até aquela época. Figura 14 – Usina Hidroelétrica Balbina A usina (Figuras 14 e 15) vem operando desde a inauguração sem apresentar problemas relevantes.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens feito levantamento da área a ser alagada. problema constante na época.vista de jusante 219 . O grande maestro da construção de Balbina por parte da Eletronorte foi o engenheiro Francisco Nelson Queiroga da Nóbrega. mas isto só foi feito após o início da construção por restrições financeiras. A construção se iniciou em 1º de maio de 1981. A construtora foi a Andrade Gutierrez cujo residente geral se destacou como responsável pela execução da obra a contento. Este atraso deveu-se à falta de recursos para sua realização em prazos normais. com a primeira máquina entrando em operação em fevereiro de 1989. Figura 15 .Usina Hidroelétrica Balbina – Casa de Força .

Esta solução vem funcionando satisfatoriamente. Com capacidade instalada de 220 MW. Neste caso. mas tem exigido muita atenção das equipes de instrumentação e manutenção da usina. quando entrou em operação a primeira máquina. vertedouro para 4. Figura 16 – Usina Hidroelétrica Samuel – Vista panorâmica de jusante 220 220 .820 m³/s e um reservatório de cerca de 600 km². a usina hidroelétrica Samuel foi construída no período de 31 de março de 1982 a 31 de julho de 1989 (última unidade) sob o comando do engenheiro Adailton de Souza Pinto residente da Eletronorte. cujo coordenador geral foi o engenheiro Paulo Pinho Lopes e a obra foi feita pela Construtora Norberto Odebrecht.A História das Barragens no Brasil .Séculos XIX. A usina foi projetada pela Sondo­ técnica S/A. a solução adotada foi a construção de tapetes impermeáveis a montante das obras de terra para au­ mentar a distância de percolação. em linhas gerais. Contudo o aspecto dos canalículos já constatados em Tucuruí e em Balbina mereceu considerações e esforços especiais pela sua incidência em quantidades exageradas e pela quantidade de diques que compunham o projeto. tornando a extensão do problema ainda maior que o usual. era uma obra comum para o estado da arte de então. a usina hidroelétri­ ca Samuel (Figura 16) tem como particularidade ter sido a única usina da Eletronorte a contar com o apoio popular e do governo local personificado no governador Jorge Teixeira. XX e XXI A usina hidroelétrica Samuel Situada no rio Jamari no Estado de Rondônia. Tal como Balbina.

é uma usina que além de não ter um vertedouro clássico. PA tem três unidades de 10 MW e previsão de insta­ lação de uma quarta unidade de 11 MW. não tem reser­ vatório. Esta foi uma das primeiras usinas desse porte construídas na Amazônia. composta por 5 unidades geradoras. Enfim. Como peculiaridade é uma usina construída sobre uma gran­ de queda d’água natural de cerca de 90 m de altura apro­ veitando esta queda como vertedouro. situada no rio de mesmo nome no município de Santarém. a Eletronorte foi responsável pelos estudos de inventário e viabilidade. O usina hidroelétrica Dardanelos A usina está localizada na margem esquerda do rio Aripuanã. No momento.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 17 – Usina Hidroelétrica Curuá Una – Casa de Força A usina hidroelétrica Curuá Una Adquirida em 2005 da CELPA em permuta de dívidas. a Eletronorte está em vias de executar a instalação desta quarta máquina. Atualmente. Apenas foi construída uma soleira vertente mais com o intuito de nivelar o leito natural do rio para garantir o nível normal de montante. a usina de Curuá Una (Figura 17). 221 . participa minoritariamente em sociedade com a Neoenergia e a CHESF. No AHE Dardanelos (Figura 18). quatro delas de 58 MW cada e uma de menor porte de 29 MW. no noroeste do Mato Grosso e tem capacidade instalada de 261 MW.

dos estudos de inventário do rio Xingu e das otimizações de projeto realizadas desde então que culminaram com o leilão da ANEEL realizado em 20 de abril de 2010. com unidades Bulbo na casa de força complementar. seja pela alta diversidade biológica e 222 .233 MW. outro composto do canal de adução e interligação e o último composto do reservatório intermediário e sítio Belo Monte com a usina principal. Desde os tempos em que foi diretor de engenharia da Eletronorte no final da década de 80. a Figura 19. presidente da empresa no final da déca­ da de 90 e início dos anos 2000 e finalmente como presidente da Eletrobras.Figura 18 .Usina Hidroelétrica Dardanelos A usina hidroelétrica Belo Monte O aproveitamento hidrelétrico Belo Monte será construído no rio Xingu. com dezoito unidades geradoras de potência unitária 611. Finalmente. ele não mediu esforços até levar o projeto a ser leiloado pela ANEEL com sucesso.1 MW. No empreendimento. junto com outras 18 empresas. a seguir. A potência instalada total de Belo Monte é de 11. A Eletronorte participou. a participação da empresa é minoritária.85 MW. Aspectos sócioambientais comuns aos diversos empreendimentos “Preservando a biodiversidade amazônica e a cultura brasileira” A geração de energia hidroelétrica na Amazônia é um tema que sempre estará presente nas discussões sobre meio ambiente e de­ senvolvimento sustentável. O grande mentor deste projeto cuja personalidade se identifica com o empreendimento é o engenheiro José Antônio Muniz Lopes. mostra a equipe de residentes das obras da Eletronorte. possuindo três sítios. desde 1975. com turbinas Francis na casa de força principal denominada Belo Mon­ te e 6 unidades geradoras de potência unitária 38. composto de casa de força complementar e vertedouro. no Pará. um deles denominado Pimental onde ocorrerá o barramento do rio Xingu.

todas na Amazônia Legal. e equipes técnicas com profissionais especiali­ zados nas mais diversas áreas do conhecimento ambiental. A Eletronorte é grande conhecedora da região amazônica. sendo treze de proteção integral e quatro de uso sustentável. Em to­ dos os seus projetos são realizados estudos ambientais. as águas e as tradições amazônicas. seja pelo grande potencial de geração hidráulica da Região Norte do Brasil. Dezessete unidades de conservação ambiental. a Eletronorte criou uma ampla organização interna. res­ ponsável pelos estudos ambientais. Atendendo a essas exigências. José Antônio da Silveira (Tucuruí). São áreas que aliam o desenvolvimento de pesquisas com uso racional dos recursos naturais. na maioria das vezes.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens cultural encontrada na região. a formação de reservatórios que modificam a paisagem. Fauna . foram ou são apoiadas financeiramente pela Eletronorte. Adailton de Sousa Pinto (Samuel e Tucuruí II e Humberto Rodrigues Gama (Tucuruí) 223 . a fim de aliar desenvolvimento e conservação da natureza. a Eletronorte apoia as seguintes atividades em unidades próximas a seus empreendimentos: demar­ cação das terras. centros de proteção ambiental em suas maiores usinas. desenvolvimento de técnicas racionais do uso dos recursos naturais e formação de recursos humanos.700. Luiz Fernando Rufato (Tucuruí). projetos de desenvolvimento das populações resi­ dentes. com foco na qualidade de vida dos seres humanos. As Unidades de Conservação tem o objetivo de manter a diversi­ dade biológica regional.000 hectares protegidos. inun­ Figura 19 . atividades de proteção e vigilância às áreas.Residentes da Eletronorte: da esquerda para a direita. Isso significa 4. em parceria com as mais capacitadas instituições técnicas e científicas. A legislação ambiental brasileira determina que empreendimentos de grande impacto compensem os danos causados ao meio ambiente com a implantação e apoio a unidades de conservação. Com o objetivo de conservar a fauna. e atividades de educação ambiental às populações locais. Vanderlei Ângelo de Menezes (Ávila – convênio com a CERON). Érico Bittencourt de Freitas (Tucuruí). a flora.A geração de energia hidroelétrica requer. Francisco Nelson Queiroga da Nóbrega (Balbina). Gustavo Reis Lobo de Vasconcelos (Manso enquanto era da Eletronorte).

criado a partir da construção da Usina Hidroelétrica Balbina. Uma das 1. A área da Ilha é de 129 hectares. Para isso. realizada em Tucuruí. alimentação e remessa de animais para instituições de pesquisa e preservação. Foram identificados e mapeados 2. afirma.6 ha. “Esta é uma conservação consciente. Os ani­ mais resgatados foram de suma importância para pesquisas realizadas em diversas áreas de conhecimento. As principais atividades desenvolvidas nas operações de resgate são a triagem e manejo. Os bancos de germoplasma mantidos pela Eletronorte permitirão que a região de Tucuruí e outras regiões recuperem sua vocação natural de uso sustentável de florestas nativas”. estabeleceu orientações pioneiras para resgates futuros. o monitoramento e manejo dos animais. A do Germoplasma foi uma delas. que tem o objetivo de conservar as espécies da região. com a Operação Jamari. a Eletronorte realiza o resgate dos animais. é preciso criar e conso­ lidar unidades de conservação para compensar a perda do habitat. com área total de 22. no Pará. em conjunto com outras instituições ligadas ao meio ambiente. A Eletronorte conduziu três grandes operações de resgate da fauna. O plantio foi feito numa área dividi­ da em quadras e a Ilha passou a abrigar a parte nativa (in situ) e a plantada (ex situ). Era sabido que.Muita gente não sabe que Tucuruí guar­ da boa parte do DNA da Amazônia na Ilha de Germoplasma. pré-resgate. sociais e comerciais. muitas ilhas seriam formadas. Esse procedimento faz parte do Programa de Resgate da Fauna. conhecidas como áreas de soltura. perten­ centes a 221 espécies botânicas distribuídas em cinquenta famílias. Banco de Germoplasma . como genética. a Operação Muiraquitã resgatou 26 mil animais. A primeira e a mais importante delas é dar prioridade às espécies raras ou ameaçadas de extinção. O banco de conservação in situ compreende 32 ha de floresta nativa. depois do enchi­ mento do reservatório da Hidroelétrica Tucuruí. resgatou 300 mil animais. incluindo soltura. deu início ao processo de resgate do material genético das principais espécies florestais existentes na área de inundação e de plantio em local específico. atendimento vete­ rinário. Programas indígenas . é possível conhecer cada uma das ‘árvores-mães’ que geram sementes saudáveis e que estão sendo utilizadas para reflorestamentos com objetivos ecológicos. saúde. Em Bal­ bina. A Eletronorte. Para esse fim. As novas áreas que receberão os animais. Foi um trabalho de resgate. A Operação Jamari. Atualmente.914 indivíduos adultos. com a identificação e marca­ ção de 100% das árvores com diâmetro igual ou superior a 25 cm. das áreas de soltura e da Terra Indígena Parakanã. zoologia.Séculos XIX.A História das Barragens no Brasil . XX e XXI dando áreas de florestas. Para o analista ambiental da Eletronorte. quando uma parceria entre a Eletronorte e o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia – Inpa. monitoramento e estudos científicos. A Operação Curupira. as ações dos resgates são baseadas em conservação e aproveitamento científico e cultural da fauna local. no entorno da Usina Hidroelétrica Tucuruí. espécie por espécie. manejo de filhotes. incluindo o aproveitamento científico. No banco ex situ estão representadas 28 famílias botânicas e 82 espécies. conduzir e supervisionar esses procedimentos. com a participação de outras instituições de pesquisa. as espécies de árvores mantidas nas áreas de coleta de sementes florestais da Ilha de Germoplasma. Rubens Ghilardi Ju­ nior. Os dois programas envolvem ações de educação. envolveu aproximadamente 60 instituições nacionais. com as ações de identificação das áreas. apoio à 224 . E em Samuel. e investir na capacitação de novos profissionais. que vão elaborar. e Parakanã. no Amazonas. pois por meio dos inventários florestais e o monitoramento fenológico das matrizes de sementes. Para evitar o afogamento da fauna habitante desses ecossistemas. E essa diferença começou a ser construída em 1980.600 ilhas que formam o Mosaico de Tucuruí é especial. garantem a perpetuação dos recursos da floresta em seu estado natural. foram plantadas aproximadamente 15 mil mudas distribuídas em 29 quadras. são delimitadas e o trabalho começa antes mesmo da formação do lago.A Eletronorte é responsável pelo desen­ volvimento de dois programas indígenas cujos resultados apresentados desde o final da década de 1980 são considerados referência no Brasil e no mundo. São os programas Waimiri Atroari. mais de 16 mil animais foram resgatados. fisiologia e taxonomia (identificação e classificação dos animais) e ecologia.

malária e gripe. falta de vacinação e qualquer controle so­ bre a saúde. A população era de 247 pessoas. Na saúde. das terras e da dignidade daqueles povos indígenas. A terra está demarcada. A terra não estava delimitada. vacinação de 100% da população. A terra era demarcada.77% ao ano. e controle informatizado da saúde dos índios. com registro em cartório de imóveis e serviço de patrimônio da União. Em julho de 2010 a população dos índios Parakanã era de 840 pessoas. controle da malária e de outras doenças endêmicas. com registro em cartório de imóveis e serviço de patrimônio da União. além da situação fundiária totalmente irregular. subnutrição. estoque de animais para abate (peixes e gado) e total independência alimentar. Hoje. não se realizando mais as principais manifestações de seu patrimônio cultural e em fase de desmoralização como etnia. Antes do início do Programa. as escolas eram inexistentes e a escrita desconheci­ da. em 1988. A situação dos Parakanã antes do início do Programa. falta de vacinação e qualquer controle sobre a saúde. boa nutrição. hepatite B. A terra está demarcada. a população era de 374 pessoas. nenhuma doença imunoprevenível nos últimos 15 anos. No campo da saúde o quadro era grave: epidemias de sarampo. além de uma grande parte da população em processo de alfabetização. Na cultura houve o resgate de todas as práticas culturais e de sua dignidade como povo indíge­ na. Na produ­ ção havia dependência total dos alimentos fornecidos pela Funai. era totalmente diferente. controle in­ formatizado da saúde dos índios e um programa de saúde bucal preventivo. o que resultou em total independência alimentar. As escolas não existiam e a escrita era desconhecida. A redução populacional chegava a 20 % ao ano. e ritos de passagem e morte. Na educação são doze escolas com 57. sua tecnologia. Na educação são 21 escolas com 60 professores indígenas. grandes roças têm tido produção de excedentes. além do aumento populacional. No campo da saúde. diarreias crônicas. nem demarcada e com processo de invasão em andamento. pinturas corporais. A cultura encontrava-se em processo de perda dos seus valores como festas tradicionais. controle total de doenças respiratórias. homologada.40% da população Waimiri Atroari alfabetizada e o restante em processo de alfabetização. 225 .86% da população Paraka­ nã alfabetizada na língua materna e em português. que faz limite com a Terra Indígena Parakanã. em 1986. A cultura encontrava-se em processo de perda dos seus valores. Na educação. boa nutrição. com uma taxa de crescimento de 5. A situação fundiária está totalmente regularizada. enfim sua história. controle total de doenças respiratórias. a população dos Waimiri Atroari era de 1. controle to­ tal da hepatite B. subnutrição. sem nenhum invasor. A situação fundiária está totalmente regularizada. sua medicina. Na produção observase grandes roças. casta­ nha entre outros. a situação é totalmente diferente.404 pessoas. Hoje. A língua estava sendo perdida gradativamente bem como os conhe­ cimentos dos mais velhos sobre a natureza. o quadro era de epidemias de sarampo. seus mitos.8% ao ano. sem nenhum invasor e com fiscalização sistemática dos seus limites e dos transeuntes das estradas existentes dentro das terras indígenas Waimiri Atroari. resultado de uma taxa de crescimento de 4. nenhum atendi­ mento odontológico. 63. Também na cultura houve o resgate de todas as práticas culturais. curativo e corretivo.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens produção e proteção ambiental. foi regatada a prática do extrativismo e coletas de frutos para comercialização como açaí. Na saú­ de não se observa nenhuma doença imunoprevenível nos últimos 12 anos. possibilitando o resgate das tradições. nenhum atendi­ mento odontológico. diarreias crônicas. com fiscalização sistemática dos seus limites e dos transeuntes da rodovia Transamazônica. controle de malária e de outras doenças endêmicas. cupuaçu. mas com pendências de registros e regularização. Na pro­ dução havia pequenas roças e dependência alimentar externa. Em julho de 2010. homologada. vacinação de 100% da população. malária e gripes.

Calha do vertedouro de Foz do Areia. primeiro vertedouro do Brasil com aeração da calha .

vencendo desníveis da ordem de 800 a 1000 m e com isso favorecendo a instalação de aproveitamentos hidroelétricos. em sua margem esquerda. além disso.Estado do Paraná à criação de pequenos reservatórios para o suprimento de água potável a algumas comunidades. Este rio faz a divisa do esta­ do com o Paraguai e com Mato Grosso do Sul e recebe. A maior parte de seu território pertence à bacia hidrográfica do rio Paraná. havia interesse econômico no transporte de erva-mate da região sul para as indústrias de beneficiamento instaladas em Curitiba. entre União da Vitória e Curitiba. PontaGrossa e Londrina. A leste da Serra do Mar.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens História das Barragens no Paraná Brasil Pinheiro Machado e Denise Araújo Vieira Krüger Introdução O Paraná é um estado rico em recursos hídricos. O aproveitamento dos recursos hídricos do estado foi fundamen­ talmente ligado à geração hidroelétrica. e. e em muito menor grau. entre os quais se destacam os rios Iguaçu. que se desenvolve paralelamente ao litoral Atlântico. Figura 1. A orografia que cria a barreira da Serra do Mar e faz com que os rios se afastem do litoral não favorece à navegação fluvial. dotado de um sis­ tema fluvial importante. Piquirí. com desníveis de 500 a 800 m vencidos em percursos menores de 80 quilômetros. A drenagem em relação ao rio Paraná é conformada pela Serra do Mar. A exceção é o rio Ribeira. Isto faz com que os principais cursos d’água do estado nas­ çam próximo ao litoral e se desenvolvam em direção ao inte­ rior. este último formando a divisa entre os estados do Paraná e São Paulo. no planalto. 227 . a oeste de Curitiba com altitudes entre 1200 a 1800 m acima do nível do mar. os cursos d’água apresentam elevados gradientes. Isto foi no trecho superior do rio Iguaçu. particularmente Curitiba. Ivaí e Paranapanema. que nasce a noroeste de Curitiba. com altitudes da ordem de 800 m e desenvolve em direção ao litoral entrando no estado de São Paulo através de uma região onde a Serra do Mar permite uma passagem. os principais cursos de água que formam a hi­ drografia paranaense. onde o rio flui no planalto e não se requeriam obras específicas para permitir a navegação. em­ bora tenha havido um período histórico em que esta atividade ocorreu.

o poder político sempre esteve em Curi­ tiba e as ações de governo. a história das barragens no Paraná se confunde com a história da implantação da geração de energia elétrica para o atendimento público. inicialmente desenvolvidas a partir do comércio de tropas entre o Rio Grande do Sul e São Paulo. incluindo a implantação de obras de infraestrutura. desenvolvida a partir dos anos 30-40 com base na agricultura do café atingindo seu pico econômico nos anos 50 e estreitamente vincula­ da economicamente ao estado de São Paulo. com a agricultura de ce­ reais entre os quais trigo e soja. que se desenvolveram a partir dos anos 50-60. de colonização antiga. Os primórdios da geração elétrica no Paraná Historicamente o estado do Paraná se desenvolveu em três regi­ ões economicamente distintas: (i) o leste incluindo o litoral e os planaltos que formam o primeiro e o segundo degraus em direção ao rio Paraná. (iii) a região sudoeste.Usina Termoelétrica de Curitiba .1901 228 . a partir dos anos 40. Ponta-Grossa. e colonizada com deslocamentos populacionais originados principalmente no Rio Grande do Sul. União da Vitória. centrada em Curitiba. Por estas razões.Séculos XIX. Apesar desta diversidade. onde se destacam as cidades de Foz do Iguaçu e Cascavel. e durante muitos anos. na região leste do estado. XX e XXI Com a diminuição do valor desta atividade econômica. sempre tiveram a preocupação da integração das regiões. (ii) a região norte.A História das Barragens no Brasil . a navegação neste trecho desapareceu e não prosperou de forma significativa em nenhum outro local do Estado. Em função destas peculiaridades a implantação de obras de eletrificação no Paraná ocorreu inicialmente. Curitiba. enfrentando grandes dificuldades até pelo menos o início dos anos 70. onde se destacam a cidades de Paranaguá. originadas ou Figura 2 . colonizada a partir de Londrina e incluindo cidades como Maringá e Apucarana.

Vicente Machado. localizada atrás do então Congresso Estadual. Um ano mais tarde. Ponta Grossa.Usina Hidroelétrica Serra da Prata – 1910 A primeira usina hidroelétrica do estado foi Hidroelétrica Serra da Prata. em 12 de outubro de 1892. termoelé­ trica. na região de Ponta Grossa. para abastecer a cidade de Paranaguá. União da Vitória e Campo Largo. instaladas no estado. para iluminar a cidade com “uma força iluminativa de onze mil velas”. Em 1901 foi instalada a primeira usina. a citada companhia instalou a primeira usina elétrica do Paraná. Dr. num terreno próximo à antiga estação ferrovi­ ária. Figuras 3a. Blitzkow e Schlemm tiveram papel importante nas iniciati­ vas pioneiras no final do século XIX e primeiras décadas do século XX. A maior parte destes empreen­ dedores era imigrante de origem alemã ou da Europa Central. entre elas Pa­ ranaguá. oficialmente. somente dispuseram de geração elétrica na segunda década do século vinte. e com uma conces­ são por 20 anos. com 760 kW de potência. Nomes como Hauer. entrou em operação a usina de Pitangui. os serviços de suprimento e distribuição diretamente aos consumido­ res finais. que começou a operar em 1910 com a potência de 510 kW. propriamente dita. 229 . pertenciam a empreendedores priva­ dos locais que contratavam. geralmente com as prefeituras dos municípios corres­ pondentes. Outras cidades na região. assinou o contrato com a Companhia Água e Luz do Estado de São Paulo. 3b e 3c . Baseada nesse contrato. quando o presidente da Intendência Municipal de Curitiba. Grollmann. térmi­ cas ou hidráulicas. até 3 de agosto de 1970.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens O primeiro esforço para eletrificação ocor­ reu no dia 9 de setembro de 1890. construída por técnicos ingleses. no litoral paranaense. com dois conjuntos geradores de 200 cavalos-vapor cada. A usina começou a funcionar. As primeiras usinas geradoras.

com a finalidade de “interessar a todos nossos industriais na organização de uma sociedade anonyma que tome a seu cargo a construção de uma usina hydro-eletrica e sua exploração”. Efetivamente. que também implantava a ligação ferroviária entre São Paulo e o Rio Grande do Sul. na máxima estiagem” situadas próximas a Curitiba.. Logo em seguida constituiu uma empresa com o nome de Companhia Força e Luz do Paraná (CFLP) e a ela transferiu a concessão. no rio São João. Em 1913. na Serra do Mar.. Nada resultou desta iniciativa até 50 anos depois.A História das Barragens no Brasil .Usina Hidroelétrica Pitangui – 1911 É interessante observar que no discurso político. telegrafou ao presidente daquele estado dizendo que este era um recurso paranaense. O ano de 1910 marca a entrada das grandes empresas internacio­ nais no negócio de energia elétrica no Paraná. “as quedas d’água existentes no Rio Capivary. embora as insta­ lações geradoras existentes e em estudo fossem todas privadas. a associação da geração de energia elétrica com recursos hidráulicos começa a aparecer no Paraná na segunda década do século XX. mu- nicípios de Campina Grande e Bocaiuva com capacidade de 30. quando então o rio Capivari foi aproveitado para geração de energia elétrica com um esquema muito diferente do que foi imaginado originalmente. em 1928.. pela soma de 500 contos de réis. Em 1926 o governo do estado adquiriu de particulares. Neste contrato o governo do estado requeria que a concessionária construísse “. com o nome de Empresas Elétricas Brasileiras contratou com o governo do Paraná a concessão da distribuição de energia elétrica em Curitiba. a AMFORP – American Foreign Power .uma usina para geração de energia eletrica por força hydraulica ..000 c. Em 1927. sobre o qual tinha “direito de posse”. o presidente do estado sabendo que o estado de Mato Grosso pretendia outorgar a concessão das Sete Quedas. um braço da empresa americana Electric Bond & Share Company se estabele­ ceu no Brasil e.. XX e XXI Figura 4 . no município de São José dos Pinhais.v. Neste ano a con­ cessão do suprimento elétrico da cidade de Curitiba foi adquirida do empresário local José Hauer pela empresa anglo-francesa South Brazilian Railways Company Ltd.Séculos XIX. iniciada em 1929 230 .” no prazo máximo de 3 anos. no Rio Paraná para exploração energética (hoje inundadas pelo reservató­ rio de Itaipu). disto resultou a constru­ ção da usina hidroelétrica de Chaminé.

Mr. Howell Lewis Fry.” O trabalho de construção durou três anos e. e “em 1930 havia três escalas de prioridades para serviços urgentes: para a primeira. responsável por todo serviço de campo. Seu reservatório tem um volu­ me útil de 500 mil m³. com 12 m de altura e 92 m de extensão. foi construído um trole. O vertedouro fica no trecho central da barragem e é equipado por flash-boards perfazendo 34 m de vão. segundo ele: “Em 1929 nós tivemos que colocar cascalho na avenida principal de São José dos Pinhais para poder passar com os equipamentos que seriam usados na construção da usina de Chaminé”. A barragem de Salto do Meio é do tipo concreto gravidade. para a segunda a bicicleta e para a terceira. vagonete sobre trilhos. usava-se o cavalo. por uma exuberante reserva da Mata Atlântica. 12 km a montante. O trole acabou se tornando a principal característica de Chaminé por proporcionar uma viagem de 720 m.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figuras 5a e 5b .Mr. ligando os escri­ tórios à casa de força. formados pelas barragens de Salto do Meio e Voçoroca.. Em 1928 começou a trabalhar nas Empresas Elétricas Brasileiras. a usina gera 18 MW através de quatro unidades Pelton. Aproveitando um desnível de mais de trezentos metros. Howell Lewis Fry – Visita a Chaminé em outubro de 1978 motores eram operados a vapor na época da obra e foram automatizados em 1999. Fry era o engenheiro residente e assistente do superinten­ dente geral. preparando acampamento (1928) e na inauguração da usina de Guaricana (1957) e concluída em 1931. A usina hidroelétrica Chaminé é atualmente alimentada por dois reservatórios no rio São João. ven­ cendo declives de até 55 graus. que resultaram na usina de Chaminé. quando esta realiza­ va estudos no rio São João. suficiente apenas para regularização diária. nascido nos Estados Unidos. como o aces­ so era difícil para transportar pessoal. ia-se a pé. Operando desde 1929.Mr. Mr. desde os 22 anos trabalhou e se dedicou ao Brasil. máquinas e peças. de aprova­ ção das fundações da barragem e da casa de força e. ao centro. Esses Figura 6 . 231 . com capacidade máxima de descarga de 360 m³/s.. o trole é acionado por motores que liberam e recolhem cabos de aço. Howell Lewis Fry.

com 21 m de altura e 152 m de comprimento tendo em seu trecho cen­ tral. Daí surgiu o nome Guaricana. A CFLP continuou com a concessão e o suprimento de energia elé­ trica à região de Curitiba até a década de 70 quando foi absorvida pelo governo do estado através da COPEL. três vãos vertedores com comportas radiais de 5. com 36 MW instalados também na Serra do Mar. também sob a responsabilidade de Mr. gerando os 36 MW com quatro turbinas Pelton. Este estudo foi contratado com a firma americana de consultoria EBASCO International Corporation e nas suas conclusões há a iden­ tificação das possibilidades técnicas de implantação de projetos de grande porte no rio Iguaçu.5 x 6.” O vertedouro. Fry. que embora distantes da região de Curitiba. Esta usina comissionada em 1957 utiliza as águas do rio Arraial. mencionada anteriormente. com 29. Fry. além da usina de Chaminé.4 m para uma capacidade máxima de descarga 495 m3/s. A usina aproveita uma queda superior a trezentos metros. onde hoje se situam as usinas 232 . “na região destas usinas havia uma palmeirinha que os colonos usavam para fazer paredes e coberturas de casas e se chamava Guaricanga. possui três vãos de 12. Em 1954 contratou um levanta­ mento de possíveis locais nos rios Iguaçu e Tibagi. po­ deriam no futuro vir a ser alimentadores do seu sistema.5 m de altura e 95 m de extensão. Além destas duas usinas hidráulicas. é de concreto a gravidade.Séculos XIX.3 m de largura e flash boards de 2 m de altura. XX e XXI Figura 7a . onde era concessionária. a usina hidroelétrica de Guaricana. Durante os 45 anos em que foi responsável por este mercado. a CFPL construiu. tam­ bém projetada e construída por Mr. cujo reservatório é criado por uma barragem de concreto a gravidade. a 75 km de Curitiba.Trole para acesso à casa de força – Usina hidroelétrica Chaminé Figura 7 b – Barragem de Salto do Meio A barragem de Voçoroca foi iniciada somente em 1947. na parte central. a CFLP desenvolveu outros estudos visando identificar locais promissores para a instalação de reservatórios e usinas geradoras. Conforme explicado por ele.A História das Barragens no Brasil .

As conclusões deste relatório não ge­ raram nenhuma ação específica e a CFLP continuou operando unicamente as hidroelétricas da Serra do Mar e instalações térmicas a Diesel em Curitiba até desa­ parecer como empresa concessionária. nos anos 70. com a criação do Serviço de 233 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 8a – Usina hidroelétrica Chaminé – Casa de força Figura 8b .Interior da casa de força com os grupos geradores de Segredo (chamada na ocasião de Encantillado) e Salto Santiago. O desenvolvimento dos recursos hídricos do estado para fins energéticos passou a ser explicitamente considerado como preocupação política governa­ mental nos anos 40.

O primeiro Plano Hidroelétrico do Estado foi elaborado em 1948. com recursos orçamentários do DAEE. transformado em 1948 no Departa­ mento de Águas e Energia Elétrica (DAEE) com a atribuição de cuidar. previa a cons­ trução das centrais de maior porte. XX e XXI Energia Elétrica do estado. bem como pelo início das usinas de Chopim I em Pato Branco e Mourão I em Campo Mourão que foram posteriormente concluídas pela COPEL. Capivara e Mourão. Lon­ drina. Ponta Grossa. previa a construção de pequenas hidroelétricas (Cavernoso. na região de Antonina. este departamento governamental encampou incipientes serviços em municípios que não eram atendidos por empresas privadas organizadas como os das regiões de Curitiba. a curto prazo. dependente de financiamentos especiais.A História das Barragens no Brasil . e do oeste com centros gera­ dores isolados. este plano transformou-se em outro. os dois interligados em Teixeira Soares.Séculos XIX. Tibagi (36 MW). Posteriormente. Carvalhópolis (27 MW) e a termo­ elétrica de Figueira (20 MW). com previsão dos sistemas elétricos do sul apoiados nas usinas de Capivari-Cachoeira e Salto Grande do Iguaçu. em 1952. no litoral do estado. desativada para a formação do lago de Itaipu. tais como Capivari-Cachoeira (105 MW). do suprimento de energia elétrica e do desenvolvimento de projetos hidroelétricos. O Departamento foi responsá­ vel pela construção das usinas hidroelétricas de Ocoí em Foz do Iguaçu. Caiacanga e Laranjinha) e a segunda. Nos municípios em que atuou instalou geradores Diesel e realizou um único projeto hidráulico. União da Vitória e cidades do chamado norte-velho. em nível estadual. Figura 9 – Usina hidroelétrica Presidente Vargas – Rio Tibagi – Grupo Klabin de Papel e Celulose (1947) 234 . do norte pelas usinas de Salto Grande do Paranapanema. a ser cumprido em duas etapas: a primeira. a mini-usina de Cotia. Caverno­ so no rio Laranjeiras e Melissa em Cascavel. Na realidade.

através do decreto n°14. Esta empresa seria uma instituição mais flexível que os órgãos governamentais tradicionais e poderia.” e teve como seu presidente nomeado The­ místocles Linhares. A primeira diretoria da COPEL incluiu como diretor técnico.917 de 26 de outubro. Nesta primeira diretoria da COPEL foi de sua res­ ponsabilidade a formulação técnica racional de uma evolução objetiva e realista da oferta de energia elétrica no estado que. do então gover­ nador Bento Munhoz da Rocha Neto. era extremamente precária. cate­ drático da cadeira de hidráulica na Escola de Engenharia da Uni­ versidade do Paraná (atualmente Universidade Federal do Paraná).Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 10 – Usina hidroelétrica de Ocoí A era da COPEL Em 1954. construir e explorar sistemas de produção. distribuição e comércio de energia elétrica e serviços correlatos. mudanças no governo do estado afastaram a diretoria inicial da empresa em menos de um ano após sua instalação. uma empresa de econo­ mia mista que teria a atribuição de implementar o suprimento de energia elétrica do estado. o governo do es­ tado criou a Companhia Paranaense de Energia Elétrica . como indicado anteriormente. o professor Pedro Viriato Parigot de Souza. in­ clusive. habilitar-se de maneira mais eficaz aos financiamentos requeridos para a realização de obras de geração e transmissão.COPEL. O professor Parigot tinha já. A nova sociedade se destinava a “planejar. transmissão e transformação. seguindo o exemplo de Minas Gerais. uma reputação técnica ligada a questões energéticas por ter participado da discussão de planos governamentais envolvendo usinas hidroelétricas na Serra do Mar. En­ tretanto. 235 . na época.

era antiga. vencen­ do o degrau de mais ou menos 800 m da Serra do Mar. Outras soluções propostas consideravam várias usinas menores em sequência. Figura 11 . que consiste na derivação do rio Capivari que se desenvolve no planalto. Nel­ son Luiz de Sousa Pinto. no litoral.Mapa de 1915 com os primeiros estudos para o aproveitamento do Rio Capivari 236 . e consiste em uma barragem no rio Capivari e desvio para o rio Cachoeira. a derivação para o litoral vencendo desnível importante foi nesta ocasião revista e estudada detalhadamente. para o rio Cachoeira. atualmente denominado usina hidroelétrica Governador Parigot de Souza. francesa. Para isto três empresas internacionais. na curta gestão de sua participação inicial na em­ presa. Isto fez com que a COPEL pudesse atrair um con­ junto de engenheiros que teve uma atuação decisiva na evolução bem sucedida da empresa especialmente nos anos 60. que tinham sido admitidos na empresa entre 1955-60 e neste período desenvolveram estudos importantes que deram origem às obras executadas no período seguinte. o professor Parigot implantou uma filosofia de seriedade e respeito técnico. quando novamente este voltou à empresa. Fizeram parte deste grupo os engenheiros Hiran Lamas. Entre estas obras destaca-se o aproveitamento hidroelétrico CapivariCachoeira. instalada com quatro grupos Pelton somando 260 MW de potência. subterrânea. de países diferentes. como mencionado anteriormente.Séculos XIX. através de sistema de túneis de grande extensão e casa de força única. Maurício Schulman. no litoral. agora como presidente e go­ zando da inteira confiança do governador. A idéia do aproveitamento do rio Capivari. entre outros. Péricles Tourinho e Clodoveu Holz­ mann. XX e XXI Não obstante.A História das Barragens no Brasil . instaladas ao longo da encosta da serra. Entretanto. que corre relativamente próximo a Curitiba. foram chamadas e encarregadas de propor soluções técnicas para o aproveitamento. A solução que prevaleceu foi proposta pela SOGREAH.

prescindindo da contratação de uma empresa de projeto. Dispõe também de um descarregador de fundo. que foi utilizado para o desvio e suple­ menta a capacidade do vertedouro em 250 m3/s. Maurice Bouvard foi contratado como consultor ge­ ral do projeto. controla­ do por duas comportas de segmento. Logo a jusante desta cidade o rio entra na região dos basaltos e aí ocorre o primeiro salto abrupto dos vários que o rio apresenta ao longo de percurso. conquistando dois recordes para a época: maior avanço médio em escavação subterrânea em obras do gênero e maior volume de concretagem mensal no interior dos túneis. no início dos anos 60. na divisa com Santa Catarina. Foi decidido desenvolver o projeto detalhado com esforço próprio.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 12 – Usina hidroelétrica Capivari . Neste local.Cachoeira – Perfil esquemático Para a construção do aproveitamento a COPEL criou. Apesar da relevância de Capivari-Cachoeira. não só foi muito bem sucedida como também foi importante na for­ mação e desenvolvimento de quadros técnicos locais treinados em empreendimentos de dimensões e de grande complexidade. que nunca haviam sido feitos no estado. A chamada Usina Piloto do Salto Grande do Iguaçu foi também nesta época projetada e construída. naquela época. Tem 60 m de altura. Milton Vargas como consultor para a barragem de terra no rio Capivari e o incipiente laboratório de hidráulica da Universidade do Paraná. a decisão de executar o projeto e a supervisão da construção com equipe pró­ pria. Apesar de inusitada e mesmo arriscada. não foi este o único empreendimento desenvolvido pela COPEL no início dos anos 60. Imaginou-se então 237 . uma subsidiária específica a ELETROCAP e outorgou a Hiran Lamas e Nelson de Sousa Pinto a responsabilidade de sua implementação. Juntamente com as demais obras do aproveitamento a barragem começou a operar em outubro de 1970 e ao longo deste período demonstrou um desempenho excelente sem nenhum incidente. assistido por consultores pessoas físicas e não empresas. Este é o chamado Salto Grande do Iguaçu. é de terra homogênea e dispõe de vertedouro de superfície em canal. CEPHH (mais tarde CEHPAR e hoje Lactec) recebeu a incumbência de realizar os estudos hidráulicos em mode­ lo reduzido. para uma vazão de projeto de 750 m3/s. se estudou um aproveitamento de porte médio que foi considerado muito grande para atender a demanda existente. contro­ lado por comportas vagão. Na construção desta usina a Copel se projetou no panorama da energia brasileira. O rio Iguaçu nasce na região urbana de Curitiba e se desenvolve em uma região do planalto com baixas declividades até as imediações da cidade de União da Vitó­ ria. A barragem do Capivari pode ser considerada como a primeira bar­ ragem de porte realizada no Paraná.

O conceito do projeto previa um canal de adução de pare­ des curvas na margem esquerda. O estudo final viabilizava o empreendimento (supondo a existência de demanda) com três barragens no alto Iguaçu associadas a estações elevatórias.8 MW cada um. Por isso foi chamada de “usina piloto”.Séculos XIX.000 MW instalados e restituição através de túneis de fuga descarregando próximo a Garuva.A História das Barragens no Brasil . Este empreendimento. O fluxo principal do rio não era afetado e continuava livre so­ bre o salto. Para isto foi contratada a IECO – International Engineering Company. não existia demanda para tal potência. na divisa entre o Paraná e Santa Catarina. XX e XXI Figura 13 – Usina hidroelétrica Capivari Cachoeira – fotos da casa de força uma usina menor que serviria como passo inicial para um apro­ veitamento futuro de maiores dimensões. O empreendimento não prosperou porque. alimentando uma barragem-tomada d’água em arco com 4 grupos geradores de 3. 15 anos mais tarde. mas agora revertendo uma vazão muitas vezes maior. que tinha contratos em andamento com Furnas e grande repu­ tação técnica. num esquema semelhante ao projeto CapivariCachoeira. Houve tentativas 238 . O projeto foi contratado com o engenhei­ ro Cardellini. foi inundado pelo reservatório de Foz do Areia. São Paulo. Outra iniciativa importante nesta época foi a contratação de um estudo para verificar a viabilidade técnica e econômica da reversão do alto rio Iguaçu para o litoral. entre outras razões. de formação italiana e radicado em São Carlos. túneis de adução e casa de força subterrânea com aproximadamente 4. foi construído a partir de 1962 e entrou em operação em setembro de 1967. O projeto de características hidráulicas e constru­ tivas complicadas foi estudado no laboratório de hidráulica do CEHPAR. dos Estados Unidos.

Entretanto. com base na qual foi possível o suprimento de energia elétrica à região de Londrina e Maringá a partir da usina de Salto Grande do Paranapanema.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 14 – Barragem de Capivari-Cachoeira modestas de acordo com o estado de São Paulo para o desenvolvi­ mento em parceria. Figura 15 . no rio Paraná (Jupiá e Ilha Solteira) que. não podiam politicamente ser trocados por projeto em outro estado. mas que também não progrediram porque este estado estava iniciando na ocasião os grandes projetos do Complexo Urubupungá. embora mais distantes da capital do estado e mais caros que a alternativa do Iguaçu. através da participação da COPEL na USELPA – Usinas Elétricas do Paranapanema. houve uma parceria importante para ocasião. do governo paulista.Vista da casa de força da usina de Salto Grande do Iguaçu – 15. entre os estados de São Paulo e do Paraná.200 kW 239 .

A História das Barragens no Brasil .Usina hidroelétrica de Foz do Chopim . O estudo desenvolvido entre 1967 e 1969 identificou as principais obras no curso principal e afluentes dos rios Iguaçu. no oeste do Estado. XX e XXI Na segunda metade dos anos 60 a COPEL desenvolveu o projeto e construiu a usina hidroelétrica de Foz do Chopim. Da esquerda para direita: professor Parigot de Souza. O objetivo do Comitê Sul era o levantamento das principais bacias hidrográficas dos três estados sulinos (menos os rios que já tinham sido considerados no estudo do sudeste: Tibagi e Ribeira do Iguape e dos trechos que formam fronteira internacional) com o propósito de identificar e avaliar os locais potencialmente ade­ quados. a vazão do rio Chopim é encaminhada por meio de canal aberto e conduto forçado a uma casa de força equipada com dois grupos de 22 MW cada. com 44 MW. para desenvolvimento hidro­ elétrico. de São Paulo. general José Costa Cavalcanti e governador Paulo Pimentel do Sul. Este empreendimento foi projetado pela SERETE Engenharia. Com uma pequena barragem-tomada d’água na última curva. chamada pos­ teriormente de Júlio de Mesquita Filho. Piquiri 240 . além de alguns designados pelas empresas de Santa Catarina e do Rio Grande Figuras 17a e 17b . e foi formado por engenheiros canadenses e americanos que haviam atuado no Sudeste e por profissionais locais designados pela COPEL. situada na margem esquerda do rio Iguaçu. atingindo este rio após desenvolvimento em várias curvas (falsos meandros) ocasionadas pela orografia da região basáltica. O rio Chopim é um afluente pela margem esquerda do rio Iguaçu. O Comitê Sul era a continuação dos estudos executados na região Sudeste pela CANAMBRA.Séculos XIX. que mais tarde viria a ser presidente da empresa e responsável pelas obras subsequentes no rio Iguaçu até o final dos anos 70. Pela COPEL o responsável foi o engenheiro Arturo Andre­ oli.casa de força e barragem Figura 16 . Um fato extremamente relevante ocorrido na segunda metade dos anos 60. técnica e economicamente. foi a constituição do Comitê de Estudos Energéticos da Região Sul – Comitê Sul. sediado em Curitiba e organizado sob a gestão da COPEL.Inauguração de Salto Grande do Iguaçu em 29 de setembro de 1967.

O gerente do projeto do consórcio projetista foi o engenheiro Warren Schumann que teve um papel fundamental no desenvolvimento da maioria das obras do rio Iguaçu.420 MW). houve a sugestão da junta de consultores para adoção de uma barragem de enrocamento com face de concreto. a COPEL decidiu pleitear e cons­ truir a usina hidroelétrica de Salto Osório. Depois de Capivari-Cachoeira. situada imediatamente a montante de Salto Osório com a possibilidade de iniciar serviços de campo a partir da base estabelecida em Salto Osório. que re­ tomou alguns estudos preliminares já executados para a ELETRO­ SUL em anos anteriores. foi estabelecida pela COPEL uma junta de consultores independentes. Canoas e Uruguai. no Paraná. e Rio Grande do Sul. O projeto de engenharia de Salto Osório foi contratado com o consórcio SERETE (que já atuava em Foz do Chopim) e Kaiser Engineers Corp. Ela obteve sucesso em seu pleito pela concessão do aproveitamento e contratou os estudos de engenharia de projeto com a Milder-Kaiser Engenharia S. em 1974. pela SERETE. Esta junta era formada pelos engenheiros J. No final dos anos setenta. A decisão e a implementação com su­ cesso das gestões voltadas para a realização da obra são devidas ao engenheiro Arturo Andreoli.. A solução técnica do projeto inclui uma barragem de enrocamen­ to com núcleo inclinado de argila. a ELETROSUL e a COPEL se mobilizaram politicamente para realizar outras obras no rio Iguaçu tomando sempre por base a previsão de obras formulada pelo Comitê-Sul – CANAMBRA.050 MW) foi a grande realização da COPEL no início dos anos 70 e o ponto de partida para os sucessos seguintes. Um outro aspecto relevante no desenvolvimento deste projeto foi o fato de que. A ELETROSUL fixou seu objetivo na usina de Salto Santiago (1. Thomas Leps e Victor F. que também teriam um papel muito importante nas obras subsequentes. Nas discussões para a formulação do arranjo e do tipo de barragem.Usina hidroelétrica de Salto Osório Antes do final de Salto Osório. dos Estados Unidos.A. fez com que a concessão fosse transferida para a ELETRO­ SUL. Ibirapuitã e Camaquã. Pela primeira vez no Paraná. a recente criação. pois iniciava o desenvolvimento do rio com uma obra situada longe das cabeceiras. na época.000 m3/s. com base no resultado dos estudos do Comitê Sul – CANAMBRA. A COPEL. que poderia parecer injustificada. naquela 241 . entretanto. conseguiu ser designada a “gestora” do empreendimento e seguiu assim até o final da obra. a COPEL não aceitou a sugestão. James Libby. quase todos os potenciais identificados estão hoje aproveitados. em Santa Catarina. e dois vertedouros com capacidade con­ junta de descarga de 27. no Rio Grande do Sul. mas como não havia antecedentes deste tipo de obra no Brasil. de Mello. apesar da COPEL ter tido a iniciativa do empreen­ dimento. Esta decisão. A ELETROSUL. de uma empresa federal que teria a exclusividade na geração de obras de propósito supra-esta­ dual. então diretor técnico da empre­ sa. Apesar de ter havido revisões nos resultados dos estudos. Jacuí. foi tomada por razões prá­ ticas uma vez que no local estava sendo finalizada a construção de Foz do Chopim e existia uma estrutura de apoio para o início de um novo empreendimento. Figura 18 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens e Ivaí. com 56 m de altura máxima e 750 m de comprimento. Barry Cooke. B. Salto Osório (1. em 1974.

A MilderKaiser que tinha sido organizada em São Paulo por Isaac Milder. com a primeira unidade entrando em operação no final de 1980. Thelmo Thompson Flores. montou uma estrutura técnica no Rio de Janei­ ro e designou para a gerência do Projeto Salto Santiago o engenheiro Jaime Leivas Piuma que foi o principal responsável pela engenha­ ria desta obra. James Libby. Arturo Andreoli) época. e uma barragem de terra homogênea fechando um ponto baixo no reservatório. A usina hidroelétrica de Salto Santiago. B. era dirigida pelo engenheiro Mario Lannes e seu diretor técnico era o engenheiro Fernando Correa de Azevedo. A COPEL centrou sua atenção nas obras previstas no trecho ini­ cial do rio Iguaçu. Victor F. Piuma.A História das Barragens no Brasil . com 80 m de altura. oriundo da SERETE. O projeto incluiu uma barragem principal de enrocamento com núcleo de argila.Séculos XIX. Engenheiros e consultores (a partir da esquerda: Brasil P. XX e XXI Figura 19 . Machado. projetada para uma insta­ lação de 2. Salto 242 .000 MW. Barry Cooke. Kamal Kamel.Obra e fechamento do desvio do rio da usina hidroelétrica de Salto Santiago. foi construída pela Camargo Correa estrita­ mente no cronograma estabelecido inicialmente. Jaime L. seguindo a prática de Salto Osório contratou o mesmo grupo de consultores especiais daquela obra: J. Lança a montante de União da Vitória. A ELETROSUL. de Mello e Thomas Leps.

Os estudos realizados pela Milder-Kaiser mostraram que Lança. além de criar um reservatório regulador semelhante ao previsto para Lança. inundasse o Salto Grande do Iguaçu estabelecendo o nível máximo em cota compatível com a cidade de União da Vitória. com uma barragem muito mais alta. mas resultava economica­ mente menos atraente que uma variante de Foz do Areia que. que tinha experiência 243 . de Warren Schu­ mann. como gerente do projeto. que não só seria a primeira do tipo no país. já dis­ punha de um quadro técnico de primeiro nível e a COPEL trouxe da Colômbia o engenheiro Bayardo Materón. agora formada por J. uma barragem baixa criando um reservató­ rio de área muito extensa tinha méritos. O engenheiro Arturo Andreoli. A COPEL contratou. tinha menor área e criava uma queda aproveitável para geração de energia. A influência de Barry Cooke fez com que se decidisse por uma barragem de enrocamento com face de concreto.Usina hidroelétrica Salto Santiago Grande do Iguaçu e Foz do Areia a jusante desta cidade. Definidas as características energéticas e orográficas de Foz do Areia a seleção do tipo de barragem que teria 160 m de altura demandou longas discussões técnicas. Em 1973 contratou os serviços de engenharia da Milder-Kaiser e assegurou a participação técnica.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 20 . A projetista. Isto tudo fez com que o grupo técnico envolvido na concepção e desenvolvimento da obra fosse formado e mantido com pessoal de alta qualificação. Milder-Kaiser. da Kaiser Engineers. teve o gran­ de mérito de assegurar o projeto para o Paraná e de convencer a ELETROBRAS a criar uma exceção à regra que determinava que só empresas federais poderiam construir obras de geração que ultra­ passassem a demanda do estado onde se situam. Barry Cooke. prevaleceu pois. de Mello e Nelson Luiz de Sousa Pinto. presidente da COPEL na época. Victor F. mas seria na época a mais alta do mundo neste tipo. como fizera em Salto Osório. B. uma junta de consultores especiais. chamada na época Foz do Areia Alto. Esta alternativa.

com 1. para o acompanhamento e controle dos ma­ teriais de enrocamento e questões ge­ ológicas associadas. estrita­ mente de acordo com o cronograma formulado 5 anos antes. em janeiro de 1975. e designou o experiente en­ genheiro Pedro Marques Filho. pensões e outros ramos comerciais. Faxinal do Céu. a Copel ini­ ciou a implantação das obras de infraestrutura que incluíam uma verdadeira cidade.Séculos XIX. XX e XXI Figuras 21a e 21b – Obras da usina hidroelétrica Foz do Areia neste tipo de obra nas realizações na­ quele país. Para que a obra começasse a deslan­ char. com o interesse da população ribeirinha por Foz do Areia.500 MW teve sua primeira unidade entrando em operação em outubro de 1980.Usina hidroelétrica Foz do Areia 244 . para o restante das obras civis foi outorgado à CBPO hoje uma empresa do Grupo Odebre­ cht. em busca de um novo “Eldorado” iniciou-se a formação de um pequeno povoado próximo ao canteiro da usina. cerca de 12 km da obra. A construção da obra foi dividida em dois contratos: o primeiro para os túneis de desvio e préensecadeiras foi realizado pela Andrade Gutierrez. a pequena vila em formação recebeu o nome de Nova Divinéia e seus principais personagens inspiraram nomes de bares. projetada para 2. Com a influência da novela da época (1973). Um pouco antes da implantação da planejada Faxinal. o segundo.600 residências e to­ dos os serviços urbanos necessários. A usina. tais como Barbearia Sandra Bréa e Bar Pedro Azulão. “Fogo sobre Terra”.A História das Barragens no Brasil . Figura 22 .

naquele tempo. A usina de Segredo.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Desta forma. Durante a visita do então presidente da re­ pública João Figueiredo à obra de Foz do Areia. hoje denominada usina hidroelétrica Go­ vernador Bento Munhoz da Rocha Netto. Se­ gredo seria uma obra da ELETROSUL que efetivamente realizou estudos incluindo al­ ternativas com barragens de concreto em abóbada propostas pela Enge-Rio.100 MW e foram iniciadas as ativida­ des de projeto. Neste conceito. governador Ney Braga assinando. a jusante de Foz do Areia tinha sido planejada para ser cons­ truída contemporaneamente com Salto Santiago. foi confir­ mada a concessão da usina de Segredo para a COPEL. na MDK. a obra de Segredo foi postergada. Da esquerda para direita Lindolfo Zimmer (diretor de engenharia e construções da COPEL). no princípio da década de oitenta as grandes barragens do Paraná vinculadas à COPEL e ELETROSUL eram Capivari. governador Ney Braga e o presidente João Figueiredo discursando as empresas MDK (sucessora da Milder-Kaiser agora parte do grupo CNEC) e CENCO. Brasil Pinheiro Machado (diretor técnico da Milder Kaiser). Douglas Souza Luz (presidente da COPEL). na qual foi confirmada a concessão da usina hidroelétrica Segredo. que por isso tinha tido a cota má­ xima do seu reservatório aumentada em 15 m de modo que numa operação conjunta houvesse ganho de volume em Santiago e de queda em Segredo. De 1982 a 1987 o projeto foi desenvolvido sob a gerência do engenheiro Kamal Kamel. O projeto incluiu uma barragem de enrocamento com face de concreto com 145 m de altura formulada com os mesmos conceitos de Foz do Areia. Entretan­ to. A partir da esquerda Douglas Souza Luz. Segredo e desta obra so­ mente conseguiu executar os túneis de desvio e escavações preliminares para a barragem. Fernando Luiz Correa de Azevedo (presidente Milder Kaiser) e Willian Simonsen (diretor comercial da Milder-Kaiser) 245 . A década de oitenta foi marcada pela crise da dívida externa brasileira que fez com que as fontes de financiamento do governo secas­ sem e poucas obras pudessem ser realizadas. Em 1985 foi contratada Figura 24 – Assinatura do contrato do projeto da usina hidroelétrica Segredo em 19 de março de 1980. Manteve a mesma junta de consultores especiais de Foz do Areia. por problemas econômico-financeiros. Salto Osório. Para isso foram contratadas Figura 23 – Visita às obras de Foz do Areia em 31 de agosto de 1979. Salto Santiago e Foz do Areia. No Paraná a COPEL fez várias tentativas de viabilizar financiamentos para a próxima usina do rio Iguaçu. com potência prevista à época de 2. em 31 de agosto de 1979.

o eixo da usina de Segredo foi modificado para montante da foz do rio Jordão. considerou-se para efeito de motorização a derivação das águas do rio Jordão através de conjunto barra­ gem. CESBE e SINODA. O conjun­ to de obras de derivação do rio Jordão contempla ainda uma pequena central hidroelétrica para aproveitamento da vazão mínima de 10 m3/s necessária à pereni­ zação do trecho a jusante do rio Jordão. Durante a implantação da hidroelétrica de Segredo. Desde o inventário. por questões ambientais.Séculos XIX. XX e XXI Figuras 25a e 25b – Obras da usina hidroelétrica Segredo a construção das obras do desvio com a Construtora CR Almeida S. vertedouro e túnel de interligação entre os dois reservatórios. A obra foi concluída em 1992 e a geração inicial ocorreu em julho daquele ano sendo hoje denominada Usina Hidroelétrica Governador Ney Braga. permi­ Figura 26 .A História das Barragens no Brasil . Com a definição da implantação da usina de Salto Santiago em cota mais alta que a originalmente prevista. Estas obras duraram aproximadamente um ano e a continuação não pode ser realizada por problemas políticos e econômico-financeiros. Em 1988 foi possível a retomada da obra que foi contratada com um consórcio de empresas do Paraná: DM Construtora de Obras.Usina hidroelétrica Segredo 246 . A obra foi iniciada em maio de 1994 e concluída em outubro de 1996.A. que é um tributário importante do rio Iguaçu. a motorização e energia da usina hidroelétrica Segredo consideraram as águas do rio Jordão.

e o projeto executivo foi feito internamente pela COPEL .800 m e diâmetro de 9 m. Barragem e túnel de derivação tindo a geração na usina hidroelétrica Segredo com as águas derivadas do rio Jordão.5 m.5 MW e queda líquida de 71. com uma potência instalada de 6. considerando o arranjo utilizando barragem de concreto compacta­ do com rolo. A proposta vencedora foi apresentada pelo consórcio formado pela empresa paranaense Ivaí Construtora de Obras e pela italiana Del Favero S. A PCH entrou em operação em 2 de dezembro de 1997 comple­ tando o complexo energético SegredoJordão. um com solução da barragem em enrocamento com face de con­ creto e o outro arranjo em barragem de concreto compactado com rolo. O arranjo selecionado tem o vertedouro em soleira livre incorporado à barragem. A licitação para contratação das obras permitiu a escolha pelo empreiteiro entre dois projetos.000 m3 de concreto convencional. utilizando 570. concessionária dos dois apro­ veitamentos do complexo.p. O túnel da derivação tem extensão de 4.Companhia Paranaense de Energia.A. Figura 28 – Derivação do rio Jordão 247 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figuras 27a e 27b – Derivação do rio Jordão durante a construção. que possui altura máxima de 95 m. O projeto básico foi executado pela MDK Engenharia de Projetos.000 m3 de concreto compactado com rolo e 80.

e a primeira que demonstrou a competitividade deste tipo de solução. Estudos realizados ao longo da década de oitenta pela COPEL indicaram a conveniência de aumentar o nível de represamento. em 1992. Barry Cooke. no processo de definições da barragem de CCR. porém com nível de represamento mais baixo. também. à contratação do consórcio projetista liderado pela INTERTECHNE e formado adicionalmente por ENGEVIX. Paulo José Melaragno Monteiro e Brian Forbes. da INTERTECHNE.000. Na época de sua construção foi um passo muito significativo em termos de volume da barragem com cerca de 1. Uma característica significativa é o vertedouro controlado por comportas com vazão de projeto de 50. Thomas M. A última barragem realizada no curso do rio Iguaçu foi a usi­ na hidroelétrica de Salto Caxias.083 m de comprimento. tendo como consultor de mate­ riais para a barragem o engenheiro Francisco Rodrigues Andriolo. 248 . LEME e ESTEIO. que havia ven­ cido a licitação promovida pela COPEL. Esta foi a primeira barragem de porte expressivo de CCR no Brasil.A História das Barragens no Brasil . Esta foi a solução adotada e que deu origem. permitindo a construção de uma outra obra – Cruzeiro – a jusante de Salto Osório e a mon­ tante de Foz do Chopim. Esta obra estava prevista na divisão de quedas proposta pelo Comitê-Sul – CANAMBRA.000 m3/s. os consultores Walton Pacelli de Andrade. atualmente usina hidroelétrica Governador José Richa. Leps e Paolo Cassano.000 de m³ e em capacidade do vertedouro incorporado. Este consórcio realizou os estudos de engenharia e meio-ambiente incluindo projeto básico e executivo civil e eletromecânico. mencionada anteriormente. XX e XXI Figura 29 – Engenheiros da COPEL e consultores durante reunião da junta de consultores da derivação do rio Jordão O projeto executivo foi gerido e coordenado pelo engenheiro José Marques Filho da COPEL. A junta de consultores foi composta pelo renomado engenheiro paranaense Nelson Luiz de Sousa Pinto e os con­ sultores internacionais J. A usina entrou em operação em 1998 seguindo estritamente o cronograma de obras pré-determinado. O gerente do projeto foi o engenheiro Kamal Kamel. Colaboraram.Séculos XIX. A construção foi contratada com a DM Constru­ tora de Obras que já havia atuado no Projeto Segredo. A barragem selecionada foi de concreto compactado a rolo (CCR) com 67 m de altura e 1. levando o re­ manso até Salto Osório e inundando Foz do Chopim.

Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figuras 30a e 30b – Obras da usina hidroelétrica Salto Caxias Figura 31 .Usina hidroelétrica Salto Caxias 249 .

250 .

Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Companhia Energética de Minas Gerais – CEMIG “Trata-se (a Cemig) da mais bem sucedida história dentre todas as experiências em âmbito estadual” Antonio Dias Leite Jr. Dentre as Figura 1 – Início da obra da hidroelétrica de Gafanhoto sobre o rio Pará em Divinópolis. 2007. Fazendo progresso com energia Flavio Miguez de Mello A pré-história No estado de Minas Gerais antes da II Gran­ de Guerra Mundial a energia elétrica era escassa.. Destacava-se na época a Zona da Mata que era suprida pela Companhia Força e Luz Cataguazes Leopoldina CFLCL no vale do rio Pomba e pela Companhia Mineira de Eletricidade no vale do rio Paraibuna. pois as concessões eram dadas por estados e municípios. Muitas micro-usinas hidroelétricas supriam a necessidade de energia de fazendas isoladas e mesmo de pequenas cidades. inaugurada em 1946 Usina hidroelétrica de São Simão. A capital do estado era suprida pelo grupo da AMFORP. criado em 1934 com o pretexto de disciplinar o regime de concessões dos serviços de eletricidade que até então era anárquico. nas pro­ ximidades de Juiz de Fora. Essas empresas passaram a sofrer as consequências funestas do Código de Águas. A mais importante usina da Cemig: a de maior produção de energia e a mais rentável 251 .

A intenção do engenheiro Seabra era que o engenheiro Lucas Lopes se encarregasse de comandar a elaboração do plano com o apoio da consultora. engenheiro José Rodrigues Seabra contratou a consultora Companhia Brasileira de Engenharia para elaborar o Plano de Eletrificação de Minas Ge­ rais. nem a consultora nem Lucas Lopes tinham experiência na elaboração de planos dessa natureza. A idéia era criar a infra­ estrutura energética para incentivar a implantação de indústrias e de atividades de mineração.Séculos XIX. época em que houve forte incremento da economia em quase todos os outros países. primeiro presidente da CEMIG 252 . A esse respeito. Mas o Plano de Eletrificação garantiu a energia necessária para a instalação da Mannesmann em Minas Gerais. XX e XXI consequências funestas estava a eliminação da cláusula ouro que ga­ rantia às empresas o reajustamento das tarifas. Das empresas privadas que atuavam em Minas Gerais. O principal objetivo do Código de Águas era a paralisação das empresas privadas do setor elétrico o que gerou considerável gargalo na expansão da oferta de energia elétrica e. antecessora do Departamento de Águas e Energia Elétrica DNAEE que deu origem às atuais Agências Nacionais de Águas ANA e de Energia Elétrica ANEEL. No estado de Minas Gerais o início da participação do estado na geração de energia elétrica começou a ocorrer no governo Milton Campos que formulou um plano de maior envergadura para aten­ dimento das necessidades de eletrificação do estado. Foi feito um detalhado levantamento das vocações econômicas mineiras e dos locais onde essas vocações deveriam ter o suporte de energia elétrica. Para tanto foi criada a Divisão de Águas no Ministério da Agricul­ tura. ainda que nos níveis modestos da época. desaceleração no desenvolvimento econômico no pós guer­ ra. Figura 2 – Lucas Lopes. consequen­ temente. passou a haver dificuldades para o correto equilíbrio econômico e financeiro dos contratos de con­ cessão na medida em que a inflação. Como as empresas acima mencionadas eram privadas. Na formação da equipe foram incluídos os engenheiros Mauro Thibau e John Cotrim. consequente­ mente.A História das Barragens no Brasil . Entretanto. desestimulava novos empreendimentos de geração. O secretário de viação e obras públicas entre 1947 e 1951. Pela primeira vez foi feito no Brasil um plano de obras públicas tão abrangente. trans­ missão e distribuição de energia elétrica. O Código de Águas estabeleceu determinados princípios tais como o de que todos os recursos hídricos eram da União e. os mineiros não perdoaram Getúlio Vargas por não instalar a primeira grande siderúrgica em Minas Gerais apesar do Macedo Soares ter explicado inúmeras vezes que foi selecionado o local de Volta Redonda por questões de mer­ cado pois siderúrgicas devem ficar próximas ao mercado e não ao minério. Águas era só o pretexto. o poder concedente passou a ser exercido pela União. O gargalo acima mencionado propiciou o aparecimento do estado na geração de energia elétrica. apenas a CFLCL sobreviveu ao Código de Águas que era mais de energia do que de águas.

John Cotrim. para pedir apoio federal para implantação da nova siderúrgica. Juscelino afirmou aos alemães: “Podem instalar a usina que nós garantimos a energia”.CINQUENTA ANOS DO COMITÊ BRASILEIRO DE BARRAGENS Na campanha presidencial de 1950 Getúlio se disse em dívida com Minas Gerais e prometeu a instalação de uma segunda siderúrgica em território mineiro. Júlio Soares e José de Castro. a Companhia de Eletricidade do Alto Rio Grande para implementar a hidroelétrica de Itutinga. precisamos estabelecer um “holding” que controle as atividades gerais das diversas centraes elétricas que pretendemos construir. Desde o seu início até 1955/1956 a CEMIG dedicou-se basicamente à construção de usinas hidroelétricas. algumas das quais já se encontravam em Figura 3 . A CEMIG em seus primeiros anos A CEMIG foi fundada em 22 de maio de 1952. titular da Secretaria de Agricultura. Essa garantia dada pelo governador foi a principal razão do sucesso inicial da CEMIG uma vez que passou a haver a necessidade de promover o suprimento de energia elétrica tão logo que a siderúrgica ficasse pronta. Assim. A Mannesmann tinha planos de se instalar no Rio de Janeiro e foi ao Getúlio. Empossado no governo Milton Campos. Os alemães argumentaram que em Minas Gerais não havia energia elétrica. datado de 22 de fevereiro de 1951: “O Sílvio Barbosa e o Júlio vão lhe falar sobre os planos que desejo pôr em execução no sector de energia elétrica. Foram criadas empresas estatais estaduais para implantação das primeiras hidroelétricas estatais em Minas Gerais que posteriormente foram incorporadas pela CEMIG quando esta foi criada no governo Juscelino Kubitschek. Grato. Indústria. Getúlio disse aos alemães que procurassem o recém governador de Minas Gerais pois ele havia mencionado o Plano de Eletrificação elaborado no governo Milton Campos. Pedro Laborne Tavares. José Esteves. Em resposta Getúlio disse “Eu dou tudo que os senhores quiserem contanto que essa usina vá para Minas”. então presidente da República. foram diretores dessas empresas Lucas Lopes. enquanto o Plano de Eletrificação era formulado. foram criadas a Companhia de Eletricidade do Alto Rio Doce para implantar a hidroelétrica de Santo Antônio. a Companhia de Eletricidade do Médio Rio Doce para a construção da hidroelétrica de Tronqueiras. os membros da equipe de transição ficaram sendo diretores dessas empresas. dirigido ao seu secretário de Viação e Obras Públicas.” 253 . Para facilitar-lhe a organização e dar-lhe o caráter comercial que possibilite entendimentos com firmas financiadoras. Peço combinar com eles e assentar em definitivo as medidas. Assim.Bilhete do governador Juscelino Kubitschek. Como essas empresas existiam e como era necessário haver recursos para o pagamento dos salários dos executivos que iriam comandar a CEMIG que ainda não existia. dava início a algumas hidroelétricas. Comércio e Trabalho. o engenheiro Américo René Gianetti.

vice-presidente da Cemig. vendo-se o governador Bias Fortes descerrando a placa inaugural. Cândido Hollanda de Lima 254 .A História das Barragens no Brasil .Séculos XIX. Wangh. ao lado do presidente da Cemig. Da esquerda para a direita: Mário Bhering.Assinatura de contrato para financiamento no Export Import Bank para construção da usina de Camargos. presidente do Eximbank Figura 5 . Cândido Hollanda de Lima. presidente da Cemig. XX e XXI Figura 4 .Inauguração da Usina Hidroelétrica de Camargos em janeiro de 1961. e S.

a casa de força estava em terreno não apro­ priado. Seu programa inicial compreendia a construção ou a conclusão das hidroelétricas de Itutinga. Das obras iniciadas no governo anterior a que demandou mais trabalho foi a hidroelétrica de Salto Grande. não havia levantamento topográfico completo da área de implantação da usina. Há relatos de que os estudos existentes eram muito superficiais. deputado federal. Troqueiras. os túneis estavam mal locados. estando há mais de um ano abandonados em caixotes em terreno marginal à ferrovia em Coronel Fabriciano sem qualquer identificação. Lyra. John Reginald Cotrim. Da esquerda para a direita. Vários equipamentos elétricos estavam estragados. Na realidade havia uma disputa nesse sentido entre o secretário de finanças Alkmin e o engenheiro Lucas Lopes que conse­ guiu manter os recursos financeiros diretamente alocados à CEMIG.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 6 – Inauguração da Usina de Itutinga. Após a constituição da CEMIG foram agregados ao grupo de diretores anteriormente composto os engenheiros Flavio H. Salto Grande. vendo-se o governador Juscelino Kubitschek no momento simbólico em que aciona a chave. Mauro Thibau e Mario Bhering. os equipamentos permanentes já haviam sido comprados e entregues. vice-presidente da Cemig construção. Entre os primeiros engenheiros que foram contratados estavam Camilo Penna e Henrique Guatimosin. não haviam sido executadas prospecções geológicas e geotécnicas. totalizando quase 150 MW instalados. colocando a usina em operação. Tancredo Neves. 255 . em 3 de fevereiro de 1955. Os passos iniciais da CEMIG na implantação de suas usinas eram apoiados por recursos diretamente destinados à empresa sem pas­ sar pela Secretaria de Finanças para desespero do secretário José Maria Alkmin. Piáu e Cajuru.

estocar e recuperar os equipamentos que haviam se estragado pela chuva no matagal marginal à ferrovia. Numa oportu­ nidade o governador Israel Pinheiro. Essa indispensável alteração teve suas implicações políticas. Juscelino Kubitschek. a implantação de Itutinga não causou problemas como os verificados em Salto Grande. Mário Bhering como responsável pelas compras e uma equipe de supervisão de obras que contava com Camilo Penna. John Cotrim como diretor técnico. A implantação da hidroelétrica de Itutinga teve uma história diversa. Flavio H. Com uma nova estrutura geren­ cial que compreendeu a contratação de novos quadros da CEMIG foram incluídos engenheiros civis que permaneceram no setor elétrico como Carlos Alberto Pádua Amarante e João Alberto Bandeira de Mello. Lyra acumu­ lando a diretoria financeira da CEMIG com a superintendência de Itutinga. vice-presidente da Cemig A Techint italiana foi contratada e o projeto foi alterado e detalhado. Os padrões exigidos pelo Banco Mundial fizeram com que a CEMIG fosse obrigada a.Inauguração da barragem de Cajuru em 1959. Carlos Gomes foi o engenheiro eletricista encarregado de identificar. XX e XXI Figura 7 . se tornar uma empresa com gestão moderna para a época. Um dos fatores que garantiram o sucesso nos primeiros anos da CEMIG foi o criterioso processo de contratação. Com isso foi necessário que se fizesse um estudo completo de viabilidade técnica. foram contratadas a IECO de São Fran­ cisco e a Morrison & Knudsen. ambas americanas que já estavam engajadas em outros contratos no Brasil.A História das Barragens no Brasil . outro 256 . a obra de Salto Grande que envolvia duas barragens. através de Julio Soares. dois túneis de adução e uma casa de força foi concluída com sucesso. candidato a presidente da República do Brasil e Mario Bhering. econômica e financeira que nunca antes havia sido feito em empreendimento não privado no País. Após a instituição da CEMIG surgiu a oportunidade do Banco Mundial financiar a aquisição dos equipamentos e de alguns serviços de engenharia. Como na época não havia empresas nacio­ nais com reconhecidas capacitações para o desenvolvimento do projeto e da construção.Séculos XIX. des­ de seu início. pois uma obra iniciada no governo da UDN estava sendo novamente concebida e projetada num governo do PSD.

Figura 8 – Escavação do túnel de adução da hidroelétrica de Salto Grande 257 .

pois na hora de desempatar a disputa por recursos. Veio a posse do Juscelino como presidente da República e um natural esvaziamento da CEMIG com a drenagem de seus quadros para o governo federal. Também vieram mais de dez russos após a revolução chinesa de 1949 como Alissof. XX e XXI diretor da empresa. desempatava sempre a favor da CEMIG. essa companhia não vai funcionar nunca. inclusive Vítor Cataldo que veio de Porto Rico organizar a operação e Mr. Israel comentou “Que bobagem é essa que o Cotrim está inventando?” Julio Soares explicou: “É o curriculum vitae. John Cotrim e Flavio H.A História das Barragens no Brasil . em dezembro de 1948. posteriormente denominada SUVALE. Ele conseguiu alguns poucos veteranos de outras empresas que operavam no Brasil como Mr. Nessa época a atuação de Júlio Soares. tinha as condições de bom trânsito interna­ mente na empresa e externamente junto ao governo do estado. A solução encontrada para a CEMIG foi a colocação do professor Cândido Holanda de Lima na presi­ dência uma vez que. por ser destinada a atender a demanda regional e principalmente socorrer centros de carga situados em outros estados estrangulados pelos efeitos do Código de Águas em empresas privadas do setor elétrico. mas grande parte do pessoal veio de fora. Smith. cunha­ do do Juscelino e responsável por sua educação. na Comissão do Vale do São Fran­ cisco CVSF. foi alvo de ferrenha oposição a partir do governo estadual. situada em uma área pobre de recursos naturais e com baixíssima ocupação demográfica. O governo federal passou a atuar no sentido de viabili­ zar dois grandes empreendimentos de geração com grandes reservatórios em Minas Gerais: Três Marias com objetivos de regularizar e melhorar as condições de navegabilidade do rio São Francisco e Furnas com objetivo de vir a ser o principal regularizador de todo rio Grande onde muitas hidroelétricas grandes viriam a se localizar. A ferrenha oposição à implantação de Furnas fez com que o governo federal firmasse um acordo muito vantajoso com a CEMIG para a implantação de Três Marias pelo qual o governo federal custeou o reservatório e a obra civil. Tornovsky e os Popof. Lyra começaram a trabalhar para viabilizar a hidro­ elétrica de Furnas. 258 . contraparente e amigo do governador Bias Fortes e ex-professor de muitos que compunham os quadros técnicos da CEMIG. Quando os esforços estavam direcionados para a conclusão das usinas de Salto Grande. A barragem de Três Marias deveria ter sido uma obra da SUVALE. presidente da CEMIG.” Israel con­ cluiu: “Ah.” Passado algum tempo o próprio Israel foi assediado por um cidadão que queria um emprego em qualquer lugar.Séculos XIX. Schnaptis. lembrou-se do ocorrido anteriormente e per­ guntou ao Júlio Soares: “Como é que se chama aquilo que o Cotrim pede quando não quer contratar alguém?” Cabia ao engenheiro Mauro Thibau a organização das equipes de operação das primeiras usinas. contador inglês vindo da Light. Como o Israel queria se livrar do referido cidadão. Três Marias. A receita era insuficiente para os gastos da recém criada CEMIG. a única fonte de receita operacional vinha da venda de energia da usina de Gafa­ nhoto herdada do DAE. autarquia destinada ao desenvolvimento do vale do rio São Fran­ cisco. Leslie T. Crowl que trouxe a disciplina financeira do TVA. Os primeiros estudos foram concluídos em 1952. Lucas Lopes. era um empreendimento simpático aos mineiros enquanto que Furnas. Dificuldades iniciais existiram com a Comissão do Vale do São Francisco que queria gerenciar a obra civil e com ofertas de fabricantes despreparados para o fornecimento de equipamentos. John Cotrim pediu inicialmente que lhe enviassem o currículo do referi­ do engenheiro. indicou um engenheiro para contratação. Três Marias – A primeira grande obra Desde 1946 foram acentuadas as discussões sobre os problemas de controle das vazões do rio São Francisco que desembocaram na criação. e a CEMIG se encarregou apenas da casa de força. nome­ adamente a Light e as empresas do grupo AMFORP. Itutinga e Tronqueiras. foi de fundamental importância. assumiu o BNDE (hoje BNDES).

o superintendente da CVSF. novidade na época. retirando com um cilindro na praça de compactação da barragem. Galdino Mendes. Cândido Hollanda de Lima. um técnico de solos que posteriormente trabalhou no IPT e na Enge-Rio. Como ele sabia que uma viatura da CEMIG passaria por ali naquele dia.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 9 – Visita presidencial às obras de Três Marias. Muitas horas depois Cotrim chegou na obra e mandou chamar o motorista do veículo que. no caminho para a obra. explicou o método. e que havia expedido circular proibindo que veículos da empresa dessem carona. numa visita do presidente Juscelino ao canteiro de obra. em construção. Os principais equipamentos permanentes vieram da Voith e da Siemens da Alemanha e contribuíram decisivamente para 259 . Cautelosamente ele se aproximou do técnico e. O veículo diminuiu a marcha mas não parou. Ao se apresentar ao Cotrim. ao saber quem era o pretenso carona. Júlio Soares. diretor da Cemig. ficou aguardando. o presidente da República. Mário respondeu que estava fazendo o controle de compactação pelo método Hilf. superintendente de construções da Cemig Três Marias era obra estratégica para o governo federal e se situava a meio do caminho entre a então capital federal e a futura capital.” Para a implantação de Três Marias foi repetida a estrutura que teve excelente desempenho em Itutinga: o projeto pela IECO que insta­ lou um escritório em Belo Horizonte e a construção pela Morrison Knudsen. Juscelino não entendeu nada mas disse ao pé do ouvido: “A qualidade é importante mas não retarde a construção. vice-presidente da MorrisonKnudsen. Shoeller. Em outra opor­ tunidade. ele começou a fazer sinais para que o veículo parasse. o vice-presidente da Cemig. Embora o local de Três Marias fosse na época considerado remoto. os dirigentes da CEMIG lhe dispensavam toda atenção. Da esquerda para a direita: o embaixador dos EUA no Brasil. Ao aparecer o veículo salvador levantando uma nuvem de poeira. Juscelino Kubitschek de Oliveira. engenheiro da CVSF e Henrique Guatimosin. C. ele viu Mário. tremia de medo. o presidente da Cemig. perguntou o que ele estava fazendo.P. Consta que o diretor técnico John Cotrim. teve seu carro danificado em uma das longas estradas não pavimentadas. Mario Penna Bhering. Assis Scafa. este elogiou o motorista que havia cumprido o que determinava a circular apesar da difícil situação daquele que pedia carona e que ele não conhecia. em voz baixa. tido como nervoso e bravo.

entre outros. Marcos Vasconcelos e Gilson de Almeida Furtado e muitos outros.Séculos XIX. Celso Melo de Azevedo. da Sul-Mineira de Eletricidade e da Companhia Força e Luz de Minas Gerais. e principalmente nas usinas que se seguiram. começaram a aparecer as segunda e terceira gerações de engenhei­ ros e gestores nas quais despontaram nomes de projeção tais como. Wellington Sebastião Jacarandá.Inauguração de Três Marias. Octávio Mello Areas. esta vinda do grupo AMFORP. este por estar em oposição a Trancredo Neves. Logo após dava início às hidroelétricas no rio Grande. Sérgio Brito. José Maria Baptista. acionando a chave de funcionamento da usina. Em Três Marias. Três Marias marcou a transição da CEMIG na implantação de obras de porte modesto para grandes usinas e obras de grande vulto. a Ebasco de Nova Iorque efetuou um estudo dos recursos hidroenergéticos do esti­ rão de 33 km do rio Grande nas proximidades da cidade de Rifaina concluindo pela recomendação da implantação de uma hidroelétrica 260 .A História das Barragens no Brasil . Roberto Fonseca. Archimedes Viola. vendo-se o presidente João Goulart. José Augusto Pimen­ tel. seguidas das hidroelétricas no rio Paranaíba. Mais tarde a CEMIG assumiu a área de concessão da Bragantina em território mineiro. resultante de concorrência internacional em que o fator financiamento e contrapartidas pesaram na decisão da concorrência. já com a CEMIG estabelecida como grande empresa. Marcou também a evolução da engenha­ ria geotécnica em obras de terra. ocorreram incorporações de pequenas usinas. Construtoras nacionais passaram a ser con­ tratadas com uma única exceção: a construção da hidroelétrica de São Simão. cooperativas de eletrificação rural e de empresas e Jaguara e Volta Grande. que esses fabricantes posteriormente instalassem fábricas no Brasil. Sorridentes na fotografia. A partir de Três Marias a CEMIG foi gradativamente passando a contratar consultoria nacional. além dos mais novos colaboradores do CBDB como Ricardo Aguiar Magalhães. não sem dificuldades políticas pois a Bragantina apelou para congressistas ligados a Paulo Maluf e ao ministro Murilo Badaró da Indústria e Comércio. Cássio Viotti. Licínio Marcelo Seabra. Luiz Francisco Gualda Pereira. em 25 de julho de 1962. Paulo do Val. Paulo e Mario Mafra. São Simão e Emborcação. o governador José de Magalhães Pinto e o presidente da Cemig. O desvio do rio foi feito no término do governo Juscelino e a inauguração da usina pouco antes da revolução de 31 de março de 1964. importantes passos no rio Grande Sob encomenda da Companhia Geral de Minas. Guy Vilella. XX e XXI Figura 10 . meses depois Magalhães participaria ativamente da deposição de Goulart usinas geradoras como as da Companhia Mineira de Eletricidade. Vinício Noce de Magalhães Gomes. nomeadamente Jaguara e Volta Grande. Pouco após essa época.

50m de queda bruta como recomendada pelos estudos de inventário hidroenergéticos feitos pela Canambra em 1966. A construção foi iniciada pela Mendes Jr em 1966 e. No estirão do rio Grande entre Jaguara e as cachoeiras Dos Patos e Das Andorinhas (local da antiga e da nova hidroelétrica de Marim­ bondo) não havia nenhuma concentração de queda natural no rio Grande. A queda nesse trecho do rio Grande foi dividida em três locais com quedas brutas modestas. Em primeiro plano Mario Bhering. O projeto foi contratado à Eletroprojetos/ Eletrowatt associada à Geotécnica. A necessidade de deslocamento do eixo para montante por motivos geológicos em sua fundação demandou tempo para tomada de decisão e ocasionou importante retardo no cronograma inicial de construção. a primeira unidade entrou em operação. governador de Minas Gerais que veio a ser confirmada pelo inventário da Canambra realizado a partir de 1963 e confirmada pelo Comitê Energético da Re­ gião Centro-Sul. em 1971. Sua segunda hidroelétrica com capacidade acima de 600 MW propiciou à CEMIG importante desenvolvimento nos campos de barragens de enrocamento com núcleo de terra e de mecânica de rochas. Coube inicialmente à CEMIG a hidroelétrica de Volta Grande com 27. e Israel Pinheiro. No início de 1969 foi assinado com o consórcio TAMS/ENGEVIX o contrato para desenvolvimento do projeto 261 . presidente da Cemig. em 1964.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 11 – Usina hidroelétrica de Jaguara Figura 12 – Inauguração da usina de Jaguara.

XX e XXI Figura 13 – Usina hidroelétrica de Volta Grande 262 .Séculos XIX.A História das Barragens no Brasil .

Esse foi o maior sismo induzido por reservatórios no Brasil. em 14 de junho de 1972 A conquista do rio Paranaíba: as hidroelétricas de São Simão e Emborcação O local das quedas conhecidas como Canal de São Simão. 263 . podendo ser citadas as erosões nos blocos de impacto da bacia de dissipação e a ocorrência de sismos induzidos pelos reservatórios de Volta Grande (2. Poucos problemas ocorreram na construção. cujo enchimento foi iniciado em junho de 1973. totalizando 380 MW. No dia 24 de fevereiro de 1974 foi sentido na cidade de Conceição das Alagoas pouco ao norte dos dois reservatórios um sismo de intensidade VIII na escala Mercalli modificada. As unidades geradoras entraram em operação entre julho de 1974 e agosto de 1975. O reservatório com área de 674 km² demandou a relocação das cidades de São Simão e Paranaiguara. Os primeiros levantamentos de campo visando a implantação de uma hidroelétrica foram efetuados a partir de 1960 pela Comissão da hidroelétrica de Volta Grande e no início de 1970 começou a construção pela Mendes Jr. se constituiu em excelente local para implantação econô­ mica de hidroelétrica de elevada capacidade instalada. Pela primeira vez a CEMIG ultrapassou os 1000 MW instalados em uma única casa de força. de im­ pressionante riqueza cênica pelo fato do rio Paranaíba despencar em saltos verticais pelos dois lados de longa fenda longitudinal em seu leito. As consequências na cidade foram pequenas e os tremores não se repetiram desde então. na cidade de Washington.Assinatura de contrato de financiamento com o Banco Mundial. Esse local não passou desapercebido no inventário da Canambra e resul­ tou na hidroelétrica de São Simão com capacidade instalada de 1608 MW na primeira etapa (projetada capacidade de 2680 MW na segunda etapa).5x109 m³). além das vilas de Chaveslândia e Gouveilândia. cujo enchimento foi iniciado em novembro de 1973 e de Porto Colômbia (1.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 14 . Tremores se seguiram nos últimos dias de fevereiro e no início de março. com importante operação de reassentamento populacional.17x109 m³). para a construção da usina hidroelétrica de São Simão.

O referido deputado insistiu várias vezes e Camilo Penna desconversava até que o depu­ tado repetiu a afirmação de que as referências.O governador Rondon Pacheco e o presidente da Cemig.. mas o deputado irado pros­ seguia pedindo as referências e afirmou “denuncio o Sr.A História das Barragens no Brasil . em consórcio com a CR Almeida. São Simão era um empreendimento gigantesco para a CEMIG. assinam o contrato com a Impregilo para a construção das obras civis da usina hidroelétrica de São Simão.. Nessa hora Camilo Penna solicita a Licínio Marcelo Seabra que mostre as garantias.”. Em depoimento ao Congresso Nacional o presidente da CEMIG foi argüido por horas. construtora italiana. Camilo Penna por estar escondendo documentos que são solicitados”. Paulo Lyra.. O Banco Mundial foi inflexível e a CEMIG teve que reconhecer a Impregilo/CR Almeida como vencedora. Em 1969 a CEMIG desenvolveu estudos visando a obtenção da concessão. ao valorizar o Cruzado aumentou a diferença a favor da Impregilo/CR Almeida. XX e XXI Figura 15 . em 14 de junho de 1973 Interestadual da Bacia do Paraná-Uruguai CIBPU. 264 . Isso gerou muita reclamação das empreiteiras nacionais. a quarta é do Banco Real. Licínio começou. Foi necessário grande esforço para captar recursos externos para equi­ pamentos e para a obra civil. a terceira é do Banco Nacional. A pressão sobre a diretoria da CEMIG foi grande. Um dos mais ferrenhos argüidores foi o deputado Sylo Costa disse que a CR Almeida não tinha referências bancárias. Estes vieram de financiamento do Banco Mundial que exigiu uma concorrência internacional. teriam sido dadas por um “banquinho vagabundo”. a segunda é do Bradesco. o presidente do Banco Central.Séculos XIX. apresentando toda documentação: “a primeira referência é do Banco do Brasil. Por mais de duas vezes o Camilo Penna desconversou. Camilo Penna disse que a CEMIG sempre pedia em suas concor­ rências referências bancárias dos concorrentes. tendo a Mendes Júnior em segundo lugar com uma diferença de apenas cerca de 2%. se realmente existiam. Em 1970 foi assinado o contrato com o consórcio projetista composto pela IECO e sua filial brasileira. Camilo Penna. Seu investimento era equivalente a todo capital da CEMIG. A concorrência foi vencida pela Impregilo. Interessante realçar que dias depois da abertura das propostas.

O governo Figueiredo passou a se interessar intensamente por obtenção de empréstimos externos o que endividou as estatais federais. Figura 16 . O aproveitamento de Igarapava havia sido identificado pela COBAST em 1960 e reavaliado pela Canambra em 1964/1965. Naquela época a disputa por concessões era intensa entre as prin­ cipais empresas do setor elétrico que se concentravam na Região Sudeste. a CEMIG que havia contratado a TAMS em 1976 para projetar a hidroelétrica de Emborcação a partir dos estudos de inventário da Canambra no rio Paranaíba a montante de São Simão. Nessa ocasião foram da CEMIG para a Eletronorte os engenheiros Dário Gomes.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Em junho de 1973 o consórcio construtor composto pela Impregilo e a CR Almeida foi contratado para a execução das obras civis. Cachoeira Dourada e Itumbiara. João Eduardo de Moura Guido. A hi­ droelétrica de Emborcação se caracteriza pela alta barragem de enrocamento com núcleo de terra. contratou a Construtora Andrade Gutierrez que construiu a usina de Emborcação entre 1977 e 1982. O rio Grande. Érico Bitencourt entre outros. estando também na área de Furnas. Retorno às hidroelétricas de porte médio Após São Simão e Emborcação a CEMIG passou a implantar hidroelétricas de porte médio em território mineiro. Outro erro dessa época foi. em seu trecho inferior dividia os estados de Minas Gerais e São Paulo. João Camilo Penna afirmou que “Da luta por Estreito a CEMIG ganhou Jaguara e depois ganhou Volta Grande. foi ao longo do início da obra de São Simão que a CEMIG. Em junho de 1978 a primeira unidade entrou em operação comercial após cinco anos de construção. voltou a perder quadros técnicos com a instituição da Eletronorte. que havia sofrido uma sangria de recursos humanos quando da formação de Furnas. onde havia empresas importantes na geração de energia elétrica. Entretanto. Pimentel. Cadman que havia trabalhado na CEMIG quando da realização do inventário da Canambra. por exemplo. desde o governo Geisel. John D. presidente da Cemig na época da usina hidroelétrica São Simão Dentro dessas perspectivas sombrias para o setor elétrico. o que penalizou a CEMIG como empresa de elevada eficiência. também foi da UFRJ para a Eletronorte levando consigo o geólogo Homero Teixeira. Desde 1976 as tarifas passaram a ser manipuladas pelo governo federal longe do princípio de serviço pelo custo. desvio e adução subterrânea e capacidade de 1192 MW. o de ligar a rentabilidade das empresas de energia elétrica ao esquema de tarifa única. tendo que transferir recursos através da Reserva Global de Garantia.João Camilo Penna. Inicialmente relegado a um segundo plano por causa de sua baixa queda e potência inferior a de outros aproveitamentos.” O País atravessava a segunda metade dos anos setenta com dificuldades econômicas geradas a partir do primeiro choque do petróleo (1973). Igarapava 265 . E tanto lutamos por Marimbondo que acabamos ganhando São Simão. com a obra sendo iniciada dois meses depois. São Simão conferiu à CEMIG nova importante ampliação em sua escala de obras civis e principalmente em equipamentos permanentes.

por carência de recursos.Séculos XIX. A partir de 1986 a IESA foi contratada para o desenvolvimento do projeto e em 1995 a Queiroz Galvão iniciou a construção. tendo conseguido viabilizar o até então “patinho feio” do rio Grande.A História das Barragens no Brasil . afluente do rio Paranaíba. XX e XXI Figura 17 – Usina hidroelétrica de Emborcação foi o último aproveitamento a ser desenvolvido no baixo rio Grande. Em 1985. No final de 1987 a IESA foi contratada para o desenvolvi­ mento do projeto mas. com quatro unidades bulbo de 40 MW cada sob a queda bruta de 17m. Durante o ano de 1998 as três unidades Francis de 132. Também identificada pela Canambra. a Enge-Rio desen­ volveu o estudo de viabilidade com aplicação de unidades bulbo.5 MW cada entraram em operação. CSN. sob a coordenação de José Turco Neto e a liderança técnica de Joaquim Pimenta de Ávila. a usina de Miranda no rio Araguari. teve o aprofundamen ­ to técnico inicial em 1985 pelo consórcio Leme-EPC. 266 . A usina. Morro Velho e Cia Mineira de Metais). entrou em operação no final de 1988 e passou a ser referência para outros projetos posteriores de usinas de baixa queda. a construção só foi iniciada em 1987 pela CNO após a CEMIG se associar outros inves­ tidores (Vale.

Já nos anos 2000 foi formado o consórcio construtor composto que teve como projetista a SPEC que alterou o projeto adotando uma barragem de terra com­ pactada. o local foi adotado pelos estudos da Canambra nos anos sessenta. a Cemig e a Vale implantaram a hidroelétrica de Aimorés denominada Elie­ zer Batista em homenagem ao engenheiro que fez carreira na Vale atingindo a sua presidência e exercendo cargos públicos de relevância política no cenário federal. Em 1971 a CEMIG encaminhou ao DNAEE relatório de pré-via­ bilidade. A primeira das três unidades geradoras Kaplan entrou em operação em fevereiro de 2006. Vale e CEMIG se associaram para a implantação da hidroelétrica de Funil situada no rio Grande. frutificou também em Funil do rio Grande. túnel de desvio e estruturas de concreto situadas na margem direita. como construtor foi contratada a Servix/Mendes Jr. Esses estudos foram complementados em 1996 indicando uma barragem em concreto compactado com rolo.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens O exemplo das hidroelétricas anteriores. no que se refere à asso­ ciação com outros investidores. A capacidade instalada da usina é 180 MW. em 1991. Após 20 anos. Após reconheci­ mento preliminar executado pela IECO em 1955. os estudos foram retomados. Prosseguindo com a associação bem sucedida com a Vale. O baixo rio Doce envolvendo Figura 18 – Usina hidroelétrica de Igarapava 267 .

no rio Grande Figura 22 – Usina hidroelétrica de Irapé 268 .Guy Maria Villela Paschoal.A História das Barragens no Brasil . ex-presidente da Cemig Figura 20 – Usina hidroelétrica de Miranda Figura 21 – Usina hidroelétrica de Funil.Séculos XIX. XX e XXI Figura 19 .

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XX e XXI Figura 23 . com a presença de ex-presidentes e do atual presidente da Cemig. o governador Aécio Neves. a filha de Juscelino Kubitschek. Hidroelétrica Presidente Juscelino Kubitschek. Djalma Bastos de Morais. Da esquerda para a direita: Celso Mello de Azevedo. no dia 8 de junho de 2006. realizada na Sociedade Mineira dos Engenheiros – SME. no dia 22 de fevereiro de 2001. João Camilo Penna. Aparecem na fotografia o presidente da Cemig. Mario Penna Bhering. Wilson Bruner Figura 24 . no momento simbólico de acionamento das unidades geradoras.Solenidade de entrega da “Medalha Lucas Lopes” à família de Licínio Seabra. Maristela Kubitschek Lopes e o presidente do conselho de administração da Cemig.A História das Barragens no Brasil .Inauguração da Usina de Irapé. Francisco Afonso Noronha e Guy Maria Villela Paschoal 270 . Djalma Bastos de Moraes.Séculos XIX.

tradicional e importante empresa do setor elétrico no Estado do Rio de Janeiro. os da IESA para a Eletrobras entre 1985 e 1989. Essa derivação per­ mite o aproveitamento de uma queda bruta de 26. Todos esses estudos e projetos revelam que a concepção da hidroelétrica sofreu grandes alterações ao longo do tempo em função das interferências e dos impactos sócio-ambientais com a cidade de Aimorés e com a fer­ rovia da Vale. os da Themag/Montreal no mesmo período para a Portobrás. a hidroelétrica de Irapé representou um investimento de cerca de R$ 1 bilhão dos quais R$ 250 milhões foram destinados a programas sócio-ambientais. . A constru­ ção foi feita pela Queiroz Galvão e a primeira unidade entrou em operação em fevereiro de 2006. funcional e social. área que supera em quatro vezes a área ocupada pelo reservatório. Em 2002 a CEMIG iniciou a construção da usina de Irapé no vale do Jequitinhonha com projeto Leme/ Intertechne e construção Andrade Gutierrez/CNO. A barragem de enrocamento com nú­ cleo de terra com 208m de altura é a mais alta do País e a segunda mais alta da América Latina. os da Monasa para a CEMIG e Vale em 1992 e finalmente os da Promon SPEC em 1997 para a CEMIG que resultaram no projeto executivo da SPEC. tecnológica. estética. Implantada em uma das regiões mais carentes do Estado de Minas Gerais. a CEMIG ultra­ passou as fronteiras do Estado de Minas Gerais com importantes participações em grandes empreendimentos como sua participação de 10% no aproveitamento hidroelétrico de Santo Antônio no rio Madeira. A implantação dessa usina fez jus ao prêmio Puente de Alcántara que a cada dois anos é entregue a obras que congreguem grande importância cultural.9m resultando em três unidades geradoras Kaplan com 110 MW cada. tendo vindo ter grande participação na Light. os da Canambra a partir de 1964. os da CEMIG entre 1975 e 1980.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens o local de Aimorés foi alvo de diversos estudos sendo os principais os da Servix em 1963/1964. implicando em derivação das descargas por vales laterais situados na margem esquerda do rio. Ao final desse meio século de intensas atividades. As 638 famílias que ocupavam a área da hidroelétrica foram reassentadas em proprie­ dades que ocupam sessenta mil hectares.

272 .

anteriores à formação da CEEE. bem como inte­ grar esforços para a eletrificação dos municípios riograndenses através do Plano de Eletrificação do Estado. Forquilha. Canastra. Guaporé. Saltinho. Bugres. era inaugurada a primeira unidade geradora de energia elétrica da Companhia. Pirapó. estando. Touros. Andorinhas e Herval. Vertedouro. casa de força e subestação 273 . Iniciava uma vida profissional talentosa o engenheiro Pedro Holtermann Netto.º 328. seguida pelas hidroelétricas de Ernestina. condutos forçados. elas foram basicamente repassadas para a CEEE. Picada 48. projetista nesse período.Barragem Capingui no rio do mesmo nome (2.CEEE Lúcia Wilhelm Véras de Miranda A história da Companhia Estadual de Energia Elétrica do Rio Gran­ de do Sul se apresenta em cinco principais períodos. Santa Rosa e Guari­ ta. como Inglês. vinculada à hidroeletricidade. o aproveitamento dos potenciais hidráuli­ cos e carboníferos para a produção de energia. acompanhado dos engenheiros Primeiro período: A CEEE como Comissão Estadual de Energia Elétrica Criada em 1º de fevereiro de 1943 através do decreto lei n. em plano geral elaborado para todo o estado. a usina do Passo do Inferno. tomada d’água. vinculada à Secretaria de Estado dos Negócios e Obras Públicas com a finalidade de prever e sistematizar. totalmente projetada e construída pela Companhia. Como se tratava de unidades antigas. foram encampadas pelo valor histórico menos a depreciação. com a participação do DNOS. a termoelétrica de São Jerônimo e a usina Diesel de Porto Alegre. Toca.520 kW) Usina hidroelétrica de Itauba. sendo assumidos seus passivos e encargos trabalhistas.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Companhia Estadual de Energia Elétrica do Rio Grande do Sul . Figura 1 . construídas pelo DNOS ou empresas privadas. pertencen­ tes aos municípios e empresas privadas. lançado em 1945. que acompanhou a história da CEEE até a sua gestão como diretor de obras no período de 1965 a 1970. desde o seu início. As hidroelétricas construídas no estado. Capingui. Ivaí. Em 1948. Seriam seguidas por Ijuizinho.

Noé de Melo Freitas. No entanto. a CEEE foi conver­ tida em autarquia. Interventor Federal no governo do estado. Após essa data. que era basicamente Porto Alegre. pois já no ano de 1950 a CEEE supria a Companhia de Energia Elétrica Rio Grandense – CEERG.   Jorge Ernesto Dreher.Séculos XIX. em valores da época de 30 milhões de dólares não foi viabilizado. Segundo período: A CEEE como autarquia Em 20 de fevereiro de 1952. atuando inclusive em Tucuruí. como engenheiro civil. e logo formado. A foto foi tirada em 23 de julho 2011 em sua residência.A História das Barragens no Brasil . apresen­ tara ao Coronel Osvaldo Cordeiro de Farias. primeiro presidente da CEEE quando assinava o contrato da usina hidroelétrica Jacuí 274 . um estudo sobre os contratos de concessão Figura 3 . José Loureiro da Silva. XX e XXI Figura 2 – Engenheiro Pedro Holtermann Netto iniciou sua atividade profissional como estagiário da CEEE. É neste período que começam a se materializar as intenções da comunidade gaúcha de agregar à CEEE esses serviços. pela Lei n.especialmente entre os anos de 1965 e 1970. Dietrisch Kuhlmann. em 1948. um empréstimo con­ cretizado por parte do BNDE permitiu o desenvolvimento de projetos diferenciados. Heinrich Kotzien e Silvio Freitas. A disponibilidade de um empréstimo do Banco Mundial arquite­ tada por Assis Chateaubriant. tendo cada vez mais importância devido ao seu crescimento. Já em 1939 o então Prefeito de Porto Alegre. de capital americano. Participou ativamente de todas as obras relacionadas à hidroeletricidade da CEEE.º 1744. Mario Lanes Cunha. quando foi diretor de obras. da energia necessária para o atendimento do seu mercado. continuou atuando como projetista de hidroelétricas.

466 assinado pelo então governador Leonel Brizola. com túnel de importante valor técnico para a época. podendo criar sociedades coligadas.  O engenheiro-chefe da CEEE.duas sociedades anônimas de geração de energia elétrica. extinção. fusão. Em 26 de dezembro de 1996 a lei estadual n. Noé de Mello Freitas.136 de 13. a Companhia Centro-Oeste de Distribuição de Energia Elétrica e a Companhia Norte-Nordeste de Distribuição de Energia Elétrica. assim discriminadas: 1 . em 1965 o governo federal passou a estatizar os serviços de energia elétrica.º 10. Na década de setenta as concessionárias do setor de energia elétrica passaram a ter capital nacional. os bens da CEERG. sacramentava-se a en­ campação de contratos de concessão e declarava-se de utilidade pública. Foram criados o Ministério das Minas e Energia e a Eletrobras.  destinada a projetar.uma sociedade anônima de transmissão de energia elétrica.09. com tubulação adutora de 7 km. 2 . 4 . acontece a Revolução de 1964. A CEEE viabilizava a construção de obras relevantes como as hidroelé­ tricas de Ernestina. transformação. Quarto período: a privatização Nos anos 90 setores antes considerados estratégicos para a economia. através de cisão. pois já no ano de 1945 se pronunciava a respeito da encampação. sob controle acionário do Estado do Rio Grande do Sul. em docu­ mento enviado ao secretário de obras públicas do estado. e Maia Filho. Em 1961 o então governador Leonel de Moura Brizola foi autoriza­ do a criar uma sociedade por ações para os serviços de eletricidade. começaram a ser privatizados. Terceiro período: a CEEE como sociedade de economia mista Na década de 60 ocorreram profundas mudanças no setor elé­ trico em âmbito nacional. 3 . A Centro-Oeste foi vendida à AES Guaíba Empreendimentos e a Norte-Nordeste foi adquirida pelo consórcio formado pela VBC (Votorantim.uma sociedade controladora (holding) das sociedades de energia elétrica. determinando a forma­ 275 . a Companhia Transmissora de Energia Elétrica.1961. O modelo adotado desenvolveu-se sob a égide das empresas multinacionais e do setor produtivo estatal. Um ano após a transformação da CEEE em sociedade de econo­ mia mista. sendo que em 11 de maio de 1959. Bugres e Canastra. construir e explorar sistemas de produção. Com o objetivo de melhorar a infra-estrutura para o desenvolvimento na­ cional. transmissão e distribuição de energia elétrica no estado. através do decreto n.900 autorizando o poder executivo a reestruturar societariamente e patrimonialmen­ te a CEEE. havia a discutível alteração de valores de tarifas nos contratos. a qual foi efetivamente criada  em 19 de dezembro de 1963. No dia 21 de outubro de 1997 ocorreu o leilão na sede da FIERGS.três sociedades anônimas de distribuição de energia elétrica. através da lei estadual n. que é a Companhia Estadual de Energia Elétrica. que passou a ser considerado bem pú­ blico e promotor do desenvolvimento nacional. para fins de desapropriação. como o setor elétrico. Walter Jobim.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens dos serviços públicos de energia elétrica com a CEERG. desempenhou um papel fundamental neste processo. a Companhia Sul-Sudeste de Distribuição de Energia Elétrica. no qual a Companhia Centro-Oeste de Distribuição de Energia Elétrica e a Companhia Norte-Nordeste de Distribuição de Energia Elétrica foram adquiridas por capital privado. controladas ou subsidiárias. redução ou aumento de capital ou a combinação destes instrumentos. Somado a isso.º 4. ção de um novo pacto político com a participação preponderante dos militares. passando a denominar-se Companhia Estadual de Energia Elétrica – CEEE.º 10. Foi então discutida a encampação dos serviços de energia elétrica prestados pela CEERG. No ano de 1957 inicia-se o processo de encampação. incorporação. a Companhia de Geração Hídri­ ca de Energia Elétrica e a Companhia de Geração Térmica de Energia Elétrica.

mediante altera­ ção de sua denominação e constituição de duas outras sociedades. geração. A CEEE havia chegado. A ANEEL.CEEE-D -. a necessidade de realização de plebiscito ou de alterações na Constituição Estadual e de promulgação de Lei Esta­ dual específica. Em 13 de setembro de 2006. Uma vez que a CEEE era uma empresa verticalizada. transmissão e venda de energia a consumidores livres. exigida pela legislação federal.para Companhia Estadual de Geração e Transmissão de Energia Elétrica .º 10. Para viabilizar a adequação societária da companhia à legis­ lação federal e implantar o modelo proposto havia.2% dos lares urbanos e 84% das economias rurais abastecidos com energia elétrica. uma vez que a data-limite ini­ cial para a adequação da empresa ao novo modelo expirou em 15.CEEE. Desta forma. a CEEE procedeu à contratação de consultoria para indicar alternativas para a desverticalização da empresa. dois terços da área de Distribuição deixaram de pertencer à CEEE. anteriormente citada. através de uma assembléia geral de constituição. autorizando o Poder Executivo a promover a re­ estruturação societária e patrimonial da Companhia Estadual de Energia Elétrica . mais uma empresa.A História das Barragens no Brasil . denominada Companhia Estadual de Distribuição de Energia Elétrica . Em seus dispositivos a Lei proíbe que uma empresa de distribuição de energia exerça atividades de geração. assim discriminadas: a) constituição de uma sociedade por ações holding. criando. para ajustá-la ao disposto na Lei Federal n.09. em 1997.2005.CEEE-Par. com a finalidade de segregar as ativi­ dades de distribuição de energia elétrica das demais atividades por ela exercidas. A Centro-Oeste alterou sua razão social para AES Sul Distribuidora Gaúcha de Energia S/A e a Norte-Nordeste passou à denomina­ ção de Rio Grande Energia S/A. CEEE-GT e CEEE-D. fato que levou a CEEE a solicitar pror­ 276 .CEEE. rogação de prazo à ANEEL. a qual será controladora das duas sociedades referidas nos itens seguintes. XX e XXI Bradesco e Camargo Correa). ela teve que desverticalizar-se. Em 20 de outubro de 2006. fa­ zendo com que o estado alcançasse um dos mais altos índices de eletrificação rural do país.2006. dentre outras restrições. com 99. possuia na mesma empre­ sa atividades de distribuição. ou seja. no mínimo. No final de 2004. transmissão e venda de energia a consumi­ dores livres. para separar a distribuidora de energia das demais. de distribuição de energia elétrica. deno­ minada Companhia Estadual de Energia Elétrica Participações .593. entretan­ to. a qual será resultante da cisão parcial da atual Companhia Estadual de Energia Elétrica . a segregação da atividade de distribuição. O modelo societário adotado compreendeu a criação de uma empresa holding com duas subsidiárias. a Assembléia Legislativa aprovou a Lei n. controlada. Nesta ocasião.848. de 15 de março de 2004.º 12.6. foram eleitos os conselheiros de administração e fiscalização da companhia. b) alteração da denominação da atual Companhia Estadual de Energia Elétrica . a CEEE-Par foi declarada formalmente constituída. data limite para a cisão. permanecendo o Governo do Estado do Rio Grande do Sul com o controle acionário das empresas oriundas do processo de reestruturação. atendendo aos argumentos apresentados pela CEEE concedeu a prorrogação solicitada até 30.CEEE-GT. em espe­ cial. c) constituição de uma sociedade por ações. Previ (fundo de pensão dos fun­ cionários do Banco do Brasil) e Community Energy Alternatives.Séculos XIX. Quinto período: a desverticalização Em 15 de março de 2004 foram aprovadas pelo Congresso Nacional novas regras para o setor elétrico brasileiro. a Diretoria da CEEE aprovou  os organogramas iniciais para a CEEE-Par. para adequar-se à lei.CEEE .  Em 26 de outubro de 2006.

Guarita. o braço do colono foi sua força propulsora. as hidroe­ létricas dos Bugres. foi aprovada a mudança de denominação social da CEEE para Companhia Estadual de Geração e Transmissão de Energia Elétrica – CEEE-GT. que se constituiriam em centrais destinadas a abastecer as zonas de maior densidade demográfica. a industrialização da carne era feita nos grandes frigo­ ríficos. Capingui e Santa Rosa. tendo como base dados hidrológicos desde o ano de 1917. criando o maior lago artificial do estado através dos 3. Forquilha e Ijuizinho. Pirapó. Na Colônia Antiga do norte do estado. Saltinho. ou estavam construídas. resolveu o governo do estado estudar o aproveitamento racional de seus potenciais hidráulicos. ficando estabele­ cido que a companhia deveria iniciar as atividades previstas em seu objeto social a partir do dia 1. Touros. assim como a maior produção agrícola. Assim vieram as hidroelétricas de Passo do Inferno. Na transformação de povo pastoril para povo agrícola e industrial. Na década de 60 foi dado o início da operação da usina hidroe­ létrica do Jacuí e gerado o projeto da usina de Passo Real. Ernestina. Ivaí. Na Zona Central encontravam-se as indústrias transformativas. em etapa inicial de urgência. Todos os projetos hidroelétricos foram feitos. Nesse período. não somente sob o ponto de vista técnico. pois ali se localizava a bacia carbonífera. engenhos de farinha. com o objetivo de ressarcir e compartilhar o exercício de ativi­ dades comuns e de apoio necessárias à consecução dos seus respectivos objetos sociais. O prazo de vigência deste ter­ mo é de dois anos a partir da data de sua assinatura. colaborando com o seu conhecimento em barragens de terra. poden­ do ser prorrogado por até igual período ou rescindido de comum acordo entre as empresas.º de dezembro de 2006. O estudo das diversas centrais foi baseado em investigações cui­ dadosas. Os estudos de viabilidade técnico-econômica da usina hidroelétrica de Itaúba foram iniciados em 1969. As obras tiveram início em 1972 e a operação comercial ocorreu em 1978. A etapa seguinte do Plano de Eletrificação trouxe as hidroelétri­ cas do Jacuí. Na mesma assembléia. 277 . Canastra. que tolhia o desenvolvimento econômico do Rio Grande do Sul. enquanto já estavam sendo construídas. As hidroelétricas no plano de eletrificação do estado Em 1824 chegaram ao Rio Grande do Sul os primeiros colonos alemães e da mesma forma os italianos em 1874. como princi­ palmente de potencialidade econômica das zonas de influência de cada usina. Na fronteira.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Em 27 de novembro. Com o advento da república entrou o Rio Grande do Sul na fase da industrialização. Na Colônia Nova a noroeste do estado se desenvolviam a opulen­ ta riqueza madeireira e o desenvolvimento das serrarias. colonizada por ale­ mães e italianos. Passo Real foi o segundo aproveitamento do rio Jacuí. a atividade relacionada com a suinocultura e laticínio demandava energia. assim como de inúmeros pequenos estabelecimentos fabris completavam a feliz diversidade de atividades econômicas que asseguravam o progresso da região.850 m de barramento. ocorreu a constituição formal da Companhia de Distribuição de Energia Elétrica – CEEE-D. do endereço da sede social e objeto social. Sendo então anunciado em 1945 o Plano de Eletrificação. também criador da cadeira de mecânica dos solos na Universidade do Rio Grande do Sul. conjugando-os a usinas termoelétricas a vapor. Em 1° de dezembro de 2006 foi assinado um termo de com­ promisso e cooperação entre a CEEE-GT e a CEEE-D. Preocupados com a falta de energia. Forquilha e o segundo grupo de Capingui. com a conseqüente alteração do estatuto social. houve a participação consultiva do engenheiro Casemiro Munarski. através de uma assembléia geral extraordiná­ ria de acionistas.

Barragem Dona Francisca em concreto compactado com rolo. XX e XXI Figura 4 .Usina hidroelétrica de Itaúba Figura 5 .Séculos XIX.A História das Barragens no Brasil . no rio Jacui 278 .

a quem coube realizar a correspondente con­ corrência. mediados por pilares com 1. a construção da usina se viabilizou. 145. a barragem é configurada por cortinas protendidas com cabos curvos com painéis de 15 m de largura. o sistema estrutural foi concebido de forma a ter-se toda a estrutura em concreto protendido. ao norte do Estado do Rio Grande do Sul. – DFESA. um projeto único no mundo A barragem de Ernestina sobre o Rio Jacuí está localizada no atual município de Tio Hugo.Vertedouro da barragem de Ernestina antes das obras de reforço 279 . no Planalto Rio . No final da década de 1990. e a possibilidade de formação de consórcios. A barragem foi construída em concreto compacta­ do com rolo. O consórcio entre a filial brasileira das Estacas Franki e empresa Campenon Bernard francesa foi o vencedor da licitação. Na variante apresentada pelo consórcio contratado. 65. No seu comprimento. em 1995. tem-se 44 m na ombreira direita. alternativa escolhida em substituição ao projeto original do tipo enrocamento com núcleo de argila. com eixo curvo.Vertedouro da barragem de Ernestina antes das obras de reforço Figura 7 . quando a CEEE obteve a concessão para implantar a usina.32 m.Grandense. Segundo o memorial descritivo da obra. As cortinas possuem protensão nas A barragem de Ernestina e sua concepção original.75 m de Figura 6 . 99 m em curva. a execução do projeto ficou a cargo deste segundo. A barragem foi concebida com extensão de 400 m e altura de 14. com a permissão de parceria com in­ vestidores privados por meio de lei.A.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A história do empreendimento de Dona Francisca iniciou em 1980. Para ga­ rantir a estabilidade externa essa estrutura é atirantada por uma linha de cabos verticais ancorados na rocha 4 metros abaixo do embutimento em concreto. O grupo investidor deu origem à Dona Francisca Energética S. extensão compreendendo trecho retilíneo na região das comportas e tomada d’água.50 m de largura também protendidos que são independentes.25 m de trecho retilíneo sem vertedores e 46 m de ombreira esquerda. Através de convênio firmado entre CEEE e o extinto DNOS. A barragem de Ernestina foi originalmente concebida como bar­ ragem de gravidade.

alguns estudos foram elaborados. realizado pela empresa gaucha Azambuja Engenharia e Geotécnica.00 m por medida de segurança. Ao que tudo indica. coordenado pelo engenheiro Marco Aurélio Azambuja. a fim de elucidá-las. XX e XXI duas direções: na direção vertical para resistir aos principais esfor­ ços e na direção transversal para garantir comportamento uniforme sem fissuração. Figura 8 – Planta da barragem e seção típica do vertedouro Figura 9 – Seções transversais típicas dos pilares do vertedouro da barragem de Ernestina. já que eram consultores associados à Campenon Bernard. iniciado em 1954. na década de 90. a corrosão dos cabos de protensão e suas consequ­ ências. os fios de aço empregados em cabos. a CEEE contratou a execução de um completo lau­ do técnico de avaliação da estrutura da barragem de Ernes­ tina. O reservatório passou a ser operado com rebaixamento de 1. a própria equipe de Eugéne Freyssinet foi responsável pela elaboração do projeto. à semelhança de uma laje armada em duas direções. a sistemática do atiran ­ tamento dos cabos verticais na rocha adotados assim como os cabos transversais e as cabeças de ancoragem. O laudo consistiu na recuperação dos documentos de projeto originais. mesmo estimando a relaxação dos cabos de protensão e as acomodações por fluência e retração do concreto após 40 anos de construção. várias dúvi­ das quanto à estabilidade estrutural da barragem de Ernestina foram levantadas e. Durante o seu período de operação. com a posição dos cabos de protensão 280 . Em 2008. Em 1963 foram instalados clinômetros junto aos pilares para co­ nhecimento dos deslocamentos e. o sistema de protensão empregado. O trabalho apresentou as estruturas pro­ tendidas em barragens.Séculos XIX. Foi sugerido que fosse realizado monitoramento das vibrações para verificar o risco de amplificação dinâmica. Seguiu-se a apresentação do sistema de injeção dos cabos de proten­ são. geologia e geotecnia da região de Ernestina.A História das Barragens no Brasil . qualidade do concreto e dos agregados. foi realizada uma reavaliação do projeto estrutural original concluindo que nenhuma tensão de tração deveria ser esperada para as cortinas ou pilares. detalhando o estado da prática na épo­ ca da construção.

Foi realizado um diagnóstico da qualidade dos materiais. utilizando o paramento existente apenas como paramento de veda­ ção. retirando-se as comportas e a passarela. A solução adotada para reforçar a barragem fora da região do vertedouro foi a construção Figura 11 – Fundação da barragem 281 . a estrutura poderia entrar em ressonância com o galgamento dos vertedores. restauração e reforço. A solução para o reforço do vertedouro foi a transformação do mesmo em um maciço de concreto gra­ vidade com perfil Creager. os estudos hidrológicos e hidráulicos sugeriram capacidade insuficiente do vertedouro. Com a estabilidade crítica para excitações dinâmicas. Assim. Da mesma for ma. foi desenvolvido projeto de reforço. sendo possível muitos desses cabos já tivessem se rompido ou viriam a fazê-lo brevemente. A condição de ancoragem dos tirantes na rocha sugeria uma grande vulnerabilidade à corrosão. com a posição dos cabos de protensão de um maciço de enrocamento reforçado com grelhas metálicas. As condições de ve­ dação das cabeças de ancoragem e a presença de fluxo d’água nos bicos de injeção denunciavam que a corrosão nos cabos estaria avançada.Seções transversais típicas dos paineis do vertedouro da barragem de Ernestina. à semelhança de uma barragem convencional de enrocamento com face de concreto.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 10 . Os ensaios dinâmicos das cortinas mostravam perda grave de rigidez. de soleira vertente. podendo ser esse fenômeno progressivo para os painéis e pilares. sendo previstas fraturas na face de montante. Ao final do estudo foram apresentadas as informações que con­ cluiam estar Ernestina no final de sua vida útil. prova de carga dinâmica e verificação estrutural. exigindo intervenções de manutenção.

A História das Barragens no Brasil .Obras de reforço do vertedouro 282 .Séculos XIX. XX e XXI Figura 12 – Seção transversal típica do vertedouro reabilitado Figura 13.

A barragem de Ernestina pode ser considerada como a única no mun­ do com essa concepção original executada. Figura 15 – Obras de reforço da barragem no trecho não submersível 283 .Seção transversal típica do trecho não submersível A obra de reforço estrutural en­ contra-se em fase de finalização (julho de 2011). a bar­ ragem em seu trecho não submer­ sível passará a ser uma barragem de enrocamento com face de mon­ tante verticalizada em concreto protendido. também concepção única no mundo.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 14 . Com a reforma. prolongando-se assim a vida útil da barragem.

284 .

Francisco Lima de Souza Dias Filho. pela unificação de todas as empre­ sas estatais de energia elétrica então existentes. com área de atuação mais abrangente. Souza Dias. Dai foi criada a CESP. 285 . advogado e são paulino! Souza Dias foi designado como o primeiro Diretor Técnico. no governo Laudo Natel. em 1966. inicialmente foi deno­ minada CESP Centrais Elétricas de São Paulo S. os seus sonhos de unificação das empresas de energia elétrica do estado. Seu idealizador foi o Dr. por meio de um amigo comum e também presidente do São Paulo Futebol Clube.A. Companhia Luz e Força de Jacutinga e Figura 1 – Souza Dias. assumiu seu vice. Laudo Natel. que detinha o controle acionário de: Central Elétrica de Rio Claro (Sacerc) e de suas associadas. Companhia Hidroelétrica do Rio Pardo (Cherp). Deposto o governador Adhemar de Barros. Em 27 de outubro de 1977 a CESP passou a ser Companhia Energética de São Paulo. Souza Dias. Bandeirante de Eletricidade (Belsa). As onze empresas que formaram a CESP eram: Usinas Elétricas do Paranapanema (Uselpa). com Garcez em visita às obras de Ilha Solteira Usina hidroelétrica de Ilha Solteira a maior do sistema CESP Empresa Luz e Força de Mogi Mirim Centrais Elétricas de Urubupungá (Celusa). que controlava: Companhia Luz e Força de Tatuí e Empresa Luz e Força Elétrica de Tietê Companhia Melhoramentos de Paraibuna (Comepa). fez chegar ao então governador.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Companhia Energética de São Paulo – CESP Fabio De Gennaro Castro A CESP Centrais Elétricas de São Paulo foi criada em 5 de dezembro de 1966. Empresa Melhoramentos de Mogi Guaçu. são paulino que era. vindo a exercer a terceira presidência entre 23 de março de 1979 a 27 de maio de 1982. de chapéu. sendo seu primeiro presidente Henry Aidar.

assim como em 1919 também foi criada a Companhia Luz e Força de Jacutinga S.A História das Barragens no Brasil . Logo no início de seu mandato de governador criou o Departamento de Águas e Energia Elétrica DAEE. propriedade da Central Elétrica de Rio Claro. Justiça deve ser feita à figura pública do professor Lucas Nogueira Garcez. em 1895. todas formadoras da CESP. incorporada à CESP em 1973.A.Séculos XIX. encampada em 1953 pelo governo do paulista.Fantinatto. Souza Dias.A. Figura 3 . José Gelazio da Rocha.A. re­ motamente iniciando pela inauguração da Usina Hidroelétrica do Corumbatai. Darcy Andrade de Almeida e Reynaldo de Barros em Jupiá 286 . pela sua visão técnica e também por ser formador e agregador de ca­ pacitações. e a Empresa Luz e Força de Mogi Mirim S. Figura 2 – Os engenheiros Souza Dias e Gelazio da Rocha em avião de Furnas Primórdios da geração hidroelétrica no estado de São Paulo Relevante também relembrar a situação anterior à criação. com o objetivo de ser a grande distribuidora de energia no estado. Foi também formadora da CESP.A. Em 1931 foi fundada a Companhia Sanjoanense de Eletricida­ de. e em 1923 a Empresa Melhoramentos de Mogi Guaçu. interior do estado e pertencente à Com­ panhia Força e Luz São Valentim. Arqueológico e Turístico do Estado de São Paulo. em Santa Rita do Passa Quatro. chefiado pelo engenheiro Octávio Sampaio Ferraz. que governou o estado de São Paulo de 1951 a 1955. Em 1909 foram fundadas de forma independente a Empresa Luz e Força Elétrica de Tietê S. originando em 1962 a empresa estadual Bandeirante de Eletricidade S. BELSA. que foi comprada em 1923 pela Companhia Prada de Eletricidade. Em 1915 foi fundada a Companhia Luz e Força de Tatuí. na função de diretor geral. Em 1911 foi inaugurada a Usina Hidroelétrica São Valentim. XX e XXI Em 1912 Eloy de Miranda Chaves e outros empresários paulis­ tas adquiriram o controle acionário da Central Elétrica Rio Claro e a reorganizaram como SACERC. Esta usina atualmente encontra-se totalmente res­ taurada e tombada pelo Patrimônio Histórico.

Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens

As estaduais de economia mista foram:

Usinas Elétricas do Paranapanema S.A. USELPA
Nascera objetivando a eletrificação da Estrada de Ferro Sorocabana e tendo como meta a implantação da Usina Salto Grande no rio Para­ napanema, inaugurada em 28 de abril de 1958 e hoje merecidamente chamada Lucas Nogueira Garcez. Importante registrar a Comissão Mista Brasil Estados Unidos, instituída logo após o término da Segun­ da Guerra Mundial e sediada na então capital do País, Rio de Janeiro. Tal comissão canalizava recursos para auxiliar o desenvolvimento bra­ sileiro. Os dirigentes da Estrada de Ferro Sorocabana desenvolveram estudos para eletrificação da ferrovia e para tal conceberam que seria construída uma usina hidroelétrica no rio Paranapanema, Salto Grande. Foram pleitear recursos financeiros na referida Comissão Mista Brasil Estados Unidos. Junto com a negativa recebe­ ram a orientação que somente poderiam obter financiamento se fosse organizada uma empresa de economia mista espe­ cífica para tal finalidade. Daí foi criada a USELPA em 1953,
Figura 4 - Professor Lucas Nogueira Garcez

que obteve os recursos necessários e construiu Salto Grande. O principal executivo da USELPA era Dagoberto Salles Filho, o qual se apoiou na SERVIX, como projetista e construtora para as duas primeiras barragens e início da terceira. Posteriormente os planos feitos foram concretizados com a Usina de Jurumirim, hoje Armando A. Laydner,tendo a seguir iniciado a usina Chavantes, também no mesmo rio Paranapanema. Desnecessário mencionar que o objetivo de eletrificação da Estrada de Ferro Sorocabana deixou de ser prioritário.

O DAEE era organizado por Serviços de Vales. Quatro eram os vales abrangidos, a saber do Rio Pardo, chefiado pelo enge­ nheiro Souza Dias, o do rio Tietê, chefiado pelo engenheiro Catullo Branco, o do rio Paraiba, chefiado pelo engenheiro Antonio Graef Borba e o do rio Ribeira de Iguape, chefiado pelo en­ genheiro Dagmar Malet de Andrade. Foi o DAEE o embrião das mais importantes empresas de economia mista na área de energia elétrica do Estado de São Paulo, como será exposto neste texto. No governo Garcez também foi realizado o primeiro Plano de Eletrificação do Estado de São Paulo, que embora somente tenha sido formalizado no mandato sucessivo, em 1956, já fora posto em prática enquanto elaborado. Garcez também foi presidente da CESP por dois mandatos sucessivos, de 16/02/1967 a 20/03/1975, o que contribuiu fortemente para a continuidade da gestão. Onze foram as empresas agregadas para formar a CESP, cinco estaduais e seis empresas privadas, porém controladas pelas estaduais.

Companhia Hidroelétrica do Rio Pardo CHERP
Como já mencionado o Serviço do Vale do rio Pardo do DAEE era chefiado pelo engenheiro Souza Dias, o qual também participava da Comissão Mista Brasil Estados Unidos. Em 1952, o jovem engenheiro José Gelazio da Rocha foi convidado para integrar a equipe de Souza Dias e designado para estudar o

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A História das Barragens no Brasil - Séculos XIX, XX e XXI

aproveitamento de Limoeiro, hoje Armando de Salles Oliveira, dizendo que havia sido encarregado pelo Lucas Nogueira Garcez para construir as usinas do rio Pardo. Assim sendo acrescentou: “Você vai projetando e eu vou dando as orientações que você precisar.” Para realizar a missão foi constatado que não existia nem levantamento topográfico e menos ainda o perfil do rio em toda sua extensão. Gelazio contratou então o engenheiro Gustavo Pratti para tal escopo, ou seja, fazer o perfil do rio que daria assim origem ao plano de aproveitamento integrado de toda a bacia, com Graminha, duas barragens menores a jusante de Graminha, Euclides da Cunha e Limoeiro. Em 1954 o DAEE iniciou Euclides da Cunha, mesmo antes de ser criada a CHERP em 1955. Essa barragem teve o projeto de seu túnel de desvio feito pela TECHINT e executado pela NORENO do Brasil. Para construir o túnel de desvio de Graminha Gelazio fez um contato com Sebastião Camargo, com o objetivo de obter uma proposta, enquanto Dr. Souza Dias fez o mesmo com a Noreno. Ao ser procurado Sebastião perguntou ao interlocutor quem era seu chefe e por que o mesmo não estava presente, sugerindo que fosse marcada outra reunião com Souza Dias presente. Na segun­ da reunião Souza Dias acompanhou Gelazio e a Camargo Correa decidiu apresentar proposta. Venceu a concorrência por ter sido a única empresa proponente. O projeto da barragem de terra de Graminha foi feito pelo Professor Milton Vargas e o projeto das estruturas de concreto pelo engenheiro Henrique Herweg, ambos contratados com a chancela do IPT. Em 1955 era criada a CHERP, que embora somente tivesse rio Pardo em seu nome posteriormente também incorporou toda a responsabilidade do rio Tietê. A necessidade de sua criação foi decorrente de apresentar ao BNDES uma empresa de economia mista que tivesse projetos sólidos para obter seus recursos. Parale­ lamente às atividades do rio Pardo, o Serviço do Vale do rio Tietê, chefiado por Catullo Branco, realizou estudos à semelhança da­ queles do Tennessee Valley Authority TVA, que contemplassem o desenvolvimento integrado do vale, com barragens e usinas que gerassem energia e tivessem eclusas que viessem permitir

a navegação interior. Assim, em 1957, iniciavam-se as obras de Barra Bonita, com projeto da TECHINT. Em 1959 tiveram início as obras de Bariri, hoje Engenheiro Álvaro de Souza Lima, antigo diretor do DAEE e pai do professor Victor de Souza Lima. E em 1963 foram iniciadas as obras de Ibitinga. Os quadros da CHERP no setor Tietê contaram com ilustres engenheiros, tais como Geraldo Queiroz Siqueira, Jacob Leiner, Julio Petenucci e Reolando Silveira, além de Darcy Andrade de Almeida, que foi da área do rio Pardo.

Centrais Elétricas do Urubupungá S.A. CELUSA
Uma palavra inicial sobre a CIBPU Comissão Interestadual da Bacia Paraná Uruguai. Tal comissão, chefiada pelo Professor Paulo Mendes da Rocha, criada em 1952, tinha por objetivo o estudo e o desenvolvimento dos estados brasileiros que pertenciam às bacias dos rios Paraná e Uruguai. A CIBPU tinha recursos e contratara a empresa italiana Edison de Milão para desenvolver os estudos do aproveitamento do Salto de Urubupungá, no rio Paraná, junto à foz do rio Tietê. Em 1961 foi lançada a concorrência para as ensecadeiras da usina de Jupiá, no rio Paraná, concorrência essa vencida pela Camargo Correa. Lançada a concorrência para a obra principal, a vencedora Camargo Correa apresentou uma variante que fora estudada na França pela SOGREAH, pelo engenheiro Charles Blanchet. Tal alternativa apresentava vantagens sobre aquela estudada por Edison de Milão para a CIBPU. A variante foi aceita e exe­ cutada a usina de Jupiá que hoje é denominada Engenheiro Francisco Lima de Souza Dias. Eleito Carvalho Pinto como governador do estado, Plínio de Ar­ ruda Sampaio, de sua equipe, foi motivado por Gelazio para levar ao coordenador do Plano de Ação do Governo, Diogo Gaspar, a idéia de construir a usina hidroelétrica de Jupiá. Assim nasceu a CELUSA. Posteriormente, ainda no governo Adhemar de Bar­

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Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens

Figura 5 – Usina hidroelétrica de Jupiá

ros, foram iniciados os estudos e as obras de Ilha Solteira, com projeto THEMAG e obras da Camargo Correa. A THEMAG foi criada como um departamento técnico da CELUSA e também em caráter de exclusividade, o qual somente foi extinto por decisão da CESP, por ocasião do projeto do Metrô de São Paulo, quando a projetista ficou desobrigada de sua cláusula de exclusividade.

das cheias e contenção de várzeas, tendo construído com ma­ estria muitos quilômetros de “polders”. A COMEPA realizou ainda a usina de Jaguari e iniciou as de Paraitinga e Paraibuna, duas barragens formando um único reservatório com só uma casa de força ao pé de Paraibuna, com projeto Hidroservice e construção Camargo Correa.

Outras empresas de energia elétrica
Em 1962 foi criada a Bandeirante de Eletricidade S.A. BELSA. Em 1963 foi criada a Companhia Melhoramentos de Paraibuna COMEPA, por inspiração de Plinio de Queiroz. O antigo Serviço do Vale do Paraíba, que ocupava-se do rio Paraíba do Sul, preocupou-se prioritariamente com o problema

Estudos de inventário
Ainda na década de 60, foram desenvolvidos os estudos da Canambra, primeiros estudos de planejamento integrado, com critérios uniformes, que propiciaram condições técnicas de com­ paração e priorização de usinas em uma mesma bacia hidrográ­ fica. Na área de São Paulo foram muito importantes e também com papel de formação de técnicos.

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A História das Barragens no Brasil - Séculos XIX, XX e XXI

Figura 6 a – Barragem de Três Irmãos no rio Tietê com suas eclusas na margem direita

Figura 6 b – Barragem de Três Irmãos - entrada da eclusa inferior no lago intermediário

Consultores que atuaram nas hidroelétricas na área de São Paulo
Menção deve ser feita sobre os consultores independentes que atuaram na área de São Paulo, contribuindo para a garantia da qua­ lidade dos projetos e obras, assim como na formação de pessoas que com eles conviveram. Dentre eles podem ser citados Karl Terzaghi, Arthur Casagrande, Tom Leps , James Sherard, Victor de Mello, Don Deere, Milton Vargas, Roy Carlson, Manuel Rocha, Fernando de Oliveira Lemos, Charles Blanchet, Flavio H. Lyra, Ven Te Chow, Araken da Silveira, Evelina Bloem Souto, Vic­ tor Souza Lima e inúmeros outros que no dia a dia contribuíram para colocar a CESP na posição de destaque que ocupa.

senvolvimento do Canal Tietê-Paraná, como também pelas inúmeras eclusas construídas. Pode também ser afirmado que ela foi pioneira nos estudos ambientais. Chegou a ter vinte e cinco usinas, todas com alta expressão técnica e padrão de projetos, construção e operação.

Anos recentes
Em 1996 iniciou-se o processo de privatização do setor de energia do Estado de São Paulo. Em 1999 CESP passou por uma cisão parcial, sendo criada a Companhia de Transmissão de Energia Elétrica Paulista, a CTEEP e três empresas de geração. Hoje a CESP possui apenas seis usinas e sete barragens, pelo fato de Paraitinga não ter casa de força.

Navegação interior
A CESP detém o mérito de ter contribuído de forma ampla para o desenvolvimento da navegação interior no país, não só pelo de­

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Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens

Figura 7 – Usina hidroelétrica Porto Primavera (Sergio Motta)

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Usina Mauricio, primeira hidroelétrica da CFLCL

Usina hidroelétrica de Nova Maurício. Primeiro financiamento do BNDE para empresa privada, em 24 de agosto de 1954. Em operação desde março de 1956

Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens

Companhia Força e Luz Cataguazes Leopoldina – Energisa - Cem anos de luz na Zona da Mata
“A trajetória da CFLCL é exemplar para demonstração de que a livre iniciativa tem tanta vitalidade quanto a vida.” João Camilo Penna Flavio Miguez de Mello

Na virada do Século XIX para o Século XX o Brasil tinha apenas dez usinas geradoras totalizando 12.085 kW instalados. Nesse início de século na Zona da Mata Mineira, incentivados pelo agente executivo (equivalente ao atual cargo de prefeito) de Ca­ taguazes, Araújo Porto, destacavam-se o Senador José Monteiro Ribeiro Junqueira, o Dr. Norberto Custódio Ferreira e o comer­ ciante, político e banqueiro João Duarte Ferreira como homens que gerenciavam seus negócios com clarividência e se interes­ savam pelo desenvolvimento da tecnologia, principalmente pela incipiente aplicação da energia elétrica. Em 26 de fevereiro de 1905 os três fundaram a Companhia Força e Luz Cataguazes Le­ opoldina com capital de 400 contos de réis em quatro mil ações adquiridas por 263 investidores, com o objetivo de “exploração da eletricidade para fins industriais em suas diversas aplicações e comércio de materiais elétricos, dentro ou fora da república, principalmente nos municípios de Cataguazes e Leopoldina.” Pouco após um ano da fundação da empresa, dois dos três fundado­ res, João Duarte Ferreira e Norberto Custódio Ferreira renunciam a seus cargos de diretores para, respectivamente, cuidar de seus empreendimentos particulares e para assumir elevada posição no Banco do Brasil do qual assumiu a presidência em 1910.

Foi lançada concorrência (mesmo sem projeto) para a construção da primeira usina geradora, a hidroelétrica de Maurício, na cacho­ eira da Fumaça, no rio Novo. Oito concorrentes se apresentaram, tendo a obra sido alocada à Trajano de Medeiros & Cia, destacada indústria metalúrgica para os padrões do início do século passado. O contrato foi assinado em maio do ano seguinte. Pela primeira vez uma usina hidroelétrica foi construída por uma empreiteira ge­ nuinamente brasileira. Os primeiros estudos para o aproveitamento parcial da queda natural da cachoeira da Fumaça no distrito de Leopoldina foram desenvolvidos pelo engenheiro Eupídio de Lacerda Werneck, na época recém formado nos Estados Unidos. O potencial a ser aproveitado foi definido como sendo de 1,3 MW, suficiente para suprir de energia elétrica outros muni­ cípios da região como Rio Novo e São João Nepomuceno, bem como a fábrica do industrial Daniel Sarmento que fez um contra­ to de pré-venda de energia. A organização geral e as compras de materiais ficaram a cargo do engenheiro Otávio Carneiro e a res­ ponsabilidade da construção com o engenheiro Ferreira Martins. O engenheiro L. Luck, enviado pela Westinghouse, supervisionou as instalações elétricas. O engenheiro Paulo Saboia, recém chega­ do dos Estados Unidos, supervisionou as montagens. A primeira unidade geradora entrou em operação em 7 de julho de 1908.

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A História das Barragens no Brasil - Séculos XIX, XX e XXI

Figura 1 - Cachoeira da Fumaça no rio Novo, local da hidroelétrica de Maurício

Figura 2 - Cachoeira da Fumaça no rio Novo, local da hidroelétrica de Maurício

Figura 3 – Casa de força da hidroelétrica de Maurício

Figura 4 - Geradores da hidroelétrica de Maurício

Os primeiros anos consolidaram a empresa e, em 1915, apenas dez anos após sua fundação e sete anos de geração e distribui­ ção de energia elétrica, a empresa contava com ilustres investi­ dores de outras localidades de Minas Gerais, do Rio de Janeiro e de São Paulo entre eles o então presidente de Minas Gerais, Raul Soares de Moura, e o presidente da república, Wenceslau Braz. Em 1918 a empresa adquiriu a usina Coronel Domiciano de 360 HP que era concessão da Câmara Municipal de Muriaé, o que possibilitou que seus serviços fossem estendidos às localidades de Piedade, Laranjal, Palma, Guarani e Tebas, além da cidade de Coronel Domiciano.

Os anos vinte do século passado propiciaram expressivo crescimen­ to da indústria de energia elétrica. Uma das principais causas foi a rápida difusão dos serviços de bondes e de iluminação pública. Além disso, o perfil das indústrias modificava-se rapidamente; o recensea­ mento de 1920 revelara que a energia elétrica já assumia 47% da força motriz consumida pelas fábricas no País. Com o objetivo de su­ prir esse acentuado acréscimo de demanda, ocorreu intenso surto de instalações de novas hidroelétricas que ultrapassaram com folga a geração térmica.

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CINQUENTA ANOS DO COMITÊ BRASILEIRO DE BARRAGENS

Figura 5a – Barragem da hidroelétrica Coronel Domiciano Figura 5b - Usina hidroelétrica Coronel Domiciano

Imagens dos aspectos logísticos dos primeiros tempos da CFLCL

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A História das Barragens no Brasil - Séculos XIX, XX e XXI

Aquisições de empresas e de concessões foram realizadas pela Light nesse período principalmente no eixo Rio de Janeiro e São Paulo. A Cataguazes Leopoldina também entendeu o momento e adquiriu em 1920 a Companhia Pombense de Eletricidade que detinha a hidroelétrica de Santo Antônio situada no município de Rio Pomba e que, dada as suas desfavoráveis condições geotécnicas, teve que ser desativada. Iniciaram-se as atividades visando a implan­ tação de uma nova usina: a hidroelétrica de Ituerê que aproveita a queda natural da cachoeira do Sumidouro. A barragem de concreto tem 15 m de altura, imponente para a época, e 74 m de comprimen­ to de crista, fechando um vale estreito. O projeto foi comandado pelo engenheiro Vanor Ribeiro Junqueira, os equipamentos foram

contratados junto à Siemens e as obras ficaram a cargo da Christia­ ni Nielsen e da Trajano Medeiros & Cia. Inicialmente foi instalada uma unidade Francis dupla horizontal de 2,83 MW. A adução era feita com um trecho inicial de conduto em concreto armado com 3 m de diâmetro e 600 m de extensão; a adução em alta pressão foi executada em aço vindo da Alemanha. Entretanto foi verificado no início da montagem que não havia luvas de dilatação da tu­ bulação forçada. As luvas foram fabricadas em Jundiaí. A usina foi inaugurada em 16 de agosto de 1928 pelo presidente de Mi­ nas Gerais, Antônio Carlos Ribeiro de Andrade que, em discurso solene, afirmou que teve “a grande ventura (...) de acionar as máquinas da monumental instalação de Ituerê”.

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Construção do vertedouro de Ituerê com o desvio num vão rebaixado Figura 8 .Cachoeira do Sumidouro no rio Pomba.Casa de força da usina hidroelétrica de Ituerê Figura 11 . local da hidroelétrica de Ituerê Figura 7 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens 6 7 8 9 10 Figura 6 .Construção do vertedouro de Ituerê Figura 9 .A barragem de Ituerê e o vertedouro de soleira livre Figura 10 .Cinematografando a inauguração da usina hidroelétrica de Ituerê 11 297 .

no governo Juscelino Kubitscheck. sociais e políticas ocorreram no País.000 consumidores e havia instalado mais de 900 km de redes de transmissão e de distribuição. O quadro estatizante do setor elétrico foi ampliado nos anos cin­ quenta. A segunda unidade geradora só entrou em operação em abril de 1958. inserira um capítulo sobre a ordem econômica e social. O Código havia inicialmente sido preparado por Alfredo Valadão em 1907 com colaboração de Inácio Verís­ simo de Melo e José Castro Nunes. A empresa ultrapassara a marca de 9.A História das Barragens no Brasil .58 MW da hidroelétrica de Nova Maurício que apro­ veita a queda total de 90 m da cachoeira da Fumaça. além dos desconfortos que haviam sido introduzidos pelo Código de Águas e pela inflação que passou a ser acelerada nesse governo. aí incluídas a “exploração de quedas d’água para geração de energia”. em 1945. houve a expansão da intervenção do estado na economia a partir da promulgação da constituição de 1934 que. iniciati­ va patronal de vanguarda para a época. Esse ambiente foi propício ao aparecimento do Código de Águas. tendo Getúlio assumido o comando de um governo provisório em novembro de 1930 com plenos po­ deres. Foi datado do dia 24 de agosto de 1954. Em 5 de fevereiro de 1935. pela proibição de rea­ juste de tarifas de serviços públicos em função da inflação. o primeiro financiamento do Banco para uma empresa privada. A empresa se voltou à ampliação das capaci­ dades instaladas das usinas de Ituerê e Coronel Domiciano. o que penalizou sobremodo as empresas privadas.Séculos XIX. O Código introduziu o absurdo instrumento do reconhecimento apenas dos custos histó­ ricos dos investimentos realizados pelos concessionários no am­ biente inflacionário vigente no País. o engenheiro Ormeo Junqueira Botelho forma­ do pela Escola Politécnica da Universidade do Brasil (UFRJ) em 1918. A situação de carência de energia perdurou até março de 1956 quando entrou em operação a primeira uni­ dade de 5. Norberto Custódio Ferreira faleceu e abriu caminho para o encerramento do ciclo dos fundadores da empresa na sua direção. A crise econômica mundial de 1929 gerou profundas conseqüências nos cenários econômicos e políticos no Brasil que acarretaram con­ flito aberto com lançamento de candidatura de oposição na figura de Getúlio Vargas à presidência da república. dia do suicídio de Getúlio Vargas. pela primeira vez. Já em 1950 a empresa obteve permissão para proceder a um racionamento preventivo que se estendeu às fábricas de tecido em até três ve­ zes por semana. mes­ mo porque nesse período se instalou a inadimplência no pagamento de energia fornecida para o serviço público de prefeituras. Com a eclosão da revolução de 1930. garantindo a manutenção dos serviços e não mais podendo expandi-los por longo período. tendo tido como uma das principais dificuldades a entrega dos equipa­ mentos encomendados em 1938 a países que se envolveram na II Guerra Mundial. investimentos e distribuição de dividendos aos acionistas. a Cataguazes Leopoldina não passou incólume por essa legislação equivocada e pela II Guerra Mundial e teve que reduzir gastos. Ormeo Junqueira Botelho ajustou a empresa às condições políticas e econômicas advindas da Constituição Federal de 1937. Nesse longo período. 298 . estabelecendo a legitimidade da intervenção do Estado em atividades consideradas de importância para o interesse nacio­ nal. passou a presidência para seu sobrinho. promulgado em 1934. o contrato de empréstimo do Banco Nacional de Desenvolvimento para a construção da hidroelétri­ ca de Nova Maurício. profundas modificações econômicas. O Código de Águas gerou o confronto entre uma corrente interessada em manter os serviços de eletricidade com a iniciativa privada e outra corrente radical que pugnava por uma profunda intervenção estatal com a encam­ pação de concessionárias estrangeiras. após trinta anos de intensa dedicação à empresa e com o ambiente economicamente hostil à iniciativa privada no setor elétrico. já que João Duarte Ferreira havia falecido em 1924 e José Monteiro Ribeiro Junqueira. cerceando a expansão da capacidade instalada com nefastos reflexos na evolução do crescimento da economia nacional. fortemente influenciada pela doutrina fascista e que instituíu um regime de exceção. tendo sido eleito pela Assembléia Constituinte em 1934 e se tornado ditador de 1937 até a queda do Estado Novo. candidatura esta que foi oficialmente derrotada nas urnas. Como as demais empresas do setor elétrico. XX e XXI Os anos vinte foram também importantes para os funcionários da empresa que passaram a ter participação nos lucros.

Engenheiro Ormeo Junqueira Botelho No início dos anos sessenta o agravamento do cenário político e a aceleração da inflação que atingiu 80% ao ano com a impossibilidade de se obter a devida correção tarifária. a presidência da empresa. Figura 13 . tendo nesse período transferido para o engenheiro Vanor Ribeiro Junqueira.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 12 . engenheiro também formado pela Escola Politécnica da Universidade do Brasil (UFRJ). No período entre 1962 e 1965 o engenheiro Ormeo Junqueira Botelho foi eleito deputado federal pela UDN.Ormeo Junqueira Botelho na campanha eleitoral Figura 14 . encontrou totalmente descapitalizadas as empresas priva­ das de energia elétrica.Ormeo Junqueira Botelho com Tancredo Neves 299 .

muitas delas concentradas no Norte.Engenheiro Ivan Müller Botelho 300 . autorizou a correção monetária do valor original do ativo imo­ bilizado. esta até hoje (2011) ainda inacabada. Em 1977 a em­ presa ofereceu ao grupo Brascan US$ 330 milhões para adquirir a Light. culturais e sociais.A História das Barragens no Brasil . que ocasionaram elevados índices de inadimplência que geraram o colapso da engenharia consultiva no País. O Decreto 1383 passou a fazer com que a parcela da remuneração que ultrapassasse 12% ao ano fosse revertida para subsidiar as empresas com retorno inferior a 10% ao ano sobre os investimentos num cenário chama­ do de Robin Hood em que as empresas mais eficientes passaram a socorrer as menos eficientes. Bulhões de Carvalho e Roberto Campos. Entretanto. XX e XXI Ao se aposentar em 1965.Séculos XIX. Durante um ano a empresa consultou o ministério de Minas e Energia sob Shigeaki Ueki sem obter qual­ quer resposta. No final desse período o próprio governo federal adquiriu por US$ 380 milhões a Light. principalmente nas estatais federais. A então chamada de realidade tarifária e serviço pelo custo veio proporcionar novo desenvolvimento do setor elétrico. climáticas. Com o advento do governo Castelo Branco ocorreu profunda e benéfica alteração na política eco­ nômica do País por terem composto o ministério dois políticos. Os anos setenta foram iniciados sob o signo do Brasil Grande com Estado todo poderoso sob o excesso de consumo deno­ minado de milagre brasileiro. Entretanto. geomorfológicas. no Centro-Oeste e no Nordeste. Os constantes abatimentos nas tarifas produziram intensas cri­ ses de liquidez nas concessionárias. 2 e 3. implantado pelo ministro Mauro Thibau das Minas e Energia. Em 1976 a Cataguazes Leopoldina adquiriu a Companhia Leste Mineira de Eletricidade na região de Manhuaçu. tendo vindo a tempo de salvar as empresas de energia elétrica da destruição devida ao arrocho tarifário tão prolongado. Vanor teve como sucessor o enge­ nheiro Ivan Müller Botelho. identificados com o li­ beralismo econômico mais ortodoxo. A Brascan respondeu que venderia se tivesse o consenti­ mento do governo federal. Em dezembro de 1974 veio novo golpe para as empresas eficientes: passa a vigorar a tarifa unificada independentemente das diferenças geográficas. O Decreto 54936 de novembro de 1964. A orientação do governo federal passou a ser voltada para a contenção da inflação e a reto­ mada do desenvolvimento. Somente em 1993 pela Lei 8631 é que as tarifas diferenciadas vol­ taram a ser praticadas. nessa década o governo federal passou a utilizar as tarifas de energia elétrica para controle da inflação que retomava o ritmo do início dos anos sessenta. Passou a haver a concentração de investimentos estatais em grandes obras hidroelétricas e no pro­ grama nuclear com a construção das usinas de Angra 1. No ano seguinte a empresa tentou adquirir a Companhia Mineira de Eletricidade. Figura 15 . A empresa nesse novo cenário pode ampliar seu parque gerador instalando mais duas unidades geradoras em Maurício Nova que passou a ter 31 MW de capacidade instalada. Esse decreto acabou com a concorrência e com os esforços para redução de custos.

A usina. subsi­ diária da Vale. todas situadas no rio Grande. Nessa década.Engenheiro Manoel Otoni Neiva em manobra considerada pela Comissão de Valores Imobiliários como tendo sido “ao arrepio da lei”. concessões de serviço público. Ituerê e Nova Maurício. o engenheiro Ivan Botelho assumiu a presidência do Conselho do grupo de em­ presas e o engenheiro Manoel Otoni Neiva assumiu a presidência da CPFL Minas onde se concentravam as hidroelétricas. somente em 1983 entrou em operação comercial com 13. como auto-produtora para suprir parte da carga de sua fábrica no Rio de Janeiro. Em 1999 a empresa adquiriu a Companhia Figura 17a – Barragem da hidroelétrica Sinceridade Figura 17b – Barragem da hidroelétrica Santa Cecilia 301 . estado do Rio de Janeiro. Com o falecimento de seu pai em fevereiro de 1990. Em 1997 a em­ presa adquiriu a Companhia de Eletricidade de Nova Friburgo CENF e a Empresa Energética de Sergipe ENERGIPE. as hidroelétricas de Anna Maria e Guary (6. Com a aquisição da CENF a empresa passou a operar as hidroelétricas de Hans. Catete e Xavier.02 por ação. a Cemig arrematou a Mineira de Eletricidade por Cr$ 2. localizadas em Santos Dumont e colocou em operação a hidroelétrica de Ervália de 6 MW instalados. a empresa ampliou as capacidades ins­ Figura 16 . Em 1999 a empresa criou a Cat-Leo para operar como produtor independente de energia elétrica. Em 1991 as hidroelétricas do Gloria.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens adução por túnel.8 MW instalados.5 MW). No início dessa década a empresa começou o projeto da hidroe­ létrica do Gloria com barragem de concreto com 14 m de altura e taladas das hidroelétricas de Coronel Domiciano e Neblina II e adquiriu. em 1999. foram vendidas à Valesul. projeto da Promon.

Figura 18 . para se capitalizar.Barragem da hidroelétrica Túlio Cordeiro de Mello (Granada) 302 . em 2000. tendo assumido a presidência da Energisa Minas o engenheiro José Antônio da Silva Marques. Em 2000 a Cat-Leo construiu em 362 dias a PCH Benjamin Ma­ rio Baptista com 9.Séculos XIX. o grupo.5 MW instalados. instalou as PCHs Ivan Botelho I. XX e XXI de Eletricidade de Borborema CELB e. carinhosamente chamado de Zé Tunim. a Sociedade Anônima de Eletrificação da Paraíba Saelpa. teve que se desfazer de algumas hidroelétricas acima em favor do grupo Brascan. Considerando a grande expansão do grupo em diversos ramos industriais e nas diversas aquisições de conces­ sões de distribuição de energia elétrica em outros estados. Ivan Botelho II. que veio a falecer prematuramente em 2009.Engenheiro José Antônio da Silva Marques (Zé Tunim) Figura 19 . em apenas dois anos. Túlio Cordeiro de Melo. tendo sido substituído pelo engenheiro Gabriel Pereira.A História das Barragens no Brasil . Ormeo Junqueira Botelho e Ivan Botelho III. Em segui­ da. hoje Brookfield. em Manhuaçu. Em 2004 o engenheiro Manoel Otoni Neiva se aposentou.

Barragem da hidroelétrica Ivan Botelho I (Ponte) Figura 22 – Casa de força da hidroelétrica Benjamim Mario Baptista (Nova Sinceridade) de 9.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 20 Barragem da hidroelétrica Ormeo Junqueira Botelho (Cachoeira Encoberta) Figura 21 .5 MW com apenas uma única unidade geradora 303 .

304 .

José Balbino de Siqueira e outros capitalistas.CPFL Fabio De Gennaro Castro No dia 16 de novembro de 1912. para em 1919 incorporar a Empresa de Eletricidade de Bauru. O artigo 3º de seu Estatuto Social dispunha que a empresa “terá por fim a exploração industrial da eletricidade em todas as suas variadas aplicações no Estado de São Paulo. com ou sem privilégio. Paralelamente. na capital de São Paulo. quaisquer empreendimentos que possam contribuir para o desenvolvimento do consumo de energia elétrica e também comércio de mercadorias relativas à indústria da eletricidade”. onde atual ou futuramente se possa explorar tal indústria. promovendo ou auxiliando. exemplo recente de parceria da CPFL com outros agentes do setor elétrico na implantação de grandes hidroelétricas 305 . isto em 1914. O ponto de partida da CPFL foi a Empresa Força e Luz de Botucatu. seguida da Empre­ sa Força e Luz Agudos-Pederneiras. pelas mãos de Ataliba Vale. Fonseca Rodrigues e Usina hidroelétrica de Campos Novos. com foco na produção de energia elétrica por iniciativa dos engenheiros Manfredo Antonio da Costa. foi criada a Companhia Paulista de Força e Luz.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Companhia Paulista de Força e Luz . Já em 1913 incorporou a Empresa Força e Luz de São Manoel e a Companhia Elétrica do Oeste de São Paulo. em 1912 era criada a Empresa de Eletricidade de Araraquara. direta ou indiretamente.

Por outro lado. Em 1957 entra em operação Peixoto. em 1871 fora implantada a iluminação pública a querosene em Campinas. e pela Bonaire Participações (que reúne os fundos de pensão Funcesp. pois esta deveria ser atendida pela Companhia de Iluminação a Gás. American & Foreign Power Company. Bradesco e  Camargo Corrêa). passou a controlar a Empresa de Eletricidade de São Paulo e Rio. pelo Fundo de Pensão dos Funcionários do Banco do Brasil (Previ). Companhia Auxiliar de Empresas Elétricas Brasileiras S A. Figura 2 . Nos anos recentes a CPFL passou a atuar intensamente com outros parceiros em grandes hidroelétricas. Em 1904 a firma Cavalcante Byington & Cia construiu a Usina Salto Grande no rio Atibaia também para iluminação pública. a qual. inicia-se a construção da usina de Americana e da termoelétrica de Carioba. Em 1946 inaugurou-se a usina Avanhandava no rio Tietê. sem conseguir atender Campinas. Figura 1 – Barragem de Lavrinha Em 1927 o controle acionário da CPFL passa para a CAEEB. tais como as usinas hidro­ elétricas de Campos Novos e Foz do Chapecó. po­ rém de Itatiba e Souzas. o controle da com­ panhia passou para o atual grupo composto pela VBC Energia (Grupo Votorantim.55 MW.Usina hidroelétrica de Salto Grande com 4. que atuava em parte do vale do Paraíba.A História das Barragens no Brasil . XX e XXI Ramos de Azevedo. atual Mascarenhas de Moraes.Séculos XIX. no rio Atibaia Em novembro de 1997. subsidiária da AMFORP. Petros e Sabesprev). com a privatização. Figura 3 . em 1920. Em 1975 o controle acionário passa a ser exercido pela CESP.Usina hidroelétrica de Americana com 30 MW 306 . Sistel. sendo criada em 1875 a Companhia Campineira de Iluminação a Gás.

Figura 4 .Barragem da PCH Alto Irani. Com isso o parque gerador foi ampliado com diversas outras usinas de pequeno porte.Visão artística do arranjo da usina hidroelétrica de Foz do Chapecó 307 . Esta usina foi agregada a CPFL Renováveis pela fusão da ERSA e CPFL Figura 6 . Cocais Grande. com 21 MW. Plano Alto. Varginha. Paiol.Barragem de São Gonçalo com 11 MW Figura 5 . tais como Alto Irani. São Gonçalo e Ninho da Águia.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Em 2011 ocorreu a fusão da CPFL com a ERSA dando origem à CPFL Reno­ váveis. Arvoredo. Corrente Grande.

308 .

e Alfredo Stroessner.Itaipu Binacional 309 . instalada em 15 de maio de 1974 e constituí­ da com igual participação em seu capital pela Centrais Elétricas Brasileiras S. tendo como signatários os chanceleres Mário Gibson Barboza. Apresentamos neste capítulo um breve relato histórico sobre a obtenção desse ingente resultado por ambos os países. Com a finalidade de realizar o aproveitamento hidroelétrico. e Raúl Sapena Pastor.A. no Paraguai.2011 Miguel Augusto Zydan Sória 1. Fazem parte do Tratado o Anexo A – Estatuto.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Breve Memória sobre a Usina de Itaipu 1966 . Nesse período. Como são Usina hidroelétrica de Itaipú. representando o Paraguai. O Tratado é complementado por acordos. o Anexo B – Des­ crição das instalações destinadas à produção de energia elétrica e das obras auxiliares. pertencentes em condomínio aos dois países. pelo Paraguai. representando o Brasil. o Tratado cria a entidade binacional Itaipu. desde e inclusive o Salto Grande de Sete Quedas ou Salto de Guaíra até a foz do rio Iguaçu. pelo Brasil. e o Anexo C – Bases financeiras e de pres­ tação de serviços de eletricidade. leis e protocolos. notas reversais. Introdução A hidroelétrica de Itaipu é fruto do Tratado celebrado em 26 de abril de 1973 pelo Brasil e pelo Paraguai para o aproveitamento dos recursos hídricos do rio Paraná. Barragem principal e condutos forçados Foto de Caio Francisco Coronel . e pela Administración Nacional de Electricidad (ANDE). (Eletrobras). no Brasil. eram presidentes Emílio Garrastazu Médici.

Sugerimos que os leitores que esti­ verem interessados em conhecer informações técnicas sobre o projeto Itaipu consultem outras publicações. das referências bibliográficas exis­ tentes recomendamos pesquisa no livro “Itaipu Hydroelectric Project – Engineering Features” . pode ser considerada como o momento que encerra a fase estratégica do processo. em 1966. por isso mais ligada à engenharia civil e à geologia.A História das Barragens no Brasil . Fonte: livro “Usina Hidroelétrica de Itaipu . Esses marcos nos permitem separar com nitidez as diferentes fases do processo de construção de Itaipu. Aspectos de Engenharia”. que possui versão em português “Usina Hidroelé­ trica de Itaipu. nominando alguns de seus inúmeros protagonistas. anexo.e. ITAIPU Binacional 2009. publicada em 2009. Como nosso intento é o de dissertar sobre a história da constru­ ção da hidroelétrica de Itaipu. 2. XX e XXI muitos os aspectos da Itaipu possíveis de serem explorados. as principais etapas e datas relativas ao Projeto Itaipu. e o Quadro II. realizada em conjunto com o Paraguai -. limitamo-nos a apresentar refe­ rências sobre detalhes técnicos do empreendimento quando as descrições assim o exigirem. Registra a concepção da idéia e prescreve as estratégias de alto nível a serem seguidas.Séculos XIX. A assinatura da Ata de Iguaçu. editado pela Itaipu Binacional em 1994.Aspectos de Engenharia”. onde as encontrarão fartamente. As menções feitas a eles devem ser consideradas uma homenagem a todos os que indistintamente participaram no esforço de construir Itaipu. no caso de Itaipu. abaixo. 310 . decorrentes estas das escolhas julgadas mais favoráveis. e considerando que a presente publicação se propõe a organizar em um único volume a memória das principais barragens cons­ truídas no Brasil para várias finalidades . Cronologia do Projeto Itaipu O Quadro I. de modo resumido. mostram. descreveremos as motivações e a concepção do projeto e enfatizamos os tópicos relacionados aos estudos prévios realizados e às obras civis. a qual constitui também o texto-guia deste trabalho. Nesse sentido.

O Tratado de Paz assinado em 1872. É importante frisar que era central nessa discussão a estratégica aspiração de suficiência no suprimento futuro de energia elétrica para os dois países. A primeira dessas motivações é oriunda da política externa. E foi justamente o que aconteceu com Brasil e Paraguai no início da década de 60 com a desco­ berta do potencial hidroelétrico do rio Paraná. Prevaleceu.2. da socioeconomia. as quais. colocando ambos os países em oposição. o detalhamento completo dos limites da fronteira jamais foi concluído em face de desacordo entre as partes em relação à demarcação da Serra de Maracaju no trecho em que ela se divide em dois ramos. O entendi­ mento da questão sob esse prisma acabou por reverter totalmente a situação. devido a circunstâncias intrínsecas. (EUA) e ELC – Electroconsult SpA. O consórcio formado pelas empresas IECO – International Engineering Company Inc. (Itália). logo após o término da Guerra do Paraguai (1865-1870). Motivação decorrente da política externa Para explicar a origem da motivação fundamentada na política externa remontamos a 1750. em vez de medir forças. pois a indefinição quanto à posse das Sete Quedas interferia nos planos de um e de outro para o aproveitamento pretendido. Principais motivações para a construção de Itaipu A análise mais profunda dos acontecimentos que levaram à construção de Itaipu revela que duas foram as suas motivações primordiais. sabiamente. Em 1967. Motivação decorrente da socioeconomia Conforme assinalado.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens 3. Ao investigarmos a formação da demanda de energia naquele mo­ mento da história. a inteligência política quando se estabeleceu que a construção e o uso da futura instalação seriam realizados em conjunto. no trecho do rio Paraná “desde e inclusive o Salto de Sete Quedas até a foz do rio Iguaçu”. era impreciso ao determinar os limites entre os territórios na margem direita do rio Paraná. energia em conjunto. pela sua enorme importância. até o Salto. primeira descrição minuciosa da fronteira brasileiro-paraguaia. Em 26 de abril de 1973. e do Paraguai. acabou por reabrir a polêmica em torno da fronteira na região das Sete Quedas porque estabelecia que os territórios deveriam dividir-se pelo rio Paraná. ano em que Espanha e Portugal assinaram em Madri o Tratado de Limites. Juracy Magalhães. O texto. pode dar causa a signi­ ficativos conflitos de interesses. porém. que pre­ via o alagamento de grande parte da área em litígio. em 1966 foi assinada a Ata de Iguaçu pelos ministros das Relações Exteriores do Brasil. Esse brevíssimo repasse pela história nos serve para compreen­ der que a possibilidade de exploração de um grande potencial hidroelétrico. deparamo-nos com hábitos da sociedade que 311 .1. No entanto. Raúl Sapena Pastor. Mas. A declaração conjunta manifestava a disposição de estudar o apro­ veitamento dos recursos hidráulicos pertencentes em condo­ mínio aos dois países. A solução proposta por um consórcio de empresas estrangeiras. uma Comissão Mista foi criada para implementar a Ata do Iguaçu. Como resultado de intensas negociações. foi escolhido para a realização dos estudos de viabilidade e para a elaboração do projeto da obra. optaram por unir forças. depois de adequada avaliação das propostas de diversos grupos qualificados. a disposição de construir uma hidroelétrica para atender à demanda de energia elétrica foi motivo de desa­ cordo entre Brasil e Paraguai nos anos 60. con­ vergiram e se somaram. e pelo cume da Serra de Maracaju. um acima e outro abaixo das Sete Quedas. 3. e a segunda. A inauguração da Ponte da Amizade em 1965 alimentou o clima de cooperação ao oferecer a perspectiva de facilitar o intercâmbio comercial entre eles. porém. encerrou a disputa por terras na fronteira. pela pri­ meira vez cogitou-se de os dois países se unirem para produzir 3. Brasil e Paraguai assinam então o Tratado de Itaipu. Em 1962. os dois go­ vernos. O entendimento diplomá­ tico abriu caminho para o início dos estudos técnicos.

A essas formas acresce-se hoje o emprego da biomassa e de outras fontes alternativas (eólica. É nesse clima de grande atenção ao tema energético nacional que foi criado em 1961 o Comitê Brasileiro de Grandes Barra­ gens (CBGB).). uma decisão de cunho macroeconô­ mico. que perdura até então mundo afora. que naquele momento não pas­ sou despercebido pelos estrategistas mais argutos. Paulo Afonso I (1954). Mas considerava-se também a possibilidade de aprovei­ tamento conjunto dos rios compartilhados com países vizinhos. Pelo lado da oferta. O contraste. onde disponível e viável. Secundariamente. Àquela época já se sabia que o potencial hidroelétrico dos rios interiores brasileiros era imen­ so. en­ quanto a água que corre nos rios o é. E as previsões sobre a importância que viria a ter a hidroeletricici­ dade acabaram por se confirmar. Dessa presciente decisão maior decorreram todas as demais. a primeira na inexplorada região Norte do País. A forma preferen­ cial. ondas. de caráter mais técnico. numa miría­ de de aplicações cotidianas. tendo como pontos altos justamente o início. não restava alternativa a não ser incrementar a produção maciça de energia elétrica nos níveis demandados. voltadas para a substituição de importações do petróleo. A decisão de construir Itaipu A conjugação. o que podia ser feito de diferentes formas. de profundos impactos na economia e no ordenamento social de muitas nações. no trecho de fronteira fluvial entre os dois países. em 1975. e de suas implicações nas demais infra-estruturas públicas e privadas que foram posteriormente implantadas. de longo alcance. vem a pro­ dução de energia elétrica de base hidráulica e atômica. tendo reflexos profundos nas decisões toma­ das sobre a matriz energética brasileira. portanto. sobreveio a crise mundial do petróleo. coincidentemente o mesmo ano em que é assinado o Tratado de Itaipu. é a de produzir energia elétrica com o emprego de combustíveis fósseis (carvão. Ou seja. a segunda. Esse preciso diagnóstico feito com competência pelo meio téc­ nico acabou por ser em grande parte internalizado pela classe dirigente do país. principalmente com a Argentina e o Paraguai. A experiência na execução desses projetos proporcionou adicionalmente a acumulação do capital inte­ lectual. Furnas (1963) e Jupiá (1968). etc. na região Sul. Três Marias (1962). já nas décadas de 50 e 60. pelo lado da procura. gás e petróleo. solar. dos citados fatores políticos e socioeco­ nômicos formaram o argumento de base para Brasil e Paraguai decidirem pela construção em conjunto de uma usina hidroelétri­ ca sobre o rio Paraná. Foi antes de tudo. da construção das mega-hidroelétricas de Tucuruí e de Itaipu. um diferencial competitivo. e constrói hidroelétricas de grande por­ te. que serviu mais tarde para os outros tantos projetos que foram realizados. que se inscreve na magnanimidade das políticas de estado. A iniciativa de criação do CBGB foi dos engenheiros que naquela época estavam assumindo gradativamente a respon­ sabilidade pelas atividades técnicas relacionadas à implantação dessas barragens no País.3. geotermia. os dados da questão eram razoavelmente claros. têm início a produção de etanol de cana-de-açúcar (Pró-Álcool – 1975). incluindo o de Itaipu. XX e XXI requeriam crescentes níveis de uso da eletricidade. proporcionadas por tecnologias cada vez mais inovadoras e sofisticadas. o que indicava autossuficiência de energia elétrica a médio prazo. A visão de “seguran­ ça energética” tomou então contornos dogmáticos. pois em 1973. preponderantemente). Entre as principais. 3. em sociedade com o Paraguai.A História das Barragens no Brasil . faz valer sua visão de “se­ gurança energética”. de construção do futuro dos dois países. A hidroeletricidade é. o Brasil. estimulando o rápido desenvolvimento de iniciativas em diversos segmentos no campo da produção de energia. objeto de nosso relato.Séculos XIX. um predicado. a pro­ dução de energia elétrica com base em energia atômica (Usina de Angra I – 1976) e a expansão da geração de energia de base hidráulica. abrangendo os entendimentos prévios entres 312 . consiste no fato de que os combustíveis fósseis não são renováveis. portanto. pois o Brasil evoluía da construção de barragens baixas e médias para barragens e hidroelétricas de grande vul­ to. Em razão disso.

. que. o registro do entendimento a que chegaram os governos do Brasil e do Paraguai e que expressa irrefutavelmente o amadurecimento da ideia de construir Itaipu. traduzido pela Ata de Iguaçu.2. então. O papel da Comissão Mista Técnica Para cumprir o disposto na Ata de Iguaçu. No documento consta “. a execução da obra e montagem dos equipamentos e. num projeto daquela envergadura. a elaboração dos estudos e projeto de en­ genharia. não pode ser aceito porque se pre­ via sua implantação exclusivamente em território brasileiro. . Antes disso. Período preparatório Conforme salientado.. na época.. entre outras obras. já estava ciente das potencialidades energéticas que representavam os aproximadamente 100 me­ tros de queda existentes no Salto Grande de Sete Quedas. em 10 de abril de 1970. por ocasião do enchimento do reservatório de Itaipu. assinada em 22 de junho de 1966. em 18 de novembro de 1970. eram esperados óbices de diversas naturezas para sua concretização. tal como será visto na con­ tinuidade deste trabalho. o consórcio ítalo-americano IECO-ELC. 313 . fundada antes de tudo na amizade e no respeito mútuo cultivado entre os dois países. A Ata de Iguaçu A “Ata de Iguaçu: Brasil – Paraguai”. dentro de um mesmo espírito de boa-vontade e de concórdia. Esses aspectos serão tratados com mais detalhes nas seções seguintes deste capítulo. a constituição da Itaipu Binacional. a divisão da energia em partes iguais. que intercedeu a favor do projeto perante o Congresso Nacional brasileiro. após alguns estu­ dos realizados em 1955-56. a assinatura do Tratado de Itaipu. sob a direção geral e coordenação de um Comitê Executivo. em 1967 foi criada a Comissão Mista Técnica Brasileiro-Paraguaia com a finalidade de realizar o estudo e o levantamento das possibilidades econômicas do aproveitamento hidroelétrico pretendido e apresentar o resul­ tado aos dois governos. é. visando ao aproveitamento hi­ droelétrico conjunto. portanto. complementado depois pelo Acordo Tripartite. a produção de eletricidade. quaisquer dificuldades ou problemas. achando-lhes solução compatível com os interesses de ambas as Nações.. Foram esses os principais antecedentes do acordo prévio que Brasil e Paraguai alcançaram em 1966. que se encerra com o Tratado de Itaipu. a qual foi desmontada em 1982.200 kW de potência instala­ da em um dos braços das Sete Quedas. com a supervisão de uma firma de consultores de engenharia. Foi. dirigida pelo engenheiro Octávio Marcondes Ferraz. Ministro de Minas e Energia do Brasil de 1969 a 1974. na região mais meridional da porção brasileira da imen­ sa bacia hidrográfica do rio Paraná. O convênio estabelecia que o trabalho fosse realizado por um gru­ po de técnicos de ambos os países. contratada a empresa EMF. 4. 4. O governo brasileiro. da usina de Paulo Afonso. Cabe destacar a atuação do engenheiro e economista Antonio Dias Leite Júnior. porém. A Comissão Mista Técnica. A Ata de Iguaçu. desviando-se o rio em trecho de fronteira e desconsideran­ do-se o aspecto binacional do sítio.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens os dois países. A EMF propôs um aproveitamento hidroelétrico da ordem de 10 mil MW. por sua vez. faz prescrições sobre alguns aspec­ tos relevantes do empreendimento. o Serviço de Navegação da Bacia do Prata já havia construído uma pequena hidroelétrica com 1. 4. ”. firma convênio de cooperação com a Eletrobras e com a ANDE. por fim. documento que marca o início do período preparatório. o vivo desejo de superar. o que revela o reconhecimento explícito das partes de que. a contratação de estudos de alternativas de locali­ zação da obra.1. Para esse fim foi então contratado. tais como a decisão de dar início ao estudo e levantamento das possibilidades econômicas de uso dos recursos hidráulicos comuns. a cessão da energia não utilizada e a necessidade de entendimentos com os estados ribeirinhos da Bacia do Prata. por conseguinte. no princípio da década de 60 cresce com rapidez a demanda de energia elétrica na metade Centro-Sul do Brasil. projetista. em 1959.

Porto Mendes. Além disso. com o potencial dividido em duas hidroelétricas. topografia. assim como a disponibilidade de materiais de construção e seus meios de transporte. Foi então feita a classificação e análise das informações existentes e aquisição de dados adi­ cionais envolvendo a meteorologia. pluviometria. com todo o potencial concentrado em uma única usina hi­ droelétrica e (ii) Itaipu Baixo e Santa Maria. 314 . 4. análises hidrológi­ cas. uma na ilha de Itaipu e outra 150 km a montante em Santa Maria. as estimativas de custos e os resul­ tados das simulações operacionais. que envolveram levantamentos de campo. sedimentação. Comparando-se os arranjos. Itaipu. Santa Maria.Séculos XIX. São Francisco. a serem desenvolvidos em quatro fases metodológicas. Arroio Guaçu. duas soluções se mostraram preferenciais: (i) Itaipu Alto. uma única barragem na ilha de Itai­ pu.Comissão Mista-Técnica Brasileiro-Paraguaia 4. duas barragens. a topografia.4. XX e XXI Figura 1 . Os estudos de viabilidade Em 1 de fevereiro de 1971 foram iniciados os estudos do aprovei­ tamento. os saltos hidráulicos líquidos seriam menores e os custos da potência instalada maiores.3. investigações geotécnicas e um inventário completo de al­ ternativas possíveis de projeto.A História das Barragens no Brasil . Disso resultou a indicação de dez locais possíveis para a construção de barragens (Guaíra. a solução Itaipu Baixo e Santa Maria mostrou-se menos competi­ tiva porque os custos dos desvios do rio e dos vertedouros seriam duplicados. A escolha do local Itaipu No cotejamento entre as duas alternativas finais selecionadas. Puerto Embalse e Ilha Acaray) e 50 diferentes arranjos. condições geológicas e geotécnicas. fluviometria. Laguna Verá. Alex Gage.

5% maior e a energia firme por volta de 33% superior à da combinação Itaipu Baixo e Santa Maria. Figura 4 . foi apresentado o relatório sobre o estu­ do preliminar de viabilidade. concluiu-se que o esquema com uma única barragem fornecia maior capacidade instalada ao menor custo por quilowatt (kW). Giovanni Salerno e Piero Sembenelli (todos da IECO-ELC). era localizada logo após uma curva acentuada do rio Paraná. o consultor Arthur Casagrande e outros não reconhecidos – 1973. quase sem­ pre submersa. 315 . a pouco mais de 20 quilômetros da confluência com o rio Iguaçu.A partir da direita: Pierucci. Taboada. que deu nome ao empreendimento. que significa na língua tupi “a pedra que canta”. R.1972 a geologia e as condições de vazão do rio também encareceriam os custos em Santa Maria. Por outro lado. A ilha de Itaipu. após a realização das três primeiras fases previstas na metodologia. Delgado. que indicou como mais favorável o projeto Itaipu Alto. cujo maru­ lhar provocado pela correnteza inspirou os indígenas a chamá-la “Itaipu”. o que foi aceito pela Comissão Mista Técnica. No final de dezembro de 1972. W. a capacidade instalada para Itaipu Alto seria 5. Ela consistia em um afloramento de rocha.Ilha de Itaipu – rio Paraná Figura 3 . A partir daí passou-se a utilizar a denominação Itaipu simplesmente.Trabalhos de sondagem na Ilha de Itaipu .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 2 . Ou seja.

didas prévias que o viabilizaram. foi apresentada uma minuta do re­ latório final de viabilidade à Comissão. regendo-se por normas esta­ belecidas no próprio Tratado e seus anexos. o Tratado foi ratificado pelos poderes legislativos de ambos os países no mesmo ano de 1973. portanto. atribuindo a ambos os países o mesmo poder de decisão e.1973 Administração e uma Diretoria Executiva integrados por igual número de nacionais de ambos os países.Séculos XIX. ultrapassavam em muito a própria economia do Paraguai.A História das Barragens no Brasil . para detalhar o “como fazer” no empreendimento. oportunidade em que se optou pelo prosseguimento do projeto Itaipu. que são: a possibilidade de aporte de recursos financeiros mediante operações de cré ­ dito. na medida do possível.6. A ITAIPU foi então constituída pela Eletrobras e pela ANDE. com detalhamento e profundidade adequados à obtenção de empréstimo perante os organismos financeiros internacionais. o que inviabilizava investimentos com uso de recursos próprios. Na continuidade. em julho de 1974. se já eram onerosas para o Brasil. O acordo foi feito de modo equilibrado. a divisão da energia pro­ duzida em partes iguais e o estabelecimento da obrigação de aqui­ sição por um país da energia não utilizada pelo outro país para seu próprio consumo. o instru­ mento-chave de consolidação do acordo alcançado pelo Brasil e pelo Paraguai para a execução do aproveitamento hidroelétrico. XX e XXI oportunidades iguais para mobilização da força de trabalho e para a realização dos fornecimentos em geral.5. não aplicação de impostos (mediante isenções fiscais) e de algumas restrições administrativas. 316 . Algumas disposições do Tratado refletem a adoção das me­ Em 12 de janeiro de 1973. Essas altas cifras. A singular engenharia econômico-financeira do projeto As simulações de custo do projeto que foram feitas na fase inicial dos estudos de viabilidade já indicavam a necessidade de recur­ sos financeiros da ordem de bilhões de dólares americanos para a execução das obras. sendo seus documentos oficiais redigidos em português e espanhol. Essa harmonização de interesses contribuiu para que se estabelecesse o “espírito binacional” que reinou durante toda a empreitada e perdura até hoje. a Comis­ são Mista Técnica determinou que fosse realizado pelos con­ sultores estudo completo de viabilidade para confirmação da alternativa escolhida. De modo a conferir a adequada segurança jurídica ao acordo.Consultor Arthur Casagrande (à esquerda) e Piero Sembenelli (IECO-ELC) na travessia do rio Paraná . e em igualdades de condições. O Tratado também define que a ITAIPU é administrada por um Conselho de Figura 5 . 4. de 26 de abril de 1973. Os três anexos do Tratado servem. O Tratado de Itaipu O Tratado de Itaipu. com igual participação no capital. O relatório final dos consultores foi apresentado posteriormente. basicamente. 4. é. superando divergên­ cias pretéritas. Essa deci­ são possibilitou o avanço dos entendimentos que resultaram na redação do Tratado de Itaipu. tendo-se como limite apenas a capacidade de cada um.

pelo financiamento integral do Projeto Itai­ pu por meio de empréstimos bancários. o Brasil em 2011 assume cerca de 95% de todos os encargos da ITAIPU. dependendo das condições hi­ drológicas na bacia do rio Paraná e do grau de regularização a montante da barragem. utilizando aproximadamente 92% da energia gerada pela usina. Ficou definido que os empréstimos.Presidentes Alfredo Stroessner (Paraguai) e Emílio Garrastazu Médici (Brasil).medida em MWh. Os modelos matemáticos utilizados nos estudos de viabilidade indicaram que a hidroelétrica. Dessa imensa quantidade de energia. passou a assumir todas as incertezas financeiras e de mercado associadas a um empreendi­ mento desse porte. va­ riável -.Assinatura do Tratado de Itaipu em 26 de abril de 1973 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 6 . Para garantir que a totali­ dade da potência disponível da ITAIPU fosse sempre contratada. quando estivesse completa. o Brasil e o Paraguai se comprometeram a contratar conjuntamente o total da potência instalada da usina. portanto. Essas duas disposições viabilizaram economicamente o empreendimento. pois só utilizaria para consumo próprio algo em torno de 10% de sua metade. Paralelamente. Para aferir o grau dessa responsabilidade. os gover­ nos do Brasil e do Paraguai resolveram então adotar um modelo de comercialização pelo qual as contratações anuais seriam feitas não pela produção de energia . assegurando assim o necessário suporte dos gastos a serem realizados nas diversas frentes de obra. com uma média estimada da ordem de 70 milhões de megawatts-hora por ano (MWh/ano). assim. Optou-se. encargos financeiros e demais itens de custeio do empreendimento se­ riam depois pagos com as receitas resultantes da produção de energia elétrica da própria usina. com 18 unidades geradoras operando. enquanto o Paraguai não conseguiria fazer o mesmo. o Brasil. acompanhados pelos chanceleres Raúl Sapena Pastor (esquerda da foto) e Mário Gibson Barboza. respectivamente. na prática. por meio da Eletrobras. medido 317 . produziria anualmente uma quantida­ de variável de energia. Para que se alcançasse a constância de receitas almejada. o Brasil estaria apto a ab­ sorver a metade que lhe corresponderia. e assim viabilizar economicamente o empreendimento. pois o Brasil. e. concordou em celebrar contratos com a ITAIPU de forma que o total da potência contratada fosse igual à potência instalada. mas pela potência do conjunto gerador da usina.

exemplificandose pelo extremo.Séculos XIX. do Paraguai. em seu patamar mais elevado. em uma fase predominantemente de intervenção na realidade. por sua vez. Figura 7 .A História das Barragens no Brasil . às demais enti­ dades compradoras a elas vinculadas. as avaliações feitas indicaram que. praticamente blindado contra os efeitos dessas sazonalidades. os Ministros das Relações Exteriores e de Minas e Energia do Brasil conjuntamente com os Ministros de Relações Exteriores e de Obras Públicas e Comunicações do Paraguai deram posse nos respectivos cargos aos Membros do Conselho de Administração e da Diretoria Executiva. pelo Brasil. Constituição da Itaipu Binacional Cumprindo o disposto no Tratado e seus anexos. o maior impacto dessas incer­ tezas recairia sobre seu setor elétrico. Execução do projeto Atendidas as condições necessárias ao desenvolvimento do proje­ to. Isso acarretava para o comprador au­ mento do componente de custeio devido à energia adquirida da Itaipu sempre que o consumo fosse inferior à capacidade contratada. 5. Contudo. do Brasil. O Paraguai ficava. Ou seja. é claro. A prestação do serviço de eletricidade seria então remunerada pela capacidade de produção posta à disposição do usuário. e Enzo Debernardi.05. 5. em razão de o setor elétrico brasileiro ser de grandes proporções. e estar em expansão. ele teria condições de absorver e diluir eventuais variações de demanda para menos que viessem a ocorrer. passou-se então à sua execução.1974 é efetuada a instalação da ITAIPU Binacional. e destas.1. esta pagaria sempre pelo direito de ter potência energética à sua disposição. XX e XXI em MW. sendo nomeados Diretores-Gerais José Costa Cavalcanti. Esse modelo implica. Tal modelo acabou por constituir o fator diferencial que selou a decisão de construir Itaipu. Como o Brasil consumiria a maior parte da energia produzida. na transferência das incertezas para a Eletrobras e para a ANDE. com a presença dos Presidentes Ernesto Geisel. viabilizando-o defini­ tivamente. tornando suportável desse modo os efeitos da contratação por potência sinalizado para o Projeto Itaipu. assim. em 15. mesmo que nada fosse consumido pela entidade compradora.Constituição da Itaipu Binacional em 17de maio de 1974: Presidentes Alfredo Stroessner (Paraguai) e Ernesto Geisel (Brasil) 318 . independente­ mente do que fosse consumido de energia. pelo Paraguai. e Alfredo Stroessner. grandeza invariável cujo valor seria fixado nos limites de potência necessários à produção da “energia garantida”. Para esse fim.

Figura 8 . Altino Ventura Filho (1998). responsáveis pela coorde­ nação. Euclides Girolamo Scalco (1998-2002). Desde 2003 o cargo é ocupado por Jorge Miguel Samek.Organograma geral da ITAIPU Binacional Foram Diretores-Gerais Brasileiros.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Logo após. para a formação do reservatório. o orçamento inicial. o aparato organizacional e o instrumental necessários ao início da execução do projeto. para instalação dos serviços administra­ tivos. 319 . Estavam desse modo estabelecidos o local. Ney Aminthas de Barros Braga (1985-90). Antonio José Correia Ribas (2002-03). organização e direção das atividades da Itaipu. para as instalações do aproveitamento hidroelétrico e suas obras auxiliares. Francisco Luiz Sibut Gomide (1993-95). Jorge Nacli Neto (1991-93). são então destinadas áreas de terras no Brasil para a construção da hidroelétrica. para a edificação da vila residencial para os trabalhadores. Euclides Girolamo Scalco (1995-98). são destinadas áreas de terras no Paraguai. posteriormente. Fernando Xavier Ferreira (1990-91). a estratégia de alto nível. tendo sido posteriormente definida a área total delimitada. José Costa Cavalcanti (1974-85). em caráter parcial. De igual manei­ ra. e.

(vi) as unidades geradoras principais. e (xi) a casa de força. Belloni.Grupo de engenheiros com os consultores. (vii) a dupla frequência. Don Deere. no Paraguai e em outros países. XX e XXI 18 unidades de 700 MW. Arthur Casagrande.600 m3/s. José Roberto Monteiro (Itaipu) e Flavio H.A partir da esquerda: Luis Carlos Domenicci (Unicon). detento­ res de conhecimentos compatíveis com as necessidades técnicas de Figura 9 . P.3. na ordem de 62. na margem direita. cujo relatório foi apresen­ tado em julho de 1974. Projeto de engenharia: dados básicos e características Com base nas prescrições do relatório final de viabilidade do em­ preendimento a partir do segundo semestre de 1974 deu-se início a ampla mobilização de pessoas e empresas no Brasil. Lyra (Chairman do Board de Consultores da Itaipu) – outubro de 1977 320 . Esse relatório final incorporou: (i) os estudos hidrológicos levados adiante.Séculos XIX. Gallico . Superintendente de Engenharia). Superintendente da Obra). Consoante a complexidade e importância da tarefa. para elaborar o projeto de engenharia de Itaipu. (viii) o arranjo geral. Piasentin. vários grupos especialistas. (v) os ensaios em modelo de regulari­ zação do rio e instalações para navegação. Estudos e investigações confirmatórios Com vistas a cumprir a determinação da Comissão Mista Técnica para que fossem desenvolvidos pelos consultores estudos de viabilidade adicionais e de confirmação da alternativa escolhida. (iv) a capacidade instalada da usina. na escala 1:100. Nauroz Khan (gerente do estudo de viabilidade). Rubens Vianna de Andrade (Itaipu. (ix) o vertedouro. 5. com o emprego de técnicas apuradas de gerenciamento de projetos. José Gelazio da Rocha (Itaipu. (x) as barragens. foram forma­ dos. A partir da esquerda: Castro.2. de maneira concatenada. (iii) os estudos da frequência das enchentes. (ii) a enchen­ te de projeto do vertedouro. Sembenelli. decorrente do fato de que o Brasil adota a frequência de 60 Hz e o Paraguai de 50 Hz. concluindo pela instalação de Figura 10 . passou-se à realização da quarta e última fase dos estudos de viabi­ lidade do projeto. portanto logo após a instalação da ITAIPU Binacional.A História das Barragens no Brasil . Arthur Casagrande (consultor).1974 5. A. Edwin Smith .

Figura 11 . Orlando Gomes dos Santos e Flavio H. representado pelo experiente Engenheiro Gurmukh Sarkaria. relacionando somente as principais empresas participantes.A partir da esquerda: Corrado Piasentin. Lyra (Chairman do Board de Consultores da Itaipu) – outubro de 1977 321 . Fernão Paes de Barros. que se refletiram posteriormente em toda a cadeia de processos. apresenta uma síntese das principais atividades desenvolvidas nessa etapa de estudos e projetos. que. por sua vez. Conforme mencionado. vertedouro. o arranjo geral das instalações permanentes foi diferente em alguns aspectos daquele definido durante a fase de viabilidade. Gurmukh Sarkaria (Coordenador-Geral da IECOELC). e mediante os resultados dos testes e verificações feitos na fase de projeto. barragens e ensecadeiras.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens dimensionamento e especificações das principais partes da hidroe­ létrica: estruturas de desvio. Isso necessariamente implicou o atendimento de rigorosas exigências. reservatório. A diretriz geral que marcou essa etapa essencialmente conceptiva do Projeto Itaipu foi a do emprego incondicional de critérios de excelência técnica mundialmente disponíveis para projetos des­ sa natureza. igualmente tratadas por especialistas de diversas áreas. casa de força e equipamentos de geração de energia. Essas partes principais. Arthur Casagrande. desempenhou a função de Coordenador-Geral do Projeto. foram subdivididas em diversas outras. O Quadro III. de subprojetos e de esquemas organizacionais do empreendimento. Don Deere. Cabe destacar que a Itaipu manteve a liderança do processo a cargo do consórcio internacional IECO-ELC. naquela fase. em razão do aprofundamento dos estudos. Klaus John. anexo. pois não se revela possível nes­ ta memória resumida listar as muitas outras empresas e profissionais que participaram do esforço.

cortinas de injeção e de drenagem. fabricação e funcionamento dos geradores. Dessas investigações. furos e túneis de drenagem. se reuniam re­ gularmente para analisar aspectos especiais do projeto e da cons­ trução das obras civis. complementares às estruturas das fundações. encontradas na forma de juntas.Rubens Vianna de Andrade (esquerda. o cálculo e dimensionamento das fundações das barragens e das demais estruturas a serem erigidas. apre­ senta uma relação dos principais ensaios e estudos especiais realizados e das instituições que os conduziram. relacionados no Quadro IV. que definiram a deformabilidade e a resistência dos diversos tipos de brecha. anexo. e. que jazem sobre grandes derrames basálticos da bacia superior do rio Paraná. exigiram o emprego de tratamen­ tos subterrâneos para assegurar sua estabilidade frente às cargas a serem suportadas. poço de investigação e de acesso. escavações de trincheiras. anexo. Fundações: investigações geológicas e geotécnicas Definido o arranjo geral das instalações permanentes e. bem como do projeto e da fabricação das unidades geradoras. por conse­ guinte. Caracterizada a geologia da área do projeto e do reservatório. basalto vesicular e basalto denso. a geometria e a disposição territorial do conjunto. que foram devidamente instrumentadas para posterior monitoramento. os recursos de simulação auxiliaram significativamen­ te nas decisões dos projetistas. contatos. e Diretores-Gerais José Costa Cavalcanti (Brasil) e Enzo Debernardi (Paraguai) – dezembro de 1977 A Itaipu manteve um painel permanente de consultores inter­ nacionais (Board). especialistas e firmas encarregadas dos ensaios em modelos para resolverem problemas específicos de engenharia civil e aspectos ligados ao projeto. Superintendente da Obra). representativos do conhecimento acumulado no mundo até aquela época em projetos hidroelétricos. Essas descontinuidades. As­ sim.A História das Barragens no Brasil . bem como identificaram as principais descontinuidades existentes no subsolo de assentamento das fundações. de maior extensão e volume. Foram também mobilizados muitos consultores. nas fundações da barragem principal no leito do rio.4. poços e túneis para verificação e a realização de ensaios in situ e ensaios em laboratório. pôde-se dar início ao aprofundamento das investigações geológicas e geo­ técnicas feitas na Fase 1 dos estudos de viabilidade. O Quadro V.Séculos XIX. partiu-se para as investigações geotécnicas. foi também prescrita a execução de injeções. áreas fraturadas e zonas cisalhadas. tendo em vista 322 . com o emprego principalmente de chavetas de con­ creto na descontinuidade da margem direita. XX e XXI Figura 12 . Esses consultores. 5. por meio de sondagens e perfurações.

Márcio de Almeida Abreu (1991-92). Nesse sentido. Conclu­ ído o canal de desvio. Nelson Infanti Jr. situado no contexto geral do Sistema de Qualidade das Construções de Concreto. definiu que no ano de 1983 seria iniciada a operação da primeira unidade geradora. Roberto Lei­ te Schulman (1985-90). as obras civis tiveram início com a execução de vá­ rias frentes conjuntas de escavações. e com dinâmica adequada à velocidade de construção da obra. a calha do vertedouro e a fundação da barragem de enrocamento. 5. construção das obras e operação das instalações: John Reginald Cotrim (1974-85). Na época de sua implantação (1975-76) Figura 13 . pela expressiva monta das di­ mensões e volumes envolvidos na construção da usina. a cronologia e a organização dos trabalhos a serem realizados. Essa decisão determinou o planeja­ mento. Tratava-se de uma operação complexa. No laboratório foram adotados padrões até mais exigentes do que aqueles que essas normas depois vieram a estabelecer. passou-se para a cons­ trução da barragem principal e do vertedouro e da casa de força.5.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Por essa lógica. Desde 2002 o cargo é ocupado por Antonio Otelo Cardoso. Relações do trabalho e previdência social Para o normal andamento da obra. 323 .Grupo de geólogos das projetistas se apronta para inspecionar os túneis e poços. foram en­ tão separadas as atividades que dela independiam. no programa de construção. o que permitiu que. se previsse o início em 1975 de diferen­ tes frentes de trabalho em paralelo. parte desta última no leito do rio ao pé da barragem principal e parte dela ao pé da estrutura do desvio. John Cabrera. O material das escavações foi utilizado para a construção das ensecadeiras principais no leito do rio Para­ ná e da barragem de enrocamento na margem esquerda. Foram Diretores Técnicos brasileiros da Itaipu. era importante assegurar direitos laborais e proteção social que favorecessem a recepção e a perma­ nência do expressivo contingente de trabalhadores e suas famílias na área do projeto. Flávio Decat de Moura (1993-95). segundo indicou a rede CPM (Critical Path Method) elaborada. Planejamento e organização dos trabalhos A Itaipu.6. A partir da esquerda: Minervino Buosi. tendo como mais volumosas o próprio canal de desvio. Szolt Gombosy. Marcos Antônio Schwab (1995-96) e Altino Ven­ tura Filho (1996-2002). Rubens Vianna de Andrade (1990-91). suas ensecadeiras em arco e a estrutura de controle nele existentes. Sendo a construção do canal de desvio a atividade mais crítica. tais como as séries ISO. e desviado o rio. merece menção especial a contribuição do La­ boratório de Materiais e Concreto da Itaipu (que atualmente se denomina Laboratório de Tecnologia do Concreto da Itaipu – LabTecon). e Maurício Muller – maio de 1977 ainda não existiam normas avançadas de controle de qualidade. em 1975. que tiveram seu advento nos anos seguin­ tes. Roberto Ramón Acosta Alvarez. responsáveis pela condução do projeto. envolvendo algumas importantes obras civis e diversas encomendas de equipamentos e componentes eletromecânicos com perfil de fornecimento de longo prazo. 5.

uma vez que as cidades de Foz do Iguaçu e Puerto Stroessner. as matérias relativas a higiene e a segurança do trabalho são objeto de acordo complementar ao Protocolo. Execução das obras civis As obras tiveram início em janeiro de 1975. Roberto Monteiro. aos trabalhadores contratados pela Itaipu. Na mesma linha. dos empreiteiros e subem­ preiteiros de obras e locadores e sublocadores de serviços. As obras do desvio têm como elementos 5. com a constru­ ção do canteiro e da infraestrutura. segurança física e de assistência social aos trabalhadores e suas famílias. que foram concluídas em 1991. não dispunham de condições de absorver os contingentes humanos que a elas afluiriam em breve. Por sua impor­ tância e complexidade.8.1974.A História das Barragens no Brasil . esgoto e comunicação. escolas. redes de serviços de eletricidade. creches. à época. em que também é previsto a constituição de comissões de prevenção de acidentes de trabalho.Séculos XIX. água. em 10. O desvio do rio Paraná se deu em quatro etapas. estabelecendo as normas jurídicas aplicáveis. começaram as obras civis propriamente ditas. as conhecidas CIPAs. Francisco Andriolo e Ademar Sonoda (todos da Itaipu) 324 .1974.Ultima inspeção das adufas e do canal antes do desvio do rio Paraná em outubro de 1978. centros comunitários. hospitais. como mencionado no item 5. Foi também melhorada e expandida a rede viária existente para integrar as instalações do projeto com as cidades da área e organizados serviços de coleta de lixo. em 11. o Protocolo Adicional so­ bre Relações do Trabalho e Previdência Social relativo aos contratos de trabalho dos trabalhadores. e estradas pavimentadas permanentes para garantir o transporte de pessoal. Da esquerda para a direita: José Augusto Braga (Itaipu). iniciando-se em outubro de 1975 pela escavação do canal de desvio e terminando em julho de 1979 com o esgotamento da área de trabalho entre as ensecadeiras principais. anexo. em matéria do direito de trabalho e previdência social. Essas obra incluíram conjuntos habitacionais. em maio do mesmo ano.5 acima. No Quadro VI. é também assinado. Ronan Rodrigues da Silva (Diretor de Construção da Unicon). clubes e áreas de lazer. Figura 14 . 5.02. independentemente de sua nacionalidade.09. o Protocolo sobre Relações de Trabalho e Previdência Social. XX e XXI Para tanto. Logo depois. foi assinado pelo Brasil e pelo Paraguai. materiais e equipamentos. Infraestrutura de apoio Foram implantadas obras de infraestrutura destinadas a abrigar e dar assistência aos trabalhadores brasileiros e paraguaios das várias empresas contratadas para executar as obras e serviços. em ambas as margens.7. consta a relação dos consórcios e empresas que as executaram.

294 m) e na margem direita (872 m). localizado na margem direita do rio Paraná.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 15 .200 m3/s por meio de três calhas com trampolim. testes de funcionamento e seu fechamento final que aconteceu em 13. as ensecadeiras auxiliares em arco de montante e de jusan­ te no canal de desvio (demolidas a fogo posteriormente. 325 . que compõem o arranjo geral da Itaipu. O vertedouro.Consultores Klaus John (à esquerda). Atenção es­ pecial foi dada às comportas de desvio e seu fechamento. a estrutura de controle do desvio. que exigiram os cuidados executivos de costume para terraplenos com essa tipologia. e que depois receberam as respecti­ vas comportas e equipamentos associados. com o enchimento do reservatório. As comportas de desvio foram posteriormente recuperadas e recondicionadas para uso como comportas de tomada d´água. os trampolins e as galerias. Uma das fases mais importantes e críticas foi o fechamento do rio Paraná e seu desvio para o canal e a estrutura de desvio. o túnel rodoviário. A barragem de enrocamento da margem esquerda (1. gerando imagens que ficaram famosas devido à ampla divulgação do fato na mídia) e as ensecadeiras principais de montante e de jusante no rio. os muros. construtivos principais o canal de desvio. evento que marca o início do enchimento do reservatório de Itaipu. requereram em suas extremidades zonas de transi­ ção para contato entre si e dispositivos de abraço para contato com as estruturas de concreto (barragem de contrafortes e vertedouro).1982. observar seu desempenho hidráulico e seu desempenho estrutural e os processos erosivos de jusante. A partir de 1982. Foram então executados a estrutu­ ra da crista. sendo reali­ zados ensaios e estudos em modelo hidráulico necessários ao projeto e fabricação de seus componentes. foi possível operar o vertedouro. testes nos trampolins e análises dos efeitos erosivos a jusante. teve seu arranjo final precedido de ensaios em mo­ delo hidráulico em escala 1:100.984 m de com­ primento) e as barragens de terra existentes na margem esquerda (2. com capacidade de evacuar 62. as calhas. A experiência de operar a contento o vertedouro durante muitos anos atestou sua absoluta confiabilidade para extravasar as descargas necessárias. que são os principais componentes que formam a geometria dessas estruturas. Don Deere e Arthur Casagrande – outubro de 1978.10.

Consultores Charles Blanchet (à esquerda). Essa atividade de auscultação da barragem continua na fase atu­ al de operação e inclui a avaliação do comportamento estrutural. associada às inspeções dos engenheiros e técnicos da Itaipu.5 milhões de metros 326 . XX e XXI Figura 16 . foram se erigindo gra­ dualmente as estruturas das tomada d’água e dos demais blocos de concreto. 6.Paul Joachim Folberth (à esquerda) e Gurmukh Sarkaria (ambos da IECO-ELC) – abril de 1979 A parte central da hidroelétrica. Enquanto eram executadas as escavações para as fundações. Essas obras civis envolveram colossais quantidades: mais de 23 mi­ lhões de metros cúbicos de escavação em terra. que aloja a casa de força e. tratamentos e construção de chavetas sob o leito do rio. e feitas as injeções.Séculos XIX. O desempenho da barragem durante a fase de construção e o enchimento do reservatório foram avaliados pela instrumenta­ ção de monitoramento instalada nas estruturas e suas fundações. o Edifício da Produção.A História das Barragens no Brasil . Arthur Casagrande e Gurmukh Sarkaria (IECO-ELC) no canal de desvio – outubro de 1978 Figura 17 . quase 32 milhões de metros cúbicos de escavação em rocha.Maquete da escavação da barragem de Itaipu . hidráulico e térmico das barragens pelos resultados da instrumentação. enquanto o longo segmento em curva que liga a barragem ao vertedouro na margem direita e a estrutura de desvio na margem esquerda foram dotados de barragens de concreto de contrafortes. sobre esta. foi dotada de uma barragem de concreto de gravidade aliviada. em grande volume.

representatividade de um trecho e peculiaridades da fundação. Existe também uma rede de sismômetros que cobre a área da bar­ ragem e do reservatório de Itaipu. posição. Alessandro Gallico (Engenheiro Chefe da ELC . 5. Ricardo Abrahão (Promon).6 milhões de metros cúbicos de concreto com 31. assegurando assim a observação direta das estruturas e fundações e dos próprios instrumentos.5 milhões de toneladas de cimento e 481 mil toneladas de aço. Engenheiro Gurmukh Singh Sarkaria (Coordenador Geral IECO-ELC).5 milhões de toneladas de peso. Figura 18 . não identificado. A auscultação da barragem e a junta de consultores civis O projeto de auscultação da represa de Itaipu busca a garantia da segurança da barragem. É importante salientar a decidida atuação do Engenheiro Rubens Vianna de An­ drade. Giacomo Re (Themag). Libero Medaglia (IECO-ELC). denomi­ nados blocos-chave. pois a leitura manual obriga os técnicos a visitar roti­ neiramente toda a barragem. o que consumiu mais 2.9. Superintendente de Obras. (motorista IECO-ELC).Milão). foram selecionados levando em conta altura. Hilário Da Fré (motorista IECO-ELC). tipo. O objetivo é monitorar a even­ tual ocorrência de sismos induzidos pelo reservatório. não identificado. em vez da leitura centralizada e automática. A partir da esquerda: Adão K. nessa complexa etapa do projeto.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens cúbicos de argila compactada e 15 milhões de metros cúbicos de enrocamento. No projeto original de Itaipu foi adotado o critério da leitura manual da instrumentação. Fernão Paes de Barros (Itaipu). até hoje não 327 . José Antônio Rosso (Itaipu). Michael Sucharov (Engevix).Enchimento do reservatório. Os blocos mais instrumentados. 12. Dillo Rocha (Engevix) – outubro de 1982.

As reuniões da Junta são precedidas de acurados preparativos. que. sem dúvida os mais qualificados para exercer a gestão técnica do empreendimento.3. Os argumentos se contrapunham ao ponto de o assunto ter sido debatido inclusive durante a Assembléia Geral da ONU realizada em 1972. atualmente se reúne a cada qua­ tro anos aproximadamente para verificar o desempenho das estruturas civis da Itaipu. Essa Junta de consultores. Corrado Piasentin. Sarkaria (1995 a 2006) e Nelson L. também chamado de “Junta de Consultores Civis” ou “Board de Con­ sultores Civis”. Por outro lado. Foram presidentes da Junta Flavio H. levantamentos e pré-análises técnicas. feitas por consultores especialistas que acompanham por anos o cotidiano da aus­ cultação da barragem e apóiam as equipes técnicas da Itaipu. a ser erigido logo a jusante de Itaipu. Michael Maxwell Dayan Dermont Sucharov. Criado em 1974.Séculos XIX. As questões estavam centradas no estabeleci­ mento de um nível de água de operação de Itaipu que permitisse a viabilidade do futuro aproveitamento hidroelétrico argentinoparaguaio de Corpus. passando depois pelas fases de construção. para as três Partes. a efetiva convergência de interesses e a obtenção de benefícios recíprocos. como a Cordilheira dos Andes e as Filipinas. de Souza Pinto (2010). pelo Brasil e pelo Paraguai. em que “As deliberações (do Acordo) caracterizam-se por um espírito de boa vizinhança e de cooperação na busca de uma solução que representasse. os consultores recomendam eventuais ações de melhoria e correção. Isso se deu em boa parte graças ao hábil uso pelos diplomatas dos elementos fornecidos pelo meio técnico que possibilitaram o alcance de entendimentos operativos que vieram a pacificar a questão. Deve-se destacar a presença no Projeto Itaipu desses renomados engenheiros. As negociações. que consideravam igualmente legítimos e pertinentes. tendo participado dos trabalhos de engenharia desde o início do projeto. Entre estes men­ cionamos: do Brasil. para satisfação de todos os interessados.A História das Barragens no Brasil . mobilizou-se para assegurar uma regulação do fluxo que não prejudicasse seus direitos e interesses sobre as águas do rio Paraná. Os equipamentos são capazes de registrar terremotos que ocorrem inclusive em regiões distantes. na manutenção da viabilidade da navegação e do abastecimen­ to de água. celebrado em 19. conforme citado no Quadro IV do item 5. Marcos Antonio Daniel Damus e Roberto Ramón Acosta Alvarez. O Acordo Tripartite A Argentina. A Junta realizou 20 reuniões entre 1975 e 2010. exigiram mais um tour de force da área diplomática. XX e XXI registrados. 5. e do Paraguai. A Junta realiza inspeções técnicas e analisa os dados da auscultação para aferir as condições de uso e segurança da usina.10. bem como na adoção de medidas de segurança e de preservação ambiental.10. Nascia desse modo o Acordo sobre Cooperação Técnico-Opera­ tiva entre os Aproveitamentos de Itaipu e Corpus. a natureza do assunto o insere ainda como última providência do período preparatório. mais uma vez triunfou. Brasil e Paraguai avocavam direitos de uso das águas do rio. Embora nessa oportunidade a obra de Itaipu já estivesse em andamento.1979 pela Argentina. Lyra (1974 a 1992). João Francisco Al­ ves da Silveira. em cujos traba­ lhos participaram trinta consultores. Gurmukh S. a Itaipu mantém um painel permanente de consultores inter­ nacionais especialistas em engenharia de barragens.”. 328 . que não foram isentas de momentos tensos. conhecidos in­ ternacionalmente. Ao término de cada reunião é elaborado um relatório técnico sobre a segurança da barragem e seus temas correlatos. Se necessário. Alguns desses profissionais são colaboradores de longa data da Itaipu. montagem e operação da usina. que se reunia com frequência maior durante a fase de estudos e projetos e iní­ cio da construção das obras. ciente das expressivas dimensões da barragem de Itaipu e de sua capacidade de armazenamento e de contro­ le dos caudais.

capaz de armazenar 29 bilhões de metros cúbicos de água.80 metros (acima do nível do mar). justamente por Itaipu. O cânion. compartilhado pelo Brasil e pelo Paraguai.11. 329 . tal como ocorreu. situa-se na porção mais a jusante do rio Paraná ainda em território brasileiro. no prazo de 15 dias. passa a ser insuficiente para a água que se acumula. da mais alta importância para todo o projeto. em pé). O rio Paraná. invade e se espraia com rapidez nas adjacências mais altas e mais planas.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 19 .1979 – Chanceleres Alberto Nogués (Paraguai. Esse lago. Cabe salientar que a existência desses reservatórios faz com que o rio Paraná saia do Brasil. A formação do reservatório Conforme mencionado. em 13 de outubro de 1982 as comportas de desvio foram completamente fechadas e teve início o enchimento do reservatório de Itaipu.10. 5. fundamentais para que a operação fosse bem-sucedida. dentro de um espírito de cooperação entre os países do Cone-Sul da América do Sul.Assinatura do Acordo Tri-Partite Argentina-Brasil-Paraguai em 19. que drenam os cursos de água de uma vasta área com mais de 820 mil quilômetros quadrados a montan­ te de Itaipu. Esse evento. que enfim transborda da calha do rio. então. com elevado grau de regu­ larização. elevandose em quase 100 metros . que se deu em três etapas. a montante e a jusante da barragem. sendo por isso o último de um conjunto de 47 reservatórios de usinas com potência maior que 30 MW existentes na Região Hi­ drográfica do Paraná. Carlos Washington Pastor (Argentina) e Ramiro Saraiva Guerreiro (Brasil). em direção ao Paraguai e à Argentina. A cessão desse benefício é feita pelo Brasil sem ônus para a Argentina e para o Paraguai.350 km2 (780 km2 no Brasil e 570 km2 no Paraguai). que antes comportava inte­ gralmente o veloz rio Paraná. foi antecedido de uma série de preparativos. Formou-se desse modo um lago artificial de expressivas dimensões: 170 km de comprimento. profundidade máxima de 180 m e su­ perfície de 1. passou da cota 109 me­ tros para a cota 205.

meio ambiente e desenvolvimento”. projeto em que atuou o arquiteto e paisagista Fernando Magalhães Chacel e que foi executado pelas empresas PARELC – GCAP e Arquitetura Ambiental S. Essa avaliação serviu principalmente para definir qual estru­ turação seria mais adequada ao Plano-Mestre de utilização da área do reservatório. ainda que naquela época parte da região registrasse importante inter­ venção humana. é claro. e prescreveu a realização de levantamento ambiental na área do projeto. que serão apresentados na sequência. se aprofundaram no assunto e apresentaram à Comissão Mista Técnica Brasileiro-Paraguaia estudo elaborado pelo Dr. levantamento da fauna e levan­ tamento da pesca) e ao meio ambiente social (programas sanitários e de saúde pública e investigações arqueológicas). A medição desses parâmetros tem indicado que. ao meio ambiente biológico (levantamento florestal. inusuais à época. foi criada a Diretoria de Coordenação. 5. como se previa. O plano definiu então os usos múltiplos do reservatório.Séculos XIX. Os levantamentos previstos se deram então quanto ao meio am­ biente físico (qualidade da água. algumas delas potencialmente conflitantes entre si. Essas considerações ambientais. Cabe men­ cionar a participação do Engenheiro Arnaldo Carlos Muller na liderança desses trabalhos. 330 .A História das Barragens no Brasil . não ocorrem fenômenos geofísicos que afetem adversamente a segurança e a estabilidade das estruturas da represa. foi elaborado o “Plano Básico de Conservação do Meio Ambiente”. limpeza da área do reservatório. A partir dos estudos de 1973. além. Robert Goodland e por especialistas da própria IECO-ELC. a aqui­ cultura (tanques-rede e canal de migração e desova – Canal da Piracema) e a recuperação e paisagismo da área de construção da obra. pesca. pois. em 1973. turismo e lazer. entre cujas atribuições está a de ser responsável “pelos serviços relacionados com a preservação das condições ambientais na área do reservatório”. A possibilidade de adoção de medidas voltadas ao meio ambien­ te deu o tom para toda a ação que se seguiu. a elaboração de um plano-mestre para utili­ zação da área do reservatório e a aplicação de medidas de prote­ ção ambiental. tiveram reflexo inclusive na estrutura organizacional da Itaipu. da geração de energia elétrica: nave­ gação. a implantação de reservas e refúgios (em um total de oito no Brasil e no Paraguai). o qual posteriormente publicou o livro “Hidroelétricas. principalmente na mar­ gem brasileira. que definiu a política ambiental da Itaipu a partir de 1975. Isso foi percebido pelos projetistas que. As medidas de proteção e valorização do meio ambiente envolveram a proteção das florestas existentes e reflorestamento (que nos dias atuais contabiliza 44 milhões de árvores plantadas). efeitos climáticos e transporte de sedimentos. Definiu também um zoneamento territorial do reservatório: (1) zona do reservatório e (2) zona do litoral (onde se encontra a área de proteção do reservatório): setores especiais. tendo o relató­ rio referente a esse último item sido elaborado pelos consultores James Albert Harder e Hans Albert Einstein). XX e XXI Afora os aspectos ambientais relacionados à formação do lago de Itaipu.12. Meio ambiente e ecologia Como a maioria dos empreendimentos de grande porte. biológicos e sociais e traçou diretrizes para a proteção e valorização do meio ambiente na área do projeto e nas regiões afetadas. O plano também estipula os procedimentos de gestão dos usos múltiplos pela Itaipu e a coordenação dessa com as autoridades das diversas esferas de governo. Esse estu­ do categorizou os possíveis efeitos físicos. o resgate de animais (operação Mymba Kuera – pega-bicho). setores de aproveitamentos múltiplos.C. Ltda. setores de lazer e setores de integração urbana. conforme estabelecido no Anexo A do Tratado. que já havia alterado significativamente o meio ambiente local. suas formas de ocupação e usos permitidos. a constru­ ção de Itaipu inevitavelmente interviria no ambiente natural. As informações e os resultados obtidos com os levantamentos realizados mostraram quais seriam as várias utilizações possíveis do reservatório. na agricultura e na pecuária. abastecimento de água para consumo doméstico e irrigação. o pro­ jeto previu também a avaliação do desempenho geofísico do reservatório no que se refere a recalques da crosta terrestre devido ao peso da água e à atividade sísmica relacionada ao reservatório (sismo induzido).

5 mil propriedades (6. Desenvolvimento regional e turismo No que se refere ao desenvolvimento econômico e social da re­ gião com a implementação do Projeto Itaipu.1). Além da perda das áreas cultiváveis (a maior parte no Brasil). Entre os impactos físicos de repercussão social. a tal ponto de ter sido visitada por cerca de 16 milhões de pessoas de 1977 a 2010. houve melhorias e expansão da infra-estrutura nos municípios da área de influência do reservatório. Nessas cidades e em outras. Márcio de Almeida Abreu (1994-95). José Luiz Dias (1997-2000). produtivas) nas áreas que seriam inunda­ das pelo lago. Nelson Farhat (1990-91). Tais áreas requeridas pelo projeto perfaziam em torno de mil qui­ lômetros quadrados no lado brasileiro (ver item 5. houve notório incremento da circulação econômica. e a grande maioria deles permaneceu nas proximidades da área do projeto. Brasílio de Araújo Neto (1995-97). responsá­ veis pelos serviços relacionados com a preservação das condições ambientais na área do reservatório e à execução de projetos e obras fora da área das instalações destinadas à produção de energia elétrica: Cássio de Paula Freitas (1974-85). próximas a elas. esgoto e demais equipamentos urbanos. Nos dois municípios foram construídas 10 mil casas nas áreas residenciais.6 mil urbanas). com balneários e marinas.e por isso forte­ mente turística -. o cargo é ocupado por Nelton Miguel Friedrich.9 mil rurais e 1. verifica-se que.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens principalmente em Foz do Iguaçu e em Ciudad del Este (anti­ ga Puerto Stroessner). 5. Desde 2003. da submersão de equipamentos urbanos e de construções lo­ cais de valor cultural ou afetivo. uma vez que o nível de água do reservatório permanece pratica­ mente inalterado ao longo do tempo. o que exigiu que outros 390 km fossem reabertos com novo traçado. proporcionando assim um uso regular de sua linha costeira para atividade de turismo e lazer. Antonio José Correia Ribas (2000-2002) e Olivo Zanella (2002). Tércio Alves de Albuquerque (1991). para a maior permanência de turistas na região da fronteira trinacional Argentina-Brasil-Paraguai. cuja densidade demográfica era de 35 habitantes/km2. ou seja. 331 . Alia-se ao fato da Itaipu ter sido construída na região que abriga as mundialmente famosas Cataratas do Iguaçu . água. cuja compensação paga pela Itaipu foi equivalente a US$ 190 milhões. com reflexos socioeconômicos locais. ele­ tricidade. estendendo-se também às localidades próximas ao lago. A Itaipu contribui. Figura 20 . com uma média histórica por volta de meio milhão de pessoas por ano. tanto pelo atendimento da diversidade de suprimentos necessários às diversas frentes das obras. Luiz Eduardo Veiga Lopes (1985-90). Esses valores possibilitaram que os deslocados comprassem em média uma metade a mais em relação às terras que possuíam antes. além do aumento populacional.13.Faixa de proteção do reservatório. foram também submersos 577 km de estradas. onde exis­ tiam 8. por­ tanto. no entanto. A atividade turística. não se limita ao sítio da usina. o que coopera também para o processo de desenvolvimen­ to da região. com vias pavimentadas. o que de­ senvolveu o comércio e a prestação de serviços locais. como pelo consumo de bens e serviços proporcionados pelos milhares de trabalhadores que recebiam salários e benefícios de seus empregadores vinculados ao projeto. Foram Diretores de Coordenação brasileiros da Itaipu. a grande atratividade que a represa exerce sobre os turistas. talvez o mais im­ portante tenha sido a necessidade de reassentamento de pessoas que residiam ou tinham suas posses ou desenvolviam suas atividades (majoritariamente agrícolas.

passando por portos marítimos. foram então montadas as tomadas de água. e. alguns dias depois. no setor de 50 Hz. por meio das subestações construídas na margem brasileira e na margem paraguaia.Entra em operação a primeira unidade geradora em 05. O Quadro VII.A. pondo em funciona­ mento a primeira de suas 18 unidades geradoras contratadas à época.Séculos XIX. também anexos.. ao passo que foram também sendo instalados os sistemas de controle. os condu­ tos forçados e os equipamentos na barragem de concreto. Desse modo. esses portos eram bastante afastados da região das obras. em 5 de maio de 1984. A montagem eletromecânica À medida que obras civis foram avançando. sincronizada com a rede da ANDE. 332 .A História das Barragens no Brasil . Funciona a primeira unidade geradora Cumprindo o cronograma de montagem. anexo. foram também iniciadas as montagens eletromecânicas. localizada na extremidade direita da Casa de Força. à direita). contém a relação dos consórcios e empresas fabricantes. utilizando o sistema de corrente contínua (HVDC – High Voltage Direct Current). Figura 21 .14. pertencente a empresa Furnas Centrais Elétricas S. Logo depois.15. As obras de montagem eletromecânica foram iniciadas em 1980 e concluídas em 1991. deu-se continuidade à montagem dos equipamentos de geração da casa de força e dos equipamen­ tos e sistemas auxiliares desta.05. Esses trabalhos contaram com a experiente atuação do engenheiro José Gelazio da Rocha.1984 – Congratulações dos Diretores-Gerais José Costa Cavalcanti (Brasil) e Enzo Debernardi (Paraguai. Foi um importante marco na história do empreendimento. de acordo com o cronograma geral. o que exigia transportes de longa distância em veículos especiais. A usina alcançava desse modo autonomia parcial. acarretando para a Itaipu dispêndios em obras de acon­ dicionamento de rodovias e de pontes no Brasil para a passagem dessas cargas de grandes dimensões e peso. Foram também montadas as linhas de transmissão que conectam a usina ao sistema elétrico interligado. Conforme é característico dessa fase da construção de uma hidro­ elétrica. Obede­ cendo-se os delays programados. O Quadro VIII e o Quadro IX. contêm as relações dos consórcios e empresas que fizeram respectivamente o controle de qualidade e inspeção e exe­ cutaram a montagem propriamente dita dos equipamentos. boa parte das peças eletromecânicas provém de centros industriais ou do exterior. foi iniciada sua operação efetiva. em 17 de dezembro de 1983 ocorre o primeiro giro mecânico da turbina da unidade geradora U1. e os segmentos da construção foram sendo liberados. XX e XXI 5. Superintendente de Engenharia da Itaipu em 1974. 5. ela passou a transmitir energia em caráter experimental para São Paulo. supervisão e proteção. No caso de Itaipu.

a Itaipu começou o processo de mobilização da força de trabalho necessária para a futura ope­ ração e manutenção da usina.9 bilhões.2 bilhões correspondem aos investimentos diretos.1. sua potência máxima de 14. uma entidade fechada de previdência privada (fundo de pensão). O Quadro X. foram captados.1. porém. para efeitos de faturamento.600 megawatts (MW) que consta no Anexo B. 333 . mostra a relação dos consórcios e empresas que executaram a instalação das unidades de reserva. Antes.1. montantes da ordem de US$ 26. ambas em 50 Hz. O ápice da participação da Itaipu Binacional no mercado brasilei­ ro foi então alcançado em 1997. Foi. assim. totalizam a cifra de US$ 27 bi­ lhões de recursos utilizados no empreendimento. é enfim inaugurada a uni­ dade geradora U18. de 1974 a 2008. Início da operação comercial da usina A partir de 1 de março de 1985.1. que somados aos US$ 100 milhões relativos ao capital social inicial. a Itaipu instituiu a Fundação Itaipu-BR de Previdência e Assistência Social. anexo. passando a hidroelétrica a contar en­ tão com 20 unidades geradoras. Operação da usina e desenvolvimento organizacional 6. foi então iniciada a comercializa­ ção da energia produzida pelas duas primeiras unidades geradoras (U1 e U2). Nessa linha foi também criada em 1994 no Brasil a Fundação de Saúde Itaiguapy. gradualmente constituído o quadro de trabalhadores per manentes da usina. Desse montante. o que resu­ me o histórico do endividamento da Itaipu. alcançando. última das 18 unidades previstas do conjunto gerador principal com 12.8 bilhões ao pagamento dos encargos e rolagem da dívida durante a construção. e US$ 14.000 megawatts (MW). A exemplo dessas empresas. Posteriormente. os governos do Brasil e do Paraguai resolveram realizar a obra mediante a obtenção de emprés­ timos a serem pagos a longo prazo. ainda em 1984 foram produzidos por Itaipu 277 gigawatts-hora (GWh) de energia. Desse modo. de 2000 a 2007.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens 6. por volta de 1982. portanto. 6. decorridos. fase que exigiria competências e relações de trabalhos diferentes das aplicáveis aos trabalhado­ res que atuaram durante o tempo que durou a construção e a montagem. que passou a adminis­ trar o Hospital Ministro Costa Cavalcanti. cuja descrição será apresentada adiante. entregues ao sistema interligado. Nesse sentido. sete anos da entrada em operação das duas primeiras unidades. Na margem paraguaia foram criadas para as mesmas finalidades a Caja Paraguaya de Jubilaciones y Pensiones del Personal de la Itaipu Binacional (Cajubi) e a Fundación de Salud Tesai . A operação da usina Decorrido o breve período inicial.2. em 25 de outubro de 1984 foram então oficialmente inauguradas as unidades geradoras U1 e U2. O Governo Federal Brasileiro apoiou integralmente o esforço de captação de recur­ sos para o financiamento da construção e o Tesouro Nacional do Brasil ofereceu todas as garantias para os empréstimos. ativando assim a contabilidade dos suprimentos de ele­ tricidade da Itaipu às entidades compradoras Eletrobras e ANDE. que seria de longa duração. Mantido o ritmo de montagem de duas a três unidades por ano. assim. foram também montadas as unidades U9A e U18A. US$ 12. 6. que via­ bilizaram a obra. com o atendimento de 26% da demanda do setor elétrico do país. utilizando as receitas a serem geradas com a própria produção da usina. em face do novo vínculo emprega­ tício. para atender aos empregados do quadro permanente da Entidade binacional. sem fins lu­ crativos. em 6 de maio de 1991.5 acima. muitos deles vindos de outras empresas do setor elétrico. Custo direto de Itaipu De acordo com o item 4.

que possui 18. na assessoria aos consultores. principalmente por parte dos municípios da região impactada.Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) de vários municípios da região. que auferem inegáveis benefícios para sua população. Pagamento dos “royalties” e seus benefícios Conforme mencionado. de S.Reunião do Board de Consultores Civis em novembro de 2006. A partir da esquerda: Victor de Souza Lima. Vidal Galeano.685 gigawatts-hora (GWh) de energia. sendo contabilizado no custo anual do serviço de eletricidade prestado pela Itaipu. 6. o Tratado de Itaipu estabeleceu os royalties em seu Anexo C como mecanismo compensatório pelo uso do potencial hidráulico do rio Paraná no trecho em condomínio entre os dois países. Pinto. Esse efeito pode ser constatado pela elevação verificada no IDH (Índice de Desenvolvimento Humano do PNUD . 334 .1. Essa excepcional condição fez com que desde 1997 a Itaipu venha gerando em torno de 90 mil gigawatts-hora (GWh) por ano. de um lado. João Francisco Alves Silveira (consultor especialista) e Carlos Leonardo (Itaipu). Recorde operativo e comparações A Usina de Itaipu. 6. Paulo Teixeira da Cruz. atualmente. Juan Bosio. ao regime hidrológico favorável do rio Paraná e à regularização do fluxo a montante na Região Hidrográfica do Paraná e. em valor equivalente a US$ 650 por gigawatt-hora (GWh) gerado e medido na central elétrica.2 mil megawatts (MW) de potência instalada. Gurmukh Sarkaria (Chairman). ao fato de que o projeto de Três Gargantas prioriza o controle de cheias em detrimento da geração de energia.600 MW para 14. O pagamento dos royalties é então feito às Altas Partes Contratantes. alcançado seu recorde operativo em 2008 com a produção de 94. Nelson L. que alcançaram a casa dos US$ 7 bilhões. de outro lado. questão primordial quando se trata de hidroeletricidade. como a maior usina hidroelétrica do mundo em geração de energia. acrescido do respectivo fator de ajuste. localizada na China. a usina chinesa dificilmente superará a de Itaipu em geração anual de energia. Mas.3.000 MW de capacidade. e.A História das Barragens no Brasil . A Itaipu se consagra desse modo.4. XX e XXI Figura 22 . Os valores transferidos a título de Royalties entre 1991 e 2010 ao Brasil e ao Paraguai.1. em montantes iguais. é superada nesse quesito somente pela Usina de Três Gargantas. que passa então de 12. devido.Séculos XIX. proporcionam um aumento da capacidade realizadora dos dois países.

e outro a jusante. no lago. não impede o desenvolvimento endógeno da Itaipu como organização empresarial.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 23 .” . Essa limitação. não prevendo sua expansão para outros negócios. Itaipu pôde deplecionar seu reservatório. Esses dois ambientes perma­ neceram originalmente incomunicáveis entre si. que as iniciativas no campo da responsabilidade social e ambiental devem inserir-se como componente permanente na atividade de geração de energia. decorrente da escassez de chuvas naquele período e conseqüente dificuldade de reposição da água armazenada nos reservatórios da maior parte das hidroelétricas do País. porém. Tal fenômeno. na crise de abastecimento de energia elétrica vi­ vida pelo Brasil em 2001 . A Itaipu se desenvolve organizacionalmente O Tratado de Itaipu define como propósito específico da Enti­ dade Binacional construir e operar unicamente a hidroelétrica de Itaipu. pelas quais o Brasil e o Paraguai defi­ nem “. Cabe registrar que.2007 – Presidentes Luis Inácio Lula da Silva (Brasil) e Nicanor Duarte Frutos (Paraguai).05. Isso é sobremaneira reforçado pelas Notas Reversais sobre Responsabilidade Social e Ambiental.Inauguração das duas últimas unidades geradoras em 17. da ordem de 80 milhões de megawattshora (MWh) por ano.2005. a partir do início da operação da usina. sob determinados parâmetros e normas. com mais intensidade durante os períodos secos do rio Paraná.. conforme será percebido pelas ações mostradas cronologicamente na seqüência.1.03.2. 335 . praticamente também ocorria na região de Guaíra. O canal de transposição de peixes Em termos de ictiofauna.. novo. a montante. acompanhados dos respectivos Diretores-Gerais da Itaipu Jorge Miguel Samek e Victor Luis Bernal Garay. todavia. na restituição do fluxo de água no leito do rio Paraná.. um. qual a Entidade tem experimentado significativo êxito. mantendo ele­ vados níveis de produção. que é uma vereda pela 6. conseguindo desse modo mitigar sobre­ maneira os efeitos da redução da oferta de energia no sistema interligado brasileiro naquele momento crítico.2.2002. assinadas em 31. 6. a construção da barragem sobre o rio criou dois ambientes bastante distintos. já antes da construção da usina.. com águas calmas.

no Brasil e no Paraguai. entre outros aspectos. Giuseppe Stevanella. logo depois. hoje e no futuro e pode ser útil ao meio externo à Itaipu. Pinto (Chairman). na foto da direita. Essa decisão foi precedida do estudo denominado “A ictiofauna de ocorrência do rio Bela Vista”. John Gummer. com 10 km de extensão. complexo.Reunião do Board de Consultores Civis em novembro de 2010 – foto da esquerda (a partir da esquerda). Selmo Kuperman. e retornem no outono e inverno (migrações ascendente e descendente).5 km a jusante da usina. resultou apreciável acúmulo de conhecimento por parte dos profissionais e da organização. o necessário impulso ao desenvolvimento tecnológico sustentável no Brasil e no Paraguai. mediante acordo deste com a Itaipu. Com essas concepções. os consultores em túnel de drenagem. A comunicação estabelecida finalmente entre o lago e o rio passa. A partir daí foi implantado em 2003 o Parque Tecnológico Itaipu. O parque tecnológico Itaipu Ao por em operação suas duas últimas unidades geradoras. tecnológica e cultural da América Latina. o PTI. Nelson L. idéia que surgiu depois de muitas discussões. As competições ali realizadas também contribuem para o desenvolvimento do turismo regional. O Canal foi inaugurado em 2002. 2. foi projetado e construído pela Itaipu o Canal da Piracema. 336 . inserindo nela. a administração da Itaipu deu. Vidal Galeano. de S. Paulo Teixeira da Cruz. inclusive na região de Guaíra. cuja foz se localiza na margem esquerda do rio Paraná. firmadas em 2003. a Itaipu encerrou suas obras principais da usina. em corredeiras especialmente Figuras 24 e 25 .Séculos XIX. Ruben Brasa Soto (Diretor Técnico de Itaipu) e João Francisco Alves Silveira (consultor especialista da assessoria ao Board). No Canal da Piracema são também praticados esportes náuticos. enunciado mais amplo à Missão da Entidade. portanto. cuja reutilização é indispensável ao adequado funcionamento da empresa. a desempenhar um papel importante para a conservação da biodiversidade. embora sua execução tenha sido iniciada em 1997 pelo Governo do Estado do Paraná. 6. em parte artificial e em parte regularizando o rio Bela Vista. O Canal da Piracema permite então que os peixes migradores cheguem às áreas de reprodução e berçários acima da usina no período da piracema (migração reprodutiva). Antonio Otelo Cardoso (Diretor Técnico Executivo da Itaipu). hoje é livre a migração de peixes de jusante para montante e vice-versa.2. como um espaço para a integração educacional.2. como canoagem de rafting e slalom. construídas para essa finalidade. Desse processo.A História das Barragens no Brasil . Assim. XX e XXI Por isso. mesmo nas épocas de estiagem.

Nas atividades de pesquisa conta com o CEASB – Centro de Estudos Avançados em Segurança de Bar­ ragens. ou Salto de Guaíra. pelo PTI. O CEASB conta com alunos de graduação.que tiveram áreas inundadas pelo  reservatório da usina. produtores rurais. que era a reprodução do objeto do caput do Tratado de Itaipu. trabalha com a sociedade para mudar os seus valores e sua maneira de se conduzir.2. impulsionando o desenvolvimento econômico. O objetivo do CEASB é estudar. foi então criado o Programa Cultivando Água Boa (CAB). O Programa Cultivando Água Boa Considerando-se que é pela água. correlacionar me­ dições com as prováveis causas e desenvolver técnicas de inteligência computacional relacionadas ao comportamento e segurança de barragens. próprias de qualquer empresa contemporânea. moldando-se assim uma nova maneira de operar a 6. portanto. além dos comitês específicos dos programas transver­ sais. portanto. Trata-se. que permeiam todo o tecido social da BP3. doutores. sustentável. O CAB define como território de atuação a unidade de planejamen­ to da natureza: a bacia hidrográfica. para que ela se mantenha abundante. o CAB conta com mais de 1. entre prefei­ turas. cooperativas.2. desde e inclusive o Salto Grande de Sete Quedas. os comporta­ mentos das estruturas de barragens e seus respectivos materiais. pós-doutores e profissionais de notório saber. O comitê faz também a articulação perante os órgãos públicos do Poder Executivo. A Missão ampliada da Itaipu e seus reflexos Conforme citado nos itens anteriores. em que a Itaipu. que organizados em Comitês Gestores em cada um dos 29 municípios. até a foz do rio Iguaçu. a organização exterioriza para as sociedades de Brasil e Paraguai valores convergentes com uma governança corporativa atualizada. hoje e sempre. pertencentes em condomínio aos dois países. turístico e tecnológico. em 05. Desse modo. associações de classe. A Missão ampliada da Itaipu passa então de: “Aproveitamento hidroelétrico dos recursos hídricos do rio Paraná. mestres.600 parceiros. de especial interesse para a engenharia de barragens. ONGs. de produzir e de consumir. Em decorrência desse conceito. à educação. de viver. ao turis­ mo (em 2007 foi repassada à Fundação PTI a exploração do Complexo Turístico Itaipu. o que inclui também o CBDB. proporcionando desse modo uma fonte de receitas que ajuda no financiamento de suas atividades) e ao empreendedorismo. órgãos governamentais.2003 aprovou a revisão de seu planejamento estratégico. com qua­ lidade.3. enfim. que se constitui em um espaço técnico-científico implantado pela Universidade Corporativa Itaipu. pela Universida­ de Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste) e por instituições parceiras. do Po­ der Judiciário e dos órgãos ambientais para ajudarem a encaminhar soluções. a Itaipu. à pesquisa. atuam nos programas e ações que estão sendo de­ senvolvidos. o que passou a exigir determinados resultados empresariais antes não requeridos ou requeridos de for­ ma diferente. que se justifica a existên­ cia de Itaipu. avaliar resultados das medições efetuadas. Os membros do Comitê Gestor se reúnem periodicamente para dialogar sobre o an­ damento das ações do CAB no município. Essa Missão ampliada obrigou o reajustamento das políticas e di­ retrizes fundamentais da Itaipu e influiu diretamente na redefinição de seus objetivos estratégicos. 6. 337 . de um movimento de participação permanente. no Brasil e no Paraguai”. com responsabilidade social e ambiental. Atualmente. a área de influência de atuação direta de Itaipu deslocou-se dos 16 mu­ nicípios conhecidos como lindeiros . após reflexões feitas por parte de sua Direção. na margem brasileira - para os 29 municípios da Bacia Hidrográfica do Paraná 3 (BP3). entre outros. que consiste em uma das 16 bacias hidrográficas instituídas oficialmente no Estado do Paraná. representantes da sociedade civil organizada e outros. além de mitigar e cor­ rigir passivos ambientais existentes nas comunidades da região. para “Gerar energia elétrica de qualidade. com o propósito final de dedicar cuidados extremos à água de que dispomos.09. na forma de uma Missão ampliada em relação ao enunciado anterior.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens O PTI se dedica.4.”. nele explicitando aquelas ini­ ciativas que já vinha conduzindo. principalmente relacionadas às pequenas propriedades.

partem da Universidade Corporativa Itaipu (UCI) para seu de­ senvolvimento. A altura da barragem principal (196 metros) equivale à altura de um prédio de 65 andares. estão os valores maiores do acordo que os cidadãos brasileiros e paraguaios souberam consolidar. comentários e adjetivos servem para demonstrar que o Brasil e o Paraguai decidiram construir juntos não só uma hidroelétrica de extragrande porte. a capacidade de descarga máxima do vertedouro de Itaipu (62. que são considerados estratégicos para a organização porque estão alinhados com objetivos da organização e procuram apresentar os resultados que se pretende obter com o desenvolvimento tecnológico da usina e do seu entorno. Com esse ordenamento conceitual.. Epílogo Os números de Itaipu suscitam impressionantes comparações: o volume total de concreto utilizado na construção da usina seria suficiente para construir 210 estádios de futebol como o do Maraca­ nã. de desenvolvimento e inovação e de gestão do conheci­ mento.5 vezes superior ao do Eurotúnel no Canal da Mancha. a revista norte-americana Popular Mechanics e a Associação Norte-Americana de Engenheiros Civis (American Society of Civil Engineers . tecnológico . Contudo. que estabelece também o “. a Itaipu. Nesse sentido. em 1995 classificaram a Itaipu como “uma das sete maravilhas do mundo moderno”.ASCE). Consoante a Missão ampliada. a Plataforma Itaipu de Energias Re­ nováveis.2005 o Brasil e o Paraguai trocaram notas diplomáticas reversais. dentre os quais se encontra o próprio PTI.Séculos XIX. quer sob a de pesquisa. essas comparações. o ferro e aço utilizados permitiriam a construção de 380 Torres Eiffel.A História das Barragens no Brasil . mas sim eri­ gir uma das obras de engenharia mais portentosas existentes no planeta. em 2003. desenvolvimento . 7. Foi a solidez dessa base de entendimento e de união que verdadeiramente permitiu que 6. 338 . subjacentes à exatidão dos números e de seus resul­ tados materiais. sob o título “Missão da Itaipu Binacional no campo da responsabilidade socioambiental”. com nível de superintendência. o volume de escavações de terra e rocha em Itaipu é 8. quer sob a linha da educação corporativa. Isso reafirma a visão de que a responsabilidade social não é apenas um conjunto de ações. Portanto. desenvolve alguns projetos. o projeto do Centro Internacional de Hidroinformática (junto com a UNESCO) e a Uni­ versidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA). o projeto de software livre. com poucas alterações para atender a essas demandas.. próprios de uma atuação empresarial moderna.03. o projeto do veículo elétrico. estão sendo conduzidos o projeto de modernização da usina (atualização tecnológica). XX e XXI empresa. Embora essa concepção não seja novidade na Itaipu. mas aproveitando-se sua estrutura organizacional....2 mil metros cúbicos por segundo) corresponde a 40 vezes a vazão média das Cataratas do Iguaçu.”.5. dada à importância do assunto. mas uma forma de gestão da empresa na sua inte­ gralidade. que selam o acordo celebrado pelos dois países quanto à conduta de ambos no campo da responsabilidade socioambiental na Itaipu. a ação de gerar energia pressupõe que sua execução se dê com responsabilidade social e ambiental. que a todos tanto impressiona.  Em razão disso. Esses projetos estratégicos. E. Responsabilidade social e ambiental De acordo com a Missão ampliada da Itaipu. e o volume de concreto é 15 vezes maior. o Brasil teria que queimar 536 mil barris de petróleo por dia para obter em plantas termoelétricas a mesma produção de energia de Itaipu. o fato de ela passar a constar na Missão serve para reiterar a convicção das Altas Partes Contratantes quanto à necessária e contínua assimilação desses valores pela Itaipu.. dentro de um espírito de cordialidade e os laços de fraternal amizade.2. a Itaipu criou a Coordenação dos Progra­ mas de Responsabilidade Social. com a cooperação do PTI. em 31. de grandeza obliterante.

Superintendência de Engenharia e Superintendência de Obras. Ademar Sérgio Fiorini. Marco Aurélio Vianna de Escobar. todos órgãos da Itaipu. 339 . Flavio Miguez de Mello. João Emílio C. S. que foi fundamental para a concretização do Projeto Itaipu. de Mendonça. Esperamos que esse texto tenha sido útil ao leitor. principalmente para a com­ preensão desse aspecto sinérgico.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens ambos os países convergissem para o interesse comum de re­ alizar o aproveitamento hidroelétrico. José Augusto Braga e a Corrado Piasentin (álbum particular). na pessoa de seu gerente Jorge Henn. Corrado Piasentin. Cláudio Porchetto Neves. Pela cessão das fotografias: à Assessoria de Comunicação Social. Joran Alfredo Sachs e ao Centro de Documentação da margem brasileira. José Ricardo da Silveira. Agradecimentos Pelas contribuições ao texto e quadros anexos: a Margaret Mussoi Luchetta Groff.

Aspectos de Engenharia”. ITAIPU Binacional 2009. margem brasileira.A História das Barragens no Brasil .Séculos XIX. XX e XXI Continuação da página anterior Fontes: livro “Usina Hidrelétrica de Itaipu . Centro de Documentação da ITAIPU Binacional. 340 .

Centro de Documentação da ITAIPU Binacional. margem brasileira.Aspectos de Engenharia”.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Fontes: livro “Usina Hidrelétrica de Itaipu . ITAIPU Binacional 2009. 341 .

margem brasileira. Fontes: livro “Usina Hidrelétrica de Itaipu Aspectos de Engenharia”.Séculos XIX. ITAIPU Binacional 2009. margem brasileira. Centro de Documentação da ITAIPU Binacional. ITAIPU Binacional 2009. XX e XXI Fontes: livro “Usina Hidrelétrica de Itaipu . 342 .Aspectos de Engenharia”.A História das Barragens no Brasil . Centro de Documentação da ITAIPU Binacional.

ITAIPU Binacional 2009.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Fontes: livro “Usina Hidrelétrica de Itaipu . Itaipu . margem brasileira. Centro de Documentação da ITAIPU Binacional.Aspectos de Engenharia”.vista aérea 343 .

A História das Barragens no Brasil . XX e XXI Fontes: livro “Usina Hidroelétrica de Itaipu Aspectos de Engenharia”. margem brasileira. Centro de Documentação da ITAIPU Binacional. ITAIPU Binacional 2009.Séculos XIX. 344 .

Nossa história. 2010. 9. Editorial Gráfica Contínua.Aspectos de Engenharia”. Arnaldo Carlos. Assessoria de Comu­ nicação Social. Acessos em setembro. 2009. 3. Hidrelétricas. 412 p. PR. I t a i p u B i n a c i o n a l . margem brasileira. 6. Jornal Itaipu Eletrônico . Fontes: livro “Usina Hidroelétrica de Itaipu . ITAIPU Binacional 2009. Itaipu Binacional. Itaipu Binacional. Mário Gibson. 8.Aspectos de Engenharia”. ITAIPU Binacional 2009. 4. Itaipu: modelo avançado de cooperação internacional na Bacia da Prata.. Centro de Documentação da ITAIPU Binacional. Acesso em setembro de 2010. Acessos em setembro 2010. Foz do Iguaçu.]. Disponível em < http://jie. Betiol. Foz do Iguaçu. 1 3 . 7. Barboza. Debernardi. Foz do Iguaçu. (Ed. 1996. 345 . Muller. 2010. 14. 11. Itaipu Binacional. Fontes: livro “Usina Hidroelétrica de Itaipu . Itaipu Binacional. 2008. Wikipédia: a Enciclopédia Livre.Aspectos de Engenharia”.G. Hélio Teixeira e Ricardo Krauskopf Neto (Org. design and construction features. Curitiba. Comitê Brasileiro de Bar rag ens – CBDB.php?q=node/356 >.itaipu/ >. [s. 304 p. Centro de Documentação da ITAIPU Binacional.br/index.2010. Notas sobre os antecedentes da criação de Itaipu Binacional.org>. 528 p. 2. Editora Francisco Alves. Centro de Documentação. Fontes: livro “Usina Hidroelétrica de Itaipu . 1981. Itaipu Binacional.).). Rio de Janeiro.br/site/cadastro barragens. John Reginald.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Referências 1. meio ambiente e desenvolvimento. Laércio.org. Assunção. Itaipu Bina­ cional.wikipedia. 2003. Fiorini. Itaipu Binacional. Na diplomacia. Compendio Itaipu – pr estación de los servicios de electricidad y bases financieras. Atos oficiais da Itaipu Binacional. 1995. Itaipu Binacional. Usina Hidrelétrica de Itaipu: aspectos de engenharia. Cotrim.JIE. Enzo. 16. Disponí­ vel em < http://intranetbr/centrodedocumentacao/ >. Usina Hidrelétrica de Itaipu: aspectos técnicos das estruturas civis. 1ª edição. Disponível em <www. o traço todo da vida. margem brasileira. 2008.2010. Makron Books. Asunción. Ademar S. Itaipu Binacional. São Paulo. 12. F. Acesso em 16. 5.600 MW. ITAIPU Binacional 2009.V. Disponível em <http://www.09.09. Itaipu Binacional.asp>.cbdb. 10. A Grande Energia – Múltiplas Visões sobre a Hidre­ letricidade. T h e I t a i p u hyd r o e l e c t r i c p r o j e c t 12. Apuntes para la historia política de Itaipu. [s. Históri­ co. Disponível em < http://www. 1996.l. Diretoria Geral. Acesso em 16. 1999. Memória da Eletricidade. 15. margem brasileira.gov. Itaipu Binacional. Rio de Janeiro. Centro de Documentação da ITAIPU Binacional.e. 1996. 613 p.].itaipu.

PCH Ivan Botelho III (Triunfo) no rio Pomba em Minas Gerais .

literalmente. Quadro 1 – Quadro comparativo UHE x PCH 347 . Foram. as usinas eram de potências modestas porque alimentavam pequenas cidades. a força motriz do Brasil no final do século XIX e no início do século XX. ultrapassa­ vam 1. muito mais importante pelo pio­ neirismo e como alavanca do desenvolvimento. complexidades e tecnologia que orgulham a engenharia nacional e são referência internacional. um quadro elaborado pela ABRAGEL – Associação Brasileira de Geração de Energia Limpa. com raras exceções. Neste capítulo são enfocados o nascimento. as pequenas cen­ trais hidroelétricas PCHs são de até 30 MW e são chamadas de “pequenas”. Até 1930 mais de mil diferentes empre­ sas de geração e distribuição de energia elétrica estavam ativas. O desenvolvimento do país sempre esteve ligado diretamente à expansão da geração de energia. As usinas. A caracterização e definição do conceito de pequenas centrais hidroelétricas – PCHs só foi criado no Brasil nos anos 80 do século XX. mas com características. a crise das pequenas centrais hidroelétricas. Pela definição atual.000 kW instalados. Entre 1901 e 1910 foram construídas em todo o Brasil setenta e sete usinas hidroelétricas. além de fornecerem força motriz para bondes nas cidades maiores. do que os em­ preendimentos dos dias de hoje. No início do século passado as usinas hidroelétricas eram referidas como “pujantes e estru­ turantes”. Para demonstrar a atual importância das PCHs na matriz elétrica brasileira. Naquela época. operando hidroelétricas de pequeno ou médio portes.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens As Pequenas Centrais Hidroelétricas no Brasil Ricardo Nino Machado Pigatto Introdução As pequenas centrais hidroelétricas sempre fizeram parte da his­ tória do Brasil no que diz respeito à geração de energia elétrica. atualmente. relaciona a soma das PCHs em operação no Brasil com as grandes hidroelétricas e apresenta o conjunto das PCHs como a terceira maior fonte geradora de energia hidráulica nacional. Naquela época. a geração de energia elétrica era eminentemente privada. com mais de 10 anos de história na defesa das PCHs. o apogeu e. antes denominada APM­ PE – Associação Brasileira dos Pequenos e Médios Produtores de Energia. algumas poucas indústrias e iluminação pública. Foi um período notável para o País. o desenvolvimento.

após a criação da ANEEL (1996). foi a partir de 1998 que passou a ser definida comercialmente como PCH as usinas com capacidade instala­ da acima de 1 MW e até 30 MW. Mas vieram os questiona­ mentos ambientais. Em 1998. 348 . Para obter financiamento de longo prazo era fundamental ter garantias de pagamento num conceito moderno denomina­ do project finance (onde o próprio negócio gera suas condições de financiabilidade). Neste período muitos dos pequenos aproveita­ mentos foram caindo no ostracismo e. com geração de empregos e renda para especialistas nessas áreas de desenvolvimento de projetos. desati­ vados. mas faltava alguma coisa. Esse debate alimentou os ambientes acadêmicos e ainda nos anos oitenta o governo federal buscou criar um programa de pequenas usinas denominado de Programa Nacional de Pequenas Centrais Hidroelétricas que buscava incentivar a autoprodução de energia. E assim a implantação de novas pequenas usinas hidráulicas foram se arrastando até 1995. é claro. etc. Havia um nicho para ser explorado pelas PCHs. Muitos novos projetos de PCHs foram desenvolvidos. por serem também novos assuntos tratados no âmbito dos órgãos li­ cenciadores. Em suma. com restrições quanto às áreas  de seus reservatórios nos níveis d’água máximos normais. Já estava criado o conceito de consumidor livre. para construir uma PCH era necessário capital intensivo e financiamento de longo prazo. a industrializa­ ção do País exigia maior expansão da geração e o braço forte estatal migrou dos pequenos aproveitamentos para as grandes hidroelétricas.000 kW. Passou a ser atri­ buição da ANEEL conceder outorgas de autorização.Séculos XIX. geologia. foi descortinado. Para autoprodutor seria autorização. O Brasil cresceu muito nos anos setenta e consolidou o conceito de que usina “boa” era usina grande. os questionamentos sobre os “danos” dos grandes reservatórios e o retorno do conceito de que muitas peque­ nas usinas poderiam ser melhores do que uma grande usina. Para haver um fluxo financeiro previsível era necessária receita previsível e não sujeita a sazonalidades ou a variáveis climáticas. o momento econômico do Brasil não era fa­ vorável para quaisquer investimentos que necessitassem de capi­ tal intensivo e retorno de longo prazo. Para produtores independentes seriam concedidos. aproveitamentos com potência superior a 1. Um novo horizonte para o desenvolvimento de profissionais nas áreas de engenharia.000 kW e menor ou igual a 30.000 kW cabia (e ainda permanece assim) apenas comunicação ao poder concedente. mas como garantir a entrega da energia contratada de uma PCH se tratava-se de empreendimentos dependentes da hidraulicidade e de variáveis climáticas? E mais. não havendo qualquer estímulo para aderir ao novo programa criado. mesmo que difíceis. estes limites foram mudados. um marco para o setor. Algumas poucas usinas. sem licitação. com características de concessão de serviço público. Para haver uma receita previsivelmente segura para fins de garantias de financiamento. Era uma mu­ dança de paradigmas e um mundo novo a ser explorado. PIEs. posteriormente. aquele que poderia escolher seu fornecedor de energia elétrica. e isto as PCHs não tinham. Poderia. tendo sido analisados e aprovados pela ANEEL. infelizmente. mas faltava o essencial: o comprador da energia. O desenvolvimento das PCHs Em 1998 também foi criado o MAE – Mercado Atacadista de Energia. até 10. Havia sobra de energia. assim como o conceito de autoprodutor que poderia vender exce­ dentes de energia elétrica. Para haver um project finance era necessário um fluxo-de-caixa previsível. estavam em andamento. Realmente uma equação difícil e de contornos assustadores diante dos desafios das soluções possíveis. somente seria possí­ vel havendo geração de energia garantida. permaneceram ativas. Mas.000 kW. Mesmo que tenha havido um programa de pequenas centrais nos anos 1980’s. os valores praticados como tarifas eram relativamente baixos e aplicados pelas distribuidoras. ser um con­ sumidor livre. foi criado o conceito de produtor independente de energia elétrica. tanto para produtores independentes de energia. havia um grande potencial de empreendimentos para serem construídos. através da Lei das Concessões. XX e XXI Nos anos seguintes.000 kW. Os licenciamentos ambientais. cinquenta e sessenta. meio-ambiente.A História das Barragens no Brasil . Para os aproveitamentos com potên­ cia inferior a 1. Neste ano. mediante licitação. como para auto­ produtores de energia APEs de usinas hidrelétricas com potên­ cia igual ou maior que 1.

Ou seja. hidrologia. um dos programas mundiais mais importantes de geração de energia através de fontes ambientalmente corretas e socialmente justas. sem adotar o conceito de project finance.: consideradas apenas as PCH . Para financiar com segurança era necessário um comprador/garantidor com bom rating na praça e contratos de compra e venda de energia de longo prazo. Mais um dos grandes marcos do setor. teve um caráter didático e de­ senvolvimentista que permitiu a expansão da indústria de equipa­ mentos. talvez o mais importante sob o ponto de vista regulatório e viabilizador dos empreendimentos de hoje. O Brasil tinha cerca de 850 MW em operação de PCHs em 1998 passando para 3. no caso o BNDES.000 MW em 2008. numa ação conjunta e bem conduzida pelo MME. que se encerra neste ano de 2011. E então foi criado. este perfil.setembro/10 Obs.1 a 30 MW A figura na página a seguir é o resultado desta expansão e mostra as localizações das PCHs no Brasil em 2011.setembro/10 Relatório Acompanhamento da Expansão da Oferta de Geração de Energia Elétrica . segu­ ros. Logo. Pelo critério de cálculo ado­ tado para as hidroelétricas de maior porte. mas dentro de certos limites garantidos de geração que. Apenas o governo tinha. Um crescimento digno de nota e de reconhecimento. topografia. as PCHs passaram a fazer parte do MRE (Mecanismo de Realocação de Energia) com o cálculo da energia média através da Resolução ANEEL 169/2001 de 3 de maio de 2001. que então englobou. um cír­ culo virtuoso desde o ano 2000 até 2008. o grande problema a ser solucionado era firmar a energia das PCHs. Este programa. mas altamente preparador para o atendimen­ to do mercado dos consumidores livres. além das PCHs. pela modelagem pro­ posta pela Eletrobras na época. haja vista que a quase totalidade dos reservatórios de PCHs eram projetados para operar a fio d’água. era impossível. Atualmente (2011) está em torno de 3. serviços ambientais. resultava em fatores de capaci­ dade muito baixos para as usinas. em 2002 e consolidado em 2004. já então confiantes da capacidade das PCHs atenderem suas demandas de energia. Quadro 2 – Evolução das pequenas centrais hidroelétricas Qtde Total até 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 189 15 12 23 7 11 18 17 38 30 22 189 204 216 239 246 257 275 292 330 360 382 Potência (MW) 831 69 51 268 68 126 228 253 650 463 248 Total (MW) 831 900 952 1219 1287 1413 1641 1894 2544 3007 3256 Fonte: BIG . Era um programa no qual a Eletrobras garantia a compra da energia gerada pelas PCHs. ONS.500 MW. Mas ainda não estava tudo resolvido. divididos entre as três fontes. gerando uma receita incapaz de suportar as exigências do agente financiador de longo prazo. Os empreendedores de PCHs foram convidados para apoiar uma iniciativa louvável da Eletrobras de criar um programa chamado de PCH-Com. Ainda século XX. A questão ambiental foi foco de discussões acaloradas e ainda assim permanece. Então. o agente financiador exigia garantias corporativas dos empreendedores. Neste período muito se aprendeu. produtos financeiros e muito mais.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Já era o ano de 2000.300 MW. Ter uma energia de placa. na época. Desta forma. mas com ares de sécu­ lo XXI. tais como projetos. estabelecido por Lei em 1995. com controle de re­ servatórios. de serviços especializados. Como vender para consu­ midor livre ainda era uma novidade. da construção civil. exige o estudo e a definição de uma sucessão de aproveitamentos no 349 . O denomina­ do “aproveitamento ótimo”. Foram contrata­ dos 3. o PROINFA. de forma a assegurar uma expansão do setor de PCHs com segurança para o mercado cativo (ambiente regulado). não havia como vender a energia para consumidor livre por não haver uma energia garantida e também não havia como vender para a Eletrobras porque a forma que esta estava pensando em adotar para calcular a energia firme das PCHs não era su­ ficiente para garantir o pagamento dos financiamentos. Ou seja.ANEEL .Programa de Incentivo (de geração de ener­ gia elétrica através) de Fontes Alternativas. o programa não progrediu. as fontes biomassa e eólicas. geologia. ANEEL e Eletrobras com seus corpos técnicos qualificados e empenhados em dar as condições necessárias para a expansão do setor. assim como os agentes financiadores confiarem nos mecanismos de atenuação de riscos e garantias de pagamentos.

as discussões nunca terão fim. baseada em mé­ dia histórica de 2007 até 2010.ANEEL (com LP/LI) 856 66 5 Aguardando Análise ANEEL 3. salvo o Potencial Teórico.:Dados ANEEL Janeiro/2011. mas no sentido inverso. Com o grande desenvolvimento das PCHs.Localizações das PCHs no Brasil em 2011 Quadro 3 – Situação dos projetos de PCH em tramitação na ANEEL em janeiro de 2011 Potência (MW) Quant. ou apogeu. Entretanto há movimentos firmes e sérios na agência para redução drástica dos prazos de tramitação. Em janeiro de 2011 encontravam-se em tramitação dentro da ANEEL projetos conforme tabela abaixo: Figura 1 . certamente. houve uma avalanche de novos projetos e inventários junto à agencia reguladora ANEEL que resultou no enorme potencial identifica­ do no Brasil.A História das Barragens no Brasil .271 170 7 Potencial Teórico 15.980 473 Em Elaboração/Complementação 2.início da construção Obs. de forma cíclica. Prazo (1) (anos) Com autorização (com LP/LI) 2.Séculos XIX. Agora há necessidade de um profundo estudo para cada inventário de rio denominado de análise ambiental integrada – AAI que ampliou os limites das discussões.: não foi considerado potencial em fase de inventário Obs. Nesta área.035 194 6 Subtotal 1 5.725 1. provocando uma cascata de usinas. Os ór­ gãos ambientais e ONGs ambientais questionam se esta é melhor condição ambiental para o curso d’água e.705 1.454 1.089 213 3 Análise/Aceite . Figura 2 – Distribuição das PCHs nos diversos estados Fonte: Abragel / 2011 Na tabela acima a coluna prazo é uma estimativa de tramitação na ANEEL até a emissão da outorga de autorização. que é um estudo do CERPCH de Itajubá.458 TOTAL 23.288 15 Subtotal 2 17. XX e XXI mesmo curso d’água. As teses do passado voltaram a as­ sombrar novamente. ques­ tionam se não seria melhor um grande reservatório ao invés de uma sequência de pequenos. 350 .931 (1) prazo estimado de maturação dos projetos .

A esperança no futuro Não há dúvidas de que as PCHs são fontes de geração de energia limpa.” certamente as PCHs retomarão o mes­ mo caminho virtuoso que. Naturalmente esta crise teve reflexo no desenvolvimen­ to do Brasil e estancou. além de outros adjetivos qualificativos favoráveis ao seu desenvolvimento. então este ciclo se encerrou. Passou a ter excesso de oferta de energia e o mercado spot desde então esteve.não foram mais capazes de viabilizar a cons­ trução dos empreendimentos.000 MW em 20 anos. fazendo competir entre si diversas fontes de geração e.que são os leilões de energia levados a efeito pelo poder conce­ dente. sustentável. desde 1883. Ledo engano. com va­ lores modestos. não induzindo aos consumidores livres.. foi capaz de desenvolver o estado da arte na engenharia hidroelétrica. ficaram sem mercado potencial de comercialização de seu produto. à perda de mão-de-obra qualificada desenvolvida ao longo dos últimos anos e ao desenvolvimento de outras fontes ambientalmente menos qualificadas.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A crise das PCHs Em 2008 o mundo foi sacudido por uma crise econômico-finan­ ceira que envolveu os principais bancos internacionais e provocou uma falta de liquidez e. descentralizada. também agravada por desequilíbrios tributários. sem levar em consideração as características e as regionalidades de cada fonte. de forma abrupta. redução da atividade econômica. fiquem completamente alijadas dos processos de leilões no ACR. fazendo com que as PCHs. levando o potencial de geração através de PCHs no Brasil aos almejados 25.. além da disponibilidade internacional de equipamentos. houve uma importante e fatal perda de compe­ titividade em função da evolução tecnológica de outras fontes. Figura 3 – PCH Antônio Brennand no rio Jauru 351 . renovável. Os valores que passaram a ser negociados no ACL . Nem tudo estava perdido. sem impactos de êxodos rurais. tudo em nome da “modicidade tarifária”. As cir­ cunstâncias atuais levam à desindustrialização do setor. Mas como “não há mal que sempre dure. capaz de construir usinas memoráveis do passado e brilhantes. que vinham se desenvolvendo muito bem através da venda antecipada de sua energia e assim viabilizando os project finance. no caso das PCHs. O Governo passou a fazer leilões de energia tendo como competição apenas o valor do MWh.ambiente de contratação livre . no mercado livre (as PCHs são denominadas como fonte incentiva­ da pois há desconto de 50% nos custos de transporte da energia).ambiente de contratação regula­ da .. a expansão industrial. atualmente. a busca de fornecedores incentivados. em média. por consequência. socialmente inseridas nas comunidades. As PCHs. Mas ainda existia (e existe) o ACR .

Séculos XIX.PCH São Joaquim no rio Benevente. no Espírito Santo Figura 6 . em Goiás Figura 5 – PCH São Simão com 27 MW no rio Itapemirim Braço Norte Esquerdo. XX e XXI Figura 4 – PCH Irara com 30 MW no rio Doce.A História das Barragens no Brasil . no Espírito Santo Figura 7 – PCH Anna Maria no rio Pinho em Minas Gerais 352 .

Interciência – 2009 (5) Site da ANEEL – Agência Nacional de Energia Elétrica (6) Tolmasquim. Rio de Janeiro e Minas Gerais 353 .PCH Santa Fé no rio Paraibuna. Maurício – Geração de Energia Elétrica no Brasil – Ed. Edson – Centrais Hidrelétricas – Ed.000 – Governo do Estado de São Paulo (4) Souza. Bortoni.Pequenas Centrais Hidroelétricas do Estado de São Paulo – 2. José Guilherme. Ferrari.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 8 – PCH Ivan Botelho I (Ponte) no rio Pomba em Minas Gerais Referências (1) Tiago. Geraldo. Interciência . Nascimento. Zulcy. Camila .A Evolução Histórica do Conceito das PCHs no Brasil. Santos. Galhardo. Jason.2005 Figura 9 . Afonso Henriques. Fernando.– CERPCH – Itajubá/MG (2) ABRAGEL – Associação Brasileira de Geração de Energia Limpa – Diversas apresentações em palestras (3) Prado Jr. Cristiano . Amaral.

354 .

com a consequente redução da presença do Estado nesse segmento da economia. à época. As atividades de geração. com foco particular nas novas usinas hidroelétricas.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A Nova Face das Empresas Estatais frente à Expansão da Oferta de Energia Hidroelétrica no País Márcio Antônio Arantes Porto e João Batista Gribel Soares Neto O setor elétrico brasileiro vivenciou mudanças profundas em sua orga­ nização estrutural a partir de meados da década de 1990. ten­ do como grande divisor de águas o traumático racionamento de energia elétrica vivenciado em 2001 e 2002. inspiração de experiências desenvolvidas em outros países oci­ dentais. a empreendimentos relacionados à empresa Furnas Centrais Elétricas. atrair os investimentos privados. a ANEEL – Agência Nacional de Energia Elétrica. dessa forma. desse modo. O contexto de mudanças A partir da década de 1990 a estrutura regulatória e funcional do setor elétrico brasileiro foi profundamente modificada. Os exemplos contidos no texto que se segue referem-se. como nos segmentos de transmissão e distribuição. dada a dificuldade de o poder público continuar a arcar com os vultosos recursos demandados pelo setor. atrair os capitais privados para o setor. A partir de então as empresas públicas. diversida­ de de hidrologias entre regiões. tiveram que se adap­ tar às mudanças de cenários e às diferentes lógicas às quais o setor elétrico foi submetido nos anos seguintes. na qual os autores exercem suas atividades profissionais. extensão continental. Dada a natureza peculiar do sistema brasileiro – forte prevalência da hidroeletricidade. sob Usina hidroelétrica de Anta 355 . essas experiências das empresas públicas no novo ambiente setorial. Neste capítulo procura-se discutir. sob esse contexto político e econômico. a meta era retirar completamente do Estado o papel de agente econômico no setor. então. Ao Estado restaria o papel da regulação. tanto no plano da expansão da oferta de energia elétrica (geração). desverticalizando as empresas. No primeiro movi­ mento da reestruturação. as adaptações às quais tiveram que se submeter para se manterem como agentes importantes no setor elétrico e as carac­ terísticas (e desafios) para a gestão dos empreendimentos no novo contexto. buscando. especialmente aqueles voltados à sua ex­ pansão. que seriam gradualmente privatizadas. todos. que em um desenho inicial da reestruturação seriam todas privatizadas. entre outras – a adaptação dos modelos importados mostrou-se particularmente desafiadora e não isenta de riscos. em sua maio­ ria. privatizando todas as empresas públicas então existentes. Tal reestrutu­ ração teve por objetivo promover a criação de um mercado competitivo de energia elétrica no país. transmissão e distribuição seriam segregadas. por certo de forma muito bre­ ve. A justificativa para essa reestruturação era introduzir uma maior competitividade nesse importante segmento da infraestrutura e. tendo sido criada. Essa reestruturação setorial viveu dois momentos distintos. dando oportunidade de acesso a novos agentes às receitas expressivas dessa atividade econômica. sob amplamente majoritário controle estatal.

ainda em curso. enquanto no ACL se daria a comercialização direta de energia pelos agentes de geração aos consumidores livres. causando prejuízos profundos à economia do país. foram necessárias às empresas estatais para adaptar sua atuação ao novo contexto. desde o início. a menor Receita Anual Permitida ou RAP. O modelo de competição na Transmissão se consolidou primeiro. O movimento de privatização das empresas públicas foi suspenso. com o setor público. que seriam repassados. após liberada a participação das empresas públicas nos leilões. insumo essencial para o desenvolvimento econômico e social do país. tema ao qual será dedicada. É esse o ambiente competitivo complexo onde hoje convivem empresas privadas e públicas. A Lei n o 10. de 15. ou seja. O ACR para a compra e venda de energia elétrica por concessionárias. que era inicialmente vedada. observandose maiores deságios sobre os tetos de remuneração estabelecidos pela ANEEL. Em verdade elas vem sendo particularmente bem sucedidas nessa nova configuração do setor.03. que devem ser regulados.2004. somando experiências e capacitações que se complementam. A concorrência tornou-se notoriamente mais acirrada. Mudanças culturais importantes. com a comple­ ta retirada do Estado da atividade econômica na área da energia elétrica. atraindo. Requisitos essenciais para o sucesso das empresas públicas no novo modelo O modelo setorial vigente tem por base a competição nos segmentos de Geração e Comercialização. Estabeleceu dois ambientes de comercialização.Séculos XIX. As tarifas aos consumidores não tem mais como base os custos incorridos na construção dos empreendimentos (a tarifa pelo cus­ to). Tais parcerias tem-se mostrado não somente rentáveis. enfim. para o empreendedor – é um dos grandes desafios a ser en­ frentado nas obras do setor.A História das Barragens no Brasil . no modelo competitivo busca-se a efici­ ência econômica. mas – e até mesmo mais importante – tem atraído a participação dos investidores privados para compartilhar. alguma reflexão. enquanto a Trans­ missão e a Distribuição são consideradas monopólios naturais. aos consumidores. Os novos empreendimentos. o desafio imenso que é expandir a oferta de energia para o vigoro­ so mercado brasileiro. determinados pelo planejamento setorial. o “Ambiente de Contratação Regulada (ACR)” e o “Ambiente de Contratação Livre (ACL)”. enfim. conforme ocorria anteriormente sob a égide da prestação do serviço público – onde não havia uma preocupação dominante com a minimização dos custos. investidores nacionais e estrangeiros para os leilões de outorga das concessões dos ativos de transmissão. Esse equilíbrio entre a qualidade e os investimentos – custos. ao tratar-se dos Modelos de Gestão dos empreendi­ mentos e da Engenharia do Proprietário. XX e XXI A privatização conforme originalmente planejada. que desaguou no racionamento de 2001-2002. Em especial quando se consorciam com empresas privadas para a exploração dos novos empreendimen­ tos.848. adiante. introduziu uma nova regula­ mentação para a outorga de concessões de geração e para a comercialização de energia no país. mas agora sob uma lógica que priorizava a segurança energética. são outorgados aos agentes que se dispuserem a realizálos pela menor tarifa para os usuários. Ou seja. o planejamento do setor pelo Estado foi retomado (com a criação da EPE – Empresa de Pesquisa Energética) e o modelo setorial radicalmente revisto. ficou em meio do caminho com a ascensão de um novo governo a partir de 2003 e após o fracasso do modelo anterior. embora mantida a ênfase na competição. permissionárias e autorizadas do serviço público de distribuição de energia elétri­ ca. No segmento da Transmissão a concorrência se dá através de leilões para outorga das novas obras de ampliação do sistema. 356 . um compromisso entre qualidade (regulada) e o preço (tarifa) do serviço.

com a reformulação do modelo setorial introduzida a partir de 2004. outorgadas sob o modelo anterior – e que ficaram conhecidas como “Botox” – encontraram dificuldades para se viabilizar e comercia­ lizar sua energia no novo ambiente. de forma sinérgica. em muitos casos. devido às características do modelo seto­ rial. Houve necessidade de mudanças culturais profundas no modo de atuar das empresas públicas com vistas à sua adaptação e sobrevi­ vência no novo modelo competitivo setorial. sob uma estrutura organizacional projetada. prejudicados pela mudança de modelo. que teve ágio de 554%. Aliam. a usina de Foz do Chapecó. as empresas públicas. recebia a concessão para as novas usinas hidroelétricas aquele inves­ tidor que ofertasse o maior valor pelo Uso do Bem Público (UBP). Alguns fatores de sucesso Relacionam-se. a partir de um piso. muitas dessas usinas. participa­ ção minoritária das empresas públicas. em especial no que se refere às novas usinas hidroelétricas. em Goiás. teriam dificuldades. ficavam oneradas por um ágio elevado na UBP. liberadas para participar dos leilões de novas concessões. tanto em parceria com a iniciativa privada – maio­ ria dos casos – como através de empreendimentos corporativos. as melhores características das empresas privadas e das empre­ sas públicas em prol do desenvolvimento do projeto. O desenvolvimento dos projetos através de SPE As SPE – Sociedades de Propósito Específico são empresas priva­ das quando apresentam. que teve um ágio de 3.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Já no segmento de Geração houve. dentro das estruturas funcionais de suas organizações. Ademais. Para resgatar esses projetos. uma mudança radical de con­ ceitos. fornecedores de bens e serviços e concessionárias.090% sobre o piso de UBP estabelecido – agregando elevação de cerca de 30% aos seus custos de produção. motivado pela competição acirrada por sua outorga. não obstante aplicáveis a todos os agentes. Os parceiros individualmente. foi necessário um forte empenho no âmbito da regulação bem como. Caso típico foi a excelente usina de Serra do Facão (210 MW). ressurgiram como agentes de relevo. Por desenvolver um empreendimento específico. em gerir o projeto com tais ca­ racterísticas – fato especialmente verdadeiro para as empresas públicas. mas ainda há muito por avançar frente às exigências do mercado. no rio Uruguai. Na transição de modelo ocorrida após 2003. As parcerias com a iniciativa privada e o contexto de com­ petição pelas novas outorgas de concessão proporcionaram um importante aprendizado às empresas públicas. como investi­ dores puros. A ótica do “negócio” e sua rentabilidade tiveram que prevalecer frente à tradição das obras de altíssima qualidade. a seguir. finalmente. no rio São Marcos. a parceria das empresas estatais. sempre cara. Outro exemplo. 100% estatais. em sua constituição societária. Nesse novo contexto setorial. muitas vezes. Ou seja. as SPE podem exercer uma gestão do projeto moderna e dentro das melhores práticas. Daí o agente negociaria sua energia livremente. Nesse ambiente a energia disponibilizada ao mercado acabava. Podem incorporar parceiros com perfis bastante distintos. estando presentes em vários empreendimentos importantes. Aquelas usinas mais atraentes. de receitas antecipadamente estabelecidas e de longo prazo. com cus­ to de produção mais econômico. mas que eram construídas com elevados custos. ou seja. por disporem. através de contratos bilaterais registrados no Mercado Atacadista de Energia – MAE. podem justificar o sucesso das empresas públicas nos certames para expansão da oferta de energia. as 357 . com 855 MW de capacidade. em virtuosa complementaridade. alguns fatores que se consideram essenciais para o desenvolvimento favorável dos novos projetos de geração no ambiente competitivo e que. valor de referência estipulado pelo governo. No modelo competitivo inicial a outorga das concessões se dava àquele agente que mais pagasse por essa outorga.

a colocação de parcela de energia no ACL. com­ prometer fortemente sua rentabilidade. por isso. o melhor perfil da dívida e dos desembolsos. XX e XXI SPE podem usar tais receitas futuras como garantia para obter os financiamentos. a ANEEL disponibiliza participar dos leilões de outorga dos novos empreendimentos de geração um con­ 358 . dando agilidade na realização de estudos complementares àqueles disponibilizados pela ANEEL. Con­ templa os Estudos de Viabilidade Técnico-Econômica (EVTE). maior competitividade nos leilões. dá ensejo aos agentes a propor soluções inovadoras para sua execução. a antecipação da produção e a eventual geração de caixa durante Conhecimento aprofundado do projeto Aos agentes interessados. que se somam ao expertise das empresas públicas. as empresas públicas são naturalmente fortes. Não observar essa “regra de ouro” significa condenar o projeto a atrasos no seu licenciamento. sua otimização energética. envolve várias componen­ tes: a busca pelas melhores fontes de financiamento. os incentivos fiscais. com avaliação de benefícios e custos associados à nova usina cuja outorga será licitada. quer nas áreas ambiental e fundiária – e pela grande intimidade que muitas vezes tem com as regiões de desenvolvimento dos projetos. A qualidade dos estudos ambientais deve ser a melhor possível. paralisações. junto de estudos nos quais é definida a concepção global da usina. As interações com os órgãos ambientais devem ser constantes e tecnicamente elevadas. Há necessidade de transparência no trato com os órgãos ambientais e com os afetados. não obstante sua utilidade pública. mas não exclusivamente. direta e indiretamente pelo empreendimento. técnico-econômica e ambiental. o que acarreta em menores prêmios de risco e melhores condi­ ções de contratações das obras e outros serviços – enfim. a melhor solução tributária. redução dos riscos associados ao projeto. biológico e social – e que. impacta o meio ambiente – físico. em suas várias disciplinas. o conhecimento científico existente na região do empreendimento. e seus riscos. ademais. construção e operação. enfim. agregando-se sempre. que muitas vezes são o grande diferencial que define o vencedor de um leilão de outor­ ga. A adequada modelagem financeira do negócio. Nesse aspecto. Engenharia financeira do projeto O equacionamento financeiro do projeto talvez seja o ítem mais importante. são necessárias compensa­ ções àqueles atingidos pelo empreendimento. no conhecimento técnico que envolve o pro­ jeto. Investir. em geral. os aspectos sociais – é absolutamente determinan­ te no sucesso dos empreendimentos hidrelétricos na atualidade. O papel do financial advisor é essencial.Séculos XIX. embargos. e deixando claro à população o que é factível realizar a título de compensação. bem como o que não é viável. face aos baixos riscos envolvidos. por disporem de equipes próprias e capacitadas – quer na engenha­ ria. alavancar seus projetos com custos de financiamento bastante atraentes. Vantagens essas que são potencia­ lizadas através de parcerias venturosas.A História das Barragens no Brasil . com o adequado atendimento às condicionantes de licencia­ mento. que deve inserir-se de forma sustentável no contexto regional ao qual que se incorpora. Assim conseguem. negociando prioridades de forma aberta com a sociedade organizada. Um ambiente de mútua confiança e de aceitação do empreendimento é construído a partir do tratamento respeitoso às partes interessa­ das. definidor do sucesso e da rentabilidade empreendimento no ambiente competitivo existente em nosso modelo setorial. com a possível profundidade que os prazos em geral escassos permitem. Tratamento da questão ambiental O tratamento adequado da questão ambiental – aí incluídos. os Estudos de Impacto Ambiental (EIA) e o Relatório de Im­ pacto Ambiental (RIMA). com toda a ênfase. Permite. É preciso reconhecer que toda e qualquer obra de infraestrutura.

o fato é que. Regidos pela modelagem financeira abrangente e detalhada. No segundo caso. a fim de contribuir para que o tema seja analisado sob vários ângulos pelos profissionais do setor. jun­ tamente com seus parceiros. por parte dos empreendedores. no fim da linha. Furnas adotou a modalidade de contratação mista com EPC – Engineering. Modelos de gestão recentemente utilizados Percebe-se. a existência de várias modalidades de gestão de empreendimentos na área de geração. ganha importância a busca por modelos de gestão apropriados. é preciso gestão consistente dos projetos no sentido de assegurar a qualidade dos serviços. 359 . não ha­ vendo. os participantes que se consorciam para a competição – investidores e fornecedores de bens e serviços – identificam a necessidade de atuar de forma solidária.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens a construção – tudo isso é absolutamente crucial para a proposição de uma tarifa módica e tecnicamente sustentável nos leilões. que tem sido desenvolvidas desde 2001. para o sucesso efetivo dos empreendimentos. no modelo competitivo em vigor. necessidade de aquisição de energia no mercado livre para suprir os compromissos assumidos. podemos citar os aumentos dos prêmios de seguros. Sendo de risco moderado os retornos dos investimentos em geração hidroelétrica. podemos elencar as perdas de receita de geração por atrasos das obras. efetivamente. perde a sociedade brasileira. na atualidade. em que todos os envolvidos perdem. Igualmente. As empresas públicas incorporaram e vem aperfeiçoando essa abordagem financeira “privada” nos leilões do setor elétrico. combinando aspectos positivos de modelos de gestão já utilizados e minimizan­ do seus pontos falhos. para vencer os leilões de outorga dos novos empreendimentos. · Modernização de usinas existentes Em suas obras de modernização de usinas hidroelétricas (usina hidro­ elétrica Mal. Estes devem procurar blindar todas as partes interessadas. multas impostas pelos órgãos públicos de fiscalização e regulação. A não observância desses preceitos tem como consequência perdas diretas para os empreendedores e indiretas para o negócio de geração de energia no país. o que pressupõe que: (i) não há uma única modalidade que possa ser considerada como ideal para o atingimento dos objetivos e atendimento das necessidades de todas as partes interessadas no negócio. através de uma atuação em parceria entre os proprietários dos empreendimentos e os consórcios contratados para a execução. Mascarenhas de Moraes – MG e Luiz Carlos Barreto de Carvalho – MG/SP). No primeiro caso. Independentemente de outras possibilidades. de buscar soluções que garan­ tam a conclusão das obras conforme os preços e prazos definidos nos planos de negócios (uma vez que a energia já está vendida com preço e data de entrega contratados). e (ii) os empreendedores estão. que pagará por uma energia mais cara e menos favorável sob o ponto de vista ambiental. sacrificar margens e compartilhar ganhos. Portanto. maior preocupação da sociedade civil quanto à segurança dos empreendimentos e maiores cuidados dos organismos de licenciamento ambiental. pois. com reflexos positivos para a sociedade. Na discussão que se segue procura-se identificar alguns dos mo­ delos já utilizados ou em utilização. buscando e testando fórmulas que possam viabilizar os novos negócios de maneira a reduzir riscos e atender aos objetivos de todas as partes interessadas. prejuízos à imagem das empresas envolvidas. os agentes devem compartilhar a visão de longo prazo que as inversões no setor elétrico requerem. Modelos de gestão dos empreendimentos As características atuais do modelo setorial reforçam a necessida­ de. espaço para retornos espetaculares e em curto prazo. tendo em mira benefícios mútuos para as partes. tanto durante a implantação quanto na fase de operação. dentre outros – com sacrifícios à rentabilidade dos projetos.

ini­ ciada em 2002. incluindo as obras de reservatório. XX e XXI Procurement and Construction (Engenharia. pelo licenciamento ambiental. Já na modernização e ampliação da UTE Santa Cruz (RJ). com contratos a preços globais.Séculos XIX. Fornecimentos e Construção) e execução direta. separadamente. Figura 1 – Usina hidroelétrica Peixe Angical 360 . Os contratados só podem desenvolver suas intervenções nos equipamentos após aprovação de Furnas. Furnas resguardou para si a prerrogativa de apro­ vação de todos os projetos. a preço global. a Enerpeixe (parceria entre Energias do Brasil e Furnas) contratou. todas a preços globais. À Concessionária coube a responsabilidade pelo controle da qualidade das obras. reservando para si os licenciamentos ambientais e os fornecimentos dos turbo-geradores. · Novas usinas hidroelétricas Na implantação da usina hidroelétrica Peixe Angical. o projeto. Furnas adotou o regime de EPC. o fornecimento/mon­ tagem e a construção civil. pela construção e pela montagem eletromecânica. da execução dos comissionamentos e dos licenciamentos ambientais. pelos fornecimentos dos equipamentos. concluída ao longo de 2006.A História das Barragens no Brasil . Os Consórcios contratados respon­ sabilizam-se pelo projeto. pela gestão fundiária e pelos programas ambientais.

similarmente a Foz do Chapecó. DME. a preço global. que iniciou as obras em março de 2007. pela execução dos programas ambientais e das obras de reservatório. sob sua tutela direta. fornecimentos e construção. manteve. pela gestão fundiária. a preço global. Analogamente ao caso anterior. (pertencente à Alcoa. a Serra do Facão Energética S. a empresa decidiu pelas contratações separadas do projeto (preço global). Camargo Corrêa Cimentos). pela gestão fundiária e pela execução dos programas ambientais e das obras de reservatório. CEEE e Fur­ nas) optou pela contratação de um EPC tradicional (engenharia. No caso da usina hidroelétrica Serra do Facão (GO).A. optou pela contratação de um EPC tradicio­ nal (engenharia. também reservou para si as responsabilidades pelo licenciamento ambiental.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 2 – Usina hidroelétrica de Foz do Chapecó Para a implantação da usina hidroelétrica Foz do Chapecó (SC/ RS). No entanto. fornecimentos e construção. o Consórcio Empresarial Foz do Chapecó (pertencente à CPFL. Na construção da usina hidroelétrica Simplício (RJ/MG). do 361 . as res­ ponsabilidades pelo licenciamento ambiental. cujas obras foram iniciadas em janeiro de 2007. incluindo o contro­ le da qualidade). Furnas. concessão 100% de Furnas. incluindo o controle da qualidade). cuja obra teve início em janeiro de 2007.

XX e XXI Figura 3 – Barragem de Foz do Chapecó Figura 4 . pela gestão fundiária e pelos programas ambientais. O contrato da construção civil não inclui o controle da qualidade das obras. Furnas se responsabiliza pelo licenciamento ambiental.Usina hidroelétrica de Serra do Facão no rio São Marcos fornecedor/montador (preço global) e das obras civis (misto de preço global e preços unitários). A novidade no caso de Simplício foi a utilização. 362 . no contrato das obras civis. de um sistema misto de preços: parte do contrato é por um preço global e parte é por preços unitários. Tal opção foi feita buscando eliminar volumes significativos de verbas de contingenciamento relativas a riscos geotécnicos.A História das Barragens no Brasil . A integração das responsabilida­ des que se interfaceiam é gerida diretamente pela própria conces­ sionária. anterior mente embutidos no preço global da empreiteira. Além disso.Séculos XIX. A contrapartida é que tal risco está sendo assumido por Furnas. nem as obras de reservatório.

a Retiro Baixo Energética S. Furnas se responsabiliza pelo licenciamento ambiental. incluindo o controle da qualidade. A integração das responsabilidades que se interfaceiam também será gerida diretamente pela própria concessionária. optou pela contratação de um EPC mais amplo.O contrato da construção civil não inclui as obras de reservatório.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Já a implantação da usina hidroelétrica Batalha (GO/MG). pela gestão fundiária e pelos programas ambientais.A. também denominado internamente por Turn Key.Usina hidroelétrica de Retiro Baixo 363 . do fornecedor/ montador (preço global) e das obras civis (preço unitário). Figura 5 – Obras da barragem e usina de Anta do aproveitamento hidroelétrico de Símplicio Figura 6 . obras iniciadas em março de 2007. Analogamente à usina hidroelétrica Simplício. outra concessão 100% de Furnas. possui a seguinte formatação atual: contratações separadas do projeto (preço global). Na usina hidroelétrica Retiro Baixo (MG).

incluindo o controle da qualidade). uma tendência para o futuro próximo. Outra modalidade comumente observada é a utilização de contrata­ ções do tipo EPC. programas ambientais e obras de reservatório. OII.A. NEOENERGIA e ODE­ BRECHT) igualmente optou pela contratação de um EPC tradicio­ nal – engenharia. em substituição aos preços unitários. ratificando a inquietude dos diversos empreendedores quanto à busca pelo melhor modelo a ser utilizado para os negócios de geração de energia elétrica no país. FIP. a Santo Antônio Energia S. bastante ricos em diversidades de modelos de ges­ tão. os exemplos acima não encerram todos os ca­ sos recentemente utilizados ou em implantação atual no Brasil. Não obstante. as responsabi­ lidades sobre os licenciamentos ambientais. Para a implantação da usina hidroelétrica Santo Antônio (RO). incluindo o controle da qualidade – a preço global. CEMIG. (parceria de FURNAS. pela execução dos programas ambientais e das obras de reservatório. a preço global. pela gestão fundiária. fornecimento. ELETROSUL. que recebem tal exigência dos órgãos financiadores. tudo por um preço global. para si. que findam por gerar: (i) preços mui­ to avultados em função de grandes contingenciamentos embutidos pelos construtores. XX e XXI onde o contratado responsabiliza-se pela integralidade das ações necessárias à implantação completa do empreendimento. montagem eletromecânica. com obras previstas para iniciar em julho de 2011. controle da qualidade. fornecimentos. Percebe-se. CNO e AG). licenciamento ambien­ tal. Mesmo havendo variações percebidas em tal modalidade de contratação. gestão fundiária. comissionamentos. pode-se afirmar que ela ainda é a que mais agrada aos investidores. cuja obra foi iniciada em setembro de 2008. as gestões fundiárias e os programas ambientais. no entanto. ou seja. Via de regra. a gestão fundiária a execução dos programas ambientais e das obras de reservatório. As experiências têm mostrado que os regimes de preços globais fixos não eliminam por completo possibilidades de situações como acima relatadas. em nossa opinião. Manteve também sob responsabili­ dade direta da SPE o licenciamento ambiental. uma das exigências que A questão das obras de reservatório não tem uma tendência defini­ da. construção civil e montagem eletromecânica. manteve sob sua tutela direta as responsabilidades pelo licenciamento ambiental. Tal constatação deve-se ao fato de que as obras de reservatório tem uma dependência direta da área afetada e dos condicionantes 364 . com foco na hidroeletricidade.Séculos XIX. incluin­ do o controle da qualidade das obras. Uma delas é a adoção da modalidade de preço global. optou pela contratação de um EPC tradicional (engenharia. projeto. Tal tendência tem forte relação com a transferência de riscos do empreendedor para o construtor. por ser entendida como a que melhor transfere os riscos de execução e integração dos empreende­ dores aos contratados. Por tal motivo. · Tendências Obviamente. dado o caráter crítico dessas atividades para o sucesso dos empreendimentos e para a imagem da empresa na região de inserção dos projetos. percebe-se algum movimento no sentido de se incluir preços unitários em partes do projeto mais sensíveis a previsões muito antecipadas. os concessionários reservam. No caso da usina hidroelétrica Teles Pires (MT/PA). em que o contratado se responsabiliza pelo projeto. algumas fortes tendências. contudo. mostrando. os organismos financiadores dos projetos tem colocado para as viabilizações dos empréstimos. já há movimentos mais recentes no sentido de se mesclar os regimes de preço global com partes por preços unitários.A História das Barragens no Brasil . São. fornecimentos e construção. ou por alterações de projeto ou por situações reais distintas daquelas previstas nos projetos básicos. ou (ii) pleitos de reequilíbrios econômicofinanceiros em função de serviços adicionais imprevisíveis. construção civil. fornecimentos e construção. No entanto. a Companhia Hidroelétrica Teles Pires (FURNAS.

Vista aérea das obras da usina hidroelétrica de Santo Antônio sobre o Rio Madeira dos licenciamentos. é secundária. fizerem parte do mesmo grupo responsável pela execução das obras o construtor e o projetista. com base no contrato EPC. a engenharia do proprietário deve disponi­ bilizar informações para subsídio técnico ao empreendedor na to­ mada de decisões frente ao construtor. em alguns casos. visto que as incertezas inerentes à execução dos serviços de construção. comissionamento e operação de empreendimentos de geração devem ser controladas. montagem. Fica patente que. possíveis as prédefinições necessárias aos orçamentos seguros pelas construto­ ras e. que fatalmente elevaria o preço proposto em função de contingenciamentos altos. em outros casos. fornecimento. o empreendedor deve ter em seu auxílio equipe técnica que exerça a engenharia do proprietário de forma ostensiva. pois o interesse do investidor é o empreendimento concluído da forma como foi planejado. especialistas passaram a questionar esse modelo sob a ótica da segurança. sendo. bem como a preservação de sua imagem. Complementarmente. de forma a atender aos objetivos previamente estabelecidos para o empreendimento e aos critérios de segurança operativa definidos Engenharia do proprietário Não resta dúvida quanto às inúmeras vantagens que o modelo de contrato EPC – Turn key trazem ao empreendedor sob o ponto de vista econômico. incluindo eventos em usinas hidroelétricas e também no metrô de São Paulo. Entretanto. por meio do monitoramento adequado dos processos empregados. para o emprego desse modelo de contrato. ainda mais quando 365 . A questão da responsabilidade integral do contratado. Entendemos que a engenharia do proprietário tem como principal papel a atenuação de riscos envolvidos quanto a prazos e confor­ midade de produtos contratados.Figura 7 . com a ocorrência de inúmeros acidentes em obras de grande porte. sob o ponto de vista da engenharia. impossível uma orçamentação isenta de riscos. e não a vitória na batalha dos tribunais.

Análise dos métodos e resultados relativos ao controle de qualidade dos materiais de construção desenvolvido pelo laboratório contratado pelo contratado. Seleção de assuntos de interesse do empreendedor para serem discutidos nas reuniões de produção (semanal) e de coordenação (mensal). plano de inspeções e testes. Análise e parecer sobre relatórios de progresso emitido pelo empreendedor. Análise de planejamentos executivos elaborados pelo cons­ trutor. normas técnicas aplicáveis e aos demais documentos técnicos contratuais. Com a en­ trada de diversos agentes econômicos no setor de energia elétrica 366 . caso requerido pelo empreendedor. Emissão de relatórios técnicos destinados à análise de pleitos. Emissão de relatórios e documentações específicos para os órgãos financiadores. emitidos pelo contratado. quanto à conformidade em relação aos documentos de projeto. Organização das reuniões de coordenação e de produção. subsidiando-o de elementos necessários para análise econômico-financeira afetos à relação contratual estabelecida com o contratado. Emissão de relatórios.Séculos XIX. registros fotográficos. Acompanhamento do pré-comissionamento. Análise de redes de precedência emitidas pelo contratado e emissão de pareceres ao empreendedor. para subsidiar solu­ ção de impasses ou divergências que possam ocorrer entre o empreendedor e o construtor. sem se limitar a elas. Emissão de pareceres. Análise e emissão de pareceres relativos a fornecimentos ne­ cessários que estejam fora do escopo do Contrato EPC. XX e XXI nos procedimentos de rede do ONS e nas regulamentações da ANEEL e MME. quando solicitados. quanto a alterações no projeto básico consolidado e/ou especifica­ ções técnicas. Acompanhamento rigoroso dos processos executivos emprega­ dos pelo contratado previstos nos anexos da qualidade.A História das Barragens no Brasil . quanto a questões técnicas no âmbito das atividades no local da implantação. filmes e vídeos relativos à obra. Atividades contempladas na Engenharia do Proprietário Dessa forma. fornecedor e montador e emissão de pareceres ao empreendedor. Emissão de pareceres ao empreendedor quanto a pedi­ do de modificação de projeto – pedido de modificação de campo. Atendimento às solicitações do empreendedor. especificações técnicas. comissionamento e pré-operação. Acompanhamento de liberações de serviços por parte da projetista. há grandes divergências com relação à forma e/ou intensidade de atuação da engenharia do proprietário. quando na entrega do empreendimento para operação comercial. Certificações parciais dos produtos entregues pelo contratado e certificação global. Análise dos dossiês de qualidade . a engenharia do proprietário deverá exercer. as seguintes atividades: Acompanhamento das obras civis e eletromecânicas.data book Acompanhamento das obras e serviços em face das normas de higiene e segurança industrial pertinentes. Por outro lado. A forma de atuação da Engenharia do Proprietário De modo geral. os conceitos anteriormente apresentados não encontram discordâncias entre os diversos segmentos e atores envolvidos nas gestões de empreendimentos de grande porte. Acompanhamento de quantitativos dos serviços executados das obras civis e de montagem eletromecânica.

muitas vezes quando o construtor já estiver isento de qualquer responsabilidade legal sobre o problema. A interferência direta se dá apenas em casos extremos. uma vez que não interfere diretamente na execução das atividades das obras. onde se faz a checagem do atingimento de grandes marcos. apontando eventuais não-conformidades para subsidiar as decisões do proprietário. o emprego do neologismo “engenharia do proprietário”. acompanhando o emprei­ teiro em todos os turnos de trabalho. O termo “fiscalização” passou a sofrer forte preconceito por trazer consigo a ideia da presença da mão-forte do empreendedor nas de­ cisões de obra. sem acompanhamento integral das obras. uma vez que importantes etapas das obras deixam de ser acompanhadas. em que se verificam riscos às obras e às pessoas. Figura 8 .Usina hidroelétrica de Serra do Facão no rio São Marcos com 212 MW de capacidade instalada 367 . traduzido do inglês owner’s engineering. uma das principais alterações conceituais percebida foi no enfoque dado à questão da engenharia do proprietário. Eventuais defeitos poderão ficar ocultos por vários anos. dimensionadas dentro desse conceito de atuação extremamente distante e pontu­ al.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens no Brasil. o exercício da engenharia do proprietário passou a ser defini­ do como de spot check. a exemplo do que sempre ocorria nas gestões de grandes obras no Brasil. vindo a manifestar suas consequências danosas apenas na fase de operação. com atuação restrita aos horários comerciais. com a intensidade devida. atuar de maneira mais consistente. A engenharia do proprietário pode. as equipes de engenharia do proprietário. ficaram reduzidas a poucos profissionais. Vem. desenvolvendo um trabalho de verificação de aderência das atividades às normas e especificações técnicas. acompanhando a integralidade das obras. sem um acompanhamento passo a passo da obra. Com receio de trazer para o empreendedor riscos contratualmente definidos como de responsabilidade dos fornecedores/construto­ res. Entendemos que as equipes de engenharia do proprietário deverão ser dimensionadas de maneira a que as obras sejam fiscalizadas em sua integralidade. Vemos uma grave omissão dos empreendedores em tal tipo de atuação. Tal tipo de atuação não transfere riscos sob responsabilidade dos construtores para o empreendedor. mas tão somen­ te verifica o atendimento às normas e especificações executivas. e deve. de então. sem que isso traga ao empreendedor a assunção de riscos que não são de sua responsabilidade. a partir das mudanças no marco regulatório observadas desde 1995. Com isso. diretamente pelo “olho do dono”.

368 .

pela importância histórica que tem na mineração brasileira. de forma sintética. e a estrutura é a mesma uti­ lizada na época de Eschwege. a sudeste de Belo Horizonte. dando inicio a uma profunda galeria para esgotamento de água e elaborou o primeiro plano de lavra subterrânea em Passagem. Em 1821. com foco em seu desenvolvimento de tecnologias de disposição e na aplicação das técnicas da engenharia de barragens ao projeto e construção de barragens de rejeitos. A mineralização está inserida no Supergrupo Minas. Introdução O presente capítulo apresenta um sumário da experiência brasileira em barragens de contenção de resíduos de mineração e de indús­ tria. Eschwege aplicou técnicas modernas para a época. no topo. as quais tiveram seu início em épocas que remontam a cerca de 300 anos atrás. ficando a exploração paralisada em alguns momentos devido à conjuntura econômica do Brasil e à baixa cotação do ouro no mercado. e instalou um engenho com nove pilões e moinhos para pedras. Eschwege deixou o Brasil e desta época em diante a propriedade passou pelas mãos de vários mineradores. Atualmente. pelo Barão de Eschwege. a mina também passou a ser utilizada para mergulho nas galerias e túneis inundados pelas águas do lençol freático. A Mina da Passagem é um bom exemplo de iniciativa de valorização e utilização de minas antigas para geoturismo. a Mina da Passagem foi transformada num complexo turístico onde os equipamentos desativados foram requalificados. que criou a primeira companhia mineradora do País de capital pri­ vado. Há alguns anos. em Mariana. [Ref. lugar da passagem da estrada entre Ouro Preto e Mariana. Esta mina é descrita a seguir. vá­ rios mineiros obtiveram concessões para explorar a propriedade mineral da Passagem até que em 1819 ela foi adquirida. As barragens de rejeitos no Brasil surgiram das atividades de mi­ neração. a evolução histórica das barra­ gens de rejeitos no Brasil. junto com algumas concessões vizinhas. 1] Barragem São Bento . sob o Ribeirão do Carmo. sendo que uma lavra rudimentar foi iniciada em 1729. 1].Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens As Barragens de Rejeitos no Brasil: Sua evolução nos últimos anos Joaquim Pimenta de Ávila e Marta Sawaya 1. a exploração do ouro utilizava técnicas e ferra­ mentas rudimentares na lavagem e beneficiamento do minério. Entre 1729 e 1819. com o nome de Sociedade Mineralógica da Passagem. o ouro primário foi descoberto na região no início do século XVIII. conforme é descrito adiante neste capítulo. entre a Forma­ ção Cauê. Até essa época. De acordo com Ruchkys e Renger [Ref. Antes até da corrida do ouro no oeste americano.2005 369 . a atividade de mineração de ouro no Brasil já ha­ via se iniciado com a Mina da Passagem. e o Grupo Caraça (Formação Moeda e Batatal) ou Grupo Nova Lima (Supergrupo Rio das Velhas). o que já é bastante difundido na Europa. até então não usados no Brasil. O acesso é feito por meio de um trolley. A Mina da Passagem está localizada na Vila da Passagem. Descreve.

A História das Barragens no Brasil . tornou possível a construção de barragens de con­ tenção de rejeitos com técnicas de compactação e maior grau de segurança. as atividades de mineração. O desenvolvimento da tecnologia para construção de barragens de contenção de rejeitos ocorreu de modo empírico. atraindo indústrias de apoio e desenvolvendo a comunidade local. particularmente por inte­ resses agrícolas. Foi somente a partir do início do século XX. a disponibilidade de equipamentos de alta ca­ pacidade para movimentação de terras. além de contaminar as áreas a jusante. No entanto. As barragens construídas no início do século XIX geralmente eram projetadas transversalmente aos cursos d’água. Raramente existiam engenheiros ou critérios técnicos envolvidos nas fases de construção e de operação. atualmente mecanizado. as práticas de dispo­ sição de rejeitos permaneceram inalteradas e. em 2004 [Ref. Esse procedimento de construção. e a evolução deste assunto no panorama mundial pode ser percebida por um levantamento feito pelo USCOLD. Foi a partir da década de 30 que. continua sendo utilizado. Precedentes legais gradativamente trouxeram um fim à dispo­ sição incontrolada de rejeitos na maioria dos países ocidentais. que abriram caminho para elaboração das primeiras legislações sobre o gerenciamento de resíduos da mineração. em cursos d’água ou lançando-os em terrenos adjacentes. a geração de rejeitos pelas empresas de mi­ neração e os impactos decorrentes de sua disposição no meio ambiente eram considerados desprezíveis. e os aspectos relacionados ao uso da terra e da água conduziram os confli­ tos iniciais. Na diversidade das condições brasileiras. engrena­ do pelas práticas de construção e equipamentos disponíveis em cada época. de maneira similar às barragens convencionais. Esse desenvolvimento ocorreu ainda sem a aplicação das técnicas da engenharia de barragens. que se desenvolveu a partir da década 370 . Na década de 40. Antes do século XV. como descrito a seguir. sendo então enca­ minhados para algum local conveniente. resultando na produção ainda maior de rejeitos. para a manutenção da mineração e a mitigação dos impactos ambientais. Surgiram também conflitos pelo uso da terra e da água. Entretanto. algumas destas práticas acontecem até hoje em muitos países em desenvolvimento. formando depósitos sem nenhuma preocupação de ordenação e sistematização. pois os rejeitos frequentemente acumulados no solo obstruíam os poços de irrigação. o desenvolvimento tecnológico aumen­ tou ainda mais a habilidade de minerar corpos com baixo teor mineral. Entretanto. poucas destas barragens permaneciam estáveis. lagos e oceanos. com cada vez menor granulometria. a geração de rejeitos aumentou significativamente e estes pre­ cisavam ser removidos da área de produção. com o cessamento de práticas inadequadas que ocorriam até 1930. Até meados de 1930. Os produtores rurais começaram a associar a diminui­ ção da colheita nas terras impactadas aos rejeitos. Consequentemente. geralmente próximo aos rios ou cursos d’água. que os pequenos dis­ tritos minerários começaram a se desenvolver.Séculos XIX. embora em algumas mi­ nas sejam hoje aplicadas tecnologias disponíveis de implantação de barragens. com a introdução da força a vapor e com o aumento significativo da ca­ pacidade de processamento dos minerais de interesse econômico. ainda prevalece em minas de tecnologia mais rudimen­ tar a construção empírica. A partir do século XV. A situação no Brasil não foi diferente do resto do mundo. especialmente em minas a céu aberto. com considerações limitadas apenas para inundações. quando fortes chuvas ocorriam. XX e XXI Em relação aos rejeitos gerados. por mui­ to tempo descartaram seus resíduos na natureza. Um pequeno dique era inicialmente preenchido com rejeitos hidraulicamente depo­ sitados e depois incrementado por pequenas bermas. mais rejeitos estavam sendo depositados e transportados por distâncias cada vez maiores das fontes geradoras para os cursos d’água. equipamentos para movimentação de terras não eram acessíveis para a construção das barragens. como resultado. as indústrias investiram na construção das primeiras barragens de contenção de rejeitos.3].

ou negligência das características vitais incorporadas na fase de construção. da então MBR Minerações Brasileiras Reunidas. resultando em volumes de resíduos a serem represados pelas barragens. Enquanto estas barragens rudimentares se resumiam a estruturas baixas e de menores volumes de represamento. Assim. e às populações residentes nos vales a jusante. devido à falta de aplicação adequada dos métodos conhecidos. em Mariana. embora nem sempre fossem usados os conhe­ cimentos sobre a engenharia de barragens. o controle da segurança das barragens era basicamente orientado para a segurança estrutural e hidráulicooperacional. considerando o potencial de dano ambiental e os mecanismos de transporte de contaminan­ tes. trans­ versalmente aos vales. a maioria dos aspectos técnicos (por exemplo. e as áreas para disposição se tornaram cada vez mais escassas. A regra era optar pelo controle rigoroso do projeto. de supervisão deficiente durante a construção. com o progres­ so das atividades de mineração e aumento da escala de operações. A atenção foi amplamente voltada para estabili­ dade física e econômica das barragens. uma segurança satisfatória. construindo aterros com o material estéril removidos da mina e lançados em forma de aterros. os aspectos ambientais também cresceram em importância. um terremoto causou rompimento de muitas barra­ gens no Chile. com orientação técnica dos engenheiros de minas. Águas Claras. da Vale. Posteriormente. A partir da década de 80. Exemplos desta aplica­ ção são as barragens de: Pontal. recebendo considerável atenção e tornou-se um fator chave na pesquisa sobre as causas das rupturas. em que a característica básica era investir contra a causa potencial da ruptura da barragem. especiali­ zados nas técnicas de lavra. abordados em outras áreas como a de geração de energia elétrica. da Samarco. com implicações financeiras severas em muitos casos. a produção de rejeitos aumentou. Entretanto. falhas ocorrem. infiltração. as atividades eram bem sucedidas. sem grandes acidentes. Assim. de projetos mal elaborados. e Germano. Entretanto. os problemas estruturais destas barragens passaram a representar riscos maiores e rupturas significativas começaram a ocorrer. Com o passar do tem­ po. 2 e 3] 371 . em Itabira. O progresso das tecnologias de implantação de barragens de re­ jeitos foi sempre entremeado pelos acidentes com rupturas de barragens. construção e operação como for­ ma de garantir à sociedade. introdução de equipamentos cada vez mais robustos para movimentação de terra. pela exigência da sociedade de eliminação desses desastres. os quais sempre foram catalisadores do progresso tec­ nológico da engenharia de barragens. o qual se resumia a operações de britagem e peneiramento com lavagem. Aspectos de estabilidade física têm permanecido na vanguar­ da. Esses projetos se torna­ ram possíveis com a ampliação contínua do conhecimento e con­ trole dos aspectos de segurança. em geral. mui­ tos dos princípios fundamentais de geotecnia já eram compre­ endidos e aplicados em barragens de contenção de rejeitos. as técnicas de observação do comportamento das barragens durante a operação vieram reforçar a necessidade do controle da segurança em longo prazo. por causa de recentes acidentes com barragens de rejeitos que ganharam amplo espaço na mídia. tais como melhor compreensão do comportamento dos materiais. Em 1965. a construção de barragens de rejeitos no Brasil teve por muitos anos aplicada a prática de utilizar os equipamentos de la­ vra. para criar volumes de retenção dos rejeitos do beneficiamento do minério. Numa primeira fase. [Ref. Na década de 70. na década de 50. culminando no desenvolvi­ mento dos projetos de engenharia permitindo a construção de barragens com alturas cada vez maiores. quando o progresso na fabricação dos equipamentos de terraplenagem foi aproveitado nas operações de lavra e constru­ ção de barragens.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens de 30. liquefação e estabilidade da fundação) já eram bem entendidos e controlados pelos projetistas. novos desenvolvimentos na ciência de mecânica do solo. em Nova Lima. muitas vezes. compatível com probabilidade de ruptura adequadamente baixa.

à não aplicação das tecnologias existentes. A partir dos resultados apresentados. Na primeira tabela. até 2001. muitas das quais catastróficas. à época dois extremos.Séculos XIX. Tabela 1 . atingindo. em termos de aplicação de engenharia: Buffalo Creek era uma pilha de estéril que estava operando como dique de contenção dos rejeitos. durante cinco anos.A História das Barragens no Brasil . Fatos relevantes na evolução recente da geotecnia de barragens de rejeitos 2. desde os anos 70. portanto. As duas maiores catástrofes ocorridas: Stava. Em 2001. o ICOLD ( International Commission on Large Dams ). publicou um boletim (Bulletin 121: “Tailings Dams. embora seja observado o aparecimento em número crescente de publicações específicas sobre barragens de rejeitos e temas correlatos. em grande parte. quando esta estatística foi atualizada. Os métodos de disposição de rejeitos têm também evoluído po­ sitivamente. representaram. Risk of Dangerous Occurrences. que colaboraram com informações sobre acidentes e incidentes. Cerca de 400 casos foram analisados para identificar as causas principais destes eventos. o limite do “estado da arte” vigente à época. na Itália. e Buffa­ lo Creek. Stava foi uma barragem projetada segundo a prática corrente da engenharia. e no estabelecimento de regulamentações específicas sobre a segurança de barragens de rejeitos. são mostrados os acidentes com maior número de mortes. inventariou os acidentes e incidentes ocorridos desde 1970. As causas des­ tes acidentes têm sido atribuídas. que marcaram. O melhor conhecimen­ to do comportamento geotécnico dos rejeitos vem permitindo implantar estruturas mais seguras.1. aspectos que são abordados resumidamente. nos EUA. foram preparadas as duas tabelas apresentadas a seguir. em suas particularidades principais. o que tem catalisado uma evolução positiva da própria tecnologia de rejeitos. Participaram deste inventário represen­ tantes de 52 países. nas ações preven­ tivas. como do aumento da segurança das estruturas de contenção dos mesmos. o panorama desta área da engenharia. Lessons Learnt From Practical Experiences ) com o resultado de um trabalho da comissão de barragens de rejeitos que. po­ rém em uma situação de ocorrência de uma geologia complexa e materiais de fundação com comportamento de difícil análise. tanto na direção da redução do potencial de dano dos reservatórios de rejeitos. 372 . XX e XXI A ocorrência destes acidentes tem tido grande influência na atitu­ de dos profissionais de geotecnia de barragens.Principais Acidentes com Mortes (1970-2001) Ano 1985 1972 1970 1994 1974 1995 1986 2001 1978 Barragem / País Stava / Itália Buffalo Creek / USA Mufilira / Zambia Merriespruit/ África do Sul Bakofeng / África do Sul Placer / Filipinas Fernandinho / Brasil Rio Verde / Brasil Arcturus / Zimbabwe No de mortes 269 125 89 17 12 12 7 5 1 (dados segundo ICOLD-2001) 2. Rupturas e incidentes em barragens de rejeitos A apresentação destes fatos relevantes inicia-se obrigatoriamente pelos acidentes com rupturas. sem qualquer engenharia de barragem. Observa-se que o Brasil comparece na tabela com dois casos: Fernandinho e Rio Verde.

mas ocorre o vazamento de sólidos para jusante com conseqüências variáveis. sem mortes. que falham na sua responsabilidade de adotar procedimentos gerenciais de segurança.2 milhões de m³ de lama com cianeto (dados segundo ICOLD-2001) 2006 2003 2000 2000 2000 1999 1998 1998 1995 Romênia Romênia Filipinas Haelva/ Espanha Aznalcóllar/ Espanha Omai / Guiana Os acidentes em barragens de rejeitos continuam insistente­ mente a ocorrer no Brasil. e as defici­ ências decorrem da não aplicação de ações voltadas a garantir a segurança de estruturas. e outros países já identifi­ caram as mesmas deficiências de proprietários e operadores. situações já resolvidas pela tecnologia disponível. Tabela 2 .onde não ocorre a ruptura. As causas desses acidentes incluem. porque os proprietários não os revelam.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A segunda tabela mostra os aciden­ tes.estes mais nume­ rosos . de cianeto contaminando águas 50. composto de especialistas de diversos países. infelizmente. Esta situação não é exclusiva do Brasil. pro­ duziu nos últimos anos 10 boletins. Existem ain­ da numerosos incidentes que. Alguns são citados a seguir: O ICOLD.000m³ de cianeto contaminando águas 700. na grande maioria dos ca­ sos.000 m³ de água ácida tóxica liberada 5. em forma de recomen­ dações de boa prática para projeto. com consequências indesejáveis para a sociedade e para o setor de mineração e indústria. Além destes acidentes ocorrem incidentes .0 milhões de m³ de água ácida liberada 4. não são informados.Acidentes Recentes com Contaminação Ano Local Consequência 2007 Mirai / Brasil Mirai / Brasil Cataguases/ Brasil Kentucky/ Usa Vazamento de rejeitos de bauxita Interrupção de fornecimento de água Vazamento de rejeitos de bauxita Interrupção de fornecimento de água Lixívia negra liberada Interrupção de fornecimento de água Mortalidade de peixes Interrupção no fornecimento de água Contaminação das águas c/ metais pesados 100. tirando a chance de aprendizado com suas causas. Várias entidades internacionais têm trabalhado para a cons­ cientização dos proprietários e têm produzido excelentes contri­ buições sobre a segurança das barragens de rejeitos. para redução de riscos.000 t. com três casos. Observa-se que o Brasil compa­ rece novamente na tabela. porém com degradação ambiental significativa. como um todo. 373 . construção e operação de barragens de rejeitos.

à disposição final ou temporária de rejeitos e à acu­ mulação de resíduos industriais que apresentem pelo menos uma das características abaixo:  374 . ações do CBDB junto ao governo). Nos países mais desenvolvidos. estabeleceu requisitos mínimos de segurança que as barragens de rejeitos devem atender para receberem empréstimos daquela instituição. (www.feam. entretanto. em 2001. que conhecem a necessidade de uma boa gestão da segurança. a comissão de barragens de rejei­ tos do ICOLD publicou o boletim 121. algumas empresas de menor porte. em 2001. levando a tentativas diversas de regulamentação legal que obrigue os proprietários de barragens a tomarem providências efetivas de redução de riscos. com forte influência da ocorrência de acidentes e da atuação dos órgãos re­ guladores e fiscalizadores como o Ministério Público Estadual e a Fundação Estadual do Meio Ambiente . No Brasil. a FEAM coordenou a elaboração de regulamenta­ ção específica.334/2010 tem as características a seguir listadas. 87/2005 e 124/2008. um website de boas práticas para a engenharia de barragens de rejeitos. DN 62/2002. A MAC (Mining Association of Canada) produziu vários trabalhos de interesse aos procedimentos de segurança de barragens para uso de seus associados. com recomendações sobre a melhor prática para a segurança. Canadá. 2. concentrada nas barragens de rejeitos. infelizmente ainda desconhecem os aspectos principais da técnica de segurança de barragens. desde diretores até operadores de barragens de rejeitos. constata-se um maior progresso na regulamentação.2. que financia o setor privado. promovendo se­ minários e workshops específicos e instituiu cursos de treinamento para empresas de mineração em todas as esferas hierárquicas.Séculos XIX. como EUA.334/2010).334/2010. que foi discutida com representantes das empresas mineradoras. por meio do IFC (International Finance Corporation). O Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM) tem incentivado debates sobre o tema de segurança de barragens. diversos países da Europa. resultaram em uma legislação federal sobre segurança de barragens. África do Sul 2. onde são apresentados e analisados os acidentes e incidentes com barragens de rejeitos nos últimos anos. Embora as ações para implantação de uma legislação federal de segurança de barragens tenham já cerca de 30 anos no Brasil (basi­ camente. No Brasil. As regulamentações resultantes deste processo estão hoje nas Delibe­ rações Normativas.A História das Barragens no Brasil . Austrália. as tentativas que vêm sendo feitas há mais de trinta anos somente agora. do corpo docente de universidades e de empresas de engenharia. e contou com consultoria especializada.br.goodpracticemining. DN 65/2003. XX e XXI Dentre os 10 boletins. somente em 2010 foi criada uma lei federal de segurança de barragens (Lei 12.FEAM. A lei federal 12. As barragens de rejeitos em MG somente são licenciadas se atenderem aos requisitos das regulamentações. Embora existam algumas empresas de grande desempenho. O ICMM (International Council on Mining Metals) criou. essas ações resultaram em regulamentações sobre a segurança de barragens e esses países contam com legislação sobre o assunto. sobre a segurança de barragens A Lei 12. com a colaboração do ICOLD.3. · Aplica-se às barragens destinadas à acumulação de água para quaisquer usos. Após o acidente com a barragem de rejeitos da Mineração Rio Verde. a situação não é diferente. em 2010. No estado de Minas Gerais. que podem ser consultadas pelo site da FEAM: www. O Banco Mundial. já mencionado. Implementação de legislação e regulamentação de segurança de barragens Os acidentes em barragens provocaram sempre reações da sociedade em todo o mundo.com/tailings).

O Sistema Nacional de Informações sobre Segurança de Barragens (SNISB).L. primeiro enchimento e primeiro vertimento. Jr (Ed. concluiu o boletim Improving Tailings Dams Safety. Volume 1.com/tailings Recentemente. médio ou alto. Desenvolvimento de tecnologia específica sobre barragens de rejeitos Vários trabalhos têm sido publicados sobre a tecnologia de pro­ jeto. ambientais ou de perda de vidas humanas.000 m³ (três milhões de metros cúbicos). Argall. VI . maior ou igual a 15 m (quinze metros). a Comissão de Barragens de Rejeitos do ICOLD.Reservatório que contenha resíduos perigosos conforme normas técnicas aplicáveis.O Cadastro Técnico Federal de Atividades Potencialmente Poluidoras ou Utilizadoras de Recursos Ambientais.Capacidade total do reservatório maior ou igual a 3. A partir dos anos 80. VII .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens I . indicando as principais referências bibliográficas sobre cada um destes estágios. G. Colorado University.). V . trabalhos de pesquisa nas universidades brasileiras passaram a enfocar o comportamento dos rejeitos. ABMS (Associação Brasileira de Mecânica dos Solos e Engenharia Geotécnica).  IV . (1987 e seguintes).A segurança de uma barragem influi diretamente na sua sustentabilidade e no alcance de seus potenciais efeitos sociais e ambientais.  · Os fundamentos da Política Nacional de Segurança de Barragens – PNSB são: I . conforme definido no art. • • Proceedings of an International Bauxite Tailings Workshop (1992).A promoção de mecanismos de participação e controle social.  III . projeto.Categoria de dano potencial associado.O Relatório de Segurança de Barragens.  II . III .O sistema de classificação de barragens por categoria de risco e por dano potencial associado.). Argall. (1978). George O. vários anos a partir de 1978. II . S. das ações preventivas e emergenciais. Vick.  II . Os principais estão listados a seguir: • • • • • • C.A segurança de uma barragem deve ser considerada nas suas fases de planejamento.O Cadastro Técnico Federal de Atividades e Instrumentos de Defesa Ambiental.000. Volume 1: Proceedings of the First International Symposium (1972).goodpracticemining. que aborda os aspectos relevantes relacionados ao projeto. 3.O Sistema Nacional de Informações sobre o Meio Ambiente. 10 boletins a partir de 1982.  III . e vá­ rios projetos com aplicação de novos métodos de disposição têm resultado em significativa evolução das práticas de engenharia de barragens de rejeitos. Tailing Disposal Today. em termos econômicos. construção.O empreendedor é o responsável legal pela seguran­ ça da barragem.  IV . IV . Tailing Disposal Today. contada do ponto mais baixo da fundação à crista. opera­ ção e fechamento de barragens de rejeitos. operação.  · Os instrumentos da Política Nacional de Segurança de Barragens são: I . de início como Uranium Mill Tailings Management.Altura do maciço. 375 . em todos os aspectos de seu comportamento geotécnico. Design and Analysis of Tailings Dams ( 1983). REGEO e COBRAMSEG´s.A população deve ser informada e estimulada a participar. sociais. construção. operação e fechamento de barragens de rejeitos. desativação e de usos futuros. direta ou indiretamente. Proceedings: Tailings and Mine Wastes. ICOLD Committee on Tailings Dams and Waste Lagoons. Planning. cabendo-lhe o desenvolvimento de ações para garanti-la. ICMM site: www. 6o. Jr (Ed.O Plano de Segurança de Barragem. construção. Aplin e George O.  V . Volume 2: Proceedings of the Second International Symposium.

com importantes contribui­ ções ao conhecimento deste comportamento e possibilitando a implantação de projetos de novos métodos de disposição. UnB Universidade de Brasília e UFV Univer­ sidade Federal de Viçosa. abordando estas características dos rejeitos nas universidades: PUC/Rio. algumas universidades passaram a dar atenção à geotecnia de disposição de rejeitos. UFOP Universidade Federal de Ouro Preto. Alguns projetos simplesmente lançavam os rejeitos nos cursos de água existentes. baixo potencial de dano e benefícios ambientais que estes métodos proporcionam. UFV. o principal elemento instabilizador. Deve ser mencionado que o desenvolvimento dessas pesquisas tem sido aplicado tanto para determinação de características geo­ técnicas dos rejeitos. a de rejeitos finos com secagem e a aplicação de empilhamento drenado merecem des­ taque pelas características de economia. 376 . embora tecnicamente este método seja uma solução muito favorável. em um núme­ ro crescente de casos. assim como de potencial de liquefação. UFOP. UNB. elaborando projetos de pesquisas em co­ laboração com empresas de mineração e indústria. a disposição de rejeitos era feita sem uma abordagem de engenharia adequada. como para aplicação de métodos de análises dos problemas de disposição. Nos aspectos de compressibilidade de rejeitos. têm na água dos poros do rejeito e do reservatório. a aplicação da tecnologia disponível de engenharia de barragens ao problema. passou-se a considerar e. Várias teses de mestrado e doutorado foram desenvolvidas sobre esse tema. a polpa represada em barragem convencional (projetada como barragem para água) ou como parte do maciço do barramento. mento por diferenças finitas. Estudos sobre a influência da mineralogia na resistência ao cisalha­ mento de rejeitos granulares. No Brasil. inicialmente na PUC-Rio (anos 80).Séculos XIX. A disposição de rejeitos em pasta ainda não conseguiu superar os problemas do seu custo alto. após a ocorrência de grandes rupturas com mortes e grandes impactos ambientais. Estudos em laboratório sobre secagem de rejeitos (Lúcio Villar) também foram desenvolvidos. 3. pois apresentam redução do custo de implantação e têm o custo de construção e custo operacional distri­ buído no tempo. para a previsão das densidades e cálculos da vida útil dos reservatórios. na Universidade do Colorado. Cerca de 50 dissertações de mestrado até o presente.1. Aplicação de novos métodos de disposição de rejeitos Os métodos mais comuns de disposição de rejeitos consideram. podem ser encontrados em trabalhos produzidos pela UNB e UFOP. Na área de novos métodos de disposição. como nos casos de alteamento por linha de centro e alteamento por montante. ou armazenavam os rejeitos em reservatórios cria­ dos por aterros de estéril de lavra. a partir dos trabalhos pioneiros do professor Robert Schiffman. Conforme já mencionado. e posteriormente de forma mais intensa na UFOP (anos 90 e atual) e UFV. em geral. Entretanto.A História das Barragens no Brasil . Vários aspectos importantes têm sido pesquisados. pela aplicação da teoria do adensamento a grandes deformações. já produziram dezenas de teses so­ bre o comportamento de rejeitos. um grande pro­ gresso foi possibilitado. Comportamento geotécnico dos rejeitos Nos anos anteriores à década de 70. pesqui­ sando as características de compressibilidade de rejeitos com uti­ lização de ensaios de adensamento em laboratório (inicialmente CRD e atualmente HCT). XX e XXI Na área da pesquisa as universidades PUC-Rio Pontifícia Uni­ versidade Católica Rio de Janeiro. Os métodos de alteamento por montante e por linha de centro têm vantagens econômicas. foram desen­ volvidas nos últimos 25 anos. com os modelos de simulação de adensa­ 3.2.

no Brasil. desde a década de 80. portanto. embora contenham aspectos de desenvolvimento recente. o que se pretende apresentar são méto­ dos que priorizam a disposição com menor grau de saturação dos rejeitos. ligada aos rejeitos do reservatório. No caso dos rejeitos arenosos. e b) os que contêm maior conteúdo de material mais fino. Os objetivos principais do método de empilhamento drenado são: • Obter um maciço não saturado. Entretanto. São exemplos principais. Há também a expressão “métodos alternativos”. portanto com maior estabilidade. Este tipo de disposição é o mais utilizado. • Aumento da segurança. é semelhante ao de uma barragem para retenção de água. • Aplicação segura do método de montante. envolvendo os dois tipos básicos de rejeitos: a) os que contêm uma fração expressiva de material arenoso/siltoso.0 m). que não retém a água livre que sai dos poros dos rejeitos. Desta forma. • Maior capacidade do reservatório. a água é retirada por drenagem e no caso dos rejeitos argilosos a evaporação é o principal agente da retirada da água. Além destas características. ao invés de utilizar uma estrutura impermeável de barramento.2. Os dois tipos de rejeitos podem ser dispostos por métodos que retiram água dos mesmos. maior capacidade e vida útil. nestes casos. mais vantajoso é o método. e Pilha da Cava do Germano (altura de 160 m). 377 . É interessante notar que na Europa. A expressão “novos métodos de disposição” contém implícita uma expectativa de inovação na técnica de disposição. quanto mais água for retirada dos rejeitos. • Menor chance de contaminação. com baixo risco de liquefação e de ruptura. assumiu uma expressão maior e vem condicionando várias escolhas na seleção de alternativas. • Obter maior densidade e. Pilha da Barragem do Germano. • Obter menor potencial de dano em uma eventual ruptura. deste método. os métodos que utilizam a disposição com menor grau de saturação dos rejeitos têm assumido maior importância por introduzirem situações de menor risco. Este método tem sido utiliza­ do no Brasil. foram iniciados há algumas décadas e vêm sendo aprimorados ao longo do tempo. o problema da segurança das barragens de rejei­ tos.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Os novos métodos de disposição procuram reduzir o grau de satu­ ração da polpa de rejeitos por meio da drenagem da água dos poros ou da evaporação. adota-se uma estrutura drenante. O projeto da barragem. Os objetivos principais dos novos métodos de disposição são: • Redução do custo. embora em poucos casos. a disposição é mais econômica por tonelada de rejeito disposto. de forma que inovações estão presentes em processos antigos de disposição. predominando argila e silte. as pilhas do Xin­ gu (Mina de Alegria). • Maior aproveitamento da água. • Vantagens para o fechamento. também da Samarco. com baixo teor de argila e de grande conteúdo de fração granular. al­ guns dos métodos hoje chamados de novos. com fração mínima de areia. com a mesma in­ tenção de diferenciar do método clássico de bombear lama de alto grau de saturação para uma barragem impermeável que retém os sólidos e a água. Empilhamento drenado Neste método. surgiu recentemente a expres­ são pervious dam para designar um “novo método”. Na presente abordagem. sendo que a polpa de rejeito fica retida com praticamente o mesmo grau de saturação da ocasião do bombeamento. que está sendo proposto para reduzir o potencial de dano.1. de grande capacidade de vazão. • Obter maior facilidade para o fechamento e recuperação ambiental. da Samarco (altura de 175. Monjolo (Mina de Água Limpa). São apresentadas aqui duas situações de projeto. 3. mas libera essa água através de um sistema de drenagem interna. Em conseqüência. Nos anos mais recentes.

A História das Barragens no Brasil .Séculos XIX. que devem ter suas características de drenabilidade bem estudadas previamente no projeto.Correia transportadora implantada sobre a pilha de rejeitos 378 .Superfície final do talude da pilha Figura 4 .Empilhamento drenado após drenagem Figura 2 . O dreno de base é implantado no fundo do reservatório e recebe toda a água drenada dos rejeitos. onde duas áreas são preenchidas com pilha drenada. O maciço de rejeitos obtido ao final é uma pilha de material arenoso.Aspecto do rejeito após a drenagem Figura 3 . na umidade natural. XX e XXI Nas figuras a seguir são apresentadas fotos das pilhas da Samarco. Figura 1 . sem risco de ruptura que provoque uma onda de lama para jusante.

Neste método o rejeito fino (em geral de granulometria passando na peneira 400) é adensado em espessadores até teores de sóli­ dos elevados.Lançamento de lama de bauxita no reservatório 3.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Em minas de bauxita. e da Vale. procura-se bombear a lama na máxima densidade bombeável com bombas centrífugas. O Método de Secagem pode também ser aplicado. em Porto Trombetas. pois suas características podem inviabilizar em custo uma so­ lução.Vista geral da pilha a jusante da barragem Figura 6 . A disposição com secagem apresenta diferenças em relação ao método de dry stacking de lama vermelha.2. com vantagens em relação ao bombeamento convencional de lama. os resíduos da lavagem do minério é tam­ bém uma lama com sólidos de granulometria fina. As figuras e as fotos a seguir mostram as características de secagem das lamas da MRN e Paragominas. Figura 5 . e bombeado para um reservatório onde sua superfície é exposta à evaporação com o teor de sólidos crescendo até valores da ordem de 80%. 379 . Disposição de rejeitos finos com secagem O método de disposição chamado de dry stacking é antigo e muito utilizado pelas empresas de alumínio para disposição econômica de rejeitos de resíduo de produção de alumina (red mud).2. acima de 50%. Basicamente. procurando-se obter um teor de sólidos entre 30 e 35% para então ser submetido à evaporação no reservatório final. passando na #400. devendo a escolha ser feita pela combinação do menor custo com a viabilidade da secagem com menores densidades. A solução de projeto depende do comportamento reológico da lama. em Paragominas. São exemplos deste tipo de disposição os projetos da MRN.

Lama lançada. atualmente com cerca de 175. 380 . a qual contém a barragem de rejeitos mais alta do Brasil. na Mina de Morro Velho (Mina do Queiroz). no município de Mariana. da Samarco. em 1944. Algumas barragens de rejeitos representativas Apresenta-se aqui um resumo das informações de duas dessas barragens: uma que pode ser considerada como o primeiro siste­ ma de rejeitos implantado no Brasil.0 m de altura.Lama em estágio final de secagem Figura 9 . XX e XXI Figura 7 . A segunda barragem aqui apresentada é a barragem do Germano.Séculos XIX. A descri­ ção apresentada é do sistema em sua configuração atual.A História das Barragens no Brasil . em Nova Lima.Teste piloto de secagem 4. Minas Gerais. em processo inicial de secagem Figura 8 .Aterro construído sobre lama após a secagem Figura 10 .

três barragens e seis valas para disposição de rejei­ tos. além da planta de beneficiamento industrial propriamente dita. que liga Nova Lima a Belo Horizonte a uma distância aproximada de 30 km.000 toneladas de minério por ano. Figura 11 . 4 a 8]. pode ser feito pela rodovia MG-030. Os dados aqui apresentados têm como base os documentos mencionados nas referências desta publicação [Ref. em região da bacia hidrográfica do Córrego do Queiroz. principal unidade em operação no Brasil (Figura 11). incluindo.MG. denominado Cuia­ bá . transportado por meio de um teleférico com 15 km de extensão e capacidade no­ minal instalada de 830.Sistema de disposição de rejeitos – foto aérea das instalações A planta metalúrgica do Queiroz possui uma área útil de 480.Nova Lima . O concentrado do minério da Mina de Cuiabá.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens 4. alimentado pelo minério sulfetado da Mina de Cuiabá. na região do chamado Quadrilátero Ferrífero de Minas Gerais. O acesso ao empreendimento. através das etapas de ustulação (que corresponde à Figura 12 – Localização da planta industrial do Queiroz (AngloGold Ashanti) 381 .1 Mina do Queiroz .MG . afluente do Rio das Velhas (Figura 12). Em particular aqui. Localização e acessos A Anglogold Ashanti Córrego do Sítio Mineração (AGACSM) ope­ ra algumas minas e plantas metalúrgicas para beneficiamento de minério aurífero na região de Minas Gerais e Goiás. partindo-se de Belo Horizonte.Raposos.Anglo Gold Ashanti Este item foi redigido pelo engenheiro Murilo Amorim Costa e gentilmente cedido pela Anglo Gold Ashanti.000 m2. A planta industrial do Queiroz está situada no Município de Nova Lima . próximo à divisa com o Município de Raposos. será abordado o tratamento na planta industrial do Queiroz. A planta possui duplo circuito.

capacidade total de . de for­ ma a adequar o sistema às necessidades decorrentes da expansão da Empresa (Projeto Cuiabá/ Raposos). o que dará vez à chamada barragem do Queiroz. de Calcinados e o conjunto de valas de deposição de arsenato férrico (lama de gesso). este sistema foi ampliado com a construção de mais duas barragens. além de uma outra. a saber: . suportadas por estruturas metálicas por um caminhamento sempre em nível ascendente. encontram-se sob utilização os reservatórios das barragens de Rapaunha e Calcinados. O circuito Raposos é alimentado por minérios não-sulfe­ tados extraídos de minas menores do entorno de Nova Lima e está atualmente paralisado.A História das Barragens no Brasil .capacidade total de .Barragem de Cocuruto . A operação deste sistema foi iniciada no ano de 1944. A partir de 1981.500 toneladas de ácido sul­ fúrico. com a acumulação. (denominada Barragem de Queiroz) a qual assegurou a deposi­ ção dos rejeitos da Empresa até meados do ano de 1954.capacidade total de ~4 x 106 m3 17 x 106 m3 12 x 106 m3 12 milhões de m³. foi necessário introduzir a tecnologia de ustulação. 60 kg de prata e 17. exaurida a capacidade de deposição na barragem de Rapaunha. No futuro. para a recuperação do ouro no processo industrial. com a primitiva barragem ali existente. Histórico A AGACSM mantém. virá a ser pro­ movido o alteamento da barragem de Cocuruto. No momento atual. e os resíduos são encaminhados para barragem de Calcinados e valas de lama arsenical. O rejeito gerado no processo de beneficiamento do minério é conduzido para tanques na unidade industrial e então bombeado para as barragens por meio de tubulações em PEAD ou aço car­ bono. que passaram a operar no final do ano de 1982.Séculos XIX. neste período. em Nova Lima. bilizada a construção de uma fábrica de ácido sulfúrico. um sistema de deposição de seus rejeitos industriais na região do vale do Queiroz. Hoje con­ templa as seguintes unidades: barragem de rejeitos de Cocuruto. foram concebidas de forma a serem alteadas à medida em que venha a ocorrer a ocupação do seu reservatório pelos rejeitos lançados: para isso. inserindo nestes a criação de uma equipe permanente de fiscalização e controle. o programa de Descrição do sistema O sistema de deposição de rejeitos industriais processados pela An­ gloGold Ashanti Brasil Mineração na sua Instalação de Beneficia­ mento localizada no Queiroz é contido em 03 reservatórios e mais um sistema de valas fechadas. que se situa na mesma bacia hidrográfica da planta in­ dustrial do Queiroz. XX e XXI oxidação ou queima do minério na presença de oxigênio e tempera­ tura elevada) e a hidrometalurgia (responsável pela extração do ouro contido no minério). 382 . de um modo geral. e o ácido sulfúrico. o que irá capacitar aquele reservatório a um incremento de deposição de cerca de 12 x 106 m3. de cerca de 2. Uma vez que o processo de ustulação retém os gases de SO2. Inicialmente. Parte do material resultante da ustulação volta para receber o processo de cianetação.5 x 106 m3. desde o ano provável de 1944. foi via­ deposição previu uma sequência de lançamentos com os consequentes alteamentos dos maciços. Essas barragens.Barragem de Queiroz .capacidade de .Barragem de Rapaunha .Barragem de Calcinados . construída em 1986. O produto final obtido são os metais ouro e prata. foram sistematicamente instituídos pro­ cedimentos de gerenciamento das atividades de operação e moni­ toração das barragens de rejeitos integrantes do sistema. A partir do ano de 1995. A produção média mensal (2010) é de 800 kg de ouro. constava este de uma barragem interposta ao vale do Queiroz. todos eles localizados no vale do Queiroz. denominadas Rapaunha e Cocuruto. a barragem de rejeitos Calcinados. à altura do antigo bairro do Galo. de Rapaunha. No circuito de Cuiabá.

como abordado anteriormente.1.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Na barragem do Rapaunha. os rejeitos eram conduzidos por gravidade por meio de canaletas construídas em concreto e lançadas tal como em Rapaunha na posição mais a montante possível.1. onde está posicionado o lago e o sistema de recirculação de água para aproveitamento nas operações industriais. de acordo com a necessidade de enchimento do reservatório.50 m. Desde a Figura 13 . encontra-se no momento sem receber aporte de rejeitos. dos quais 5 milhões encontram-se ocupados por rejeitos depositados no período de 1986 até a presente data. e foi concebida para que sua construção ocorresse em fases. que abriga os rejeitos inertes.2 Barragem do Cocuruto A barragem de Cocuruto. Na barragem de Calcinados. teve sua construção e início de operação em meados de 1983.1 Barragem do Rapaunha A barragem de rejeitos de Rapaunha. o aporte de rejeitos foi interrompido. A barragem de rejeitos de Rapaunha situa-se no vale Queiroz. que veio a operar até o ano de 1957. Após esse período. A barragem do Cocuruto. 4. Sua elevação de crista encontra-se na cota 856. A capacidade total de deposição em seu reservatório é de cerca de 17 milhões de toneladas de rejeitos. de tal ma­ neira que a formação da praia ocorra de montante para o barra­ mento. que consiste em um alteamento da antiga barragem da MMV. sendo que 4. esses são lançados por meio de espigotes posicionados sobre o barra­ mento. entrada em operação da planta metalúrgica de Cuiabá. prevê-se disponibilizar a barragem do Queiroz. posicionado sobre a crista da barragem) e o nível d’água do reservatório na elevação 853.Seção esquemática da barragem do Rapaunha 383 . O final de sua vida útil está previsto para se dar até o ano de 2025. Na posição a montante e mais próximo da ombreira esquerda. construída a montante e simultaneamente com a barragem de Cocuruto. formando a partir daí a praia. não recebe rejeitos por estar com sua capacidade volumétrica tomada. um lago protegido por dique é formado e o sobrenadante é bombeado para uma estação de tratamento de efluentes.50 m (topo do muro de concreto. quando teve esgotada a sua capacidade adicional do alteamento. servindo apenas como reservatório de água para suprimento à planta metalúrgica. Quando de sua operação. esses são lançados na posição mais a montante possível. mantidas as taxas de produ­ ção previstas até o momento. que abriga rejeitos não inertes. aproximadamente 10 milhões de metros cúbicos. havendo sido utilizada até o final do ano de 1985. no momento.

Os filitos se apresentam menos alterados na ombreira esquerda e na região de descarga das vazões. Figura 14 . os alte­ amentos passaram a ser realizados por jusante. o mesmo apresentabaixas permeabilidades.Seção da barragem do Cocuruto 4. O maciço original foi construído de um núcleo de aterro argiloso compactado.1. com predominância de rochas do Grupo Nova Lima. mantendo bombeamentos dos fluxos internos e do excedente da fração líquida do reservatório de retorno para a planta industrial. passando a operar desde então. tendo sua crista situada na cota 830 m. por vezes na forma de solo re­ sidual resistente. Esta barragem não descarta efluen­ tes para jusante. A área da bacia de deposição de rejeitos é caracterizada pela ocor­ rência da série Rio das Velhas. O alteamento da barra­ gem de Calcinados. XX e XXI a disposição desses rejeitos passou a ser feita no reservatório da barragem Rapaunha.Seção da barragem de Calcinados Os filitos apresentam-se alterados. Figura 15 . excetuado seu recobrimento coluvionar e horizontes superficiais mais alterados.3 Barragem de Calcinados A barragem de Calcinados foi construída em 1986. graças a sua maior resistência aos processos de erosão e denudação. A cons­ trução do maciço ciclonado. caracterizados geomorfologicamente por cristas ou cordões realçados na topografia. O pacote estratigráfico do Grupo Nova Lima é local­ mente cortado por diques metadiabásicos e veios de quartzo de espessura métrica. utilizando como material de cons­ trução o underflow da ciclonagem dos rejeitos gerados na Planta ocorreu por meio do método construtivo centerlining (linha-decentro) até atingir a cota 846 m. utilizando para o alteamento material ciclonado do rejeito originário do circuito de Raposos e do Rejeito da Flotação. da ordem de 10-5 cm/s. devido à presença de siltes micáceos. de acordo com as condições de projeto. na forma de camadas descontínuas ou lentes de médio porte. destinando-se aos depósitos de rejeitos calcinados pro­ cessados na planta do Queiroz. a partir de quando terá sua capacidade acrescida em aproxi­ madamente 12 milhões de metros cúbicos.A História das Barragens no Brasil . apresentandobons parâmetros de resistência à penetração. ocorreu até a cota 860 m. Quanto às propriedades hidráulicas do solo da fundação.Séculos XIX. Esse grupo é representado principalmente por xistos e filitos metassedimentares e metavulcanicos e. contendo para isso dispositivos especiais que lhe asseguram a operação em regime de “circuito-fechado”. em conseqüência da elevação de sua crista em mais 20 m. secundaria­ mente. Geologia e Fundação O maciço de fundações. é relativamente homogêneo. A partir desta elevação. por Formação Ferrífera laminada e conglomerado de matriz xística. embora anisotrópico devido à xistosidade. 384 . competentes para garantir a estabilidade das fun­ dações das barragens de terra. A barragem do Cocuruto tem previsão de alteamento no futu­ ro.

uma camada de xisto alterado. pro­ veniente da alteração dos xistos metassedimentares. marrom. sendo coberta por manto de intemperismo de espessu­ ra de 15 a 25 metros. Cada uma delas é abordada de forma conveniente. Sistema de coleta e bombeamento de água percolada. representado pela superfície de rocha alterada. Corta-rio. pouco espessa. A margem direita do vale apresenta inclinação média. com trechos bastante íngremes. e fi­ nalmente o xisto são. O perfil típico do manto de intemperismo apresenta. com mergulhos acentuados para SE. ocorrem solos residuais de xisto. d) Aplicação de medidas de controle. Tubulação de rejeitos. na utilização de ferramentas auxiliares como as ”cartas de risco”. A estrutura mais marcante dos xistos é a foliação. Reservatórios das barragens. na sequência do Manual de Operação: Barragens de rejeitos. Bombas flutuantes. constituídos de silte argiloso de consistência média a rija. com coloração esverdeada. b) Leituras sistemáticas dos instrumentos. quando for o caso. nas leituras dos instrumentos. c) Avaliação das condições de funcionamento e/ou de segurança da estrutura. A margem esquerda apresenta inclinação acentuada. amarela ou mar­ rom. de consistência mole. apresentando índice de resistência à pe­ netração crescente com a profundidade. passando gra­ dativamente a rijo e duro com xistosidade preservada. no conhecimento teórico e na experiência acumulada tanto com as atuais estruturas quanto com estruturas semelhantes. uma camada de argila pouco arenosa. Sobrejacente ao solo residual de xisto. Monitoramento e controle do sistema O monitoramento e o controle do sistema de contenção de rejeitos são realizados na seguinte seqüência: a) Inspeções periódicas de campo. sendo que o índice de resistência à penetração SPT cresce com a profundida­ de. ocorrem solos silto argilosos de consistência rija a média. até ser alcançado o impenetrável. amarelo).Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A área é recoberta por espesso manto de intemperismo. Vertedouro de emergência. Sobre esse ma­ terial. O perfil do subsolo apresenta basicamente uma camada superficial de argila siltosa mole. entre outras. aparecendo ainda uma camada superficial descontínua de argila sil­ tosa mole. onde são feitas observações superficiais nas várias estruturas que constituem o sistema de con­ tenção de rejeitos. marrom ou amarela. compacto. Tubulação de recirculação de água. Existe uma camada superficial de argila. pouco compac­ to. com espessura média de 2 m. A calha do rio apresenta material impenetrável a percussão em profundidades de 5 a 15 metros – xisto alterado. constituído inicialmente por uma camada de silte argiloso de consistência média. feita com base nas inspeções periódicas. a partir da super­ fície. Sob essa camada. que se apresenta descontínua em face de escavações anteriormente re­ alizadas na área. O coeficiente de permeabilidade é da ordem de 10-5 cm/s. vermelho. em destacado. uma camada de silte argiloso vermelho. De uma maneira geral. 385 . uma camada de silte arenoso. sem estrutura preservada. até a superfície da rocha alterada. As estruturas seguintes são objeto de monitoramento e controle. pouco consistente. da ordem de 11º. representada pelos seus planos de xistosidade. o coeficiente de permeabilidade dos solos varia de 3 x 10-5 cm/s a 2 x 10-4 cm/s. com espessura de poucos metros. que assumem localmente direção variando de N10 a N30. com espessura média de 2 metros. Estação de tratamento de efluentes. com coloração variegada (rosa. geralmente róseo.

foi preparada uma carta de risco. Régua graduada e pluviômetro.Pontos de monitoramento ambiental Diante das dificuldades de detecção de problemas pela simples inspeção visual. XX e XXI O monitoramento da segurança da barragem é feito utilizando-se dos seguintes tipos de instrumentos: Marcos superficiais. seja por erosão interna. cisalhamento ou galgamento.A História das Barragens no Brasil . Sistema de vertimento O sistema de disposição de rejeitos do Queiroz. Figura 16 . Medidor de vazão. Com as informações obtidas nas inspeções periódicas e na leitura dos instrumentos pode-se então avaliar a segurança da barragem para as condições de ruptura por erosão interna. conforme adiante descrito: 386 . tem seu sistema extravasor. constituído pelas três barragens e mais seis valas de lama. cisalhamento ou galgamento. Piezômetros e medidores de nível d’água. A figura 16 apresenta a localização dos pontos de monitoramento ambiental.Séculos XIX. para avaliação do potencial de ruptura.

592 1. À medida que são dispostos rejeitos no interior do reservatório. onde os fluxos são coletados e bombeados para a estação de tratamento de efluentes.5%. ver­ timento de seu reservatório. 628 1.0 m.60 0.50 m. que atravessa o maciço e liga-se a uma tubulação em aço. Ficha Técnica Plano de Fechamento Com vistas no futuro.20 m e altura igual a 1. Calcinados e Cocoruto Barragem Status Volume m3 Área km2 Rapaunha Operação 12 x106 4 x 106 4.55 Construção Aterro compactado Rejeito ciclonado Aterro compactado Altura m 50. incluindo o sistema de disposição de rejeitos.4.60 4. foi elaborado um plano de fechamen­ to para a Planta Metalúrgica do Queiroz. o vertedouro permite operação até quando o nível do rejeito atingir a elevação 859.00 m.3 m e soleira na elevação 802.0 m x 1. Valas de lama As valas de lama não possuem sistema de vertimento. suficiente para amor­ tecimento de uma PMP (Precipitação Máxima Provável). é captado a jusante em poço e bombeado para o reservatório. seja pelas fundações. Tabela 3 – Ficha Técnica das Barragens Rapaunha. com diâmetro igual a 1. 4.40 m x 1. Barragem do Rapaunha Esta barragem possui a missão de armazenar rejeitos e água para uso na planta metalúrgica e utiliza um vertedouro tipo poço. A água acumulada no reservatório é encaminhada ao sistema de tratamento de efluentes por meio de bombeamento e posteriormente conduzida à barragem do Rapaunha.80 m e declividade igual a 22%. responsável por lançar os vertimentos no córrego do Queiroz a jusante da barragem. seja pelo maciço. vão sendo adicionadas placas de concreto na torre de captação dessa estrutura para evitar o vertimento de rejeitos. para o fechamento da barragem. Como foi construído contemplando o arranjo inicial. O fluxo oriundo das águas de percolação. construído na ombreira esquerda da barragem.50 52 41 FS 1. com ori­ fícios verticais duplos com dimensões iguais a 2.9 x 106 1. com seção transversal igual a 2. estes encontram-se selados por stop-logs em virtude do avanço de rejeitos. portanto. Muito embora haja outros orifícios inferiores a esta elevação.20 m e declividade igual a 2. apenas drena­ gem interna. garantindo uma borda livre igual a 3. A torre do vertedor acopla-se a uma galeria em concreto arma­ do. 560 Drenagem Filtro vertical e tapete Tapete Filtro inclinado e tapete Classe III III III Calcinados Operação Cocuruto Fechada FS = Fator de segurança 387 . que é direcionada para jusante para um poço. em seção retangular com base igual a 1.1.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Barragem de Calcinados É uma barragem em circuito fechado. não havendo.0 m. sendo que está prevista a construção de outro vertedouro de superfície. Barragem do Cocuruto O barramento é dotado de um vertedouro tipo poço.

em um horizonte de operação de aproximadamente 9 anos. Localização do sistema O reservatório do Germano é formado pela barragem prin­ cipal. A partir do processo de beneficiamento do minério de ferro. a barragem do Santarém tem como finalidade a contenção dos sedimentos provenientes destes reservatórios.MG. posicionados sobre três antigas selas Figura 17 – Mapa com a localização da Unidade Operacional Germano 388 . são gerados dois tipos de rejeitos com ca­ racterísticas bastante distintas: um rejeito mais fino. A empresa realiza lavra a céu aberto por meio de equipamentos móveis e por correias de banca­ da. que está localizada a jusante dos reservatórios do Germano e do Fundão. alimentando um sistema de correias transportadoras de longa distância. fez surgir a necessidade de um novo local para a disposição dos rejeitos gerados pelas duas unidades de beneficiamento (Planta I e Planta II). Na Samarco. Com o início de operação da segunda unidade de beneficiamento (Planta II) da Samarco. com base nos documentos mencionados no item 6 deste capítulo [Ref. Tulipa e Selinha.A é uma empresa brasileira de mineração que extrai minério de ferro das frentes de lavra do complexo de Alegria. localizados a montante. ex­ traído pela Samarco. Além da função de reservação de água. denominado lama e um rejeito com granulometria mais grosseira. em Mariana .A Introdução A Samarco Mineração S.A História das Barragens no Brasil . XX e XXI Esse plano de fechamento é revisado periodicamente. aos sistemas de certificações obtidos e implementados pela empresa. que fecha o vale no lado extremo leste. Neste contexto surge o Sistema de Rejeitos do Fundão. A seguir estão apresentadas as informações do sistema do Ger­ mano. 4. Esse fato.Séculos XIX. Este sistema não faz parte da presente descrição. 9 a 11]. na Unidade Germano. gerados pelas Plantas I e II. que levam o minério para a planta de beneficiamento. e pelos diques da Sela. Esse plano de fechamento atende também o disposto no Código Internacional de Cianeto. como uma nova área para a disposição dos rejeitos granulares (arenosos) e finos (lamas). para ade­ quação da dinâmica das operações e atendimento às novas leis ambientais que venham a ser aprovadas. somado à proximidade do final da vida útil do Reservatório do Germano.2 Sistema de Disposição de Rejeitos do Germano Samarco Mineração S. o reaproveitamento da água utilizada no processo de beneficiamento do minério de ferro é realizado através de um sistema de recirculação com captação no reservatório da barragem do San­ tarém. denominado rejeito arenoso. houve um aumento na geração de rejeitos. no final de 2008.

A crista da barragem alcançou a elevação 899 m com aproximadamente 120 metros de altura. A partir daí. montante. com o ponto mais baixo das funda­ ções na elevação 745.5H e crista na cota 790 m. A Figura 18 ilustra a configuração das estruturas. com a subida do nível de rejeitos no interior do reservatório do Germano. foram realizados altea­ mentos sucessivos para montante.Vista geral do sistema de disposição de rejeitos da Samarco O reservatório do Germano foi formado a partir da construção da barragem Princi­ pal do Germano. sem comprometer a estabilidade da barragem.1 Barragem principal e empilhamento a jusante Generalidades A implantação da barragem do Germano foi iniciada com a construção de um dique de partida de enrocamento. separando uma área do reservatório a montante e servindo de estrada de acesso para o lado norte. Este dique foi construído com crista na elevação 849. impermeabilizado por um núcleo de material argiloso a 389 . lançados no interior do seu reservatório. até ser atingida a elevação 886 m.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens topográficas na margem nordeste do reservatório. em 1976. com a finalidade de receber os rejeitos.5 m e altura máxima igual a 70 m.2. foi necessária a construção dos diques da Sela. a jusante da barragem do Germano. Os alteamentos foram realizados através de diques de aterro com­ pactado com altura variável entre 4 e 6 metros.0 m. A partir de 1993 o alteamento da barragem principal. construído com aterro compactado. passou a ficar inviável por razões de estabilidade da barragem. Tulipa e Selinha para o fechamento das três selas topográficas existentes na região nordeste do reservatório. O empilhamento de rejeitos a jusante da barra­ gem principal teve início a partir de um dique de partida. Posteriormente. A partir daí. O sistema de drena­ gem interna deste dique de partida consistia em Figura 18 . A mesma entrou em operação em 1977. no sistema do Germano. provenientes da planta de beneficiamento de minério de ferro. Com o ob­ jetivo de garantir a continuidade do lançamento dos rejeitos no reservatório. os alteamentos sub­ sequentes foram executados com afastamento entre 60 e 100 metros para montante da crista existente na elevação 886 m. com uma camada de transição entre o núcleo e o enrocamento. o empilhamento drenado de rejeitos arenosos. visando a situação de fechamento. 4. com inclinação dos taludes igual a 1V:1. na medida em que se elevava o nível de rejeitos arenosos. O dique Auxiliar atravessa o reser­ vatório do Germano. finos e granulares. foi a alternativa adotada para postergar a implantação de uma nova área de disposição de rejeitos e me­ lhorar as condições de estabilidade da barragem principal. por diques a montante junto à crista do estágio anterior.

O sistema de drenagem interna do empilhamen­ to consiste. além do dreno do dique de partida. Com este sistema de drenagem interna. O núcleo dos diques é constituído por rejeito arenoso.Séculos XIX. composto por camadas de oversize fino e grosso. portanto. No contato dos rejeitos do reservatório da Pilha a Jusante com o talude de jusante da barragem prin­ cipal do Germano há um dreno interligado ao dreno de fundo. em um maciço não saturado estável e de baixo potencial de dano.0 m. de um dreno situado no fundo do vale. blocos passados em gre­ lha e blocos de maior dimensão. O sistema será expandido à medida que os alteamentos forem sendo implantados Na figura 19 está apresentada uma seção típica da barragem principal do Germano incluindo o empilhamento de rejeitos a jusante. Considerando a cota de fundação. O sistema de drenagem superficial é constituído por uma escada de descida d’água. posicionada na ombreira esquerda. XX e XXI um filtro inclinado no talude de montante e na crista do dique. desde o dique de partida do empilhamento até o offset de jusante da barragem do Germano. O reservatório da barragem do Germano unificará com o reservatório da barragem do Fundão na cota 920. a cada 5 m de altura. o maciço de rejeitos é drenado constituindo-se. A partir da construção deste dique de partida foram feitos alteamentos consecutivos para montante. disposta perpendicularmente às canaletas lon­ gitudinais das bermas. pro­ tegido na face de jusante por solo argiloso compactado Os taludes de jusante possuem inclinação igual a 1V:2H com um talude médio global igual a 1V:3H. em seu ponto mais baixo. O talude de jusante foi protegido com blocos. a altura total atual é de 175. Figura 19 – Seção transversal típica da barragem principal do Germano com o empilhamento a jusante Figura 20 – Foto de estrutura construída sobre o empilhamento drenado 390 .A História das Barragens no Brasil .0 m.

Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Ficha Técnica Na Tabela 4 estão apresentadas as principais características da barragem principal do Germano. localizados no patamar da cota 886. A frequência das leituras é mensal. com uti­ lização de uma zona impermeável em aterro argiloso compacta­ do. Os piezômetros instalados na pilha de jusante indicam leitu­ ras com poropressões nulas.2 Dique da Sela e Dique da Tulipa Devido à existência de duas selas topográficas na margem norte do re­ servatório do Germano.0 m 169. funcionando como núcleo. No final de 2010. os dois diques foram alteados pelo método de mon­ tante. denominados dique da Sela e dique da Tulipa.2. nas porções inferiores das ombreiras esquerda e direita e em todo o fundo do vale.0 m e nas bermas do talude de jusante.00 m 300. 4. tanto do dique da Sela. comprovando a boa drenagem do maciço de rejeitos. foi necessária a construção de dois diques. quanto do dique da Tulipa. para possibilitar a continuidade do lançamento de rejeitos no interior do reservatório. Monitoramento O monitoramento da barragem principal do Germano consiste na leitura dos piezômetros instalados. Na barragem principal do Germano foram instalados 14 piezôme­ tros do tipo Casagrande. Devido ao início de operação da segunda planta de beneficia­ mento de minério de ferro da Samarco e o conseqüente aumento na geração de rejeitos.0 m Tipo tulipa com galeria de descarga (localizado adjacente ao dique da Tulipa) Geologia e fundações A fundação da barragem principal do Germano é composta por fili­ to são. À medida que o nível de rejeitos dentro do reservatório do Germa­ no foi sendo elevado foram necessários vários alteamentos.0 m. matacões. Os materiais de construção disponíveis para a implantação dos maciços de alteamento dos dois diques conduziram a uma geo­ metria em blocos sujos com uma faixa de material argiloso im­ Etapa Construtiva Atual Data Conclusão Cota Atual da Crista Altura Atual do Maciço Comprimento Atual da Crista Sistema Extravasor - 919. Os maciços. 391 . com crista na El. Na pilha a jusante do Germano. Em toda a região de fundação da barragem foi removida a camada superficial de material orgânico. sendo alterada para cada 15 dias em caso de anomalias. em geral são constituídos em seção mista.913. areia e cascalho. e uma zona em enrocamento no espaldar de jusante. foram necessários novos alteamentos dos diques da Sela e da Tulipa. Na região do fundo do córrego foram removidos blocos de rocha. foram instalados 6 piezômetros Tabela 4 – Características da Barragem do Germano (maio/2008) Dados gerais Finalidade Empresas Projetistas Contenção de rejeitos Bechtel / Pimenta de Ávila Consultoria do tipo Casagrande. A parte superior das ombreiras é formada por filito decomposto.

a sul do reservatório do dique auxiliar.0 m 41. foi verificada a existência de uma nova sela topográfica. b).0 m 23.0 m 450. Monitoramento No dique de Sela estão instalados 3 piezômetros de Casagrande e 3 indicadores de nível de água. supõe a distribuição dos deflúvios nas várias sub-áreas. Tabela 6 – Características do Dique da Tulipa Dados gerais Finalidade Empresas Projetistas Etapa Construtiva Atual Data Conclusão Cota Atual da Crista Altura Atual do Maciço Comprimento Atual da Crista Contenção de rejeitos Figueiredo Ferraz / Pimenta de Ávila Consultoria Alteamento para El. O sistema extravasor construído na ocasião do alte­ amento para El.Séculos XIX.0 m Ficha Técnica Nas Tabelas 5 e 6 estão apresentadas as princi­ pais características do dique da Sela e do dique da Tulipa. ambos em concre­ to celular pré-fabricado PÁDUA e um trecho de galeria em concreto armado.913. Tabela 5 – Características do Dique da Sela Dados gerais Finalidade Empresas Projetistas Etapa Construtiva Atual Data Conclusão Cota Atual da Crista Altura Atual do Maciço Comprimento Atual da Crista Contenção de rejeitos Figueiredo Ferraz / Pimenta de Ávila Consultoria Alteamento para El.na extremidade de jusante da Baia 3.0 m Sistema extravasor As condições de amortecimento das cheias. c). apenas para dar suporte ao alteamento.0 m concluído Março de 2011 913.3 Dique da Selinha Na região sudeste do reservatório do Germano. em soleira construída sobre a encosta rochosa. na confluência do acesso ao Empi­ lhamento de Rejeitos Granulares de Germano Jusante e do acesso à mina de Fábri­ ca Nova (Vale).0 m concluído Março de 2011 913.no local do antigo túnel bala.0 m 375.A História das Barragens no Brasil .913. Na fundação do alteamento dos dois diques foi implantada uma base constituída de blocos sujos. com cota 392 . respectivamente. No dique da Tulipa estão instalados 3 piezômetros de Casagrande e 3 indicadores de nível de água. controladas por soleiras vertentes situadas nas seguintes posições: a). conectada a um canal rápido e uma bacia de dissipação à jusante deste. XX e XXI permeabilizante a montante.910.0 m dos diques da Sela e Tulipa é composto por uma galeria ligeiramente inclinada associada a uma torre vertical.2.na área imediatamente a montante da tulipa. 4. no reserva­ tório do Germano.

o lançamento simultâneo de lamas e rejeitos arenosos. A jusante do dique foi im­ plantada uma berma de blocos sujos afim dar estabilidade à estrutura alteada.2. dos rejeitos da flotação em célula.50 m em julho de 2010. Tabela 7 – Características do Dique da Selinha Dados gerais Finalidade Empresas Projetistas Etapa Construtiva Atual Cota Atual da Crista Altura Atual do Maciço Comprimento Atual da Crista Contenção de lama Pimenta de Ávila Consultoria Alteamento para El. O sistema de drenagem interna é composto por tapete horizontal de areia. Ficha Técnica A Tabela 8 apresenta as características gerais do dique Auxiliar.913. Atualmente a cota da crista do dique Auxiliar está na elevação 917.50 m. e filtro vertical de areia.0 m. O dique da Selinha foi construído utilizando uma seção composta por aterro compactado de material argiloso proveniente da pilha de estéril da Vale.0 m de espessura. atra­ vés de tubulação. Os materiais de construção disponíveis para a implantação do maciço de altea­ mento do dique conduziu a uma geometria com utilização de uma faixa imper­ meável de material argiloso a montante e em blocos sujos no espaldar de jusante. Dessa forma tornou-se necessário im­ plantar um dique de sela nesta região. apenas como suporte ao alteamento. Extravasor Até dezembro de 2010 o dique Auxiliar possuía um sistema extravasor composto por três tubos ARMCO’s (Ø 1. resultou em uma estrutura submersa tanto a montante como a jusante.50 m). sendo utiliza­ do laterita na sua construção.0 m 135. foi executado um alteamento emer­ gencial de 0. Monitoramento Ficha técnica Na Tabela 7 estão apresentadas as principais características do dique da Selinha. simultaneamente aos alteamentos a serem implantados nos diques da Sela e da Tulipa. O dique não possui sistema de drenagem interna. sendo alteada sucessivamente. Ao longo do tempo. denominado dique da Selinha.0 m. encontram-se instalados e funcionando corretamente 3 indicadores de nível d’água. Na fundação do alteamento do dique foi implantada uma base constituída de blocos sujos. Monitoramento No dique da Selinha estão instalados 4 piezômetros de Casagrande e 5 indicadores de nível de água.0 m Atualmente. 4. que conectam o reservatório do dique Auxiliar ao reservatório do dique da Sela/Tulipa.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens de topo posicionada na elevação 901. No final de 2010 a crista do dique da Selinha foi alteada pelo método de montante para a El. A drenagem interna do dique foi prolongada nesse trecho. em Fá­ brica Nova.0 m concluído 913. de aproximadamente 1.0 m 23. Para o estabelecimento de uma borda livre. inicialmente para se­ parar as lamas dos rejeitos arenosos.913. retendo as lamas na área de montante do reservatório do Germano e ficando o restante do reservatório para a descarga.4 Dique Auxiliar O dique Auxiliar foi implantado. em ambos os lados do dique auxiliar. 393 .

taludes 1V:1H e 2. com base menor de 5.Séculos XIX.0 m. Em 2006 iniciou-se o empilhamento de rejeito arenoso da segunda fase da Cava do Germano. A cota de crista do dique foi projetada na elevação 950.00 m e os diques de alteamento da pilha.00 m. 5. Além disso.100 m. A partir dessa época a cava passou a ser assoreada pelo Figura 22 – Seção transversal típica da Cava do Germano Figura 21 – Vista da Cava do Germano 394 . Esse projeto de recuperação foi divido em duas partes.00 m de altura. foram projetados com suas bermas com declividade de 2% para sul. A pilha de rejeito atingirá a elevação 1. alteados para montante.5 m concluído 917.00 m) com o intuito de melhorar a eficiência de extravasão desse reserva­ tório. exaurida no final da década de 80.50 m e 4 tubos ARMCO’s Ø 1.00 m de largura da crista e uma inclinação média de 1V:3H. denominadas de primeira e segunda fase. O material assoreado funcionou como a fundação da pilha de re­ jeitos na primeira fase de recuperação da cava. A crista do dique de partida foi posicionada na elevação 955. com o objetivo de manter a linha de saturação afastada do talude externo da pilha.A História das Barragens no Brasil .50 m 820.00 m de extensão e para montante.00 m material proveniente da erosão das suas paredes. 4.50 m). XX e XXI Tabela 8 – Características do Dique Auxiliar Dados gerais Finalidade Empresas Projetistas Etapa Construtiva Atual Cota Atual da Crista Altura Atual do Maciço Comprimento Atual da Crista Sistema Extravasor Contenção de rejeitos Figueiredo Ferraz / Pimenta de Ávila Consultoria Alteamento para El.0 m 3 tubos ARMCO’s Ø 1.50 m 37.2. Como a fundação é em solo. com taludes de 5. Recentemente. sendo desenvolvido um projeto de recuperação. com superfície da funda­ ção na elevação 945.50 m de altura em substituição aos três tubos ARMCO’s (Ø 1.5 Cava do Germano A Cava do Germano é uma antiga área de lavra. O dique de partida e o tapete drenante são os principais dispositivos de drenagem interna da pilha de primeira fase. tanto o dique quanto o tapete possuem camadas de transição fina junto a fundação da pilha. vislumbra-se a possibilidade de implantação de um canal trapezoidal em enrocamento.917.00 m e o tapete drenante com 30. dando continuidade ao projeto de reabilitação dessa área degradada. foram instalados mais quatro ARMCO’s (Ø 1.

Ficha técnica As principais informações da Cava do Germano estão apresentadas na Tabela 9. UFMG. Tese de Doutorado.Azevedo. Relatório Final de Estudos Geológico-Geotécnicos. 11. 10.Bacia de Acumulação de Rejeitos.0 m concluído Março de 2011 992.Manual de Operações do Sistema de Rejeitos da Planta Metalúrgica do Queiroz.icold. da Geotécnica de Novembro de 1978.G3-PR-13-0017/79. Agradecimentos Agradecemos à Pimenta de Ávila Consultoria Ltda a utilização de informações de seu arquivo técnico e a preparação dos textos aqui publicados. Julho /2002. R. da Golder Associates.Estudo de Operação dos Reservatórios das Barragens de Calcinados. Potencial Para Criação de Um Geoparque da UNESCO.MMVREPAA. Disponível em: http://www. Barragem do Queiroz.br. 2007. 395 . Março de 2011. 2004.Laudo Técnico de Segurança de Barragem – Barragem do Germano. Revisão ano 2009. U.913. Rapaunha e Cocuruto da CMEC.Pimenta de Ávila Consultoria.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens O sistema de drenagem interna é constituído de tapete drenan­ te associado a drenos de fundo e por um dique de partida com paramento de montante drenante. Patrimônio Geológico e Geoconservação no Quadrilátero Ferrífero. 82p.0 m Tubo flauta conectado a uma galeria de concreto Monitoramento O monitoramento na Cava é realizado através de instrumentos insta­ lados sendo dez piezômetros do tipo Casagrande e dois indicadores de nível de água. Tailings Dams Incidents. Setembro de 2010. Barragem do Queiroz. Geotécnica de Maio de 1980. Minas Gerais.Avaliação do Trânsito de Cheias nos Reservatórios da Barragem do Germano – Atualização Base Topográfica – Dezembro 2010. 8.PI-PR-130005/78.UNITED STATES COMMITTEE ON LARGE DAMS – USCOLD.Estudos de Descomissionamento das Barragens de Rejeitos da Área da Planta do Queiroz. 9. 7. Programa Preliminar de Estudos Geológico-Geotécnicos.0 m 325. 4. SA-410-LT-22349-00 . 2. Tabela 9 – Características da Cava do Germano Dados gerais Finalidade Empresas Projetistas Etapa Construtiva Atual Data Conclusão Cota Atual da Crista Altura Atual do Maciço Comprimento Atual da Crista Sistema Extravasor Empilhamento de rejeito arenoso Pimenta de Ávila Consultoria Ltda Alteamento para El.Pimenta de Ávila Consultoria. Referências 1. Sistema extravasor O sistema extravasor é composto por tubo flauta acoplado a uma galeria de concreto posicionada na parede direita da cava (sul). UFMG.RT-039-5133-1310-0007-00-B . SA-901-RL-4596-0C – Sistema de Rejeitos – Rejeito Arenoso – “Manual de Operação da Barragem do Germano”.Bacia de Acumulação de Rejeitos. 2008. de Setembro de 2004. 6. SA-410-RL-22801-0C . 5. Dezembro de 2003. 3.O sistema de drenagem su­ perficial do talude de jusante da pilha é composto por canaletas e escadas em concreto estrutural. Classificação das Barragens de Contenção de Rejeitos de Mineração e de Resíduos Industriais no Estado de Minas Gerais em Relação ao Potencial de Risco.Pimenta de Ávila Consultoria.0 m 54.Anderson Pires Duarte.

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em 1972. àquela época. quando foi realizada a primeira plenária dessa Conferência. a necessidade de somente aceitar a introdução de novas tecnologias após a avaliação das consequências de sua utilização sobre o ambiente. Dessa Conferência. ELETROSUL. via fluvial para migração de peixes. uma significativa quantidade de usinas hidroelétricas teve sua construção iniciada na década de 70. que veio a realizar-se em Estocolmo. poluição de mares e oceanos e ocupação urbana desordenada. conecta o lago de Itaipu ao rio Paraná aproveitando em seu trecho inferior o leito natural do rio Bela Vista. Nesse evento. de forma a minimizar os riscos ambientais de suas estratégias de desenvolvimento. a necessidade de acelerar a disseminação de tecnologias ambientalmente amigáveis e de desenvolver tecnologias alternativas àquelas danosas ao meio ambiente. ao mesmo tempo em que os demais não queriam que se impusessem limitações ao seu próprio desenvolvimento. não haver exigência legal de licenciamento ambiental. mas não visível na foto. utilizado para competições esportiva desaguando no rio Bela Vista (foto Caio Francisco Coronel) Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Homero André dos Santos Teixeira em larga escala. foi construído o canal de águas bravas. participaram representantes de 113 países e de cerca de 250 organizações não-governamentais e o seu foco de atenção principal foi a constatação de que a ação do homem vinha produzindo severa degradação da natureza. da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano. em que se incluíam as barragens.Evolução do Licenciamento Ambiental de Barragens no Brasil Para abordar o tema do licenciamento ambiental de barragens no Brasil. O Governo impunha a sua vontade e. Em primeiro plano o lago de Itaipu e a tomada de água do canal. A jusante do lago. como suprimento de água. predominantemente com o objetivo de formação de reservatórios para geração de energia elétrica. entre elas. O Brasil. Apesar de. a necessidade de encorajar a distribuição internacional da capacidade industrial. do Sistema ELETROBRAS. as empresas do chamado setor elétrico de então (FURNAS. e a necessidade de prestar assistência a países em desenvolvimento. à custa de endividamento externo. pela Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). com cerca de 10 km de extensão e desnível médio de 120 m. Os primeiros externaram suas preocupações com os danos impostos ao ambiente pelo modelo de desenvolvimento predatório por eles próprios empreendido. COPEL e CEEE. As primeiras manifestações de preocupação com o meio ambiente podem ser identificadas na convocação. ficou estabelecido como o Dia Mundial do Meio Ambiente. com plena dominância estatal dos investimentos em grandes obras públicas. foram identificados como prioritários a necessidade de compreensão e controle das modificações ambientais produzidas pela humanidade nos principais sistemas ecológicos. O dia 5 de junho de 1972. foram definidos vários tópicos que requeriam atenção urgente e ações O canal da Piracema de Itaipu. em seguida o canal para peixes e mais abaixo o lago e a represa. e as principais geradoras estaduais como CEMIG. criando condições de grande risco para a própria sobrevivência da humanidade. vivia sob um regime ditatorial. em 1968. CHESF. as mais destacadas: usina hidroelétrica Itaipu e usina hidroelétrica Tucuruí. Além desses temas. Como resultados. é preciso lançar um olhar histórico sobre a questão do meio ambiente como um todo e situá-lo no contexto político do País. ficou patente a divisão de enfoque entre os representantes de países desenvolvidos e de países em desenvolvimento. ELETRONORTE. além da ITAIPU 397 . CESP. em junho de 1972.

Esse despertar para o meio ambiente foi iniciado pelos problemas de conflitos de reassentamentos de populações desalojadas pela formação de reservatórios e pela necessidade de compatibilizar a eventual explotação de recursos minerais em áreas alagáveis antes de sua inundação. quando do enchimento do reservatório. XX e XXI BINACIONAL) já demonstravam alguma consciência da importância do componente ambiental em seus empreendimentos. o relatório Environmental Assessment of the Tucuruí Hydroelectric Project.Séculos XIX. despertou nos responsáveis pelo empreendimento a certeza de que ações de diagnóstico dos meios físico e biótico. para elaborar um relatório diagnóstico da problemática ambiental relativa à implantação da usina hidroelétrica Tucuruí e recomendar ações para minimizar os potenciais impactos ambientais identificados. a ELETRONORTE criou. uma Divisão de Ecologia que passou a concentrar as atividades ligadas ao meio ambiente. a ELETRONORTE. A partir desse relatório. conceituado profissional ligado ao Cary Arboretum of the New York Botanical Garden. Consultor de meio ambiente Robert Goodland em 2011 Consultor ambiental Robert Goodland (à direita) junto com Rupert Spearman (Ieco-Elc) na primeira inspeção a Itaipu em 1972 398 . Iniciativas anteriores de preservação ambiental. na companhia de profissionais da ELETRONORTE. também. que já havia prestado consultoria para FURNAS. realizou várias campanhas de campo na região e apresentou. contratou o ecólogo Robert Goodland. em 1976. Rio Tocantins.430 km2. continuou ações ambientais sistematizadas em nove subprojetos. abordado. culminaram na denominada Operação Curupira. já eram objeto de ações das empresas do Setor Elétrico desde a década de 60. Essas ações desenvolvidas entre 1978 e 1984.A História das Barragens no Brasil . bem como o reflorestamento de suas margens. em um bioma sensível – Floresta Amazônica. em setembro de 1977. que abrangeram estudos a montante e a jusante da barragem. O ecólogo Goodland. Simultaneamente. A implantação da usina hidroelétrica Tucuruí. com um reservatório da ordem de 2. seriam indispensáveis para o sucesso do projeto. que teve por objetivo promover o salvamento do maior número possível de indivíduos da fauna silvestre. CEMIG e ITAIPU. que já vinha enfrentando a problemática ambiental. Com o início do aproveitamento de potenciais hidrelétricos na Região Amazônica. para soltura em áreas protegidas ou aproveitamento científico. Assim. Amazônia (Avaliação ambiental do aproveitamento hidroelétrico de Tucuruí – Rio Tocantins). o tratamento das questões ligadas aos povos indígenas foi. ligadas principalmente à qualidade da água e à introdução de peixes em reservatórios. avaliação de impactos a montante e a jusante da barragem e monitoramento ambiental.

V . a instituição do licenciamento ambiental de atividades efetiva ou poten cialmente poluidoras. já restabelecida a democracia no Brasil.938.ao estabelecimento de critérios e padrões de qualidade ambiental e de normas relativas ao uso e manejo de recursos ambientais. III . aos interesses da segurança nacional e à proteção da dignidade da vida humana. objetivando capacitá-la para participação ativa na defesa do meio ambiente. X . 01.racionalização do uso do solo. melhoria e recuperação da qualidade ambiental propícia à vida. portanto. a primeira lei que trata. Ill . somente em 17. é publicada no Diário Oficial da União . a serem submetidos à aprovação do órgão estadual competente. tendo em vista o uso coletivo. IV . VII .à compatibilização do desenvolvimento econômico-social com a preser vação da qualidade do meio ambiente e do equilíbrio ecológico.PNMA (Lei 6. da obrigação de recuperar e/ou indenizar os danos causados e.02. o licenciamento de atividades modificadoras do meio ambiente. condições ao desenvolvimento sócio-econômico. IX . e define no Art. ao poluidor e ao predador. com resgate de 36.à difusão de tecnologias de manejo do meio ambiente. da água e do ar .incentivos ao estudo e à pesquisa de tecnologias orientadas para o uso racional e a proteção dos recursos ambientais. VI . no Brasil.” Já o Art. 2º. dos Territórios e dos Municípios. da contribuição pela utilização de recursos ambientais com fins econômicos. inclusive a educação da comunidade.controle e zoneamento das atividades potencial ou efetivamente poluidoras.DOU a Resolução CONAMA n o. II . que: “Dependerá de elaboração de Estudo de Impacto Ambiental . define que são instrumentos da PNMA “o licenciamento e a revisão de atividades efetiva ou potencialmente poluidoras”. 2º.86.à definição de áreas prioritárias de ação govername tal relativa à qualidade e ao equilíbrio ecológico. 4º. A Lei 6.938. com a preservação de áreas representativas.recuperação de áreas degradadas. que dispõe sobre critérios básicos e diretrizes gerais para a avaliação de impacto ambiental. visando assegurar. VI ..à preservação e restauração dos recursos ambientais com vistas à sua utilização racional e disponibilidade permanente. à divulgação de dados e informações ambientais e à formação de uma consciência pública sobre a necessidade de preservação da qualidade ambiental e do equilíbrio ecológico. considerando o meio ambiente como um patrimônio público a ser necessariamente assegurado e protegido. da Política Nacional do Meio Ambiente . e da Secretaria Especial do Meio Ambiente – SEMA em caráter supletivo.81). No entanto. VII .ao desenvolvimento de pesquisas e de tecnologias nacionais orientadas para o uso racional de recursos ambientais. IV . de forma integrada.educação ambiental a todos os níveis de ensino.proteção de áreas ameaçadas de degradação. atendidos os seguintes princípios: I . tais como: 399 . dos Estados.planejamento e fiscalização do uso dos recursos ambientais. define que a PNMA visa: “I . II .EIA e respectivo Relatório de Impacto Ambiental – RIMA.acompanhamento do estado da qualidade ambiental. do Distrito Federal. pela primeira vez no Brasil.450 indivíduos. Em seu Art.ação governamental na manutenção do equilíbrio ecológico. de 31. atendendo aos interesses da União. Somente nove anos após a realização da Conferência de Estocolmo é que surge.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Na implantação da usina hidroelétrica Itaipu. esta lei estabelece: “A Política Nacional do Meio Ambiente tem por objetivo a preservação. do subsolo. V .à imposição. encampa os resultados da Primeira Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano e estabelece. ao usuário. VIII . também foi realizada operação de salvamento de animais silvestres.08.proteção dos ecossistemas.” E o inciso IV do Art. 9º. cujo fechamento do desvio e enchimento do reservatório ocorreu em 1982. no País. concorrendo para a manutenção do equilíbrio ecológico propício à vida.

tais como: barragens para fins hidrelétricos. com predominância daquelas para abastecimento de água (açudes). Determina. e alinhado com as preocupações com o meio ambiente. que estabelece a exigência de licenciamento para barragens e diques. do Departamento Nacional de Águas e Energia Elétrica – DNAEE. sempre que julgar necessário. foi publica- do o Manual de Estudos de Efeitos Ambientais dos Sistemas Elétricos. acima de 10MW. foi criado. contudo estabelece-lo. analisando os aspectos de suas especialidades. inserção regional. e eficácia gerencial. em agosto de 1989. ainda.1997. responsável por considerável quantidade de barragens em operação. baseando-a em quatro diretrizes: viabilidade ambiental. Esse documento orientava a forma de conduzir o Setor sob a égide das diretrizes que o norteavam. de 03. uma análise dos empreendimentos considerados de maior impacto social e ambiental e propunha medidas mitigadoras e compensatórias. elaborado por um grupo de trabalho constituído por profissionais de empresas do setor. que dispõe sobre a aprovação de modelos para publicação de pedidos de licenciamento. também.. que esses órgãos públicos e demais interessados deverão ter prazo para se manifestarem. VII – Obras hidráulicas para exploração de recursos hídricos. embora tenha sido objeto da Resolução CONAMA no. ou pela SEMA ou. A realização de Audiências Públicas. representar cerca de duas vezes o das barragens para geração de energia elétrica. 01/86.90. uma vez mais não o estabelecendo. a ELETROBRAS criou.Séculos XIX. promoverá a realização de Audiência Pública para informação sobre o projeto e seus impactos ambientais e discussão do RIMA. assim. Define. que dispõe sobre a revisão e complementação dos procedimentos e critérios utilizados para o licenciamento ambiental. XX e XXI . em fevereiro de 1987. uma Divisão de Meio Ambiente ligada ao Departamento de Estudos Energéticos. 01/86 determina que o Estudo de Impacto Ambiental e respectivo RIMA devam ser analisados pelo órgão estadual competente. cuja regulamentação se apresentava. O setor elétrico... o município. em 05.12. também. pelo município. que terá prazo para essa análise. O esforço de um trabalho conjunto de representantes das principais empresas do setor elétrico.A História das Barragens no Brasil . a SEMA ou. Com o objetivo de organizar a estrutura gerencial e executiva para o trato da temática ambiental. 06/86. em dezembro de 1986. só veio a se tornar efetiva quando de sua publicação no DOU. foi o setor elétrico que comandou as ações para estruturar o seu processo de licenciamento ambiental. Em novembro de 1986. quando couber.. ainda. para conhecimento e manifestação. manual esse previsto para ser revisado em 1991.12. sem vínculos com o setor. pela sua importância e estruturação por concessionárias estatais. em junho de 1986. bastante inconsistente.07.. composto por técnicos de notório saber nas áreas social e ambiental. foi promulgada a Resolução CONAMA no. Imediatamente após a publicação do I PDMA.. o Comitê Consultivo de Meio Ambiente da ELETROBRAS – CCMA. Na mesma data de publicação da Resolução CONAMA no. . pela sua importância. além de demonstrarem a importância atribuída ao tema. O órgão estadual competente. o Departamento de Meio Ambiente – DEMA. que o RIMA deverá ser dado a público e que os órgãos públicos que manifestarem interesse. Esse Comitê. 237.” . a ELETROBRAS publicou o primeiro Plano Diretor para Proteção e Melhoria do Meio Ambiente nas Obras e Serviços do Setor Elétrico (I PDMA). liderou uma série de ações que. articulação interinstitucional e com a sociedade. apresentando. de saneamento ou de irrigação. prestou assessoria à alta direção da ELETROBRAS. tinham em foco o licenciamento dos empreendimentos. o DOU publicou a Resolução CONAMA no. ou tiverem relação direta com o projeto. receberão cópia. quando couber. Assim. 09. que propôs uma política socioambiental para o Setor. A mesma Resolução CONAMA no. no processo de licenciamento ambiental. construção e projeto nas décadas de 70 e 80 do século passado. diagnosticando problemas e propondo soluções. Em 19. o licenciamento ambiental de barragens no Brasil. coordenado pela Eletrobras. em decorrência da evolução esperada para o assunto. 400 . sem. Essa Divisão tornou-se. Nasce.87. Apesar de o número de barragens para outros fins.

em que se incluem. Em 1996. Para as barragens. a criação da Secretaria Especial do Meio Ambiente – SEMA (Decreto-Lei 73.09.67).88). a FUNAI.347. ao consumidor. 01/86. foi criada a Agência Nacional de Energia Elétrica – ANEEL (Lei 9.11.34).07. Essa resolução. O estabelecimento das diretrizes da Resolução CONAMA n o. criado pela Lei 7. cuja ementa informa que dispõe sobre o licenciamento ambiental de obras do setor de geração de energia elétrica. É de ressaltar que essa modificação é marcante para as barragens para fins de 401 . de 10.87. foi desencadeado um processo de formação de equipes técnicas multidisciplinares em empresas de consultoria e nas empresas e autarquias estatais. Licença de Instalação – LI e Licença de Operação – LO). que devem ser consi derados na elaboração dos estudos ambientais e formam um elenco legislativo de grande porte. o IPHAN. desde a promulgação dessas leis. o Código de Águas (Decreto 24. bem como o nível de detalhe dos programas do Projeto Básico Ambiental. de 26.81 e suas modificações). estético.67 e suas modificações).02. de 15. de 28.37).96). de 22. de 13.902. a Lei de Proteção à Fauna (Lei 5. a bens e direitos de valor artístico. pois pela primeira vez os tipos de licenças são correlacionados a etapas de desenvolvimento do empreendimento (Licença Prévia – LP. o Códig o Florestal (Lei 4. de 16. etc. destacando-se o Estudo de Impacto Ambiental e o RIMA para a LP e o Projeto Básico Ambiental para a LI. estabelecendo os documentos necessários a cada solicitação.030.735.07. contudo. com a criação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – SPHAN (Decreto-Lei 25.89. a criação do Instituto de Colonização e Reforma Agrária – INCRA (Decreto-Lei 1. a promulgação da lei que disciplina a ação civil pública de responsabilidade por danos causados ao meio ambiente.87.12.07. a criação da Fundação Cultural Palmares – FCP (Lei 7. que absorveu as atribuições do IBDF. 127 a Art.67). 06/87 não tornou. a Lei de Criação de Estações Ecológicas e Áreas de Proteção Ambiental (Lei 6. de 30. resguardado o disposto na Resolução CONAMA no. a possibilidade de o empreendedor debater essas exigências. Os mais variados diplomas legais de proteção ambiental. hoje IPHAN. o que hoje se denomina discussão do Termo de Referência . 06.427. Ficou também estabelecido que o órgão ambiental competente definirá.08.12. conforme atribuições constantes da Constituição Federal de 1988 (Art. a organização do patrimônio histórico e artístico nacional. de 05.73). no entanto.65 e suas modificações).110. de 09.987.10. A modificação do marco regulatório das concessões vem alterando.04. da SEMA. O aprendizado das partes envolvidas no processo de licenciamento ambiental de barragens vem sendo paulatino.197.668. a criação da Fundação Nacional do Índio – FUNAI (Lei 5. de 30.10. contudo. para o setor elétrico. de 24. de 27. o que determina a Lei 8. cada vez mais com a presença de atores que são determinantes para o sucesso. Destacam-se o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis – IBAMA. ou não. bem como nos próprios órgãos ambientais licenciadores. Essa lei particularizou. os Órgãos Estaduais do Meio Ambiente – OEMAs. entre outros. que dispõe sobre o regime de concessão e permissão de serviços públicos. os trâmites e a responsabilidade pela obtenção das licenças ambientais. essa resolução é um marco histórico. publicada no DOU em 22. Resguardou-se.85). de 22.771. de cada processo individualmente.371. da Superintendência de Desenvolvimento da Pesca – SUDEPE e da Superintendência da Borracha – SUDHEVEA. o conteúdo.02.70).TR. diploma que também disciplinou o regime de concessões de serviços públicos de energia elétrica.95. o licenciamento ambiental de barragens uma questão simples e pacífica. de 03. 130). a FCP e o Ministério Público. a abrangência e a profundidade dos estudos ambientais.02.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens da Secretaria Especial de Meio Ambiente – SEMA e de órgãos ambientais estaduais resultou na elaboração e publicação da Resolução CONAMA no. abrange também obras de transmissão.643. A partir do estabelecimento das exigências de produção de estudos e projetos ambientais para o licenciamento de barragens e outras atividades consideradas “modificadoras do meio ambiente”. As empresas estatais de água e energia perdem a exclusividade de receber concessões e os agentes privados entram em cena.09.01. histórico e paisagístico (Lei 7. a criação do Instituto Brasileiro do Desenvolvimento Florestal (Decreto-Lei 289.

cria. objeto de legislação elaborada por diversas entidades que interferem diretamente no grau de detalhamento do Estudo de Impacto Ambiental. Essa Resolução. tendo sido. tanto dos empreendedores quanto dos analistas dos órgãos ambientais. que trata dos procedimentos gerais para registro e aprovação de Estudos de Viabilidade e Projeto Básico de empreendimentos de geração hidroelétrica. mesmo antes da existência de legislação referente ao licenciamento ambiental de barragens. de 09. Com a criação da Empresa de Pesquisa Energética – EPE. ao longo dos anos.A História das Barragens no Brasil . 01/86. com evidente desperdício de recursos. biótico e antrópico. obviamente. É dessa época a fundação do MAB – Movimento dos Atingidos por Barragens. Historicamente. assim como autorização para exploração de Centrais Hidroelétricas até 30 MW. Esse requisito se aplicava tanto para em preendimentos a serem colocados em licitação (Usinas Hidroelétricas) quanto àqueles com características de Pequena Cen tral Hidroelétrica. da LI e da LO para cada empreendimento. Eles estão ligados à remoção de populações das áreas dos reservatórios. 12. pela Lei 10. a Resolução Normativa ANEEL no. Sobradinho. sendo hoje muito atuante e geradora de dificuldades nos processos de licenciamento ambiental. garantindo ao empreendedor a certeza da viabilidade ambiental do empreendimento. do Projeto Básico Ambiental e dos Relatórios de Acompanhamento da Implantação dos Programas Ambientais. Itaparica. paleontológicos e espeleológicos e com áreas de preservação ambiental. A remoção e o reassentamento de populações para implantação de reservatórios de barragens vêm sendo feitos mediante acordos dos empreendedores (públicos ou privados) com os atingidos. Tem-se conhecimento que a ANEEL está estudando uma modificação nas diretrizes de apresentação de projetos para permitir que apenas um empreendedor autorizado seja o responsável pelo licenciamento ambiental. cada vez mais. desde a publicação da Resolução CONAMA no. para PCHs. geralmente por meio de desapropriação por utilidade pública.12. Ita e Machadinho) construídos por empresas estatais. implantadas. incrementos de prazos e custos para a obtenção das licenças ambientais. com comunidades quilombolas. um complicador no processo de licenciamento. Itaipu. à proteção da flora nativa e da fauna silvestre e à preservação da qualidade dos recursos hídricos. selecionados pela EPE” .Séculos XIX. não tendo sofrido alterações para barragens de outras finalidades. Essa situação perdura. estabelece que a obtenção do licenciamento ambiental pertinente é de responsabilidade do interessado. passou a ser de sua competência. em especial as de proteção integral. a LI e a LO. às interferências com populações indígenas. Os aspectos ambientais mais importantes atrás mencionados estão diretamente ligados ao processo de licenciamento. (Art. 395. muitas remoções foram feitas para novas vilas ou cidades. Nas décadas de 1970 e 1980. que se manifesta necessariamente na análise do Estudo de Impacto Ambiental. a cada dia. Mesmo não havendo interferência direta com essas unidades.12. 343. com sítios arqueológicos. organização que milita pelos direitos dos afetados pelas barragens. “obter a licença prévia ambiental e a declaração de disponibilidade hídrica necessárias às licitações envolvendo empreendimentos de geração de energia elétrica e de transmissão de energia elétrica. especialmente. conforme inciso VI do Art. Em 04. a FUNAI. embora lhe caiba a obtenção das demais licenças ambientais. Essa determinação está sendo seguida para a licitação de concessões de geração hidroelétrica.847. respectivamente à emissão da LP. necessários. de 15.98.08. quando da implantação de grandes barragens e imensos reservatórios (usinas hidroelétricas Tucuruí. expressa pela LP.03. 4º. inciso IV). em audiências públicas.04. especialmente para as barragens que formam reservatórios. conforme disposto na Resolução Normativa no. Essa legislação. Os problemas de interferências com aldeias e terras indígenas vêm sendo. às margens dos lagos formados. os principais problemas ligados aos potenciais impactos dessas obras se focavam em aspectos ambientais ligados aos meios físico. tem feito exigências de estudos etnoecológi- 402 . implica o licenciamento ambiental do mesmo objeto por mais de um interessado. com voz presente. em geral. que permite a apresentação de mais de um estudo ou projeto para uma única usina hidroelétrica ou PCH. XX e XXI geração hidroelétrica.

cujos serviços só podem ser iniciados após a publicação da mesma no DOU. Mesmo não havendo evidências da existência de vestígios arqueológicos relatada no Diagnóstico Arqueológico.556.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens cos dos grupos indígenas que se encontram. com a edição do Decreto 6. havendo sempre o risco de existir algum processo de autorreconhecimento em andamento e isso não ser informado na consulta prévia que as consultoras costumam fazer na fase inicial de elaboração do EIA. de 20.146. 403 .08. requer a identificação e o resgate dos fósseis. reconhecimento.. desde que sejam implementas medidas e compensações. considerando-o dentro do processo de licenciamento ambiental de empreendimentos. também. que são passíveis de autorreconhecimento. deverá promover o seu salvamento e deposição em instituição de pesquisa. A definição dos critérios para estabelecimento da relevância das cavidades na turais subterrâneas foi feita através da Instrução Normativa do Ministério do Meio Ambiente no. o IPHAN vem atrasando a análise dos projetos de pesquisa. foi definido que deveriam ser criados critérios de relevância para a classificação das cavidades naturais subterrâneas e a possibilidade de implantar empreendimentos em áreas em que elas ocorram. que oneram o empreendedor e que são motivo de atraso no licenciamento. de 01. ampliação.640. 230. instalação. A proteção das cavidades naturais subterrâneas existentes no território nacional foi estabelecida pelo Decreto 99. para fins de liberação das LP e LI. de 10. O patrimônio paleontológico é protegido. Para a realização dos trabalhos de arqueologia.04. com o atraso na emissão das Portarias e. submetidos a qualquer tipo de impacto. deve-se obedecer ao disposto nas Portarias SPHAN no. realizados em atenção ao Termo de Referência específico.10. a realização de diagnóstico das Áreas de Influência da barragem. para inclusão no Estudo de Impacto Ambiental. em seu Art. O patrimônio arqueológico é protegido. considerados efetiva ou potencialmente poluidores ou degradadores do patrimônio espeleológico ou de sua área de influência dependerão de prévio licenciamento pelo órgão ambiental competente. a aprovação dos seus relatórios. 347. para a obtenção da LI é requerida a realização de Prospecção Arqueológica que. 07.11.02. para a obtenção da LP. bem como desenvolver um Programa de Educação Patrimonial a ser implantado nas comunidades próximas ao achado.556. passou a ser possível a convivência de barragens e outros empreendimentos com a proteção às cavidades naturais subterrâneas. caso identifique algum vestígio. ou até inviabilizar um empreendimento. em qualquer hipótese. delimitação. Para a realização dos trabalhos de arqueologia é necessário submeter ao IPHAN um projeto de pesquisa que.12.12. praticamente. a mais de 20 km de distância da barragem e seu reservatório e que não seriam. de 07. sendo obrigatória. Essa Resolução institui o Cadastro Nacional de Informações Espeleológicas – CANIE.03. As comunidades remanescentes de quilombos. que “a localização. pela Resolução CONAMA n o. 4º. que dispõem sobre os procedimentos para obtenção de licenças ambientais referentes à apreciação e acompanhamento das pesquisas arqueológicas no País. A proteção do patrimônio espeleológico.08. que regulamenta o procedimento para identificação. modificação e operação de empreendimentos e atividades. Depois de muita discussão.887. em áreas cujas rochas apresentem potencial paleontológico. A implantação de barragens e reservatórios. definindo.09. são amparadas pelo disposto no Decreto 4. mediante o Decreto-Lei 4. uma vez autorizado.09.90. que modificou a redação do anterior Decreto 99. 2. a cargo do IBAMA. de 20. nos termos da legislação vigente”. independente de seu porte. gera uma Portaria específica para o arqueólogo responsável. exceto nas de relevância máxima. A Fundação Cultural Palmares tem necessariamente que ser ouvida no processo de licenciamento. desde 1942. foi regulada. de 15. que provam não haver impacto. Devido à falta de quadros técnicos. Com esse Decreto. demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentes de comunidades quilombolas.88 e IPHAN no. que. Esse tipo de omissão pode acarretar atraso no processo. inicialmente. construção. inviabilizava a implantação de empreendimentos em regiões dotadas de cavernas naturais. Esses procedimentos oneram e atrasam o processo de licenciamento ambiental das barragens. tem havido imposição de “compensações”. Mesmo após estudos antropológicos conclusivos. de 17.11. muitas vezes.

04. em 17.” Essa zona de amortecimento foi estipulada na Resolução CONAMA no. 146.proteger as espécies ameaçadas de extinção no âmbito regional e nacional. regulamentada pelo Decreto 4. estabeleceu. VI . de acordo com o disposto neste artigo e no regulamento desta Lei.02. ou seja. depois de várias determinações exaradas em Resoluções do CONAMA para o tema (Resolução CONAMA n o. a chamada Lei do SNUC estabelece: “Art. estudos e monitoramento ambiental. foi revogada. Outra limitação à implantação de barragens e outros empreendimentos é a que define critérios de distância para proteção do entorno de Unidades de Conservação. que estabeleceu critérios para definição das distâncias a serem consideradas para as zonas de amortecimento.A História das Barragens no Brasil . geomorfológica. De acordo com seu “Art. Essa Resolução. que caíram para 3 km no caso de empreendimentos sujeitos a elaboração de EIAe RIMA e para 2 km para os de reduzido impacto ambiental. exceto Área de Proteção Ambiental e Reserva Particular do Patrimônio Natural. a qualquer tipo de empreendimento.90. de 11.01.contribuir para a preservação e a restauração da diversidade de ecossistemas naturais. a obrigatoriedade de realizar diagnósticos da fauna. 371. restringiu a sua aplicação a empreendimentos de geração hidroelétrica. répteis e peixes.12. XX e XXI O Sistema Nacional de Unidades de Conservação – SNUC foi estabelecido pela Lei 9.340.proteger e recuperar recursos hídricos e edáficos.recuperar ou restaurar ecossistemas degradados. como definido na Lei do SNUC. em seu “Art. IX . X . VIII . 13. Essa distância foi estabelecida sem qualquer critério de avaliação de impactos ambientais. com captura.promover a utilização dos princípios e práticas de conservação da natureza no processo de desenvolvimento.proteger paisagens naturais e pouco alteradas de notável beleza cênica. devem possuir uma zona de amortecimento e. Esses diagnósticos só podem ser realizados mediante autorização do IBAMA.09. As unidades de conservação.05. coleta.06.” Como houve muita discussão quanto aos critérios de cálculo da compensação financeira. Nos casos de licenciamento ambiental de empreendimentos de significativo impacto ambiental.proporcionar meios e incentivos para atividades de pesquisa científica. o assunto está finalmente regulado pela Resolução CONAMA no. respeitando e valorizando seu conhecimento e sua cultura e promovendo-as social e economicamente. Essa IN veio sendo aplicada. A proteção da fauna silvestre é um tema que passou a ser encarado com extremo rigor no âmbito do licenciamento ambiental de barragens.00. III . transporte e exposição de grupos da fauna.promover o desenvolvimento sustentável a partir dos recursos naturais. A Instrução Normativa do MMA n o. em 10 quilômetros.Séculos XIX. de 18.10. indistintamente. quando conveniente. a barragens com essa finalidade. a execução de um processo dispendioso e demorado.contribuir para a manutenção da diversidade biológica e dos recursos genéticos no território nacional e nas águas jurisdicionais.07. finalmente. abrangendo mamíferos. VII . arqueológica. IV . A Portaria Normativa do MMA no. XI .12. II . o empreendedor é obrigado a apoiar a implantação e manutenção de unidade de conservação do Grupo de Proteção Integral. para qualquer empreendimento.proteger as características relevantes de natureza geológica. 4 o o SNUC tem os seguintes objetivos: I . de 05. de 06. assim considerado pelo órgão ambiental competente.proteger os recursos naturais necessários à subsistência de populações tradicionais. paleontológica e cultural.985.07.favorecer condições e promover a educação e interpretação ambiental. embora o seu espírito original fosse de que deveria ser aplicada a barragens formadoras de reservatórios. 36. XII . XIII .10. V . de 22. 25. requerendo-se.valorizar econômica e socialmente a diversidade biológica. 428. 2/96). aves.” No apoio às Unidades de Conservação de Proteção Integral. para tal. com fundamento em Estudo de Impacto Ambiental e respectivo relatório . 404 . 10/87 e Resolução CONAMA n o. espeleológica.EIA/RIMA.08. passando o assunto a ser regulado pela Resolução CONAMA no. a recreação em contato com a natureza e o turismo ecológico. de 22. corredores ecológicos.

promoverem constante troca de experiências no sentido de que o licenciamento sofra. Livro Branco sobre o Meio Ambiente na Usina Hidrelétrica de Tucuruí. restando às partes envolvidas. O processo de licenciamento simplificado não desobriga. que estabelece procedimentos para o licenciamento ambiental simplificado de empreendimentos elétricos com pequeno potencial de impacto ambiental.br/ zpublisher/paginas/legislacao_ambiental. Disponível em: http://www. essa Resolução introduz a Reunião Técnica Informativa – RTI. se pode dizer que a “evolução” tenha um sentido de aprimoramento.asp?DocumentID=97&ArticleID=1497&l=en Acesso em: mar. em atenção a ações do Ministério Público. ELETRONORTE.unep. pelos órgãos licenciadores. jun. Ela instituiu o Relatório Ambiental Simplificado – RAS. bem como sobre a fauna silvestre. consequentemente. posto que com o aumento da demanda. o mercado de consultoria ambiental cresceu. ______.com.cndpch. ELETRONORTE/ENGEVIX. nem sempre atendendo aos requisitos exigíveis. caros. Entendendo o meio ambiente: principais Conferências Internacionais sobre o meio ambiente e documentos resultantes. ELETROBRAS. analistas dos órgãos licenciadores. a consideração de todos os aspectos ambientais atrás mencionados.01. 2011. os órgãos ambientais sofrem de falta de pessoal qualificado para analisar os estudos ambientais que são apresentados para instruir os processos de licenciamento.asp Acesso em: mar. Legislação ambiental.org/DocumentsMultilingual Default. elaboram pareceres sobre estruturas de pequeno porte semelhantes aos aplicáveis a grandes barragens. muitas vezes esses de qualidade duvidosa. Referências CBGB. intervém na maioria dos processos como guardião da lei. São Paulo: Novo Grupo Editora Técnica. é exigida por praticamente todos os órgãos ambientais licenciadores. verifica-se que a evolução do licenciamento ambiental de barragens no Brasil é um tema complexo e. Rio de Janeiro.06. demais instituições intervenientes e à sociedade civil. bem como da avaliação fundamentada dos impactos sobre o patrimônio paleontológico e espeleológico e as Unidades de Conservação. Brasília. 2011. Stockholm 1972: Brief summary of the general debate. Disponível em: http://www. uma evolução sustentável. 2011. para a concessão das licenças. Relatório Final. 1978. Plano Diretor de Meio Ambiente do Setor Elétrico 1991/1993. 405 . exigindo. como elemento base para a concessão da LP e Relatório de Detalhamento dos Programas Ambientais – RDPA para a solicitação da LI. detalhamentos incompatíveis com o porte dos empreendimentos e. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. UNEP.ecclesia. Ecclesia. Topmost dams of Brazil. Relatório Geral. out.com. Relatório Condensado. 1986. Brasília. empreendedores. 1977.279. dez. praticamente. Disponível em: http://www. efetivamente. A legislação aplicável é vasta. tornando os processos demorados e. hoje.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Finalmente. no entanto. como as manifestações da FUNAI. Os analistas tendem a se resguardar. Centro nacional de desenvolvimento de PCH. ______. Inventário do baixo Araguaia – Tocantins. Essa Resolução vem sendo aplicada. principalmente. consultores ambientais. às PCHs com pequenas barragens e reservatórios. cabe mencionar a Resolução CONAMA no.br/biblioteca/ fe_e_meio_ambiente/principais_conferencias_internacionais_ sobre_o_meio_ambiente_e_documentos_resultantes. Os prazos constantes dos diplomas legais não são cumpridos. de 27. Pelo exposto. Estudos Tocantins: inventário hidrelétrico das bacias dos rios Tocantins e Araguaia. Plano Nacional de Energia Elétrica 1987/2010: Plano 2010. O processo é penoso. nem sempre. 1987. 1984. Em substituição à Audiência Pública. da FCP e do IPHAN. por receio de ação do Ministério Público que. em geral. 1990.html Acesso em: mar. que.

Figuras selecionadas dos resultados da instrumentação Deslocamentos horizontais máximos para jusante (períodos de inverno) .uma barragem densamente monitorada com elevado nível de segurança.Itaipu .

o imenso potencial de perdas de vida. construção e operação desses empreendimentos são tratados com seriedade. em Nova Delhi. deixa claro a grande responsabilidade das concessionárias e proprietárias quanto à preservação da segurança das barragens. Introdução Obras de tamanha importância devem ter a sua segurança gerenciada ao longo de toda a sua vida. Durante o Congresso Internacional de Grandes Barragens. “Automated Observations for Safety Control of Dams” (1982). aumento nas dimensões das novas barragens e envelhecimento de uma quantidade apreciável de outras. não haveria desenvolvimento humano. O Comitê Brasileiro de Barragens sempre esteve atento à necessidade da implantação de uma política e de uma legislação que tratassem do aspecto de segurança de barragens. Ciro Humes Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens 1. que seguramente contribuirá para reduzir os riscos de acidentes nas nossas barragens. A ruptura de barragens é uma hipótese pouco provável e de baixíssima probabilidade de ocorrência quando os aspectos de projeto. seminários e cursos. Histórico da legislação sobre segurança de barragens 2. gerando energia elétrica e controlando enchentes”. edição de boletins e organização de congressos. 2003).000 grandes barragens ao redor do mundo servindo a sociedade por meio do fornecimento de água para uso doméstico. danos ambientais e conseqüências de elevado valor econômico decorrentes de uma eventual ruptura. com graves conseqüências ocorridas na época. Neste capítulo será resumidamente apresentada a atuação do CBDB na evolução dos aspectos ligados à implantação de uma política de segurança de barragens no Brasil. Existem aproximadamente 45. “Deterioration 407 .A Evolução da Legislação Aplicada às Barragens “A História prova que se as barragens não fossem construídas. Todavia. Dentre as diversas publicações do ICOLD relacionadas à segurança de barragens. III World Water Fórum (Kyoto. empreendimentos que tem papel relevante no desenvolvimento do nosso país. assim como levanta a importância do papel da Comunidade Técnica e dos pertinentes órgãos governamentais no sentido de minimizar a possibilidade da ocorrência de eventos desta natureza. destacam-se: “Lessons from Dams Incidents” (1974). além do incremento da quantidade de barragens sendo construídas em países com pouca ou nenhuma experiência em engenharia de barragens. promovido pelo ICOLD em 1979. 2. industrial e irrigação.1 Panorama internacional O ICOLD (Inter national Commission on Lar ge Dams) sempre esteve preocupado com a segurança de barragens. foi decidido investir maiores esforços no âmbito de segurança em função de: diversos incidentes em barragens. tendo atuado neste campo com a formação de diversos comitês.

Foi organizado um serviço especial de inspeção de barragens pertencentes aos “State Power Board” que passou a inspecioná-las com especialistas. Além da FEMA. Um terceiro órgão. o decreto-lei sobre o “Regulamento de Segurança de Barragens”. passando as autoridades municipais a arcar com a responsabilidade pela supervisão. “Dam Safety Guidelines” (1987). o LNEC – Laboratório Nacional de Engenharia Civil. 408 . A legislação sobre recursos hídricos foi reformulada no início da década de 80. tendo sido preparado o Dam Safety Guidelines em 1995. Aprovação do National Dam Safety Act e respectivas dotações orçamentárias (1997).S. Entre estas imposições pode-se destacar: Designação dos responsáveis pela segurança englobando o governo (representado pela Direção Geral dos Recursos Naturais). em 1990. “Risk Assessment in Dams Safety Management . “Rehabilitation of Dams and Appurtenant Works – State of the Art and Case Histories” (2000). “Dam Monitoring-General Considerations” (1988).Séculos XIX. XX e XXI of Dams and Reservoirs” (1983). na década de 70. Nos Estados Unidos da América. A partir desta constatação foi dada maior ênfase aos aspectos de segurança. contribuíram decisivamente para uma revisão geral da legislação para a segurança e inspeção de barragens no país. a FERC (Federal Energy Regulatory Commission) também atua na área. o Serviço Nacional de Proteção Civil. supervisionar e divulgar a segurança de barragens: o ICODS ( Interagency Committee on Dam Safety ) e a ASDSO (Association of State Dam Safety Officiais). revisado em 1997.A Reconnaissance of Benefits. Constituição de um plano de observação e sua adaptação quando necessário. foram criados outros dois organismos encarregados de desenvolver.A História das Barragens no Brasil . em um intervalo de cinco anos. Kelley Barnes (causando 39 mortes) e Teton (causando 14 mortes e danos avaliados em um bilhão de dólares). Entre as iniciativas adotadas pelo governo americano figuram: Lei autorizando o U. revisão dos procedimentos adotados por agências federais (1977) por junta de consultores independentes. autorizando o financiamento federal a programas estaduais de segurança de barragens (1986). Army Corps of Engineers a inventariar e inspecionar barragens não federais (1972). “Dam Failures Statistical Analysis” (1995). organizada em 1979. a Comissão de Segurança de Barragens e o proprietário da obra. Ordem presidencial para que o Guia de Segurança de Barragens fosse aplicado e que suas conclusões fossem encaminhadas à nova agência FEMA (Federal Emergency Management Agency). principalmente no tocante aos planos de ações emergenciais em barragens. para que as barragens existentes passassem a aplicar as imposições do regulamento. No Canadá. Publicação do Water Resources Development Act . “Inspection of Dams Following Earthquake” (1988). obrigatoriamente a cada 20 anos. em 1976. as rupturas das barragens de Buffalo Creek (causando 125 mortes e enormes prejuízos materiais) e Canyon Lake. Em Portugal foi promulgado. Inspeções periódicas por meio da autoridade competente. Revisão de critérios de segurança. Methods and Current Applications” (2005). em 1980. em 1972. Os mesmos procedimentos foram seguidos pelas companhias associadas à Swedish Power Association. “Dams less than 30 m high – Cost Savings and Safety Improvements” (1998). inspeção e eventuais medidas a serem tomadas junto aos proprietários das barragens. verificou que a legislação de todas as províncias e territórios era genérica e continha poucos artigos específicos sobre programas de segurança e monitoramento. Na Suécia o controle de construção e manutenção é regido pelo Water Rights Act de 1918. “Monitoring of Dams and Their Foundations” (1989). o Comitê de Segurança de Barragens do Canadian National Commitee on Large Dams. coordenação centrali zada de programas de segurança de barragens. em intervalos pré-fixados.

q u e o f e r e ç a m riscos à saúde e segurança pública. foram muito importantes para nortear os procedimentos de segurança adotados por algumas organizações brasileiras.articulará com a União. em 1996. o Estado .implantação de sistemas de alerta e defesa civil para garantir a segurança e a saúde pública. Construção e Operação de Barragens. Posteriormente. o Regulamento para Planejamento. seguindo a tendência mundial da década de 70. a contr ole de cheias. com vistas. através de decreto real de 1980. em 1995 o Cadastro Brasileiro de Deterioração de Barragens e Reservatórios e. editou em 1979 e 1983 as Diretrizes para a Inspeção e Avaliação da Segurança de Barragens em Operação. e dr enagem e à correta utilização das várzeas”. na época CBGB: Comitê Brasileiro de Grandes Barragens. quanto à garantia de segurança e saúde pública.. em 1930. a pr e venção de inundações. em 1994. foi emitido o Decreto nº. atuação para apr oveitamento e controle dos recursos hídricos em seu território . editou as Recomendações para a Formulação e Verificação de Critérios e Procedimentos de Segurança de Barragens. através da Portaria nº.. como não houve a regulamentação deste decreto. Especificamente no Estado de São Paulo. ele nunca foi implementado. Alguns trechos de certos artigos podem ser aplicáveis à segurança de barragens e ao seu funcionamento adequado. elaboradas por comissões do CBGB.. outr os Estados viz inhos e Municípios. de 1988. 409 . O CBDB..2 Histórico da segurança de barragens no Brasil e o papel do CBDB Os fatos mostram que as demandas por programas de segurança de barragens ocorrem principalmente após a ocorrência de acidentes de vulto. a Itália editou um decreto aplicável e barragens com altura superior a 10 m e reservatórios com capacidade superior a 100. em 1977. Em 1982. que editou em 1992 o Projeto Norueguês de Segurança de Barragens que estabelece responsabilidade e respectivos impactos. o Estado realizará pr ogramas conjuntos com os Municípios mediante convênios . ambos de 1984.. quando de eventos hidr ológicos indesejáveis . 739. 210. Auscultação e Instrumentação de Barragens no Brasil..000 m 3. Outras rupturas ocorreram no início da década de 70 dando ensejo a mudanças legais. com vista a . A Finlândia editou. que se mostraram eficazes. criou um grupo de trabalho com o objetivo de normalizar procedimentos preventivos e de manutenção voltados à segurança 2. em 1986. logo após os acidentes ocorridos com as barragens de Euclides da Cunha e Armando de Salles Oliveira. onde são indicadas as responsabilidades que envolvem os diversos organismos nas várias fases de um empreendimento. O Ministério de Minas e Energia. no art. formalmente.. nº. A Inglaterra possui várias barragens muito antigas e a ruptura de algumas delas deu origem a uma legislação especifica sobre segurança de barragens. Entretanto. o Dam Safety Code of Pratice obrigando que o mesmo fosse obedecido em conjunto com o Dam Safety Act e o Dam Safety Decree.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A Noruega adotou.. assim como prejuízos econômicos e sociais.. Estas publicações. A Constituição do Estado de São Paulo aborda de maneira indireta o assunto ao se referir. 10752 dispondo sobre segurança das barragens no Estado e recomendando auditorias técnicas permanentes. bem como enfoca a segurança durante a operação e aborda aspectos técnicos. tais como os que dizem que: o Estado assegurará meios financeiros e institucionais para “defesa contra eventos hidrológicos c r í t i c o s . O mesmo nível de abordagem consta da Lei 7663 que esta belece normas de orientação à Política Estadual de Recursos Hídricos bem como ao Sistema Integrado de Gerenciamento de Recursos. quando de eventos hidrológicos indesejáveis. propostas em 1975..

um relatório que abordou entre outros aspectos importantes: estabelecimento de mecanismo de monitoração e da instrumentação. Foi realiza do um processo de aproximação e apoio a esta iniciativa.Séculos XIX. novamente confirma-se que a demanda por programas de segurança de barragens ocorrem principalmente após a ocorrência de acidentes de vulto. o qual não conseguiu dar prosseguimento a esta proposta do CBDB. Este instrumento previa que o CNSB providenciaria a redação de um Regulamento de Segurança de Barragens e Reservatórios e na etapa seguinte seria responsável pela supervisão da correta aplicação deste regulamento. por meio do Núcleo Regional de São Paulo. Após este acidente o Deputado Leonardo Monteiro propôs o projeto de lei (PLC-168) com foco na Segurança de Barragens. através da Comissão de Deterioração e Reabilitação de Barragens. Este guia foi desenvolvido com base no Canadian Dam Safety Guidelines com a incorporação da cultura e experiência nacional. 410 . a instalação de um Cadastro Nacional de Barragens e a caracterização do potencial de risco de cada barragem. Outra importante iniciativa do CBDB. órgão do Ministério de Minas e Energia. Este projeto passou pelas Comissões de Minas e Energia. Em 1996 o CBGB. o projeto de lei passou pelas comissões do Meio Ambiente e Infraestrutura. hoje ANEEL Agência Nacional de Energia Elétrica). Nesta ocasião O CBDB deslumbrou a oportunidade de suportar tecnicamente a implantação desta lei. foi a elaboração do Guia Básico de Segurança de Barragens pela sua Comissão de Segurança.A História das Barragens no Brasil . elaborado com participação do CBDB. cujo relator foi o deputado Arnaldo Jardim. aceitou o substitutivo proposto pelo Conselho Nacional de Recursos Hídricos. de onde saiu aprovado em março de 2010 e recebeu a sanção presidencial em 21/09/2010 que conferiu ao projeto de lei. procedimentos gerais a serem seguidos em casos de acidentes. Neste momento o deputado Leonardo Monteiro. Meio Ambiente e Constituição e Justiça. Neste ano ocorreu a ruptura de uma barragem de rejeitos situada no rio Pombas no município de Cataguases no Estado de Minas Gerais. com base nos diversos trabalhos pertinentes já desenvolvidos. XX e XXI das diversas barragens existentes. definição da periodicidade de inspeção. em 1989. definição das responsabilidades pela execução das ações. coordenador do projeto de lei. elaborou minuta de Portaria do Ministério de Minas e Energia. O relatório previa a criação de uma Sub-Comissão de Segurança de Barragens. Em 2003. deixando uma vasta população sem água nos Estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro. Este documento foi apresentado para debate no XXII Seminário de Grandes Barragens realizado na cidade de São Paulo e posteriormente foi consolidado com as sugestões recebidas de vários associados e encaminhado para a análise do DNAEE . Coordenado pela Eletrobras o grupo publicou em 1987 a publicação Avaliação da Segurança de Bar ragens Existentes que é uma tradução do Manual SEED (Safety Evaluation of Existing Dams) do Bureau of Reclamation dos Estados Unidos da América. Encaminhado para o Senado. a uniformidade e a posição de lei que estabelece a Política Nacional de Segurança de Barragens. Também concluiu.Departamento Nacional de Águas e Energia Elétrica. estabelecendo as diretrizes para a avaliação da segurança das barragens e propondo a criação do Conselho Nacional de Segurança de Barragens (CNSB). Ele foi apresentado à nossa comunidade no XXIII Seminário Nacional de Grandes Bar ragens que aconteceu em Belo Horizonte em 1999. com apoio de outras entidades como a ABMS (Associação Brasileira de Mecânica dos Solos) e com o apoio importante da ANA (Agência Nacional de Águas). Este acidente espalhou resíduos no rio Paraíba do Sul e causou graves danos ao meio ambiente e à sociedade.

Vale registrar que a caminhada ainda não está finalizada. coordenador da Comissão Técnica de Segurança de Barragens do CBDB e membro do Comitê de Segurança de Barragens da CIGB 411 . Precursor das atividades sobre implantação de legislação aplicada a barragens no Brasil Figura 2 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens 3. Budweg. promovendo o debate deste tema nos seus seminários e simpósios. Considerações finais A atuação do CBDB na área de segurança de barragens.Ferdinand M.Fábio De Gennaro Castro.G. Figura 1 . O CBDB continuará atento para que a concretização da legislação que cria uma política de Segurança de Barragens seja efetivada. foi relevante e fundamental para que após uma luta de décadas uma lei sobre segurança de barragens fosse promulgada. pois falta a regulamentação da lei. por meio de publicação de documentos técnicos consistentes e atuando firmemente para a criação de uma legislação específica.

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Pela necessidade de se ter um grande desenvolvimento na área tecnológica de concreto massa. Hidroesb. Furnas implantou no Rio de Janeiro. implantados a partir da década de 1950. que trabalhava desde 1938 em investigações geotécnicas para a construção de barragens e obras de terra de um modo geral. Em 1983. que estavam sendo estudadas pelo Hidroesb. ficou mais dedicado ao desenvolvimento de pesquisas no campo da hidráulica experimental. O Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo (IPT). devido à necessidade de se ter um apoio tecnológico para o desenvolvimento dos estudos. posteriormente denominado Centro de Hidráulica e Hidrologia professor Parigot de Souza. seu Laboratório de Hidráulica Experimental e Recursos Hídricos (LAHE). estão apresentados os textos específicos dos centros de pesquisas: CEHPAR. desenvolveu importantes estudos para as Companhia Paranaense de Energia (COPEL).Introdução Erton Carvalho A história das barragens brasileiras contempla os centros de pesquisas que foram. prestando. Furnas (DCT e LAHE). localizado junto à hidroelétrica de Ilha Solteira. Dentre os vários estudos realizados em modelo reduzido des tacam-se os ensaios para a hidroelétrica de Itaipu. tornando-se um laboratório de grande importância nacional a partir de 1965. Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) do Rio Grande do Sul. dos projetos e das construções de barragens. serviços a outras empresas do setor elétrico. o Laboratório Hidrotécnico Saturnino de Brito SA (Hidroesb) que teve sua origem no Escritório Saturnino de Brito Filho. 413 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Centros de Pesquisas Tecnológicas Aplicadas a Barragens . dando continuidade aos estudos em modelo reduzido das hidroelétricas da empresa. IPT e LCEC. No sul do país. Dentre eles. Os laboratórios de hidráulica experimental foram surgindo para atender à exigência da ampliação do setor elétrico no Sudeste Brasileiro. complementado pelo Laboratório CESP de Engenharia Civil (LCEC). também. (CEHPAR). Furnas agrupou em Goiânia os seus laboratórios em um moderno centro de pesquisas (DCT) e passou a atender os projetos e construções das barragens de Furnas. O Departamento de Águas e Energia de São Paulo (DAEE) em convênio com a Universidade de São Paulo (USP) implantou um importante laboratório de hidráulica. sendo o responsável pelos estudos em modelo reduzido da Usina de Furnas. hoje denominado Fundação Centro Tecnológico de Hidráulica (FCTH) que. A seguir. teve as suas instalações ampliadas visando a atender o desenvolvimento de ensaios e pesquisas que permitiram subsidiar principalmente os grandes projetos de aproveitamentos hidrelétricos construídos pela Companhia Energética de São Paulo (CESP) bem como várias obras no país. mecânica dos solos e mecânica das rochas. junto à subestação de Jacarepaguá. IPH. O Centro de Estudos e Pesquisas de Hidráulica e Hidrologia (CEPHH). o laboratório. desenvolveram praticamente todos os estudos em modelo reduzido das usinas da CESP. na sua maioria.

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estavam sendo estudadas em modelos reduzidos as obras de Salto Osório e São Simão. realizando trabalhos considerados úteis à sociedade e ainda respeitando os limites do mercado das empresas de engenharia. com mostra a Figura 1. Teve como fundadores o Catedrático da Cadeira de Hidráulica Teórica e Aplicada. com uma liderança inquestionável. em 1961. diretor do Centro por quase trinta anos. em homenagem ao seu fundador que faleceu enquanto Governador do Estado.CEHPAR em julho de 1973. Em 1976 o Centro passou a ser administrado pela Companhia Paranaense de Energia – COPEL. Em todo o processo é indiscutível a importância que teve o professor Nelson Pinto. O Centro passou a ser chamado de Centro de Hidráulica e Hidrologia professor Parigot de Souza . Outra grande personagem foi o professor Sinildo Neidert. As atividades de Hidrologia também começaram logo em seguida e a Divisão de Hidrologia tem uma história de muitas realizações. o Centro de Hidráulica conta com uma história de mais de 50 anos.50 Anos de muito Trabalho André Luiz Tonso Fabiani e José Junji Ota Introdução Em 14 de março de 1959 o Centro de Estudos e Pesquisas de Hidráulica e Hidrologia CEPHH passou a existir legalmente com a aprovação do seu primeiro estatuto. responsável pela implantação do trabalho sério. Desde então. Na época. fruto do convênio Figura 1 – Primeiro modelo em operação no Centro Politécnico da UFPR. professor Pedro Viriato Parigot de Souza. Antes mesmo da inauguração do Centro Politécnico. preciso e eficiente no Laboratório de Hidráulica. com preocupação universitária permanente de seus membros.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens CEHPAR . no CEHPAR. o CEPHH iniciou suas atividades dentro do Campus Universitário. 415 . Cabe a ele o mérito do Laboratório ter conquistado o reconhecimento internacional. que posteriormente foi Presidente da COPEL e Governador do Estado do Paraná e seu assistente professor Isaac Milder grande idealista que mais tarde veio a presidir a SERETE e a MILDER KAISER. Os estudos das usina hidroelétrica Itaipu e Foz do Areia estavam para se iniciar. mas o presente texto enfoca basicamente o caminho percorrido pelo laboratório de Hidráulica.

na consolidação da metodologia para os estudos de fechamento de grandes rios com a construção de ensecadeiras em água corrente. como mostrado na Figura 2. 416 . O convênio garantiu também a existência Figura 3 – Testes em modelo reduzido escala 1:8 do aerador da usina hidroelétrica Foz do Areia. Nos anos setenta o CEHPAR teve um considerável avanço. até aquela data o laboratório vinha mantendo um ritmo acelerado de sucessos. Os estudos sobre aeração de fluxos de altas velocidades para evitar cavitação em descarregadores de cheias se desenvolveram nos anos setenta e oitenta. No Seminário CEHPAR 30 anos. O convênio com a COPEL foi bastante favorável ao Centro pois tornou os salários dos funcionários mais competitivos. De fato. houve quem afirmasse que “o Centro de Hidráulica jamais teve uma fase de baixa” . a Figura 3 apresenta estudos de aeração para Foz do Areia. eliminando o risco da perda dos seus seletos e treinados profissionais para o mercado externo.Séculos XIX. entre a Universidade Federal do Paraná e a empresa de energia.A História das Barragens no Brasil . por exemplo. deu estabilidade ao emprego dos engenheiros e técnicos do laboratório. XX e XXI Figura 2 – Fechamento do Rio Uruguai para a construção da usina hidroelétrica Itá.

Entretanto o Brasil estava em recessão em termos de construção de hidroelétricas desde 1982 (ano do enchimento do reservatório de Itaipu). Mesmo nesse período difícil. reuniu 108 pessoas inscritas e se desenvolveu em grande estilo. São José. da Inglaterra. São João.dos 33 engenheiros que trabalharam na Divisão de Hidráulica. com palestras de professores estrangeiros (Maurice Bouvard da França e Vujica Yevjevich dos Estados Unidos). o laboratório investiu na formação dos seus engenheiros. Castro Alves. professor Carlos Roberto Antunes dos Santos. incentivando a realizar seus cursos pós-graduação. o CEHPAR 417 . CERJ e CEB foram desenvolvidos com muito empenho e eficiência na Divisão de Hidráulica. período negro que se estenderia até a virada do milênio. França e Holanda para o curso de mestrado. Ironicamente. Nesse período o CEHPAR teve a satisfação de ver lançado dois de seus grandes líderes a serviço da Diretoria da COPEL. como Foz do Areia e Segredo. que nem teve uma comemoração formal. 14 de Julho) e estrangeiras. em maio de 2000 o CEHPAR passou a ser administrado pelo LACTEC. tanto para ministrar aulas como para administrar o curso. seguindo a própria orientação do Reitor da época. Estados Unidos. Com a vinda do modelo reduzido de Paute Mazar. O CEHPAR trouxe vários professores.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens de trabalhos de modelos reduzidos das usinas da COPEL que estavam em acelerado processo de projeto e de construção no rio Iguaçu. COPEL. auto-sustentável e sem fins lucrativos que também nasceu da privatização dos laboratórios da COPEL e da Universidade. Ficaram nas chefias os professores Marcos Tozzi (Hidráulica) e Heinz Fill (Hidrologia) até suas aposentadorias em 1999. conhecidos como P&D ANEEL foram essenciais. pois o Governo Estadual estava prestes a privatizar a própria COPEL e o processo começou pelos laboratórios que hoje compõem o LACTEC – Instituto de Tecnologia para o Desenvolvimento. Nos primeiros anos da privatização o período era de muitas dificuldades para o setor de construção de usinas e o CEHPAR teve que buscar outra forma de garantir o caráter de auto-sustentabilidade. uma associação civil. O laboratório e a oficina foram também disponibilizados para se desenvolver pesquisas na área de Hidráulica. Por uma época. A passagem do CEHPAR da COPEL para o LACTEC foi gerenciada pelo engenheiro Ralph Carvalho Groszewicz que soube conduzir a transição com muita habilidade e paciência. respectivamente. O LACTEC é uma OSCIP . os professores Francisco Gomide e Sinildo Neidert que deixaram as chefias das Divisões de Hidrologia e de Hidráulica. o laboratório poderia ter entrado em colapso. Os engenheiros do Laboratório começaram a ser procurados por empresas que ofereciam melhores oportunidades e salários. o laboratório começou a recuperar o seu ânimo. A Universidade teve o seu retorno com o aperfeiçoamento do seu quadro de docentes do Departamento de Hidráulica e Saneamento e dos seus estudantes através de estágios. O Seminário 30 anos do CEHPAR. de direito privado. uma obra importante do Equador. 30 tiveram algum tipo de apoio para a sua formação no seu mestrado ou doutorado. Projetos da ELETRONORTE. Aos poucos o CEHPAR começou a ser procurado para realizar estudos hidráulicos de várias obras brasileiras (Itapebi. A Universidade não pôde assumir o CEHPAR e. O curso de pós-graduação em engenharia hidráulica foi criado em 1986 e patrocinado pelo CEHPAR que colocou seus engenheiros à disposição do curso. O aniversário de 40 anos. Se não fosse a competência dos que os substituíram. Nesse aspecto. foi dos mais difíceis para o Centro. Havia até quem dissesse que os estudantes deveriam pagar para es tagiar no Centro pois sempre foi um invejável treinamento reservado a poucos selecionados entre os bons alunos do curso de engenharia civil. CHESF.Organização da Sociedade Civil de Interesse Público. o aquecimento do mercado trouxe também alguns problemas. que provê seus recursos através da venda de projetos de pesquisa e desenvolvimento e outros serviços tecnológicos. O Centro sempre apoiou a formação de seus engenheiros . realizado nos dias 24 e 25 de novembro de 1989. Brilhou aqui o caráter universitário do CEHPAR que jamais limitou suas atividades aos estudos em modelo reduzido e procurou sempre investir e dar um passo a mais para desenvolver conhecimentos. os projetos de pesquisa e desenvolvimento.

O Professor Nelson Pinto. – UTELFA que apoiou os primeiros passos do CEHPAR.A. Hoje o laboratório está bastante ativo. mostrando. o Centro utiliza essa técnica para reproduzir o aluvião em modelo reduzido. Primeiros estudos do Laboratório de Hidráulica e estudos sobre erosão ao redor de pilares de pontes Segundo o que consta nos anais do Seminário CEHPAR 30 anos. Cambambe da Angola. o primeiro projeto do Laboratório de Hidráulica foi um trabalho singelo. Gibe III da Etiópia. que mostra o fechamento do rio na usina hidroelétrica Itapebi. o de estudar em modelo hidráulico as condições de assoreamento na tomada de água da Termoelétrica de Figueira.A História das Barragens no Brasil . Pedro Viriato Parigot de Souza e Nelson Luiz de Sousa Pinto. uma série de estudos que relatam os passos da Divisão de Hidráulica do CEHPAR. como pode ser visto na Figura 4. Ainda hoje. Lista-se a seguir. XX e XXI passou a ter mais estudos de obras estrangeiras do que brasileiras (Palomino da República Dominicana. Presidente da Central Elétrica de Figueira S.Séculos XIX. Figura 5 – Modelo de Salto Grande do Iguaçu. mas com objetivo bem claro. com seus funcionários trabalhando com bastante otimismo. da esquerda para a direita os professores Sinildo Hermes Neidert. realizou ensaios com fundo móvel utilizando serragem de imbuia peneirada e tratada para Figura 4 – Teste de fechamento na usina hidroelétrica Itapebi. Ituango da Colômbia) até o início dos estudos para a usina hidroelétrica Belo Monte. com representação de aluvião realizar estudos sobre erosão ao redor de pilares de pontes. recém retornado dos EUA. Esta foi uma iniciativa do engenheiro Leão Schulman. o engenheiro Octavio Marcondes Ferraz (na época da usina e depois presidente da Eletrobras) e um técnico do Laboratório 418 .

cujos estudos se desenvolveram no começo dos anos setenta. duas para a ensecadeira de montante e duas para a de jusante. como Estudos hidráulicos de Salto Osório e São Simão A hidroelétrica de Salto Osório é uma grande obra do rio Iguaçu. Um pavilhão de 70 m por 50 m em estrutura metálica foi construído especialmente para abrigar o grande modelo. O custo dessas instalações foi financiado pela COPEL e pago posteriormente pelos trabalhos realizados pelo CEHPAR. 419 . capaz de circular 1000 l/s. com duração de três dias. Estudos hidráulicos para o aproveitamento hidroelétrico de Itaipu Itaipu foi um marco importante para o setor elétrico e foi sem dúvida um ponto alto para o CEHPAR. um grupo de engenheiros e bem intencionados técnicos começaram seus trabalhos em 1972 para a maior obra hidroelétrica do mundo. mas ainda foi usado muito cedro nas partes importantes das estruturas. o CEHPAR enviou o seu engenheiro Sinildo Neidert para aperfeiçoamento na Alemanha. Os ensaios dinâmicos foram feitos de maneira ininterrupta. o sistema de restituição das águas das turbinas Pelton ao túnel de fuga. Nelson Pinto e Sinildo Neidert. da estrutura das comportas até dos detalhes da construção das ensecadeiras. A técnica de construção de modelos de estruturas com acrílico estava sendo consolidada na época. acumulando conhecimentos para que fossem confiados. na seqüência. A contratação do Centro para os estudos para a hidroelétrica de São Simão em 1971 foi um marco que levou o CEHPAR para além dos limites do Estado do Paraná. de Grenoble. Hoje o Centro executa com seções transversais de Duratex. Os estudos em modelo incluíram a descarga de fundo e o vertedouro. uma região de corredeira e cachoeira foi feita de forma muito minuciosa numa época em que não se dispunham de técnicas eletrônicas de levantamento e de registro de imagens. que não só orientou o desenvolvimento geral desse projeto como participou em diversas atividades didáticas promovidas pelo CEHPAR. Havia também uma preocupação com a ponte que tinha seus pilares fixados dentro do canal. Dirigido pelo professor Sinildo Neidert. O relevo do modelo foi feito com fitas de aço niveladas segundo as curvas de nível. Nessa época. a construção das préensecadeiras devia proporcionar uma limpeza automática através da apropriada escolha da seqüência de avanço nas pontas de aterro. A reprodução do leito. Foram importantes os estudos para Salto Grande do Iguaçu (estudos de vórtices na tomada de água) e de Mourão. os estudos de grandes obras do rio Iguaçu. constituiu a primeira experiência concreta de participação no desenvolvimento e otimização de um projeto de grande porte. Testes de fechamento requeriam um controle dinâmico das pontas de aterro com medições de níveis de água e de velocidades do escoamento. Foi instalado um novo sistema de recalque. onde pode-se ver ainda os professores Parigot de Souza. A Figura 5 apresenta uma visita do representante da empresa de Salto Grande do Iguaçu ao modelo. analisando-se a estabilidade do enrocamento a cada deposição de material. Os estudos da hidroelétrica Capivari-Cachoeira marcaram o início das relações do Centro com o engenheiro Maurice Bouvard. O primeiro modelo foi destinado ao estudo do desvio. no início da década de 1960.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A usina de Capivari-Cachoeira. O laboratório fez também estudos sobre vórtice na tomada de água. construída na década de sessenta (1963-1970). O modelo contribuiu com a definição do esquema de desvio que era sofisticado. Como havia uma camada de sedimentos na região. Essas construções podem ser vistas na Figura 6. Um dos modelos foi implantado no interior do pavilhão com estrutura em madeira com grande vão. e a estrutura de dissipação de energia na restituição ao rio Cachoeira. um prédio que merece ser visitado. a chaminé de equilíbrio com câmara de expansão. Para fechamento de rios com considerável profundidade. desde a verificação do grande canal. Foram cinco modelos reduzidos. O fechamento do rio foi feito em avanços simultâneos de quatro pré-ensecadeiras. caracterização do vertedouro e erosão da rocha a jusante do vertedouro com material coesivo.

. 420 .A História das Barragens no Brasil . Vários arranjos foram verificados uma vez que a equipe de projeto se preocu- pava muito com a erosão provocada pela enorme concentração de energia do jato efluente do vertedouro. começou a tornar um consenso uma “regra prática”. que o diâmetro do enrocamento necessário para o fechamento com um desnível é da ordem de 30% a 40% desse valor. A tomada de água e a casa de força foram ensaiadas extensivamente. assunto que foi também explorado no modelo parcial da tomada de água. A capacidade de descarga do vertedouro foi cuidadosamente verificada no modelo geral e confirmada também no modelo parcial construído em escala maior. ou seja. No modelo geral de Itaipu foram desenvolvidos os estudos do vertedouro de encosta com 14 comportas e calhas bem longas de concreto. Foram feitos os testes de verificação das tendências à formação de vórtices e condições de aproximação. a Figura 8 apresenta um dos resultados obtidos nos ensaios. Grandes planilhas bem estruturadas foram utilizadas para gerenciar esses testes de fechamento. Com o intuito de Figura 6 – Construção do pavilhão para o modelo tri-dimensional de Itaipu e a a instalação de recalque. XX e XXI é o caso de Itaipu. que pode ser visto na Figura 7. Para escoamentos com pequenas profundidades essa regra não parece ser válida. com defletores em salto de esqui nas extremida des de jusante.Séculos XIX. Para o arranjo final do vertedou ro foram feitos testes de erosão com leito coesivo envolvendo enorme volume de material.

(Karun no Irã. os cálculos sobre índices incipientes de cavitação indicaram que a configuração da calha do vertedouro de Itaipu é favorável. não necessitando a implantação de aeradores. o laboratório realizou ensaios com distorção da escala das velocidades. a maior área de laje do mundo). compensar possíveis efeitos de escala.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Para o vertedouro. O Centro teve a oportunidade de contribuir com vários ensaios sobre juntas da laje de concreto da barragem. Estudos hidráulicos de Foz do Areia. Entretanto. o Centro conduziu os ensaios para Foz do Areia e Salto Santiago. forçando intensificar no modelo a formação de vórtices aumentando a vazão de teste. Figura 8 – Resultado dos testes de erosão a jusante do vertedouro de Itaipu. por exemplo). Foz do Areia trazia uma novidade que é a barragem de enrocamento com face de concreto (na época. Emborcação e Sabaneta – estudo sobre aeração Figura 7 – Modelo tri-dimensional do AHE Itaipu em operação De forma paralela aos estudos para Itaipu. com a reprodução de três vãos. Influenciado pela cavitação ocorrida em grandes obras da época. a exemplo do adotado em Foz do Areia. 421 . foram feitos testes em um modelo parcial construído na escala 1:50. cogitou-se instalar no vertedouro de Itaipu um sistema de auto-aeração das calhas.

a sobrescavação do túnel e a rugosidade. Em 1991 realizou os primeiros ensaios de vertedouros em degraus para fins de pesquisa utilizando como projeto piloto o vertedouro de Cubatão. estava majorada pela presença da contracurva. mas foi retomado como um estudo mais aprofundado para a tese de doutorado do então chefe da Divisão de Hidráulica. Analisando-se a crista do vertedouro que seguia aproximadamente o padrão US Army Corps of Engineers. do engenheiro Júlio César Olinger que se preocupou em estudar as pressões nos degraus. concluiu-se que as pressões registradas na crista estavam totalmente a favor da segurança. O laboratório teve a oportunidade de estudar os aeradores da calha do vertedouro de Foz do Areia e de medir a vazão correspondente de ar no protótipo. O CEHPAR efetuou uma série de ensaios medindo a vazão de ar no modelo utilizando medidores simples (bocal. O laboratório desenvolveu uma técnica própria para dimensionar a espessura dessas tiras e passou a considerar.A História das Barragens no Brasil . mas estavam prejudicando a sua capacidade de descarga.Séculos XIX. feito para o vertedouro de Emborcação foi também confirmado no protótipo. Os estudos em modelo tornaram possível um dos mais complicados esquemas de fechamento do rio. que faz a ligação da estrutura da crista com a longa calha inclinada. Mas a contracurva. Mas logo concluiu que os efeitos de escala são consideráveis e que não há correspondência entre modelo e protótipo em termos de demanda de ar em testes realizados em modelos construídos nas escalas usuais. o CEHPAR estava realizando testes para instruir o passo seguinte na obra. Xingó foi outra usina que o CEHPAR veio a contribuir decisivamente. quando desejável. estudando a possibilidade de se operar os vertedouros com degraus de grandes dimensões para fins de economia. Este estudo permitiu a caracterização do escoamento conhecido como skimming flow. Esse estudo foi realizado a título de mestrado por um aluno que veio a desistir do curso. Assim. o CEHPAR sugeriu uma redução da carga de projeto da crista. conforme havia mostrado os russos no vertedouro de Nurek e Bratsk. pitot. as cristas tinham como carga de projeto a carga máxima de operação (enchente de 10. O laboratório também teve uma contribuição importante para a definição do aerador do descarregador de cheias no túnel de Sabaneta (República Dominicana). mais um engenheiro do CEHPAR defendeu sua tese de mestrado. engenheiro Marcos Tozzi. de forma a produzir um escoamento mais próximo do esperado para o protótipo. (1982) na revista Water Power & Dam Construction (Aeration at High Velocity Flow). provocava um aumento excessivo das pressões que atingia a linha da crista. hoje muitas obras brasileiras adotam como padrão a carga de projeto igual a 75% da carga máxima de operação. Com estudos feitos posteriormente. O laboratório também se despertou no uso de modelo matemático (elementos finitos e elementos de contorno) para estudos dessa natureza. O estudo sobre vertedouro em degraus culminou em mais uma tese de doutorado. isto é. Estudos sobre vertedouros em degraus Já em 1985 o CEHPAR defrontou com o estudo de barragens de concreto compactadas com rolo (CCR). Até então. orifício. Coincidência ou não. Até no dia do fechamento. Em conjunto com a COPEL. A cavitação e aeração tornaram-se assuntos muito enfocados na época. o perfil seria desenhado mais delgado de forma que a pressão final fosse razoável e garantisse uma boa capacidade de descarga. Estudou-se também uma descarga de fundo instalada em um dos túneis de desvio. venturi) com manômetro dotado de micrômetro. XX e XXI Os desastres devido à cavitação ocorridos na calha do vertedouro de Karun do Irã e nos túneis americanos de Palisades e Yellowtail preocuparam o meio técnico e já se sabia que a solução é a aeração do escoamento. A pressão sobre a crista que deveria ser nula pelo conceito original. A crista do vertedouro foi redimensionada com uma carga de projeto 25% menor que a carga máxima de operação. O laboratório levou o programa adiante e efetuou estudos em modelos parciais de escalas maiores (1:15 a 1:8 – Figura 3) que culminou na publicação do trabalho: Pinto et al. Estudo semelhante. o CEHPAR iniciou seus primeiros testes de aeração no modelo reduzido (escala 1:30) do descarregador de fundo de Foz do Areia. recorrência). Estudos hidráulicos de Segredo e Xingó No estudo do desvio de Segredo os túneis foram reproduzidos por tubos de acrílicos dotados de rugosidades em forma de tiras.000 anos de 422 . pela Universidade de São Paulo. O mesmo pesquisador veio a atuar na pesquisa e desenvolvimento ANEEL para a Eletronorte.

tornou-se um problema para a usina devido ao aprisionamento de peixes nas fossas de erosão e em locas. Realizaram-se testes de abertura e de fechamento da comporta para extrair o atrito do modelo. Esse engenheiro foi fundamental no desenvolvimento de ensaios hidrodinâmicos de movimentação Figura 9 – Estudo da Comporta de Fechamento daTomada de Água de Tucuruí – 2a fase. em geral por efeito de escala mais pronunciados. tendo em vista o cuidado com que as estruturas foram executadas. Destaca-se. de comportas. Neste projeto o grande problema foi o atrito do modelo da comporta. Machadinho e Barra Grande O CEHPAR teve a oportunidade de trabalhar com as obras catarinenses dos rios Canoas. A título de pesquisa de mestrado. o CEHPAR chegou a construir um modelo reduzido de Itá na escala 1:300 para verificar a viabilidade de estudo em modelo em escala mais reduzida visando a economia no estudo. como de praxe. que não apresenta semelhança física e não pode ser transposto ao protótipo. realizando ensaios para várias alternativas de canais para a liberação dos peixes. após o fechamento das comportas do vertedouro. Foram estudados os problemas de desvio. Mas o talento dos engenheiros fez surgir uma nova oportunidade 423 . Nos modelos de Itá e Machadinho foram realizados ensaios de erosão em rocha utilizandose materiais coesivos. da tomada de água e do canal de fuga. A COPEL procurou uma medida definitiva. Depois recebeu o desafio de estudar a comporta do aqueduto da eclusa de Porto Primavera.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Estudos hidráulicos para a hidroelétrica de Salto Caxias O modelo de Caxias foi o que permaneceu mais tempo no CEHPAR. Os ensaios mostraram que água acumulada nas vigas constituía um peso adicional exigindo que aumentasse a capacidade do servomecanismo. O outro projeto que foi um desafio interessante foi o da definição do esforço no servomecanismo de acionamento da comporta da tomada de água de Tucuruí (Figura 9). e a tão esperada redução do custo não ocorreu a contento. O laboratório reativou o modelo e prestou uma contribuição importante à usina. Começou nos anos noventa e só foi demolido em 2010. que veio trabalhando essencialmente com engenheiros civis. com o engº Edie Taniguchi em primeiro plano Pesquisa e desenvolvimento: projetos ANEEL e modelos matemáticos A Divisão de Hidráulica passou por uma fase difícil no período em que no Brasil o ritmo de construção de usinas teve acentuada queda. Pelotas e Uruguai. Campos Novos. que a erosão a jusante do vertedouro. no entanto. perfeitamente aceitável sob o ponto de vista da engenharia. Estudos das hidroelétricas de Itá. Estudos hidrodinâmicos de movimentação de comportas O CEHPAR. que não se limitasse ao resgate manual dos peixes aprisinados. A conclusão foi que modelos muito pequenos não conduzem a bons resultados. Caxias representou o último grande estudo da fase do convênio entre a Universidade e a COPEL que terminou em maio de 2000. do vertedouro. teve a preocupação de contratar um engenheiro eletrônico para dar assistência à instrumentação. O material erodido e depositado a jusante (barra) tornou-se também um obstáculo para a saída dos peixes. O CEHPAR estudou o downpull e catapultamento da comporta da tomada de água de Segredo.

Atualmente o Centro faz um estudo sobre geração de energia alternativa. Depois a COPEL liberou mais dois projetos. sendo necessária a operação sem comportas. Cambambe. Modelos de Paute Mazar. Para o rio Paute havia sido calculada uma vazão decamilenar de 2. Para a LIGHT o laboratório fez estudos sobre escadas de peixes. na escala 1:60 mostrou que essa configuração não é propícia e contribuiu na seleção de uma nova forma aceitável sob o ponto de vista técnico e econômico. O Centro fez também um estudo do escoamento no rio Iguaçu para a usina de Baixo Iguaçu da COPEL. S. CEB e DUKE firmaram parcerias que deram oportunidades de pesquisa ao Centro. XX e XXI para Centro.500 m3/s. vertedouro não convencional em curva e vertedouro de ogiva baixa. Foram os projetos de pesquisa e desenvolvimento da ANEEL. de vertedouro em degraus. Figura 10 – Modelo de Gibe III em operação uma dessas obras estudadas pelo CEHPAR. em modelo reduzido construído na escala 1:70. O modelo CFX deu origem a uma tese de mestrado de um bolsista LACTEC. do U. em cujo topo pretende-se instalar um vertedouro orifício. uma pesquisa aplicada ao rio São Francisco. Sendo o vertedouro construído em um reduzido espaço devido aos íngremes taludes das encostas. Ituango e Gibe III A demanda de energia em vários países fez com que as empresas brasileiras encontrassem um excelente mercado. O modelo reduzido. O Coordenador do CEHPAR no período de 1999 a 2008 tomou uma iniciativa bastante positiva à Divisão de Hidráulica com a aquisição do modelo computacional DELFT 3D.A História das Barragens no Brasil . Paute Mazar no Equador foi 424 . Assim. A CERJ e a CEB foram as empresas que estudaram metodologias para repotenciação de usinas antigas. Trata-se de uma barragem de concreto em arco. CHESF. CERJ. utilizando o HEC-RAS e o DELFT-3D. sobre dissipadores de energia em fenda e pilares defletores e sobre vertedouros labirinto que haviam sido submetidos anteriormente. Um dos engenheiros começou os estudos em modelos matemáticos com o uso do modelo RMA. um software livre bastante útil em projetos. Palomino. Pela primeira vez o CEHPAR realizou um ensaio de purga de sedimentos conhecida como flushing.Séculos XIX. Com a CHESF o Centro executou um interessante trabalho sobre a capacidade natatória de peixes. ELETRONORTE. a COPEL. A passagem dessa vazão tornou-se requisito para o vertedouro. Desde então muitos engenheiros passaram a usar esse modelo. mas em vista de que já havia experimentado um desastre com rompimento de uma barragem natural formada pelos restos de um desmoronamento de encostas.340 m3/s. Foi feita uma pesquisa para a COPEL um estudo sobre sedimentação na baia de Antonina utilizando o DELFT 3D. o projetista foi forçado a sugerir uma configuração não convencional semelhante a um vertedouro lateral. Ao estudar o habitat de peixes no projeto de P&D ANEEL da Chesf o CEHPAR deparou com o modelo RIVER 2D. foi concluído que o rio tem um potencial de gerar uma vazão de 7. De certa forma essa é também uma contribuição importante do CEHPAR ao setor elétrico. O modelo de Palomino (República Dominicana) trouxe um novo desafio. Está programado também implantar um vertedouro de encosta. As duas estruturas são objetos de estudo no CEHPAR. Para a Duke está sendo desenvolvido um equipamento para geração de energia elétrica. Army Corps of Engineers em uma aplicação à sua tese de mestrado e ao projeto de P&D ANEEL com a COPEL. Cambambe é uma obra da Angola que estava inacabada por anos. Principalmente a ELETRONORTE propiciou três estudos. Com a COPEL o Centro desenvolveu um estudo sobre o uso de perfilador acústico ADCP como medidor de transporte de sedimentos e outro estudo sobre assoreamento de reservatório (parte de um projeto maior do CEHPAR). LIGHT.

pressões e erosão provocada pelo jato efluente e a operação da usina. e a medida dessa utilidade é a vontade da sociedade pagar por estes trabalhos”. O laboratório fez questão de oferecer uma solução para realizar testes dinâmicos do sistema de refrigeração. visto que a de Itaipu está localizada na fronteira entre o Brasil e o Paraguai.233 MW. mas a privatização do laboratório tornou o grupo mais forte e fez descobrir que seus integrantes têm potencial para ampliar seus campos de atuação. Observações finais O laboratório de hidráulica do CEHPAR faz questão de lembrar que os sucessos dos estudos em modelos reduzidos não se devem apenas aos engenheiros. O ponto forte do laboratório são ainda os estudos hidráulicos em modelos reduzidos. no Estado do Pará. a ser construída no Rio Xingu. A seleção de bons estagiários é uma contribuição importante para o setor elétrico.5 m de altura. professor Parigot. levando em conta a inclusão iminente da unidade III. Atrás do reconhecimento internacional do Centro de Hidráulica está o apoio imprescindível dos artífices que contribuem a cada dia com excelentes idéias dentro de suas especialidades. a humildade e o compromisso com a verdade têm ajudado em muito o CEHPAR. O termo “pesquisa aplicada útil” sempre foi o foco do CEHPAR. o “CEHPAR faz trabalhos úteis à sociedade. A Figura 11 apresenta o trabalho de construção do modelo principal (sítio Pimental) no pavilhão antes ocupado por 13 outros estudos. são responsáveis pela precisão dos resultados. simulando paradas instantâneas das usinas e levando em conta as condições de maré na região de descarga da água.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens O projeto Gibe III é uma contratação feita diretamente por uma empresa italiana que faz serviços para a obra a ser construída na Etiópia. pois uma boa maioria dos estagiários do CEHPAR escolhe o setor elétrico para desenvolver seus talentos. pedreiros e artífices. o que fará dela a maior capacidade instalada em hidroelétrica inteiramente brasileira. Sua potência instalada será de 11. Segundo palavras do seu fundador. Os estudos se- Figura 11 – construção do modelo reduzido do sítio Pimental do AHE Belo Monte 425 . normalmente considerados modestos em outras áreas de atuação. Modelo reduzido do sistema de refrigeração da usina nuclear de Angra dos Reis A ELETRONUCLEAR procurou o Centro de Hidráulica para realizar os estudos em modelo reduzido do sistema de refrigeração da usina nuclear de Angra dos Reis. Está em estudo o desempenho do vertedouro. Os trabalhos dos serventes. incluindo a sua capacidade de descarga. A seriedade. Construiu-se no laboratório um modelo com 4. Modelo reduzido da hidroelétrica de Belo Monte O CEHPAR está iniciando os estudos para a terceira maior hidroelétrica do mundo. rão feitos em 5 modelos reduzidos e levará um tempo total de 3 anos.

Corumbá Marimbondo Serra Mesa Itumbiara .

além de prever a aplicação em eventuais projetos futuros. O engenheiro Flavio H.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Centro de Tecnologia de Furnas em Goiânia . Os equipamentos foram instalados no acampamento de Marimbondo em 1968. para aquisição de equipamentos para ensaios triaxiais em amostras de solo. Com instruções de apenas tomar ciência antes do arquivamento. A documentação foi enviada para o engenheiro Humberto Pate coordenador do grupo de estudo dos novos projetos de Furnas. com pouca perda de carga. Esses foram os primeiros equipamentos de laboratório de Furnas além dos equipamentos de ensaios correntes em obras. Funil e Nhangapi) laboratórios de campo apenas para os controles de liberação de obra. Os ensaios especiais eram contratados junto a laboratórios de empresas ou a institutos de pesquisa. os aproveitamentos de Porto Colômbia e de Marimbondo.Resumo histórico e atividades de pesquisa Resumo histórico O início dos ensaios especiais O ano de 1968 estava iniciando quando o Departamento de Obras de Furnas. Em Marimbondo outro jovem engenheiro. com maior disponibilidade de execução de ensaios. Lyra concedeu a permissão para a aquisição. Ao longo desse percurso. obter informações necessárias e abundantes para o desenvolvimento dos projetos das hidroelétricas de Marimbondo e de Porto Colômbia cujos estudos preliminares indicavam grandes maciços de terra com extensas fundações em solo. Agenor Bailão Galletti ficou encarregado do laboratório de solos. A referida solicitação foi enviada ao Departamento de Engenharia chefiado por Franklin Fernandes Filho que passou a documentação para a Divisão de Engenharia Civil sob o comando do engenheiro Adolfo Szpilman. Flavio Miguez de Mello 427 . Pate entregou a documentação a um engenheiro recém formado que acabara de integrar o grupo dos novos projetos. Até então Furnas mantinha nas suas barragens que na época estavam em estágios avançados de construção (Estreito. a solicitação percolou sem despertar interesse no sentido do seu atendimento tendo por destino o seu arquivamento. O pedido de aquisição dos equipamentos e o trabalho sobre ensaios triaxiais percolou em sentido contrário ao anterior mas dessa vez atingindo a Diretoria Técnica. recebeu uma solicitação vinda da obra da hidroelétrica de Estreito. depois denominada Luiz Carlos Barreto. chefiado por Geofredo de Moraes. Esse engenheiro preparou um trabalho com considerações teóricas sobre os diversos tipos de ensaios triaxiais e desenvolveu um estudo do aproveitamento da instalação desses aparelhos em laboratório próprio para.

Com a obra tendo sido concluída em 1970.Séculos XIX. tendo sido decidida pela instalação em área anexa à subestação de Furnas. superintendente das obras do rio Grande. O DCT passou a dar crescentes e importantes contribuições técnicas para os projetos e obras. Quanto ao engenheiro recém formado mencionado acima. assumiu a chefia do DCT o engenheiro Rubens Machado Bitencourt. A destacada atuação do engenheiro Pacelli no DCT projetou-o como consultor no País e no exterior. presidente do CBDB e do IBRACON 428 . que incorporasse o engenheiro Walton Pacelli de Andrade para atuar na tecnologia do concreto nas novas obras que se iniciavam. Belo Horizonte e Goiânia. entre outros. não tenha trabalhado com o DCT e aqui relata o início dessa história de sucesso. A usina entrou em operação comercial nos últimos dias de dezembro de 1969. Figura 2 – Ambiente de trabalho no DCT As instalações definitivas Com o término da obra de Itumbiara foi pensada a criação de um centro tecnológico. por capricho do destino. Inicialmente o centro foi comandado pelo engenheiro Ludgero Pimenta de Ávila. De 1970 a 1975 Pacelli melhorou a capacitação do laboratório de concreto com a instalação de prensas de grande capacidade e estudos de propriedades térmicas. Com a aposentadoria dos engenheiros Pacelli e Caproni em dezembro de 2002. Três locais foram considerados: Brasília. cargo que exerce presentemente (agosto de 2011). ele ficou sempre ligado profissionalmente à engenharia de barragens embora. tendo sido presidente do Instituto Brasileiro do Concreto IBRACON. É importante realçar as contribuições dos consultores Roy Carlson e Paulo Monteiro para o DCT e os laboratórios que o antecederam. Figura 1 – Engenheiro Walton Pacelli de Andrade. Flavio H. destaque na tecnologia do concreto e Epaminondas Mello do Amaral Filho. Na fase de Itumbiara houve expansão da capacidade dos laboratórios. expoente na construção de barragens. Nessa época estava começando a obra da hidroelétrica de Serra da Mesa e em seguida Corumbá. XX e XXI Os laboratórios nos seus primeiros anos Em 1969 Furnas acelerava as obras e montagens da hidroelétrica de Funil para que pelo menos uma das três unidades entrasse em operação antes do fim do ano para que os custos de construção já incidissem na tarifa do ano seguinte. Em 1975 os laboratórios de solos e de concreto foram transferidos para Itumbiara onde Furnas passou a implantar sua maior hidroelétrica.A História das Barragens no Brasil . A construção inicial foi concluída em 1985 já abrigando também o laboratório de mecânica de rochas. tendo como assistente o engenheiro Nelson Caproni que acumulava a chefia dos laboratórios de solos e rocha. Lyra recomendou a Rubens Vianna de Andrade. em Goiânia. A partir de dezembro de 1992 o centro foi chefiado já em nível de departamento (Departamento de Apoio e Controle Técnico – DCT) pelo engenheiro Walton Pacelli de Andrade que acumulava a chefia do laboratório de concreto.

incluindo-se acreditações junto ao INMETRO. desenvolvimento e inovação. No início dos anos noventa os processos foram mais bem estruturados dentro de padrões internacionais de gestão da qualidade. esta tecnologia foi intensificada com a aplicação da metodologia do concreto compactado com rolo na construção das ensecadeiras galgáveis da barragem de Serra da Mesa. o DCT implantou e inaugu rou o seu laboratório de mecânica das rochas. USP. também em meados dos anos noventa. O mais bem equipado laboratório do Brasil na área de mecânica das rochas e enrocamento. um laboratório singular. A área de instrumentação e segurança de barragens com a certificação ISO 9001 Sistema de gestão implantado com reconhecimentos obtidos desde o ano de 1994. Em meados dos anos noventa.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Atividades de pesquisa do DCT Furnas constituíu o DCT. UFRGS. Ao longo de sua história. foi implantado e inaugurado o laboratório de concreto compactado com rolo. Alguns exemplos destes avanços são descritos a seguir. unidade criada para atuar no desenvolvimento de serviços tecnológicos e atividades de pesquisa. Diversos estudos para a construção de barragens de enrocamento com face de concreto foram desenvolvidos com o apoio desse laboratório. em operação. implicando em relevantes benefícios de segurança no empreendimento. possibilitando a obtenção da acreditação junto ao Inmetro em 1994 e a sua certificação ISO 9000 no ano de 1996. Extraido de texto redigido pela equipe do DCT No limiar da década de 70. no final da década de 90. UFSC. como a COPPE/UFRJ. dentre outras. tendo como intuito o incremento do 429 . Realização de pesquisas e desenvolvimentos em parceria com as principais universidades e centros de tecnologia do Brasil. PUC-RJ. capaz de executar pistas experimentais de concreto compactado com rolo em laboratório. os laboratórios também participaram de estudos e desenvolvimentos da tecnologia para as usinas hidroelétricas Itaipu e Tucuruí. o DCT sempre procurou identificar e acompanhar os avanços necessários à superação dos desafios que a evolução do setor de energia impunha. único do mundo em funcionamento. Ao final da década de 80. Em paralelo. que possibilita um conjunto de análises aplicadas que vão desde a análise em nível microscópico por análise eletrônica de varredura até a análise de resistência por meio de ensaios triaxiais. O DCT é hoje reconhecido nacionalmente como uma das mais importantes instituições tecnológicas em sua área de atuação. Possui alguns diferenciais. Europa e África. de cisalhamento e de compressão unidirecional em rochas. Posteriormente. como por exemplo: O único equipamento do mundo. além da central nuclear de Angra dos Reis que já se encontrava em curso e que demandava padrões de garantia de qualidade estabelecidos pela Agência Internacional de Energia Atômica. diversos ensaios na área de geotecnia iniciaram o processo de informatização e automação. certificação segundo as normas da série ISO 9000 e premiações pelo Prêmio Nacional da Gestão Pública do Governo Federal. UnB. direcionadas aos novos empreendimentos com foco nas aplicações de engenharia civil e correlatas. A partir dos anos 90 consolidou-se com a participação em mais de 200 empreendimentos hidrelétricos no seu acervo de serviços prestados em países da América. UFG.

água e asfalto. sinalizando no momento atual desenvolvimentos ainda maiores. conduz estudos e pesquisas de materiais para subsídios ao projeto. outra área que ganhou impulso foi a de instrumentação e auscultação de barragens e estruturas anexas. cimento. à redução de custos. os projetos de P&D desenvolvidos possibilitaram o exercício de um importante papel na construção da usina hidroelétrica Foz do Chapecó. A atuação da equipe do controle tecnológico durante a construção. juntamente com o setor de análises de materiais. custos e confiabilidade dos resultados e análises realizados. ampliando a busca de agregação de valor por este centro de tecnologia. Uma intensa atividade de pesquisa e desenvolvimento foi desenvolvida aproveitando os estímulos trazidos pela lei 9. pela dinâmica que é a escolha e emprego dos materiais. O aprimoramento de tecnologias existentes e o desenvolvimento de outras novas tecnologias se seguiram desde então. aditivos. O adequado emprego dos materiais disponíveis nos locais onde os grandes empreendimentos deverão ser construídos leva à otimização de estruturas. anterior ao empreendimento. O terceiro pilar. Análises microscópicas e mineralógicas. que em casos de barragens estima-se da ordem de 100 anos. Dando continuidade a conhecimentos técnicos pré–existentes na análise da microestrutura dos materiais. o DCT desenvolve um conjunto de estudos e pesquisas avançadas.Séculos XIX. Estes estudos possibilitam os seguintes diferenciais competitivos: 430 . Visando aprimorar o conhecimento dos materiais e dos métodos construtivos a serem implementados nos diversos empreendi mentos da empresa.991 e outras que se seguiram. Análises químicas para caracterização dos materiais de construção. por toda sua vida útil. XX e XXI desempenho em prazos. buscando o domínio e aplicação de técnicas em tecnologia dos materiais em nano e microtecnologia. Do ponto de vista tecnológico. incluindo reatividade potencial. o desenvolvimento de pesquisas na área de durabilidade de estruturas. Análises que chegam próximo ao nível nano possibilitaram o desenvolvimento de competências únicas no Brasil nesta área. prazo e qualidade global das estruturas. quando obteve a extensão do escopo certificado segundo a ISO 9000 para essa atividade. a utilização de métodos e técnicas construtivos adequados e a qualidade e uso dos materiais empregados. Dentro desta área de competência encontram-se estruturadas as seguintes linhas de trabalho: Ensaios físicos de caracterização de rochas. o DCT intensificou. A junção destes três pilares. fica sob a responsabilidade da equipe do controle tecnológico. A proficiência e a competência nesta nova linha de trabalho foi reconhecida em 2004. permite a obtenção de um empreendimento “saudável”. areias. empreendimento que utilizou a solução do núcleo asfáltico pela primeira vez no País. adequadamente gerenciados. à redução de impactos ambi entais e a estruturas mais seguras e mais duráveis. O desenvolvimento de um projeto de P&D desta tecnologia. Três pilares sustentam bons empreendimentos no que tange à sua qualidade: um bom projeto. prevenção e correção de reações álcalis-agregado e também na área de sulfetos. O primeiro está basicamente sob a responsabilidade da projetista e o segundo basicamente sob a responsabilidade da construtora. à construção e à otimização do custo final do empreendimento.A História das Barragens no Brasil . possibilitou o exercício do papel de controle e apoio tecnológico à execução dessa solução de engenharia. na segunda metade dos anos noventa. além de avaliar a qualidade especificada dos materiais utilizados nas obras civis. com destaque para técnicas de diagnóstico. que desempenhará suas funções com o mínimo de intervenções externas pela equipe de ma nutenção. No final dos anos noventa e no início da década seguinte. O DCT possui equipe qualificada e infraestrutura adequada para o desenvolvimento deste processo. O co nhecimento das características técnicas dos materiais do local do empreendimento permite subsidiar análises de custo. para as obras civis.

Desenvolvimento de Novas Soluções de Engenharia. a base para o sucesso de qualquer organização. Uma das áreas de competência decorrente desta atividade é a de confiabilidade metrológica. o seu conhecimento e a sua cultura. dos empreendimentos em construção e à sociedade. Tecnologia do Ambiente Construído. Capacitação e treinamento voltados aos empreendimentos e às atividades de tecnologia. Vista aérea do DCT 431 . Estudos e pesquisas do ambiente construído voltado às instalações de FURNAS. Os principais produtos entregues. são os seguintes: Estudos e pesquisas avançadas como subsídios às otimizações de projeto e de custos dos empreendimentos. é o capital humano. em especial na área de serviços. Assessoria em tecnologias de gestão. por intermédio da qual se busca a garantia e a precisão de todos os processos de medição técnica voltados aos empreendimentos. Confiabilidade metrológica e calibração de instrumentos de medição. como elementos agregadores de valor aos serviços prestados. em consonância com as equipes técnicas em todas as áreas de atuação do DCT é implementado e desenvolvido um conjunto de atividades que visam à identificação de necessidades e demandas de co nhecimento e capacitação.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Dentro desta área de competência encontra-se estruturadas as seguintes sub-áreas: Ensaios Especiais. Baseado na premissa de que nos tempos atuais. no âmbito desta área de competência. Essa área de competência tem os seguintes produtos principais: Padrões de trabalho adequados e atualizados.

Sangradouro do açude de Orós. Ensaio em modelo reduzido e o protótipo em operação .

foi a mais importante instituição privada de hidráulica experimental no Brasil. no centro da cidade do Rio de Janeiro. 433 . 1977).CINQUENTA ANOS DO COMITÊ BRASILEIRO DE BARRAGENS O Laboratório de Hidráulica HIDROESB – Saturnino de Brito SA Luiz Felipe Pierre O HIDROESB – Saturnino de Brito SA . Formado em 1º lugar na turma de 1923 da Escola de Minas de Ouro Preto foi professor catedrático da cadeira de Higiene e Saneamento da Escola Politécnica da Universidade do Brasil e teve onze livros publicados. no sub-solo do prédio ocupado pelo Escritório Saturnino de Brito. embrião do que viria a se transformar no Hidroesb. Sua origem remonta ao Escritório Saturnino de Brito fundado por Francisco Rodrigues Saturnino de Brito (Campos dos Goytacazes. Inglaterra e Estados Unidos. na zona sul da cidade do Rio de Janeiro. o laboratório de hidráulica. desde o final do século XIX. Em 1959. responsável. Na década de 50 a empresa foi pioneira na realização das primeiras medições de descarga sólida em rios brasileiros e foi responsável por projetos de destaque como a tomada d’água do rio Guandu. Em 1946. pelo projeto de saneamento básico de várias cidades brasileiras. se transferiu para uma grande área no bairro do Andaraí. onde havia espaço suficiente para expandir suas atividades. Presidiu o Clube de Engenharia do Rio de Janeiro e foi membro de várias outras associações como ASCE (American Society of Civil Engineers) e AWWA (American Water Works Association). Ceará. no estado da Bahia. 1921 . o primeiro laboratório de hidráulica do país. decidiu criar. 1929) considerado o “Patrono da Engenharia Sanitária Brasileira”. A partir do final da década de 40 a empresa desenvolveu diversos estudos hidrológicos e hidráulicos aplicando técnicas inovadoras no Brasil para a época como foi o caso da utilização do método do hidrograma unitário nos estudos hidrológicos do rio Joanes. 2009).Rio de Janeiro. então recém formado. Seu fundador desenvolveu técnicas de projetos de saneamento que vieram a ser adotadas em países como França. no Rio de Janeiro. 1864 – Pelotas. 1899 – Rio de Janeiro. já então sob a supervisão direta de Theophilo Benedicto Ottoni Neto (Porangaba. Há indicações de que o Escritório Saturnino de Brito foi a primeira empresa constituída no Brasil com a finalidade específica de atuação na engenharia consultiva tendo sido responsável. Desenvolveu ao longo da vida intensa atividade em associações de engenheiros tendo sido fundador da FEBRAE (Federação Brasileira de Associações de Engenheiros) e da UPADI (Associação Panamericana de Associações de Engenheiros). o Escritório passou a ser dirigido por Francisco Saturnino de Brito Filho (Campos dos Goytacazes. ainda ligado ao Escritório Saturnino de Brito. pela captação de parcela significativa da água potável consumida na cidade do Rio de Janeiro e pelo projeto do sistema hidráulico de renovação das águas da lagoa Rodrigo de Freitas. com o aumento no volume de serviços. com o apoio de seu assistente Theophilo Benedicto Ottoni Neto. Após a morte de seu fundador. Saturnino de Brito Filho. até hoje.

para a CSN. porém. Ottoni Netto sobre o modelo reduzido do vertedouro de Orós 434 . Nas décadas de 60 e 70 desenvolveu estudos hidráulicos em modelo reduzido de vários dos mais importantes aproveitamentos hidroelé tricos projetados na época dentre os quais Estreito.Hidroesb. ouvindo a explicação do professor Theophilo B. no rio Piracicaba. Seu maior destaque. todos no rio Grande. empresa independente do Escritório Saturnino de Brito. no rio Doce.Juarez Távora. no rio Paraíba do Sul. no rastro dos grandes projetos que o País desenvolveu na época. No ano de 1962 desenvolveu os estudos hidráulicos em modelo reduzido e os projetos hidráulico e estrutural para reconstrução do sangradouro do açude de Orós.A História das Barragens no Brasil . Boa Esperança. também. hidrometria e sedimentometria bem como a estudos e projetos hidráulicos. no Rio de Janeiro. Grandes Vertedouros Brasileiros pág. ministro de viação e obra públicas. Volta Grande.293 a 300. Jaguara. em Ipatinga. no canal de São Francisco. CBDB . páginas 68 a 70. Na década de 60 o Hidroesb realizou projetos e estudos hidráulicos em modelo reduzido de tomadas d’água para fins industriais para as instalações da USIMINAS. se deu no campo da hidráulica experimental. em Volta Redonda e para a usina termoelétrica de Santa Cruz. no Ceará. O Hidroesb construiu.Séculos XIX. XX e XXI Em 1965 foi criado o Laboratório Hidrotécnico Saturnino de Brito SA . A nova empresa se dedicou a estudos de campo nas áreas de topografia. que havia sido destruído por uma cheia ocorrida em 1960 (ver ICOLD – “Lessons from Dam Incidents” – 1974.Main Brazilian Dams II pág.123 a 128). Porto Colômbia e Ma rimbondo. no rio Uatumã. Mascarenhas. no rio Jaguaribe. no rio Parnaíba e Balbina. modelos para estudos especiais como as eclusas do AHE Tucuruí e do AHE Boa Esperança Figura 1 .

Empreendimentos Hidráulicos. Perenização e Regularização Fluvial. Como docente. Pelo pioneirismo de sua atuação o Hidroesb deu importante contribuição ao desenvolvimento da engenharia hidráulica no país. Seu principal executivo. PUC. chefe do Departamento de Hidráulica e Saneamento do Curso de Engenharia Civil da UFRJ. Hidrologia Geral. Ecologia Aplicada e Engenharia Sanitária. em temas de Hidráulica. do Conselho Diretor da Fundação de Ensino Especializado de Saúde Pública e coordenador da Sub-Comissão da Associação Brasileira de Normas Técnicas para Projeto de Construção de Órgãos Auxiliares de Barragens. Hidrologia. Engenharia Costeira. do Conselho de Pesquisas e Ensino para Graduação da UFRJ. Fluviometria. desempenharam importante papel na evolução da engenharia hidráulica e na formação de novos profissionais na área. Em 1978 a empresa teve sua razão social alterada para Hidroesb – Saturnino de Brito SA. Saneamento Ambiental. Saneamento. UnB e em instituições oficiais. UFF.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 2 . Aproveitamentos Hidroelétricos. atuou profissionalmente na área da Educação Superior e na prestação de ser viços de Engenharia Consultiva. Abastecimento d’Água de Cidades e Impactos Ambientais. Hidrotécnica. como Escola Técnica do Exército (Ministério da Guerra). Controle de Enchentes e de Secas. membro do Conselho de Curadores da UFRJ. em universidades como UFRJ. Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz e SUDENE. professor Theophilo Ottoni. Foi professor titular e emérito da UFRJ. com a sua experiência prática de engenharia e acadêmica de professor pesquisador.Professor Theophilo Benedicto Ottoni Netto tendo à sua esquerda os engenheiros Lúcio Washington e Olívio Kalckman e a tomada d’água do AHE Fur nas visando avaliar a possibilidade de redução da cota do seu nível mínimo operativo. Recursos Hídricos. O Hidroesb e o professor Theophilo Benedicto Ottoni Netto. envolvendo Hidráulica. 435 . Planejamento Integrado dos Recursos Hídricos. ministrou aulas em cursos de graduação e pósgraduação. vice-presidente da Associação de Antigos Alunos da Politécnica.

436 .

realizando atividades de ensino. incluindo o Laboratório de Ensino. planejado pelo engenheiro Pierre Engeldinger do Laboratoire National d’Hydráulique de Chatou . A conjuntura histórica da época ajudou nesse objetivo. em função de uma idéia circulante na Escola de Engenharia e na Secretaria de Obras Públicas do Estado do Rio Grande do Sul. em função de um oficio do professor Adolfo Laranjeira Mariante solicitando a criação de um centro destinado às questões hidráulicas. também em 1953. seus anseios tiveram eco no reitorado do Professor Elyseu Paglioli. Barragem Bom Retiro do Sul (Figura 5). Barragem do Arroio Duro para o DNOS (Figura 4). estudos e treinamento que atuasse nos 437 . irrigação. a localização da nova Cidade Universitária junto à área destinada à implantação do IPH. de extensão e de prestação de serviços em hidráulica. Em seguida outros estudos foram realizados em modelo reduzido.IPH Marcelo Giulian Marques. fluviais. tais como: Travessia do Delta do Jacuí para o DAER (Figura 3). todos os prédios do projeto original (Figura 1) estavam concluídos e operando.França. A sua criação tomou corpo em 1953. navegação. de pesquisa. pois a universidade aprovou. Vários docentes de então atuavam simultaneamente na referida secretaria e na universidade. entre outros). Desta forma. de que havia necessidade do domínio da técnica dos modelos reduzidos. O primeiro prédio do IPH foi o Pavilhão Marítimo. termina do em 1955 e inaugurado oficialmente em 1957 pelo Presidente Juscelino Kubitschek. que começou em 1956 para o DEPRC (Figura 2) com a ajuda de pesquisadores franceses. hidroelétricas e assemelhados na região sul do Brasil e da América Latina. que designou uma comissão para criação deste novo instituto em 7 de agosto de 1953. O primeiro trabalho realizado foi sobre o estudo da desembocadura do Rio Tramandaí. Figura 1 – Vista geral do Instituto de Pesquisa Hidráulicas da UFRGS (1962) Um breve histórico O Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) é o instituto das águas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). abastecimento de água. recursos hídricos e meio-ambiente atuando ativamente em diferentes setores (elétrico brasileiro. na então Universidade do Rio Grande do Sul. Em 1962. Luiz Augusto Magalhães Endres e André Luiz Lopes Silveira setores das obras marítimas. entre outros.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens O Instituto de Pesquisas Hidráulicas . assim como de um laboratório de hidráulica para ensino.

estudo da proteção com enrocamento – DAER Figura 2 .Vista do modelo da travessia do Jacuí (DAER) .Desembocadura do rio Tramandaí RS – DEPREC Figura 5 .escoamento com comporta de fundo e lâmina vertente. XX e XXI Figura 3 .Barragem Bom Retiro do Sul (DEPREC) .Barragem do Arroio Duro (extinto DNOS) – estudo do vertedouro 438 .Séculos XIX. Figura 4 .A História das Barragens no Brasil .

e está em fase de implantação o curso de engenharia hídrica. foi implantado o curso de engenharia ambiental. Em função da visão de tratar de maneira mais ampla os recursos hídricos. ainda hoje. Barragem Laranjeira . único na América Latina. até o presente momento. Desta forma. Esse convênio com a UNESCO.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Os anos 60 consolidam o IPH como referência nacional e sulamericana para estudos hidráulicos.Barragem eclusa do canal São Gonçalo Lagoa dos Patos e Lagoa Mirim . além de dar novo impulso e amplitude às pesquisas. O IPH.escoamento no vertedouro As pesquisas O IPH como instituto de pesquisa sempre teve a visão: “O uso da água com sustentabilidade.RS * Departamento Estadual de Portos. usina hidroelétrica Itaúba .Rio Jacuí –RS (Figura 8). usina hidroelétrica Passo Real .Barragem do Arroio Mãe D’água . Destes.Rio Jacuí – RS (Figura 9). entre outros.Barragem do Arroio Ribeiro -RS * Instituto de Pesquisa Hidráulicas (IPH) . com apoio de pesquisadores estrangeiros.Barragem do Anel de Dom Marco Rio Jacuí . abastecimento de água. o IPH também se tornou um pólo de capacitação e pesquisa em hidrologia no âmbito do Decênio Hidrológico Internacional 1965-1975.rio Santa Cruz. e a meta: “A capacitação de indivíduos e de instituições aptas a lidar com os problemas que envolvem o uso da água”. em 1969. com o apoio da UNESCO.AHSUL . Em 2006.RS * Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE) – Barragem do Anel de Dom Marco – Rio Jacuí (Figura 6). de recursos hídricos e de meio-ambiente.usina hidroelétrica Machadinho (1º arranjo de obra) – Rio Pelotas –RS (Figura 10) * Garcia de Garcia . foi criado o curso de pós-graduação do IPH e o Curso Técnico em Hidrologia. sobretudo franceses. usina hidroelétrica Salto Grande – Rio Santa Cruz .Rio Jacuí –RS. usina hidroelétrica Passo Fundo – rios Passo Fundo e Erechim . atuando no ensino (técnico. 439 .ex-Usina Hidroelétrica do Jacuí . juntamente com a reforma universitária de 1970 marca uma segunda fase do IPH. tem um acervo de centenas de trabalhos de prestação de serviços à comunidade nas áreas de hidráulica.RS * ELETROSUL .Rio Taquari .RS. Rios e Canais (DEPRC) Barragem de Bom Retiro do Sul . Cerca de um terço destes trabalhos são referentes ao setor elétrico brasileiro e as obras hidráulicas ligadas a barragens. pr eser vação e conser vação” . que passa a ser um instituto de pesquisas também em recursos hídricos e saneamento ambiental. completando efetivamente todos os níveis de ensino e diplomação.Barragem do Anel de Dom Marco (CEEE) . navegação. usina hidroelétrica Leonel de Moura Brizola . atuando ativamente em diferentes setores: hidrelétrico.RS (Figura 5) * Departamento Nacional de Obras de Saneamento (DNOS) Barragem do Arroio Duro –RS (Figura 4) * Departamento Nacional de Portos e Vias Navegáveis (DNPVN) . Em 1989 o doutorado foi implantado no seu programa de pós-graduação. modelos reduzidos de obras hidráulicas.RS Figura 6 .Rio Jacuí –RS. usina hidroelétrica Dona Francisca 1º arranjo de obra (Figura 7) . 15 foram estudos em modelo reduzido de barragens. irrigação. podendo-se citar: * Administração das Hidrovias do Sul . graduação e pósgraduação) e apoiado por ampla atividade em pesquisa e extensão.

XX e XXI Figura 7 – Usina hidroelétrica Dona Francisca (CEEE) 1º arranjo escoamento no vertedouro Figura 8 – Usina hidroelétrica Itaúba (CEEE) – erosão a jusante do salto de esqui 440 .Séculos XIX.A História das Barragens no Brasil .

Para isso reuniu e busca atualizar o seu conhecimento para: * Avaliar as disponibilidades desses recursos. da forma mais eficiente possível. necessárias para uma abordagem integrada dos problemas que envolvem os recursos hídricos ligados à quantificação. ao armazenamento e ao controle das águas fluviais. 441 . * Preservar a sua qualidade e * Promover a gestão integrada dos mesmos.apresentação do modelo pela equipe do IPH durante vista técnica Isto levou o IPH a desenvolver uma ampla gama de especialidades nas ciências da água. à qualidade.ex-Jacuí (CEEE) . influenciando diretamente os projetos e a operação das barragens e do setor elétrico. * Projetar obras e sistemas para aproveitá-los.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 10 – Usina hidroelétrica Machadinho (ELETROSUL) – escoamento pelo vertedouro. Figura 9 – Modelo da usina hidroelétrica Leonel de Moura Brizola .

o IPH (http://www. * Vibração em Estrutura Hidráulica em Cilindro e em Comporta.Mecanismo de Transposição para Peixes (MTPs). aprimorando os conhecimentos sobre fenômenos hidráulicos.lume.iph.Séculos XIX. obras hidráulicas. seguras e de menor custo para o dimensionamento de obras hidráulicas. verificar e comparar os critérios de dimensionamento existentes na literatura. Vertedouro em Degraus e Salto esqui a Jusante de comportas. * desenvolver ferramentas e metodologias de previsão de esforços hidrodinâmicos provocados pelo escoamento. * Transientes Hidráulicos em Usinas Hidroelétricas e em Eclusa. a fim de gerar soluções técnicas que sejam eficientes. As pesquisas têm sido desenvolvidas dentro das seguintes Linhas Mestras: * Esforços Hidrodinâmicos: em Dissipadores de Energia Hidráulica e a Jusante de comportas. com cerca de 150 publicações anuais entre periódicos e anais de eventos.ufrgs. Esses projetos de P&Ds visam: * compreender os processos físicos envolvidos nos fenômenos hidráulicos.ufrgs. foram desenvolvidas nove teses e mais de dezesseis dissertações. o IPH vem desenvolvendo projetos através do seu Laboratório de Obras Hidráulicas (LOH). planos nacionais e estaduais de recursos hídricos e de meio-ambiente.A História das Barragens no Brasil . * desenvolver linhas de pesquisa na área de eficiência energética e hidráulica. Na área de pesquisa e desenvolvimento (P&D) relacionados a empreendimentos no setor elétrico. Entre os trabalhos dos últimos 10 anos referentes diretamente ao setor elétrico brasileiro e as obras hidráulicas ligadas às barragens. Há participação efetiva dos professores e alunos nos principais eventos na cionais e internacionais no domínio das águas. assim como nos principais fóruns de discussões sobre hidráulica. 442 . XX e XXI Hoje.br/handle/10183/2). O acervo de dissertações de mestrado e teses de doutorado do curso de pós-graduação do IPH é resumidamente de cerca: 110 teses de doutorado e 315 dissertações (http://www. * desenvolver. * Eco Hidráulica .br/apresentacao/) conta com diferentes laboratórios e núcleos de pesquisa que trabalham de forma integrada nas diferentes áreas dos recursos hídricos: * Laboratório da Estação Recuperadora da Qualidade da Água da UFRGS (ERQA) * Laboratório de Clima e Recursos Hídricos * Laboratório de Eficiência Energética e Hidráulica (LENHS) * Laboratório de Engenharia de Água e Solo * Laboratório de Ensino de Hidráulica * Laboratório de Hidráulica Marítima (LAHIMA) * Laboratório de Hidrometria * Laboratório de Instrumentação e Canal de Velocidade * Laboratório de Limnologia * Laboratório de Obras Hidráulicas (LOH) * Laboratório de Processos Erosivos e Deposicionais * Laboratório de Saneamento * Laboratório de Sedimentos * Núcleo de Águas Urbanas * Núcleo de Estudos em Correntes de Densidade (NECOD) * Núcleo de Estudos em Transição e Turbulência (NETT) * Núcleo de Planejamento e Gestão de Recursos Hídricos Aproximadamente 35 pesquisas desenvolvem-se regularmente nesses laboratórios e núcleos.

aplicados a barragens no setor elétrico estão listados acima.Análise de vibrações induzidas pelo escoamento sobre uma comporta 443 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Titulo do P&Ds Análise da macro turbulência em dissipadores por ressalto hidráulico (Figura 11) Análise das características macro turbulentas ao longo da calha de um vertedouro em degrau e no ressalto hidráulico formado a jusante.em desenvolvimento (Figura 15) Características de escoamentos sobre vertedouros em degraus Determinação das características geométricas da soleira terminal em bacias de dissipação a jusante de vertedouro em degraus . (Figura 12) Análise do comportamento hidráulico dos sistemas de enchimento e esgotamento de eclusas de navegação (Figura 13) Análise do escoamento em mecanismo de transposição para peixes – MTPs (Figura 14) Análise dos processos físicos envolvidos na formação de fossas de erosão em leito Coesivo a jusante de salto de esqui . PUC/Rio e UFMG UFSM (colaborador) LAHE/FURNAS LAHE/FURNAS e IME LAHE/FURNAS e IME Os P&Ds desenvolvidos ou em desenvolvimento nos últimos 10 anos pelo LOH. Figura 11 .em desenvolvimento Estudo dos processos geomecânicos provocados por esforços hidrodinâmicos em fossas de erosão a jusante de saltos de esqui .em desenvolvimento (Figura 16) Padrões de vibração em estruturas hidráulicas por ação de escoamentos (Figura 17) Transientes hidráulicos em circuitos de usinas hidroelétricas Utilização de modelos numérico e experimental para dimensionamento e otimização de bacias de dissipação Parceiros LAHE/FURNAS INA e IST (colaboradores) DFESA IST (colaborador) LAHE/FURNAS e UFMG URI e UNISINOS (colaboradores) CPH/UFMG IST (colaborador) LAHE/FURNAS UFSM (colaborador) LAHE/FURNAS IST (colaborador) DFESA IST (colaborador) LAHE/FURNAS.

XX e XXI Figura 12 – Análise da macro turbulência em dissipadores por ressalto hidráulico Figura 13 – Análise das características macro turbulentas ao longo da calha de um vertedouro em degrau e no ressalto hidráulico formado a jusante.A História das Barragens no Brasil .Séculos XIX. Figura 14 – Análise do escoamento a jusante de uma comporta tipo segmento invertida de uma eclusa 444 .

o IPH construiu uma história voltada às águas buscando a quantificação. o armazenamento.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 16 – Análise das pressões dinâmicas a jusante de um salto esqui Figura 17 . 445 . o controle e a gestão deste recurso de maneira a tornar os empreendimentos sustentáveis.Análise das pressões dinâmicas em um jato direcionado Figura 15 – Análise do escoamento em mecanismo de transposição para peixes – MTPs Em resumo. a qualidade.

446 .

dando origem à CESP – Companhia Energética de São Paulo. além da consultoria técnica na formulação e a adaptação dos projetos durante a construção. Paraíba. rochas e agregados para concreto. sem dúvida. no controle de execução dos maciços de terra e das estruturas de concreto e no monitoramento das obras. o primeiro laboratório de solos a se dedicar ao apoio tecnológico das barragens no Brasil. tanto pelo seu envolvimento direto em muitas obras. realizou. CELUSA – Centrais Elétricas de Urubupungá SA. após estagiar no IPT. Pichler iniciou a prática de estudos geológicos para projeto e construção de barragens baseados em sondagens rotativas adaptadas aos fins de engenharia civil. as barragens de Poço Preto e Piraçununga. Ronaldo Rocha e Antonio Marrano Pela sua característica de instituto pioneiro no Brasil na tecnologia da engenharia civil. dando as primeiras contribuições ao avanço da área de hidrogeologia no País. Em 1953. que já em 1947 havia publicado um conjunto de conferências intitulado “Elementos básicos de Geologia Aplicada”. No ano seguinte. o IPT teve atuação relevante no desenvolvimento das barragens no país. na determinação das propriedades de comportamento de solos.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens O Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo .S.IPT Carlos de Sousa Pinto. realizado em Ilha Solteira em 1969. USELPA – Usinas Elétricas do Paranapanema e de outras que foram unidas. Ainda no final da década de 1940. na caracterização das jazidas naturais. em 1938. o engenheiro Mario Brandi Pereira. No início da década de 1940. em Campina Grande. Ensaio de cisalhamento de grandes dimensões do maciço rochoso num bloco de rocha de 6 m x 6 m de seção por 4 m de altura. o primeiro ensaio de perda d’água sob pressão em furo de sondagem. no rio Paranapanema. Mas a atuação mais marcante do IPT nas obras de barragens passou a ocorrer a partir da década de 1950. pioneiro da geologia aplicada às obras hidráulicas.N. na barragem de Barra Bonita (rio Tietê). professor da Escola Politécnica do Rio de Janeiro. O maior ensaio in situ de resistência ao cisalhamento feito no mundo 447 . geologia de engenharia. concreto e estruturas. Nos levantamentos geológicos dos locais das obras.O. A participação do IPT se desenvolveu nas áreas de geotecnia. Geotecnia e geologia de engenharia Um exemplo do papel difusor de conhecimentos do IPT se fez notar logo após a fundação de sua Seção de Solos.C. fundou o laboratório da I. destacou-se a atividade do engenheiro Ernesto Pichler. na cons trução da Usina de Salto Grande. este. .Inspetoria Nacional de Obras Contra a Seca. o IPT estudou fundações e solos de empréstimo para duas pequenas barragens de terra. Esta atuação se realizou no reconhecimento geológico dos locais. com a construção de usinas hidroelétricas construídas no estado de São Paulo pelas empresas CHERP – Centrais Elétricas do Rio Pardo. como pelo seu papel de difusor de conhecimentos técnicos.

enquanto que no laboratório de mecânica das rochas toda a equipe era do IPT. com algumas alterações propostas pelo engenheiro Pacheco Silva e aceitas pelo fabricante. por exemplo. Os laboratórios foram muito bem equipados. tendo se notabilizado pela determinação das tensões in situ e realização de ensaios de deformação de maciços rochosos nas escavações da casa de força da usina de Paulo Afonso. diversas pesquisas foram realizadas durante a obra. No laboratório de solos de Ilha Solteira. pelo efeito de descargas elétricas nas proximidades das barragens. em virtude da deformação lenta. Estes estudos foram fundamentais para a definição das cotas de fundação dos diversos setores da obra. sob a liderança do engenheiro Murilo Ruiz. o que caracterizava o maior ensaio in situ de resistência ao cisalhamento feito no mundo. com desenvolvimento de pressões neutras baixas quando devidamente compactados. Pacheco dedicou-se ao desenvolvimento de outra. equipamentos de cisalhamento direto e de adensamento. Em reconhecimento à relevante contribuição. o seu nome foi atribuído ao aeroporto de Jupiá. Observou que as pressões neutras decresciam inicialmente durante o alteamento do aterro. o engenheiro Pacheco Silva instalou piezômetros de sua própria idealização.A História das Barragens no Brasil .Séculos XIX. Euclides da Cunha (1956 a 1960) e Graminha (1959 a 1966). Ibitinga (1964 a 1969). introduzindo no Brasil esta técnica. Frustrado com a perda de algumas destas células. A atuação do IPT nas barragens do rio Tietê. em plena atividade no campo. dentre as investigações realizadas pela equipe do IPT. inclusive um ensaio de grandes dimensões. passaram a prestar assistência tecnológica a outras barragens e. Nas barragens do Rio Pardo. obtendo o desenvolvimento das pressões neutras durante o alteamento do aterro e o enchimento do reservatório. No campo da mecânica das rochas. num bloco de rocha de 6 m x 6 m de seção por 4 m de altura (Figura 1). com equipamentos da mais alta qualidade. um manômetro lendo diretamente a pressão neutra no maciço e o outro acionado por ação pneumática a partir da superfície fazendo a leitura do primeiro. O engenheiro Pacheco Silva analisou este comportamento. atualmente. Notável foi o conjunto de ensaios de cisalhamento do maciço rochoso. por ele batizada de “célula DM”. o IPT coordenou todo o controle de compactação dos maciços. Cinco piezômetros deste tipo foram instalados na barragem de Ilha Solteira Nas barragens de Jupiá (1961 a 1969) e de Ilha Solteira (1966 a 1973) o IPT especificou e colaborou na instalação dos laboratórios de solos e de mecânica das rochas instalados pela CESP. importados da Suíça. o engenheiro Hamilton de Oliveira fez uma adaptação para solos brasileiros do método de Hilf de controle de compactação. a influência das condições de compactação nas propriedades geotécnicas do solo compactado e a comparação entre as características apresentadas pelos corpos de prova compactados em laboratório com as dos corpos de prova moldados a partir de blocos indeformados extraídos do maciço. fazendo levantamento geológico no local da barragem de Jupiá. principalmente o de Ilha Solteira. o que serviu de orientação para o projeto de barragens posteriores. para só passarem a aumentar após ser atingido um certo nível de carregamento. Nesta ocasião. Seus resultados tiveram repercussão internacional. Além da determinação das propriedades mecânicas dos solos usados na barragem. esclarecendo. Bariri (1959 a 1960). Limoeiro (1953 a 1958). fato totalmente inesperado. na coordenação dos trabalhos. Os laboratórios de Ilha Solteira. com extensômetros elétricos colados em membrana de aço inoxidável. Estes trabalhos passaram a ser referência para projetos de outras obras. Faleceu. característico de solos tropicais. onde se sucediam camadas de constituição bem distintas. em 1959. passou-se a usar piezômetros de corda vibrante. Tendo notado que primeiros piezômetros instalados nas barragens do rio Pardo não se mantinham confiáveis por muito tempo. XX e XXI Pichler foi também pioneiro na implantação da mecânica das rochas no Brasil. tornou-se laboratório do curso de engenharia civil da UNESP. com câmaras de ensaios triaxiais. três pesquisadores do IPT ficaram permanentes. que passou a ser adotada em muitas obras. merecem destaques as relacionadas com as características das fundaçõesdas barragens de Jupiá e Ilha Solteira. Já na barragem de Limoeiro. após a conclusão da barragem. a partir da característica de “duplo manômetro”. 448 . Barra Bonita (1952 a 1962) e Promissão (1966 a 1975) envolveu a supervisão do controle de compactação e a instrumentação dos maciços.

destacam-se o desenvolvimento dos obturadores de impressão e um protótipo de equipamento para o televisionamento de furos de sondagens. assim como na caracterização tecnológica de agregados naturais. os estudos de caldas de cimento e argamassa para tratamento de maciços de fundações e análise da eficiência dos tratamentos de fundações de barragens. Avanços significativos na compreensão do comportamento dos basaltos como fundações de barragens foram obtidos com os estudos a respeito das estruturas circulares em Água Vermelha. rio Paraná. as lavas em almofadas (pillow lavas) em Nova Avanhandava e os basaltos leves de Porto Primavera. John. Ensaio de cisalhamento em bloco de grandes dimensões (1969) Também a partir do final da década de 1960. destacaram-se os trabalhos junto à Centrais Elétricas de São Paulo (CESP) que possibilitaram o desenvolvimento de especificações de sondagens e de critérios para a classificação dos graus de alteração e de fraturamento das rochas. bem como a definição de vários outros procedimentos até hoje utilizados. 449 . Também foi desenvolvido o primeiro sistema de classificação de maciços rochosos utilizados no Brasil.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 1 – Usina hidroelétrica de Ilha Solteira. na compreensão do comportamen to das juntas-falhas e na avaliação da rápida decomposição das rochas basálticas (alterabilidade). Na década de 1990. Contribuições significativas decorrentes da experiência com grandes obras envolveram desenvolvimentos na caracterização geológico-geotécnica de basaltos. empregado com sucesso na fundação de Ilha Solteira e posteriormente adotado em todas as demais obras da CESP com fundação em maciço basáltico. estabelecendo uma prática brasileira para os estudos e investigações de eixos de barragens. especialmente na identificação de ar gilominerais expansivos. destacaram-se a formulação das primeiras orientações técnicas de normatização dos ensaios de permeabilidade em furos de sondagens. Na década de 1970. com a colaboração do consultor alemão Klaus W.

nas ombreiras. Além dos trabalhos para as barragens da CESP. de difícil secagem em virtude do clima na região e com peculiaridades de compactação (grande alteração dos parâmetros de compactação com ligeira secagem a partir da umidade natural). projetado de maneira a poder ser transformado numa posterior barragem. como reguladora do rio e parte do sistema de abastecimento da cidade de São Paulo. pelas suas peculiaridades. de 1960 a 1962. Na construção da rodovia dos Imigrantes os projetistas optaram por fazer a travessia da Represa Billings por meio de um aterro lançado dentro d’água. o DAEE optou pela instalação de laboratório de solos completo no local.A História das Barragens no Brasil . Alguns destes casos. feito pelo IPT. constituindo o Laboratório Rankine. quando atingida cota parcial de enchimento do reservatório.Departamento de Águas e Energia Elétrica do estado de São Paulo. apresentou infiltração e surgimento de água a jusante. liderado pelo engenheiro Murilo Ruiz. muito úmido. A partir da década de 2000. cuja primeira aplicação com equipamentos idealizados e construídos pelo IPT foi na barragem de Porto Primavera. O IPT contribuiu muito no campo da geotecnia e geologia de engenharia nas barragens da CESP. como nos recursos humanos. garantindo-se a estabilidade dos taludes do maciço. e área de empréstimo de solo muito argiloso. juntamente com a inspeção de amostras indeformadas. que passou a dar assistência a várias obras de engenharia. podendo ser operadas de maneira distinta. com poucos centímetros de diâmetros. Foram realizados. estudos para identificar as características da percolação. construída pela Petrobrás. em 1989. o grupo de geologia aplicada e de geotecnia do IPT. fundação em sedimentos arenosos (que requereu paredes diafragma para vedação). para abastecimento de água para a Refinaria Duque de Caxias. localizada na Baixada Fluminense. XX e XXI Igualmente importante foram os estudos de sismicidade induzida decorrente da instalação de reservatórios de barragens. as infiltrações cessaram e o monitoramento posterior. pioneiramente no Brasil. no Paraná. resultantes de antigas colônias de formigas. dividindo a represa em duas áreas. o IPT instalou e operou piezômetros que registravam o crescimento e a dissipação da pressão neutra após cada lançamento do aterro. proporcionando a oportunidade para a formação de especialistas que vieram posteriormente contribuir para a engenharia nacional em diversas atividades. inclusive rodoviárias e de fundações. teve a assistência do IPT tanto nos ensaios dos materiais como no controle de compactação. Após a execução de cortina de solo-cimento nas ombreiras e fundações. próxima às nascentes do rio Tietê. permitiu assegurar a estabilidade da barragem e a plena utilização do reservatório na cota de projeto. em 1970. a melhoria e desenvolvimento das técnicas da geofísica e as primeiras pesquisas desenvolvidas no Brasil para estudo da permeabilidade tridimensional dos maciços rochosos que começaram em 1984. Na execução desta obra. ensaios de injeção de corantes e de traçadores radioativos que. Em virtude das peculiaridades da obra. a profundidades de cerca de 3 m. são apresentados a seguir. em que se compactou o solo com umidade muito acima da ótima. A barragem de Saracuruna. Este laboratório foi posteriormente vendido a um consórcio de empresas empreiteiras. destacam-se estudos voltados ao monitoramento dos processos erosivos nas margens do reservatório de Porto Primavera. realizou. o desenvolvimento e aplicação da geologia estrutural para a análise dos condicionantes geológico-geotécnicos. o IPT teve a oportunidade de participar de diversas obras de barragens de outras entidades. Após diversas tentativas de impermeabilização das ombreiras. em 450 . tanto no investimento em recursos materiais. no seu aproveitamento no suprimento de água na região. permitiram a identificação de pequenos túneis. passando de montante para jusante.Séculos XIX. construída pelo DAEE . já acima do nível d’água em função do que era liberado o lançamento de novas camadas. A experiência da obra anterior possibilitou ao IPT atuação importante na construção da Barragem do Rio Verde. sem sucesso. mas deve-se registrar que igualmente importante para o próprio IPT foi o apoio recebido da CESP para o desenvolvimento desta instituição. A barragem de Ponte Nova.

o que foi adotado. quando os projetistas recorrem a eles para esclarecer dúvidas sobre o comportamento da estrutura em obras cujo valor e importância os justifiquem. conciliando-se esta solução com a baixa resistência do solo da fundação. e para o seu desenvolvimento. o engenheiro Fausto Tarran do IPT. No caso específico dos modelos da barragem de Itaipu. de 1977 a 1979. Conduzido com sucesso. constituiu-se no primeiro modelo estrutural voltado a barragens no Brasil. micro-concreto de pedra pomes e sistema especial de aplicação de cargas de peso próprio. Itália. Conhecer o estado de tensões nos maciços rochosos é particularmente importante para o projeto de túneis de alta pressão. Coube a ele. Restringem-se a casos especiais. apresentava muita dificuldade em virtude da pouca disponibilidade de materiais. devido às características dos agregados. conforme descrito a seguir. utilizou-se argamassa de areia. Quando o material deveria ter módulo de deformação muito baixo. 1968. solicitou ao IPT um modelo dos apoios das comportas nos contrafortes da barragem. Modelos físicos estruturais Modelos físicos de estruturas de barragens não são rotineiros nos projetos destas obras. representando a barragem numa escala de 1:100 e foi carregado por meio de pesos mortos até serem atingidas as pressões na escala empregada. o professor Telêmaco van Langendonck. que foi construído pelo IPT. Tecnologia de concreto No campo de concreto o IPT contribuiu na consultoria e supervisão das dosagens e no controle dos materiais constituintes. segundo a técnica de ensaios em modelo desenvolvida pelo Istituto Sperimentale Modelli e Strutture (ISMES). por parte da empresa projetista. foram executados dois modelos para o projeto da barragem de Itaipu. com o ganho adicional de redução da temperatura do concreto durante a cura e o endurecimento. também. a partir de matérias primas. Papel importante ocorreu nas barragens de Jupiá e Ilha Solteira. de Bergamo. construiu um equipamento para realização de ensaios de medidas de tensões in situ por meio de fraturamento hidráulico. Em 2010.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens virtude das condições de umidade muito elevada na região. sendo um trabalho que na época. Para a barragem de Jupiá. Medido res de recalque e piezômetros mostraram o comportamento adequado da barragem. tinha cerca de 50 cm de altura. Os estudos apontaram para a incorporação de pozolanas na constituição dos concretos. O contraforte da barragem. o IPT. tendo sido construído com poliéster. O conhecimento sobre o estado de tensões do maciço também contribui significativamente para o dimensionamento da blindagem do conduto forçado. No Brasil. depois de um estágio na Itália. A técnica de ensaio é extremamente complexa. com o consequente abatimento dos taludes do maciço para garantir a estabilidade. ou o gesso. utilizado pelo Laboratório Nacional de Engenharia Civil de Lisboa. O modelo foi de comportamento elástico. foram realizados dois estudos com modelos físicos de características diferentes. na realidade um pórtico de reação que permite ensaio de modelos de até 3 m. a possibilidade de reações álcali-agregados que comprometeriam a durabilidade das obras. cimento e pérola de isopor. colaborando para o contínuo desenvolvimento tecnológico das barragens brasileiras. a realização dos ensaios. onde é necessário evitar que a pressão hidráulica interna conduza à ruptura do maciço. no modelo. O modelo foi moldado com as dimensões estudadas. onde se constatou. formas de resina. que não precisou ser escavado. justificando a solução adotada. de maneira que resulte em material com propriedades reológicas adequadas à escala do modelo. em substituição às pedras-pomes diatomito. o que requereu um estudo preliminar para a determinação da adequada proporção dos componentes e dos procedimentos de cura. 451 . projetou um laboratório especial. foi desenvolvido um material básico com micro-concreto de argila expandida. Posteriormente. Os micro-concretos utilizados para a representação das fundações e do elemento estrutural em estudo são executados com materiais especiais e misturas adequadas. empregados pelo ISMES. Esta técnica se caracteriza pela utilização de modelos de grandes dimensões.

8 m (estrutura de controle do desvio do rio) e 2. foram instalados instrumentos pneumáticos tipo IPT ao lado de instrumentos elétricos de corda vibrante tipo Maihak.Séculos XIX. Nas barragens da SABESP. a semelhança do ocorrido na barragem de Piraquara onde se utilizou piezômetros elétricos tipo Geonor. Nesta fase. em 1979. A comparação dos resultados alcançados revelou o bom desempenho dos pneumáticos. juntamente com os aperfeiçoamentos na unidade de leitura. a aplicação mais importante e extensiva ocorreu nas barragens do Jaguari e Jacareí da SABESP. foram aplicados 22 macacos. No entanto. em 1976. No modelo do corpo da barragem. incluindo as fundações . o ensaio foi até a ruptura da junta vertical de concretagem dos contrafortes. Rio Paraná Modelo reduzido do bloco da barragem principal (1978) 452 . As formas das estruturas foram construídas sobre contra-formas. No corpo dos modelos foram introduzidos tirantes para simulação do peso próprio da estrutura. pelo engenheiro Alinor Figueiredo e equipe. Figura 2 – Usina hidroelétrica Itaipu. foram desenvolvidas as células de pressão total que. estas uma réplica. As primeiras utilizações destes instrumentos pneumáticos em barragens foram nas barragens de Rio Verde da Petrobrás. Foram muitas as barragens instrumentadas com piezômetros e células de pressão tipo IPT. foram nomeados de instrumentos pneumáticos tipo IPT. as importações de instrumentos geotécnicos eram difíceis e tal fato favoreceu o crescimento e aplicação dos instrumentos fabricados no Brasil. foi desenvolvido o primeiro piezômetro pneumático no IPT. entre elas destaca-se a barragem de Itaparica da CHESF onde foram instalados quase duas centenas de instrumentos pneumáticos. XX e XXI Os modelos tinham alturas de 1. no modelo da estrutura de desvio. e Piraquara da SANEPAR. Os ensaios foram conduzidos até a observação de indícios de ruptura nas fundações. da estrutura do modelo a ser construído.Figura 2). Em seguida. As cargas hidrostáticas na face do modelo foram aplicadas por pequenos macacos hidráulicos. em função do que foi feita modificação do projeto estrutural da obra.A História das Barragens no Brasil . de maneira a simular o empuxo correspondente ao reservatório em plena altura. em 1978 (Figura 3). em madeira. No modelo do contraforte.5 m (bloco de gravidade aliviada da barragem principal. Também foram instrumentadas barragens na América do Sul com Instrumentação de barragens Em meados da década de 1970.

Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens estes pneumáticos como. em 21 de novembro de 1977. IPT 100 anos de Tecnologia. Em 1978.752. por exemplo. Instalação de piezômetro pneumático (1978) companhias em cujo capital o Estado tivesse participação majoritária. 24/06/1999 453 . Vinte e três barragens na região metropolitana de São Paulo tiveram suas características técnicas levantadas e passaram a ser vistoriadas anualmente. Referências Figura 4 – Barragem de Pedro Beicht. São Paulo. SABESP. duas barragens em cascata no Rio Pardo. constituindo-se este projeto num exemplo da auditoria externa de segurança de barragem (Figura 4). em 1977. entre outras. em razão da automação das medidas e não em função do desempenho deste tipo de instrumento. Publicação IPT no 2600. atendendo solicitação da SABESP. que também foram aplicados em várias barragens nacionais e internacionais. Por falta de regulamentação este decreto não foi implementado por todas as autarquias e companhias. dispondo sobre a realização de auditoria técnica externa permanente em autarquias e Figura 3 – Barragem de Piraquara. Segurança de barragens Após os acidentes ocorridos com as barragens de Euclides da Cunha e Armando de Salles Oliveira (Limoeiro). o IPT organizou uma equipe formada por especialistas de diversas áreas do próprio instituto acrescida de consultores externos. o IPT também desenvolveu instrumentos elétricos. SANEPAR. A partir dos anos 2000 os instrumentos pneumáticos perderam espaço para os instrumentos elétricos de corda vibrante. Paso Severino no Uruguai. Mapeamento de fissuras no paramento de jusante (1992). para monitorar a segurança das barragens dessa companhia responsável pelo abastecimento da Grande São Paulo. com princípio de transdução por strain-gauge . o governo de São Paulo promulgou o decreto estadual no 10. Dentro destes conceitos de segurança de barragens também foi objeto de continuidade dos trabalhos a barragem de Saracuruna da Petrobrás. Além dos instrumentos pneumáticos.

Vista aérea do LAHE .

Furnas foi. sendo inicialmente desenvolvida através da contratação do laboratório Hidroesb. Furnas começou a supervisionar diretamente os testes realizados para a validação e otimização dos projetos de seus empreendimentos e a atividade de desenvolvimento de estudos hidráulicos em modelo reduzido passou a ser de responsabilidade do seu Departamento de Engenharia Civil. Essa medida se apoiou Figura 1 LAHE – Sede em Jacarepaguá – Instalações 455 . em 26 de dezembro de 1983 foi iniciada a implantação do Laboratório de Hidráulica Experimental (LAHE) de Furnas. pouco a pouco. Com isso. junto a subestação de Jacarepaguá. Visando exercer maior controle técnico sobre os trabalhos realizados e manter os modelos de suas usinas construídos mesmo após as definições de projeto das mesmas. no Rio de Janeiro. em área própria da empresa.LAHE Fátima Moraes de Almeida e Marcos da Rocha Botelho Para atender necessidades específicas que foram surgindo ao longo de seus projetos. aumentando o seu grau de participação nos estudos em modelo até assumir integralmente a coordenação dos mesmos.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Laboratório de Hidráulica Experimental e Recursos Hídricos de Furnas .

em projeto e Usinas de Anta e Simplício. Ressalta-se. XX e XXI Figura 2 . em operação. e pelo engenheiro Carlos Alfredo de Almeida Paiva. Com a construção dos modelos em área própria. Usina de Porto Colômbia. Usina de Furnas. Usina Luiz Carlos Barreto de Carvalho (Estreito).A História das Barragens no Brasil . construção e operação dos modelos dos empreendimentos em estudo àquela época.A. a importante atuação do engenheiro Dirceu Pennafirme Teixeira (do Hidroesb) que ao lado da equipe de Furnas colaborou ativamente no processo de implantação do laboratório.Engenheiro Erton Carvalho (segundo à frente.Séculos XIX. Nas instalações de Furnas esse laboratório desenvolveu as atividades de projeto. em operação. em projeto. A construção da sede própria do LAHE foi iniciada somente após três anos de funcionamento efetivo do laboratório. criado com objetivo de atender exclusivamente aos empreendimentos da empresa. o LAHE. então chefe da Divisão de Estudos e Projetos Hidrotécnicos de Furnas. a saber: Usina de Serra da Mesa. Furnas os teria disponíveis para atender a qualquer necessidade que surgisse durante ou mesmo após a construção das suas usinas. Esse trabalho foi coordenado pelo engenheiro Erton Carvalho. da esquerda para direita). Responsável pela criação do LAHE – Visita ao modelo vertedouro da usina hidroelétrica de Batalha no fato do modelo reduzido também se revelar uma importante ferramenta de trabalho para as fases de construção e operação dos empreendimentos hidráulicos. fez-se necessário um enorme trabalho de mobilização dos recursos internos da empresa. seu substituto imediato. em suas instalações. Para o desenvolvimento do projeto e construção de toda a infraestrutura necessária ao funcionamento de um laboratório de hidráulica. No modelo de conjunto da usina de Serra da Mesa foi feito o acompanhamento dos projetos básico e executivo e de alguns pro- 456 . Nos seus primeiros quatro anos de funcionamento. nas fases de projeto e construção. no início desse período. contou com a prestação de serviços do Laboratório Hidroesb Saturnino de Brito S. Usina de Cana Brava. em operação.

vam comprometer a estabilidade da estrutura de seu vertedouro em salto de esqui. Sem os recursos de instrumentação necessários às medições a serem realizadas. por empréstimo. A solução encontrada. os coeficientes de forma que alimentaram o modelo matemático adotado para a simulação dos transientes hidráulicos a que a usina estaria submetida durante a sua operação. o LAHE contou com o apoio técnico e logístico do INPH (Instituto de Pesquisas Hidroviárias) e da COPPE (Coordenação de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro). Já a COPPE contribuiu com o desenvolvimento de parte da instrumentação necessária ao LAHE e com o estudo teórico do fenômeno em estudo. Detalhe da reprodução da tomada d’água Foram pesquisados também. Foram avaliadas as alturas das ondas. Isso permitiu a integração entre as diversas etapas de construção da usina. esse estudo 457 . os danos que ocorreriam a montante da barragem e os níveis de segurança do reservatório.CINQUENTA ANOS DO COMITÊ BRASILEIRO DE BARRAGENS cessos construtivos utilizados pela obra. entre outras coisas.Modelo de conjunto da usina hidroelétrica de Serra da Mesa. de fácil execução e baixo custo. otimizando. num modelo de detalhe de seu circuito de geração.Modelo de conjunto da usina Luiz Carlos Barreto de Carvalho (Estreito) Figura 3 . No modelo da usina Luiz Carlos Barreto de Carvalho as pesquisas foram direcionadas para eliminar as erosões regressivas que ameaça- Para a usina de Furnas foi analisada a ameaça de desmoronamento de parte da encosta do Morro dos Cabritos. Figura 4 . Com o INPH foi obtida. modificando assim as características de lançamento do jato. Além da aproximação com outro centro de tecnologia. a instrumentação necessária às medições de ondas. foi a alteração da geometria da concha de arremesso do vertedouro. trazendo assim grande economia ao empreendimento. Foram estudadas as ondas geradas por esse deslizamento e que poderiam ameaçar seriamente as estrutura da barragem. Diversas possibilidades de queda desse maciço rochoso foram estudadas. o balanço de materiais.

A História das Barragens no Brasil - Séculos XIX, XX e XXI

marcou assim a primeira interface do LAHE com um centro acadêmico de pesquisa. Nessa ocasião, os dados obtidos no modelo físico foram confrontados com o resultado de estudos em modelos matemáticos desenvolvidos pela COPPE. No modelo bidimensional do vertedouro de Porto Colômbia foi diagnosticada a causa das erosões existentes no concreto da bacia de dissipação do vertedouro. Os estudos que conduziram à solução adotada na obra foram complementados em um modelo de conjunto da usina que permitiu, inclusive, direcionar as obras de ensecamento da bacia. Em parceria com outros laboratórios e entidades de pesquisa, após a realização da obra corretiva sugerida pelo modelo, foi realizada uma campanha de medição de pressões instantâneas na bacia de dissipação do empreendimento.

Tirando partido das informações modelo-protótipo, os dados de pressão obtidos em Porto Colômbia foram posteriormente utilizados na calibração de um modelo matemático de previsão do campo de pressões, velocidades e níveis d’água em bacias de dissipação. Com orientação do IME, esse estudo gerou a tese de mestrado intitulada “Estudo Numérico e Experimental de Bacia de Dissipação” da Renata Cavalcanti Rodrigues, na época engenheira do LAHE. No modelo da usina de Cana Brava, construída a jusante de Serra da Mesa, no rio Tocantins, foi feito o acompanhamento de toda a fase de estudo do projeto básico.

Figura 6 - Modelo da usina de Cana Brava

Figura 5 - Modelo de conjunto da usina de Porto Colômbia. Medição de pressões instantâneas na bacia de dissipação

Nos modelos onde foram estudados os arranjos originais da usinas de Anta e Simplício, no rio Paraíba do Sul, foram otimizados os projetos básicos das mesmas. Após quatro anos de existência do LAHE, e num momento em que alguns dos estudos acima citados ainda se encontravam em andamento, Furnas se deparou com o término do contrato com a Hidroesb e com a impossibilidade de sua renovação. Diante desse impasse, parte da mão de obra especializada da Hidroesb acabou

Esses dados foram disponibilizados para a comunidade científica que não dispunha, até aquele momento, de dados suficientes de protótipo que pudessem validar os estudos teóricos que vinham sendo desenvolvidos nessa área de atuação.

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Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens

Figura 7 - Engenheiros Marcos da Rocha Botelho e Fátima Moraes de Almeida, técnicos pioneiros do LAHE

por ser absorvida por Furnas que, contando com o apoio de seus técnicos locais, passou a se responsabilizar pelo completo desenvolvimento dos estudos em modelo. Dentre esses técnicos, responsáveis pela supervisão dos serviços do laboratório, destacam-se como pioneiros os engenheiros Marcos da Rocha Botelho (atual gerente do LAHE) e Fátima Moraes de Almeida (que atua ainda hoje na coordenação de estudos em desenvolvimento no laboratório). Esse foi um dos momentos decisivos para a constituição da atual identidade do laboratório de Furnas que, ainda sob a condição de uma atividade de uma divisão de projeto da empresa, precisou obter recursos para a aquisição de todo o ferramental, equipamento e instrumentação eletrônica indispensável aos estudos em modelo. Itens esses que antes eram fornecidos através do contrato com o laboratório Hidroesb. Nessa ocasião, mais uma vez o espírito empreendedor do engenheiro Erton Carvalho entrou em ação. Como chefe da divisão responsável pelo Laboratório e tendo em mãos uma carteira de trabalhos já realizados, ele foi buscar junto aos órgãos superiores de Furnas os recursos necessários à consolidação do controle total pela empresa de todos os estudos hidráulicos em modelo reduzido de seus empreendimentos. A superação dessa fase acabou por trazer ao LAHE alguns grandes benefícios, tais como: modernização da instrumentação utilizada nos seus processos de construção e operação de modelos, reformulação dos processos de construção de modelos que geraram facilidades construtivas e operativas dos mesmos e maior possibilidade de investimento no aperfeiçoamento de seu quadro técnico. Quanto à usina de Manso, estudada pelo CEHPAR quando de propriedade da Eletronorte, ao assumir 70% de seus investimentos em parceria com o consórcio PROMAN, Furnas decidiu pela construção de um novo modelo da usina em seu laboratório para a realização de estudos complementares, acompanhamento do término da construção e fornecimento de subsídios para a operação da mesma. Visando subsidiar o projeto, construção e operação de um vertedouro complementar que compatibilizasse a capacidade de vertimento da usina com os demais aproveitamentos da cascata, foi construído e operado no LAHE um modelo de conjunto da Usina Marechal Mascarenhas de Moraes, inicialmente em concessão da CPFL e que, a partir de 1973, passou a ser operada por Furnas. Em 1994, o LAHE foi procurado pela Light para subsidiar, através de estudos hidráulicos em modelo reduzido, o projeto de reabilitação da Usina de Ilha dos Pombos. Esses estudos foram realizados entre os anos de 1995 e 1996. Essa primeira solicitação de desenvolvimento de um serviço externo motivou o LAHE a investir, a partir de 1997, na melhoria contínua de seus processos e produtos por meio da busca pela certificação através da Norma NBR ISO 9001. Esse projeto, incentivado pelo engenheiro Erton Carvalho, chefe do Departamento de Engenharia Civil de Furnas, foi desenvolvido na gestão do engenheiro Danilo Lopes Marques da Silva que exercia, àquela época, a chefia da divisão responsável pelas atividades do Laboratório. Para alcançar esse objetivo fez-se

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A História das Barragens no Brasil - Séculos XIX, XX e XXI

Figura 8 - Modelo da usina Marechal Mascarenhas de Moraes (Peixoto)

necessário, além de um intenso treinamento de sua equipe, a elaboração de instruções de trabalho prescritivas de cada uma das etapas dos estudos. Tecnicamente apoiada nos fundamentos teóricos da hidráulica, da mecânica dos fluidos e de outras disciplinas afins, a realização de estudos hidráulicos em modelo reduzido não possui um conjunto rígido de critérios ou normas próprias que norteiem ou que, obrigatoriamente, devam ser aplicadas nas fases de projeto e construção dos modelos e durante a fase de estudos propriamente dita. Toda a fundamentação teórica em que se baseiam os estudos experimentais é extraída dos manuais clássicos tanto de hidráulica, quanto de projeto de estruturas hidráulicas, de trabalhos e pesquisas acadêmicas e, ainda, de publicações de estudos específicos realizados em diversos laboratórios do ramo.Embora possam ser encontrados alguns trabalhos esparsos, em que se procurou reunir o maior número possível das informações em que se baseiam os estudos em modelo físico, os mesmos estão longe de se constituírem num compêndio

ou num manual clássico dessa disciplina. Por essa razão, as dificuldades encontradas na sistematização dessas tarefas foram enormes tendo em vista que, ao longo de anos, elas se basearam unicamente na experiência profissional dos técnicos envolvi dos nos serviços de modelo. A elaboração dessas “normas” de projeto, construção e realização de ensaios em modelo, além de consolidar a experiência adquirida pelo LAHE ao longo dos seus, até então, 16 anos de serviços prestados a Furnas, contribuiu de forma marcante, não só para o auxílio à formação de seus profissionais iniciantes, como também para o trabalho daqueles que já atuantes na área, passaram a poder contar com um roteiro organizador de suas atividades. Após três anos de trabalho nesse sentido o laboratório, ainda na condição de uma atividade de uma divisão, obteve em outubro de 2000 a sua Certificação ISO 9001. A partir desse momento o Laboratório de Furnas, apresentando como diferencial o fato de ser o primeiro laboratório de hidráulica

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experimental do Brasil certificado pela ISO 9001, passou a participar de várias concorrências para a prestação de serviços externos, colocando-se lado a lado com os tradicionais laboratórios brasileiros já citados. Logo após a sua primeira prestação de serviço externo, foram estudados no LAHE: A usina de São Gabriel da Cachoeira para a qual, por solici-

de energia elétrica as concessionárias de geração e empresas autorizadas à produção independente de energia elétrica ficaram obrigadas a aplicar, anualmente, o montante de, no mínimo, um por cento de sua receita operacional líquida em pesquisa e desenvolvimento do setor elétrico. O primeiro ciclo de participação de Furnas nesse programa compreendeu os anos de 2000/2001. Com o programa de P&D assim implementado por Furnas, o LAHE passou também a participar dos projetos anuais de pesquisas que utilizassem os estudos hidráulicos em modelo reduzido como ferramenta de trabalho. Desde então, em parceria com universidades e entidades afins, o LAHE vem realizando estudos em pesquisa e desenvolvimento que abrangem, dentre outros temas, as áreas de: Transientes hidráulicos em circuitos de usinas hidroelétricas; Escoamento sobre vertedouros em degraus;

tação do Ministério da Aeronáutica, foi avaliado num modelo bidimensional o comportamento de seu vertedouro de superfície com paramento de jusante em degraus; A usina Cana Brava, da Tractebel. Esses estudos foram reto-

mados para atender ao projeto executivo e fases construtivas da usina. A usina de Monte Claro, da CERAN (Companhia Energética

Rio das Antas), localizada no Rio das Antas, no Rio Grande do Sul, cujos estudos objetivaram o diagnóstico do projeto, a otimização e a caracterização dos vertedouros da usina; As usinas de Capim Branco I e II, ambas da CEMIG, lo-

Padrões de vibração em estruturas hidráulicas por ação de escoamentos; Dimensionamento e otimização de bacias de dissipação através da utilização de modelos numérico e experimental;

calizadas no Rio Araguari, em Minas Gerais. Para a realização desses estudos o LAHE foi contratado pela Intertechne visando o diagnóstico dos arranjos propostos e a otimização das estruturas hidráulicas e A usina de Foz do Rio Claro, localizada a montante da foz

Análise de macroturbulência em estrutura de dissipação de energia; Eclusa de navegação; Previsão de erosões a jusante de vertedouros

do Rio Claro (afluente do Rio Paranaíba pela margem direita), no estado de Goiás. Esse estudo foi desenvolvido para a Alusa Engenharia Ltda e teve por objetivo fornecer informa ções de interesse ao projeto executivo do aproveitamento no sentido de avaliar, otimizar e consolidar o projeto das estruturas hidráulicas do mesmo. Com a implementação da lei 9.991, de 24 de julho de 2000, que dispõe sobre a realização de investimentos em pesquisa e desenvolvimento e em eficiência energética por parte das em presas concessionárias, permissionárias e autorizadas do setor

Os assuntos abordados nas pesquisas que vem sendo desenvolvidas pelo LAHE são aqueles em que o laboratório sente maior necessidade de aprofundamento para o desempenho de suas atividades e os que, por apontarem para tendências futuras, possam permitir o seu desenvolvimento e expansão. Os parceiros tecnológicos foram, inicialmente, aqueles com os quais o LAHE havia desenvolvido trabalhos em conjunto e onde as exigências de cumprimento de cronograma e metas haviam se

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Figura 9 - Modelo físico utilizado no P&D sobre eclusa de navegação

Nessa mesma época o LAHE havia recebido outro grande desafio: realizar o diagnóstico do projeto de viabilidade da usina hidroelétrica de Jirau, no rio Madeira, projeto esse que Furnas vinha desenvolvendo em parceria com outras empresas do ramo. Para atender a essa solicitação o LAHE precisou, num exíguo espaço de tempo, ampliar as suas instalações adequando-as às necessidades de área, volume d’água e vazão exigidas por um empreendimento do porte das usinas da Região Amazônica. Esses estudos foram concluídos em dezembro de 2006. Posteriormente, a topobatimetria implantada nesse modelo foi aproveitada para o estudo do sistema de interceptação e coleta de troncos que estava sendo estudado em conjunto com os empreendedores das usinas de Jirau e de Santo Antônio, ambas no rio Madeira. Foi também estudado no LAHE o modelo de conjunto da usina de Anta, de concessão de Furnas e integrante do complexo Simplício. Esse modelo foi utilizado para o estudo de desvio do rio, diagnóstico das estruturas e definição do plano de operação das comportas do seu vertedouro. Logo a seguir surgiu outro grande desafio: a construção de um posto avançado de trabalho para o desenvolvimento dos estudos em modelo da usina hidroelétrica de Santo Antônio. Somente o modelo de conjunto da usina hidroelétrica de Santo Antônio, na escala 1:80 por exigência da empresa projetista, compreende uma área útil de 4.000 m². Como, para atender a toda essa demanda, as instalações existentes em Jacarepaguá se mostraram insuficientes, o LAHE viabilizou a utilização de outra área de Furnas localizada ao lado da Subestação de São José, em Belford Roxo. Nesse local, com o apoio dos parceiros de Furnas nesse empreendimento, foi montada uma nova unidade do

revelado satisfatórias. Posteriormente foram feitos contatos com outros centros de pesquisa em função das áreas de estudo a que estes estavam se dedicando e novas parcerias surgiram. A diversidade de parceiros é vista como benéfica, pois cada instituição de pesquisa tem características e excelências próprias que aumentam as perspectivas e os horizontes do LAHE. Em parceria com o IPH (Instituto de Pesquisas Hidráulicas) da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), o IME (Instituto Militar de Engenharia) e a UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), os projetos de P&D desenvolvidos geraram doze teses de mestrado e quatro de doutorado. Após 22 anos de existência, em janeiro de 2005 o LAHE foi transformado num órgão oficial de Furnas. Na qualidade de escritório regional da empresa, incorporou em suas atribuições as atividades da área de recursos hídricos da extinta DEPH.T, divisão a qual pertencia. Nessa ocasião, para atender a demanda de serviços e poder fornecer acomodações adequadas ao seu novo corpo técnico, o LAHE teve a área de suas instalações prediais duplicada.

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LAHE para atendimento exclusivo dos estudos da usina hidroelétrica de Santo Antônio. Em contribuição ao projeto dessa usina já foram realizados em modelo: O diagnóstico e otimização do arranjo geral das estruturas; O levantamento da capacidade de vazão dos seus vertedouros; As simulações das condições de desvio do rio; O diagnóstico e otimização do sistema de transposição de peixes;

O último projeto diagnosticado e otimizado no LAHE foi o da usina hidroelétrica Batalha, concessão de Furnas. Encontra-se hoje em andamento a realização dos estudos hidráulicos em modelo reduzido da usina hidroelétrica de Teles Pires, localizada no Rio Teles Pires.

A trajetória do LAHE, desde a sua criação em 1983 até a presente data, esteve calcada na competência e dedicação dos profissionais que atuam nos diversos setores que o compõem, a saber: estudos, projeto, construção e modelagem, operação, documentação cinefotográfica, instrumentação, pesquisa e desenvolvimento, administração e qualidade. Foi com o traba lho e o comprometimento desses profissionais que o laboratório de Furnas conseguiu, ao longo de sua existência, se colocar no patamar de visibilidade em que se encontra. Todo o seu histórico de serviços realizados, tanto para Furnas quanto para clientes externos, sua iniciativa em pesquisas voltadas ao setor de energia, sua política de valorização de pessoal, sua respon sabilidade técnica e, principalmente, seu compromisso com os princípios éticos na condução de seus trabalhos, consolidaram a imagem do LAHE a nível nacional e o tornou conhecido internacionalmente.

Figura 10 - LAHE – Unidade Belford Roxo

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O Laboratório CESP de Engenharia Civil - LCEC
Flávio Moreira Salles, Wanderley Ognebene, Luiz Morita
O Laboratório CESP de Engenharia Civil - LCEC, instalado em Ilha Solteira/SP, é o mais antigo laboratório de tecnologia das empresas ligadas ao setor elétrico no país, tendo completado 40 anos de existência em agosto de 2009, e considerado uma referência na prestação de serviços tecnológicos para os empreendimentos da CESP e de terceiros. Reviver a história do Laboratório CESP é passar a limpo o desenvolvimento da tecnologia de construção de barragens no Brasil. É verificar como se deu a transposição da ponte do desenvolvimento - passando da total dependência dos estrangeiros ao domínio da arte de construir hidroelétricas no Brasil e permitir a participação em obras de usinas no exterior. Na seqüência foram construídas usina hidroelétrica Jurumirim no rio Paranapanema e usina hidroelétrica Euclides da Cunha no rio Pardo. A partir da segunda metade dos anos 50 foram tomadas algumas iniciativas governamentais, como a instalação da CIBPU - Comissão Interestadual da Bacia Paraná-Uruguai, para estudar o desenvolvimento sócio-econômico e os aproveitamentos energéticos dessa importante bacia hidrográfica. Por solicitação da CIBPU, a Societá Edison de Milão-Itália desenvolveu estudos para o aproveitamento das quedas de Urubupungá, contemplando a construção de duas barragens: uma em Jupiá e outra em Ilha Solteira. Aprovada a construção, realizadas as investigações geológicas, iniciou-se a construção da usina hidroelétrica Jupiá em 1961, que sem dúvida, constituiu-se num marco na história das grandes hidroelétricas do país, quer pela dimensão do projeto e o desenvolvimento técnico que propiciou, quer pelas dificuldades enfrentadas para sua execução. Ainda vivia-se sob forte dependência tec nológica do exterior. O projeto foi desenvolvido no Brasil, mas modelo hidráulico foi feito na França, os estudos de mecânica das rochas realizados no Laboratório Nacional de Engenharia Civil, de Lisboa, e o concreto e seus constituintes estudados na Universidade de Berkeley, nos Estados Unidos. Os frutos desses investimentos foram colhidos a partir do projeto executivo de Ilha Solteira, a hidroelétrica de maior capacidade de geração da CESP, que foi desenvolvido no Brasil.

O início do laboratório com o IPT
A década de 50 se notabilizou pelas iniciativas empreendedoras, destacadas pelo início dos trabalhos de projeto e construção das grandes barragens no Brasil. Particularmente no Estado de São Paulo, a Usina Hidroelétrica Salto Grande no rio Paranapanema foi a primeira, tendo sido totalmente projetada no exterior. Depois se seguiram as usinas Barra Bonita (1952) no rio Tietê e Limoeiro (1953) no rio Pardo, que tiveram assistência de técnicos estrangeiros, principalmente nas questões de hidráulica e de equipamentos.
Usina hidroelétrica de Porto Primavera (Sérgio Motta)

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Na ocasião da obra, instalou-se em Jupiá, ainda na CELUSA, um laboratório de hidráulica, com a consultoria francesa da SOGREAH (Société Grenobloise d’Etudes et d’Applications Hydrauliques) onde foram estudados os modelos hidráulicos reduzidos da Usina hidroelétrica Ilha Solteira, e posteriormente das usinas Promissão, Água Vermelha, Capivara, Nova Avanhandava, Porto Primavera,Taquaruçu, Rosana e Três Irmãos. Posteriormente, tal laboratório foi incorporado ao CTH, da USP. Em Jupiá foram instalados laboratórios de concreto e solos, formando o Laboratório de Obras, com a colaboração do Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo - IPT: o Laboratório de Solos, implantado quando as ensecadeiras começaram a ser construídas em Jupiá, era caracterizado como área de apoio do Setor de Terraplenagem da obra, e seu quadro era formado por técnicos especializados do IPT que supervisionavam os empregados da recém formada CELUSA - Centrais Elétricas de Urubupungá S.A., proprietária da obra, orientando-os nos ensaios de controle de qualidade. Eram de sua responsabilidade, compreendendo tanto as atividades de campo como as de laboratório, os serviços de controle de qualidade das barragens de terra e de enrocamento, os filtros, drenos e transições e a proteção de taludes, além das sondagens nas jazidas e áreas de empréstimo da barragem e das estradas da região, executados como serviços de apoio para outros setores do empreendimento. A necessidade de se contar com gente experiente em algumas atividades, trouxe para trabalhar na CELUSA e se incorporar à equipe do Laboratório de Obras o técnico Agostinho Maldonado Guirão, com a missão de adequar os ambientes físicos e os equipamentos e implantar os métodos de ensaios, consolidando a Área de Solos. Papel semelhante cumpriu, à época, o técnico Clarindo Brandão na Área de Concreto. O Laboratório de Concreto se instalou no mesmo ano de 1961, sob a supervisão do engenheiro Fausto Cesar Vaz Guimarães. Destacam-se na época, as relevantes análises de aplicabilidade dos materiaisdisponíveis na região da obra para confecção do concreto.

As seções do laboratório de concreto foram implantadas e incrementadas com suas diferentes modalidades e especialidades, para possibilitar o adequado controle de qualidade dos materiais, da produção dos aglomerantes e dos concretos lançados. Foram desenvolvidos estudos multidisciplinares para determinação do mecanismo de desagregação das rochas basálticas e a sua influência no comportamento do concreto, quando usadas como material de construção. Deve-se ressaltar a participação do ilustre professor Arthur Casagrande, que em muito contribuiu para o sucesso dessas pesquisas com suas opiniões e ensinamentos. Importante contribuição foi oferecida pelo engenheiro Heraldo de Souza Gitahy do IPT, em visitas sistemáticas à obra, por suas obser vações e pesquisas da reatividade potencial do seixo rolado do rio Paraná para a reação álcali-agregado, oferecendo ao Brasil o conhecimento dessa anomalia recém descoberta e as conseqüências para o concreto. A constatação de que a composição mineralógica dos terraços aluvionares da região de Jupiá era constituída em grande parte por minerais deletérios, sujeitos a reações químicas com os álcalis do concreto, intensificou a pesquisa para obtenção do inibidor da reação. Após pesquisa com emprego da pozolana artificial produzida no canteiro de obras, a partir da argila calcinada e moída, comprovou-se os benefícios desse material, impulsionando a tecnologia do uso da pozolana, que adicionada à mistura de concreto provoca a mitigação do processo expansivo da reação. Em 1964, o técnico Adonis Thimóteo dos Santos dedicouse à tradução das normas da ASTM - The American Society for Testing Materials e do US Army Corps of Engineers , para a adaptação e implantação dos métodos de ensaios de tecnologia do concreto no Laboratório de Obras, que foram usados por mais de duas décadas no país, suprindo a necessidade de metodologia referência para os ensaios em concreto no Brasil.

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Figura 1 - Vista aérea do canteiro de obras de Ilha Solteira, mostrando localização do LCEC

O laboratório da CESP
Em 1969, os laboratórios de Concreto e Solos foram transferidos para o canteiro de obras de Ilha Solteira, constituindo-se formalmente o Laboratório da CESP para fazer frente às experiências tecnológicas que aquele projeto exigia, e se consolidando a partir de então, em local para ensaios de materiais da própia CESP, das congêneres no Brasil e do exterior. O Complexo Urubupungá, integrado por Jupiá e Ilha Solteira, se destacou nesse contexto como um marco brasileiro na construção das grandes barragens. E o Laboratório se notabilizou pelo suporte oferecido àqueles empreendimentos, quer pelas inovações tecnológicas conquistadas, quer pela conduta do experimentar para aplicar, desenvolvendo técnicas construtivas e empregando materiais alternativos, e pela metodologia de ensaios oferecida ao meio técnico nacional. Esse processo se deu com maestria, capitaneado por técnicos dedicados e competentes, aos quais muito se deve por essa jornada desenvolvimentista.

O professor Roy Carlson, da Universidade da Califórnia em Berkeley, se destacou neste período, na transferência da tecnologia do concreto para os engenheiros brasileiros, particularmente do concreto-massa, e teve no Laboratório CESP guarida para seus experimentos e ensinamentos. Menção para o engenheiro José Florentino de Castro Sobrinho, idealista determinado, que naquela época como gerente do laboratório estabeleceu os contornos da independência tecnológica externa e a forma de trabalho do Laboratório idealizado, sustentado pelas viagens de intercâmbio aos Estados Unidos, especificamente na Universidade da Califórnia em Berkeley. É inegável a contribuição oferecida por Ilha Solteira à engenharia nacional, com as inovações tecnológicas e novas técnicas construtivas, o emprego de equipamentos e materiais não convencionais. E a participação do Laboratório CESP foi intensa e fundamental, oferecendo suporte para as decisões e garantindo a qualidade do empreendimento. Na construção de Ilha Solteira foi empregado pela primeira vez no Brasil o concreto refrigerado com gelo em escamas, marco pioneiro da CESP, introduzido pelo seu Laboratório de Concreto.

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confeccionados com diversos agregados e aglomerantes (desde 1971) Período bastante promissor para o laboratório de ensaios tecnológicos da CESP. desenvolvido pela CESP nos anos 80. particular mente da equipe de Geotecnia. pela forma e disposição dos espécimes. Registra-se importante participação do Laboratório CESP. teve início um notável programa de ensaios com a moldagem de blocos para verificar o comportamento de concretos confeccionados com diferentes composições de agregados e de aglomerantes. com atribuições para atender as demandas internas da CESP e com estrutura que possibilitou intensificar a prestação de serviços a projetos externos nacionais e internacionais. o Laboratório reuniu vinte e quatro colaboradores com formação superior em atividades permanentes nas salas de ensaios e nos canteiros de obras. reconstruía as usinas acidentadas do rio Pardo. Em área de destaque. Esse trabalho. destacando-se as obras das barragens: Itaipu. Diversos foram os clientes. o conjunto de blocos de concreto é conhecido por “cemitério”. As malhas de linhas de transmissão de responsabilidade da CESP se espalhavam pelo interior do Estado. realizando pesquisas e análises em materiais. com os seus diversos barramentos. Juquiá. a partir de 1971. Tucuruí. Geologia Aplicada. Itaparica. Sobradinho. possibilitou mapear o potencial energético remanesceste nas bacias dos rios Turvo. O Laboratório Central de Engenharia Civil – LCEC No ano de 1976. Aqueles blocos de concreto foram expostos ao tempo e assim estão até hoje. XX e XXI Naquela oportunidade existiam seis áreas distintas.LCEC. instalava o canteiro para as obras da usina hidroelétrica Nova Avanhandava e concluía os projetos básicos para as três obras do Pontal. Couto Magalhães. Segurança e Controle de Barragens e Instrumentos e Modelos Estruturais. a Unidade foi denominada Laboratório Central de Engenharia Civil . Figura 2 . Sapucaí.Cemitério de blocos de concreto integral. levantamento e liberação das fontes de agregados e controle das resistências dos concretos. possibilitando acompanhar eventual fissuração e sua evolução. nos trabalhos de investigação e levantamento de campo nos estudos de viabilidade de aproveitamentos hidráulicos no Estado de São Paulo. Médio Tietê. e o LCEC realizava os trabalhos de controle da compactação das suas áreas de implantação.A História das Barragens no Brasil . particularmente da reação álcali-agregado. Mecânica das Rochas. 468 . ou liberando escavações e tratamentos geológicos. Mecânica dos Solos. Promissão e Paraibuna/Paraitinga. construía a usina hidroelétrica Água Vermelha.Séculos XIX. pois a Companhia vivia época de franca expansão: terminava as construções das usinas hidroelétricas Capivara. com avanços para os estados circunvizinhos. Alto e Baixo Pardo. Nesse período. para uma no Alto rio Tietê e realizava as investigações no Canal Pereira Barreto. acompanhamento da produção e qualidade dos maciços e dos concretos. Ribeira e Alto Mogi-Guaçú. As subestações se multiplicavam. Sob o comando do engenheiro George Antonio Mellios. com quadros especializados e atividades específicas: Concreto e Materiais. tendo a participação do Laboratório em testes de arrancamento em bases das torres. e certificar a eficiência da aplicação de material pozolânico nas misturas para inibir os processos expansivos. e instalando instrumentos ou realizando provas de carga nas estruturas.

Francelino Fernandes Neto. Figura 4 .CBA . entre outros. Taquaruçu. Paraitinga. Adilson Barbi. reconstrução de Limoeiro e Euclides da Cunha. Bento Carlos Sgarbosa. Rosana. Água Vermelha. João Luiz Armelin. As escavações no Canal Pereira Barreto também contaram com os serviços do LCEC. Paraibuna. verificações de processos construtivos e testes para controle de qualidade e acompanhamento das obras das hidroelétricas e barragens da CESP: Capivara. Promissão. Porto Primavera e Mogi Guaçu.Companhia Brasileira de Alumínio teve a participação do Laboratório nas atividades de controle de qualidade. em modelo diferente daquele praticado até então nas obras da Companhia. Assim como a construção das Figura 3 . Luiz Carlos Mendes.Ensaio de cisalhamento direto em materiais rochosos 469 . José Eduardo Costanzo. Sérgio Silva Macedo. Nova Avanhandava. Taylor Castro Oliveira. Três Irmãos. além de Jupiá e Ilha Solteira.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Começaram suas atividades profissionais no Laboratório CESP e de lá partiram para outras conquistas em novos desafios: Ademar Sonoda. Francisco Rodrigues Andriolo. particularmente na caracterização das propriedades geodinâmicas dos arenitos da escavação do Canal Pereira Barreto. O Laboratório CESP de Engenharia Civil realizou investigações e pesquisas em materiais e jazidas. Regis Frota. Horácio Sverzut Júnior. Dilermando Hermínio Bispo. Luércio Scandiuzzi. de concessão do Consórcio CESP . Miguel Normando Abdalla Saad. Assim como foi mencionada a colaboração dos professores Arthur Casagrande e Roy Carlson. não pode ser omitida a participação do professor Manuel Rocha.Ensaios geotécnicos especiais triaxiais sobre amostras indeformadas usinas hidroelétricas Canoas I e Canoas II.

reduzindo o índice de homens/hora por tonelada de barras de aço aplicada. Emprego de aglomerante em concreto abaixo do limite de 100 kg/m3. em alguns pilares da subestação de Ilha Solteira. XX e XXI compatibilizados com o cronograma de obras. A utilização de caldas refrigeradas e técnicas de injeção a vácuo em cabos de protensão.A História das Barragens no Brasil . acima das recomendações das normas. e controle da qualidade do produto. Figura 5 . devidamente b Usina hidroelétrica Três Irmãos Emprego racional e seletivo de alguns basaltos e recusa de outros. através da montagem de moinhos de cimento e pozolana em Jupiá. os canteiros das obras tinham Laboratório de Campo para o acompanhamento das construções e o LCEC em Ilha Solteira executava os ensaios especiais e não corriqueiros. desenvolvendo pesquisas e avaliando os materiais e os processos executivos empregados nas obras.Séculos XIX. outras obras de hidroelétricas de concessão da CESP se seguiram. e oferecia metodologia e procedimentos para padronização das atividades em campo. praticado nos anos 70.Ensaio de módulo de elasticidade de corpo de prova de concreto de grandes dimensões (450 mm x 900 mm) Estruturas para o controle tecnológico Concluídas as usinas Jupiá e Ilha Solteira. O emprego de concreto com agregado pré-colocado. e a possibilidade de se contar com os serviços de um Laboratório. Benefícios técnicos e vantagens econômicas O desenvolvimento de um eficiente Controle Tecnológico dos materiais e produtos aplicados nas estruturas construídas. Desenvolvimento de técnicas de produção. com grandes contribuições aos empreendimentos e à Engenharia Nacional. O emprego de armadura pré-montada. Podem ser citados alguns exemplos na CESP. que tiveram a participação do LCEC. com estruturas específicas e atribuições definidas. Ao seu tempo. a saber: a Usinas hidroelétricas Jupiá e Ilha Solteira A identificação da reatividade potencial álcali-agregado do seixo rolado do rio Paraná e o emprego de material pozolânico para o combate desta reação. Uso de cimento de alta finura. resultou em benefícios técnicos (bons desempenhos e eficiência dos concretos). com a finalidade de melhor explorar toda a potencialidade do cimento. pela formação heterogênea e alterabilidade. O controle tecnológico sempre mereceu atenção e destaque. com uso de 84 kg/m3. conseqüentes vantagens econômicas. peculiares a cada empreendimento. A aplicação de pré-moldados incorporados à barragem. identificadas 470 .

atrasos no cronograma e retrabalho. computando-se o volume de escavação. avaliando soluções para as mais diferentes situações e controlando os materiais e suas aplicações.000 m3 e ampliação da pedreira com decape superior a 10 m. que foi superior se considerados transporte e criação de bota-fora com volume de 160. com condição de restrição. resultando cimento Portland CP IV de excelente qualidade. Considerações finais A atuação do LCEC acompanhando par e passo a evolução da obra. Desenvolvimento de cimento pozolânico com características específicas de finura e teor de adição do material pozolânico. E também nas construções das hidroelétricas Rosana. empregado nos diferentes concretos da obra de Porto Primavera.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens a partir de estudos conduzidos no Laboratório. garantindo o produto requerido e evitando-se rejeições. Porto Primavera e Canoas. d Complexo Canoas Confecção de concretos convencional e bombeado com emprego de areia artificial como agregado miúdo. Verificação da condição aceitável para manutenção dos perfis de veda-junta e de barras de aço aplicadas nos blocos. após longo período de exposição. Pesquisa de mercado para definição de cimento a ser aplicado com material potencialmente reativo com os álcalis. minimizando descarte de materiais. trouxe benefícios técnicos com vantagens econômicas significativas. Taquaruçu. c Usina hidroelétrica Porto Primavera Estudo da viabilidade de emprego do basalto de escavação. Vantagens que se apresentaram também junto aos fornecedores. com economia da ordem de US$ 30 milhões. no concreto da barragem. A economia resultante dessa seleção foi de aproximadamente US$ 1 milhão. . susceptível ao intemperísmo. Alternativa aprovada pelos ensaios desenvolvidos no Laboratório.

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Sócios Mantenedores e Coletivos 473 . Simpósios sobre Pequenas e Médias Centrais Hidroelétricas Anexo 6 . Seminários Nacionais de Grandes Barragens Anexo 5 . Congressos Internacionais e Reuniões Anuais e Executivas Anexo 7 . Entrevistas Anexo 2 . Depoimentos Anexo 3 . Diretorias do CBDB Anexo 4 .Anexos Anexo 1 .

Sou engenheiro civil formado em 1968 pela Faculdade de Engenharia da Universidad de la Republica Oriental del Uruguay FMM . entre 1978 e 1980. como foi a sua formação profissional? ELB . do Vale do Paraíba do Sul e dos aproveitamentos hidroelétricos de Manso.Art 175.que estabeleceu que os serviços de energia elétrica são responsabilidade da União e podem ser outorgados em regime de concessão ou permissão. mas essa vez. sem este acerto era impossível pensar em reestruturação do setor elétrico. destacando-se as UHE’s Belo Monte. economia. você veio para Brasília e permanece aqui até hoje. então. no período 1966/1973. entidade esta responsável pelas outorgas de água para irrigação. em 1968 Entrevistador: Flavio Miguez de Mello Abril de 2010 FMM . em Rondônia. qual foi a mais interessante tarefa que você vivenciou? ELB . Como foi a época em que a implantação de usinas hidroelétricas era feita com as verbas de desmobilização? ELB .De inicio trabalhei. estudo de desenvolvimento integrado desta bacia internacional. onde fui Coordenador Geral de Concessões. sempre através de licitação. XX e XXI Anexo 1 Entrevista com o engenheiro Eduardo Larrosa Bequio Formação: Faculdade de Engenharia da Universidad de la Republica Oriental del Uruguay. entre outros. FMM .