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CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

H58 A história das barragens no Brasil, Séculos XIX, XX e XXI : cinquenta anos do Comitê Brasileiro de Barragens / [coordenador, supervisor, Flavio Miguez de Mello ; editor, Corrado Piasentin]. - Rio de Janeiro : CBDB, 2011. 524 p. : il. ; 29 cm Inclui índice ISBN 978-85-62967-04-7

1. Barragens e açudes - Brasil - História. 2. Comitê Brasileiro de Barragens - História. I. Mello, Flavio Miguez de. II. Piasentin, Corrado. III. Comitê Brasileiro de Barragens. III. Título: Cinquenta anos do Comitê Brasileiro de Barragens 11-6197. CDD: 627.80981 CDU: 627.82(81) 22.09.11 029752

20.09.11

Comitê Brasileiro de Barragens - CBDB
DIRETORIA CBDB Presidente: Erton Carvalho Vice-Presidente: Fabio De Gennaro Castro Diretor Secretário: Paulo Coreixas Junior Diretor Técnico: Brasil Pinheiro Machado Diretor de Comunicações: Miguel Augusto Z. Sória Diretor Adjunto: Marcos Luiz Vasconcellos Diretor Adjunto: Ademar Sérgio Fiorini

Agradecimentos
O Comitê Brasileiro de Barragens externa seus agradecimentos às empresas abaixo relacionadas pelo apoio que possibilitou a confecção deste livro que resume o desenrolar de importante segmento da História do Brasil.
Arcadis Tetraplan S/A Banco Bradesco S/A Camargo Corrêa Energia e Construções S/A CEMIG - Companhia Energética de Minas Gerais CESP - Companhia Energética de São Paulo CHESF - Companhia Hidro Elétrica do São Francisco Construtora Norberto Odebrecht S/A Construtora Queiroz Galvão S/A Construtora Andrade Gutierrez S/A COPEL - Companhia Paranaense de Energia DNOCS - Departamento Nacional de Obras Contra as Secas Eletrobras - Centrais Elétricas Brasileiras S/A Eletronorte - Centrais Elétricas do Norte do Brasil S/A Engevix Engenharia S/A Furnas Centrais Elétricas S/A Geobrugg Ag - Protection Systems Grupo Energia Intertechne Consultores S/A. Itaipu Binacional Jeene Juntas Impermeabilizações Ltda. Light S/A Mc Bauchemie Brasil Mendes Júnior Trading e Engenharia S/A Norte Energia S/A Pires Giovanetti Engenharia e Arquitetura Ltda. Sto Antonio Energia

FICHA TÉCNICA Coordenador / Supervisor: Flavio Miguez de Mello Editor: Corrado Piasentin Projeto Gráfico: Modonovo Design - Marina Hochman Diagramação: Modonovo Design - Marina Hochman / Natália Seiblitz Revisão de texto: Margarida Corção Gráfica: Impressul Indústria Gráfica

índice

Prefácio Apresentação Síntese do Desenvolvimento da Implantação das Barragens no Brasil A Comissão Internacional de Grandes Barragens Oitenta e Três Anos de Excelência História do Comitê Brasileiro de Barragens Um Século de Obras contra as Secas As Barragens Construídas pelo DNOCS Resumo da História Remota da Hidroeletricidade no Brasil Usina Hidroelétrica de Marmelos Usina Hidroelétrica de Angiquinho Usina Hidroelétrica de Itapecuruzinho A Light no Rio de Janeiro, a Cidade Luz Sulamericana A São Paulo Light, Fomentadora de Progresso As Barragens do Departamento Nacional de Obras de Saneamento - DNOS A História da CHESF, Indutora do Progresso do Nordeste Furnas no Século XX A Eletronorte e as Barragens da Região Amazônica A História das Barragens no Paraná Companhia Energética de Minas Gerais - CEMIG

9 12 16 48 56 66 76 88
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130 142 150 166 188 206 226 250

Energisa Companhia Paulista de Força e Luz .Introdução CEHPAR .CEEE Companhia Energética de São Paulo .IPH 272 284 292 304 308 346 354 368 396 406 412 414 426 432 436 O Instituto de Pesquisas Tecnológicas do 446 Estado de São Paulo .50 Anos de muito Trabalho Centro de Tecnologia de Furnas em Goiânia O Laboratório de Hidráulica HIDROESB - Saturnino de Brito SA O Instituto de Pesquisas Hidráulicas .CPFL Breve Memória sobre a Usina de Itaipu 1966 .IPT .CESP Companhia Força e Luz Cataguazes-Leopoldina .2010 As Pequenas Centrais Hidroelétricas no Brasil A Nova Face das Empresas Estatais frente à Expansão da Oferta de Energia Hidroelétrica no País As Barragens de Rejeitos no Brasil: Sua evolução nos últimos anos A Evolução do Licenciamento Ambiental de Barragens no Brasil A Evolução da Legislação Aplicada às Barragens Centros de Pesquisas Tecnológicas Aplicadas a Barragens .Companhia Estadual de Energia Elétrica do Rio Grande do Sul .

Laboratório de Hidráulica Experimental e Recursos Hídricos de Furnas .Simpósios sobre Pequenas e Médias Centrais Hidroelétricas Anexo 6 .LAHE O Laboratório CESP de Engenharia Civil .Seminários Nacionais de Grandes Barragens Anexo 5 .Congressos Internacionais e Reuniões Anuais e Executivas Anexo 7 .Sócios Coletivos e Mantenedores 454 464 474 477 483 485 488 491 493 506 509 512 514 516 519 520 522 . LCEC Anexos Anexo 1 .Diretorias do CBDB Anexo 4 .Entrevistas Eduardo Larrosa Bequio Guy Maria Villela Paschoal Hélio Mendes de Amorim João Camilo Penna José Candido Capistrano de Castro Pessoa Luiz Carlos Queiroz Mario Santos Murillo Dondici Ruiz Olavo Augusto Vieira Anexo 2 .Depoimentos José Gelazio da Rocha e Antônio Dias Leite Anexo 3 .

A História das Barragens no Brasil . XX e XXI .Séculos XIX.

entre outras ciências que serviram de suporte para projetos de irrigação e construção de barragens. registrar a história das barragens brasileiras. amenizando os processos migratórios para a Região Sudeste do País. piscicultura. principalmente as de maciços de terra. águas de superfície e subterrânea. A SUDENE. assim. mas também empreendedores do setor privado e pesquisadores. As barragens surgiram em decorrência da necessidade de se usufruir dos benefícios do uso múltiplo dos recursos hídricos para a população brasileira. foram criados vários centros de pesquisas. na formação dos nossos engenheiros na área de recursos hídricos e projetos de barragens. juntamente com algumas empresas brasileiras. O livro aborda com abrangência o desenvolvimento tecnológico para a construção das barragens brasileiras a partir de 1950. hidrologia. onde o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS) teve um papel importante com a construção de açudes para irrigação. climatologia. teve como uma das principais finalidades a permanência do sertanejo no seu ambiente natural. No Brasil foram iniciadas as construções de grandes barragens. abastecimento de água das cidades e pequenos núcleos populacionais. apresentamos o livro “A História das Barragens no Brasil . envolvendo mapeamentos pedológicos. 9 . houve um grande desenvolvimento nas áreas de hidrologia e meteorologia. implementou um plano de desenvolvimento regional embasado em estudos dos recursos naturais. XX e XXI”.Séculos XIX. que colaborou. a partir de 1887. Além da contribuição nos métodos construtivos das barragens. os quais fazem parte dos pontos importantes abordados nesta publicação. Pretendemos. resgatando os principais personagens que contribuíram para o desenvolvimento da nossa engenharia. Essa política.Prefácio Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Em comemoração aos 50 anos de existência do Comitê Brasileiro de Barragens – CBDB – filiado à International Commission on Large Dams (ICOLD). que previa a formação de reservatórios no semi-árido nordestino. envolvendo não só homens públicos. grupo de grande competência. O livro retrata as primeiras barragens construídas no Nordeste. quando se iniciou o desenvolvimento do setor elétrico brasileiro. O aparecimento e o desenvolvimento das empresas construtoras de barragens constituem fatos de grande relevância. Os técnicos brasileiros foram influenciados principalmente pelas organizações americanas United States Bureau of Reclamation e US Army Corps of Engineers. apoiadas em estudos e projetos de alta qualidade. Paralelamente. dirigida pelo economista Celso Furtado na década de 1960. O primeiro trabalho de inventário dos rios da Região Sudeste foi elaborado pela Canambra Engineering Consultants Limited. para suporte tecnológico desses empreendimentos.

o qual realizou vários trabalhos apreciáveis nas áreas de abastecimento de água. A preocupação do CBDB em defesa do desenvolvimento sustentável do País está comentada nos tópicos sobre a evolução do licenciamento ambiental para os empreendimentos hidráulicos.A História das Barragens no Brasil . este livro é dirigido a um público abrangente. ELETRONORTE e ELETROSUL. XX e XXI Este livro registra as primeiras hidroelétricas construídas no país. As empresas subsidiárias da ELETROBRAS: FURNAS. pertencente ao Brasil e ao Paraguai. São Paulo (CESP). sem a exigência de que ele seja possuidor de conhecimentos técnicos sobre o tema. o leitor interessado na história contemporânea do desenvolvimento brasileiro. Destaca-se na Região Amazônica o relato do projeto e construção da usina de Tucuruí. está retratada com a sua história e importância. realçando a importância da Região Amazônica como continuidade do uso dos nossos recursos hídricos. também. é também citada nesta publicação. Apresenta. CHESF. aparecem documentadas com a história de suas formações. bem como as dos estados de Minas Gerais (CEMIG). dotada de eclusas para a navegação do rio Tocantins. Finalmente. principalmente. irrigação e geração de energia elétrica. A usina de Itaipu Binacional. a maior hidroelétrica brasileira. como também para a integração dos dois países. visando. Rio Grande do Sul (CEEE) e Paraná (COPEL). A legislação sobre a segurança das barragens. incluindo os empreendimentos realizados e as respectivas estratégias de desenvolvimento. que faz parte do programa de trabalho do CBDB. selecionadas por região.Séculos XIX. no que se refere à construção das barragens e seus impactos. não só para a geração de energia elétrica. sendo também responsável pelas obras de controle de cheias em todo país. Erton Carvalho Presidente do CBDB 10 . uma significativa documentação sobre o Departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS) extinto no inicio da década de 1990.

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Reservatório de Tucuruí .

para que a implantação de Belo Monte seja um sucesso de sustentabilidade social e ambiental. Este livro é lançado em difícil momento para os investidores.. em outubro de 2011. querendo.” No mesmo sentido. por abranger o vasto território nacional. mais recentemente. e no espaço. superando um século. dar-se-á nela tudo. comprometeu o planejamento energético. cabendo a mim a tarefa de produzir o livro e publicá-lo no aniversário de cinquenta anos do CBDB. emocionalmente. do Planejamento alertou (2011): “Acreditamos que será possível. a Diretoria do CBDB emitiu uma circular a todos os sócios comunicando a intenção de publicar este livro e incentivou os associados a se apresentarem como voluntários na preparação dos diversos capítulos que haviam sido programados.CINQUENTA ANOS DO COMITÊ BRASILEIRO DE BARRAGENS Apresentação “Águas são muitas.. Essa distorção já contaminou a legislação ambiental brasileira e. infinitas. exceto os que tenham uma posição ideológica e não técnica (sobre meio ambiente). Outras entidades publicaram livros de escopo semelhante: a ABMS publicou Cinquenta Anos de Geotecnia em 2000 e a ABGE publicou a Edição Comemorativa dos Trinta Anos. o dimensionamento dos reservatórios das barragens. Com a proximidade do cinquentenário do Comitê Brasileiro de Barragens CBDB surgiu. Essas perdas de quase uma geração inteira de notáveis pioneiros dos tempos das mais importantes conquistas tecnológicas e da fase pioneira da implantação de grandes barragens para as mais diversas finalidades bem como da época das grandes dificuldades para identificação. licenciamento e distorções legais que propiciam priorização soluções mais poluentes. os demais serão convencidos Flavio Miguez de Mello de que está sendo feito todo o esforço. planejamento. foto- 13 . O Brasil está desperdiçando importantes potenciais hídricos ao limitar. presidente da FIESP ao analisar as tendências atuais (2011) do setor elétrico: “O Brasil assiste a desqualificação de suas fontes de energia mais competitivas e abundantemente disponíveis. relatórios. 1500. A propósito. cabe realçar as palavras de Paulo Skaff. e como o assunto a ser abordado no livro é demasiadamente extenso no tempo. projeto.. em reunião do Conselho Deliberativo. por bem das águas que tem.” No início dos trabalhos. fizeram com que a tarefa se tornasse árdua em função da busca de documentos. a aproveitar. E em tal maneira é grandiosa que. a ministra Miriam Belchior. a proposta do engenheiro Manuel de Almeida Martins de que se editasse um livro comemorativo versando sobre a história da engenharia de barragens no Brasil. em 1998. tive que selecionar alguns voluntários que gentilmente aceitaram a tarefa e desempenharam a função de redatores com maestria e objetividade.. como são muitos os aspectos enfocados.” Pero Vaz de Caminha. mesmo assim. de questionável segurança e de menor economicidade. envolvendo todos os atores. em empreendimentos para qualquer das diversas finalidades de barragens dadas às vigentes dificuldades de aprovação. Como voluntários não apareceram. Belo Monte ser um exemplo de implantação de usina hidroelétrica na Região Amazônica . Ao iniciar a tarefa me deparei com grandes dificuldades provenientes das importantes perdas para a Profissão de inúmeros expoentes da engenharia nesses pouco mais de dez anos que separam as publicações das outras associações da edição do livro do CBDB. construção e operação de barragens e reservatórios. estatais e privados. Entretanto. o livro acabou apresentando uma certa concentração de capítulos em um autor. A proposição foi aceita com entusiasmo. de fato.

Com vários outros atores do passado tive contatos menos extensos.Séculos XIX. E. Usina hidroelétrica Serra do Facão 14 . Theophilo Benedicto Ottoni Netto. Epaminondas Mello do Amaral Filho. Carlos Alberto Pádua Amarante. Cotrim. John R. Von Ranke. Arthur Crocchi. Léo A. Antônio José da Costa Nunes.A História das Barragens no Brasil . Os que atualmente atuam em implantação de barragens podem não imaginar que. Estive com alguns desses atores com frequência em certas longas fases do exercício profissional tais como os engenheiros Flavio H. Lyra. José Machado e José Cândido Castro Parente Pessoa com os quais tive oportunidades de angariar valiosos depoimentos sobre aspectos de vivências profissionais passadas.B. Victor F. Por sorte tive o privilégio de conviver profissionalmente com alguns dos mais destacados atores daquele período e que já nos abandonaram. XX e XXI grafias e depoimentos que formassem as bases para o relato de uma história de mais de um século de conquistas que merecem registro. o engenheiro John Cotrim gastou duas semanas a cavalo. por exemplo. para visitar pela primeira vez o local da hidroelétrica de Salto Grande em Minas Gerais. mas de elevado interesse no relato de experiências profissionais tais como Mário Penna Bhering. César Cals de Oliveira Filho e consultores como Manuel Rocha e Porland Port Fox. Francisco de Assis Basílio. Penna. de Mello.

dos quais guardo recordações as mais preciosas. porém objetivas. José João Rocha Afonso. Dessa forma há uma ênfase nas primeiras barragens para saneamento. das quatro filhas que passaram mais de um ano sem minha participação em atividades de fins de semana. Cavalcanti. de todas as principais atividades que resultaram na implantação de tantas barragens que trouxeram progresso e bem estar ao nosso povo desde o Século XIX. o livro inevitavelmente contém omissões pelas quais desde já peço desculpas. Julia Ferrer Leal de Araujo. Provavelmente foram esses fatores que levaram o Conselho do CBDB a me indicar como responsável pela edição desse livro. os que nos precederam conseguiram. a revisora de texto Margarida Corção e o conselheiro Aurélio Alves de Vasconcelos. O livro foi enriquecido com textos. foram em parte devidos à minha atuação profissional na engenharia. Simone Idalgo Machado. só considerando as grandes barragens. T. Sandra Pereira. Vânia Rosa Costa. José Carlos de Miranda Reis Neto. Mair Melo Andrade. Esses contatos. Rosana Libânio. com destaque para as primeiras usinas hidráulicas para fornecimento público de energia elétrica: Marmelos no Sul-Sudeste. Angiquinho implantada no Nordeste por Delmiro Gouveia e Itapecuruzinho. Nicole Schauner. de obtenção de materiais e de aquisição de equipamentos. se consideradas as barragens de rejeitos. devo certamente ser o mais antigo por ter sido chamado muito jovem a apoiar as atividades em sua sede. em quase todos os capítulos. Procurei congregar neste livro narrativas sucintas. construída ainda no Século XIX por Bernardo Mascarenhas. Flavio Pilz. Carlos Henrique Medeiros. Cabe ainda agradecer os importantes apoios recebidos de diversos profissionais entre eles Alberto Jorge C. Alguns relatos apresentados em capítulos deste livro foram obtidos diretamente desses contatos dos que nos precederam na Profissão. é de se notar que há. Carlos Mazzaro. entrevistas e informações de alguns dos mais destacados profissionais que atuam na engenharia de barragens em nosso País. para controle de cheias e. algumas das quais relato neste livro. Agradeço também aos dirigentes e funcionários do CBDB. Teresa Malveira. de mais difícil caracterização. nas mais adversas condições. Leila Lobo de Mendonça. Sérgio Pimenta. O presente livro é resultado do apoio e do incentivo de muitas pessoas entre as quais cabe destacar especialmente a constante compreensão e apoio de minha esposa. uma ênfase maior na história remota.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Desses contatos pude extrair há anos. além de oposições dos auto-proclamados ambientalistas nacionais e estrangeiros. presentes e atuantes desde a primeira hora. Cleber José de Carvalho. prazos presentemente ina- creditáveis dadas as atuais delongas e dificuldades legais. de concessão e de licenciamento ambiental. Presentemente. informações de elevado conteúdo histórico.. Alberto Sayão. João Paulo Maranhão Aguiar. Sobre esse aspecto há um capítulo resumindo as primeiras hidroelétricas nas diversas regiões do País. O relato mais detalhado dessas barragens pioneiras retrata a imagem das imensas dificuldades logísticas de acesso. Com uma longa história tão rica a ser resumida num espaço tão curto. pai do atual presidente do CBDB. de aprovação. André Luiz Fabiani. Agradecimentos são devidos aos autores dos capítulos e aos entrevistados que contribuíram decisivamente para a viabilização do livro. Hilton Ahiran da Silveira. Considerando que a história recente é mais conhecida por aqueles que acessarem esse livro. Gisele Miranda Gomes Reis. engenheiro Erton Carvalho. Og Pozzoli. Delphim Mazon Fernandes. Ricardo Ivan Bicudo. para combate às trágicas consequências ocasionadas pelas secas e para produção de energia elétrica. Mesmo assim. embora não seja o mais velho. Henrique Frade. implementada na Região Amazônica por Newton Carvalho. implantar barragens e hidroelétricas em até menos de um ano. à minha atuação na Universidade e às minhas atividades no CBDB e em outras entidades técnicas. Talvani Hipólito Nolasco Filho. No CBDB. no Brasil há bem mais de mil dessas estruturas em operação e. Margaret Rose Mendes Fernandes. Viviani Siqueira Vecchi e Walton Pacelli de Andrade. Paulo Coreixas Jr. Fernando Pires de Camargo. Não foi possível mencionar todos os atores e relatar todas as inúmeras atividades de implantação de barragens que ocorreram por mais de um século nesse tão vasto território nacional. o editor Corrado Piasentin. 15 . John Denys Cadman. Ana Teresa Ponte. Jerson Kelman. ultrapassa-se a casa das duas mil grandes barragens. José Gelazio da Rocha. Gualter Pupo. Heloisa Ottoni. Gustavo Nasser Moreira. principalmente.

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variando de áreas úmidas ao vasto semi-árido do interior do Nordeste.5x106 km². A pequena espessura da cobertura de solo faz com que haja dificuldade em reter a umidade e. o Solimões que drena os Andes peruanos e bolivianos e o Negro. engenheiro chefe da Canambra. desde 4° de latitude norte a 33º de latitude sul e de 40 º a 75º de longitude oeste. a maior parte do qual se situa no hemisfério sul. o clima.000 m³/s. só é possível acumular águas subterrâneas em regiões de rochas com fraturas profundas. Os mais importantes tributários desses rios e os rios da bacia do rio Tocantins que flui de sul para norte. os recursos hídricos. constituem-se nos grandes recursos hídricos do norte do Brasil. têm regime intermitente em pelo menos parte de seus cursos. sendo geralmente esta água insuficiente e de baixa qualidade. com exceção dos rios São Francisco (que é proveniente do Sudeste) e Parnaíba. Quase todos os rios do Nordeste. com uma descarga média superior a 200. Barragem de finalidades múltiplas de Pedra do Cavalo no rio Paraguaçu na Bahia 17 . com uma extensa costa banhada pelo Oceano Atlântico ao longo de 8. a quantidade e frequência de precipitações.500 km. A parte central da Região Amazônica é cortada de oeste para leste pelo rio Amazonas.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens “We trust that the results of the study will help the power industry of South Central Brazil to develop on a sound basis in the years that lie ahead. A leste desta região encontra-se a região semi-árida do nordeste brasileiro cujos rios são em geral intermitentes. Como o País é de tão grande superfície. Sexton. a incidência solar supera as 3000 horas por ano. apresentando descarga específica média de 35 l/s.km². há diferentes aspectos naturais tais como. Nessa área. da cadeia de montanhas próximas à costa no Sudeste até as planícies do Sul e do Meio Oeste. como o substrato cristalino é pouco permeável. por exemplo. juntamente com evapotranspiração. o mais caudaloso e mais longo rio do mundo. O ambiente varia das planícies alagadas da Amazônia Equatorial e do Pantanal ao Planalto Central. A maior parte dos seus 190 milhões de habitantes vive na Região Sudeste onde as maiores cidades estão localizadas. podendo apresentar descargas específicas médias tão baixas quanto 3 l/s. a geologia. Nessa área a evaporação média pode atingir 2000 mm/ano e.km². compreendendo 8. Esse grande território tem uma longa fronteira com todos os países da América do Sul à exceção do Equador e do Chile. denominada Polígono das Secas.” “Acreditamos que os resultados do estudo auxiliarão nos anos vindouros o desenvolvimento da indústria de geração do Centro-Sul do Brasil sobre uma base sólida” John K. formado por dois grandes rios. O País abriga a quinta maior população do mundo. o relevo e a vegetação. pode ser responsável pelo consumo de até 92% das precipitações. 1966.  Síntese do Desenvolvimento da Implantação das Barragens no Brasil Flavio Miguez de Mello O País e seus recursos hídricos O Brasil é um território contínuo de forma quase quadrada. a precipitação média anual pode ser de 400 mm ou menos.

Barragem de Apipucos na cidade do Recife.A História das Barragens no Brasil . o tratamento de fundação pode ser feito na primeira estação seca durante a construção e a barragem construída durante a estação seca seguinte. por Harman Agenau por 6000 florins para acesso a um forte também na atual região urbana do Recife. aparece em um mapa holandês de 1577. No resto do País as descargas específicas variam de 12 l/s. tendo sido concluído em dezembro de 1644. XX e XXI Nesses rios intermitentes. Apipucos na língua tupi significa onde os caminhos se encontram. possivelmente no final do Século XVI.km² a 30 l/s. muitas vezes sem requerer estruturas de desvio e ensecadeiras. Figuras 1a e 1b .km².Séculos XIX. O dique tinha três metros de altura e cerca de 2 km de extensão. antes mesmo da invasão holandesa. PE. tendo colapsado em vários pontos. As secas no Nordeste e o desenvolvimento do País foram os fatores determinantes para a implantação do grande número de barragens construídas desde a última década do século XIX. A barragem original foi alargada e reforçada para permitir a construção de uma importante via de acesso ao centro do Recife. em 1650 sofreu transbordamento por ocasião de uma grande cheia. no caso de barragens não muito altas. Um olhar para o passado remoto A mais antiga barragem que se tem notícia em território brasileiro foi construída onde hoje é área urbana do Recife. Há referências também ao dique Afogados construído no rio Afogados. A mais antiga barragem que se tem registro no Brasil 18 . Nos últimos 40 anos o País tem participado intensamente da economia internacional. Conhecida presentemente como açude Apipucos. variando entre a oitava e a décima maior economia do mundo. um braço do rio Capiberibe.

logo após a Grande Seca. Pedro II que esteve na área atingida. o Imperador D.5 milhão de habitantes.CINQUENTA ANOS DO COMITÊ BRASILEIRO DE BARRAGENS As obras contra as secas O ano de 1877 foi o início da maior tragédia nacional devido a fenômeno natural: A Grande Seca no Nordeste com duração superior a três anos deixou cicatrizes que até hoje são nítidas.2% desta descarga para as regiões de seca. situada no Ceará e concluída em 1906. Castanhão cuja finalidade principal foi o abastecimento de água da cidade de Fortaleza. Figura 3 – Barragem de Castanhão para abastecimento de água à cidade de Fortaleza. diques. em vários projetos. canais. uma das duas mais antigas grandes barragens do Brasil (1906) Centenas de barragens foram construídas desde a Grande Seca no Nordeste. tendo sido palco de migrações em massa de flagelados. CE Recentemente foi lançado o projeto de derivação de parte das descargas do rio São Francisco para o Polígono das Secas. As principais recomendações foram a construção de estradas para que a população pudesse atingir o litoral e a construção de barragens para suprimento de água e irrigação no Polígono das Secas cuja área é superior a 950. Figura 2 . Isso marcou o início do planejamento e projeto de grandes barragens no Brasil. Na primeira década do século XX uma membrana de alvenaria ou de concreto era usualmente usada como elemento impermeabilizante interno de barragens de terra. outro intenso El Niño foi responsável pela retirada dos invasores holandeses de onde é hoje a costa do Ceará. na época com 1. Somente a partir de meados dos anos oitenta do século passado passou-se a saber que as secas são devidas ao fenômeno conhecido por El Niño no Pacífico Sul. uma das áreas mais atingidas.Barragem de Cedros. A rocha sã em geral encontrada nas ombreiras. estações de bombeamento e casas de força para 19 . Em 1880. O estado do Ceará. Esse grande rio que nasce na Região Sudeste em Minas Gerais. Muitos anos antes. Os anos 50 e 60 do século passado foram os anos dourados na construção de barragens para combate às secas. No final do Século XX o DNOCS executou sua última barragem. tem no seu trecho inferior uma descarga média de longo termo de cerca de 2000 m³/s. No seu estágio final a derivação será de 3. conduziu à adoção de vertedouros de superfície simplesmente escavados em rocha sã. Serão construídas diversas barragens. A primeira dessas barragens foi Cedros. A pequena altura das barragens e a rocha sã nos leitos dos rios minimizavam a necessidade de tratamento de fundação. nomeou uma comissão para recomendar uma solução para o problema das secas no Nordeste. perdeu mais de um terço da sua população de maneira trágica.000 km².

sem serem muito altas.5 m de altura. dos quais 3.700 MW provinham de hidroelétricas. No final do século passado. era de alvenaria de pedra constituída por grandes blocos de rocha gnáissica solidarizados com argamassa. Por esse motivo as mais importantes contribuições no sentido de desenvolvimento de tecnologias de projeto. A primeira usina da Light entrou em operação em 1901. não muito altas. As primeiras grandes barragens do País foram Cedros acima mencionada e Lajes. Até os anos cinquenta todas as empresas de energia elétrica eram privadas e as suas usinas eram situadas principalmente nas regiões Sul e Sudeste. XX e XXI geração de energia. Os danos ao progresso da Nação foram intensos e irrecuperáveis. passou a haver insuficiência de oferta de energia nas décadas seguintes. construção e operação de barragens são principalmente devidas à implantação de hidroelétricas. Em 1954 a antiga usina foi substituída por unidades de recalque e a barragem alteada para 18. Em 1934 o decreto federal nº 24643 conhecido como Código de Águas e o cancelamento da cláusula ouro que protegia as empresas concessionárias dos efeitos da desvalorização da moeda nacional. No final do Século XIX começaram a ser implantadas pequenas usinas para suprimento de cargas modestas e localizadas. sendo. o vertedouro foi redimensionado com considerável acréscimo de capacidade. o setor elétrico foi aos poucos sendo estatizado. todas com barragens de dimensões discretas. tinha 2 MW instalados. Desde o início dos anos cinquenta as concessionárias estatais passaram a se concentrar em empreendimentos de grandes vultos. a usina. concessionária da mais desenvolvida região do País.A História das Barragens no Brasil . um vertedouro de soleira livre. dessas unidades estão sendo agora reabilitadas e repotenciadas. sua barragem original com 12. Devido à contenção tarifária e à fragilidade do capital nacional. Presentemente (2011) há 1206 MW instalados em hidroelétricas de mais de 50 anos de idade. devido à desastrosa e desastrada política de restrição tarifária iniciada pelo Código de Águas que incluiu o não reconhecimento de remuneração de capital empregado em obras de geração. em grande parte de sua extensão. Inicialmente denominada Parnaíba e depois Edgard de Souza. em função das intensas alterações nos coeficientes hidráulicos de sua área de drenagem devido à ur banização da cidade de São Paulo e das cidades vizinhas. Arthur Casagrande e Portland Port Fox. A maior parte das barragens eram estruturas de concreto gravidade ou de alvenaria de pedra. construiu diversas barragens e grandes casas de forças subterrâneas no Rio de Janeiro e em São Paulo. a maior parte delas em aterro compactado.000 MW. na época uma das maiores do mundo. Serão bombeados 63. Assim.5 m³/s do rio São Francisco. As primeiras barragens para produção de energia elétrica Nas regiões Sul e Sudeste a implantação de barragens foi principalmente direcionada para produção de energia elétrica. Para esses empreendimentos consultores individuais prestaram importante apoio tais como Karl Terzaghi.Séculos XIX. no rio Tietê. Muitas 20 . Durante as estações chuvosas na bacia do rio São Francisco poderão ser bombeadas até 127 m³/s . Esse estrangulamento fez com que o governo federal e alguns governos estaduais criassem empresas de energia elétrica. quando inaugurada. tendo sido causado intenso estrangulamento na expansão de oferta de energia elétrica. para suprimento de energia elétrica à cidade de São Paulo. Em 1960. a Light. que entrou em operação em 1906 no estado do Rio de Janeiro com o objetivo de derivar as águas do ribeirão das Lajes para da usina de Fontes no Rio de Janeiro. passaram a desencorajar diretamente os investidores do setor elétrico. Logo após a II Guerra Mundial.5 m através de reforços em contrafortes e com vertedouro com três comportas de segmento de capacidade conjunta de 800 m³/s. a capacidade instalada no território nacional era de apenas 5. transmissão e distribuição de energia elétrica. A maioria das grandes barragens do Brasil (pela classificação da CIGB) encontra-se na Região Nordeste.

a partir dos anos sessenta. Nessa expedição foi identificado o local de Furnas 21 . sem o conhecimento dos potenciais do rio Grande e do rio Paranaíba. Nessa época. O legado da Canambra Na primeira metade do século passado. A Light. passaram a ser designados por estudos de inventário. dada a escassez de mapeamento e as dificuldades logísticas. responsável pelo Figura 4 – Barragem e reservatório de Lajes. organizou uma expedição pelo rio Grande entre dois potenciais conhecidos: os locais das usinas de Itutinga e de Peixoto. diretor técnico da Cemig. muito mais próximos. John Cotrim. efetuava estudos dispersos. tendo inclusive atingido as Sete Quedas. uma das duas grandes barragens mais antigas do Brasil (1906) suprimento de energia elétrica às mais importantes regiões no Rio de Janeiro e em São Paulo. os recursos hídricos em território brasileiro eram pouco conhecidos e não tinha havido ainda estudos sistemáticos que posteriormente.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A evolução do conhecimento dos recursos hidroenergéticos.

a Canambra foi contratada para efetuar estudo de mesmo escopo para a Região Sul.. em dezembro de 1966. Sexton. Com esse propósito. o governo federal se interessou vivamente pela iniciativa da Cemig e. a maioria esmagadora dos estudos realizados pela Canambra foi posteriormente aprofundada nas etapas sucessivas de projeto dentro das diretrizes inicialmente estabelecidas.K.E. o UNDP disponibilizou recursos da ordem de US$ 2. A descoberta desse potencial causou espanto no meio técnico da época. São Paulo. em 2 de novembro de 1962. diretor da Canambra. os estudos passaram a ser conhecidos como Canambra.700 horas de voos de reconhecimento. o que demandou aerofotografias de uma área de 516. Ao abrigo desse recurso financeiro. englobando 510 locais de barragem dos quais 264 foram levantados com melhor precisão.000 km de rios. Os dois primeiros grupos acima mencionados desenvolveram o inventário dos recursos hidroenergéticos em relatórios independentes e o grupo sediado no Rio de Janeiro usou os resultados obtidos adicionados a investigações de outras possíveis fontes geradoras. Um exemplo típico foi a revisão do inventário do rio Paraibuna em Minas Gerais que havia sido feito nos anos oitenta.000 km². Montreal Engineering Company Ltd. Foram identificados como viáveis potenciais que somados atingiram 40. A área total investigada foi de 1. para que fosse realizado o inventário dos recursos hidroenergéticos em Minas Gerais. em 3 de junho do ano seguinte. Progressivamente as condicionantes ambientais foram ganhando espaço nas definições de projetos em inventários.7 milhões. A partir de poucos anos Figura 5 – Grupo de Minas Gerais da Canambra trabalhando no escritório central da Cemig 22 . O relatório final foi entregue por J. nos anos setenta. Cemig assinou. um contrato com a Canambra Engineering Consultants. A Cemig solicitou apoio financeiro ao Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (UNDP sigla em inglês). A partir dos anos oitenta os estudos anteriores começaram a ser revisados e densificados em quase todo o território nacional. Inicialmente conhecido como ONU-Cemig. a óleo e usinas nucleares. Com a sugestão do Banco Mundial que atuou nesse inventário como agente executivo do UNDP.1 milhão de quilômetros quadrados cobrindo 28. Rio de Janeiro e Guanabara assinaram em 1 de março de 1963 o Plano de Operação. o ministro Gabriel Passos das Minas e Energia e os governadores dos estados de Minas Gerais. um em São Paulo e um no Rio de Janeiro. Crippen & Associates Ltd.A História das Barragens no Brasil . XX e XXI que posteriormente deu origem à empresa de mesmo nome. Posteriormente. a John Cotrim. tendo direcionado o desenvolvimento hidroenergético da região. um em Belo Horizonte.000 MW. Como reflexo desse levantamento veio o objetivo da Cemig de efetuar um levantamento dos recursos hidroenergéticos de Minas Gerais. e G. de estender os estudos à toda Região Sudeste considerando a importância desses estudos para a otimização dos investimentos em geração de energia elétrica e como todos os rios que nascem em Minas Gerais atravessam outros estados. havendo a contrapartida em moeda nacional no equivalente a US$ 3. um consórcio entre as empresas consultoras canadenses. Nas fases posteriores de implantação das usinas. usando 3. Três grupos foram formados. empresas nacionais realizaram estudos de inventário hidroenergéticos nas regiões Norte e Nordeste.8 milhões. Considerando o sucesso dos estudos desenvolvidos na Região Sudeste. chefe do Comitê de Direção dos Estudos.Séculos XIX. e a americana Gibbs & Hill Inc. Os estudos de inventário constituíram-se em atividade sem precedente. os estudos foram estendidos à toda a Região Sudeste através de um contrato assinado entre a Canambra e Furnas. para formatar o programa final de desenvolvimento energético da Região Sudeste. inclusive termoelétricas a carvão. Para tanto.

7a 7b Figura 7a . os empreendimentos passaram a ser econômica e ambientalmente viáveis. mostrando as dificuldades logísticas durante os levantamentos de campo efetuados pela Canambra após seu término. Foram definidos os aproveitamentos de Picada. Sobragy. Na usina que fica mais a jusante foi possível a compatibilização inédita do aproveitamento energético com a canoagem. Durante os dias de fim de semana. são liberados para a canoagem pela barragem de derivação a descarga de 50 m³/s.PCH Bonfante no rio Paraibuna. maior número de usinas com quedas mais modestas e pequenos trechos inaproveitados. foram progressivamente alterados para reservatórios de menores dimensões. Rio de Janeiro e Minas Gerais 7c Figura 7d – Rafting no rio Paraibuna sobre a soleira vertedora da barragem de derivação de Santa Fé 7d 23 . Cabuy. Apesar de pequena perda energética em relação à partição de queda proposta nos anos oitenta.PCH Monte Serrat no rio Paraibuna. Rio de Janeiro e Minas Gerais Figura 7c . tendo sido implantados a partir do início dos anos noventa. atolados na beira do rio. quase sempre objetivos antagônicos. Bonfante e Santa Fé com pequenas áreas inundadas.John Cadman fotografado por John Cabrera.PCH Santa Fé no rio Paraibuna. feriados e noites de lua cheia. Monte Serrat. os projetos que pelas exageradas dimensões de seus reservatórios inundariam centros urbanos e grandes extensões de obras de infraestrutura viária.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 6 . ideal para a prática da canoagem. garantindo melhores condições do que as condições naturais. Rio de Janeiro e Minas Gerais Figura 7b .

PCH Lavrinhas antes e depois do enchimento do reservatório. Figuras 8a e 8b – PCH Queluz antes e depois do enchimento do reservatório. construídas no rio Paraíba do Sul a montante do reservatório do Funil. em sua maioria esquemas de baixa queda para torná-los ambientalmente viáveis. assim denominadas por terem todos os equipamentos idênticos. XX e XXI Influenciada por essas alterações. Em primeiro plano a ferrovia de concessão da MRS e ao fundo a rodovia Presidente Dutra BR-116 24 . Dentre os aproveitamentos de baixa queda destacam-se as PCHs gêmeas Queluz e Lavrinhas. Essas PCHs. a ANEEL contratou a Es cola Politécnica da UFRJ em 2000 para reestudar toda a bacia do rio Paraíba do Sul com atenção especial aos impactos ambientais. com 30 MW cada. Dessa revisão dos inventários existentes resultou o projeto de mais de cinquenta novos aproveitamentos. a menos das usinas existentes ou aprovadas entre as quais o complexo de Simplício.A História das Barragens no Brasil .Séculos XIX. foram concluídas em 2011 e tiveram seus reservatórios condicionados pela infraestrutura viária do local. Em primeiro plano a ferrovia de concessão da MRS e ao fundo a ponte da rodovia Presidente Dutra BR-116 Figuras 9a e 9b .

devido ao estabelecimento do critério da verdade tarifária introduzido no início do governo Castelo Branco por Bulhões de Carvalho e Roberto Campos. resultando no que mostra a tabela a seguir. Lyra preocupado com a concepção do projeto Nos anos oitenta e noventa um menor número de hidroelétricas entraram em operação devido à carência de recursos financeiros das estatais causada principalmente pelos impactos na economia nacional devidos aos dois choques do petróleo e a crescente inflação. Benedito Dutra e outros. Todos olhando para o fotografo a menos de Flavio H. John R. mas grandes empreendimentos.Lyra. Figura 10 – Local da usina hidroelétrica de Furnas no início de sua construção. a concentração de investimentos em poucos. 25 . algumas das quais entre as maiores do mundo na época. A partir da esquerda Flavio H. continuou. um impressionante número de grandes hidroelétricas foram construídas e entraram em operação.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Alterações nos critérios tarifários e a consequente ampliação de implantação de hidroelétricas Nos anos sessenta e setenta. Cotrim. Juscelino Kubitschek de Oliveira. Entretanto.

551 SE/CO 1.050 NE 1.260 S 1.050 SE Legenda: N S SE NE CO TE ER BEFC CG CCR GA CF Região Norte Região Sul Região Sudeste Região Nordeste Região Centroeste barragem de terra barragem de enrocamento com núcleo de terra barragem de enrocamento com face de concreto barragem de concreto gravidade barragem de concreto compactado com rolo barragem de concreto em gravidade aliviada barragem de concreto em contrafortes Figura 13 – Usina hidroelétrica de Itá em final de construção 26 .710 1.216 SE 1.444 2.462 1.396 1.Séculos XIX.420 1.450 S 1.240 S SE S Marimbondo 1.676 1.162 NE 2.A História das Barragens no Brasil .082 SE/CO 1.078 S 1.000 3.440 SE 1.540 S SE/CO NE SE/CO S SE/CO TE/CG TE/CG BEFC TE/CG TE/CG TE/CG BEFC TE/ER/CG TE/CG BEFC TE/CG TE/CG ER TE/CG BEFC CCR ER ER ER TE/CG ER Figura 12 – Usina hidroelétrica de Salto Santiago no rio Iguaçu Figura 11 – Casa de força e vertedouro da usina hidroelétrica de Tucuruí GA/CG/CT/ER/TE Região Tipo de Barragem 3. XX e XXI TABELA 1 Maiores Hidroelétricas em Operação em 2011 Hidroelétrica Tucuruí Itaipu (Brasil) Ilha Solteira Xingó Paulo Afonso IV Itumbiara São Simão Foz do Areia Jupiá Porto Primavera Itá Itaparica Salto Santiago Água Vermelha Segredo Salto Caxias Furnas Emborcação Salto Osório Sobradinho Estreito Potência (MW) 8.192 SE/CO 1.479 NE 1.370 N 7.

007 50 Balbina 2. Tais reservatórios passaram a propiciar benefícios de regularização de vazões e. TABELA 2 Maiores Reservatórios Barragem Área (km²) Volume (km³) Extensão (km) 350 170 225 250 116 170 Figura 14 – Usina hidroelétrica de Sobradinho. Reservatório de maior área do Brasil Sobradinho 4. consequentemente.360 17 Porto Primavera Serra da Mesa 2.784 20 54 Itaipu* 1.214 34 Tucuruí 3. o de maior volume do Brasil 27 .350 29 *Incluindo a parte do reservatório sobre território paraguaio.250 1. otimização de operação e confiabilidade no suprimento de energia elétrica.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Extensos reservatórios foram criados para algumas dessas grandes hidroelétricas. Figura 15 – Reservatório da usina hidroelétrica de Serra da Mesa.

promovem benefícios para outras áreas. Uma grande parte do território brasileiro. de transmissão. de comercialização e outros investidores são encorajados a implantar usinas de geração e sistemas de transmissão.000 km de sistemas de transmissão interconectados em 230 kV. que atua na coordenação e no controle da operação das geradoras e dos sistemas de transmissão. tendo afetado negativamente as empresas contratadas para fornecimento de serviços e de bens de capital. alterações operacionais e licitações 28 . Em abril de 2011 a capacidade total instalada no País passou a ser de 112. Em 2008 mais de 95% da população tinha acesso a serviço público de eletricidade compreendendo mais de 99% dos municípios. Entretanto. ficando assim concessionário da usina ou do sistema de transmissão. Presentemente empresas de geração. nomeadamente em Itaipu e Tucuruí. bem como comercializar a energia produzida ou transmitida. Nos últimos 10 anos a média anual do aumento da capacidade instalada foi de 3652 MW.A História das Barragens no Brasil . Está programada para futuro próximo a interligação entre a margem sul e a margem norte do rio Amazonas. Ao final de 2008 essa proporção caiu para 74% devido ao planejamento para a diversificação de fontes geradoras e às dificuldades de obtenção de licenciamentos ambientais para barragens e reservatórios.816 MW em 1768 usinas geradoras das quais 706 eram hidroelétricas. as novas hidroelétricas. e depois em Xingó. Pouco depois foi instituída a Agência Nacional de Águas e o Operador Nacional do Sistema. 345 kV. de distribuição. a carga de impostos na geração de energia elétrica é de cerca de 45% da tarifa cheia. Considerando as funestas e intensas consequências ao País em outros empreendimentos financiados pelo Banco Mundial. Em novembro de 2008 a capacidade instalada no País era de 104. XX e XXI Desde pouco antes do início dos anos oitenta o governo federal e os governos estaduais passaram a enfrentar grandes dificuldades para prover recursos necessários para a implantação de novas usinas e de sistemas de transmissão. Há poucos anos atrás bem mais de 90% da capacidade instalada provinha de usinas hidroelétricas. A hidroeletricidade nos anos recentes Em 1996.398 MW. teoricamente privada. o que faz com que. com exceção de sistemas isolados na Região Norte. As transações de compra e venda de blocos de energia no sistema interligado de transmissão são feitas sob os auspícios do Mercado Atacadista de Energia através de contratos bi-laterais de curta duração. esta denunciou a Eletrobras ao Banco Mundial. um vasto sistema de transmissão em alta tensão e em extra alta tensão promove a interligação de várias regiões do País ao sul do rio Amazonas unindo os dois maiores sistemas nacionais: o Norte/ Nordeste ao Sul/Sudeste/Centroeste. além de suprirem energia na sua região. Nas obras federais houve intensa concentração de recursos na construção das maiores usinas. Devido ao sistema ser interligado em grande parte do território nacional. apesar do grande número das grandes usinas hidroelétricas que operam há mais de 30 anos estarem teoricamente depreciadas. perante à reiterada ameaça da Eletrobras em não cumprir o contrato de financiamento com a Cemig. é servido por mais de 90. 1042 termoelétricas e duas termonucleares. a energia elétrica disponibilizada no Brasil possa ser a mais cara do mundo devido principalmente a essa elevada carga tributária. entidade. Essas verbas correspondiam aos valores que seriam despendidos caso as obras viessem a ser paralisadas. mas tornando-se vencedor aquele que apresentasse a menor tarifa. ficando as demais obras federais sujeitas às verbas de desmobilização. Como resultado. Como esses valores eram insuficientes para manter o ritmo ideal de construção. para concessões têm sido processado pela ANEEL. Um dos casos extremos ocorreu na implantação da hidroelétrica de Emborcação que.Séculos XIX. 500 kV e 750 kV.Empresa de Pesquisa Energética) foi criada para o desenvolvimento do planejamento do setor elétrico. 440 kV. Todo o planejamento concernente a privatização. através da Lei 9427. a Eletrobras foi obrigada a cumprir o contrato. uma importante modificação ocorreu no setor elétrico com a criação da Agência Nacional de Energia Elétrica. Uma segunda alteração na legislação ocorreu em 2004 mantendo o processo de licitação para novos projetos. Uma empresa federal (EPE . essas obras ficaram sujeitas a vultosos dispêndios devido aos acréscimos de custo de construção e à maior incidência de juros durante a construção. Impostos.

a FIESP entrou com representação no TCU solicitando intervenção para que providências sejam tomadas no sentido de garantir a execução das licitações de concessão. Essas concessões. a intensa redução das tarifas que beneficiaria os contribuintes e recolocaria a competitividade da indústria nacional no mercado externo. o que. se situam no entorno de 85%. Índia e China) que se situam em R$140. um dos principais problemas é que. Rússia. entre os estados do Rio de Janeiro e Espírito Santo Figura 17 – Barragem da PCH Ivan Botelho II (Palestina) em Minas Gerais 29 . 134% superior à média das tarifas industriais nos outros países do BRIC (Brasil. Desde a última década do século XX. por exemplo. Em abril de 2011 as grandes concessionárias como CESP. Entretanto. As atuais concessionárias terão que se adaptar à nova realidade. As hidroelétricas a serem licitadas já estarão totalmente depreciadas. no caso de Furnas. Figura 16 . além de ativos em sistemas de transmissão. poderá perder até 52% do seu atual faturamento caso as concessões que vencem no período acima mencionado. considera que com as licitações as tarifas despencarão a níveis de 20% dos atuais.7/MWh. compreendem a 5000 MW em seis usinas. pois os investimentos na construção das usinas e nos sistemas de transmissão já foram amortizados há muito tempo. Presentemente (meados de 2011) a tarifa média para a indústria no Brasil é de R$ 329/MWh. Tem havido por parte das atuais concessionárias e de governos estaduais. pelo espírito da Lei. A esmagadora maioria dessas pequenas usinas tem modestos reservatórios.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens taxas e contribuições mandatórias em uma conta de consumo de energia elétrica em residência de classe média quando comparada ao custo direto da energia fornecida.PCH Calheiros 19 MW no rio Itabapoana.000 km de linhas de transmissão e 33% dos contratos de distribuição deverão ter suas concessões licitadas. Furnas. Pela legislação em vigor essas concessões retornarão à União que deverá efetuar licitações para definição de novos concessionários. não venham a ser renovadas. Em estudo recente a FIRJAN considerou críticos os níveis dos quatorze encargos cobrados sobre a energia elétrica. deverá fazer com que as tarifas venham a ser consideravelmente reduzidas. intenso lobby para a manutenção das atuais concessões. Por outro lado a FIESP defende que a legislação não venha ser alterada ou violentada e que as licitações sejam feitas. vertedouros de superfície em lâmina livre e casas de força em posição remota em relação às barragens. um grande número de investidores têm atuado na implementação de pequenas centrais hidroelétricas até o limite de 30 MW instalados. Prevê-se que em 2015 cerca de 20% do parque gerador. 70. CEMIG e COPEL formaram um grupo para discutir o problema e tentar influenciar uma alteração na legislação visando prorrogações das concessões. Entre 2015 e 2017 muitas das concessões das maiores hidroelétricas e dos sistemas de transmissão estarão vencidas. com o elevadíssimo nível dos encargos sobre o fornecimento da energia elétrica. Para tanto. pequenas barragens. faria com que o governo perdesse arrecadação o que não costuma ser aceito pelos políticos da situação.

10 km²/MW) e Serra da Mesa (1. cerca de 30 . no Pará. no seu conjunto. Encontra-se em início de construção a hidroelétrica de Belo 18 – PCH Cachoeira em Rondônia. a usina aproveitará a queda na grande curva do Xingu. Localizada nas proximidades de Altamira.40 km²/MW) embora com relações modestas. apresentam índices mais elevados. Esse aproveitamento está sendo estudado há trinta anos. Itaipu (0. A hidroelétrica de Belo Monte terá baixa relação entre a área do reservatório e a capacidade instalada: 0. Entretanto. teve seu projeto abandonado e a área do reservatório de Belo Monte que inicialmente era de 1225 km².29 km²/MW).08.49 km²/MW.233 MW no rio Xingu. que fluirão pela casa de força complementar. Outras grandes hidroelétricas como Tucuruí (0.Séculos XIX.5 m de queda líquida e outra. menores custos internos. situadas no rio Madeira a montante de Porto Velho terão. denominada casa de força complementar.000 MW com unidades Francis sob 87. Os vertedouros dessas duas barragens foram dimensionados para as descargas decamilenares de 82. serão implantadas duas casas de força.000 m³/s.A História das Barragens no Brasil .5 m de queda líquida. em relação às empresas estatais. O empreendimento afetará 4300 famílias urbanas e 800 famílias rurais. um dos maiores tributários do rio Amazonas.600 m³/s e 84. O rio Madeira drena uma extensa área da Cordilheira dos Andes na Bolívia. a relação entre área inundada em km² e a capacidade instalada em MW é de cerca de 0.2 m. extremamente baixa em comparação com a média nacional. A ausência de reservatórios de regularização no rio Xingu faz com que o fator de capacidade seja muito baixo. inundarão terrenos da Floresta Amazônica. Os reservatórios com área de 258 km² e 271. uma com 11. com 233 MW com unidades bulbo sob 11. Pelo projeto em processo de licenciamento. sendo cada um equipado com 20 comportas de segmento de 20 m x 25. a barragem de Babaquara que regularizaria o rio Xingu a montante de Belo Monte. 700 m³/s. A média nacional é de 0. As hidroelétricas de Jirau e Santo Antônio.3 km². Ambas casas de força abrigarão unidades bulbo operando praticamente a fio d’água. pequena estrutura (barragem) de derivação Hidroelétricas de porte médio são também atraentes a investidores privados por apresentarem. XX e XXI 6900 MW instalados.05 km²/MW. Por restrições ambientais e com a finalidade de se conseguir o licenciamento ambiental. passou para 516 km². Figura 19 – Usina hidroelétrica de Monjolinho com vertedouro do tipo lateral Grandes hidroelétricas estão presentemente sendo construídas. A descarg a remanescente é a maior que se tem notícia. Monte que terá a capacidade instalada de 11.

Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 20 – Usina hidroelétrica de Santa Clara em Minas Gerais Figura 21 – Barragem vertedoura da hidroelétrica de Picada em Minas Gerais Figura 22 – Obras da usina hidroelétrica de Santo Antônio no rio Madeira 31 .

para a obtenção da concessão. XX e XXI A hidroelétrica de Estreito.4 MW e. e montar uma fábrica de alumínio. projetada para 1087 MW instalados encontra-se (maio de 2011) em início de operação comercial após quatro anos de atrasos devido a demoras no licenciamento ambiental e a paralisações referentes a ações judiciais e a atos de ocupação indevida de seu canteiro de obra. A concessão só foi outorgada em 1952. também situada na Amazônia. A auto-produção de energia elétrica tem movimentado em anos recentes várias empresas de grande vulto como a Vale. Figura 23 – Barragem da usina hidroelétrica de Barra no rio Juquiá. em 1963 Fumaça com 36. em 1974. a CSN. No início dos anos quarenta a família Carvalho Dias e o empresário. a CBA partiu para o médio rio Paranapanema. Em conversa com o autor. em 1978 Serraria com 24 MW. a Petrobrás.4 MW. Em 1942 o DNAEE determinou que a São Paulo Light suprisse de energia elétrica a fábrica que estava projetada para ser construída no município de Mairinque. Nesse período. a CBA adquiriu da São Paulo Light a hidroelétrica de Itupararanga com 55 MW. em 1986 Barra com 40. Como a São Paulo Light não dispunha de energia para garantir o fornecimento à CBA. Afirmou ainda que considerava estratégico ter a garantia de produção de pelo menos 50% da energia necessária à sua indústria. em 1974 Alecrim com 72 MW. em 1989 Iporanga com 36. esta requereu a concessão do rio Juquiá-Guaçu e do seu afluente Assungi. Um exemplo marcante é a Companhia Brasileira de Alumínio CBA que por longo período foi o maior auto-produtor de energia elétrica do País. sendo um empreendedor privado. em 1982 Porto Raso com 28. SP. tendo construído as hidroelétricas de Piraju com 80 MW que entrou em operação em 2002 e Ourinhos em operação desde 2006. Com os principais potenciais do rio Juquiá-Guaçu explorados.87 MW. finalmente. MG. engenheiro e político José Ermírio de Moraes fundaram a CBA para exploração da jazida de bauxita que havia sido identificada nas terras dos Carvalho Dias nas proximidades de Poços de Caldas. indústria eletrointensiva.4 MW. em São Paulo 32 .Séculos XIX.A História das Barragens no Brasil . o engenheiro Antônio Ermírio de Moraes externou as dificuldades que encontrou. Assim. a CBA deu início à implantação de uma série de usinas no rio Juquiá-Guaçu: em 1958 entrou em operação a hidroelétrica de França com 24 MW. a Votorantim e muitas outras.

Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 24 . em São Paulo Figura 25 – Projeto da barragem da usina hidroelétrica de Barra Figura 26 – Projeto da barragem da usina hidroelétrica de Fumaça 33 . no rio Juquiá.Barragem da usina hidroelétrica de Fumaça.

Devido à legislação ambiental.Séculos XIX. detentor da CBA Figura 28 . que atualmente (maio de 2011) está com 155 m de altura é projetada para atingir 170 m de altura no seu estágio final. Embora não haja um registro de barragens de rejeitos no País.Usina hidroelétrica de Piraju no rio Paranapanema entre São Paulo e Paraná 34 . a maior do País. XX e XXI Os projetos das hidroelétricas da CBA no rio Juquiá-Guaçu foram todos de concepção italiana. um grande número de barragens de rejeitos foram construídas ou estão presentemente em construção. Barragens de rejeitos Atividades de mineração representam um importante segmento na economia nacional. o executivo da empresa era o médico Miguel Carvalho Dias que contava com a importante colaboração de vários engenheiros de destaque na profissão entre eles Carlos Mazzaro. A barragem do Germano. Newton Sady Busetti. são conhecidas mais de 700 barragens em Minas Gerais e pelo menos 150 outras nos demais estados da Federação. Edilberto Maurer e Valério Mortara para o qual o autor teve o privilégio de entregar o título de engenheiro eminente pela Associação dos Antigos Alunos da Politécnica em 2000. O método de construção mais empregado é o método de monFigura 27 – Antônio Ermirio de Moraes principal executivo do Grupo Votorantim.A História das Barragens no Brasil . Além do acompanhamento constante do engenheiro Antônio Ermírio de Moraes. com barragens de concreto de gravidade aliviada.

da barragem de Pampulha em que criou um belo espelho d’água na cidade de Belo Horizonte. em 1958. água esta que tem que ser tratada. polders e drenagens. Os dois mais destacados empreendimentos foram o sistema de controle de cheias do rio Itajaí em Santa Catarina. O critério de projeto que em geral era adotado objetivava o controle das cheias de período de recorrência de 100 anos ou a maior cheia que tivesse sido registrada. 35 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens tante. Nesse grupo de rios se encontram todo o rio Amazonas. Presentemente estados e prefeituras que. em geral. órgão do Ministério do Interior. algumas pequenas barragens foram construídas no coração de outras cidades para criação de lagos artificiais como elemento paisagístico. Severas consequências em grande área alagada no baixo vale do Itajaí compreenderam impressionantes perdas de propriedades. Vias navegáveis A navegação interior permanece sendo o método de transporte mais usual na Região Amazônica onde há longos e caudalosos rios que podem ser usados ao longo do ano todo. Entretanto. Em 1990 as atividades desse Departamento foram abruptamente encerradas e o Departamento extinto. no Nordeste. o Departamento Nacional de Saneamento. que compreende três barragens de terra. que inclui três barragens que são somente usadas para controlar as descargas afluentes. o método de jusante é empregado. As barragens foram construídas principalmente com o objetivo de evitar cheias em áreas populosas. O maior e mais famoso desses lagos artificiais é o reservatório de Paranoá. com três filtros chaminé internos. na capital federal. As duas principais bacias com eclusas instaladas em hidroelétricas são as dos rios Tietê e Paraná. bem como extensos trechos inferiores dos seus afluentes. Foi adotada uma barragem de terra e enrocamento compactados. o sistema de proteção de cheias da cidade de Recife em Pernambuco.Eclusas da barragem de Três Irmãos sobre o rio Tietê Paisagismo Desde a construção. Figura 29 . Um projeto não usual foi adotado para a disposição de rejeitos em mina de urânio em Poços de Caldas. para rejeitos finos a muito finos como na mineração de ouro. Nas outras regiões. o talude de jusante da barragem foi projetado para ser coberto com uma face de concreto. principalmente nos trechos sobre terrenos sedimentares recentes. para ser construída em três fases. não são capacitados técnica e financeiramente. os poucos empreendimentos de navegação interior existentes são em geral anexos a hidroelétricas. Durante a estação chuvosa de 2009 uma grande cheia ocorreu na bacia do rio Itajaí e as três barragens não foram suficientes para controlar toda a descarga afluente. Controle de cheias Por muitos anos desde 1944. Nos primeiros anos dos anos noventa diversas barragens que antes eram controladas pelo DNOS ficaram sem qualquer controle e sem responsável pela operação e segurança. seus formadores os rios Solimões e Negro. Para impedir que a água de chuva se misturasse com a água percolada pelo maciço da barragem e pela sua fundação. em São Paulo e do São Francisco. têm de enfrentar por conta própria os problemas de controle de cheias. foi ativo em empreendimentos de controle de cheias envolvendo a construção de barragens.

Merece menção a barragem do Ribeirão João Leite. aproveitamento de finalidades múltiplas 36 . descarga essa que corresponde a 90% de permanência.50 m de altura e alas de terra faz parte da publicação do CBDB Main Brazilian Dams III.5 m de altura e vertedouro de soleira livre sobre a barragem. Esse sistema foi construído nos anos setenta e compreende sete grandes barragens de terra. Um sistema que merece menção é o sistema para o abastecimento d’água da cidade de Fortaleza.Barragem de Pindobaçu na Bahia.   Figura 31 . Os dois maiores sistemas do Rio de Janeiro aproveitam as barragens da Light construídas entre o início do século (sistema Lajes). O artigo técnico sobre o projeto e a construção desta barragem de CCR com 53. a qual é destinada ao abastecimento de água da cidade de Goiânia. O mais destacado desses sistemas é o sistema de Cantareira para abastecimento de água da grande São Paulo e cidades do vale do Piracicaba. e as barragens do sistema de derivação dos rios Piraí e Paraíba do Sul (sistema PPD).46 bilhões de metros cúbicos de água sob uma superfície de 325 km² no nível d’água máximo normal. O sistema necessitou da construção de 256 km de canais para suprimento de 22 m³/s para a cidade e para projetos de irrigação. O mais recente Figura 30 – Barragem do Ribeirão João Leite para o abastecimento d’água da cidade de Goiânia empreendimento de vulto para abastecimento de água é a barragem João Leite construida em concreto compactado com rolo. concluída em 1999 com 72 m de altura.A História das Barragens no Brasil . XX e XXI Obras de abastecimento de água Barragens têm sido construídas como parte de sistema de abastecimento de água para zonas urbanas e industriais. concluida em 2009.33 m³/s de reforço ao abastecimento das principais cidades do estado de Goiás. sete túneis escavados em rochas gnaíssicas e graníticas numa extensão total de 29 km e uma grande estação de recalque subterrânea com capacidade de 33 m³/s. com 53. com captações em barragens no rio das Velhas e no rio Manso. A barragem possibilita o acréscimo de 5. represando 4.Séculos XIX. Outro sistema importante é o de Belo Horizonte compreendendo obras hidráulicas de vulto. O sistema inclui a barragem de terra do Castanhão com trecho em concreto compactado com rolo.

Finalidades múltiplas Barragens com finalidades múltiplas eram raras no cenário nacional devido à estanqueidade dos órgãos federais e estaduais na definição dos empreendimentos hidráulicos. do vertedouro e do reservatório. Serão necessários investimentos de R$ 22 bilhões para garantir a oferta de água de qualidade adequada até o ano de 2025. entretanto. o governo Juscelino Kubitschek foi forçado a definir recursos federais para a implantação da barragem. se concentra na coleta e tratamento de esgoto uma vez que são poucas as cidades que dispõem de estações com capacidade de tratamento de porcentagens consideráveis dos esgotos coletados. um estudo recentemente concluído pela Agência Nacional de Águas revelou que a situação do abastecimento de água em 55% dos 5565 municípios brasileiros está se agravando e deverá estar insuficiente em 2015. O primeiro gran de exemplo de barragem implantada com finalidades múltiplas foi Três Marias com objetivos de regularização do rio São Francisco. Figura 32 . Dessa forma. A esmagadora maioria dos esgotos é lançada em corpos d’água (rios. enquanto a Cemig arcou com a casa de força. aproveitamento para irrigação e abastecimento de água 37 . premido por necessidade de iniciar as obras de Três Marias e de Furnas. beneficiamento à navegação interior e geração de energia elétrica. O maior problema da área de saneamento básico. lagos e oceano) sem tratamento.Barragem de Mirorós na Bahia. Esse estudo da Agência prevê a necessidade de investimentos superiores a R$ 50 bilhões até 2025 tendo em vista o precário estado dos sistemas de esgoto sanitário de quase todos os municípios brasileiros.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Entretanto.

tão dependente de apoio estrangeiro na primeira metade do século XX. Santo Antonio. Estreito e Belo Monte. construção e operação de barragens. XX e XXI Outro exemplo é a barragem de Pedra do Cavalo na Bahia que contribui para o controle de cheias. o abastecimento de água. Durante esses anos muitas empresas brasileiras desenvolveram com sucesso atividades no exterior em países de todos os continentes. Neste mesmo período diversas fábricas de equipamentos mecânicos. a engenharia brasileira voltou a ter um mercado interno robusto com alguns dos maiores projetos do mundo atual tais como as hidroelétricas de Jirau. Depois de passado esse período. elétricos e eletrônicos se estabeleceram no País e têm suprido a demanda interna e exportado equipamentos para diversos outros países. A evolução dos segmentos de bens de capital e de prestação de serviços Toda essa atividade em projeto. além de diversas hidroelétricas de pequeno e médio porte. Nos últimos 20 anos do século passado o País atravessou um período de severa estagnação econômica quando vinte empreendimentos com barragens do setor elétrico tiveram sua construção suspensa por falta de recursos financeiros. geração de energia elétrica e possibilitam o abastecimento do Grande Rio de Janeiro. controle de cheias. a produção de energia.A História das Barragens no Brasil . Santa Branca. a se tornar uma das líderes mundiais nesse setor. a engenharia brasileira. Importantes empreendimentos de finalidades múltiplas são as barragens do alto e médio rio Paraíba do Sul. Jaguari e Funil que contribuem para a regularização de descargas. a regularização e a irrigação.Séculos XIX. Paraibuna. incentivou Figura 33b – Barragem e casa de força de Paraibuna Figura 33a – Barragem de Paraitinga no final de sua construção Reservatórios interligados de Paraibuna e Paraitinga Figura 33c – Diques durante o primeiro enchimento do reservatório 38 . bem como em fabricação e montagem de equipamentos. Muitas empresas brasileiras de projeto e construção se expandiram durante a segunda metade do século XX e presentemente ocupam relevante posição no cenário internacional. Paraitinga.

no início do Século XX. no rio Paraná. Figura 34 . Paulo Afonso I. essa experiência organizacional para Furnas. foram se formando importantes e bem estruturadas empresas consultoras nacionais que passaram a atuar nas linhas de frente dos grandes empreendimentos hidroelétricos dessas duas empresas concessionárias. foram feitos no canteiro de obra por equipe nacional com influência de alguns engenheiros estrangeiros recrutados como imigrantes após o término da Segunda Grande Guerra Mundial e de outros que trouxeram marcante influência francesa. tanto no DNOCS quanto na CHESF. por bacias hidrográficas. incentivou os consultores independentes das barragens do rio Pardo a formar uma empresa que pudesse desenvolver a contento o projeto da hidroelétrica de Jupiá. em seguida. nesses dois casos. Nota-se que os projetos do DNOCS eram feitos na sua sede no Rio de Janeiro antes da mudança para Fortaleza. os projetos da Light e da AMFORP eram nitidamente comandados. especialmente o engenheiro José Gelazio da Rocha. com influência de eventuais consultores provenientes do U.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A organização da AMFORP veio influenciar na organização da CEMIG. Tanto a CEMIG quanto Furnas tiveram seus primeiros grandes projetos elaborados por empresas consultoras americanas. Aos poucos. a equipe do contratante. Bureau of Reclamation. havia predominância da engenharia nacional com grandes contingentes de engenheiros formados em nossas escolas. a força de trabalho e a responsabilidade técnica eram essencialmente nacionais. mesmo que inicialmente carentes de experiência. portuguesa e italiana. de dimensões inusitadas para a época. Em São Paulo. No Nordeste. através do engenheiro John Cotrim que também trouxe.John Reginald Cotrim jovem na EBASCO 1942-44 39 . Entretanto. em Minas Gerais. alemã. Na Região Sudeste. por americanos. Quando finalmente foi enfrentado um projeto de grandes proporções.Barragem de finalidades múltiplas de Funil O desenvolvimento e o desmonte da engenharia consultiva Os estudos e projetos de barragens no País tiveram duas origens distintas. Figura 35 .S. Outras empresas do setor elétrico contavam com projetos desenvolvidos por consultoras suíça. principalmente na sua primeira hidroelétrica. o governo estadual orientava os projetos dos anos cinquenta para empresas brasileiras ou para um conjunto de consultores individuais. Os projetos da CHESF.

com a adição do seu lucro em função do trabalho efetivamente desenvolvido. na época o general Figueiredo. Nessa época as empresas de projeto assumiam crescentes responsabilidades em um grande número de projetos de envergadura. tornou o contrabandista um herói nacional. Quase todo esse desenvolvimento era calcado em contratos cost plus com empresas estatais do setor elétrico. também já contavam com expressivo contingente de engenheiros brasileiros. esse tipo de contrato veio causar o desmanche das empresas consultoras na década seguinte. Por outro lado. teto este que era o salário direto nominal do Presidente da República. Essa modalidade conFigura 37 . Dessa forma praticamente não havia necessidade de capital de giro. As consultoras a cada mês recebiam antecipadamente de acordo com a programação aprovada e prestava conta ao final de cada mês. principalmente no setor elétrico. na Bahia Figura 36 . a inflação não era sentida e o risco de inadimplência era muito reduzido.ABCE analisava cada contratação de consultoria externa para detectar se havia similar nacional. as consultoras brasileiras tinham como obstáculo a lei da informática que prejudicou sobremodo o desenvolvimento da produção de projetos e. XX e XXI As hidroelétricas projetadas pelo DNOS no Sul e na Bahia. conseguida durante o governo de Costa e Silva. Esse desenvolvimento acelerado foi em parte condicionado por lei de proteção ao mercado de consultoria e projeto. Como o salário direto nominal do Presidente não era muito elevado.Usina hidroelétrica de Itapebí no rio Jequitinhonha. A Associação Brasileira de Consultores de Engenharia . Dessa forma passou a haver elevada segurança contratual mesmo em regime inflacionário que se acentuou a partir do governo JK. Nos anos setenta quase dez consultoras brasileiras figuravam entre as maiores do mundo.A História das Barragens no Brasil . de acordo com o então senador Roberto Campos. Entretanto. os salários nas estatais passaram 40 . Em 1979 foi instituído o teto salarial nas empresas estatais. Essa lei só foi cancelada sem alarde e sem anúncio no governo Sarney para os projetos do programa de irrigação de um milhão de hectares. os encargos sociais e as despesas diretas.Usina hidroelétrica de Volta Grande no rio Grande tratual foi introduzida pelas empresas americanas de consultoria na segunda metade dos anos cinquenta.Séculos XIX. Os anos setenta se caracterizaram por um enorme desenvolvimento da consultoria brasileira. Por esse tipo de contrato a consultora era remunerada pelo custo do serviço baseado nos salários de suas equipes técnicas multiplicados por um fator que representava os impostos.

Por terem salários achatados. tendo chegado a um pico de mais de 80% ao mês e ao impressionante e quase inacreditável. corroídos por uma inflação galopante. As consultoras tinham que recolher impostos por serviços que não eram pagos ou que seriam pagos meses depois. esses multiplicadores haviam sido estabelecidos nos anos cinquenta quando a inflação antes do governo Juscelino ainda era muito baixa. ou seja. nos contratos pelo custo. algumas foram reduzidas a níveis pequenos e várias fecharam. as consultoras passaram a sofrer pressões dos dois lados: as suas equipes demandando reajustes salariais corretos e os clientes não aprovando esses reajustes nos contratos. em várias ocasiões por mais de cinco meses. As consultoras. mesmo que não venha haver pagamento. Daquelas grandes empresas de consultoria de engenharia que figuravam como das maiores do mundo. Algumas dessas empresas foram gradativamente crescendo e hoje já apresentam grande número de profissionais engajados. não mais foram de remuneração pelo custo. Os contratos. No advento do governo Sarney houve um dos muitos planos heterodoxos no qual teoricamente a inflação seria nula. entretanto. sobreveio. Foram criados os “fiscais do Sarney” que acusavam às autoridades eventuais aumentos de preços. O equilíbrio financeiro dos contratos das consultoras foi rapidamente corroído. através da Associação Brasileira de Consultores de Engenharia . além do correto reajustamento. Essas outras empresas passaram a atrasar sistematicamente o pagamento das faturas. nos anos oitenta. o governo federal desovou empresas nos programas de privatização ganhando dos dois lados. pois valiam no mercado apenas uma pequena fração de seu valor de face. Nessas empresas uma posição de clarividência foi assumida pelo engenheiro João Alberto Bandeira de Mello que atuava na Eletrobras e que propunha que. é que uma correção parcial foi admitida nos contratos. houvesse também o justo reembolso dos elevados juros que as consultoras já estavam pagando ao sistema financeiro. pleiteavam incessantemente fórmulas de reajustes sem encontrar eco em muitas das empresas contratantes. Finalmente. já com as consultoras descapitalizadas e endividadas.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens a ser achatados. as consultoras foram chamadas para receber parte de alguns atrasados pagos em títulos que eram chamados de moeda podre. índice de 13 trilhões e 342 bilhões por cento no período de apenas quinze anos que antecederam ao Plano Real. os seus técnicos não podiam acumular horas trabalhadas para somente faturá-las quando houvesse recursos nas caixas das contratantes. Incrivelmente neste País os impostos incidem no ato do faturamento. algumas delas atuando em segmentos específicos. A letra desse tipo de contrato pelo custo significava que deveria haver reembolso pelos acréscimos de custos devido à inflação. para os que não vivenciaram.” Mas outros profissionais se reuniram em pequenas empresas. mesmo assim quando e só quando eram usados nos programas de privatização. os faturamentos tinham que ser mensais. principalmente das federais. Entretanto. os funcionários das estatais federais contratantes de serviços de consultoria passaram a não aprovar nos contratos reajustes salariais dos empregados das empresas contratadas. Dessa forma. Como para as consultoras. As contratantes do setor elétricos viraram “fiscais do Sarney” e unilateralmente abateram os multiplicadores dos contratos alegando que a partir daquele instante não mais haveria inflação. Adicionando a esses aspectos deletérios.ABCE. Essa proposição sequer foi considerada e só após muito tempo. em geral cerca de 25%. devido a essa experiência desastrosa. mesmo assim após 45 dias da entrega da respectiva fatura. no auge da crise das contratantes estatais federais. até 75 dias da execução dos serviços. a crise financeira das estatais. presentemente a esmagadora maioria dos contratos por prestação de serviços de consultoria 41 . Como a inflação era intensa. A inflação se intensificava a cada período. nomeadamente as que não tinham grandes gerações de energia como era o caso da Light e de FURNAS. tendo originado forte desemprego no ramo da engenharia e tendo sido criado o termo “o engenheiro que virou suco.

Usina hidroelétrica de Xingó no rio São Francisco Figura 39 – Usina hidroelétrica de Furnas logo após o enchimento do reservatório Da mesma maneira. A partir dessa época.A História das Barragens no Brasil . assumiram a condução das construções. a CHESF construiu com equipe própria suas barragens e usinas. em altura da barragem e em potência dos seus equipamentos de geração. A partir dos anos oitenta as consultoras menos atingidas pelos impactos acima relatados voltaram-se para o mercado externo com o objetivo de substituir os contratos nacionais. O desenvolvimento das empresas de construção Semelhantemente ao que ocorreu nas atividades de estudos e projetos. empresas estrangeiras foram contratadas para executar as obras civis. Entretanto. XX e XXI é por preço fixo. apenas em algumas poucas barragens consideradas de grande vulto na época. 42 . seja o DNOCS ou a CHESF. tendo socorrido os empreiteiros principais na elevação rápida do núcleo da barragem de Furnas. o que transfere para a consultora um risco que deveria ser do empreendedor. todas com construções compreendidas do início até meados do século passado. Furnas contratou para a usina que deu nome à empresa. Figura 38 . a construção de barragens no Nordeste foi efetivada principalmente com equipes do próprio empreendedor. foram implantadas por empresas privadas de construção. na época uma das maiores do mundo em capacidade instalada. estas passaram a ser contratadas para todas as demais obras. ainda nos anos cinquenta. No Sudeste as construtoras estrangeiras foram utilizadas pela Light e pela AMFORP em suas hidroelétricas que são mais antigas. Com a experiência adquirida essa empresa assim como outras que se capacitaram. dado o desenvolvimento das construtoras nacionais. No caso do DNOCS. A partir de sua fundação até a conclusão da hidroelétrica de Moxotó. já nas obras seguintes. outra empresa brasileira com experiência restrita à construção de estradas foi contratada para erguer a barragem auxiliar de Pium-I. as obras mais recentes que datam do final do século passado.Séculos XIX. O DNOCS construiu mais de duas centenas de grandes barragens com recursos humanos e equipamentos próprios. uma construtora britânica associada a uma empreiteira brasileira. Para essa usina. Algumas empresas tiveram sucesso e hoje estão presentes em vários continentes.

Furnas.Usina hidroelétrica de São Simão ção de pequenas e médias centrais hidroelétricas que ocorreu nas duas últimas décadas. assumiu usinas de portes pequeno e médio que vinham sendo implantadas por empresas nacionais. todas elas tendo tido seus cronogramas de implantação constantemente refeitos e suas obras se arrastado por duas a três décadas. partindo com muito sucesso para empreendimentos no exterior. fez com que surgisse considerável número de novas construtoras no País. as empresas construtoras têm atuado com intensidade semelhante à do passado. substituiu a empresa construtora da barragem principal por uma empresa dinamarquesa. As grandes empresas brasileiras atravessaram a recessão econômica e a desaceleração das obras no País nas décadas de oitenta e noventa. foi construída por empreiteira americana. Perspectivas para o futuro As dificuldades no licenciamento ambiental e as incertezas que sempre rondam os processos de aprovação de projetos hidroelétricos têm causado impressionante perda na matriz energética limpa que costumava orgulhar o País. ao assumir a responsabilidade da construção da usina do Funil. Na margem esquerda o vertedouro complementar. hoje de controle nacional. concluída em 1956. nos anos setenta. foi delegada a uma empresa italiana. A CEMIG. empresas brasileiras passaram a ser contratadas à exceção da hidroelétrica de São Simão que.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 40 . Com a intensificação dos investimentos em obras hidráulicas no País. a usina de Três Marias. mas posteriormente. São muitas novas centrais geradoras termoelétricas poluidoras. inclusive as térmicas a óleo e a carvão. Essas usinas têm sofrido das indecisões políticas. encarregada da implantação da barragem em abóbada de Funil. 43 . ao ser instituída. Há duas usinas nucleares em operação e uma em construção. Sua primeira grande obra. após acirrada concorrência internacional. entretanto de muito mais fácil licenciamento ambiental e aprovação na ANEEL. construído em 2002 A CHEVAP. A ampla dissemina- Figura 41 .Barragem da usina hidroelétrica de Mascarenhas de Moraes. contratou uma empresa nacional para a barragem principal e outra empresa nacional para a barragem de terra de Nhangapi. antiga Peixoto. na época a segunda maior barragem desse tipo no País.

44 . sendo pouco mais de um décimo do americano. A falta de um órgão de âmbito nacional para controlar e implementar obras hidráulicas com esse objetivo é imperioso já que os cursos d’água são em geral intermunicipais e mesmo inter estaduais. Entretanto. de energia. O setor elétrico através do ONS despacha algumas hidroelétricas levando em conta o controle de cheias. contribuem para a elevação de prazos e de custos já que os juros reais no Brasil permanecem há décadas como o mais elevado do mundo. nucleares e hidroelétricas a fio d’água. devidas à ação de vândalos em canteiros de obra e ao Ministério Público que questiona licenças ambientais. O acréscimo de capacidade de geração em empreendimentos sem possibilidade de armazenamento de energia. hoje em 6. Considerando a relativa fragilidade dos sistemas de transmissão e as crescentes demandas na ponta de carga. passando dos 456. No passado recente (2000 a 2011) tem sido registrado impressionante número de apagões. tais como usinas eólicas. XX e XXI onerando sobremaneira os seus custos pela forte incidência dos juros sobre os capitais investidos durante as suas prolongadas construções. Estima-se que o consumo total de energia elétrica no País evolua em média com acréscimos de 4. há imperiosa necessidade de se ultrapassar as resistências dos que se dizem ambientalistas e se voltar à implantação de hidroelétricas com grandes volumes úteis de reservatório para se recuperar a capacidade de regularização de vazões e. associado às interrupções provenientes de ações judiciais ou do Ministério Público ocorrendo na maior hidroelétrica em construção. com 2. consequentemente. Angra II que levou 24 anos em construção. a Hungria. As perdas de energia elétrica no sistema interligado e nos sistemas de distribuição atingem em 2011 cifras elevadas. o que é no mínimo inusitado: o único licenciamento obtido até agora (maio de 2011) foi concedido em janeiro de 2011 para instalação do canteiro de obra. O controle de cheias permanece nebuloso no futuro próximo. por atravessar uma sucessão de importantes cidades de médio porte e servir de abastecimento de água a grandes núcleos urbanos. entre 15% e 17% da geração. O consumo médio residencial deverá passar dos 154 kWh/mês em 2010 para 191 kWh/mês em 2020. O exemplo mais nítido são as hidroelétricas do vale do rio Paraíba do Sul cujo rio principal.8% ao ano. até no nível ministerial. Isso. vários dos quais abrangendo extensas regiões densamente habitadas. o máximo histórico de 180 kWh/mês registrado antes do racionamento de 2001 só deverá ser ultrapassado em 2017. Eventuais paralisações. prevê-se a continuidade e mesmo o agravamento dessa situação.5 TWh verificados em 2010 para 730 TWh em 2020.Séculos XIX. pode operar até hoje (maio de 2010) há mais de uma década sem licenciamento ambiental e sem licenciamento da CNEN. tem uma regra operativa que privilegia a regularização de vazões e o controle de cheias.A História das Barragens no Brasil . verifica-se também que o consumo domiciliar médio no Brasil ainda é muito inferior ao de países desenvolvidos. Tendo em vista esse desafio. O atual modelo do setor elétrico contribui para essas dificuldades por não contemplar qualquer remuneração para a regularização de descargas que beneficiem a operação do sistema interligado.8% a. Além de serem esperados acréscimos de consumo devido ao desenvolvimento industrial. Parcela expressiva dessa perda vem de ligações ilegais.. térmicas. Entretanto. as classes dirigentes têm pressionado licenciamen tos ambientais de grandes centrais geradoras como ocorreu nas duas usinas em construção no rio Madeira e presentemente na hidroelétrica de Belo Monte cujo licenciamento está sendo obtido por etapas.4% a. quase três vezes superior ao do segundo colocado.a.a. sinalizam para dificuldades de atendimento de demanda na ponta em diversos centros de carga no País. Pelo atual planejamento energético o País enfrenta a necessidade de instalação de cerca de 5000 MW/ano. Para o bem da economia e do meio ambiente. e pouco inferior ao verificado na Rússia e na África do Sul. Embates entre membros do governo e do licenciamento ambiental têm provocado demissões em vários níveis. comprova a incerteza dos empreendedores em assumir tais riscos.

brasileiros e estrangeiros. Othelo Machado e Casemiro Munarski (Foto do Acervo Paulo Chamecki) 45 .A partir da esquerda os consultores da São Paulo Light: Samuel Chamecky. participam de juntas de consultores. tramita no Congresso um projeto de lei que obriga os investidores em hidroelétricas de implantar sistemas de navegação onde possível. Karl Terzaghi. As deficiências previstas no curto prazo para o abastecimento da crescente demanda por água nas cidades e distritos industriais. As constantes e recentes valorizações das commodities no mercado internacional indicam para o futuro a permanência das atividades em mineração e. aduções e tratamentos de água. Consolidando essa deformação brasileira. engenheiros e geólogos consultores de grande projeção na profissão. onerando sobremaneira as futuras captações. incluindo a captação de água de baixa qualidade a grandes distâncias (médio Tietê para São Paulo e sub-médio Paraíba do Sul para o Rio de Janeiro). vindo como sub-produto a geração de energia elétrica. têm feito com que planejadores do setor considerem alternativas dispendiosas. Homenagem aos membros de juntas de consultores Durante o projeto e construção das mais importantes barragens brasileiras. Arthur Casagrande e Figura 42 . por exemplo. da construção de barragens de rejeitos cada vez maiores e mais frequentes. Depois de Karl Terzaghi. consequentemente. onerando ainda mais as novas usinas hidroelétricas.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Historicamente a implantação de eclusas para navegação interior sempre vieram a reboque de algumas hidroelétricas ao contrário do que acontece em países europeus cuja tradição da navegação fluvial sempre esteve arraigada ao desenvolvimento viário. com grandes recalques (Juquiá para São Paulo) ou na regeneração de águas em estações de tratamento de esgotos (Alegria para o Rio de Janeiro).

XX e XXI Figura 43 .Professor Manuel Rocha. pesquisador. inclusive no Brasil. Lyra em inspeção de campo em Itaipu Figura 44 .A História das Barragens no Brasil . Gurmukh Sarkaria e Flavio H. John Cabrera.Séculos XIX.Arthur Casagrande. fundador e diretor geral do Laboratório de Engenharia Civil sediado em Lisboa. 46 . Destacada atuação na CIGB e em consultoria de barragens em vários paises.

Lyra. Charles Blanchet. B. de Mello durante o XII SNGB. Arthur Casagrande e Julival de Moraes em inspeção nas obras de Itumbiara Figura 46 . B. outros consultores participaram de juntas tais como Roy Carlson. Figura 45 . Esses profissionais altamente qualificados deram valiosas contribuições ao projeto e construção de grandes barragens e formaram engenheiros e geólogos brasileiros que presentemente trabalham como consultores no Brasil e no exterior. James Sherard. Don Deere. Victor F.Consultor Roy Carlson por ocasião da sua condecoração pelo governo brasileiro entre Carlos Alberto de Padua Amarante e Victor F.Rubens Vianna de Andrade. em São Paulo abril de 1978 47 . Lyra que são aqui mencionados como homenagem àqueles que já faleceram. Manuel Rocha. de Mello e Flavio H. Flavio H. James Libby. Barry Cooke.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Portland Fox mencionados acima.

F.1937-1940 3.1952-1958 5.EUA .Os 5 primeiros presidentes da CIGB de 1931 a 1961 1 2 1. J. G.Portugal .1958-1961 3 4 5 .França .1946-1952 4. Coyne . Hathaway . Pinto .A. Mercier . M. A.Itália .R. Giandotti . G.França .1931-1934 2.

a mecânica Figura 1 . presidente de Furnas pela Conferência Mundial de Energia no ano seguinte. em reunião da Associação Francesa para o Progresso da Ciência ocorrida em Grenoble. ministro de Minas e Energia e John Cotrim. Em 1926. notadamente na Europa e nos Estados Unidos. na assembléia de Cernobbio (Itália).Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A Comissão Internacional de Grandes Barragens Oitenta e três anos de excelência Flavio Miguez de Mello A Comissão Internacional de Grandes Barragens CIGB nasceu na França. Nos anos vinte muito havia que ser aprendido em projeto e construção de barragens e o intercâmbio de conhecimentos passou a ser de nítida importância. 1966 Flavio Lyra. presidente CIGB dos solos e a geologia de engenharia não haviam ainda sido fundadas. presidente CIGB. foi manifestada a importância do estabelecimento de uma comissão de caráter internacional voltada para grandes barragens. presidente do CBGB e G. Na época. A proposição foi aceita.Reunião Executiva no Rio de Janeiro. a delegação francesa apresentou formalmente a proposta de criação da Comissão Internacional de Grandes Barragens. Corria o ano de 1925 quando. tendo sido instituído o Comitê Francês de Grandes Barragens sob a Societé Hydrotechnique de France. Flavio Lyra. numa época em que havia intensa atividade em implantação de barragens. Brown. em assembléia da Conferência Mundial de Energia em Basel. assim como o apoio ofertado pelo governo francês. 1966 . presidente do CBGB. os critérios de projeto de estruturas de concreto eram rudimentares e a hidráulica fluvial enfrentava pela primeira vez na maioria dos países que implantavam barragens e reservatórios. 49 . Mauro Thibau. Brown. A proposta foi formalmente aceita Figura 2 .G. 1927. obras em rios muito caudalosos.Reunião Executiva no Rio de Janeiro.

Desse registro não constam apenas as barragens de rejeitos. considerando seu já grande vulto. Já demonstrando seu dinamismo. a CIGB vem continuamente crescendo. Seus anais são verdadeiras seções transversais da tecnologia de cada época que nos permitem visualizar o desenvolvimento dos conceitos e critérios de projeto e de construção de barragens. a CIGB publica boletins sobre temas específicos. de elevado interesse técnico sobre assuntos os mais atuais. Como exemplos históricos pode-se mencionar os trabalhos de Karl Terzaghi de 1933 sobre as investigações das características dos solos quanto a sua viabilidade para a construção das barragens de terra e de Wolmar Fellenius sobre cálculo de estabilidade de barragens de terra. tornando. o registro da CIGB atualizado em 2010 revela a importante posição do Brasil relativa a outros países com mais de mil grandes barragens construídas: A assembléia que constituiu a CIGB ocorreu no dia 6 de julho de 1928 com a participação de seis países: Estados Unidos. tendo atingido 26 países antes da II Guerra. Apesar do registro das barragens no Brasil estar incompleto. de 1940 a 1944. Desde sua fundação com apenas cinco países membros. reuniões executivas foram realizadas todos os anos a menos dos anos exceto durante a II Guerra Mundial.Séculos XIX.A História das Barragens no Brasil . fruto do trabalho dos seus comitês técnicos que congregam profissionais os mais destacados em diversos países do mundo. XX e XXI Figura 3 . Encontra-se presentemente (2011) em propo- 1 2 4 5 6 8 9 China USA Japão Coréia do Sul Canadá Brasil Espanha > 40 000 9 265 5 101 3 076 1 302 1 166 1 114 1 011 987 741 623 583 542 519 507 501 3 Índia 7 África do Sul 10 Turquia 11 França 12 México 13 Itália 14 Reino Unido 15 Austrália 16 Irà 50 . Do seu primeiro estatuto até o estatuto de 1967 poucas alterações significativas ocorreram. Reino Unido. 81 países em 2000 e 92 países em 2010. esses documentos em relatórios do estado da arte sob o ponto de vista global. A assembléia do Conselho Executivo da Conferência Mundial de Energia aprovou a CIGB por unanimidade em Londres no dia 3 de outubro de 1928. França. reconhecidamente. cifra esta que representa mais de 90% da população mundial. Itália. Em 1967. ­ Além dos seus anais de congressos e simpósios. 56 países em 1967. assim. 56 países em 1980. A CIGB mantém atualizado o registro mundial de grandes barragens (barragens com mais de 15 m de altura ou em condições especiais) contendo as principais características das barragens em todos os países membros e em alguns países não membros da CIGB. a CIGB promoveu seu primeiro congresso internacional em Estocolmo em 1933.14° Congresso CIGB Rio de Janeiro 1982 – Pierre Londe (presidente) e Joannes Cotillon (secretário geral) sição por um comitê ad hoc novo estatuto que vem corrigir lacunas do estatuto vigente. a CIGB passou a se tornar independente da Conferência Mundial de Energia. 72 países em 1990. Desde então a cada três anos a CIGB promove seus congressos que são. Romênia e Suíça. Desde então.

Na foto os dois primeiros presidentes deste Comitê Flavio H.F. Miguez. F. Höeg. Lyra. Maurer) e dez secretários gerais. projeto. Miguez. D. o autor 51 .Reunião do Comitê de Meio Ambiente da CIGB em Madrid. J. todos franceses. abriu discussão sobre mudanças climáticas globais e planejamento de recursos hídricos escassos. F. Budweg. Lyra. Lyra e C. Desde o final dos anos 60 a CIGB dedica especial atenção aos temas socioambientais. Silveira e F. nos anos noventa também abriu os campos de compartilhamento dos recursos hídricos de rios transnacionais e de gestão integrada da água. 1973. nos anos setenta passou a ser grande divulgadora de progressos na engenharia ambiental. Fernandes. construção e operação de barragens. A participação brasileira se fez sentir desde os anos sessenta em participações em diversos comitês da CIGB. Lyra e Pierre Londe.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Desde a sua fundação a CIGB teve 22 presidentes. Viotti e E. Entre os dois. F. conscientização do público e na primeira década do Século XXI.K. Figura 4 . nos anos oitenta liderou a divulgação tecnológica aplicada a barragens de rejeitos de mineração. 126 vice presidentes. A CIGB sempre teve como foco a promoção e divulgação da tecnologia de planejamento. sendo dois brasileiros (F. Desses comitês foram coordenadores (chairmen) F. Nos anos sessenta a CIGB passou também a enfatizar a segurança e a reabilitação de barragens. ex-presidente da CIGB Figura 5 . C. sendo seis brasileiros (F. Viotti). Budweg.

Foz do Iguaçu 2002 .Congresso de Brasília 23O CIGB 2009 – Mesa da Questão 90 . congregam mais de 10. Figura 7 . consultoras.Séculos XIX.A História das Barragens no Brasil . XX e XXI Figura 6 .000 membros individuais dentre os mais destacados profissionais que presentemente atuam em empresas públicas e privadas.70° Reunião Anual CIGB . universidades.Arthur Walz. Margaret Rose Mendes Fernandes 52 . no seu conjunto. construtoras. Maria Bartsch. Flavio Miguez de Mello. agências governamentais e organizações não governamentais. fabricantes. instituições de pesquisa.Ospina (ex vice-presidente) recebendo homenagem do presidente Varma A CIGB fechou o ano de 2010 com 92 comitês nacionais que.

Brasília 2009 53 . de Mello no 23O CIGB.Homenagem ao professor Victor F. Jia Jinsheng (pres.CBDB).Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 8 . CIGB).eleito CIGB) Figura 9 . Comitê do Vietnam). Pham Hong Giang (pres. Luis Berga (pres. B.Congresso de Brasília 23o CIGB 2009 – Da esquerda para direita Edilberto Maurer (pres.

XX e XXI Figura 11 .Michel de Vivo secretário geral e Luis Berga presidente da CIGB Figura 10 .A História das Barragens no Brasil . Nicole assumiu a secretaria da CIGB em 1967 permanecendo até o presente (2011).A secretária Margarite Chapelle recebendo homenagem em 1967. As duas foram responsáveis pelo eficiente suporte à CIGB ao longo dos últimos 63 anos 54 . Lecornu e a secretária Nicole Schauner Figura 12 . uma placa entregue por sua filha Nicole Schauner (ao microfone) que a substituiu após 25 anos de serviço desde 1948.Congresso de Brasília 23O CIGB 2009 .Séculos XIX.Presidente Varma. secretário geral J.

Viotti .2003-2006 21.EUA . Toran .Índia .1961-1964 7. Lombardi . McCarthy . F.África do Sul . C.F. J.J. Dagenais .1976-1979 12. J. T. Höeg .EUA .Noruega .1970-1973 10. Marcello . W. van Robbreck .Suíça . Londe .1988-1991 16.1967-1670 9.1991-1994 17.A.B. C.Reino Unido . Berga .1964-1967 8. J.1997-2000 19.1985-1988 15.1973-1976 11.P. K.1982-1985 14.Brasil . C.Canadá .2000-2003 20.Itália . C. Varma .C. Veltrop .2006-2009 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 .Presidentes de 1961 a 2009 6. C. Pircher .Brasil . Lyra .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens CIGB . Guthrie Brown . G.A. Gröner .Áustria . G.1979-1982 13. L.Noruega .Espanha .1994-1997 18.H.V.T.França .Espanha . P.

A História das Barragens no Brasil . Os responsáveis pela consolidação e pelos primeiros anos de sucesso do CBDB 56 56 . XX e XXI Flavio H. Fernandes. Lyra e Delphim M.Séculos XIX.

que presidia a Associação Brasileira de Mecânica dos Solos. Saturnino de Brito. Figura 1 – Saturnino de Brito Filho e Theophilo Benedicto Ottoni Netto empreendimento de maior destaque no País. envidou esforços para conjugar essa associação com a Comissão. Por esse motivo havia dificuldades da 57 . conseguiu encontrar receptividade do engenheiro Luiz Vieira que conduziu a então instituída Comissão Brasileira de Grandes Barragens. Na época a CIGB tinha apenas 26 comitês nacionais e havia intensa atividade de projeto e construção de barragens em todos os países mais evoluídos. convocou um grupo para reorganizar a Comissão. O engenheiro Chamenski. O engenheiro Antônio Alves de Noronha. Foi indicado para presidente da Comissão o engenheiro Casemiro José Munarski que na época estava fazendo o projeto da barragem de Orós. por iniciativa do engenheiro José Cândido Castro Parente Pessoa. a Comissão Brasileira de Grandes Barragens teve suas atividades paralisadas. USA.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens História do Comitê Brasileiro de Barragens Flavio Miguez de Mello A pré-história Em 1936. ao regressar do Segundo Congresso Internacional de Grandes Barragens realizado pela Comissão Internacional de Grandes Barragens CIGB em Washington. Nesse período de cinco anos a Comissão ficou vinculada ao Ministério de Viação e Obras Públicas. trouxe consigo o firme propósito de criar em nosso País uma entidade filiada à CIGB. não mais tendo contato com a CIGB e acumulando seguidos débitos financeiros não cobertos por mais de vinte anos referentes às contribuições anuais à CIGB. o engenheiro Francisco Saturnino de Brito Filho. maravilhado com as perspectivas dos benefícios para o Brasil que eram decorrentes da ampla divulgação de experiências de outros países. com o afastamento do engenheiro Luiz Vieira do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas DNOCS. então diretor geral do DNOCS. a Comissão Brasileira de Grandes Barragens veio a ser reativada. Somente em 1957. que presidia a Associação Brasileira de Pontes e Grandes Estruturas. Entretanto. após poucos anos e ainda nos anos trinta. tendo convidado a Associação Brasileira de Mecânica dos Solos para integrar esse grupo.

A História das Barragens no Brasil . Constava da pauta da reunião executiva a nova exclusão da representação brasileira dos quadros da CIGB. Os primeiros anos da história O grupo constituído pelas associações de Pontes e Grandes Estruturas e de Mecânica dos Solos elaborou os estatutos do Comitê Brasileiro de Grandes Barragens CBGB e trabalhou para que fossem arrecadados recursos financeiros que cobrissem os débitos com a CIGB. três indicados pela APGE e seis eleitos em assembléia pelos sócios individuais. sendo os membros da diretoria participantes do conselho. A assembléia seguinte foi convocada para o dia 24 de janeiro de 1962.Séculos XIX. composta pelo presidente. época em que a CIGB apresentava crescente participação de comitês nacionais que naquele ano já eram 48. obrigações estas que novamente não vinham sendo cumpridas. Pelo estatuto o conselho era composto por 12 membros.Antônio Alves de Noronha. ambos realizados em Roma. Figura 2 – Casemiro José Munarski ao lado de João Alberto Bandeira de Mello manutenção das obrigações financeiras da Comissão com a CIGB. Nessa segunda assembléia foi eleita a diretoria presidida pelo engenheiro Flavio Henrique Lyra da Silva. na última hora. Dessa forma. A diretoria. A CIGB retirou da pauta a nova exclusão da representação brasileira e o CBGB pode participar dessa reunião executiva e do VII Congresso Internacional. dois vice-presidentes. XX e XXI O estatuto do CBGB foi aprovado em assembléia realizada no Clube de Engenharia no dia 25 de outubro de 1961. tendo como diretor secretário Sydney Gomes dos Santos que foi substituído por Delphim Mazon Fernandes a partir de 25 de março de 1963. 58 Figura 3 . três indicados pela ABMS. primeiro presidente do CBDB de outubro de 1961 a início de 1962 . os recursos levantados junto a empresas privadas foram entregues à CIGB no dia anterior à abertura da reunião executiva de 1961. um diretor secretário e dois diretores tesoureiros era eleita pelo conselho. Nessa primeira assembléia foi eleita por aclamação uma diretoria presidida por Antônio Alves de Noronha que teve como secretário o engenheiro Lucio Washington.

O País estava entrando em uma era de realizações de grande vulto. Jupiá e Paulo Afonso. vice-presidente do CBGB em vários mandatos promovendo seminários nacionais de grandes barragens e apoiando atividades de comissões técnicas. seminários o número de trabalhos era modesto mas. notadamente no Nordeste com a construção de açudes com dimensões sensivelmente superiores aos anteriormente construídos e com a necessidade de promover a instalação de grandes hidroelétricas. Figura 4 – Antônio José da Costa Nunes. os seminários passaram a ter quatro temas.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A necessidade de uma associação técnica ativa no campo das barragens era indispensável para a evolução da tecnologia nacional. Antes dessa fase. a partir do Sexto Seminário em 1970. uma atuação efetiva junto à CIGB foi encarada como uma necessidade premente. o número de trabalhos passou a ser expressivo. permaneceram nesses cargos por quatro diretorias até 1976 quando o engenheiro Flavio Lyra. o estágio inicial da tecnologia no País. Interessante notar pelo temário do primeiro seminário realizado em julho de 1962. no Brasil. ambos no Ceará. as barragens eram de dimensões mais modestas (a primeira barragem com altura superior a 50 m foi Boqueirão das Cabaceiras. 59 . presidente e diretor secretário respectivamente. A partir do VI Seminário realizado no Rio de Janeiro em novembro de 1970 e até a presente data. Os trabalhos apresentados nos seminários são o perfil do desenvolvimento da tecnologia aplicada a projeto e construção de barragens no País. O CBGB passou a ter importante suporte de Furnas já que o presidente do CBGB era diretor técnico de Furnas e seu diretor secretário no CBGB era seu principal assistente na diretoria técnica de Furnas. e hidroelétricas de grandes projeções a nível internacional estavam começando a ser projetadas e construídas como Furnas. se afastou da presidência do CBGB. Nos primeiros cinco seminários os temas eram limitados a apenas três. na Paraíba. em 1956) e as hidroelétricas eram de pequeno e médio portes para os padrões atuais. Os temas foram: Métodos de investigação de fundações de barragens. Os eventos nacionais Desde 1962 o CBGB passou a atuar nos moldes da CIGB. com parcos recursos humanos. Disponibilidade. Foi nessa época que. no Brasil de organizações e de equipamentos para construção de grandes barragens. Disponibilidade. A sede do CBGB passou a ser parte de uma sala da diretoria técnica de Furnas. ligados ao projeto e à construção de barragens. constituindo uma importante contribuição para a divulgação de experiências profissionais. de laboratórios para ensaios e experiências. tornou-se necessária a difusão de conhecimentos na área da engenharia de barragens e de tecnologias correlatas. Dessa forma. Nos primeiros O grande impulso que estava ocorrendo no Brasil no campo da implantação de barragens no pós-guerra e principalmente nos anos cinqüenta. Em cada sessão técnica sempre houve um relato do respectivo tema feito por um profissional de reconhecida experiência e destaque no âmbito nacional. por ter sido eleito presidente da CIGB. Três Marias. grandes açudes começaram a ser construídos como Orós e Banabuiú (Arrojado Lisboa). Os engenheiros Flavio Lyra e Delphim Fernandes.

a diretoria do CBGB passou a realizar seminá- 60 . desde o XIV Seminário realizado em Olinda os usos múltiplos de reservatórios passaram a ser realçados. Lyra. P. Temas sobre meio ambiente passaram a ser freqüentes já a partir do VIII Seminário. cálculo e construção de barragens e operação de reservatórios. concepção. realizado em São Paulo em novembro de 1972.A História das Barragens no Brasil . Delphim M. A partir de 1980. no XIII Seminário realizado no Rio de Janeiro.Séculos XIX. Carlos A. Licinio M. XX e XXI Figura 5 – Mesa de abertura do XIII SNGB – Rio de Janeiro 1980 – Flavio H. a partir de 1997 passaram a serem discutidos temas institucionais e o retorno com maior intensidade de investimentos privados na implantação e operação de barragens hidroelétricas. Como reflexo das alterações no modelo do setor elétrico. Fernandes. A auscultação de barragens apareceu a partir do IV Seminário realizado no Rio de Janeiro em outubro de 1985. Amarante. Após os nove primeiros seminários realizados no eixo Rio de Janeiro e São Paulo. r e a l i z a d o em S ã o P a ul o em junho de 1963 aparece a dedicação do CBGB à segurança de barragens com o tema Acidentes em barragens. barragens de rejeitos passaram a freqüentar os temários. Seabra J á n o S eg u n d o S e m i n á r i o . Análises de risco começaram a ser discutidas desde 1987 no XVII Seminário Nacional realizado em Brasília. Os esforços do CBDB pelo estabelecimento de uma legislação sobre a segurança de barragens e das interfaces com órgãos concedentes e de licenciamento ambiental passaram a ser debatidos nos seminários mais recentes já no Século XXI. Essa dedicação passou a ser manifestada em diversos seminários posteriores assim como temas relativos à tecnologia de estudos. Considerando a importância da maximização de benefícios propiciados pelas barragens.

Com esse mesmo objetivo. o CBGB passou a organizar simpósios sobre pequenas e médias centrais hidroelétricas a partir de 1998. Dessa forma foram realizados 10 seminários no Rio de Janeiro.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens rios em diversos outros centros. Dams in the Northeast of Brazil (1982). Considerando as crescentes atividades de implantação de pequenas centrais hidroelétricas. o CBGB tem colaborado efetivamente com a CIGB pela participação em diversos comitês técnicos desde os anos sessenta. dois em Curitiba. o CBGB editou importantes livros sobre barragens brasileiras: Topmost Dams of Brazil (1978). 3 em São Paulo. com grande sucesso. Na ocasião os participantes tiveram a Figura 6 . pela primeira vez foi realizado um simpósio em reunião executiva da CIGB. as duas edições de Highlights of Brazilian Dam Engineering (2000 e 2006).34a Reunião Executiva . Em 1982 o CBGB foi novamente anfitrião de uma reunião executiva no Rio de Janeiro. um em Salvador e um em Belém. Também foram publicadas diversas traduções dos boletins técnicos do CIGB. O Simpósio foi sobre arranjos de barragens em vales estreitos. um em Olinda. Desvios de Grandes Rios Brasileiros (2009). Mais uma vez os participantes ficaram vivamente impressionados com o vulto das obras que foram incluídas nas diversas viagens de estudo. dois em Belo Horizonte. Guthrie Brown 61 . Nessa ocasião. Large Brazilian Spillways (2002). oportunidade de visitar obras de grande vulto que estavam em construção no País. Main Brazilian Dams II (2000). Diversion of Large Brazilian Rivers (2009). um em Foz do Iguaçu. Os eventos internacionais Consolidando sua projeção internacional. Dicionário de Barragens (2010). o CBGB teve seu batismo em 1966 na reunião executiva da CIGB realizada no Rio de Janeiro com extremo sucesso. Main Brazilian Dams III (2009). Dams in Brazil (1982). Main Brazilian Dams (1982). dois em Fortaleza. um em Aracajú.Rio de Janeiro 1966 Flavio Lyra e J. Quanto a eventos internacionais. o que se tornou prática em reuniões posteriores. um em Brasília. seguida de um congresso internacional.

Em 2009 novamente o Brasil foi sede de reunião anual e do congresso internacional da CIGB. Figura 8 . João Alberto Bandeira de Mello. Fernandes. Carlos Alberto de Padua Amarante. John Cotrim e Pierre Londe 62 . XX e XXI Figura 7 – Simpósio Internacional sobre Arranjos de Barragens em Vales Estreitos – Rio de Janeiro 1982 – Marcos Schwab e Leo Penna Em 2002 novamente o CBDB promoveu uma reunião anual da CIGB.Séculos XIX.A História das Barragens no Brasil . desta vez em Foz do Iguaçu com o International Symposium on Reservoir Management in Tropical and Sub-Tropical Regions.14o Congresso Internacional CIGB – Rio de Janeiro 1982 – coronel Mauro Moreira. general Costa Cavalcanti. tendo também realizado o International Symposium on Dams and Reservoirs for Multiple Purposes. Delphim M.

Rio Grande Do Sul Núcleo Regional . Na primeira eleição de conselho realizada em Fortaleza em 1976. passando os sócios coletivos e mantenedores serem restritos a elegerem seis membros do conselho. foram criados os núcleos regionais.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 9 .Paraná Núcleo Regional .Ceará Núcleo Regional .Pernambuco Núcleo Regional . com o objetivo de dinamizar a atuação do CBDB em todas as regiões.Minas Gerais Núcleo Regional .Santa Catarina Núcleo Regional . Objetivando uma ampliação de suas atividades que demandariam maiores recursos financeiros. destacando-se palestras e simpósios de elevado interesse.Bahia Núcleo Regional . A partir dos anos noventa. Em 1999 o nome do Comitê Brasileiro de Grandes Barragens CBGB foi alterado para Comitê Brasileiro de Barragens CBDB de forma a abranger também as barragens de menor porte inclusive aquelas da grande maioria das pequenas centrais hidroelétricas. em 1976 o Comitê lançou a campanha de angariação de sócios coletivos e mantenedores que. Pouco depois houve nova alteração dos estatutos.70a Reunião Anual CIGB – Foz do Iguaçu 2002 – Cassio Viotti (presidente CBDB) A evolução institucional do Comitê Semelhantemente à CIGB que se separou da Conferência Mundial da Energia. pelo estatuto da época tinham tantos votos em assembléias quanto as cotas subscritas. 63 .São Paulo Os núcleos têm mantido importantes atividades em suas regiões. no final dos anos sessenta. uma chapa montada pela Eletrobras colocou no conselho todos os membros menos o Flavio Lyra.Goiais/Distrito Federal Núcleo Regional . Presentemente são os seguintes núcleos regionais: Núcleo Regional .Rio De Janeiro Núcleo Regional . o Comitê deixou de ter os conselheiros indicados pela ABMS e pela ABPGE.

A cada período de três anos. tem seis de seus conselheiros eleitos pelos sócios mantenedores e coletivos e doze eleitos pelos sócios individuais. o CBDB. Marconi Perillo governador de Goiás.Sessão de abertura do XXVI Seminário Nacional de Grandes Barragens Goiânia 2005. Lyra se formou em engenharia) Figura 11 . Os ex-presidentes são membros do conselho. 18 sócios coletivos e 35 sócios mantenedores. Presentemente (março de 2011) o CBDB conta com um quadro social composto por 1088 sócios individuais. XX e XXI Figura 10 . Da esquerda para direita: José Pedro Rodrigues de Oliveira presidente de Furnas.A História das Barragens no Brasil . Os membros da diretoria saem desses conselheiros eleitos.Séculos XIX. visita técnica a obras ( barragem de Itaipu) 64 .Como sempre realizado em eventos do CBDB. Lyra – Rio de Janeiro 2004 – Maria Lyra e Heloi José Fernandes Moreira (diretor da Escola Politécnica da UFRJ. onde Flávio H.Homenagem ao dr. Edilberto Maurer presidente do CBDB Em 1999 o nome do Comitê Brasileiro de Grandes Barragens CBGB foi alterado para Comitê Brasileiro de Barragens CBDB de forma a abranger também as barragens de menor porte inclusive aquelas da grande maioria das pequenas centrais hidroelétricas. Flavio H. ao renovar seu conselho. Dilma Roussef ministra de Minas e Energia. Figura 12 . havendo a possibilidade de serem nomeados até dois diretores adjuntos com funções específicas.

simpósios e congressos Figura 15 . Cassio Viotti (presidente da CIGB) e Delphim Fernandes (ex-presidente do CBGB) Figura 14 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 13 . Lyra – Rio de Janeiro 2004 – Erton Carvalho (diretor CBDB). Flavio H.Homenagem ao dr.Conselheiros do CBDB com familiares em um dos eventos sociais que são sempre realizados em seminários.Dirigentes e ex-dirigentes do CBDB em exposição técnica. Nos eventos nacionais e internacionais o CBDB promove sempre exposições técnicas de elevado interesse 65 .

66 Açude de Cedros. Vista da barragem. no Ceará. a mais antiga grande barragem construida no Brasil . no estado do Rio de Janeiro. juntamente com Lajes. do seu dique e de seu sangradouro. Primeira obra de barragem para combate às secas no País. Em operação desde 1906. a barragem é.

Na seca de 1915 pereceram 27 mil cearenses e 75 mil emigraram para a Amazônia. o paratifo e a varíola. Sergipe e Bahia. Uma das secas remotas foi responsável pela expulsão dos holandeses que tentaram se estabelecer no Ceará. Em números redondos. um forte” Engenheiro Euclides da Cunha Flavio Miguez de Mello O Nordeste é uma região com 1. A Grande Seca que ocorreu de 1877 a 1879 ceifou a vida de mais da metade das 1. o Nordeste pode ser dividido em três partes: O semi-árido com cerca de 800. o semi-úmido com cerca de 600.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Um Século de Obras contra as Secas “O sertanejo é. antes de tudo.000 km². mesmo assim sob forte oposição ambiental. incluindo a totalidade dos estados do Maranhão.000 km² e o úmido com os restantes 200. O semi-árido é compreendido pelo Polígono das Secas que tem 936. pelo governo republicano. Alagoas. O primeiro posto no interior já sob influência da Comissão foi o de Quixeramobim. estão sendo iniciadas.000 km². essa tentativa fracassou pela falta de adaptação dos camelos ao solo duro e pedregulhoso.548. Antes dessa Comissão havia apenas um posto pluviométrico em Recife operando desde 1842 e outro em Fortaleza desde 1849. o navio francês Splendide desembarcou no porto de Fortaleza 14 camelos que vieram para procriarem e apoiar as populações no transporte pela caatinga do semi-árido. a instalação de estações meteorológicas e a transposição das águas do rio São Francisco para a bacia do rio Jaguaribe. Em função de características climáticas. Pernambuco. mais de cem anos depois. no início do Século XXI. A tentativa de debandada da população interiorana redundou na morte pelos caminhos e na proliferação de doenças como o tifo. Uma curiosa tentativa de minorar o sofrimento dos sertanejos com as secas ocorreu em julho de 1859 quando. por encomenda do Governo Imperial. Esse foi de longe a maior catástrofe gerada por fenômenos naturais que ocorreu no País. As secas deixaram marcas que não se apagam por mais que os anos passem.2% do território nacional. Seguiramse quatorze secas no Século XVIII. Em 1856 o Governo Imperial instalou a Comissão Científica de Exploração para coordenar os estudos e analisar as soluções para o problema das secas. foram iniciadas apenas as obras da barragem de Cedro em 1884 que só foram concluídas em 1906. Piauí. Esses postos em áreas litorâneas não eram referências para a região do semiárido. em 1877. Ceará. Rio Grande do Norte.933 km² e onde chove em média menos do que 800 mm/ano. áreas do norte do estado de Minas Gerais e leste do estado de Tocantins são assemelhadas ao Nordeste. Dessa forma. instalado em 1896.672 km² que corresponde a 18. quando a mais intensa e prolongada seca atingiu o semi-árido. Paraíba. no Ceará. A primeira seca historicamente constatada foi em Pernambuco em 1583. Quanto à construção de açudes. posteriormente. a construção de açudes.754. doze no Século XIX e dezoito no Século XX. As melhorias nos sistemas de transporte foram discretas em função inicialmente da precária situação financeira ocasionada pela Guerra da Tríplice Aliança e. As secas são registradas desde o descobrimento. As obras de transposição das águas do rio São Francisco só agora.000 pessoas que residiam na área atingida pela tragédia. Entretanto. A Comissão recomendou que fossem efetuadas a melhoria do sistema de transportes. não havia meios de transporte eficientes para a retirada das popula- 67 .

seu sucessor. depois de meses de seca. o engenheiro Gonçalves Aguiar elaborou notável análise hidrológica de caráter determinístico publicada em trabalho intitulado Estudo Hidrométrico do Nordeste Brasileiro. ocasionando mortes em larga escala. ambos no Ceará. a partir de 1904. Processando dados hidrológicos principalmente das bacias hidrográficas dos rios Quixeramobim e Jaguaribe. O senador Pompeu e o engenheiro Henrique de Beaurepaire Rohan salientaram a importância do reflorestamento extensivo da região. houve a suspensão de todas as obras e a IFOCS quase desaparece. a botânica. o aparecimento da “Formula de Aguiar” que serviu de base aos estudos posteriores de hidrologia e dimensionamento de açudes por muitas décadas ao longo do Século XX. O engenheiro e escritor Manuel Buarque de Macedo preconizou que o tesouro imperial não dispunha de recursos para implantar tantos projetos. eleito em 1926. Rebouças reconhecia a necessidade de ações imediatas. no governo de Epitácio Pessoa. 68 . Cabe aqui realçar algumas posições decorrentes desses debates. Essas comissões foram aglutinadas em 1906 na Superintendência de Obras Contra os Efeitos das Secas. integradas e definitivas. enfatizou também a necessidade de construção de abrigos e de alimentação para os flagelados. Os debates retroagiram à proposta de Gabaglia de 1861 que compreendia a perfuração de poços artesianos e a implantação de barragens. a pedologia. Washington Luiz. Os precários resultados observados levaram. à criação pelo governo de Nilo Peçanha. a Co- missão de Perfuração de Poços. Durante dez anos a IOCS se dedicou a obras de infra-estrutura e promovia apoio aos flagelados assolados pelas secas. convocou renomados profissionais do Sudeste e do exterior para o desenvolvimento de estudos bastante completos. não mais conseguiu se retirar para o litoral. XX e XXI ções interioranas. Registra-se que durante os oito anos desses dois mandatos. devida à carência de recursos humanos na época. O primeiro inspetor chefe da IOCS foi o dinâmico engenheiro Miguel Arrojado Ribeiro Lisboa que. Nesse período de carência de recursos sobressai-se. Assim. tendo implantado mais de vinte açudes públicos com destaque para Forquilha e Quixeramobim. só em época de calamidades é que obras e organismos governamentais são efetivados. Com a eleição de Artur Bernardes à presidência da República em 1922. a soma dos recursos destinados à IFOCS representou apenas 20% dos recursos despendidos nos dois últimos anos do governo de Epitácio Pessoa que os antecedeu. foram criadas três comissões: a Comissão de Açudes e Irrigação. principalmente naquela época de início de mais uma seca. O geólogo Silva Coutinho também defendeu a construção de grandes barragens. Como de costume. residências cujos telhados captassem águas de chuva direcionadas para cisternas. Em 1919. abrangendo a hidrologia. foi debatido amplamente o problema das secas no Nordeste. construção de barragens e canais. defendia a construção de obras estruturais. O professor André Rebouças destacou também a importância da instalação de rede telegráfica e melhorias nos portos da província do Ceará para possibilitar a implantação de vias férreas. defendendo a implantação de açudes menores e estradas distritais. A Grande Seca (1877-1879) de devastadoras conseqüências impactou o Governo Imperial. em 21 de outubro de 1909. A IFOCS manteve a construção de açudes. da Inspetoria de Obras Contra as Secas IOCS. complementando alguns dos açudes com piscicultura incipiente e mesmo irrigação que já havia sido iniciada no açude de Cedro. A população do interior. embrião do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas DNOCS. esse órgão passou a se denominar Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas IFOCS. O engenheiro Zózimo Barroso propôs a construção de uma rede de grandes açudes. a sociologia. a geologia. O Século XX foi iniciado com outra seca no Nordeste. pela idealização de Francisco Sá. dá prosseguimento ao processo de inanição da IFOCS. o primeiro açude não estava concluído e não havia registros pluviométricos no semi-árido. a antropologia e a economia. implantação de ferrovias e até dessalinização de água do mar. tendo o próprio imperador Pedro II estado no local assolado pela seca. Importante consignar que em sessões sob o comando do Conde D’Eu no Instituto Politécnico situado na Corte. O professor André Rebouças havia escrito em 1877 o trabalho “As Secas nas Províncias do Norte”. e a Comissão de Estudos e Obras Contra as Secas.Séculos XIX. em desenvolvimento tecnológico.A História das Barragens no Brasil . incluindo poços artesianos. Pires do Rio e Arrojado Lisboa.

Barragem Lima Campos em construção em 1932 Figura 2 Barragem do Choró em construção em 1933. Face de montante com lajes de concreto 69 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 1 .

Juscelino Kubitschek e do ministro Lúcio Meira da viação e obras públicas Figura 4 .Inauguração do Açude Público Boqueirão em 1957 com a presença do pres.A História das Barragens no Brasil .Açude Choró – Vista do talude de montante ao final da construção em 1934 70 .Séculos XIX. XX e XXI Figura 3 .

foi duplicado em relação ao orçamento deixado pelo seu antecessor. antes da seca de 1932. não houve financiamento para a mecanização para a lavoura e a pecuária. Robinson implantou um canteiro de obra. A barragem foi concluída em 1986. No livro “Barragem do Patu. Quixeramobim. os Descaminhos de uma Obra”. Cariús. por sua vez nomeia o engenheiro Artur Fragoso de Lima Campos inspetor geral da IFOCS. se transformou em um campo de concentração. Em 1932 Lima Campos faleceu em acidente aéreo. portanto. os flagelados se espremiam como uma massa esquálida e faminta. uma pequena gaiola de varas. tendo sido substituído pelo engenheiro Augusto da Silva Vieira. Com o retorno de Getúlio Vargas à presidência. não houve meios suficientes para a expansão de observações e estudos hidrológicos. assume a presidência Getúlio Vargas que nomeia José Américo de Almeida para o Ministério de Viação e Obras Públicas que.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Com o golpe de estado de 1930. Entretanto. Os ingleses se retiraram com a paralisação das obras ordenada pelo governo de Artur Bernardes. com 71. Em dezembro de 1945 o presidente José Linhares e seu ministro Maurício Joppert da Silva transformam a Inspetoria no Departamento Nacional de Obras Contra as Secas DNOCS que. Quixadá. para evitar que os flagelados inchassem as cidades. Nesse período de penúrias o Departamento foi dirigido por Luiz Vieira e Vinícius Berrêdo. ainda que insuficiente. morriam de desnutrição e de doenças diversas nos “currais de fome”. Em 1932 ocorreu uma seca severa e o canteiro de obra da barragem de Patu que havia sido paralisada em 1923. Cercados por muros e por arames farpados. sendo violentamente penalizados e recolhidos ao sebo. a irrigação se devidamente implantada poderia beneficiar três mil famílias. os campos de concentração ainda estão vivos na memória dos poucos sobreviventes. Propositalmente ignorados pela historiografia oficial. Os flagelados que reclamavam das condições a que eram sujeitos. não aconteceu a difusão de insumos. Hoje há esforços para que seja tombado o conjunto de edificações na barragem de Patu. o orçamento do DNOCS. segundo Francisco Luís de Araújo. Ipu. não se promoveu a monetarização do mercado interiorano que funcionava à base de escambo. Seu reservatório. não se promoveu acesso a crédito. escritório. sem dar seguimento a obras de irrigação e de piscicultura. uma usina termoelétrica. Adriano Bezerra relata o ocorrido em 1932 no campo de concentração em Senador Pompeu onde os corpos das vítimas da sede e da fome eram jogados em valas coletivas após a extração dos fígados que eram destinados a exames médicos. A seca de 1932 marcou profundamente os que sobreviveram aos campos de concentração. Os detentos nos campos de concentração eram reduzidos a pele e osso como os filmados pelas tropas americanas ao chegarem aos campos de concentração nazistas na II Guerra Mundial. Patu e Crato. um cemitério de quinze mil mortos-vivos. não foram criadas estruturas de estocagem. depósito de explosivos e casas para seus executivos. quando apenas 36 famílias são presentemente beneficiadas com a irrigação. Os campos foram criados pela IFOCS em Fortaleza. residente da Empresa de Assistência Agropecuária do Ceará. Há relatos de mortes por febre tifóide de mil pessoas em uma só noite no campo do Urubu. desta vez eleito. O maior campo de concentração era o de Crato que chegou a ter 65 mil flagelados. eram classificados como infratores. Naquela época Fortaleza era conhecida por “loura despojada pelo sol” e como ninguém gostaria de visitar a cidade inundada por flagelados.8 milhões de metros cúbicos de capacidade daria para atender 60% da atual população de Senador Pompeu mas. 65 anos após o início de suas obras. não havendo recursos para formação de mão de obra. a partir do ano seguinte sob o governo Dutra se mantém com recursos exíguos e praticamente limitados às obras de construção de açudes. onde a empresa inglesa Dwight P. Uma epidemia de piolho levou o governo a ordenar que as cabeças fossem raspadas. foi formado o campo de concentração do Urubu. Dessa maneira 71 . Raquel de Queiroz usou a expressão campo de concentração em seu romance “O Quinze” escrito em 1930. o que comprova a prática nos primeiros anos da República. Era comum passarem em redes mais de trinta mortos por dia cujos corpos eram jogados em valas comuns. no Ceará. o primeiro campo de concentração que se tem notícia foi o campo de Urubu que foi instalado na seca de 1915. Os guardas só davam um farelo amarelo. sangue de boi e carne da cabeça de gado como comida.

Banabuiu. O DNOCS não ficou isento a essa insaciável drenagem de recursos e algumas de suas obras ficaram sem recursos e sem crédito. teve o seu colapso anunciado com meses de antecedência pelos dirigentes do DNOCS dada a incapacidade financeira e de crédito para concluir a barragem antes do período de chuvas.Séculos XIX. Boqueirão das Cabaceiras e Cocorobó.Barragem Quixeramobim 72 .A História das Barragens no Brasil . drenou de todos os lados recursos necessários para a implantação da nova capital. posteriormente transferida para a COEBE e. Araras. XX e XXI foram retomadas ou iniciadas as obras de diversas barragens tais como Orós. A mais notável delas. Ao assumir o governo federal. Juscelino Kubitschek. obcecado pela sua meta síntese de construção de Brasília. depois incorporada à CHESF. Figura 5 . Nesse período tiveram início os estudos da hidroelétrica de Boa Esperança. Orós.

a inocência do referido consultor que havia desaconselhado a execução do tapete. A política de implantação de açudes foi. antes do enchimento do reservatório. Em 1999 assumiu o governo o general João Batista Figueiredo e.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens rompeu em 1961 a concessão de subsídios à construção de açudes particulares por regime de cooperação e desacelerou a implantação de açudes públicos. com a capacidade de 2. Ao final da construção. Diversas empresas consultoras estrangeiras desembarcaram no País para surpresa da Associação Brasileira de Consultores Figura 6 . mas o engenheiro José Candido Castro Parente Pessoa logrou provar na delegacia perante a um juiz de direito. O governo Jânio Quadros. em paralelo ao segundo choque do petróleo. Holtz. além de praticar uma injustificada caça às bruxas com relação aos dirigentes do período anterior.S. inter- 73 . Bureau of Reclamation. Após a deposição do governo Goulart. brecada até que as secas intensas ocorridas no início dos anos oitenta demonstraram o equívoco dessa postura. No governo de João Goulart o DNOCS passa à categoria de autarquia em junho de 1963 e passa a trabalhar sob a coordenação da SUDENE em ocasiões de emergência.Açude Banabuiu A SUDENE concorreu com eficiência para a divulgação leviana da idéia de que a capacidade dos açudes então existentes seria suficiente para atender à demanda de água do semi-árido para qualquer seca que viesse a acontecer. então. Durante a construção. ocorreu a severa seca entre os anos de 1980 a 1983.4 bilhões de metros cúbicos de acumulação. Com a chegada de José Sarney à presidência da República é lançado o programa de irrigação de um milhão de hectares. uma argila de baixa resistência foi colocada anexa ao núcleo da barragem se prolongando para montante em forma de tapete impermeabilizante. A modalidade tradicionalmente adotada de executar os empreendimentos por administração direta foi abolida e o efetivo do Departamento passou a entrar em ociosidade. houve o colapso do talude de montante da barragem por falta de resistência da camada de solo do tapete impermeabilizante. o DNOCS passa a ser gerido por sucessivos coronéis do Exército pouco versados nos problemas do semi-árido.Açude Mãe d’Água Figura 7 . A mais importante obra desse período foi a construção da barragem de Açu no Rio Grande do Norte. Para esse programa foi sorrateiramente e oficiosamente quebrada a proteção à engenharia brasileira conseguida por lei no governo Costa e Silva. engenheiro de carreira no U. Nos governos seguintes a maior atribuição do DNOCS foi a de implantar perímetros irrigados. As autoridades tentaram culpar o consultor. em seguida. apesar das advertências da empresa encarregada da fiscalização e de seu consultor Mr.

Nos dois governos Lula houve reestruturação do DNOCS. A SUDENE que havia sido extinta por medida provisória em maio de 2001. Dois anos depois as obras foram feitas com dispensa de licitação. com equipe própria. bastou que as precipitações em 2009 fossem 59% superiores à média anual para que houvesse o colapso de 50 açudes só em Canindé. Cabe realçar a influência do United States Bureau of Reclamation USBR no combate às secas do Nordeste brasileiro. o DNOCS é finalmente extinto por medida provisória. Seu criador em 1898. Foi instalada uma comissão parlamentar mista tendo resultado daí o relatório de Beni Veras que recomendava a manutenção do DNOCS. W. Ceará. laboratórios e obras. mas sem dotações orçamentárias suficientes. a era FHC deixou duas grandes marcas na Autarquia: a sua traumática dissolução com seu posterior ressurgimento e a construção da maior barragem do semi-árido brasileiro que incluiu a utilização rara em nosso País. Implantados em condições questionáveis. devido a impressionante mobilização de diversos setores da sociedade civil do Nordeste. John Wesley Powell deu origem a uma das mais destacadas instituições de engenharia já formada. O USBR foi a primeira instituição americana dedicada ao estudo e desenvolvimento de recursos hídricos. mas não houve obras de barragens. o que é vedado pela legislação em vigor. 14 barragens colapsaram. o órgão chegou a ter dezessete mil funcionários e fazia as obras por administração direta. Ao longo do Século XX o USBR implantou centenas de barragens e mais de duzentos projetos de irrigação no oeste americano. O diretor geral Elias Fernandes lamenta: “todos os meus funcionários têm cabeça branca”. 74 . havendo mais de doze mil aposentados e pensionistas. Sua missão é o desenvolvimento de projetos de barragens de regularização e irrigação do árido oeste dos Estados Unidos. que tiveram que ser demitidos. Da falta de condições do DNOCS e dos perversos cenários das secas surgiram construções de açudes particulares e por outros órgãos federais e estaduais. o DNOCS foi ressuscitado em maio de 1999. os recursos humanos da instituição não puderam acompanhar a disponibilidade financeira pela sua carência de estrutura e de pessoal. apesar de neste governo ter ocorrida significativa redução de diretores e cargos gratificados. estiveram dando assistência técnica às obras de barragem do DNOCS. pois vinham prestando serviços para a atividade fim do órgão. entre 1940 a 1960. Entretanto. Holtz e Hoffmann. Essa medida não substituiu devidamente os terceirizados. inclusive o autor.A História das Barragens no Brasil . XX e XXI de Engenharia. mas o Ministério do Planejamento limitou a 92. pois há mais de 40 anos não eram feitas manutenções nessas barragens.Séculos XIX. As modernizações foram estudadas. no sertão central do Ceará. A diretoria do DNOCS alertou em 2008 que eram urgentes as obras de recuperação dos açudes Estevam Marinho e Mãe D’Água sob o risco de se tornarem inoperantes e causarem danos irreparáveis a bens e a vidas humanas. fortaleceu politicamente o então governador Ciro Gomes e o lançou na política Federal. mas sujeito a profundas modernizações. A única obra importante foi conseguida pela bancada cearense no congresso: o açude Castanhão inaugurado ao apagar das luzes do segundo governo de Fernando Henrique. Esse açude e o longo canal de adução das águas à cidade de Fortaleza executado em tempo recorde de acordo com o planejamento do engenheiro José Cândido Pessoa. mas não foram implantadas no curto governo Itamar Franco nem no primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso. acabando longa agonia. Nesta época o autor desse capítulo era o diretor da ABCE encarregado da proteção à engenharia nacional. 1 de janeiro de 1999. foram treinar nos seus escritórios. e do peso do Nordeste no parlamento. Hoje os funcionários da ativa não passam de mil e oitocentos. ficando o órgão nos limites da sobrevivência. de diques fusíveis. a DNOCS pediu abertura de concurso para seiscentas vagas. Depois de passar trinta anos sem renovar seus quadros. foi novamente criada em janeiro de 2007 com o objetivo de reassumir o planejamento regional. A viabilidade da existência do DNOCS passou a ser agenda do governo Fernando Collor de Mello que se instaurou em 1991. Na sua época mais ativa. muitas delas do INCRA. Assim. Em Targinos. Engenheiros do DNOCS e de outras instituições brasileiras. No primeiro dia do segundo governo Fernando Henrique Cardoso. Ao ser lançado o PAC – Plano de Aceleração do Crescimento com uma verba de um bilhão de reais em 2010. Alguns dos mais destacados profissionais do USBR. tais como Jack Hilf.

Jack Hilf e José Candido Pessoa. sendo responsável pela implantação de mais de 220 grandes barragens (de acordo com a classificação da CIGB). a IFOCS e seu sucessor DNOCS mostrou intensa atividade. A barragem de Orós cuja proposição é dessa época. nas fases em que o governo federal propiciou condições financeiras adequadas.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens As causas das secas no Nordeste ficaram desconhecidas até a primeira metade dos anos 80 quando foi detectada a influência da permanência de temperaturas mais elevadas da água no oceano Pacífico na latitude do Peru. Entretanto. o que significa cerca de 20% das grandes barragens brasileiras. Quando da primeira fase de construção que eram para ser uma barragem de alvenaria. Figura 8 . como engenheiro sênior. Ao analisar as atividades realizadas no combate às secas verifica-se que a descontinuidade na administração das agências de fomento e a alternância dos recursos disponibilizados fazem com que obras iniciadas há várias décadas são descontinuadas ou retardadas. Barragens iniciadas ou projetadas no governo de Epitácio Pessoa como Pedra Branca e Patu foram concluídas muitas décadas depois. teve suas obras interrompidas. Um El Niño mais prolongado causa no território brasileiro secas no Norte e Nordeste e cheias no Sul. fenômeno conhecido desde os tempos coloniais como El Niño. Exemplo de colaboração do US Bureau of Reclamation para o DNOCS 75 . nasceu no canteiro de obra o Theophilo Benedicto Ottoni Netto que. viria projetar o vertedouro da barragem. A partir dessa época as secas passaram a ser previsíveis. A barragem de Castanhão teve sua construção proposta em 1910 e só foi executada quase 100 anos depois.

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Flavio Miguez de Mello O Departamento Nacional de Obras Contra as Secas e as inspetorias que o antecederam foram os órgãos que mais barragens implantaram no Brasil. Como são muitas barragens. então o sertão virará praia e a praia virará sertão. em geral. muitas barragens com características extremamente interessantes foram construídas. o Governo Imperial encomendou ao engenheiro Jules Revy uma seleção de locais para implantação de barragens com o objetivo da formação de açudes.” Antônio Conselheiro a construção de barragens era. os demais cursos d’água do Nordeste são de regime intermitente. a barragem de Orós por ter tido impressionante acidente durante sua construção. Considerando que apenas os rios São Francisco. chamadas na época de barragens de peso. Dentre os locais selecionados sobressaiu-se o sítio onde foi implantado o açude de Cedro. Esse projeto. Sangradouro de Castanhão 77 . dispensando-se revestimentos. Já em 1882 o primeiro projeto estava pronto. No caso de haver ombreira em rocha sã. no segundo ano. 214 grandes barragens (de acordo com a classificação da Comissão Internacional de Grandes Barragens) foram implantadas até 1982. Nos primeiros anos do século passado as barragens eram de alvenaria de pedra. a barragem de Cocorobó pelos motivos que determinaram a sua implantação e a barragem do Castanhão por ser a última grande barragem construída pelo DNOCS antes da publicação deste livro. após o recuo das águas. entretanto. As obras foram iniciadas em novembro de 1890 e foram concluídas em 1906. ou maciços baixos de terra cujo elemento impermeabilizante era um diafragma central de alvenaria. foi modificado pelo engenheiro Ulrico Mursa. em Boqueirão das Cabaceiras. para o presente livro o autor selecionou as barragens do açude de Cedro por terem sido as primeiras grandes barragens do Nordeste e as mais bonitas até hoje. a barragem de Engenheiro Ávidos pelo seu arrojado projeto original. Essa cifra mostra intensas fases de elevada atividade e outras fases de estagnação. As barragens do açude de Cedro Logo após o término da Grande Seca. Nos cento e vinte anos de atividades no combate aos malefícios das secas. Com o objetivo de promover condições de fixação dos nordestinos cultivando o semi-árido. sendo que só nos anos 50. Até meados do século passado as barragens eram de alturas modestas. se fazia as obras no leito do rio e nas margens. da Comissão de Açudes e Irrigação. feita em duas etapas: no primeiro ano se procedia a limpeza e o tratamento de fundação e. que flui desde Minas Gerais e o rio Parnaíba que divide os estados do Piauí do Ceará são perenes. em função do maior ou menor interesse do governo federal. em 1880.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens As Barragens Construídas pelo DNOCS “Em 1896 há de haver mil rebanhos correndo da praia para o sertão. o sangradouro podia ser simplesmente escavado numa das ombreiras. atividades que foram originadas das drásticas conseqüências da Grande Seca que ocorreu de 1877 a 1889. foi implantada a primeira barragem de altura superior a 50 m.

uma capacidade de acumulação de 126.A História das Barragens no Brasil . seu comprimento é de 209 m e seu volume é de 9. após paralisações. O açude se localiza no rio Sitiá do sistema Jaguaribe. Há ainda dois diques de terra. controlando uma área de drenagem de 224 km². A barragem principal é em arco gravidade de alvenaria. seu volume é de 60. Figura 1 – Açude de Cedro 78 .925 m³.473 m³ de volume.Séculos XIX. de longo raio de curvatura de 254 m.5 m de altura e com lâmina livre pela crista. O açude só foi verter (sangrar) pela primeira vez em 1924 o que demonstra que. com uma superfície de 17. denominados Barragem Sul com altura de 17 m. o açude ficou super-dimensionado. XX e XXI sob a direção do engenheiro Bernardo Piquet Carneiro. pela falta de dados hidrológicos na época do projeto. O vertedouro (sangradouro) é também em alvenaria. sua extensão de crista é de 415 m. 464 m de extensão e 8.45 km².724 m³ e Barragem da Lagoa do Forbes com 4 m de altura.000. A alvenaria de pedra em sua crista. com 7. de gravidade. sua altura é de 18 m sobre as funda- ções em sienito são. seu eixo curvo e os pequenos pilares com as grossas correntes aliados à Pedra da Galinha Choca na margem direita da barragem e à esquerda do vertedouro formam um conjunto arquitetônico de rara beleza. comprimento de crista de 243 m e volume de 40. um em cada margem do rio.000 m³ e uma profundidade média pouco superior a 7 m.000 m³.

Nesse ano. um núcleo de concreto sob a linha de centro da barragem constituindo-se o principal elemento de impermeabilização. Realmente.000 m³ e a um volume de concreto de 16. a uma sobre-elevação de cerca de 0.30 m sobre a crista do vertedouro. Na ombreira esquerda as escavações atingiram a 14 m de profundidade. após a cheia. As tomadas d’água são em duas torres cilíndricas controladas por comportas que aduzem a água para duas tubulações em células de concreto armado. o que correspondeu a uma hidrógrafa defluente com pico de apenas 55 m³/s. Como esta era. uma das quatro barragens com vertedouro sobre o aterro e a única das quatro que sobreviveu durante quase 30 anos de uso. controlando uma área de drenagem de 1124 km². tendo sido definida uma hidrógrafa com pico de 1610 m³/s. A barragem havia sofrido recalques e os movimentos provocaram a abertura de juntas na laje do vertedouro. Foi efetuado um novo estudo hidrológico para verificação da hidrógrafa de projeto. Rice do US Bureau of Reclamation. e um maciço de enrocamento no espaldar de jusante com talude de 1. recomendou que fosse construído um novo vertedouro na ombreia direita. foi decidido que o vertedouro sobre a barragem seria substituído por um vertedouro lateral provido de duas comportas de segmento de 9 m x 10 m que descarregam as descargas vertidas em uma calha em concreto armado e dissipação em salto de esqui. nos países ocidentais. o engenheiro O. Regis Bittencourt e Lohengrin Chaves. com a colaboração de Moacyr Avidos. tando muitos matacões e elevada permeabilidade e a margem direita é constituída por um gnaisse intemperizado. de 2. No local da barragem a margem esquerda é composta por um quartzito decomposto. A barragem tem 44 m de altura e 340 m de extensão. em inspeção à barragem. Consta que o padre Cícero havia dito que a barragem iria colapsar. o reservatório era mantido em nível baixo a maior parte do tempo. no seu pico. O projeto foi concebido pelos engenheiros Luis Vieira e Vinícius Berrêdo. como a descarga de projeto deveria ser o dobro da descarga original e como essa descarga de projeto era quase 30 vezes superior à descarga ocorrida em 1963. no município de Cajazeiras. como as sondagens no aterro da barragem revelaram graus de compactação inadequados. Esses deslocamentos se acentuaram após a passagem da cheia de 1963 que chegou. antiga São José de Piranhas A barragem é localizada no rio Piranhas.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A barragem de Engenheiro Avidos. com ogiva de concreto de 160 m de extensão e cuja calha era constituída por um revestimento do talude jusante em lajes articuladas de concreto armado projetado para um pico de cheia da ordem de 800 m³/s e situado na parte central do corpo da barragem.000 m³. O vertedouro era de crista livre.5:1 e de 3:1. Paraíba. O projeto original da barragem compreende um maciço de terra a montante com talude variável de cima para baixo de 2:1.6:1. Figura 2 – O engenheiro Moacyr Monteiro Avidos As principais condicionantes do projeto eram: não exigir fundação em rocha sã e o elevado custo devido às dificuldades logísticas para suprimento de cimento ao local da barragem. apresen- 79 . o que correspondeu a uma escavação de 300.

A História das Barragens no Brasil .Açude Piranhas – Saída das galerias da tomada de água Figura 3 . XX e XXI Figura 4 .Açude Piranhas durante sua construção em 1936.Açude Piranhas durante sua construção em 1936.Séculos XIX. Vista do talude de jusante 80 . Vista do talude de montante Figura 5 .

Desde os tempos do Império e nos primeiros anos da república uma barragem no boqueirão de Orós vinha sendo considerada. Curiosamente. Em 1940 foi concluído um túnel com 1600 m de extensão ligando Orós ao açude de Lima Campos cuja capacidade de irrigação estava esgotada. a 450 km da capital Fortaleza. Em 1930 estudos adicionais foram realizados sob a orientação do engenheiro Luis Augusto Vieira. drástico corte de verbas e a conseqüente paralisação das obras no governo de Arthur Bernardes. Em 1919. em vista dos resultados das sondagens executadas pelo engenheiro britânico Louis Philips e pelo engenheiro José Gomes Parente. Essas sondagens indicaram no leito do rio uma cavidade no seu topo rochoso de 40 m preenchida por aluviões. A idéia inicial de uma barragem de eixo reto situada na entrada do boqueirão foi abandonada em 1913. um com barragem de terra e outro com barragem de concreto gravidade. A barragem de Orós deixou de ser prioridade mesmo com a intensa seca de 1932. que viria a ser destacado engenheiro hidráulico e professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Robinson & Co. Houve um primeiro anteprojeto desenvolvido no início da Inspetoria de Obras Contra as Secas do qual não se tem notícia por ter se perdido em incêndio ocorrido em dezembro de 1912 na Primeira Seção dessa Inspetoria. Em 1932 materiais e equipamentos foram retirados de Orós para as construções dos açudes de Pilões. Estudos e investigações geotécnicas efetuadas pelo engenheiro Arthur W. tendo havido. o engenheiro Theophilo teria atuação de destaque no projeto do vertedouro da barragem de Orós quase cinqüenta anos depois do seu nascimento. Nessa fase inicial de construção participava da equipe o engenheiro Augusto Benedicto Ottoni. José Wright e George Shobinger. Orós foi programada para ter seu maciço totalmente construído em um período seco. Como finalidades secundárias há a piscicultura e aproveitamento hidroelétrico. A barragem seria em alvenaria de concreto ciclópico executada com apoio de cabo aéreo cujas torres foram instaladas nas duas ombreiras. Todos os trabalhos de levantamentos e prospecções e de projetos de infra-estrutura tais como as instalações das residências e escritórios. Sua principal finalidade é perenizar o rio e promover a irrigação nos trechos médio e baixo de seu vale. José Visetti. Durante essa fase. como 81 . nasceu seu filho. Posteriormente equipe do engenheiro Luiz Vieira elaborou dois estudos. foram feitos pelos engenheiros A. eletrificação e canteiro de obra. Cunha. A cerca de 200 m a jusante do eixo retilíneo original essa cavidade apresenta profundidades de até 80 m. Apesar de dispor de um túnel de desvio.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A barragem de Orós A barragem de Orós é situada no rio Jaguaribe. O maciço da barragem seria erguido após a estação chuvosa seguinte. P. Em outubro de 1958 as fundações da barragem estavam escavadas e tratadas. ferrovia. acessos rodoviários. formando um sem número de engenheiros. Pyles. como será mencio­ nado adiante. o governo federal contratou a empreiteira americana Dwight P. A excepcional cheia ocorrida em 1924 destruiu ensecadeiras e parte do canteiro de obra. no janeiro seguinte. incluindo seus filhos. A. Schneider levaram a professor Casemiro José Munarski a conceber o projeto de uma barragem de terra zonada com grande curvatura em planta para montante com o objetivo de fugir da espessa camada de aluvião. uma neta e o autor desse capítulo. Para fugir da cavidade duas alternativas de eixo foram indicadas: eixo reto na parte jusante do boqueirão ou eixo acentuadamente curvo na entrada do boqueirão. Piranhas e São Gonçalo. Theophilo Benedicto Ottoni Netto. Comstock e J. Sargent. ambos com eixo retilíneo a jusante do boqueirão para evitar a espessa camada de aluvião que havia sido detectada nos estudos iniciais. motivado pela intensa seca que impactou a região. no interior do Ceará. no interior do estado do Ceará. para elaborar um novo projeto e implantar a obra sob a supervisão dos engenheiros Charles W. C. conhecido como o maior rio intermitente do mundo. no decorrer de 1959.

os demais empreendimentos governamentais ficaram com desmedidas carências de recursos. tendo sido por infarto.5:1 e 2:1 respectivamente a montante e a jusante. No final do período chuvoso.A História das Barragens no Brasil . projetada com 54 m de altura e taludes de 2. As informações disponíveis dão conta de que apenas um óbito foi registrado. denominada pelo presidente Juscelino Kubitschek de meta síntese. O DNOCS passou a ter sérios problemas na manutenção do ritmo de construção por falta de recursos financeiros para concluir a barragem a tempo. Era nos primeiros minutos da madrugada do dia 26 de março de 1960. O acidente e suas conseqüências impactaram a opinião pública e muitos recursos foram angariados de populares e remetidos às vítimas do acidente. A barragem. O próprio DNOCS construía a barragem com equipamentos provenientes da recém concluída construção da barragem de Araras. Cerca de 40% do volume do maciço já executado foi erodido. devido à incrível concentração de recursos federais para a construção de Brasília. a barragem começou a ser galgada. Figura 7 . A campanha em muitas cidades do País tinha o lema “Orós precisa de nós”. Debalde foram os alertas da direção do DNOCS e de seu diretor geral.Galgamento da barragem de Orós Destaca-se a eficiente atuação das forças armadas no resgate das populações residentes a jusante da barragem. realçam-se as atitudes de países no apoio às vítimas do rompimento 82 . foi executada com espesso núcleo de argila arenosa compactada em camadas de 15 cm e taludes externos em enrocamento que envelopava. Várias cidades situadas a jusante foram invadidas pelas águas oriundas do colapso da barragem. O túnel de desvio situado na ombreira esquerda. Entretanto. com a barragem ainda incompleta e sem ser possível as águas afluentes atingirem a cota da soleira do vertedouro ainda em escavação. engenheiro José Cândido Castro Parente Pessoa. apresentando a jusante uma bifurcação para um descarregador de fundo e para a instalação de uma pequena hidroelétrica que só foi licenciada cinqüenta anos depois.Séculos XIX. tendo perdido também o crédito junto a fornecedores. tornou-se a tomada d’água e foi revestido posteriormente com chapa de aço. na margem direita do reservatório havia sido construído um túnel que conduz descargas do rio Jaguaribe ao açude de Lima Campos com o objetivo de reforçar as vazões para irrigação das áreas a jusante desse açude. ambos abrandados em cotas inferiores. Os esforços para conter o colapso da barragem foram inúteis. XX e XXI era comum nos rios intermitentes do Nordeste. Como mencionado acima. nos espaldares de montante e de jusante.Barragem de Orós após a ruptura Figura 6 . quanto ao perigo da não conclusão da barragem antes do período chuvoso. zonas de solo arenoso compactados em camadas de 30 cm de espessura. No âmbito externo.

após a emergência. o sangradouro permaneceu sem ser revestido de concreto. destacando-se quartzitos xistosos dobrados e extremamente fraturados. Em visita ao local em época em que o reservatório estava com elevado nível d’água. Theophilo Benedicto Ottoni Netto e José Cândido Parente Pessoa em visita ao modelo hidráulico reduzido do vertedouro de Orós erosão regressiva que quase comprometeu a estabilidade da ombreira esquerda. há um monumento em bronze com a estátua do presidente em tamanho natural.Erosão na área do vertedouro antes do revestimento de concreto 83 . A água escoando a elevadas velocidades sobre a rocha altamente fissurada. tendo sido inaugurada pelo presidente Juscelino Kubitscheck. A barragem foi rapidamente reconstruída entre julho de 1960 e janeiro de 1961. O projeto foi encomendado ao Laboratório Hidrotécnico Saturnino de Brito – HIDROESB e idealizado pelo Professor Theophilo Benedicto Ottoni Netto aproveitando em parte a configuração da encosta erodida e desenvolvendo uma concepção de elogiável arquitetura hidráulica. Entretanto. Figura 8 . uma alta autoridade federal mandou abrir a ensecadeira. França. Juarez Távora. provocou grande Figura 9 – Saturnino de Brito Filho. Reino Unido. o vertedouro apenas escavado. Pouco após a reconstrução da barragem.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens da barragem de Orós: Estados Unidos. Alemanha Ocidental. era protegido por uma pequena ensecadeira. Apesar de ter sido o responsável pela carência de recursos que ocasionou o colapso da barragem com graves consequências para as populações de jusante. A rocha local é composta por xistos da série Ceará. Mais uma vez. recursos foram destinados a concluir a obra do vertedouro. testada em modelo reduzido. União Soviética e Vaticano.

XX e XXI Figura 10 – Açude de Orós Figura 11 – Vertedouro de Orós em operação 84 .Séculos XIX.A História das Barragens no Brasil .

construído em 1909 por parentes e sobreviventes do massacre. Inicialmente pacíficos. e.” Os estudos do DNOCS indicaram o boqueirão Cocorobó como o sítio mais indicado para a construção da barragem. tendo sido finalmente aniquilados em seu arraial denominado Belo Monte. principalmente a parte superior da igreja de Antônio Conselheiro bombardeada por canhões do Exército. os seguidores de Antônio Conselheiro rechaçaram quatro investidas e expedições das forças armadas. o corta cabeças. tendo ao fundo o açude de Cocorobó Figura 12 – Prisoneiros da guerra de Canudos 85 . do Exército Brasileiro contra jagunços seguidores da figura mística de Antônio Vicente Mendes Maciel. Getúlio teria perguntado a Isaias Canário o que poderia ser feito por Canudos e recebeu como resposta: “Um açude Senhor Presidente. posteriormente. havendo duas correntes distintas: a primeira acusa o governo federal de tentar apagar da memória nacional o triste incidente de Canudos. Mesmo no local selecionado. o volume d’água A barragem. conhecido por Antônio Conselheiro. incontestavelmente de elevado valor histórico.3 milhões de metros cúbicos. desarmados e militarmente despreparados. cidade posteriormente denominada Florianópolis em homenagem ao ditador da ocasião. com 34 m de altura. Principalmente após a construção. cem anos após.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A barragem de Cocorobó Na última década do Século XIX foram travados vários combates entre forças militares do estado da Bahia e. Esse terrível episódio de nossa história é magistralmente narrado por Euclides da Cunha que foi testemunha ocular da terceira expedição comandada pelo sanguinário coronel Antônio Moreira César. é uma estrutura de terra compactada. escondendo sob as águas a participação do Exército no conflito. como ficou evidenciado nas estiagens ocorridas entre 1994 e 2000 quando as demandas fizeram com que o espelho d’água atingisse níveis muito baixos. a seleção do local foi questionada por diversos pesquisadores e historiadores. em nenhum momento foi cogitado que o sítio selecionado iria submergir o que havia restado de Belo Monte. Na realidade. Consta que o pedido da construção da barragem de Cocorobó partiu do chefe político local durante a visita. aparecendo as antigas construções. Figura 13 – Estátua de Antônio Conselheiro. em 1940. Na época. do presidente Getúlio Vargas à região e ao segundo Arraial de Canudos. há acumulado pelo açude não é suficiente para atender a exploração de todo potencial de solo agricultável a jusante. prêmio Nobel de literatura em 2010. também descrita com maestria por Mario Vargas Llosa. que já havia assassinado mais de cem habitantes de Nossa Senhora do Desterro. concluída em 1968. A segunda defende a idéia de que o boqueirão era o local mais apropriado para a implantação do açude. 643 m de extensão de crista e volume de reservatório de 245.

Nesse trabalho ele identificou o boqueirão do Cunha como sendo um local para implantação de uma barragem que promovesse alguma regularização e que Figura 14 – Açude de Castanhão 86 .” O engenheiro José Cândido Castro Parente Pessoa contou que no início das obras da barragem conversou muitas vezes com o Pedrão. Barragem do Castanhão Os primeiros estudos do Castanhão datam de 1910 quando o geólogo americano Roderic Crandall realizou para a Inspetoria de Obras Contra as Secas. Como havia sido o primeiro a falecer após a conclusão do cemitério. Era mesmo tentador tentar apagar qualquer registro do massacre dos habitantes de Belo Monte. Pedrão que havia saído para combater a quinta expedição que chegava com soldados do Rio Grande do Sul. mulheres e crianças foram cruelmente degolados pelas tropas do Exército sob o comando do general Artur Oscar de Andrade Guimarães no incidente conhecido por gravata vermelha. principal jagunço de Antônio Conselheiro na fase final dos confrontos com o Exército. o engenheiro José Cândido candidamente indicou a cova número um para acolher o falecido. XX e XXI pareceres de engenheiros e mesmo de arqueólogos como Paulo Zanettini e Erica Gonzáles. houve um depoimento do diretor geral do DNOCS no início da construção da barragem ao autor deste capítulo.Séculos XIX. Pedrão faleceu e inaugurou o modesto cemitério que havia sido feito como um dos equipamentos urbanos necessários para a construção da barragem. Segundo o engenheiro Euclides da Cunha que esteve no teatro da guerra. que certificam que o local selecionado é na realidade o mais apropriado para a implantação da barragem: a jusante o vale é muito aberto e com espessas camadas de sedimentos e a montante não havia local tão propício para um reservatório. estudos de locais para implantação de açudes no Nordeste. mesmo aqueles que se renderam com a promessa de não serem mortos. homens.A História das Barragens no Brasil . Pouco tempo depois adentra um coronel do Exército no escritório do referido engenheiro e passa uma descompostura nele por ter enterrado na primeira cova do longínquo cemitério da obra “um inimigo da república”. Ao final da guerra. que justifica a interpretação de que a barragem teria sido construída para afogar a memória da Guerra de Canudos concluída em 5 de outubro de 1897. “aquela campanha (do Exército) foi o maior crime praticado em território brasileiro. Após o aniquilamento do arraial e de seus ocupantes. Entretanto. se refugiou nos limites do Piauí com o Maranhão até que uma anistia permitiu que ele retornasse a Canudos.

Oitenta anos após. A. Conviver.55 m. Para contornar essas dificuldades foi constituído um colegiado que funcionou como um parlamento. 1991 Miguez de Mello. 2009 Sola J. As discussões que foram mantidas no colegiado se transformaram em um documento de importância histórica com 6000 páginas de transcrições de debates.450 m de extensão e 72 m de altura.345 m³/s com sobre-elevação de 6 m. P. nos anos noventa. – Orós. 1982 Llosa. F. incluindo a totalidade da sede municipal de Jaguaribara. 2007 Departamento Nacional de Obras Contra as Secas – Barragens no Nordeste do Brasil. 100 (nível máximo normal de regularização) possui uma área de 325 km² e represa 4. Nesse aspecto foi importante a transferência de áreas dos municípios vizinhos de Alto Santo.46x109 m³.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens derivasse as águas do rio Jaguaribe. E. o principal impacto foi a necessidade de reassentamento de quinze mil pessoas que eram residentes na área a ser alagada. F. A descrença e a desconfiança permaneciam na população local e os opositores mantinham todas as ações possíveis para evitar que a obra fosse iniciada. tendo capacidade de escoar a descarga de projeto de 12. P. Além da extensa área do reservatório. O canal de derivação se estende por 256 km com a capacidade adução de 22 m³/s. O projeto foi aprovado no Conselho Estadual do Meio Ambiente em dezembro de 1992 por doze votos a favor e oito contra. O vertedouro em concreto gravidade é provido de 12 comportas de segmento de 10 m por 11. uma Utopia no Sertão – Editora Contexto. – Os Sertões – Editora Record. Histórico sobre a Construção do Açude. o projeto da barragem foi concluído e submetido a intensas e extensas discussões para a obtenção do licenciamento ambiental. H. – La Guerra del Fin del Mundo – Seix Barral. – Castanhão – Conviver. nona edição. V. A. Morada Nova e Jaguaretama para o município de Jaguaribara. O reservatório na El. 2009 Lima. acompanhando as obras com reuniões públicas mensais em que as manifestações eram livres. 2009 Paulino. – A Century of Dam Construction in Brazil – Topmost Dams of Brazil. uma Barragem Projetada para Reacender as Esperanças no Futuro ou Apagar o Passado. Agradecimento O autor agradece à engenheira Ana Teresa Ponte pelas fotografias e informações. M. A barragem é uma longa estrutura de terra compactada com um trecho em concreto compactado com rolo. Em novembro de 1995 foi expedida a ordem de serviço autorizando o início da construção. A barragem do Castanhão foi concluída em 1999. Conviver. além do redesenho do município de Jaguaribara que teve cerca de 60% de sua área alagada. Referências Cunha. – Cocorobó. – Canudos. 1989 Figura 15 – Açude de Castanhão 87 . M. com 3. incluindo a seleção do local de cada nova moradia. 1978 Monteiro. à seqüência de pagamentos e às prioridades no processo de transferência da população. 300 páginas de atas de reunião e 360 fitas gravadas. As principais decisões do colegiado foram relativas ao estabelecimento de uma tabela para indenizações de propriedades.

88 .

Por ocasião de eventos no prédio. na época sob a direção de Francisco Pereira Passos. Dom Pedro II concedeu a Thomas Alva Edison a concessão para introduzir no Brasil os equipamentos de sua revolucionária invenção e inaugurou a iluminação elétrica da estação da Estrada de Ferro Pedro II. uma experiência de geração e utilização de energia elétrica que se tem notícia em território nacional. ocorreu na Praça da Proclamação. Vista do canal de adução para a casa de força. no coração da cidade do Rio de Janeiro. pela primeira vez no País. A Escola Central era situada no Largo de São Francisco de Paula. uma nova demonstração pública de iluminação baseada em energia elétrica. o diretor Claude Henry Gorceix da Escola de Minas e Metalurgia de Ouro Preto. Em 1879 foi efetuado o primeiro emprego comercial do dínamo pela Edison Electric Light Co.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Resumo da História Remota da Hidroeletricidade no Brasil Flavio Miguez de Mello Os primeiros tempos . Essa foi a primeira instalação de iluminação elétrica de caráter permanente que foi instalada no País. em 1862. no Rio de Janeiro. prédio da UFRJ hoje tombado pelo seu valor histórico e conhecido como Alma Mater da Engenharia Brasileira. Os que presenciaram a experiência. próxima ao prédio da Escola Central. até hoje conhecida como a sala do trono. por ocasião da inauguração da estátua eqüestre de Dom Pedro I. embora surpresos.Século XIX Recuamos à distante época dos meados do Século XIX quando não havia ainda exploração econômica de energia elétrica no mundo. Nesse mesmo ano. em Nova York. por ocasião da viagem de Dom Pedro II a Minas Gerais. atual estação ferroviária situada na Avenida Presidente Vargas. da ciência e da tecnologia. A energia gerada foi utilizada para acender uma lâmpada. Usina hidroelétrica de Tombos em Minas Gerais. hoje Praça Tiradentes. Em 1881. atualmente Praça da República. o Imperador chegava a ocupar a sala frontal do segundo pavimento (na época o prédio era de dois pavimentos). esta precursora das atuais Academia Militar das Agulhas Negras e Escola Politécnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ. de onde despachava com sua equipe de governo. foi realizada em pú- blico. demonstrando que a eletricidade poderia trazer benefícios inestimáveis à sociedade. por ocasião de uma homenagem ao Imperador Dom Pedro II no prédio da Escola Central. no Rio de Janeiro. Nessa época o Brasil vivia no segundo reinado sob um imperador extremamente interessado em todos os domínios da cultura. fez acender uma lâmpada com energia proveniente de um dínamo acionado pelos detentos da cadeia local. 89 . Cinco anos depois. No ano de 1857. certamente não poderiam imaginar a dependência que a sociedade viria a ter da eletricidade nos dias atuais. Não raro Dom Pedro II freqüentava eventos técnicos na Faculdade de Medicina e na Escola Central. É do conhecimento de historiadores o intenso interesse do Imperador pelos desenvolvimentos tecnológicos que na época encontravam ampla divulgação na Escola Central. A primeira instalação no País de iluminação com base em energia elétrica em área externa foi efetivada em 1881 no Jardim do Campo da Aclamação.

casa de força abrigando duas máquinas Gramme de 8 CV cada. da Escola de Minas e Metalurgia de Ouro Preto. Não havia barragem. Rio Grande do Sul. No dia 7 de setembro de 1889 teve início o emprego da hidroeletricidade para serviço público no País pela iniciativa de Bernardo Mascarenhas. No dia 15 de novembro de 1884. Em 1893 era colocada em operação a hidroelétrica Luiz Queiroz no rio Piracicaba. XX e XXI pela Diretoria Geral dos Telégrafos. A usina. uma usina termoelétrica dotada de três dínamos. Ao longo de todo Século XIX a iluminação não sofreu sequer uma paralisação noturna. à iluminação das residências do acampamento da empresa. posteriormente. localizada em Honório Bicalho. Dom Pedro II acionou a ligação de 60 lâmpadas da Edison Electric Co. de propriedade da Compagnie des Mines d’Or du Faria. a mais antiga usina hidroelétrica do País e uma das mais antigas do mundo. Entretanto. atual município de Nova Lima. outro marco histórico do progresso nacional.25 m de diâmetro. A energia gerada movimentava duas bombas de desmonte a jato d’água para exploração de diamante e. após pouco tempo.Séculos XIX. era um maciço de enrocamento impermeabilizado na face de montante por uma laje de madeira composta de pranchas aparelhadas. no Rio de Janeiro. hoje substituída por uma estrutura de concreto gravidade. pioneira de um desenvolvimento impar no século seguinte. através de 16 lâmpadas de arco voltáico supridas por dois dínamos acionados por um locomóvel. na bacia hidrográfica do rio Jequitinhonha. no Rio de Janeiro. A usina encontra-se desativada há décadas. a empresa Real & Portella colocava em funcionamento a iluminação pública da cidade de Rio Claro no Estado de São Paulo. sendo a primeira verificada nas noites de 10 e 11 de junho de 1901. aproveitava uma queda de cerca de 40 m acionando uma roda d’água de 20 pás que movimentava dois dínamos Gramme com potência total de 500 CV. A energia era destinada às atividades de mineração. No dia 24 de junho de 1883. Minas Gerais. no município de Diamantina. gerando em corrente contínua. de propriedade da Companhia Força e Luz. Essa usina manteve uma centena de lâmpadas na região central da cidade com energia produzida por um dínamo de 50 CV. na zona urbana da cidade de Piracicaba. não chegando a durar um ano sequer. industrial estabelecido em Juiz de Fora. Em 1887 a empresa Companhia Fiat Lux iniciou um serviço de iluminação pública em Porto Alegre. na Exposição Industrial que foi instalada no edifício do Paço. acionadas por uma roda d’água de madeira com 3. iluminação e esgotamento de água nos túneis da mina de ouro e. instalou no ribeirão do Inferno. através de 10 lâmpadas de arco voltaico de 2000 velas cada. este devido a Mariano Procópio que obteve do governo imperial concessão para construir e explorar a rodovia inicialmente utilizada por viaturas de tração animal. A iluminação pública contava com 39 lâmpadas de 2000 velas cada. Dom Pedro II inaugurou. então ocupado pelo Ministério da Viação. Em 1883. com capacidade total de 52 kW. em Campos dos Goytacazes. na atual Praça 15 de Novembro.A História das Barragens no Brasil .5 km). Essa foi a primeira usina hidroelétrica no Brasil. sendo hoje um pequeno museu mantido pela CEMIG à beira da rodovia União Indústria. com energia elétrica gerada por uma termoelétrica com capacidade instalada de 160 kW. Em 1887 foi instalada uma pequena usina termoelétrica no Largo de São Francisco de Paula. A barragem. contratado na Europa diretamente pelo governo imperial como um dos docentes para aquela Escola. a operação dessa usina teve vida efêmera. o Professor Armand de Bovet. Ainda em 1887. A adução era feita por um desvio no 90 . com 1500 rpm. Minas Gerais. A usina dispunha de uma barragem que criava uma queda de cerca de 5 m. passou a ser utilizada também em iluminação. A transmissão era a mais longa do mundo na época. com 2 km de extensão (a transmissão da primeira usina de Niagara Falls tinha 1. Nessa data foi colocada em operação no rio Paraibuna. São Paulo. a usina hidroelétrica Marmelos com 252 kW de capacidade em duas unidades geradoras acionadas por duas rodas d’água. Também em 1887 entrou em operação a usina hidroelétrica do ribeirão dos Macacos.

A energia representava pouco na economia nacional retratada pelas importações de carvão e de querosene que atingiam a apenas 6% e 2% do total das importações do País. tinham seus pequenos reservatórios unidos por um túnel escavado em rocha. Canadá. Em 1895 entrou em operação a hidroelétrica de Corumbataí. Figura 1 – Usina hidroelétrica de Marmelos O início do Século XX (até 1913) Na virada do Século XIX para o Século XX a população brasileira de 17 milhões de habitantes era predominantemente rural.7 MW. no Rio de Janeiro (1883). O ambiente político era favorável a concessão a empresas privadas. uma no ribeirão Claro e outra no rio Corumbataí. Com uma atividade de exploração puramente extrativista dos recursos florestais com base em desmatamento da Mata Atlântica de forma dispersa e sem registros oficiais. em São Paulo (1884). por parte do poder público. situada não muito afastada do extenso litoral nacional e servida por uma rede ferroviária de 14. A primeira concessão do grupo foi dada pela Câmara Municipal de São Paulo para serviços de transporte urbano em veículos movidos a eletricidade. por governos estaduais e mesmo por governos municipais. uma das mais extensas do mundo na época. em Alagoas (1895) e Estância. Como não havia legislação específica. independente da nacionalidade. em Minas Gerais (1889).88 MW.. destaque é devido ao grupo que se tornou a São Paulo Light e a Rio Light. preocupações com o suprimento de energia. Destes últimos. em Sergipe (1900). no município de Rio Claro. formada em Toronto. Juiz de Fora. no Rio Grande do Sul (1887). A abundância de lenha e a aparente ausência de reivindicações populares para universalização dos serviços de eletricidade faziam com que não houvesse. Ltd. A casa de força abriga duas unidades de capacidades distintas que somam 1. pela ordem cronológica. no Paraná (1892). não se desenvolvia a mineração de carvão e nem se considerava possibilidades da existência de reservas de petróleo. propiciou a vinda do principal executivo Frederick Pearson que trouxe o advogado e empreendedor 91 . A casa de força abriga quatro unidades de potências e procedências diversas somando 2. Maceió. Essa concessão da São Paulo Railway Light and Power Co. em São Paulo e em Minas Gerais por empreendedores nacionais e estrangeiros. para serviços públicos e exploração de recursos naturais. São Paulo. as concessões de serviços de energia elétrica eram dadas pelo governo central. Curitiba.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens curso do rio próximo à sua margem esquerda. Duas barragens. Rio Claro. Até a virada do Século XIX para o Século XX as primeiras cidades por unidades da Federação que tiveram serviços públicos contínuos de força e luz foram. Campos dos Goytacazes. Porto Alegre.000 km. Nessa época estavam sendo iniciadas várias atividades de implantação de novos serviços de energia elétrica principalmente no Rio de Janeiro.

A quase totalidade delas e suas áreas de concessão foram sendo incorporadas por empresas maiores. no rio Tietê. Nos últimos anos do Século XIX foram iniciadas as obras da primeira usina hidroelétrica da empresa no Brasil. instalada pela Light em 1905 com a finalidade de proporcionar iluminação pública e residencial bem como tração para os bondes da capital federal. As hidroelétricas que eram instaladas no início do Século XX eram destinadas a suprir de energia elétrica centros isolados. a jusante da cidade de São Paulo. Essa usina foi sucessivamente ampliada até atingir 16 MW instalados. hoje Edgard de Souza. denominada na época Parnaíba.A História das Barragens no Brasil . Em 1908 a usina já tinha 12 MW instalados. Nesses casos.000 kW instalados. tendo sido instaladas por prefeituras ou por pequenos empresários para atendi­ mento às demandas das suas fábricas. A barragem é uma soleira vertedoura de gravidade em pedra arga- 92 . construída no rio Piabanha pelos Guinle em 1908. Seu objetivo inicial era atender às necessidades da rede de transportes urbanos e iluminação da cidade de São Paulo. sendo ampliada para 24 MW em 1909. na quase totalidade. A segunda hidroelétrica instalada no estado foi Piabanha. tendo sido. A barragem era em arco-gravidade situada no alto Ribeirão Das Lajes. o excesso de energia era destinado à iluminação pública e domiciliar. desativadas anos depois. No Estado do Rio de Janeiro nesse início do Século XX destacamse. No Rio de Janeiro a primeira hidroelétrica foi Fontes. a de Lajes. A empresa passou a operar no País ao abrigo da autorização concedida em 1895 pelo presidente Campos Sales. as hidroelétricas eram em geral de portes muito modestos e tinham casas de força em posição remota em relação às barragens. com vertedouro de lâmina livre em sua crista. que teria inicialmente 2. XX e XXI Figura 2 Barragem e Reservatório de Lajes canadense Alexander Mackenzie e os engenheiros Hugh Cooper e Robert Brown.Séculos XIX. tornando-se uma das maiores hidroelétricas do mundo. a implantação das hidroelétricas de Piabanha. Hans e Coronel Fagundes. Com esse perfil de consumo e com os elevados custos da época em que todos os equipamentos eram importados. Desta maneira surgiram os primeiros concessionários privados nacionais de energia elétrica nas regiões Sul e Sudeste.

Figura 3 . muito próxima à hidroelétrica de Piabanha. campo de conhecimento em que se tornaria uma das mais altas expressões mundiais a partir da segunda metade do Século XX. pai do então menino Flavio Henrique Lyra que brincava no canteiro de obra e já se familiarizava com barragens e hidroelétricas. município de Paraíba do Sul. Nessa obra trabalhou o engenheiro Flavio Lyra. A barragem é em concreto gravidade com soleira vertente livre e a casa de força abriga uma unidade Francis horizontal de 294 kW.Casa de Força de Fontes 93 . Em 1911 os Arp instalaram a hidroelétrica de Hans no ribeirão Santo Antônio.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens massada com 25 m de extensão e altura de 6. tendo assumido em seguida a concessão de serviço público do município. Em 1912 os Guinle implantaram a hidroelétrica de Coronel Fagundes no rio Fagundes. A barragem é em gravidade de pedra argamassada e concreto. município de Friburgo com o objetivo de suprir a fábrica de linhas de energia. em Muri. A casa de força abriga duas unidades Francis duplas gêmeas de 3 MW cada.7 m. com altura de 13 m e 80 m de extensão.

é em concreto gravidade de pequena altura. a hidroelétrica passou em 1932 da Cia Melhoramentos Urbanos de Paranaguá para a Cia Melhoramentos Paulistas. Força e Luz Cataguazes-Leopoldina. município de Tombos. No início do Século XX em Minas Gerais destacam-se as hidroelétricas de Maurício e Tombos. para o Departamento de Águas e Energia Elétrica e para a COPEL. A construção foi supervisionada pelo engenheiro Otávio Carneiro.88 MW instalados. Osvaldo Lynch e Henrique Fox Drumond. A barragem com 6 m de altura era vertedoura com crista livre situada na crista da cachoeira da Fumaça.A História das Barragens no Brasil .Barragem de Piabanha.3 MW. A casa de força abriga duas unidades Francis de eixo horizontal de 2. A casa de força abriga dois grupos geradores num total de 2. constituindo-se em vertedouro de soleira livre.Barragem de Coronel Fagundes 94 . sendo desativada em 1970. situada na crista da cachoeira de Tombos.Séculos XIX. Em 1912 foi instalada a usina hidroelétrica de Tombos no rio Carangola. município de Leopoldina pela Cia. instalada por ingleses em 1910 na vertente da Serra do Mar em Paranaguá. assessorado pelos engenheiros Pedro Leivas. para a prefeitura de Paranaguá. Em 1911 foi inaugurada a hidroelétrica de Pitangui para suprir de energia elétrica a cidade de Ponta Grossa. Figura 5 . Alfredo do Paço. A potência instalada era de 1. Com capacidade de 510 kW. XX e XXI A barragem. Figura 4 . A hidroelétrica de Maurício foi implantada em 1908 no rio Novo. Os contrafortes em primeiro plano são reforços recentes Nos 30 m centrais a barragem é vertedoura em crista livre. No estado do Paraná há referência à hidroelétrica Serra da Prata.4 MW cada.

Turvinho Batista e Sodré. Gavião Peixoto.M. Salto Pinhal e Bocaina foram desativadas nos anos oitenta e noventa do século passado. no município de Figura 7 – Usina hidroelétrica de São Valentim 95 . em 1912. para suprimento de Blumenau. Boa Vista e Quilombo. San Juan. com cinco unidades Pelton com potência nominal de 3 MW cada sob 640 m de queda br uta. em alvenaria de pedra. mas apresentando no conjunto. as usinas de Socorro. Salto Grande.7 m de altura e 41. a metade Figura 6 . Rio Novo e Monjolinho. com apenas 2. envolvida por densa floresta da Mata Atlântica. A maioria dessas usinas tinha menos do que 1000 kW instalados em sua primeira etapa. mas sempre ficando com potências inferiores a 6 MW. em 1909. As turbinas de fabricação J. 10 MW de potência efetiva. Votorantim. Marmelos II. entrou em operação em 1913 a primeira unidade da hidroelétrica de Salto Weissbach no rio Itajaí Açú. Salto Pinhal. A maioria dos vertedouros era sem controle. delas tive ampliações de capacidade instalada em etapas posteriores. poucas com contrafortes localizados. São Valentim e Marmelos II em 1910. A barragem é uma soleira vertedoura de altura apenas suficiente para promover a derivação de parte das descargas para a tomada d’água que conduz as águas captadas para as turbinas que são alojadas em casa de força abrigada na margem direita.5m com engolimento de 19. No estado do Rio Grande do Sul as primeiras barragens que se tem notícia para produção de energia elétrica foram construídas a partir de 1911 e entraram em operação em 1912. Bocaina. Macaco Branco. em alvenaria de pedra e concreto ciclópico foi implantada no município de Cruz Alta tendo sua casa de força a potência instalada de 268 kW e a barragem Picada 48. sendo soleiras livres implantadas nos leitos dos rios. em 1911. foi construída no município de Dois Irmãos tendo sua usina a capacidade de 200 kW. As barragens dessas usinas eram de altura modesta. Chibarro. Capitão Preto. Desse conjunto de usinas pioneiras. São Joaquim e Brotas. em 1913.5 m de comprimento.4 m³/s. em geral de gravidade em alvenaria de pedra. O destaque dentre essas usinas é Itatinga. A barragem Inglês com 4 m de altura e 55 m de extensão. Itatinga.Barragem vertedoura e canal de adução de Tombos Em Santa Catarina. Esmeril.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens O Estado de São Paulo se destaca nos primeiros anos do Século XX por um expressivo números de pequenas hidroelétricas como as usinas de Santa Alice que começou a operar a partir de 1907. Voith são Francis gêmeas de eixo vertical com potência de 1470 kW cada sob a queda nominal de 10. A usina encontra-se implantada na vertente oceânica da Serra do Mar. as hidroelétricas de Monjolinho.

A História das Barragens no Brasil .Séculos XIX. XX e XXI Figura 8 – Usina hidroelétrica de Brotas Figura 9 – Usina hidroelétrica de Gavião Peixoto Figura 10 – Usina hidroelétrica de Boa Vista 96 .

sendo o acesso o mesmo utilizado desde o início das obras em 1890. F. Prado Junior F. A energia produzida era direcionada para a fábrica de linhas e para a vila residencial na localidade de Pedra. – Brazilian Development in Engineering for Dams – Comitê Brasileiro de Grandes Barragens. SP. 2000. O conjunto arquitetônico da casa de força é majestoso. M. tiveram expressivo desenvolvimento nos primeiros anos do Século XX. 1979. – The Development of the Brazilian Dam Engineering . feito por via férrea a partir da margem direita do rio Itapanhau. 1976. A. Essas pequenas hidroelétricas aproveitando quedas d’água naturais e operando seus reservatórios a fio d’água. Em 1913 entra em operação a primeira hidroelétrica do Nordeste Angiquinho.A. Memória da Eletricidade . A. F. próximo à rodovia BR-101.A. 1999. Miguez de Mello. 1997. A casa de força foi implantada no trecho médio da escarpa granítica da margem esquerda do salto principal.1 MW instalados. com 1. – Pequenas Centrais Hidrelétricas no Estado de São Paulo Governo do Estado de São Paulo. – A Century of Dam Construction in Brazil – Comitê Brasileiro de Grandes Barragens. . Saveli. 2009.Reflexos da Cidade.. 1982. Miguez de Mello.Main Brazilian Dams III.A. hoje Delmiro Gouveia. A. F. Ee Amaral C. 2000 Prado Jr. O reservatório é formado por duas barragens de alvenaria de pedra argamassada com vertedouro de soleira livre. A usina foi implantada com o objetivo principal de suprir o porto de Santos de energia elétrica. C. e Amaral. Comitê Brasileiro de Barragens. – Pequenas Centrais Hidrelétricas no Estado de São Paulo – Comissão de Serviços Públicos de Energia. F. construída por Delmiro Gouveia na margem alagoana da cachoeira de Paulo Afonso.Sinopse Histórica da Eletricidade no Brasil. Referências Dias Leite. tendo passado de 306 em 1920 para 1009 em 1930. Miguez de Mello. – A Energia do Brasil. Figura 11 – Usina hidroelétrica de Angiquinho 97 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Bertioga. A.

98 98 .

Mas a primeira hidroelétrica de maior porte construída na América do Sul. Esta usina Figura 1 . na cidade de Campos (RJ). na cidade do Rio de Janeiro. ambas em Minas Gerais e a Usina Termoelétrica Velha Porto Alegre. nesse período. no município de Viçosa. Pedro II inaugurou. localizada no Ribeirão do Inferno. quando Dom Pedro II inaugura. Em 1881. o primeiro serviço público municipal de iluminação elétrica do Brasil e da América do Sul. entrou em operação em 99 . Neste mesmo ano Thomas Alva Edison havia construído a primeira central elétrica para utilização na iluminação pública na cidade de Nova Iorque. No ano de 1883 entrou em operação a primeira usina hidroelétrica no país. em 1887. foi instalada pela Diretoria Geral dos Telégrafos a primeira iluminação externa pública do país. A energia era fornecida por uma usina termoelétrica. Pedro II. na Estação Central da Estrada de Ferro D. Essa história iniciou-se no final do século XIX. em 1885 a Usina Hidroelétrica da Companhia Fiação e Tecidos São Silvestre. na cidade de Juiz de Fora (MG). foi a Usina Hidroelétrica Marmelos no rio Paraibuna. destinada à produção de energia para utilidade pública. Posteriormente mais algumas usinas entram em operação. no Rio Grande do Sul. hoje Marmelos-Zero. a construção de unidades de produção de energia hidroelétrica visando a autoprodução. destinada à extração de minério na região. Em Minas Gerais. o interesse pela nova fonte de energia intensificouse. a primeira instalação de iluminação elétrica permanente do país. em 1887. afluente do rio Jequitinhonha. atual Estrada de Ferro Central do Brasil no Rio de Janeiro. Empresas de mineração e fábricas têxteis promoveram. A usina de Marmelos. a Usina Hidroelétrica Ribeirão dos Macacos.“Marmelos Zero” . em 1879. às margens da estrada União e Indústria. na cidade de Diamantina.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Usina Hidroelétrica de Marmelos Adelaide Linhares de Carvalho Carim Introdução O Brasil foi um dos pioneiros na exploração da energia elétrica. em substituição aos 46 bicos de gás existentes. Em 1883 o imperador Dom D. em trecho da atual Praça da República.Primeira Usina Hidroelétrica da América do Sul destinada à produção de energia para utilidade pública foi desativada cento e quatro anos mais tarde em 1987.

foram erguidos pequenos povoados. até a principal região mineradora (Vila Rica. Mariana. Bernardo Mascarenhas foi o responsável pela instalação de Marmelos. dois meses antes da proclamação da república e apenas 7 anos depois da hidroelétrica de Appleton em Wisconsin na America do Norte. Sua inauguração trouxe a mão de obra qualificada dos imigrantes alemães. Santo Antônio do Paraibuna . Com a cafeicultura. Neste ano. construída pelo engenheiro Mariano Procópio Ferreira Lage e pela Companhia União Indústria. como Matias Barbosa. às margens do Paraibuna. marco zero da energia hidroelétrica no Brasil. Sabará. como a Rodovia União Indústria.que em 1965 se tornava Juiz de Fora . que iniciaram o processo industrial da cidade. em 1861.Barbacena e outras. Dom Pedro II e representantes ilustres da Corte e da Companhia União Indústria percorreram em diligência os 144 quilômetros da primeira rodovia macadamizada brasileira. A Companhia Mineira de Eletricidade foi de extrema importância para a industrialização de Juiz de Fora. que começou a ser escrito quando o bandeirante Garcia Dias Paes traçou o chamado Caminho Novo que passava pela margem do Rio Paraibuna. e fundador da já extinta CME . entre as cidades de Petrópolis e Juiz de Fora. XX e XXI 5 de setembro de 1889. por iniciativa do industrial Bernardo Mascarenhas. havia grandes fazendas de café que eram as bases da economia local.Juiz de Fora em 1875 100 . Ao longo deste caminho. Juiz de Fora prosperou grandemente devido à cafeicultura. novos investimentos foram trazidos para a cidade.Companhia Mineira de Eletricidade em 1888. com a inserção de A cidade de Juiz de Fora no final do século XIX A inauguração da usina de Marmelos veio se somar ao pioneirismo desta cidade. para ligar o porto do Rio de Janeiro Figura 2 . Estes eram locais de descanso dos tropeiros que passavam pela região.Séculos XIX. Por meio deste caminho que efetivamente a história de Juiz de Fora se inicia. Diamantina e tantas outras).A História das Barragens no Brasil .

fórum e jornais. que ficava neste momento no Rio de Janeiro. fotógrafo do imperador. Todos estes empreendimentos foram realizados por iniciativa do industrial Bernardo Mascarenhas. a construção da ferrovia Dom Pedro II em 1875. Em 1878 funcionavam seis estabelecimentos de ensino. Em 1980 os serviços urbanos foram ampliados com bondes de tração animal. Outro beneficio da estrada foi a melhoria no escoamento da produção cafeeira da Zona da Mata Mineira até o Rio de Janeiro. em 1881 ganhava telégrafo. e em 1889 a primeira Figura 3 .Guia do Viajante de Petrópolis a Juiz de Fora”. Em 1888 Juiz de Fora ganhava a Companhia Têxtil Bernardo Mascarenhas e o Banco de Crédito Real. escrito pelo alemão Revert Henrique Klumb. e em 1884. antes mesmo até que algumas importantes cidades européias. em 1883. tendo sido substituída como ligação rodoviária entre Petrópolis e Juiz de Fora pela BR-040. telefones urbanos. promoveu a comunicação entre a cidade e a corte.Av. Barão de Rio Branco em 1903 ambas pertencentes ao acervo do Museu Mariano Procópio. e intitulado “Doze Horas em Diligência . A estrada deu origem também ao primeiro guia de viagens do Brasil. As figuras a seguir mostram Juiz de Fora em 1893 e a Av. Barão de Rio Branco -1903 101 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens algumas fábricas. Posteriormente. A Estrada União Indústria existe até hoje em vários e extensos trechos. A cidade de Juiz de Fora se iluminava para o mundo. o telégrafo. Figura 4 .Panorâmica de Juiz de Fora – 1893 usina hidroelétrica para iluminação pública da América do Sul. Mais tarde vieram os italianos e com eles ampliaram outros setores como o comércio e a prestação de serviços.

filho de Antônio Gonçalves da Silva Mascarenhas e de Policena Moreira da Silva Mascarenhas. região de Curvelo. viajou para os Estados Unidos onde ficou por 1 ano e meio. convida dois irmãos para montarem em sociedade uma indústria têxtil. XX e XXI Figura 5 . visitou fábricas. mecânica. inaugurou as instalações da fábrica têxtil da companhia Cerdo. privada no país. viaja para a Europa e Estados Unidos com a incumbência de atualizar-se. física. no ano de 1872 em Sete Lagoas. É criada então em Curvelo a companhia Cachoeira (1877).Séculos XIX. constituindo a primeira S. Em 1882 foi aprovada a lei das sociedades anônimas no Brasil e em 1883 fez-se a fusão das empresas (Cedro e Cachoeira).A. utilizando as mais novas tecnologias da época. Alguns anos mais tarde. um dos melhores de Minas Gerais. tocados a mão na fazenda de seu pai.Companhia Têxtil Bernardo Mascarenhas inaugurada em maio de 1888 102 . adquiriu os maquinários desejados e voltou para o Brasil e. A partir da experiência adquirida com os teares de madeira. na fazenda São Sebastião. Figura 6 . é o décimo filho dentre os 13 filhos do casal. dinheiro para iniciar a vida como criador de gado e comércio de sal. Bernardo Mascarenhas Bernardo Mascarenhas nasceu em 1846.A História das Barragens no Brasil . Neste período estudou idiomas. adquirir novos equipamentos e conhecer a utilização da eletricidade na indústria textil. Com 18 anos. considerado à época. Para aprender sobre tecelagem.Bernardo Mascarenhas Aos 12 anos iniciou seus estudos no colégio Caraça. recebeu de seu pai 26 contos de reis. como fazia com os demais filhos ao completar esta idade.

em substituição à iluminação a gás. A nova usina além de atender à iluminação pública da cidade atenderia as máquinas da Companhia Têxtil Bernardo Mascarenhas. onde pretendia montar uma indústria de tecidos. aproveitando os recursos naturais de seu terreno. A CME foi a responsável pela construção da usina de Marmelos Zero e foi presidida por Mascarenhas até seu falecimento. O empresário adquiriu outro terreno perto da estação ferroviária. Neste local. encomendando o material para a usina) Figura 7 . Doou este terreno para a CME Companhia Mineira de Eletricidade. A antiga Companhia Têxtil Bernardo Mascarenhas apresenta rigorosa simetria com um corpo central em três pavimentos e ladeado por suas extensas alas horizontais em dois pavimentos. Em 1886. tendo em vista o uso da iluminação elétrica. Bernardo Mascarenhas faleceu no dia 9 de outubro de 1899 de um ataque cardíaco fulminante. que se localizava próximo à cachoeira de Marmelos.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Bernardo Mascarenhas mudou-se para Juiz de Fora em 1886 e adquiriu o terreno próximo do Rio Paraibuna e da Rodovia União Indústria. Bernardo Mascarenhas projetou e especificou a usina.. inaugurada em maio de 1888. local mais propício para o escoamento da produção de tecidos. “A fábrica de eletricidade será provida de dois excelentes dínamos movidos por duas turbinas verticais ou de eixos horizontais. devendo ter força bastante para alimentar 50 lâmpadas de arco de 1000 velas e quinhentas ditas incandescentes de 16 velas. praticamente utilizável. Mascarenhas e o banqueiro Francisco Batista de Oliveira recebem aprovação junto à câmara municipal para explorar a Cachoeira dos Marmelos para produção elétrica e a concessão para a iluminação da cidade e obteve a revisão do contrato original. seria erguida a primeira usina hidroelétrica da América do Sul. Bernardo Mascarenhas buscava outras fontes de energia em substituição à energia usada que até então era à base de querosene. “Me considerarei muito feliz se for o primeiro a transmitir força elétrica. No dia 22 de agosto de 1889.Esboço da hidroelétrica Marmelos Zero por Bernardo Mascarenhas 103 . foi realizada a primeira experiência com a eletricidade e em 5 de setembro de 1889 ocorreu a inauguração oficial. no Brasil ou talvez na América do Sul” (trecho da carta de Mascarenhas em 1887). também fundada por ele em janeiro de 1888. fazendo um esboço de próprio punho de como ela seria.” (Trecho de memorial de Bernardo Mascarenhas para Max Nothman & Co. mais tarde.

A História das Barragens no Brasil . A edificação. vertentes concavo-convexo e drenagem dentrítica. gnáissicas. como será descrito em seguida. denominado “Castelinho”. denominado “Castelinho”. quartzito e entrecortados por diques de anfibolito.Edifício da Cia. que iria ser colocado na fábrica Bernardo Mascarenhas como força propulsora. XX e XXI Descrição geral da usina Geologia A geologia ao longo do rio e suas margens é constituída por afloramentos de rochas charnockíticas. Figuras 9 e 10 . O solo residual é constituído de areia siltosa. ambos de idade Pré-Cambriana. As rochas charnockíticas são gnaisses que sofreram desidratação e descalcinação durante metamorfismo de alta temperatura e pressão média a alta (fácies granulito). o relevo nas proximidades das usinas caracteriza-se por altas colinas de topos arredondados. foi construído em 1890. Nas ombreiras e encostas da barragem é comum um manto de solo de 5 a 10 m de espessura. quando ocorreu a inauguração do motor elétrico. 104 . Figura 8 . planos de fraqueza e a típica esfoliação esferoidal que se interceptam originando blocos de rocha sã de dimensões variadas. As rochas do complexo charnockítico e do embasamento cristalino possuem sistemas de fraturas. Este complexo charnockítico acha-se intercalado por faixas com espessuras variádas de granulitos. em dois pavimentos. Mineira de Eletricidade. De modo geral.Séculos XIX. granulitos e anfibolitos do Complexo Juiz de Fora e parte do embasamento Pré-Cambriano indiferenciado. migmatito. O edifício da Cia. gabro e outras rochas básicas e ultrabásicas. de cor amarelada com alto grau de erodibilidade. Mineira de Eletricidade.Usina de Marmelos .Primeira usina hidroelétrica da América do Sul destinada à produção de energia para utilidade pública e força motriz para indústria Posteriormente. foram montadas outras usinas no mesmo local para atender inteiramente à crescente demanda de consumo. lembra a arquitetura medieval . disseminados no manto intemperizado ao longo das encostas e principalmente soltos no leito do rio Paraibuna.

Outro motor elétrico de 20 HP. tem como coordenadas geográficas Latitude 21º 43’ Sul e Longitude 43° 19’ Oeste. acionadas por turbinas Francis. de fabricação italiana.000 kW. a usina iniciou o fornecimento de energia para a fábrica de Mascarenhas após a aquisição do primeiro motor elétrico instalado no Brasil. instalada em uma casa de força adjacente à Usina 1. 105 . M. fabricadas pela alemã J. operada sob tensão de 1000 Volts. a usina de Marmelos 1 foi desativada. como as demais. com capacidade de 600 kW cada uma com as mesmas características técnicas das duas anteriores. a cidade de Juiz de Fora passou a viver um intenso desen­ volvimento industrial o que demandava aumento na oferta de energia. com capacidade de 1600 kW. ampliou-se a potência da usina de Marmelos 2 com a instalação da terceira e quarta unidades geradoras. Em 1952. Em 1905 foi instalada a terceira unidade com capacidade de 300 kW. Marmelos 1 contou inicialmente com duas unidades geradoras bifásicas de 300 kW cada. foi desativada em 1896. também em Juiz de Fora. sendo denominada Usina 1-A. após a inauguração de Marmelos 1. Este motor de 30 HP de potência era de fabricação da Westinghouse. Marmelos atinge a potência de 1200 kW com a entrada em operação da quarta máquina de fabricação da Westinghouse. A usina de Marmelos como é denominada atualmente é composta pelas antigas Usinas 2 e 1-A e passou a ser operada pela CEMIG em 1980. Em 1921 e 1922. Nesta época. O acionamento elétrico dessas fábricas representou à época outro marco histórico. foi adquirido na ocasião pela fir ma Pantaleone Arcuri & Timponi.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Localização e dados técnicos históricos A usina hidroelétrica de Marmelos está localizada no rio Paraíbuna. pois a maioria das indústrias têxteis era movida a vapor com complicados sistemas de transmissão para as máquinas e muitas ainda eram acionadas por rodas d’água. afluente do rio Paraíba do Sul a 7 km de Juiz de Fora e a 290 km de Belo Horizonte MG. no momento em que a CME adquiria a companhia de bondes de tração animal de Juiz de Fora. A casa de força foi construída em prédio contíguo ao da usina Marmelos 1. tornando-se concessionária dos serviços de eletricidade de Matias Barbosa. quando obteve a sua concessão através do decreto MME 700725 de 08/07/80. Esta usina. última usina construída pela CME. As figuras a seguir ilustram os equipamentos eletromecânicos da usina de Marmelos. foi construída a quinta unidade. que foi inaugurada inicialmente com dois grupos geradores de 600 kW de potência cada. denominada Usina Zero. Bicas e Guarará. Em 1910. fabricados pela Westinghouse. fabricados pela empresa americana General Electric e turbinas tipo Francis de 1000 HP. Em 1898. Mar de Espanha. Com o aumento da geração a CME ampliou sua área de influência na Zona da Mata Mineira. Voith. quando Juiz de Fora possuia 180 lâmpadas na iluminação pública e 700 para uso particular. Um terceiro grupo gerador com a capacidade de 125 kW foi instalado em 1892. construída pouco abaixo da usina desativada. Esta unidade geradora era composta por uma turbina tipo Francis dupla. fabricada pela empresa americana James Leffel e um gerador de fabricação da General Electric. Marmelos 2 passou então a dispor de capacidade instalada de 4. dois anos após a construção da usina de Joasal. Em 1948. na frequência de 60 Hz. A usina foi projetada inicialmente com uma capacidade de geração de 250 kW distribuída em dois grupos geradores monofásicos de 125 kW. visando transformá-la em linhas elétricas. Em 1915 o engenheiro Asdrúbal Teixeiras de Souza projetou a segunda usina Marmelos 2.

Gerador da unidade 1 a 4 da antiga Usina 2 106 .Séculos XIX.A História das Barragens no Brasil . XX e XXI Figura 11 .Interior da casa de força da antiga Usina 2 de Marmelos Figura 12 -Turbina e gerador da unidade 5 da antiga Usina 1 A Figura 13 .

inoperante 107 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 14 .Painel original das unidades 1 a 4 e excitatrizes 1 e 2.Excitatriz nº 2 semelhante a uma unidade geradora hidráulica .Regulador de velocidade da excitatriz Usina 2 Figura 16 .Usina 2 Figura 15 .

localizado na margem direita. Tomada de água Arranjo geral atual A barragem para a formação do reservatório operado a fio d’água é constituida por uma estrutura do tipo gravidade em alvenaria de pedra com 51 m de extensão e altura máxima de 7. Sobre o vertedouro existe uma passarela que possibilita a colocação de flash-boards de até 2. XX e XXI Figura 17 – Vista aérea de montante da usina adução e duas tubulações forçadas que conduzem a água até as unidades geradoras. localizada na margem direita. localizada na margem esquerda. vencendo um desnível de 51 m entre o nível máximo do reservatório e o eixo das tubulações forçadas na entrada das turbinas. Possui uma descarga de fundo motorizada (2.Vista de jusante da barragem e do descarregador de fundo na margem esquerda.5 m de altura divididos em 10 vãos ao longo de todo o comprimento da estrutura.5 m). onde estão localizadas a antiga tomada de água para o canal de adução da usina Zero e a tomada de água do túnel de adução da usina de Marmelos.A História das Barragens no Brasil . fundada em rocha sã pouco fraturada. de alvenaria de pedra. é composto por um túnel escavado em rocha. também em alvenaria de pedra. é uma estrutura em alvenaria de pedra possuindo uma comporta moto- 108 . O circuito hidráulico de geração. A tomada de água do túnel adutor. seguido por um canal de Figura 18 .5 x 2.5 x 2. Barragem e vertedouro A barragem é do tipo gravidade. com um trecho em crista livre vertente com comprimento de 20 m e vazão de 134 m³/s.Séculos XIX. seguida por um vertedouro de crista livre com 20 m de comprimento. e por um trecho. com capacidade de 58 m³/s. O arranjo da barragem partindo da ombreira esquerda para a direita se constitui por uma descarga de fundo de acionamento motorizado (2.5 m.5m). que permitem o aumento da capacidade do reservatório em períodos secos.

A Figura 19 a seguir é uma vista geral da usina de Marmelos (casas de força e tubulações forçadas). de eixo horizontal e engolimento de 1. na sua margem direita e junto à tomada de água do túnel adutor.50 m (tubulação 2).44 m de comprimento. uma com diâmetro de 1. O trecho coberto. que alimenta a unidade geradora nº 5. tem seção em ferradura semelhante à do túnel. Túnel e canal de adução O túnel adutor tem extensão de 215. Na continuação do túnel existe um canal de adução com 283.30 m (tubulação 1) e outra com diâmetro de 1.20 m. possui uma comporta de madeira acionada manualmente e muro em alvenaria de pedra. A usina de Marmelos Zero se transformou em 109 . O trecho a céu aberto.30 m e 81. As turbinas são tipo Francis. totalmente escavado em rocha e revestido lateralmente com concreto. O Museu Usina de Marmelos Zero A CEMIG (na época Centrais Elétricas de Minas Gerais) adquiriu a usina em 1980. em alvenaria de pedra. Marmelos 1A e Marmelos 2) estão localizadas ao longo do rio Pa­ raibuna e foram assentadas em maciços rochosos sãos. A casa de força de Marmelos Zero foi edificada em nível abaixo da Estrada União e Indústria. dos quais 94.76 m². 189 m.20 m) formada por painéis de madeira. e uma terceira comporta para a regularização do nível de água. A casa de força da antiga Usina 1. Hoje é Museu da Usina de Marmelos.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens rizada tipo deslizante (4. A cobertura de duas águas é recoberta por telhas francesas e tem os beirais ornamentados por lambrequim. Na parte direita da estrutura existe um vertedouro complementar.60 x 3.9 m³/s. cujas vazões são absorvidas por um canal de concreto. Canal de fuga As paredes do canal de fuga das antigas Usina 1-A e Usina 2 são em alvenaria de pedra. O outro bloco. possui uma área total de 201.50 x 4. sobre embasamento de pedra. o circuito hidráulico de geração conta com uma câmara de carga em alvenaria de pedra. Câmara de carga Entre o canal de adução e as tubulações forçadas. de eixo horizontal e engolimento de 4. Casa de força As estruturas da usina de Marmelos (Marmelos Zero. com área total de 273 m². A turbina é tipo Francis. Suas paredes são em alvenaria de tijolos maciços aparentes. abriga quatro unidades geradoras de 600 kW cada e casa de força da antiga Usina 2.40 m são a céu aberto. Canal de adução desativado Localizado e incorporado à barragem. O comprimento de cada uma delas é de 125. Próximo a essa estrutura existe um descarregador de fundo. hoje é utilizada como almoxarifado. Na tubulação nº 2 existe uma bifurcação com diâmetro de 1. sendo vazadas por vãos com vergas em arcos abatidos em seqüência ritmada. operadas manualmente. Uma pequena torre de seção quadrada e telhado de quatro águas marca a construção.40 m. tem seção de 3. abriga uma unidade geradora de 1600 kW. em alvenaria de pedra.40 m de extensão. A casa de força da usina de Marmelos. situado sob a rodovia. é formada por dois blocos distintos: um deles. em planta. Possui duas comportas na tomada de água. situada na Casa de Força 1-A.67 m³/s.80 m e seção em ferradura com 10 m². Tubulações forçadas Existem duas linhas de tubulações forçadas partindo da câmara de carga. também em alvenaria de pedra. que foi a casa de força da Usina 1-A. Marmelos 1.

mantendo-o aberto diariamente. 2 e 1A. concedido pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA). desta vez.Séculos XIX. O museu tem como propósito preser var a memória tecnológica e científica da cidade. livros de ata e contabilidade dos primeiros acionistas da CME. Após a morte de Mascarenhas o prédio passou por Figura 19 – Vista geral das casas de força da usina hidroelétrica de Marmelos: antigas casa de força 1. Em 2005. De segunda a sexta-feira podem ser agendadas visitas monitoradas por acadêmicos da UFJF. além de várias fotografias que mostram a construção da usina. neste mesmo ano. O prédio da fábrica de tecidos de Mascarenhas também se encontra preservado. rascunho da planta da usina. a administração do museu está a cargo da Universidade Federal de Juiz de Fora UFJF.A História das Barragens no Brasil . no qual a cidade de Juiz de Fora foi escolhida para ser a primeira a se iluminar. Está aberto das 8:30 h às 17:00 h. assim como destacar a figura importante de Bernardo como sendo o precursor desta idealização e realização deste sonho. XX e XXI Desde o ano 2000. próximo ao trevo da cidade de Bicas. por meio do telefone (31) 3229-7606. máquina de escrever e de calcular.Museu de Marmelos Zero (antiga casa de força Marmelos Zero) 110 . cuja fabricação era da Westinghouse. O Museu Usina Marmelos Zero encontra-se localizado às margens da Rodovia União-Indústria. 1983 num espaço cultural e museu. assim como fotos de Bernardo e sua família e painéis com pequenos textos infor mativos. inclusive nos finais de semana e feriados. pelo Patrimônio Histórico Artístico e Cultural do município de Juiz de Fora. O acervo do museu é composto por objetos particulares de Mascarenhas. no bairro Retiro. O convênio firmado entre a UFJF e CEMIG (atualmente Companhia Energética de Minas Gerais) tem como meta aprimorar o atendimento ao público que visita o museu. contas de luz. após seu tombamento. Figura 20 . tripés de madeira. a usina ganhou um segundo tombamento. teodolito. painel de controle de energia e uma réplica de um gerador utilizado na época. Esses tombamentos demonstram a suma relevância de sua preservação como um prédio histórico.

1ª Etapa : Diagnóstico da Situação Atual da Instalação .Centro Cultural Bernardo Mascarenhas Referências CEMIG – Inventário civil – SR/SE Usina Hidrelétrica de Marmelos Relatório Final Novembro 1983.br/patrimonio/usina_marmelos. 2001 http://www.ufjf.portalsaofrancisco.ebah. fosse transformado em um centro cultural em 1987.asminasgerais.br/alfa/historia-daeletricidade-no-brasil/historia-da-eletricidade-no-brasil-5. Lima. que foi utilizada para pagamento de dívidas junto ao governo.CCBM .com.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 21 .br/juizdefora.Universidade Tecnológica Federal do Paraná Campo Mourão. Fernanda Borges Ferreira Murilo Keith . jornalistas e intelectuais fizeram com que o imponente prédio.Canal de adução desativado 111 .Usina de Marmelos .conotec.php http://www.Edição Especial Junho de 1980.org/701437/pt/Usina-Marmelos http://www.com. deixando como patrimônio sua sede. A fábrica encerrou suas atividades em janeiro de 1984.com.com.gov.eletrobras.html www.br/centrodeciencias/museu-usina-marmelos-zero/ http://wikimapia. CEMIG . A mobilização de artistas.br Figura 22 .Setembro 1993.br/historia-das-hidreletricas-no-brpdf-a91646.asp http://www.História das Hidrelétricas no Brasil .com/index. ampliações e modernizações.html http://www. Cemig Notícia – Mais Energia Para uma Grande Cidade Juiz de Fora . 2009.pjf.Estudo de Viabilidade de Recapacitação e Modernização . localizado na Avenida Getúlio Vargas 200.mg.memoria.htm www. Silvânia Duarte – Educação e Turismo uma Forma de Conhecer a História da Usina de Marmelos – Departamento de Geociências – UFJF. Umada.

Usina hidroelétrica de Angiquinho na cachoeira de Paulo Afonso em diferentes regimes do rio São Francisco .

Tinha como objetivo fornecer energia elétrica a indústria têxtil Companhia Agro Fabril Mercantil de propriedade do industrial Delmiro Gouveia. aproveitando uma queda d’água de uma altura de 42 metros. distante aproximadamente 24 km da cachoeira.000 Volts. no estado de Alagoas. e outro com 2 casas. e também a Vila Operária da fábrica.102 KW). com tensão de saída em 3. além da indústria. com sua casa de força encravada nas rochas 113 . A usina ocupava uma área de 253 hectares e possuía dois conjuntos de instalações. a bomba d’água que abastecia a cidade. que continua de pé no meio da caatinga. Angiquinho foi a primeira usina hidroelétrica do Nordeste. O ousado projeto. A partir de 30 de novembro de 2006.500 HP (1. localizada na cidade de Pedra. operado pela Chesf. constituída por três grupos geradores sendo o primeiro de 175 kVA. as edificações com o acervo interno e externo e toda a área do Complexo de Angiquinho foi tombado e integrado ao Patrimônio Histórico Artístico e Natural do Estado de Alagoas. localizada na margem alagoana da cachoeira de Paulo Afonso. A Usina Hidroelétrica de Angiquinho tinha capacidade de gerar 1. subestação elevadora.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Usina Hidroelétrica de Angiquinho Aurélio Alves de Vasconcelos Figura 1 – Vista geral da Usina Hidroelétrica de Angiquinho Introdução Inaugurada em 26 de janeiro de 1913. de 625 kVA. atual Delmiro Gouveia em sua homenagem. no Rio São Francisco. almoxarifado. um com 11 casas e 1 escola. Sua energia era suficiente para suprir. o último. próximo ao atual Complexo Hidrelétrico de Paulo Afonso. casa de bomba e escada de acesso à casa de força. o segundo de 450 kVA e.

ambiental e cultural. levou o desenvolvimento para a região que até então só conhecia a luz tênue de candeeiro. além de ser área de preservação cultural. Figura 3 . XX e XXI Figura 2 – Casa de força da Usina Hidroelétrica de Angiquinho íngremes nas margens do cânion do rio São Francisco.Guindaste usado na fase de construção e montagem da casa de força 114 . é um pólo de turismo histórico. Resgata e cria uma grande oportunidade para todos que desejam conhecer a história da eletricidade do Brasil.A História das Barragens no Brasil . educacional.Séculos XIX. Hoje. Angiquinho.

Sabe-se que os estudos contemplaram a viabilidade do aproveitamento hidrelétrico de um trecho do rio. com sua proeza de transformar as idéias em realidade. em virtude do surgimento de condições técnicas e econômicas. onde foi bem recebido pela oligarquia local. Delmiro Augusto da Cruz Gouveia nasceu em Ipu. no sertão alagoano. Diante da negativa. coube ao capitalista Delmiro Gouveia (18631917). Era descrito como um homem sempre disposto a assumir grandes compromissos. cujo objetivo principal era “empreender. Moore e sob a supervisão técnica do engenheiro Stewart. sua vida não seria senão uma conseqüência da prática de ousar. Delmiro chegou até a justificar a proposta do projeto de eletrificação Figura 4 . em caráter sigiloso. não contava Delmiro com a recusa do Governador de Pernambuco. em breve. Logo. 115 . hoje distrito de Pires Ferreira. em 5 de junho de 1863. Dantas Barreto. no Ceará. com a expressa autorização dos estados fronteiriços ao rio. o referido projeto consistia em abastecer e iluminar cidades da região.Fruto de um caso extraconjugal. a Usina Angiquinho. quando fixou residência no vilarejo denominado Pedra. construir o empreendimento pioneiro no campo da hidroeletricidade em pleno sertão nordestino. com investimentos no comércio exportador de “courinhos” (artigos de pele de bode e cabra) e com amparo financeiro de ricos financiadores norteamericanos. de fato. visando uma cooperação sob a forma de joint-venture.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens História No início do século XX. Tomado pelo ímpeto de realizar proezas. recebeu uma delegação de técnicos norte-americanos. ambas da Pedra. o aproveitamento e exploração do vale do rio São Francisco. Inicialmente. ele buscou refúgio em Alagoas. Assim. ou seja. chefiada pelo capitalista Mr. Por volta de 1909. onde. Confirmadas as vantagens. bem como iluminar sua Vila Operária. Contudo. restou acertar as condições comerciais. seria instalado um curtume para armazenar peles. consegue recuperar a fortuna perdida no Recife. Fugido do Recife por desavenças políticas. para estudos no rio São Francisco e na cachoeira de Paulo Afonso. Delmiro procurou sondar as potencialidades da região para poder colocar em ação a realização de seu sonho. Essa foi a condição para a participação do capital norte-americano no projeto. em grande escala. Apesar dessas considerações. cuja finalidade seria fornecer energia para a fábrica têxtil produtora das linhas Estrela. além de mover indústrias próximas à cachoeira e a outros planos de irrigação de terras locais. precisamente em 1903. constituída com capital nacional e estrangeiro. os norte-americanos só participariam. a industrialização da energia hidroelétrica da cachoeira de Paulo Afonso e um vasto plano agrícola-industrial conexo”. Delmiro Gouveia refugiou-se no sertão alagoano.

foram colocadas em uma barca que subiu o rio São Francisco até atracar na lapinha do sertão. Alagoas. 116 . R. já que o Governador categoricamente relutou: “O negócio que o senhor propõe é tão vantajoso para o Estado que deve envolver alguma velhacaria”. e da suíça Brown Boveri & Co. Então. No entanto. Em seguida. em carroções puxados por juntas de bois. todas essas concessões foram transformadas em decretos-lei pelo Estado de Alagoas. Geralmente. Delmiro requisitou a experiência estrangeira do técnico Anton Wer. concretizar o so- nho da eletrificação. coube a Delmiro. os quais souberam como poucos resistir às críticas e fundamentar seus argumentos na Câmara e na Imprensa. Para construir Angiquinho. na localidade de Pedra.Séculos XIX. dentro da cachoeira de Paulo Afonso. os estrangeiros pularam fora. Em 1912. Worth e a suíça Piccard Pictet & Co. furiosos debates e fracassadas conclusões acerca da célebre concessão de aproveitamento da maravilhosa queda d’água. os projetos iniciais das obras. A tribuna da Câmara Federal também foi palco de embaraçosos discursos. situada a 23 km da cachoeira. bem como dos consequentes impactos ambientais e econômicos. o maquinário da usina percorreu os 24 quilômetros que os separavam até a Cachoeira de Paulo Afonso. o deputado federal Demócrito Gracindo e o consultor jurídico do Estado Alfredo de Maya.A História das Barragens no Brasil . cruzaram o Atlântico até o porto da cidade de Penedo (AL). Equipamentos elétricos ficaram a cargo da empresa alemã Bergmann & Co.. e do engenheiro Emilio Levermann. encabeçar outro projeto ousado. da Alemanha. Luigi Borella. local de difícil acesso. Na etapa seguinte. e a isenção de impostos referentes à sua fábrica de linhas de costura Estrela. houve quem duvidasse do sucesso da obra. sobretudo por parte das imprensas alagoana e carioca que publicavam manchetes com veementes protestos sobre o assunto. através da firma Iona & Cia. para a conclusão da longa travessia. Em decorrência. junto à firma inglesa W. a produção de linha de coser foi prejudicada. voltou-se para um projeto de construção de uma usina hidroelétrica. Delmiro foi à Europa adquirir o maquinário necessário. para projetar a empreitada. Delmiro resolveu. Boa parte desse aval deve-se aos esforços e à petulância de dois alagoanos. XX e XXI do Recife. o engenheiro italiano Luigi Borella veio treinar o corpo técnico e dirigir o complexo hidrelétrico. então. Também foram contratados engenheiros e técnicos franceses para montar a usina. com a necessária construção de pontes e estradas adequadas para permitir sua passagem. vindos da Europa. Houve reações contrárias à implantação desse aproveitamento hidrelétrico da cachoeira. Após a morte por assassinato de Delmiro Gouveia. Superada a recusa. do mesmo ano. a concessão para captar o potencial hidrelétrico da cachoeira de Paulo Afonso e produzir eletricidade. o discurso girava em torno da responsabilidade jurídica sobre a exploração do Rio São Francisco. mas a usina permaneceu intacta. M. A obra foi realizada mediante concessão do estado de Alagoas ao abrigo do decreto nº 520 de 12/08/1911 de acordo com a Constituição Federal de 1891. e acabou por contratar um engenheiro italiano. A usina permaneceu no local e os equipamentos da fábrica anos depois foram levados para São Paulo. mas não foi suficiente. Já o maquinismo da fábrica veio da companhia Dobson & Barlow. As turbinas foram encomendadas às casas Bromberg e Siemens Schukert & Co. Contrataram-se. as caixas com as máquinas e equipamentos. O decreto nº 503. entre os quais o direito de explorar as terras improdutivas na cidade de Água Branca. os equipamentos foram transportados de trem através da Estrada de Ferro Paulo Afonso até chegar na estação da Vila da Pedra. pelos ingleses. Piranhas. As tubulações foram fabricadas pela competente empresa alemã Mannesmann. Por conseguinte. da Inglaterra. não passando de lenda o lançamento dos equipamentos da fábrica e da usina. Como a casa de máquinas da usina ficaria no paredão do cânion do São Francisco. Delmiro conseguiu obter vários privilégios do Governo do Estado de Alagoas. Por fim. Para a montagem dos equipamentos da usina. para alimentar uma fábrica de linhas em pleno sertão. A parte hidráulica com a alemã J. Bland & Co. havia concedido a isenção de impostos pelo período de dez anos para a exploração de uma fábrica de linhas de costura. Entre 1910 e 1911.

presidente do Senado Federal e vicepresidente da República. conflitos com o poderoso Rosa e Silva. com 264 compartimentos alugados a comerciantes de alimentos e de outros tipos de mercadoria. mantendo um grande número de compradores por toda a região Nordeste do Brasil. o Mercado Coelho Cintra. com Anunciada Cândida de Melo Falcão.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Quem foi Delmiro Gouveia (1863-1817) Delmiro Augusto da Cruz Gouveia nasceu no dia 5 de junho de 1863. filho natural de Delmiro Porfírio de Farias e Leonilda Flora da Cruz Gouveia. passando a destruir a concorrência no setor e ficando conhecido como o Rei das Peles. casando-se. em 1896. Trabalhou ainda como despachante de barcaças. na fazenda Boa Vista. Os baixos preços praticados no mercado incomodaram a concorrência. inicialmente como empregado da família Lundgren e depois por conta própria. onde só havia manguezais: abriu estradas. Em 1875. quando ele tinha apenas quatro anos de idade. transferiu-se com sua mãe para a cidade de Goiana. se engajou politicamente e partiu para outros empreendimentos. Em 1868. quando já acumulava riqueza suficiente. Foi bilheteiro da estação Olinda do trem urbano chamado maxambomba. inaugurado no dia 7 de setembro de 1899. Dedicou-se ao comércio e exportação de couro e peles. o que culminou com o incêndio do mercado. no Recife.Delmiro da Cruz Gouveia do Derby. em 1883. Esmeraldino Bandeira e em decorrência. Foi o responsável pela urbanização do bairro Figura 5 . teve que trabalhar cedo para se manter e ajudar a mãe. na cidade de Pesqueira. onde adquiriu posteriormente. 117 . no início de 1900. ruas. Fundou. município de Ipu. base de sua capacitação necessária a vencer os diversos desafios com que sonhava e que nele tinham a firmeza das idéias-fixas. um palacete que hoje é propriedade da Fundação Joaquim Nabuco.  Dispondo de capital. bairro do Recife. De família pobre. a Casa Delmiro Gouveia & Cia. construiu casas e um grande mercado modelo sem similar no Brasil. havendo por isso desentendimentos com o então prefeito do Recife. tangidos pelas secas que periodicamente ocorrem no sertão nordestino e pela morte do pai. Ceará. em Pernambuco e depois para o Recife. Em 1872 muda-se para Recife. Interessado na compra e venda de couro e peles de cabras e ovelhas vai para o interior de Pernambuco. onde funciona o Instituto de Documentação. quando tinha apenas 12 anos de idade abandona o lar materno e se lança no mundo à procura de emprego que lhe permitisse sobreviver com o mínimo de folga para proporcionar o seu aprendizado. trabalhando também na estação de Apipucos.

Embarcava sua produção através de porto de Piranhas. à medida que enriquecia criava mais inimigos. em Maceió.Séculos XIX. no lado alagoano. Separado da esposa. Em 26 de janeiro de 1913. por isso. Autoritário e de temperamento difícil.A História das Barragens no Brasil .  A fábrica era um modelo de organização. raptou a adolescente Carmela Eulina do Amaral Gusmão. após a reforma realizada em 1924. além da tensão em que vivia. uma pequena fábrica têxtil para produção de linha. Figura 6 . que o acusava de estar procurando aproveitar-se do seu governo e. Dantas Barreto. utilizando o Porto de Jaraguá.Prédio do antigo mercado que agora abriga o quartel general da Polícia Militar de Pernambuco Angiquinho atualmente Em outubro de 1958 a usina Angiquinho perdeu a concessão do aproveitamento parcial da cachoeira de Paulo Afonso. aos 54 anos de idade. Barbados e até nas Antilhas e Terra Nova. através de uma pequena usina geradora de eletricidade. uma localidade a cerca de 280 km de Maceió e que na época só possuía seis casas.  ambulatório médico. utilizando a ferrovia que ligava Jatobá (atual Itaparica) a Piranhas para transportá-la. Em 1901. fugindo para Alagoas e fixando-se na Vila da Pedra. rompeu relações com o industrial. cinema e ringue de patinação. aos 39 anos. impondo-se também nos mercados da Argentina. que culminaram com o seu assassinato à bala. em 1902. com diversos pavilhões onde ficavam os teares. Em 1909. Seu temperamento sempre difícil. depois Bolívia. o que causou desentendimentos com o então governador de Pernambuco. Inaugurou. hoje município de Delmiro Gouveia. perseguido e com problemas no casamento refugiou-se durante um ano na Europa. Levou a energia elétrica para a povoação onde ficava a fábrica e depois até a Vila da Pedra. no dia 10 de outubro de 1917. o prédio do antigo mercado abriga o quartel general da Polícia Militar de Pernambuco (Figura 6). uma vila operária. no terraço da sua casa na Vila da Pedra. puxando a rede elétrica até a sua fazenda. que logo dominou o mercado nacional. em 1914. Não querendo ficar isolado e para ajudar no desenvolvimento das suas atividades industriais. Passou a comprar e exportar couro e peles. mas con- 118 . Peru. capta energia elétrica na queda do Angiquinho. produziram uma série de atritos e inimizades. inicia os estudos para aproveitamento econômico da cachoeira de Paulo Afonso. XX e XXI Hoje. com a marca Estrela. e da falta de apoio governamental. Passou a idealizar e desenvolver projetos para a implantação de uma hidroelétrica que abastecesse o Recife de energia. construiu cerca de 520 km de estradas carroçáveis e introduziu o automóvel no sertão. Chile.

mas nunca se esconderam na Figura 7 . Além disso. onde dizem que Lampião se escondeu. que além de proporcionar ao turista comum uma vista diferenciada da cachoeira. Depoimentos de cangaceiros do bando afirmaram que estiveram naquela área.A casa força de Angiquinho localizada à margem alagoana da cachoeira de Paulo Afonso Figura 8 . contudo a presença dos cangaceiros na área de Angiquinho já foi praticamente desmentida. da Furna dos Morcegos. a usina foi transformada em um ponto de visitação turística. Por intermédio da CHESF e da prefeitura de Delmiro Gouveia.Escada de acesso à casa de força Furna dos Morcegos. pois não se encontrou qualquer indício dessa passagem. foi elaborado um projeto de recuperação histórica que inclui a restauração da usina. Segundo o projeto de recuperação denominado “Projeto de gestão de Angiquinho”. bem como atrair profissionais e leigos com interesse de conhecer a história das hidreléricas no Brasil. seria incoerente um bando tão articulado como o de Lampião se esconder em um local que tem apenas uma única entrada. quando foi por fim desativada. 119 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens tinuou a distribuir eletricidade para a cidade de Delmiro Gouveia (antiga vila da Pedra) até 1960.

que investiu R$ 1. Nas entranhas da usina saem paisagens lunáticas. São pedras e rochas e tocas de rio para todos os lados (Figura 13). coordenador da FDG.Séculos XIX. que liderou o movimento pelo resgate do acervo. XX e XXI Figura 9 – Prédios da usina recuperados Figura 10 – Interior da casa de força A Chesf. passou a gestão de Angiquinho à Fundação Delmiro Gouveia (FDG). 120 . “A luta agora é para que Angiquinho deixe a fila de espera pelo decr eto do gover no federal e Ministério da Cultura para o tombamento nacional” . assinala Edvaldo Nascimento. águas muito limpa mostram o fundo translúcido do Velho Chico. Passear no sítio histórico de Angiquinho é mover as rodas da história.5 milhão na recuperação da usina.A História das Barragens no Brasil .

Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 11 – Gerador Figura 12 – Turbina de eixo horizontal 121 .

Séculos XIX.Vista do cânion a partir da casa de força 122 . XX e XXI Figura 13 .A História das Barragens no Brasil .

Figura 14 . Szmrecsányi. A visão do Velho Chico cercado por cânions e corredeiras é colossal. Site www.controvérsia. que alimentavam a usina. 2. 10. 9. http://www. no rio e na bela cachoeira. Folha Sertaneja (03 de dezembro de 2006). que abriga os três geradores Brown Boveri e as turbinas Piccard Pictet. Ousadia no Nordeste: A Saga Empreendedora de Delmiro Gouveia. que iluminou boa parte da região até nos anos 60. Tamás (orgs. escadas em espiral. Entrar naquele prédio arrojado e quase secular é sentir segurança e êxtase. 1961. Paulo Afonso I: Imagens de uma epopéia. Cachapuz. 4. Paulo Afonso: de pouso de boiadas a redenção do Nordeste . Força e luz: eletricidade e modernização na República Velha. A descida é adrenalina pura. 2007. Magalhães. Maceió: Fiea/ Gijs. Rio de Janeiro: Centro da Memória da Eletricidade no Brasil.br 12. Armando. php?option=com content&vieu=article&id=6068Itemid =195(Texto de Semira Adler Vainsencher pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco) Acessado em 17/02/2011. Jornal Chesf – CER – Ano IV – nº 235 – junho a novembro/2006. 6. Página visitada em 6 de janeiro de 2008. 11. Gildo. fruto da cabeça do cearense Delmiro Gouveia. de Barros – Dalla Costa.br/pesquisaescolar/index. Adriana Sbicca. Paulo B. Principalmente ao abrir as janelas da casa e correr o olho nas rochas. Galdino.br/sala-de-imprensa/noticias/ noticias-2008/angiquinho-atrai-turismo-de-aventurasem-delmiro-gouveia/(Texto de Mário Lima) acessado em 17/02/2011). ou parte dela. A casa de máquinas continua presa às rochas e é o ponto culminante do passeio. São Paulo: hucitec/Abphe.gov.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens O coração começa a bater mesmo na escadaria de metal. Silva. o “Rei do Sertão”.turismo. empresários e desenvolvimento econômico no Brasil. no caminho da velha casa das máquinas. 1995.). com plataforma para mirante.fundaj. Sávio. Davi Roberto Bandeira. Fernandes. Sant’ana. 13. São Paulo: ed. 8.gov. Projeto Gestão de Angiquinho (HTML) (2008). 2008. Paulo Afonso-BA. http://basilio.Subestação Elevadora de Angiquinho 123 . Revista Continente Documento – Ano I. que desce 45 metros abaixo das rochas. Antônio – Mascarenhas. 2008.al. 7. 3. Governador de Alagoas assina decreto de tombamento do complexo Angiquinho (HTML).com. nº 11 – 2003. Pequena história de Delmiro Gouveia. Empresas. de onde os olhos captam uma imagem inesquecível do que resta da cachoeira de Paulo Afonso. Página visitada em 6 de janeiro de 2008. Maceió: imprensa oficial. 2000. Unesp.Câmara Municipal de Paulo Afonso. Moacir Medeiros de. Referências 1. e uma cachoeira transborda na entrada do lago da usina. 5.

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também.50 m (Figura 1). A usina foi construída aproveitando uma queda de 11. com 88 m de comprimento e um desnível de 0. Contava. 380/220 V. no município de Carolina. hoje completamente abandonada e em péssimo estado de conservação.30 m. com uma pequena subestação que tinha um único transformador trifásico de 11. O quadro de comando era de ferro perfilado com painel de mármore polido. estado do Maranhão.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Usina do Itapecuruzinho A primeira hidroelétrica da Amazônia Erton Carvalho Esta usina está localizada no rio Itapecuruzinho. dimensionado para aduzir uma vazão de 2. Foi concebida e projetada no período de 1937/1938 e teve a sua construção realizada no período de 1939/1940.000 V. através de um sistema de polias.Cachoeira do Itapecuruzinho 125 . que desemboca no rio Tocantins pela margem direita. com rendimento de 75%. A linha de transmissão da usina para a cidade de Carolina tinha Figura 1 . que terminava com uma pequena tomada d’água seguida de um conduto forçado com capacidade de 1. afluente do rio Manoel Alves Grande. um gerador de 120 kVA. As Figuras 2. No local foi implantada uma casa de força que abrigava uma turbina Francis de 110 kW. acionando.44 m3/s. 3. As obras civis foram constituídas por um canal lateral de forma trapezoidal.22 m3/s. freqüência de 50 Hz e com a velocidade de 750 rotações por minuto. 4 e 5 mostram a casa de força e seu interior.

Séculos XIX.A História das Barragens no Brasil .Casa de força Figura 3 . XX e XXI Figura 2 .Turbina Francis 110Kw 126 .

como a maioria das cidades ribeirinhas banhadas pelo grande rio. 127 . situada a 33 km da cidade. situada no extremo sul do Maranhão. Os sócios pretendentes exigiram que Newton Carvalho obtivesse do interventor uma autorização para que a usina fornecesse energia para a cidade. à margem direita do rio Tocantins.Gerador de 120 KVA necessidade de construir em Carolina uma usina hidroelétrica. História A cidade de Carolina. único meio de transporte existente na região. arcebispo do Maranhão. Na cidade. o Brasil possuia apenas uma potência instalada de 847 MW. sua fase áurea. sendo que as perdas no transporte da energia foram estimadas em 5. A partir daí.5 km. Paulo Ramos. ele fez várias viagens a São Luiz. correspondendo a 0. nos anos quarenta. aproveitando a bela cachoeira existente no rio Itapecuruzinho. homem de idéias progressistas. Newton Carvalho colocou esse empreendimento como a grande meta de sua vida. Por interferência de Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta. Vale ressaltar aqui que Carolina era uma das cidades consideradas de oposição ao interventor do estado. e sua classe política bastante temerária quanto às atitudes do citado interventor. Em 1937. Naquela época (1937). a rede pública de distribuição de energia era de 220/110 V. o que permitiu dar andamento ao início dos trabalhos. para aquela sociedade local de uma obra bastante audaciosa.2%.Gerador e painel de controle com sucesso. Newton Carvalho. A linha foi implantada com postes de aroeira a uma distância média de 50 m. Mesmo assim. Tratava-se.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens 28. capital do estado. conheceu.75% da atual. portanto. Excluindo os grandes centros urbanos. iniciou sua luta para convencer um grupo de conterrâneos da Figura 4 . o fornecimento de energia era restrito ao período das 18 às 21 horas. não tendo conseguido ser recebido por aquela autoridade. sendo 192 MW em usinas térmicas e 755 MW em hidroelétricas. a audiência acabou sendo realizada Figura 5 . na maioria das cidades. através de uma subestação abaixadora.

foi empreendida uma luta titânica para retirá-lo da água. posteriormente. Foram lançados sacos de areia com bandeiras vermelhas para demarcar o referido caminho. A empresa de nome Hidroelétrica Itapecuru Ltda. Nasceu em Carolina. dividido inicialmente entre oito sócios. para estudar junto à companhia alemã Siemens a viabilidade do empreendimento. dentre elas a de Itaboca. às margens do pequeno rio Itapecuruzinho. que fazia voos entre Carolina e Belém. com o aproveitamento da referida cachoeira. para negociar com a empresa a consolidação do projeto e a compra dos equipamentos necessários para a construção da usina. O projeto previa a colocação de duas unidades de 143 kW. utilizados pelos sertanejos locais. a qual nunca saiu do papel. Para a construção da linha de transmissão foi aberta uma picada da cidade até o local da usina. que outorgou à sociedade o direito de explorar o referido aproveitamento até a potência de 285 kW. onde hoje está localizada a usina de Tucuruí. assim. permitindo. a cooperação de mais seis sócios. mas inicialmente só foi instalada uma unidade de 110 kW. em plena ditadura do então presidente Getúlio Vargas. que o equipamento subisse pelo empuxo a que era submetido. utilizado em um trabalho de topografia para a ferrovia Pirapora-Belém. 128 . companhia aérea alemã. autorizou o funcionamento da usina e a sua inauguração se deu em 15/11/1941.. teve. finalmente o maquinário chegou a Carolina. ele mesmo.888. esvaziava a embarcação.Séculos XIX. com o auxílio de um velho teodolito de propriedade do professor José Queiroz. de novembro de 1941. Newton Carvalho. Viajou às próprias custas e contou com a ajuda de um comerciante alemão. registrando-a no dia 11 de julho do mesmo ano. Em sua grande maioria esses marcadores não foram encontrados. XX e XXI Em 1938. com uma linha de transmissão de aproximadamente 30 km. cada um contribuindo com 10 contos de réis. então capital federal. Seu idealizador e executor (Figura 6) teve que vencer obstáculos quase intransponíveis para implantar na Região Amazônica a primeira usina hidroelétrica. em 26 de julho de 1900. um dos pesados transformadores da subestação caiu no rio. Quando passava pela cachoeira de Itaguatins. na Junta Comercial do Maranhão. se esconde um episódio heróico que bem reflete a época e o momento histórico em que foi construída. esvaziava-as e enchendo-as de água até chegar ao limite de transbordamento tracionava o transforma- dor e. Era um dos onze filhos do casal Alípio Alcides de Carvalho e Rosa Sardinha de Carvalho. organizou a firma em 1939.790. Foi assim instalada.A História das Barragens no Brasil . O rumo da linha de transmissão foi definido por um piloto da Condor. Desprovido de equipamentos para içá-lo. elaborou a planta da cidade e implantou a rede pública e o sistema de distribuição de energia residencial. perto da cidade de Porto Franco. O sucesso dessa operação só foi possível pelo fato de Newton Carvalho conhecer e fazer uso do princípio de Arquimedes. Newton Carvalho foi ao Rio de Janeiro. O capital inicial de 340 contos de réis. tendo as embarcações atravessado várias cachoeiras. Newton Carvalho adquiriu da Siemens todos os equipamentos para a instalação da usina. Para alcançar o lugar escolhido. totalizando 14 sócios. Biografia Por detrás desta pequena central hidroelétrica. a primeira usina hidroelétrica da Amazônia. foi então organizada para fornecer energia elétrica ao município de Carolina. Voltando novamente à capital federal. A concessão para o empreendimento ocorreu em 16 de novembro de 1939. em seguida. Com auxilio de mais uma embarcação. O Decreto nº 15. quando o presidente Getúlio Vargas e seu ministro Fernando Costa assinaram o decreto n o 4. Após verdadeira epopéia. travou-se outra batalha com o transporte dos equipamentos em pequenos caminhões através de caminhos intricados. seguiram através do rio Tocantins até Carolina. Transportados por via marítima até o porto de Belém. Retornando do Rio de Janeiro com os dados da usina nas mãos. publicado no Diário Oficial do dia 8 de fevereiro de 1940. proprietário da Casa Beckgis. Newton Alcides de Carvalho provinha de família numerosa.

Elaborou. Ali. também. Outubro de 2000. resolveu transferir-se com a família. conhecido por “Dano”. construiu as usinas hidroelétricas das cidades de Anicuns (1948/1949) e de Santa Cruz de Goiás. Deixou para a posteridade um exemplo de homem probo. Em 1949. Newton Carvalho. No período de 1961 a 1965 exerceu a função de chefe-geral da limpeza pública da capital do estado. já radicado em Goiânia. vítima de acidente automobilístico. A formação do homem visionário. não era comum à época: tinha concluído apenas o curso ginasial. a esposa Eliza Ayres de Carvalho e seus filhos. ao mesmo tempo em que desenvolvia atividades comerciais. norte de Portugal. Notas da família Carvalho Artigo do jornalista Waldir Braga no jornal “Folha do Maranhão do Sul” (25/Julho a 03/Agosto de 1996) Revista Século XX “Gente que fez Carolina” de Paulo Noleto Queiroz. para o interior do estado de Goiás.Newton Alcides de Carvalho Referências 1. Figura 5 . um projeto para a exploração industrial do babaçu. trabalhou na Secretaria de Educação no planejamento e construção de 248 prédios escolares na zona rural. baseado no método dinamarquês. tendo adquirido por conta própria noções de inglês e alemão. participou. também. da física e da engenharia. obras porém não realizadas. corajoso e realizador. Faleceu em 25 de outubro de 1969. Ali. 2. Autodidata. altamente avançado para a época. da construção de uma usina açucareira. dedicou-se com afinco ao estudo da matemática. projetos para as usinas de Campos Belos e Babaçulândia. 3. Diversificando suas atividades. em 1944. apresentando um estudo sobre o aproveitamento do mesmo. através de tratamento mecânico e biológico. antes mesmo de completar 70 anos. 129 . que pensava adiante do seu tempo. decepcionado com a alta inadimplência dos consumidores de energia. Ainda não havia atingido quarenta anos quando resolveu vender todos os seus bens para conseguir tornar real o sonho de executar o projeto da construção da pequena usina hidroelétrica em Carolina. determinado. Estruturou o serviço de coleta e destino do lixo. lecionou matemática e escrituração mercantil a jovens conterrâneos. nascida em Vianna do Castelo. Não tendo sido ressarcido de seus investimentos. cópia datada de 1939. elaborou. o qual lhe proporcionou sólida base cultural voltada para as ciências exatas. principalmente com a da iluminação pública. ainda.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Seu pai era originário da cidade de Caxias do Maranhão e sua mãe era oriunda de berço português. Em sua cidade natal. Memória Técnica da Usina de Itapecuruzinho. 4.

130 .

na época de sua instalação era a maior hidroelétrica da América Latina e a segunda maior do mundo. a Cidade Luz Sulamericana Armando José da Silva Neto e Flavio Miguez de Mello por em funcionamento no Brasil a empresa que seria referência no desenvolvimento da engenharia brasileira de barragens e usinas hidroelétricas. Em 1909 foi ampliada com a instalação de mais três unidades geradoras. O gerente do Figura 1 . coube a tarefa de implantar e Casa de força de Fontes. mesmo em comparações internacionais. com 32 m de altura e crista com 234 m dos quais 134 m eram vertedouro de lâmina livre. Ltd. em 30 de maio de 1905. no Município de Piraí.Alexander Mackenzie.” Antonio Dias Leite. que deu grandeza ao sistema elétrico brasileiro com projetos ousados. A barragem era uma estrutura de concreto gravidade em arco de 100 m de raio. no Estado do Rio de Janeiro. residentes no Brasil havia cinco anos. da usina de Fontes. A potência instalada era de 12 MW. Liderada pelo advogado canadense Alexandre Mackenzie e pelo engenheiro americano Frederick Stark Pearson. Concepção artística do engenheiro José Carlos de Miranda Reis Neto Figura 2 . primeiro presidente (1904-15) 131 . recomendado pelo engenheiro Pearson. Essa usina.Frederick Stark Pearson. elevando sua capacidade para 24 MW. O desenvolvimento da construção. Em 1908 foi lançado o primeiro grande desafio: a construção no Ribeirão das Lajes. 2007 A Light no Rio de Janeiro. fundador e segundo presidente (1915-28) empreendimento foi o engenheiro Clint H. mas podendo chegar a 15 MW.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens “Ter-se-á de reconhecer a importância da contribuição da Light. Kearny. operação e manutenção de usinas hidroelétricas no Brasil tem um dos capítulos mais importantes na criação de uma empresa chamada The Rio de Janeiro Light and Power Co.

Séculos XIX. 132 .Barragem de Tócos vista de montante Figura 3 .Barragem de Lajes construída em 1906 Figura 5 – Saída do túnel de Tócos Em 1914 foi concluída a barragem de Tócos no rio Pirai e um túnel com 8. Esse túnel passou a derivar as águas do rio Pirai para o reservatório de Lajes. na época o mais longo túnel hidráulico do mundo. Os dois escritórios da LIGHT nas cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo foram reunidos em um só visando a ampliação da geração de energia hidráulica já que a demanda naquela época não parava de aumentar em função do desenvolvimento que estava ocorrendo no País.A História das Barragens no Brasil . XX e XXI Figura 4 . possibilitando o aumento de capacidade de Fontes para 55 MW.4 km de extensão.

que era especializado em obras hidráulicas e seus equipamentos.5 km de extensão constituído por diques de terra compactada e trechos em concreto. Figura 6 . a usina tem um canal de adução com 2. As comportas se encontram em operação até os dias de hoje. MG no rio Paraíba do Sul a 150 km da cidade do Rio de Janeiro.Construção da usina hidroelétrica Ilha dos Pombos em 1924 133 . A construção da usina ficou a cargo do engenheiro Asa W. Há vertedouros de menores capacidades equipados com comportas Stoney. Inaugurada em julho de 1924. Com três comportas tipo setor que até hoje são as maiores do mundo.Engenheiro Asa White Kenney Billings Figura 7 . o vertedouro principal é localizado na margem esquerda. RJ e Além Paraíba. Kenney Billings. do lado norte.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Em 1921 a LIGHT foi autorizada a construir uma nova usina hidroelétrica nos municípios de Carmo.

XX e XXI Figura 8 . as maiores do mundo Com as ampliações realizadas em setembro de 1937. bem como uma repotenciação da usina com aumento da capacidade instalada.Usina hidroelétrica de Ilha dos Pombos – Uma das três comportas setor. Figura 9 . a LIGHT foi autorizada a ampliar a Usina de Fontes. 134 .Séculos XIX.Usina hidroelétrica de Ilha dos Pombos tendo seus vertedouros reabilitados. a usina de Ilha dos Pombos atingiu a potência instalada de 167 MW sob 31 m de queda bruta. Após mais de 55 anos de operação. Vista de montante.A História das Barragens no Brasil . nos anos 90. Em março de 1940. foi executada uma reabilitação completa da barragem e de suas comportas.

elevando a potência instalada para 172 MW. Para permitir a construção foi necessário desocupar a pequena cidade tombada de São João Marcos no município de Rio Claro. Entretanto. na barragem do Rio da Prata. cada uma com 39 MW. O reservatório havia sido idealizado para ser utilizado para regularizar as descargas que seriam derivadas do rio Paraíba do Sul.052 milhões de metros cúbicos. implicou também na construção da barragem e do dique de Cacaria. Essas obras foram finalmente executadas nos anos 80. Figura 10 . A obra foi concluída em 1958. aumentando a capacidade de armazenamento do reservatório para 1. o reservatório jamais foi completamente cheio por dois motivos: o abastecimento de água para a cidade do Rio de Janeiro havia passado a depender das descargas efluentes da casa de força de Fontes sem outro tratamento que não a cloração e a necessidade de obras adicionais para garantir a estabilidade da barragem de Cacaria e do Dique 4. O alteamento da barragem que passou da soleira vertedora livre em arco gravidade para uma barragem em contrafortes de 63 m de altura.Barragem de Lajes após a conclusão do alteamento 135 . no Dique 4 e no Dique 5. A ampliação constou de três novas unidades.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens O projeto do engenheiro Billings elevou em 26 m a Barragem de Lajes.Início do alteamento da barragem de Lajes Figura 11 .

Casa de força de Fontes 136 . restando apenas as três unidades Francis de Fontes Nova e as seis unidades de Nilo Peçanha. desde extremados esquerdistas que se intitulavam de nacionalistas. Nesse cenário. Figura 12 . embora ela tenha estudado em detalhe potenciais no médio rio Paraíba do Sul (Funil. sob a queda bruta de 310 m. denominada Fontes Nova e na implantação da casa de força subterrânea de Nilo Peçanha que. Sapucaia e Simplício) e efetuado estudos que cobriram extensas áreas do território nacional. Presentemente as antigas unidades Pelton de Fontes estão desativadas.Séculos XIX. Carlos Lacerda. aumentou em 378 MW o Complexo de Lajes. à Light não eram concedidas novas concessões. a Light enfrentava opositores de todas as correntes políticas. desde a vertente oceânica da Serra do Mar até as Sete Quedas.A História das Barragens no Brasil . até o líder da UDN. Essa foi a obra de engenharia mais importante no final dos anos 40 e início dos anos cinqüenta. Inaugurada em 1953. que se referia a ela como “o Polvo Canadense”. todas Francis de eixo vertical. resultou na ampliação de geração em Fontes com a instalação de três unidades Francis de 39 MW cada. XX e XXI Apesar dos bons serviços prestados e do estrangulamento das tarifas a partir do Código de Águas em 1934. Esse cerceamento de novas concessões e a necessidade de ampliação da geração determinaram a adoção do artifício de se conceber uma ampliação da usina de Fontes pela derivação de descargas dos rios Pirai e Paraíba do Sul.

Barragem de Santa Cecília Figura 14 . a barragem de Sant’Ana. também instaladas pela Light.Barragem Santana 137 . a elevatória de Vigário que dispõe de unidades reversíveis. projeto em que Karl Terzaghi introduziu filtros chaminés em barragens de terra. a segunda casa de força de Nilo Peçanha ainda não foi construída. ficando as usinas de Fontes Nova e Nilo Peçanha com elevado fator de capacidade. e a casa de força subterrânea de Nilo Peçanha. Figura 13 . que contou com a importante colaboração do geólogo Portland Port Fox.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Para esta fase da ampliação uma série de obras foram executadas. destacando-se a elevatória de Santa Cecília. a construção da barragem Terzaghi e do dique Vigário. Embora constasse do projeto original. de grandes dimensões para a época. as terceiras instaladas no mundo depois das unidades de Traição e Pedreira em São Paulo. no rio Pirai construída em apenas dois meses.

bloqueando os canais de fuga de Fontes e de Nilo Peçanha. O refluxo de lama inundou a casa de força de Nilo Peçanha causando a paralisação da usina por vários meses para a recuperação dos equipamentos totalmente feita pelos técnicos da Light. XX e XXI Em fevereiro de 1967 intensa precipitação provocou inúmeros deslizamentos nas encostas da Serra das Araras na área das usinas. Realça-se a coragem dos operadores e a tenacidade da equipe da Light na recuperação das instalações cuja operação era comandada pelos engenheiros Walter Stukembruk e Henrique Smoka. Para que a derivação das águas do rio Paraíba do Sul fosse licenciada. ambos de elevada competência e dedicação. a Light teve que promover a regularização do rio pela implantação da barragem de Santa Branca e contribuído com 40% do Figura 15 .Séculos XIX.Elevatória de Vigário.Desvio Paraíba-Piraí .A História das Barragens no Brasil . ao fundo dique do Vigário e a barragem Terzaghi 138 .

Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens investimento na construção das barragens de Paraitinga e Paraibuna. essa usina foi inicialmente denominada Lajes Auxiliar. são situadas na margem esquerda do reservatório. Curiosamente a Light esperou a posse do presidente Castelo Branco em 1964 para oficialmente inaugurar a usina.Canal de fuga de Nilo Peçanha em 1967 Foto 18 . Nicholson. As estruturas de concreto da tomada d’água e do vertedouro. com 99 MW instalados sob 36 m de queda bruta.R. Em 1961 foi concluída a usina de Ponte Coberta. este com 330 m³/s de capacidade de descarga. no trecho paulista da bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul. aproveitando as águas turbinadas do Complexo de Lajes. Figura 16 . J. A barragem de terra tem 52 m de altura e 231 m de crista.Presença do Terzaghi (ao fundo) no campo durante a construção da barragem que tem o nome em sua homenagem Figura 17 . Considerando as dificuldades acima mencionadas na obtenção de novas concessões. Somente nos anos 90 a Light instalou as unidades geradoras em Santa Branca.Inauguração da hidroelétrica Nilo Peçanha. posteriormente denominada de Pereira Passos. Ministro Apolonio Salles. João Monteiro 139 .

João Gonçalves de Sousa. mais uma hidroelétrica no leito do ribeirão Das Lajes que presentemente (2011) encontra-se em construção. Figura 19 . presidente da Light e Geremias Fontes. presidente da República. governador do Estado do Rio de Janeiro em inspeção nas usinas geradoras da Light no dia 4 de fevereiro de 1967. presidente da Light. após os acidentes ocasionados pelas intensas precipitações. presentemente. General Ernesto Geisel. tendo passado de grupos francês.Séculos XIX. XX e XXI No final do século passado foi desenvolvido o projeto da PCH Paracambi. Marechal Castelo Branco. Antônio Gallotti. A Light foi estatizada em 1966 e privatizada em maio de 1996. Essa hidroelétrica terá 25 MW instalados com elevado fator de capacidade.A História das Barragens no Brasil . Figura 20 . em visita de inspeção após o acidente de 1967 140 . Castelo Branco e Gallotti.Pres. ser de controle integralmente nacional. chefe da casa militar. ministro extraordinário para coordenação dos órgãos regionais. americano e nacional para.

Construção da barragem de terra de Ponte Coberta. ao ser agraciado com o título de Engenheiro Eminente pela Associação dos Antigos Alunos da Politécnica. Dr. professor da UFRJ.Inundação da casa de força de Nilo Peçanha.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 21 . inspeção de barco Figura 23 .O atual presidente da Light após ter dirigido a ANA e a ANEEL. Jerson Kelman. parte da hidroelétrica Pereira Passos Figura 22 . em 2010 141 .

Alexander Mackenzie. fundador e segundo presidente (1915-28) 142 .

Foram introduzidas três comportas de segmento com capacidade de 800 m³/s. incluindo fornecimento de gás. e esse é apenas um dos diversos lugares que se situam no entorno de São Paulo e que poderão vender mais energia para todos seus cantos. considerando a extrema alteração nos coeficientes de escoamento da área de drenagem devida à intensa ocupação urbana da cidade de São Paulo e de cidades vizinhas. Seylaz.H. Armando José da Silva Neto e Flavio Flavio Miguez Miguez de de Mello Mello Em 1899 o advogado canadense Alexander Mackenzie fundou a The São Paulo Railway. Anderson.” Figuras 1a e 1b .E. Em 1954 a antiga casa de força foi substituída por uma estação de recalque com unidades reversíveis e a barragem foi alteada em seis metros através de contrafortes e lajes planas. Nos anos 80. A capacidade instalada inicial era de 2 MW. tesoureiro presidente da Companhia Telefônica Brasileira. serviços de bondes e ônibus. passando a ter 18. Edgard de Souza foi a primeira de uma série de obras hidráulicas executadas nas proximidades da cidade de São Paulo dos últimos dois anos do século XIX até meados do Século XX. 143 .5 m de altura. Nas fotografias L. superintendente geral da São Paulo Gas Company e G. tendo sida aumentada a capacidade de descarga do vertedouro. situada na cachoeira do Inferno.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A São Paulo Light. nova importante reabilitação foi feita. A barragem foi construída em alvenaria de pedra com vertedouro de superfície livre em quase toda a extensão de sua crista. Light & Power Company e iniciou imediatamente a construção da hidroelétrica de Parnaíba. and this is but one of the several places that stand around São Paulo and sell more power to its elbow”  Rudyard Kipling* * “Eles (Light) afirmam agora que podem fornecer meio milhão de cavalos-vapor somente deste local (Cubatão). telefonia.Desde os primeiros anos a Light constituiu diversas outras empresas de serviços em São Paulo e no Rio de Janeiro. Fomentadora de Progresso “They (Light) say now that they could deliver half a million more horse-power from this place alone (Cubatão). posteriormente denominada Edgard de Souza. no rio Tietê e inaugurada em 1901.

G. A intensa estiagem de 1924 fez com que Asa White Kenney Billings. A barragem é de terra com 15. De montante para jusante. o solo foi transportado por tração animal e compactado apenas com a passagem das carroças.000 m³ foi proveniente de área de empréstimo escavada à mão. Como elemento de impermeabilização foi executada uma cortina de estacas prancha na linha de centro da barragem. XX e XXI Com o objetivo de regularizar as afluências à usina de Edgard de Souza. em apenas onze meses. tendo posteriormente dado nome à barragem e à usina. inaugurada em 1925. Uma cheia extraordinária nos anos oitenta fez com que fosse executado um vertedouro adicional na ombreira esquerda. o circuito inicia-se pela barragem de Figura 2 – Ferdinand M. a maior carroça transportava no máximo 15 toneladas e as estradas eram de tráfego precário. A barragem. A usina.3 MW. tributário do rio Tietê. engenheiro americano de elevada competência que vinha de obras na Espanha e no México. No início da segunda década do século passado. as comprou e as trouxe para São Paulo. com duas unidades de 9. mas operou até 1961 quando foi paralisada devido a excesso de percolação sob a tomada d’água da usina. A coluna Miguel Costa – Prestes iniciava a sua longa marcha. a hidroelétrica de Rasgão. O canal ficou sendo conhecido por Rasgão. aproveitando canal escavado pelos escravos de um proprietário de terras na região de nome Fernão Paes de Barros quase um século antes com a esperança nunca concretizada de achar ouro no leito do rio Tietê. O maior empreendimento foi conduzido por Billings: o chamado Projeto da Serra que aproveitava descargas derivadas da bacia do rio Tietê para a baixada Santista. Seu volume de 505. a tomada d’água do canal de adução teve reforço em seus contrafortes e a tomada d’água da casa de força teve tratamento de sua fundação por injeção de calda de cimento a alta pressão com cracagem do solo. O País entrava em estado de sítio. Nos anos oitenta as estruturas civis da barragem e das duas tomadas d’água do canal de adução e da casa de força foram reabilitadas tendo em vista o elevado estado de deterioração e os preocupantes resultados das análises de estabilidade que foram realizadas. injeções de calda de cimento sob a laje executada no pé de montante e teve reforço por atirantamento. A logística era muito difícil. construísse.1 MW cada.6 m de altura e 1500 m de crista.Séculos XIX. A casa de força foi também reabilitada e voltou a operar em 1989. tratamento este que só havia sido feito na fundação da barragem de Balbina. A barragem teve tratamento de concreto projetado no paramento de montante. O empreendimento foi feito em duas etapas: a usina de Cubatão e a usina de Henry Borden que operavam em paralelo.A História das Barragens no Brasil . a Light adquiriu da Empresa de Eletricidade de Sorocaba a concessão da hidroelétrica de Itupararanga e concluiu as obras em 1914 com três unidades de 11. foi construída em 1906 a barragem de Guarapiranga situada no principal afluente do rio Pinheiros. o que demandava explosivos nessa época tão explosiva. O canal aberto à mão teve que ser ampliado e as fundações escavadas. tinha o caráter provisório. Budweg 144 . com 20 m de altura é em arco gravidade. A época era convulsionada por movimentos revolucionários tenentistas como o de 5 de julho que ocupou São Paulo por semanas. A Light descobriu duas unidades Francis de 9 MVA em fabricação no exterior.

Com as expressivas alterações dos coeficientes de escoamento que ocorreram em sua área de drenagem devido à intensa ocupação urbana que passou de 3. a solução Figura 5 – Instante da detonação do septo de rocha Figura 4 – Execução da ensecadeira dentro do túnel 145 . Considerando a impossibilidade do deplecionamento do reservatório durante a construção por serem baixas (6. concluída em 1956. houve a necessidade de ampliação da capacidade de descarga vertida e a proteção à cidade de Pirapora do Bom Jesus que se situa logo a jusante da barragem.6 milhões de habitantes em 1955 para 15 milhões em 1990.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Pirapora no rio Tietê a montante do reservatório de Rasgão. Essa barragem de 43 m de altura em concreto gravidade. Essa barragem represa as águas até a estação de recalque de Edgard de Souza.40 m) as duas comportas de segmento que ocupam quase toda extensão da crista da barragem. sendo esta amortecida no reservatório previamente rebaixado. é provida de um vertedouro de superfície com duas comportas de segmento de 830 m³/s de capacidade. A condicionante de projeto era conseguir um esquema que permitisse Figura 3 – Esquema do lake piercing o deplecionamento do reservatório antes da chegada do pico da cheia. Essa cidade era inundada a partir de descargas de 480 m³/s. revertendo o curso do rio Tietê.

Budweg foi a execução de um lake piercing.G. As obras foram realizadas no início dos anos noventa. solução única no País. XX e XXI encontrada pelo engenheiro Ferdinand M.Vertedouro da barragem de Pirapora 146 146 .A História das Barragens no Brasil . deveria ter sido escavada uma depressão (rock trap) para receber a rocha quando da abertura final. foi construída uma ensecadeira de terra no interior Figura 6 – Saída do túnel em operação Figura 7 . de acordo com o projeto original. tendo sido escavado um túnel de jusante para montante com extensão de 168 m e seção de 48 m² pela ombreira direita até bem próximo ao fundo rochoso do reservatório onde.Séculos XIX. Em seguida foram instaladas duas comportas de segmento no interior do túnel.

Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 8 – A estação de recalque de Edgard de Souza Figura 9 . Essas duas barragens fazem com que o rio Tietê flua de jusante para montante. situada a montante de Pirapora. foi concluída com sucesso em 1993. penetrando no rio PinheiFigura 10 – Miller Lash. A obra que incluiu também alargamento da calha natural do rio a jusante da barragem. O circuito hidráulico do Projeto da Serra inclui a barragem e a estação de recalque de Edgard de Souza. presidente de 1925 a 1941 147 . A capacidade de descarga da barragem passou para 1450 m³/s.Barragem de Pedreira ou do Rio Grande do túnel para proteção das comportas quando da detonação final e detonada uma carga que abriu a entrada do túnel pelo fundo do reservatório. não mais ocorrendo inundações na cidade de Pirapora do Bom Jesus.

com seis unidades idênticas de 88 MW 148 .A História das Barragens no Brasil . presidente de 1941 a 1944 e formigas) como afirmou Billings em palestra realizada em Londres em 1936.A. com 25 m de altura e contendo um diafragma de concreto armado central que vai das fundações até o nível d’água máximo normal do reservatório de Billings. O Projeto da Serra era concluído pela condução das vazões com 710 m de queda bruta para as casas de força de Cubatão. último presidente da Light envolvendo Rio de Janeiro e São Paulo (1965 a 1974) Figura 11 – Sir Herbert Couzens. e Henry Borden. A barragem de Pedreira ou do Rio Grande é constituída por dois aterros hidráulicos. Além dessa barragem. Gallotti. a céu aberto com oito unidades no total de 661 MW. XX e XXI ros que também flui de jusante para montante pela ação das elevatórias de Traição e Pedreira implantadas no período 1938-1940. alimentando a represa de Billings e daí o reservatório da barragem de Rio Das Pedras.50 m. A barragem de Pedras é uma estrutura de concreto em arco gravidade com 35 m de altura concluída em 1926. um em cada lado das estruturas de concreto da estação de recalque. As águas estocadas na represa de Billings acessam o reservatório da barragem de Pedras situada na crista da serra do Mar onde o rio das Pedras inicia uma sucessão de cachoeiras e corredeiras em direção à Baixada Santista. O diafragma. represando as águas na elevação 728. foi também concebido como “protection against burrowing animals and ants” (proteção contra roedores Figura 13 .Séculos XIX. subterrânea. quatro dos quais feitos como aterros hidráulicos e os restantes por transporte animal e compactação apenas pelo tráfego das carroças. o reservatório de Billings é fechado por outras 13 barragens ou diques. além de ser um elemento impermeabilizante.

A instabilidade natural das encostas da Serra do Mar foi um dos fatores para que Karl Terzaghi recomendasse que a casa de força de Henry Borden fosse subterrânea. Nos anos recentes. por imposições ambientais. portanto.Seção transversal da elevatória de Traição 149 . Todas unidades são com turbinas Pelton. perda de geração do Projeto da Serra que tanto progresso garantiu a São Paulo. sendo restrito a ocasiões de ocorrência de precipitações intensas com o objetivo de minimizar as consequências das enchentes na cidade de São Paulo e no vale do rio Tietê. seguidas pelas quatro unidades da elevatória de Vigário. o bombeamento para o reservatório de Billings foi praticamente suprimido. Figura 12 . Dignas de nota são as unidades das elevatórias de Traição e Pedreira que foram as primeiras unidades reversíveis a serem instaladas no mundo.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens cada. instaladas pela Rio Light em 1953. A usina de Henry Borden era a ampliação da usina de Cubatão. Houve.

150 .

criada em 1933. moradias e empresas sejam periodicamente inundados. que na época era doença endêmica na região em torno da cidade do Rio de Janeiro. construiu obras hidráulicas para diversos fins em todo o Brasil. Ele originou-se de uma comissão. Figura 1 – Barragem de Macabú Em 1940 a Comissão para o Saneamento da Baixada Fluminense. entre 1940 e 1990. principalmente mediante abertura de canais e construção de diques. incluindo grande número de barragens.DNOS foi um órgão federal que. os municípios da Baixada Fluminense permitiram a urbanização destas terras com loteamentos inadequados. que na época era a principal atividade econômica da região. em grande parte devido à atuação de seu diretor. Com a redução da população de mosquitos a malária foi erradicada a ponto de muitas pessoas não saberem hoje que ela existiu. foi transformada no Departamento 151 . cujos extensos alagadiços formavam um ambiente favorável à procriação de mosquitos transmissores da malária. Os trabalhos se destinavam a drenar as terras e protegê-las contra inundações. A ênfase no objetivo sanitário levou. Engenheiro Hildebrando de Araujo Góes. o que faz com que hoje muitos logradouros. Por outro lado. que não levaram em conta a vulnerabilidade a inundações de parte da área.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens As Barragens do Departamento Nacional de Obras de Saneamento . para o saneamento da baixada fluminense. em certos casos.DNOS Paulo Poggi Pereira A origem O Departamento Nacional de Obras de Saneamento . após a Segunda Guerra Mundial. a dimensionar a drenagem apenas para escoar as águas da chuva em um prazo que impossibilitasse a reprodução dos mosquitos e permitisse a utilização da terra para criação de gado.

primeira obra não foi feito com a necessária impermeabilidade. Era difícil fiscalizar os trabalhos de modo a garantir a correta colocação das pedras de mão. reunidas de acordo com suas finalidades. bastante resistente. Alguns dias após a escavação de alguns metros do túnel. em todas as outras obras foi utilizado equipamento capaz de preparar e colocar concreto feito com agregados maiores. para fazer frente ao alto custo do cimento na época. o que poderia resultar na abertura de trincas no maciço. Hidroeletricidade Quando acabou a Segunda Guerra Mundial o DNOS começou a construir barragens do programa de eletrificação do estado do Rio Grande do Sul. ao longo de seus 50 anos de existência. A primeira barragem de grande porte foi a de Capingui. por este motivo. Não se dispunha de areia adequada no local nem muita experiência neste tipo de concreto na época. face à necessidade de cumprir prazos. que continuou trabalhando ativamente na Baixada. logo após seu lançamento e durante sua vibração. e evitar que o aquecimento que ocorre durante sua hidratação aquecesse o concreto além do limite aceitável. soltavam-se blocos de rocha do teto. confeccionado com brita de granulometria pouco mais graúda do que o normal no qual. apoiando programas de eletrificação dos estados. Uma vez que as tensões que ocorrem numa barragem tipo gravidade. O Quadro 1 apresenta a localização e as características principais destas obras.00 m de diâmetro após ser revestido. Depois foram sendo atendidas solicitações para construção de barragens de outras finalidades. ocorreram problemas técnicos imprevistos nas obras. e ao final será descrita sumariamente a sistemática utilizada para realizar os trabalhos de construção e a atuação dos engenheiros que lideraram o DNOS. é do tipo arco-gravidade. Com uma única exceção todas elas foram feitas de concreto. adotou-se dosagens modestas. Uma providência necessária nas obras feitas no planalto do Rio Grande do Sul foi interromper a concretagem quando a temperatura ambiente ficava muito próxima de zero graus centígrados. Nos itens seguintes são apresentadas informações sobre estas barragens. naquela época ainda não existia a Eletrobras nem outro organismo com a atribuição de aplicar recursos federais em eletrificação. os operários colocavam manualmente pedras de mão. o concreto desta 152 . não muito alta. são pequenas. não exigindo grande resistência. Uma solução interessante foi a estabilização provisória do teto de um túnel que tinha 1200 m de extensão e seção circular com 9. o que fez do DNOS. com boas condições de fundação para barragens deste tipo. construída em concreto simples com relativamente pouco cimento. a entidade nacional que construiu barragens com a maior diversidade de funções. mas com fissuras. aproveitando o fato de que os locais de implantação eram rochosos. e não foram adicionadas as pedras de mão.A História das Barragens no Brasil . o que eventualmente acidentou alguns operários. havendo casos em que foi de apenas um metro. passando depois a atuar em outros estados. os quais foram sendo resolvidos pelos engenheiros do órgão. Duas destas barragens foram feitas com concreto ciclópico. concluída em 1949. Como de costume. não mais que 200 kg de cimento por m 3. A rocha local era basalto.Séculos XIX. A partir de 1944 o DNOS foi encarregado de construir barragens para usinas hidroelétricas. com este mesmo objetivo limitava-se a espessura de cada camada de concreto colocada durante a construção. porque o cimento poderia ter sua pega prejudicada pelas temperaturas excessivamente baixas. XX e XXI Nacional de Obras de Saneamento. mas estendeu sua atuação para todo o território nacional. tendo sido impermeabilizado posteriormente mediante injeções de calda de cimento.

chamadas roof bolts. engastado na rocha de fundação. que prendiam os blocos de rocha superficiais à rocha mais distante da superfície da escavação. apoiando o teto nas paredes laterais. impedindo quaisquer outros desabamentos. que consistia em um muro vertical de concreto protendido. foi executado com equipamento e material disponível na obra. pela empresa Estacas Franki. algumas horas após a abertura de cada trecho de túnel. cujo diretor técnico Figura 2 – Barragem de Glicério 153 . Uma novidade tecnológica que o DNOS precisou enfrentar foi a construção da barragem de Ernestina. na concorrência para execução da obra. O projeto foi proposto como variante. Nos Estados Unidos eram realizadas estabilizações deste tipo perfurando a rocha do teto do túnel e introduzindo nos furos hastes metálicas especiais. e funcionou perfeitamente.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A solução encontrada foi implantar uma abóbada de concreto simples bombeado. dispensou a importação de roof bolts. O sistema empregado evitou colocar os operários em risco perfurando o teto do túnel.

O projeto original desta obra previa um maciço de enrocamento apoiado em fundação de areia. preferindo-se sempre soluções mais simples e menos ousadas. Em 1973 o DNOS encerrou suas atividades na construção de A única barragem mais sofisticada foi a de Pedra. uma vez que já existia entidade federal com a incumbência específica de promover a eletrificação do país. e venceu a barragem tipo gravidade aliviada. construídas em concreto simples.Séculos XIX.A História das Barragens no Brasil . com uma delgada camada de barragens destinadas a hidroeletricidade. comentou que só ficaria tranqüilo se o projeto previsse a remoção da areia e a colocação do enrocamento diretamente sobre a rocha subjacente. Como não havia condições para alterar o projeto. XX e XXI à época era o professor Costa Nunes. o DNOS ficou encarregado apenas da orientação técnica e da fiscalização das obras. com uma altura máxima de 65 m a partir da fundação rochosa. A barragem foi construída pela empresa proponente e funcionou adequadamente. no Rio de Contas. na Bahia. que foi ao longo de toda a vida um grande engenheiro entusiasta de tecnologia de ponta. Na última obra de que participou. provindo os recursos da Eletrobras e do governo do estado do Rio Grande do Sul.Seção transversal da barragem de Pedra 154 . O diretor geral do DNOS na época. britas e pedras arrumadas separando o enrocamento da areia da fundação. todas as demais obras para hidroeletricidade foram do tipo gravidade. ficou compreensivelmente apreensivo com relação à solução dada para a fundação. uma estrutura tipo gravidade aliviada. Figura 3 . Com exceção da barragem de Canastra. foi admitida a apresentação de variantes na concorrência para execução da obra. barragem de Passo Fundo. Engenheiro Camilo de Menezes. mas este tipo de obra nunca mais foi adotado. que foi construída em contrafortes sustentando lajes planas de concreto armado.

ao reservatório que abastece Fortaleza. A Barragem do Rio das Velhas. informando a localização das mesmas. Ceará. através de um túnel. Minas Gerais. integrante da tomada d’água do sistema adutor constr uído pelo DNOS para abastecer Belo Horizonte. que regulariza a contribuição do Rio Pacoti. a duplicação destina-se a ter uma alça conduzindo lentamente água para ser captada. no único local da área onde existe rocha a profundidade adequada. algumas delas têm características interessantes. e escoam para jusante as vazões excedentes do rio. O sangradouro é do tipo labirinto.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 4 – Barragem de Pedra Abastecimento de água a cidades O Quadro 2 relaciona as barragens construídas pelo DNOS para abastecer cidades. formado por um muro vertical engastado em uma laje horizontal ancorada na rocha de fundação. a qual é depois aduzida por gravidade. suas características e os anos de conclusão das obras. o sangradouro foi localizado. e tem fundação em terra. é de concreto armado. enquanto na outra alça vão sendo removidos os sedimentos que se depositaram enquanto ela esteve em operação. ponto este 155 . Sua característica mais marcante é a calha do rio ter sido bifurcada em duas alças mediante dragagem. As barragens de Riachão e Pacoti formam um único reservatório. dotada de comportas.

A barragem do Arroio Duro fornece água para essa irrigação. Aproveitando a existência de rocha de boa qualidade no local. na qual foi então implantado o sangradouro em labirinto. só tomando precauções para impedir que a água se aproximasse do maciço da barragem do Pacoti. com o objetivo de conhecer os locais onde havia rocha subjacente. Da mesma for ma que a bar ragem acima mencio­­ nada. com fundação em rocha. A barragem é de terra. é avaliada.condutos forçados 156 . autorizandose então o respectivo plantio. porém simples. O restante da barragem foi construído em terra. Só foi encontrada rocha em uma pequena ilha. no rio São João. Irrigação O grande sucesso do DNOS em matéria de irrigação foi o projeto que irriga aproximadamente 15. com funda- Figura 5a – Usina hidroelétrica de Passo Fundo . no Rio Grande do Sul. dispensou-se o revestimento do canal de restituição. fornece água para abastecimento das cidades da Região dos Lagos. a área que pode ser irrigada. realizados ao longo do eixo previsto para Figura 5b – Usina hidroelétrica de Passo Fundo . a tomada d’água e a descarga de fundo.A História das Barragens no Brasil . com base no volume acumulado. A barragem de Juturnaíba.000 hectares de arroz no município de Camaquã. deixando-se a água escoar pelo terreno após seu vertimento. em cada ano. ela foi projetada após uma campanha de furos de sondagem a percussão. XX e XXI a obra. pesquisa realizada por sondagens a percussão. obras estas realizadas em concreto.Séculos XIX. no Estado do Rio de Janeiro. sobre fundação de argila mole.casa de força e adução encontrado através de uma extensa.

abortando assim o projeto de irrigação. Infelizmente o DNOS foi extinto antes de completar esta dragagem. com o crescente desenvolvimento de Cabo Frio e outras cidades litorâneas. para abaixar satisfatoriamente o nível d’água naquela cidade. esta desapropriação incluiu a área onde se previa o projeto de irrigação. Foi solicitada a sua liberação. para povoar a reserva de Poço D’Antas. no Estado de Pernambuco. o DNOS não terminou a construção desta última. mas o Estado de Santa Catarina a concluiu em 1992 e ela está funcionando a contento. na bacia do Rio Capibaribe. relativamente curtas. mencionada no ítem sobre abastecimento urbano.000 ha para formar a reserva de mico-leão dourado de Poço d’Antas. caso a cortina não funcionasse adequadamente. a canalização do rio Capibaribe na área urbana daquela cidade. para proteger Blumenau e outras cidades do Vale. o reservatório de Juturnaíba tornou-se fundamental para abastecimento urbano de água na denominada Região dos Lagos do Estado do Rio. Infelizmente os locais onde podiam ser construídas barragens naquele vale não possibilitavam controlar a maior parte da bacia contribuinte. como também operar as mesmas liberando vazões 157 . o projeto previu uma cortina delgada de solo-cimento para vedação e um filtro instalado em uma trincheira situada no pé do talude de jusante. foi desapropriada uma área de mais de 20. sub-produto malcheiroso da indústria de cana de açúcar. além das barragens. possibilitando não só escoar sem extravasamento as vazões provenientes da área da bacia contribuinte não controlada pelas barragens. em concreto gravidade. Estados Unidos. Para controlar as infiltrações na fundação. A atual contribuição da barragem para irrigação resume-se em disponibilizar água para os fazendeiros que quiserem irrigar suas plantações captando água no rio São João.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens ção também em terra. que só foi executada entre as cidades de Blumenau e Gaspar. Outras barragens para controle de cheias foram as de Tapacurá. Terminou sendo necessário complementar as barragens com dragagem do rio Itajaí a jusante de Blumenau. não indicaram funcionamento adequado da cortina de vedação. Esta área podia ser abastecida de água por gravidade. mas este pedido não foi atendido. características e ano de conclusão. Iniciou-se pela Barragem Oeste. graças ao bom funcionamento do filtro. por outras de maior vão. mediante substituição por outra área equivalente para compor a reserva. O Quadro 3 relaciona as barragens construídas pelo DNOS para irrigação. que é liberado somente quando as vazões do rio Capibaribe aumentam a ponto de serem capazes de diluir e dar escoamento ao vinhoto sem criar problemas ambientais. mas a barragem não apresentou nenhum problema. Algumas medições de pressão intersticial na fundação. planejou-se implantar irrigação de hortigranjeiros em uma área localizada na margem esquerda do canal do rio São João. Alguns anos depois os jornais noticiaram a chegada de mico-leões dourados importados da Flórida. Tapacurá é utilizada também para fornecer água destinada ao abastecimento de Recife. Controle de cheias As primeiras barragens para controle de cheias do DNOS foram construídas no Vale do Itajaí. para depois constr uir em terra a Barragem Sul e finalmente a Barragem Norte. Goitá e Carpina. e informa suas localizações. que recolheria as infiltrações. realizadas após a entrada em operação da obra. em Santa Catarina. Entretanto. Estas obras aumentaram a capacidade da calha. e Goitá é utilizada para reter vinhoto. o que é indispensável para evitar a salinização do solo. e sua cota era suficientemente alta para ter boa drenagem. para implantar o projeto. a jusante da barragem. a partir da barragem. o rio teve sua capacidade aumentada mediante regularização e alargamento de sua calha. Quando foi projetada a barragem de Juturnaíba. Quando estavam terminando as negociações com uma cooperativa. além de outros cuidados habituais. O controle de cheias de Recife incluiu. sem beneficiar esta última cidade nem a área a jusante da mesma. e substituição de duas pontes. imediatamente a jusante da barragem.

158 . inundações a jusante. que permitiu sua eventual inundação. Pampulha. A última barragem de controle de inundações construída pelo DNOS foi Arroio Gontam.Séculos XIX.A História das Barragens no Brasil . XX e XXI Figura 6 – Barragem e diques de Tapacurá relativamente grandes. A característica especial desta obra é o fato do reservatório estar situado em terras do Exército. Flores. cujo reservatório só enche quando ocorrem chuvas fortes. retendo os deflúvios e liberando-os aos poucos. sendo o caso das barragens de Pedra. retendo em seus reservatórios apenas uma fração da cheia condizente com a capacidade dos mesmos. Algumas outras barragens do DNOS fazem controle de cheias como objetivo secundário. evitando assim. RS. concluída em 1982. Trata-se de uma barragem de concreto simples tipo gravidade. na cidade de Bagé. características e ano de conclusão. para evitar enchentes na cidade. Passaúna e Juturnaíba. O Quadro 4 relaciona as barragens construídas pelo DNOS para controle de cheias e informa suas localizações.

informando suas localizações. frequentemente entrava água salgada do oceano na lagoa. o qual drena a Lagoa Mirim. características técnicas e ano de conclusão. pelo Canal de São Gonçalo. nos parágrafos abaixo menciona-se a finalidade das mesmas e acrescenta-se alguns detalhes. A mais importante destas barragens é a do Canal São Gonçalo.CINQUENTA ANOS DO COMITÊ BRASILEIRO DE BARRAGENS Finalidades diversas O Quadro 5 relaciona barragens construídas com finalidades diversas. prejudicando a irrigação. e. Figura 7 – Barragem e Sangradouro de Arroio Duro Figura 8 – Barragem de Carpina 159 . Esta lagoa é usada intensivamente como fonte de água para irrigação de arroz em ambos os países. situada no extremo sul do Brasil e é partilhada com o Uruguai. durante a estiagem.

Outra barragem que impede a salinização de manancial de água doce é a do rio Pericumã. além de aumentar a disponibilidade de água para o abastecimento de água de Juiz de Fora. O projeto previu uma eclusa. e atravessa o canal. Após a conclusão dos trabalhos a areia usada para o aterramento foi retirada completamente e o canal de desvio foi reaterrado. o Governo incumbiu o DNOS de construir uma barragem para impedir a entrada de água salgada na Lagoa. onde é obtida água para o abastecimento da cidade. Suas 160 . depois de alguns anos. O barramento é de pequena altura. Por outro lado. durante a urbanização da mesma. A barragem do Canal da Flecha tem como finalidade controlar o nível da água na Lagoa Feia. engastada em fundação de areia e cascalho. A região é aluvionar. de modo a não interferir no acesso marítimo àquela cidade. o que torna importante controlar seu nível. criação de gado e irrigação. Maranhão.A História das Barragens no Brasil . o alagado também é utilizado para navegação. produziam muitos sedimentos que assoreavam a calha do rio. na região de Campos – Rio de Janeiro. ao lado da cidade de Pinheiro. o que proporciona um acréscimo de energia firme em cinco usinas hidroelétricas existentes a jusante. mas a curta distância. MG. com a dupla finalidade de controlar as cheias do rio Leitão e reter seus sedimentos. impedindo a penetra ção da língua salina e garantindo a disponibilidade de água doce. que recebe a contribuição de grande parte dos rios e canais da planície existente entre a margem direita do rio Paraíba do Sul e o mar. em Belo Horizonte. as comportas são abertas para deixarem escoar o eventual excesso de água da Lagoa Mirim. A barragem é constituída por uma estrutura de concreto com uma cortina profunda de concreto armado. Os movimentos de terra realizados na bacia do rio Leitão. uma fábrica de cimento situada em Porto Alegre é abastecida com matéria prima vinda do Uruguai em barcaças que passam pelo Canal. por causa disso. e. mantendo o espelho d’água. existe ali uma área alagada. A barragem possui comportas que são fechadas por ocasião das estiagens. Periodicamente ocorrem grandes estiagens. uma vez que qualquer mudança de posição poderia provocar divagações do leito do rio com graves conseqüências. no topo da qual foram instaladas comportas basculantes. para permitir a continuação da navegação fluvial. e o DNOS a reconstruiu. que resultam em retração da lâmina d’água do alagado e intrusão de língua salina proveniente do oceano.Séculos XIX. MG. prejudicando seu escoamento. A barragem foi localizada a montante da cidade de Pelotas. Esses sedimentos passaram a ficar retidos no reservatório da barragem de Santa Lúcia. rompeu por erosão interna em 1954. Para manter a navegação. Para executar a obra foi aberto um canal de desvio com 120 m de largura e a calha do rio foi inteiramente aterrada no local previsto para a barragem. Em cota um pouco mais alta há uma passarela onde estão instalados mecanismos de comando das comportas. com 231 m de comprimento. houve empenho em construir a obra exatamente na calha do rio. e são fechadas na estiagem para impedir que a água salgada do Oceano Atlântico penetre na Lagoa. para permitir fácil captação e adução de água doce para abastecimento de Pelotas e do porto de Rio Grande. ao longo destes anos a urbanização ficou mais consolidada e diminuiu a produção de sedimentos que causavam problemas. XX e XXI Após entendimentos com a República do Uruguai. A pequena Barragem de Santa Lucia foi construída na zona urbana de Belo Horizonte. um dos dissipadores de energia das comportas funciona também como eclusa. A barragem de Chapéu D’Úvas controla parcialmente as cheias do rio Paraibuna e aumenta a vazão de estiagem do rio. Quando necessário. possibilitando o acesso de embarcações vindas do mar até a cidade de Pinheiro. o grande desenvolvimento que aconteceu recentemente nesta última cidade aumentou a importância da disponibilidade garantida de água doce criada pela barragem. prejudicando ou interrompendo as utilizações de água acima mencionadas. mas serve também como fonte de água para irrigação. o reservatório da referida barragem ficou completamente assoreado. A barragem que existia na Pampulha. esta lagoa integra a drenagem da área.

Sempre foi uma preocupação dos dirigentes promover a capacitação dos engenheiros do órgão. o DNOS montou uma rede de rádio que chegou a ter 50 estações. existentes na época. A barragem do Flores. amortecendo as vazões do rio Pampulha. que é um afluente do rio Mearim. que bateu em um morro tentando pousar em Porto Alegre com pouca visibilidade. lazer e paisagismo. de controle dos serviços. Os engenheiros do órgão passaram a fiscalizar o trabalho das consultoras que realizavam os trabalhos topográficos. ajudando a diminuir as enchentes que inundam a cidade de Bacabal e pode ser usada para aumentar a vazão do rio Mearim durante a estiagem. face às grandes distâncias a percorrer e à deficiência das estradas. no Rio de Janeiro. Antes da adoção de motores a jato e equipamentos modernos para voo por instrumentos aconteciam muitos acidentes. ao US Bureau of Reclamation dos Estados Unidos e até mesmo à UNESCO. foram realizados por funcionários do próprio DNOS. autor de muitos projetos de obras importantes. As instalações para construção de cada barragem incluíam um conjunto de casas onde ficavam alojados o engenheiro residente. mas nos primeiros 25 anos de construção de barragens os trabalhos de fiscalização. controla parte das vazões que escoam pelo rio Mearim. e realiza também controle de cheias. podendo-se citar as barragens Engenheiro José Batista Pereira. facilitando assim a navegação. seus engenheiros tinham que viajar com freqüência. ao invés de partir das cabeceiras. que correm paralelamente à pista do aeroporto da cidade a jusante da barragem. fornece água para irrigação. Nos seus últimos 15 anos de atividade o DNOS passou a contratar empresas para realizar os trabalhos técnicos de controle da construção de barragens. as quais. Este sistema não é utilizado no Brasil. etc. Tapacurá e São Gonçalo. ao IPT de São Paulo. em um avião Constellation da VARIG. o topógrafo. para proporcionar estágios em 161 . destinado à organização de cadastro nacional de cursos d’água. Tendo em vista que as atividades do DNOS se desenvolviam em praticamente todos os estados da Federação. além disso. quase sempre de avião. mas meia dúzia de outros países o adotaram. muitas vezes. para comunicação entre seus escritórios. Não se sabe se esses cuidados eram realmente necessários. Em pelo menos duas obras. entre outras entidades. funcionário do órgão. esta numeração parte da foz dos rios e segue para montante. Sendo o DNOS um órgão nacional. medição e controle de qualidade das obras. morto em 1950 ao regressar de uma viagem para contato com a Administração Central do DNOS. seus laboratórios de solos e concreto. como o livro “Chuvas Intensas no Brasil”. Ele dirigia o Distrito do Rio Grande do Sul. Neste sentido recorreram. e seu nome foi dado a uma barragem que o DNOS construiu naquele estado. O primeiro deles foi com José Maia Filho. a empresa consultora procurou evitar relacionamento entre seus engenheiros e os engenheiros da empresa construtora. incluindo a locação. A orientação técnica do DNOS foi muito influenciada pelo Engenheiro Otto Pfafstetter. que tinham assim possibilidade de comunicação diária com os escritórios regionais e mesmo com a sede do órgão. para que pudessem cumprir adequadamente suas tarefas. Foi autor de importantes trabalhos técnicos. A Barragem Mãe D’Água foi construída para fornecer água para o laboratório do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. o laboratorista e os demais funcionários. e face à precariedade do Departamento dos Correios e Telégrafos (DCT) e do sistema telefônico. proibindo inclusive que fizessem refeições juntos. Havia estações de rádio nas barragens e outras obras importantes. mas ambas as barragens ficaram em excelentes condições.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens finalidades são recreação. são de difícil definição. de laboratório. A organização dos trabalhos A construção das barragens sempre foi realizada por empresas empreiteiras. Outro trabalho muito interessante dele foi um sistema para designação de número de registro de trechos de cursos d’água.

foi presidente da CHEVAP e diretor da Escola de Engenharia da Universidade Federal Fluminense. que assumiu a chefia da Comissão de Saneamento da Baixada Fluminense na sua fundação em 1933. Após deixar a direção do DNOS. Diretor-Geral do DNOS de 1946 a 1961 162 . Dirigiu o Figura 10 . Como a grande maioria das empresas não dispunha de escavadeiras para abertura de canais. Ele estabeleceu o sistema de trabalho pelo qual as obras eram executadas por empresas. XX e XXI órgão até o ano de 1946.Engenheiro Camilo de Menezes. conforme havia sido solicitado. foi o Diretor-Geral seguinte. Os funcionários do DNOS orientavam e fiscalizavam os trabalhos. Foi então dado o seu nome à barragem. Expandiu as atividades do DNOS para quase todos os Estados e enfrentou com sucesso o desafio da construção de grande número de barragens. fazendo inclusive os levantamentos topográficos necessários para isto. engenheiro Raimundo Cláudio Correia Leitão a uma barragem que ia ser construída no estado onde ele havia nascido. primeiro Diretor do DNOS Camilo de Menezes. Muitos anos depois houve um abaixo assinado pedindo para dar o nome do Diretor de Obras do DNOS na época. a quem se queria homenagear.A História das Barragens no Brasil . como às vezes fazia. Figura 9 Hildebrando de Araújo Góes. Uma característica comum aos dois primeiros diretores foi continuar estudando assuntos de engenharia enquanto exerciam a direção do órgão. que respondeu escrevendo que preferia continuar vivo. em vez de serem construídas por administração direta.Séculos XIX. após passado um ano. O Diretor Geral encaminhou o assunto ao homenageado. morreu num desastre de avião em serviço. o DNOS começou a adquirir este equipamento e contratar sua operação com empreiteiros. Antes de transcorrer um ano o engenheiro Leitão. quando Getúlio Vargas era Presidente da República. e promoveu sua transformação em Departamento Nacional de Obras de Saneamento em 1940. uma vez que há uma lei proibindo dar nome de pessoas vivas a obras do governo. Os Gestores O primeiro Diretor do DNOS foi Hildebrando de Araújo Góes. com problemas tecnológicos ainda pouco conhecidos no país. como fazia o Departamento Nacional de Obras contra as Secas naquela época. quando foi ser prefeito do Rio de Janeiro. engenheiro do órgão. que na época era a capital federal. tendo ficado 15 anos no cargo. O Diretor-Geral solicitou que o arquivo lhe remetesse os documentos referentes a este assunto de volta.

Paulo Baier.José Reinaldo Carneiro Tavares. sendo três deles militares. com a missão de transformar o órgão em autarquia. que desenvolveu atividades voltadas para irrigação no Nordeste e deixou a direção para ser ministro da Irrigação. . Assumiu então Jefferson de Almeida. Ao tomar posse em 1990 o presidente Collor. foram realizadas obras de defesa contra inundações em cidades às margens do rio São Francisco e tiveram início os estudos do governo federal para transposição do rio São Francisco para o Nordeste semi-árido. governador do estado do Maranhão. incluindo a Barragem de Pedra. da Alemanha Oriental. Um aspecto interessante de sua gestão foi a compra de 200 escavadeiras marca Nobas. inaugurou as obras da adutora do rio das Velhas. Na sua gestão foi concluída a construção da Barragem do São Gonçalo. Goitá. pagos em café. assumiu a direção do DNOS e manteve a mesma sistemática de trabalho. Em 1967 assumiu o cargo Carlos Krebs Filho. que aumentou substancialmente o abastecimento de água a Belo Horizonte.Vicente Fialho . Após a revolução de 1964 sucederam-se na direção do órgão quatro diretores que ficaram pouco tempo. Foram eles: . que seria o último engenheiro da casa a dirigir o DNOS. As obras e os serviços que o órgão estava executando Nos governos dos presidentes João Figueiredo e José Sarney sucederam-se no DNOS diretores que não eram engenheiros do serviço público federal. depois ministro dos Transportes e. no estado de Pernambuco. Faziam parte da compra peças sobressalentes no valor de um milhão de dólares. Na sua gestão foram concluídas as barragens de Carpina. saiu para ser superintendente da Sudene.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Em 1961 o presidente Jânio Quadros nomeou Diretor Geral do DNOS o engenheiro do DNER Geraldo Bastos da Costa Reis. dirigiu o DNOS até sua extinção. ajudado por sua longa experiência como Diretor Geral Substituto. depois ministro de Minas e Energia e deputado federal. que deu prosseguimento às atividades relacionadas à irrigação no Nordeste e deu grande impulso às obras de controle de cheias no Vale do Itajaí. mais tarde. em cuja gestão foram executados aterros para saneamento de favelas no Rio de Janeiro. Provavelmente o fabricante das máquinas não empregava técnicas de obsolescência programada. Pacoti e Riachão acima mencionadas. Fez com que as obras e serviços executados para o órgão fossem pagos na ordem cronológica da apresentação das respectivas medições e faturas na tesouraria. Na sua gestão foram concluídas dez barragens. Em 1974 outro engenheiro da casa. estado da Bahia e a Barragem de Tapacurá. ao preço total de sete milhões de dólares. Harry Amorim Costa. mas que se dedicaram ao trabalho com afinco e realizaram excelentes administrações. no rio de Contas. engenheiro do DNOS que imprimiu notável organização aos trabalhos. determinou a extinção do DNOS. o que fez com grande competência.Geraldo Bastos da Costa Reis. . Estas máquinas prestaram bons serviços de 1964 até a extinção do DNOS em 1990. Deixou o cargo para assumir o governo do estado de Mato Grosso do Sul. o que conseguiu fazer apesar da renúncia de Jânio Quadros. necessitando como grandes reparos apenas a substituição periódica dos motores quando acabava sua vida útil e a recomposição da mesa sobre a qual girava o conjunto formado pela cabine e a lança. Diretor Geral do DNOS 163 . Figura 11 .

000.000 17. que viria a ser Diretor-Geral do DNOS em 1978-1979 QUADRO 1 .000 6.000 61.000. Esta última chegou a ter sua vila residencial do canteiro de obras invadida por índios naquela ocasião..000 80.500 11.000.000 250.800 2.50 3 22 4. José Costa Cavalcanti. Paula Passo Fundo Canela Uruguaiana Passo Missões S. até enferrujar completamente no lugar onde se encontravam.700 35.000.000 15. Ramos S.BARRAGENS PARA HIDROELETRICIDADE LOCALIZAÇÃO Nº 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 CARACTERÍSTICAS NOME CURSO D'ÁGUA Ivaí Ijuizinho Capinguí Guarita Forquilha Divisa Santa Cruz Jacuí Santa Maria Sanchuri Guarita Santa Cruz Ijuí Jacuí Antas Jacaré Araguari Macabu Garcia Santa Maria Contas MUNICIPIO Julio Castilhos Santo Ângelo Passo Fundo Passo Missões Marc.750. foi destruída uma organização que produzia obras e serviços extremamente benéficos e necessários..300 24. vendo-se da esquerda para a direita o Gen.000 15.000 4.000 350. .000 130.000 5..500 2. Simples Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto / Terra PEDRA PASSO FUNDO XANXERÊ FURNAS DO SEGREDO Jaguarí Passo Fundo Chapecozinho Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Simples ITÚ Itaquí Itaquí 164 ..000 30. Resumindo.000 IVAÍ IJUIZINHO CAPINGUÍ GUARITA FORQUILHA DIVISA SALTO / BUGRES ERNESTINA CANASTRA SANCHURI JOÃO AMADO BLANG PASSO DO AJURICABA JOSÉ MAIA FILHO BORTOLAN ANIL PAI JOAQUIM MACABU GARCIA LARANJEIRAS 1948 1948 1949 1949 1949 1950 1951 1954 1956 1956 1957 1957 1960 1961 1956 1959 1960 1960 1962 1965 1970 1972 1973 .000. ficando sem condições de ser consultado.275 22. a construção dessas duas barragens foi concluída alguns anos mais tarde... F.000. XX e XXI foram paralisados. Por sorte. F. Diretor-Geral do DNOS de 1967 a 1974 e o engenheiro Jefferson de Almeida.Inauguração de uma barragem no Nordeste.000 370.000 400.000.000 57.000 desenhos de projeto de obras.000 26. o engenheiro Carlos Krebs Filho.000.A História das Barragens no Brasil ..800/14.700.. Paula S.000 539.. 51. em Santa Catarina.800 76.50 3 25 11. graças à atuação dos estados mencionados. Ministro do Interior.000 4.000. em Minas Gerais e a Barragem Norte.000 1.000 1.000. sem que fosse criada uma alternativa.50 15 24 6 11 17 9 24 11 8 15 20 19 24.000 40.000 10.000.000.500 8. O arquivo técnico do DNOS.500.500 119.00/511. Figura 12 .000 16.000 155 150 220 100 125 239 600 400 174 896 200 507 164 432 200 113 188 256 100 193 440 582 646 505 582 3.50 65 22 40 15 22 38. foi entregue ao Arquivo Nacional..900 18. Muitas empresas de engenharia que estavam prestando serviços ou executando obras ficaram numa situação financeira dificílima. Paula Ijuí Espumoso Poços Caldas Oliveira Sacramento Glicério Angelina Canela Jequié Jaguarí São Valentim Xanxerê UF RS RS RS RS RS RS RS RS RS RS RS RS RS RS MG MG MG RJ SC RS BA RS RS SC RS TIPO / MATERIAL Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Simples Muro de Concreto Protendido Contrafortes / Concreto Armado Terra Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto / Terra ANO DE ALTURA ACUMULAÇÃO CONCLUSÃO VOLUME DO EXTENSÃO RESERVATÓRIO COROAMENTO MÁXIMA MACIÇO(m³) (m³) (m) (m) 3.560.000. que tinha perto de 40.000 31.30 42.500 80. Mais de cem escavadeiras de propriedade do DNOS ficaram paradas no campo.000 50.000 1.000 10.000 800 10.900 5.000. Entretanto. somente duas barragens estavam em construção naquele momento: a Barragem de Chapéu D’Uvas.000 58.Séculos XIX.250 20.000.000 3.600 9.000 390.000. F.000 Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Ciclópico Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Ciclópico Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Simples Gravidade Aliviada / Concr.

800.000.000 422 438 1720 220 150 365 25 43.500.800 **** **** 17 10 10 1.500 2.000 93.20 3 29.000. Dilúvio São Gonçalo Canal Flexa Pericumã Flores Paraibuna MUNICIPIO Belo Horizonte Belo Horizonte Viamão Pelotas Campos Pinheiro Joselandia Juiz de Fora UF MG MG RS RS RJ MA MA MG TIPO / MATERIAL Terra Homogênea Terra Homogênea Terra Homogênea Concreto Armado Concreto Armado Concreto Armado Terra Homogênea Terra Homogênea ANO DE ALTURA ACUMULAÇÃO CONCLUSÃO VOLUME DO EXTENSÃO RESERVATÓRIO COROAMENTO MÁXIMA MACIÇO(m³) (m³) (m) (m) 60.000 5.000 2.580.3 15 35 9 30 30 12 **** **** 4.360 1.000 3.000 16.000 775.400 16.000 1.000.000 1.BARRAGENS PARA ABASTECIMENTO URBANO LOCALIZAÇÃO Nº 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 BATATÃ PRETO DO CRICIUMA SANTA BÁRBARA RIO DAS VELHAS RIO DAS VELHAS II MAESTRA VACACAÍ MIRIM VAL DE SERRA TAPACURÁ RIO DAS VELHAS III PACOTI RIACHÃO JUTURNAIBA XARÉU PASSAÚNA CARACTERÍSTICAS NOME CURSO D'ÁGUA Batatã Rio Preto Santa Bárbara Velhas Velhas Maestra Vacacaí Mirim Ibicuí Tapacurá Velhas Pacotí Riachão São João Água Pluvial Passúna MUNICIPIO São Luís Jequié Pelotas Nova Lima Nova Lima Caxias do Sul Santa Maria Santa Maria São Lourenço Nova Lima Pacatuba Pacatuba Silva Jardim Fern.340 105.000 **** 165.000 2.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens QUADRO 2 . / Concreto Ciclópico Terra Homogênea Enrocamento Concreto Armado Terra Zoneada Terra Homogênea Concreto Armado Gravidade / Concreto Simples Concreto Armado Terra Terra Terra Gravidade / Concreto Simples Terra QUADRO 3 .000 126.000 263.000 1956 1958 1962 1977 1980 1982 1988 1994 SANTA LÚCIA PAMPULHA MÃE D'ÁGUA SÃO GONÇALO FLEXA PERICUMÃ FLORES CHAPÉU D'UVAS 165 .000.000 135.000.000 **** **** 485 104 715 100 42 295 300 438 320 42 1595 650 3.000.5 9 28 28.000 148.000 108.000.500 3.000 97.000 115 400 200 218 130 137.000.000 1.500.000 167.940.BARRAGENS PARA CONTROLE DE CHEIAS LOCALIZAÇÃO Nº 1 2 3 4 5 6 OESTE SUL CARPINA GOITÁ GONTAN NORTE CARACTERÍSTICAS NOME CURSO D'ÁGUA Itajai Oeste Itajai Sul Capibaribe Goitá Gontan Hercilio MUNICIPIO Taió Ituporanga Carpina Gloria do Goitá Bagé Ibirama UF SC SC PE PE RS SC TIPO / MATERIAL Gravidade / Concreto Simples Terra Terra / Zoneada Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto simples Terra ANO DE ALTURA ACUMULAÇÃO CONCLUSÃO VOLUME DO EXTENSÃO RESERVATÓRIO COROAMENTO MÁXIMA MACIÇO(m³) (m³) (m) (m) 93.000 1955 1956 1965 1965 1970 1 2 3 4 5 CEDRO CARNAUBA RIVALDO CARVALHO ARROIO DURO JOSÉ BATISTA PEREIRA Ceará Mirim QUADRO 4 .000.000.000 **** **** 63.900.4 43 700.50 42 38 16 63 78.000.000 430.000 500.000 570.000 7.000 70.500.000 **** 196.264.000.000 5.000 27.500.000 150 40 390 1.BARRAGENS PARA IRRIGAÇÃO LOCALIZAÇÃO Nº NOME CARACTERÍSTICAS CURSO D'ÁGUA Truçu Carnauba Condado Duro MUNICIPIO Acopiara Acopiara Catarina Camaquã Poço Branco UF CE CE CE RS RN TIPO / MATERIAL Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Simples Terra Homogênea Terra Zoneada ANO DE ALTURA ACUMULAÇÃO CONCLUSÃO VOLUME DO EXTENSÃO MACIÇO(m³) COROAMENTO MÁXIMA RESERVATÓRIO (m³) (m) (m) 7.000 758.000 52.000 153.450.000 30.000 **** 16. Noronha Araúcária UF MA BA RS MG MG RS RS RS PE MG CE CE RJ PE PR Terra TIPO / MATERIAL ANO DE ALTURA ACUMULAÇÃO CONCLUSÃO VOLUME DO EXTENSÃO MACIÇO(m³) COROAMENTO MÁXIMA RESERVATÓRIO (m³) (m) (m) 390.000.000.000.000 370.000 1972 1975 1978 1978 1982 1992 QUADRO 5 .000.350.000 13.500 41.000 186.887.000 8.000.000 **** **** 1957 **** 1969 1970 1970 1971 1972 1972 1973 1977 1979 1979 1979 **** 1989 Arco Gravid.950.440 1.000.000 500 12.000 270.000 290.BARRAGENS COM FINALIDADES DIVERSAS LOCALIZAÇÃO Nº 1 2 3 4 5 6 7 8 CARACTERÍSTICAS NOME CURSO D'ÁGUA Leitão Pampulha Afl.000 3.5 400 20 15 9 6.000 2.800 2.053.450 920 12 14 17 21 45 4.

166 .

Indutora do Progresso do Nordeste “O rio São Francisco é o mais brasileiro dos rios” Engenheiro Euclides da Cunha Flavio Miguez de Mello O Nordeste na primeira metade do século XX Até a entrada dos anos 50 do século XX o Brasil permanecia sendo um arquipélago de regiões economicamente ativas com parcas conexões entre si a menos da malha ferroviária que integrava a Região Sudeste. Anos antes. Foi nesse contexto que também em 1913. o cearense Delmiro Gouveia colocou em operação a pequena usina hidroelétrica de Angiquinho. ainda no Século XIX. escassas rodovias rudimentares regionais e o transporte de cabotagem que atingia o litoral mais povoado e penetrava pelos rios amazônicos. Pedro II. O requerimento foi indeferido em 1910.102 KW) para gerar energia para 167 . com 1. Essa visão do americano foi percebida bem antes. atravessando com dificuldades o sertão nordestino. Neste contexto. a imponente e magnífica queda d’água chamava atenção dos Figura 1 – Usina de Angiquinho visitantes que para lá se deslocavam enfrentando grandes distâncias dos centros urbanos. a exemplo das diversas bitolas das ferrovias implantadas no país.500 HP (1. Em meados do século passado a cachoeira ainda despertava admiração. O requerimento foi também indeferido pelo governo federal em 1913. Pouco após o engenheiro Francisco Pinto Brandão solicitou a concessão do aproveitamento da cachoeira para produção de energia elétrica para uma empresa sua a ser implantada na região com a denominação de Empresa Hidro Elétrica Agrícola Industrial do Brasil. Dentre esses visitantes o de maior destaque foi o Imperador D. nos primeiros anos do Século XX pelo inglês Richard George Reidy que requereu ao governo federal a concessão para exploração do potencial da cachoeira de Paulo Afonso para instalação progressiva de indústrias e serviços. castigado pelas freqüentes secas resultantes de extensas estiagens o desenvolvimento do Nordeste era incipiente. os sistemas elétricos operavam em 60 Hz e 50 Hz. Na virada do Século XIX para o Século XX já se destacava o potencial hidroenergético da cachoeira de Paulo Afonso na qual o rio São Francisco despencava com uma vazão média plurianual superior a 2000 m³/s em vários braços por sobre uma espessa camada de rocha granítica sã. no dia 20 de outubro de 1859. Nessa época. um hindu exclamava “It is just wonderful” e um americano perguntou “How much hydropower is lost here every day?” . O jornalista Alceu Amoroso Lima relatou no periódico “O Jornal” declarações de três estrangeiros que estiveram a admirar a pujança da queda d’água: um francês disse “C’est très chic”. As geradoras de energia elétrica na primeira metade do Século XX eram de pequeno porte e de operação precária.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A História da CHESF.

não houve nenhuma idéia de aproveitamento do potencial da cachoeira. Antes disso. a cujo ministério a política de energia elétrica estava subordinada. precursora do Departamento Nacional de Águas e Energia Elétrica DNAEE que por sua vez. com a conhecida pobreza de combustíveis fósseis da época. devoto de Santa Terezinha. O Nordeste ficou isolado do resto do país. cujo Ministério incluía o Setor Elétrico comandou a campanha para a construção de uma hidroelétrica na cachoeira de Paulo Afonso. anos depois. erguida na cachoeira. O Serviço Geológico e Mineralógico deu origem mais tarde à Divisão de Águas. em 1944. durante a Segunda Grande Guerra. maiores do que as existentes na época. Jorge de Menezes Werneck. o Lampião. a omissão passou a ser pouco compreensível. foi substituído em passado recente pelas Agências. Naquela época. as concessões para geração de energia elétrica passaram a ser federais sob atribuição do Ministério da Agricultura. Na República. mas a usina permaneceu intacta. aproveitava uma queda parcial e uma pequena parcela da vazão afluente. dentro da cachoeira de Paulo Afonso. O Presidente Getúlio Vargas comandava o Estado Novo no qual Apolônio Sales era Ministro da Agricultura. O levantamento foi um marco para o desenvolvimento do Nordeste. Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) e Nacional de Águas (ANA). Jayme Martins de Souza. Após a morte por assassinato de Delmiro Gouveia. foram levados para São Paulo. o contra almirante Jaigen Rohwer. no Tennessee Valley Authority. não havia tecnologia para a implantação de geração de energia hidroelétrica. No início dos anos quarenta a tendência era a de promover a construção de uma grande usina em Itaparica (que só se tornou realidade nos anos setenta). A equipe era constituída pelos engenheiros Antonio José Alves de Souza. após a Constituição de 1934. Mário Barbosa de Moura e Mengalvio da Silva Rodrigues. não passando de lenda o lançamento dos equipamentos da fábrica e da usina. Há versão que narra que Apolônio Sales havia solicitado a Getúlio Vargas a assinatura do Decreto de criação da CHESF em 30 de setembro por ser ele. mesmo em países mais evoluídos. Apolônio Sales. O desequilíbrio entre o Nordeste e o Sudeste do país passou a ser cada vez mais nítido. tendo sido efetuado em região agreste no tempo do cangaço. Roosevelt como indutora de desenvolvimento para a saída da grande depressão econômica que ocorreu a partir de 1929 nos Estados Unidos. Esse abastecimento em alto mar foi confirmado em 1982 pelo oficial da marinha alemã que comandava as operações no Atlântico Sul.Séculos XIX. mesmo na monarquia. O Imperador quando a visitou. uma das mais importantes. No início dos anos vinte do século passado o Serviço Geológico e Mineralógico do Ministério da Agricultura efetuou um levantamento preliminar do potencial hidroenergético do rio São Francisco entre Juazeiro e Paulo Afonso que concluiu com a possibilidade de implantação de grandes centrais hidroelétricas. ficaram prejudicados devido aos ataques de submarinos alemães e italianos nas nossas águas costeiras. o Brasil questionava o regime de exceção do Estado Novo que havia marcado eleições para dezembro. nas proximidades da cachoeira de Paulo Afonso. pelos ingleses da Machine Cotton. submarinos esses abastecidos por navios argentinos sob o manto de sua neutralidade. O ministro Apolônio Sales. inclusive do bando de Virgulino Ferreira. procurava sensibilizar as lideranças políticas para a idéia da exploração do potencial da cachoeira de Paulo Afonso. Apolônio. A partir de 1943 o ministro da Agricultura. onde coletou subsídios para a entidade a ser criada para atuar no vale do São Francisco no Brasil. 168 . agravado pela dificuldade nos transportes que se faziam sobretudo por mar. A usina permaneceu no local e os equipamentos da fábrica. com o fim da II Grande Guerra. a capitaneada pelo engenheiro civil e economista por vocação Eugênio Gudin com a justificativa de que os parcos recursos federais deveriam ser concentrados no Sudeste onde já havia grande demanda reprimida de energia elétrica. XX e XXI sua fábrica de linhas de costuras situada na localidade de Pedra. Apolônio Sales esteve. Isto possibilitaria a irrigação das áreas ribeirinhas e também o início de industrialização do Nordeste. A obra foi realizada mediante concessão do estado de Alagoas ao abrigo do Decreto nº.A História das Barragens no Brasil . a produção de linhas de costura foi prejudicada. mas que. Em 1945. autarquia americana implantada pelo presidente Franklin D. o que ainda não havia em outras partes do território nacional cuja economia era essencialmente agrícola. Forte oposição a essa idéia veio de diferentes áreas. 520 de 12/08/1911 de acordo com a Constituição Federal de 1891. A usina.

Entretanto. para transmitir e comercializar a energia hidroelétrica produzida em Paulo Afonso. O início da CHESF O Presidente Dutra entregou o comando da CHESF a um profissional de reconhecida capacidade e idoneidade com total liberdade de indicar os demais membros da diretoria e dessa maneira. então diretor superintendente de Sobradinho. Paraíba.031 de 03/10/1945 concedia à CHESF a exploração de um trecho de cerca de 500 quilômetros entre Piranhas – Alagoas no baixo rio São Francisco e Juazeiro – Bahia no sub-médio rio São Francisco. e Cachoeira Dourada no rio Paranaíba. procurou incluir como prioritários os aproveitamentos hidrelétricos de Paulo Afonso. Rio Grande do Nor te. usou o seguinte argumento – “Presidente. Na seqüência ocorreram eleições gerais no país. Pernambuco. mas com data do dia anterior.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens na época. Superadas todas as dificuldades. Posteriormente esse círculo expandiu-se até atingir Natal – capital do Rio Grande do Norte e finalmente Fortaleza – capital do Ceará. A empresa podia ser formada. narrou que. Ele ficará contente vendo que o senhor criou no Nordeste do Brasil uma companhia com o nome dele”. embora conhecedor de que Getúlio Vargas era agnóstico e que o dia de Santa Terezinha havia passado. Diversos depoimentos dão conta de que um forte argumento que sensibilizou o general Dutra com relação a Paulo Afonso pode ter sido o que aventava a possibilidade de uma secessão do Nordeste das demais regiões do Brasil. no dia 15 de março de 1948. no Centro Oeste. sendo o General Eurico Gaspar Dutra. amanhã é dia de São Francisco. Pernambuco e Sergipe. Dutra. Esse fato originou a negativa do ministro da fazenda Correia e Castro do pedido de verbas para o Ministério da Agricultura para a execução do projeto. ainda no submédio rio São Fran- 169 . O ministro Souza Costa. Ceará. eleito e empossado Presidente da República. Outros opositores combateram a idéia usando como argumento a reconhecida incapacidade gerencial do governo. quase três anos após sua criação. Ao trecho de concessão Piranhas – Juazeiro foram acrescentados em 1972 mais 350 quilômetros. também comandado por Apolônio Sales. Dificuldades adicionais também proviam do próprio ex-ministro Apolônio Sales a apoiar. Alagoas. Mantinha-se a oposição do agora ministro Eugênio Gudin por considerar que este tipo de empreendimento deveria ser feito pela iniciativa privada e que os investimentos em geração de energia elétrica deveriam priorizar a região Sudeste. o que seria agravado num tipo de empreendimento em que nunca antes havia se envolvido. por exemplo. que atravessava intenso racionamento e não o Nordeste onde nem mercado havia. ou seja. Já Apolônio Sales em conversa informal em 1976 com Eunápio Queiroz. no Nordeste. afirmara que seria um desperdício gastar recurso no projeto. no final de 1946. definiu um círculo inicial de cerca de 450 quilômetros de raio no interior do qual se inseriam as capitais dos estados de Alagoas.031 de criação da CHESF foi assinado no dia 4 de outubro de 1945. depois de um árduo trabalho. este para suprimento do que seria a futura capital brasileira no Planalto Central. dada a disparidade daquela região com as regiões Sul e Sudeste. continuava a oposição ao empreendimento hidrelétrico no Nordeste e à empresa criada em 3 de outubro de 1945. O Decreto Lei º 8. Com a posse do Gal. também assinada no mesmo dia 3 de outubro de 1945. mas o Estado Novo estava próximo do fim. O Decreto 8. chefe de gabinete do ministro da Agricultura. festejada naquela data (hoje é 01 de outubro). Getúlio Vargas foi deposto e tomou posse como Presidente da República o ministro José Linhares do Superior Tribunal Federal. Sergipe e Bahia). A concessão. Daniel de Carvalho. obtendo a adesão de estados e municípios do Nordeste para a integralização do capital da empresa. a idéia de considerar como projeto definitivo um estudo extremamente sumário da usina localizada no Braço da Velha. indicações de origem político partidárias ficaram afastadas. Bahia. por linha de transmissão e por subestação a CHESF era responsável por produzir e transportar energia elétrica para 8 estados do Nordeste (Piauí. No final do século XX quando entrou em vigor o novo modelo do setor elétrico com concessões por usina. o advogado Afrânio de Carvalho. foi realizada a Assembléia Geral de Constituição da CHESF.

Na margem esquerda as instalações de Angiquinho e no cânion a casa de força 170 . onde tinha sido encarregado das concessões de energia elétrica.Séculos XIX. no governo Epitácio Pessoa. III e IV e Xingó. onde a CHESF construiu e opera a hidroelétrica de Sobradinho. formado na Escola de Minas de Ouro Preto. resultando que entre Xique Xique (limite montante) e Piranhas (limite jusante) se inserem as usinas hidroelétricas de Sobradinho. primeiro presidente da CHESF Figura 3 . ambas na Bahia. Luiz Gonzaga (Itaparica). Em 1948. tinha. Apolônio Sales (Moxotó). II. do Ministério da Agricultura. Piloto.Engenheiro Antônio Alves de Souza. em 1921. obedecidas às orientações do Presidente Dutra. foi eleito Presidente da CHESF o engenheiro Antônio José Alves de Sousa. Alves de Sousa assumiu o comando da empresa com o programa inicial de destinar o fornecimento de Figura 2 . Esse engenheiro.A cachoeira de Paulo Afonso antes das obras da CHESF. XX e XXI cisco entre as cidades de Juazeiro e Xique Xique. efetuado um levantamento topográfico da Cachoeira de Paulo Afonso. Paulo Afonso I.A História das Barragens no Brasil .

Othon Soares. 6 no Taquari e 2 no Capuxu. cujo reservatório foi formado captando águas do reservatório de Moxotó. foi implantada a montante da bacia de decantação (reservatório Delmiro Gouveia). que alimenta as usinas de Paulo Afonso I. e é constituída de barragem. construída no início dos anos 70 do século passado. A adução é feita por três túneis verticais de 4. Estes ensaios. Clemente Mariani. em fins de 1954. Dentro da concepção original foram posteriormente executadas outras duas casas de força também subterrâneas denominadas Paulo Afonso II e Paulo Afonso III. II e III. Alves de Souza compôs a sua diretoria com o coronel engenheiro Carlos Berenhauser Junior (diretor comercial). com a colaboração dos engenheiros Domingos Marchetti. marcaram o nascimento da Mecânica das Rochas no Brasil. foi implantada mais uma usina denominada Paulo Afonso IV. além de Pernambuco. a diretoria passaria a sofrer modificações. pelo seu falecimento. Juraci Magalhães e Pereira Lira. esta com operação iniciada em outubro de 1949. realizando ensaios de deformação diametral sofrida por câmaras escavadas em rocha. formando um funil num comprimento total de 4394m. atinge a margem direita atravessando o braço Capuxu. O presidente Dutra manteve a sua palavra de não interferir na composição da diretoria. cercada por usinas hidroelétricas. em 1961. logo nos primeiros meses após o início de operação. O diretor de administração. a diretoria técnica. 8 no braço Quebra. atingindo as proximidades da cachoeira. Alagoas e Sergipe foram beneficiados com a energia elétrica gerada em Paulo Afonso. Hélio Gadelha de Abreu e Nédio Lopes Marques. a partir de 1949. A barragem atravessa diversas ilhas e suas comportas assinalam os braços originais do rio. adotando essa postura até o final do seu mandato. uma adução em túneis. passou a atuar mais diretamente. O reservatório assim formado tem apenas 11 km² de área.1 MW que havia sido instalada por Delmiro Gouveia em 1913 e de outra pequena hidroelétrica denominada Usina Piloto. Gentil Norberto. Adozindo Magalhães de Oliveira (diretor de administração) e Octávio Marcondes Ferraz (diretor técnico) e como consultor jurídico Afrânio de Carvalho. Somente após a posse do presidente Jânio Quadros. transformando o centro da cidade de Paulo Afonso em uma ilha. Hilton Fiúza de Castro. a CHESF contou com a geração da usina de Angiquinho com 1. com 1277m de comprimento. uma casa de força e um descarregador de fundo provido de comportas de segmento.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens energia exclusivamente a Pernambuco e imediatamente propôs estender o fornecimento a outros pontos do nordeste inclusive a Salvador. quando submetidas a pressão interna. José Villela e Júlio Miguel de Freitas. Ao longo do tempo outros engenheiros foram incorporados à diretoria técnica como Hernani Gusmão. através de um canal artificial. São 26 comportas de vertedouro. Dermeval Resende. passando a original a ser denominada de Paulo Afonso I. foi substituído pelo consultor jurídico. o braço do Quebra e o braço do Taquari. A outra parte da barragem. A barragem Leste com 3117m de extensão tem sua ombreira na margem esquerda e atravessa o braço principal onde escoava cerca de 90% da descarga do rio. Hermínio Lorentz Kerr. os estados da Bahia. Posteriormente. Um aspecto a destacar foi o fato do IPT ter prestado assistência tecnológica à construção dessa usina. tendo 171 . Entre as alternativas de projetos que foram consideradas para construção da usina de Paulo Afonso. uma casa de força subterrânea e a restituição a jusante da cachoeira. A tomada d’água fica situada no encontro desses dois trechos da barragem. sendo 10 delas no braço principal. Para suprimento de energia ao acampamento e ao canteiro de obra da primeira usina. De início.8m de diâmetro com joelho de 90° para alimentar três turbinas Francis situadas em casa de força subterrânea. e políticos como Luiz Vianna Filho. constituindo-se em uma barragem móvel. no próprio local das obras. da Bahia. A Usina de Moxotó. sediada no Rio de Janeiro. realizados em 1951. foi selecionada a que previa uma extensa barragem de concreto de gravidade com um vertedouro de superfície incorporado e atravessando um arquipélago de ilhas a montante da cachoeira. Graças à vigilância do governador Otávio Mangabeira.

a usina de Angiquinho foi desativada pela CHESF. permaneceu em operação no Centro de Formação da CHESF em Paulo Afonso.A História das Barragens no Brasil . foram efetuados aumentos de capital e conseguidos empréstimos junto ao Eximbank.Séculos XIX. Leal Corrêa e Leopoldo Schimmelpheng e passou a fornecer energia elétrica para a obra e seu acampamento. com possibilidade de instalação de uma segunda máquina. para permitir a construção da usina e funcionamento da empresa. depois de quase 47 anos de operação. Atualmente. A Usina Piloto foi projetada e construída pelos engenheiros J. XX e XXI uma unidade geradora de 2. Alagoas). Além da previsão insuficiente de recursos por parte do governo federal. apesar de serem esses estados e municípios os mais beneficiados com a implantação da primeira usina de Paulo Afonso. ocorreu ainda pronunciada inadimplência de aportes financeiros que haviam sido assumidos por estados e municípios nordestinos por subscrição de ações da CHESF. O sítio desta usina teve seu tombamento histórico decretado pelo estado de Alagoas e atualmente é ponto de visitação turística na região. complementando Angiquinho.0 MW.Usina piloto 172 . após seus equipamentos terem sido danificados por uma forte enchente. um laboratório de modelos hidráulicos reduzidos. de inestimável valor para as definições de projeto e construção. No início da construção de Paulo Afonso I as escavações para a implantação da casa de força subterrânea foram comandadas pelo enge- Figura 4 . no BIRD e no Banco Nacional de Desenvolvimento Industrial. Em março de 1960. Ao longo de todo o projeto e construção de Paulo Afonso I e continuando durante quatro décadas. as instalações do modelo reduzido das usinas de Paulo Afonso podem ser vistas durante visitas turísticas e escolares agendadas previamente com a CHESF. Além do capital financeiro inicialmente subscrito para formação da CHESF e reconhecidamente insuficiente. para a fábrica de linhas que havia sido implantada por Delmiro Gouveia no povoado de Pedra (hoje cidade de Delmiro Gouveia. Esse desinteresse financeiro permaneceu mesmo após a entrada em operação da usina. sob a administração da Fundação Delmiro Gouveia. para a cidade de Glória e.

Dutra ao lado de Alves de Souza. devido à velocidade de escoamento (cerca de 3. O flutuante afundado desviou as correntes mais intensas e possibilitou a instalação das estacas prancha sem que essas vergassem. uma vez que foi bastante reduzida a velocidade das águas nestes locais. As ensecadeiras propostas pelo engenheiro Gentil Norberto. com 18 m de comprimento. O modelo reduzido definiu a solução considerando a montagem de um flutuante chamado localmente de “Navio”. em parte cobertos por sacos de cimento vazios surgindo no linguajar popular a Vila Poty e a Vila Zebu. A CHESF participou do apoio à melhoria de vida dos moradores das novas vilas. contribuindo com assistência social e a Figura 5 . detentor de profundos conhecimentos de hidráulica adquiridos na sua formação em Grenoble. 12 m de altura e peso de 350 t.Início da obra em 1950 com Marcondes Ferraz e Alves de Souza (primeiro e segundo da esquerda) Figura 6 . principalmente através de empresas de consultoria. A impossibilidade de execução de batimetria. tendo contribuído em inúmeros empreendimentos hidrelétricos. ambas marcas de cimento. estabelecendo-se ao lado do acampamento da CHESF. além da irregularidade do fundo rochoso. Marcondes Ferraz implantação de recursos básicos requeridos.Visita do pres. foram executadas sob a supervisão dos engenheiros Roberto Montenegro e Reginaldo Sarcinelli. A vila Poty é hoje o centro da cidade de Paulo Afonso. construído na França e montado no local da obra. A construção de Paulo Afonso exigiu a presença de milhares de trabalhadores e também atraiu outros milhares de pessoas que afluíam ao local da usina à procura de trabalho. Os estudos hidráulicos para o barramento do rio determinaram a aplicação de ensecadeiras celulares de estacas prancha. povoado do município de Delmiro Gouveia. e a vila Zebu. especialista em túneis. De costas. André Balança se fixaria no Brasil até seu falecimento. dentro das realidades da época. Esse flutuante foi imerso no rio em posição previamente definida através de controle por cabos de aço fixados nas margens. uma das mais prósperas do estado da Bahia. um crescente conjunto de casebres. esquerda e direita. À medida que as células iam sendo 173 . dificultavam a execução da ensecadeira como fora projetada.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens nheiro Domingos Marchetti.5 m/s) e profundidade do rio nas imediações das cachoeiras (10 m a 12 m). Importante contribuição para a concepção do projeto e para a execução das obras foi dada pelos que trabalharam no modelo reduzido sob a orientação do engenheiro francês André Balança.

a velocidade da água ia aumentando progressivamente.Séculos XIX.A História das Barragens no Brasil . Com a diminuição da velocidade de escoamento. disse que o esquema de desvio tinha sido realmente muito ousado.Construção da ensecadeira celular com apoio do navio defletor 174 .Montagem da guia das estacas prancha Figura 9 .Montagem do navio defletor Figura 8 .5 m/s. a qual foi interrompida para que a notícia fosse conhecida pelos presentes que vibraram com o êxito da solução de engenharia. Em depoimento ao autor o engenheiro Rubens Vianna de Andrade que. Outra alternativa que havia sido estudada para fechamento desse trecho final do rio era a da construção de um obelisco com uma das Figura 7 . quando jovem participou da construção de Paulo Afonso I. posicionada a jusante da linha de centro da ensecadeira celular em construção. com o término da ensecadeira foi divulgado para toda a nação e meio técnico de engenharia. a ensecadeira de estacas prancha pôde então ser concluída. Essa treliça passou a reter blocos de pedra de grandes dimensões lançados na corrente do rio e retidos por redes apoiadas na treliça. Essa vitória da engenharia brasileira foi comunicada durante uma sessão do Clube de Engenharia no Rio de Janeiro. Decidiu-se pela implantação de uma estrutura metálica em treliça semi-flexível. atingindo valores de 8. XX e XXI executadas barrando e estrangulando a seção do rio. A solução do “Navio” que protegera a construção das células por montante não mais seria aplicável. com calorosos aplausos. e que uma escavação de canal com estrutura de desvio como feito em Itaipú teria sido um esquema mais garantido. O fechamento do rio São Francisco.

Construção da ensecadeira celular Figura 11 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 10 .Construção da ensecadeira celular 175 .

Construção da ensecadeira celular Figura 14 .Ensecadeira celular concluída e fase inicial do fechamento do rio 176 .Séculos XIX.A História das Barragens no Brasil . XX e XXI Figura 12 .Construção da ensecadeira celular – Carga hidráulica de 9 m Figura 13 .

Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 15 .Treliça posicionada para fechamento do rio Figura 17 .Fase final do fechamento do rio 177 .Início do lançamento da treliça para fechamento do rio Figura 16 .

com o fechamento das comportas. Mr. Essa posição fora transmitida ao ministro Oswaldo Aranha que tivera contato com Mr. além de preservar as realizações da diretoria anterior. Esse fato gerou a substituição do representante do banco em Paulo Afonso. Cinquenta anos após o desvio do rio. concluiu o discurso de recepção à delegação com as seguintes palavras. por Mr. de elevada competência e distinto cavalheirismo. engenheiro Alves de Souza. João Café Filho. durante a visita a Washington do presidente da CHESF. a jusante das comportas o leito do rio ficou seco. Paulo Afonso passou a ser visitado por vastos contingentes de pessoas para apreciar a grandeza das obras ali implantadas. o fundo do rio e colocado em pé em uma das margens do rio. como o laboratório de modelo reduzido e a fazenda modelo.” No dia 20 de setembro de 1954 foi iniciado o enchimento do reservatório. iniciou uma grande transformação do entorno da usina em vasto ambiente de agradável paisagismo implantando dezenas de pequenos lagos. Nessa visita. 178 . Quando. No dia 1° de dezembro era ligado o primeiro circuito que atenderia Recife e poucos dias após era energizada a linha de transmissão para Salvador. a Conferência Mundial de Energia que na época ainda incluía a Comissão Internacional de Grandes Barragens. No dia 4 de agosto de 1954. efetuou uma visita técnica a Paulo Afonso. Black. requisitados na Ilha das Flores. o que foi caracterizado como deslize de ética. Bass. da American Engineering Co. decency and liberty. in a way. XX e XXI faces reproduzindo da melhor maneira possível. com sua vasta experiência posteriormente em diversos desvios de grandes rios inclusive o desvio do rio Paraná em Itaipú. Pensava em esquema semelhante ao de Itaipú com escavação de canal de desvio com aplicação da rocha escavada na barragem e a construção de estrutura de fechamento nesse canal. reduto na baía da Guanabara onde os estrangeiros eram recebidos e triados. Let us hope that in the passing of time the same ideal penetrates into the mind and heart of all men so that mankind may live in peace. na fase final de construção e com o desvio já equacionado. presidente do banco.Séculos XIX. Abdank Abzantovsky e Andre Bijnik. para atender a convocação feita pelo banco. Mr. antecipando-se a John Lennon: “As the World Power Conference represents the triumph of cooperation over isolationism. quando jovem na profissão. formada principalmente por imigrantes europeus após a II Grande Guerra Mundial. desaconselhara os dois métodos para o ensecamento do leito do rio. Aproveitando o fato de que o banco havia chamado Alves de Souza a Washington sem dar conhecimento da pauta da reunião e sem a convocação do diretor técnico. criada por Apolônio Sales para difusão de conhecimento e transferência de tecnologia para produtores rurais e pecuaristas do sertão do São Francisco.. intensa arborização pública e jardim zoológico. um dos muitos que estavam assistindo o evento atravessou a pé o leito do rio empunhando a bandeira nacional. Dunn. o professor Amauri Menezes que assumiu a diretoria técnica durante as ampliações de Paulo Afonso. we are pleased to note that. A inauguração de Paulo Afonso ocorreu no dia 15 de janeiro de 1955 em solenidade comandada pelo Presidente da República. advogado Afranio de Carvalho. admitiu ao autor que o esquema que foi empregado em Paulo Afonso não teria sido o mais recomendado nem o mais seguro. a common and generous inspiration is the source of both your and our success. engenheiro Marcondes Ferraz. Além do francês André Balança que chegou com 29 anos e ficou para sempre no Brasil. participou da epopéia do desvio em Paulo Afonso. demonstrando a importância daquele momento histórico. Ao ser derrubado esperava-se que esse obelisco obstruísse quase totalmente o fluxo de água. uma legião estrangeira prestou importantes serviços para a CHESF nos seus primeiros anos. o diretor da CHESF. Dessa legião estrangeira participaram Cyrill Iwanow. Além de sua vital importância econômica e social para todo o Nordeste. Considerando essa afluência de visitantes. Adolph Acker mann que se opusera ao esquema de desvio do rio.A História das Barragens no Brasil . Importante realçar que o consultor do Banco Mundial. o esquema de desvio foi mantido. o engenheiro Rubens Vianna de Andrade que.

O afastamento teve motivação política. Dom Pedro II quando esteve na cachoeira em 1859 reproduziu a imagem que vislumbrava a lápis em seu diário de viagens. A expansão da CHESF A partir de 1953 a CHESF iniciou as negociações para obtenção de recursos junto ao governo federal para o primeiro plano de expansão de Paulo Afonso que incluía a terceira unidade da primeira casa de força e a construção da segunda casa de força denominada Paulo Afonso II que. por ter Marcondes Ferraz apoiado o presidente da República Carlos Luz.O aproveitamento de Paulo Afonso em seu estágio final 179 . A primeira imagem da cachoeira foi captada em 1647 pelos pincéis de Franz Post. T. o ministro João Agripino. no seu efêmero governo de dois dias e participado da fuga no cruzador Tamandaré após o primeiro dos dois golpes desferidos pelo general Henrique D. Quando Jânio Quadros foi eleito em 1960. convite declinado com o argumento de que não se deveria deslocar um homem do gabarito de Alves de Souza. Ao saberem que haveria mudanças na diretoria. notável pintor vindo na comitiva pessoal de Maurício de Nassau. Lott que depôs dois presidentes. como as que se seguiriam. promoveu alterações na diretoria da CHESF. Após doze anos na direção técnica da CHESF e sendo um dos principais artífices do que ficou sendo conhecida como a epopéia de Paulo Afonso. Marcondes Ferraz foi destituído em 1960 por Juscelino Kubitschek como presidente da república. todos os diretores se demitiram e realçaram a importância da Figura 18 . seria também subterrânea. tendo convidado Marcondes Ferraz para a presidência.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A notável beleza da cachoeira com suas diferentes quedas em seu estado natural ainda hoje pode ser vista por ocasião de cheias extravasadas pelos vertedouros.

descargas de até 10.000 m³/s em hidrógrafas de cheia de pequenos volumes poderiam se somar ao pico de cheia afluente ao reservatório de Moxotó. XX e XXI Figura 19 – A usina hidroelétrica de Moxotó continuidade de gestão que seria garantida pela permanência de Alves de Souza na presidência. devido principalmente às características torrenciais do rio Moxotó.5 km a jusante das suas precursoras. Ao se projetar a barragem de Paulo Afonso IV verificou-se que. Novas casas de força subterrâneas foram se sucedendo. o vertedouro de Moxotó foi dimensionado para a mesma descarga de projeto da barragem das usinas de Paulo Afonso I. afluente pela margem esquerda do rio São Francisco na região de Paulo Afonso. difere destas por captar. as ampliações que se sucederam foram muito mais simples. Com o rio São Francisco domado em 1954. Paulo Afonso II concluída em 1968.000 m³/s). Paulo Afonso III inaugurada em 1972 pelo presidente Emílio Garrastazu Médici. o canal de adução entre os reservatórios de Moxotó e . Como essa condição excepcional não havia sido considerada no projeto da barragem de Paulo Afonso.Séculos XIX. II e III (25. água no nível do reservatório da usina de Moxotó implantada a montante da bacia de decantação Paulo Afonso I. por meio de um canal. 180 A usina de Paulo Afonso IV. Ele foi mantido e os demais diretores foram substituídos por Amauri Menezes. situada a cerca de 1. na diretoria técnica. tendo a última das seis unidades geradoras entrado em operação em 1983. Paulo Afonso IV cujas obras civis foram concluídas em 1979.A História das Barragens no Brasil . e concluída em 1974. II e III. Para garantir o escoamento da cheia máxima possível. e a usina inaugurada em 1980 pelo presidente João Batista Figueiredo. Fausto Alvim na diretoria administrativa e Ivan Macedo Melo na diretoria comercial.

Hilton Silveira. Ricardo Barbosa e João Francisco Silveira). uma das barragens contendo a tomada d’água e casa de força e a outra o descarregador de fundo (barragem móvel) controlado por comportas de segmento. monitorando os efeitos da expansão e garantindo o aumento da vida útil da casa de força. época do chamado “milagre brasileiro“. entraram em operação em 1977. conduziram a implantação da hidroelétrica de Sobradinho. Uma equipe de técnicos da CHESF e consultores (Aurélio Vasconcelos. quando o barril de petróleo foi cotado a menos de US$ 2. a partir de relatório do Comitê de Estudos Energéticos do Nordeste foi a construção da barragem de Sobradinho inicialmente sem casa de força por ser a solução de menor investimento para a regularização do rio.000 m³/s. III. situado a montante de Paulo Afonso I. Alberto Jorge Cavalcanti. Essa opção não prosperou em função do aumento de preços pela OPEP e da deflagração da guerra do Yom Kippur. As alternativas seriam a construção das hidroelétricas e reservatórios de Itaparica (em cota elevada). As sucessivas ampliações em Paulo Afonso passaram a demandar descargas afluentes mais regularizadas. Gláucio Furtado. que haviam sido companheiros no Congresso Nacional. foi construído para promover a regularização semanal das vazões e possibilitar através do canal de adução acima descrito. a derivação do fluxo d’água para a tomada d’água e vertedouro da usina de Paulo Afonso IV. Eunápio Queiroz e Ernani Gusmão. garantindo também o simultâneo escoamento de possível cheia gerada na bacia do rio Moxotó. Foi necessária a construção de um núcleo urbano para transferência da população da cidade de Glória-BA.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens de Paulo Afonso IV foi ampliado para permitir o fluxo adicional de 10. e criaram. Além disso. separadas por uma ilha. O reservatório da barragem de Moxotó. 181 . causou constrangimentos na subsidiária. Em meados de 1971 a Eletrobras havia determinado a estruturação de uma superintendência sob o comando do engenheiro Eunápio Peltier de Queiroz que havia criado a Centrais Elétricas do Rio de Contas.00. que entre outros motivos buscava tirar do comando da Diretoria Técnica da CHESF uma das duas obras gigantescas e simultâneas (Sobradinho e Paulo Afonso IV). sendo projetado e construído um vertedouro de 10 000 m³/s de capacidade na barragem de Paulo Afonso IV. A solução adotada pelo setor elétrico. neutralizou as componentes negativas desta divisão. recomendações plenamente atendidas. ocorrendo o enchimento do reservatório de Sobradinho em 1978 e início de geração de energia em 1979. com apoio de Léo Amaral Penna. Posteriormente foi constatada a presença de reação álcali-agregado ocasionando expansão do concreto. Mário Bhering e Pinto Aguiar foram sensibilizados pelos argumentos de Apolônio Sales. Xingó já em operação e Pão de Açucar. Norman Costa. o que exigiu a execução de serviços para convivência com esse fenômeno e manutenções periódica nas unidades geradoras. na Bahia. Na ocasião da concepção do projeto não foi considerada a construção de um obra de barragem para o controle de cheias do rio Moxotó que teria trazido importantes benefícios econômicos à construção de Paulo Afonso IV e aos vertedouros de jusante. II. estimulando a construção de usinas termoelétricas junto aos grandes centros de consumo. de 100 MW cada. Os dirigentes da Eletrobras. além de João Paulo Maranhão de Aguiar. dedicaram-se aos estudos e acompanhamento. II e III. ou de Sobradinho ambas no rio São Francisco e a montante de Paulo Afonso e Moxotó. o trabalho conjunto de Apolônio Sales e Eunápio Queiroz. Essa decisão da Eletrobras. Japhet Diniz. O planejamento energético foi influenciado também pelo baixo custo do petróleo. em empreendimentos de engenharia. As quatro unidades geradoras. uma solução de compromisso: a concessão da hidroelétrica de Sobradinho seria da CHESF. Em maio de 1974 a CHESF recebeu instruções para motorizar Sobradinho. formando um apreciável acervo sobre a reação álcali-agregado. Em 1983 a usina de Moxotó passou a ser denominada oficialmente de Usina Apolônio Sales em homenagem ao criador da CHESF. então presidente da CHESF. As obras civis da usina de Moxotó foram iniciadas em 1971 e concluídas em 1974. mais econômica. A usina é composta por duas barragens de enrocamento com núcleo de argila. A barragem de Moxotó se situa a cerca de 2 km a montante da barragem do Complexo Paulo Afonso I. e implantado com sucesso a hidroelétrica de Funil e que teria como missão implantar o empreendimento de Sobradinho. Paulo Pacheco e Margarida Maria Dantas de Oliveira. presentemente em fase de inventário. inundada com a formação do reservatório.

sucedido pela Portobrás.A História das Barragens no Brasil . o que.Séculos XIX.Minas Gerais e o sub médio rio São Francisco.214 km2 possibilitando. tão importante para a segurança do suprimento de energia ao Nordeste. Foi necessário a relocação das cidades de Casa Nova. com uma depleção de até 12 metros. concluída em 1980. No local da barragem de Sobradinho e em toda a área do seu reservatório o rio São Francisco apresentava margens abatidas em vale muito aberto.1 bilhões de metros cúbicos e extensa área alagada de 4. Apesar de se situar a cerca de 50 km a montante de Juazeiro (BA) e Petrolina (PE). mesmo limitando a altura da barragem e definindo a usina como de baixa queda. Sento Sé e Pilão Arcado e de outros pequenos povoa- Figura 20 .A usina hidroelétrica Sobradinho 182 . o Departamento Nacional de Portos e Vias Navegáveis. gerou impactos sócio-ambientais de porte. A casa de força de Sobradinho teve a entrada de sua primeira máquina em operação em novembro de 1979 e a última unidade geradora em março de 1982. gerou um reservatório de grandes dimensões com volume acumulado de 34. XX e XXI Uma barragem de terra zoneada flanqueia as estruturas de concreto gravidade da tomada d’água e dos vertedouros de fundo e superfície. portos terminais do trecho navegável entre Pirapora . atingindo seus 1050 MW de capacidade instalada. Remanso. um significativo aumento de descargas garantidas para as usinas a jusante. exigiu e assumiu os custos de implantação de uma grande eclusa de navegação. O reservatório de Sobradinho. que na época era um sistema isolado do resto do País. num arranjo característico de hidroelétrica brasileira em vale aberto.

Hamilton Oliveira. Sherard. única disponível na área em quantidades compatíveis com os volu- mes requeridos. Guy Bordeaux e Pedro Tanajura) com a consultoria e acompanhamento de um dos mestres mundiais da engenharia de solos – James L. antecedendo à inauguração de Tucuruí. Antonio Martins. no escritório e no campo. desenvolveram estudos. O usina de Sobradinho permitiu a interligação das regiões Nordeste e Norte através de linha de transmissão entre Sobradinho e Tucuruí. com a transferência das suas populações. que garantiram todos os requisitos de qualidade e segurança na utilização de argila dispersiva. em Sobradinho foi construída a tomada d’água que abastece o mais bem sucedido projeto público de irrigação no Brasil – o Projeto Nilo Coelho.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 21 .000 pessoas) reassentadas para formação do reservatório. Com Sobradinho ainda em fase de construção a CHESF iniciou em 1975 no rio São Francisco e a cerca de 40 km a montante de 183 . Técnicos brasileiros da CHESF e da Projetista (Esmeraldino Pereira. durante cerca de quatro anos. Hilton Silveira. Ao todo foram 11. Como Tucuruí ainda estava em construção quando Sobradinho iniciou sua operação.400 famílias (cerca de 70. Além do papel importante na redução de piques de cheia e interligação Norte – Nordeste.A usina hidroelétrica de Itaparica dos situados às margens do rio São Francisco. avaliações e tarefas de controle de laboratório e construção dos maciços. o canteiro e acampamento dessa hidroelétrica.000 hectares. proporcionando significativa economia de petróleo. Hiromito Nakao. A construção da barragem de Sobradinho trouxe importante contribuição para a engenharia nacional de barragens ao ter seu núcleo impermeável executado com argila dispersiva. com área irrigável de 25. a cidade de Belém do Pará e cidades vizinhas foram abastecidas com energia elétrica gerada em Sobradinho.

A jusante de Paulo Afonso o rio São Francisco escavou profundo e estreito cânion de paredes rochosas de elevadas qualidades geomecânicas. os estudos preliminares para seleção de local e de alternativas de projeto. a Usina de Xingó. capitaneada pelo político baiano. por mais econômica. recomendou. ambos no estado de Sergipe e viabilizados pela elevação de mais de 120 metros no nível d’água no cânion. Foram construídas as novas cidades de Petrolândia. motivo pelo qual as obras se prolongaram muito além do que fora previsto no planejamento de construção. houve a necessidade do assentamento da população ribeirinha que teve que ser desalojada. com a empresa consultora. todas as demais usinas incorporadas pela CHESF se situam em outros rios do Nordeste.000 pessoas.A História das Barragens no Brasil . que atingem até 200m de altura. Essas hidroelétricas foram: Bananeiras (inundada pela usina hidroelétrica Pedra de Cavalo. Além das hidroelétricas acima mencionadas e implantadas pela CHESF. O nível d’água do reservatório da hidroelétrica de Xingó foi definido pelo valor aceitável de afogamento do canal de fuga de Paulo Afonso IV com conseqüente redução de geração nessa usina. sob comando de Eunápio Queiroz. Boa Esperança no rio Parna- 184 . outras foram incorporadas à CHESF ao longo dos anos. abrigando seis unidades de 527 MW cada que entraram em operação entre 1994 e 1997. Dada a carência de experiência nacional em barragens em abóbada e como o esquema com barragem de enrocamento no final do cânion era viável. a usina e a indústria não foram adiante. XX e XXI Paulo Afonso as obras para implantação da hidroelétrica de Itaparica. Somente em 1975 foram contratados pela CHESF. Itacuruba. vislumbrou a construção de uma hidroelétrica nesse cânion. Os trabalhos foram apoiados por uma junta de consultores composta por James Libby. homenagem ao grande compositor e cantor nordestino. de enrocamento com face de concreto e com desvio por túneis escavados na margem direita onde também foi localizada a casa de força. Ao lado da tomada d’água para geração de energia elétrica foram implantadas duas tomadas para os projetos de irrigação Califórnia e Jacaré Curituba. O Empreendimento Itaparica foi realizado num período de intensas dificuldades financeiras do setor elétrico estatal. da Kaiser. Nesse ano a usina foi inaugurada pelo presidente José Sarney e atingiu plena capacidade em 1990 com seis unidades geradoras de 246. O vale aberto do rio foi barrado por um extenso maciço de enrocamento com núcleo de saprolito compactado ladeando as estruturas de concreto gravidade da tomada d’água e do vertedouro. Essa usina teria como finalidade a geração de grandes blocos de energia para uma unidade fabril de produção de alumínio a ser implantada na região. e da antiga pequena usina existente em Itaparica. o engenheiro Gerdes. Tendo em vista a extensa área de reservatório de 834 km². a construção de uma barragem em abóbada com casas de forças subterrâneas nas duas margens. constituída por uma barragem com 145 m de altura. Houve forte resistência política dos que consideravam que essa concessão não atendia aos interesses do Brasil e do Nordeste. No após guerra. Essas usinas.6 MW cada. Clemente Mariano e pelo industrial e político paulista José Ermírio de Moraes com os argumentos de que haveria prejuízo da incipiente indústria nacional e que absorveria grande consumo de energia com pequena utilização de mão de obra. que abastecia um núcleo agrícola e operou de 1945 até a década de 1970 e foi alagada pelo reservatório da nova hidroelétrica em 1988.Séculos XIX. Com tanta oposição. Manuel Rocha. a menos de Angiquinho já mencionada. que teve sua operação iniciada em 1913 e desativada em 1960 devido a uma inundação. abrigando cerca de 36. em 1951. já com a denominação de Usina Hidroelétrica Luiz Gonzaga. Somente em 1988 foi fechado o reservatório e entraram em operação as primeiras unidades. sob a supervisão de Felício Limeira de França e a coordenação do engenheiro José Geraldo Araújo. Armando Lencastre e Don Deere que. James Sherard. A indústria americana Reynolds Metals propôs a construção dessa hidroelétrica numa das partes mais estreitas do cânion com uma barragem em arco. Rodelas e o povoado de Barra do Tarrachil. do Grupo Votorantim) no rio Paraguaçu na Bahia. A concessão teria sido para autoprodutor por 30 anos e reverteria à União no entorno de 1985. foi decidida a implantação dessa segunda alternativa de projeto que se situa imediatamente a montante das sedes municipais de Piranhas – Alagoas e Canindé do São Francisco – Sergipe.

Essa usina foi transferida da COELBA para a CHESF em 1967 e desativada em 1981 por interferência com a hidroelétrica de Pedra do Cavalo. Walter Barros da Silva. as Funil e Pedra no rio de Contas no sul da Bahia. A usina hidroelétrica de Boa Esperança. com a participação dos estados do Piauí e Maranhão e do Ministério de Minas e Energia. e sua Figura 22 . a partir de Grupo de Trabalho formado pelo DNOCS e pela SUDENE.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens íba na divisa dos estados do Maranhão e Piauí. que foi implantada no local. Em julho de 1963 a COHEBE foi formalmente constituída e sua primeira diretoria foi composta por César Cals de Oliveira Filho. A usina de Boa Esperança teve suas obras iniciadas em 1964. A hidroelétrica de Bananeiras. situada no rio Parnaíba entre os estados do Maranhão e do Piauí. havia entrado em operação em 1920 e teve 9 MW instalados para suprir o Recôncavo Baiano. Curemas a partir dos açudes públicos Estevam Marinho e Mãe-d’água do DNOCS nos rios Piancó e Aguiar na Paraíba e Araras no açude público Paulo Sarasate do DNOCS no rio Acaraú no Ceará. Dessa iniciativa nasceu a Companhia Hidro Elétrica de Boa Esperança COHEBE. a montante da cidade de Cachoeira. Hilton Ahiran da Silveira e Ebenezer Gueiros. situada no rio Paraguaçu. teve origem na iniciativa do DNOCS de criar uma comissão para inventariar as possibilidades de implantação de hidroelétricas no rio Parnaíba.A usina hidroelétrica de Xingó 185 . de maior potência. representado pela Eletrobras.

abastecimento d’água e ir rig ação ag rícola. a montante da usina de Funil. todas na modalidade de consórcio privado.A História das Barragens no Brasil . A usina hidroelétrica de Funil no rio de Contas.Séculos XIX. no rio Acaraú. haviam os que alegavam que a usina seria um investimento pioneiro fomentador de progresso para a região. no sul da Bahia. a CHESF voltou a investir e participar de grandes empreendimentos de geração de energia elétrica. no estado da Paraíba. 186 . Jirau e Belo Monte. a construção de Boa Esperança sofreu grande oposição dos que consideravam que a demanda dos estados do Nordeste Ocidental (Maranhão e Piauí) não justificava a implantação de um empreendimento desse vulto. no Ceará. com duas unidades geradoras totalizando 4 MW. composta por três unidades geradoras de 10 MW cada. dentro do novo modelo do Setor Elétrico Brasileiro. sendo transferida da COELBA para a CHESF em 1980. possui apenas uma unidade geradora de 20 MW cuja entrada em operação aconteceu em novembro de 1978. então vice presidente executivo da CHESF. Em oposição a esses. entraram em operação. Em 1972 Alde de Castro Salgado. Em 1957 a hidroelétrica entrou em operação tendo sido incorporada pela CHESF em 1969. A usina só entrou em operação em 1967 e em 1969 foi incorporada à CHESF. Em 1973 a COHEBE foi então absorvida pela CHESF.65 MW cada. e com a passagem para o Patrimônio da União do imobilizado não ligado diretamente à geração. dotados de comportas de segmento. A hidroelétrica de Araras. A usina de Pedra também no rio de Contas. A usina de Curemas com duas unidades geradoras totalizando 3. Novos tempos – século XXI A partir de 2006. nos rios Piancó e Aguiar. sendo acionista minoritária nas usinas hidroelétricas de Dardanelos. assumiu a presidência da COHEBE avançando no processo de absorção dela pela CHESF. Ela encontrou apoio na Eletrobras através dos seus diretores Mario Bhering. atendida pelas hidroelétricas do rio São Francisco através de linha de transmissão 500 kV Sobradinho – Boa Esperança. complementando a necessidade de expansão da geração para a região. A barragem tem múltipla finalidade e além de geração de energia. grande defensor desta usina. Somente em 1991 as duas últimas unidades geradoras de 63. que foi homenageado com a denominação Barragem Milton Brandão. As obras foram iniciadas pelo DNOCS em 1956. Teve suas obras iniciadas pelo DNOCS em 1939. A barragem é do tipo contrafortes de concreto com 24 blocos dos quais os sete blocos centrais são vertentes. foi implantada inicialmente com 20 MW em 1962 e posteriormente ampliada para 30 MW em 1970. A barragem é uma estrutura de concreto gravidade incluindo a tomada d‘água e o vertedouro em vale relativamente fechado. previsto no planejamento do setor elétrico e reforçado pela interligação elétrica CHESF – COHEBE. Anteriormente. atingida com a energização de LT 230 kV Teresina – Sobral – Fortaleza. o passivo da COHEBE foi coberto com recursos da reserva legal para desapropriação de empresas de energia elétrica. formando sociedades de propósito específico (SPE). o que explica a grande defasagem entre as instalações das unidades geradoras. após a morte do ex-presidente Castelo Branco. XX e XXI primeira etapa com duas unidades de 54 MW de potência unitária foi concluída em 1970 proporcionando energia abundante e confiável aos estados do Maranhão e Piauí . encontra-se situada a jusante da barragem do açude público Paulo Sarasate.5 MW encontra-se situada a jusante da barragem dos açudes públicos Estevão Marinho e Mãe-d’Água. a casa de força passara a ser denominada Presidente Castelo Branco. mantendo-se para o empreendimento a denominação Usina de Boa Esperança. sendo suas obras civis iniciadas em setembro de 1976. De modo semelhante ao que aconteceu com Paulo Afonso na década de 1940. Para não onerar os consumidores. Esse procedimento foi replicado quando da morte do deputado federal Milton Brandão. per mite a regularização do rio para controle de enchentes. Pinto Aguiar e Antônio Carlos Bastos.

85 MW.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Na usina hidroelétrica Dardanelos a CHESF participa em sociedade com a Neoenergia e a Eletronorte. na Região Amazônica. com unidades Bulbo na casa de força complementar. A potência instalada total de Belo Monte é de 11.800 m3/s. A usina será construída no rio Xingu. quatro delas de 58 MW cada e uma de menor porte de 29 MW. na região amazônica. Na usina hidroelétrica Jirau a CHESF participa em sociedade com a GDF Suez. A usina está sendo construída no local denominado ilha do Padre. possuindo três sítios. sendo composta de 5 unidades geradoras. a 120 km de Porto Velho.1 MW. Sua capacidade instalada é de 3. Figura 23 . tendo uma capacidade instalada de 261 MW. no Pará.233 MW. dispostas em duas casas de força. no Complexo Hidrelétrico de Belo Monte a CHESF se associou a outras 18 empresas. na região amazônica. outro composto do canal de adução e interligação e o último composto do reservatório intermediário e sítio Belo Monte com a usina principal. uma na margem esquerda e outra na margem direita. com turbinas Francis na casa de força principal denominada Belo Monte e 6 unidades geradoras de potência unitária 38. no noroeste do Mato Grosso. composto de casa de força complementar e vertedouro. no rio Madeira.Vista aérea da hidroelétrica de Xingó 187 . a Eletrosul e a Camargo Corrêa. em Rondônia. Finalmente. um deles denominado Pimental onde ocorrerá o barramento do rio Xingu. com dezoito unidades geradoras de potência unitária 611. Seu vertedouro possui 44 vãos e permite uma descarga de vazão de projeto de 85.450 MW com 46 unidades Bulbo de 75 MW cada. A usina está localizada na margem esquerda do rio Aripuanã.

188 .

Havia também inúmeros pequenos autoprodutores rurais. evidenciava esse cenário. por exemplo.4 x 109 m3 189 . por sua vez. gerou crescente aceleração urbana que passou a pressionar por demanda de energia elétrica. fazendo com que. a energia elétrica era praticamente só gerada por empresas privadas. criou desequilíbrio econômico nos contratos de concessão de fornecimento de energia elétrica. a maior concessionária do País na época. mas as duas maiores eram de capital canadense (Light) e americano (AMFORP American Foreign Power). Com as restrições tarifárias. Reservatório de Serra da Mesa. começassem a criar empresas estatais de energia elétrica. alguns estados como São Paulo e Minas Gerais principalmente. essa oferta era inferior à demanda que crescia acima da capacidade de investimento da concessionária. Nessa época o País começou a deixar de ser apenas essencialmente rural para iniciar a industrialização que. já nos anos 40. Apesar de procurar aumentar sua oferta de energia elétrica. A situação da Light. Esse cenário começou a se tornar crítico a partir do Código de Águas que. tendo sido adotado em 1934. transmissão e distribuição de energia elétrica. a maioria delas nacionais.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Furnas no século XX Flavio Miguez de Mello “No Brasil nunca se fez nada demasiadamente grande.” Leopoldo Miguez Desde os primórdios da produção de energia elétrica no País até pouco depois da II Grande Guerra Mundial. tirando o incentivo da iniciativa privada em promover acréscimos de investimento de geração. as companhias de energia elétrica passaram a enfrentar problemas no atendimento da crescente demanda. o maior do País com capacidade de 54.

em reconhecimento do potencial do rio Grande entre a hidroelétrica de Itutinga e o remanso do reservatório de Peixoto. Os estudos iniciais mostraram que a capacidade instalada seria quase um terço da capacidade instalada nacional. Nos anos cinquenta. O vulto das obras que seriam necessárias para erguer uma das maiores hidroelétricas do mundo na época era muito superior à capacidade das empresas Figura 1 .Séculos XIX. XX e XXI Desse modo. sendo agravadas pela inexistência de interligação dos sistemas das concessionárias. em cujas margens o engenheiro José Mendes Júnior costumava pescar. em 1954. Os dois engenheiros pernoitaram na fazenda e receberam de Mendes Júnior indicações sobre o local das corredeiras. Havia apenas uma pequena conversora de muito baixa capacidade entre os dois sistemas. em 1956. em muito curto prazo. Este se mostrou excepcional para uma grande usina com grande reservatório de regularização. estimuladas pela própria Light e com perspectivas de racionamentos. então diretor técnico da CEMIG.Francisco Noronha e Anton Rydland no local de Furnas 190 . ficou claro que a diferença entre a capacidade em construção e a demanda projeta- da exigia o início. o governo federal que havia criado a CHESF para explorar o potencial do rio São Francisco em Paulo Afonso. de obra que acrescentasse cerca de 1000 MW na Região Sudeste. No início do governo Kubitschek. A solução estava no local recém descoberto pela CEMIG. As sinalizações de déficit passaram a ser evidentes. havia cerca de 100 MW instalados pela indústria em grupos Diesel que representavam quase 20% da capacidade instalada da São Paulo Light. COPEL (1953). Mesmo na Light. USELPA (1953). Só em São Paulo. nas proximidades de sua fazenda. EFE (1954). No local havia as corredeiras de Furnas que se situavam em vale apertado de encostas íngremes. CHERP (1955) e Escelsa (1956). O local foi identificado por Francisco Noronha e Anton Rydland em viagem exploratória sugerida por John Cotrim.A História das Barragens no Brasil . foi seguido pelas fundações da CEMIG (1951). as indústrias passaram largamente a instalar grupos geradores Diesel. os sistemas do Rio de Janeiro e de São Paulo eram em frequências diferentes.

Seu derradeiro lance foi exigir que a sede de Furnas fosse localizada em Minas Gerais. Lucas Lopes. Lucas Lopes teve que concordar. Enquanto ele pensava que tinha trazido a empresa para Belo Horizonte. das finanças e dos suprimentos. Quando tudo estava pronto para a fundação da empresa. Flavio Lyra que residia no Rio de Janeiro. Isso tinha justificativa uma vez que Três Marias era um empreendimento de finalidades múltiplas. sendo pessoas perfeitamente intercambiáveis dadas a formação e a experiência dos três. então presidente do BNDE. Para cuidar da administração. foi selecionado como diretor técnico. Jânio disse que só entraria no projeto se houvesse garantias que o governo federal investisse também nos projetos do estado que eram os aproveitamentos hidroelétricos de Urubupungá e Caraguatatuba. Os três constituiriam a diretoria executiva de Furnas. O aproveitamento de Urubupungá foi feito. Bias Fortes. selecionaram os principais membros da nova empresa. As atas das assembléias eram referidas a Passos apenas nominalmente. Essa situação só foi normalizada cerca de vinte anos depois com a transferência oficial da sede para o Rio de Janeiro. o governador Jânio Quadros disse que só autorizaria a participação de São Paulo na empresa se Lucas Lopes fosse falar com ele pessoalmente. Apesar de ser diretor da CEMIG. sem influências políticas e procurando não sacrificar a CEMIG. As negociações políticas com São Paulo foram mais fáceis. em cumprimento à promessa feita ao professor Cândido Holanda. Lyra dispunha da infra-estrutura adequada. O aproveitamento de Caraguatatuba não saiu do papel por ser derivação de descargas 191 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens estaduais na época. Lopes e Cotrim foram a São Paulo e. ele era contra grandes áreas alagadas em Minas para gerar energia para outros estados: costumava dizer que queriam “fazer de Minas a caixa d’água do Brasil”. A primeira oposição a Furnas veio do governo de Minas Gerais. O mercado a atender era primeiramente São Paulo que se encontrava em situação mais crítica e depois os demais estados da Região Sudeste. tendo resultando nas usinas de Jupiá e Ilha Solteira. depois de serem mostrados os benefícios para o estado que seriam trazidos por Furnas. pequena cidade nas proximidades do local da usina. O famoso tripé de Furnas estava formado. enquanto que a CEMIG apenas aportaria recursos para a construção da casa de força situada ao pé da barragem. Candido Holanda e Flavio H. de diretor técnico da CEMIG para presidente de Furnas. veio a idéia de finalmente concordar com o governador que então parou de se opor e a empresa pode ser finalmente constituída. e o escritório central ficou instalado no Rio de Janeiro. Ele queria garantir que Três Marias fosse feita antes de Furnas para ter certeza de que seria concluída. e John Cotrim. Lucas Lopes articulou um esquema de participação da Comissão do Vale do São Francisco em Três Marias. o que foi um presente do governo federal para a CEMIG. sucessor de Lucas Lopes na presidência da CEMIG. No impasse. a sede foi para Passos. A Comissão pagaria pelo reservatório e pela barragem. Mas a oposição do governador Bias Fortes continuava. mas também tiveram seu preço. Ele temia que o governo federal não tivesse recursos para as duas obras simultaneamente e criou toda sorte de obstáculos para atrasar o início de Furnas até que Três Marias estivesse em construção e em estágio irreversível. Além disso. à época exercido por Bias Fortes. já que Belo Horizonte na época não Figura 2 – John Cotrim . foi convidado o engenheiro Benedito Dutra. Esses aspectos fizeram com que ficasse claro que a empresa a ser constituída deveria ser federal.

Lucas Lopes. e os estados de Minas Gerais e São Paulo. empresa de energia do estado de São Paulo. L. o advogado Noé Azevedo se tornou patrono de muitos proprietários e municípios em uma ação cominatória que visava impedir a construção da barragem de Furnas. chefe do planejamento elétrico do governo de São Paulo. Em reunião com o presidente JK realizada no palácio Rio Negro. pelas suas mãos. com graves impactos para as regiões a jusante no Vale do Paraíba. Essas alterações foram impedidas pelos parlamentares que se designavam como nacionalistas e a participação dessas duas empresas foi sendo diluída pela renúncia de investimentos adicionais. foram negociadas as participações da Light e da AMFORP que. necessitariam de alteração no gargalo tributário a que eram sujeitas. A diretoria executiva seria composta por John Cotrim na presidência. Maurício Bicalho. Participaram da reunião que se estendeu até a madrugada muitos proprietários de terras da região e advogados que os incitavam com o objetivo de angariar clientes em ações contra a empresa que estava sendo constituída. diretor da CELUSA. Uma reunião em Alfenas com a comunidade local foi a antevisão das atuais audiências públicas. Carlos Mário Faveret. para qualquer aumento de capital. Menção é devida a outras pessoas que tiveram destaque na formação da empresa.Séculos XIX. XX e XXI da bacia do rio Paraíba do Sul para o oceano. Flavio Lyra e Benedito Dutra 192 . Sérgio Otaviano de Almeida. foi apresentada por Lucas Lopes a estrutura organizacional da empresa. Juscelino Kubitschek. bem como políticos que tinham suas bases na área. Flavio H. Lyra. Mário Lopes Leão. John Cotrim. que defendia que era melhor para São Paulo que investimentos fossem feitos em obras estaduais e não em obras federais. tais como João da Silva Monteiro. Barreto de Carvalho e Julival de Moraes que encontraram um clima de hostilidade inédito até aquela época. Delphim Mazon Fernandes e Jarbas Di Piero Novaes. diretor da CEMIG. diretor da Light. em Petrópolis. José Luiz Bulhões Pedreira. Além desses diretores executivos. haveria diretores representando os outros principais investidores: a Light. Por Furnas participaram os engenheiros Cotrim. Resolvidas as participações estaduais. Ernani da Motta Rezende. C. além do engenheiro Souza Dias. José Pilz Filho.A História das Barragens no Brasil . Emerson Nunes Coelho. Da esquerda João Monteiro. Lyra na diretoria técnica e Benedito Dutra na diretoria de administração e finanças. Juscelino então perguntou: “E eu? Não sobrou nada para mim aí nessa diretoria?” Lucas Lopes esclareceu: “Não temos Figura 3 – JK e Lucas Lopes reunidos com os indicados para diretoria de Furnas por ocasião da constituição da companhia.

CINQUENTA ANOS DO COMITÊ BRASILEIRO DE BARRAGENS Figura 4 .Assis Chateaubriand e Flavio H. Lyra. Lyra em solenidade no canteiro de obra de Furnas 193 . José Pilz Filho. piloto e convidado Figura 6 .Delphim Mazon Fernandes e senhora em 1966 Figura 5 .Flavio H.

mas você tem as vagas do conselho de administração e do conselho fiscal. Os recursos em moeda nacional vieram do BNDE e do Fundo Federal de Eletrificação. quantia impressionante para a época. A indicação dos projetistas era de um laboratório nos Estados Unidos. então Lucas. o reservatório é fechado com a barragem de terra de Pium-I que impede que as águas afluam para a área de drenagem do rio São Francisco. em outubro de 1958. no Centro da cidade do Rio de Janeiro. revoltada com a 194 . houve a necessidade de se construir os modelos em área do laboratório do Departamento Nacional de Portos e Vias Navegáveis. além dos gastos com a escavação.A História das Barragens no Brasil . A construção seguiu um projeto muito bem concebido que resultou em uma alta barragem de enrocamento com núcleo de terra no leito do rio. o concreto e a comporta do vertedouro e do acréscimo de calha desnecessários. quero você na presidência do Conselho de administração. situado no Caju. O canal de adução a essas estruturas foi escavado em cota elevada.500 m³/s no local da barragem. e vertedouro com seis comportas de segmento com capacidade total de 13. Furnas conseguiu do BIRD. assumiu a responsabilidade da execução dos ensaios no Brasil pelo Laboratório Saturnino de Brito. foi enviado às pressas. Um marco importante para a engenharia hidráulica brasileira foi a seleção do laboratório que deveria desenvolver os ensaios em modelo hidráulico reduzido. Entretanto. conhecedor da capacidade do professor Theophilo Benedicto Ottoni Netto e de seus ex-alunos. Na maior parte do tempo os residentes de Furnas na obra foram Rodrigo Mário Penna de Andrade e Franklin Fernandes Filho. um empréstimo de US$ 73 milhões. concentrando na margem esquerda as estruturas do vertedouro e da tomada d’água. uma vez que não havia experiência nesse setor da engenharia no Brasil para encarar os ensaios de uma obra dessa magnitude. não aceitou que a redução fosse efetuada. mas o engenheiro responsável por esse empreendimento no BIRD. Além da barragem principal e do conjunto tomada d’água e vertedouro. XX e XXI Figura 7 .” E indicou alguns nomes para compor os dois conselhos respeitando os que. para se candidatar ao empréstimo do BIRD. já constavam das duas relações.” Disse então o presidente Juscelino: “Ah bom. mais convencional na época. Flavio Lyra. houve inflação de capacidade de descarga nos vertedouros a jusante. Com o aprofundamento dos estudos hidrológicos verificou-se que não seria possível a ocorrência de uma descarga superior a 10. no início dos estudos.Visita do presidente Juscelino Kubitscheck à hidroelétrica de Furnas no início de sua obra como mexer na diretoria. Como o laboratório era instalado no subsolo de um prédio situado na rua Araujo Porto Alegre.000 m³/s.Séculos XIX. Com isso. O projeto teve que ser mudado devido à pressão da população da cidade. O diretor técnico propôs ao BIRD a eliminação de um vão do vertedouro. traumatizado por já ter perdido uma barragem por ruptura causada por transbordamento. representando os investidores. um dos arranjos que estavam sendo considerados: barragem de concreto gravidade. propiciando enrocamento para a barragem. o maior empréstimo feito pelo BIRD para um só empreendimento até então. Inicialmente essa barragem seria construída nas cercanias da pequena cidade de Capitólio. Esse foi o primeiro grande passo para a formação de várias gerações de excelentes engenheiros hidráulicos no País.

o morro dos Cabritos em fase inicial de erosão. 195 .Vista aérea de Furnas nos primeiros anos de operação. na reconstrução da barragem. A cidade de Capitólio ficou às margens do reservatório. com o passar do tempo. sido deslocado para um local onde ocorria rocha competente. Entretanto. sujeita à imagem desagradável das áreas que afloravam quando o reservatório era deplecionado. um de seus redutos políticos. não mais havia tempo para alterações.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens possibilidade de ser impactada pela obra. Cerca de vinte anos após o reservatório ter sido formado. a população verificou as muitas melhorias que Furnas havia introduzido em outras cidades na área do reservatório e pressionou em sentido contrário para que a barragem retornasse ao local originalmente selecionado para que houvesse em Capitólio os benefícios propiciados às outras cidades. sendo o vertedouro. A montante do canal de acesso à tomada d’água e ao vertedouro. Tarde demais. assumiu a vicepresidência da República e o Ministério de Minas e Energia o político mineiro e engenheiro Aureliano Chaves que pressionou Furnas para construir a pequena barragem de Boa Esperança com a finalidade de manter o nível d’água constante em frente à cidade de Capitólio. Figura 8 . Durante a construção houve uma ruptura da fundação em argila muito compressível.

comentou que deveria ser para o fechamento do reservatório. ministros e demais autoridades. apesar de ter iniciado o programa de grandes privatizações quando era presidente. Como havia oposição ao empreendimento mesmo depois dele já consolidado. vendo os VIPs congregados no avião. O ex-presidente Itamar Franco. John Cotrim também saiu no meio da manhã. A derivação do rio Grande. Após extensos trabalhos. O esquema funcionou muito bem. quando os plugues estavam quase concretados. Voltando aos anos sessenta. A pressão política foi grande e a privatização de geradoras do setor elétrico nessa fase se limitou à Eletrosul. O avião de Furnas não pôde decolar do aeroporto Santos Dumont. Quando foi impedido de entrar. mobilizou uma força policial para a região de Pium-I com equipamentos de terraplanagem e ameaçou abrir a barragem fazendo com que as águas do rio Grande represadas pela barragem de Furnas fossem afluir para a bacia do rio São Francisco. pois até o carro que conduzia o Cotrim foi barrado. já sem problemas de oposição ao empreendimento. ou comprometido com o mandato de segurança acima mencionado ou querendo ter colhido dividendos políticos na operação de fechamento. ao final desse período tivesse ficado grisalho. Ainda não havia amanhecido quando chegou na portaria um oficial de justiça com um mandato para impedir o fechamento do reservatório. Poucos dias depois começou o pesadelo na execução dos plugues dos dois túneis de desvio. o fechamento do reservatório foi sigilosamente programado para o dia 9 de janeiro de 1961. Na conclusão dos serviços. o governador Magalhães Pinto foi convidado junto a outros governadores. Essa longa operação para solucionar o mais importante acidente que até então havia ocorrido em obras no País fez com que o engenheiro Flavio Lyra. XX e XXI A respeito da barragem de Pium-I um episódio interessante ocorreu muitos anos depois de sua construção. Na guarita da obra foi montado um esquema do tipo operação padrão para impedir ou retardar ao máximo a entrada de qualquer pessoa estranha. só tendo sido liberado quando Flavio Lyra. No meio do dia chegou na obra o então governador de Minas Gerais. os vazamentos foram controlados pela colocação de tetrápodos. O piloto afirmou que ele não sabia de nada e que apenas supôs que o fechamento do reservatório iria ocorrer vendo quem eram os passageiros no avião. Magalhães Pinto. que aguentou firme tal estupidez. Tempos depois. principalmente de Furnas. No dia anterior membros da diretoria se deslocaram para a obra. prejudicaria enormemente todas as usinas a jusante de Furnas.” Perto das 24 horas. se realmente executada. aqui não pode entrar ninguém. inclusive a usina de Furnas. Em cada um dos dois túneis. concessionária de várias hidroelétricas em Minas Gerais. a montante das comportas de desvio. Flavio Lyra com um megafone começou a comandar o fechamento dos dois túneis de desvio. Flavio Lyra. enrocamento fino. que.Séculos XIX. nessa ordem. o engenheiro Franklin 196 . disse para o guarda abrir a cancela. ocorreram explosões que acarretaram acréscimos substanciais e crescentes de vazão que indicavam que alguma coisa havia colapsado no túnel. O piloto que naturalmente acompanhava as atividades de construção. que não conhecia o presidente da empresa e seguindo instruções disse: “Nem Cotrim nem Delphim. a começar por Furnas. John Cotrim disse para o guarda: “Eu sou o Cotrim”. três das quais concessões da CEMIG. com a bem sucedida privatização da CSN. na época governador de Minas Gerais. No seu esforço político contra a privatização. o oficial de justiça entregou o mandato. O oficial de justiça se retirou. areia e argila. enrocamento grosso. O governo Fernando Henrique Cardoso se propunha privatizar o setor elétrico estatal federal. saberia efetuar essa sabotagem com eficiência. Foi acionado um avião da Líder que costumava fazer o trajeto entre Rio e Furnas. por ocasião da inauguração da usina. se colocou frontalmente contrário à privatização do setor elétrico. Ao adotar essa inédita postura afirmava que por ser engenheiro. passou uma descompostura no diretor presente. Flavio Lyra disse a ele que ele havia chegado tarde pois não havia mais qualquer possibilidade física de retirar as comportas que já estavam com bem mais de 20 m de água sobre elas. Esse ingênuo comentário fez com que Cotrim entrasse em desespero dizendo que a operação já era do conhecimento geral. Flavio Lyra ficou na obra para acompanhar o desempenho do fechamento. que vinha atrás em outro carro.A História das Barragens no Brasil . Depois de perder muito tempo na operação padrão da portaria. na parte a montante dos plugues. O guarda. A operação ocorreu com sucesso.

a usina e seu sistema de transmissão associado entraram em operação como programado. que vai trazer água até a minha roça. permaneciam na área que estava sendo alagada. o austríaco Arthur Casagrande e o americano Portland Port Fox. ambas com largos canais de acesso que propiciaram os enrocamentos necessários à barragem. Toda a área instável foi então removida. com barcos encalhados na lama do fundo dos reservatórios. Nessa ocasião eram impressionantes as fotografias dos reservatórios em São Paulo completamente deplecionados. Com o progresso da erosão foi se formando um grande monólito que. hidroelétrica anterior e a jusante de Furnas. A regularização promovida pelo reservatório beneficiou sobremodo os potenciais a jusante propiciando a ampliação da capacidade instalada de Peixoto (Mascarenhas de Moraes) e viabilizando os muitos e grandes aproveitamentos a jusante que foram todos construídos até Itaipu com exceção de Ilha Grande no rio Paraná que. Apesar do importante acidente nos túneis de desvio. de acordo com o modelo hidráulico reduzido. Se a água vier até aqui eu bebo ela todinha. naquela vila.950 m³/s e da tomada d’água foram implantadas cada uma em uma das margens. ao adentrar num túnel com outras pessoas. Nessa obra 197 . A partir de acordo entre as duas companhias.” O projeto e a obra de Furnas foram executados com grande sucesso. embora avisadas. apesar de ter tido iniciadas as obras. 1965. principalmente os da São Paulo Light. Aos que lá foram ter com ele. viu uma delas cair. A barragem de enrocamento com núcleo de terra fecha o vale e as estruturas do vertedouro com capacidade de 12. Centros urbanos como a cidade de Guapé e a vila de São José da Barra haviam sido reconstruídas com melhores habitações e equipamentos urbanos às margens do reservatório.” Teve que ser tirado à força. por exemplo. havia um habitante que teimava em permanecer na casa que já havia sido comprada e paga por Furnas. foi dito: “Seu Doutor. a concessão foi transferida para Furnas que. Foi então descoberta a causa das explosões: mistura de oxigênio com gás metano acumulado nos túneis. Na última hora foi reportado que ainda havia um teimoso na área do reservatório. Hearn. do grupo AMFORP. estava mais bem estruturada para executar a construção. Mais uma vez houve uma corrida contra o tempo para que a usina de Estreito entrasse em operação para evitar colapso no suprimento de energia elétrica à Região Sudeste. A Companhia Paulista de Força e Luz detinha a concessão do aproveitamento hidroelétrico de Estreito situado no rio Grande a jusante da usina de Peixoto. provocar uma onda de até 30 m sobre a barragem. o senhor não garantiu que as águas iriam subir até a estaca branca?” Após a resposta afirmativa. ele acrescentou: “Pois assim seja. houve efetiva colaboração das Forças Armadas na retirada de algumas pessoas que. A Companhia Paulista de Força e Luz. naquela época. tendo salvado o estado de São Paulo de uma concreta ameaça de forte racionamento. Muitos anos se passaram e a encosta do morro dos Cabritos. A usina foi inaugurada pelo presidente Castelo Branco em 12 de maio de 1965. Como consultores internacionais para o projeto e a obra. Com a elevação do nível d’água na área do reservatório. A obtenção dessa concessão foi obtida graças ao elevado desempenho da empresa na construção de Furnas e quebrou a orientação governamental de que Furnas se limitaria à implantação da usina de Furnas e à sua operação. quase frontal à barragem apresentava constante e acelerada erosão com desplacamento de material.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Fernandes Filho. Entretanto. fincou estacas brancas de madeira em diversos pontos onde a linha d’água iria atingir quando da formação do reservatório. se incidisse no reservatório poderia. para a visualização dos residentes antes do fechamento do reservatório de Peixoto. Eu peguei a estaca e finquei ela lá em baixo. Dizia ele que “nem a cheia de 1930 trouxe água até aqui e não será essa tal de Furnas que fica a léguas de distância. Furnas contou com o canadense Richard L. Cenas como essas não eram incomuns na época. Um desses desplacamentos causou uma onda que incidiu contra a barragem. não foi construída por ter sido criado um parque nacional na área que seria o reservatório. proveniente da decomposição de matéria orgânica da área do reservatório.

no ano seguinte. o que pode ter gerado ineficiência de gestão.Séculos XIX. em 1969. XX e XXI Figura 9 – John Cotrim. principalmente quando comparada à eficiência demonstrada por Furnas. com capacidade final de 1050 MW (duas unidades foram montadas em segunda fase) entrou em operação antes da data programada. No final dos anos 50 foi criada a CHEVAP. Rio de Janeiro. ambas tendo desenvolvido estudos preliminares. sendo que o mais elevado não ultrapassava a cota do piso dos geradores. A barragem de Nhangapi. presidente Castelo Branco e ministro Mauro Thibau em visita a Estreito foi usado pela primeira vez no País rigoroso planejamento e controle de construção em PERT/CPM permitindo que a obra tivesse controle de prazos. Nessa época apenas sete dos dezessete blocos da barragem principal haviam sido concretados. na época a segunda maior barragem de terra do País. Naquela época esses governos eram de diferentes correntes políticas. John Cotrim e presidente Castelo Branco na inauguração da usina hidroelétrica Estreito 198 . A Eletrobras assumiu a construção da hidroelétrica de Funil e.A História das Barragens no Brasil . em 1967. a tempo de se evitar uma crise de suprimento de energia em toda Região Sudeste. também estava com considerável atraso. Consta que a diretoria abrigava indicações dos governos dos estados da Guanabara. Furnas Figura 10 – Ministros Mauro Thibau e Roberto Campos. São Paulo e de Minas Gerais além do governo federal. transferiu essa responsabilidade a Furnas. A usina. empresa estatal destinada a desenvolver os aproveitamentos no Vale do Paraíba. O rio Paraíba do Sul após a cidade de Cruzeiro (SP) passa a apresentar gradientes progressivamente mais acentuados até pouco a montante da cidade de Itatiaia (RJ) onde se localizavam três corredeiras que despertaram o interesse da Estrada de Ferro Central do Brasil e da Light.

por falta de inundações periódicas. situados a montante. tendo tido excelente desempenho. venha sendo ocupado por construções irregulares e até por instalações da Prefeitura de Resende. esse eficiente controle de cheias tem feito com que o leito secundário do rio. Episódio pitoresco ocorreu a partir das primeiras investigações realizadas no local da barragem. ocorrida em fevereiro de 2000. Um místico chamado Savananda que se assemelhava a um guru indiano e residia em Resende. Presentemente a usina com 210 MW instalados é também e principalmente usada como elemento de regularização de vazões e de controle de cheias.Barragem de Funil 199 . A barragem principal com altura de 85 m permanece sendo a única barragem em abóbada no País.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 11 – Luiz Carlos Barreto de Carvalho aplicou um verdadeiro choque de gestão e iniciou a geração comercial em dezembro de 1969. beneficiando as cidades a jusante. assim como as usinas e os reservatórios de Paraitinga/Paraibuna. Santa Branca e Jaguari. Entretanto. portanto Figura 12 . o reservatório de Funil amorteceu totalmente a cheia afluente. Por ocasião da maior cheia registrada no rio Paraíba do Sul.

o ministro Costa Cavalcanti das minas e energia. pouco superior a 20 m. A usina de Porto Colômbia é de queda modesta. Furnas recebeu as concessões de Porto Colômbia e Marimbondo. O ministro afirmou que “palavra de ministro não volta atrás. XX e XXI Figura 13 . No inventário realizado pela Canambra o aproveitamento de Porto Colômbia foi situado pouco a montante da foz do rio Pardo no rio Grande. afirmava que a barragem iria romper causando um desastre sem precedentes. e. Flavio Lyra propôs que o reservatório de Marimbondo. O movimento conseguiu que. 200 . Essa operação não pode ser efetuada devido à interferência da ponte Gumercindo Penteado sobre o rio Grande entre as cidades de Planura e Colômbia. diretores e assessores de Furnas mostraram a conclusão dos estudos que demonstrava que a inundação no vale no rio Pardo seria muito menor do que estava sendo alardeada. Poucos dias depois. Ao serem iniciados os estudos de campo. na época chefe do Departamento de Engenharia Civil. Além do considerável acréscimo de energia gerada em Porto Colômbia. cinquenta e um dias antes do inicialmente programado. paralisando o desenvolvimento da vossoroca. O rio Pardo contribui com cerca de 30% da descarga média do rio Grande. Os primeiros estudos de Furnas visaram o confronto do arranjo do inventário com uma alternativa de projeto situada logo a jusante da confluência dos dois rios. Após a decisão do ministro. ambas situadas no rio Grande entre São Paulo e Minas Gerais. portanto. afirmasse que a usina de Porto Colômbia seria implantada a montante da foz do rio Pardo. o prefeito da pequena cidade de Guaira.” Até a presente data (maio de 2011) cerca de 25 milhões de megawatts hora deixaram de ser economicamente gerados. situado a jusante. numa solenidade em Jupiá. Entretanto. capitaneou um movimento de oposição à alternativa de barragem a jusante da foz do rio Pardo.A História das Barragens no Brasil . que providenciou a devida correção. muitos anos depois. A construção e montagem da usina foram feitas sem maiores problemas. o autor por acaso esteve em ponto remoto do reservatório e verificou que estava se desenvolvendo uma grande vossoroca que se formava a jusante de uma estreita sela topográfica. a alternativa propiciava uma pequena regularização das vazões do rio Pardo que beneficiaria todas as usinas a jusante. Foi produzida vasta documentação fotográfica enviada ao engenheiro Erton Carvalho. A barragem não rompeu. seriam de pouca expressão as áreas a serem inundadas no vale do rio Pardo. A usina entrou em operação no dia 29 de junho de 1973.Usina hidroelétrica de Porto Colômbia a jusante do local da barragem. pudesse amortizar as cheias do rio Pardo por elevação de seu nível d’água acima do nível máximo normal por ocasião da afluência das cheias. julgando que a inundação das terras do seu município seria grande. Em 1968.Séculos XIX. após a cheia de 2000.

A concessão seguinte foi o aproveitamento de Itumbiara. palavra indígena que significa o caminho da cachoeira. sendo desativada após a construção da barragem da margem esquerda. A antiga usina foi adquirida por Furnas. mas com ligeira defasagem. A nova usina que começou a ser construída 30 anos antes da virada do século. a perspectiva era de que essa usina supriria de abundante energia todo interior paulista na região de influência de São José do Rio Preto até o Século XXI. Figura 14 – Usina hidroelétrica de Marimbondo 201 . Assim que foram iniciados os estudos. dentro do previsto na programação. após o primeiro choque do petróleo ocorrido no final de 1973. As obras que transcorreram sem atropelos. Ao inaugurar essa usina. foram iniciadas em 1971 e a usina foi inaugurada em 28 de maio de 1976. Logo a seguir dessa decisão.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A hidroelétrica de Marimbondo foi implantada em paralelo com Porto Colômbia. Apesar das análises energéticas e econômicas internas não terem recomendado essa alternativa. Flavio Lyra recomendou que fosse estudada uma alternativa de projeto que englobasse a usina prevista a montante pelo inventário da Canambra. implantada pelo governador de São Paulo Armando de Salles Oliveira em 1928 com 8 MW instalados. ela foi selecionada para construção. No local de Marimbondo havia a primeira usina de Marimbondo. A usina aproveitava parte das descargas do rio Grande no seu braço esquerdo. Porto Colômbia com 320 MW e Marimbondo com 1440 MW foram as últimas usinas de Furnas no rio Grande. tem potência 175 vezes superior à antiga usina de 1928. Essa alternativa teria barragem e reservatório muito ampliados.

Essa marca foi muito importante para a indústria porque nas últimas duas décadas do século passado o País vivenciou forte recessão. Na implantação de Itumbiara. muito superiores às do local de São Felix. o setor elétrico não sendo exceção. Em Itumbiara foram ultrapassados os recordes de concretagem anteriores e foram instaladas as maiores turbinas já fabricadas até então. Furnas instituiu um concurso/concorrência entre empresas consultoras. A obra foi iniciada no final de 1973 e. pode se lançar com vigor ao mercado externo obtendo resultados compensadores. sendo que pelo menos duas recomendaram a adoção de um eixo a montante do local de São Felix. com excepcionais características geológicas. XX e XXI Figura 15 . Em 1981.Séculos XIX. baseada no desenvolvimento que experimentou nas décadas anteriores. pela primeira vez. em 1980 as primeiras unidades geradoras entraram em operação comercial dentro da programação original. Nessa época as indústrias de bens de capital.A História das Barragens no Brasil . foi ultrapassado o índice de 90% de nacionalização nos equipamentos permanentes. tendo sido definido um aproveitamento designado como São Felix.Usina hidroelétrica de Itumbiara nova análise energética e econômica revelou que essa alternativa adotada era muito mais viável do que a do inventário. Furnas recebeu a concessão do aproveitamento do alto rio Tocantins em trecho que havia sido estudado inicialmente pela CELG e posteriormente pela ELETRONORTE. Os estudos conduziram a uma barragem de enrocamento com núcleo de terra com 154 m de altura represando 202 . denominado Serra da Mesa.

4 bilhões de metros cúbicos que possibilitam a utilização de 43. no caso inicialmente ao grupo do Banco Nacional. A elevada qualidade do granito do local permitiu a adoção de casa de força subterrânea abrigando três unidades de 431 MW cada na margem esquerda e desvio por dois túneis escavados na margem direita. Agenor Antônio Bailão Galletti. A recessão acima referida e a falência do Banco Nacional fizeram com que a obra fosse paralisada de 1990 a 1994. A usina foi concluída em 1997. Essa foi a primeira usina em que Furnas se associou a uma empresa privada.5 m e 16. no mesmo ano. João Alberto Bandeira de Mello e Don Deere inspecionando a barragem de Itumbiara 54. com tirantes de água de até 12.571 m³/s.24 bilhões de metros cúbicos de volume útil para efeitos de regularização de descargas. a construção de duas ensecadeiras de concreto compactado com rolo com 25. Figura 18 .4 m. Em 1988 foram executadas as ensecadeiras de terra e rocha que permitiram.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 16 – Arthur Casagrande e Guy Bordeaux na área de empréstimo de Itumbiara Figura 17 – Arthur Casagrande. As ensecadeiras e a parte da barragem construída foram galgadas por cinco vezes por descargas de até 6.5 m de altura com o objetivo de permitir a passagem de cheias no período construtivo sem danificar o aterro da barragem que seria executado.Os consultores Don Deere e Arthur Casagrande em Itumbiara com o engenheiro Ludgero Pimenta de Ávila 203 .

No Século XXI Furnas passou a atuar com frequência associada a empresas privadas para implantação de novas hidroelétricas como reportado por Márcio Porto nesse livro. Figura 19 .A História das Barragens no Brasil . Furnas implantou a usina hidroelétrica de Corumbá sobre o rio Corumbá em Goiás com potência instalada de 375 MW. Atenção especial foi dedicada à preservação das águas termais da região de Caldas Novas.Séculos XIX. XX e XXI Em paralelo à construção de Serra da Mesa. A barragem de enrocamento com núcleo de terra teve também na sua construção ensecadeiras galgáveis. A obra começou a ser implantada pela CELG e interrompida em dezembro de 1982. No ano seguinte a Eletrobras solicitou a Furnas para examinar a partição de quedas do rio. estas de terra e rocha.Usina hidroelétrica de Serra da Mesa 204 .

1994 Lyra. et al. Ensecadeiras Galgáveis – Desvio de Grandes Rios Brasileiros – CBDB. 2011 205 . 1973 Miguez de Mello. – Grandes Barragens Brasileiras – Construção Pesada n° 47. – O Aproveitamento Hidroelétrico de Itumbiara – Construção Pesada n° 26. F.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 20 . J. – Barragem da Usina de Serra da Mesa. et al. – A Nova Face das Empresas Estatais Frente à Expansão da Oferta de Energia Elétrica no País – A História das Barragens no Brasil – CBDB.Usina hidroelétrica de Corumbá Referências Carvalho. E. – Furnas Hydroelectric Scheme. F. 2009 Cotrim. Desvio do Rio. F. – General Paper – XIII International Congress on Large Dams. F.A.H. – A História de Furnas das Origens à Fundação da Empresa – Comitê Brasileiro do Conselho Mundial da Energia. F. _ O Aproveitamento Hidroelétrico de Porto Colômbia – Construção Pesada n° 27.A.R. Closure of Diversion Tunnels – Institution of Civil Engineers. 1979 Porto. 1973 Miguez de Mello. 1975 Miguez de Mello. 1967 Miguez de Mello. M.

Usina Hidroelétrica de Tucurui .

mas neste histórico. mas bastante críticas. no governo Costa e Silva. Alvaro Lima de Araujo e Humberto Rodrigues Gama A história da Eletronorte. Era o início da inte­ gração do Brasil como um todo. construir o maior projeto inteiramente nacional: a usina de Tucuruí. Os saudosos tempos das marchinhas de carnaval bem humoradas. os governos da épo­ ca incentivaram a marcha para o oeste. Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 1 . será simplesmente Eletronorte.Cel. Raul Garcia Llano (Fi­ gura 1). mostravam a situação que havia no País antes desse impulso. em 20 de junho  de 1973. assim incluindo o norte do Brasil. foi criada a Centrais Elétricas do Norte do Brasil S. os militares assumiram o poder e deram grande impulso às obras de infraestrutura no País. cidade que me seduz.A. baseada em estudos do Comitê Coordenador de Estudos Ener­ géticos da Amazônia (Eneram) que havia sido criado em 1968. Optou-se por descrever alguns fatos relacionando-os aos grandes eventos e obras que marcaram a empresa entremeados por comentários dos tempos atuais. 207 . sociedade anônima de economia mista e subsidiária da Centrais  Elétricas Brasileiras S. nome que se confunde com a própria Eletronorte. –  Eletronorte. “Rio de Janeiro. de noite falta luz”. a Eletronorte já nasceu com o duplo desafio de constituir a empresa propriamente dita e. Hoje o nome da empresa é Eletrobras Eletronorte. não será contada de forma linear. em 2011. Para isso. já tivesse em seu cur­ rículo importantes obras tanto em porte quanto em quantida­ de. O início Estávamos na época do chamado Brasil Grande depois que. pois foi sua capacidade empreendedora que consolidou a empresa executando Tucuruí e outras obras a serem relatadas adiante. como neste trecho de uma delas. na época. Llano recebendo o presidente João Figueiredo em Tucuruí A Eletrobras anunciou a intenção de construir a usina Tucuruí. A presidência da empresa coube ao Cel. resumida nas linhas que se seguem. em 1964.A. podemos perceber. Encampando a ideia do presidente Juscelino. de dia falta água.A Eletronorte e as Barragens da Região Amazônica Alexandre Magno Rodrigues Accioly. como  concessionária de serviço público de energia elétrica com sede em Brasília no Distrito Federal. – Eletrobras. ao mesmo tempo. caminhando para o que hoje. mais precisamente a Amazônia. Embora a engenharia nacional.

a Amazônia.Séculos XIX. entre outros. Para viabilizar a produção de tamanha quantidade de energia.5 m de largura por 13 m de altura.A História das Barragens no Brasil . como já dito anteriormente. A vazão de desvio de 51. foi posterior­ mente tomada num ambiente muito mais bucólico do que técnico. José Augusto Pimentel Pessoa. as duas pontas de terra separadas por quase dois quilômetros de água revolta entre as quais seria feito o barramento do Tocantins. para funcionar com uma carga de 32 m. A primeira missão O batismo de fogo da empresa. A cota de coroamento da barragem de terra seria de 78 m acima do nível do mar sendo que. e mais duas unidades auxiliares com 22. totalizando uma potência instalada de 4. Berilo Mamoré Pereira Belo. reuniu os futuros comandantes da obra. em boa parte. o projeto foi as­ sociado ao fornecimento de energia para indústrias de alumínio eletrointensivas. cada uma com 350 MW de potência nominal. Do tipo vertedouro em salto de esqui. A execução da obra de Tucuruí Não bastasse o porte do rio Tocantins quanto à largura (mais de 2 km) e vazões (média de longo termo da ordem de 11. cada uma com 6.000 m³/s registrados até então). projetado e construído para a vazão de 110. Humberto Rodrigues Gama. Depois de longa confabulação. na carta elaborada pelos topógrafos. Isso tornava o desafio importante. distando aproximadamen­ te 300 km de Belém. mais 11 unidades de 375 MW totalizando 8. Dário Gomes (Fi­ gura 2).370 MW de potência instalada. João Eduardo de Moura Guido. profissionais egressos da Cemig. A usina foi concebida para ser construída em duas etapas. sendo o último aproveitamento hidrelétrico antes da foz do Tocantins. XX e XXI A concessão para a construção de Tucuruí foi outorgada à Eletro­ norte. José Antônio da Silveira.000 m³/s exigiu a construção de 40 adufas sob o vertedouro. Érico Bittencourt de Freitas. o topógrafo Geraldo Magela Barbosa.5 MW de potência nominal cada.000 m³/s e picos de mais de 40.000 m³/s era o maior do mundo na ocasião. a evolução do desempenho do vertedouro vem correspon­ dendo às previsões do modelo hidráulico reduzido. 208 . especialmente em termos logísticos. Albrás e Alumar. Foi assim que vieram para a empresa os engenheiros Geraldo Afonso Pra­ tes. capital do Estado do Pará. na segunda etapa. era um empreendimento caracterizado pelo pioneirismo em vários aspectos. inicialmente com a instalação de 12 unidades geradoras princi­ pais. era uma região carac­ terizada por inóspitas florestas tropicais com quase nenhuma infraestrutura. As vazões específicas adotadas foram pionei­ ras e ousadas. e a alta diretoria executiva das empresas escolhidas para o proje­ to e a construção de Tucuruí. eles localizaram precisamente. o diretor técnico da Eletronorte. pelo decreto 74. Esta obra foi concebida para ser construída em duas etapas. Logo. A usina teria. Embora ainda não tenha sido testado para os limites de vazão. Curiosamente.245 MW. que garantiriam o consumo de boa parte da produção. a que determinaria o local exato da barragem. em alguns trechos do leito do rio havia A Eletronorte formou seus primeiros quadros buscando. foi a usina de Tucuruí. naqueles tempos. À sombra de uma grande árvore da margem esquerda do rio. consultores brasileiros e estrangeiros contratados para assessorá-lo. previa o descarregamento de toda essa energia ao pé da própria obra. a barragem chegou a ter quase 120 m de altura. em alguns trechos. a decisão de maior significado daquela fase.279 em julho de 1974. O vertedouro da usina. Enfim. canalões de até 40 m abaixo do nível do mar.

Sebastião Florentino da Silva durante celebração do lançamento da 1ª caçamba de concreto em Tucuruí O principal obstáculo à construção do novo complexo residencial de apoio às obras da usina foi o isolamento de Tucuruí.Da direita para a esquerda: o 2º. seriam efetivamente começadas as obras civis. Mas somente quando as obras civis foram efetivamente iniciadas. comunicações.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 2 . sem nenhuma experiência. em 1975. Cel. 209 . que tivera de ser recrutado em locais próximos. Érico Bittencourt de Freitas. foi feito em 1975. o que marcou o início das obras civis. O primeiro desvio do Tocantins. Somente dois anos depois. marcando o início dos trabalhos de terraplenagem. para ensecar a superfície em que as estruturas de concreto e a barragem seriam assentadas sobre a rocha do fundo do rio. o 5º Fausto Cesar Vaz Guimarães.000 pessoas enxameava em torno do canteiro da obra. Sebastião Camargo. em 1977 (Figura 3). a Amazônia começou a revelar aos pioneiros o tipo de dificuldades que eles podiam esperar no futuro imediato. Llano e o último. Transpor­ tes. energia elétrica confiável e saneamento básico não existiam. uma mul­ tidão de mais de 30. e que precisou ser treinado para as tarefas específicas de uma construção. Era um grupo heterogêneo. em 1977. o 8º. a ensecadeira de primeira fase do desvio do rio. Durante o período de trabalho mais intenso.Engenheiro Dário Gomes na cabeceira da mesa em reunião no escritório da vila pioneira Figura 3 . sr. Geraldo Afonso Prates. Nesse am­ biente foi construída.

a única voz que Sebastião Camargo. vindo uma delas a se romper leitura das réguas linimétricas a montante da obra. às ordens dos chefes. Por coincidência. a capacidade técnica e in­ tegração das equipes de projeto e principalmente de construção possibilitaram atravessar esse imprevisto sem maiores transtornos. um com até 40 m abaixo do nível do mar. durante a construção. visto que o mo­ nitoramento das estruturas detectou em tempo hábil o problema possibilitando a retirada de pessoas e equipamentos. o lendário capitão da grande empreiteira. Érico Bittencourt de Freitas. nos dias 2 e 3 daquele mês. José Antônio da Silveira. Além disso. inclusive a maior de todas. Ser viços de alteamento e proteção das ensecadeiras foram feitos com sucesso durante dez dias de trabalho ininterrupto sob violento estresse. ocorreram três das quatro maiores cheias do histórico. José Armando Del Greco Peixoto.000 m³/s. ameaçavam as ensecadeiras que protegiam as obras em construção.Séculos XIX. afogaria cinco anos do trabalho de dezenas de milhares de homens e uma considerável fatia do orçamento da Eletronorte. o sistema de previsão de vazões a partir da Também entre os primeiros a entrar no grande palco que o governo montara em plena selva para a encenação da primeira grande aventura tecnológica na Amazônia. Luiz Fernando Rufato. Humberto Gama.400 m³/s contra uma vazão de projeto de desvio de 51. Gilson Nakamura e mais um punhado de executivos sabiam muito bem o que aconteceria se a água que chegava a perigosos 15 centímetros do topo da enseca­ deira conseguisse galgá-la. tendo sob sua responsabilidade as demais obras além de Tucuruí. Contudo. Sobretudo. da Camargo Corrêa. Essa ruptura causou danos materiais relativamente pequenos. XX e XXI por piping inundando o trecho de jusante da obra. que alcançou 68. em 1980. As obras de concreto e terra na área ensecada já estavam adiantadas Figura 4 . o residente da Eletronorte também se chamava Osório Correa Neto.A História das Barragens no Brasil . O rio estava desviado por ensecadeiras e a tempora­ da de chuvas mais copiosas já parecia ter chegado ao fim. a área afetada permaneceu pouco tempo inundada porque o acidente ocorreu ao final da cheia. Entre elas. que foi substituído em 1977 pelo engenheiro residente Érico Bittencourt de Freitas responsável pela condução da obra até 1982 quando passou a gerente do Departamen­ to de Construção da Eletronorte. O Tocantins levaria por água abaixo equi­ pamentos e materiais. O desvio do rio foi um dos grandes desafios superados apesar das adversidades. estava Osório Ferrucci (Figura 4). em março de 1980. Ele era funcionário da Camargo Corrêa desde 1947 e. o rio Tocantins teve um verdadeiro acesso de mau humor. Por isso. Os homens do alto comando da obra. ouvia sem contestar. construtora de Tucuruí quando. os encarregados de turmas convocaram seus homens para enfrentar o problema. que já ultrapassara o nível da maior enchente observada em 1926. Mas. as condições do leito do rio. que ficou na memória do alto comando técnico da obra como uma espécie de marco do empreendimento. Osório Ferrucci. O céu carregado e a cheia. segundo seus companheiros em Tucuruí.Sebastião Camargo e Osório Ferrucci. 210 . Outro fato relevante foi que. com vários canalões muito profundos. preenchidos com material aluvionar e seixos rolados que difi­ cultaram a execução das ensecadeiras. revelava uma situa­ ção inquietante.

B. e que era Figura 5 . Da esquerda Don Deere. sucessor do engenhei­ ro Dário Gomes na Diretoria Técnica da Eletronorte. A superação dessa ocorrência excepcional em 1980 foi fundamental para a equipe concluir a construção de Tucuruí com êxito. o gerenciamento do projeto foi feito pelos en­ genheiros João Eduardo de Moura Guido (civil). James Libby e Milton Vargas 211 . no Rio de Janeiro. de Mello. com um board internacional de consulto­ res composto por James Libby. João Ângelo Casagrande (mecânico) e Leôncio Gotti (planejamento). essa equipe iria compreender a dimensão de sua primeira experiência. O episódio ficou poeticamente conhecido como “águas de março”. o engenheiro Balança se interessava pessoalmente pelos estudos hidráulicos em modelo reduzido de Tucuruí realizados pelo Hidroesb – Laboratório Hidrotécnico Saturnino de Brito SA. percebeu claramente que “aqueles senhores (Balança e sua equipe) mesmo com toda a experiência mostravam uma preocupação excepcional com o projeto”. O projeto da usina foi desenvolvido pelo Consórcio Engevix-The­ mag tendo pelo lado da Engevix o comando do engenheiro francês radicado no Brasil André Jules Balança. As ensecadeiras haviam sido alteadas em três metros e o nível d’água alcançara dois metros acima do topo da ensecadeira original. Milton Vargas e Flavio H. Somente para corroborar comentários anteriores sobre as dimensões do empreendimento. Don Deere.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Finalmente. Lyra. Na Eletronorte. Mais tarde. Victor F. Por conta de sua formação e gosto pessoal. na manhã do décimo dia da operação. ainda. O projeto contou.Os consultores examinando os testemunhos de sondagem. O engenheiro Fausto César Vaz Guimarães. Nelson Souza Pinto. a água parou de subir. a equipe de engenheiros que operava o mode­ lo e não tinha elementos de comparação com outros projetos. presidente da empresa e detentor de profundos conhecimentos de hidráulica adquiridos na sua formação em Grenoble e na experiência iniciada no Brasil na construção de Paulo Afonso da CHESF.

Séculos XIX.00 m. em março de 1985. A chefia da obra de Tucuruí foi assumida pelo engenheiro Humberto Rodrigues Gama. O engenheiro Kerman José Machado assu­ miu a Diretoria Técnica e o engenheiro Érico Bitencourt de Freitas foi empossado chefe do Departamento de Construção. Figura 6. imprimia seu dinamismo aos trabalhos contagiando toda a equipe envolvida no empreendimento. justamente em momento festivo de conclusão do desvio de Samuel. as usinas de Samuel em Rondônia e Balbina no Amazonas. engenheiro Geraldo Afonso Prates. Entretanto.Jogo de futebol de salão dentro do estator de uma máquina da primeira etapa 212 . Balbina e Samuel. Nesta etapa. Em 1982. houve um grave acidente aéreo que causou a morte dos diretores da Eletronorte Fausto César Vaz Guimarães (diretoria técnica) e Jayme Barcessat (diretoria de Suprimentos) e do chefe do Departamento de Construção.A História das Barragens no Brasil . atingindo a cota 72. O enchimento do reservatório teve início em setembro de 1984. a Eletronorte já contava com funcionários dos mais diversos rincões do país chamados para auxiliar nas tare­ fas da empresa e. então condutor dos três empreendimentos Tucurui. a usina foi inaugurada pelo Presidente da República João Figueiredo em 22 de novembro de 1984. A Figura 6 dá idéia da dimen­ são do estator de uma forma lúdica muito bem compreendida pelo brasileiro em geral. XX e XXI responsável pelas construções. a obra continuou em ritmo normal. nível máximo normal. quando a Eletronorte construía simultaneamente com Tucuruí. com duas unidades de 350 MW em operação comercial. apesar da importante perda.

tendo ao seu lado esquerdo Adailton de Sousa Pinto. 213 . por conta do destino não chegou a ver concluída a obra que hoje tem seu nome. Almir Gabriel em visita às obras da segunda etapa de Tucuruí. porém. ao centro. estando em operação comercial desde abril de 2003. 8 e 9) teve sua montagem concluída no final de novembro de 2002.875 km² para 3.00 m. José Antônio Muniz (presidente da Eletronorte) e governador do Pará. Figura 7 . A unidade geradora 13 (Figuras 7. o nível máximo normal operacio­ nal foi elevado para a cota 74.007 km². com um ganho de energia firme de 109 MW. Posteriormente. presidente da Eletronorte. As obras de terra­ plenagem e escavação em rocha foram concluídas no ano de 2002.Equipe com o José Antônio Muniz.Presidente da República Fernando Henrique Cardoso.Descida do estator da unidade 13 em 3 de maio de 2002 Figura 8 . residente da obra da segunda etapa de Tucuruí celebrando a descida do estator da unidade 13 Figura 9 . Em junho de 1998 as obras de expansão de Tucuruí foram autorizadas e iniciadas. A motorização da primeira etapa foi concluída em 1992.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens O coronel Raul Garcia Llano. Essa elevação aumentou a área de inundação de 2. grande incentivador do empreendimento.

com as indústrias do alumínio Albrás e Alumar. foi concluída a eclusa constituída de duas câmaras que vencem um desnível de cerca de 68 m e são separadas por um ca­ 214 . XX e XXI A unidade 23 entrou em operação em julho de 2006. totalizando 8. Em 2011. e é segmentado em prestadores de serviços públicos de energia elétrica e indústrias eletrointensivas. Maranhão e Tocantins. O mercado principal de Tucuruí é o sub-mercado Norte de energia que abrange os estados do Pará.A História das Barragens no Brasil .370 MW de potência instalada. Tucuruí tem hoje os maiores contratos de fornecimento de energia elétrica em bloco do mundo.Séculos XIX.

além dos programas socioambientais.800.000.O volume total dos aterros executados na obra foi da or­ dem de 59. .4% do faturamento global de toda empresa.400 sacos de 50 kg. Atualmente.O aço aplicado totaliza cerca de 222. a cada semana de trabalho era aplica­ do o equivalente ao volume empregado na construção do estádio do Maracanã. é a principal responsá­ vel pelo intenso desenvolvimento regional. e daí ao oceano Atlântico. como podemos ver a seguir: . foi a primeira hidroelétrica do mundo certificada pela JIPM (Japan Institute of Plant Maintenance) com Prêmio Excelência em TPM – 1 a Categoria (Total Productive Maintenance.O volume máximo diário de concreto lançado na obra foi de 11.000 m³. ou seja.vista do vertedouro em operação 215 . isto é Manutenção Total Produtiva).000 t.Tucuruí .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens nal intermediário. . e a primeira unidade do setor elétrico brasileiro a conquistar o Prêmio de Qualidade do Governo Federal – PQGF. equivale a 28. em 2002. Os números do empreendimento impressionam.400. fruto da abundante oferta de energia e recolhimento de impostos resultantes da comercialização e compensação pela utilização de recursos hídricos. . da ordem de 9.200 m³.O cimento empregado na obra.000 m³ e o volume de concreto utilizado. Figura 11 .Tucuruí Casa de Força Figura 10 . Essa obra é fundamental para a implantação da hidrovia do Tocantins. Tucuruí (Figuras 10 e 11) responde por 28. A Vale e outras empresas da região já iniciaram o transporte de seus produtos pelo rio Tocantins de Marabá até Belém utilizando a eclusa.

com cerca de 4. com o uso inteligente de sua especialidade. Esta usina. a mais significativa coleção de tecnologias para a construção de grandes barragens em am­ biente remoto. Isso ao mesmo tempo em que construíam Tucuruí. entrasse incontestavelmente para o mapa do Brasil. Sudeste e Centro-Oeste.Séculos XIX. O reservatório tem 120 km² e a operação é a fio d’água. praticamente não havia obra para dissipação de energia: as águas vertidas eram lançadas no canal do rio constituído de material rochoso com um ligeiro salto ao pé da superfície de vertimento. Além de atender os mercados do Pará. apesar da importância que tem tido para a Eletronorte e para o estado do Amapá. a usina exporta energia para os sistemas Nordeste. a documenta­ ção técnica que a Eletronorte conseguiu obter foi muito precária. a Eletronorte recebeu da Eletrobras a incumbência de operar a usina de Coaracy Nunes situada no rio Araguari no Amapá. Essa linha permite a preservação de  energias estocadas em reservatórios de hidroelétricas situadas em outras regiões durante o período hidrológico favorável no rio Tocantins. XX e XXI Principal geradora do Sistema Norte-Nordeste. Em segundo lugar. construída por terceiros. ocupando efetivamente um território que já vinha sendo invadido­ desordenadamente e acrescentando uma formidável potência de geração ao sistema elétrico nacional. tinha duas máquinas de 20 MW e previsão de ampliação para mais uma máquina de 30 MW.000 m³/s. o Brasil e muitos de seus filhos – aqueles que influiram diretamente sobre a monumental empreitada da usina e os que hoje estão sob sua influência – vivem melhor do que viviam antes dela. Com os impostos locais pagos pela Eletronorte.A História das Barragens no Brasil . Maranhão e Tocantins. Como a usina foi construída por vários empreiteiros numa obra que levou mais de quinze anos para ser concluída. Logo no início da vida da usina. Esta missão surgiu numa época em que todos os olhos estavam voltados para Tucuruí de modo que a história dessa usina foi de certa forma ofuscada. a usina vem operando desde a inauguração sem apresentar problemas relevantes. com a conclusão da Interligação Norte-Sul.500 MW médios mensais. suficiente para apontar graves defeitos do vertedouro. Ainda hoje há certos aspectos do projeto e da construção sobre os quais não se tem informação precisa. apesar de seu gigantismo. e passou a ser servido por extensa rede de estradas e tem uma pista de pouso capaz de receber aeronaves de grande porte. A usina hidroelétrica Coaracy Nunes Em 1975. com população esparsa e arrecadação ínfima até o início dos anos 1970. Outro exemplo significativo dos benefícios trazidos pela usina é a própria cidade de Tucuruí.000 m³/s escoava as águas para um braço do rio diferente da casa de força. A energia firme e renovável de Tucuruí é escoada por linhas de trans­ missão de 230 kV e 500 kV. mas sem expressiva identidade geográfica. Tucuruí fez com que uma imensa região coberta de densa floresta. 216 . Mesmo sendo um vertedouro com o porte citado. Mais que isso. Como ca­ racterística. Tucuruí passou a fazer parte do Sistema Interligado Nacional – SIN em março de 1999. Hoje se pode comemorar dois fatos indiscutíveis: Tucuruí foi a obra isolada de maior impacto sobre a Amazônia. o município veio a ser o segundo maior arrecadador do Pará – só perde para Belém – e abriga 80 mil habitantes que dispõem do primeiro hospital modelo da região. o rio Araguari submeteu a obra a uma cheia de cerca de 4. esta obra não foi submetida a estudos em modelo hidráulico reduzido. um simples entreposto de pesca e castanhas. Finalmente. O vertedouro (Figura 10) com capacidade para 12. mas ela foi também a de melhor repercussão socioambiental e econômica entre todas as que foram feitas na região. A contribuição dos engenheiros da Eletronorte formou assim.

Casa de Força Figura 12 . Em 2004. as máquinas de 20 MW foram recapacitadas aumentan­ do sua potência para 24 MW cada uma e a terceira máquina com 30 MW foi instalada entrando em operação em 2000 e aumentando a potência instalada da usina para 78 MW (Figura 12). laboratório hidrotéc­ nico da UFPR na ocasião sob a direção dos engenheiros Nelson Pinto e Sinildo Hermes Neidert que ofereceram uma solução para o problema. desde então.Vertedouro da Usina Hidroelétrica Coaracy Nunes 217 . Na Eletronorte o funcionário que todos identificamos com Coaracy Nunes é o engenheiro Mário Dias Miranda que tem sido o grande entusiasta do empreendimento. A recomendação do CEHPAR foi executada e.Usina Hidroelétrica Coaracy Nunes . Figura 13 . não ocorreram incidentes com o vertedouro embora a vazão não tenha alcançado o valor que causara os danos iniciais.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A Eletronorte contratou então o CEHPAR.

Seria como construir uma barragem sobre um “queijo suíço”. Balbina é mais uma usina pioneira que coube à Eletronorte construir. para obturar esses canalículos. no entanto a escolha recaiu sobre Balbina que era o menor investimento e a menor distância de transmissão e de acesso. Raul Garcia Llano com a Eletrobras. fato não divulgado convenientemente para o público. essas hidroelétricas foram escolhidas para construção por serem as mais econômicas do País na época. A solução. foi a execução de uma cortina por injeção de calda de solo cimento com ruptura hidráulica do solo (cracagem). destinava-se a abastecer Manaus visando solucionar o caos energético ainda reinante na região no final da década de setenta. Balbina era uma obra comum para o estado da arte de então. a usina trouxe muitos benefícios socioambientais à região. Esse proble­ ma viria a nos assombrar com mais intensidade na construção de Samuel como veremos oportunamente. Concebida numa época em que não havia as agências reguladoras e controladoras com os poderes de hoje nem tampouco a consciência ambiental havia se desenvolvido nos níveis atuais. a usina foi projetada e executada apesar da área inundada ser exagerada para a potência instalada.A História das Barragens no Brasil . foi resultado de um embate do cel. 218 . O vertedouro com capacidade para 5. mas a quantidade tornava muito sério o problema. Contudo dois aspectos mereceram considerações especiais. bem como a de Samuel.Séculos XIX. eram obras sem nenhum aspecto inovador ou preocupante. não o Presidente da República da década de 80. Entretanto. município de Presidente Figueiredo. quando os atuais estados eram chamados de província na época do Império. apesar de tudo. O Consórcio havia elaborado os estudos de inventário e recomen­ dado a construção da usina de Katuema no rio Jatapu como hidro­ elétrica prioritária para suprir Manaus. O primeiro por não ser totalmente conhecido de nossos técnicos: a existência abundante de canalículos com diâmetro de até 5 cm no solo de fundação que tornava a construção de barragem altamente problemática. Situada no rio Uatumã. economizando divisas. que se mostrou eficiente. O projeto foi executado pelo Consórcio Monasa . critério básico do setor elétrico de então. mas sim o presidente da província do Amazonas.Enge Rio.840 m³/s com bacia de dissi­ pação convencional. assim como a casa de força e a tomada d’água. No momento. que na época era contra as construções de hidroelétricas na Amazônia por julgar que usinas térmicas a carvão em Manaus e Porto Velho com transporte do carvão do sul pelos navios da Vale (então Vale do Rio Doce) seriam mais vantajosas. em uma época em que a situação da balança de pagamentos do País era um fator de entrave ao desen­ volvimento. Os benefícios econômicos das hidroelétricas de Balbina e de Samuel se acentuaram pela substituição do óleo importado para termoelé­ tricas. a Eletronorte vem se dedicando à análise mais aprofundada dessa possibilidade tendo em vista que a região está para ser interligada ao SIN o que tornará ainda mais interessante o investimento. já se havia vis­ lumbrado a possibilidade de ampliação do aproveitamento por meio de uma segunda casa de força com potência instalada superior à atual. Ademais. Considerando a provável área do reser­ vatório de Balbina. XX e XXI Devido às características hidrológicas do rio Araguari. quando comparadas com as alternativas de geração para atendimento da evolução das cargas locais. O segundo aspecto foi a área do reservatório. Com capacidade instalada de 250 MW composta por 5 unidades de 50 MW. os projetistas haviam recomendado que fosse A usina hidroelétrica Balbina A decisão sobre a construção da Usina Hidroelétrica Balbina. O problema não era totalmente novo para a empresa uma vez que algumas ocorrências do fenômeno haviam sido constatadas em Tucuruí. Enfim. como citado no capítulo dedicado aos estudos ambien­ tais.

A construção se iniciou em 1º de maio de 1981. Este atraso deveu-se à falta de recursos para sua realização em prazos normais. tendo em vista o elevado custo de restituições aerofotogramétricas em função da espessa cobertura vegetal que  acarretava dificuldades logísticas ainda não enfrentadas até aquela época.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens feito levantamento da área a ser alagada. com a primeira máquina entrando em operação em fevereiro de 1989. A construtora foi a Andrade Gutierrez cujo residente geral se destacou como responsável pela execução da obra a contento. problema constante na época. Figura 14 – Usina Hidroelétrica Balbina A usina (Figuras 14 e 15) vem operando desde a inauguração sem apresentar problemas relevantes.vista de jusante 219 . O grande maestro da construção de Balbina por parte da Eletronorte foi o engenheiro Francisco Nelson Queiroga da Nóbrega.Usina Hidroelétrica Balbina – Casa de Força . Figura 15 . mas isto só foi feito após o início da construção por restrições financeiras.

a solução adotada foi a construção de tapetes impermeáveis a montante das obras de terra para au­ mentar a distância de percolação.A História das Barragens no Brasil . Contudo o aspecto dos canalículos já constatados em Tucuruí e em Balbina mereceu considerações e esforços especiais pela sua incidência em quantidades exageradas e pela quantidade de diques que compunham o projeto. Tal como Balbina. a usina hidroelétrica Samuel foi construída no período de 31 de março de 1982 a 31 de julho de 1989 (última unidade) sob o comando do engenheiro Adailton de Souza Pinto residente da Eletronorte. Neste caso. Com capacidade instalada de 220 MW. quando entrou em operação a primeira máquina. vertedouro para 4. em linhas gerais. cujo coordenador geral foi o engenheiro Paulo Pinho Lopes e a obra foi feita pela Construtora Norberto Odebrecht. mas tem exigido muita atenção das equipes de instrumentação e manutenção da usina. a usina hidroelétri­ ca Samuel (Figura 16) tem como particularidade ter sido a única usina da Eletronorte a contar com o apoio popular e do governo local personificado no governador Jorge Teixeira. XX e XXI A usina hidroelétrica Samuel Situada no rio Jamari no Estado de Rondônia.820 m³/s e um reservatório de cerca de 600 km². Figura 16 – Usina Hidroelétrica Samuel – Vista panorâmica de jusante 220 220 . tornando a extensão do problema ainda maior que o usual.Séculos XIX. A usina foi projetada pela Sondo­ técnica S/A. Esta solução vem funcionando satisfatoriamente. era uma obra comum para o estado da arte de então.

Enfim. participa minoritariamente em sociedade com a Neoenergia e a CHESF. a Eletronorte foi responsável pelos estudos de inventário e viabilidade. Esta foi uma das primeiras usinas desse porte construídas na Amazônia. Apenas foi construída uma soleira vertente mais com o intuito de nivelar o leito natural do rio para garantir o nível normal de montante. O usina hidroelétrica Dardanelos A usina está localizada na margem esquerda do rio Aripuanã. a Eletronorte está em vias de executar a instalação desta quarta máquina. 221 . Como peculiaridade é uma usina construída sobre uma gran­ de queda d’água natural de cerca de 90 m de altura apro­ veitando esta queda como vertedouro. a usina de Curuá Una (Figura 17). PA tem três unidades de 10 MW e previsão de insta­ lação de uma quarta unidade de 11 MW. Atualmente. no noroeste do Mato Grosso e tem capacidade instalada de 261 MW. é uma usina que além de não ter um vertedouro clássico. quatro delas de 58 MW cada e uma de menor porte de 29 MW. situada no rio de mesmo nome no município de Santarém. não tem reser­ vatório. No momento. composta por 5 unidades geradoras.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 17 – Usina Hidroelétrica Curuá Una – Casa de Força A usina hidroelétrica Curuá Una Adquirida em 2005 da CELPA em permuta de dívidas. No AHE Dardanelos (Figura 18).

Desde os tempos em que foi diretor de engenharia da Eletronorte no final da década de 80. com unidades Bulbo na casa de força complementar.233 MW. composto de casa de força complementar e vertedouro. um deles denominado Pimental onde ocorrerá o barramento do rio Xingu. desde 1975. mostra a equipe de residentes das obras da Eletronorte. A potência instalada total de Belo Monte é de 11. Finalmente. junto com outras 18 empresas.Figura 18 . possuindo três sítios. no Pará. dos estudos de inventário do rio Xingu e das otimizações de projeto realizadas desde então que culminaram com o leilão da ANEEL realizado em 20 de abril de 2010. a seguir. com dezoito unidades geradoras de potência unitária 611. com turbinas Francis na casa de força principal denominada Belo Mon­ te e 6 unidades geradoras de potência unitária 38.Usina Hidroelétrica Dardanelos A usina hidroelétrica Belo Monte O aproveitamento hidrelétrico Belo Monte será construído no rio Xingu. O grande mentor deste projeto cuja personalidade se identifica com o empreendimento é o engenheiro José Antônio Muniz Lopes. Aspectos sócioambientais comuns aos diversos empreendimentos “Preservando a biodiversidade amazônica e a cultura brasileira” A geração de energia hidroelétrica na Amazônia é um tema que sempre estará presente nas discussões sobre meio ambiente e de­ senvolvimento sustentável.1 MW. a Figura 19.85 MW. presidente da empresa no final da déca­ da de 90 e início dos anos 2000 e finalmente como presidente da Eletrobras. seja pela alta diversidade biológica e 222 . No empreendimento. A Eletronorte participou. ele não mediu esforços até levar o projeto a ser leiloado pela ANEEL com sucesso. outro composto do canal de adução e interligação e o último composto do reservatório intermediário e sítio Belo Monte com a usina principal. a participação da empresa é minoritária.

Francisco Nelson Queiroga da Nóbrega (Balbina). res­ ponsável pelos estudos ambientais. Érico Bittencourt de Freitas (Tucuruí). As Unidades de Conservação tem o objetivo de manter a diversi­ dade biológica regional.700. São áreas que aliam o desenvolvimento de pesquisas com uso racional dos recursos naturais. a Eletronorte apoia as seguintes atividades em unidades próximas a seus empreendimentos: demar­ cação das terras. Atendendo a essas exigências. a formação de reservatórios que modificam a paisagem. Em to­ dos os seus projetos são realizados estudos ambientais. Fauna . Adailton de Sousa Pinto (Samuel e Tucuruí II e Humberto Rodrigues Gama (Tucuruí) 223 . com foco na qualidade de vida dos seres humanos. centros de proteção ambiental em suas maiores usinas.A geração de energia hidroelétrica requer.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens cultural encontrada na região. na maioria das vezes. a Eletronorte criou uma ampla organização interna. inun­ Figura 19 . a fim de aliar desenvolvimento e conservação da natureza. desenvolvimento de técnicas racionais do uso dos recursos naturais e formação de recursos humanos. Isso significa 4. seja pelo grande potencial de geração hidráulica da Região Norte do Brasil. Gustavo Reis Lobo de Vasconcelos (Manso enquanto era da Eletronorte). as águas e as tradições amazônicas. e equipes técnicas com profissionais especiali­ zados nas mais diversas áreas do conhecimento ambiental. A legislação ambiental brasileira determina que empreendimentos de grande impacto compensem os danos causados ao meio ambiente com a implantação e apoio a unidades de conservação. Dezessete unidades de conservação ambiental. e atividades de educação ambiental às populações locais. José Antônio da Silveira (Tucuruí). Luiz Fernando Rufato (Tucuruí). sendo treze de proteção integral e quatro de uso sustentável. A Eletronorte é grande conhecedora da região amazônica. todas na Amazônia Legal. foram ou são apoiadas financeiramente pela Eletronorte. atividades de proteção e vigilância às áreas. a flora. em parceria com as mais capacitadas instituições técnicas e científicas. Com o objetivo de conservar a fauna.Residentes da Eletronorte: da esquerda para a direita. projetos de desenvolvimento das populações resi­ dentes.000 hectares protegidos. Vanderlei Ângelo de Menezes (Ávila – convênio com a CERON).

Rubens Ghilardi Ju­ nior. criado a partir da construção da Usina Hidroelétrica Balbina. com a identificação e marca­ ção de 100% das árvores com diâmetro igual ou superior a 25 cm. que vão elaborar.A História das Barragens no Brasil . o monitoramento e manejo dos animais. Para esse fim. deu início ao processo de resgate do material genético das principais espécies florestais existentes na área de inundação e de plantio em local específico. Foram identificados e mapeados 2. as espécies de árvores mantidas nas áreas de coleta de sementes florestais da Ilha de Germoplasma. Em Bal­ bina. depois do enchi­ mento do reservatório da Hidroelétrica Tucuruí. atendimento vete­ rinário. zoologia. das áreas de soltura e da Terra Indígena Parakanã. no Pará.914 indivíduos adultos. que tem o objetivo de conservar as espécies da região. muitas ilhas seriam formadas. A Operação Curupira. pré-resgate. Banco de Germoplasma . manejo de filhotes. é preciso criar e conso­ lidar unidades de conservação para compensar a perda do habitat. as ações dos resgates são baseadas em conservação e aproveitamento científico e cultural da fauna local. e Parakanã. Atualmente. incluindo o aproveitamento científico. A Operação Jamari. saúde. é possível conhecer cada uma das ‘árvores-mães’ que geram sementes saudáveis e que estão sendo utilizadas para reflorestamentos com objetivos ecológicos. E em Samuel. em conjunto com outras instituições ligadas ao meio ambiente. Foi um trabalho de resgate. pois por meio dos inventários florestais e o monitoramento fenológico das matrizes de sementes.A Eletronorte é responsável pelo desen­ volvimento de dois programas indígenas cujos resultados apresentados desde o final da década de 1980 são considerados referência no Brasil e no mundo. A primeira e a mais importante delas é dar prioridade às espécies raras ou ameaçadas de extinção. foram plantadas aproximadamente 15 mil mudas distribuídas em 29 quadras. sociais e comerciais. quando uma parceria entre a Eletronorte e o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia – Inpa. são delimitadas e o trabalho começa antes mesmo da formação do lago. perten­ centes a 221 espécies botânicas distribuídas em cinquenta famílias. Os bancos de germoplasma mantidos pela Eletronorte permitirão que a região de Tucuruí e outras regiões recuperem sua vocação natural de uso sustentável de florestas nativas”. fisiologia e taxonomia (identificação e classificação dos animais) e ecologia. realizada em Tucuruí. A Eletronorte conduziu três grandes operações de resgate da fauna. O banco de conservação in situ compreende 32 ha de floresta nativa. mais de 16 mil animais foram resgatados. a Eletronorte realiza o resgate dos animais. com as ações de identificação das áreas.Muita gente não sabe que Tucuruí guar­ da boa parte do DNA da Amazônia na Ilha de Germoplasma. com a Operação Jamari. A Eletronorte. Era sabido que. no entorno da Usina Hidroelétrica Tucuruí. a Operação Muiraquitã resgatou 26 mil animais. Para o analista ambiental da Eletronorte. envolveu aproximadamente 60 instituições nacionais.600 ilhas que formam o Mosaico de Tucuruí é especial. com área total de 22.6 ha. Os ani­ mais resgatados foram de suma importância para pesquisas realizadas em diversas áreas de conhecimento.Séculos XIX. O plantio foi feito numa área dividi­ da em quadras e a Ilha passou a abrigar a parte nativa (in situ) e a plantada (ex situ). No banco ex situ estão representadas 28 famílias botânicas e 82 espécies. resgatou 300 mil animais. afirma. monitoramento e estudos científicos. Para evitar o afogamento da fauna habitante desses ecossistemas. como genética. conduzir e supervisionar esses procedimentos. A área da Ilha é de 129 hectares. apoio à 224 . alimentação e remessa de animais para instituições de pesquisa e preservação. Uma das 1. Programas indígenas . incluindo soltura. Os dois programas envolvem ações de educação. espécie por espécie. conhecidas como áreas de soltura. E essa diferença começou a ser construída em 1980. As principais atividades desenvolvidas nas operações de resgate são a triagem e manejo. estabeleceu orientações pioneiras para resgates futuros. A do Germoplasma foi uma delas. São os programas Waimiri Atroari. e investir na capacitação de novos profissionais. no Amazonas. garantem a perpetuação dos recursos da floresta em seu estado natural. “Esta é uma conservação consciente. As novas áreas que receberão os animais. com a participação de outras instituições de pesquisa. Esse procedimento faz parte do Programa de Resgate da Fauna. XX e XXI dando áreas de florestas. Para isso.

subnutrição. estoque de animais para abate (peixes e gado) e total independência alimentar. e controle informatizado da saúde dos índios. A terra era demarcada. mas com pendências de registros e regularização. com fiscalização sistemática dos seus limites e dos transeuntes da rodovia Transamazônica. Hoje. controle da malária e de outras doenças endêmicas. das terras e da dignidade daqueles povos indígenas. subnutrição. em 1988. Na saú­ de não se observa nenhuma doença imunoprevenível nos últimos 12 anos. No campo da saúde. A terra não estava delimitada. homologada. com uma taxa de crescimento de 5. sua tecnologia.8% ao ano. Em julho de 2010 a população dos índios Parakanã era de 840 pessoas. A situação fundiária está totalmente regularizada. sua medicina. enfim sua história. Em julho de 2010. sem nenhum invasor. A cultura encontrava-se em processo de perda dos seus valores como festas tradicionais. A cultura encontrava-se em processo de perda dos seus valores. falta de vacinação e qualquer controle so­ bre a saúde. controle in­ formatizado da saúde dos índios e um programa de saúde bucal preventivo. Na educação são 21 escolas com 60 professores indígenas. homologada. era totalmente diferente. A terra está demarcada. Na educação são doze escolas com 57. não se realizando mais as principais manifestações de seu patrimônio cultural e em fase de desmoralização como etnia.40% da população Waimiri Atroari alfabetizada e o restante em processo de alfabetização. além do aumento populacional. com registro em cartório de imóveis e serviço de patrimônio da União. e ritos de passagem e morte. nenhum atendi­ mento odontológico. que faz limite com a Terra Indígena Parakanã. No campo da saúde o quadro era grave: epidemias de sarampo. o que resultou em total independência alimentar. falta de vacinação e qualquer controle sobre a saúde. boa nutrição. Na educação. Hoje. além de uma grande parte da população em processo de alfabetização. boa nutrição. A língua estava sendo perdida gradativamente bem como os conhe­ cimentos dos mais velhos sobre a natureza. possibilitando o resgate das tradições. além da situação fundiária totalmente irregular. A redução populacional chegava a 20 % ao ano. Na pro­ dução havia pequenas roças e dependência alimentar externa. vacinação de 100% da população. cupuaçu. A terra está demarcada. em 1986. Na produ­ ção havia dependência total dos alimentos fornecidos pela Funai.77% ao ano. a população dos Waimiri Atroari era de 1. controle de malária e de outras doenças endêmicas.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens produção e proteção ambiental. sem nenhum invasor e com fiscalização sistemática dos seus limites e dos transeuntes das estradas existentes dentro das terras indígenas Waimiri Atroari. controle total de doenças respiratórias. A situação dos Parakanã antes do início do Programa. malária e gripe. controle to­ tal da hepatite B. Na produção observase grandes roças. controle total de doenças respiratórias. seus mitos. Na saúde. foi regatada a prática do extrativismo e coletas de frutos para comercialização como açaí. As escolas não existiam e a escrita era desconhecida. com registro em cartório de imóveis e serviço de patrimônio da União. diarreias crônicas. malária e gripes. Também na cultura houve o resgate de todas as práticas culturais. casta­ nha entre outros. pinturas corporais. A situação fundiária está totalmente regularizada. nem demarcada e com processo de invasão em andamento. o quadro era de epidemias de sarampo. vacinação de 100% da população. nenhuma doença imunoprevenível nos últimos 15 anos. A população era de 247 pessoas. 225 . Antes do início do Programa. as escolas eram inexistentes e a escrita desconheci­ da.404 pessoas. diarreias crônicas. Na cultura houve o resgate de todas as práticas culturais e de sua dignidade como povo indíge­ na.86% da população Paraka­ nã alfabetizada na língua materna e em português. 63. grandes roças têm tido produção de excedentes. a situação é totalmente diferente. hepatite B. a população era de 374 pessoas. curativo e corretivo. nenhum atendi­ mento odontológico. resultado de uma taxa de crescimento de 4.

primeiro vertedouro do Brasil com aeração da calha .Calha do vertedouro de Foz do Areia.

este último formando a divisa entre os estados do Paraná e São Paulo. entre União da Vitória e Curitiba. vencendo desníveis da ordem de 800 a 1000 m e com isso favorecendo a instalação de aproveitamentos hidroelétricos. A drenagem em relação ao rio Paraná é conformada pela Serra do Mar. a oeste de Curitiba com altitudes entre 1200 a 1800 m acima do nível do mar. com desníveis de 500 a 800 m vencidos em percursos menores de 80 quilômetros. os cursos d’água apresentam elevados gradientes. que nasce a noroeste de Curitiba. além disso. Ivaí e Paranapanema. havia interesse econômico no transporte de erva-mate da região sul para as indústrias de beneficiamento instaladas em Curitiba. Este rio faz a divisa do esta­ do com o Paraguai e com Mato Grosso do Sul e recebe. em sua margem esquerda. Piquirí. Isto foi no trecho superior do rio Iguaçu. PontaGrossa e Londrina. A orografia que cria a barreira da Serra do Mar e faz com que os rios se afastem do litoral não favorece à navegação fluvial. que se desenvolve paralelamente ao litoral Atlântico. A maior parte de seu território pertence à bacia hidrográfica do rio Paraná. Figura 1. e. em­ bora tenha havido um período histórico em que esta atividade ocorreu. e em muito menor grau.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens História das Barragens no Paraná Brasil Pinheiro Machado e Denise Araújo Vieira Krüger Introdução O Paraná é um estado rico em recursos hídricos. O aproveitamento dos recursos hídricos do estado foi fundamen­ talmente ligado à geração hidroelétrica. 227 . particularmente Curitiba. no planalto. com altitudes da ordem de 800 m e desenvolve em direção ao litoral entrando no estado de São Paulo através de uma região onde a Serra do Mar permite uma passagem. Isto faz com que os principais cursos d’água do estado nas­ çam próximo ao litoral e se desenvolvam em direção ao inte­ rior. A exceção é o rio Ribeira. entre os quais se destacam os rios Iguaçu. onde o rio flui no planalto e não se requeriam obras específicas para permitir a navegação. A leste da Serra do Mar.Estado do Paraná à criação de pequenos reservatórios para o suprimento de água potável a algumas comunidades. os principais cursos de água que formam a hi­ drografia paranaense. dotado de um sis­ tema fluvial importante.

inicialmente desenvolvidas a partir do comércio de tropas entre o Rio Grande do Sul e São Paulo. a partir dos anos 40. sempre tiveram a preocupação da integração das regiões. Apesar desta diversidade. a navegação neste trecho desapareceu e não prosperou de forma significativa em nenhum outro local do Estado. centrada em Curitiba. que se desenvolveram a partir dos anos 50-60. a história das barragens no Paraná se confunde com a história da implantação da geração de energia elétrica para o atendimento público. (iii) a região sudoeste. desenvolvida a partir dos anos 30-40 com base na agricultura do café atingindo seu pico econômico nos anos 50 e estreitamente vincula­ da economicamente ao estado de São Paulo. originadas ou Figura 2 . Curitiba.Usina Termoelétrica de Curitiba . na região leste do estado.1901 228 . Em função destas peculiaridades a implantação de obras de eletrificação no Paraná ocorreu inicialmente. e colonizada com deslocamentos populacionais originados principalmente no Rio Grande do Sul.A História das Barragens no Brasil . colonizada a partir de Londrina e incluindo cidades como Maringá e Apucarana. onde se destacam a cidades de Paranaguá. de colonização antiga. e durante muitos anos. onde se destacam as cidades de Foz do Iguaçu e Cascavel. incluindo a implantação de obras de infraestrutura. Por estas razões. XX e XXI Com a diminuição do valor desta atividade econômica. Ponta-Grossa. com a agricultura de ce­ reais entre os quais trigo e soja. o poder político sempre esteve em Curi­ tiba e as ações de governo. Os primórdios da geração elétrica no Paraná Historicamente o estado do Paraná se desenvolveu em três regi­ ões economicamente distintas: (i) o leste incluindo o litoral e os planaltos que formam o primeiro e o segundo degraus em direção ao rio Paraná.Séculos XIX. (ii) a região norte. enfrentando grandes dificuldades até pelo menos o início dos anos 70. União da Vitória.

União da Vitória e Campo Largo. assinou o contrato com a Companhia Água e Luz do Estado de São Paulo. oficialmente. térmi­ cas ou hidráulicas. na região de Ponta Grossa. somente dispuseram de geração elétrica na segunda década do século vinte. no litoral paranaense. A usina começou a funcionar. Blitzkow e Schlemm tiveram papel importante nas iniciati­ vas pioneiras no final do século XIX e primeiras décadas do século XX. As primeiras usinas geradoras. Em 1901 foi instalada a primeira usina. construída por técnicos ingleses. 3b e 3c . pertenciam a empreendedores priva­ dos locais que contratavam. instaladas no estado.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens O primeiro esforço para eletrificação ocor­ reu no dia 9 de setembro de 1890. com dois conjuntos geradores de 200 cavalos-vapor cada. Nomes como Hauer. A maior parte destes empreen­ dedores era imigrante de origem alemã ou da Europa Central. até 3 de agosto de 1970. a citada companhia instalou a primeira usina elétrica do Paraná. geralmente com as prefeituras dos municípios corres­ pondentes. que começou a operar em 1910 com a potência de 510 kW. Um ano mais tarde. para iluminar a cidade com “uma força iluminativa de onze mil velas”. num terreno próximo à antiga estação ferrovi­ ária. os serviços de suprimento e distribuição diretamente aos consumido­ res finais. localizada atrás do então Congresso Estadual. propriamente dita. Vicente Machado. e com uma conces­ são por 20 anos. em 12 de outubro de 1892. 229 . Dr. Baseada nesse contrato. entre elas Pa­ ranaguá. termoelé­ trica. para abastecer a cidade de Paranaguá. Grollmann. Ponta Grossa. Figuras 3a. entrou em operação a usina de Pitangui. Outras cidades na região. quando o presidente da Intendência Municipal de Curitiba. com 760 kW de potência.Usina Hidroelétrica Serra da Prata – 1910 A primeira usina hidroelétrica do estado foi Hidroelétrica Serra da Prata.

Logo em seguida constituiu uma empresa com o nome de Companhia Força e Luz do Paraná (CFLP) e a ela transferiu a concessão. O ano de 1910 marca a entrada das grandes empresas internacio­ nais no negócio de energia elétrica no Paraná. pela soma de 500 contos de réis. Em 1927. no município de São José dos Pinhais..Séculos XIX. iniciada em 1929 230 . Neste ano a con­ cessão do suprimento elétrico da cidade de Curitiba foi adquirida do empresário local José Hauer pela empresa anglo-francesa South Brazilian Railways Company Ltd. “as quedas d’água existentes no Rio Capivary.uma usina para geração de energia eletrica por força hydraulica .000 c. XX e XXI Figura 4 . Efetivamente.Usina Hidroelétrica Pitangui – 1911 É interessante observar que no discurso político. Em 1913. a AMFORP – American Foreign Power . Neste contrato o governo do estado requeria que a concessionária construísse “.. que também implantava a ligação ferroviária entre São Paulo e o Rio Grande do Sul.. embora as insta­ lações geradoras existentes e em estudo fossem todas privadas..A História das Barragens no Brasil . no rio São João. na Serra do Mar. o presidente do estado sabendo que o estado de Mato Grosso pretendia outorgar a concessão das Sete Quedas. sobre o qual tinha “direito de posse”. com a finalidade de “interessar a todos nossos industriais na organização de uma sociedade anonyma que tome a seu cargo a construção de uma usina hydro-eletrica e sua exploração”. quando então o rio Capivari foi aproveitado para geração de energia elétrica com um esquema muito diferente do que foi imaginado originalmente.. mu- nicípios de Campina Grande e Bocaiuva com capacidade de 30. na máxima estiagem” situadas próximas a Curitiba. um braço da empresa americana Electric Bond & Share Company se estabele­ ceu no Brasil e. disto resultou a constru­ ção da usina hidroelétrica de Chaminé.v. telegrafou ao presidente daquele estado dizendo que este era um recurso paranaense. no Rio Paraná para exploração energética (hoje inundadas pelo reservató­ rio de Itaipu).” no prazo máximo de 3 anos. a associação da geração de energia elétrica com recursos hidráulicos começa a aparecer no Paraná na segunda década do século XX. Em 1926 o governo do estado adquiriu de particulares. em 1928. com o nome de Empresas Elétricas Brasileiras contratou com o governo do Paraná a concessão da distribuição de energia elétrica em Curitiba. Nada resultou desta iniciativa até 50 anos depois.

de aprova­ ção das fundações da barragem e da casa de força e. Mr. como o aces­ so era difícil para transportar pessoal. 231 . foi construído um trole. Mr. Seu reservatório tem um volu­ me útil de 500 mil m³. formados pelas barragens de Salto do Meio e Voçoroca. desde os 22 anos trabalhou e se dedicou ao Brasil. Howell Lewis Fry – Visita a Chaminé em outubro de 1978 motores eram operados a vapor na época da obra e foram automatizados em 1999. máquinas e peças. Operando desde 1929. Howell Lewis Fry. o trole é acionado por motores que liberam e recolhem cabos de aço. Esses Figura 6 .Mr.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figuras 5a e 5b . Fry era o engenheiro residente e assistente do superinten­ dente geral. nascido nos Estados Unidos. Howell Lewis Fry. 12 km a montante. para a segunda a bicicleta e para a terceira. ligando os escri­ tórios à casa de força. com capacidade máxima de descarga de 360 m³/s. por uma exuberante reserva da Mata Atlântica.” O trabalho de construção durou três anos e. Em 1928 começou a trabalhar nas Empresas Elétricas Brasileiras.Mr. Aproveitando um desnível de mais de trezentos metros. vagonete sobre trilhos.. quando esta realiza­ va estudos no rio São João. A usina hidroelétrica Chaminé é atualmente alimentada por dois reservatórios no rio São João. com 12 m de altura e 92 m de extensão. A barragem de Salto do Meio é do tipo concreto gravidade. usava-se o cavalo. suficiente apenas para regularização diária. ven­ cendo declives de até 55 graus. O vertedouro fica no trecho central da barragem e é equipado por flash-boards perfazendo 34 m de vão. ao centro. que resultaram na usina de Chaminé. a usina gera 18 MW através de quatro unidades Pelton. ia-se a pé. preparando acampamento (1928) e na inauguração da usina de Guaricana (1957) e concluída em 1931.. O trole acabou se tornando a principal característica de Chaminé por proporcionar uma viagem de 720 m. segundo ele: “Em 1929 nós tivemos que colocar cascalho na avenida principal de São José dos Pinhais para poder passar com os equipamentos que seriam usados na construção da usina de Chaminé”. e “em 1930 havia três escalas de prioridades para serviços urgentes: para a primeira. responsável por todo serviço de campo.

A usina aproveita uma queda superior a trezentos metros. que embora distantes da região de Curitiba.4 m para uma capacidade máxima de descarga 495 m3/s. Durante os 45 anos em que foi responsável por este mercado.3 m de largura e flash boards de 2 m de altura. com 29. Este estudo foi contratado com a firma americana de consultoria EBASCO International Corporation e nas suas conclusões há a iden­ tificação das possibilidades técnicas de implantação de projetos de grande porte no rio Iguaçu. Daí surgiu o nome Guaricana. três vãos vertedores com comportas radiais de 5. cujo reservatório é criado por uma barragem de concreto a gravidade.A História das Barragens no Brasil . XX e XXI Figura 7a . Fry. gerando os 36 MW com quatro turbinas Pelton. tam­ bém projetada e construída por Mr. Conforme explicado por ele. Fry. onde hoje se situam as usinas 232 . “na região destas usinas havia uma palmeirinha que os colonos usavam para fazer paredes e coberturas de casas e se chamava Guaricanga. Esta usina comissionada em 1957 utiliza as águas do rio Arraial. na parte central. po­ deriam no futuro vir a ser alimentadores do seu sistema.5 m de altura e 95 m de extensão. a 75 km de Curitiba. mencionada anteriormente. é de concreto a gravidade. com 36 MW instalados também na Serra do Mar. possui três vãos de 12.Trole para acesso à casa de força – Usina hidroelétrica Chaminé Figura 7 b – Barragem de Salto do Meio A barragem de Voçoroca foi iniciada somente em 1947. a CFLP desenvolveu outros estudos visando identificar locais promissores para a instalação de reservatórios e usinas geradoras. Além destas duas usinas hidráulicas. a CFPL construiu. Em 1954 contratou um levanta­ mento de possíveis locais nos rios Iguaçu e Tibagi.Séculos XIX. com 21 m de altura e 152 m de comprimento tendo em seu trecho cen­ tral.” O vertedouro. também sob a responsabilidade de Mr.5 x 6. A CFLP continuou com a concessão e o suprimento de energia elé­ trica à região de Curitiba até a década de 70 quando foi absorvida pelo governo do estado através da COPEL. onde era concessionária. além da usina de Chaminé. a usina hidroelétrica de Guaricana.

As conclusões deste relatório não ge­ raram nenhuma ação específica e a CFLP continuou operando unicamente as hidroelétricas da Serra do Mar e instalações térmicas a Diesel em Curitiba até desa­ parecer como empresa concessionária. nos anos 70.Interior da casa de força com os grupos geradores de Segredo (chamada na ocasião de Encantillado) e Salto Santiago. com a criação do Serviço de 233 . O desenvolvimento dos recursos hídricos do estado para fins energéticos passou a ser explicitamente considerado como preocupação política governa­ mental nos anos 40.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 8a – Usina hidroelétrica Chaminé – Casa de força Figura 8b .

O primeiro Plano Hidroelétrico do Estado foi elaborado em 1948. Ponta Grossa. Nos municípios em que atuou instalou geradores Diesel e realizou um único projeto hidráulico. do suprimento de energia elétrica e do desenvolvimento de projetos hidroelétricos. este plano transformou-se em outro. Caiacanga e Laranjinha) e a segunda. os dois interligados em Teixeira Soares. Caverno­ so no rio Laranjeiras e Melissa em Cascavel. dependente de financiamentos especiais. este departamento governamental encampou incipientes serviços em municípios que não eram atendidos por empresas privadas organizadas como os das regiões de Curitiba. no litoral do estado. Na realidade.Séculos XIX. em nível estadual.A História das Barragens no Brasil . Lon­ drina. Posteriormente. do norte pelas usinas de Salto Grande do Paranapanema. desativada para a formação do lago de Itaipu. e do oeste com centros gera­ dores isolados. a mini-usina de Cotia. O Departamento foi responsá­ vel pela construção das usinas hidroelétricas de Ocoí em Foz do Iguaçu. Tibagi (36 MW). Carvalhópolis (27 MW) e a termo­ elétrica de Figueira (20 MW). previa a construção de pequenas hidroelétricas (Cavernoso. Figura 9 – Usina hidroelétrica Presidente Vargas – Rio Tibagi – Grupo Klabin de Papel e Celulose (1947) 234 . na região de Antonina. a ser cumprido em duas etapas: a primeira. em 1952. XX e XXI Energia Elétrica do estado. a curto prazo. tais como Capivari-Cachoeira (105 MW). com previsão dos sistemas elétricos do sul apoiados nas usinas de Capivari-Cachoeira e Salto Grande do Iguaçu. com recursos orçamentários do DAEE. previa a cons­ trução das centrais de maior porte. Capivara e Mourão. transformado em 1948 no Departa­ mento de Águas e Energia Elétrica (DAEE) com a atribuição de cuidar. bem como pelo início das usinas de Chopim I em Pato Branco e Mourão I em Campo Mourão que foram posteriormente concluídas pela COPEL. União da Vitória e cidades do chamado norte-velho.

construir e explorar sistemas de produção. Esta empresa seria uma instituição mais flexível que os órgãos governamentais tradicionais e poderia. uma empresa de econo­ mia mista que teria a atribuição de implementar o suprimento de energia elétrica do estado.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 10 – Usina hidroelétrica de Ocoí A era da COPEL Em 1954. como indicado anteriormente. habilitar-se de maneira mais eficaz aos financiamentos requeridos para a realização de obras de geração e transmissão. A primeira diretoria da COPEL incluiu como diretor técnico. do então gover­ nador Bento Munhoz da Rocha Neto. A nova sociedade se destinava a “planejar.917 de 26 de outubro. En­ tretanto.COPEL.” e teve como seu presidente nomeado The­ místocles Linhares. seguindo o exemplo de Minas Gerais. transmissão e transformação. na época. através do decreto n°14. o professor Pedro Viriato Parigot de Souza. uma reputação técnica ligada a questões energéticas por ter participado da discussão de planos governamentais envolvendo usinas hidroelétricas na Serra do Mar. 235 . mudanças no governo do estado afastaram a diretoria inicial da empresa em menos de um ano após sua instalação. era extremamente precária. O professor Parigot tinha já. distribuição e comércio de energia elétrica e serviços correlatos. in­ clusive. Nesta primeira diretoria da COPEL foi de sua res­ ponsabilidade a formulação técnica racional de uma evolução objetiva e realista da oferta de energia elétrica no estado que. o governo do es­ tado criou a Companhia Paranaense de Energia Elétrica . cate­ drático da cadeira de hidráulica na Escola de Engenharia da Uni­ versidade do Paraná (atualmente Universidade Federal do Paraná).

francesa. Para isto três empresas internacionais. que corre relativamente próximo a Curitiba. o professor Parigot implantou uma filosofia de seriedade e respeito técnico. como mencionado anteriormente. de países diferentes. Entretanto. instaladas ao longo da encosta da serra. instalada com quatro grupos Pelton somando 260 MW de potência. XX e XXI Não obstante. atualmente denominado usina hidroelétrica Governador Parigot de Souza. no litoral. Maurício Schulman. Nel­ son Luiz de Sousa Pinto. entre outros. no litoral. foram chamadas e encarregadas de propor soluções técnicas para o aproveitamento. Figura 11 . a derivação para o litoral vencendo desnível importante foi nesta ocasião revista e estudada detalhadamente. que consiste na derivação do rio Capivari que se desenvolve no planalto. que tinham sido admitidos na empresa entre 1955-60 e neste período desenvolveram estudos importantes que deram origem às obras executadas no período seguinte. vencen­ do o degrau de mais ou menos 800 m da Serra do Mar. Outras soluções propostas consideravam várias usinas menores em sequência. subterrânea. para o rio Cachoeira. Entre estas obras destaca-se o aproveitamento hidroelétrico CapivariCachoeira. quando novamente este voltou à empresa. e consiste em uma barragem no rio Capivari e desvio para o rio Cachoeira.A História das Barragens no Brasil . Péricles Tourinho e Clodoveu Holz­ mann. Isto fez com que a COPEL pudesse atrair um con­ junto de engenheiros que teve uma atuação decisiva na evolução bem sucedida da empresa especialmente nos anos 60. Fizeram parte deste grupo os engenheiros Hiran Lamas. A idéia do aproveitamento do rio Capivari.Séculos XIX. na curta gestão de sua participação inicial na em­ presa. era antiga. através de sistema de túneis de grande extensão e casa de força única.Mapa de 1915 com os primeiros estudos para o aproveitamento do Rio Capivari 236 . agora como presidente e go­ zando da inteira confiança do governador. A solução que prevaleceu foi proposta pela SOGREAH.

Apesar de inusitada e mesmo arriscada. Este é o chamado Salto Grande do Iguaçu. no início dos anos 60. Maurice Bouvard foi contratado como consultor ge­ ral do projeto. controla­ do por duas comportas de segmento. não só foi muito bem sucedida como também foi importante na for­ mação e desenvolvimento de quadros técnicos locais treinados em empreendimentos de dimensões e de grande complexidade. para uma vazão de projeto de 750 m3/s. se estudou um aproveitamento de porte médio que foi considerado muito grande para atender a demanda existente. Imaginou-se então 237 . conquistando dois recordes para a época: maior avanço médio em escavação subterrânea em obras do gênero e maior volume de concretagem mensal no interior dos túneis. naquela época. A barragem do Capivari pode ser considerada como a primeira bar­ ragem de porte realizada no Paraná. Dispõe também de um descarregador de fundo. Neste local. Foi decidido desenvolver o projeto detalhado com esforço próprio.Cachoeira – Perfil esquemático Para a construção do aproveitamento a COPEL criou. O rio Iguaçu nasce na região urbana de Curitiba e se desenvolve em uma região do planalto com baixas declividades até as imediações da cidade de União da Vitó­ ria. Na construção desta usina a Copel se projetou no panorama da energia brasileira. uma subsidiária específica a ELETROCAP e outorgou a Hiran Lamas e Nelson de Sousa Pinto a responsabilidade de sua implementação. assistido por consultores pessoas físicas e não empresas. prescindindo da contratação de uma empresa de projeto. Milton Vargas como consultor para a barragem de terra no rio Capivari e o incipiente laboratório de hidráulica da Universidade do Paraná. não foi este o único empreendimento desenvolvido pela COPEL no início dos anos 60. Tem 60 m de altura. que foi utilizado para o desvio e suple­ menta a capacidade do vertedouro em 250 m3/s. contro­ lado por comportas vagão. Apesar da relevância de Capivari-Cachoeira. é de terra homogênea e dispõe de vertedouro de superfície em canal. CEPHH (mais tarde CEHPAR e hoje Lactec) recebeu a incumbência de realizar os estudos hidráulicos em mode­ lo reduzido. Juntamente com as demais obras do aproveitamento a barragem começou a operar em outubro de 1970 e ao longo deste período demonstrou um desempenho excelente sem nenhum incidente.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 12 – Usina hidroelétrica Capivari . a decisão de executar o projeto e a supervisão da construção com equipe pró­ pria. A chamada Usina Piloto do Salto Grande do Iguaçu foi também nesta época projetada e construída. que nunca haviam sido feitos no estado. Logo a jusante desta cidade o rio entra na região dos basaltos e aí ocorre o primeiro salto abrupto dos vários que o rio apresenta ao longo de percurso. na divisa com Santa Catarina.

O projeto de características hidráulicas e constru­ tivas complicadas foi estudado no laboratório de hidráulica do CEHPAR. Este empreendimento. 15 anos mais tarde. mas agora revertendo uma vazão muitas vezes maior. alimentando uma barragem-tomada d’água em arco com 4 grupos geradores de 3. XX e XXI Figura 13 – Usina hidroelétrica Capivari Cachoeira – fotos da casa de força uma usina menor que serviria como passo inicial para um apro­ veitamento futuro de maiores dimensões. O estudo final viabilizava o empreendimento (supondo a existência de demanda) com três barragens no alto Iguaçu associadas a estações elevatórias. O conceito do projeto previa um canal de adução de pare­ des curvas na margem esquerda. O projeto foi contratado com o engenhei­ ro Cardellini. na divisa entre o Paraná e Santa Catarina. O fluxo principal do rio não era afetado e continuava livre so­ bre o salto.000 MW instalados e restituição através de túneis de fuga descarregando próximo a Garuva. São Paulo. num esquema semelhante ao projeto CapivariCachoeira. Outra iniciativa importante nesta época foi a contratação de um estudo para verificar a viabilidade técnica e econômica da reversão do alto rio Iguaçu para o litoral. foi construído a partir de 1962 e entrou em operação em setembro de 1967. Por isso foi chamada de “usina piloto”. Para isto foi contratada a IECO – International Engineering Company. túneis de adução e casa de força subterrânea com aproximadamente 4.Séculos XIX. dos Estados Unidos. de formação italiana e radicado em São Carlos.A História das Barragens no Brasil .8 MW cada um. Houve tentativas 238 . não existia demanda para tal potência. foi inundado pelo reservatório de Foz do Areia. entre outras razões. O empreendimento não prosperou porque. que tinha contratos em andamento com Furnas e grande repu­ tação técnica.

Vista da casa de força da usina de Salto Grande do Iguaçu – 15. Figura 15 . entre os estados de São Paulo e do Paraná. com base na qual foi possível o suprimento de energia elétrica à região de Londrina e Maringá a partir da usina de Salto Grande do Paranapanema. do governo paulista. Entretanto. no rio Paraná (Jupiá e Ilha Solteira) que. embora mais distantes da capital do estado e mais caros que a alternativa do Iguaçu. mas que também não progrediram porque este estado estava iniciando na ocasião os grandes projetos do Complexo Urubupungá. não podiam politicamente ser trocados por projeto em outro estado. houve uma parceria importante para ocasião. através da participação da COPEL na USELPA – Usinas Elétricas do Paranapanema.200 kW 239 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 14 – Barragem de Capivari-Cachoeira modestas de acordo com o estado de São Paulo para o desenvolvi­ mento em parceria.

situada na margem esquerda do rio Iguaçu. que mais tarde viria a ser presidente da empresa e responsável pelas obras subsequentes no rio Iguaçu até o final dos anos 70. Um fato extremamente relevante ocorrido na segunda metade dos anos 60. general José Costa Cavalcanti e governador Paulo Pimentel do Sul. atingindo este rio após desenvolvimento em várias curvas (falsos meandros) ocasionadas pela orografia da região basáltica. Este empreendimento foi projetado pela SERETE Engenharia.A História das Barragens no Brasil . Piquiri 240 . no oeste do Estado. Com uma pequena barragem-tomada d’água na última curva.casa de força e barragem Figura 16 .Inauguração de Salto Grande do Iguaçu em 29 de setembro de 1967. Da esquerda para direita: professor Parigot de Souza. a vazão do rio Chopim é encaminhada por meio de canal aberto e conduto forçado a uma casa de força equipada com dois grupos de 22 MW cada. O estudo desenvolvido entre 1967 e 1969 identificou as principais obras no curso principal e afluentes dos rios Iguaçu. para desenvolvimento hidro­ elétrico. e foi formado por engenheiros canadenses e americanos que haviam atuado no Sudeste e por profissionais locais designados pela COPEL. foi a constituição do Comitê de Estudos Energéticos da Região Sul – Comitê Sul. XX e XXI Na segunda metade dos anos 60 a COPEL desenvolveu o projeto e construiu a usina hidroelétrica de Foz do Chopim. O Comitê Sul era a continuação dos estudos executados na região Sudeste pela CANAMBRA. Pela COPEL o responsável foi o engenheiro Arturo Andre­ oli. além de alguns designados pelas empresas de Santa Catarina e do Rio Grande Figuras 17a e 17b . chamada pos­ teriormente de Júlio de Mesquita Filho. de São Paulo.Usina hidroelétrica de Foz do Chopim . O objetivo do Comitê Sul era o levantamento das principais bacias hidrográficas dos três estados sulinos (menos os rios que já tinham sido considerados no estudo do sudeste: Tibagi e Ribeira do Iguape e dos trechos que formam fronteira internacional) com o propósito de identificar e avaliar os locais potencialmente ade­ quados.Séculos XIX. técnica e economicamente. com 44 MW. O rio Chopim é um afluente pela margem esquerda do rio Iguaçu. sediado em Curitiba e organizado sob a gestão da COPEL.

foi estabelecida pela COPEL uma junta de consultores independentes. Pela primeira vez no Paraná. Salto Osório (1. O gerente do projeto do consórcio projetista foi o engenheiro Warren Schumann que teve um papel fundamental no desenvolvimento da maioria das obras do rio Iguaçu.050 MW) foi a grande realização da COPEL no início dos anos 70 e o ponto de partida para os sucessos seguintes. O projeto de engenharia de Salto Osório foi contratado com o consórcio SERETE (que já atuava em Foz do Chopim) e Kaiser Engineers Corp. no Rio Grande do Sul. em Santa Catarina. então diretor técnico da empre­ sa. que poderia parecer injustificada. naquela 241 . No final dos anos setenta. Figura 18 . Um outro aspecto relevante no desenvolvimento deste projeto foi o fato de que. em 1974.Usina hidroelétrica de Salto Osório Antes do final de Salto Osório. que também teriam um papel muito importante nas obras subsequentes. com 56 m de altura máxima e 750 m de comprimento. com base no resultado dos estudos do Comitê Sul – CANAMBRA. James Libby. A decisão e a implementação com su­ cesso das gestões voltadas para a realização da obra são devidas ao engenheiro Arturo Andreoli. de uma empresa federal que teria a exclusividade na geração de obras de propósito supra-esta­ dual.. foi tomada por razões prá­ ticas uma vez que no local estava sendo finalizada a construção de Foz do Chopim e existia uma estrutura de apoio para o início de um novo empreendimento. Ela obteve sucesso em seu pleito pela concessão do aproveitamento e contratou os estudos de engenharia de projeto com a Milder-Kaiser Engenharia S. Canoas e Uruguai. B. entretanto. Ibirapuitã e Camaquã. Esta decisão. pois iniciava o desenvolvimento do rio com uma obra situada longe das cabeceiras. fez com que a concessão fosse transferida para a ELETRO­ SUL. a COPEL decidiu pleitear e cons­ truir a usina hidroelétrica de Salto Osório. e dois vertedouros com capacidade con­ junta de descarga de 27.420 MW). que re­ tomou alguns estudos preliminares já executados para a ELETRO­ SUL em anos anteriores.A. A ELETROSUL. Depois de Capivari-Cachoeira.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens e Ivaí. a recente criação. a ELETROSUL e a COPEL se mobilizaram politicamente para realizar outras obras no rio Iguaçu tomando sempre por base a previsão de obras formulada pelo Comitê-Sul – CANAMBRA. e Rio Grande do Sul. na época. conseguiu ser designada a “gestora” do empreendimento e seguiu assim até o final da obra. Esta junta era formada pelos engenheiros J. quase todos os potenciais identificados estão hoje aproveitados. A ELETROSUL fixou seu objetivo na usina de Salto Santiago (1. pela SERETE. de Mello.000 m3/s. em 1974. dos Estados Unidos. A solução técnica do projeto inclui uma barragem de enrocamen­ to com núcleo inclinado de argila. houve a sugestão da junta de consultores para adoção de uma barragem de enrocamento com face de concreto. a COPEL não aceitou a sugestão. mas como não havia antecedentes deste tipo de obra no Brasil. Barry Cooke. Jacuí. Nas discussões para a formulação do arranjo e do tipo de barragem. A COPEL. Apesar de ter havido revisões nos resultados dos estudos. situada imediatamente a montante de Salto Osório com a possibilidade de iniciar serviços de campo a partir da base estabelecida em Salto Osório. no Paraná. Thomas Leps e Victor F. apesar da COPEL ter tido a iniciativa do empreen­ dimento.

Piuma. A MilderKaiser que tinha sido organizada em São Paulo por Isaac Milder. oriundo da SERETE. Jaime L.Séculos XIX. montou uma estrutura técnica no Rio de Janei­ ro e designou para a gerência do Projeto Salto Santiago o engenheiro Jaime Leivas Piuma que foi o principal responsável pela engenha­ ria desta obra.000 MW. Engenheiros e consultores (a partir da esquerda: Brasil P. Thelmo Thompson Flores. e uma barragem de terra homogênea fechando um ponto baixo no reservatório. Salto 242 . James Libby.Obra e fechamento do desvio do rio da usina hidroelétrica de Salto Santiago. A COPEL centrou sua atenção nas obras previstas no trecho ini­ cial do rio Iguaçu.A História das Barragens no Brasil . Kamal Kamel. com 80 m de altura. Victor F. com a primeira unidade entrando em operação no final de 1980. A usina hidroelétrica de Salto Santiago. Arturo Andreoli) época. foi construída pela Camargo Correa estrita­ mente no cronograma estabelecido inicialmente. de Mello e Thomas Leps. Barry Cooke. A ELETROSUL. projetada para uma insta­ lação de 2. seguindo a prática de Salto Osório contratou o mesmo grupo de consultores especiais daquela obra: J. Lança a montante de União da Vitória. O projeto incluiu uma barragem principal de enrocamento com núcleo de argila. XX e XXI Figura 19 . era dirigida pelo engenheiro Mario Lannes e seu diretor técnico era o engenheiro Fernando Correa de Azevedo. B. Machado.

uma junta de consultores especiais. Milder-Kaiser. A influência de Barry Cooke fez com que se decidisse por uma barragem de enrocamento com face de concreto. agora formada por J. já dis­ punha de um quadro técnico de primeiro nível e a COPEL trouxe da Colômbia o engenheiro Bayardo Materón. inundasse o Salto Grande do Iguaçu estabelecendo o nível máximo em cota compatível com a cidade de União da Vitória.Usina hidroelétrica Salto Santiago Grande do Iguaçu e Foz do Areia a jusante desta cidade. como fizera em Salto Osório. presidente da COPEL na época. que não só seria a primeira do tipo no país. como gerente do projeto. além de criar um reservatório regulador semelhante ao previsto para Lança. de Mello e Nelson Luiz de Sousa Pinto. Esta alternativa. que tinha experiência 243 . teve o gran­ de mérito de assegurar o projeto para o Paraná e de convencer a ELETROBRAS a criar uma exceção à regra que determinava que só empresas federais poderiam construir obras de geração que ultra­ passassem a demanda do estado onde se situam. A projetista. mas resultava economica­ mente menos atraente que uma variante de Foz do Areia que. O engenheiro Arturo Andreoli. Em 1973 contratou os serviços de engenharia da Milder-Kaiser e assegurou a participação técnica. de Warren Schu­ mann. com uma barragem muito mais alta. uma barragem baixa criando um reservató­ rio de área muito extensa tinha méritos. Isto tudo fez com que o grupo técnico envolvido na concepção e desenvolvimento da obra fosse formado e mantido com pessoal de alta qualificação. Definidas as características energéticas e orográficas de Foz do Areia a seleção do tipo de barragem que teria 160 m de altura demandou longas discussões técnicas. chamada na época Foz do Areia Alto. mas seria na época a mais alta do mundo neste tipo. da Kaiser Engineers.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 20 . Barry Cooke. B. A COPEL contratou. tinha menor área e criava uma queda aproveitável para geração de energia. Os estudos realizados pela Milder-Kaiser mostraram que Lança. Victor F. prevaleceu pois.

para o restante das obras civis foi outorgado à CBPO hoje uma empresa do Grupo Odebre­ cht.Usina hidroelétrica Foz do Areia 244 .600 residências e to­ dos os serviços urbanos necessários. em busca de um novo “Eldorado” iniciou-se a formação de um pequeno povoado próximo ao canteiro da usina. pensões e outros ramos comerciais. A construção da obra foi dividida em dois contratos: o primeiro para os túneis de desvio e préensecadeiras foi realizado pela Andrade Gutierrez. Com a influência da novela da época (1973). o segundo.500 MW teve sua primeira unidade entrando em operação em outubro de 1980. Para que a obra começasse a deslan­ char. com o interesse da população ribeirinha por Foz do Areia. com 1. estrita­ mente de acordo com o cronograma formulado 5 anos antes. a Copel ini­ ciou a implantação das obras de infraestrutura que incluíam uma verdadeira cidade. cerca de 12 km da obra. A usina. e designou o experiente en­ genheiro Pedro Marques Filho. a pequena vila em formação recebeu o nome de Nova Divinéia e seus principais personagens inspiraram nomes de bares. Um pouco antes da implantação da planejada Faxinal. Figura 22 .Séculos XIX. para o acompanhamento e controle dos ma­ teriais de enrocamento e questões ge­ ológicas associadas. projetada para 2.A História das Barragens no Brasil . “Fogo sobre Terra”. XX e XXI Figuras 21a e 21b – Obras da usina hidroelétrica Foz do Areia neste tipo de obra nas realizações na­ quele país. Faxinal do Céu. tais como Barbearia Sandra Bréa e Bar Pedro Azulão. em janeiro de 1975.

A partir da esquerda Douglas Souza Luz. Salto Santiago e Foz do Areia. Em 1985 foi contratada Figura 24 – Assinatura do contrato do projeto da usina hidroelétrica Segredo em 19 de março de 1980. Se­ gredo seria uma obra da ELETROSUL que efetivamente realizou estudos incluindo al­ ternativas com barragens de concreto em abóbada propostas pela Enge-Rio. Segredo e desta obra so­ mente conseguiu executar os túneis de desvio e escavações preliminares para a barragem. que por isso tinha tido a cota má­ xima do seu reservatório aumentada em 15 m de modo que numa operação conjunta houvesse ganho de volume em Santiago e de queda em Segredo. governador Ney Braga assinando. com potência prevista à época de 2. Entretan­ to. O projeto incluiu uma barragem de enrocamento com face de concreto com 145 m de altura formulada com os mesmos conceitos de Foz do Areia.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Desta forma. a jusante de Foz do Areia tinha sido planejada para ser cons­ truída contemporaneamente com Salto Santiago. De 1982 a 1987 o projeto foi desenvolvido sob a gerência do engenheiro Kamal Kamel. hoje denominada usina hidroelétrica Go­ vernador Bento Munhoz da Rocha Netto. na MDK. Para isso foram contratadas Figura 23 – Visita às obras de Foz do Areia em 31 de agosto de 1979. foi confir­ mada a concessão da usina de Segredo para a COPEL. na qual foi confirmada a concessão da usina hidroelétrica Segredo. naquele tempo. em 31 de agosto de 1979. Brasil Pinheiro Machado (diretor técnico da Milder Kaiser). Salto Osório. Da esquerda para direita Lindolfo Zimmer (diretor de engenharia e construções da COPEL). No Paraná a COPEL fez várias tentativas de viabilizar financiamentos para a próxima usina do rio Iguaçu. Neste conceito. Manteve a mesma junta de consultores especiais de Foz do Areia. a obra de Segredo foi postergada. por problemas econômico-financeiros. A usina de Segredo.100 MW e foram iniciadas as ativida­ des de projeto. Fernando Luiz Correa de Azevedo (presidente Milder Kaiser) e Willian Simonsen (diretor comercial da Milder-Kaiser) 245 . Douglas Souza Luz (presidente da COPEL). A década de oitenta foi marcada pela crise da dívida externa brasileira que fez com que as fontes de financiamento do governo secas­ sem e poucas obras pudessem ser realizadas. Durante a visita do então presidente da re­ pública João Figueiredo à obra de Foz do Areia. no princípio da década de oitenta as grandes barragens do Paraná vinculadas à COPEL e ELETROSUL eram Capivari. governador Ney Braga e o presidente João Figueiredo discursando as empresas MDK (sucessora da Milder-Kaiser agora parte do grupo CNEC) e CENCO.

a motorização e energia da usina hidroelétrica Segredo consideraram as águas do rio Jordão.Séculos XIX. por questões ambientais. considerou-se para efeito de motorização a derivação das águas do rio Jordão através de conjunto barra­ gem. A obra foi concluída em 1992 e a geração inicial ocorreu em julho daquele ano sendo hoje denominada Usina Hidroelétrica Governador Ney Braga. Estas obras duraram aproximadamente um ano e a continuação não pode ser realizada por problemas políticos e econômico-financeiros. o eixo da usina de Segredo foi modificado para montante da foz do rio Jordão. XX e XXI Figuras 25a e 25b – Obras da usina hidroelétrica Segredo a construção das obras do desvio com a Construtora CR Almeida S. O conjun­ to de obras de derivação do rio Jordão contempla ainda uma pequena central hidroelétrica para aproveitamento da vazão mínima de 10 m3/s necessária à pereni­ zação do trecho a jusante do rio Jordão. Em 1988 foi possível a retomada da obra que foi contratada com um consórcio de empresas do Paraná: DM Construtora de Obras. que é um tributário importante do rio Iguaçu.A.Usina hidroelétrica Segredo 246 .A História das Barragens no Brasil . A obra foi iniciada em maio de 1994 e concluída em outubro de 1996. vertedouro e túnel de interligação entre os dois reservatórios. Desde o inventário. Com a definição da implantação da usina de Salto Santiago em cota mais alta que a originalmente prevista. CESBE e SINODA. Durante a implantação da hidroelétrica de Segredo. permi­ Figura 26 .

com uma potência instalada de 6.p.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figuras 27a e 27b – Derivação do rio Jordão durante a construção. O projeto básico foi executado pela MDK Engenharia de Projetos.Companhia Paranaense de Energia.A. A proposta vencedora foi apresentada pelo consórcio formado pela empresa paranaense Ivaí Construtora de Obras e pela italiana Del Favero S. um com solução da barragem em enrocamento com face de con­ creto e o outro arranjo em barragem de concreto compactado com rolo. O túnel da derivação tem extensão de 4.000 m3 de concreto compactado com rolo e 80. e o projeto executivo foi feito internamente pela COPEL . que possui altura máxima de 95 m.5 MW e queda líquida de 71. utilizando 570.000 m3 de concreto convencional. A licitação para contratação das obras permitiu a escolha pelo empreiteiro entre dois projetos. considerando o arranjo utilizando barragem de concreto compacta­ do com rolo. O arranjo selecionado tem o vertedouro em soleira livre incorporado à barragem. Figura 28 – Derivação do rio Jordão 247 . concessionária dos dois apro­ veitamentos do complexo. A PCH entrou em operação em 2 de dezembro de 1997 comple­ tando o complexo energético SegredoJordão.5 m. Barragem e túnel de derivação tindo a geração na usina hidroelétrica Segredo com as águas derivadas do rio Jordão.800 m e diâmetro de 9 m.

Estudos realizados ao longo da década de oitenta pela COPEL indicaram a conveniência de aumentar o nível de represamento. da INTERTECHNE. A junta de consultores foi composta pelo renomado engenheiro paranaense Nelson Luiz de Sousa Pinto e os con­ sultores internacionais J. Paulo José Melaragno Monteiro e Brian Forbes. O gerente do projeto foi o engenheiro Kamal Kamel. A construção foi contratada com a DM Constru­ tora de Obras que já havia atuado no Projeto Segredo.000. Leps e Paolo Cassano. mencionada anteriormente. à contratação do consórcio projetista liderado pela INTERTECHNE e formado adicionalmente por ENGEVIX. no processo de definições da barragem de CCR. e a primeira que demonstrou a competitividade deste tipo de solução. Uma característica significativa é o vertedouro controlado por comportas com vazão de projeto de 50.A História das Barragens no Brasil .000 m3/s. em 1992. A usina entrou em operação em 1998 seguindo estritamente o cronograma de obras pré-determinado. Na época de sua construção foi um passo muito significativo em termos de volume da barragem com cerca de 1. permitindo a construção de uma outra obra – Cruzeiro – a jusante de Salto Osório e a mon­ tante de Foz do Chopim.083 m de comprimento. também. A barragem selecionada foi de concreto compactado a rolo (CCR) com 67 m de altura e 1. porém com nível de represamento mais baixo. levando o re­ manso até Salto Osório e inundando Foz do Chopim. Esta obra estava prevista na divisão de quedas proposta pelo Comitê-Sul – CANAMBRA.000 de m³ e em capacidade do vertedouro incorporado. Thomas M. tendo como consultor de mate­ riais para a barragem o engenheiro Francisco Rodrigues Andriolo. Esta foi a solução adotada e que deu origem. LEME e ESTEIO. que havia ven­ cido a licitação promovida pela COPEL. Esta foi a primeira barragem de porte expressivo de CCR no Brasil. Colaboraram. XX e XXI Figura 29 – Engenheiros da COPEL e consultores durante reunião da junta de consultores da derivação do rio Jordão O projeto executivo foi gerido e coordenado pelo engenheiro José Marques Filho da COPEL. Este consórcio realizou os estudos de engenharia e meio-ambiente incluindo projeto básico e executivo civil e eletromecânico. 248 . A última barragem realizada no curso do rio Iguaçu foi a usi­ na hidroelétrica de Salto Caxias. os consultores Walton Pacelli de Andrade. Barry Cooke. atualmente usina hidroelétrica Governador José Richa.Séculos XIX.

Usina hidroelétrica Salto Caxias 249 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figuras 30a e 30b – Obras da usina hidroelétrica Salto Caxias Figura 31 .

250 .

Essas empresas passaram a sofrer as consequências funestas do Código de Águas. Muitas micro-usinas hidroelétricas supriam a necessidade de energia de fazendas isoladas e mesmo de pequenas cidades. nas pro­ ximidades de Juiz de Fora. inaugurada em 1946 Usina hidroelétrica de São Simão.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Companhia Energética de Minas Gerais – CEMIG “Trata-se (a Cemig) da mais bem sucedida história dentre todas as experiências em âmbito estadual” Antonio Dias Leite Jr. Fazendo progresso com energia Flavio Miguez de Mello A pré-história No estado de Minas Gerais antes da II Gran­ de Guerra Mundial a energia elétrica era escassa. A mais importante usina da Cemig: a de maior produção de energia e a mais rentável 251 .. 2007. pois as concessões eram dadas por estados e municípios. A capital do estado era suprida pelo grupo da AMFORP. Dentre as Figura 1 – Início da obra da hidroelétrica de Gafanhoto sobre o rio Pará em Divinópolis. criado em 1934 com o pretexto de disciplinar o regime de concessões dos serviços de eletricidade que até então era anárquico. Destacava-se na época a Zona da Mata que era suprida pela Companhia Força e Luz Cataguazes Leopoldina CFLCL no vale do rio Pomba e pela Companhia Mineira de Eletricidade no vale do rio Paraibuna.

O principal objetivo do Código de Águas era a paralisação das empresas privadas do setor elétrico o que gerou considerável gargalo na expansão da oferta de energia elétrica e. Foi feito um detalhado levantamento das vocações econômicas mineiras e dos locais onde essas vocações deveriam ter o suporte de energia elétrica. passou a haver dificuldades para o correto equilíbrio econômico e financeiro dos contratos de con­ cessão na medida em que a inflação. apenas a CFLCL sobreviveu ao Código de Águas que era mais de energia do que de águas. A idéia era criar a infra­ estrutura energética para incentivar a implantação de indústrias e de atividades de mineração. consequen­ temente. Figura 2 – Lucas Lopes. Entretanto. Pela primeira vez foi feito no Brasil um plano de obras públicas tão abrangente. O secretário de viação e obras públicas entre 1947 e 1951. engenheiro José Rodrigues Seabra contratou a consultora Companhia Brasileira de Engenharia para elaborar o Plano de Eletrificação de Minas Ge­ rais. época em que houve forte incremento da economia em quase todos os outros países. No estado de Minas Gerais o início da participação do estado na geração de energia elétrica começou a ocorrer no governo Milton Campos que formulou um plano de maior envergadura para aten­ dimento das necessidades de eletrificação do estado. O Código de Águas estabeleceu determinados princípios tais como o de que todos os recursos hídricos eram da União e. os mineiros não perdoaram Getúlio Vargas por não instalar a primeira grande siderúrgica em Minas Gerais apesar do Macedo Soares ter explicado inúmeras vezes que foi selecionado o local de Volta Redonda por questões de mer­ cado pois siderúrgicas devem ficar próximas ao mercado e não ao minério.A História das Barragens no Brasil . nem a consultora nem Lucas Lopes tinham experiência na elaboração de planos dessa natureza. trans­ missão e distribuição de energia elétrica.Séculos XIX. A intenção do engenheiro Seabra era que o engenheiro Lucas Lopes se encarregasse de comandar a elaboração do plano com o apoio da consultora. Como as empresas acima mencionadas eram privadas. Águas era só o pretexto. ainda que nos níveis modestos da época. desaceleração no desenvolvimento econômico no pós guer­ ra. A esse respeito. Mas o Plano de Eletrificação garantiu a energia necessária para a instalação da Mannesmann em Minas Gerais. desestimulava novos empreendimentos de geração. antecessora do Departamento de Águas e Energia Elétrica DNAEE que deu origem às atuais Agências Nacionais de Águas ANA e de Energia Elétrica ANEEL. O gargalo acima mencionado propiciou o aparecimento do estado na geração de energia elétrica. Para tanto foi criada a Divisão de Águas no Ministério da Agricul­ tura. consequente­ mente. primeiro presidente da CEMIG 252 . Das empresas privadas que atuavam em Minas Gerais. o poder concedente passou a ser exercido pela União. XX e XXI consequências funestas estava a eliminação da cláusula ouro que ga­ rantia às empresas o reajustamento das tarifas. Na formação da equipe foram incluídos os engenheiros Mauro Thibau e John Cotrim.

Comércio e Trabalho. Desde o seu início até 1955/1956 a CEMIG dedicou-se basicamente à construção de usinas hidroelétricas. Assim.CINQUENTA ANOS DO COMITÊ BRASILEIRO DE BARRAGENS Na campanha presidencial de 1950 Getúlio se disse em dívida com Minas Gerais e prometeu a instalação de uma segunda siderúrgica em território mineiro. para pedir apoio federal para implantação da nova siderúrgica. os membros da equipe de transição ficaram sendo diretores dessas empresas. foram criadas a Companhia de Eletricidade do Alto Rio Doce para implantar a hidroelétrica de Santo Antônio.” 253 . Júlio Soares e José de Castro. Getúlio disse aos alemães que procurassem o recém governador de Minas Gerais pois ele havia mencionado o Plano de Eletrificação elaborado no governo Milton Campos. precisamos estabelecer um “holding” que controle as atividades gerais das diversas centraes elétricas que pretendemos construir. Juscelino afirmou aos alemães: “Podem instalar a usina que nós garantimos a energia”. José Esteves. dava início a algumas hidroelétricas. Peço combinar com eles e assentar em definitivo as medidas. dirigido ao seu secretário de Viação e Obras Públicas. o engenheiro Américo René Gianetti. a Companhia de Eletricidade do Médio Rio Doce para a construção da hidroelétrica de Tronqueiras. Essa garantia dada pelo governador foi a principal razão do sucesso inicial da CEMIG uma vez que passou a haver a necessidade de promover o suprimento de energia elétrica tão logo que a siderúrgica ficasse pronta. Grato. Indústria. A CEMIG em seus primeiros anos A CEMIG foi fundada em 22 de maio de 1952. enquanto o Plano de Eletrificação era formulado. Empossado no governo Milton Campos. Em resposta Getúlio disse “Eu dou tudo que os senhores quiserem contanto que essa usina vá para Minas”. Pedro Laborne Tavares. John Cotrim. foram diretores dessas empresas Lucas Lopes. Assim.Bilhete do governador Juscelino Kubitschek. algumas das quais já se encontravam em Figura 3 . datado de 22 de fevereiro de 1951: “O Sílvio Barbosa e o Júlio vão lhe falar sobre os planos que desejo pôr em execução no sector de energia elétrica. a Companhia de Eletricidade do Alto Rio Grande para implementar a hidroelétrica de Itutinga. Foram criadas empresas estatais estaduais para implantação das primeiras hidroelétricas estatais em Minas Gerais que posteriormente foram incorporadas pela CEMIG quando esta foi criada no governo Juscelino Kubitschek. A Mannesmann tinha planos de se instalar no Rio de Janeiro e foi ao Getúlio. então presidente da República. Os alemães argumentaram que em Minas Gerais não havia energia elétrica. titular da Secretaria de Agricultura. Para facilitar-lhe a organização e dar-lhe o caráter comercial que possibilite entendimentos com firmas financiadoras. Como essas empresas existiam e como era necessário haver recursos para o pagamento dos salários dos executivos que iriam comandar a CEMIG que ainda não existia.

vice-presidente da Cemig. e S. presidente do Eximbank Figura 5 . Wangh. XX e XXI Figura 4 . Da esquerda para a direita: Mário Bhering. Cândido Hollanda de Lima. Cândido Hollanda de Lima 254 .Assinatura de contrato para financiamento no Export Import Bank para construção da usina de Camargos. ao lado do presidente da Cemig.A História das Barragens no Brasil . presidente da Cemig.Séculos XIX.Inauguração da Usina Hidroelétrica de Camargos em janeiro de 1961. vendo-se o governador Bias Fortes descerrando a placa inaugural.

a casa de força estava em terreno não apro­ priado. Na realidade havia uma disputa nesse sentido entre o secretário de finanças Alkmin e o engenheiro Lucas Lopes que conse­ guiu manter os recursos financeiros diretamente alocados à CEMIG. Troqueiras. Mauro Thibau e Mario Bhering. não havia levantamento topográfico completo da área de implantação da usina. os túneis estavam mal locados. John Reginald Cotrim. Tancredo Neves. Há relatos de que os estudos existentes eram muito superficiais. Das obras iniciadas no governo anterior a que demandou mais trabalho foi a hidroelétrica de Salto Grande.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 6 – Inauguração da Usina de Itutinga. Entre os primeiros engenheiros que foram contratados estavam Camilo Penna e Henrique Guatimosin. Piáu e Cajuru. totalizando quase 150 MW instalados. em 3 de fevereiro de 1955. os equipamentos permanentes já haviam sido comprados e entregues. Lyra. Após a constituição da CEMIG foram agregados ao grupo de diretores anteriormente composto os engenheiros Flavio H. não haviam sido executadas prospecções geológicas e geotécnicas. Os passos iniciais da CEMIG na implantação de suas usinas eram apoiados por recursos diretamente destinados à empresa sem pas­ sar pela Secretaria de Finanças para desespero do secretário José Maria Alkmin. 255 . colocando a usina em operação. Vários equipamentos elétricos estavam estragados. vice-presidente da Cemig construção. Salto Grande. Da esquerda para a direita. deputado federal. vendo-se o governador Juscelino Kubitschek no momento simbólico em que aciona a chave. estando há mais de um ano abandonados em caixotes em terreno marginal à ferrovia em Coronel Fabriciano sem qualquer identificação. Seu programa inicial compreendia a construção ou a conclusão das hidroelétricas de Itutinga.

Após a instituição da CEMIG surgiu a oportunidade do Banco Mundial financiar a aquisição dos equipamentos e de alguns serviços de engenharia. Um dos fatores que garantiram o sucesso nos primeiros anos da CEMIG foi o criterioso processo de contratação.Inauguração da barragem de Cajuru em 1959. Numa oportu­ nidade o governador Israel Pinheiro. Essa indispensável alteração teve suas implicações políticas. des­ de seu início. através de Julio Soares. Os padrões exigidos pelo Banco Mundial fizeram com que a CEMIG fosse obrigada a. econômica e financeira que nunca antes havia sido feito em empreendimento não privado no País. John Cotrim como diretor técnico. outro 256 . estocar e recuperar os equipamentos que haviam se estragado pela chuva no matagal marginal à ferrovia. Lyra acumu­ lando a diretoria financeira da CEMIG com a superintendência de Itutinga. dois túneis de adução e uma casa de força foi concluída com sucesso. Carlos Gomes foi o engenheiro eletricista encarregado de identificar. XX e XXI Figura 7 . pois uma obra iniciada no governo da UDN estava sendo novamente concebida e projetada num governo do PSD. Como na época não havia empresas nacio­ nais com reconhecidas capacitações para o desenvolvimento do projeto e da construção. Com uma nova estrutura geren­ cial que compreendeu a contratação de novos quadros da CEMIG foram incluídos engenheiros civis que permaneceram no setor elétrico como Carlos Alberto Pádua Amarante e João Alberto Bandeira de Mello. Mário Bhering como responsável pelas compras e uma equipe de supervisão de obras que contava com Camilo Penna. A implantação da hidroelétrica de Itutinga teve uma história diversa. Flavio H. vice-presidente da Cemig A Techint italiana foi contratada e o projeto foi alterado e detalhado. foram contratadas a IECO de São Fran­ cisco e a Morrison & Knudsen.Séculos XIX. se tornar uma empresa com gestão moderna para a época.A História das Barragens no Brasil . a obra de Salto Grande que envolvia duas barragens. Juscelino Kubitschek. candidato a presidente da República do Brasil e Mario Bhering. a implantação de Itutinga não causou problemas como os verificados em Salto Grande. ambas americanas que já estavam engajadas em outros contratos no Brasil. Com isso foi necessário que se fizesse um estudo completo de viabilidade técnica.

Figura 8 – Escavação do túnel de adução da hidroelétrica de Salto Grande 257 .

John Cotrim pediu inicialmente que lhe enviassem o currículo do referi­ do engenheiro. contador inglês vindo da Light. pois na hora de desempatar a disputa por recursos. Nessa época a atuação de Júlio Soares. lembrou-se do ocorrido anteriormente e per­ guntou ao Júlio Soares: “Como é que se chama aquilo que o Cotrim pede quando não quer contratar alguém?” Cabia ao engenheiro Mauro Thibau a organização das equipes de operação das primeiras usinas. situada em uma área pobre de recursos naturais e com baixíssima ocupação demográfica. mas grande parte do pessoal veio de fora. foi de fundamental importância. John Cotrim e Flavio H. por ser destinada a atender a demanda regional e principalmente socorrer centros de carga situados em outros estados estrangulados pelos efeitos do Código de Águas em empresas privadas do setor elétrico. Ele conseguiu alguns poucos veteranos de outras empresas que operavam no Brasil como Mr.” Israel con­ cluiu: “Ah. 258 . autarquia destinada ao desenvolvimento do vale do rio São Fran­ cisco. foi alvo de ferrenha oposição a partir do governo estadual. Três Marias – A primeira grande obra Desde 1946 foram acentuadas as discussões sobre os problemas de controle das vazões do rio São Francisco que desembocaram na criação. indicou um engenheiro para contratação. O governo federal passou a atuar no sentido de viabili­ zar dois grandes empreendimentos de geração com grandes reservatórios em Minas Gerais: Três Marias com objetivos de regularizar e melhorar as condições de navegabilidade do rio São Francisco e Furnas com objetivo de vir a ser o principal regularizador de todo rio Grande onde muitas hidroelétricas grandes viriam a se localizar. A receita era insuficiente para os gastos da recém criada CEMIG. A ferrenha oposição à implantação de Furnas fez com que o governo federal firmasse um acordo muito vantajoso com a CEMIG para a implantação de Três Marias pelo qual o governo federal custeou o reservatório e a obra civil. Dificuldades iniciais existiram com a Comissão do Vale do São Francisco que queria gerenciar a obra civil e com ofertas de fabricantes despreparados para o fornecimento de equipamentos.Séculos XIX. Schnaptis. na Comissão do Vale do São Fran­ cisco CVSF. posteriormente denominada SUVALE. Três Marias.A História das Barragens no Brasil . Lyra começaram a trabalhar para viabilizar a hidro­ elétrica de Furnas. Smith. inclusive Vítor Cataldo que veio de Porto Rico organizar a operação e Mr. Crowl que trouxe a disciplina financeira do TVA. em dezembro de 1948. e a CEMIG se encarregou apenas da casa de força. Leslie T. cunha­ do do Juscelino e responsável por sua educação. Quando os esforços estavam direcionados para a conclusão das usinas de Salto Grande. A barragem de Três Marias deveria ter sido uma obra da SUVALE. Israel comentou “Que bobagem é essa que o Cotrim está inventando?” Julio Soares explicou: “É o curriculum vitae. Lucas Lopes. tinha as condições de bom trânsito interna­ mente na empresa e externamente junto ao governo do estado. Itutinga e Tronqueiras. Veio a posse do Juscelino como presidente da República e um natural esvaziamento da CEMIG com a drenagem de seus quadros para o governo federal. contraparente e amigo do governador Bias Fortes e ex-professor de muitos que compunham os quadros técnicos da CEMIG. Como o Israel queria se livrar do referido cidadão. essa companhia não vai funcionar nunca. assumiu o BNDE (hoje BNDES).” Passado algum tempo o próprio Israel foi assediado por um cidadão que queria um emprego em qualquer lugar. Também vieram mais de dez russos após a revolução chinesa de 1949 como Alissof. nome­ adamente a Light e as empresas do grupo AMFORP. desempatava sempre a favor da CEMIG. XX e XXI diretor da empresa. a única fonte de receita operacional vinha da venda de energia da usina de Gafa­ nhoto herdada do DAE. Tornovsky e os Popof. A solução encontrada para a CEMIG foi a colocação do professor Cândido Holanda de Lima na presi­ dência uma vez que. Os primeiros estudos foram concluídos em 1952. presidente da CEMIG. era um empreendimento simpático aos mineiros enquanto que Furnas.

ele viu Mário. Mário respondeu que estava fazendo o controle de compactação pelo método Hilf.” Para a implantação de Três Marias foi repetida a estrutura que teve excelente desempenho em Itutinga: o projeto pela IECO que insta­ lou um escritório em Belo Horizonte e a construção pela Morrison Knudsen. Juscelino Kubitschek de Oliveira. retirando com um cilindro na praça de compactação da barragem. Embora o local de Três Marias fosse na época considerado remoto. tremia de medo. Como ele sabia que uma viatura da CEMIG passaria por ali naquele dia. Ao aparecer o veículo salvador levantando uma nuvem de poeira. Consta que o diretor técnico John Cotrim. numa visita do presidente Juscelino ao canteiro de obra. diretor da Cemig. Mario Penna Bhering. Juscelino não entendeu nada mas disse ao pé do ouvido: “A qualidade é importante mas não retarde a construção. Os principais equipamentos permanentes vieram da Voith e da Siemens da Alemanha e contribuíram decisivamente para 259 . O veículo diminuiu a marcha mas não parou. engenheiro da CVSF e Henrique Guatimosin. ao saber quem era o pretenso carona. C. o presidente da Cemig.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 9 – Visita presidencial às obras de Três Marias. o vice-presidente da Cemig. superintendente de construções da Cemig Três Marias era obra estratégica para o governo federal e se situava a meio do caminho entre a então capital federal e a futura capital. Cândido Hollanda de Lima. em voz baixa. Muitas horas depois Cotrim chegou na obra e mandou chamar o motorista do veículo que. explicou o método. o superintendente da CVSF. Galdino Mendes. Ao se apresentar ao Cotrim. vice-presidente da MorrisonKnudsen. Assis Scafa. novidade na época. Da esquerda para a direita: o embaixador dos EUA no Brasil. no caminho para a obra. Shoeller. Em outra opor­ tunidade. ficou aguardando. tido como nervoso e bravo. teve seu carro danificado em uma das longas estradas não pavimentadas. em construção.P. este elogiou o motorista que havia cumprido o que determinava a circular apesar da difícil situação daquele que pedia carona e que ele não conhecia. Cautelosamente ele se aproximou do técnico e. perguntou o que ele estava fazendo. os dirigentes da CEMIG lhe dispensavam toda atenção. Júlio Soares. ele começou a fazer sinais para que o veículo parasse. um técnico de solos que posteriormente trabalhou no IPT e na Enge-Rio. o presidente da República. e que havia expedido circular proibindo que veículos da empresa dessem carona.

entre outros. Sérgio Brito. Archimedes Viola. José Maria Baptista. a Ebasco de Nova Iorque efetuou um estudo dos recursos hidroenergéticos do esti­ rão de 33 km do rio Grande nas proximidades da cidade de Rifaina concluindo pela recomendação da implantação de uma hidroelétrica 260 . este por estar em oposição a Trancredo Neves. Marcos Vasconcelos e Gilson de Almeida Furtado e muitos outros. Paulo e Mario Mafra. Cássio Viotti. nomeadamente Jaguara e Volta Grande. e principalmente nas usinas que se seguiram. A partir de Três Marias a CEMIG foi gradativamente passando a contratar consultoria nacional. acionando a chave de funcionamento da usina. o governador José de Magalhães Pinto e o presidente da Cemig. Celso Melo de Azevedo. não sem dificuldades políticas pois a Bragantina apelou para congressistas ligados a Paulo Maluf e ao ministro Murilo Badaró da Indústria e Comércio. Paulo do Val. Mais tarde a CEMIG assumiu a área de concessão da Bragantina em território mineiro. José Augusto Pimen­ tel. O desvio do rio foi feito no término do governo Juscelino e a inauguração da usina pouco antes da revolução de 31 de março de 1964. além dos mais novos colaboradores do CBDB como Ricardo Aguiar Magalhães. Marcou também a evolução da engenha­ ria geotécnica em obras de terra. Octávio Mello Areas. Roberto Fonseca. Sorridentes na fotografia.Séculos XIX. Pouco após essa época. Wellington Sebastião Jacarandá. que esses fabricantes posteriormente instalassem fábricas no Brasil. importantes passos no rio Grande Sob encomenda da Companhia Geral de Minas. seguidas das hidroelétricas no rio Paranaíba. Construtoras nacionais passaram a ser con­ tratadas com uma única exceção: a construção da hidroelétrica de São Simão. XX e XXI Figura 10 . Guy Vilella.Inauguração de Três Marias. São Simão e Emborcação.A História das Barragens no Brasil . em 25 de julho de 1962. da Sul-Mineira de Eletricidade e da Companhia Força e Luz de Minas Gerais. Luiz Francisco Gualda Pereira. Três Marias marcou a transição da CEMIG na implantação de obras de porte modesto para grandes usinas e obras de grande vulto. Em Três Marias. já com a CEMIG estabelecida como grande empresa. meses depois Magalhães participaria ativamente da deposição de Goulart usinas geradoras como as da Companhia Mineira de Eletricidade. ocorreram incorporações de pequenas usinas. Logo após dava início às hidroelétricas no rio Grande. resultante de concorrência internacional em que o fator financiamento e contrapartidas pesaram na decisão da concorrência. começaram a aparecer as segunda e terceira gerações de engenhei­ ros e gestores nas quais despontaram nomes de projeção tais como. cooperativas de eletrificação rural e de empresas e Jaguara e Volta Grande. Vinício Noce de Magalhães Gomes. vendo-se o presidente João Goulart. esta vinda do grupo AMFORP. Licínio Marcelo Seabra.

Sua segunda hidroelétrica com capacidade acima de 600 MW propiciou à CEMIG importante desenvolvimento nos campos de barragens de enrocamento com núcleo de terra e de mecânica de rochas. No estirão do rio Grande entre Jaguara e as cachoeiras Dos Patos e Das Andorinhas (local da antiga e da nova hidroelétrica de Marim­ bondo) não havia nenhuma concentração de queda natural no rio Grande. No início de 1969 foi assinado com o consórcio TAMS/ENGEVIX o contrato para desenvolvimento do projeto 261 .50m de queda bruta como recomendada pelos estudos de inventário hidroenergéticos feitos pela Canambra em 1966. A construção foi iniciada pela Mendes Jr em 1966 e. governador de Minas Gerais que veio a ser confirmada pelo inventário da Canambra realizado a partir de 1963 e confirmada pelo Comitê Energético da Re­ gião Centro-Sul. A queda nesse trecho do rio Grande foi dividida em três locais com quedas brutas modestas. presidente da Cemig. A necessidade de deslocamento do eixo para montante por motivos geológicos em sua fundação demandou tempo para tomada de decisão e ocasionou importante retardo no cronograma inicial de construção.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 11 – Usina hidroelétrica de Jaguara Figura 12 – Inauguração da usina de Jaguara. em 1971. Coube inicialmente à CEMIG a hidroelétrica de Volta Grande com 27. e Israel Pinheiro. Em primeiro plano Mario Bhering. em 1964. a primeira unidade entrou em operação. O projeto foi contratado à Eletroprojetos/ Eletrowatt associada à Geotécnica.

XX e XXI Figura 13 – Usina hidroelétrica de Volta Grande 262 .A História das Barragens no Brasil .Séculos XIX.

em 14 de junho de 1972 A conquista do rio Paranaíba: as hidroelétricas de São Simão e Emborcação O local das quedas conhecidas como Canal de São Simão. O reservatório com área de 674 km² demandou a relocação das cidades de São Simão e Paranaiguara. se constituiu em excelente local para implantação econô­ mica de hidroelétrica de elevada capacidade instalada.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 14 . Tremores se seguiram nos últimos dias de fevereiro e no início de março. para a construção da usina hidroelétrica de São Simão. As consequências na cidade foram pequenas e os tremores não se repetiram desde então.5x109 m³). cujo enchimento foi iniciado em novembro de 1973 e de Porto Colômbia (1. na cidade de Washington. totalizando 380 MW. Esse local não passou desapercebido no inventário da Canambra e resul­ tou na hidroelétrica de São Simão com capacidade instalada de 1608 MW na primeira etapa (projetada capacidade de 2680 MW na segunda etapa).17x109 m³).Assinatura de contrato de financiamento com o Banco Mundial. Poucos problemas ocorreram na construção. além das vilas de Chaveslândia e Gouveilândia. com importante operação de reassentamento populacional. podendo ser citadas as erosões nos blocos de impacto da bacia de dissipação e a ocorrência de sismos induzidos pelos reservatórios de Volta Grande (2. de im­ pressionante riqueza cênica pelo fato do rio Paranaíba despencar em saltos verticais pelos dois lados de longa fenda longitudinal em seu leito. 263 . Os primeiros levantamentos de campo visando a implantação de uma hidroelétrica foram efetuados a partir de 1960 pela Comissão da hidroelétrica de Volta Grande e no início de 1970 começou a construção pela Mendes Jr. cujo enchimento foi iniciado em junho de 1973. No dia 24 de fevereiro de 1974 foi sentido na cidade de Conceição das Alagoas pouco ao norte dos dois reservatórios um sismo de intensidade VIII na escala Mercalli modificada. Pela primeira vez a CEMIG ultrapassou os 1000 MW instalados em uma única casa de força. As unidades geradoras entraram em operação entre julho de 1974 e agosto de 1975. Esse foi o maior sismo induzido por reservatórios no Brasil.

Foi necessário grande esforço para captar recursos externos para equi­ pamentos e para a obra civil.Séculos XIX. a quarta é do Banco Real. construtora italiana. A concorrência foi vencida pela Impregilo. Um dos mais ferrenhos argüidores foi o deputado Sylo Costa disse que a CR Almeida não tinha referências bancárias. Interessante realçar que dias depois da abertura das propostas. teriam sido dadas por um “banquinho vagabundo”. A pressão sobre a diretoria da CEMIG foi grande. O referido deputado insistiu várias vezes e Camilo Penna desconversava até que o depu­ tado repetiu a afirmação de que as referências.”. em consórcio com a CR Almeida. assinam o contrato com a Impregilo para a construção das obras civis da usina hidroelétrica de São Simão. Em 1970 foi assinado o contrato com o consórcio projetista composto pela IECO e sua filial brasileira. Em depoimento ao Congresso Nacional o presidente da CEMIG foi argüido por horas. o presidente do Banco Central. Por mais de duas vezes o Camilo Penna desconversou. 264 . Em 1969 a CEMIG desenvolveu estudos visando a obtenção da concessão. ao valorizar o Cruzado aumentou a diferença a favor da Impregilo/CR Almeida. em 14 de junho de 1973 Interestadual da Bacia do Paraná-Uruguai CIBPU. XX e XXI Figura 15 .O governador Rondon Pacheco e o presidente da Cemig. a segunda é do Bradesco. Seu investimento era equivalente a todo capital da CEMIG. se realmente existiam. São Simão era um empreendimento gigantesco para a CEMIG. tendo a Mendes Júnior em segundo lugar com uma diferença de apenas cerca de 2%. Estes vieram de financiamento do Banco Mundial que exigiu uma concorrência internacional. Nessa hora Camilo Penna solicita a Licínio Marcelo Seabra que mostre as garantias. Camilo Penna por estar escondendo documentos que são solicitados”.. Isso gerou muita reclamação das empreiteiras nacionais. Camilo Penna. mas o deputado irado pros­ seguia pedindo as referências e afirmou “denuncio o Sr. O Banco Mundial foi inflexível e a CEMIG teve que reconhecer a Impregilo/CR Almeida como vencedora. apresentando toda documentação: “a primeira referência é do Banco do Brasil.. Paulo Lyra..A História das Barragens no Brasil . Camilo Penna disse que a CEMIG sempre pedia em suas concor­ rências referências bancárias dos concorrentes. a terceira é do Banco Nacional. Licínio começou.

Retorno às hidroelétricas de porte médio Após São Simão e Emborcação a CEMIG passou a implantar hidroelétricas de porte médio em território mineiro. também foi da UFRJ para a Eletronorte levando consigo o geólogo Homero Teixeira. Cachoeira Dourada e Itumbiara. Cadman que havia trabalhado na CEMIG quando da realização do inventário da Canambra. o que penalizou a CEMIG como empresa de elevada eficiência. tendo que transferir recursos através da Reserva Global de Garantia. desde o governo Geisel. Entretanto. Outro erro dessa época foi. Figura 16 .” O País atravessava a segunda metade dos anos setenta com dificuldades econômicas geradas a partir do primeiro choque do petróleo (1973). O aproveitamento de Igarapava havia sido identificado pela COBAST em 1960 e reavaliado pela Canambra em 1964/1965. João Camilo Penna afirmou que “Da luta por Estreito a CEMIG ganhou Jaguara e depois ganhou Volta Grande. por exemplo. O rio Grande. presidente da Cemig na época da usina hidroelétrica São Simão Dentro dessas perspectivas sombrias para o setor elétrico. Érico Bitencourt entre outros. contratou a Construtora Andrade Gutierrez que construiu a usina de Emborcação entre 1977 e 1982. Pimentel. Em junho de 1978 a primeira unidade entrou em operação comercial após cinco anos de construção. em seu trecho inferior dividia os estados de Minas Gerais e São Paulo. foi ao longo do início da obra de São Simão que a CEMIG. com a obra sendo iniciada dois meses depois. O governo Figueiredo passou a se interessar intensamente por obtenção de empréstimos externos o que endividou as estatais federais. Naquela época a disputa por concessões era intensa entre as prin­ cipais empresas do setor elétrico que se concentravam na Região Sudeste. Igarapava 265 . Desde 1976 as tarifas passaram a ser manipuladas pelo governo federal longe do princípio de serviço pelo custo. Inicialmente relegado a um segundo plano por causa de sua baixa queda e potência inferior a de outros aproveitamentos. que havia sofrido uma sangria de recursos humanos quando da formação de Furnas. John D. a CEMIG que havia contratado a TAMS em 1976 para projetar a hidroelétrica de Emborcação a partir dos estudos de inventário da Canambra no rio Paranaíba a montante de São Simão. E tanto lutamos por Marimbondo que acabamos ganhando São Simão. Nessa ocasião foram da CEMIG para a Eletronorte os engenheiros Dário Gomes.João Camilo Penna. A hi­ droelétrica de Emborcação se caracteriza pela alta barragem de enrocamento com núcleo de terra. estando também na área de Furnas. onde havia empresas importantes na geração de energia elétrica. desvio e adução subterrânea e capacidade de 1192 MW. João Eduardo de Moura Guido.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Em junho de 1973 o consórcio construtor composto pela Impregilo e a CR Almeida foi contratado para a execução das obras civis. o de ligar a rentabilidade das empresas de energia elétrica ao esquema de tarifa única. voltou a perder quadros técnicos com a instituição da Eletronorte. São Simão conferiu à CEMIG nova importante ampliação em sua escala de obras civis e principalmente em equipamentos permanentes.

266 . entrou em operação no final de 1988 e passou a ser referência para outros projetos posteriores de usinas de baixa queda. a usina de Miranda no rio Araguari. afluente do rio Paranaíba. Morro Velho e Cia Mineira de Metais). CSN. Em 1985. tendo conseguido viabilizar o até então “patinho feio” do rio Grande. sob a coordenação de José Turco Neto e a liderança técnica de Joaquim Pimenta de Ávila.Séculos XIX. com quatro unidades bulbo de 40 MW cada sob a queda bruta de 17m. Durante o ano de 1998 as três unidades Francis de 132. A usina. por carência de recursos. XX e XXI Figura 17 – Usina hidroelétrica de Emborcação foi o último aproveitamento a ser desenvolvido no baixo rio Grande. A partir de 1986 a IESA foi contratada para o desenvolvimento do projeto e em 1995 a Queiroz Galvão iniciou a construção.A História das Barragens no Brasil . a construção só foi iniciada em 1987 pela CNO após a CEMIG se associar outros inves­ tidores (Vale. No final de 1987 a IESA foi contratada para o desenvolvi­ mento do projeto mas.5 MW cada entraram em operação. Também identificada pela Canambra. a Enge-Rio desen­ volveu o estudo de viabilidade com aplicação de unidades bulbo. teve o aprofundamen ­ to técnico inicial em 1985 pelo consórcio Leme-EPC.

frutificou também em Funil do rio Grande. a Cemig e a Vale implantaram a hidroelétrica de Aimorés denominada Elie­ zer Batista em homenagem ao engenheiro que fez carreira na Vale atingindo a sua presidência e exercendo cargos públicos de relevância política no cenário federal. Prosseguindo com a associação bem sucedida com a Vale. túnel de desvio e estruturas de concreto situadas na margem direita. A capacidade instalada da usina é 180 MW. A primeira das três unidades geradoras Kaplan entrou em operação em fevereiro de 2006. Vale e CEMIG se associaram para a implantação da hidroelétrica de Funil situada no rio Grande. como construtor foi contratada a Servix/Mendes Jr. os estudos foram retomados. Em 1971 a CEMIG encaminhou ao DNAEE relatório de pré-via­ bilidade.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens O exemplo das hidroelétricas anteriores. O baixo rio Doce envolvendo Figura 18 – Usina hidroelétrica de Igarapava 267 . em 1991. Após 20 anos. Já nos anos 2000 foi formado o consórcio construtor composto que teve como projetista a SPEC que alterou o projeto adotando uma barragem de terra com­ pactada. o local foi adotado pelos estudos da Canambra nos anos sessenta. Esses estudos foram complementados em 1996 indicando uma barragem em concreto compactado com rolo. Após reconheci­ mento preliminar executado pela IECO em 1955. no que se refere à asso­ ciação com outros investidores.

Guy Maria Villela Paschoal. ex-presidente da Cemig Figura 20 – Usina hidroelétrica de Miranda Figura 21 – Usina hidroelétrica de Funil. XX e XXI Figura 19 .Séculos XIX.A História das Barragens no Brasil . no rio Grande Figura 22 – Usina hidroelétrica de Irapé 268 .

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Hidroelétrica Presidente Juscelino Kubitschek.Inauguração da Usina de Irapé. com a presença de ex-presidentes e do atual presidente da Cemig. a filha de Juscelino Kubitschek. Da esquerda para a direita: Celso Mello de Azevedo. no momento simbólico de acionamento das unidades geradoras. Aparecem na fotografia o presidente da Cemig. Maristela Kubitschek Lopes e o presidente do conselho de administração da Cemig.A História das Barragens no Brasil .Séculos XIX. Djalma Bastos de Morais.Solenidade de entrega da “Medalha Lucas Lopes” à família de Licínio Seabra. realizada na Sociedade Mineira dos Engenheiros – SME. Francisco Afonso Noronha e Guy Maria Villela Paschoal 270 . no dia 8 de junho de 2006. João Camilo Penna. o governador Aécio Neves. Mario Penna Bhering. Djalma Bastos de Moraes. no dia 22 de fevereiro de 2001. XX e XXI Figura 23 . Wilson Bruner Figura 24 .

A implantação dessa usina fez jus ao prêmio Puente de Alcántara que a cada dois anos é entregue a obras que congreguem grande importância cultural. Todos esses estudos e projetos revelam que a concepção da hidroelétrica sofreu grandes alterações ao longo do tempo em função das interferências e dos impactos sócio-ambientais com a cidade de Aimorés e com a fer­ rovia da Vale. Essa derivação per­ mite o aproveitamento de uma queda bruta de 26. funcional e social. estética. tecnológica. a hidroelétrica de Irapé representou um investimento de cerca de R$ 1 bilhão dos quais R$ 250 milhões foram destinados a programas sócio-ambientais. a CEMIG ultra­ passou as fronteiras do Estado de Minas Gerais com importantes participações em grandes empreendimentos como sua participação de 10% no aproveitamento hidroelétrico de Santo Antônio no rio Madeira. os da Themag/Montreal no mesmo período para a Portobrás. os da Canambra a partir de 1964. implicando em derivação das descargas por vales laterais situados na margem esquerda do rio. os da Monasa para a CEMIG e Vale em 1992 e finalmente os da Promon SPEC em 1997 para a CEMIG que resultaram no projeto executivo da SPEC. Implantada em uma das regiões mais carentes do Estado de Minas Gerais. tradicional e importante empresa do setor elétrico no Estado do Rio de Janeiro. . Ao final desse meio século de intensas atividades.9m resultando em três unidades geradoras Kaplan com 110 MW cada. tendo vindo ter grande participação na Light. A barragem de enrocamento com nú­ cleo de terra com 208m de altura é a mais alta do País e a segunda mais alta da América Latina. A constru­ ção foi feita pela Queiroz Galvão e a primeira unidade entrou em operação em fevereiro de 2006. As 638 famílias que ocupavam a área da hidroelétrica foram reassentadas em proprie­ dades que ocupam sessenta mil hectares. área que supera em quatro vezes a área ocupada pelo reservatório.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens o local de Aimorés foi alvo de diversos estudos sendo os principais os da Servix em 1963/1964. Em 2002 a CEMIG iniciou a construção da usina de Irapé no vale do Jequitinhonha com projeto Leme/ Intertechne e construção Andrade Gutierrez/CNO. os da CEMIG entre 1975 e 1980. os da IESA para a Eletrobras entre 1985 e 1989.

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Canastra. Ivaí. foram encampadas pelo valor histórico menos a depreciação. era inaugurada a primeira unidade geradora de energia elétrica da Companhia. estando.520 kW) Usina hidroelétrica de Itauba. Santa Rosa e Guari­ ta.CEEE Lúcia Wilhelm Véras de Miranda A história da Companhia Estadual de Energia Elétrica do Rio Gran­ de do Sul se apresenta em cinco principais períodos. Saltinho. que acompanhou a história da CEEE até a sua gestão como diretor de obras no período de 1965 a 1970.Barragem Capingui no rio do mesmo nome (2. Iniciava uma vida profissional talentosa o engenheiro Pedro Holtermann Netto. condutos forçados.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Companhia Estadual de Energia Elétrica do Rio Grande do Sul . Picada 48. bem como inte­ grar esforços para a eletrificação dos municípios riograndenses através do Plano de Eletrificação do Estado. anteriores à formação da CEEE. Toca. vinculada à hidroeletricidade. pertencen­ tes aos municípios e empresas privadas. totalmente projetada e construída pela Companhia. tomada d’água. Guaporé. projetista nesse período. seguida pelas hidroelétricas de Ernestina. Bugres. Pirapó. Em 1948. em plano geral elaborado para todo o estado. desde o seu início. Capingui. a termoelétrica de São Jerônimo e a usina Diesel de Porto Alegre. Figura 1 . o aproveitamento dos potenciais hidráuli­ cos e carboníferos para a produção de energia. acompanhado dos engenheiros Primeiro período: A CEEE como Comissão Estadual de Energia Elétrica Criada em 1º de fevereiro de 1943 através do decreto lei n. como Inglês. sendo assumidos seus passivos e encargos trabalhistas. Touros. vinculada à Secretaria de Estado dos Negócios e Obras Públicas com a finalidade de prever e sistematizar. As hidroelétricas construídas no estado. lançado em 1945. Andorinhas e Herval. a usina do Passo do Inferno. construídas pelo DNOS ou empresas privadas. Forquilha. Vertedouro. casa de força e subestação 273 .º 328. elas foram basicamente repassadas para a CEEE. Como se tratava de unidades antigas. com a participação do DNOS. Seriam seguidas por Ijuizinho.

um estudo sobre os contratos de concessão Figura 3 . e logo formado. continuou atuando como projetista de hidroelétricas. No entanto. Participou ativamente de todas as obras relacionadas à hidroeletricidade da CEEE.   Jorge Ernesto Dreher. A disponibilidade de um empréstimo do Banco Mundial arquite­ tada por Assis Chateaubriant. a CEEE foi conver­ tida em autarquia. quando foi diretor de obras. É neste período que começam a se materializar as intenções da comunidade gaúcha de agregar à CEEE esses serviços.Séculos XIX. da energia necessária para o atendimento do seu mercado.especialmente entre os anos de 1965 e 1970. em 1948. como engenheiro civil. apresen­ tara ao Coronel Osvaldo Cordeiro de Farias. Mario Lanes Cunha.Noé de Melo Freitas. em valores da época de 30 milhões de dólares não foi viabilizado. A foto foi tirada em 23 de julho 2011 em sua residência. Segundo período: A CEEE como autarquia Em 20 de fevereiro de 1952. Heinrich Kotzien e Silvio Freitas. pela Lei n.A História das Barragens no Brasil .º 1744. pois já no ano de 1950 a CEEE supria a Companhia de Energia Elétrica Rio Grandense – CEERG. primeiro presidente da CEEE quando assinava o contrato da usina hidroelétrica Jacuí 274 . um empréstimo con­ cretizado por parte do BNDE permitiu o desenvolvimento de projetos diferenciados. José Loureiro da Silva. que era basicamente Porto Alegre. Dietrisch Kuhlmann. tendo cada vez mais importância devido ao seu crescimento. Após essa data. de capital americano. Interventor Federal no governo do estado. atuando inclusive em Tucuruí. XX e XXI Figura 2 – Engenheiro Pedro Holtermann Netto iniciou sua atividade profissional como estagiário da CEEE. Já em 1939 o então Prefeito de Porto Alegre.

Em 26 de dezembro de 1996 a lei estadual n. passando a denominar-se Companhia Estadual de Energia Elétrica – CEEE.três sociedades anônimas de distribuição de energia elétrica. assim discriminadas: 1 . Com o objetivo de melhorar a infra-estrutura para o desenvolvimento na­ cional. sob controle acionário do Estado do Rio Grande do Sul. Somado a isso.º 10. 4 . os bens da CEERG. Noé de Mello Freitas. 3 . podendo criar sociedades coligadas. A Centro-Oeste foi vendida à AES Guaíba Empreendimentos e a Norte-Nordeste foi adquirida pelo consórcio formado pela VBC (Votorantim. a Companhia Centro-Oeste de Distribuição de Energia Elétrica e a Companhia Norte-Nordeste de Distribuição de Energia Elétrica. incorporação. Um ano após a transformação da CEEE em sociedade de econo­ mia mista. construir e explorar sistemas de produção. através da lei estadual n. transformação. sendo que em 11 de maio de 1959. acontece a Revolução de 1964. Foram criados o Ministério das Minas e Energia e a Eletrobras.uma sociedade anônima de transmissão de energia elétrica. em 1965 o governo federal passou a estatizar os serviços de energia elétrica.  destinada a projetar. começaram a ser privatizados. através de cisão.466 assinado pelo então governador Leonel Brizola. e Maia Filho. extinção. pois já no ano de 1945 se pronunciava a respeito da encampação.09.º 10. que passou a ser considerado bem pú­ blico e promotor do desenvolvimento nacional. Foi então discutida a encampação dos serviços de energia elétrica prestados pela CEERG. Em 1961 o então governador Leonel de Moura Brizola foi autoriza­ do a criar uma sociedade por ações para os serviços de eletricidade. Na década de setenta as concessionárias do setor de energia elétrica passaram a ter capital nacional. No ano de 1957 inicia-se o processo de encampação. fusão.duas sociedades anônimas de geração de energia elétrica. 2 .136 de 13. transmissão e distribuição de energia elétrica no estado. a qual foi efetivamente criada  em 19 de dezembro de 1963. Terceiro período: a CEEE como sociedade de economia mista Na década de 60 ocorreram profundas mudanças no setor elé­ trico em âmbito nacional. O modelo adotado desenvolveu-se sob a égide das empresas multinacionais e do setor produtivo estatal. ção de um novo pacto político com a participação preponderante dos militares.  O engenheiro-chefe da CEEE.1961. a Companhia de Geração Hídri­ ca de Energia Elétrica e a Companhia de Geração Térmica de Energia Elétrica.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens dos serviços públicos de energia elétrica com a CEERG. como o setor elétrico. havia a discutível alteração de valores de tarifas nos contratos. Bugres e Canastra. em docu­ mento enviado ao secretário de obras públicas do estado. sacramentava-se a en­ campação de contratos de concessão e declarava-se de utilidade pública. através do decreto n. para fins de desapropriação. determinando a forma­ 275 . com túnel de importante valor técnico para a época.º 4.900 autorizando o poder executivo a reestruturar societariamente e patrimonialmen­ te a CEEE. No dia 21 de outubro de 1997 ocorreu o leilão na sede da FIERGS. controladas ou subsidiárias. a Companhia Transmissora de Energia Elétrica. no qual a Companhia Centro-Oeste de Distribuição de Energia Elétrica e a Companhia Norte-Nordeste de Distribuição de Energia Elétrica foram adquiridas por capital privado. desempenhou um papel fundamental neste processo. Quarto período: a privatização Nos anos 90 setores antes considerados estratégicos para a economia. Walter Jobim. a Companhia Sul-Sudeste de Distribuição de Energia Elétrica.uma sociedade controladora (holding) das sociedades de energia elétrica. A CEEE viabilizava a construção de obras relevantes como as hidroelé­ tricas de Ernestina. redução ou aumento de capital ou a combinação destes instrumentos. com tubulação adutora de 7 km. que é a Companhia Estadual de Energia Elétrica.

Uma vez que a CEEE era uma empresa verticalizada.2006. geração. com 99.Séculos XIX.CEEE .º 10. de 15 de março de 2004. exigida pela legislação federal. ou seja. XX e XXI Bradesco e Camargo Correa). em 1997. dois terços da área de Distribuição deixaram de pertencer à CEEE.para Companhia Estadual de Geração e Transmissão de Energia Elétrica . fa­ zendo com que o estado alcançasse um dos mais altos índices de eletrificação rural do país. no mínimo.CEEE.6. a CEEE-Par foi declarada formalmente constituída. O modelo societário adotado compreendeu a criação de uma empresa holding com duas subsidiárias. a CEEE procedeu à contratação de consultoria para indicar alternativas para a desverticalização da empresa.A História das Barragens no Brasil .  Em 26 de outubro de 2006. a qual será resultante da cisão parcial da atual Companhia Estadual de Energia Elétrica . rogação de prazo à ANEEL. foram eleitos os conselheiros de administração e fiscalização da companhia. b) alteração da denominação da atual Companhia Estadual de Energia Elétrica . mais uma empresa. criando. Em seus dispositivos a Lei proíbe que uma empresa de distribuição de energia exerça atividades de geração. Quinto período: a desverticalização Em 15 de março de 2004 foram aprovadas pelo Congresso Nacional novas regras para o setor elétrico brasileiro. c) constituição de uma sociedade por ações. possuia na mesma empre­ sa atividades de distribuição. ela teve que desverticalizar-se. A ANEEL. uma vez que a data-limite ini­ cial para a adequação da empresa ao novo modelo expirou em 15.848.CEEE-Par.º 12.09. fato que levou a CEEE a solicitar pror­ 276 . Desta forma. transmissão e venda de energia a consumi­ dores livres. para separar a distribuidora de energia das demais. Para viabilizar a adequação societária da companhia à legis­ lação federal e implantar o modelo proposto havia. atendendo aos argumentos apresentados pela CEEE concedeu a prorrogação solicitada até 30. entretan­ to. com a finalidade de segregar as ativi­ dades de distribuição de energia elétrica das demais atividades por ela exercidas.2005. a necessidade de realização de plebiscito ou de alterações na Constituição Estadual e de promulgação de Lei Esta­ dual específica. permanecendo o Governo do Estado do Rio Grande do Sul com o controle acionário das empresas oriundas do processo de reestruturação. de distribuição de energia elétrica. a qual será controladora das duas sociedades referidas nos itens seguintes. a segregação da atividade de distribuição. A CEEE havia chegado. data limite para a cisão. autorizando o Poder Executivo a promover a re­ estruturação societária e patrimonial da Companhia Estadual de Energia Elétrica .2% dos lares urbanos e 84% das economias rurais abastecidos com energia elétrica. dentre outras restrições. controlada. Em 13 de setembro de 2006. através de uma assembléia geral de constituição. deno­ minada Companhia Estadual de Energia Elétrica Participações . denominada Companhia Estadual de Distribuição de Energia Elétrica . a Assembléia Legislativa aprovou a Lei n. Nesta ocasião.CEEE. para ajustá-la ao disposto na Lei Federal n. CEEE-GT e CEEE-D. mediante altera­ ção de sua denominação e constituição de duas outras sociedades. a Diretoria da CEEE aprovou  os organogramas iniciais para a CEEE-Par. Em 20 de outubro de 2006. transmissão e venda de energia a consumidores livres. em espe­ cial.593. para adequar-se à lei. A Centro-Oeste alterou sua razão social para AES Sul Distribuidora Gaúcha de Energia S/A e a Norte-Nordeste passou à denomina­ ção de Rio Grande Energia S/A. anteriormente citada. No final de 2004.CEEE-D -.CEEE-GT. assim discriminadas: a) constituição de uma sociedade por ações holding. Previ (fundo de pensão dos fun­ cionários do Banco do Brasil) e Community Energy Alternatives.

através de uma assembléia geral extraordiná­ ria de acionistas. criando o maior lago artificial do estado através dos 3. ou estavam construídas. O prazo de vigência deste ter­ mo é de dois anos a partir da data de sua assinatura. colonizada por ale­ mães e italianos. A etapa seguinte do Plano de Eletrificação trouxe as hidroelétri­ cas do Jacuí. as hidroe­ létricas dos Bugres. Pirapó. Na Zona Central encontravam-se as indústrias transformativas. Canastra. Todos os projetos hidroelétricos foram feitos. engenhos de farinha. 277 . colaborando com o seu conhecimento em barragens de terra. foi aprovada a mudança de denominação social da CEEE para Companhia Estadual de Geração e Transmissão de Energia Elétrica – CEEE-GT. Preocupados com a falta de energia. houve a participação consultiva do engenheiro Casemiro Munarski. com o objetivo de ressarcir e compartilhar o exercício de ativi­ dades comuns e de apoio necessárias à consecução dos seus respectivos objetos sociais. Ivaí. Forquilha e o segundo grupo de Capingui. Em 1° de dezembro de 2006 foi assinado um termo de com­ promisso e cooperação entre a CEEE-GT e a CEEE-D.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Em 27 de novembro. As hidroelétricas no plano de eletrificação do estado Em 1824 chegaram ao Rio Grande do Sul os primeiros colonos alemães e da mesma forma os italianos em 1874. Na Colônia Nova a noroeste do estado se desenvolviam a opulen­ ta riqueza madeireira e o desenvolvimento das serrarias. enquanto já estavam sendo construídas. Assim vieram as hidroelétricas de Passo do Inferno. Forquilha e Ijuizinho. As obras tiveram início em 1972 e a operação comercial ocorreu em 1978. poden­ do ser prorrogado por até igual período ou rescindido de comum acordo entre as empresas. não somente sob o ponto de vista técnico. Capingui e Santa Rosa. Guarita. ficando estabele­ cido que a companhia deveria iniciar as atividades previstas em seu objeto social a partir do dia 1. ocorreu a constituição formal da Companhia de Distribuição de Energia Elétrica – CEEE-D. Na década de 60 foi dado o início da operação da usina hidroe­ létrica do Jacuí e gerado o projeto da usina de Passo Real. pois ali se localizava a bacia carbonífera.º de dezembro de 2006. Na fronteira. O estudo das diversas centrais foi baseado em investigações cui­ dadosas. a atividade relacionada com a suinocultura e laticínio demandava energia. Com o advento da república entrou o Rio Grande do Sul na fase da industrialização. Na transformação de povo pastoril para povo agrícola e industrial. como princi­ palmente de potencialidade econômica das zonas de influência de cada usina. em etapa inicial de urgência. Nesse período. que tolhia o desenvolvimento econômico do Rio Grande do Sul. tendo como base dados hidrológicos desde o ano de 1917. Ernestina. Sendo então anunciado em 1945 o Plano de Eletrificação. Na mesma assembléia. Touros. assim como de inúmeros pequenos estabelecimentos fabris completavam a feliz diversidade de atividades econômicas que asseguravam o progresso da região. assim como a maior produção agrícola. a industrialização da carne era feita nos grandes frigo­ ríficos.850 m de barramento. também criador da cadeira de mecânica dos solos na Universidade do Rio Grande do Sul. Na Colônia Antiga do norte do estado. o braço do colono foi sua força propulsora. do endereço da sede social e objeto social. com a conseqüente alteração do estatuto social. conjugando-os a usinas termoelétricas a vapor. Passo Real foi o segundo aproveitamento do rio Jacuí. Os estudos de viabilidade técnico-econômica da usina hidroelétrica de Itaúba foram iniciados em 1969. Saltinho. que se constituiriam em centrais destinadas a abastecer as zonas de maior densidade demográfica. resolveu o governo do estado estudar o aproveitamento racional de seus potenciais hidráulicos.

Séculos XIX. XX e XXI Figura 4 .Barragem Dona Francisca em concreto compactado com rolo. no rio Jacui 278 .Usina hidroelétrica de Itaúba Figura 5 .A História das Barragens no Brasil .

No seu comprimento. As cortinas possuem protensão nas A barragem de Ernestina e sua concepção original. 145. em 1995. Para ga­ rantir a estabilidade externa essa estrutura é atirantada por uma linha de cabos verticais ancorados na rocha 4 metros abaixo do embutimento em concreto. – DFESA. a quem coube realizar a correspondente con­ corrência. a barragem é configurada por cortinas protendidas com cabos curvos com painéis de 15 m de largura.Vertedouro da barragem de Ernestina antes das obras de reforço 279 . A barragem foi construída em concreto compacta­ do com rolo. a execução do projeto ficou a cargo deste segundo.50 m de largura também protendidos que são independentes. tem-se 44 m na ombreira direita. alternativa escolhida em substituição ao projeto original do tipo enrocamento com núcleo de argila.25 m de trecho retilíneo sem vertedores e 46 m de ombreira esquerda. ao norte do Estado do Rio Grande do Sul.Grandense. A barragem foi concebida com extensão de 400 m e altura de 14. um projeto único no mundo A barragem de Ernestina sobre o Rio Jacuí está localizada no atual município de Tio Hugo. A barragem de Ernestina foi originalmente concebida como bar­ ragem de gravidade.75 m de Figura 6 . Segundo o memorial descritivo da obra. extensão compreendendo trecho retilíneo na região das comportas e tomada d’água. mediados por pilares com 1. com a permissão de parceria com in­ vestidores privados por meio de lei.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A história do empreendimento de Dona Francisca iniciou em 1980. 99 m em curva. O consórcio entre a filial brasileira das Estacas Franki e empresa Campenon Bernard francesa foi o vencedor da licitação. quando a CEEE obteve a concessão para implantar a usina. Através de convênio firmado entre CEEE e o extinto DNOS. a construção da usina se viabilizou.32 m. O grupo investidor deu origem à Dona Francisca Energética S.Vertedouro da barragem de Ernestina antes das obras de reforço Figura 7 .A. Na variante apresentada pelo consórcio contratado. 65. e a possibilidade de formação de consórcios. no Planalto Rio . o sistema estrutural foi concebido de forma a ter-se toda a estrutura em concreto protendido. com eixo curvo. No final da década de 1990.

qualidade do concreto e dos agregados. Seguiu-se a apresentação do sistema de injeção dos cabos de proten­ são. detalhando o estado da prática na épo­ ca da construção. Ao que tudo indica.A História das Barragens no Brasil . a corrosão dos cabos de protensão e suas consequ­ ências. na década de 90. a própria equipe de Eugéne Freyssinet foi responsável pela elaboração do projeto.00 m por medida de segurança. a fim de elucidá-las. O trabalho apresentou as estruturas pro­ tendidas em barragens. O reservatório passou a ser operado com rebaixamento de 1. mesmo estimando a relaxação dos cabos de protensão e as acomodações por fluência e retração do concreto após 40 anos de construção. Foi sugerido que fosse realizado monitoramento das vibrações para verificar o risco de amplificação dinâmica. a CEEE contratou a execução de um completo lau­ do técnico de avaliação da estrutura da barragem de Ernes­ tina. Em 1963 foram instalados clinômetros junto aos pilares para co­ nhecimento dos deslocamentos e. alguns estudos foram elaborados. O laudo consistiu na recuperação dos documentos de projeto originais. Durante o seu período de operação. com a posição dos cabos de protensão 280 . iniciado em 1954. várias dúvi­ das quanto à estabilidade estrutural da barragem de Ernestina foram levantadas e. o sistema de protensão empregado. realizado pela empresa gaucha Azambuja Engenharia e Geotécnica. os fios de aço empregados em cabos. foi realizada uma reavaliação do projeto estrutural original concluindo que nenhuma tensão de tração deveria ser esperada para as cortinas ou pilares. Em 2008. a sistemática do atiran ­ tamento dos cabos verticais na rocha adotados assim como os cabos transversais e as cabeças de ancoragem.Séculos XIX. Figura 8 – Planta da barragem e seção típica do vertedouro Figura 9 – Seções transversais típicas dos pilares do vertedouro da barragem de Ernestina. geologia e geotecnia da região de Ernestina. coordenado pelo engenheiro Marco Aurélio Azambuja. à semelhança de uma laje armada em duas direções. já que eram consultores associados à Campenon Bernard. XX e XXI duas direções: na direção vertical para resistir aos principais esfor­ ços e na direção transversal para garantir comportamento uniforme sem fissuração.

retirando-se as comportas e a passarela. Assim. exigindo intervenções de manutenção. os estudos hidrológicos e hidráulicos sugeriram capacidade insuficiente do vertedouro. A solução para o reforço do vertedouro foi a transformação do mesmo em um maciço de concreto gra­ vidade com perfil Creager. foi desenvolvido projeto de reforço. prova de carga dinâmica e verificação estrutural. Ao final do estudo foram apresentadas as informações que con­ cluiam estar Ernestina no final de sua vida útil. podendo ser esse fenômeno progressivo para os painéis e pilares. a estrutura poderia entrar em ressonância com o galgamento dos vertedores. A solução adotada para reforçar a barragem fora da região do vertedouro foi a construção Figura 11 – Fundação da barragem 281 . com a posição dos cabos de protensão de um maciço de enrocamento reforçado com grelhas metálicas. Foi realizado um diagnóstico da qualidade dos materiais. restauração e reforço.Seções transversais típicas dos paineis do vertedouro da barragem de Ernestina. Com a estabilidade crítica para excitações dinâmicas. utilizando o paramento existente apenas como paramento de veda­ ção. sendo possível muitos desses cabos já tivessem se rompido ou viriam a fazê-lo brevemente. Os ensaios dinâmicos das cortinas mostravam perda grave de rigidez. Da mesma for ma. de soleira vertente. As condições de ve­ dação das cabeças de ancoragem e a presença de fluxo d’água nos bicos de injeção denunciavam que a corrosão nos cabos estaria avançada. à semelhança de uma barragem convencional de enrocamento com face de concreto. sendo previstas fraturas na face de montante.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 10 . A condição de ancoragem dos tirantes na rocha sugeria uma grande vulnerabilidade à corrosão.

XX e XXI Figura 12 – Seção transversal típica do vertedouro reabilitado Figura 13.Obras de reforço do vertedouro 282 .Séculos XIX.A História das Barragens no Brasil .

Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 14 . Figura 15 – Obras de reforço da barragem no trecho não submersível 283 . Com a reforma. a bar­ ragem em seu trecho não submer­ sível passará a ser uma barragem de enrocamento com face de mon­ tante verticalizada em concreto protendido. prolongando-se assim a vida útil da barragem. também concepção única no mundo. A barragem de Ernestina pode ser considerada como a única no mun­ do com essa concepção original executada.Seção transversal típica do trecho não submersível A obra de reforço estrutural en­ contra-se em fase de finalização (julho de 2011).

284 .

Souza Dias. Empresa Melhoramentos de Mogi Guaçu. Laudo Natel. advogado e são paulino! Souza Dias foi designado como o primeiro Diretor Técnico. fez chegar ao então governador. inicialmente foi deno­ minada CESP Centrais Elétricas de São Paulo S. vindo a exercer a terceira presidência entre 23 de março de 1979 a 27 de maio de 1982. no governo Laudo Natel. são paulino que era.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Companhia Energética de São Paulo – CESP Fabio De Gennaro Castro A CESP Centrais Elétricas de São Paulo foi criada em 5 de dezembro de 1966. pela unificação de todas as empre­ sas estatais de energia elétrica então existentes. Francisco Lima de Souza Dias Filho. de chapéu. que detinha o controle acionário de: Central Elétrica de Rio Claro (Sacerc) e de suas associadas. As onze empresas que formaram a CESP eram: Usinas Elétricas do Paranapanema (Uselpa). por meio de um amigo comum e também presidente do São Paulo Futebol Clube.A. com área de atuação mais abrangente. Companhia Hidroelétrica do Rio Pardo (Cherp). que controlava: Companhia Luz e Força de Tatuí e Empresa Luz e Força Elétrica de Tietê Companhia Melhoramentos de Paraibuna (Comepa). sendo seu primeiro presidente Henry Aidar. os seus sonhos de unificação das empresas de energia elétrica do estado. Souza Dias. em 1966. Bandeirante de Eletricidade (Belsa). Seu idealizador foi o Dr. assumiu seu vice. Deposto o governador Adhemar de Barros. com Garcez em visita às obras de Ilha Solteira Usina hidroelétrica de Ilha Solteira a maior do sistema CESP Empresa Luz e Força de Mogi Mirim Centrais Elétricas de Urubupungá (Celusa). Dai foi criada a CESP. Companhia Luz e Força de Jacutinga e Figura 1 – Souza Dias. Em 27 de outubro de 1977 a CESP passou a ser Companhia Energética de São Paulo. 285 .

com o objetivo de ser a grande distribuidora de energia no estado. propriedade da Central Elétrica de Rio Claro.A. interior do estado e pertencente à Com­ panhia Força e Luz São Valentim.A. que governou o estado de São Paulo de 1951 a 1955.Fantinatto. todas formadoras da CESP. Em 1931 foi fundada a Companhia Sanjoanense de Eletricida­ de. Em 1915 foi fundada a Companhia Luz e Força de Tatuí. encampada em 1953 pelo governo do paulista. que foi comprada em 1923 pela Companhia Prada de Eletricidade.Séculos XIX. José Gelazio da Rocha. em 1895. Darcy Andrade de Almeida e Reynaldo de Barros em Jupiá 286 . Em 1911 foi inaugurada a Usina Hidroelétrica São Valentim. Figura 3 . chefiado pelo engenheiro Octávio Sampaio Ferraz. e em 1923 a Empresa Melhoramentos de Mogi Guaçu.A História das Barragens no Brasil . pela sua visão técnica e também por ser formador e agregador de ca­ pacitações. na função de diretor geral. Arqueológico e Turístico do Estado de São Paulo. em Santa Rita do Passa Quatro. Souza Dias. assim como em 1919 também foi criada a Companhia Luz e Força de Jacutinga S. originando em 1962 a empresa estadual Bandeirante de Eletricidade S. Esta usina atualmente encontra-se totalmente res­ taurada e tombada pelo Patrimônio Histórico. e a Empresa Luz e Força de Mogi Mirim S. Figura 2 – Os engenheiros Souza Dias e Gelazio da Rocha em avião de Furnas Primórdios da geração hidroelétrica no estado de São Paulo Relevante também relembrar a situação anterior à criação. re­ motamente iniciando pela inauguração da Usina Hidroelétrica do Corumbatai. Justiça deve ser feita à figura pública do professor Lucas Nogueira Garcez. XX e XXI Em 1912 Eloy de Miranda Chaves e outros empresários paulis­ tas adquiriram o controle acionário da Central Elétrica Rio Claro e a reorganizaram como SACERC.A. incorporada à CESP em 1973. BELSA. Logo no início de seu mandato de governador criou o Departamento de Águas e Energia Elétrica DAEE. Foi também formadora da CESP.A. Em 1909 foram fundadas de forma independente a Empresa Luz e Força Elétrica de Tietê S.

Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens

As estaduais de economia mista foram:

Usinas Elétricas do Paranapanema S.A. USELPA
Nascera objetivando a eletrificação da Estrada de Ferro Sorocabana e tendo como meta a implantação da Usina Salto Grande no rio Para­ napanema, inaugurada em 28 de abril de 1958 e hoje merecidamente chamada Lucas Nogueira Garcez. Importante registrar a Comissão Mista Brasil Estados Unidos, instituída logo após o término da Segun­ da Guerra Mundial e sediada na então capital do País, Rio de Janeiro. Tal comissão canalizava recursos para auxiliar o desenvolvimento bra­ sileiro. Os dirigentes da Estrada de Ferro Sorocabana desenvolveram estudos para eletrificação da ferrovia e para tal conceberam que seria construída uma usina hidroelétrica no rio Paranapanema, Salto Grande. Foram pleitear recursos financeiros na referida Comissão Mista Brasil Estados Unidos. Junto com a negativa recebe­ ram a orientação que somente poderiam obter financiamento se fosse organizada uma empresa de economia mista espe­ cífica para tal finalidade. Daí foi criada a USELPA em 1953,
Figura 4 - Professor Lucas Nogueira Garcez

que obteve os recursos necessários e construiu Salto Grande. O principal executivo da USELPA era Dagoberto Salles Filho, o qual se apoiou na SERVIX, como projetista e construtora para as duas primeiras barragens e início da terceira. Posteriormente os planos feitos foram concretizados com a Usina de Jurumirim, hoje Armando A. Laydner,tendo a seguir iniciado a usina Chavantes, também no mesmo rio Paranapanema. Desnecessário mencionar que o objetivo de eletrificação da Estrada de Ferro Sorocabana deixou de ser prioritário.

O DAEE era organizado por Serviços de Vales. Quatro eram os vales abrangidos, a saber do Rio Pardo, chefiado pelo enge­ nheiro Souza Dias, o do rio Tietê, chefiado pelo engenheiro Catullo Branco, o do rio Paraiba, chefiado pelo engenheiro Antonio Graef Borba e o do rio Ribeira de Iguape, chefiado pelo en­ genheiro Dagmar Malet de Andrade. Foi o DAEE o embrião das mais importantes empresas de economia mista na área de energia elétrica do Estado de São Paulo, como será exposto neste texto. No governo Garcez também foi realizado o primeiro Plano de Eletrificação do Estado de São Paulo, que embora somente tenha sido formalizado no mandato sucessivo, em 1956, já fora posto em prática enquanto elaborado. Garcez também foi presidente da CESP por dois mandatos sucessivos, de 16/02/1967 a 20/03/1975, o que contribuiu fortemente para a continuidade da gestão. Onze foram as empresas agregadas para formar a CESP, cinco estaduais e seis empresas privadas, porém controladas pelas estaduais.

Companhia Hidroelétrica do Rio Pardo CHERP
Como já mencionado o Serviço do Vale do rio Pardo do DAEE era chefiado pelo engenheiro Souza Dias, o qual também participava da Comissão Mista Brasil Estados Unidos. Em 1952, o jovem engenheiro José Gelazio da Rocha foi convidado para integrar a equipe de Souza Dias e designado para estudar o

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A História das Barragens no Brasil - Séculos XIX, XX e XXI

aproveitamento de Limoeiro, hoje Armando de Salles Oliveira, dizendo que havia sido encarregado pelo Lucas Nogueira Garcez para construir as usinas do rio Pardo. Assim sendo acrescentou: “Você vai projetando e eu vou dando as orientações que você precisar.” Para realizar a missão foi constatado que não existia nem levantamento topográfico e menos ainda o perfil do rio em toda sua extensão. Gelazio contratou então o engenheiro Gustavo Pratti para tal escopo, ou seja, fazer o perfil do rio que daria assim origem ao plano de aproveitamento integrado de toda a bacia, com Graminha, duas barragens menores a jusante de Graminha, Euclides da Cunha e Limoeiro. Em 1954 o DAEE iniciou Euclides da Cunha, mesmo antes de ser criada a CHERP em 1955. Essa barragem teve o projeto de seu túnel de desvio feito pela TECHINT e executado pela NORENO do Brasil. Para construir o túnel de desvio de Graminha Gelazio fez um contato com Sebastião Camargo, com o objetivo de obter uma proposta, enquanto Dr. Souza Dias fez o mesmo com a Noreno. Ao ser procurado Sebastião perguntou ao interlocutor quem era seu chefe e por que o mesmo não estava presente, sugerindo que fosse marcada outra reunião com Souza Dias presente. Na segun­ da reunião Souza Dias acompanhou Gelazio e a Camargo Correa decidiu apresentar proposta. Venceu a concorrência por ter sido a única empresa proponente. O projeto da barragem de terra de Graminha foi feito pelo Professor Milton Vargas e o projeto das estruturas de concreto pelo engenheiro Henrique Herweg, ambos contratados com a chancela do IPT. Em 1955 era criada a CHERP, que embora somente tivesse rio Pardo em seu nome posteriormente também incorporou toda a responsabilidade do rio Tietê. A necessidade de sua criação foi decorrente de apresentar ao BNDES uma empresa de economia mista que tivesse projetos sólidos para obter seus recursos. Parale­ lamente às atividades do rio Pardo, o Serviço do Vale do rio Tietê, chefiado por Catullo Branco, realizou estudos à semelhança da­ queles do Tennessee Valley Authority TVA, que contemplassem o desenvolvimento integrado do vale, com barragens e usinas que gerassem energia e tivessem eclusas que viessem permitir

a navegação interior. Assim, em 1957, iniciavam-se as obras de Barra Bonita, com projeto da TECHINT. Em 1959 tiveram início as obras de Bariri, hoje Engenheiro Álvaro de Souza Lima, antigo diretor do DAEE e pai do professor Victor de Souza Lima. E em 1963 foram iniciadas as obras de Ibitinga. Os quadros da CHERP no setor Tietê contaram com ilustres engenheiros, tais como Geraldo Queiroz Siqueira, Jacob Leiner, Julio Petenucci e Reolando Silveira, além de Darcy Andrade de Almeida, que foi da área do rio Pardo.

Centrais Elétricas do Urubupungá S.A. CELUSA
Uma palavra inicial sobre a CIBPU Comissão Interestadual da Bacia Paraná Uruguai. Tal comissão, chefiada pelo Professor Paulo Mendes da Rocha, criada em 1952, tinha por objetivo o estudo e o desenvolvimento dos estados brasileiros que pertenciam às bacias dos rios Paraná e Uruguai. A CIBPU tinha recursos e contratara a empresa italiana Edison de Milão para desenvolver os estudos do aproveitamento do Salto de Urubupungá, no rio Paraná, junto à foz do rio Tietê. Em 1961 foi lançada a concorrência para as ensecadeiras da usina de Jupiá, no rio Paraná, concorrência essa vencida pela Camargo Correa. Lançada a concorrência para a obra principal, a vencedora Camargo Correa apresentou uma variante que fora estudada na França pela SOGREAH, pelo engenheiro Charles Blanchet. Tal alternativa apresentava vantagens sobre aquela estudada por Edison de Milão para a CIBPU. A variante foi aceita e exe­ cutada a usina de Jupiá que hoje é denominada Engenheiro Francisco Lima de Souza Dias. Eleito Carvalho Pinto como governador do estado, Plínio de Ar­ ruda Sampaio, de sua equipe, foi motivado por Gelazio para levar ao coordenador do Plano de Ação do Governo, Diogo Gaspar, a idéia de construir a usina hidroelétrica de Jupiá. Assim nasceu a CELUSA. Posteriormente, ainda no governo Adhemar de Bar­

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Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens

Figura 5 – Usina hidroelétrica de Jupiá

ros, foram iniciados os estudos e as obras de Ilha Solteira, com projeto THEMAG e obras da Camargo Correa. A THEMAG foi criada como um departamento técnico da CELUSA e também em caráter de exclusividade, o qual somente foi extinto por decisão da CESP, por ocasião do projeto do Metrô de São Paulo, quando a projetista ficou desobrigada de sua cláusula de exclusividade.

das cheias e contenção de várzeas, tendo construído com ma­ estria muitos quilômetros de “polders”. A COMEPA realizou ainda a usina de Jaguari e iniciou as de Paraitinga e Paraibuna, duas barragens formando um único reservatório com só uma casa de força ao pé de Paraibuna, com projeto Hidroservice e construção Camargo Correa.

Outras empresas de energia elétrica
Em 1962 foi criada a Bandeirante de Eletricidade S.A. BELSA. Em 1963 foi criada a Companhia Melhoramentos de Paraibuna COMEPA, por inspiração de Plinio de Queiroz. O antigo Serviço do Vale do Paraíba, que ocupava-se do rio Paraíba do Sul, preocupou-se prioritariamente com o problema

Estudos de inventário
Ainda na década de 60, foram desenvolvidos os estudos da Canambra, primeiros estudos de planejamento integrado, com critérios uniformes, que propiciaram condições técnicas de com­ paração e priorização de usinas em uma mesma bacia hidrográ­ fica. Na área de São Paulo foram muito importantes e também com papel de formação de técnicos.

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A História das Barragens no Brasil - Séculos XIX, XX e XXI

Figura 6 a – Barragem de Três Irmãos no rio Tietê com suas eclusas na margem direita

Figura 6 b – Barragem de Três Irmãos - entrada da eclusa inferior no lago intermediário

Consultores que atuaram nas hidroelétricas na área de São Paulo
Menção deve ser feita sobre os consultores independentes que atuaram na área de São Paulo, contribuindo para a garantia da qua­ lidade dos projetos e obras, assim como na formação de pessoas que com eles conviveram. Dentre eles podem ser citados Karl Terzaghi, Arthur Casagrande, Tom Leps , James Sherard, Victor de Mello, Don Deere, Milton Vargas, Roy Carlson, Manuel Rocha, Fernando de Oliveira Lemos, Charles Blanchet, Flavio H. Lyra, Ven Te Chow, Araken da Silveira, Evelina Bloem Souto, Vic­ tor Souza Lima e inúmeros outros que no dia a dia contribuíram para colocar a CESP na posição de destaque que ocupa.

senvolvimento do Canal Tietê-Paraná, como também pelas inúmeras eclusas construídas. Pode também ser afirmado que ela foi pioneira nos estudos ambientais. Chegou a ter vinte e cinco usinas, todas com alta expressão técnica e padrão de projetos, construção e operação.

Anos recentes
Em 1996 iniciou-se o processo de privatização do setor de energia do Estado de São Paulo. Em 1999 CESP passou por uma cisão parcial, sendo criada a Companhia de Transmissão de Energia Elétrica Paulista, a CTEEP e três empresas de geração. Hoje a CESP possui apenas seis usinas e sete barragens, pelo fato de Paraitinga não ter casa de força.

Navegação interior
A CESP detém o mérito de ter contribuído de forma ampla para o desenvolvimento da navegação interior no país, não só pelo de­

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Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens

Figura 7 – Usina hidroelétrica Porto Primavera (Sergio Motta)

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Usina Mauricio, primeira hidroelétrica da CFLCL

Usina hidroelétrica de Nova Maurício. Primeiro financiamento do BNDE para empresa privada, em 24 de agosto de 1954. Em operação desde março de 1956

Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens

Companhia Força e Luz Cataguazes Leopoldina – Energisa - Cem anos de luz na Zona da Mata
“A trajetória da CFLCL é exemplar para demonstração de que a livre iniciativa tem tanta vitalidade quanto a vida.” João Camilo Penna Flavio Miguez de Mello

Na virada do Século XIX para o Século XX o Brasil tinha apenas dez usinas geradoras totalizando 12.085 kW instalados. Nesse início de século na Zona da Mata Mineira, incentivados pelo agente executivo (equivalente ao atual cargo de prefeito) de Ca­ taguazes, Araújo Porto, destacavam-se o Senador José Monteiro Ribeiro Junqueira, o Dr. Norberto Custódio Ferreira e o comer­ ciante, político e banqueiro João Duarte Ferreira como homens que gerenciavam seus negócios com clarividência e se interes­ savam pelo desenvolvimento da tecnologia, principalmente pela incipiente aplicação da energia elétrica. Em 26 de fevereiro de 1905 os três fundaram a Companhia Força e Luz Cataguazes Le­ opoldina com capital de 400 contos de réis em quatro mil ações adquiridas por 263 investidores, com o objetivo de “exploração da eletricidade para fins industriais em suas diversas aplicações e comércio de materiais elétricos, dentro ou fora da república, principalmente nos municípios de Cataguazes e Leopoldina.” Pouco após um ano da fundação da empresa, dois dos três fundado­ res, João Duarte Ferreira e Norberto Custódio Ferreira renunciam a seus cargos de diretores para, respectivamente, cuidar de seus empreendimentos particulares e para assumir elevada posição no Banco do Brasil do qual assumiu a presidência em 1910.

Foi lançada concorrência (mesmo sem projeto) para a construção da primeira usina geradora, a hidroelétrica de Maurício, na cacho­ eira da Fumaça, no rio Novo. Oito concorrentes se apresentaram, tendo a obra sido alocada à Trajano de Medeiros & Cia, destacada indústria metalúrgica para os padrões do início do século passado. O contrato foi assinado em maio do ano seguinte. Pela primeira vez uma usina hidroelétrica foi construída por uma empreiteira ge­ nuinamente brasileira. Os primeiros estudos para o aproveitamento parcial da queda natural da cachoeira da Fumaça no distrito de Leopoldina foram desenvolvidos pelo engenheiro Eupídio de Lacerda Werneck, na época recém formado nos Estados Unidos. O potencial a ser aproveitado foi definido como sendo de 1,3 MW, suficiente para suprir de energia elétrica outros muni­ cípios da região como Rio Novo e São João Nepomuceno, bem como a fábrica do industrial Daniel Sarmento que fez um contra­ to de pré-venda de energia. A organização geral e as compras de materiais ficaram a cargo do engenheiro Otávio Carneiro e a res­ ponsabilidade da construção com o engenheiro Ferreira Martins. O engenheiro L. Luck, enviado pela Westinghouse, supervisionou as instalações elétricas. O engenheiro Paulo Saboia, recém chega­ do dos Estados Unidos, supervisionou as montagens. A primeira unidade geradora entrou em operação em 7 de julho de 1908.

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A História das Barragens no Brasil - Séculos XIX, XX e XXI

Figura 1 - Cachoeira da Fumaça no rio Novo, local da hidroelétrica de Maurício

Figura 2 - Cachoeira da Fumaça no rio Novo, local da hidroelétrica de Maurício

Figura 3 – Casa de força da hidroelétrica de Maurício

Figura 4 - Geradores da hidroelétrica de Maurício

Os primeiros anos consolidaram a empresa e, em 1915, apenas dez anos após sua fundação e sete anos de geração e distribui­ ção de energia elétrica, a empresa contava com ilustres investi­ dores de outras localidades de Minas Gerais, do Rio de Janeiro e de São Paulo entre eles o então presidente de Minas Gerais, Raul Soares de Moura, e o presidente da república, Wenceslau Braz. Em 1918 a empresa adquiriu a usina Coronel Domiciano de 360 HP que era concessão da Câmara Municipal de Muriaé, o que possibilitou que seus serviços fossem estendidos às localidades de Piedade, Laranjal, Palma, Guarani e Tebas, além da cidade de Coronel Domiciano.

Os anos vinte do século passado propiciaram expressivo crescimen­ to da indústria de energia elétrica. Uma das principais causas foi a rápida difusão dos serviços de bondes e de iluminação pública. Além disso, o perfil das indústrias modificava-se rapidamente; o recensea­ mento de 1920 revelara que a energia elétrica já assumia 47% da força motriz consumida pelas fábricas no País. Com o objetivo de su­ prir esse acentuado acréscimo de demanda, ocorreu intenso surto de instalações de novas hidroelétricas que ultrapassaram com folga a geração térmica.

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CINQUENTA ANOS DO COMITÊ BRASILEIRO DE BARRAGENS

Figura 5a – Barragem da hidroelétrica Coronel Domiciano Figura 5b - Usina hidroelétrica Coronel Domiciano

Imagens dos aspectos logísticos dos primeiros tempos da CFLCL

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A História das Barragens no Brasil - Séculos XIX, XX e XXI

Aquisições de empresas e de concessões foram realizadas pela Light nesse período principalmente no eixo Rio de Janeiro e São Paulo. A Cataguazes Leopoldina também entendeu o momento e adquiriu em 1920 a Companhia Pombense de Eletricidade que detinha a hidroelétrica de Santo Antônio situada no município de Rio Pomba e que, dada as suas desfavoráveis condições geotécnicas, teve que ser desativada. Iniciaram-se as atividades visando a implan­ tação de uma nova usina: a hidroelétrica de Ituerê que aproveita a queda natural da cachoeira do Sumidouro. A barragem de concreto tem 15 m de altura, imponente para a época, e 74 m de comprimen­ to de crista, fechando um vale estreito. O projeto foi comandado pelo engenheiro Vanor Ribeiro Junqueira, os equipamentos foram

contratados junto à Siemens e as obras ficaram a cargo da Christia­ ni Nielsen e da Trajano Medeiros & Cia. Inicialmente foi instalada uma unidade Francis dupla horizontal de 2,83 MW. A adução era feita com um trecho inicial de conduto em concreto armado com 3 m de diâmetro e 600 m de extensão; a adução em alta pressão foi executada em aço vindo da Alemanha. Entretanto foi verificado no início da montagem que não havia luvas de dilatação da tu­ bulação forçada. As luvas foram fabricadas em Jundiaí. A usina foi inaugurada em 16 de agosto de 1928 pelo presidente de Mi­ nas Gerais, Antônio Carlos Ribeiro de Andrade que, em discurso solene, afirmou que teve “a grande ventura (...) de acionar as máquinas da monumental instalação de Ituerê”.

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Cinematografando a inauguração da usina hidroelétrica de Ituerê 11 297 .Construção do vertedouro de Ituerê com o desvio num vão rebaixado Figura 8 .A barragem de Ituerê e o vertedouro de soleira livre Figura 10 .Casa de força da usina hidroelétrica de Ituerê Figura 11 . local da hidroelétrica de Ituerê Figura 7 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens 6 7 8 9 10 Figura 6 .Cachoeira do Sumidouro no rio Pomba.Construção do vertedouro de Ituerê Figura 9 .

mes­ mo porque nesse período se instalou a inadimplência no pagamento de energia fornecida para o serviço público de prefeituras. A segunda unidade geradora só entrou em operação em abril de 1958. houve a expansão da intervenção do estado na economia a partir da promulgação da constituição de 1934 que. garantindo a manutenção dos serviços e não mais podendo expandi-los por longo período. O Código havia inicialmente sido preparado por Alfredo Valadão em 1907 com colaboração de Inácio Verís­ simo de Melo e José Castro Nunes.Séculos XIX. o que penalizou sobremodo as empresas privadas. inserira um capítulo sobre a ordem econômica e social. além dos desconfortos que haviam sido introduzidos pelo Código de Águas e pela inflação que passou a ser acelerada nesse governo. tendo sido eleito pela Assembléia Constituinte em 1934 e se tornado ditador de 1937 até a queda do Estado Novo. O Código introduziu o absurdo instrumento do reconhecimento apenas dos custos histó­ ricos dos investimentos realizados pelos concessionários no am­ biente inflacionário vigente no País. cerceando a expansão da capacidade instalada com nefastos reflexos na evolução do crescimento da economia nacional. dia do suicídio de Getúlio Vargas. Ormeo Junqueira Botelho ajustou a empresa às condições políticas e econômicas advindas da Constituição Federal de 1937. candidatura esta que foi oficialmente derrotada nas urnas. aí incluídas a “exploração de quedas d’água para geração de energia”. A empresa se voltou à ampliação das capaci­ dades instaladas das usinas de Ituerê e Coronel Domiciano. Foi datado do dia 24 de agosto de 1954. Esse ambiente foi propício ao aparecimento do Código de Águas. no governo Juscelino Kubitscheck. Norberto Custódio Ferreira faleceu e abriu caminho para o encerramento do ciclo dos fundadores da empresa na sua direção.A História das Barragens no Brasil . profundas modificações econômicas. O Código de Águas gerou o confronto entre uma corrente interessada em manter os serviços de eletricidade com a iniciativa privada e outra corrente radical que pugnava por uma profunda intervenção estatal com a encam­ pação de concessionárias estrangeiras. Como as demais empresas do setor elétrico. já que João Duarte Ferreira havia falecido em 1924 e José Monteiro Ribeiro Junqueira. tendo tido como uma das principais dificuldades a entrega dos equipa­ mentos encomendados em 1938 a países que se envolveram na II Guerra Mundial. o primeiro financiamento do Banco para uma empresa privada. a Cataguazes Leopoldina não passou incólume por essa legislação equivocada e pela II Guerra Mundial e teve que reduzir gastos. o engenheiro Ormeo Junqueira Botelho forma­ do pela Escola Politécnica da Universidade do Brasil (UFRJ) em 1918. A empresa ultrapassara a marca de 9. XX e XXI Os anos vinte foram também importantes para os funcionários da empresa que passaram a ter participação nos lucros.000 consumidores e havia instalado mais de 900 km de redes de transmissão e de distribuição.58 MW da hidroelétrica de Nova Maurício que apro­ veita a queda total de 90 m da cachoeira da Fumaça. Nesse longo período. em 1945. Com a eclosão da revolução de 1930. fortemente influenciada pela doutrina fascista e que instituíu um regime de exceção. estabelecendo a legitimidade da intervenção do Estado em atividades consideradas de importância para o interesse nacio­ nal. Já em 1950 a empresa obteve permissão para proceder a um racionamento preventivo que se estendeu às fábricas de tecido em até três ve­ zes por semana. pela proibição de rea­ juste de tarifas de serviços públicos em função da inflação. tendo Getúlio assumido o comando de um governo provisório em novembro de 1930 com plenos po­ deres. investimentos e distribuição de dividendos aos acionistas. o contrato de empréstimo do Banco Nacional de Desenvolvimento para a construção da hidroelétri­ ca de Nova Maurício. após trinta anos de intensa dedicação à empresa e com o ambiente economicamente hostil à iniciativa privada no setor elétrico. pela primeira vez. 298 . O quadro estatizante do setor elétrico foi ampliado nos anos cin­ quenta. promulgado em 1934. sociais e políticas ocorreram no País. A crise econômica mundial de 1929 gerou profundas conseqüências nos cenários econômicos e políticos no Brasil que acarretaram con­ flito aberto com lançamento de candidatura de oposição na figura de Getúlio Vargas à presidência da república. Em 5 de fevereiro de 1935. iniciati­ va patronal de vanguarda para a época. A situação de carência de energia perdurou até março de 1956 quando entrou em operação a primeira uni­ dade de 5. passou a presidência para seu sobrinho.

tendo nesse período transferido para o engenheiro Vanor Ribeiro Junqueira. engenheiro também formado pela Escola Politécnica da Universidade do Brasil (UFRJ).Ormeo Junqueira Botelho com Tancredo Neves 299 .Engenheiro Ormeo Junqueira Botelho No início dos anos sessenta o agravamento do cenário político e a aceleração da inflação que atingiu 80% ao ano com a impossibilidade de se obter a devida correção tarifária. Figura 13 . No período entre 1962 e 1965 o engenheiro Ormeo Junqueira Botelho foi eleito deputado federal pela UDN. a presidência da empresa. encontrou totalmente descapitalizadas as empresas priva­ das de energia elétrica.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 12 .Ormeo Junqueira Botelho na campanha eleitoral Figura 14 .

O Decreto 1383 passou a fazer com que a parcela da remuneração que ultrapassasse 12% ao ano fosse revertida para subsidiar as empresas com retorno inferior a 10% ao ano sobre os investimentos num cenário chama­ do de Robin Hood em que as empresas mais eficientes passaram a socorrer as menos eficientes. climáticas. tendo vindo a tempo de salvar as empresas de energia elétrica da destruição devida ao arrocho tarifário tão prolongado. Os anos setenta foram iniciados sob o signo do Brasil Grande com Estado todo poderoso sob o excesso de consumo deno­ minado de milagre brasileiro. culturais e sociais. No final desse período o próprio governo federal adquiriu por US$ 380 milhões a Light. geomorfológicas.Engenheiro Ivan Müller Botelho 300 . A empresa nesse novo cenário pode ampliar seu parque gerador instalando mais duas unidades geradoras em Maurício Nova que passou a ter 31 MW de capacidade instalada. identificados com o li­ beralismo econômico mais ortodoxo. Em dezembro de 1974 veio novo golpe para as empresas eficientes: passa a vigorar a tarifa unificada independentemente das diferenças geográficas. Em 1976 a Cataguazes Leopoldina adquiriu a Companhia Leste Mineira de Eletricidade na região de Manhuaçu. no Centro-Oeste e no Nordeste. Somente em 1993 pela Lei 8631 é que as tarifas diferenciadas vol­ taram a ser praticadas. Os constantes abatimentos nas tarifas produziram intensas cri­ ses de liquidez nas concessionárias. A orientação do governo federal passou a ser voltada para a contenção da inflação e a reto­ mada do desenvolvimento. Entretanto. implantado pelo ministro Mauro Thibau das Minas e Energia.Séculos XIX. Vanor teve como sucessor o enge­ nheiro Ivan Müller Botelho. Passou a haver a concentração de investimentos estatais em grandes obras hidroelétricas e no pro­ grama nuclear com a construção das usinas de Angra 1. Entretanto. Esse decreto acabou com a concorrência e com os esforços para redução de custos. A então chamada de realidade tarifária e serviço pelo custo veio proporcionar novo desenvolvimento do setor elétrico. Em 1977 a em­ presa ofereceu ao grupo Brascan US$ 330 milhões para adquirir a Light. que ocasionaram elevados índices de inadimplência que geraram o colapso da engenharia consultiva no País. nessa década o governo federal passou a utilizar as tarifas de energia elétrica para controle da inflação que retomava o ritmo do início dos anos sessenta. Figura 15 . principalmente nas estatais federais.A História das Barragens no Brasil . No ano seguinte a empresa tentou adquirir a Companhia Mineira de Eletricidade. muitas delas concentradas no Norte. O Decreto 54936 de novembro de 1964. A Brascan respondeu que venderia se tivesse o consenti­ mento do governo federal. esta até hoje (2011) ainda inacabada. autorizou a correção monetária do valor original do ativo imo­ bilizado. Durante um ano a empresa consultou o ministério de Minas e Energia sob Shigeaki Ueki sem obter qual­ quer resposta. 2 e 3. XX e XXI Ao se aposentar em 1965. Com o advento do governo Castelo Branco ocorreu profunda e benéfica alteração na política eco­ nômica do País por terem composto o ministério dois políticos. Bulhões de Carvalho e Roberto Campos.

concessões de serviço público.5 MW). como auto-produtora para suprir parte da carga de sua fábrica no Rio de Janeiro. Em 1999 a empresa criou a Cat-Leo para operar como produtor independente de energia elétrica. o engenheiro Ivan Botelho assumiu a presidência do Conselho do grupo de em­ presas e o engenheiro Manoel Otoni Neiva assumiu a presidência da CPFL Minas onde se concentravam as hidroelétricas. Nessa década. A usina.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens adução por túnel. as hidroelétricas de Anna Maria e Guary (6. Catete e Xavier. Em 1991 as hidroelétricas do Gloria. Com o falecimento de seu pai em fevereiro de 1990. a Cemig arrematou a Mineira de Eletricidade por Cr$ 2. Em 1997 a em­ presa adquiriu a Companhia de Eletricidade de Nova Friburgo CENF e a Empresa Energética de Sergipe ENERGIPE. em 1999. subsi­ diária da Vale. estado do Rio de Janeiro. a empresa ampliou as capacidades ins­ Figura 16 .8 MW instalados. Com a aquisição da CENF a empresa passou a operar as hidroelétricas de Hans.Engenheiro Manoel Otoni Neiva em manobra considerada pela Comissão de Valores Imobiliários como tendo sido “ao arrepio da lei”. Em 1999 a empresa adquiriu a Companhia Figura 17a – Barragem da hidroelétrica Sinceridade Figura 17b – Barragem da hidroelétrica Santa Cecilia 301 . No início dessa década a empresa começou o projeto da hidroe­ létrica do Gloria com barragem de concreto com 14 m de altura e taladas das hidroelétricas de Coronel Domiciano e Neblina II e adquiriu. projeto da Promon.02 por ação. Ituerê e Nova Maurício. somente em 1983 entrou em operação comercial com 13. todas situadas no rio Grande. localizadas em Santos Dumont e colocou em operação a hidroelétrica de Ervália de 6 MW instalados. foram vendidas à Valesul.

que veio a falecer prematuramente em 2009.Séculos XIX. Considerando a grande expansão do grupo em diversos ramos industriais e nas diversas aquisições de conces­ sões de distribuição de energia elétrica em outros estados. em Manhuaçu. Ivan Botelho II. carinhosamente chamado de Zé Tunim. para se capitalizar. XX e XXI de Eletricidade de Borborema CELB e. tendo sido substituído pelo engenheiro Gabriel Pereira. em 2000. Figura 18 . teve que se desfazer de algumas hidroelétricas acima em favor do grupo Brascan. Em segui­ da.Engenheiro José Antônio da Silva Marques (Zé Tunim) Figura 19 . tendo assumido a presidência da Energisa Minas o engenheiro José Antônio da Silva Marques. a Sociedade Anônima de Eletrificação da Paraíba Saelpa.5 MW instalados. hoje Brookfield. instalou as PCHs Ivan Botelho I.A História das Barragens no Brasil . Em 2000 a Cat-Leo construiu em 362 dias a PCH Benjamin Ma­ rio Baptista com 9. Túlio Cordeiro de Melo. Ormeo Junqueira Botelho e Ivan Botelho III. Em 2004 o engenheiro Manoel Otoni Neiva se aposentou. o grupo. em apenas dois anos.Barragem da hidroelétrica Túlio Cordeiro de Mello (Granada) 302 .

5 MW com apenas uma única unidade geradora 303 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 20 Barragem da hidroelétrica Ormeo Junqueira Botelho (Cachoeira Encoberta) Figura 21 .Barragem da hidroelétrica Ivan Botelho I (Ponte) Figura 22 – Casa de força da hidroelétrica Benjamim Mario Baptista (Nova Sinceridade) de 9.

304 .

isto em 1914. com foco na produção de energia elétrica por iniciativa dos engenheiros Manfredo Antonio da Costa. com ou sem privilégio. para em 1919 incorporar a Empresa de Eletricidade de Bauru. em 1912 era criada a Empresa de Eletricidade de Araraquara.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Companhia Paulista de Força e Luz . seguida da Empre­ sa Força e Luz Agudos-Pederneiras. pelas mãos de Ataliba Vale. Paralelamente. José Balbino de Siqueira e outros capitalistas. O artigo 3º de seu Estatuto Social dispunha que a empresa “terá por fim a exploração industrial da eletricidade em todas as suas variadas aplicações no Estado de São Paulo. onde atual ou futuramente se possa explorar tal indústria. na capital de São Paulo. promovendo ou auxiliando. foi criada a Companhia Paulista de Força e Luz. quaisquer empreendimentos que possam contribuir para o desenvolvimento do consumo de energia elétrica e também comércio de mercadorias relativas à indústria da eletricidade”. Já em 1913 incorporou a Empresa Força e Luz de São Manoel e a Companhia Elétrica do Oeste de São Paulo. direta ou indiretamente. O ponto de partida da CPFL foi a Empresa Força e Luz de Botucatu. exemplo recente de parceria da CPFL com outros agentes do setor elétrico na implantação de grandes hidroelétricas 305 .CPFL Fabio De Gennaro Castro No dia 16 de novembro de 1912. Fonseca Rodrigues e Usina hidroelétrica de Campos Novos.

sem conseguir atender Campinas. Bradesco e  Camargo Corrêa). Nos anos recentes a CPFL passou a atuar intensamente com outros parceiros em grandes hidroelétricas. Em 1904 a firma Cavalcante Byington & Cia construiu a Usina Salto Grande no rio Atibaia também para iluminação pública. o controle da com­ panhia passou para o atual grupo composto pela VBC Energia (Grupo Votorantim. Em 1975 o controle acionário passa a ser exercido pela CESP.Séculos XIX. Por outro lado. com a privatização. pois esta deveria ser atendida pela Companhia de Iluminação a Gás. Sistel. XX e XXI Ramos de Azevedo. passou a controlar a Empresa de Eletricidade de São Paulo e Rio. Figura 1 – Barragem de Lavrinha Em 1927 o controle acionário da CPFL passa para a CAEEB. atual Mascarenhas de Moraes. American & Foreign Power Company. po­ rém de Itatiba e Souzas. e pela Bonaire Participações (que reúne os fundos de pensão Funcesp. tais como as usinas hidro­ elétricas de Campos Novos e Foz do Chapecó.Usina hidroelétrica de Salto Grande com 4. Em 1957 entra em operação Peixoto. a qual. Petros e Sabesprev). sendo criada em 1875 a Companhia Campineira de Iluminação a Gás. no rio Atibaia Em novembro de 1997. Figura 3 .A História das Barragens no Brasil . em 1920. inicia-se a construção da usina de Americana e da termoelétrica de Carioba. Figura 2 . subsidiária da AMFORP.Usina hidroelétrica de Americana com 30 MW 306 .55 MW. em 1871 fora implantada a iluminação pública a querosene em Campinas. que atuava em parte do vale do Paraíba. Em 1946 inaugurou-se a usina Avanhandava no rio Tietê. pelo Fundo de Pensão dos Funcionários do Banco do Brasil (Previ). Companhia Auxiliar de Empresas Elétricas Brasileiras S A.

Visão artística do arranjo da usina hidroelétrica de Foz do Chapecó 307 . Paiol.Barragem de São Gonçalo com 11 MW Figura 5 . Arvoredo. São Gonçalo e Ninho da Águia. Plano Alto. Corrente Grande.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Em 2011 ocorreu a fusão da CPFL com a ERSA dando origem à CPFL Reno­ váveis. com 21 MW. Com isso o parque gerador foi ampliado com diversas outras usinas de pequeno porte. Varginha. Esta usina foi agregada a CPFL Renováveis pela fusão da ERSA e CPFL Figura 6 . tais como Alto Irani.Barragem da PCH Alto Irani. Cocais Grande. Figura 4 .

308 .

eram presidentes Emílio Garrastazu Médici. no Brasil.A. O Tratado é complementado por acordos. e Raúl Sapena Pastor. leis e protocolos. e pela Administración Nacional de Electricidad (ANDE). Apresentamos neste capítulo um breve relato histórico sobre a obtenção desse ingente resultado por ambos os países. o Anexo B – Des­ crição das instalações destinadas à produção de energia elétrica e das obras auxiliares. Introdução A hidroelétrica de Itaipu é fruto do Tratado celebrado em 26 de abril de 1973 pelo Brasil e pelo Paraguai para o aproveitamento dos recursos hídricos do rio Paraná. pelo Brasil. representando o Paraguai. Como são Usina hidroelétrica de Itaipú. Nesse período. e Alfredo Stroessner. (Eletrobras). Fazem parte do Tratado o Anexo A – Estatuto. desde e inclusive o Salto Grande de Sete Quedas ou Salto de Guaíra até a foz do rio Iguaçu. tendo como signatários os chanceleres Mário Gibson Barboza.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Breve Memória sobre a Usina de Itaipu 1966 . notas reversais. no Paraguai. o Tratado cria a entidade binacional Itaipu. pelo Paraguai.2011 Miguel Augusto Zydan Sória 1. Com a finalidade de realizar o aproveitamento hidroelétrico. e o Anexo C – Bases financeiras e de pres­ tação de serviços de eletricidade. Barragem principal e condutos forçados Foto de Caio Francisco Coronel . pertencentes em condomínio aos dois países.Itaipu Binacional 309 . instalada em 15 de maio de 1974 e constituí­ da com igual participação em seu capital pela Centrais Elétricas Brasileiras S. representando o Brasil.

Esses marcos nos permitem separar com nitidez as diferentes fases do processo de construção de Itaipu. descreveremos as motivações e a concepção do projeto e enfatizamos os tópicos relacionados aos estudos prévios realizados e às obras civis. Aspectos de Engenharia”. XX e XXI muitos os aspectos da Itaipu possíveis de serem explorados. limitamo-nos a apresentar refe­ rências sobre detalhes técnicos do empreendimento quando as descrições assim o exigirem. Sugerimos que os leitores que esti­ verem interessados em conhecer informações técnicas sobre o projeto Itaipu consultem outras publicações. decorrentes estas das escolhas julgadas mais favoráveis. de modo resumido. Nesse sentido.Aspectos de Engenharia”. mostram. Cronologia do Projeto Itaipu O Quadro I.e. abaixo.Séculos XIX. no caso de Itaipu. e considerando que a presente publicação se propõe a organizar em um único volume a memória das principais barragens cons­ truídas no Brasil para várias finalidades . pode ser considerada como o momento que encerra a fase estratégica do processo. anexo. que possui versão em português “Usina Hidroelé­ trica de Itaipu. Como nosso intento é o de dissertar sobre a história da constru­ ção da hidroelétrica de Itaipu. publicada em 2009. Registra a concepção da idéia e prescreve as estratégias de alto nível a serem seguidas. ITAIPU Binacional 2009. das referências bibliográficas exis­ tentes recomendamos pesquisa no livro “Itaipu Hydroelectric Project – Engineering Features” . em 1966. nominando alguns de seus inúmeros protagonistas. por isso mais ligada à engenharia civil e à geologia. onde as encontrarão fartamente. A assinatura da Ata de Iguaçu. as principais etapas e datas relativas ao Projeto Itaipu. a qual constitui também o texto-guia deste trabalho. editado pela Itaipu Binacional em 1994.A História das Barragens no Brasil . 310 . e o Quadro II. As menções feitas a eles devem ser consideradas uma homenagem a todos os que indistintamente participaram no esforço de construir Itaipu. realizada em conjunto com o Paraguai -. Fonte: livro “Usina Hidroelétrica de Itaipu . 2.

Mas. deparamo-nos com hábitos da sociedade que 311 . pela sua enorme importância. encerrou a disputa por terras na fronteira. devido a circunstâncias intrínsecas. foi escolhido para a realização dos estudos de viabilidade e para a elaboração do projeto da obra. Prevaleceu. colocando ambos os países em oposição. (EUA) e ELC – Electroconsult SpA. e pelo cume da Serra de Maracaju. Como resultado de intensas negociações. da socioeconomia. A inauguração da Ponte da Amizade em 1965 alimentou o clima de cooperação ao oferecer a perspectiva de facilitar o intercâmbio comercial entre eles. no trecho do rio Paraná “desde e inclusive o Salto de Sete Quedas até a foz do rio Iguaçu”. pela pri­ meira vez cogitou-se de os dois países se unirem para produzir 3. Ao investigarmos a formação da demanda de energia naquele mo­ mento da história. O entendi­ mento da questão sob esse prisma acabou por reverter totalmente a situação. 3. ano em que Espanha e Portugal assinaram em Madri o Tratado de Limites. a inteligência política quando se estabeleceu que a construção e o uso da futura instalação seriam realizados em conjunto. O consórcio formado pelas empresas IECO – International Engineering Company Inc. Motivação decorrente da política externa Para explicar a origem da motivação fundamentada na política externa remontamos a 1750. Motivação decorrente da socioeconomia Conforme assinalado. o detalhamento completo dos limites da fronteira jamais foi concluído em face de desacordo entre as partes em relação à demarcação da Serra de Maracaju no trecho em que ela se divide em dois ramos. porém. Principais motivações para a construção de Itaipu A análise mais profunda dos acontecimentos que levaram à construção de Itaipu revela que duas foram as suas motivações primordiais. O entendimento diplomá­ tico abriu caminho para o início dos estudos técnicos. em 1966 foi assinada a Ata de Iguaçu pelos ministros das Relações Exteriores do Brasil. No entanto. em vez de medir forças. Juracy Magalhães. optaram por unir forças. energia em conjunto. E foi justamente o que aconteceu com Brasil e Paraguai no início da década de 60 com a desco­ berta do potencial hidroelétrico do rio Paraná. Brasil e Paraguai assinam então o Tratado de Itaipu. a disposição de construir uma hidroelétrica para atender à demanda de energia elétrica foi motivo de desa­ cordo entre Brasil e Paraguai nos anos 60. pode dar causa a signi­ ficativos conflitos de interesses. pois a indefinição quanto à posse das Sete Quedas interferia nos planos de um e de outro para o aproveitamento pretendido. Em 1962. logo após o término da Guerra do Paraguai (1865-1870). Raúl Sapena Pastor. porém. as quais. Em 26 de abril de 1973. O Tratado de Paz assinado em 1872. um acima e outro abaixo das Sete Quedas. A solução proposta por um consórcio de empresas estrangeiras. e do Paraguai. A declaração conjunta manifestava a disposição de estudar o apro­ veitamento dos recursos hidráulicos pertencentes em condo­ mínio aos dois países. con­ vergiram e se somaram. que pre­ via o alagamento de grande parte da área em litígio.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens 3. era impreciso ao determinar os limites entre os territórios na margem direita do rio Paraná. O texto. depois de adequada avaliação das propostas de diversos grupos qualificados. uma Comissão Mista foi criada para implementar a Ata do Iguaçu. É importante frisar que era central nessa discussão a estratégica aspiração de suficiência no suprimento futuro de energia elétrica para os dois países. primeira descrição minuciosa da fronteira brasileiro-paraguaia.1. Esse brevíssimo repasse pela história nos serve para compreen­ der que a possibilidade de exploração de um grande potencial hidroelétrico. acabou por reabrir a polêmica em torno da fronteira na região das Sete Quedas porque estabelecia que os territórios deveriam dividir-se pelo rio Paraná.2. e a segunda. (Itália). sabiamente. os dois go­ vernos. Em 1967. A primeira dessas motivações é oriunda da política externa. até o Salto.

o que indicava autossuficiência de energia elétrica a médio prazo. a primeira na inexplorada região Norte do País. en­ quanto a água que corre nos rios o é. 3. Furnas (1963) e Jupiá (1968). que naquele momento não pas­ sou despercebido pelos estrategistas mais argutos. que perdura até então mundo afora. A decisão de construir Itaipu A conjugação. preponderantemente). coincidentemente o mesmo ano em que é assinado o Tratado de Itaipu. que serviu mais tarde para os outros tantos projetos que foram realizados. tendo reflexos profundos nas decisões toma­ das sobre a matriz energética brasileira. em sociedade com o Paraguai. estimulando o rápido desenvolvimento de iniciativas em diversos segmentos no campo da produção de energia. é a de produzir energia elétrica com o emprego de combustíveis fósseis (carvão. objeto de nosso relato. Àquela época já se sabia que o potencial hidroelétrico dos rios interiores brasileiros era imen­ so. Em razão disso. Secundariamente. A experiência na execução desses projetos proporcionou adicionalmente a acumulação do capital inte­ lectual. onde disponível e viável. de longo alcance.). a segunda. pois em 1973. A essas formas acresce-se hoje o emprego da biomassa e de outras fontes alternativas (eólica. faz valer sua visão de “se­ gurança energética”.A História das Barragens no Brasil . consiste no fato de que os combustíveis fósseis não são renováveis. dos citados fatores políticos e socioeco­ nômicos formaram o argumento de base para Brasil e Paraguai decidirem pela construção em conjunto de uma usina hidroelétri­ ca sobre o rio Paraná. voltadas para a substituição de importações do petróleo. na região Sul. de profundos impactos na economia e no ordenamento social de muitas nações. Três Marias (1962). XX e XXI requeriam crescentes níveis de uso da eletricidade. E as previsões sobre a importância que viria a ter a hidroeletricici­ dade acabaram por se confirmar. em 1975. não restava alternativa a não ser incrementar a produção maciça de energia elétrica nos níveis demandados. têm início a produção de etanol de cana-de-açúcar (Pró-Álcool – 1975). proporcionadas por tecnologias cada vez mais inovadoras e sofisticadas. o Brasil. abrangendo os entendimentos prévios entres 312 . incluindo o de Itaipu. pois o Brasil evoluía da construção de barragens baixas e médias para barragens e hidroelétricas de grande vul­ to. os dados da questão eram razoavelmente claros. tendo como pontos altos justamente o início. portanto. Entre as principais. da construção das mega-hidroelétricas de Tucuruí e de Itaipu. geotermia. uma decisão de cunho macroeconô­ mico. solar. Pelo lado da oferta. Ou seja. a pro­ dução de energia elétrica com base em energia atômica (Usina de Angra I – 1976) e a expansão da geração de energia de base hidráulica. principalmente com a Argentina e o Paraguai. sobreveio a crise mundial do petróleo. o que podia ser feito de diferentes formas. vem a pro­ dução de energia elétrica de base hidráulica e atômica. Esse preciso diagnóstico feito com competência pelo meio téc­ nico acabou por ser em grande parte internalizado pela classe dirigente do país. Foi antes de tudo. já nas décadas de 50 e 60. A iniciativa de criação do CBGB foi dos engenheiros que naquela época estavam assumindo gradativamente a respon­ sabilidade pelas atividades técnicas relacionadas à implantação dessas barragens no País. A visão de “seguran­ ça energética” tomou então contornos dogmáticos. O contraste. Dessa presciente decisão maior decorreram todas as demais. numa miría­ de de aplicações cotidianas. e de suas implicações nas demais infra-estruturas públicas e privadas que foram posteriormente implantadas. de caráter mais técnico. gás e petróleo. e constrói hidroelétricas de grande por­ te. etc. ondas. pelo lado da procura. um diferencial competitivo. A hidroeletricidade é.Séculos XIX.3. É nesse clima de grande atenção ao tema energético nacional que foi criado em 1961 o Comitê Brasileiro de Grandes Barra­ gens (CBGB). que se inscreve na magnanimidade das políticas de estado. de construção do futuro dos dois países. um predicado. A forma preferen­ cial. Paulo Afonso I (1954). portanto. no trecho de fronteira fluvial entre os dois países. Mas considerava-se também a possibilidade de aprovei­ tamento conjunto dos rios compartilhados com países vizinhos.

tais como a decisão de dar início ao estudo e levantamento das possibilidades econômicas de uso dos recursos hidráulicos comuns. na época. quaisquer dificuldades ou problemas. o Serviço de Navegação da Bacia do Prata já havia construído uma pequena hidroelétrica com 1. a divisão da energia em partes iguais. por fim. a constituição da Itaipu Binacional. a qual foi desmontada em 1982. 313 . eram esperados óbices de diversas naturezas para sua concretização. em 1959. assinada em 22 de junho de 1966.200 kW de potência instala­ da em um dos braços das Sete Quedas. projetista. Período preparatório Conforme salientado. já estava ciente das potencialidades energéticas que representavam os aproximadamente 100 me­ tros de queda existentes no Salto Grande de Sete Quedas. o que revela o reconhecimento explícito das partes de que. 4. a contratação de estudos de alternativas de locali­ zação da obra. por ocasião do enchimento do reservatório de Itaipu. a produção de eletricidade. que se encerra com o Tratado de Itaipu. visando ao aproveitamento hi­ droelétrico conjunto.. contratada a empresa EMF.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens os dois países. A Ata de Iguaçu A “Ata de Iguaçu: Brasil – Paraguai”. sob a direção geral e coordenação de um Comitê Executivo. A Ata de Iguaçu. portanto. traduzido pela Ata de Iguaçu. fundada antes de tudo na amizade e no respeito mútuo cultivado entre os dois países. Foi. ”. desviando-se o rio em trecho de fronteira e desconsideran­ do-se o aspecto binacional do sítio. Para esse fim foi então contratado. O convênio estabelecia que o trabalho fosse realizado por um gru­ po de técnicos de ambos os países. não pode ser aceito porque se pre­ via sua implantação exclusivamente em território brasileiro. a execução da obra e montagem dos equipamentos e. da usina de Paulo Afonso. na região mais meridional da porção brasileira da imen­ sa bacia hidrográfica do rio Paraná. complementado depois pelo Acordo Tripartite. No documento consta “. o registro do entendimento a que chegaram os governos do Brasil e do Paraguai e que expressa irrefutavelmente o amadurecimento da ideia de construir Itaipu. após alguns estu­ dos realizados em 1955-56. A EMF propôs um aproveitamento hidroelétrico da ordem de 10 mil MW. tal como será visto na con­ tinuidade deste trabalho. no princípio da década de 60 cresce com rapidez a demanda de energia elétrica na metade Centro-Sul do Brasil. Cabe destacar a atuação do engenheiro e economista Antonio Dias Leite Júnior. a assinatura do Tratado de Itaipu. num projeto daquela envergadura. em 1967 foi criada a Comissão Mista Técnica Brasileiro-Paraguaia com a finalidade de realizar o estudo e o levantamento das possibilidades econômicas do aproveitamento hidroelétrico pretendido e apresentar o resul­ tado aos dois governos. por sua vez. a cessão da energia não utilizada e a necessidade de entendimentos com os estados ribeirinhos da Bacia do Prata. o vivo desejo de superar. faz prescrições sobre alguns aspec­ tos relevantes do empreendimento. Antes disso. o consórcio ítalo-americano IECO-ELC. O governo brasileiro. em 10 de abril de 1970. porém. entre outras obras. que. 4..1.. com a supervisão de uma firma de consultores de engenharia.2. por conseguinte.. firma convênio de cooperação com a Eletrobras e com a ANDE. documento que marca o início do período preparatório. achando-lhes solução compatível com os interesses de ambas as Nações. dentro de um mesmo espírito de boa-vontade e de concórdia. O papel da Comissão Mista Técnica Para cumprir o disposto na Ata de Iguaçu. Esses aspectos serão tratados com mais detalhes nas seções seguintes deste capítulo. em 18 de novembro de 1970. dirigida pelo engenheiro Octávio Marcondes Ferraz. então. é. 4. Foram esses os principais antecedentes do acordo prévio que Brasil e Paraguai alcançaram em 1966. A Comissão Mista Técnica. a elaboração dos estudos e projeto de en­ genharia. . que intercedeu a favor do projeto perante o Congresso Nacional brasileiro. Ministro de Minas e Energia do Brasil de 1969 a 1974.

Comissão Mista-Técnica Brasileiro-Paraguaia 4. Foi então feita a classificação e análise das informações existentes e aquisição de dados adi­ cionais envolvendo a meteorologia. topografia.A História das Barragens no Brasil . Porto Mendes. investigações geotécnicas e um inventário completo de al­ ternativas possíveis de projeto. Laguna Verá.Séculos XIX. análises hidrológi­ cas. XX e XXI Figura 1 . Além disso.4. assim como a disponibilidade de materiais de construção e seus meios de transporte. os saltos hidráulicos líquidos seriam menores e os custos da potência instalada maiores. com o potencial dividido em duas hidroelétricas. duas soluções se mostraram preferenciais: (i) Itaipu Alto. Os estudos de viabilidade Em 1 de fevereiro de 1971 foram iniciados os estudos do aprovei­ tamento. A escolha do local Itaipu No cotejamento entre as duas alternativas finais selecionadas. Disso resultou a indicação de dez locais possíveis para a construção de barragens (Guaíra. a solução Itaipu Baixo e Santa Maria mostrou-se menos competi­ tiva porque os custos dos desvios do rio e dos vertedouros seriam duplicados. a serem desenvolvidos em quatro fases metodológicas. Itaipu. 4. fluviometria. São Francisco. Alex Gage. duas barragens.3. Santa Maria. sedimentação. Puerto Embalse e Ilha Acaray) e 50 diferentes arranjos. uma única barragem na ilha de Itai­ pu. uma na ilha de Itaipu e outra 150 km a montante em Santa Maria. condições geológicas e geotécnicas. a topografia. as estimativas de custos e os resul­ tados das simulações operacionais. com todo o potencial concentrado em uma única usina hi­ droelétrica e (ii) Itaipu Baixo e Santa Maria. 314 . Arroio Guaçu. que envolveram levantamentos de campo. pluviometria. Comparando-se os arranjos.

o consultor Arthur Casagrande e outros não reconhecidos – 1973. cujo maru­ lhar provocado pela correnteza inspirou os indígenas a chamá-la “Itaipu”. que significa na língua tupi “a pedra que canta”. o que foi aceito pela Comissão Mista Técnica. Ou seja. W. Figura 4 .1972 a geologia e as condições de vazão do rio também encareceriam os custos em Santa Maria. que deu nome ao empreendimento. 315 .A partir da direita: Pierucci.Trabalhos de sondagem na Ilha de Itaipu . Taboada. quase sem­ pre submersa. Giovanni Salerno e Piero Sembenelli (todos da IECO-ELC). que indicou como mais favorável o projeto Itaipu Alto. Delgado. concluiu-se que o esquema com uma única barragem fornecia maior capacidade instalada ao menor custo por quilowatt (kW). foi apresentado o relatório sobre o estu­ do preliminar de viabilidade. Por outro lado. após a realização das três primeiras fases previstas na metodologia. A partir daí passou-se a utilizar a denominação Itaipu simplesmente.Ilha de Itaipu – rio Paraná Figura 3 . R. Ela consistia em um afloramento de rocha. a pouco mais de 20 quilômetros da confluência com o rio Iguaçu. era localizada logo após uma curva acentuada do rio Paraná.5% maior e a energia firme por volta de 33% superior à da combinação Itaipu Baixo e Santa Maria. A ilha de Itaipu. a capacidade instalada para Itaipu Alto seria 5.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 2 . No final de dezembro de 1972.

tendo-se como limite apenas a capacidade de cada um. o que inviabilizava investimentos com uso de recursos próprios. Os três anexos do Tratado servem. em julho de 1974. Na continuidade. não aplicação de impostos (mediante isenções fiscais) e de algumas restrições administrativas. se já eram onerosas para o Brasil. é. de 26 de abril de 1973. 316 . atribuindo a ambos os países o mesmo poder de decisão e. XX e XXI oportunidades iguais para mobilização da força de trabalho e para a realização dos fornecimentos em geral.Consultor Arthur Casagrande (à esquerda) e Piero Sembenelli (IECO-ELC) na travessia do rio Paraná . sendo seus documentos oficiais redigidos em português e espanhol. De modo a conferir a adequada segurança jurídica ao acordo. o instru­ mento-chave de consolidação do acordo alcançado pelo Brasil e pelo Paraguai para a execução do aproveitamento hidroelétrico.Séculos XIX. para detalhar o “como fazer” no empreendimento. O Tratado também define que a ITAIPU é administrada por um Conselho de Figura 5 . o Tratado foi ratificado pelos poderes legislativos de ambos os países no mesmo ano de 1973. e em igualdades de condições. Essa harmonização de interesses contribuiu para que se estabelecesse o “espírito binacional” que reinou durante toda a empreitada e perdura até hoje. 4. com detalhamento e profundidade adequados à obtenção de empréstimo perante os organismos financeiros internacionais. oportunidade em que se optou pelo prosseguimento do projeto Itaipu. O relatório final dos consultores foi apresentado posteriormente. superando divergên­ cias pretéritas. Essas altas cifras.1973 Administração e uma Diretoria Executiva integrados por igual número de nacionais de ambos os países. O acordo foi feito de modo equilibrado.6. O Tratado de Itaipu O Tratado de Itaipu. a divisão da energia pro­ duzida em partes iguais e o estabelecimento da obrigação de aqui­ sição por um país da energia não utilizada pelo outro país para seu próprio consumo. que são: a possibilidade de aporte de recursos financeiros mediante operações de cré ­ dito. foi apresentada uma minuta do re­ latório final de viabilidade à Comissão. com igual participação no capital. 4. Essa deci­ são possibilitou o avanço dos entendimentos que resultaram na redação do Tratado de Itaipu. na medida do possível. a Comis­ são Mista Técnica determinou que fosse realizado pelos con­ sultores estudo completo de viabilidade para confirmação da alternativa escolhida.A História das Barragens no Brasil . basicamente. portanto. didas prévias que o viabilizaram. Algumas disposições do Tratado refletem a adoção das me­ Em 12 de janeiro de 1973. regendo-se por normas esta­ belecidas no próprio Tratado e seus anexos. A singular engenharia econômico-financeira do projeto As simulações de custo do projeto que foram feitas na fase inicial dos estudos de viabilidade já indicavam a necessidade de recur­ sos financeiros da ordem de bilhões de dólares americanos para a execução das obras. A ITAIPU foi então constituída pela Eletrobras e pela ANDE. ultrapassavam em muito a própria economia do Paraguai.5.

os gover­ nos do Brasil e do Paraguai resolveram então adotar um modelo de comercialização pelo qual as contratações anuais seriam feitas não pela produção de energia . Para que se alcançasse a constância de receitas almejada. va­ riável -. o Brasil estaria apto a ab­ sorver a metade que lhe corresponderia. utilizando aproximadamente 92% da energia gerada pela usina. o Brasil e o Paraguai se comprometeram a contratar conjuntamente o total da potência instalada da usina. na prática. com 18 unidades geradoras operando. Ficou definido que os empréstimos. e assim viabilizar economicamente o empreendimento. produziria anualmente uma quantida­ de variável de energia.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 6 . pois o Brasil. o Brasil em 2011 assume cerca de 95% de todos os encargos da ITAIPU. mas pela potência do conjunto gerador da usina. pois só utilizaria para consumo próprio algo em torno de 10% de sua metade. com uma média estimada da ordem de 70 milhões de megawatts-hora por ano (MWh/ano). medido 317 . encargos financeiros e demais itens de custeio do empreendimento se­ riam depois pagos com as receitas resultantes da produção de energia elétrica da própria usina. concordou em celebrar contratos com a ITAIPU de forma que o total da potência contratada fosse igual à potência instalada. quando estivesse completa. por meio da Eletrobras.Presidentes Alfredo Stroessner (Paraguai) e Emílio Garrastazu Médici (Brasil). Para garantir que a totali­ dade da potência disponível da ITAIPU fosse sempre contratada. assim. respectivamente.medida em MWh. Essas duas disposições viabilizaram economicamente o empreendimento. Dessa imensa quantidade de energia. e. Os modelos matemáticos utilizados nos estudos de viabilidade indicaram que a hidroelétrica. passou a assumir todas as incertezas financeiras e de mercado associadas a um empreendi­ mento desse porte. enquanto o Paraguai não conseguiria fazer o mesmo. Paralelamente. o Brasil. portanto. Optou-se. pelo financiamento integral do Projeto Itai­ pu por meio de empréstimos bancários. Para aferir o grau dessa responsabilidade. assegurando assim o necessário suporte dos gastos a serem realizados nas diversas frentes de obra. acompanhados pelos chanceleres Raúl Sapena Pastor (esquerda da foto) e Mário Gibson Barboza. dependendo das condições hi­ drológicas na bacia do rio Paraná e do grau de regularização a montante da barragem.Assinatura do Tratado de Itaipu em 26 de abril de 1973 .

pelo Paraguai. A prestação do serviço de eletricidade seria então remunerada pela capacidade de produção posta à disposição do usuário. independente­ mente do que fosse consumido de energia. assim. Figura 7 . às demais enti­ dades compradoras a elas vinculadas.Constituição da Itaipu Binacional em 17de maio de 1974: Presidentes Alfredo Stroessner (Paraguai) e Ernesto Geisel (Brasil) 318 . pelo Brasil. e destas. Para esse fim. Isso acarretava para o comprador au­ mento do componente de custeio devido à energia adquirida da Itaipu sempre que o consumo fosse inferior à capacidade contratada. Como o Brasil consumiria a maior parte da energia produzida.1. em seu patamar mais elevado.05. praticamente blindado contra os efeitos dessas sazonalidades. mesmo que nada fosse consumido pela entidade compradora.A História das Barragens no Brasil . viabilizando-o defini­ tivamente. é claro. esta pagaria sempre pelo direito de ter potência energética à sua disposição. as avaliações feitas indicaram que. em 15. em uma fase predominantemente de intervenção na realidade. e Alfredo Stroessner. Constituição da Itaipu Binacional Cumprindo o disposto no Tratado e seus anexos. Execução do projeto Atendidas as condições necessárias ao desenvolvimento do proje­ to. do Paraguai. O Paraguai ficava. tornando suportável desse modo os efeitos da contratação por potência sinalizado para o Projeto Itaipu. em razão de o setor elétrico brasileiro ser de grandes proporções. exemplificandose pelo extremo. grandeza invariável cujo valor seria fixado nos limites de potência necessários à produção da “energia garantida”. ele teria condições de absorver e diluir eventuais variações de demanda para menos que viessem a ocorrer. com a presença dos Presidentes Ernesto Geisel. 5. por sua vez.1974 é efetuada a instalação da ITAIPU Binacional. Tal modelo acabou por constituir o fator diferencial que selou a decisão de construir Itaipu. 5. passou-se então à sua execução. Esse modelo implica. sendo nomeados Diretores-Gerais José Costa Cavalcanti. do Brasil. Contudo. e estar em expansão. XX e XXI em MW. os Ministros das Relações Exteriores e de Minas e Energia do Brasil conjuntamente com os Ministros de Relações Exteriores e de Obras Públicas e Comunicações do Paraguai deram posse nos respectivos cargos aos Membros do Conselho de Administração e da Diretoria Executiva.Séculos XIX. e Enzo Debernardi. Ou seja. o maior impacto dessas incer­ tezas recairia sobre seu setor elétrico. na transferência das incertezas para a Eletrobras e para a ANDE.

Antonio José Correia Ribas (2002-03). para instalação dos serviços administra­ tivos. Francisco Luiz Sibut Gomide (1993-95). Desde 2003 o cargo é ocupado por Jorge Miguel Samek. responsáveis pela coorde­ nação. são destinadas áreas de terras no Paraguai. o orçamento inicial. Jorge Nacli Neto (1991-93).Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Logo após. José Costa Cavalcanti (1974-85). para as instalações do aproveitamento hidroelétrico e suas obras auxiliares. Altino Ventura Filho (1998). para a formação do reservatório. a estratégia de alto nível. Figura 8 . Euclides Girolamo Scalco (1998-2002). o aparato organizacional e o instrumental necessários ao início da execução do projeto. e. organização e direção das atividades da Itaipu. 319 .Organograma geral da ITAIPU Binacional Foram Diretores-Gerais Brasileiros. para a edificação da vila residencial para os trabalhadores. posteriormente. são então destinadas áreas de terras no Brasil para a construção da hidroelétrica. Fernando Xavier Ferreira (1990-91). tendo sido posteriormente definida a área total delimitada. De igual manei­ ra. em caráter parcial. Estavam desse modo estabelecidos o local. Euclides Girolamo Scalco (1995-98). Ney Aminthas de Barros Braga (1985-90).

decorrente do fato de que o Brasil adota a frequência de 60 Hz e o Paraguai de 50 Hz. passou-se à realização da quarta e última fase dos estudos de viabi­ lidade do projeto. Consoante a complexidade e importância da tarefa. Superintendente de Engenharia). XX e XXI 18 unidades de 700 MW. Sembenelli. Gallico .Grupo de engenheiros com os consultores. (vi) as unidades geradoras principais. Estudos e investigações confirmatórios Com vistas a cumprir a determinação da Comissão Mista Técnica para que fossem desenvolvidos pelos consultores estudos de viabilidade adicionais e de confirmação da alternativa escolhida. (v) os ensaios em modelo de regulari­ zação do rio e instalações para navegação. José Gelazio da Rocha (Itaipu. Projeto de engenharia: dados básicos e características Com base nas prescrições do relatório final de viabilidade do em­ preendimento a partir do segundo semestre de 1974 deu-se início a ampla mobilização de pessoas e empresas no Brasil. (x) as barragens. para elaborar o projeto de engenharia de Itaipu. Belloni. com o emprego de técnicas apuradas de gerenciamento de projetos. Nauroz Khan (gerente do estudo de viabilidade). Edwin Smith . Arthur Casagrande. na escala 1:100.A História das Barragens no Brasil .3. (iii) os estudos da frequência das enchentes. Esse relatório final incorporou: (i) os estudos hidrológicos levados adiante.Séculos XIX. concluindo pela instalação de Figura 10 . e (xi) a casa de força. José Roberto Monteiro (Itaipu) e Flavio H. Superintendente da Obra). Don Deere. cujo relatório foi apresen­ tado em julho de 1974. Lyra (Chairman do Board de Consultores da Itaipu) – outubro de 1977 320 .A partir da esquerda: Luis Carlos Domenicci (Unicon).600 m3/s. vários grupos especialistas. 5. (vii) a dupla frequência. portanto logo após a instalação da ITAIPU Binacional. (ix) o vertedouro. (viii) o arranjo geral. na margem direita. (ii) a enchen­ te de projeto do vertedouro. detento­ res de conhecimentos compatíveis com as necessidades técnicas de Figura 9 . de maneira concatenada.2. foram forma­ dos. (iv) a capacidade instalada da usina. A partir da esquerda: Castro. Arthur Casagrande (consultor). Piasentin. na ordem de 62. Rubens Vianna de Andrade (Itaipu. A. P.1974 5. no Paraguai e em outros países.

desempenhou a função de Coordenador-Geral do Projeto. o arranjo geral das instalações permanentes foi diferente em alguns aspectos daquele definido durante a fase de viabilidade. reservatório.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens dimensionamento e especificações das principais partes da hidroe­ létrica: estruturas de desvio. A diretriz geral que marcou essa etapa essencialmente conceptiva do Projeto Itaipu foi a do emprego incondicional de critérios de excelência técnica mundialmente disponíveis para projetos des­ sa natureza. que. que se refletiram posteriormente em toda a cadeia de processos. representado pelo experiente Engenheiro Gurmukh Sarkaria. apresenta uma síntese das principais atividades desenvolvidas nessa etapa de estudos e projetos.A partir da esquerda: Corrado Piasentin. anexo. Fernão Paes de Barros. casa de força e equipamentos de geração de energia. O Quadro III. Conforme mencionado. de subprojetos e de esquemas organizacionais do empreendimento. Essas partes principais. por sua vez. pois não se revela possível nes­ ta memória resumida listar as muitas outras empresas e profissionais que participaram do esforço. Don Deere. foram subdivididas em diversas outras. e mediante os resultados dos testes e verificações feitos na fase de projeto. Cabe destacar que a Itaipu manteve a liderança do processo a cargo do consórcio internacional IECO-ELC. Gurmukh Sarkaria (Coordenador-Geral da IECOELC). Orlando Gomes dos Santos e Flavio H. relacionando somente as principais empresas participantes. vertedouro. Isso necessariamente implicou o atendimento de rigorosas exigências. Klaus John. Arthur Casagrande. naquela fase. Figura 11 . Lyra (Chairman do Board de Consultores da Itaipu) – outubro de 1977 321 . em razão do aprofundamento dos estudos. igualmente tratadas por especialistas de diversas áreas. barragens e ensecadeiras.

tendo em vista 322 . fabricação e funcionamento dos geradores. que foram devidamente instrumentadas para posterior monitoramento. foi também prescrita a execução de injeções.A História das Barragens no Brasil . se reuniam re­ gularmente para analisar aspectos especiais do projeto e da cons­ trução das obras civis. encontradas na forma de juntas. furos e túneis de drenagem. XX e XXI Figura 12 . Foram também mobilizados muitos consultores. anexo. anexo. 5. cortinas de injeção e de drenagem. representativos do conhecimento acumulado no mundo até aquela época em projetos hidroelétricos. Superintendente da Obra). Dessas investigações. áreas fraturadas e zonas cisalhadas. relacionados no Quadro IV. de maior extensão e volume. Esses consultores. e. apre­ senta uma relação dos principais ensaios e estudos especiais realizados e das instituições que os conduziram. Essas descontinuidades. pôde-se dar início ao aprofundamento das investigações geológicas e geo­ técnicas feitas na Fase 1 dos estudos de viabilidade. os recursos de simulação auxiliaram significativamen­ te nas decisões dos projetistas.4. e Diretores-Gerais José Costa Cavalcanti (Brasil) e Enzo Debernardi (Paraguai) – dezembro de 1977 A Itaipu manteve um painel permanente de consultores inter­ nacionais (Board). que jazem sobre grandes derrames basálticos da bacia superior do rio Paraná. exigiram o emprego de tratamen­ tos subterrâneos para assegurar sua estabilidade frente às cargas a serem suportadas. escavações de trincheiras. As­ sim. poços e túneis para verificação e a realização de ensaios in situ e ensaios em laboratório. O Quadro V. basalto vesicular e basalto denso.Rubens Vianna de Andrade (esquerda. complementares às estruturas das fundações. por meio de sondagens e perfurações. bem como do projeto e da fabricação das unidades geradoras. que definiram a deformabilidade e a resistência dos diversos tipos de brecha. poço de investigação e de acesso. com o emprego principalmente de chavetas de con­ creto na descontinuidade da margem direita. especialistas e firmas encarregadas dos ensaios em modelos para resolverem problemas específicos de engenharia civil e aspectos ligados ao projeto. a geometria e a disposição territorial do conjunto. Caracterizada a geologia da área do projeto e do reservatório. partiu-se para as investigações geotécnicas. por conse­ guinte. o cálculo e dimensionamento das fundações das barragens e das demais estruturas a serem erigidas. contatos.Séculos XIX. nas fundações da barragem principal no leito do rio. bem como identificaram as principais descontinuidades existentes no subsolo de assentamento das fundações. Fundações: investigações geológicas e geotécnicas Definido o arranjo geral das instalações permanentes e.

Relações do trabalho e previdência social Para o normal andamento da obra. tendo como mais volumosas o próprio canal de desvio. Márcio de Almeida Abreu (1991-92). Rubens Vianna de Andrade (1990-91). Na época de sua implantação (1975-76) Figura 13 . foram en­ tão separadas as atividades que dela independiam.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Por essa lógica. segundo indicou a rede CPM (Critical Path Method) elaborada. pela expressiva monta das di­ mensões e volumes envolvidos na construção da usina. Roberto Lei­ te Schulman (1985-90).6. e Maurício Muller – maio de 1977 ainda não existiam normas avançadas de controle de qualidade. definiu que no ano de 1983 seria iniciada a operação da primeira unidade geradora. Tratava-se de uma operação complexa. e com dinâmica adequada à velocidade de construção da obra. se previsse o início em 1975 de diferen­ tes frentes de trabalho em paralelo. Nesse sentido. envolvendo algumas importantes obras civis e diversas encomendas de equipamentos e componentes eletromecânicos com perfil de fornecimento de longo prazo. John Cabrera. que tiveram seu advento nos anos seguin­ tes. Szolt Gombosy. responsáveis pela condução do projeto. Flávio Decat de Moura (1993-95). 5. O material das escavações foi utilizado para a construção das ensecadeiras principais no leito do rio Para­ ná e da barragem de enrocamento na margem esquerda. a cronologia e a organização dos trabalhos a serem realizados. Roberto Ramón Acosta Alvarez. era importante assegurar direitos laborais e proteção social que favorecessem a recepção e a perma­ nência do expressivo contingente de trabalhadores e suas famílias na área do projeto. A partir da esquerda: Minervino Buosi. e desviado o rio. Nelson Infanti Jr. as obras civis tiveram início com a execução de vá­ rias frentes conjuntas de escavações. em 1975. Planejamento e organização dos trabalhos A Itaipu. merece menção especial a contribuição do La­ boratório de Materiais e Concreto da Itaipu (que atualmente se denomina Laboratório de Tecnologia do Concreto da Itaipu – LabTecon). situado no contexto geral do Sistema de Qualidade das Construções de Concreto. Desde 2002 o cargo é ocupado por Antonio Otelo Cardoso. Sendo a construção do canal de desvio a atividade mais crítica. a calha do vertedouro e a fundação da barragem de enrocamento. suas ensecadeiras em arco e a estrutura de controle nele existentes. 323 . No laboratório foram adotados padrões até mais exigentes do que aqueles que essas normas depois vieram a estabelecer. o que permitiu que. construção das obras e operação das instalações: John Reginald Cotrim (1974-85).Grupo de geólogos das projetistas se apronta para inspecionar os túneis e poços.5. tais como as séries ISO. passou-se para a cons­ trução da barragem principal e do vertedouro e da casa de força. no programa de construção. Foram Diretores Técnicos brasileiros da Itaipu. Essa decisão determinou o planeja­ mento. Marcos Antônio Schwab (1995-96) e Altino Ven­ tura Filho (1996-2002). 5. parte desta última no leito do rio ao pé da barragem principal e parte dela ao pé da estrutura do desvio. Conclu­ ído o canal de desvio.

8.A História das Barragens no Brasil . Infraestrutura de apoio Foram implantadas obras de infraestrutura destinadas a abrigar e dar assistência aos trabalhadores brasileiros e paraguaios das várias empresas contratadas para executar as obras e serviços. Foi também melhorada e expandida a rede viária existente para integrar as instalações do projeto com as cidades da área e organizados serviços de coleta de lixo.Séculos XIX. escolas.1974. água.02. clubes e áreas de lazer. Ronan Rodrigues da Silva (Diretor de Construção da Unicon). iniciando-se em outubro de 1975 pela escavação do canal de desvio e terminando em julho de 1979 com o esgotamento da área de trabalho entre as ensecadeiras principais. estabelecendo as normas jurídicas aplicáveis. à época. como mencionado no item 5. consta a relação dos consórcios e empresas que as executaram. em matéria do direito de trabalho e previdência social. Na mesma linha. começaram as obras civis propriamente ditas. Logo depois. aos trabalhadores contratados pela Itaipu. hospitais. anexo. em maio do mesmo ano. Francisco Andriolo e Ademar Sonoda (todos da Itaipu) 324 . independentemente de sua nacionalidade. as conhecidas CIPAs. em que também é previsto a constituição de comissões de prevenção de acidentes de trabalho. o Protocolo Adicional so­ bre Relações do Trabalho e Previdência Social relativo aos contratos de trabalho dos trabalhadores. foi assinado pelo Brasil e pelo Paraguai. As obras do desvio têm como elementos 5. e estradas pavimentadas permanentes para garantir o transporte de pessoal. não dispunham de condições de absorver os contingentes humanos que a elas afluiriam em breve. esgoto e comunicação. Essas obra incluíram conjuntos habitacionais. centros comunitários. Roberto Monteiro. materiais e equipamentos. em 11. Por sua impor­ tância e complexidade. em ambas as margens.7. 5. uma vez que as cidades de Foz do Iguaçu e Puerto Stroessner.5 acima. as matérias relativas a higiene e a segurança do trabalho são objeto de acordo complementar ao Protocolo. é também assinado.Ultima inspeção das adufas e do canal antes do desvio do rio Paraná em outubro de 1978. Execução das obras civis As obras tiveram início em janeiro de 1975. Da esquerda para a direita: José Augusto Braga (Itaipu). o Protocolo sobre Relações de Trabalho e Previdência Social. O desvio do rio Paraná se deu em quatro etapas. dos empreiteiros e subem­ preiteiros de obras e locadores e sublocadores de serviços. Figura 14 . em 10. redes de serviços de eletricidade. com a constru­ ção do canteiro e da infraestrutura. No Quadro VI. XX e XXI Para tanto. que foram concluídas em 1991. segurança física e de assistência social aos trabalhadores e suas famílias.09. creches.1974.

evento que marca o início do enchimento do reservatório de Itaipu. os trampolins e as galerias. e que depois receberam as respecti­ vas comportas e equipamentos associados. observar seu desempenho hidráulico e seu desempenho estrutural e os processos erosivos de jusante. teve seu arranjo final precedido de ensaios em mo­ delo hidráulico em escala 1:100. A experiência de operar a contento o vertedouro durante muitos anos atestou sua absoluta confiabilidade para extravasar as descargas necessárias. Uma das fases mais importantes e críticas foi o fechamento do rio Paraná e seu desvio para o canal e a estrutura de desvio. a estrutura de controle do desvio. testes de funcionamento e seu fechamento final que aconteceu em 13.1982. As comportas de desvio foram posteriormente recuperadas e recondicionadas para uso como comportas de tomada d´água. que exigiram os cuidados executivos de costume para terraplenos com essa tipologia. construtivos principais o canal de desvio. Atenção es­ pecial foi dada às comportas de desvio e seu fechamento.Consultores Klaus John (à esquerda). o túnel rodoviário. com capacidade de evacuar 62. que compõem o arranjo geral da Itaipu. requereram em suas extremidades zonas de transi­ ção para contato entre si e dispositivos de abraço para contato com as estruturas de concreto (barragem de contrafortes e vertedouro).Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 15 . as calhas. O vertedouro. A partir de 1982. os muros. foi possível operar o vertedouro.200 m3/s por meio de três calhas com trampolim. com o enchimento do reservatório. testes nos trampolins e análises dos efeitos erosivos a jusante. 325 .294 m) e na margem direita (872 m). A barragem de enrocamento da margem esquerda (1. gerando imagens que ficaram famosas devido à ampla divulgação do fato na mídia) e as ensecadeiras principais de montante e de jusante no rio.10. Foram então executados a estrutu­ ra da crista. sendo reali­ zados ensaios e estudos em modelo hidráulico necessários ao projeto e fabricação de seus componentes. as ensecadeiras auxiliares em arco de montante e de jusan­ te no canal de desvio (demolidas a fogo posteriormente. localizado na margem direita do rio Paraná. Don Deere e Arthur Casagrande – outubro de 1978.984 m de com­ primento) e as barragens de terra existentes na margem esquerda (2. que são os principais componentes que formam a geometria dessas estruturas.

Arthur Casagrande e Gurmukh Sarkaria (IECO-ELC) no canal de desvio – outubro de 1978 Figura 17 .5 milhões de metros 326 .Séculos XIX. Essa atividade de auscultação da barragem continua na fase atu­ al de operação e inclui a avaliação do comportamento estrutural. enquanto o longo segmento em curva que liga a barragem ao vertedouro na margem direita e a estrutura de desvio na margem esquerda foram dotados de barragens de concreto de contrafortes. que aloja a casa de força e. tratamentos e construção de chavetas sob o leito do rio. o Edifício da Produção. associada às inspeções dos engenheiros e técnicos da Itaipu. O desempenho da barragem durante a fase de construção e o enchimento do reservatório foram avaliados pela instrumenta­ ção de monitoramento instalada nas estruturas e suas fundações. foram se erigindo gra­ dualmente as estruturas das tomada d’água e dos demais blocos de concreto. quase 32 milhões de metros cúbicos de escavação em rocha. XX e XXI Figura 16 .Paul Joachim Folberth (à esquerda) e Gurmukh Sarkaria (ambos da IECO-ELC) – abril de 1979 A parte central da hidroelétrica.A História das Barragens no Brasil .Consultores Charles Blanchet (à esquerda). hidráulico e térmico das barragens pelos resultados da instrumentação. Essas obras civis envolveram colossais quantidades: mais de 23 mi­ lhões de metros cúbicos de escavação em terra. em grande volume.Maquete da escavação da barragem de Itaipu . 6. Enquanto eram executadas as escavações para as fundações. sobre esta. e feitas as injeções. foi dotada de uma barragem de concreto de gravidade aliviada.

Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens cúbicos de argila compactada e 15 milhões de metros cúbicos de enrocamento. 12. A partir da esquerda: Adão K. Giacomo Re (Themag). denomi­ nados blocos-chave. tipo. Libero Medaglia (IECO-ELC). em vez da leitura centralizada e automática. foram selecionados levando em conta altura.Milão). O objetivo é monitorar a even­ tual ocorrência de sismos induzidos pelo reservatório. Ricardo Abrahão (Promon). 5. o que consumiu mais 2. nessa complexa etapa do projeto. Os blocos mais instrumentados. Alessandro Gallico (Engenheiro Chefe da ELC . não identificado. No projeto original de Itaipu foi adotado o critério da leitura manual da instrumentação. posição. (motorista IECO-ELC). não identificado.9.6 milhões de metros cúbicos de concreto com 31. É importante salientar a decidida atuação do Engenheiro Rubens Vianna de An­ drade.5 milhões de toneladas de peso. Engenheiro Gurmukh Singh Sarkaria (Coordenador Geral IECO-ELC). Michael Sucharov (Engevix). representatividade de um trecho e peculiaridades da fundação. A auscultação da barragem e a junta de consultores civis O projeto de auscultação da represa de Itaipu busca a garantia da segurança da barragem. Existe também uma rede de sismômetros que cobre a área da bar­ ragem e do reservatório de Itaipu. Dillo Rocha (Engevix) – outubro de 1982.Enchimento do reservatório. até hoje não 327 .5 milhões de toneladas de cimento e 481 mil toneladas de aço. Fernão Paes de Barros (Itaipu). José Antônio Rosso (Itaipu). pois a leitura manual obriga os técnicos a visitar roti­ neiramente toda a barragem. Superintendente de Obras. assegurando assim a observação direta das estruturas e fundações e dos próprios instrumentos. Figura 18 . Hilário Da Fré (motorista IECO-ELC).

em que “As deliberações (do Acordo) caracterizam-se por um espírito de boa vizinhança e de cooperação na busca de uma solução que representasse. atualmente se reúne a cada qua­ tro anos aproximadamente para verificar o desempenho das estruturas civis da Itaipu. Brasil e Paraguai avocavam direitos de uso das águas do rio. Foram presidentes da Junta Flavio H. Deve-se destacar a presença no Projeto Itaipu desses renomados engenheiros. e do Paraguai. Isso se deu em boa parte graças ao hábil uso pelos diplomatas dos elementos fornecidos pelo meio técnico que possibilitaram o alcance de entendimentos operativos que vieram a pacificar a questão.10. a ser erigido logo a jusante de Itaipu. As questões estavam centradas no estabeleci­ mento de um nível de água de operação de Itaipu que permitisse a viabilidade do futuro aproveitamento hidroelétrico argentinoparaguaio de Corpus. Nascia desse modo o Acordo sobre Cooperação Técnico-Opera­ tiva entre os Aproveitamentos de Itaipu e Corpus. bem como na adoção de medidas de segurança e de preservação ambiental. Se necessário. Corrado Piasentin.Séculos XIX. a natureza do assunto o insere ainda como última providência do período preparatório.”. 328 . montagem e operação da usina.1979 pela Argentina.10. mobilizou-se para assegurar uma regulação do fluxo que não prejudicasse seus direitos e interesses sobre as águas do rio Paraná. Essa Junta de consultores. Os equipamentos são capazes de registrar terremotos que ocorrem inclusive em regiões distantes. levantamentos e pré-análises técnicas. em cujos traba­ lhos participaram trinta consultores. Criado em 1974. também chamado de “Junta de Consultores Civis” ou “Board de Con­ sultores Civis”.A História das Barragens no Brasil . que consideravam igualmente legítimos e pertinentes. feitas por consultores especialistas que acompanham por anos o cotidiano da aus­ cultação da barragem e apóiam as equipes técnicas da Itaipu. como a Cordilheira dos Andes e as Filipinas. que não foram isentas de momentos tensos. XX e XXI registrados. que. As reuniões da Junta são precedidas de acurados preparativos. mais uma vez triunfou. Embora nessa oportunidade a obra de Itaipu já estivesse em andamento. Por outro lado. João Francisco Al­ ves da Silveira. tendo participado dos trabalhos de engenharia desde o início do projeto. celebrado em 19. Os argumentos se contrapunham ao ponto de o assunto ter sido debatido inclusive durante a Assembléia Geral da ONU realizada em 1972.3. Lyra (1974 a 1992). que se reunia com frequência maior durante a fase de estudos e projetos e iní­ cio da construção das obras. para as três Partes. Marcos Antonio Daniel Damus e Roberto Ramón Acosta Alvarez. sem dúvida os mais qualificados para exercer a gestão técnica do empreendimento. a Itaipu mantém um painel permanente de consultores inter­ nacionais especialistas em engenharia de barragens. conhecidos in­ ternacionalmente. de Souza Pinto (2010). para satisfação de todos os interessados. na manutenção da viabilidade da navegação e do abastecimen­ to de água. Gurmukh S. A Junta realiza inspeções técnicas e analisa os dados da auscultação para aferir as condições de uso e segurança da usina. a efetiva convergência de interesses e a obtenção de benefícios recíprocos. ciente das expressivas dimensões da barragem de Itaipu e de sua capacidade de armazenamento e de contro­ le dos caudais. pelo Brasil e pelo Paraguai. Ao término de cada reunião é elaborado um relatório técnico sobre a segurança da barragem e seus temas correlatos. A Junta realizou 20 reuniões entre 1975 e 2010. O Acordo Tripartite A Argentina. Alguns desses profissionais são colaboradores de longa data da Itaipu. passando depois pelas fases de construção. 5. conforme citado no Quadro IV do item 5. Entre estes men­ cionamos: do Brasil. Sarkaria (1995 a 2006) e Nelson L. os consultores recomendam eventuais ações de melhoria e correção. As negociações. exigiram mais um tour de force da área diplomática. Michael Maxwell Dayan Dermont Sucharov.

A cessão desse benefício é feita pelo Brasil sem ônus para a Argentina e para o Paraguai.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 19 . 329 . situa-se na porção mais a jusante do rio Paraná ainda em território brasileiro. tal como ocorreu. em 13 de outubro de 1982 as comportas de desvio foram completamente fechadas e teve início o enchimento do reservatório de Itaipu. que antes comportava inte­ gralmente o veloz rio Paraná. fundamentais para que a operação fosse bem-sucedida.10.350 km2 (780 km2 no Brasil e 570 km2 no Paraguai). da mais alta importância para todo o projeto. Esse lago. O cânion. foi antecedido de uma série de preparativos.80 metros (acima do nível do mar). que se deu em três etapas. a montante e a jusante da barragem. passa a ser insuficiente para a água que se acumula. justamente por Itaipu. que enfim transborda da calha do rio. A formação do reservatório Conforme mencionado. passou da cota 109 me­ tros para a cota 205. Esse evento.Assinatura do Acordo Tri-Partite Argentina-Brasil-Paraguai em 19.1979 – Chanceleres Alberto Nogués (Paraguai. invade e se espraia com rapidez nas adjacências mais altas e mais planas. Formou-se desse modo um lago artificial de expressivas dimensões: 170 km de comprimento. profundidade máxima de 180 m e su­ perfície de 1. Carlos Washington Pastor (Argentina) e Ramiro Saraiva Guerreiro (Brasil). dentro de um espírito de cooperação entre os países do Cone-Sul da América do Sul. com elevado grau de regu­ larização. que drenam os cursos de água de uma vasta área com mais de 820 mil quilômetros quadrados a montan­ te de Itaipu. elevandose em quase 100 metros . então. 5. capaz de armazenar 29 bilhões de metros cúbicos de água. em direção ao Paraguai e à Argentina. em pé). no prazo de 15 dias. O rio Paraná. sendo por isso o último de um conjunto de 47 reservatórios de usinas com potência maior que 30 MW existentes na Região Hi­ drográfica do Paraná.11. Cabe salientar que a existência desses reservatórios faz com que o rio Paraná saia do Brasil. compartilhado pelo Brasil e pelo Paraguai.

A partir dos estudos de 1973. o qual posteriormente publicou o livro “Hidroelétricas. setores de lazer e setores de integração urbana. As medidas de proteção e valorização do meio ambiente envolveram a proteção das florestas existentes e reflorestamento (que nos dias atuais contabiliza 44 milhões de árvores plantadas). foi elaborado o “Plano Básico de Conservação do Meio Ambiente”. 330 .C. é claro. A medição desses parâmetros tem indicado que. levantamento da fauna e levan­ tamento da pesca) e ao meio ambiente social (programas sanitários e de saúde pública e investigações arqueológicas). Os levantamentos previstos se deram então quanto ao meio am­ biente físico (qualidade da água. Esse estu­ do categorizou os possíveis efeitos físicos. tiveram reflexo inclusive na estrutura organizacional da Itaipu. que já havia alterado significativamente o meio ambiente local. na agricultura e na pecuária. Essas considerações ambientais. O plano também estipula os procedimentos de gestão dos usos múltiplos pela Itaipu e a coordenação dessa com as autoridades das diversas esferas de governo.A História das Barragens no Brasil . biológicos e sociais e traçou diretrizes para a proteção e valorização do meio ambiente na área do projeto e nas regiões afetadas. como se previa. 5. ainda que naquela época parte da região registrasse importante inter­ venção humana. suas formas de ocupação e usos permitidos. Isso foi percebido pelos projetistas que. tendo o relató­ rio referente a esse último item sido elaborado pelos consultores James Albert Harder e Hans Albert Einstein). inusuais à época. Definiu também um zoneamento territorial do reservatório: (1) zona do reservatório e (2) zona do litoral (onde se encontra a área de proteção do reservatório): setores especiais. setores de aproveitamentos múltiplos. Meio ambiente e ecologia Como a maioria dos empreendimentos de grande porte. algumas delas potencialmente conflitantes entre si. principalmente na mar­ gem brasileira. limpeza da área do reservatório. conforme estabelecido no Anexo A do Tratado. entre cujas atribuições está a de ser responsável “pelos serviços relacionados com a preservação das condições ambientais na área do reservatório”. Robert Goodland e por especialistas da própria IECO-ELC. O plano definiu então os usos múltiplos do reservatório. meio ambiente e desenvolvimento”. Cabe men­ cionar a participação do Engenheiro Arnaldo Carlos Muller na liderança desses trabalhos. pois. o pro­ jeto previu também a avaliação do desempenho geofísico do reservatório no que se refere a recalques da crosta terrestre devido ao peso da água e à atividade sísmica relacionada ao reservatório (sismo induzido). As informações e os resultados obtidos com os levantamentos realizados mostraram quais seriam as várias utilizações possíveis do reservatório. Essa avaliação serviu principalmente para definir qual estru­ turação seria mais adequada ao Plano-Mestre de utilização da área do reservatório. XX e XXI Afora os aspectos ambientais relacionados à formação do lago de Itaipu.Séculos XIX. a constru­ ção de Itaipu inevitavelmente interviria no ambiente natural. em 1973. a elaboração de um plano-mestre para utili­ zação da área do reservatório e a aplicação de medidas de prote­ ção ambiental. a aqui­ cultura (tanques-rede e canal de migração e desova – Canal da Piracema) e a recuperação e paisagismo da área de construção da obra. turismo e lazer. que serão apresentados na sequência.12. abastecimento de água para consumo doméstico e irrigação. da geração de energia elétrica: nave­ gação. o resgate de animais (operação Mymba Kuera – pega-bicho). ao meio ambiente biológico (levantamento florestal. projeto em que atuou o arquiteto e paisagista Fernando Magalhães Chacel e que foi executado pelas empresas PARELC – GCAP e Arquitetura Ambiental S. Ltda. se aprofundaram no assunto e apresentaram à Comissão Mista Técnica Brasileiro-Paraguaia estudo elaborado pelo Dr. a implantação de reservas e refúgios (em um total de oito no Brasil e no Paraguai). A possibilidade de adoção de medidas voltadas ao meio ambien­ te deu o tom para toda a ação que se seguiu. foi criada a Diretoria de Coordenação. não ocorrem fenômenos geofísicos que afetem adversamente a segurança e a estabilidade das estruturas da represa. e prescreveu a realização de levantamento ambiental na área do projeto. pesca. além. que definiu a política ambiental da Itaipu a partir de 1975. efeitos climáticos e transporte de sedimentos.

por­ tanto. ou seja. A atividade turística. onde exis­ tiam 8. água.13. 331 . cuja compensação paga pela Itaipu foi equivalente a US$ 190 milhões. proporcionando assim um uso regular de sua linha costeira para atividade de turismo e lazer. o que de­ senvolveu o comércio e a prestação de serviços locais. 5. José Luiz Dias (1997-2000). foram também submersos 577 km de estradas. Nessas cidades e em outras.1). Nos dois municípios foram construídas 10 mil casas nas áreas residenciais. cuja densidade demográfica era de 35 habitantes/km2. a grande atratividade que a represa exerce sobre os turistas. ele­ tricidade. talvez o mais im­ portante tenha sido a necessidade de reassentamento de pessoas que residiam ou tinham suas posses ou desenvolviam suas atividades (majoritariamente agrícolas. Luiz Eduardo Veiga Lopes (1985-90). Foram Diretores de Coordenação brasileiros da Itaipu. Alia-se ao fato da Itaipu ter sido construída na região que abriga as mundialmente famosas Cataratas do Iguaçu .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens principalmente em Foz do Iguaçu e em Ciudad del Este (anti­ ga Puerto Stroessner). verifica-se que. o cargo é ocupado por Nelton Miguel Friedrich. não se limita ao sítio da usina. Desde 2003. com balneários e marinas. da submersão de equipamentos urbanos e de construções lo­ cais de valor cultural ou afetivo. com vias pavimentadas. responsá­ veis pelos serviços relacionados com a preservação das condições ambientais na área do reservatório e à execução de projetos e obras fora da área das instalações destinadas à produção de energia elétrica: Cássio de Paula Freitas (1974-85). além do aumento populacional. Além da perda das áreas cultiváveis (a maior parte no Brasil). com uma média histórica por volta de meio milhão de pessoas por ano. Tais áreas requeridas pelo projeto perfaziam em torno de mil qui­ lômetros quadrados no lado brasileiro (ver item 5. estendendo-se também às localidades próximas ao lago.6 mil urbanas). com reflexos socioeconômicos locais. houve melhorias e expansão da infra-estrutura nos municípios da área de influência do reservatório. Figura 20 . houve notório incremento da circulação econômica. como pelo consumo de bens e serviços proporcionados pelos milhares de trabalhadores que recebiam salários e benefícios de seus empregadores vinculados ao projeto. no entanto. produtivas) nas áreas que seriam inunda­ das pelo lago. o que coopera também para o processo de desenvolvimen­ to da região. esgoto e demais equipamentos urbanos. tanto pelo atendimento da diversidade de suprimentos necessários às diversas frentes das obras. Brasílio de Araújo Neto (1995-97).Faixa de proteção do reservatório. o que exigiu que outros 390 km fossem reabertos com novo traçado. Entre os impactos físicos de repercussão social. para a maior permanência de turistas na região da fronteira trinacional Argentina-Brasil-Paraguai. a tal ponto de ter sido visitada por cerca de 16 milhões de pessoas de 1977 a 2010. Antonio José Correia Ribas (2000-2002) e Olivo Zanella (2002). A Itaipu contribui. e a grande maioria deles permaneceu nas proximidades da área do projeto.5 mil propriedades (6.9 mil rurais e 1. Nelson Farhat (1990-91).e por isso forte­ mente turística -. Tércio Alves de Albuquerque (1991). Esses valores possibilitaram que os deslocados comprassem em média uma metade a mais em relação às terras que possuíam antes. Márcio de Almeida Abreu (1994-95). Desenvolvimento regional e turismo No que se refere ao desenvolvimento econômico e social da re­ gião com a implementação do Projeto Itaipu. uma vez que o nível de água do reservatório permanece pratica­ mente inalterado ao longo do tempo. próximas a elas.

O Quadro VIII e o Quadro IX. As obras de montagem eletromecânica foram iniciadas em 1980 e concluídas em 1991. Desse modo.Séculos XIX.Entra em operação a primeira unidade geradora em 05. Figura 21 . contêm as relações dos consórcios e empresas que fizeram respectivamente o controle de qualidade e inspeção e exe­ cutaram a montagem propriamente dita dos equipamentos.A. de acordo com o cronograma geral. também anexos. ao passo que foram também sendo instalados os sistemas de controle. Foram também montadas as linhas de transmissão que conectam a usina ao sistema elétrico interligado. pondo em funciona­ mento a primeira de suas 18 unidades geradoras contratadas à época. contém a relação dos consórcios e empresas fabricantes. por meio das subestações construídas na margem brasileira e na margem paraguaia. esses portos eram bastante afastados da região das obras. A montagem eletromecânica À medida que obras civis foram avançando. boa parte das peças eletromecânicas provém de centros industriais ou do exterior.14. A usina alcançava desse modo autonomia parcial. alguns dias depois. pertencente a empresa Furnas Centrais Elétricas S. Foi um importante marco na história do empreendimento. Esses trabalhos contaram com a experiente atuação do engenheiro José Gelazio da Rocha. supervisão e proteção. e os segmentos da construção foram sendo liberados. utilizando o sistema de corrente contínua (HVDC – High Voltage Direct Current). sincronizada com a rede da ANDE. 5. em 5 de maio de 1984.. no setor de 50 Hz. os condu­ tos forçados e os equipamentos na barragem de concreto.15. o que exigia transportes de longa distância em veículos especiais. deu-se continuidade à montagem dos equipamentos de geração da casa de força e dos equipamen­ tos e sistemas auxiliares desta. Funciona a primeira unidade geradora Cumprindo o cronograma de montagem. Obede­ cendo-se os delays programados. e. Logo depois. anexo. em 17 de dezembro de 1983 ocorre o primeiro giro mecânico da turbina da unidade geradora U1. ela passou a transmitir energia em caráter experimental para São Paulo. Superintendente de Engenharia da Itaipu em 1974. foi iniciada sua operação efetiva.05. foram também iniciadas as montagens eletromecânicas. passando por portos marítimos. XX e XXI 5. No caso de Itaipu.A História das Barragens no Brasil . foram então montadas as tomadas de água. localizada na extremidade direita da Casa de Força. 332 . Conforme é característico dessa fase da construção de uma hidro­ elétrica. O Quadro VII. acarretando para a Itaipu dispêndios em obras de acon­ dicionamento de rodovias e de pontes no Brasil para a passagem dessas cargas de grandes dimensões e peso. à direita).1984 – Congratulações dos Diretores-Gerais José Costa Cavalcanti (Brasil) e Enzo Debernardi (Paraguai.

Custo direto de Itaipu De acordo com o item 4. Desse montante. sete anos da entrada em operação das duas primeiras unidades. que passou a adminis­ trar o Hospital Ministro Costa Cavalcanti. assim. é enfim inaugurada a uni­ dade geradora U18. última das 18 unidades previstas do conjunto gerador principal com 12. sem fins lu­ crativos. porém. uma entidade fechada de previdência privada (fundo de pensão). o que resu­ me o histórico do endividamento da Itaipu.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens 6. 333 . Nesse sentido. foi então iniciada a comercializa­ ção da energia produzida pelas duas primeiras unidades geradoras (U1 e U2).1. Antes. muitos deles vindos de outras empresas do setor elétrico. em 25 de outubro de 1984 foram então oficialmente inauguradas as unidades geradoras U1 e U2. Nessa linha foi também criada em 1994 no Brasil a Fundação de Saúde Itaiguapy. para efeitos de faturamento. passando a hidroelétrica a contar en­ tão com 20 unidades geradoras. em face do novo vínculo emprega­ tício. entregues ao sistema interligado. O Quadro X. para atender aos empregados do quadro permanente da Entidade binacional. 6. a Itaipu começou o processo de mobilização da força de trabalho necessária para a futura ope­ ração e manutenção da usina. O ápice da participação da Itaipu Binacional no mercado brasilei­ ro foi então alcançado em 1997. alcançando. mostra a relação dos consórcios e empresas que executaram a instalação das unidades de reserva. ativando assim a contabilidade dos suprimentos de ele­ tricidade da Itaipu às entidades compradoras Eletrobras e ANDE. Posteriormente. Desse modo. que via­ bilizaram a obra. a Itaipu instituiu a Fundação Itaipu-BR de Previdência e Assistência Social. que seria de longa duração.5 acima.2 bilhões correspondem aos investimentos diretos.000 megawatts (MW). assim. totalizam a cifra de US$ 27 bi­ lhões de recursos utilizados no empreendimento. montantes da ordem de US$ 26. ainda em 1984 foram produzidos por Itaipu 277 gigawatts-hora (GWh) de energia. portanto. sua potência máxima de 14.9 bilhões. Na margem paraguaia foram criadas para as mesmas finalidades a Caja Paraguaya de Jubilaciones y Pensiones del Personal de la Itaipu Binacional (Cajubi) e a Fundación de Salud Tesai .1. Início da operação comercial da usina A partir de 1 de março de 1985. 6. em 6 de maio de 1991. Foi.8 bilhões ao pagamento dos encargos e rolagem da dívida durante a construção. os governos do Brasil e do Paraguai resolveram realizar a obra mediante a obtenção de emprés­ timos a serem pagos a longo prazo. anexo.1. utilizando as receitas a serem geradas com a própria produção da usina.2. por volta de 1982. decorridos. de 2000 a 2007. ambas em 50 Hz. foram também montadas as unidades U9A e U18A. de 1974 a 2008. A exemplo dessas empresas. com o atendimento de 26% da demanda do setor elétrico do país. US$ 12. e US$ 14. fase que exigiria competências e relações de trabalhos diferentes das aplicáveis aos trabalhado­ res que atuaram durante o tempo que durou a construção e a montagem.1. gradualmente constituído o quadro de trabalhadores per manentes da usina. foram captados. Mantido o ritmo de montagem de duas a três unidades por ano. O Governo Federal Brasileiro apoiou integralmente o esforço de captação de recur­ sos para o financiamento da construção e o Tesouro Nacional do Brasil ofereceu todas as garantias para os empréstimos.600 megawatts (MW) que consta no Anexo B. cuja descrição será apresentada adiante. Operação da usina e desenvolvimento organizacional 6. que somados aos US$ 100 milhões relativos ao capital social inicial. A operação da usina Decorrido o breve período inicial.

000 MW de capacidade. Mas. Juan Bosio. principalmente por parte dos municípios da região impactada.3. Pinto. João Francisco Alves Silveira (consultor especialista) e Carlos Leonardo (Itaipu). Vidal Galeano. Nelson L. em montantes iguais. ao regime hidrológico favorável do rio Paraná e à regularização do fluxo a montante na Região Hidrográfica do Paraná e. questão primordial quando se trata de hidroeletricidade. 334 . a usina chinesa dificilmente superará a de Itaipu em geração anual de energia. proporcionam um aumento da capacidade realizadora dos dois países. sendo contabilizado no custo anual do serviço de eletricidade prestado pela Itaipu. alcançado seu recorde operativo em 2008 com a produção de 94. A Itaipu se consagra desse modo.A História das Barragens no Brasil . 6.600 MW para 14. Gurmukh Sarkaria (Chairman). Recorde operativo e comparações A Usina de Itaipu. A partir da esquerda: Victor de Souza Lima. na assessoria aos consultores. acrescido do respectivo fator de ajuste. de S. de um lado.1.2 mil megawatts (MW) de potência instalada.Séculos XIX. ao fato de que o projeto de Três Gargantas prioriza o controle de cheias em detrimento da geração de energia. Essa excepcional condição fez com que desde 1997 a Itaipu venha gerando em torno de 90 mil gigawatts-hora (GWh) por ano. de outro lado. Paulo Teixeira da Cruz. localizada na China. Os valores transferidos a título de Royalties entre 1991 e 2010 ao Brasil e ao Paraguai.1. O pagamento dos royalties é então feito às Altas Partes Contratantes.4. Esse efeito pode ser constatado pela elevação verificada no IDH (Índice de Desenvolvimento Humano do PNUD . como a maior usina hidroelétrica do mundo em geração de energia. 6. e. o Tratado de Itaipu estabeleceu os royalties em seu Anexo C como mecanismo compensatório pelo uso do potencial hidráulico do rio Paraná no trecho em condomínio entre os dois países.Reunião do Board de Consultores Civis em novembro de 2006. que auferem inegáveis benefícios para sua população. que possui 18. Pagamento dos “royalties” e seus benefícios Conforme mencionado. XX e XXI Figura 22 . em valor equivalente a US$ 650 por gigawatt-hora (GWh) gerado e medido na central elétrica. é superada nesse quesito somente pela Usina de Três Gargantas. atualmente.685 gigawatts-hora (GWh) de energia. que alcançaram a casa dos US$ 7 bilhões. que passa então de 12. devido.Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) de vários municípios da região.

Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 23 . sob determinados parâmetros e normas. não impede o desenvolvimento endógeno da Itaipu como organização empresarial. Isso é sobremaneira reforçado pelas Notas Reversais sobre Responsabilidade Social e Ambiental. na restituição do fluxo de água no leito do rio Paraná. todavia. acompanhados dos respectivos Diretores-Gerais da Itaipu Jorge Miguel Samek e Victor Luis Bernal Garay.. Essa limitação.” . com mais intensidade durante os períodos secos do rio Paraná.03. a montante. Itaipu pôde deplecionar seu reservatório. conforme será percebido pelas ações mostradas cronologicamente na seqüência. a construção da barragem sobre o rio criou dois ambientes bastante distintos. qual a Entidade tem experimentado significativo êxito.. 6.1. da ordem de 80 milhões de megawattshora (MWh) por ano. Tal fenômeno. com águas calmas. na crise de abastecimento de energia elétrica vi­ vida pelo Brasil em 2001 .2002. que é uma vereda pela 6. Esses dois ambientes perma­ neceram originalmente incomunicáveis entre si. 335 . assinadas em 31. praticamente também ocorria na região de Guaíra.2.05. porém. um. Cabe registrar que. não prevendo sua expansão para outros negócios.2007 – Presidentes Luis Inácio Lula da Silva (Brasil) e Nicanor Duarte Frutos (Paraguai).Inauguração das duas últimas unidades geradoras em 17. pelas quais o Brasil e o Paraguai defi­ nem “.. novo. mantendo ele­ vados níveis de produção. decorrente da escassez de chuvas naquele período e conseqüente dificuldade de reposição da água armazenada nos reservatórios da maior parte das hidroelétricas do País.. O canal de transposição de peixes Em termos de ictiofauna. já antes da construção da usina. e outro a jusante. conseguindo desse modo mitigar sobre­ maneira os efeitos da redução da oferta de energia no sistema interligado brasileiro naquele momento crítico. que as iniciativas no campo da responsabilidade social e ambiental devem inserir-se como componente permanente na atividade de geração de energia. A Itaipu se desenvolve organizacionalmente O Tratado de Itaipu define como propósito específico da Enti­ dade Binacional construir e operar unicamente a hidroelétrica de Itaipu.2.2005. no lago. a partir do início da operação da usina.

portanto. hoje e no futuro e pode ser útil ao meio externo à Itaipu. em corredeiras especialmente Figuras 24 e 25 . na foto da direita. Com essas concepções. inclusive na região de Guaíra. inserindo nela. com 10 km de extensão. como um espaço para a integração educacional. A partir daí foi implantado em 2003 o Parque Tecnológico Itaipu. a administração da Itaipu deu. logo depois. Vidal Galeano. As competições ali realizadas também contribuem para o desenvolvimento do turismo regional. como canoagem de rafting e slalom. Desse processo. O Canal da Piracema permite então que os peixes migradores cheguem às áreas de reprodução e berçários acima da usina no período da piracema (migração reprodutiva). construídas para essa finalidade. 2. XX e XXI Por isso.Séculos XIX. cuja reutilização é indispensável ao adequado funcionamento da empresa. os consultores em túnel de drenagem. No Canal da Piracema são também praticados esportes náuticos. Selmo Kuperman.2. O Canal foi inaugurado em 2002. a Itaipu encerrou suas obras principais da usina.A História das Barragens no Brasil . Pinto (Chairman). 6. Ruben Brasa Soto (Diretor Técnico de Itaipu) e João Francisco Alves Silveira (consultor especialista da assessoria ao Board). Paulo Teixeira da Cruz. idéia que surgiu depois de muitas discussões. John Gummer. tecnológica e cultural da América Latina. 336 . Antonio Otelo Cardoso (Diretor Técnico Executivo da Itaipu). entre outros aspectos.Reunião do Board de Consultores Civis em novembro de 2010 – foto da esquerda (a partir da esquerda). no Brasil e no Paraguai. embora sua execução tenha sido iniciada em 1997 pelo Governo do Estado do Paraná. complexo. mediante acordo deste com a Itaipu. A comunicação estabelecida finalmente entre o lago e o rio passa. Essa decisão foi precedida do estudo denominado “A ictiofauna de ocorrência do rio Bela Vista”. enunciado mais amplo à Missão da Entidade. hoje é livre a migração de peixes de jusante para montante e vice-versa. foi projetado e construído pela Itaipu o Canal da Piracema. firmadas em 2003. de S. Nelson L. resultou apreciável acúmulo de conhecimento por parte dos profissionais e da organização. em parte artificial e em parte regularizando o rio Bela Vista. a desempenhar um papel importante para a conservação da biodiversidade. cuja foz se localiza na margem esquerda do rio Paraná. O parque tecnológico Itaipu Ao por em operação suas duas últimas unidades geradoras. Assim. o PTI. mesmo nas épocas de estiagem. o necessário impulso ao desenvolvimento tecnológico sustentável no Brasil e no Paraguai. Giuseppe Stevanella. e retornem no outono e inverno (migrações ascendente e descendente).2.5 km a jusante da usina.

ONGs. impulsionando o desenvolvimento econômico. de especial interesse para a engenharia de barragens. avaliar resultados das medições efetuadas. próprias de qualquer empresa contemporânea. mestres. produtores rurais. atuam nos programas e ações que estão sendo de­ senvolvidos. O comitê faz também a articulação perante os órgãos públicos do Poder Executivo.2. além dos comitês específicos dos programas transver­ sais. entre outros.”. entre prefei­ turas. desde e inclusive o Salto Grande de Sete Quedas. proporcionando desse modo uma fonte de receitas que ajuda no financiamento de suas atividades) e ao empreendedorismo. que era a reprodução do objeto do caput do Tratado de Itaipu. pela Universida­ de Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste) e por instituições parceiras. O CEASB conta com alunos de graduação. Os membros do Comitê Gestor se reúnem periodicamente para dialogar sobre o an­ damento das ações do CAB no município. portanto. que se justifica a existên­ cia de Itaipu.09. O Programa Cultivando Água Boa Considerando-se que é pela água. com responsabilidade social e ambiental. na margem brasileira - para os 29 municípios da Bacia Hidrográfica do Paraná 3 (BP3). que permeiam todo o tecido social da BP3. os comporta­ mentos das estruturas de barragens e seus respectivos materiais. órgãos governamentais. A Missão ampliada da Itaipu passa então de: “Aproveitamento hidroelétrico dos recursos hídricos do rio Paraná. ou Salto de Guaíra. Desse modo. pós-doutores e profissionais de notório saber. que consiste em uma das 16 bacias hidrográficas instituídas oficialmente no Estado do Paraná. a Itaipu. enfim. com o propósito final de dedicar cuidados extremos à água de que dispomos. a área de influência de atuação direta de Itaipu deslocou-se dos 16 mu­ nicípios conhecidos como lindeiros . na forma de uma Missão ampliada em relação ao enunciado anterior. em que a Itaipu. o que passou a exigir determinados resultados empresariais antes não requeridos ou requeridos de for­ ma diferente. Atualmente.4.que tiveram áreas inundadas pelo  reservatório da usina. de um movimento de participação permanente. de viver.2003 aprovou a revisão de seu planejamento estratégico. nele explicitando aquelas ini­ ciativas que já vinha conduzindo. portanto. Essa Missão ampliada obrigou o reajustamento das políticas e di­ retrizes fundamentais da Itaipu e influiu diretamente na redefinição de seus objetivos estratégicos. hoje e sempre. 6. até a foz do rio Iguaçu. pertencentes em condomínio aos dois países. do Po­ der Judiciário e dos órgãos ambientais para ajudarem a encaminhar soluções. o que inclui também o CBDB. sustentável. O CAB define como território de atuação a unidade de planejamen­ to da natureza: a bacia hidrográfica.2. moldando-se assim uma nova maneira de operar a 6.600 parceiros. correlacionar me­ dições com as prováveis causas e desenvolver técnicas de inteligência computacional relacionadas ao comportamento e segurança de barragens. pelo PTI. para “Gerar energia elétrica de qualidade.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens O PTI se dedica. além de mitigar e cor­ rigir passivos ambientais existentes nas comunidades da região. doutores. Em decorrência desse conceito. o CAB conta com mais de 1. ao turis­ mo (em 2007 foi repassada à Fundação PTI a exploração do Complexo Turístico Itaipu. turístico e tecnológico. em 05. cooperativas. de produzir e de consumir.3. à educação. a organização exterioriza para as sociedades de Brasil e Paraguai valores convergentes com uma governança corporativa atualizada. à pesquisa. associações de classe. representantes da sociedade civil organizada e outros. que se constitui em um espaço técnico-científico implantado pela Universidade Corporativa Itaipu. Nas atividades de pesquisa conta com o CEASB – Centro de Estudos Avançados em Segurança de Bar­ ragens. A Missão ampliada da Itaipu e seus reflexos Conforme citado nos itens anteriores. com qua­ lidade. foi então criado o Programa Cultivando Água Boa (CAB). principalmente relacionadas às pequenas propriedades. O objetivo do CEASB é estudar. no Brasil e no Paraguai”. após reflexões feitas por parte de sua Direção. que organizados em Comitês Gestores em cada um dos 29 municípios. 337 . trabalha com a sociedade para mudar os seus valores e sua maneira de se conduzir. para que ela se mantenha abundante. Trata-se.

com poucas alterações para atender a essas demandas. essas comparações. 7.2005 o Brasil e o Paraguai trocaram notas diplomáticas reversais.2. de desenvolvimento e inovação e de gestão do conheci­ mento. a ação de gerar energia pressupõe que sua execução se dê com responsabilidade social e ambiental. estão sendo conduzidos o projeto de modernização da usina (atualização tecnológica).03. Esses projetos estratégicos. em 2003. Foi a solidez dessa base de entendimento e de união que verdadeiramente permitiu que 6.5. quer sob a de pesquisa..5 vezes superior ao do Eurotúnel no Canal da Mancha. o Brasil teria que queimar 536 mil barris de petróleo por dia para obter em plantas termoelétricas a mesma produção de energia de Itaipu. Contudo. o volume de escavações de terra e rocha em Itaipu é 8. desenvolvimento . o projeto do Centro Internacional de Hidroinformática (junto com a UNESCO) e a Uni­ versidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA). e o volume de concreto é 15 vezes maior. mas sim eri­ gir uma das obras de engenharia mais portentosas existentes no planeta.. desenvolve alguns projetos. a capacidade de descarga máxima do vertedouro de Itaipu (62.  Em razão disso. com nível de superintendência.Séculos XIX. subjacentes à exatidão dos números e de seus resul­ tados materiais. Portanto. Epílogo Os números de Itaipu suscitam impressionantes comparações: o volume total de concreto utilizado na construção da usina seria suficiente para construir 210 estádios de futebol como o do Maraca­ nã. a Itaipu. mas aproveitando-se sua estrutura organizacional. a revista norte-americana Popular Mechanics e a Associação Norte-Americana de Engenheiros Civis (American Society of Civil Engineers . tecnológico . que a todos tanto impressiona.. o fato de ela passar a constar na Missão serve para reiterar a convicção das Altas Partes Contratantes quanto à necessária e contínua assimilação desses valores pela Itaipu.”. dentro de um espírito de cordialidade e os laços de fraternal amizade. dada à importância do assunto. que selam o acordo celebrado pelos dois países quanto à conduta de ambos no campo da responsabilidade socioambiental na Itaipu. Embora essa concepção não seja novidade na Itaipu.A História das Barragens no Brasil . o projeto de software livre. a Plataforma Itaipu de Energias Re­ nováveis. quer sob a linha da educação corporativa. com a cooperação do PTI.. Responsabilidade social e ambiental De acordo com a Missão ampliada da Itaipu. E.2 mil metros cúbicos por segundo) corresponde a 40 vezes a vazão média das Cataratas do Iguaçu. de grandeza obliterante. Consoante a Missão ampliada. Nesse sentido.ASCE). dentre os quais se encontra o próprio PTI.. Isso reafirma a visão de que a responsabilidade social não é apenas um conjunto de ações. o projeto do veículo elétrico. mas uma forma de gestão da empresa na sua inte­ gralidade. a Itaipu criou a Coordenação dos Progra­ mas de Responsabilidade Social. que estabelece também o “. comentários e adjetivos servem para demonstrar que o Brasil e o Paraguai decidiram construir juntos não só uma hidroelétrica de extragrande porte. o ferro e aço utilizados permitiriam a construção de 380 Torres Eiffel. XX e XXI empresa. em 1995 classificaram a Itaipu como “uma das sete maravilhas do mundo moderno”.. Com esse ordenamento conceitual. 338 . estão os valores maiores do acordo que os cidadãos brasileiros e paraguaios souberam consolidar. A altura da barragem principal (196 metros) equivale à altura de um prédio de 65 andares. em 31. próprios de uma atuação empresarial moderna. que são considerados estratégicos para a organização porque estão alinhados com objetivos da organização e procuram apresentar os resultados que se pretende obter com o desenvolvimento tecnológico da usina e do seu entorno. sob o título “Missão da Itaipu Binacional no campo da responsabilidade socioambiental”. partem da Universidade Corporativa Itaipu (UCI) para seu de­ senvolvimento.

Pela cessão das fotografias: à Assessoria de Comunicação Social. José Ricardo da Silveira. João Emílio C. Ademar Sérgio Fiorini. que foi fundamental para a concretização do Projeto Itaipu. principalmente para a com­ preensão desse aspecto sinérgico.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens ambos os países convergissem para o interesse comum de re­ alizar o aproveitamento hidroelétrico. Corrado Piasentin. Marco Aurélio Vianna de Escobar. de Mendonça. Esperamos que esse texto tenha sido útil ao leitor. Agradecimentos Pelas contribuições ao texto e quadros anexos: a Margaret Mussoi Luchetta Groff. 339 . Cláudio Porchetto Neves. Joran Alfredo Sachs e ao Centro de Documentação da margem brasileira. Flavio Miguez de Mello. S. José Augusto Braga e a Corrado Piasentin (álbum particular). na pessoa de seu gerente Jorge Henn. todos órgãos da Itaipu. Superintendência de Engenharia e Superintendência de Obras.

A História das Barragens no Brasil .Aspectos de Engenharia”.Séculos XIX. XX e XXI Continuação da página anterior Fontes: livro “Usina Hidrelétrica de Itaipu . Centro de Documentação da ITAIPU Binacional. 340 . margem brasileira. ITAIPU Binacional 2009.

341 . Centro de Documentação da ITAIPU Binacional.Aspectos de Engenharia”. ITAIPU Binacional 2009.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Fontes: livro “Usina Hidrelétrica de Itaipu . margem brasileira.

Centro de Documentação da ITAIPU Binacional. ITAIPU Binacional 2009. margem brasileira.Aspectos de Engenharia”. margem brasileira. Centro de Documentação da ITAIPU Binacional. Fontes: livro “Usina Hidrelétrica de Itaipu Aspectos de Engenharia”. ITAIPU Binacional 2009. XX e XXI Fontes: livro “Usina Hidrelétrica de Itaipu . 342 .A História das Barragens no Brasil .Séculos XIX.

margem brasileira.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Fontes: livro “Usina Hidrelétrica de Itaipu . ITAIPU Binacional 2009.Aspectos de Engenharia”. Itaipu .vista aérea 343 . Centro de Documentação da ITAIPU Binacional.

344 .A História das Barragens no Brasil . margem brasileira. ITAIPU Binacional 2009.Séculos XIX. XX e XXI Fontes: livro “Usina Hidroelétrica de Itaipu Aspectos de Engenharia”. Centro de Documentação da ITAIPU Binacional.

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PCH Ivan Botelho III (Triunfo) no rio Pomba em Minas Gerais .

literalmente. a força motriz do Brasil no final do século XIX e no início do século XX. muito mais importante pelo pio­ neirismo e como alavanca do desenvolvimento. Pela definição atual. Naquela época. com mais de 10 anos de história na defesa das PCHs. A caracterização e definição do conceito de pequenas centrais hidroelétricas – PCHs só foi criado no Brasil nos anos 80 do século XX. as pequenas cen­ trais hidroelétricas PCHs são de até 30 MW e são chamadas de “pequenas”. Quadro 1 – Quadro comparativo UHE x PCH 347 . do que os em­ preendimentos dos dias de hoje. Naquela época. As usinas. algumas poucas indústrias e iluminação pública. além de fornecerem força motriz para bondes nas cidades maiores. Foram. antes denominada APM­ PE – Associação Brasileira dos Pequenos e Médios Produtores de Energia. mas com características. um quadro elaborado pela ABRAGEL – Associação Brasileira de Geração de Energia Limpa. Até 1930 mais de mil diferentes empre­ sas de geração e distribuição de energia elétrica estavam ativas.000 kW instalados. com raras exceções.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens As Pequenas Centrais Hidroelétricas no Brasil Ricardo Nino Machado Pigatto Introdução As pequenas centrais hidroelétricas sempre fizeram parte da his­ tória do Brasil no que diz respeito à geração de energia elétrica. operando hidroelétricas de pequeno ou médio portes. Foi um período notável para o País. Para demonstrar a atual importância das PCHs na matriz elétrica brasileira. Entre 1901 e 1910 foram construídas em todo o Brasil setenta e sete usinas hidroelétricas. relaciona a soma das PCHs em operação no Brasil com as grandes hidroelétricas e apresenta o conjunto das PCHs como a terceira maior fonte geradora de energia hidráulica nacional. a geração de energia elétrica era eminentemente privada. ultrapassa­ vam 1. o apogeu e. a crise das pequenas centrais hidroelétricas. as usinas eram de potências modestas porque alimentavam pequenas cidades. O desenvolvimento do país sempre esteve ligado diretamente à expansão da geração de energia. Neste capítulo são enfocados o nascimento. complexidades e tecnologia que orgulham a engenharia nacional e são referência internacional. o desenvolvimento. No início do século passado as usinas hidroelétricas eram referidas como “pujantes e estru­ turantes”. atualmente.

XX e XXI Nos anos seguintes. ser um con­ sumidor livre. foi criado o conceito de produtor independente de energia elétrica. meio-ambiente. Já estava criado o conceito de consumidor livre. a industrializa­ ção do País exigia maior expansão da geração e o braço forte estatal migrou dos pequenos aproveitamentos para as grandes hidroelétricas. Realmente uma equação difícil e de contornos assustadores diante dos desafios das soluções possíveis. Muitos novos projetos de PCHs foram desenvolvidos. Neste período muitos dos pequenos aproveita­ mentos foram caindo no ostracismo e. após a criação da ANEEL (1996). um marco para o setor. mediante licitação.000 kW cabia (e ainda permanece assim) apenas comunicação ao poder concedente. como para auto­ produtores de energia APEs de usinas hidrelétricas com potên­ cia igual ou maior que 1. Para autoprodutor seria autorização. Para os aproveitamentos com potên­ cia inferior a 1. até 10.Séculos XIX. não havendo qualquer estímulo para aderir ao novo programa criado. Algumas poucas usinas. é claro. com restrições quanto às áreas  de seus reservatórios nos níveis d’água máximos normais. E assim a implantação de novas pequenas usinas hidráulicas foram se arrastando até 1995. Um novo horizonte para o desenvolvimento de profissionais nas áreas de engenharia. com características de concessão de serviço público. com geração de empregos e renda para especialistas nessas áreas de desenvolvimento de projetos. O desenvolvimento das PCHs Em 1998 também foi criado o MAE – Mercado Atacadista de Energia. o momento econômico do Brasil não era fa­ vorável para quaisquer investimentos que necessitassem de capi­ tal intensivo e retorno de longo prazo. mas como garantir a entrega da energia contratada de uma PCH se tratava-se de empreendimentos dependentes da hidraulicidade e de variáveis climáticas? E mais. os valores praticados como tarifas eram relativamente baixos e aplicados pelas distribuidoras. posteriormente. Para produtores independentes seriam concedidos. estavam em andamento. Havia um nicho para ser explorado pelas PCHs. permaneceram ativas. mas faltava o essencial: o comprador da energia. geologia. por serem também novos assuntos tratados no âmbito dos órgãos li­ cenciadores. O Brasil cresceu muito nos anos setenta e consolidou o conceito de que usina “boa” era usina grande. foi a partir de 1998 que passou a ser definida comercialmente como PCH as usinas com capacidade instala­ da acima de 1 MW e até 30 MW.000 kW e menor ou igual a 30. Era uma mu­ dança de paradigmas e um mundo novo a ser explorado. desati­ vados. etc. Para haver um project finance era necessário um fluxo-de-caixa previsível. Havia sobra de energia. aproveitamentos com potência superior a 1. e isto as PCHs não tinham. 348 . através da Lei das Concessões.000 kW. Mesmo que tenha havido um programa de pequenas centrais nos anos 1980’s. Em suma. Passou a ser atri­ buição da ANEEL conceder outorgas de autorização. Para haver um fluxo financeiro previsível era necessária receita previsível e não sujeita a sazonalidades ou a variáveis climáticas. estes limites foram mudados. Em 1998. Para obter financiamento de longo prazo era fundamental ter garantias de pagamento num conceito moderno denomina­ do project finance (onde o próprio negócio gera suas condições de financiabilidade). sem licitação. somente seria possí­ vel havendo geração de energia garantida. Neste ano. aquele que poderia escolher seu fornecedor de energia elétrica. Mas vieram os questiona­ mentos ambientais. Para haver uma receita previsivelmente segura para fins de garantias de financiamento. infelizmente. havia um grande potencial de empreendimentos para serem construídos. Esse debate alimentou os ambientes acadêmicos e ainda nos anos oitenta o governo federal buscou criar um programa de pequenas usinas denominado de Programa Nacional de Pequenas Centrais Hidroelétricas que buscava incentivar a autoprodução de energia. para construir uma PCH era necessário capital intensivo e financiamento de longo prazo. Poderia. tendo sido analisados e aprovados pela ANEEL. mas faltava alguma coisa. foi descortinado. os questionamentos sobre os “danos” dos grandes reservatórios e o retorno do conceito de que muitas peque­ nas usinas poderiam ser melhores do que uma grande usina. PIEs. mesmo que difíceis.000 kW.000 kW.A História das Barragens no Brasil . tanto para produtores independentes de energia. cinquenta e sessenta. Os licenciamentos ambientais. assim como o conceito de autoprodutor que poderia vender exce­ dentes de energia elétrica. Mas.

Um crescimento digno de nota e de reconhecimento. hidrologia.000 MW em 2008. mas dentro de certos limites garantidos de geração que.ANEEL . mas altamente preparador para o atendimen­ to do mercado dos consumidores livres. além das PCHs. teve um caráter didático e de­ senvolvimentista que permitiu a expansão da indústria de equipa­ mentos. E então foi criado. topografia. as PCHs passaram a fazer parte do MRE (Mecanismo de Realocação de Energia) com o cálculo da energia média através da Resolução ANEEL 169/2001 de 3 de maio de 2001. Como vender para consu­ midor livre ainda era uma novidade. o PROINFA.1 a 30 MW A figura na página a seguir é o resultado desta expansão e mostra as localizações das PCHs no Brasil em 2011.Programa de Incentivo (de geração de ener­ gia elétrica através) de Fontes Alternativas. segu­ ros. Mais um dos grandes marcos do setor.setembro/10 Relatório Acompanhamento da Expansão da Oferta de Geração de Energia Elétrica . numa ação conjunta e bem conduzida pelo MME. Então. talvez o mais importante sob o ponto de vista regulatório e viabilizador dos empreendimentos de hoje. ANEEL e Eletrobras com seus corpos técnicos qualificados e empenhados em dar as condições necessárias para a expansão do setor. resultava em fatores de capaci­ dade muito baixos para as usinas. produtos financeiros e muito mais. ONS. Mas ainda não estava tudo resolvido.setembro/10 Obs. com controle de re­ servatórios. Era um programa no qual a Eletrobras garantia a compra da energia gerada pelas PCHs. Atualmente (2011) está em torno de 3.500 MW. que então englobou. Desta forma. Ou seja. que se encerra neste ano de 2011. tais como projetos. serviços ambientais. as fontes biomassa e eólicas. estabelecido por Lei em 1995. pela modelagem pro­ posta pela Eletrobras na época. este perfil. o grande problema a ser solucionado era firmar a energia das PCHs. da construção civil. Os empreendedores de PCHs foram convidados para apoiar uma iniciativa louvável da Eletrobras de criar um programa chamado de PCH-Com. Ter uma energia de placa. de serviços especializados. um dos programas mundiais mais importantes de geração de energia através de fontes ambientalmente corretas e socialmente justas. divididos entre as três fontes. era impossível. Neste período muito se aprendeu. Quadro 2 – Evolução das pequenas centrais hidroelétricas Qtde Total até 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 189 15 12 23 7 11 18 17 38 30 22 189 204 216 239 246 257 275 292 330 360 382 Potência (MW) 831 69 51 268 68 126 228 253 650 463 248 Total (MW) 831 900 952 1219 1287 1413 1641 1894 2544 3007 3256 Fonte: BIG . Apenas o governo tinha. em 2002 e consolidado em 2004. Ainda século XX. exige o estudo e a definição de uma sucessão de aproveitamentos no 349 .300 MW. O denomina­ do “aproveitamento ótimo”. Pelo critério de cálculo ado­ tado para as hidroelétricas de maior porte.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Já era o ano de 2000. Logo. no caso o BNDES. Foram contrata­ dos 3. de forma a assegurar uma expansão do setor de PCHs com segurança para o mercado cativo (ambiente regulado). um cír­ culo virtuoso desde o ano 2000 até 2008. geologia. o agente financiador exigia garantias corporativas dos empreendedores. A questão ambiental foi foco de discussões acaloradas e ainda assim permanece. Ou seja. já então confiantes da capacidade das PCHs atenderem suas demandas de energia. sem adotar o conceito de project finance. na época.: consideradas apenas as PCH . não havia como vender a energia para consumidor livre por não haver uma energia garantida e também não havia como vender para a Eletrobras porque a forma que esta estava pensando em adotar para calcular a energia firme das PCHs não era su­ ficiente para garantir o pagamento dos financiamentos. o programa não progrediu. assim como os agentes financiadores confiarem nos mecanismos de atenuação de riscos e garantias de pagamentos. O Brasil tinha cerca de 850 MW em operação de PCHs em 1998 passando para 3. gerando uma receita incapaz de suportar as exigências do agente financiador de longo prazo. Para financiar com segurança era necessário um comprador/garantidor com bom rating na praça e contratos de compra e venda de energia de longo prazo. mas com ares de sécu­ lo XXI. Este programa. haja vista que a quase totalidade dos reservatórios de PCHs eram projetados para operar a fio d’água.

de forma cíclica. As teses do passado voltaram a as­ sombrar novamente.: não foi considerado potencial em fase de inventário Obs.ANEEL (com LP/LI) 856 66 5 Aguardando Análise ANEEL 3.454 1. Figura 2 – Distribuição das PCHs nos diversos estados Fonte: Abragel / 2011 Na tabela acima a coluna prazo é uma estimativa de tramitação na ANEEL até a emissão da outorga de autorização.Séculos XIX.271 170 7 Potencial Teórico 15. Em janeiro de 2011 encontravam-se em tramitação dentro da ANEEL projetos conforme tabela abaixo: Figura 1 . Nesta área. XX e XXI mesmo curso d’água. provocando uma cascata de usinas.980 473 Em Elaboração/Complementação 2.035 194 6 Subtotal 1 5. ou apogeu. Com o grande desenvolvimento das PCHs.início da construção Obs.089 213 3 Análise/Aceite .288 15 Subtotal 2 17.931 (1) prazo estimado de maturação dos projetos .A História das Barragens no Brasil .725 1. Entretanto há movimentos firmes e sérios na agência para redução drástica dos prazos de tramitação. Agora há necessidade de um profundo estudo para cada inventário de rio denominado de análise ambiental integrada – AAI que ampliou os limites das discussões. Prazo (1) (anos) Com autorização (com LP/LI) 2. houve uma avalanche de novos projetos e inventários junto à agencia reguladora ANEEL que resultou no enorme potencial identifica­ do no Brasil. Os ór­ gãos ambientais e ONGs ambientais questionam se esta é melhor condição ambiental para o curso d’água e. as discussões nunca terão fim. 350 . baseada em mé­ dia histórica de 2007 até 2010. certamente. que é um estudo do CERPCH de Itajubá. ques­ tionam se não seria melhor um grande reservatório ao invés de uma sequência de pequenos.:Dados ANEEL Janeiro/2011.458 TOTAL 23. mas no sentido inverso. salvo o Potencial Teórico.705 1.Localizações das PCHs no Brasil em 2011 Quadro 3 – Situação dos projetos de PCH em tramitação na ANEEL em janeiro de 2011 Potência (MW) Quant.

não induzindo aos consumidores livres. à perda de mão-de-obra qualificada desenvolvida ao longo dos últimos anos e ao desenvolvimento de outras fontes ambientalmente menos qualificadas..000 MW em 20 anos. As PCHs. As cir­ cunstâncias atuais levam à desindustrialização do setor. Nem tudo estava perdido. levando o potencial de geração através de PCHs no Brasil aos almejados 25.. além de outros adjetivos qualificativos favoráveis ao seu desenvolvimento. houve uma importante e fatal perda de compe­ titividade em função da evolução tecnológica de outras fontes. de forma abrupta. a busca de fornecedores incentivados.” certamente as PCHs retomarão o mes­ mo caminho virtuoso que. A esperança no futuro Não há dúvidas de que as PCHs são fontes de geração de energia limpa. Os valores que passaram a ser negociados no ACL . socialmente inseridas nas comunidades. Naturalmente esta crise teve reflexo no desenvolvimen­ to do Brasil e estancou. por consequência. O Governo passou a fazer leilões de energia tendo como competição apenas o valor do MWh. então este ciclo se encerrou. redução da atividade econômica. descentralizada. no caso das PCHs. ficaram sem mercado potencial de comercialização de seu produto. Mas ainda existia (e existe) o ACR . sem impactos de êxodos rurais. também agravada por desequilíbrios tributários. Passou a ter excesso de oferta de energia e o mercado spot desde então esteve. Ledo engano. Mas como “não há mal que sempre dure.que são os leilões de energia levados a efeito pelo poder conce­ dente.. com va­ lores modestos. atualmente. em média. desde 1883. fazendo competir entre si diversas fontes de geração e. sem levar em consideração as características e as regionalidades de cada fonte. a expansão industrial. que vinham se desenvolvendo muito bem através da venda antecipada de sua energia e assim viabilizando os project finance. além da disponibilidade internacional de equipamentos. fazendo com que as PCHs.não foram mais capazes de viabilizar a cons­ trução dos empreendimentos. fiquem completamente alijadas dos processos de leilões no ACR. tudo em nome da “modicidade tarifária”. sustentável. foi capaz de desenvolver o estado da arte na engenharia hidroelétrica. capaz de construir usinas memoráveis do passado e brilhantes. renovável.ambiente de contratação regula­ da . Figura 3 – PCH Antônio Brennand no rio Jauru 351 .ambiente de contratação livre .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A crise das PCHs Em 2008 o mundo foi sacudido por uma crise econômico-finan­ ceira que envolveu os principais bancos internacionais e provocou uma falta de liquidez e. no mercado livre (as PCHs são denominadas como fonte incentiva­ da pois há desconto de 50% nos custos de transporte da energia).

no Espírito Santo Figura 6 .PCH São Joaquim no rio Benevente.Séculos XIX.A História das Barragens no Brasil . em Goiás Figura 5 – PCH São Simão com 27 MW no rio Itapemirim Braço Norte Esquerdo. no Espírito Santo Figura 7 – PCH Anna Maria no rio Pinho em Minas Gerais 352 . XX e XXI Figura 4 – PCH Irara com 30 MW no rio Doce.

Fernando.Pequenas Centrais Hidroelétricas do Estado de São Paulo – 2. Galhardo. Interciência – 2009 (5) Site da ANEEL – Agência Nacional de Energia Elétrica (6) Tolmasquim.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 8 – PCH Ivan Botelho I (Ponte) no rio Pomba em Minas Gerais Referências (1) Tiago. Bortoni.– CERPCH – Itajubá/MG (2) ABRAGEL – Associação Brasileira de Geração de Energia Limpa – Diversas apresentações em palestras (3) Prado Jr.PCH Santa Fé no rio Paraibuna. Santos.000 – Governo do Estado de São Paulo (4) Souza. Nascimento. Interciência . Amaral. Geraldo. Edson – Centrais Hidrelétricas – Ed. Zulcy. Ferrari. Maurício – Geração de Energia Elétrica no Brasil – Ed. Afonso Henriques.2005 Figura 9 . José Guilherme. Camila .A Evolução Histórica do Conceito das PCHs no Brasil. Cristiano . Jason. Rio de Janeiro e Minas Gerais 353 .

354 .

sob amplamente majoritário controle estatal. que seriam gradualmente privatizadas. extensão continental. à época.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A Nova Face das Empresas Estatais frente à Expansão da Oferta de Energia Hidroelétrica no País Márcio Antônio Arantes Porto e João Batista Gribel Soares Neto O setor elétrico brasileiro vivenciou mudanças profundas em sua orga­ nização estrutural a partir de meados da década de 1990. na qual os autores exercem suas atividades profissionais. inspiração de experiências desenvolvidas em outros países oci­ dentais. desse modo. as adaptações às quais tiveram que se submeter para se manterem como agentes importantes no setor elétrico e as carac­ terísticas (e desafios) para a gestão dos empreendimentos no novo contexto. tanto no plano da expansão da oferta de energia elétrica (geração). especialmente aqueles voltados à sua ex­ pansão. Tal reestrutu­ ração teve por objetivo promover a criação de um mercado competitivo de energia elétrica no país. transmissão e distribuição seriam segregadas. com a consequente redução da presença do Estado nesse segmento da economia. dando oportunidade de acesso a novos agentes às receitas expressivas dessa atividade econômica. por certo de forma muito bre­ ve. privatizando todas as empresas públicas então existentes. tiveram que se adap­ tar às mudanças de cenários e às diferentes lógicas às quais o setor elétrico foi submetido nos anos seguintes. As atividades de geração. atrair os investimentos privados. todos. dessa forma. A justificativa para essa reestruturação era introduzir uma maior competitividade nesse importante segmento da infraestrutura e. a empreendimentos relacionados à empresa Furnas Centrais Elétricas. Neste capítulo procura-se discutir. buscando. em sua maio­ ria. Essa reestruturação setorial viveu dois momentos distintos. então. O contexto de mudanças A partir da década de 1990 a estrutura regulatória e funcional do setor elétrico brasileiro foi profundamente modificada. sob Usina hidroelétrica de Anta 355 . No primeiro movi­ mento da reestruturação. a meta era retirar completamente do Estado o papel de agente econômico no setor. dada a dificuldade de o poder público continuar a arcar com os vultosos recursos demandados pelo setor. ten­ do como grande divisor de águas o traumático racionamento de energia elétrica vivenciado em 2001 e 2002. que em um desenho inicial da reestruturação seriam todas privatizadas. diversida­ de de hidrologias entre regiões. entre outras – a adaptação dos modelos importados mostrou-se particularmente desafiadora e não isenta de riscos. atrair os capitais privados para o setor. sob esse contexto político e econômico. Os exemplos contidos no texto que se segue referem-se. Ao Estado restaria o papel da regulação. tendo sido criada. essas experiências das empresas públicas no novo ambiente setorial. a ANEEL – Agência Nacional de Energia Elétrica. desverticalizando as empresas. A partir de então as empresas públicas. como nos segmentos de transmissão e distribuição. Dada a natureza peculiar do sistema brasileiro – forte prevalência da hidroeletricidade. com foco particular nas novas usinas hidroelétricas.

um compromisso entre qualidade (regulada) e o preço (tarifa) do serviço. que devem ser regulados. introduziu uma nova regula­ mentação para a outorga de concessões de geração e para a comercialização de energia no país. no modelo competitivo busca-se a efici­ ência econômica. enfim. causando prejuízos profundos à economia do país. que seriam repassados. XX e XXI A privatização conforme originalmente planejada. É esse o ambiente competitivo complexo onde hoje convivem empresas privadas e públicas. Estabeleceu dois ambientes de comercialização. Esse equilíbrio entre a qualidade e os investimentos – custos. A Lei n o 10. adiante. após liberada a participação das empresas públicas nos leilões. aos consumidores. Ou seja. 356 . permissionárias e autorizadas do serviço público de distribuição de energia elétri­ ca. Em especial quando se consorciam com empresas privadas para a exploração dos novos empreendimen­ tos. que era inicialmente vedada.Séculos XIX. enfim.2004. tema ao qual será dedicada. de 15. A concorrência tornou-se notoriamente mais acirrada.A História das Barragens no Brasil . observandose maiores deságios sobre os tetos de remuneração estabelecidos pela ANEEL. que desaguou no racionamento de 2001-2002. investidores nacionais e estrangeiros para os leilões de outorga das concessões dos ativos de transmissão. ou seja. Requisitos essenciais para o sucesso das empresas públicas no novo modelo O modelo setorial vigente tem por base a competição nos segmentos de Geração e Comercialização. enquanto no ACL se daria a comercialização direta de energia pelos agentes de geração aos consumidores livres. o “Ambiente de Contratação Regulada (ACR)” e o “Ambiente de Contratação Livre (ACL)”. No segmento da Transmissão a concorrência se dá através de leilões para outorga das novas obras de ampliação do sistema. Em verdade elas vem sendo particularmente bem sucedidas nessa nova configuração do setor. Tais parcerias tem-se mostrado não somente rentáveis. enquanto a Trans­ missão e a Distribuição são consideradas monopólios naturais. embora mantida a ênfase na competição. são outorgados aos agentes que se dispuserem a realizálos pela menor tarifa para os usuários. ao tratar-se dos Modelos de Gestão dos empreendi­ mentos e da Engenharia do Proprietário.03. ficou em meio do caminho com a ascensão de um novo governo a partir de 2003 e após o fracasso do modelo anterior. O ACR para a compra e venda de energia elétrica por concessionárias. o planejamento do setor pelo Estado foi retomado (com a criação da EPE – Empresa de Pesquisa Energética) e o modelo setorial radicalmente revisto. conforme ocorria anteriormente sob a égide da prestação do serviço público – onde não havia uma preocupação dominante com a minimização dos custos. o desafio imenso que é expandir a oferta de energia para o vigoro­ so mercado brasileiro. insumo essencial para o desenvolvimento econômico e social do país. determinados pelo planejamento setorial. Mudanças culturais importantes. Os novos empreendimentos. somando experiências e capacitações que se complementam. O movimento de privatização das empresas públicas foi suspenso. foram necessárias às empresas estatais para adaptar sua atuação ao novo contexto. com a comple­ ta retirada do Estado da atividade econômica na área da energia elétrica.848. a menor Receita Anual Permitida ou RAP. As tarifas aos consumidores não tem mais como base os custos incorridos na construção dos empreendimentos (a tarifa pelo cus­ to). para o empreendedor – é um dos grandes desafios a ser en­ frentado nas obras do setor. mas – e até mesmo mais importante – tem atraído a participação dos investidores privados para compartilhar. atraindo. alguma reflexão. O modelo de competição na Transmissão se consolidou primeiro. desde o início. com o setor público. ainda em curso. mas agora sob uma lógica que priorizava a segurança energética.

Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Já no segmento de Geração houve. liberadas para participar dos leilões de novas concessões. de forma sinérgica. a seguir. No modelo competitivo inicial a outorga das concessões se dava àquele agente que mais pagasse por essa outorga. em sua constituição societária. Podem incorporar parceiros com perfis bastante distintos. mas ainda há muito por avançar frente às exigências do mercado. as melhores características das empresas privadas e das empre­ sas públicas em prol do desenvolvimento do projeto. ou seja. a partir de um piso. no rio São Marcos. sempre cara. Alguns fatores de sucesso Relacionam-se. estando presentes em vários empreendimentos importantes. não obstante aplicáveis a todos os agentes. As parcerias com a iniciativa privada e o contexto de com­ petição pelas novas outorgas de concessão proporcionaram um importante aprendizado às empresas públicas. Ou seja. Por desenvolver um empreendimento específico. participa­ ção minoritária das empresas públicas. como investi­ dores puros. Para resgatar esses projetos. ficavam oneradas por um ágio elevado na UBP. em especial no que se refere às novas usinas hidroelétricas. A ótica do “negócio” e sua rentabilidade tiveram que prevalecer frente à tradição das obras de altíssima qualidade. dentro das estruturas funcionais de suas organizações. Caso típico foi a excelente usina de Serra do Facão (210 MW). Nesse ambiente a energia disponibilizada ao mercado acabava. devido às características do modelo seto­ rial. finalmente. Houve necessidade de mudanças culturais profundas no modo de atuar das empresas públicas com vistas à sua adaptação e sobrevi­ vência no novo modelo competitivo setorial.090% sobre o piso de UBP estabelecido – agregando elevação de cerca de 30% aos seus custos de produção. Daí o agente negociaria sua energia livremente. Os parceiros individualmente. tanto em parceria com a iniciativa privada – maio­ ria dos casos – como através de empreendimentos corporativos. foi necessário um forte empenho no âmbito da regulação bem como. no rio Uruguai. muitas vezes. as empresas públicas. em gerir o projeto com tais ca­ racterísticas – fato especialmente verdadeiro para as empresas públicas. motivado pela competição acirrada por sua outorga. Aliam. a usina de Foz do Chapecó. Aquelas usinas mais atraentes. através de contratos bilaterais registrados no Mercado Atacadista de Energia – MAE. Outro exemplo. as 357 . que teve um ágio de 3. em Goiás. valor de referência estipulado pelo governo. as SPE podem exercer uma gestão do projeto moderna e dentro das melhores práticas. mas que eram construídas com elevados custos. alguns fatores que se consideram essenciais para o desenvolvimento favorável dos novos projetos de geração no ambiente competitivo e que. Nesse novo contexto setorial. outorgadas sob o modelo anterior – e que ficaram conhecidas como “Botox” – encontraram dificuldades para se viabilizar e comercia­ lizar sua energia no novo ambiente. muitas dessas usinas. a parceria das empresas estatais. de receitas antecipadamente estabelecidas e de longo prazo. O desenvolvimento dos projetos através de SPE As SPE – Sociedades de Propósito Específico são empresas priva­ das quando apresentam. 100% estatais. em muitos casos. com 855 MW de capacidade. fornecedores de bens e serviços e concessionárias. com a reformulação do modelo setorial introduzida a partir de 2004. ressurgiram como agentes de relevo. uma mudança radical de con­ ceitos. podem justificar o sucesso das empresas públicas nos certames para expansão da oferta de energia. por disporem. sob uma estrutura organizacional projetada. teriam dificuldades. em virtuosa complementaridade. com cus­ to de produção mais econômico. que teve ágio de 554%. Na transição de modelo ocorrida após 2003. prejudicados pela mudança de modelo. Ademais. recebia a concessão para as novas usinas hidroelétricas aquele inves­ tidor que ofertasse o maior valor pelo Uso do Bem Público (UBP).

Engenharia financeira do projeto O equacionamento financeiro do projeto talvez seja o ítem mais importante. O papel do financial advisor é essencial. no conhecimento técnico que envolve o pro­ jeto. biológico e social – e que. maior competitividade nos leilões. por disporem de equipes próprias e capacitadas – quer na engenha­ ria. o melhor perfil da dívida e dos desembolsos. Investir. a antecipação da produção e a eventual geração de caixa durante Conhecimento aprofundado do projeto Aos agentes interessados. As interações com os órgãos ambientais devem ser constantes e tecnicamente elevadas. por isso. não obstante sua utilidade pública. paralisações. alavancar seus projetos com custos de financiamento bastante atraentes. em suas várias disciplinas. mas não exclusivamente. os aspectos sociais – é absolutamente determinan­ te no sucesso dos empreendimentos hidrelétricos na atualidade. embargos. dando agilidade na realização de estudos complementares àqueles disponibilizados pela ANEEL. Con­ templa os Estudos de Viabilidade Técnico-Econômica (EVTE). quer nas áreas ambiental e fundiária – e pela grande intimidade que muitas vezes tem com as regiões de desenvolvimento dos projetos. que se somam ao expertise das empresas públicas. os Estudos de Impacto Ambiental (EIA) e o Relatório de Im­ pacto Ambiental (RIMA). que deve inserir-se de forma sustentável no contexto regional ao qual que se incorpora. agregando-se sempre. a colocação de parcela de energia no ACL. Não observar essa “regra de ouro” significa condenar o projeto a atrasos no seu licenciamento. dá ensejo aos agentes a propor soluções inovadoras para sua execução. envolve várias componen­ tes: a busca pelas melhores fontes de financiamento. com toda a ênfase. técnico-econômica e ambiental. Um ambiente de mútua confiança e de aceitação do empreendimento é construído a partir do tratamento respeitoso às partes interessa­ das. face aos baixos riscos envolvidos. Assim conseguem. e seus riscos. Tratamento da questão ambiental O tratamento adequado da questão ambiental – aí incluídos. com a possível profundidade que os prazos em geral escassos permitem. impacta o meio ambiente – físico. Vantagens essas que são potencia­ lizadas através de parcerias venturosas.A História das Barragens no Brasil . com­ prometer fortemente sua rentabilidade. com o adequado atendimento às condicionantes de licencia­ mento. redução dos riscos associados ao projeto.Séculos XIX. o que acarreta em menores prêmios de risco e melhores condi­ ções de contratações das obras e outros serviços – enfim. Há necessidade de transparência no trato com os órgãos ambientais e com os afetados. negociando prioridades de forma aberta com a sociedade organizada. o conhecimento científico existente na região do empreendimento. que muitas vezes são o grande diferencial que define o vencedor de um leilão de outor­ ga. a ANEEL disponibiliza participar dos leilões de outorga dos novos empreendimentos de geração um con­ 358 . com avaliação de benefícios e custos associados à nova usina cuja outorga será licitada. XX e XXI SPE podem usar tais receitas futuras como garantia para obter os financiamentos. É preciso reconhecer que toda e qualquer obra de infraestrutura. ademais. A adequada modelagem financeira do negócio. definidor do sucesso e da rentabilidade empreendimento no ambiente competitivo existente em nosso modelo setorial. a melhor solução tributária. em geral. e deixando claro à população o que é factível realizar a título de compensação. junto de estudos nos quais é definida a concepção global da usina. bem como o que não é viável. Nesse aspecto. sua otimização energética. Permite. os incentivos fiscais. construção e operação. as empresas públicas são naturalmente fortes. A qualidade dos estudos ambientais deve ser a melhor possível. direta e indiretamente pelo empreendimento. são necessárias compensa­ ções àqueles atingidos pelo empreendimento. enfim.

a existência de várias modalidades de gestão de empreendimentos na área de geração. não ha­ vendo. pois. é preciso gestão consistente dos projetos no sentido de assegurar a qualidade dos serviços. Independentemente de outras possibilidades. Furnas adotou a modalidade de contratação mista com EPC – Engineering. através de uma atuação em parceria entre os proprietários dos empreendimentos e os consórcios contratados para a execução. para o sucesso efetivo dos empreendimentos. o que pressupõe que: (i) não há uma única modalidade que possa ser considerada como ideal para o atingimento dos objetivos e atendimento das necessidades de todas as partes interessadas no negócio. Portanto. de buscar soluções que garan­ tam a conclusão das obras conforme os preços e prazos definidos nos planos de negócios (uma vez que a energia já está vendida com preço e data de entrega contratados). necessidade de aquisição de energia no mercado livre para suprir os compromissos assumidos. podemos citar os aumentos dos prêmios de seguros. que tem sido desenvolvidas desde 2001. efetivamente. tendo em mira benefícios mútuos para as partes. e (ii) os empreendedores estão. espaço para retornos espetaculares e em curto prazo. Modelos de gestão dos empreendimentos As características atuais do modelo setorial reforçam a necessida­ de. em que todos os envolvidos perdem. na atualidade. Mascarenhas de Moraes – MG e Luiz Carlos Barreto de Carvalho – MG/SP). No segundo caso. sacrificar margens e compartilhar ganhos. Sendo de risco moderado os retornos dos investimentos em geração hidroelétrica. 359 . · Modernização de usinas existentes Em suas obras de modernização de usinas hidroelétricas (usina hidro­ elétrica Mal. a fim de contribuir para que o tema seja analisado sob vários ângulos pelos profissionais do setor. podemos elencar as perdas de receita de geração por atrasos das obras. os participantes que se consorciam para a competição – investidores e fornecedores de bens e serviços – identificam a necessidade de atuar de forma solidária. por parte dos empreendedores. No primeiro caso. o fato é que. Na discussão que se segue procura-se identificar alguns dos mo­ delos já utilizados ou em utilização. Regidos pela modelagem financeira abrangente e detalhada. que pagará por uma energia mais cara e menos favorável sob o ponto de vista ambiental. jun­ tamente com seus parceiros. tanto durante a implantação quanto na fase de operação. no fim da linha. ganha importância a busca por modelos de gestão apropriados. As empresas públicas incorporaram e vem aperfeiçoando essa abordagem financeira “privada” nos leilões do setor elétrico. Igualmente. Estes devem procurar blindar todas as partes interessadas. perde a sociedade brasileira. no modelo competitivo em vigor. combinando aspectos positivos de modelos de gestão já utilizados e minimizan­ do seus pontos falhos. A não observância desses preceitos tem como consequência perdas diretas para os empreendedores e indiretas para o negócio de geração de energia no país. prejuízos à imagem das empresas envolvidas. para vencer os leilões de outorga dos novos empreendimentos. Modelos de gestão recentemente utilizados Percebe-se. os agentes devem compartilhar a visão de longo prazo que as inversões no setor elétrico requerem. multas impostas pelos órgãos públicos de fiscalização e regulação. maior preocupação da sociedade civil quanto à segurança dos empreendimentos e maiores cuidados dos organismos de licenciamento ambiental. dentre outros – com sacrifícios à rentabilidade dos projetos. com reflexos positivos para a sociedade. buscando e testando fórmulas que possam viabilizar os novos negócios de maneira a reduzir riscos e atender aos objetivos de todas as partes interessadas.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens a construção – tudo isso é absolutamente crucial para a proposição de uma tarifa módica e tecnicamente sustentável nos leilões.

Os contratados só podem desenvolver suas intervenções nos equipamentos após aprovação de Furnas. pelos fornecimentos dos equipamentos. concluída ao longo de 2006. reservando para si os licenciamentos ambientais e os fornecimentos dos turbo-geradores. pela gestão fundiária e pelos programas ambientais. incluindo as obras de reservatório. Fornecimentos e Construção) e execução direta. À Concessionária coube a responsabilidade pelo controle da qualidade das obras. XX e XXI Procurement and Construction (Engenharia. ini­ ciada em 2002. Furnas adotou o regime de EPC. o projeto. com contratos a preços globais. pelo licenciamento ambiental. Figura 1 – Usina hidroelétrica Peixe Angical 360 .A História das Barragens no Brasil .Séculos XIX. todas a preços globais. · Novas usinas hidroelétricas Na implantação da usina hidroelétrica Peixe Angical. da execução dos comissionamentos e dos licenciamentos ambientais. Furnas resguardou para si a prerrogativa de apro­ vação de todos os projetos. separadamente. Os Consórcios contratados respon­ sabilizam-se pelo projeto. Já na modernização e ampliação da UTE Santa Cruz (RJ). o fornecimento/mon­ tagem e a construção civil. pela construção e pela montagem eletromecânica. a Enerpeixe (parceria entre Energias do Brasil e Furnas) contratou. a preço global.

incluindo o controle da qualidade). também reservou para si as responsabilidades pelo licenciamento ambiental. cuja obra teve início em janeiro de 2007. o Consórcio Empresarial Foz do Chapecó (pertencente à CPFL. No entanto. incluindo o contro­ le da qualidade).Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 2 – Usina hidroelétrica de Foz do Chapecó Para a implantação da usina hidroelétrica Foz do Chapecó (SC/ RS). No caso da usina hidroelétrica Serra do Facão (GO). pela gestão fundiária e pela execução dos programas ambientais e das obras de reservatório. fornecimentos e construção. Furnas. cujas obras foram iniciadas em janeiro de 2007. Camargo Corrêa Cimentos). a Serra do Facão Energética S. fornecimentos e construção. a empresa decidiu pelas contratações separadas do projeto (preço global). a preço global. similarmente a Foz do Chapecó. as res­ ponsabilidades pelo licenciamento ambiental.A. do 361 . sob sua tutela direta. Analogamente ao caso anterior. concessão 100% de Furnas. que iniciou as obras em março de 2007. pela gestão fundiária. CEEE e Fur­ nas) optou pela contratação de um EPC tradicional (engenharia. (pertencente à Alcoa. optou pela contratação de um EPC tradicio­ nal (engenharia. Na construção da usina hidroelétrica Simplício (RJ/MG). a preço global. DME. manteve. pela execução dos programas ambientais e das obras de reservatório.

Além disso. XX e XXI Figura 3 – Barragem de Foz do Chapecó Figura 4 . anterior mente embutidos no preço global da empreiteira.Usina hidroelétrica de Serra do Facão no rio São Marcos fornecedor/montador (preço global) e das obras civis (misto de preço global e preços unitários).A História das Barragens no Brasil . O contrato da construção civil não inclui o controle da qualidade das obras. 362 . pela gestão fundiária e pelos programas ambientais. de um sistema misto de preços: parte do contrato é por um preço global e parte é por preços unitários. A contrapartida é que tal risco está sendo assumido por Furnas. A integração das responsabilida­ des que se interfaceiam é gerida diretamente pela própria conces­ sionária. Furnas se responsabiliza pelo licenciamento ambiental. no contrato das obras civis. nem as obras de reservatório.Séculos XIX. Tal opção foi feita buscando eliminar volumes significativos de verbas de contingenciamento relativas a riscos geotécnicos. A novidade no caso de Simplício foi a utilização.

possui a seguinte formatação atual: contratações separadas do projeto (preço global). outra concessão 100% de Furnas. obras iniciadas em março de 2007.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Já a implantação da usina hidroelétrica Batalha (GO/MG). do fornecedor/ montador (preço global) e das obras civis (preço unitário). também denominado internamente por Turn Key. A integração das responsabilidades que se interfaceiam também será gerida diretamente pela própria concessionária. Figura 5 – Obras da barragem e usina de Anta do aproveitamento hidroelétrico de Símplicio Figura 6 .Usina hidroelétrica de Retiro Baixo 363 . optou pela contratação de um EPC mais amplo. Na usina hidroelétrica Retiro Baixo (MG). Furnas se responsabiliza pelo licenciamento ambiental. pela gestão fundiária e pelos programas ambientais. incluindo o controle da qualidade.O contrato da construção civil não inclui as obras de reservatório. Analogamente à usina hidroelétrica Simplício. a Retiro Baixo Energética S.A.

optou pela contratação de um EPC tradicional (engenharia. FIP.Séculos XIX. percebe-se algum movimento no sentido de se incluir preços unitários em partes do projeto mais sensíveis a previsões muito antecipadas.A. Manteve também sob responsabili­ dade direta da SPE o licenciamento ambiental. com obras previstas para iniciar em julho de 2011. fornecimentos e construção. comissionamentos. uma das exigências que A questão das obras de reservatório não tem uma tendência defini­ da. incluindo o controle da qualidade – a preço global. em substituição aos preços unitários. fornecimento. ratificando a inquietude dos diversos empreendedores quanto à busca pelo melhor modelo a ser utilizado para os negócios de geração de energia elétrica no país. fornecimentos. · Tendências Obviamente. Não obstante. manteve sob sua tutela direta as responsabilidades pelo licenciamento ambiental. Percebe-se. controle da qualidade. São. programas ambientais e obras de reservatório. em que o contratado se responsabiliza pelo projeto. Tal constatação deve-se ao fato de que as obras de reservatório tem uma dependência direta da área afetada e dos condicionantes 364 . ou seja. construção civil e montagem eletromecânica. os organismos financiadores dos projetos tem colocado para as viabilizações dos empréstimos. fornecimentos e construção. que recebem tal exigência dos órgãos financiadores. as responsabi­ lidades sobre os licenciamentos ambientais. projeto. Outra modalidade comumente observada é a utilização de contrata­ ções do tipo EPC. XX e XXI onde o contratado responsabiliza-se pela integralidade das ações necessárias à implantação completa do empreendimento. em nossa opinião. ou por alterações de projeto ou por situações reais distintas daquelas previstas nos projetos básicos. cuja obra foi iniciada em setembro de 2008. as gestões fundiárias e os programas ambientais. a Companhia Hidroelétrica Teles Pires (FURNAS. pela gestão fundiária. bastante ricos em diversidades de modelos de ges­ tão. ELETROSUL. montagem eletromecânica. CEMIG. pode-se afirmar que ela ainda é a que mais agrada aos investidores. tudo por um preço global. para si. algumas fortes tendências. incluin­ do o controle da qualidade das obras. a gestão fundiária a execução dos programas ambientais e das obras de reservatório. a Santo Antônio Energia S. pela execução dos programas ambientais e das obras de reservatório. licenciamento ambien­ tal. os concessionários reservam. Mesmo havendo variações percebidas em tal modalidade de contratação. contudo. com foco na hidroeletricidade. NEOENERGIA e ODE­ BRECHT) igualmente optou pela contratação de um EPC tradicio­ nal – engenharia. que findam por gerar: (i) preços mui­ to avultados em função de grandes contingenciamentos embutidos pelos construtores. mostrando. Por tal motivo. a preço global. Via de regra. As experiências têm mostrado que os regimes de preços globais fixos não eliminam por completo possibilidades de situações como acima relatadas. gestão fundiária. No entanto. uma tendência para o futuro próximo. ou (ii) pleitos de reequilíbrios econômicofinanceiros em função de serviços adicionais imprevisíveis. OII. No caso da usina hidroelétrica Teles Pires (MT/PA). Para a implantação da usina hidroelétrica Santo Antônio (RO). já há movimentos mais recentes no sentido de se mesclar os regimes de preço global com partes por preços unitários. Tal tendência tem forte relação com a transferência de riscos do empreendedor para o construtor. incluindo o controle da qualidade). por ser entendida como a que melhor transfere os riscos de execução e integração dos empreende­ dores aos contratados.A História das Barragens no Brasil . no entanto. (parceria de FURNAS. dado o caráter crítico dessas atividades para o sucesso dos empreendimentos e para a imagem da empresa na região de inserção dos projetos. construção civil. Uma delas é a adoção da modalidade de preço global. os exemplos acima não encerram todos os ca­ sos recentemente utilizados ou em implantação atual no Brasil. CNO e AG).

comissionamento e operação de empreendimentos de geração devem ser controladas. montagem.Figura 7 . em outros casos. Complementarmente. que fatalmente elevaria o preço proposto em função de contingenciamentos altos. bem como a preservação de sua imagem. pois o interesse do investidor é o empreendimento concluído da forma como foi planejado. Entretanto. em alguns casos. fornecimento. sendo. fizerem parte do mesmo grupo responsável pela execução das obras o construtor e o projetista. sob o ponto de vista da engenharia. de forma a atender aos objetivos previamente estabelecidos para o empreendimento e aos critérios de segurança operativa definidos Engenharia do proprietário Não resta dúvida quanto às inúmeras vantagens que o modelo de contrato EPC – Turn key trazem ao empreendedor sob o ponto de vista econômico. ainda mais quando 365 . por meio do monitoramento adequado dos processos empregados. visto que as incertezas inerentes à execução dos serviços de construção. Entendemos que a engenharia do proprietário tem como principal papel a atenuação de riscos envolvidos quanto a prazos e confor­ midade de produtos contratados.Vista aérea das obras da usina hidroelétrica de Santo Antônio sobre o Rio Madeira dos licenciamentos. e não a vitória na batalha dos tribunais. incluindo eventos em usinas hidroelétricas e também no metrô de São Paulo. impossível uma orçamentação isenta de riscos. para o emprego desse modelo de contrato. Fica patente que. especialistas passaram a questionar esse modelo sob a ótica da segurança. possíveis as prédefinições necessárias aos orçamentos seguros pelas construto­ ras e. a engenharia do proprietário deve disponi­ bilizar informações para subsídio técnico ao empreendedor na to­ mada de decisões frente ao construtor. com a ocorrência de inúmeros acidentes em obras de grande porte. é secundária. A questão da responsabilidade integral do contratado. o empreendedor deve ter em seu auxílio equipe técnica que exerça a engenharia do proprietário de forma ostensiva. com base no contrato EPC.

Séculos XIX. a engenharia do proprietário deverá exercer. quanto à conformidade em relação aos documentos de projeto. para subsidiar solu­ ção de impasses ou divergências que possam ocorrer entre o empreendedor e o construtor. há grandes divergências com relação à forma e/ou intensidade de atuação da engenharia do proprietário. Análise de planejamentos executivos elaborados pelo cons­ trutor. Por outro lado. Emissão de relatórios e documentações específicos para os órgãos financiadores. filmes e vídeos relativos à obra. Acompanhamento de quantitativos dos serviços executados das obras civis e de montagem eletromecânica. especificações técnicas. quando na entrega do empreendimento para operação comercial. quanto a questões técnicas no âmbito das atividades no local da implantação. Acompanhamento de liberações de serviços por parte da projetista. XX e XXI nos procedimentos de rede do ONS e nas regulamentações da ANEEL e MME. quanto a alterações no projeto básico consolidado e/ou especifica­ ções técnicas. Análise e parecer sobre relatórios de progresso emitido pelo empreendedor. Atividades contempladas na Engenharia do Proprietário Dessa forma. Acompanhamento rigoroso dos processos executivos emprega­ dos pelo contratado previstos nos anexos da qualidade. caso requerido pelo empreendedor. A forma de atuação da Engenharia do Proprietário De modo geral. normas técnicas aplicáveis e aos demais documentos técnicos contratuais. plano de inspeções e testes. registros fotográficos.A História das Barragens no Brasil . emitidos pelo contratado. quando solicitados. as seguintes atividades: Acompanhamento das obras civis e eletromecânicas. Emissão de pareceres. comissionamento e pré-operação. Emissão de pareceres ao empreendedor quanto a pedi­ do de modificação de projeto – pedido de modificação de campo. os conceitos anteriormente apresentados não encontram discordâncias entre os diversos segmentos e atores envolvidos nas gestões de empreendimentos de grande porte. Certificações parciais dos produtos entregues pelo contratado e certificação global. Seleção de assuntos de interesse do empreendedor para serem discutidos nas reuniões de produção (semanal) e de coordenação (mensal). fornecedor e montador e emissão de pareceres ao empreendedor. Análise e emissão de pareceres relativos a fornecimentos ne­ cessários que estejam fora do escopo do Contrato EPC. Com a en­ trada de diversos agentes econômicos no setor de energia elétrica 366 . Organização das reuniões de coordenação e de produção. Emissão de relatórios. Atendimento às solicitações do empreendedor. Análise dos métodos e resultados relativos ao controle de qualidade dos materiais de construção desenvolvido pelo laboratório contratado pelo contratado. Acompanhamento do pré-comissionamento. sem se limitar a elas.data book Acompanhamento das obras e serviços em face das normas de higiene e segurança industrial pertinentes. subsidiando-o de elementos necessários para análise econômico-financeira afetos à relação contratual estabelecida com o contratado. Emissão de relatórios técnicos destinados à análise de pleitos. Análise de redes de precedência emitidas pelo contratado e emissão de pareceres ao empreendedor. Análise dos dossiês de qualidade .

Tal tipo de atuação não transfere riscos sob responsabilidade dos construtores para o empreendedor. o exercício da engenharia do proprietário passou a ser defini­ do como de spot check. as equipes de engenharia do proprietário. A engenharia do proprietário pode. sem acompanhamento integral das obras. apontando eventuais não-conformidades para subsidiar as decisões do proprietário. a partir das mudanças no marco regulatório observadas desde 1995. sem que isso traga ao empreendedor a assunção de riscos que não são de sua responsabilidade. uma vez que importantes etapas das obras deixam de ser acompanhadas. com atuação restrita aos horários comerciais.Usina hidroelétrica de Serra do Facão no rio São Marcos com 212 MW de capacidade instalada 367 . com a intensidade devida. dimensionadas dentro desse conceito de atuação extremamente distante e pontu­ al. acompanhando o emprei­ teiro em todos os turnos de trabalho. acompanhando a integralidade das obras. Entendemos que as equipes de engenharia do proprietário deverão ser dimensionadas de maneira a que as obras sejam fiscalizadas em sua integralidade. muitas vezes quando o construtor já estiver isento de qualquer responsabilidade legal sobre o problema. traduzido do inglês owner’s engineering. sem um acompanhamento passo a passo da obra. Com receio de trazer para o empreendedor riscos contratualmente definidos como de responsabilidade dos fornecedores/construto­ res. Vem. A interferência direta se dá apenas em casos extremos.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens no Brasil. O termo “fiscalização” passou a sofrer forte preconceito por trazer consigo a ideia da presença da mão-forte do empreendedor nas de­ cisões de obra. Vemos uma grave omissão dos empreendedores em tal tipo de atuação. Eventuais defeitos poderão ficar ocultos por vários anos. uma vez que não interfere diretamente na execução das atividades das obras. e deve. vindo a manifestar suas consequências danosas apenas na fase de operação. em que se verificam riscos às obras e às pessoas. diretamente pelo “olho do dono”. Figura 8 . atuar de maneira mais consistente. a exemplo do que sempre ocorria nas gestões de grandes obras no Brasil. desenvolvendo um trabalho de verificação de aderência das atividades às normas e especificações técnicas. uma das principais alterações conceituais percebida foi no enfoque dado à questão da engenharia do proprietário. o emprego do neologismo “engenharia do proprietário”. onde se faz a checagem do atingimento de grandes marcos. mas tão somen­ te verifica o atendimento às normas e especificações executivas. ficaram reduzidas a poucos profissionais. de então. Com isso.

368 .

com foco em seu desenvolvimento de tecnologias de disposição e na aplicação das técnicas da engenharia de barragens ao projeto e construção de barragens de rejeitos. sob o Ribeirão do Carmo. Descreve. a Mina da Passagem foi transformada num complexo turístico onde os equipamentos desativados foram requalificados. A Mina da Passagem é um bom exemplo de iniciativa de valorização e utilização de minas antigas para geoturismo. sendo que uma lavra rudimentar foi iniciada em 1729. Há alguns anos. 1] Barragem São Bento . [Ref. Antes até da corrida do ouro no oeste americano. Até essa época. A Mina da Passagem está localizada na Vila da Passagem.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens As Barragens de Rejeitos no Brasil: Sua evolução nos últimos anos Joaquim Pimenta de Ávila e Marta Sawaya 1. pela importância histórica que tem na mineração brasileira. entre a Forma­ ção Cauê. com o nome de Sociedade Mineralógica da Passagem. dando inicio a uma profunda galeria para esgotamento de água e elaborou o primeiro plano de lavra subterrânea em Passagem. Em 1821. Eschwege deixou o Brasil e desta época em diante a propriedade passou pelas mãos de vários mineradores. A mineralização está inserida no Supergrupo Minas. o ouro primário foi descoberto na região no início do século XVIII. O acesso é feito por meio de um trolley. Entre 1729 e 1819. lugar da passagem da estrada entre Ouro Preto e Mariana. e instalou um engenho com nove pilões e moinhos para pedras. junto com algumas concessões vizinhas. a sudeste de Belo Horizonte.2005 369 . De acordo com Ruchkys e Renger [Ref. Introdução O presente capítulo apresenta um sumário da experiência brasileira em barragens de contenção de resíduos de mineração e de indús­ tria. de forma sintética. Atualmente. até então não usados no Brasil. no topo. pelo Barão de Eschwege. a mina também passou a ser utilizada para mergulho nas galerias e túneis inundados pelas águas do lençol freático. 1]. que criou a primeira companhia mineradora do País de capital pri­ vado. conforme é descrito adiante neste capítulo. a evolução histórica das barra­ gens de rejeitos no Brasil. As barragens de rejeitos no Brasil surgiram das atividades de mi­ neração. a atividade de mineração de ouro no Brasil já ha­ via se iniciado com a Mina da Passagem. e a estrutura é a mesma uti­ lizada na época de Eschwege. Esta mina é descrita a seguir. vá­ rios mineiros obtiveram concessões para explorar a propriedade mineral da Passagem até que em 1819 ela foi adquirida. as quais tiveram seu início em épocas que remontam a cerca de 300 anos atrás. o que já é bastante difundido na Europa. a exploração do ouro utilizava técnicas e ferra­ mentas rudimentares na lavagem e beneficiamento do minério. e o Grupo Caraça (Formação Moeda e Batatal) ou Grupo Nova Lima (Supergrupo Rio das Velhas). em Mariana. ficando a exploração paralisada em alguns momentos devido à conjuntura econômica do Brasil e à baixa cotação do ouro no mercado. Eschwege aplicou técnicas modernas para a época.

mais rejeitos estavam sendo depositados e transportados por distâncias cada vez maiores das fontes geradoras para os cursos d’água. com a introdução da força a vapor e com o aumento significativo da ca­ pacidade de processamento dos minerais de interesse econômico. atraindo indústrias de apoio e desenvolvendo a comunidade local. que os pequenos dis­ tritos minerários começaram a se desenvolver. Entretanto. a geração de rejeitos aumentou significativamente e estes pre­ cisavam ser removidos da área de produção. Entretanto. as práticas de dispo­ sição de rejeitos permaneceram inalteradas e. em 2004 [Ref. lagos e oceanos. Surgiram também conflitos pelo uso da terra e da água. A situação no Brasil não foi diferente do resto do mundo. Consequentemente. Foi a partir da década de 30 que. quando fortes chuvas ocorriam. Um pequeno dique era inicialmente preenchido com rejeitos hidraulicamente depo­ sitados e depois incrementado por pequenas bermas. Os produtores rurais começaram a associar a diminui­ ção da colheita nas terras impactadas aos rejeitos. particularmente por inte­ resses agrícolas. atualmente mecanizado. Até meados de 1930. como descrito a seguir. engrena­ do pelas práticas de construção e equipamentos disponíveis em cada época. Na década de 40. Na diversidade das condições brasileiras. Precedentes legais gradativamente trouxeram um fim à dispo­ sição incontrolada de rejeitos na maioria dos países ocidentais. continua sendo utilizado. e os aspectos relacionados ao uso da terra e da água conduziram os confli­ tos iniciais. com cada vez menor granulometria. ainda prevalece em minas de tecnologia mais rudimen­ tar a construção empírica. as indústrias investiram na construção das primeiras barragens de contenção de rejeitos.A História das Barragens no Brasil . que abriram caminho para elaboração das primeiras legislações sobre o gerenciamento de resíduos da mineração. especialmente em minas a céu aberto. embora em algumas mi­ nas sejam hoje aplicadas tecnologias disponíveis de implantação de barragens. além de contaminar as áreas a jusante. a disponibilidade de equipamentos de alta ca­ pacidade para movimentação de terras. por mui­ to tempo descartaram seus resíduos na natureza. Esse desenvolvimento ocorreu ainda sem a aplicação das técnicas da engenharia de barragens.3]. algumas destas práticas acontecem até hoje em muitos países em desenvolvimento. o desenvolvimento tecnológico aumen­ tou ainda mais a habilidade de minerar corpos com baixo teor mineral. No entanto. poucas destas barragens permaneciam estáveis. geralmente próximo aos rios ou cursos d’água. resultando na produção ainda maior de rejeitos. equipamentos para movimentação de terras não eram acessíveis para a construção das barragens. formando depósitos sem nenhuma preocupação de ordenação e sistematização. para a manutenção da mineração e a mitigação dos impactos ambientais. Raramente existiam engenheiros ou critérios técnicos envolvidos nas fases de construção e de operação.Séculos XIX. com considerações limitadas apenas para inundações. pois os rejeitos frequentemente acumulados no solo obstruíam os poços de irrigação. sendo então enca­ minhados para algum local conveniente. a geração de rejeitos pelas empresas de mi­ neração e os impactos decorrentes de sua disposição no meio ambiente eram considerados desprezíveis. Esse procedimento de construção. que se desenvolveu a partir da década 370 . e a evolução deste assunto no panorama mundial pode ser percebida por um levantamento feito pelo USCOLD. As barragens construídas no início do século XIX geralmente eram projetadas transversalmente aos cursos d’água. em cursos d’água ou lançando-os em terrenos adjacentes. com o cessamento de práticas inadequadas que ocorriam até 1930. tornou possível a construção de barragens de con­ tenção de rejeitos com técnicas de compactação e maior grau de segurança. A partir do século XV. como resultado. XX e XXI Em relação aos rejeitos gerados. Antes do século XV. de maneira similar às barragens convencionais. Foi somente a partir do início do século XX. as atividades de mineração. O desenvolvimento da tecnologia para construção de barragens de contenção de rejeitos ocorreu de modo empírico.

os aspectos ambientais também cresceram em importância. em Mariana. O progresso das tecnologias de implantação de barragens de re­ jeitos foi sempre entremeado pelos acidentes com rupturas de barragens. liquefação e estabilidade da fundação) já eram bem entendidos e controlados pelos projetistas. A atenção foi amplamente voltada para estabili­ dade física e econômica das barragens. devido à falta de aplicação adequada dos métodos conhecidos. Enquanto estas barragens rudimentares se resumiam a estruturas baixas e de menores volumes de represamento. os quais sempre foram catalisadores do progresso tec­ nológico da engenharia de barragens. de projetos mal elaborados. o qual se resumia a operações de britagem e peneiramento com lavagem. e as áreas para disposição se tornaram cada vez mais escassas. Entretanto. 2 e 3] 371 . em geral. uma segurança satisfatória. Com o passar do tem­ po. da então MBR Minerações Brasileiras Reunidas. compatível com probabilidade de ruptura adequadamente baixa. [Ref. trans­ versalmente aos vales. construindo aterros com o material estéril removidos da mina e lançados em forma de aterros. Posteriormente. novos desenvolvimentos na ciência de mecânica do solo. da Samarco. Aspectos de estabilidade física têm permanecido na vanguar­ da. de supervisão deficiente durante a construção. embora nem sempre fossem usados os conhe­ cimentos sobre a engenharia de barragens. a produção de rejeitos aumentou. o controle da segurança das barragens era basicamente orientado para a segurança estrutural e hidráulicooperacional. com o progres­ so das atividades de mineração e aumento da escala de operações. falhas ocorrem. por causa de recentes acidentes com barragens de rejeitos que ganharam amplo espaço na mídia. as técnicas de observação do comportamento das barragens durante a operação vieram reforçar a necessidade do controle da segurança em longo prazo. e às populações residentes nos vales a jusante. Águas Claras. em Nova Lima. recebendo considerável atenção e tornou-se um fator chave na pesquisa sobre as causas das rupturas. considerando o potencial de dano ambiental e os mecanismos de transporte de contaminan­ tes. na década de 50. Numa primeira fase. da Vale. mui­ tos dos princípios fundamentais de geotecnia já eram compre­ endidos e aplicados em barragens de contenção de rejeitos. os problemas estruturais destas barragens passaram a representar riscos maiores e rupturas significativas começaram a ocorrer.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens de 30. a construção de barragens de rejeitos no Brasil teve por muitos anos aplicada a prática de utilizar os equipamentos de la­ vra. quando o progresso na fabricação dos equipamentos de terraplenagem foi aproveitado nas operações de lavra e constru­ ção de barragens. culminando no desenvolvi­ mento dos projetos de engenharia permitindo a construção de barragens com alturas cada vez maiores. a maioria dos aspectos técnicos (por exemplo. um terremoto causou rompimento de muitas barra­ gens no Chile. Esses projetos se torna­ ram possíveis com a ampliação contínua do conhecimento e con­ trole dos aspectos de segurança. as atividades eram bem sucedidas. e Germano. muitas vezes. especiali­ zados nas técnicas de lavra. ou negligência das características vitais incorporadas na fase de construção. em que a característica básica era investir contra a causa potencial da ruptura da barragem. A partir da década de 80. Na década de 70. com implicações financeiras severas em muitos casos. Entretanto. tais como melhor compreensão do comportamento dos materiais. com orientação técnica dos engenheiros de minas. Assim. infiltração. Assim. em Itabira. resultando em volumes de resíduos a serem represados pelas barragens. construção e operação como for­ ma de garantir à sociedade. introdução de equipamentos cada vez mais robustos para movimentação de terra. sem grandes acidentes. A regra era optar pelo controle rigoroso do projeto. Exemplos desta aplica­ ção são as barragens de: Pontal. pela exigência da sociedade de eliminação desses desastres. abordados em outras áreas como a de geração de energia elétrica. para criar volumes de retenção dos rejeitos do beneficiamento do minério. Em 1965.

são mostrados os acidentes com maior número de mortes. até 2001. Na primeira tabela. po­ rém em uma situação de ocorrência de uma geologia complexa e materiais de fundação com comportamento de difícil análise.Séculos XIX. As causas des­ tes acidentes têm sido atribuídas. portanto. em suas particularidades principais. Stava foi uma barragem projetada segundo a prática corrente da engenharia. sem qualquer engenharia de barragem. à época dois extremos. Observa-se que o Brasil comparece na tabela com dois casos: Fernandinho e Rio Verde. quando esta estatística foi atualizada. durante cinco anos. o que tem catalisado uma evolução positiva da própria tecnologia de rejeitos. Cerca de 400 casos foram analisados para identificar as causas principais destes eventos. nas ações preven­ tivas. nos EUA. foram preparadas as duas tabelas apresentadas a seguir. e Buffa­ lo Creek.1. à não aplicação das tecnologias existentes. representaram. 372 . Em 2001. que marcaram. que colaboraram com informações sobre acidentes e incidentes. Rupturas e incidentes em barragens de rejeitos A apresentação destes fatos relevantes inicia-se obrigatoriamente pelos acidentes com rupturas. embora seja observado o aparecimento em número crescente de publicações específicas sobre barragens de rejeitos e temas correlatos. muitas das quais catastróficas. Risk of Dangerous Occurrences. como do aumento da segurança das estruturas de contenção dos mesmos. XX e XXI A ocorrência destes acidentes tem tido grande influência na atitu­ de dos profissionais de geotecnia de barragens.Principais Acidentes com Mortes (1970-2001) Ano 1985 1972 1970 1994 1974 1995 1986 2001 1978 Barragem / País Stava / Itália Buffalo Creek / USA Mufilira / Zambia Merriespruit/ África do Sul Bakofeng / África do Sul Placer / Filipinas Fernandinho / Brasil Rio Verde / Brasil Arcturus / Zimbabwe No de mortes 269 125 89 17 12 12 7 5 1 (dados segundo ICOLD-2001) 2. o limite do “estado da arte” vigente à época. Os métodos de disposição de rejeitos têm também evoluído po­ sitivamente. As duas maiores catástrofes ocorridas: Stava. em termos de aplicação de engenharia: Buffalo Creek era uma pilha de estéril que estava operando como dique de contenção dos rejeitos. em grande parte. tanto na direção da redução do potencial de dano dos reservatórios de rejeitos. publicou um boletim (Bulletin 121: “Tailings Dams. desde os anos 70. na Itália. Lessons Learnt From Practical Experiences ) com o resultado de um trabalho da comissão de barragens de rejeitos que. atingindo. e no estabelecimento de regulamentações específicas sobre a segurança de barragens de rejeitos. o panorama desta área da engenharia. o ICOLD ( International Commission on Large Dams ). Participaram deste inventário represen­ tantes de 52 países. aspectos que são abordados resumidamente.A História das Barragens no Brasil . Fatos relevantes na evolução recente da geotecnia de barragens de rejeitos 2. O melhor conhecimen­ to do comportamento geotécnico dos rejeitos vem permitindo implantar estruturas mais seguras. Tabela 1 . A partir dos resultados apresentados. inventariou os acidentes e incidentes ocorridos desde 1970.

pro­ duziu nos últimos anos 10 boletins. em forma de recomen­ dações de boa prática para projeto. e as defici­ ências decorrem da não aplicação de ações voltadas a garantir a segurança de estruturas. Alguns são citados a seguir: O ICOLD. que falham na sua responsabilidade de adotar procedimentos gerenciais de segurança. porque os proprietários não os revelam. sem mortes. com consequências indesejáveis para a sociedade e para o setor de mineração e indústria. com três casos. Tabela 2 . construção e operação de barragens de rejeitos. tirando a chance de aprendizado com suas causas.0 milhões de m³ de água ácida liberada 4. Observa-se que o Brasil compa­ rece novamente na tabela. mas ocorre o vazamento de sólidos para jusante com conseqüências variáveis. não são informados. Esta situação não é exclusiva do Brasil. As causas desses acidentes incluem. infelizmente. situações já resolvidas pela tecnologia disponível.000m³ de cianeto contaminando águas 700.000 t. e outros países já identifi­ caram as mesmas deficiências de proprietários e operadores. como um todo. na grande maioria dos ca­ sos. para redução de riscos.onde não ocorre a ruptura.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A segunda tabela mostra os aciden­ tes. 373 . Existem ain­ da numerosos incidentes que.estes mais nume­ rosos . porém com degradação ambiental significativa.000 m³ de água ácida tóxica liberada 5. de cianeto contaminando águas 50.Acidentes Recentes com Contaminação Ano Local Consequência 2007 Mirai / Brasil Mirai / Brasil Cataguases/ Brasil Kentucky/ Usa Vazamento de rejeitos de bauxita Interrupção de fornecimento de água Vazamento de rejeitos de bauxita Interrupção de fornecimento de água Lixívia negra liberada Interrupção de fornecimento de água Mortalidade de peixes Interrupção no fornecimento de água Contaminação das águas c/ metais pesados 100. composto de especialistas de diversos países. Além destes acidentes ocorrem incidentes . Várias entidades internacionais têm trabalhado para a cons­ cientização dos proprietários e têm produzido excelentes contri­ buições sobre a segurança das barragens de rejeitos.2 milhões de m³ de lama com cianeto (dados segundo ICOLD-2001) 2006 2003 2000 2000 2000 1999 1998 1998 1995 Romênia Romênia Filipinas Haelva/ Espanha Aznalcóllar/ Espanha Omai / Guiana Os acidentes em barragens de rejeitos continuam insistente­ mente a ocorrer no Brasil.

levando a tentativas diversas de regulamentação legal que obrigue os proprietários de barragens a tomarem providências efetivas de redução de riscos. e contou com consultoria especializada.com/tailings). por meio do IFC (International Finance Corporation). as tentativas que vêm sendo feitas há mais de trinta anos somente agora. Nos países mais desenvolvidos. concentrada nas barragens de rejeitos. O Banco Mundial. A lei federal 12. No Brasil. essas ações resultaram em regulamentações sobre a segurança de barragens e esses países contam com legislação sobre o assunto. infelizmente ainda desconhecem os aspectos principais da técnica de segurança de barragens.334/2010). A MAC (Mining Association of Canada) produziu vários trabalhos de interesse aos procedimentos de segurança de barragens para uso de seus associados. em 2001. O Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM) tem incentivado debates sobre o tema de segurança de barragens. com forte influência da ocorrência de acidentes e da atuação dos órgãos re­ guladores e fiscalizadores como o Ministério Público Estadual e a Fundação Estadual do Meio Ambiente . As barragens de rejeitos em MG somente são licenciadas se atenderem aos requisitos das regulamentações. ações do CBDB junto ao governo). estabeleceu requisitos mínimos de segurança que as barragens de rejeitos devem atender para receberem empréstimos daquela instituição. desde diretores até operadores de barragens de rejeitos. XX e XXI Dentre os 10 boletins. a comissão de barragens de rejei­ tos do ICOLD publicou o boletim 121. promovendo se­ minários e workshops específicos e instituiu cursos de treinamento para empresas de mineração em todas as esferas hierárquicas. como EUA. um website de boas práticas para a engenharia de barragens de rejeitos. somente em 2010 foi criada uma lei federal de segurança de barragens (Lei 12. 87/2005 e 124/2008.2.A História das Barragens no Brasil . constata-se um maior progresso na regulamentação. a situação não é diferente. sobre a segurança de barragens A Lei 12. Embora existam algumas empresas de grande desempenho. · Aplica-se às barragens destinadas à acumulação de água para quaisquer usos. que conhecem a necessidade de uma boa gestão da segurança. que foi discutida com representantes das empresas mineradoras.FEAM.3. 2. já mencionado. Após o acidente com a barragem de rejeitos da Mineração Rio Verde.334/2010.feam. em 2001. No estado de Minas Gerais. Implementação de legislação e regulamentação de segurança de barragens Os acidentes em barragens provocaram sempre reações da sociedade em todo o mundo. (www. com a colaboração do ICOLD. com recomendações sobre a melhor prática para a segurança. a FEAM coordenou a elaboração de regulamenta­ ção específica.goodpracticemining. DN 65/2003.br. DN 62/2002. à disposição final ou temporária de rejeitos e à acu­ mulação de resíduos industriais que apresentem pelo menos uma das características abaixo:  374 .Séculos XIX. No Brasil. Canadá. entretanto. Embora as ações para implantação de uma legislação federal de segurança de barragens tenham já cerca de 30 anos no Brasil (basi­ camente. onde são apresentados e analisados os acidentes e incidentes com barragens de rejeitos nos últimos anos. resultaram em uma legislação federal sobre segurança de barragens. algumas empresas de menor porte. que financia o setor privado.334/2010 tem as características a seguir listadas. As regulamentações resultantes deste processo estão hoje nas Delibe­ rações Normativas. que podem ser consultadas pelo site da FEAM: www. do corpo docente de universidades e de empresas de engenharia. África do Sul 2. diversos países da Europa. Austrália. em 2010. O ICMM (International Council on Mining Metals) criou.

A promoção de mecanismos de participação e controle social. George O. 375 .  · Os instrumentos da Política Nacional de Segurança de Barragens são: I .O Sistema Nacional de Informações sobre o Meio Ambiente. maior ou igual a 15 m (quinze metros). Tailing Disposal Today. construção. Planning.Altura do maciço. em termos econômicos. Argall.O Plano de Segurança de Barragem. Argall.O Relatório de Segurança de Barragens. 10 boletins a partir de 1982.  IV . II . Tailing Disposal Today. opera­ ção e fechamento de barragens de rejeitos. Design and Analysis of Tailings Dams ( 1983). em todos os aspectos de seu comportamento geotécnico. S.Capacidade total do reservatório maior ou igual a 3. VI . Desenvolvimento de tecnologia específica sobre barragens de rejeitos Vários trabalhos têm sido publicados sobre a tecnologia de pro­ jeto.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens I . primeiro enchimento e primeiro vertimento. ICMM site: www.L.  · Os fundamentos da Política Nacional de Segurança de Barragens – PNSB são: I . construção. indicando as principais referências bibliográficas sobre cada um destes estágios.). e vá­ rios projetos com aplicação de novos métodos de disposição têm resultado em significativa evolução das práticas de engenharia de barragens de rejeitos. contada do ponto mais baixo da fundação à crista.O empreendedor é o responsável legal pela seguran­ ça da barragem.O sistema de classificação de barragens por categoria de risco e por dano potencial associado. que aborda os aspectos relevantes relacionados ao projeto.A segurança de uma barragem influi diretamente na sua sustentabilidade e no alcance de seus potenciais efeitos sociais e ambientais. Proceedings: Tailings and Mine Wastes. médio ou alto.Categoria de dano potencial associado. desativação e de usos futuros. Aplin e George O. Volume 1: Proceedings of the First International Symposium (1972). A partir dos anos 80. direta ou indiretamente.  II . 3. G. ABMS (Associação Brasileira de Mecânica dos Solos e Engenharia Geotécnica). operação e fechamento de barragens de rejeitos. Vick. Volume 2: Proceedings of the Second International Symposium. Jr (Ed. (1978). 6o. trabalhos de pesquisa nas universidades brasileiras passaram a enfocar o comportamento dos rejeitos. de início como Uranium Mill Tailings Management.O Cadastro Técnico Federal de Atividades e Instrumentos de Defesa Ambiental. VII . IV . Volume 1. Colorado University.com/tailings Recentemente.O Sistema Nacional de Informações sobre Segurança de Barragens (SNISB). das ações preventivas e emergenciais. REGEO e COBRAMSEG´s.A segurança de uma barragem deve ser considerada nas suas fases de planejamento. a Comissão de Barragens de Rejeitos do ICOLD. concluiu o boletim Improving Tailings Dams Safety. vários anos a partir de 1978. • • Proceedings of an International Bauxite Tailings Workshop (1992).000 m³ (três milhões de metros cúbicos). ICOLD Committee on Tailings Dams and Waste Lagoons. III .  III . cabendo-lhe o desenvolvimento de ações para garanti-la. ambientais ou de perda de vidas humanas. projeto.goodpracticemining.Reservatório que contenha resíduos perigosos conforme normas técnicas aplicáveis.  IV .000. operação. sociais. Os principais estão listados a seguir: • • • • • • C. (1987 e seguintes).  V . conforme definido no art.A população deve ser informada e estimulada a participar.O Cadastro Técnico Federal de Atividades Potencialmente Poluidoras ou Utilizadoras de Recursos Ambientais. V . construção. Jr (Ed.  II .).  III .

376 . Na área de novos métodos de disposição. já produziram dezenas de teses so­ bre o comportamento de rejeitos.1. foram desen­ volvidas nos últimos 25 anos. na Universidade do Colorado. 3. a disposição de rejeitos era feita sem uma abordagem de engenharia adequada. e posteriormente de forma mais intensa na UFOP (anos 90 e atual) e UFV. baixo potencial de dano e benefícios ambientais que estes métodos proporcionam. a partir dos trabalhos pioneiros do professor Robert Schiffman. UFOP. a aplicação da tecnologia disponível de engenharia de barragens ao problema. Comportamento geotécnico dos rejeitos Nos anos anteriores à década de 70. Deve ser mencionado que o desenvolvimento dessas pesquisas tem sido aplicado tanto para determinação de características geo­ técnicas dos rejeitos. com os modelos de simulação de adensa­ 3. Entretanto. após a ocorrência de grandes rupturas com mortes e grandes impactos ambientais. Cerca de 50 dissertações de mestrado até o presente. Estudos em laboratório sobre secagem de rejeitos (Lúcio Villar) também foram desenvolvidos. Aplicação de novos métodos de disposição de rejeitos Os métodos mais comuns de disposição de rejeitos consideram. como para aplicação de métodos de análises dos problemas de disposição. um grande pro­ gresso foi possibilitado. Várias teses de mestrado e doutorado foram desenvolvidas sobre esse tema. assim como de potencial de liquefação. mento por diferenças finitas. Alguns projetos simplesmente lançavam os rejeitos nos cursos de água existentes.A História das Barragens no Brasil . inicialmente na PUC-Rio (anos 80). o principal elemento instabilizador. Estudos sobre a influência da mineralogia na resistência ao cisalha­ mento de rejeitos granulares. passou-se a considerar e. UFV. algumas universidades passaram a dar atenção à geotecnia de disposição de rejeitos. em geral. Os métodos de alteamento por montante e por linha de centro têm vantagens econômicas. Vários aspectos importantes têm sido pesquisados. UFOP Universidade Federal de Ouro Preto. a polpa represada em barragem convencional (projetada como barragem para água) ou como parte do maciço do barramento. como nos casos de alteamento por linha de centro e alteamento por montante.2. Nos aspectos de compressibilidade de rejeitos. podem ser encontrados em trabalhos produzidos pela UNB e UFOP. a de rejeitos finos com secagem e a aplicação de empilhamento drenado merecem des­ taque pelas características de economia. ou armazenavam os rejeitos em reservatórios cria­ dos por aterros de estéril de lavra. com importantes contribui­ ções ao conhecimento deste comportamento e possibilitando a implantação de projetos de novos métodos de disposição. elaborando projetos de pesquisas em co­ laboração com empresas de mineração e indústria. pela aplicação da teoria do adensamento a grandes deformações.Séculos XIX. XX e XXI Na área da pesquisa as universidades PUC-Rio Pontifícia Uni­ versidade Católica Rio de Janeiro. abordando estas características dos rejeitos nas universidades: PUC/Rio. em um núme­ ro crescente de casos. Conforme já mencionado. pois apresentam redução do custo de implantação e têm o custo de construção e custo operacional distri­ buído no tempo. A disposição de rejeitos em pasta ainda não conseguiu superar os problemas do seu custo alto. embora tecnicamente este método seja uma solução muito favorável. No Brasil. para a previsão das densidades e cálculos da vida útil dos reservatórios. pesqui­ sando as características de compressibilidade de rejeitos com uti­ lização de ensaios de adensamento em laboratório (inicialmente CRD e atualmente HCT). têm na água dos poros do rejeito e do reservatório. UNB. UnB Universidade de Brasília e UFV Univer­ sidade Federal de Viçosa.

• Maior capacidade do reservatório. portanto. A expressão “novos métodos de disposição” contém implícita uma expectativa de inovação na técnica de disposição. O projeto da barragem. o que se pretende apresentar são méto­ dos que priorizam a disposição com menor grau de saturação dos rejeitos. quanto mais água for retirada dos rejeitos. envolvendo os dois tipos básicos de rejeitos: a) os que contêm uma fração expressiva de material arenoso/siltoso. Entretanto. 3. Há também a expressão “métodos alternativos”. é semelhante ao de uma barragem para retenção de água. Monjolo (Mina de Água Limpa). maior capacidade e vida útil. • Aumento da segurança. Pilha da Barragem do Germano. Empilhamento drenado Neste método. • Maior aproveitamento da água. da Samarco (altura de 175. Na presente abordagem. embora contenham aspectos de desenvolvimento recente. ligada aos rejeitos do reservatório. mas libera essa água através de um sistema de drenagem interna. No caso dos rejeitos arenosos. de forma que inovações estão presentes em processos antigos de disposição. a água é retirada por drenagem e no caso dos rejeitos argilosos a evaporação é o principal agente da retirada da água. Os objetivos principais dos novos métodos de disposição são: • Redução do custo. e Pilha da Cava do Germano (altura de 160 m). ao invés de utilizar uma estrutura impermeável de barramento. Nos anos mais recentes. com a mesma in­ tenção de diferenciar do método clássico de bombear lama de alto grau de saturação para uma barragem impermeável que retém os sólidos e a água.1. a disposição é mais econômica por tonelada de rejeito disposto. Em conseqüência. • Obter menor potencial de dano em uma eventual ruptura. com baixo risco de liquefação e de ruptura. assumiu uma expressão maior e vem condicionando várias escolhas na seleção de alternativas. de grande capacidade de vazão. • Vantagens para o fechamento. sendo que a polpa de rejeito fica retida com praticamente o mesmo grau de saturação da ocasião do bombeamento. nestes casos. predominando argila e silte. São exemplos principais.0 m). com fração mínima de areia. as pilhas do Xin­ gu (Mina de Alegria). Este tipo de disposição é o mais utilizado. Os dois tipos de rejeitos podem ser dispostos por métodos que retiram água dos mesmos. no Brasil. Este método tem sido utiliza­ do no Brasil. e b) os que contêm maior conteúdo de material mais fino. também da Samarco. São apresentadas aqui duas situações de projeto. portanto com maior estabilidade. • Obter maior densidade e. 377 . que está sendo proposto para reduzir o potencial de dano. adota-se uma estrutura drenante. o problema da segurança das barragens de rejei­ tos. Os objetivos principais do método de empilhamento drenado são: • Obter um maciço não saturado. os métodos que utilizam a disposição com menor grau de saturação dos rejeitos têm assumido maior importância por introduzirem situações de menor risco. desde a década de 80. • Aplicação segura do método de montante.2. embora em poucos casos. • Menor chance de contaminação. que não retém a água livre que sai dos poros dos rejeitos. mais vantajoso é o método. deste método. Além destas características. foram iniciados há algumas décadas e vêm sendo aprimorados ao longo do tempo. Desta forma.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Os novos métodos de disposição procuram reduzir o grau de satu­ ração da polpa de rejeitos por meio da drenagem da água dos poros ou da evaporação. É interessante notar que na Europa. • Obter maior facilidade para o fechamento e recuperação ambiental. al­ guns dos métodos hoje chamados de novos. com baixo teor de argila e de grande conteúdo de fração granular. surgiu recentemente a expres­ são pervious dam para designar um “novo método”.

Superfície final do talude da pilha Figura 4 .Empilhamento drenado após drenagem Figura 2 .Correia transportadora implantada sobre a pilha de rejeitos 378 . onde duas áreas são preenchidas com pilha drenada.Aspecto do rejeito após a drenagem Figura 3 .A História das Barragens no Brasil . Figura 1 . na umidade natural. sem risco de ruptura que provoque uma onda de lama para jusante. O dreno de base é implantado no fundo do reservatório e recebe toda a água drenada dos rejeitos. que devem ter suas características de drenabilidade bem estudadas previamente no projeto. O maciço de rejeitos obtido ao final é uma pilha de material arenoso.Séculos XIX. XX e XXI Nas figuras a seguir são apresentadas fotos das pilhas da Samarco.

procura-se bombear a lama na máxima densidade bombeável com bombas centrífugas.2. A disposição com secagem apresenta diferenças em relação ao método de dry stacking de lama vermelha.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Em minas de bauxita. 379 .Lançamento de lama de bauxita no reservatório 3. os resíduos da lavagem do minério é tam­ bém uma lama com sólidos de granulometria fina. em Paragominas. As figuras e as fotos a seguir mostram as características de secagem das lamas da MRN e Paragominas. e bombeado para um reservatório onde sua superfície é exposta à evaporação com o teor de sólidos crescendo até valores da ordem de 80%. e da Vale. Figura 5 . com vantagens em relação ao bombeamento convencional de lama.Vista geral da pilha a jusante da barragem Figura 6 . passando na #400. procurando-se obter um teor de sólidos entre 30 e 35% para então ser submetido à evaporação no reservatório final.2. devendo a escolha ser feita pela combinação do menor custo com a viabilidade da secagem com menores densidades. acima de 50%. Neste método o rejeito fino (em geral de granulometria passando na peneira 400) é adensado em espessadores até teores de sóli­ dos elevados. em Porto Trombetas. São exemplos deste tipo de disposição os projetos da MRN. A solução de projeto depende do comportamento reológico da lama. O Método de Secagem pode também ser aplicado. Basicamente. pois suas características podem inviabilizar em custo uma so­ lução. Disposição de rejeitos finos com secagem O método de disposição chamado de dry stacking é antigo e muito utilizado pelas empresas de alumínio para disposição econômica de rejeitos de resíduo de produção de alumina (red mud).

XX e XXI Figura 7 . 380 .Séculos XIX. em processo inicial de secagem Figura 8 .0 m de altura. em Nova Lima. na Mina de Morro Velho (Mina do Queiroz). A descri­ ção apresentada é do sistema em sua configuração atual. Minas Gerais. da Samarco. atualmente com cerca de 175.Lama lançada. a qual contém a barragem de rejeitos mais alta do Brasil.Teste piloto de secagem 4.A História das Barragens no Brasil . em 1944. Algumas barragens de rejeitos representativas Apresenta-se aqui um resumo das informações de duas dessas barragens: uma que pode ser considerada como o primeiro siste­ ma de rejeitos implantado no Brasil.Lama em estágio final de secagem Figura 9 .Aterro construído sobre lama após a secagem Figura 10 . A segunda barragem aqui apresentada é a barragem do Germano. no município de Mariana.

Nova Lima .000 m2.Sistema de disposição de rejeitos – foto aérea das instalações A planta metalúrgica do Queiroz possui uma área útil de 480. denominado Cuia­ bá . Os dados aqui apresentados têm como base os documentos mencionados nas referências desta publicação [Ref. principal unidade em operação no Brasil (Figura 11). partindo-se de Belo Horizonte. A planta industrial do Queiroz está situada no Município de Nova Lima .Anglo Gold Ashanti Este item foi redigido pelo engenheiro Murilo Amorim Costa e gentilmente cedido pela Anglo Gold Ashanti. próximo à divisa com o Município de Raposos. transportado por meio de um teleférico com 15 km de extensão e capacidade no­ minal instalada de 830.000 toneladas de minério por ano. afluente do Rio das Velhas (Figura 12). através das etapas de ustulação (que corresponde à Figura 12 – Localização da planta industrial do Queiroz (AngloGold Ashanti) 381 . será abordado o tratamento na planta industrial do Queiroz.Raposos. na região do chamado Quadrilátero Ferrífero de Minas Gerais.MG .1 Mina do Queiroz . Figura 11 . Em particular aqui. pode ser feito pela rodovia MG-030. Localização e acessos A Anglogold Ashanti Córrego do Sítio Mineração (AGACSM) ope­ ra algumas minas e plantas metalúrgicas para beneficiamento de minério aurífero na região de Minas Gerais e Goiás. que liga Nova Lima a Belo Horizonte a uma distância aproximada de 30 km. 4 a 8]. em região da bacia hidrográfica do Córrego do Queiroz.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens 4. O acesso ao empreendimento. três barragens e seis valas para disposição de rejei­ tos. incluindo.MG. A planta possui duplo circuito. além da planta de beneficiamento industrial propriamente dita. alimentado pelo minério sulfetado da Mina de Cuiabá. O concentrado do minério da Mina de Cuiabá.

A partir do ano de 1995. com a acumulação. A partir de 1981. encontram-se sob utilização os reservatórios das barragens de Rapaunha e Calcinados. Parte do material resultante da ustulação volta para receber o processo de cianetação.5 x 106 m3.A História das Barragens no Brasil . desde o ano provável de 1944. denominadas Rapaunha e Cocuruto.Barragem de Rapaunha . de um modo geral.Barragem de Queiroz . construída em 1986. e os resíduos são encaminhados para barragem de Calcinados e valas de lama arsenical. neste período. o que irá capacitar aquele reservatório a um incremento de deposição de cerca de 12 x 106 m3. este sistema foi ampliado com a construção de mais duas barragens.500 toneladas de ácido sul­ fúrico. com a primitiva barragem ali existente.Barragem de Cocuruto . O rejeito gerado no processo de beneficiamento do minério é conduzido para tanques na unidade industrial e então bombeado para as barragens por meio de tubulações em PEAD ou aço car­ bono. virá a ser pro­ movido o alteamento da barragem de Cocuruto. No futuro. 382 . o que dará vez à chamada barragem do Queiroz. de for­ ma a adequar o sistema às necessidades decorrentes da expansão da Empresa (Projeto Cuiabá/ Raposos). a barragem de rejeitos Calcinados. Hoje con­ templa as seguintes unidades: barragem de rejeitos de Cocuruto. Inicialmente.capacidade total de . foi via­ deposição previu uma sequência de lançamentos com os consequentes alteamentos dos maciços. O produto final obtido são os metais ouro e prata. em Nova Lima. bilizada a construção de uma fábrica de ácido sulfúrico. foram sistematicamente instituídos pro­ cedimentos de gerenciamento das atividades de operação e moni­ toração das barragens de rejeitos integrantes do sistema. de cerca de 2. A produção média mensal (2010) é de 800 kg de ouro. No circuito de Cuiabá. que se situa na mesma bacia hidrográfica da planta in­ dustrial do Queiroz. constava este de uma barragem interposta ao vale do Queiroz.Séculos XIX. O circuito Raposos é alimentado por minérios não-sulfe­ tados extraídos de minas menores do entorno de Nova Lima e está atualmente paralisado. No momento atual. inserindo nestes a criação de uma equipe permanente de fiscalização e controle. XX e XXI oxidação ou queima do minério na presença de oxigênio e tempera­ tura elevada) e a hidrometalurgia (responsável pela extração do ouro contido no minério).Barragem de Calcinados . a saber: . foram concebidas de forma a serem alteadas à medida em que venha a ocorrer a ocupação do seu reservatório pelos rejeitos lançados: para isso. à altura do antigo bairro do Galo. e o ácido sulfúrico. de Rapaunha. A operação deste sistema foi iniciada no ano de 1944. Essas barragens. Histórico A AGACSM mantém.capacidade total de ~4 x 106 m3 17 x 106 m3 12 x 106 m3 12 milhões de m³.capacidade de . o programa de Descrição do sistema O sistema de deposição de rejeitos industriais processados pela An­ gloGold Ashanti Brasil Mineração na sua Instalação de Beneficia­ mento localizada no Queiroz é contido em 03 reservatórios e mais um sistema de valas fechadas. exaurida a capacidade de deposição na barragem de Rapaunha. suportadas por estruturas metálicas por um caminhamento sempre em nível ascendente. que passaram a operar no final do ano de 1982. foi necessário introduzir a tecnologia de ustulação. além de uma outra. 60 kg de prata e 17.capacidade total de . Uma vez que o processo de ustulação retém os gases de SO2. (denominada Barragem de Queiroz) a qual assegurou a deposi­ ção dos rejeitos da Empresa até meados do ano de 1954. todos eles localizados no vale do Queiroz. para a recuperação do ouro no processo industrial. de Calcinados e o conjunto de valas de deposição de arsenato férrico (lama de gesso). um sistema de deposição de seus rejeitos industriais na região do vale do Queiroz.

e foi concebida para que sua construção ocorresse em fases. esses são lançados na posição mais a montante possível. esses são lançados por meio de espigotes posicionados sobre o barra­ mento. O final de sua vida útil está previsto para se dar até o ano de 2025. teve sua construção e início de operação em meados de 1983. entrada em operação da planta metalúrgica de Cuiabá. A capacidade total de deposição em seu reservatório é de cerca de 17 milhões de toneladas de rejeitos. que consiste em um alteamento da antiga barragem da MMV. como abordado anteriormente. sendo que 4.1. de acordo com a necessidade de enchimento do reservatório. o aporte de rejeitos foi interrompido. formando a partir daí a praia. Na posição a montante e mais próximo da ombreira esquerda.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Na barragem do Rapaunha.50 m. no momento. Quando de sua operação. construída a montante e simultaneamente com a barragem de Cocuruto. aproximadamente 10 milhões de metros cúbicos. 4. prevê-se disponibilizar a barragem do Queiroz. que veio a operar até o ano de 1957.1. A barragem do Cocuruto. havendo sido utilizada até o final do ano de 1985. mantidas as taxas de produ­ ção previstas até o momento.50 m (topo do muro de concreto. dos quais 5 milhões encontram-se ocupados por rejeitos depositados no período de 1986 até a presente data. de tal ma­ neira que a formação da praia ocorra de montante para o barra­ mento.Seção esquemática da barragem do Rapaunha 383 . onde está posicionado o lago e o sistema de recirculação de água para aproveitamento nas operações industriais. Após esse período. um lago protegido por dique é formado e o sobrenadante é bombeado para uma estação de tratamento de efluentes.2 Barragem do Cocuruto A barragem de Cocuruto. A barragem de rejeitos de Rapaunha situa-se no vale Queiroz. não recebe rejeitos por estar com sua capacidade volumétrica tomada. Desde a Figura 13 . quando teve esgotada a sua capacidade adicional do alteamento. encontra-se no momento sem receber aporte de rejeitos. que abriga os rejeitos inertes. posicionado sobre a crista da barragem) e o nível d’água do reservatório na elevação 853. Sua elevação de crista encontra-se na cota 856. Na barragem de Calcinados. os rejeitos eram conduzidos por gravidade por meio de canaletas construídas em concreto e lançadas tal como em Rapaunha na posição mais a montante possível.1 Barragem do Rapaunha A barragem de rejeitos de Rapaunha. que abriga rejeitos não inertes. servindo apenas como reservatório de água para suprimento à planta metalúrgica.

A barragem do Cocuruto tem previsão de alteamento no futu­ ro. mantendo bombeamentos dos fluxos internos e do excedente da fração líquida do reservatório de retorno para a planta industrial. é relativamente homogêneo. da ordem de 10-5 cm/s. Esta barragem não descarta efluen­ tes para jusante. devido à presença de siltes micáceos. Quanto às propriedades hidráulicas do solo da fundação. O maciço original foi construído de um núcleo de aterro argiloso compactado.Seção da barragem de Calcinados Os filitos apresentam-se alterados. os alte­ amentos passaram a ser realizados por jusante. em conseqüência da elevação de sua crista em mais 20 m. destinando-se aos depósitos de rejeitos calcinados pro­ cessados na planta do Queiroz. de acordo com as condições de projeto. a partir de quando terá sua capacidade acrescida em aproxi­ madamente 12 milhões de metros cúbicos. o mesmo apresentabaixas permeabilidades. A partir desta elevação. excetuado seu recobrimento coluvionar e horizontes superficiais mais alterados. XX e XXI a disposição desses rejeitos passou a ser feita no reservatório da barragem Rapaunha. A área da bacia de deposição de rejeitos é caracterizada pela ocor­ rência da série Rio das Velhas. contendo para isso dispositivos especiais que lhe asseguram a operação em regime de “circuito-fechado”.3 Barragem de Calcinados A barragem de Calcinados foi construída em 1986. A cons­ trução do maciço ciclonado. embora anisotrópico devido à xistosidade. por Formação Ferrífera laminada e conglomerado de matriz xística. na forma de camadas descontínuas ou lentes de médio porte. tendo sua crista situada na cota 830 m. caracterizados geomorfologicamente por cristas ou cordões realçados na topografia. Figura 15 . utilizando como material de cons­ trução o underflow da ciclonagem dos rejeitos gerados na Planta ocorreu por meio do método construtivo centerlining (linha-decentro) até atingir a cota 846 m. 384 . com predominância de rochas do Grupo Nova Lima. ocorreu até a cota 860 m. graças a sua maior resistência aos processos de erosão e denudação. competentes para garantir a estabilidade das fun­ dações das barragens de terra. apresentandobons parâmetros de resistência à penetração. O alteamento da barra­ gem de Calcinados.Séculos XIX. Esse grupo é representado principalmente por xistos e filitos metassedimentares e metavulcanicos e. por vezes na forma de solo re­ sidual resistente. Geologia e Fundação O maciço de fundações. O pacote estratigráfico do Grupo Nova Lima é local­ mente cortado por diques metadiabásicos e veios de quartzo de espessura métrica.A História das Barragens no Brasil . utilizando para o alteamento material ciclonado do rejeito originário do circuito de Raposos e do Rejeito da Flotação. secundaria­ mente. Os filitos se apresentam menos alterados na ombreira esquerda e na região de descarga das vazões. passando a operar desde então.1.Seção da barragem do Cocuruto 4. Figura 14 .

sem estrutura preservada. uma camada de argila pouco arenosa. marrom. A margem direita do vale apresenta inclinação média. que se apresenta descontínua em face de escavações anteriormente re­ alizadas na área. vermelho. Cada uma delas é abordada de forma conveniente. quando for o caso. d) Aplicação de medidas de controle. sendo coberta por manto de intemperismo de espessu­ ra de 15 a 25 metros. compacto. Tubulação de rejeitos. 385 . Monitoramento e controle do sistema O monitoramento e o controle do sistema de contenção de rejeitos são realizados na seguinte seqüência: a) Inspeções periódicas de campo. amarela ou mar­ rom. o coeficiente de permeabilidade dos solos varia de 3 x 10-5 cm/s a 2 x 10-4 cm/s. A calha do rio apresenta material impenetrável a percussão em profundidades de 5 a 15 metros – xisto alterado. a partir da super­ fície. onde são feitas observações superficiais nas várias estruturas que constituem o sistema de con­ tenção de rejeitos. O perfil típico do manto de intemperismo apresenta. A estrutura mais marcante dos xistos é a foliação. amarelo). Vertedouro de emergência. nas leituras dos instrumentos. Sobrejacente ao solo residual de xisto. c) Avaliação das condições de funcionamento e/ou de segurança da estrutura. A margem esquerda apresenta inclinação acentuada. uma camada de silte argiloso vermelho. com coloração variegada (rosa. representada pelos seus planos de xistosidade. geralmente róseo. Corta-rio. com espessura média de 2 m. feita com base nas inspeções periódicas. Estação de tratamento de efluentes. representado pela superfície de rocha alterada. ocorrem solos silto argilosos de consistência rija a média. com trechos bastante íngremes. O perfil do subsolo apresenta basicamente uma camada superficial de argila siltosa mole. de consistência mole. passando gra­ dativamente a rijo e duro com xistosidade preservada. Sobre esse ma­ terial. com espessura de poucos metros. com mergulhos acentuados para SE. até a superfície da rocha alterada. em destacado. constituídos de silte argiloso de consistência média a rija. da ordem de 11º. na sequência do Manual de Operação: Barragens de rejeitos. constituído inicialmente por uma camada de silte argiloso de consistência média. no conhecimento teórico e na experiência acumulada tanto com as atuais estruturas quanto com estruturas semelhantes. Reservatórios das barragens. até ser alcançado o impenetrável. De uma maneira geral.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A área é recoberta por espesso manto de intemperismo. Sob essa camada. b) Leituras sistemáticas dos instrumentos. ocorrem solos residuais de xisto. que assumem localmente direção variando de N10 a N30. aparecendo ainda uma camada superficial descontínua de argila sil­ tosa mole. uma camada de xisto alterado. sendo que o índice de resistência à penetração SPT cresce com a profundida­ de. marrom ou amarela. e fi­ nalmente o xisto são. pro­ veniente da alteração dos xistos metassedimentares. entre outras. Existe uma camada superficial de argila. O coeficiente de permeabilidade é da ordem de 10-5 cm/s. com espessura média de 2 metros. uma camada de silte arenoso. Sistema de coleta e bombeamento de água percolada. As estruturas seguintes são objeto de monitoramento e controle. pouco espessa. com coloração esverdeada. apresentando índice de resistência à pe­ netração crescente com a profundidade. na utilização de ferramentas auxiliares como as ”cartas de risco”. pouco compac­ to. Bombas flutuantes. Tubulação de recirculação de água. pouco consistente.

Sistema de vertimento O sistema de disposição de rejeitos do Queiroz.Séculos XIX. cisalhamento ou galgamento. Com as informações obtidas nas inspeções periódicas e na leitura dos instrumentos pode-se então avaliar a segurança da barragem para as condições de ruptura por erosão interna. Figura 16 . tem seu sistema extravasor.A História das Barragens no Brasil . cisalhamento ou galgamento. XX e XXI O monitoramento da segurança da barragem é feito utilizando-se dos seguintes tipos de instrumentos: Marcos superficiais. para avaliação do potencial de ruptura. conforme adiante descrito: 386 . constituído pelas três barragens e mais seis valas de lama.Pontos de monitoramento ambiental Diante das dificuldades de detecção de problemas pela simples inspeção visual. Piezômetros e medidores de nível d’água. seja por erosão interna. Medidor de vazão. foi preparada uma carta de risco. Régua graduada e pluviômetro. A figura 16 apresenta a localização dos pontos de monitoramento ambiental.

Tabela 3 – Ficha Técnica das Barragens Rapaunha.0 m x 1.20 m e declividade igual a 2. garantindo uma borda livre igual a 3. construído na ombreira esquerda da barragem. ver­ timento de seu reservatório. incluindo o sistema de disposição de rejeitos.60 0. O fluxo oriundo das águas de percolação. Calcinados e Cocoruto Barragem Status Volume m3 Área km2 Rapaunha Operação 12 x106 4 x 106 4. em seção retangular com base igual a 1. é captado a jusante em poço e bombeado para o reservatório.50 m. com diâmetro igual a 1. seja pelo maciço.00 m. onde os fluxos são coletados e bombeados para a estação de tratamento de efluentes. Barragem do Rapaunha Esta barragem possui a missão de armazenar rejeitos e água para uso na planta metalúrgica e utiliza um vertedouro tipo poço.60 4. com ori­ fícios verticais duplos com dimensões iguais a 2. Valas de lama As valas de lama não possuem sistema de vertimento.0 m.5%. À medida que são dispostos rejeitos no interior do reservatório. o vertedouro permite operação até quando o nível do rejeito atingir a elevação 859.50 52 41 FS 1. que é direcionada para jusante para um poço. 628 1. A torre do vertedor acopla-se a uma galeria em concreto arma­ do.1. Barragem do Cocuruto O barramento é dotado de um vertedouro tipo poço. seja pelas fundações. foi elaborado um plano de fechamen­ to para a Planta Metalúrgica do Queiroz.4.80 m e declividade igual a 22%.40 m x 1. com seção transversal igual a 2.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Barragem de Calcinados É uma barragem em circuito fechado. suficiente para amor­ tecimento de uma PMP (Precipitação Máxima Provável).20 m e altura igual a 1.3 m e soleira na elevação 802. 560 Drenagem Filtro vertical e tapete Tapete Filtro inclinado e tapete Classe III III III Calcinados Operação Cocuruto Fechada FS = Fator de segurança 387 . A água acumulada no reservatório é encaminhada ao sistema de tratamento de efluentes por meio de bombeamento e posteriormente conduzida à barragem do Rapaunha. apenas drena­ gem interna.55 Construção Aterro compactado Rejeito ciclonado Aterro compactado Altura m 50.0 m. portanto. sendo que está prevista a construção de outro vertedouro de superfície. que atravessa o maciço e liga-se a uma tubulação em aço. responsável por lançar os vertimentos no córrego do Queiroz a jusante da barragem. Como foi construído contemplando o arranjo inicial. estes encontram-se selados por stop-logs em virtude do avanço de rejeitos. vão sendo adicionadas placas de concreto na torre de captação dessa estrutura para evitar o vertimento de rejeitos. não havendo. 592 1. 4. Muito embora haja outros orifícios inferiores a esta elevação.9 x 106 1. Ficha Técnica Plano de Fechamento Com vistas no futuro. para o fechamento da barragem.

denominado rejeito arenoso. Com o início de operação da segunda unidade de beneficiamento (Planta II) da Samarco. somado à proximidade do final da vida útil do Reservatório do Germano. o reaproveitamento da água utilizada no processo de beneficiamento do minério de ferro é realizado através de um sistema de recirculação com captação no reservatório da barragem do San­ tarém. ex­ traído pela Samarco. houve um aumento na geração de rejeitos. a barragem do Santarém tem como finalidade a contenção dos sedimentos provenientes destes reservatórios.MG. com base nos documentos mencionados no item 6 deste capítulo [Ref. gerados pelas Plantas I e II. Este sistema não faz parte da presente descrição. posicionados sobre três antigas selas Figura 17 – Mapa com a localização da Unidade Operacional Germano 388 . para ade­ quação da dinâmica das operações e atendimento às novas leis ambientais que venham a ser aprovadas. denominado lama e um rejeito com granulometria mais grosseira. Esse fato.A é uma empresa brasileira de mineração que extrai minério de ferro das frentes de lavra do complexo de Alegria. no final de 2008. fez surgir a necessidade de um novo local para a disposição dos rejeitos gerados pelas duas unidades de beneficiamento (Planta I e Planta II). que levam o minério para a planta de beneficiamento.A História das Barragens no Brasil . Além da função de reservação de água. Esse plano de fechamento atende também o disposto no Código Internacional de Cianeto. aos sistemas de certificações obtidos e implementados pela empresa. Na Samarco. alimentando um sistema de correias transportadoras de longa distância. Localização do sistema O reservatório do Germano é formado pela barragem prin­ cipal. que está localizada a jusante dos reservatórios do Germano e do Fundão.A Introdução A Samarco Mineração S. localizados a montante. na Unidade Germano.Séculos XIX. XX e XXI Esse plano de fechamento é revisado periodicamente. como uma nova área para a disposição dos rejeitos granulares (arenosos) e finos (lamas). e pelos diques da Sela. 9 a 11]. Tulipa e Selinha. A partir do processo de beneficiamento do minério de ferro. são gerados dois tipos de rejeitos com ca­ racterísticas bastante distintas: um rejeito mais fino. que fecha o vale no lado extremo leste. Neste contexto surge o Sistema de Rejeitos do Fundão. A seguir estão apresentadas as informações do sistema do Ger­ mano.2 Sistema de Disposição de Rejeitos do Germano Samarco Mineração S. em um horizonte de operação de aproximadamente 9 anos. em Mariana . A empresa realiza lavra a céu aberto por meio de equipamentos móveis e por correias de banca­ da. 4.

com uma camada de transição entre o núcleo e o enrocamento. impermeabilizado por um núcleo de material argiloso a 389 . Com o ob­ jetivo de garantir a continuidade do lançamento dos rejeitos no reservatório. foram realizados altea­ mentos sucessivos para montante. até ser atingida a elevação 886 m. no sistema do Germano. A Figura 18 ilustra a configuração das estruturas. A partir daí.2. o empilhamento drenado de rejeitos arenosos. separando uma área do reservatório a montante e servindo de estrada de acesso para o lado norte. montante. com a finalidade de receber os rejeitos. visando a situação de fechamento. com a subida do nível de rejeitos no interior do reservatório do Germano. O dique Auxiliar atravessa o reser­ vatório do Germano. construído com aterro compactado. A crista da barragem alcançou a elevação 899 m com aproximadamente 120 metros de altura. Tulipa e Selinha para o fechamento das três selas topográficas existentes na região nordeste do reservatório. por diques a montante junto à crista do estágio anterior. foi necessária a construção dos diques da Sela. Os alteamentos foram realizados através de diques de aterro com­ pactado com altura variável entre 4 e 6 metros. A partir de 1993 o alteamento da barragem principal. O empilhamento de rejeitos a jusante da barra­ gem principal teve início a partir de um dique de partida. finos e granulares. Este dique foi construído com crista na elevação 849. provenientes da planta de beneficiamento de minério de ferro.Vista geral do sistema de disposição de rejeitos da Samarco O reservatório do Germano foi formado a partir da construção da barragem Princi­ pal do Germano. os alteamentos sub­ sequentes foram executados com afastamento entre 60 e 100 metros para montante da crista existente na elevação 886 m. com o ponto mais baixo das funda­ ções na elevação 745. 4. O sistema de drena­ gem interna deste dique de partida consistia em Figura 18 .0 m. a jusante da barragem do Germano.5H e crista na cota 790 m.5 m e altura máxima igual a 70 m. lançados no interior do seu reservatório.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens topográficas na margem nordeste do reservatório.1 Barragem principal e empilhamento a jusante Generalidades A implantação da barragem do Germano foi iniciada com a construção de um dique de partida de enrocamento. A mesma entrou em operação em 1977. na medida em que se elevava o nível de rejeitos arenosos. A partir daí. sem comprometer a estabilidade da barragem. passou a ficar inviável por razões de estabilidade da barragem. foi a alternativa adotada para postergar a implantação de uma nova área de disposição de rejeitos e me­ lhorar as condições de estabilidade da barragem principal. Posteriormente. com inclinação dos taludes igual a 1V:1. em 1976.

O talude de jusante foi protegido com blocos.A História das Barragens no Brasil . em seu ponto mais baixo. além do dreno do dique de partida. desde o dique de partida do empilhamento até o offset de jusante da barragem do Germano. portanto. O reservatório da barragem do Germano unificará com o reservatório da barragem do Fundão na cota 920.Séculos XIX. No contato dos rejeitos do reservatório da Pilha a Jusante com o talude de jusante da barragem prin­ cipal do Germano há um dreno interligado ao dreno de fundo. O sistema de drenagem superficial é constituído por uma escada de descida d’água. posicionada na ombreira esquerda. disposta perpendicularmente às canaletas lon­ gitudinais das bermas. o maciço de rejeitos é drenado constituindo-se. O sistema será expandido à medida que os alteamentos forem sendo implantados Na figura 19 está apresentada uma seção típica da barragem principal do Germano incluindo o empilhamento de rejeitos a jusante. Com este sistema de drenagem interna. pro­ tegido na face de jusante por solo argiloso compactado Os taludes de jusante possuem inclinação igual a 1V:2H com um talude médio global igual a 1V:3H. blocos passados em gre­ lha e blocos de maior dimensão. O núcleo dos diques é constituído por rejeito arenoso. de um dreno situado no fundo do vale.0 m. a altura total atual é de 175. A partir da construção deste dique de partida foram feitos alteamentos consecutivos para montante. Considerando a cota de fundação. composto por camadas de oversize fino e grosso. a cada 5 m de altura. Figura 19 – Seção transversal típica da barragem principal do Germano com o empilhamento a jusante Figura 20 – Foto de estrutura construída sobre o empilhamento drenado 390 . em um maciço não saturado estável e de baixo potencial de dano.0 m. O sistema de drenagem interna do empilhamen­ to consiste. XX e XXI um filtro inclinado no talude de montante e na crista do dique.

areia e cascalho. Os piezômetros instalados na pilha de jusante indicam leitu­ ras com poropressões nulas. localizados no patamar da cota 886. Em toda a região de fundação da barragem foi removida a camada superficial de material orgânico. foi necessária a construção de dois diques. A frequência das leituras é mensal. denominados dique da Sela e dique da Tulipa. nas porções inferiores das ombreiras esquerda e direita e em todo o fundo do vale. Na barragem principal do Germano foram instalados 14 piezôme­ tros do tipo Casagrande.913. em geral são constituídos em seção mista. No final de 2010. Os materiais de construção disponíveis para a implantação dos maciços de alteamento dos dois diques conduziram a uma geo­ metria em blocos sujos com uma faixa de material argiloso im­ Etapa Construtiva Atual Data Conclusão Cota Atual da Crista Altura Atual do Maciço Comprimento Atual da Crista Sistema Extravasor - 919. com crista na El. foram necessários novos alteamentos dos diques da Sela e da Tulipa.2 Dique da Sela e Dique da Tulipa Devido à existência de duas selas topográficas na margem norte do re­ servatório do Germano.0 m e nas bermas do talude de jusante. para possibilitar a continuidade do lançamento de rejeitos no interior do reservatório. e uma zona em enrocamento no espaldar de jusante.2.0 m 169.0 m.0 m Tipo tulipa com galeria de descarga (localizado adjacente ao dique da Tulipa) Geologia e fundações A fundação da barragem principal do Germano é composta por fili­ to são. os dois diques foram alteados pelo método de mon­ tante. 391 . Devido ao início de operação da segunda planta de beneficia­ mento de minério de ferro da Samarco e o conseqüente aumento na geração de rejeitos. Na região do fundo do córrego foram removidos blocos de rocha. sendo alterada para cada 15 dias em caso de anomalias. matacões. À medida que o nível de rejeitos dentro do reservatório do Germa­ no foi sendo elevado foram necessários vários alteamentos. Monitoramento O monitoramento da barragem principal do Germano consiste na leitura dos piezômetros instalados. quanto do dique da Tulipa. tanto do dique da Sela. Os maciços. foram instalados 6 piezômetros Tabela 4 – Características da Barragem do Germano (maio/2008) Dados gerais Finalidade Empresas Projetistas Contenção de rejeitos Bechtel / Pimenta de Ávila Consultoria do tipo Casagrande. com uti­ lização de uma zona impermeável em aterro argiloso compacta­ do. A parte superior das ombreiras é formada por filito decomposto. funcionando como núcleo. comprovando a boa drenagem do maciço de rejeitos. Na pilha a jusante do Germano.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Ficha Técnica Na Tabela 4 estão apresentadas as principais características da barragem principal do Germano. 4.00 m 300.

Na fundação do alteamento dos dois diques foi implantada uma base constituída de blocos sujos.na área imediatamente a montante da tulipa. XX e XXI permeabilizante a montante.0 m 23.A História das Barragens no Brasil . foi verificada a existência de uma nova sela topográfica. em soleira construída sobre a encosta rochosa.0 m 375. conectada a um canal rápido e uma bacia de dissipação à jusante deste. Tabela 6 – Características do Dique da Tulipa Dados gerais Finalidade Empresas Projetistas Etapa Construtiva Atual Data Conclusão Cota Atual da Crista Altura Atual do Maciço Comprimento Atual da Crista Contenção de rejeitos Figueiredo Ferraz / Pimenta de Ávila Consultoria Alteamento para El.0 m Sistema extravasor As condições de amortecimento das cheias.0 m dos diques da Sela e Tulipa é composto por uma galeria ligeiramente inclinada associada a uma torre vertical. a sul do reservatório do dique auxiliar.0 m concluído Março de 2011 913.2.913. respectivamente.910. b).0 m 41. na confluência do acesso ao Empi­ lhamento de Rejeitos Granulares de Germano Jusante e do acesso à mina de Fábri­ ca Nova (Vale). Monitoramento No dique de Sela estão instalados 3 piezômetros de Casagrande e 3 indicadores de nível de água.0 m Ficha Técnica Nas Tabelas 5 e 6 estão apresentadas as princi­ pais características do dique da Sela e do dique da Tulipa.na extremidade de jusante da Baia 3.0 m 450. O sistema extravasor construído na ocasião do alte­ amento para El.Séculos XIX. Tabela 5 – Características do Dique da Sela Dados gerais Finalidade Empresas Projetistas Etapa Construtiva Atual Data Conclusão Cota Atual da Crista Altura Atual do Maciço Comprimento Atual da Crista Contenção de rejeitos Figueiredo Ferraz / Pimenta de Ávila Consultoria Alteamento para El. apenas para dar suporte ao alteamento. 4. controladas por soleiras vertentes situadas nas seguintes posições: a). supõe a distribuição dos deflúvios nas várias sub-áreas.3 Dique da Selinha Na região sudeste do reservatório do Germano.0 m concluído Março de 2011 913. No dique da Tulipa estão instalados 3 piezômetros de Casagrande e 3 indicadores de nível de água. ambos em concre­ to celular pré-fabricado PÁDUA e um trecho de galeria em concreto armado. c). com cota 392 .913. no reserva­ tório do Germano.no local do antigo túnel bala.

em Fá­ brica Nova. 4. Monitoramento No dique da Selinha estão instalados 4 piezômetros de Casagrande e 5 indicadores de nível de água.913.0 m Atualmente.0 m 135.0 m de espessura. de aproximadamente 1. foi executado um alteamento emer­ gencial de 0. atra­ vés de tubulação. Tabela 7 – Características do Dique da Selinha Dados gerais Finalidade Empresas Projetistas Etapa Construtiva Atual Cota Atual da Crista Altura Atual do Maciço Comprimento Atual da Crista Contenção de lama Pimenta de Ávila Consultoria Alteamento para El. A drenagem interna do dique foi prolongada nesse trecho. que conectam o reservatório do dique Auxiliar ao reservatório do dique da Sela/Tulipa. retendo as lamas na área de montante do reservatório do Germano e ficando o restante do reservatório para a descarga.4 Dique Auxiliar O dique Auxiliar foi implantado. Para o estabelecimento de uma borda livre.50 m em julho de 2010.0 m. O dique da Selinha foi construído utilizando uma seção composta por aterro compactado de material argiloso proveniente da pilha de estéril da Vale.0 m. No final de 2010 a crista do dique da Selinha foi alteada pelo método de montante para a El. sendo alteada sucessivamente. sendo utiliza­ do laterita na sua construção. Ficha Técnica A Tabela 8 apresenta as características gerais do dique Auxiliar.50 m. e filtro vertical de areia. Ao longo do tempo. Na fundação do alteamento do dique foi implantada uma base constituída de blocos sujos. Dessa forma tornou-se necessário im­ plantar um dique de sela nesta região. apenas como suporte ao alteamento. dos rejeitos da flotação em célula. Os materiais de construção disponíveis para a implantação do maciço de altea­ mento do dique conduziu a uma geometria com utilização de uma faixa imper­ meável de material argiloso a montante e em blocos sujos no espaldar de jusante. A jusante do dique foi im­ plantada uma berma de blocos sujos afim dar estabilidade à estrutura alteada.913. simultaneamente aos alteamentos a serem implantados nos diques da Sela e da Tulipa. 393 . O dique não possui sistema de drenagem interna. inicialmente para se­ parar as lamas dos rejeitos arenosos.0 m 23.50 m).0 m concluído 913. denominado dique da Selinha. Atualmente a cota da crista do dique Auxiliar está na elevação 917. encontram-se instalados e funcionando corretamente 3 indicadores de nível d’água. o lançamento simultâneo de lamas e rejeitos arenosos.2. resultou em uma estrutura submersa tanto a montante como a jusante. Extravasor Até dezembro de 2010 o dique Auxiliar possuía um sistema extravasor composto por três tubos ARMCO’s (Ø 1.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens de topo posicionada na elevação 901. Monitoramento Ficha técnica Na Tabela 7 estão apresentadas as principais características do dique da Selinha. em ambos os lados do dique auxiliar. O sistema de drenagem interna é composto por tapete horizontal de areia.

50 m).00 m. exaurida no final da década de 80. tanto o dique quanto o tapete possuem camadas de transição fina junto a fundação da pilha. Recentemente.00 m de extensão e para montante.50 m 820. com taludes de 5.0 m 3 tubos ARMCO’s Ø 1. A pilha de rejeito atingirá a elevação 1. 4. sendo desenvolvido um projeto de recuperação.00 m de altura. taludes 1V:1H e 2. A cota de crista do dique foi projetada na elevação 950. vislumbra-se a possibilidade de implantação de um canal trapezoidal em enrocamento.Séculos XIX. Em 2006 iniciou-se o empilhamento de rejeito arenoso da segunda fase da Cava do Germano.100 m. XX e XXI Tabela 8 – Características do Dique Auxiliar Dados gerais Finalidade Empresas Projetistas Etapa Construtiva Atual Cota Atual da Crista Altura Atual do Maciço Comprimento Atual da Crista Sistema Extravasor Contenção de rejeitos Figueiredo Ferraz / Pimenta de Ávila Consultoria Alteamento para El.5 Cava do Germano A Cava do Germano é uma antiga área de lavra.00 m e os diques de alteamento da pilha. O dique de partida e o tapete drenante são os principais dispositivos de drenagem interna da pilha de primeira fase. com o objetivo de manter a linha de saturação afastada do talude externo da pilha. denominadas de primeira e segunda fase.00 m) com o intuito de melhorar a eficiência de extravasão desse reserva­ tório.50 m de altura em substituição aos três tubos ARMCO’s (Ø 1. 5.917. Além disso. Como a fundação é em solo. O material assoreado funcionou como a fundação da pilha de re­ jeitos na primeira fase de recuperação da cava.50 m 37. alteados para montante.50 m e 4 tubos ARMCO’s Ø 1.0 m. com base menor de 5. com superfície da funda­ ção na elevação 945. foram instalados mais quatro ARMCO’s (Ø 1.2. A partir dessa época a cava passou a ser assoreada pelo Figura 22 – Seção transversal típica da Cava do Germano Figura 21 – Vista da Cava do Germano 394 .00 m material proveniente da erosão das suas paredes.00 m de largura da crista e uma inclinação média de 1V:3H. dando continuidade ao projeto de reabilitação dessa área degradada. Esse projeto de recuperação foi divido em duas partes.00 m e o tapete drenante com 30.A História das Barragens no Brasil . A crista do dique de partida foi posicionada na elevação 955. foram projetados com suas bermas com declividade de 2% para sul.5 m concluído 917.

2. SA-410-LT-22349-00 .Laudo Técnico de Segurança de Barragem – Barragem do Germano. SA-410-RL-22801-0C .Pimenta de Ávila Consultoria. 10.Azevedo.icold.Bacia de Acumulação de Rejeitos. Tabela 9 – Características da Cava do Germano Dados gerais Finalidade Empresas Projetistas Etapa Construtiva Atual Data Conclusão Cota Atual da Crista Altura Atual do Maciço Comprimento Atual da Crista Sistema Extravasor Empilhamento de rejeito arenoso Pimenta de Ávila Consultoria Ltda Alteamento para El.PI-PR-130005/78. Barragem do Queiroz.Estudos de Descomissionamento das Barragens de Rejeitos da Área da Planta do Queiroz. Agradecimentos Agradecemos à Pimenta de Ávila Consultoria Ltda a utilização de informações de seu arquivo técnico e a preparação dos textos aqui publicados.MMVREPAA.0 m 325. 82p. Geotécnica de Maio de 1980.Estudo de Operação dos Reservatórios das Barragens de Calcinados. Março de 2011. Ficha técnica As principais informações da Cava do Germano estão apresentadas na Tabela 9. 3. U. 6.O sistema de drenagem su­ perficial do talude de jusante da pilha é composto por canaletas e escadas em concreto estrutural. Revisão ano 2009. Relatório Final de Estudos Geológico-Geotécnicos.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens O sistema de drenagem interna é constituído de tapete drenan­ te associado a drenos de fundo e por um dique de partida com paramento de montante drenante. 11. Referências 1.0 m Tubo flauta conectado a uma galeria de concreto Monitoramento O monitoramento na Cava é realizado através de instrumentos insta­ lados sendo dez piezômetros do tipo Casagrande e dois indicadores de nível de água. Classificação das Barragens de Contenção de Rejeitos de Mineração e de Resíduos Industriais no Estado de Minas Gerais em Relação ao Potencial de Risco. Sistema extravasor O sistema extravasor é composto por tubo flauta acoplado a uma galeria de concreto posicionada na parede direita da cava (sul).RT-039-5133-1310-0007-00-B . 8. da Golder Associates. 2007.br. UFMG. Barragem do Queiroz. Dezembro de 2003.Manual de Operações do Sistema de Rejeitos da Planta Metalúrgica do Queiroz. UFMG. Programa Preliminar de Estudos Geológico-Geotécnicos. Patrimônio Geológico e Geoconservação no Quadrilátero Ferrífero.G3-PR-13-0017/79.Bacia de Acumulação de Rejeitos. Rapaunha e Cocuruto da CMEC.913. R.0 m concluído Março de 2011 992. Tailings Dams Incidents. Julho /2002. Disponível em: http://www. 2004. Minas Gerais. 4. SA-901-RL-4596-0C – Sistema de Rejeitos – Rejeito Arenoso – “Manual de Operação da Barragem do Germano”. 2008.UNITED STATES COMMITTEE ON LARGE DAMS – USCOLD. 7.Avaliação do Trânsito de Cheias nos Reservatórios da Barragem do Germano – Atualização Base Topográfica – Dezembro 2010. Tese de Doutorado. 395 .Anderson Pires Duarte.Pimenta de Ávila Consultoria. de Setembro de 2004. Potencial Para Criação de Um Geoparque da UNESCO. da Geotécnica de Novembro de 1978.Pimenta de Ávila Consultoria. 5. 9.0 m 54. Setembro de 2010.

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além da ITAIPU 397 . ao mesmo tempo em que os demais não queriam que se impusessem limitações ao seu próprio desenvolvimento. em 1972. que veio a realizar-se em Estocolmo. ELETROSUL. foram identificados como prioritários a necessidade de compreensão e controle das modificações ambientais produzidas pela humanidade nos principais sistemas ecológicos. com cerca de 10 km de extensão e desnível médio de 120 m. Como resultados. e as principais geradoras estaduais como CEMIG. vivia sob um regime ditatorial. a necessidade de acelerar a disseminação de tecnologias ambientalmente amigáveis e de desenvolver tecnologias alternativas àquelas danosas ao meio ambiente. como suprimento de água. Em primeiro plano o lago de Itaipu e a tomada de água do canal. mas não visível na foto. O Governo impunha a sua vontade e. Nesse evento. ficou patente a divisão de enfoque entre os representantes de países desenvolvidos e de países em desenvolvimento. de forma a minimizar os riscos ambientais de suas estratégias de desenvolvimento. em seguida o canal para peixes e mais abaixo o lago e a represa. As primeiras manifestações de preocupação com o meio ambiente podem ser identificadas na convocação. CHESF. em 1968. O dia 5 de junho de 1972. entre elas. a necessidade de encorajar a distribuição internacional da capacidade industrial. pela Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). ficou estabelecido como o Dia Mundial do Meio Ambiente. as empresas do chamado setor elétrico de então (FURNAS. é preciso lançar um olhar histórico sobre a questão do meio ambiente como um todo e situá-lo no contexto político do País. em junho de 1972. Dessa Conferência. predominantemente com o objetivo de formação de reservatórios para geração de energia elétrica. Além desses temas. COPEL e CEEE. utilizado para competições esportiva desaguando no rio Bela Vista (foto Caio Francisco Coronel) Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Homero André dos Santos Teixeira em larga escala. da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano. criando condições de grande risco para a própria sobrevivência da humanidade. do Sistema ELETROBRAS.Evolução do Licenciamento Ambiental de Barragens no Brasil Para abordar o tema do licenciamento ambiental de barragens no Brasil. não haver exigência legal de licenciamento ambiental. em que se incluíam as barragens. A jusante do lago. quando foi realizada a primeira plenária dessa Conferência. CESP. as mais destacadas: usina hidroelétrica Itaipu e usina hidroelétrica Tucuruí. ELETRONORTE. àquela época. via fluvial para migração de peixes. poluição de mares e oceanos e ocupação urbana desordenada. com plena dominância estatal dos investimentos em grandes obras públicas. participaram representantes de 113 países e de cerca de 250 organizações não-governamentais e o seu foco de atenção principal foi a constatação de que a ação do homem vinha produzindo severa degradação da natureza. à custa de endividamento externo. a necessidade de somente aceitar a introdução de novas tecnologias após a avaliação das consequências de sua utilização sobre o ambiente. Apesar de. conecta o lago de Itaipu ao rio Paraná aproveitando em seu trecho inferior o leito natural do rio Bela Vista. Os primeiros externaram suas preocupações com os danos impostos ao ambiente pelo modelo de desenvolvimento predatório por eles próprios empreendido. foram definidos vários tópicos que requeriam atenção urgente e ações O canal da Piracema de Itaipu. O Brasil. foi construído o canal de águas bravas. e a necessidade de prestar assistência a países em desenvolvimento. uma significativa quantidade de usinas hidroelétricas teve sua construção iniciada na década de 70.

na companhia de profissionais da ELETRONORTE. ligadas principalmente à qualidade da água e à introdução de peixes em reservatórios. Rio Tocantins. continuou ações ambientais sistematizadas em nove subprojetos. Amazônia (Avaliação ambiental do aproveitamento hidroelétrico de Tucuruí – Rio Tocantins). abordado. o tratamento das questões ligadas aos povos indígenas foi. a ELETRONORTE criou. que já havia prestado consultoria para FURNAS. conceituado profissional ligado ao Cary Arboretum of the New York Botanical Garden. em setembro de 1977. que teve por objetivo promover o salvamento do maior número possível de indivíduos da fauna silvestre. contratou o ecólogo Robert Goodland. Esse despertar para o meio ambiente foi iniciado pelos problemas de conflitos de reassentamentos de populações desalojadas pela formação de reservatórios e pela necessidade de compatibilizar a eventual explotação de recursos minerais em áreas alagáveis antes de sua inundação. O ecólogo Goodland. bem como o reflorestamento de suas margens. culminaram na denominada Operação Curupira. que já vinha enfrentando a problemática ambiental. A implantação da usina hidroelétrica Tucuruí. o relatório Environmental Assessment of the Tucuruí Hydroelectric Project. em 1976. XX e XXI BINACIONAL) já demonstravam alguma consciência da importância do componente ambiental em seus empreendimentos. Simultaneamente. A partir desse relatório.Séculos XIX. Essas ações desenvolvidas entre 1978 e 1984. uma Divisão de Ecologia que passou a concentrar as atividades ligadas ao meio ambiente. Consultor de meio ambiente Robert Goodland em 2011 Consultor ambiental Robert Goodland (à direita) junto com Rupert Spearman (Ieco-Elc) na primeira inspeção a Itaipu em 1972 398 . já eram objeto de ações das empresas do Setor Elétrico desde a década de 60. Iniciativas anteriores de preservação ambiental. para elaborar um relatório diagnóstico da problemática ambiental relativa à implantação da usina hidroelétrica Tucuruí e recomendar ações para minimizar os potenciais impactos ambientais identificados. para soltura em áreas protegidas ou aproveitamento científico. que abrangeram estudos a montante e a jusante da barragem. despertou nos responsáveis pelo empreendimento a certeza de que ações de diagnóstico dos meios físico e biótico. em um bioma sensível – Floresta Amazônica. avaliação de impactos a montante e a jusante da barragem e monitoramento ambiental.430 km2. Com o início do aproveitamento de potenciais hidrelétricos na Região Amazônica.A História das Barragens no Brasil . realizou várias campanhas de campo na região e apresentou. também. seriam indispensáveis para o sucesso do projeto. quando do enchimento do reservatório. CEMIG e ITAIPU. Assim. com um reservatório da ordem de 2. a ELETRONORTE.

a instituição do licenciamento ambiental de atividades efetiva ou poten cialmente poluidoras.86. do Distrito Federal.proteção dos ecossistemas. e define no Art.81).à imposição. já restabelecida a democracia no Brasil. X .450 indivíduos. II ..EIA e respectivo Relatório de Impacto Ambiental – RIMA. a serem submetidos à aprovação do órgão estadual competente. V .educação ambiental a todos os níveis de ensino. III .à preservação e restauração dos recursos ambientais com vistas à sua utilização racional e disponibilidade permanente. com resgate de 36. VI . tais como: 399 .” Já o Art. aos interesses da segurança nacional e à proteção da dignidade da vida humana. do subsolo. encampa os resultados da Primeira Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano e estabelece. IX . com a preservação de áreas representativas.02. no País. condições ao desenvolvimento sócio-econômico. objetivando capacitá-la para participação ativa na defesa do meio ambiente. portanto. é publicada no Diário Oficial da União . 2º. inclusive a educação da comunidade. Em seu Art.incentivos ao estudo e à pesquisa de tecnologias orientadas para o uso racional e a proteção dos recursos ambientais.planejamento e fiscalização do uso dos recursos ambientais. ao poluidor e ao predador. cujo fechamento do desvio e enchimento do reservatório ocorreu em 1982.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Na implantação da usina hidroelétrica Itaipu. define que a PNMA visa: “I .DOU a Resolução CONAMA n o. atendendo aos interesses da União. atendidos os seguintes princípios: I . esta lei estabelece: “A Política Nacional do Meio Ambiente tem por objetivo a preservação. tendo em vista o uso coletivo.ao estabelecimento de critérios e padrões de qualidade ambiental e de normas relativas ao uso e manejo de recursos ambientais. visando assegurar. que dispõe sobre critérios básicos e diretrizes gerais para a avaliação de impacto ambiental. VI . Ill . concorrendo para a manutenção do equilíbrio ecológico propício à vida. que: “Dependerá de elaboração de Estudo de Impacto Ambiental . define que são instrumentos da PNMA “o licenciamento e a revisão de atividades efetiva ou potencialmente poluidoras”. no Brasil. dos Territórios e dos Municípios. pela primeira vez no Brasil.controle e zoneamento das atividades potencial ou efetivamente poluidoras. à divulgação de dados e informações ambientais e à formação de uma consciência pública sobre a necessidade de preservação da qualidade ambiental e do equilíbrio ecológico. o licenciamento de atividades modificadoras do meio ambiente. V . da contribuição pela utilização de recursos ambientais com fins econômicos.ao desenvolvimento de pesquisas e de tecnologias nacionais orientadas para o uso racional de recursos ambientais. de forma integrada.PNMA (Lei 6.ação governamental na manutenção do equilíbrio ecológico.recuperação de áreas degradadas.938. da obrigação de recuperar e/ou indenizar os danos causados e. VII . 2º.” E o inciso IV do Art. melhoria e recuperação da qualidade ambiental propícia à vida. dos Estados. ao usuário. IV . da Política Nacional do Meio Ambiente .proteção de áreas ameaçadas de degradação.acompanhamento do estado da qualidade ambiental. e da Secretaria Especial do Meio Ambiente – SEMA em caráter supletivo.à compatibilização do desenvolvimento econômico-social com a preser vação da qualidade do meio ambiente e do equilíbrio ecológico. a primeira lei que trata. da água e do ar .à definição de áreas prioritárias de ação govername tal relativa à qualidade e ao equilíbrio ecológico. VIII . Somente nove anos após a realização da Conferência de Estocolmo é que surge.racionalização do uso do solo. II . somente em 17. A Lei 6. também foi realizada operação de salvamento de animais silvestres. 4º. 01.08. 9º. IV . VII . de 31.à difusão de tecnologias de manejo do meio ambiente.938. considerando o meio ambiente como um patrimônio público a ser necessariamente assegurado e protegido. No entanto.

articulação interinstitucional e com a sociedade. só veio a se tornar efetiva quando de sua publicação no DOU. que o RIMA deverá ser dado a público e que os órgãos públicos que manifestarem interesse. representar cerca de duas vezes o das barragens para geração de energia elétrica. contudo estabelece-lo. assim.07. pelo município. 237.. em decorrência da evolução esperada para o assunto. 01/86 determina que o Estudo de Impacto Ambiental e respectivo RIMA devam ser analisados pelo órgão estadual competente. para conhecimento e manifestação. em fevereiro de 1987. A realização de Audiências Públicas. quando couber. elaborado por um grupo de trabalho constituído por profissionais de empresas do setor. inserção regional. liderou uma série de ações que. baseando-a em quatro diretrizes: viabilidade ambiental. sem. do Departamento Nacional de Águas e Energia Elétrica – DNAEE. embora tenha sido objeto da Resolução CONAMA no. Determina. ainda. quando couber. o município. o Departamento de Meio Ambiente – DEMA. cuja regulamentação se apresentava. que terá prazo para essa análise.1997. Define. a ELETROBRAS criou. o DOU publicou a Resolução CONAMA no. acima de 10MW. que esses órgãos públicos e demais interessados deverão ter prazo para se manifestarem. a SEMA ou. no processo de licenciamento ambiental. diagnosticando problemas e propondo soluções. a ELETROBRAS publicou o primeiro Plano Diretor para Proteção e Melhoria do Meio Ambiente nas Obras e Serviços do Setor Elétrico (I PDMA).12. manual esse previsto para ser revisado em 1991. uma Divisão de Meio Ambiente ligada ao Departamento de Estudos Energéticos. ou pela SEMA ou. também. em junho de 1986. o Comitê Consultivo de Meio Ambiente da ELETROBRAS – CCMA. uma vez mais não o estabelecendo. Nasce. O órgão estadual competente. que propôs uma política socioambiental para o Setor.. tinham em foco o licenciamento dos empreendimentos. Apesar de o número de barragens para outros fins. A mesma Resolução CONAMA no.Séculos XIX. prestou assessoria à alta direção da ELETROBRAS. foi criado. sem vínculos com o setor. Em 19. com predominância daquelas para abastecimento de água (açudes).” . ou tiverem relação direta com o projeto. Assim. promoverá a realização de Audiência Pública para informação sobre o projeto e seus impactos ambientais e discussão do RIMA. de saneamento ou de irrigação. 09.. que dispõe sobre a aprovação de modelos para publicação de pedidos de licenciamento. em agosto de 1989. 06/86. Esse Comitê.12. Essa Divisão tornou-se. além de demonstrarem a importância atribuída ao tema. ainda. uma análise dos empreendimentos considerados de maior impacto social e ambiental e propunha medidas mitigadoras e compensatórias.87. foi publica- do o Manual de Estudos de Efeitos Ambientais dos Sistemas Elétricos. apresentando.90. Com o objetivo de organizar a estrutura gerencial e executiva para o trato da temática ambiental. XX e XXI ... o licenciamento ambiental de barragens no Brasil. Na mesma data de publicação da Resolução CONAMA no. construção e projeto nas décadas de 70 e 80 do século passado. VII – Obras hidráulicas para exploração de recursos hídricos. . composto por técnicos de notório saber nas áreas social e ambiental. sempre que julgar necessário. tais como: barragens para fins hidrelétricos. analisando os aspectos de suas especialidades. O setor elétrico. em 05. bastante inconsistente. 01/86. em dezembro de 1986. e eficácia gerencial. e alinhado com as preocupações com o meio ambiente.A História das Barragens no Brasil . receberão cópia. que dispõe sobre a revisão e complementação dos procedimentos e critérios utilizados para o licenciamento ambiental. pela sua importância e estruturação por concessionárias estatais. foi o setor elétrico que comandou as ações para estruturar o seu processo de licenciamento ambiental. que estabelece a exigência de licenciamento para barragens e diques. 400 . pela sua importância. O esforço de um trabalho conjunto de representantes das principais empresas do setor elétrico. Em novembro de 1986. Imediatamente após a publicação do I PDMA. também. coordenado pela Eletrobras. foi promulgada a Resolução CONAMA no. de 03.. responsável por considerável quantidade de barragens em operação. Esse documento orientava a forma de conduzir o Setor sob a égide das diretrizes que o norteavam.

de 13.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens da Secretaria Especial de Meio Ambiente – SEMA e de órgãos ambientais estaduais resultou na elaboração e publicação da Resolução CONAMA no. bem como o nível de detalhe dos programas do Projeto Básico Ambiental. a organização do patrimônio histórico e artístico nacional.07. o IPHAN. estabelecendo os documentos necessários a cada solicitação. a possibilidade de o empreendedor debater essas exigências. hoje IPHAN. Os mais variados diplomas legais de proteção ambiental.427.09. de 16.07. a FUNAI. Essa lei particularizou.07. contudo.347. foi criada a Agência Nacional de Energia Elétrica – ANEEL (Lei 9. a criação da Fundação Nacional do Índio – FUNAI (Lei 5.10.65 e suas modificações). bem como nos próprios órgãos ambientais licenciadores. de 27. 01/86.85). os trâmites e a responsabilidade pela obtenção das licenças ambientais. que absorveu as atribuições do IBDF.TR. os Órgãos Estaduais do Meio Ambiente – OEMAs. de 22. estético.73). cada vez mais com a presença de atores que são determinantes para o sucesso.02.12. de 03.110.67 e suas modificações). de 26. a bens e direitos de valor artístico. Resguardou-se. etc. de 05.02. histórico e paisagístico (Lei 7.95. foi desencadeado um processo de formação de equipes técnicas multidisciplinares em empresas de consultoria e nas empresas e autarquias estatais. contudo. que devem ser consi derados na elaboração dos estudos ambientais e formam um elenco legislativo de grande porte. diploma que também disciplinou o regime de concessões de serviços públicos de energia elétrica.01. publicada no DOU em 22.02.96). o licenciamento ambiental de barragens uma questão simples e pacífica. As empresas estatais de água e energia perdem a exclusividade de receber concessões e os agentes privados entram em cena.67). a Lei de Criação de Estações Ecológicas e Áreas de Proteção Ambiental (Lei 6. 127 a Art.10. o Código de Águas (Decreto 24. a criação do Instituto de Colonização e Reforma Agrária – INCRA (Decreto-Lei 1. entre outros.371.88).643.771. 130).197.09. A modificação do marco regulatório das concessões vem alterando. que dispõe sobre o regime de concessão e permissão de serviços públicos.89. a promulgação da lei que disciplina a ação civil pública de responsabilidade por danos causados ao meio ambiente. a abrangência e a profundidade dos estudos ambientais.87. A partir do estabelecimento das exigências de produção de estudos e projetos ambientais para o licenciamento de barragens e outras atividades consideradas “modificadoras do meio ambiente”. Em 1996. conforme atribuições constantes da Constituição Federal de 1988 (Art. da SEMA. no entanto. a criação do Instituto Brasileiro do Desenvolvimento Florestal (Decreto-Lei 289.81 e suas modificações). de 09. cuja ementa informa que dispõe sobre o licenciamento ambiental de obras do setor de geração de energia elétrica. destacando-se o Estudo de Impacto Ambiental e o RIMA para a LP e o Projeto Básico Ambiental para a LI. o conteúdo. Para as barragens. de 24. com a criação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – SPHAN (Decreto-Lei 25. para o setor elétrico. a Lei de Proteção à Fauna (Lei 5. ou não. O estabelecimento das diretrizes da Resolução CONAMA n o.37). resguardado o disposto na Resolução CONAMA no.987.12.04. Destacam-se o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis – IBAMA. É de ressaltar que essa modificação é marcante para as barragens para fins de 401 .87. pois pela primeira vez os tipos de licenças são correlacionados a etapas de desenvolvimento do empreendimento (Licença Prévia – LP. a criação da Secretaria Especial do Meio Ambiente – SEMA (Decreto-Lei 73. de 22.08. criado pela Lei 7. o que determina a Lei 8. O aprendizado das partes envolvidas no processo de licenciamento ambiental de barragens vem sendo paulatino. essa resolução é um marco histórico. Essa resolução. a criação da Fundação Cultural Palmares – FCP (Lei 7.902.735. da Superintendência de Desenvolvimento da Pesca – SUDEPE e da Superintendência da Borracha – SUDHEVEA.11. de 15. abrange também obras de transmissão. de 10. de 28. Licença de Instalação – LI e Licença de Operação – LO).668.70). 06. o que hoje se denomina discussão do Termo de Referência .67). de 30. em que se incluem. de cada processo individualmente. Ficou também estabelecido que o órgão ambiental competente definirá. 06/87 não tornou. a FCP e o Ministério Público.030. o Códig o Florestal (Lei 4. ao consumidor.34). de 30. desde a promulgação dessas leis.

incrementos de prazos e custos para a obtenção das licenças ambientais. com sítios arqueológicos. tanto dos empreendedores quanto dos analistas dos órgãos ambientais. com evidente desperdício de recursos. desde a publicação da Resolução CONAMA no. os principais problemas ligados aos potenciais impactos dessas obras se focavam em aspectos ambientais ligados aos meios físico. organização que milita pelos direitos dos afetados pelas barragens.03. Sobradinho.08. Os problemas de interferências com aldeias e terras indígenas vêm sendo.12. (Art. de 09. com comunidades quilombolas. tem feito exigências de estudos etnoecológi- 402 . Historicamente. estabelece que a obtenção do licenciamento ambiental pertinente é de responsabilidade do interessado. 395. à proteção da flora nativa e da fauna silvestre e à preservação da qualidade dos recursos hídricos. com voz presente. a FUNAI. que trata dos procedimentos gerais para registro e aprovação de Estudos de Viabilidade e Projeto Básico de empreendimentos de geração hidroelétrica. Os aspectos ambientais mais importantes atrás mencionados estão diretamente ligados ao processo de licenciamento. “obter a licença prévia ambiental e a declaração de disponibilidade hídrica necessárias às licitações envolvendo empreendimentos de geração de energia elétrica e de transmissão de energia elétrica. XX e XXI geração hidroelétrica. de 15.A História das Barragens no Brasil . Esse requisito se aplicava tanto para em preendimentos a serem colocados em licitação (Usinas Hidroelétricas) quanto àqueles com características de Pequena Cen tral Hidroelétrica. a LI e a LO. não tendo sofrido alterações para barragens de outras finalidades. tendo sido. a Resolução Normativa ANEEL no. assim como autorização para exploração de Centrais Hidroelétricas até 30 MW. Nas décadas de 1970 e 1980. biótico e antrópico. Essa legislação. 343. em geral. implantadas. inciso IV). expressa pela LP. Ita e Machadinho) construídos por empresas estatais. cria. Eles estão ligados à remoção de populações das áreas dos reservatórios. Essa Resolução. objeto de legislação elaborada por diversas entidades que interferem diretamente no grau de detalhamento do Estudo de Impacto Ambiental. em audiências públicas. da LI e da LO para cada empreendimento. cada vez mais.847.98. ao longo dos anos. implica o licenciamento ambiental do mesmo objeto por mais de um interessado. um complicador no processo de licenciamento. em especial as de proteção integral. passou a ser de sua competência. Itaparica. geralmente por meio de desapropriação por utilidade pública. Essa situação perdura. pela Lei 10. necessários. selecionados pela EPE” . 4º.04. embora lhe caiba a obtenção das demais licenças ambientais. 12. muitas remoções foram feitas para novas vilas ou cidades. 01/86. que permite a apresentação de mais de um estudo ou projeto para uma única usina hidroelétrica ou PCH. paleontológicos e espeleológicos e com áreas de preservação ambiental. A remoção e o reassentamento de populações para implantação de reservatórios de barragens vêm sendo feitos mediante acordos dos empreendedores (públicos ou privados) com os atingidos. garantindo ao empreendedor a certeza da viabilidade ambiental do empreendimento. às interferências com populações indígenas. obviamente. às margens dos lagos formados. Tem-se conhecimento que a ANEEL está estudando uma modificação nas diretrizes de apresentação de projetos para permitir que apenas um empreendedor autorizado seja o responsável pelo licenciamento ambiental. Itaipu. Em 04. especialmente para as barragens que formam reservatórios. mesmo antes da existência de legislação referente ao licenciamento ambiental de barragens. É dessa época a fundação do MAB – Movimento dos Atingidos por Barragens. conforme disposto na Resolução Normativa no. Essa determinação está sendo seguida para a licitação de concessões de geração hidroelétrica. para PCHs. Mesmo não havendo interferência direta com essas unidades.12. quando da implantação de grandes barragens e imensos reservatórios (usinas hidroelétricas Tucuruí. especialmente. que se manifesta necessariamente na análise do Estudo de Impacto Ambiental. respectivamente à emissão da LP. sendo hoje muito atuante e geradora de dificuldades nos processos de licenciamento ambiental. do Projeto Básico Ambiental e dos Relatórios de Acompanhamento da Implantação dos Programas Ambientais. a cada dia. conforme inciso VI do Art.Séculos XIX. Com a criação da Empresa de Pesquisa Energética – EPE.

ampliação. realizados em atenção ao Termo de Referência específico.90. que são passíveis de autorreconhecimento. com a edição do Decreto 6. 07. a realização de diagnóstico das Áreas de Influência da barragem. mediante o Decreto-Lei 4.02. As comunidades remanescentes de quilombos.. em áreas cujas rochas apresentem potencial paleontológico.88 e IPHAN no. pela Resolução CONAMA n o. de 10. Mesmo não havendo evidências da existência de vestígios arqueológicos relatada no Diagnóstico Arqueológico. em seu Art. de 01. reconhecimento. de 15. nos termos da legislação vigente”. de 17. que “a localização. construção. havendo sempre o risco de existir algum processo de autorreconhecimento em andamento e isso não ser informado na consulta prévia que as consultoras costumam fazer na fase inicial de elaboração do EIA. tem havido imposição de “compensações”. que regulamenta o procedimento para identificação. são amparadas pelo disposto no Decreto 4. de 07. modificação e operação de empreendimentos e atividades. passou a ser possível a convivência de barragens e outros empreendimentos com a proteção às cavidades naturais subterrâneas. definindo. 230.146. bem como desenvolver um Programa de Educação Patrimonial a ser implantado nas comunidades próximas ao achado. para fins de liberação das LP e LI. Esse tipo de omissão pode acarretar atraso no processo. instalação. em qualquer hipótese.08. a cargo do IBAMA. que dispõem sobre os procedimentos para obtenção de licenças ambientais referentes à apreciação e acompanhamento das pesquisas arqueológicas no País. que.640.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens cos dos grupos indígenas que se encontram.10. Essa Resolução institui o Cadastro Nacional de Informações Espeleológicas – CANIE.09. uma vez autorizado. para a obtenção da LP.08. para a obtenção da LI é requerida a realização de Prospecção Arqueológica que. considerando-o dentro do processo de licenciamento ambiental de empreendimentos. independente de seu porte. A proteção das cavidades naturais subterrâneas existentes no território nacional foi estabelecida pelo Decreto 99. Mesmo após estudos antropológicos conclusivos. deverá promover o seu salvamento e deposição em instituição de pesquisa. exceto nas de relevância máxima.556. 403 . muitas vezes. a aprovação dos seus relatórios. A implantação de barragens e reservatórios. inicialmente. Com esse Decreto. O patrimônio paleontológico é protegido. desde que sejam implementas medidas e compensações. foi regulada. praticamente. cujos serviços só podem ser iniciados após a publicação da mesma no DOU. que modificou a redação do anterior Decreto 99. desde 1942. a mais de 20 km de distância da barragem e seu reservatório e que não seriam. submetidos a qualquer tipo de impacto.03. com o atraso na emissão das Portarias e. Esses procedimentos oneram e atrasam o processo de licenciamento ambiental das barragens. requer a identificação e o resgate dos fósseis.04. delimitação. também. gera uma Portaria específica para o arqueólogo responsável. Devido à falta de quadros técnicos.556. A Fundação Cultural Palmares tem necessariamente que ser ouvida no processo de licenciamento. sendo obrigatória. para inclusão no Estudo de Impacto Ambiental. 2. A proteção do patrimônio espeleológico. Para a realização dos trabalhos de arqueologia é necessário submeter ao IPHAN um projeto de pesquisa que. de 20.11. considerados efetiva ou potencialmente poluidores ou degradadores do patrimônio espeleológico ou de sua área de influência dependerão de prévio licenciamento pelo órgão ambiental competente. O patrimônio arqueológico é protegido. deve-se obedecer ao disposto nas Portarias SPHAN no.887. que provam não haver impacto.12. de 20. caso identifique algum vestígio. inviabilizava a implantação de empreendimentos em regiões dotadas de cavernas naturais. Para a realização dos trabalhos de arqueologia.12.09. Depois de muita discussão. ou até inviabilizar um empreendimento. o IPHAN vem atrasando a análise dos projetos de pesquisa. que oneram o empreendedor e que são motivo de atraso no licenciamento.11. 4º. 347. A definição dos critérios para estabelecimento da relevância das cavidades na turais subterrâneas foi feita através da Instrução Normativa do Ministério do Meio Ambiente no. demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentes de comunidades quilombolas. foi definido que deveriam ser criados critérios de relevância para a classificação das cavidades naturais subterrâneas e a possibilidade de implantar empreendimentos em áreas em que elas ocorram.

com captura. para tal. depois de várias determinações exaradas em Resoluções do CONAMA para o tema (Resolução CONAMA n o.EIA/RIMA.contribuir para a preservação e a restauração da diversidade de ecossistemas naturais. XX e XXI O Sistema Nacional de Unidades de Conservação – SNUC foi estabelecido pela Lei 9. 25. passando o assunto a ser regulado pela Resolução CONAMA no. III .” Como houve muita discussão quanto aos critérios de cálculo da compensação financeira. Esses diagnósticos só podem ser realizados mediante autorização do IBAMA.proteger as espécies ameaçadas de extinção no âmbito regional e nacional. embora o seu espírito original fosse de que deveria ser aplicada a barragens formadoras de reservatórios.A História das Barragens no Brasil . assim considerado pelo órgão ambiental competente.06.08. o empreendedor é obrigado a apoiar a implantação e manutenção de unidade de conservação do Grupo de Proteção Integral.985.340. como definido na Lei do SNUC.favorecer condições e promover a educação e interpretação ambiental.04. A proteção da fauna silvestre é um tema que passou a ser encarado com extremo rigor no âmbito do licenciamento ambiental de barragens.Séculos XIX. aves. a recreação em contato com a natureza e o turismo ecológico. de 05.02. VII .” No apoio às Unidades de Conservação de Proteção Integral. espeleológica. XI .recuperar ou restaurar ecossistemas degradados. abrangendo mamíferos. a obrigatoriedade de realizar diagnósticos da fauna.proteger os recursos naturais necessários à subsistência de populações tradicionais. répteis e peixes. 2/96). transporte e exposição de grupos da fauna. foi revogada.promover o desenvolvimento sustentável a partir dos recursos naturais.proteger as características relevantes de natureza geológica.proteger paisagens naturais e pouco alteradas de notável beleza cênica. que caíram para 3 km no caso de empreendimentos sujeitos a elaboração de EIAe RIMA e para 2 km para os de reduzido impacto ambiental.09. V . de 22. II . Essa distância foi estabelecida sem qualquer critério de avaliação de impactos ambientais. restringiu a sua aplicação a empreendimentos de geração hidroelétrica.12.proporcionar meios e incentivos para atividades de pesquisa científica.promover a utilização dos princípios e práticas de conservação da natureza no processo de desenvolvimento. requerendo-se.proteger e recuperar recursos hídricos e edáficos. IX . XIII . em seu “Art. 10/87 e Resolução CONAMA n o. geomorfológica. em 10 quilômetros.90. de 06. com fundamento em Estudo de Impacto Ambiental e respectivo relatório . X .valorizar econômica e socialmente a diversidade biológica. A Portaria Normativa do MMA no. 4 o o SNUC tem os seguintes objetivos: I . 371. coleta. 13.00. de 22.01. a qualquer tipo de empreendimento.” Essa zona de amortecimento foi estipulada na Resolução CONAMA no. a execução de um processo dispendioso e demorado. 36. ou seja. A Instrução Normativa do MMA n o. De acordo com seu “Art. respeitando e valorizando seu conhecimento e sua cultura e promovendo-as social e economicamente. de 11. finalmente. XII . indistintamente. 146. IV .contribuir para a manutenção da diversidade biológica e dos recursos genéticos no território nacional e nas águas jurisdicionais.07. regulamentada pelo Decreto 4. As unidades de conservação. devem possuir uma zona de amortecimento e. para qualquer empreendimento. VI . Essa Resolução. que estabeleceu critérios para definição das distâncias a serem consideradas para as zonas de amortecimento. quando conveniente. a barragens com essa finalidade. paleontológica e cultural. Nos casos de licenciamento ambiental de empreendimentos de significativo impacto ambiental.10. exceto Área de Proteção Ambiental e Reserva Particular do Patrimônio Natural. de 18. arqueológica.05. estudos e monitoramento ambiental. em 17. a chamada Lei do SNUC estabelece: “Art.07. 404 . o assunto está finalmente regulado pela Resolução CONAMA no. Essa IN veio sendo aplicada. Outra limitação à implantação de barragens e outros empreendimentos é a que define critérios de distância para proteção do entorno de Unidades de Conservação.12. estabeleceu. de acordo com o disposto neste artigo e no regulamento desta Lei. corredores ecológicos.10. VIII . 428.

ELETROBRAS. analistas dos órgãos licenciadores. Brasília. detalhamentos incompatíveis com o porte dos empreendimentos e.01. Ecclesia. que. posto que com o aumento da demanda. restando às partes envolvidas. 1978. Plano Diretor de Meio Ambiente do Setor Elétrico 1991/1993. Os analistas tendem a se resguardar. efetivamente. 405 . jun. Relatório Condensado. ELETRONORTE. Disponível em: http://www. como elemento base para a concessão da LP e Relatório de Detalhamento dos Programas Ambientais – RDPA para a solicitação da LI. Disponível em: http://www. 1977. praticamente. elaboram pareceres sobre estruturas de pequeno porte semelhantes aos aplicáveis a grandes barragens. pelos órgãos licenciadores. Ela instituiu o Relatório Ambiental Simplificado – RAS. 2011. dez. que estabelece procedimentos para o licenciamento ambiental simplificado de empreendimentos elétricos com pequeno potencial de impacto ambiental. Centro nacional de desenvolvimento de PCH. Topmost dams of Brazil. como as manifestações da FUNAI. é exigida por praticamente todos os órgãos ambientais licenciadores.unep. o mercado de consultoria ambiental cresceu. hoje. por receio de ação do Ministério Público que. tornando os processos demorados e. cabe mencionar a Resolução CONAMA no. a consideração de todos os aspectos ambientais atrás mencionados. Rio de Janeiro. Entendendo o meio ambiente: principais Conferências Internacionais sobre o meio ambiente e documentos resultantes. Inventário do baixo Araguaia – Tocantins.html Acesso em: mar. consequentemente. caros.br/ zpublisher/paginas/legislacao_ambiental. se pode dizer que a “evolução” tenha um sentido de aprimoramento. Referências CBGB.br/biblioteca/ fe_e_meio_ambiente/principais_conferencias_internacionais_ sobre_o_meio_ambiente_e_documentos_resultantes. 1986.ecclesia. 1984. 2011. da FCP e do IPHAN.06. Stockholm 1972: Brief summary of the general debate. Essa Resolução vem sendo aplicada. às PCHs com pequenas barragens e reservatórios. os órgãos ambientais sofrem de falta de pessoal qualificado para analisar os estudos ambientais que são apresentados para instruir os processos de licenciamento. Relatório Final.279. Rio de Janeiro. São Paulo: Novo Grupo Editora Técnica. 1987. de 27. intervém na maioria dos processos como guardião da lei. exigindo. 2011. no entanto. bem como da avaliação fundamentada dos impactos sobre o patrimônio paleontológico e espeleológico e as Unidades de Conservação.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Finalmente. Brasília.asp?DocumentID=97&ArticleID=1497&l=en Acesso em: mar. uma evolução sustentável. O processo de licenciamento simplificado não desobriga.org/DocumentsMultilingual Default. Plano Nacional de Energia Elétrica 1987/2010: Plano 2010. bem como sobre a fauna silvestre. consultores ambientais. Livro Branco sobre o Meio Ambiente na Usina Hidrelétrica de Tucuruí. Disponível em: http://www. out. muitas vezes esses de qualidade duvidosa. verifica-se que a evolução do licenciamento ambiental de barragens no Brasil é um tema complexo e. UNEP. ELETRONORTE/ENGEVIX. essa Resolução introduz a Reunião Técnica Informativa – RTI. em geral. demais instituições intervenientes e à sociedade civil. Rio de Janeiro. empreendedores.com. promoverem constante troca de experiências no sentido de que o licenciamento sofra. Estudos Tocantins: inventário hidrelétrico das bacias dos rios Tocantins e Araguaia. ______. Pelo exposto. Em substituição à Audiência Pública. Os prazos constantes dos diplomas legais não são cumpridos. nem sempre atendendo aos requisitos exigíveis. Legislação ambiental. A legislação aplicável é vasta.com. para a concessão das licenças.cndpch. nem sempre. ______. principalmente. Relatório Geral. em atenção a ações do Ministério Público. 1990.asp Acesso em: mar. O processo é penoso.

Figuras selecionadas dos resultados da instrumentação Deslocamentos horizontais máximos para jusante (períodos de inverno) .Itaipu .uma barragem densamente monitorada com elevado nível de segurança.

seminários e cursos. O Comitê Brasileiro de Barragens sempre esteve atento à necessidade da implantação de uma política e de uma legislação que tratassem do aspecto de segurança de barragens. Introdução Obras de tamanha importância devem ter a sua segurança gerenciada ao longo de toda a sua vida. Neste capítulo será resumidamente apresentada a atuação do CBDB na evolução dos aspectos ligados à implantação de uma política de segurança de barragens no Brasil. o imenso potencial de perdas de vida. aumento nas dimensões das novas barragens e envelhecimento de uma quantidade apreciável de outras. 2.A Evolução da Legislação Aplicada às Barragens “A História prova que se as barragens não fossem construídas. III World Water Fórum (Kyoto. Dentre as diversas publicações do ICOLD relacionadas à segurança de barragens. tendo atuado neste campo com a formação de diversos comitês.000 grandes barragens ao redor do mundo servindo a sociedade por meio do fornecimento de água para uso doméstico. danos ambientais e conseqüências de elevado valor econômico decorrentes de uma eventual ruptura. assim como levanta a importância do papel da Comunidade Técnica e dos pertinentes órgãos governamentais no sentido de minimizar a possibilidade da ocorrência de eventos desta natureza. deixa claro a grande responsabilidade das concessionárias e proprietárias quanto à preservação da segurança das barragens. gerando energia elétrica e controlando enchentes”. empreendimentos que tem papel relevante no desenvolvimento do nosso país. “Deterioration 407 . Existem aproximadamente 45.1 Panorama internacional O ICOLD (Inter national Commission on Lar ge Dams) sempre esteve preocupado com a segurança de barragens. não haveria desenvolvimento humano. construção e operação desses empreendimentos são tratados com seriedade. que seguramente contribuirá para reduzir os riscos de acidentes nas nossas barragens. Todavia. industrial e irrigação. 2003). destacam-se: “Lessons from Dams Incidents” (1974). além do incremento da quantidade de barragens sendo construídas em países com pouca ou nenhuma experiência em engenharia de barragens. foi decidido investir maiores esforços no âmbito de segurança em função de: diversos incidentes em barragens. Durante o Congresso Internacional de Grandes Barragens. com graves conseqüências ocorridas na época. edição de boletins e organização de congressos. “Automated Observations for Safety Control of Dams” (1982). em Nova Delhi. Ciro Humes Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens 1. Histórico da legislação sobre segurança de barragens 2. A ruptura de barragens é uma hipótese pouco provável e de baixíssima probabilidade de ocorrência quando os aspectos de projeto. promovido pelo ICOLD em 1979.

para que as barragens existentes passassem a aplicar as imposições do regulamento. Na Suécia o controle de construção e manutenção é regido pelo Water Rights Act de 1918. a FERC (Federal Energy Regulatory Commission) também atua na área. Entre estas imposições pode-se destacar: Designação dos responsáveis pela segurança englobando o governo (representado pela Direção Geral dos Recursos Naturais).A Reconnaissance of Benefits. Methods and Current Applications” (2005). Além da FEMA. inspeção e eventuais medidas a serem tomadas junto aos proprietários das barragens. “Dam Monitoring-General Considerations” (1988). “Dam Safety Guidelines” (1987). 408 . principalmente no tocante aos planos de ações emergenciais em barragens. organizada em 1979. supervisionar e divulgar a segurança de barragens: o ICODS ( Interagency Committee on Dam Safety ) e a ASDSO (Association of State Dam Safety Officiais). em um intervalo de cinco anos. “Dams less than 30 m high – Cost Savings and Safety Improvements” (1998). Kelley Barnes (causando 39 mortes) e Teton (causando 14 mortes e danos avaliados em um bilhão de dólares). autorizando o financiamento federal a programas estaduais de segurança de barragens (1986). Constituição de um plano de observação e sua adaptação quando necessário. “Inspection of Dams Following Earthquake” (1988). a Comissão de Segurança de Barragens e o proprietário da obra. Os mesmos procedimentos foram seguidos pelas companhias associadas à Swedish Power Association. XX e XXI of Dams and Reservoirs” (1983). A legislação sobre recursos hídricos foi reformulada no início da década de 80. Revisão de critérios de segurança. tendo sido preparado o Dam Safety Guidelines em 1995. A partir desta constatação foi dada maior ênfase aos aspectos de segurança. Entre as iniciativas adotadas pelo governo americano figuram: Lei autorizando o U. verificou que a legislação de todas as províncias e territórios era genérica e continha poucos artigos específicos sobre programas de segurança e monitoramento. obrigatoriamente a cada 20 anos. Foi organizado um serviço especial de inspeção de barragens pertencentes aos “State Power Board” que passou a inspecioná-las com especialistas. o Serviço Nacional de Proteção Civil. Em Portugal foi promulgado.Séculos XIX. passando as autoridades municipais a arcar com a responsabilidade pela supervisão. as rupturas das barragens de Buffalo Creek (causando 125 mortes e enormes prejuízos materiais) e Canyon Lake. em intervalos pré-fixados. “Risk Assessment in Dams Safety Management . “Monitoring of Dams and Their Foundations” (1989). o decreto-lei sobre o “Regulamento de Segurança de Barragens”. “Dam Failures Statistical Analysis” (1995). Aprovação do National Dam Safety Act e respectivas dotações orçamentárias (1997).S. Nos Estados Unidos da América. Um terceiro órgão. na década de 70.A História das Barragens no Brasil . Ordem presidencial para que o Guia de Segurança de Barragens fosse aplicado e que suas conclusões fossem encaminhadas à nova agência FEMA (Federal Emergency Management Agency). contribuíram decisivamente para uma revisão geral da legislação para a segurança e inspeção de barragens no país. Army Corps of Engineers a inventariar e inspecionar barragens não federais (1972). o Comitê de Segurança de Barragens do Canadian National Commitee on Large Dams. No Canadá. em 1980. em 1976. revisão dos procedimentos adotados por agências federais (1977) por junta de consultores independentes. “Rehabilitation of Dams and Appurtenant Works – State of the Art and Case Histories” (2000). Inspeções periódicas por meio da autoridade competente. foram criados outros dois organismos encarregados de desenvolver. Publicação do Water Resources Development Act . coordenação centrali zada de programas de segurança de barragens. em 1990. revisado em 1997. o LNEC – Laboratório Nacional de Engenharia Civil. em 1972.

O CBDB. O mesmo nível de abordagem consta da Lei 7663 que esta belece normas de orientação à Política Estadual de Recursos Hídricos bem como ao Sistema Integrado de Gerenciamento de Recursos. quando de eventos hidrológicos indesejáveis.articulará com a União. Outras rupturas ocorreram no início da década de 70 dando ensejo a mudanças legais. bem como enfoca a segurança durante a operação e aborda aspectos técnicos. em 1995 o Cadastro Brasileiro de Deterioração de Barragens e Reservatórios e. q u e o f e r e ç a m riscos à saúde e segurança pública.. onde são indicadas as responsabilidades que envolvem os diversos organismos nas várias fases de um empreendimento.. elaboradas por comissões do CBGB. Posteriormente. na época CBGB: Comitê Brasileiro de Grandes Barragens. quanto à garantia de segurança e saúde pública. a contr ole de cheias. criou um grupo de trabalho com o objetivo de normalizar procedimentos preventivos e de manutenção voltados à segurança 2.000 m 3. atuação para apr oveitamento e controle dos recursos hídricos em seu território . como não houve a regulamentação deste decreto.. ambos de 1984. quando de eventos hidr ológicos indesejáveis . foi emitido o Decreto nº.2 Histórico da segurança de barragens no Brasil e o papel do CBDB Os fatos mostram que as demandas por programas de segurança de barragens ocorrem principalmente após a ocorrência de acidentes de vulto. 10752 dispondo sobre segurança das barragens no Estado e recomendando auditorias técnicas permanentes. 409 . de 1988. tais como os que dizem que: o Estado assegurará meios financeiros e institucionais para “defesa contra eventos hidrológicos c r í t i c o s .. editou em 1979 e 1983 as Diretrizes para a Inspeção e Avaliação da Segurança de Barragens em Operação. 210..implantação de sistemas de alerta e defesa civil para garantir a segurança e a saúde pública. Construção e Operação de Barragens. o Regulamento para Planejamento... e dr enagem e à correta utilização das várzeas”. no art. Entretanto. o Dam Safety Code of Pratice obrigando que o mesmo fosse obedecido em conjunto com o Dam Safety Act e o Dam Safety Decree. Estas publicações. em 1996. Em 1982.. outr os Estados viz inhos e Municípios. foram muito importantes para nortear os procedimentos de segurança adotados por algumas organizações brasileiras. Alguns trechos de certos artigos podem ser aplicáveis à segurança de barragens e ao seu funcionamento adequado. editou as Recomendações para a Formulação e Verificação de Critérios e Procedimentos de Segurança de Barragens. A Finlândia editou. seguindo a tendência mundial da década de 70. A Constituição do Estado de São Paulo aborda de maneira indireta o assunto ao se referir. que se mostraram eficazes. logo após os acidentes ocorridos com as barragens de Euclides da Cunha e Armando de Salles Oliveira. em 1994. formalmente. que editou em 1992 o Projeto Norueguês de Segurança de Barragens que estabelece responsabilidade e respectivos impactos. com vista a . nº. propostas em 1975. com vistas.. em 1986. em 1977.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A Noruega adotou.. a Itália editou um decreto aplicável e barragens com altura superior a 10 m e reservatórios com capacidade superior a 100. O Ministério de Minas e Energia. Especificamente no Estado de São Paulo. A Inglaterra possui várias barragens muito antigas e a ruptura de algumas delas deu origem a uma legislação especifica sobre segurança de barragens. através da Portaria nº. 739. o Estado . Auscultação e Instrumentação de Barragens no Brasil. a pr e venção de inundações. ele nunca foi implementado. o Estado realizará pr ogramas conjuntos com os Municípios mediante convênios . através de decreto real de 1980. assim como prejuízos econômicos e sociais. em 1930.

coordenador do projeto de lei. foi a elaboração do Guia Básico de Segurança de Barragens pela sua Comissão de Segurança. Ele foi apresentado à nossa comunidade no XXIII Seminário Nacional de Grandes Bar ragens que aconteceu em Belo Horizonte em 1999. aceitou o substitutivo proposto pelo Conselho Nacional de Recursos Hídricos. em 1989. Meio Ambiente e Constituição e Justiça. Este instrumento previa que o CNSB providenciaria a redação de um Regulamento de Segurança de Barragens e Reservatórios e na etapa seguinte seria responsável pela supervisão da correta aplicação deste regulamento. procedimentos gerais a serem seguidos em casos de acidentes. por meio do Núcleo Regional de São Paulo. Em 2003. Em 1996 o CBGB. órgão do Ministério de Minas e Energia.Séculos XIX. estabelecendo as diretrizes para a avaliação da segurança das barragens e propondo a criação do Conselho Nacional de Segurança de Barragens (CNSB). definição das responsabilidades pela execução das ações. cujo relator foi o deputado Arnaldo Jardim. Neste momento o deputado Leonardo Monteiro. através da Comissão de Deterioração e Reabilitação de Barragens. a instalação de um Cadastro Nacional de Barragens e a caracterização do potencial de risco de cada barragem. Este acidente espalhou resíduos no rio Paraíba do Sul e causou graves danos ao meio ambiente e à sociedade. Também concluiu. Foi realiza do um processo de aproximação e apoio a esta iniciativa. novamente confirma-se que a demanda por programas de segurança de barragens ocorrem principalmente após a ocorrência de acidentes de vulto. com base nos diversos trabalhos pertinentes já desenvolvidos. com apoio de outras entidades como a ABMS (Associação Brasileira de Mecânica dos Solos) e com o apoio importante da ANA (Agência Nacional de Águas).Departamento Nacional de Águas e Energia Elétrica. definição da periodicidade de inspeção.A História das Barragens no Brasil . Este guia foi desenvolvido com base no Canadian Dam Safety Guidelines com a incorporação da cultura e experiência nacional. O relatório previa a criação de uma Sub-Comissão de Segurança de Barragens. XX e XXI das diversas barragens existentes. Coordenado pela Eletrobras o grupo publicou em 1987 a publicação Avaliação da Segurança de Bar ragens Existentes que é uma tradução do Manual SEED (Safety Evaluation of Existing Dams) do Bureau of Reclamation dos Estados Unidos da América. Outra importante iniciativa do CBDB. a uniformidade e a posição de lei que estabelece a Política Nacional de Segurança de Barragens. Este documento foi apresentado para debate no XXII Seminário de Grandes Barragens realizado na cidade de São Paulo e posteriormente foi consolidado com as sugestões recebidas de vários associados e encaminhado para a análise do DNAEE . Neste ano ocorreu a ruptura de uma barragem de rejeitos situada no rio Pombas no município de Cataguases no Estado de Minas Gerais. Este projeto passou pelas Comissões de Minas e Energia. o projeto de lei passou pelas comissões do Meio Ambiente e Infraestrutura. um relatório que abordou entre outros aspectos importantes: estabelecimento de mecanismo de monitoração e da instrumentação. deixando uma vasta população sem água nos Estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro. Encaminhado para o Senado. hoje ANEEL Agência Nacional de Energia Elétrica). de onde saiu aprovado em março de 2010 e recebeu a sanção presidencial em 21/09/2010 que conferiu ao projeto de lei. Após este acidente o Deputado Leonardo Monteiro propôs o projeto de lei (PLC-168) com foco na Segurança de Barragens. elaborou minuta de Portaria do Ministério de Minas e Energia. Nesta ocasião O CBDB deslumbrou a oportunidade de suportar tecnicamente a implantação desta lei. 410 . o qual não conseguiu dar prosseguimento a esta proposta do CBDB. elaborado com participação do CBDB.

Ferdinand M.Fábio De Gennaro Castro. O CBDB continuará atento para que a concretização da legislação que cria uma política de Segurança de Barragens seja efetivada.G. Budweg. coordenador da Comissão Técnica de Segurança de Barragens do CBDB e membro do Comitê de Segurança de Barragens da CIGB 411 . Figura 1 . por meio de publicação de documentos técnicos consistentes e atuando firmemente para a criação de uma legislação específica. Vale registrar que a caminhada ainda não está finalizada. foi relevante e fundamental para que após uma luta de décadas uma lei sobre segurança de barragens fosse promulgada.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens 3. Precursor das atividades sobre implantação de legislação aplicada a barragens no Brasil Figura 2 . Considerações finais A atuação do CBDB na área de segurança de barragens. pois falta a regulamentação da lei. promovendo o debate deste tema nos seus seminários e simpósios.

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413 . complementado pelo Laboratório CESP de Engenharia Civil (LCEC). localizado junto à hidroelétrica de Ilha Solteira. Hidroesb. Dentre os vários estudos realizados em modelo reduzido des tacam-se os ensaios para a hidroelétrica de Itaipu. junto à subestação de Jacarepaguá. ficou mais dedicado ao desenvolvimento de pesquisas no campo da hidráulica experimental. dando continuidade aos estudos em modelo reduzido das hidroelétricas da empresa. na sua maioria. dos projetos e das construções de barragens. estão apresentados os textos específicos dos centros de pesquisas: CEHPAR. que estavam sendo estudadas pelo Hidroesb. mecânica dos solos e mecânica das rochas. IPT e LCEC. O Departamento de Águas e Energia de São Paulo (DAEE) em convênio com a Universidade de São Paulo (USP) implantou um importante laboratório de hidráulica. Pela necessidade de se ter um grande desenvolvimento na área tecnológica de concreto massa. implantados a partir da década de 1950. Os laboratórios de hidráulica experimental foram surgindo para atender à exigência da ampliação do setor elétrico no Sudeste Brasileiro.Introdução Erton Carvalho A história das barragens brasileiras contempla os centros de pesquisas que foram. sendo o responsável pelos estudos em modelo reduzido da Usina de Furnas. seu Laboratório de Hidráulica Experimental e Recursos Hídricos (LAHE). Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) do Rio Grande do Sul. Dentre eles. desenvolveram praticamente todos os estudos em modelo reduzido das usinas da CESP. No sul do país. teve as suas instalações ampliadas visando a atender o desenvolvimento de ensaios e pesquisas que permitiram subsidiar principalmente os grandes projetos de aproveitamentos hidrelétricos construídos pela Companhia Energética de São Paulo (CESP) bem como várias obras no país. prestando. Em 1983. desenvolveu importantes estudos para as Companhia Paranaense de Energia (COPEL). tornando-se um laboratório de grande importância nacional a partir de 1965. serviços a outras empresas do setor elétrico. também. A seguir. que trabalhava desde 1938 em investigações geotécnicas para a construção de barragens e obras de terra de um modo geral. (CEHPAR). O Centro de Estudos e Pesquisas de Hidráulica e Hidrologia (CEPHH). o laboratório. posteriormente denominado Centro de Hidráulica e Hidrologia professor Parigot de Souza. O Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo (IPT). devido à necessidade de se ter um apoio tecnológico para o desenvolvimento dos estudos. Furnas (DCT e LAHE). Furnas agrupou em Goiânia os seus laboratórios em um moderno centro de pesquisas (DCT) e passou a atender os projetos e construções das barragens de Furnas.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Centros de Pesquisas Tecnológicas Aplicadas a Barragens . IPH. hoje denominado Fundação Centro Tecnológico de Hidráulica (FCTH) que. Furnas implantou no Rio de Janeiro. o Laboratório Hidrotécnico Saturnino de Brito SA (Hidroesb) que teve sua origem no Escritório Saturnino de Brito Filho.

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50 Anos de muito Trabalho André Luiz Tonso Fabiani e José Junji Ota Introdução Em 14 de março de 1959 o Centro de Estudos e Pesquisas de Hidráulica e Hidrologia CEPHH passou a existir legalmente com a aprovação do seu primeiro estatuto. realizando trabalhos considerados úteis à sociedade e ainda respeitando os limites do mercado das empresas de engenharia. em homenagem ao seu fundador que faleceu enquanto Governador do Estado. Teve como fundadores o Catedrático da Cadeira de Hidráulica Teórica e Aplicada. preciso e eficiente no Laboratório de Hidráulica. Desde então.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens CEHPAR . que posteriormente foi Presidente da COPEL e Governador do Estado do Paraná e seu assistente professor Isaac Milder grande idealista que mais tarde veio a presidir a SERETE e a MILDER KAISER. o CEPHH iniciou suas atividades dentro do Campus Universitário. com uma liderança inquestionável. Em todo o processo é indiscutível a importância que teve o professor Nelson Pinto. diretor do Centro por quase trinta anos. Na época. Em 1976 o Centro passou a ser administrado pela Companhia Paranaense de Energia – COPEL. O Centro passou a ser chamado de Centro de Hidráulica e Hidrologia professor Parigot de Souza . com mostra a Figura 1. em 1961. As atividades de Hidrologia também começaram logo em seguida e a Divisão de Hidrologia tem uma história de muitas realizações. estavam sendo estudadas em modelos reduzidos as obras de Salto Osório e São Simão. professor Pedro Viriato Parigot de Souza. Cabe a ele o mérito do Laboratório ter conquistado o reconhecimento internacional. Antes mesmo da inauguração do Centro Politécnico. fruto do convênio Figura 1 – Primeiro modelo em operação no Centro Politécnico da UFPR. com preocupação universitária permanente de seus membros. o Centro de Hidráulica conta com uma história de mais de 50 anos. 415 . Outra grande personagem foi o professor Sinildo Neidert.CEHPAR em julho de 1973. mas o presente texto enfoca basicamente o caminho percorrido pelo laboratório de Hidráulica. Os estudos das usina hidroelétrica Itaipu e Foz do Areia estavam para se iniciar. responsável pela implantação do trabalho sério. no CEHPAR.

A História das Barragens no Brasil . por exemplo. entre a Universidade Federal do Paraná e a empresa de energia. Os estudos sobre aeração de fluxos de altas velocidades para evitar cavitação em descarregadores de cheias se desenvolveram nos anos setenta e oitenta. O convênio garantiu também a existência Figura 3 – Testes em modelo reduzido escala 1:8 do aerador da usina hidroelétrica Foz do Areia.Séculos XIX. 416 . O convênio com a COPEL foi bastante favorável ao Centro pois tornou os salários dos funcionários mais competitivos. eliminando o risco da perda dos seus seletos e treinados profissionais para o mercado externo. como mostrado na Figura 2. Nos anos setenta o CEHPAR teve um considerável avanço. até aquela data o laboratório vinha mantendo um ritmo acelerado de sucessos. De fato. deu estabilidade ao emprego dos engenheiros e técnicos do laboratório. houve quem afirmasse que “o Centro de Hidráulica jamais teve uma fase de baixa” . a Figura 3 apresenta estudos de aeração para Foz do Areia. No Seminário CEHPAR 30 anos. XX e XXI Figura 2 – Fechamento do Rio Uruguai para a construção da usina hidroelétrica Itá. na consolidação da metodologia para os estudos de fechamento de grandes rios com a construção de ensecadeiras em água corrente.

em maio de 2000 o CEHPAR passou a ser administrado pelo LACTEC. realizado nos dias 24 e 25 de novembro de 1989. CERJ e CEB foram desenvolvidos com muito empenho e eficiência na Divisão de Hidráulica. de direito privado. A Universidade teve o seu retorno com o aperfeiçoamento do seu quadro de docentes do Departamento de Hidráulica e Saneamento e dos seus estudantes através de estágios. com palestras de professores estrangeiros (Maurice Bouvard da França e Vujica Yevjevich dos Estados Unidos). reuniu 108 pessoas inscritas e se desenvolveu em grande estilo. A passagem do CEHPAR da COPEL para o LACTEC foi gerenciada pelo engenheiro Ralph Carvalho Groszewicz que soube conduzir a transição com muita habilidade e paciência. Brilhou aqui o caráter universitário do CEHPAR que jamais limitou suas atividades aos estudos em modelo reduzido e procurou sempre investir e dar um passo a mais para desenvolver conhecimentos. seguindo a própria orientação do Reitor da época. Se não fosse a competência dos que os substituíram. como Foz do Areia e Segredo. os professores Francisco Gomide e Sinildo Neidert que deixaram as chefias das Divisões de Hidrologia e de Hidráulica. A Universidade não pôde assumir o CEHPAR e. 30 tiveram algum tipo de apoio para a sua formação no seu mestrado ou doutorado. O aniversário de 40 anos. O laboratório e a oficina foram também disponibilizados para se desenvolver pesquisas na área de Hidráulica. Entretanto o Brasil estava em recessão em termos de construção de hidroelétricas desde 1982 (ano do enchimento do reservatório de Itaipu). auto-sustentável e sem fins lucrativos que também nasceu da privatização dos laboratórios da COPEL e da Universidade. que provê seus recursos através da venda de projetos de pesquisa e desenvolvimento e outros serviços tecnológicos. CHESF. São João. o laboratório começou a recuperar o seu ânimo.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens de trabalhos de modelos reduzidos das usinas da COPEL que estavam em acelerado processo de projeto e de construção no rio Iguaçu. tanto para ministrar aulas como para administrar o curso. Havia até quem dissesse que os estudantes deveriam pagar para es tagiar no Centro pois sempre foi um invejável treinamento reservado a poucos selecionados entre os bons alunos do curso de engenharia civil. COPEL. o laboratório poderia ter entrado em colapso. foi dos mais difíceis para o Centro. incentivando a realizar seus cursos pós-graduação. Nos primeiros anos da privatização o período era de muitas dificuldades para o setor de construção de usinas e o CEHPAR teve que buscar outra forma de garantir o caráter de auto-sustentabilidade. Castro Alves. Por uma época. uma obra importante do Equador. os projetos de pesquisa e desenvolvimento. Os engenheiros do Laboratório começaram a ser procurados por empresas que ofereciam melhores oportunidades e salários. uma associação civil. O Centro sempre apoiou a formação de seus engenheiros . O curso de pós-graduação em engenharia hidráulica foi criado em 1986 e patrocinado pelo CEHPAR que colocou seus engenheiros à disposição do curso.dos 33 engenheiros que trabalharam na Divisão de Hidráulica. Estados Unidos. pois o Governo Estadual estava prestes a privatizar a própria COPEL e o processo começou pelos laboratórios que hoje compõem o LACTEC – Instituto de Tecnologia para o Desenvolvimento. Aos poucos o CEHPAR começou a ser procurado para realizar estudos hidráulicos de várias obras brasileiras (Itapebi. São José. o aquecimento do mercado trouxe também alguns problemas. O CEHPAR trouxe vários professores. Ironicamente. Nesse período o CEHPAR teve a satisfação de ver lançado dois de seus grandes líderes a serviço da Diretoria da COPEL. período negro que se estenderia até a virada do milênio. Ficaram nas chefias os professores Marcos Tozzi (Hidráulica) e Heinz Fill (Hidrologia) até suas aposentadorias em 1999.Organização da Sociedade Civil de Interesse Público. Com a vinda do modelo reduzido de Paute Mazar. França e Holanda para o curso de mestrado. 14 de Julho) e estrangeiras. da Inglaterra. professor Carlos Roberto Antunes dos Santos. o laboratório investiu na formação dos seus engenheiros. O LACTEC é uma OSCIP . Mesmo nesse período difícil. o CEHPAR 417 . conhecidos como P&D ANEEL foram essenciais. respectivamente. O Seminário 30 anos do CEHPAR. que nem teve uma comemoração formal. Nesse aspecto. Projetos da ELETRONORTE.

Figura 5 – Modelo de Salto Grande do Iguaçu.A História das Barragens no Brasil . Presidente da Central Elétrica de Figueira S. Gibe III da Etiópia. que mostra o fechamento do rio na usina hidroelétrica Itapebi. mas com objetivo bem claro. Hoje o laboratório está bastante ativo. Cambambe da Angola. O Professor Nelson Pinto. com seus funcionários trabalhando com bastante otimismo. o engenheiro Octavio Marcondes Ferraz (na época da usina e depois presidente da Eletrobras) e um técnico do Laboratório 418 . recém retornado dos EUA. Ainda hoje.A. Primeiros estudos do Laboratório de Hidráulica e estudos sobre erosão ao redor de pilares de pontes Segundo o que consta nos anais do Seminário CEHPAR 30 anos. mostrando. com representação de aluvião realizar estudos sobre erosão ao redor de pilares de pontes. uma série de estudos que relatam os passos da Divisão de Hidráulica do CEHPAR.Séculos XIX. o primeiro projeto do Laboratório de Hidráulica foi um trabalho singelo. da esquerda para a direita os professores Sinildo Hermes Neidert. Lista-se a seguir. o Centro utiliza essa técnica para reproduzir o aluvião em modelo reduzido. Ituango da Colômbia) até o início dos estudos para a usina hidroelétrica Belo Monte. como pode ser visto na Figura 4. Pedro Viriato Parigot de Souza e Nelson Luiz de Sousa Pinto. – UTELFA que apoiou os primeiros passos do CEHPAR. realizou ensaios com fundo móvel utilizando serragem de imbuia peneirada e tratada para Figura 4 – Teste de fechamento na usina hidroelétrica Itapebi. o de estudar em modelo hidráulico as condições de assoreamento na tomada de água da Termoelétrica de Figueira. XX e XXI passou a ter mais estudos de obras estrangeiras do que brasileiras (Palomino da República Dominicana. Esta foi uma iniciativa do engenheiro Leão Schulman.

O custo dessas instalações foi financiado pela COPEL e pago posteriormente pelos trabalhos realizados pelo CEHPAR. de Grenoble. caracterização do vertedouro e erosão da rocha a jusante do vertedouro com material coesivo. Foram importantes os estudos para Salto Grande do Iguaçu (estudos de vórtices na tomada de água) e de Mourão. O modelo contribuiu com a definição do esquema de desvio que era sofisticado. 419 . que não só orientou o desenvolvimento geral desse projeto como participou em diversas atividades didáticas promovidas pelo CEHPAR. Nelson Pinto e Sinildo Neidert. com duração de três dias.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A usina de Capivari-Cachoeira. Foi instalado um novo sistema de recalque. o CEHPAR enviou o seu engenheiro Sinildo Neidert para aperfeiçoamento na Alemanha. onde pode-se ver ainda os professores Parigot de Souza. mas ainda foi usado muito cedro nas partes importantes das estruturas. na seqüência. constituiu a primeira experiência concreta de participação no desenvolvimento e otimização de um projeto de grande porte. O laboratório fez também estudos sobre vórtice na tomada de água. como Estudos hidráulicos de Salto Osório e São Simão A hidroelétrica de Salto Osório é uma grande obra do rio Iguaçu. O relevo do modelo foi feito com fitas de aço niveladas segundo as curvas de nível. Os ensaios dinâmicos foram feitos de maneira ininterrupta. Estudos hidráulicos para o aproveitamento hidroelétrico de Itaipu Itaipu foi um marco importante para o setor elétrico e foi sem dúvida um ponto alto para o CEHPAR. A Figura 5 apresenta uma visita do representante da empresa de Salto Grande do Iguaçu ao modelo. o sistema de restituição das águas das turbinas Pelton ao túnel de fuga. Nessa época. Havia também uma preocupação com a ponte que tinha seus pilares fixados dentro do canal. Os estudos em modelo incluíram a descarga de fundo e o vertedouro. uma região de corredeira e cachoeira foi feita de forma muito minuciosa numa época em que não se dispunham de técnicas eletrônicas de levantamento e de registro de imagens. os estudos de grandes obras do rio Iguaçu. Essas construções podem ser vistas na Figura 6. Como havia uma camada de sedimentos na região. acumulando conhecimentos para que fossem confiados. A técnica de construção de modelos de estruturas com acrílico estava sendo consolidada na época. no início da década de 1960. Hoje o Centro executa com seções transversais de Duratex. Um pavilhão de 70 m por 50 m em estrutura metálica foi construído especialmente para abrigar o grande modelo. Para fechamento de rios com considerável profundidade. A contratação do Centro para os estudos para a hidroelétrica de São Simão em 1971 foi um marco que levou o CEHPAR para além dos limites do Estado do Paraná. Um dos modelos foi implantado no interior do pavilhão com estrutura em madeira com grande vão. um grupo de engenheiros e bem intencionados técnicos começaram seus trabalhos em 1972 para a maior obra hidroelétrica do mundo. um prédio que merece ser visitado. analisando-se a estabilidade do enrocamento a cada deposição de material. a construção das préensecadeiras devia proporcionar uma limpeza automática através da apropriada escolha da seqüência de avanço nas pontas de aterro. A reprodução do leito. Os estudos da hidroelétrica Capivari-Cachoeira marcaram o início das relações do Centro com o engenheiro Maurice Bouvard. construída na década de sessenta (1963-1970). a chaminé de equilíbrio com câmara de expansão. da estrutura das comportas até dos detalhes da construção das ensecadeiras. duas para a ensecadeira de montante e duas para a de jusante. Foram cinco modelos reduzidos. e a estrutura de dissipação de energia na restituição ao rio Cachoeira. O primeiro modelo foi destinado ao estudo do desvio. Testes de fechamento requeriam um controle dinâmico das pontas de aterro com medições de níveis de água e de velocidades do escoamento. desde a verificação do grande canal. capaz de circular 1000 l/s. Dirigido pelo professor Sinildo Neidert. O fechamento do rio foi feito em avanços simultâneos de quatro pré-ensecadeiras. cujos estudos se desenvolveram no começo dos anos setenta.

ou seja. A capacidade de descarga do vertedouro foi cuidadosamente verificada no modelo geral e confirmada também no modelo parcial construído em escala maior. Com o intuito de Figura 6 – Construção do pavilhão para o modelo tri-dimensional de Itaipu e a a instalação de recalque. Para escoamentos com pequenas profundidades essa regra não parece ser válida. . que o diâmetro do enrocamento necessário para o fechamento com um desnível é da ordem de 30% a 40% desse valor.A História das Barragens no Brasil . A tomada de água e a casa de força foram ensaiadas extensivamente.Séculos XIX. 420 . Foram feitos os testes de verificação das tendências à formação de vórtices e condições de aproximação. a Figura 8 apresenta um dos resultados obtidos nos ensaios. que pode ser visto na Figura 7. Grandes planilhas bem estruturadas foram utilizadas para gerenciar esses testes de fechamento. com defletores em salto de esqui nas extremida des de jusante. começou a tornar um consenso uma “regra prática”. XX e XXI é o caso de Itaipu. Vários arranjos foram verificados uma vez que a equipe de projeto se preocu- pava muito com a erosão provocada pela enorme concentração de energia do jato efluente do vertedouro. No modelo geral de Itaipu foram desenvolvidos os estudos do vertedouro de encosta com 14 comportas e calhas bem longas de concreto. assunto que foi também explorado no modelo parcial da tomada de água. Para o arranjo final do vertedou ro foram feitos testes de erosão com leito coesivo envolvendo enorme volume de material.

Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Para o vertedouro. por exemplo). a exemplo do adotado em Foz do Areia. não necessitando a implantação de aeradores. compensar possíveis efeitos de escala. O Centro teve a oportunidade de contribuir com vários ensaios sobre juntas da laje de concreto da barragem. a maior área de laje do mundo). com a reprodução de três vãos. o Centro conduziu os ensaios para Foz do Areia e Salto Santiago. Estudos hidráulicos de Foz do Areia. forçando intensificar no modelo a formação de vórtices aumentando a vazão de teste. Influenciado pela cavitação ocorrida em grandes obras da época. o laboratório realizou ensaios com distorção da escala das velocidades. foram feitos testes em um modelo parcial construído na escala 1:50. os cálculos sobre índices incipientes de cavitação indicaram que a configuração da calha do vertedouro de Itaipu é favorável. Figura 8 – Resultado dos testes de erosão a jusante do vertedouro de Itaipu. Entretanto. 421 . (Karun no Irã. cogitou-se instalar no vertedouro de Itaipu um sistema de auto-aeração das calhas. Foz do Areia trazia uma novidade que é a barragem de enrocamento com face de concreto (na época. Emborcação e Sabaneta – estudo sobre aeração Figura 7 – Modelo tri-dimensional do AHE Itaipu em operação De forma paralela aos estudos para Itaipu.

000 anos de 422 . provocava um aumento excessivo das pressões que atingia a linha da crista. hoje muitas obras brasileiras adotam como padrão a carga de projeto igual a 75% da carga máxima de operação. Em conjunto com a COPEL. concluiu-se que as pressões registradas na crista estavam totalmente a favor da segurança. venturi) com manômetro dotado de micrômetro. O mesmo pesquisador veio a atuar na pesquisa e desenvolvimento ANEEL para a Eletronorte. orifício. Assim. o CEHPAR iniciou seus primeiros testes de aeração no modelo reduzido (escala 1:30) do descarregador de fundo de Foz do Areia. Estudos sobre vertedouros em degraus Já em 1985 o CEHPAR defrontou com o estudo de barragens de concreto compactadas com rolo (CCR). de forma a produzir um escoamento mais próximo do esperado para o protótipo. O laboratório teve a oportunidade de estudar os aeradores da calha do vertedouro de Foz do Areia e de medir a vazão correspondente de ar no protótipo. Mas logo concluiu que os efeitos de escala são consideráveis e que não há correspondência entre modelo e protótipo em termos de demanda de ar em testes realizados em modelos construídos nas escalas usuais. mas foi retomado como um estudo mais aprofundado para a tese de doutorado do então chefe da Divisão de Hidráulica. o CEHPAR sugeriu uma redução da carga de projeto da crista.A História das Barragens no Brasil . feito para o vertedouro de Emborcação foi também confirmado no protótipo. quando desejável. (1982) na revista Water Power & Dam Construction (Aeration at High Velocity Flow). mas estavam prejudicando a sua capacidade de descarga. o perfil seria desenhado mais delgado de forma que a pressão final fosse razoável e garantisse uma boa capacidade de descarga. Xingó foi outra usina que o CEHPAR veio a contribuir decisivamente. Analisando-se a crista do vertedouro que seguia aproximadamente o padrão US Army Corps of Engineers. recorrência). Até então. Estudo semelhante.Séculos XIX. Estudos hidráulicos de Segredo e Xingó No estudo do desvio de Segredo os túneis foram reproduzidos por tubos de acrílicos dotados de rugosidades em forma de tiras. estava majorada pela presença da contracurva. pela Universidade de São Paulo. mais um engenheiro do CEHPAR defendeu sua tese de mestrado. O laboratório também se despertou no uso de modelo matemático (elementos finitos e elementos de contorno) para estudos dessa natureza. do engenheiro Júlio César Olinger que se preocupou em estudar as pressões nos degraus. o CEHPAR estava realizando testes para instruir o passo seguinte na obra. O estudo sobre vertedouro em degraus culminou em mais uma tese de doutorado. Estudou-se também uma descarga de fundo instalada em um dos túneis de desvio. conforme havia mostrado os russos no vertedouro de Nurek e Bratsk. Este estudo permitiu a caracterização do escoamento conhecido como skimming flow. Em 1991 realizou os primeiros ensaios de vertedouros em degraus para fins de pesquisa utilizando como projeto piloto o vertedouro de Cubatão. estudando a possibilidade de se operar os vertedouros com degraus de grandes dimensões para fins de economia. O CEHPAR efetuou uma série de ensaios medindo a vazão de ar no modelo utilizando medidores simples (bocal. A pressão sobre a crista que deveria ser nula pelo conceito original. pitot. Com estudos feitos posteriormente. as cristas tinham como carga de projeto a carga máxima de operação (enchente de 10. XX e XXI Os desastres devido à cavitação ocorridos na calha do vertedouro de Karun do Irã e nos túneis americanos de Palisades e Yellowtail preocuparam o meio técnico e já se sabia que a solução é a aeração do escoamento. engenheiro Marcos Tozzi. Mas a contracurva. isto é. Os estudos em modelo tornaram possível um dos mais complicados esquemas de fechamento do rio. O laboratório desenvolveu uma técnica própria para dimensionar a espessura dessas tiras e passou a considerar. Esse estudo foi realizado a título de mestrado por um aluno que veio a desistir do curso. Coincidência ou não. Até no dia do fechamento. O laboratório levou o programa adiante e efetuou estudos em modelos parciais de escalas maiores (1:15 a 1:8 – Figura 3) que culminou na publicação do trabalho: Pinto et al. O laboratório também teve uma contribuição importante para a definição do aerador do descarregador de cheias no túnel de Sabaneta (República Dominicana). A crista do vertedouro foi redimensionada com uma carga de projeto 25% menor que a carga máxima de operação. a sobrescavação do túnel e a rugosidade. A cavitação e aeração tornaram-se assuntos muito enfocados na época. que faz a ligação da estrutura da crista com a longa calha inclinada.

Realizaram-se testes de abertura e de fechamento da comporta para extrair o atrito do modelo. Estudos hidrodinâmicos de movimentação de comportas O CEHPAR. A COPEL procurou uma medida definitiva. Campos Novos. como de praxe. A título de pesquisa de mestrado. O laboratório reativou o modelo e prestou uma contribuição importante à usina. Destaca-se. perfeitamente aceitável sob o ponto de vista da engenharia. Pelotas e Uruguai. Começou nos anos noventa e só foi demolido em 2010.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Estudos hidráulicos para a hidroelétrica de Salto Caxias O modelo de Caxias foi o que permaneceu mais tempo no CEHPAR. de comportas. Caxias representou o último grande estudo da fase do convênio entre a Universidade e a COPEL que terminou em maio de 2000. realizando ensaios para várias alternativas de canais para a liberação dos peixes. A conclusão foi que modelos muito pequenos não conduzem a bons resultados. em geral por efeito de escala mais pronunciados. após o fechamento das comportas do vertedouro. tornou-se um problema para a usina devido ao aprisionamento de peixes nas fossas de erosão e em locas. Mas o talento dos engenheiros fez surgir uma nova oportunidade 423 . que veio trabalhando essencialmente com engenheiros civis. teve a preocupação de contratar um engenheiro eletrônico para dar assistência à instrumentação. tendo em vista o cuidado com que as estruturas foram executadas. com o engº Edie Taniguchi em primeiro plano Pesquisa e desenvolvimento: projetos ANEEL e modelos matemáticos A Divisão de Hidráulica passou por uma fase difícil no período em que no Brasil o ritmo de construção de usinas teve acentuada queda. Neste projeto o grande problema foi o atrito do modelo da comporta. Estudos das hidroelétricas de Itá. Nos modelos de Itá e Machadinho foram realizados ensaios de erosão em rocha utilizandose materiais coesivos. da tomada de água e do canal de fuga. que não se limitasse ao resgate manual dos peixes aprisinados. Foram estudados os problemas de desvio. Os ensaios mostraram que água acumulada nas vigas constituía um peso adicional exigindo que aumentasse a capacidade do servomecanismo. que não apresenta semelhança física e não pode ser transposto ao protótipo. Depois recebeu o desafio de estudar a comporta do aqueduto da eclusa de Porto Primavera. O outro projeto que foi um desafio interessante foi o da definição do esforço no servomecanismo de acionamento da comporta da tomada de água de Tucuruí (Figura 9). que a erosão a jusante do vertedouro. e a tão esperada redução do custo não ocorreu a contento. Esse engenheiro foi fundamental no desenvolvimento de ensaios hidrodinâmicos de movimentação Figura 9 – Estudo da Comporta de Fechamento daTomada de Água de Tucuruí – 2a fase. Machadinho e Barra Grande O CEHPAR teve a oportunidade de trabalhar com as obras catarinenses dos rios Canoas. no entanto. O CEHPAR estudou o downpull e catapultamento da comporta da tomada de água de Segredo. do vertedouro. o CEHPAR chegou a construir um modelo reduzido de Itá na escala 1:300 para verificar a viabilidade de estudo em modelo em escala mais reduzida visando a economia no estudo. O material erodido e depositado a jusante (barra) tornou-se também um obstáculo para a saída dos peixes.

Para a LIGHT o laboratório fez estudos sobre escadas de peixes. Depois a COPEL liberou mais dois projetos. vertedouro não convencional em curva e vertedouro de ogiva baixa. CHESF. uma pesquisa aplicada ao rio São Francisco. LIGHT. na escala 1:60 mostrou que essa configuração não é propícia e contribuiu na seleção de uma nova forma aceitável sob o ponto de vista técnico e econômico. CEB e DUKE firmaram parcerias que deram oportunidades de pesquisa ao Centro. o projetista foi forçado a sugerir uma configuração não convencional semelhante a um vertedouro lateral. Cambambe.340 m3/s. As duas estruturas são objetos de estudo no CEHPAR. sobre dissipadores de energia em fenda e pilares defletores e sobre vertedouros labirinto que haviam sido submetidos anteriormente. Foram os projetos de pesquisa e desenvolvimento da ANEEL. do U. Paute Mazar no Equador foi 424 . CERJ. Principalmente a ELETRONORTE propiciou três estudos. S. Com a COPEL o Centro desenvolveu um estudo sobre o uso de perfilador acústico ADCP como medidor de transporte de sedimentos e outro estudo sobre assoreamento de reservatório (parte de um projeto maior do CEHPAR).500 m3/s. O modelo CFX deu origem a uma tese de mestrado de um bolsista LACTEC. O Coordenador do CEHPAR no período de 1999 a 2008 tomou uma iniciativa bastante positiva à Divisão de Hidráulica com a aquisição do modelo computacional DELFT 3D. Desde então muitos engenheiros passaram a usar esse modelo. O modelo de Palomino (República Dominicana) trouxe um novo desafio. Atualmente o Centro faz um estudo sobre geração de energia alternativa. Palomino. sendo necessária a operação sem comportas.Séculos XIX. Para a Duke está sendo desenvolvido um equipamento para geração de energia elétrica. Trata-se de uma barragem de concreto em arco. Army Corps of Engineers em uma aplicação à sua tese de mestrado e ao projeto de P&D ANEEL com a COPEL. utilizando o HEC-RAS e o DELFT-3D. Sendo o vertedouro construído em um reduzido espaço devido aos íngremes taludes das encostas. em cujo topo pretende-se instalar um vertedouro orifício. um software livre bastante útil em projetos. Assim. A passagem dessa vazão tornou-se requisito para o vertedouro. mas em vista de que já havia experimentado um desastre com rompimento de uma barragem natural formada pelos restos de um desmoronamento de encostas. XX e XXI para Centro. Para o rio Paute havia sido calculada uma vazão decamilenar de 2. ELETRONORTE. Está programado também implantar um vertedouro de encosta. O modelo reduzido. Foi feita uma pesquisa para a COPEL um estudo sobre sedimentação na baia de Antonina utilizando o DELFT 3D. a COPEL. Ao estudar o habitat de peixes no projeto de P&D ANEEL da Chesf o CEHPAR deparou com o modelo RIVER 2D. Um dos engenheiros começou os estudos em modelos matemáticos com o uso do modelo RMA. Ituango e Gibe III A demanda de energia em vários países fez com que as empresas brasileiras encontrassem um excelente mercado. Modelos de Paute Mazar. O Centro fez também um estudo do escoamento no rio Iguaçu para a usina de Baixo Iguaçu da COPEL. de vertedouro em degraus.A História das Barragens no Brasil . A CERJ e a CEB foram as empresas que estudaram metodologias para repotenciação de usinas antigas. De certa forma essa é também uma contribuição importante do CEHPAR ao setor elétrico. foi concluído que o rio tem um potencial de gerar uma vazão de 7. Cambambe é uma obra da Angola que estava inacabada por anos. Pela primeira vez o CEHPAR realizou um ensaio de purga de sedimentos conhecida como flushing. Figura 10 – Modelo de Gibe III em operação uma dessas obras estudadas pelo CEHPAR. em modelo reduzido construído na escala 1:70. Com a CHESF o Centro executou um interessante trabalho sobre a capacidade natatória de peixes.

Modelo reduzido do sistema de refrigeração da usina nuclear de Angra dos Reis A ELETRONUCLEAR procurou o Centro de Hidráulica para realizar os estudos em modelo reduzido do sistema de refrigeração da usina nuclear de Angra dos Reis. Modelo reduzido da hidroelétrica de Belo Monte O CEHPAR está iniciando os estudos para a terceira maior hidroelétrica do mundo. O laboratório fez questão de oferecer uma solução para realizar testes dinâmicos do sistema de refrigeração. a humildade e o compromisso com a verdade têm ajudado em muito o CEHPAR. visto que a de Itaipu está localizada na fronteira entre o Brasil e o Paraguai. Segundo palavras do seu fundador. Construiu-se no laboratório um modelo com 4. pedreiros e artífices.5 m de altura. professor Parigot. mas a privatização do laboratório tornou o grupo mais forte e fez descobrir que seus integrantes têm potencial para ampliar seus campos de atuação. normalmente considerados modestos em outras áreas de atuação. no Estado do Pará. Os trabalhos dos serventes. O termo “pesquisa aplicada útil” sempre foi o foco do CEHPAR. A Figura 11 apresenta o trabalho de construção do modelo principal (sítio Pimental) no pavilhão antes ocupado por 13 outros estudos. e a medida dessa utilidade é a vontade da sociedade pagar por estes trabalhos”. Atrás do reconhecimento internacional do Centro de Hidráulica está o apoio imprescindível dos artífices que contribuem a cada dia com excelentes idéias dentro de suas especialidades. são responsáveis pela precisão dos resultados. Está em estudo o desempenho do vertedouro. a ser construída no Rio Xingu. simulando paradas instantâneas das usinas e levando em conta as condições de maré na região de descarga da água. Os estudos se- Figura 11 – construção do modelo reduzido do sítio Pimental do AHE Belo Monte 425 . pois uma boa maioria dos estagiários do CEHPAR escolhe o setor elétrico para desenvolver seus talentos. Sua potência instalada será de 11.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens O projeto Gibe III é uma contratação feita diretamente por uma empresa italiana que faz serviços para a obra a ser construída na Etiópia. o que fará dela a maior capacidade instalada em hidroelétrica inteiramente brasileira. incluindo a sua capacidade de descarga. levando em conta a inclusão iminente da unidade III. pressões e erosão provocada pelo jato efluente e a operação da usina. A seleção de bons estagiários é uma contribuição importante para o setor elétrico. o “CEHPAR faz trabalhos úteis à sociedade. rão feitos em 5 modelos reduzidos e levará um tempo total de 3 anos. O ponto forte do laboratório são ainda os estudos hidráulicos em modelos reduzidos. Observações finais O laboratório de hidráulica do CEHPAR faz questão de lembrar que os sucessos dos estudos em modelos reduzidos não se devem apenas aos engenheiros.233 MW. A seriedade.

Corumbá Marimbondo Serra Mesa Itumbiara .

a solicitação percolou sem despertar interesse no sentido do seu atendimento tendo por destino o seu arquivamento. recebeu uma solicitação vinda da obra da hidroelétrica de Estreito. A documentação foi enviada para o engenheiro Humberto Pate coordenador do grupo de estudo dos novos projetos de Furnas. além de prever a aplicação em eventuais projetos futuros.Resumo histórico e atividades de pesquisa Resumo histórico O início dos ensaios especiais O ano de 1968 estava iniciando quando o Departamento de Obras de Furnas. O engenheiro Flavio H. com maior disponibilidade de execução de ensaios. chefiado por Geofredo de Moraes. obter informações necessárias e abundantes para o desenvolvimento dos projetos das hidroelétricas de Marimbondo e de Porto Colômbia cujos estudos preliminares indicavam grandes maciços de terra com extensas fundações em solo. os aproveitamentos de Porto Colômbia e de Marimbondo. para aquisição de equipamentos para ensaios triaxiais em amostras de solo. Lyra concedeu a permissão para a aquisição. Ao longo desse percurso. Até então Furnas mantinha nas suas barragens que na época estavam em estágios avançados de construção (Estreito. Funil e Nhangapi) laboratórios de campo apenas para os controles de liberação de obra. depois denominada Luiz Carlos Barreto. Esses foram os primeiros equipamentos de laboratório de Furnas além dos equipamentos de ensaios correntes em obras. com pouca perda de carga. Agenor Bailão Galletti ficou encarregado do laboratório de solos. Em Marimbondo outro jovem engenheiro.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Centro de Tecnologia de Furnas em Goiânia . Os equipamentos foram instalados no acampamento de Marimbondo em 1968. A referida solicitação foi enviada ao Departamento de Engenharia chefiado por Franklin Fernandes Filho que passou a documentação para a Divisão de Engenharia Civil sob o comando do engenheiro Adolfo Szpilman. Flavio Miguez de Mello 427 . Com instruções de apenas tomar ciência antes do arquivamento. O pedido de aquisição dos equipamentos e o trabalho sobre ensaios triaxiais percolou em sentido contrário ao anterior mas dessa vez atingindo a Diretoria Técnica. Pate entregou a documentação a um engenheiro recém formado que acabara de integrar o grupo dos novos projetos. Esse engenheiro preparou um trabalho com considerações teóricas sobre os diversos tipos de ensaios triaxiais e desenvolveu um estudo do aproveitamento da instalação desses aparelhos em laboratório próprio para. Os ensaios especiais eram contratados junto a laboratórios de empresas ou a institutos de pesquisa.

De 1970 a 1975 Pacelli melhorou a capacitação do laboratório de concreto com a instalação de prensas de grande capacidade e estudos de propriedades térmicas. Nessa época estava começando a obra da hidroelétrica de Serra da Mesa e em seguida Corumbá.Séculos XIX. superintendente das obras do rio Grande. expoente na construção de barragens. A partir de dezembro de 1992 o centro foi chefiado já em nível de departamento (Departamento de Apoio e Controle Técnico – DCT) pelo engenheiro Walton Pacelli de Andrade que acumulava a chefia do laboratório de concreto. Figura 2 – Ambiente de trabalho no DCT As instalações definitivas Com o término da obra de Itumbiara foi pensada a criação de um centro tecnológico. em Goiânia. O DCT passou a dar crescentes e importantes contribuições técnicas para os projetos e obras. XX e XXI Os laboratórios nos seus primeiros anos Em 1969 Furnas acelerava as obras e montagens da hidroelétrica de Funil para que pelo menos uma das três unidades entrasse em operação antes do fim do ano para que os custos de construção já incidissem na tarifa do ano seguinte. Três locais foram considerados: Brasília. Quanto ao engenheiro recém formado mencionado acima. Lyra recomendou a Rubens Vianna de Andrade. destaque na tecnologia do concreto e Epaminondas Mello do Amaral Filho. por capricho do destino. Figura 1 – Engenheiro Walton Pacelli de Andrade. A destacada atuação do engenheiro Pacelli no DCT projetou-o como consultor no País e no exterior. tendo sido decidida pela instalação em área anexa à subestação de Furnas. tendo como assistente o engenheiro Nelson Caproni que acumulava a chefia dos laboratórios de solos e rocha. que incorporasse o engenheiro Walton Pacelli de Andrade para atuar na tecnologia do concreto nas novas obras que se iniciavam. tendo sido presidente do Instituto Brasileiro do Concreto IBRACON. Em 1975 os laboratórios de solos e de concreto foram transferidos para Itumbiara onde Furnas passou a implantar sua maior hidroelétrica. Flavio H. Belo Horizonte e Goiânia. Na fase de Itumbiara houve expansão da capacidade dos laboratórios. A usina entrou em operação comercial nos últimos dias de dezembro de 1969. entre outros. não tenha trabalhado com o DCT e aqui relata o início dessa história de sucesso. A construção inicial foi concluída em 1985 já abrigando também o laboratório de mecânica de rochas. Com a aposentadoria dos engenheiros Pacelli e Caproni em dezembro de 2002. ele ficou sempre ligado profissionalmente à engenharia de barragens embora. Com a obra tendo sido concluída em 1970.A História das Barragens no Brasil . Inicialmente o centro foi comandado pelo engenheiro Ludgero Pimenta de Ávila. assumiu a chefia do DCT o engenheiro Rubens Machado Bitencourt. presidente do CBDB e do IBRACON 428 . É importante realçar as contribuições dos consultores Roy Carlson e Paulo Monteiro para o DCT e os laboratórios que o antecederam. cargo que exerce presentemente (agosto de 2011).

como a COPPE/UFRJ. foi implantado e inaugurado o laboratório de concreto compactado com rolo. UFRGS. A área de instrumentação e segurança de barragens com a certificação ISO 9001 Sistema de gestão implantado com reconhecimentos obtidos desde o ano de 1994. direcionadas aos novos empreendimentos com foco nas aplicações de engenharia civil e correlatas. O mais bem equipado laboratório do Brasil na área de mecânica das rochas e enrocamento. também em meados dos anos noventa. o DCT implantou e inaugu rou o seu laboratório de mecânica das rochas. UFSC. incluindo-se acreditações junto ao INMETRO. possibilitando a obtenção da acreditação junto ao Inmetro em 1994 e a sua certificação ISO 9000 no ano de 1996. unidade criada para atuar no desenvolvimento de serviços tecnológicos e atividades de pesquisa. Ao final da década de 80. no final da década de 90. Em paralelo. que possibilita um conjunto de análises aplicadas que vão desde a análise em nível microscópico por análise eletrônica de varredura até a análise de resistência por meio de ensaios triaxiais. de cisalhamento e de compressão unidirecional em rochas. Posteriormente. Possui alguns diferenciais. diversos ensaios na área de geotecnia iniciaram o processo de informatização e automação. o DCT sempre procurou identificar e acompanhar os avanços necessários à superação dos desafios que a evolução do setor de energia impunha. os laboratórios também participaram de estudos e desenvolvimentos da tecnologia para as usinas hidroelétricas Itaipu e Tucuruí. em operação. Alguns exemplos destes avanços são descritos a seguir. UFG. Extraido de texto redigido pela equipe do DCT No limiar da década de 70. Europa e África. esta tecnologia foi intensificada com a aplicação da metodologia do concreto compactado com rolo na construção das ensecadeiras galgáveis da barragem de Serra da Mesa. O DCT é hoje reconhecido nacionalmente como uma das mais importantes instituições tecnológicas em sua área de atuação. A partir dos anos 90 consolidou-se com a participação em mais de 200 empreendimentos hidrelétricos no seu acervo de serviços prestados em países da América. Em meados dos anos noventa. Ao longo de sua história. Realização de pesquisas e desenvolvimentos em parceria com as principais universidades e centros de tecnologia do Brasil. além da central nuclear de Angra dos Reis que já se encontrava em curso e que demandava padrões de garantia de qualidade estabelecidos pela Agência Internacional de Energia Atômica. capaz de executar pistas experimentais de concreto compactado com rolo em laboratório. USP. PUC-RJ. único do mundo em funcionamento. como por exemplo: O único equipamento do mundo. No início dos anos noventa os processos foram mais bem estruturados dentro de padrões internacionais de gestão da qualidade. implicando em relevantes benefícios de segurança no empreendimento. UnB. certificação segundo as normas da série ISO 9000 e premiações pelo Prêmio Nacional da Gestão Pública do Governo Federal. desenvolvimento e inovação. dentre outras.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Atividades de pesquisa do DCT Furnas constituíu o DCT. Diversos estudos para a construção de barragens de enrocamento com face de concreto foram desenvolvidos com o apoio desse laboratório. um laboratório singular. tendo como intuito o incremento do 429 .

prazo e qualidade global das estruturas. outra área que ganhou impulso foi a de instrumentação e auscultação de barragens e estruturas anexas. Três pilares sustentam bons empreendimentos no que tange à sua qualidade: um bom projeto. além de avaliar a qualidade especificada dos materiais utilizados nas obras civis. o desenvolvimento de pesquisas na área de durabilidade de estruturas. por toda sua vida útil. quando obteve a extensão do escopo certificado segundo a ISO 9000 para essa atividade. possibilitou o exercício do papel de controle e apoio tecnológico à execução dessa solução de engenharia. prevenção e correção de reações álcalis-agregado e também na área de sulfetos. areias. anterior ao empreendimento. Análises que chegam próximo ao nível nano possibilitaram o desenvolvimento de competências únicas no Brasil nesta área. A junção destes três pilares. cimento. conduz estudos e pesquisas de materiais para subsídios ao projeto.A História das Barragens no Brasil .991 e outras que se seguiram. XX e XXI desempenho em prazos. o DCT desenvolve um conjunto de estudos e pesquisas avançadas. à redução de impactos ambi entais e a estruturas mais seguras e mais duráveis. O terceiro pilar. No final dos anos noventa e no início da década seguinte. O primeiro está basicamente sob a responsabilidade da projetista e o segundo basicamente sob a responsabilidade da construtora. juntamente com o setor de análises de materiais. buscando o domínio e aplicação de técnicas em tecnologia dos materiais em nano e microtecnologia. O aprimoramento de tecnologias existentes e o desenvolvimento de outras novas tecnologias se seguiram desde então. Análises químicas para caracterização dos materiais de construção. para as obras civis. com destaque para técnicas de diagnóstico. sinalizando no momento atual desenvolvimentos ainda maiores. os projetos de P&D desenvolvidos possibilitaram o exercício de um importante papel na construção da usina hidroelétrica Foz do Chapecó.Séculos XIX. à redução de custos. O co nhecimento das características técnicas dos materiais do local do empreendimento permite subsidiar análises de custo. pela dinâmica que é a escolha e emprego dos materiais. ampliando a busca de agregação de valor por este centro de tecnologia. O desenvolvimento de um projeto de P&D desta tecnologia. Estes estudos possibilitam os seguintes diferenciais competitivos: 430 . permite a obtenção de um empreendimento “saudável”. que desempenhará suas funções com o mínimo de intervenções externas pela equipe de ma nutenção. O adequado emprego dos materiais disponíveis nos locais onde os grandes empreendimentos deverão ser construídos leva à otimização de estruturas. empreendimento que utilizou a solução do núcleo asfáltico pela primeira vez no País. à construção e à otimização do custo final do empreendimento. adequadamente gerenciados. que em casos de barragens estima-se da ordem de 100 anos. Do ponto de vista tecnológico. o DCT intensificou. na segunda metade dos anos noventa. Visando aprimorar o conhecimento dos materiais e dos métodos construtivos a serem implementados nos diversos empreendi mentos da empresa. fica sob a responsabilidade da equipe do controle tecnológico. A atuação da equipe do controle tecnológico durante a construção. O DCT possui equipe qualificada e infraestrutura adequada para o desenvolvimento deste processo. A proficiência e a competência nesta nova linha de trabalho foi reconhecida em 2004. Uma intensa atividade de pesquisa e desenvolvimento foi desenvolvida aproveitando os estímulos trazidos pela lei 9. incluindo reatividade potencial. Dentro desta área de competência encontram-se estruturadas as seguintes linhas de trabalho: Ensaios físicos de caracterização de rochas. Análises microscópicas e mineralógicas. aditivos. custos e confiabilidade dos resultados e análises realizados. a utilização de métodos e técnicas construtivos adequados e a qualidade e uso dos materiais empregados. Dando continuidade a conhecimentos técnicos pré–existentes na análise da microestrutura dos materiais. água e asfalto.

são os seguintes: Estudos e pesquisas avançadas como subsídios às otimizações de projeto e de custos dos empreendimentos. Baseado na premissa de que nos tempos atuais. Assessoria em tecnologias de gestão. em especial na área de serviços. dos empreendimentos em construção e à sociedade. Essa área de competência tem os seguintes produtos principais: Padrões de trabalho adequados e atualizados. é o capital humano. Desenvolvimento de Novas Soluções de Engenharia. Estudos e pesquisas do ambiente construído voltado às instalações de FURNAS. Confiabilidade metrológica e calibração de instrumentos de medição.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Dentro desta área de competência encontra-se estruturadas as seguintes sub-áreas: Ensaios Especiais. Os principais produtos entregues. Tecnologia do Ambiente Construído. como elementos agregadores de valor aos serviços prestados. em consonância com as equipes técnicas em todas as áreas de atuação do DCT é implementado e desenvolvido um conjunto de atividades que visam à identificação de necessidades e demandas de co nhecimento e capacitação. por intermédio da qual se busca a garantia e a precisão de todos os processos de medição técnica voltados aos empreendimentos. no âmbito desta área de competência. o seu conhecimento e a sua cultura. a base para o sucesso de qualquer organização. Capacitação e treinamento voltados aos empreendimentos e às atividades de tecnologia. Uma das áreas de competência decorrente desta atividade é a de confiabilidade metrológica. Vista aérea do DCT 431 .

Sangradouro do açude de Orós. Ensaio em modelo reduzido e o protótipo em operação .

Em 1946. com o aumento no volume de serviços. Ceará. então recém formado. Seu fundador desenvolveu técnicas de projetos de saneamento que vieram a ser adotadas em países como França. pelo projeto de saneamento básico de várias cidades brasileiras. Formado em 1º lugar na turma de 1923 da Escola de Minas de Ouro Preto foi professor catedrático da cadeira de Higiene e Saneamento da Escola Politécnica da Universidade do Brasil e teve onze livros publicados. 2009). na zona sul da cidade do Rio de Janeiro. 1921 . Na década de 50 a empresa foi pioneira na realização das primeiras medições de descarga sólida em rios brasileiros e foi responsável por projetos de destaque como a tomada d’água do rio Guandu. o laboratório de hidráulica. Presidiu o Clube de Engenharia do Rio de Janeiro e foi membro de várias outras associações como ASCE (American Society of Civil Engineers) e AWWA (American Water Works Association). no sub-solo do prédio ocupado pelo Escritório Saturnino de Brito. 1899 – Rio de Janeiro. Há indicações de que o Escritório Saturnino de Brito foi a primeira empresa constituída no Brasil com a finalidade específica de atuação na engenharia consultiva tendo sido responsável. até hoje. com o apoio de seu assistente Theophilo Benedicto Ottoni Neto. onde havia espaço suficiente para expandir suas atividades. Desenvolveu ao longo da vida intensa atividade em associações de engenheiros tendo sido fundador da FEBRAE (Federação Brasileira de Associações de Engenheiros) e da UPADI (Associação Panamericana de Associações de Engenheiros). ainda ligado ao Escritório Saturnino de Brito. Em 1959. já então sob a supervisão direta de Theophilo Benedicto Ottoni Neto (Porangaba.foi a mais importante instituição privada de hidráulica experimental no Brasil. o Escritório passou a ser dirigido por Francisco Saturnino de Brito Filho (Campos dos Goytacazes. Sua origem remonta ao Escritório Saturnino de Brito fundado por Francisco Rodrigues Saturnino de Brito (Campos dos Goytacazes. decidiu criar. 433 . 1929) considerado o “Patrono da Engenharia Sanitária Brasileira”. o primeiro laboratório de hidráulica do país. Inglaterra e Estados Unidos. A partir do final da década de 40 a empresa desenvolveu diversos estudos hidrológicos e hidráulicos aplicando técnicas inovadoras no Brasil para a época como foi o caso da utilização do método do hidrograma unitário nos estudos hidrológicos do rio Joanes. no centro da cidade do Rio de Janeiro. Saturnino de Brito Filho. pela captação de parcela significativa da água potável consumida na cidade do Rio de Janeiro e pelo projeto do sistema hidráulico de renovação das águas da lagoa Rodrigo de Freitas. embrião do que viria a se transformar no Hidroesb.CINQUENTA ANOS DO COMITÊ BRASILEIRO DE BARRAGENS O Laboratório de Hidráulica HIDROESB – Saturnino de Brito SA Luiz Felipe Pierre O HIDROESB – Saturnino de Brito SA . 1977). responsável. no estado da Bahia. no Rio de Janeiro.Rio de Janeiro. desde o final do século XIX. 1864 – Pelotas. se transferiu para uma grande área no bairro do Andaraí. Após a morte de seu fundador.

Grandes Vertedouros Brasileiros pág. Seu maior destaque. no rastro dos grandes projetos que o País desenvolveu na época. modelos para estudos especiais como as eclusas do AHE Tucuruí e do AHE Boa Esperança Figura 1 . porém. Ottoni Netto sobre o modelo reduzido do vertedouro de Orós 434 . no rio Piracicaba. XX e XXI Em 1965 foi criado o Laboratório Hidrotécnico Saturnino de Brito SA .123 a 128).Juarez Távora. no rio Paraíba do Sul. Mascarenhas. A nova empresa se dedicou a estudos de campo nas áreas de topografia. no Ceará. para a CSN. ministro de viação e obra públicas. também. em Ipatinga. Nas décadas de 60 e 70 desenvolveu estudos hidráulicos em modelo reduzido de vários dos mais importantes aproveitamentos hidroelé tricos projetados na época dentre os quais Estreito.293 a 300. O Hidroesb construiu. No ano de 1962 desenvolveu os estudos hidráulicos em modelo reduzido e os projetos hidráulico e estrutural para reconstrução do sangradouro do açude de Orós. empresa independente do Escritório Saturnino de Brito. no canal de São Francisco. todos no rio Grande. se deu no campo da hidráulica experimental. CBDB . Boa Esperança. em Volta Redonda e para a usina termoelétrica de Santa Cruz.Séculos XIX. no rio Doce. que havia sido destruído por uma cheia ocorrida em 1960 (ver ICOLD – “Lessons from Dam Incidents” – 1974.Main Brazilian Dams II pág. ouvindo a explicação do professor Theophilo B.A História das Barragens no Brasil . Na década de 60 o Hidroesb realizou projetos e estudos hidráulicos em modelo reduzido de tomadas d’água para fins industriais para as instalações da USIMINAS. no rio Uatumã.Hidroesb. hidrometria e sedimentometria bem como a estudos e projetos hidráulicos. Volta Grande. Jaguara. no rio Jaguaribe. no Rio de Janeiro. Porto Colômbia e Ma rimbondo. no rio Parnaíba e Balbina. páginas 68 a 70.

Hidrologia. PUC. Recursos Hídricos. Engenharia Costeira. Controle de Enchentes e de Secas. do Conselho Diretor da Fundação de Ensino Especializado de Saúde Pública e coordenador da Sub-Comissão da Associação Brasileira de Normas Técnicas para Projeto de Construção de Órgãos Auxiliares de Barragens. do Conselho de Pesquisas e Ensino para Graduação da UFRJ. atuou profissionalmente na área da Educação Superior e na prestação de ser viços de Engenharia Consultiva. Foi professor titular e emérito da UFRJ. Perenização e Regularização Fluvial. Saneamento Ambiental. chefe do Departamento de Hidráulica e Saneamento do Curso de Engenharia Civil da UFRJ. desempenharam importante papel na evolução da engenharia hidráulica e na formação de novos profissionais na área. como Escola Técnica do Exército (Ministério da Guerra). Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz e SUDENE.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 2 . Aproveitamentos Hidroelétricos. Em 1978 a empresa teve sua razão social alterada para Hidroesb – Saturnino de Brito SA. UnB e em instituições oficiais. Hidrologia Geral. em universidades como UFRJ. O Hidroesb e o professor Theophilo Benedicto Ottoni Netto. Pelo pioneirismo de sua atuação o Hidroesb deu importante contribuição ao desenvolvimento da engenharia hidráulica no país. Hidrotécnica. Empreendimentos Hidráulicos. Abastecimento d’Água de Cidades e Impactos Ambientais. Planejamento Integrado dos Recursos Hídricos. professor Theophilo Ottoni. vice-presidente da Associação de Antigos Alunos da Politécnica. UFF. membro do Conselho de Curadores da UFRJ. Seu principal executivo. com a sua experiência prática de engenharia e acadêmica de professor pesquisador. Saneamento. 435 . Ecologia Aplicada e Engenharia Sanitária. ministrou aulas em cursos de graduação e pósgraduação. Como docente. em temas de Hidráulica. envolvendo Hidráulica.Professor Theophilo Benedicto Ottoni Netto tendo à sua esquerda os engenheiros Lúcio Washington e Olívio Kalckman e a tomada d’água do AHE Fur nas visando avaliar a possibilidade de redução da cota do seu nível mínimo operativo. Fluviometria.

436 .

todos os prédios do projeto original (Figura 1) estavam concluídos e operando. a localização da nova Cidade Universitária junto à área destinada à implantação do IPH. pois a universidade aprovou. Barragem Bom Retiro do Sul (Figura 5). Vários docentes de então atuavam simultaneamente na referida secretaria e na universidade. A sua criação tomou corpo em 1953. incluindo o Laboratório de Ensino. Em seguida outros estudos foram realizados em modelo reduzido. assim como de um laboratório de hidráulica para ensino. estudos e treinamento que atuasse nos 437 . termina do em 1955 e inaugurado oficialmente em 1957 pelo Presidente Juscelino Kubitschek. na então Universidade do Rio Grande do Sul. também em 1953. Desta forma. fluviais. que começou em 1956 para o DEPRC (Figura 2) com a ajuda de pesquisadores franceses. entre outros). seus anseios tiveram eco no reitorado do Professor Elyseu Paglioli. irrigação. Figura 1 – Vista geral do Instituto de Pesquisa Hidráulicas da UFRGS (1962) Um breve histórico O Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) é o instituto das águas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Em 1962. abastecimento de água. O primeiro trabalho realizado foi sobre o estudo da desembocadura do Rio Tramandaí. Barragem do Arroio Duro para o DNOS (Figura 4). de pesquisa. de que havia necessidade do domínio da técnica dos modelos reduzidos.IPH Marcelo Giulian Marques. em função de um oficio do professor Adolfo Laranjeira Mariante solicitando a criação de um centro destinado às questões hidráulicas. O primeiro prédio do IPH foi o Pavilhão Marítimo. navegação. de extensão e de prestação de serviços em hidráulica. recursos hídricos e meio-ambiente atuando ativamente em diferentes setores (elétrico brasileiro. planejado pelo engenheiro Pierre Engeldinger do Laboratoire National d’Hydráulique de Chatou . hidroelétricas e assemelhados na região sul do Brasil e da América Latina. tais como: Travessia do Delta do Jacuí para o DAER (Figura 3). em função de uma idéia circulante na Escola de Engenharia e na Secretaria de Obras Públicas do Estado do Rio Grande do Sul.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens O Instituto de Pesquisas Hidráulicas . Luiz Augusto Magalhães Endres e André Luiz Lopes Silveira setores das obras marítimas. realizando atividades de ensino. A conjuntura histórica da época ajudou nesse objetivo.França. que designou uma comissão para criação deste novo instituto em 7 de agosto de 1953. entre outros.

Barragem do Arroio Duro (extinto DNOS) – estudo do vertedouro 438 .Vista do modelo da travessia do Jacuí (DAER) .estudo da proteção com enrocamento – DAER Figura 2 .escoamento com comporta de fundo e lâmina vertente.A História das Barragens no Brasil .Barragem Bom Retiro do Sul (DEPREC) . Figura 4 .Séculos XIX. XX e XXI Figura 3 .Desembocadura do rio Tramandaí RS – DEPREC Figura 5 .

Em função da visão de tratar de maneira mais ampla os recursos hídricos. atuando no ensino (técnico.Rio Taquari .RS * ELETROSUL . usina hidroelétrica Salto Grande – Rio Santa Cruz . usina hidroelétrica Leonel de Moura Brizola . usina hidroelétrica Itaúba .RS * Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE) – Barragem do Anel de Dom Marco – Rio Jacuí (Figura 6).Rio Jacuí – RS (Figura 9). em 1969. Esse convênio com a UNESCO. sobretudo franceses. navegação. Em 2006. até o presente momento.ex-Usina Hidroelétrica do Jacuí .RS * Departamento Estadual de Portos.Barragem do Arroio Mãe D’água .rio Santa Cruz. abastecimento de água.RS. usina hidroelétrica Dona Francisca 1º arranjo de obra (Figura 7) .escoamento no vertedouro As pesquisas O IPH como instituto de pesquisa sempre teve a visão: “O uso da água com sustentabilidade. atuando ativamente em diferentes setores: hidrelétrico. modelos reduzidos de obras hidráulicas. usina hidroelétrica Passo Fundo – rios Passo Fundo e Erechim . e a meta: “A capacitação de indivíduos e de instituições aptas a lidar com os problemas que envolvem o uso da água”. o IPH também se tornou um pólo de capacitação e pesquisa em hidrologia no âmbito do Decênio Hidrológico Internacional 1965-1975. com apoio de pesquisadores estrangeiros. 15 foram estudos em modelo reduzido de barragens. Em 1989 o doutorado foi implantado no seu programa de pós-graduação.Barragem do Arroio Ribeiro -RS * Instituto de Pesquisa Hidráulicas (IPH) . foi implantado o curso de engenharia ambiental.AHSUL . irrigação.Barragem do Anel de Dom Marco (CEEE) . Desta forma.Rio Jacuí –RS (Figura 8). que passa a ser um instituto de pesquisas também em recursos hídricos e saneamento ambiental. pr eser vação e conser vação” . único na América Latina.Rio Jacuí –RS.usina hidroelétrica Machadinho (1º arranjo de obra) – Rio Pelotas –RS (Figura 10) * Garcia de Garcia .RS (Figura 5) * Departamento Nacional de Obras de Saneamento (DNOS) Barragem do Arroio Duro –RS (Figura 4) * Departamento Nacional de Portos e Vias Navegáveis (DNPVN) . foi criado o curso de pós-graduação do IPH e o Curso Técnico em Hidrologia. além de dar novo impulso e amplitude às pesquisas.Barragem do Anel de Dom Marco Rio Jacuí . completando efetivamente todos os níveis de ensino e diplomação. de recursos hídricos e de meio-ambiente. Cerca de um terço destes trabalhos são referentes ao setor elétrico brasileiro e as obras hidráulicas ligadas a barragens. podendo-se citar: * Administração das Hidrovias do Sul . entre outros.RS Figura 6 . juntamente com a reforma universitária de 1970 marca uma segunda fase do IPH. usina hidroelétrica Passo Real . com o apoio da UNESCO. tem um acervo de centenas de trabalhos de prestação de serviços à comunidade nas áreas de hidráulica. ainda hoje. O IPH. Rios e Canais (DEPRC) Barragem de Bom Retiro do Sul .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Os anos 60 consolidam o IPH como referência nacional e sulamericana para estudos hidráulicos. Barragem Laranjeira . e está em fase de implantação o curso de engenharia hídrica. Destes. 439 .Rio Jacuí –RS.Barragem eclusa do canal São Gonçalo Lagoa dos Patos e Lagoa Mirim . graduação e pósgraduação) e apoiado por ampla atividade em pesquisa e extensão.

A História das Barragens no Brasil .Séculos XIX. XX e XXI Figura 7 – Usina hidroelétrica Dona Francisca (CEEE) 1º arranjo escoamento no vertedouro Figura 8 – Usina hidroelétrica Itaúba (CEEE) – erosão a jusante do salto de esqui 440 .

* Projetar obras e sistemas para aproveitá-los.apresentação do modelo pela equipe do IPH durante vista técnica Isto levou o IPH a desenvolver uma ampla gama de especialidades nas ciências da água. Figura 9 – Modelo da usina hidroelétrica Leonel de Moura Brizola .ex-Jacuí (CEEE) . ao armazenamento e ao controle das águas fluviais. Para isso reuniu e busca atualizar o seu conhecimento para: * Avaliar as disponibilidades desses recursos. necessárias para uma abordagem integrada dos problemas que envolvem os recursos hídricos ligados à quantificação. influenciando diretamente os projetos e a operação das barragens e do setor elétrico.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 10 – Usina hidroelétrica Machadinho (ELETROSUL) – escoamento pelo vertedouro. à qualidade. da forma mais eficiente possível. * Preservar a sua qualidade e * Promover a gestão integrada dos mesmos. 441 .

* desenvolver ferramentas e metodologias de previsão de esforços hidrodinâmicos provocados pelo escoamento.Séculos XIX. planos nacionais e estaduais de recursos hídricos e de meio-ambiente. * desenvolver linhas de pesquisa na área de eficiência energética e hidráulica. Há participação efetiva dos professores e alunos nos principais eventos na cionais e internacionais no domínio das águas. * Eco Hidráulica . 442 . com cerca de 150 publicações anuais entre periódicos e anais de eventos. foram desenvolvidas nove teses e mais de dezesseis dissertações. Esses projetos de P&Ds visam: * compreender os processos físicos envolvidos nos fenômenos hidráulicos. * Transientes Hidráulicos em Usinas Hidroelétricas e em Eclusa. XX e XXI Hoje. * Vibração em Estrutura Hidráulica em Cilindro e em Comporta. obras hidráulicas. Entre os trabalhos dos últimos 10 anos referentes diretamente ao setor elétrico brasileiro e as obras hidráulicas ligadas às barragens. assim como nos principais fóruns de discussões sobre hidráulica. seguras e de menor custo para o dimensionamento de obras hidráulicas. Vertedouro em Degraus e Salto esqui a Jusante de comportas.ufrgs. O acervo de dissertações de mestrado e teses de doutorado do curso de pós-graduação do IPH é resumidamente de cerca: 110 teses de doutorado e 315 dissertações (http://www. aprimorando os conhecimentos sobre fenômenos hidráulicos.br/apresentacao/) conta com diferentes laboratórios e núcleos de pesquisa que trabalham de forma integrada nas diferentes áreas dos recursos hídricos: * Laboratório da Estação Recuperadora da Qualidade da Água da UFRGS (ERQA) * Laboratório de Clima e Recursos Hídricos * Laboratório de Eficiência Energética e Hidráulica (LENHS) * Laboratório de Engenharia de Água e Solo * Laboratório de Ensino de Hidráulica * Laboratório de Hidráulica Marítima (LAHIMA) * Laboratório de Hidrometria * Laboratório de Instrumentação e Canal de Velocidade * Laboratório de Limnologia * Laboratório de Obras Hidráulicas (LOH) * Laboratório de Processos Erosivos e Deposicionais * Laboratório de Saneamento * Laboratório de Sedimentos * Núcleo de Águas Urbanas * Núcleo de Estudos em Correntes de Densidade (NECOD) * Núcleo de Estudos em Transição e Turbulência (NETT) * Núcleo de Planejamento e Gestão de Recursos Hídricos Aproximadamente 35 pesquisas desenvolvem-se regularmente nesses laboratórios e núcleos.br/handle/10183/2). As pesquisas têm sido desenvolvidas dentro das seguintes Linhas Mestras: * Esforços Hidrodinâmicos: em Dissipadores de Energia Hidráulica e a Jusante de comportas.ufrgs.A História das Barragens no Brasil . o IPH vem desenvolvendo projetos através do seu Laboratório de Obras Hidráulicas (LOH).lume. * desenvolver. Na área de pesquisa e desenvolvimento (P&D) relacionados a empreendimentos no setor elétrico. verificar e comparar os critérios de dimensionamento existentes na literatura.iph. a fim de gerar soluções técnicas que sejam eficientes. o IPH (http://www.Mecanismo de Transposição para Peixes (MTPs).

em desenvolvimento (Figura 16) Padrões de vibração em estruturas hidráulicas por ação de escoamentos (Figura 17) Transientes hidráulicos em circuitos de usinas hidroelétricas Utilização de modelos numérico e experimental para dimensionamento e otimização de bacias de dissipação Parceiros LAHE/FURNAS INA e IST (colaboradores) DFESA IST (colaborador) LAHE/FURNAS e UFMG URI e UNISINOS (colaboradores) CPH/UFMG IST (colaborador) LAHE/FURNAS UFSM (colaborador) LAHE/FURNAS IST (colaborador) DFESA IST (colaborador) LAHE/FURNAS.em desenvolvimento (Figura 15) Características de escoamentos sobre vertedouros em degraus Determinação das características geométricas da soleira terminal em bacias de dissipação a jusante de vertedouro em degraus .em desenvolvimento Estudo dos processos geomecânicos provocados por esforços hidrodinâmicos em fossas de erosão a jusante de saltos de esqui . Figura 11 . aplicados a barragens no setor elétrico estão listados acima.Análise de vibrações induzidas pelo escoamento sobre uma comporta 443 . PUC/Rio e UFMG UFSM (colaborador) LAHE/FURNAS LAHE/FURNAS e IME LAHE/FURNAS e IME Os P&Ds desenvolvidos ou em desenvolvimento nos últimos 10 anos pelo LOH. (Figura 12) Análise do comportamento hidráulico dos sistemas de enchimento e esgotamento de eclusas de navegação (Figura 13) Análise do escoamento em mecanismo de transposição para peixes – MTPs (Figura 14) Análise dos processos físicos envolvidos na formação de fossas de erosão em leito Coesivo a jusante de salto de esqui .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Titulo do P&Ds Análise da macro turbulência em dissipadores por ressalto hidráulico (Figura 11) Análise das características macro turbulentas ao longo da calha de um vertedouro em degrau e no ressalto hidráulico formado a jusante.

Figura 14 – Análise do escoamento a jusante de uma comporta tipo segmento invertida de uma eclusa 444 .A História das Barragens no Brasil .Séculos XIX. XX e XXI Figura 12 – Análise da macro turbulência em dissipadores por ressalto hidráulico Figura 13 – Análise das características macro turbulentas ao longo da calha de um vertedouro em degrau e no ressalto hidráulico formado a jusante.

Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 16 – Análise das pressões dinâmicas a jusante de um salto esqui Figura 17 . a qualidade. o controle e a gestão deste recurso de maneira a tornar os empreendimentos sustentáveis. 445 . o IPH construiu uma história voltada às águas buscando a quantificação. o armazenamento.Análise das pressões dinâmicas em um jato direcionado Figura 15 – Análise do escoamento em mecanismo de transposição para peixes – MTPs Em resumo.

446 .

sem dúvida. no rio Paranapanema. como pelo seu papel de difusor de conhecimentos técnicos.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens O Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo . o IPT estudou fundações e solos de empréstimo para duas pequenas barragens de terra. .S. USELPA – Usinas Elétricas do Paranapanema e de outras que foram unidas.C. A participação do IPT se desenvolveu nas áreas de geotecnia. professor da Escola Politécnica do Rio de Janeiro. na caracterização das jazidas naturais. Esta atuação se realizou no reconhecimento geológico dos locais. Ainda no final da década de 1940. após estagiar no IPT. Em 1953. na cons trução da Usina de Salto Grande. Pichler iniciou a prática de estudos geológicos para projeto e construção de barragens baseados em sondagens rotativas adaptadas aos fins de engenharia civil. as barragens de Poço Preto e Piraçununga. No início da década de 1940. destacou-se a atividade do engenheiro Ernesto Pichler. o primeiro ensaio de perda d’água sob pressão em furo de sondagem. em 1938. Ensaio de cisalhamento de grandes dimensões do maciço rochoso num bloco de rocha de 6 m x 6 m de seção por 4 m de altura. na barragem de Barra Bonita (rio Tietê). o engenheiro Mario Brandi Pereira.IPT Carlos de Sousa Pinto. pioneiro da geologia aplicada às obras hidráulicas. no controle de execução dos maciços de terra e das estruturas de concreto e no monitoramento das obras.O. Geotecnia e geologia de engenharia Um exemplo do papel difusor de conhecimentos do IPT se fez notar logo após a fundação de sua Seção de Solos. realizou. o primeiro laboratório de solos a se dedicar ao apoio tecnológico das barragens no Brasil. com a construção de usinas hidroelétricas construídas no estado de São Paulo pelas empresas CHERP – Centrais Elétricas do Rio Pardo. Nos levantamentos geológicos dos locais das obras. Ronaldo Rocha e Antonio Marrano Pela sua característica de instituto pioneiro no Brasil na tecnologia da engenharia civil.Inspetoria Nacional de Obras Contra a Seca. Mas a atuação mais marcante do IPT nas obras de barragens passou a ocorrer a partir da década de 1950. Paraíba. O maior ensaio in situ de resistência ao cisalhamento feito no mundo 447 . concreto e estruturas. o IPT teve atuação relevante no desenvolvimento das barragens no país. dando origem à CESP – Companhia Energética de São Paulo. CELUSA – Centrais Elétricas de Urubupungá SA. na determinação das propriedades de comportamento de solos.N. além da consultoria técnica na formulação e a adaptação dos projetos durante a construção. em Campina Grande. fundou o laboratório da I. este. tanto pelo seu envolvimento direto em muitas obras. geologia de engenharia. realizado em Ilha Solteira em 1969. que já em 1947 havia publicado um conjunto de conferências intitulado “Elementos básicos de Geologia Aplicada”. rochas e agregados para concreto. dando as primeiras contribuições ao avanço da área de hidrogeologia no País. No ano seguinte.

um manômetro lendo diretamente a pressão neutra no maciço e o outro acionado por ação pneumática a partir da superfície fazendo a leitura do primeiro. atualmente. Faleceu. em plena atividade no campo. inclusive um ensaio de grandes dimensões. Nesta ocasião. Seus resultados tiveram repercussão internacional. enquanto que no laboratório de mecânica das rochas toda a equipe era do IPT. num bloco de rocha de 6 m x 6 m de seção por 4 m de altura (Figura 1). por exemplo. com equipamentos da mais alta qualidade. equipamentos de cisalhamento direto e de adensamento. o que caracterizava o maior ensaio in situ de resistência ao cisalhamento feito no mundo. merecem destaques as relacionadas com as características das fundaçõesdas barragens de Jupiá e Ilha Solteira. em 1959. Bariri (1959 a 1960). XX e XXI Pichler foi também pioneiro na implantação da mecânica das rochas no Brasil. onde se sucediam camadas de constituição bem distintas. Os laboratórios foram muito bem equipados. sob a liderança do engenheiro Murilo Ruiz. obtendo o desenvolvimento das pressões neutras durante o alteamento do aterro e o enchimento do reservatório. o seu nome foi atribuído ao aeroporto de Jupiá. na coordenação dos trabalhos. diversas pesquisas foram realizadas durante a obra.Séculos XIX. principalmente o de Ilha Solteira.A História das Barragens no Brasil . tendo se notabilizado pela determinação das tensões in situ e realização de ensaios de deformação de maciços rochosos nas escavações da casa de força da usina de Paulo Afonso. Além da determinação das propriedades mecânicas dos solos usados na barragem. com câmaras de ensaios triaxiais. Os laboratórios de Ilha Solteira. Estes trabalhos passaram a ser referência para projetos de outras obras. o IPT coordenou todo o controle de compactação dos maciços. em virtude da deformação lenta. com desenvolvimento de pressões neutras baixas quando devidamente compactados. a influência das condições de compactação nas propriedades geotécnicas do solo compactado e a comparação entre as características apresentadas pelos corpos de prova compactados em laboratório com as dos corpos de prova moldados a partir de blocos indeformados extraídos do maciço. fato totalmente inesperado. Euclides da Cunha (1956 a 1960) e Graminha (1959 a 1966). com extensômetros elétricos colados em membrana de aço inoxidável. Cinco piezômetros deste tipo foram instalados na barragem de Ilha Solteira Nas barragens de Jupiá (1961 a 1969) e de Ilha Solteira (1966 a 1973) o IPT especificou e colaborou na instalação dos laboratórios de solos e de mecânica das rochas instalados pela CESP. com algumas alterações propostas pelo engenheiro Pacheco Silva e aceitas pelo fabricante. Ibitinga (1964 a 1969). o engenheiro Pacheco Silva instalou piezômetros de sua própria idealização. após a conclusão da barragem. esclarecendo. para só passarem a aumentar após ser atingido um certo nível de carregamento. o engenheiro Hamilton de Oliveira fez uma adaptação para solos brasileiros do método de Hilf de controle de compactação. passou-se a usar piezômetros de corda vibrante. Frustrado com a perda de algumas destas células. No laboratório de solos de Ilha Solteira. passaram a prestar assistência tecnológica a outras barragens e. três pesquisadores do IPT ficaram permanentes. característico de solos tropicais. No campo da mecânica das rochas. Em reconhecimento à relevante contribuição. por ele batizada de “célula DM”. Já na barragem de Limoeiro. Estes estudos foram fundamentais para a definição das cotas de fundação dos diversos setores da obra. que passou a ser adotada em muitas obras. Notável foi o conjunto de ensaios de cisalhamento do maciço rochoso. pelo efeito de descargas elétricas nas proximidades das barragens. importados da Suíça. 448 . o que serviu de orientação para o projeto de barragens posteriores. Observou que as pressões neutras decresciam inicialmente durante o alteamento do aterro. tornou-se laboratório do curso de engenharia civil da UNESP. Barra Bonita (1952 a 1962) e Promissão (1966 a 1975) envolveu a supervisão do controle de compactação e a instrumentação dos maciços. Tendo notado que primeiros piezômetros instalados nas barragens do rio Pardo não se mantinham confiáveis por muito tempo. fazendo levantamento geológico no local da barragem de Jupiá. introduzindo no Brasil esta técnica. Pacheco dedicou-se ao desenvolvimento de outra. Limoeiro (1953 a 1958). dentre as investigações realizadas pela equipe do IPT. a partir da característica de “duplo manômetro”. Nas barragens do Rio Pardo. A atuação do IPT nas barragens do rio Tietê. O engenheiro Pacheco Silva analisou este comportamento.

as lavas em almofadas (pillow lavas) em Nova Avanhandava e os basaltos leves de Porto Primavera. Ensaio de cisalhamento em bloco de grandes dimensões (1969) Também a partir do final da década de 1960. empregado com sucesso na fundação de Ilha Solteira e posteriormente adotado em todas as demais obras da CESP com fundação em maciço basáltico. Avanços significativos na compreensão do comportamento dos basaltos como fundações de barragens foram obtidos com os estudos a respeito das estruturas circulares em Água Vermelha.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 1 – Usina hidroelétrica de Ilha Solteira. Na década de 1970. destacaram-se os trabalhos junto à Centrais Elétricas de São Paulo (CESP) que possibilitaram o desenvolvimento de especificações de sondagens e de critérios para a classificação dos graus de alteração e de fraturamento das rochas. rio Paraná. 449 . destacaram-se a formulação das primeiras orientações técnicas de normatização dos ensaios de permeabilidade em furos de sondagens. com a colaboração do consultor alemão Klaus W. destacam-se o desenvolvimento dos obturadores de impressão e um protótipo de equipamento para o televisionamento de furos de sondagens. John. na compreensão do comportamen to das juntas-falhas e na avaliação da rápida decomposição das rochas basálticas (alterabilidade). especialmente na identificação de ar gilominerais expansivos. estabelecendo uma prática brasileira para os estudos e investigações de eixos de barragens. assim como na caracterização tecnológica de agregados naturais. bem como a definição de vários outros procedimentos até hoje utilizados. Também foi desenvolvido o primeiro sistema de classificação de maciços rochosos utilizados no Brasil. Na década de 1990. Contribuições significativas decorrentes da experiência com grandes obras envolveram desenvolvimentos na caracterização geológico-geotécnica de basaltos. os estudos de caldas de cimento e argamassa para tratamento de maciços de fundações e análise da eficiência dos tratamentos de fundações de barragens.

para abastecimento de água para a Refinaria Duque de Caxias. teve a assistência do IPT tanto nos ensaios dos materiais como no controle de compactação. a melhoria e desenvolvimento das técnicas da geofísica e as primeiras pesquisas desenvolvidas no Brasil para estudo da permeabilidade tridimensional dos maciços rochosos que começaram em 1984. A barragem de Saracuruna. liderado pelo engenheiro Murilo Ruiz. constituindo o Laboratório Rankine. garantindo-se a estabilidade dos taludes do maciço.Departamento de Águas e Energia Elétrica do estado de São Paulo. O IPT contribuiu muito no campo da geotecnia e geologia de engenharia nas barragens da CESP. pioneiramente no Brasil. apresentou infiltração e surgimento de água a jusante. permitiram a identificação de pequenos túneis. localizada na Baixada Fluminense. Na execução desta obra. construída pelo DAEE . construída pela Petrobrás. juntamente com a inspeção de amostras indeformadas. projetado de maneira a poder ser transformado numa posterior barragem. no Paraná. A barragem de Ponte Nova. ensaios de injeção de corantes e de traçadores radioativos que. estudos para identificar as características da percolação. em 1989. Foram realizados. tanto no investimento em recursos materiais. e área de empréstimo de solo muito argiloso. como nos recursos humanos. já acima do nível d’água em função do que era liberado o lançamento de novas camadas. Além dos trabalhos para as barragens da CESP. pelas suas peculiaridades. sem sucesso. as infiltrações cessaram e o monitoramento posterior. no seu aproveitamento no suprimento de água na região. o grupo de geologia aplicada e de geotecnia do IPT. o IPT instalou e operou piezômetros que registravam o crescimento e a dissipação da pressão neutra após cada lançamento do aterro. em 450 . Após diversas tentativas de impermeabilização das ombreiras. a profundidades de cerca de 3 m. passando de montante para jusante. são apresentados a seguir. próxima às nascentes do rio Tietê. XX e XXI Igualmente importante foram os estudos de sismicidade induzida decorrente da instalação de reservatórios de barragens. de 1960 a 1962. Na construção da rodovia dos Imigrantes os projetistas optaram por fazer a travessia da Represa Billings por meio de um aterro lançado dentro d’água. A experiência da obra anterior possibilitou ao IPT atuação importante na construção da Barragem do Rio Verde. o IPT teve a oportunidade de participar de diversas obras de barragens de outras entidades. mas deve-se registrar que igualmente importante para o próprio IPT foi o apoio recebido da CESP para o desenvolvimento desta instituição. feito pelo IPT. destacam-se estudos voltados ao monitoramento dos processos erosivos nas margens do reservatório de Porto Primavera. permitiu assegurar a estabilidade da barragem e a plena utilização do reservatório na cota de projeto.Séculos XIX. fundação em sedimentos arenosos (que requereu paredes diafragma para vedação). em que se compactou o solo com umidade muito acima da ótima. nas ombreiras. que passou a dar assistência a várias obras de engenharia. Este laboratório foi posteriormente vendido a um consórcio de empresas empreiteiras. com poucos centímetros de diâmetros. o DAEE optou pela instalação de laboratório de solos completo no local. dividindo a represa em duas áreas. como reguladora do rio e parte do sistema de abastecimento da cidade de São Paulo. de difícil secagem em virtude do clima na região e com peculiaridades de compactação (grande alteração dos parâmetros de compactação com ligeira secagem a partir da umidade natural). quando atingida cota parcial de enchimento do reservatório. A partir da década de 2000. proporcionando a oportunidade para a formação de especialistas que vieram posteriormente contribuir para a engenharia nacional em diversas atividades. cuja primeira aplicação com equipamentos idealizados e construídos pelo IPT foi na barragem de Porto Primavera. muito úmido. Após a execução de cortina de solo-cimento nas ombreiras e fundações. o desenvolvimento e aplicação da geologia estrutural para a análise dos condicionantes geológico-geotécnicos. realizou. em 1970. Em virtude das peculiaridades da obra. resultantes de antigas colônias de formigas.A História das Barragens no Brasil . Alguns destes casos. podendo ser operadas de maneira distinta. inclusive rodoviárias e de fundações.

O conhecimento sobre o estado de tensões do maciço também contribui significativamente para o dimensionamento da blindagem do conduto forçado. Em 2010. foi desenvolvido um material básico com micro-concreto de argila expandida. com o ganho adicional de redução da temperatura do concreto durante a cura e o endurecimento. formas de resina. cimento e pérola de isopor. apresentava muita dificuldade em virtude da pouca disponibilidade de materiais. tinha cerca de 50 cm de altura. No caso específico dos modelos da barragem de Itaipu. foram realizados dois estudos com modelos físicos de características diferentes. o professor Telêmaco van Langendonck. conciliando-se esta solução com a baixa resistência do solo da fundação. em substituição às pedras-pomes diatomito. a partir de matérias primas. o engenheiro Fausto Tarran do IPT. sendo um trabalho que na época. Conduzido com sucesso. a realização dos ensaios. empregados pelo ISMES. representando a barragem numa escala de 1:100 e foi carregado por meio de pesos mortos até serem atingidas as pressões na escala empregada. também. Os estudos apontaram para a incorporação de pozolanas na constituição dos concretos. utilizou-se argamassa de areia. Para a barragem de Jupiá. que não precisou ser escavado. Conhecer o estado de tensões nos maciços rochosos é particularmente importante para o projeto de túneis de alta pressão. ou o gesso. constituiu-se no primeiro modelo estrutural voltado a barragens no Brasil. Quando o material deveria ter módulo de deformação muito baixo. Tecnologia de concreto No campo de concreto o IPT contribuiu na consultoria e supervisão das dosagens e no controle dos materiais constituintes. por parte da empresa projetista. onde é necessário evitar que a pressão hidráulica interna conduza à ruptura do maciço. o que requereu um estudo preliminar para a determinação da adequada proporção dos componentes e dos procedimentos de cura. depois de um estágio na Itália. Restringem-se a casos especiais. tendo sido construído com poliéster. que foi construído pelo IPT. onde se constatou. o IPT. A técnica de ensaio é extremamente complexa. Medido res de recalque e piezômetros mostraram o comportamento adequado da barragem. segundo a técnica de ensaios em modelo desenvolvida pelo Istituto Sperimentale Modelli e Strutture (ISMES). Os micro-concretos utilizados para a representação das fundações e do elemento estrutural em estudo são executados com materiais especiais e misturas adequadas. e para o seu desenvolvimento. O contraforte da barragem. Esta técnica se caracteriza pela utilização de modelos de grandes dimensões. a possibilidade de reações álcali-agregados que comprometeriam a durabilidade das obras. no modelo. 1968. devido às características dos agregados. Coube a ele. foram executados dois modelos para o projeto da barragem de Itaipu. de 1977 a 1979. na realidade um pórtico de reação que permite ensaio de modelos de até 3 m. justificando a solução adotada. O modelo foi de comportamento elástico. Papel importante ocorreu nas barragens de Jupiá e Ilha Solteira. construiu um equipamento para realização de ensaios de medidas de tensões in situ por meio de fraturamento hidráulico. conforme descrito a seguir. quando os projetistas recorrem a eles para esclarecer dúvidas sobre o comportamento da estrutura em obras cujo valor e importância os justifiquem. de maneira que resulte em material com propriedades reológicas adequadas à escala do modelo. de Bergamo. colaborando para o contínuo desenvolvimento tecnológico das barragens brasileiras. com o consequente abatimento dos taludes do maciço para garantir a estabilidade. solicitou ao IPT um modelo dos apoios das comportas nos contrafortes da barragem. Modelos físicos estruturais Modelos físicos de estruturas de barragens não são rotineiros nos projetos destas obras. O modelo foi moldado com as dimensões estudadas. micro-concreto de pedra pomes e sistema especial de aplicação de cargas de peso próprio. projetou um laboratório especial.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens virtude das condições de umidade muito elevada na região. Itália. 451 . o que foi adotado. No Brasil. Posteriormente. utilizado pelo Laboratório Nacional de Engenharia Civil de Lisboa.

foram nomeados de instrumentos pneumáticos tipo IPT. Em seguida. As cargas hidrostáticas na face do modelo foram aplicadas por pequenos macacos hidráulicos. No entanto.8 m (estrutura de controle do desvio do rio) e 2. em função do que foi feita modificação do projeto estrutural da obra. Nas barragens da SABESP.Figura 2). o ensaio foi até a ruptura da junta vertical de concretagem dos contrafortes. em 1978 (Figura 3). de maneira a simular o empuxo correspondente ao reservatório em plena altura. no modelo da estrutura de desvio. juntamente com os aperfeiçoamentos na unidade de leitura. e Piraquara da SANEPAR. foram desenvolvidas as células de pressão total que. No modelo do corpo da barragem.5 m (bloco de gravidade aliviada da barragem principal. foram instalados instrumentos pneumáticos tipo IPT ao lado de instrumentos elétricos de corda vibrante tipo Maihak. foi desenvolvido o primeiro piezômetro pneumático no IPT. Figura 2 – Usina hidroelétrica Itaipu. No modelo do contraforte. As formas das estruturas foram construídas sobre contra-formas. foram aplicados 22 macacos. Nesta fase. a semelhança do ocorrido na barragem de Piraquara onde se utilizou piezômetros elétricos tipo Geonor. A comparação dos resultados alcançados revelou o bom desempenho dos pneumáticos. da estrutura do modelo a ser construído. XX e XXI Os modelos tinham alturas de 1. as importações de instrumentos geotécnicos eram difíceis e tal fato favoreceu o crescimento e aplicação dos instrumentos fabricados no Brasil. As primeiras utilizações destes instrumentos pneumáticos em barragens foram nas barragens de Rio Verde da Petrobrás. incluindo as fundações . Foram muitas as barragens instrumentadas com piezômetros e células de pressão tipo IPT. em 1976. entre elas destaca-se a barragem de Itaparica da CHESF onde foram instalados quase duas centenas de instrumentos pneumáticos.A História das Barragens no Brasil . No corpo dos modelos foram introduzidos tirantes para simulação do peso próprio da estrutura. Também foram instrumentadas barragens na América do Sul com Instrumentação de barragens Em meados da década de 1970. Os ensaios foram conduzidos até a observação de indícios de ruptura nas fundações. Rio Paraná Modelo reduzido do bloco da barragem principal (1978) 452 . estas uma réplica. em 1979. a aplicação mais importante e extensiva ocorreu nas barragens do Jaguari e Jacareí da SABESP.Séculos XIX. em madeira. pelo engenheiro Alinor Figueiredo e equipe.

Referências Figura 4 – Barragem de Pedro Beicht. Em 1978. que também foram aplicados em várias barragens nacionais e internacionais.752. duas barragens em cascata no Rio Pardo. por exemplo. Dentro destes conceitos de segurança de barragens também foi objeto de continuidade dos trabalhos a barragem de Saracuruna da Petrobrás. Por falta de regulamentação este decreto não foi implementado por todas as autarquias e companhias. o IPT também desenvolveu instrumentos elétricos. atendendo solicitação da SABESP. SANEPAR. entre outras. dispondo sobre a realização de auditoria técnica externa permanente em autarquias e Figura 3 – Barragem de Piraquara.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens estes pneumáticos como. o IPT organizou uma equipe formada por especialistas de diversas áreas do próprio instituto acrescida de consultores externos. Mapeamento de fissuras no paramento de jusante (1992). em 1977. Segurança de barragens Após os acidentes ocorridos com as barragens de Euclides da Cunha e Armando de Salles Oliveira (Limoeiro). Vinte e três barragens na região metropolitana de São Paulo tiveram suas características técnicas levantadas e passaram a ser vistoriadas anualmente. com princípio de transdução por strain-gauge . SABESP. São Paulo. Paso Severino no Uruguai. Publicação IPT no 2600. em razão da automação das medidas e não em função do desempenho deste tipo de instrumento. para monitorar a segurança das barragens dessa companhia responsável pelo abastecimento da Grande São Paulo. 24/06/1999 453 . IPT 100 anos de Tecnologia. constituindo-se este projeto num exemplo da auditoria externa de segurança de barragem (Figura 4). Além dos instrumentos pneumáticos. em 21 de novembro de 1977. A partir dos anos 2000 os instrumentos pneumáticos perderam espaço para os instrumentos elétricos de corda vibrante. Instalação de piezômetro pneumático (1978) companhias em cujo capital o Estado tivesse participação majoritária. o governo de São Paulo promulgou o decreto estadual no 10.

Vista aérea do LAHE .

no Rio de Janeiro. aumentando o seu grau de participação nos estudos em modelo até assumir integralmente a coordenação dos mesmos. em área própria da empresa. Furnas começou a supervisionar diretamente os testes realizados para a validação e otimização dos projetos de seus empreendimentos e a atividade de desenvolvimento de estudos hidráulicos em modelo reduzido passou a ser de responsabilidade do seu Departamento de Engenharia Civil. pouco a pouco. em 26 de dezembro de 1983 foi iniciada a implantação do Laboratório de Hidráulica Experimental (LAHE) de Furnas. sendo inicialmente desenvolvida através da contratação do laboratório Hidroesb.LAHE Fátima Moraes de Almeida e Marcos da Rocha Botelho Para atender necessidades específicas que foram surgindo ao longo de seus projetos. Visando exercer maior controle técnico sobre os trabalhos realizados e manter os modelos de suas usinas construídos mesmo após as definições de projeto das mesmas. Com isso. Essa medida se apoiou Figura 1 LAHE – Sede em Jacarepaguá – Instalações 455 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Laboratório de Hidráulica Experimental e Recursos Hídricos de Furnas . junto a subestação de Jacarepaguá. Furnas foi.

XX e XXI Figura 2 .A História das Barragens no Brasil . fez-se necessário um enorme trabalho de mobilização dos recursos internos da empresa.Séculos XIX. e pelo engenheiro Carlos Alfredo de Almeida Paiva.Engenheiro Erton Carvalho (segundo à frente. contou com a prestação de serviços do Laboratório Hidroesb Saturnino de Brito S. Esse trabalho foi coordenado pelo engenheiro Erton Carvalho. Ressalta-se.A. no início desse período. construção e operação dos modelos dos empreendimentos em estudo àquela época. Nos seus primeiros quatro anos de funcionamento. em projeto e Usinas de Anta e Simplício. da esquerda para direita). a saber: Usina de Serra da Mesa. Usina de Porto Colômbia. Responsável pela criação do LAHE – Visita ao modelo vertedouro da usina hidroelétrica de Batalha no fato do modelo reduzido também se revelar uma importante ferramenta de trabalho para as fases de construção e operação dos empreendimentos hidráulicos. em operação. seu substituto imediato. em suas instalações. A construção da sede própria do LAHE foi iniciada somente após três anos de funcionamento efetivo do laboratório. criado com objetivo de atender exclusivamente aos empreendimentos da empresa. Usina de Furnas. então chefe da Divisão de Estudos e Projetos Hidrotécnicos de Furnas. nas fases de projeto e construção. Usina de Cana Brava. em operação. Para o desenvolvimento do projeto e construção de toda a infraestrutura necessária ao funcionamento de um laboratório de hidráulica. Usina Luiz Carlos Barreto de Carvalho (Estreito). Nas instalações de Furnas esse laboratório desenvolveu as atividades de projeto. Furnas os teria disponíveis para atender a qualquer necessidade que surgisse durante ou mesmo após a construção das suas usinas. o LAHE. Com a construção dos modelos em área própria. em operação. a importante atuação do engenheiro Dirceu Pennafirme Teixeira (do Hidroesb) que ao lado da equipe de Furnas colaborou ativamente no processo de implantação do laboratório. No modelo de conjunto da usina de Serra da Mesa foi feito o acompanhamento dos projetos básico e executivo e de alguns pro- 456 . em projeto.

Foram avaliadas as alturas das ondas. a instrumentação necessária às medições de ondas. Com o INPH foi obtida. No modelo da usina Luiz Carlos Barreto de Carvalho as pesquisas foram direcionadas para eliminar as erosões regressivas que ameaça- Para a usina de Furnas foi analisada a ameaça de desmoronamento de parte da encosta do Morro dos Cabritos. de fácil execução e baixo custo. Já a COPPE contribuiu com o desenvolvimento de parte da instrumentação necessária ao LAHE e com o estudo teórico do fenômeno em estudo. vam comprometer a estabilidade da estrutura de seu vertedouro em salto de esqui.CINQUENTA ANOS DO COMITÊ BRASILEIRO DE BARRAGENS cessos construtivos utilizados pela obra. otimizando. o balanço de materiais. foi a alteração da geometria da concha de arremesso do vertedouro. por empréstimo. A solução encontrada. entre outras coisas. modificando assim as características de lançamento do jato. Foram estudadas as ondas geradas por esse deslizamento e que poderiam ameaçar seriamente as estrutura da barragem.Modelo de conjunto da usina Luiz Carlos Barreto de Carvalho (Estreito) Figura 3 . Sem os recursos de instrumentação necessários às medições a serem realizadas. num modelo de detalhe de seu circuito de geração. Detalhe da reprodução da tomada d’água Foram pesquisados também. trazendo assim grande economia ao empreendimento. os danos que ocorreriam a montante da barragem e os níveis de segurança do reservatório. o LAHE contou com o apoio técnico e logístico do INPH (Instituto de Pesquisas Hidroviárias) e da COPPE (Coordenação de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro). Isso permitiu a integração entre as diversas etapas de construção da usina. Além da aproximação com outro centro de tecnologia.Modelo de conjunto da usina hidroelétrica de Serra da Mesa. esse estudo 457 . Figura 4 . os coeficientes de forma que alimentaram o modelo matemático adotado para a simulação dos transientes hidráulicos a que a usina estaria submetida durante a sua operação. Diversas possibilidades de queda desse maciço rochoso foram estudadas.

A História das Barragens no Brasil - Séculos XIX, XX e XXI

marcou assim a primeira interface do LAHE com um centro acadêmico de pesquisa. Nessa ocasião, os dados obtidos no modelo físico foram confrontados com o resultado de estudos em modelos matemáticos desenvolvidos pela COPPE. No modelo bidimensional do vertedouro de Porto Colômbia foi diagnosticada a causa das erosões existentes no concreto da bacia de dissipação do vertedouro. Os estudos que conduziram à solução adotada na obra foram complementados em um modelo de conjunto da usina que permitiu, inclusive, direcionar as obras de ensecamento da bacia. Em parceria com outros laboratórios e entidades de pesquisa, após a realização da obra corretiva sugerida pelo modelo, foi realizada uma campanha de medição de pressões instantâneas na bacia de dissipação do empreendimento.

Tirando partido das informações modelo-protótipo, os dados de pressão obtidos em Porto Colômbia foram posteriormente utilizados na calibração de um modelo matemático de previsão do campo de pressões, velocidades e níveis d’água em bacias de dissipação. Com orientação do IME, esse estudo gerou a tese de mestrado intitulada “Estudo Numérico e Experimental de Bacia de Dissipação” da Renata Cavalcanti Rodrigues, na época engenheira do LAHE. No modelo da usina de Cana Brava, construída a jusante de Serra da Mesa, no rio Tocantins, foi feito o acompanhamento de toda a fase de estudo do projeto básico.

Figura 6 - Modelo da usina de Cana Brava

Figura 5 - Modelo de conjunto da usina de Porto Colômbia. Medição de pressões instantâneas na bacia de dissipação

Nos modelos onde foram estudados os arranjos originais da usinas de Anta e Simplício, no rio Paraíba do Sul, foram otimizados os projetos básicos das mesmas. Após quatro anos de existência do LAHE, e num momento em que alguns dos estudos acima citados ainda se encontravam em andamento, Furnas se deparou com o término do contrato com a Hidroesb e com a impossibilidade de sua renovação. Diante desse impasse, parte da mão de obra especializada da Hidroesb acabou

Esses dados foram disponibilizados para a comunidade científica que não dispunha, até aquele momento, de dados suficientes de protótipo que pudessem validar os estudos teóricos que vinham sendo desenvolvidos nessa área de atuação.

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Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens

Figura 7 - Engenheiros Marcos da Rocha Botelho e Fátima Moraes de Almeida, técnicos pioneiros do LAHE

por ser absorvida por Furnas que, contando com o apoio de seus técnicos locais, passou a se responsabilizar pelo completo desenvolvimento dos estudos em modelo. Dentre esses técnicos, responsáveis pela supervisão dos serviços do laboratório, destacam-se como pioneiros os engenheiros Marcos da Rocha Botelho (atual gerente do LAHE) e Fátima Moraes de Almeida (que atua ainda hoje na coordenação de estudos em desenvolvimento no laboratório). Esse foi um dos momentos decisivos para a constituição da atual identidade do laboratório de Furnas que, ainda sob a condição de uma atividade de uma divisão de projeto da empresa, precisou obter recursos para a aquisição de todo o ferramental, equipamento e instrumentação eletrônica indispensável aos estudos em modelo. Itens esses que antes eram fornecidos através do contrato com o laboratório Hidroesb. Nessa ocasião, mais uma vez o espírito empreendedor do engenheiro Erton Carvalho entrou em ação. Como chefe da divisão responsável pelo Laboratório e tendo em mãos uma carteira de trabalhos já realizados, ele foi buscar junto aos órgãos superiores de Furnas os recursos necessários à consolidação do controle total pela empresa de todos os estudos hidráulicos em modelo reduzido de seus empreendimentos. A superação dessa fase acabou por trazer ao LAHE alguns grandes benefícios, tais como: modernização da instrumentação utilizada nos seus processos de construção e operação de modelos, reformulação dos processos de construção de modelos que geraram facilidades construtivas e operativas dos mesmos e maior possibilidade de investimento no aperfeiçoamento de seu quadro técnico. Quanto à usina de Manso, estudada pelo CEHPAR quando de propriedade da Eletronorte, ao assumir 70% de seus investimentos em parceria com o consórcio PROMAN, Furnas decidiu pela construção de um novo modelo da usina em seu laboratório para a realização de estudos complementares, acompanhamento do término da construção e fornecimento de subsídios para a operação da mesma. Visando subsidiar o projeto, construção e operação de um vertedouro complementar que compatibilizasse a capacidade de vertimento da usina com os demais aproveitamentos da cascata, foi construído e operado no LAHE um modelo de conjunto da Usina Marechal Mascarenhas de Moraes, inicialmente em concessão da CPFL e que, a partir de 1973, passou a ser operada por Furnas. Em 1994, o LAHE foi procurado pela Light para subsidiar, através de estudos hidráulicos em modelo reduzido, o projeto de reabilitação da Usina de Ilha dos Pombos. Esses estudos foram realizados entre os anos de 1995 e 1996. Essa primeira solicitação de desenvolvimento de um serviço externo motivou o LAHE a investir, a partir de 1997, na melhoria contínua de seus processos e produtos por meio da busca pela certificação através da Norma NBR ISO 9001. Esse projeto, incentivado pelo engenheiro Erton Carvalho, chefe do Departamento de Engenharia Civil de Furnas, foi desenvolvido na gestão do engenheiro Danilo Lopes Marques da Silva que exercia, àquela época, a chefia da divisão responsável pelas atividades do Laboratório. Para alcançar esse objetivo fez-se

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A História das Barragens no Brasil - Séculos XIX, XX e XXI

Figura 8 - Modelo da usina Marechal Mascarenhas de Moraes (Peixoto)

necessário, além de um intenso treinamento de sua equipe, a elaboração de instruções de trabalho prescritivas de cada uma das etapas dos estudos. Tecnicamente apoiada nos fundamentos teóricos da hidráulica, da mecânica dos fluidos e de outras disciplinas afins, a realização de estudos hidráulicos em modelo reduzido não possui um conjunto rígido de critérios ou normas próprias que norteiem ou que, obrigatoriamente, devam ser aplicadas nas fases de projeto e construção dos modelos e durante a fase de estudos propriamente dita. Toda a fundamentação teórica em que se baseiam os estudos experimentais é extraída dos manuais clássicos tanto de hidráulica, quanto de projeto de estruturas hidráulicas, de trabalhos e pesquisas acadêmicas e, ainda, de publicações de estudos específicos realizados em diversos laboratórios do ramo.Embora possam ser encontrados alguns trabalhos esparsos, em que se procurou reunir o maior número possível das informações em que se baseiam os estudos em modelo físico, os mesmos estão longe de se constituírem num compêndio

ou num manual clássico dessa disciplina. Por essa razão, as dificuldades encontradas na sistematização dessas tarefas foram enormes tendo em vista que, ao longo de anos, elas se basearam unicamente na experiência profissional dos técnicos envolvi dos nos serviços de modelo. A elaboração dessas “normas” de projeto, construção e realização de ensaios em modelo, além de consolidar a experiência adquirida pelo LAHE ao longo dos seus, até então, 16 anos de serviços prestados a Furnas, contribuiu de forma marcante, não só para o auxílio à formação de seus profissionais iniciantes, como também para o trabalho daqueles que já atuantes na área, passaram a poder contar com um roteiro organizador de suas atividades. Após três anos de trabalho nesse sentido o laboratório, ainda na condição de uma atividade de uma divisão, obteve em outubro de 2000 a sua Certificação ISO 9001. A partir desse momento o Laboratório de Furnas, apresentando como diferencial o fato de ser o primeiro laboratório de hidráulica

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Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens

experimental do Brasil certificado pela ISO 9001, passou a participar de várias concorrências para a prestação de serviços externos, colocando-se lado a lado com os tradicionais laboratórios brasileiros já citados. Logo após a sua primeira prestação de serviço externo, foram estudados no LAHE: A usina de São Gabriel da Cachoeira para a qual, por solici-

de energia elétrica as concessionárias de geração e empresas autorizadas à produção independente de energia elétrica ficaram obrigadas a aplicar, anualmente, o montante de, no mínimo, um por cento de sua receita operacional líquida em pesquisa e desenvolvimento do setor elétrico. O primeiro ciclo de participação de Furnas nesse programa compreendeu os anos de 2000/2001. Com o programa de P&D assim implementado por Furnas, o LAHE passou também a participar dos projetos anuais de pesquisas que utilizassem os estudos hidráulicos em modelo reduzido como ferramenta de trabalho. Desde então, em parceria com universidades e entidades afins, o LAHE vem realizando estudos em pesquisa e desenvolvimento que abrangem, dentre outros temas, as áreas de: Transientes hidráulicos em circuitos de usinas hidroelétricas; Escoamento sobre vertedouros em degraus;

tação do Ministério da Aeronáutica, foi avaliado num modelo bidimensional o comportamento de seu vertedouro de superfície com paramento de jusante em degraus; A usina Cana Brava, da Tractebel. Esses estudos foram reto-

mados para atender ao projeto executivo e fases construtivas da usina. A usina de Monte Claro, da CERAN (Companhia Energética

Rio das Antas), localizada no Rio das Antas, no Rio Grande do Sul, cujos estudos objetivaram o diagnóstico do projeto, a otimização e a caracterização dos vertedouros da usina; As usinas de Capim Branco I e II, ambas da CEMIG, lo-

Padrões de vibração em estruturas hidráulicas por ação de escoamentos; Dimensionamento e otimização de bacias de dissipação através da utilização de modelos numérico e experimental;

calizadas no Rio Araguari, em Minas Gerais. Para a realização desses estudos o LAHE foi contratado pela Intertechne visando o diagnóstico dos arranjos propostos e a otimização das estruturas hidráulicas e A usina de Foz do Rio Claro, localizada a montante da foz

Análise de macroturbulência em estrutura de dissipação de energia; Eclusa de navegação; Previsão de erosões a jusante de vertedouros

do Rio Claro (afluente do Rio Paranaíba pela margem direita), no estado de Goiás. Esse estudo foi desenvolvido para a Alusa Engenharia Ltda e teve por objetivo fornecer informa ções de interesse ao projeto executivo do aproveitamento no sentido de avaliar, otimizar e consolidar o projeto das estruturas hidráulicas do mesmo. Com a implementação da lei 9.991, de 24 de julho de 2000, que dispõe sobre a realização de investimentos em pesquisa e desenvolvimento e em eficiência energética por parte das em presas concessionárias, permissionárias e autorizadas do setor

Os assuntos abordados nas pesquisas que vem sendo desenvolvidas pelo LAHE são aqueles em que o laboratório sente maior necessidade de aprofundamento para o desempenho de suas atividades e os que, por apontarem para tendências futuras, possam permitir o seu desenvolvimento e expansão. Os parceiros tecnológicos foram, inicialmente, aqueles com os quais o LAHE havia desenvolvido trabalhos em conjunto e onde as exigências de cumprimento de cronograma e metas haviam se

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A História das Barragens no Brasil - Séculos XIX, XX e XXI

Figura 9 - Modelo físico utilizado no P&D sobre eclusa de navegação

Nessa mesma época o LAHE havia recebido outro grande desafio: realizar o diagnóstico do projeto de viabilidade da usina hidroelétrica de Jirau, no rio Madeira, projeto esse que Furnas vinha desenvolvendo em parceria com outras empresas do ramo. Para atender a essa solicitação o LAHE precisou, num exíguo espaço de tempo, ampliar as suas instalações adequando-as às necessidades de área, volume d’água e vazão exigidas por um empreendimento do porte das usinas da Região Amazônica. Esses estudos foram concluídos em dezembro de 2006. Posteriormente, a topobatimetria implantada nesse modelo foi aproveitada para o estudo do sistema de interceptação e coleta de troncos que estava sendo estudado em conjunto com os empreendedores das usinas de Jirau e de Santo Antônio, ambas no rio Madeira. Foi também estudado no LAHE o modelo de conjunto da usina de Anta, de concessão de Furnas e integrante do complexo Simplício. Esse modelo foi utilizado para o estudo de desvio do rio, diagnóstico das estruturas e definição do plano de operação das comportas do seu vertedouro. Logo a seguir surgiu outro grande desafio: a construção de um posto avançado de trabalho para o desenvolvimento dos estudos em modelo da usina hidroelétrica de Santo Antônio. Somente o modelo de conjunto da usina hidroelétrica de Santo Antônio, na escala 1:80 por exigência da empresa projetista, compreende uma área útil de 4.000 m². Como, para atender a toda essa demanda, as instalações existentes em Jacarepaguá se mostraram insuficientes, o LAHE viabilizou a utilização de outra área de Furnas localizada ao lado da Subestação de São José, em Belford Roxo. Nesse local, com o apoio dos parceiros de Furnas nesse empreendimento, foi montada uma nova unidade do

revelado satisfatórias. Posteriormente foram feitos contatos com outros centros de pesquisa em função das áreas de estudo a que estes estavam se dedicando e novas parcerias surgiram. A diversidade de parceiros é vista como benéfica, pois cada instituição de pesquisa tem características e excelências próprias que aumentam as perspectivas e os horizontes do LAHE. Em parceria com o IPH (Instituto de Pesquisas Hidráulicas) da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), o IME (Instituto Militar de Engenharia) e a UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), os projetos de P&D desenvolvidos geraram doze teses de mestrado e quatro de doutorado. Após 22 anos de existência, em janeiro de 2005 o LAHE foi transformado num órgão oficial de Furnas. Na qualidade de escritório regional da empresa, incorporou em suas atribuições as atividades da área de recursos hídricos da extinta DEPH.T, divisão a qual pertencia. Nessa ocasião, para atender a demanda de serviços e poder fornecer acomodações adequadas ao seu novo corpo técnico, o LAHE teve a área de suas instalações prediais duplicada.

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LAHE para atendimento exclusivo dos estudos da usina hidroelétrica de Santo Antônio. Em contribuição ao projeto dessa usina já foram realizados em modelo: O diagnóstico e otimização do arranjo geral das estruturas; O levantamento da capacidade de vazão dos seus vertedouros; As simulações das condições de desvio do rio; O diagnóstico e otimização do sistema de transposição de peixes;

O último projeto diagnosticado e otimizado no LAHE foi o da usina hidroelétrica Batalha, concessão de Furnas. Encontra-se hoje em andamento a realização dos estudos hidráulicos em modelo reduzido da usina hidroelétrica de Teles Pires, localizada no Rio Teles Pires.

A trajetória do LAHE, desde a sua criação em 1983 até a presente data, esteve calcada na competência e dedicação dos profissionais que atuam nos diversos setores que o compõem, a saber: estudos, projeto, construção e modelagem, operação, documentação cinefotográfica, instrumentação, pesquisa e desenvolvimento, administração e qualidade. Foi com o traba lho e o comprometimento desses profissionais que o laboratório de Furnas conseguiu, ao longo de sua existência, se colocar no patamar de visibilidade em que se encontra. Todo o seu histórico de serviços realizados, tanto para Furnas quanto para clientes externos, sua iniciativa em pesquisas voltadas ao setor de energia, sua política de valorização de pessoal, sua respon sabilidade técnica e, principalmente, seu compromisso com os princípios éticos na condução de seus trabalhos, consolidaram a imagem do LAHE a nível nacional e o tornou conhecido internacionalmente.

Figura 10 - LAHE – Unidade Belford Roxo

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Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens

O Laboratório CESP de Engenharia Civil - LCEC
Flávio Moreira Salles, Wanderley Ognebene, Luiz Morita
O Laboratório CESP de Engenharia Civil - LCEC, instalado em Ilha Solteira/SP, é o mais antigo laboratório de tecnologia das empresas ligadas ao setor elétrico no país, tendo completado 40 anos de existência em agosto de 2009, e considerado uma referência na prestação de serviços tecnológicos para os empreendimentos da CESP e de terceiros. Reviver a história do Laboratório CESP é passar a limpo o desenvolvimento da tecnologia de construção de barragens no Brasil. É verificar como se deu a transposição da ponte do desenvolvimento - passando da total dependência dos estrangeiros ao domínio da arte de construir hidroelétricas no Brasil e permitir a participação em obras de usinas no exterior. Na seqüência foram construídas usina hidroelétrica Jurumirim no rio Paranapanema e usina hidroelétrica Euclides da Cunha no rio Pardo. A partir da segunda metade dos anos 50 foram tomadas algumas iniciativas governamentais, como a instalação da CIBPU - Comissão Interestadual da Bacia Paraná-Uruguai, para estudar o desenvolvimento sócio-econômico e os aproveitamentos energéticos dessa importante bacia hidrográfica. Por solicitação da CIBPU, a Societá Edison de Milão-Itália desenvolveu estudos para o aproveitamento das quedas de Urubupungá, contemplando a construção de duas barragens: uma em Jupiá e outra em Ilha Solteira. Aprovada a construção, realizadas as investigações geológicas, iniciou-se a construção da usina hidroelétrica Jupiá em 1961, que sem dúvida, constituiu-se num marco na história das grandes hidroelétricas do país, quer pela dimensão do projeto e o desenvolvimento técnico que propiciou, quer pelas dificuldades enfrentadas para sua execução. Ainda vivia-se sob forte dependência tec nológica do exterior. O projeto foi desenvolvido no Brasil, mas modelo hidráulico foi feito na França, os estudos de mecânica das rochas realizados no Laboratório Nacional de Engenharia Civil, de Lisboa, e o concreto e seus constituintes estudados na Universidade de Berkeley, nos Estados Unidos. Os frutos desses investimentos foram colhidos a partir do projeto executivo de Ilha Solteira, a hidroelétrica de maior capacidade de geração da CESP, que foi desenvolvido no Brasil.

O início do laboratório com o IPT
A década de 50 se notabilizou pelas iniciativas empreendedoras, destacadas pelo início dos trabalhos de projeto e construção das grandes barragens no Brasil. Particularmente no Estado de São Paulo, a Usina Hidroelétrica Salto Grande no rio Paranapanema foi a primeira, tendo sido totalmente projetada no exterior. Depois se seguiram as usinas Barra Bonita (1952) no rio Tietê e Limoeiro (1953) no rio Pardo, que tiveram assistência de técnicos estrangeiros, principalmente nas questões de hidráulica e de equipamentos.
Usina hidroelétrica de Porto Primavera (Sérgio Motta)

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A História das Barragens no Brasil - Séculos XIX, XX e XXI

Na ocasião da obra, instalou-se em Jupiá, ainda na CELUSA, um laboratório de hidráulica, com a consultoria francesa da SOGREAH (Société Grenobloise d’Etudes et d’Applications Hydrauliques) onde foram estudados os modelos hidráulicos reduzidos da Usina hidroelétrica Ilha Solteira, e posteriormente das usinas Promissão, Água Vermelha, Capivara, Nova Avanhandava, Porto Primavera,Taquaruçu, Rosana e Três Irmãos. Posteriormente, tal laboratório foi incorporado ao CTH, da USP. Em Jupiá foram instalados laboratórios de concreto e solos, formando o Laboratório de Obras, com a colaboração do Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo - IPT: o Laboratório de Solos, implantado quando as ensecadeiras começaram a ser construídas em Jupiá, era caracterizado como área de apoio do Setor de Terraplenagem da obra, e seu quadro era formado por técnicos especializados do IPT que supervisionavam os empregados da recém formada CELUSA - Centrais Elétricas de Urubupungá S.A., proprietária da obra, orientando-os nos ensaios de controle de qualidade. Eram de sua responsabilidade, compreendendo tanto as atividades de campo como as de laboratório, os serviços de controle de qualidade das barragens de terra e de enrocamento, os filtros, drenos e transições e a proteção de taludes, além das sondagens nas jazidas e áreas de empréstimo da barragem e das estradas da região, executados como serviços de apoio para outros setores do empreendimento. A necessidade de se contar com gente experiente em algumas atividades, trouxe para trabalhar na CELUSA e se incorporar à equipe do Laboratório de Obras o técnico Agostinho Maldonado Guirão, com a missão de adequar os ambientes físicos e os equipamentos e implantar os métodos de ensaios, consolidando a Área de Solos. Papel semelhante cumpriu, à época, o técnico Clarindo Brandão na Área de Concreto. O Laboratório de Concreto se instalou no mesmo ano de 1961, sob a supervisão do engenheiro Fausto Cesar Vaz Guimarães. Destacam-se na época, as relevantes análises de aplicabilidade dos materiaisdisponíveis na região da obra para confecção do concreto.

As seções do laboratório de concreto foram implantadas e incrementadas com suas diferentes modalidades e especialidades, para possibilitar o adequado controle de qualidade dos materiais, da produção dos aglomerantes e dos concretos lançados. Foram desenvolvidos estudos multidisciplinares para determinação do mecanismo de desagregação das rochas basálticas e a sua influência no comportamento do concreto, quando usadas como material de construção. Deve-se ressaltar a participação do ilustre professor Arthur Casagrande, que em muito contribuiu para o sucesso dessas pesquisas com suas opiniões e ensinamentos. Importante contribuição foi oferecida pelo engenheiro Heraldo de Souza Gitahy do IPT, em visitas sistemáticas à obra, por suas obser vações e pesquisas da reatividade potencial do seixo rolado do rio Paraná para a reação álcali-agregado, oferecendo ao Brasil o conhecimento dessa anomalia recém descoberta e as conseqüências para o concreto. A constatação de que a composição mineralógica dos terraços aluvionares da região de Jupiá era constituída em grande parte por minerais deletérios, sujeitos a reações químicas com os álcalis do concreto, intensificou a pesquisa para obtenção do inibidor da reação. Após pesquisa com emprego da pozolana artificial produzida no canteiro de obras, a partir da argila calcinada e moída, comprovou-se os benefícios desse material, impulsionando a tecnologia do uso da pozolana, que adicionada à mistura de concreto provoca a mitigação do processo expansivo da reação. Em 1964, o técnico Adonis Thimóteo dos Santos dedicouse à tradução das normas da ASTM - The American Society for Testing Materials e do US Army Corps of Engineers , para a adaptação e implantação dos métodos de ensaios de tecnologia do concreto no Laboratório de Obras, que foram usados por mais de duas décadas no país, suprindo a necessidade de metodologia referência para os ensaios em concreto no Brasil.

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Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens

Figura 1 - Vista aérea do canteiro de obras de Ilha Solteira, mostrando localização do LCEC

O laboratório da CESP
Em 1969, os laboratórios de Concreto e Solos foram transferidos para o canteiro de obras de Ilha Solteira, constituindo-se formalmente o Laboratório da CESP para fazer frente às experiências tecnológicas que aquele projeto exigia, e se consolidando a partir de então, em local para ensaios de materiais da própia CESP, das congêneres no Brasil e do exterior. O Complexo Urubupungá, integrado por Jupiá e Ilha Solteira, se destacou nesse contexto como um marco brasileiro na construção das grandes barragens. E o Laboratório se notabilizou pelo suporte oferecido àqueles empreendimentos, quer pelas inovações tecnológicas conquistadas, quer pela conduta do experimentar para aplicar, desenvolvendo técnicas construtivas e empregando materiais alternativos, e pela metodologia de ensaios oferecida ao meio técnico nacional. Esse processo se deu com maestria, capitaneado por técnicos dedicados e competentes, aos quais muito se deve por essa jornada desenvolvimentista.

O professor Roy Carlson, da Universidade da Califórnia em Berkeley, se destacou neste período, na transferência da tecnologia do concreto para os engenheiros brasileiros, particularmente do concreto-massa, e teve no Laboratório CESP guarida para seus experimentos e ensinamentos. Menção para o engenheiro José Florentino de Castro Sobrinho, idealista determinado, que naquela época como gerente do laboratório estabeleceu os contornos da independência tecnológica externa e a forma de trabalho do Laboratório idealizado, sustentado pelas viagens de intercâmbio aos Estados Unidos, especificamente na Universidade da Califórnia em Berkeley. É inegável a contribuição oferecida por Ilha Solteira à engenharia nacional, com as inovações tecnológicas e novas técnicas construtivas, o emprego de equipamentos e materiais não convencionais. E a participação do Laboratório CESP foi intensa e fundamental, oferecendo suporte para as decisões e garantindo a qualidade do empreendimento. Na construção de Ilha Solteira foi empregado pela primeira vez no Brasil o concreto refrigerado com gelo em escamas, marco pioneiro da CESP, introduzido pelo seu Laboratório de Concreto.

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Médio Tietê. Registra-se importante participação do Laboratório CESP. nos trabalhos de investigação e levantamento de campo nos estudos de viabilidade de aproveitamentos hidráulicos no Estado de São Paulo.Séculos XIX. Em área de destaque. destacando-se as obras das barragens: Itaipu. e instalando instrumentos ou realizando provas de carga nas estruturas. Mecânica dos Solos. o Laboratório reuniu vinte e quatro colaboradores com formação superior em atividades permanentes nas salas de ensaios e nos canteiros de obras. XX e XXI Naquela oportunidade existiam seis áreas distintas. As malhas de linhas de transmissão de responsabilidade da CESP se espalhavam pelo interior do Estado. Diversos foram os clientes. a partir de 1971. Mecânica das Rochas. construía a usina hidroelétrica Água Vermelha. e certificar a eficiência da aplicação de material pozolânico nas misturas para inibir os processos expansivos. reconstruía as usinas acidentadas do rio Pardo. tendo a participação do Laboratório em testes de arrancamento em bases das torres. Aqueles blocos de concreto foram expostos ao tempo e assim estão até hoje. Sob o comando do engenheiro George Antonio Mellios. Sapucaí. instalava o canteiro para as obras da usina hidroelétrica Nova Avanhandava e concluía os projetos básicos para as três obras do Pontal. Ribeira e Alto Mogi-Guaçú. As subestações se multiplicavam. o conjunto de blocos de concreto é conhecido por “cemitério”.LCEC. particularmente da reação álcali-agregado. com quadros especializados e atividades específicas: Concreto e Materiais. Juquiá. ou liberando escavações e tratamentos geológicos. Esse trabalho. com avanços para os estados circunvizinhos. a Unidade foi denominada Laboratório Central de Engenharia Civil . Sobradinho. Figura 2 . Promissão e Paraibuna/Paraitinga. acompanhamento da produção e qualidade dos maciços e dos concretos. Couto Magalhães. Tucuruí. Segurança e Controle de Barragens e Instrumentos e Modelos Estruturais. levantamento e liberação das fontes de agregados e controle das resistências dos concretos. confeccionados com diversos agregados e aglomerantes (desde 1971) Período bastante promissor para o laboratório de ensaios tecnológicos da CESP.A História das Barragens no Brasil . possibilitando acompanhar eventual fissuração e sua evolução. particular mente da equipe de Geotecnia. com os seus diversos barramentos. pois a Companhia vivia época de franca expansão: terminava as construções das usinas hidroelétricas Capivara. O Laboratório Central de Engenharia Civil – LCEC No ano de 1976. desenvolvido pela CESP nos anos 80. pela forma e disposição dos espécimes. com atribuições para atender as demandas internas da CESP e com estrutura que possibilitou intensificar a prestação de serviços a projetos externos nacionais e internacionais. 468 . Nesse período. realizando pesquisas e análises em materiais. possibilitou mapear o potencial energético remanesceste nas bacias dos rios Turvo.Cemitério de blocos de concreto integral. Geologia Aplicada. Alto e Baixo Pardo. Itaparica. e o LCEC realizava os trabalhos de controle da compactação das suas áreas de implantação. para uma no Alto rio Tietê e realizava as investigações no Canal Pereira Barreto. teve início um notável programa de ensaios com a moldagem de blocos para verificar o comportamento de concretos confeccionados com diferentes composições de agregados e de aglomerantes.

CBA . Rosana. Assim como foi mencionada a colaboração dos professores Arthur Casagrande e Roy Carlson. Água Vermelha. reconstrução de Limoeiro e Euclides da Cunha. Miguel Normando Abdalla Saad. Luércio Scandiuzzi. de concessão do Consórcio CESP . Horácio Sverzut Júnior. O Laboratório CESP de Engenharia Civil realizou investigações e pesquisas em materiais e jazidas. Três Irmãos. verificações de processos construtivos e testes para controle de qualidade e acompanhamento das obras das hidroelétricas e barragens da CESP: Capivara. As escavações no Canal Pereira Barreto também contaram com os serviços do LCEC. Sérgio Silva Macedo. Promissão. entre outros. José Eduardo Costanzo. além de Jupiá e Ilha Solteira.Ensaios geotécnicos especiais triaxiais sobre amostras indeformadas usinas hidroelétricas Canoas I e Canoas II. Francelino Fernandes Neto. Taquaruçu. Porto Primavera e Mogi Guaçu. Adilson Barbi. Figura 4 . Nova Avanhandava. João Luiz Armelin. particularmente na caracterização das propriedades geodinâmicas dos arenitos da escavação do Canal Pereira Barreto. Dilermando Hermínio Bispo. Taylor Castro Oliveira.Ensaio de cisalhamento direto em materiais rochosos 469 . Paraibuna. Bento Carlos Sgarbosa. não pode ser omitida a participação do professor Manuel Rocha. Paraitinga. Regis Frota. Luiz Carlos Mendes. Francisco Rodrigues Andriolo.Companhia Brasileira de Alumínio teve a participação do Laboratório nas atividades de controle de qualidade. em modelo diferente daquele praticado até então nas obras da Companhia.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Começaram suas atividades profissionais no Laboratório CESP e de lá partiram para outras conquistas em novos desafios: Ademar Sonoda. Assim como a construção das Figura 3 .

identificadas 470 . com uso de 84 kg/m3. reduzindo o índice de homens/hora por tonelada de barras de aço aplicada. praticado nos anos 70. O emprego de concreto com agregado pré-colocado. com grandes contribuições aos empreendimentos e à Engenharia Nacional.Séculos XIX. A aplicação de pré-moldados incorporados à barragem. O emprego de armadura pré-montada.A História das Barragens no Brasil . Ao seu tempo. Figura 5 .Ensaio de módulo de elasticidade de corpo de prova de concreto de grandes dimensões (450 mm x 900 mm) Estruturas para o controle tecnológico Concluídas as usinas Jupiá e Ilha Solteira. Desenvolvimento de técnicas de produção. com a finalidade de melhor explorar toda a potencialidade do cimento. em alguns pilares da subestação de Ilha Solteira. e oferecia metodologia e procedimentos para padronização das atividades em campo. Uso de cimento de alta finura. através da montagem de moinhos de cimento e pozolana em Jupiá. acima das recomendações das normas. Podem ser citados alguns exemplos na CESP. outras obras de hidroelétricas de concessão da CESP se seguiram. Benefícios técnicos e vantagens econômicas O desenvolvimento de um eficiente Controle Tecnológico dos materiais e produtos aplicados nas estruturas construídas. resultou em benefícios técnicos (bons desempenhos e eficiência dos concretos). desenvolvendo pesquisas e avaliando os materiais e os processos executivos empregados nas obras. O controle tecnológico sempre mereceu atenção e destaque. Emprego de aglomerante em concreto abaixo do limite de 100 kg/m3. e controle da qualidade do produto. XX e XXI compatibilizados com o cronograma de obras. A utilização de caldas refrigeradas e técnicas de injeção a vácuo em cabos de protensão. peculiares a cada empreendimento. com estruturas específicas e atribuições definidas. e a possibilidade de se contar com os serviços de um Laboratório. devidamente b Usina hidroelétrica Três Irmãos Emprego racional e seletivo de alguns basaltos e recusa de outros. que tiveram a participação do LCEC. os canteiros das obras tinham Laboratório de Campo para o acompanhamento das construções e o LCEC em Ilha Solteira executava os ensaios especiais e não corriqueiros. pela formação heterogênea e alterabilidade. a saber: a Usinas hidroelétricas Jupiá e Ilha Solteira A identificação da reatividade potencial álcali-agregado do seixo rolado do rio Paraná e o emprego de material pozolânico para o combate desta reação. conseqüentes vantagens econômicas.

garantindo o produto requerido e evitando-se rejeições. Porto Primavera e Canoas. que foi superior se considerados transporte e criação de bota-fora com volume de 160. com condição de restrição. .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens a partir de estudos conduzidos no Laboratório. d Complexo Canoas Confecção de concretos convencional e bombeado com emprego de areia artificial como agregado miúdo. Desenvolvimento de cimento pozolânico com características específicas de finura e teor de adição do material pozolânico. Alternativa aprovada pelos ensaios desenvolvidos no Laboratório. Vantagens que se apresentaram também junto aos fornecedores. c Usina hidroelétrica Porto Primavera Estudo da viabilidade de emprego do basalto de escavação. empregado nos diferentes concretos da obra de Porto Primavera. avaliando soluções para as mais diferentes situações e controlando os materiais e suas aplicações. no concreto da barragem. atrasos no cronograma e retrabalho. susceptível ao intemperísmo. com economia da ordem de US$ 30 milhões. Taquaruçu. após longo período de exposição. minimizando descarte de materiais. Pesquisa de mercado para definição de cimento a ser aplicado com material potencialmente reativo com os álcalis. trouxe benefícios técnicos com vantagens econômicas significativas. resultando cimento Portland CP IV de excelente qualidade.000 m3 e ampliação da pedreira com decape superior a 10 m. E também nas construções das hidroelétricas Rosana. Verificação da condição aceitável para manutenção dos perfis de veda-junta e de barras de aço aplicadas nos blocos. Considerações finais A atuação do LCEC acompanhando par e passo a evolução da obra. A economia resultante dessa seleção foi de aproximadamente US$ 1 milhão. computando-se o volume de escavação.

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Anexos Anexo 1 .Sócios Mantenedores e Coletivos 473 . Entrevistas Anexo 2 . Seminários Nacionais de Grandes Barragens Anexo 5 . Simpósios sobre Pequenas e Médias Centrais Hidroelétricas Anexo 6 . Congressos Internacionais e Reuniões Anuais e Executivas Anexo 7 . Depoimentos Anexo 3 . Diretorias do CBDB Anexo 4 .

XX e XXI Anexo 1 Entrevista com o engenheiro Eduardo Larrosa Bequio Formação: Faculdade de Engenharia da Universidad de la Republica Oriental del Uruguay. então. Posteriormente. surgiram ações implantadas para resolver a situação de falência econômico-financeira das empresas concessionárias. sempre através de licitação.Larrosa. Em 1968 cursei uma pós-graduação em hidrologia e hidráulica em Madri. Santa Isabel. Tive. FMM . FMM .Em 1974 vim trabalhar na Sondotécnica no Rio de Janeiro em estudos. mas essa vez. também no Rio de Janeiro. Posteriormente fui co-diretor pela contrapartida uruguaia dos estudos dos aproveitamentos hidroelétricos de Salto Centurião e Talavera no rio Jaguarão. 474 . sai do setor estatal e fundei a Larrosa & Santos Engenheiros Consultores. decretos. do Vale do Paraíba do Sul e dos aproveitamentos hidroelétricos de Manso.Ante à falta de recursos. portarias e outros tipos de disposições. Em 1991 fui convidado para trabalhar no DNAEE. A sequência de tarefas que surgiram depois foi imensa e é difícil escolher a mais interessante. contacto com mais de 50 técnicos nacionais e estrangeiros nas diversas disciplinas de uso de recursos naturais. antes de sua vinda para o Brasil como foi a sua carreira no Uruguai? ELB . Entre 1980 e 1991 atuei na Eletronorte.E quando você veio para o Brasil? ELB .Depois dessas experiências em consultoria. Em paralelo à regulamentação do Art 175. meio ambiente. estudo de desenvolvimento integrado desta bacia internacional. na sua maioria estatais (lei 8631/97).que estabeleceu que os serviços de energia elétrica são responsabilidade da União e podem ser outorgados em regime de concessão ou permissão. Exerci também a presidência do Comitê de Irrigação do Leste do Uruguai. entre outros. Lajeado. entre outros. no Projeto Lagoa MirimBrasil/Uruguai/FAO/PNUD.Na sua trajetória no DNAEE. hidroeletricidade. sem este acerto era impossível pensar em reestruturação do setor elétrico. em Rondônia. irrigação.Séculos XIX. as empresas estatais partiram para a paralisação total de seus estudos e obras ou a manutenção em ritmo lento e ajustes no planejamento setorial GCPS (Grupo Coordenador do Planejamento do Sistema). No final de 1997. entre 1978 e 1980.A História das Barragens no Brasil . A necessidade de regulamentar o dispositivo constitucional incorporou varias leis.De inicio trabalhei.Exatamente. etc. FMM . na fronteira entre Brasil e Uruguai. Desse arcabouço sobressai-se a Constituição de 1988.Larrosa. Jirau e Santo Antônio. FMM . no Mato Grosso e de Samuel. em 1968 Entrevistador: Flavio Miguez de Mello Abril de 2010 FMM .Sou engenheiro civil formado em 1968 pela Faculdade de Engenharia da Universidad de la Republica Oriental del Uruguay FMM . ELB . Como foi a época em que a implantação de usinas hidroelétricas era feita com as verbas de desmobilização? ELB .Nos anos oitenta havia sérias dificuldades de investimento na quase totalidade das empresas estatais.Art 175.Como consequência da necessidade de reestruturar o setor elétrico diversas disposições legais foram estabelecidas a partir do final da década de 80. entidade esta responsável pelas outorgas de água para irrigação. economia. você veio para Brasília e permanece aqui até hoje. com a criação da ANEEL. tendo sido gerente do Departamento de Estudos e Projetos de Geração onde foram desenvolvidos empreendimentos em bacias hidrográficas e de usinas. destacando-se as UHE’s Belo Monte. no período 1966/1973. como foi a sua formação profissional? ELB . fui chefe do departamento de Estudos de Recursos Naturais da ECP/Projest. da qual participo da direção até hoje. qual foi a mais interessante tarefa que você vivenciou? ELB . onde fui Coordenador Geral de Concessões.

Posteriormente. Nesse caso abriu-se espaço para a participação privada.Muitas empresas de consultoria e projetistas preparadas para o desenvolvimento de pesados contratos tiveram que cancelá-los. Itá ( Eletrosul) e Serra da Mesa (Furnas). em alguns casos. o Mercado Atacadista de Energia (livre negociação de energia) e o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). prévia aprovação do DNAEE de um Plano de Conclusão. Algumas empresas partiram para este processo enquanto outras permaneceram 475 . Entretanto um grupo menor de empreendimentos com concessões.Foi estabelecida a possibilidade de consumidores livres adquirirem energia diretamente dos geradores dentro de certos limites de carga. a comercialização da energia gerada e ao autoprodutor foi assegurado o consumo para uso exclusivo e venda parcial da energia produzida.Essas restrições financeiras das estatais geraram consequências danosas a todos seus contratados principalmente às empresas de consultoria