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CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

H58 A história das barragens no Brasil, Séculos XIX, XX e XXI : cinquenta anos do Comitê Brasileiro de Barragens / [coordenador, supervisor, Flavio Miguez de Mello ; editor, Corrado Piasentin]. - Rio de Janeiro : CBDB, 2011. 524 p. : il. ; 29 cm Inclui índice ISBN 978-85-62967-04-7

1. Barragens e açudes - Brasil - História. 2. Comitê Brasileiro de Barragens - História. I. Mello, Flavio Miguez de. II. Piasentin, Corrado. III. Comitê Brasileiro de Barragens. III. Título: Cinquenta anos do Comitê Brasileiro de Barragens 11-6197. CDD: 627.80981 CDU: 627.82(81) 22.09.11 029752

20.09.11

Comitê Brasileiro de Barragens - CBDB
DIRETORIA CBDB Presidente: Erton Carvalho Vice-Presidente: Fabio De Gennaro Castro Diretor Secretário: Paulo Coreixas Junior Diretor Técnico: Brasil Pinheiro Machado Diretor de Comunicações: Miguel Augusto Z. Sória Diretor Adjunto: Marcos Luiz Vasconcellos Diretor Adjunto: Ademar Sérgio Fiorini

Agradecimentos
O Comitê Brasileiro de Barragens externa seus agradecimentos às empresas abaixo relacionadas pelo apoio que possibilitou a confecção deste livro que resume o desenrolar de importante segmento da História do Brasil.
Arcadis Tetraplan S/A Banco Bradesco S/A Camargo Corrêa Energia e Construções S/A CEMIG - Companhia Energética de Minas Gerais CESP - Companhia Energética de São Paulo CHESF - Companhia Hidro Elétrica do São Francisco Construtora Norberto Odebrecht S/A Construtora Queiroz Galvão S/A Construtora Andrade Gutierrez S/A COPEL - Companhia Paranaense de Energia DNOCS - Departamento Nacional de Obras Contra as Secas Eletrobras - Centrais Elétricas Brasileiras S/A Eletronorte - Centrais Elétricas do Norte do Brasil S/A Engevix Engenharia S/A Furnas Centrais Elétricas S/A Geobrugg Ag - Protection Systems Grupo Energia Intertechne Consultores S/A. Itaipu Binacional Jeene Juntas Impermeabilizações Ltda. Light S/A Mc Bauchemie Brasil Mendes Júnior Trading e Engenharia S/A Norte Energia S/A Pires Giovanetti Engenharia e Arquitetura Ltda. Sto Antonio Energia

FICHA TÉCNICA Coordenador / Supervisor: Flavio Miguez de Mello Editor: Corrado Piasentin Projeto Gráfico: Modonovo Design - Marina Hochman Diagramação: Modonovo Design - Marina Hochman / Natália Seiblitz Revisão de texto: Margarida Corção Gráfica: Impressul Indústria Gráfica

índice

Prefácio Apresentação Síntese do Desenvolvimento da Implantação das Barragens no Brasil A Comissão Internacional de Grandes Barragens Oitenta e Três Anos de Excelência História do Comitê Brasileiro de Barragens Um Século de Obras contra as Secas As Barragens Construídas pelo DNOCS Resumo da História Remota da Hidroeletricidade no Brasil Usina Hidroelétrica de Marmelos Usina Hidroelétrica de Angiquinho Usina Hidroelétrica de Itapecuruzinho A Light no Rio de Janeiro, a Cidade Luz Sulamericana A São Paulo Light, Fomentadora de Progresso As Barragens do Departamento Nacional de Obras de Saneamento - DNOS A História da CHESF, Indutora do Progresso do Nordeste Furnas no Século XX A Eletronorte e as Barragens da Região Amazônica A História das Barragens no Paraná Companhia Energética de Minas Gerais - CEMIG

9 12 16 48 56 66 76 88
98 112 124

130 142 150 166 188 206 226 250

Introdução CEHPAR .CESP Companhia Força e Luz Cataguazes-Leopoldina .Energisa Companhia Paulista de Força e Luz .CPFL Breve Memória sobre a Usina de Itaipu 1966 .IPT .50 Anos de muito Trabalho Centro de Tecnologia de Furnas em Goiânia O Laboratório de Hidráulica HIDROESB - Saturnino de Brito SA O Instituto de Pesquisas Hidráulicas .CEEE Companhia Energética de São Paulo .2010 As Pequenas Centrais Hidroelétricas no Brasil A Nova Face das Empresas Estatais frente à Expansão da Oferta de Energia Hidroelétrica no País As Barragens de Rejeitos no Brasil: Sua evolução nos últimos anos A Evolução do Licenciamento Ambiental de Barragens no Brasil A Evolução da Legislação Aplicada às Barragens Centros de Pesquisas Tecnológicas Aplicadas a Barragens .IPH 272 284 292 304 308 346 354 368 396 406 412 414 426 432 436 O Instituto de Pesquisas Tecnológicas do 446 Estado de São Paulo .Companhia Estadual de Energia Elétrica do Rio Grande do Sul .

Diretorias do CBDB Anexo 4 .Laboratório de Hidráulica Experimental e Recursos Hídricos de Furnas .Sócios Coletivos e Mantenedores 454 464 474 477 483 485 488 491 493 506 509 512 514 516 519 520 522 .Simpósios sobre Pequenas e Médias Centrais Hidroelétricas Anexo 6 .Entrevistas Eduardo Larrosa Bequio Guy Maria Villela Paschoal Hélio Mendes de Amorim João Camilo Penna José Candido Capistrano de Castro Pessoa Luiz Carlos Queiroz Mario Santos Murillo Dondici Ruiz Olavo Augusto Vieira Anexo 2 . LCEC Anexos Anexo 1 .Seminários Nacionais de Grandes Barragens Anexo 5 .Congressos Internacionais e Reuniões Anuais e Executivas Anexo 7 .LAHE O Laboratório CESP de Engenharia Civil .Depoimentos José Gelazio da Rocha e Antônio Dias Leite Anexo 3 .

XX e XXI .A História das Barragens no Brasil .Séculos XIX.

águas de superfície e subterrânea. que colaborou. onde o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS) teve um papel importante com a construção de açudes para irrigação. hidrologia. abastecimento de água das cidades e pequenos núcleos populacionais. grupo de grande competência. Além da contribuição nos métodos construtivos das barragens. O livro retrata as primeiras barragens construídas no Nordeste. dirigida pelo economista Celso Furtado na década de 1960. resgatando os principais personagens que contribuíram para o desenvolvimento da nossa engenharia. que previa a formação de reservatórios no semi-árido nordestino. Essa política. O livro aborda com abrangência o desenvolvimento tecnológico para a construção das barragens brasileiras a partir de 1950. envolvendo não só homens públicos. A SUDENE. 9 . foram criados vários centros de pesquisas. houve um grande desenvolvimento nas áreas de hidrologia e meteorologia. os quais fazem parte dos pontos importantes abordados nesta publicação. No Brasil foram iniciadas as construções de grandes barragens. assim. envolvendo mapeamentos pedológicos. quando se iniciou o desenvolvimento do setor elétrico brasileiro. teve como uma das principais finalidades a permanência do sertanejo no seu ambiente natural. registrar a história das barragens brasileiras. apresentamos o livro “A História das Barragens no Brasil . O aparecimento e o desenvolvimento das empresas construtoras de barragens constituem fatos de grande relevância.Prefácio Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Em comemoração aos 50 anos de existência do Comitê Brasileiro de Barragens – CBDB – filiado à International Commission on Large Dams (ICOLD). piscicultura. O primeiro trabalho de inventário dos rios da Região Sudeste foi elaborado pela Canambra Engineering Consultants Limited. juntamente com algumas empresas brasileiras. mas também empreendedores do setor privado e pesquisadores. a partir de 1887. na formação dos nossos engenheiros na área de recursos hídricos e projetos de barragens. amenizando os processos migratórios para a Região Sudeste do País. implementou um plano de desenvolvimento regional embasado em estudos dos recursos naturais. principalmente as de maciços de terra. Pretendemos. As barragens surgiram em decorrência da necessidade de se usufruir dos benefícios do uso múltiplo dos recursos hídricos para a população brasileira. Os técnicos brasileiros foram influenciados principalmente pelas organizações americanas United States Bureau of Reclamation e US Army Corps of Engineers.Séculos XIX. XX e XXI”. Paralelamente. climatologia. entre outras ciências que serviram de suporte para projetos de irrigação e construção de barragens. apoiadas em estudos e projetos de alta qualidade. para suporte tecnológico desses empreendimentos.

A legislação sobre a segurança das barragens. o qual realizou vários trabalhos apreciáveis nas áreas de abastecimento de água. o leitor interessado na história contemporânea do desenvolvimento brasileiro. este livro é dirigido a um público abrangente. aparecem documentadas com a história de suas formações. São Paulo (CESP). visando. As empresas subsidiárias da ELETROBRAS: FURNAS. CHESF. Erton Carvalho Presidente do CBDB 10 .Séculos XIX. XX e XXI Este livro registra as primeiras hidroelétricas construídas no país. no que se refere à construção das barragens e seus impactos. sendo também responsável pelas obras de controle de cheias em todo país. como também para a integração dos dois países. pertencente ao Brasil e ao Paraguai. dotada de eclusas para a navegação do rio Tocantins. Destaca-se na Região Amazônica o relato do projeto e construção da usina de Tucuruí. principalmente. sem a exigência de que ele seja possuidor de conhecimentos técnicos sobre o tema. A preocupação do CBDB em defesa do desenvolvimento sustentável do País está comentada nos tópicos sobre a evolução do licenciamento ambiental para os empreendimentos hidráulicos. a maior hidroelétrica brasileira. ELETRONORTE e ELETROSUL. é também citada nesta publicação. selecionadas por região. bem como as dos estados de Minas Gerais (CEMIG). A usina de Itaipu Binacional. também. irrigação e geração de energia elétrica. não só para a geração de energia elétrica. realçando a importância da Região Amazônica como continuidade do uso dos nossos recursos hídricos. Rio Grande do Sul (CEEE) e Paraná (COPEL). Apresenta. uma significativa documentação sobre o Departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS) extinto no inicio da década de 1990. está retratada com a sua história e importância.A História das Barragens no Brasil . incluindo os empreendimentos realizados e as respectivas estratégias de desenvolvimento. Finalmente. que faz parte do programa de trabalho do CBDB.

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Reservatório de Tucuruí .

E em tal maneira é grandiosa que. a aproveitar. em outubro de 2011. de questionável segurança e de menor economicidade. o dimensionamento dos reservatórios das barragens. emocionalmente. Este livro é lançado em difícil momento para os investidores. exceto os que tenham uma posição ideológica e não técnica (sobre meio ambiente).. de fato.. a proposta do engenheiro Manuel de Almeida Martins de que se editasse um livro comemorativo versando sobre a história da engenharia de barragens no Brasil. e como o assunto a ser abordado no livro é demasiadamente extenso no tempo. em reunião do Conselho Deliberativo. fizeram com que a tarefa se tornasse árdua em função da busca de documentos. tive que selecionar alguns voluntários que gentilmente aceitaram a tarefa e desempenharam a função de redatores com maestria e objetividade. em empreendimentos para qualquer das diversas finalidades de barragens dadas às vigentes dificuldades de aprovação. em 1998. cabendo a mim a tarefa de produzir o livro e publicá-lo no aniversário de cinquenta anos do CBDB. por bem das águas que tem. licenciamento e distorções legais que propiciam priorização soluções mais poluentes. Essas perdas de quase uma geração inteira de notáveis pioneiros dos tempos das mais importantes conquistas tecnológicas e da fase pioneira da implantação de grandes barragens para as mais diversas finalidades bem como da época das grandes dificuldades para identificação. construção e operação de barragens e reservatórios. Ao iniciar a tarefa me deparei com grandes dificuldades provenientes das importantes perdas para a Profissão de inúmeros expoentes da engenharia nesses pouco mais de dez anos que separam as publicações das outras associações da edição do livro do CBDB. projeto.CINQUENTA ANOS DO COMITÊ BRASILEIRO DE BARRAGENS Apresentação “Águas são muitas. dar-se-á nela tudo. mesmo assim. o livro acabou apresentando uma certa concentração de capítulos em um autor. os demais serão convencidos Flavio Miguez de Mello de que está sendo feito todo o esforço. comprometeu o planejamento energético. superando um século. Outras entidades publicaram livros de escopo semelhante: a ABMS publicou Cinquenta Anos de Geotecnia em 2000 e a ABGE publicou a Edição Comemorativa dos Trinta Anos.. para que a implantação de Belo Monte seja um sucesso de sustentabilidade social e ambiental. 1500.” No início dos trabalhos. envolvendo todos os atores. O Brasil está desperdiçando importantes potenciais hídricos ao limitar. por abranger o vasto território nacional. A propósito. infinitas. presidente da FIESP ao analisar as tendências atuais (2011) do setor elétrico: “O Brasil assiste a desqualificação de suas fontes de energia mais competitivas e abundantemente disponíveis. e no espaço. Belo Monte ser um exemplo de implantação de usina hidroelétrica na Região Amazônica . relatórios. do Planejamento alertou (2011): “Acreditamos que será possível. foto- 13 . estatais e privados. cabe realçar as palavras de Paulo Skaff. Como voluntários não apareceram.” No mesmo sentido. a Diretoria do CBDB emitiu uma circular a todos os sócios comunicando a intenção de publicar este livro e incentivou os associados a se apresentarem como voluntários na preparação dos diversos capítulos que haviam sido programados.” Pero Vaz de Caminha. a ministra Miriam Belchior. mais recentemente. como são muitos os aspectos enfocados. Essa distorção já contaminou a legislação ambiental brasileira e. querendo. planejamento. Entretanto.. A proposição foi aceita com entusiasmo. Com a proximidade do cinquentenário do Comitê Brasileiro de Barragens CBDB surgiu.

Carlos Alberto Pádua Amarante.Séculos XIX. José Machado e José Cândido Castro Parente Pessoa com os quais tive oportunidades de angariar valiosos depoimentos sobre aspectos de vivências profissionais passadas. por exemplo. Von Ranke.B. de Mello. Theophilo Benedicto Ottoni Netto. Antônio José da Costa Nunes. Os que atualmente atuam em implantação de barragens podem não imaginar que. para visitar pela primeira vez o local da hidroelétrica de Salto Grande em Minas Gerais. Usina hidroelétrica Serra do Facão 14 . o engenheiro John Cotrim gastou duas semanas a cavalo. Francisco de Assis Basílio. E. Victor F. Arthur Crocchi. Lyra. XX e XXI grafias e depoimentos que formassem as bases para o relato de uma história de mais de um século de conquistas que merecem registro. Penna. Com vários outros atores do passado tive contatos menos extensos. Cotrim. César Cals de Oliveira Filho e consultores como Manuel Rocha e Porland Port Fox. Por sorte tive o privilégio de conviver profissionalmente com alguns dos mais destacados atores daquele período e que já nos abandonaram. Estive com alguns desses atores com frequência em certas longas fases do exercício profissional tais como os engenheiros Flavio H. Léo A.A História das Barragens no Brasil . mas de elevado interesse no relato de experiências profissionais tais como Mário Penna Bhering. Epaminondas Mello do Amaral Filho. John R.

com destaque para as primeiras usinas hidráulicas para fornecimento público de energia elétrica: Marmelos no Sul-Sudeste. Gisele Miranda Gomes Reis. de concessão e de licenciamento ambiental. algumas das quais relato neste livro. Gustavo Nasser Moreira. Og Pozzoli. John Denys Cadman. Leila Lobo de Mendonça. Cavalcanti. Margaret Rose Mendes Fernandes. Provavelmente foram esses fatores que levaram o Conselho do CBDB a me indicar como responsável pela edição desse livro. Carlos Henrique Medeiros. é de se notar que há. de obtenção de materiais e de aquisição de equipamentos. O relato mais detalhado dessas barragens pioneiras retrata a imagem das imensas dificuldades logísticas de acesso. construída ainda no Século XIX por Bernardo Mascarenhas. além de oposições dos auto-proclamados ambientalistas nacionais e estrangeiros. O livro foi enriquecido com textos. Carlos Mazzaro. Mair Melo Andrade. Presentemente. de mais difícil caracterização. Rosana Libânio. Flavio Pilz. José João Rocha Afonso. Esses contatos. se consideradas as barragens de rejeitos. Paulo Coreixas Jr. foram em parte devidos à minha atuação profissional na engenharia.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Desses contatos pude extrair há anos. Gualter Pupo. João Paulo Maranhão Aguiar. só considerando as grandes barragens. Sérgio Pimenta. Alguns relatos apresentados em capítulos deste livro foram obtidos diretamente desses contatos dos que nos precederam na Profissão. pai do atual presidente do CBDB. Ricardo Ivan Bicudo. implementada na Região Amazônica por Newton Carvalho. principalmente. Fernando Pires de Camargo. Vânia Rosa Costa. Dessa forma há uma ênfase nas primeiras barragens para saneamento. dos quais guardo recordações as mais preciosas.. os que nos precederam conseguiram. engenheiro Erton Carvalho. devo certamente ser o mais antigo por ter sido chamado muito jovem a apoiar as atividades em sua sede. Henrique Frade. Julia Ferrer Leal de Araujo. implantar barragens e hidroelétricas em até menos de um ano. o editor Corrado Piasentin. André Luiz Fabiani. Ana Teresa Ponte. de aprovação. Teresa Malveira. no Brasil há bem mais de mil dessas estruturas em operação e. Simone Idalgo Machado. Não foi possível mencionar todos os atores e relatar todas as inúmeras atividades de implantação de barragens que ocorreram por mais de um século nesse tão vasto território nacional. Delphim Mazon Fernandes. informações de elevado conteúdo histórico. Jerson Kelman. Procurei congregar neste livro narrativas sucintas. porém objetivas. Agradeço também aos dirigentes e funcionários do CBDB. Nicole Schauner. prazos presentemente ina- creditáveis dadas as atuais delongas e dificuldades legais. para controle de cheias e. Cabe ainda agradecer os importantes apoios recebidos de diversos profissionais entre eles Alberto Jorge C. entrevistas e informações de alguns dos mais destacados profissionais que atuam na engenharia de barragens em nosso País. Mesmo assim. Agradecimentos são devidos aos autores dos capítulos e aos entrevistados que contribuíram decisivamente para a viabilização do livro. ultrapassa-se a casa das duas mil grandes barragens. 15 . o livro inevitavelmente contém omissões pelas quais desde já peço desculpas. Considerando que a história recente é mais conhecida por aqueles que acessarem esse livro. Sobre esse aspecto há um capítulo resumindo as primeiras hidroelétricas nas diversas regiões do País. Viviani Siqueira Vecchi e Walton Pacelli de Andrade. Cleber José de Carvalho. à minha atuação na Universidade e às minhas atividades no CBDB e em outras entidades técnicas. a revisora de texto Margarida Corção e o conselheiro Aurélio Alves de Vasconcelos. Heloisa Ottoni. O presente livro é resultado do apoio e do incentivo de muitas pessoas entre as quais cabe destacar especialmente a constante compreensão e apoio de minha esposa. uma ênfase maior na história remota. Hilton Ahiran da Silveira. José Gelazio da Rocha. Talvani Hipólito Nolasco Filho. No CBDB. nas mais adversas condições. T. Alberto Sayão. Angiquinho implantada no Nordeste por Delmiro Gouveia e Itapecuruzinho. para combate às trágicas consequências ocasionadas pelas secas e para produção de energia elétrica. em quase todos os capítulos. José Carlos de Miranda Reis Neto. das quatro filhas que passaram mais de um ano sem minha participação em atividades de fins de semana. de todas as principais atividades que resultaram na implantação de tantas barragens que trouxeram progresso e bem estar ao nosso povo desde o Século XIX. presentes e atuantes desde a primeira hora. Com uma longa história tão rica a ser resumida num espaço tão curto. embora não seja o mais velho. Sandra Pereira.

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por exemplo. Sexton. a maior parte do qual se situa no hemisfério sul. só é possível acumular águas subterrâneas em regiões de rochas com fraturas profundas. têm regime intermitente em pelo menos parte de seus cursos. Quase todos os rios do Nordeste. O País abriga a quinta maior população do mundo. como o substrato cristalino é pouco permeável.000 m³/s. A leste desta região encontra-se a região semi-árida do nordeste brasileiro cujos rios são em geral intermitentes. sendo geralmente esta água insuficiente e de baixa qualidade.” “Acreditamos que os resultados do estudo auxiliarão nos anos vindouros o desenvolvimento da indústria de geração do Centro-Sul do Brasil sobre uma base sólida” John K.km². o relevo e a vegetação. apresentando descarga específica média de 35 l/s. formado por dois grandes rios. compreendendo 8. há diferentes aspectos naturais tais como. Nessa área a evaporação média pode atingir 2000 mm/ano e. pode ser responsável pelo consumo de até 92% das precipitações. variando de áreas úmidas ao vasto semi-árido do interior do Nordeste. denominada Polígono das Secas. A maior parte dos seus 190 milhões de habitantes vive na Região Sudeste onde as maiores cidades estão localizadas.  Síntese do Desenvolvimento da Implantação das Barragens no Brasil Flavio Miguez de Mello O País e seus recursos hídricos O Brasil é um território contínuo de forma quase quadrada. Esse grande território tem uma longa fronteira com todos os países da América do Sul à exceção do Equador e do Chile. Barragem de finalidades múltiplas de Pedra do Cavalo no rio Paraguaçu na Bahia 17 . juntamente com evapotranspiração. engenheiro chefe da Canambra. Os mais importantes tributários desses rios e os rios da bacia do rio Tocantins que flui de sul para norte. desde 4° de latitude norte a 33º de latitude sul e de 40 º a 75º de longitude oeste.5x106 km². constituem-se nos grandes recursos hídricos do norte do Brasil. 1966. a quantidade e frequência de precipitações.km². o mais caudaloso e mais longo rio do mundo. podendo apresentar descargas específicas médias tão baixas quanto 3 l/s. O ambiente varia das planícies alagadas da Amazônia Equatorial e do Pantanal ao Planalto Central. a geologia. o clima. Como o País é de tão grande superfície. o Solimões que drena os Andes peruanos e bolivianos e o Negro. a incidência solar supera as 3000 horas por ano. a precipitação média anual pode ser de 400 mm ou menos. com uma descarga média superior a 200. com uma extensa costa banhada pelo Oceano Atlântico ao longo de 8.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens “We trust that the results of the study will help the power industry of South Central Brazil to develop on a sound basis in the years that lie ahead. com exceção dos rios São Francisco (que é proveniente do Sudeste) e Parnaíba.500 km. os recursos hídricos. A pequena espessura da cobertura de solo faz com que haja dificuldade em reter a umidade e. A parte central da Região Amazônica é cortada de oeste para leste pelo rio Amazonas. da cadeia de montanhas próximas à costa no Sudeste até as planícies do Sul e do Meio Oeste. Nessa área.

km² a 30 l/s. possivelmente no final do Século XVI. Apipucos na língua tupi significa onde os caminhos se encontram. Um olhar para o passado remoto A mais antiga barragem que se tem notícia em território brasileiro foi construída onde hoje é área urbana do Recife. o tratamento de fundação pode ser feito na primeira estação seca durante a construção e a barragem construída durante a estação seca seguinte.Barragem de Apipucos na cidade do Recife. PE.A História das Barragens no Brasil . variando entre a oitava e a décima maior economia do mundo. A mais antiga barragem que se tem registro no Brasil 18 . Nos últimos 40 anos o País tem participado intensamente da economia internacional. Figuras 1a e 1b .km². no caso de barragens não muito altas. aparece em um mapa holandês de 1577. em 1650 sofreu transbordamento por ocasião de uma grande cheia. O dique tinha três metros de altura e cerca de 2 km de extensão. tendo colapsado em vários pontos. um braço do rio Capiberibe. Conhecida presentemente como açude Apipucos. muitas vezes sem requerer estruturas de desvio e ensecadeiras. A barragem original foi alargada e reforçada para permitir a construção de uma importante via de acesso ao centro do Recife. Há referências também ao dique Afogados construído no rio Afogados. As secas no Nordeste e o desenvolvimento do País foram os fatores determinantes para a implantação do grande número de barragens construídas desde a última década do século XIX. antes mesmo da invasão holandesa. No resto do País as descargas específicas variam de 12 l/s. tendo sido concluído em dezembro de 1644.Séculos XIX. XX e XXI Nesses rios intermitentes. por Harman Agenau por 6000 florins para acesso a um forte também na atual região urbana do Recife.

nomeou uma comissão para recomendar uma solução para o problema das secas no Nordeste. tendo sido palco de migrações em massa de flagelados. outro intenso El Niño foi responsável pela retirada dos invasores holandeses de onde é hoje a costa do Ceará. Figura 3 – Barragem de Castanhão para abastecimento de água à cidade de Fortaleza. Esse grande rio que nasce na Região Sudeste em Minas Gerais. Em 1880. Os anos 50 e 60 do século passado foram os anos dourados na construção de barragens para combate às secas. situada no Ceará e concluída em 1906. No final do Século XX o DNOCS executou sua última barragem. No seu estágio final a derivação será de 3. Somente a partir de meados dos anos oitenta do século passado passou-se a saber que as secas são devidas ao fenômeno conhecido por El Niño no Pacífico Sul.5 milhão de habitantes. perdeu mais de um terço da sua população de maneira trágica.CINQUENTA ANOS DO COMITÊ BRASILEIRO DE BARRAGENS As obras contra as secas O ano de 1877 foi o início da maior tragédia nacional devido a fenômeno natural: A Grande Seca no Nordeste com duração superior a três anos deixou cicatrizes que até hoje são nítidas. estações de bombeamento e casas de força para 19 . Figura 2 . uma das duas mais antigas grandes barragens do Brasil (1906) Centenas de barragens foram construídas desde a Grande Seca no Nordeste.Barragem de Cedros. Serão construídas diversas barragens. o Imperador D. Isso marcou o início do planejamento e projeto de grandes barragens no Brasil. A primeira dessas barragens foi Cedros. O estado do Ceará. CE Recentemente foi lançado o projeto de derivação de parte das descargas do rio São Francisco para o Polígono das Secas. Castanhão cuja finalidade principal foi o abastecimento de água da cidade de Fortaleza. conduziu à adoção de vertedouros de superfície simplesmente escavados em rocha sã. Na primeira década do século XX uma membrana de alvenaria ou de concreto era usualmente usada como elemento impermeabilizante interno de barragens de terra. uma das áreas mais atingidas. A rocha sã em geral encontrada nas ombreiras. Muitos anos antes. na época com 1. Pedro II que esteve na área atingida. As principais recomendações foram a construção de estradas para que a população pudesse atingir o litoral e a construção de barragens para suprimento de água e irrigação no Polígono das Secas cuja área é superior a 950. diques.000 km². em vários projetos. A pequena altura das barragens e a rocha sã nos leitos dos rios minimizavam a necessidade de tratamento de fundação. canais. tem no seu trecho inferior uma descarga média de longo termo de cerca de 2000 m³/s. logo após a Grande Seca.2% desta descarga para as regiões de seca.

o setor elétrico foi aos poucos sendo estatizado. Esse estrangulamento fez com que o governo federal e alguns governos estaduais criassem empresas de energia elétrica. dos quais 3. no rio Tietê. um vertedouro de soleira livre. Assim. para suprimento de energia elétrica à cidade de São Paulo. sem serem muito altas. transmissão e distribuição de energia elétrica. quando inaugurada. Em 1954 a antiga usina foi substituída por unidades de recalque e a barragem alteada para 18. Em 1960. em grande parte de sua extensão. Logo após a II Guerra Mundial. Para esses empreendimentos consultores individuais prestaram importante apoio tais como Karl Terzaghi. passou a haver insuficiência de oferta de energia nas décadas seguintes. era de alvenaria de pedra constituída por grandes blocos de rocha gnáissica solidarizados com argamassa. Muitas 20 . Serão bombeados 63. na época uma das maiores do mundo. Devido à contenção tarifária e à fragilidade do capital nacional. Os danos ao progresso da Nação foram intensos e irrecuperáveis. a Light. A primeira usina da Light entrou em operação em 1901. concessionária da mais desenvolvida região do País. No final do século passado. Inicialmente denominada Parnaíba e depois Edgard de Souza.A História das Barragens no Brasil . construção e operação de barragens são principalmente devidas à implantação de hidroelétricas. tendo sido causado intenso estrangulamento na expansão de oferta de energia elétrica. XX e XXI geração de energia.Séculos XIX. Até os anos cinquenta todas as empresas de energia elétrica eram privadas e as suas usinas eram situadas principalmente nas regiões Sul e Sudeste.000 MW. No final do Século XIX começaram a ser implantadas pequenas usinas para suprimento de cargas modestas e localizadas.5 m³/s do rio São Francisco. As primeiras grandes barragens do País foram Cedros acima mencionada e Lajes. A maioria das grandes barragens do Brasil (pela classificação da CIGB) encontra-se na Região Nordeste. a maior parte delas em aterro compactado. Desde o início dos anos cinquenta as concessionárias estatais passaram a se concentrar em empreendimentos de grandes vultos. devido à desastrosa e desastrada política de restrição tarifária iniciada pelo Código de Águas que incluiu o não reconhecimento de remuneração de capital empregado em obras de geração. Presentemente (2011) há 1206 MW instalados em hidroelétricas de mais de 50 anos de idade. Em 1934 o decreto federal nº 24643 conhecido como Código de Águas e o cancelamento da cláusula ouro que protegia as empresas concessionárias dos efeitos da desvalorização da moeda nacional. o vertedouro foi redimensionado com considerável acréscimo de capacidade. a capacidade instalada no território nacional era de apenas 5. dessas unidades estão sendo agora reabilitadas e repotenciadas. que entrou em operação em 1906 no estado do Rio de Janeiro com o objetivo de derivar as águas do ribeirão das Lajes para da usina de Fontes no Rio de Janeiro. todas com barragens de dimensões discretas.700 MW provinham de hidroelétricas. A maior parte das barragens eram estruturas de concreto gravidade ou de alvenaria de pedra. sua barragem original com 12. Por esse motivo as mais importantes contribuições no sentido de desenvolvimento de tecnologias de projeto. tinha 2 MW instalados. passaram a desencorajar diretamente os investidores do setor elétrico. sendo. Arthur Casagrande e Portland Port Fox.5 m de altura. não muito altas.5 m através de reforços em contrafortes e com vertedouro com três comportas de segmento de capacidade conjunta de 800 m³/s. em função das intensas alterações nos coeficientes hidráulicos de sua área de drenagem devido à ur banização da cidade de São Paulo e das cidades vizinhas. Durante as estações chuvosas na bacia do rio São Francisco poderão ser bombeadas até 127 m³/s . As primeiras barragens para produção de energia elétrica Nas regiões Sul e Sudeste a implantação de barragens foi principalmente direcionada para produção de energia elétrica. a usina. construiu diversas barragens e grandes casas de forças subterrâneas no Rio de Janeiro e em São Paulo.

sem o conhecimento dos potenciais do rio Grande e do rio Paranaíba. a partir dos anos sessenta. Nessa expedição foi identificado o local de Furnas 21 . John Cotrim. tendo inclusive atingido as Sete Quedas. O legado da Canambra Na primeira metade do século passado. os recursos hídricos em território brasileiro eram pouco conhecidos e não tinha havido ainda estudos sistemáticos que posteriormente. diretor técnico da Cemig. Nessa época. organizou uma expedição pelo rio Grande entre dois potenciais conhecidos: os locais das usinas de Itutinga e de Peixoto. muito mais próximos. A Light. responsável pelo Figura 4 – Barragem e reservatório de Lajes. passaram a ser designados por estudos de inventário. uma das duas grandes barragens mais antigas do Brasil (1906) suprimento de energia elétrica às mais importantes regiões no Rio de Janeiro e em São Paulo.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A evolução do conhecimento dos recursos hidroenergéticos. dada a escassez de mapeamento e as dificuldades logísticas. efetuava estudos dispersos.

um contrato com a Canambra Engineering Consultants. Os estudos de inventário constituíram-se em atividade sem precedente. Ao abrigo desse recurso financeiro. Sexton. englobando 510 locais de barragem dos quais 264 foram levantados com melhor precisão. a óleo e usinas nucleares. um em São Paulo e um no Rio de Janeiro.. a John Cotrim. Progressivamente as condicionantes ambientais foram ganhando espaço nas definições de projetos em inventários. São Paulo.700 horas de voos de reconhecimento. em 3 de junho do ano seguinte. diretor da Canambra. A partir dos anos oitenta os estudos anteriores começaram a ser revisados e densificados em quase todo o território nacional. a Canambra foi contratada para efetuar estudo de mesmo escopo para a Região Sul. usando 3. os estudos passaram a ser conhecidos como Canambra. Rio de Janeiro e Guanabara assinaram em 1 de março de 1963 o Plano de Operação. Um exemplo típico foi a revisão do inventário do rio Paraibuna em Minas Gerais que havia sido feito nos anos oitenta.A História das Barragens no Brasil . nos anos setenta.8 milhões. um consórcio entre as empresas consultoras canadenses. Montreal Engineering Company Ltd. de estender os estudos à toda Região Sudeste considerando a importância desses estudos para a otimização dos investimentos em geração de energia elétrica e como todos os rios que nascem em Minas Gerais atravessam outros estados.E.K. Nas fases posteriores de implantação das usinas. e G. Crippen & Associates Ltd. e a americana Gibbs & Hill Inc.Séculos XIX. inclusive termoelétricas a carvão.000 km de rios. a maioria esmagadora dos estudos realizados pela Canambra foi posteriormente aprofundada nas etapas sucessivas de projeto dentro das diretrizes inicialmente estabelecidas.7 milhões.000 km². para que fosse realizado o inventário dos recursos hidroenergéticos em Minas Gerais. o governo federal se interessou vivamente pela iniciativa da Cemig e. A área total investigada foi de 1. tendo direcionado o desenvolvimento hidroenergético da região. Posteriormente. O relatório final foi entregue por J. Com a sugestão do Banco Mundial que atuou nesse inventário como agente executivo do UNDP. XX e XXI que posteriormente deu origem à empresa de mesmo nome. um em Belo Horizonte. empresas nacionais realizaram estudos de inventário hidroenergéticos nas regiões Norte e Nordeste. A Cemig solicitou apoio financeiro ao Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (UNDP sigla em inglês). Inicialmente conhecido como ONU-Cemig. A partir de poucos anos Figura 5 – Grupo de Minas Gerais da Canambra trabalhando no escritório central da Cemig 22 . para formatar o programa final de desenvolvimento energético da Região Sudeste. o ministro Gabriel Passos das Minas e Energia e os governadores dos estados de Minas Gerais. Foram identificados como viáveis potenciais que somados atingiram 40. chefe do Comitê de Direção dos Estudos. Cemig assinou. o UNDP disponibilizou recursos da ordem de US$ 2. Para tanto. os estudos foram estendidos à toda a Região Sudeste através de um contrato assinado entre a Canambra e Furnas. Três grupos foram formados.1 milhão de quilômetros quadrados cobrindo 28. Considerando o sucesso dos estudos desenvolvidos na Região Sudeste. A descoberta desse potencial causou espanto no meio técnico da época. em dezembro de 1966. em 2 de novembro de 1962.000 MW. Os dois primeiros grupos acima mencionados desenvolveram o inventário dos recursos hidroenergéticos em relatórios independentes e o grupo sediado no Rio de Janeiro usou os resultados obtidos adicionados a investigações de outras possíveis fontes geradoras. Como reflexo desse levantamento veio o objetivo da Cemig de efetuar um levantamento dos recursos hidroenergéticos de Minas Gerais. Com esse propósito. havendo a contrapartida em moeda nacional no equivalente a US$ 3. o que demandou aerofotografias de uma área de 516.

Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 6 . feriados e noites de lua cheia. quase sempre objetivos antagônicos. Apesar de pequena perda energética em relação à partição de queda proposta nos anos oitenta. maior número de usinas com quedas mais modestas e pequenos trechos inaproveitados. são liberados para a canoagem pela barragem de derivação a descarga de 50 m³/s. Durante os dias de fim de semana. Cabuy. Rio de Janeiro e Minas Gerais Figura 7c . Bonfante e Santa Fé com pequenas áreas inundadas. tendo sido implantados a partir do início dos anos noventa. atolados na beira do rio. os empreendimentos passaram a ser econômica e ambientalmente viáveis. 7a 7b Figura 7a . mostrando as dificuldades logísticas durante os levantamentos de campo efetuados pela Canambra após seu término. foram progressivamente alterados para reservatórios de menores dimensões. Na usina que fica mais a jusante foi possível a compatibilização inédita do aproveitamento energético com a canoagem. Rio de Janeiro e Minas Gerais Figura 7b .PCH Monte Serrat no rio Paraibuna. Monte Serrat. os projetos que pelas exageradas dimensões de seus reservatórios inundariam centros urbanos e grandes extensões de obras de infraestrutura viária.PCH Bonfante no rio Paraibuna. Rio de Janeiro e Minas Gerais 7c Figura 7d – Rafting no rio Paraibuna sobre a soleira vertedora da barragem de derivação de Santa Fé 7d 23 . Sobragy.PCH Santa Fé no rio Paraibuna. Foram definidos os aproveitamentos de Picada. garantindo melhores condições do que as condições naturais. ideal para a prática da canoagem.John Cadman fotografado por John Cabrera.

Figuras 8a e 8b – PCH Queluz antes e depois do enchimento do reservatório. assim denominadas por terem todos os equipamentos idênticos. foram concluídas em 2011 e tiveram seus reservatórios condicionados pela infraestrutura viária do local. a menos das usinas existentes ou aprovadas entre as quais o complexo de Simplício. com 30 MW cada. Em primeiro plano a ferrovia de concessão da MRS e ao fundo a rodovia Presidente Dutra BR-116 24 . Em primeiro plano a ferrovia de concessão da MRS e ao fundo a ponte da rodovia Presidente Dutra BR-116 Figuras 9a e 9b . Dessa revisão dos inventários existentes resultou o projeto de mais de cinquenta novos aproveitamentos. a ANEEL contratou a Es cola Politécnica da UFRJ em 2000 para reestudar toda a bacia do rio Paraíba do Sul com atenção especial aos impactos ambientais. XX e XXI Influenciada por essas alterações. construídas no rio Paraíba do Sul a montante do reservatório do Funil.PCH Lavrinhas antes e depois do enchimento do reservatório. em sua maioria esquemas de baixa queda para torná-los ambientalmente viáveis.A História das Barragens no Brasil . Dentre os aproveitamentos de baixa queda destacam-se as PCHs gêmeas Queluz e Lavrinhas.Séculos XIX. Essas PCHs.

a concentração de investimentos em poucos. Entretanto. resultando no que mostra a tabela a seguir. Cotrim. A partir da esquerda Flavio H. devido ao estabelecimento do critério da verdade tarifária introduzido no início do governo Castelo Branco por Bulhões de Carvalho e Roberto Campos.Lyra. um impressionante número de grandes hidroelétricas foram construídas e entraram em operação. Lyra preocupado com a concepção do projeto Nos anos oitenta e noventa um menor número de hidroelétricas entraram em operação devido à carência de recursos financeiros das estatais causada principalmente pelos impactos na economia nacional devidos aos dois choques do petróleo e a crescente inflação. 25 . Figura 10 – Local da usina hidroelétrica de Furnas no início de sua construção. Juscelino Kubitschek de Oliveira.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Alterações nos critérios tarifários e a consequente ampliação de implantação de hidroelétricas Nos anos sessenta e setenta. mas grandes empreendimentos. continuou. Todos olhando para o fotografo a menos de Flavio H. John R. algumas das quais entre as maiores do mundo na época. Benedito Dutra e outros.

162 NE 2.078 S 1.Séculos XIX.540 S SE/CO NE SE/CO S SE/CO TE/CG TE/CG BEFC TE/CG TE/CG TE/CG BEFC TE/ER/CG TE/CG BEFC TE/CG TE/CG ER TE/CG BEFC CCR ER ER ER TE/CG ER Figura 12 – Usina hidroelétrica de Salto Santiago no rio Iguaçu Figura 11 – Casa de força e vertedouro da usina hidroelétrica de Tucuruí GA/CG/CT/ER/TE Região Tipo de Barragem 3.050 SE Legenda: N S SE NE CO TE ER BEFC CG CCR GA CF Região Norte Região Sul Região Sudeste Região Nordeste Região Centroeste barragem de terra barragem de enrocamento com núcleo de terra barragem de enrocamento com face de concreto barragem de concreto gravidade barragem de concreto compactado com rolo barragem de concreto em gravidade aliviada barragem de concreto em contrafortes Figura 13 – Usina hidroelétrica de Itá em final de construção 26 .216 SE 1.240 S SE S Marimbondo 1.192 SE/CO 1.444 2.082 SE/CO 1.462 1.676 1.450 S 1.479 NE 1.396 1.370 N 7.420 1.551 SE/CO 1.440 SE 1.050 NE 1.A História das Barragens no Brasil . XX e XXI TABELA 1 Maiores Hidroelétricas em Operação em 2011 Hidroelétrica Tucuruí Itaipu (Brasil) Ilha Solteira Xingó Paulo Afonso IV Itumbiara São Simão Foz do Areia Jupiá Porto Primavera Itá Itaparica Salto Santiago Água Vermelha Segredo Salto Caxias Furnas Emborcação Salto Osório Sobradinho Estreito Potência (MW) 8.710 1.000 3.260 S 1.

o de maior volume do Brasil 27 . otimização de operação e confiabilidade no suprimento de energia elétrica.250 1. Figura 15 – Reservatório da usina hidroelétrica de Serra da Mesa. consequentemente.360 17 Porto Primavera Serra da Mesa 2. Tais reservatórios passaram a propiciar benefícios de regularização de vazões e.350 29 *Incluindo a parte do reservatório sobre território paraguaio.784 20 54 Itaipu* 1.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Extensos reservatórios foram criados para algumas dessas grandes hidroelétricas.214 34 Tucuruí 3. Reservatório de maior área do Brasil Sobradinho 4.007 50 Balbina 2. TABELA 2 Maiores Reservatórios Barragem Área (km²) Volume (km³) Extensão (km) 350 170 225 250 116 170 Figura 14 – Usina hidroelétrica de Sobradinho.

a carga de impostos na geração de energia elétrica é de cerca de 45% da tarifa cheia. teoricamente privada. A hidroeletricidade nos anos recentes Em 1996. nomeadamente em Itaipu e Tucuruí. Como resultado. essas obras ficaram sujeitas a vultosos dispêndios devido aos acréscimos de custo de construção e à maior incidência de juros durante a construção. Uma empresa federal (EPE . Ao final de 2008 essa proporção caiu para 74% devido ao planejamento para a diversificação de fontes geradoras e às dificuldades de obtenção de licenciamentos ambientais para barragens e reservatórios. a energia elétrica disponibilizada no Brasil possa ser a mais cara do mundo devido principalmente a essa elevada carga tributária. Considerando as funestas e intensas consequências ao País em outros empreendimentos financiados pelo Banco Mundial. entidade. Em abril de 2011 a capacidade total instalada no País passou a ser de 112. Devido ao sistema ser interligado em grande parte do território nacional. alterações operacionais e licitações 28 . Uma grande parte do território brasileiro. ficando assim concessionário da usina ou do sistema de transmissão. Entretanto. Essas verbas correspondiam aos valores que seriam despendidos caso as obras viessem a ser paralisadas. Todo o planejamento concernente a privatização.Séculos XIX.Empresa de Pesquisa Energética) foi criada para o desenvolvimento do planejamento do setor elétrico. Há poucos anos atrás bem mais de 90% da capacidade instalada provinha de usinas hidroelétricas. XX e XXI Desde pouco antes do início dos anos oitenta o governo federal e os governos estaduais passaram a enfrentar grandes dificuldades para prover recursos necessários para a implantação de novas usinas e de sistemas de transmissão. Nas obras federais houve intensa concentração de recursos na construção das maiores usinas. 345 kV. Impostos. Uma segunda alteração na legislação ocorreu em 2004 mantendo o processo de licitação para novos projetos. com exceção de sistemas isolados na Região Norte. de distribuição. 440 kV. que atua na coordenação e no controle da operação das geradoras e dos sistemas de transmissão. esta denunciou a Eletrobras ao Banco Mundial. Como esses valores eram insuficientes para manter o ritmo ideal de construção.816 MW em 1768 usinas geradoras das quais 706 eram hidroelétricas. Em novembro de 2008 a capacidade instalada no País era de 104.398 MW. Um dos casos extremos ocorreu na implantação da hidroelétrica de Emborcação que. Em 2008 mais de 95% da população tinha acesso a serviço público de eletricidade compreendendo mais de 99% dos municípios. apesar do grande número das grandes usinas hidroelétricas que operam há mais de 30 anos estarem teoricamente depreciadas. mas tornando-se vencedor aquele que apresentasse a menor tarifa. é servido por mais de 90. 500 kV e 750 kV. a Eletrobras foi obrigada a cumprir o contrato. as novas hidroelétricas. o que faz com que. para concessões têm sido processado pela ANEEL. de transmissão. Pouco depois foi instituída a Agência Nacional de Águas e o Operador Nacional do Sistema. de comercialização e outros investidores são encorajados a implantar usinas de geração e sistemas de transmissão. além de suprirem energia na sua região. perante à reiterada ameaça da Eletrobras em não cumprir o contrato de financiamento com a Cemig. um vasto sistema de transmissão em alta tensão e em extra alta tensão promove a interligação de várias regiões do País ao sul do rio Amazonas unindo os dois maiores sistemas nacionais: o Norte/ Nordeste ao Sul/Sudeste/Centroeste. Nos últimos 10 anos a média anual do aumento da capacidade instalada foi de 3652 MW. Está programada para futuro próximo a interligação entre a margem sul e a margem norte do rio Amazonas.000 km de sistemas de transmissão interconectados em 230 kV. ficando as demais obras federais sujeitas às verbas de desmobilização. através da Lei 9427. promovem benefícios para outras áreas. 1042 termoelétricas e duas termonucleares.A História das Barragens no Brasil . e depois em Xingó. bem como comercializar a energia produzida ou transmitida. tendo afetado negativamente as empresas contratadas para fornecimento de serviços e de bens de capital. uma importante modificação ocorreu no setor elétrico com a criação da Agência Nacional de Energia Elétrica. Presentemente empresas de geração. As transações de compra e venda de blocos de energia no sistema interligado de transmissão são feitas sob os auspícios do Mercado Atacadista de Energia através de contratos bi-laterais de curta duração.

um grande número de investidores têm atuado na implementação de pequenas centrais hidroelétricas até o limite de 30 MW instalados. deverá fazer com que as tarifas venham a ser consideravelmente reduzidas. As hidroelétricas a serem licitadas já estarão totalmente depreciadas. um dos principais problemas é que. não venham a ser renovadas. Índia e China) que se situam em R$140. Rússia. Por outro lado a FIESP defende que a legislação não venha ser alterada ou violentada e que as licitações sejam feitas. Desde a última década do século XX. Essas concessões. além de ativos em sistemas de transmissão. a intensa redução das tarifas que beneficiaria os contribuintes e recolocaria a competitividade da indústria nacional no mercado externo. Em abril de 2011 as grandes concessionárias como CESP. 70. pelo espírito da Lei. Para tanto. vertedouros de superfície em lâmina livre e casas de força em posição remota em relação às barragens.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens taxas e contribuições mandatórias em uma conta de consumo de energia elétrica em residência de classe média quando comparada ao custo direto da energia fornecida. no caso de Furnas. A esmagadora maioria dessas pequenas usinas tem modestos reservatórios. Figura 16 . pequenas barragens. Pela legislação em vigor essas concessões retornarão à União que deverá efetuar licitações para definição de novos concessionários. por exemplo. Presentemente (meados de 2011) a tarifa média para a indústria no Brasil é de R$ 329/MWh. a FIESP entrou com representação no TCU solicitando intervenção para que providências sejam tomadas no sentido de garantir a execução das licitações de concessão.000 km de linhas de transmissão e 33% dos contratos de distribuição deverão ter suas concessões licitadas. As atuais concessionárias terão que se adaptar à nova realidade. Tem havido por parte das atuais concessionárias e de governos estaduais. Em estudo recente a FIRJAN considerou críticos os níveis dos quatorze encargos cobrados sobre a energia elétrica. se situam no entorno de 85%. Furnas. Prevê-se que em 2015 cerca de 20% do parque gerador. faria com que o governo perdesse arrecadação o que não costuma ser aceito pelos políticos da situação.PCH Calheiros 19 MW no rio Itabapoana. Entretanto. poderá perder até 52% do seu atual faturamento caso as concessões que vencem no período acima mencionado. Entre 2015 e 2017 muitas das concessões das maiores hidroelétricas e dos sistemas de transmissão estarão vencidas. compreendem a 5000 MW em seis usinas. entre os estados do Rio de Janeiro e Espírito Santo Figura 17 – Barragem da PCH Ivan Botelho II (Palestina) em Minas Gerais 29 . pois os investimentos na construção das usinas e nos sistemas de transmissão já foram amortizados há muito tempo. 134% superior à média das tarifas industriais nos outros países do BRIC (Brasil. CEMIG e COPEL formaram um grupo para discutir o problema e tentar influenciar uma alteração na legislação visando prorrogações das concessões.7/MWh. intenso lobby para a manutenção das atuais concessões. o que. considera que com as licitações as tarifas despencarão a níveis de 20% dos atuais. com o elevadíssimo nível dos encargos sobre o fornecimento da energia elétrica.

A descarg a remanescente é a maior que se tem notícia. extremamente baixa em comparação com a média nacional. Esse aproveitamento está sendo estudado há trinta anos. Os vertedouros dessas duas barragens foram dimensionados para as descargas decamilenares de 82. Outras grandes hidroelétricas como Tucuruí (0. Por restrições ambientais e com a finalidade de se conseguir o licenciamento ambiental. O rio Madeira drena uma extensa área da Cordilheira dos Andes na Bolívia. Monte que terá a capacidade instalada de 11. Localizada nas proximidades de Altamira.49 km²/MW.Séculos XIX. passou para 516 km². denominada casa de força complementar.08.29 km²/MW). pequena estrutura (barragem) de derivação Hidroelétricas de porte médio são também atraentes a investidores privados por apresentarem. 700 m³/s. inundarão terrenos da Floresta Amazônica. com 233 MW com unidades bulbo sob 11. O empreendimento afetará 4300 famílias urbanas e 800 famílias rurais. a usina aproveitará a queda na grande curva do Xingu. no Pará.10 km²/MW) e Serra da Mesa (1. situadas no rio Madeira a montante de Porto Velho terão. Figura 19 – Usina hidroelétrica de Monjolinho com vertedouro do tipo lateral Grandes hidroelétricas estão presentemente sendo construídas.3 km².40 km²/MW) embora com relações modestas. um dos maiores tributários do rio Amazonas.000 MW com unidades Francis sob 87. em relação às empresas estatais. uma com 11. Itaipu (0.05 km²/MW. Pelo projeto em processo de licenciamento. no seu conjunto. teve seu projeto abandonado e a área do reservatório de Belo Monte que inicialmente era de 1225 km². A média nacional é de 0. sendo cada um equipado com 20 comportas de segmento de 20 m x 25. Ambas casas de força abrigarão unidades bulbo operando praticamente a fio d’água. menores custos internos. Encontra-se em início de construção a hidroelétrica de Belo 18 – PCH Cachoeira em Rondônia.2 m.000 m³/s.A História das Barragens no Brasil . Os reservatórios com área de 258 km² e 271. Entretanto. XX e XXI 6900 MW instalados. A hidroelétrica de Belo Monte terá baixa relação entre a área do reservatório e a capacidade instalada: 0. serão implantadas duas casas de força.5 m de queda líquida e outra. a barragem de Babaquara que regularizaria o rio Xingu a montante de Belo Monte. apresentam índices mais elevados. que fluirão pela casa de força complementar. As hidroelétricas de Jirau e Santo Antônio. A ausência de reservatórios de regularização no rio Xingu faz com que o fator de capacidade seja muito baixo.233 MW no rio Xingu. cerca de 30 . a relação entre área inundada em km² e a capacidade instalada em MW é de cerca de 0.600 m³/s e 84.5 m de queda líquida.

Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 20 – Usina hidroelétrica de Santa Clara em Minas Gerais Figura 21 – Barragem vertedoura da hidroelétrica de Picada em Minas Gerais Figura 22 – Obras da usina hidroelétrica de Santo Antônio no rio Madeira 31 .

Afirmou ainda que considerava estratégico ter a garantia de produção de pelo menos 50% da energia necessária à sua indústria.4 MW. a CBA partiu para o médio rio Paranapanema. SP. a Votorantim e muitas outras. A concessão só foi outorgada em 1952. o engenheiro Antônio Ermírio de Moraes externou as dificuldades que encontrou. tendo construído as hidroelétricas de Piraju com 80 MW que entrou em operação em 2002 e Ourinhos em operação desde 2006. engenheiro e político José Ermírio de Moraes fundaram a CBA para exploração da jazida de bauxita que havia sido identificada nas terras dos Carvalho Dias nas proximidades de Poços de Caldas. MG. sendo um empreendedor privado. em 1989 Iporanga com 36. projetada para 1087 MW instalados encontra-se (maio de 2011) em início de operação comercial após quatro anos de atrasos devido a demoras no licenciamento ambiental e a paralisações referentes a ações judiciais e a atos de ocupação indevida de seu canteiro de obra. No início dos anos quarenta a família Carvalho Dias e o empresário. Figura 23 – Barragem da usina hidroelétrica de Barra no rio Juquiá.A História das Barragens no Brasil . a CBA adquiriu da São Paulo Light a hidroelétrica de Itupararanga com 55 MW. A auto-produção de energia elétrica tem movimentado em anos recentes várias empresas de grande vulto como a Vale. Em conversa com o autor. e montar uma fábrica de alumínio. em 1982 Porto Raso com 28. a Petrobrás. em 1978 Serraria com 24 MW. em 1986 Barra com 40.4 MW e. Com os principais potenciais do rio Juquiá-Guaçu explorados. também situada na Amazônia.87 MW.4 MW. em São Paulo 32 .Séculos XIX. para a obtenção da concessão. finalmente. Um exemplo marcante é a Companhia Brasileira de Alumínio CBA que por longo período foi o maior auto-produtor de energia elétrica do País. a CSN. XX e XXI A hidroelétrica de Estreito. indústria eletrointensiva. Nesse período. Em 1942 o DNAEE determinou que a São Paulo Light suprisse de energia elétrica a fábrica que estava projetada para ser construída no município de Mairinque. a CBA deu início à implantação de uma série de usinas no rio Juquiá-Guaçu: em 1958 entrou em operação a hidroelétrica de França com 24 MW. Como a São Paulo Light não dispunha de energia para garantir o fornecimento à CBA. em 1974 Alecrim com 72 MW. Assim. em 1974. em 1963 Fumaça com 36. esta requereu a concessão do rio Juquiá-Guaçu e do seu afluente Assungi.

em São Paulo Figura 25 – Projeto da barragem da usina hidroelétrica de Barra Figura 26 – Projeto da barragem da usina hidroelétrica de Fumaça 33 .Barragem da usina hidroelétrica de Fumaça.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 24 . no rio Juquiá.

Séculos XIX. que atualmente (maio de 2011) está com 155 m de altura é projetada para atingir 170 m de altura no seu estágio final. XX e XXI Os projetos das hidroelétricas da CBA no rio Juquiá-Guaçu foram todos de concepção italiana. são conhecidas mais de 700 barragens em Minas Gerais e pelo menos 150 outras nos demais estados da Federação. Devido à legislação ambiental. Edilberto Maurer e Valério Mortara para o qual o autor teve o privilégio de entregar o título de engenheiro eminente pela Associação dos Antigos Alunos da Politécnica em 2000. A barragem do Germano. a maior do País. o executivo da empresa era o médico Miguel Carvalho Dias que contava com a importante colaboração de vários engenheiros de destaque na profissão entre eles Carlos Mazzaro. Além do acompanhamento constante do engenheiro Antônio Ermírio de Moraes. com barragens de concreto de gravidade aliviada. um grande número de barragens de rejeitos foram construídas ou estão presentemente em construção. Barragens de rejeitos Atividades de mineração representam um importante segmento na economia nacional. O método de construção mais empregado é o método de monFigura 27 – Antônio Ermirio de Moraes principal executivo do Grupo Votorantim.A História das Barragens no Brasil . Embora não haja um registro de barragens de rejeitos no País.Usina hidroelétrica de Piraju no rio Paranapanema entre São Paulo e Paraná 34 . detentor da CBA Figura 28 . Newton Sady Busetti.

que compreende três barragens de terra. 35 . que inclui três barragens que são somente usadas para controlar as descargas afluentes. não são capacitados técnica e financeiramente. O maior e mais famoso desses lagos artificiais é o reservatório de Paranoá. o sistema de proteção de cheias da cidade de Recife em Pernambuco. O critério de projeto que em geral era adotado objetivava o controle das cheias de período de recorrência de 100 anos ou a maior cheia que tivesse sido registrada. Nesse grupo de rios se encontram todo o rio Amazonas. Severas consequências em grande área alagada no baixo vale do Itajaí compreenderam impressionantes perdas de propriedades.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens tante. os poucos empreendimentos de navegação interior existentes são em geral anexos a hidroelétricas. As barragens foram construídas principalmente com o objetivo de evitar cheias em áreas populosas. As duas principais bacias com eclusas instaladas em hidroelétricas são as dos rios Tietê e Paraná. Figura 29 . órgão do Ministério do Interior. Nos primeiros anos dos anos noventa diversas barragens que antes eram controladas pelo DNOS ficaram sem qualquer controle e sem responsável pela operação e segurança. Em 1990 as atividades desse Departamento foram abruptamente encerradas e o Departamento extinto. principalmente nos trechos sobre terrenos sedimentares recentes. da barragem de Pampulha em que criou um belo espelho d’água na cidade de Belo Horizonte. o método de jusante é empregado. água esta que tem que ser tratada. Controle de cheias Por muitos anos desde 1944. polders e drenagens. Um projeto não usual foi adotado para a disposição de rejeitos em mina de urânio em Poços de Caldas. bem como extensos trechos inferiores dos seus afluentes. Entretanto. Os dois mais destacados empreendimentos foram o sistema de controle de cheias do rio Itajaí em Santa Catarina. Para impedir que a água de chuva se misturasse com a água percolada pelo maciço da barragem e pela sua fundação. seus formadores os rios Solimões e Negro. o Departamento Nacional de Saneamento. o talude de jusante da barragem foi projetado para ser coberto com uma face de concreto. em geral. Presentemente estados e prefeituras que. em 1958. Vias navegáveis A navegação interior permanece sendo o método de transporte mais usual na Região Amazônica onde há longos e caudalosos rios que podem ser usados ao longo do ano todo. foi ativo em empreendimentos de controle de cheias envolvendo a construção de barragens.Eclusas da barragem de Três Irmãos sobre o rio Tietê Paisagismo Desde a construção. para ser construída em três fases. Nas outras regiões. em São Paulo e do São Francisco. têm de enfrentar por conta própria os problemas de controle de cheias. Foi adotada uma barragem de terra e enrocamento compactados. para rejeitos finos a muito finos como na mineração de ouro. na capital federal. Durante a estação chuvosa de 2009 uma grande cheia ocorreu na bacia do rio Itajaí e as três barragens não foram suficientes para controlar toda a descarga afluente. algumas pequenas barragens foram construídas no coração de outras cidades para criação de lagos artificiais como elemento paisagístico. no Nordeste. com três filtros chaminé internos.

   Figura 31 . a qual é destinada ao abastecimento de água da cidade de Goiânia. descarga essa que corresponde a 90% de permanência.50 m de altura e alas de terra faz parte da publicação do CBDB Main Brazilian Dams III.A História das Barragens no Brasil . O mais destacado desses sistemas é o sistema de Cantareira para abastecimento de água da grande São Paulo e cidades do vale do Piracicaba. concluída em 1999 com 72 m de altura. XX e XXI Obras de abastecimento de água Barragens têm sido construídas como parte de sistema de abastecimento de água para zonas urbanas e industriais.5 m de altura e vertedouro de soleira livre sobre a barragem. com captações em barragens no rio das Velhas e no rio Manso. Os dois maiores sistemas do Rio de Janeiro aproveitam as barragens da Light construídas entre o início do século (sistema Lajes). Outro sistema importante é o de Belo Horizonte compreendendo obras hidráulicas de vulto.46 bilhões de metros cúbicos de água sob uma superfície de 325 km² no nível d’água máximo normal. Um sistema que merece menção é o sistema para o abastecimento d’água da cidade de Fortaleza. O sistema necessitou da construção de 256 km de canais para suprimento de 22 m³/s para a cidade e para projetos de irrigação. sete túneis escavados em rochas gnaíssicas e graníticas numa extensão total de 29 km e uma grande estação de recalque subterrânea com capacidade de 33 m³/s. Merece menção a barragem do Ribeirão João Leite.33 m³/s de reforço ao abastecimento das principais cidades do estado de Goiás. concluida em 2009. O artigo técnico sobre o projeto e a construção desta barragem de CCR com 53. O sistema inclui a barragem de terra do Castanhão com trecho em concreto compactado com rolo. represando 4. O mais recente Figura 30 – Barragem do Ribeirão João Leite para o abastecimento d’água da cidade de Goiânia empreendimento de vulto para abastecimento de água é a barragem João Leite construida em concreto compactado com rolo. e as barragens do sistema de derivação dos rios Piraí e Paraíba do Sul (sistema PPD). A barragem possibilita o acréscimo de 5. com 53. Esse sistema foi construído nos anos setenta e compreende sete grandes barragens de terra. aproveitamento de finalidades múltiplas 36 .Barragem de Pindobaçu na Bahia.Séculos XIX.

premido por necessidade de iniciar as obras de Três Marias e de Furnas. lagos e oceano) sem tratamento. entretanto. Serão necessários investimentos de R$ 22 bilhões para garantir a oferta de água de qualidade adequada até o ano de 2025. beneficiamento à navegação interior e geração de energia elétrica. A esmagadora maioria dos esgotos é lançada em corpos d’água (rios. Finalidades múltiplas Barragens com finalidades múltiplas eram raras no cenário nacional devido à estanqueidade dos órgãos federais e estaduais na definição dos empreendimentos hidráulicos. Dessa forma. O primeiro gran de exemplo de barragem implantada com finalidades múltiplas foi Três Marias com objetivos de regularização do rio São Francisco. enquanto a Cemig arcou com a casa de força.Barragem de Mirorós na Bahia. do vertedouro e do reservatório. um estudo recentemente concluído pela Agência Nacional de Águas revelou que a situação do abastecimento de água em 55% dos 5565 municípios brasileiros está se agravando e deverá estar insuficiente em 2015. O maior problema da área de saneamento básico. o governo Juscelino Kubitschek foi forçado a definir recursos federais para a implantação da barragem. Esse estudo da Agência prevê a necessidade de investimentos superiores a R$ 50 bilhões até 2025 tendo em vista o precário estado dos sistemas de esgoto sanitário de quase todos os municípios brasileiros.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Entretanto. Figura 32 . aproveitamento para irrigação e abastecimento de água 37 . se concentra na coleta e tratamento de esgoto uma vez que são poucas as cidades que dispõem de estações com capacidade de tratamento de porcentagens consideráveis dos esgotos coletados.

Paraitinga. A evolução dos segmentos de bens de capital e de prestação de serviços Toda essa atividade em projeto. Paraibuna. Neste mesmo período diversas fábricas de equipamentos mecânicos. o abastecimento de água. Muitas empresas brasileiras de projeto e construção se expandiram durante a segunda metade do século XX e presentemente ocupam relevante posição no cenário internacional. Estreito e Belo Monte. a produção de energia. a engenharia brasileira. a se tornar uma das líderes mundiais nesse setor. além de diversas hidroelétricas de pequeno e médio porte. Depois de passado esse período. tão dependente de apoio estrangeiro na primeira metade do século XX. Nos últimos 20 anos do século passado o País atravessou um período de severa estagnação econômica quando vinte empreendimentos com barragens do setor elétrico tiveram sua construção suspensa por falta de recursos financeiros. Durante esses anos muitas empresas brasileiras desenvolveram com sucesso atividades no exterior em países de todos os continentes. a engenharia brasileira voltou a ter um mercado interno robusto com alguns dos maiores projetos do mundo atual tais como as hidroelétricas de Jirau. controle de cheias.A História das Barragens no Brasil . construção e operação de barragens. Santa Branca. a regularização e a irrigação. Importantes empreendimentos de finalidades múltiplas são as barragens do alto e médio rio Paraíba do Sul. elétricos e eletrônicos se estabeleceram no País e têm suprido a demanda interna e exportado equipamentos para diversos outros países. incentivou Figura 33b – Barragem e casa de força de Paraibuna Figura 33a – Barragem de Paraitinga no final de sua construção Reservatórios interligados de Paraibuna e Paraitinga Figura 33c – Diques durante o primeiro enchimento do reservatório 38 . Santo Antonio. Jaguari e Funil que contribuem para a regularização de descargas.Séculos XIX. geração de energia elétrica e possibilitam o abastecimento do Grande Rio de Janeiro. bem como em fabricação e montagem de equipamentos. XX e XXI Outro exemplo é a barragem de Pedra do Cavalo na Bahia que contribui para o controle de cheias.

através do engenheiro John Cotrim que também trouxe. em seguida.John Reginald Cotrim jovem na EBASCO 1942-44 39 . foram se formando importantes e bem estruturadas empresas consultoras nacionais que passaram a atuar nas linhas de frente dos grandes empreendimentos hidroelétricos dessas duas empresas concessionárias. Paulo Afonso I. os projetos da Light e da AMFORP eram nitidamente comandados. Os projetos da CHESF. Bureau of Reclamation. No Nordeste. mesmo que inicialmente carentes de experiência. em Minas Gerais. por americanos.S. por bacias hidrográficas. Figura 34 . com influência de eventuais consultores provenientes do U. tanto no DNOCS quanto na CHESF. a equipe do contratante. no início do Século XX. Em São Paulo. havia predominância da engenharia nacional com grandes contingentes de engenheiros formados em nossas escolas. nesses dois casos.Barragem de finalidades múltiplas de Funil O desenvolvimento e o desmonte da engenharia consultiva Os estudos e projetos de barragens no País tiveram duas origens distintas. Figura 35 . foram feitos no canteiro de obra por equipe nacional com influência de alguns engenheiros estrangeiros recrutados como imigrantes após o término da Segunda Grande Guerra Mundial e de outros que trouxeram marcante influência francesa. Na Região Sudeste. Outras empresas do setor elétrico contavam com projetos desenvolvidos por consultoras suíça. de dimensões inusitadas para a época. Quando finalmente foi enfrentado um projeto de grandes proporções. no rio Paraná.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A organização da AMFORP veio influenciar na organização da CEMIG. Aos poucos. principalmente na sua primeira hidroelétrica. portuguesa e italiana. essa experiência organizacional para Furnas. incentivou os consultores independentes das barragens do rio Pardo a formar uma empresa que pudesse desenvolver a contento o projeto da hidroelétrica de Jupiá. especialmente o engenheiro José Gelazio da Rocha. a força de trabalho e a responsabilidade técnica eram essencialmente nacionais. Nota-se que os projetos do DNOCS eram feitos na sua sede no Rio de Janeiro antes da mudança para Fortaleza. o governo estadual orientava os projetos dos anos cinquenta para empresas brasileiras ou para um conjunto de consultores individuais. Tanto a CEMIG quanto Furnas tiveram seus primeiros grandes projetos elaborados por empresas consultoras americanas. alemã. Entretanto.

teto este que era o salário direto nominal do Presidente da República.Usina hidroelétrica de Itapebí no rio Jequitinhonha. Em 1979 foi instituído o teto salarial nas empresas estatais. esse tipo de contrato veio causar o desmanche das empresas consultoras na década seguinte. Nessa época as empresas de projeto assumiam crescentes responsabilidades em um grande número de projetos de envergadura. Os anos setenta se caracterizaram por um enorme desenvolvimento da consultoria brasileira. a inflação não era sentida e o risco de inadimplência era muito reduzido. Dessa forma praticamente não havia necessidade de capital de giro. XX e XXI As hidroelétricas projetadas pelo DNOS no Sul e na Bahia. Por outro lado.A História das Barragens no Brasil . Nos anos setenta quase dez consultoras brasileiras figuravam entre as maiores do mundo. os encargos sociais e as despesas diretas. Entretanto. Quase todo esse desenvolvimento era calcado em contratos cost plus com empresas estatais do setor elétrico. os salários nas estatais passaram 40 . As consultoras a cada mês recebiam antecipadamente de acordo com a programação aprovada e prestava conta ao final de cada mês.Usina hidroelétrica de Volta Grande no rio Grande tratual foi introduzida pelas empresas americanas de consultoria na segunda metade dos anos cinquenta. principalmente no setor elétrico. Como o salário direto nominal do Presidente não era muito elevado.Séculos XIX. A Associação Brasileira de Consultores de Engenharia . Por esse tipo de contrato a consultora era remunerada pelo custo do serviço baseado nos salários de suas equipes técnicas multiplicados por um fator que representava os impostos.ABCE analisava cada contratação de consultoria externa para detectar se havia similar nacional. também já contavam com expressivo contingente de engenheiros brasileiros. tornou o contrabandista um herói nacional. Essa lei só foi cancelada sem alarde e sem anúncio no governo Sarney para os projetos do programa de irrigação de um milhão de hectares. de acordo com o então senador Roberto Campos. na época o general Figueiredo. Essa modalidade conFigura 37 . Esse desenvolvimento acelerado foi em parte condicionado por lei de proteção ao mercado de consultoria e projeto. Dessa forma passou a haver elevada segurança contratual mesmo em regime inflacionário que se acentuou a partir do governo JK. com a adição do seu lucro em função do trabalho efetivamente desenvolvido. conseguida durante o governo de Costa e Silva. as consultoras brasileiras tinham como obstáculo a lei da informática que prejudicou sobremodo o desenvolvimento da produção de projetos e. na Bahia Figura 36 .

os funcionários das estatais federais contratantes de serviços de consultoria passaram a não aprovar nos contratos reajustes salariais dos empregados das empresas contratadas. pois valiam no mercado apenas uma pequena fração de seu valor de face. devido a essa experiência desastrosa. corroídos por uma inflação galopante. mesmo que não venha haver pagamento. Foram criados os “fiscais do Sarney” que acusavam às autoridades eventuais aumentos de preços. Finalmente. pleiteavam incessantemente fórmulas de reajustes sem encontrar eco em muitas das empresas contratantes. houvesse também o justo reembolso dos elevados juros que as consultoras já estavam pagando ao sistema financeiro. principalmente das federais. para os que não vivenciaram. Daquelas grandes empresas de consultoria de engenharia que figuravam como das maiores do mundo.ABCE. algumas foram reduzidas a níveis pequenos e várias fecharam. Essa proposição sequer foi considerada e só após muito tempo.” Mas outros profissionais se reuniram em pequenas empresas. as consultoras passaram a sofrer pressões dos dois lados: as suas equipes demandando reajustes salariais corretos e os clientes não aprovando esses reajustes nos contratos. mesmo assim após 45 dias da entrega da respectiva fatura. até 75 dias da execução dos serviços. As consultoras tinham que recolher impostos por serviços que não eram pagos ou que seriam pagos meses depois. As contratantes do setor elétricos viraram “fiscais do Sarney” e unilateralmente abateram os multiplicadores dos contratos alegando que a partir daquele instante não mais haveria inflação. Como para as consultoras. no auge da crise das contratantes estatais federais. esses multiplicadores haviam sido estabelecidos nos anos cinquenta quando a inflação antes do governo Juscelino ainda era muito baixa. através da Associação Brasileira de Consultores de Engenharia . Por terem salários achatados. Os contratos. a crise financeira das estatais. nos contratos pelo custo. ou seja. Algumas dessas empresas foram gradativamente crescendo e hoje já apresentam grande número de profissionais engajados. índice de 13 trilhões e 342 bilhões por cento no período de apenas quinze anos que antecederam ao Plano Real. os faturamentos tinham que ser mensais. A letra desse tipo de contrato pelo custo significava que deveria haver reembolso pelos acréscimos de custos devido à inflação. as consultoras foram chamadas para receber parte de alguns atrasados pagos em títulos que eram chamados de moeda podre. o governo federal desovou empresas nos programas de privatização ganhando dos dois lados. mesmo assim quando e só quando eram usados nos programas de privatização. é que uma correção parcial foi admitida nos contratos. nos anos oitenta. tendo originado forte desemprego no ramo da engenharia e tendo sido criado o termo “o engenheiro que virou suco. presentemente a esmagadora maioria dos contratos por prestação de serviços de consultoria 41 . sobreveio. Entretanto. nomeadamente as que não tinham grandes gerações de energia como era o caso da Light e de FURNAS. não mais foram de remuneração pelo custo. algumas delas atuando em segmentos específicos. Nessas empresas uma posição de clarividência foi assumida pelo engenheiro João Alberto Bandeira de Mello que atuava na Eletrobras e que propunha que.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens a ser achatados. em geral cerca de 25%. Como a inflação era intensa. No advento do governo Sarney houve um dos muitos planos heterodoxos no qual teoricamente a inflação seria nula. A inflação se intensificava a cada período. As consultoras. Incrivelmente neste País os impostos incidem no ato do faturamento. já com as consultoras descapitalizadas e endividadas. entretanto. os seus técnicos não podiam acumular horas trabalhadas para somente faturá-las quando houvesse recursos nas caixas das contratantes. em várias ocasiões por mais de cinco meses. além do correto reajustamento. Dessa forma. Essas outras empresas passaram a atrasar sistematicamente o pagamento das faturas. O equilíbrio financeiro dos contratos das consultoras foi rapidamente corroído. tendo chegado a um pico de mais de 80% ao mês e ao impressionante e quase inacreditável. Adicionando a esses aspectos deletérios.

em altura da barragem e em potência dos seus equipamentos de geração.Usina hidroelétrica de Xingó no rio São Francisco Figura 39 – Usina hidroelétrica de Furnas logo após o enchimento do reservatório Da mesma maneira.A História das Barragens no Brasil . seja o DNOCS ou a CHESF. O desenvolvimento das empresas de construção Semelhantemente ao que ocorreu nas atividades de estudos e projetos. outra empresa brasileira com experiência restrita à construção de estradas foi contratada para erguer a barragem auxiliar de Pium-I. as obras mais recentes que datam do final do século passado. estas passaram a ser contratadas para todas as demais obras. Furnas contratou para a usina que deu nome à empresa. O DNOCS construiu mais de duas centenas de grandes barragens com recursos humanos e equipamentos próprios. assumiram a condução das construções. todas com construções compreendidas do início até meados do século passado. já nas obras seguintes. A partir de sua fundação até a conclusão da hidroelétrica de Moxotó. ainda nos anos cinquenta.Séculos XIX. A partir dessa época. Entretanto. Figura 38 . a construção de barragens no Nordeste foi efetivada principalmente com equipes do próprio empreendedor. o que transfere para a consultora um risco que deveria ser do empreendedor. No Sudeste as construtoras estrangeiras foram utilizadas pela Light e pela AMFORP em suas hidroelétricas que são mais antigas. foram implantadas por empresas privadas de construção. Algumas empresas tiveram sucesso e hoje estão presentes em vários continentes. uma construtora britânica associada a uma empreiteira brasileira. XX e XXI é por preço fixo. A partir dos anos oitenta as consultoras menos atingidas pelos impactos acima relatados voltaram-se para o mercado externo com o objetivo de substituir os contratos nacionais. Com a experiência adquirida essa empresa assim como outras que se capacitaram. na época uma das maiores do mundo em capacidade instalada. apenas em algumas poucas barragens consideradas de grande vulto na época. dado o desenvolvimento das construtoras nacionais. a CHESF construiu com equipe própria suas barragens e usinas. 42 . No caso do DNOCS. Para essa usina. empresas estrangeiras foram contratadas para executar as obras civis. tendo socorrido os empreiteiros principais na elevação rápida do núcleo da barragem de Furnas.

assumiu usinas de portes pequeno e médio que vinham sendo implantadas por empresas nacionais. na época a segunda maior barragem desse tipo no País. Na margem esquerda o vertedouro complementar.Barragem da usina hidroelétrica de Mascarenhas de Moraes. 43 . empresas brasileiras passaram a ser contratadas à exceção da hidroelétrica de São Simão que. antiga Peixoto. foi construída por empreiteira americana. todas elas tendo tido seus cronogramas de implantação constantemente refeitos e suas obras se arrastado por duas a três décadas. Há duas usinas nucleares em operação e uma em construção. as empresas construtoras têm atuado com intensidade semelhante à do passado.Usina hidroelétrica de São Simão ção de pequenas e médias centrais hidroelétricas que ocorreu nas duas últimas décadas. construído em 2002 A CHEVAP. Sua primeira grande obra.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 40 . inclusive as térmicas a óleo e a carvão. ao ser instituída. contratou uma empresa nacional para a barragem principal e outra empresa nacional para a barragem de terra de Nhangapi. após acirrada concorrência internacional. foi delegada a uma empresa italiana. concluída em 1956. A ampla dissemina- Figura 41 . hoje de controle nacional. ao assumir a responsabilidade da construção da usina do Funil. A CEMIG. Perspectivas para o futuro As dificuldades no licenciamento ambiental e as incertezas que sempre rondam os processos de aprovação de projetos hidroelétricos têm causado impressionante perda na matriz energética limpa que costumava orgulhar o País. mas posteriormente. Furnas. encarregada da implantação da barragem em abóbada de Funil. Essas usinas têm sofrido das indecisões políticas. partindo com muito sucesso para empreendimentos no exterior. Com a intensificação dos investimentos em obras hidráulicas no País. As grandes empresas brasileiras atravessaram a recessão econômica e a desaceleração das obras no País nas décadas de oitenta e noventa. fez com que surgisse considerável número de novas construtoras no País. substituiu a empresa construtora da barragem principal por uma empresa dinamarquesa. entretanto de muito mais fácil licenciamento ambiental e aprovação na ANEEL. São muitas novas centrais geradoras termoelétricas poluidoras. a usina de Três Marias. nos anos setenta.

térmicas. O controle de cheias permanece nebuloso no futuro próximo.Séculos XIX. a Hungria. tem uma regra operativa que privilegia a regularização de vazões e o controle de cheias. passando dos 456. Eventuais paralisações. com 2. tais como usinas eólicas. Pelo atual planejamento energético o País enfrenta a necessidade de instalação de cerca de 5000 MW/ano. consequentemente. Angra II que levou 24 anos em construção. A falta de um órgão de âmbito nacional para controlar e implementar obras hidráulicas com esse objetivo é imperioso já que os cursos d’água são em geral intermunicipais e mesmo inter estaduais. Entretanto. por atravessar uma sucessão de importantes cidades de médio porte e servir de abastecimento de água a grandes núcleos urbanos. Além de serem esperados acréscimos de consumo devido ao desenvolvimento industrial. pode operar até hoje (maio de 2010) há mais de uma década sem licenciamento ambiental e sem licenciamento da CNEN. Tendo em vista esse desafio. as classes dirigentes têm pressionado licenciamen tos ambientais de grandes centrais geradoras como ocorreu nas duas usinas em construção no rio Madeira e presentemente na hidroelétrica de Belo Monte cujo licenciamento está sendo obtido por etapas. de energia. o máximo histórico de 180 kWh/mês registrado antes do racionamento de 2001 só deverá ser ultrapassado em 2017. O consumo médio residencial deverá passar dos 154 kWh/mês em 2010 para 191 kWh/mês em 2020. No passado recente (2000 a 2011) tem sido registrado impressionante número de apagões. Entretanto. XX e XXI onerando sobremaneira os seus custos pela forte incidência dos juros sobre os capitais investidos durante as suas prolongadas construções. O setor elétrico através do ONS despacha algumas hidroelétricas levando em conta o controle de cheias. Embates entre membros do governo e do licenciamento ambiental têm provocado demissões em vários níveis. nucleares e hidroelétricas a fio d’água. sinalizam para dificuldades de atendimento de demanda na ponta em diversos centros de carga no País. quase três vezes superior ao do segundo colocado. até no nível ministerial.a.4% a.5 TWh verificados em 2010 para 730 TWh em 2020. sendo pouco mais de um décimo do americano. Para o bem da economia e do meio ambiente. devidas à ação de vândalos em canteiros de obra e ao Ministério Público que questiona licenças ambientais. verifica-se também que o consumo domiciliar médio no Brasil ainda é muito inferior ao de países desenvolvidos. O exemplo mais nítido são as hidroelétricas do vale do rio Paraíba do Sul cujo rio principal. 44 . vários dos quais abrangendo extensas regiões densamente habitadas. há imperiosa necessidade de se ultrapassar as resistências dos que se dizem ambientalistas e se voltar à implantação de hidroelétricas com grandes volumes úteis de reservatório para se recuperar a capacidade de regularização de vazões e. o que é no mínimo inusitado: o único licenciamento obtido até agora (maio de 2011) foi concedido em janeiro de 2011 para instalação do canteiro de obra.. entre 15% e 17% da geração. hoje em 6. prevê-se a continuidade e mesmo o agravamento dessa situação.a. associado às interrupções provenientes de ações judiciais ou do Ministério Público ocorrendo na maior hidroelétrica em construção. e pouco inferior ao verificado na Rússia e na África do Sul.8% a. O atual modelo do setor elétrico contribui para essas dificuldades por não contemplar qualquer remuneração para a regularização de descargas que beneficiem a operação do sistema interligado. As perdas de energia elétrica no sistema interligado e nos sistemas de distribuição atingem em 2011 cifras elevadas. Considerando a relativa fragilidade dos sistemas de transmissão e as crescentes demandas na ponta de carga. Isso.A História das Barragens no Brasil . comprova a incerteza dos empreendedores em assumir tais riscos. Estima-se que o consumo total de energia elétrica no País evolua em média com acréscimos de 4.8% ao ano. contribuem para a elevação de prazos e de custos já que os juros reais no Brasil permanecem há décadas como o mais elevado do mundo. Parcela expressiva dessa perda vem de ligações ilegais. O acréscimo de capacidade de geração em empreendimentos sem possibilidade de armazenamento de energia.

brasileiros e estrangeiros. Consolidando essa deformação brasileira. têm feito com que planejadores do setor considerem alternativas dispendiosas. vindo como sub-produto a geração de energia elétrica. por exemplo. incluindo a captação de água de baixa qualidade a grandes distâncias (médio Tietê para São Paulo e sub-médio Paraíba do Sul para o Rio de Janeiro). Othelo Machado e Casemiro Munarski (Foto do Acervo Paulo Chamecki) 45 . aduções e tratamentos de água. Homenagem aos membros de juntas de consultores Durante o projeto e construção das mais importantes barragens brasileiras. Arthur Casagrande e Figura 42 . Depois de Karl Terzaghi. As constantes e recentes valorizações das commodities no mercado internacional indicam para o futuro a permanência das atividades em mineração e. participam de juntas de consultores.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Historicamente a implantação de eclusas para navegação interior sempre vieram a reboque de algumas hidroelétricas ao contrário do que acontece em países europeus cuja tradição da navegação fluvial sempre esteve arraigada ao desenvolvimento viário. da construção de barragens de rejeitos cada vez maiores e mais frequentes. tramita no Congresso um projeto de lei que obriga os investidores em hidroelétricas de implantar sistemas de navegação onde possível. Karl Terzaghi. com grandes recalques (Juquiá para São Paulo) ou na regeneração de águas em estações de tratamento de esgotos (Alegria para o Rio de Janeiro). consequentemente. onerando ainda mais as novas usinas hidroelétricas. engenheiros e geólogos consultores de grande projeção na profissão. onerando sobremaneira as futuras captações. As deficiências previstas no curto prazo para o abastecimento da crescente demanda por água nas cidades e distritos industriais.A partir da esquerda os consultores da São Paulo Light: Samuel Chamecky.

Destacada atuação na CIGB e em consultoria de barragens em vários paises. Gurmukh Sarkaria e Flavio H.A História das Barragens no Brasil .Séculos XIX. pesquisador. 46 . inclusive no Brasil.Professor Manuel Rocha. fundador e diretor geral do Laboratório de Engenharia Civil sediado em Lisboa. Lyra em inspeção de campo em Itaipu Figura 44 . John Cabrera. XX e XXI Figura 43 .Arthur Casagrande.

Lyra. Figura 45 . Manuel Rocha. B. Esses profissionais altamente qualificados deram valiosas contribuições ao projeto e construção de grandes barragens e formaram engenheiros e geólogos brasileiros que presentemente trabalham como consultores no Brasil e no exterior. James Libby.Rubens Vianna de Andrade. de Mello durante o XII SNGB. James Sherard.Consultor Roy Carlson por ocasião da sua condecoração pelo governo brasileiro entre Carlos Alberto de Padua Amarante e Victor F. em São Paulo abril de 1978 47 . outros consultores participaram de juntas tais como Roy Carlson. Flavio H. Barry Cooke. B. Charles Blanchet.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Portland Fox mencionados acima. Arthur Casagrande e Julival de Moraes em inspeção nas obras de Itumbiara Figura 46 . de Mello e Flavio H. Lyra que são aqui mencionados como homenagem àqueles que já faleceram. Victor F. Don Deere.

J.Portugal . A. Pinto . Hathaway . G. M. Coyne .1952-1958 5.Itália .R.1946-1952 4.França .França .EUA .F. Mercier .1958-1961 3 4 5 . Giandotti .Os 5 primeiros presidentes da CIGB de 1931 a 1961 1 2 1.A.1931-1934 2. G.1937-1940 3.

Reunião Executiva no Rio de Janeiro. presidente CIGB. Corria o ano de 1925 quando. os critérios de projeto de estruturas de concreto eram rudimentares e a hidráulica fluvial enfrentava pela primeira vez na maioria dos países que implantavam barragens e reservatórios. numa época em que havia intensa atividade em implantação de barragens. A proposta foi formalmente aceita Figura 2 . a mecânica Figura 1 . em assembléia da Conferência Mundial de Energia em Basel. Flavio Lyra. Brown. foi manifestada a importância do estabelecimento de uma comissão de caráter internacional voltada para grandes barragens.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A Comissão Internacional de Grandes Barragens Oitenta e três anos de excelência Flavio Miguez de Mello A Comissão Internacional de Grandes Barragens CIGB nasceu na França. Nos anos vinte muito havia que ser aprendido em projeto e construção de barragens e o intercâmbio de conhecimentos passou a ser de nítida importância. A proposição foi aceita. em reunião da Associação Francesa para o Progresso da Ciência ocorrida em Grenoble. Em 1926. presidente CIGB dos solos e a geologia de engenharia não haviam ainda sido fundadas. na assembléia de Cernobbio (Itália). presidente do CBGB e G. tendo sido instituído o Comitê Francês de Grandes Barragens sob a Societé Hydrotechnique de France. 49 . 1966 Flavio Lyra. Brown. presidente do CBGB. Mauro Thibau.G. notadamente na Europa e nos Estados Unidos. presidente de Furnas pela Conferência Mundial de Energia no ano seguinte. 1966 . 1927. ministro de Minas e Energia e John Cotrim.Reunião Executiva no Rio de Janeiro. Na época. a delegação francesa apresentou formalmente a proposta de criação da Comissão Internacional de Grandes Barragens. assim como o apoio ofertado pelo governo francês. obras em rios muito caudalosos.

Em 1967. Seus anais são verdadeiras seções transversais da tecnologia de cada época que nos permitem visualizar o desenvolvimento dos conceitos e critérios de projeto e de construção de barragens. assim. Romênia e Suíça. esses documentos em relatórios do estado da arte sob o ponto de vista global. a CIGB publica boletins sobre temas específicos. reconhecidamente. a CIGB vem continuamente crescendo. A assembléia do Conselho Executivo da Conferência Mundial de Energia aprovou a CIGB por unanimidade em Londres no dia 3 de outubro de 1928. Como exemplos históricos pode-se mencionar os trabalhos de Karl Terzaghi de 1933 sobre as investigações das características dos solos quanto a sua viabilidade para a construção das barragens de terra e de Wolmar Fellenius sobre cálculo de estabilidade de barragens de terra.14° Congresso CIGB Rio de Janeiro 1982 – Pierre Londe (presidente) e Joannes Cotillon (secretário geral) sição por um comitê ad hoc novo estatuto que vem corrigir lacunas do estatuto vigente. fruto do trabalho dos seus comitês técnicos que congregam profissionais os mais destacados em diversos países do mundo. Já demonstrando seu dinamismo. de 1940 a 1944. considerando seu já grande vulto. Desde sua fundação com apenas cinco países membros. tornando. Desde então a cada três anos a CIGB promove seus congressos que são. cifra esta que representa mais de 90% da população mundial. Desde então. reuniões executivas foram realizadas todos os anos a menos dos anos exceto durante a II Guerra Mundial. 81 países em 2000 e 92 países em 2010. França. Encontra-se presentemente (2011) em propo- 1 2 4 5 6 8 9 China USA Japão Coréia do Sul Canadá Brasil Espanha > 40 000 9 265 5 101 3 076 1 302 1 166 1 114 1 011 987 741 623 583 542 519 507 501 3 Índia 7 África do Sul 10 Turquia 11 França 12 México 13 Itália 14 Reino Unido 15 Austrália 16 Irà 50 . A CIGB mantém atualizado o registro mundial de grandes barragens (barragens com mais de 15 m de altura ou em condições especiais) contendo as principais características das barragens em todos os países membros e em alguns países não membros da CIGB. 72 países em 1990. a CIGB promoveu seu primeiro congresso internacional em Estocolmo em 1933. 56 países em 1980. tendo atingido 26 países antes da II Guerra. Reino Unido. ­ Além dos seus anais de congressos e simpósios. a CIGB passou a se tornar independente da Conferência Mundial de Energia. Do seu primeiro estatuto até o estatuto de 1967 poucas alterações significativas ocorreram. de elevado interesse técnico sobre assuntos os mais atuais. Apesar do registro das barragens no Brasil estar incompleto. XX e XXI Figura 3 . Desse registro não constam apenas as barragens de rejeitos. 56 países em 1967.A História das Barragens no Brasil . o registro da CIGB atualizado em 2010 revela a importante posição do Brasil relativa a outros países com mais de mil grandes barragens construídas: A assembléia que constituiu a CIGB ocorreu no dia 6 de julho de 1928 com a participação de seis países: Estados Unidos. Itália.Séculos XIX.

Reunião do Comitê de Meio Ambiente da CIGB em Madrid. conscientização do público e na primeira década do Século XXI. Entre os dois. Lyra e C. projeto. Silveira e F. abriu discussão sobre mudanças climáticas globais e planejamento de recursos hídricos escassos. Höeg. Lyra. Budweg. sendo dois brasileiros (F.K. Na foto os dois primeiros presidentes deste Comitê Flavio H. Desses comitês foram coordenadores (chairmen) F. F. C. A participação brasileira se fez sentir desde os anos sessenta em participações em diversos comitês da CIGB. Nos anos sessenta a CIGB passou também a enfatizar a segurança e a reabilitação de barragens. Maurer) e dez secretários gerais. Viotti e E. Fernandes. Viotti).Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Desde a sua fundação a CIGB teve 22 presidentes. nos anos setenta passou a ser grande divulgadora de progressos na engenharia ambiental. Miguez. o autor 51 . Figura 4 . nos anos noventa também abriu os campos de compartilhamento dos recursos hídricos de rios transnacionais e de gestão integrada da água. F. A CIGB sempre teve como foco a promoção e divulgação da tecnologia de planejamento.F. F. Lyra. Lyra e Pierre Londe. J. todos franceses. D. Miguez. construção e operação de barragens. 1973. nos anos oitenta liderou a divulgação tecnológica aplicada a barragens de rejeitos de mineração. Budweg. sendo seis brasileiros (F. ex-presidente da CIGB Figura 5 . 126 vice presidentes. Desde o final dos anos 60 a CIGB dedica especial atenção aos temas socioambientais.

A História das Barragens no Brasil .000 membros individuais dentre os mais destacados profissionais que presentemente atuam em empresas públicas e privadas.Ospina (ex vice-presidente) recebendo homenagem do presidente Varma A CIGB fechou o ano de 2010 com 92 comitês nacionais que. construtoras. agências governamentais e organizações não governamentais. XX e XXI Figura 6 . fabricantes. Margaret Rose Mendes Fernandes 52 .70° Reunião Anual CIGB . Figura 7 .Séculos XIX. universidades.Arthur Walz. consultoras. instituições de pesquisa. congregam mais de 10.Congresso de Brasília 23O CIGB 2009 – Mesa da Questão 90 .Foz do Iguaçu 2002 . Flavio Miguez de Mello. Maria Bartsch. no seu conjunto.

eleito CIGB) Figura 9 .Congresso de Brasília 23o CIGB 2009 – Da esquerda para direita Edilberto Maurer (pres. Jia Jinsheng (pres. Brasília 2009 53 . Comitê do Vietnam).CBDB). Pham Hong Giang (pres. de Mello no 23O CIGB. B.Homenagem ao professor Victor F.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 8 . Luis Berga (pres. CIGB).

A História das Barragens no Brasil . XX e XXI Figura 11 . Nicole assumiu a secretaria da CIGB em 1967 permanecendo até o presente (2011).Séculos XIX.A secretária Margarite Chapelle recebendo homenagem em 1967.Michel de Vivo secretário geral e Luis Berga presidente da CIGB Figura 10 . secretário geral J.Congresso de Brasília 23O CIGB 2009 .Presidente Varma. As duas foram responsáveis pelo eficiente suporte à CIGB ao longo dos últimos 63 anos 54 . uma placa entregue por sua filha Nicole Schauner (ao microfone) que a substituiu após 25 anos de serviço desde 1948. Lecornu e a secretária Nicole Schauner Figura 12 .

Noruega . Pircher .Itália . C.T.V. van Robbreck .1979-1982 13.1976-1979 12. Varma . K. G.B. J. Lyra . Berga .2000-2003 20. J. G. F.Canadá .F.Índia . Lombardi . P.1997-2000 19. W. Höeg . Dagenais .P. C.Espanha . J.Brasil .1970-1973 10.2003-2006 21.1982-1985 14. Toran . Guthrie Brown .A.EUA .França . C.1973-1976 11. C.J.Noruega . McCarthy .Reino Unido . Veltrop .A. L. Gröner .1967-1670 9.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens CIGB . T. Londe .1988-1991 16. Marcello .Áustria .2006-2009 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 . C.1985-1988 15.Espanha .C.1964-1967 8.Brasil .H.África do Sul .1994-1997 18.1961-1964 7.EUA . Viotti .Suíça .Presidentes de 1961 a 2009 6.1991-1994 17.

XX e XXI Flavio H.A História das Barragens no Brasil . Fernandes. Os responsáveis pela consolidação e pelos primeiros anos de sucesso do CBDB 56 56 . Lyra e Delphim M.Séculos XIX.

Saturnino de Brito. trouxe consigo o firme propósito de criar em nosso País uma entidade filiada à CIGB. o engenheiro Francisco Saturnino de Brito Filho. USA. com o afastamento do engenheiro Luiz Vieira do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas DNOCS. Entretanto. Foi indicado para presidente da Comissão o engenheiro Casemiro José Munarski que na época estava fazendo o projeto da barragem de Orós. maravilhado com as perspectivas dos benefícios para o Brasil que eram decorrentes da ampla divulgação de experiências de outros países. envidou esforços para conjugar essa associação com a Comissão. por iniciativa do engenheiro José Cândido Castro Parente Pessoa. ao regressar do Segundo Congresso Internacional de Grandes Barragens realizado pela Comissão Internacional de Grandes Barragens CIGB em Washington.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens História do Comitê Brasileiro de Barragens Flavio Miguez de Mello A pré-história Em 1936. convocou um grupo para reorganizar a Comissão. O engenheiro Antônio Alves de Noronha. Nesse período de cinco anos a Comissão ficou vinculada ao Ministério de Viação e Obras Públicas. que presidia a Associação Brasileira de Mecânica dos Solos. Figura 1 – Saturnino de Brito Filho e Theophilo Benedicto Ottoni Netto empreendimento de maior destaque no País. O engenheiro Chamenski. Somente em 1957. a Comissão Brasileira de Grandes Barragens teve suas atividades paralisadas. que presidia a Associação Brasileira de Pontes e Grandes Estruturas. Na época a CIGB tinha apenas 26 comitês nacionais e havia intensa atividade de projeto e construção de barragens em todos os países mais evoluídos. conseguiu encontrar receptividade do engenheiro Luiz Vieira que conduziu a então instituída Comissão Brasileira de Grandes Barragens. tendo convidado a Associação Brasileira de Mecânica dos Solos para integrar esse grupo. Por esse motivo havia dificuldades da 57 . após poucos anos e ainda nos anos trinta. a Comissão Brasileira de Grandes Barragens veio a ser reativada. não mais tendo contato com a CIGB e acumulando seguidos débitos financeiros não cobertos por mais de vinte anos referentes às contribuições anuais à CIGB. então diretor geral do DNOCS.

Antônio Alves de Noronha.A História das Barragens no Brasil . Figura 2 – Casemiro José Munarski ao lado de João Alberto Bandeira de Mello manutenção das obrigações financeiras da Comissão com a CIGB. 58 Figura 3 . A CIGB retirou da pauta a nova exclusão da representação brasileira e o CBGB pode participar dessa reunião executiva e do VII Congresso Internacional. A diretoria. época em que a CIGB apresentava crescente participação de comitês nacionais que naquele ano já eram 48. obrigações estas que novamente não vinham sendo cumpridas. na última hora. um diretor secretário e dois diretores tesoureiros era eleita pelo conselho. Nessa primeira assembléia foi eleita por aclamação uma diretoria presidida por Antônio Alves de Noronha que teve como secretário o engenheiro Lucio Washington. Dessa forma. composta pelo presidente. sendo os membros da diretoria participantes do conselho. tendo como diretor secretário Sydney Gomes dos Santos que foi substituído por Delphim Mazon Fernandes a partir de 25 de março de 1963. dois vice-presidentes. primeiro presidente do CBDB de outubro de 1961 a início de 1962 . três indicados pela APGE e seis eleitos em assembléia pelos sócios individuais. ambos realizados em Roma. Nessa segunda assembléia foi eleita a diretoria presidida pelo engenheiro Flavio Henrique Lyra da Silva. Os primeiros anos da história O grupo constituído pelas associações de Pontes e Grandes Estruturas e de Mecânica dos Solos elaborou os estatutos do Comitê Brasileiro de Grandes Barragens CBGB e trabalhou para que fossem arrecadados recursos financeiros que cobrissem os débitos com a CIGB. Pelo estatuto o conselho era composto por 12 membros. XX e XXI O estatuto do CBGB foi aprovado em assembléia realizada no Clube de Engenharia no dia 25 de outubro de 1961. Constava da pauta da reunião executiva a nova exclusão da representação brasileira dos quadros da CIGB. três indicados pela ABMS. os recursos levantados junto a empresas privadas foram entregues à CIGB no dia anterior à abertura da reunião executiva de 1961. A assembléia seguinte foi convocada para o dia 24 de janeiro de 1962.Séculos XIX.

grandes açudes começaram a ser construídos como Orós e Banabuiú (Arrojado Lisboa).Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A necessidade de uma associação técnica ativa no campo das barragens era indispensável para a evolução da tecnologia nacional. vice-presidente do CBGB em vários mandatos promovendo seminários nacionais de grandes barragens e apoiando atividades de comissões técnicas. Foi nessa época que. com parcos recursos humanos. se afastou da presidência do CBGB. Nos primeiros cinco seminários os temas eram limitados a apenas três. Os eventos nacionais Desde 1962 o CBGB passou a atuar nos moldes da CIGB. Interessante notar pelo temário do primeiro seminário realizado em julho de 1962. Em cada sessão técnica sempre houve um relato do respectivo tema feito por um profissional de reconhecida experiência e destaque no âmbito nacional. as barragens eram de dimensões mais modestas (a primeira barragem com altura superior a 50 m foi Boqueirão das Cabaceiras. presidente e diretor secretário respectivamente. constituindo uma importante contribuição para a divulgação de experiências profissionais. Os trabalhos apresentados nos seminários são o perfil do desenvolvimento da tecnologia aplicada a projeto e construção de barragens no País. A partir do VI Seminário realizado no Rio de Janeiro em novembro de 1970 e até a presente data. A sede do CBGB passou a ser parte de uma sala da diretoria técnica de Furnas. os seminários passaram a ter quatro temas. ligados ao projeto e à construção de barragens. Nos primeiros O grande impulso que estava ocorrendo no Brasil no campo da implantação de barragens no pós-guerra e principalmente nos anos cinqüenta. por ter sido eleito presidente da CIGB. tornou-se necessária a difusão de conhecimentos na área da engenharia de barragens e de tecnologias correlatas. no Brasil de organizações e de equipamentos para construção de grandes barragens. ambos no Ceará. a partir do Sexto Seminário em 1970. Jupiá e Paulo Afonso. Disponibilidade. Dessa forma. o número de trabalhos passou a ser expressivo. seminários o número de trabalhos era modesto mas. Antes dessa fase. O País estava entrando em uma era de realizações de grande vulto. uma atuação efetiva junto à CIGB foi encarada como uma necessidade premente. O CBGB passou a ter importante suporte de Furnas já que o presidente do CBGB era diretor técnico de Furnas e seu diretor secretário no CBGB era seu principal assistente na diretoria técnica de Furnas. Figura 4 – Antônio José da Costa Nunes. de laboratórios para ensaios e experiências. o estágio inicial da tecnologia no País. permaneceram nesses cargos por quatro diretorias até 1976 quando o engenheiro Flavio Lyra. Os engenheiros Flavio Lyra e Delphim Fernandes. Os temas foram: Métodos de investigação de fundações de barragens. em 1956) e as hidroelétricas eram de pequeno e médio portes para os padrões atuais. e hidroelétricas de grandes projeções a nível internacional estavam começando a ser projetadas e construídas como Furnas. no Brasil. 59 . Disponibilidade. notadamente no Nordeste com a construção de açudes com dimensões sensivelmente superiores aos anteriormente construídos e com a necessidade de promover a instalação de grandes hidroelétricas. Três Marias. na Paraíba.

Amarante. Licinio M. Os esforços do CBDB pelo estabelecimento de uma legislação sobre a segurança de barragens e das interfaces com órgãos concedentes e de licenciamento ambiental passaram a ser debatidos nos seminários mais recentes já no Século XXI. Carlos A. Fernandes. Lyra. Análises de risco começaram a ser discutidas desde 1987 no XVII Seminário Nacional realizado em Brasília. desde o XIV Seminário realizado em Olinda os usos múltiplos de reservatórios passaram a ser realçados. Temas sobre meio ambiente passaram a ser freqüentes já a partir do VIII Seminário. Considerando a importância da maximização de benefícios propiciados pelas barragens. Delphim M. Após os nove primeiros seminários realizados no eixo Rio de Janeiro e São Paulo. barragens de rejeitos passaram a freqüentar os temários. A auscultação de barragens apareceu a partir do IV Seminário realizado no Rio de Janeiro em outubro de 1985. Seabra J á n o S eg u n d o S e m i n á r i o .A História das Barragens no Brasil . r e a l i z a d o em S ã o P a ul o em junho de 1963 aparece a dedicação do CBGB à segurança de barragens com o tema Acidentes em barragens. Essa dedicação passou a ser manifestada em diversos seminários posteriores assim como temas relativos à tecnologia de estudos. Como reflexo das alterações no modelo do setor elétrico. a diretoria do CBGB passou a realizar seminá- 60 . XX e XXI Figura 5 – Mesa de abertura do XIII SNGB – Rio de Janeiro 1980 – Flavio H.Séculos XIX. concepção. no XIII Seminário realizado no Rio de Janeiro. a partir de 1997 passaram a serem discutidos temas institucionais e o retorno com maior intensidade de investimentos privados na implantação e operação de barragens hidroelétricas. P. cálculo e construção de barragens e operação de reservatórios. realizado em São Paulo em novembro de 1972. A partir de 1980.

Na ocasião os participantes tiveram a Figura 6 . Com esse mesmo objetivo. o CBGB teve seu batismo em 1966 na reunião executiva da CIGB realizada no Rio de Janeiro com extremo sucesso.Rio de Janeiro 1966 Flavio Lyra e J. pela primeira vez foi realizado um simpósio em reunião executiva da CIGB.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens rios em diversos outros centros. Quanto a eventos internacionais. 3 em São Paulo. Main Brazilian Dams (1982). um em Salvador e um em Belém. Também foram publicadas diversas traduções dos boletins técnicos do CIGB. um em Foz do Iguaçu. Guthrie Brown 61 . Dams in Brazil (1982). o CBGB passou a organizar simpósios sobre pequenas e médias centrais hidroelétricas a partir de 1998. dois em Belo Horizonte. seguida de um congresso internacional. o CBGB editou importantes livros sobre barragens brasileiras: Topmost Dams of Brazil (1978). Considerando as crescentes atividades de implantação de pequenas centrais hidroelétricas. Dicionário de Barragens (2010). O Simpósio foi sobre arranjos de barragens em vales estreitos. Diversion of Large Brazilian Rivers (2009). oportunidade de visitar obras de grande vulto que estavam em construção no País. Em 1982 o CBGB foi novamente anfitrião de uma reunião executiva no Rio de Janeiro. um em Aracajú. dois em Curitiba. Dessa forma foram realizados 10 seminários no Rio de Janeiro.34a Reunião Executiva . dois em Fortaleza. o CBGB tem colaborado efetivamente com a CIGB pela participação em diversos comitês técnicos desde os anos sessenta. o que se tornou prática em reuniões posteriores. Main Brazilian Dams II (2000). um em Brasília. Nessa ocasião. Large Brazilian Spillways (2002). um em Olinda. Os eventos internacionais Consolidando sua projeção internacional. com grande sucesso. Mais uma vez os participantes ficaram vivamente impressionados com o vulto das obras que foram incluídas nas diversas viagens de estudo. as duas edições de Highlights of Brazilian Dam Engineering (2000 e 2006). Main Brazilian Dams III (2009). Desvios de Grandes Rios Brasileiros (2009). Dams in the Northeast of Brazil (1982).

desta vez em Foz do Iguaçu com o International Symposium on Reservoir Management in Tropical and Sub-Tropical Regions.A História das Barragens no Brasil . João Alberto Bandeira de Mello. XX e XXI Figura 7 – Simpósio Internacional sobre Arranjos de Barragens em Vales Estreitos – Rio de Janeiro 1982 – Marcos Schwab e Leo Penna Em 2002 novamente o CBDB promoveu uma reunião anual da CIGB. John Cotrim e Pierre Londe 62 .14o Congresso Internacional CIGB – Rio de Janeiro 1982 – coronel Mauro Moreira. Fernandes. general Costa Cavalcanti. Delphim M. Carlos Alberto de Padua Amarante.Séculos XIX. Em 2009 novamente o Brasil foi sede de reunião anual e do congresso internacional da CIGB. Figura 8 . tendo também realizado o International Symposium on Dams and Reservoirs for Multiple Purposes.

Ceará Núcleo Regional . A partir dos anos noventa.São Paulo Os núcleos têm mantido importantes atividades em suas regiões.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 9 .Bahia Núcleo Regional . o Comitê deixou de ter os conselheiros indicados pela ABMS e pela ABPGE. Objetivando uma ampliação de suas atividades que demandariam maiores recursos financeiros.70a Reunião Anual CIGB – Foz do Iguaçu 2002 – Cassio Viotti (presidente CBDB) A evolução institucional do Comitê Semelhantemente à CIGB que se separou da Conferência Mundial da Energia. uma chapa montada pela Eletrobras colocou no conselho todos os membros menos o Flavio Lyra. no final dos anos sessenta. passando os sócios coletivos e mantenedores serem restritos a elegerem seis membros do conselho.Minas Gerais Núcleo Regional .Rio De Janeiro Núcleo Regional . com o objetivo de dinamizar a atuação do CBDB em todas as regiões.Pernambuco Núcleo Regional . foram criados os núcleos regionais. em 1976 o Comitê lançou a campanha de angariação de sócios coletivos e mantenedores que.Rio Grande Do Sul Núcleo Regional .Santa Catarina Núcleo Regional . Em 1999 o nome do Comitê Brasileiro de Grandes Barragens CBGB foi alterado para Comitê Brasileiro de Barragens CBDB de forma a abranger também as barragens de menor porte inclusive aquelas da grande maioria das pequenas centrais hidroelétricas. 63 . pelo estatuto da época tinham tantos votos em assembléias quanto as cotas subscritas.Goiais/Distrito Federal Núcleo Regional . Presentemente são os seguintes núcleos regionais: Núcleo Regional . Na primeira eleição de conselho realizada em Fortaleza em 1976.Paraná Núcleo Regional . destacando-se palestras e simpósios de elevado interesse. Pouco depois houve nova alteração dos estatutos.

havendo a possibilidade de serem nomeados até dois diretores adjuntos com funções específicas. Dilma Roussef ministra de Minas e Energia. A cada período de três anos. Lyra – Rio de Janeiro 2004 – Maria Lyra e Heloi José Fernandes Moreira (diretor da Escola Politécnica da UFRJ.Como sempre realizado em eventos do CBDB. o CBDB. Presentemente (março de 2011) o CBDB conta com um quadro social composto por 1088 sócios individuais.Sessão de abertura do XXVI Seminário Nacional de Grandes Barragens Goiânia 2005. 18 sócios coletivos e 35 sócios mantenedores. Marconi Perillo governador de Goiás.Séculos XIX. Os membros da diretoria saem desses conselheiros eleitos. Figura 12 .A História das Barragens no Brasil . XX e XXI Figura 10 . Flavio H. visita técnica a obras ( barragem de Itaipu) 64 . Os ex-presidentes são membros do conselho. Da esquerda para direita: José Pedro Rodrigues de Oliveira presidente de Furnas. ao renovar seu conselho.Homenagem ao dr. Edilberto Maurer presidente do CBDB Em 1999 o nome do Comitê Brasileiro de Grandes Barragens CBGB foi alterado para Comitê Brasileiro de Barragens CBDB de forma a abranger também as barragens de menor porte inclusive aquelas da grande maioria das pequenas centrais hidroelétricas. Lyra se formou em engenharia) Figura 11 . onde Flávio H. tem seis de seus conselheiros eleitos pelos sócios mantenedores e coletivos e doze eleitos pelos sócios individuais.

Nos eventos nacionais e internacionais o CBDB promove sempre exposições técnicas de elevado interesse 65 . Lyra – Rio de Janeiro 2004 – Erton Carvalho (diretor CBDB).Dirigentes e ex-dirigentes do CBDB em exposição técnica.Homenagem ao dr. Flavio H.Conselheiros do CBDB com familiares em um dos eventos sociais que são sempre realizados em seminários. simpósios e congressos Figura 15 . Cassio Viotti (presidente da CIGB) e Delphim Fernandes (ex-presidente do CBGB) Figura 14 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 13 .

do seu dique e de seu sangradouro. Vista da barragem. a barragem é. juntamente com Lajes. no Ceará.66 Açude de Cedros. Em operação desde 1906. no estado do Rio de Janeiro. Primeira obra de barragem para combate às secas no País. a mais antiga grande barragem construida no Brasil .

A Comissão recomendou que fossem efetuadas a melhoria do sistema de transportes. mais de cem anos depois. Seguiramse quatorze secas no Século XVIII. essa tentativa fracassou pela falta de adaptação dos camelos ao solo duro e pedregulhoso. estão sendo iniciadas.000 km² e o úmido com os restantes 200. Na seca de 1915 pereceram 27 mil cearenses e 75 mil emigraram para a Amazônia. Entretanto. por encomenda do Governo Imperial. o paratifo e a varíola. As obras de transposição das águas do rio São Francisco só agora. As secas são registradas desde o descobrimento. antes de tudo. instalado em 1896. As secas deixaram marcas que não se apagam por mais que os anos passem. doze no Século XIX e dezoito no Século XX. foram iniciadas apenas as obras da barragem de Cedro em 1884 que só foram concluídas em 1906. quando a mais intensa e prolongada seca atingiu o semi-árido. posteriormente. no Ceará. Paraíba. Alagoas.2% do território nacional. no início do Século XXI. Uma curiosa tentativa de minorar o sofrimento dos sertanejos com as secas ocorreu em julho de 1859 quando. A Grande Seca que ocorreu de 1877 a 1879 ceifou a vida de mais da metade das 1.000 km².000 km². o Nordeste pode ser dividido em três partes: O semi-árido com cerca de 800.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Um Século de Obras contra as Secas “O sertanejo é. incluindo a totalidade dos estados do Maranhão.000 pessoas que residiam na área atingida pela tragédia. O semi-árido é compreendido pelo Polígono das Secas que tem 936. não havia meios de transporte eficientes para a retirada das popula- 67 .933 km² e onde chove em média menos do que 800 mm/ano. O primeiro posto no interior já sob influência da Comissão foi o de Quixeramobim. Ceará.754.548. Dessa forma. a construção de açudes. o semi-úmido com cerca de 600. Em função de características climáticas. Quanto à construção de açudes. mesmo assim sob forte oposição ambiental. a instalação de estações meteorológicas e a transposição das águas do rio São Francisco para a bacia do rio Jaguaribe. Pernambuco. Em números redondos. Esse foi de longe a maior catástrofe gerada por fenômenos naturais que ocorreu no País. um forte” Engenheiro Euclides da Cunha Flavio Miguez de Mello O Nordeste é uma região com 1. Sergipe e Bahia. Antes dessa Comissão havia apenas um posto pluviométrico em Recife operando desde 1842 e outro em Fortaleza desde 1849. A primeira seca historicamente constatada foi em Pernambuco em 1583. áreas do norte do estado de Minas Gerais e leste do estado de Tocantins são assemelhadas ao Nordeste. Uma das secas remotas foi responsável pela expulsão dos holandeses que tentaram se estabelecer no Ceará. Piauí. A tentativa de debandada da população interiorana redundou na morte pelos caminhos e na proliferação de doenças como o tifo. Rio Grande do Norte. As melhorias nos sistemas de transporte foram discretas em função inicialmente da precária situação financeira ocasionada pela Guerra da Tríplice Aliança e. pelo governo republicano. o navio francês Splendide desembarcou no porto de Fortaleza 14 camelos que vieram para procriarem e apoiar as populações no transporte pela caatinga do semi-árido.672 km² que corresponde a 18. Esses postos em áreas litorâneas não eram referências para a região do semiárido. em 1877. Em 1856 o Governo Imperial instalou a Comissão Científica de Exploração para coordenar os estudos e analisar as soluções para o problema das secas.

Cabe aqui realçar algumas posições decorrentes desses debates. enfatizou também a necessidade de construção de abrigos e de alimentação para os flagelados. a antropologia e a economia. seu sucessor. Como de costume. XX e XXI ções interioranas. a pedologia. esse órgão passou a se denominar Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas IFOCS. ocasionando mortes em larga escala. Importante consignar que em sessões sob o comando do Conde D’Eu no Instituto Politécnico situado na Corte. a Co- missão de Perfuração de Poços. foram criadas três comissões: a Comissão de Açudes e Irrigação. e a Comissão de Estudos e Obras Contra as Secas. a soma dos recursos destinados à IFOCS representou apenas 20% dos recursos despendidos nos dois últimos anos do governo de Epitácio Pessoa que os antecedeu. o aparecimento da “Formula de Aguiar” que serviu de base aos estudos posteriores de hidrologia e dimensionamento de açudes por muitas décadas ao longo do Século XX. O Século XX foi iniciado com outra seca no Nordeste. Washington Luiz. O primeiro inspetor chefe da IOCS foi o dinâmico engenheiro Miguel Arrojado Ribeiro Lisboa que. Processando dados hidrológicos principalmente das bacias hidrográficas dos rios Quixeramobim e Jaguaribe. não mais conseguiu se retirar para o litoral. principalmente naquela época de início de mais uma seca. o primeiro açude não estava concluído e não havia registros pluviométricos no semi-árido. A população do interior. tendo implantado mais de vinte açudes públicos com destaque para Forquilha e Quixeramobim. Pires do Rio e Arrojado Lisboa. O geólogo Silva Coutinho também defendeu a construção de grandes barragens. A IFOCS manteve a construção de açudes. Durante dez anos a IOCS se dedicou a obras de infra-estrutura e promovia apoio aos flagelados assolados pelas secas. defendendo a implantação de açudes menores e estradas distritais. incluindo poços artesianos. Registra-se que durante os oito anos desses dois mandatos. embrião do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas DNOCS. eleito em 1926. no governo de Epitácio Pessoa.Séculos XIX. devida à carência de recursos humanos na época. Rebouças reconhecia a necessidade de ações imediatas. o engenheiro Gonçalves Aguiar elaborou notável análise hidrológica de caráter determinístico publicada em trabalho intitulado Estudo Hidrométrico do Nordeste Brasileiro.A História das Barragens no Brasil . O professor André Rebouças havia escrito em 1877 o trabalho “As Secas nas Províncias do Norte”. a partir de 1904. complementando alguns dos açudes com piscicultura incipiente e mesmo irrigação que já havia sido iniciada no açude de Cedro. abrangendo a hidrologia. pela idealização de Francisco Sá. dá prosseguimento ao processo de inanição da IFOCS. a geologia. defendia a construção de obras estruturais. em 21 de outubro de 1909. Essas comissões foram aglutinadas em 1906 na Superintendência de Obras Contra os Efeitos das Secas. Assim. residências cujos telhados captassem águas de chuva direcionadas para cisternas. depois de meses de seca. O professor André Rebouças destacou também a importância da instalação de rede telegráfica e melhorias nos portos da província do Ceará para possibilitar a implantação de vias férreas. Os debates retroagiram à proposta de Gabaglia de 1861 que compreendia a perfuração de poços artesianos e a implantação de barragens. a botânica. só em época de calamidades é que obras e organismos governamentais são efetivados. O senador Pompeu e o engenheiro Henrique de Beaurepaire Rohan salientaram a importância do reflorestamento extensivo da região. Os precários resultados observados levaram. foi debatido amplamente o problema das secas no Nordeste. 68 . ambos no Ceará. implantação de ferrovias e até dessalinização de água do mar. a sociologia. O engenheiro e escritor Manuel Buarque de Macedo preconizou que o tesouro imperial não dispunha de recursos para implantar tantos projetos. A Grande Seca (1877-1879) de devastadoras conseqüências impactou o Governo Imperial. convocou renomados profissionais do Sudeste e do exterior para o desenvolvimento de estudos bastante completos. à criação pelo governo de Nilo Peçanha. construção de barragens e canais. Nesse período de carência de recursos sobressai-se. houve a suspensão de todas as obras e a IFOCS quase desaparece. em desenvolvimento tecnológico. Em 1919. da Inspetoria de Obras Contra as Secas IOCS. integradas e definitivas. tendo o próprio imperador Pedro II estado no local assolado pela seca. O engenheiro Zózimo Barroso propôs a construção de uma rede de grandes açudes. Com a eleição de Artur Bernardes à presidência da República em 1922.

Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 1 .Barragem Lima Campos em construção em 1932 Figura 2 Barragem do Choró em construção em 1933. Face de montante com lajes de concreto 69 .

Açude Choró – Vista do talude de montante ao final da construção em 1934 70 . XX e XXI Figura 3 . Juscelino Kubitschek e do ministro Lúcio Meira da viação e obras públicas Figura 4 .A História das Barragens no Brasil .Inauguração do Açude Público Boqueirão em 1957 com a presença do pres.Séculos XIX.

A barragem foi concluída em 1986. Uma epidemia de piolho levou o governo a ordenar que as cabeças fossem raspadas. Hoje há esforços para que seja tombado o conjunto de edificações na barragem de Patu. Nesse período de penúrias o Departamento foi dirigido por Luiz Vieira e Vinícius Berrêdo. o que comprova a prática nos primeiros anos da República. Cercados por muros e por arames farpados. Os flagelados que reclamavam das condições a que eram sujeitos. não havendo recursos para formação de mão de obra. a irrigação se devidamente implantada poderia beneficiar três mil famílias. Em 1932 Lima Campos faleceu em acidente aéreo. antes da seca de 1932. não aconteceu a difusão de insumos. Os campos foram criados pela IFOCS em Fortaleza. eram classificados como infratores. Propositalmente ignorados pela historiografia oficial. não houve financiamento para a mecanização para a lavoura e a pecuária. Há relatos de mortes por febre tifóide de mil pessoas em uma só noite no campo do Urubu. uma pequena gaiola de varas. com 71. residente da Empresa de Assistência Agropecuária do Ceará. A seca de 1932 marcou profundamente os que sobreviveram aos campos de concentração. onde a empresa inglesa Dwight P. não se promoveu a monetarização do mercado interiorano que funcionava à base de escambo. ainda que insuficiente.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Com o golpe de estado de 1930. Entretanto. para evitar que os flagelados inchassem as cidades. Seu reservatório. Os ingleses se retiraram com a paralisação das obras ordenada pelo governo de Artur Bernardes. não houve meios suficientes para a expansão de observações e estudos hidrológicos. os campos de concentração ainda estão vivos na memória dos poucos sobreviventes. se transformou em um campo de concentração. foi duplicado em relação ao orçamento deixado pelo seu antecessor. Adriano Bezerra relata o ocorrido em 1932 no campo de concentração em Senador Pompeu onde os corpos das vítimas da sede e da fome eram jogados em valas coletivas após a extração dos fígados que eram destinados a exames médicos. Em dezembro de 1945 o presidente José Linhares e seu ministro Maurício Joppert da Silva transformam a Inspetoria no Departamento Nacional de Obras Contra as Secas DNOCS que. 65 anos após o início de suas obras. Os detentos nos campos de concentração eram reduzidos a pele e osso como os filmados pelas tropas americanas ao chegarem aos campos de concentração nazistas na II Guerra Mundial. o orçamento do DNOCS. assume a presidência Getúlio Vargas que nomeia José Américo de Almeida para o Ministério de Viação e Obras Públicas que. Em 1932 ocorreu uma seca severa e o canteiro de obra da barragem de Patu que havia sido paralisada em 1923. um cemitério de quinze mil mortos-vivos. os flagelados se espremiam como uma massa esquálida e faminta. quando apenas 36 famílias são presentemente beneficiadas com a irrigação. segundo Francisco Luís de Araújo. Os guardas só davam um farelo amarelo. foi formado o campo de concentração do Urubu. No livro “Barragem do Patu. Ipu. Naquela época Fortaleza era conhecida por “loura despojada pelo sol” e como ninguém gostaria de visitar a cidade inundada por flagelados. tendo sido substituído pelo engenheiro Augusto da Silva Vieira. Cariús. portanto. Raquel de Queiroz usou a expressão campo de concentração em seu romance “O Quinze” escrito em 1930. por sua vez nomeia o engenheiro Artur Fragoso de Lima Campos inspetor geral da IFOCS. O maior campo de concentração era o de Crato que chegou a ter 65 mil flagelados. no Ceará. Com o retorno de Getúlio Vargas à presidência. desta vez eleito. sangue de boi e carne da cabeça de gado como comida. o primeiro campo de concentração que se tem notícia foi o campo de Urubu que foi instalado na seca de 1915. Dessa maneira 71 . sendo violentamente penalizados e recolhidos ao sebo. sem dar seguimento a obras de irrigação e de piscicultura. uma usina termoelétrica. Patu e Crato. depósito de explosivos e casas para seus executivos. não se promoveu acesso a crédito. Era comum passarem em redes mais de trinta mortos por dia cujos corpos eram jogados em valas comuns. os Descaminhos de uma Obra”.8 milhões de metros cúbicos de capacidade daria para atender 60% da atual população de Senador Pompeu mas. Quixadá. a partir do ano seguinte sob o governo Dutra se mantém com recursos exíguos e praticamente limitados às obras de construção de açudes. Quixeramobim. não foram criadas estruturas de estocagem. Robinson implantou um canteiro de obra. morriam de desnutrição e de doenças diversas nos “currais de fome”. escritório.

Banabuiu. drenou de todos os lados recursos necessários para a implantação da nova capital. Orós. teve o seu colapso anunciado com meses de antecedência pelos dirigentes do DNOCS dada a incapacidade financeira e de crédito para concluir a barragem antes do período de chuvas. Boqueirão das Cabaceiras e Cocorobó. Figura 5 . depois incorporada à CHESF. Juscelino Kubitschek.Barragem Quixeramobim 72 . A mais notável delas. Araras. obcecado pela sua meta síntese de construção de Brasília. XX e XXI foram retomadas ou iniciadas as obras de diversas barragens tais como Orós.A História das Barragens no Brasil . Ao assumir o governo federal. Nesse período tiveram início os estudos da hidroelétrica de Boa Esperança. posteriormente transferida para a COEBE e. O DNOCS não ficou isento a essa insaciável drenagem de recursos e algumas de suas obras ficaram sem recursos e sem crédito.Séculos XIX.

O governo Jânio Quadros.Açude Banabuiu A SUDENE concorreu com eficiência para a divulgação leviana da idéia de que a capacidade dos açudes então existentes seria suficiente para atender à demanda de água do semi-árido para qualquer seca que viesse a acontecer. Holtz.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens rompeu em 1961 a concessão de subsídios à construção de açudes particulares por regime de cooperação e desacelerou a implantação de açudes públicos. engenheiro de carreira no U. uma argila de baixa resistência foi colocada anexa ao núcleo da barragem se prolongando para montante em forma de tapete impermeabilizante. Diversas empresas consultoras estrangeiras desembarcaram no País para surpresa da Associação Brasileira de Consultores Figura 6 . Bureau of Reclamation. brecada até que as secas intensas ocorridas no início dos anos oitenta demonstraram o equívoco dessa postura. Nos governos seguintes a maior atribuição do DNOCS foi a de implantar perímetros irrigados. Com a chegada de José Sarney à presidência da República é lançado o programa de irrigação de um milhão de hectares. além de praticar uma injustificada caça às bruxas com relação aos dirigentes do período anterior. As autoridades tentaram culpar o consultor. Após a deposição do governo Goulart.S. o DNOCS passa a ser gerido por sucessivos coronéis do Exército pouco versados nos problemas do semi-árido. ocorreu a severa seca entre os anos de 1980 a 1983.Açude Mãe d’Água Figura 7 . A modalidade tradicionalmente adotada de executar os empreendimentos por administração direta foi abolida e o efetivo do Departamento passou a entrar em ociosidade. Em 1999 assumiu o governo o general João Batista Figueiredo e. mas o engenheiro José Candido Castro Parente Pessoa logrou provar na delegacia perante a um juiz de direito. No governo de João Goulart o DNOCS passa à categoria de autarquia em junho de 1963 e passa a trabalhar sob a coordenação da SUDENE em ocasiões de emergência. Para esse programa foi sorrateiramente e oficiosamente quebrada a proteção à engenharia brasileira conseguida por lei no governo Costa e Silva. em seguida. então. a inocência do referido consultor que havia desaconselhado a execução do tapete. antes do enchimento do reservatório. com a capacidade de 2. apesar das advertências da empresa encarregada da fiscalização e de seu consultor Mr. A mais importante obra desse período foi a construção da barragem de Açu no Rio Grande do Norte. Durante a construção. A política de implantação de açudes foi. Ao final da construção. houve o colapso do talude de montante da barragem por falta de resistência da camada de solo do tapete impermeabilizante. em paralelo ao segundo choque do petróleo.4 bilhões de metros cúbicos de acumulação. inter- 73 .

Assim. entre 1940 a 1960. Seu criador em 1898. Sua missão é o desenvolvimento de projetos de barragens de regularização e irrigação do árido oeste dos Estados Unidos.A História das Barragens no Brasil . Foi instalada uma comissão parlamentar mista tendo resultado daí o relatório de Beni Veras que recomendava a manutenção do DNOCS. Na sua época mais ativa. Hoje os funcionários da ativa não passam de mil e oitocentos. o que é vedado pela legislação em vigor. O diretor geral Elias Fernandes lamenta: “todos os meus funcionários têm cabeça branca”. O USBR foi a primeira instituição americana dedicada ao estudo e desenvolvimento de recursos hídricos. Essa medida não substituiu devidamente os terceirizados. 1 de janeiro de 1999. o DNOCS foi ressuscitado em maio de 1999. e do peso do Nordeste no parlamento. muitas delas do INCRA. Em Targinos. Alguns dos mais destacados profissionais do USBR. o órgão chegou a ter dezessete mil funcionários e fazia as obras por administração direta. mas não foram implantadas no curto governo Itamar Franco nem no primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso. apesar de neste governo ter ocorrida significativa redução de diretores e cargos gratificados. No primeiro dia do segundo governo Fernando Henrique Cardoso. estiveram dando assistência técnica às obras de barragem do DNOCS. Engenheiros do DNOCS e de outras instituições brasileiras. tais como Jack Hilf. Da falta de condições do DNOCS e dos perversos cenários das secas surgiram construções de açudes particulares e por outros órgãos federais e estaduais. ficando o órgão nos limites da sobrevivência. havendo mais de doze mil aposentados e pensionistas. Ao longo do Século XX o USBR implantou centenas de barragens e mais de duzentos projetos de irrigação no oeste americano. Nos dois governos Lula houve reestruturação do DNOCS. Holtz e Hoffmann. XX e XXI de Engenharia. W. Ceará. Esse açude e o longo canal de adução das águas à cidade de Fortaleza executado em tempo recorde de acordo com o planejamento do engenheiro José Cândido Pessoa. John Wesley Powell deu origem a uma das mais destacadas instituições de engenharia já formada. Cabe realçar a influência do United States Bureau of Reclamation USBR no combate às secas do Nordeste brasileiro. Dois anos depois as obras foram feitas com dispensa de licitação. mas não houve obras de barragens. As modernizações foram estudadas. foi novamente criada em janeiro de 2007 com o objetivo de reassumir o planejamento regional. Depois de passar trinta anos sem renovar seus quadros.Séculos XIX. mas sem dotações orçamentárias suficientes. A SUDENE que havia sido extinta por medida provisória em maio de 2001. Ao ser lançado o PAC – Plano de Aceleração do Crescimento com uma verba de um bilhão de reais em 2010. A única obra importante foi conseguida pela bancada cearense no congresso: o açude Castanhão inaugurado ao apagar das luzes do segundo governo de Fernando Henrique. mas o Ministério do Planejamento limitou a 92. 14 barragens colapsaram. devido a impressionante mobilização de diversos setores da sociedade civil do Nordeste. fortaleceu politicamente o então governador Ciro Gomes e o lançou na política Federal. os recursos humanos da instituição não puderam acompanhar a disponibilidade financeira pela sua carência de estrutura e de pessoal. laboratórios e obras. Entretanto. A diretoria do DNOCS alertou em 2008 que eram urgentes as obras de recuperação dos açudes Estevam Marinho e Mãe D’Água sob o risco de se tornarem inoperantes e causarem danos irreparáveis a bens e a vidas humanas. com equipe própria. mas sujeito a profundas modernizações. a era FHC deixou duas grandes marcas na Autarquia: a sua traumática dissolução com seu posterior ressurgimento e a construção da maior barragem do semi-árido brasileiro que incluiu a utilização rara em nosso País. pois vinham prestando serviços para a atividade fim do órgão. Implantados em condições questionáveis. de diques fusíveis. Nesta época o autor desse capítulo era o diretor da ABCE encarregado da proteção à engenharia nacional. que tiveram que ser demitidos. no sertão central do Ceará. A viabilidade da existência do DNOCS passou a ser agenda do governo Fernando Collor de Mello que se instaurou em 1991. acabando longa agonia. bastou que as precipitações em 2009 fossem 59% superiores à média anual para que houvesse o colapso de 50 açudes só em Canindé. foram treinar nos seus escritórios. 74 . o DNOCS é finalmente extinto por medida provisória. a DNOCS pediu abertura de concurso para seiscentas vagas. pois há mais de 40 anos não eram feitas manutenções nessas barragens. inclusive o autor.

Barragens iniciadas ou projetadas no governo de Epitácio Pessoa como Pedra Branca e Patu foram concluídas muitas décadas depois. Figura 8 . A partir dessa época as secas passaram a ser previsíveis. viria projetar o vertedouro da barragem. a IFOCS e seu sucessor DNOCS mostrou intensa atividade. A barragem de Castanhão teve sua construção proposta em 1910 e só foi executada quase 100 anos depois.Jack Hilf e José Candido Pessoa. Um El Niño mais prolongado causa no território brasileiro secas no Norte e Nordeste e cheias no Sul. Quando da primeira fase de construção que eram para ser uma barragem de alvenaria. o que significa cerca de 20% das grandes barragens brasileiras. nasceu no canteiro de obra o Theophilo Benedicto Ottoni Netto que. como engenheiro sênior.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens As causas das secas no Nordeste ficaram desconhecidas até a primeira metade dos anos 80 quando foi detectada a influência da permanência de temperaturas mais elevadas da água no oceano Pacífico na latitude do Peru. A barragem de Orós cuja proposição é dessa época. teve suas obras interrompidas. sendo responsável pela implantação de mais de 220 grandes barragens (de acordo com a classificação da CIGB). nas fases em que o governo federal propiciou condições financeiras adequadas. Ao analisar as atividades realizadas no combate às secas verifica-se que a descontinuidade na administração das agências de fomento e a alternância dos recursos disponibilizados fazem com que obras iniciadas há várias décadas são descontinuadas ou retardadas. fenômeno conhecido desde os tempos coloniais como El Niño. Entretanto. Exemplo de colaboração do US Bureau of Reclamation para o DNOCS 75 .

76 76 .

As obras foram iniciadas em novembro de 1890 e foram concluídas em 1906. Esse projeto. Flavio Miguez de Mello O Departamento Nacional de Obras Contra as Secas e as inspetorias que o antecederam foram os órgãos que mais barragens implantaram no Brasil. no segundo ano. Nos cento e vinte anos de atividades no combate aos malefícios das secas. foi modificado pelo engenheiro Ulrico Mursa. muitas barragens com características extremamente interessantes foram construídas. Até meados do século passado as barragens eram de alturas modestas. Já em 1882 o primeiro projeto estava pronto. dispensando-se revestimentos. a barragem de Orós por ter tido impressionante acidente durante sua construção.” Antônio Conselheiro a construção de barragens era. sendo que só nos anos 50. feita em duas etapas: no primeiro ano se procedia a limpeza e o tratamento de fundação e. a barragem de Engenheiro Ávidos pelo seu arrojado projeto original. após o recuo das águas. As barragens do açude de Cedro Logo após o término da Grande Seca. Como são muitas barragens. entretanto. em função do maior ou menor interesse do governo federal.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens As Barragens Construídas pelo DNOCS “Em 1896 há de haver mil rebanhos correndo da praia para o sertão. em 1880. o Governo Imperial encomendou ao engenheiro Jules Revy uma seleção de locais para implantação de barragens com o objetivo da formação de açudes. se fazia as obras no leito do rio e nas margens. da Comissão de Açudes e Irrigação. ou maciços baixos de terra cujo elemento impermeabilizante era um diafragma central de alvenaria. os demais cursos d’água do Nordeste são de regime intermitente. Sangradouro de Castanhão 77 . que flui desde Minas Gerais e o rio Parnaíba que divide os estados do Piauí do Ceará são perenes. então o sertão virará praia e a praia virará sertão. Considerando que apenas os rios São Francisco. atividades que foram originadas das drásticas conseqüências da Grande Seca que ocorreu de 1877 a 1889. em geral. a barragem de Cocorobó pelos motivos que determinaram a sua implantação e a barragem do Castanhão por ser a última grande barragem construída pelo DNOCS antes da publicação deste livro. para o presente livro o autor selecionou as barragens do açude de Cedro por terem sido as primeiras grandes barragens do Nordeste e as mais bonitas até hoje. Com o objetivo de promover condições de fixação dos nordestinos cultivando o semi-árido. Nos primeiros anos do século passado as barragens eram de alvenaria de pedra. Dentre os locais selecionados sobressaiu-se o sítio onde foi implantado o açude de Cedro. o sangradouro podia ser simplesmente escavado numa das ombreiras. 214 grandes barragens (de acordo com a classificação da Comissão Internacional de Grandes Barragens) foram implantadas até 1982. Essa cifra mostra intensas fases de elevada atividade e outras fases de estagnação. chamadas na época de barragens de peso. No caso de haver ombreira em rocha sã. foi implantada a primeira barragem de altura superior a 50 m. em Boqueirão das Cabaceiras.

de gravidade. controlando uma área de drenagem de 224 km². O açude só foi verter (sangrar) pela primeira vez em 1924 o que demonstra que. de longo raio de curvatura de 254 m. com uma superfície de 17.724 m³ e Barragem da Lagoa do Forbes com 4 m de altura. Há ainda dois diques de terra. seu comprimento é de 209 m e seu volume é de 9. uma capacidade de acumulação de 126.5 m de altura e com lâmina livre pela crista. O vertedouro (sangradouro) é também em alvenaria.000. A barragem principal é em arco gravidade de alvenaria.925 m³.45 km². sua extensão de crista é de 415 m.473 m³ de volume. seu eixo curvo e os pequenos pilares com as grossas correntes aliados à Pedra da Galinha Choca na margem direita da barragem e à esquerda do vertedouro formam um conjunto arquitetônico de rara beleza. Figura 1 – Açude de Cedro 78 .Séculos XIX.000 m³. comprimento de crista de 243 m e volume de 40. com 7. denominados Barragem Sul com altura de 17 m. pela falta de dados hidrológicos na época do projeto. um em cada margem do rio.000 m³ e uma profundidade média pouco superior a 7 m. sua altura é de 18 m sobre as funda- ções em sienito são.A História das Barragens no Brasil . O açude se localiza no rio Sitiá do sistema Jaguaribe. após paralisações. o açude ficou super-dimensionado. XX e XXI sob a direção do engenheiro Bernardo Piquet Carneiro. 464 m de extensão e 8. A alvenaria de pedra em sua crista. seu volume é de 60.

como as sondagens no aterro da barragem revelaram graus de compactação inadequados. no município de Cajazeiras. Foi efetuado um novo estudo hidrológico para verificação da hidrógrafa de projeto. O vertedouro era de crista livre. apresen- 79 . Na ombreira esquerda as escavações atingiram a 14 m de profundidade. como a descarga de projeto deveria ser o dobro da descarga original e como essa descarga de projeto era quase 30 vezes superior à descarga ocorrida em 1963.000 m³. após a cheia. Como esta era. o que correspondeu a uma hidrógrafa defluente com pico de apenas 55 m³/s. O projeto foi concebido pelos engenheiros Luis Vieira e Vinícius Berrêdo.6:1. o reservatório era mantido em nível baixo a maior parte do tempo. o que correspondeu a uma escavação de 300.30 m sobre a crista do vertedouro. Rice do US Bureau of Reclamation.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A barragem de Engenheiro Avidos. No local da barragem a margem esquerda é composta por um quartzito decomposto. O projeto original da barragem compreende um maciço de terra a montante com talude variável de cima para baixo de 2:1. o engenheiro O. A barragem havia sofrido recalques e os movimentos provocaram a abertura de juntas na laje do vertedouro. a uma sobre-elevação de cerca de 0. tando muitos matacões e elevada permeabilidade e a margem direita é constituída por um gnaisse intemperizado. Paraíba. com a colaboração de Moacyr Avidos. de 2.5:1 e de 3:1. tendo sido definida uma hidrógrafa com pico de 1610 m³/s. e um maciço de enrocamento no espaldar de jusante com talude de 1. As tomadas d’água são em duas torres cilíndricas controladas por comportas que aduzem a água para duas tubulações em células de concreto armado. com ogiva de concreto de 160 m de extensão e cuja calha era constituída por um revestimento do talude jusante em lajes articuladas de concreto armado projetado para um pico de cheia da ordem de 800 m³/s e situado na parte central do corpo da barragem. no seu pico. um núcleo de concreto sob a linha de centro da barragem constituindo-se o principal elemento de impermeabilização. Esses deslocamentos se acentuaram após a passagem da cheia de 1963 que chegou.000 m³ e a um volume de concreto de 16. nos países ocidentais. Realmente. Nesse ano. recomendou que fosse construído um novo vertedouro na ombreia direita. Regis Bittencourt e Lohengrin Chaves. Figura 2 – O engenheiro Moacyr Monteiro Avidos As principais condicionantes do projeto eram: não exigir fundação em rocha sã e o elevado custo devido às dificuldades logísticas para suprimento de cimento ao local da barragem. uma das quatro barragens com vertedouro sobre o aterro e a única das quatro que sobreviveu durante quase 30 anos de uso. controlando uma área de drenagem de 1124 km². em inspeção à barragem. foi decidido que o vertedouro sobre a barragem seria substituído por um vertedouro lateral provido de duas comportas de segmento de 9 m x 10 m que descarregam as descargas vertidas em uma calha em concreto armado e dissipação em salto de esqui. Consta que o padre Cícero havia dito que a barragem iria colapsar. antiga São José de Piranhas A barragem é localizada no rio Piranhas. A barragem tem 44 m de altura e 340 m de extensão.

Açude Piranhas durante sua construção em 1936.Açude Piranhas – Saída das galerias da tomada de água Figura 3 .A História das Barragens no Brasil . XX e XXI Figura 4 . Vista do talude de jusante 80 .Séculos XIX.Açude Piranhas durante sua construção em 1936. Vista do talude de montante Figura 5 .

Estudos e investigações geotécnicas efetuadas pelo engenheiro Arthur W. conhecido como o maior rio intermitente do mundo. Orós foi programada para ter seu maciço totalmente construído em um período seco. ambos com eixo retilíneo a jusante do boqueirão para evitar a espessa camada de aluvião que havia sido detectada nos estudos iniciais. Em 1940 foi concluído um túnel com 1600 m de extensão ligando Orós ao açude de Lima Campos cuja capacidade de irrigação estava esgotada. formando um sem número de engenheiros. Em 1932 materiais e equipamentos foram retirados de Orós para as construções dos açudes de Pilões. tendo havido. Houve um primeiro anteprojeto desenvolvido no início da Inspetoria de Obras Contra as Secas do qual não se tem notícia por ter se perdido em incêndio ocorrido em dezembro de 1912 na Primeira Seção dessa Inspetoria. Piranhas e São Gonçalo.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A barragem de Orós A barragem de Orós é situada no rio Jaguaribe. P. acessos rodoviários. A cerca de 200 m a jusante do eixo retilíneo original essa cavidade apresenta profundidades de até 80 m. A barragem de Orós deixou de ser prioridade mesmo com a intensa seca de 1932. Como finalidades secundárias há a piscicultura e aproveitamento hidroelétrico. Pyles. no janeiro seguinte. A idéia inicial de uma barragem de eixo reto situada na entrada do boqueirão foi abandonada em 1913. Cunha. Theophilo Benedicto Ottoni Netto. Nessa fase inicial de construção participava da equipe o engenheiro Augusto Benedicto Ottoni. motivado pela intensa seca que impactou a região. Durante essa fase. José Wright e George Shobinger. C. como 81 . A. Curiosamente. como será mencio­ nado adiante. no interior do estado do Ceará. Em 1930 estudos adicionais foram realizados sob a orientação do engenheiro Luis Augusto Vieira. eletrificação e canteiro de obra. drástico corte de verbas e a conseqüente paralisação das obras no governo de Arthur Bernardes. foram feitos pelos engenheiros A. que viria a ser destacado engenheiro hidráulico e professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro. ferrovia. em vista dos resultados das sondagens executadas pelo engenheiro britânico Louis Philips e pelo engenheiro José Gomes Parente. Para fugir da cavidade duas alternativas de eixo foram indicadas: eixo reto na parte jusante do boqueirão ou eixo acentuadamente curvo na entrada do boqueirão. uma neta e o autor desse capítulo. Schneider levaram a professor Casemiro José Munarski a conceber o projeto de uma barragem de terra zonada com grande curvatura em planta para montante com o objetivo de fugir da espessa camada de aluvião. incluindo seus filhos. no interior do Ceará. Em outubro de 1958 as fundações da barragem estavam escavadas e tratadas. Comstock e J. Posteriormente equipe do engenheiro Luiz Vieira elaborou dois estudos. José Visetti. Robinson & Co. no decorrer de 1959. Em 1919. A barragem seria em alvenaria de concreto ciclópico executada com apoio de cabo aéreo cujas torres foram instaladas nas duas ombreiras. a 450 km da capital Fortaleza. o governo federal contratou a empreiteira americana Dwight P. Sargent. para elaborar um novo projeto e implantar a obra sob a supervisão dos engenheiros Charles W. Todos os trabalhos de levantamentos e prospecções e de projetos de infra-estrutura tais como as instalações das residências e escritórios. o engenheiro Theophilo teria atuação de destaque no projeto do vertedouro da barragem de Orós quase cinqüenta anos depois do seu nascimento. Sua principal finalidade é perenizar o rio e promover a irrigação nos trechos médio e baixo de seu vale. nasceu seu filho. A excepcional cheia ocorrida em 1924 destruiu ensecadeiras e parte do canteiro de obra. Essas sondagens indicaram no leito do rio uma cavidade no seu topo rochoso de 40 m preenchida por aluviões. Desde os tempos do Império e nos primeiros anos da república uma barragem no boqueirão de Orós vinha sendo considerada. Apesar de dispor de um túnel de desvio. O maciço da barragem seria erguido após a estação chuvosa seguinte. um com barragem de terra e outro com barragem de concreto gravidade.

A campanha em muitas cidades do País tinha o lema “Orós precisa de nós”. devido à incrível concentração de recursos federais para a construção de Brasília.A História das Barragens no Brasil . Várias cidades situadas a jusante foram invadidas pelas águas oriundas do colapso da barragem. Entretanto. a barragem começou a ser galgada. tendo sido por infarto. denominada pelo presidente Juscelino Kubitschek de meta síntese.5:1 e 2:1 respectivamente a montante e a jusante. engenheiro José Cândido Castro Parente Pessoa. foi executada com espesso núcleo de argila arenosa compactada em camadas de 15 cm e taludes externos em enrocamento que envelopava. ambos abrandados em cotas inferiores. nos espaldares de montante e de jusante. na margem direita do reservatório havia sido construído um túnel que conduz descargas do rio Jaguaribe ao açude de Lima Campos com o objetivo de reforçar as vazões para irrigação das áreas a jusante desse açude.Barragem de Orós após a ruptura Figura 6 . realçam-se as atitudes de países no apoio às vítimas do rompimento 82 . quanto ao perigo da não conclusão da barragem antes do período chuvoso.Galgamento da barragem de Orós Destaca-se a eficiente atuação das forças armadas no resgate das populações residentes a jusante da barragem. Figura 7 . XX e XXI era comum nos rios intermitentes do Nordeste. A barragem. No âmbito externo. tornou-se a tomada d’água e foi revestido posteriormente com chapa de aço. No final do período chuvoso.Séculos XIX. O túnel de desvio situado na ombreira esquerda. Debalde foram os alertas da direção do DNOCS e de seu diretor geral. Era nos primeiros minutos da madrugada do dia 26 de março de 1960. As informações disponíveis dão conta de que apenas um óbito foi registrado. O acidente e suas conseqüências impactaram a opinião pública e muitos recursos foram angariados de populares e remetidos às vítimas do acidente. Cerca de 40% do volume do maciço já executado foi erodido. Como mencionado acima. O próprio DNOCS construía a barragem com equipamentos provenientes da recém concluída construção da barragem de Araras. projetada com 54 m de altura e taludes de 2. zonas de solo arenoso compactados em camadas de 30 cm de espessura. O DNOCS passou a ter sérios problemas na manutenção do ritmo de construção por falta de recursos financeiros para concluir a barragem a tempo. com a barragem ainda incompleta e sem ser possível as águas afluentes atingirem a cota da soleira do vertedouro ainda em escavação. os demais empreendimentos governamentais ficaram com desmedidas carências de recursos. apresentando a jusante uma bifurcação para um descarregador de fundo e para a instalação de uma pequena hidroelétrica que só foi licenciada cinqüenta anos depois. Os esforços para conter o colapso da barragem foram inúteis. tendo perdido também o crédito junto a fornecedores.

Alemanha Ocidental. Theophilo Benedicto Ottoni Netto e José Cândido Parente Pessoa em visita ao modelo hidráulico reduzido do vertedouro de Orós erosão regressiva que quase comprometeu a estabilidade da ombreira esquerda. o sangradouro permaneceu sem ser revestido de concreto.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens da barragem de Orós: Estados Unidos. destacando-se quartzitos xistosos dobrados e extremamente fraturados. Em visita ao local em época em que o reservatório estava com elevado nível d’água. testada em modelo reduzido. A rocha local é composta por xistos da série Ceará. Figura 8 . uma alta autoridade federal mandou abrir a ensecadeira. Reino Unido. Mais uma vez. recursos foram destinados a concluir a obra do vertedouro. tendo sido inaugurada pelo presidente Juscelino Kubitscheck. União Soviética e Vaticano. Juarez Távora. França. o vertedouro apenas escavado. A barragem foi rapidamente reconstruída entre julho de 1960 e janeiro de 1961. provocou grande Figura 9 – Saturnino de Brito Filho. há um monumento em bronze com a estátua do presidente em tamanho natural. Apesar de ter sido o responsável pela carência de recursos que ocasionou o colapso da barragem com graves consequências para as populações de jusante. após a emergência.Erosão na área do vertedouro antes do revestimento de concreto 83 . era protegido por uma pequena ensecadeira. Entretanto. A água escoando a elevadas velocidades sobre a rocha altamente fissurada. O projeto foi encomendado ao Laboratório Hidrotécnico Saturnino de Brito – HIDROESB e idealizado pelo Professor Theophilo Benedicto Ottoni Netto aproveitando em parte a configuração da encosta erodida e desenvolvendo uma concepção de elogiável arquitetura hidráulica. Pouco após a reconstrução da barragem.

Séculos XIX. XX e XXI Figura 10 – Açude de Orós Figura 11 – Vertedouro de Orós em operação 84 .A História das Barragens no Brasil .

o corta cabeças.3 milhões de metros cúbicos. também descrita com maestria por Mario Vargas Llosa. Principalmente após a construção. posteriormente.” Os estudos do DNOCS indicaram o boqueirão Cocorobó como o sítio mais indicado para a construção da barragem. em 1940. Consta que o pedido da construção da barragem de Cocorobó partiu do chefe político local durante a visita. aparecendo as antigas construções. que já havia assassinado mais de cem habitantes de Nossa Senhora do Desterro. do presidente Getúlio Vargas à região e ao segundo Arraial de Canudos. Getúlio teria perguntado a Isaias Canário o que poderia ser feito por Canudos e recebeu como resposta: “Um açude Senhor Presidente. o volume d’água A barragem. cem anos após. há acumulado pelo açude não é suficiente para atender a exploração de todo potencial de solo agricultável a jusante. como ficou evidenciado nas estiagens ocorridas entre 1994 e 2000 quando as demandas fizeram com que o espelho d’água atingisse níveis muito baixos. Figura 13 – Estátua de Antônio Conselheiro. tendo sido finalmente aniquilados em seu arraial denominado Belo Monte. tendo ao fundo o açude de Cocorobó Figura 12 – Prisoneiros da guerra de Canudos 85 . desarmados e militarmente despreparados. construído em 1909 por parentes e sobreviventes do massacre. em nenhum momento foi cogitado que o sítio selecionado iria submergir o que havia restado de Belo Monte. Na realidade. conhecido por Antônio Conselheiro. cidade posteriormente denominada Florianópolis em homenagem ao ditador da ocasião. prêmio Nobel de literatura em 2010. Na época. e. 643 m de extensão de crista e volume de reservatório de 245. os seguidores de Antônio Conselheiro rechaçaram quatro investidas e expedições das forças armadas. Mesmo no local selecionado. a seleção do local foi questionada por diversos pesquisadores e historiadores. A segunda defende a idéia de que o boqueirão era o local mais apropriado para a implantação do açude. Esse terrível episódio de nossa história é magistralmente narrado por Euclides da Cunha que foi testemunha ocular da terceira expedição comandada pelo sanguinário coronel Antônio Moreira César. escondendo sob as águas a participação do Exército no conflito. havendo duas correntes distintas: a primeira acusa o governo federal de tentar apagar da memória nacional o triste incidente de Canudos.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A barragem de Cocorobó Na última década do Século XIX foram travados vários combates entre forças militares do estado da Bahia e. é uma estrutura de terra compactada. do Exército Brasileiro contra jagunços seguidores da figura mística de Antônio Vicente Mendes Maciel. incontestavelmente de elevado valor histórico. principalmente a parte superior da igreja de Antônio Conselheiro bombardeada por canhões do Exército. concluída em 1968. com 34 m de altura. Inicialmente pacíficos.

“aquela campanha (do Exército) foi o maior crime praticado em território brasileiro. que certificam que o local selecionado é na realidade o mais apropriado para a implantação da barragem: a jusante o vale é muito aberto e com espessas camadas de sedimentos e a montante não havia local tão propício para um reservatório. principal jagunço de Antônio Conselheiro na fase final dos confrontos com o Exército. que justifica a interpretação de que a barragem teria sido construída para afogar a memória da Guerra de Canudos concluída em 5 de outubro de 1897. Segundo o engenheiro Euclides da Cunha que esteve no teatro da guerra. Entretanto. estudos de locais para implantação de açudes no Nordeste. Pedrão faleceu e inaugurou o modesto cemitério que havia sido feito como um dos equipamentos urbanos necessários para a construção da barragem. o engenheiro José Cândido candidamente indicou a cova número um para acolher o falecido. Como havia sido o primeiro a falecer após a conclusão do cemitério. Era mesmo tentador tentar apagar qualquer registro do massacre dos habitantes de Belo Monte. Após o aniquilamento do arraial e de seus ocupantes. mulheres e crianças foram cruelmente degolados pelas tropas do Exército sob o comando do general Artur Oscar de Andrade Guimarães no incidente conhecido por gravata vermelha. se refugiou nos limites do Piauí com o Maranhão até que uma anistia permitiu que ele retornasse a Canudos. Ao final da guerra. Pedrão que havia saído para combater a quinta expedição que chegava com soldados do Rio Grande do Sul.A História das Barragens no Brasil . Nesse trabalho ele identificou o boqueirão do Cunha como sendo um local para implantação de uma barragem que promovesse alguma regularização e que Figura 14 – Açude de Castanhão 86 .” O engenheiro José Cândido Castro Parente Pessoa contou que no início das obras da barragem conversou muitas vezes com o Pedrão.Séculos XIX. XX e XXI pareceres de engenheiros e mesmo de arqueólogos como Paulo Zanettini e Erica Gonzáles. Pouco tempo depois adentra um coronel do Exército no escritório do referido engenheiro e passa uma descompostura nele por ter enterrado na primeira cova do longínquo cemitério da obra “um inimigo da república”. Barragem do Castanhão Os primeiros estudos do Castanhão datam de 1910 quando o geólogo americano Roderic Crandall realizou para a Inspetoria de Obras Contra as Secas. homens. houve um depoimento do diretor geral do DNOCS no início da construção da barragem ao autor deste capítulo. mesmo aqueles que se renderam com a promessa de não serem mortos.

Para contornar essas dificuldades foi constituído um colegiado que funcionou como um parlamento. P. nos anos noventa. Morada Nova e Jaguaretama para o município de Jaguaribara.450 m de extensão e 72 m de altura. V. 2007 Departamento Nacional de Obras Contra as Secas – Barragens no Nordeste do Brasil. – La Guerra del Fin del Mundo – Seix Barral. As principais decisões do colegiado foram relativas ao estabelecimento de uma tabela para indenizações de propriedades. o principal impacto foi a necessidade de reassentamento de quinze mil pessoas que eram residentes na área a ser alagada. o projeto da barragem foi concluído e submetido a intensas e extensas discussões para a obtenção do licenciamento ambiental. H. E. Em novembro de 1995 foi expedida a ordem de serviço autorizando o início da construção. 100 (nível máximo normal de regularização) possui uma área de 325 km² e represa 4.55 m. A barragem do Castanhão foi concluída em 1999. acompanhando as obras com reuniões públicas mensais em que as manifestações eram livres. – Canudos. – Os Sertões – Editora Record. nona edição. A. F. Oitenta anos após. – Castanhão – Conviver. Conviver. 2009 Lima. 1982 Llosa. – Cocorobó. incluindo a totalidade da sede municipal de Jaguaribara. As discussões que foram mantidas no colegiado se transformaram em um documento de importância histórica com 6000 páginas de transcrições de debates. Além da extensa área do reservatório. A barragem é uma longa estrutura de terra compactada com um trecho em concreto compactado com rolo. à seqüência de pagamentos e às prioridades no processo de transferência da população. P. M. incluindo a seleção do local de cada nova moradia. 1991 Miguez de Mello.345 m³/s com sobre-elevação de 6 m. 1989 Figura 15 – Açude de Castanhão 87 . uma Barragem Projetada para Reacender as Esperanças no Futuro ou Apagar o Passado.46x109 m³. A descrença e a desconfiança permaneciam na população local e os opositores mantinham todas as ações possíveis para evitar que a obra fosse iniciada. O reservatório na El. com 3. Nesse aspecto foi importante a transferência de áreas dos municípios vizinhos de Alto Santo. uma Utopia no Sertão – Editora Contexto. Histórico sobre a Construção do Açude. Conviver. O vertedouro em concreto gravidade é provido de 12 comportas de segmento de 10 m por 11. F. O canal de derivação se estende por 256 km com a capacidade adução de 22 m³/s. M. A. O projeto foi aprovado no Conselho Estadual do Meio Ambiente em dezembro de 1992 por doze votos a favor e oito contra. além do redesenho do município de Jaguaribara que teve cerca de 60% de sua área alagada. – A Century of Dam Construction in Brazil – Topmost Dams of Brazil. – Orós.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens derivasse as águas do rio Jaguaribe. Referências Cunha. 2009 Sola J. 2009 Paulino. Agradecimento O autor agradece à engenheira Ana Teresa Ponte pelas fotografias e informações. tendo capacidade de escoar a descarga de projeto de 12. 1978 Monteiro. 300 páginas de atas de reunião e 360 fitas gravadas.

88 .

pela primeira vez no País. fez acender uma lâmpada com energia proveniente de um dínamo acionado pelos detentos da cadeia local. Usina hidroelétrica de Tombos em Minas Gerais. Vista do canal de adução para a casa de força. o Imperador chegava a ocupar a sala frontal do segundo pavimento (na época o prédio era de dois pavimentos). em 1862. no Rio de Janeiro. Os que presenciaram a experiência. uma nova demonstração pública de iluminação baseada em energia elétrica. o diretor Claude Henry Gorceix da Escola de Minas e Metalurgia de Ouro Preto. foi realizada em pú- blico. atualmente Praça da República. A energia gerada foi utilizada para acender uma lâmpada. de onde despachava com sua equipe de governo. Por ocasião de eventos no prédio. Em 1881. até hoje conhecida como a sala do trono. por ocasião da inauguração da estátua eqüestre de Dom Pedro I.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Resumo da História Remota da Hidroeletricidade no Brasil Flavio Miguez de Mello Os primeiros tempos . Essa foi a primeira instalação de iluminação elétrica de caráter permanente que foi instalada no País. na época sob a direção de Francisco Pereira Passos. Dom Pedro II concedeu a Thomas Alva Edison a concessão para introduzir no Brasil os equipamentos de sua revolucionária invenção e inaugurou a iluminação elétrica da estação da Estrada de Ferro Pedro II. ocorreu na Praça da Proclamação. No ano de 1857. esta precursora das atuais Academia Militar das Agulhas Negras e Escola Politécnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ. Não raro Dom Pedro II freqüentava eventos técnicos na Faculdade de Medicina e na Escola Central. atual estação ferroviária situada na Avenida Presidente Vargas. Nessa época o Brasil vivia no segundo reinado sob um imperador extremamente interessado em todos os domínios da cultura. da ciência e da tecnologia. É do conhecimento de historiadores o intenso interesse do Imperador pelos desenvolvimentos tecnológicos que na época encontravam ampla divulgação na Escola Central. embora surpresos. Em 1879 foi efetuado o primeiro emprego comercial do dínamo pela Edison Electric Light Co. Nesse mesmo ano. demonstrando que a eletricidade poderia trazer benefícios inestimáveis à sociedade. certamente não poderiam imaginar a dependência que a sociedade viria a ter da eletricidade nos dias atuais. hoje Praça Tiradentes. A Escola Central era situada no Largo de São Francisco de Paula. no coração da cidade do Rio de Janeiro. uma experiência de geração e utilização de energia elétrica que se tem notícia em território nacional. Cinco anos depois. no Rio de Janeiro. 89 .Século XIX Recuamos à distante época dos meados do Século XIX quando não havia ainda exploração econômica de energia elétrica no mundo. em Nova York. próxima ao prédio da Escola Central. por ocasião de uma homenagem ao Imperador Dom Pedro II no prédio da Escola Central. por ocasião da viagem de Dom Pedro II a Minas Gerais. A primeira instalação no País de iluminação com base em energia elétrica em área externa foi efetivada em 1881 no Jardim do Campo da Aclamação. prédio da UFRJ hoje tombado pelo seu valor histórico e conhecido como Alma Mater da Engenharia Brasileira.

A transmissão era a mais longa do mundo na época. Não havia barragem. A usina encontra-se desativada há décadas. instalou no ribeirão do Inferno. contratado na Europa diretamente pelo governo imperial como um dos docentes para aquela Escola. passou a ser utilizada também em iluminação. sendo hoje um pequeno museu mantido pela CEMIG à beira da rodovia União Indústria. a usina hidroelétrica Marmelos com 252 kW de capacidade em duas unidades geradoras acionadas por duas rodas d’água. de propriedade da Compagnie des Mines d’Or du Faria. iluminação e esgotamento de água nos túneis da mina de ouro e. era um maciço de enrocamento impermeabilizado na face de montante por uma laje de madeira composta de pranchas aparelhadas. da Escola de Minas e Metalurgia de Ouro Preto. a empresa Real & Portella colocava em funcionamento a iluminação pública da cidade de Rio Claro no Estado de São Paulo. Em 1883. no município de Diamantina. Em 1887 a empresa Companhia Fiat Lux iniciou um serviço de iluminação pública em Porto Alegre.5 km). A energia era destinada às atividades de mineração. com 1500 rpm. com capacidade total de 52 kW. A adução era feita por um desvio no 90 . A usina dispunha de uma barragem que criava uma queda de cerca de 5 m. o Professor Armand de Bovet. Minas Gerais. Entretanto. Essa usina manteve uma centena de lâmpadas na região central da cidade com energia produzida por um dínamo de 50 CV. sendo a primeira verificada nas noites de 10 e 11 de junho de 1901. XX e XXI pela Diretoria Geral dos Telégrafos. No dia 15 de novembro de 1884. Ainda em 1887. hoje substituída por uma estrutura de concreto gravidade. Rio Grande do Sul.25 m de diâmetro. atual município de Nova Lima. a operação dessa usina teve vida efêmera. casa de força abrigando duas máquinas Gramme de 8 CV cada. gerando em corrente contínua. No dia 24 de junho de 1883. Dom Pedro II acionou a ligação de 60 lâmpadas da Edison Electric Co. na atual Praça 15 de Novembro. na zona urbana da cidade de Piracicaba. Minas Gerais. localizada em Honório Bicalho. no Rio de Janeiro. na Exposição Industrial que foi instalada no edifício do Paço. Em 1887 foi instalada uma pequena usina termoelétrica no Largo de São Francisco de Paula. Nessa data foi colocada em operação no rio Paraibuna.A História das Barragens no Brasil . uma usina termoelétrica dotada de três dínamos. Também em 1887 entrou em operação a usina hidroelétrica do ribeirão dos Macacos. A barragem. este devido a Mariano Procópio que obteve do governo imperial concessão para construir e explorar a rodovia inicialmente utilizada por viaturas de tração animal. acionadas por uma roda d’água de madeira com 3. Ao longo de todo Século XIX a iluminação não sofreu sequer uma paralisação noturna.Séculos XIX. São Paulo. através de 10 lâmpadas de arco voltaico de 2000 velas cada. A energia gerada movimentava duas bombas de desmonte a jato d’água para exploração de diamante e. na bacia hidrográfica do rio Jequitinhonha. aproveitava uma queda de cerca de 40 m acionando uma roda d’água de 20 pás que movimentava dois dínamos Gramme com potência total de 500 CV. pioneira de um desenvolvimento impar no século seguinte. no Rio de Janeiro. à iluminação das residências do acampamento da empresa. Dom Pedro II inaugurou. A usina. em Campos dos Goytacazes. posteriormente. No dia 7 de setembro de 1889 teve início o emprego da hidroeletricidade para serviço público no País pela iniciativa de Bernardo Mascarenhas. a mais antiga usina hidroelétrica do País e uma das mais antigas do mundo. após pouco tempo. então ocupado pelo Ministério da Viação. de propriedade da Companhia Força e Luz. Essa foi a primeira usina hidroelétrica no Brasil. através de 16 lâmpadas de arco voltáico supridas por dois dínamos acionados por um locomóvel. não chegando a durar um ano sequer. A iluminação pública contava com 39 lâmpadas de 2000 velas cada. outro marco histórico do progresso nacional. com 2 km de extensão (a transmissão da primeira usina de Niagara Falls tinha 1. com energia elétrica gerada por uma termoelétrica com capacidade instalada de 160 kW. industrial estabelecido em Juiz de Fora. Em 1893 era colocada em operação a hidroelétrica Luiz Queiroz no rio Piracicaba.

Rio Claro. Maceió. para serviços públicos e exploração de recursos naturais. Porto Alegre. Juiz de Fora. São Paulo. preocupações com o suprimento de energia. Campos dos Goytacazes. Canadá. Nessa época estavam sendo iniciadas várias atividades de implantação de novos serviços de energia elétrica principalmente no Rio de Janeiro.. Com uma atividade de exploração puramente extrativista dos recursos florestais com base em desmatamento da Mata Atlântica de forma dispersa e sem registros oficiais. por governos estaduais e mesmo por governos municipais. Duas barragens. A abundância de lenha e a aparente ausência de reivindicações populares para universalização dos serviços de eletricidade faziam com que não houvesse. propiciou a vinda do principal executivo Frederick Pearson que trouxe o advogado e empreendedor 91 . A casa de força abriga duas unidades de capacidades distintas que somam 1.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens curso do rio próximo à sua margem esquerda. independente da nacionalidade. em Minas Gerais (1889). formada em Toronto. em São Paulo (1884).88 MW. uma no ribeirão Claro e outra no rio Corumbataí. Destes últimos. por parte do poder público. no município de Rio Claro. uma das mais extensas do mundo na época. O ambiente político era favorável a concessão a empresas privadas. no Rio Grande do Sul (1887). em Alagoas (1895) e Estância. Até a virada do Século XIX para o Século XX as primeiras cidades por unidades da Federação que tiveram serviços públicos contínuos de força e luz foram. A energia representava pouco na economia nacional retratada pelas importações de carvão e de querosene que atingiam a apenas 6% e 2% do total das importações do País. pela ordem cronológica. A primeira concessão do grupo foi dada pela Câmara Municipal de São Paulo para serviços de transporte urbano em veículos movidos a eletricidade. A casa de força abriga quatro unidades de potências e procedências diversas somando 2. no Paraná (1892).7 MW. no Rio de Janeiro (1883). em São Paulo e em Minas Gerais por empreendedores nacionais e estrangeiros.000 km. Em 1895 entrou em operação a hidroelétrica de Corumbataí. situada não muito afastada do extenso litoral nacional e servida por uma rede ferroviária de 14. Curitiba. tinham seus pequenos reservatórios unidos por um túnel escavado em rocha. não se desenvolvia a mineração de carvão e nem se considerava possibilidades da existência de reservas de petróleo. em Sergipe (1900). Ltd. Essa concessão da São Paulo Railway Light and Power Co. destaque é devido ao grupo que se tornou a São Paulo Light e a Rio Light. Figura 1 – Usina hidroelétrica de Marmelos O início do Século XX (até 1913) Na virada do Século XIX para o Século XX a população brasileira de 17 milhões de habitantes era predominantemente rural. as concessões de serviços de energia elétrica eram dadas pelo governo central. Como não havia legislação específica.

Essa usina foi sucessivamente ampliada até atingir 16 MW instalados.A História das Barragens no Brasil . Nesses casos. As hidroelétricas que eram instaladas no início do Século XX eram destinadas a suprir de energia elétrica centros isolados. XX e XXI Figura 2 Barragem e Reservatório de Lajes canadense Alexander Mackenzie e os engenheiros Hugh Cooper e Robert Brown. construída no rio Piabanha pelos Guinle em 1908. Desta maneira surgiram os primeiros concessionários privados nacionais de energia elétrica nas regiões Sul e Sudeste. no rio Tietê. A barragem era em arco-gravidade situada no alto Ribeirão Das Lajes. tendo sido. No Estado do Rio de Janeiro nesse início do Século XX destacamse.000 kW instalados. o excesso de energia era destinado à iluminação pública e domiciliar. A empresa passou a operar no País ao abrigo da autorização concedida em 1895 pelo presidente Campos Sales. a de Lajes. Seu objetivo inicial era atender às necessidades da rede de transportes urbanos e iluminação da cidade de São Paulo.Séculos XIX. A barragem é uma soleira vertedoura de gravidade em pedra arga- 92 . tendo sido instaladas por prefeituras ou por pequenos empresários para atendi­ mento às demandas das suas fábricas. que teria inicialmente 2. Hans e Coronel Fagundes. A quase totalidade delas e suas áreas de concessão foram sendo incorporadas por empresas maiores. No Rio de Janeiro a primeira hidroelétrica foi Fontes. na quase totalidade. tornando-se uma das maiores hidroelétricas do mundo. hoje Edgard de Souza. Em 1908 a usina já tinha 12 MW instalados. denominada na época Parnaíba. Nos últimos anos do Século XIX foram iniciadas as obras da primeira usina hidroelétrica da empresa no Brasil. desativadas anos depois. Com esse perfil de consumo e com os elevados custos da época em que todos os equipamentos eram importados. com vertedouro de lâmina livre em sua crista. instalada pela Light em 1905 com a finalidade de proporcionar iluminação pública e residencial bem como tração para os bondes da capital federal. a jusante da cidade de São Paulo. sendo ampliada para 24 MW em 1909. as hidroelétricas eram em geral de portes muito modestos e tinham casas de força em posição remota em relação às barragens. A segunda hidroelétrica instalada no estado foi Piabanha. a implantação das hidroelétricas de Piabanha.

tendo assumido em seguida a concessão de serviço público do município. campo de conhecimento em que se tornaria uma das mais altas expressões mundiais a partir da segunda metade do Século XX. com altura de 13 m e 80 m de extensão. A barragem é em gravidade de pedra argamassada e concreto. município de Paraíba do Sul. A casa de força abriga duas unidades Francis duplas gêmeas de 3 MW cada. pai do então menino Flavio Henrique Lyra que brincava no canteiro de obra e já se familiarizava com barragens e hidroelétricas. Em 1911 os Arp instalaram a hidroelétrica de Hans no ribeirão Santo Antônio.7 m. município de Friburgo com o objetivo de suprir a fábrica de linhas de energia.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens massada com 25 m de extensão e altura de 6. Nessa obra trabalhou o engenheiro Flavio Lyra. Figura 3 . em Muri. muito próxima à hidroelétrica de Piabanha.Casa de Força de Fontes 93 . A barragem é em concreto gravidade com soleira vertente livre e a casa de força abriga uma unidade Francis horizontal de 294 kW. Em 1912 os Guinle implantaram a hidroelétrica de Coronel Fagundes no rio Fagundes.

instalada por ingleses em 1910 na vertente da Serra do Mar em Paranaguá. é em concreto gravidade de pequena altura. município de Leopoldina pela Cia.A História das Barragens no Brasil . município de Tombos. Com capacidade de 510 kW. No estado do Paraná há referência à hidroelétrica Serra da Prata. A potência instalada era de 1. Força e Luz Cataguazes-Leopoldina. Alfredo do Paço.Séculos XIX. A hidroelétrica de Maurício foi implantada em 1908 no rio Novo. para a prefeitura de Paranaguá. a hidroelétrica passou em 1932 da Cia Melhoramentos Urbanos de Paranaguá para a Cia Melhoramentos Paulistas. Osvaldo Lynch e Henrique Fox Drumond. A barragem com 6 m de altura era vertedoura com crista livre situada na crista da cachoeira da Fumaça. A casa de força abriga duas unidades Francis de eixo horizontal de 2.4 MW cada. Figura 5 . A construção foi supervisionada pelo engenheiro Otávio Carneiro. situada na crista da cachoeira de Tombos.Barragem de Coronel Fagundes 94 .3 MW. No início do Século XX em Minas Gerais destacam-se as hidroelétricas de Maurício e Tombos. XX e XXI A barragem. A casa de força abriga dois grupos geradores num total de 2. Os contrafortes em primeiro plano são reforços recentes Nos 30 m centrais a barragem é vertedoura em crista livre. para o Departamento de Águas e Energia Elétrica e para a COPEL. Em 1912 foi instalada a usina hidroelétrica de Tombos no rio Carangola.88 MW instalados. sendo desativada em 1970. constituindo-se em vertedouro de soleira livre. assessorado pelos engenheiros Pedro Leivas. Figura 4 .Barragem de Piabanha. Em 1911 foi inaugurada a hidroelétrica de Pitangui para suprir de energia elétrica a cidade de Ponta Grossa.

A barragem é uma soleira vertedoura de altura apenas suficiente para promover a derivação de parte das descargas para a tomada d’água que conduz as águas captadas para as turbinas que são alojadas em casa de força abrigada na margem direita. A maioria dessas usinas tinha menos do que 1000 kW instalados em sua primeira etapa. Salto Pinhal e Bocaina foram desativadas nos anos oitenta e noventa do século passado. As turbinas de fabricação J. Turvinho Batista e Sodré. no município de Figura 7 – Usina hidroelétrica de São Valentim 95 . São Joaquim e Brotas. Salto Grande. com cinco unidades Pelton com potência nominal de 3 MW cada sob 640 m de queda br uta. mas sempre ficando com potências inferiores a 6 MW. Macaco Branco.5m com engolimento de 19. delas tive ampliações de capacidade instalada em etapas posteriores. poucas com contrafortes localizados. São Valentim e Marmelos II em 1910. as hidroelétricas de Monjolinho. em geral de gravidade em alvenaria de pedra. Rio Novo e Monjolinho. em 1913.Barragem vertedoura e canal de adução de Tombos Em Santa Catarina. para suprimento de Blumenau.M. a metade Figura 6 . em alvenaria de pedra. as usinas de Socorro. envolvida por densa floresta da Mata Atlântica. Chibarro. No estado do Rio Grande do Sul as primeiras barragens que se tem notícia para produção de energia elétrica foram construídas a partir de 1911 e entraram em operação em 1912. Desse conjunto de usinas pioneiras. Boa Vista e Quilombo. As barragens dessas usinas eram de altura modesta. 10 MW de potência efetiva. sendo soleiras livres implantadas nos leitos dos rios. San Juan. A maioria dos vertedouros era sem controle. Marmelos II.4 m³/s. Salto Pinhal. Gavião Peixoto. em 1911. mas apresentando no conjunto. entrou em operação em 1913 a primeira unidade da hidroelétrica de Salto Weissbach no rio Itajaí Açú. Esmeril. A barragem Inglês com 4 m de altura e 55 m de extensão. em 1909.7 m de altura e 41. Voith são Francis gêmeas de eixo vertical com potência de 1470 kW cada sob a queda nominal de 10. Capitão Preto.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens O Estado de São Paulo se destaca nos primeiros anos do Século XX por um expressivo números de pequenas hidroelétricas como as usinas de Santa Alice que começou a operar a partir de 1907. Bocaina. A usina encontra-se implantada na vertente oceânica da Serra do Mar. foi construída no município de Dois Irmãos tendo sua usina a capacidade de 200 kW. em 1912. com apenas 2. O destaque dentre essas usinas é Itatinga.5 m de comprimento. em alvenaria de pedra e concreto ciclópico foi implantada no município de Cruz Alta tendo sua casa de força a potência instalada de 268 kW e a barragem Picada 48. Votorantim. Itatinga.

XX e XXI Figura 8 – Usina hidroelétrica de Brotas Figura 9 – Usina hidroelétrica de Gavião Peixoto Figura 10 – Usina hidroelétrica de Boa Vista 96 .A História das Barragens no Brasil .Séculos XIX.

1997. 1999. 2000. próximo à rodovia BR-101. 1979. SP. tendo passado de 306 em 1920 para 1009 em 1930. Ee Amaral C. construída por Delmiro Gouveia na margem alagoana da cachoeira de Paulo Afonso. Essas pequenas hidroelétricas aproveitando quedas d’água naturais e operando seus reservatórios a fio d’água. tiveram expressivo desenvolvimento nos primeiros anos do Século XX. com 1. . A.. 1982. F.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Bertioga. F. A energia produzida era direcionada para a fábrica de linhas e para a vila residencial na localidade de Pedra.Reflexos da Cidade. A casa de força foi implantada no trecho médio da escarpa granítica da margem esquerda do salto principal. F. Memória da Eletricidade . Miguez de Mello. A usina foi implantada com o objetivo principal de suprir o porto de Santos de energia elétrica. – Brazilian Development in Engineering for Dams – Comitê Brasileiro de Grandes Barragens. – Pequenas Centrais Hidrelétricas no Estado de São Paulo – Comissão de Serviços Públicos de Energia.A.Sinopse Histórica da Eletricidade no Brasil. sendo o acesso o mesmo utilizado desde o início das obras em 1890. O conjunto arquitetônico da casa de força é majestoso. F. 1976. 2000 Prado Jr.A. 2009. Em 1913 entra em operação a primeira hidroelétrica do Nordeste Angiquinho. Miguez de Mello. A. hoje Delmiro Gouveia. O reservatório é formado por duas barragens de alvenaria de pedra argamassada com vertedouro de soleira livre.A. feito por via férrea a partir da margem direita do rio Itapanhau.1 MW instalados. – A Century of Dam Construction in Brazil – Comitê Brasileiro de Grandes Barragens. – A Energia do Brasil.Main Brazilian Dams III. – The Development of the Brazilian Dam Engineering . Prado Junior F. Figura 11 – Usina hidroelétrica de Angiquinho 97 . e Amaral. A. A. M. Referências Dias Leite. C. Miguez de Mello. – Pequenas Centrais Hidrelétricas no Estado de São Paulo Governo do Estado de São Paulo. Saveli. Comitê Brasileiro de Barragens.

98 98 .

Em 1883 o imperador Dom D. localizada no Ribeirão do Inferno. a primeira instalação de iluminação elétrica permanente do país. Essa história iniciou-se no final do século XIX. foi instalada pela Diretoria Geral dos Telégrafos a primeira iluminação externa pública do país. entrou em operação em 99 . em substituição aos 46 bicos de gás existentes. A usina de Marmelos. ambas em Minas Gerais e a Usina Termoelétrica Velha Porto Alegre. hoje Marmelos-Zero. atual Estrada de Ferro Central do Brasil no Rio de Janeiro. na cidade de Campos (RJ). na cidade de Juiz de Fora (MG). Em 1881. na cidade de Diamantina. Empresas de mineração e fábricas têxteis promoveram. Neste mesmo ano Thomas Alva Edison havia construído a primeira central elétrica para utilização na iluminação pública na cidade de Nova Iorque. afluente do rio Jequitinhonha. a Usina Hidroelétrica Ribeirão dos Macacos. a construção de unidades de produção de energia hidroelétrica visando a autoprodução. em 1887. na Estação Central da Estrada de Ferro D. no Rio Grande do Sul. às margens da estrada União e Indústria. Esta usina Figura 1 . em 1879. no município de Viçosa. o primeiro serviço público municipal de iluminação elétrica do Brasil e da América do Sul. em trecho da atual Praça da República. No ano de 1883 entrou em operação a primeira usina hidroelétrica no país. Em Minas Gerais. Pedro II. destinada à produção de energia para utilidade pública. destinada à extração de minério na região. Posteriormente mais algumas usinas entram em operação.“Marmelos Zero” . quando Dom Pedro II inaugura. em 1885 a Usina Hidroelétrica da Companhia Fiação e Tecidos São Silvestre. foi a Usina Hidroelétrica Marmelos no rio Paraibuna. na cidade do Rio de Janeiro. Pedro II inaugurou.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Usina Hidroelétrica de Marmelos Adelaide Linhares de Carvalho Carim Introdução O Brasil foi um dos pioneiros na exploração da energia elétrica. o interesse pela nova fonte de energia intensificouse. Mas a primeira hidroelétrica de maior porte construída na América do Sul. nesse período. A energia era fornecida por uma usina termoelétrica.Primeira Usina Hidroelétrica da América do Sul destinada à produção de energia para utilidade pública foi desativada cento e quatro anos mais tarde em 1987. em 1887.

por iniciativa do industrial Bernardo Mascarenhas. Juiz de Fora prosperou grandemente devido à cafeicultura. em 1861.Séculos XIX. Neste ano. Com a cafeicultura. como a Rodovia União Indústria. até a principal região mineradora (Vila Rica. para ligar o porto do Rio de Janeiro Figura 2 . Estes eram locais de descanso dos tropeiros que passavam pela região. como Matias Barbosa. às margens do Paraibuna. havia grandes fazendas de café que eram as bases da economia local. Sabará.que em 1965 se tornava Juiz de Fora .Juiz de Fora em 1875 100 .A História das Barragens no Brasil . dois meses antes da proclamação da república e apenas 7 anos depois da hidroelétrica de Appleton em Wisconsin na America do Norte. XX e XXI 5 de setembro de 1889. Santo Antônio do Paraibuna . Por meio deste caminho que efetivamente a história de Juiz de Fora se inicia. com a inserção de A cidade de Juiz de Fora no final do século XIX A inauguração da usina de Marmelos veio se somar ao pioneirismo desta cidade. Dom Pedro II e representantes ilustres da Corte e da Companhia União Indústria percorreram em diligência os 144 quilômetros da primeira rodovia macadamizada brasileira.Barbacena e outras. construída pelo engenheiro Mariano Procópio Ferreira Lage e pela Companhia União Indústria. marco zero da energia hidroelétrica no Brasil. entre as cidades de Petrópolis e Juiz de Fora. e fundador da já extinta CME . Ao longo deste caminho. Mariana. foram erguidos pequenos povoados.Companhia Mineira de Eletricidade em 1888. Sua inauguração trouxe a mão de obra qualificada dos imigrantes alemães. Bernardo Mascarenhas foi o responsável pela instalação de Marmelos. que começou a ser escrito quando o bandeirante Garcia Dias Paes traçou o chamado Caminho Novo que passava pela margem do Rio Paraibuna. A Companhia Mineira de Eletricidade foi de extrema importância para a industrialização de Juiz de Fora. que iniciaram o processo industrial da cidade. Diamantina e tantas outras). novos investimentos foram trazidos para a cidade.

telefones urbanos. promoveu a comunicação entre a cidade e a corte. tendo sido substituída como ligação rodoviária entre Petrópolis e Juiz de Fora pela BR-040. Posteriormente. em 1881 ganhava telégrafo. em 1883.Panorâmica de Juiz de Fora – 1893 usina hidroelétrica para iluminação pública da América do Sul. A estrada deu origem também ao primeiro guia de viagens do Brasil. Em 1888 Juiz de Fora ganhava a Companhia Têxtil Bernardo Mascarenhas e o Banco de Crédito Real.Av. o telégrafo. Em 1878 funcionavam seis estabelecimentos de ensino.Guia do Viajante de Petrópolis a Juiz de Fora”. a construção da ferrovia Dom Pedro II em 1875. A Estrada União Indústria existe até hoje em vários e extensos trechos. Barão de Rio Branco em 1903 ambas pertencentes ao acervo do Museu Mariano Procópio. Em 1980 os serviços urbanos foram ampliados com bondes de tração animal. A cidade de Juiz de Fora se iluminava para o mundo. que ficava neste momento no Rio de Janeiro. fotógrafo do imperador. Figura 4 . e intitulado “Doze Horas em Diligência . fórum e jornais.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens algumas fábricas. escrito pelo alemão Revert Henrique Klumb. Todos estes empreendimentos foram realizados por iniciativa do industrial Bernardo Mascarenhas. Outro beneficio da estrada foi a melhoria no escoamento da produção cafeeira da Zona da Mata Mineira até o Rio de Janeiro. e em 1884. Mais tarde vieram os italianos e com eles ampliaram outros setores como o comércio e a prestação de serviços. Barão de Rio Branco -1903 101 . e em 1889 a primeira Figura 3 . As figuras a seguir mostram Juiz de Fora em 1893 e a Av. antes mesmo até que algumas importantes cidades européias.

inaugurou as instalações da fábrica têxtil da companhia Cerdo. É criada então em Curvelo a companhia Cachoeira (1877). Com 18 anos. considerado à época. viajou para os Estados Unidos onde ficou por 1 ano e meio. Bernardo Mascarenhas Bernardo Mascarenhas nasceu em 1846. filho de Antônio Gonçalves da Silva Mascarenhas e de Policena Moreira da Silva Mascarenhas. convida dois irmãos para montarem em sociedade uma indústria têxtil. adquiriu os maquinários desejados e voltou para o Brasil e. XX e XXI Figura 5 . Figura 6 . física.Bernardo Mascarenhas Aos 12 anos iniciou seus estudos no colégio Caraça. como fazia com os demais filhos ao completar esta idade. utilizando as mais novas tecnologias da época. constituindo a primeira S. privada no país. um dos melhores de Minas Gerais.A História das Barragens no Brasil . Neste período estudou idiomas. mecânica. na fazenda São Sebastião. dinheiro para iniciar a vida como criador de gado e comércio de sal. Para aprender sobre tecelagem. Em 1882 foi aprovada a lei das sociedades anônimas no Brasil e em 1883 fez-se a fusão das empresas (Cedro e Cachoeira). região de Curvelo. tocados a mão na fazenda de seu pai. recebeu de seu pai 26 contos de reis. A partir da experiência adquirida com os teares de madeira. é o décimo filho dentre os 13 filhos do casal. visitou fábricas. Alguns anos mais tarde.A.Companhia Têxtil Bernardo Mascarenhas inaugurada em maio de 1888 102 . viaja para a Europa e Estados Unidos com a incumbência de atualizar-se. no ano de 1872 em Sete Lagoas. adquirir novos equipamentos e conhecer a utilização da eletricidade na indústria textil.Séculos XIX.

tendo em vista o uso da iluminação elétrica.. mais tarde. A antiga Companhia Têxtil Bernardo Mascarenhas apresenta rigorosa simetria com um corpo central em três pavimentos e ladeado por suas extensas alas horizontais em dois pavimentos. No dia 22 de agosto de 1889. Bernardo Mascarenhas faleceu no dia 9 de outubro de 1899 de um ataque cardíaco fulminante. seria erguida a primeira usina hidroelétrica da América do Sul. A CME foi a responsável pela construção da usina de Marmelos Zero e foi presidida por Mascarenhas até seu falecimento. encomendando o material para a usina) Figura 7 . inaugurada em maio de 1888. “Me considerarei muito feliz se for o primeiro a transmitir força elétrica. praticamente utilizável. fazendo um esboço de próprio punho de como ela seria.” (Trecho de memorial de Bernardo Mascarenhas para Max Nothman & Co. onde pretendia montar uma indústria de tecidos. também fundada por ele em janeiro de 1888. local mais propício para o escoamento da produção de tecidos. Doou este terreno para a CME Companhia Mineira de Eletricidade. A nova usina além de atender à iluminação pública da cidade atenderia as máquinas da Companhia Têxtil Bernardo Mascarenhas. Em 1886. Bernardo Mascarenhas buscava outras fontes de energia em substituição à energia usada que até então era à base de querosene. O empresário adquiriu outro terreno perto da estação ferroviária.Esboço da hidroelétrica Marmelos Zero por Bernardo Mascarenhas 103 . Mascarenhas e o banqueiro Francisco Batista de Oliveira recebem aprovação junto à câmara municipal para explorar a Cachoeira dos Marmelos para produção elétrica e a concessão para a iluminação da cidade e obteve a revisão do contrato original. Neste local. no Brasil ou talvez na América do Sul” (trecho da carta de Mascarenhas em 1887). que se localizava próximo à cachoeira de Marmelos. “A fábrica de eletricidade será provida de dois excelentes dínamos movidos por duas turbinas verticais ou de eixos horizontais. em substituição à iluminação a gás. foi realizada a primeira experiência com a eletricidade e em 5 de setembro de 1889 ocorreu a inauguração oficial. aproveitando os recursos naturais de seu terreno. Bernardo Mascarenhas projetou e especificou a usina. devendo ter força bastante para alimentar 50 lâmpadas de arco de 1000 velas e quinhentas ditas incandescentes de 16 velas.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Bernardo Mascarenhas mudou-se para Juiz de Fora em 1886 e adquiriu o terreno próximo do Rio Paraibuna e da Rodovia União Indústria.

Primeira usina hidroelétrica da América do Sul destinada à produção de energia para utilidade pública e força motriz para indústria Posteriormente. O edifício da Cia. o relevo nas proximidades das usinas caracteriza-se por altas colinas de topos arredondados. De modo geral. Nas ombreiras e encostas da barragem é comum um manto de solo de 5 a 10 m de espessura. foi construído em 1890.Usina de Marmelos . ambos de idade Pré-Cambriana. O solo residual é constituído de areia siltosa. em dois pavimentos. gnáissicas. que iria ser colocado na fábrica Bernardo Mascarenhas como força propulsora. lembra a arquitetura medieval . de cor amarelada com alto grau de erodibilidade. As rochas charnockíticas são gnaisses que sofreram desidratação e descalcinação durante metamorfismo de alta temperatura e pressão média a alta (fácies granulito). gabro e outras rochas básicas e ultrabásicas. foram montadas outras usinas no mesmo local para atender inteiramente à crescente demanda de consumo.Séculos XIX.Edifício da Cia. granulitos e anfibolitos do Complexo Juiz de Fora e parte do embasamento Pré-Cambriano indiferenciado. Este complexo charnockítico acha-se intercalado por faixas com espessuras variádas de granulitos. migmatito. disseminados no manto intemperizado ao longo das encostas e principalmente soltos no leito do rio Paraibuna. 104 . planos de fraqueza e a típica esfoliação esferoidal que se interceptam originando blocos de rocha sã de dimensões variadas. quartzito e entrecortados por diques de anfibolito. As rochas do complexo charnockítico e do embasamento cristalino possuem sistemas de fraturas. vertentes concavo-convexo e drenagem dentrítica. como será descrito em seguida. Figura 8 . denominado “Castelinho”. A edificação. Mineira de Eletricidade. Figuras 9 e 10 . denominado “Castelinho”. XX e XXI Descrição geral da usina Geologia A geologia ao longo do rio e suas margens é constituída por afloramentos de rochas charnockíticas. Mineira de Eletricidade. quando ocorreu a inauguração do motor elétrico.A História das Barragens no Brasil .

de fabricação italiana. Em 1915 o engenheiro Asdrúbal Teixeiras de Souza projetou a segunda usina Marmelos 2. Em 1905 foi instalada a terceira unidade com capacidade de 300 kW. dois anos após a construção da usina de Joasal.000 kW. pois a maioria das indústrias têxteis era movida a vapor com complicados sistemas de transmissão para as máquinas e muitas ainda eram acionadas por rodas d’água. denominada Usina Zero. Em 1952. Com o aumento da geração a CME ampliou sua área de influência na Zona da Mata Mineira. a usina de Marmelos 1 foi desativada. Este motor de 30 HP de potência era de fabricação da Westinghouse. acionadas por turbinas Francis. Bicas e Guarará. Esta unidade geradora era composta por uma turbina tipo Francis dupla. Mar de Espanha. O acionamento elétrico dessas fábricas representou à época outro marco histórico. A usina de Marmelos como é denominada atualmente é composta pelas antigas Usinas 2 e 1-A e passou a ser operada pela CEMIG em 1980. operada sob tensão de 1000 Volts.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Localização e dados técnicos históricos A usina hidroelétrica de Marmelos está localizada no rio Paraíbuna. Marmelos atinge a potência de 1200 kW com a entrada em operação da quarta máquina de fabricação da Westinghouse. fabricados pela Westinghouse. foi adquirido na ocasião pela fir ma Pantaleone Arcuri & Timponi. A usina foi projetada inicialmente com uma capacidade de geração de 250 kW distribuída em dois grupos geradores monofásicos de 125 kW. ampliou-se a potência da usina de Marmelos 2 com a instalação da terceira e quarta unidades geradoras. visando transformá-la em linhas elétricas. construída pouco abaixo da usina desativada. Em 1910. no momento em que a CME adquiria a companhia de bondes de tração animal de Juiz de Fora. afluente do rio Paraíba do Sul a 7 km de Juiz de Fora e a 290 km de Belo Horizonte MG. Em 1898. instalada em uma casa de força adjacente à Usina 1. Em 1921 e 1922. Marmelos 1 contou inicialmente com duas unidades geradoras bifásicas de 300 kW cada. a usina iniciou o fornecimento de energia para a fábrica de Mascarenhas após a aquisição do primeiro motor elétrico instalado no Brasil. foi desativada em 1896. sendo denominada Usina 1-A. quando obteve a sua concessão através do decreto MME 700725 de 08/07/80. Marmelos 2 passou então a dispor de capacidade instalada de 4. 105 . quando Juiz de Fora possuia 180 lâmpadas na iluminação pública e 700 para uso particular. Um terceiro grupo gerador com a capacidade de 125 kW foi instalado em 1892. Voith. com capacidade de 1600 kW. Esta usina. com capacidade de 600 kW cada uma com as mesmas características técnicas das duas anteriores. Em 1948. As figuras a seguir ilustram os equipamentos eletromecânicos da usina de Marmelos. Outro motor elétrico de 20 HP. M. após a inauguração de Marmelos 1. a cidade de Juiz de Fora passou a viver um intenso desen­ volvimento industrial o que demandava aumento na oferta de energia. foi construída a quinta unidade. tem como coordenadas geográficas Latitude 21º 43’ Sul e Longitude 43° 19’ Oeste. A casa de força foi construída em prédio contíguo ao da usina Marmelos 1. como as demais. na frequência de 60 Hz. fabricadas pela alemã J. Nesta época. que foi inaugurada inicialmente com dois grupos geradores de 600 kW de potência cada. última usina construída pela CME. também em Juiz de Fora. fabricados pela empresa americana General Electric e turbinas tipo Francis de 1000 HP. fabricada pela empresa americana James Leffel e um gerador de fabricação da General Electric. tornando-se concessionária dos serviços de eletricidade de Matias Barbosa.

Gerador da unidade 1 a 4 da antiga Usina 2 106 .A História das Barragens no Brasil . XX e XXI Figura 11 .Interior da casa de força da antiga Usina 2 de Marmelos Figura 12 -Turbina e gerador da unidade 5 da antiga Usina 1 A Figura 13 .Séculos XIX.

inoperante 107 .Painel original das unidades 1 a 4 e excitatrizes 1 e 2.Regulador de velocidade da excitatriz Usina 2 Figura 16 .Excitatriz nº 2 semelhante a uma unidade geradora hidráulica .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 14 .Usina 2 Figura 15 .

5 x 2.Vista de jusante da barragem e do descarregador de fundo na margem esquerda.5 m de altura divididos em 10 vãos ao longo de todo o comprimento da estrutura. Possui uma descarga de fundo motorizada (2. Tomada de água Arranjo geral atual A barragem para a formação do reservatório operado a fio d’água é constituida por uma estrutura do tipo gravidade em alvenaria de pedra com 51 m de extensão e altura máxima de 7. O circuito hidráulico de geração.5 m.5 m). onde estão localizadas a antiga tomada de água para o canal de adução da usina Zero e a tomada de água do túnel de adução da usina de Marmelos. é uma estrutura em alvenaria de pedra possuindo uma comporta moto- 108 . Barragem e vertedouro A barragem é do tipo gravidade. com um trecho em crista livre vertente com comprimento de 20 m e vazão de 134 m³/s.5 x 2. localizada na margem esquerda.A História das Barragens no Brasil . seguida por um vertedouro de crista livre com 20 m de comprimento. de alvenaria de pedra. Sobre o vertedouro existe uma passarela que possibilita a colocação de flash-boards de até 2.Séculos XIX. seguido por um canal de Figura 18 . localizado na margem direita. XX e XXI Figura 17 – Vista aérea de montante da usina adução e duas tubulações forçadas que conduzem a água até as unidades geradoras. fundada em rocha sã pouco fraturada. e por um trecho. também em alvenaria de pedra. que permitem o aumento da capacidade do reservatório em períodos secos. O arranjo da barragem partindo da ombreira esquerda para a direita se constitui por uma descarga de fundo de acionamento motorizado (2. com capacidade de 58 m³/s. localizada na margem direita. A tomada de água do túnel adutor. vencendo um desnível de 51 m entre o nível máximo do reservatório e o eixo das tubulações forçadas na entrada das turbinas. é composto por um túnel escavado em rocha.5m).

O trecho a céu aberto. O Museu Usina de Marmelos Zero A CEMIG (na época Centrais Elétricas de Minas Gerais) adquiriu a usina em 1980.40 m são a céu aberto.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens rizada tipo deslizante (4.30 m e 81. de eixo horizontal e engolimento de 4. O comprimento de cada uma delas é de 125. Na tubulação nº 2 existe uma bifurcação com diâmetro de 1. tem seção em ferradura semelhante à do túnel. O outro bloco. A cobertura de duas águas é recoberta por telhas francesas e tem os beirais ornamentados por lambrequim. em alvenaria de pedra.80 m e seção em ferradura com 10 m². e uma terceira comporta para a regularização do nível de água. abriga uma unidade geradora de 1600 kW. Casa de força As estruturas da usina de Marmelos (Marmelos Zero. em planta. Possui duas comportas na tomada de água. totalmente escavado em rocha e revestido lateralmente com concreto. A usina de Marmelos Zero se transformou em 109 . dos quais 94. abriga quatro unidades geradoras de 600 kW cada e casa de força da antiga Usina 2. A casa de força de Marmelos Zero foi edificada em nível abaixo da Estrada União e Indústria. possui uma área total de 201. Marmelos 1A e Marmelos 2) estão localizadas ao longo do rio Pa­ raibuna e foram assentadas em maciços rochosos sãos. Túnel e canal de adução O túnel adutor tem extensão de 215. em alvenaria de pedra. situado sob a rodovia. A casa de força da antiga Usina 1. Suas paredes são em alvenaria de tijolos maciços aparentes. uma com diâmetro de 1. Próximo a essa estrutura existe um descarregador de fundo. possui uma comporta de madeira acionada manualmente e muro em alvenaria de pedra. situada na Casa de Força 1-A.44 m de comprimento. de eixo horizontal e engolimento de 1.30 m (tubulação 1) e outra com diâmetro de 1. cujas vazões são absorvidas por um canal de concreto. Tubulações forçadas Existem duas linhas de tubulações forçadas partindo da câmara de carga. também em alvenaria de pedra. A casa de força da usina de Marmelos.20 m) formada por painéis de madeira. Marmelos 1. o circuito hidráulico de geração conta com uma câmara de carga em alvenaria de pedra. Uma pequena torre de seção quadrada e telhado de quatro águas marca a construção. A Figura 19 a seguir é uma vista geral da usina de Marmelos (casas de força e tubulações forçadas). que alimenta a unidade geradora nº 5. Canal de adução desativado Localizado e incorporado à barragem. Hoje é Museu da Usina de Marmelos. na sua margem direita e junto à tomada de água do túnel adutor.50 m (tubulação 2).60 x 3. Na continuação do túnel existe um canal de adução com 283. sobre embasamento de pedra.67 m³/s.20 m. A turbina é tipo Francis. As turbinas são tipo Francis. hoje é utilizada como almoxarifado. 189 m. tem seção de 3. operadas manualmente. que foi a casa de força da Usina 1-A.50 x 4.9 m³/s.76 m².40 m. Na parte direita da estrutura existe um vertedouro complementar. é formada por dois blocos distintos: um deles. O trecho coberto. Câmara de carga Entre o canal de adução e as tubulações forçadas.40 m de extensão. Canal de fuga As paredes do canal de fuga das antigas Usina 1-A e Usina 2 são em alvenaria de pedra. sendo vazadas por vãos com vergas em arcos abatidos em seqüência ritmada. com área total de 273 m².

De segunda a sexta-feira podem ser agendadas visitas monitoradas por acadêmicos da UFJF.Museu de Marmelos Zero (antiga casa de força Marmelos Zero) 110 . desta vez. O museu tem como propósito preser var a memória tecnológica e científica da cidade. 1983 num espaço cultural e museu. tripés de madeira. assim como fotos de Bernardo e sua família e painéis com pequenos textos infor mativos. no qual a cidade de Juiz de Fora foi escolhida para ser a primeira a se iluminar. Está aberto das 8:30 h às 17:00 h. O prédio da fábrica de tecidos de Mascarenhas também se encontra preservado. rascunho da planta da usina. 2 e 1A. máquina de escrever e de calcular. além de várias fotografias que mostram a construção da usina. concedido pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA). contas de luz. O acervo do museu é composto por objetos particulares de Mascarenhas. painel de controle de energia e uma réplica de um gerador utilizado na época. no bairro Retiro.A História das Barragens no Brasil . cuja fabricação era da Westinghouse. por meio do telefone (31) 3229-7606. neste mesmo ano. Esses tombamentos demonstram a suma relevância de sua preservação como um prédio histórico. a usina ganhou um segundo tombamento. teodolito. O convênio firmado entre a UFJF e CEMIG (atualmente Companhia Energética de Minas Gerais) tem como meta aprimorar o atendimento ao público que visita o museu. mantendo-o aberto diariamente. próximo ao trevo da cidade de Bicas. O Museu Usina Marmelos Zero encontra-se localizado às margens da Rodovia União-Indústria. pelo Patrimônio Histórico Artístico e Cultural do município de Juiz de Fora. XX e XXI Desde o ano 2000. a administração do museu está a cargo da Universidade Federal de Juiz de Fora UFJF. assim como destacar a figura importante de Bernardo como sendo o precursor desta idealização e realização deste sonho. Figura 20 . Após a morte de Mascarenhas o prédio passou por Figura 19 – Vista geral das casas de força da usina hidroelétrica de Marmelos: antigas casa de força 1.Séculos XIX. inclusive nos finais de semana e feriados. após seu tombamento. livros de ata e contabilidade dos primeiros acionistas da CME. Em 2005.

asminasgerais. Fernanda Borges Ferreira Murilo Keith .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 21 . 2009.História das Hidrelétricas no Brasil . A mobilização de artistas. Silvânia Duarte – Educação e Turismo uma Forma de Conhecer a História da Usina de Marmelos – Departamento de Geociências – UFJF.com.br/juizdefora.html http://www.portalsaofrancisco.Canal de adução desativado 111 .gov.com.asp http://www.Usina de Marmelos .memoria. jornalistas e intelectuais fizeram com que o imponente prédio.Universidade Tecnológica Federal do Paraná Campo Mourão.br/centrodeciencias/museu-usina-marmelos-zero/ http://wikimapia.br/patrimonio/usina_marmelos.Edição Especial Junho de 1980.org/701437/pt/Usina-Marmelos http://www.1ª Etapa : Diagnóstico da Situação Atual da Instalação . A fábrica encerrou suas atividades em janeiro de 1984.eletrobras. CEMIG .Setembro 1993. fosse transformado em um centro cultural em 1987. Lima. Umada.php http://www.CCBM . que foi utilizada para pagamento de dívidas junto ao governo. deixando como patrimônio sua sede. 2001 http://www. localizado na Avenida Getúlio Vargas 200.com.htm www.br/alfa/historia-daeletricidade-no-brasil/historia-da-eletricidade-no-brasil-5.conotec.ebah.Centro Cultural Bernardo Mascarenhas Referências CEMIG – Inventário civil – SR/SE Usina Hidrelétrica de Marmelos Relatório Final Novembro 1983.com.mg.pjf.br/historia-das-hidreletricas-no-brpdf-a91646.html www.ufjf.Estudo de Viabilidade de Recapacitação e Modernização .br Figura 22 .com/index. ampliações e modernizações. Cemig Notícia – Mais Energia Para uma Grande Cidade Juiz de Fora .

Usina hidroelétrica de Angiquinho na cachoeira de Paulo Afonso em diferentes regimes do rio São Francisco .

A Usina Hidroelétrica de Angiquinho tinha capacidade de gerar 1. casa de bomba e escada de acesso à casa de força. operado pela Chesf. de 625 kVA. aproveitando uma queda d’água de uma altura de 42 metros. um com 11 casas e 1 escola. distante aproximadamente 24 km da cachoeira.000 Volts. subestação elevadora. localizada na margem alagoana da cachoeira de Paulo Afonso. com tensão de saída em 3. as edificações com o acervo interno e externo e toda a área do Complexo de Angiquinho foi tombado e integrado ao Patrimônio Histórico Artístico e Natural do Estado de Alagoas. A partir de 30 de novembro de 2006. no estado de Alagoas. e outro com 2 casas.102 KW). localizada na cidade de Pedra. no Rio São Francisco.500 HP (1. além da indústria. que continua de pé no meio da caatinga. Angiquinho foi a primeira usina hidroelétrica do Nordeste. A usina ocupava uma área de 253 hectares e possuía dois conjuntos de instalações. Tinha como objetivo fornecer energia elétrica a indústria têxtil Companhia Agro Fabril Mercantil de propriedade do industrial Delmiro Gouveia. próximo ao atual Complexo Hidrelétrico de Paulo Afonso. o segundo de 450 kVA e.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Usina Hidroelétrica de Angiquinho Aurélio Alves de Vasconcelos Figura 1 – Vista geral da Usina Hidroelétrica de Angiquinho Introdução Inaugurada em 26 de janeiro de 1913. atual Delmiro Gouveia em sua homenagem. almoxarifado. Sua energia era suficiente para suprir. o último. e também a Vila Operária da fábrica. a bomba d’água que abastecia a cidade. O ousado projeto. constituída por três grupos geradores sendo o primeiro de 175 kVA. com sua casa de força encravada nas rochas 113 .

Guindaste usado na fase de construção e montagem da casa de força 114 . Hoje. Angiquinho. levou o desenvolvimento para a região que até então só conhecia a luz tênue de candeeiro. Figura 3 . é um pólo de turismo histórico.A História das Barragens no Brasil .Séculos XIX. XX e XXI Figura 2 – Casa de força da Usina Hidroelétrica de Angiquinho íngremes nas margens do cânion do rio São Francisco. além de ser área de preservação cultural. Resgata e cria uma grande oportunidade para todos que desejam conhecer a história da eletricidade do Brasil. ambiental e cultural. educacional.

Fruto de um caso extraconjugal. Logo. Delmiro chegou até a justificar a proposta do projeto de eletrificação Figura 4 . ou seja. Delmiro Gouveia refugiou-se no sertão alagoano. Essa foi a condição para a participação do capital norte-americano no projeto. constituída com capital nacional e estrangeiro. a Usina Angiquinho. Diante da negativa. o aproveitamento e exploração do vale do rio São Francisco. onde. Moore e sob a supervisão técnica do engenheiro Stewart. coube ao capitalista Delmiro Gouveia (18631917). Inicialmente. a industrialização da energia hidroelétrica da cachoeira de Paulo Afonso e um vasto plano agrícola-industrial conexo”. visando uma cooperação sob a forma de joint-venture. em grande escala. recebeu uma delegação de técnicos norte-americanos. hoje distrito de Pires Ferreira. precisamente em 1903. Delmiro procurou sondar as potencialidades da região para poder colocar em ação a realização de seu sonho. em 5 de junho de 1863. Apesar dessas considerações. Por volta de 1909. chefiada pelo capitalista Mr. Confirmadas as vantagens. em caráter sigiloso. cujo objetivo principal era “empreender. Fugido do Recife por desavenças políticas. quando fixou residência no vilarejo denominado Pedra. construir o empreendimento pioneiro no campo da hidroeletricidade em pleno sertão nordestino. com sua proeza de transformar as idéias em realidade. consegue recuperar a fortuna perdida no Recife. além de mover indústrias próximas à cachoeira e a outros planos de irrigação de terras locais. para estudos no rio São Francisco e na cachoeira de Paulo Afonso. não contava Delmiro com a recusa do Governador de Pernambuco. ele buscou refúgio em Alagoas. bem como iluminar sua Vila Operária. Delmiro Augusto da Cruz Gouveia nasceu em Ipu. no sertão alagoano. com a expressa autorização dos estados fronteiriços ao rio. Sabe-se que os estudos contemplaram a viabilidade do aproveitamento hidrelétrico de um trecho do rio. em virtude do surgimento de condições técnicas e econômicas. Contudo. Tomado pelo ímpeto de realizar proezas. Assim. seria instalado um curtume para armazenar peles. restou acertar as condições comerciais. de fato. os norte-americanos só participariam. com investimentos no comércio exportador de “courinhos” (artigos de pele de bode e cabra) e com amparo financeiro de ricos financiadores norteamericanos. Era descrito como um homem sempre disposto a assumir grandes compromissos. no Ceará. o referido projeto consistia em abastecer e iluminar cidades da região. sua vida não seria senão uma conseqüência da prática de ousar. 115 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens História No início do século XX. onde foi bem recebido pela oligarquia local. Dantas Barreto. em breve. cuja finalidade seria fornecer energia para a fábrica têxtil produtora das linhas Estrela. ambas da Pedra.

Boa parte desse aval deve-se aos esforços e à petulância de dois alagoanos. os estrangeiros pularam fora. concretizar o so- nho da eletrificação. Em seguida. Para construir Angiquinho. As tubulações foram fabricadas pela competente empresa alemã Mannesmann. O decreto nº 503. com a necessária construção de pontes e estradas adequadas para permitir sua passagem. o discurso girava em torno da responsabilidade jurídica sobre a exploração do Rio São Francisco. houve quem duvidasse do sucesso da obra. o deputado federal Demócrito Gracindo e o consultor jurídico do Estado Alfredo de Maya. para projetar a empreitada. Na etapa seguinte. Alagoas. situada a 23 km da cachoeira. furiosos debates e fracassadas conclusões acerca da célebre concessão de aproveitamento da maravilhosa queda d’água. As turbinas foram encomendadas às casas Bromberg e Siemens Schukert & Co. o maquinário da usina percorreu os 24 quilômetros que os separavam até a Cachoeira de Paulo Afonso. 116 . para alimentar uma fábrica de linhas em pleno sertão. local de difícil acesso. Já o maquinismo da fábrica veio da companhia Dobson & Barlow. Em 1912. havia concedido a isenção de impostos pelo período de dez anos para a exploração de uma fábrica de linhas de costura. os quais souberam como poucos resistir às críticas e fundamentar seus argumentos na Câmara e na Imprensa. A tribuna da Câmara Federal também foi palco de embaraçosos discursos. Equipamentos elétricos ficaram a cargo da empresa alemã Bergmann & Co.Séculos XIX. para a conclusão da longa travessia. Worth e a suíça Piccard Pictet & Co. entre os quais o direito de explorar as terras improdutivas na cidade de Água Branca. da Alemanha. bem como dos consequentes impactos ambientais e econômicos. coube a Delmiro. Delmiro requisitou a experiência estrangeira do técnico Anton Wer. e da suíça Brown Boveri & Co. Em decorrência.A História das Barragens no Brasil . e do engenheiro Emilio Levermann. A parte hidráulica com a alemã J. Bland & Co. M. Luigi Borella. XX e XXI do Recife. os projetos iniciais das obras. os equipamentos foram transportados de trem através da Estrada de Ferro Paulo Afonso até chegar na estação da Vila da Pedra. através da firma Iona & Cia. foram colocadas em uma barca que subiu o rio São Francisco até atracar na lapinha do sertão. sobretudo por parte das imprensas alagoana e carioca que publicavam manchetes com veementes protestos sobre o assunto. Por conseguinte. A usina permaneceu no local e os equipamentos da fábrica anos depois foram levados para São Paulo. voltou-se para um projeto de construção de uma usina hidroelétrica. junto à firma inglesa W. pelos ingleses. a concessão para captar o potencial hidrelétrico da cachoeira de Paulo Afonso e produzir eletricidade.. Também foram contratados engenheiros e técnicos franceses para montar a usina. o engenheiro italiano Luigi Borella veio treinar o corpo técnico e dirigir o complexo hidrelétrico. Após a morte por assassinato de Delmiro Gouveia. as caixas com as máquinas e equipamentos. mas não foi suficiente. cruzaram o Atlântico até o porto da cidade de Penedo (AL). em carroções puxados por juntas de bois. Delmiro foi à Europa adquirir o maquinário necessário. da Inglaterra. Contrataram-se. No entanto. Então. e a isenção de impostos referentes à sua fábrica de linhas de costura Estrela. dentro da cachoeira de Paulo Afonso. então. todas essas concessões foram transformadas em decretos-lei pelo Estado de Alagoas. Geralmente. não passando de lenda o lançamento dos equipamentos da fábrica e da usina. a produção de linha de coser foi prejudicada. Houve reações contrárias à implantação desse aproveitamento hidrelétrico da cachoeira. do mesmo ano. encabeçar outro projeto ousado. já que o Governador categoricamente relutou: “O negócio que o senhor propõe é tão vantajoso para o Estado que deve envolver alguma velhacaria”. Entre 1910 e 1911. Delmiro resolveu. Piranhas. Superada a recusa. na localidade de Pedra. mas a usina permaneceu intacta. Para a montagem dos equipamentos da usina. vindos da Europa. Delmiro conseguiu obter vários privilégios do Governo do Estado de Alagoas. Por fim. R. A obra foi realizada mediante concessão do estado de Alagoas ao abrigo do decreto nº 520 de 12/08/1911 de acordo com a Constituição Federal de 1891. e acabou por contratar um engenheiro italiano. Como a casa de máquinas da usina ficaria no paredão do cânion do São Francisco.

com Anunciada Cândida de Melo Falcão.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Quem foi Delmiro Gouveia (1863-1817) Delmiro Augusto da Cruz Gouveia nasceu no dia 5 de junho de 1863. presidente do Senado Federal e vicepresidente da República. município de Ipu. inaugurado no dia 7 de setembro de 1899. o que culminou com o incêndio do mercado. onde adquiriu posteriormente. trabalhando também na estação de Apipucos. transferiu-se com sua mãe para a cidade de Goiana. no Recife. em 1896. mantendo um grande número de compradores por toda a região Nordeste do Brasil. no início de 1900. quando já acumulava riqueza suficiente. com 264 compartimentos alugados a comerciantes de alimentos e de outros tipos de mercadoria. onde só havia manguezais: abriu estradas. 117 . conflitos com o poderoso Rosa e Silva. inicialmente como empregado da família Lundgren e depois por conta própria. na fazenda Boa Vista. teve que trabalhar cedo para se manter e ajudar a mãe. Trabalhou ainda como despachante de barcaças. De família pobre.  Dispondo de capital. Em 1868. Foi o responsável pela urbanização do bairro Figura 5 . Interessado na compra e venda de couro e peles de cabras e ovelhas vai para o interior de Pernambuco. Os baixos preços praticados no mercado incomodaram a concorrência. Ceará. Em 1875. quando ele tinha apenas quatro anos de idade. Dedicou-se ao comércio e exportação de couro e peles. tangidos pelas secas que periodicamente ocorrem no sertão nordestino e pela morte do pai. Foi bilheteiro da estação Olinda do trem urbano chamado maxambomba. a Casa Delmiro Gouveia & Cia. bairro do Recife. Esmeraldino Bandeira e em decorrência. onde funciona o Instituto de Documentação. em 1883. ruas. construiu casas e um grande mercado modelo sem similar no Brasil. base de sua capacitação necessária a vencer os diversos desafios com que sonhava e que nele tinham a firmeza das idéias-fixas.Delmiro da Cruz Gouveia do Derby. quando tinha apenas 12 anos de idade abandona o lar materno e se lança no mundo à procura de emprego que lhe permitisse sobreviver com o mínimo de folga para proporcionar o seu aprendizado. o Mercado Coelho Cintra. casando-se. se engajou politicamente e partiu para outros empreendimentos. um palacete que hoje é propriedade da Fundação Joaquim Nabuco. na cidade de Pesqueira. Fundou. havendo por isso desentendimentos com o então prefeito do Recife. Em 1872 muda-se para Recife. em Pernambuco e depois para o Recife. filho natural de Delmiro Porfírio de Farias e Leonilda Flora da Cruz Gouveia. passando a destruir a concorrência no setor e ficando conhecido como o Rei das Peles.

raptou a adolescente Carmela Eulina do Amaral Gusmão. mas con- 118 . construiu cerca de 520 km de estradas carroçáveis e introduziu o automóvel no sertão. uma vila operária. que o acusava de estar procurando aproveitar-se do seu governo e. Peru. Passou a idealizar e desenvolver projetos para a implantação de uma hidroelétrica que abastecesse o Recife de energia. com a marca Estrela. no lado alagoano. Chile. após a reforma realizada em 1924. Levou a energia elétrica para a povoação onde ficava a fábrica e depois até a Vila da Pedra. depois Bolívia. que culminaram com o seu assassinato à bala. fugindo para Alagoas e fixando-se na Vila da Pedra. Embarcava sua produção através de porto de Piranhas. através de uma pequena usina geradora de eletricidade. hoje município de Delmiro Gouveia. à medida que enriquecia criava mais inimigos. impondo-se também nos mercados da Argentina. Em 1909. além da tensão em que vivia. que logo dominou o mercado nacional. aos 39 anos. por isso. Figura 6 . o prédio do antigo mercado abriga o quartel general da Polícia Militar de Pernambuco (Figura 6). aos 54 anos de idade. puxando a rede elétrica até a sua fazenda. e da falta de apoio governamental. utilizando a ferrovia que ligava Jatobá (atual Itaparica) a Piranhas para transportá-la. Separado da esposa.  A fábrica era um modelo de organização. uma pequena fábrica têxtil para produção de linha. uma localidade a cerca de 280 km de Maceió e que na época só possuía seis casas.  ambulatório médico. em 1914. Dantas Barreto. Inaugurou. rompeu relações com o industrial. Autoritário e de temperamento difícil. cinema e ringue de patinação. XX e XXI Hoje. perseguido e com problemas no casamento refugiou-se durante um ano na Europa. Passou a comprar e exportar couro e peles. em Maceió. no dia 10 de outubro de 1917. capta energia elétrica na queda do Angiquinho. com diversos pavilhões onde ficavam os teares. o que causou desentendimentos com o então governador de Pernambuco. em 1902. no terraço da sua casa na Vila da Pedra. Em 1901. inicia os estudos para aproveitamento econômico da cachoeira de Paulo Afonso. Seu temperamento sempre difícil. Em 26 de janeiro de 1913. utilizando o Porto de Jaraguá. Barbados e até nas Antilhas e Terra Nova. Não querendo ficar isolado e para ajudar no desenvolvimento das suas atividades industriais.Prédio do antigo mercado que agora abriga o quartel general da Polícia Militar de Pernambuco Angiquinho atualmente Em outubro de 1958 a usina Angiquinho perdeu a concessão do aproveitamento parcial da cachoeira de Paulo Afonso.A História das Barragens no Brasil . produziram uma série de atritos e inimizades.Séculos XIX.

seria incoerente um bando tão articulado como o de Lampião se esconder em um local que tem apenas uma única entrada.Escada de acesso à casa de força Furna dos Morcegos. da Furna dos Morcegos. quando foi por fim desativada. Por intermédio da CHESF e da prefeitura de Delmiro Gouveia. Além disso. foi elaborado um projeto de recuperação histórica que inclui a restauração da usina. bem como atrair profissionais e leigos com interesse de conhecer a história das hidreléricas no Brasil. Segundo o projeto de recuperação denominado “Projeto de gestão de Angiquinho”. contudo a presença dos cangaceiros na área de Angiquinho já foi praticamente desmentida. a usina foi transformada em um ponto de visitação turística.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens tinuou a distribuir eletricidade para a cidade de Delmiro Gouveia (antiga vila da Pedra) até 1960. Depoimentos de cangaceiros do bando afirmaram que estiveram naquela área.A casa força de Angiquinho localizada à margem alagoana da cachoeira de Paulo Afonso Figura 8 . mas nunca se esconderam na Figura 7 . 119 . onde dizem que Lampião se escondeu. pois não se encontrou qualquer indício dessa passagem. que além de proporcionar ao turista comum uma vista diferenciada da cachoeira.

que investiu R$ 1. São pedras e rochas e tocas de rio para todos os lados (Figura 13). águas muito limpa mostram o fundo translúcido do Velho Chico. passou a gestão de Angiquinho à Fundação Delmiro Gouveia (FDG). coordenador da FDG. que liderou o movimento pelo resgate do acervo. Passear no sítio histórico de Angiquinho é mover as rodas da história. Nas entranhas da usina saem paisagens lunáticas. assinala Edvaldo Nascimento.Séculos XIX. “A luta agora é para que Angiquinho deixe a fila de espera pelo decr eto do gover no federal e Ministério da Cultura para o tombamento nacional” . 120 .5 milhão na recuperação da usina.A História das Barragens no Brasil . XX e XXI Figura 9 – Prédios da usina recuperados Figura 10 – Interior da casa de força A Chesf.

Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 11 – Gerador Figura 12 – Turbina de eixo horizontal 121 .

A História das Barragens no Brasil . XX e XXI Figura 13 .Vista do cânion a partir da casa de força 122 .Séculos XIX.

Governador de Alagoas assina decreto de tombamento do complexo Angiquinho (HTML). 2. Moacir Medeiros de.Câmara Municipal de Paulo Afonso. A casa de máquinas continua presa às rochas e é o ponto culminante do passeio. Unesp. 2007. Entrar naquele prédio arrojado e quase secular é sentir segurança e êxtase. Tamás (orgs. escadas em espiral. São Paulo: hucitec/Abphe. Paulo B. que iluminou boa parte da região até nos anos 60. Maceió: imprensa oficial. 9. Sant’ana. php?option=com content&vieu=article&id=6068Itemid =195(Texto de Semira Adler Vainsencher pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco) Acessado em 17/02/2011. Paulo Afonso-BA. Magalhães. 2008. com plataforma para mirante. Gildo. Antônio – Mascarenhas. 7. ou parte dela. Maceió: Fiea/ Gijs. 4. e uma cachoeira transborda na entrada do lago da usina.).Subestação Elevadora de Angiquinho 123 . Armando. Site www. no caminho da velha casa das máquinas.br/pesquisaescolar/index.al. Jornal Chesf – CER – Ano IV – nº 235 – junho a novembro/2006. de onde os olhos captam uma imagem inesquecível do que resta da cachoeira de Paulo Afonso. Ousadia no Nordeste: A Saga Empreendedora de Delmiro Gouveia. 13.com. Fernandes. Davi Roberto Bandeira. 8. 2008. 3. A descida é adrenalina pura. A visão do Velho Chico cercado por cânions e corredeiras é colossal. no rio e na bela cachoeira. Adriana Sbicca. Referências 1.br/sala-de-imprensa/noticias/ noticias-2008/angiquinho-atrai-turismo-de-aventurasem-delmiro-gouveia/(Texto de Mário Lima) acessado em 17/02/2011). São Paulo: ed. Página visitada em 6 de janeiro de 2008.fundaj. Pequena história de Delmiro Gouveia. Rio de Janeiro: Centro da Memória da Eletricidade no Brasil. Sávio. Revista Continente Documento – Ano I. 10. http://www. Paulo Afonso: de pouso de boiadas a redenção do Nordeste . que desce 45 metros abaixo das rochas. Principalmente ao abrir as janelas da casa e correr o olho nas rochas.turismo. Figura 14 . 5. 1995.br 12. Cachapuz. Szmrecsányi. nº 11 – 2003. fruto da cabeça do cearense Delmiro Gouveia. 6. Paulo Afonso I: Imagens de uma epopéia. http://basilio. Folha Sertaneja (03 de dezembro de 2006).gov. que abriga os três geradores Brown Boveri e as turbinas Piccard Pictet. Galdino. de Barros – Dalla Costa. Projeto Gestão de Angiquinho (HTML) (2008). empresários e desenvolvimento econômico no Brasil. 1961. 11. o “Rei do Sertão”.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens O coração começa a bater mesmo na escadaria de metal. que alimentavam a usina. Empresas. Silva. 2000.gov. Força e luz: eletricidade e modernização na República Velha.controvérsia. Página visitada em 6 de janeiro de 2008.

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Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Usina do Itapecuruzinho A primeira hidroelétrica da Amazônia Erton Carvalho Esta usina está localizada no rio Itapecuruzinho. que desemboca no rio Tocantins pela margem direita. 3. O quadro de comando era de ferro perfilado com painel de mármore polido. Foi concebida e projetada no período de 1937/1938 e teve a sua construção realizada no período de 1939/1940. No local foi implantada uma casa de força que abrigava uma turbina Francis de 110 kW. afluente do rio Manoel Alves Grande. através de um sistema de polias. dimensionado para aduzir uma vazão de 2.Cachoeira do Itapecuruzinho 125 .44 m3/s. Contava. As Figuras 2.30 m. que terminava com uma pequena tomada d’água seguida de um conduto forçado com capacidade de 1.50 m (Figura 1).22 m3/s. no município de Carolina. freqüência de 50 Hz e com a velocidade de 750 rotações por minuto. acionando. hoje completamente abandonada e em péssimo estado de conservação. A usina foi construída aproveitando uma queda de 11. estado do Maranhão. um gerador de 120 kVA.000 V. com uma pequena subestação que tinha um único transformador trifásico de 11. 4 e 5 mostram a casa de força e seu interior. também. 380/220 V. As obras civis foram constituídas por um canal lateral de forma trapezoidal. com rendimento de 75%. com 88 m de comprimento e um desnível de 0. A linha de transmissão da usina para a cidade de Carolina tinha Figura 1 .

XX e XXI Figura 2 .Séculos XIX.Casa de força Figura 3 .Turbina Francis 110Kw 126 .A História das Barragens no Brasil .

para aquela sociedade local de uma obra bastante audaciosa. capital do estado. a rede pública de distribuição de energia era de 220/110 V.Gerador e painel de controle com sucesso.5 km. Vale ressaltar aqui que Carolina era uma das cidades consideradas de oposição ao interventor do estado.Gerador de 120 KVA necessidade de construir em Carolina uma usina hidroelétrica. Paulo Ramos. Tratava-se. na maioria das cidades. através de uma subestação abaixadora. único meio de transporte existente na região. arcebispo do Maranhão. A partir daí. Newton Carvalho. o Brasil possuia apenas uma potência instalada de 847 MW. História A cidade de Carolina. o que permitiu dar andamento ao início dos trabalhos. a audiência acabou sendo realizada Figura 5 . como a maioria das cidades ribeirinhas banhadas pelo grande rio. o fornecimento de energia era restrito ao período das 18 às 21 horas.2%. Por interferência de Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta. homem de idéias progressistas. correspondendo a 0. e sua classe política bastante temerária quanto às atitudes do citado interventor. 127 . não tendo conseguido ser recebido por aquela autoridade. sendo que as perdas no transporte da energia foram estimadas em 5. Mesmo assim. situada no extremo sul do Maranhão. situada a 33 km da cidade. sendo 192 MW em usinas térmicas e 755 MW em hidroelétricas. portanto. conheceu. Em 1937. aproveitando a bela cachoeira existente no rio Itapecuruzinho. Newton Carvalho colocou esse empreendimento como a grande meta de sua vida. Excluindo os grandes centros urbanos. A linha foi implantada com postes de aroeira a uma distância média de 50 m. iniciou sua luta para convencer um grupo de conterrâneos da Figura 4 . Os sócios pretendentes exigiram que Newton Carvalho obtivesse do interventor uma autorização para que a usina fornecesse energia para a cidade. à margem direita do rio Tocantins. nos anos quarenta.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens 28. Naquela época (1937). ele fez várias viagens a São Luiz. Na cidade.75% da atual. sua fase áurea.

esvaziava a embarcação. foi então organizada para fornecer energia elétrica ao município de Carolina. foi empreendida uma luta titânica para retirá-lo da água. Retornando do Rio de Janeiro com os dados da usina nas mãos. O capital inicial de 340 contos de réis. companhia aérea alemã.A História das Barragens no Brasil . quando o presidente Getúlio Vargas e seu ministro Fernando Costa assinaram o decreto n o 4.888. dentre elas a de Itaboca. seguiram através do rio Tocantins até Carolina. utilizados pelos sertanejos locais. Após verdadeira epopéia. Desprovido de equipamentos para içá-lo. com o aproveitamento da referida cachoeira. de novembro de 1941.790. para negociar com a empresa a consolidação do projeto e a compra dos equipamentos necessários para a construção da usina. em 26 de julho de 1900. posteriormente. um dos pesados transformadores da subestação caiu no rio. organizou a firma em 1939. Newton Carvalho. às margens do pequeno rio Itapecuruzinho. Newton Carvalho adquiriu da Siemens todos os equipamentos para a instalação da usina. em plena ditadura do então presidente Getúlio Vargas. que fazia voos entre Carolina e Belém. XX e XXI Em 1938. que o equipamento subisse pelo empuxo a que era submetido. Newton Alcides de Carvalho provinha de família numerosa. a primeira usina hidroelétrica da Amazônia. 128 . a qual nunca saiu do papel. autorizou o funcionamento da usina e a sua inauguração se deu em 15/11/1941. O sucesso dessa operação só foi possível pelo fato de Newton Carvalho conhecer e fazer uso do princípio de Arquimedes. O Decreto nº 15. na Junta Comercial do Maranhão. publicado no Diário Oficial do dia 8 de fevereiro de 1940. ele mesmo. Biografia Por detrás desta pequena central hidroelétrica. Foram lançados sacos de areia com bandeiras vermelhas para demarcar o referido caminho. Foi assim instalada. se esconde um episódio heróico que bem reflete a época e o momento histórico em que foi construída. Para a construção da linha de transmissão foi aberta uma picada da cidade até o local da usina. permitindo. Transportados por via marítima até o porto de Belém. O projeto previa a colocação de duas unidades de 143 kW. então capital federal. A empresa de nome Hidroelétrica Itapecuru Ltda. Com auxilio de mais uma embarcação. para estudar junto à companhia alemã Siemens a viabilidade do empreendimento. A concessão para o empreendimento ocorreu em 16 de novembro de 1939. Voltando novamente à capital federal. dividido inicialmente entre oito sócios. mas inicialmente só foi instalada uma unidade de 110 kW. cada um contribuindo com 10 contos de réis. Em sua grande maioria esses marcadores não foram encontrados. tendo as embarcações atravessado várias cachoeiras. em seguida.. que outorgou à sociedade o direito de explorar o referido aproveitamento até a potência de 285 kW. onde hoje está localizada a usina de Tucuruí. teve. proprietário da Casa Beckgis. Nasceu em Carolina. com uma linha de transmissão de aproximadamente 30 km. com o auxílio de um velho teodolito de propriedade do professor José Queiroz. esvaziava-as e enchendo-as de água até chegar ao limite de transbordamento tracionava o transforma- dor e. utilizado em um trabalho de topografia para a ferrovia Pirapora-Belém. travou-se outra batalha com o transporte dos equipamentos em pequenos caminhões através de caminhos intricados. totalizando 14 sócios. Para alcançar o lugar escolhido. a cooperação de mais seis sócios. finalmente o maquinário chegou a Carolina. Era um dos onze filhos do casal Alípio Alcides de Carvalho e Rosa Sardinha de Carvalho. Seu idealizador e executor (Figura 6) teve que vencer obstáculos quase intransponíveis para implantar na Região Amazônica a primeira usina hidroelétrica. assim. O rumo da linha de transmissão foi definido por um piloto da Condor.Séculos XIX. Quando passava pela cachoeira de Itaguatins. Newton Carvalho foi ao Rio de Janeiro. registrando-a no dia 11 de julho do mesmo ano. perto da cidade de Porto Franco. Viajou às próprias custas e contou com a ajuda de um comerciante alemão. elaborou a planta da cidade e implantou a rede pública e o sistema de distribuição de energia residencial.

Ali. para o interior do estado de Goiás.Newton Alcides de Carvalho Referências 1. 4. Faleceu em 25 de outubro de 1969. baseado no método dinamarquês. nascida em Vianna do Castelo.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Seu pai era originário da cidade de Caxias do Maranhão e sua mãe era oriunda de berço português. Ainda não havia atingido quarenta anos quando resolveu vender todos os seus bens para conseguir tornar real o sonho de executar o projeto da construção da pequena usina hidroelétrica em Carolina. Ali. um projeto para a exploração industrial do babaçu. 3. A formação do homem visionário. tendo adquirido por conta própria noções de inglês e alemão. da construção de uma usina açucareira. Memória Técnica da Usina de Itapecuruzinho. elaborou. participou. também. o qual lhe proporcionou sólida base cultural voltada para as ciências exatas. trabalhou na Secretaria de Educação no planejamento e construção de 248 prédios escolares na zona rural. Estruturou o serviço de coleta e destino do lixo. projetos para as usinas de Campos Belos e Babaçulândia. resolveu transferir-se com a família. através de tratamento mecânico e biológico. antes mesmo de completar 70 anos. a esposa Eliza Ayres de Carvalho e seus filhos. Autodidata. Figura 5 . vítima de acidente automobilístico. Em sua cidade natal. construiu as usinas hidroelétricas das cidades de Anicuns (1948/1949) e de Santa Cruz de Goiás. cópia datada de 1939. da física e da engenharia. Deixou para a posteridade um exemplo de homem probo. Notas da família Carvalho Artigo do jornalista Waldir Braga no jornal “Folha do Maranhão do Sul” (25/Julho a 03/Agosto de 1996) Revista Século XX “Gente que fez Carolina” de Paulo Noleto Queiroz. Não tendo sido ressarcido de seus investimentos. apresentando um estudo sobre o aproveitamento do mesmo. determinado. Outubro de 2000. também. decepcionado com a alta inadimplência dos consumidores de energia. ao mesmo tempo em que desenvolvia atividades comerciais. altamente avançado para a época. norte de Portugal. Diversificando suas atividades. ainda. já radicado em Goiânia. em 1944. No período de 1961 a 1965 exerceu a função de chefe-geral da limpeza pública da capital do estado. Newton Carvalho. Em 1949. não era comum à época: tinha concluído apenas o curso ginasial. obras porém não realizadas. lecionou matemática e escrituração mercantil a jovens conterrâneos. 2. que pensava adiante do seu tempo. corajoso e realizador. dedicou-se com afinco ao estudo da matemática. principalmente com a da iluminação pública. Elaborou. 129 . conhecido por “Dano”.

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Kearny.Frederick Stark Pearson. O desenvolvimento da construção. a Cidade Luz Sulamericana Armando José da Silva Neto e Flavio Miguez de Mello por em funcionamento no Brasil a empresa que seria referência no desenvolvimento da engenharia brasileira de barragens e usinas hidroelétricas. Liderada pelo advogado canadense Alexandre Mackenzie e pelo engenheiro americano Frederick Stark Pearson.Alexander Mackenzie. 2007 A Light no Rio de Janeiro. primeiro presidente (1904-15) 131 . em 30 de maio de 1905. Concepção artística do engenheiro José Carlos de Miranda Reis Neto Figura 2 .” Antonio Dias Leite. na época de sua instalação era a maior hidroelétrica da América Latina e a segunda maior do mundo. mesmo em comparações internacionais. A potência instalada era de 12 MW. O gerente do Figura 1 . A barragem era uma estrutura de concreto gravidade em arco de 100 m de raio. elevando sua capacidade para 24 MW.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens “Ter-se-á de reconhecer a importância da contribuição da Light. no Estado do Rio de Janeiro. Essa usina. Em 1909 foi ampliada com a instalação de mais três unidades geradoras. Em 1908 foi lançado o primeiro grande desafio: a construção no Ribeirão das Lajes. que deu grandeza ao sistema elétrico brasileiro com projetos ousados. recomendado pelo engenheiro Pearson. coube a tarefa de implantar e Casa de força de Fontes. mas podendo chegar a 15 MW. Ltd. operação e manutenção de usinas hidroelétricas no Brasil tem um dos capítulos mais importantes na criação de uma empresa chamada The Rio de Janeiro Light and Power Co. fundador e segundo presidente (1915-28) empreendimento foi o engenheiro Clint H. da usina de Fontes. no Município de Piraí. com 32 m de altura e crista com 234 m dos quais 134 m eram vertedouro de lâmina livre. residentes no Brasil havia cinco anos.

Esse túnel passou a derivar as águas do rio Pirai para o reservatório de Lajes.Barragem de Tócos vista de montante Figura 3 .Séculos XIX.4 km de extensão. Os dois escritórios da LIGHT nas cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo foram reunidos em um só visando a ampliação da geração de energia hidráulica já que a demanda naquela época não parava de aumentar em função do desenvolvimento que estava ocorrendo no País.A História das Barragens no Brasil . 132 . XX e XXI Figura 4 . possibilitando o aumento de capacidade de Fontes para 55 MW.Barragem de Lajes construída em 1906 Figura 5 – Saída do túnel de Tócos Em 1914 foi concluída a barragem de Tócos no rio Pirai e um túnel com 8. na época o mais longo túnel hidráulico do mundo.

RJ e Além Paraíba. Há vertedouros de menores capacidades equipados com comportas Stoney. o vertedouro principal é localizado na margem esquerda. do lado norte. que era especializado em obras hidráulicas e seus equipamentos.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Em 1921 a LIGHT foi autorizada a construir uma nova usina hidroelétrica nos municípios de Carmo.5 km de extensão constituído por diques de terra compactada e trechos em concreto. A construção da usina ficou a cargo do engenheiro Asa W.Engenheiro Asa White Kenney Billings Figura 7 . Com três comportas tipo setor que até hoje são as maiores do mundo. Figura 6 . Kenney Billings. As comportas se encontram em operação até os dias de hoje. a usina tem um canal de adução com 2. MG no rio Paraíba do Sul a 150 km da cidade do Rio de Janeiro. Inaugurada em julho de 1924.Construção da usina hidroelétrica Ilha dos Pombos em 1924 133 .

A História das Barragens no Brasil . a LIGHT foi autorizada a ampliar a Usina de Fontes. 134 .Séculos XIX. Em março de 1940. as maiores do mundo Com as ampliações realizadas em setembro de 1937.Usina hidroelétrica de Ilha dos Pombos tendo seus vertedouros reabilitados. bem como uma repotenciação da usina com aumento da capacidade instalada. foi executada uma reabilitação completa da barragem e de suas comportas. XX e XXI Figura 8 . Vista de montante.Usina hidroelétrica de Ilha dos Pombos – Uma das três comportas setor. a usina de Ilha dos Pombos atingiu a potência instalada de 167 MW sob 31 m de queda bruta. Após mais de 55 anos de operação. nos anos 90. Figura 9 .

elevando a potência instalada para 172 MW.Barragem de Lajes após a conclusão do alteamento 135 . Entretanto. A obra foi concluída em 1958. o reservatório jamais foi completamente cheio por dois motivos: o abastecimento de água para a cidade do Rio de Janeiro havia passado a depender das descargas efluentes da casa de força de Fontes sem outro tratamento que não a cloração e a necessidade de obras adicionais para garantir a estabilidade da barragem de Cacaria e do Dique 4. Para permitir a construção foi necessário desocupar a pequena cidade tombada de São João Marcos no município de Rio Claro. aumentando a capacidade de armazenamento do reservatório para 1. O reservatório havia sido idealizado para ser utilizado para regularizar as descargas que seriam derivadas do rio Paraíba do Sul. na barragem do Rio da Prata. Essas obras foram finalmente executadas nos anos 80. no Dique 4 e no Dique 5. Figura 10 . O alteamento da barragem que passou da soleira vertedora livre em arco gravidade para uma barragem em contrafortes de 63 m de altura. implicou também na construção da barragem e do dique de Cacaria. cada uma com 39 MW.052 milhões de metros cúbicos. A ampliação constou de três novas unidades.Início do alteamento da barragem de Lajes Figura 11 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens O projeto do engenheiro Billings elevou em 26 m a Barragem de Lajes.

Sapucaia e Simplício) e efetuado estudos que cobriram extensas áreas do território nacional. Inaugurada em 1953. até o líder da UDN. aumentou em 378 MW o Complexo de Lajes. Presentemente as antigas unidades Pelton de Fontes estão desativadas. desde a vertente oceânica da Serra do Mar até as Sete Quedas.A História das Barragens no Brasil . resultou na ampliação de geração em Fontes com a instalação de três unidades Francis de 39 MW cada. XX e XXI Apesar dos bons serviços prestados e do estrangulamento das tarifas a partir do Código de Águas em 1934. Figura 12 . todas Francis de eixo vertical. que se referia a ela como “o Polvo Canadense”. desde extremados esquerdistas que se intitulavam de nacionalistas. Nesse cenário.Casa de força de Fontes 136 . denominada Fontes Nova e na implantação da casa de força subterrânea de Nilo Peçanha que. Esse cerceamento de novas concessões e a necessidade de ampliação da geração determinaram a adoção do artifício de se conceber uma ampliação da usina de Fontes pela derivação de descargas dos rios Pirai e Paraíba do Sul. à Light não eram concedidas novas concessões. Carlos Lacerda. restando apenas as três unidades Francis de Fontes Nova e as seis unidades de Nilo Peçanha. Essa foi a obra de engenharia mais importante no final dos anos 40 e início dos anos cinqüenta. a Light enfrentava opositores de todas as correntes políticas. embora ela tenha estudado em detalhe potenciais no médio rio Paraíba do Sul (Funil.Séculos XIX. sob a queda bruta de 310 m.

Barragem Santana 137 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Para esta fase da ampliação uma série de obras foram executadas. destacando-se a elevatória de Santa Cecília. e a casa de força subterrânea de Nilo Peçanha. no rio Pirai construída em apenas dois meses. que contou com a importante colaboração do geólogo Portland Port Fox. as terceiras instaladas no mundo depois das unidades de Traição e Pedreira em São Paulo. a barragem de Sant’Ana. a elevatória de Vigário que dispõe de unidades reversíveis. a construção da barragem Terzaghi e do dique Vigário.Barragem de Santa Cecília Figura 14 . Figura 13 . projeto em que Karl Terzaghi introduziu filtros chaminés em barragens de terra. de grandes dimensões para a época. a segunda casa de força de Nilo Peçanha ainda não foi construída. ficando as usinas de Fontes Nova e Nilo Peçanha com elevado fator de capacidade. também instaladas pela Light. Embora constasse do projeto original.

XX e XXI Em fevereiro de 1967 intensa precipitação provocou inúmeros deslizamentos nas encostas da Serra das Araras na área das usinas. a Light teve que promover a regularização do rio pela implantação da barragem de Santa Branca e contribuído com 40% do Figura 15 .Elevatória de Vigário.Séculos XIX.Desvio Paraíba-Piraí . ambos de elevada competência e dedicação. Para que a derivação das águas do rio Paraíba do Sul fosse licenciada. O refluxo de lama inundou a casa de força de Nilo Peçanha causando a paralisação da usina por vários meses para a recuperação dos equipamentos totalmente feita pelos técnicos da Light. Realça-se a coragem dos operadores e a tenacidade da equipe da Light na recuperação das instalações cuja operação era comandada pelos engenheiros Walter Stukembruk e Henrique Smoka. ao fundo dique do Vigário e a barragem Terzaghi 138 .A História das Barragens no Brasil . bloqueando os canais de fuga de Fontes e de Nilo Peçanha.

Ministro Apolonio Salles. As estruturas de concreto da tomada d’água e do vertedouro. A barragem de terra tem 52 m de altura e 231 m de crista. no trecho paulista da bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul. Somente nos anos 90 a Light instalou as unidades geradoras em Santa Branca. essa usina foi inicialmente denominada Lajes Auxiliar.Presença do Terzaghi (ao fundo) no campo durante a construção da barragem que tem o nome em sua homenagem Figura 17 . Considerando as dificuldades acima mencionadas na obtenção de novas concessões. são situadas na margem esquerda do reservatório. Em 1961 foi concluída a usina de Ponte Coberta. este com 330 m³/s de capacidade de descarga.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens investimento na construção das barragens de Paraitinga e Paraibuna. Curiosamente a Light esperou a posse do presidente Castelo Branco em 1964 para oficialmente inaugurar a usina. Figura 16 . aproveitando as águas turbinadas do Complexo de Lajes.Inauguração da hidroelétrica Nilo Peçanha. Nicholson. João Monteiro 139 . J. com 99 MW instalados sob 36 m de queda bruta. posteriormente denominada de Pereira Passos.R.Canal de fuga de Nilo Peçanha em 1967 Foto 18 .

presidente da Light. chefe da casa militar. após os acidentes ocasionados pelas intensas precipitações. Figura 19 . mais uma hidroelétrica no leito do ribeirão Das Lajes que presentemente (2011) encontra-se em construção. ser de controle integralmente nacional. em visita de inspeção após o acidente de 1967 140 .Séculos XIX.João Gonçalves de Sousa. americano e nacional para. presidente da República. Antônio Gallotti. presentemente. presidente da Light e Geremias Fontes. Castelo Branco e Gallotti.A História das Barragens no Brasil . tendo passado de grupos francês. ministro extraordinário para coordenação dos órgãos regionais. A Light foi estatizada em 1966 e privatizada em maio de 1996. governador do Estado do Rio de Janeiro em inspeção nas usinas geradoras da Light no dia 4 de fevereiro de 1967. Essa hidroelétrica terá 25 MW instalados com elevado fator de capacidade. Figura 20 .Pres. General Ernesto Geisel. Marechal Castelo Branco. XX e XXI No final do século passado foi desenvolvido o projeto da PCH Paracambi.

Inundação da casa de força de Nilo Peçanha. Dr. em 2010 141 . professor da UFRJ.Construção da barragem de terra de Ponte Coberta.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 21 .O atual presidente da Light após ter dirigido a ANA e a ANEEL. ao ser agraciado com o título de Engenheiro Eminente pela Associação dos Antigos Alunos da Politécnica. Jerson Kelman. inspeção de barco Figura 23 . parte da hidroelétrica Pereira Passos Figura 22 .

Alexander Mackenzie. fundador e segundo presidente (1915-28) 142 .

Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A São Paulo Light. no rio Tietê e inaugurada em 1901. superintendente geral da São Paulo Gas Company e G. Fomentadora de Progresso “They (Light) say now that they could deliver half a million more horse-power from this place alone (Cubatão).” Figuras 1a e 1b . Anderson. nova importante reabilitação foi feita. 143 . incluindo fornecimento de gás. serviços de bondes e ônibus. and this is but one of the several places that stand around São Paulo and sell more power to its elbow”  Rudyard Kipling* * “Eles (Light) afirmam agora que podem fornecer meio milhão de cavalos-vapor somente deste local (Cubatão). Nos anos 80.H. Foram introduzidas três comportas de segmento com capacidade de 800 m³/s. e esse é apenas um dos diversos lugares que se situam no entorno de São Paulo e que poderão vender mais energia para todos seus cantos. tesoureiro presidente da Companhia Telefônica Brasileira. Seylaz. A barragem foi construída em alvenaria de pedra com vertedouro de superfície livre em quase toda a extensão de sua crista. Armando José da Silva Neto e Flavio Flavio Miguez Miguez de de Mello Mello Em 1899 o advogado canadense Alexander Mackenzie fundou a The São Paulo Railway. passando a ter 18. Light & Power Company e iniciou imediatamente a construção da hidroelétrica de Parnaíba.Desde os primeiros anos a Light constituiu diversas outras empresas de serviços em São Paulo e no Rio de Janeiro. tendo sida aumentada a capacidade de descarga do vertedouro. Em 1954 a antiga casa de força foi substituída por uma estação de recalque com unidades reversíveis e a barragem foi alteada em seis metros através de contrafortes e lajes planas. Edgard de Souza foi a primeira de uma série de obras hidráulicas executadas nas proximidades da cidade de São Paulo dos últimos dois anos do século XIX até meados do Século XX.5 m de altura. posteriormente denominada Edgard de Souza. considerando a extrema alteração nos coeficientes de escoamento da área de drenagem devida à intensa ocupação urbana da cidade de São Paulo e de cidades vizinhas. situada na cachoeira do Inferno. Nas fotografias L. telefonia. A capacidade instalada inicial era de 2 MW.E.

com duas unidades de 9. Como elemento de impermeabilização foi executada uma cortina de estacas prancha na linha de centro da barragem.3 MW. De montante para jusante. tendo posteriormente dado nome à barragem e à usina. A logística era muito difícil. A casa de força foi também reabilitada e voltou a operar em 1989. em apenas onze meses. tinha o caráter provisório. A Light descobriu duas unidades Francis de 9 MVA em fabricação no exterior.A História das Barragens no Brasil .G.Séculos XIX. a tomada d’água do canal de adução teve reforço em seus contrafortes e a tomada d’água da casa de força teve tratamento de sua fundação por injeção de calda de cimento a alta pressão com cracagem do solo. construísse. tratamento este que só havia sido feito na fundação da barragem de Balbina. A coluna Miguel Costa – Prestes iniciava a sua longa marcha. engenheiro americano de elevada competência que vinha de obras na Espanha e no México. XX e XXI Com o objetivo de regularizar as afluências à usina de Edgard de Souza. O empreendimento foi feito em duas etapas: a usina de Cubatão e a usina de Henry Borden que operavam em paralelo. A barragem é de terra com 15. com 20 m de altura é em arco gravidade. as comprou e as trouxe para São Paulo. foi construída em 1906 a barragem de Guarapiranga situada no principal afluente do rio Pinheiros. A barragem teve tratamento de concreto projetado no paramento de montante. o solo foi transportado por tração animal e compactado apenas com a passagem das carroças. o que demandava explosivos nessa época tão explosiva. tributário do rio Tietê. A usina. aproveitando canal escavado pelos escravos de um proprietário de terras na região de nome Fernão Paes de Barros quase um século antes com a esperança nunca concretizada de achar ouro no leito do rio Tietê. a hidroelétrica de Rasgão. O canal aberto à mão teve que ser ampliado e as fundações escavadas. a maior carroça transportava no máximo 15 toneladas e as estradas eram de tráfego precário. mas operou até 1961 quando foi paralisada devido a excesso de percolação sob a tomada d’água da usina. A época era convulsionada por movimentos revolucionários tenentistas como o de 5 de julho que ocupou São Paulo por semanas. A barragem. o circuito inicia-se pela barragem de Figura 2 – Ferdinand M.1 MW cada. O País entrava em estado de sítio. O maior empreendimento foi conduzido por Billings: o chamado Projeto da Serra que aproveitava descargas derivadas da bacia do rio Tietê para a baixada Santista.000 m³ foi proveniente de área de empréstimo escavada à mão. Nos anos oitenta as estruturas civis da barragem e das duas tomadas d’água do canal de adução e da casa de força foram reabilitadas tendo em vista o elevado estado de deterioração e os preocupantes resultados das análises de estabilidade que foram realizadas.6 m de altura e 1500 m de crista. Uma cheia extraordinária nos anos oitenta fez com que fosse executado um vertedouro adicional na ombreira esquerda. a Light adquiriu da Empresa de Eletricidade de Sorocaba a concessão da hidroelétrica de Itupararanga e concluiu as obras em 1914 com três unidades de 11. injeções de calda de cimento sob a laje executada no pé de montante e teve reforço por atirantamento. Seu volume de 505. No início da segunda década do século passado. A intensa estiagem de 1924 fez com que Asa White Kenney Billings. Budweg 144 . inaugurada em 1925. O canal ficou sendo conhecido por Rasgão.

Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Pirapora no rio Tietê a montante do reservatório de Rasgão. Essa barragem represa as águas até a estação de recalque de Edgard de Souza. Considerando a impossibilidade do deplecionamento do reservatório durante a construção por serem baixas (6.6 milhões de habitantes em 1955 para 15 milhões em 1990. revertendo o curso do rio Tietê. sendo esta amortecida no reservatório previamente rebaixado. houve a necessidade de ampliação da capacidade de descarga vertida e a proteção à cidade de Pirapora do Bom Jesus que se situa logo a jusante da barragem. Essa cidade era inundada a partir de descargas de 480 m³/s.40 m) as duas comportas de segmento que ocupam quase toda extensão da crista da barragem. concluída em 1956. Com as expressivas alterações dos coeficientes de escoamento que ocorreram em sua área de drenagem devido à intensa ocupação urbana que passou de 3. A condicionante de projeto era conseguir um esquema que permitisse Figura 3 – Esquema do lake piercing o deplecionamento do reservatório antes da chegada do pico da cheia. é provida de um vertedouro de superfície com duas comportas de segmento de 830 m³/s de capacidade. Essa barragem de 43 m de altura em concreto gravidade. a solução Figura 5 – Instante da detonação do septo de rocha Figura 4 – Execução da ensecadeira dentro do túnel 145 .

XX e XXI encontrada pelo engenheiro Ferdinand M.Séculos XIX.Vertedouro da barragem de Pirapora 146 146 . de acordo com o projeto original.G.A História das Barragens no Brasil . tendo sido escavado um túnel de jusante para montante com extensão de 168 m e seção de 48 m² pela ombreira direita até bem próximo ao fundo rochoso do reservatório onde. solução única no País. foi construída uma ensecadeira de terra no interior Figura 6 – Saída do túnel em operação Figura 7 . Budweg foi a execução de um lake piercing. Em seguida foram instaladas duas comportas de segmento no interior do túnel. As obras foram realizadas no início dos anos noventa. deveria ter sido escavada uma depressão (rock trap) para receber a rocha quando da abertura final.

presidente de 1925 a 1941 147 . A obra que incluiu também alargamento da calha natural do rio a jusante da barragem. O circuito hidráulico do Projeto da Serra inclui a barragem e a estação de recalque de Edgard de Souza. A capacidade de descarga da barragem passou para 1450 m³/s. Essas duas barragens fazem com que o rio Tietê flua de jusante para montante. não mais ocorrendo inundações na cidade de Pirapora do Bom Jesus. situada a montante de Pirapora.Barragem de Pedreira ou do Rio Grande do túnel para proteção das comportas quando da detonação final e detonada uma carga que abriu a entrada do túnel pelo fundo do reservatório.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 8 – A estação de recalque de Edgard de Souza Figura 9 . foi concluída com sucesso em 1993. penetrando no rio PinheiFigura 10 – Miller Lash.

quatro dos quais feitos como aterros hidráulicos e os restantes por transporte animal e compactação apenas pelo tráfego das carroças. e Henry Borden. XX e XXI ros que também flui de jusante para montante pela ação das elevatórias de Traição e Pedreira implantadas no período 1938-1940. presidente de 1941 a 1944 e formigas) como afirmou Billings em palestra realizada em Londres em 1936. O Projeto da Serra era concluído pela condução das vazões com 710 m de queda bruta para as casas de força de Cubatão. com seis unidades idênticas de 88 MW 148 .A História das Barragens no Brasil . Além dessa barragem. alimentando a represa de Billings e daí o reservatório da barragem de Rio Das Pedras. o reservatório de Billings é fechado por outras 13 barragens ou diques.50 m. A barragem de Pedras é uma estrutura de concreto em arco gravidade com 35 m de altura concluída em 1926. represando as águas na elevação 728. além de ser um elemento impermeabilizante. As águas estocadas na represa de Billings acessam o reservatório da barragem de Pedras situada na crista da serra do Mar onde o rio das Pedras inicia uma sucessão de cachoeiras e corredeiras em direção à Baixada Santista. foi também concebido como “protection against burrowing animals and ants” (proteção contra roedores Figura 13 . Gallotti. com 25 m de altura e contendo um diafragma de concreto armado central que vai das fundações até o nível d’água máximo normal do reservatório de Billings. último presidente da Light envolvendo Rio de Janeiro e São Paulo (1965 a 1974) Figura 11 – Sir Herbert Couzens. um em cada lado das estruturas de concreto da estação de recalque. subterrânea. O diafragma. a céu aberto com oito unidades no total de 661 MW. A barragem de Pedreira ou do Rio Grande é constituída por dois aterros hidráulicos.A.Séculos XIX.

instaladas pela Rio Light em 1953. seguidas pelas quatro unidades da elevatória de Vigário. Todas unidades são com turbinas Pelton. A usina de Henry Borden era a ampliação da usina de Cubatão.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens cada. sendo restrito a ocasiões de ocorrência de precipitações intensas com o objetivo de minimizar as consequências das enchentes na cidade de São Paulo e no vale do rio Tietê. perda de geração do Projeto da Serra que tanto progresso garantiu a São Paulo. o bombeamento para o reservatório de Billings foi praticamente suprimido. A instabilidade natural das encostas da Serra do Mar foi um dos fatores para que Karl Terzaghi recomendasse que a casa de força de Henry Borden fosse subterrânea.Seção transversal da elevatória de Traição 149 . por imposições ambientais. Dignas de nota são as unidades das elevatórias de Traição e Pedreira que foram as primeiras unidades reversíveis a serem instaladas no mundo. portanto. Houve. Nos anos recentes. Figura 12 .

150 .

foi transformada no Departamento 151 . Com a redução da população de mosquitos a malária foi erradicada a ponto de muitas pessoas não saberem hoje que ela existiu.DNOS foi um órgão federal que. criada em 1933. construiu obras hidráulicas para diversos fins em todo o Brasil. para o saneamento da baixada fluminense. que na época era doença endêmica na região em torno da cidade do Rio de Janeiro. a dimensionar a drenagem apenas para escoar as águas da chuva em um prazo que impossibilitasse a reprodução dos mosquitos e permitisse a utilização da terra para criação de gado. que não levaram em conta a vulnerabilidade a inundações de parte da área. que na época era a principal atividade econômica da região. A ênfase no objetivo sanitário levou. Por outro lado. o que faz com que hoje muitos logradouros. incluindo grande número de barragens. os municípios da Baixada Fluminense permitiram a urbanização destas terras com loteamentos inadequados. principalmente mediante abertura de canais e construção de diques. em grande parte devido à atuação de seu diretor.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens As Barragens do Departamento Nacional de Obras de Saneamento . cujos extensos alagadiços formavam um ambiente favorável à procriação de mosquitos transmissores da malária.DNOS Paulo Poggi Pereira A origem O Departamento Nacional de Obras de Saneamento . Engenheiro Hildebrando de Araujo Góes. Ele originou-se de uma comissão. Figura 1 – Barragem de Macabú Em 1940 a Comissão para o Saneamento da Baixada Fluminense. Os trabalhos se destinavam a drenar as terras e protegê-las contra inundações. em certos casos. entre 1940 e 1990. moradias e empresas sejam periodicamente inundados. após a Segunda Guerra Mundial.

com boas condições de fundação para barragens deste tipo. ocorreram problemas técnicos imprevistos nas obras. construída em concreto simples com relativamente pouco cimento. O Quadro 1 apresenta a localização e as características principais destas obras. concluída em 1949. reunidas de acordo com suas finalidades. o que fez do DNOS. mas estendeu sua atuação para todo o território nacional. Era difícil fiscalizar os trabalhos de modo a garantir a correta colocação das pedras de mão. ao longo de seus 50 anos de existência.A História das Barragens no Brasil . tendo sido impermeabilizado posteriormente mediante injeções de calda de cimento. Não se dispunha de areia adequada no local nem muita experiência neste tipo de concreto na época. os operários colocavam manualmente pedras de mão. Nos itens seguintes são apresentadas informações sobre estas barragens. Uma vez que as tensões que ocorrem numa barragem tipo gravidade. Uma solução interessante foi a estabilização provisória do teto de um túnel que tinha 1200 m de extensão e seção circular com 9. e ao final será descrita sumariamente a sistemática utilizada para realizar os trabalhos de construção e a atuação dos engenheiros que lideraram o DNOS. é do tipo arco-gravidade. XX e XXI Nacional de Obras de Saneamento. Como de costume. a entidade nacional que construiu barragens com a maior diversidade de funções. o que poderia resultar na abertura de trincas no maciço. logo após seu lançamento e durante sua vibração. porque o cimento poderia ter sua pega prejudicada pelas temperaturas excessivamente baixas. são pequenas. Depois foram sendo atendidas solicitações para construção de barragens de outras finalidades. os quais foram sendo resolvidos pelos engenheiros do órgão. passando depois a atuar em outros estados. A primeira barragem de grande porte foi a de Capingui. não muito alta.00 m de diâmetro após ser revestido. soltavam-se blocos de rocha do teto. o concreto desta 152 . Com uma única exceção todas elas foram feitas de concreto. A partir de 1944 o DNOS foi encarregado de construir barragens para usinas hidroelétricas. mas com fissuras. Hidroeletricidade Quando acabou a Segunda Guerra Mundial o DNOS começou a construir barragens do programa de eletrificação do estado do Rio Grande do Sul. face à necessidade de cumprir prazos. adotou-se dosagens modestas. bastante resistente. não mais que 200 kg de cimento por m 3. e evitar que o aquecimento que ocorre durante sua hidratação aquecesse o concreto além do limite aceitável. Duas destas barragens foram feitas com concreto ciclópico.Séculos XIX. aproveitando o fato de que os locais de implantação eram rochosos. por este motivo. A rocha local era basalto. primeira obra não foi feito com a necessária impermeabilidade. naquela época ainda não existia a Eletrobras nem outro organismo com a atribuição de aplicar recursos federais em eletrificação. havendo casos em que foi de apenas um metro. para fazer frente ao alto custo do cimento na época. apoiando programas de eletrificação dos estados. o que eventualmente acidentou alguns operários. Alguns dias após a escavação de alguns metros do túnel. confeccionado com brita de granulometria pouco mais graúda do que o normal no qual. em todas as outras obras foi utilizado equipamento capaz de preparar e colocar concreto feito com agregados maiores. Uma providência necessária nas obras feitas no planalto do Rio Grande do Sul foi interromper a concretagem quando a temperatura ambiente ficava muito próxima de zero graus centígrados. não exigindo grande resistência. com este mesmo objetivo limitava-se a espessura de cada camada de concreto colocada durante a construção. e não foram adicionadas as pedras de mão. que continuou trabalhando ativamente na Baixada.

e funcionou perfeitamente. impedindo quaisquer outros desabamentos. engastado na rocha de fundação. foi executado com equipamento e material disponível na obra. cujo diretor técnico Figura 2 – Barragem de Glicério 153 . apoiando o teto nas paredes laterais. dispensou a importação de roof bolts. O sistema empregado evitou colocar os operários em risco perfurando o teto do túnel. pela empresa Estacas Franki. chamadas roof bolts. na concorrência para execução da obra. que consistia em um muro vertical de concreto protendido. algumas horas após a abertura de cada trecho de túnel. Nos Estados Unidos eram realizadas estabilizações deste tipo perfurando a rocha do teto do túnel e introduzindo nos furos hastes metálicas especiais. que prendiam os blocos de rocha superficiais à rocha mais distante da superfície da escavação.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A solução encontrada foi implantar uma abóbada de concreto simples bombeado. O projeto foi proposto como variante. Uma novidade tecnológica que o DNOS precisou enfrentar foi a construção da barragem de Ernestina.

que foi ao longo de toda a vida um grande engenheiro entusiasta de tecnologia de ponta. todas as demais obras para hidroeletricidade foram do tipo gravidade. Como não havia condições para alterar o projeto. na Bahia. britas e pedras arrumadas separando o enrocamento da areia da fundação. construídas em concreto simples. barragem de Passo Fundo. o DNOS ficou encarregado apenas da orientação técnica e da fiscalização das obras. Figura 3 . e venceu a barragem tipo gravidade aliviada. O projeto original desta obra previa um maciço de enrocamento apoiado em fundação de areia. que foi construída em contrafortes sustentando lajes planas de concreto armado. ficou compreensivelmente apreensivo com relação à solução dada para a fundação. com uma delgada camada de barragens destinadas a hidroeletricidade. provindo os recursos da Eletrobras e do governo do estado do Rio Grande do Sul. uma estrutura tipo gravidade aliviada. comentou que só ficaria tranqüilo se o projeto previsse a remoção da areia e a colocação do enrocamento diretamente sobre a rocha subjacente.A História das Barragens no Brasil . XX e XXI à época era o professor Costa Nunes. mas este tipo de obra nunca mais foi adotado. no Rio de Contas. uma vez que já existia entidade federal com a incumbência específica de promover a eletrificação do país. Na última obra de que participou. foi admitida a apresentação de variantes na concorrência para execução da obra. Engenheiro Camilo de Menezes.Séculos XIX. Em 1973 o DNOS encerrou suas atividades na construção de A única barragem mais sofisticada foi a de Pedra.Seção transversal da barragem de Pedra 154 . com uma altura máxima de 65 m a partir da fundação rochosa. A barragem foi construída pela empresa proponente e funcionou adequadamente. Com exceção da barragem de Canastra. preferindo-se sempre soluções mais simples e menos ousadas. O diretor geral do DNOS na época.

O sangradouro é do tipo labirinto. o sangradouro foi localizado. As barragens de Riachão e Pacoti formam um único reservatório. formado por um muro vertical engastado em uma laje horizontal ancorada na rocha de fundação. informando a localização das mesmas. que regulariza a contribuição do Rio Pacoti. dotada de comportas. Ceará. no único local da área onde existe rocha a profundidade adequada. e tem fundação em terra. enquanto na outra alça vão sendo removidos os sedimentos que se depositaram enquanto ela esteve em operação.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 4 – Barragem de Pedra Abastecimento de água a cidades O Quadro 2 relaciona as barragens construídas pelo DNOS para abastecer cidades. a duplicação destina-se a ter uma alça conduzindo lentamente água para ser captada. A Barragem do Rio das Velhas. suas características e os anos de conclusão das obras. ponto este 155 . Sua característica mais marcante é a calha do rio ter sido bifurcada em duas alças mediante dragagem. e escoam para jusante as vazões excedentes do rio. através de um túnel. a qual é depois aduzida por gravidade. algumas delas têm características interessantes. ao reservatório que abastece Fortaleza. Minas Gerais. integrante da tomada d’água do sistema adutor constr uído pelo DNOS para abastecer Belo Horizonte. é de concreto armado.

000 hectares de arroz no município de Camaquã. A barragem do Arroio Duro fornece água para essa irrigação. no rio São João. com fundação em rocha. Só foi encontrada rocha em uma pequena ilha. na qual foi então implantado o sangradouro em labirinto. a tomada d’água e a descarga de fundo. com funda- Figura 5a – Usina hidroelétrica de Passo Fundo . só tomando precauções para impedir que a água se aproximasse do maciço da barragem do Pacoti. O restante da barragem foi construído em terra. em cada ano. dispensou-se o revestimento do canal de restituição. fornece água para abastecimento das cidades da Região dos Lagos. Aproveitando a existência de rocha de boa qualidade no local. porém simples. sobre fundação de argila mole. deixando-se a água escoar pelo terreno após seu vertimento. obras estas realizadas em concreto.casa de força e adução encontrado através de uma extensa. ela foi projetada após uma campanha de furos de sondagem a percussão. Irrigação O grande sucesso do DNOS em matéria de irrigação foi o projeto que irriga aproximadamente 15. A barragem é de terra. com o objetivo de conhecer os locais onde havia rocha subjacente. a área que pode ser irrigada. com base no volume acumulado. realizados ao longo do eixo previsto para Figura 5b – Usina hidroelétrica de Passo Fundo .Séculos XIX. autorizandose então o respectivo plantio.condutos forçados 156 . XX e XXI a obra. no Rio Grande do Sul. A barragem de Juturnaíba. pesquisa realizada por sondagens a percussão. no Estado do Rio de Janeiro. é avaliada.A História das Barragens no Brasil . Da mesma for ma que a bar ragem acima mencio­­ nada.

para abaixar satisfatoriamente o nível d’água naquela cidade. imediatamente a jusante da barragem. O Quadro 3 relaciona as barragens construídas pelo DNOS para irrigação. Controle de cheias As primeiras barragens para controle de cheias do DNOS foram construídas no Vale do Itajaí. que recolheria as infiltrações.000 ha para formar a reserva de mico-leão dourado de Poço d’Antas. mas o Estado de Santa Catarina a concluiu em 1992 e ela está funcionando a contento. mas este pedido não foi atendido. por outras de maior vão. sub-produto malcheiroso da indústria de cana de açúcar. mas a barragem não apresentou nenhum problema. a jusante da barragem. Outras barragens para controle de cheias foram as de Tapacurá.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens ção também em terra. Goitá e Carpina. mediante substituição por outra área equivalente para compor a reserva. o rio teve sua capacidade aumentada mediante regularização e alargamento de sua calha. em concreto gravidade. que só foi executada entre as cidades de Blumenau e Gaspar. e informa suas localizações. realizadas após a entrada em operação da obra. planejou-se implantar irrigação de hortigranjeiros em uma área localizada na margem esquerda do canal do rio São João. Foi solicitada a sua liberação. mencionada no ítem sobre abastecimento urbano. O controle de cheias de Recife incluiu. foi desapropriada uma área de mais de 20. Terminou sendo necessário complementar as barragens com dragagem do rio Itajaí a jusante de Blumenau. para proteger Blumenau e outras cidades do Vale. Algumas medições de pressão intersticial na fundação. Tapacurá é utilizada também para fornecer água destinada ao abastecimento de Recife. a partir da barragem. no Estado de Pernambuco. com o crescente desenvolvimento de Cabo Frio e outras cidades litorâneas. o que é indispensável para evitar a salinização do solo. a canalização do rio Capibaribe na área urbana daquela cidade. e sua cota era suficientemente alta para ter boa drenagem. Iniciou-se pela Barragem Oeste. para implantar o projeto. além de outros cuidados habituais. o projeto previu uma cortina delgada de solo-cimento para vedação e um filtro instalado em uma trincheira situada no pé do talude de jusante. que é liberado somente quando as vazões do rio Capibaribe aumentam a ponto de serem capazes de diluir e dar escoamento ao vinhoto sem criar problemas ambientais. como também operar as mesmas liberando vazões 157 . Infelizmente os locais onde podiam ser construídas barragens naquele vale não possibilitavam controlar a maior parte da bacia contribuinte. sem beneficiar esta última cidade nem a área a jusante da mesma. esta desapropriação incluiu a área onde se previa o projeto de irrigação. abortando assim o projeto de irrigação. características e ano de conclusão. na bacia do Rio Capibaribe. Quando estavam terminando as negociações com uma cooperativa. e substituição de duas pontes. Alguns anos depois os jornais noticiaram a chegada de mico-leões dourados importados da Flórida. para depois constr uir em terra a Barragem Sul e finalmente a Barragem Norte. e Goitá é utilizada para reter vinhoto. graças ao bom funcionamento do filtro. Para controlar as infiltrações na fundação. Estas obras aumentaram a capacidade da calha. o reservatório de Juturnaíba tornou-se fundamental para abastecimento urbano de água na denominada Região dos Lagos do Estado do Rio. o DNOS não terminou a construção desta última. A atual contribuição da barragem para irrigação resume-se em disponibilizar água para os fazendeiros que quiserem irrigar suas plantações captando água no rio São João. Quando foi projetada a barragem de Juturnaíba. para povoar a reserva de Poço D’Antas. não indicaram funcionamento adequado da cortina de vedação. Entretanto. Infelizmente o DNOS foi extinto antes de completar esta dragagem. além das barragens. relativamente curtas. possibilitando não só escoar sem extravasamento as vazões provenientes da área da bacia contribuinte não controlada pelas barragens. caso a cortina não funcionasse adequadamente. Estados Unidos. em Santa Catarina. Esta área podia ser abastecida de água por gravidade.

RS. Algumas outras barragens do DNOS fazem controle de cheias como objetivo secundário. retendo os deflúvios e liberando-os aos poucos. retendo em seus reservatórios apenas uma fração da cheia condizente com a capacidade dos mesmos. sendo o caso das barragens de Pedra.Séculos XIX. inundações a jusante. Trata-se de uma barragem de concreto simples tipo gravidade. para evitar enchentes na cidade. 158 . Pampulha. evitando assim. cujo reservatório só enche quando ocorrem chuvas fortes. concluída em 1982. XX e XXI Figura 6 – Barragem e diques de Tapacurá relativamente grandes. O Quadro 4 relaciona as barragens construídas pelo DNOS para controle de cheias e informa suas localizações. Flores. na cidade de Bagé. que permitiu sua eventual inundação. características e ano de conclusão. A última barragem de controle de inundações construída pelo DNOS foi Arroio Gontam. Passaúna e Juturnaíba.A História das Barragens no Brasil . A característica especial desta obra é o fato do reservatório estar situado em terras do Exército.

pelo Canal de São Gonçalo. o qual drena a Lagoa Mirim. e. nos parágrafos abaixo menciona-se a finalidade das mesmas e acrescenta-se alguns detalhes. prejudicando a irrigação. informando suas localizações. Figura 7 – Barragem e Sangradouro de Arroio Duro Figura 8 – Barragem de Carpina 159 . situada no extremo sul do Brasil e é partilhada com o Uruguai.CINQUENTA ANOS DO COMITÊ BRASILEIRO DE BARRAGENS Finalidades diversas O Quadro 5 relaciona barragens construídas com finalidades diversas. frequentemente entrava água salgada do oceano na lagoa. características técnicas e ano de conclusão. durante a estiagem. Esta lagoa é usada intensivamente como fonte de água para irrigação de arroz em ambos os países. A mais importante destas barragens é a do Canal São Gonçalo.

Para executar a obra foi aberto um canal de desvio com 120 m de largura e a calha do rio foi inteiramente aterrada no local previsto para a barragem. A barragem possui comportas que são fechadas por ocasião das estiagens. Esses sedimentos passaram a ficar retidos no reservatório da barragem de Santa Lúcia. A pequena Barragem de Santa Lucia foi construída na zona urbana de Belo Horizonte. mas serve também como fonte de água para irrigação. ao lado da cidade de Pinheiro. uma vez que qualquer mudança de posição poderia provocar divagações do leito do rio com graves conseqüências. e atravessa o canal. e o DNOS a reconstruiu. de modo a não interferir no acesso marítimo àquela cidade. prejudicando seu escoamento. esta lagoa integra a drenagem da área. produziam muitos sedimentos que assoreavam a calha do rio. na região de Campos – Rio de Janeiro. em Belo Horizonte. Em cota um pouco mais alta há uma passarela onde estão instalados mecanismos de comando das comportas. depois de alguns anos. A barragem que existia na Pampulha. no topo da qual foram instaladas comportas basculantes. Suas 160 . criação de gado e irrigação. ao longo destes anos a urbanização ficou mais consolidada e diminuiu a produção de sedimentos que causavam problemas. um dos dissipadores de energia das comportas funciona também como eclusa. engastada em fundação de areia e cascalho. Por outro lado. A barragem do Canal da Flecha tem como finalidade controlar o nível da água na Lagoa Feia. o grande desenvolvimento que aconteceu recentemente nesta última cidade aumentou a importância da disponibilidade garantida de água doce criada pela barragem. possibilitando o acesso de embarcações vindas do mar até a cidade de Pinheiro. Os movimentos de terra realizados na bacia do rio Leitão. mantendo o espelho d’água. que recebe a contribuição de grande parte dos rios e canais da planície existente entre a margem direita do rio Paraíba do Sul e o mar. o que torna importante controlar seu nível. MG. XX e XXI Após entendimentos com a República do Uruguai. prejudicando ou interrompendo as utilizações de água acima mencionadas. A barragem de Chapéu D’Úvas controla parcialmente as cheias do rio Paraibuna e aumenta a vazão de estiagem do rio. existe ali uma área alagada. uma fábrica de cimento situada em Porto Alegre é abastecida com matéria prima vinda do Uruguai em barcaças que passam pelo Canal. e são fechadas na estiagem para impedir que a água salgada do Oceano Atlântico penetre na Lagoa. Quando necessário. o que proporciona um acréscimo de energia firme em cinco usinas hidroelétricas existentes a jusante. Periodicamente ocorrem grandes estiagens. MG. onde é obtida água para o abastecimento da cidade. o reservatório da referida barragem ficou completamente assoreado. com 231 m de comprimento. Após a conclusão dos trabalhos a areia usada para o aterramento foi retirada completamente e o canal de desvio foi reaterrado. que resultam em retração da lâmina d’água do alagado e intrusão de língua salina proveniente do oceano. impedindo a penetra ção da língua salina e garantindo a disponibilidade de água doce. para permitir fácil captação e adução de água doce para abastecimento de Pelotas e do porto de Rio Grande. A barragem é constituída por uma estrutura de concreto com uma cortina profunda de concreto armado. e.Séculos XIX. Para manter a navegação. houve empenho em construir a obra exatamente na calha do rio.A História das Barragens no Brasil . A região é aluvionar. Maranhão. rompeu por erosão interna em 1954. para permitir a continuação da navegação fluvial. o alagado também é utilizado para navegação. durante a urbanização da mesma. mas a curta distância. por causa disso. A barragem foi localizada a montante da cidade de Pelotas. O projeto previu uma eclusa. com a dupla finalidade de controlar as cheias do rio Leitão e reter seus sedimentos. Outra barragem que impede a salinização de manancial de água doce é a do rio Pericumã. O barramento é de pequena altura. as comportas são abertas para deixarem escoar o eventual excesso de água da Lagoa Mirim. o Governo incumbiu o DNOS de construir uma barragem para impedir a entrada de água salgada na Lagoa. além de aumentar a disponibilidade de água para o abastecimento de água de Juiz de Fora.

para comunicação entre seus escritórios. face às grandes distâncias a percorrer e à deficiência das estradas. mas nos primeiros 25 anos de construção de barragens os trabalhos de fiscalização. morto em 1950 ao regressar de uma viagem para contato com a Administração Central do DNOS. Os engenheiros do órgão passaram a fiscalizar o trabalho das consultoras que realizavam os trabalhos topográficos. mas ambas as barragens ficaram em excelentes condições. proibindo inclusive que fizessem refeições juntos. de controle dos serviços. quase sempre de avião. além disso. foram realizados por funcionários do próprio DNOS. Em pelo menos duas obras. o DNOS montou uma rede de rádio que chegou a ter 50 estações. Antes da adoção de motores a jato e equipamentos modernos para voo por instrumentos aconteciam muitos acidentes. A Barragem Mãe D’Água foi construída para fornecer água para o laboratório do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Neste sentido recorreram. O primeiro deles foi com José Maia Filho. que bateu em um morro tentando pousar em Porto Alegre com pouca visibilidade. ao IPT de São Paulo. seus engenheiros tinham que viajar com freqüência. Sempre foi uma preocupação dos dirigentes promover a capacitação dos engenheiros do órgão. e face à precariedade do Departamento dos Correios e Telégrafos (DCT) e do sistema telefônico. ao invés de partir das cabeceiras. Tendo em vista que as atividades do DNOS se desenvolviam em praticamente todos os estados da Federação. A orientação técnica do DNOS foi muito influenciada pelo Engenheiro Otto Pfafstetter. controla parte das vazões que escoam pelo rio Mearim. etc. Havia estações de rádio nas barragens e outras obras importantes. são de difícil definição. destinado à organização de cadastro nacional de cursos d’água. funcionário do órgão. para que pudessem cumprir adequadamente suas tarefas. fornece água para irrigação. amortecendo as vazões do rio Pampulha. ajudando a diminuir as enchentes que inundam a cidade de Bacabal e pode ser usada para aumentar a vazão do rio Mearim durante a estiagem. para proporcionar estágios em 161 . mas meia dúzia de outros países o adotaram. em um avião Constellation da VARIG. incluindo a locação. lazer e paisagismo. A barragem do Flores. existentes na época. que é um afluente do rio Mearim. entre outras entidades. no Rio de Janeiro. o laboratorista e os demais funcionários. de laboratório. Foi autor de importantes trabalhos técnicos. as quais. como o livro “Chuvas Intensas no Brasil”. e seu nome foi dado a uma barragem que o DNOS construiu naquele estado. o topógrafo. As instalações para construção de cada barragem incluíam um conjunto de casas onde ficavam alojados o engenheiro residente. Este sistema não é utilizado no Brasil. Sendo o DNOS um órgão nacional. esta numeração parte da foz dos rios e segue para montante. podendo-se citar as barragens Engenheiro José Batista Pereira. ao US Bureau of Reclamation dos Estados Unidos e até mesmo à UNESCO. A organização dos trabalhos A construção das barragens sempre foi realizada por empresas empreiteiras. medição e controle de qualidade das obras. que correm paralelamente à pista do aeroporto da cidade a jusante da barragem. e realiza também controle de cheias. Outro trabalho muito interessante dele foi um sistema para designação de número de registro de trechos de cursos d’água. facilitando assim a navegação. Nos seus últimos 15 anos de atividade o DNOS passou a contratar empresas para realizar os trabalhos técnicos de controle da construção de barragens. a empresa consultora procurou evitar relacionamento entre seus engenheiros e os engenheiros da empresa construtora. que tinham assim possibilidade de comunicação diária com os escritórios regionais e mesmo com a sede do órgão. Não se sabe se esses cuidados eram realmente necessários.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens finalidades são recreação. Tapacurá e São Gonçalo. autor de muitos projetos de obras importantes. muitas vezes. Ele dirigia o Distrito do Rio Grande do Sul. seus laboratórios de solos e concreto.

primeiro Diretor do DNOS Camilo de Menezes.A História das Barragens no Brasil . O Diretor-Geral solicitou que o arquivo lhe remetesse os documentos referentes a este assunto de volta. O Diretor Geral encaminhou o assunto ao homenageado. Dirigiu o Figura 10 . a quem se queria homenagear. Diretor-Geral do DNOS de 1946 a 1961 162 . morreu num desastre de avião em serviço. Os Gestores O primeiro Diretor do DNOS foi Hildebrando de Araújo Góes. conforme havia sido solicitado. XX e XXI órgão até o ano de 1946. como fazia o Departamento Nacional de Obras contra as Secas naquela época. fazendo inclusive os levantamentos topográficos necessários para isto. Figura 9 Hildebrando de Araújo Góes. quando Getúlio Vargas era Presidente da República. o DNOS começou a adquirir este equipamento e contratar sua operação com empreiteiros. engenheiro Raimundo Cláudio Correia Leitão a uma barragem que ia ser construída no estado onde ele havia nascido. Os funcionários do DNOS orientavam e fiscalizavam os trabalhos. Como a grande maioria das empresas não dispunha de escavadeiras para abertura de canais. Uma característica comum aos dois primeiros diretores foi continuar estudando assuntos de engenharia enquanto exerciam a direção do órgão. foi presidente da CHEVAP e diretor da Escola de Engenharia da Universidade Federal Fluminense. com problemas tecnológicos ainda pouco conhecidos no país. Foi então dado o seu nome à barragem. que respondeu escrevendo que preferia continuar vivo. que na época era a capital federal. Ele estabeleceu o sistema de trabalho pelo qual as obras eram executadas por empresas. uma vez que há uma lei proibindo dar nome de pessoas vivas a obras do governo. Após deixar a direção do DNOS. quando foi ser prefeito do Rio de Janeiro.Engenheiro Camilo de Menezes. engenheiro do órgão. tendo ficado 15 anos no cargo. Expandiu as atividades do DNOS para quase todos os Estados e enfrentou com sucesso o desafio da construção de grande número de barragens. Muitos anos depois houve um abaixo assinado pedindo para dar o nome do Diretor de Obras do DNOS na época. como às vezes fazia. foi o Diretor-Geral seguinte. em vez de serem construídas por administração direta. Antes de transcorrer um ano o engenheiro Leitão. e promoveu sua transformação em Departamento Nacional de Obras de Saneamento em 1940. que assumiu a chefia da Comissão de Saneamento da Baixada Fluminense na sua fundação em 1933. após passado um ano.Séculos XIX.

em cuja gestão foram executados aterros para saneamento de favelas no Rio de Janeiro. Provavelmente o fabricante das máquinas não empregava técnicas de obsolescência programada. Deixou o cargo para assumir o governo do estado de Mato Grosso do Sul. engenheiro do DNOS que imprimiu notável organização aos trabalhos. sendo três deles militares. saiu para ser superintendente da Sudene. ao preço total de sete milhões de dólares. inaugurou as obras da adutora do rio das Velhas. . o que fez com grande competência. pagos em café. Em 1967 assumiu o cargo Carlos Krebs Filho. Um aspecto interessante de sua gestão foi a compra de 200 escavadeiras marca Nobas. determinou a extinção do DNOS. As obras e os serviços que o órgão estava executando Nos governos dos presidentes João Figueiredo e José Sarney sucederam-se no DNOS diretores que não eram engenheiros do serviço público federal. mas que se dedicaram ao trabalho com afinco e realizaram excelentes administrações. que desenvolveu atividades voltadas para irrigação no Nordeste e deixou a direção para ser ministro da Irrigação. Após a revolução de 1964 sucederam-se na direção do órgão quatro diretores que ficaram pouco tempo. Harry Amorim Costa. que deu prosseguimento às atividades relacionadas à irrigação no Nordeste e deu grande impulso às obras de controle de cheias no Vale do Itajaí. Diretor Geral do DNOS 163 . Assumiu então Jefferson de Almeida. Faziam parte da compra peças sobressalentes no valor de um milhão de dólares.Paulo Baier. no estado de Pernambuco. com a missão de transformar o órgão em autarquia. Na sua gestão foi concluída a construção da Barragem do São Gonçalo. no rio de Contas. assumiu a direção do DNOS e manteve a mesma sistemática de trabalho.Vicente Fialho .Geraldo Bastos da Costa Reis. depois ministro de Minas e Energia e deputado federal. da Alemanha Oriental. Goitá. ajudado por sua longa experiência como Diretor Geral Substituto. o que conseguiu fazer apesar da renúncia de Jânio Quadros. incluindo a Barragem de Pedra. depois ministro dos Transportes e. Foram eles: . Pacoti e Riachão acima mencionadas. Fez com que as obras e serviços executados para o órgão fossem pagos na ordem cronológica da apresentação das respectivas medições e faturas na tesouraria. Na sua gestão foram concluídas as barragens de Carpina. que seria o último engenheiro da casa a dirigir o DNOS. que aumentou substancialmente o abastecimento de água a Belo Horizonte. estado da Bahia e a Barragem de Tapacurá. Ao tomar posse em 1990 o presidente Collor.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Em 1961 o presidente Jânio Quadros nomeou Diretor Geral do DNOS o engenheiro do DNER Geraldo Bastos da Costa Reis. Estas máquinas prestaram bons serviços de 1964 até a extinção do DNOS em 1990.José Reinaldo Carneiro Tavares. foram realizadas obras de defesa contra inundações em cidades às margens do rio São Francisco e tiveram início os estudos do governo federal para transposição do rio São Francisco para o Nordeste semi-árido. Em 1974 outro engenheiro da casa. mais tarde. governador do estado do Maranhão. Na sua gestão foram concluídas dez barragens. . Figura 11 . necessitando como grandes reparos apenas a substituição periódica dos motores quando acabava sua vida útil e a recomposição da mesa sobre a qual girava o conjunto formado pela cabine e a lança. dirigiu o DNOS até sua extinção.

000 26.000.000.000 10.000.000 50.000 539.. Paula S. vendo-se da esquerda para a direita o Gen.000 15.A História das Barragens no Brasil . em Minas Gerais e a Barragem Norte. Figura 12 . o engenheiro Carlos Krebs Filho.000 5.000 350.000 17. Ministro do Interior.000 16.000 1.50 15 24 6 11 17 9 24 11 8 15 20 19 24.000 370.700. Paula Ijuí Espumoso Poços Caldas Oliveira Sacramento Glicério Angelina Canela Jequié Jaguarí São Valentim Xanxerê UF RS RS RS RS RS RS RS RS RS RS RS RS RS RS MG MG MG RJ SC RS BA RS RS SC RS TIPO / MATERIAL Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Simples Muro de Concreto Protendido Contrafortes / Concreto Armado Terra Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto / Terra ANO DE ALTURA ACUMULAÇÃO CONCLUSÃO VOLUME DO EXTENSÃO RESERVATÓRIO COROAMENTO MÁXIMA MACIÇO(m³) (m³) (m) (m) 3.Inauguração de uma barragem no Nordeste. José Costa Cavalcanti.000 61. até enferrujar completamente no lugar onde se encontravam. somente duas barragens estavam em construção naquele momento: a Barragem de Chapéu D’Uvas. F. ficando sem condições de ser consultado. Simples Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto / Terra PEDRA PASSO FUNDO XANXERÊ FURNAS DO SEGREDO Jaguarí Passo Fundo Chapecozinho Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Simples ITÚ Itaquí Itaquí 164 .000 1. foi entregue ao Arquivo Nacional. Diretor-Geral do DNOS de 1967 a 1974 e o engenheiro Jefferson de Almeida..000 4.750.900 5. F. em Santa Catarina. O arquivo técnico do DNOS.300 24.000.000.000.600 9.500 8..500 119.000 58.. Resumindo.500 11.000 130.000.000 40.275 22.000 390.00/511..000 10.BARRAGENS PARA HIDROELETRICIDADE LOCALIZAÇÃO Nº 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 CARACTERÍSTICAS NOME CURSO D'ÁGUA Ivaí Ijuizinho Capinguí Guarita Forquilha Divisa Santa Cruz Jacuí Santa Maria Sanchuri Guarita Santa Cruz Ijuí Jacuí Antas Jacaré Araguari Macabu Garcia Santa Maria Contas MUNICIPIO Julio Castilhos Santo Ângelo Passo Fundo Passo Missões Marc. F.000. Ramos S.50 3 25 11.000 31.800 2.50 3 22 4. foi destruída uma organização que produzia obras e serviços extremamente benéficos e necessários.000 155 150 220 100 125 239 600 400 174 896 200 507 164 432 200 113 188 256 100 193 440 582 646 505 582 3.800/14.000 6.000 15. Entretanto.500.000 30. Muitas empresas de engenharia que estavam prestando serviços ou executando obras ficaram numa situação financeira dificílima.000.Séculos XIX. 51.800 76.000.000 800 10.000.000 4.000 1..000.500 2.700 35.000 Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Ciclópico Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Ciclópico Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Simples Gravidade Aliviada / Concr..000 IVAÍ IJUIZINHO CAPINGUÍ GUARITA FORQUILHA DIVISA SALTO / BUGRES ERNESTINA CANASTRA SANCHURI JOÃO AMADO BLANG PASSO DO AJURICABA JOSÉ MAIA FILHO BORTOLAN ANIL PAI JOAQUIM MACABU GARCIA LARANJEIRAS 1948 1948 1949 1949 1949 1950 1951 1954 1956 1956 1957 1957 1960 1961 1956 1959 1960 1960 1962 1965 1970 1972 1973 . a construção dessas duas barragens foi concluída alguns anos mais tarde.000. .000.560..000 250. Mais de cem escavadeiras de propriedade do DNOS ficaram paradas no campo. sem que fosse criada uma alternativa. graças à atuação dos estados mencionados.50 65 22 40 15 22 38.000 desenhos de projeto de obras. Por sorte.. que viria a ser Diretor-Geral do DNOS em 1978-1979 QUADRO 1 .000 80.000 400..000 3. que tinha perto de 40. Paula Passo Fundo Canela Uruguaiana Passo Missões S.000.900 18.500 80.000 57.30 42.250 20. Esta última chegou a ter sua vila residencial do canteiro de obras invadida por índios naquela ocasião. XX e XXI foram paralisados.000.

000 **** 165.000.5 400 20 15 9 6.350.500.000 263.500.000 1.000 186.000 2. Dilúvio São Gonçalo Canal Flexa Pericumã Flores Paraibuna MUNICIPIO Belo Horizonte Belo Horizonte Viamão Pelotas Campos Pinheiro Joselandia Juiz de Fora UF MG MG RS RS RJ MA MA MG TIPO / MATERIAL Terra Homogênea Terra Homogênea Terra Homogênea Concreto Armado Concreto Armado Concreto Armado Terra Homogênea Terra Homogênea ANO DE ALTURA ACUMULAÇÃO CONCLUSÃO VOLUME DO EXTENSÃO RESERVATÓRIO COROAMENTO MÁXIMA MACIÇO(m³) (m³) (m) (m) 60.500 2.000.000 1.000 1.000 2.000.360 1.000.950.000 570.000.50 42 38 16 63 78.000 422 438 1720 220 150 365 25 43.000 **** 16.3 15 35 9 30 30 12 **** **** 4.580.000 **** 196.400 16.000 52.000 3.000.000 5.800.887.000.000 150 40 390 1.000.000 **** **** 485 104 715 100 42 295 300 438 320 42 1595 650 3.500.450 920 12 14 17 21 45 4.000 430.940.450.000 775.000 135.000 290.000.000 70.BARRAGENS PARA ABASTECIMENTO URBANO LOCALIZAÇÃO Nº 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 BATATÃ PRETO DO CRICIUMA SANTA BÁRBARA RIO DAS VELHAS RIO DAS VELHAS II MAESTRA VACACAÍ MIRIM VAL DE SERRA TAPACURÁ RIO DAS VELHAS III PACOTI RIACHÃO JUTURNAIBA XARÉU PASSAÚNA CARACTERÍSTICAS NOME CURSO D'ÁGUA Batatã Rio Preto Santa Bárbara Velhas Velhas Maestra Vacacaí Mirim Ibicuí Tapacurá Velhas Pacotí Riachão São João Água Pluvial Passúna MUNICIPIO São Luís Jequié Pelotas Nova Lima Nova Lima Caxias do Sul Santa Maria Santa Maria São Lourenço Nova Lima Pacatuba Pacatuba Silva Jardim Fern.000 **** **** 63.340 105.000 126.000 758.5 9 28 28.4 43 700.000 370. / Concreto Ciclópico Terra Homogênea Enrocamento Concreto Armado Terra Zoneada Terra Homogênea Concreto Armado Gravidade / Concreto Simples Concreto Armado Terra Terra Terra Gravidade / Concreto Simples Terra QUADRO 3 .500 41.000 153.000 30.000 5.000.264.000.000 500 12.000 8.000 148.000 27.000 115 400 200 218 130 137.000.000.500 3. Noronha Araúcária UF MA BA RS MG MG RS RS RS PE MG CE CE RJ PE PR Terra TIPO / MATERIAL ANO DE ALTURA ACUMULAÇÃO CONCLUSÃO VOLUME DO EXTENSÃO MACIÇO(m³) COROAMENTO MÁXIMA RESERVATÓRIO (m³) (m) (m) 390.000 13.000 500.800 2.440 1.000 1956 1958 1962 1977 1980 1982 1988 1994 SANTA LÚCIA PAMPULHA MÃE D'ÁGUA SÃO GONÇALO FLEXA PERICUMÃ FLORES CHAPÉU D'UVAS 165 .BARRAGENS COM FINALIDADES DIVERSAS LOCALIZAÇÃO Nº 1 2 3 4 5 6 7 8 CARACTERÍSTICAS NOME CURSO D'ÁGUA Leitão Pampulha Afl.000 7.800 **** **** 17 10 10 1.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens QUADRO 2 .000.000.900.20 3 29.000 1972 1975 1978 1978 1982 1992 QUADRO 5 .000 **** **** 1957 **** 1969 1970 1970 1971 1972 1972 1973 1977 1979 1979 1979 **** 1989 Arco Gravid.000.000.000 167.500.000.000 3.BARRAGENS PARA CONTROLE DE CHEIAS LOCALIZAÇÃO Nº 1 2 3 4 5 6 OESTE SUL CARPINA GOITÁ GONTAN NORTE CARACTERÍSTICAS NOME CURSO D'ÁGUA Itajai Oeste Itajai Sul Capibaribe Goitá Gontan Hercilio MUNICIPIO Taió Ituporanga Carpina Gloria do Goitá Bagé Ibirama UF SC SC PE PE RS SC TIPO / MATERIAL Gravidade / Concreto Simples Terra Terra / Zoneada Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto simples Terra ANO DE ALTURA ACUMULAÇÃO CONCLUSÃO VOLUME DO EXTENSÃO RESERVATÓRIO COROAMENTO MÁXIMA MACIÇO(m³) (m³) (m) (m) 93.000 2.000 93.000 97.000 1955 1956 1965 1965 1970 1 2 3 4 5 CEDRO CARNAUBA RIVALDO CARVALHO ARROIO DURO JOSÉ BATISTA PEREIRA Ceará Mirim QUADRO 4 .000 16.053.BARRAGENS PARA IRRIGAÇÃO LOCALIZAÇÃO Nº NOME CARACTERÍSTICAS CURSO D'ÁGUA Truçu Carnauba Condado Duro MUNICIPIO Acopiara Acopiara Catarina Camaquã Poço Branco UF CE CE CE RS RN TIPO / MATERIAL Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Simples Terra Homogênea Terra Zoneada ANO DE ALTURA ACUMULAÇÃO CONCLUSÃO VOLUME DO EXTENSÃO MACIÇO(m³) COROAMENTO MÁXIMA RESERVATÓRIO (m³) (m) (m) 7.000 270.000 108.

166 .

os sistemas elétricos operavam em 60 Hz e 50 Hz. O jornalista Alceu Amoroso Lima relatou no periódico “O Jornal” declarações de três estrangeiros que estiveram a admirar a pujança da queda d’água: um francês disse “C’est très chic”. com 1. escassas rodovias rudimentares regionais e o transporte de cabotagem que atingia o litoral mais povoado e penetrava pelos rios amazônicos. o cearense Delmiro Gouveia colocou em operação a pequena usina hidroelétrica de Angiquinho. Em meados do século passado a cachoeira ainda despertava admiração. castigado pelas freqüentes secas resultantes de extensas estiagens o desenvolvimento do Nordeste era incipiente. Neste contexto.500 HP (1. Na virada do Século XIX para o Século XX já se destacava o potencial hidroenergético da cachoeira de Paulo Afonso na qual o rio São Francisco despencava com uma vazão média plurianual superior a 2000 m³/s em vários braços por sobre uma espessa camada de rocha granítica sã. atravessando com dificuldades o sertão nordestino. Dentre esses visitantes o de maior destaque foi o Imperador D. ainda no Século XIX. a imponente e magnífica queda d’água chamava atenção dos Figura 1 – Usina de Angiquinho visitantes que para lá se deslocavam enfrentando grandes distâncias dos centros urbanos. Essa visão do americano foi percebida bem antes. Pouco após o engenheiro Francisco Pinto Brandão solicitou a concessão do aproveitamento da cachoeira para produção de energia elétrica para uma empresa sua a ser implantada na região com a denominação de Empresa Hidro Elétrica Agrícola Industrial do Brasil. um hindu exclamava “It is just wonderful” e um americano perguntou “How much hydropower is lost here every day?” . nos primeiros anos do Século XX pelo inglês Richard George Reidy que requereu ao governo federal a concessão para exploração do potencial da cachoeira de Paulo Afonso para instalação progressiva de indústrias e serviços. no dia 20 de outubro de 1859. Anos antes. O requerimento foi indeferido em 1910. As geradoras de energia elétrica na primeira metade do Século XX eram de pequeno porte e de operação precária. O requerimento foi também indeferido pelo governo federal em 1913. Indutora do Progresso do Nordeste “O rio São Francisco é o mais brasileiro dos rios” Engenheiro Euclides da Cunha Flavio Miguez de Mello O Nordeste na primeira metade do século XX Até a entrada dos anos 50 do século XX o Brasil permanecia sendo um arquipélago de regiões economicamente ativas com parcas conexões entre si a menos da malha ferroviária que integrava a Região Sudeste. Pedro II. Foi nesse contexto que também em 1913. a exemplo das diversas bitolas das ferrovias implantadas no país.102 KW) para gerar energia para 167 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A História da CHESF. Nessa época.

erguida na cachoeira. a cujo ministério a política de energia elétrica estava subordinada. tendo sido efetuado em região agreste no tempo do cangaço. A usina permaneceu no local e os equipamentos da fábrica.A História das Barragens no Brasil . Há versão que narra que Apolônio Sales havia solicitado a Getúlio Vargas a assinatura do Decreto de criação da CHESF em 30 de setembro por ser ele. A usina. com a conhecida pobreza de combustíveis fósseis da época. A equipe era constituída pelos engenheiros Antonio José Alves de Souza. O Serviço Geológico e Mineralógico deu origem mais tarde à Divisão de Águas. procurava sensibilizar as lideranças políticas para a idéia da exploração do potencial da cachoeira de Paulo Afonso. as concessões para geração de energia elétrica passaram a ser federais sob atribuição do Ministério da Agricultura. a omissão passou a ser pouco compreensível. O ministro Apolônio Sales. Apolônio Sales. A obra foi realizada mediante concessão do estado de Alagoas ao abrigo do Decreto nº. O desequilíbrio entre o Nordeste e o Sudeste do país passou a ser cada vez mais nítido. mas a usina permaneceu intacta. durante a Segunda Grande Guerra. no Tennessee Valley Authority. O Imperador quando a visitou. a capitaneada pelo engenheiro civil e economista por vocação Eugênio Gudin com a justificativa de que os parcos recursos federais deveriam ser concentrados no Sudeste onde já havia grande demanda reprimida de energia elétrica. mesmo na monarquia. Roosevelt como indutora de desenvolvimento para a saída da grande depressão econômica que ocorreu a partir de 1929 nos Estados Unidos. Jayme Martins de Souza. autarquia americana implantada pelo presidente Franklin D. o contra almirante Jaigen Rohwer. após a Constituição de 1934. Forte oposição a essa idéia veio de diferentes áreas. mas que. foi substituído em passado recente pelas Agências. ficaram prejudicados devido aos ataques de submarinos alemães e italianos nas nossas águas costeiras. No início dos anos vinte do século passado o Serviço Geológico e Mineralógico do Ministério da Agricultura efetuou um levantamento preliminar do potencial hidroenergético do rio São Francisco entre Juazeiro e Paulo Afonso que concluiu com a possibilidade de implantação de grandes centrais hidroelétricas. A partir de 1943 o ministro da Agricultura. Apolônio. devoto de Santa Terezinha. 168 . anos depois. Mário Barbosa de Moura e Mengalvio da Silva Rodrigues. Apolônio Sales esteve. o Lampião. onde coletou subsídios para a entidade a ser criada para atuar no vale do São Francisco no Brasil. não havia tecnologia para a implantação de geração de energia hidroelétrica. XX e XXI sua fábrica de linhas de costuras situada na localidade de Pedra. mesmo em países mais evoluídos. O levantamento foi um marco para o desenvolvimento do Nordeste. uma das mais importantes. aproveitava uma queda parcial e uma pequena parcela da vazão afluente. Isto possibilitaria a irrigação das áreas ribeirinhas e também o início de industrialização do Nordeste. com o fim da II Grande Guerra. Em 1945. Após a morte por assassinato de Delmiro Gouveia. Jorge de Menezes Werneck.Séculos XIX. pelos ingleses da Machine Cotton. foram levados para São Paulo. não passando de lenda o lançamento dos equipamentos da fábrica e da usina. O Nordeste ficou isolado do resto do país. No início dos anos quarenta a tendência era a de promover a construção de uma grande usina em Itaparica (que só se tornou realidade nos anos setenta). cujo Ministério incluía o Setor Elétrico comandou a campanha para a construção de uma hidroelétrica na cachoeira de Paulo Afonso. a produção de linhas de costura foi prejudicada. o Brasil questionava o regime de exceção do Estado Novo que havia marcado eleições para dezembro. Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) e Nacional de Águas (ANA). O Presidente Getúlio Vargas comandava o Estado Novo no qual Apolônio Sales era Ministro da Agricultura. não houve nenhuma idéia de aproveitamento do potencial da cachoeira. em 1944. agravado pela dificuldade nos transportes que se faziam sobretudo por mar. inclusive do bando de Virgulino Ferreira. Na República. Naquela época. precursora do Departamento Nacional de Águas e Energia Elétrica DNAEE que por sua vez. submarinos esses abastecidos por navios argentinos sob o manto de sua neutralidade. 520 de 12/08/1911 de acordo com a Constituição Federal de 1891. Esse abastecimento em alto mar foi confirmado em 1982 pelo oficial da marinha alemã que comandava as operações no Atlântico Sul. maiores do que as existentes na época. dentro da cachoeira de Paulo Afonso. Antes disso. o que ainda não havia em outras partes do território nacional cuja economia era essencialmente agrícola. nas proximidades da cachoeira de Paulo Afonso.

continuava a oposição ao empreendimento hidrelétrico no Nordeste e à empresa criada em 3 de outubro de 1945. indicações de origem político partidárias ficaram afastadas. chefe de gabinete do ministro da Agricultura.031 de criação da CHESF foi assinado no dia 4 de outubro de 1945. Getúlio Vargas foi deposto e tomou posse como Presidente da República o ministro José Linhares do Superior Tribunal Federal. depois de um árduo trabalho. então diretor superintendente de Sobradinho. O início da CHESF O Presidente Dutra entregou o comando da CHESF a um profissional de reconhecida capacidade e idoneidade com total liberdade de indicar os demais membros da diretoria e dessa maneira. O Decreto 8. usou o seguinte argumento – “Presidente. Com a posse do Gal. Ao trecho de concessão Piranhas – Juazeiro foram acrescentados em 1972 mais 350 quilômetros. o advogado Afrânio de Carvalho. Dificuldades adicionais também proviam do próprio ex-ministro Apolônio Sales a apoiar. O Decreto Lei º 8. Outros opositores combateram a idéia usando como argumento a reconhecida incapacidade gerencial do governo. No final do século XX quando entrou em vigor o novo modelo do setor elétrico com concessões por usina. o que seria agravado num tipo de empreendimento em que nunca antes havia se envolvido. mas o Estado Novo estava próximo do fim. sendo o General Eurico Gaspar Dutra. obtendo a adesão de estados e municípios do Nordeste para a integralização do capital da empresa. narrou que. Rio Grande do Nor te. festejada naquela data (hoje é 01 de outubro). Ele ficará contente vendo que o senhor criou no Nordeste do Brasil uma companhia com o nome dele”. Posteriormente esse círculo expandiu-se até atingir Natal – capital do Rio Grande do Norte e finalmente Fortaleza – capital do Ceará. a idéia de considerar como projeto definitivo um estudo extremamente sumário da usina localizada no Braço da Velha. Sergipe e Bahia). Já Apolônio Sales em conversa informal em 1976 com Eunápio Queiroz. Bahia. A concessão. Esse fato originou a negativa do ministro da fazenda Correia e Castro do pedido de verbas para o Ministério da Agricultura para a execução do projeto. procurou incluir como prioritários os aproveitamentos hidrelétricos de Paulo Afonso. Ceará. mas com data do dia anterior. A empresa podia ser formada. por exemplo. Pernambuco e Sergipe. Superadas todas as dificuldades. também assinada no mesmo dia 3 de outubro de 1945. para transmitir e comercializar a energia hidroelétrica produzida em Paulo Afonso. quase três anos após sua criação. Mantinha-se a oposição do agora ministro Eugênio Gudin por considerar que este tipo de empreendimento deveria ser feito pela iniciativa privada e que os investimentos em geração de energia elétrica deveriam priorizar a região Sudeste. no final de 1946. Alagoas. também comandado por Apolônio Sales.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens na época. foi realizada a Assembléia Geral de Constituição da CHESF. afirmara que seria um desperdício gastar recurso no projeto. Pernambuco. Dutra. que atravessava intenso racionamento e não o Nordeste onde nem mercado havia. por linha de transmissão e por subestação a CHESF era responsável por produzir e transportar energia elétrica para 8 estados do Nordeste (Piauí. no Nordeste. dada a disparidade daquela região com as regiões Sul e Sudeste. no dia 15 de março de 1948. e Cachoeira Dourada no rio Paranaíba. ainda no submédio rio São Fran- 169 . ou seja.031 de 03/10/1945 concedia à CHESF a exploração de um trecho de cerca de 500 quilômetros entre Piranhas – Alagoas no baixo rio São Francisco e Juazeiro – Bahia no sub-médio rio São Francisco. Diversos depoimentos dão conta de que um forte argumento que sensibilizou o general Dutra com relação a Paulo Afonso pode ter sido o que aventava a possibilidade de uma secessão do Nordeste das demais regiões do Brasil. O ministro Souza Costa. Daniel de Carvalho. no Centro Oeste. eleito e empossado Presidente da República. Na seqüência ocorreram eleições gerais no país. Paraíba. definiu um círculo inicial de cerca de 450 quilômetros de raio no interior do qual se inseriam as capitais dos estados de Alagoas. amanhã é dia de São Francisco. Entretanto. embora conhecedor de que Getúlio Vargas era agnóstico e que o dia de Santa Terezinha havia passado. este para suprimento do que seria a futura capital brasileira no Planalto Central.

foi eleito Presidente da CHESF o engenheiro Antônio José Alves de Sousa. onde tinha sido encarregado das concessões de energia elétrica. Luiz Gonzaga (Itaparica). Esse engenheiro. efetuado um levantamento topográfico da Cachoeira de Paulo Afonso. XX e XXI cisco entre as cidades de Juazeiro e Xique Xique. tinha. Na margem esquerda as instalações de Angiquinho e no cânion a casa de força 170 . Paulo Afonso I.Engenheiro Antônio Alves de Souza.Séculos XIX. Alves de Sousa assumiu o comando da empresa com o programa inicial de destinar o fornecimento de Figura 2 . Piloto. primeiro presidente da CHESF Figura 3 . onde a CHESF construiu e opera a hidroelétrica de Sobradinho. formado na Escola de Minas de Ouro Preto. Em 1948. III e IV e Xingó. II. no governo Epitácio Pessoa. ambas na Bahia.A cachoeira de Paulo Afonso antes das obras da CHESF. em 1921. resultando que entre Xique Xique (limite montante) e Piranhas (limite jusante) se inserem as usinas hidroelétricas de Sobradinho. Apolônio Sales (Moxotó). obedecidas às orientações do Presidente Dutra. do Ministério da Agricultura.A História das Barragens no Brasil .

a CHESF contou com a geração da usina de Angiquinho com 1. atinge a margem direita atravessando o braço Capuxu. e políticos como Luiz Vianna Filho. marcaram o nascimento da Mecânica das Rochas no Brasil. II e III. Entre as alternativas de projetos que foram consideradas para construção da usina de Paulo Afonso. De início. e é constituída de barragem. o braço do Quebra e o braço do Taquari. passando a original a ser denominada de Paulo Afonso I. José Villela e Júlio Miguel de Freitas. adotando essa postura até o final do seu mandato. Um aspecto a destacar foi o fato do IPT ter prestado assistência tecnológica à construção dessa usina. O diretor de administração. da Bahia. Para suprimento de energia ao acampamento e ao canteiro de obra da primeira usina. cujo reservatório foi formado captando águas do reservatório de Moxotó. formando um funil num comprimento total de 4394m. O reservatório assim formado tem apenas 11 km² de área. Alves de Souza compôs a sua diretoria com o coronel engenheiro Carlos Berenhauser Junior (diretor comercial). que alimenta as usinas de Paulo Afonso I. Clemente Mariani. passou a atuar mais diretamente. constituindo-se em uma barragem móvel. A adução é feita por três túneis verticais de 4. tendo 171 . com 1277m de comprimento. no próprio local das obras.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens energia exclusivamente a Pernambuco e imediatamente propôs estender o fornecimento a outros pontos do nordeste inclusive a Salvador. além de Pernambuco. Ao longo do tempo outros engenheiros foram incorporados à diretoria técnica como Hernani Gusmão. São 26 comportas de vertedouro. pelo seu falecimento. cercada por usinas hidroelétricas. foi implantada a montante da bacia de decantação (reservatório Delmiro Gouveia). 6 no Taquari e 2 no Capuxu. com a colaboração dos engenheiros Domingos Marchetti. transformando o centro da cidade de Paulo Afonso em uma ilha. A Usina de Moxotó. uma casa de força e um descarregador de fundo provido de comportas de segmento. logo nos primeiros meses após o início de operação. Hermínio Lorentz Kerr. em 1961. a partir de 1949.8m de diâmetro com joelho de 90° para alimentar três turbinas Francis situadas em casa de força subterrânea. foi substituído pelo consultor jurídico. Dermeval Resende. realizados em 1951. Somente após a posse do presidente Jânio Quadros. Hélio Gadelha de Abreu e Nédio Lopes Marques. 8 no braço Quebra. em fins de 1954. realizando ensaios de deformação diametral sofrida por câmaras escavadas em rocha. sendo 10 delas no braço principal. Juraci Magalhães e Pereira Lira. A barragem atravessa diversas ilhas e suas comportas assinalam os braços originais do rio. Estes ensaios. A outra parte da barragem. a diretoria técnica. quando submetidas a pressão interna. sediada no Rio de Janeiro. Gentil Norberto. uma casa de força subterrânea e a restituição a jusante da cachoeira. esta com operação iniciada em outubro de 1949. foi selecionada a que previa uma extensa barragem de concreto de gravidade com um vertedouro de superfície incorporado e atravessando um arquipélago de ilhas a montante da cachoeira. A tomada d’água fica situada no encontro desses dois trechos da barragem. A barragem Leste com 3117m de extensão tem sua ombreira na margem esquerda e atravessa o braço principal onde escoava cerca de 90% da descarga do rio. Othon Soares. Graças à vigilância do governador Otávio Mangabeira. construída no início dos anos 70 do século passado. foi implantada mais uma usina denominada Paulo Afonso IV. através de um canal artificial.1 MW que havia sido instalada por Delmiro Gouveia em 1913 e de outra pequena hidroelétrica denominada Usina Piloto. Posteriormente. O presidente Dutra manteve a sua palavra de não interferir na composição da diretoria. Dentro da concepção original foram posteriormente executadas outras duas casas de força também subterrâneas denominadas Paulo Afonso II e Paulo Afonso III. uma adução em túneis. Adozindo Magalhães de Oliveira (diretor de administração) e Octávio Marcondes Ferraz (diretor técnico) e como consultor jurídico Afrânio de Carvalho. os estados da Bahia. atingindo as proximidades da cachoeira. Hilton Fiúza de Castro. a diretoria passaria a sofrer modificações. Alagoas e Sergipe foram beneficiados com a energia elétrica gerada em Paulo Afonso.

XX e XXI uma unidade geradora de 2. para permitir a construção da usina e funcionamento da empresa. No início da construção de Paulo Afonso I as escavações para a implantação da casa de força subterrânea foram comandadas pelo enge- Figura 4 . no BIRD e no Banco Nacional de Desenvolvimento Industrial. Em março de 1960. O sítio desta usina teve seu tombamento histórico decretado pelo estado de Alagoas e atualmente é ponto de visitação turística na região. para a fábrica de linhas que havia sido implantada por Delmiro Gouveia no povoado de Pedra (hoje cidade de Delmiro Gouveia. um laboratório de modelos hidráulicos reduzidos.0 MW. Além da previsão insuficiente de recursos por parte do governo federal. foram efetuados aumentos de capital e conseguidos empréstimos junto ao Eximbank. para a cidade de Glória e. apesar de serem esses estados e municípios os mais beneficiados com a implantação da primeira usina de Paulo Afonso. após seus equipamentos terem sido danificados por uma forte enchente.A História das Barragens no Brasil . de inestimável valor para as definições de projeto e construção. ocorreu ainda pronunciada inadimplência de aportes financeiros que haviam sido assumidos por estados e municípios nordestinos por subscrição de ações da CHESF. Alagoas). Atualmente. Ao longo de todo o projeto e construção de Paulo Afonso I e continuando durante quatro décadas. com possibilidade de instalação de uma segunda máquina. permaneceu em operação no Centro de Formação da CHESF em Paulo Afonso. Esse desinteresse financeiro permaneceu mesmo após a entrada em operação da usina. Além do capital financeiro inicialmente subscrito para formação da CHESF e reconhecidamente insuficiente. A Usina Piloto foi projetada e construída pelos engenheiros J. depois de quase 47 anos de operação. as instalações do modelo reduzido das usinas de Paulo Afonso podem ser vistas durante visitas turísticas e escolares agendadas previamente com a CHESF.Séculos XIX. a usina de Angiquinho foi desativada pela CHESF. sob a administração da Fundação Delmiro Gouveia. Leal Corrêa e Leopoldo Schimmelpheng e passou a fornecer energia elétrica para a obra e seu acampamento.Usina piloto 172 . complementando Angiquinho.

dentro das realidades da época. povoado do município de Delmiro Gouveia. ambas marcas de cimento. As ensecadeiras propostas pelo engenheiro Gentil Norberto. O modelo reduzido definiu a solução considerando a montagem de um flutuante chamado localmente de “Navio”. De costas. com 18 m de comprimento. À medida que as células iam sendo 173 . A impossibilidade de execução de batimetria. Dutra ao lado de Alves de Souza.Visita do pres. Esse flutuante foi imerso no rio em posição previamente definida através de controle por cabos de aço fixados nas margens. além da irregularidade do fundo rochoso. em parte cobertos por sacos de cimento vazios surgindo no linguajar popular a Vila Poty e a Vila Zebu. uma vez que foi bastante reduzida a velocidade das águas nestes locais. construído na França e montado no local da obra.Início da obra em 1950 com Marcondes Ferraz e Alves de Souza (primeiro e segundo da esquerda) Figura 6 .5 m/s) e profundidade do rio nas imediações das cachoeiras (10 m a 12 m). Marcondes Ferraz implantação de recursos básicos requeridos. O flutuante afundado desviou as correntes mais intensas e possibilitou a instalação das estacas prancha sem que essas vergassem. foram executadas sob a supervisão dos engenheiros Roberto Montenegro e Reginaldo Sarcinelli. dificultavam a execução da ensecadeira como fora projetada.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens nheiro Domingos Marchetti. tendo contribuído em inúmeros empreendimentos hidrelétricos. A vila Poty é hoje o centro da cidade de Paulo Afonso. devido à velocidade de escoamento (cerca de 3. André Balança se fixaria no Brasil até seu falecimento. Os estudos hidráulicos para o barramento do rio determinaram a aplicação de ensecadeiras celulares de estacas prancha. contribuindo com assistência social e a Figura 5 . e a vila Zebu. especialista em túneis. uma das mais prósperas do estado da Bahia. A construção de Paulo Afonso exigiu a presença de milhares de trabalhadores e também atraiu outros milhares de pessoas que afluíam ao local da usina à procura de trabalho. principalmente através de empresas de consultoria. esquerda e direita. A CHESF participou do apoio à melhoria de vida dos moradores das novas vilas. um crescente conjunto de casebres. 12 m de altura e peso de 350 t. estabelecendo-se ao lado do acampamento da CHESF. detentor de profundos conhecimentos de hidráulica adquiridos na sua formação em Grenoble. Importante contribuição para a concepção do projeto e para a execução das obras foi dada pelos que trabalharam no modelo reduzido sob a orientação do engenheiro francês André Balança.

Em depoimento ao autor o engenheiro Rubens Vianna de Andrade que. Essa vitória da engenharia brasileira foi comunicada durante uma sessão do Clube de Engenharia no Rio de Janeiro. disse que o esquema de desvio tinha sido realmente muito ousado. com calorosos aplausos. e que uma escavação de canal com estrutura de desvio como feito em Itaipú teria sido um esquema mais garantido. com o término da ensecadeira foi divulgado para toda a nação e meio técnico de engenharia. A solução do “Navio” que protegera a construção das células por montante não mais seria aplicável. XX e XXI executadas barrando e estrangulando a seção do rio. a velocidade da água ia aumentando progressivamente. quando jovem participou da construção de Paulo Afonso I. posicionada a jusante da linha de centro da ensecadeira celular em construção. Essa treliça passou a reter blocos de pedra de grandes dimensões lançados na corrente do rio e retidos por redes apoiadas na treliça. Decidiu-se pela implantação de uma estrutura metálica em treliça semi-flexível. Com a diminuição da velocidade de escoamento.Séculos XIX. a ensecadeira de estacas prancha pôde então ser concluída.Construção da ensecadeira celular com apoio do navio defletor 174 .5 m/s. O fechamento do rio São Francisco. a qual foi interrompida para que a notícia fosse conhecida pelos presentes que vibraram com o êxito da solução de engenharia.A História das Barragens no Brasil .Montagem do navio defletor Figura 8 .Montagem da guia das estacas prancha Figura 9 . Outra alternativa que havia sido estudada para fechamento desse trecho final do rio era a da construção de um obelisco com uma das Figura 7 . atingindo valores de 8.

Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 10 .Construção da ensecadeira celular 175 .Construção da ensecadeira celular Figura 11 .

Séculos XIX.Construção da ensecadeira celular Figura 14 .A História das Barragens no Brasil .Ensecadeira celular concluída e fase inicial do fechamento do rio 176 . XX e XXI Figura 12 .Construção da ensecadeira celular – Carga hidráulica de 9 m Figura 13 .

Fase final do fechamento do rio 177 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 15 .Treliça posicionada para fechamento do rio Figura 17 .Início do lançamento da treliça para fechamento do rio Figura 16 .

engenheiro Alves de Souza. a Conferência Mundial de Energia que na época ainda incluía a Comissão Internacional de Grandes Barragens.Séculos XIX. criada por Apolônio Sales para difusão de conhecimento e transferência de tecnologia para produtores rurais e pecuaristas do sertão do São Francisco. presidente do banco. o esquema de desvio foi mantido. A inauguração de Paulo Afonso ocorreu no dia 15 de janeiro de 1955 em solenidade comandada pelo Presidente da República. Além do francês André Balança que chegou com 29 anos e ficou para sempre no Brasil. como o laboratório de modelo reduzido e a fazenda modelo. we are pleased to note that. Pensava em esquema semelhante ao de Itaipú com escavação de canal de desvio com aplicação da rocha escavada na barragem e a construção de estrutura de fechamento nesse canal. além de preservar as realizações da diretoria anterior. admitiu ao autor que o esquema que foi empregado em Paulo Afonso não teria sido o mais recomendado nem o mais seguro. com sua vasta experiência posteriormente em diversos desvios de grandes rios inclusive o desvio do rio Paraná em Itaipú. efetuou uma visita técnica a Paulo Afonso. reduto na baía da Guanabara onde os estrangeiros eram recebidos e triados. concluiu o discurso de recepção à delegação com as seguintes palavras. decency and liberty. participou da epopéia do desvio em Paulo Afonso. Quando. Let us hope that in the passing of time the same ideal penetrates into the mind and heart of all men so that mankind may live in peace. Essa posição fora transmitida ao ministro Oswaldo Aranha que tivera contato com Mr. por Mr. Nessa visita. Cinquenta anos após o desvio do rio. Dunn. Importante realçar que o consultor do Banco Mundial. Além de sua vital importância econômica e social para todo o Nordeste. Mr. de elevada competência e distinto cavalheirismo. com o fechamento das comportas. desaconselhara os dois métodos para o ensecamento do leito do rio.A História das Barragens no Brasil . o fundo do rio e colocado em pé em uma das margens do rio. João Café Filho. para atender a convocação feita pelo banco. iniciou uma grande transformação do entorno da usina em vasto ambiente de agradável paisagismo implantando dezenas de pequenos lagos. advogado Afranio de Carvalho. o engenheiro Rubens Vianna de Andrade que. in a way. Considerando essa afluência de visitantes. uma legião estrangeira prestou importantes serviços para a CHESF nos seus primeiros anos.. na fase final de construção e com o desvio já equacionado. a jusante das comportas o leito do rio ficou seco. 178 . engenheiro Marcondes Ferraz. Esse fato gerou a substituição do representante do banco em Paulo Afonso. antecipando-se a John Lennon: “As the World Power Conference represents the triumph of cooperation over isolationism. demonstrando a importância daquele momento histórico. Ao ser derrubado esperava-se que esse obelisco obstruísse quase totalmente o fluxo de água. formada principalmente por imigrantes europeus após a II Grande Guerra Mundial. o professor Amauri Menezes que assumiu a diretoria técnica durante as ampliações de Paulo Afonso. quando jovem na profissão. requisitados na Ilha das Flores. da American Engineering Co. intensa arborização pública e jardim zoológico. No dia 1° de dezembro era ligado o primeiro circuito que atenderia Recife e poucos dias após era energizada a linha de transmissão para Salvador.” No dia 20 de setembro de 1954 foi iniciado o enchimento do reservatório. Dessa legião estrangeira participaram Cyrill Iwanow. o diretor da CHESF. Abdank Abzantovsky e Andre Bijnik. Bass. Aproveitando o fato de que o banco havia chamado Alves de Souza a Washington sem dar conhecimento da pauta da reunião e sem a convocação do diretor técnico. Black. o que foi caracterizado como deslize de ética. um dos muitos que estavam assistindo o evento atravessou a pé o leito do rio empunhando a bandeira nacional. durante a visita a Washington do presidente da CHESF. No dia 4 de agosto de 1954. a common and generous inspiration is the source of both your and our success. Paulo Afonso passou a ser visitado por vastos contingentes de pessoas para apreciar a grandeza das obras ali implantadas. Mr. Adolph Acker mann que se opusera ao esquema de desvio do rio. XX e XXI faces reproduzindo da melhor maneira possível.

A primeira imagem da cachoeira foi captada em 1647 pelos pincéis de Franz Post. no seu efêmero governo de dois dias e participado da fuga no cruzador Tamandaré após o primeiro dos dois golpes desferidos pelo general Henrique D. Ao saberem que haveria mudanças na diretoria. por ter Marcondes Ferraz apoiado o presidente da República Carlos Luz. como as que se seguiriam. seria também subterrânea. o ministro João Agripino. O afastamento teve motivação política. convite declinado com o argumento de que não se deveria deslocar um homem do gabarito de Alves de Souza. Marcondes Ferraz foi destituído em 1960 por Juscelino Kubitschek como presidente da república. Quando Jânio Quadros foi eleito em 1960. A expansão da CHESF A partir de 1953 a CHESF iniciou as negociações para obtenção de recursos junto ao governo federal para o primeiro plano de expansão de Paulo Afonso que incluía a terceira unidade da primeira casa de força e a construção da segunda casa de força denominada Paulo Afonso II que. Lott que depôs dois presidentes.O aproveitamento de Paulo Afonso em seu estágio final 179 . todos os diretores se demitiram e realçaram a importância da Figura 18 . notável pintor vindo na comitiva pessoal de Maurício de Nassau. Após doze anos na direção técnica da CHESF e sendo um dos principais artífices do que ficou sendo conhecida como a epopéia de Paulo Afonso. Dom Pedro II quando esteve na cachoeira em 1859 reproduziu a imagem que vislumbrava a lápis em seu diário de viagens. promoveu alterações na diretoria da CHESF.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A notável beleza da cachoeira com suas diferentes quedas em seu estado natural ainda hoje pode ser vista por ocasião de cheias extravasadas pelos vertedouros. tendo convidado Marcondes Ferraz para a presidência. T.

situada a cerca de 1.5 km a jusante das suas precursoras. Como essa condição excepcional não havia sido considerada no projeto da barragem de Paulo Afonso. afluente pela margem esquerda do rio São Francisco na região de Paulo Afonso. Para garantir o escoamento da cheia máxima possível. Ao se projetar a barragem de Paulo Afonso IV verificou-se que. tendo a última das seis unidades geradoras entrado em operação em 1983. e concluída em 1974. II e III. II e III (25. Fausto Alvim na diretoria administrativa e Ivan Macedo Melo na diretoria comercial. Com o rio São Francisco domado em 1954. Paulo Afonso IV cujas obras civis foram concluídas em 1979.Séculos XIX.000 m³/s em hidrógrafas de cheia de pequenos volumes poderiam se somar ao pico de cheia afluente ao reservatório de Moxotó. devido principalmente às características torrenciais do rio Moxotó. Paulo Afonso III inaugurada em 1972 pelo presidente Emílio Garrastazu Médici. Novas casas de força subterrâneas foram se sucedendo.A História das Barragens no Brasil . por meio de um canal. na diretoria técnica. Paulo Afonso II concluída em 1968. as ampliações que se sucederam foram muito mais simples.000 m³/s). e a usina inaugurada em 1980 pelo presidente João Batista Figueiredo. o vertedouro de Moxotó foi dimensionado para a mesma descarga de projeto da barragem das usinas de Paulo Afonso I. descargas de até 10. difere destas por captar. o canal de adução entre os reservatórios de Moxotó e . 180 A usina de Paulo Afonso IV. Ele foi mantido e os demais diretores foram substituídos por Amauri Menezes. água no nível do reservatório da usina de Moxotó implantada a montante da bacia de decantação Paulo Afonso I. XX e XXI Figura 19 – A usina hidroelétrica de Moxotó continuidade de gestão que seria garantida pela permanência de Alves de Souza na presidência.

e criaram. formando um apreciável acervo sobre a reação álcali-agregado. Essa opção não prosperou em função do aumento de preços pela OPEP e da deflagração da guerra do Yom Kippur. que entre outros motivos buscava tirar do comando da Diretoria Técnica da CHESF uma das duas obras gigantescas e simultâneas (Sobradinho e Paulo Afonso IV).000 m³/s. A usina é composta por duas barragens de enrocamento com núcleo de argila. então presidente da CHESF. o que exigiu a execução de serviços para convivência com esse fenômeno e manutenções periódica nas unidades geradoras. garantindo também o simultâneo escoamento de possível cheia gerada na bacia do rio Moxotó. Hilton Silveira. monitorando os efeitos da expansão e garantindo o aumento da vida útil da casa de força. Em 1983 a usina de Moxotó passou a ser denominada oficialmente de Usina Apolônio Sales em homenagem ao criador da CHESF. Japhet Diniz. de 100 MW cada. foi construído para promover a regularização semanal das vazões e possibilitar através do canal de adução acima descrito. em empreendimentos de engenharia. As quatro unidades geradoras. causou constrangimentos na subsidiária. Essa decisão da Eletrobras. a derivação do fluxo d’água para a tomada d’água e vertedouro da usina de Paulo Afonso IV. As sucessivas ampliações em Paulo Afonso passaram a demandar descargas afluentes mais regularizadas. II e III. Paulo Pacheco e Margarida Maria Dantas de Oliveira. ou de Sobradinho ambas no rio São Francisco e a montante de Paulo Afonso e Moxotó. A barragem de Moxotó se situa a cerca de 2 km a montante da barragem do Complexo Paulo Afonso I. Além disso. O reservatório da barragem de Moxotó. Posteriormente foi constatada a presença de reação álcali-agregado ocasionando expansão do concreto. presentemente em fase de inventário. Em meados de 1971 a Eletrobras havia determinado a estruturação de uma superintendência sob o comando do engenheiro Eunápio Peltier de Queiroz que havia criado a Centrais Elétricas do Rio de Contas.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens de Paulo Afonso IV foi ampliado para permitir o fluxo adicional de 10. separadas por uma ilha. recomendações plenamente atendidas. Em maio de 1974 a CHESF recebeu instruções para motorizar Sobradinho. neutralizou as componentes negativas desta divisão. Uma equipe de técnicos da CHESF e consultores (Aurélio Vasconcelos. e implantado com sucesso a hidroelétrica de Funil e que teria como missão implantar o empreendimento de Sobradinho. Os dirigentes da Eletrobras. III. Na ocasião da concepção do projeto não foi considerada a construção de um obra de barragem para o controle de cheias do rio Moxotó que teria trazido importantes benefícios econômicos à construção de Paulo Afonso IV e aos vertedouros de jusante. que haviam sido companheiros no Congresso Nacional. II. situado a montante de Paulo Afonso I. ocorrendo o enchimento do reservatório de Sobradinho em 1978 e início de geração de energia em 1979. sendo projetado e construído um vertedouro de 10 000 m³/s de capacidade na barragem de Paulo Afonso IV. entraram em operação em 1977. além de João Paulo Maranhão de Aguiar. Mário Bhering e Pinto Aguiar foram sensibilizados pelos argumentos de Apolônio Sales. quando o barril de petróleo foi cotado a menos de US$ 2. Xingó já em operação e Pão de Açucar. inundada com a formação do reservatório. mais econômica. com apoio de Léo Amaral Penna. O planejamento energético foi influenciado também pelo baixo custo do petróleo. As alternativas seriam a construção das hidroelétricas e reservatórios de Itaparica (em cota elevada).00. Foi necessária a construção de um núcleo urbano para transferência da população da cidade de Glória-BA. uma das barragens contendo a tomada d’água e casa de força e a outra o descarregador de fundo (barragem móvel) controlado por comportas de segmento. estimulando a construção de usinas termoelétricas junto aos grandes centros de consumo. Gláucio Furtado. Norman Costa. época do chamado “milagre brasileiro“. Ricardo Barbosa e João Francisco Silveira). conduziram a implantação da hidroelétrica de Sobradinho. o trabalho conjunto de Apolônio Sales e Eunápio Queiroz. Eunápio Queiroz e Ernani Gusmão. na Bahia. a partir de relatório do Comitê de Estudos Energéticos do Nordeste foi a construção da barragem de Sobradinho inicialmente sem casa de força por ser a solução de menor investimento para a regularização do rio. As obras civis da usina de Moxotó foram iniciadas em 1971 e concluídas em 1974. dedicaram-se aos estudos e acompanhamento. uma solução de compromisso: a concessão da hidroelétrica de Sobradinho seria da CHESF. Alberto Jorge Cavalcanti. 181 . A solução adotada pelo setor elétrico.

atingindo seus 1050 MW de capacidade instalada.1 bilhões de metros cúbicos e extensa área alagada de 4.214 km2 possibilitando.A História das Barragens no Brasil . portos terminais do trecho navegável entre Pirapora . o que.A usina hidroelétrica Sobradinho 182 . Foi necessário a relocação das cidades de Casa Nova. mesmo limitando a altura da barragem e definindo a usina como de baixa queda. Apesar de se situar a cerca de 50 km a montante de Juazeiro (BA) e Petrolina (PE). sucedido pela Portobrás. A casa de força de Sobradinho teve a entrada de sua primeira máquina em operação em novembro de 1979 e a última unidade geradora em março de 1982. gerou um reservatório de grandes dimensões com volume acumulado de 34. XX e XXI Uma barragem de terra zoneada flanqueia as estruturas de concreto gravidade da tomada d’água e dos vertedouros de fundo e superfície. Sento Sé e Pilão Arcado e de outros pequenos povoa- Figura 20 . Remanso. num arranjo característico de hidroelétrica brasileira em vale aberto.Séculos XIX. exigiu e assumiu os custos de implantação de uma grande eclusa de navegação. um significativo aumento de descargas garantidas para as usinas a jusante. com uma depleção de até 12 metros. gerou impactos sócio-ambientais de porte. No local da barragem de Sobradinho e em toda a área do seu reservatório o rio São Francisco apresentava margens abatidas em vale muito aberto. que na época era um sistema isolado do resto do País.Minas Gerais e o sub médio rio São Francisco. O reservatório de Sobradinho. concluída em 1980. o Departamento Nacional de Portos e Vias Navegáveis. tão importante para a segurança do suprimento de energia ao Nordeste.

com a transferência das suas populações. Sherard. o canteiro e acampamento dessa hidroelétrica. em Sobradinho foi construída a tomada d’água que abastece o mais bem sucedido projeto público de irrigação no Brasil – o Projeto Nilo Coelho.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 21 . desenvolveram estudos.000 hectares.000 pessoas) reassentadas para formação do reservatório. Hamilton Oliveira. no escritório e no campo. Hiromito Nakao. a cidade de Belém do Pará e cidades vizinhas foram abastecidas com energia elétrica gerada em Sobradinho. que garantiram todos os requisitos de qualidade e segurança na utilização de argila dispersiva.A usina hidroelétrica de Itaparica dos situados às margens do rio São Francisco. com área irrigável de 25. única disponível na área em quantidades compatíveis com os volu- mes requeridos. Hilton Silveira. avaliações e tarefas de controle de laboratório e construção dos maciços. A construção da barragem de Sobradinho trouxe importante contribuição para a engenharia nacional de barragens ao ter seu núcleo impermeável executado com argila dispersiva. Ao todo foram 11. Como Tucuruí ainda estava em construção quando Sobradinho iniciou sua operação. antecedendo à inauguração de Tucuruí. O usina de Sobradinho permitiu a interligação das regiões Nordeste e Norte através de linha de transmissão entre Sobradinho e Tucuruí. Guy Bordeaux e Pedro Tanajura) com a consultoria e acompanhamento de um dos mestres mundiais da engenharia de solos – James L. durante cerca de quatro anos. Com Sobradinho ainda em fase de construção a CHESF iniciou em 1975 no rio São Francisco e a cerca de 40 km a montante de 183 . Técnicos brasileiros da CHESF e da Projetista (Esmeraldino Pereira.400 famílias (cerca de 70. proporcionando significativa economia de petróleo. Além do papel importante na redução de piques de cheia e interligação Norte – Nordeste. Antonio Martins.

Armando Lencastre e Don Deere que. Essas usinas. Itacuruba. XX e XXI Paulo Afonso as obras para implantação da hidroelétrica de Itaparica. capitaneada pelo político baiano. os estudos preliminares para seleção de local e de alternativas de projeto. Manuel Rocha. em 1951. sob a supervisão de Felício Limeira de França e a coordenação do engenheiro José Geraldo Araújo. a menos de Angiquinho já mencionada. do Grupo Votorantim) no rio Paraguaçu na Bahia. Somente em 1988 foi fechado o reservatório e entraram em operação as primeiras unidades. Ao lado da tomada d’água para geração de energia elétrica foram implantadas duas tomadas para os projetos de irrigação Califórnia e Jacaré Curituba. motivo pelo qual as obras se prolongaram muito além do que fora previsto no planejamento de construção. Essas hidroelétricas foram: Bananeiras (inundada pela usina hidroelétrica Pedra de Cavalo. A indústria americana Reynolds Metals propôs a construção dessa hidroelétrica numa das partes mais estreitas do cânion com uma barragem em arco. Clemente Mariano e pelo industrial e político paulista José Ermírio de Moraes com os argumentos de que haveria prejuízo da incipiente indústria nacional e que absorveria grande consumo de energia com pequena utilização de mão de obra. Rodelas e o povoado de Barra do Tarrachil. a usina e a indústria não foram adiante. ambos no estado de Sergipe e viabilizados pela elevação de mais de 120 metros no nível d’água no cânion. homenagem ao grande compositor e cantor nordestino. outras foram incorporadas à CHESF ao longo dos anos.000 pessoas. de enrocamento com face de concreto e com desvio por túneis escavados na margem direita onde também foi localizada a casa de força.A História das Barragens no Brasil . recomendou.6 MW cada. Foram construídas as novas cidades de Petrolândia. Os trabalhos foram apoiados por uma junta de consultores composta por James Libby. O vale aberto do rio foi barrado por um extenso maciço de enrocamento com núcleo de saprolito compactado ladeando as estruturas de concreto gravidade da tomada d’água e do vertedouro. houve a necessidade do assentamento da população ribeirinha que teve que ser desalojada. a construção de uma barragem em abóbada com casas de forças subterrâneas nas duas margens. foi decidida a implantação dessa segunda alternativa de projeto que se situa imediatamente a montante das sedes municipais de Piranhas – Alagoas e Canindé do São Francisco – Sergipe. sob comando de Eunápio Queiroz. constituída por uma barragem com 145 m de altura. O nível d’água do reservatório da hidroelétrica de Xingó foi definido pelo valor aceitável de afogamento do canal de fuga de Paulo Afonso IV com conseqüente redução de geração nessa usina. A concessão teria sido para autoprodutor por 30 anos e reverteria à União no entorno de 1985. o engenheiro Gerdes. A jusante de Paulo Afonso o rio São Francisco escavou profundo e estreito cânion de paredes rochosas de elevadas qualidades geomecânicas. Além das hidroelétricas acima mencionadas e implantadas pela CHESF. e da antiga pequena usina existente em Itaparica. que teve sua operação iniciada em 1913 e desativada em 1960 devido a uma inundação. que atingem até 200m de altura. da Kaiser. Essa usina teria como finalidade a geração de grandes blocos de energia para uma unidade fabril de produção de alumínio a ser implantada na região. No após guerra. abrigando cerca de 36. todas as demais usinas incorporadas pela CHESF se situam em outros rios do Nordeste. Nesse ano a usina foi inaugurada pelo presidente José Sarney e atingiu plena capacidade em 1990 com seis unidades geradoras de 246. Boa Esperança no rio Parna- 184 . Tendo em vista a extensa área de reservatório de 834 km². Houve forte resistência política dos que consideravam que essa concessão não atendia aos interesses do Brasil e do Nordeste. O Empreendimento Itaparica foi realizado num período de intensas dificuldades financeiras do setor elétrico estatal.Séculos XIX. que abastecia um núcleo agrícola e operou de 1945 até a década de 1970 e foi alagada pelo reservatório da nova hidroelétrica em 1988. vislumbrou a construção de uma hidroelétrica nesse cânion. por mais econômica. Com tanta oposição. com a empresa consultora. a Usina de Xingó. já com a denominação de Usina Hidroelétrica Luiz Gonzaga. Somente em 1975 foram contratados pela CHESF. James Sherard. Dada a carência de experiência nacional em barragens em abóbada e como o esquema com barragem de enrocamento no final do cânion era viável. abrigando seis unidades de 527 MW cada que entraram em operação entre 1994 e 1997.

Curemas a partir dos açudes públicos Estevam Marinho e Mãe-d’água do DNOCS nos rios Piancó e Aguiar na Paraíba e Araras no açude público Paulo Sarasate do DNOCS no rio Acaraú no Ceará. A usina de Boa Esperança teve suas obras iniciadas em 1964.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens íba na divisa dos estados do Maranhão e Piauí. Em julho de 1963 a COHEBE foi formalmente constituída e sua primeira diretoria foi composta por César Cals de Oliveira Filho. as Funil e Pedra no rio de Contas no sul da Bahia. e sua Figura 22 . Dessa iniciativa nasceu a Companhia Hidro Elétrica de Boa Esperança COHEBE. representado pela Eletrobras. Hilton Ahiran da Silveira e Ebenezer Gueiros. Walter Barros da Silva. havia entrado em operação em 1920 e teve 9 MW instalados para suprir o Recôncavo Baiano. Essa usina foi transferida da COELBA para a CHESF em 1967 e desativada em 1981 por interferência com a hidroelétrica de Pedra do Cavalo. situada no rio Parnaíba entre os estados do Maranhão e do Piauí. A hidroelétrica de Bananeiras. de maior potência. A usina hidroelétrica de Boa Esperança. a montante da cidade de Cachoeira. que foi implantada no local. situada no rio Paraguaçu.A usina hidroelétrica de Xingó 185 . a partir de Grupo de Trabalho formado pelo DNOCS e pela SUDENE. com a participação dos estados do Piauí e Maranhão e do Ministério de Minas e Energia. teve origem na iniciativa do DNOCS de criar uma comissão para inventariar as possibilidades de implantação de hidroelétricas no rio Parnaíba.

e com a passagem para o Patrimônio da União do imobilizado não ligado diretamente à geração. nos rios Piancó e Aguiar. no Ceará. A usina só entrou em operação em 1967 e em 1969 foi incorporada à CHESF. Em oposição a esses. foi implantada inicialmente com 20 MW em 1962 e posteriormente ampliada para 30 MW em 1970. Somente em 1991 as duas últimas unidades geradoras de 63. a montante da usina de Funil. sendo suas obras civis iniciadas em setembro de 1976. atendida pelas hidroelétricas do rio São Francisco através de linha de transmissão 500 kV Sobradinho – Boa Esperança. grande defensor desta usina. A usina de Pedra também no rio de Contas. atingida com a energização de LT 230 kV Teresina – Sobral – Fortaleza. no rio Acaraú. o passivo da COHEBE foi coberto com recursos da reserva legal para desapropriação de empresas de energia elétrica. A hidroelétrica de Araras. Para não onerar os consumidores. 186 .65 MW cada.5 MW encontra-se situada a jusante da barragem dos açudes públicos Estevão Marinho e Mãe-d’Água. A barragem é do tipo contrafortes de concreto com 24 blocos dos quais os sete blocos centrais são vertentes. A barragem tem múltipla finalidade e além de geração de energia. Ela encontrou apoio na Eletrobras através dos seus diretores Mario Bhering. previsto no planejamento do setor elétrico e reforçado pela interligação elétrica CHESF – COHEBE. Em 1957 a hidroelétrica entrou em operação tendo sido incorporada pela CHESF em 1969. a construção de Boa Esperança sofreu grande oposição dos que consideravam que a demanda dos estados do Nordeste Ocidental (Maranhão e Piauí) não justificava a implantação de um empreendimento desse vulto. Anteriormente. no sul da Bahia. Novos tempos – século XXI A partir de 2006. todas na modalidade de consórcio privado. A usina de Curemas com duas unidades geradoras totalizando 3. encontra-se situada a jusante da barragem do açude público Paulo Sarasate. a CHESF voltou a investir e participar de grandes empreendimentos de geração de energia elétrica. entraram em operação. Pinto Aguiar e Antônio Carlos Bastos. XX e XXI primeira etapa com duas unidades de 54 MW de potência unitária foi concluída em 1970 proporcionando energia abundante e confiável aos estados do Maranhão e Piauí . Jirau e Belo Monte. per mite a regularização do rio para controle de enchentes. sendo acionista minoritária nas usinas hidroelétricas de Dardanelos. mantendo-se para o empreendimento a denominação Usina de Boa Esperança. composta por três unidades geradoras de 10 MW cada. complementando a necessidade de expansão da geração para a região. sendo transferida da COELBA para a CHESF em 1980. Em 1972 Alde de Castro Salgado.A História das Barragens no Brasil . que foi homenageado com a denominação Barragem Milton Brandão. dotados de comportas de segmento. Teve suas obras iniciadas pelo DNOCS em 1939.Séculos XIX. A usina hidroelétrica de Funil no rio de Contas. Em 1973 a COHEBE foi então absorvida pela CHESF. formando sociedades de propósito específico (SPE). Esse procedimento foi replicado quando da morte do deputado federal Milton Brandão. a casa de força passara a ser denominada Presidente Castelo Branco. haviam os que alegavam que a usina seria um investimento pioneiro fomentador de progresso para a região. assumiu a presidência da COHEBE avançando no processo de absorção dela pela CHESF. De modo semelhante ao que aconteceu com Paulo Afonso na década de 1940. dentro do novo modelo do Setor Elétrico Brasileiro. após a morte do ex-presidente Castelo Branco. com duas unidades geradoras totalizando 4 MW. o que explica a grande defasagem entre as instalações das unidades geradoras. A barragem é uma estrutura de concreto gravidade incluindo a tomada d‘água e o vertedouro em vale relativamente fechado. abastecimento d’água e ir rig ação ag rícola. possui apenas uma unidade geradora de 20 MW cuja entrada em operação aconteceu em novembro de 1978. então vice presidente executivo da CHESF. no estado da Paraíba. As obras foram iniciadas pelo DNOCS em 1956.

outro composto do canal de adução e interligação e o último composto do reservatório intermediário e sítio Belo Monte com a usina principal. na região amazônica. em Rondônia. sendo composta de 5 unidades geradoras. A potência instalada total de Belo Monte é de 11. um deles denominado Pimental onde ocorrerá o barramento do rio Xingu. a 120 km de Porto Velho. com turbinas Francis na casa de força principal denominada Belo Monte e 6 unidades geradoras de potência unitária 38. no rio Madeira.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Na usina hidroelétrica Dardanelos a CHESF participa em sociedade com a Neoenergia e a Eletronorte.85 MW. no noroeste do Mato Grosso. quatro delas de 58 MW cada e uma de menor porte de 29 MW. no Complexo Hidrelétrico de Belo Monte a CHESF se associou a outras 18 empresas. possuindo três sítios. Sua capacidade instalada é de 3.Vista aérea da hidroelétrica de Xingó 187 . Seu vertedouro possui 44 vãos e permite uma descarga de vazão de projeto de 85. no Pará. dispostas em duas casas de força. A usina está sendo construída no local denominado ilha do Padre. a Eletrosul e a Camargo Corrêa.1 MW. uma na margem esquerda e outra na margem direita. com dezoito unidades geradoras de potência unitária 611. tendo uma capacidade instalada de 261 MW. com unidades Bulbo na casa de força complementar. na Região Amazônica. composto de casa de força complementar e vertedouro. A usina será construída no rio Xingu. A usina está localizada na margem esquerda do rio Aripuanã. Na usina hidroelétrica Jirau a CHESF participa em sociedade com a GDF Suez. Finalmente. Figura 23 .450 MW com 46 unidades Bulbo de 75 MW cada.233 MW. na região amazônica.800 m3/s.

188 .

Esse cenário começou a se tornar crítico a partir do Código de Águas que. Havia também inúmeros pequenos autoprodutores rurais. fazendo com que. alguns estados como São Paulo e Minas Gerais principalmente. tirando o incentivo da iniciativa privada em promover acréscimos de investimento de geração. já nos anos 40. mas as duas maiores eram de capital canadense (Light) e americano (AMFORP American Foreign Power). A situação da Light.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Furnas no século XX Flavio Miguez de Mello “No Brasil nunca se fez nada demasiadamente grande. Reservatório de Serra da Mesa.4 x 109 m3 189 . a energia elétrica era praticamente só gerada por empresas privadas. gerou crescente aceleração urbana que passou a pressionar por demanda de energia elétrica. evidenciava esse cenário. a maior concessionária do País na época. transmissão e distribuição de energia elétrica. tendo sido adotado em 1934. por sua vez. a maioria delas nacionais. essa oferta era inferior à demanda que crescia acima da capacidade de investimento da concessionária. Com as restrições tarifárias. Apesar de procurar aumentar sua oferta de energia elétrica. as companhias de energia elétrica passaram a enfrentar problemas no atendimento da crescente demanda. Nessa época o País começou a deixar de ser apenas essencialmente rural para iniciar a industrialização que. criou desequilíbrio econômico nos contratos de concessão de fornecimento de energia elétrica. por exemplo. o maior do País com capacidade de 54. começassem a criar empresas estatais de energia elétrica.” Leopoldo Miguez Desde os primórdios da produção de energia elétrica no País até pouco depois da II Grande Guerra Mundial.

em 1954. As sinalizações de déficit passaram a ser evidentes. então diretor técnico da CEMIG. em muito curto prazo. ficou claro que a diferença entre a capacidade em construção e a demanda projeta- da exigia o início. os sistemas do Rio de Janeiro e de São Paulo eram em frequências diferentes. o governo federal que havia criado a CHESF para explorar o potencial do rio São Francisco em Paulo Afonso. nas proximidades de sua fazenda. Os estudos iniciais mostraram que a capacidade instalada seria quase um terço da capacidade instalada nacional. foi seguido pelas fundações da CEMIG (1951). havia cerca de 100 MW instalados pela indústria em grupos Diesel que representavam quase 20% da capacidade instalada da São Paulo Light. em cujas margens o engenheiro José Mendes Júnior costumava pescar. Os dois engenheiros pernoitaram na fazenda e receberam de Mendes Júnior indicações sobre o local das corredeiras. de obra que acrescentasse cerca de 1000 MW na Região Sudeste. XX e XXI Desse modo. EFE (1954). A solução estava no local recém descoberto pela CEMIG. No início do governo Kubitschek. Só em São Paulo. O local foi identificado por Francisco Noronha e Anton Rydland em viagem exploratória sugerida por John Cotrim. sendo agravadas pela inexistência de interligação dos sistemas das concessionárias. CHERP (1955) e Escelsa (1956). em reconhecimento do potencial do rio Grande entre a hidroelétrica de Itutinga e o remanso do reservatório de Peixoto.Séculos XIX. as indústrias passaram largamente a instalar grupos geradores Diesel. COPEL (1953). USELPA (1953).A História das Barragens no Brasil . Mesmo na Light. estimuladas pela própria Light e com perspectivas de racionamentos. Este se mostrou excepcional para uma grande usina com grande reservatório de regularização. em 1956.Francisco Noronha e Anton Rydland no local de Furnas 190 . No local havia as corredeiras de Furnas que se situavam em vale apertado de encostas íngremes. Nos anos cinquenta. Havia apenas uma pequena conversora de muito baixa capacidade entre os dois sistemas. O vulto das obras que seriam necessárias para erguer uma das maiores hidroelétricas do mundo na época era muito superior à capacidade das empresas Figura 1 .

e John Cotrim. Jânio disse que só entraria no projeto se houvesse garantias que o governo federal investisse também nos projetos do estado que eram os aproveitamentos hidroelétricos de Urubupungá e Caraguatatuba. Candido Holanda e Flavio H. ele era contra grandes áreas alagadas em Minas para gerar energia para outros estados: costumava dizer que queriam “fazer de Minas a caixa d’água do Brasil”. O famoso tripé de Furnas estava formado. Ele temia que o governo federal não tivesse recursos para as duas obras simultaneamente e criou toda sorte de obstáculos para atrasar o início de Furnas até que Três Marias estivesse em construção e em estágio irreversível. o governador Jânio Quadros disse que só autorizaria a participação de São Paulo na empresa se Lucas Lopes fosse falar com ele pessoalmente. Para cuidar da administração. Mas a oposição do governador Bias Fortes continuava. Apesar de ser diretor da CEMIG. Flavio Lyra que residia no Rio de Janeiro. Bias Fortes. depois de serem mostrados os benefícios para o estado que seriam trazidos por Furnas. e o escritório central ficou instalado no Rio de Janeiro.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens estaduais na época. Essa situação só foi normalizada cerca de vinte anos depois com a transferência oficial da sede para o Rio de Janeiro. pequena cidade nas proximidades do local da usina. O aproveitamento de Urubupungá foi feito. Ele queria garantir que Três Marias fosse feita antes de Furnas para ter certeza de que seria concluída. No impasse. selecionaram os principais membros da nova empresa. então presidente do BNDE. a sede foi para Passos. O mercado a atender era primeiramente São Paulo que se encontrava em situação mais crítica e depois os demais estados da Região Sudeste. Além disso. sendo pessoas perfeitamente intercambiáveis dadas a formação e a experiência dos três. A primeira oposição a Furnas veio do governo de Minas Gerais. sem influências políticas e procurando não sacrificar a CEMIG. Esses aspectos fizeram com que ficasse claro que a empresa a ser constituída deveria ser federal. à época exercido por Bias Fortes. o que foi um presente do governo federal para a CEMIG. veio a idéia de finalmente concordar com o governador que então parou de se opor e a empresa pode ser finalmente constituída. de diretor técnico da CEMIG para presidente de Furnas. tendo resultando nas usinas de Jupiá e Ilha Solteira. enquanto que a CEMIG apenas aportaria recursos para a construção da casa de força situada ao pé da barragem. mas também tiveram seu preço. sucessor de Lucas Lopes na presidência da CEMIG. A Comissão pagaria pelo reservatório e pela barragem. Lucas Lopes teve que concordar. das finanças e dos suprimentos. As negociações políticas com São Paulo foram mais fáceis. O aproveitamento de Caraguatatuba não saiu do papel por ser derivação de descargas 191 . As atas das assembléias eram referidas a Passos apenas nominalmente. Lopes e Cotrim foram a São Paulo e. Lucas Lopes articulou um esquema de participação da Comissão do Vale do São Francisco em Três Marias. Quando tudo estava pronto para a fundação da empresa. foi selecionado como diretor técnico. Seu derradeiro lance foi exigir que a sede de Furnas fosse localizada em Minas Gerais. Lyra dispunha da infra-estrutura adequada. Isso tinha justificativa uma vez que Três Marias era um empreendimento de finalidades múltiplas. Enquanto ele pensava que tinha trazido a empresa para Belo Horizonte. Lucas Lopes. já que Belo Horizonte na época não Figura 2 – John Cotrim . Os três constituiriam a diretoria executiva de Furnas. em cumprimento à promessa feita ao professor Cândido Holanda. foi convidado o engenheiro Benedito Dutra.

Maurício Bicalho. John Cotrim. tais como João da Silva Monteiro. A diretoria executiva seria composta por John Cotrim na presidência. L. empresa de energia do estado de São Paulo. e os estados de Minas Gerais e São Paulo. José Luiz Bulhões Pedreira. Uma reunião em Alfenas com a comunidade local foi a antevisão das atuais audiências públicas. C. chefe do planejamento elétrico do governo de São Paulo. diretor da Light.Séculos XIX. Resolvidas as participações estaduais. Essas alterações foram impedidas pelos parlamentares que se designavam como nacionalistas e a participação dessas duas empresas foi sendo diluída pela renúncia de investimentos adicionais. para qualquer aumento de capital. Juscelino Kubitschek. Mário Lopes Leão. Da esquerda João Monteiro. foram negociadas as participações da Light e da AMFORP que. Flavio Lyra e Benedito Dutra 192 . necessitariam de alteração no gargalo tributário a que eram sujeitas. Barreto de Carvalho e Julival de Moraes que encontraram um clima de hostilidade inédito até aquela época. Lyra na diretoria técnica e Benedito Dutra na diretoria de administração e finanças. Além desses diretores executivos. foi apresentada por Lucas Lopes a estrutura organizacional da empresa. pelas suas mãos. com graves impactos para as regiões a jusante no Vale do Paraíba. haveria diretores representando os outros principais investidores: a Light. que defendia que era melhor para São Paulo que investimentos fossem feitos em obras estaduais e não em obras federais. XX e XXI da bacia do rio Paraíba do Sul para o oceano. Juscelino então perguntou: “E eu? Não sobrou nada para mim aí nessa diretoria?” Lucas Lopes esclareceu: “Não temos Figura 3 – JK e Lucas Lopes reunidos com os indicados para diretoria de Furnas por ocasião da constituição da companhia. Participaram da reunião que se estendeu até a madrugada muitos proprietários de terras da região e advogados que os incitavam com o objetivo de angariar clientes em ações contra a empresa que estava sendo constituída. Lucas Lopes.A História das Barragens no Brasil . Ernani da Motta Rezende. bem como políticos que tinham suas bases na área. o advogado Noé Azevedo se tornou patrono de muitos proprietários e municípios em uma ação cominatória que visava impedir a construção da barragem de Furnas. Em reunião com o presidente JK realizada no palácio Rio Negro. Sérgio Otaviano de Almeida. diretor da CELUSA. José Pilz Filho. Por Furnas participaram os engenheiros Cotrim. Flavio H. Menção é devida a outras pessoas que tiveram destaque na formação da empresa. diretor da CEMIG. Emerson Nunes Coelho. Delphim Mazon Fernandes e Jarbas Di Piero Novaes. em Petrópolis. além do engenheiro Souza Dias. Lyra. Carlos Mário Faveret.

Lyra em solenidade no canteiro de obra de Furnas 193 .Delphim Mazon Fernandes e senhora em 1966 Figura 5 . piloto e convidado Figura 6 . Lyra. José Pilz Filho.CINQUENTA ANOS DO COMITÊ BRASILEIRO DE BARRAGENS Figura 4 .Assis Chateaubriand e Flavio H.Flavio H.

em outubro de 1958. concentrando na margem esquerda as estruturas do vertedouro e da tomada d’água. XX e XXI Figura 7 . mas você tem as vagas do conselho de administração e do conselho fiscal. Os recursos em moeda nacional vieram do BNDE e do Fundo Federal de Eletrificação. além dos gastos com a escavação. A indicação dos projetistas era de um laboratório nos Estados Unidos.A História das Barragens no Brasil . Com isso. quantia impressionante para a época. A construção seguiu um projeto muito bem concebido que resultou em uma alta barragem de enrocamento com núcleo de terra no leito do rio. não aceitou que a redução fosse efetuada. Inicialmente essa barragem seria construída nas cercanias da pequena cidade de Capitólio. Na maior parte do tempo os residentes de Furnas na obra foram Rodrigo Mário Penna de Andrade e Franklin Fernandes Filho. houve a necessidade de se construir os modelos em área do laboratório do Departamento Nacional de Portos e Vias Navegáveis.000 m³/s. o reservatório é fechado com a barragem de terra de Pium-I que impede que as águas afluam para a área de drenagem do rio São Francisco. conhecedor da capacidade do professor Theophilo Benedicto Ottoni Netto e de seus ex-alunos. O diretor técnico propôs ao BIRD a eliminação de um vão do vertedouro. já constavam das duas relações. revoltada com a 194 . então Lucas. propiciando enrocamento para a barragem. um dos arranjos que estavam sendo considerados: barragem de concreto gravidade. Esse foi o primeiro grande passo para a formação de várias gerações de excelentes engenheiros hidráulicos no País. uma vez que não havia experiência nesse setor da engenharia no Brasil para encarar os ensaios de uma obra dessa magnitude.” E indicou alguns nomes para compor os dois conselhos respeitando os que. o maior empréstimo feito pelo BIRD para um só empreendimento até então. um empréstimo de US$ 73 milhões. Como o laboratório era instalado no subsolo de um prédio situado na rua Araujo Porto Alegre. o concreto e a comporta do vertedouro e do acréscimo de calha desnecessários. para se candidatar ao empréstimo do BIRD. no Centro da cidade do Rio de Janeiro.Séculos XIX. representando os investidores. houve inflação de capacidade de descarga nos vertedouros a jusante. situado no Caju. O canal de adução a essas estruturas foi escavado em cota elevada. e vertedouro com seis comportas de segmento com capacidade total de 13. assumiu a responsabilidade da execução dos ensaios no Brasil pelo Laboratório Saturnino de Brito. Entretanto.500 m³/s no local da barragem. Com o aprofundamento dos estudos hidrológicos verificou-se que não seria possível a ocorrência de uma descarga superior a 10. foi enviado às pressas. mas o engenheiro responsável por esse empreendimento no BIRD. quero você na presidência do Conselho de administração.” Disse então o presidente Juscelino: “Ah bom. O projeto teve que ser mudado devido à pressão da população da cidade. traumatizado por já ter perdido uma barragem por ruptura causada por transbordamento. mais convencional na época. Furnas conseguiu do BIRD. Um marco importante para a engenharia hidráulica brasileira foi a seleção do laboratório que deveria desenvolver os ensaios em modelo hidráulico reduzido.Visita do presidente Juscelino Kubitscheck à hidroelétrica de Furnas no início de sua obra como mexer na diretoria. Além da barragem principal e do conjunto tomada d’água e vertedouro. no início dos estudos. Flavio Lyra.

A cidade de Capitólio ficou às margens do reservatório. assumiu a vicepresidência da República e o Ministério de Minas e Energia o político mineiro e engenheiro Aureliano Chaves que pressionou Furnas para construir a pequena barragem de Boa Esperança com a finalidade de manter o nível d’água constante em frente à cidade de Capitólio. o morro dos Cabritos em fase inicial de erosão. não mais havia tempo para alterações.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens possibilidade de ser impactada pela obra. Cerca de vinte anos após o reservatório ter sido formado. 195 . a população verificou as muitas melhorias que Furnas havia introduzido em outras cidades na área do reservatório e pressionou em sentido contrário para que a barragem retornasse ao local originalmente selecionado para que houvesse em Capitólio os benefícios propiciados às outras cidades. Entretanto. A montante do canal de acesso à tomada d’água e ao vertedouro. na reconstrução da barragem. Durante a construção houve uma ruptura da fundação em argila muito compressível. Figura 8 .Vista aérea de Furnas nos primeiros anos de operação. sendo o vertedouro. sido deslocado para um local onde ocorria rocha competente. sujeita à imagem desagradável das áreas que afloravam quando o reservatório era deplecionado. com o passar do tempo. um de seus redutos políticos. Tarde demais.

nessa ordem. A pressão política foi grande e a privatização de geradoras do setor elétrico nessa fase se limitou à Eletrosul. mobilizou uma força policial para a região de Pium-I com equipamentos de terraplanagem e ameaçou abrir a barragem fazendo com que as águas do rio Grande represadas pela barragem de Furnas fossem afluir para a bacia do rio São Francisco. John Cotrim disse para o guarda: “Eu sou o Cotrim”. prejudicaria enormemente todas as usinas a jusante de Furnas. Tempos depois. se colocou frontalmente contrário à privatização do setor elétrico. enrocamento fino. pois até o carro que conduzia o Cotrim foi barrado. A operação ocorreu com sucesso. Foi acionado um avião da Líder que costumava fazer o trajeto entre Rio e Furnas. Esse ingênuo comentário fez com que Cotrim entrasse em desespero dizendo que a operação já era do conhecimento geral.Séculos XIX. Quando foi impedido de entrar. que. Flavio Lyra disse a ele que ele havia chegado tarde pois não havia mais qualquer possibilidade física de retirar as comportas que já estavam com bem mais de 20 m de água sobre elas. na época governador de Minas Gerais. concessionária de várias hidroelétricas em Minas Gerais. Na conclusão dos serviços. Poucos dias depois começou o pesadelo na execução dos plugues dos dois túneis de desvio. Essa longa operação para solucionar o mais importante acidente que até então havia ocorrido em obras no País fez com que o engenheiro Flavio Lyra. o fechamento do reservatório foi sigilosamente programado para o dia 9 de janeiro de 1961. Na guarita da obra foi montado um esquema do tipo operação padrão para impedir ou retardar ao máximo a entrada de qualquer pessoa estranha. o engenheiro Franklin 196 . o governador Magalhães Pinto foi convidado junto a outros governadores. comentou que deveria ser para o fechamento do reservatório. a montante das comportas de desvio. se realmente executada. O governo Fernando Henrique Cardoso se propunha privatizar o setor elétrico estatal federal. aqui não pode entrar ninguém. Flavio Lyra ficou na obra para acompanhar o desempenho do fechamento. disse para o guarda abrir a cancela. Magalhães Pinto. Ao adotar essa inédita postura afirmava que por ser engenheiro. três das quais concessões da CEMIG. ao final desse período tivesse ficado grisalho. o oficial de justiça entregou o mandato. Como havia oposição ao empreendimento mesmo depois dele já consolidado. enrocamento grosso. O ex-presidente Itamar Franco. vendo os VIPs congregados no avião. O guarda. os vazamentos foram controlados pela colocação de tetrápodos. Flavio Lyra com um megafone começou a comandar o fechamento dos dois túneis de desvio.A História das Barragens no Brasil . ministros e demais autoridades. ocorreram explosões que acarretaram acréscimos substanciais e crescentes de vazão que indicavam que alguma coisa havia colapsado no túnel. por ocasião da inauguração da usina. na parte a montante dos plugues. Depois de perder muito tempo na operação padrão da portaria. já sem problemas de oposição ao empreendimento. apesar de ter iniciado o programa de grandes privatizações quando era presidente. a começar por Furnas. com a bem sucedida privatização da CSN. só tendo sido liberado quando Flavio Lyra. No meio do dia chegou na obra o então governador de Minas Gerais. John Cotrim também saiu no meio da manhã. O esquema funcionou muito bem. O piloto que naturalmente acompanhava as atividades de construção. passou uma descompostura no diretor presente. principalmente de Furnas. quando os plugues estavam quase concretados. No seu esforço político contra a privatização. Flavio Lyra. O oficial de justiça se retirou. O avião de Furnas não pôde decolar do aeroporto Santos Dumont. O piloto afirmou que ele não sabia de nada e que apenas supôs que o fechamento do reservatório iria ocorrer vendo quem eram os passageiros no avião. inclusive a usina de Furnas. Ainda não havia amanhecido quando chegou na portaria um oficial de justiça com um mandato para impedir o fechamento do reservatório. que não conhecia o presidente da empresa e seguindo instruções disse: “Nem Cotrim nem Delphim. Voltando aos anos sessenta. areia e argila. XX e XXI A respeito da barragem de Pium-I um episódio interessante ocorreu muitos anos depois de sua construção. ou comprometido com o mandato de segurança acima mencionado ou querendo ter colhido dividendos políticos na operação de fechamento. que vinha atrás em outro carro.” Perto das 24 horas. No dia anterior membros da diretoria se deslocaram para a obra. Após extensos trabalhos. A derivação do rio Grande. saberia efetuar essa sabotagem com eficiência. Em cada um dos dois túneis. que aguentou firme tal estupidez.

Nessa ocasião eram impressionantes as fotografias dos reservatórios em São Paulo completamente deplecionados. Dizia ele que “nem a cheia de 1930 trouxe água até aqui e não será essa tal de Furnas que fica a léguas de distância.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Fernandes Filho. quase frontal à barragem apresentava constante e acelerada erosão com desplacamento de material. viu uma delas cair. Se a água vier até aqui eu bebo ela todinha. embora avisadas. Furnas contou com o canadense Richard L. Mais uma vez houve uma corrida contra o tempo para que a usina de Estreito entrasse em operação para evitar colapso no suprimento de energia elétrica à Região Sudeste. por exemplo. Apesar do importante acidente nos túneis de desvio. Aos que lá foram ter com ele. A partir de acordo entre as duas companhias. ao adentrar num túnel com outras pessoas. provocar uma onda de até 30 m sobre a barragem. tendo salvado o estado de São Paulo de uma concreta ameaça de forte racionamento. A usina foi inaugurada pelo presidente Castelo Branco em 12 de maio de 1965. ambas com largos canais de acesso que propiciaram os enrocamentos necessários à barragem. Centros urbanos como a cidade de Guapé e a vila de São José da Barra haviam sido reconstruídas com melhores habitações e equipamentos urbanos às margens do reservatório. estava mais bem estruturada para executar a construção. Toda a área instável foi então removida. permaneciam na área que estava sendo alagada.950 m³/s e da tomada d’água foram implantadas cada uma em uma das margens. houve efetiva colaboração das Forças Armadas na retirada de algumas pessoas que. Com a elevação do nível d’água na área do reservatório. não foi construída por ter sido criado um parque nacional na área que seria o reservatório. o senhor não garantiu que as águas iriam subir até a estaca branca?” Após a resposta afirmativa. naquela vila. Hearn. A obtenção dessa concessão foi obtida graças ao elevado desempenho da empresa na construção de Furnas e quebrou a orientação governamental de que Furnas se limitaria à implantação da usina de Furnas e à sua operação. Com o progresso da erosão foi se formando um grande monólito que. Muitos anos se passaram e a encosta do morro dos Cabritos. A Companhia Paulista de Força e Luz. A regularização promovida pelo reservatório beneficiou sobremodo os potenciais a jusante propiciando a ampliação da capacidade instalada de Peixoto (Mascarenhas de Moraes) e viabilizando os muitos e grandes aproveitamentos a jusante que foram todos construídos até Itaipu com exceção de Ilha Grande no rio Paraná que. Como consultores internacionais para o projeto e a obra. que vai trazer água até a minha roça. havia um habitante que teimava em permanecer na casa que já havia sido comprada e paga por Furnas. Um desses desplacamentos causou uma onda que incidiu contra a barragem. do grupo AMFORP. hidroelétrica anterior e a jusante de Furnas. proveniente da decomposição de matéria orgânica da área do reservatório. fincou estacas brancas de madeira em diversos pontos onde a linha d’água iria atingir quando da formação do reservatório. Na última hora foi reportado que ainda havia um teimoso na área do reservatório. Foi então descoberta a causa das explosões: mistura de oxigênio com gás metano acumulado nos túneis. 1965. A Companhia Paulista de Força e Luz detinha a concessão do aproveitamento hidroelétrico de Estreito situado no rio Grande a jusante da usina de Peixoto. foi dito: “Seu Doutor. Cenas como essas não eram incomuns na época. a usina e seu sistema de transmissão associado entraram em operação como programado. a concessão foi transferida para Furnas que. Nessa obra 197 . ele acrescentou: “Pois assim seja. Entretanto. de acordo com o modelo hidráulico reduzido. A barragem de enrocamento com núcleo de terra fecha o vale e as estruturas do vertedouro com capacidade de 12. apesar de ter tido iniciadas as obras. se incidisse no reservatório poderia. Eu peguei a estaca e finquei ela lá em baixo.” O projeto e a obra de Furnas foram executados com grande sucesso. com barcos encalhados na lama do fundo dos reservatórios.” Teve que ser tirado à força. naquela época. principalmente os da São Paulo Light. para a visualização dos residentes antes do fechamento do reservatório de Peixoto. o austríaco Arthur Casagrande e o americano Portland Port Fox.

Nessa época apenas sete dos dezessete blocos da barragem principal haviam sido concretados. Furnas Figura 10 – Ministros Mauro Thibau e Roberto Campos. também estava com considerável atraso. na época a segunda maior barragem de terra do País. sendo que o mais elevado não ultrapassava a cota do piso dos geradores. a tempo de se evitar uma crise de suprimento de energia em toda Região Sudeste. A Eletrobras assumiu a construção da hidroelétrica de Funil e. Naquela época esses governos eram de diferentes correntes políticas. ambas tendo desenvolvido estudos preliminares. em 1969.A História das Barragens no Brasil . O rio Paraíba do Sul após a cidade de Cruzeiro (SP) passa a apresentar gradientes progressivamente mais acentuados até pouco a montante da cidade de Itatiaia (RJ) onde se localizavam três corredeiras que despertaram o interesse da Estrada de Ferro Central do Brasil e da Light. A usina. em 1967. com capacidade final de 1050 MW (duas unidades foram montadas em segunda fase) entrou em operação antes da data programada. XX e XXI Figura 9 – John Cotrim. empresa estatal destinada a desenvolver os aproveitamentos no Vale do Paraíba. John Cotrim e presidente Castelo Branco na inauguração da usina hidroelétrica Estreito 198 . Consta que a diretoria abrigava indicações dos governos dos estados da Guanabara. principalmente quando comparada à eficiência demonstrada por Furnas. No final dos anos 50 foi criada a CHEVAP. o que pode ter gerado ineficiência de gestão.Séculos XIX. presidente Castelo Branco e ministro Mauro Thibau em visita a Estreito foi usado pela primeira vez no País rigoroso planejamento e controle de construção em PERT/CPM permitindo que a obra tivesse controle de prazos. A barragem de Nhangapi. São Paulo e de Minas Gerais além do governo federal. no ano seguinte. Rio de Janeiro. transferiu essa responsabilidade a Furnas.

portanto Figura 12 . por falta de inundações periódicas. o reservatório de Funil amorteceu totalmente a cheia afluente. Santa Branca e Jaguari.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 11 – Luiz Carlos Barreto de Carvalho aplicou um verdadeiro choque de gestão e iniciou a geração comercial em dezembro de 1969. Presentemente a usina com 210 MW instalados é também e principalmente usada como elemento de regularização de vazões e de controle de cheias. tendo tido excelente desempenho. esse eficiente controle de cheias tem feito com que o leito secundário do rio. Episódio pitoresco ocorreu a partir das primeiras investigações realizadas no local da barragem. Entretanto. assim como as usinas e os reservatórios de Paraitinga/Paraibuna. A barragem principal com altura de 85 m permanece sendo a única barragem em abóbada no País. situados a montante. beneficiando as cidades a jusante. Por ocasião da maior cheia registrada no rio Paraíba do Sul. Um místico chamado Savananda que se assemelhava a um guru indiano e residia em Resende. ocorrida em fevereiro de 2000. venha sendo ocupado por construções irregulares e até por instalações da Prefeitura de Resende.Barragem de Funil 199 .

Após a decisão do ministro. julgando que a inundação das terras do seu município seria grande. 200 . Ao serem iniciados os estudos de campo. O ministro afirmou que “palavra de ministro não volta atrás.” Até a presente data (maio de 2011) cerca de 25 milhões de megawatts hora deixaram de ser economicamente gerados.Séculos XIX. muitos anos depois. paralisando o desenvolvimento da vossoroca. o prefeito da pequena cidade de Guaira. na época chefe do Departamento de Engenharia Civil. A usina entrou em operação no dia 29 de junho de 1973. Além do considerável acréscimo de energia gerada em Porto Colômbia. o ministro Costa Cavalcanti das minas e energia. Furnas recebeu as concessões de Porto Colômbia e Marimbondo. Poucos dias depois. afirmasse que a usina de Porto Colômbia seria implantada a montante da foz do rio Pardo. ambas situadas no rio Grande entre São Paulo e Minas Gerais. capitaneou um movimento de oposição à alternativa de barragem a jusante da foz do rio Pardo.Usina hidroelétrica de Porto Colômbia a jusante do local da barragem. cinquenta e um dias antes do inicialmente programado. Foi produzida vasta documentação fotográfica enviada ao engenheiro Erton Carvalho. afirmava que a barragem iria romper causando um desastre sem precedentes. Entretanto. e. diretores e assessores de Furnas mostraram a conclusão dos estudos que demonstrava que a inundação no vale no rio Pardo seria muito menor do que estava sendo alardeada. seriam de pouca expressão as áreas a serem inundadas no vale do rio Pardo. A usina de Porto Colômbia é de queda modesta. que providenciou a devida correção. XX e XXI Figura 13 . numa solenidade em Jupiá.A História das Barragens no Brasil . Os primeiros estudos de Furnas visaram o confronto do arranjo do inventário com uma alternativa de projeto situada logo a jusante da confluência dos dois rios. pudesse amortizar as cheias do rio Pardo por elevação de seu nível d’água acima do nível máximo normal por ocasião da afluência das cheias. No inventário realizado pela Canambra o aproveitamento de Porto Colômbia foi situado pouco a montante da foz do rio Pardo no rio Grande. Flavio Lyra propôs que o reservatório de Marimbondo. a alternativa propiciava uma pequena regularização das vazões do rio Pardo que beneficiaria todas as usinas a jusante. O rio Pardo contribui com cerca de 30% da descarga média do rio Grande. A barragem não rompeu. o autor por acaso esteve em ponto remoto do reservatório e verificou que estava se desenvolvendo uma grande vossoroca que se formava a jusante de uma estreita sela topográfica. pouco superior a 20 m. A construção e montagem da usina foram feitas sem maiores problemas. situado a jusante. O movimento conseguiu que. Essa operação não pode ser efetuada devido à interferência da ponte Gumercindo Penteado sobre o rio Grande entre as cidades de Planura e Colômbia. após a cheia de 2000. portanto. Em 1968.

ela foi selecionada para construção. As obras que transcorreram sem atropelos. Figura 14 – Usina hidroelétrica de Marimbondo 201 . Assim que foram iniciados os estudos. sendo desativada após a construção da barragem da margem esquerda. No local de Marimbondo havia a primeira usina de Marimbondo. Porto Colômbia com 320 MW e Marimbondo com 1440 MW foram as últimas usinas de Furnas no rio Grande. a perspectiva era de que essa usina supriria de abundante energia todo interior paulista na região de influência de São José do Rio Preto até o Século XXI. Essa alternativa teria barragem e reservatório muito ampliados. palavra indígena que significa o caminho da cachoeira. A concessão seguinte foi o aproveitamento de Itumbiara. dentro do previsto na programação. Ao inaugurar essa usina. implantada pelo governador de São Paulo Armando de Salles Oliveira em 1928 com 8 MW instalados. tem potência 175 vezes superior à antiga usina de 1928.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A hidroelétrica de Marimbondo foi implantada em paralelo com Porto Colômbia. mas com ligeira defasagem. A antiga usina foi adquirida por Furnas. A usina aproveitava parte das descargas do rio Grande no seu braço esquerdo. Flavio Lyra recomendou que fosse estudada uma alternativa de projeto que englobasse a usina prevista a montante pelo inventário da Canambra. foram iniciadas em 1971 e a usina foi inaugurada em 28 de maio de 1976. Logo a seguir dessa decisão. Apesar das análises energéticas e econômicas internas não terem recomendado essa alternativa. após o primeiro choque do petróleo ocorrido no final de 1973. A nova usina que começou a ser construída 30 anos antes da virada do século.

Em 1981. A obra foi iniciada no final de 1973 e.Séculos XIX. denominado Serra da Mesa. baseada no desenvolvimento que experimentou nas décadas anteriores. sendo que pelo menos duas recomendaram a adoção de um eixo a montante do local de São Felix. Os estudos conduziram a uma barragem de enrocamento com núcleo de terra com 154 m de altura represando 202 . em 1980 as primeiras unidades geradoras entraram em operação comercial dentro da programação original. Furnas instituiu um concurso/concorrência entre empresas consultoras. Em Itumbiara foram ultrapassados os recordes de concretagem anteriores e foram instaladas as maiores turbinas já fabricadas até então. Furnas recebeu a concessão do aproveitamento do alto rio Tocantins em trecho que havia sido estudado inicialmente pela CELG e posteriormente pela ELETRONORTE. tendo sido definido um aproveitamento designado como São Felix. Nessa época as indústrias de bens de capital. Na implantação de Itumbiara. o setor elétrico não sendo exceção.A História das Barragens no Brasil .Usina hidroelétrica de Itumbiara nova análise energética e econômica revelou que essa alternativa adotada era muito mais viável do que a do inventário. pela primeira vez. com excepcionais características geológicas. pode se lançar com vigor ao mercado externo obtendo resultados compensadores. Essa marca foi muito importante para a indústria porque nas últimas duas décadas do século passado o País vivenciou forte recessão. muito superiores às do local de São Felix. XX e XXI Figura 15 . foi ultrapassado o índice de 90% de nacionalização nos equipamentos permanentes.

no caso inicialmente ao grupo do Banco Nacional. com tirantes de água de até 12.4 bilhões de metros cúbicos que possibilitam a utilização de 43. Figura 18 .571 m³/s. A usina foi concluída em 1997. Agenor Antônio Bailão Galletti.Os consultores Don Deere e Arthur Casagrande em Itumbiara com o engenheiro Ludgero Pimenta de Ávila 203 . no mesmo ano. A elevada qualidade do granito do local permitiu a adoção de casa de força subterrânea abrigando três unidades de 431 MW cada na margem esquerda e desvio por dois túneis escavados na margem direita. João Alberto Bandeira de Mello e Don Deere inspecionando a barragem de Itumbiara 54.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 16 – Arthur Casagrande e Guy Bordeaux na área de empréstimo de Itumbiara Figura 17 – Arthur Casagrande. a construção de duas ensecadeiras de concreto compactado com rolo com 25.5 m de altura com o objetivo de permitir a passagem de cheias no período construtivo sem danificar o aterro da barragem que seria executado. A recessão acima referida e a falência do Banco Nacional fizeram com que a obra fosse paralisada de 1990 a 1994.24 bilhões de metros cúbicos de volume útil para efeitos de regularização de descargas. Em 1988 foram executadas as ensecadeiras de terra e rocha que permitiram.4 m. As ensecadeiras e a parte da barragem construída foram galgadas por cinco vezes por descargas de até 6. Essa foi a primeira usina em que Furnas se associou a uma empresa privada.5 m e 16.

A barragem de enrocamento com núcleo de terra teve também na sua construção ensecadeiras galgáveis. No Século XXI Furnas passou a atuar com frequência associada a empresas privadas para implantação de novas hidroelétricas como reportado por Márcio Porto nesse livro. XX e XXI Em paralelo à construção de Serra da Mesa. Atenção especial foi dedicada à preservação das águas termais da região de Caldas Novas. A obra começou a ser implantada pela CELG e interrompida em dezembro de 1982. estas de terra e rocha.Usina hidroelétrica de Serra da Mesa 204 .Séculos XIX. No ano seguinte a Eletrobras solicitou a Furnas para examinar a partição de quedas do rio. Furnas implantou a usina hidroelétrica de Corumbá sobre o rio Corumbá em Goiás com potência instalada de 375 MW. Figura 19 .A História das Barragens no Brasil .

J. – General Paper – XIII International Congress on Large Dams. 1979 Porto.Usina hidroelétrica de Corumbá Referências Carvalho. et al. 2011 205 . 1994 Lyra. – O Aproveitamento Hidroelétrico de Itumbiara – Construção Pesada n° 26. F. E.H. F. – A Nova Face das Empresas Estatais Frente à Expansão da Oferta de Energia Elétrica no País – A História das Barragens no Brasil – CBDB. 1973 Miguez de Mello. Ensecadeiras Galgáveis – Desvio de Grandes Rios Brasileiros – CBDB. et al.A. F. Closure of Diversion Tunnels – Institution of Civil Engineers. 1975 Miguez de Mello. Desvio do Rio. – Furnas Hydroelectric Scheme. – Barragem da Usina de Serra da Mesa.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 20 . – Grandes Barragens Brasileiras – Construção Pesada n° 47. F.R.A. M. F. 1973 Miguez de Mello. 1967 Miguez de Mello. 2009 Cotrim. – A História de Furnas das Origens à Fundação da Empresa – Comitê Brasileiro do Conselho Mundial da Energia. _ O Aproveitamento Hidroelétrico de Porto Colômbia – Construção Pesada n° 27.

Usina Hidroelétrica de Tucurui .

–  Eletronorte. A presidência da empresa coube ao Cel. não será contada de forma linear. podemos perceber. Era o início da inte­ gração do Brasil como um todo. de noite falta luz”.A. os governos da épo­ ca incentivaram a marcha para o oeste. de dia falta água. foi criada a Centrais Elétricas do Norte do Brasil S. resumida nas linhas que se seguem. no governo Costa e Silva. mas neste histórico.Cel. Hoje o nome da empresa é Eletrobras Eletronorte. em 2011. Raul Garcia Llano (Fi­ gura 1). baseada em estudos do Comitê Coordenador de Estudos Ener­ géticos da Amazônia (Eneram) que havia sido criado em 1968. em 1964. pois foi sua capacidade empreendedora que consolidou a empresa executando Tucuruí e outras obras a serem relatadas adiante. mais precisamente a Amazônia. ao mesmo tempo. sociedade anônima de economia mista e subsidiária da Centrais  Elétricas Brasileiras S. construir o maior projeto inteiramente nacional: a usina de Tucuruí.A Eletronorte e as Barragens da Região Amazônica Alexandre Magno Rodrigues Accioly. Optou-se por descrever alguns fatos relacionando-os aos grandes eventos e obras que marcaram a empresa entremeados por comentários dos tempos atuais. 207 . Alvaro Lima de Araujo e Humberto Rodrigues Gama A história da Eletronorte. a Eletronorte já nasceu com o duplo desafio de constituir a empresa propriamente dita e. mostravam a situação que havia no País antes desse impulso. O início Estávamos na época do chamado Brasil Grande depois que. – Eletrobras. os militares assumiram o poder e deram grande impulso às obras de infraestrutura no País. Para isso. Os saudosos tempos das marchinhas de carnaval bem humoradas. assim incluindo o norte do Brasil. mas bastante críticas. será simplesmente Eletronorte. Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 1 . caminhando para o que hoje. Llano recebendo o presidente João Figueiredo em Tucuruí A Eletrobras anunciou a intenção de construir a usina Tucuruí. em 20 de junho  de 1973. Encampando a ideia do presidente Juscelino. “Rio de Janeiro. nome que se confunde com a própria Eletronorte. como neste trecho de uma delas. na época. já tivesse em seu cur­ rículo importantes obras tanto em porte quanto em quantida­ de. Embora a engenharia nacional. cidade que me seduz. como  concessionária de serviço público de energia elétrica com sede em Brasília no Distrito Federal.A.

370 MW de potência instalada. a evolução do desempenho do vertedouro vem correspon­ dendo às previsões do modelo hidráulico reduzido. Albrás e Alumar. e a alta diretoria executiva das empresas escolhidas para o proje­ to e a construção de Tucuruí. o diretor técnico da Eletronorte. A cota de coroamento da barragem de terra seria de 78 m acima do nível do mar sendo que. foi a usina de Tucuruí.279 em julho de 1974.5 MW de potência nominal cada.000 m³/s e picos de mais de 40. na carta elaborada pelos topógrafos. em alguns trechos do leito do rio havia A Eletronorte formou seus primeiros quadros buscando. Curiosamente. a barragem chegou a ter quase 120 m de altura. a que determinaria o local exato da barragem. Foi assim que vieram para a empresa os engenheiros Geraldo Afonso Pra­ tes. totalizando uma potência instalada de 4. eles localizaram precisamente. o topógrafo Geraldo Magela Barbosa. Embora ainda não tenha sido testado para os limites de vazão. Isso tornava o desafio importante. a Amazônia. A vazão de desvio de 51. especialmente em termos logísticos. para funcionar com uma carga de 32 m.5 m de largura por 13 m de altura. Do tipo vertedouro em salto de esqui. em alguns trechos. canalões de até 40 m abaixo do nível do mar. cada uma com 350 MW de potência nominal. A primeira missão O batismo de fogo da empresa.A História das Barragens no Brasil .000 m³/s registrados até então). pelo decreto 74.000 m³/s exigiu a construção de 40 adufas sob o vertedouro. cada uma com 6. o projeto foi as­ sociado ao fornecimento de energia para indústrias de alumínio eletrointensivas. Berilo Mamoré Pereira Belo. foi posterior­ mente tomada num ambiente muito mais bucólico do que técnico. À sombra de uma grande árvore da margem esquerda do rio. como já dito anteriormente. José Antônio da Silveira. Enfim. inicialmente com a instalação de 12 unidades geradoras princi­ pais. Humberto Rodrigues Gama. Érico Bittencourt de Freitas. Logo. Esta obra foi concebida para ser construída em duas etapas.Séculos XIX. projetado e construído para a vazão de 110. na segunda etapa. XX e XXI A concessão para a construção de Tucuruí foi outorgada à Eletro­ norte. distando aproximadamen­ te 300 km de Belém. As vazões específicas adotadas foram pionei­ ras e ousadas. capital do Estado do Pará. previa o descarregamento de toda essa energia ao pé da própria obra. profissionais egressos da Cemig. consultores brasileiros e estrangeiros contratados para assessorá-lo. e mais duas unidades auxiliares com 22. sendo o último aproveitamento hidrelétrico antes da foz do Tocantins. Dário Gomes (Fi­ gura 2). entre outros. A usina foi concebida para ser construída em duas etapas. Para viabilizar a produção de tamanha quantidade de energia. era um empreendimento caracterizado pelo pioneirismo em vários aspectos.000 m³/s era o maior do mundo na ocasião. O vertedouro da usina. naqueles tempos. 208 . a decisão de maior significado daquela fase. que garantiriam o consumo de boa parte da produção. Depois de longa confabulação. era uma região carac­ terizada por inóspitas florestas tropicais com quase nenhuma infraestrutura. mais 11 unidades de 375 MW totalizando 8. as duas pontas de terra separadas por quase dois quilômetros de água revolta entre as quais seria feito o barramento do Tocantins. A execução da obra de Tucuruí Não bastasse o porte do rio Tocantins quanto à largura (mais de 2 km) e vazões (média de longo termo da ordem de 11.245 MW. João Eduardo de Moura Guido. A usina teria. em boa parte. José Augusto Pimentel Pessoa. reuniu os futuros comandantes da obra.

Llano e o último. em 1977. Sebastião Camargo. comunicações. seriam efetivamente começadas as obras civis. sr. para ensecar a superfície em que as estruturas de concreto e a barragem seriam assentadas sobre a rocha do fundo do rio.Da direita para a esquerda: o 2º. a Amazônia começou a revelar aos pioneiros o tipo de dificuldades que eles podiam esperar no futuro imediato. O primeiro desvio do Tocantins. a ensecadeira de primeira fase do desvio do rio. Érico Bittencourt de Freitas.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 2 . energia elétrica confiável e saneamento básico não existiam. que tivera de ser recrutado em locais próximos. Era um grupo heterogêneo. Somente dois anos depois. Transpor­ tes. em 1975. Sebastião Florentino da Silva durante celebração do lançamento da 1ª caçamba de concreto em Tucuruí O principal obstáculo à construção do novo complexo residencial de apoio às obras da usina foi o isolamento de Tucuruí. Geraldo Afonso Prates. Durante o período de trabalho mais intenso. e que precisou ser treinado para as tarefas específicas de uma construção. Nesse am­ biente foi construída. o que marcou o início das obras civis. o 5º Fausto Cesar Vaz Guimarães. uma mul­ tidão de mais de 30. Mas somente quando as obras civis foram efetivamente iniciadas. sem nenhuma experiência. marcando o início dos trabalhos de terraplenagem.Engenheiro Dário Gomes na cabeceira da mesa em reunião no escritório da vila pioneira Figura 3 . Cel. 209 . em 1977 (Figura 3). o 8º.000 pessoas enxameava em torno do canteiro da obra. foi feito em 1975.

preenchidos com material aluvionar e seixos rolados que difi­ cultaram a execução das ensecadeiras. O desvio do rio foi um dos grandes desafios superados apesar das adversidades. o sistema de previsão de vazões a partir da Também entre os primeiros a entrar no grande palco que o governo montara em plena selva para a encenação da primeira grande aventura tecnológica na Amazônia. ocorreram três das quatro maiores cheias do histórico. O Tocantins levaria por água abaixo equi­ pamentos e materiais. os encarregados de turmas convocaram seus homens para enfrentar o problema. Os homens do alto comando da obra. Érico Bittencourt de Freitas. que foi substituído em 1977 pelo engenheiro residente Érico Bittencourt de Freitas responsável pela condução da obra até 1982 quando passou a gerente do Departamen­ to de Construção da Eletronorte. José Antônio da Silveira. nos dias 2 e 3 daquele mês. que alcançou 68. ameaçavam as ensecadeiras que protegiam as obras em construção. Essa ruptura causou danos materiais relativamente pequenos. o lendário capitão da grande empreiteira.A História das Barragens no Brasil . construtora de Tucuruí quando. que ficou na memória do alto comando técnico da obra como uma espécie de marco do empreendimento. 210 . em março de 1980. em 1980. ouvia sem contestar.Sebastião Camargo e Osório Ferrucci. a capacidade técnica e in­ tegração das equipes de projeto e principalmente de construção possibilitaram atravessar esse imprevisto sem maiores transtornos. o rio Tocantins teve um verdadeiro acesso de mau humor. Ele era funcionário da Camargo Corrêa desde 1947 e. que já ultrapassara o nível da maior enchente observada em 1926. Contudo. as condições do leito do rio.Séculos XIX. Ser viços de alteamento e proteção das ensecadeiras foram feitos com sucesso durante dez dias de trabalho ininterrupto sob violento estresse. José Armando Del Greco Peixoto.000 m³/s. a única voz que Sebastião Camargo. afogaria cinco anos do trabalho de dezenas de milhares de homens e uma considerável fatia do orçamento da Eletronorte. inclusive a maior de todas. da Camargo Corrêa. Mas. Osório Ferrucci. com vários canalões muito profundos. o residente da Eletronorte também se chamava Osório Correa Neto. Humberto Gama. O rio estava desviado por ensecadeiras e a tempora­ da de chuvas mais copiosas já parecia ter chegado ao fim. durante a construção. a área afetada permaneceu pouco tempo inundada porque o acidente ocorreu ao final da cheia. Além disso. segundo seus companheiros em Tucuruí. revelava uma situa­ ção inquietante. um com até 40 m abaixo do nível do mar. Outro fato relevante foi que. Luiz Fernando Rufato. às ordens dos chefes. tendo sob sua responsabilidade as demais obras além de Tucuruí. Por coincidência. Entre elas. Sobretudo. estava Osório Ferrucci (Figura 4). Por isso. vindo uma delas a se romper leitura das réguas linimétricas a montante da obra. visto que o mo­ nitoramento das estruturas detectou em tempo hábil o problema possibilitando a retirada de pessoas e equipamentos. As obras de concreto e terra na área ensecada já estavam adiantadas Figura 4 . Gilson Nakamura e mais um punhado de executivos sabiam muito bem o que aconteceria se a água que chegava a perigosos 15 centímetros do topo da enseca­ deira conseguisse galgá-la. O céu carregado e a cheia. XX e XXI por piping inundando o trecho de jusante da obra.400 m³/s contra uma vazão de projeto de desvio de 51.

no Rio de Janeiro. a água parou de subir. presidente da empresa e detentor de profundos conhecimentos de hidráulica adquiridos na sua formação em Grenoble e na experiência iniciada no Brasil na construção de Paulo Afonso da CHESF. Na Eletronorte. o gerenciamento do projeto foi feito pelos en­ genheiros João Eduardo de Moura Guido (civil). Don Deere. Victor F. a equipe de engenheiros que operava o mode­ lo e não tinha elementos de comparação com outros projetos. percebeu claramente que “aqueles senhores (Balança e sua equipe) mesmo com toda a experiência mostravam uma preocupação excepcional com o projeto”. João Ângelo Casagrande (mecânico) e Leôncio Gotti (planejamento). na manhã do décimo dia da operação. Por conta de sua formação e gosto pessoal.Os consultores examinando os testemunhos de sondagem. Nelson Souza Pinto. O projeto contou. o engenheiro Balança se interessava pessoalmente pelos estudos hidráulicos em modelo reduzido de Tucuruí realizados pelo Hidroesb – Laboratório Hidrotécnico Saturnino de Brito SA. essa equipe iria compreender a dimensão de sua primeira experiência.B. com um board internacional de consulto­ res composto por James Libby. O engenheiro Fausto César Vaz Guimarães. sucessor do engenhei­ ro Dário Gomes na Diretoria Técnica da Eletronorte. O projeto da usina foi desenvolvido pelo Consórcio Engevix-The­ mag tendo pelo lado da Engevix o comando do engenheiro francês radicado no Brasil André Jules Balança. A superação dessa ocorrência excepcional em 1980 foi fundamental para a equipe concluir a construção de Tucuruí com êxito.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Finalmente. James Libby e Milton Vargas 211 . Mais tarde. Da esquerda Don Deere. Milton Vargas e Flavio H. As ensecadeiras haviam sido alteadas em três metros e o nível d’água alcançara dois metros acima do topo da ensecadeira original. Lyra. de Mello. O episódio ficou poeticamente conhecido como “águas de março”. Somente para corroborar comentários anteriores sobre as dimensões do empreendimento. e que era Figura 5 . ainda.

Em 1982. então condutor dos três empreendimentos Tucurui. O engenheiro Kerman José Machado assu­ miu a Diretoria Técnica e o engenheiro Érico Bitencourt de Freitas foi empossado chefe do Departamento de Construção. as usinas de Samuel em Rondônia e Balbina no Amazonas. com duas unidades de 350 MW em operação comercial.A História das Barragens no Brasil . A chefia da obra de Tucuruí foi assumida pelo engenheiro Humberto Rodrigues Gama.00 m. a Eletronorte já contava com funcionários dos mais diversos rincões do país chamados para auxiliar nas tare­ fas da empresa e.Séculos XIX. Balbina e Samuel. Entretanto. O enchimento do reservatório teve início em setembro de 1984. quando a Eletronorte construía simultaneamente com Tucuruí. Nesta etapa. engenheiro Geraldo Afonso Prates. A Figura 6 dá idéia da dimen­ são do estator de uma forma lúdica muito bem compreendida pelo brasileiro em geral. justamente em momento festivo de conclusão do desvio de Samuel.Jogo de futebol de salão dentro do estator de uma máquina da primeira etapa 212 . Figura 6. apesar da importante perda. nível máximo normal. atingindo a cota 72. XX e XXI responsável pelas construções. a obra continuou em ritmo normal. a usina foi inaugurada pelo Presidente da República João Figueiredo em 22 de novembro de 1984. em março de 1985. imprimia seu dinamismo aos trabalhos contagiando toda a equipe envolvida no empreendimento. houve um grave acidente aéreo que causou a morte dos diretores da Eletronorte Fausto César Vaz Guimarães (diretoria técnica) e Jayme Barcessat (diretoria de Suprimentos) e do chefe do Departamento de Construção.

Almir Gabriel em visita às obras da segunda etapa de Tucuruí. As obras de terra­ plenagem e escavação em rocha foram concluídas no ano de 2002.Descida do estator da unidade 13 em 3 de maio de 2002 Figura 8 . presidente da Eletronorte. grande incentivador do empreendimento. Essa elevação aumentou a área de inundação de 2.Presidente da República Fernando Henrique Cardoso. com um ganho de energia firme de 109 MW. A unidade geradora 13 (Figuras 7.007 km². Figura 7 . tendo ao seu lado esquerdo Adailton de Sousa Pinto. 213 . A motorização da primeira etapa foi concluída em 1992.00 m. residente da obra da segunda etapa de Tucuruí celebrando a descida do estator da unidade 13 Figura 9 . ao centro. estando em operação comercial desde abril de 2003. o nível máximo normal operacio­ nal foi elevado para a cota 74. 8 e 9) teve sua montagem concluída no final de novembro de 2002. Posteriormente. Em junho de 1998 as obras de expansão de Tucuruí foram autorizadas e iniciadas. José Antônio Muniz (presidente da Eletronorte) e governador do Pará. por conta do destino não chegou a ver concluída a obra que hoje tem seu nome.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens O coronel Raul Garcia Llano.875 km² para 3. porém.Equipe com o José Antônio Muniz.

e é segmentado em prestadores de serviços públicos de energia elétrica e indústrias eletrointensivas.Séculos XIX. O mercado principal de Tucuruí é o sub-mercado Norte de energia que abrange os estados do Pará. com as indústrias do alumínio Albrás e Alumar. Tucuruí tem hoje os maiores contratos de fornecimento de energia elétrica em bloco do mundo. Em 2011. Maranhão e Tocantins.370 MW de potência instalada. totalizando 8. XX e XXI A unidade 23 entrou em operação em julho de 2006. foi concluída a eclusa constituída de duas câmaras que vencem um desnível de cerca de 68 m e são separadas por um ca­ 214 .A História das Barragens no Brasil .

Tucuruí .O aço aplicado totaliza cerca de 222. Tucuruí (Figuras 10 e 11) responde por 28.800.400. da ordem de 9. . a cada semana de trabalho era aplica­ do o equivalente ao volume empregado na construção do estádio do Maracanã.000. . e a primeira unidade do setor elétrico brasileiro a conquistar o Prêmio de Qualidade do Governo Federal – PQGF. . Atualmente.O volume total dos aterros executados na obra foi da or­ dem de 59. Os números do empreendimento impressionam. fruto da abundante oferta de energia e recolhimento de impostos resultantes da comercialização e compensação pela utilização de recursos hídricos. equivale a 28. isto é Manutenção Total Produtiva).vista do vertedouro em operação 215 .400 sacos de 50 kg.Tucuruí Casa de Força Figura 10 . é a principal responsá­ vel pelo intenso desenvolvimento regional.4% do faturamento global de toda empresa. Essa obra é fundamental para a implantação da hidrovia do Tocantins.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens nal intermediário. e daí ao oceano Atlântico. A Vale e outras empresas da região já iniciaram o transporte de seus produtos pelo rio Tocantins de Marabá até Belém utilizando a eclusa. como podemos ver a seguir: . foi a primeira hidroelétrica do mundo certificada pela JIPM (Japan Institute of Plant Maintenance) com Prêmio Excelência em TPM – 1 a Categoria (Total Productive Maintenance.O cimento empregado na obra.000 t. além dos programas socioambientais.000 m³.O volume máximo diário de concreto lançado na obra foi de 11. em 2002. ou seja.200 m³. Figura 11 .000 m³ e o volume de concreto utilizado.

com cerca de 4. Hoje se pode comemorar dois fatos indiscutíveis: Tucuruí foi a obra isolada de maior impacto sobre a Amazônia. apesar da importância que tem tido para a Eletronorte e para o estado do Amapá.A História das Barragens no Brasil . e passou a ser servido por extensa rede de estradas e tem uma pista de pouso capaz de receber aeronaves de grande porte. Maranhão e Tocantins. tinha duas máquinas de 20 MW e previsão de ampliação para mais uma máquina de 30 MW. com população esparsa e arrecadação ínfima até o início dos anos 1970. construída por terceiros. com a conclusão da Interligação Norte-Sul.Séculos XIX. XX e XXI Principal geradora do Sistema Norte-Nordeste. com o uso inteligente de sua especialidade. Mesmo sendo um vertedouro com o porte citado. Tucuruí fez com que uma imensa região coberta de densa floresta. Logo no início da vida da usina. Como a usina foi construída por vários empreiteiros numa obra que levou mais de quinze anos para ser concluída. A usina hidroelétrica Coaracy Nunes Em 1975. Essa linha permite a preservação de  energias estocadas em reservatórios de hidroelétricas situadas em outras regiões durante o período hidrológico favorável no rio Tocantins. O vertedouro (Figura 10) com capacidade para 12. a mais significativa coleção de tecnologias para a construção de grandes barragens em am­ biente remoto. mas ela foi também a de melhor repercussão socioambiental e econômica entre todas as que foram feitas na região. 216 . Finalmente. O reservatório tem 120 km² e a operação é a fio d’água. suficiente para apontar graves defeitos do vertedouro. entrasse incontestavelmente para o mapa do Brasil. esta obra não foi submetida a estudos em modelo hidráulico reduzido. mas sem expressiva identidade geográfica. um simples entreposto de pesca e castanhas.000 m³/s. Outro exemplo significativo dos benefícios trazidos pela usina é a própria cidade de Tucuruí.000 m³/s escoava as águas para um braço do rio diferente da casa de força. praticamente não havia obra para dissipação de energia: as águas vertidas eram lançadas no canal do rio constituído de material rochoso com um ligeiro salto ao pé da superfície de vertimento. o rio Araguari submeteu a obra a uma cheia de cerca de 4. Sudeste e Centro-Oeste. ocupando efetivamente um território que já vinha sendo invadido­ desordenadamente e acrescentando uma formidável potência de geração ao sistema elétrico nacional. a Eletronorte recebeu da Eletrobras a incumbência de operar a usina de Coaracy Nunes situada no rio Araguari no Amapá. a usina exporta energia para os sistemas Nordeste. A energia firme e renovável de Tucuruí é escoada por linhas de trans­ missão de 230 kV e 500 kV. o Brasil e muitos de seus filhos – aqueles que influiram diretamente sobre a monumental empreitada da usina e os que hoje estão sob sua influência – vivem melhor do que viviam antes dela. A contribuição dos engenheiros da Eletronorte formou assim. Como ca­ racterística. a documenta­ ção técnica que a Eletronorte conseguiu obter foi muito precária. Esta missão surgiu numa época em que todos os olhos estavam voltados para Tucuruí de modo que a história dessa usina foi de certa forma ofuscada. Ainda hoje há certos aspectos do projeto e da construção sobre os quais não se tem informação precisa. Além de atender os mercados do Pará. Com os impostos locais pagos pela Eletronorte. Mais que isso. o município veio a ser o segundo maior arrecadador do Pará – só perde para Belém – e abriga 80 mil habitantes que dispõem do primeiro hospital modelo da região.500 MW médios mensais. a usina vem operando desde a inauguração sem apresentar problemas relevantes. apesar de seu gigantismo. Tucuruí passou a fazer parte do Sistema Interligado Nacional – SIN em março de 1999. Isso ao mesmo tempo em que construíam Tucuruí. Esta usina. Em segundo lugar.

as máquinas de 20 MW foram recapacitadas aumentan­ do sua potência para 24 MW cada uma e a terceira máquina com 30 MW foi instalada entrando em operação em 2000 e aumentando a potência instalada da usina para 78 MW (Figura 12). Em 2004.Casa de Força Figura 12 .Vertedouro da Usina Hidroelétrica Coaracy Nunes 217 .Usina Hidroelétrica Coaracy Nunes . não ocorreram incidentes com o vertedouro embora a vazão não tenha alcançado o valor que causara os danos iniciais. laboratório hidrotéc­ nico da UFPR na ocasião sob a direção dos engenheiros Nelson Pinto e Sinildo Hermes Neidert que ofereceram uma solução para o problema. Na Eletronorte o funcionário que todos identificamos com Coaracy Nunes é o engenheiro Mário Dias Miranda que tem sido o grande entusiasta do empreendimento.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A Eletronorte contratou então o CEHPAR. Figura 13 . A recomendação do CEHPAR foi executada e. desde então.

foi resultado de um embate do cel. O Consórcio havia elaborado os estudos de inventário e recomen­ dado a construção da usina de Katuema no rio Jatapu como hidro­ elétrica prioritária para suprir Manaus. quando os atuais estados eram chamados de província na época do Império. não o Presidente da República da década de 80. Os benefícios econômicos das hidroelétricas de Balbina e de Samuel se acentuaram pela substituição do óleo importado para termoelé­ tricas. a Eletronorte vem se dedicando à análise mais aprofundada dessa possibilidade tendo em vista que a região está para ser interligada ao SIN o que tornará ainda mais interessante o investimento. XX e XXI Devido às características hidrológicas do rio Araguari. que se mostrou eficiente. os projetistas haviam recomendado que fosse A usina hidroelétrica Balbina A decisão sobre a construção da Usina Hidroelétrica Balbina. O vertedouro com capacidade para 5. bem como a de Samuel. Raul Garcia Llano com a Eletrobras. destinava-se a abastecer Manaus visando solucionar o caos energético ainda reinante na região no final da década de setenta. essas hidroelétricas foram escolhidas para construção por serem as mais econômicas do País na época. 218 . Balbina é mais uma usina pioneira que coube à Eletronorte construir. assim como a casa de força e a tomada d’água. Considerando a provável área do reser­ vatório de Balbina. O segundo aspecto foi a área do reservatório.A História das Barragens no Brasil . Esse proble­ ma viria a nos assombrar com mais intensidade na construção de Samuel como veremos oportunamente. para obturar esses canalículos. critério básico do setor elétrico de então. a usina foi projetada e executada apesar da área inundada ser exagerada para a potência instalada. Entretanto. como citado no capítulo dedicado aos estudos ambien­ tais. que na época era contra as construções de hidroelétricas na Amazônia por julgar que usinas térmicas a carvão em Manaus e Porto Velho com transporte do carvão do sul pelos navios da Vale (então Vale do Rio Doce) seriam mais vantajosas. Contudo dois aspectos mereceram considerações especiais. O problema não era totalmente novo para a empresa uma vez que algumas ocorrências do fenômeno haviam sido constatadas em Tucuruí. município de Presidente Figueiredo. eram obras sem nenhum aspecto inovador ou preocupante. O primeiro por não ser totalmente conhecido de nossos técnicos: a existência abundante de canalículos com diâmetro de até 5 cm no solo de fundação que tornava a construção de barragem altamente problemática. Com capacidade instalada de 250 MW composta por 5 unidades de 50 MW. apesar de tudo. foi a execução de uma cortina por injeção de calda de solo cimento com ruptura hidráulica do solo (cracagem). Concebida numa época em que não havia as agências reguladoras e controladoras com os poderes de hoje nem tampouco a consciência ambiental havia se desenvolvido nos níveis atuais. em uma época em que a situação da balança de pagamentos do País era um fator de entrave ao desen­ volvimento.Séculos XIX. Seria como construir uma barragem sobre um “queijo suíço”. No momento. no entanto a escolha recaiu sobre Balbina que era o menor investimento e a menor distância de transmissão e de acesso. mas a quantidade tornava muito sério o problema. A solução. Balbina era uma obra comum para o estado da arte de então. economizando divisas. fato não divulgado convenientemente para o público. O projeto foi executado pelo Consórcio Monasa . a usina trouxe muitos benefícios socioambientais à região. quando comparadas com as alternativas de geração para atendimento da evolução das cargas locais. Enfim.Enge Rio. já se havia vis­ lumbrado a possibilidade de ampliação do aproveitamento por meio de uma segunda casa de força com potência instalada superior à atual. mas sim o presidente da província do Amazonas.840 m³/s com bacia de dissi­ pação convencional. Situada no rio Uatumã. Ademais.

com a primeira máquina entrando em operação em fevereiro de 1989. mas isto só foi feito após o início da construção por restrições financeiras.vista de jusante 219 . Figura 15 . Este atraso deveu-se à falta de recursos para sua realização em prazos normais.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens feito levantamento da área a ser alagada. O grande maestro da construção de Balbina por parte da Eletronorte foi o engenheiro Francisco Nelson Queiroga da Nóbrega. A construção se iniciou em 1º de maio de 1981. A construtora foi a Andrade Gutierrez cujo residente geral se destacou como responsável pela execução da obra a contento. Figura 14 – Usina Hidroelétrica Balbina A usina (Figuras 14 e 15) vem operando desde a inauguração sem apresentar problemas relevantes.Usina Hidroelétrica Balbina – Casa de Força . tendo em vista o elevado custo de restituições aerofotogramétricas em função da espessa cobertura vegetal que  acarretava dificuldades logísticas ainda não enfrentadas até aquela época. problema constante na época.

Tal como Balbina. quando entrou em operação a primeira máquina. a usina hidroelétrica Samuel foi construída no período de 31 de março de 1982 a 31 de julho de 1989 (última unidade) sob o comando do engenheiro Adailton de Souza Pinto residente da Eletronorte.A História das Barragens no Brasil . XX e XXI A usina hidroelétrica Samuel Situada no rio Jamari no Estado de Rondônia. a solução adotada foi a construção de tapetes impermeáveis a montante das obras de terra para au­ mentar a distância de percolação. Contudo o aspecto dos canalículos já constatados em Tucuruí e em Balbina mereceu considerações e esforços especiais pela sua incidência em quantidades exageradas e pela quantidade de diques que compunham o projeto. cujo coordenador geral foi o engenheiro Paulo Pinho Lopes e a obra foi feita pela Construtora Norberto Odebrecht. era uma obra comum para o estado da arte de então. Neste caso.Séculos XIX. em linhas gerais. A usina foi projetada pela Sondo­ técnica S/A. Esta solução vem funcionando satisfatoriamente.820 m³/s e um reservatório de cerca de 600 km². mas tem exigido muita atenção das equipes de instrumentação e manutenção da usina. a usina hidroelétri­ ca Samuel (Figura 16) tem como particularidade ter sido a única usina da Eletronorte a contar com o apoio popular e do governo local personificado no governador Jorge Teixeira. vertedouro para 4. tornando a extensão do problema ainda maior que o usual. Com capacidade instalada de 220 MW. Figura 16 – Usina Hidroelétrica Samuel – Vista panorâmica de jusante 220 220 .

Atualmente. Como peculiaridade é uma usina construída sobre uma gran­ de queda d’água natural de cerca de 90 m de altura apro­ veitando esta queda como vertedouro. não tem reser­ vatório. O usina hidroelétrica Dardanelos A usina está localizada na margem esquerda do rio Aripuanã. composta por 5 unidades geradoras. Esta foi uma das primeiras usinas desse porte construídas na Amazônia. a Eletronorte foi responsável pelos estudos de inventário e viabilidade. Apenas foi construída uma soleira vertente mais com o intuito de nivelar o leito natural do rio para garantir o nível normal de montante.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 17 – Usina Hidroelétrica Curuá Una – Casa de Força A usina hidroelétrica Curuá Una Adquirida em 2005 da CELPA em permuta de dívidas. situada no rio de mesmo nome no município de Santarém. quatro delas de 58 MW cada e uma de menor porte de 29 MW. Enfim. participa minoritariamente em sociedade com a Neoenergia e a CHESF. No AHE Dardanelos (Figura 18). 221 . é uma usina que além de não ter um vertedouro clássico. No momento. a Eletronorte está em vias de executar a instalação desta quarta máquina. PA tem três unidades de 10 MW e previsão de insta­ lação de uma quarta unidade de 11 MW. no noroeste do Mato Grosso e tem capacidade instalada de 261 MW. a usina de Curuá Una (Figura 17).

No empreendimento. seja pela alta diversidade biológica e 222 . possuindo três sítios. A potência instalada total de Belo Monte é de 11. a participação da empresa é minoritária.233 MW. presidente da empresa no final da déca­ da de 90 e início dos anos 2000 e finalmente como presidente da Eletrobras. um deles denominado Pimental onde ocorrerá o barramento do rio Xingu. desde 1975. no Pará. Finalmente. Desde os tempos em que foi diretor de engenharia da Eletronorte no final da década de 80. a Figura 19. dos estudos de inventário do rio Xingu e das otimizações de projeto realizadas desde então que culminaram com o leilão da ANEEL realizado em 20 de abril de 2010. com dezoito unidades geradoras de potência unitária 611. com turbinas Francis na casa de força principal denominada Belo Mon­ te e 6 unidades geradoras de potência unitária 38. Aspectos sócioambientais comuns aos diversos empreendimentos “Preservando a biodiversidade amazônica e a cultura brasileira” A geração de energia hidroelétrica na Amazônia é um tema que sempre estará presente nas discussões sobre meio ambiente e de­ senvolvimento sustentável. composto de casa de força complementar e vertedouro. ele não mediu esforços até levar o projeto a ser leiloado pela ANEEL com sucesso. mostra a equipe de residentes das obras da Eletronorte.Usina Hidroelétrica Dardanelos A usina hidroelétrica Belo Monte O aproveitamento hidrelétrico Belo Monte será construído no rio Xingu. com unidades Bulbo na casa de força complementar. junto com outras 18 empresas.1 MW.85 MW. A Eletronorte participou. O grande mentor deste projeto cuja personalidade se identifica com o empreendimento é o engenheiro José Antônio Muniz Lopes.Figura 18 . outro composto do canal de adução e interligação e o último composto do reservatório intermediário e sítio Belo Monte com a usina principal. a seguir.

Fauna . Gustavo Reis Lobo de Vasconcelos (Manso enquanto era da Eletronorte).Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens cultural encontrada na região.A geração de energia hidroelétrica requer. e equipes técnicas com profissionais especiali­ zados nas mais diversas áreas do conhecimento ambiental.700. na maioria das vezes. a Eletronorte apoia as seguintes atividades em unidades próximas a seus empreendimentos: demar­ cação das terras. as águas e as tradições amazônicas. Érico Bittencourt de Freitas (Tucuruí). projetos de desenvolvimento das populações resi­ dentes. a formação de reservatórios que modificam a paisagem. Vanderlei Ângelo de Menezes (Ávila – convênio com a CERON). seja pelo grande potencial de geração hidráulica da Região Norte do Brasil. desenvolvimento de técnicas racionais do uso dos recursos naturais e formação de recursos humanos. A legislação ambiental brasileira determina que empreendimentos de grande impacto compensem os danos causados ao meio ambiente com a implantação e apoio a unidades de conservação. a fim de aliar desenvolvimento e conservação da natureza. centros de proteção ambiental em suas maiores usinas. São áreas que aliam o desenvolvimento de pesquisas com uso racional dos recursos naturais. inun­ Figura 19 . a flora. Isso significa 4. José Antônio da Silveira (Tucuruí). Com o objetivo de conservar a fauna. Adailton de Sousa Pinto (Samuel e Tucuruí II e Humberto Rodrigues Gama (Tucuruí) 223 . Dezessete unidades de conservação ambiental. foram ou são apoiadas financeiramente pela Eletronorte. Luiz Fernando Rufato (Tucuruí). em parceria com as mais capacitadas instituições técnicas e científicas. atividades de proteção e vigilância às áreas. Francisco Nelson Queiroga da Nóbrega (Balbina). e atividades de educação ambiental às populações locais. res­ ponsável pelos estudos ambientais. A Eletronorte é grande conhecedora da região amazônica.Residentes da Eletronorte: da esquerda para a direita. sendo treze de proteção integral e quatro de uso sustentável.000 hectares protegidos. com foco na qualidade de vida dos seres humanos. Atendendo a essas exigências. As Unidades de Conservação tem o objetivo de manter a diversi­ dade biológica regional. a Eletronorte criou uma ampla organização interna. todas na Amazônia Legal. Em to­ dos os seus projetos são realizados estudos ambientais.

Programas indígenas . conhecidas como áreas de soltura. incluindo o aproveitamento científico. São os programas Waimiri Atroari. Os dois programas envolvem ações de educação. realizada em Tucuruí. das áreas de soltura e da Terra Indígena Parakanã. espécie por espécie. com área total de 22. com a identificação e marca­ ção de 100% das árvores com diâmetro igual ou superior a 25 cm. mais de 16 mil animais foram resgatados.A História das Barragens no Brasil . A Eletronorte. A do Germoplasma foi uma delas. Uma das 1. pois por meio dos inventários florestais e o monitoramento fenológico das matrizes de sementes. perten­ centes a 221 espécies botânicas distribuídas em cinquenta famílias. como genética. apoio à 224 . A Operação Curupira. e investir na capacitação de novos profissionais. pré-resgate. o monitoramento e manejo dos animais. conduzir e supervisionar esses procedimentos. Os bancos de germoplasma mantidos pela Eletronorte permitirão que a região de Tucuruí e outras regiões recuperem sua vocação natural de uso sustentável de florestas nativas”. manejo de filhotes. incluindo soltura. As principais atividades desenvolvidas nas operações de resgate são a triagem e manejo. Foi um trabalho de resgate.600 ilhas que formam o Mosaico de Tucuruí é especial. zoologia. Foram identificados e mapeados 2. XX e XXI dando áreas de florestas. criado a partir da construção da Usina Hidroelétrica Balbina. Era sabido que. deu início ao processo de resgate do material genético das principais espécies florestais existentes na área de inundação e de plantio em local específico.Muita gente não sabe que Tucuruí guar­ da boa parte do DNA da Amazônia na Ilha de Germoplasma. saúde. A primeira e a mais importante delas é dar prioridade às espécies raras ou ameaçadas de extinção. as espécies de árvores mantidas nas áreas de coleta de sementes florestais da Ilha de Germoplasma. As novas áreas que receberão os animais. Atualmente. garantem a perpetuação dos recursos da floresta em seu estado natural. E essa diferença começou a ser construída em 1980. que tem o objetivo de conservar as espécies da região. Rubens Ghilardi Ju­ nior. O banco de conservação in situ compreende 32 ha de floresta nativa. Para isso. afirma. com a participação de outras instituições de pesquisa. Esse procedimento faz parte do Programa de Resgate da Fauna. monitoramento e estudos científicos. Para evitar o afogamento da fauna habitante desses ecossistemas. com a Operação Jamari. em conjunto com outras instituições ligadas ao meio ambiente. as ações dos resgates são baseadas em conservação e aproveitamento científico e cultural da fauna local. Os ani­ mais resgatados foram de suma importância para pesquisas realizadas em diversas áreas de conhecimento. Para esse fim. e Parakanã. A área da Ilha é de 129 hectares. no entorno da Usina Hidroelétrica Tucuruí. estabeleceu orientações pioneiras para resgates futuros. Em Bal­ bina. a Operação Muiraquitã resgatou 26 mil animais. a Eletronorte realiza o resgate dos animais. A Operação Jamari.A Eletronorte é responsável pelo desen­ volvimento de dois programas indígenas cujos resultados apresentados desde o final da década de 1980 são considerados referência no Brasil e no mundo. quando uma parceria entre a Eletronorte e o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia – Inpa. “Esta é uma conservação consciente. que vão elaborar. alimentação e remessa de animais para instituições de pesquisa e preservação. A Eletronorte conduziu três grandes operações de resgate da fauna. muitas ilhas seriam formadas. sociais e comerciais.Séculos XIX. No banco ex situ estão representadas 28 famílias botânicas e 82 espécies. são delimitadas e o trabalho começa antes mesmo da formação do lago. resgatou 300 mil animais. no Amazonas. O plantio foi feito numa área dividi­ da em quadras e a Ilha passou a abrigar a parte nativa (in situ) e a plantada (ex situ). no Pará. foram plantadas aproximadamente 15 mil mudas distribuídas em 29 quadras.6 ha. com as ações de identificação das áreas. fisiologia e taxonomia (identificação e classificação dos animais) e ecologia. é preciso criar e conso­ lidar unidades de conservação para compensar a perda do habitat. é possível conhecer cada uma das ‘árvores-mães’ que geram sementes saudáveis e que estão sendo utilizadas para reflorestamentos com objetivos ecológicos. Para o analista ambiental da Eletronorte.914 indivíduos adultos. E em Samuel. Banco de Germoplasma . envolveu aproximadamente 60 instituições nacionais. atendimento vete­ rinário. depois do enchi­ mento do reservatório da Hidroelétrica Tucuruí.

sua tecnologia. a população dos Waimiri Atroari era de 1. hepatite B. Na educação são doze escolas com 57. pinturas corporais. 63. que faz limite com a Terra Indígena Parakanã. em 1986. sem nenhum invasor e com fiscalização sistemática dos seus limites e dos transeuntes das estradas existentes dentro das terras indígenas Waimiri Atroari. A terra está demarcada. homologada. mas com pendências de registros e regularização. falta de vacinação e qualquer controle so­ bre a saúde. Hoje. Em julho de 2010 a população dos índios Parakanã era de 840 pessoas. A cultura encontrava-se em processo de perda dos seus valores como festas tradicionais. enfim sua história. das terras e da dignidade daqueles povos indígenas. possibilitando o resgate das tradições. A cultura encontrava-se em processo de perda dos seus valores. A situação dos Parakanã antes do início do Programa. malária e gripe. a população era de 374 pessoas. A terra era demarcada. nenhuma doença imunoprevenível nos últimos 15 anos. estoque de animais para abate (peixes e gado) e total independência alimentar. não se realizando mais as principais manifestações de seu patrimônio cultural e em fase de desmoralização como etnia.77% ao ano. controle total de doenças respiratórias. seus mitos. malária e gripes. controle to­ tal da hepatite B. diarreias crônicas. boa nutrição. boa nutrição. subnutrição. A população era de 247 pessoas. subnutrição. Hoje. Na produção observase grandes roças. A terra não estava delimitada. controle da malária e de outras doenças endêmicas. casta­ nha entre outros. No campo da saúde. vacinação de 100% da população. A língua estava sendo perdida gradativamente bem como os conhe­ cimentos dos mais velhos sobre a natureza. Na educação são 21 escolas com 60 professores indígenas. Na educação. nenhum atendi­ mento odontológico. foi regatada a prática do extrativismo e coletas de frutos para comercialização como açaí. cupuaçu. Na cultura houve o resgate de todas as práticas culturais e de sua dignidade como povo indíge­ na. No campo da saúde o quadro era grave: epidemias de sarampo. A situação fundiária está totalmente regularizada. o que resultou em total independência alimentar. A situação fundiária está totalmente regularizada. vacinação de 100% da população. Na saú­ de não se observa nenhuma doença imunoprevenível nos últimos 12 anos. Também na cultura houve o resgate de todas as práticas culturais. e ritos de passagem e morte. controle in­ formatizado da saúde dos índios e um programa de saúde bucal preventivo. Em julho de 2010. a situação é totalmente diferente. com registro em cartório de imóveis e serviço de patrimônio da União. nenhum atendi­ mento odontológico. nem demarcada e com processo de invasão em andamento. Antes do início do Programa. Na produ­ ção havia dependência total dos alimentos fornecidos pela Funai. as escolas eram inexistentes e a escrita desconheci­ da. controle de malária e de outras doenças endêmicas. diarreias crônicas. Na pro­ dução havia pequenas roças e dependência alimentar externa. era totalmente diferente. sem nenhum invasor. grandes roças têm tido produção de excedentes. A redução populacional chegava a 20 % ao ano. controle total de doenças respiratórias. em 1988. com uma taxa de crescimento de 5. sua medicina.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens produção e proteção ambiental. além do aumento populacional. além de uma grande parte da população em processo de alfabetização. A terra está demarcada. e controle informatizado da saúde dos índios.40% da população Waimiri Atroari alfabetizada e o restante em processo de alfabetização. resultado de uma taxa de crescimento de 4. 225 . curativo e corretivo.404 pessoas. Na saúde.86% da população Paraka­ nã alfabetizada na língua materna e em português. o quadro era de epidemias de sarampo. homologada.8% ao ano. As escolas não existiam e a escrita era desconhecida. falta de vacinação e qualquer controle sobre a saúde. além da situação fundiária totalmente irregular. com registro em cartório de imóveis e serviço de patrimônio da União. com fiscalização sistemática dos seus limites e dos transeuntes da rodovia Transamazônica.

Calha do vertedouro de Foz do Areia. primeiro vertedouro do Brasil com aeração da calha .

A maior parte de seu território pertence à bacia hidrográfica do rio Paraná. 227 . vencendo desníveis da ordem de 800 a 1000 m e com isso favorecendo a instalação de aproveitamentos hidroelétricos. os cursos d’água apresentam elevados gradientes. PontaGrossa e Londrina. e em muito menor grau. em sua margem esquerda. entre os quais se destacam os rios Iguaçu. Piquirí.Estado do Paraná à criação de pequenos reservatórios para o suprimento de água potável a algumas comunidades. que nasce a noroeste de Curitiba.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens História das Barragens no Paraná Brasil Pinheiro Machado e Denise Araújo Vieira Krüger Introdução O Paraná é um estado rico em recursos hídricos. Ivaí e Paranapanema. os principais cursos de água que formam a hi­ drografia paranaense. a oeste de Curitiba com altitudes entre 1200 a 1800 m acima do nível do mar. A leste da Serra do Mar. em­ bora tenha havido um período histórico em que esta atividade ocorreu. este último formando a divisa entre os estados do Paraná e São Paulo. particularmente Curitiba. A orografia que cria a barreira da Serra do Mar e faz com que os rios se afastem do litoral não favorece à navegação fluvial. com altitudes da ordem de 800 m e desenvolve em direção ao litoral entrando no estado de São Paulo através de uma região onde a Serra do Mar permite uma passagem. A drenagem em relação ao rio Paraná é conformada pela Serra do Mar. Isto faz com que os principais cursos d’água do estado nas­ çam próximo ao litoral e se desenvolvam em direção ao inte­ rior. entre União da Vitória e Curitiba. e. A exceção é o rio Ribeira. com desníveis de 500 a 800 m vencidos em percursos menores de 80 quilômetros. Isto foi no trecho superior do rio Iguaçu. havia interesse econômico no transporte de erva-mate da região sul para as indústrias de beneficiamento instaladas em Curitiba. Figura 1. O aproveitamento dos recursos hídricos do estado foi fundamen­ talmente ligado à geração hidroelétrica. no planalto. Este rio faz a divisa do esta­ do com o Paraguai e com Mato Grosso do Sul e recebe. dotado de um sis­ tema fluvial importante. onde o rio flui no planalto e não se requeriam obras específicas para permitir a navegação. além disso. que se desenvolve paralelamente ao litoral Atlântico.

Em função destas peculiaridades a implantação de obras de eletrificação no Paraná ocorreu inicialmente. com a agricultura de ce­ reais entre os quais trigo e soja. (iii) a região sudoeste. XX e XXI Com a diminuição do valor desta atividade econômica. (ii) a região norte. na região leste do estado. onde se destacam as cidades de Foz do Iguaçu e Cascavel.Séculos XIX. originadas ou Figura 2 . Os primórdios da geração elétrica no Paraná Historicamente o estado do Paraná se desenvolveu em três regi­ ões economicamente distintas: (i) o leste incluindo o litoral e os planaltos que formam o primeiro e o segundo degraus em direção ao rio Paraná.Usina Termoelétrica de Curitiba . Ponta-Grossa. a história das barragens no Paraná se confunde com a história da implantação da geração de energia elétrica para o atendimento público.A História das Barragens no Brasil . de colonização antiga. Por estas razões. União da Vitória. incluindo a implantação de obras de infraestrutura. colonizada a partir de Londrina e incluindo cidades como Maringá e Apucarana. inicialmente desenvolvidas a partir do comércio de tropas entre o Rio Grande do Sul e São Paulo. enfrentando grandes dificuldades até pelo menos o início dos anos 70. Curitiba. centrada em Curitiba. desenvolvida a partir dos anos 30-40 com base na agricultura do café atingindo seu pico econômico nos anos 50 e estreitamente vincula­ da economicamente ao estado de São Paulo. e durante muitos anos. onde se destacam a cidades de Paranaguá. a partir dos anos 40. a navegação neste trecho desapareceu e não prosperou de forma significativa em nenhum outro local do Estado. Apesar desta diversidade.1901 228 . o poder político sempre esteve em Curi­ tiba e as ações de governo. sempre tiveram a preocupação da integração das regiões. que se desenvolveram a partir dos anos 50-60. e colonizada com deslocamentos populacionais originados principalmente no Rio Grande do Sul.

instaladas no estado. para abastecer a cidade de Paranaguá. Vicente Machado. Nomes como Hauer. no litoral paranaense. termoelé­ trica. com 760 kW de potência. As primeiras usinas geradoras. com dois conjuntos geradores de 200 cavalos-vapor cada. construída por técnicos ingleses. os serviços de suprimento e distribuição diretamente aos consumido­ res finais. A maior parte destes empreen­ dedores era imigrante de origem alemã ou da Europa Central. que começou a operar em 1910 com a potência de 510 kW. somente dispuseram de geração elétrica na segunda década do século vinte. entre elas Pa­ ranaguá. quando o presidente da Intendência Municipal de Curitiba. 3b e 3c . localizada atrás do então Congresso Estadual. térmi­ cas ou hidráulicas. assinou o contrato com a Companhia Água e Luz do Estado de São Paulo. em 12 de outubro de 1892. entrou em operação a usina de Pitangui. União da Vitória e Campo Largo. e com uma conces­ são por 20 anos. num terreno próximo à antiga estação ferrovi­ ária. Blitzkow e Schlemm tiveram papel importante nas iniciati­ vas pioneiras no final do século XIX e primeiras décadas do século XX. Baseada nesse contrato. 229 . Em 1901 foi instalada a primeira usina. propriamente dita.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens O primeiro esforço para eletrificação ocor­ reu no dia 9 de setembro de 1890. geralmente com as prefeituras dos municípios corres­ pondentes. Dr. Figuras 3a. Ponta Grossa. A usina começou a funcionar.Usina Hidroelétrica Serra da Prata – 1910 A primeira usina hidroelétrica do estado foi Hidroelétrica Serra da Prata. até 3 de agosto de 1970. oficialmente. para iluminar a cidade com “uma força iluminativa de onze mil velas”. na região de Ponta Grossa. a citada companhia instalou a primeira usina elétrica do Paraná. Outras cidades na região. pertenciam a empreendedores priva­ dos locais que contratavam. Um ano mais tarde. Grollmann.

O ano de 1910 marca a entrada das grandes empresas internacio­ nais no negócio de energia elétrica no Paraná. no município de São José dos Pinhais. no rio São João. sobre o qual tinha “direito de posse”.Séculos XIX. Em 1926 o governo do estado adquiriu de particulares. com o nome de Empresas Elétricas Brasileiras contratou com o governo do Paraná a concessão da distribuição de energia elétrica em Curitiba.v. no Rio Paraná para exploração energética (hoje inundadas pelo reservató­ rio de Itaipu).Usina Hidroelétrica Pitangui – 1911 É interessante observar que no discurso político. que também implantava a ligação ferroviária entre São Paulo e o Rio Grande do Sul. telegrafou ao presidente daquele estado dizendo que este era um recurso paranaense. XX e XXI Figura 4 ... Neste ano a con­ cessão do suprimento elétrico da cidade de Curitiba foi adquirida do empresário local José Hauer pela empresa anglo-francesa South Brazilian Railways Company Ltd. Logo em seguida constituiu uma empresa com o nome de Companhia Força e Luz do Paraná (CFLP) e a ela transferiu a concessão.” no prazo máximo de 3 anos. Em 1913. Em 1927. “as quedas d’água existentes no Rio Capivary. mu- nicípios de Campina Grande e Bocaiuva com capacidade de 30. a AMFORP – American Foreign Power .. na máxima estiagem” situadas próximas a Curitiba. Nada resultou desta iniciativa até 50 anos depois. quando então o rio Capivari foi aproveitado para geração de energia elétrica com um esquema muito diferente do que foi imaginado originalmente. na Serra do Mar. pela soma de 500 contos de réis. Neste contrato o governo do estado requeria que a concessionária construísse “. disto resultou a constru­ ção da usina hidroelétrica de Chaminé.A História das Barragens no Brasil . em 1928. iniciada em 1929 230 .. a associação da geração de energia elétrica com recursos hidráulicos começa a aparecer no Paraná na segunda década do século XX.000 c. um braço da empresa americana Electric Bond & Share Company se estabele­ ceu no Brasil e.uma usina para geração de energia eletrica por força hydraulica . embora as insta­ lações geradoras existentes e em estudo fossem todas privadas. com a finalidade de “interessar a todos nossos industriais na organização de uma sociedade anonyma que tome a seu cargo a construção de uma usina hydro-eletrica e sua exploração”.. Efetivamente. o presidente do estado sabendo que o estado de Mato Grosso pretendia outorgar a concessão das Sete Quedas.

” O trabalho de construção durou três anos e. Howell Lewis Fry. foi construído um trole. Fry era o engenheiro residente e assistente do superinten­ dente geral. O vertedouro fica no trecho central da barragem e é equipado por flash-boards perfazendo 34 m de vão. Aproveitando um desnível de mais de trezentos metros. Em 1928 começou a trabalhar nas Empresas Elétricas Brasileiras. 12 km a montante. com 12 m de altura e 92 m de extensão.. vagonete sobre trilhos. desde os 22 anos trabalhou e se dedicou ao Brasil. segundo ele: “Em 1929 nós tivemos que colocar cascalho na avenida principal de São José dos Pinhais para poder passar com os equipamentos que seriam usados na construção da usina de Chaminé”. Operando desde 1929. O trole acabou se tornando a principal característica de Chaminé por proporcionar uma viagem de 720 m. Seu reservatório tem um volu­ me útil de 500 mil m³. como o aces­ so era difícil para transportar pessoal. formados pelas barragens de Salto do Meio e Voçoroca. ligando os escri­ tórios à casa de força. Esses Figura 6 . usava-se o cavalo..Mr. o trole é acionado por motores que liberam e recolhem cabos de aço. máquinas e peças. 231 . preparando acampamento (1928) e na inauguração da usina de Guaricana (1957) e concluída em 1931. Mr. ao centro. A usina hidroelétrica Chaminé é atualmente alimentada por dois reservatórios no rio São João. ven­ cendo declives de até 55 graus. por uma exuberante reserva da Mata Atlântica. para a segunda a bicicleta e para a terceira. que resultaram na usina de Chaminé. nascido nos Estados Unidos. Mr.Mr. com capacidade máxima de descarga de 360 m³/s. A barragem de Salto do Meio é do tipo concreto gravidade. responsável por todo serviço de campo. ia-se a pé. quando esta realiza­ va estudos no rio São João. suficiente apenas para regularização diária. a usina gera 18 MW através de quatro unidades Pelton. Howell Lewis Fry.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figuras 5a e 5b . de aprova­ ção das fundações da barragem e da casa de força e. Howell Lewis Fry – Visita a Chaminé em outubro de 1978 motores eram operados a vapor na época da obra e foram automatizados em 1999. e “em 1930 havia três escalas de prioridades para serviços urgentes: para a primeira.

tam­ bém projetada e construída por Mr. com 29. a 75 km de Curitiba. a CFLP desenvolveu outros estudos visando identificar locais promissores para a instalação de reservatórios e usinas geradoras. a CFPL construiu. Além destas duas usinas hidráulicas. a usina hidroelétrica de Guaricana. Durante os 45 anos em que foi responsável por este mercado. A usina aproveita uma queda superior a trezentos metros. gerando os 36 MW com quatro turbinas Pelton. po­ deriam no futuro vir a ser alimentadores do seu sistema. mencionada anteriormente. possui três vãos de 12.” O vertedouro. Esta usina comissionada em 1957 utiliza as águas do rio Arraial.5 m de altura e 95 m de extensão. Em 1954 contratou um levanta­ mento de possíveis locais nos rios Iguaçu e Tibagi.5 x 6.4 m para uma capacidade máxima de descarga 495 m3/s.Trole para acesso à casa de força – Usina hidroelétrica Chaminé Figura 7 b – Barragem de Salto do Meio A barragem de Voçoroca foi iniciada somente em 1947. com 21 m de altura e 152 m de comprimento tendo em seu trecho cen­ tral. cujo reservatório é criado por uma barragem de concreto a gravidade. além da usina de Chaminé. é de concreto a gravidade. que embora distantes da região de Curitiba.Séculos XIX. onde hoje se situam as usinas 232 . Fry.A História das Barragens no Brasil . Conforme explicado por ele. três vãos vertedores com comportas radiais de 5. Fry. “na região destas usinas havia uma palmeirinha que os colonos usavam para fazer paredes e coberturas de casas e se chamava Guaricanga. A CFLP continuou com a concessão e o suprimento de energia elé­ trica à região de Curitiba até a década de 70 quando foi absorvida pelo governo do estado através da COPEL. onde era concessionária. com 36 MW instalados também na Serra do Mar.3 m de largura e flash boards de 2 m de altura. Daí surgiu o nome Guaricana. XX e XXI Figura 7a . também sob a responsabilidade de Mr. Este estudo foi contratado com a firma americana de consultoria EBASCO International Corporation e nas suas conclusões há a iden­ tificação das possibilidades técnicas de implantação de projetos de grande porte no rio Iguaçu. na parte central.

As conclusões deste relatório não ge­ raram nenhuma ação específica e a CFLP continuou operando unicamente as hidroelétricas da Serra do Mar e instalações térmicas a Diesel em Curitiba até desa­ parecer como empresa concessionária. nos anos 70.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 8a – Usina hidroelétrica Chaminé – Casa de força Figura 8b . O desenvolvimento dos recursos hídricos do estado para fins energéticos passou a ser explicitamente considerado como preocupação política governa­ mental nos anos 40. com a criação do Serviço de 233 .Interior da casa de força com os grupos geradores de Segredo (chamada na ocasião de Encantillado) e Salto Santiago.

Caverno­ so no rio Laranjeiras e Melissa em Cascavel. Figura 9 – Usina hidroelétrica Presidente Vargas – Rio Tibagi – Grupo Klabin de Papel e Celulose (1947) 234 . Caiacanga e Laranjinha) e a segunda. dependente de financiamentos especiais. Na realidade.Séculos XIX. Ponta Grossa. O Departamento foi responsá­ vel pela construção das usinas hidroelétricas de Ocoí em Foz do Iguaçu. previa a construção de pequenas hidroelétricas (Cavernoso. com previsão dos sistemas elétricos do sul apoiados nas usinas de Capivari-Cachoeira e Salto Grande do Iguaçu. em 1952. Tibagi (36 MW). os dois interligados em Teixeira Soares. União da Vitória e cidades do chamado norte-velho. com recursos orçamentários do DAEE. bem como pelo início das usinas de Chopim I em Pato Branco e Mourão I em Campo Mourão que foram posteriormente concluídas pela COPEL. previa a cons­ trução das centrais de maior porte. Nos municípios em que atuou instalou geradores Diesel e realizou um único projeto hidráulico. em nível estadual.A História das Barragens no Brasil . transformado em 1948 no Departa­ mento de Águas e Energia Elétrica (DAEE) com a atribuição de cuidar. desativada para a formação do lago de Itaipu. e do oeste com centros gera­ dores isolados. no litoral do estado. do suprimento de energia elétrica e do desenvolvimento de projetos hidroelétricos. tais como Capivari-Cachoeira (105 MW). a mini-usina de Cotia. Posteriormente. do norte pelas usinas de Salto Grande do Paranapanema. Lon­ drina. na região de Antonina. este departamento governamental encampou incipientes serviços em municípios que não eram atendidos por empresas privadas organizadas como os das regiões de Curitiba. Capivara e Mourão. XX e XXI Energia Elétrica do estado. O primeiro Plano Hidroelétrico do Estado foi elaborado em 1948. a ser cumprido em duas etapas: a primeira. Carvalhópolis (27 MW) e a termo­ elétrica de Figueira (20 MW). este plano transformou-se em outro. a curto prazo.

através do decreto n°14. construir e explorar sistemas de produção. o professor Pedro Viriato Parigot de Souza.” e teve como seu presidente nomeado The­ místocles Linhares. mudanças no governo do estado afastaram a diretoria inicial da empresa em menos de um ano após sua instalação. distribuição e comércio de energia elétrica e serviços correlatos. uma reputação técnica ligada a questões energéticas por ter participado da discussão de planos governamentais envolvendo usinas hidroelétricas na Serra do Mar. do então gover­ nador Bento Munhoz da Rocha Neto.917 de 26 de outubro. O professor Parigot tinha já. habilitar-se de maneira mais eficaz aos financiamentos requeridos para a realização de obras de geração e transmissão. Esta empresa seria uma instituição mais flexível que os órgãos governamentais tradicionais e poderia. 235 . in­ clusive. En­ tretanto.COPEL. uma empresa de econo­ mia mista que teria a atribuição de implementar o suprimento de energia elétrica do estado. na época. era extremamente precária. transmissão e transformação.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 10 – Usina hidroelétrica de Ocoí A era da COPEL Em 1954. A nova sociedade se destinava a “planejar. como indicado anteriormente. A primeira diretoria da COPEL incluiu como diretor técnico. o governo do es­ tado criou a Companhia Paranaense de Energia Elétrica . seguindo o exemplo de Minas Gerais. cate­ drático da cadeira de hidráulica na Escola de Engenharia da Uni­ versidade do Paraná (atualmente Universidade Federal do Paraná). Nesta primeira diretoria da COPEL foi de sua res­ ponsabilidade a formulação técnica racional de uma evolução objetiva e realista da oferta de energia elétrica no estado que.

era antiga. que tinham sido admitidos na empresa entre 1955-60 e neste período desenvolveram estudos importantes que deram origem às obras executadas no período seguinte. e consiste em uma barragem no rio Capivari e desvio para o rio Cachoeira. Isto fez com que a COPEL pudesse atrair um con­ junto de engenheiros que teve uma atuação decisiva na evolução bem sucedida da empresa especialmente nos anos 60. como mencionado anteriormente. Outras soluções propostas consideravam várias usinas menores em sequência. no litoral. A solução que prevaleceu foi proposta pela SOGREAH. que corre relativamente próximo a Curitiba. francesa. Péricles Tourinho e Clodoveu Holz­ mann. Fizeram parte deste grupo os engenheiros Hiran Lamas. através de sistema de túneis de grande extensão e casa de força única. foram chamadas e encarregadas de propor soluções técnicas para o aproveitamento. instalada com quatro grupos Pelton somando 260 MW de potência. A idéia do aproveitamento do rio Capivari. Entretanto.Séculos XIX. o professor Parigot implantou uma filosofia de seriedade e respeito técnico. atualmente denominado usina hidroelétrica Governador Parigot de Souza.A História das Barragens no Brasil . subterrânea. quando novamente este voltou à empresa. a derivação para o litoral vencendo desnível importante foi nesta ocasião revista e estudada detalhadamente. vencen­ do o degrau de mais ou menos 800 m da Serra do Mar. Nel­ son Luiz de Sousa Pinto.Mapa de 1915 com os primeiros estudos para o aproveitamento do Rio Capivari 236 . Maurício Schulman. para o rio Cachoeira. de países diferentes. Para isto três empresas internacionais. agora como presidente e go­ zando da inteira confiança do governador. Entre estas obras destaca-se o aproveitamento hidroelétrico CapivariCachoeira. no litoral. na curta gestão de sua participação inicial na em­ presa. XX e XXI Não obstante. instaladas ao longo da encosta da serra. entre outros. Figura 11 . que consiste na derivação do rio Capivari que se desenvolve no planalto.

não foi este o único empreendimento desenvolvido pela COPEL no início dos anos 60. Na construção desta usina a Copel se projetou no panorama da energia brasileira. conquistando dois recordes para a época: maior avanço médio em escavação subterrânea em obras do gênero e maior volume de concretagem mensal no interior dos túneis.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 12 – Usina hidroelétrica Capivari . Neste local. Imaginou-se então 237 . se estudou um aproveitamento de porte médio que foi considerado muito grande para atender a demanda existente. A chamada Usina Piloto do Salto Grande do Iguaçu foi também nesta época projetada e construída. Foi decidido desenvolver o projeto detalhado com esforço próprio. prescindindo da contratação de uma empresa de projeto. Este é o chamado Salto Grande do Iguaçu. que nunca haviam sido feitos no estado. A barragem do Capivari pode ser considerada como a primeira bar­ ragem de porte realizada no Paraná.Cachoeira – Perfil esquemático Para a construção do aproveitamento a COPEL criou. Apesar da relevância de Capivari-Cachoeira. CEPHH (mais tarde CEHPAR e hoje Lactec) recebeu a incumbência de realizar os estudos hidráulicos em mode­ lo reduzido. na divisa com Santa Catarina. assistido por consultores pessoas físicas e não empresas. Dispõe também de um descarregador de fundo. controla­ do por duas comportas de segmento. contro­ lado por comportas vagão. Tem 60 m de altura. não só foi muito bem sucedida como também foi importante na for­ mação e desenvolvimento de quadros técnicos locais treinados em empreendimentos de dimensões e de grande complexidade. Maurice Bouvard foi contratado como consultor ge­ ral do projeto. Logo a jusante desta cidade o rio entra na região dos basaltos e aí ocorre o primeiro salto abrupto dos vários que o rio apresenta ao longo de percurso. é de terra homogênea e dispõe de vertedouro de superfície em canal. uma subsidiária específica a ELETROCAP e outorgou a Hiran Lamas e Nelson de Sousa Pinto a responsabilidade de sua implementação. a decisão de executar o projeto e a supervisão da construção com equipe pró­ pria. Milton Vargas como consultor para a barragem de terra no rio Capivari e o incipiente laboratório de hidráulica da Universidade do Paraná. Juntamente com as demais obras do aproveitamento a barragem começou a operar em outubro de 1970 e ao longo deste período demonstrou um desempenho excelente sem nenhum incidente. naquela época. que foi utilizado para o desvio e suple­ menta a capacidade do vertedouro em 250 m3/s. O rio Iguaçu nasce na região urbana de Curitiba e se desenvolve em uma região do planalto com baixas declividades até as imediações da cidade de União da Vitó­ ria. Apesar de inusitada e mesmo arriscada. no início dos anos 60. para uma vazão de projeto de 750 m3/s.

Houve tentativas 238 . O estudo final viabilizava o empreendimento (supondo a existência de demanda) com três barragens no alto Iguaçu associadas a estações elevatórias.Séculos XIX.8 MW cada um. que tinha contratos em andamento com Furnas e grande repu­ tação técnica. foi construído a partir de 1962 e entrou em operação em setembro de 1967. na divisa entre o Paraná e Santa Catarina. XX e XXI Figura 13 – Usina hidroelétrica Capivari Cachoeira – fotos da casa de força uma usina menor que serviria como passo inicial para um apro­ veitamento futuro de maiores dimensões. túneis de adução e casa de força subterrânea com aproximadamente 4. de formação italiana e radicado em São Carlos. dos Estados Unidos. O empreendimento não prosperou porque. num esquema semelhante ao projeto CapivariCachoeira. São Paulo. entre outras razões.000 MW instalados e restituição através de túneis de fuga descarregando próximo a Garuva. Por isso foi chamada de “usina piloto”. mas agora revertendo uma vazão muitas vezes maior. alimentando uma barragem-tomada d’água em arco com 4 grupos geradores de 3. O conceito do projeto previa um canal de adução de pare­ des curvas na margem esquerda.A História das Barragens no Brasil . O projeto de características hidráulicas e constru­ tivas complicadas foi estudado no laboratório de hidráulica do CEHPAR. não existia demanda para tal potência. Para isto foi contratada a IECO – International Engineering Company. 15 anos mais tarde. Este empreendimento. Outra iniciativa importante nesta época foi a contratação de um estudo para verificar a viabilidade técnica e econômica da reversão do alto rio Iguaçu para o litoral. O projeto foi contratado com o engenhei­ ro Cardellini. foi inundado pelo reservatório de Foz do Areia. O fluxo principal do rio não era afetado e continuava livre so­ bre o salto.

do governo paulista. através da participação da COPEL na USELPA – Usinas Elétricas do Paranapanema. não podiam politicamente ser trocados por projeto em outro estado. com base na qual foi possível o suprimento de energia elétrica à região de Londrina e Maringá a partir da usina de Salto Grande do Paranapanema. houve uma parceria importante para ocasião.Vista da casa de força da usina de Salto Grande do Iguaçu – 15. no rio Paraná (Jupiá e Ilha Solteira) que. Entretanto. mas que também não progrediram porque este estado estava iniciando na ocasião os grandes projetos do Complexo Urubupungá. embora mais distantes da capital do estado e mais caros que a alternativa do Iguaçu.200 kW 239 . entre os estados de São Paulo e do Paraná. Figura 15 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 14 – Barragem de Capivari-Cachoeira modestas de acordo com o estado de São Paulo para o desenvolvi­ mento em parceria.

Inauguração de Salto Grande do Iguaçu em 29 de setembro de 1967. XX e XXI Na segunda metade dos anos 60 a COPEL desenvolveu o projeto e construiu a usina hidroelétrica de Foz do Chopim.Usina hidroelétrica de Foz do Chopim . com 44 MW. situada na margem esquerda do rio Iguaçu. que mais tarde viria a ser presidente da empresa e responsável pelas obras subsequentes no rio Iguaçu até o final dos anos 70.Séculos XIX. Este empreendimento foi projetado pela SERETE Engenharia. chamada pos­ teriormente de Júlio de Mesquita Filho. O estudo desenvolvido entre 1967 e 1969 identificou as principais obras no curso principal e afluentes dos rios Iguaçu. para desenvolvimento hidro­ elétrico. Da esquerda para direita: professor Parigot de Souza.casa de força e barragem Figura 16 . no oeste do Estado. general José Costa Cavalcanti e governador Paulo Pimentel do Sul. O rio Chopim é um afluente pela margem esquerda do rio Iguaçu. a vazão do rio Chopim é encaminhada por meio de canal aberto e conduto forçado a uma casa de força equipada com dois grupos de 22 MW cada. Com uma pequena barragem-tomada d’água na última curva. Piquiri 240 . atingindo este rio após desenvolvimento em várias curvas (falsos meandros) ocasionadas pela orografia da região basáltica. foi a constituição do Comitê de Estudos Energéticos da Região Sul – Comitê Sul. O Comitê Sul era a continuação dos estudos executados na região Sudeste pela CANAMBRA. e foi formado por engenheiros canadenses e americanos que haviam atuado no Sudeste e por profissionais locais designados pela COPEL. de São Paulo. Um fato extremamente relevante ocorrido na segunda metade dos anos 60. além de alguns designados pelas empresas de Santa Catarina e do Rio Grande Figuras 17a e 17b . técnica e economicamente. Pela COPEL o responsável foi o engenheiro Arturo Andre­ oli. O objetivo do Comitê Sul era o levantamento das principais bacias hidrográficas dos três estados sulinos (menos os rios que já tinham sido considerados no estudo do sudeste: Tibagi e Ribeira do Iguape e dos trechos que formam fronteira internacional) com o propósito de identificar e avaliar os locais potencialmente ade­ quados. sediado em Curitiba e organizado sob a gestão da COPEL.A História das Barragens no Brasil .

Um outro aspecto relevante no desenvolvimento deste projeto foi o fato de que. conseguiu ser designada a “gestora” do empreendimento e seguiu assim até o final da obra. Ibirapuitã e Camaquã. houve a sugestão da junta de consultores para adoção de uma barragem de enrocamento com face de concreto. fez com que a concessão fosse transferida para a ELETRO­ SUL. Esta decisão. Barry Cooke. que re­ tomou alguns estudos preliminares já executados para a ELETRO­ SUL em anos anteriores. em 1974. O projeto de engenharia de Salto Osório foi contratado com o consórcio SERETE (que já atuava em Foz do Chopim) e Kaiser Engineers Corp. A solução técnica do projeto inclui uma barragem de enrocamen­ to com núcleo inclinado de argila. Salto Osório (1. Depois de Capivari-Cachoeira.Usina hidroelétrica de Salto Osório Antes do final de Salto Osório. Nas discussões para a formulação do arranjo e do tipo de barragem. naquela 241 .A. foi tomada por razões prá­ ticas uma vez que no local estava sendo finalizada a construção de Foz do Chopim e existia uma estrutura de apoio para o início de um novo empreendimento.000 m3/s. a COPEL decidiu pleitear e cons­ truir a usina hidroelétrica de Salto Osório. com base no resultado dos estudos do Comitê Sul – CANAMBRA. pois iniciava o desenvolvimento do rio com uma obra situada longe das cabeceiras.. em Santa Catarina.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens e Ivaí. quase todos os potenciais identificados estão hoje aproveitados. foi estabelecida pela COPEL uma junta de consultores independentes. de Mello. Jacuí. que poderia parecer injustificada. entretanto. No final dos anos setenta. mas como não havia antecedentes deste tipo de obra no Brasil. no Rio Grande do Sul. e Rio Grande do Sul. A ELETROSUL fixou seu objetivo na usina de Salto Santiago (1. a ELETROSUL e a COPEL se mobilizaram politicamente para realizar outras obras no rio Iguaçu tomando sempre por base a previsão de obras formulada pelo Comitê-Sul – CANAMBRA. com 56 m de altura máxima e 750 m de comprimento. no Paraná. situada imediatamente a montante de Salto Osório com a possibilidade de iniciar serviços de campo a partir da base estabelecida em Salto Osório. James Libby. e dois vertedouros com capacidade con­ junta de descarga de 27. que também teriam um papel muito importante nas obras subsequentes. apesar da COPEL ter tido a iniciativa do empreen­ dimento. então diretor técnico da empre­ sa. Figura 18 . na época. Thomas Leps e Victor F. B. a COPEL não aceitou a sugestão. A ELETROSUL.420 MW). O gerente do projeto do consórcio projetista foi o engenheiro Warren Schumann que teve um papel fundamental no desenvolvimento da maioria das obras do rio Iguaçu. em 1974. Esta junta era formada pelos engenheiros J. Canoas e Uruguai. dos Estados Unidos. Apesar de ter havido revisões nos resultados dos estudos. Pela primeira vez no Paraná. A COPEL.050 MW) foi a grande realização da COPEL no início dos anos 70 e o ponto de partida para os sucessos seguintes. de uma empresa federal que teria a exclusividade na geração de obras de propósito supra-esta­ dual. A decisão e a implementação com su­ cesso das gestões voltadas para a realização da obra são devidas ao engenheiro Arturo Andreoli. Ela obteve sucesso em seu pleito pela concessão do aproveitamento e contratou os estudos de engenharia de projeto com a Milder-Kaiser Engenharia S. pela SERETE. a recente criação.

Barry Cooke. Lança a montante de União da Vitória. Salto 242 .A História das Barragens no Brasil . de Mello e Thomas Leps. A usina hidroelétrica de Salto Santiago. Jaime L. seguindo a prática de Salto Osório contratou o mesmo grupo de consultores especiais daquela obra: J. Kamal Kamel. O projeto incluiu uma barragem principal de enrocamento com núcleo de argila. e uma barragem de terra homogênea fechando um ponto baixo no reservatório. Engenheiros e consultores (a partir da esquerda: Brasil P. projetada para uma insta­ lação de 2. James Libby. Arturo Andreoli) época.000 MW. com 80 m de altura. Victor F. oriundo da SERETE.Obra e fechamento do desvio do rio da usina hidroelétrica de Salto Santiago. XX e XXI Figura 19 . montou uma estrutura técnica no Rio de Janei­ ro e designou para a gerência do Projeto Salto Santiago o engenheiro Jaime Leivas Piuma que foi o principal responsável pela engenha­ ria desta obra. B. foi construída pela Camargo Correa estrita­ mente no cronograma estabelecido inicialmente. A COPEL centrou sua atenção nas obras previstas no trecho ini­ cial do rio Iguaçu. Thelmo Thompson Flores. com a primeira unidade entrando em operação no final de 1980. Machado. Piuma. era dirigida pelo engenheiro Mario Lannes e seu diretor técnico era o engenheiro Fernando Correa de Azevedo. A MilderKaiser que tinha sido organizada em São Paulo por Isaac Milder.Séculos XIX. A ELETROSUL.

inundasse o Salto Grande do Iguaçu estabelecendo o nível máximo em cota compatível com a cidade de União da Vitória. Barry Cooke. A influência de Barry Cooke fez com que se decidisse por uma barragem de enrocamento com face de concreto. com uma barragem muito mais alta. agora formada por J. prevaleceu pois. de Warren Schu­ mann. como fizera em Salto Osório. da Kaiser Engineers. já dis­ punha de um quadro técnico de primeiro nível e a COPEL trouxe da Colômbia o engenheiro Bayardo Materón. presidente da COPEL na época.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 20 . que não só seria a primeira do tipo no país. mas resultava economica­ mente menos atraente que uma variante de Foz do Areia que. B. uma barragem baixa criando um reservató­ rio de área muito extensa tinha méritos. Definidas as características energéticas e orográficas de Foz do Areia a seleção do tipo de barragem que teria 160 m de altura demandou longas discussões técnicas. O engenheiro Arturo Andreoli. tinha menor área e criava uma queda aproveitável para geração de energia. Em 1973 contratou os serviços de engenharia da Milder-Kaiser e assegurou a participação técnica. Isto tudo fez com que o grupo técnico envolvido na concepção e desenvolvimento da obra fosse formado e mantido com pessoal de alta qualificação. além de criar um reservatório regulador semelhante ao previsto para Lança. A COPEL contratou. chamada na época Foz do Areia Alto. Esta alternativa. Milder-Kaiser. Os estudos realizados pela Milder-Kaiser mostraram que Lança.Usina hidroelétrica Salto Santiago Grande do Iguaçu e Foz do Areia a jusante desta cidade. mas seria na época a mais alta do mundo neste tipo. uma junta de consultores especiais. teve o gran­ de mérito de assegurar o projeto para o Paraná e de convencer a ELETROBRAS a criar uma exceção à regra que determinava que só empresas federais poderiam construir obras de geração que ultra­ passassem a demanda do estado onde se situam. de Mello e Nelson Luiz de Sousa Pinto. Victor F. que tinha experiência 243 . A projetista. como gerente do projeto.

A usina. e designou o experiente en­ genheiro Pedro Marques Filho.600 residências e to­ dos os serviços urbanos necessários.Séculos XIX. para o acompanhamento e controle dos ma­ teriais de enrocamento e questões ge­ ológicas associadas. pensões e outros ramos comerciais.Usina hidroelétrica Foz do Areia 244 . Com a influência da novela da época (1973). projetada para 2. a pequena vila em formação recebeu o nome de Nova Divinéia e seus principais personagens inspiraram nomes de bares. com 1.A História das Barragens no Brasil . XX e XXI Figuras 21a e 21b – Obras da usina hidroelétrica Foz do Areia neste tipo de obra nas realizações na­ quele país.500 MW teve sua primeira unidade entrando em operação em outubro de 1980. Figura 22 . “Fogo sobre Terra”. estrita­ mente de acordo com o cronograma formulado 5 anos antes. tais como Barbearia Sandra Bréa e Bar Pedro Azulão. A construção da obra foi dividida em dois contratos: o primeiro para os túneis de desvio e préensecadeiras foi realizado pela Andrade Gutierrez. a Copel ini­ ciou a implantação das obras de infraestrutura que incluíam uma verdadeira cidade. com o interesse da população ribeirinha por Foz do Areia. Faxinal do Céu. o segundo. em busca de um novo “Eldorado” iniciou-se a formação de um pequeno povoado próximo ao canteiro da usina. cerca de 12 km da obra. em janeiro de 1975. Para que a obra começasse a deslan­ char. para o restante das obras civis foi outorgado à CBPO hoje uma empresa do Grupo Odebre­ cht. Um pouco antes da implantação da planejada Faxinal.

por problemas econômico-financeiros. Durante a visita do então presidente da re­ pública João Figueiredo à obra de Foz do Areia. na MDK. Para isso foram contratadas Figura 23 – Visita às obras de Foz do Areia em 31 de agosto de 1979. Se­ gredo seria uma obra da ELETROSUL que efetivamente realizou estudos incluindo al­ ternativas com barragens de concreto em abóbada propostas pela Enge-Rio. no princípio da década de oitenta as grandes barragens do Paraná vinculadas à COPEL e ELETROSUL eram Capivari. Entretan­ to. Fernando Luiz Correa de Azevedo (presidente Milder Kaiser) e Willian Simonsen (diretor comercial da Milder-Kaiser) 245 . Da esquerda para direita Lindolfo Zimmer (diretor de engenharia e construções da COPEL). No Paraná a COPEL fez várias tentativas de viabilizar financiamentos para a próxima usina do rio Iguaçu. A década de oitenta foi marcada pela crise da dívida externa brasileira que fez com que as fontes de financiamento do governo secas­ sem e poucas obras pudessem ser realizadas. a jusante de Foz do Areia tinha sido planejada para ser cons­ truída contemporaneamente com Salto Santiago. governador Ney Braga e o presidente João Figueiredo discursando as empresas MDK (sucessora da Milder-Kaiser agora parte do grupo CNEC) e CENCO. que por isso tinha tido a cota má­ xima do seu reservatório aumentada em 15 m de modo que numa operação conjunta houvesse ganho de volume em Santiago e de queda em Segredo.100 MW e foram iniciadas as ativida­ des de projeto. Manteve a mesma junta de consultores especiais de Foz do Areia. O projeto incluiu uma barragem de enrocamento com face de concreto com 145 m de altura formulada com os mesmos conceitos de Foz do Areia. Segredo e desta obra so­ mente conseguiu executar os túneis de desvio e escavações preliminares para a barragem. Salto Santiago e Foz do Areia. foi confir­ mada a concessão da usina de Segredo para a COPEL. na qual foi confirmada a concessão da usina hidroelétrica Segredo. A partir da esquerda Douglas Souza Luz. De 1982 a 1987 o projeto foi desenvolvido sob a gerência do engenheiro Kamal Kamel. A usina de Segredo. Neste conceito. Douglas Souza Luz (presidente da COPEL). a obra de Segredo foi postergada. Salto Osório. em 31 de agosto de 1979.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Desta forma. Em 1985 foi contratada Figura 24 – Assinatura do contrato do projeto da usina hidroelétrica Segredo em 19 de março de 1980. com potência prevista à época de 2. hoje denominada usina hidroelétrica Go­ vernador Bento Munhoz da Rocha Netto. governador Ney Braga assinando. naquele tempo. Brasil Pinheiro Machado (diretor técnico da Milder Kaiser).

O conjun­ to de obras de derivação do rio Jordão contempla ainda uma pequena central hidroelétrica para aproveitamento da vazão mínima de 10 m3/s necessária à pereni­ zação do trecho a jusante do rio Jordão. A obra foi concluída em 1992 e a geração inicial ocorreu em julho daquele ano sendo hoje denominada Usina Hidroelétrica Governador Ney Braga. por questões ambientais. Em 1988 foi possível a retomada da obra que foi contratada com um consórcio de empresas do Paraná: DM Construtora de Obras. Durante a implantação da hidroelétrica de Segredo.Séculos XIX.A História das Barragens no Brasil . Desde o inventário.Usina hidroelétrica Segredo 246 . Com a definição da implantação da usina de Salto Santiago em cota mais alta que a originalmente prevista. Estas obras duraram aproximadamente um ano e a continuação não pode ser realizada por problemas políticos e econômico-financeiros. XX e XXI Figuras 25a e 25b – Obras da usina hidroelétrica Segredo a construção das obras do desvio com a Construtora CR Almeida S. CESBE e SINODA. A obra foi iniciada em maio de 1994 e concluída em outubro de 1996. o eixo da usina de Segredo foi modificado para montante da foz do rio Jordão. considerou-se para efeito de motorização a derivação das águas do rio Jordão através de conjunto barra­ gem. permi­ Figura 26 . vertedouro e túnel de interligação entre os dois reservatórios. que é um tributário importante do rio Iguaçu.A. a motorização e energia da usina hidroelétrica Segredo consideraram as águas do rio Jordão.

5 m.5 MW e queda líquida de 71.000 m3 de concreto convencional. A licitação para contratação das obras permitiu a escolha pelo empreiteiro entre dois projetos. que possui altura máxima de 95 m. um com solução da barragem em enrocamento com face de con­ creto e o outro arranjo em barragem de concreto compactado com rolo.Companhia Paranaense de Energia. O arranjo selecionado tem o vertedouro em soleira livre incorporado à barragem. Figura 28 – Derivação do rio Jordão 247 .000 m3 de concreto compactado com rolo e 80. O projeto básico foi executado pela MDK Engenharia de Projetos.800 m e diâmetro de 9 m. concessionária dos dois apro­ veitamentos do complexo.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figuras 27a e 27b – Derivação do rio Jordão durante a construção. A proposta vencedora foi apresentada pelo consórcio formado pela empresa paranaense Ivaí Construtora de Obras e pela italiana Del Favero S. A PCH entrou em operação em 2 de dezembro de 1997 comple­ tando o complexo energético SegredoJordão. e o projeto executivo foi feito internamente pela COPEL .p. utilizando 570. O túnel da derivação tem extensão de 4. considerando o arranjo utilizando barragem de concreto compacta­ do com rolo.A. com uma potência instalada de 6. Barragem e túnel de derivação tindo a geração na usina hidroelétrica Segredo com as águas derivadas do rio Jordão.

Barry Cooke. levando o re­ manso até Salto Osório e inundando Foz do Chopim. tendo como consultor de mate­ riais para a barragem o engenheiro Francisco Rodrigues Andriolo. permitindo a construção de uma outra obra – Cruzeiro – a jusante de Salto Osório e a mon­ tante de Foz do Chopim. porém com nível de represamento mais baixo.000 m3/s. XX e XXI Figura 29 – Engenheiros da COPEL e consultores durante reunião da junta de consultores da derivação do rio Jordão O projeto executivo foi gerido e coordenado pelo engenheiro José Marques Filho da COPEL. mencionada anteriormente. Thomas M. 248 . à contratação do consórcio projetista liderado pela INTERTECHNE e formado adicionalmente por ENGEVIX. Colaboraram. atualmente usina hidroelétrica Governador José Richa. A construção foi contratada com a DM Constru­ tora de Obras que já havia atuado no Projeto Segredo. também. A junta de consultores foi composta pelo renomado engenheiro paranaense Nelson Luiz de Sousa Pinto e os con­ sultores internacionais J. Este consórcio realizou os estudos de engenharia e meio-ambiente incluindo projeto básico e executivo civil e eletromecânico. Na época de sua construção foi um passo muito significativo em termos de volume da barragem com cerca de 1. Esta foi a solução adotada e que deu origem.A História das Barragens no Brasil . A usina entrou em operação em 1998 seguindo estritamente o cronograma de obras pré-determinado. que havia ven­ cido a licitação promovida pela COPEL. Esta obra estava prevista na divisão de quedas proposta pelo Comitê-Sul – CANAMBRA. Esta foi a primeira barragem de porte expressivo de CCR no Brasil. os consultores Walton Pacelli de Andrade.000 de m³ e em capacidade do vertedouro incorporado. Paulo José Melaragno Monteiro e Brian Forbes. da INTERTECHNE. Estudos realizados ao longo da década de oitenta pela COPEL indicaram a conveniência de aumentar o nível de represamento.083 m de comprimento.000. em 1992. e a primeira que demonstrou a competitividade deste tipo de solução. A barragem selecionada foi de concreto compactado a rolo (CCR) com 67 m de altura e 1. LEME e ESTEIO. A última barragem realizada no curso do rio Iguaçu foi a usi­ na hidroelétrica de Salto Caxias.Séculos XIX. Leps e Paolo Cassano. no processo de definições da barragem de CCR. Uma característica significativa é o vertedouro controlado por comportas com vazão de projeto de 50. O gerente do projeto foi o engenheiro Kamal Kamel.

Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figuras 30a e 30b – Obras da usina hidroelétrica Salto Caxias Figura 31 .Usina hidroelétrica Salto Caxias 249 .

250 .

inaugurada em 1946 Usina hidroelétrica de São Simão. pois as concessões eram dadas por estados e municípios. 2007. A capital do estado era suprida pelo grupo da AMFORP. Dentre as Figura 1 – Início da obra da hidroelétrica de Gafanhoto sobre o rio Pará em Divinópolis. Essas empresas passaram a sofrer as consequências funestas do Código de Águas. criado em 1934 com o pretexto de disciplinar o regime de concessões dos serviços de eletricidade que até então era anárquico.. Destacava-se na época a Zona da Mata que era suprida pela Companhia Força e Luz Cataguazes Leopoldina CFLCL no vale do rio Pomba e pela Companhia Mineira de Eletricidade no vale do rio Paraibuna. Fazendo progresso com energia Flavio Miguez de Mello A pré-história No estado de Minas Gerais antes da II Gran­ de Guerra Mundial a energia elétrica era escassa.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Companhia Energética de Minas Gerais – CEMIG “Trata-se (a Cemig) da mais bem sucedida história dentre todas as experiências em âmbito estadual” Antonio Dias Leite Jr. nas pro­ ximidades de Juiz de Fora. A mais importante usina da Cemig: a de maior produção de energia e a mais rentável 251 . Muitas micro-usinas hidroelétricas supriam a necessidade de energia de fazendas isoladas e mesmo de pequenas cidades.

Séculos XIX. ainda que nos níveis modestos da época. Como as empresas acima mencionadas eram privadas. primeiro presidente da CEMIG 252 . O Código de Águas estabeleceu determinados princípios tais como o de que todos os recursos hídricos eram da União e. A idéia era criar a infra­ estrutura energética para incentivar a implantação de indústrias e de atividades de mineração. XX e XXI consequências funestas estava a eliminação da cláusula ouro que ga­ rantia às empresas o reajustamento das tarifas. desaceleração no desenvolvimento econômico no pós guer­ ra. Águas era só o pretexto. Na formação da equipe foram incluídos os engenheiros Mauro Thibau e John Cotrim. No estado de Minas Gerais o início da participação do estado na geração de energia elétrica começou a ocorrer no governo Milton Campos que formulou um plano de maior envergadura para aten­ dimento das necessidades de eletrificação do estado. época em que houve forte incremento da economia em quase todos os outros países. os mineiros não perdoaram Getúlio Vargas por não instalar a primeira grande siderúrgica em Minas Gerais apesar do Macedo Soares ter explicado inúmeras vezes que foi selecionado o local de Volta Redonda por questões de mer­ cado pois siderúrgicas devem ficar próximas ao mercado e não ao minério.A História das Barragens no Brasil . antecessora do Departamento de Águas e Energia Elétrica DNAEE que deu origem às atuais Agências Nacionais de Águas ANA e de Energia Elétrica ANEEL. A intenção do engenheiro Seabra era que o engenheiro Lucas Lopes se encarregasse de comandar a elaboração do plano com o apoio da consultora. trans­ missão e distribuição de energia elétrica. Pela primeira vez foi feito no Brasil um plano de obras públicas tão abrangente. Mas o Plano de Eletrificação garantiu a energia necessária para a instalação da Mannesmann em Minas Gerais. Para tanto foi criada a Divisão de Águas no Ministério da Agricul­ tura. Foi feito um detalhado levantamento das vocações econômicas mineiras e dos locais onde essas vocações deveriam ter o suporte de energia elétrica. Entretanto. o poder concedente passou a ser exercido pela União. O gargalo acima mencionado propiciou o aparecimento do estado na geração de energia elétrica. passou a haver dificuldades para o correto equilíbrio econômico e financeiro dos contratos de con­ cessão na medida em que a inflação. apenas a CFLCL sobreviveu ao Código de Águas que era mais de energia do que de águas. nem a consultora nem Lucas Lopes tinham experiência na elaboração de planos dessa natureza. O secretário de viação e obras públicas entre 1947 e 1951. consequente­ mente. consequen­ temente. A esse respeito. O principal objetivo do Código de Águas era a paralisação das empresas privadas do setor elétrico o que gerou considerável gargalo na expansão da oferta de energia elétrica e. desestimulava novos empreendimentos de geração. Das empresas privadas que atuavam em Minas Gerais. Figura 2 – Lucas Lopes. engenheiro José Rodrigues Seabra contratou a consultora Companhia Brasileira de Engenharia para elaborar o Plano de Eletrificação de Minas Ge­ rais.

precisamos estabelecer um “holding” que controle as atividades gerais das diversas centraes elétricas que pretendemos construir. José Esteves. Para facilitar-lhe a organização e dar-lhe o caráter comercial que possibilite entendimentos com firmas financiadoras. Peço combinar com eles e assentar em definitivo as medidas.” 253 .CINQUENTA ANOS DO COMITÊ BRASILEIRO DE BARRAGENS Na campanha presidencial de 1950 Getúlio se disse em dívida com Minas Gerais e prometeu a instalação de uma segunda siderúrgica em território mineiro. foram diretores dessas empresas Lucas Lopes. enquanto o Plano de Eletrificação era formulado. então presidente da República. Indústria. A CEMIG em seus primeiros anos A CEMIG foi fundada em 22 de maio de 1952. John Cotrim. o engenheiro Américo René Gianetti. titular da Secretaria de Agricultura. Como essas empresas existiam e como era necessário haver recursos para o pagamento dos salários dos executivos que iriam comandar a CEMIG que ainda não existia. para pedir apoio federal para implantação da nova siderúrgica. Os alemães argumentaram que em Minas Gerais não havia energia elétrica. Juscelino afirmou aos alemães: “Podem instalar a usina que nós garantimos a energia”.Bilhete do governador Juscelino Kubitschek. algumas das quais já se encontravam em Figura 3 . datado de 22 de fevereiro de 1951: “O Sílvio Barbosa e o Júlio vão lhe falar sobre os planos que desejo pôr em execução no sector de energia elétrica. a Companhia de Eletricidade do Alto Rio Grande para implementar a hidroelétrica de Itutinga. Assim. os membros da equipe de transição ficaram sendo diretores dessas empresas. Foram criadas empresas estatais estaduais para implantação das primeiras hidroelétricas estatais em Minas Gerais que posteriormente foram incorporadas pela CEMIG quando esta foi criada no governo Juscelino Kubitschek. A Mannesmann tinha planos de se instalar no Rio de Janeiro e foi ao Getúlio. Desde o seu início até 1955/1956 a CEMIG dedicou-se basicamente à construção de usinas hidroelétricas. Comércio e Trabalho. Pedro Laborne Tavares. Assim. a Companhia de Eletricidade do Médio Rio Doce para a construção da hidroelétrica de Tronqueiras. Essa garantia dada pelo governador foi a principal razão do sucesso inicial da CEMIG uma vez que passou a haver a necessidade de promover o suprimento de energia elétrica tão logo que a siderúrgica ficasse pronta. dava início a algumas hidroelétricas. Júlio Soares e José de Castro. foram criadas a Companhia de Eletricidade do Alto Rio Doce para implantar a hidroelétrica de Santo Antônio. dirigido ao seu secretário de Viação e Obras Públicas. Getúlio disse aos alemães que procurassem o recém governador de Minas Gerais pois ele havia mencionado o Plano de Eletrificação elaborado no governo Milton Campos. Grato. Empossado no governo Milton Campos. Em resposta Getúlio disse “Eu dou tudo que os senhores quiserem contanto que essa usina vá para Minas”.

e S. vice-presidente da Cemig.Séculos XIX. Cândido Hollanda de Lima. ao lado do presidente da Cemig.Assinatura de contrato para financiamento no Export Import Bank para construção da usina de Camargos.A História das Barragens no Brasil . Da esquerda para a direita: Mário Bhering. XX e XXI Figura 4 . presidente da Cemig. Cândido Hollanda de Lima 254 .Inauguração da Usina Hidroelétrica de Camargos em janeiro de 1961. Wangh. presidente do Eximbank Figura 5 . vendo-se o governador Bias Fortes descerrando a placa inaugural.

Os passos iniciais da CEMIG na implantação de suas usinas eram apoiados por recursos diretamente destinados à empresa sem pas­ sar pela Secretaria de Finanças para desespero do secretário José Maria Alkmin. os túneis estavam mal locados. não havia levantamento topográfico completo da área de implantação da usina. Troqueiras. Lyra. Vários equipamentos elétricos estavam estragados. a casa de força estava em terreno não apro­ priado. Da esquerda para a direita. estando há mais de um ano abandonados em caixotes em terreno marginal à ferrovia em Coronel Fabriciano sem qualquer identificação. Piáu e Cajuru. Há relatos de que os estudos existentes eram muito superficiais. vice-presidente da Cemig construção.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 6 – Inauguração da Usina de Itutinga. vendo-se o governador Juscelino Kubitschek no momento simbólico em que aciona a chave. Salto Grande. Tancredo Neves. John Reginald Cotrim. Mauro Thibau e Mario Bhering. Após a constituição da CEMIG foram agregados ao grupo de diretores anteriormente composto os engenheiros Flavio H. colocando a usina em operação. os equipamentos permanentes já haviam sido comprados e entregues. Seu programa inicial compreendia a construção ou a conclusão das hidroelétricas de Itutinga. não haviam sido executadas prospecções geológicas e geotécnicas. totalizando quase 150 MW instalados. Entre os primeiros engenheiros que foram contratados estavam Camilo Penna e Henrique Guatimosin. em 3 de fevereiro de 1955. Na realidade havia uma disputa nesse sentido entre o secretário de finanças Alkmin e o engenheiro Lucas Lopes que conse­ guiu manter os recursos financeiros diretamente alocados à CEMIG. deputado federal. Das obras iniciadas no governo anterior a que demandou mais trabalho foi a hidroelétrica de Salto Grande. 255 .

Mário Bhering como responsável pelas compras e uma equipe de supervisão de obras que contava com Camilo Penna. ambas americanas que já estavam engajadas em outros contratos no Brasil. se tornar uma empresa com gestão moderna para a época. dois túneis de adução e uma casa de força foi concluída com sucesso. a implantação de Itutinga não causou problemas como os verificados em Salto Grande. A implantação da hidroelétrica de Itutinga teve uma história diversa. Um dos fatores que garantiram o sucesso nos primeiros anos da CEMIG foi o criterioso processo de contratação. através de Julio Soares. Carlos Gomes foi o engenheiro eletricista encarregado de identificar. Essa indispensável alteração teve suas implicações políticas. Flavio H. Os padrões exigidos pelo Banco Mundial fizeram com que a CEMIG fosse obrigada a. Após a instituição da CEMIG surgiu a oportunidade do Banco Mundial financiar a aquisição dos equipamentos e de alguns serviços de engenharia. XX e XXI Figura 7 .A História das Barragens no Brasil . a obra de Salto Grande que envolvia duas barragens. Numa oportu­ nidade o governador Israel Pinheiro. Lyra acumu­ lando a diretoria financeira da CEMIG com a superintendência de Itutinga. econômica e financeira que nunca antes havia sido feito em empreendimento não privado no País. candidato a presidente da República do Brasil e Mario Bhering.Séculos XIX. foram contratadas a IECO de São Fran­ cisco e a Morrison & Knudsen. vice-presidente da Cemig A Techint italiana foi contratada e o projeto foi alterado e detalhado. Com isso foi necessário que se fizesse um estudo completo de viabilidade técnica. estocar e recuperar os equipamentos que haviam se estragado pela chuva no matagal marginal à ferrovia. Com uma nova estrutura geren­ cial que compreendeu a contratação de novos quadros da CEMIG foram incluídos engenheiros civis que permaneceram no setor elétrico como Carlos Alberto Pádua Amarante e João Alberto Bandeira de Mello. outro 256 . des­ de seu início. pois uma obra iniciada no governo da UDN estava sendo novamente concebida e projetada num governo do PSD. John Cotrim como diretor técnico. Como na época não havia empresas nacio­ nais com reconhecidas capacitações para o desenvolvimento do projeto e da construção. Juscelino Kubitschek.Inauguração da barragem de Cajuru em 1959.

Figura 8 – Escavação do túnel de adução da hidroelétrica de Salto Grande 257 .

A História das Barragens no Brasil . assumiu o BNDE (hoje BNDES). Tornovsky e os Popof. nome­ adamente a Light e as empresas do grupo AMFORP. essa companhia não vai funcionar nunca. Três Marias – A primeira grande obra Desde 1946 foram acentuadas as discussões sobre os problemas de controle das vazões do rio São Francisco que desembocaram na criação. Como o Israel queria se livrar do referido cidadão. situada em uma área pobre de recursos naturais e com baixíssima ocupação demográfica. em dezembro de 1948. inclusive Vítor Cataldo que veio de Porto Rico organizar a operação e Mr. autarquia destinada ao desenvolvimento do vale do rio São Fran­ cisco. Itutinga e Tronqueiras. A receita era insuficiente para os gastos da recém criada CEMIG. Nessa época a atuação de Júlio Soares. Quando os esforços estavam direcionados para a conclusão das usinas de Salto Grande. Israel comentou “Que bobagem é essa que o Cotrim está inventando?” Julio Soares explicou: “É o curriculum vitae. Ele conseguiu alguns poucos veteranos de outras empresas que operavam no Brasil como Mr.” Israel con­ cluiu: “Ah. presidente da CEMIG. Leslie T. por ser destinada a atender a demanda regional e principalmente socorrer centros de carga situados em outros estados estrangulados pelos efeitos do Código de Águas em empresas privadas do setor elétrico. Schnaptis. indicou um engenheiro para contratação. Lyra começaram a trabalhar para viabilizar a hidro­ elétrica de Furnas. Os primeiros estudos foram concluídos em 1952. O governo federal passou a atuar no sentido de viabili­ zar dois grandes empreendimentos de geração com grandes reservatórios em Minas Gerais: Três Marias com objetivos de regularizar e melhorar as condições de navegabilidade do rio São Francisco e Furnas com objetivo de vir a ser o principal regularizador de todo rio Grande onde muitas hidroelétricas grandes viriam a se localizar. foi alvo de ferrenha oposição a partir do governo estadual. Também vieram mais de dez russos após a revolução chinesa de 1949 como Alissof. e a CEMIG se encarregou apenas da casa de força. pois na hora de desempatar a disputa por recursos. a única fonte de receita operacional vinha da venda de energia da usina de Gafa­ nhoto herdada do DAE. A barragem de Três Marias deveria ter sido uma obra da SUVALE.” Passado algum tempo o próprio Israel foi assediado por um cidadão que queria um emprego em qualquer lugar. Veio a posse do Juscelino como presidente da República e um natural esvaziamento da CEMIG com a drenagem de seus quadros para o governo federal. A solução encontrada para a CEMIG foi a colocação do professor Cândido Holanda de Lima na presi­ dência uma vez que. era um empreendimento simpático aos mineiros enquanto que Furnas. A ferrenha oposição à implantação de Furnas fez com que o governo federal firmasse um acordo muito vantajoso com a CEMIG para a implantação de Três Marias pelo qual o governo federal custeou o reservatório e a obra civil. XX e XXI diretor da empresa. 258 . contador inglês vindo da Light. foi de fundamental importância. desempatava sempre a favor da CEMIG. Três Marias. tinha as condições de bom trânsito interna­ mente na empresa e externamente junto ao governo do estado. Crowl que trouxe a disciplina financeira do TVA. cunha­ do do Juscelino e responsável por sua educação. lembrou-se do ocorrido anteriormente e per­ guntou ao Júlio Soares: “Como é que se chama aquilo que o Cotrim pede quando não quer contratar alguém?” Cabia ao engenheiro Mauro Thibau a organização das equipes de operação das primeiras usinas. John Cotrim pediu inicialmente que lhe enviassem o currículo do referi­ do engenheiro. na Comissão do Vale do São Fran­ cisco CVSF. John Cotrim e Flavio H. Dificuldades iniciais existiram com a Comissão do Vale do São Francisco que queria gerenciar a obra civil e com ofertas de fabricantes despreparados para o fornecimento de equipamentos. Lucas Lopes.Séculos XIX. Smith. mas grande parte do pessoal veio de fora. contraparente e amigo do governador Bias Fortes e ex-professor de muitos que compunham os quadros técnicos da CEMIG. posteriormente denominada SUVALE.

P. Os principais equipamentos permanentes vieram da Voith e da Siemens da Alemanha e contribuíram decisivamente para 259 . Cândido Hollanda de Lima. ficou aguardando. Como ele sabia que uma viatura da CEMIG passaria por ali naquele dia. Ao se apresentar ao Cotrim. os dirigentes da CEMIG lhe dispensavam toda atenção. Muitas horas depois Cotrim chegou na obra e mandou chamar o motorista do veículo que. tido como nervoso e bravo. teve seu carro danificado em uma das longas estradas não pavimentadas. Embora o local de Três Marias fosse na época considerado remoto. este elogiou o motorista que havia cumprido o que determinava a circular apesar da difícil situação daquele que pedia carona e que ele não conhecia.” Para a implantação de Três Marias foi repetida a estrutura que teve excelente desempenho em Itutinga: o projeto pela IECO que insta­ lou um escritório em Belo Horizonte e a construção pela Morrison Knudsen. Galdino Mendes. Assis Scafa. Juscelino Kubitschek de Oliveira. Mario Penna Bhering. Ao aparecer o veículo salvador levantando uma nuvem de poeira. vice-presidente da MorrisonKnudsen. ele começou a fazer sinais para que o veículo parasse. no caminho para a obra. o superintendente da CVSF. Júlio Soares. Juscelino não entendeu nada mas disse ao pé do ouvido: “A qualidade é importante mas não retarde a construção. Mário respondeu que estava fazendo o controle de compactação pelo método Hilf. em construção. ele viu Mário. o presidente da República. engenheiro da CVSF e Henrique Guatimosin. Em outra opor­ tunidade. superintendente de construções da Cemig Três Marias era obra estratégica para o governo federal e se situava a meio do caminho entre a então capital federal e a futura capital. novidade na época. o vice-presidente da Cemig. o presidente da Cemig. perguntou o que ele estava fazendo. explicou o método. em voz baixa. diretor da Cemig. Shoeller. Consta que o diretor técnico John Cotrim. O veículo diminuiu a marcha mas não parou. e que havia expedido circular proibindo que veículos da empresa dessem carona. retirando com um cilindro na praça de compactação da barragem. tremia de medo. ao saber quem era o pretenso carona. Da esquerda para a direita: o embaixador dos EUA no Brasil. Cautelosamente ele se aproximou do técnico e.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 9 – Visita presidencial às obras de Três Marias. C. numa visita do presidente Juscelino ao canteiro de obra. um técnico de solos que posteriormente trabalhou no IPT e na Enge-Rio.

Cássio Viotti. meses depois Magalhães participaria ativamente da deposição de Goulart usinas geradoras como as da Companhia Mineira de Eletricidade. José Augusto Pimen­ tel. começaram a aparecer as segunda e terceira gerações de engenhei­ ros e gestores nas quais despontaram nomes de projeção tais como. Paulo e Mario Mafra. o governador José de Magalhães Pinto e o presidente da Cemig. XX e XXI Figura 10 . Celso Melo de Azevedo. entre outros.Séculos XIX. Archimedes Viola. Mais tarde a CEMIG assumiu a área de concessão da Bragantina em território mineiro. que esses fabricantes posteriormente instalassem fábricas no Brasil. Marcos Vasconcelos e Gilson de Almeida Furtado e muitos outros. Vinício Noce de Magalhães Gomes. Construtoras nacionais passaram a ser con­ tratadas com uma única exceção: a construção da hidroelétrica de São Simão. além dos mais novos colaboradores do CBDB como Ricardo Aguiar Magalhães. Pouco após essa época. já com a CEMIG estabelecida como grande empresa. Sérgio Brito. nomeadamente Jaguara e Volta Grande. São Simão e Emborcação. Logo após dava início às hidroelétricas no rio Grande. Sorridentes na fotografia. Em Três Marias. da Sul-Mineira de Eletricidade e da Companhia Força e Luz de Minas Gerais. esta vinda do grupo AMFORP. Marcou também a evolução da engenha­ ria geotécnica em obras de terra. A partir de Três Marias a CEMIG foi gradativamente passando a contratar consultoria nacional. resultante de concorrência internacional em que o fator financiamento e contrapartidas pesaram na decisão da concorrência. vendo-se o presidente João Goulart.Inauguração de Três Marias. em 25 de julho de 1962. Paulo do Val. Octávio Mello Areas. Luiz Francisco Gualda Pereira. Roberto Fonseca. a Ebasco de Nova Iorque efetuou um estudo dos recursos hidroenergéticos do esti­ rão de 33 km do rio Grande nas proximidades da cidade de Rifaina concluindo pela recomendação da implantação de uma hidroelétrica 260 . cooperativas de eletrificação rural e de empresas e Jaguara e Volta Grande. seguidas das hidroelétricas no rio Paranaíba. acionando a chave de funcionamento da usina. Wellington Sebastião Jacarandá. O desvio do rio foi feito no término do governo Juscelino e a inauguração da usina pouco antes da revolução de 31 de março de 1964. e principalmente nas usinas que se seguiram. José Maria Baptista. importantes passos no rio Grande Sob encomenda da Companhia Geral de Minas. ocorreram incorporações de pequenas usinas.A História das Barragens no Brasil . Três Marias marcou a transição da CEMIG na implantação de obras de porte modesto para grandes usinas e obras de grande vulto. Guy Vilella. não sem dificuldades políticas pois a Bragantina apelou para congressistas ligados a Paulo Maluf e ao ministro Murilo Badaró da Indústria e Comércio. este por estar em oposição a Trancredo Neves. Licínio Marcelo Seabra.

No estirão do rio Grande entre Jaguara e as cachoeiras Dos Patos e Das Andorinhas (local da antiga e da nova hidroelétrica de Marim­ bondo) não havia nenhuma concentração de queda natural no rio Grande. e Israel Pinheiro. em 1971. A necessidade de deslocamento do eixo para montante por motivos geológicos em sua fundação demandou tempo para tomada de decisão e ocasionou importante retardo no cronograma inicial de construção. A queda nesse trecho do rio Grande foi dividida em três locais com quedas brutas modestas. O projeto foi contratado à Eletroprojetos/ Eletrowatt associada à Geotécnica. em 1964. governador de Minas Gerais que veio a ser confirmada pelo inventário da Canambra realizado a partir de 1963 e confirmada pelo Comitê Energético da Re­ gião Centro-Sul. Coube inicialmente à CEMIG a hidroelétrica de Volta Grande com 27. No início de 1969 foi assinado com o consórcio TAMS/ENGEVIX o contrato para desenvolvimento do projeto 261 . a primeira unidade entrou em operação. presidente da Cemig.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 11 – Usina hidroelétrica de Jaguara Figura 12 – Inauguração da usina de Jaguara. A construção foi iniciada pela Mendes Jr em 1966 e. Em primeiro plano Mario Bhering.50m de queda bruta como recomendada pelos estudos de inventário hidroenergéticos feitos pela Canambra em 1966. Sua segunda hidroelétrica com capacidade acima de 600 MW propiciou à CEMIG importante desenvolvimento nos campos de barragens de enrocamento com núcleo de terra e de mecânica de rochas.

XX e XXI Figura 13 – Usina hidroelétrica de Volta Grande 262 .Séculos XIX.A História das Barragens no Brasil .

As unidades geradoras entraram em operação entre julho de 1974 e agosto de 1975. cujo enchimento foi iniciado em novembro de 1973 e de Porto Colômbia (1. Poucos problemas ocorreram na construção.Assinatura de contrato de financiamento com o Banco Mundial. em 14 de junho de 1972 A conquista do rio Paranaíba: as hidroelétricas de São Simão e Emborcação O local das quedas conhecidas como Canal de São Simão. Os primeiros levantamentos de campo visando a implantação de uma hidroelétrica foram efetuados a partir de 1960 pela Comissão da hidroelétrica de Volta Grande e no início de 1970 começou a construção pela Mendes Jr.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 14 . podendo ser citadas as erosões nos blocos de impacto da bacia de dissipação e a ocorrência de sismos induzidos pelos reservatórios de Volta Grande (2. Esse local não passou desapercebido no inventário da Canambra e resul­ tou na hidroelétrica de São Simão com capacidade instalada de 1608 MW na primeira etapa (projetada capacidade de 2680 MW na segunda etapa). na cidade de Washington. Pela primeira vez a CEMIG ultrapassou os 1000 MW instalados em uma única casa de força.5x109 m³). Esse foi o maior sismo induzido por reservatórios no Brasil.17x109 m³). além das vilas de Chaveslândia e Gouveilândia. para a construção da usina hidroelétrica de São Simão. No dia 24 de fevereiro de 1974 foi sentido na cidade de Conceição das Alagoas pouco ao norte dos dois reservatórios um sismo de intensidade VIII na escala Mercalli modificada. As consequências na cidade foram pequenas e os tremores não se repetiram desde então. se constituiu em excelente local para implantação econô­ mica de hidroelétrica de elevada capacidade instalada. 263 . de im­ pressionante riqueza cênica pelo fato do rio Paranaíba despencar em saltos verticais pelos dois lados de longa fenda longitudinal em seu leito. O reservatório com área de 674 km² demandou a relocação das cidades de São Simão e Paranaiguara. com importante operação de reassentamento populacional. cujo enchimento foi iniciado em junho de 1973. Tremores se seguiram nos últimos dias de fevereiro e no início de março. totalizando 380 MW.

Seu investimento era equivalente a todo capital da CEMIG. A concorrência foi vencida pela Impregilo. Estes vieram de financiamento do Banco Mundial que exigiu uma concorrência internacional. Camilo Penna. ao valorizar o Cruzado aumentou a diferença a favor da Impregilo/CR Almeida. Camilo Penna por estar escondendo documentos que são solicitados”. Paulo Lyra. teriam sido dadas por um “banquinho vagabundo”. 264 . Interessante realçar que dias depois da abertura das propostas.A História das Barragens no Brasil .. mas o deputado irado pros­ seguia pedindo as referências e afirmou “denuncio o Sr. Isso gerou muita reclamação das empreiteiras nacionais. Em 1969 a CEMIG desenvolveu estudos visando a obtenção da concessão.”. XX e XXI Figura 15 . a terceira é do Banco Nacional. em 14 de junho de 1973 Interestadual da Bacia do Paraná-Uruguai CIBPU. apresentando toda documentação: “a primeira referência é do Banco do Brasil. construtora italiana. O referido deputado insistiu várias vezes e Camilo Penna desconversava até que o depu­ tado repetiu a afirmação de que as referências. se realmente existiam. A pressão sobre a diretoria da CEMIG foi grande. Foi necessário grande esforço para captar recursos externos para equi­ pamentos e para a obra civil. Camilo Penna disse que a CEMIG sempre pedia em suas concor­ rências referências bancárias dos concorrentes. tendo a Mendes Júnior em segundo lugar com uma diferença de apenas cerca de 2%. São Simão era um empreendimento gigantesco para a CEMIG. Um dos mais ferrenhos argüidores foi o deputado Sylo Costa disse que a CR Almeida não tinha referências bancárias. a segunda é do Bradesco. em consórcio com a CR Almeida. assinam o contrato com a Impregilo para a construção das obras civis da usina hidroelétrica de São Simão. a quarta é do Banco Real. Em depoimento ao Congresso Nacional o presidente da CEMIG foi argüido por horas.O governador Rondon Pacheco e o presidente da Cemig. Por mais de duas vezes o Camilo Penna desconversou. O Banco Mundial foi inflexível e a CEMIG teve que reconhecer a Impregilo/CR Almeida como vencedora. Nessa hora Camilo Penna solicita a Licínio Marcelo Seabra que mostre as garantias.Séculos XIX... o presidente do Banco Central. Em 1970 foi assinado o contrato com o consórcio projetista composto pela IECO e sua filial brasileira. Licínio começou.

em seu trecho inferior dividia os estados de Minas Gerais e São Paulo. João Eduardo de Moura Guido. A hi­ droelétrica de Emborcação se caracteriza pela alta barragem de enrocamento com núcleo de terra. O governo Figueiredo passou a se interessar intensamente por obtenção de empréstimos externos o que endividou as estatais federais. Naquela época a disputa por concessões era intensa entre as prin­ cipais empresas do setor elétrico que se concentravam na Região Sudeste.” O País atravessava a segunda metade dos anos setenta com dificuldades econômicas geradas a partir do primeiro choque do petróleo (1973). João Camilo Penna afirmou que “Da luta por Estreito a CEMIG ganhou Jaguara e depois ganhou Volta Grande. John D. O rio Grande. foi ao longo do início da obra de São Simão que a CEMIG. Desde 1976 as tarifas passaram a ser manipuladas pelo governo federal longe do princípio de serviço pelo custo. a CEMIG que havia contratado a TAMS em 1976 para projetar a hidroelétrica de Emborcação a partir dos estudos de inventário da Canambra no rio Paranaíba a montante de São Simão.João Camilo Penna. Inicialmente relegado a um segundo plano por causa de sua baixa queda e potência inferior a de outros aproveitamentos. que havia sofrido uma sangria de recursos humanos quando da formação de Furnas. desvio e adução subterrânea e capacidade de 1192 MW. Nessa ocasião foram da CEMIG para a Eletronorte os engenheiros Dário Gomes. Érico Bitencourt entre outros. Cadman que havia trabalhado na CEMIG quando da realização do inventário da Canambra. Em junho de 1978 a primeira unidade entrou em operação comercial após cinco anos de construção. estando também na área de Furnas. São Simão conferiu à CEMIG nova importante ampliação em sua escala de obras civis e principalmente em equipamentos permanentes. O aproveitamento de Igarapava havia sido identificado pela COBAST em 1960 e reavaliado pela Canambra em 1964/1965. presidente da Cemig na época da usina hidroelétrica São Simão Dentro dessas perspectivas sombrias para o setor elétrico. E tanto lutamos por Marimbondo que acabamos ganhando São Simão. com a obra sendo iniciada dois meses depois.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Em junho de 1973 o consórcio construtor composto pela Impregilo e a CR Almeida foi contratado para a execução das obras civis. onde havia empresas importantes na geração de energia elétrica. Entretanto. tendo que transferir recursos através da Reserva Global de Garantia. por exemplo. o que penalizou a CEMIG como empresa de elevada eficiência. Igarapava 265 . Outro erro dessa época foi. Pimentel. Figura 16 . também foi da UFRJ para a Eletronorte levando consigo o geólogo Homero Teixeira. contratou a Construtora Andrade Gutierrez que construiu a usina de Emborcação entre 1977 e 1982. voltou a perder quadros técnicos com a instituição da Eletronorte. o de ligar a rentabilidade das empresas de energia elétrica ao esquema de tarifa única. Cachoeira Dourada e Itumbiara. desde o governo Geisel. Retorno às hidroelétricas de porte médio Após São Simão e Emborcação a CEMIG passou a implantar hidroelétricas de porte médio em território mineiro.

Durante o ano de 1998 as três unidades Francis de 132. afluente do rio Paranaíba. teve o aprofundamen ­ to técnico inicial em 1985 pelo consórcio Leme-EPC. 266 .A História das Barragens no Brasil . CSN. por carência de recursos. a construção só foi iniciada em 1987 pela CNO após a CEMIG se associar outros inves­ tidores (Vale. a usina de Miranda no rio Araguari.Séculos XIX. a Enge-Rio desen­ volveu o estudo de viabilidade com aplicação de unidades bulbo. No final de 1987 a IESA foi contratada para o desenvolvi­ mento do projeto mas.5 MW cada entraram em operação. Morro Velho e Cia Mineira de Metais). A partir de 1986 a IESA foi contratada para o desenvolvimento do projeto e em 1995 a Queiroz Galvão iniciou a construção. com quatro unidades bulbo de 40 MW cada sob a queda bruta de 17m. sob a coordenação de José Turco Neto e a liderança técnica de Joaquim Pimenta de Ávila. A usina. Também identificada pela Canambra. XX e XXI Figura 17 – Usina hidroelétrica de Emborcação foi o último aproveitamento a ser desenvolvido no baixo rio Grande. tendo conseguido viabilizar o até então “patinho feio” do rio Grande. entrou em operação no final de 1988 e passou a ser referência para outros projetos posteriores de usinas de baixa queda. Em 1985.

A primeira das três unidades geradoras Kaplan entrou em operação em fevereiro de 2006. O baixo rio Doce envolvendo Figura 18 – Usina hidroelétrica de Igarapava 267 . Após reconheci­ mento preliminar executado pela IECO em 1955. como construtor foi contratada a Servix/Mendes Jr. os estudos foram retomados. Prosseguindo com a associação bem sucedida com a Vale. a Cemig e a Vale implantaram a hidroelétrica de Aimorés denominada Elie­ zer Batista em homenagem ao engenheiro que fez carreira na Vale atingindo a sua presidência e exercendo cargos públicos de relevância política no cenário federal. no que se refere à asso­ ciação com outros investidores. túnel de desvio e estruturas de concreto situadas na margem direita.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens O exemplo das hidroelétricas anteriores. Esses estudos foram complementados em 1996 indicando uma barragem em concreto compactado com rolo. Vale e CEMIG se associaram para a implantação da hidroelétrica de Funil situada no rio Grande. frutificou também em Funil do rio Grande. Já nos anos 2000 foi formado o consórcio construtor composto que teve como projetista a SPEC que alterou o projeto adotando uma barragem de terra com­ pactada. A capacidade instalada da usina é 180 MW. em 1991. Em 1971 a CEMIG encaminhou ao DNAEE relatório de pré-via­ bilidade. o local foi adotado pelos estudos da Canambra nos anos sessenta. Após 20 anos.

ex-presidente da Cemig Figura 20 – Usina hidroelétrica de Miranda Figura 21 – Usina hidroelétrica de Funil.A História das Barragens no Brasil .Guy Maria Villela Paschoal. XX e XXI Figura 19 . no rio Grande Figura 22 – Usina hidroelétrica de Irapé 268 .Séculos XIX.

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Da esquerda para a direita: Celso Mello de Azevedo.Inauguração da Usina de Irapé. XX e XXI Figura 23 .A História das Barragens no Brasil .Solenidade de entrega da “Medalha Lucas Lopes” à família de Licínio Seabra. Djalma Bastos de Moraes. Maristela Kubitschek Lopes e o presidente do conselho de administração da Cemig. o governador Aécio Neves. no dia 22 de fevereiro de 2001. Mario Penna Bhering. no dia 8 de junho de 2006. no momento simbólico de acionamento das unidades geradoras. João Camilo Penna. com a presença de ex-presidentes e do atual presidente da Cemig. a filha de Juscelino Kubitschek.Séculos XIX. Aparecem na fotografia o presidente da Cemig. realizada na Sociedade Mineira dos Engenheiros – SME. Francisco Afonso Noronha e Guy Maria Villela Paschoal 270 . Hidroelétrica Presidente Juscelino Kubitschek. Djalma Bastos de Morais. Wilson Bruner Figura 24 .

9m resultando em três unidades geradoras Kaplan com 110 MW cada. funcional e social. Todos esses estudos e projetos revelam que a concepção da hidroelétrica sofreu grandes alterações ao longo do tempo em função das interferências e dos impactos sócio-ambientais com a cidade de Aimorés e com a fer­ rovia da Vale. área que supera em quatro vezes a área ocupada pelo reservatório. A implantação dessa usina fez jus ao prêmio Puente de Alcántara que a cada dois anos é entregue a obras que congreguem grande importância cultural. estética. As 638 famílias que ocupavam a área da hidroelétrica foram reassentadas em proprie­ dades que ocupam sessenta mil hectares. os da Monasa para a CEMIG e Vale em 1992 e finalmente os da Promon SPEC em 1997 para a CEMIG que resultaram no projeto executivo da SPEC. tecnológica. Essa derivação per­ mite o aproveitamento de uma queda bruta de 26. tradicional e importante empresa do setor elétrico no Estado do Rio de Janeiro. Em 2002 a CEMIG iniciou a construção da usina de Irapé no vale do Jequitinhonha com projeto Leme/ Intertechne e construção Andrade Gutierrez/CNO. os da Themag/Montreal no mesmo período para a Portobrás. Ao final desse meio século de intensas atividades. a CEMIG ultra­ passou as fronteiras do Estado de Minas Gerais com importantes participações em grandes empreendimentos como sua participação de 10% no aproveitamento hidroelétrico de Santo Antônio no rio Madeira. a hidroelétrica de Irapé representou um investimento de cerca de R$ 1 bilhão dos quais R$ 250 milhões foram destinados a programas sócio-ambientais. os da Canambra a partir de 1964. os da IESA para a Eletrobras entre 1985 e 1989. implicando em derivação das descargas por vales laterais situados na margem esquerda do rio. A barragem de enrocamento com nú­ cleo de terra com 208m de altura é a mais alta do País e a segunda mais alta da América Latina. A constru­ ção foi feita pela Queiroz Galvão e a primeira unidade entrou em operação em fevereiro de 2006. Implantada em uma das regiões mais carentes do Estado de Minas Gerais. tendo vindo ter grande participação na Light. os da CEMIG entre 1975 e 1980. .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens o local de Aimorés foi alvo de diversos estudos sendo os principais os da Servix em 1963/1964.

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lançado em 1945. Pirapó. Em 1948. anteriores à formação da CEEE. As hidroelétricas construídas no estado.520 kW) Usina hidroelétrica de Itauba. Andorinhas e Herval.º 328. que acompanhou a história da CEEE até a sua gestão como diretor de obras no período de 1965 a 1970. em plano geral elaborado para todo o estado. Toca. bem como inte­ grar esforços para a eletrificação dos municípios riograndenses através do Plano de Eletrificação do Estado. seguida pelas hidroelétricas de Ernestina.CEEE Lúcia Wilhelm Véras de Miranda A história da Companhia Estadual de Energia Elétrica do Rio Gran­ de do Sul se apresenta em cinco principais períodos. Bugres. com a participação do DNOS. Canastra. vinculada à hidroeletricidade. Touros. sendo assumidos seus passivos e encargos trabalhistas. totalmente projetada e construída pela Companhia. Iniciava uma vida profissional talentosa o engenheiro Pedro Holtermann Netto. desde o seu início. a usina do Passo do Inferno. Forquilha. Vertedouro. como Inglês. o aproveitamento dos potenciais hidráuli­ cos e carboníferos para a produção de energia. elas foram basicamente repassadas para a CEEE. Guaporé. foram encampadas pelo valor histórico menos a depreciação. pertencen­ tes aos municípios e empresas privadas. Capingui. estando. Picada 48. era inaugurada a primeira unidade geradora de energia elétrica da Companhia. Santa Rosa e Guari­ ta. casa de força e subestação 273 . construídas pelo DNOS ou empresas privadas. projetista nesse período. a termoelétrica de São Jerônimo e a usina Diesel de Porto Alegre. acompanhado dos engenheiros Primeiro período: A CEEE como Comissão Estadual de Energia Elétrica Criada em 1º de fevereiro de 1943 através do decreto lei n. vinculada à Secretaria de Estado dos Negócios e Obras Públicas com a finalidade de prever e sistematizar. condutos forçados. Saltinho. Seriam seguidas por Ijuizinho.Barragem Capingui no rio do mesmo nome (2. Como se tratava de unidades antigas. Ivaí. Figura 1 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Companhia Estadual de Energia Elétrica do Rio Grande do Sul . tomada d’água.

continuou atuando como projetista de hidroelétricas.º 1744.   Jorge Ernesto Dreher. em 1948. a CEEE foi conver­ tida em autarquia. apresen­ tara ao Coronel Osvaldo Cordeiro de Farias. um estudo sobre os contratos de concessão Figura 3 . É neste período que começam a se materializar as intenções da comunidade gaúcha de agregar à CEEE esses serviços. Mario Lanes Cunha. XX e XXI Figura 2 – Engenheiro Pedro Holtermann Netto iniciou sua atividade profissional como estagiário da CEEE. que era basicamente Porto Alegre.Séculos XIX. atuando inclusive em Tucuruí. Segundo período: A CEEE como autarquia Em 20 de fevereiro de 1952. quando foi diretor de obras.A História das Barragens no Brasil . Interventor Federal no governo do estado. No entanto. tendo cada vez mais importância devido ao seu crescimento.especialmente entre os anos de 1965 e 1970. como engenheiro civil. um empréstimo con­ cretizado por parte do BNDE permitiu o desenvolvimento de projetos diferenciados. Heinrich Kotzien e Silvio Freitas. pela Lei n. Dietrisch Kuhlmann. A disponibilidade de um empréstimo do Banco Mundial arquite­ tada por Assis Chateaubriant. Já em 1939 o então Prefeito de Porto Alegre. pois já no ano de 1950 a CEEE supria a Companhia de Energia Elétrica Rio Grandense – CEERG. de capital americano. em valores da época de 30 milhões de dólares não foi viabilizado. Participou ativamente de todas as obras relacionadas à hidroeletricidade da CEEE. da energia necessária para o atendimento do seu mercado. José Loureiro da Silva. primeiro presidente da CEEE quando assinava o contrato da usina hidroelétrica Jacuí 274 . e logo formado.Noé de Melo Freitas. A foto foi tirada em 23 de julho 2011 em sua residência. Após essa data.

º 10. Foram criados o Ministério das Minas e Energia e a Eletrobras. com tubulação adutora de 7 km. sob controle acionário do Estado do Rio Grande do Sul. começaram a ser privatizados. redução ou aumento de capital ou a combinação destes instrumentos. 2 . 4 . Somado a isso. a Companhia Sul-Sudeste de Distribuição de Energia Elétrica.09. podendo criar sociedades coligadas.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens dos serviços públicos de energia elétrica com a CEERG. havia a discutível alteração de valores de tarifas nos contratos.três sociedades anônimas de distribuição de energia elétrica. através da lei estadual n. sacramentava-se a en­ campação de contratos de concessão e declarava-se de utilidade pública. Foi então discutida a encampação dos serviços de energia elétrica prestados pela CEERG. A Centro-Oeste foi vendida à AES Guaíba Empreendimentos e a Norte-Nordeste foi adquirida pelo consórcio formado pela VBC (Votorantim. determinando a forma­ 275 . Walter Jobim. para fins de desapropriação. Em 1961 o então governador Leonel de Moura Brizola foi autoriza­ do a criar uma sociedade por ações para os serviços de eletricidade. Um ano após a transformação da CEEE em sociedade de econo­ mia mista. a Companhia de Geração Hídri­ ca de Energia Elétrica e a Companhia de Geração Térmica de Energia Elétrica.º 10. pois já no ano de 1945 se pronunciava a respeito da encampação. sendo que em 11 de maio de 1959. Bugres e Canastra. a Companhia Transmissora de Energia Elétrica.900 autorizando o poder executivo a reestruturar societariamente e patrimonialmen­ te a CEEE. extinção. incorporação. como o setor elétrico.uma sociedade anônima de transmissão de energia elétrica. que passou a ser considerado bem pú­ blico e promotor do desenvolvimento nacional. Na década de setenta as concessionárias do setor de energia elétrica passaram a ter capital nacional. 3 . através do decreto n. Em 26 de dezembro de 1996 a lei estadual n. O modelo adotado desenvolveu-se sob a égide das empresas multinacionais e do setor produtivo estatal.º 4.  destinada a projetar. ção de um novo pacto político com a participação preponderante dos militares. desempenhou um papel fundamental neste processo. fusão. construir e explorar sistemas de produção. que é a Companhia Estadual de Energia Elétrica.466 assinado pelo então governador Leonel Brizola. A CEEE viabilizava a construção de obras relevantes como as hidroelé­ tricas de Ernestina. acontece a Revolução de 1964. assim discriminadas: 1 .duas sociedades anônimas de geração de energia elétrica. a qual foi efetivamente criada  em 19 de dezembro de 1963. através de cisão. os bens da CEERG. em docu­ mento enviado ao secretário de obras públicas do estado. Quarto período: a privatização Nos anos 90 setores antes considerados estratégicos para a economia. transmissão e distribuição de energia elétrica no estado. em 1965 o governo federal passou a estatizar os serviços de energia elétrica.1961.  O engenheiro-chefe da CEEE. no qual a Companhia Centro-Oeste de Distribuição de Energia Elétrica e a Companhia Norte-Nordeste de Distribuição de Energia Elétrica foram adquiridas por capital privado. Terceiro período: a CEEE como sociedade de economia mista Na década de 60 ocorreram profundas mudanças no setor elé­ trico em âmbito nacional. controladas ou subsidiárias. e Maia Filho. No ano de 1957 inicia-se o processo de encampação.136 de 13. transformação. Com o objetivo de melhorar a infra-estrutura para o desenvolvimento na­ cional.uma sociedade controladora (holding) das sociedades de energia elétrica. a Companhia Centro-Oeste de Distribuição de Energia Elétrica e a Companhia Norte-Nordeste de Distribuição de Energia Elétrica. No dia 21 de outubro de 1997 ocorreu o leilão na sede da FIERGS. passando a denominar-se Companhia Estadual de Energia Elétrica – CEEE. Noé de Mello Freitas. com túnel de importante valor técnico para a época.

para adequar-se à lei. a Assembléia Legislativa aprovou a Lei n. com a finalidade de segregar as ativi­ dades de distribuição de energia elétrica das demais atividades por ela exercidas.CEEE-GT. no mínimo.848.para Companhia Estadual de Geração e Transmissão de Energia Elétrica . Para viabilizar a adequação societária da companhia à legis­ lação federal e implantar o modelo proposto havia. uma vez que a data-limite ini­ cial para a adequação da empresa ao novo modelo expirou em 15. permanecendo o Governo do Estado do Rio Grande do Sul com o controle acionário das empresas oriundas do processo de reestruturação. data limite para a cisão. A Centro-Oeste alterou sua razão social para AES Sul Distribuidora Gaúcha de Energia S/A e a Norte-Nordeste passou à denomina­ ção de Rio Grande Energia S/A.CEEE .CEEE-Par. atendendo aos argumentos apresentados pela CEEE concedeu a prorrogação solicitada até 30.09. Em 13 de setembro de 2006. a qual será resultante da cisão parcial da atual Companhia Estadual de Energia Elétrica . com 99. possuia na mesma empre­ sa atividades de distribuição. criando. para separar a distribuidora de energia das demais.2005. A ANEEL. a Diretoria da CEEE aprovou  os organogramas iniciais para a CEEE-Par. b) alteração da denominação da atual Companhia Estadual de Energia Elétrica . rogação de prazo à ANEEL. denominada Companhia Estadual de Distribuição de Energia Elétrica . em espe­ cial. CEEE-GT e CEEE-D. geração. Quinto período: a desverticalização Em 15 de março de 2004 foram aprovadas pelo Congresso Nacional novas regras para o setor elétrico brasileiro. a CEEE-Par foi declarada formalmente constituída. mais uma empresa. fa­ zendo com que o estado alcançasse um dos mais altos índices de eletrificação rural do país. dois terços da área de Distribuição deixaram de pertencer à CEEE. Previ (fundo de pensão dos fun­ cionários do Banco do Brasil) e Community Energy Alternatives. de 15 de março de 2004. Em 20 de outubro de 2006. a necessidade de realização de plebiscito ou de alterações na Constituição Estadual e de promulgação de Lei Esta­ dual específica. fato que levou a CEEE a solicitar pror­ 276 . transmissão e venda de energia a consumi­ dores livres. XX e XXI Bradesco e Camargo Correa). anteriormente citada. dentre outras restrições. Uma vez que a CEEE era uma empresa verticalizada. Nesta ocasião.  Em 26 de outubro de 2006.2006. a qual será controladora das duas sociedades referidas nos itens seguintes.CEEE. foram eleitos os conselheiros de administração e fiscalização da companhia.593. deno­ minada Companhia Estadual de Energia Elétrica Participações . mediante altera­ ção de sua denominação e constituição de duas outras sociedades.2% dos lares urbanos e 84% das economias rurais abastecidos com energia elétrica. controlada.CEEE-D -. ou seja.º 12. autorizando o Poder Executivo a promover a re­ estruturação societária e patrimonial da Companhia Estadual de Energia Elétrica . O modelo societário adotado compreendeu a criação de uma empresa holding com duas subsidiárias. Em seus dispositivos a Lei proíbe que uma empresa de distribuição de energia exerça atividades de geração. assim discriminadas: a) constituição de uma sociedade por ações holding. transmissão e venda de energia a consumidores livres. de distribuição de energia elétrica. entretan­ to. A CEEE havia chegado. c) constituição de uma sociedade por ações. a CEEE procedeu à contratação de consultoria para indicar alternativas para a desverticalização da empresa.A História das Barragens no Brasil .Séculos XIX.º 10. Desta forma. para ajustá-la ao disposto na Lei Federal n. No final de 2004. através de uma assembléia geral de constituição. exigida pela legislação federal. em 1997.6. ela teve que desverticalizar-se.CEEE. a segregação da atividade de distribuição.

colonizada por ale­ mães e italianos. poden­ do ser prorrogado por até igual período ou rescindido de comum acordo entre as empresas. Forquilha e Ijuizinho. a industrialização da carne era feita nos grandes frigo­ ríficos. ficando estabele­ cido que a companhia deveria iniciar as atividades previstas em seu objeto social a partir do dia 1. houve a participação consultiva do engenheiro Casemiro Munarski. Na década de 60 foi dado o início da operação da usina hidroe­ létrica do Jacuí e gerado o projeto da usina de Passo Real. Em 1° de dezembro de 2006 foi assinado um termo de com­ promisso e cooperação entre a CEEE-GT e a CEEE-D. Ernestina. Na transformação de povo pastoril para povo agrícola e industrial. com a conseqüente alteração do estatuto social. Guarita. Todos os projetos hidroelétricos foram feitos. assim como de inúmeros pequenos estabelecimentos fabris completavam a feliz diversidade de atividades econômicas que asseguravam o progresso da região.850 m de barramento. que se constituiriam em centrais destinadas a abastecer as zonas de maior densidade demográfica. As obras tiveram início em 1972 e a operação comercial ocorreu em 1978. Na Colônia Nova a noroeste do estado se desenvolviam a opulen­ ta riqueza madeireira e o desenvolvimento das serrarias. em etapa inicial de urgência. com o objetivo de ressarcir e compartilhar o exercício de ativi­ dades comuns e de apoio necessárias à consecução dos seus respectivos objetos sociais. resolveu o governo do estado estudar o aproveitamento racional de seus potenciais hidráulicos. Nesse período. enquanto já estavam sendo construídas. tendo como base dados hidrológicos desde o ano de 1917. como princi­ palmente de potencialidade econômica das zonas de influência de cada usina. colaborando com o seu conhecimento em barragens de terra. Passo Real foi o segundo aproveitamento do rio Jacuí. assim como a maior produção agrícola. 277 . criando o maior lago artificial do estado através dos 3. do endereço da sede social e objeto social. Na fronteira. Ivaí. Assim vieram as hidroelétricas de Passo do Inferno. foi aprovada a mudança de denominação social da CEEE para Companhia Estadual de Geração e Transmissão de Energia Elétrica – CEEE-GT. Na mesma assembléia. Preocupados com a falta de energia. Com o advento da república entrou o Rio Grande do Sul na fase da industrialização. que tolhia o desenvolvimento econômico do Rio Grande do Sul. A etapa seguinte do Plano de Eletrificação trouxe as hidroelétri­ cas do Jacuí. O estudo das diversas centrais foi baseado em investigações cui­ dadosas. pois ali se localizava a bacia carbonífera. Na Zona Central encontravam-se as indústrias transformativas. Touros. Sendo então anunciado em 1945 o Plano de Eletrificação. não somente sob o ponto de vista técnico. Capingui e Santa Rosa. as hidroe­ létricas dos Bugres.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Em 27 de novembro. As hidroelétricas no plano de eletrificação do estado Em 1824 chegaram ao Rio Grande do Sul os primeiros colonos alemães e da mesma forma os italianos em 1874. Saltinho. Na Colônia Antiga do norte do estado. também criador da cadeira de mecânica dos solos na Universidade do Rio Grande do Sul. o braço do colono foi sua força propulsora. engenhos de farinha. ocorreu a constituição formal da Companhia de Distribuição de Energia Elétrica – CEEE-D. conjugando-os a usinas termoelétricas a vapor. O prazo de vigência deste ter­ mo é de dois anos a partir da data de sua assinatura. Forquilha e o segundo grupo de Capingui. Pirapó. Os estudos de viabilidade técnico-econômica da usina hidroelétrica de Itaúba foram iniciados em 1969. através de uma assembléia geral extraordiná­ ria de acionistas.º de dezembro de 2006. a atividade relacionada com a suinocultura e laticínio demandava energia. Canastra. ou estavam construídas.

XX e XXI Figura 4 .Usina hidroelétrica de Itaúba Figura 5 .Séculos XIX. no rio Jacui 278 .A História das Barragens no Brasil .Barragem Dona Francisca em concreto compactado com rolo.

Na variante apresentada pelo consórcio contratado. 65. No seu comprimento. alternativa escolhida em substituição ao projeto original do tipo enrocamento com núcleo de argila. com a permissão de parceria com in­ vestidores privados por meio de lei. O consórcio entre a filial brasileira das Estacas Franki e empresa Campenon Bernard francesa foi o vencedor da licitação. Através de convênio firmado entre CEEE e o extinto DNOS. a construção da usina se viabilizou. o sistema estrutural foi concebido de forma a ter-se toda a estrutura em concreto protendido. As cortinas possuem protensão nas A barragem de Ernestina e sua concepção original.Grandense. tem-se 44 m na ombreira direita. a barragem é configurada por cortinas protendidas com cabos curvos com painéis de 15 m de largura. ao norte do Estado do Rio Grande do Sul. A barragem foi concebida com extensão de 400 m e altura de 14. a quem coube realizar a correspondente con­ corrência.Vertedouro da barragem de Ernestina antes das obras de reforço Figura 7 . no Planalto Rio .75 m de Figura 6 . a execução do projeto ficou a cargo deste segundo. O grupo investidor deu origem à Dona Francisca Energética S. em 1995.50 m de largura também protendidos que são independentes.25 m de trecho retilíneo sem vertedores e 46 m de ombreira esquerda. A barragem de Ernestina foi originalmente concebida como bar­ ragem de gravidade. quando a CEEE obteve a concessão para implantar a usina. Segundo o memorial descritivo da obra. Para ga­ rantir a estabilidade externa essa estrutura é atirantada por uma linha de cabos verticais ancorados na rocha 4 metros abaixo do embutimento em concreto. extensão compreendendo trecho retilíneo na região das comportas e tomada d’água.32 m. 145. com eixo curvo. um projeto único no mundo A barragem de Ernestina sobre o Rio Jacuí está localizada no atual município de Tio Hugo.A. 99 m em curva. – DFESA.Vertedouro da barragem de Ernestina antes das obras de reforço 279 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A história do empreendimento de Dona Francisca iniciou em 1980. e a possibilidade de formação de consórcios. A barragem foi construída em concreto compacta­ do com rolo. No final da década de 1990. mediados por pilares com 1.

XX e XXI duas direções: na direção vertical para resistir aos principais esfor­ ços e na direção transversal para garantir comportamento uniforme sem fissuração.00 m por medida de segurança. Durante o seu período de operação. detalhando o estado da prática na épo­ ca da construção. Em 1963 foram instalados clinômetros junto aos pilares para co­ nhecimento dos deslocamentos e. a CEEE contratou a execução de um completo lau­ do técnico de avaliação da estrutura da barragem de Ernes­ tina. realizado pela empresa gaucha Azambuja Engenharia e Geotécnica. geologia e geotecnia da região de Ernestina. Foi sugerido que fosse realizado monitoramento das vibrações para verificar o risco de amplificação dinâmica. a corrosão dos cabos de protensão e suas consequ­ ências. qualidade do concreto e dos agregados. foi realizada uma reavaliação do projeto estrutural original concluindo que nenhuma tensão de tração deveria ser esperada para as cortinas ou pilares. O trabalho apresentou as estruturas pro­ tendidas em barragens. Ao que tudo indica. Em 2008. o sistema de protensão empregado. a sistemática do atiran ­ tamento dos cabos verticais na rocha adotados assim como os cabos transversais e as cabeças de ancoragem. com a posição dos cabos de protensão 280 . coordenado pelo engenheiro Marco Aurélio Azambuja. já que eram consultores associados à Campenon Bernard. na década de 90. os fios de aço empregados em cabos. a própria equipe de Eugéne Freyssinet foi responsável pela elaboração do projeto. à semelhança de uma laje armada em duas direções. iniciado em 1954. mesmo estimando a relaxação dos cabos de protensão e as acomodações por fluência e retração do concreto após 40 anos de construção. O laudo consistiu na recuperação dos documentos de projeto originais. O reservatório passou a ser operado com rebaixamento de 1. Figura 8 – Planta da barragem e seção típica do vertedouro Figura 9 – Seções transversais típicas dos pilares do vertedouro da barragem de Ernestina. a fim de elucidá-las.A História das Barragens no Brasil . várias dúvi­ das quanto à estabilidade estrutural da barragem de Ernestina foram levantadas e.Séculos XIX. alguns estudos foram elaborados. Seguiu-se a apresentação do sistema de injeção dos cabos de proten­ são.

Seções transversais típicas dos paineis do vertedouro da barragem de Ernestina. retirando-se as comportas e a passarela. à semelhança de uma barragem convencional de enrocamento com face de concreto. As condições de ve­ dação das cabeças de ancoragem e a presença de fluxo d’água nos bicos de injeção denunciavam que a corrosão nos cabos estaria avançada. a estrutura poderia entrar em ressonância com o galgamento dos vertedores. Ao final do estudo foram apresentadas as informações que con­ cluiam estar Ernestina no final de sua vida útil. foi desenvolvido projeto de reforço. Da mesma for ma. de soleira vertente. A solução adotada para reforçar a barragem fora da região do vertedouro foi a construção Figura 11 – Fundação da barragem 281 . exigindo intervenções de manutenção. sendo previstas fraturas na face de montante.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 10 . Os ensaios dinâmicos das cortinas mostravam perda grave de rigidez. Com a estabilidade crítica para excitações dinâmicas. A solução para o reforço do vertedouro foi a transformação do mesmo em um maciço de concreto gra­ vidade com perfil Creager. prova de carga dinâmica e verificação estrutural. utilizando o paramento existente apenas como paramento de veda­ ção. restauração e reforço. sendo possível muitos desses cabos já tivessem se rompido ou viriam a fazê-lo brevemente. Foi realizado um diagnóstico da qualidade dos materiais. Assim. com a posição dos cabos de protensão de um maciço de enrocamento reforçado com grelhas metálicas. A condição de ancoragem dos tirantes na rocha sugeria uma grande vulnerabilidade à corrosão. os estudos hidrológicos e hidráulicos sugeriram capacidade insuficiente do vertedouro. podendo ser esse fenômeno progressivo para os painéis e pilares.

Séculos XIX.A História das Barragens no Brasil . XX e XXI Figura 12 – Seção transversal típica do vertedouro reabilitado Figura 13.Obras de reforço do vertedouro 282 .

a bar­ ragem em seu trecho não submer­ sível passará a ser uma barragem de enrocamento com face de mon­ tante verticalizada em concreto protendido.Seção transversal típica do trecho não submersível A obra de reforço estrutural en­ contra-se em fase de finalização (julho de 2011). Com a reforma. Figura 15 – Obras de reforço da barragem no trecho não submersível 283 . A barragem de Ernestina pode ser considerada como a única no mun­ do com essa concepção original executada.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 14 . também concepção única no mundo. prolongando-se assim a vida útil da barragem.

284 .

advogado e são paulino! Souza Dias foi designado como o primeiro Diretor Técnico. 285 . Companhia Luz e Força de Jacutinga e Figura 1 – Souza Dias. são paulino que era. Francisco Lima de Souza Dias Filho. inicialmente foi deno­ minada CESP Centrais Elétricas de São Paulo S. Deposto o governador Adhemar de Barros. Companhia Hidroelétrica do Rio Pardo (Cherp). de chapéu. sendo seu primeiro presidente Henry Aidar. com Garcez em visita às obras de Ilha Solteira Usina hidroelétrica de Ilha Solteira a maior do sistema CESP Empresa Luz e Força de Mogi Mirim Centrais Elétricas de Urubupungá (Celusa). no governo Laudo Natel. Souza Dias.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Companhia Energética de São Paulo – CESP Fabio De Gennaro Castro A CESP Centrais Elétricas de São Paulo foi criada em 5 de dezembro de 1966. com área de atuação mais abrangente. por meio de um amigo comum e também presidente do São Paulo Futebol Clube. Souza Dias. Dai foi criada a CESP. que detinha o controle acionário de: Central Elétrica de Rio Claro (Sacerc) e de suas associadas. fez chegar ao então governador. Bandeirante de Eletricidade (Belsa). os seus sonhos de unificação das empresas de energia elétrica do estado. que controlava: Companhia Luz e Força de Tatuí e Empresa Luz e Força Elétrica de Tietê Companhia Melhoramentos de Paraibuna (Comepa). vindo a exercer a terceira presidência entre 23 de março de 1979 a 27 de maio de 1982.A. Em 27 de outubro de 1977 a CESP passou a ser Companhia Energética de São Paulo. pela unificação de todas as empre­ sas estatais de energia elétrica então existentes. As onze empresas que formaram a CESP eram: Usinas Elétricas do Paranapanema (Uselpa). Empresa Melhoramentos de Mogi Guaçu. Seu idealizador foi o Dr. em 1966. Laudo Natel. assumiu seu vice.

que foi comprada em 1923 pela Companhia Prada de Eletricidade. BELSA.A. Logo no início de seu mandato de governador criou o Departamento de Águas e Energia Elétrica DAEE. que governou o estado de São Paulo de 1951 a 1955. Darcy Andrade de Almeida e Reynaldo de Barros em Jupiá 286 . originando em 1962 a empresa estadual Bandeirante de Eletricidade S. Figura 3 . em Santa Rita do Passa Quatro. Foi também formadora da CESP. em 1895. Souza Dias. assim como em 1919 também foi criada a Companhia Luz e Força de Jacutinga S. Em 1915 foi fundada a Companhia Luz e Força de Tatuí. Em 1931 foi fundada a Companhia Sanjoanense de Eletricida­ de. com o objetivo de ser a grande distribuidora de energia no estado.A. encampada em 1953 pelo governo do paulista. re­ motamente iniciando pela inauguração da Usina Hidroelétrica do Corumbatai. Esta usina atualmente encontra-se totalmente res­ taurada e tombada pelo Patrimônio Histórico. interior do estado e pertencente à Com­ panhia Força e Luz São Valentim.A. José Gelazio da Rocha. incorporada à CESP em 1973. pela sua visão técnica e também por ser formador e agregador de ca­ pacitações. XX e XXI Em 1912 Eloy de Miranda Chaves e outros empresários paulis­ tas adquiriram o controle acionário da Central Elétrica Rio Claro e a reorganizaram como SACERC. Figura 2 – Os engenheiros Souza Dias e Gelazio da Rocha em avião de Furnas Primórdios da geração hidroelétrica no estado de São Paulo Relevante também relembrar a situação anterior à criação. todas formadoras da CESP.A História das Barragens no Brasil .Séculos XIX. propriedade da Central Elétrica de Rio Claro.Fantinatto. Em 1909 foram fundadas de forma independente a Empresa Luz e Força Elétrica de Tietê S. Em 1911 foi inaugurada a Usina Hidroelétrica São Valentim. Justiça deve ser feita à figura pública do professor Lucas Nogueira Garcez. e a Empresa Luz e Força de Mogi Mirim S.A. na função de diretor geral. Arqueológico e Turístico do Estado de São Paulo. e em 1923 a Empresa Melhoramentos de Mogi Guaçu. chefiado pelo engenheiro Octávio Sampaio Ferraz.

Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens

As estaduais de economia mista foram:

Usinas Elétricas do Paranapanema S.A. USELPA
Nascera objetivando a eletrificação da Estrada de Ferro Sorocabana e tendo como meta a implantação da Usina Salto Grande no rio Para­ napanema, inaugurada em 28 de abril de 1958 e hoje merecidamente chamada Lucas Nogueira Garcez. Importante registrar a Comissão Mista Brasil Estados Unidos, instituída logo após o término da Segun­ da Guerra Mundial e sediada na então capital do País, Rio de Janeiro. Tal comissão canalizava recursos para auxiliar o desenvolvimento bra­ sileiro. Os dirigentes da Estrada de Ferro Sorocabana desenvolveram estudos para eletrificação da ferrovia e para tal conceberam que seria construída uma usina hidroelétrica no rio Paranapanema, Salto Grande. Foram pleitear recursos financeiros na referida Comissão Mista Brasil Estados Unidos. Junto com a negativa recebe­ ram a orientação que somente poderiam obter financiamento se fosse organizada uma empresa de economia mista espe­ cífica para tal finalidade. Daí foi criada a USELPA em 1953,
Figura 4 - Professor Lucas Nogueira Garcez

que obteve os recursos necessários e construiu Salto Grande. O principal executivo da USELPA era Dagoberto Salles Filho, o qual se apoiou na SERVIX, como projetista e construtora para as duas primeiras barragens e início da terceira. Posteriormente os planos feitos foram concretizados com a Usina de Jurumirim, hoje Armando A. Laydner,tendo a seguir iniciado a usina Chavantes, também no mesmo rio Paranapanema. Desnecessário mencionar que o objetivo de eletrificação da Estrada de Ferro Sorocabana deixou de ser prioritário.

O DAEE era organizado por Serviços de Vales. Quatro eram os vales abrangidos, a saber do Rio Pardo, chefiado pelo enge­ nheiro Souza Dias, o do rio Tietê, chefiado pelo engenheiro Catullo Branco, o do rio Paraiba, chefiado pelo engenheiro Antonio Graef Borba e o do rio Ribeira de Iguape, chefiado pelo en­ genheiro Dagmar Malet de Andrade. Foi o DAEE o embrião das mais importantes empresas de economia mista na área de energia elétrica do Estado de São Paulo, como será exposto neste texto. No governo Garcez também foi realizado o primeiro Plano de Eletrificação do Estado de São Paulo, que embora somente tenha sido formalizado no mandato sucessivo, em 1956, já fora posto em prática enquanto elaborado. Garcez também foi presidente da CESP por dois mandatos sucessivos, de 16/02/1967 a 20/03/1975, o que contribuiu fortemente para a continuidade da gestão. Onze foram as empresas agregadas para formar a CESP, cinco estaduais e seis empresas privadas, porém controladas pelas estaduais.

Companhia Hidroelétrica do Rio Pardo CHERP
Como já mencionado o Serviço do Vale do rio Pardo do DAEE era chefiado pelo engenheiro Souza Dias, o qual também participava da Comissão Mista Brasil Estados Unidos. Em 1952, o jovem engenheiro José Gelazio da Rocha foi convidado para integrar a equipe de Souza Dias e designado para estudar o

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A História das Barragens no Brasil - Séculos XIX, XX e XXI

aproveitamento de Limoeiro, hoje Armando de Salles Oliveira, dizendo que havia sido encarregado pelo Lucas Nogueira Garcez para construir as usinas do rio Pardo. Assim sendo acrescentou: “Você vai projetando e eu vou dando as orientações que você precisar.” Para realizar a missão foi constatado que não existia nem levantamento topográfico e menos ainda o perfil do rio em toda sua extensão. Gelazio contratou então o engenheiro Gustavo Pratti para tal escopo, ou seja, fazer o perfil do rio que daria assim origem ao plano de aproveitamento integrado de toda a bacia, com Graminha, duas barragens menores a jusante de Graminha, Euclides da Cunha e Limoeiro. Em 1954 o DAEE iniciou Euclides da Cunha, mesmo antes de ser criada a CHERP em 1955. Essa barragem teve o projeto de seu túnel de desvio feito pela TECHINT e executado pela NORENO do Brasil. Para construir o túnel de desvio de Graminha Gelazio fez um contato com Sebastião Camargo, com o objetivo de obter uma proposta, enquanto Dr. Souza Dias fez o mesmo com a Noreno. Ao ser procurado Sebastião perguntou ao interlocutor quem era seu chefe e por que o mesmo não estava presente, sugerindo que fosse marcada outra reunião com Souza Dias presente. Na segun­ da reunião Souza Dias acompanhou Gelazio e a Camargo Correa decidiu apresentar proposta. Venceu a concorrência por ter sido a única empresa proponente. O projeto da barragem de terra de Graminha foi feito pelo Professor Milton Vargas e o projeto das estruturas de concreto pelo engenheiro Henrique Herweg, ambos contratados com a chancela do IPT. Em 1955 era criada a CHERP, que embora somente tivesse rio Pardo em seu nome posteriormente também incorporou toda a responsabilidade do rio Tietê. A necessidade de sua criação foi decorrente de apresentar ao BNDES uma empresa de economia mista que tivesse projetos sólidos para obter seus recursos. Parale­ lamente às atividades do rio Pardo, o Serviço do Vale do rio Tietê, chefiado por Catullo Branco, realizou estudos à semelhança da­ queles do Tennessee Valley Authority TVA, que contemplassem o desenvolvimento integrado do vale, com barragens e usinas que gerassem energia e tivessem eclusas que viessem permitir

a navegação interior. Assim, em 1957, iniciavam-se as obras de Barra Bonita, com projeto da TECHINT. Em 1959 tiveram início as obras de Bariri, hoje Engenheiro Álvaro de Souza Lima, antigo diretor do DAEE e pai do professor Victor de Souza Lima. E em 1963 foram iniciadas as obras de Ibitinga. Os quadros da CHERP no setor Tietê contaram com ilustres engenheiros, tais como Geraldo Queiroz Siqueira, Jacob Leiner, Julio Petenucci e Reolando Silveira, além de Darcy Andrade de Almeida, que foi da área do rio Pardo.

Centrais Elétricas do Urubupungá S.A. CELUSA
Uma palavra inicial sobre a CIBPU Comissão Interestadual da Bacia Paraná Uruguai. Tal comissão, chefiada pelo Professor Paulo Mendes da Rocha, criada em 1952, tinha por objetivo o estudo e o desenvolvimento dos estados brasileiros que pertenciam às bacias dos rios Paraná e Uruguai. A CIBPU tinha recursos e contratara a empresa italiana Edison de Milão para desenvolver os estudos do aproveitamento do Salto de Urubupungá, no rio Paraná, junto à foz do rio Tietê. Em 1961 foi lançada a concorrência para as ensecadeiras da usina de Jupiá, no rio Paraná, concorrência essa vencida pela Camargo Correa. Lançada a concorrência para a obra principal, a vencedora Camargo Correa apresentou uma variante que fora estudada na França pela SOGREAH, pelo engenheiro Charles Blanchet. Tal alternativa apresentava vantagens sobre aquela estudada por Edison de Milão para a CIBPU. A variante foi aceita e exe­ cutada a usina de Jupiá que hoje é denominada Engenheiro Francisco Lima de Souza Dias. Eleito Carvalho Pinto como governador do estado, Plínio de Ar­ ruda Sampaio, de sua equipe, foi motivado por Gelazio para levar ao coordenador do Plano de Ação do Governo, Diogo Gaspar, a idéia de construir a usina hidroelétrica de Jupiá. Assim nasceu a CELUSA. Posteriormente, ainda no governo Adhemar de Bar­

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Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens

Figura 5 – Usina hidroelétrica de Jupiá

ros, foram iniciados os estudos e as obras de Ilha Solteira, com projeto THEMAG e obras da Camargo Correa. A THEMAG foi criada como um departamento técnico da CELUSA e também em caráter de exclusividade, o qual somente foi extinto por decisão da CESP, por ocasião do projeto do Metrô de São Paulo, quando a projetista ficou desobrigada de sua cláusula de exclusividade.

das cheias e contenção de várzeas, tendo construído com ma­ estria muitos quilômetros de “polders”. A COMEPA realizou ainda a usina de Jaguari e iniciou as de Paraitinga e Paraibuna, duas barragens formando um único reservatório com só uma casa de força ao pé de Paraibuna, com projeto Hidroservice e construção Camargo Correa.

Outras empresas de energia elétrica
Em 1962 foi criada a Bandeirante de Eletricidade S.A. BELSA. Em 1963 foi criada a Companhia Melhoramentos de Paraibuna COMEPA, por inspiração de Plinio de Queiroz. O antigo Serviço do Vale do Paraíba, que ocupava-se do rio Paraíba do Sul, preocupou-se prioritariamente com o problema

Estudos de inventário
Ainda na década de 60, foram desenvolvidos os estudos da Canambra, primeiros estudos de planejamento integrado, com critérios uniformes, que propiciaram condições técnicas de com­ paração e priorização de usinas em uma mesma bacia hidrográ­ fica. Na área de São Paulo foram muito importantes e também com papel de formação de técnicos.

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A História das Barragens no Brasil - Séculos XIX, XX e XXI

Figura 6 a – Barragem de Três Irmãos no rio Tietê com suas eclusas na margem direita

Figura 6 b – Barragem de Três Irmãos - entrada da eclusa inferior no lago intermediário

Consultores que atuaram nas hidroelétricas na área de São Paulo
Menção deve ser feita sobre os consultores independentes que atuaram na área de São Paulo, contribuindo para a garantia da qua­ lidade dos projetos e obras, assim como na formação de pessoas que com eles conviveram. Dentre eles podem ser citados Karl Terzaghi, Arthur Casagrande, Tom Leps , James Sherard, Victor de Mello, Don Deere, Milton Vargas, Roy Carlson, Manuel Rocha, Fernando de Oliveira Lemos, Charles Blanchet, Flavio H. Lyra, Ven Te Chow, Araken da Silveira, Evelina Bloem Souto, Vic­ tor Souza Lima e inúmeros outros que no dia a dia contribuíram para colocar a CESP na posição de destaque que ocupa.

senvolvimento do Canal Tietê-Paraná, como também pelas inúmeras eclusas construídas. Pode também ser afirmado que ela foi pioneira nos estudos ambientais. Chegou a ter vinte e cinco usinas, todas com alta expressão técnica e padrão de projetos, construção e operação.

Anos recentes
Em 1996 iniciou-se o processo de privatização do setor de energia do Estado de São Paulo. Em 1999 CESP passou por uma cisão parcial, sendo criada a Companhia de Transmissão de Energia Elétrica Paulista, a CTEEP e três empresas de geração. Hoje a CESP possui apenas seis usinas e sete barragens, pelo fato de Paraitinga não ter casa de força.

Navegação interior
A CESP detém o mérito de ter contribuído de forma ampla para o desenvolvimento da navegação interior no país, não só pelo de­

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Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens

Figura 7 – Usina hidroelétrica Porto Primavera (Sergio Motta)

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Usina Mauricio, primeira hidroelétrica da CFLCL

Usina hidroelétrica de Nova Maurício. Primeiro financiamento do BNDE para empresa privada, em 24 de agosto de 1954. Em operação desde março de 1956

Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens

Companhia Força e Luz Cataguazes Leopoldina – Energisa - Cem anos de luz na Zona da Mata
“A trajetória da CFLCL é exemplar para demonstração de que a livre iniciativa tem tanta vitalidade quanto a vida.” João Camilo Penna Flavio Miguez de Mello

Na virada do Século XIX para o Século XX o Brasil tinha apenas dez usinas geradoras totalizando 12.085 kW instalados. Nesse início de século na Zona da Mata Mineira, incentivados pelo agente executivo (equivalente ao atual cargo de prefeito) de Ca­ taguazes, Araújo Porto, destacavam-se o Senador José Monteiro Ribeiro Junqueira, o Dr. Norberto Custódio Ferreira e o comer­ ciante, político e banqueiro João Duarte Ferreira como homens que gerenciavam seus negócios com clarividência e se interes­ savam pelo desenvolvimento da tecnologia, principalmente pela incipiente aplicação da energia elétrica. Em 26 de fevereiro de 1905 os três fundaram a Companhia Força e Luz Cataguazes Le­ opoldina com capital de 400 contos de réis em quatro mil ações adquiridas por 263 investidores, com o objetivo de “exploração da eletricidade para fins industriais em suas diversas aplicações e comércio de materiais elétricos, dentro ou fora da república, principalmente nos municípios de Cataguazes e Leopoldina.” Pouco após um ano da fundação da empresa, dois dos três fundado­ res, João Duarte Ferreira e Norberto Custódio Ferreira renunciam a seus cargos de diretores para, respectivamente, cuidar de seus empreendimentos particulares e para assumir elevada posição no Banco do Brasil do qual assumiu a presidência em 1910.

Foi lançada concorrência (mesmo sem projeto) para a construção da primeira usina geradora, a hidroelétrica de Maurício, na cacho­ eira da Fumaça, no rio Novo. Oito concorrentes se apresentaram, tendo a obra sido alocada à Trajano de Medeiros & Cia, destacada indústria metalúrgica para os padrões do início do século passado. O contrato foi assinado em maio do ano seguinte. Pela primeira vez uma usina hidroelétrica foi construída por uma empreiteira ge­ nuinamente brasileira. Os primeiros estudos para o aproveitamento parcial da queda natural da cachoeira da Fumaça no distrito de Leopoldina foram desenvolvidos pelo engenheiro Eupídio de Lacerda Werneck, na época recém formado nos Estados Unidos. O potencial a ser aproveitado foi definido como sendo de 1,3 MW, suficiente para suprir de energia elétrica outros muni­ cípios da região como Rio Novo e São João Nepomuceno, bem como a fábrica do industrial Daniel Sarmento que fez um contra­ to de pré-venda de energia. A organização geral e as compras de materiais ficaram a cargo do engenheiro Otávio Carneiro e a res­ ponsabilidade da construção com o engenheiro Ferreira Martins. O engenheiro L. Luck, enviado pela Westinghouse, supervisionou as instalações elétricas. O engenheiro Paulo Saboia, recém chega­ do dos Estados Unidos, supervisionou as montagens. A primeira unidade geradora entrou em operação em 7 de julho de 1908.

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A História das Barragens no Brasil - Séculos XIX, XX e XXI

Figura 1 - Cachoeira da Fumaça no rio Novo, local da hidroelétrica de Maurício

Figura 2 - Cachoeira da Fumaça no rio Novo, local da hidroelétrica de Maurício

Figura 3 – Casa de força da hidroelétrica de Maurício

Figura 4 - Geradores da hidroelétrica de Maurício

Os primeiros anos consolidaram a empresa e, em 1915, apenas dez anos após sua fundação e sete anos de geração e distribui­ ção de energia elétrica, a empresa contava com ilustres investi­ dores de outras localidades de Minas Gerais, do Rio de Janeiro e de São Paulo entre eles o então presidente de Minas Gerais, Raul Soares de Moura, e o presidente da república, Wenceslau Braz. Em 1918 a empresa adquiriu a usina Coronel Domiciano de 360 HP que era concessão da Câmara Municipal de Muriaé, o que possibilitou que seus serviços fossem estendidos às localidades de Piedade, Laranjal, Palma, Guarani e Tebas, além da cidade de Coronel Domiciano.

Os anos vinte do século passado propiciaram expressivo crescimen­ to da indústria de energia elétrica. Uma das principais causas foi a rápida difusão dos serviços de bondes e de iluminação pública. Além disso, o perfil das indústrias modificava-se rapidamente; o recensea­ mento de 1920 revelara que a energia elétrica já assumia 47% da força motriz consumida pelas fábricas no País. Com o objetivo de su­ prir esse acentuado acréscimo de demanda, ocorreu intenso surto de instalações de novas hidroelétricas que ultrapassaram com folga a geração térmica.

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CINQUENTA ANOS DO COMITÊ BRASILEIRO DE BARRAGENS

Figura 5a – Barragem da hidroelétrica Coronel Domiciano Figura 5b - Usina hidroelétrica Coronel Domiciano

Imagens dos aspectos logísticos dos primeiros tempos da CFLCL

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A História das Barragens no Brasil - Séculos XIX, XX e XXI

Aquisições de empresas e de concessões foram realizadas pela Light nesse período principalmente no eixo Rio de Janeiro e São Paulo. A Cataguazes Leopoldina também entendeu o momento e adquiriu em 1920 a Companhia Pombense de Eletricidade que detinha a hidroelétrica de Santo Antônio situada no município de Rio Pomba e que, dada as suas desfavoráveis condições geotécnicas, teve que ser desativada. Iniciaram-se as atividades visando a implan­ tação de uma nova usina: a hidroelétrica de Ituerê que aproveita a queda natural da cachoeira do Sumidouro. A barragem de concreto tem 15 m de altura, imponente para a época, e 74 m de comprimen­ to de crista, fechando um vale estreito. O projeto foi comandado pelo engenheiro Vanor Ribeiro Junqueira, os equipamentos foram

contratados junto à Siemens e as obras ficaram a cargo da Christia­ ni Nielsen e da Trajano Medeiros & Cia. Inicialmente foi instalada uma unidade Francis dupla horizontal de 2,83 MW. A adução era feita com um trecho inicial de conduto em concreto armado com 3 m de diâmetro e 600 m de extensão; a adução em alta pressão foi executada em aço vindo da Alemanha. Entretanto foi verificado no início da montagem que não havia luvas de dilatação da tu­ bulação forçada. As luvas foram fabricadas em Jundiaí. A usina foi inaugurada em 16 de agosto de 1928 pelo presidente de Mi­ nas Gerais, Antônio Carlos Ribeiro de Andrade que, em discurso solene, afirmou que teve “a grande ventura (...) de acionar as máquinas da monumental instalação de Ituerê”.

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local da hidroelétrica de Ituerê Figura 7 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens 6 7 8 9 10 Figura 6 .Cachoeira do Sumidouro no rio Pomba.A barragem de Ituerê e o vertedouro de soleira livre Figura 10 .Construção do vertedouro de Ituerê com o desvio num vão rebaixado Figura 8 .Construção do vertedouro de Ituerê Figura 9 .Casa de força da usina hidroelétrica de Ituerê Figura 11 .Cinematografando a inauguração da usina hidroelétrica de Ituerê 11 297 .

iniciati­ va patronal de vanguarda para a época. A empresa ultrapassara a marca de 9. Em 5 de fevereiro de 1935. já que João Duarte Ferreira havia falecido em 1924 e José Monteiro Ribeiro Junqueira. no governo Juscelino Kubitscheck. tendo tido como uma das principais dificuldades a entrega dos equipa­ mentos encomendados em 1938 a países que se envolveram na II Guerra Mundial. XX e XXI Os anos vinte foram também importantes para os funcionários da empresa que passaram a ter participação nos lucros. aí incluídas a “exploração de quedas d’água para geração de energia”. após trinta anos de intensa dedicação à empresa e com o ambiente economicamente hostil à iniciativa privada no setor elétrico. Esse ambiente foi propício ao aparecimento do Código de Águas. houve a expansão da intervenção do estado na economia a partir da promulgação da constituição de 1934 que. Com a eclosão da revolução de 1930.A História das Barragens no Brasil .Séculos XIX. candidatura esta que foi oficialmente derrotada nas urnas. o contrato de empréstimo do Banco Nacional de Desenvolvimento para a construção da hidroelétri­ ca de Nova Maurício. fortemente influenciada pela doutrina fascista e que instituíu um regime de exceção. O Código de Águas gerou o confronto entre uma corrente interessada em manter os serviços de eletricidade com a iniciativa privada e outra corrente radical que pugnava por uma profunda intervenção estatal com a encam­ pação de concessionárias estrangeiras. pela primeira vez. o que penalizou sobremodo as empresas privadas. A situação de carência de energia perdurou até março de 1956 quando entrou em operação a primeira uni­ dade de 5. passou a presidência para seu sobrinho. mes­ mo porque nesse período se instalou a inadimplência no pagamento de energia fornecida para o serviço público de prefeituras.000 consumidores e havia instalado mais de 900 km de redes de transmissão e de distribuição. A crise econômica mundial de 1929 gerou profundas conseqüências nos cenários econômicos e políticos no Brasil que acarretaram con­ flito aberto com lançamento de candidatura de oposição na figura de Getúlio Vargas à presidência da república. O Código introduziu o absurdo instrumento do reconhecimento apenas dos custos histó­ ricos dos investimentos realizados pelos concessionários no am­ biente inflacionário vigente no País. cerceando a expansão da capacidade instalada com nefastos reflexos na evolução do crescimento da economia nacional. Como as demais empresas do setor elétrico. sociais e políticas ocorreram no País. profundas modificações econômicas. o primeiro financiamento do Banco para uma empresa privada. Foi datado do dia 24 de agosto de 1954. tendo sido eleito pela Assembléia Constituinte em 1934 e se tornado ditador de 1937 até a queda do Estado Novo. garantindo a manutenção dos serviços e não mais podendo expandi-los por longo período. A empresa se voltou à ampliação das capaci­ dades instaladas das usinas de Ituerê e Coronel Domiciano. pela proibição de rea­ juste de tarifas de serviços públicos em função da inflação. estabelecendo a legitimidade da intervenção do Estado em atividades consideradas de importância para o interesse nacio­ nal. 298 . além dos desconfortos que haviam sido introduzidos pelo Código de Águas e pela inflação que passou a ser acelerada nesse governo. tendo Getúlio assumido o comando de um governo provisório em novembro de 1930 com plenos po­ deres. promulgado em 1934. dia do suicídio de Getúlio Vargas. A segunda unidade geradora só entrou em operação em abril de 1958. inserira um capítulo sobre a ordem econômica e social. investimentos e distribuição de dividendos aos acionistas. Nesse longo período. o engenheiro Ormeo Junqueira Botelho forma­ do pela Escola Politécnica da Universidade do Brasil (UFRJ) em 1918. Norberto Custódio Ferreira faleceu e abriu caminho para o encerramento do ciclo dos fundadores da empresa na sua direção. O Código havia inicialmente sido preparado por Alfredo Valadão em 1907 com colaboração de Inácio Verís­ simo de Melo e José Castro Nunes. a Cataguazes Leopoldina não passou incólume por essa legislação equivocada e pela II Guerra Mundial e teve que reduzir gastos. O quadro estatizante do setor elétrico foi ampliado nos anos cin­ quenta. Já em 1950 a empresa obteve permissão para proceder a um racionamento preventivo que se estendeu às fábricas de tecido em até três ve­ zes por semana. Ormeo Junqueira Botelho ajustou a empresa às condições políticas e econômicas advindas da Constituição Federal de 1937.58 MW da hidroelétrica de Nova Maurício que apro­ veita a queda total de 90 m da cachoeira da Fumaça. em 1945.

tendo nesse período transferido para o engenheiro Vanor Ribeiro Junqueira. a presidência da empresa. encontrou totalmente descapitalizadas as empresas priva­ das de energia elétrica.Ormeo Junqueira Botelho com Tancredo Neves 299 . No período entre 1962 e 1965 o engenheiro Ormeo Junqueira Botelho foi eleito deputado federal pela UDN.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 12 .Engenheiro Ormeo Junqueira Botelho No início dos anos sessenta o agravamento do cenário político e a aceleração da inflação que atingiu 80% ao ano com a impossibilidade de se obter a devida correção tarifária. engenheiro também formado pela Escola Politécnica da Universidade do Brasil (UFRJ).Ormeo Junqueira Botelho na campanha eleitoral Figura 14 . Figura 13 .

esta até hoje (2011) ainda inacabada. culturais e sociais. que ocasionaram elevados índices de inadimplência que geraram o colapso da engenharia consultiva no País. O Decreto 54936 de novembro de 1964. autorizou a correção monetária do valor original do ativo imo­ bilizado.Séculos XIX. No final desse período o próprio governo federal adquiriu por US$ 380 milhões a Light. identificados com o li­ beralismo econômico mais ortodoxo. Entretanto. A Brascan respondeu que venderia se tivesse o consenti­ mento do governo federal. principalmente nas estatais federais. Com o advento do governo Castelo Branco ocorreu profunda e benéfica alteração na política eco­ nômica do País por terem composto o ministério dois políticos. Os anos setenta foram iniciados sob o signo do Brasil Grande com Estado todo poderoso sob o excesso de consumo deno­ minado de milagre brasileiro. implantado pelo ministro Mauro Thibau das Minas e Energia. geomorfológicas. Vanor teve como sucessor o enge­ nheiro Ivan Müller Botelho. Em dezembro de 1974 veio novo golpe para as empresas eficientes: passa a vigorar a tarifa unificada independentemente das diferenças geográficas. Em 1976 a Cataguazes Leopoldina adquiriu a Companhia Leste Mineira de Eletricidade na região de Manhuaçu. No ano seguinte a empresa tentou adquirir a Companhia Mineira de Eletricidade. Em 1977 a em­ presa ofereceu ao grupo Brascan US$ 330 milhões para adquirir a Light.Engenheiro Ivan Müller Botelho 300 . 2 e 3. Esse decreto acabou com a concorrência e com os esforços para redução de custos. Bulhões de Carvalho e Roberto Campos. Passou a haver a concentração de investimentos estatais em grandes obras hidroelétricas e no pro­ grama nuclear com a construção das usinas de Angra 1. nessa década o governo federal passou a utilizar as tarifas de energia elétrica para controle da inflação que retomava o ritmo do início dos anos sessenta. Os constantes abatimentos nas tarifas produziram intensas cri­ ses de liquidez nas concessionárias. muitas delas concentradas no Norte. climáticas. A orientação do governo federal passou a ser voltada para a contenção da inflação e a reto­ mada do desenvolvimento. A empresa nesse novo cenário pode ampliar seu parque gerador instalando mais duas unidades geradoras em Maurício Nova que passou a ter 31 MW de capacidade instalada. Somente em 1993 pela Lei 8631 é que as tarifas diferenciadas vol­ taram a ser praticadas. tendo vindo a tempo de salvar as empresas de energia elétrica da destruição devida ao arrocho tarifário tão prolongado. XX e XXI Ao se aposentar em 1965. Durante um ano a empresa consultou o ministério de Minas e Energia sob Shigeaki Ueki sem obter qual­ quer resposta. no Centro-Oeste e no Nordeste.A História das Barragens no Brasil . A então chamada de realidade tarifária e serviço pelo custo veio proporcionar novo desenvolvimento do setor elétrico. Entretanto. O Decreto 1383 passou a fazer com que a parcela da remuneração que ultrapassasse 12% ao ano fosse revertida para subsidiar as empresas com retorno inferior a 10% ao ano sobre os investimentos num cenário chama­ do de Robin Hood em que as empresas mais eficientes passaram a socorrer as menos eficientes. Figura 15 .

projeto da Promon. Em 1997 a em­ presa adquiriu a Companhia de Eletricidade de Nova Friburgo CENF e a Empresa Energética de Sergipe ENERGIPE. Nessa década. Com a aquisição da CENF a empresa passou a operar as hidroelétricas de Hans. Com o falecimento de seu pai em fevereiro de 1990. estado do Rio de Janeiro. o engenheiro Ivan Botelho assumiu a presidência do Conselho do grupo de em­ presas e o engenheiro Manoel Otoni Neiva assumiu a presidência da CPFL Minas onde se concentravam as hidroelétricas. localizadas em Santos Dumont e colocou em operação a hidroelétrica de Ervália de 6 MW instalados. somente em 1983 entrou em operação comercial com 13. todas situadas no rio Grande.5 MW). No início dessa década a empresa começou o projeto da hidroe­ létrica do Gloria com barragem de concreto com 14 m de altura e taladas das hidroelétricas de Coronel Domiciano e Neblina II e adquiriu. em 1999. concessões de serviço público. Em 1991 as hidroelétricas do Gloria.Engenheiro Manoel Otoni Neiva em manobra considerada pela Comissão de Valores Imobiliários como tendo sido “ao arrepio da lei”. Em 1999 a empresa criou a Cat-Leo para operar como produtor independente de energia elétrica.8 MW instalados. foram vendidas à Valesul. Catete e Xavier. como auto-produtora para suprir parte da carga de sua fábrica no Rio de Janeiro. a Cemig arrematou a Mineira de Eletricidade por Cr$ 2. as hidroelétricas de Anna Maria e Guary (6. A usina. subsi­ diária da Vale. Em 1999 a empresa adquiriu a Companhia Figura 17a – Barragem da hidroelétrica Sinceridade Figura 17b – Barragem da hidroelétrica Santa Cecilia 301 . a empresa ampliou as capacidades ins­ Figura 16 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens adução por túnel. Ituerê e Nova Maurício.02 por ação.

o grupo. em apenas dois anos. a Sociedade Anônima de Eletrificação da Paraíba Saelpa.Barragem da hidroelétrica Túlio Cordeiro de Mello (Granada) 302 . que veio a falecer prematuramente em 2009. tendo sido substituído pelo engenheiro Gabriel Pereira. Em 2004 o engenheiro Manoel Otoni Neiva se aposentou. teve que se desfazer de algumas hidroelétricas acima em favor do grupo Brascan. Ivan Botelho II. XX e XXI de Eletricidade de Borborema CELB e. hoje Brookfield.Séculos XIX.A História das Barragens no Brasil . em Manhuaçu. tendo assumido a presidência da Energisa Minas o engenheiro José Antônio da Silva Marques.5 MW instalados.Engenheiro José Antônio da Silva Marques (Zé Tunim) Figura 19 . Figura 18 . para se capitalizar. Em segui­ da. Ormeo Junqueira Botelho e Ivan Botelho III. Túlio Cordeiro de Melo. Em 2000 a Cat-Leo construiu em 362 dias a PCH Benjamin Ma­ rio Baptista com 9. Considerando a grande expansão do grupo em diversos ramos industriais e nas diversas aquisições de conces­ sões de distribuição de energia elétrica em outros estados. carinhosamente chamado de Zé Tunim. em 2000. instalou as PCHs Ivan Botelho I.

Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 20 Barragem da hidroelétrica Ormeo Junqueira Botelho (Cachoeira Encoberta) Figura 21 .5 MW com apenas uma única unidade geradora 303 .Barragem da hidroelétrica Ivan Botelho I (Ponte) Figura 22 – Casa de força da hidroelétrica Benjamim Mario Baptista (Nova Sinceridade) de 9.

304 .

com ou sem privilégio. onde atual ou futuramente se possa explorar tal indústria.CPFL Fabio De Gennaro Castro No dia 16 de novembro de 1912. em 1912 era criada a Empresa de Eletricidade de Araraquara. exemplo recente de parceria da CPFL com outros agentes do setor elétrico na implantação de grandes hidroelétricas 305 . Paralelamente. promovendo ou auxiliando. quaisquer empreendimentos que possam contribuir para o desenvolvimento do consumo de energia elétrica e também comércio de mercadorias relativas à indústria da eletricidade”. para em 1919 incorporar a Empresa de Eletricidade de Bauru. seguida da Empre­ sa Força e Luz Agudos-Pederneiras. O ponto de partida da CPFL foi a Empresa Força e Luz de Botucatu. direta ou indiretamente. isto em 1914. foi criada a Companhia Paulista de Força e Luz. Já em 1913 incorporou a Empresa Força e Luz de São Manoel e a Companhia Elétrica do Oeste de São Paulo. José Balbino de Siqueira e outros capitalistas. com foco na produção de energia elétrica por iniciativa dos engenheiros Manfredo Antonio da Costa. Fonseca Rodrigues e Usina hidroelétrica de Campos Novos. na capital de São Paulo. O artigo 3º de seu Estatuto Social dispunha que a empresa “terá por fim a exploração industrial da eletricidade em todas as suas variadas aplicações no Estado de São Paulo.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Companhia Paulista de Força e Luz . pelas mãos de Ataliba Vale.

com a privatização. Figura 3 . Em 1904 a firma Cavalcante Byington & Cia construiu a Usina Salto Grande no rio Atibaia também para iluminação pública. em 1871 fora implantada a iluminação pública a querosene em Campinas. passou a controlar a Empresa de Eletricidade de São Paulo e Rio.Usina hidroelétrica de Salto Grande com 4.Usina hidroelétrica de Americana com 30 MW 306 . po­ rém de Itatiba e Souzas. a qual. tais como as usinas hidro­ elétricas de Campos Novos e Foz do Chapecó. Sistel.A História das Barragens no Brasil . que atuava em parte do vale do Paraíba. Figura 1 – Barragem de Lavrinha Em 1927 o controle acionário da CPFL passa para a CAEEB. Por outro lado. atual Mascarenhas de Moraes. pois esta deveria ser atendida pela Companhia de Iluminação a Gás. Figura 2 . pelo Fundo de Pensão dos Funcionários do Banco do Brasil (Previ). e pela Bonaire Participações (que reúne os fundos de pensão Funcesp. Em 1975 o controle acionário passa a ser exercido pela CESP.Séculos XIX. Companhia Auxiliar de Empresas Elétricas Brasileiras S A. Bradesco e  Camargo Corrêa). Em 1946 inaugurou-se a usina Avanhandava no rio Tietê. sem conseguir atender Campinas. inicia-se a construção da usina de Americana e da termoelétrica de Carioba. no rio Atibaia Em novembro de 1997. Em 1957 entra em operação Peixoto. American & Foreign Power Company. subsidiária da AMFORP. sendo criada em 1875 a Companhia Campineira de Iluminação a Gás.55 MW. o controle da com­ panhia passou para o atual grupo composto pela VBC Energia (Grupo Votorantim. Nos anos recentes a CPFL passou a atuar intensamente com outros parceiros em grandes hidroelétricas. Petros e Sabesprev). XX e XXI Ramos de Azevedo. em 1920.

Cocais Grande. Figura 4 . Arvoredo. Paiol. Varginha.Visão artística do arranjo da usina hidroelétrica de Foz do Chapecó 307 . São Gonçalo e Ninho da Águia. tais como Alto Irani.Barragem da PCH Alto Irani. com 21 MW. Corrente Grande. Esta usina foi agregada a CPFL Renováveis pela fusão da ERSA e CPFL Figura 6 . Com isso o parque gerador foi ampliado com diversas outras usinas de pequeno porte. Plano Alto.Barragem de São Gonçalo com 11 MW Figura 5 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Em 2011 ocorreu a fusão da CPFL com a ERSA dando origem à CPFL Reno­ váveis.

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representando o Paraguai. Nesse período. o Tratado cria a entidade binacional Itaipu. no Paraguai. tendo como signatários os chanceleres Mário Gibson Barboza. no Brasil. e o Anexo C – Bases financeiras e de pres­ tação de serviços de eletricidade.2011 Miguel Augusto Zydan Sória 1. Com a finalidade de realizar o aproveitamento hidroelétrico.A. e Raúl Sapena Pastor. pelo Paraguai. Como são Usina hidroelétrica de Itaipú. leis e protocolos.Itaipu Binacional 309 . desde e inclusive o Salto Grande de Sete Quedas ou Salto de Guaíra até a foz do rio Iguaçu. o Anexo B – Des­ crição das instalações destinadas à produção de energia elétrica e das obras auxiliares. O Tratado é complementado por acordos. (Eletrobras). eram presidentes Emílio Garrastazu Médici. instalada em 15 de maio de 1974 e constituí­ da com igual participação em seu capital pela Centrais Elétricas Brasileiras S. pelo Brasil.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Breve Memória sobre a Usina de Itaipu 1966 . representando o Brasil. e Alfredo Stroessner. Fazem parte do Tratado o Anexo A – Estatuto. notas reversais. Apresentamos neste capítulo um breve relato histórico sobre a obtenção desse ingente resultado por ambos os países. e pela Administración Nacional de Electricidad (ANDE). Barragem principal e condutos forçados Foto de Caio Francisco Coronel . pertencentes em condomínio aos dois países. Introdução A hidroelétrica de Itaipu é fruto do Tratado celebrado em 26 de abril de 1973 pelo Brasil e pelo Paraguai para o aproveitamento dos recursos hídricos do rio Paraná.

Fonte: livro “Usina Hidroelétrica de Itaipu . por isso mais ligada à engenharia civil e à geologia. limitamo-nos a apresentar refe­ rências sobre detalhes técnicos do empreendimento quando as descrições assim o exigirem. A assinatura da Ata de Iguaçu. Esses marcos nos permitem separar com nitidez as diferentes fases do processo de construção de Itaipu. pode ser considerada como o momento que encerra a fase estratégica do processo. Cronologia do Projeto Itaipu O Quadro I. Sugerimos que os leitores que esti­ verem interessados em conhecer informações técnicas sobre o projeto Itaipu consultem outras publicações. anexo. publicada em 2009. Como nosso intento é o de dissertar sobre a história da constru­ ção da hidroelétrica de Itaipu.Séculos XIX. onde as encontrarão fartamente. em 1966. a qual constitui também o texto-guia deste trabalho. e considerando que a presente publicação se propõe a organizar em um único volume a memória das principais barragens cons­ truídas no Brasil para várias finalidades . 2. realizada em conjunto com o Paraguai -. editado pela Itaipu Binacional em 1994. de modo resumido. As menções feitas a eles devem ser consideradas uma homenagem a todos os que indistintamente participaram no esforço de construir Itaipu. Aspectos de Engenharia”.A História das Barragens no Brasil . que possui versão em português “Usina Hidroelé­ trica de Itaipu. as principais etapas e datas relativas ao Projeto Itaipu. ITAIPU Binacional 2009. e o Quadro II. descreveremos as motivações e a concepção do projeto e enfatizamos os tópicos relacionados aos estudos prévios realizados e às obras civis. Registra a concepção da idéia e prescreve as estratégias de alto nível a serem seguidas. abaixo.Aspectos de Engenharia”. decorrentes estas das escolhas julgadas mais favoráveis.e. no caso de Itaipu. mostram. Nesse sentido. 310 . XX e XXI muitos os aspectos da Itaipu possíveis de serem explorados. nominando alguns de seus inúmeros protagonistas. das referências bibliográficas exis­ tentes recomendamos pesquisa no livro “Itaipu Hydroelectric Project – Engineering Features” .

Em 1962. A inauguração da Ponte da Amizade em 1965 alimentou o clima de cooperação ao oferecer a perspectiva de facilitar o intercâmbio comercial entre eles. e a segunda. a inteligência política quando se estabeleceu que a construção e o uso da futura instalação seriam realizados em conjunto. que pre­ via o alagamento de grande parte da área em litígio. Mas. no trecho do rio Paraná “desde e inclusive o Salto de Sete Quedas até a foz do rio Iguaçu”. devido a circunstâncias intrínsecas. pela pri­ meira vez cogitou-se de os dois países se unirem para produzir 3. em 1966 foi assinada a Ata de Iguaçu pelos ministros das Relações Exteriores do Brasil. con­ vergiram e se somaram. O Tratado de Paz assinado em 1872. Em 26 de abril de 1973. pode dar causa a signi­ ficativos conflitos de interesses. Em 1967. uma Comissão Mista foi criada para implementar a Ata do Iguaçu. era impreciso ao determinar os limites entre os territórios na margem direita do rio Paraná. O consórcio formado pelas empresas IECO – International Engineering Company Inc. energia em conjunto. Juracy Magalhães. O entendi­ mento da questão sob esse prisma acabou por reverter totalmente a situação. foi escolhido para a realização dos estudos de viabilidade e para a elaboração do projeto da obra. pela sua enorme importância. Esse brevíssimo repasse pela história nos serve para compreen­ der que a possibilidade de exploração de um grande potencial hidroelétrico. encerrou a disputa por terras na fronteira. porém. Motivação decorrente da socioeconomia Conforme assinalado. deparamo-nos com hábitos da sociedade que 311 . optaram por unir forças. E foi justamente o que aconteceu com Brasil e Paraguai no início da década de 60 com a desco­ berta do potencial hidroelétrico do rio Paraná. porém. logo após o término da Guerra do Paraguai (1865-1870). A solução proposta por um consórcio de empresas estrangeiras. a disposição de construir uma hidroelétrica para atender à demanda de energia elétrica foi motivo de desa­ cordo entre Brasil e Paraguai nos anos 60. Brasil e Paraguai assinam então o Tratado de Itaipu. O entendimento diplomá­ tico abriu caminho para o início dos estudos técnicos. acabou por reabrir a polêmica em torno da fronteira na região das Sete Quedas porque estabelecia que os territórios deveriam dividir-se pelo rio Paraná. Ao investigarmos a formação da demanda de energia naquele mo­ mento da história.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens 3. pois a indefinição quanto à posse das Sete Quedas interferia nos planos de um e de outro para o aproveitamento pretendido. (EUA) e ELC – Electroconsult SpA.1. até o Salto. Raúl Sapena Pastor. Como resultado de intensas negociações. Prevaleceu. e do Paraguai. sabiamente. depois de adequada avaliação das propostas de diversos grupos qualificados. um acima e outro abaixo das Sete Quedas. o detalhamento completo dos limites da fronteira jamais foi concluído em face de desacordo entre as partes em relação à demarcação da Serra de Maracaju no trecho em que ela se divide em dois ramos. A primeira dessas motivações é oriunda da política externa. as quais. Principais motivações para a construção de Itaipu A análise mais profunda dos acontecimentos que levaram à construção de Itaipu revela que duas foram as suas motivações primordiais. É importante frisar que era central nessa discussão a estratégica aspiração de suficiência no suprimento futuro de energia elétrica para os dois países. primeira descrição minuciosa da fronteira brasileiro-paraguaia.2. No entanto. Motivação decorrente da política externa Para explicar a origem da motivação fundamentada na política externa remontamos a 1750. da socioeconomia. (Itália). e pelo cume da Serra de Maracaju. ano em que Espanha e Portugal assinaram em Madri o Tratado de Limites. A declaração conjunta manifestava a disposição de estudar o apro­ veitamento dos recursos hidráulicos pertencentes em condo­ mínio aos dois países. os dois go­ vernos. O texto. colocando ambos os países em oposição. 3. em vez de medir forças.

uma decisão de cunho macroeconô­ mico. têm início a produção de etanol de cana-de-açúcar (Pró-Álcool – 1975). A forma preferen­ cial. portanto. A decisão de construir Itaipu A conjugação. os dados da questão eram razoavelmente claros. pois em 1973. onde disponível e viável. abrangendo os entendimentos prévios entres 312 . que naquele momento não pas­ sou despercebido pelos estrategistas mais argutos. preponderantemente). da construção das mega-hidroelétricas de Tucuruí e de Itaipu. um predicado. que serviu mais tarde para os outros tantos projetos que foram realizados. sobreveio a crise mundial do petróleo. ondas. Secundariamente.A História das Barragens no Brasil . numa miría­ de de aplicações cotidianas. O contraste. no trecho de fronteira fluvial entre os dois países. de caráter mais técnico. Esse preciso diagnóstico feito com competência pelo meio téc­ nico acabou por ser em grande parte internalizado pela classe dirigente do país. o que podia ser feito de diferentes formas. Em razão disso. o que indicava autossuficiência de energia elétrica a médio prazo. não restava alternativa a não ser incrementar a produção maciça de energia elétrica nos níveis demandados. e constrói hidroelétricas de grande por­ te. A experiência na execução desses projetos proporcionou adicionalmente a acumulação do capital inte­ lectual. A iniciativa de criação do CBGB foi dos engenheiros que naquela época estavam assumindo gradativamente a respon­ sabilidade pelas atividades técnicas relacionadas à implantação dessas barragens no País. Pelo lado da oferta. Três Marias (1962). Entre as principais. estimulando o rápido desenvolvimento de iniciativas em diversos segmentos no campo da produção de energia. Àquela época já se sabia que o potencial hidroelétrico dos rios interiores brasileiros era imen­ so. que perdura até então mundo afora. 3. en­ quanto a água que corre nos rios o é. pelo lado da procura. em sociedade com o Paraguai. e de suas implicações nas demais infra-estruturas públicas e privadas que foram posteriormente implantadas. proporcionadas por tecnologias cada vez mais inovadoras e sofisticadas. faz valer sua visão de “se­ gurança energética”. já nas décadas de 50 e 60. dos citados fatores políticos e socioeco­ nômicos formaram o argumento de base para Brasil e Paraguai decidirem pela construção em conjunto de uma usina hidroelétri­ ca sobre o rio Paraná. tendo como pontos altos justamente o início. na região Sul. solar. a primeira na inexplorada região Norte do País. incluindo o de Itaipu. de construção do futuro dos dois países. de profundos impactos na economia e no ordenamento social de muitas nações. A hidroeletricidade é. Furnas (1963) e Jupiá (1968). portanto. objeto de nosso relato. voltadas para a substituição de importações do petróleo. Dessa presciente decisão maior decorreram todas as demais. a pro­ dução de energia elétrica com base em energia atômica (Usina de Angra I – 1976) e a expansão da geração de energia de base hidráulica. principalmente com a Argentina e o Paraguai. gás e petróleo. Ou seja. a segunda. o Brasil. um diferencial competitivo. XX e XXI requeriam crescentes níveis de uso da eletricidade. vem a pro­ dução de energia elétrica de base hidráulica e atômica. de longo alcance. etc. pois o Brasil evoluía da construção de barragens baixas e médias para barragens e hidroelétricas de grande vul­ to. A visão de “seguran­ ça energética” tomou então contornos dogmáticos. é a de produzir energia elétrica com o emprego de combustíveis fósseis (carvão. A essas formas acresce-se hoje o emprego da biomassa e de outras fontes alternativas (eólica. Mas considerava-se também a possibilidade de aprovei­ tamento conjunto dos rios compartilhados com países vizinhos.3. Foi antes de tudo. coincidentemente o mesmo ano em que é assinado o Tratado de Itaipu. geotermia. tendo reflexos profundos nas decisões toma­ das sobre a matriz energética brasileira. consiste no fato de que os combustíveis fósseis não são renováveis. É nesse clima de grande atenção ao tema energético nacional que foi criado em 1961 o Comitê Brasileiro de Grandes Barra­ gens (CBGB).). E as previsões sobre a importância que viria a ter a hidroeletricici­ dade acabaram por se confirmar.Séculos XIX. em 1975. Paulo Afonso I (1954). que se inscreve na magnanimidade das políticas de estado.

quaisquer dificuldades ou problemas. em 1959. o registro do entendimento a que chegaram os governos do Brasil e do Paraguai e que expressa irrefutavelmente o amadurecimento da ideia de construir Itaipu. faz prescrições sobre alguns aspec­ tos relevantes do empreendimento. 4. que intercedeu a favor do projeto perante o Congresso Nacional brasileiro. a execução da obra e montagem dos equipamentos e. Para esse fim foi então contratado. na região mais meridional da porção brasileira da imen­ sa bacia hidrográfica do rio Paraná. complementado depois pelo Acordo Tripartite. Esses aspectos serão tratados com mais detalhes nas seções seguintes deste capítulo. No documento consta “. na época. 313 . tais como a decisão de dar início ao estudo e levantamento das possibilidades econômicas de uso dos recursos hidráulicos comuns. o que revela o reconhecimento explícito das partes de que. em 10 de abril de 1970. projetista. após alguns estu­ dos realizados em 1955-56. entre outras obras. por ocasião do enchimento do reservatório de Itaipu. visando ao aproveitamento hi­ droelétrico conjunto.2. 4.1. o vivo desejo de superar. por sua vez. Foram esses os principais antecedentes do acordo prévio que Brasil e Paraguai alcançaram em 1966. a qual foi desmontada em 1982. ”. Antes disso. o consórcio ítalo-americano IECO-ELC. por fim. porém. tal como será visto na con­ tinuidade deste trabalho. O convênio estabelecia que o trabalho fosse realizado por um gru­ po de técnicos de ambos os países. a cessão da energia não utilizada e a necessidade de entendimentos com os estados ribeirinhos da Bacia do Prata. . achando-lhes solução compatível com os interesses de ambas as Nações. contratada a empresa EMF. eram esperados óbices de diversas naturezas para sua concretização. Cabe destacar a atuação do engenheiro e economista Antonio Dias Leite Júnior. num projeto daquela envergadura. a contratação de estudos de alternativas de locali­ zação da obra. A Comissão Mista Técnica.. Ministro de Minas e Energia do Brasil de 1969 a 1974. a assinatura do Tratado de Itaipu. a divisão da energia em partes iguais. traduzido pela Ata de Iguaçu. sob a direção geral e coordenação de um Comitê Executivo. já estava ciente das potencialidades energéticas que representavam os aproximadamente 100 me­ tros de queda existentes no Salto Grande de Sete Quedas. a constituição da Itaipu Binacional. assinada em 22 de junho de 1966. em 18 de novembro de 1970. A Ata de Iguaçu A “Ata de Iguaçu: Brasil – Paraguai”.. dirigida pelo engenheiro Octávio Marcondes Ferraz. no princípio da década de 60 cresce com rapidez a demanda de energia elétrica na metade Centro-Sul do Brasil. não pode ser aceito porque se pre­ via sua implantação exclusivamente em território brasileiro. a elaboração dos estudos e projeto de en­ genharia. dentro de um mesmo espírito de boa-vontade e de concórdia. é.. O governo brasileiro. em 1967 foi criada a Comissão Mista Técnica Brasileiro-Paraguaia com a finalidade de realizar o estudo e o levantamento das possibilidades econômicas do aproveitamento hidroelétrico pretendido e apresentar o resul­ tado aos dois governos. 4. firma convênio de cooperação com a Eletrobras e com a ANDE. A Ata de Iguaçu. o Serviço de Navegação da Bacia do Prata já havia construído uma pequena hidroelétrica com 1. que se encerra com o Tratado de Itaipu.200 kW de potência instala­ da em um dos braços das Sete Quedas. Foi. por conseguinte. então. fundada antes de tudo na amizade e no respeito mútuo cultivado entre os dois países. documento que marca o início do período preparatório. com a supervisão de uma firma de consultores de engenharia. a produção de eletricidade. A EMF propôs um aproveitamento hidroelétrico da ordem de 10 mil MW. desviando-se o rio em trecho de fronteira e desconsideran­ do-se o aspecto binacional do sítio.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens os dois países. da usina de Paulo Afonso. portanto.. que. O papel da Comissão Mista Técnica Para cumprir o disposto na Ata de Iguaçu. Período preparatório Conforme salientado.

assim como a disponibilidade de materiais de construção e seus meios de transporte. com todo o potencial concentrado em uma única usina hi­ droelétrica e (ii) Itaipu Baixo e Santa Maria. as estimativas de custos e os resul­ tados das simulações operacionais. pluviometria. Além disso. a solução Itaipu Baixo e Santa Maria mostrou-se menos competi­ tiva porque os custos dos desvios do rio e dos vertedouros seriam duplicados. 314 . Puerto Embalse e Ilha Acaray) e 50 diferentes arranjos. Foi então feita a classificação e análise das informações existentes e aquisição de dados adi­ cionais envolvendo a meteorologia. análises hidrológi­ cas. Porto Mendes. duas soluções se mostraram preferenciais: (i) Itaipu Alto. duas barragens. uma única barragem na ilha de Itai­ pu. uma na ilha de Itaipu e outra 150 km a montante em Santa Maria. Arroio Guaçu. a topografia. Os estudos de viabilidade Em 1 de fevereiro de 1971 foram iniciados os estudos do aprovei­ tamento. Itaipu. XX e XXI Figura 1 . investigações geotécnicas e um inventário completo de al­ ternativas possíveis de projeto. topografia. fluviometria. Laguna Verá.Séculos XIX. que envolveram levantamentos de campo. com o potencial dividido em duas hidroelétricas. 4. Comparando-se os arranjos. Disso resultou a indicação de dez locais possíveis para a construção de barragens (Guaíra.4. Santa Maria.Comissão Mista-Técnica Brasileiro-Paraguaia 4. São Francisco. Alex Gage. os saltos hidráulicos líquidos seriam menores e os custos da potência instalada maiores.3. sedimentação. condições geológicas e geotécnicas.A História das Barragens no Brasil . a serem desenvolvidos em quatro fases metodológicas. A escolha do local Itaipu No cotejamento entre as duas alternativas finais selecionadas.

que deu nome ao empreendimento. quase sem­ pre submersa.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 2 . concluiu-se que o esquema com uma única barragem fornecia maior capacidade instalada ao menor custo por quilowatt (kW). foi apresentado o relatório sobre o estu­ do preliminar de viabilidade.Ilha de Itaipu – rio Paraná Figura 3 . Delgado. Figura 4 . que indicou como mais favorável o projeto Itaipu Alto. A ilha de Itaipu. 315 . Giovanni Salerno e Piero Sembenelli (todos da IECO-ELC). era localizada logo após uma curva acentuada do rio Paraná. o consultor Arthur Casagrande e outros não reconhecidos – 1973. o que foi aceito pela Comissão Mista Técnica. Ou seja. após a realização das três primeiras fases previstas na metodologia. que significa na língua tupi “a pedra que canta”. No final de dezembro de 1972.5% maior e a energia firme por volta de 33% superior à da combinação Itaipu Baixo e Santa Maria. A partir daí passou-se a utilizar a denominação Itaipu simplesmente. W.Trabalhos de sondagem na Ilha de Itaipu . a pouco mais de 20 quilômetros da confluência com o rio Iguaçu. Ela consistia em um afloramento de rocha. Por outro lado. R.A partir da direita: Pierucci. cujo maru­ lhar provocado pela correnteza inspirou os indígenas a chamá-la “Itaipu”.1972 a geologia e as condições de vazão do rio também encareceriam os custos em Santa Maria. a capacidade instalada para Itaipu Alto seria 5. Taboada.

Essa deci­ são possibilitou o avanço dos entendimentos que resultaram na redação do Tratado de Itaipu. O relatório final dos consultores foi apresentado posteriormente. e em igualdades de condições. didas prévias que o viabilizaram. 316 . portanto. com igual participação no capital. de 26 de abril de 1973. De modo a conferir a adequada segurança jurídica ao acordo. Na continuidade. em julho de 1974. foi apresentada uma minuta do re­ latório final de viabilidade à Comissão. O Tratado também define que a ITAIPU é administrada por um Conselho de Figura 5 . 4. se já eram onerosas para o Brasil.5. na medida do possível. Essa harmonização de interesses contribuiu para que se estabelecesse o “espírito binacional” que reinou durante toda a empreitada e perdura até hoje. basicamente. A singular engenharia econômico-financeira do projeto As simulações de custo do projeto que foram feitas na fase inicial dos estudos de viabilidade já indicavam a necessidade de recur­ sos financeiros da ordem de bilhões de dólares americanos para a execução das obras.1973 Administração e uma Diretoria Executiva integrados por igual número de nacionais de ambos os países.Consultor Arthur Casagrande (à esquerda) e Piero Sembenelli (IECO-ELC) na travessia do rio Paraná . não aplicação de impostos (mediante isenções fiscais) e de algumas restrições administrativas. atribuindo a ambos os países o mesmo poder de decisão e. O acordo foi feito de modo equilibrado. A ITAIPU foi então constituída pela Eletrobras e pela ANDE.A História das Barragens no Brasil . o que inviabilizava investimentos com uso de recursos próprios. XX e XXI oportunidades iguais para mobilização da força de trabalho e para a realização dos fornecimentos em geral. Algumas disposições do Tratado refletem a adoção das me­ Em 12 de janeiro de 1973. que são: a possibilidade de aporte de recursos financeiros mediante operações de cré ­ dito. com detalhamento e profundidade adequados à obtenção de empréstimo perante os organismos financeiros internacionais.6. a Comis­ são Mista Técnica determinou que fosse realizado pelos con­ sultores estudo completo de viabilidade para confirmação da alternativa escolhida.Séculos XIX. 4. para detalhar o “como fazer” no empreendimento. é. O Tratado de Itaipu O Tratado de Itaipu. regendo-se por normas esta­ belecidas no próprio Tratado e seus anexos. ultrapassavam em muito a própria economia do Paraguai. sendo seus documentos oficiais redigidos em português e espanhol. tendo-se como limite apenas a capacidade de cada um. o Tratado foi ratificado pelos poderes legislativos de ambos os países no mesmo ano de 1973. o instru­ mento-chave de consolidação do acordo alcançado pelo Brasil e pelo Paraguai para a execução do aproveitamento hidroelétrico. superando divergên­ cias pretéritas. oportunidade em que se optou pelo prosseguimento do projeto Itaipu. Os três anexos do Tratado servem. Essas altas cifras. a divisão da energia pro­ duzida em partes iguais e o estabelecimento da obrigação de aqui­ sição por um país da energia não utilizada pelo outro país para seu próprio consumo.

acompanhados pelos chanceleres Raúl Sapena Pastor (esquerda da foto) e Mário Gibson Barboza. com uma média estimada da ordem de 70 milhões de megawatts-hora por ano (MWh/ano). e assim viabilizar economicamente o empreendimento. va­ riável -. Para que se alcançasse a constância de receitas almejada. enquanto o Paraguai não conseguiria fazer o mesmo.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 6 . Para garantir que a totali­ dade da potência disponível da ITAIPU fosse sempre contratada. passou a assumir todas as incertezas financeiras e de mercado associadas a um empreendi­ mento desse porte. Os modelos matemáticos utilizados nos estudos de viabilidade indicaram que a hidroelétrica. os gover­ nos do Brasil e do Paraguai resolveram então adotar um modelo de comercialização pelo qual as contratações anuais seriam feitas não pela produção de energia . assim. dependendo das condições hi­ drológicas na bacia do rio Paraná e do grau de regularização a montante da barragem.Assinatura do Tratado de Itaipu em 26 de abril de 1973 . o Brasil em 2011 assume cerca de 95% de todos os encargos da ITAIPU. pois só utilizaria para consumo próprio algo em torno de 10% de sua metade. por meio da Eletrobras. com 18 unidades geradoras operando. respectivamente. concordou em celebrar contratos com a ITAIPU de forma que o total da potência contratada fosse igual à potência instalada.medida em MWh. o Brasil estaria apto a ab­ sorver a metade que lhe corresponderia. Para aferir o grau dessa responsabilidade. Ficou definido que os empréstimos. e. portanto. Optou-se.Presidentes Alfredo Stroessner (Paraguai) e Emílio Garrastazu Médici (Brasil). encargos financeiros e demais itens de custeio do empreendimento se­ riam depois pagos com as receitas resultantes da produção de energia elétrica da própria usina. assegurando assim o necessário suporte dos gastos a serem realizados nas diversas frentes de obra. produziria anualmente uma quantida­ de variável de energia. Dessa imensa quantidade de energia. pelo financiamento integral do Projeto Itai­ pu por meio de empréstimos bancários. medido 317 . o Brasil. utilizando aproximadamente 92% da energia gerada pela usina. o Brasil e o Paraguai se comprometeram a contratar conjuntamente o total da potência instalada da usina. na prática. pois o Brasil. Paralelamente. Essas duas disposições viabilizaram economicamente o empreendimento. quando estivesse completa. mas pela potência do conjunto gerador da usina.

A prestação do serviço de eletricidade seria então remunerada pela capacidade de produção posta à disposição do usuário.05. sendo nomeados Diretores-Gerais José Costa Cavalcanti. tornando suportável desse modo os efeitos da contratação por potência sinalizado para o Projeto Itaipu. em seu patamar mais elevado. e destas. em razão de o setor elétrico brasileiro ser de grandes proporções. pelo Paraguai. do Brasil. 5. grandeza invariável cujo valor seria fixado nos limites de potência necessários à produção da “energia garantida”. independente­ mente do que fosse consumido de energia. Ou seja. Contudo. Esse modelo implica. pelo Brasil.1974 é efetuada a instalação da ITAIPU Binacional. e Enzo Debernardi. ele teria condições de absorver e diluir eventuais variações de demanda para menos que viessem a ocorrer. assim.1. Constituição da Itaipu Binacional Cumprindo o disposto no Tratado e seus anexos.Séculos XIX. Isso acarretava para o comprador au­ mento do componente de custeio devido à energia adquirida da Itaipu sempre que o consumo fosse inferior à capacidade contratada. com a presença dos Presidentes Ernesto Geisel. esta pagaria sempre pelo direito de ter potência energética à sua disposição. às demais enti­ dades compradoras a elas vinculadas. mesmo que nada fosse consumido pela entidade compradora. em 15. na transferência das incertezas para a Eletrobras e para a ANDE. por sua vez.A História das Barragens no Brasil . e estar em expansão. as avaliações feitas indicaram que. passou-se então à sua execução. é claro. o maior impacto dessas incer­ tezas recairia sobre seu setor elétrico. praticamente blindado contra os efeitos dessas sazonalidades. do Paraguai. e Alfredo Stroessner. viabilizando-o defini­ tivamente. os Ministros das Relações Exteriores e de Minas e Energia do Brasil conjuntamente com os Ministros de Relações Exteriores e de Obras Públicas e Comunicações do Paraguai deram posse nos respectivos cargos aos Membros do Conselho de Administração e da Diretoria Executiva. Figura 7 . Como o Brasil consumiria a maior parte da energia produzida. 5. O Paraguai ficava. em uma fase predominantemente de intervenção na realidade. Execução do projeto Atendidas as condições necessárias ao desenvolvimento do proje­ to. XX e XXI em MW. Para esse fim. Tal modelo acabou por constituir o fator diferencial que selou a decisão de construir Itaipu. exemplificandose pelo extremo.Constituição da Itaipu Binacional em 17de maio de 1974: Presidentes Alfredo Stroessner (Paraguai) e Ernesto Geisel (Brasil) 318 .

Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Logo após. 319 . Estavam desse modo estabelecidos o local. o aparato organizacional e o instrumental necessários ao início da execução do projeto. Figura 8 . tendo sido posteriormente definida a área total delimitada. para instalação dos serviços administra­ tivos. De igual manei­ ra. Fernando Xavier Ferreira (1990-91). posteriormente. responsáveis pela coorde­ nação. e. são então destinadas áreas de terras no Brasil para a construção da hidroelétrica. Euclides Girolamo Scalco (1998-2002). Antonio José Correia Ribas (2002-03). organização e direção das atividades da Itaipu. José Costa Cavalcanti (1974-85). Francisco Luiz Sibut Gomide (1993-95). Ney Aminthas de Barros Braga (1985-90). Euclides Girolamo Scalco (1995-98).Organograma geral da ITAIPU Binacional Foram Diretores-Gerais Brasileiros. para a edificação da vila residencial para os trabalhadores. Desde 2003 o cargo é ocupado por Jorge Miguel Samek. o orçamento inicial. Altino Ventura Filho (1998). para a formação do reservatório. em caráter parcial. para as instalações do aproveitamento hidroelétrico e suas obras auxiliares. Jorge Nacli Neto (1991-93). são destinadas áreas de terras no Paraguai. a estratégia de alto nível.

portanto logo após a instalação da ITAIPU Binacional. para elaborar o projeto de engenharia de Itaipu. detento­ res de conhecimentos compatíveis com as necessidades técnicas de Figura 9 . passou-se à realização da quarta e última fase dos estudos de viabi­ lidade do projeto. Arthur Casagrande (consultor).Séculos XIX. e (xi) a casa de força. com o emprego de técnicas apuradas de gerenciamento de projetos. José Gelazio da Rocha (Itaipu. na escala 1:100. Belloni. 5. (viii) o arranjo geral.A partir da esquerda: Luis Carlos Domenicci (Unicon). Esse relatório final incorporou: (i) os estudos hidrológicos levados adiante. (x) as barragens. Nauroz Khan (gerente do estudo de viabilidade). (iv) a capacidade instalada da usina.2. P.A História das Barragens no Brasil . José Roberto Monteiro (Itaipu) e Flavio H. no Paraguai e em outros países.600 m3/s.3. (vii) a dupla frequência. Superintendente da Obra). de maneira concatenada. decorrente do fato de que o Brasil adota a frequência de 60 Hz e o Paraguai de 50 Hz. Don Deere. na ordem de 62. Superintendente de Engenharia). concluindo pela instalação de Figura 10 . Estudos e investigações confirmatórios Com vistas a cumprir a determinação da Comissão Mista Técnica para que fossem desenvolvidos pelos consultores estudos de viabilidade adicionais e de confirmação da alternativa escolhida.Grupo de engenheiros com os consultores. (v) os ensaios em modelo de regulari­ zação do rio e instalações para navegação. A partir da esquerda: Castro. (iii) os estudos da frequência das enchentes. (ix) o vertedouro. Lyra (Chairman do Board de Consultores da Itaipu) – outubro de 1977 320 . Sembenelli. na margem direita. Consoante a complexidade e importância da tarefa. Gallico . A. (vi) as unidades geradoras principais. XX e XXI 18 unidades de 700 MW. Arthur Casagrande. Edwin Smith . Projeto de engenharia: dados básicos e características Com base nas prescrições do relatório final de viabilidade do em­ preendimento a partir do segundo semestre de 1974 deu-se início a ampla mobilização de pessoas e empresas no Brasil. foram forma­ dos. Rubens Vianna de Andrade (Itaipu. (ii) a enchen­ te de projeto do vertedouro.1974 5. vários grupos especialistas. cujo relatório foi apresen­ tado em julho de 1974. Piasentin.

de subprojetos e de esquemas organizacionais do empreendimento.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens dimensionamento e especificações das principais partes da hidroe­ létrica: estruturas de desvio. Don Deere. e mediante os resultados dos testes e verificações feitos na fase de projeto. o arranjo geral das instalações permanentes foi diferente em alguns aspectos daquele definido durante a fase de viabilidade. Orlando Gomes dos Santos e Flavio H. naquela fase. barragens e ensecadeiras. pois não se revela possível nes­ ta memória resumida listar as muitas outras empresas e profissionais que participaram do esforço. que. O Quadro III. Essas partes principais. Klaus John. Gurmukh Sarkaria (Coordenador-Geral da IECOELC). casa de força e equipamentos de geração de energia. Cabe destacar que a Itaipu manteve a liderança do processo a cargo do consórcio internacional IECO-ELC. Lyra (Chairman do Board de Consultores da Itaipu) – outubro de 1977 321 . Conforme mencionado. desempenhou a função de Coordenador-Geral do Projeto. Fernão Paes de Barros. anexo.A partir da esquerda: Corrado Piasentin. igualmente tratadas por especialistas de diversas áreas. vertedouro. A diretriz geral que marcou essa etapa essencialmente conceptiva do Projeto Itaipu foi a do emprego incondicional de critérios de excelência técnica mundialmente disponíveis para projetos des­ sa natureza. Figura 11 . foram subdivididas em diversas outras. reservatório. em razão do aprofundamento dos estudos. por sua vez. relacionando somente as principais empresas participantes. apresenta uma síntese das principais atividades desenvolvidas nessa etapa de estudos e projetos. Isso necessariamente implicou o atendimento de rigorosas exigências. representado pelo experiente Engenheiro Gurmukh Sarkaria. Arthur Casagrande. que se refletiram posteriormente em toda a cadeia de processos.

de maior extensão e volume. Fundações: investigações geológicas e geotécnicas Definido o arranjo geral das instalações permanentes e. As­ sim. anexo. nas fundações da barragem principal no leito do rio. exigiram o emprego de tratamen­ tos subterrâneos para assegurar sua estabilidade frente às cargas a serem suportadas. bem como identificaram as principais descontinuidades existentes no subsolo de assentamento das fundações. furos e túneis de drenagem. cortinas de injeção e de drenagem. bem como do projeto e da fabricação das unidades geradoras. que foram devidamente instrumentadas para posterior monitoramento. complementares às estruturas das fundações. e Diretores-Gerais José Costa Cavalcanti (Brasil) e Enzo Debernardi (Paraguai) – dezembro de 1977 A Itaipu manteve um painel permanente de consultores inter­ nacionais (Board). partiu-se para as investigações geotécnicas. Foram também mobilizados muitos consultores. Esses consultores. foi também prescrita a execução de injeções. pôde-se dar início ao aprofundamento das investigações geológicas e geo­ técnicas feitas na Fase 1 dos estudos de viabilidade. basalto vesicular e basalto denso. que jazem sobre grandes derrames basálticos da bacia superior do rio Paraná. encontradas na forma de juntas. relacionados no Quadro IV. poços e túneis para verificação e a realização de ensaios in situ e ensaios em laboratório. se reuniam re­ gularmente para analisar aspectos especiais do projeto e da cons­ trução das obras civis. o cálculo e dimensionamento das fundações das barragens e das demais estruturas a serem erigidas. os recursos de simulação auxiliaram significativamen­ te nas decisões dos projetistas.A História das Barragens no Brasil . fabricação e funcionamento dos geradores. Essas descontinuidades. anexo. escavações de trincheiras. por conse­ guinte. O Quadro V. poço de investigação e de acesso. tendo em vista 322 . que definiram a deformabilidade e a resistência dos diversos tipos de brecha. 5. contatos. e. Superintendente da Obra).Rubens Vianna de Andrade (esquerda. por meio de sondagens e perfurações. XX e XXI Figura 12 .4. a geometria e a disposição territorial do conjunto. áreas fraturadas e zonas cisalhadas.Séculos XIX. Dessas investigações. Caracterizada a geologia da área do projeto e do reservatório. com o emprego principalmente de chavetas de con­ creto na descontinuidade da margem direita. representativos do conhecimento acumulado no mundo até aquela época em projetos hidroelétricos. apre­ senta uma relação dos principais ensaios e estudos especiais realizados e das instituições que os conduziram. especialistas e firmas encarregadas dos ensaios em modelos para resolverem problemas específicos de engenharia civil e aspectos ligados ao projeto.

Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Por essa lógica. tais como as séries ISO. Desde 2002 o cargo é ocupado por Antonio Otelo Cardoso. se previsse o início em 1975 de diferen­ tes frentes de trabalho em paralelo. e desviado o rio. Sendo a construção do canal de desvio a atividade mais crítica. Roberto Lei­ te Schulman (1985-90). no programa de construção. a calha do vertedouro e a fundação da barragem de enrocamento. pela expressiva monta das di­ mensões e volumes envolvidos na construção da usina. John Cabrera. Roberto Ramón Acosta Alvarez. Conclu­ ído o canal de desvio. Rubens Vianna de Andrade (1990-91). foram en­ tão separadas as atividades que dela independiam. em 1975. Márcio de Almeida Abreu (1991-92). responsáveis pela condução do projeto. parte desta última no leito do rio ao pé da barragem principal e parte dela ao pé da estrutura do desvio.Grupo de geólogos das projetistas se apronta para inspecionar os túneis e poços. No laboratório foram adotados padrões até mais exigentes do que aqueles que essas normas depois vieram a estabelecer. Tratava-se de uma operação complexa. Flávio Decat de Moura (1993-95). tendo como mais volumosas o próprio canal de desvio. 323 . envolvendo algumas importantes obras civis e diversas encomendas de equipamentos e componentes eletromecânicos com perfil de fornecimento de longo prazo. e Maurício Muller – maio de 1977 ainda não existiam normas avançadas de controle de qualidade. O material das escavações foi utilizado para a construção das ensecadeiras principais no leito do rio Para­ ná e da barragem de enrocamento na margem esquerda. 5. Na época de sua implantação (1975-76) Figura 13 . Szolt Gombosy. A partir da esquerda: Minervino Buosi. suas ensecadeiras em arco e a estrutura de controle nele existentes. Relações do trabalho e previdência social Para o normal andamento da obra. definiu que no ano de 1983 seria iniciada a operação da primeira unidade geradora.5.6. Marcos Antônio Schwab (1995-96) e Altino Ven­ tura Filho (1996-2002). o que permitiu que. a cronologia e a organização dos trabalhos a serem realizados. passou-se para a cons­ trução da barragem principal e do vertedouro e da casa de força. segundo indicou a rede CPM (Critical Path Method) elaborada. 5. situado no contexto geral do Sistema de Qualidade das Construções de Concreto. Nesse sentido. Planejamento e organização dos trabalhos A Itaipu. Essa decisão determinou o planeja­ mento. construção das obras e operação das instalações: John Reginald Cotrim (1974-85). as obras civis tiveram início com a execução de vá­ rias frentes conjuntas de escavações. que tiveram seu advento nos anos seguin­ tes. Nelson Infanti Jr. merece menção especial a contribuição do La­ boratório de Materiais e Concreto da Itaipu (que atualmente se denomina Laboratório de Tecnologia do Concreto da Itaipu – LabTecon). Foram Diretores Técnicos brasileiros da Itaipu. era importante assegurar direitos laborais e proteção social que favorecessem a recepção e a perma­ nência do expressivo contingente de trabalhadores e suas famílias na área do projeto. e com dinâmica adequada à velocidade de construção da obra.

Francisco Andriolo e Ademar Sonoda (todos da Itaipu) 324 . anexo. escolas. Figura 14 .5 acima. o Protocolo sobre Relações de Trabalho e Previdência Social. dos empreiteiros e subem­ preiteiros de obras e locadores e sublocadores de serviços. em ambas as margens. hospitais. é também assinado. Execução das obras civis As obras tiveram início em janeiro de 1975. as conhecidas CIPAs. Infraestrutura de apoio Foram implantadas obras de infraestrutura destinadas a abrigar e dar assistência aos trabalhadores brasileiros e paraguaios das várias empresas contratadas para executar as obras e serviços. 5. em maio do mesmo ano. XX e XXI Para tanto. Logo depois. redes de serviços de eletricidade. Ronan Rodrigues da Silva (Diretor de Construção da Unicon). aos trabalhadores contratados pela Itaipu. Essas obra incluíram conjuntos habitacionais. esgoto e comunicação. centros comunitários. o Protocolo Adicional so­ bre Relações do Trabalho e Previdência Social relativo aos contratos de trabalho dos trabalhadores. em matéria do direito de trabalho e previdência social.02.1974. em que também é previsto a constituição de comissões de prevenção de acidentes de trabalho. água. foi assinado pelo Brasil e pelo Paraguai. Na mesma linha. uma vez que as cidades de Foz do Iguaçu e Puerto Stroessner. consta a relação dos consórcios e empresas que as executaram. creches. materiais e equipamentos. e estradas pavimentadas permanentes para garantir o transporte de pessoal. As obras do desvio têm como elementos 5. Foi também melhorada e expandida a rede viária existente para integrar as instalações do projeto com as cidades da área e organizados serviços de coleta de lixo.A História das Barragens no Brasil . segurança física e de assistência social aos trabalhadores e suas famílias. como mencionado no item 5. não dispunham de condições de absorver os contingentes humanos que a elas afluiriam em breve.1974. O desvio do rio Paraná se deu em quatro etapas. em 11. à época. em 10. Da esquerda para a direita: José Augusto Braga (Itaipu).09. começaram as obras civis propriamente ditas. No Quadro VI. clubes e áreas de lazer.Ultima inspeção das adufas e do canal antes do desvio do rio Paraná em outubro de 1978. iniciando-se em outubro de 1975 pela escavação do canal de desvio e terminando em julho de 1979 com o esgotamento da área de trabalho entre as ensecadeiras principais. com a constru­ ção do canteiro e da infraestrutura.8. estabelecendo as normas jurídicas aplicáveis.Séculos XIX. Roberto Monteiro.7. as matérias relativas a higiene e a segurança do trabalho são objeto de acordo complementar ao Protocolo. independentemente de sua nacionalidade. Por sua impor­ tância e complexidade. que foram concluídas em 1991.

Uma das fases mais importantes e críticas foi o fechamento do rio Paraná e seu desvio para o canal e a estrutura de desvio. A barragem de enrocamento da margem esquerda (1. construtivos principais o canal de desvio. Foram então executados a estrutu­ ra da crista.10.294 m) e na margem direita (872 m). gerando imagens que ficaram famosas devido à ampla divulgação do fato na mídia) e as ensecadeiras principais de montante e de jusante no rio. observar seu desempenho hidráulico e seu desempenho estrutural e os processos erosivos de jusante.1982. O vertedouro.Consultores Klaus John (à esquerda). com capacidade de evacuar 62. A experiência de operar a contento o vertedouro durante muitos anos atestou sua absoluta confiabilidade para extravasar as descargas necessárias.984 m de com­ primento) e as barragens de terra existentes na margem esquerda (2. e que depois receberam as respecti­ vas comportas e equipamentos associados. com o enchimento do reservatório. requereram em suas extremidades zonas de transi­ ção para contato entre si e dispositivos de abraço para contato com as estruturas de concreto (barragem de contrafortes e vertedouro). que são os principais componentes que formam a geometria dessas estruturas. 325 . as ensecadeiras auxiliares em arco de montante e de jusan­ te no canal de desvio (demolidas a fogo posteriormente. foi possível operar o vertedouro. que compõem o arranjo geral da Itaipu. Atenção es­ pecial foi dada às comportas de desvio e seu fechamento. evento que marca o início do enchimento do reservatório de Itaipu. testes de funcionamento e seu fechamento final que aconteceu em 13. sendo reali­ zados ensaios e estudos em modelo hidráulico necessários ao projeto e fabricação de seus componentes.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 15 . A partir de 1982. o túnel rodoviário. os muros. localizado na margem direita do rio Paraná. testes nos trampolins e análises dos efeitos erosivos a jusante. As comportas de desvio foram posteriormente recuperadas e recondicionadas para uso como comportas de tomada d´água. teve seu arranjo final precedido de ensaios em mo­ delo hidráulico em escala 1:100. as calhas. os trampolins e as galerias. Don Deere e Arthur Casagrande – outubro de 1978. a estrutura de controle do desvio.200 m3/s por meio de três calhas com trampolim. que exigiram os cuidados executivos de costume para terraplenos com essa tipologia.

Enquanto eram executadas as escavações para as fundações. O desempenho da barragem durante a fase de construção e o enchimento do reservatório foram avaliados pela instrumenta­ ção de monitoramento instalada nas estruturas e suas fundações.Séculos XIX. Essas obras civis envolveram colossais quantidades: mais de 23 mi­ lhões de metros cúbicos de escavação em terra.5 milhões de metros 326 . e feitas as injeções.Consultores Charles Blanchet (à esquerda).Paul Joachim Folberth (à esquerda) e Gurmukh Sarkaria (ambos da IECO-ELC) – abril de 1979 A parte central da hidroelétrica.A História das Barragens no Brasil . quase 32 milhões de metros cúbicos de escavação em rocha.Maquete da escavação da barragem de Itaipu . que aloja a casa de força e. Essa atividade de auscultação da barragem continua na fase atu­ al de operação e inclui a avaliação do comportamento estrutural. foi dotada de uma barragem de concreto de gravidade aliviada. enquanto o longo segmento em curva que liga a barragem ao vertedouro na margem direita e a estrutura de desvio na margem esquerda foram dotados de barragens de concreto de contrafortes. foram se erigindo gra­ dualmente as estruturas das tomada d’água e dos demais blocos de concreto. sobre esta. tratamentos e construção de chavetas sob o leito do rio. Arthur Casagrande e Gurmukh Sarkaria (IECO-ELC) no canal de desvio – outubro de 1978 Figura 17 . 6. o Edifício da Produção. hidráulico e térmico das barragens pelos resultados da instrumentação. XX e XXI Figura 16 . em grande volume. associada às inspeções dos engenheiros e técnicos da Itaipu.

até hoje não 327 . não identificado.5 milhões de toneladas de peso. Fernão Paes de Barros (Itaipu). O objetivo é monitorar a even­ tual ocorrência de sismos induzidos pelo reservatório. foram selecionados levando em conta altura.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens cúbicos de argila compactada e 15 milhões de metros cúbicos de enrocamento. José Antônio Rosso (Itaipu). assegurando assim a observação direta das estruturas e fundações e dos próprios instrumentos. Engenheiro Gurmukh Singh Sarkaria (Coordenador Geral IECO-ELC). É importante salientar a decidida atuação do Engenheiro Rubens Vianna de An­ drade. 5. tipo. representatividade de um trecho e peculiaridades da fundação. posição.Milão). pois a leitura manual obriga os técnicos a visitar roti­ neiramente toda a barragem. A partir da esquerda: Adão K. Dillo Rocha (Engevix) – outubro de 1982. A auscultação da barragem e a junta de consultores civis O projeto de auscultação da represa de Itaipu busca a garantia da segurança da barragem. o que consumiu mais 2. em vez da leitura centralizada e automática. Os blocos mais instrumentados. Libero Medaglia (IECO-ELC). Giacomo Re (Themag). não identificado.5 milhões de toneladas de cimento e 481 mil toneladas de aço. denomi­ nados blocos-chave. 12.6 milhões de metros cúbicos de concreto com 31. nessa complexa etapa do projeto. Existe também uma rede de sismômetros que cobre a área da bar­ ragem e do reservatório de Itaipu. Ricardo Abrahão (Promon). (motorista IECO-ELC). Figura 18 . Hilário Da Fré (motorista IECO-ELC). Michael Sucharov (Engevix). Superintendente de Obras.Enchimento do reservatório. No projeto original de Itaipu foi adotado o critério da leitura manual da instrumentação.9. Alessandro Gallico (Engenheiro Chefe da ELC .

mais uma vez triunfou. 5. exigiram mais um tour de force da área diplomática. para as três Partes. Brasil e Paraguai avocavam direitos de uso das águas do rio. levantamentos e pré-análises técnicas.Séculos XIX. tendo participado dos trabalhos de engenharia desde o início do projeto. Por outro lado. a natureza do assunto o insere ainda como última providência do período preparatório. mobilizou-se para assegurar uma regulação do fluxo que não prejudicasse seus direitos e interesses sobre as águas do rio Paraná. Deve-se destacar a presença no Projeto Itaipu desses renomados engenheiros. XX e XXI registrados. atualmente se reúne a cada qua­ tro anos aproximadamente para verificar o desempenho das estruturas civis da Itaipu. Ao término de cada reunião é elaborado um relatório técnico sobre a segurança da barragem e seus temas correlatos. na manutenção da viabilidade da navegação e do abastecimen­ to de água. Entre estes men­ cionamos: do Brasil. que se reunia com frequência maior durante a fase de estudos e projetos e iní­ cio da construção das obras. A Junta realiza inspeções técnicas e analisa os dados da auscultação para aferir as condições de uso e segurança da usina. a efetiva convergência de interesses e a obtenção de benefícios recíprocos. As questões estavam centradas no estabeleci­ mento de um nível de água de operação de Itaipu que permitisse a viabilidade do futuro aproveitamento hidroelétrico argentinoparaguaio de Corpus.10. Os argumentos se contrapunham ao ponto de o assunto ter sido debatido inclusive durante a Assembléia Geral da ONU realizada em 1972. Se necessário. Essa Junta de consultores. conforme citado no Quadro IV do item 5. Alguns desses profissionais são colaboradores de longa data da Itaipu.A História das Barragens no Brasil .3. em cujos traba­ lhos participaram trinta consultores. ciente das expressivas dimensões da barragem de Itaipu e de sua capacidade de armazenamento e de contro­ le dos caudais. Marcos Antonio Daniel Damus e Roberto Ramón Acosta Alvarez. bem como na adoção de medidas de segurança e de preservação ambiental. Corrado Piasentin. os consultores recomendam eventuais ações de melhoria e correção. A Junta realizou 20 reuniões entre 1975 e 2010. sem dúvida os mais qualificados para exercer a gestão técnica do empreendimento. Nascia desse modo o Acordo sobre Cooperação Técnico-Opera­ tiva entre os Aproveitamentos de Itaipu e Corpus. João Francisco Al­ ves da Silveira. As reuniões da Junta são precedidas de acurados preparativos. As negociações. em que “As deliberações (do Acordo) caracterizam-se por um espírito de boa vizinhança e de cooperação na busca de uma solução que representasse. que não foram isentas de momentos tensos. de Souza Pinto (2010). para satisfação de todos os interessados. que consideravam igualmente legítimos e pertinentes.1979 pela Argentina. passando depois pelas fases de construção. 328 . Sarkaria (1995 a 2006) e Nelson L. Gurmukh S. Os equipamentos são capazes de registrar terremotos que ocorrem inclusive em regiões distantes.10. Isso se deu em boa parte graças ao hábil uso pelos diplomatas dos elementos fornecidos pelo meio técnico que possibilitaram o alcance de entendimentos operativos que vieram a pacificar a questão. montagem e operação da usina. feitas por consultores especialistas que acompanham por anos o cotidiano da aus­ cultação da barragem e apóiam as equipes técnicas da Itaipu.”. como a Cordilheira dos Andes e as Filipinas. Michael Maxwell Dayan Dermont Sucharov. a ser erigido logo a jusante de Itaipu. pelo Brasil e pelo Paraguai. celebrado em 19. O Acordo Tripartite A Argentina. a Itaipu mantém um painel permanente de consultores inter­ nacionais especialistas em engenharia de barragens. que. conhecidos in­ ternacionalmente. e do Paraguai. também chamado de “Junta de Consultores Civis” ou “Board de Con­ sultores Civis”. Foram presidentes da Junta Flavio H. Embora nessa oportunidade a obra de Itaipu já estivesse em andamento. Criado em 1974. Lyra (1974 a 1992).

com elevado grau de regu­ larização. dentro de um espírito de cooperação entre os países do Cone-Sul da América do Sul.11. que antes comportava inte­ gralmente o veloz rio Paraná.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 19 . Formou-se desse modo um lago artificial de expressivas dimensões: 170 km de comprimento. que enfim transborda da calha do rio. foi antecedido de uma série de preparativos.350 km2 (780 km2 no Brasil e 570 km2 no Paraguai). no prazo de 15 dias. a montante e a jusante da barragem. em pé). A formação do reservatório Conforme mencionado. em direção ao Paraguai e à Argentina. situa-se na porção mais a jusante do rio Paraná ainda em território brasileiro. O rio Paraná. Cabe salientar que a existência desses reservatórios faz com que o rio Paraná saia do Brasil. A cessão desse benefício é feita pelo Brasil sem ônus para a Argentina e para o Paraguai. invade e se espraia com rapidez nas adjacências mais altas e mais planas. sendo por isso o último de um conjunto de 47 reservatórios de usinas com potência maior que 30 MW existentes na Região Hi­ drográfica do Paraná. Esse lago. que drenam os cursos de água de uma vasta área com mais de 820 mil quilômetros quadrados a montan­ te de Itaipu.1979 – Chanceleres Alberto Nogués (Paraguai. 5. fundamentais para que a operação fosse bem-sucedida. passou da cota 109 me­ tros para a cota 205. compartilhado pelo Brasil e pelo Paraguai. tal como ocorreu.Assinatura do Acordo Tri-Partite Argentina-Brasil-Paraguai em 19. justamente por Itaipu. da mais alta importância para todo o projeto. O cânion. passa a ser insuficiente para a água que se acumula. em 13 de outubro de 1982 as comportas de desvio foram completamente fechadas e teve início o enchimento do reservatório de Itaipu. elevandose em quase 100 metros . 329 . que se deu em três etapas. capaz de armazenar 29 bilhões de metros cúbicos de água. profundidade máxima de 180 m e su­ perfície de 1. Carlos Washington Pastor (Argentina) e Ramiro Saraiva Guerreiro (Brasil).80 metros (acima do nível do mar).10. então. Esse evento.

O plano também estipula os procedimentos de gestão dos usos múltiplos pela Itaipu e a coordenação dessa com as autoridades das diversas esferas de governo. principalmente na mar­ gem brasileira. Esse estu­ do categorizou os possíveis efeitos físicos. a aqui­ cultura (tanques-rede e canal de migração e desova – Canal da Piracema) e a recuperação e paisagismo da área de construção da obra. O plano definiu então os usos múltiplos do reservatório. que serão apresentados na sequência. que já havia alterado significativamente o meio ambiente local. Robert Goodland e por especialistas da própria IECO-ELC. A medição desses parâmetros tem indicado que. a constru­ ção de Itaipu inevitavelmente interviria no ambiente natural. Cabe men­ cionar a participação do Engenheiro Arnaldo Carlos Muller na liderança desses trabalhos. ao meio ambiente biológico (levantamento florestal. pesca. é claro. turismo e lazer. limpeza da área do reservatório. foi criada a Diretoria de Coordenação. Os levantamentos previstos se deram então quanto ao meio am­ biente físico (qualidade da água. entre cujas atribuições está a de ser responsável “pelos serviços relacionados com a preservação das condições ambientais na área do reservatório”. a elaboração de um plano-mestre para utili­ zação da área do reservatório e a aplicação de medidas de prote­ ção ambiental. o qual posteriormente publicou o livro “Hidroelétricas.Séculos XIX.A História das Barragens no Brasil . tendo o relató­ rio referente a esse último item sido elaborado pelos consultores James Albert Harder e Hans Albert Einstein). a implantação de reservas e refúgios (em um total de oito no Brasil e no Paraguai). Isso foi percebido pelos projetistas que. tiveram reflexo inclusive na estrutura organizacional da Itaipu. na agricultura e na pecuária. 5. foi elaborado o “Plano Básico de Conservação do Meio Ambiente”. da geração de energia elétrica: nave­ gação. em 1973. As informações e os resultados obtidos com os levantamentos realizados mostraram quais seriam as várias utilizações possíveis do reservatório.C. XX e XXI Afora os aspectos ambientais relacionados à formação do lago de Itaipu. além. As medidas de proteção e valorização do meio ambiente envolveram a proteção das florestas existentes e reflorestamento (que nos dias atuais contabiliza 44 milhões de árvores plantadas). abastecimento de água para consumo doméstico e irrigação. o resgate de animais (operação Mymba Kuera – pega-bicho). Definiu também um zoneamento territorial do reservatório: (1) zona do reservatório e (2) zona do litoral (onde se encontra a área de proteção do reservatório): setores especiais. conforme estabelecido no Anexo A do Tratado. 330 . setores de lazer e setores de integração urbana. meio ambiente e desenvolvimento”. como se previa. pois. que definiu a política ambiental da Itaipu a partir de 1975. projeto em que atuou o arquiteto e paisagista Fernando Magalhães Chacel e que foi executado pelas empresas PARELC – GCAP e Arquitetura Ambiental S. Essas considerações ambientais. Meio ambiente e ecologia Como a maioria dos empreendimentos de grande porte. suas formas de ocupação e usos permitidos. Ltda. se aprofundaram no assunto e apresentaram à Comissão Mista Técnica Brasileiro-Paraguaia estudo elaborado pelo Dr. o pro­ jeto previu também a avaliação do desempenho geofísico do reservatório no que se refere a recalques da crosta terrestre devido ao peso da água e à atividade sísmica relacionada ao reservatório (sismo induzido). biológicos e sociais e traçou diretrizes para a proteção e valorização do meio ambiente na área do projeto e nas regiões afetadas.12. levantamento da fauna e levan­ tamento da pesca) e ao meio ambiente social (programas sanitários e de saúde pública e investigações arqueológicas). A possibilidade de adoção de medidas voltadas ao meio ambien­ te deu o tom para toda a ação que se seguiu. algumas delas potencialmente conflitantes entre si. A partir dos estudos de 1973. ainda que naquela época parte da região registrasse importante inter­ venção humana. setores de aproveitamentos múltiplos. Essa avaliação serviu principalmente para definir qual estru­ turação seria mais adequada ao Plano-Mestre de utilização da área do reservatório. não ocorrem fenômenos geofísicos que afetem adversamente a segurança e a estabilidade das estruturas da represa. inusuais à época. e prescreveu a realização de levantamento ambiental na área do projeto. efeitos climáticos e transporte de sedimentos.

5. com reflexos socioeconômicos locais. Nelson Farhat (1990-91). Entre os impactos físicos de repercussão social. A Itaipu contribui. houve melhorias e expansão da infra-estrutura nos municípios da área de influência do reservatório. produtivas) nas áreas que seriam inunda­ das pelo lago. Alia-se ao fato da Itaipu ter sido construída na região que abriga as mundialmente famosas Cataratas do Iguaçu . houve notório incremento da circulação econômica. tanto pelo atendimento da diversidade de suprimentos necessários às diversas frentes das obras.5 mil propriedades (6.Faixa de proteção do reservatório. uma vez que o nível de água do reservatório permanece pratica­ mente inalterado ao longo do tempo. Nos dois municípios foram construídas 10 mil casas nas áreas residenciais. estendendo-se também às localidades próximas ao lago. Tais áreas requeridas pelo projeto perfaziam em torno de mil qui­ lômetros quadrados no lado brasileiro (ver item 5.e por isso forte­ mente turística -. esgoto e demais equipamentos urbanos. proporcionando assim um uso regular de sua linha costeira para atividade de turismo e lazer. Foram Diretores de Coordenação brasileiros da Itaipu. Desenvolvimento regional e turismo No que se refere ao desenvolvimento econômico e social da re­ gião com a implementação do Projeto Itaipu. da submersão de equipamentos urbanos e de construções lo­ cais de valor cultural ou afetivo. a tal ponto de ter sido visitada por cerca de 16 milhões de pessoas de 1977 a 2010. com vias pavimentadas.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens principalmente em Foz do Iguaçu e em Ciudad del Este (anti­ ga Puerto Stroessner). ele­ tricidade. por­ tanto. com uma média histórica por volta de meio milhão de pessoas por ano. Esses valores possibilitaram que os deslocados comprassem em média uma metade a mais em relação às terras que possuíam antes. Desde 2003. Márcio de Almeida Abreu (1994-95). Luiz Eduardo Veiga Lopes (1985-90). cuja compensação paga pela Itaipu foi equivalente a US$ 190 milhões. verifica-se que.9 mil rurais e 1. e a grande maioria deles permaneceu nas proximidades da área do projeto. Brasílio de Araújo Neto (1995-97). o que exigiu que outros 390 km fossem reabertos com novo traçado. onde exis­ tiam 8. Antonio José Correia Ribas (2000-2002) e Olivo Zanella (2002). cuja densidade demográfica era de 35 habitantes/km2. responsá­ veis pelos serviços relacionados com a preservação das condições ambientais na área do reservatório e à execução de projetos e obras fora da área das instalações destinadas à produção de energia elétrica: Cássio de Paula Freitas (1974-85). Além da perda das áreas cultiváveis (a maior parte no Brasil).13. para a maior permanência de turistas na região da fronteira trinacional Argentina-Brasil-Paraguai. o que coopera também para o processo de desenvolvimen­ to da região. José Luiz Dias (1997-2000). o cargo é ocupado por Nelton Miguel Friedrich. com balneários e marinas.1). A atividade turística. a grande atratividade que a represa exerce sobre os turistas. Figura 20 . foram também submersos 577 km de estradas. próximas a elas.6 mil urbanas). ou seja. no entanto. o que de­ senvolveu o comércio e a prestação de serviços locais. 331 . Tércio Alves de Albuquerque (1991). água. Nessas cidades e em outras. como pelo consumo de bens e serviços proporcionados pelos milhares de trabalhadores que recebiam salários e benefícios de seus empregadores vinculados ao projeto. talvez o mais im­ portante tenha sido a necessidade de reassentamento de pessoas que residiam ou tinham suas posses ou desenvolviam suas atividades (majoritariamente agrícolas. além do aumento populacional. não se limita ao sítio da usina.

alguns dias depois. também anexos. Desse modo. localizada na extremidade direita da Casa de Força. supervisão e proteção. os condu­ tos forçados e os equipamentos na barragem de concreto. No caso de Itaipu.A História das Barragens no Brasil . ao passo que foram também sendo instalados os sistemas de controle. ela passou a transmitir energia em caráter experimental para São Paulo. boa parte das peças eletromecânicas provém de centros industriais ou do exterior. As obras de montagem eletromecânica foram iniciadas em 1980 e concluídas em 1991. esses portos eram bastante afastados da região das obras. contêm as relações dos consórcios e empresas que fizeram respectivamente o controle de qualidade e inspeção e exe­ cutaram a montagem propriamente dita dos equipamentos. por meio das subestações construídas na margem brasileira e na margem paraguaia. no setor de 50 Hz. contém a relação dos consórcios e empresas fabricantes. pertencente a empresa Furnas Centrais Elétricas S. Foi um importante marco na história do empreendimento. utilizando o sistema de corrente contínua (HVDC – High Voltage Direct Current).14..Entra em operação a primeira unidade geradora em 05. pondo em funciona­ mento a primeira de suas 18 unidades geradoras contratadas à época. Foram também montadas as linhas de transmissão que conectam a usina ao sistema elétrico interligado. e. 332 . deu-se continuidade à montagem dos equipamentos de geração da casa de força e dos equipamen­ tos e sistemas auxiliares desta. A montagem eletromecânica À medida que obras civis foram avançando. à direita). em 17 de dezembro de 1983 ocorre o primeiro giro mecânico da turbina da unidade geradora U1. anexo. O Quadro VIII e o Quadro IX. A usina alcançava desse modo autonomia parcial. e os segmentos da construção foram sendo liberados. o que exigia transportes de longa distância em veículos especiais. Figura 21 . XX e XXI 5.A. Esses trabalhos contaram com a experiente atuação do engenheiro José Gelazio da Rocha. sincronizada com a rede da ANDE. em 5 de maio de 1984. Logo depois. de acordo com o cronograma geral. O Quadro VII.Séculos XIX. 5. Obede­ cendo-se os delays programados. Funciona a primeira unidade geradora Cumprindo o cronograma de montagem.1984 – Congratulações dos Diretores-Gerais José Costa Cavalcanti (Brasil) e Enzo Debernardi (Paraguai. foi iniciada sua operação efetiva. foram também iniciadas as montagens eletromecânicas. passando por portos marítimos.15. Superintendente de Engenharia da Itaipu em 1974. acarretando para a Itaipu dispêndios em obras de acon­ dicionamento de rodovias e de pontes no Brasil para a passagem dessas cargas de grandes dimensões e peso.05. Conforme é característico dessa fase da construção de uma hidro­ elétrica. foram então montadas as tomadas de água.

Foi. porém. Desse modo. passando a hidroelétrica a contar en­ tão com 20 unidades geradoras. em face do novo vínculo emprega­ tício.5 acima. e US$ 14.1.1. que passou a adminis­ trar o Hospital Ministro Costa Cavalcanti. muitos deles vindos de outras empresas do setor elétrico. Nessa linha foi também criada em 1994 no Brasil a Fundação de Saúde Itaiguapy. o que resu­ me o histórico do endividamento da Itaipu. anexo. assim. assim. A exemplo dessas empresas. 6. Desse montante. portanto. Nesse sentido.2 bilhões correspondem aos investimentos diretos. a Itaipu começou o processo de mobilização da força de trabalho necessária para a futura ope­ ração e manutenção da usina. montantes da ordem de US$ 26. em 25 de outubro de 1984 foram então oficialmente inauguradas as unidades geradoras U1 e U2.1. ambas em 50 Hz. foram captados.8 bilhões ao pagamento dos encargos e rolagem da dívida durante a construção. sem fins lu­ crativos. foram também montadas as unidades U9A e U18A.9 bilhões.1. que via­ bilizaram a obra. alcançando. é enfim inaugurada a uni­ dade geradora U18. gradualmente constituído o quadro de trabalhadores per manentes da usina. O ápice da participação da Itaipu Binacional no mercado brasilei­ ro foi então alcançado em 1997. Custo direto de Itaipu De acordo com o item 4. para atender aos empregados do quadro permanente da Entidade binacional. 6. entregues ao sistema interligado. O Quadro X.600 megawatts (MW) que consta no Anexo B. Mantido o ritmo de montagem de duas a três unidades por ano. de 2000 a 2007. sete anos da entrada em operação das duas primeiras unidades.000 megawatts (MW). com o atendimento de 26% da demanda do setor elétrico do país.2. US$ 12. Operação da usina e desenvolvimento organizacional 6. mostra a relação dos consórcios e empresas que executaram a instalação das unidades de reserva. cuja descrição será apresentada adiante. fase que exigiria competências e relações de trabalhos diferentes das aplicáveis aos trabalhado­ res que atuaram durante o tempo que durou a construção e a montagem. sua potência máxima de 14. ativando assim a contabilidade dos suprimentos de ele­ tricidade da Itaipu às entidades compradoras Eletrobras e ANDE. a Itaipu instituiu a Fundação Itaipu-BR de Previdência e Assistência Social. utilizando as receitas a serem geradas com a própria produção da usina.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens 6. em 6 de maio de 1991. foi então iniciada a comercializa­ ção da energia produzida pelas duas primeiras unidades geradoras (U1 e U2). os governos do Brasil e do Paraguai resolveram realizar a obra mediante a obtenção de emprés­ timos a serem pagos a longo prazo. última das 18 unidades previstas do conjunto gerador principal com 12. decorridos. Posteriormente. ainda em 1984 foram produzidos por Itaipu 277 gigawatts-hora (GWh) de energia. Antes. que seria de longa duração. por volta de 1982. totalizam a cifra de US$ 27 bi­ lhões de recursos utilizados no empreendimento. para efeitos de faturamento. O Governo Federal Brasileiro apoiou integralmente o esforço de captação de recur­ sos para o financiamento da construção e o Tesouro Nacional do Brasil ofereceu todas as garantias para os empréstimos. Início da operação comercial da usina A partir de 1 de março de 1985. que somados aos US$ 100 milhões relativos ao capital social inicial. A operação da usina Decorrido o breve período inicial. uma entidade fechada de previdência privada (fundo de pensão). Na margem paraguaia foram criadas para as mesmas finalidades a Caja Paraguaya de Jubilaciones y Pensiones del Personal de la Itaipu Binacional (Cajubi) e a Fundación de Salud Tesai . 333 . de 1974 a 2008.

de S. proporcionam um aumento da capacidade realizadora dos dois países.Reunião do Board de Consultores Civis em novembro de 2006. em montantes iguais. ao regime hidrológico favorável do rio Paraná e à regularização do fluxo a montante na Região Hidrográfica do Paraná e.600 MW para 14. a usina chinesa dificilmente superará a de Itaipu em geração anual de energia. Gurmukh Sarkaria (Chairman). alcançado seu recorde operativo em 2008 com a produção de 94. que auferem inegáveis benefícios para sua população.4. Vidal Galeano. João Francisco Alves Silveira (consultor especialista) e Carlos Leonardo (Itaipu). Essa excepcional condição fez com que desde 1997 a Itaipu venha gerando em torno de 90 mil gigawatts-hora (GWh) por ano. ao fato de que o projeto de Três Gargantas prioriza o controle de cheias em detrimento da geração de energia.685 gigawatts-hora (GWh) de energia. XX e XXI Figura 22 .A História das Barragens no Brasil . A Itaipu se consagra desse modo. e. questão primordial quando se trata de hidroeletricidade. em valor equivalente a US$ 650 por gigawatt-hora (GWh) gerado e medido na central elétrica.3. Pagamento dos “royalties” e seus benefícios Conforme mencionado. O pagamento dos royalties é então feito às Altas Partes Contratantes.1. o Tratado de Itaipu estabeleceu os royalties em seu Anexo C como mecanismo compensatório pelo uso do potencial hidráulico do rio Paraná no trecho em condomínio entre os dois países. localizada na China. de um lado. Juan Bosio. 6.Séculos XIX. como a maior usina hidroelétrica do mundo em geração de energia. é superada nesse quesito somente pela Usina de Três Gargantas.2 mil megawatts (MW) de potência instalada. atualmente. Nelson L. de outro lado. 334 . devido. Esse efeito pode ser constatado pela elevação verificada no IDH (Índice de Desenvolvimento Humano do PNUD .000 MW de capacidade. Mas. A partir da esquerda: Victor de Souza Lima.1. 6. que possui 18. Os valores transferidos a título de Royalties entre 1991 e 2010 ao Brasil e ao Paraguai. principalmente por parte dos municípios da região impactada. acrescido do respectivo fator de ajuste. Paulo Teixeira da Cruz. que alcançaram a casa dos US$ 7 bilhões. na assessoria aos consultores.Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) de vários municípios da região. Pinto. que passa então de 12. Recorde operativo e comparações A Usina de Itaipu. sendo contabilizado no custo anual do serviço de eletricidade prestado pela Itaipu.

porém. 335 . Esses dois ambientes perma­ neceram originalmente incomunicáveis entre si. Essa limitação.03. Cabe registrar que. que é uma vereda pela 6. não prevendo sua expansão para outros negócios. na crise de abastecimento de energia elétrica vi­ vida pelo Brasil em 2001 . que as iniciativas no campo da responsabilidade social e ambiental devem inserir-se como componente permanente na atividade de geração de energia. no lago. a partir do início da operação da usina. e outro a jusante.. pelas quais o Brasil e o Paraguai defi­ nem “. Tal fenômeno. na restituição do fluxo de água no leito do rio Paraná. não impede o desenvolvimento endógeno da Itaipu como organização empresarial. todavia.2005. já antes da construção da usina.1. Isso é sobremaneira reforçado pelas Notas Reversais sobre Responsabilidade Social e Ambiental. conseguindo desse modo mitigar sobre­ maneira os efeitos da redução da oferta de energia no sistema interligado brasileiro naquele momento crítico. assinadas em 31. com águas calmas.2002. decorrente da escassez de chuvas naquele período e conseqüente dificuldade de reposição da água armazenada nos reservatórios da maior parte das hidroelétricas do País. praticamente também ocorria na região de Guaíra.2007 – Presidentes Luis Inácio Lula da Silva (Brasil) e Nicanor Duarte Frutos (Paraguai).. conforme será percebido pelas ações mostradas cronologicamente na seqüência. a montante. novo. um. O canal de transposição de peixes Em termos de ictiofauna.Inauguração das duas últimas unidades geradoras em 17. sob determinados parâmetros e normas. acompanhados dos respectivos Diretores-Gerais da Itaipu Jorge Miguel Samek e Victor Luis Bernal Garay.2. da ordem de 80 milhões de megawattshora (MWh) por ano. 6. com mais intensidade durante os períodos secos do rio Paraná.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 23 .. mantendo ele­ vados níveis de produção.2. Itaipu pôde deplecionar seu reservatório.. A Itaipu se desenvolve organizacionalmente O Tratado de Itaipu define como propósito específico da Enti­ dade Binacional construir e operar unicamente a hidroelétrica de Itaipu. qual a Entidade tem experimentado significativo êxito.05.” . a construção da barragem sobre o rio criou dois ambientes bastante distintos.

John Gummer. Pinto (Chairman). Essa decisão foi precedida do estudo denominado “A ictiofauna de ocorrência do rio Bela Vista”.5 km a jusante da usina. complexo. resultou apreciável acúmulo de conhecimento por parte dos profissionais e da organização. e retornem no outono e inverno (migrações ascendente e descendente). Assim. logo depois. hoje e no futuro e pode ser útil ao meio externo à Itaipu. Giuseppe Stevanella. mesmo nas épocas de estiagem. os consultores em túnel de drenagem. no Brasil e no Paraguai. como um espaço para a integração educacional. enunciado mais amplo à Missão da Entidade. inserindo nela. foi projetado e construído pela Itaipu o Canal da Piracema. No Canal da Piracema são também praticados esportes náuticos. tecnológica e cultural da América Latina. O Canal foi inaugurado em 2002. Ruben Brasa Soto (Diretor Técnico de Itaipu) e João Francisco Alves Silveira (consultor especialista da assessoria ao Board). cuja foz se localiza na margem esquerda do rio Paraná. a Itaipu encerrou suas obras principais da usina. em parte artificial e em parte regularizando o rio Bela Vista. como canoagem de rafting e slalom. idéia que surgiu depois de muitas discussões. Antonio Otelo Cardoso (Diretor Técnico Executivo da Itaipu).A História das Barragens no Brasil . XX e XXI Por isso. O parque tecnológico Itaipu Ao por em operação suas duas últimas unidades geradoras. 6. As competições ali realizadas também contribuem para o desenvolvimento do turismo regional. firmadas em 2003. A partir daí foi implantado em 2003 o Parque Tecnológico Itaipu. construídas para essa finalidade. 2. portanto. na foto da direita. a desempenhar um papel importante para a conservação da biodiversidade. Paulo Teixeira da Cruz.Reunião do Board de Consultores Civis em novembro de 2010 – foto da esquerda (a partir da esquerda). O Canal da Piracema permite então que os peixes migradores cheguem às áreas de reprodução e berçários acima da usina no período da piracema (migração reprodutiva). Vidal Galeano. entre outros aspectos.2. mediante acordo deste com a Itaipu. inclusive na região de Guaíra. em corredeiras especialmente Figuras 24 e 25 . cuja reutilização é indispensável ao adequado funcionamento da empresa. o PTI. o necessário impulso ao desenvolvimento tecnológico sustentável no Brasil e no Paraguai. Desse processo. de S.Séculos XIX. a administração da Itaipu deu. Com essas concepções. embora sua execução tenha sido iniciada em 1997 pelo Governo do Estado do Paraná. Nelson L. Selmo Kuperman. 336 .2. A comunicação estabelecida finalmente entre o lago e o rio passa. hoje é livre a migração de peixes de jusante para montante e vice-versa. com 10 km de extensão.

com qua­ lidade. que se constitui em um espaço técnico-científico implantado pela Universidade Corporativa Itaipu. até a foz do rio Iguaçu.600 parceiros. O objetivo do CEASB é estudar. em 05. atuam nos programas e ações que estão sendo de­ senvolvidos. a Itaipu. Em decorrência desse conceito. que consiste em uma das 16 bacias hidrográficas instituídas oficialmente no Estado do Paraná. ONGs. no Brasil e no Paraguai”. entre prefei­ turas. para que ela se mantenha abundante. nele explicitando aquelas ini­ ciativas que já vinha conduzindo. 337 . doutores. Trata-se. próprias de qualquer empresa contemporânea. correlacionar me­ dições com as prováveis causas e desenvolver técnicas de inteligência computacional relacionadas ao comportamento e segurança de barragens. em que a Itaipu. portanto.2003 aprovou a revisão de seu planejamento estratégico. de viver. que se justifica a existên­ cia de Itaipu. que era a reprodução do objeto do caput do Tratado de Itaipu. os comporta­ mentos das estruturas de barragens e seus respectivos materiais. hoje e sempre.4. com o propósito final de dedicar cuidados extremos à água de que dispomos. entre outros. após reflexões feitas por parte de sua Direção.que tiveram áreas inundadas pelo  reservatório da usina. além dos comitês específicos dos programas transver­ sais. pós-doutores e profissionais de notório saber. moldando-se assim uma nova maneira de operar a 6. ao turis­ mo (em 2007 foi repassada à Fundação PTI a exploração do Complexo Turístico Itaipu.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens O PTI se dedica. o que passou a exigir determinados resultados empresariais antes não requeridos ou requeridos de for­ ma diferente. Desse modo. foi então criado o Programa Cultivando Água Boa (CAB). Os membros do Comitê Gestor se reúnem periodicamente para dialogar sobre o an­ damento das ações do CAB no município.09. cooperativas. desde e inclusive o Salto Grande de Sete Quedas. o CAB conta com mais de 1. pela Universida­ de Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste) e por instituições parceiras. de um movimento de participação permanente. que organizados em Comitês Gestores em cada um dos 29 municípios. à pesquisa. com responsabilidade social e ambiental.”. trabalha com a sociedade para mudar os seus valores e sua maneira de se conduzir.3. para “Gerar energia elétrica de qualidade. a área de influência de atuação direta de Itaipu deslocou-se dos 16 mu­ nicípios conhecidos como lindeiros . proporcionando desse modo uma fonte de receitas que ajuda no financiamento de suas atividades) e ao empreendedorismo. O CAB define como território de atuação a unidade de planejamen­ to da natureza: a bacia hidrográfica. produtores rurais. a organização exterioriza para as sociedades de Brasil e Paraguai valores convergentes com uma governança corporativa atualizada. de especial interesse para a engenharia de barragens. principalmente relacionadas às pequenas propriedades. representantes da sociedade civil organizada e outros. O CEASB conta com alunos de graduação. 6. de produzir e de consumir. Nas atividades de pesquisa conta com o CEASB – Centro de Estudos Avançados em Segurança de Bar­ ragens. A Missão ampliada da Itaipu e seus reflexos Conforme citado nos itens anteriores. associações de classe. pelo PTI. do Po­ der Judiciário e dos órgãos ambientais para ajudarem a encaminhar soluções. Essa Missão ampliada obrigou o reajustamento das políticas e di­ retrizes fundamentais da Itaipu e influiu diretamente na redefinição de seus objetivos estratégicos. além de mitigar e cor­ rigir passivos ambientais existentes nas comunidades da região.2. O comitê faz também a articulação perante os órgãos públicos do Poder Executivo.2. avaliar resultados das medições efetuadas. ou Salto de Guaíra. na forma de uma Missão ampliada em relação ao enunciado anterior. o que inclui também o CBDB. Atualmente. turístico e tecnológico. órgãos governamentais. na margem brasileira - para os 29 municípios da Bacia Hidrográfica do Paraná 3 (BP3). que permeiam todo o tecido social da BP3. mestres. pertencentes em condomínio aos dois países. sustentável. enfim. O Programa Cultivando Água Boa Considerando-se que é pela água. impulsionando o desenvolvimento econômico. portanto. à educação. A Missão ampliada da Itaipu passa então de: “Aproveitamento hidroelétrico dos recursos hídricos do rio Paraná.

que estabelece também o “. Responsabilidade social e ambiental De acordo com a Missão ampliada da Itaipu. 7.03. quer sob a linha da educação corporativa. próprios de uma atuação empresarial moderna.. com nível de superintendência. em 2003.. a Plataforma Itaipu de Energias Re­ nováveis.”. estão sendo conduzidos o projeto de modernização da usina (atualização tecnológica). de desenvolvimento e inovação e de gestão do conheci­ mento. dentro de um espírito de cordialidade e os laços de fraternal amizade.Séculos XIX.. comentários e adjetivos servem para demonstrar que o Brasil e o Paraguai decidiram construir juntos não só uma hidroelétrica de extragrande porte.. Consoante a Missão ampliada.  Em razão disso. mas uma forma de gestão da empresa na sua inte­ gralidade. a Itaipu. a capacidade de descarga máxima do vertedouro de Itaipu (62. quer sob a de pesquisa. com a cooperação do PTI..2005 o Brasil e o Paraguai trocaram notas diplomáticas reversais. o projeto de software livre. essas comparações. que são considerados estratégicos para a organização porque estão alinhados com objetivos da organização e procuram apresentar os resultados que se pretende obter com o desenvolvimento tecnológico da usina e do seu entorno.. estão os valores maiores do acordo que os cidadãos brasileiros e paraguaios souberam consolidar. Foi a solidez dessa base de entendimento e de união que verdadeiramente permitiu que 6. desenvolvimento . E. com poucas alterações para atender a essas demandas. subjacentes à exatidão dos números e de seus resul­ tados materiais. 338 . A altura da barragem principal (196 metros) equivale à altura de um prédio de 65 andares. XX e XXI empresa. desenvolve alguns projetos. tecnológico . dentre os quais se encontra o próprio PTI. em 1995 classificaram a Itaipu como “uma das sete maravilhas do mundo moderno”.ASCE). mas sim eri­ gir uma das obras de engenharia mais portentosas existentes no planeta. o Brasil teria que queimar 536 mil barris de petróleo por dia para obter em plantas termoelétricas a mesma produção de energia de Itaipu. o projeto do veículo elétrico. Contudo. Esses projetos estratégicos. a ação de gerar energia pressupõe que sua execução se dê com responsabilidade social e ambiental. o volume de escavações de terra e rocha em Itaipu é 8. sob o título “Missão da Itaipu Binacional no campo da responsabilidade socioambiental”. o ferro e aço utilizados permitiriam a construção de 380 Torres Eiffel. mas aproveitando-se sua estrutura organizacional. o fato de ela passar a constar na Missão serve para reiterar a convicção das Altas Partes Contratantes quanto à necessária e contínua assimilação desses valores pela Itaipu. de grandeza obliterante. Com esse ordenamento conceitual. a revista norte-americana Popular Mechanics e a Associação Norte-Americana de Engenheiros Civis (American Society of Civil Engineers .5 vezes superior ao do Eurotúnel no Canal da Mancha. em 31.A História das Barragens no Brasil .2 mil metros cúbicos por segundo) corresponde a 40 vezes a vazão média das Cataratas do Iguaçu.2. Embora essa concepção não seja novidade na Itaipu. Isso reafirma a visão de que a responsabilidade social não é apenas um conjunto de ações. dada à importância do assunto. partem da Universidade Corporativa Itaipu (UCI) para seu de­ senvolvimento. Epílogo Os números de Itaipu suscitam impressionantes comparações: o volume total de concreto utilizado na construção da usina seria suficiente para construir 210 estádios de futebol como o do Maraca­ nã.5. a Itaipu criou a Coordenação dos Progra­ mas de Responsabilidade Social. que a todos tanto impressiona. Nesse sentido. Portanto. e o volume de concreto é 15 vezes maior. o projeto do Centro Internacional de Hidroinformática (junto com a UNESCO) e a Uni­ versidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA). que selam o acordo celebrado pelos dois países quanto à conduta de ambos no campo da responsabilidade socioambiental na Itaipu.

Marco Aurélio Vianna de Escobar. Superintendência de Engenharia e Superintendência de Obras. Joran Alfredo Sachs e ao Centro de Documentação da margem brasileira. na pessoa de seu gerente Jorge Henn. José Ricardo da Silveira. 339 . João Emílio C. que foi fundamental para a concretização do Projeto Itaipu. José Augusto Braga e a Corrado Piasentin (álbum particular). S. Esperamos que esse texto tenha sido útil ao leitor. Ademar Sérgio Fiorini. de Mendonça. todos órgãos da Itaipu. Pela cessão das fotografias: à Assessoria de Comunicação Social. Cláudio Porchetto Neves. Agradecimentos Pelas contribuições ao texto e quadros anexos: a Margaret Mussoi Luchetta Groff. Corrado Piasentin. Flavio Miguez de Mello. principalmente para a com­ preensão desse aspecto sinérgico.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens ambos os países convergissem para o interesse comum de re­ alizar o aproveitamento hidroelétrico.

ITAIPU Binacional 2009.Séculos XIX. 340 .Aspectos de Engenharia”. XX e XXI Continuação da página anterior Fontes: livro “Usina Hidrelétrica de Itaipu . margem brasileira. Centro de Documentação da ITAIPU Binacional.A História das Barragens no Brasil .

margem brasileira.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Fontes: livro “Usina Hidrelétrica de Itaipu . Centro de Documentação da ITAIPU Binacional. 341 . ITAIPU Binacional 2009.Aspectos de Engenharia”.

Aspectos de Engenharia”. ITAIPU Binacional 2009. Centro de Documentação da ITAIPU Binacional. XX e XXI Fontes: livro “Usina Hidrelétrica de Itaipu . Centro de Documentação da ITAIPU Binacional. margem brasileira. margem brasileira. 342 . Fontes: livro “Usina Hidrelétrica de Itaipu Aspectos de Engenharia”.A História das Barragens no Brasil .Séculos XIX. ITAIPU Binacional 2009.

vista aérea 343 . Itaipu . margem brasileira.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Fontes: livro “Usina Hidrelétrica de Itaipu . ITAIPU Binacional 2009. Centro de Documentação da ITAIPU Binacional.Aspectos de Engenharia”.

ITAIPU Binacional 2009. 344 . XX e XXI Fontes: livro “Usina Hidroelétrica de Itaipu Aspectos de Engenharia”.Séculos XIX.A História das Barragens no Brasil . Centro de Documentação da ITAIPU Binacional. margem brasileira.

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PCH Ivan Botelho III (Triunfo) no rio Pomba em Minas Gerais .

muito mais importante pelo pio­ neirismo e como alavanca do desenvolvimento. A caracterização e definição do conceito de pequenas centrais hidroelétricas – PCHs só foi criado no Brasil nos anos 80 do século XX. além de fornecerem força motriz para bondes nas cidades maiores. algumas poucas indústrias e iluminação pública. a geração de energia elétrica era eminentemente privada. do que os em­ preendimentos dos dias de hoje. o apogeu e. Naquela época. Foi um período notável para o País. o desenvolvimento. As usinas. Para demonstrar a atual importância das PCHs na matriz elétrica brasileira. as pequenas cen­ trais hidroelétricas PCHs são de até 30 MW e são chamadas de “pequenas”. atualmente. Pela definição atual. Quadro 1 – Quadro comparativo UHE x PCH 347 . Neste capítulo são enfocados o nascimento. relaciona a soma das PCHs em operação no Brasil com as grandes hidroelétricas e apresenta o conjunto das PCHs como a terceira maior fonte geradora de energia hidráulica nacional. a crise das pequenas centrais hidroelétricas. com mais de 10 anos de história na defesa das PCHs. Entre 1901 e 1910 foram construídas em todo o Brasil setenta e sete usinas hidroelétricas. literalmente. mas com características. operando hidroelétricas de pequeno ou médio portes. complexidades e tecnologia que orgulham a engenharia nacional e são referência internacional. antes denominada APM­ PE – Associação Brasileira dos Pequenos e Médios Produtores de Energia. as usinas eram de potências modestas porque alimentavam pequenas cidades. Foram. Naquela época. No início do século passado as usinas hidroelétricas eram referidas como “pujantes e estru­ turantes”.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens As Pequenas Centrais Hidroelétricas no Brasil Ricardo Nino Machado Pigatto Introdução As pequenas centrais hidroelétricas sempre fizeram parte da his­ tória do Brasil no que diz respeito à geração de energia elétrica. O desenvolvimento do país sempre esteve ligado diretamente à expansão da geração de energia. um quadro elaborado pela ABRAGEL – Associação Brasileira de Geração de Energia Limpa. Até 1930 mais de mil diferentes empre­ sas de geração e distribuição de energia elétrica estavam ativas. com raras exceções. a força motriz do Brasil no final do século XIX e no início do século XX.000 kW instalados. ultrapassa­ vam 1.

até 10. infelizmente. estavam em andamento. após a criação da ANEEL (1996). foi criado o conceito de produtor independente de energia elétrica. sem licitação. foi descortinado. como para auto­ produtores de energia APEs de usinas hidrelétricas com potên­ cia igual ou maior que 1. a industrializa­ ção do País exigia maior expansão da geração e o braço forte estatal migrou dos pequenos aproveitamentos para as grandes hidroelétricas. Para haver um fluxo financeiro previsível era necessária receita previsível e não sujeita a sazonalidades ou a variáveis climáticas. permaneceram ativas. Mesmo que tenha havido um programa de pequenas centrais nos anos 1980’s. Neste período muitos dos pequenos aproveita­ mentos foram caindo no ostracismo e. mas faltava o essencial: o comprador da energia. O desenvolvimento das PCHs Em 1998 também foi criado o MAE – Mercado Atacadista de Energia. Passou a ser atri­ buição da ANEEL conceder outorgas de autorização. cinquenta e sessenta. Algumas poucas usinas. Em suma. por serem também novos assuntos tratados no âmbito dos órgãos li­ cenciadores.A História das Barragens no Brasil . Um novo horizonte para o desenvolvimento de profissionais nas áreas de engenharia. meio-ambiente.Séculos XIX. Em 1998. aquele que poderia escolher seu fornecedor de energia elétrica. mediante licitação. XX e XXI Nos anos seguintes. Já estava criado o conceito de consumidor livre. Para os aproveitamentos com potên­ cia inferior a 1. não havendo qualquer estímulo para aderir ao novo programa criado.000 kW. posteriormente. Havia um nicho para ser explorado pelas PCHs. Para produtores independentes seriam concedidos. é claro. PIEs. com geração de empregos e renda para especialistas nessas áreas de desenvolvimento de projetos. Neste ano. Era uma mu­ dança de paradigmas e um mundo novo a ser explorado. os questionamentos sobre os “danos” dos grandes reservatórios e o retorno do conceito de que muitas peque­ nas usinas poderiam ser melhores do que uma grande usina. havia um grande potencial de empreendimentos para serem construídos. Para autoprodutor seria autorização.000 kW. etc.000 kW e menor ou igual a 30. com características de concessão de serviço público. geologia. os valores praticados como tarifas eram relativamente baixos e aplicados pelas distribuidoras. o momento econômico do Brasil não era fa­ vorável para quaisquer investimentos que necessitassem de capi­ tal intensivo e retorno de longo prazo. assim como o conceito de autoprodutor que poderia vender exce­ dentes de energia elétrica. Para haver um project finance era necessário um fluxo-de-caixa previsível. tendo sido analisados e aprovados pela ANEEL. Esse debate alimentou os ambientes acadêmicos e ainda nos anos oitenta o governo federal buscou criar um programa de pequenas usinas denominado de Programa Nacional de Pequenas Centrais Hidroelétricas que buscava incentivar a autoprodução de energia. mas faltava alguma coisa. através da Lei das Concessões.000 kW cabia (e ainda permanece assim) apenas comunicação ao poder concedente. e isto as PCHs não tinham. somente seria possí­ vel havendo geração de energia garantida. tanto para produtores independentes de energia. Mas vieram os questiona­ mentos ambientais. Realmente uma equação difícil e de contornos assustadores diante dos desafios das soluções possíveis. aproveitamentos com potência superior a 1. 348 . mas como garantir a entrega da energia contratada de uma PCH se tratava-se de empreendimentos dependentes da hidraulicidade e de variáveis climáticas? E mais. desati­ vados. Poderia. Para obter financiamento de longo prazo era fundamental ter garantias de pagamento num conceito moderno denomina­ do project finance (onde o próprio negócio gera suas condições de financiabilidade). O Brasil cresceu muito nos anos setenta e consolidou o conceito de que usina “boa” era usina grande. Muitos novos projetos de PCHs foram desenvolvidos.000 kW. estes limites foram mudados. foi a partir de 1998 que passou a ser definida comercialmente como PCH as usinas com capacidade instala­ da acima de 1 MW e até 30 MW. com restrições quanto às áreas  de seus reservatórios nos níveis d’água máximos normais. Mas. E assim a implantação de novas pequenas usinas hidráulicas foram se arrastando até 1995. ser um con­ sumidor livre. um marco para o setor. para construir uma PCH era necessário capital intensivo e financiamento de longo prazo. mesmo que difíceis. Para haver uma receita previsivelmente segura para fins de garantias de financiamento. Havia sobra de energia. Os licenciamentos ambientais.

setembro/10 Obs. resultava em fatores de capaci­ dade muito baixos para as usinas. era impossível.500 MW. talvez o mais importante sob o ponto de vista regulatório e viabilizador dos empreendimentos de hoje. Ou seja. Mais um dos grandes marcos do setor. geologia. Para financiar com segurança era necessário um comprador/garantidor com bom rating na praça e contratos de compra e venda de energia de longo prazo. gerando uma receita incapaz de suportar as exigências do agente financiador de longo prazo.000 MW em 2008. segu­ ros. Ter uma energia de placa. este perfil. Pelo critério de cálculo ado­ tado para as hidroelétricas de maior porte. de forma a assegurar uma expansão do setor de PCHs com segurança para o mercado cativo (ambiente regulado). Neste período muito se aprendeu. Como vender para consu­ midor livre ainda era uma novidade. pela modelagem pro­ posta pela Eletrobras na época.300 MW. O denomina­ do “aproveitamento ótimo”. já então confiantes da capacidade das PCHs atenderem suas demandas de energia. de serviços especializados. haja vista que a quase totalidade dos reservatórios de PCHs eram projetados para operar a fio d’água.setembro/10 Relatório Acompanhamento da Expansão da Oferta de Geração de Energia Elétrica . Então. na época. ANEEL e Eletrobras com seus corpos técnicos qualificados e empenhados em dar as condições necessárias para a expansão do setor. o agente financiador exigia garantias corporativas dos empreendedores. Foram contrata­ dos 3. numa ação conjunta e bem conduzida pelo MME. um cír­ culo virtuoso desde o ano 2000 até 2008. da construção civil. serviços ambientais. Mas ainda não estava tudo resolvido. com controle de re­ servatórios. mas altamente preparador para o atendimen­ to do mercado dos consumidores livres. Era um programa no qual a Eletrobras garantia a compra da energia gerada pelas PCHs. A questão ambiental foi foco de discussões acaloradas e ainda assim permanece. E então foi criado. Este programa.1 a 30 MW A figura na página a seguir é o resultado desta expansão e mostra as localizações das PCHs no Brasil em 2011. Ainda século XX. O Brasil tinha cerca de 850 MW em operação de PCHs em 1998 passando para 3. Apenas o governo tinha. Ou seja. Desta forma. o grande problema a ser solucionado era firmar a energia das PCHs. mas com ares de sécu­ lo XXI. exige o estudo e a definição de uma sucessão de aproveitamentos no 349 . sem adotar o conceito de project finance. as fontes biomassa e eólicas. assim como os agentes financiadores confiarem nos mecanismos de atenuação de riscos e garantias de pagamentos.ANEEL . mas dentro de certos limites garantidos de geração que.Programa de Incentivo (de geração de ener­ gia elétrica através) de Fontes Alternativas. divididos entre as três fontes. topografia. o PROINFA. no caso o BNDES. em 2002 e consolidado em 2004. hidrologia. Logo.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Já era o ano de 2000. o programa não progrediu. Um crescimento digno de nota e de reconhecimento. Os empreendedores de PCHs foram convidados para apoiar uma iniciativa louvável da Eletrobras de criar um programa chamado de PCH-Com. tais como projetos. Atualmente (2011) está em torno de 3. um dos programas mundiais mais importantes de geração de energia através de fontes ambientalmente corretas e socialmente justas. além das PCHs. estabelecido por Lei em 1995. não havia como vender a energia para consumidor livre por não haver uma energia garantida e também não havia como vender para a Eletrobras porque a forma que esta estava pensando em adotar para calcular a energia firme das PCHs não era su­ ficiente para garantir o pagamento dos financiamentos.: consideradas apenas as PCH . produtos financeiros e muito mais. que então englobou. teve um caráter didático e de­ senvolvimentista que permitiu a expansão da indústria de equipa­ mentos. as PCHs passaram a fazer parte do MRE (Mecanismo de Realocação de Energia) com o cálculo da energia média através da Resolução ANEEL 169/2001 de 3 de maio de 2001. que se encerra neste ano de 2011. Quadro 2 – Evolução das pequenas centrais hidroelétricas Qtde Total até 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 189 15 12 23 7 11 18 17 38 30 22 189 204 216 239 246 257 275 292 330 360 382 Potência (MW) 831 69 51 268 68 126 228 253 650 463 248 Total (MW) 831 900 952 1219 1287 1413 1641 1894 2544 3007 3256 Fonte: BIG . ONS.

mas no sentido inverso. baseada em mé­ dia histórica de 2007 até 2010. provocando uma cascata de usinas. As teses do passado voltaram a as­ sombrar novamente. houve uma avalanche de novos projetos e inventários junto à agencia reguladora ANEEL que resultou no enorme potencial identifica­ do no Brasil. de forma cíclica.271 170 7 Potencial Teórico 15. ques­ tionam se não seria melhor um grande reservatório ao invés de uma sequência de pequenos. XX e XXI mesmo curso d’água. Com o grande desenvolvimento das PCHs. Nesta área.: não foi considerado potencial em fase de inventário Obs.458 TOTAL 23.:Dados ANEEL Janeiro/2011. Em janeiro de 2011 encontravam-se em tramitação dentro da ANEEL projetos conforme tabela abaixo: Figura 1 .454 1. Figura 2 – Distribuição das PCHs nos diversos estados Fonte: Abragel / 2011 Na tabela acima a coluna prazo é uma estimativa de tramitação na ANEEL até a emissão da outorga de autorização.Localizações das PCHs no Brasil em 2011 Quadro 3 – Situação dos projetos de PCH em tramitação na ANEEL em janeiro de 2011 Potência (MW) Quant.705 1.980 473 Em Elaboração/Complementação 2.288 15 Subtotal 2 17.A História das Barragens no Brasil . 350 . salvo o Potencial Teórico. Os ór­ gãos ambientais e ONGs ambientais questionam se esta é melhor condição ambiental para o curso d’água e.089 213 3 Análise/Aceite . Entretanto há movimentos firmes e sérios na agência para redução drástica dos prazos de tramitação.035 194 6 Subtotal 1 5.725 1.Séculos XIX. Prazo (1) (anos) Com autorização (com LP/LI) 2. Agora há necessidade de um profundo estudo para cada inventário de rio denominado de análise ambiental integrada – AAI que ampliou os limites das discussões. certamente. que é um estudo do CERPCH de Itajubá.931 (1) prazo estimado de maturação dos projetos .início da construção Obs.ANEEL (com LP/LI) 856 66 5 Aguardando Análise ANEEL 3. as discussões nunca terão fim. ou apogeu.

em média. ficaram sem mercado potencial de comercialização de seu produto. fazendo competir entre si diversas fontes de geração e. sustentável. que vinham se desenvolvendo muito bem através da venda antecipada de sua energia e assim viabilizando os project finance.ambiente de contratação livre . A esperança no futuro Não há dúvidas de que as PCHs são fontes de geração de energia limpa. à perda de mão-de-obra qualificada desenvolvida ao longo dos últimos anos e ao desenvolvimento de outras fontes ambientalmente menos qualificadas.ambiente de contratação regula­ da . socialmente inseridas nas comunidades. sem impactos de êxodos rurais. redução da atividade econômica. renovável. atualmente. com va­ lores modestos. de forma abrupta. Naturalmente esta crise teve reflexo no desenvolvimen­ to do Brasil e estancou. O Governo passou a fazer leilões de energia tendo como competição apenas o valor do MWh. no caso das PCHs. Ledo engano. além da disponibilidade internacional de equipamentos. no mercado livre (as PCHs são denominadas como fonte incentiva­ da pois há desconto de 50% nos custos de transporte da energia).” certamente as PCHs retomarão o mes­ mo caminho virtuoso que.que são os leilões de energia levados a efeito pelo poder conce­ dente. tudo em nome da “modicidade tarifária”. descentralizada..não foram mais capazes de viabilizar a cons­ trução dos empreendimentos. capaz de construir usinas memoráveis do passado e brilhantes. Mas como “não há mal que sempre dure. então este ciclo se encerrou. Passou a ter excesso de oferta de energia e o mercado spot desde então esteve. desde 1883. Mas ainda existia (e existe) o ACR .. sem levar em consideração as características e as regionalidades de cada fonte. a expansão industrial. As PCHs. As cir­ cunstâncias atuais levam à desindustrialização do setor.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A crise das PCHs Em 2008 o mundo foi sacudido por uma crise econômico-finan­ ceira que envolveu os principais bancos internacionais e provocou uma falta de liquidez e. por consequência. além de outros adjetivos qualificativos favoráveis ao seu desenvolvimento. fazendo com que as PCHs.000 MW em 20 anos.. Figura 3 – PCH Antônio Brennand no rio Jauru 351 . Nem tudo estava perdido. a busca de fornecedores incentivados. levando o potencial de geração através de PCHs no Brasil aos almejados 25. houve uma importante e fatal perda de compe­ titividade em função da evolução tecnológica de outras fontes. também agravada por desequilíbrios tributários. foi capaz de desenvolver o estado da arte na engenharia hidroelétrica. fiquem completamente alijadas dos processos de leilões no ACR. Os valores que passaram a ser negociados no ACL . não induzindo aos consumidores livres.

XX e XXI Figura 4 – PCH Irara com 30 MW no rio Doce.A História das Barragens no Brasil . no Espírito Santo Figura 7 – PCH Anna Maria no rio Pinho em Minas Gerais 352 .PCH São Joaquim no rio Benevente.Séculos XIX. em Goiás Figura 5 – PCH São Simão com 27 MW no rio Itapemirim Braço Norte Esquerdo. no Espírito Santo Figura 6 .

Maurício – Geração de Energia Elétrica no Brasil – Ed.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 8 – PCH Ivan Botelho I (Ponte) no rio Pomba em Minas Gerais Referências (1) Tiago.– CERPCH – Itajubá/MG (2) ABRAGEL – Associação Brasileira de Geração de Energia Limpa – Diversas apresentações em palestras (3) Prado Jr. Geraldo.A Evolução Histórica do Conceito das PCHs no Brasil. Fernando. Nascimento. Cristiano . Santos. Camila . Interciência – 2009 (5) Site da ANEEL – Agência Nacional de Energia Elétrica (6) Tolmasquim.000 – Governo do Estado de São Paulo (4) Souza. Jason.Pequenas Centrais Hidroelétricas do Estado de São Paulo – 2. Galhardo. José Guilherme.PCH Santa Fé no rio Paraibuna. Zulcy. Afonso Henriques.2005 Figura 9 . Ferrari. Edson – Centrais Hidrelétricas – Ed. Amaral. Interciência . Bortoni. Rio de Janeiro e Minas Gerais 353 .

354 .

com foco particular nas novas usinas hidroelétricas. A justificativa para essa reestruturação era introduzir uma maior competitividade nesse importante segmento da infraestrutura e. em sua maio­ ria. sob Usina hidroelétrica de Anta 355 . por certo de forma muito bre­ ve. A partir de então as empresas públicas. Neste capítulo procura-se discutir. buscando. então. ten­ do como grande divisor de águas o traumático racionamento de energia elétrica vivenciado em 2001 e 2002. a empreendimentos relacionados à empresa Furnas Centrais Elétricas. Ao Estado restaria o papel da regulação. tanto no plano da expansão da oferta de energia elétrica (geração). essas experiências das empresas públicas no novo ambiente setorial. desse modo. transmissão e distribuição seriam segregadas. extensão continental. As atividades de geração. diversida­ de de hidrologias entre regiões. dessa forma. privatizando todas as empresas públicas então existentes. dada a dificuldade de o poder público continuar a arcar com os vultosos recursos demandados pelo setor. que em um desenho inicial da reestruturação seriam todas privatizadas. Dada a natureza peculiar do sistema brasileiro – forte prevalência da hidroeletricidade.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A Nova Face das Empresas Estatais frente à Expansão da Oferta de Energia Hidroelétrica no País Márcio Antônio Arantes Porto e João Batista Gribel Soares Neto O setor elétrico brasileiro vivenciou mudanças profundas em sua orga­ nização estrutural a partir de meados da década de 1990. Os exemplos contidos no texto que se segue referem-se. sob esse contexto político e econômico. que seriam gradualmente privatizadas. a ANEEL – Agência Nacional de Energia Elétrica. dando oportunidade de acesso a novos agentes às receitas expressivas dessa atividade econômica. O contexto de mudanças A partir da década de 1990 a estrutura regulatória e funcional do setor elétrico brasileiro foi profundamente modificada. todos. inspiração de experiências desenvolvidas em outros países oci­ dentais. No primeiro movi­ mento da reestruturação. Essa reestruturação setorial viveu dois momentos distintos. tiveram que se adap­ tar às mudanças de cenários e às diferentes lógicas às quais o setor elétrico foi submetido nos anos seguintes. com a consequente redução da presença do Estado nesse segmento da economia. desverticalizando as empresas. à época. especialmente aqueles voltados à sua ex­ pansão. na qual os autores exercem suas atividades profissionais. as adaptações às quais tiveram que se submeter para se manterem como agentes importantes no setor elétrico e as carac­ terísticas (e desafios) para a gestão dos empreendimentos no novo contexto. Tal reestrutu­ ração teve por objetivo promover a criação de um mercado competitivo de energia elétrica no país. tendo sido criada. sob amplamente majoritário controle estatal. como nos segmentos de transmissão e distribuição. a meta era retirar completamente do Estado o papel de agente econômico no setor. atrair os capitais privados para o setor. atrair os investimentos privados. entre outras – a adaptação dos modelos importados mostrou-se particularmente desafiadora e não isenta de riscos.

que era inicialmente vedada. tema ao qual será dedicada. Esse equilíbrio entre a qualidade e os investimentos – custos. desde o início. no modelo competitivo busca-se a efici­ ência econômica. O modelo de competição na Transmissão se consolidou primeiro. após liberada a participação das empresas públicas nos leilões. Em especial quando se consorciam com empresas privadas para a exploração dos novos empreendimen­ tos. causando prejuízos profundos à economia do país. ainda em curso. com a comple­ ta retirada do Estado da atividade econômica na área da energia elétrica. a menor Receita Anual Permitida ou RAP. enquanto a Trans­ missão e a Distribuição são consideradas monopólios naturais. permissionárias e autorizadas do serviço público de distribuição de energia elétri­ ca.Séculos XIX. Mudanças culturais importantes. atraindo.03. A concorrência tornou-se notoriamente mais acirrada. o desafio imenso que é expandir a oferta de energia para o vigoro­ so mercado brasileiro. que devem ser regulados. para o empreendedor – é um dos grandes desafios a ser en­ frentado nas obras do setor. determinados pelo planejamento setorial. são outorgados aos agentes que se dispuserem a realizálos pela menor tarifa para os usuários. XX e XXI A privatização conforme originalmente planejada. Os novos empreendimentos. Estabeleceu dois ambientes de comercialização. ficou em meio do caminho com a ascensão de um novo governo a partir de 2003 e após o fracasso do modelo anterior. mas – e até mesmo mais importante – tem atraído a participação dos investidores privados para compartilhar. conforme ocorria anteriormente sob a égide da prestação do serviço público – onde não havia uma preocupação dominante com a minimização dos custos. foram necessárias às empresas estatais para adaptar sua atuação ao novo contexto. insumo essencial para o desenvolvimento econômico e social do país. A Lei n o 10. enfim. enquanto no ACL se daria a comercialização direta de energia pelos agentes de geração aos consumidores livres. Ou seja. enfim. aos consumidores. No segmento da Transmissão a concorrência se dá através de leilões para outorga das novas obras de ampliação do sistema.2004. com o setor público. Requisitos essenciais para o sucesso das empresas públicas no novo modelo O modelo setorial vigente tem por base a competição nos segmentos de Geração e Comercialização. um compromisso entre qualidade (regulada) e o preço (tarifa) do serviço. As tarifas aos consumidores não tem mais como base os custos incorridos na construção dos empreendimentos (a tarifa pelo cus­ to). embora mantida a ênfase na competição. alguma reflexão.848.A História das Barragens no Brasil . 356 . mas agora sob uma lógica que priorizava a segurança energética. introduziu uma nova regula­ mentação para a outorga de concessões de geração e para a comercialização de energia no país. ao tratar-se dos Modelos de Gestão dos empreendi­ mentos e da Engenharia do Proprietário. somando experiências e capacitações que se complementam. adiante. observandose maiores deságios sobre os tetos de remuneração estabelecidos pela ANEEL. O ACR para a compra e venda de energia elétrica por concessionárias. de 15. investidores nacionais e estrangeiros para os leilões de outorga das concessões dos ativos de transmissão. Tais parcerias tem-se mostrado não somente rentáveis. que seriam repassados. o planejamento do setor pelo Estado foi retomado (com a criação da EPE – Empresa de Pesquisa Energética) e o modelo setorial radicalmente revisto. o “Ambiente de Contratação Regulada (ACR)” e o “Ambiente de Contratação Livre (ACL)”. Em verdade elas vem sendo particularmente bem sucedidas nessa nova configuração do setor. É esse o ambiente competitivo complexo onde hoje convivem empresas privadas e públicas. O movimento de privatização das empresas públicas foi suspenso. que desaguou no racionamento de 2001-2002. ou seja.

no rio São Marcos. participa­ ção minoritária das empresas públicas. a usina de Foz do Chapecó. A ótica do “negócio” e sua rentabilidade tiveram que prevalecer frente à tradição das obras de altíssima qualidade. Nesse ambiente a energia disponibilizada ao mercado acabava. muitas dessas usinas. 100% estatais. tanto em parceria com a iniciativa privada – maio­ ria dos casos – como através de empreendimentos corporativos. em especial no que se refere às novas usinas hidroelétricas. em gerir o projeto com tais ca­ racterísticas – fato especialmente verdadeiro para as empresas públicas. liberadas para participar dos leilões de novas concessões. mas ainda há muito por avançar frente às exigências do mercado. Os parceiros individualmente. a partir de um piso. No modelo competitivo inicial a outorga das concessões se dava àquele agente que mais pagasse por essa outorga. alguns fatores que se consideram essenciais para o desenvolvimento favorável dos novos projetos de geração no ambiente competitivo e que. uma mudança radical de con­ ceitos. Nesse novo contexto setorial. que teve um ágio de 3. por disporem. de receitas antecipadamente estabelecidas e de longo prazo. em virtuosa complementaridade. devido às características do modelo seto­ rial. através de contratos bilaterais registrados no Mercado Atacadista de Energia – MAE. com a reformulação do modelo setorial introduzida a partir de 2004. com cus­ to de produção mais econômico. mas que eram construídas com elevados custos. sempre cara. Alguns fatores de sucesso Relacionam-se. estando presentes em vários empreendimentos importantes. em Goiás. que teve ágio de 554%. prejudicados pela mudança de modelo. a seguir. de forma sinérgica. outorgadas sob o modelo anterior – e que ficaram conhecidas como “Botox” – encontraram dificuldades para se viabilizar e comercia­ lizar sua energia no novo ambiente. O desenvolvimento dos projetos através de SPE As SPE – Sociedades de Propósito Específico são empresas priva­ das quando apresentam. Caso típico foi a excelente usina de Serra do Facão (210 MW). ressurgiram como agentes de relevo. as empresas públicas. Aliam. podem justificar o sucesso das empresas públicas nos certames para expansão da oferta de energia. no rio Uruguai. Daí o agente negociaria sua energia livremente. teriam dificuldades. ficavam oneradas por um ágio elevado na UBP. valor de referência estipulado pelo governo. Ademais. recebia a concessão para as novas usinas hidroelétricas aquele inves­ tidor que ofertasse o maior valor pelo Uso do Bem Público (UBP). as SPE podem exercer uma gestão do projeto moderna e dentro das melhores práticas. Aquelas usinas mais atraentes. finalmente.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Já no segmento de Geração houve. sob uma estrutura organizacional projetada. fornecedores de bens e serviços e concessionárias. As parcerias com a iniciativa privada e o contexto de com­ petição pelas novas outorgas de concessão proporcionaram um importante aprendizado às empresas públicas. Na transição de modelo ocorrida após 2003. Podem incorporar parceiros com perfis bastante distintos. em sua constituição societária.090% sobre o piso de UBP estabelecido – agregando elevação de cerca de 30% aos seus custos de produção. as melhores características das empresas privadas e das empre­ sas públicas em prol do desenvolvimento do projeto. Para resgatar esses projetos. em muitos casos. a parceria das empresas estatais. Ou seja. ou seja. com 855 MW de capacidade. Por desenvolver um empreendimento específico. motivado pela competição acirrada por sua outorga. muitas vezes. como investi­ dores puros. foi necessário um forte empenho no âmbito da regulação bem como. dentro das estruturas funcionais de suas organizações. Houve necessidade de mudanças culturais profundas no modo de atuar das empresas públicas com vistas à sua adaptação e sobrevi­ vência no novo modelo competitivo setorial. não obstante aplicáveis a todos os agentes. Outro exemplo. as 357 .

a ANEEL disponibiliza participar dos leilões de outorga dos novos empreendimentos de geração um con­ 358 . biológico e social – e que. quer nas áreas ambiental e fundiária – e pela grande intimidade que muitas vezes tem com as regiões de desenvolvimento dos projetos. alavancar seus projetos com custos de financiamento bastante atraentes.Séculos XIX. enfim. Assim conseguem. embargos. a melhor solução tributária. mas não exclusivamente. são necessárias compensa­ ções àqueles atingidos pelo empreendimento. redução dos riscos associados ao projeto. Permite. XX e XXI SPE podem usar tais receitas futuras como garantia para obter os financiamentos. o melhor perfil da dívida e dos desembolsos. envolve várias componen­ tes: a busca pelas melhores fontes de financiamento. que deve inserir-se de forma sustentável no contexto regional ao qual que se incorpora. definidor do sucesso e da rentabilidade empreendimento no ambiente competitivo existente em nosso modelo setorial. com o adequado atendimento às condicionantes de licencia­ mento. O papel do financial advisor é essencial. É preciso reconhecer que toda e qualquer obra de infraestrutura. ademais. os incentivos fiscais. construção e operação. a antecipação da produção e a eventual geração de caixa durante Conhecimento aprofundado do projeto Aos agentes interessados. os Estudos de Impacto Ambiental (EIA) e o Relatório de Im­ pacto Ambiental (RIMA). Vantagens essas que são potencia­ lizadas através de parcerias venturosas. bem como o que não é viável. no conhecimento técnico que envolve o pro­ jeto. dá ensejo aos agentes a propor soluções inovadoras para sua execução. maior competitividade nos leilões. Há necessidade de transparência no trato com os órgãos ambientais e com os afetados. A qualidade dos estudos ambientais deve ser a melhor possível. os aspectos sociais – é absolutamente determinan­ te no sucesso dos empreendimentos hidrelétricos na atualidade. Um ambiente de mútua confiança e de aceitação do empreendimento é construído a partir do tratamento respeitoso às partes interessa­ das. negociando prioridades de forma aberta com a sociedade organizada. Engenharia financeira do projeto O equacionamento financeiro do projeto talvez seja o ítem mais importante. face aos baixos riscos envolvidos. Não observar essa “regra de ouro” significa condenar o projeto a atrasos no seu licenciamento. não obstante sua utilidade pública. A adequada modelagem financeira do negócio. com­ prometer fortemente sua rentabilidade. e deixando claro à população o que é factível realizar a título de compensação. o conhecimento científico existente na região do empreendimento. impacta o meio ambiente – físico. dando agilidade na realização de estudos complementares àqueles disponibilizados pela ANEEL. direta e indiretamente pelo empreendimento. as empresas públicas são naturalmente fortes. que muitas vezes são o grande diferencial que define o vencedor de um leilão de outor­ ga. e seus riscos. As interações com os órgãos ambientais devem ser constantes e tecnicamente elevadas. por disporem de equipes próprias e capacitadas – quer na engenha­ ria. com toda a ênfase. a colocação de parcela de energia no ACL. Investir. Nesse aspecto.A História das Barragens no Brasil . Tratamento da questão ambiental O tratamento adequado da questão ambiental – aí incluídos. em geral. sua otimização energética. o que acarreta em menores prêmios de risco e melhores condi­ ções de contratações das obras e outros serviços – enfim. agregando-se sempre. por isso. paralisações. junto de estudos nos quais é definida a concepção global da usina. técnico-econômica e ambiental. em suas várias disciplinas. com avaliação de benefícios e custos associados à nova usina cuja outorga será licitada. que se somam ao expertise das empresas públicas. com a possível profundidade que os prazos em geral escassos permitem. Con­ templa os Estudos de Viabilidade Técnico-Econômica (EVTE).

o fato é que. no modelo competitivo em vigor. prejuízos à imagem das empresas envolvidas. Portanto. Sendo de risco moderado os retornos dos investimentos em geração hidroelétrica. para vencer os leilões de outorga dos novos empreendimentos. na atualidade. de buscar soluções que garan­ tam a conclusão das obras conforme os preços e prazos definidos nos planos de negócios (uma vez que a energia já está vendida com preço e data de entrega contratados). podemos elencar as perdas de receita de geração por atrasos das obras. os participantes que se consorciam para a competição – investidores e fornecedores de bens e serviços – identificam a necessidade de atuar de forma solidária. que pagará por uma energia mais cara e menos favorável sob o ponto de vista ambiental. Modelos de gestão dos empreendimentos As características atuais do modelo setorial reforçam a necessida­ de. o que pressupõe que: (i) não há uma única modalidade que possa ser considerada como ideal para o atingimento dos objetivos e atendimento das necessidades de todas as partes interessadas no negócio. efetivamente. buscando e testando fórmulas que possam viabilizar os novos negócios de maneira a reduzir riscos e atender aos objetivos de todas as partes interessadas. não ha­ vendo. a fim de contribuir para que o tema seja analisado sob vários ângulos pelos profissionais do setor. Igualmente. ganha importância a busca por modelos de gestão apropriados. 359 . Na discussão que se segue procura-se identificar alguns dos mo­ delos já utilizados ou em utilização. necessidade de aquisição de energia no mercado livre para suprir os compromissos assumidos. com reflexos positivos para a sociedade. pois. combinando aspectos positivos de modelos de gestão já utilizados e minimizan­ do seus pontos falhos. os agentes devem compartilhar a visão de longo prazo que as inversões no setor elétrico requerem. que tem sido desenvolvidas desde 2001. A não observância desses preceitos tem como consequência perdas diretas para os empreendedores e indiretas para o negócio de geração de energia no país. Regidos pela modelagem financeira abrangente e detalhada. tendo em mira benefícios mútuos para as partes. perde a sociedade brasileira. As empresas públicas incorporaram e vem aperfeiçoando essa abordagem financeira “privada” nos leilões do setor elétrico. podemos citar os aumentos dos prêmios de seguros. · Modernização de usinas existentes Em suas obras de modernização de usinas hidroelétricas (usina hidro­ elétrica Mal. para o sucesso efetivo dos empreendimentos. Modelos de gestão recentemente utilizados Percebe-se. multas impostas pelos órgãos públicos de fiscalização e regulação. por parte dos empreendedores. em que todos os envolvidos perdem. dentre outros – com sacrifícios à rentabilidade dos projetos. No segundo caso. no fim da linha. sacrificar margens e compartilhar ganhos. maior preocupação da sociedade civil quanto à segurança dos empreendimentos e maiores cuidados dos organismos de licenciamento ambiental.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens a construção – tudo isso é absolutamente crucial para a proposição de uma tarifa módica e tecnicamente sustentável nos leilões. a existência de várias modalidades de gestão de empreendimentos na área de geração. jun­ tamente com seus parceiros. espaço para retornos espetaculares e em curto prazo. Independentemente de outras possibilidades. Furnas adotou a modalidade de contratação mista com EPC – Engineering. Mascarenhas de Moraes – MG e Luiz Carlos Barreto de Carvalho – MG/SP). No primeiro caso. através de uma atuação em parceria entre os proprietários dos empreendimentos e os consórcios contratados para a execução. Estes devem procurar blindar todas as partes interessadas. tanto durante a implantação quanto na fase de operação. e (ii) os empreendedores estão. é preciso gestão consistente dos projetos no sentido de assegurar a qualidade dos serviços.

reservando para si os licenciamentos ambientais e os fornecimentos dos turbo-geradores. Figura 1 – Usina hidroelétrica Peixe Angical 360 . a Enerpeixe (parceria entre Energias do Brasil e Furnas) contratou. pelo licenciamento ambiental.Séculos XIX. Os Consórcios contratados respon­ sabilizam-se pelo projeto. pela construção e pela montagem eletromecânica. da execução dos comissionamentos e dos licenciamentos ambientais. separadamente. Fornecimentos e Construção) e execução direta.A História das Barragens no Brasil . · Novas usinas hidroelétricas Na implantação da usina hidroelétrica Peixe Angical. Furnas adotou o regime de EPC. XX e XXI Procurement and Construction (Engenharia. ini­ ciada em 2002. pelos fornecimentos dos equipamentos. Os contratados só podem desenvolver suas intervenções nos equipamentos após aprovação de Furnas. a preço global. com contratos a preços globais. todas a preços globais. Furnas resguardou para si a prerrogativa de apro­ vação de todos os projetos. o fornecimento/mon­ tagem e a construção civil. incluindo as obras de reservatório. À Concessionária coube a responsabilidade pelo controle da qualidade das obras. o projeto. Já na modernização e ampliação da UTE Santa Cruz (RJ). concluída ao longo de 2006. pela gestão fundiária e pelos programas ambientais.

pela gestão fundiária e pela execução dos programas ambientais e das obras de reservatório.A. optou pela contratação de um EPC tradicio­ nal (engenharia. manteve. a preço global. do 361 . Na construção da usina hidroelétrica Simplício (RJ/MG). a Serra do Facão Energética S. fornecimentos e construção. concessão 100% de Furnas. Analogamente ao caso anterior. incluindo o contro­ le da qualidade).Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 2 – Usina hidroelétrica de Foz do Chapecó Para a implantação da usina hidroelétrica Foz do Chapecó (SC/ RS). Furnas. sob sua tutela direta. No entanto. as res­ ponsabilidades pelo licenciamento ambiental. Camargo Corrêa Cimentos). pela gestão fundiária. a preço global. fornecimentos e construção. cuja obra teve início em janeiro de 2007. cujas obras foram iniciadas em janeiro de 2007. a empresa decidiu pelas contratações separadas do projeto (preço global). DME. (pertencente à Alcoa. o Consórcio Empresarial Foz do Chapecó (pertencente à CPFL. similarmente a Foz do Chapecó. também reservou para si as responsabilidades pelo licenciamento ambiental. incluindo o controle da qualidade). CEEE e Fur­ nas) optou pela contratação de um EPC tradicional (engenharia. No caso da usina hidroelétrica Serra do Facão (GO). pela execução dos programas ambientais e das obras de reservatório. que iniciou as obras em março de 2007.

XX e XXI Figura 3 – Barragem de Foz do Chapecó Figura 4 . de um sistema misto de preços: parte do contrato é por um preço global e parte é por preços unitários. A novidade no caso de Simplício foi a utilização. nem as obras de reservatório. A contrapartida é que tal risco está sendo assumido por Furnas.A História das Barragens no Brasil . no contrato das obras civis. pela gestão fundiária e pelos programas ambientais. Tal opção foi feita buscando eliminar volumes significativos de verbas de contingenciamento relativas a riscos geotécnicos. A integração das responsabilida­ des que se interfaceiam é gerida diretamente pela própria conces­ sionária. anterior mente embutidos no preço global da empreiteira. Furnas se responsabiliza pelo licenciamento ambiental. Além disso.Séculos XIX. O contrato da construção civil não inclui o controle da qualidade das obras. 362 .Usina hidroelétrica de Serra do Facão no rio São Marcos fornecedor/montador (preço global) e das obras civis (misto de preço global e preços unitários).

incluindo o controle da qualidade. obras iniciadas em março de 2007.Usina hidroelétrica de Retiro Baixo 363 . possui a seguinte formatação atual: contratações separadas do projeto (preço global). pela gestão fundiária e pelos programas ambientais. Furnas se responsabiliza pelo licenciamento ambiental.A.O contrato da construção civil não inclui as obras de reservatório. Figura 5 – Obras da barragem e usina de Anta do aproveitamento hidroelétrico de Símplicio Figura 6 . Analogamente à usina hidroelétrica Simplício. Na usina hidroelétrica Retiro Baixo (MG). A integração das responsabilidades que se interfaceiam também será gerida diretamente pela própria concessionária. a Retiro Baixo Energética S. outra concessão 100% de Furnas. optou pela contratação de um EPC mais amplo. também denominado internamente por Turn Key. do fornecedor/ montador (preço global) e das obras civis (preço unitário).Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Já a implantação da usina hidroelétrica Batalha (GO/MG).

CEMIG. ratificando a inquietude dos diversos empreendedores quanto à busca pelo melhor modelo a ser utilizado para os negócios de geração de energia elétrica no país. FIP. a gestão fundiária a execução dos programas ambientais e das obras de reservatório. a Santo Antônio Energia S. uma das exigências que A questão das obras de reservatório não tem uma tendência defini­ da. algumas fortes tendências. projeto. pode-se afirmar que ela ainda é a que mais agrada aos investidores. em que o contratado se responsabiliza pelo projeto. optou pela contratação de um EPC tradicional (engenharia. comissionamentos. uma tendência para o futuro próximo. São. mostrando. ou (ii) pleitos de reequilíbrios econômicofinanceiros em função de serviços adicionais imprevisíveis. as gestões fundiárias e os programas ambientais. percebe-se algum movimento no sentido de se incluir preços unitários em partes do projeto mais sensíveis a previsões muito antecipadas. XX e XXI onde o contratado responsabiliza-se pela integralidade das ações necessárias à implantação completa do empreendimento. CNO e AG). que recebem tal exigência dos órgãos financiadores. controle da qualidade.Séculos XIX. Tal tendência tem forte relação com a transferência de riscos do empreendedor para o construtor. pela gestão fundiária. Não obstante. Para a implantação da usina hidroelétrica Santo Antônio (RO). programas ambientais e obras de reservatório. a preço global.A. em nossa opinião. (parceria de FURNAS. com foco na hidroeletricidade. os organismos financiadores dos projetos tem colocado para as viabilizações dos empréstimos. ou por alterações de projeto ou por situações reais distintas daquelas previstas nos projetos básicos. Outra modalidade comumente observada é a utilização de contrata­ ções do tipo EPC. fornecimentos. NEOENERGIA e ODE­ BRECHT) igualmente optou pela contratação de um EPC tradicio­ nal – engenharia. Tal constatação deve-se ao fato de que as obras de reservatório tem uma dependência direta da área afetada e dos condicionantes 364 . fornecimento. Via de regra. construção civil e montagem eletromecânica. contudo. no entanto. por ser entendida como a que melhor transfere os riscos de execução e integração dos empreende­ dores aos contratados. Manteve também sob responsabili­ dade direta da SPE o licenciamento ambiental. Percebe-se. OII. com obras previstas para iniciar em julho de 2011. incluindo o controle da qualidade). ou seja. No caso da usina hidroelétrica Teles Pires (MT/PA). pela execução dos programas ambientais e das obras de reservatório. para si. incluin­ do o controle da qualidade das obras. Uma delas é a adoção da modalidade de preço global. No entanto. em substituição aos preços unitários. que findam por gerar: (i) preços mui­ to avultados em função de grandes contingenciamentos embutidos pelos construtores. os concessionários reservam. a Companhia Hidroelétrica Teles Pires (FURNAS. As experiências têm mostrado que os regimes de preços globais fixos não eliminam por completo possibilidades de situações como acima relatadas. fornecimentos e construção. dado o caráter crítico dessas atividades para o sucesso dos empreendimentos e para a imagem da empresa na região de inserção dos projetos. já há movimentos mais recentes no sentido de se mesclar os regimes de preço global com partes por preços unitários. Mesmo havendo variações percebidas em tal modalidade de contratação. gestão fundiária. Por tal motivo. ELETROSUL. construção civil. · Tendências Obviamente.A História das Barragens no Brasil . incluindo o controle da qualidade – a preço global. montagem eletromecânica. licenciamento ambien­ tal. bastante ricos em diversidades de modelos de ges­ tão. tudo por um preço global. as responsabi­ lidades sobre os licenciamentos ambientais. os exemplos acima não encerram todos os ca­ sos recentemente utilizados ou em implantação atual no Brasil. cuja obra foi iniciada em setembro de 2008. fornecimentos e construção. manteve sob sua tutela direta as responsabilidades pelo licenciamento ambiental.

em alguns casos. incluindo eventos em usinas hidroelétricas e também no metrô de São Paulo. Complementarmente. a engenharia do proprietário deve disponi­ bilizar informações para subsídio técnico ao empreendedor na to­ mada de decisões frente ao construtor. Entretanto. possíveis as prédefinições necessárias aos orçamentos seguros pelas construto­ ras e. é secundária. ainda mais quando 365 . o empreendedor deve ter em seu auxílio equipe técnica que exerça a engenharia do proprietário de forma ostensiva. comissionamento e operação de empreendimentos de geração devem ser controladas. bem como a preservação de sua imagem. Entendemos que a engenharia do proprietário tem como principal papel a atenuação de riscos envolvidos quanto a prazos e confor­ midade de produtos contratados. A questão da responsabilidade integral do contratado. montagem. especialistas passaram a questionar esse modelo sob a ótica da segurança. Fica patente que. pois o interesse do investidor é o empreendimento concluído da forma como foi planejado.Figura 7 . com a ocorrência de inúmeros acidentes em obras de grande porte. que fatalmente elevaria o preço proposto em função de contingenciamentos altos.Vista aérea das obras da usina hidroelétrica de Santo Antônio sobre o Rio Madeira dos licenciamentos. com base no contrato EPC. impossível uma orçamentação isenta de riscos. fizerem parte do mesmo grupo responsável pela execução das obras o construtor e o projetista. sob o ponto de vista da engenharia. fornecimento. visto que as incertezas inerentes à execução dos serviços de construção. em outros casos. de forma a atender aos objetivos previamente estabelecidos para o empreendimento e aos critérios de segurança operativa definidos Engenharia do proprietário Não resta dúvida quanto às inúmeras vantagens que o modelo de contrato EPC – Turn key trazem ao empreendedor sob o ponto de vista econômico. para o emprego desse modelo de contrato. sendo. por meio do monitoramento adequado dos processos empregados. e não a vitória na batalha dos tribunais.

as seguintes atividades: Acompanhamento das obras civis e eletromecânicas. fornecedor e montador e emissão de pareceres ao empreendedor. comissionamento e pré-operação. especificações técnicas. filmes e vídeos relativos à obra. Atividades contempladas na Engenharia do Proprietário Dessa forma. para subsidiar solu­ ção de impasses ou divergências que possam ocorrer entre o empreendedor e o construtor. Análise e parecer sobre relatórios de progresso emitido pelo empreendedor. Organização das reuniões de coordenação e de produção. quando solicitados. quando na entrega do empreendimento para operação comercial. emitidos pelo contratado. há grandes divergências com relação à forma e/ou intensidade de atuação da engenharia do proprietário. Emissão de pareceres ao empreendedor quanto a pedi­ do de modificação de projeto – pedido de modificação de campo. plano de inspeções e testes. Acompanhamento de liberações de serviços por parte da projetista.Séculos XIX. os conceitos anteriormente apresentados não encontram discordâncias entre os diversos segmentos e atores envolvidos nas gestões de empreendimentos de grande porte.A História das Barragens no Brasil . Acompanhamento rigoroso dos processos executivos emprega­ dos pelo contratado previstos nos anexos da qualidade. Acompanhamento de quantitativos dos serviços executados das obras civis e de montagem eletromecânica. Análise dos dossiês de qualidade . Análise de redes de precedência emitidas pelo contratado e emissão de pareceres ao empreendedor. subsidiando-o de elementos necessários para análise econômico-financeira afetos à relação contratual estabelecida com o contratado. Emissão de relatórios. Com a en­ trada de diversos agentes econômicos no setor de energia elétrica 366 . A forma de atuação da Engenharia do Proprietário De modo geral. normas técnicas aplicáveis e aos demais documentos técnicos contratuais. Certificações parciais dos produtos entregues pelo contratado e certificação global. registros fotográficos. caso requerido pelo empreendedor. Análise de planejamentos executivos elaborados pelo cons­ trutor. XX e XXI nos procedimentos de rede do ONS e nas regulamentações da ANEEL e MME. Seleção de assuntos de interesse do empreendedor para serem discutidos nas reuniões de produção (semanal) e de coordenação (mensal). quanto a alterações no projeto básico consolidado e/ou especifica­ ções técnicas.data book Acompanhamento das obras e serviços em face das normas de higiene e segurança industrial pertinentes. sem se limitar a elas. Análise e emissão de pareceres relativos a fornecimentos ne­ cessários que estejam fora do escopo do Contrato EPC. quanto a questões técnicas no âmbito das atividades no local da implantação. Emissão de relatórios técnicos destinados à análise de pleitos. quanto à conformidade em relação aos documentos de projeto. Emissão de relatórios e documentações específicos para os órgãos financiadores. Atendimento às solicitações do empreendedor. Acompanhamento do pré-comissionamento. Análise dos métodos e resultados relativos ao controle de qualidade dos materiais de construção desenvolvido pelo laboratório contratado pelo contratado. a engenharia do proprietário deverá exercer. Emissão de pareceres. Por outro lado.

com a intensidade devida. o emprego do neologismo “engenharia do proprietário”. onde se faz a checagem do atingimento de grandes marcos. com atuação restrita aos horários comerciais. Vemos uma grave omissão dos empreendedores em tal tipo de atuação. sem que isso traga ao empreendedor a assunção de riscos que não são de sua responsabilidade. Eventuais defeitos poderão ficar ocultos por vários anos. O termo “fiscalização” passou a sofrer forte preconceito por trazer consigo a ideia da presença da mão-forte do empreendedor nas de­ cisões de obra. dimensionadas dentro desse conceito de atuação extremamente distante e pontu­ al. Com receio de trazer para o empreendedor riscos contratualmente definidos como de responsabilidade dos fornecedores/construto­ res. Entendemos que as equipes de engenharia do proprietário deverão ser dimensionadas de maneira a que as obras sejam fiscalizadas em sua integralidade. e deve. as equipes de engenharia do proprietário. apontando eventuais não-conformidades para subsidiar as decisões do proprietário. Com isso.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens no Brasil. de então. atuar de maneira mais consistente. Figura 8 . A engenharia do proprietário pode. sem acompanhamento integral das obras. o exercício da engenharia do proprietário passou a ser defini­ do como de spot check. sem um acompanhamento passo a passo da obra.Usina hidroelétrica de Serra do Facão no rio São Marcos com 212 MW de capacidade instalada 367 . acompanhando a integralidade das obras. em que se verificam riscos às obras e às pessoas. Tal tipo de atuação não transfere riscos sob responsabilidade dos construtores para o empreendedor. muitas vezes quando o construtor já estiver isento de qualquer responsabilidade legal sobre o problema. ficaram reduzidas a poucos profissionais. mas tão somen­ te verifica o atendimento às normas e especificações executivas. desenvolvendo um trabalho de verificação de aderência das atividades às normas e especificações técnicas. A interferência direta se dá apenas em casos extremos. uma das principais alterações conceituais percebida foi no enfoque dado à questão da engenharia do proprietário. uma vez que importantes etapas das obras deixam de ser acompanhadas. traduzido do inglês owner’s engineering. a exemplo do que sempre ocorria nas gestões de grandes obras no Brasil. acompanhando o emprei­ teiro em todos os turnos de trabalho. vindo a manifestar suas consequências danosas apenas na fase de operação. diretamente pelo “olho do dono”. a partir das mudanças no marco regulatório observadas desde 1995. uma vez que não interfere diretamente na execução das atividades das obras. Vem.

368 .

e a estrutura é a mesma uti­ lizada na época de Eschwege. em Mariana. lugar da passagem da estrada entre Ouro Preto e Mariana. Eschwege aplicou técnicas modernas para a época. as quais tiveram seu início em épocas que remontam a cerca de 300 anos atrás. e instalou um engenho com nove pilões e moinhos para pedras. Há alguns anos. e o Grupo Caraça (Formação Moeda e Batatal) ou Grupo Nova Lima (Supergrupo Rio das Velhas). a mina também passou a ser utilizada para mergulho nas galerias e túneis inundados pelas águas do lençol freático. As barragens de rejeitos no Brasil surgiram das atividades de mi­ neração. Antes até da corrida do ouro no oeste americano. Atualmente. Esta mina é descrita a seguir. entre a Forma­ ção Cauê. a sudeste de Belo Horizonte. pelo Barão de Eschwege. de forma sintética. ficando a exploração paralisada em alguns momentos devido à conjuntura econômica do Brasil e à baixa cotação do ouro no mercado. sendo que uma lavra rudimentar foi iniciada em 1729. até então não usados no Brasil. Introdução O presente capítulo apresenta um sumário da experiência brasileira em barragens de contenção de resíduos de mineração e de indús­ tria. a atividade de mineração de ouro no Brasil já ha­ via se iniciado com a Mina da Passagem. o que já é bastante difundido na Europa. o ouro primário foi descoberto na região no início do século XVIII. Eschwege deixou o Brasil e desta época em diante a propriedade passou pelas mãos de vários mineradores. [Ref. A Mina da Passagem é um bom exemplo de iniciativa de valorização e utilização de minas antigas para geoturismo. com o nome de Sociedade Mineralógica da Passagem. Até essa época. a evolução histórica das barra­ gens de rejeitos no Brasil. dando inicio a uma profunda galeria para esgotamento de água e elaborou o primeiro plano de lavra subterrânea em Passagem. Entre 1729 e 1819. com foco em seu desenvolvimento de tecnologias de disposição e na aplicação das técnicas da engenharia de barragens ao projeto e construção de barragens de rejeitos. A Mina da Passagem está localizada na Vila da Passagem. a Mina da Passagem foi transformada num complexo turístico onde os equipamentos desativados foram requalificados. a exploração do ouro utilizava técnicas e ferra­ mentas rudimentares na lavagem e beneficiamento do minério. no topo. 1] Barragem São Bento . junto com algumas concessões vizinhas. que criou a primeira companhia mineradora do País de capital pri­ vado. sob o Ribeirão do Carmo.2005 369 . 1]. conforme é descrito adiante neste capítulo. O acesso é feito por meio de um trolley.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens As Barragens de Rejeitos no Brasil: Sua evolução nos últimos anos Joaquim Pimenta de Ávila e Marta Sawaya 1. A mineralização está inserida no Supergrupo Minas. Descreve. Em 1821. pela importância histórica que tem na mineração brasileira. vá­ rios mineiros obtiveram concessões para explorar a propriedade mineral da Passagem até que em 1819 ela foi adquirida. De acordo com Ruchkys e Renger [Ref.

Um pequeno dique era inicialmente preenchido com rejeitos hidraulicamente depo­ sitados e depois incrementado por pequenas bermas. as indústrias investiram na construção das primeiras barragens de contenção de rejeitos.A História das Barragens no Brasil . quando fortes chuvas ocorriam. XX e XXI Em relação aos rejeitos gerados. A situação no Brasil não foi diferente do resto do mundo. a disponibilidade de equipamentos de alta ca­ pacidade para movimentação de terras. embora em algumas mi­ nas sejam hoje aplicadas tecnologias disponíveis de implantação de barragens. Esse desenvolvimento ocorreu ainda sem a aplicação das técnicas da engenharia de barragens.3]. Esse procedimento de construção. além de contaminar as áreas a jusante. as atividades de mineração. a geração de rejeitos pelas empresas de mi­ neração e os impactos decorrentes de sua disposição no meio ambiente eram considerados desprezíveis. Precedentes legais gradativamente trouxeram um fim à dispo­ sição incontrolada de rejeitos na maioria dos países ocidentais. que abriram caminho para elaboração das primeiras legislações sobre o gerenciamento de resíduos da mineração. especialmente em minas a céu aberto. Na diversidade das condições brasileiras. as práticas de dispo­ sição de rejeitos permaneceram inalteradas e. O desenvolvimento da tecnologia para construção de barragens de contenção de rejeitos ocorreu de modo empírico. Raramente existiam engenheiros ou critérios técnicos envolvidos nas fases de construção e de operação. Na década de 40. Foi somente a partir do início do século XX. sendo então enca­ minhados para algum local conveniente. em 2004 [Ref. atraindo indústrias de apoio e desenvolvendo a comunidade local. e os aspectos relacionados ao uso da terra e da água conduziram os confli­ tos iniciais. com considerações limitadas apenas para inundações. e a evolução deste assunto no panorama mundial pode ser percebida por um levantamento feito pelo USCOLD. ainda prevalece em minas de tecnologia mais rudimen­ tar a construção empírica. A partir do século XV. como descrito a seguir. Entretanto. de maneira similar às barragens convencionais. que se desenvolveu a partir da década 370 . Consequentemente. lagos e oceanos. com cada vez menor granulometria. Os produtores rurais começaram a associar a diminui­ ção da colheita nas terras impactadas aos rejeitos. tornou possível a construção de barragens de con­ tenção de rejeitos com técnicas de compactação e maior grau de segurança. para a manutenção da mineração e a mitigação dos impactos ambientais. formando depósitos sem nenhuma preocupação de ordenação e sistematização. As barragens construídas no início do século XIX geralmente eram projetadas transversalmente aos cursos d’água. Até meados de 1930. com a introdução da força a vapor e com o aumento significativo da ca­ pacidade de processamento dos minerais de interesse econômico.Séculos XIX. resultando na produção ainda maior de rejeitos. Entretanto. em cursos d’água ou lançando-os em terrenos adjacentes. atualmente mecanizado. continua sendo utilizado. particularmente por inte­ resses agrícolas. equipamentos para movimentação de terras não eram acessíveis para a construção das barragens. que os pequenos dis­ tritos minerários começaram a se desenvolver. poucas destas barragens permaneciam estáveis. No entanto. Antes do século XV. geralmente próximo aos rios ou cursos d’água. Foi a partir da década de 30 que. pois os rejeitos frequentemente acumulados no solo obstruíam os poços de irrigação. a geração de rejeitos aumentou significativamente e estes pre­ cisavam ser removidos da área de produção. Surgiram também conflitos pelo uso da terra e da água. como resultado. algumas destas práticas acontecem até hoje em muitos países em desenvolvimento. engrena­ do pelas práticas de construção e equipamentos disponíveis em cada época. o desenvolvimento tecnológico aumen­ tou ainda mais a habilidade de minerar corpos com baixo teor mineral. por mui­ to tempo descartaram seus resíduos na natureza. mais rejeitos estavam sendo depositados e transportados por distâncias cada vez maiores das fontes geradoras para os cursos d’água. com o cessamento de práticas inadequadas que ocorriam até 1930.

O progresso das tecnologias de implantação de barragens de re­ jeitos foi sempre entremeado pelos acidentes com rupturas de barragens. o controle da segurança das barragens era basicamente orientado para a segurança estrutural e hidráulicooperacional. Numa primeira fase. na década de 50. Entretanto. as técnicas de observação do comportamento das barragens durante a operação vieram reforçar a necessidade do controle da segurança em longo prazo. sem grandes acidentes. Exemplos desta aplica­ ção são as barragens de: Pontal. resultando em volumes de resíduos a serem represados pelas barragens. da Samarco. compatível com probabilidade de ruptura adequadamente baixa. [Ref. Assim. a construção de barragens de rejeitos no Brasil teve por muitos anos aplicada a prática de utilizar os equipamentos de la­ vra. Posteriormente. para criar volumes de retenção dos rejeitos do beneficiamento do minério. Com o passar do tem­ po. novos desenvolvimentos na ciência de mecânica do solo. especiali­ zados nas técnicas de lavra. construção e operação como for­ ma de garantir à sociedade. trans­ versalmente aos vales. Em 1965.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens de 30. em Mariana. considerando o potencial de dano ambiental e os mecanismos de transporte de contaminan­ tes. Aspectos de estabilidade física têm permanecido na vanguar­ da. a maioria dos aspectos técnicos (por exemplo. tais como melhor compreensão do comportamento dos materiais. falhas ocorrem. em Nova Lima. pela exigência da sociedade de eliminação desses desastres. os quais sempre foram catalisadores do progresso tec­ nológico da engenharia de barragens. Esses projetos se torna­ ram possíveis com a ampliação contínua do conhecimento e con­ trole dos aspectos de segurança. infiltração. um terremoto causou rompimento de muitas barra­ gens no Chile. em Itabira. introdução de equipamentos cada vez mais robustos para movimentação de terra. de supervisão deficiente durante a construção. e Germano. 2 e 3] 371 . com orientação técnica dos engenheiros de minas. Entretanto. a produção de rejeitos aumentou. com o progres­ so das atividades de mineração e aumento da escala de operações. em que a característica básica era investir contra a causa potencial da ruptura da barragem. liquefação e estabilidade da fundação) já eram bem entendidos e controlados pelos projetistas. os aspectos ambientais também cresceram em importância. recebendo considerável atenção e tornou-se um fator chave na pesquisa sobre as causas das rupturas. abordados em outras áreas como a de geração de energia elétrica. A regra era optar pelo controle rigoroso do projeto. Águas Claras. e às populações residentes nos vales a jusante. e as áreas para disposição se tornaram cada vez mais escassas. Na década de 70. culminando no desenvolvi­ mento dos projetos de engenharia permitindo a construção de barragens com alturas cada vez maiores. construindo aterros com o material estéril removidos da mina e lançados em forma de aterros. muitas vezes. da então MBR Minerações Brasileiras Reunidas. mui­ tos dos princípios fundamentais de geotecnia já eram compre­ endidos e aplicados em barragens de contenção de rejeitos. quando o progresso na fabricação dos equipamentos de terraplenagem foi aproveitado nas operações de lavra e constru­ ção de barragens. de projetos mal elaborados. uma segurança satisfatória. A atenção foi amplamente voltada para estabili­ dade física e econômica das barragens. as atividades eram bem sucedidas. ou negligência das características vitais incorporadas na fase de construção. A partir da década de 80. o qual se resumia a operações de britagem e peneiramento com lavagem. com implicações financeiras severas em muitos casos. os problemas estruturais destas barragens passaram a representar riscos maiores e rupturas significativas começaram a ocorrer. embora nem sempre fossem usados os conhe­ cimentos sobre a engenharia de barragens. por causa de recentes acidentes com barragens de rejeitos que ganharam amplo espaço na mídia. em geral. Assim. Enquanto estas barragens rudimentares se resumiam a estruturas baixas e de menores volumes de represamento. da Vale. devido à falta de aplicação adequada dos métodos conhecidos.

até 2001. à não aplicação das tecnologias existentes. que marcaram. em grande parte. à época dois extremos. em termos de aplicação de engenharia: Buffalo Creek era uma pilha de estéril que estava operando como dique de contenção dos rejeitos. muitas das quais catastróficas.Séculos XIX. Lessons Learnt From Practical Experiences ) com o resultado de um trabalho da comissão de barragens de rejeitos que. são mostrados os acidentes com maior número de mortes. o panorama desta área da engenharia.Principais Acidentes com Mortes (1970-2001) Ano 1985 1972 1970 1994 1974 1995 1986 2001 1978 Barragem / País Stava / Itália Buffalo Creek / USA Mufilira / Zambia Merriespruit/ África do Sul Bakofeng / África do Sul Placer / Filipinas Fernandinho / Brasil Rio Verde / Brasil Arcturus / Zimbabwe No de mortes 269 125 89 17 12 12 7 5 1 (dados segundo ICOLD-2001) 2. Participaram deste inventário represen­ tantes de 52 países. o que tem catalisado uma evolução positiva da própria tecnologia de rejeitos. publicou um boletim (Bulletin 121: “Tailings Dams. po­ rém em uma situação de ocorrência de uma geologia complexa e materiais de fundação com comportamento de difícil análise. desde os anos 70. Risk of Dangerous Occurrences.A História das Barragens no Brasil . A partir dos resultados apresentados. durante cinco anos. em suas particularidades principais. Stava foi uma barragem projetada segundo a prática corrente da engenharia. XX e XXI A ocorrência destes acidentes tem tido grande influência na atitu­ de dos profissionais de geotecnia de barragens. tanto na direção da redução do potencial de dano dos reservatórios de rejeitos. sem qualquer engenharia de barragem. portanto. inventariou os acidentes e incidentes ocorridos desde 1970. Fatos relevantes na evolução recente da geotecnia de barragens de rejeitos 2. embora seja observado o aparecimento em número crescente de publicações específicas sobre barragens de rejeitos e temas correlatos. aspectos que são abordados resumidamente. Na primeira tabela. o limite do “estado da arte” vigente à época. 372 . e Buffa­ lo Creek. O melhor conhecimen­ to do comportamento geotécnico dos rejeitos vem permitindo implantar estruturas mais seguras. representaram. o ICOLD ( International Commission on Large Dams ). Observa-se que o Brasil comparece na tabela com dois casos: Fernandinho e Rio Verde. Rupturas e incidentes em barragens de rejeitos A apresentação destes fatos relevantes inicia-se obrigatoriamente pelos acidentes com rupturas. atingindo. Os métodos de disposição de rejeitos têm também evoluído po­ sitivamente. quando esta estatística foi atualizada. foram preparadas as duas tabelas apresentadas a seguir. como do aumento da segurança das estruturas de contenção dos mesmos. nas ações preven­ tivas. que colaboraram com informações sobre acidentes e incidentes. As causas des­ tes acidentes têm sido atribuídas. Tabela 1 . nos EUA. e no estabelecimento de regulamentações específicas sobre a segurança de barragens de rejeitos.1. Em 2001. na Itália. As duas maiores catástrofes ocorridas: Stava. Cerca de 400 casos foram analisados para identificar as causas principais destes eventos.

000m³ de cianeto contaminando águas 700. Existem ain­ da numerosos incidentes que. pro­ duziu nos últimos anos 10 boletins. em forma de recomen­ dações de boa prática para projeto. situações já resolvidas pela tecnologia disponível. 373 . para redução de riscos.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A segunda tabela mostra os aciden­ tes. na grande maioria dos ca­ sos.onde não ocorre a ruptura. sem mortes. com consequências indesejáveis para a sociedade e para o setor de mineração e indústria. As causas desses acidentes incluem.Acidentes Recentes com Contaminação Ano Local Consequência 2007 Mirai / Brasil Mirai / Brasil Cataguases/ Brasil Kentucky/ Usa Vazamento de rejeitos de bauxita Interrupção de fornecimento de água Vazamento de rejeitos de bauxita Interrupção de fornecimento de água Lixívia negra liberada Interrupção de fornecimento de água Mortalidade de peixes Interrupção no fornecimento de água Contaminação das águas c/ metais pesados 100. composto de especialistas de diversos países. construção e operação de barragens de rejeitos. Alguns são citados a seguir: O ICOLD. e as defici­ ências decorrem da não aplicação de ações voltadas a garantir a segurança de estruturas. Observa-se que o Brasil compa­ rece novamente na tabela. mas ocorre o vazamento de sólidos para jusante com conseqüências variáveis. não são informados. tirando a chance de aprendizado com suas causas. que falham na sua responsabilidade de adotar procedimentos gerenciais de segurança. Tabela 2 . Várias entidades internacionais têm trabalhado para a cons­ cientização dos proprietários e têm produzido excelentes contri­ buições sobre a segurança das barragens de rejeitos.000 m³ de água ácida tóxica liberada 5. porque os proprietários não os revelam. Esta situação não é exclusiva do Brasil. como um todo. com três casos.estes mais nume­ rosos . porém com degradação ambiental significativa. e outros países já identifi­ caram as mesmas deficiências de proprietários e operadores. Além destes acidentes ocorrem incidentes .2 milhões de m³ de lama com cianeto (dados segundo ICOLD-2001) 2006 2003 2000 2000 2000 1999 1998 1998 1995 Romênia Romênia Filipinas Haelva/ Espanha Aznalcóllar/ Espanha Omai / Guiana Os acidentes em barragens de rejeitos continuam insistente­ mente a ocorrer no Brasil. infelizmente.0 milhões de m³ de água ácida liberada 4. de cianeto contaminando águas 50.000 t.

A MAC (Mining Association of Canada) produziu vários trabalhos de interesse aos procedimentos de segurança de barragens para uso de seus associados.feam. África do Sul 2.334/2010 tem as características a seguir listadas. O ICMM (International Council on Mining Metals) criou. No estado de Minas Gerais.A História das Barragens no Brasil . resultaram em uma legislação federal sobre segurança de barragens. do corpo docente de universidades e de empresas de engenharia. O Banco Mundial. as tentativas que vêm sendo feitas há mais de trinta anos somente agora. Austrália. Após o acidente com a barragem de rejeitos da Mineração Rio Verde. Canadá.com/tailings). diversos países da Europa. 87/2005 e 124/2008. algumas empresas de menor porte. Nos países mais desenvolvidos. um website de boas práticas para a engenharia de barragens de rejeitos.goodpracticemining. a FEAM coordenou a elaboração de regulamenta­ ção específica. com recomendações sobre a melhor prática para a segurança.FEAM. a situação não é diferente.334/2010. em 2001. essas ações resultaram em regulamentações sobre a segurança de barragens e esses países contam com legislação sobre o assunto. em 2001. entretanto. infelizmente ainda desconhecem os aspectos principais da técnica de segurança de barragens. Embora existam algumas empresas de grande desempenho. sobre a segurança de barragens A Lei 12. em 2010.334/2010). que conhecem a necessidade de uma boa gestão da segurança. desde diretores até operadores de barragens de rejeitos.2. Embora as ações para implantação de uma legislação federal de segurança de barragens tenham já cerca de 30 anos no Brasil (basi­ camente.3. No Brasil. e contou com consultoria especializada. à disposição final ou temporária de rejeitos e à acu­ mulação de resíduos industriais que apresentem pelo menos uma das características abaixo:  374 . ações do CBDB junto ao governo). As regulamentações resultantes deste processo estão hoje nas Delibe­ rações Normativas. levando a tentativas diversas de regulamentação legal que obrigue os proprietários de barragens a tomarem providências efetivas de redução de riscos. com a colaboração do ICOLD. a comissão de barragens de rejei­ tos do ICOLD publicou o boletim 121. por meio do IFC (International Finance Corporation). O Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM) tem incentivado debates sobre o tema de segurança de barragens. que podem ser consultadas pelo site da FEAM: www. concentrada nas barragens de rejeitos. já mencionado. que financia o setor privado. onde são apresentados e analisados os acidentes e incidentes com barragens de rejeitos nos últimos anos. · Aplica-se às barragens destinadas à acumulação de água para quaisquer usos. Implementação de legislação e regulamentação de segurança de barragens Os acidentes em barragens provocaram sempre reações da sociedade em todo o mundo. estabeleceu requisitos mínimos de segurança que as barragens de rejeitos devem atender para receberem empréstimos daquela instituição. 2. XX e XXI Dentre os 10 boletins. constata-se um maior progresso na regulamentação. As barragens de rejeitos em MG somente são licenciadas se atenderem aos requisitos das regulamentações. (www. somente em 2010 foi criada uma lei federal de segurança de barragens (Lei 12. promovendo se­ minários e workshops específicos e instituiu cursos de treinamento para empresas de mineração em todas as esferas hierárquicas. DN 62/2002.br. como EUA. DN 65/2003. que foi discutida com representantes das empresas mineradoras.Séculos XIX. A lei federal 12. No Brasil. com forte influência da ocorrência de acidentes e da atuação dos órgãos re­ guladores e fiscalizadores como o Ministério Público Estadual e a Fundação Estadual do Meio Ambiente .

(1978). Tailing Disposal Today. opera­ ção e fechamento de barragens de rejeitos.A população deve ser informada e estimulada a participar.O Relatório de Segurança de Barragens.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens I . ambientais ou de perda de vidas humanas. Design and Analysis of Tailings Dams ( 1983). V . sociais. Volume 1: Proceedings of the First International Symposium (1972). 3. que aborda os aspectos relevantes relacionados ao projeto. de início como Uranium Mill Tailings Management. Vick. construção. Argall.O Cadastro Técnico Federal de Atividades Potencialmente Poluidoras ou Utilizadoras de Recursos Ambientais.  · Os fundamentos da Política Nacional de Segurança de Barragens – PNSB são: I . ABMS (Associação Brasileira de Mecânica dos Solos e Engenharia Geotécnica).  III . ICMM site: www. construção. contada do ponto mais baixo da fundação à crista.A segurança de uma barragem deve ser considerada nas suas fases de planejamento.Altura do maciço.  IV .O Sistema Nacional de Informações sobre Segurança de Barragens (SNISB). S.goodpracticemining. em todos os aspectos de seu comportamento geotécnico.A promoção de mecanismos de participação e controle social.Categoria de dano potencial associado. desativação e de usos futuros. Jr (Ed.000 m³ (três milhões de metros cúbicos). direta ou indiretamente. Aplin e George O. a Comissão de Barragens de Rejeitos do ICOLD. Volume 2: Proceedings of the Second International Symposium. e vá­ rios projetos com aplicação de novos métodos de disposição têm resultado em significativa evolução das práticas de engenharia de barragens de rejeitos. VII .). cabendo-lhe o desenvolvimento de ações para garanti-la.Reservatório que contenha resíduos perigosos conforme normas técnicas aplicáveis. médio ou alto. concluiu o boletim Improving Tailings Dams Safety.com/tailings Recentemente. trabalhos de pesquisa nas universidades brasileiras passaram a enfocar o comportamento dos rejeitos.  V . Volume 1. Os principais estão listados a seguir: • • • • • • C. • • Proceedings of an International Bauxite Tailings Workshop (1992). A partir dos anos 80. VI . Desenvolvimento de tecnologia específica sobre barragens de rejeitos Vários trabalhos têm sido publicados sobre a tecnologia de pro­ jeto.O empreendedor é o responsável legal pela seguran­ ça da barragem. Planning. vários anos a partir de 1978. Colorado University.000.Capacidade total do reservatório maior ou igual a 3. das ações preventivas e emergenciais. construção.O Sistema Nacional de Informações sobre o Meio Ambiente.  · Os instrumentos da Política Nacional de Segurança de Barragens são: I .O Plano de Segurança de Barragem.L. 10 boletins a partir de 1982.O sistema de classificação de barragens por categoria de risco e por dano potencial associado. Proceedings: Tailings and Mine Wastes. 375 . Tailing Disposal Today. projeto. 6o. REGEO e COBRAMSEG´s.  II . em termos econômicos.  III . indicando as principais referências bibliográficas sobre cada um destes estágios. (1987 e seguintes).).O Cadastro Técnico Federal de Atividades e Instrumentos de Defesa Ambiental. conforme definido no art. III . George O. II . Argall.  IV . operação. maior ou igual a 15 m (quinze metros). operação e fechamento de barragens de rejeitos.  II . ICOLD Committee on Tailings Dams and Waste Lagoons. IV . primeiro enchimento e primeiro vertimento. Jr (Ed.A segurança de uma barragem influi diretamente na sua sustentabilidade e no alcance de seus potenciais efeitos sociais e ambientais. G.

UFOP. inicialmente na PUC-Rio (anos 80). para a previsão das densidades e cálculos da vida útil dos reservatórios. após a ocorrência de grandes rupturas com mortes e grandes impactos ambientais. UFV. em geral.A História das Barragens no Brasil . Os métodos de alteamento por montante e por linha de centro têm vantagens econômicas. na Universidade do Colorado. podem ser encontrados em trabalhos produzidos pela UNB e UFOP. a disposição de rejeitos era feita sem uma abordagem de engenharia adequada. com os modelos de simulação de adensa­ 3. Estudos em laboratório sobre secagem de rejeitos (Lúcio Villar) também foram desenvolvidos. 376 . Comportamento geotécnico dos rejeitos Nos anos anteriores à década de 70. Conforme já mencionado. abordando estas características dos rejeitos nas universidades: PUC/Rio. a partir dos trabalhos pioneiros do professor Robert Schiffman. foram desen­ volvidas nos últimos 25 anos. algumas universidades passaram a dar atenção à geotecnia de disposição de rejeitos. o principal elemento instabilizador. Estudos sobre a influência da mineralogia na resistência ao cisalha­ mento de rejeitos granulares. Deve ser mencionado que o desenvolvimento dessas pesquisas tem sido aplicado tanto para determinação de características geo­ técnicas dos rejeitos. Entretanto. baixo potencial de dano e benefícios ambientais que estes métodos proporcionam. Aplicação de novos métodos de disposição de rejeitos Os métodos mais comuns de disposição de rejeitos consideram. como para aplicação de métodos de análises dos problemas de disposição.Séculos XIX. UFOP Universidade Federal de Ouro Preto. Cerca de 50 dissertações de mestrado até o presente. Na área de novos métodos de disposição. UnB Universidade de Brasília e UFV Univer­ sidade Federal de Viçosa. ou armazenavam os rejeitos em reservatórios cria­ dos por aterros de estéril de lavra. 3. mento por diferenças finitas. com importantes contribui­ ções ao conhecimento deste comportamento e possibilitando a implantação de projetos de novos métodos de disposição. pois apresentam redução do custo de implantação e têm o custo de construção e custo operacional distri­ buído no tempo. XX e XXI Na área da pesquisa as universidades PUC-Rio Pontifícia Uni­ versidade Católica Rio de Janeiro. a polpa represada em barragem convencional (projetada como barragem para água) ou como parte do maciço do barramento. Alguns projetos simplesmente lançavam os rejeitos nos cursos de água existentes. pela aplicação da teoria do adensamento a grandes deformações. Nos aspectos de compressibilidade de rejeitos. em um núme­ ro crescente de casos. pesqui­ sando as características de compressibilidade de rejeitos com uti­ lização de ensaios de adensamento em laboratório (inicialmente CRD e atualmente HCT). passou-se a considerar e. A disposição de rejeitos em pasta ainda não conseguiu superar os problemas do seu custo alto. elaborando projetos de pesquisas em co­ laboração com empresas de mineração e indústria. UNB.2.1. e posteriormente de forma mais intensa na UFOP (anos 90 e atual) e UFV. Vários aspectos importantes têm sido pesquisados. têm na água dos poros do rejeito e do reservatório. como nos casos de alteamento por linha de centro e alteamento por montante. embora tecnicamente este método seja uma solução muito favorável. Várias teses de mestrado e doutorado foram desenvolvidas sobre esse tema. a de rejeitos finos com secagem e a aplicação de empilhamento drenado merecem des­ taque pelas características de economia. um grande pro­ gresso foi possibilitado. No Brasil. a aplicação da tecnologia disponível de engenharia de barragens ao problema. assim como de potencial de liquefação. já produziram dezenas de teses so­ bre o comportamento de rejeitos.

com fração mínima de areia. de grande capacidade de vazão. Empilhamento drenado Neste método. O projeto da barragem. adota-se uma estrutura drenante. foram iniciados há algumas décadas e vêm sendo aprimorados ao longo do tempo. 377 . com baixo teor de argila e de grande conteúdo de fração granular. São apresentadas aqui duas situações de projeto. envolvendo os dois tipos básicos de rejeitos: a) os que contêm uma fração expressiva de material arenoso/siltoso. a água é retirada por drenagem e no caso dos rejeitos argilosos a evaporação é o principal agente da retirada da água. Os objetivos principais dos novos métodos de disposição são: • Redução do custo. predominando argila e silte. mas libera essa água através de um sistema de drenagem interna. o que se pretende apresentar são méto­ dos que priorizam a disposição com menor grau de saturação dos rejeitos.1. • Maior aproveitamento da água. Monjolo (Mina de Água Limpa). nestes casos. • Vantagens para o fechamento. • Maior capacidade do reservatório. as pilhas do Xin­ gu (Mina de Alegria). Na presente abordagem. a disposição é mais econômica por tonelada de rejeito disposto. também da Samarco. é semelhante ao de uma barragem para retenção de água. deste método. ao invés de utilizar uma estrutura impermeável de barramento. surgiu recentemente a expres­ são pervious dam para designar um “novo método”. • Obter menor potencial de dano em uma eventual ruptura. embora em poucos casos. Pilha da Barragem do Germano. e b) os que contêm maior conteúdo de material mais fino. 3. com baixo risco de liquefação e de ruptura. Há também a expressão “métodos alternativos”. Os objetivos principais do método de empilhamento drenado são: • Obter um maciço não saturado. Os dois tipos de rejeitos podem ser dispostos por métodos que retiram água dos mesmos. desde a década de 80.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Os novos métodos de disposição procuram reduzir o grau de satu­ ração da polpa de rejeitos por meio da drenagem da água dos poros ou da evaporação. Desta forma. al­ guns dos métodos hoje chamados de novos. no Brasil. ligada aos rejeitos do reservatório.0 m). os métodos que utilizam a disposição com menor grau de saturação dos rejeitos têm assumido maior importância por introduzirem situações de menor risco. portanto. o problema da segurança das barragens de rejei­ tos. • Aplicação segura do método de montante. da Samarco (altura de 175. Entretanto.2. A expressão “novos métodos de disposição” contém implícita uma expectativa de inovação na técnica de disposição. • Obter maior facilidade para o fechamento e recuperação ambiental. sendo que a polpa de rejeito fica retida com praticamente o mesmo grau de saturação da ocasião do bombeamento. com a mesma in­ tenção de diferenciar do método clássico de bombear lama de alto grau de saturação para uma barragem impermeável que retém os sólidos e a água. de forma que inovações estão presentes em processos antigos de disposição. que não retém a água livre que sai dos poros dos rejeitos. Nos anos mais recentes. mais vantajoso é o método. portanto com maior estabilidade. • Obter maior densidade e. maior capacidade e vida útil. Além destas características. No caso dos rejeitos arenosos. e Pilha da Cava do Germano (altura de 160 m). Este método tem sido utiliza­ do no Brasil. São exemplos principais. • Menor chance de contaminação. Este tipo de disposição é o mais utilizado. É interessante notar que na Europa. embora contenham aspectos de desenvolvimento recente. Em conseqüência. • Aumento da segurança. assumiu uma expressão maior e vem condicionando várias escolhas na seleção de alternativas. que está sendo proposto para reduzir o potencial de dano. quanto mais água for retirada dos rejeitos.

Figura 1 . que devem ter suas características de drenabilidade bem estudadas previamente no projeto. onde duas áreas são preenchidas com pilha drenada. O maciço de rejeitos obtido ao final é uma pilha de material arenoso.Séculos XIX. na umidade natural.A História das Barragens no Brasil .Aspecto do rejeito após a drenagem Figura 3 . XX e XXI Nas figuras a seguir são apresentadas fotos das pilhas da Samarco. sem risco de ruptura que provoque uma onda de lama para jusante.Empilhamento drenado após drenagem Figura 2 .Superfície final do talude da pilha Figura 4 .Correia transportadora implantada sobre a pilha de rejeitos 378 . O dreno de base é implantado no fundo do reservatório e recebe toda a água drenada dos rejeitos.

Basicamente. em Paragominas. devendo a escolha ser feita pela combinação do menor custo com a viabilidade da secagem com menores densidades. A solução de projeto depende do comportamento reológico da lama. passando na #400. As figuras e as fotos a seguir mostram as características de secagem das lamas da MRN e Paragominas. e bombeado para um reservatório onde sua superfície é exposta à evaporação com o teor de sólidos crescendo até valores da ordem de 80%. e da Vale. Disposição de rejeitos finos com secagem O método de disposição chamado de dry stacking é antigo e muito utilizado pelas empresas de alumínio para disposição econômica de rejeitos de resíduo de produção de alumina (red mud). O Método de Secagem pode também ser aplicado.2.2. Neste método o rejeito fino (em geral de granulometria passando na peneira 400) é adensado em espessadores até teores de sóli­ dos elevados. 379 . Figura 5 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Em minas de bauxita. pois suas características podem inviabilizar em custo uma so­ lução. procura-se bombear a lama na máxima densidade bombeável com bombas centrífugas.Vista geral da pilha a jusante da barragem Figura 6 . São exemplos deste tipo de disposição os projetos da MRN. acima de 50%.Lançamento de lama de bauxita no reservatório 3. os resíduos da lavagem do minério é tam­ bém uma lama com sólidos de granulometria fina. em Porto Trombetas. A disposição com secagem apresenta diferenças em relação ao método de dry stacking de lama vermelha. com vantagens em relação ao bombeamento convencional de lama. procurando-se obter um teor de sólidos entre 30 e 35% para então ser submetido à evaporação no reservatório final.

em 1944. Algumas barragens de rejeitos representativas Apresenta-se aqui um resumo das informações de duas dessas barragens: uma que pode ser considerada como o primeiro siste­ ma de rejeitos implantado no Brasil. a qual contém a barragem de rejeitos mais alta do Brasil. A segunda barragem aqui apresentada é a barragem do Germano. em Nova Lima.0 m de altura. em processo inicial de secagem Figura 8 . 380 . A descri­ ção apresentada é do sistema em sua configuração atual. XX e XXI Figura 7 .Lama lançada.Séculos XIX. na Mina de Morro Velho (Mina do Queiroz). no município de Mariana. da Samarco. atualmente com cerca de 175.A História das Barragens no Brasil .Aterro construído sobre lama após a secagem Figura 10 .Teste piloto de secagem 4.Lama em estágio final de secagem Figura 9 . Minas Gerais.

transportado por meio de um teleférico com 15 km de extensão e capacidade no­ minal instalada de 830. na região do chamado Quadrilátero Ferrífero de Minas Gerais. O concentrado do minério da Mina de Cuiabá. principal unidade em operação no Brasil (Figura 11). próximo à divisa com o Município de Raposos. através das etapas de ustulação (que corresponde à Figura 12 – Localização da planta industrial do Queiroz (AngloGold Ashanti) 381 .000 toneladas de minério por ano. O acesso ao empreendimento. será abordado o tratamento na planta industrial do Queiroz. que liga Nova Lima a Belo Horizonte a uma distância aproximada de 30 km. três barragens e seis valas para disposição de rejei­ tos. alimentado pelo minério sulfetado da Mina de Cuiabá. Em particular aqui. pode ser feito pela rodovia MG-030.1 Mina do Queiroz . A planta possui duplo circuito. A planta industrial do Queiroz está situada no Município de Nova Lima .MG .MG. partindo-se de Belo Horizonte.000 m2. Figura 11 . Os dados aqui apresentados têm como base os documentos mencionados nas referências desta publicação [Ref.Anglo Gold Ashanti Este item foi redigido pelo engenheiro Murilo Amorim Costa e gentilmente cedido pela Anglo Gold Ashanti.Sistema de disposição de rejeitos – foto aérea das instalações A planta metalúrgica do Queiroz possui uma área útil de 480. em região da bacia hidrográfica do Córrego do Queiroz. além da planta de beneficiamento industrial propriamente dita. Localização e acessos A Anglogold Ashanti Córrego do Sítio Mineração (AGACSM) ope­ ra algumas minas e plantas metalúrgicas para beneficiamento de minério aurífero na região de Minas Gerais e Goiás. 4 a 8].Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens 4. afluente do Rio das Velhas (Figura 12). denominado Cuia­ bá .Raposos.Nova Lima . incluindo.

(denominada Barragem de Queiroz) a qual assegurou a deposi­ ção dos rejeitos da Empresa até meados do ano de 1954. todos eles localizados no vale do Queiroz. bilizada a construção de uma fábrica de ácido sulfúrico. desde o ano provável de 1944. encontram-se sob utilização os reservatórios das barragens de Rapaunha e Calcinados. foram concebidas de forma a serem alteadas à medida em que venha a ocorrer a ocupação do seu reservatório pelos rejeitos lançados: para isso. que passaram a operar no final do ano de 1982. o que dará vez à chamada barragem do Queiroz. a saber: .Séculos XIX.capacidade total de ~4 x 106 m3 17 x 106 m3 12 x 106 m3 12 milhões de m³. 60 kg de prata e 17. A produção média mensal (2010) é de 800 kg de ouro.Barragem de Queiroz . com a primitiva barragem ali existente. de Calcinados e o conjunto de valas de deposição de arsenato férrico (lama de gesso). Hoje con­ templa as seguintes unidades: barragem de rejeitos de Cocuruto.Barragem de Calcinados . com a acumulação. No circuito de Cuiabá. além de uma outra. Uma vez que o processo de ustulação retém os gases de SO2. este sistema foi ampliado com a construção de mais duas barragens. virá a ser pro­ movido o alteamento da barragem de Cocuruto. de Rapaunha. Inicialmente. suportadas por estruturas metálicas por um caminhamento sempre em nível ascendente. constava este de uma barragem interposta ao vale do Queiroz. Essas barragens. Histórico A AGACSM mantém. o que irá capacitar aquele reservatório a um incremento de deposição de cerca de 12 x 106 m3. um sistema de deposição de seus rejeitos industriais na região do vale do Queiroz. XX e XXI oxidação ou queima do minério na presença de oxigênio e tempera­ tura elevada) e a hidrometalurgia (responsável pela extração do ouro contido no minério). foi necessário introduzir a tecnologia de ustulação. foram sistematicamente instituídos pro­ cedimentos de gerenciamento das atividades de operação e moni­ toração das barragens de rejeitos integrantes do sistema. A partir do ano de 1995. A operação deste sistema foi iniciada no ano de 1944. para a recuperação do ouro no processo industrial. A partir de 1981. inserindo nestes a criação de uma equipe permanente de fiscalização e controle.capacidade total de . Parte do material resultante da ustulação volta para receber o processo de cianetação.A História das Barragens no Brasil . neste período. e o ácido sulfúrico.capacidade de . de um modo geral. construída em 1986. denominadas Rapaunha e Cocuruto. O rejeito gerado no processo de beneficiamento do minério é conduzido para tanques na unidade industrial e então bombeado para as barragens por meio de tubulações em PEAD ou aço car­ bono. No futuro. o programa de Descrição do sistema O sistema de deposição de rejeitos industriais processados pela An­ gloGold Ashanti Brasil Mineração na sua Instalação de Beneficia­ mento localizada no Queiroz é contido em 03 reservatórios e mais um sistema de valas fechadas. em Nova Lima.Barragem de Rapaunha . foi via­ deposição previu uma sequência de lançamentos com os consequentes alteamentos dos maciços. O produto final obtido são os metais ouro e prata. exaurida a capacidade de deposição na barragem de Rapaunha. 382 . O circuito Raposos é alimentado por minérios não-sulfe­ tados extraídos de minas menores do entorno de Nova Lima e está atualmente paralisado. de cerca de 2. e os resíduos são encaminhados para barragem de Calcinados e valas de lama arsenical. à altura do antigo bairro do Galo. de for­ ma a adequar o sistema às necessidades decorrentes da expansão da Empresa (Projeto Cuiabá/ Raposos). a barragem de rejeitos Calcinados. que se situa na mesma bacia hidrográfica da planta in­ dustrial do Queiroz. No momento atual.capacidade total de .5 x 106 m3.Barragem de Cocuruto .500 toneladas de ácido sul­ fúrico.

dos quais 5 milhões encontram-se ocupados por rejeitos depositados no período de 1986 até a presente data. formando a partir daí a praia. esses são lançados por meio de espigotes posicionados sobre o barra­ mento. encontra-se no momento sem receber aporte de rejeitos. prevê-se disponibilizar a barragem do Queiroz. como abordado anteriormente. construída a montante e simultaneamente com a barragem de Cocuruto.50 m (topo do muro de concreto.Seção esquemática da barragem do Rapaunha 383 .1. esses são lançados na posição mais a montante possível.50 m. Na barragem de Calcinados. que veio a operar até o ano de 1957. teve sua construção e início de operação em meados de 1983.1. que consiste em um alteamento da antiga barragem da MMV. que abriga os rejeitos inertes. Desde a Figura 13 . quando teve esgotada a sua capacidade adicional do alteamento. um lago protegido por dique é formado e o sobrenadante é bombeado para uma estação de tratamento de efluentes. sendo que 4. servindo apenas como reservatório de água para suprimento à planta metalúrgica. no momento. e foi concebida para que sua construção ocorresse em fases. havendo sido utilizada até o final do ano de 1985. de tal ma­ neira que a formação da praia ocorra de montante para o barra­ mento. os rejeitos eram conduzidos por gravidade por meio de canaletas construídas em concreto e lançadas tal como em Rapaunha na posição mais a montante possível. de acordo com a necessidade de enchimento do reservatório. não recebe rejeitos por estar com sua capacidade volumétrica tomada. onde está posicionado o lago e o sistema de recirculação de água para aproveitamento nas operações industriais. Sua elevação de crista encontra-se na cota 856. 4. A capacidade total de deposição em seu reservatório é de cerca de 17 milhões de toneladas de rejeitos.2 Barragem do Cocuruto A barragem de Cocuruto. Na posição a montante e mais próximo da ombreira esquerda. que abriga rejeitos não inertes. mantidas as taxas de produ­ ção previstas até o momento.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Na barragem do Rapaunha. O final de sua vida útil está previsto para se dar até o ano de 2025. posicionado sobre a crista da barragem) e o nível d’água do reservatório na elevação 853. entrada em operação da planta metalúrgica de Cuiabá. o aporte de rejeitos foi interrompido.1 Barragem do Rapaunha A barragem de rejeitos de Rapaunha. Após esse período. A barragem de rejeitos de Rapaunha situa-se no vale Queiroz. A barragem do Cocuruto. Quando de sua operação. aproximadamente 10 milhões de metros cúbicos.

Geologia e Fundação O maciço de fundações.A História das Barragens no Brasil . mantendo bombeamentos dos fluxos internos e do excedente da fração líquida do reservatório de retorno para a planta industrial. A área da bacia de deposição de rejeitos é caracterizada pela ocor­ rência da série Rio das Velhas.1. secundaria­ mente. na forma de camadas descontínuas ou lentes de médio porte. ocorreu até a cota 860 m. com predominância de rochas do Grupo Nova Lima. Figura 14 . O maciço original foi construído de um núcleo de aterro argiloso compactado. utilizando como material de cons­ trução o underflow da ciclonagem dos rejeitos gerados na Planta ocorreu por meio do método construtivo centerlining (linha-decentro) até atingir a cota 846 m.Séculos XIX. graças a sua maior resistência aos processos de erosão e denudação. A partir desta elevação. tendo sua crista situada na cota 830 m. os alte­ amentos passaram a ser realizados por jusante. por Formação Ferrífera laminada e conglomerado de matriz xística. devido à presença de siltes micáceos. apresentandobons parâmetros de resistência à penetração. competentes para garantir a estabilidade das fun­ dações das barragens de terra. O pacote estratigráfico do Grupo Nova Lima é local­ mente cortado por diques metadiabásicos e veios de quartzo de espessura métrica. da ordem de 10-5 cm/s. A cons­ trução do maciço ciclonado. o mesmo apresentabaixas permeabilidades. contendo para isso dispositivos especiais que lhe asseguram a operação em regime de “circuito-fechado”. excetuado seu recobrimento coluvionar e horizontes superficiais mais alterados. A barragem do Cocuruto tem previsão de alteamento no futu­ ro. por vezes na forma de solo re­ sidual resistente. de acordo com as condições de projeto. Quanto às propriedades hidráulicas do solo da fundação. caracterizados geomorfologicamente por cristas ou cordões realçados na topografia. Esta barragem não descarta efluen­ tes para jusante. XX e XXI a disposição desses rejeitos passou a ser feita no reservatório da barragem Rapaunha. embora anisotrópico devido à xistosidade.Seção da barragem do Cocuruto 4. a partir de quando terá sua capacidade acrescida em aproxi­ madamente 12 milhões de metros cúbicos. Esse grupo é representado principalmente por xistos e filitos metassedimentares e metavulcanicos e. Figura 15 . Os filitos se apresentam menos alterados na ombreira esquerda e na região de descarga das vazões.3 Barragem de Calcinados A barragem de Calcinados foi construída em 1986. passando a operar desde então. utilizando para o alteamento material ciclonado do rejeito originário do circuito de Raposos e do Rejeito da Flotação. é relativamente homogêneo. 384 . O alteamento da barra­ gem de Calcinados. destinando-se aos depósitos de rejeitos calcinados pro­ cessados na planta do Queiroz. em conseqüência da elevação de sua crista em mais 20 m.Seção da barragem de Calcinados Os filitos apresentam-se alterados.

sendo coberta por manto de intemperismo de espessu­ ra de 15 a 25 metros. compacto. que assumem localmente direção variando de N10 a N30. com trechos bastante íngremes. no conhecimento teórico e na experiência acumulada tanto com as atuais estruturas quanto com estruturas semelhantes. constituídos de silte argiloso de consistência média a rija. A estrutura mais marcante dos xistos é a foliação. 385 . amarela ou mar­ rom. com espessura média de 2 metros. ocorrem solos residuais de xisto. marrom. O perfil típico do manto de intemperismo apresenta. O perfil do subsolo apresenta basicamente uma camada superficial de argila siltosa mole. até a superfície da rocha alterada. Sobre esse ma­ terial. uma camada de xisto alterado. uma camada de silte argiloso vermelho. pro­ veniente da alteração dos xistos metassedimentares. uma camada de silte arenoso. Bombas flutuantes. marrom ou amarela. feita com base nas inspeções periódicas. até ser alcançado o impenetrável. o coeficiente de permeabilidade dos solos varia de 3 x 10-5 cm/s a 2 x 10-4 cm/s. A margem direita do vale apresenta inclinação média. constituído inicialmente por uma camada de silte argiloso de consistência média. apresentando índice de resistência à pe­ netração crescente com a profundidade. Tubulação de rejeitos. representada pelos seus planos de xistosidade. O coeficiente de permeabilidade é da ordem de 10-5 cm/s. em destacado. d) Aplicação de medidas de controle.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A área é recoberta por espesso manto de intemperismo. Tubulação de recirculação de água. Corta-rio. nas leituras dos instrumentos. passando gra­ dativamente a rijo e duro com xistosidade preservada. c) Avaliação das condições de funcionamento e/ou de segurança da estrutura. geralmente róseo. A margem esquerda apresenta inclinação acentuada. ocorrem solos silto argilosos de consistência rija a média. De uma maneira geral. Estação de tratamento de efluentes. sendo que o índice de resistência à penetração SPT cresce com a profundida­ de. aparecendo ainda uma camada superficial descontínua de argila sil­ tosa mole. onde são feitas observações superficiais nas várias estruturas que constituem o sistema de con­ tenção de rejeitos. Monitoramento e controle do sistema O monitoramento e o controle do sistema de contenção de rejeitos são realizados na seguinte seqüência: a) Inspeções periódicas de campo. de consistência mole. vermelho. Reservatórios das barragens. sem estrutura preservada. com mergulhos acentuados para SE. pouco consistente. com coloração variegada (rosa. Existe uma camada superficial de argila. Sistema de coleta e bombeamento de água percolada. da ordem de 11º. Sobrejacente ao solo residual de xisto. quando for o caso. amarelo). b) Leituras sistemáticas dos instrumentos. com espessura de poucos metros. pouco compac­ to. a partir da super­ fície. na utilização de ferramentas auxiliares como as ”cartas de risco”. uma camada de argila pouco arenosa. representado pela superfície de rocha alterada. As estruturas seguintes são objeto de monitoramento e controle. A calha do rio apresenta material impenetrável a percussão em profundidades de 5 a 15 metros – xisto alterado. entre outras. na sequência do Manual de Operação: Barragens de rejeitos. e fi­ nalmente o xisto são. Cada uma delas é abordada de forma conveniente. que se apresenta descontínua em face de escavações anteriormente re­ alizadas na área. Vertedouro de emergência. com coloração esverdeada. Sob essa camada. com espessura média de 2 m. pouco espessa.

para avaliação do potencial de ruptura. Sistema de vertimento O sistema de disposição de rejeitos do Queiroz. tem seu sistema extravasor. cisalhamento ou galgamento. cisalhamento ou galgamento. Régua graduada e pluviômetro. Com as informações obtidas nas inspeções periódicas e na leitura dos instrumentos pode-se então avaliar a segurança da barragem para as condições de ruptura por erosão interna.Séculos XIX. Piezômetros e medidores de nível d’água. Figura 16 . foi preparada uma carta de risco.A História das Barragens no Brasil . XX e XXI O monitoramento da segurança da barragem é feito utilizando-se dos seguintes tipos de instrumentos: Marcos superficiais. Medidor de vazão. conforme adiante descrito: 386 . A figura 16 apresenta a localização dos pontos de monitoramento ambiental.Pontos de monitoramento ambiental Diante das dificuldades de detecção de problemas pela simples inspeção visual. seja por erosão interna. constituído pelas três barragens e mais seis valas de lama.

Muito embora haja outros orifícios inferiores a esta elevação. À medida que são dispostos rejeitos no interior do reservatório. garantindo uma borda livre igual a 3. Barragem do Rapaunha Esta barragem possui a missão de armazenar rejeitos e água para uso na planta metalúrgica e utiliza um vertedouro tipo poço. Barragem do Cocuruto O barramento é dotado de um vertedouro tipo poço.9 x 106 1. responsável por lançar os vertimentos no córrego do Queiroz a jusante da barragem. 628 1. vão sendo adicionadas placas de concreto na torre de captação dessa estrutura para evitar o vertimento de rejeitos.20 m e declividade igual a 2. Como foi construído contemplando o arranjo inicial. 592 1. Ficha Técnica Plano de Fechamento Com vistas no futuro. o vertedouro permite operação até quando o nível do rejeito atingir a elevação 859. com ori­ fícios verticais duplos com dimensões iguais a 2.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Barragem de Calcinados É uma barragem em circuito fechado.5%. Tabela 3 – Ficha Técnica das Barragens Rapaunha.60 0.60 4. portanto. com seção transversal igual a 2.3 m e soleira na elevação 802.0 m. A torre do vertedor acopla-se a uma galeria em concreto arma­ do. Valas de lama As valas de lama não possuem sistema de vertimento. apenas drena­ gem interna.00 m.80 m e declividade igual a 22%. que atravessa o maciço e liga-se a uma tubulação em aço. em seção retangular com base igual a 1.4.50 m.0 m x 1. estes encontram-se selados por stop-logs em virtude do avanço de rejeitos. não havendo. onde os fluxos são coletados e bombeados para a estação de tratamento de efluentes. que é direcionada para jusante para um poço.50 52 41 FS 1. O fluxo oriundo das águas de percolação.1. Calcinados e Cocoruto Barragem Status Volume m3 Área km2 Rapaunha Operação 12 x106 4 x 106 4. sendo que está prevista a construção de outro vertedouro de superfície. construído na ombreira esquerda da barragem. seja pelas fundações. foi elaborado um plano de fechamen­ to para a Planta Metalúrgica do Queiroz.55 Construção Aterro compactado Rejeito ciclonado Aterro compactado Altura m 50. ver­ timento de seu reservatório. incluindo o sistema de disposição de rejeitos. A água acumulada no reservatório é encaminhada ao sistema de tratamento de efluentes por meio de bombeamento e posteriormente conduzida à barragem do Rapaunha. 4.40 m x 1. seja pelo maciço. para o fechamento da barragem. suficiente para amor­ tecimento de uma PMP (Precipitação Máxima Provável). é captado a jusante em poço e bombeado para o reservatório. 560 Drenagem Filtro vertical e tapete Tapete Filtro inclinado e tapete Classe III III III Calcinados Operação Cocuruto Fechada FS = Fator de segurança 387 .0 m.20 m e altura igual a 1. com diâmetro igual a 1.

posicionados sobre três antigas selas Figura 17 – Mapa com a localização da Unidade Operacional Germano 388 . que levam o minério para a planta de beneficiamento. 4. Tulipa e Selinha.A História das Barragens no Brasil .A é uma empresa brasileira de mineração que extrai minério de ferro das frentes de lavra do complexo de Alegria. em Mariana . XX e XXI Esse plano de fechamento é revisado periodicamente. somado à proximidade do final da vida útil do Reservatório do Germano. A partir do processo de beneficiamento do minério de ferro. Na Samarco. denominado lama e um rejeito com granulometria mais grosseira. Além da função de reservação de água. Neste contexto surge o Sistema de Rejeitos do Fundão. Com o início de operação da segunda unidade de beneficiamento (Planta II) da Samarco.A Introdução A Samarco Mineração S. houve um aumento na geração de rejeitos. A seguir estão apresentadas as informações do sistema do Ger­ mano. A empresa realiza lavra a céu aberto por meio de equipamentos móveis e por correias de banca­ da.Séculos XIX. que fecha o vale no lado extremo leste. fez surgir a necessidade de um novo local para a disposição dos rejeitos gerados pelas duas unidades de beneficiamento (Planta I e Planta II). o reaproveitamento da água utilizada no processo de beneficiamento do minério de ferro é realizado através de um sistema de recirculação com captação no reservatório da barragem do San­ tarém. localizados a montante. com base nos documentos mencionados no item 6 deste capítulo [Ref. no final de 2008. para ade­ quação da dinâmica das operações e atendimento às novas leis ambientais que venham a ser aprovadas. alimentando um sistema de correias transportadoras de longa distância. em um horizonte de operação de aproximadamente 9 anos. gerados pelas Plantas I e II. Esse fato. na Unidade Germano. são gerados dois tipos de rejeitos com ca­ racterísticas bastante distintas: um rejeito mais fino.MG. Esse plano de fechamento atende também o disposto no Código Internacional de Cianeto. que está localizada a jusante dos reservatórios do Germano e do Fundão. a barragem do Santarém tem como finalidade a contenção dos sedimentos provenientes destes reservatórios. e pelos diques da Sela. Localização do sistema O reservatório do Germano é formado pela barragem prin­ cipal. denominado rejeito arenoso. como uma nova área para a disposição dos rejeitos granulares (arenosos) e finos (lamas).2 Sistema de Disposição de Rejeitos do Germano Samarco Mineração S. 9 a 11]. ex­ traído pela Samarco. Este sistema não faz parte da presente descrição. aos sistemas de certificações obtidos e implementados pela empresa.

Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens topográficas na margem nordeste do reservatório. A mesma entrou em operação em 1977. a jusante da barragem do Germano. em 1976. O sistema de drena­ gem interna deste dique de partida consistia em Figura 18 . Posteriormente. o empilhamento drenado de rejeitos arenosos. foi a alternativa adotada para postergar a implantação de uma nova área de disposição de rejeitos e me­ lhorar as condições de estabilidade da barragem principal.2. A partir daí. Com o ob­ jetivo de garantir a continuidade do lançamento dos rejeitos no reservatório.5 m e altura máxima igual a 70 m.Vista geral do sistema de disposição de rejeitos da Samarco O reservatório do Germano foi formado a partir da construção da barragem Princi­ pal do Germano. com uma camada de transição entre o núcleo e o enrocamento. Tulipa e Selinha para o fechamento das três selas topográficas existentes na região nordeste do reservatório. O empilhamento de rejeitos a jusante da barra­ gem principal teve início a partir de um dique de partida. 4. A partir daí. visando a situação de fechamento. por diques a montante junto à crista do estágio anterior. lançados no interior do seu reservatório. separando uma área do reservatório a montante e servindo de estrada de acesso para o lado norte.5H e crista na cota 790 m. com inclinação dos taludes igual a 1V:1. com a subida do nível de rejeitos no interior do reservatório do Germano. os alteamentos sub­ sequentes foram executados com afastamento entre 60 e 100 metros para montante da crista existente na elevação 886 m. com o ponto mais baixo das funda­ ções na elevação 745. montante. A Figura 18 ilustra a configuração das estruturas.1 Barragem principal e empilhamento a jusante Generalidades A implantação da barragem do Germano foi iniciada com a construção de um dique de partida de enrocamento. provenientes da planta de beneficiamento de minério de ferro. na medida em que se elevava o nível de rejeitos arenosos. passou a ficar inviável por razões de estabilidade da barragem. no sistema do Germano. A partir de 1993 o alteamento da barragem principal. até ser atingida a elevação 886 m.0 m. Este dique foi construído com crista na elevação 849. Os alteamentos foram realizados através de diques de aterro com­ pactado com altura variável entre 4 e 6 metros. com a finalidade de receber os rejeitos. sem comprometer a estabilidade da barragem. O dique Auxiliar atravessa o reser­ vatório do Germano. construído com aterro compactado. foram realizados altea­ mentos sucessivos para montante. A crista da barragem alcançou a elevação 899 m com aproximadamente 120 metros de altura. finos e granulares. foi necessária a construção dos diques da Sela. impermeabilizado por um núcleo de material argiloso a 389 .

O sistema de drenagem superficial é constituído por uma escada de descida d’água. a cada 5 m de altura. No contato dos rejeitos do reservatório da Pilha a Jusante com o talude de jusante da barragem prin­ cipal do Germano há um dreno interligado ao dreno de fundo. portanto. em seu ponto mais baixo. O reservatório da barragem do Germano unificará com o reservatório da barragem do Fundão na cota 920. Figura 19 – Seção transversal típica da barragem principal do Germano com o empilhamento a jusante Figura 20 – Foto de estrutura construída sobre o empilhamento drenado 390 . em um maciço não saturado estável e de baixo potencial de dano. Considerando a cota de fundação. blocos passados em gre­ lha e blocos de maior dimensão. além do dreno do dique de partida.0 m. o maciço de rejeitos é drenado constituindo-se. desde o dique de partida do empilhamento até o offset de jusante da barragem do Germano.0 m. O núcleo dos diques é constituído por rejeito arenoso. A partir da construção deste dique de partida foram feitos alteamentos consecutivos para montante. O sistema de drenagem interna do empilhamen­ to consiste. disposta perpendicularmente às canaletas lon­ gitudinais das bermas.Séculos XIX. de um dreno situado no fundo do vale. pro­ tegido na face de jusante por solo argiloso compactado Os taludes de jusante possuem inclinação igual a 1V:2H com um talude médio global igual a 1V:3H. XX e XXI um filtro inclinado no talude de montante e na crista do dique. O talude de jusante foi protegido com blocos. a altura total atual é de 175. composto por camadas de oversize fino e grosso. O sistema será expandido à medida que os alteamentos forem sendo implantados Na figura 19 está apresentada uma seção típica da barragem principal do Germano incluindo o empilhamento de rejeitos a jusante.A História das Barragens no Brasil . posicionada na ombreira esquerda. Com este sistema de drenagem interna.

391 . quanto do dique da Tulipa. Os piezômetros instalados na pilha de jusante indicam leitu­ ras com poropressões nulas. denominados dique da Sela e dique da Tulipa. em geral são constituídos em seção mista. areia e cascalho. os dois diques foram alteados pelo método de mon­ tante. nas porções inferiores das ombreiras esquerda e direita e em todo o fundo do vale.2.2 Dique da Sela e Dique da Tulipa Devido à existência de duas selas topográficas na margem norte do re­ servatório do Germano. sendo alterada para cada 15 dias em caso de anomalias. e uma zona em enrocamento no espaldar de jusante. foram instalados 6 piezômetros Tabela 4 – Características da Barragem do Germano (maio/2008) Dados gerais Finalidade Empresas Projetistas Contenção de rejeitos Bechtel / Pimenta de Ávila Consultoria do tipo Casagrande. tanto do dique da Sela. comprovando a boa drenagem do maciço de rejeitos. foram necessários novos alteamentos dos diques da Sela e da Tulipa. À medida que o nível de rejeitos dentro do reservatório do Germa­ no foi sendo elevado foram necessários vários alteamentos. Em toda a região de fundação da barragem foi removida a camada superficial de material orgânico.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Ficha Técnica Na Tabela 4 estão apresentadas as principais características da barragem principal do Germano. matacões.00 m 300. para possibilitar a continuidade do lançamento de rejeitos no interior do reservatório. A parte superior das ombreiras é formada por filito decomposto. Devido ao início de operação da segunda planta de beneficia­ mento de minério de ferro da Samarco e o conseqüente aumento na geração de rejeitos. Na barragem principal do Germano foram instalados 14 piezôme­ tros do tipo Casagrande. Monitoramento O monitoramento da barragem principal do Germano consiste na leitura dos piezômetros instalados. com uti­ lização de uma zona impermeável em aterro argiloso compacta­ do. Na região do fundo do córrego foram removidos blocos de rocha.0 m. No final de 2010.0 m e nas bermas do talude de jusante. com crista na El.0 m Tipo tulipa com galeria de descarga (localizado adjacente ao dique da Tulipa) Geologia e fundações A fundação da barragem principal do Germano é composta por fili­ to são. A frequência das leituras é mensal. funcionando como núcleo. localizados no patamar da cota 886. Os maciços.913. 4.0 m 169. foi necessária a construção de dois diques. Na pilha a jusante do Germano. Os materiais de construção disponíveis para a implantação dos maciços de alteamento dos dois diques conduziram a uma geo­ metria em blocos sujos com uma faixa de material argiloso im­ Etapa Construtiva Atual Data Conclusão Cota Atual da Crista Altura Atual do Maciço Comprimento Atual da Crista Sistema Extravasor - 919.

0 m 23.0 m Sistema extravasor As condições de amortecimento das cheias. apenas para dar suporte ao alteamento.910.0 m 41. Tabela 5 – Características do Dique da Sela Dados gerais Finalidade Empresas Projetistas Etapa Construtiva Atual Data Conclusão Cota Atual da Crista Altura Atual do Maciço Comprimento Atual da Crista Contenção de rejeitos Figueiredo Ferraz / Pimenta de Ávila Consultoria Alteamento para El. ambos em concre­ to celular pré-fabricado PÁDUA e um trecho de galeria em concreto armado. No dique da Tulipa estão instalados 3 piezômetros de Casagrande e 3 indicadores de nível de água.913.Séculos XIX. no reserva­ tório do Germano. na confluência do acesso ao Empi­ lhamento de Rejeitos Granulares de Germano Jusante e do acesso à mina de Fábri­ ca Nova (Vale).0 m concluído Março de 2011 913. c). Monitoramento No dique de Sela estão instalados 3 piezômetros de Casagrande e 3 indicadores de nível de água.A História das Barragens no Brasil .0 m 450.0 m dos diques da Sela e Tulipa é composto por uma galeria ligeiramente inclinada associada a uma torre vertical. respectivamente. 4. XX e XXI permeabilizante a montante. b). Tabela 6 – Características do Dique da Tulipa Dados gerais Finalidade Empresas Projetistas Etapa Construtiva Atual Data Conclusão Cota Atual da Crista Altura Atual do Maciço Comprimento Atual da Crista Contenção de rejeitos Figueiredo Ferraz / Pimenta de Ávila Consultoria Alteamento para El. controladas por soleiras vertentes situadas nas seguintes posições: a).913.0 m Ficha Técnica Nas Tabelas 5 e 6 estão apresentadas as princi­ pais características do dique da Sela e do dique da Tulipa. com cota 392 . em soleira construída sobre a encosta rochosa.0 m concluído Março de 2011 913.na extremidade de jusante da Baia 3. O sistema extravasor construído na ocasião do alte­ amento para El. a sul do reservatório do dique auxiliar.no local do antigo túnel bala. Na fundação do alteamento dos dois diques foi implantada uma base constituída de blocos sujos.0 m 375.na área imediatamente a montante da tulipa. conectada a um canal rápido e uma bacia de dissipação à jusante deste. supõe a distribuição dos deflúvios nas várias sub-áreas.2. foi verificada a existência de uma nova sela topográfica.3 Dique da Selinha Na região sudeste do reservatório do Germano.

Os materiais de construção disponíveis para a implantação do maciço de altea­ mento do dique conduziu a uma geometria com utilização de uma faixa imper­ meável de material argiloso a montante e em blocos sujos no espaldar de jusante. e filtro vertical de areia. de aproximadamente 1.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens de topo posicionada na elevação 901. Extravasor Até dezembro de 2010 o dique Auxiliar possuía um sistema extravasor composto por três tubos ARMCO’s (Ø 1. encontram-se instalados e funcionando corretamente 3 indicadores de nível d’água. Tabela 7 – Características do Dique da Selinha Dados gerais Finalidade Empresas Projetistas Etapa Construtiva Atual Cota Atual da Crista Altura Atual do Maciço Comprimento Atual da Crista Contenção de lama Pimenta de Ávila Consultoria Alteamento para El. A jusante do dique foi im­ plantada uma berma de blocos sujos afim dar estabilidade à estrutura alteada. Ao longo do tempo.50 m. sendo utiliza­ do laterita na sua construção.0 m concluído 913. foi executado um alteamento emer­ gencial de 0.0 m Atualmente. O dique não possui sistema de drenagem interna. Monitoramento Ficha técnica Na Tabela 7 estão apresentadas as principais características do dique da Selinha. Dessa forma tornou-se necessário im­ plantar um dique de sela nesta região. resultou em uma estrutura submersa tanto a montante como a jusante.0 m 135. o lançamento simultâneo de lamas e rejeitos arenosos. No final de 2010 a crista do dique da Selinha foi alteada pelo método de montante para a El.4 Dique Auxiliar O dique Auxiliar foi implantado.50 m).913. Para o estabelecimento de uma borda livre. simultaneamente aos alteamentos a serem implantados nos diques da Sela e da Tulipa. denominado dique da Selinha.2. inicialmente para se­ parar as lamas dos rejeitos arenosos. sendo alteada sucessivamente.0 m 23. Na fundação do alteamento do dique foi implantada uma base constituída de blocos sujos. atra­ vés de tubulação. O sistema de drenagem interna é composto por tapete horizontal de areia.50 m em julho de 2010. em Fá­ brica Nova.0 m. A drenagem interna do dique foi prolongada nesse trecho. em ambos os lados do dique auxiliar.913. Atualmente a cota da crista do dique Auxiliar está na elevação 917. O dique da Selinha foi construído utilizando uma seção composta por aterro compactado de material argiloso proveniente da pilha de estéril da Vale.0 m. apenas como suporte ao alteamento.0 m de espessura. que conectam o reservatório do dique Auxiliar ao reservatório do dique da Sela/Tulipa. 4. 393 . Monitoramento No dique da Selinha estão instalados 4 piezômetros de Casagrande e 5 indicadores de nível de água. dos rejeitos da flotação em célula. retendo as lamas na área de montante do reservatório do Germano e ficando o restante do reservatório para a descarga. Ficha Técnica A Tabela 8 apresenta as características gerais do dique Auxiliar.

Além disso. A crista do dique de partida foi posicionada na elevação 955. foram projetados com suas bermas com declividade de 2% para sul.00 m e os diques de alteamento da pilha.50 m). 4.A História das Barragens no Brasil . denominadas de primeira e segunda fase.2.50 m 820. 5. com o objetivo de manter a linha de saturação afastada do talude externo da pilha.00 m de altura. com base menor de 5.5 m concluído 917. vislumbra-se a possibilidade de implantação de um canal trapezoidal em enrocamento. Em 2006 iniciou-se o empilhamento de rejeito arenoso da segunda fase da Cava do Germano. exaurida no final da década de 80.00 m.5 Cava do Germano A Cava do Germano é uma antiga área de lavra. XX e XXI Tabela 8 – Características do Dique Auxiliar Dados gerais Finalidade Empresas Projetistas Etapa Construtiva Atual Cota Atual da Crista Altura Atual do Maciço Comprimento Atual da Crista Sistema Extravasor Contenção de rejeitos Figueiredo Ferraz / Pimenta de Ávila Consultoria Alteamento para El.Séculos XIX. dando continuidade ao projeto de reabilitação dessa área degradada.50 m e 4 tubos ARMCO’s Ø 1.0 m 3 tubos ARMCO’s Ø 1.50 m 37.00 m e o tapete drenante com 30.00 m de largura da crista e uma inclinação média de 1V:3H. com superfície da funda­ ção na elevação 945.917. Esse projeto de recuperação foi divido em duas partes. O dique de partida e o tapete drenante são os principais dispositivos de drenagem interna da pilha de primeira fase. A pilha de rejeito atingirá a elevação 1.100 m. taludes 1V:1H e 2. alteados para montante.50 m de altura em substituição aos três tubos ARMCO’s (Ø 1. sendo desenvolvido um projeto de recuperação. A cota de crista do dique foi projetada na elevação 950. O material assoreado funcionou como a fundação da pilha de re­ jeitos na primeira fase de recuperação da cava. Como a fundação é em solo.0 m. Recentemente. A partir dessa época a cava passou a ser assoreada pelo Figura 22 – Seção transversal típica da Cava do Germano Figura 21 – Vista da Cava do Germano 394 .00 m de extensão e para montante. com taludes de 5.00 m) com o intuito de melhorar a eficiência de extravasão desse reserva­ tório. tanto o dique quanto o tapete possuem camadas de transição fina junto a fundação da pilha.00 m material proveniente da erosão das suas paredes. foram instalados mais quatro ARMCO’s (Ø 1.

Bacia de Acumulação de Rejeitos. Dezembro de 2003. 82p. 8. SA-410-RL-22801-0C .0 m 54. Tailings Dams Incidents. da Geotécnica de Novembro de 1978. 7.Estudos de Descomissionamento das Barragens de Rejeitos da Área da Planta do Queiroz.O sistema de drenagem su­ perficial do talude de jusante da pilha é composto por canaletas e escadas em concreto estrutural.Manual de Operações do Sistema de Rejeitos da Planta Metalúrgica do Queiroz.Pimenta de Ávila Consultoria. Sistema extravasor O sistema extravasor é composto por tubo flauta acoplado a uma galeria de concreto posicionada na parede direita da cava (sul).UNITED STATES COMMITTEE ON LARGE DAMS – USCOLD. Julho /2002.Laudo Técnico de Segurança de Barragem – Barragem do Germano. Barragem do Queiroz.Pimenta de Ávila Consultoria. 2008. Potencial Para Criação de Um Geoparque da UNESCO.RT-039-5133-1310-0007-00-B .0 m Tubo flauta conectado a uma galeria de concreto Monitoramento O monitoramento na Cava é realizado através de instrumentos insta­ lados sendo dez piezômetros do tipo Casagrande e dois indicadores de nível de água.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens O sistema de drenagem interna é constituído de tapete drenan­ te associado a drenos de fundo e por um dique de partida com paramento de montante drenante. Patrimônio Geológico e Geoconservação no Quadrilátero Ferrífero.PI-PR-130005/78. Barragem do Queiroz. UFMG. Classificação das Barragens de Contenção de Rejeitos de Mineração e de Resíduos Industriais no Estado de Minas Gerais em Relação ao Potencial de Risco. Rapaunha e Cocuruto da CMEC. 5.0 m concluído Março de 2011 992. Geotécnica de Maio de 1980. 2004. 6. Referências 1.Avaliação do Trânsito de Cheias nos Reservatórios da Barragem do Germano – Atualização Base Topográfica – Dezembro 2010. 2. SA-410-LT-22349-00 .913. 10. Março de 2011. 395 . 4. U. Tese de Doutorado. R.Anderson Pires Duarte.br. Minas Gerais. da Golder Associates.Estudo de Operação dos Reservatórios das Barragens de Calcinados. Ficha técnica As principais informações da Cava do Germano estão apresentadas na Tabela 9.0 m 325. 2007. 11. 3.Pimenta de Ávila Consultoria. Relatório Final de Estudos Geológico-Geotécnicos.Azevedo.icold. Agradecimentos Agradecemos à Pimenta de Ávila Consultoria Ltda a utilização de informações de seu arquivo técnico e a preparação dos textos aqui publicados. de Setembro de 2004. Tabela 9 – Características da Cava do Germano Dados gerais Finalidade Empresas Projetistas Etapa Construtiva Atual Data Conclusão Cota Atual da Crista Altura Atual do Maciço Comprimento Atual da Crista Sistema Extravasor Empilhamento de rejeito arenoso Pimenta de Ávila Consultoria Ltda Alteamento para El. SA-901-RL-4596-0C – Sistema de Rejeitos – Rejeito Arenoso – “Manual de Operação da Barragem do Germano”. Setembro de 2010. UFMG. Programa Preliminar de Estudos Geológico-Geotécnicos. Disponível em: http://www.Bacia de Acumulação de Rejeitos.MMVREPAA. 9.G3-PR-13-0017/79. Revisão ano 2009.

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O dia 5 de junho de 1972. predominantemente com o objetivo de formação de reservatórios para geração de energia elétrica. não haver exigência legal de licenciamento ambiental. em seguida o canal para peixes e mais abaixo o lago e a represa. ficou patente a divisão de enfoque entre os representantes de países desenvolvidos e de países em desenvolvimento. e as principais geradoras estaduais como CEMIG. foram identificados como prioritários a necessidade de compreensão e controle das modificações ambientais produzidas pela humanidade nos principais sistemas ecológicos. foi construído o canal de águas bravas. criando condições de grande risco para a própria sobrevivência da humanidade. Apesar de. participaram representantes de 113 países e de cerca de 250 organizações não-governamentais e o seu foco de atenção principal foi a constatação de que a ação do homem vinha produzindo severa degradação da natureza. em 1972. Em primeiro plano o lago de Itaipu e a tomada de água do canal. àquela época. a necessidade de somente aceitar a introdução de novas tecnologias após a avaliação das consequências de sua utilização sobre o ambiente. poluição de mares e oceanos e ocupação urbana desordenada. a necessidade de encorajar a distribuição internacional da capacidade industrial. Como resultados. em 1968. e a necessidade de prestar assistência a países em desenvolvimento. Nesse evento. A jusante do lago. como suprimento de água. Os primeiros externaram suas preocupações com os danos impostos ao ambiente pelo modelo de desenvolvimento predatório por eles próprios empreendido. as empresas do chamado setor elétrico de então (FURNAS. ELETRONORTE. à custa de endividamento externo. vivia sob um regime ditatorial. As primeiras manifestações de preocupação com o meio ambiente podem ser identificadas na convocação. em que se incluíam as barragens. COPEL e CEEE. da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano. foram definidos vários tópicos que requeriam atenção urgente e ações O canal da Piracema de Itaipu. com plena dominância estatal dos investimentos em grandes obras públicas. pela Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). conecta o lago de Itaipu ao rio Paraná aproveitando em seu trecho inferior o leito natural do rio Bela Vista. que veio a realizar-se em Estocolmo.Evolução do Licenciamento Ambiental de Barragens no Brasil Para abordar o tema do licenciamento ambiental de barragens no Brasil. ao mesmo tempo em que os demais não queriam que se impusessem limitações ao seu próprio desenvolvimento. com cerca de 10 km de extensão e desnível médio de 120 m. de forma a minimizar os riscos ambientais de suas estratégias de desenvolvimento. mas não visível na foto. é preciso lançar um olhar histórico sobre a questão do meio ambiente como um todo e situá-lo no contexto político do País. ficou estabelecido como o Dia Mundial do Meio Ambiente. via fluvial para migração de peixes. CESP. uma significativa quantidade de usinas hidroelétricas teve sua construção iniciada na década de 70. CHESF. além da ITAIPU 397 . do Sistema ELETROBRAS. Além desses temas. a necessidade de acelerar a disseminação de tecnologias ambientalmente amigáveis e de desenvolver tecnologias alternativas àquelas danosas ao meio ambiente. em junho de 1972. entre elas. O Governo impunha a sua vontade e. as mais destacadas: usina hidroelétrica Itaipu e usina hidroelétrica Tucuruí. O Brasil. utilizado para competições esportiva desaguando no rio Bela Vista (foto Caio Francisco Coronel) Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Homero André dos Santos Teixeira em larga escala. quando foi realizada a primeira plenária dessa Conferência. Dessa Conferência. ELETROSUL.

430 km2. Com o início do aproveitamento de potenciais hidrelétricos na Região Amazônica. que já vinha enfrentando a problemática ambiental. para soltura em áreas protegidas ou aproveitamento científico. que teve por objetivo promover o salvamento do maior número possível de indivíduos da fauna silvestre. A partir desse relatório. o tratamento das questões ligadas aos povos indígenas foi. quando do enchimento do reservatório.Séculos XIX. abordado. Essas ações desenvolvidas entre 1978 e 1984. na companhia de profissionais da ELETRONORTE. despertou nos responsáveis pelo empreendimento a certeza de que ações de diagnóstico dos meios físico e biótico. ligadas principalmente à qualidade da água e à introdução de peixes em reservatórios. já eram objeto de ações das empresas do Setor Elétrico desde a década de 60. Assim. a ELETRONORTE criou. conceituado profissional ligado ao Cary Arboretum of the New York Botanical Garden. XX e XXI BINACIONAL) já demonstravam alguma consciência da importância do componente ambiental em seus empreendimentos. uma Divisão de Ecologia que passou a concentrar as atividades ligadas ao meio ambiente. bem como o reflorestamento de suas margens. a ELETRONORTE. seriam indispensáveis para o sucesso do projeto. Simultaneamente. o relatório Environmental Assessment of the Tucuruí Hydroelectric Project. CEMIG e ITAIPU. Consultor de meio ambiente Robert Goodland em 2011 Consultor ambiental Robert Goodland (à direita) junto com Rupert Spearman (Ieco-Elc) na primeira inspeção a Itaipu em 1972 398 . para elaborar um relatório diagnóstico da problemática ambiental relativa à implantação da usina hidroelétrica Tucuruí e recomendar ações para minimizar os potenciais impactos ambientais identificados. em 1976. que abrangeram estudos a montante e a jusante da barragem. O ecólogo Goodland. contratou o ecólogo Robert Goodland. Amazônia (Avaliação ambiental do aproveitamento hidroelétrico de Tucuruí – Rio Tocantins). em um bioma sensível – Floresta Amazônica. continuou ações ambientais sistematizadas em nove subprojetos.A História das Barragens no Brasil . A implantação da usina hidroelétrica Tucuruí. realizou várias campanhas de campo na região e apresentou. avaliação de impactos a montante e a jusante da barragem e monitoramento ambiental. que já havia prestado consultoria para FURNAS. Esse despertar para o meio ambiente foi iniciado pelos problemas de conflitos de reassentamentos de populações desalojadas pela formação de reservatórios e pela necessidade de compatibilizar a eventual explotação de recursos minerais em áreas alagáveis antes de sua inundação. culminaram na denominada Operação Curupira. Rio Tocantins. também. Iniciativas anteriores de preservação ambiental. em setembro de 1977. com um reservatório da ordem de 2.

IX . VI .ao estabelecimento de critérios e padrões de qualidade ambiental e de normas relativas ao uso e manejo de recursos ambientais. inclusive a educação da comunidade. objetivando capacitá-la para participação ativa na defesa do meio ambiente.incentivos ao estudo e à pesquisa de tecnologias orientadas para o uso racional e a proteção dos recursos ambientais. aos interesses da segurança nacional e à proteção da dignidade da vida humana.à definição de áreas prioritárias de ação govername tal relativa à qualidade e ao equilíbrio ecológico. tendo em vista o uso coletivo. VIII . esta lei estabelece: “A Política Nacional do Meio Ambiente tem por objetivo a preservação. com resgate de 36. de forma integrada. que dispõe sobre critérios básicos e diretrizes gerais para a avaliação de impacto ambiental.. 4º. do subsolo.racionalização do uso do solo.à preservação e restauração dos recursos ambientais com vistas à sua utilização racional e disponibilidade permanente.planejamento e fiscalização do uso dos recursos ambientais. no Brasil.” E o inciso IV do Art.EIA e respectivo Relatório de Impacto Ambiental – RIMA. concorrendo para a manutenção do equilíbrio ecológico propício à vida.à difusão de tecnologias de manejo do meio ambiente. portanto. da Política Nacional do Meio Ambiente .acompanhamento do estado da qualidade ambiental. 01. Ill .ação governamental na manutenção do equilíbrio ecológico. X . no País. a serem submetidos à aprovação do órgão estadual competente.450 indivíduos.recuperação de áreas degradadas. 9º. da contribuição pela utilização de recursos ambientais com fins econômicos. dos Estados. VII . pela primeira vez no Brasil.educação ambiental a todos os níveis de ensino. a primeira lei que trata. e da Secretaria Especial do Meio Ambiente – SEMA em caráter supletivo. encampa os resultados da Primeira Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano e estabelece. III .proteção de áreas ameaçadas de degradação.938. condições ao desenvolvimento sócio-econômico. o licenciamento de atividades modificadoras do meio ambiente. II .controle e zoneamento das atividades potencial ou efetivamente poluidoras. do Distrito Federal.02. II .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Na implantação da usina hidroelétrica Itaipu.08. V . VII . já restabelecida a democracia no Brasil. que: “Dependerá de elaboração de Estudo de Impacto Ambiental .ao desenvolvimento de pesquisas e de tecnologias nacionais orientadas para o uso racional de recursos ambientais.proteção dos ecossistemas.86.DOU a Resolução CONAMA n o. atendendo aos interesses da União. ao poluidor e ao predador.à imposição. da água e do ar . dos Territórios e dos Municípios. Somente nove anos após a realização da Conferência de Estocolmo é que surge. melhoria e recuperação da qualidade ambiental propícia à vida. A Lei 6. V . 2º. tais como: 399 . a instituição do licenciamento ambiental de atividades efetiva ou poten cialmente poluidoras. define que a PNMA visa: “I . VI . IV . à divulgação de dados e informações ambientais e à formação de uma consciência pública sobre a necessidade de preservação da qualidade ambiental e do equilíbrio ecológico.à compatibilização do desenvolvimento econômico-social com a preser vação da qualidade do meio ambiente e do equilíbrio ecológico. também foi realizada operação de salvamento de animais silvestres. cujo fechamento do desvio e enchimento do reservatório ocorreu em 1982. somente em 17.938.81). define que são instrumentos da PNMA “o licenciamento e a revisão de atividades efetiva ou potencialmente poluidoras”. com a preservação de áreas representativas. considerando o meio ambiente como um patrimônio público a ser necessariamente assegurado e protegido. IV .PNMA (Lei 6. ao usuário. 2º. Em seu Art. da obrigação de recuperar e/ou indenizar os danos causados e. de 31. No entanto. e define no Art. é publicada no Diário Oficial da União . visando assegurar. atendidos os seguintes princípios: I .” Já o Art.

baseando-a em quatro diretrizes: viabilidade ambiental. em decorrência da evolução esperada para o assunto.87. que propôs uma política socioambiental para o Setor. que dispõe sobre a aprovação de modelos para publicação de pedidos de licenciamento. 237. em 05. só veio a se tornar efetiva quando de sua publicação no DOU. O esforço de um trabalho conjunto de representantes das principais empresas do setor elétrico. o DOU publicou a Resolução CONAMA no. sem. sem vínculos com o setor. uma vez mais não o estabelecendo. responsável por considerável quantidade de barragens em operação. foi publica- do o Manual de Estudos de Efeitos Ambientais dos Sistemas Elétricos. 01/86 determina que o Estudo de Impacto Ambiental e respectivo RIMA devam ser analisados pelo órgão estadual competente.” . tinham em foco o licenciamento dos empreendimentos. diagnosticando problemas e propondo soluções. elaborado por um grupo de trabalho constituído por profissionais de empresas do setor. do Departamento Nacional de Águas e Energia Elétrica – DNAEE. Com o objetivo de organizar a estrutura gerencial e executiva para o trato da temática ambiental. assim. analisando os aspectos de suas especialidades. bastante inconsistente. Esse Comitê. em dezembro de 1986. Esse documento orientava a forma de conduzir o Setor sob a égide das diretrizes que o norteavam.. O órgão estadual competente. liderou uma série de ações que. receberão cópia. Essa Divisão tornou-se. A mesma Resolução CONAMA no. Determina.90. pela sua importância e estruturação por concessionárias estatais. e alinhado com as preocupações com o meio ambiente. inserção regional.A História das Barragens no Brasil .07. quando couber. apresentando.12. também. quando couber. sempre que julgar necessário. e eficácia gerencial. uma Divisão de Meio Ambiente ligada ao Departamento de Estudos Energéticos. O setor elétrico. Na mesma data de publicação da Resolução CONAMA no. Em novembro de 1986. a ELETROBRAS criou. promoverá a realização de Audiência Pública para informação sobre o projeto e seus impactos ambientais e discussão do RIMA. prestou assessoria à alta direção da ELETROBRAS. XX e XXI .. pelo município. composto por técnicos de notório saber nas áreas social e ambiental. ou tiverem relação direta com o projeto. acima de 10MW. de saneamento ou de irrigação.12. no processo de licenciamento ambiental. para conhecimento e manifestação. manual esse previsto para ser revisado em 1991. ou pela SEMA ou. em junho de 1986. em fevereiro de 1987.. 06/86. Apesar de o número de barragens para outros fins. foi promulgada a Resolução CONAMA no. ainda. além de demonstrarem a importância atribuída ao tema. com predominância daquelas para abastecimento de água (açudes). o Comitê Consultivo de Meio Ambiente da ELETROBRAS – CCMA. embora tenha sido objeto da Resolução CONAMA no. que esses órgãos públicos e demais interessados deverão ter prazo para se manifestarem. Em 19. 09. coordenado pela Eletrobras. ainda. cuja regulamentação se apresentava. Nasce. foi o setor elétrico que comandou as ações para estruturar o seu processo de licenciamento ambiental. que estabelece a exigência de licenciamento para barragens e diques.. que o RIMA deverá ser dado a público e que os órgãos públicos que manifestarem interesse.. Imediatamente após a publicação do I PDMA. também. Define. VII – Obras hidráulicas para exploração de recursos hídricos. contudo estabelece-lo.Séculos XIX. . uma análise dos empreendimentos considerados de maior impacto social e ambiental e propunha medidas mitigadoras e compensatórias. de 03. o município. a SEMA ou. em agosto de 1989. que terá prazo para essa análise. que dispõe sobre a revisão e complementação dos procedimentos e critérios utilizados para o licenciamento ambiental.1997. A realização de Audiências Públicas. construção e projeto nas décadas de 70 e 80 do século passado. o Departamento de Meio Ambiente – DEMA. o licenciamento ambiental de barragens no Brasil. foi criado. a ELETROBRAS publicou o primeiro Plano Diretor para Proteção e Melhoria do Meio Ambiente nas Obras e Serviços do Setor Elétrico (I PDMA). tais como: barragens para fins hidrelétricos. 01/86.. Assim. articulação interinstitucional e com a sociedade. representar cerca de duas vezes o das barragens para geração de energia elétrica. 400 . pela sua importância.

de 22. Destacam-se o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis – IBAMA.87. de 09.02. a criação da Secretaria Especial do Meio Ambiente – SEMA (Decreto-Lei 73. 127 a Art.643. os trâmites e a responsabilidade pela obtenção das licenças ambientais. conforme atribuições constantes da Constituição Federal de 1988 (Art. estético.12. de cada processo individualmente. Resguardou-se. Licença de Instalação – LI e Licença de Operação – LO). a bens e direitos de valor artístico. a Lei de Criação de Estações Ecológicas e Áreas de Proteção Ambiental (Lei 6. os Órgãos Estaduais do Meio Ambiente – OEMAs. a possibilidade de o empreendedor debater essas exigências. As empresas estatais de água e energia perdem a exclusividade de receber concessões e os agentes privados entram em cena. A partir do estabelecimento das exigências de produção de estudos e projetos ambientais para o licenciamento de barragens e outras atividades consideradas “modificadoras do meio ambiente”.08.771. de 05. o conteúdo.347. que absorveu as atribuições do IBDF. contudo. de 16.09.67 e suas modificações). abrange também obras de transmissão. a criação do Instituto de Colonização e Reforma Agrária – INCRA (Decreto-Lei 1. foi desencadeado um processo de formação de equipes técnicas multidisciplinares em empresas de consultoria e nas empresas e autarquias estatais. diploma que também disciplinou o regime de concessões de serviços públicos de energia elétrica.87. de 26. bem como nos próprios órgãos ambientais licenciadores.110.07.37).34). estabelecendo os documentos necessários a cada solicitação.96). que devem ser consi derados na elaboração dos estudos ambientais e formam um elenco legislativo de grande porte. de 22.04.81 e suas modificações). em que se incluem.12. que dispõe sobre o regime de concessão e permissão de serviços públicos. O estabelecimento das diretrizes da Resolução CONAMA n o.11.67). de 15. Para as barragens. de 27. de 10.67). o Códig o Florestal (Lei 4. 130).02.07.65 e suas modificações). a FCP e o Ministério Público. essa resolução é um marco histórico.030. cada vez mais com a presença de atores que são determinantes para o sucesso. da Superintendência de Desenvolvimento da Pesca – SUDEPE e da Superintendência da Borracha – SUDHEVEA. a criação do Instituto Brasileiro do Desenvolvimento Florestal (Decreto-Lei 289. de 13.TR. no entanto. a organização do patrimônio histórico e artístico nacional. entre outros. 06. a promulgação da lei que disciplina a ação civil pública de responsabilidade por danos causados ao meio ambiente.73). de 30.09. Ficou também estabelecido que o órgão ambiental competente definirá. 06/87 não tornou.371. foi criada a Agência Nacional de Energia Elétrica – ANEEL (Lei 9. a criação da Fundação Cultural Palmares – FCP (Lei 7. com a criação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – SPHAN (Decreto-Lei 25.89. a Lei de Proteção à Fauna (Lei 5. Essa resolução. Os mais variados diplomas legais de proteção ambiental. pois pela primeira vez os tipos de licenças são correlacionados a etapas de desenvolvimento do empreendimento (Licença Prévia – LP. de 28. resguardado o disposto na Resolução CONAMA no. a criação da Fundação Nacional do Índio – FUNAI (Lei 5.197. criado pela Lei 7. contudo. cuja ementa informa que dispõe sobre o licenciamento ambiental de obras do setor de geração de energia elétrica.10. Em 1996. de 24. etc. desde a promulgação dessas leis. de 03.85). o IPHAN. a FUNAI. o que determina a Lei 8. Essa lei particularizou. hoje IPHAN. de 30.07.01. ou não.70). o Código de Águas (Decreto 24.902. bem como o nível de detalhe dos programas do Projeto Básico Ambiental.10. É de ressaltar que essa modificação é marcante para as barragens para fins de 401 .735. histórico e paisagístico (Lei 7. 01/86. ao consumidor. publicada no DOU em 22.02.95.668. destacando-se o Estudo de Impacto Ambiental e o RIMA para a LP e o Projeto Básico Ambiental para a LI.987. o licenciamento ambiental de barragens uma questão simples e pacífica. para o setor elétrico. A modificação do marco regulatório das concessões vem alterando. O aprendizado das partes envolvidas no processo de licenciamento ambiental de barragens vem sendo paulatino.88).Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens da Secretaria Especial de Meio Ambiente – SEMA e de órgãos ambientais estaduais resultou na elaboração e publicação da Resolução CONAMA no. da SEMA. o que hoje se denomina discussão do Termo de Referência .427. a abrangência e a profundidade dos estudos ambientais.

garantindo ao empreendedor a certeza da viabilidade ambiental do empreendimento. geralmente por meio de desapropriação por utilidade pública. à proteção da flora nativa e da fauna silvestre e à preservação da qualidade dos recursos hídricos. com voz presente. quando da implantação de grandes barragens e imensos reservatórios (usinas hidroelétricas Tucuruí. conforme inciso VI do Art. Essa legislação.12. A remoção e o reassentamento de populações para implantação de reservatórios de barragens vêm sendo feitos mediante acordos dos empreendedores (públicos ou privados) com os atingidos. É dessa época a fundação do MAB – Movimento dos Atingidos por Barragens. Itaparica. expressa pela LP.08. 4º. 12. com evidente desperdício de recursos. “obter a licença prévia ambiental e a declaração de disponibilidade hídrica necessárias às licitações envolvendo empreendimentos de geração de energia elétrica e de transmissão de energia elétrica. Ita e Machadinho) construídos por empresas estatais. paleontológicos e espeleológicos e com áreas de preservação ambiental. de 15. os principais problemas ligados aos potenciais impactos dessas obras se focavam em aspectos ambientais ligados aos meios físico.04. especialmente para as barragens que formam reservatórios. Sobradinho. a LI e a LO. muitas remoções foram feitas para novas vilas ou cidades. implantadas. cada vez mais. passou a ser de sua competência. tendo sido. sendo hoje muito atuante e geradora de dificuldades nos processos de licenciamento ambiental. obviamente. em geral. selecionados pela EPE” . inciso IV). ao longo dos anos. (Art. 01/86. Os aspectos ambientais mais importantes atrás mencionados estão diretamente ligados ao processo de licenciamento. a cada dia. necessários. Esse requisito se aplicava tanto para em preendimentos a serem colocados em licitação (Usinas Hidroelétricas) quanto àqueles com características de Pequena Cen tral Hidroelétrica. da LI e da LO para cada empreendimento. que trata dos procedimentos gerais para registro e aprovação de Estudos de Viabilidade e Projeto Básico de empreendimentos de geração hidroelétrica. a FUNAI. 395. a Resolução Normativa ANEEL no. às interferências com populações indígenas. Historicamente. conforme disposto na Resolução Normativa no.Séculos XIX. Em 04. XX e XXI geração hidroelétrica.03. Essa Resolução.12.A História das Barragens no Brasil . às margens dos lagos formados.98. Essa determinação está sendo seguida para a licitação de concessões de geração hidroelétrica. mesmo antes da existência de legislação referente ao licenciamento ambiental de barragens. cria. especialmente. do Projeto Básico Ambiental e dos Relatórios de Acompanhamento da Implantação dos Programas Ambientais. com sítios arqueológicos. Mesmo não havendo interferência direta com essas unidades. assim como autorização para exploração de Centrais Hidroelétricas até 30 MW. Os problemas de interferências com aldeias e terras indígenas vêm sendo. Essa situação perdura. estabelece que a obtenção do licenciamento ambiental pertinente é de responsabilidade do interessado. pela Lei 10. não tendo sofrido alterações para barragens de outras finalidades. embora lhe caiba a obtenção das demais licenças ambientais. biótico e antrópico. com comunidades quilombolas. tem feito exigências de estudos etnoecológi- 402 . que permite a apresentação de mais de um estudo ou projeto para uma única usina hidroelétrica ou PCH. Itaipu. para PCHs. Nas décadas de 1970 e 1980. organização que milita pelos direitos dos afetados pelas barragens. Eles estão ligados à remoção de populações das áreas dos reservatórios. Tem-se conhecimento que a ANEEL está estudando uma modificação nas diretrizes de apresentação de projetos para permitir que apenas um empreendedor autorizado seja o responsável pelo licenciamento ambiental. um complicador no processo de licenciamento. respectivamente à emissão da LP.847. Com a criação da Empresa de Pesquisa Energética – EPE. desde a publicação da Resolução CONAMA no. tanto dos empreendedores quanto dos analistas dos órgãos ambientais. 343. que se manifesta necessariamente na análise do Estudo de Impacto Ambiental. em especial as de proteção integral. objeto de legislação elaborada por diversas entidades que interferem diretamente no grau de detalhamento do Estudo de Impacto Ambiental. em audiências públicas. de 09. incrementos de prazos e custos para a obtenção das licenças ambientais. implica o licenciamento ambiental do mesmo objeto por mais de um interessado.

A proteção das cavidades naturais subterrâneas existentes no território nacional foi estabelecida pelo Decreto 99.09. de 15. muitas vezes. Mesmo após estudos antropológicos conclusivos. independente de seu porte. gera uma Portaria específica para o arqueólogo responsável. de 01.88 e IPHAN no. o IPHAN vem atrasando a análise dos projetos de pesquisa. ou até inviabilizar um empreendimento. nos termos da legislação vigente”.11. para a obtenção da LP. 347.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens cos dos grupos indígenas que se encontram. Esses procedimentos oneram e atrasam o processo de licenciamento ambiental das barragens. a aprovação dos seus relatórios. a mais de 20 km de distância da barragem e seu reservatório e que não seriam. 07.887. Para a realização dos trabalhos de arqueologia é necessário submeter ao IPHAN um projeto de pesquisa que. sendo obrigatória. considerados efetiva ou potencialmente poluidores ou degradadores do patrimônio espeleológico ou de sua área de influência dependerão de prévio licenciamento pelo órgão ambiental competente. demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentes de comunidades quilombolas. O patrimônio arqueológico é protegido. bem como desenvolver um Programa de Educação Patrimonial a ser implantado nas comunidades próximas ao achado.. que dispõem sobre os procedimentos para obtenção de licenças ambientais referentes à apreciação e acompanhamento das pesquisas arqueológicas no País. caso identifique algum vestígio. de 07. deve-se obedecer ao disposto nas Portarias SPHAN no. 4º. foi definido que deveriam ser criados critérios de relevância para a classificação das cavidades naturais subterrâneas e a possibilidade de implantar empreendimentos em áreas em que elas ocorram. A definição dos critérios para estabelecimento da relevância das cavidades na turais subterrâneas foi feita através da Instrução Normativa do Ministério do Meio Ambiente no. mediante o Decreto-Lei 4. praticamente.90. exceto nas de relevância máxima. deverá promover o seu salvamento e deposição em instituição de pesquisa. considerando-o dentro do processo de licenciamento ambiental de empreendimentos. a realização de diagnóstico das Áreas de Influência da barragem. em áreas cujas rochas apresentem potencial paleontológico. instalação. são amparadas pelo disposto no Decreto 4. para a obtenção da LI é requerida a realização de Prospecção Arqueológica que. desde que sejam implementas medidas e compensações. desde 1942.146. Com esse Decreto. 230. Devido à falta de quadros técnicos. pela Resolução CONAMA n o. com a edição do Decreto 6. também. uma vez autorizado. reconhecimento.10. A proteção do patrimônio espeleológico.556. em seu Art. que. A implantação de barragens e reservatórios. com o atraso na emissão das Portarias e. Para a realização dos trabalhos de arqueologia. Esse tipo de omissão pode acarretar atraso no processo. em qualquer hipótese. ampliação. cujos serviços só podem ser iniciados após a publicação da mesma no DOU. inviabilizava a implantação de empreendimentos em regiões dotadas de cavernas naturais. para fins de liberação das LP e LI. que provam não haver impacto. que “a localização. 403 . a cargo do IBAMA. que oneram o empreendedor e que são motivo de atraso no licenciamento. Mesmo não havendo evidências da existência de vestígios arqueológicos relatada no Diagnóstico Arqueológico. delimitação. construção. modificação e operação de empreendimentos e atividades. requer a identificação e o resgate dos fósseis.12.640. tem havido imposição de “compensações”.09. inicialmente. que são passíveis de autorreconhecimento. passou a ser possível a convivência de barragens e outros empreendimentos com a proteção às cavidades naturais subterrâneas. Essa Resolução institui o Cadastro Nacional de Informações Espeleológicas – CANIE. A Fundação Cultural Palmares tem necessariamente que ser ouvida no processo de licenciamento.02. havendo sempre o risco de existir algum processo de autorreconhecimento em andamento e isso não ser informado na consulta prévia que as consultoras costumam fazer na fase inicial de elaboração do EIA.08.556. de 20. que modificou a redação do anterior Decreto 99. foi regulada. Depois de muita discussão.03. de 10. de 17. As comunidades remanescentes de quilombos.04.11. 2.12. que regulamenta o procedimento para identificação. para inclusão no Estudo de Impacto Ambiental.08. realizados em atenção ao Termo de Referência específico. definindo. submetidos a qualquer tipo de impacto. O patrimônio paleontológico é protegido. de 20.

em 17.10. 25. 146.06. Outra limitação à implantação de barragens e outros empreendimentos é a que define critérios de distância para proteção do entorno de Unidades de Conservação.02.10. como definido na Lei do SNUC. com fundamento em Estudo de Impacto Ambiental e respectivo relatório . 13.Séculos XIX. XII .EIA/RIMA. paleontológica e cultural. 36. Nos casos de licenciamento ambiental de empreendimentos de significativo impacto ambiental. devem possuir uma zona de amortecimento e. de 05. de 18. a recreação em contato com a natureza e o turismo ecológico.00. de 22. de acordo com o disposto neste artigo e no regulamento desta Lei.” Como houve muita discussão quanto aos critérios de cálculo da compensação financeira. a barragens com essa finalidade.07. ou seja. III .04. de 22. em 10 quilômetros.08. aves. Essa Resolução.12. XX e XXI O Sistema Nacional de Unidades de Conservação – SNUC foi estabelecido pela Lei 9. 4 o o SNUC tem os seguintes objetivos: I . A proteção da fauna silvestre é um tema que passou a ser encarado com extremo rigor no âmbito do licenciamento ambiental de barragens. quando conveniente. depois de várias determinações exaradas em Resoluções do CONAMA para o tema (Resolução CONAMA n o. a obrigatoriedade de realizar diagnósticos da fauna. para qualquer empreendimento. a execução de um processo dispendioso e demorado.985. XI . 428.90. IV . de 06. geomorfológica. répteis e peixes. corredores ecológicos. estudos e monitoramento ambiental. VII . para tal.promover a utilização dos princípios e práticas de conservação da natureza no processo de desenvolvimento. em seu “Art. Essa IN veio sendo aplicada. assim considerado pelo órgão ambiental competente. De acordo com seu “Art. regulamentada pelo Decreto 4. arqueológica.05.09. requerendo-se.proporcionar meios e incentivos para atividades de pesquisa científica. 2/96).proteger e recuperar recursos hídricos e edáficos.contribuir para a preservação e a restauração da diversidade de ecossistemas naturais.favorecer condições e promover a educação e interpretação ambiental. X . a qualquer tipo de empreendimento.07. que estabeleceu critérios para definição das distâncias a serem consideradas para as zonas de amortecimento.proteger as características relevantes de natureza geológica.01. II . restringiu a sua aplicação a empreendimentos de geração hidroelétrica. abrangendo mamíferos. o empreendedor é obrigado a apoiar a implantação e manutenção de unidade de conservação do Grupo de Proteção Integral. IX . a chamada Lei do SNUC estabelece: “Art.recuperar ou restaurar ecossistemas degradados. espeleológica. V .340. Esses diagnósticos só podem ser realizados mediante autorização do IBAMA. indistintamente.proteger os recursos naturais necessários à subsistência de populações tradicionais. de 11. 404 . Essa distância foi estabelecida sem qualquer critério de avaliação de impactos ambientais. VIII .promover o desenvolvimento sustentável a partir dos recursos naturais. com captura.proteger as espécies ameaçadas de extinção no âmbito regional e nacional. embora o seu espírito original fosse de que deveria ser aplicada a barragens formadoras de reservatórios. transporte e exposição de grupos da fauna. A Portaria Normativa do MMA no.valorizar econômica e socialmente a diversidade biológica. exceto Área de Proteção Ambiental e Reserva Particular do Patrimônio Natural. estabeleceu. XIII . A Instrução Normativa do MMA n o. VI . respeitando e valorizando seu conhecimento e sua cultura e promovendo-as social e economicamente.12.” No apoio às Unidades de Conservação de Proteção Integral. finalmente. foi revogada. 10/87 e Resolução CONAMA n o.A História das Barragens no Brasil . que caíram para 3 km no caso de empreendimentos sujeitos a elaboração de EIAe RIMA e para 2 km para os de reduzido impacto ambiental.contribuir para a manutenção da diversidade biológica e dos recursos genéticos no território nacional e nas águas jurisdicionais. passando o assunto a ser regulado pela Resolução CONAMA no.” Essa zona de amortecimento foi estipulada na Resolução CONAMA no. As unidades de conservação.proteger paisagens naturais e pouco alteradas de notável beleza cênica. coleta. o assunto está finalmente regulado pela Resolução CONAMA no. 371.

405 . Ecclesia. para a concessão das licenças. ______. praticamente. Brasília. Brasília. Os analistas tendem a se resguardar. por receio de ação do Ministério Público que. uma evolução sustentável. restando às partes envolvidas.html Acesso em: mar. bem como sobre a fauna silvestre. posto que com o aumento da demanda. consequentemente. no entanto. elaboram pareceres sobre estruturas de pequeno porte semelhantes aos aplicáveis a grandes barragens. tornando os processos demorados e. caros. 2011. Topmost dams of Brazil. Disponível em: http://www. os órgãos ambientais sofrem de falta de pessoal qualificado para analisar os estudos ambientais que são apresentados para instruir os processos de licenciamento. Os prazos constantes dos diplomas legais não são cumpridos. da FCP e do IPHAN. hoje. 1978. se pode dizer que a “evolução” tenha um sentido de aprimoramento. detalhamentos incompatíveis com o porte dos empreendimentos e. ELETRONORTE/ENGEVIX.06. em atenção a ações do Ministério Público.cndpch. nem sempre atendendo aos requisitos exigíveis. out.ecclesia.279. UNEP. 1977. O processo é penoso. 1987. às PCHs com pequenas barragens e reservatórios. Entendendo o meio ambiente: principais Conferências Internacionais sobre o meio ambiente e documentos resultantes. bem como da avaliação fundamentada dos impactos sobre o patrimônio paleontológico e espeleológico e as Unidades de Conservação. é exigida por praticamente todos os órgãos ambientais licenciadores. demais instituições intervenientes e à sociedade civil. 1984. principalmente. promoverem constante troca de experiências no sentido de que o licenciamento sofra.unep. que estabelece procedimentos para o licenciamento ambiental simplificado de empreendimentos elétricos com pequeno potencial de impacto ambiental. Pelo exposto.com. ELETROBRAS. 1990. de 27. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. Referências CBGB. Stockholm 1972: Brief summary of the general debate. em geral. Disponível em: http://www. pelos órgãos licenciadores. como as manifestações da FUNAI. Relatório Geral. o mercado de consultoria ambiental cresceu. consultores ambientais. essa Resolução introduz a Reunião Técnica Informativa – RTI.br/biblioteca/ fe_e_meio_ambiente/principais_conferencias_internacionais_ sobre_o_meio_ambiente_e_documentos_resultantes.com. ELETRONORTE. Rio de Janeiro. 2011.01.asp Acesso em: mar. Relatório Condensado. Plano Diretor de Meio Ambiente do Setor Elétrico 1991/1993. Centro nacional de desenvolvimento de PCH.asp?DocumentID=97&ArticleID=1497&l=en Acesso em: mar. A legislação aplicável é vasta. Inventário do baixo Araguaia – Tocantins. verifica-se que a evolução do licenciamento ambiental de barragens no Brasil é um tema complexo e.br/ zpublisher/paginas/legislacao_ambiental. analistas dos órgãos licenciadores. efetivamente. cabe mencionar a Resolução CONAMA no. 2011. Em substituição à Audiência Pública. São Paulo: Novo Grupo Editora Técnica. nem sempre. Relatório Final.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Finalmente. Essa Resolução vem sendo aplicada. como elemento base para a concessão da LP e Relatório de Detalhamento dos Programas Ambientais – RDPA para a solicitação da LI. jun. a consideração de todos os aspectos ambientais atrás mencionados. muitas vezes esses de qualidade duvidosa. que. Estudos Tocantins: inventário hidrelétrico das bacias dos rios Tocantins e Araguaia. exigindo. intervém na maioria dos processos como guardião da lei. O processo de licenciamento simplificado não desobriga. Disponível em: http://www. ______. Plano Nacional de Energia Elétrica 1987/2010: Plano 2010. dez.org/DocumentsMultilingual Default. empreendedores. Livro Branco sobre o Meio Ambiente na Usina Hidrelétrica de Tucuruí. 1986. Ela instituiu o Relatório Ambiental Simplificado – RAS. Legislação ambiental.

Itaipu . Figuras selecionadas dos resultados da instrumentação Deslocamentos horizontais máximos para jusante (períodos de inverno) .uma barragem densamente monitorada com elevado nível de segurança.

não haveria desenvolvimento humano. A ruptura de barragens é uma hipótese pouco provável e de baixíssima probabilidade de ocorrência quando os aspectos de projeto. foi decidido investir maiores esforços no âmbito de segurança em função de: diversos incidentes em barragens. tendo atuado neste campo com a formação de diversos comitês. assim como levanta a importância do papel da Comunidade Técnica e dos pertinentes órgãos governamentais no sentido de minimizar a possibilidade da ocorrência de eventos desta natureza.1 Panorama internacional O ICOLD (Inter national Commission on Lar ge Dams) sempre esteve preocupado com a segurança de barragens. seminários e cursos. aumento nas dimensões das novas barragens e envelhecimento de uma quantidade apreciável de outras. danos ambientais e conseqüências de elevado valor econômico decorrentes de uma eventual ruptura. Introdução Obras de tamanha importância devem ter a sua segurança gerenciada ao longo de toda a sua vida. Neste capítulo será resumidamente apresentada a atuação do CBDB na evolução dos aspectos ligados à implantação de uma política de segurança de barragens no Brasil. destacam-se: “Lessons from Dams Incidents” (1974). “Automated Observations for Safety Control of Dams” (1982). industrial e irrigação. em Nova Delhi. III World Water Fórum (Kyoto. que seguramente contribuirá para reduzir os riscos de acidentes nas nossas barragens. gerando energia elétrica e controlando enchentes”. empreendimentos que tem papel relevante no desenvolvimento do nosso país.000 grandes barragens ao redor do mundo servindo a sociedade por meio do fornecimento de água para uso doméstico. construção e operação desses empreendimentos são tratados com seriedade. Ciro Humes Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens 1. 2. 2003). edição de boletins e organização de congressos. com graves conseqüências ocorridas na época. “Deterioration 407 . além do incremento da quantidade de barragens sendo construídas em países com pouca ou nenhuma experiência em engenharia de barragens. promovido pelo ICOLD em 1979. o imenso potencial de perdas de vida. O Comitê Brasileiro de Barragens sempre esteve atento à necessidade da implantação de uma política e de uma legislação que tratassem do aspecto de segurança de barragens. Dentre as diversas publicações do ICOLD relacionadas à segurança de barragens.A Evolução da Legislação Aplicada às Barragens “A História prova que se as barragens não fossem construídas. Histórico da legislação sobre segurança de barragens 2. Todavia. Durante o Congresso Internacional de Grandes Barragens. Existem aproximadamente 45. deixa claro a grande responsabilidade das concessionárias e proprietárias quanto à preservação da segurança das barragens.

A legislação sobre recursos hídricos foi reformulada no início da década de 80. revisão dos procedimentos adotados por agências federais (1977) por junta de consultores independentes. coordenação centrali zada de programas de segurança de barragens.Séculos XIX. em 1990. contribuíram decisivamente para uma revisão geral da legislação para a segurança e inspeção de barragens no país. Em Portugal foi promulgado. “Dam Safety Guidelines” (1987). tendo sido preparado o Dam Safety Guidelines em 1995. a Comissão de Segurança de Barragens e o proprietário da obra.A História das Barragens no Brasil . Kelley Barnes (causando 39 mortes) e Teton (causando 14 mortes e danos avaliados em um bilhão de dólares). Entre estas imposições pode-se destacar: Designação dos responsáveis pela segurança englobando o governo (representado pela Direção Geral dos Recursos Naturais). para que as barragens existentes passassem a aplicar as imposições do regulamento. “Risk Assessment in Dams Safety Management . “Dams less than 30 m high – Cost Savings and Safety Improvements” (1998). em um intervalo de cinco anos. Foi organizado um serviço especial de inspeção de barragens pertencentes aos “State Power Board” que passou a inspecioná-las com especialistas.A Reconnaissance of Benefits. em 1972. supervisionar e divulgar a segurança de barragens: o ICODS ( Interagency Committee on Dam Safety ) e a ASDSO (Association of State Dam Safety Officiais). Inspeções periódicas por meio da autoridade competente. o decreto-lei sobre o “Regulamento de Segurança de Barragens”. No Canadá. “Dam Monitoring-General Considerations” (1988). principalmente no tocante aos planos de ações emergenciais em barragens. o LNEC – Laboratório Nacional de Engenharia Civil. Army Corps of Engineers a inventariar e inspecionar barragens não federais (1972). em 1980. Além da FEMA. o Comitê de Segurança de Barragens do Canadian National Commitee on Large Dams. 408 . na década de 70. Nos Estados Unidos da América. Aprovação do National Dam Safety Act e respectivas dotações orçamentárias (1997). XX e XXI of Dams and Reservoirs” (1983). obrigatoriamente a cada 20 anos. Os mesmos procedimentos foram seguidos pelas companhias associadas à Swedish Power Association. Ordem presidencial para que o Guia de Segurança de Barragens fosse aplicado e que suas conclusões fossem encaminhadas à nova agência FEMA (Federal Emergency Management Agency). organizada em 1979. em 1976. Revisão de critérios de segurança. Methods and Current Applications” (2005). as rupturas das barragens de Buffalo Creek (causando 125 mortes e enormes prejuízos materiais) e Canyon Lake. “Rehabilitation of Dams and Appurtenant Works – State of the Art and Case Histories” (2000). o Serviço Nacional de Proteção Civil. “Inspection of Dams Following Earthquake” (1988). em intervalos pré-fixados. Na Suécia o controle de construção e manutenção é regido pelo Water Rights Act de 1918. Entre as iniciativas adotadas pelo governo americano figuram: Lei autorizando o U. foram criados outros dois organismos encarregados de desenvolver. Publicação do Water Resources Development Act . inspeção e eventuais medidas a serem tomadas junto aos proprietários das barragens. autorizando o financiamento federal a programas estaduais de segurança de barragens (1986).S. passando as autoridades municipais a arcar com a responsabilidade pela supervisão. A partir desta constatação foi dada maior ênfase aos aspectos de segurança. a FERC (Federal Energy Regulatory Commission) também atua na área. “Dam Failures Statistical Analysis” (1995). verificou que a legislação de todas as províncias e territórios era genérica e continha poucos artigos específicos sobre programas de segurança e monitoramento. Um terceiro órgão. “Monitoring of Dams and Their Foundations” (1989). revisado em 1997. Constituição de um plano de observação e sua adaptação quando necessário.

ele nunca foi implementado. quando de eventos hidr ológicos indesejáveis . atuação para apr oveitamento e controle dos recursos hídricos em seu território . no art..Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A Noruega adotou. o Estado . que se mostraram eficazes. Especificamente no Estado de São Paulo.2 Histórico da segurança de barragens no Brasil e o papel do CBDB Os fatos mostram que as demandas por programas de segurança de barragens ocorrem principalmente após a ocorrência de acidentes de vulto. 739. a contr ole de cheias. logo após os acidentes ocorridos com as barragens de Euclides da Cunha e Armando de Salles Oliveira. em 1996.implantação de sistemas de alerta e defesa civil para garantir a segurança e a saúde pública. 210. Outras rupturas ocorreram no início da década de 70 dando ensejo a mudanças legais. elaboradas por comissões do CBGB. Em 1982. a pr e venção de inundações. 10752 dispondo sobre segurança das barragens no Estado e recomendando auditorias técnicas permanentes. A Constituição do Estado de São Paulo aborda de maneira indireta o assunto ao se referir. q u e o f e r e ç a m riscos à saúde e segurança pública. em 1994. em 1986. através da Portaria nº. na época CBGB: Comitê Brasileiro de Grandes Barragens... Entretanto. em 1995 o Cadastro Brasileiro de Deterioração de Barragens e Reservatórios e. onde são indicadas as responsabilidades que envolvem os diversos organismos nas várias fases de um empreendimento. bem como enfoca a segurança durante a operação e aborda aspectos técnicos. foi emitido o Decreto nº. o Dam Safety Code of Pratice obrigando que o mesmo fosse obedecido em conjunto com o Dam Safety Act e o Dam Safety Decree. 409 . foram muito importantes para nortear os procedimentos de segurança adotados por algumas organizações brasileiras.. Alguns trechos de certos artigos podem ser aplicáveis à segurança de barragens e ao seu funcionamento adequado. editou em 1979 e 1983 as Diretrizes para a Inspeção e Avaliação da Segurança de Barragens em Operação. A Inglaterra possui várias barragens muito antigas e a ruptura de algumas delas deu origem a uma legislação especifica sobre segurança de barragens.. editou as Recomendações para a Formulação e Verificação de Critérios e Procedimentos de Segurança de Barragens. e dr enagem e à correta utilização das várzeas”. através de decreto real de 1980.. Auscultação e Instrumentação de Barragens no Brasil. criou um grupo de trabalho com o objetivo de normalizar procedimentos preventivos e de manutenção voltados à segurança 2.000 m 3. em 1977. A Finlândia editou. O CBDB. outr os Estados viz inhos e Municípios. com vista a . em 1930. que editou em 1992 o Projeto Norueguês de Segurança de Barragens que estabelece responsabilidade e respectivos impactos.. Construção e Operação de Barragens. o Regulamento para Planejamento. tais como os que dizem que: o Estado assegurará meios financeiros e institucionais para “defesa contra eventos hidrológicos c r í t i c o s ... a Itália editou um decreto aplicável e barragens com altura superior a 10 m e reservatórios com capacidade superior a 100. O Ministério de Minas e Energia. O mesmo nível de abordagem consta da Lei 7663 que esta belece normas de orientação à Política Estadual de Recursos Hídricos bem como ao Sistema Integrado de Gerenciamento de Recursos. propostas em 1975.articulará com a União. assim como prejuízos econômicos e sociais. Posteriormente. de 1988. com vistas. o Estado realizará pr ogramas conjuntos com os Municípios mediante convênios . quanto à garantia de segurança e saúde pública. seguindo a tendência mundial da década de 70. Estas publicações.. como não houve a regulamentação deste decreto. ambos de 1984. formalmente. quando de eventos hidrológicos indesejáveis. nº.

Este projeto passou pelas Comissões de Minas e Energia. Este documento foi apresentado para debate no XXII Seminário de Grandes Barragens realizado na cidade de São Paulo e posteriormente foi consolidado com as sugestões recebidas de vários associados e encaminhado para a análise do DNAEE . hoje ANEEL Agência Nacional de Energia Elétrica). coordenador do projeto de lei. Outra importante iniciativa do CBDB. foi a elaboração do Guia Básico de Segurança de Barragens pela sua Comissão de Segurança. Em 2003. Também concluiu. Encaminhado para o Senado. cujo relator foi o deputado Arnaldo Jardim. de onde saiu aprovado em março de 2010 e recebeu a sanção presidencial em 21/09/2010 que conferiu ao projeto de lei. elaborado com participação do CBDB.Departamento Nacional de Águas e Energia Elétrica. deixando uma vasta população sem água nos Estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro. Coordenado pela Eletrobras o grupo publicou em 1987 a publicação Avaliação da Segurança de Bar ragens Existentes que é uma tradução do Manual SEED (Safety Evaluation of Existing Dams) do Bureau of Reclamation dos Estados Unidos da América.Séculos XIX. Este acidente espalhou resíduos no rio Paraíba do Sul e causou graves danos ao meio ambiente e à sociedade. XX e XXI das diversas barragens existentes. órgão do Ministério de Minas e Energia. 410 . Meio Ambiente e Constituição e Justiça. a uniformidade e a posição de lei que estabelece a Política Nacional de Segurança de Barragens. definição das responsabilidades pela execução das ações. Ele foi apresentado à nossa comunidade no XXIII Seminário Nacional de Grandes Bar ragens que aconteceu em Belo Horizonte em 1999. elaborou minuta de Portaria do Ministério de Minas e Energia. um relatório que abordou entre outros aspectos importantes: estabelecimento de mecanismo de monitoração e da instrumentação. o projeto de lei passou pelas comissões do Meio Ambiente e Infraestrutura. em 1989. Em 1996 o CBGB. Neste momento o deputado Leonardo Monteiro. estabelecendo as diretrizes para a avaliação da segurança das barragens e propondo a criação do Conselho Nacional de Segurança de Barragens (CNSB). Após este acidente o Deputado Leonardo Monteiro propôs o projeto de lei (PLC-168) com foco na Segurança de Barragens. Este instrumento previa que o CNSB providenciaria a redação de um Regulamento de Segurança de Barragens e Reservatórios e na etapa seguinte seria responsável pela supervisão da correta aplicação deste regulamento. procedimentos gerais a serem seguidos em casos de acidentes. Neste ano ocorreu a ruptura de uma barragem de rejeitos situada no rio Pombas no município de Cataguases no Estado de Minas Gerais.A História das Barragens no Brasil . Este guia foi desenvolvido com base no Canadian Dam Safety Guidelines com a incorporação da cultura e experiência nacional. a instalação de um Cadastro Nacional de Barragens e a caracterização do potencial de risco de cada barragem. novamente confirma-se que a demanda por programas de segurança de barragens ocorrem principalmente após a ocorrência de acidentes de vulto. através da Comissão de Deterioração e Reabilitação de Barragens. o qual não conseguiu dar prosseguimento a esta proposta do CBDB. com apoio de outras entidades como a ABMS (Associação Brasileira de Mecânica dos Solos) e com o apoio importante da ANA (Agência Nacional de Águas). com base nos diversos trabalhos pertinentes já desenvolvidos. por meio do Núcleo Regional de São Paulo. Foi realiza do um processo de aproximação e apoio a esta iniciativa. Nesta ocasião O CBDB deslumbrou a oportunidade de suportar tecnicamente a implantação desta lei. definição da periodicidade de inspeção. O relatório previa a criação de uma Sub-Comissão de Segurança de Barragens. aceitou o substitutivo proposto pelo Conselho Nacional de Recursos Hídricos.

Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens 3. Vale registrar que a caminhada ainda não está finalizada. Budweg. coordenador da Comissão Técnica de Segurança de Barragens do CBDB e membro do Comitê de Segurança de Barragens da CIGB 411 . foi relevante e fundamental para que após uma luta de décadas uma lei sobre segurança de barragens fosse promulgada.G.Fábio De Gennaro Castro. Considerações finais A atuação do CBDB na área de segurança de barragens. por meio de publicação de documentos técnicos consistentes e atuando firmemente para a criação de uma legislação específica. Precursor das atividades sobre implantação de legislação aplicada a barragens no Brasil Figura 2 . O CBDB continuará atento para que a concretização da legislação que cria uma política de Segurança de Barragens seja efetivada.Ferdinand M. promovendo o debate deste tema nos seus seminários e simpósios. pois falta a regulamentação da lei. Figura 1 .

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Furnas implantou no Rio de Janeiro.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Centros de Pesquisas Tecnológicas Aplicadas a Barragens . Em 1983. também.Introdução Erton Carvalho A história das barragens brasileiras contempla os centros de pesquisas que foram. tornando-se um laboratório de grande importância nacional a partir de 1965. O Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo (IPT). o laboratório. Dentre eles. desenvolveu importantes estudos para as Companhia Paranaense de Energia (COPEL). sendo o responsável pelos estudos em modelo reduzido da Usina de Furnas. O Centro de Estudos e Pesquisas de Hidráulica e Hidrologia (CEPHH). Furnas (DCT e LAHE). junto à subestação de Jacarepaguá. Furnas agrupou em Goiânia os seus laboratórios em um moderno centro de pesquisas (DCT) e passou a atender os projetos e construções das barragens de Furnas. dos projetos e das construções de barragens. mecânica dos solos e mecânica das rochas. (CEHPAR). complementado pelo Laboratório CESP de Engenharia Civil (LCEC). No sul do país. IPT e LCEC. O Departamento de Águas e Energia de São Paulo (DAEE) em convênio com a Universidade de São Paulo (USP) implantou um importante laboratório de hidráulica. dando continuidade aos estudos em modelo reduzido das hidroelétricas da empresa. seu Laboratório de Hidráulica Experimental e Recursos Hídricos (LAHE). Hidroesb. Dentre os vários estudos realizados em modelo reduzido des tacam-se os ensaios para a hidroelétrica de Itaipu. Os laboratórios de hidráulica experimental foram surgindo para atender à exigência da ampliação do setor elétrico no Sudeste Brasileiro. desenvolveram praticamente todos os estudos em modelo reduzido das usinas da CESP. 413 . na sua maioria. hoje denominado Fundação Centro Tecnológico de Hidráulica (FCTH) que. o Laboratório Hidrotécnico Saturnino de Brito SA (Hidroesb) que teve sua origem no Escritório Saturnino de Brito Filho. teve as suas instalações ampliadas visando a atender o desenvolvimento de ensaios e pesquisas que permitiram subsidiar principalmente os grandes projetos de aproveitamentos hidrelétricos construídos pela Companhia Energética de São Paulo (CESP) bem como várias obras no país. Pela necessidade de se ter um grande desenvolvimento na área tecnológica de concreto massa. localizado junto à hidroelétrica de Ilha Solteira. serviços a outras empresas do setor elétrico. estão apresentados os textos específicos dos centros de pesquisas: CEHPAR. que trabalhava desde 1938 em investigações geotécnicas para a construção de barragens e obras de terra de um modo geral. ficou mais dedicado ao desenvolvimento de pesquisas no campo da hidráulica experimental. implantados a partir da década de 1950. posteriormente denominado Centro de Hidráulica e Hidrologia professor Parigot de Souza. A seguir. Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) do Rio Grande do Sul. prestando. que estavam sendo estudadas pelo Hidroesb. IPH. devido à necessidade de se ter um apoio tecnológico para o desenvolvimento dos estudos.

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Outra grande personagem foi o professor Sinildo Neidert. fruto do convênio Figura 1 – Primeiro modelo em operação no Centro Politécnico da UFPR. Os estudos das usina hidroelétrica Itaipu e Foz do Areia estavam para se iniciar. professor Pedro Viriato Parigot de Souza. responsável pela implantação do trabalho sério. o Centro de Hidráulica conta com uma história de mais de 50 anos. realizando trabalhos considerados úteis à sociedade e ainda respeitando os limites do mercado das empresas de engenharia. Antes mesmo da inauguração do Centro Politécnico. em homenagem ao seu fundador que faleceu enquanto Governador do Estado. Em 1976 o Centro passou a ser administrado pela Companhia Paranaense de Energia – COPEL. no CEHPAR. Cabe a ele o mérito do Laboratório ter conquistado o reconhecimento internacional.50 Anos de muito Trabalho André Luiz Tonso Fabiani e José Junji Ota Introdução Em 14 de março de 1959 o Centro de Estudos e Pesquisas de Hidráulica e Hidrologia CEPHH passou a existir legalmente com a aprovação do seu primeiro estatuto. o CEPHH iniciou suas atividades dentro do Campus Universitário. estavam sendo estudadas em modelos reduzidos as obras de Salto Osório e São Simão. em 1961. preciso e eficiente no Laboratório de Hidráulica. com mostra a Figura 1. As atividades de Hidrologia também começaram logo em seguida e a Divisão de Hidrologia tem uma história de muitas realizações. Desde então. com uma liderança inquestionável. que posteriormente foi Presidente da COPEL e Governador do Estado do Paraná e seu assistente professor Isaac Milder grande idealista que mais tarde veio a presidir a SERETE e a MILDER KAISER.CEHPAR em julho de 1973. Teve como fundadores o Catedrático da Cadeira de Hidráulica Teórica e Aplicada. mas o presente texto enfoca basicamente o caminho percorrido pelo laboratório de Hidráulica. 415 . O Centro passou a ser chamado de Centro de Hidráulica e Hidrologia professor Parigot de Souza .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens CEHPAR . com preocupação universitária permanente de seus membros. Na época. Em todo o processo é indiscutível a importância que teve o professor Nelson Pinto. diretor do Centro por quase trinta anos.

Séculos XIX. O convênio garantiu também a existência Figura 3 – Testes em modelo reduzido escala 1:8 do aerador da usina hidroelétrica Foz do Areia. eliminando o risco da perda dos seus seletos e treinados profissionais para o mercado externo. O convênio com a COPEL foi bastante favorável ao Centro pois tornou os salários dos funcionários mais competitivos. entre a Universidade Federal do Paraná e a empresa de energia. deu estabilidade ao emprego dos engenheiros e técnicos do laboratório. Nos anos setenta o CEHPAR teve um considerável avanço. a Figura 3 apresenta estudos de aeração para Foz do Areia. 416 . No Seminário CEHPAR 30 anos. De fato. houve quem afirmasse que “o Centro de Hidráulica jamais teve uma fase de baixa” . na consolidação da metodologia para os estudos de fechamento de grandes rios com a construção de ensecadeiras em água corrente. como mostrado na Figura 2. até aquela data o laboratório vinha mantendo um ritmo acelerado de sucessos.A História das Barragens no Brasil . Os estudos sobre aeração de fluxos de altas velocidades para evitar cavitação em descarregadores de cheias se desenvolveram nos anos setenta e oitenta. por exemplo. XX e XXI Figura 2 – Fechamento do Rio Uruguai para a construção da usina hidroelétrica Itá.

Organização da Sociedade Civil de Interesse Público. os projetos de pesquisa e desenvolvimento. A passagem do CEHPAR da COPEL para o LACTEC foi gerenciada pelo engenheiro Ralph Carvalho Groszewicz que soube conduzir a transição com muita habilidade e paciência. pois o Governo Estadual estava prestes a privatizar a própria COPEL e o processo começou pelos laboratórios que hoje compõem o LACTEC – Instituto de Tecnologia para o Desenvolvimento. O laboratório e a oficina foram também disponibilizados para se desenvolver pesquisas na área de Hidráulica. da Inglaterra. A Universidade teve o seu retorno com o aperfeiçoamento do seu quadro de docentes do Departamento de Hidráulica e Saneamento e dos seus estudantes através de estágios. conhecidos como P&D ANEEL foram essenciais. Castro Alves. Os engenheiros do Laboratório começaram a ser procurados por empresas que ofereciam melhores oportunidades e salários. como Foz do Areia e Segredo. período negro que se estenderia até a virada do milênio. o laboratório poderia ter entrado em colapso. auto-sustentável e sem fins lucrativos que também nasceu da privatização dos laboratórios da COPEL e da Universidade. Por uma época. Aos poucos o CEHPAR começou a ser procurado para realizar estudos hidráulicos de várias obras brasileiras (Itapebi. Havia até quem dissesse que os estudantes deveriam pagar para es tagiar no Centro pois sempre foi um invejável treinamento reservado a poucos selecionados entre os bons alunos do curso de engenharia civil. Ironicamente. realizado nos dias 24 e 25 de novembro de 1989. Nesse aspecto. Com a vinda do modelo reduzido de Paute Mazar. o CEHPAR 417 . foi dos mais difíceis para o Centro. O aniversário de 40 anos. Mesmo nesse período difícil. O CEHPAR trouxe vários professores. O LACTEC é uma OSCIP . o laboratório investiu na formação dos seus engenheiros. São José. o laboratório começou a recuperar o seu ânimo. Se não fosse a competência dos que os substituíram. o aquecimento do mercado trouxe também alguns problemas. Ficaram nas chefias os professores Marcos Tozzi (Hidráulica) e Heinz Fill (Hidrologia) até suas aposentadorias em 1999. reuniu 108 pessoas inscritas e se desenvolveu em grande estilo. em maio de 2000 o CEHPAR passou a ser administrado pelo LACTEC. COPEL. os professores Francisco Gomide e Sinildo Neidert que deixaram as chefias das Divisões de Hidrologia e de Hidráulica. Estados Unidos. uma associação civil.dos 33 engenheiros que trabalharam na Divisão de Hidráulica. que provê seus recursos através da venda de projetos de pesquisa e desenvolvimento e outros serviços tecnológicos. Brilhou aqui o caráter universitário do CEHPAR que jamais limitou suas atividades aos estudos em modelo reduzido e procurou sempre investir e dar um passo a mais para desenvolver conhecimentos. que nem teve uma comemoração formal. A Universidade não pôde assumir o CEHPAR e. com palestras de professores estrangeiros (Maurice Bouvard da França e Vujica Yevjevich dos Estados Unidos). tanto para ministrar aulas como para administrar o curso. CERJ e CEB foram desenvolvidos com muito empenho e eficiência na Divisão de Hidráulica. incentivando a realizar seus cursos pós-graduação. uma obra importante do Equador. França e Holanda para o curso de mestrado. Nesse período o CEHPAR teve a satisfação de ver lançado dois de seus grandes líderes a serviço da Diretoria da COPEL. Nos primeiros anos da privatização o período era de muitas dificuldades para o setor de construção de usinas e o CEHPAR teve que buscar outra forma de garantir o caráter de auto-sustentabilidade. Projetos da ELETRONORTE. Entretanto o Brasil estava em recessão em termos de construção de hidroelétricas desde 1982 (ano do enchimento do reservatório de Itaipu). CHESF. 14 de Julho) e estrangeiras. seguindo a própria orientação do Reitor da época. respectivamente.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens de trabalhos de modelos reduzidos das usinas da COPEL que estavam em acelerado processo de projeto e de construção no rio Iguaçu. São João. de direito privado. 30 tiveram algum tipo de apoio para a sua formação no seu mestrado ou doutorado. O Centro sempre apoiou a formação de seus engenheiros . O curso de pós-graduação em engenharia hidráulica foi criado em 1986 e patrocinado pelo CEHPAR que colocou seus engenheiros à disposição do curso. professor Carlos Roberto Antunes dos Santos. O Seminário 30 anos do CEHPAR.

da esquerda para a direita os professores Sinildo Hermes Neidert. Esta foi uma iniciativa do engenheiro Leão Schulman. o primeiro projeto do Laboratório de Hidráulica foi um trabalho singelo. Gibe III da Etiópia. – UTELFA que apoiou os primeiros passos do CEHPAR. Cambambe da Angola.Séculos XIX. Hoje o laboratório está bastante ativo. o de estudar em modelo hidráulico as condições de assoreamento na tomada de água da Termoelétrica de Figueira. uma série de estudos que relatam os passos da Divisão de Hidráulica do CEHPAR. Presidente da Central Elétrica de Figueira S. Primeiros estudos do Laboratório de Hidráulica e estudos sobre erosão ao redor de pilares de pontes Segundo o que consta nos anais do Seminário CEHPAR 30 anos. que mostra o fechamento do rio na usina hidroelétrica Itapebi. mostrando. Pedro Viriato Parigot de Souza e Nelson Luiz de Sousa Pinto. recém retornado dos EUA. mas com objetivo bem claro. XX e XXI passou a ter mais estudos de obras estrangeiras do que brasileiras (Palomino da República Dominicana. Lista-se a seguir. Figura 5 – Modelo de Salto Grande do Iguaçu.A. o engenheiro Octavio Marcondes Ferraz (na época da usina e depois presidente da Eletrobras) e um técnico do Laboratório 418 . Ituango da Colômbia) até o início dos estudos para a usina hidroelétrica Belo Monte. com representação de aluvião realizar estudos sobre erosão ao redor de pilares de pontes. O Professor Nelson Pinto. realizou ensaios com fundo móvel utilizando serragem de imbuia peneirada e tratada para Figura 4 – Teste de fechamento na usina hidroelétrica Itapebi.A História das Barragens no Brasil . o Centro utiliza essa técnica para reproduzir o aluvião em modelo reduzido. como pode ser visto na Figura 4. Ainda hoje. com seus funcionários trabalhando com bastante otimismo.

Hoje o Centro executa com seções transversais de Duratex. o CEHPAR enviou o seu engenheiro Sinildo Neidert para aperfeiçoamento na Alemanha. O modelo contribuiu com a definição do esquema de desvio que era sofisticado. constituiu a primeira experiência concreta de participação no desenvolvimento e otimização de um projeto de grande porte. Foram importantes os estudos para Salto Grande do Iguaçu (estudos de vórtices na tomada de água) e de Mourão. Foram cinco modelos reduzidos. os estudos de grandes obras do rio Iguaçu. onde pode-se ver ainda os professores Parigot de Souza. O primeiro modelo foi destinado ao estudo do desvio. Os estudos da hidroelétrica Capivari-Cachoeira marcaram o início das relações do Centro com o engenheiro Maurice Bouvard. como Estudos hidráulicos de Salto Osório e São Simão A hidroelétrica de Salto Osório é uma grande obra do rio Iguaçu. Os estudos em modelo incluíram a descarga de fundo e o vertedouro. uma região de corredeira e cachoeira foi feita de forma muito minuciosa numa época em que não se dispunham de técnicas eletrônicas de levantamento e de registro de imagens. Para fechamento de rios com considerável profundidade. um prédio que merece ser visitado. A reprodução do leito. O laboratório fez também estudos sobre vórtice na tomada de água. na seqüência. um grupo de engenheiros e bem intencionados técnicos começaram seus trabalhos em 1972 para a maior obra hidroelétrica do mundo. Essas construções podem ser vistas na Figura 6. Havia também uma preocupação com a ponte que tinha seus pilares fixados dentro do canal. 419 . capaz de circular 1000 l/s. Nessa época. Nelson Pinto e Sinildo Neidert. da estrutura das comportas até dos detalhes da construção das ensecadeiras. cujos estudos se desenvolveram no começo dos anos setenta.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A usina de Capivari-Cachoeira. A contratação do Centro para os estudos para a hidroelétrica de São Simão em 1971 foi um marco que levou o CEHPAR para além dos limites do Estado do Paraná. no início da década de 1960. mas ainda foi usado muito cedro nas partes importantes das estruturas. O custo dessas instalações foi financiado pela COPEL e pago posteriormente pelos trabalhos realizados pelo CEHPAR. A técnica de construção de modelos de estruturas com acrílico estava sendo consolidada na época. e a estrutura de dissipação de energia na restituição ao rio Cachoeira. Um dos modelos foi implantado no interior do pavilhão com estrutura em madeira com grande vão. analisando-se a estabilidade do enrocamento a cada deposição de material. de Grenoble. construída na década de sessenta (1963-1970). caracterização do vertedouro e erosão da rocha a jusante do vertedouro com material coesivo. com duração de três dias. Foi instalado um novo sistema de recalque. que não só orientou o desenvolvimento geral desse projeto como participou em diversas atividades didáticas promovidas pelo CEHPAR. Os ensaios dinâmicos foram feitos de maneira ininterrupta. Como havia uma camada de sedimentos na região. duas para a ensecadeira de montante e duas para a de jusante. o sistema de restituição das águas das turbinas Pelton ao túnel de fuga. Dirigido pelo professor Sinildo Neidert. a chaminé de equilíbrio com câmara de expansão. O relevo do modelo foi feito com fitas de aço niveladas segundo as curvas de nível. a construção das préensecadeiras devia proporcionar uma limpeza automática através da apropriada escolha da seqüência de avanço nas pontas de aterro. O fechamento do rio foi feito em avanços simultâneos de quatro pré-ensecadeiras. desde a verificação do grande canal. acumulando conhecimentos para que fossem confiados. Um pavilhão de 70 m por 50 m em estrutura metálica foi construído especialmente para abrigar o grande modelo. Testes de fechamento requeriam um controle dinâmico das pontas de aterro com medições de níveis de água e de velocidades do escoamento. A Figura 5 apresenta uma visita do representante da empresa de Salto Grande do Iguaçu ao modelo. Estudos hidráulicos para o aproveitamento hidroelétrico de Itaipu Itaipu foi um marco importante para o setor elétrico e foi sem dúvida um ponto alto para o CEHPAR.

A História das Barragens no Brasil . ou seja. Com o intuito de Figura 6 – Construção do pavilhão para o modelo tri-dimensional de Itaipu e a a instalação de recalque. Foram feitos os testes de verificação das tendências à formação de vórtices e condições de aproximação. 420 . A tomada de água e a casa de força foram ensaiadas extensivamente. Grandes planilhas bem estruturadas foram utilizadas para gerenciar esses testes de fechamento. que o diâmetro do enrocamento necessário para o fechamento com um desnível é da ordem de 30% a 40% desse valor. assunto que foi também explorado no modelo parcial da tomada de água. com defletores em salto de esqui nas extremida des de jusante. Para escoamentos com pequenas profundidades essa regra não parece ser válida. Para o arranjo final do vertedou ro foram feitos testes de erosão com leito coesivo envolvendo enorme volume de material. que pode ser visto na Figura 7. começou a tornar um consenso uma “regra prática”.Séculos XIX. XX e XXI é o caso de Itaipu. No modelo geral de Itaipu foram desenvolvidos os estudos do vertedouro de encosta com 14 comportas e calhas bem longas de concreto. A capacidade de descarga do vertedouro foi cuidadosamente verificada no modelo geral e confirmada também no modelo parcial construído em escala maior. a Figura 8 apresenta um dos resultados obtidos nos ensaios. . Vários arranjos foram verificados uma vez que a equipe de projeto se preocu- pava muito com a erosão provocada pela enorme concentração de energia do jato efluente do vertedouro.

a maior área de laje do mundo). foram feitos testes em um modelo parcial construído na escala 1:50. O Centro teve a oportunidade de contribuir com vários ensaios sobre juntas da laje de concreto da barragem. a exemplo do adotado em Foz do Areia. não necessitando a implantação de aeradores.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Para o vertedouro. cogitou-se instalar no vertedouro de Itaipu um sistema de auto-aeração das calhas. o Centro conduziu os ensaios para Foz do Areia e Salto Santiago. com a reprodução de três vãos. Estudos hidráulicos de Foz do Areia. Figura 8 – Resultado dos testes de erosão a jusante do vertedouro de Itaipu. (Karun no Irã. Entretanto. forçando intensificar no modelo a formação de vórtices aumentando a vazão de teste. 421 . o laboratório realizou ensaios com distorção da escala das velocidades. os cálculos sobre índices incipientes de cavitação indicaram que a configuração da calha do vertedouro de Itaipu é favorável. Emborcação e Sabaneta – estudo sobre aeração Figura 7 – Modelo tri-dimensional do AHE Itaipu em operação De forma paralela aos estudos para Itaipu. Foz do Areia trazia uma novidade que é a barragem de enrocamento com face de concreto (na época. compensar possíveis efeitos de escala. Influenciado pela cavitação ocorrida em grandes obras da época. por exemplo).

O mesmo pesquisador veio a atuar na pesquisa e desenvolvimento ANEEL para a Eletronorte. de forma a produzir um escoamento mais próximo do esperado para o protótipo.Séculos XIX. (1982) na revista Water Power & Dam Construction (Aeration at High Velocity Flow). engenheiro Marcos Tozzi. Estudos sobre vertedouros em degraus Já em 1985 o CEHPAR defrontou com o estudo de barragens de concreto compactadas com rolo (CCR). A cavitação e aeração tornaram-se assuntos muito enfocados na época. O laboratório desenvolveu uma técnica própria para dimensionar a espessura dessas tiras e passou a considerar. concluiu-se que as pressões registradas na crista estavam totalmente a favor da segurança. feito para o vertedouro de Emborcação foi também confirmado no protótipo. recorrência). O estudo sobre vertedouro em degraus culminou em mais uma tese de doutorado. Coincidência ou não.000 anos de 422 . hoje muitas obras brasileiras adotam como padrão a carga de projeto igual a 75% da carga máxima de operação. quando desejável. Mas a contracurva. que faz a ligação da estrutura da crista com a longa calha inclinada.A História das Barragens no Brasil . provocava um aumento excessivo das pressões que atingia a linha da crista. Estudou-se também uma descarga de fundo instalada em um dos túneis de desvio. Até no dia do fechamento. Os estudos em modelo tornaram possível um dos mais complicados esquemas de fechamento do rio. conforme havia mostrado os russos no vertedouro de Nurek e Bratsk. A pressão sobre a crista que deveria ser nula pelo conceito original. Estudos hidráulicos de Segredo e Xingó No estudo do desvio de Segredo os túneis foram reproduzidos por tubos de acrílicos dotados de rugosidades em forma de tiras. A crista do vertedouro foi redimensionada com uma carga de projeto 25% menor que a carga máxima de operação. isto é. pitot. estudando a possibilidade de se operar os vertedouros com degraus de grandes dimensões para fins de economia. Até então. orifício. O CEHPAR efetuou uma série de ensaios medindo a vazão de ar no modelo utilizando medidores simples (bocal. Em conjunto com a COPEL. mais um engenheiro do CEHPAR defendeu sua tese de mestrado. O laboratório levou o programa adiante e efetuou estudos em modelos parciais de escalas maiores (1:15 a 1:8 – Figura 3) que culminou na publicação do trabalho: Pinto et al. Esse estudo foi realizado a título de mestrado por um aluno que veio a desistir do curso. a sobrescavação do túnel e a rugosidade. Assim. Xingó foi outra usina que o CEHPAR veio a contribuir decisivamente. Com estudos feitos posteriormente. as cristas tinham como carga de projeto a carga máxima de operação (enchente de 10. o perfil seria desenhado mais delgado de forma que a pressão final fosse razoável e garantisse uma boa capacidade de descarga. mas foi retomado como um estudo mais aprofundado para a tese de doutorado do então chefe da Divisão de Hidráulica. Analisando-se a crista do vertedouro que seguia aproximadamente o padrão US Army Corps of Engineers. o CEHPAR iniciou seus primeiros testes de aeração no modelo reduzido (escala 1:30) do descarregador de fundo de Foz do Areia. O laboratório teve a oportunidade de estudar os aeradores da calha do vertedouro de Foz do Areia e de medir a vazão correspondente de ar no protótipo. O laboratório também teve uma contribuição importante para a definição do aerador do descarregador de cheias no túnel de Sabaneta (República Dominicana). O laboratório também se despertou no uso de modelo matemático (elementos finitos e elementos de contorno) para estudos dessa natureza. o CEHPAR estava realizando testes para instruir o passo seguinte na obra. pela Universidade de São Paulo. mas estavam prejudicando a sua capacidade de descarga. o CEHPAR sugeriu uma redução da carga de projeto da crista. venturi) com manômetro dotado de micrômetro. do engenheiro Júlio César Olinger que se preocupou em estudar as pressões nos degraus. estava majorada pela presença da contracurva. Estudo semelhante. Mas logo concluiu que os efeitos de escala são consideráveis e que não há correspondência entre modelo e protótipo em termos de demanda de ar em testes realizados em modelos construídos nas escalas usuais. Em 1991 realizou os primeiros ensaios de vertedouros em degraus para fins de pesquisa utilizando como projeto piloto o vertedouro de Cubatão. Este estudo permitiu a caracterização do escoamento conhecido como skimming flow. XX e XXI Os desastres devido à cavitação ocorridos na calha do vertedouro de Karun do Irã e nos túneis americanos de Palisades e Yellowtail preocuparam o meio técnico e já se sabia que a solução é a aeração do escoamento.

da tomada de água e do canal de fuga. A COPEL procurou uma medida definitiva. O CEHPAR estudou o downpull e catapultamento da comporta da tomada de água de Segredo. O material erodido e depositado a jusante (barra) tornou-se também um obstáculo para a saída dos peixes. que não apresenta semelhança física e não pode ser transposto ao protótipo. do vertedouro. Neste projeto o grande problema foi o atrito do modelo da comporta. que não se limitasse ao resgate manual dos peixes aprisinados. Machadinho e Barra Grande O CEHPAR teve a oportunidade de trabalhar com as obras catarinenses dos rios Canoas. tornou-se um problema para a usina devido ao aprisionamento de peixes nas fossas de erosão e em locas. teve a preocupação de contratar um engenheiro eletrônico para dar assistência à instrumentação. Caxias representou o último grande estudo da fase do convênio entre a Universidade e a COPEL que terminou em maio de 2000. Realizaram-se testes de abertura e de fechamento da comporta para extrair o atrito do modelo.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Estudos hidráulicos para a hidroelétrica de Salto Caxias O modelo de Caxias foi o que permaneceu mais tempo no CEHPAR. tendo em vista o cuidado com que as estruturas foram executadas. Campos Novos. perfeitamente aceitável sob o ponto de vista da engenharia. Mas o talento dos engenheiros fez surgir uma nova oportunidade 423 . Os ensaios mostraram que água acumulada nas vigas constituía um peso adicional exigindo que aumentasse a capacidade do servomecanismo. Pelotas e Uruguai. Esse engenheiro foi fundamental no desenvolvimento de ensaios hidrodinâmicos de movimentação Figura 9 – Estudo da Comporta de Fechamento daTomada de Água de Tucuruí – 2a fase. Foram estudados os problemas de desvio. Estudos hidrodinâmicos de movimentação de comportas O CEHPAR. que a erosão a jusante do vertedouro. com o engº Edie Taniguchi em primeiro plano Pesquisa e desenvolvimento: projetos ANEEL e modelos matemáticos A Divisão de Hidráulica passou por uma fase difícil no período em que no Brasil o ritmo de construção de usinas teve acentuada queda. Nos modelos de Itá e Machadinho foram realizados ensaios de erosão em rocha utilizandose materiais coesivos. Começou nos anos noventa e só foi demolido em 2010. como de praxe. Estudos das hidroelétricas de Itá. em geral por efeito de escala mais pronunciados. após o fechamento das comportas do vertedouro. A título de pesquisa de mestrado. A conclusão foi que modelos muito pequenos não conduzem a bons resultados. no entanto. realizando ensaios para várias alternativas de canais para a liberação dos peixes. o CEHPAR chegou a construir um modelo reduzido de Itá na escala 1:300 para verificar a viabilidade de estudo em modelo em escala mais reduzida visando a economia no estudo. Depois recebeu o desafio de estudar a comporta do aqueduto da eclusa de Porto Primavera. O laboratório reativou o modelo e prestou uma contribuição importante à usina. O outro projeto que foi um desafio interessante foi o da definição do esforço no servomecanismo de acionamento da comporta da tomada de água de Tucuruí (Figura 9). Destaca-se. e a tão esperada redução do custo não ocorreu a contento. que veio trabalhando essencialmente com engenheiros civis. de comportas.

Palomino. Ao estudar o habitat de peixes no projeto de P&D ANEEL da Chesf o CEHPAR deparou com o modelo RIVER 2D. Principalmente a ELETRONORTE propiciou três estudos. De certa forma essa é também uma contribuição importante do CEHPAR ao setor elétrico. Foi feita uma pesquisa para a COPEL um estudo sobre sedimentação na baia de Antonina utilizando o DELFT 3D. Com a CHESF o Centro executou um interessante trabalho sobre a capacidade natatória de peixes. um software livre bastante útil em projetos. de vertedouro em degraus. na escala 1:60 mostrou que essa configuração não é propícia e contribuiu na seleção de uma nova forma aceitável sob o ponto de vista técnico e econômico. Sendo o vertedouro construído em um reduzido espaço devido aos íngremes taludes das encostas.340 m3/s. ELETRONORTE. O modelo reduzido. foi concluído que o rio tem um potencial de gerar uma vazão de 7. Ituango e Gibe III A demanda de energia em vários países fez com que as empresas brasileiras encontrassem um excelente mercado. Paute Mazar no Equador foi 424 . CEB e DUKE firmaram parcerias que deram oportunidades de pesquisa ao Centro. CHESF. Army Corps of Engineers em uma aplicação à sua tese de mestrado e ao projeto de P&D ANEEL com a COPEL. LIGHT. uma pesquisa aplicada ao rio São Francisco. O modelo CFX deu origem a uma tese de mestrado de um bolsista LACTEC. Para o rio Paute havia sido calculada uma vazão decamilenar de 2. Assim. Um dos engenheiros começou os estudos em modelos matemáticos com o uso do modelo RMA. A CERJ e a CEB foram as empresas que estudaram metodologias para repotenciação de usinas antigas.A História das Barragens no Brasil . Com a COPEL o Centro desenvolveu um estudo sobre o uso de perfilador acústico ADCP como medidor de transporte de sedimentos e outro estudo sobre assoreamento de reservatório (parte de um projeto maior do CEHPAR). O modelo de Palomino (República Dominicana) trouxe um novo desafio. Modelos de Paute Mazar. em cujo topo pretende-se instalar um vertedouro orifício. vertedouro não convencional em curva e vertedouro de ogiva baixa. A passagem dessa vazão tornou-se requisito para o vertedouro. Figura 10 – Modelo de Gibe III em operação uma dessas obras estudadas pelo CEHPAR. utilizando o HEC-RAS e o DELFT-3D. Para a LIGHT o laboratório fez estudos sobre escadas de peixes. Trata-se de uma barragem de concreto em arco. em modelo reduzido construído na escala 1:70. Atualmente o Centro faz um estudo sobre geração de energia alternativa. Cambambe. CERJ. Para a Duke está sendo desenvolvido um equipamento para geração de energia elétrica.500 m3/s. sobre dissipadores de energia em fenda e pilares defletores e sobre vertedouros labirinto que haviam sido submetidos anteriormente. Desde então muitos engenheiros passaram a usar esse modelo. Foram os projetos de pesquisa e desenvolvimento da ANEEL. Cambambe é uma obra da Angola que estava inacabada por anos. do U. a COPEL. Depois a COPEL liberou mais dois projetos.Séculos XIX. sendo necessária a operação sem comportas. O Coordenador do CEHPAR no período de 1999 a 2008 tomou uma iniciativa bastante positiva à Divisão de Hidráulica com a aquisição do modelo computacional DELFT 3D. Pela primeira vez o CEHPAR realizou um ensaio de purga de sedimentos conhecida como flushing. O Centro fez também um estudo do escoamento no rio Iguaçu para a usina de Baixo Iguaçu da COPEL. Está programado também implantar um vertedouro de encosta. XX e XXI para Centro. mas em vista de que já havia experimentado um desastre com rompimento de uma barragem natural formada pelos restos de um desmoronamento de encostas. S. As duas estruturas são objetos de estudo no CEHPAR. o projetista foi forçado a sugerir uma configuração não convencional semelhante a um vertedouro lateral.

Modelo reduzido do sistema de refrigeração da usina nuclear de Angra dos Reis A ELETRONUCLEAR procurou o Centro de Hidráulica para realizar os estudos em modelo reduzido do sistema de refrigeração da usina nuclear de Angra dos Reis. Está em estudo o desempenho do vertedouro. A seriedade. pois uma boa maioria dos estagiários do CEHPAR escolhe o setor elétrico para desenvolver seus talentos.233 MW. normalmente considerados modestos em outras áreas de atuação. Segundo palavras do seu fundador. o “CEHPAR faz trabalhos úteis à sociedade. mas a privatização do laboratório tornou o grupo mais forte e fez descobrir que seus integrantes têm potencial para ampliar seus campos de atuação. pressões e erosão provocada pelo jato efluente e a operação da usina. Atrás do reconhecimento internacional do Centro de Hidráulica está o apoio imprescindível dos artífices que contribuem a cada dia com excelentes idéias dentro de suas especialidades. Sua potência instalada será de 11. e a medida dessa utilidade é a vontade da sociedade pagar por estes trabalhos”. são responsáveis pela precisão dos resultados. no Estado do Pará. incluindo a sua capacidade de descarga. simulando paradas instantâneas das usinas e levando em conta as condições de maré na região de descarga da água. professor Parigot. A seleção de bons estagiários é uma contribuição importante para o setor elétrico. Construiu-se no laboratório um modelo com 4. pedreiros e artífices. Observações finais O laboratório de hidráulica do CEHPAR faz questão de lembrar que os sucessos dos estudos em modelos reduzidos não se devem apenas aos engenheiros. O termo “pesquisa aplicada útil” sempre foi o foco do CEHPAR. Os estudos se- Figura 11 – construção do modelo reduzido do sítio Pimental do AHE Belo Monte 425 . visto que a de Itaipu está localizada na fronteira entre o Brasil e o Paraguai. Os trabalhos dos serventes. rão feitos em 5 modelos reduzidos e levará um tempo total de 3 anos. a ser construída no Rio Xingu. o que fará dela a maior capacidade instalada em hidroelétrica inteiramente brasileira.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens O projeto Gibe III é uma contratação feita diretamente por uma empresa italiana que faz serviços para a obra a ser construída na Etiópia. a humildade e o compromisso com a verdade têm ajudado em muito o CEHPAR. Modelo reduzido da hidroelétrica de Belo Monte O CEHPAR está iniciando os estudos para a terceira maior hidroelétrica do mundo. levando em conta a inclusão iminente da unidade III. O ponto forte do laboratório são ainda os estudos hidráulicos em modelos reduzidos. O laboratório fez questão de oferecer uma solução para realizar testes dinâmicos do sistema de refrigeração. A Figura 11 apresenta o trabalho de construção do modelo principal (sítio Pimental) no pavilhão antes ocupado por 13 outros estudos.5 m de altura.

Corumbá Marimbondo Serra Mesa Itumbiara .

chefiado por Geofredo de Moraes. recebeu uma solicitação vinda da obra da hidroelétrica de Estreito. Lyra concedeu a permissão para a aquisição.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Centro de Tecnologia de Furnas em Goiânia . Os ensaios especiais eram contratados junto a laboratórios de empresas ou a institutos de pesquisa. Pate entregou a documentação a um engenheiro recém formado que acabara de integrar o grupo dos novos projetos. com pouca perda de carga. Com instruções de apenas tomar ciência antes do arquivamento. A referida solicitação foi enviada ao Departamento de Engenharia chefiado por Franklin Fernandes Filho que passou a documentação para a Divisão de Engenharia Civil sob o comando do engenheiro Adolfo Szpilman. Os equipamentos foram instalados no acampamento de Marimbondo em 1968. obter informações necessárias e abundantes para o desenvolvimento dos projetos das hidroelétricas de Marimbondo e de Porto Colômbia cujos estudos preliminares indicavam grandes maciços de terra com extensas fundações em solo. depois denominada Luiz Carlos Barreto. A documentação foi enviada para o engenheiro Humberto Pate coordenador do grupo de estudo dos novos projetos de Furnas. Esse engenheiro preparou um trabalho com considerações teóricas sobre os diversos tipos de ensaios triaxiais e desenvolveu um estudo do aproveitamento da instalação desses aparelhos em laboratório próprio para. além de prever a aplicação em eventuais projetos futuros. para aquisição de equipamentos para ensaios triaxiais em amostras de solo. os aproveitamentos de Porto Colômbia e de Marimbondo. Até então Furnas mantinha nas suas barragens que na época estavam em estágios avançados de construção (Estreito. Esses foram os primeiros equipamentos de laboratório de Furnas além dos equipamentos de ensaios correntes em obras. Funil e Nhangapi) laboratórios de campo apenas para os controles de liberação de obra. O pedido de aquisição dos equipamentos e o trabalho sobre ensaios triaxiais percolou em sentido contrário ao anterior mas dessa vez atingindo a Diretoria Técnica. Flavio Miguez de Mello 427 . Em Marimbondo outro jovem engenheiro. Ao longo desse percurso. Agenor Bailão Galletti ficou encarregado do laboratório de solos. O engenheiro Flavio H.Resumo histórico e atividades de pesquisa Resumo histórico O início dos ensaios especiais O ano de 1968 estava iniciando quando o Departamento de Obras de Furnas. a solicitação percolou sem despertar interesse no sentido do seu atendimento tendo por destino o seu arquivamento. com maior disponibilidade de execução de ensaios.

tendo como assistente o engenheiro Nelson Caproni que acumulava a chefia dos laboratórios de solos e rocha. Inicialmente o centro foi comandado pelo engenheiro Ludgero Pimenta de Ávila. XX e XXI Os laboratórios nos seus primeiros anos Em 1969 Furnas acelerava as obras e montagens da hidroelétrica de Funil para que pelo menos uma das três unidades entrasse em operação antes do fim do ano para que os custos de construção já incidissem na tarifa do ano seguinte. entre outros. Belo Horizonte e Goiânia. cargo que exerce presentemente (agosto de 2011). A construção inicial foi concluída em 1985 já abrigando também o laboratório de mecânica de rochas.Séculos XIX. que incorporasse o engenheiro Walton Pacelli de Andrade para atuar na tecnologia do concreto nas novas obras que se iniciavam.A História das Barragens no Brasil . A destacada atuação do engenheiro Pacelli no DCT projetou-o como consultor no País e no exterior. Com a aposentadoria dos engenheiros Pacelli e Caproni em dezembro de 2002. Em 1975 os laboratórios de solos e de concreto foram transferidos para Itumbiara onde Furnas passou a implantar sua maior hidroelétrica. Lyra recomendou a Rubens Vianna de Andrade. não tenha trabalhado com o DCT e aqui relata o início dessa história de sucesso. destaque na tecnologia do concreto e Epaminondas Mello do Amaral Filho. assumiu a chefia do DCT o engenheiro Rubens Machado Bitencourt. superintendente das obras do rio Grande. É importante realçar as contribuições dos consultores Roy Carlson e Paulo Monteiro para o DCT e os laboratórios que o antecederam. Flavio H. tendo sido decidida pela instalação em área anexa à subestação de Furnas. Nessa época estava começando a obra da hidroelétrica de Serra da Mesa e em seguida Corumbá. Três locais foram considerados: Brasília. De 1970 a 1975 Pacelli melhorou a capacitação do laboratório de concreto com a instalação de prensas de grande capacidade e estudos de propriedades térmicas. em Goiânia. A usina entrou em operação comercial nos últimos dias de dezembro de 1969. ele ficou sempre ligado profissionalmente à engenharia de barragens embora. por capricho do destino. Com a obra tendo sido concluída em 1970. expoente na construção de barragens. O DCT passou a dar crescentes e importantes contribuições técnicas para os projetos e obras. Figura 1 – Engenheiro Walton Pacelli de Andrade. Quanto ao engenheiro recém formado mencionado acima. A partir de dezembro de 1992 o centro foi chefiado já em nível de departamento (Departamento de Apoio e Controle Técnico – DCT) pelo engenheiro Walton Pacelli de Andrade que acumulava a chefia do laboratório de concreto. tendo sido presidente do Instituto Brasileiro do Concreto IBRACON. Na fase de Itumbiara houve expansão da capacidade dos laboratórios. Figura 2 – Ambiente de trabalho no DCT As instalações definitivas Com o término da obra de Itumbiara foi pensada a criação de um centro tecnológico. presidente do CBDB e do IBRACON 428 .

Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Atividades de pesquisa do DCT Furnas constituíu o DCT. A partir dos anos 90 consolidou-se com a participação em mais de 200 empreendimentos hidrelétricos no seu acervo de serviços prestados em países da América. os laboratórios também participaram de estudos e desenvolvimentos da tecnologia para as usinas hidroelétricas Itaipu e Tucuruí. desenvolvimento e inovação. tendo como intuito o incremento do 429 . Diversos estudos para a construção de barragens de enrocamento com face de concreto foram desenvolvidos com o apoio desse laboratório. PUC-RJ. A área de instrumentação e segurança de barragens com a certificação ISO 9001 Sistema de gestão implantado com reconhecimentos obtidos desde o ano de 1994. Europa e África. diversos ensaios na área de geotecnia iniciaram o processo de informatização e automação. como a COPPE/UFRJ. implicando em relevantes benefícios de segurança no empreendimento. no final da década de 90. dentre outras. em operação. UFSC. de cisalhamento e de compressão unidirecional em rochas. Posteriormente. o DCT sempre procurou identificar e acompanhar os avanços necessários à superação dos desafios que a evolução do setor de energia impunha. Em paralelo. possibilitando a obtenção da acreditação junto ao Inmetro em 1994 e a sua certificação ISO 9000 no ano de 1996. Alguns exemplos destes avanços são descritos a seguir. Possui alguns diferenciais. direcionadas aos novos empreendimentos com foco nas aplicações de engenharia civil e correlatas. como por exemplo: O único equipamento do mundo. UnB. No início dos anos noventa os processos foram mais bem estruturados dentro de padrões internacionais de gestão da qualidade. O DCT é hoje reconhecido nacionalmente como uma das mais importantes instituições tecnológicas em sua área de atuação. esta tecnologia foi intensificada com a aplicação da metodologia do concreto compactado com rolo na construção das ensecadeiras galgáveis da barragem de Serra da Mesa. Ao final da década de 80. O mais bem equipado laboratório do Brasil na área de mecânica das rochas e enrocamento. Em meados dos anos noventa. também em meados dos anos noventa. UFRGS. Realização de pesquisas e desenvolvimentos em parceria com as principais universidades e centros de tecnologia do Brasil. além da central nuclear de Angra dos Reis que já se encontrava em curso e que demandava padrões de garantia de qualidade estabelecidos pela Agência Internacional de Energia Atômica. capaz de executar pistas experimentais de concreto compactado com rolo em laboratório. unidade criada para atuar no desenvolvimento de serviços tecnológicos e atividades de pesquisa. foi implantado e inaugurado o laboratório de concreto compactado com rolo. o DCT implantou e inaugu rou o seu laboratório de mecânica das rochas. Extraido de texto redigido pela equipe do DCT No limiar da década de 70. Ao longo de sua história. USP. UFG. único do mundo em funcionamento. que possibilita um conjunto de análises aplicadas que vão desde a análise em nível microscópico por análise eletrônica de varredura até a análise de resistência por meio de ensaios triaxiais. um laboratório singular. certificação segundo as normas da série ISO 9000 e premiações pelo Prêmio Nacional da Gestão Pública do Governo Federal. incluindo-se acreditações junto ao INMETRO.

A História das Barragens no Brasil . O desenvolvimento de um projeto de P&D desta tecnologia. Visando aprimorar o conhecimento dos materiais e dos métodos construtivos a serem implementados nos diversos empreendi mentos da empresa. o DCT desenvolve um conjunto de estudos e pesquisas avançadas. ampliando a busca de agregação de valor por este centro de tecnologia. No final dos anos noventa e no início da década seguinte. à redução de impactos ambi entais e a estruturas mais seguras e mais duráveis. incluindo reatividade potencial. O terceiro pilar. na segunda metade dos anos noventa. para as obras civis. A proficiência e a competência nesta nova linha de trabalho foi reconhecida em 2004. areias. O DCT possui equipe qualificada e infraestrutura adequada para o desenvolvimento deste processo. O primeiro está basicamente sob a responsabilidade da projetista e o segundo basicamente sob a responsabilidade da construtora. Estes estudos possibilitam os seguintes diferenciais competitivos: 430 . Análises que chegam próximo ao nível nano possibilitaram o desenvolvimento de competências únicas no Brasil nesta área. aditivos. Do ponto de vista tecnológico. os projetos de P&D desenvolvidos possibilitaram o exercício de um importante papel na construção da usina hidroelétrica Foz do Chapecó. Análises químicas para caracterização dos materiais de construção. O adequado emprego dos materiais disponíveis nos locais onde os grandes empreendimentos deverão ser construídos leva à otimização de estruturas. A atuação da equipe do controle tecnológico durante a construção. com destaque para técnicas de diagnóstico. Uma intensa atividade de pesquisa e desenvolvimento foi desenvolvida aproveitando os estímulos trazidos pela lei 9. Dentro desta área de competência encontram-se estruturadas as seguintes linhas de trabalho: Ensaios físicos de caracterização de rochas. outra área que ganhou impulso foi a de instrumentação e auscultação de barragens e estruturas anexas. à redução de custos. cimento. juntamente com o setor de análises de materiais. O aprimoramento de tecnologias existentes e o desenvolvimento de outras novas tecnologias se seguiram desde então. por toda sua vida útil. o desenvolvimento de pesquisas na área de durabilidade de estruturas. quando obteve a extensão do escopo certificado segundo a ISO 9000 para essa atividade. possibilitou o exercício do papel de controle e apoio tecnológico à execução dessa solução de engenharia. empreendimento que utilizou a solução do núcleo asfáltico pela primeira vez no País. o DCT intensificou. além de avaliar a qualidade especificada dos materiais utilizados nas obras civis. custos e confiabilidade dos resultados e análises realizados. anterior ao empreendimento.Séculos XIX. buscando o domínio e aplicação de técnicas em tecnologia dos materiais em nano e microtecnologia. prazo e qualidade global das estruturas. prevenção e correção de reações álcalis-agregado e também na área de sulfetos. a utilização de métodos e técnicas construtivos adequados e a qualidade e uso dos materiais empregados. Análises microscópicas e mineralógicas. pela dinâmica que é a escolha e emprego dos materiais. água e asfalto. conduz estudos e pesquisas de materiais para subsídios ao projeto. sinalizando no momento atual desenvolvimentos ainda maiores. adequadamente gerenciados. Dando continuidade a conhecimentos técnicos pré–existentes na análise da microestrutura dos materiais. A junção destes três pilares. Três pilares sustentam bons empreendimentos no que tange à sua qualidade: um bom projeto. O co nhecimento das características técnicas dos materiais do local do empreendimento permite subsidiar análises de custo. XX e XXI desempenho em prazos. que desempenhará suas funções com o mínimo de intervenções externas pela equipe de ma nutenção. que em casos de barragens estima-se da ordem de 100 anos. à construção e à otimização do custo final do empreendimento. fica sob a responsabilidade da equipe do controle tecnológico.991 e outras que se seguiram. permite a obtenção de um empreendimento “saudável”.

em consonância com as equipes técnicas em todas as áreas de atuação do DCT é implementado e desenvolvido um conjunto de atividades que visam à identificação de necessidades e demandas de co nhecimento e capacitação. a base para o sucesso de qualquer organização. Os principais produtos entregues. Tecnologia do Ambiente Construído. por intermédio da qual se busca a garantia e a precisão de todos os processos de medição técnica voltados aos empreendimentos. Assessoria em tecnologias de gestão. o seu conhecimento e a sua cultura. como elementos agregadores de valor aos serviços prestados. no âmbito desta área de competência. Baseado na premissa de que nos tempos atuais. Uma das áreas de competência decorrente desta atividade é a de confiabilidade metrológica. é o capital humano. Desenvolvimento de Novas Soluções de Engenharia. Capacitação e treinamento voltados aos empreendimentos e às atividades de tecnologia. Vista aérea do DCT 431 . são os seguintes: Estudos e pesquisas avançadas como subsídios às otimizações de projeto e de custos dos empreendimentos. Estudos e pesquisas do ambiente construído voltado às instalações de FURNAS. Essa área de competência tem os seguintes produtos principais: Padrões de trabalho adequados e atualizados. dos empreendimentos em construção e à sociedade.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Dentro desta área de competência encontra-se estruturadas as seguintes sub-áreas: Ensaios Especiais. em especial na área de serviços. Confiabilidade metrológica e calibração de instrumentos de medição.

Sangradouro do açude de Orós. Ensaio em modelo reduzido e o protótipo em operação .

Inglaterra e Estados Unidos. onde havia espaço suficiente para expandir suas atividades. 433 . Após a morte de seu fundador. o Escritório passou a ser dirigido por Francisco Saturnino de Brito Filho (Campos dos Goytacazes. desde o final do século XIX. então recém formado. decidiu criar. 2009). Ceará. 1921 . se transferiu para uma grande área no bairro do Andaraí. o primeiro laboratório de hidráulica do país. Em 1959. no estado da Bahia. embrião do que viria a se transformar no Hidroesb. Presidiu o Clube de Engenharia do Rio de Janeiro e foi membro de várias outras associações como ASCE (American Society of Civil Engineers) e AWWA (American Water Works Association). Formado em 1º lugar na turma de 1923 da Escola de Minas de Ouro Preto foi professor catedrático da cadeira de Higiene e Saneamento da Escola Politécnica da Universidade do Brasil e teve onze livros publicados. ainda ligado ao Escritório Saturnino de Brito. na zona sul da cidade do Rio de Janeiro. Seu fundador desenvolveu técnicas de projetos de saneamento que vieram a ser adotadas em países como França. pela captação de parcela significativa da água potável consumida na cidade do Rio de Janeiro e pelo projeto do sistema hidráulico de renovação das águas da lagoa Rodrigo de Freitas. no Rio de Janeiro. Sua origem remonta ao Escritório Saturnino de Brito fundado por Francisco Rodrigues Saturnino de Brito (Campos dos Goytacazes. 1929) considerado o “Patrono da Engenharia Sanitária Brasileira”.foi a mais importante instituição privada de hidráulica experimental no Brasil. no centro da cidade do Rio de Janeiro. já então sob a supervisão direta de Theophilo Benedicto Ottoni Neto (Porangaba. Há indicações de que o Escritório Saturnino de Brito foi a primeira empresa constituída no Brasil com a finalidade específica de atuação na engenharia consultiva tendo sido responsável. Na década de 50 a empresa foi pioneira na realização das primeiras medições de descarga sólida em rios brasileiros e foi responsável por projetos de destaque como a tomada d’água do rio Guandu.CINQUENTA ANOS DO COMITÊ BRASILEIRO DE BARRAGENS O Laboratório de Hidráulica HIDROESB – Saturnino de Brito SA Luiz Felipe Pierre O HIDROESB – Saturnino de Brito SA . com o apoio de seu assistente Theophilo Benedicto Ottoni Neto.Rio de Janeiro. pelo projeto de saneamento básico de várias cidades brasileiras. responsável. 1899 – Rio de Janeiro. A partir do final da década de 40 a empresa desenvolveu diversos estudos hidrológicos e hidráulicos aplicando técnicas inovadoras no Brasil para a época como foi o caso da utilização do método do hidrograma unitário nos estudos hidrológicos do rio Joanes. Em 1946. até hoje. 1864 – Pelotas. 1977). no sub-solo do prédio ocupado pelo Escritório Saturnino de Brito. Desenvolveu ao longo da vida intensa atividade em associações de engenheiros tendo sido fundador da FEBRAE (Federação Brasileira de Associações de Engenheiros) e da UPADI (Associação Panamericana de Associações de Engenheiros). com o aumento no volume de serviços. o laboratório de hidráulica. Saturnino de Brito Filho.

também. XX e XXI Em 1965 foi criado o Laboratório Hidrotécnico Saturnino de Brito SA . páginas 68 a 70. Boa Esperança.Hidroesb. ouvindo a explicação do professor Theophilo B. para a CSN. que havia sido destruído por uma cheia ocorrida em 1960 (ver ICOLD – “Lessons from Dam Incidents” – 1974. CBDB . no rio Paraíba do Sul. no rio Piracicaba. Seu maior destaque. porém. em Volta Redonda e para a usina termoelétrica de Santa Cruz. Jaguara.293 a 300. no rio Uatumã. em Ipatinga. Nas décadas de 60 e 70 desenvolveu estudos hidráulicos em modelo reduzido de vários dos mais importantes aproveitamentos hidroelé tricos projetados na época dentre os quais Estreito.Séculos XIX. hidrometria e sedimentometria bem como a estudos e projetos hidráulicos.Juarez Távora. No ano de 1962 desenvolveu os estudos hidráulicos em modelo reduzido e os projetos hidráulico e estrutural para reconstrução do sangradouro do açude de Orós. no rio Doce. no rio Jaguaribe. ministro de viação e obra públicas.123 a 128). se deu no campo da hidráulica experimental. empresa independente do Escritório Saturnino de Brito. no rio Parnaíba e Balbina. Mascarenhas.Main Brazilian Dams II pág. no rastro dos grandes projetos que o País desenvolveu na época. Volta Grande. no Ceará. Grandes Vertedouros Brasileiros pág. A nova empresa se dedicou a estudos de campo nas áreas de topografia. todos no rio Grande. no Rio de Janeiro. modelos para estudos especiais como as eclusas do AHE Tucuruí e do AHE Boa Esperança Figura 1 .A História das Barragens no Brasil . Porto Colômbia e Ma rimbondo. no canal de São Francisco. O Hidroesb construiu. Na década de 60 o Hidroesb realizou projetos e estudos hidráulicos em modelo reduzido de tomadas d’água para fins industriais para as instalações da USIMINAS. Ottoni Netto sobre o modelo reduzido do vertedouro de Orós 434 .

Planejamento Integrado dos Recursos Hídricos. Recursos Hídricos. Controle de Enchentes e de Secas. UnB e em instituições oficiais. do Conselho de Pesquisas e Ensino para Graduação da UFRJ. Saneamento. chefe do Departamento de Hidráulica e Saneamento do Curso de Engenharia Civil da UFRJ. Empreendimentos Hidráulicos. Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz e SUDENE. Saneamento Ambiental. 435 . Como docente. Engenharia Costeira. envolvendo Hidráulica.Professor Theophilo Benedicto Ottoni Netto tendo à sua esquerda os engenheiros Lúcio Washington e Olívio Kalckman e a tomada d’água do AHE Fur nas visando avaliar a possibilidade de redução da cota do seu nível mínimo operativo. Fluviometria. ministrou aulas em cursos de graduação e pósgraduação. PUC. Hidrotécnica. Em 1978 a empresa teve sua razão social alterada para Hidroesb – Saturnino de Brito SA. Ecologia Aplicada e Engenharia Sanitária. Hidrologia Geral. Foi professor titular e emérito da UFRJ. professor Theophilo Ottoni. UFF. atuou profissionalmente na área da Educação Superior e na prestação de ser viços de Engenharia Consultiva. com a sua experiência prática de engenharia e acadêmica de professor pesquisador. em temas de Hidráulica. vice-presidente da Associação de Antigos Alunos da Politécnica. Pelo pioneirismo de sua atuação o Hidroesb deu importante contribuição ao desenvolvimento da engenharia hidráulica no país.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 2 . Seu principal executivo. O Hidroesb e o professor Theophilo Benedicto Ottoni Netto. Hidrologia. do Conselho Diretor da Fundação de Ensino Especializado de Saúde Pública e coordenador da Sub-Comissão da Associação Brasileira de Normas Técnicas para Projeto de Construção de Órgãos Auxiliares de Barragens. como Escola Técnica do Exército (Ministério da Guerra). em universidades como UFRJ. Perenização e Regularização Fluvial. desempenharam importante papel na evolução da engenharia hidráulica e na formação de novos profissionais na área. membro do Conselho de Curadores da UFRJ. Abastecimento d’Água de Cidades e Impactos Ambientais. Aproveitamentos Hidroelétricos.

436 .

assim como de um laboratório de hidráulica para ensino. recursos hídricos e meio-ambiente atuando ativamente em diferentes setores (elétrico brasileiro. de pesquisa. tais como: Travessia do Delta do Jacuí para o DAER (Figura 3).IPH Marcelo Giulian Marques. de que havia necessidade do domínio da técnica dos modelos reduzidos. A sua criação tomou corpo em 1953. seus anseios tiveram eco no reitorado do Professor Elyseu Paglioli. entre outros. na então Universidade do Rio Grande do Sul. de extensão e de prestação de serviços em hidráulica. todos os prédios do projeto original (Figura 1) estavam concluídos e operando. termina do em 1955 e inaugurado oficialmente em 1957 pelo Presidente Juscelino Kubitschek. irrigação. O primeiro prédio do IPH foi o Pavilhão Marítimo. planejado pelo engenheiro Pierre Engeldinger do Laboratoire National d’Hydráulique de Chatou . Vários docentes de então atuavam simultaneamente na referida secretaria e na universidade. hidroelétricas e assemelhados na região sul do Brasil e da América Latina.França. Em seguida outros estudos foram realizados em modelo reduzido. Luiz Augusto Magalhães Endres e André Luiz Lopes Silveira setores das obras marítimas. Desta forma. estudos e treinamento que atuasse nos 437 . Barragem Bom Retiro do Sul (Figura 5). A conjuntura histórica da época ajudou nesse objetivo. pois a universidade aprovou. fluviais. que designou uma comissão para criação deste novo instituto em 7 de agosto de 1953. navegação. Em 1962. realizando atividades de ensino. entre outros). em função de uma idéia circulante na Escola de Engenharia e na Secretaria de Obras Públicas do Estado do Rio Grande do Sul. em função de um oficio do professor Adolfo Laranjeira Mariante solicitando a criação de um centro destinado às questões hidráulicas.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens O Instituto de Pesquisas Hidráulicas . abastecimento de água. incluindo o Laboratório de Ensino. Figura 1 – Vista geral do Instituto de Pesquisa Hidráulicas da UFRGS (1962) Um breve histórico O Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) é o instituto das águas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). que começou em 1956 para o DEPRC (Figura 2) com a ajuda de pesquisadores franceses. a localização da nova Cidade Universitária junto à área destinada à implantação do IPH. também em 1953. O primeiro trabalho realizado foi sobre o estudo da desembocadura do Rio Tramandaí. Barragem do Arroio Duro para o DNOS (Figura 4).

Barragem do Arroio Duro (extinto DNOS) – estudo do vertedouro 438 . Figura 4 . XX e XXI Figura 3 .estudo da proteção com enrocamento – DAER Figura 2 .Séculos XIX.Desembocadura do rio Tramandaí RS – DEPREC Figura 5 .Vista do modelo da travessia do Jacuí (DAER) .escoamento com comporta de fundo e lâmina vertente.A História das Barragens no Brasil .Barragem Bom Retiro do Sul (DEPREC) .

O IPH.usina hidroelétrica Machadinho (1º arranjo de obra) – Rio Pelotas –RS (Figura 10) * Garcia de Garcia . tem um acervo de centenas de trabalhos de prestação de serviços à comunidade nas áreas de hidráulica. 15 foram estudos em modelo reduzido de barragens. usina hidroelétrica Salto Grande – Rio Santa Cruz . que passa a ser um instituto de pesquisas também em recursos hídricos e saneamento ambiental. Desta forma. usina hidroelétrica Dona Francisca 1º arranjo de obra (Figura 7) . em 1969. e está em fase de implantação o curso de engenharia hídrica.Barragem do Anel de Dom Marco (CEEE) . Destes. irrigação. 439 . de recursos hídricos e de meio-ambiente.RS * Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE) – Barragem do Anel de Dom Marco – Rio Jacuí (Figura 6). pr eser vação e conser vação” . e a meta: “A capacitação de indivíduos e de instituições aptas a lidar com os problemas que envolvem o uso da água”. até o presente momento. foi criado o curso de pós-graduação do IPH e o Curso Técnico em Hidrologia. juntamente com a reforma universitária de 1970 marca uma segunda fase do IPH.Rio Jacuí –RS.Barragem eclusa do canal São Gonçalo Lagoa dos Patos e Lagoa Mirim . atuando no ensino (técnico. foi implantado o curso de engenharia ambiental. sobretudo franceses. Rios e Canais (DEPRC) Barragem de Bom Retiro do Sul . navegação. usina hidroelétrica Passo Real .RS Figura 6 . além de dar novo impulso e amplitude às pesquisas. Em 1989 o doutorado foi implantado no seu programa de pós-graduação. usina hidroelétrica Passo Fundo – rios Passo Fundo e Erechim .RS.Barragem do Anel de Dom Marco Rio Jacuí .Barragem do Arroio Ribeiro -RS * Instituto de Pesquisa Hidráulicas (IPH) . o IPH também se tornou um pólo de capacitação e pesquisa em hidrologia no âmbito do Decênio Hidrológico Internacional 1965-1975.rio Santa Cruz. abastecimento de água. Cerca de um terço destes trabalhos são referentes ao setor elétrico brasileiro e as obras hidráulicas ligadas a barragens. único na América Latina. completando efetivamente todos os níveis de ensino e diplomação. Esse convênio com a UNESCO.escoamento no vertedouro As pesquisas O IPH como instituto de pesquisa sempre teve a visão: “O uso da água com sustentabilidade.AHSUL .RS * ELETROSUL . podendo-se citar: * Administração das Hidrovias do Sul . usina hidroelétrica Leonel de Moura Brizola . atuando ativamente em diferentes setores: hidrelétrico. com o apoio da UNESCO. com apoio de pesquisadores estrangeiros.RS (Figura 5) * Departamento Nacional de Obras de Saneamento (DNOS) Barragem do Arroio Duro –RS (Figura 4) * Departamento Nacional de Portos e Vias Navegáveis (DNPVN) .RS * Departamento Estadual de Portos.Barragem do Arroio Mãe D’água .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Os anos 60 consolidam o IPH como referência nacional e sulamericana para estudos hidráulicos. ainda hoje. usina hidroelétrica Itaúba . Barragem Laranjeira . Em função da visão de tratar de maneira mais ampla os recursos hídricos.Rio Jacuí –RS.ex-Usina Hidroelétrica do Jacuí .Rio Jacuí – RS (Figura 9). Em 2006. modelos reduzidos de obras hidráulicas. entre outros. graduação e pósgraduação) e apoiado por ampla atividade em pesquisa e extensão.Rio Taquari .Rio Jacuí –RS (Figura 8).

XX e XXI Figura 7 – Usina hidroelétrica Dona Francisca (CEEE) 1º arranjo escoamento no vertedouro Figura 8 – Usina hidroelétrica Itaúba (CEEE) – erosão a jusante do salto de esqui 440 .Séculos XIX.A História das Barragens no Brasil .

ao armazenamento e ao controle das águas fluviais. 441 . * Projetar obras e sistemas para aproveitá-los. Para isso reuniu e busca atualizar o seu conhecimento para: * Avaliar as disponibilidades desses recursos. * Preservar a sua qualidade e * Promover a gestão integrada dos mesmos. à qualidade.apresentação do modelo pela equipe do IPH durante vista técnica Isto levou o IPH a desenvolver uma ampla gama de especialidades nas ciências da água. necessárias para uma abordagem integrada dos problemas que envolvem os recursos hídricos ligados à quantificação. da forma mais eficiente possível. Figura 9 – Modelo da usina hidroelétrica Leonel de Moura Brizola .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 10 – Usina hidroelétrica Machadinho (ELETROSUL) – escoamento pelo vertedouro. influenciando diretamente os projetos e a operação das barragens e do setor elétrico.ex-Jacuí (CEEE) .

* Vibração em Estrutura Hidráulica em Cilindro e em Comporta. * desenvolver. o IPH (http://www.br/apresentacao/) conta com diferentes laboratórios e núcleos de pesquisa que trabalham de forma integrada nas diferentes áreas dos recursos hídricos: * Laboratório da Estação Recuperadora da Qualidade da Água da UFRGS (ERQA) * Laboratório de Clima e Recursos Hídricos * Laboratório de Eficiência Energética e Hidráulica (LENHS) * Laboratório de Engenharia de Água e Solo * Laboratório de Ensino de Hidráulica * Laboratório de Hidráulica Marítima (LAHIMA) * Laboratório de Hidrometria * Laboratório de Instrumentação e Canal de Velocidade * Laboratório de Limnologia * Laboratório de Obras Hidráulicas (LOH) * Laboratório de Processos Erosivos e Deposicionais * Laboratório de Saneamento * Laboratório de Sedimentos * Núcleo de Águas Urbanas * Núcleo de Estudos em Correntes de Densidade (NECOD) * Núcleo de Estudos em Transição e Turbulência (NETT) * Núcleo de Planejamento e Gestão de Recursos Hídricos Aproximadamente 35 pesquisas desenvolvem-se regularmente nesses laboratórios e núcleos. Na área de pesquisa e desenvolvimento (P&D) relacionados a empreendimentos no setor elétrico. XX e XXI Hoje. obras hidráulicas.Mecanismo de Transposição para Peixes (MTPs). O acervo de dissertações de mestrado e teses de doutorado do curso de pós-graduação do IPH é resumidamente de cerca: 110 teses de doutorado e 315 dissertações (http://www. As pesquisas têm sido desenvolvidas dentro das seguintes Linhas Mestras: * Esforços Hidrodinâmicos: em Dissipadores de Energia Hidráulica e a Jusante de comportas.br/handle/10183/2).lume. foram desenvolvidas nove teses e mais de dezesseis dissertações. Há participação efetiva dos professores e alunos nos principais eventos na cionais e internacionais no domínio das águas.ufrgs. verificar e comparar os critérios de dimensionamento existentes na literatura. * Transientes Hidráulicos em Usinas Hidroelétricas e em Eclusa. 442 . * desenvolver linhas de pesquisa na área de eficiência energética e hidráulica. Esses projetos de P&Ds visam: * compreender os processos físicos envolvidos nos fenômenos hidráulicos. Vertedouro em Degraus e Salto esqui a Jusante de comportas. aprimorando os conhecimentos sobre fenômenos hidráulicos.ufrgs. assim como nos principais fóruns de discussões sobre hidráulica.iph. * Eco Hidráulica . Entre os trabalhos dos últimos 10 anos referentes diretamente ao setor elétrico brasileiro e as obras hidráulicas ligadas às barragens. * desenvolver ferramentas e metodologias de previsão de esforços hidrodinâmicos provocados pelo escoamento. planos nacionais e estaduais de recursos hídricos e de meio-ambiente.Séculos XIX. a fim de gerar soluções técnicas que sejam eficientes. o IPH vem desenvolvendo projetos através do seu Laboratório de Obras Hidráulicas (LOH). seguras e de menor custo para o dimensionamento de obras hidráulicas.A História das Barragens no Brasil . com cerca de 150 publicações anuais entre periódicos e anais de eventos.

em desenvolvimento Estudo dos processos geomecânicos provocados por esforços hidrodinâmicos em fossas de erosão a jusante de saltos de esqui . PUC/Rio e UFMG UFSM (colaborador) LAHE/FURNAS LAHE/FURNAS e IME LAHE/FURNAS e IME Os P&Ds desenvolvidos ou em desenvolvimento nos últimos 10 anos pelo LOH. aplicados a barragens no setor elétrico estão listados acima.Análise de vibrações induzidas pelo escoamento sobre uma comporta 443 . Figura 11 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Titulo do P&Ds Análise da macro turbulência em dissipadores por ressalto hidráulico (Figura 11) Análise das características macro turbulentas ao longo da calha de um vertedouro em degrau e no ressalto hidráulico formado a jusante.em desenvolvimento (Figura 16) Padrões de vibração em estruturas hidráulicas por ação de escoamentos (Figura 17) Transientes hidráulicos em circuitos de usinas hidroelétricas Utilização de modelos numérico e experimental para dimensionamento e otimização de bacias de dissipação Parceiros LAHE/FURNAS INA e IST (colaboradores) DFESA IST (colaborador) LAHE/FURNAS e UFMG URI e UNISINOS (colaboradores) CPH/UFMG IST (colaborador) LAHE/FURNAS UFSM (colaborador) LAHE/FURNAS IST (colaborador) DFESA IST (colaborador) LAHE/FURNAS.em desenvolvimento (Figura 15) Características de escoamentos sobre vertedouros em degraus Determinação das características geométricas da soleira terminal em bacias de dissipação a jusante de vertedouro em degraus . (Figura 12) Análise do comportamento hidráulico dos sistemas de enchimento e esgotamento de eclusas de navegação (Figura 13) Análise do escoamento em mecanismo de transposição para peixes – MTPs (Figura 14) Análise dos processos físicos envolvidos na formação de fossas de erosão em leito Coesivo a jusante de salto de esqui .

A História das Barragens no Brasil . Figura 14 – Análise do escoamento a jusante de uma comporta tipo segmento invertida de uma eclusa 444 .Séculos XIX. XX e XXI Figura 12 – Análise da macro turbulência em dissipadores por ressalto hidráulico Figura 13 – Análise das características macro turbulentas ao longo da calha de um vertedouro em degrau e no ressalto hidráulico formado a jusante.

o controle e a gestão deste recurso de maneira a tornar os empreendimentos sustentáveis. o IPH construiu uma história voltada às águas buscando a quantificação. o armazenamento. 445 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 16 – Análise das pressões dinâmicas a jusante de um salto esqui Figura 17 . a qualidade.Análise das pressões dinâmicas em um jato direcionado Figura 15 – Análise do escoamento em mecanismo de transposição para peixes – MTPs Em resumo.

446 .

o primeiro ensaio de perda d’água sob pressão em furo de sondagem.C. que já em 1947 havia publicado um conjunto de conferências intitulado “Elementos básicos de Geologia Aplicada”. concreto e estruturas. rochas e agregados para concreto. realizou. geologia de engenharia. este. Ronaldo Rocha e Antonio Marrano Pela sua característica de instituto pioneiro no Brasil na tecnologia da engenharia civil.N. dando origem à CESP – Companhia Energética de São Paulo. na barragem de Barra Bonita (rio Tietê). em Campina Grande. realizado em Ilha Solteira em 1969. CELUSA – Centrais Elétricas de Urubupungá SA. após estagiar no IPT. pioneiro da geologia aplicada às obras hidráulicas.O.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens O Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo . na caracterização das jazidas naturais. No início da década de 1940. com a construção de usinas hidroelétricas construídas no estado de São Paulo pelas empresas CHERP – Centrais Elétricas do Rio Pardo. na cons trução da Usina de Salto Grande. sem dúvida. tanto pelo seu envolvimento direto em muitas obras. O maior ensaio in situ de resistência ao cisalhamento feito no mundo 447 . Ainda no final da década de 1940. . Paraíba. as barragens de Poço Preto e Piraçununga. o IPT teve atuação relevante no desenvolvimento das barragens no país. no rio Paranapanema.S. em 1938. No ano seguinte. Pichler iniciou a prática de estudos geológicos para projeto e construção de barragens baseados em sondagens rotativas adaptadas aos fins de engenharia civil. na determinação das propriedades de comportamento de solos. o primeiro laboratório de solos a se dedicar ao apoio tecnológico das barragens no Brasil.IPT Carlos de Sousa Pinto. Ensaio de cisalhamento de grandes dimensões do maciço rochoso num bloco de rocha de 6 m x 6 m de seção por 4 m de altura. Em 1953. o engenheiro Mario Brandi Pereira. como pelo seu papel de difusor de conhecimentos técnicos. A participação do IPT se desenvolveu nas áreas de geotecnia. o IPT estudou fundações e solos de empréstimo para duas pequenas barragens de terra. além da consultoria técnica na formulação e a adaptação dos projetos durante a construção. dando as primeiras contribuições ao avanço da área de hidrogeologia no País. Esta atuação se realizou no reconhecimento geológico dos locais. USELPA – Usinas Elétricas do Paranapanema e de outras que foram unidas. Geotecnia e geologia de engenharia Um exemplo do papel difusor de conhecimentos do IPT se fez notar logo após a fundação de sua Seção de Solos. fundou o laboratório da I. no controle de execução dos maciços de terra e das estruturas de concreto e no monitoramento das obras. destacou-se a atividade do engenheiro Ernesto Pichler. Mas a atuação mais marcante do IPT nas obras de barragens passou a ocorrer a partir da década de 1950. Nos levantamentos geológicos dos locais das obras.Inspetoria Nacional de Obras Contra a Seca. professor da Escola Politécnica do Rio de Janeiro.

importados da Suíça. enquanto que no laboratório de mecânica das rochas toda a equipe era do IPT. o IPT coordenou todo o controle de compactação dos maciços. Em reconhecimento à relevante contribuição. fato totalmente inesperado. No laboratório de solos de Ilha Solteira. Estes trabalhos passaram a ser referência para projetos de outras obras. atualmente. merecem destaques as relacionadas com as características das fundaçõesdas barragens de Jupiá e Ilha Solteira. dentre as investigações realizadas pela equipe do IPT. Pacheco dedicou-se ao desenvolvimento de outra. com câmaras de ensaios triaxiais. após a conclusão da barragem. que passou a ser adotada em muitas obras. o que serviu de orientação para o projeto de barragens posteriores. com desenvolvimento de pressões neutras baixas quando devidamente compactados. por exemplo. com algumas alterações propostas pelo engenheiro Pacheco Silva e aceitas pelo fabricante. Seus resultados tiveram repercussão internacional. Estes estudos foram fundamentais para a definição das cotas de fundação dos diversos setores da obra. o engenheiro Pacheco Silva instalou piezômetros de sua própria idealização. Bariri (1959 a 1960). sob a liderança do engenheiro Murilo Ruiz. em 1959.A História das Barragens no Brasil . com extensômetros elétricos colados em membrana de aço inoxidável. com equipamentos da mais alta qualidade. três pesquisadores do IPT ficaram permanentes. Notável foi o conjunto de ensaios de cisalhamento do maciço rochoso. Os laboratórios foram muito bem equipados. característico de solos tropicais. inclusive um ensaio de grandes dimensões. passaram a prestar assistência tecnológica a outras barragens e. o engenheiro Hamilton de Oliveira fez uma adaptação para solos brasileiros do método de Hilf de controle de compactação. 448 . No campo da mecânica das rochas. em virtude da deformação lenta. Limoeiro (1953 a 1958). esclarecendo. Além da determinação das propriedades mecânicas dos solos usados na barragem. Já na barragem de Limoeiro. onde se sucediam camadas de constituição bem distintas. Tendo notado que primeiros piezômetros instalados nas barragens do rio Pardo não se mantinham confiáveis por muito tempo. um manômetro lendo diretamente a pressão neutra no maciço e o outro acionado por ação pneumática a partir da superfície fazendo a leitura do primeiro. Os laboratórios de Ilha Solteira. O engenheiro Pacheco Silva analisou este comportamento. o que caracterizava o maior ensaio in situ de resistência ao cisalhamento feito no mundo. Nesta ocasião. tornou-se laboratório do curso de engenharia civil da UNESP. pelo efeito de descargas elétricas nas proximidades das barragens. Ibitinga (1964 a 1969). o seu nome foi atribuído ao aeroporto de Jupiá. Cinco piezômetros deste tipo foram instalados na barragem de Ilha Solteira Nas barragens de Jupiá (1961 a 1969) e de Ilha Solteira (1966 a 1973) o IPT especificou e colaborou na instalação dos laboratórios de solos e de mecânica das rochas instalados pela CESP. equipamentos de cisalhamento direto e de adensamento. obtendo o desenvolvimento das pressões neutras durante o alteamento do aterro e o enchimento do reservatório. num bloco de rocha de 6 m x 6 m de seção por 4 m de altura (Figura 1). por ele batizada de “célula DM”. diversas pesquisas foram realizadas durante a obra. a influência das condições de compactação nas propriedades geotécnicas do solo compactado e a comparação entre as características apresentadas pelos corpos de prova compactados em laboratório com as dos corpos de prova moldados a partir de blocos indeformados extraídos do maciço. Observou que as pressões neutras decresciam inicialmente durante o alteamento do aterro. A atuação do IPT nas barragens do rio Tietê. para só passarem a aumentar após ser atingido um certo nível de carregamento.Séculos XIX. XX e XXI Pichler foi também pioneiro na implantação da mecânica das rochas no Brasil. a partir da característica de “duplo manômetro”. fazendo levantamento geológico no local da barragem de Jupiá. passou-se a usar piezômetros de corda vibrante. Nas barragens do Rio Pardo. Barra Bonita (1952 a 1962) e Promissão (1966 a 1975) envolveu a supervisão do controle de compactação e a instrumentação dos maciços. Euclides da Cunha (1956 a 1960) e Graminha (1959 a 1966). principalmente o de Ilha Solteira. Frustrado com a perda de algumas destas células. Faleceu. introduzindo no Brasil esta técnica. na coordenação dos trabalhos. tendo se notabilizado pela determinação das tensões in situ e realização de ensaios de deformação de maciços rochosos nas escavações da casa de força da usina de Paulo Afonso. em plena atividade no campo.

destacaram-se os trabalhos junto à Centrais Elétricas de São Paulo (CESP) que possibilitaram o desenvolvimento de especificações de sondagens e de critérios para a classificação dos graus de alteração e de fraturamento das rochas. assim como na caracterização tecnológica de agregados naturais. empregado com sucesso na fundação de Ilha Solteira e posteriormente adotado em todas as demais obras da CESP com fundação em maciço basáltico. Contribuições significativas decorrentes da experiência com grandes obras envolveram desenvolvimentos na caracterização geológico-geotécnica de basaltos. os estudos de caldas de cimento e argamassa para tratamento de maciços de fundações e análise da eficiência dos tratamentos de fundações de barragens. destacam-se o desenvolvimento dos obturadores de impressão e um protótipo de equipamento para o televisionamento de furos de sondagens. na compreensão do comportamen to das juntas-falhas e na avaliação da rápida decomposição das rochas basálticas (alterabilidade). Na década de 1970. bem como a definição de vários outros procedimentos até hoje utilizados. especialmente na identificação de ar gilominerais expansivos. Ensaio de cisalhamento em bloco de grandes dimensões (1969) Também a partir do final da década de 1960. com a colaboração do consultor alemão Klaus W. destacaram-se a formulação das primeiras orientações técnicas de normatização dos ensaios de permeabilidade em furos de sondagens.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 1 – Usina hidroelétrica de Ilha Solteira. as lavas em almofadas (pillow lavas) em Nova Avanhandava e os basaltos leves de Porto Primavera. Avanços significativos na compreensão do comportamento dos basaltos como fundações de barragens foram obtidos com os estudos a respeito das estruturas circulares em Água Vermelha. 449 . estabelecendo uma prática brasileira para os estudos e investigações de eixos de barragens. Também foi desenvolvido o primeiro sistema de classificação de maciços rochosos utilizados no Brasil. John. rio Paraná. Na década de 1990.

a profundidades de cerca de 3 m. Na execução desta obra. podendo ser operadas de maneira distinta.Séculos XIX. inclusive rodoviárias e de fundações. Na construção da rodovia dos Imigrantes os projetistas optaram por fazer a travessia da Represa Billings por meio de um aterro lançado dentro d’água. permitiram a identificação de pequenos túneis. A partir da década de 2000. liderado pelo engenheiro Murilo Ruiz. o grupo de geologia aplicada e de geotecnia do IPT. Alguns destes casos. Além dos trabalhos para as barragens da CESP. A barragem de Ponte Nova. de 1960 a 1962. no Paraná. construída pela Petrobrás. em 1989. A barragem de Saracuruna. que passou a dar assistência a várias obras de engenharia. quando atingida cota parcial de enchimento do reservatório. garantindo-se a estabilidade dos taludes do maciço. mas deve-se registrar que igualmente importante para o próprio IPT foi o apoio recebido da CESP para o desenvolvimento desta instituição. Este laboratório foi posteriormente vendido a um consórcio de empresas empreiteiras. O IPT contribuiu muito no campo da geotecnia e geologia de engenharia nas barragens da CESP. como reguladora do rio e parte do sistema de abastecimento da cidade de São Paulo. juntamente com a inspeção de amostras indeformadas. pioneiramente no Brasil. o desenvolvimento e aplicação da geologia estrutural para a análise dos condicionantes geológico-geotécnicos. ensaios de injeção de corantes e de traçadores radioativos que. passando de montante para jusante. próxima às nascentes do rio Tietê. construída pelo DAEE . projetado de maneira a poder ser transformado numa posterior barragem. pelas suas peculiaridades. Após diversas tentativas de impermeabilização das ombreiras. permitiu assegurar a estabilidade da barragem e a plena utilização do reservatório na cota de projeto. fundação em sedimentos arenosos (que requereu paredes diafragma para vedação). feito pelo IPT. Foram realizados. destacam-se estudos voltados ao monitoramento dos processos erosivos nas margens do reservatório de Porto Primavera. tanto no investimento em recursos materiais. muito úmido.A História das Barragens no Brasil . o DAEE optou pela instalação de laboratório de solos completo no local. localizada na Baixada Fluminense. o IPT teve a oportunidade de participar de diversas obras de barragens de outras entidades. e área de empréstimo de solo muito argiloso. no seu aproveitamento no suprimento de água na região. com poucos centímetros de diâmetros. Em virtude das peculiaridades da obra. em 1970. estudos para identificar as características da percolação. o IPT instalou e operou piezômetros que registravam o crescimento e a dissipação da pressão neutra após cada lançamento do aterro. teve a assistência do IPT tanto nos ensaios dos materiais como no controle de compactação. constituindo o Laboratório Rankine. proporcionando a oportunidade para a formação de especialistas que vieram posteriormente contribuir para a engenharia nacional em diversas atividades. realizou. em que se compactou o solo com umidade muito acima da ótima.Departamento de Águas e Energia Elétrica do estado de São Paulo. de difícil secagem em virtude do clima na região e com peculiaridades de compactação (grande alteração dos parâmetros de compactação com ligeira secagem a partir da umidade natural). apresentou infiltração e surgimento de água a jusante. em 450 . são apresentados a seguir. sem sucesso. resultantes de antigas colônias de formigas. Após a execução de cortina de solo-cimento nas ombreiras e fundações. a melhoria e desenvolvimento das técnicas da geofísica e as primeiras pesquisas desenvolvidas no Brasil para estudo da permeabilidade tridimensional dos maciços rochosos que começaram em 1984. XX e XXI Igualmente importante foram os estudos de sismicidade induzida decorrente da instalação de reservatórios de barragens. como nos recursos humanos. cuja primeira aplicação com equipamentos idealizados e construídos pelo IPT foi na barragem de Porto Primavera. A experiência da obra anterior possibilitou ao IPT atuação importante na construção da Barragem do Rio Verde. já acima do nível d’água em função do que era liberado o lançamento de novas camadas. dividindo a represa em duas áreas. para abastecimento de água para a Refinaria Duque de Caxias. nas ombreiras. as infiltrações cessaram e o monitoramento posterior.

Quando o material deveria ter módulo de deformação muito baixo. que foi construído pelo IPT. construiu um equipamento para realização de ensaios de medidas de tensões in situ por meio de fraturamento hidráulico. foram executados dois modelos para o projeto da barragem de Itaipu. Coube a ele. Modelos físicos estruturais Modelos físicos de estruturas de barragens não são rotineiros nos projetos destas obras. empregados pelo ISMES. foi desenvolvido um material básico com micro-concreto de argila expandida. representando a barragem numa escala de 1:100 e foi carregado por meio de pesos mortos até serem atingidas as pressões na escala empregada. 451 . e para o seu desenvolvimento. no modelo. Posteriormente. onde é necessário evitar que a pressão hidráulica interna conduza à ruptura do maciço. também. por parte da empresa projetista. segundo a técnica de ensaios em modelo desenvolvida pelo Istituto Sperimentale Modelli e Strutture (ISMES). A técnica de ensaio é extremamente complexa. Para a barragem de Jupiá. cimento e pérola de isopor. de maneira que resulte em material com propriedades reológicas adequadas à escala do modelo. Conduzido com sucesso. Medido res de recalque e piezômetros mostraram o comportamento adequado da barragem. depois de um estágio na Itália. a realização dos ensaios. Conhecer o estado de tensões nos maciços rochosos é particularmente importante para o projeto de túneis de alta pressão. justificando a solução adotada. Esta técnica se caracteriza pela utilização de modelos de grandes dimensões. de Bergamo. foram realizados dois estudos com modelos físicos de características diferentes. O conhecimento sobre o estado de tensões do maciço também contribui significativamente para o dimensionamento da blindagem do conduto forçado. de 1977 a 1979. O modelo foi de comportamento elástico. Os micro-concretos utilizados para a representação das fundações e do elemento estrutural em estudo são executados com materiais especiais e misturas adequadas. a partir de matérias primas. No caso específico dos modelos da barragem de Itaipu. Restringem-se a casos especiais. o IPT. utilizou-se argamassa de areia. Tecnologia de concreto No campo de concreto o IPT contribuiu na consultoria e supervisão das dosagens e no controle dos materiais constituintes. onde se constatou. Papel importante ocorreu nas barragens de Jupiá e Ilha Solteira. Os estudos apontaram para a incorporação de pozolanas na constituição dos concretos.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens virtude das condições de umidade muito elevada na região. utilizado pelo Laboratório Nacional de Engenharia Civil de Lisboa. O modelo foi moldado com as dimensões estudadas. formas de resina. conciliando-se esta solução com a baixa resistência do solo da fundação. sendo um trabalho que na época. na realidade um pórtico de reação que permite ensaio de modelos de até 3 m. que não precisou ser escavado. a possibilidade de reações álcali-agregados que comprometeriam a durabilidade das obras. No Brasil. conforme descrito a seguir. constituiu-se no primeiro modelo estrutural voltado a barragens no Brasil. tinha cerca de 50 cm de altura. colaborando para o contínuo desenvolvimento tecnológico das barragens brasileiras. em substituição às pedras-pomes diatomito. O contraforte da barragem. solicitou ao IPT um modelo dos apoios das comportas nos contrafortes da barragem. ou o gesso. devido às características dos agregados. com o ganho adicional de redução da temperatura do concreto durante a cura e o endurecimento. Em 2010. quando os projetistas recorrem a eles para esclarecer dúvidas sobre o comportamento da estrutura em obras cujo valor e importância os justifiquem. o engenheiro Fausto Tarran do IPT. tendo sido construído com poliéster. com o consequente abatimento dos taludes do maciço para garantir a estabilidade. projetou um laboratório especial. micro-concreto de pedra pomes e sistema especial de aplicação de cargas de peso próprio. o que requereu um estudo preliminar para a determinação da adequada proporção dos componentes e dos procedimentos de cura. o que foi adotado. Itália. 1968. o professor Telêmaco van Langendonck. apresentava muita dificuldade em virtude da pouca disponibilidade de materiais.

foram instalados instrumentos pneumáticos tipo IPT ao lado de instrumentos elétricos de corda vibrante tipo Maihak. Nesta fase. As formas das estruturas foram construídas sobre contra-formas. As primeiras utilizações destes instrumentos pneumáticos em barragens foram nas barragens de Rio Verde da Petrobrás. As cargas hidrostáticas na face do modelo foram aplicadas por pequenos macacos hidráulicos. foram desenvolvidas as células de pressão total que. em função do que foi feita modificação do projeto estrutural da obra. foi desenvolvido o primeiro piezômetro pneumático no IPT. juntamente com os aperfeiçoamentos na unidade de leitura.A História das Barragens no Brasil . A comparação dos resultados alcançados revelou o bom desempenho dos pneumáticos. em madeira. Também foram instrumentadas barragens na América do Sul com Instrumentação de barragens Em meados da década de 1970. de maneira a simular o empuxo correspondente ao reservatório em plena altura. da estrutura do modelo a ser construído. Foram muitas as barragens instrumentadas com piezômetros e células de pressão tipo IPT. No entanto. em 1976.8 m (estrutura de controle do desvio do rio) e 2. a aplicação mais importante e extensiva ocorreu nas barragens do Jaguari e Jacareí da SABESP. Rio Paraná Modelo reduzido do bloco da barragem principal (1978) 452 . XX e XXI Os modelos tinham alturas de 1.Séculos XIX. foram nomeados de instrumentos pneumáticos tipo IPT. incluindo as fundações . no modelo da estrutura de desvio. foram aplicados 22 macacos.Figura 2). estas uma réplica. No corpo dos modelos foram introduzidos tirantes para simulação do peso próprio da estrutura. Nas barragens da SABESP. a semelhança do ocorrido na barragem de Piraquara onde se utilizou piezômetros elétricos tipo Geonor. Os ensaios foram conduzidos até a observação de indícios de ruptura nas fundações. as importações de instrumentos geotécnicos eram difíceis e tal fato favoreceu o crescimento e aplicação dos instrumentos fabricados no Brasil. Em seguida. pelo engenheiro Alinor Figueiredo e equipe. Figura 2 – Usina hidroelétrica Itaipu. em 1978 (Figura 3). em 1979. No modelo do contraforte.5 m (bloco de gravidade aliviada da barragem principal. entre elas destaca-se a barragem de Itaparica da CHESF onde foram instalados quase duas centenas de instrumentos pneumáticos. o ensaio foi até a ruptura da junta vertical de concretagem dos contrafortes. No modelo do corpo da barragem. e Piraquara da SANEPAR.

A partir dos anos 2000 os instrumentos pneumáticos perderam espaço para os instrumentos elétricos de corda vibrante. atendendo solicitação da SABESP. em 21 de novembro de 1977. Além dos instrumentos pneumáticos. Mapeamento de fissuras no paramento de jusante (1992). em 1977. SANEPAR. em razão da automação das medidas e não em função do desempenho deste tipo de instrumento. o IPT também desenvolveu instrumentos elétricos. Paso Severino no Uruguai. por exemplo. que também foram aplicados em várias barragens nacionais e internacionais. entre outras. São Paulo. Vinte e três barragens na região metropolitana de São Paulo tiveram suas características técnicas levantadas e passaram a ser vistoriadas anualmente. Por falta de regulamentação este decreto não foi implementado por todas as autarquias e companhias. com princípio de transdução por strain-gauge . Em 1978.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens estes pneumáticos como. o governo de São Paulo promulgou o decreto estadual no 10. Referências Figura 4 – Barragem de Pedro Beicht. Instalação de piezômetro pneumático (1978) companhias em cujo capital o Estado tivesse participação majoritária. para monitorar a segurança das barragens dessa companhia responsável pelo abastecimento da Grande São Paulo. constituindo-se este projeto num exemplo da auditoria externa de segurança de barragem (Figura 4). Publicação IPT no 2600. SABESP.752. dispondo sobre a realização de auditoria técnica externa permanente em autarquias e Figura 3 – Barragem de Piraquara. 24/06/1999 453 . duas barragens em cascata no Rio Pardo. o IPT organizou uma equipe formada por especialistas de diversas áreas do próprio instituto acrescida de consultores externos. IPT 100 anos de Tecnologia. Segurança de barragens Após os acidentes ocorridos com as barragens de Euclides da Cunha e Armando de Salles Oliveira (Limoeiro). Dentro destes conceitos de segurança de barragens também foi objeto de continuidade dos trabalhos a barragem de Saracuruna da Petrobrás.

Vista aérea do LAHE .

pouco a pouco. junto a subestação de Jacarepaguá. Furnas começou a supervisionar diretamente os testes realizados para a validação e otimização dos projetos de seus empreendimentos e a atividade de desenvolvimento de estudos hidráulicos em modelo reduzido passou a ser de responsabilidade do seu Departamento de Engenharia Civil.LAHE Fátima Moraes de Almeida e Marcos da Rocha Botelho Para atender necessidades específicas que foram surgindo ao longo de seus projetos. Visando exercer maior controle técnico sobre os trabalhos realizados e manter os modelos de suas usinas construídos mesmo após as definições de projeto das mesmas. Furnas foi. no Rio de Janeiro. Essa medida se apoiou Figura 1 LAHE – Sede em Jacarepaguá – Instalações 455 . sendo inicialmente desenvolvida através da contratação do laboratório Hidroesb. em 26 de dezembro de 1983 foi iniciada a implantação do Laboratório de Hidráulica Experimental (LAHE) de Furnas. aumentando o seu grau de participação nos estudos em modelo até assumir integralmente a coordenação dos mesmos. Com isso. em área própria da empresa.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Laboratório de Hidráulica Experimental e Recursos Hídricos de Furnas .

então chefe da Divisão de Estudos e Projetos Hidrotécnicos de Furnas. No modelo de conjunto da usina de Serra da Mesa foi feito o acompanhamento dos projetos básico e executivo e de alguns pro- 456 .A História das Barragens no Brasil . o LAHE. e pelo engenheiro Carlos Alfredo de Almeida Paiva. em projeto. a importante atuação do engenheiro Dirceu Pennafirme Teixeira (do Hidroesb) que ao lado da equipe de Furnas colaborou ativamente no processo de implantação do laboratório. Usina de Cana Brava. Esse trabalho foi coordenado pelo engenheiro Erton Carvalho. Usina Luiz Carlos Barreto de Carvalho (Estreito). Usina de Furnas. Usina de Porto Colômbia. contou com a prestação de serviços do Laboratório Hidroesb Saturnino de Brito S. a saber: Usina de Serra da Mesa. nas fases de projeto e construção. Furnas os teria disponíveis para atender a qualquer necessidade que surgisse durante ou mesmo após a construção das suas usinas. da esquerda para direita). Com a construção dos modelos em área própria. fez-se necessário um enorme trabalho de mobilização dos recursos internos da empresa. Nas instalações de Furnas esse laboratório desenvolveu as atividades de projeto. A construção da sede própria do LAHE foi iniciada somente após três anos de funcionamento efetivo do laboratório. em projeto e Usinas de Anta e Simplício.Engenheiro Erton Carvalho (segundo à frente. Ressalta-se. em suas instalações.Séculos XIX. criado com objetivo de atender exclusivamente aos empreendimentos da empresa.A. Nos seus primeiros quatro anos de funcionamento. construção e operação dos modelos dos empreendimentos em estudo àquela época. XX e XXI Figura 2 . Responsável pela criação do LAHE – Visita ao modelo vertedouro da usina hidroelétrica de Batalha no fato do modelo reduzido também se revelar uma importante ferramenta de trabalho para as fases de construção e operação dos empreendimentos hidráulicos. em operação. em operação. no início desse período. Para o desenvolvimento do projeto e construção de toda a infraestrutura necessária ao funcionamento de um laboratório de hidráulica. em operação. seu substituto imediato.

esse estudo 457 . o balanço de materiais. A solução encontrada. Sem os recursos de instrumentação necessários às medições a serem realizadas. de fácil execução e baixo custo. Figura 4 . trazendo assim grande economia ao empreendimento. os danos que ocorreriam a montante da barragem e os níveis de segurança do reservatório. vam comprometer a estabilidade da estrutura de seu vertedouro em salto de esqui.Modelo de conjunto da usina Luiz Carlos Barreto de Carvalho (Estreito) Figura 3 . No modelo da usina Luiz Carlos Barreto de Carvalho as pesquisas foram direcionadas para eliminar as erosões regressivas que ameaça- Para a usina de Furnas foi analisada a ameaça de desmoronamento de parte da encosta do Morro dos Cabritos. o LAHE contou com o apoio técnico e logístico do INPH (Instituto de Pesquisas Hidroviárias) e da COPPE (Coordenação de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro). Detalhe da reprodução da tomada d’água Foram pesquisados também. Já a COPPE contribuiu com o desenvolvimento de parte da instrumentação necessária ao LAHE e com o estudo teórico do fenômeno em estudo.Modelo de conjunto da usina hidroelétrica de Serra da Mesa. por empréstimo. Com o INPH foi obtida. Foram avaliadas as alturas das ondas. Além da aproximação com outro centro de tecnologia.CINQUENTA ANOS DO COMITÊ BRASILEIRO DE BARRAGENS cessos construtivos utilizados pela obra. modificando assim as características de lançamento do jato. a instrumentação necessária às medições de ondas. otimizando. num modelo de detalhe de seu circuito de geração. entre outras coisas. Isso permitiu a integração entre as diversas etapas de construção da usina. Diversas possibilidades de queda desse maciço rochoso foram estudadas. os coeficientes de forma que alimentaram o modelo matemático adotado para a simulação dos transientes hidráulicos a que a usina estaria submetida durante a sua operação. foi a alteração da geometria da concha de arremesso do vertedouro. Foram estudadas as ondas geradas por esse deslizamento e que poderiam ameaçar seriamente as estrutura da barragem.

A História das Barragens no Brasil - Séculos XIX, XX e XXI

marcou assim a primeira interface do LAHE com um centro acadêmico de pesquisa. Nessa ocasião, os dados obtidos no modelo físico foram confrontados com o resultado de estudos em modelos matemáticos desenvolvidos pela COPPE. No modelo bidimensional do vertedouro de Porto Colômbia foi diagnosticada a causa das erosões existentes no concreto da bacia de dissipação do vertedouro. Os estudos que conduziram à solução adotada na obra foram complementados em um modelo de conjunto da usina que permitiu, inclusive, direcionar as obras de ensecamento da bacia. Em parceria com outros laboratórios e entidades de pesquisa, após a realização da obra corretiva sugerida pelo modelo, foi realizada uma campanha de medição de pressões instantâneas na bacia de dissipação do empreendimento.

Tirando partido das informações modelo-protótipo, os dados de pressão obtidos em Porto Colômbia foram posteriormente utilizados na calibração de um modelo matemático de previsão do campo de pressões, velocidades e níveis d’água em bacias de dissipação. Com orientação do IME, esse estudo gerou a tese de mestrado intitulada “Estudo Numérico e Experimental de Bacia de Dissipação” da Renata Cavalcanti Rodrigues, na época engenheira do LAHE. No modelo da usina de Cana Brava, construída a jusante de Serra da Mesa, no rio Tocantins, foi feito o acompanhamento de toda a fase de estudo do projeto básico.

Figura 6 - Modelo da usina de Cana Brava

Figura 5 - Modelo de conjunto da usina de Porto Colômbia. Medição de pressões instantâneas na bacia de dissipação

Nos modelos onde foram estudados os arranjos originais da usinas de Anta e Simplício, no rio Paraíba do Sul, foram otimizados os projetos básicos das mesmas. Após quatro anos de existência do LAHE, e num momento em que alguns dos estudos acima citados ainda se encontravam em andamento, Furnas se deparou com o término do contrato com a Hidroesb e com a impossibilidade de sua renovação. Diante desse impasse, parte da mão de obra especializada da Hidroesb acabou

Esses dados foram disponibilizados para a comunidade científica que não dispunha, até aquele momento, de dados suficientes de protótipo que pudessem validar os estudos teóricos que vinham sendo desenvolvidos nessa área de atuação.

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Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens

Figura 7 - Engenheiros Marcos da Rocha Botelho e Fátima Moraes de Almeida, técnicos pioneiros do LAHE

por ser absorvida por Furnas que, contando com o apoio de seus técnicos locais, passou a se responsabilizar pelo completo desenvolvimento dos estudos em modelo. Dentre esses técnicos, responsáveis pela supervisão dos serviços do laboratório, destacam-se como pioneiros os engenheiros Marcos da Rocha Botelho (atual gerente do LAHE) e Fátima Moraes de Almeida (que atua ainda hoje na coordenação de estudos em desenvolvimento no laboratório). Esse foi um dos momentos decisivos para a constituição da atual identidade do laboratório de Furnas que, ainda sob a condição de uma atividade de uma divisão de projeto da empresa, precisou obter recursos para a aquisição de todo o ferramental, equipamento e instrumentação eletrônica indispensável aos estudos em modelo. Itens esses que antes eram fornecidos através do contrato com o laboratório Hidroesb. Nessa ocasião, mais uma vez o espírito empreendedor do engenheiro Erton Carvalho entrou em ação. Como chefe da divisão responsável pelo Laboratório e tendo em mãos uma carteira de trabalhos já realizados, ele foi buscar junto aos órgãos superiores de Furnas os recursos necessários à consolidação do controle total pela empresa de todos os estudos hidráulicos em modelo reduzido de seus empreendimentos. A superação dessa fase acabou por trazer ao LAHE alguns grandes benefícios, tais como: modernização da instrumentação utilizada nos seus processos de construção e operação de modelos, reformulação dos processos de construção de modelos que geraram facilidades construtivas e operativas dos mesmos e maior possibilidade de investimento no aperfeiçoamento de seu quadro técnico. Quanto à usina de Manso, estudada pelo CEHPAR quando de propriedade da Eletronorte, ao assumir 70% de seus investimentos em parceria com o consórcio PROMAN, Furnas decidiu pela construção de um novo modelo da usina em seu laboratório para a realização de estudos complementares, acompanhamento do término da construção e fornecimento de subsídios para a operação da mesma. Visando subsidiar o projeto, construção e operação de um vertedouro complementar que compatibilizasse a capacidade de vertimento da usina com os demais aproveitamentos da cascata, foi construído e operado no LAHE um modelo de conjunto da Usina Marechal Mascarenhas de Moraes, inicialmente em concessão da CPFL e que, a partir de 1973, passou a ser operada por Furnas. Em 1994, o LAHE foi procurado pela Light para subsidiar, através de estudos hidráulicos em modelo reduzido, o projeto de reabilitação da Usina de Ilha dos Pombos. Esses estudos foram realizados entre os anos de 1995 e 1996. Essa primeira solicitação de desenvolvimento de um serviço externo motivou o LAHE a investir, a partir de 1997, na melhoria contínua de seus processos e produtos por meio da busca pela certificação através da Norma NBR ISO 9001. Esse projeto, incentivado pelo engenheiro Erton Carvalho, chefe do Departamento de Engenharia Civil de Furnas, foi desenvolvido na gestão do engenheiro Danilo Lopes Marques da Silva que exercia, àquela época, a chefia da divisão responsável pelas atividades do Laboratório. Para alcançar esse objetivo fez-se

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A História das Barragens no Brasil - Séculos XIX, XX e XXI

Figura 8 - Modelo da usina Marechal Mascarenhas de Moraes (Peixoto)

necessário, além de um intenso treinamento de sua equipe, a elaboração de instruções de trabalho prescritivas de cada uma das etapas dos estudos. Tecnicamente apoiada nos fundamentos teóricos da hidráulica, da mecânica dos fluidos e de outras disciplinas afins, a realização de estudos hidráulicos em modelo reduzido não possui um conjunto rígido de critérios ou normas próprias que norteiem ou que, obrigatoriamente, devam ser aplicadas nas fases de projeto e construção dos modelos e durante a fase de estudos propriamente dita. Toda a fundamentação teórica em que se baseiam os estudos experimentais é extraída dos manuais clássicos tanto de hidráulica, quanto de projeto de estruturas hidráulicas, de trabalhos e pesquisas acadêmicas e, ainda, de publicações de estudos específicos realizados em diversos laboratórios do ramo.Embora possam ser encontrados alguns trabalhos esparsos, em que se procurou reunir o maior número possível das informações em que se baseiam os estudos em modelo físico, os mesmos estão longe de se constituírem num compêndio

ou num manual clássico dessa disciplina. Por essa razão, as dificuldades encontradas na sistematização dessas tarefas foram enormes tendo em vista que, ao longo de anos, elas se basearam unicamente na experiência profissional dos técnicos envolvi dos nos serviços de modelo. A elaboração dessas “normas” de projeto, construção e realização de ensaios em modelo, além de consolidar a experiência adquirida pelo LAHE ao longo dos seus, até então, 16 anos de serviços prestados a Furnas, contribuiu de forma marcante, não só para o auxílio à formação de seus profissionais iniciantes, como também para o trabalho daqueles que já atuantes na área, passaram a poder contar com um roteiro organizador de suas atividades. Após três anos de trabalho nesse sentido o laboratório, ainda na condição de uma atividade de uma divisão, obteve em outubro de 2000 a sua Certificação ISO 9001. A partir desse momento o Laboratório de Furnas, apresentando como diferencial o fato de ser o primeiro laboratório de hidráulica

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Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens

experimental do Brasil certificado pela ISO 9001, passou a participar de várias concorrências para a prestação de serviços externos, colocando-se lado a lado com os tradicionais laboratórios brasileiros já citados. Logo após a sua primeira prestação de serviço externo, foram estudados no LAHE: A usina de São Gabriel da Cachoeira para a qual, por solici-

de energia elétrica as concessionárias de geração e empresas autorizadas à produção independente de energia elétrica ficaram obrigadas a aplicar, anualmente, o montante de, no mínimo, um por cento de sua receita operacional líquida em pesquisa e desenvolvimento do setor elétrico. O primeiro ciclo de participação de Furnas nesse programa compreendeu os anos de 2000/2001. Com o programa de P&D assim implementado por Furnas, o LAHE passou também a participar dos projetos anuais de pesquisas que utilizassem os estudos hidráulicos em modelo reduzido como ferramenta de trabalho. Desde então, em parceria com universidades e entidades afins, o LAHE vem realizando estudos em pesquisa e desenvolvimento que abrangem, dentre outros temas, as áreas de: Transientes hidráulicos em circuitos de usinas hidroelétricas; Escoamento sobre vertedouros em degraus;

tação do Ministério da Aeronáutica, foi avaliado num modelo bidimensional o comportamento de seu vertedouro de superfície com paramento de jusante em degraus; A usina Cana Brava, da Tractebel. Esses estudos foram reto-

mados para atender ao projeto executivo e fases construtivas da usina. A usina de Monte Claro, da CERAN (Companhia Energética

Rio das Antas), localizada no Rio das Antas, no Rio Grande do Sul, cujos estudos objetivaram o diagnóstico do projeto, a otimização e a caracterização dos vertedouros da usina; As usinas de Capim Branco I e II, ambas da CEMIG, lo-

Padrões de vibração em estruturas hidráulicas por ação de escoamentos; Dimensionamento e otimização de bacias de dissipação através da utilização de modelos numérico e experimental;

calizadas no Rio Araguari, em Minas Gerais. Para a realização desses estudos o LAHE foi contratado pela Intertechne visando o diagnóstico dos arranjos propostos e a otimização das estruturas hidráulicas e A usina de Foz do Rio Claro, localizada a montante da foz

Análise de macroturbulência em estrutura de dissipação de energia; Eclusa de navegação; Previsão de erosões a jusante de vertedouros

do Rio Claro (afluente do Rio Paranaíba pela margem direita), no estado de Goiás. Esse estudo foi desenvolvido para a Alusa Engenharia Ltda e teve por objetivo fornecer informa ções de interesse ao projeto executivo do aproveitamento no sentido de avaliar, otimizar e consolidar o projeto das estruturas hidráulicas do mesmo. Com a implementação da lei 9.991, de 24 de julho de 2000, que dispõe sobre a realização de investimentos em pesquisa e desenvolvimento e em eficiência energética por parte das em presas concessionárias, permissionárias e autorizadas do setor

Os assuntos abordados nas pesquisas que vem sendo desenvolvidas pelo LAHE são aqueles em que o laboratório sente maior necessidade de aprofundamento para o desempenho de suas atividades e os que, por apontarem para tendências futuras, possam permitir o seu desenvolvimento e expansão. Os parceiros tecnológicos foram, inicialmente, aqueles com os quais o LAHE havia desenvolvido trabalhos em conjunto e onde as exigências de cumprimento de cronograma e metas haviam se

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A História das Barragens no Brasil - Séculos XIX, XX e XXI

Figura 9 - Modelo físico utilizado no P&D sobre eclusa de navegação

Nessa mesma época o LAHE havia recebido outro grande desafio: realizar o diagnóstico do projeto de viabilidade da usina hidroelétrica de Jirau, no rio Madeira, projeto esse que Furnas vinha desenvolvendo em parceria com outras empresas do ramo. Para atender a essa solicitação o LAHE precisou, num exíguo espaço de tempo, ampliar as suas instalações adequando-as às necessidades de área, volume d’água e vazão exigidas por um empreendimento do porte das usinas da Região Amazônica. Esses estudos foram concluídos em dezembro de 2006. Posteriormente, a topobatimetria implantada nesse modelo foi aproveitada para o estudo do sistema de interceptação e coleta de troncos que estava sendo estudado em conjunto com os empreendedores das usinas de Jirau e de Santo Antônio, ambas no rio Madeira. Foi também estudado no LAHE o modelo de conjunto da usina de Anta, de concessão de Furnas e integrante do complexo Simplício. Esse modelo foi utilizado para o estudo de desvio do rio, diagnóstico das estruturas e definição do plano de operação das comportas do seu vertedouro. Logo a seguir surgiu outro grande desafio: a construção de um posto avançado de trabalho para o desenvolvimento dos estudos em modelo da usina hidroelétrica de Santo Antônio. Somente o modelo de conjunto da usina hidroelétrica de Santo Antônio, na escala 1:80 por exigência da empresa projetista, compreende uma área útil de 4.000 m². Como, para atender a toda essa demanda, as instalações existentes em Jacarepaguá se mostraram insuficientes, o LAHE viabilizou a utilização de outra área de Furnas localizada ao lado da Subestação de São José, em Belford Roxo. Nesse local, com o apoio dos parceiros de Furnas nesse empreendimento, foi montada uma nova unidade do

revelado satisfatórias. Posteriormente foram feitos contatos com outros centros de pesquisa em função das áreas de estudo a que estes estavam se dedicando e novas parcerias surgiram. A diversidade de parceiros é vista como benéfica, pois cada instituição de pesquisa tem características e excelências próprias que aumentam as perspectivas e os horizontes do LAHE. Em parceria com o IPH (Instituto de Pesquisas Hidráulicas) da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), o IME (Instituto Militar de Engenharia) e a UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), os projetos de P&D desenvolvidos geraram doze teses de mestrado e quatro de doutorado. Após 22 anos de existência, em janeiro de 2005 o LAHE foi transformado num órgão oficial de Furnas. Na qualidade de escritório regional da empresa, incorporou em suas atribuições as atividades da área de recursos hídricos da extinta DEPH.T, divisão a qual pertencia. Nessa ocasião, para atender a demanda de serviços e poder fornecer acomodações adequadas ao seu novo corpo técnico, o LAHE teve a área de suas instalações prediais duplicada.

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LAHE para atendimento exclusivo dos estudos da usina hidroelétrica de Santo Antônio. Em contribuição ao projeto dessa usina já foram realizados em modelo: O diagnóstico e otimização do arranjo geral das estruturas; O levantamento da capacidade de vazão dos seus vertedouros; As simulações das condições de desvio do rio; O diagnóstico e otimização do sistema de transposição de peixes;

O último projeto diagnosticado e otimizado no LAHE foi o da usina hidroelétrica Batalha, concessão de Furnas. Encontra-se hoje em andamento a realização dos estudos hidráulicos em modelo reduzido da usina hidroelétrica de Teles Pires, localizada no Rio Teles Pires.

A trajetória do LAHE, desde a sua criação em 1983 até a presente data, esteve calcada na competência e dedicação dos profissionais que atuam nos diversos setores que o compõem, a saber: estudos, projeto, construção e modelagem, operação, documentação cinefotográfica, instrumentação, pesquisa e desenvolvimento, administração e qualidade. Foi com o traba lho e o comprometimento desses profissionais que o laboratório de Furnas conseguiu, ao longo de sua existência, se colocar no patamar de visibilidade em que se encontra. Todo o seu histórico de serviços realizados, tanto para Furnas quanto para clientes externos, sua iniciativa em pesquisas voltadas ao setor de energia, sua política de valorização de pessoal, sua respon sabilidade técnica e, principalmente, seu compromisso com os princípios éticos na condução de seus trabalhos, consolidaram a imagem do LAHE a nível nacional e o tornou conhecido internacionalmente.

Figura 10 - LAHE – Unidade Belford Roxo

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Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens

O Laboratório CESP de Engenharia Civil - LCEC
Flávio Moreira Salles, Wanderley Ognebene, Luiz Morita
O Laboratório CESP de Engenharia Civil - LCEC, instalado em Ilha Solteira/SP, é o mais antigo laboratório de tecnologia das empresas ligadas ao setor elétrico no país, tendo completado 40 anos de existência em agosto de 2009, e considerado uma referência na prestação de serviços tecnológicos para os empreendimentos da CESP e de terceiros. Reviver a história do Laboratório CESP é passar a limpo o desenvolvimento da tecnologia de construção de barragens no Brasil. É verificar como se deu a transposição da ponte do desenvolvimento - passando da total dependência dos estrangeiros ao domínio da arte de construir hidroelétricas no Brasil e permitir a participação em obras de usinas no exterior. Na seqüência foram construídas usina hidroelétrica Jurumirim no rio Paranapanema e usina hidroelétrica Euclides da Cunha no rio Pardo. A partir da segunda metade dos anos 50 foram tomadas algumas iniciativas governamentais, como a instalação da CIBPU - Comissão Interestadual da Bacia Paraná-Uruguai, para estudar o desenvolvimento sócio-econômico e os aproveitamentos energéticos dessa importante bacia hidrográfica. Por solicitação da CIBPU, a Societá Edison de Milão-Itália desenvolveu estudos para o aproveitamento das quedas de Urubupungá, contemplando a construção de duas barragens: uma em Jupiá e outra em Ilha Solteira. Aprovada a construção, realizadas as investigações geológicas, iniciou-se a construção da usina hidroelétrica Jupiá em 1961, que sem dúvida, constituiu-se num marco na história das grandes hidroelétricas do país, quer pela dimensão do projeto e o desenvolvimento técnico que propiciou, quer pelas dificuldades enfrentadas para sua execução. Ainda vivia-se sob forte dependência tec nológica do exterior. O projeto foi desenvolvido no Brasil, mas modelo hidráulico foi feito na França, os estudos de mecânica das rochas realizados no Laboratório Nacional de Engenharia Civil, de Lisboa, e o concreto e seus constituintes estudados na Universidade de Berkeley, nos Estados Unidos. Os frutos desses investimentos foram colhidos a partir do projeto executivo de Ilha Solteira, a hidroelétrica de maior capacidade de geração da CESP, que foi desenvolvido no Brasil.

O início do laboratório com o IPT
A década de 50 se notabilizou pelas iniciativas empreendedoras, destacadas pelo início dos trabalhos de projeto e construção das grandes barragens no Brasil. Particularmente no Estado de São Paulo, a Usina Hidroelétrica Salto Grande no rio Paranapanema foi a primeira, tendo sido totalmente projetada no exterior. Depois se seguiram as usinas Barra Bonita (1952) no rio Tietê e Limoeiro (1953) no rio Pardo, que tiveram assistência de técnicos estrangeiros, principalmente nas questões de hidráulica e de equipamentos.
Usina hidroelétrica de Porto Primavera (Sérgio Motta)

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A História das Barragens no Brasil - Séculos XIX, XX e XXI

Na ocasião da obra, instalou-se em Jupiá, ainda na CELUSA, um laboratório de hidráulica, com a consultoria francesa da SOGREAH (Société Grenobloise d’Etudes et d’Applications Hydrauliques) onde foram estudados os modelos hidráulicos reduzidos da Usina hidroelétrica Ilha Solteira, e posteriormente das usinas Promissão, Água Vermelha, Capivara, Nova Avanhandava, Porto Primavera,Taquaruçu, Rosana e Três Irmãos. Posteriormente, tal laboratório foi incorporado ao CTH, da USP. Em Jupiá foram instalados laboratórios de concreto e solos, formando o Laboratório de Obras, com a colaboração do Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo - IPT: o Laboratório de Solos, implantado quando as ensecadeiras começaram a ser construídas em Jupiá, era caracterizado como área de apoio do Setor de Terraplenagem da obra, e seu quadro era formado por técnicos especializados do IPT que supervisionavam os empregados da recém formada CELUSA - Centrais Elétricas de Urubupungá S.A., proprietária da obra, orientando-os nos ensaios de controle de qualidade. Eram de sua responsabilidade, compreendendo tanto as atividades de campo como as de laboratório, os serviços de controle de qualidade das barragens de terra e de enrocamento, os filtros, drenos e transições e a proteção de taludes, além das sondagens nas jazidas e áreas de empréstimo da barragem e das estradas da região, executados como serviços de apoio para outros setores do empreendimento. A necessidade de se contar com gente experiente em algumas atividades, trouxe para trabalhar na CELUSA e se incorporar à equipe do Laboratório de Obras o técnico Agostinho Maldonado Guirão, com a missão de adequar os ambientes físicos e os equipamentos e implantar os métodos de ensaios, consolidando a Área de Solos. Papel semelhante cumpriu, à época, o técnico Clarindo Brandão na Área de Concreto. O Laboratório de Concreto se instalou no mesmo ano de 1961, sob a supervisão do engenheiro Fausto Cesar Vaz Guimarães. Destacam-se na época, as relevantes análises de aplicabilidade dos materiaisdisponíveis na região da obra para confecção do concreto.

As seções do laboratório de concreto foram implantadas e incrementadas com suas diferentes modalidades e especialidades, para possibilitar o adequado controle de qualidade dos materiais, da produção dos aglomerantes e dos concretos lançados. Foram desenvolvidos estudos multidisciplinares para determinação do mecanismo de desagregação das rochas basálticas e a sua influência no comportamento do concreto, quando usadas como material de construção. Deve-se ressaltar a participação do ilustre professor Arthur Casagrande, que em muito contribuiu para o sucesso dessas pesquisas com suas opiniões e ensinamentos. Importante contribuição foi oferecida pelo engenheiro Heraldo de Souza Gitahy do IPT, em visitas sistemáticas à obra, por suas obser vações e pesquisas da reatividade potencial do seixo rolado do rio Paraná para a reação álcali-agregado, oferecendo ao Brasil o conhecimento dessa anomalia recém descoberta e as conseqüências para o concreto. A constatação de que a composição mineralógica dos terraços aluvionares da região de Jupiá era constituída em grande parte por minerais deletérios, sujeitos a reações químicas com os álcalis do concreto, intensificou a pesquisa para obtenção do inibidor da reação. Após pesquisa com emprego da pozolana artificial produzida no canteiro de obras, a partir da argila calcinada e moída, comprovou-se os benefícios desse material, impulsionando a tecnologia do uso da pozolana, que adicionada à mistura de concreto provoca a mitigação do processo expansivo da reação. Em 1964, o técnico Adonis Thimóteo dos Santos dedicouse à tradução das normas da ASTM - The American Society for Testing Materials e do US Army Corps of Engineers , para a adaptação e implantação dos métodos de ensaios de tecnologia do concreto no Laboratório de Obras, que foram usados por mais de duas décadas no país, suprindo a necessidade de metodologia referência para os ensaios em concreto no Brasil.

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Figura 1 - Vista aérea do canteiro de obras de Ilha Solteira, mostrando localização do LCEC

O laboratório da CESP
Em 1969, os laboratórios de Concreto e Solos foram transferidos para o canteiro de obras de Ilha Solteira, constituindo-se formalmente o Laboratório da CESP para fazer frente às experiências tecnológicas que aquele projeto exigia, e se consolidando a partir de então, em local para ensaios de materiais da própia CESP, das congêneres no Brasil e do exterior. O Complexo Urubupungá, integrado por Jupiá e Ilha Solteira, se destacou nesse contexto como um marco brasileiro na construção das grandes barragens. E o Laboratório se notabilizou pelo suporte oferecido àqueles empreendimentos, quer pelas inovações tecnológicas conquistadas, quer pela conduta do experimentar para aplicar, desenvolvendo técnicas construtivas e empregando materiais alternativos, e pela metodologia de ensaios oferecida ao meio técnico nacional. Esse processo se deu com maestria, capitaneado por técnicos dedicados e competentes, aos quais muito se deve por essa jornada desenvolvimentista.

O professor Roy Carlson, da Universidade da Califórnia em Berkeley, se destacou neste período, na transferência da tecnologia do concreto para os engenheiros brasileiros, particularmente do concreto-massa, e teve no Laboratório CESP guarida para seus experimentos e ensinamentos. Menção para o engenheiro José Florentino de Castro Sobrinho, idealista determinado, que naquela época como gerente do laboratório estabeleceu os contornos da independência tecnológica externa e a forma de trabalho do Laboratório idealizado, sustentado pelas viagens de intercâmbio aos Estados Unidos, especificamente na Universidade da Califórnia em Berkeley. É inegável a contribuição oferecida por Ilha Solteira à engenharia nacional, com as inovações tecnológicas e novas técnicas construtivas, o emprego de equipamentos e materiais não convencionais. E a participação do Laboratório CESP foi intensa e fundamental, oferecendo suporte para as decisões e garantindo a qualidade do empreendimento. Na construção de Ilha Solteira foi empregado pela primeira vez no Brasil o concreto refrigerado com gelo em escamas, marco pioneiro da CESP, introduzido pelo seu Laboratório de Concreto.

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Segurança e Controle de Barragens e Instrumentos e Modelos Estruturais. e certificar a eficiência da aplicação de material pozolânico nas misturas para inibir os processos expansivos. acompanhamento da produção e qualidade dos maciços e dos concretos. O Laboratório Central de Engenharia Civil – LCEC No ano de 1976. com atribuições para atender as demandas internas da CESP e com estrutura que possibilitou intensificar a prestação de serviços a projetos externos nacionais e internacionais. realizando pesquisas e análises em materiais. com avanços para os estados circunvizinhos. Nesse período. particular mente da equipe de Geotecnia. nos trabalhos de investigação e levantamento de campo nos estudos de viabilidade de aproveitamentos hidráulicos no Estado de São Paulo. Geologia Aplicada. confeccionados com diversos agregados e aglomerantes (desde 1971) Período bastante promissor para o laboratório de ensaios tecnológicos da CESP. Registra-se importante participação do Laboratório CESP. com os seus diversos barramentos. reconstruía as usinas acidentadas do rio Pardo. particularmente da reação álcali-agregado. Sob o comando do engenheiro George Antonio Mellios. Esse trabalho. instalava o canteiro para as obras da usina hidroelétrica Nova Avanhandava e concluía os projetos básicos para as três obras do Pontal. Tucuruí. e instalando instrumentos ou realizando provas de carga nas estruturas. As malhas de linhas de transmissão de responsabilidade da CESP se espalhavam pelo interior do Estado. possibilitando acompanhar eventual fissuração e sua evolução. XX e XXI Naquela oportunidade existiam seis áreas distintas. Mecânica dos Solos. Promissão e Paraibuna/Paraitinga. ou liberando escavações e tratamentos geológicos. a partir de 1971. Diversos foram os clientes. possibilitou mapear o potencial energético remanesceste nas bacias dos rios Turvo. e o LCEC realizava os trabalhos de controle da compactação das suas áreas de implantação. As subestações se multiplicavam. Figura 2 .Séculos XIX. Juquiá. Itaparica. a Unidade foi denominada Laboratório Central de Engenharia Civil . levantamento e liberação das fontes de agregados e controle das resistências dos concretos. destacando-se as obras das barragens: Itaipu. construía a usina hidroelétrica Água Vermelha. 468 . desenvolvido pela CESP nos anos 80. Sapucaí. o conjunto de blocos de concreto é conhecido por “cemitério”. tendo a participação do Laboratório em testes de arrancamento em bases das torres. Aqueles blocos de concreto foram expostos ao tempo e assim estão até hoje. Alto e Baixo Pardo. o Laboratório reuniu vinte e quatro colaboradores com formação superior em atividades permanentes nas salas de ensaios e nos canteiros de obras. Mecânica das Rochas. pela forma e disposição dos espécimes.A História das Barragens no Brasil . com quadros especializados e atividades específicas: Concreto e Materiais. Ribeira e Alto Mogi-Guaçú. para uma no Alto rio Tietê e realizava as investigações no Canal Pereira Barreto. teve início um notável programa de ensaios com a moldagem de blocos para verificar o comportamento de concretos confeccionados com diferentes composições de agregados e de aglomerantes. pois a Companhia vivia época de franca expansão: terminava as construções das usinas hidroelétricas Capivara.LCEC. Sobradinho. Couto Magalhães.Cemitério de blocos de concreto integral. Em área de destaque. Médio Tietê.

Porto Primavera e Mogi Guaçu. entre outros. Paraibuna. de concessão do Consórcio CESP . Taquaruçu. Assim como foi mencionada a colaboração dos professores Arthur Casagrande e Roy Carlson.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Começaram suas atividades profissionais no Laboratório CESP e de lá partiram para outras conquistas em novos desafios: Ademar Sonoda. Água Vermelha. Horácio Sverzut Júnior. Luiz Carlos Mendes. particularmente na caracterização das propriedades geodinâmicas dos arenitos da escavação do Canal Pereira Barreto. verificações de processos construtivos e testes para controle de qualidade e acompanhamento das obras das hidroelétricas e barragens da CESP: Capivara.CBA . Figura 4 . Regis Frota. Bento Carlos Sgarbosa. Promissão. Nova Avanhandava. Assim como a construção das Figura 3 . Taylor Castro Oliveira. em modelo diferente daquele praticado até então nas obras da Companhia. Adilson Barbi. reconstrução de Limoeiro e Euclides da Cunha. Luércio Scandiuzzi. além de Jupiá e Ilha Solteira. Três Irmãos.Companhia Brasileira de Alumínio teve a participação do Laboratório nas atividades de controle de qualidade.Ensaios geotécnicos especiais triaxiais sobre amostras indeformadas usinas hidroelétricas Canoas I e Canoas II. Francelino Fernandes Neto. não pode ser omitida a participação do professor Manuel Rocha. Dilermando Hermínio Bispo. Sérgio Silva Macedo. O Laboratório CESP de Engenharia Civil realizou investigações e pesquisas em materiais e jazidas. João Luiz Armelin. Miguel Normando Abdalla Saad. Paraitinga. José Eduardo Costanzo. As escavações no Canal Pereira Barreto também contaram com os serviços do LCEC. Francisco Rodrigues Andriolo. Rosana.Ensaio de cisalhamento direto em materiais rochosos 469 .

A História das Barragens no Brasil . e a possibilidade de se contar com os serviços de um Laboratório. os canteiros das obras tinham Laboratório de Campo para o acompanhamento das construções e o LCEC em Ilha Solteira executava os ensaios especiais e não corriqueiros. O emprego de armadura pré-montada. O controle tecnológico sempre mereceu atenção e destaque. Podem ser citados alguns exemplos na CESP. Uso de cimento de alta finura. O emprego de concreto com agregado pré-colocado. Ao seu tempo.Ensaio de módulo de elasticidade de corpo de prova de concreto de grandes dimensões (450 mm x 900 mm) Estruturas para o controle tecnológico Concluídas as usinas Jupiá e Ilha Solteira. resultou em benefícios técnicos (bons desempenhos e eficiência dos concretos). com estruturas específicas e atribuições definidas. com grandes contribuições aos empreendimentos e à Engenharia Nacional. com a finalidade de melhor explorar toda a potencialidade do cimento. a saber: a Usinas hidroelétricas Jupiá e Ilha Solteira A identificação da reatividade potencial álcali-agregado do seixo rolado do rio Paraná e o emprego de material pozolânico para o combate desta reação. Emprego de aglomerante em concreto abaixo do limite de 100 kg/m3. devidamente b Usina hidroelétrica Três Irmãos Emprego racional e seletivo de alguns basaltos e recusa de outros. A aplicação de pré-moldados incorporados à barragem. Benefícios técnicos e vantagens econômicas O desenvolvimento de um eficiente Controle Tecnológico dos materiais e produtos aplicados nas estruturas construídas. pela formação heterogênea e alterabilidade. e oferecia metodologia e procedimentos para padronização das atividades em campo. acima das recomendações das normas. outras obras de hidroelétricas de concessão da CESP se seguiram. desenvolvendo pesquisas e avaliando os materiais e os processos executivos empregados nas obras. através da montagem de moinhos de cimento e pozolana em Jupiá. XX e XXI compatibilizados com o cronograma de obras. e controle da qualidade do produto. com uso de 84 kg/m3.Séculos XIX. conseqüentes vantagens econômicas. Desenvolvimento de técnicas de produção. A utilização de caldas refrigeradas e técnicas de injeção a vácuo em cabos de protensão. que tiveram a participação do LCEC. em alguns pilares da subestação de Ilha Solteira. identificadas 470 . reduzindo o índice de homens/hora por tonelada de barras de aço aplicada. peculiares a cada empreendimento. Figura 5 . praticado nos anos 70.

garantindo o produto requerido e evitando-se rejeições. após longo período de exposição. empregado nos diferentes concretos da obra de Porto Primavera. E também nas construções das hidroelétricas Rosana. c Usina hidroelétrica Porto Primavera Estudo da viabilidade de emprego do basalto de escavação. d Complexo Canoas Confecção de concretos convencional e bombeado com emprego de areia artificial como agregado miúdo. com economia da ordem de US$ 30 milhões. Vantagens que se apresentaram também junto aos fornecedores.000 m3 e ampliação da pedreira com decape superior a 10 m. computando-se o volume de escavação.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens a partir de estudos conduzidos no Laboratório. . Taquaruçu. trouxe benefícios técnicos com vantagens econômicas significativas. A economia resultante dessa seleção foi de aproximadamente US$ 1 milhão. susceptível ao intemperísmo. atrasos no cronograma e retrabalho. Verificação da condição aceitável para manutenção dos perfis de veda-junta e de barras de aço aplicadas nos blocos. com condição de restrição. avaliando soluções para as mais diferentes situações e controlando os materiais e suas aplicações. Porto Primavera e Canoas. Alternativa aprovada pelos ensaios desenvolvidos no Laboratório. no concreto da barragem. que foi superior se considerados transporte e criação de bota-fora com volume de 160. Pesquisa de mercado para definição de cimento a ser aplicado com material potencialmente reativo com os álcalis. minimizando descarte de materiais. resultando cimento Portland CP IV de excelente qualidade. Considerações finais A atuação do LCEC acompanhando par e passo a evolução da obra. Desenvolvimento de cimento pozolânico com características específicas de finura e teor de adição do material pozolânico.

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Diretorias do CBDB Anexo 4 . Congressos Internacionais e Reuniões Anuais e Executivas Anexo 7 . Entrevistas Anexo 2 .Sócios Mantenedores e Coletivos 473 . Depoimentos Anexo 3 . Simpósios sobre Pequenas e Médias Centrais Hidroelétricas Anexo 6 .Anexos Anexo 1 . Seminários Nacionais de Grandes Barragens Anexo 5 .

no período 1966/1973. destacando-se as UHE’s Belo Monte. irrigação.Como consequência da necessidade de reestruturar o setor elétrico diversas disposições legais foram estabelecidas a partir do final da década de 80. hidroeletricidade. também no Rio de Janeiro. antes de sua vinda para o Brasil como foi a sua carreira no Uruguai? ELB . da qual participo da direção até hoje. A sequência de tarefas que surgiram depois foi imensa e é difícil escolher a mais interessante.Larrosa. Em 1968 cursei uma pós-graduação em hidrologia e hidráulica em Madri.E quando você veio para o Brasil? ELB . do Vale do Paraíba do Sul e dos aproveitamentos hidroelétricos de Manso. em 1968 Entrevistador: Flavio Miguez de Mello Abril de 2010 FMM . com a criação da ANEEL. Desse arcabouço sobressai-se a Constituição de 1988. FMM .Ante à falta de recursos. Tive. mas essa vez. Lajeado. Exerci também a presidência do Comitê de Irrigação do Leste do Uruguai.De inicio trabalhei. sai do setor estatal e fundei a Larrosa & Santos Engenheiros Consultores. Em 1991 fui convidado para trabalhar no DNAEE.Depois dessas experiências em consultoria. entre outros. entre outros.Na sua trajetória no DNAEE. economia. Jirau e Santo Antônio. A necessidade de regulamentar o dispositivo constitucional incorporou varias leis. Santa Isabel. XX e XXI Anexo 1 Entrevista com o engenheiro Eduardo Larrosa Bequio Formação: Faculdade de Engenharia da Universidad de la Republica Oriental del Uruguay. Em paralelo à regulamentação do Art 175. onde fui Coordenador Geral de Concessões. na sua maioria estatais (lei 8631/97). FMM . Posteriormente. Como foi a época em que a implantação de usinas hidroelétricas era feita com as verbas de desmobilização? ELB . FMM . em Rondônia. ELB . No final de 1997. Posteriormente fui co-diretor pela contrapartida uruguaia dos estudos dos aproveitamentos hidroelétricos de Salto Centurião e Talavera no rio Jaguarão. como foi a sua formação profissional? ELB . Entre 1980 e 1991 atuei na Eletronorte. 474 .A História das Barragens no Brasil . sempre através de licitação. contacto com mais de 50 técnicos nacionais e estrangeiros nas diversas disciplinas de uso de recursos naturais. na fronteira entre Brasil e Uruguai. estudo de desenvolvimento integrado desta bacia internacional.Larrosa. tendo sido gerente do Departamento de Estudos e Projetos de Geração onde foram desenvolvidos empreendimentos em bacias hidrográficas e de usinas. no Projeto Lagoa MirimBrasil/Uruguai/FAO/PNUD. no Mato Grosso e de Samuel.Art 175. as empresas estatais partiram para a paralisação total de seus estudos e obras ou a manutenção em ritmo lento e ajustes no planejamento setorial GCPS (Grupo Coordenador do Planejamento do Sistema). etc. entidade esta responsável pelas outorgas de água para irrigação. qual foi a mais interessante tarefa que você vivenciou? ELB . FMM . sem este acerto era impossível pensar em reestruturação do setor elétrico. fui chefe do departamento de Estudos de Recursos Naturais da ECP/Projest.Sou engenheiro civil formado em 1968 pela Faculdade de Engenharia da Universidad de la Republica Oriental del Uruguay FMM . então.Em 1974 vim trabalhar na Sondotécnica no Rio de Janeiro em estudos. decretos.Nos anos oitenta havia sérias dificuldades de investimento na quase totalidade das empresas estatais.que estabeleceu que os serviços de energia elétrica são responsabilidade da União e podem ser outorgados em regime de concessão ou permissão. você veio para Brasília e permanece aqui até hoje. portarias e outros tipos de disposições. surgiram ações implantadas para resolver a situação de falência econômico-financeira das empresas concessionárias.Exatamente. meio ambiente.Séculos XIX. entre 1978 e 1980.

FMM . procurando estabelecer condições favoráveis para a participação de grupos privados no setor de geração de energia elétrica.Muitas empresas de consultoria e projetistas preparadas para o desenvolvimento de pesados contratos tiveram que cancelá-los. em abril de 1995. já existentes. situação que perdurou por um longo tempo caindo finalmente no contra-senso que se arrastou pela década de 90 e ainda no novo século. FMM . pois coube ao DNAEE ajudar na formação das parcerias. Entretanto um grupo menor de empreendimentos com concessões. exercida por empresas estatais federais ou estaduais. FMM . tarefas difíceis e demoradas. sem a correção integral e sem reembolso dos elevados juros que o sistema bancário cobrava dessas empresas. Ao produtor independente foi assegurada. Foi uma tarefa muito interessante. mesmo estando paralisadas. Como isso era suportado pelas empresas estatais? ELB .Os fundamentos desse modelo tiveram um claro direcionamento no sentido da busca da privatização das empresas estatais e da redução dos investimentos públicos. a comercialização da energia gerada e ao autoprodutor foi assegurado o consumo para uso exclusivo e venda parcial da energia produzida.Essas restrições financeiras das estatais geraram consequências danosas a todos seus contratados principalmente às empresas de consultoria e projet