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CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

H58 A história das barragens no Brasil, Séculos XIX, XX e XXI : cinquenta anos do Comitê Brasileiro de Barragens / [coordenador, supervisor, Flavio Miguez de Mello ; editor, Corrado Piasentin]. - Rio de Janeiro : CBDB, 2011. 524 p. : il. ; 29 cm Inclui índice ISBN 978-85-62967-04-7

1. Barragens e açudes - Brasil - História. 2. Comitê Brasileiro de Barragens - História. I. Mello, Flavio Miguez de. II. Piasentin, Corrado. III. Comitê Brasileiro de Barragens. III. Título: Cinquenta anos do Comitê Brasileiro de Barragens 11-6197. CDD: 627.80981 CDU: 627.82(81) 22.09.11 029752

20.09.11

Comitê Brasileiro de Barragens - CBDB
DIRETORIA CBDB Presidente: Erton Carvalho Vice-Presidente: Fabio De Gennaro Castro Diretor Secretário: Paulo Coreixas Junior Diretor Técnico: Brasil Pinheiro Machado Diretor de Comunicações: Miguel Augusto Z. Sória Diretor Adjunto: Marcos Luiz Vasconcellos Diretor Adjunto: Ademar Sérgio Fiorini

Agradecimentos
O Comitê Brasileiro de Barragens externa seus agradecimentos às empresas abaixo relacionadas pelo apoio que possibilitou a confecção deste livro que resume o desenrolar de importante segmento da História do Brasil.
Arcadis Tetraplan S/A Banco Bradesco S/A Camargo Corrêa Energia e Construções S/A CEMIG - Companhia Energética de Minas Gerais CESP - Companhia Energética de São Paulo CHESF - Companhia Hidro Elétrica do São Francisco Construtora Norberto Odebrecht S/A Construtora Queiroz Galvão S/A Construtora Andrade Gutierrez S/A COPEL - Companhia Paranaense de Energia DNOCS - Departamento Nacional de Obras Contra as Secas Eletrobras - Centrais Elétricas Brasileiras S/A Eletronorte - Centrais Elétricas do Norte do Brasil S/A Engevix Engenharia S/A Furnas Centrais Elétricas S/A Geobrugg Ag - Protection Systems Grupo Energia Intertechne Consultores S/A. Itaipu Binacional Jeene Juntas Impermeabilizações Ltda. Light S/A Mc Bauchemie Brasil Mendes Júnior Trading e Engenharia S/A Norte Energia S/A Pires Giovanetti Engenharia e Arquitetura Ltda. Sto Antonio Energia

FICHA TÉCNICA Coordenador / Supervisor: Flavio Miguez de Mello Editor: Corrado Piasentin Projeto Gráfico: Modonovo Design - Marina Hochman Diagramação: Modonovo Design - Marina Hochman / Natália Seiblitz Revisão de texto: Margarida Corção Gráfica: Impressul Indústria Gráfica

índice

Prefácio Apresentação Síntese do Desenvolvimento da Implantação das Barragens no Brasil A Comissão Internacional de Grandes Barragens Oitenta e Três Anos de Excelência História do Comitê Brasileiro de Barragens Um Século de Obras contra as Secas As Barragens Construídas pelo DNOCS Resumo da História Remota da Hidroeletricidade no Brasil Usina Hidroelétrica de Marmelos Usina Hidroelétrica de Angiquinho Usina Hidroelétrica de Itapecuruzinho A Light no Rio de Janeiro, a Cidade Luz Sulamericana A São Paulo Light, Fomentadora de Progresso As Barragens do Departamento Nacional de Obras de Saneamento - DNOS A História da CHESF, Indutora do Progresso do Nordeste Furnas no Século XX A Eletronorte e as Barragens da Região Amazônica A História das Barragens no Paraná Companhia Energética de Minas Gerais - CEMIG

9 12 16 48 56 66 76 88
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130 142 150 166 188 206 226 250

CESP Companhia Força e Luz Cataguazes-Leopoldina .Companhia Estadual de Energia Elétrica do Rio Grande do Sul .Energisa Companhia Paulista de Força e Luz .2010 As Pequenas Centrais Hidroelétricas no Brasil A Nova Face das Empresas Estatais frente à Expansão da Oferta de Energia Hidroelétrica no País As Barragens de Rejeitos no Brasil: Sua evolução nos últimos anos A Evolução do Licenciamento Ambiental de Barragens no Brasil A Evolução da Legislação Aplicada às Barragens Centros de Pesquisas Tecnológicas Aplicadas a Barragens .Introdução CEHPAR .IPT .CEEE Companhia Energética de São Paulo .CPFL Breve Memória sobre a Usina de Itaipu 1966 .IPH 272 284 292 304 308 346 354 368 396 406 412 414 426 432 436 O Instituto de Pesquisas Tecnológicas do 446 Estado de São Paulo .50 Anos de muito Trabalho Centro de Tecnologia de Furnas em Goiânia O Laboratório de Hidráulica HIDROESB - Saturnino de Brito SA O Instituto de Pesquisas Hidráulicas .

Congressos Internacionais e Reuniões Anuais e Executivas Anexo 7 . LCEC Anexos Anexo 1 .Depoimentos José Gelazio da Rocha e Antônio Dias Leite Anexo 3 .Entrevistas Eduardo Larrosa Bequio Guy Maria Villela Paschoal Hélio Mendes de Amorim João Camilo Penna José Candido Capistrano de Castro Pessoa Luiz Carlos Queiroz Mario Santos Murillo Dondici Ruiz Olavo Augusto Vieira Anexo 2 .Simpósios sobre Pequenas e Médias Centrais Hidroelétricas Anexo 6 .Sócios Coletivos e Mantenedores 454 464 474 477 483 485 488 491 493 506 509 512 514 516 519 520 522 .LAHE O Laboratório CESP de Engenharia Civil .Seminários Nacionais de Grandes Barragens Anexo 5 .Laboratório de Hidráulica Experimental e Recursos Hídricos de Furnas .Diretorias do CBDB Anexo 4 .

XX e XXI .A História das Barragens no Brasil .Séculos XIX.

O livro retrata as primeiras barragens construídas no Nordeste. Os técnicos brasileiros foram influenciados principalmente pelas organizações americanas United States Bureau of Reclamation e US Army Corps of Engineers. O livro aborda com abrangência o desenvolvimento tecnológico para a construção das barragens brasileiras a partir de 1950. implementou um plano de desenvolvimento regional embasado em estudos dos recursos naturais. climatologia. Além da contribuição nos métodos construtivos das barragens. assim. No Brasil foram iniciadas as construções de grandes barragens. na formação dos nossos engenheiros na área de recursos hídricos e projetos de barragens. envolvendo mapeamentos pedológicos. hidrologia. amenizando os processos migratórios para a Região Sudeste do País. que colaborou. 9 . Pretendemos.Séculos XIX. águas de superfície e subterrânea. O aparecimento e o desenvolvimento das empresas construtoras de barragens constituem fatos de grande relevância. para suporte tecnológico desses empreendimentos. grupo de grande competência. houve um grande desenvolvimento nas áreas de hidrologia e meteorologia. A SUDENE. O primeiro trabalho de inventário dos rios da Região Sudeste foi elaborado pela Canambra Engineering Consultants Limited. quando se iniciou o desenvolvimento do setor elétrico brasileiro. a partir de 1887. Essa política. que previa a formação de reservatórios no semi-árido nordestino.Prefácio Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Em comemoração aos 50 anos de existência do Comitê Brasileiro de Barragens – CBDB – filiado à International Commission on Large Dams (ICOLD). principalmente as de maciços de terra. As barragens surgiram em decorrência da necessidade de se usufruir dos benefícios do uso múltiplo dos recursos hídricos para a população brasileira. teve como uma das principais finalidades a permanência do sertanejo no seu ambiente natural. envolvendo não só homens públicos. dirigida pelo economista Celso Furtado na década de 1960. foram criados vários centros de pesquisas. Paralelamente. XX e XXI”. apresentamos o livro “A História das Barragens no Brasil . apoiadas em estudos e projetos de alta qualidade. abastecimento de água das cidades e pequenos núcleos populacionais. os quais fazem parte dos pontos importantes abordados nesta publicação. entre outras ciências que serviram de suporte para projetos de irrigação e construção de barragens. onde o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS) teve um papel importante com a construção de açudes para irrigação. juntamente com algumas empresas brasileiras. piscicultura. resgatando os principais personagens que contribuíram para o desenvolvimento da nossa engenharia. registrar a história das barragens brasileiras. mas também empreendedores do setor privado e pesquisadores.

selecionadas por região. incluindo os empreendimentos realizados e as respectivas estratégias de desenvolvimento. está retratada com a sua história e importância. o leitor interessado na história contemporânea do desenvolvimento brasileiro. Apresenta. Finalmente. São Paulo (CESP). no que se refere à construção das barragens e seus impactos.Séculos XIX. sendo também responsável pelas obras de controle de cheias em todo país. uma significativa documentação sobre o Departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS) extinto no inicio da década de 1990. aparecem documentadas com a história de suas formações. XX e XXI Este livro registra as primeiras hidroelétricas construídas no país. que faz parte do programa de trabalho do CBDB. irrigação e geração de energia elétrica. ELETRONORTE e ELETROSUL. a maior hidroelétrica brasileira. A usina de Itaipu Binacional. As empresas subsidiárias da ELETROBRAS: FURNAS. Erton Carvalho Presidente do CBDB 10 . não só para a geração de energia elétrica. Rio Grande do Sul (CEEE) e Paraná (COPEL). também. CHESF. o qual realizou vários trabalhos apreciáveis nas áreas de abastecimento de água. bem como as dos estados de Minas Gerais (CEMIG). Destaca-se na Região Amazônica o relato do projeto e construção da usina de Tucuruí. sem a exigência de que ele seja possuidor de conhecimentos técnicos sobre o tema. é também citada nesta publicação. este livro é dirigido a um público abrangente. principalmente.A História das Barragens no Brasil . visando. A preocupação do CBDB em defesa do desenvolvimento sustentável do País está comentada nos tópicos sobre a evolução do licenciamento ambiental para os empreendimentos hidráulicos. A legislação sobre a segurança das barragens. dotada de eclusas para a navegação do rio Tocantins. realçando a importância da Região Amazônica como continuidade do uso dos nossos recursos hídricos. pertencente ao Brasil e ao Paraguai. como também para a integração dos dois países.

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Reservatório de Tucuruí .

” No início dos trabalhos. o dimensionamento dos reservatórios das barragens. Essa distorção já contaminou a legislação ambiental brasileira e. cabe realçar as palavras de Paulo Skaff. Entretanto. planejamento. Belo Monte ser um exemplo de implantação de usina hidroelétrica na Região Amazônica . presidente da FIESP ao analisar as tendências atuais (2011) do setor elétrico: “O Brasil assiste a desqualificação de suas fontes de energia mais competitivas e abundantemente disponíveis. mesmo assim. construção e operação de barragens e reservatórios. em 1998. O Brasil está desperdiçando importantes potenciais hídricos ao limitar. Com a proximidade do cinquentenário do Comitê Brasileiro de Barragens CBDB surgiu. relatórios. a proposta do engenheiro Manuel de Almeida Martins de que se editasse um livro comemorativo versando sobre a história da engenharia de barragens no Brasil. E em tal maneira é grandiosa que. Como voluntários não apareceram. projeto.” Pero Vaz de Caminha. por bem das águas que tem.. para que a implantação de Belo Monte seja um sucesso de sustentabilidade social e ambiental.. foto- 13 . tive que selecionar alguns voluntários que gentilmente aceitaram a tarefa e desempenharam a função de redatores com maestria e objetividade. mais recentemente. o livro acabou apresentando uma certa concentração de capítulos em um autor.. fizeram com que a tarefa se tornasse árdua em função da busca de documentos. licenciamento e distorções legais que propiciam priorização soluções mais poluentes. Ao iniciar a tarefa me deparei com grandes dificuldades provenientes das importantes perdas para a Profissão de inúmeros expoentes da engenharia nesses pouco mais de dez anos que separam as publicações das outras associações da edição do livro do CBDB. envolvendo todos os atores. Outras entidades publicaram livros de escopo semelhante: a ABMS publicou Cinquenta Anos de Geotecnia em 2000 e a ABGE publicou a Edição Comemorativa dos Trinta Anos.” No mesmo sentido. a aproveitar. a ministra Miriam Belchior. estatais e privados. em outubro de 2011. querendo. de questionável segurança e de menor economicidade. os demais serão convencidos Flavio Miguez de Mello de que está sendo feito todo o esforço. emocionalmente. e no espaço. cabendo a mim a tarefa de produzir o livro e publicá-lo no aniversário de cinquenta anos do CBDB. A proposição foi aceita com entusiasmo. exceto os que tenham uma posição ideológica e não técnica (sobre meio ambiente). superando um século. em reunião do Conselho Deliberativo. A propósito. comprometeu o planejamento energético.. e como o assunto a ser abordado no livro é demasiadamente extenso no tempo. Essas perdas de quase uma geração inteira de notáveis pioneiros dos tempos das mais importantes conquistas tecnológicas e da fase pioneira da implantação de grandes barragens para as mais diversas finalidades bem como da época das grandes dificuldades para identificação. de fato. do Planejamento alertou (2011): “Acreditamos que será possível. como são muitos os aspectos enfocados. a Diretoria do CBDB emitiu uma circular a todos os sócios comunicando a intenção de publicar este livro e incentivou os associados a se apresentarem como voluntários na preparação dos diversos capítulos que haviam sido programados. dar-se-á nela tudo. 1500. infinitas. Este livro é lançado em difícil momento para os investidores. por abranger o vasto território nacional. em empreendimentos para qualquer das diversas finalidades de barragens dadas às vigentes dificuldades de aprovação.CINQUENTA ANOS DO COMITÊ BRASILEIRO DE BARRAGENS Apresentação “Águas são muitas.

César Cals de Oliveira Filho e consultores como Manuel Rocha e Porland Port Fox. Victor F. Penna. Por sorte tive o privilégio de conviver profissionalmente com alguns dos mais destacados atores daquele período e que já nos abandonaram. Arthur Crocchi. para visitar pela primeira vez o local da hidroelétrica de Salto Grande em Minas Gerais. Theophilo Benedicto Ottoni Netto. Léo A. Os que atualmente atuam em implantação de barragens podem não imaginar que.A História das Barragens no Brasil . Antônio José da Costa Nunes. Lyra. Usina hidroelétrica Serra do Facão 14 . José Machado e José Cândido Castro Parente Pessoa com os quais tive oportunidades de angariar valiosos depoimentos sobre aspectos de vivências profissionais passadas. Von Ranke. Estive com alguns desses atores com frequência em certas longas fases do exercício profissional tais como os engenheiros Flavio H.B. Epaminondas Mello do Amaral Filho. E. Carlos Alberto Pádua Amarante. o engenheiro John Cotrim gastou duas semanas a cavalo. Com vários outros atores do passado tive contatos menos extensos. XX e XXI grafias e depoimentos que formassem as bases para o relato de uma história de mais de um século de conquistas que merecem registro. John R. mas de elevado interesse no relato de experiências profissionais tais como Mário Penna Bhering.Séculos XIX. Francisco de Assis Basílio. de Mello. Cotrim. por exemplo.

em quase todos os capítulos. Esses contatos. a revisora de texto Margarida Corção e o conselheiro Aurélio Alves de Vasconcelos. Provavelmente foram esses fatores que levaram o Conselho do CBDB a me indicar como responsável pela edição desse livro. Vânia Rosa Costa. além de oposições dos auto-proclamados ambientalistas nacionais e estrangeiros. Viviani Siqueira Vecchi e Walton Pacelli de Andrade. foram em parte devidos à minha atuação profissional na engenharia. os que nos precederam conseguiram. Dessa forma há uma ênfase nas primeiras barragens para saneamento. Considerando que a história recente é mais conhecida por aqueles que acessarem esse livro. Talvani Hipólito Nolasco Filho. Alberto Sayão. Não foi possível mencionar todos os atores e relatar todas as inúmeras atividades de implantação de barragens que ocorreram por mais de um século nesse tão vasto território nacional. José Carlos de Miranda Reis Neto.. Sandra Pereira. Gustavo Nasser Moreira. Angiquinho implantada no Nordeste por Delmiro Gouveia e Itapecuruzinho. Sérgio Pimenta. se consideradas as barragens de rejeitos. construída ainda no Século XIX por Bernardo Mascarenhas. com destaque para as primeiras usinas hidráulicas para fornecimento público de energia elétrica: Marmelos no Sul-Sudeste. de concessão e de licenciamento ambiental. à minha atuação na Universidade e às minhas atividades no CBDB e em outras entidades técnicas.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Desses contatos pude extrair há anos. Henrique Frade. Com uma longa história tão rica a ser resumida num espaço tão curto. o livro inevitavelmente contém omissões pelas quais desde já peço desculpas. pai do atual presidente do CBDB. Leila Lobo de Mendonça. O livro foi enriquecido com textos. O presente livro é resultado do apoio e do incentivo de muitas pessoas entre as quais cabe destacar especialmente a constante compreensão e apoio de minha esposa. André Luiz Fabiani. O relato mais detalhado dessas barragens pioneiras retrata a imagem das imensas dificuldades logísticas de acesso. José João Rocha Afonso. John Denys Cadman. Cavalcanti. é de se notar que há. Teresa Malveira. presentes e atuantes desde a primeira hora. uma ênfase maior na história remota. Julia Ferrer Leal de Araujo. Rosana Libânio. Gisele Miranda Gomes Reis. Alguns relatos apresentados em capítulos deste livro foram obtidos diretamente desses contatos dos que nos precederam na Profissão. para combate às trágicas consequências ocasionadas pelas secas e para produção de energia elétrica. principalmente. T. Mair Melo Andrade. de aprovação. Cleber José de Carvalho. Presentemente. nas mais adversas condições. dos quais guardo recordações as mais preciosas. 15 . entrevistas e informações de alguns dos mais destacados profissionais que atuam na engenharia de barragens em nosso País. de todas as principais atividades que resultaram na implantação de tantas barragens que trouxeram progresso e bem estar ao nosso povo desde o Século XIX. de mais difícil caracterização. Jerson Kelman. José Gelazio da Rocha. Cabe ainda agradecer os importantes apoios recebidos de diversos profissionais entre eles Alberto Jorge C. embora não seja o mais velho. ultrapassa-se a casa das duas mil grandes barragens. Ana Teresa Ponte. Simone Idalgo Machado. implementada na Região Amazônica por Newton Carvalho. Mesmo assim. Delphim Mazon Fernandes. prazos presentemente ina- creditáveis dadas as atuais delongas e dificuldades legais. No CBDB. Og Pozzoli. devo certamente ser o mais antigo por ter sido chamado muito jovem a apoiar as atividades em sua sede. o editor Corrado Piasentin. Agradecimentos são devidos aos autores dos capítulos e aos entrevistados que contribuíram decisivamente para a viabilização do livro. Nicole Schauner. só considerando as grandes barragens. Procurei congregar neste livro narrativas sucintas. para controle de cheias e. Heloisa Ottoni. engenheiro Erton Carvalho. Carlos Mazzaro. implantar barragens e hidroelétricas em até menos de um ano. de obtenção de materiais e de aquisição de equipamentos. Gualter Pupo. porém objetivas. Carlos Henrique Medeiros. Ricardo Ivan Bicudo. Fernando Pires de Camargo. Margaret Rose Mendes Fernandes. informações de elevado conteúdo histórico. no Brasil há bem mais de mil dessas estruturas em operação e. Sobre esse aspecto há um capítulo resumindo as primeiras hidroelétricas nas diversas regiões do País. algumas das quais relato neste livro. Hilton Ahiran da Silveira. João Paulo Maranhão Aguiar. Flavio Pilz. das quatro filhas que passaram mais de um ano sem minha participação em atividades de fins de semana. Paulo Coreixas Jr. Agradeço também aos dirigentes e funcionários do CBDB.

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a quantidade e frequência de precipitações. podendo apresentar descargas específicas médias tão baixas quanto 3 l/s.km². a maior parte do qual se situa no hemisfério sul. Barragem de finalidades múltiplas de Pedra do Cavalo no rio Paraguaçu na Bahia 17 . da cadeia de montanhas próximas à costa no Sudeste até as planícies do Sul e do Meio Oeste. denominada Polígono das Secas. Nessa área.5x106 km². A pequena espessura da cobertura de solo faz com que haja dificuldade em reter a umidade e.” “Acreditamos que os resultados do estudo auxiliarão nos anos vindouros o desenvolvimento da indústria de geração do Centro-Sul do Brasil sobre uma base sólida” John K. A leste desta região encontra-se a região semi-árida do nordeste brasileiro cujos rios são em geral intermitentes. como o substrato cristalino é pouco permeável. A parte central da Região Amazônica é cortada de oeste para leste pelo rio Amazonas. com uma descarga média superior a 200. Nessa área a evaporação média pode atingir 2000 mm/ano e. por exemplo.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens “We trust that the results of the study will help the power industry of South Central Brazil to develop on a sound basis in the years that lie ahead. há diferentes aspectos naturais tais como. O País abriga a quinta maior população do mundo. sendo geralmente esta água insuficiente e de baixa qualidade. o mais caudaloso e mais longo rio do mundo. formado por dois grandes rios. pode ser responsável pelo consumo de até 92% das precipitações.km². Esse grande território tem uma longa fronteira com todos os países da América do Sul à exceção do Equador e do Chile. constituem-se nos grandes recursos hídricos do norte do Brasil.000 m³/s. com exceção dos rios São Francisco (que é proveniente do Sudeste) e Parnaíba. a incidência solar supera as 3000 horas por ano.500 km. o relevo e a vegetação. Os mais importantes tributários desses rios e os rios da bacia do rio Tocantins que flui de sul para norte. a geologia.  Síntese do Desenvolvimento da Implantação das Barragens no Brasil Flavio Miguez de Mello O País e seus recursos hídricos O Brasil é um território contínuo de forma quase quadrada. desde 4° de latitude norte a 33º de latitude sul e de 40 º a 75º de longitude oeste. engenheiro chefe da Canambra. apresentando descarga específica média de 35 l/s. o clima. a precipitação média anual pode ser de 400 mm ou menos. compreendendo 8. Sexton. só é possível acumular águas subterrâneas em regiões de rochas com fraturas profundas. Como o País é de tão grande superfície. com uma extensa costa banhada pelo Oceano Atlântico ao longo de 8. os recursos hídricos. O ambiente varia das planícies alagadas da Amazônia Equatorial e do Pantanal ao Planalto Central. juntamente com evapotranspiração. variando de áreas úmidas ao vasto semi-árido do interior do Nordeste. Quase todos os rios do Nordeste. A maior parte dos seus 190 milhões de habitantes vive na Região Sudeste onde as maiores cidades estão localizadas. 1966. têm regime intermitente em pelo menos parte de seus cursos. o Solimões que drena os Andes peruanos e bolivianos e o Negro.

Um olhar para o passado remoto A mais antiga barragem que se tem notícia em território brasileiro foi construída onde hoje é área urbana do Recife. tendo colapsado em vários pontos.A História das Barragens no Brasil . Nos últimos 40 anos o País tem participado intensamente da economia internacional. PE. A mais antiga barragem que se tem registro no Brasil 18 . no caso de barragens não muito altas. em 1650 sofreu transbordamento por ocasião de uma grande cheia.Séculos XIX. um braço do rio Capiberibe. possivelmente no final do Século XVI. Figuras 1a e 1b . XX e XXI Nesses rios intermitentes. O dique tinha três metros de altura e cerca de 2 km de extensão. antes mesmo da invasão holandesa. muitas vezes sem requerer estruturas de desvio e ensecadeiras. por Harman Agenau por 6000 florins para acesso a um forte também na atual região urbana do Recife. No resto do País as descargas específicas variam de 12 l/s. o tratamento de fundação pode ser feito na primeira estação seca durante a construção e a barragem construída durante a estação seca seguinte. Conhecida presentemente como açude Apipucos. Apipucos na língua tupi significa onde os caminhos se encontram. A barragem original foi alargada e reforçada para permitir a construção de uma importante via de acesso ao centro do Recife.km² a 30 l/s. Há referências também ao dique Afogados construído no rio Afogados. aparece em um mapa holandês de 1577.km². variando entre a oitava e a décima maior economia do mundo.Barragem de Apipucos na cidade do Recife. As secas no Nordeste e o desenvolvimento do País foram os fatores determinantes para a implantação do grande número de barragens construídas desde a última década do século XIX. tendo sido concluído em dezembro de 1644.

Castanhão cuja finalidade principal foi o abastecimento de água da cidade de Fortaleza. logo após a Grande Seca. A rocha sã em geral encontrada nas ombreiras. Os anos 50 e 60 do século passado foram os anos dourados na construção de barragens para combate às secas. diques.CINQUENTA ANOS DO COMITÊ BRASILEIRO DE BARRAGENS As obras contra as secas O ano de 1877 foi o início da maior tragédia nacional devido a fenômeno natural: A Grande Seca no Nordeste com duração superior a três anos deixou cicatrizes que até hoje são nítidas. As principais recomendações foram a construção de estradas para que a população pudesse atingir o litoral e a construção de barragens para suprimento de água e irrigação no Polígono das Secas cuja área é superior a 950. Esse grande rio que nasce na Região Sudeste em Minas Gerais. uma das duas mais antigas grandes barragens do Brasil (1906) Centenas de barragens foram construídas desde a Grande Seca no Nordeste. CE Recentemente foi lançado o projeto de derivação de parte das descargas do rio São Francisco para o Polígono das Secas. situada no Ceará e concluída em 1906.000 km². em vários projetos.Barragem de Cedros. tendo sido palco de migrações em massa de flagelados. Em 1880. conduziu à adoção de vertedouros de superfície simplesmente escavados em rocha sã. canais. Figura 3 – Barragem de Castanhão para abastecimento de água à cidade de Fortaleza.5 milhão de habitantes. Isso marcou o início do planejamento e projeto de grandes barragens no Brasil. o Imperador D. Muitos anos antes. na época com 1. Figura 2 . Pedro II que esteve na área atingida. estações de bombeamento e casas de força para 19 . O estado do Ceará. No seu estágio final a derivação será de 3. A primeira dessas barragens foi Cedros. Na primeira década do século XX uma membrana de alvenaria ou de concreto era usualmente usada como elemento impermeabilizante interno de barragens de terra. Serão construídas diversas barragens. uma das áreas mais atingidas. A pequena altura das barragens e a rocha sã nos leitos dos rios minimizavam a necessidade de tratamento de fundação. outro intenso El Niño foi responsável pela retirada dos invasores holandeses de onde é hoje a costa do Ceará. No final do Século XX o DNOCS executou sua última barragem. tem no seu trecho inferior uma descarga média de longo termo de cerca de 2000 m³/s. Somente a partir de meados dos anos oitenta do século passado passou-se a saber que as secas são devidas ao fenômeno conhecido por El Niño no Pacífico Sul. perdeu mais de um terço da sua população de maneira trágica. nomeou uma comissão para recomendar uma solução para o problema das secas no Nordeste.2% desta descarga para as regiões de seca.

a usina. Em 1934 o decreto federal nº 24643 conhecido como Código de Águas e o cancelamento da cláusula ouro que protegia as empresas concessionárias dos efeitos da desvalorização da moeda nacional. Logo após a II Guerra Mundial. para suprimento de energia elétrica à cidade de São Paulo. dessas unidades estão sendo agora reabilitadas e repotenciadas. A maior parte das barragens eram estruturas de concreto gravidade ou de alvenaria de pedra. Arthur Casagrande e Portland Port Fox. era de alvenaria de pedra constituída por grandes blocos de rocha gnáissica solidarizados com argamassa.A História das Barragens no Brasil .5 m³/s do rio São Francisco. o setor elétrico foi aos poucos sendo estatizado.700 MW provinham de hidroelétricas. Durante as estações chuvosas na bacia do rio São Francisco poderão ser bombeadas até 127 m³/s . Por esse motivo as mais importantes contribuições no sentido de desenvolvimento de tecnologias de projeto. Inicialmente denominada Parnaíba e depois Edgard de Souza. No final do século passado. A maioria das grandes barragens do Brasil (pela classificação da CIGB) encontra-se na Região Nordeste. Assim. Os danos ao progresso da Nação foram intensos e irrecuperáveis. na época uma das maiores do mundo. passou a haver insuficiência de oferta de energia nas décadas seguintes. Em 1960. Em 1954 a antiga usina foi substituída por unidades de recalque e a barragem alteada para 18. um vertedouro de soleira livre. dos quais 3. construiu diversas barragens e grandes casas de forças subterrâneas no Rio de Janeiro e em São Paulo. transmissão e distribuição de energia elétrica. quando inaugurada. Até os anos cinquenta todas as empresas de energia elétrica eram privadas e as suas usinas eram situadas principalmente nas regiões Sul e Sudeste. A primeira usina da Light entrou em operação em 1901. sem serem muito altas. que entrou em operação em 1906 no estado do Rio de Janeiro com o objetivo de derivar as águas do ribeirão das Lajes para da usina de Fontes no Rio de Janeiro. No final do Século XIX começaram a ser implantadas pequenas usinas para suprimento de cargas modestas e localizadas. Muitas 20 . Presentemente (2011) há 1206 MW instalados em hidroelétricas de mais de 50 anos de idade. em grande parte de sua extensão.Séculos XIX. devido à desastrosa e desastrada política de restrição tarifária iniciada pelo Código de Águas que incluiu o não reconhecimento de remuneração de capital empregado em obras de geração. passaram a desencorajar diretamente os investidores do setor elétrico. Esse estrangulamento fez com que o governo federal e alguns governos estaduais criassem empresas de energia elétrica. construção e operação de barragens são principalmente devidas à implantação de hidroelétricas. concessionária da mais desenvolvida região do País. em função das intensas alterações nos coeficientes hidráulicos de sua área de drenagem devido à ur banização da cidade de São Paulo e das cidades vizinhas. a capacidade instalada no território nacional era de apenas 5. Devido à contenção tarifária e à fragilidade do capital nacional.5 m através de reforços em contrafortes e com vertedouro com três comportas de segmento de capacidade conjunta de 800 m³/s. As primeiras barragens para produção de energia elétrica Nas regiões Sul e Sudeste a implantação de barragens foi principalmente direcionada para produção de energia elétrica. sendo. no rio Tietê. As primeiras grandes barragens do País foram Cedros acima mencionada e Lajes. Serão bombeados 63. não muito altas.000 MW. a Light. todas com barragens de dimensões discretas. o vertedouro foi redimensionado com considerável acréscimo de capacidade. XX e XXI geração de energia. tinha 2 MW instalados. Para esses empreendimentos consultores individuais prestaram importante apoio tais como Karl Terzaghi. Desde o início dos anos cinquenta as concessionárias estatais passaram a se concentrar em empreendimentos de grandes vultos. sua barragem original com 12. tendo sido causado intenso estrangulamento na expansão de oferta de energia elétrica. a maior parte delas em aterro compactado.5 m de altura.

Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A evolução do conhecimento dos recursos hidroenergéticos. John Cotrim. A Light. O legado da Canambra Na primeira metade do século passado. a partir dos anos sessenta. sem o conhecimento dos potenciais do rio Grande e do rio Paranaíba. diretor técnico da Cemig. uma das duas grandes barragens mais antigas do Brasil (1906) suprimento de energia elétrica às mais importantes regiões no Rio de Janeiro e em São Paulo. Nessa época. efetuava estudos dispersos. Nessa expedição foi identificado o local de Furnas 21 . passaram a ser designados por estudos de inventário. responsável pelo Figura 4 – Barragem e reservatório de Lajes. organizou uma expedição pelo rio Grande entre dois potenciais conhecidos: os locais das usinas de Itutinga e de Peixoto. dada a escassez de mapeamento e as dificuldades logísticas. os recursos hídricos em território brasileiro eram pouco conhecidos e não tinha havido ainda estudos sistemáticos que posteriormente. tendo inclusive atingido as Sete Quedas. muito mais próximos.

XX e XXI que posteriormente deu origem à empresa de mesmo nome. inclusive termoelétricas a carvão. um em São Paulo e um no Rio de Janeiro. Cemig assinou.K. os estudos passaram a ser conhecidos como Canambra. Sexton. A área total investigada foi de 1. em 2 de novembro de 1962. os estudos foram estendidos à toda a Região Sudeste através de um contrato assinado entre a Canambra e Furnas. Ao abrigo desse recurso financeiro. Com esse propósito. um em Belo Horizonte. a John Cotrim. Como reflexo desse levantamento veio o objetivo da Cemig de efetuar um levantamento dos recursos hidroenergéticos de Minas Gerais.1 milhão de quilômetros quadrados cobrindo 28. A descoberta desse potencial causou espanto no meio técnico da época.A História das Barragens no Brasil . o que demandou aerofotografias de uma área de 516. de estender os estudos à toda Região Sudeste considerando a importância desses estudos para a otimização dos investimentos em geração de energia elétrica e como todos os rios que nascem em Minas Gerais atravessam outros estados. o ministro Gabriel Passos das Minas e Energia e os governadores dos estados de Minas Gerais.8 milhões. Com a sugestão do Banco Mundial que atuou nesse inventário como agente executivo do UNDP. em 3 de junho do ano seguinte. usando 3. a Canambra foi contratada para efetuar estudo de mesmo escopo para a Região Sul. Nas fases posteriores de implantação das usinas. O relatório final foi entregue por J.000 km de rios. São Paulo. Crippen & Associates Ltd. a maioria esmagadora dos estudos realizados pela Canambra foi posteriormente aprofundada nas etapas sucessivas de projeto dentro das diretrizes inicialmente estabelecidas. Rio de Janeiro e Guanabara assinaram em 1 de março de 1963 o Plano de Operação. Os estudos de inventário constituíram-se em atividade sem precedente.Séculos XIX. um consórcio entre as empresas consultoras canadenses. um contrato com a Canambra Engineering Consultants. A partir dos anos oitenta os estudos anteriores começaram a ser revisados e densificados em quase todo o território nacional. Inicialmente conhecido como ONU-Cemig. o UNDP disponibilizou recursos da ordem de US$ 2. nos anos setenta. o governo federal se interessou vivamente pela iniciativa da Cemig e. havendo a contrapartida em moeda nacional no equivalente a US$ 3. para formatar o programa final de desenvolvimento energético da Região Sudeste. Montreal Engineering Company Ltd. e G. Posteriormente. Progressivamente as condicionantes ambientais foram ganhando espaço nas definições de projetos em inventários. e a americana Gibbs & Hill Inc. para que fosse realizado o inventário dos recursos hidroenergéticos em Minas Gerais.E. A partir de poucos anos Figura 5 – Grupo de Minas Gerais da Canambra trabalhando no escritório central da Cemig 22 .000 MW.7 milhões. chefe do Comitê de Direção dos Estudos. Um exemplo típico foi a revisão do inventário do rio Paraibuna em Minas Gerais que havia sido feito nos anos oitenta. diretor da Canambra. Os dois primeiros grupos acima mencionados desenvolveram o inventário dos recursos hidroenergéticos em relatórios independentes e o grupo sediado no Rio de Janeiro usou os resultados obtidos adicionados a investigações de outras possíveis fontes geradoras. em dezembro de 1966.. tendo direcionado o desenvolvimento hidroenergético da região. Foram identificados como viáveis potenciais que somados atingiram 40. Três grupos foram formados.700 horas de voos de reconhecimento. Considerando o sucesso dos estudos desenvolvidos na Região Sudeste. englobando 510 locais de barragem dos quais 264 foram levantados com melhor precisão. A Cemig solicitou apoio financeiro ao Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (UNDP sigla em inglês). empresas nacionais realizaram estudos de inventário hidroenergéticos nas regiões Norte e Nordeste. a óleo e usinas nucleares.000 km². Para tanto.

foram progressivamente alterados para reservatórios de menores dimensões. feriados e noites de lua cheia. são liberados para a canoagem pela barragem de derivação a descarga de 50 m³/s. maior número de usinas com quedas mais modestas e pequenos trechos inaproveitados.PCH Bonfante no rio Paraibuna. ideal para a prática da canoagem. garantindo melhores condições do que as condições naturais. tendo sido implantados a partir do início dos anos noventa. Apesar de pequena perda energética em relação à partição de queda proposta nos anos oitenta. Rio de Janeiro e Minas Gerais Figura 7b . Foram definidos os aproveitamentos de Picada. Monte Serrat. Durante os dias de fim de semana. atolados na beira do rio. 7a 7b Figura 7a . Rio de Janeiro e Minas Gerais Figura 7c . mostrando as dificuldades logísticas durante os levantamentos de campo efetuados pela Canambra após seu término. quase sempre objetivos antagônicos.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 6 . Sobragy.John Cadman fotografado por John Cabrera. os projetos que pelas exageradas dimensões de seus reservatórios inundariam centros urbanos e grandes extensões de obras de infraestrutura viária. Rio de Janeiro e Minas Gerais 7c Figura 7d – Rafting no rio Paraibuna sobre a soleira vertedora da barragem de derivação de Santa Fé 7d 23 . Na usina que fica mais a jusante foi possível a compatibilização inédita do aproveitamento energético com a canoagem.PCH Monte Serrat no rio Paraibuna. os empreendimentos passaram a ser econômica e ambientalmente viáveis. Bonfante e Santa Fé com pequenas áreas inundadas.PCH Santa Fé no rio Paraibuna. Cabuy.

em sua maioria esquemas de baixa queda para torná-los ambientalmente viáveis.A História das Barragens no Brasil .PCH Lavrinhas antes e depois do enchimento do reservatório. Essas PCHs. a menos das usinas existentes ou aprovadas entre as quais o complexo de Simplício. XX e XXI Influenciada por essas alterações. Dentre os aproveitamentos de baixa queda destacam-se as PCHs gêmeas Queluz e Lavrinhas. Figuras 8a e 8b – PCH Queluz antes e depois do enchimento do reservatório. Em primeiro plano a ferrovia de concessão da MRS e ao fundo a ponte da rodovia Presidente Dutra BR-116 Figuras 9a e 9b . Dessa revisão dos inventários existentes resultou o projeto de mais de cinquenta novos aproveitamentos. construídas no rio Paraíba do Sul a montante do reservatório do Funil. com 30 MW cada. assim denominadas por terem todos os equipamentos idênticos. foram concluídas em 2011 e tiveram seus reservatórios condicionados pela infraestrutura viária do local.Séculos XIX. a ANEEL contratou a Es cola Politécnica da UFRJ em 2000 para reestudar toda a bacia do rio Paraíba do Sul com atenção especial aos impactos ambientais. Em primeiro plano a ferrovia de concessão da MRS e ao fundo a rodovia Presidente Dutra BR-116 24 .

John R. a concentração de investimentos em poucos. Entretanto. 25 .Lyra.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Alterações nos critérios tarifários e a consequente ampliação de implantação de hidroelétricas Nos anos sessenta e setenta. devido ao estabelecimento do critério da verdade tarifária introduzido no início do governo Castelo Branco por Bulhões de Carvalho e Roberto Campos. A partir da esquerda Flavio H. Lyra preocupado com a concepção do projeto Nos anos oitenta e noventa um menor número de hidroelétricas entraram em operação devido à carência de recursos financeiros das estatais causada principalmente pelos impactos na economia nacional devidos aos dois choques do petróleo e a crescente inflação. resultando no que mostra a tabela a seguir. Juscelino Kubitschek de Oliveira. Figura 10 – Local da usina hidroelétrica de Furnas no início de sua construção. continuou. Cotrim. Todos olhando para o fotografo a menos de Flavio H. um impressionante número de grandes hidroelétricas foram construídas e entraram em operação. algumas das quais entre as maiores do mundo na época. Benedito Dutra e outros. mas grandes empreendimentos.

A História das Barragens no Brasil .540 S SE/CO NE SE/CO S SE/CO TE/CG TE/CG BEFC TE/CG TE/CG TE/CG BEFC TE/ER/CG TE/CG BEFC TE/CG TE/CG ER TE/CG BEFC CCR ER ER ER TE/CG ER Figura 12 – Usina hidroelétrica de Salto Santiago no rio Iguaçu Figura 11 – Casa de força e vertedouro da usina hidroelétrica de Tucuruí GA/CG/CT/ER/TE Região Tipo de Barragem 3.370 N 7.462 1.710 1.Séculos XIX.050 SE Legenda: N S SE NE CO TE ER BEFC CG CCR GA CF Região Norte Região Sul Região Sudeste Região Nordeste Região Centroeste barragem de terra barragem de enrocamento com núcleo de terra barragem de enrocamento com face de concreto barragem de concreto gravidade barragem de concreto compactado com rolo barragem de concreto em gravidade aliviada barragem de concreto em contrafortes Figura 13 – Usina hidroelétrica de Itá em final de construção 26 .551 SE/CO 1.440 SE 1.078 S 1.676 1.162 NE 2.450 S 1.396 1.240 S SE S Marimbondo 1. XX e XXI TABELA 1 Maiores Hidroelétricas em Operação em 2011 Hidroelétrica Tucuruí Itaipu (Brasil) Ilha Solteira Xingó Paulo Afonso IV Itumbiara São Simão Foz do Areia Jupiá Porto Primavera Itá Itaparica Salto Santiago Água Vermelha Segredo Salto Caxias Furnas Emborcação Salto Osório Sobradinho Estreito Potência (MW) 8.479 NE 1.050 NE 1.082 SE/CO 1.216 SE 1.420 1.000 3.260 S 1.192 SE/CO 1.444 2.

784 20 54 Itaipu* 1. consequentemente.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Extensos reservatórios foram criados para algumas dessas grandes hidroelétricas. Reservatório de maior área do Brasil Sobradinho 4.214 34 Tucuruí 3.360 17 Porto Primavera Serra da Mesa 2. o de maior volume do Brasil 27 . Figura 15 – Reservatório da usina hidroelétrica de Serra da Mesa.007 50 Balbina 2.350 29 *Incluindo a parte do reservatório sobre território paraguaio.250 1. otimização de operação e confiabilidade no suprimento de energia elétrica. TABELA 2 Maiores Reservatórios Barragem Área (km²) Volume (km³) Extensão (km) 350 170 225 250 116 170 Figura 14 – Usina hidroelétrica de Sobradinho. Tais reservatórios passaram a propiciar benefícios de regularização de vazões e.

Como esses valores eram insuficientes para manter o ritmo ideal de construção. Em 2008 mais de 95% da população tinha acesso a serviço público de eletricidade compreendendo mais de 99% dos municípios.816 MW em 1768 usinas geradoras das quais 706 eram hidroelétricas. 345 kV. Uma segunda alteração na legislação ocorreu em 2004 mantendo o processo de licitação para novos projetos. XX e XXI Desde pouco antes do início dos anos oitenta o governo federal e os governos estaduais passaram a enfrentar grandes dificuldades para prover recursos necessários para a implantação de novas usinas e de sistemas de transmissão. Essas verbas correspondiam aos valores que seriam despendidos caso as obras viessem a ser paralisadas. alterações operacionais e licitações 28 . perante à reiterada ameaça da Eletrobras em não cumprir o contrato de financiamento com a Cemig. essas obras ficaram sujeitas a vultosos dispêndios devido aos acréscimos de custo de construção e à maior incidência de juros durante a construção. A hidroeletricidade nos anos recentes Em 1996.398 MW.Empresa de Pesquisa Energética) foi criada para o desenvolvimento do planejamento do setor elétrico. esta denunciou a Eletrobras ao Banco Mundial. Pouco depois foi instituída a Agência Nacional de Águas e o Operador Nacional do Sistema. Nos últimos 10 anos a média anual do aumento da capacidade instalada foi de 3652 MW. promovem benefícios para outras áreas. a carga de impostos na geração de energia elétrica é de cerca de 45% da tarifa cheia. tendo afetado negativamente as empresas contratadas para fornecimento de serviços e de bens de capital. teoricamente privada. 500 kV e 750 kV. Está programada para futuro próximo a interligação entre a margem sul e a margem norte do rio Amazonas. Há poucos anos atrás bem mais de 90% da capacidade instalada provinha de usinas hidroelétricas. Nas obras federais houve intensa concentração de recursos na construção das maiores usinas. ficando as demais obras federais sujeitas às verbas de desmobilização. Presentemente empresas de geração. e depois em Xingó. uma importante modificação ocorreu no setor elétrico com a criação da Agência Nacional de Energia Elétrica. para concessões têm sido processado pela ANEEL. Considerando as funestas e intensas consequências ao País em outros empreendimentos financiados pelo Banco Mundial. Uma empresa federal (EPE . Entretanto. é servido por mais de 90. entidade. Impostos. as novas hidroelétricas. a Eletrobras foi obrigada a cumprir o contrato. que atua na coordenação e no controle da operação das geradoras e dos sistemas de transmissão. Em novembro de 2008 a capacidade instalada no País era de 104. Ao final de 2008 essa proporção caiu para 74% devido ao planejamento para a diversificação de fontes geradoras e às dificuldades de obtenção de licenciamentos ambientais para barragens e reservatórios. Devido ao sistema ser interligado em grande parte do território nacional. As transações de compra e venda de blocos de energia no sistema interligado de transmissão são feitas sob os auspícios do Mercado Atacadista de Energia através de contratos bi-laterais de curta duração. apesar do grande número das grandes usinas hidroelétricas que operam há mais de 30 anos estarem teoricamente depreciadas.000 km de sistemas de transmissão interconectados em 230 kV. a energia elétrica disponibilizada no Brasil possa ser a mais cara do mundo devido principalmente a essa elevada carga tributária. de distribuição. Em abril de 2011 a capacidade total instalada no País passou a ser de 112. nomeadamente em Itaipu e Tucuruí. Uma grande parte do território brasileiro. de comercialização e outros investidores são encorajados a implantar usinas de geração e sistemas de transmissão. ficando assim concessionário da usina ou do sistema de transmissão. 440 kV. 1042 termoelétricas e duas termonucleares. mas tornando-se vencedor aquele que apresentasse a menor tarifa. com exceção de sistemas isolados na Região Norte. bem como comercializar a energia produzida ou transmitida. Um dos casos extremos ocorreu na implantação da hidroelétrica de Emborcação que.A História das Barragens no Brasil . através da Lei 9427.Séculos XIX. o que faz com que. além de suprirem energia na sua região. Como resultado. Todo o planejamento concernente a privatização. de transmissão. um vasto sistema de transmissão em alta tensão e em extra alta tensão promove a interligação de várias regiões do País ao sul do rio Amazonas unindo os dois maiores sistemas nacionais: o Norte/ Nordeste ao Sul/Sudeste/Centroeste.

134% superior à média das tarifas industriais nos outros países do BRIC (Brasil. a FIESP entrou com representação no TCU solicitando intervenção para que providências sejam tomadas no sentido de garantir a execução das licitações de concessão. Prevê-se que em 2015 cerca de 20% do parque gerador. 70. pequenas barragens. Para tanto.000 km de linhas de transmissão e 33% dos contratos de distribuição deverão ter suas concessões licitadas. no caso de Furnas. Índia e China) que se situam em R$140.PCH Calheiros 19 MW no rio Itabapoana. Rússia. pois os investimentos na construção das usinas e nos sistemas de transmissão já foram amortizados há muito tempo. deverá fazer com que as tarifas venham a ser consideravelmente reduzidas. As hidroelétricas a serem licitadas já estarão totalmente depreciadas. Entre 2015 e 2017 muitas das concessões das maiores hidroelétricas e dos sistemas de transmissão estarão vencidas. a intensa redução das tarifas que beneficiaria os contribuintes e recolocaria a competitividade da indústria nacional no mercado externo. compreendem a 5000 MW em seis usinas. CEMIG e COPEL formaram um grupo para discutir o problema e tentar influenciar uma alteração na legislação visando prorrogações das concessões. além de ativos em sistemas de transmissão.7/MWh. pelo espírito da Lei. considera que com as licitações as tarifas despencarão a níveis de 20% dos atuais. Desde a última década do século XX. poderá perder até 52% do seu atual faturamento caso as concessões que vencem no período acima mencionado. Figura 16 . Pela legislação em vigor essas concessões retornarão à União que deverá efetuar licitações para definição de novos concessionários. intenso lobby para a manutenção das atuais concessões. Por outro lado a FIESP defende que a legislação não venha ser alterada ou violentada e que as licitações sejam feitas. vertedouros de superfície em lâmina livre e casas de força em posição remota em relação às barragens. por exemplo. Essas concessões. Furnas. um grande número de investidores têm atuado na implementação de pequenas centrais hidroelétricas até o limite de 30 MW instalados.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens taxas e contribuições mandatórias em uma conta de consumo de energia elétrica em residência de classe média quando comparada ao custo direto da energia fornecida. Em estudo recente a FIRJAN considerou críticos os níveis dos quatorze encargos cobrados sobre a energia elétrica. se situam no entorno de 85%. com o elevadíssimo nível dos encargos sobre o fornecimento da energia elétrica. faria com que o governo perdesse arrecadação o que não costuma ser aceito pelos políticos da situação. não venham a ser renovadas. Presentemente (meados de 2011) a tarifa média para a indústria no Brasil é de R$ 329/MWh. o que. entre os estados do Rio de Janeiro e Espírito Santo Figura 17 – Barragem da PCH Ivan Botelho II (Palestina) em Minas Gerais 29 . Em abril de 2011 as grandes concessionárias como CESP. Tem havido por parte das atuais concessionárias e de governos estaduais. um dos principais problemas é que. Entretanto. A esmagadora maioria dessas pequenas usinas tem modestos reservatórios. As atuais concessionárias terão que se adaptar à nova realidade.

extremamente baixa em comparação com a média nacional. Outras grandes hidroelétricas como Tucuruí (0. a relação entre área inundada em km² e a capacidade instalada em MW é de cerca de 0. serão implantadas duas casas de força. A descarg a remanescente é a maior que se tem notícia. O rio Madeira drena uma extensa área da Cordilheira dos Andes na Bolívia.10 km²/MW) e Serra da Mesa (1.233 MW no rio Xingu. A média nacional é de 0. pequena estrutura (barragem) de derivação Hidroelétricas de porte médio são também atraentes a investidores privados por apresentarem. Os vertedouros dessas duas barragens foram dimensionados para as descargas decamilenares de 82. Figura 19 – Usina hidroelétrica de Monjolinho com vertedouro do tipo lateral Grandes hidroelétricas estão presentemente sendo construídas.05 km²/MW. que fluirão pela casa de força complementar. Entretanto.3 km². a usina aproveitará a queda na grande curva do Xingu. Encontra-se em início de construção a hidroelétrica de Belo 18 – PCH Cachoeira em Rondônia.49 km²/MW. 700 m³/s. Por restrições ambientais e com a finalidade de se conseguir o licenciamento ambiental. Itaipu (0. O empreendimento afetará 4300 famílias urbanas e 800 famílias rurais.000 m³/s.5 m de queda líquida.5 m de queda líquida e outra.29 km²/MW). Monte que terá a capacidade instalada de 11. no seu conjunto.08. com 233 MW com unidades bulbo sob 11. Localizada nas proximidades de Altamira. um dos maiores tributários do rio Amazonas.Séculos XIX. uma com 11. denominada casa de força complementar. em relação às empresas estatais. no Pará.40 km²/MW) embora com relações modestas. As hidroelétricas de Jirau e Santo Antônio. teve seu projeto abandonado e a área do reservatório de Belo Monte que inicialmente era de 1225 km².A História das Barragens no Brasil . Pelo projeto em processo de licenciamento.600 m³/s e 84.000 MW com unidades Francis sob 87. situadas no rio Madeira a montante de Porto Velho terão. Esse aproveitamento está sendo estudado há trinta anos. passou para 516 km². cerca de 30 . Os reservatórios com área de 258 km² e 271. sendo cada um equipado com 20 comportas de segmento de 20 m x 25. A hidroelétrica de Belo Monte terá baixa relação entre a área do reservatório e a capacidade instalada: 0.2 m. A ausência de reservatórios de regularização no rio Xingu faz com que o fator de capacidade seja muito baixo. Ambas casas de força abrigarão unidades bulbo operando praticamente a fio d’água. apresentam índices mais elevados. menores custos internos. a barragem de Babaquara que regularizaria o rio Xingu a montante de Belo Monte. inundarão terrenos da Floresta Amazônica. XX e XXI 6900 MW instalados.

Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 20 – Usina hidroelétrica de Santa Clara em Minas Gerais Figura 21 – Barragem vertedoura da hidroelétrica de Picada em Minas Gerais Figura 22 – Obras da usina hidroelétrica de Santo Antônio no rio Madeira 31 .

Um exemplo marcante é a Companhia Brasileira de Alumínio CBA que por longo período foi o maior auto-produtor de energia elétrica do País. Afirmou ainda que considerava estratégico ter a garantia de produção de pelo menos 50% da energia necessária à sua indústria. Nesse período.4 MW. Com os principais potenciais do rio Juquiá-Guaçu explorados. também situada na Amazônia.87 MW. sendo um empreendedor privado. o engenheiro Antônio Ermírio de Moraes externou as dificuldades que encontrou. tendo construído as hidroelétricas de Piraju com 80 MW que entrou em operação em 2002 e Ourinhos em operação desde 2006. a Votorantim e muitas outras. Em conversa com o autor. em 1974.Séculos XIX. em 1974 Alecrim com 72 MW. Assim. em 1978 Serraria com 24 MW.A História das Barragens no Brasil . Como a São Paulo Light não dispunha de energia para garantir o fornecimento à CBA. em 1986 Barra com 40. XX e XXI A hidroelétrica de Estreito. em 1982 Porto Raso com 28. a CBA adquiriu da São Paulo Light a hidroelétrica de Itupararanga com 55 MW. a CBA partiu para o médio rio Paranapanema. SP. a CSN. indústria eletrointensiva. e montar uma fábrica de alumínio. em 1989 Iporanga com 36. A concessão só foi outorgada em 1952.4 MW. finalmente. No início dos anos quarenta a família Carvalho Dias e o empresário. a Petrobrás. esta requereu a concessão do rio Juquiá-Guaçu e do seu afluente Assungi. para a obtenção da concessão. engenheiro e político José Ermírio de Moraes fundaram a CBA para exploração da jazida de bauxita que havia sido identificada nas terras dos Carvalho Dias nas proximidades de Poços de Caldas. MG. projetada para 1087 MW instalados encontra-se (maio de 2011) em início de operação comercial após quatro anos de atrasos devido a demoras no licenciamento ambiental e a paralisações referentes a ações judiciais e a atos de ocupação indevida de seu canteiro de obra. em São Paulo 32 . Em 1942 o DNAEE determinou que a São Paulo Light suprisse de energia elétrica a fábrica que estava projetada para ser construída no município de Mairinque. Figura 23 – Barragem da usina hidroelétrica de Barra no rio Juquiá.4 MW e. em 1963 Fumaça com 36. A auto-produção de energia elétrica tem movimentado em anos recentes várias empresas de grande vulto como a Vale. a CBA deu início à implantação de uma série de usinas no rio Juquiá-Guaçu: em 1958 entrou em operação a hidroelétrica de França com 24 MW.

Barragem da usina hidroelétrica de Fumaça. no rio Juquiá. em São Paulo Figura 25 – Projeto da barragem da usina hidroelétrica de Barra Figura 26 – Projeto da barragem da usina hidroelétrica de Fumaça 33 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 24 .

são conhecidas mais de 700 barragens em Minas Gerais e pelo menos 150 outras nos demais estados da Federação. Embora não haja um registro de barragens de rejeitos no País. Barragens de rejeitos Atividades de mineração representam um importante segmento na economia nacional. com barragens de concreto de gravidade aliviada. detentor da CBA Figura 28 .Séculos XIX.Usina hidroelétrica de Piraju no rio Paranapanema entre São Paulo e Paraná 34 . XX e XXI Os projetos das hidroelétricas da CBA no rio Juquiá-Guaçu foram todos de concepção italiana. Edilberto Maurer e Valério Mortara para o qual o autor teve o privilégio de entregar o título de engenheiro eminente pela Associação dos Antigos Alunos da Politécnica em 2000. A barragem do Germano. Além do acompanhamento constante do engenheiro Antônio Ermírio de Moraes. O método de construção mais empregado é o método de monFigura 27 – Antônio Ermirio de Moraes principal executivo do Grupo Votorantim. a maior do País. Newton Sady Busetti. o executivo da empresa era o médico Miguel Carvalho Dias que contava com a importante colaboração de vários engenheiros de destaque na profissão entre eles Carlos Mazzaro.A História das Barragens no Brasil . Devido à legislação ambiental. um grande número de barragens de rejeitos foram construídas ou estão presentemente em construção. que atualmente (maio de 2011) está com 155 m de altura é projetada para atingir 170 m de altura no seu estágio final.

Nos primeiros anos dos anos noventa diversas barragens que antes eram controladas pelo DNOS ficaram sem qualquer controle e sem responsável pela operação e segurança. O maior e mais famoso desses lagos artificiais é o reservatório de Paranoá.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens tante. Durante a estação chuvosa de 2009 uma grande cheia ocorreu na bacia do rio Itajaí e as três barragens não foram suficientes para controlar toda a descarga afluente. Figura 29 . Os dois mais destacados empreendimentos foram o sistema de controle de cheias do rio Itajaí em Santa Catarina. principalmente nos trechos sobre terrenos sedimentares recentes. não são capacitados técnica e financeiramente. têm de enfrentar por conta própria os problemas de controle de cheias. Entretanto.Eclusas da barragem de Três Irmãos sobre o rio Tietê Paisagismo Desde a construção. Foi adotada uma barragem de terra e enrocamento compactados. que inclui três barragens que são somente usadas para controlar as descargas afluentes. órgão do Ministério do Interior. Severas consequências em grande área alagada no baixo vale do Itajaí compreenderam impressionantes perdas de propriedades. em geral. O critério de projeto que em geral era adotado objetivava o controle das cheias de período de recorrência de 100 anos ou a maior cheia que tivesse sido registrada. algumas pequenas barragens foram construídas no coração de outras cidades para criação de lagos artificiais como elemento paisagístico. Nas outras regiões. na capital federal. 35 . Para impedir que a água de chuva se misturasse com a água percolada pelo maciço da barragem e pela sua fundação. que compreende três barragens de terra. em 1958. no Nordeste. Um projeto não usual foi adotado para a disposição de rejeitos em mina de urânio em Poços de Caldas. o talude de jusante da barragem foi projetado para ser coberto com uma face de concreto. água esta que tem que ser tratada. bem como extensos trechos inferiores dos seus afluentes. os poucos empreendimentos de navegação interior existentes são em geral anexos a hidroelétricas. para ser construída em três fases. As barragens foram construídas principalmente com o objetivo de evitar cheias em áreas populosas. para rejeitos finos a muito finos como na mineração de ouro. Em 1990 as atividades desse Departamento foram abruptamente encerradas e o Departamento extinto. com três filtros chaminé internos. Presentemente estados e prefeituras que. em São Paulo e do São Francisco. seus formadores os rios Solimões e Negro. foi ativo em empreendimentos de controle de cheias envolvendo a construção de barragens. o método de jusante é empregado. o sistema de proteção de cheias da cidade de Recife em Pernambuco. o Departamento Nacional de Saneamento. Controle de cheias Por muitos anos desde 1944. As duas principais bacias com eclusas instaladas em hidroelétricas são as dos rios Tietê e Paraná. Vias navegáveis A navegação interior permanece sendo o método de transporte mais usual na Região Amazônica onde há longos e caudalosos rios que podem ser usados ao longo do ano todo. polders e drenagens. Nesse grupo de rios se encontram todo o rio Amazonas. da barragem de Pampulha em que criou um belo espelho d’água na cidade de Belo Horizonte.

Esse sistema foi construído nos anos setenta e compreende sete grandes barragens de terra. XX e XXI Obras de abastecimento de água Barragens têm sido construídas como parte de sistema de abastecimento de água para zonas urbanas e industriais. Outro sistema importante é o de Belo Horizonte compreendendo obras hidráulicas de vulto. O artigo técnico sobre o projeto e a construção desta barragem de CCR com 53. O mais recente Figura 30 – Barragem do Ribeirão João Leite para o abastecimento d’água da cidade de Goiânia empreendimento de vulto para abastecimento de água é a barragem João Leite construida em concreto compactado com rolo.Barragem de Pindobaçu na Bahia.   Figura 31 . concluida em 2009. Merece menção a barragem do Ribeirão João Leite. A barragem possibilita o acréscimo de 5.A História das Barragens no Brasil . sete túneis escavados em rochas gnaíssicas e graníticas numa extensão total de 29 km e uma grande estação de recalque subterrânea com capacidade de 33 m³/s. com 53. O sistema necessitou da construção de 256 km de canais para suprimento de 22 m³/s para a cidade e para projetos de irrigação. O mais destacado desses sistemas é o sistema de Cantareira para abastecimento de água da grande São Paulo e cidades do vale do Piracicaba. Os dois maiores sistemas do Rio de Janeiro aproveitam as barragens da Light construídas entre o início do século (sistema Lajes).5 m de altura e vertedouro de soleira livre sobre a barragem.Séculos XIX.33 m³/s de reforço ao abastecimento das principais cidades do estado de Goiás. Um sistema que merece menção é o sistema para o abastecimento d’água da cidade de Fortaleza. represando 4.46 bilhões de metros cúbicos de água sob uma superfície de 325 km² no nível d’água máximo normal.50 m de altura e alas de terra faz parte da publicação do CBDB Main Brazilian Dams III. e as barragens do sistema de derivação dos rios Piraí e Paraíba do Sul (sistema PPD). O sistema inclui a barragem de terra do Castanhão com trecho em concreto compactado com rolo. concluída em 1999 com 72 m de altura. com captações em barragens no rio das Velhas e no rio Manso. aproveitamento de finalidades múltiplas 36 . descarga essa que corresponde a 90% de permanência. a qual é destinada ao abastecimento de água da cidade de Goiânia.

A esmagadora maioria dos esgotos é lançada em corpos d’água (rios. o governo Juscelino Kubitschek foi forçado a definir recursos federais para a implantação da barragem. se concentra na coleta e tratamento de esgoto uma vez que são poucas as cidades que dispõem de estações com capacidade de tratamento de porcentagens consideráveis dos esgotos coletados. enquanto a Cemig arcou com a casa de força. beneficiamento à navegação interior e geração de energia elétrica. entretanto. Esse estudo da Agência prevê a necessidade de investimentos superiores a R$ 50 bilhões até 2025 tendo em vista o precário estado dos sistemas de esgoto sanitário de quase todos os municípios brasileiros. O primeiro gran de exemplo de barragem implantada com finalidades múltiplas foi Três Marias com objetivos de regularização do rio São Francisco. aproveitamento para irrigação e abastecimento de água 37 . Finalidades múltiplas Barragens com finalidades múltiplas eram raras no cenário nacional devido à estanqueidade dos órgãos federais e estaduais na definição dos empreendimentos hidráulicos. Figura 32 . um estudo recentemente concluído pela Agência Nacional de Águas revelou que a situação do abastecimento de água em 55% dos 5565 municípios brasileiros está se agravando e deverá estar insuficiente em 2015.Barragem de Mirorós na Bahia. Serão necessários investimentos de R$ 22 bilhões para garantir a oferta de água de qualidade adequada até o ano de 2025.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Entretanto. do vertedouro e do reservatório. lagos e oceano) sem tratamento. Dessa forma. O maior problema da área de saneamento básico. premido por necessidade de iniciar as obras de Três Marias e de Furnas.

Nos últimos 20 anos do século passado o País atravessou um período de severa estagnação econômica quando vinte empreendimentos com barragens do setor elétrico tiveram sua construção suspensa por falta de recursos financeiros. o abastecimento de água. geração de energia elétrica e possibilitam o abastecimento do Grande Rio de Janeiro. Paraitinga.Séculos XIX.A História das Barragens no Brasil . bem como em fabricação e montagem de equipamentos. construção e operação de barragens. Santo Antonio. XX e XXI Outro exemplo é a barragem de Pedra do Cavalo na Bahia que contribui para o controle de cheias. incentivou Figura 33b – Barragem e casa de força de Paraibuna Figura 33a – Barragem de Paraitinga no final de sua construção Reservatórios interligados de Paraibuna e Paraitinga Figura 33c – Diques durante o primeiro enchimento do reservatório 38 . além de diversas hidroelétricas de pequeno e médio porte. Estreito e Belo Monte. elétricos e eletrônicos se estabeleceram no País e têm suprido a demanda interna e exportado equipamentos para diversos outros países. Paraibuna. a se tornar uma das líderes mundiais nesse setor. a engenharia brasileira voltou a ter um mercado interno robusto com alguns dos maiores projetos do mundo atual tais como as hidroelétricas de Jirau. a engenharia brasileira. Muitas empresas brasileiras de projeto e construção se expandiram durante a segunda metade do século XX e presentemente ocupam relevante posição no cenário internacional. Depois de passado esse período. controle de cheias. A evolução dos segmentos de bens de capital e de prestação de serviços Toda essa atividade em projeto. a regularização e a irrigação. Santa Branca. tão dependente de apoio estrangeiro na primeira metade do século XX. Neste mesmo período diversas fábricas de equipamentos mecânicos. Durante esses anos muitas empresas brasileiras desenvolveram com sucesso atividades no exterior em países de todos os continentes. Importantes empreendimentos de finalidades múltiplas são as barragens do alto e médio rio Paraíba do Sul. Jaguari e Funil que contribuem para a regularização de descargas. a produção de energia.

S. foram se formando importantes e bem estruturadas empresas consultoras nacionais que passaram a atuar nas linhas de frente dos grandes empreendimentos hidroelétricos dessas duas empresas concessionárias. Entretanto. em seguida. no início do Século XX. Tanto a CEMIG quanto Furnas tiveram seus primeiros grandes projetos elaborados por empresas consultoras americanas. No Nordeste.Barragem de finalidades múltiplas de Funil O desenvolvimento e o desmonte da engenharia consultiva Os estudos e projetos de barragens no País tiveram duas origens distintas. Quando finalmente foi enfrentado um projeto de grandes proporções. nesses dois casos. com influência de eventuais consultores provenientes do U. Nota-se que os projetos do DNOCS eram feitos na sua sede no Rio de Janeiro antes da mudança para Fortaleza. Bureau of Reclamation. a equipe do contratante. Em São Paulo. Paulo Afonso I. Figura 34 . portuguesa e italiana. em Minas Gerais. Os projetos da CHESF. no rio Paraná. o governo estadual orientava os projetos dos anos cinquenta para empresas brasileiras ou para um conjunto de consultores individuais. a força de trabalho e a responsabilidade técnica eram essencialmente nacionais. foram feitos no canteiro de obra por equipe nacional com influência de alguns engenheiros estrangeiros recrutados como imigrantes após o término da Segunda Grande Guerra Mundial e de outros que trouxeram marcante influência francesa. através do engenheiro John Cotrim que também trouxe.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A organização da AMFORP veio influenciar na organização da CEMIG. Outras empresas do setor elétrico contavam com projetos desenvolvidos por consultoras suíça. por bacias hidrográficas. principalmente na sua primeira hidroelétrica. essa experiência organizacional para Furnas. tanto no DNOCS quanto na CHESF. incentivou os consultores independentes das barragens do rio Pardo a formar uma empresa que pudesse desenvolver a contento o projeto da hidroelétrica de Jupiá. de dimensões inusitadas para a época. mesmo que inicialmente carentes de experiência. Na Região Sudeste. especialmente o engenheiro José Gelazio da Rocha. alemã. Aos poucos. Figura 35 .John Reginald Cotrim jovem na EBASCO 1942-44 39 . havia predominância da engenharia nacional com grandes contingentes de engenheiros formados em nossas escolas. os projetos da Light e da AMFORP eram nitidamente comandados. por americanos.

Essa modalidade conFigura 37 . a inflação não era sentida e o risco de inadimplência era muito reduzido. os encargos sociais e as despesas diretas. Quase todo esse desenvolvimento era calcado em contratos cost plus com empresas estatais do setor elétrico. na Bahia Figura 36 . Em 1979 foi instituído o teto salarial nas empresas estatais. conseguida durante o governo de Costa e Silva. Nessa época as empresas de projeto assumiam crescentes responsabilidades em um grande número de projetos de envergadura. A Associação Brasileira de Consultores de Engenharia . Dessa forma passou a haver elevada segurança contratual mesmo em regime inflacionário que se acentuou a partir do governo JK. na época o general Figueiredo. Entretanto. tornou o contrabandista um herói nacional. também já contavam com expressivo contingente de engenheiros brasileiros. Nos anos setenta quase dez consultoras brasileiras figuravam entre as maiores do mundo. principalmente no setor elétrico. os salários nas estatais passaram 40 .Usina hidroelétrica de Itapebí no rio Jequitinhonha. Por outro lado. com a adição do seu lucro em função do trabalho efetivamente desenvolvido. as consultoras brasileiras tinham como obstáculo a lei da informática que prejudicou sobremodo o desenvolvimento da produção de projetos e. teto este que era o salário direto nominal do Presidente da República. Os anos setenta se caracterizaram por um enorme desenvolvimento da consultoria brasileira. Por esse tipo de contrato a consultora era remunerada pelo custo do serviço baseado nos salários de suas equipes técnicas multiplicados por um fator que representava os impostos. Dessa forma praticamente não havia necessidade de capital de giro. Essa lei só foi cancelada sem alarde e sem anúncio no governo Sarney para os projetos do programa de irrigação de um milhão de hectares. Esse desenvolvimento acelerado foi em parte condicionado por lei de proteção ao mercado de consultoria e projeto. As consultoras a cada mês recebiam antecipadamente de acordo com a programação aprovada e prestava conta ao final de cada mês.Usina hidroelétrica de Volta Grande no rio Grande tratual foi introduzida pelas empresas americanas de consultoria na segunda metade dos anos cinquenta. XX e XXI As hidroelétricas projetadas pelo DNOS no Sul e na Bahia. esse tipo de contrato veio causar o desmanche das empresas consultoras na década seguinte.ABCE analisava cada contratação de consultoria externa para detectar se havia similar nacional.A História das Barragens no Brasil . de acordo com o então senador Roberto Campos.Séculos XIX. Como o salário direto nominal do Presidente não era muito elevado.

a crise financeira das estatais. presentemente a esmagadora maioria dos contratos por prestação de serviços de consultoria 41 . não mais foram de remuneração pelo custo. sobreveio. principalmente das federais. Nessas empresas uma posição de clarividência foi assumida pelo engenheiro João Alberto Bandeira de Mello que atuava na Eletrobras e que propunha que. A inflação se intensificava a cada período. Finalmente. para os que não vivenciaram. no auge da crise das contratantes estatais federais.ABCE. algumas delas atuando em segmentos específicos. nos anos oitenta. pois valiam no mercado apenas uma pequena fração de seu valor de face. algumas foram reduzidas a níveis pequenos e várias fecharam. esses multiplicadores haviam sido estabelecidos nos anos cinquenta quando a inflação antes do governo Juscelino ainda era muito baixa. As consultoras. os seus técnicos não podiam acumular horas trabalhadas para somente faturá-las quando houvesse recursos nas caixas das contratantes. os funcionários das estatais federais contratantes de serviços de consultoria passaram a não aprovar nos contratos reajustes salariais dos empregados das empresas contratadas. Incrivelmente neste País os impostos incidem no ato do faturamento. já com as consultoras descapitalizadas e endividadas. índice de 13 trilhões e 342 bilhões por cento no período de apenas quinze anos que antecederam ao Plano Real. através da Associação Brasileira de Consultores de Engenharia . houvesse também o justo reembolso dos elevados juros que as consultoras já estavam pagando ao sistema financeiro. Como a inflação era intensa. As consultoras tinham que recolher impostos por serviços que não eram pagos ou que seriam pagos meses depois. entretanto. até 75 dias da execução dos serviços. mesmo que não venha haver pagamento. O equilíbrio financeiro dos contratos das consultoras foi rapidamente corroído. o governo federal desovou empresas nos programas de privatização ganhando dos dois lados. Por terem salários achatados. as consultoras passaram a sofrer pressões dos dois lados: as suas equipes demandando reajustes salariais corretos e os clientes não aprovando esses reajustes nos contratos. No advento do governo Sarney houve um dos muitos planos heterodoxos no qual teoricamente a inflação seria nula.” Mas outros profissionais se reuniram em pequenas empresas. mesmo assim quando e só quando eram usados nos programas de privatização. Os contratos. Essa proposição sequer foi considerada e só após muito tempo. é que uma correção parcial foi admitida nos contratos. ou seja. devido a essa experiência desastrosa. Daquelas grandes empresas de consultoria de engenharia que figuravam como das maiores do mundo. corroídos por uma inflação galopante. A letra desse tipo de contrato pelo custo significava que deveria haver reembolso pelos acréscimos de custos devido à inflação. em geral cerca de 25%. Adicionando a esses aspectos deletérios. tendo chegado a um pico de mais de 80% ao mês e ao impressionante e quase inacreditável. nomeadamente as que não tinham grandes gerações de energia como era o caso da Light e de FURNAS.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens a ser achatados. Algumas dessas empresas foram gradativamente crescendo e hoje já apresentam grande número de profissionais engajados. nos contratos pelo custo. além do correto reajustamento. Essas outras empresas passaram a atrasar sistematicamente o pagamento das faturas. os faturamentos tinham que ser mensais. As contratantes do setor elétricos viraram “fiscais do Sarney” e unilateralmente abateram os multiplicadores dos contratos alegando que a partir daquele instante não mais haveria inflação. as consultoras foram chamadas para receber parte de alguns atrasados pagos em títulos que eram chamados de moeda podre. Foram criados os “fiscais do Sarney” que acusavam às autoridades eventuais aumentos de preços. tendo originado forte desemprego no ramo da engenharia e tendo sido criado o termo “o engenheiro que virou suco. Entretanto. Dessa forma. mesmo assim após 45 dias da entrega da respectiva fatura. Como para as consultoras. em várias ocasiões por mais de cinco meses. pleiteavam incessantemente fórmulas de reajustes sem encontrar eco em muitas das empresas contratantes.

outra empresa brasileira com experiência restrita à construção de estradas foi contratada para erguer a barragem auxiliar de Pium-I. já nas obras seguintes. 42 . uma construtora britânica associada a uma empreiteira brasileira. a CHESF construiu com equipe própria suas barragens e usinas.A História das Barragens no Brasil . em altura da barragem e em potência dos seus equipamentos de geração. dado o desenvolvimento das construtoras nacionais. Entretanto. O desenvolvimento das empresas de construção Semelhantemente ao que ocorreu nas atividades de estudos e projetos. foram implantadas por empresas privadas de construção. tendo socorrido os empreiteiros principais na elevação rápida do núcleo da barragem de Furnas. apenas em algumas poucas barragens consideradas de grande vulto na época. A partir dos anos oitenta as consultoras menos atingidas pelos impactos acima relatados voltaram-se para o mercado externo com o objetivo de substituir os contratos nacionais.Usina hidroelétrica de Xingó no rio São Francisco Figura 39 – Usina hidroelétrica de Furnas logo após o enchimento do reservatório Da mesma maneira. na época uma das maiores do mundo em capacidade instalada. empresas estrangeiras foram contratadas para executar as obras civis. seja o DNOCS ou a CHESF. todas com construções compreendidas do início até meados do século passado. Para essa usina. Algumas empresas tiveram sucesso e hoje estão presentes em vários continentes. o que transfere para a consultora um risco que deveria ser do empreendedor. Com a experiência adquirida essa empresa assim como outras que se capacitaram. No Sudeste as construtoras estrangeiras foram utilizadas pela Light e pela AMFORP em suas hidroelétricas que são mais antigas. Figura 38 . assumiram a condução das construções. A partir dessa época. Furnas contratou para a usina que deu nome à empresa. a construção de barragens no Nordeste foi efetivada principalmente com equipes do próprio empreendedor. as obras mais recentes que datam do final do século passado. estas passaram a ser contratadas para todas as demais obras. XX e XXI é por preço fixo. A partir de sua fundação até a conclusão da hidroelétrica de Moxotó. No caso do DNOCS.Séculos XIX. O DNOCS construiu mais de duas centenas de grandes barragens com recursos humanos e equipamentos próprios. ainda nos anos cinquenta.

As grandes empresas brasileiras atravessaram a recessão econômica e a desaceleração das obras no País nas décadas de oitenta e noventa. na época a segunda maior barragem desse tipo no País. A CEMIG. encarregada da implantação da barragem em abóbada de Funil. a usina de Três Marias. fez com que surgisse considerável número de novas construtoras no País. 43 . Sua primeira grande obra. São muitas novas centrais geradoras termoelétricas poluidoras. substituiu a empresa construtora da barragem principal por uma empresa dinamarquesa. concluída em 1956. assumiu usinas de portes pequeno e médio que vinham sendo implantadas por empresas nacionais. foi construída por empreiteira americana. Na margem esquerda o vertedouro complementar. ao assumir a responsabilidade da construção da usina do Funil. Com a intensificação dos investimentos em obras hidráulicas no País. após acirrada concorrência internacional. partindo com muito sucesso para empreendimentos no exterior. Essas usinas têm sofrido das indecisões políticas. contratou uma empresa nacional para a barragem principal e outra empresa nacional para a barragem de terra de Nhangapi. Há duas usinas nucleares em operação e uma em construção. Perspectivas para o futuro As dificuldades no licenciamento ambiental e as incertezas que sempre rondam os processos de aprovação de projetos hidroelétricos têm causado impressionante perda na matriz energética limpa que costumava orgulhar o País.Barragem da usina hidroelétrica de Mascarenhas de Moraes. Furnas. todas elas tendo tido seus cronogramas de implantação constantemente refeitos e suas obras se arrastado por duas a três décadas.Usina hidroelétrica de São Simão ção de pequenas e médias centrais hidroelétricas que ocorreu nas duas últimas décadas. hoje de controle nacional. inclusive as térmicas a óleo e a carvão. A ampla dissemina- Figura 41 . mas posteriormente. antiga Peixoto. empresas brasileiras passaram a ser contratadas à exceção da hidroelétrica de São Simão que. as empresas construtoras têm atuado com intensidade semelhante à do passado. construído em 2002 A CHEVAP. foi delegada a uma empresa italiana. entretanto de muito mais fácil licenciamento ambiental e aprovação na ANEEL. ao ser instituída. nos anos setenta.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 40 .

As perdas de energia elétrica no sistema interligado e nos sistemas de distribuição atingem em 2011 cifras elevadas. Além de serem esperados acréscimos de consumo devido ao desenvolvimento industrial. Entretanto.a. entre 15% e 17% da geração. comprova a incerteza dos empreendedores em assumir tais riscos. e pouco inferior ao verificado na Rússia e na África do Sul. O atual modelo do setor elétrico contribui para essas dificuldades por não contemplar qualquer remuneração para a regularização de descargas que beneficiem a operação do sistema interligado.8% a. 44 .a. Para o bem da economia e do meio ambiente. Considerando a relativa fragilidade dos sistemas de transmissão e as crescentes demandas na ponta de carga. quase três vezes superior ao do segundo colocado. por atravessar uma sucessão de importantes cidades de médio porte e servir de abastecimento de água a grandes núcleos urbanos. XX e XXI onerando sobremaneira os seus custos pela forte incidência dos juros sobre os capitais investidos durante as suas prolongadas construções. sinalizam para dificuldades de atendimento de demanda na ponta em diversos centros de carga no País. nucleares e hidroelétricas a fio d’água. prevê-se a continuidade e mesmo o agravamento dessa situação.. Eventuais paralisações. Angra II que levou 24 anos em construção. Pelo atual planejamento energético o País enfrenta a necessidade de instalação de cerca de 5000 MW/ano. Embates entre membros do governo e do licenciamento ambiental têm provocado demissões em vários níveis. tem uma regra operativa que privilegia a regularização de vazões e o controle de cheias. consequentemente. O acréscimo de capacidade de geração em empreendimentos sem possibilidade de armazenamento de energia. com 2. Entretanto. passando dos 456. contribuem para a elevação de prazos e de custos já que os juros reais no Brasil permanecem há décadas como o mais elevado do mundo. verifica-se também que o consumo domiciliar médio no Brasil ainda é muito inferior ao de países desenvolvidos.5 TWh verificados em 2010 para 730 TWh em 2020. térmicas. devidas à ação de vândalos em canteiros de obra e ao Ministério Público que questiona licenças ambientais. há imperiosa necessidade de se ultrapassar as resistências dos que se dizem ambientalistas e se voltar à implantação de hidroelétricas com grandes volumes úteis de reservatório para se recuperar a capacidade de regularização de vazões e. tais como usinas eólicas. hoje em 6.8% ao ano. o máximo histórico de 180 kWh/mês registrado antes do racionamento de 2001 só deverá ser ultrapassado em 2017. No passado recente (2000 a 2011) tem sido registrado impressionante número de apagões. até no nível ministerial. vários dos quais abrangendo extensas regiões densamente habitadas. de energia. sendo pouco mais de um décimo do americano. A falta de um órgão de âmbito nacional para controlar e implementar obras hidráulicas com esse objetivo é imperioso já que os cursos d’água são em geral intermunicipais e mesmo inter estaduais. Estima-se que o consumo total de energia elétrica no País evolua em média com acréscimos de 4. O controle de cheias permanece nebuloso no futuro próximo. a Hungria. Tendo em vista esse desafio. O setor elétrico através do ONS despacha algumas hidroelétricas levando em conta o controle de cheias. O exemplo mais nítido são as hidroelétricas do vale do rio Paraíba do Sul cujo rio principal. o que é no mínimo inusitado: o único licenciamento obtido até agora (maio de 2011) foi concedido em janeiro de 2011 para instalação do canteiro de obra. as classes dirigentes têm pressionado licenciamen tos ambientais de grandes centrais geradoras como ocorreu nas duas usinas em construção no rio Madeira e presentemente na hidroelétrica de Belo Monte cujo licenciamento está sendo obtido por etapas. associado às interrupções provenientes de ações judiciais ou do Ministério Público ocorrendo na maior hidroelétrica em construção. pode operar até hoje (maio de 2010) há mais de uma década sem licenciamento ambiental e sem licenciamento da CNEN.Séculos XIX.A História das Barragens no Brasil .4% a. Parcela expressiva dessa perda vem de ligações ilegais. O consumo médio residencial deverá passar dos 154 kWh/mês em 2010 para 191 kWh/mês em 2020. Isso.

com grandes recalques (Juquiá para São Paulo) ou na regeneração de águas em estações de tratamento de esgotos (Alegria para o Rio de Janeiro). onerando ainda mais as novas usinas hidroelétricas. Karl Terzaghi. incluindo a captação de água de baixa qualidade a grandes distâncias (médio Tietê para São Paulo e sub-médio Paraíba do Sul para o Rio de Janeiro). brasileiros e estrangeiros. participam de juntas de consultores. tramita no Congresso um projeto de lei que obriga os investidores em hidroelétricas de implantar sistemas de navegação onde possível. da construção de barragens de rejeitos cada vez maiores e mais frequentes.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Historicamente a implantação de eclusas para navegação interior sempre vieram a reboque de algumas hidroelétricas ao contrário do que acontece em países europeus cuja tradição da navegação fluvial sempre esteve arraigada ao desenvolvimento viário. Homenagem aos membros de juntas de consultores Durante o projeto e construção das mais importantes barragens brasileiras. As constantes e recentes valorizações das commodities no mercado internacional indicam para o futuro a permanência das atividades em mineração e. consequentemente. têm feito com que planejadores do setor considerem alternativas dispendiosas. vindo como sub-produto a geração de energia elétrica. Othelo Machado e Casemiro Munarski (Foto do Acervo Paulo Chamecki) 45 . Depois de Karl Terzaghi. por exemplo. Consolidando essa deformação brasileira. aduções e tratamentos de água. As deficiências previstas no curto prazo para o abastecimento da crescente demanda por água nas cidades e distritos industriais.A partir da esquerda os consultores da São Paulo Light: Samuel Chamecky. engenheiros e geólogos consultores de grande projeção na profissão. Arthur Casagrande e Figura 42 . onerando sobremaneira as futuras captações.

A História das Barragens no Brasil . XX e XXI Figura 43 . fundador e diretor geral do Laboratório de Engenharia Civil sediado em Lisboa. Lyra em inspeção de campo em Itaipu Figura 44 . John Cabrera. Gurmukh Sarkaria e Flavio H. Destacada atuação na CIGB e em consultoria de barragens em vários paises.Séculos XIX.Professor Manuel Rocha. inclusive no Brasil. pesquisador.Arthur Casagrande. 46 .

em São Paulo abril de 1978 47 . de Mello e Flavio H. Charles Blanchet. Lyra. outros consultores participaram de juntas tais como Roy Carlson. Don Deere. Victor F.Rubens Vianna de Andrade. Lyra que são aqui mencionados como homenagem àqueles que já faleceram. Arthur Casagrande e Julival de Moraes em inspeção nas obras de Itumbiara Figura 46 . B. James Sherard. Barry Cooke. de Mello durante o XII SNGB.Consultor Roy Carlson por ocasião da sua condecoração pelo governo brasileiro entre Carlos Alberto de Padua Amarante e Victor F. Figura 45 . James Libby. Flavio H. B.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Portland Fox mencionados acima. Manuel Rocha. Esses profissionais altamente qualificados deram valiosas contribuições ao projeto e construção de grandes barragens e formaram engenheiros e geólogos brasileiros que presentemente trabalham como consultores no Brasil e no exterior.

Itália .EUA .França .A.1946-1952 4.1958-1961 3 4 5 .1952-1958 5.Portugal .Os 5 primeiros presidentes da CIGB de 1931 a 1961 1 2 1. Coyne . Pinto . J. Hathaway .F.França . Giandotti . G. Mercier .R. G.1931-1934 2. A.1937-1940 3. M.

obras em rios muito caudalosos. Brown. Em 1926. Flavio Lyra. 49 . presidente do CBGB. presidente do CBGB e G. Na época. os critérios de projeto de estruturas de concreto eram rudimentares e a hidráulica fluvial enfrentava pela primeira vez na maioria dos países que implantavam barragens e reservatórios. em reunião da Associação Francesa para o Progresso da Ciência ocorrida em Grenoble. presidente CIGB dos solos e a geologia de engenharia não haviam ainda sido fundadas. Nos anos vinte muito havia que ser aprendido em projeto e construção de barragens e o intercâmbio de conhecimentos passou a ser de nítida importância. em assembléia da Conferência Mundial de Energia em Basel. 1966 .Reunião Executiva no Rio de Janeiro. na assembléia de Cernobbio (Itália). 1927. A proposta foi formalmente aceita Figura 2 . A proposição foi aceita. Brown. foi manifestada a importância do estabelecimento de uma comissão de caráter internacional voltada para grandes barragens. presidente de Furnas pela Conferência Mundial de Energia no ano seguinte. Corria o ano de 1925 quando.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A Comissão Internacional de Grandes Barragens Oitenta e três anos de excelência Flavio Miguez de Mello A Comissão Internacional de Grandes Barragens CIGB nasceu na França. a mecânica Figura 1 .G. 1966 Flavio Lyra. notadamente na Europa e nos Estados Unidos. numa época em que havia intensa atividade em implantação de barragens. presidente CIGB. Mauro Thibau. tendo sido instituído o Comitê Francês de Grandes Barragens sob a Societé Hydrotechnique de France. ministro de Minas e Energia e John Cotrim.Reunião Executiva no Rio de Janeiro. a delegação francesa apresentou formalmente a proposta de criação da Comissão Internacional de Grandes Barragens. assim como o apoio ofertado pelo governo francês.

Desse registro não constam apenas as barragens de rejeitos. Romênia e Suíça. 56 países em 1980. Já demonstrando seu dinamismo. Apesar do registro das barragens no Brasil estar incompleto. 56 países em 1967. Seus anais são verdadeiras seções transversais da tecnologia de cada época que nos permitem visualizar o desenvolvimento dos conceitos e critérios de projeto e de construção de barragens. reuniões executivas foram realizadas todos os anos a menos dos anos exceto durante a II Guerra Mundial. reconhecidamente. de 1940 a 1944. esses documentos em relatórios do estado da arte sob o ponto de vista global. o registro da CIGB atualizado em 2010 revela a importante posição do Brasil relativa a outros países com mais de mil grandes barragens construídas: A assembléia que constituiu a CIGB ocorreu no dia 6 de julho de 1928 com a participação de seis países: Estados Unidos. Desde sua fundação com apenas cinco países membros. tornando. Como exemplos históricos pode-se mencionar os trabalhos de Karl Terzaghi de 1933 sobre as investigações das características dos solos quanto a sua viabilidade para a construção das barragens de terra e de Wolmar Fellenius sobre cálculo de estabilidade de barragens de terra. A assembléia do Conselho Executivo da Conferência Mundial de Energia aprovou a CIGB por unanimidade em Londres no dia 3 de outubro de 1928. Do seu primeiro estatuto até o estatuto de 1967 poucas alterações significativas ocorreram. Desde então. assim. 72 países em 1990. Desde então a cada três anos a CIGB promove seus congressos que são. Itália. a CIGB promoveu seu primeiro congresso internacional em Estocolmo em 1933. XX e XXI Figura 3 . Encontra-se presentemente (2011) em propo- 1 2 4 5 6 8 9 China USA Japão Coréia do Sul Canadá Brasil Espanha > 40 000 9 265 5 101 3 076 1 302 1 166 1 114 1 011 987 741 623 583 542 519 507 501 3 Índia 7 África do Sul 10 Turquia 11 França 12 México 13 Itália 14 Reino Unido 15 Austrália 16 Irà 50 . fruto do trabalho dos seus comitês técnicos que congregam profissionais os mais destacados em diversos países do mundo. de elevado interesse técnico sobre assuntos os mais atuais. ­ Além dos seus anais de congressos e simpósios. a CIGB passou a se tornar independente da Conferência Mundial de Energia. Reino Unido.14° Congresso CIGB Rio de Janeiro 1982 – Pierre Londe (presidente) e Joannes Cotillon (secretário geral) sição por um comitê ad hoc novo estatuto que vem corrigir lacunas do estatuto vigente. a CIGB vem continuamente crescendo.A História das Barragens no Brasil . 81 países em 2000 e 92 países em 2010. A CIGB mantém atualizado o registro mundial de grandes barragens (barragens com mais de 15 m de altura ou em condições especiais) contendo as principais características das barragens em todos os países membros e em alguns países não membros da CIGB. a CIGB publica boletins sobre temas específicos. considerando seu já grande vulto. tendo atingido 26 países antes da II Guerra.Séculos XIX. França. Em 1967. cifra esta que representa mais de 90% da população mundial.

Viotti e E. J. Lyra. abriu discussão sobre mudanças climáticas globais e planejamento de recursos hídricos escassos. F. todos franceses.K.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Desde a sua fundação a CIGB teve 22 presidentes. Fernandes. D. 1973. projeto. Maurer) e dez secretários gerais. Nos anos sessenta a CIGB passou também a enfatizar a segurança e a reabilitação de barragens. F. Figura 4 . Desses comitês foram coordenadores (chairmen) F.F. A participação brasileira se fez sentir desde os anos sessenta em participações em diversos comitês da CIGB. C. F. conscientização do público e na primeira década do Século XXI. Lyra e Pierre Londe. construção e operação de barragens. sendo seis brasileiros (F. Miguez. Entre os dois. Silveira e F. nos anos setenta passou a ser grande divulgadora de progressos na engenharia ambiental. nos anos noventa também abriu os campos de compartilhamento dos recursos hídricos de rios transnacionais e de gestão integrada da água. o autor 51 . Na foto os dois primeiros presidentes deste Comitê Flavio H. Budweg. sendo dois brasileiros (F. Lyra. Höeg. Miguez.Reunião do Comitê de Meio Ambiente da CIGB em Madrid. Lyra e C. A CIGB sempre teve como foco a promoção e divulgação da tecnologia de planejamento. ex-presidente da CIGB Figura 5 . Viotti). 126 vice presidentes. nos anos oitenta liderou a divulgação tecnológica aplicada a barragens de rejeitos de mineração. Budweg. Desde o final dos anos 60 a CIGB dedica especial atenção aos temas socioambientais.

fabricantes.Ospina (ex vice-presidente) recebendo homenagem do presidente Varma A CIGB fechou o ano de 2010 com 92 comitês nacionais que. construtoras.Foz do Iguaçu 2002 .Séculos XIX. no seu conjunto. consultoras. Maria Bartsch. universidades. Figura 7 .000 membros individuais dentre os mais destacados profissionais que presentemente atuam em empresas públicas e privadas.A História das Barragens no Brasil . XX e XXI Figura 6 . agências governamentais e organizações não governamentais. Flavio Miguez de Mello. Margaret Rose Mendes Fernandes 52 .70° Reunião Anual CIGB . congregam mais de 10.Arthur Walz.Congresso de Brasília 23O CIGB 2009 – Mesa da Questão 90 . instituições de pesquisa.

Brasília 2009 53 .Congresso de Brasília 23o CIGB 2009 – Da esquerda para direita Edilberto Maurer (pres. Jia Jinsheng (pres.Homenagem ao professor Victor F. de Mello no 23O CIGB.CBDB). Pham Hong Giang (pres.eleito CIGB) Figura 9 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 8 . Comitê do Vietnam). CIGB). Luis Berga (pres. B.

secretário geral J. Lecornu e a secretária Nicole Schauner Figura 12 . Nicole assumiu a secretaria da CIGB em 1967 permanecendo até o presente (2011).Michel de Vivo secretário geral e Luis Berga presidente da CIGB Figura 10 . As duas foram responsáveis pelo eficiente suporte à CIGB ao longo dos últimos 63 anos 54 .A secretária Margarite Chapelle recebendo homenagem em 1967.Presidente Varma.A História das Barragens no Brasil . XX e XXI Figura 11 .Congresso de Brasília 23O CIGB 2009 .Séculos XIX. uma placa entregue por sua filha Nicole Schauner (ao microfone) que a substituiu após 25 anos de serviço desde 1948.

G.1964-1967 8. J.H.1967-1670 9.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens CIGB . C.1982-1985 14. Guthrie Brown . Marcello .J. G. F. C. C.Espanha .Reino Unido .P.EUA .Índia .1985-1988 15. Londe .França . T.1997-2000 19. Pircher . J.1979-1982 13.Noruega . K. Lyra . Toran .1973-1976 11. W.Espanha . C.Itália .1976-1979 12.Brasil .A.Áustria .2006-2009 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 .Presidentes de 1961 a 2009 6. J. Lombardi . C.1994-1997 18.1988-1991 16.Suíça . Höeg .V. L. Viotti .T. Varma .B.Canadá .Brasil . Veltrop .1970-1973 10. Berga . P.1961-1964 7. Gröner .2003-2006 21.África do Sul .2000-2003 20. McCarthy .F.A.EUA .1991-1994 17. Dagenais .Noruega .C. van Robbreck .

Séculos XIX. Os responsáveis pela consolidação e pelos primeiros anos de sucesso do CBDB 56 56 . Fernandes.A História das Barragens no Brasil . Lyra e Delphim M. XX e XXI Flavio H.

Saturnino de Brito. Na época a CIGB tinha apenas 26 comitês nacionais e havia intensa atividade de projeto e construção de barragens em todos os países mais evoluídos. trouxe consigo o firme propósito de criar em nosso País uma entidade filiada à CIGB. convocou um grupo para reorganizar a Comissão. Por esse motivo havia dificuldades da 57 . Figura 1 – Saturnino de Brito Filho e Theophilo Benedicto Ottoni Netto empreendimento de maior destaque no País. por iniciativa do engenheiro José Cândido Castro Parente Pessoa. então diretor geral do DNOCS. Foi indicado para presidente da Comissão o engenheiro Casemiro José Munarski que na época estava fazendo o projeto da barragem de Orós. USA. Nesse período de cinco anos a Comissão ficou vinculada ao Ministério de Viação e Obras Públicas. não mais tendo contato com a CIGB e acumulando seguidos débitos financeiros não cobertos por mais de vinte anos referentes às contribuições anuais à CIGB. O engenheiro Antônio Alves de Noronha. Entretanto. após poucos anos e ainda nos anos trinta. O engenheiro Chamenski. maravilhado com as perspectivas dos benefícios para o Brasil que eram decorrentes da ampla divulgação de experiências de outros países. com o afastamento do engenheiro Luiz Vieira do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas DNOCS.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens História do Comitê Brasileiro de Barragens Flavio Miguez de Mello A pré-história Em 1936. ao regressar do Segundo Congresso Internacional de Grandes Barragens realizado pela Comissão Internacional de Grandes Barragens CIGB em Washington. que presidia a Associação Brasileira de Mecânica dos Solos. a Comissão Brasileira de Grandes Barragens teve suas atividades paralisadas. a Comissão Brasileira de Grandes Barragens veio a ser reativada. conseguiu encontrar receptividade do engenheiro Luiz Vieira que conduziu a então instituída Comissão Brasileira de Grandes Barragens. envidou esforços para conjugar essa associação com a Comissão. Somente em 1957. que presidia a Associação Brasileira de Pontes e Grandes Estruturas. tendo convidado a Associação Brasileira de Mecânica dos Solos para integrar esse grupo. o engenheiro Francisco Saturnino de Brito Filho.

época em que a CIGB apresentava crescente participação de comitês nacionais que naquele ano já eram 48. Nessa primeira assembléia foi eleita por aclamação uma diretoria presidida por Antônio Alves de Noronha que teve como secretário o engenheiro Lucio Washington. Nessa segunda assembléia foi eleita a diretoria presidida pelo engenheiro Flavio Henrique Lyra da Silva. Constava da pauta da reunião executiva a nova exclusão da representação brasileira dos quadros da CIGB. três indicados pela APGE e seis eleitos em assembléia pelos sócios individuais.Antônio Alves de Noronha. A assembléia seguinte foi convocada para o dia 24 de janeiro de 1962. sendo os membros da diretoria participantes do conselho. A CIGB retirou da pauta a nova exclusão da representação brasileira e o CBGB pode participar dessa reunião executiva e do VII Congresso Internacional. um diretor secretário e dois diretores tesoureiros era eleita pelo conselho. Figura 2 – Casemiro José Munarski ao lado de João Alberto Bandeira de Mello manutenção das obrigações financeiras da Comissão com a CIGB.Séculos XIX. A diretoria. dois vice-presidentes. tendo como diretor secretário Sydney Gomes dos Santos que foi substituído por Delphim Mazon Fernandes a partir de 25 de março de 1963. 58 Figura 3 . na última hora.A História das Barragens no Brasil . Pelo estatuto o conselho era composto por 12 membros. composta pelo presidente. ambos realizados em Roma. obrigações estas que novamente não vinham sendo cumpridas. Os primeiros anos da história O grupo constituído pelas associações de Pontes e Grandes Estruturas e de Mecânica dos Solos elaborou os estatutos do Comitê Brasileiro de Grandes Barragens CBGB e trabalhou para que fossem arrecadados recursos financeiros que cobrissem os débitos com a CIGB. três indicados pela ABMS. os recursos levantados junto a empresas privadas foram entregues à CIGB no dia anterior à abertura da reunião executiva de 1961. XX e XXI O estatuto do CBGB foi aprovado em assembléia realizada no Clube de Engenharia no dia 25 de outubro de 1961. Dessa forma. primeiro presidente do CBDB de outubro de 1961 a início de 1962 .

seminários o número de trabalhos era modesto mas. presidente e diretor secretário respectivamente. Nos primeiros cinco seminários os temas eram limitados a apenas três. os seminários passaram a ter quatro temas. Em cada sessão técnica sempre houve um relato do respectivo tema feito por um profissional de reconhecida experiência e destaque no âmbito nacional. tornou-se necessária a difusão de conhecimentos na área da engenharia de barragens e de tecnologias correlatas. constituindo uma importante contribuição para a divulgação de experiências profissionais. e hidroelétricas de grandes projeções a nível internacional estavam começando a ser projetadas e construídas como Furnas. Antes dessa fase. em 1956) e as hidroelétricas eram de pequeno e médio portes para os padrões atuais. Disponibilidade. Nos primeiros O grande impulso que estava ocorrendo no Brasil no campo da implantação de barragens no pós-guerra e principalmente nos anos cinqüenta. por ter sido eleito presidente da CIGB. com parcos recursos humanos. o estágio inicial da tecnologia no País. Os engenheiros Flavio Lyra e Delphim Fernandes. as barragens eram de dimensões mais modestas (a primeira barragem com altura superior a 50 m foi Boqueirão das Cabaceiras. grandes açudes começaram a ser construídos como Orós e Banabuiú (Arrojado Lisboa). notadamente no Nordeste com a construção de açudes com dimensões sensivelmente superiores aos anteriormente construídos e com a necessidade de promover a instalação de grandes hidroelétricas.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A necessidade de uma associação técnica ativa no campo das barragens era indispensável para a evolução da tecnologia nacional. uma atuação efetiva junto à CIGB foi encarada como uma necessidade premente. a partir do Sexto Seminário em 1970. vice-presidente do CBGB em vários mandatos promovendo seminários nacionais de grandes barragens e apoiando atividades de comissões técnicas. Os temas foram: Métodos de investigação de fundações de barragens. Figura 4 – Antônio José da Costa Nunes. A partir do VI Seminário realizado no Rio de Janeiro em novembro de 1970 e até a presente data. O País estava entrando em uma era de realizações de grande vulto. o número de trabalhos passou a ser expressivo. Interessante notar pelo temário do primeiro seminário realizado em julho de 1962. Três Marias. O CBGB passou a ter importante suporte de Furnas já que o presidente do CBGB era diretor técnico de Furnas e seu diretor secretário no CBGB era seu principal assistente na diretoria técnica de Furnas. no Brasil de organizações e de equipamentos para construção de grandes barragens. Jupiá e Paulo Afonso. na Paraíba. Os trabalhos apresentados nos seminários são o perfil do desenvolvimento da tecnologia aplicada a projeto e construção de barragens no País. Foi nessa época que. de laboratórios para ensaios e experiências. ligados ao projeto e à construção de barragens. Dessa forma. Os eventos nacionais Desde 1962 o CBGB passou a atuar nos moldes da CIGB. ambos no Ceará. no Brasil. 59 . se afastou da presidência do CBGB. A sede do CBGB passou a ser parte de uma sala da diretoria técnica de Furnas. Disponibilidade. permaneceram nesses cargos por quatro diretorias até 1976 quando o engenheiro Flavio Lyra.

cálculo e construção de barragens e operação de reservatórios. Seabra J á n o S eg u n d o S e m i n á r i o . Análises de risco começaram a ser discutidas desde 1987 no XVII Seminário Nacional realizado em Brasília. Carlos A. Essa dedicação passou a ser manifestada em diversos seminários posteriores assim como temas relativos à tecnologia de estudos. concepção. a diretoria do CBGB passou a realizar seminá- 60 . no XIII Seminário realizado no Rio de Janeiro. barragens de rejeitos passaram a freqüentar os temários. P.Séculos XIX. desde o XIV Seminário realizado em Olinda os usos múltiplos de reservatórios passaram a ser realçados. Lyra. Licinio M. Após os nove primeiros seminários realizados no eixo Rio de Janeiro e São Paulo. Temas sobre meio ambiente passaram a ser freqüentes já a partir do VIII Seminário.A História das Barragens no Brasil . realizado em São Paulo em novembro de 1972. Delphim M. Considerando a importância da maximização de benefícios propiciados pelas barragens. A partir de 1980. Como reflexo das alterações no modelo do setor elétrico. a partir de 1997 passaram a serem discutidos temas institucionais e o retorno com maior intensidade de investimentos privados na implantação e operação de barragens hidroelétricas. r e a l i z a d o em S ã o P a ul o em junho de 1963 aparece a dedicação do CBGB à segurança de barragens com o tema Acidentes em barragens. Amarante. A auscultação de barragens apareceu a partir do IV Seminário realizado no Rio de Janeiro em outubro de 1985. Fernandes. XX e XXI Figura 5 – Mesa de abertura do XIII SNGB – Rio de Janeiro 1980 – Flavio H. Os esforços do CBDB pelo estabelecimento de uma legislação sobre a segurança de barragens e das interfaces com órgãos concedentes e de licenciamento ambiental passaram a ser debatidos nos seminários mais recentes já no Século XXI.

Nessa ocasião.34a Reunião Executiva . um em Brasília. Guthrie Brown 61 . Dams in the Northeast of Brazil (1982). dois em Belo Horizonte. seguida de um congresso internacional. Quanto a eventos internacionais. o que se tornou prática em reuniões posteriores. Dams in Brazil (1982). o CBGB teve seu batismo em 1966 na reunião executiva da CIGB realizada no Rio de Janeiro com extremo sucesso. as duas edições de Highlights of Brazilian Dam Engineering (2000 e 2006). Dicionário de Barragens (2010). um em Olinda. Também foram publicadas diversas traduções dos boletins técnicos do CIGB. com grande sucesso. Diversion of Large Brazilian Rivers (2009). o CBGB passou a organizar simpósios sobre pequenas e médias centrais hidroelétricas a partir de 1998. um em Aracajú. Large Brazilian Spillways (2002). um em Foz do Iguaçu. Desvios de Grandes Rios Brasileiros (2009). dois em Curitiba. Main Brazilian Dams II (2000). oportunidade de visitar obras de grande vulto que estavam em construção no País. 3 em São Paulo. o CBGB tem colaborado efetivamente com a CIGB pela participação em diversos comitês técnicos desde os anos sessenta. Main Brazilian Dams (1982). Na ocasião os participantes tiveram a Figura 6 . Main Brazilian Dams III (2009). Considerando as crescentes atividades de implantação de pequenas centrais hidroelétricas. Em 1982 o CBGB foi novamente anfitrião de uma reunião executiva no Rio de Janeiro. um em Salvador e um em Belém.Rio de Janeiro 1966 Flavio Lyra e J. pela primeira vez foi realizado um simpósio em reunião executiva da CIGB. dois em Fortaleza. Com esse mesmo objetivo. o CBGB editou importantes livros sobre barragens brasileiras: Topmost Dams of Brazil (1978). O Simpósio foi sobre arranjos de barragens em vales estreitos. Dessa forma foram realizados 10 seminários no Rio de Janeiro. Mais uma vez os participantes ficaram vivamente impressionados com o vulto das obras que foram incluídas nas diversas viagens de estudo. Os eventos internacionais Consolidando sua projeção internacional.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens rios em diversos outros centros.

Figura 8 . John Cotrim e Pierre Londe 62 . Delphim M. XX e XXI Figura 7 – Simpósio Internacional sobre Arranjos de Barragens em Vales Estreitos – Rio de Janeiro 1982 – Marcos Schwab e Leo Penna Em 2002 novamente o CBDB promoveu uma reunião anual da CIGB. tendo também realizado o International Symposium on Dams and Reservoirs for Multiple Purposes. Carlos Alberto de Padua Amarante. Em 2009 novamente o Brasil foi sede de reunião anual e do congresso internacional da CIGB. general Costa Cavalcanti.A História das Barragens no Brasil . desta vez em Foz do Iguaçu com o International Symposium on Reservoir Management in Tropical and Sub-Tropical Regions. João Alberto Bandeira de Mello. Fernandes.14o Congresso Internacional CIGB – Rio de Janeiro 1982 – coronel Mauro Moreira.Séculos XIX.

Pernambuco Núcleo Regional . o Comitê deixou de ter os conselheiros indicados pela ABMS e pela ABPGE. Presentemente são os seguintes núcleos regionais: Núcleo Regional .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 9 .Minas Gerais Núcleo Regional . Em 1999 o nome do Comitê Brasileiro de Grandes Barragens CBGB foi alterado para Comitê Brasileiro de Barragens CBDB de forma a abranger também as barragens de menor porte inclusive aquelas da grande maioria das pequenas centrais hidroelétricas.Rio Grande Do Sul Núcleo Regional . no final dos anos sessenta. foram criados os núcleos regionais. passando os sócios coletivos e mantenedores serem restritos a elegerem seis membros do conselho. Na primeira eleição de conselho realizada em Fortaleza em 1976. Objetivando uma ampliação de suas atividades que demandariam maiores recursos financeiros. destacando-se palestras e simpósios de elevado interesse.70a Reunião Anual CIGB – Foz do Iguaçu 2002 – Cassio Viotti (presidente CBDB) A evolução institucional do Comitê Semelhantemente à CIGB que se separou da Conferência Mundial da Energia.Ceará Núcleo Regional . 63 .Paraná Núcleo Regional .Santa Catarina Núcleo Regional .Rio De Janeiro Núcleo Regional . com o objetivo de dinamizar a atuação do CBDB em todas as regiões. em 1976 o Comitê lançou a campanha de angariação de sócios coletivos e mantenedores que.Goiais/Distrito Federal Núcleo Regional .Bahia Núcleo Regional . A partir dos anos noventa. pelo estatuto da época tinham tantos votos em assembléias quanto as cotas subscritas. Pouco depois houve nova alteração dos estatutos.São Paulo Os núcleos têm mantido importantes atividades em suas regiões. uma chapa montada pela Eletrobras colocou no conselho todos os membros menos o Flavio Lyra.

Homenagem ao dr. Presentemente (março de 2011) o CBDB conta com um quadro social composto por 1088 sócios individuais. Da esquerda para direita: José Pedro Rodrigues de Oliveira presidente de Furnas. Os ex-presidentes são membros do conselho.A História das Barragens no Brasil .Sessão de abertura do XXVI Seminário Nacional de Grandes Barragens Goiânia 2005. Lyra se formou em engenharia) Figura 11 .Como sempre realizado em eventos do CBDB. Marconi Perillo governador de Goiás. Edilberto Maurer presidente do CBDB Em 1999 o nome do Comitê Brasileiro de Grandes Barragens CBGB foi alterado para Comitê Brasileiro de Barragens CBDB de forma a abranger também as barragens de menor porte inclusive aquelas da grande maioria das pequenas centrais hidroelétricas. o CBDB. XX e XXI Figura 10 . Lyra – Rio de Janeiro 2004 – Maria Lyra e Heloi José Fernandes Moreira (diretor da Escola Politécnica da UFRJ. Figura 12 .Séculos XIX. A cada período de três anos. onde Flávio H. visita técnica a obras ( barragem de Itaipu) 64 . ao renovar seu conselho. Dilma Roussef ministra de Minas e Energia. tem seis de seus conselheiros eleitos pelos sócios mantenedores e coletivos e doze eleitos pelos sócios individuais. Os membros da diretoria saem desses conselheiros eleitos. havendo a possibilidade de serem nomeados até dois diretores adjuntos com funções específicas. Flavio H. 18 sócios coletivos e 35 sócios mantenedores.

Nos eventos nacionais e internacionais o CBDB promove sempre exposições técnicas de elevado interesse 65 . Cassio Viotti (presidente da CIGB) e Delphim Fernandes (ex-presidente do CBGB) Figura 14 . Flavio H. Lyra – Rio de Janeiro 2004 – Erton Carvalho (diretor CBDB).Homenagem ao dr.Conselheiros do CBDB com familiares em um dos eventos sociais que são sempre realizados em seminários.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 13 . simpósios e congressos Figura 15 .Dirigentes e ex-dirigentes do CBDB em exposição técnica.

a mais antiga grande barragem construida no Brasil . a barragem é. no Ceará. Vista da barragem. Em operação desde 1906.66 Açude de Cedros. no estado do Rio de Janeiro. do seu dique e de seu sangradouro. Primeira obra de barragem para combate às secas no País. juntamente com Lajes.

000 km².000 pessoas que residiam na área atingida pela tragédia. O semi-árido é compreendido pelo Polígono das Secas que tem 936. doze no Século XIX e dezoito no Século XX. Pernambuco. instalado em 1896. por encomenda do Governo Imperial.933 km² e onde chove em média menos do que 800 mm/ano. a construção de açudes. As melhorias nos sistemas de transporte foram discretas em função inicialmente da precária situação financeira ocasionada pela Guerra da Tríplice Aliança e. Rio Grande do Norte. mais de cem anos depois. Antes dessa Comissão havia apenas um posto pluviométrico em Recife operando desde 1842 e outro em Fortaleza desde 1849. posteriormente. essa tentativa fracassou pela falta de adaptação dos camelos ao solo duro e pedregulhoso.2% do território nacional. quando a mais intensa e prolongada seca atingiu o semi-árido. Esses postos em áreas litorâneas não eram referências para a região do semiárido. o Nordeste pode ser dividido em três partes: O semi-árido com cerca de 800. Seguiramse quatorze secas no Século XVIII. áreas do norte do estado de Minas Gerais e leste do estado de Tocantins são assemelhadas ao Nordeste. não havia meios de transporte eficientes para a retirada das popula- 67 . Em números redondos. Entretanto.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Um Século de Obras contra as Secas “O sertanejo é. mesmo assim sob forte oposição ambiental. As secas são registradas desde o descobrimento. foram iniciadas apenas as obras da barragem de Cedro em 1884 que só foram concluídas em 1906. Uma das secas remotas foi responsável pela expulsão dos holandeses que tentaram se estabelecer no Ceará. Esse foi de longe a maior catástrofe gerada por fenômenos naturais que ocorreu no País. o semi-úmido com cerca de 600.000 km².000 km² e o úmido com os restantes 200. Ceará. a instalação de estações meteorológicas e a transposição das águas do rio São Francisco para a bacia do rio Jaguaribe. em 1877. Quanto à construção de açudes. um forte” Engenheiro Euclides da Cunha Flavio Miguez de Mello O Nordeste é uma região com 1. Sergipe e Bahia. Em 1856 o Governo Imperial instalou a Comissão Científica de Exploração para coordenar os estudos e analisar as soluções para o problema das secas. Em função de características climáticas. no início do Século XXI. A primeira seca historicamente constatada foi em Pernambuco em 1583. O primeiro posto no interior já sob influência da Comissão foi o de Quixeramobim.548. o navio francês Splendide desembarcou no porto de Fortaleza 14 camelos que vieram para procriarem e apoiar as populações no transporte pela caatinga do semi-árido. A Comissão recomendou que fossem efetuadas a melhoria do sistema de transportes.754. Dessa forma. Uma curiosa tentativa de minorar o sofrimento dos sertanejos com as secas ocorreu em julho de 1859 quando. estão sendo iniciadas. no Ceará. As secas deixaram marcas que não se apagam por mais que os anos passem. A Grande Seca que ocorreu de 1877 a 1879 ceifou a vida de mais da metade das 1. Na seca de 1915 pereceram 27 mil cearenses e 75 mil emigraram para a Amazônia. incluindo a totalidade dos estados do Maranhão. antes de tudo. Alagoas.672 km² que corresponde a 18. pelo governo republicano. A tentativa de debandada da população interiorana redundou na morte pelos caminhos e na proliferação de doenças como o tifo. o paratifo e a varíola. As obras de transposição das águas do rio São Francisco só agora. Piauí. Paraíba.

devida à carência de recursos humanos na época. O geólogo Silva Coutinho também defendeu a construção de grandes barragens. à criação pelo governo de Nilo Peçanha. a geologia. a sociologia. incluindo poços artesianos. depois de meses de seca. da Inspetoria de Obras Contra as Secas IOCS. foram criadas três comissões: a Comissão de Açudes e Irrigação. o engenheiro Gonçalves Aguiar elaborou notável análise hidrológica de caráter determinístico publicada em trabalho intitulado Estudo Hidrométrico do Nordeste Brasileiro. não mais conseguiu se retirar para o litoral. A Grande Seca (1877-1879) de devastadoras conseqüências impactou o Governo Imperial. tendo o próprio imperador Pedro II estado no local assolado pela seca. Nesse período de carência de recursos sobressai-se. Como de costume. Registra-se que durante os oito anos desses dois mandatos. O Século XX foi iniciado com outra seca no Nordeste. a pedologia. e a Comissão de Estudos e Obras Contra as Secas. Essas comissões foram aglutinadas em 1906 na Superintendência de Obras Contra os Efeitos das Secas. Cabe aqui realçar algumas posições decorrentes desses debates. residências cujos telhados captassem águas de chuva direcionadas para cisternas. O engenheiro e escritor Manuel Buarque de Macedo preconizou que o tesouro imperial não dispunha de recursos para implantar tantos projetos. no governo de Epitácio Pessoa. esse órgão passou a se denominar Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas IFOCS. só em época de calamidades é que obras e organismos governamentais são efetivados. O professor André Rebouças destacou também a importância da instalação de rede telegráfica e melhorias nos portos da província do Ceará para possibilitar a implantação de vias férreas. 68 . ocasionando mortes em larga escala. O senador Pompeu e o engenheiro Henrique de Beaurepaire Rohan salientaram a importância do reflorestamento extensivo da região. Os debates retroagiram à proposta de Gabaglia de 1861 que compreendia a perfuração de poços artesianos e a implantação de barragens. convocou renomados profissionais do Sudeste e do exterior para o desenvolvimento de estudos bastante completos. Os precários resultados observados levaram. enfatizou também a necessidade de construção de abrigos e de alimentação para os flagelados. o primeiro açude não estava concluído e não havia registros pluviométricos no semi-árido. a soma dos recursos destinados à IFOCS representou apenas 20% dos recursos despendidos nos dois últimos anos do governo de Epitácio Pessoa que os antecedeu. em 21 de outubro de 1909. A população do interior. Assim. em desenvolvimento tecnológico. O engenheiro Zózimo Barroso propôs a construção de uma rede de grandes açudes. a botânica.Séculos XIX.A História das Barragens no Brasil . Durante dez anos a IOCS se dedicou a obras de infra-estrutura e promovia apoio aos flagelados assolados pelas secas. XX e XXI ções interioranas. construção de barragens e canais. O professor André Rebouças havia escrito em 1877 o trabalho “As Secas nas Províncias do Norte”. a partir de 1904. dá prosseguimento ao processo de inanição da IFOCS. o aparecimento da “Formula de Aguiar” que serviu de base aos estudos posteriores de hidrologia e dimensionamento de açudes por muitas décadas ao longo do Século XX. complementando alguns dos açudes com piscicultura incipiente e mesmo irrigação que já havia sido iniciada no açude de Cedro. seu sucessor. defendia a construção de obras estruturais. embrião do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas DNOCS. eleito em 1926. Em 1919. integradas e definitivas. a antropologia e a economia. A IFOCS manteve a construção de açudes. Washington Luiz. defendendo a implantação de açudes menores e estradas distritais. foi debatido amplamente o problema das secas no Nordeste. implantação de ferrovias e até dessalinização de água do mar. ambos no Ceará. Importante consignar que em sessões sob o comando do Conde D’Eu no Instituto Politécnico situado na Corte. houve a suspensão de todas as obras e a IFOCS quase desaparece. O primeiro inspetor chefe da IOCS foi o dinâmico engenheiro Miguel Arrojado Ribeiro Lisboa que. principalmente naquela época de início de mais uma seca. abrangendo a hidrologia. tendo implantado mais de vinte açudes públicos com destaque para Forquilha e Quixeramobim. pela idealização de Francisco Sá. a Co- missão de Perfuração de Poços. Rebouças reconhecia a necessidade de ações imediatas. Com a eleição de Artur Bernardes à presidência da República em 1922. Pires do Rio e Arrojado Lisboa. Processando dados hidrológicos principalmente das bacias hidrográficas dos rios Quixeramobim e Jaguaribe.

Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 1 . Face de montante com lajes de concreto 69 .Barragem Lima Campos em construção em 1932 Figura 2 Barragem do Choró em construção em 1933.

A História das Barragens no Brasil . XX e XXI Figura 3 .Inauguração do Açude Público Boqueirão em 1957 com a presença do pres.Séculos XIX. Juscelino Kubitschek e do ministro Lúcio Meira da viação e obras públicas Figura 4 .Açude Choró – Vista do talude de montante ao final da construção em 1934 70 .

quando apenas 36 famílias são presentemente beneficiadas com a irrigação. residente da Empresa de Assistência Agropecuária do Ceará. sangue de boi e carne da cabeça de gado como comida. Era comum passarem em redes mais de trinta mortos por dia cujos corpos eram jogados em valas comuns. sendo violentamente penalizados e recolhidos ao sebo. Os ingleses se retiraram com a paralisação das obras ordenada pelo governo de Artur Bernardes. com 71. eram classificados como infratores.8 milhões de metros cúbicos de capacidade daria para atender 60% da atual população de Senador Pompeu mas. o orçamento do DNOCS. Os detentos nos campos de concentração eram reduzidos a pele e osso como os filmados pelas tropas americanas ao chegarem aos campos de concentração nazistas na II Guerra Mundial. Nesse período de penúrias o Departamento foi dirigido por Luiz Vieira e Vinícius Berrêdo. não houve financiamento para a mecanização para a lavoura e a pecuária. para evitar que os flagelados inchassem as cidades. no Ceará. antes da seca de 1932. os flagelados se espremiam como uma massa esquálida e faminta. Naquela época Fortaleza era conhecida por “loura despojada pelo sol” e como ninguém gostaria de visitar a cidade inundada por flagelados. escritório. a partir do ano seguinte sob o governo Dutra se mantém com recursos exíguos e praticamente limitados às obras de construção de açudes. O maior campo de concentração era o de Crato que chegou a ter 65 mil flagelados. Entretanto. assume a presidência Getúlio Vargas que nomeia José Américo de Almeida para o Ministério de Viação e Obras Públicas que. o que comprova a prática nos primeiros anos da República. Hoje há esforços para que seja tombado o conjunto de edificações na barragem de Patu. Quixeramobim. Adriano Bezerra relata o ocorrido em 1932 no campo de concentração em Senador Pompeu onde os corpos das vítimas da sede e da fome eram jogados em valas coletivas após a extração dos fígados que eram destinados a exames médicos. uma pequena gaiola de varas. Os guardas só davam um farelo amarelo. ainda que insuficiente. A seca de 1932 marcou profundamente os que sobreviveram aos campos de concentração. Robinson implantou um canteiro de obra. Em 1932 ocorreu uma seca severa e o canteiro de obra da barragem de Patu que havia sido paralisada em 1923. Cercados por muros e por arames farpados. Os flagelados que reclamavam das condições a que eram sujeitos. Há relatos de mortes por febre tifóide de mil pessoas em uma só noite no campo do Urubu. morriam de desnutrição e de doenças diversas nos “currais de fome”. foi formado o campo de concentração do Urubu. Cariús. Propositalmente ignorados pela historiografia oficial. uma usina termoelétrica. não se promoveu acesso a crédito. se transformou em um campo de concentração. não aconteceu a difusão de insumos. Patu e Crato. Com o retorno de Getúlio Vargas à presidência. Ipu. foi duplicado em relação ao orçamento deixado pelo seu antecessor. portanto. o primeiro campo de concentração que se tem notícia foi o campo de Urubu que foi instalado na seca de 1915. não foram criadas estruturas de estocagem. Em dezembro de 1945 o presidente José Linhares e seu ministro Maurício Joppert da Silva transformam a Inspetoria no Departamento Nacional de Obras Contra as Secas DNOCS que. um cemitério de quinze mil mortos-vivos.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Com o golpe de estado de 1930. sem dar seguimento a obras de irrigação e de piscicultura. por sua vez nomeia o engenheiro Artur Fragoso de Lima Campos inspetor geral da IFOCS. não se promoveu a monetarização do mercado interiorano que funcionava à base de escambo. desta vez eleito. onde a empresa inglesa Dwight P. 65 anos após o início de suas obras. Dessa maneira 71 . Uma epidemia de piolho levou o governo a ordenar que as cabeças fossem raspadas. não havendo recursos para formação de mão de obra. Quixadá. No livro “Barragem do Patu. os Descaminhos de uma Obra”. Em 1932 Lima Campos faleceu em acidente aéreo. Raquel de Queiroz usou a expressão campo de concentração em seu romance “O Quinze” escrito em 1930. segundo Francisco Luís de Araújo. tendo sido substituído pelo engenheiro Augusto da Silva Vieira. Seu reservatório. os campos de concentração ainda estão vivos na memória dos poucos sobreviventes. a irrigação se devidamente implantada poderia beneficiar três mil famílias. A barragem foi concluída em 1986. Os campos foram criados pela IFOCS em Fortaleza. não houve meios suficientes para a expansão de observações e estudos hidrológicos. depósito de explosivos e casas para seus executivos.

Nesse período tiveram início os estudos da hidroelétrica de Boa Esperança. A mais notável delas. posteriormente transferida para a COEBE e. Boqueirão das Cabaceiras e Cocorobó. obcecado pela sua meta síntese de construção de Brasília.Séculos XIX. depois incorporada à CHESF. Ao assumir o governo federal.Barragem Quixeramobim 72 . Juscelino Kubitschek. Figura 5 .A História das Barragens no Brasil . drenou de todos os lados recursos necessários para a implantação da nova capital. Araras. Orós. O DNOCS não ficou isento a essa insaciável drenagem de recursos e algumas de suas obras ficaram sem recursos e sem crédito. XX e XXI foram retomadas ou iniciadas as obras de diversas barragens tais como Orós. teve o seu colapso anunciado com meses de antecedência pelos dirigentes do DNOCS dada a incapacidade financeira e de crédito para concluir a barragem antes do período de chuvas. Banabuiu.

antes do enchimento do reservatório. brecada até que as secas intensas ocorridas no início dos anos oitenta demonstraram o equívoco dessa postura.S. Para esse programa foi sorrateiramente e oficiosamente quebrada a proteção à engenharia brasileira conseguida por lei no governo Costa e Silva. em seguida.4 bilhões de metros cúbicos de acumulação.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens rompeu em 1961 a concessão de subsídios à construção de açudes particulares por regime de cooperação e desacelerou a implantação de açudes públicos. Nos governos seguintes a maior atribuição do DNOCS foi a de implantar perímetros irrigados. Bureau of Reclamation. mas o engenheiro José Candido Castro Parente Pessoa logrou provar na delegacia perante a um juiz de direito. houve o colapso do talude de montante da barragem por falta de resistência da camada de solo do tapete impermeabilizante.Açude Banabuiu A SUDENE concorreu com eficiência para a divulgação leviana da idéia de que a capacidade dos açudes então existentes seria suficiente para atender à demanda de água do semi-árido para qualquer seca que viesse a acontecer. A política de implantação de açudes foi. As autoridades tentaram culpar o consultor. além de praticar uma injustificada caça às bruxas com relação aos dirigentes do período anterior. ocorreu a severa seca entre os anos de 1980 a 1983. Após a deposição do governo Goulart. então. Ao final da construção. uma argila de baixa resistência foi colocada anexa ao núcleo da barragem se prolongando para montante em forma de tapete impermeabilizante. apesar das advertências da empresa encarregada da fiscalização e de seu consultor Mr. Durante a construção. Diversas empresas consultoras estrangeiras desembarcaram no País para surpresa da Associação Brasileira de Consultores Figura 6 . Com a chegada de José Sarney à presidência da República é lançado o programa de irrigação de um milhão de hectares. o DNOCS passa a ser gerido por sucessivos coronéis do Exército pouco versados nos problemas do semi-árido. engenheiro de carreira no U. com a capacidade de 2. Holtz. Em 1999 assumiu o governo o general João Batista Figueiredo e. inter- 73 .Açude Mãe d’Água Figura 7 . a inocência do referido consultor que havia desaconselhado a execução do tapete. No governo de João Goulart o DNOCS passa à categoria de autarquia em junho de 1963 e passa a trabalhar sob a coordenação da SUDENE em ocasiões de emergência. em paralelo ao segundo choque do petróleo. A mais importante obra desse período foi a construção da barragem de Açu no Rio Grande do Norte. A modalidade tradicionalmente adotada de executar os empreendimentos por administração direta foi abolida e o efetivo do Departamento passou a entrar em ociosidade. O governo Jânio Quadros.

Ao ser lançado o PAC – Plano de Aceleração do Crescimento com uma verba de um bilhão de reais em 2010. o DNOCS foi ressuscitado em maio de 1999. mas não foram implantadas no curto governo Itamar Franco nem no primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso. estiveram dando assistência técnica às obras de barragem do DNOCS. o DNOCS é finalmente extinto por medida provisória. Da falta de condições do DNOCS e dos perversos cenários das secas surgiram construções de açudes particulares e por outros órgãos federais e estaduais. Esse açude e o longo canal de adução das águas à cidade de Fortaleza executado em tempo recorde de acordo com o planejamento do engenheiro José Cândido Pessoa. mas sujeito a profundas modernizações. entre 1940 a 1960. mas o Ministério do Planejamento limitou a 92. Foi instalada uma comissão parlamentar mista tendo resultado daí o relatório de Beni Veras que recomendava a manutenção do DNOCS. apesar de neste governo ter ocorrida significativa redução de diretores e cargos gratificados. Entretanto. a era FHC deixou duas grandes marcas na Autarquia: a sua traumática dissolução com seu posterior ressurgimento e a construção da maior barragem do semi-árido brasileiro que incluiu a utilização rara em nosso País. mas sem dotações orçamentárias suficientes. os recursos humanos da instituição não puderam acompanhar a disponibilidade financeira pela sua carência de estrutura e de pessoal. Engenheiros do DNOCS e de outras instituições brasileiras. 14 barragens colapsaram. tais como Jack Hilf. pois há mais de 40 anos não eram feitas manutenções nessas barragens. 1 de janeiro de 1999.A História das Barragens no Brasil . foram treinar nos seus escritórios. John Wesley Powell deu origem a uma das mais destacadas instituições de engenharia já formada. 74 . Hoje os funcionários da ativa não passam de mil e oitocentos. o órgão chegou a ter dezessete mil funcionários e fazia as obras por administração direta. bastou que as precipitações em 2009 fossem 59% superiores à média anual para que houvesse o colapso de 50 açudes só em Canindé. A SUDENE que havia sido extinta por medida provisória em maio de 2001.Séculos XIX. Sua missão é o desenvolvimento de projetos de barragens de regularização e irrigação do árido oeste dos Estados Unidos. a DNOCS pediu abertura de concurso para seiscentas vagas. Ceará. o que é vedado pela legislação em vigor. e do peso do Nordeste no parlamento. fortaleceu politicamente o então governador Ciro Gomes e o lançou na política Federal. Cabe realçar a influência do United States Bureau of Reclamation USBR no combate às secas do Nordeste brasileiro. muitas delas do INCRA. foi novamente criada em janeiro de 2007 com o objetivo de reassumir o planejamento regional. Seu criador em 1898. O USBR foi a primeira instituição americana dedicada ao estudo e desenvolvimento de recursos hídricos. que tiveram que ser demitidos. devido a impressionante mobilização de diversos setores da sociedade civil do Nordeste. Depois de passar trinta anos sem renovar seus quadros. Ao longo do Século XX o USBR implantou centenas de barragens e mais de duzentos projetos de irrigação no oeste americano. laboratórios e obras. Holtz e Hoffmann. Nesta época o autor desse capítulo era o diretor da ABCE encarregado da proteção à engenharia nacional. A viabilidade da existência do DNOCS passou a ser agenda do governo Fernando Collor de Mello que se instaurou em 1991. W. de diques fusíveis. A diretoria do DNOCS alertou em 2008 que eram urgentes as obras de recuperação dos açudes Estevam Marinho e Mãe D’Água sob o risco de se tornarem inoperantes e causarem danos irreparáveis a bens e a vidas humanas. Na sua época mais ativa. Assim. pois vinham prestando serviços para a atividade fim do órgão. no sertão central do Ceará. havendo mais de doze mil aposentados e pensionistas. No primeiro dia do segundo governo Fernando Henrique Cardoso. XX e XXI de Engenharia. Implantados em condições questionáveis. Em Targinos. Alguns dos mais destacados profissionais do USBR. O diretor geral Elias Fernandes lamenta: “todos os meus funcionários têm cabeça branca”. As modernizações foram estudadas. Essa medida não substituiu devidamente os terceirizados. inclusive o autor. Dois anos depois as obras foram feitas com dispensa de licitação. Nos dois governos Lula houve reestruturação do DNOCS. com equipe própria. acabando longa agonia. ficando o órgão nos limites da sobrevivência. A única obra importante foi conseguida pela bancada cearense no congresso: o açude Castanhão inaugurado ao apagar das luzes do segundo governo de Fernando Henrique. mas não houve obras de barragens.

a IFOCS e seu sucessor DNOCS mostrou intensa atividade. Figura 8 . A barragem de Castanhão teve sua construção proposta em 1910 e só foi executada quase 100 anos depois. A barragem de Orós cuja proposição é dessa época. o que significa cerca de 20% das grandes barragens brasileiras. sendo responsável pela implantação de mais de 220 grandes barragens (de acordo com a classificação da CIGB). nasceu no canteiro de obra o Theophilo Benedicto Ottoni Netto que. Quando da primeira fase de construção que eram para ser uma barragem de alvenaria. Exemplo de colaboração do US Bureau of Reclamation para o DNOCS 75 . nas fases em que o governo federal propiciou condições financeiras adequadas. viria projetar o vertedouro da barragem. como engenheiro sênior. fenômeno conhecido desde os tempos coloniais como El Niño.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens As causas das secas no Nordeste ficaram desconhecidas até a primeira metade dos anos 80 quando foi detectada a influência da permanência de temperaturas mais elevadas da água no oceano Pacífico na latitude do Peru. A partir dessa época as secas passaram a ser previsíveis.Jack Hilf e José Candido Pessoa. Entretanto. Ao analisar as atividades realizadas no combate às secas verifica-se que a descontinuidade na administração das agências de fomento e a alternância dos recursos disponibilizados fazem com que obras iniciadas há várias décadas são descontinuadas ou retardadas. Um El Niño mais prolongado causa no território brasileiro secas no Norte e Nordeste e cheias no Sul. teve suas obras interrompidas. Barragens iniciadas ou projetadas no governo de Epitácio Pessoa como Pedra Branca e Patu foram concluídas muitas décadas depois.

76 76 .

a barragem de Cocorobó pelos motivos que determinaram a sua implantação e a barragem do Castanhão por ser a última grande barragem construída pelo DNOCS antes da publicação deste livro. No caso de haver ombreira em rocha sã. sendo que só nos anos 50. As barragens do açude de Cedro Logo após o término da Grande Seca. As obras foram iniciadas em novembro de 1890 e foram concluídas em 1906. para o presente livro o autor selecionou as barragens do açude de Cedro por terem sido as primeiras grandes barragens do Nordeste e as mais bonitas até hoje. os demais cursos d’água do Nordeste são de regime intermitente. ou maciços baixos de terra cujo elemento impermeabilizante era um diafragma central de alvenaria. Nos primeiros anos do século passado as barragens eram de alvenaria de pedra. chamadas na época de barragens de peso. então o sertão virará praia e a praia virará sertão. Com o objetivo de promover condições de fixação dos nordestinos cultivando o semi-árido.” Antônio Conselheiro a construção de barragens era. o sangradouro podia ser simplesmente escavado numa das ombreiras. Como são muitas barragens. entretanto. no segundo ano. se fazia as obras no leito do rio e nas margens. feita em duas etapas: no primeiro ano se procedia a limpeza e o tratamento de fundação e. Esse projeto. o Governo Imperial encomendou ao engenheiro Jules Revy uma seleção de locais para implantação de barragens com o objetivo da formação de açudes. Até meados do século passado as barragens eram de alturas modestas. muitas barragens com características extremamente interessantes foram construídas. foi implantada a primeira barragem de altura superior a 50 m. em Boqueirão das Cabaceiras. em função do maior ou menor interesse do governo federal. da Comissão de Açudes e Irrigação. a barragem de Orós por ter tido impressionante acidente durante sua construção. Sangradouro de Castanhão 77 . Nos cento e vinte anos de atividades no combate aos malefícios das secas. Já em 1882 o primeiro projeto estava pronto. a barragem de Engenheiro Ávidos pelo seu arrojado projeto original. Flavio Miguez de Mello O Departamento Nacional de Obras Contra as Secas e as inspetorias que o antecederam foram os órgãos que mais barragens implantaram no Brasil. atividades que foram originadas das drásticas conseqüências da Grande Seca que ocorreu de 1877 a 1889. em 1880. em geral. Essa cifra mostra intensas fases de elevada atividade e outras fases de estagnação. dispensando-se revestimentos. Dentre os locais selecionados sobressaiu-se o sítio onde foi implantado o açude de Cedro. 214 grandes barragens (de acordo com a classificação da Comissão Internacional de Grandes Barragens) foram implantadas até 1982.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens As Barragens Construídas pelo DNOCS “Em 1896 há de haver mil rebanhos correndo da praia para o sertão. foi modificado pelo engenheiro Ulrico Mursa. que flui desde Minas Gerais e o rio Parnaíba que divide os estados do Piauí do Ceará são perenes. após o recuo das águas. Considerando que apenas os rios São Francisco.

de longo raio de curvatura de 254 m.000 m³. sua extensão de crista é de 415 m. O açude só foi verter (sangrar) pela primeira vez em 1924 o que demonstra que. comprimento de crista de 243 m e volume de 40. seu volume é de 60. de gravidade. O vertedouro (sangradouro) é também em alvenaria. após paralisações. 464 m de extensão e 8. seu comprimento é de 209 m e seu volume é de 9. Há ainda dois diques de terra. o açude ficou super-dimensionado. A alvenaria de pedra em sua crista. O açude se localiza no rio Sitiá do sistema Jaguaribe. uma capacidade de acumulação de 126.A História das Barragens no Brasil . pela falta de dados hidrológicos na época do projeto. controlando uma área de drenagem de 224 km². A barragem principal é em arco gravidade de alvenaria.000.5 m de altura e com lâmina livre pela crista.925 m³. sua altura é de 18 m sobre as funda- ções em sienito são. denominados Barragem Sul com altura de 17 m.000 m³ e uma profundidade média pouco superior a 7 m. um em cada margem do rio.473 m³ de volume. XX e XXI sob a direção do engenheiro Bernardo Piquet Carneiro. seu eixo curvo e os pequenos pilares com as grossas correntes aliados à Pedra da Galinha Choca na margem direita da barragem e à esquerda do vertedouro formam um conjunto arquitetônico de rara beleza. com 7. com uma superfície de 17.Séculos XIX.724 m³ e Barragem da Lagoa do Forbes com 4 m de altura.45 km². Figura 1 – Açude de Cedro 78 .

no seu pico. um núcleo de concreto sob a linha de centro da barragem constituindo-se o principal elemento de impermeabilização. apresen- 79 . tando muitos matacões e elevada permeabilidade e a margem direita é constituída por um gnaisse intemperizado. foi decidido que o vertedouro sobre a barragem seria substituído por um vertedouro lateral provido de duas comportas de segmento de 9 m x 10 m que descarregam as descargas vertidas em uma calha em concreto armado e dissipação em salto de esqui. no município de Cajazeiras. antiga São José de Piranhas A barragem é localizada no rio Piranhas. como as sondagens no aterro da barragem revelaram graus de compactação inadequados. o que correspondeu a uma hidrógrafa defluente com pico de apenas 55 m³/s. recomendou que fosse construído um novo vertedouro na ombreia direita. Realmente. O projeto foi concebido pelos engenheiros Luis Vieira e Vinícius Berrêdo. Figura 2 – O engenheiro Moacyr Monteiro Avidos As principais condicionantes do projeto eram: não exigir fundação em rocha sã e o elevado custo devido às dificuldades logísticas para suprimento de cimento ao local da barragem. como a descarga de projeto deveria ser o dobro da descarga original e como essa descarga de projeto era quase 30 vezes superior à descarga ocorrida em 1963. Como esta era. nos países ocidentais. Rice do US Bureau of Reclamation. Na ombreira esquerda as escavações atingiram a 14 m de profundidade. o que correspondeu a uma escavação de 300.30 m sobre a crista do vertedouro.5:1 e de 3:1. Paraíba. uma das quatro barragens com vertedouro sobre o aterro e a única das quatro que sobreviveu durante quase 30 anos de uso.000 m³ e a um volume de concreto de 16. Foi efetuado um novo estudo hidrológico para verificação da hidrógrafa de projeto. de 2. com ogiva de concreto de 160 m de extensão e cuja calha era constituída por um revestimento do talude jusante em lajes articuladas de concreto armado projetado para um pico de cheia da ordem de 800 m³/s e situado na parte central do corpo da barragem. O vertedouro era de crista livre. controlando uma área de drenagem de 1124 km². a uma sobre-elevação de cerca de 0. com a colaboração de Moacyr Avidos. As tomadas d’água são em duas torres cilíndricas controladas por comportas que aduzem a água para duas tubulações em células de concreto armado.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A barragem de Engenheiro Avidos. O projeto original da barragem compreende um maciço de terra a montante com talude variável de cima para baixo de 2:1. em inspeção à barragem. o reservatório era mantido em nível baixo a maior parte do tempo. No local da barragem a margem esquerda é composta por um quartzito decomposto. A barragem havia sofrido recalques e os movimentos provocaram a abertura de juntas na laje do vertedouro. Regis Bittencourt e Lohengrin Chaves.000 m³. A barragem tem 44 m de altura e 340 m de extensão. Consta que o padre Cícero havia dito que a barragem iria colapsar. após a cheia. Esses deslocamentos se acentuaram após a passagem da cheia de 1963 que chegou. tendo sido definida uma hidrógrafa com pico de 1610 m³/s.6:1. e um maciço de enrocamento no espaldar de jusante com talude de 1. Nesse ano. o engenheiro O.

Açude Piranhas – Saída das galerias da tomada de água Figura 3 .A História das Barragens no Brasil . Vista do talude de montante Figura 5 . Vista do talude de jusante 80 .Séculos XIX.Açude Piranhas durante sua construção em 1936. XX e XXI Figura 4 .Açude Piranhas durante sua construção em 1936.

P. Para fugir da cavidade duas alternativas de eixo foram indicadas: eixo reto na parte jusante do boqueirão ou eixo acentuadamente curvo na entrada do boqueirão. para elaborar um novo projeto e implantar a obra sob a supervisão dos engenheiros Charles W. Comstock e J. Sargent. conhecido como o maior rio intermitente do mundo. motivado pela intensa seca que impactou a região. Desde os tempos do Império e nos primeiros anos da república uma barragem no boqueirão de Orós vinha sendo considerada. como será mencio­ nado adiante. Curiosamente. Cunha. Em 1930 estudos adicionais foram realizados sob a orientação do engenheiro Luis Augusto Vieira. Durante essa fase. nasceu seu filho. como 81 . Apesar de dispor de um túnel de desvio. Pyles. Schneider levaram a professor Casemiro José Munarski a conceber o projeto de uma barragem de terra zonada com grande curvatura em planta para montante com o objetivo de fugir da espessa camada de aluvião. Essas sondagens indicaram no leito do rio uma cavidade no seu topo rochoso de 40 m preenchida por aluviões. no interior do estado do Ceará. a 450 km da capital Fortaleza. A excepcional cheia ocorrida em 1924 destruiu ensecadeiras e parte do canteiro de obra. Todos os trabalhos de levantamentos e prospecções e de projetos de infra-estrutura tais como as instalações das residências e escritórios. José Wright e George Shobinger. eletrificação e canteiro de obra. Theophilo Benedicto Ottoni Netto. Sua principal finalidade é perenizar o rio e promover a irrigação nos trechos médio e baixo de seu vale. C. formando um sem número de engenheiros. Em 1919. acessos rodoviários. tendo havido.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A barragem de Orós A barragem de Orós é situada no rio Jaguaribe. Estudos e investigações geotécnicas efetuadas pelo engenheiro Arthur W. que viria a ser destacado engenheiro hidráulico e professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Como finalidades secundárias há a piscicultura e aproveitamento hidroelétrico. Orós foi programada para ter seu maciço totalmente construído em um período seco. A cerca de 200 m a jusante do eixo retilíneo original essa cavidade apresenta profundidades de até 80 m. Em 1940 foi concluído um túnel com 1600 m de extensão ligando Orós ao açude de Lima Campos cuja capacidade de irrigação estava esgotada. Em 1932 materiais e equipamentos foram retirados de Orós para as construções dos açudes de Pilões. no interior do Ceará. A barragem de Orós deixou de ser prioridade mesmo com a intensa seca de 1932. Posteriormente equipe do engenheiro Luiz Vieira elaborou dois estudos. drástico corte de verbas e a conseqüente paralisação das obras no governo de Arthur Bernardes. O maciço da barragem seria erguido após a estação chuvosa seguinte. A idéia inicial de uma barragem de eixo reto situada na entrada do boqueirão foi abandonada em 1913. o engenheiro Theophilo teria atuação de destaque no projeto do vertedouro da barragem de Orós quase cinqüenta anos depois do seu nascimento. ferrovia. Robinson & Co. A. A barragem seria em alvenaria de concreto ciclópico executada com apoio de cabo aéreo cujas torres foram instaladas nas duas ombreiras. no janeiro seguinte. Nessa fase inicial de construção participava da equipe o engenheiro Augusto Benedicto Ottoni. Houve um primeiro anteprojeto desenvolvido no início da Inspetoria de Obras Contra as Secas do qual não se tem notícia por ter se perdido em incêndio ocorrido em dezembro de 1912 na Primeira Seção dessa Inspetoria. Em outubro de 1958 as fundações da barragem estavam escavadas e tratadas. um com barragem de terra e outro com barragem de concreto gravidade. Piranhas e São Gonçalo. ambos com eixo retilíneo a jusante do boqueirão para evitar a espessa camada de aluvião que havia sido detectada nos estudos iniciais. em vista dos resultados das sondagens executadas pelo engenheiro britânico Louis Philips e pelo engenheiro José Gomes Parente. foram feitos pelos engenheiros A. incluindo seus filhos. José Visetti. no decorrer de 1959. o governo federal contratou a empreiteira americana Dwight P. uma neta e o autor desse capítulo.

Era nos primeiros minutos da madrugada do dia 26 de março de 1960. O próprio DNOCS construía a barragem com equipamentos provenientes da recém concluída construção da barragem de Araras. tendo sido por infarto.5:1 e 2:1 respectivamente a montante e a jusante. zonas de solo arenoso compactados em camadas de 30 cm de espessura. tendo perdido também o crédito junto a fornecedores. foi executada com espesso núcleo de argila arenosa compactada em camadas de 15 cm e taludes externos em enrocamento que envelopava. devido à incrível concentração de recursos federais para a construção de Brasília. ambos abrandados em cotas inferiores. O túnel de desvio situado na ombreira esquerda. No âmbito externo. Entretanto. tornou-se a tomada d’água e foi revestido posteriormente com chapa de aço. na margem direita do reservatório havia sido construído um túnel que conduz descargas do rio Jaguaribe ao açude de Lima Campos com o objetivo de reforçar as vazões para irrigação das áreas a jusante desse açude. realçam-se as atitudes de países no apoio às vítimas do rompimento 82 .Séculos XIX.Galgamento da barragem de Orós Destaca-se a eficiente atuação das forças armadas no resgate das populações residentes a jusante da barragem. engenheiro José Cândido Castro Parente Pessoa. nos espaldares de montante e de jusante. Várias cidades situadas a jusante foram invadidas pelas águas oriundas do colapso da barragem. O acidente e suas conseqüências impactaram a opinião pública e muitos recursos foram angariados de populares e remetidos às vítimas do acidente. As informações disponíveis dão conta de que apenas um óbito foi registrado. XX e XXI era comum nos rios intermitentes do Nordeste. os demais empreendimentos governamentais ficaram com desmedidas carências de recursos. com a barragem ainda incompleta e sem ser possível as águas afluentes atingirem a cota da soleira do vertedouro ainda em escavação.Barragem de Orós após a ruptura Figura 6 . a barragem começou a ser galgada. A barragem. apresentando a jusante uma bifurcação para um descarregador de fundo e para a instalação de uma pequena hidroelétrica que só foi licenciada cinqüenta anos depois. denominada pelo presidente Juscelino Kubitschek de meta síntese. Figura 7 . A campanha em muitas cidades do País tinha o lema “Orós precisa de nós”. O DNOCS passou a ter sérios problemas na manutenção do ritmo de construção por falta de recursos financeiros para concluir a barragem a tempo. quanto ao perigo da não conclusão da barragem antes do período chuvoso. Como mencionado acima. No final do período chuvoso. projetada com 54 m de altura e taludes de 2. Debalde foram os alertas da direção do DNOCS e de seu diretor geral. Os esforços para conter o colapso da barragem foram inúteis.A História das Barragens no Brasil . Cerca de 40% do volume do maciço já executado foi erodido.

Reino Unido. o vertedouro apenas escavado. Pouco após a reconstrução da barragem. recursos foram destinados a concluir a obra do vertedouro.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens da barragem de Orós: Estados Unidos. uma alta autoridade federal mandou abrir a ensecadeira. União Soviética e Vaticano. destacando-se quartzitos xistosos dobrados e extremamente fraturados. o sangradouro permaneceu sem ser revestido de concreto. Mais uma vez. O projeto foi encomendado ao Laboratório Hidrotécnico Saturnino de Brito – HIDROESB e idealizado pelo Professor Theophilo Benedicto Ottoni Netto aproveitando em parte a configuração da encosta erodida e desenvolvendo uma concepção de elogiável arquitetura hidráulica. testada em modelo reduzido. Apesar de ter sido o responsável pela carência de recursos que ocasionou o colapso da barragem com graves consequências para as populações de jusante. A água escoando a elevadas velocidades sobre a rocha altamente fissurada. França. há um monumento em bronze com a estátua do presidente em tamanho natural. Figura 8 . Alemanha Ocidental. Em visita ao local em época em que o reservatório estava com elevado nível d’água. Theophilo Benedicto Ottoni Netto e José Cândido Parente Pessoa em visita ao modelo hidráulico reduzido do vertedouro de Orós erosão regressiva que quase comprometeu a estabilidade da ombreira esquerda. A barragem foi rapidamente reconstruída entre julho de 1960 e janeiro de 1961. Juarez Távora.Erosão na área do vertedouro antes do revestimento de concreto 83 . provocou grande Figura 9 – Saturnino de Brito Filho. Entretanto. A rocha local é composta por xistos da série Ceará. era protegido por uma pequena ensecadeira. tendo sido inaugurada pelo presidente Juscelino Kubitscheck. após a emergência.

XX e XXI Figura 10 – Açude de Orós Figura 11 – Vertedouro de Orós em operação 84 .Séculos XIX.A História das Barragens no Brasil .

643 m de extensão de crista e volume de reservatório de 245.” Os estudos do DNOCS indicaram o boqueirão Cocorobó como o sítio mais indicado para a construção da barragem. do Exército Brasileiro contra jagunços seguidores da figura mística de Antônio Vicente Mendes Maciel. Consta que o pedido da construção da barragem de Cocorobó partiu do chefe político local durante a visita. o corta cabeças. a seleção do local foi questionada por diversos pesquisadores e historiadores. Mesmo no local selecionado. posteriormente. aparecendo as antigas construções. Getúlio teria perguntado a Isaias Canário o que poderia ser feito por Canudos e recebeu como resposta: “Um açude Senhor Presidente. com 34 m de altura. é uma estrutura de terra compactada. o volume d’água A barragem. tendo ao fundo o açude de Cocorobó Figura 12 – Prisoneiros da guerra de Canudos 85 . Figura 13 – Estátua de Antônio Conselheiro. e.3 milhões de metros cúbicos. conhecido por Antônio Conselheiro. A segunda defende a idéia de que o boqueirão era o local mais apropriado para a implantação do açude. do presidente Getúlio Vargas à região e ao segundo Arraial de Canudos. como ficou evidenciado nas estiagens ocorridas entre 1994 e 2000 quando as demandas fizeram com que o espelho d’água atingisse níveis muito baixos.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A barragem de Cocorobó Na última década do Século XIX foram travados vários combates entre forças militares do estado da Bahia e. Na época. prêmio Nobel de literatura em 2010. também descrita com maestria por Mario Vargas Llosa. os seguidores de Antônio Conselheiro rechaçaram quatro investidas e expedições das forças armadas. Esse terrível episódio de nossa história é magistralmente narrado por Euclides da Cunha que foi testemunha ocular da terceira expedição comandada pelo sanguinário coronel Antônio Moreira César. Na realidade. havendo duas correntes distintas: a primeira acusa o governo federal de tentar apagar da memória nacional o triste incidente de Canudos. cidade posteriormente denominada Florianópolis em homenagem ao ditador da ocasião. há acumulado pelo açude não é suficiente para atender a exploração de todo potencial de solo agricultável a jusante. em 1940. tendo sido finalmente aniquilados em seu arraial denominado Belo Monte. principalmente a parte superior da igreja de Antônio Conselheiro bombardeada por canhões do Exército. cem anos após. desarmados e militarmente despreparados. Principalmente após a construção. incontestavelmente de elevado valor histórico. concluída em 1968. que já havia assassinado mais de cem habitantes de Nossa Senhora do Desterro. escondendo sob as águas a participação do Exército no conflito. construído em 1909 por parentes e sobreviventes do massacre. Inicialmente pacíficos. em nenhum momento foi cogitado que o sítio selecionado iria submergir o que havia restado de Belo Monte.

Era mesmo tentador tentar apagar qualquer registro do massacre dos habitantes de Belo Monte. Após o aniquilamento do arraial e de seus ocupantes. “aquela campanha (do Exército) foi o maior crime praticado em território brasileiro. Segundo o engenheiro Euclides da Cunha que esteve no teatro da guerra. Pedrão que havia saído para combater a quinta expedição que chegava com soldados do Rio Grande do Sul. que certificam que o local selecionado é na realidade o mais apropriado para a implantação da barragem: a jusante o vale é muito aberto e com espessas camadas de sedimentos e a montante não havia local tão propício para um reservatório. Como havia sido o primeiro a falecer após a conclusão do cemitério.A História das Barragens no Brasil . Ao final da guerra. estudos de locais para implantação de açudes no Nordeste. principal jagunço de Antônio Conselheiro na fase final dos confrontos com o Exército. que justifica a interpretação de que a barragem teria sido construída para afogar a memória da Guerra de Canudos concluída em 5 de outubro de 1897. se refugiou nos limites do Piauí com o Maranhão até que uma anistia permitiu que ele retornasse a Canudos. homens. Barragem do Castanhão Os primeiros estudos do Castanhão datam de 1910 quando o geólogo americano Roderic Crandall realizou para a Inspetoria de Obras Contra as Secas. mulheres e crianças foram cruelmente degolados pelas tropas do Exército sob o comando do general Artur Oscar de Andrade Guimarães no incidente conhecido por gravata vermelha. XX e XXI pareceres de engenheiros e mesmo de arqueólogos como Paulo Zanettini e Erica Gonzáles. mesmo aqueles que se renderam com a promessa de não serem mortos.Séculos XIX. Nesse trabalho ele identificou o boqueirão do Cunha como sendo um local para implantação de uma barragem que promovesse alguma regularização e que Figura 14 – Açude de Castanhão 86 . houve um depoimento do diretor geral do DNOCS no início da construção da barragem ao autor deste capítulo. Pouco tempo depois adentra um coronel do Exército no escritório do referido engenheiro e passa uma descompostura nele por ter enterrado na primeira cova do longínquo cemitério da obra “um inimigo da república”. Entretanto.” O engenheiro José Cândido Castro Parente Pessoa contou que no início das obras da barragem conversou muitas vezes com o Pedrão. o engenheiro José Cândido candidamente indicou a cova número um para acolher o falecido. Pedrão faleceu e inaugurou o modesto cemitério que havia sido feito como um dos equipamentos urbanos necessários para a construção da barragem.

P. tendo capacidade de escoar a descarga de projeto de 12. além do redesenho do município de Jaguaribara que teve cerca de 60% de sua área alagada. Agradecimento O autor agradece à engenheira Ana Teresa Ponte pelas fotografias e informações. nona edição. 2009 Sola J. H. incluindo a seleção do local de cada nova moradia. As discussões que foram mantidas no colegiado se transformaram em um documento de importância histórica com 6000 páginas de transcrições de debates. – Os Sertões – Editora Record. – A Century of Dam Construction in Brazil – Topmost Dams of Brazil. nos anos noventa.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens derivasse as águas do rio Jaguaribe. 100 (nível máximo normal de regularização) possui uma área de 325 km² e represa 4. F. com 3. Para contornar essas dificuldades foi constituído um colegiado que funcionou como um parlamento. o principal impacto foi a necessidade de reassentamento de quinze mil pessoas que eram residentes na área a ser alagada. 1982 Llosa. 2007 Departamento Nacional de Obras Contra as Secas – Barragens no Nordeste do Brasil. Além da extensa área do reservatório. 2009 Lima. O vertedouro em concreto gravidade é provido de 12 comportas de segmento de 10 m por 11. A barragem do Castanhão foi concluída em 1999. P. M. – Cocorobó. – La Guerra del Fin del Mundo – Seix Barral. uma Utopia no Sertão – Editora Contexto. A. uma Barragem Projetada para Reacender as Esperanças no Futuro ou Apagar o Passado. M.46x109 m³.450 m de extensão e 72 m de altura. A barragem é uma longa estrutura de terra compactada com um trecho em concreto compactado com rolo. E. à seqüência de pagamentos e às prioridades no processo de transferência da população. A descrença e a desconfiança permaneciam na população local e os opositores mantinham todas as ações possíveis para evitar que a obra fosse iniciada. 1978 Monteiro. 300 páginas de atas de reunião e 360 fitas gravadas. acompanhando as obras com reuniões públicas mensais em que as manifestações eram livres. Morada Nova e Jaguaretama para o município de Jaguaribara. 1989 Figura 15 – Açude de Castanhão 87 . Histórico sobre a Construção do Açude. V. Em novembro de 1995 foi expedida a ordem de serviço autorizando o início da construção. Oitenta anos após. 1991 Miguez de Mello. incluindo a totalidade da sede municipal de Jaguaribara. O canal de derivação se estende por 256 km com a capacidade adução de 22 m³/s. O projeto foi aprovado no Conselho Estadual do Meio Ambiente em dezembro de 1992 por doze votos a favor e oito contra. Conviver. O reservatório na El. o projeto da barragem foi concluído e submetido a intensas e extensas discussões para a obtenção do licenciamento ambiental. A. – Orós. – Castanhão – Conviver.55 m. F. Nesse aspecto foi importante a transferência de áreas dos municípios vizinhos de Alto Santo. – Canudos. As principais decisões do colegiado foram relativas ao estabelecimento de uma tabela para indenizações de propriedades. 2009 Paulino.345 m³/s com sobre-elevação de 6 m. Referências Cunha. Conviver.

88 .

em Nova York. Nessa época o Brasil vivia no segundo reinado sob um imperador extremamente interessado em todos os domínios da cultura. pela primeira vez no País. na época sob a direção de Francisco Pereira Passos. No ano de 1857. foi realizada em pú- blico. Nesse mesmo ano. prédio da UFRJ hoje tombado pelo seu valor histórico e conhecido como Alma Mater da Engenharia Brasileira. Em 1881. de onde despachava com sua equipe de governo. por ocasião da viagem de Dom Pedro II a Minas Gerais. 89 . Por ocasião de eventos no prédio. próxima ao prédio da Escola Central. Usina hidroelétrica de Tombos em Minas Gerais. da ciência e da tecnologia. A primeira instalação no País de iluminação com base em energia elétrica em área externa foi efetivada em 1881 no Jardim do Campo da Aclamação. Vista do canal de adução para a casa de força. em 1862. por ocasião de uma homenagem ao Imperador Dom Pedro II no prédio da Escola Central. ocorreu na Praça da Proclamação. É do conhecimento de historiadores o intenso interesse do Imperador pelos desenvolvimentos tecnológicos que na época encontravam ampla divulgação na Escola Central. hoje Praça Tiradentes.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Resumo da História Remota da Hidroeletricidade no Brasil Flavio Miguez de Mello Os primeiros tempos . Não raro Dom Pedro II freqüentava eventos técnicos na Faculdade de Medicina e na Escola Central. até hoje conhecida como a sala do trono. o diretor Claude Henry Gorceix da Escola de Minas e Metalurgia de Ouro Preto. no coração da cidade do Rio de Janeiro. demonstrando que a eletricidade poderia trazer benefícios inestimáveis à sociedade. uma experiência de geração e utilização de energia elétrica que se tem notícia em território nacional. certamente não poderiam imaginar a dependência que a sociedade viria a ter da eletricidade nos dias atuais. atualmente Praça da República. fez acender uma lâmpada com energia proveniente de um dínamo acionado pelos detentos da cadeia local. Os que presenciaram a experiência. Cinco anos depois. Em 1879 foi efetuado o primeiro emprego comercial do dínamo pela Edison Electric Light Co. o Imperador chegava a ocupar a sala frontal do segundo pavimento (na época o prédio era de dois pavimentos). uma nova demonstração pública de iluminação baseada em energia elétrica. A energia gerada foi utilizada para acender uma lâmpada. no Rio de Janeiro. Dom Pedro II concedeu a Thomas Alva Edison a concessão para introduzir no Brasil os equipamentos de sua revolucionária invenção e inaugurou a iluminação elétrica da estação da Estrada de Ferro Pedro II. atual estação ferroviária situada na Avenida Presidente Vargas. esta precursora das atuais Academia Militar das Agulhas Negras e Escola Politécnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ.Século XIX Recuamos à distante época dos meados do Século XIX quando não havia ainda exploração econômica de energia elétrica no mundo. no Rio de Janeiro. embora surpresos. por ocasião da inauguração da estátua eqüestre de Dom Pedro I. Essa foi a primeira instalação de iluminação elétrica de caráter permanente que foi instalada no País. A Escola Central era situada no Largo de São Francisco de Paula.

casa de força abrigando duas máquinas Gramme de 8 CV cada. contratado na Europa diretamente pelo governo imperial como um dos docentes para aquela Escola. instalou no ribeirão do Inferno. hoje substituída por uma estrutura de concreto gravidade. aproveitava uma queda de cerca de 40 m acionando uma roda d’água de 20 pás que movimentava dois dínamos Gramme com potência total de 500 CV. no Rio de Janeiro. Dom Pedro II inaugurou. sendo a primeira verificada nas noites de 10 e 11 de junho de 1901. Em 1887 a empresa Companhia Fiat Lux iniciou um serviço de iluminação pública em Porto Alegre. não chegando a durar um ano sequer. Essa usina manteve uma centena de lâmpadas na região central da cidade com energia produzida por um dínamo de 50 CV. o Professor Armand de Bovet. após pouco tempo. pioneira de um desenvolvimento impar no século seguinte. No dia 24 de junho de 1883. Ainda em 1887. A usina encontra-se desativada há décadas. outro marco histórico do progresso nacional. Entretanto. através de 10 lâmpadas de arco voltaico de 2000 velas cada. Nessa data foi colocada em operação no rio Paraibuna. da Escola de Minas e Metalurgia de Ouro Preto. então ocupado pelo Ministério da Viação. A barragem.Séculos XIX. A adução era feita por um desvio no 90 . com 1500 rpm. industrial estabelecido em Juiz de Fora. de propriedade da Companhia Força e Luz. a empresa Real & Portella colocava em funcionamento a iluminação pública da cidade de Rio Claro no Estado de São Paulo. em Campos dos Goytacazes. com energia elétrica gerada por uma termoelétrica com capacidade instalada de 160 kW. com capacidade total de 52 kW. Minas Gerais. na Exposição Industrial que foi instalada no edifício do Paço. passou a ser utilizada também em iluminação. Rio Grande do Sul. iluminação e esgotamento de água nos túneis da mina de ouro e. Não havia barragem. A iluminação pública contava com 39 lâmpadas de 2000 velas cada. Minas Gerais. a operação dessa usina teve vida efêmera. à iluminação das residências do acampamento da empresa. A energia era destinada às atividades de mineração. Também em 1887 entrou em operação a usina hidroelétrica do ribeirão dos Macacos. A usina. localizada em Honório Bicalho. na bacia hidrográfica do rio Jequitinhonha. a mais antiga usina hidroelétrica do País e uma das mais antigas do mundo. Em 1883.25 m de diâmetro. a usina hidroelétrica Marmelos com 252 kW de capacidade em duas unidades geradoras acionadas por duas rodas d’água. através de 16 lâmpadas de arco voltáico supridas por dois dínamos acionados por um locomóvel. sendo hoje um pequeno museu mantido pela CEMIG à beira da rodovia União Indústria.5 km). No dia 15 de novembro de 1884. A transmissão era a mais longa do mundo na época. com 2 km de extensão (a transmissão da primeira usina de Niagara Falls tinha 1. Em 1887 foi instalada uma pequena usina termoelétrica no Largo de São Francisco de Paula. gerando em corrente contínua. de propriedade da Compagnie des Mines d’Or du Faria. na atual Praça 15 de Novembro. A usina dispunha de uma barragem que criava uma queda de cerca de 5 m. Essa foi a primeira usina hidroelétrica no Brasil. posteriormente. A energia gerada movimentava duas bombas de desmonte a jato d’água para exploração de diamante e.A História das Barragens no Brasil . acionadas por uma roda d’água de madeira com 3. na zona urbana da cidade de Piracicaba. uma usina termoelétrica dotada de três dínamos. atual município de Nova Lima. no município de Diamantina. Em 1893 era colocada em operação a hidroelétrica Luiz Queiroz no rio Piracicaba. XX e XXI pela Diretoria Geral dos Telégrafos. Ao longo de todo Século XIX a iluminação não sofreu sequer uma paralisação noturna. no Rio de Janeiro. este devido a Mariano Procópio que obteve do governo imperial concessão para construir e explorar a rodovia inicialmente utilizada por viaturas de tração animal. era um maciço de enrocamento impermeabilizado na face de montante por uma laje de madeira composta de pranchas aparelhadas. Dom Pedro II acionou a ligação de 60 lâmpadas da Edison Electric Co. São Paulo. No dia 7 de setembro de 1889 teve início o emprego da hidroeletricidade para serviço público no País pela iniciativa de Bernardo Mascarenhas.

em Alagoas (1895) e Estância. Curitiba. uma no ribeirão Claro e outra no rio Corumbataí. em São Paulo e em Minas Gerais por empreendedores nacionais e estrangeiros. Em 1895 entrou em operação a hidroelétrica de Corumbataí. pela ordem cronológica. A casa de força abriga duas unidades de capacidades distintas que somam 1. no Rio Grande do Sul (1887). São Paulo. Canadá. no Paraná (1892). por governos estaduais e mesmo por governos municipais. Rio Claro. Como não havia legislação específica. propiciou a vinda do principal executivo Frederick Pearson que trouxe o advogado e empreendedor 91 . no Rio de Janeiro (1883). Porto Alegre. Essa concessão da São Paulo Railway Light and Power Co.. Campos dos Goytacazes. não se desenvolvia a mineração de carvão e nem se considerava possibilidades da existência de reservas de petróleo. em São Paulo (1884).88 MW.7 MW. A primeira concessão do grupo foi dada pela Câmara Municipal de São Paulo para serviços de transporte urbano em veículos movidos a eletricidade. A casa de força abriga quatro unidades de potências e procedências diversas somando 2. no município de Rio Claro. A abundância de lenha e a aparente ausência de reivindicações populares para universalização dos serviços de eletricidade faziam com que não houvesse. A energia representava pouco na economia nacional retratada pelas importações de carvão e de querosene que atingiam a apenas 6% e 2% do total das importações do País. O ambiente político era favorável a concessão a empresas privadas. independente da nacionalidade. uma das mais extensas do mundo na época. formada em Toronto. Ltd. Destes últimos. para serviços públicos e exploração de recursos naturais. tinham seus pequenos reservatórios unidos por um túnel escavado em rocha.000 km. preocupações com o suprimento de energia. Duas barragens. Nessa época estavam sendo iniciadas várias atividades de implantação de novos serviços de energia elétrica principalmente no Rio de Janeiro. Figura 1 – Usina hidroelétrica de Marmelos O início do Século XX (até 1913) Na virada do Século XIX para o Século XX a população brasileira de 17 milhões de habitantes era predominantemente rural. situada não muito afastada do extenso litoral nacional e servida por uma rede ferroviária de 14. por parte do poder público. Com uma atividade de exploração puramente extrativista dos recursos florestais com base em desmatamento da Mata Atlântica de forma dispersa e sem registros oficiais.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens curso do rio próximo à sua margem esquerda. Juiz de Fora. Maceió. em Minas Gerais (1889). em Sergipe (1900). as concessões de serviços de energia elétrica eram dadas pelo governo central. destaque é devido ao grupo que se tornou a São Paulo Light e a Rio Light. Até a virada do Século XIX para o Século XX as primeiras cidades por unidades da Federação que tiveram serviços públicos contínuos de força e luz foram.

Essa usina foi sucessivamente ampliada até atingir 16 MW instalados. Desta maneira surgiram os primeiros concessionários privados nacionais de energia elétrica nas regiões Sul e Sudeste. A quase totalidade delas e suas áreas de concessão foram sendo incorporadas por empresas maiores. A empresa passou a operar no País ao abrigo da autorização concedida em 1895 pelo presidente Campos Sales. Com esse perfil de consumo e com os elevados custos da época em que todos os equipamentos eram importados. A barragem era em arco-gravidade situada no alto Ribeirão Das Lajes. A barragem é uma soleira vertedoura de gravidade em pedra arga- 92 . a implantação das hidroelétricas de Piabanha. construída no rio Piabanha pelos Guinle em 1908. no rio Tietê. tendo sido.Séculos XIX. A segunda hidroelétrica instalada no estado foi Piabanha. com vertedouro de lâmina livre em sua crista. tendo sido instaladas por prefeituras ou por pequenos empresários para atendi­ mento às demandas das suas fábricas. o excesso de energia era destinado à iluminação pública e domiciliar. Seu objetivo inicial era atender às necessidades da rede de transportes urbanos e iluminação da cidade de São Paulo. Nesses casos. que teria inicialmente 2. As hidroelétricas que eram instaladas no início do Século XX eram destinadas a suprir de energia elétrica centros isolados. na quase totalidade. desativadas anos depois. Nos últimos anos do Século XIX foram iniciadas as obras da primeira usina hidroelétrica da empresa no Brasil. denominada na época Parnaíba. hoje Edgard de Souza. Em 1908 a usina já tinha 12 MW instalados. as hidroelétricas eram em geral de portes muito modestos e tinham casas de força em posição remota em relação às barragens.A História das Barragens no Brasil .000 kW instalados. XX e XXI Figura 2 Barragem e Reservatório de Lajes canadense Alexander Mackenzie e os engenheiros Hugh Cooper e Robert Brown. Hans e Coronel Fagundes. No Rio de Janeiro a primeira hidroelétrica foi Fontes. No Estado do Rio de Janeiro nesse início do Século XX destacamse. sendo ampliada para 24 MW em 1909. a de Lajes. instalada pela Light em 1905 com a finalidade de proporcionar iluminação pública e residencial bem como tração para os bondes da capital federal. tornando-se uma das maiores hidroelétricas do mundo. a jusante da cidade de São Paulo.

Casa de Força de Fontes 93 . A casa de força abriga duas unidades Francis duplas gêmeas de 3 MW cada.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens massada com 25 m de extensão e altura de 6. com altura de 13 m e 80 m de extensão. campo de conhecimento em que se tornaria uma das mais altas expressões mundiais a partir da segunda metade do Século XX. em Muri. A barragem é em gravidade de pedra argamassada e concreto. muito próxima à hidroelétrica de Piabanha. Em 1911 os Arp instalaram a hidroelétrica de Hans no ribeirão Santo Antônio. Figura 3 . A barragem é em concreto gravidade com soleira vertente livre e a casa de força abriga uma unidade Francis horizontal de 294 kW. município de Paraíba do Sul. Nessa obra trabalhou o engenheiro Flavio Lyra. Em 1912 os Guinle implantaram a hidroelétrica de Coronel Fagundes no rio Fagundes. tendo assumido em seguida a concessão de serviço público do município.7 m. pai do então menino Flavio Henrique Lyra que brincava no canteiro de obra e já se familiarizava com barragens e hidroelétricas. município de Friburgo com o objetivo de suprir a fábrica de linhas de energia.

No estado do Paraná há referência à hidroelétrica Serra da Prata. A casa de força abriga duas unidades Francis de eixo horizontal de 2. para o Departamento de Águas e Energia Elétrica e para a COPEL. Figura 5 .Barragem de Coronel Fagundes 94 . Alfredo do Paço. Com capacidade de 510 kW. XX e XXI A barragem. município de Tombos. A hidroelétrica de Maurício foi implantada em 1908 no rio Novo.88 MW instalados.Séculos XIX. Em 1912 foi instalada a usina hidroelétrica de Tombos no rio Carangola. Os contrafortes em primeiro plano são reforços recentes Nos 30 m centrais a barragem é vertedoura em crista livre. Força e Luz Cataguazes-Leopoldina. a hidroelétrica passou em 1932 da Cia Melhoramentos Urbanos de Paranaguá para a Cia Melhoramentos Paulistas.4 MW cada. situada na crista da cachoeira de Tombos. A potência instalada era de 1. instalada por ingleses em 1910 na vertente da Serra do Mar em Paranaguá.Barragem de Piabanha. Figura 4 . município de Leopoldina pela Cia. constituindo-se em vertedouro de soleira livre. A casa de força abriga dois grupos geradores num total de 2. é em concreto gravidade de pequena altura. A construção foi supervisionada pelo engenheiro Otávio Carneiro. para a prefeitura de Paranaguá. A barragem com 6 m de altura era vertedoura com crista livre situada na crista da cachoeira da Fumaça.A História das Barragens no Brasil .3 MW. Em 1911 foi inaugurada a hidroelétrica de Pitangui para suprir de energia elétrica a cidade de Ponta Grossa. No início do Século XX em Minas Gerais destacam-se as hidroelétricas de Maurício e Tombos. assessorado pelos engenheiros Pedro Leivas. sendo desativada em 1970. Osvaldo Lynch e Henrique Fox Drumond.

delas tive ampliações de capacidade instalada em etapas posteriores.Barragem vertedoura e canal de adução de Tombos Em Santa Catarina. em 1909. A usina encontra-se implantada na vertente oceânica da Serra do Mar. a metade Figura 6 . Esmeril. sendo soleiras livres implantadas nos leitos dos rios. com cinco unidades Pelton com potência nominal de 3 MW cada sob 640 m de queda br uta. 10 MW de potência efetiva. mas sempre ficando com potências inferiores a 6 MW. para suprimento de Blumenau. em 1913. as usinas de Socorro. poucas com contrafortes localizados. Capitão Preto. São Joaquim e Brotas. em 1912. A barragem é uma soleira vertedoura de altura apenas suficiente para promover a derivação de parte das descargas para a tomada d’água que conduz as águas captadas para as turbinas que são alojadas em casa de força abrigada na margem direita.5 m de comprimento. As barragens dessas usinas eram de altura modesta.4 m³/s. em 1911. Desse conjunto de usinas pioneiras. entrou em operação em 1913 a primeira unidade da hidroelétrica de Salto Weissbach no rio Itajaí Açú.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens O Estado de São Paulo se destaca nos primeiros anos do Século XX por um expressivo números de pequenas hidroelétricas como as usinas de Santa Alice que começou a operar a partir de 1907. San Juan.7 m de altura e 41. A maioria dessas usinas tinha menos do que 1000 kW instalados em sua primeira etapa.M. em alvenaria de pedra e concreto ciclópico foi implantada no município de Cruz Alta tendo sua casa de força a potência instalada de 268 kW e a barragem Picada 48. A maioria dos vertedouros era sem controle. em geral de gravidade em alvenaria de pedra. Turvinho Batista e Sodré. no município de Figura 7 – Usina hidroelétrica de São Valentim 95 . envolvida por densa floresta da Mata Atlântica. as hidroelétricas de Monjolinho. Votorantim. Marmelos II. Boa Vista e Quilombo. Itatinga. Macaco Branco.5m com engolimento de 19. em alvenaria de pedra. Salto Grande. Bocaina. São Valentim e Marmelos II em 1910. Rio Novo e Monjolinho. Salto Pinhal e Bocaina foram desativadas nos anos oitenta e noventa do século passado. No estado do Rio Grande do Sul as primeiras barragens que se tem notícia para produção de energia elétrica foram construídas a partir de 1911 e entraram em operação em 1912. A barragem Inglês com 4 m de altura e 55 m de extensão. com apenas 2. Voith são Francis gêmeas de eixo vertical com potência de 1470 kW cada sob a queda nominal de 10. Salto Pinhal. As turbinas de fabricação J. Gavião Peixoto. foi construída no município de Dois Irmãos tendo sua usina a capacidade de 200 kW. Chibarro. mas apresentando no conjunto. O destaque dentre essas usinas é Itatinga.

Séculos XIX. XX e XXI Figura 8 – Usina hidroelétrica de Brotas Figura 9 – Usina hidroelétrica de Gavião Peixoto Figura 10 – Usina hidroelétrica de Boa Vista 96 .A História das Barragens no Brasil .

Prado Junior F. A casa de força foi implantada no trecho médio da escarpa granítica da margem esquerda do salto principal. Saveli. – A Century of Dam Construction in Brazil – Comitê Brasileiro de Grandes Barragens. O reservatório é formado por duas barragens de alvenaria de pedra argamassada com vertedouro de soleira livre. 1982. A energia produzida era direcionada para a fábrica de linhas e para a vila residencial na localidade de Pedra. 2009. A. Memória da Eletricidade . e Amaral. Ee Amaral C. . O conjunto arquitetônico da casa de força é majestoso. hoje Delmiro Gouveia. Miguez de Mello. A. sendo o acesso o mesmo utilizado desde o início das obras em 1890. – Pequenas Centrais Hidrelétricas no Estado de São Paulo Governo do Estado de São Paulo. F.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Bertioga. Comitê Brasileiro de Barragens.1 MW instalados. 2000. SP.A. Em 1913 entra em operação a primeira hidroelétrica do Nordeste Angiquinho. tendo passado de 306 em 1920 para 1009 em 1930. 1979. – The Development of the Brazilian Dam Engineering . tiveram expressivo desenvolvimento nos primeiros anos do Século XX..Main Brazilian Dams III. 2000 Prado Jr. – Pequenas Centrais Hidrelétricas no Estado de São Paulo – Comissão de Serviços Públicos de Energia. F. C. 1976. F. Essas pequenas hidroelétricas aproveitando quedas d’água naturais e operando seus reservatórios a fio d’água. Figura 11 – Usina hidroelétrica de Angiquinho 97 . 1999. A usina foi implantada com o objetivo principal de suprir o porto de Santos de energia elétrica.A. Referências Dias Leite. construída por Delmiro Gouveia na margem alagoana da cachoeira de Paulo Afonso. – Brazilian Development in Engineering for Dams – Comitê Brasileiro de Grandes Barragens.A. M. Miguez de Mello. F. A. feito por via férrea a partir da margem direita do rio Itapanhau. próximo à rodovia BR-101. A. Miguez de Mello. com 1.Reflexos da Cidade.Sinopse Histórica da Eletricidade no Brasil. – A Energia do Brasil. 1997.

98 98 .

na Estação Central da Estrada de Ferro D. Pedro II. destinada à extração de minério na região. Em 1883 o imperador Dom D. Em Minas Gerais. No ano de 1883 entrou em operação a primeira usina hidroelétrica no país. entrou em operação em 99 . A energia era fornecida por uma usina termoelétrica. o interesse pela nova fonte de energia intensificouse. em 1879. no município de Viçosa. em 1885 a Usina Hidroelétrica da Companhia Fiação e Tecidos São Silvestre. Neste mesmo ano Thomas Alva Edison havia construído a primeira central elétrica para utilização na iluminação pública na cidade de Nova Iorque. às margens da estrada União e Indústria. quando Dom Pedro II inaugura. Empresas de mineração e fábricas têxteis promoveram. Esta usina Figura 1 . atual Estrada de Ferro Central do Brasil no Rio de Janeiro. destinada à produção de energia para utilidade pública. na cidade de Campos (RJ). a Usina Hidroelétrica Ribeirão dos Macacos. a primeira instalação de iluminação elétrica permanente do país. foi instalada pela Diretoria Geral dos Telégrafos a primeira iluminação externa pública do país. Posteriormente mais algumas usinas entram em operação. o primeiro serviço público municipal de iluminação elétrica do Brasil e da América do Sul. nesse período.Primeira Usina Hidroelétrica da América do Sul destinada à produção de energia para utilidade pública foi desativada cento e quatro anos mais tarde em 1987. Essa história iniciou-se no final do século XIX. a construção de unidades de produção de energia hidroelétrica visando a autoprodução. A usina de Marmelos. na cidade do Rio de Janeiro. localizada no Ribeirão do Inferno. Em 1881.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Usina Hidroelétrica de Marmelos Adelaide Linhares de Carvalho Carim Introdução O Brasil foi um dos pioneiros na exploração da energia elétrica. afluente do rio Jequitinhonha. Mas a primeira hidroelétrica de maior porte construída na América do Sul. em 1887.“Marmelos Zero” . na cidade de Juiz de Fora (MG). Pedro II inaugurou. no Rio Grande do Sul. na cidade de Diamantina. em trecho da atual Praça da República. em substituição aos 46 bicos de gás existentes. foi a Usina Hidroelétrica Marmelos no rio Paraibuna. em 1887. hoje Marmelos-Zero. ambas em Minas Gerais e a Usina Termoelétrica Velha Porto Alegre.

XX e XXI 5 de setembro de 1889. Com a cafeicultura.A História das Barragens no Brasil . entre as cidades de Petrópolis e Juiz de Fora.que em 1965 se tornava Juiz de Fora . como a Rodovia União Indústria. A Companhia Mineira de Eletricidade foi de extrema importância para a industrialização de Juiz de Fora. como Matias Barbosa. Dom Pedro II e representantes ilustres da Corte e da Companhia União Indústria percorreram em diligência os 144 quilômetros da primeira rodovia macadamizada brasileira. Mariana. Sabará. Sua inauguração trouxe a mão de obra qualificada dos imigrantes alemães.Companhia Mineira de Eletricidade em 1888. Bernardo Mascarenhas foi o responsável pela instalação de Marmelos. Por meio deste caminho que efetivamente a história de Juiz de Fora se inicia. havia grandes fazendas de café que eram as bases da economia local. que começou a ser escrito quando o bandeirante Garcia Dias Paes traçou o chamado Caminho Novo que passava pela margem do Rio Paraibuna. dois meses antes da proclamação da república e apenas 7 anos depois da hidroelétrica de Appleton em Wisconsin na America do Norte.Juiz de Fora em 1875 100 .Séculos XIX. foram erguidos pequenos povoados. por iniciativa do industrial Bernardo Mascarenhas. Ao longo deste caminho. Neste ano. e fundador da já extinta CME . para ligar o porto do Rio de Janeiro Figura 2 . Santo Antônio do Paraibuna . Estes eram locais de descanso dos tropeiros que passavam pela região. Diamantina e tantas outras). construída pelo engenheiro Mariano Procópio Ferreira Lage e pela Companhia União Indústria.Barbacena e outras. Juiz de Fora prosperou grandemente devido à cafeicultura. marco zero da energia hidroelétrica no Brasil. novos investimentos foram trazidos para a cidade. às margens do Paraibuna. em 1861. até a principal região mineradora (Vila Rica. com a inserção de A cidade de Juiz de Fora no final do século XIX A inauguração da usina de Marmelos veio se somar ao pioneirismo desta cidade. que iniciaram o processo industrial da cidade.

fotógrafo do imperador. Barão de Rio Branco em 1903 ambas pertencentes ao acervo do Museu Mariano Procópio. Em 1980 os serviços urbanos foram ampliados com bondes de tração animal. Barão de Rio Branco -1903 101 . Todos estes empreendimentos foram realizados por iniciativa do industrial Bernardo Mascarenhas.Av. e em 1884. telefones urbanos. promoveu a comunicação entre a cidade e a corte. A Estrada União Indústria existe até hoje em vários e extensos trechos. tendo sido substituída como ligação rodoviária entre Petrópolis e Juiz de Fora pela BR-040. e intitulado “Doze Horas em Diligência . escrito pelo alemão Revert Henrique Klumb. Em 1878 funcionavam seis estabelecimentos de ensino. que ficava neste momento no Rio de Janeiro. Mais tarde vieram os italianos e com eles ampliaram outros setores como o comércio e a prestação de serviços. a construção da ferrovia Dom Pedro II em 1875.Guia do Viajante de Petrópolis a Juiz de Fora”. Em 1888 Juiz de Fora ganhava a Companhia Têxtil Bernardo Mascarenhas e o Banco de Crédito Real.Panorâmica de Juiz de Fora – 1893 usina hidroelétrica para iluminação pública da América do Sul. Figura 4 . As figuras a seguir mostram Juiz de Fora em 1893 e a Av. A cidade de Juiz de Fora se iluminava para o mundo. em 1883. em 1881 ganhava telégrafo. Outro beneficio da estrada foi a melhoria no escoamento da produção cafeeira da Zona da Mata Mineira até o Rio de Janeiro. antes mesmo até que algumas importantes cidades européias. A estrada deu origem também ao primeiro guia de viagens do Brasil. e em 1889 a primeira Figura 3 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens algumas fábricas. Posteriormente. fórum e jornais. o telégrafo.

privada no país. viaja para a Europa e Estados Unidos com a incumbência de atualizar-se. Bernardo Mascarenhas Bernardo Mascarenhas nasceu em 1846.A História das Barragens no Brasil . Figura 6 . filho de Antônio Gonçalves da Silva Mascarenhas e de Policena Moreira da Silva Mascarenhas.A. Em 1882 foi aprovada a lei das sociedades anônimas no Brasil e em 1883 fez-se a fusão das empresas (Cedro e Cachoeira). convida dois irmãos para montarem em sociedade uma indústria têxtil.Companhia Têxtil Bernardo Mascarenhas inaugurada em maio de 1888 102 . é o décimo filho dentre os 13 filhos do casal. Para aprender sobre tecelagem. dinheiro para iniciar a vida como criador de gado e comércio de sal. É criada então em Curvelo a companhia Cachoeira (1877). A partir da experiência adquirida com os teares de madeira. física. recebeu de seu pai 26 contos de reis. constituindo a primeira S. tocados a mão na fazenda de seu pai. mecânica. Alguns anos mais tarde. adquiriu os maquinários desejados e voltou para o Brasil e. adquirir novos equipamentos e conhecer a utilização da eletricidade na indústria textil. Neste período estudou idiomas. Com 18 anos. na fazenda São Sebastião. no ano de 1872 em Sete Lagoas. inaugurou as instalações da fábrica têxtil da companhia Cerdo.Séculos XIX. como fazia com os demais filhos ao completar esta idade. um dos melhores de Minas Gerais. região de Curvelo. visitou fábricas. utilizando as mais novas tecnologias da época.Bernardo Mascarenhas Aos 12 anos iniciou seus estudos no colégio Caraça. viajou para os Estados Unidos onde ficou por 1 ano e meio. considerado à época. XX e XXI Figura 5 .

encomendando o material para a usina) Figura 7 . foi realizada a primeira experiência com a eletricidade e em 5 de setembro de 1889 ocorreu a inauguração oficial. Bernardo Mascarenhas projetou e especificou a usina.. fazendo um esboço de próprio punho de como ela seria. Bernardo Mascarenhas faleceu no dia 9 de outubro de 1899 de um ataque cardíaco fulminante. No dia 22 de agosto de 1889. Mascarenhas e o banqueiro Francisco Batista de Oliveira recebem aprovação junto à câmara municipal para explorar a Cachoeira dos Marmelos para produção elétrica e a concessão para a iluminação da cidade e obteve a revisão do contrato original.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Bernardo Mascarenhas mudou-se para Juiz de Fora em 1886 e adquiriu o terreno próximo do Rio Paraibuna e da Rodovia União Indústria. aproveitando os recursos naturais de seu terreno. tendo em vista o uso da iluminação elétrica. O empresário adquiriu outro terreno perto da estação ferroviária. “Me considerarei muito feliz se for o primeiro a transmitir força elétrica. praticamente utilizável. devendo ter força bastante para alimentar 50 lâmpadas de arco de 1000 velas e quinhentas ditas incandescentes de 16 velas. inaugurada em maio de 1888. local mais propício para o escoamento da produção de tecidos. seria erguida a primeira usina hidroelétrica da América do Sul. Em 1886. Bernardo Mascarenhas buscava outras fontes de energia em substituição à energia usada que até então era à base de querosene. que se localizava próximo à cachoeira de Marmelos. “A fábrica de eletricidade será provida de dois excelentes dínamos movidos por duas turbinas verticais ou de eixos horizontais. A CME foi a responsável pela construção da usina de Marmelos Zero e foi presidida por Mascarenhas até seu falecimento. mais tarde. também fundada por ele em janeiro de 1888. Neste local. Doou este terreno para a CME Companhia Mineira de Eletricidade.” (Trecho de memorial de Bernardo Mascarenhas para Max Nothman & Co.Esboço da hidroelétrica Marmelos Zero por Bernardo Mascarenhas 103 . em substituição à iluminação a gás. no Brasil ou talvez na América do Sul” (trecho da carta de Mascarenhas em 1887). A nova usina além de atender à iluminação pública da cidade atenderia as máquinas da Companhia Têxtil Bernardo Mascarenhas. A antiga Companhia Têxtil Bernardo Mascarenhas apresenta rigorosa simetria com um corpo central em três pavimentos e ladeado por suas extensas alas horizontais em dois pavimentos. onde pretendia montar uma indústria de tecidos.

XX e XXI Descrição geral da usina Geologia A geologia ao longo do rio e suas margens é constituída por afloramentos de rochas charnockíticas. denominado “Castelinho”. quando ocorreu a inauguração do motor elétrico. gnáissicas. granulitos e anfibolitos do Complexo Juiz de Fora e parte do embasamento Pré-Cambriano indiferenciado. 104 . quartzito e entrecortados por diques de anfibolito. O edifício da Cia.Usina de Marmelos . denominado “Castelinho”. como será descrito em seguida. Figura 8 . De modo geral. foram montadas outras usinas no mesmo local para atender inteiramente à crescente demanda de consumo. migmatito. Nas ombreiras e encostas da barragem é comum um manto de solo de 5 a 10 m de espessura. gabro e outras rochas básicas e ultrabásicas. As rochas do complexo charnockítico e do embasamento cristalino possuem sistemas de fraturas. Mineira de Eletricidade. planos de fraqueza e a típica esfoliação esferoidal que se interceptam originando blocos de rocha sã de dimensões variadas. Figuras 9 e 10 . de cor amarelada com alto grau de erodibilidade. em dois pavimentos. Mineira de Eletricidade. disseminados no manto intemperizado ao longo das encostas e principalmente soltos no leito do rio Paraibuna. O solo residual é constituído de areia siltosa. A edificação.A História das Barragens no Brasil . foi construído em 1890. Este complexo charnockítico acha-se intercalado por faixas com espessuras variádas de granulitos.Primeira usina hidroelétrica da América do Sul destinada à produção de energia para utilidade pública e força motriz para indústria Posteriormente. ambos de idade Pré-Cambriana. As rochas charnockíticas são gnaisses que sofreram desidratação e descalcinação durante metamorfismo de alta temperatura e pressão média a alta (fácies granulito). o relevo nas proximidades das usinas caracteriza-se por altas colinas de topos arredondados. lembra a arquitetura medieval . que iria ser colocado na fábrica Bernardo Mascarenhas como força propulsora.Edifício da Cia. vertentes concavo-convexo e drenagem dentrítica.Séculos XIX.

no momento em que a CME adquiria a companhia de bondes de tração animal de Juiz de Fora. Esta usina. sendo denominada Usina 1-A. afluente do rio Paraíba do Sul a 7 km de Juiz de Fora e a 290 km de Belo Horizonte MG. tem como coordenadas geográficas Latitude 21º 43’ Sul e Longitude 43° 19’ Oeste. Em 1910. foi desativada em 1896. fabricados pela empresa americana General Electric e turbinas tipo Francis de 1000 HP. que foi inaugurada inicialmente com dois grupos geradores de 600 kW de potência cada. foi construída a quinta unidade. fabricados pela Westinghouse. Em 1905 foi instalada a terceira unidade com capacidade de 300 kW.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Localização e dados técnicos históricos A usina hidroelétrica de Marmelos está localizada no rio Paraíbuna. na frequência de 60 Hz. de fabricação italiana. acionadas por turbinas Francis. pois a maioria das indústrias têxteis era movida a vapor com complicados sistemas de transmissão para as máquinas e muitas ainda eram acionadas por rodas d’água. visando transformá-la em linhas elétricas. Este motor de 30 HP de potência era de fabricação da Westinghouse. quando Juiz de Fora possuia 180 lâmpadas na iluminação pública e 700 para uso particular. Voith. quando obteve a sua concessão através do decreto MME 700725 de 08/07/80. a cidade de Juiz de Fora passou a viver um intenso desen­ volvimento industrial o que demandava aumento na oferta de energia. A casa de força foi construída em prédio contíguo ao da usina Marmelos 1. fabricada pela empresa americana James Leffel e um gerador de fabricação da General Electric. Marmelos 1 contou inicialmente com duas unidades geradoras bifásicas de 300 kW cada. Outro motor elétrico de 20 HP. ampliou-se a potência da usina de Marmelos 2 com a instalação da terceira e quarta unidades geradoras. tornando-se concessionária dos serviços de eletricidade de Matias Barbosa. denominada Usina Zero. As figuras a seguir ilustram os equipamentos eletromecânicos da usina de Marmelos. última usina construída pela CME. A usina de Marmelos como é denominada atualmente é composta pelas antigas Usinas 2 e 1-A e passou a ser operada pela CEMIG em 1980. Bicas e Guarará. Um terceiro grupo gerador com a capacidade de 125 kW foi instalado em 1892. instalada em uma casa de força adjacente à Usina 1. Em 1948.000 kW. construída pouco abaixo da usina desativada. Em 1952. Com o aumento da geração a CME ampliou sua área de influência na Zona da Mata Mineira. Mar de Espanha. Nesta época. também em Juiz de Fora. operada sob tensão de 1000 Volts. foi adquirido na ocasião pela fir ma Pantaleone Arcuri & Timponi. A usina foi projetada inicialmente com uma capacidade de geração de 250 kW distribuída em dois grupos geradores monofásicos de 125 kW. a usina iniciou o fornecimento de energia para a fábrica de Mascarenhas após a aquisição do primeiro motor elétrico instalado no Brasil. com capacidade de 600 kW cada uma com as mesmas características técnicas das duas anteriores. com capacidade de 1600 kW. Marmelos atinge a potência de 1200 kW com a entrada em operação da quarta máquina de fabricação da Westinghouse. após a inauguração de Marmelos 1. Marmelos 2 passou então a dispor de capacidade instalada de 4. fabricadas pela alemã J. dois anos após a construção da usina de Joasal. Em 1898. Em 1915 o engenheiro Asdrúbal Teixeiras de Souza projetou a segunda usina Marmelos 2. Em 1921 e 1922. 105 . a usina de Marmelos 1 foi desativada. M. Esta unidade geradora era composta por uma turbina tipo Francis dupla. O acionamento elétrico dessas fábricas representou à época outro marco histórico. como as demais.

Interior da casa de força da antiga Usina 2 de Marmelos Figura 12 -Turbina e gerador da unidade 5 da antiga Usina 1 A Figura 13 . XX e XXI Figura 11 .Séculos XIX.A História das Barragens no Brasil .Gerador da unidade 1 a 4 da antiga Usina 2 106 .

Regulador de velocidade da excitatriz Usina 2 Figura 16 .Usina 2 Figura 15 .Excitatriz nº 2 semelhante a uma unidade geradora hidráulica .Painel original das unidades 1 a 4 e excitatrizes 1 e 2.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 14 . inoperante 107 .

A tomada de água do túnel adutor.5 x 2.Séculos XIX. localizado na margem direita. e por um trecho.A História das Barragens no Brasil . XX e XXI Figura 17 – Vista aérea de montante da usina adução e duas tubulações forçadas que conduzem a água até as unidades geradoras. vencendo um desnível de 51 m entre o nível máximo do reservatório e o eixo das tubulações forçadas na entrada das turbinas. fundada em rocha sã pouco fraturada. com capacidade de 58 m³/s. Sobre o vertedouro existe uma passarela que possibilita a colocação de flash-boards de até 2. localizada na margem esquerda.5 m. seguido por um canal de Figura 18 . é composto por um túnel escavado em rocha. seguida por um vertedouro de crista livre com 20 m de comprimento. Tomada de água Arranjo geral atual A barragem para a formação do reservatório operado a fio d’água é constituida por uma estrutura do tipo gravidade em alvenaria de pedra com 51 m de extensão e altura máxima de 7. é uma estrutura em alvenaria de pedra possuindo uma comporta moto- 108 . Possui uma descarga de fundo motorizada (2.Vista de jusante da barragem e do descarregador de fundo na margem esquerda.5 m).5m).5 x 2. localizada na margem direita.5 m de altura divididos em 10 vãos ao longo de todo o comprimento da estrutura. que permitem o aumento da capacidade do reservatório em períodos secos. de alvenaria de pedra. Barragem e vertedouro A barragem é do tipo gravidade. onde estão localizadas a antiga tomada de água para o canal de adução da usina Zero e a tomada de água do túnel de adução da usina de Marmelos. O circuito hidráulico de geração. O arranjo da barragem partindo da ombreira esquerda para a direita se constitui por uma descarga de fundo de acionamento motorizado (2. também em alvenaria de pedra. com um trecho em crista livre vertente com comprimento de 20 m e vazão de 134 m³/s.

O comprimento de cada uma delas é de 125. na sua margem direita e junto à tomada de água do túnel adutor. Hoje é Museu da Usina de Marmelos. situado sob a rodovia. abriga uma unidade geradora de 1600 kW. Próximo a essa estrutura existe um descarregador de fundo. operadas manualmente. Na tubulação nº 2 existe uma bifurcação com diâmetro de 1. tem seção em ferradura semelhante à do túnel. totalmente escavado em rocha e revestido lateralmente com concreto. possui uma comporta de madeira acionada manualmente e muro em alvenaria de pedra. uma com diâmetro de 1. com área total de 273 m². hoje é utilizada como almoxarifado. Canal de fuga As paredes do canal de fuga das antigas Usina 1-A e Usina 2 são em alvenaria de pedra. A turbina é tipo Francis. O outro bloco. que foi a casa de força da Usina 1-A. A casa de força de Marmelos Zero foi edificada em nível abaixo da Estrada União e Indústria. em planta.40 m são a céu aberto. cujas vazões são absorvidas por um canal de concreto.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens rizada tipo deslizante (4. de eixo horizontal e engolimento de 1. Marmelos 1.67 m³/s.20 m) formada por painéis de madeira. A Figura 19 a seguir é uma vista geral da usina de Marmelos (casas de força e tubulações forçadas). Tubulações forçadas Existem duas linhas de tubulações forçadas partindo da câmara de carga. Possui duas comportas na tomada de água. e uma terceira comporta para a regularização do nível de água. que alimenta a unidade geradora nº 5. em alvenaria de pedra. Na continuação do túnel existe um canal de adução com 283. O Museu Usina de Marmelos Zero A CEMIG (na época Centrais Elétricas de Minas Gerais) adquiriu a usina em 1980. O trecho coberto.30 m (tubulação 1) e outra com diâmetro de 1. sobre embasamento de pedra. Câmara de carga Entre o canal de adução e as tubulações forçadas. abriga quatro unidades geradoras de 600 kW cada e casa de força da antiga Usina 2. tem seção de 3. é formada por dois blocos distintos: um deles.44 m de comprimento. Marmelos 1A e Marmelos 2) estão localizadas ao longo do rio Pa­ raibuna e foram assentadas em maciços rochosos sãos. A casa de força da usina de Marmelos. possui uma área total de 201.40 m. Casa de força As estruturas da usina de Marmelos (Marmelos Zero. As turbinas são tipo Francis. Túnel e canal de adução O túnel adutor tem extensão de 215.20 m. Canal de adução desativado Localizado e incorporado à barragem. Uma pequena torre de seção quadrada e telhado de quatro águas marca a construção. situada na Casa de Força 1-A. O trecho a céu aberto. em alvenaria de pedra. 189 m. de eixo horizontal e engolimento de 4.76 m². Na parte direita da estrutura existe um vertedouro complementar.50 x 4. A usina de Marmelos Zero se transformou em 109 . A cobertura de duas águas é recoberta por telhas francesas e tem os beirais ornamentados por lambrequim.50 m (tubulação 2).60 x 3.40 m de extensão. o circuito hidráulico de geração conta com uma câmara de carga em alvenaria de pedra. dos quais 94. sendo vazadas por vãos com vergas em arcos abatidos em seqüência ritmada.80 m e seção em ferradura com 10 m². também em alvenaria de pedra. A casa de força da antiga Usina 1.9 m³/s. Suas paredes são em alvenaria de tijolos maciços aparentes.30 m e 81.

1983 num espaço cultural e museu. inclusive nos finais de semana e feriados. assim como fotos de Bernardo e sua família e painéis com pequenos textos infor mativos. desta vez. concedido pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA). Está aberto das 8:30 h às 17:00 h. pelo Patrimônio Histórico Artístico e Cultural do município de Juiz de Fora. a administração do museu está a cargo da Universidade Federal de Juiz de Fora UFJF. próximo ao trevo da cidade de Bicas. painel de controle de energia e uma réplica de um gerador utilizado na época. livros de ata e contabilidade dos primeiros acionistas da CME. no qual a cidade de Juiz de Fora foi escolhida para ser a primeira a se iluminar. Após a morte de Mascarenhas o prédio passou por Figura 19 – Vista geral das casas de força da usina hidroelétrica de Marmelos: antigas casa de força 1. assim como destacar a figura importante de Bernardo como sendo o precursor desta idealização e realização deste sonho. neste mesmo ano. O prédio da fábrica de tecidos de Mascarenhas também se encontra preservado. após seu tombamento. De segunda a sexta-feira podem ser agendadas visitas monitoradas por acadêmicos da UFJF.Séculos XIX.A História das Barragens no Brasil . Esses tombamentos demonstram a suma relevância de sua preservação como um prédio histórico. a usina ganhou um segundo tombamento. além de várias fotografias que mostram a construção da usina. XX e XXI Desde o ano 2000. O acervo do museu é composto por objetos particulares de Mascarenhas. O convênio firmado entre a UFJF e CEMIG (atualmente Companhia Energética de Minas Gerais) tem como meta aprimorar o atendimento ao público que visita o museu. por meio do telefone (31) 3229-7606.Museu de Marmelos Zero (antiga casa de força Marmelos Zero) 110 . Em 2005. teodolito. cuja fabricação era da Westinghouse. O Museu Usina Marmelos Zero encontra-se localizado às margens da Rodovia União-Indústria. rascunho da planta da usina. no bairro Retiro. O museu tem como propósito preser var a memória tecnológica e científica da cidade. Figura 20 . tripés de madeira. contas de luz. mantendo-o aberto diariamente. máquina de escrever e de calcular. 2 e 1A.

eletrobras.Estudo de Viabilidade de Recapacitação e Modernização .pjf.ebah.html http://www. Silvânia Duarte – Educação e Turismo uma Forma de Conhecer a História da Usina de Marmelos – Departamento de Geociências – UFJF.Centro Cultural Bernardo Mascarenhas Referências CEMIG – Inventário civil – SR/SE Usina Hidrelétrica de Marmelos Relatório Final Novembro 1983. que foi utilizada para pagamento de dívidas junto ao governo.Setembro 1993.asminasgerais.memoria.br/centrodeciencias/museu-usina-marmelos-zero/ http://wikimapia.conotec.br/juizdefora. Lima. Fernanda Borges Ferreira Murilo Keith .php http://www. A mobilização de artistas. Umada. jornalistas e intelectuais fizeram com que o imponente prédio.com.com.br Figura 22 . deixando como patrimônio sua sede.br/historia-das-hidreletricas-no-brpdf-a91646.História das Hidrelétricas no Brasil .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 21 . 2001 http://www.gov.ufjf.Universidade Tecnológica Federal do Paraná Campo Mourão. Cemig Notícia – Mais Energia Para uma Grande Cidade Juiz de Fora .mg. localizado na Avenida Getúlio Vargas 200.Edição Especial Junho de 1980.portalsaofrancisco.org/701437/pt/Usina-Marmelos http://www.com.CCBM .html www.htm www. ampliações e modernizações.asp http://www.br/patrimonio/usina_marmelos. A fábrica encerrou suas atividades em janeiro de 1984.br/alfa/historia-daeletricidade-no-brasil/historia-da-eletricidade-no-brasil-5.Canal de adução desativado 111 .Usina de Marmelos .1ª Etapa : Diagnóstico da Situação Atual da Instalação . 2009. CEMIG .com/index.com. fosse transformado em um centro cultural em 1987.

Usina hidroelétrica de Angiquinho na cachoeira de Paulo Afonso em diferentes regimes do rio São Francisco .

Tinha como objetivo fornecer energia elétrica a indústria têxtil Companhia Agro Fabril Mercantil de propriedade do industrial Delmiro Gouveia. que continua de pé no meio da caatinga. no Rio São Francisco. a bomba d’água que abastecia a cidade. casa de bomba e escada de acesso à casa de força.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Usina Hidroelétrica de Angiquinho Aurélio Alves de Vasconcelos Figura 1 – Vista geral da Usina Hidroelétrica de Angiquinho Introdução Inaugurada em 26 de janeiro de 1913. e também a Vila Operária da fábrica. com sua casa de força encravada nas rochas 113 . O ousado projeto. subestação elevadora. distante aproximadamente 24 km da cachoeira. próximo ao atual Complexo Hidrelétrico de Paulo Afonso. com tensão de saída em 3. as edificações com o acervo interno e externo e toda a área do Complexo de Angiquinho foi tombado e integrado ao Patrimônio Histórico Artístico e Natural do Estado de Alagoas. e outro com 2 casas. Angiquinho foi a primeira usina hidroelétrica do Nordeste. operado pela Chesf.102 KW). um com 11 casas e 1 escola. localizada na cidade de Pedra. Sua energia era suficiente para suprir. o segundo de 450 kVA e. A usina ocupava uma área de 253 hectares e possuía dois conjuntos de instalações. A Usina Hidroelétrica de Angiquinho tinha capacidade de gerar 1. A partir de 30 de novembro de 2006. almoxarifado. localizada na margem alagoana da cachoeira de Paulo Afonso. constituída por três grupos geradores sendo o primeiro de 175 kVA. aproveitando uma queda d’água de uma altura de 42 metros. atual Delmiro Gouveia em sua homenagem.000 Volts. no estado de Alagoas.500 HP (1. além da indústria. de 625 kVA. o último.

Guindaste usado na fase de construção e montagem da casa de força 114 . levou o desenvolvimento para a região que até então só conhecia a luz tênue de candeeiro. ambiental e cultural. é um pólo de turismo histórico. além de ser área de preservação cultural. Angiquinho. educacional. Figura 3 . XX e XXI Figura 2 – Casa de força da Usina Hidroelétrica de Angiquinho íngremes nas margens do cânion do rio São Francisco. Resgata e cria uma grande oportunidade para todos que desejam conhecer a história da eletricidade do Brasil.A História das Barragens no Brasil . Hoje.Séculos XIX.

Delmiro Gouveia refugiou-se no sertão alagoano. o aproveitamento e exploração do vale do rio São Francisco. precisamente em 1903. Tomado pelo ímpeto de realizar proezas. Essa foi a condição para a participação do capital norte-americano no projeto. hoje distrito de Pires Ferreira. com a expressa autorização dos estados fronteiriços ao rio. a industrialização da energia hidroelétrica da cachoeira de Paulo Afonso e um vasto plano agrícola-industrial conexo”. os norte-americanos só participariam. Sabe-se que os estudos contemplaram a viabilidade do aproveitamento hidrelétrico de um trecho do rio. com sua proeza de transformar as idéias em realidade. chefiada pelo capitalista Mr. Fugido do Recife por desavenças políticas. onde. constituída com capital nacional e estrangeiro. Confirmadas as vantagens. além de mover indústrias próximas à cachoeira e a outros planos de irrigação de terras locais. onde foi bem recebido pela oligarquia local. Dantas Barreto. 115 . Contudo. Inicialmente. consegue recuperar a fortuna perdida no Recife. Apesar dessas considerações. a Usina Angiquinho. Moore e sob a supervisão técnica do engenheiro Stewart. ambas da Pedra. cuja finalidade seria fornecer energia para a fábrica têxtil produtora das linhas Estrela. em grande escala. construir o empreendimento pioneiro no campo da hidroeletricidade em pleno sertão nordestino. Logo.Fruto de um caso extraconjugal.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens História No início do século XX. com investimentos no comércio exportador de “courinhos” (artigos de pele de bode e cabra) e com amparo financeiro de ricos financiadores norteamericanos. ou seja. em caráter sigiloso. para estudos no rio São Francisco e na cachoeira de Paulo Afonso. Assim. Delmiro procurou sondar as potencialidades da região para poder colocar em ação a realização de seu sonho. no sertão alagoano. bem como iluminar sua Vila Operária. cujo objetivo principal era “empreender. recebeu uma delegação de técnicos norte-americanos. ele buscou refúgio em Alagoas. em 5 de junho de 1863. Delmiro Augusto da Cruz Gouveia nasceu em Ipu. coube ao capitalista Delmiro Gouveia (18631917). não contava Delmiro com a recusa do Governador de Pernambuco. no Ceará. em breve. Delmiro chegou até a justificar a proposta do projeto de eletrificação Figura 4 . em virtude do surgimento de condições técnicas e econômicas. Diante da negativa. restou acertar as condições comerciais. seria instalado um curtume para armazenar peles. visando uma cooperação sob a forma de joint-venture. o referido projeto consistia em abastecer e iluminar cidades da região. de fato. Por volta de 1909. Era descrito como um homem sempre disposto a assumir grandes compromissos. sua vida não seria senão uma conseqüência da prática de ousar. quando fixou residência no vilarejo denominado Pedra.

Em decorrência. na localidade de Pedra. Worth e a suíça Piccard Pictet & Co. Alagoas. No entanto. pelos ingleses. Por conseguinte. O decreto nº 503. Após a morte por assassinato de Delmiro Gouveia. os projetos iniciais das obras. XX e XXI do Recife. Em seguida. junto à firma inglesa W. Para a montagem dos equipamentos da usina. Delmiro foi à Europa adquirir o maquinário necessário. e do engenheiro Emilio Levermann. coube a Delmiro. não passando de lenda o lançamento dos equipamentos da fábrica e da usina. Em 1912. com a necessária construção de pontes e estradas adequadas para permitir sua passagem. as caixas com as máquinas e equipamentos. através da firma Iona & Cia. As turbinas foram encomendadas às casas Bromberg e Siemens Schukert & Co. da Inglaterra. para a conclusão da longa travessia. os quais souberam como poucos resistir às críticas e fundamentar seus argumentos na Câmara e na Imprensa. concretizar o so- nho da eletrificação. 116 . bem como dos consequentes impactos ambientais e econômicos. Equipamentos elétricos ficaram a cargo da empresa alemã Bergmann & Co. As tubulações foram fabricadas pela competente empresa alemã Mannesmann. M. Contrataram-se. Superada a recusa. mas a usina permaneceu intacta.Séculos XIX. A usina permaneceu no local e os equipamentos da fábrica anos depois foram levados para São Paulo. e a isenção de impostos referentes à sua fábrica de linhas de costura Estrela. havia concedido a isenção de impostos pelo período de dez anos para a exploração de uma fábrica de linhas de costura. Por fim. mas não foi suficiente. situada a 23 km da cachoeira. Houve reações contrárias à implantação desse aproveitamento hidrelétrico da cachoeira. vindos da Europa. em carroções puxados por juntas de bois. então. Na etapa seguinte. Geralmente. Para construir Angiquinho. Piranhas. A obra foi realizada mediante concessão do estado de Alagoas ao abrigo do decreto nº 520 de 12/08/1911 de acordo com a Constituição Federal de 1891. Então. dentro da cachoeira de Paulo Afonso. do mesmo ano. já que o Governador categoricamente relutou: “O negócio que o senhor propõe é tão vantajoso para o Estado que deve envolver alguma velhacaria”. todas essas concessões foram transformadas em decretos-lei pelo Estado de Alagoas.A História das Barragens no Brasil . o deputado federal Demócrito Gracindo e o consultor jurídico do Estado Alfredo de Maya. a concessão para captar o potencial hidrelétrico da cachoeira de Paulo Afonso e produzir eletricidade. sobretudo por parte das imprensas alagoana e carioca que publicavam manchetes com veementes protestos sobre o assunto. furiosos debates e fracassadas conclusões acerca da célebre concessão de aproveitamento da maravilhosa queda d’água. e da suíça Brown Boveri & Co.. houve quem duvidasse do sucesso da obra. e acabou por contratar um engenheiro italiano. Entre 1910 e 1911. os equipamentos foram transportados de trem através da Estrada de Ferro Paulo Afonso até chegar na estação da Vila da Pedra. cruzaram o Atlântico até o porto da cidade de Penedo (AL). os estrangeiros pularam fora. A tribuna da Câmara Federal também foi palco de embaraçosos discursos. Também foram contratados engenheiros e técnicos franceses para montar a usina. Como a casa de máquinas da usina ficaria no paredão do cânion do São Francisco. R. foram colocadas em uma barca que subiu o rio São Francisco até atracar na lapinha do sertão. entre os quais o direito de explorar as terras improdutivas na cidade de Água Branca. Boa parte desse aval deve-se aos esforços e à petulância de dois alagoanos. encabeçar outro projeto ousado. A parte hidráulica com a alemã J. a produção de linha de coser foi prejudicada. Luigi Borella. para projetar a empreitada. Delmiro resolveu. o discurso girava em torno da responsabilidade jurídica sobre a exploração do Rio São Francisco. o engenheiro italiano Luigi Borella veio treinar o corpo técnico e dirigir o complexo hidrelétrico. para alimentar uma fábrica de linhas em pleno sertão. local de difícil acesso. Já o maquinismo da fábrica veio da companhia Dobson & Barlow. Bland & Co. voltou-se para um projeto de construção de uma usina hidroelétrica. da Alemanha. Delmiro requisitou a experiência estrangeira do técnico Anton Wer. o maquinário da usina percorreu os 24 quilômetros que os separavam até a Cachoeira de Paulo Afonso. Delmiro conseguiu obter vários privilégios do Governo do Estado de Alagoas.

em 1896. Foi bilheteiro da estação Olinda do trem urbano chamado maxambomba. onde funciona o Instituto de Documentação. 117 .  Dispondo de capital. ruas. Em 1868. quando tinha apenas 12 anos de idade abandona o lar materno e se lança no mundo à procura de emprego que lhe permitisse sobreviver com o mínimo de folga para proporcionar o seu aprendizado. quando ele tinha apenas quatro anos de idade. quando já acumulava riqueza suficiente. com Anunciada Cândida de Melo Falcão. Fundou. teve que trabalhar cedo para se manter e ajudar a mãe. conflitos com o poderoso Rosa e Silva. na cidade de Pesqueira. com 264 compartimentos alugados a comerciantes de alimentos e de outros tipos de mercadoria. transferiu-se com sua mãe para a cidade de Goiana. a Casa Delmiro Gouveia & Cia. Trabalhou ainda como despachante de barcaças. Em 1875. Foi o responsável pela urbanização do bairro Figura 5 . construiu casas e um grande mercado modelo sem similar no Brasil. presidente do Senado Federal e vicepresidente da República. mantendo um grande número de compradores por toda a região Nordeste do Brasil.Delmiro da Cruz Gouveia do Derby. De família pobre. um palacete que hoje é propriedade da Fundação Joaquim Nabuco. Ceará. havendo por isso desentendimentos com o então prefeito do Recife. no início de 1900. Em 1872 muda-se para Recife. em Pernambuco e depois para o Recife. casando-se. onde só havia manguezais: abriu estradas. inicialmente como empregado da família Lundgren e depois por conta própria. Dedicou-se ao comércio e exportação de couro e peles. Os baixos preços praticados no mercado incomodaram a concorrência. no Recife. base de sua capacitação necessária a vencer os diversos desafios com que sonhava e que nele tinham a firmeza das idéias-fixas. Esmeraldino Bandeira e em decorrência. trabalhando também na estação de Apipucos. o Mercado Coelho Cintra. bairro do Recife. em 1883. tangidos pelas secas que periodicamente ocorrem no sertão nordestino e pela morte do pai. inaugurado no dia 7 de setembro de 1899. Interessado na compra e venda de couro e peles de cabras e ovelhas vai para o interior de Pernambuco.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Quem foi Delmiro Gouveia (1863-1817) Delmiro Augusto da Cruz Gouveia nasceu no dia 5 de junho de 1863. o que culminou com o incêndio do mercado. município de Ipu. na fazenda Boa Vista. onde adquiriu posteriormente. se engajou politicamente e partiu para outros empreendimentos. passando a destruir a concorrência no setor e ficando conhecido como o Rei das Peles. filho natural de Delmiro Porfírio de Farias e Leonilda Flora da Cruz Gouveia.

Seu temperamento sempre difícil. Peru. puxando a rede elétrica até a sua fazenda.Prédio do antigo mercado que agora abriga o quartel general da Polícia Militar de Pernambuco Angiquinho atualmente Em outubro de 1958 a usina Angiquinho perdeu a concessão do aproveitamento parcial da cachoeira de Paulo Afonso. cinema e ringue de patinação. Passou a comprar e exportar couro e peles. à medida que enriquecia criava mais inimigos. em 1902. Figura 6 .  A fábrica era um modelo de organização. construiu cerca de 520 km de estradas carroçáveis e introduziu o automóvel no sertão. hoje município de Delmiro Gouveia. em Maceió.A História das Barragens no Brasil . Em 1909. perseguido e com problemas no casamento refugiou-se durante um ano na Europa. que o acusava de estar procurando aproveitar-se do seu governo e. com diversos pavilhões onde ficavam os teares. uma vila operária. o prédio do antigo mercado abriga o quartel general da Polícia Militar de Pernambuco (Figura 6). capta energia elétrica na queda do Angiquinho. depois Bolívia.Séculos XIX. Levou a energia elétrica para a povoação onde ficava a fábrica e depois até a Vila da Pedra. que logo dominou o mercado nacional. no dia 10 de outubro de 1917. Embarcava sua produção através de porto de Piranhas. rompeu relações com o industrial. em 1914.  ambulatório médico. Barbados e até nas Antilhas e Terra Nova. produziram uma série de atritos e inimizades. Passou a idealizar e desenvolver projetos para a implantação de uma hidroelétrica que abastecesse o Recife de energia. além da tensão em que vivia. uma pequena fábrica têxtil para produção de linha. impondo-se também nos mercados da Argentina. uma localidade a cerca de 280 km de Maceió e que na época só possuía seis casas. raptou a adolescente Carmela Eulina do Amaral Gusmão. o que causou desentendimentos com o então governador de Pernambuco. utilizando o Porto de Jaraguá. através de uma pequena usina geradora de eletricidade. no lado alagoano. Dantas Barreto. XX e XXI Hoje. aos 39 anos. mas con- 118 . que culminaram com o seu assassinato à bala. utilizando a ferrovia que ligava Jatobá (atual Itaparica) a Piranhas para transportá-la. fugindo para Alagoas e fixando-se na Vila da Pedra. Chile. Em 26 de janeiro de 1913. Não querendo ficar isolado e para ajudar no desenvolvimento das suas atividades industriais. após a reforma realizada em 1924. inicia os estudos para aproveitamento econômico da cachoeira de Paulo Afonso. com a marca Estrela. Em 1901. Separado da esposa. Inaugurou. por isso. aos 54 anos de idade. e da falta de apoio governamental. no terraço da sua casa na Vila da Pedra. Autoritário e de temperamento difícil.

Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens tinuou a distribuir eletricidade para a cidade de Delmiro Gouveia (antiga vila da Pedra) até 1960. Por intermédio da CHESF e da prefeitura de Delmiro Gouveia. Além disso. que além de proporcionar ao turista comum uma vista diferenciada da cachoeira. a usina foi transformada em um ponto de visitação turística. da Furna dos Morcegos. 119 . foi elaborado um projeto de recuperação histórica que inclui a restauração da usina. quando foi por fim desativada. Segundo o projeto de recuperação denominado “Projeto de gestão de Angiquinho”. mas nunca se esconderam na Figura 7 .A casa força de Angiquinho localizada à margem alagoana da cachoeira de Paulo Afonso Figura 8 . bem como atrair profissionais e leigos com interesse de conhecer a história das hidreléricas no Brasil. Depoimentos de cangaceiros do bando afirmaram que estiveram naquela área. seria incoerente um bando tão articulado como o de Lampião se esconder em um local que tem apenas uma única entrada.Escada de acesso à casa de força Furna dos Morcegos. contudo a presença dos cangaceiros na área de Angiquinho já foi praticamente desmentida. onde dizem que Lampião se escondeu. pois não se encontrou qualquer indício dessa passagem.

Nas entranhas da usina saem paisagens lunáticas. São pedras e rochas e tocas de rio para todos os lados (Figura 13). “A luta agora é para que Angiquinho deixe a fila de espera pelo decr eto do gover no federal e Ministério da Cultura para o tombamento nacional” .A História das Barragens no Brasil . assinala Edvaldo Nascimento.5 milhão na recuperação da usina. XX e XXI Figura 9 – Prédios da usina recuperados Figura 10 – Interior da casa de força A Chesf. que liderou o movimento pelo resgate do acervo. 120 . Passear no sítio histórico de Angiquinho é mover as rodas da história. coordenador da FDG. águas muito limpa mostram o fundo translúcido do Velho Chico. passou a gestão de Angiquinho à Fundação Delmiro Gouveia (FDG).Séculos XIX. que investiu R$ 1.

Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 11 – Gerador Figura 12 – Turbina de eixo horizontal 121 .

A História das Barragens no Brasil .Vista do cânion a partir da casa de força 122 .Séculos XIX. XX e XXI Figura 13 .

Jornal Chesf – CER – Ano IV – nº 235 – junho a novembro/2006. que iluminou boa parte da região até nos anos 60. que alimentavam a usina. Adriana Sbicca. escadas em espiral. 5. php?option=com content&vieu=article&id=6068Itemid =195(Texto de Semira Adler Vainsencher pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco) Acessado em 17/02/2011.Câmara Municipal de Paulo Afonso. Tamás (orgs. ou parte dela. Referências 1. Figura 14 . 10. de onde os olhos captam uma imagem inesquecível do que resta da cachoeira de Paulo Afonso. Folha Sertaneja (03 de dezembro de 2006). Página visitada em 6 de janeiro de 2008. Sávio.com.Subestação Elevadora de Angiquinho 123 . nº 11 – 2003. 2008. Silva. Magalhães. empresários e desenvolvimento econômico no Brasil. Paulo Afonso I: Imagens de uma epopéia. A casa de máquinas continua presa às rochas e é o ponto culminante do passeio. Entrar naquele prédio arrojado e quase secular é sentir segurança e êxtase. 1995.). que abriga os três geradores Brown Boveri e as turbinas Piccard Pictet. Antônio – Mascarenhas. http://www. http://basilio. 7. Galdino. com plataforma para mirante. Armando. São Paulo: hucitec/Abphe. 9. Principalmente ao abrir as janelas da casa e correr o olho nas rochas. Paulo Afonso: de pouso de boiadas a redenção do Nordeste . Site www. Moacir Medeiros de. Sant’ana.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens O coração começa a bater mesmo na escadaria de metal. Paulo Afonso-BA. Rio de Janeiro: Centro da Memória da Eletricidade no Brasil.fundaj.turismo. Página visitada em 6 de janeiro de 2008. 3. São Paulo: ed. 2008. Empresas. Governador de Alagoas assina decreto de tombamento do complexo Angiquinho (HTML). Revista Continente Documento – Ano I. Paulo B. Maceió: imprensa oficial. Maceió: Fiea/ Gijs. 8. 2000. de Barros – Dalla Costa.br/pesquisaescolar/index. 4. Pequena história de Delmiro Gouveia. 13. Unesp. Ousadia no Nordeste: A Saga Empreendedora de Delmiro Gouveia. que desce 45 metros abaixo das rochas. 11. Davi Roberto Bandeira.al. Gildo. Projeto Gestão de Angiquinho (HTML) (2008). Szmrecsányi.gov. A visão do Velho Chico cercado por cânions e corredeiras é colossal. no caminho da velha casa das máquinas. Força e luz: eletricidade e modernização na República Velha. e uma cachoeira transborda na entrada do lago da usina. 2007. Cachapuz.br 12. o “Rei do Sertão”.controvérsia. no rio e na bela cachoeira.br/sala-de-imprensa/noticias/ noticias-2008/angiquinho-atrai-turismo-de-aventurasem-delmiro-gouveia/(Texto de Mário Lima) acessado em 17/02/2011). fruto da cabeça do cearense Delmiro Gouveia. 1961. 6. Fernandes. 2.gov. A descida é adrenalina pura.

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50 m (Figura 1).Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Usina do Itapecuruzinho A primeira hidroelétrica da Amazônia Erton Carvalho Esta usina está localizada no rio Itapecuruzinho. No local foi implantada uma casa de força que abrigava uma turbina Francis de 110 kW.Cachoeira do Itapecuruzinho 125 . hoje completamente abandonada e em péssimo estado de conservação. freqüência de 50 Hz e com a velocidade de 750 rotações por minuto. afluente do rio Manoel Alves Grande. dimensionado para aduzir uma vazão de 2. acionando. com uma pequena subestação que tinha um único transformador trifásico de 11. 3. 380/220 V.22 m3/s.000 V. Foi concebida e projetada no período de 1937/1938 e teve a sua construção realizada no período de 1939/1940. que desemboca no rio Tocantins pela margem direita. com 88 m de comprimento e um desnível de 0. As Figuras 2. 4 e 5 mostram a casa de força e seu interior. A linha de transmissão da usina para a cidade de Carolina tinha Figura 1 .30 m.44 m3/s. O quadro de comando era de ferro perfilado com painel de mármore polido. também. Contava. A usina foi construída aproveitando uma queda de 11. As obras civis foram constituídas por um canal lateral de forma trapezoidal. no município de Carolina. com rendimento de 75%. estado do Maranhão. que terminava com uma pequena tomada d’água seguida de um conduto forçado com capacidade de 1. através de um sistema de polias. um gerador de 120 kVA.

A História das Barragens no Brasil .Casa de força Figura 3 . XX e XXI Figura 2 .Séculos XIX.Turbina Francis 110Kw 126 .

e sua classe política bastante temerária quanto às atitudes do citado interventor.Gerador e painel de controle com sucesso. situada a 33 km da cidade. através de uma subestação abaixadora. na maioria das cidades. nos anos quarenta. sendo que as perdas no transporte da energia foram estimadas em 5. sua fase áurea. Na cidade. Excluindo os grandes centros urbanos. Os sócios pretendentes exigiram que Newton Carvalho obtivesse do interventor uma autorização para que a usina fornecesse energia para a cidade. Vale ressaltar aqui que Carolina era uma das cidades consideradas de oposição ao interventor do estado. o Brasil possuia apenas uma potência instalada de 847 MW. Newton Carvalho. sendo 192 MW em usinas térmicas e 755 MW em hidroelétricas. 127 . conheceu. Por interferência de Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta. não tendo conseguido ser recebido por aquela autoridade. o que permitiu dar andamento ao início dos trabalhos. homem de idéias progressistas.Gerador de 120 KVA necessidade de construir em Carolina uma usina hidroelétrica. a rede pública de distribuição de energia era de 220/110 V. Newton Carvalho colocou esse empreendimento como a grande meta de sua vida.75% da atual. único meio de transporte existente na região. A partir daí. Mesmo assim. capital do estado. a audiência acabou sendo realizada Figura 5 . iniciou sua luta para convencer um grupo de conterrâneos da Figura 4 . como a maioria das cidades ribeirinhas banhadas pelo grande rio. arcebispo do Maranhão. A linha foi implantada com postes de aroeira a uma distância média de 50 m. correspondendo a 0. situada no extremo sul do Maranhão. portanto.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens 28.2%. para aquela sociedade local de uma obra bastante audaciosa. Naquela época (1937). Paulo Ramos. ele fez várias viagens a São Luiz. à margem direita do rio Tocantins. Tratava-se. aproveitando a bela cachoeira existente no rio Itapecuruzinho.5 km. Em 1937. História A cidade de Carolina. o fornecimento de energia era restrito ao período das 18 às 21 horas.

posteriormente. A empresa de nome Hidroelétrica Itapecuru Ltda. Foram lançados sacos de areia com bandeiras vermelhas para demarcar o referido caminho. a qual nunca saiu do papel. Quando passava pela cachoeira de Itaguatins. travou-se outra batalha com o transporte dos equipamentos em pequenos caminhões através de caminhos intricados. a primeira usina hidroelétrica da Amazônia. totalizando 14 sócios. em seguida. em 26 de julho de 1900.790. em plena ditadura do então presidente Getúlio Vargas. A concessão para o empreendimento ocorreu em 16 de novembro de 1939. Transportados por via marítima até o porto de Belém. teve. O sucesso dessa operação só foi possível pelo fato de Newton Carvalho conhecer e fazer uso do princípio de Arquimedes. permitindo. um dos pesados transformadores da subestação caiu no rio. que outorgou à sociedade o direito de explorar o referido aproveitamento até a potência de 285 kW. Com auxilio de mais uma embarcação. seguiram através do rio Tocantins até Carolina. Seu idealizador e executor (Figura 6) teve que vencer obstáculos quase intransponíveis para implantar na Região Amazônica a primeira usina hidroelétrica. XX e XXI Em 1938. com o aproveitamento da referida cachoeira. Retornando do Rio de Janeiro com os dados da usina nas mãos.A História das Barragens no Brasil . 128 . na Junta Comercial do Maranhão. para estudar junto à companhia alemã Siemens a viabilidade do empreendimento. Desprovido de equipamentos para içá-lo. esvaziava-as e enchendo-as de água até chegar ao limite de transbordamento tracionava o transforma- dor e. utilizados pelos sertanejos locais. O rumo da linha de transmissão foi definido por um piloto da Condor. que fazia voos entre Carolina e Belém. então capital federal. O capital inicial de 340 contos de réis.Séculos XIX. Newton Carvalho foi ao Rio de Janeiro.. proprietário da Casa Beckgis. Para alcançar o lugar escolhido. Nasceu em Carolina. onde hoje está localizada a usina de Tucuruí. com uma linha de transmissão de aproximadamente 30 km. a cooperação de mais seis sócios. utilizado em um trabalho de topografia para a ferrovia Pirapora-Belém. mas inicialmente só foi instalada uma unidade de 110 kW. Em sua grande maioria esses marcadores não foram encontrados. Voltando novamente à capital federal. autorizou o funcionamento da usina e a sua inauguração se deu em 15/11/1941. publicado no Diário Oficial do dia 8 de fevereiro de 1940. perto da cidade de Porto Franco. Newton Carvalho. quando o presidente Getúlio Vargas e seu ministro Fernando Costa assinaram o decreto n o 4. Biografia Por detrás desta pequena central hidroelétrica. dividido inicialmente entre oito sócios. esvaziava a embarcação. Foi assim instalada. de novembro de 1941. elaborou a planta da cidade e implantou a rede pública e o sistema de distribuição de energia residencial. Newton Carvalho adquiriu da Siemens todos os equipamentos para a instalação da usina. que o equipamento subisse pelo empuxo a que era submetido. cada um contribuindo com 10 contos de réis. foi empreendida uma luta titânica para retirá-lo da água. se esconde um episódio heróico que bem reflete a época e o momento histórico em que foi construída. finalmente o maquinário chegou a Carolina. tendo as embarcações atravessado várias cachoeiras. organizou a firma em 1939. O Decreto nº 15.888. dentre elas a de Itaboca. Para a construção da linha de transmissão foi aberta uma picada da cidade até o local da usina. Newton Alcides de Carvalho provinha de família numerosa. foi então organizada para fornecer energia elétrica ao município de Carolina. às margens do pequeno rio Itapecuruzinho. com o auxílio de um velho teodolito de propriedade do professor José Queiroz. Viajou às próprias custas e contou com a ajuda de um comerciante alemão. Era um dos onze filhos do casal Alípio Alcides de Carvalho e Rosa Sardinha de Carvalho. O projeto previa a colocação de duas unidades de 143 kW. Após verdadeira epopéia. registrando-a no dia 11 de julho do mesmo ano. para negociar com a empresa a consolidação do projeto e a compra dos equipamentos necessários para a construção da usina. assim. companhia aérea alemã. ele mesmo.

Em 1949. através de tratamento mecânico e biológico. nascida em Vianna do Castelo. ainda. norte de Portugal. construiu as usinas hidroelétricas das cidades de Anicuns (1948/1949) e de Santa Cruz de Goiás. Estruturou o serviço de coleta e destino do lixo. tendo adquirido por conta própria noções de inglês e alemão. Outubro de 2000. da física e da engenharia. já radicado em Goiânia. dedicou-se com afinco ao estudo da matemática. No período de 1961 a 1965 exerceu a função de chefe-geral da limpeza pública da capital do estado. em 1944. conhecido por “Dano”. obras porém não realizadas. Deixou para a posteridade um exemplo de homem probo. também. 129 .Newton Alcides de Carvalho Referências 1. Em sua cidade natal. Diversificando suas atividades. Notas da família Carvalho Artigo do jornalista Waldir Braga no jornal “Folha do Maranhão do Sul” (25/Julho a 03/Agosto de 1996) Revista Século XX “Gente que fez Carolina” de Paulo Noleto Queiroz. a esposa Eliza Ayres de Carvalho e seus filhos. A formação do homem visionário. 2. cópia datada de 1939. trabalhou na Secretaria de Educação no planejamento e construção de 248 prédios escolares na zona rural. baseado no método dinamarquês.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Seu pai era originário da cidade de Caxias do Maranhão e sua mãe era oriunda de berço português. um projeto para a exploração industrial do babaçu. antes mesmo de completar 70 anos. Memória Técnica da Usina de Itapecuruzinho. Ali. para o interior do estado de Goiás. projetos para as usinas de Campos Belos e Babaçulândia. Newton Carvalho. que pensava adiante do seu tempo. 3. também. altamente avançado para a época. Autodidata. principalmente com a da iluminação pública. Faleceu em 25 de outubro de 1969. ao mesmo tempo em que desenvolvia atividades comerciais. resolveu transferir-se com a família. 4. Figura 5 . elaborou. não era comum à época: tinha concluído apenas o curso ginasial. decepcionado com a alta inadimplência dos consumidores de energia. vítima de acidente automobilístico. da construção de uma usina açucareira. Elaborou. lecionou matemática e escrituração mercantil a jovens conterrâneos. Ali. Ainda não havia atingido quarenta anos quando resolveu vender todos os seus bens para conseguir tornar real o sonho de executar o projeto da construção da pequena usina hidroelétrica em Carolina. participou. determinado. o qual lhe proporcionou sólida base cultural voltada para as ciências exatas. Não tendo sido ressarcido de seus investimentos. corajoso e realizador. apresentando um estudo sobre o aproveitamento do mesmo.

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mas podendo chegar a 15 MW. no Estado do Rio de Janeiro.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens “Ter-se-á de reconhecer a importância da contribuição da Light.Frederick Stark Pearson. no Município de Piraí. recomendado pelo engenheiro Pearson. na época de sua instalação era a maior hidroelétrica da América Latina e a segunda maior do mundo.Alexander Mackenzie. da usina de Fontes. Em 1909 foi ampliada com a instalação de mais três unidades geradoras. Em 1908 foi lançado o primeiro grande desafio: a construção no Ribeirão das Lajes. que deu grandeza ao sistema elétrico brasileiro com projetos ousados. com 32 m de altura e crista com 234 m dos quais 134 m eram vertedouro de lâmina livre. mesmo em comparações internacionais. fundador e segundo presidente (1915-28) empreendimento foi o engenheiro Clint H. Ltd. Kearny. A potência instalada era de 12 MW. a Cidade Luz Sulamericana Armando José da Silva Neto e Flavio Miguez de Mello por em funcionamento no Brasil a empresa que seria referência no desenvolvimento da engenharia brasileira de barragens e usinas hidroelétricas. coube a tarefa de implantar e Casa de força de Fontes. Essa usina. primeiro presidente (1904-15) 131 . elevando sua capacidade para 24 MW. residentes no Brasil havia cinco anos. operação e manutenção de usinas hidroelétricas no Brasil tem um dos capítulos mais importantes na criação de uma empresa chamada The Rio de Janeiro Light and Power Co. O gerente do Figura 1 . em 30 de maio de 1905. Concepção artística do engenheiro José Carlos de Miranda Reis Neto Figura 2 . 2007 A Light no Rio de Janeiro. A barragem era uma estrutura de concreto gravidade em arco de 100 m de raio. O desenvolvimento da construção. Liderada pelo advogado canadense Alexandre Mackenzie e pelo engenheiro americano Frederick Stark Pearson.” Antonio Dias Leite.

Barragem de Tócos vista de montante Figura 3 . possibilitando o aumento de capacidade de Fontes para 55 MW. Esse túnel passou a derivar as águas do rio Pirai para o reservatório de Lajes. na época o mais longo túnel hidráulico do mundo.Séculos XIX. XX e XXI Figura 4 .Barragem de Lajes construída em 1906 Figura 5 – Saída do túnel de Tócos Em 1914 foi concluída a barragem de Tócos no rio Pirai e um túnel com 8. 132 .A História das Barragens no Brasil .4 km de extensão. Os dois escritórios da LIGHT nas cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo foram reunidos em um só visando a ampliação da geração de energia hidráulica já que a demanda naquela época não parava de aumentar em função do desenvolvimento que estava ocorrendo no País.

Engenheiro Asa White Kenney Billings Figura 7 . o vertedouro principal é localizado na margem esquerda. Kenney Billings. A construção da usina ficou a cargo do engenheiro Asa W. MG no rio Paraíba do Sul a 150 km da cidade do Rio de Janeiro. Figura 6 . Há vertedouros de menores capacidades equipados com comportas Stoney.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Em 1921 a LIGHT foi autorizada a construir uma nova usina hidroelétrica nos municípios de Carmo. As comportas se encontram em operação até os dias de hoje. a usina tem um canal de adução com 2. do lado norte. RJ e Além Paraíba.5 km de extensão constituído por diques de terra compactada e trechos em concreto. Inaugurada em julho de 1924. que era especializado em obras hidráulicas e seus equipamentos.Construção da usina hidroelétrica Ilha dos Pombos em 1924 133 . Com três comportas tipo setor que até hoje são as maiores do mundo.

A História das Barragens no Brasil . a usina de Ilha dos Pombos atingiu a potência instalada de 167 MW sob 31 m de queda bruta. a LIGHT foi autorizada a ampliar a Usina de Fontes. Figura 9 .Usina hidroelétrica de Ilha dos Pombos – Uma das três comportas setor. as maiores do mundo Com as ampliações realizadas em setembro de 1937. 134 . nos anos 90.Séculos XIX. Em março de 1940.Usina hidroelétrica de Ilha dos Pombos tendo seus vertedouros reabilitados. XX e XXI Figura 8 . bem como uma repotenciação da usina com aumento da capacidade instalada. foi executada uma reabilitação completa da barragem e de suas comportas. Após mais de 55 anos de operação. Vista de montante.

cada uma com 39 MW.Barragem de Lajes após a conclusão do alteamento 135 . implicou também na construção da barragem e do dique de Cacaria. o reservatório jamais foi completamente cheio por dois motivos: o abastecimento de água para a cidade do Rio de Janeiro havia passado a depender das descargas efluentes da casa de força de Fontes sem outro tratamento que não a cloração e a necessidade de obras adicionais para garantir a estabilidade da barragem de Cacaria e do Dique 4. Para permitir a construção foi necessário desocupar a pequena cidade tombada de São João Marcos no município de Rio Claro. O alteamento da barragem que passou da soleira vertedora livre em arco gravidade para uma barragem em contrafortes de 63 m de altura. elevando a potência instalada para 172 MW.052 milhões de metros cúbicos. Essas obras foram finalmente executadas nos anos 80. Entretanto. A ampliação constou de três novas unidades.Início do alteamento da barragem de Lajes Figura 11 . O reservatório havia sido idealizado para ser utilizado para regularizar as descargas que seriam derivadas do rio Paraíba do Sul. na barragem do Rio da Prata. no Dique 4 e no Dique 5. A obra foi concluída em 1958.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens O projeto do engenheiro Billings elevou em 26 m a Barragem de Lajes. Figura 10 . aumentando a capacidade de armazenamento do reservatório para 1.

embora ela tenha estudado em detalhe potenciais no médio rio Paraíba do Sul (Funil. aumentou em 378 MW o Complexo de Lajes. até o líder da UDN.Casa de força de Fontes 136 . desde extremados esquerdistas que se intitulavam de nacionalistas. à Light não eram concedidas novas concessões. Sapucaia e Simplício) e efetuado estudos que cobriram extensas áreas do território nacional. Nesse cenário. que se referia a ela como “o Polvo Canadense”. a Light enfrentava opositores de todas as correntes políticas. sob a queda bruta de 310 m. Inaugurada em 1953. Presentemente as antigas unidades Pelton de Fontes estão desativadas. Carlos Lacerda. todas Francis de eixo vertical. resultou na ampliação de geração em Fontes com a instalação de três unidades Francis de 39 MW cada. XX e XXI Apesar dos bons serviços prestados e do estrangulamento das tarifas a partir do Código de Águas em 1934.Séculos XIX. desde a vertente oceânica da Serra do Mar até as Sete Quedas.A História das Barragens no Brasil . Essa foi a obra de engenharia mais importante no final dos anos 40 e início dos anos cinqüenta. Figura 12 . restando apenas as três unidades Francis de Fontes Nova e as seis unidades de Nilo Peçanha. Esse cerceamento de novas concessões e a necessidade de ampliação da geração determinaram a adoção do artifício de se conceber uma ampliação da usina de Fontes pela derivação de descargas dos rios Pirai e Paraíba do Sul. denominada Fontes Nova e na implantação da casa de força subterrânea de Nilo Peçanha que.

e a casa de força subterrânea de Nilo Peçanha. no rio Pirai construída em apenas dois meses. a elevatória de Vigário que dispõe de unidades reversíveis. a construção da barragem Terzaghi e do dique Vigário. a segunda casa de força de Nilo Peçanha ainda não foi construída. as terceiras instaladas no mundo depois das unidades de Traição e Pedreira em São Paulo. destacando-se a elevatória de Santa Cecília. também instaladas pela Light. Embora constasse do projeto original.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Para esta fase da ampliação uma série de obras foram executadas. a barragem de Sant’Ana. Figura 13 . que contou com a importante colaboração do geólogo Portland Port Fox. ficando as usinas de Fontes Nova e Nilo Peçanha com elevado fator de capacidade. de grandes dimensões para a época.Barragem Santana 137 . projeto em que Karl Terzaghi introduziu filtros chaminés em barragens de terra.Barragem de Santa Cecília Figura 14 .

A História das Barragens no Brasil . ambos de elevada competência e dedicação. XX e XXI Em fevereiro de 1967 intensa precipitação provocou inúmeros deslizamentos nas encostas da Serra das Araras na área das usinas.Elevatória de Vigário. O refluxo de lama inundou a casa de força de Nilo Peçanha causando a paralisação da usina por vários meses para a recuperação dos equipamentos totalmente feita pelos técnicos da Light. bloqueando os canais de fuga de Fontes e de Nilo Peçanha. Para que a derivação das águas do rio Paraíba do Sul fosse licenciada.Desvio Paraíba-Piraí . ao fundo dique do Vigário e a barragem Terzaghi 138 . a Light teve que promover a regularização do rio pela implantação da barragem de Santa Branca e contribuído com 40% do Figura 15 . Realça-se a coragem dos operadores e a tenacidade da equipe da Light na recuperação das instalações cuja operação era comandada pelos engenheiros Walter Stukembruk e Henrique Smoka.Séculos XIX.

Figura 16 . com 99 MW instalados sob 36 m de queda bruta. As estruturas de concreto da tomada d’água e do vertedouro. Somente nos anos 90 a Light instalou as unidades geradoras em Santa Branca.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens investimento na construção das barragens de Paraitinga e Paraibuna.Inauguração da hidroelétrica Nilo Peçanha. Curiosamente a Light esperou a posse do presidente Castelo Branco em 1964 para oficialmente inaugurar a usina. A barragem de terra tem 52 m de altura e 231 m de crista.Canal de fuga de Nilo Peçanha em 1967 Foto 18 . este com 330 m³/s de capacidade de descarga. Em 1961 foi concluída a usina de Ponte Coberta. são situadas na margem esquerda do reservatório. Ministro Apolonio Salles. Considerando as dificuldades acima mencionadas na obtenção de novas concessões. essa usina foi inicialmente denominada Lajes Auxiliar. no trecho paulista da bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul. aproveitando as águas turbinadas do Complexo de Lajes.Presença do Terzaghi (ao fundo) no campo durante a construção da barragem que tem o nome em sua homenagem Figura 17 . Nicholson.R. João Monteiro 139 . posteriormente denominada de Pereira Passos. J.

governador do Estado do Rio de Janeiro em inspeção nas usinas geradoras da Light no dia 4 de fevereiro de 1967. após os acidentes ocasionados pelas intensas precipitações. Figura 19 . General Ernesto Geisel. presidente da Light e Geremias Fontes. A Light foi estatizada em 1966 e privatizada em maio de 1996. Antônio Gallotti. ser de controle integralmente nacional.João Gonçalves de Sousa. americano e nacional para.Pres. Essa hidroelétrica terá 25 MW instalados com elevado fator de capacidade. presentemente. presidente da República. Castelo Branco e Gallotti. ministro extraordinário para coordenação dos órgãos regionais. Figura 20 .Séculos XIX. mais uma hidroelétrica no leito do ribeirão Das Lajes que presentemente (2011) encontra-se em construção.A História das Barragens no Brasil . chefe da casa militar. Marechal Castelo Branco. em visita de inspeção após o acidente de 1967 140 . presidente da Light. XX e XXI No final do século passado foi desenvolvido o projeto da PCH Paracambi. tendo passado de grupos francês.

professor da UFRJ.Inundação da casa de força de Nilo Peçanha. ao ser agraciado com o título de Engenheiro Eminente pela Associação dos Antigos Alunos da Politécnica. parte da hidroelétrica Pereira Passos Figura 22 .Construção da barragem de terra de Ponte Coberta. em 2010 141 . Dr.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 21 . inspeção de barco Figura 23 . Jerson Kelman.O atual presidente da Light após ter dirigido a ANA e a ANEEL.

Alexander Mackenzie. fundador e segundo presidente (1915-28) 142 .

” Figuras 1a e 1b . considerando a extrema alteração nos coeficientes de escoamento da área de drenagem devida à intensa ocupação urbana da cidade de São Paulo e de cidades vizinhas. Light & Power Company e iniciou imediatamente a construção da hidroelétrica de Parnaíba.H. A barragem foi construída em alvenaria de pedra com vertedouro de superfície livre em quase toda a extensão de sua crista. incluindo fornecimento de gás. and this is but one of the several places that stand around São Paulo and sell more power to its elbow”  Rudyard Kipling* * “Eles (Light) afirmam agora que podem fornecer meio milhão de cavalos-vapor somente deste local (Cubatão). passando a ter 18. 143 . Fomentadora de Progresso “They (Light) say now that they could deliver half a million more horse-power from this place alone (Cubatão). Nas fotografias L.E. A capacidade instalada inicial era de 2 MW. e esse é apenas um dos diversos lugares que se situam no entorno de São Paulo e que poderão vender mais energia para todos seus cantos. Edgard de Souza foi a primeira de uma série de obras hidráulicas executadas nas proximidades da cidade de São Paulo dos últimos dois anos do século XIX até meados do Século XX. serviços de bondes e ônibus. Seylaz. telefonia. tesoureiro presidente da Companhia Telefônica Brasileira. Foram introduzidas três comportas de segmento com capacidade de 800 m³/s. Nos anos 80. nova importante reabilitação foi feita. tendo sida aumentada a capacidade de descarga do vertedouro. Anderson. superintendente geral da São Paulo Gas Company e G.Desde os primeiros anos a Light constituiu diversas outras empresas de serviços em São Paulo e no Rio de Janeiro. Armando José da Silva Neto e Flavio Flavio Miguez Miguez de de Mello Mello Em 1899 o advogado canadense Alexander Mackenzie fundou a The São Paulo Railway. no rio Tietê e inaugurada em 1901.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A São Paulo Light. situada na cachoeira do Inferno. posteriormente denominada Edgard de Souza. Em 1954 a antiga casa de força foi substituída por uma estação de recalque com unidades reversíveis e a barragem foi alteada em seis metros através de contrafortes e lajes planas.5 m de altura.

A usina. as comprou e as trouxe para São Paulo. O canal ficou sendo conhecido por Rasgão. tinha o caráter provisório. A intensa estiagem de 1924 fez com que Asa White Kenney Billings. injeções de calda de cimento sob a laje executada no pé de montante e teve reforço por atirantamento. mas operou até 1961 quando foi paralisada devido a excesso de percolação sob a tomada d’água da usina.6 m de altura e 1500 m de crista. foi construída em 1906 a barragem de Guarapiranga situada no principal afluente do rio Pinheiros. Uma cheia extraordinária nos anos oitenta fez com que fosse executado um vertedouro adicional na ombreira esquerda. Seu volume de 505. o circuito inicia-se pela barragem de Figura 2 – Ferdinand M. inaugurada em 1925. a maior carroça transportava no máximo 15 toneladas e as estradas eram de tráfego precário. XX e XXI Com o objetivo de regularizar as afluências à usina de Edgard de Souza. A logística era muito difícil. aproveitando canal escavado pelos escravos de um proprietário de terras na região de nome Fernão Paes de Barros quase um século antes com a esperança nunca concretizada de achar ouro no leito do rio Tietê. engenheiro americano de elevada competência que vinha de obras na Espanha e no México. De montante para jusante. O empreendimento foi feito em duas etapas: a usina de Cubatão e a usina de Henry Borden que operavam em paralelo. com duas unidades de 9. A barragem é de terra com 15. a tomada d’água do canal de adução teve reforço em seus contrafortes e a tomada d’água da casa de força teve tratamento de sua fundação por injeção de calda de cimento a alta pressão com cracagem do solo. com 20 m de altura é em arco gravidade.Séculos XIX. Budweg 144 . A coluna Miguel Costa – Prestes iniciava a sua longa marcha. a Light adquiriu da Empresa de Eletricidade de Sorocaba a concessão da hidroelétrica de Itupararanga e concluiu as obras em 1914 com três unidades de 11. em apenas onze meses. A barragem teve tratamento de concreto projetado no paramento de montante. Como elemento de impermeabilização foi executada uma cortina de estacas prancha na linha de centro da barragem. A Light descobriu duas unidades Francis de 9 MVA em fabricação no exterior. construísse. tratamento este que só havia sido feito na fundação da barragem de Balbina. A barragem. tributário do rio Tietê.3 MW. No início da segunda década do século passado. A casa de força foi também reabilitada e voltou a operar em 1989. O maior empreendimento foi conduzido por Billings: o chamado Projeto da Serra que aproveitava descargas derivadas da bacia do rio Tietê para a baixada Santista. a hidroelétrica de Rasgão. O País entrava em estado de sítio. O canal aberto à mão teve que ser ampliado e as fundações escavadas. o que demandava explosivos nessa época tão explosiva.000 m³ foi proveniente de área de empréstimo escavada à mão. o solo foi transportado por tração animal e compactado apenas com a passagem das carroças. Nos anos oitenta as estruturas civis da barragem e das duas tomadas d’água do canal de adução e da casa de força foram reabilitadas tendo em vista o elevado estado de deterioração e os preocupantes resultados das análises de estabilidade que foram realizadas.A História das Barragens no Brasil . tendo posteriormente dado nome à barragem e à usina. A época era convulsionada por movimentos revolucionários tenentistas como o de 5 de julho que ocupou São Paulo por semanas.G.1 MW cada.

Essa barragem de 43 m de altura em concreto gravidade.6 milhões de habitantes em 1955 para 15 milhões em 1990. sendo esta amortecida no reservatório previamente rebaixado.40 m) as duas comportas de segmento que ocupam quase toda extensão da crista da barragem. é provida de um vertedouro de superfície com duas comportas de segmento de 830 m³/s de capacidade. a solução Figura 5 – Instante da detonação do septo de rocha Figura 4 – Execução da ensecadeira dentro do túnel 145 . Considerando a impossibilidade do deplecionamento do reservatório durante a construção por serem baixas (6. revertendo o curso do rio Tietê.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Pirapora no rio Tietê a montante do reservatório de Rasgão. Essa barragem represa as águas até a estação de recalque de Edgard de Souza. concluída em 1956. Com as expressivas alterações dos coeficientes de escoamento que ocorreram em sua área de drenagem devido à intensa ocupação urbana que passou de 3. A condicionante de projeto era conseguir um esquema que permitisse Figura 3 – Esquema do lake piercing o deplecionamento do reservatório antes da chegada do pico da cheia. houve a necessidade de ampliação da capacidade de descarga vertida e a proteção à cidade de Pirapora do Bom Jesus que se situa logo a jusante da barragem. Essa cidade era inundada a partir de descargas de 480 m³/s.

As obras foram realizadas no início dos anos noventa.G. Budweg foi a execução de um lake piercing. XX e XXI encontrada pelo engenheiro Ferdinand M. solução única no País. deveria ter sido escavada uma depressão (rock trap) para receber a rocha quando da abertura final.A História das Barragens no Brasil .Vertedouro da barragem de Pirapora 146 146 . Em seguida foram instaladas duas comportas de segmento no interior do túnel. foi construída uma ensecadeira de terra no interior Figura 6 – Saída do túnel em operação Figura 7 .Séculos XIX. tendo sido escavado um túnel de jusante para montante com extensão de 168 m e seção de 48 m² pela ombreira direita até bem próximo ao fundo rochoso do reservatório onde. de acordo com o projeto original.

Essas duas barragens fazem com que o rio Tietê flua de jusante para montante. foi concluída com sucesso em 1993.Barragem de Pedreira ou do Rio Grande do túnel para proteção das comportas quando da detonação final e detonada uma carga que abriu a entrada do túnel pelo fundo do reservatório. O circuito hidráulico do Projeto da Serra inclui a barragem e a estação de recalque de Edgard de Souza. não mais ocorrendo inundações na cidade de Pirapora do Bom Jesus. A capacidade de descarga da barragem passou para 1450 m³/s. A obra que incluiu também alargamento da calha natural do rio a jusante da barragem. penetrando no rio PinheiFigura 10 – Miller Lash. presidente de 1925 a 1941 147 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 8 – A estação de recalque de Edgard de Souza Figura 9 . situada a montante de Pirapora.

presidente de 1941 a 1944 e formigas) como afirmou Billings em palestra realizada em Londres em 1936.A.50 m. alimentando a represa de Billings e daí o reservatório da barragem de Rio Das Pedras. subterrânea.A História das Barragens no Brasil . As águas estocadas na represa de Billings acessam o reservatório da barragem de Pedras situada na crista da serra do Mar onde o rio das Pedras inicia uma sucessão de cachoeiras e corredeiras em direção à Baixada Santista. A barragem de Pedras é uma estrutura de concreto em arco gravidade com 35 m de altura concluída em 1926. Além dessa barragem. o reservatório de Billings é fechado por outras 13 barragens ou diques. um em cada lado das estruturas de concreto da estação de recalque. O Projeto da Serra era concluído pela condução das vazões com 710 m de queda bruta para as casas de força de Cubatão.Séculos XIX. com seis unidades idênticas de 88 MW 148 . a céu aberto com oito unidades no total de 661 MW. A barragem de Pedreira ou do Rio Grande é constituída por dois aterros hidráulicos. XX e XXI ros que também flui de jusante para montante pela ação das elevatórias de Traição e Pedreira implantadas no período 1938-1940. último presidente da Light envolvendo Rio de Janeiro e São Paulo (1965 a 1974) Figura 11 – Sir Herbert Couzens. Gallotti. quatro dos quais feitos como aterros hidráulicos e os restantes por transporte animal e compactação apenas pelo tráfego das carroças. e Henry Borden. O diafragma. represando as águas na elevação 728. com 25 m de altura e contendo um diafragma de concreto armado central que vai das fundações até o nível d’água máximo normal do reservatório de Billings. além de ser um elemento impermeabilizante. foi também concebido como “protection against burrowing animals and ants” (proteção contra roedores Figura 13 .

A usina de Henry Borden era a ampliação da usina de Cubatão. sendo restrito a ocasiões de ocorrência de precipitações intensas com o objetivo de minimizar as consequências das enchentes na cidade de São Paulo e no vale do rio Tietê. perda de geração do Projeto da Serra que tanto progresso garantiu a São Paulo.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens cada. Todas unidades são com turbinas Pelton. A instabilidade natural das encostas da Serra do Mar foi um dos fatores para que Karl Terzaghi recomendasse que a casa de força de Henry Borden fosse subterrânea.Seção transversal da elevatória de Traição 149 . Dignas de nota são as unidades das elevatórias de Traição e Pedreira que foram as primeiras unidades reversíveis a serem instaladas no mundo. portanto. Houve. Nos anos recentes. por imposições ambientais. instaladas pela Rio Light em 1953. seguidas pelas quatro unidades da elevatória de Vigário. o bombeamento para o reservatório de Billings foi praticamente suprimido. Figura 12 .

150 .

a dimensionar a drenagem apenas para escoar as águas da chuva em um prazo que impossibilitasse a reprodução dos mosquitos e permitisse a utilização da terra para criação de gado. que na época era a principal atividade econômica da região. que na época era doença endêmica na região em torno da cidade do Rio de Janeiro. criada em 1933. entre 1940 e 1990. os municípios da Baixada Fluminense permitiram a urbanização destas terras com loteamentos inadequados. em grande parte devido à atuação de seu diretor. em certos casos.DNOS foi um órgão federal que. principalmente mediante abertura de canais e construção de diques.DNOS Paulo Poggi Pereira A origem O Departamento Nacional de Obras de Saneamento . Por outro lado. Figura 1 – Barragem de Macabú Em 1940 a Comissão para o Saneamento da Baixada Fluminense. após a Segunda Guerra Mundial. que não levaram em conta a vulnerabilidade a inundações de parte da área. cujos extensos alagadiços formavam um ambiente favorável à procriação de mosquitos transmissores da malária. Engenheiro Hildebrando de Araujo Góes.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens As Barragens do Departamento Nacional de Obras de Saneamento . A ênfase no objetivo sanitário levou. o que faz com que hoje muitos logradouros. para o saneamento da baixada fluminense. foi transformada no Departamento 151 . incluindo grande número de barragens. Com a redução da população de mosquitos a malária foi erradicada a ponto de muitas pessoas não saberem hoje que ela existiu. Os trabalhos se destinavam a drenar as terras e protegê-las contra inundações. construiu obras hidráulicas para diversos fins em todo o Brasil. Ele originou-se de uma comissão. moradias e empresas sejam periodicamente inundados.

o concreto desta 152 . construída em concreto simples com relativamente pouco cimento. Nos itens seguintes são apresentadas informações sobre estas barragens. mas estendeu sua atuação para todo o território nacional. reunidas de acordo com suas finalidades. primeira obra não foi feito com a necessária impermeabilidade. apoiando programas de eletrificação dos estados. o que eventualmente acidentou alguns operários.A História das Barragens no Brasil . tendo sido impermeabilizado posteriormente mediante injeções de calda de cimento. Depois foram sendo atendidas solicitações para construção de barragens de outras finalidades. A primeira barragem de grande porte foi a de Capingui. passando depois a atuar em outros estados.Séculos XIX. Uma vez que as tensões que ocorrem numa barragem tipo gravidade. ocorreram problemas técnicos imprevistos nas obras. não exigindo grande resistência. face à necessidade de cumprir prazos. concluída em 1949. com boas condições de fundação para barragens deste tipo. por este motivo. confeccionado com brita de granulometria pouco mais graúda do que o normal no qual. soltavam-se blocos de rocha do teto. o que poderia resultar na abertura de trincas no maciço. logo após seu lançamento e durante sua vibração. em todas as outras obras foi utilizado equipamento capaz de preparar e colocar concreto feito com agregados maiores. ao longo de seus 50 anos de existência. Uma providência necessária nas obras feitas no planalto do Rio Grande do Sul foi interromper a concretagem quando a temperatura ambiente ficava muito próxima de zero graus centígrados. os quais foram sendo resolvidos pelos engenheiros do órgão. é do tipo arco-gravidade. naquela época ainda não existia a Eletrobras nem outro organismo com a atribuição de aplicar recursos federais em eletrificação. Era difícil fiscalizar os trabalhos de modo a garantir a correta colocação das pedras de mão. e evitar que o aquecimento que ocorre durante sua hidratação aquecesse o concreto além do limite aceitável. Duas destas barragens foram feitas com concreto ciclópico. os operários colocavam manualmente pedras de mão. adotou-se dosagens modestas. Como de costume. Com uma única exceção todas elas foram feitas de concreto. porque o cimento poderia ter sua pega prejudicada pelas temperaturas excessivamente baixas. Hidroeletricidade Quando acabou a Segunda Guerra Mundial o DNOS começou a construir barragens do programa de eletrificação do estado do Rio Grande do Sul. são pequenas. Não se dispunha de areia adequada no local nem muita experiência neste tipo de concreto na época. não muito alta. havendo casos em que foi de apenas um metro. aproveitando o fato de que os locais de implantação eram rochosos. O Quadro 1 apresenta a localização e as características principais destas obras. bastante resistente. Alguns dias após a escavação de alguns metros do túnel. não mais que 200 kg de cimento por m 3. com este mesmo objetivo limitava-se a espessura de cada camada de concreto colocada durante a construção. e ao final será descrita sumariamente a sistemática utilizada para realizar os trabalhos de construção e a atuação dos engenheiros que lideraram o DNOS. para fazer frente ao alto custo do cimento na época. A rocha local era basalto.00 m de diâmetro após ser revestido. mas com fissuras. que continuou trabalhando ativamente na Baixada. A partir de 1944 o DNOS foi encarregado de construir barragens para usinas hidroelétricas. XX e XXI Nacional de Obras de Saneamento. e não foram adicionadas as pedras de mão. a entidade nacional que construiu barragens com a maior diversidade de funções. Uma solução interessante foi a estabilização provisória do teto de um túnel que tinha 1200 m de extensão e seção circular com 9. o que fez do DNOS.

foi executado com equipamento e material disponível na obra. O projeto foi proposto como variante. cujo diretor técnico Figura 2 – Barragem de Glicério 153 . chamadas roof bolts. engastado na rocha de fundação. Uma novidade tecnológica que o DNOS precisou enfrentar foi a construção da barragem de Ernestina. dispensou a importação de roof bolts. e funcionou perfeitamente. O sistema empregado evitou colocar os operários em risco perfurando o teto do túnel. impedindo quaisquer outros desabamentos. Nos Estados Unidos eram realizadas estabilizações deste tipo perfurando a rocha do teto do túnel e introduzindo nos furos hastes metálicas especiais. algumas horas após a abertura de cada trecho de túnel. apoiando o teto nas paredes laterais. que prendiam os blocos de rocha superficiais à rocha mais distante da superfície da escavação. pela empresa Estacas Franki. que consistia em um muro vertical de concreto protendido.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A solução encontrada foi implantar uma abóbada de concreto simples bombeado. na concorrência para execução da obra.

mas este tipo de obra nunca mais foi adotado. barragem de Passo Fundo. britas e pedras arrumadas separando o enrocamento da areia da fundação. e venceu a barragem tipo gravidade aliviada. que foi construída em contrafortes sustentando lajes planas de concreto armado.A História das Barragens no Brasil . Em 1973 o DNOS encerrou suas atividades na construção de A única barragem mais sofisticada foi a de Pedra. construídas em concreto simples. Engenheiro Camilo de Menezes. ficou compreensivelmente apreensivo com relação à solução dada para a fundação. na Bahia.Séculos XIX. que foi ao longo de toda a vida um grande engenheiro entusiasta de tecnologia de ponta. Com exceção da barragem de Canastra. provindo os recursos da Eletrobras e do governo do estado do Rio Grande do Sul. Figura 3 . foi admitida a apresentação de variantes na concorrência para execução da obra. A barragem foi construída pela empresa proponente e funcionou adequadamente. XX e XXI à época era o professor Costa Nunes. uma vez que já existia entidade federal com a incumbência específica de promover a eletrificação do país. O projeto original desta obra previa um maciço de enrocamento apoiado em fundação de areia. preferindo-se sempre soluções mais simples e menos ousadas. O diretor geral do DNOS na época. Na última obra de que participou.Seção transversal da barragem de Pedra 154 . uma estrutura tipo gravidade aliviada. com uma delgada camada de barragens destinadas a hidroeletricidade. todas as demais obras para hidroeletricidade foram do tipo gravidade. comentou que só ficaria tranqüilo se o projeto previsse a remoção da areia e a colocação do enrocamento diretamente sobre a rocha subjacente. no Rio de Contas. Como não havia condições para alterar o projeto. o DNOS ficou encarregado apenas da orientação técnica e da fiscalização das obras. com uma altura máxima de 65 m a partir da fundação rochosa.

no único local da área onde existe rocha a profundidade adequada. e tem fundação em terra. integrante da tomada d’água do sistema adutor constr uído pelo DNOS para abastecer Belo Horizonte. algumas delas têm características interessantes. o sangradouro foi localizado. enquanto na outra alça vão sendo removidos os sedimentos que se depositaram enquanto ela esteve em operação. é de concreto armado.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 4 – Barragem de Pedra Abastecimento de água a cidades O Quadro 2 relaciona as barragens construídas pelo DNOS para abastecer cidades. que regulariza a contribuição do Rio Pacoti. a duplicação destina-se a ter uma alça conduzindo lentamente água para ser captada. Minas Gerais. formado por um muro vertical engastado em uma laje horizontal ancorada na rocha de fundação. suas características e os anos de conclusão das obras. dotada de comportas. ponto este 155 . ao reservatório que abastece Fortaleza. O sangradouro é do tipo labirinto. Ceará. As barragens de Riachão e Pacoti formam um único reservatório. Sua característica mais marcante é a calha do rio ter sido bifurcada em duas alças mediante dragagem. e escoam para jusante as vazões excedentes do rio. através de um túnel. informando a localização das mesmas. a qual é depois aduzida por gravidade. A Barragem do Rio das Velhas.

a tomada d’água e a descarga de fundo. A barragem do Arroio Duro fornece água para essa irrigação. obras estas realizadas em concreto. sobre fundação de argila mole. pesquisa realizada por sondagens a percussão. O restante da barragem foi construído em terra. A barragem de Juturnaíba. Da mesma for ma que a bar ragem acima mencio­­ nada. XX e XXI a obra. A barragem é de terra. em cada ano. no Rio Grande do Sul. realizados ao longo do eixo previsto para Figura 5b – Usina hidroelétrica de Passo Fundo . dispensou-se o revestimento do canal de restituição. fornece água para abastecimento das cidades da Região dos Lagos. com base no volume acumulado.000 hectares de arroz no município de Camaquã. é avaliada. com fundação em rocha. Só foi encontrada rocha em uma pequena ilha. a área que pode ser irrigada. porém simples.A História das Barragens no Brasil . na qual foi então implantado o sangradouro em labirinto. com o objetivo de conhecer os locais onde havia rocha subjacente.Séculos XIX.condutos forçados 156 . com funda- Figura 5a – Usina hidroelétrica de Passo Fundo . Irrigação O grande sucesso do DNOS em matéria de irrigação foi o projeto que irriga aproximadamente 15.casa de força e adução encontrado através de uma extensa. Aproveitando a existência de rocha de boa qualidade no local. ela foi projetada após uma campanha de furos de sondagem a percussão. autorizandose então o respectivo plantio. deixando-se a água escoar pelo terreno após seu vertimento. só tomando precauções para impedir que a água se aproximasse do maciço da barragem do Pacoti. no rio São João. no Estado do Rio de Janeiro.

Esta área podia ser abastecida de água por gravidade. Algumas medições de pressão intersticial na fundação. mediante substituição por outra área equivalente para compor a reserva. e substituição de duas pontes. para abaixar satisfatoriamente o nível d’água naquela cidade. sem beneficiar esta última cidade nem a área a jusante da mesma. Estados Unidos. para povoar a reserva de Poço D’Antas. Iniciou-se pela Barragem Oeste. a partir da barragem. esta desapropriação incluiu a área onde se previa o projeto de irrigação. O controle de cheias de Recife incluiu. o DNOS não terminou a construção desta última. na bacia do Rio Capibaribe. mas a barragem não apresentou nenhum problema. Goitá e Carpina. relativamente curtas. Tapacurá é utilizada também para fornecer água destinada ao abastecimento de Recife. foi desapropriada uma área de mais de 20. características e ano de conclusão. por outras de maior vão. com o crescente desenvolvimento de Cabo Frio e outras cidades litorâneas. Infelizmente o DNOS foi extinto antes de completar esta dragagem. Quando estavam terminando as negociações com uma cooperativa. o projeto previu uma cortina delgada de solo-cimento para vedação e um filtro instalado em uma trincheira situada no pé do talude de jusante. Terminou sendo necessário complementar as barragens com dragagem do rio Itajaí a jusante de Blumenau. O Quadro 3 relaciona as barragens construídas pelo DNOS para irrigação. Para controlar as infiltrações na fundação. que é liberado somente quando as vazões do rio Capibaribe aumentam a ponto de serem capazes de diluir e dar escoamento ao vinhoto sem criar problemas ambientais. mencionada no ítem sobre abastecimento urbano. para implantar o projeto. não indicaram funcionamento adequado da cortina de vedação. mas o Estado de Santa Catarina a concluiu em 1992 e ela está funcionando a contento. Outras barragens para controle de cheias foram as de Tapacurá. o que é indispensável para evitar a salinização do solo. a canalização do rio Capibaribe na área urbana daquela cidade. no Estado de Pernambuco. Estas obras aumentaram a capacidade da calha. como também operar as mesmas liberando vazões 157 . e informa suas localizações. para proteger Blumenau e outras cidades do Vale. mas este pedido não foi atendido. Controle de cheias As primeiras barragens para controle de cheias do DNOS foram construídas no Vale do Itajaí. e Goitá é utilizada para reter vinhoto. Entretanto. além das barragens. que recolheria as infiltrações. em Santa Catarina. A atual contribuição da barragem para irrigação resume-se em disponibilizar água para os fazendeiros que quiserem irrigar suas plantações captando água no rio São João. possibilitando não só escoar sem extravasamento as vazões provenientes da área da bacia contribuinte não controlada pelas barragens. sub-produto malcheiroso da indústria de cana de açúcar. Quando foi projetada a barragem de Juturnaíba. abortando assim o projeto de irrigação. imediatamente a jusante da barragem. e sua cota era suficientemente alta para ter boa drenagem. caso a cortina não funcionasse adequadamente. em concreto gravidade. realizadas após a entrada em operação da obra. o rio teve sua capacidade aumentada mediante regularização e alargamento de sua calha. para depois constr uir em terra a Barragem Sul e finalmente a Barragem Norte. Foi solicitada a sua liberação. planejou-se implantar irrigação de hortigranjeiros em uma área localizada na margem esquerda do canal do rio São João. graças ao bom funcionamento do filtro. Infelizmente os locais onde podiam ser construídas barragens naquele vale não possibilitavam controlar a maior parte da bacia contribuinte.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens ção também em terra. o reservatório de Juturnaíba tornou-se fundamental para abastecimento urbano de água na denominada Região dos Lagos do Estado do Rio. Alguns anos depois os jornais noticiaram a chegada de mico-leões dourados importados da Flórida.000 ha para formar a reserva de mico-leão dourado de Poço d’Antas. que só foi executada entre as cidades de Blumenau e Gaspar. além de outros cuidados habituais. a jusante da barragem.

retendo os deflúvios e liberando-os aos poucos. evitando assim. RS. que permitiu sua eventual inundação. A última barragem de controle de inundações construída pelo DNOS foi Arroio Gontam. Flores. Passaúna e Juturnaíba. Pampulha. retendo em seus reservatórios apenas uma fração da cheia condizente com a capacidade dos mesmos. para evitar enchentes na cidade. XX e XXI Figura 6 – Barragem e diques de Tapacurá relativamente grandes. sendo o caso das barragens de Pedra. O Quadro 4 relaciona as barragens construídas pelo DNOS para controle de cheias e informa suas localizações. 158 . concluída em 1982. inundações a jusante. A característica especial desta obra é o fato do reservatório estar situado em terras do Exército. características e ano de conclusão. Algumas outras barragens do DNOS fazem controle de cheias como objetivo secundário. Trata-se de uma barragem de concreto simples tipo gravidade. cujo reservatório só enche quando ocorrem chuvas fortes.Séculos XIX. na cidade de Bagé.A História das Barragens no Brasil .

e. A mais importante destas barragens é a do Canal São Gonçalo. prejudicando a irrigação. Figura 7 – Barragem e Sangradouro de Arroio Duro Figura 8 – Barragem de Carpina 159 . pelo Canal de São Gonçalo. o qual drena a Lagoa Mirim. Esta lagoa é usada intensivamente como fonte de água para irrigação de arroz em ambos os países.CINQUENTA ANOS DO COMITÊ BRASILEIRO DE BARRAGENS Finalidades diversas O Quadro 5 relaciona barragens construídas com finalidades diversas. situada no extremo sul do Brasil e é partilhada com o Uruguai. frequentemente entrava água salgada do oceano na lagoa. durante a estiagem. características técnicas e ano de conclusão. nos parágrafos abaixo menciona-se a finalidade das mesmas e acrescenta-se alguns detalhes. informando suas localizações.

Periodicamente ocorrem grandes estiagens. O barramento é de pequena altura. o alagado também é utilizado para navegação. houve empenho em construir a obra exatamente na calha do rio. A região é aluvionar. ao lado da cidade de Pinheiro. para permitir a continuação da navegação fluvial.Séculos XIX. e o DNOS a reconstruiu. A barragem que existia na Pampulha. Quando necessário. para permitir fácil captação e adução de água doce para abastecimento de Pelotas e do porto de Rio Grande. mantendo o espelho d’água. uma vez que qualquer mudança de posição poderia provocar divagações do leito do rio com graves conseqüências. A pequena Barragem de Santa Lucia foi construída na zona urbana de Belo Horizonte. depois de alguns anos. com 231 m de comprimento. Para executar a obra foi aberto um canal de desvio com 120 m de largura e a calha do rio foi inteiramente aterrada no local previsto para a barragem. existe ali uma área alagada. e atravessa o canal. Esses sedimentos passaram a ficar retidos no reservatório da barragem de Santa Lúcia. onde é obtida água para o abastecimento da cidade. Após a conclusão dos trabalhos a areia usada para o aterramento foi retirada completamente e o canal de desvio foi reaterrado. produziam muitos sedimentos que assoreavam a calha do rio. por causa disso. o reservatório da referida barragem ficou completamente assoreado. A barragem do Canal da Flecha tem como finalidade controlar o nível da água na Lagoa Feia. o Governo incumbiu o DNOS de construir uma barragem para impedir a entrada de água salgada na Lagoa. A barragem possui comportas que são fechadas por ocasião das estiagens. MG. ao longo destes anos a urbanização ficou mais consolidada e diminuiu a produção de sedimentos que causavam problemas. no topo da qual foram instaladas comportas basculantes. o que torna importante controlar seu nível. mas serve também como fonte de água para irrigação. esta lagoa integra a drenagem da área. rompeu por erosão interna em 1954. além de aumentar a disponibilidade de água para o abastecimento de água de Juiz de Fora. que recebe a contribuição de grande parte dos rios e canais da planície existente entre a margem direita do rio Paraíba do Sul e o mar. Em cota um pouco mais alta há uma passarela onde estão instalados mecanismos de comando das comportas. o grande desenvolvimento que aconteceu recentemente nesta última cidade aumentou a importância da disponibilidade garantida de água doce criada pela barragem. Por outro lado. e são fechadas na estiagem para impedir que a água salgada do Oceano Atlântico penetre na Lagoa. O projeto previu uma eclusa. o que proporciona um acréscimo de energia firme em cinco usinas hidroelétricas existentes a jusante. as comportas são abertas para deixarem escoar o eventual excesso de água da Lagoa Mirim. que resultam em retração da lâmina d’água do alagado e intrusão de língua salina proveniente do oceano. uma fábrica de cimento situada em Porto Alegre é abastecida com matéria prima vinda do Uruguai em barcaças que passam pelo Canal. XX e XXI Após entendimentos com a República do Uruguai. A barragem de Chapéu D’Úvas controla parcialmente as cheias do rio Paraibuna e aumenta a vazão de estiagem do rio. Outra barragem que impede a salinização de manancial de água doce é a do rio Pericumã. prejudicando seu escoamento. prejudicando ou interrompendo as utilizações de água acima mencionadas. MG. em Belo Horizonte. engastada em fundação de areia e cascalho. impedindo a penetra ção da língua salina e garantindo a disponibilidade de água doce. um dos dissipadores de energia das comportas funciona também como eclusa. na região de Campos – Rio de Janeiro. A barragem é constituída por uma estrutura de concreto com uma cortina profunda de concreto armado. possibilitando o acesso de embarcações vindas do mar até a cidade de Pinheiro. Os movimentos de terra realizados na bacia do rio Leitão. de modo a não interferir no acesso marítimo àquela cidade.A História das Barragens no Brasil . Suas 160 . e. Maranhão. durante a urbanização da mesma. com a dupla finalidade de controlar as cheias do rio Leitão e reter seus sedimentos. Para manter a navegação. A barragem foi localizada a montante da cidade de Pelotas. criação de gado e irrigação. mas a curta distância.

além disso. ao IPT de São Paulo. no Rio de Janeiro. para proporcionar estágios em 161 . Havia estações de rádio nas barragens e outras obras importantes. o topógrafo. Não se sabe se esses cuidados eram realmente necessários. Os engenheiros do órgão passaram a fiscalizar o trabalho das consultoras que realizavam os trabalhos topográficos. o DNOS montou uma rede de rádio que chegou a ter 50 estações. são de difícil definição. incluindo a locação. Outro trabalho muito interessante dele foi um sistema para designação de número de registro de trechos de cursos d’água. a empresa consultora procurou evitar relacionamento entre seus engenheiros e os engenheiros da empresa construtora. funcionário do órgão. Foi autor de importantes trabalhos técnicos. proibindo inclusive que fizessem refeições juntos. A organização dos trabalhos A construção das barragens sempre foi realizada por empresas empreiteiras. o laboratorista e os demais funcionários. e face à precariedade do Departamento dos Correios e Telégrafos (DCT) e do sistema telefônico. destinado à organização de cadastro nacional de cursos d’água. ajudando a diminuir as enchentes que inundam a cidade de Bacabal e pode ser usada para aumentar a vazão do rio Mearim durante a estiagem. Sendo o DNOS um órgão nacional. Tendo em vista que as atividades do DNOS se desenvolviam em praticamente todos os estados da Federação. em um avião Constellation da VARIG. entre outras entidades. controla parte das vazões que escoam pelo rio Mearim. foram realizados por funcionários do próprio DNOS. Em pelo menos duas obras. Tapacurá e São Gonçalo. mas ambas as barragens ficaram em excelentes condições. ao US Bureau of Reclamation dos Estados Unidos e até mesmo à UNESCO. existentes na época. para comunicação entre seus escritórios. seus laboratórios de solos e concreto. que correm paralelamente à pista do aeroporto da cidade a jusante da barragem. ao invés de partir das cabeceiras. e realiza também controle de cheias. para que pudessem cumprir adequadamente suas tarefas. que é um afluente do rio Mearim. mas nos primeiros 25 anos de construção de barragens os trabalhos de fiscalização. A orientação técnica do DNOS foi muito influenciada pelo Engenheiro Otto Pfafstetter. A Barragem Mãe D’Água foi construída para fornecer água para o laboratório do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. e seu nome foi dado a uma barragem que o DNOS construiu naquele estado. que bateu em um morro tentando pousar em Porto Alegre com pouca visibilidade. Neste sentido recorreram. Antes da adoção de motores a jato e equipamentos modernos para voo por instrumentos aconteciam muitos acidentes. Nos seus últimos 15 anos de atividade o DNOS passou a contratar empresas para realizar os trabalhos técnicos de controle da construção de barragens. amortecendo as vazões do rio Pampulha. morto em 1950 ao regressar de uma viagem para contato com a Administração Central do DNOS. mas meia dúzia de outros países o adotaram. facilitando assim a navegação. que tinham assim possibilidade de comunicação diária com os escritórios regionais e mesmo com a sede do órgão. muitas vezes. face às grandes distâncias a percorrer e à deficiência das estradas. Sempre foi uma preocupação dos dirigentes promover a capacitação dos engenheiros do órgão. O primeiro deles foi com José Maia Filho. lazer e paisagismo. A barragem do Flores. quase sempre de avião. as quais. como o livro “Chuvas Intensas no Brasil”. de controle dos serviços. As instalações para construção de cada barragem incluíam um conjunto de casas onde ficavam alojados o engenheiro residente. podendo-se citar as barragens Engenheiro José Batista Pereira.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens finalidades são recreação. medição e controle de qualidade das obras. esta numeração parte da foz dos rios e segue para montante. fornece água para irrigação. Ele dirigia o Distrito do Rio Grande do Sul. Este sistema não é utilizado no Brasil. de laboratório. seus engenheiros tinham que viajar com freqüência. etc. autor de muitos projetos de obras importantes.

Ele estabeleceu o sistema de trabalho pelo qual as obras eram executadas por empresas. Expandiu as atividades do DNOS para quase todos os Estados e enfrentou com sucesso o desafio da construção de grande número de barragens. conforme havia sido solicitado. foi presidente da CHEVAP e diretor da Escola de Engenharia da Universidade Federal Fluminense. com problemas tecnológicos ainda pouco conhecidos no país. XX e XXI órgão até o ano de 1946. O Diretor-Geral solicitou que o arquivo lhe remetesse os documentos referentes a este assunto de volta. tendo ficado 15 anos no cargo. e promoveu sua transformação em Departamento Nacional de Obras de Saneamento em 1940. Foi então dado o seu nome à barragem. fazendo inclusive os levantamentos topográficos necessários para isto. em vez de serem construídas por administração direta. morreu num desastre de avião em serviço. quando Getúlio Vargas era Presidente da República. Os Gestores O primeiro Diretor do DNOS foi Hildebrando de Araújo Góes. que respondeu escrevendo que preferia continuar vivo.Séculos XIX. Como a grande maioria das empresas não dispunha de escavadeiras para abertura de canais. Os funcionários do DNOS orientavam e fiscalizavam os trabalhos. como fazia o Departamento Nacional de Obras contra as Secas naquela época. a quem se queria homenagear. primeiro Diretor do DNOS Camilo de Menezes.A História das Barragens no Brasil . uma vez que há uma lei proibindo dar nome de pessoas vivas a obras do governo. que na época era a capital federal. quando foi ser prefeito do Rio de Janeiro. Uma característica comum aos dois primeiros diretores foi continuar estudando assuntos de engenharia enquanto exerciam a direção do órgão. engenheiro do órgão. que assumiu a chefia da Comissão de Saneamento da Baixada Fluminense na sua fundação em 1933. Diretor-Geral do DNOS de 1946 a 1961 162 . Dirigiu o Figura 10 . Antes de transcorrer um ano o engenheiro Leitão. Após deixar a direção do DNOS. o DNOS começou a adquirir este equipamento e contratar sua operação com empreiteiros. após passado um ano.Engenheiro Camilo de Menezes. foi o Diretor-Geral seguinte. O Diretor Geral encaminhou o assunto ao homenageado. engenheiro Raimundo Cláudio Correia Leitão a uma barragem que ia ser construída no estado onde ele havia nascido. Figura 9 Hildebrando de Araújo Góes. Muitos anos depois houve um abaixo assinado pedindo para dar o nome do Diretor de Obras do DNOS na época. como às vezes fazia.

engenheiro do DNOS que imprimiu notável organização aos trabalhos. Goitá. o que fez com grande competência.Vicente Fialho . o que conseguiu fazer apesar da renúncia de Jânio Quadros. necessitando como grandes reparos apenas a substituição periódica dos motores quando acabava sua vida útil e a recomposição da mesa sobre a qual girava o conjunto formado pela cabine e a lança. Diretor Geral do DNOS 163 . Deixou o cargo para assumir o governo do estado de Mato Grosso do Sul. Ao tomar posse em 1990 o presidente Collor. Estas máquinas prestaram bons serviços de 1964 até a extinção do DNOS em 1990. ajudado por sua longa experiência como Diretor Geral Substituto. depois ministro dos Transportes e. foram realizadas obras de defesa contra inundações em cidades às margens do rio São Francisco e tiveram início os estudos do governo federal para transposição do rio São Francisco para o Nordeste semi-árido. depois ministro de Minas e Energia e deputado federal. assumiu a direção do DNOS e manteve a mesma sistemática de trabalho. que deu prosseguimento às atividades relacionadas à irrigação no Nordeste e deu grande impulso às obras de controle de cheias no Vale do Itajaí. estado da Bahia e a Barragem de Tapacurá. Foram eles: .Geraldo Bastos da Costa Reis. .José Reinaldo Carneiro Tavares. Após a revolução de 1964 sucederam-se na direção do órgão quatro diretores que ficaram pouco tempo.Paulo Baier. com a missão de transformar o órgão em autarquia.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Em 1961 o presidente Jânio Quadros nomeou Diretor Geral do DNOS o engenheiro do DNER Geraldo Bastos da Costa Reis. sendo três deles militares. que desenvolveu atividades voltadas para irrigação no Nordeste e deixou a direção para ser ministro da Irrigação. ao preço total de sete milhões de dólares. Na sua gestão foram concluídas as barragens de Carpina. no rio de Contas. . Assumiu então Jefferson de Almeida. dirigiu o DNOS até sua extinção. Em 1974 outro engenheiro da casa. que aumentou substancialmente o abastecimento de água a Belo Horizonte. determinou a extinção do DNOS. pagos em café. mais tarde. Em 1967 assumiu o cargo Carlos Krebs Filho. Fez com que as obras e serviços executados para o órgão fossem pagos na ordem cronológica da apresentação das respectivas medições e faturas na tesouraria. Na sua gestão foi concluída a construção da Barragem do São Gonçalo. Faziam parte da compra peças sobressalentes no valor de um milhão de dólares. Provavelmente o fabricante das máquinas não empregava técnicas de obsolescência programada. incluindo a Barragem de Pedra. As obras e os serviços que o órgão estava executando Nos governos dos presidentes João Figueiredo e José Sarney sucederam-se no DNOS diretores que não eram engenheiros do serviço público federal. mas que se dedicaram ao trabalho com afinco e realizaram excelentes administrações. saiu para ser superintendente da Sudene. Harry Amorim Costa. no estado de Pernambuco. Um aspecto interessante de sua gestão foi a compra de 200 escavadeiras marca Nobas. Figura 11 . Pacoti e Riachão acima mencionadas. que seria o último engenheiro da casa a dirigir o DNOS. em cuja gestão foram executados aterros para saneamento de favelas no Rio de Janeiro. inaugurou as obras da adutora do rio das Velhas. da Alemanha Oriental. governador do estado do Maranhão. Na sua gestão foram concluídas dez barragens.

000.30 42.000 80. em Minas Gerais e a Barragem Norte.000 17. Resumindo.000 250.00/511.000 26.900 18.500 8. .000. Diretor-Geral do DNOS de 1967 a 1974 e o engenheiro Jefferson de Almeida.000 5..50 3 25 11.000 40. vendo-se da esquerda para a direita o Gen.000 4. F.000 1.000 370.Séculos XIX. ficando sem condições de ser consultado..000 50.000 800 10. F.500 119. 51..750.000 539.000 6.700. Entretanto. Figura 12 .900 5.000 390..700 35. Esta última chegou a ter sua vila residencial do canteiro de obras invadida por índios naquela ocasião.000. foi destruída uma organização que produzia obras e serviços extremamente benéficos e necessários.000 1.275 22. sem que fosse criada uma alternativa. Por sorte.000 3. foi entregue ao Arquivo Nacional. o engenheiro Carlos Krebs Filho..000.000. O arquivo técnico do DNOS. XX e XXI foram paralisados.800 76.000 Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Ciclópico Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Ciclópico Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Simples Gravidade Aliviada / Concr.000.A História das Barragens no Brasil .600 9.000 desenhos de projeto de obras.000 350. Muitas empresas de engenharia que estavam prestando serviços ou executando obras ficaram numa situação financeira dificílima.000.000.000 IVAÍ IJUIZINHO CAPINGUÍ GUARITA FORQUILHA DIVISA SALTO / BUGRES ERNESTINA CANASTRA SANCHURI JOÃO AMADO BLANG PASSO DO AJURICABA JOSÉ MAIA FILHO BORTOLAN ANIL PAI JOAQUIM MACABU GARCIA LARANJEIRAS 1948 1948 1949 1949 1949 1950 1951 1954 1956 1956 1957 1957 1960 1961 1956 1959 1960 1960 1962 1965 1970 1972 1973 .500.BARRAGENS PARA HIDROELETRICIDADE LOCALIZAÇÃO Nº 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 CARACTERÍSTICAS NOME CURSO D'ÁGUA Ivaí Ijuizinho Capinguí Guarita Forquilha Divisa Santa Cruz Jacuí Santa Maria Sanchuri Guarita Santa Cruz Ijuí Jacuí Antas Jacaré Araguari Macabu Garcia Santa Maria Contas MUNICIPIO Julio Castilhos Santo Ângelo Passo Fundo Passo Missões Marc.000 31.50 65 22 40 15 22 38.000 57.000. Paula Ijuí Espumoso Poços Caldas Oliveira Sacramento Glicério Angelina Canela Jequié Jaguarí São Valentim Xanxerê UF RS RS RS RS RS RS RS RS RS RS RS RS RS RS MG MG MG RJ SC RS BA RS RS SC RS TIPO / MATERIAL Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Simples Muro de Concreto Protendido Contrafortes / Concreto Armado Terra Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto / Terra ANO DE ALTURA ACUMULAÇÃO CONCLUSÃO VOLUME DO EXTENSÃO RESERVATÓRIO COROAMENTO MÁXIMA MACIÇO(m³) (m³) (m) (m) 3.000. Ministro do Interior.000.. graças à atuação dos estados mencionados.300 24.500 80. F.000.000 30.. Simples Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto / Terra PEDRA PASSO FUNDO XANXERÊ FURNAS DO SEGREDO Jaguarí Passo Fundo Chapecozinho Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Simples ITÚ Itaquí Itaquí 164 .000 61.250 20.000 16.000. Ramos S.. a construção dessas duas barragens foi concluída alguns anos mais tarde.000 155 150 220 100 125 239 600 400 174 896 200 507 164 432 200 113 188 256 100 193 440 582 646 505 582 3. somente duas barragens estavam em construção naquele momento: a Barragem de Chapéu D’Uvas. que viria a ser Diretor-Geral do DNOS em 1978-1979 QUADRO 1 .000 400.000 15. Paula Passo Fundo Canela Uruguaiana Passo Missões S.000 15.000 58.000 4. José Costa Cavalcanti.000 1. Paula S.800 2..500 2. que tinha perto de 40.. Mais de cem escavadeiras de propriedade do DNOS ficaram paradas no campo.000 10.50 3 22 4. até enferrujar completamente no lugar onde se encontravam.560. em Santa Catarina.000.800/14.000 130.50 15 24 6 11 17 9 24 11 8 15 20 19 24.000.000 10.000.Inauguração de uma barragem no Nordeste.500 11.

000.000.000 1.000 3.000 1.000 135.800 **** **** 17 10 10 1.000 126. / Concreto Ciclópico Terra Homogênea Enrocamento Concreto Armado Terra Zoneada Terra Homogênea Concreto Armado Gravidade / Concreto Simples Concreto Armado Terra Terra Terra Gravidade / Concreto Simples Terra QUADRO 3 .000 52.800.000 1956 1958 1962 1977 1980 1982 1988 1994 SANTA LÚCIA PAMPULHA MÃE D'ÁGUA SÃO GONÇALO FLEXA PERICUMÃ FLORES CHAPÉU D'UVAS 165 .4 43 700.000 150 40 390 1.000 97.5 9 28 28.000 93.000 570.BARRAGENS PARA IRRIGAÇÃO LOCALIZAÇÃO Nº NOME CARACTERÍSTICAS CURSO D'ÁGUA Truçu Carnauba Condado Duro MUNICIPIO Acopiara Acopiara Catarina Camaquã Poço Branco UF CE CE CE RS RN TIPO / MATERIAL Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto Simples Terra Homogênea Terra Zoneada ANO DE ALTURA ACUMULAÇÃO CONCLUSÃO VOLUME DO EXTENSÃO MACIÇO(m³) COROAMENTO MÁXIMA RESERVATÓRIO (m³) (m) (m) 7.500.000.20 3 29.000 422 438 1720 220 150 365 25 43.053.000.940.500.000.500 41.500 3.000 108.000 5.340 105.3 15 35 9 30 30 12 **** **** 4.000 **** 165.000 **** **** 63.000.000 500 12.000 500.000 13.000 7.000.5 400 20 15 9 6.000 70.000 1972 1975 1978 1978 1982 1992 QUADRO 5 .000 167.400 16.000 115 400 200 218 130 137.800 2.000 430.000.887.360 1.440 1.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens QUADRO 2 .000.950.BARRAGENS PARA CONTROLE DE CHEIAS LOCALIZAÇÃO Nº 1 2 3 4 5 6 OESTE SUL CARPINA GOITÁ GONTAN NORTE CARACTERÍSTICAS NOME CURSO D'ÁGUA Itajai Oeste Itajai Sul Capibaribe Goitá Gontan Hercilio MUNICIPIO Taió Ituporanga Carpina Gloria do Goitá Bagé Ibirama UF SC SC PE PE RS SC TIPO / MATERIAL Gravidade / Concreto Simples Terra Terra / Zoneada Gravidade / Concreto Simples Gravidade / Concreto simples Terra ANO DE ALTURA ACUMULAÇÃO CONCLUSÃO VOLUME DO EXTENSÃO RESERVATÓRIO COROAMENTO MÁXIMA MACIÇO(m³) (m³) (m) (m) 93.900.000 270.450.000 **** **** 485 104 715 100 42 295 300 438 320 42 1595 650 3.500 2.000 16.000 2.000 1955 1956 1965 1965 1970 1 2 3 4 5 CEDRO CARNAUBA RIVALDO CARVALHO ARROIO DURO JOSÉ BATISTA PEREIRA Ceará Mirim QUADRO 4 .000 2.350.000 775.000 30.50 42 38 16 63 78.000 186.000 153.000.000 8.000 5.000.450 920 12 14 17 21 45 4.000 **** 16.000 1.000 **** **** 1957 **** 1969 1970 1970 1971 1972 1972 1973 1977 1979 1979 1979 **** 1989 Arco Gravid. Dilúvio São Gonçalo Canal Flexa Pericumã Flores Paraibuna MUNICIPIO Belo Horizonte Belo Horizonte Viamão Pelotas Campos Pinheiro Joselandia Juiz de Fora UF MG MG RS RS RJ MA MA MG TIPO / MATERIAL Terra Homogênea Terra Homogênea Terra Homogênea Concreto Armado Concreto Armado Concreto Armado Terra Homogênea Terra Homogênea ANO DE ALTURA ACUMULAÇÃO CONCLUSÃO VOLUME DO EXTENSÃO RESERVATÓRIO COROAMENTO MÁXIMA MACIÇO(m³) (m³) (m) (m) 60.000.000 758.BARRAGENS PARA ABASTECIMENTO URBANO LOCALIZAÇÃO Nº 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 BATATÃ PRETO DO CRICIUMA SANTA BÁRBARA RIO DAS VELHAS RIO DAS VELHAS II MAESTRA VACACAÍ MIRIM VAL DE SERRA TAPACURÁ RIO DAS VELHAS III PACOTI RIACHÃO JUTURNAIBA XARÉU PASSAÚNA CARACTERÍSTICAS NOME CURSO D'ÁGUA Batatã Rio Preto Santa Bárbara Velhas Velhas Maestra Vacacaí Mirim Ibicuí Tapacurá Velhas Pacotí Riachão São João Água Pluvial Passúna MUNICIPIO São Luís Jequié Pelotas Nova Lima Nova Lima Caxias do Sul Santa Maria Santa Maria São Lourenço Nova Lima Pacatuba Pacatuba Silva Jardim Fern.000.000. Noronha Araúcária UF MA BA RS MG MG RS RS RS PE MG CE CE RJ PE PR Terra TIPO / MATERIAL ANO DE ALTURA ACUMULAÇÃO CONCLUSÃO VOLUME DO EXTENSÃO MACIÇO(m³) COROAMENTO MÁXIMA RESERVATÓRIO (m³) (m) (m) 390.000 2.000.000 27.000 263.000 148.500.264.BARRAGENS COM FINALIDADES DIVERSAS LOCALIZAÇÃO Nº 1 2 3 4 5 6 7 8 CARACTERÍSTICAS NOME CURSO D'ÁGUA Leitão Pampulha Afl.000 370.580.000 **** 196.500.000 290.000.000.000 3.000.

166 .

no dia 20 de outubro de 1859. Anos antes. castigado pelas freqüentes secas resultantes de extensas estiagens o desenvolvimento do Nordeste era incipiente.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A História da CHESF. o cearense Delmiro Gouveia colocou em operação a pequena usina hidroelétrica de Angiquinho. As geradoras de energia elétrica na primeira metade do Século XX eram de pequeno porte e de operação precária. ainda no Século XIX.500 HP (1. Neste contexto. a exemplo das diversas bitolas das ferrovias implantadas no país. Na virada do Século XIX para o Século XX já se destacava o potencial hidroenergético da cachoeira de Paulo Afonso na qual o rio São Francisco despencava com uma vazão média plurianual superior a 2000 m³/s em vários braços por sobre uma espessa camada de rocha granítica sã. Pedro II. com 1. Pouco após o engenheiro Francisco Pinto Brandão solicitou a concessão do aproveitamento da cachoeira para produção de energia elétrica para uma empresa sua a ser implantada na região com a denominação de Empresa Hidro Elétrica Agrícola Industrial do Brasil. Dentre esses visitantes o de maior destaque foi o Imperador D. O requerimento foi indeferido em 1910. a imponente e magnífica queda d’água chamava atenção dos Figura 1 – Usina de Angiquinho visitantes que para lá se deslocavam enfrentando grandes distâncias dos centros urbanos. O jornalista Alceu Amoroso Lima relatou no periódico “O Jornal” declarações de três estrangeiros que estiveram a admirar a pujança da queda d’água: um francês disse “C’est très chic”. Foi nesse contexto que também em 1913. os sistemas elétricos operavam em 60 Hz e 50 Hz. um hindu exclamava “It is just wonderful” e um americano perguntou “How much hydropower is lost here every day?” . Indutora do Progresso do Nordeste “O rio São Francisco é o mais brasileiro dos rios” Engenheiro Euclides da Cunha Flavio Miguez de Mello O Nordeste na primeira metade do século XX Até a entrada dos anos 50 do século XX o Brasil permanecia sendo um arquipélago de regiões economicamente ativas com parcas conexões entre si a menos da malha ferroviária que integrava a Região Sudeste. O requerimento foi também indeferido pelo governo federal em 1913. nos primeiros anos do Século XX pelo inglês Richard George Reidy que requereu ao governo federal a concessão para exploração do potencial da cachoeira de Paulo Afonso para instalação progressiva de indústrias e serviços. atravessando com dificuldades o sertão nordestino. escassas rodovias rudimentares regionais e o transporte de cabotagem que atingia o litoral mais povoado e penetrava pelos rios amazônicos. Nessa época. Essa visão do americano foi percebida bem antes. Em meados do século passado a cachoeira ainda despertava admiração.102 KW) para gerar energia para 167 .

foi substituído em passado recente pelas Agências. agravado pela dificuldade nos transportes que se faziam sobretudo por mar. onde coletou subsídios para a entidade a ser criada para atuar no vale do São Francisco no Brasil. O Nordeste ficou isolado do resto do país. mesmo na monarquia. O Presidente Getúlio Vargas comandava o Estado Novo no qual Apolônio Sales era Ministro da Agricultura. com a conhecida pobreza de combustíveis fósseis da época. A usina permaneceu no local e os equipamentos da fábrica. Antes disso. A obra foi realizada mediante concessão do estado de Alagoas ao abrigo do Decreto nº. maiores do que as existentes na época. com o fim da II Grande Guerra. Esse abastecimento em alto mar foi confirmado em 1982 pelo oficial da marinha alemã que comandava as operações no Atlântico Sul. O Imperador quando a visitou. Apolônio Sales esteve. Roosevelt como indutora de desenvolvimento para a saída da grande depressão econômica que ocorreu a partir de 1929 nos Estados Unidos. 520 de 12/08/1911 de acordo com a Constituição Federal de 1891. submarinos esses abastecidos por navios argentinos sob o manto de sua neutralidade. inclusive do bando de Virgulino Ferreira. Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) e Nacional de Águas (ANA). mas que. Apolônio. Naquela época. a omissão passou a ser pouco compreensível. uma das mais importantes. O ministro Apolônio Sales. O levantamento foi um marco para o desenvolvimento do Nordeste. as concessões para geração de energia elétrica passaram a ser federais sob atribuição do Ministério da Agricultura. Forte oposição a essa idéia veio de diferentes áreas. em 1944. erguida na cachoeira. cujo Ministério incluía o Setor Elétrico comandou a campanha para a construção de uma hidroelétrica na cachoeira de Paulo Afonso. mesmo em países mais evoluídos. tendo sido efetuado em região agreste no tempo do cangaço. A usina. 168 . procurava sensibilizar as lideranças políticas para a idéia da exploração do potencial da cachoeira de Paulo Afonso. dentro da cachoeira de Paulo Afonso. Jayme Martins de Souza. não houve nenhuma idéia de aproveitamento do potencial da cachoeira. foram levados para São Paulo. o que ainda não havia em outras partes do território nacional cuja economia era essencialmente agrícola. ficaram prejudicados devido aos ataques de submarinos alemães e italianos nas nossas águas costeiras. a cujo ministério a política de energia elétrica estava subordinada. pelos ingleses da Machine Cotton. autarquia americana implantada pelo presidente Franklin D. Há versão que narra que Apolônio Sales havia solicitado a Getúlio Vargas a assinatura do Decreto de criação da CHESF em 30 de setembro por ser ele. a produção de linhas de costura foi prejudicada. Apolônio Sales. aproveitava uma queda parcial e uma pequena parcela da vazão afluente. Na República. precursora do Departamento Nacional de Águas e Energia Elétrica DNAEE que por sua vez. Após a morte por assassinato de Delmiro Gouveia. mas a usina permaneceu intacta. o contra almirante Jaigen Rohwer. a capitaneada pelo engenheiro civil e economista por vocação Eugênio Gudin com a justificativa de que os parcos recursos federais deveriam ser concentrados no Sudeste onde já havia grande demanda reprimida de energia elétrica. não passando de lenda o lançamento dos equipamentos da fábrica e da usina. no Tennessee Valley Authority. o Brasil questionava o regime de exceção do Estado Novo que havia marcado eleições para dezembro. A partir de 1943 o ministro da Agricultura.Séculos XIX. Jorge de Menezes Werneck. A equipe era constituída pelos engenheiros Antonio José Alves de Souza. após a Constituição de 1934. não havia tecnologia para a implantação de geração de energia hidroelétrica. Em 1945. O desequilíbrio entre o Nordeste e o Sudeste do país passou a ser cada vez mais nítido. XX e XXI sua fábrica de linhas de costuras situada na localidade de Pedra. O Serviço Geológico e Mineralógico deu origem mais tarde à Divisão de Águas.A História das Barragens no Brasil . No início dos anos vinte do século passado o Serviço Geológico e Mineralógico do Ministério da Agricultura efetuou um levantamento preliminar do potencial hidroenergético do rio São Francisco entre Juazeiro e Paulo Afonso que concluiu com a possibilidade de implantação de grandes centrais hidroelétricas. devoto de Santa Terezinha. nas proximidades da cachoeira de Paulo Afonso. No início dos anos quarenta a tendência era a de promover a construção de uma grande usina em Itaparica (que só se tornou realidade nos anos setenta). anos depois. Isto possibilitaria a irrigação das áreas ribeirinhas e também o início de industrialização do Nordeste. durante a Segunda Grande Guerra. Mário Barbosa de Moura e Mengalvio da Silva Rodrigues. o Lampião.

Com a posse do Gal. O Decreto Lei º 8. Superadas todas as dificuldades. Esse fato originou a negativa do ministro da fazenda Correia e Castro do pedido de verbas para o Ministério da Agricultura para a execução do projeto. Mantinha-se a oposição do agora ministro Eugênio Gudin por considerar que este tipo de empreendimento deveria ser feito pela iniciativa privada e que os investimentos em geração de energia elétrica deveriam priorizar a região Sudeste. este para suprimento do que seria a futura capital brasileira no Planalto Central. por exemplo. e Cachoeira Dourada no rio Paranaíba. Alagoas. no Centro Oeste. depois de um árduo trabalho. quase três anos após sua criação. Pernambuco. Sergipe e Bahia). Dutra. O início da CHESF O Presidente Dutra entregou o comando da CHESF a um profissional de reconhecida capacidade e idoneidade com total liberdade de indicar os demais membros da diretoria e dessa maneira. Paraíba. no final de 1946. Getúlio Vargas foi deposto e tomou posse como Presidente da República o ministro José Linhares do Superior Tribunal Federal. ainda no submédio rio São Fran- 169 . Posteriormente esse círculo expandiu-se até atingir Natal – capital do Rio Grande do Norte e finalmente Fortaleza – capital do Ceará. Entretanto. usou o seguinte argumento – “Presidente. narrou que. então diretor superintendente de Sobradinho. também comandado por Apolônio Sales. por linha de transmissão e por subestação a CHESF era responsável por produzir e transportar energia elétrica para 8 estados do Nordeste (Piauí. no Nordeste. O ministro Souza Costa. O Decreto 8. Dificuldades adicionais também proviam do próprio ex-ministro Apolônio Sales a apoiar. No final do século XX quando entrou em vigor o novo modelo do setor elétrico com concessões por usina. Ao trecho de concessão Piranhas – Juazeiro foram acrescentados em 1972 mais 350 quilômetros. procurou incluir como prioritários os aproveitamentos hidrelétricos de Paulo Afonso. também assinada no mesmo dia 3 de outubro de 1945. foi realizada a Assembléia Geral de Constituição da CHESF. Bahia. Diversos depoimentos dão conta de que um forte argumento que sensibilizou o general Dutra com relação a Paulo Afonso pode ter sido o que aventava a possibilidade de uma secessão do Nordeste das demais regiões do Brasil. o advogado Afrânio de Carvalho. para transmitir e comercializar a energia hidroelétrica produzida em Paulo Afonso. Ceará.031 de 03/10/1945 concedia à CHESF a exploração de um trecho de cerca de 500 quilômetros entre Piranhas – Alagoas no baixo rio São Francisco e Juazeiro – Bahia no sub-médio rio São Francisco. mas o Estado Novo estava próximo do fim. embora conhecedor de que Getúlio Vargas era agnóstico e que o dia de Santa Terezinha havia passado. sendo o General Eurico Gaspar Dutra. obtendo a adesão de estados e municípios do Nordeste para a integralização do capital da empresa. eleito e empossado Presidente da República. indicações de origem político partidárias ficaram afastadas.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens na época. que atravessava intenso racionamento e não o Nordeste onde nem mercado havia. o que seria agravado num tipo de empreendimento em que nunca antes havia se envolvido.031 de criação da CHESF foi assinado no dia 4 de outubro de 1945. Já Apolônio Sales em conversa informal em 1976 com Eunápio Queiroz. mas com data do dia anterior. Rio Grande do Nor te. Pernambuco e Sergipe. A empresa podia ser formada. a idéia de considerar como projeto definitivo um estudo extremamente sumário da usina localizada no Braço da Velha. no dia 15 de março de 1948. amanhã é dia de São Francisco. Daniel de Carvalho. continuava a oposição ao empreendimento hidrelétrico no Nordeste e à empresa criada em 3 de outubro de 1945. ou seja. Na seqüência ocorreram eleições gerais no país. Outros opositores combateram a idéia usando como argumento a reconhecida incapacidade gerencial do governo. dada a disparidade daquela região com as regiões Sul e Sudeste. Ele ficará contente vendo que o senhor criou no Nordeste do Brasil uma companhia com o nome dele”. festejada naquela data (hoje é 01 de outubro). chefe de gabinete do ministro da Agricultura. A concessão. definiu um círculo inicial de cerca de 450 quilômetros de raio no interior do qual se inseriam as capitais dos estados de Alagoas. afirmara que seria um desperdício gastar recurso no projeto.

em 1921.Séculos XIX. Em 1948.A cachoeira de Paulo Afonso antes das obras da CHESF. do Ministério da Agricultura.Engenheiro Antônio Alves de Souza. Esse engenheiro. resultando que entre Xique Xique (limite montante) e Piranhas (limite jusante) se inserem as usinas hidroelétricas de Sobradinho. III e IV e Xingó. efetuado um levantamento topográfico da Cachoeira de Paulo Afonso. Piloto. II. Alves de Sousa assumiu o comando da empresa com o programa inicial de destinar o fornecimento de Figura 2 . foi eleito Presidente da CHESF o engenheiro Antônio José Alves de Sousa. obedecidas às orientações do Presidente Dutra. tinha. onde a CHESF construiu e opera a hidroelétrica de Sobradinho. Luiz Gonzaga (Itaparica). Apolônio Sales (Moxotó). onde tinha sido encarregado das concessões de energia elétrica. no governo Epitácio Pessoa. XX e XXI cisco entre as cidades de Juazeiro e Xique Xique. Paulo Afonso I. ambas na Bahia.A História das Barragens no Brasil . formado na Escola de Minas de Ouro Preto. primeiro presidente da CHESF Figura 3 . Na margem esquerda as instalações de Angiquinho e no cânion a casa de força 170 .

quando submetidas a pressão interna.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens energia exclusivamente a Pernambuco e imediatamente propôs estender o fornecimento a outros pontos do nordeste inclusive a Salvador. A barragem atravessa diversas ilhas e suas comportas assinalam os braços originais do rio. Para suprimento de energia ao acampamento e ao canteiro de obra da primeira usina. a diretoria técnica. Ao longo do tempo outros engenheiros foram incorporados à diretoria técnica como Hernani Gusmão. São 26 comportas de vertedouro. De início. constituindo-se em uma barragem móvel. uma casa de força subterrânea e a restituição a jusante da cachoeira. Dermeval Resende. no próprio local das obras. Alagoas e Sergipe foram beneficiados com a energia elétrica gerada em Paulo Afonso. através de um canal artificial. Entre as alternativas de projetos que foram consideradas para construção da usina de Paulo Afonso. além de Pernambuco. Adozindo Magalhães de Oliveira (diretor de administração) e Octávio Marcondes Ferraz (diretor técnico) e como consultor jurídico Afrânio de Carvalho. Gentil Norberto. A Usina de Moxotó. foi substituído pelo consultor jurídico. II e III. A outra parte da barragem. cujo reservatório foi formado captando águas do reservatório de Moxotó. Alves de Souza compôs a sua diretoria com o coronel engenheiro Carlos Berenhauser Junior (diretor comercial). O diretor de administração. transformando o centro da cidade de Paulo Afonso em uma ilha. Um aspecto a destacar foi o fato do IPT ter prestado assistência tecnológica à construção dessa usina. Clemente Mariani. A adução é feita por três túneis verticais de 4. 8 no braço Quebra. adotando essa postura até o final do seu mandato. atinge a margem direita atravessando o braço Capuxu. com a colaboração dos engenheiros Domingos Marchetti. a diretoria passaria a sofrer modificações. 6 no Taquari e 2 no Capuxu. foi implantada a montante da bacia de decantação (reservatório Delmiro Gouveia). esta com operação iniciada em outubro de 1949. O reservatório assim formado tem apenas 11 km² de área. Hermínio Lorentz Kerr. Dentro da concepção original foram posteriormente executadas outras duas casas de força também subterrâneas denominadas Paulo Afonso II e Paulo Afonso III. uma adução em túneis. José Villela e Júlio Miguel de Freitas. passando a original a ser denominada de Paulo Afonso I. O presidente Dutra manteve a sua palavra de não interferir na composição da diretoria. formando um funil num comprimento total de 4394m. sendo 10 delas no braço principal. foi selecionada a que previa uma extensa barragem de concreto de gravidade com um vertedouro de superfície incorporado e atravessando um arquipélago de ilhas a montante da cachoeira. passou a atuar mais diretamente.8m de diâmetro com joelho de 90° para alimentar três turbinas Francis situadas em casa de força subterrânea. Somente após a posse do presidente Jânio Quadros. construída no início dos anos 70 do século passado. em fins de 1954. Juraci Magalhães e Pereira Lira. em 1961. atingindo as proximidades da cachoeira. que alimenta as usinas de Paulo Afonso I. o braço do Quebra e o braço do Taquari. Hilton Fiúza de Castro. os estados da Bahia. A tomada d’água fica situada no encontro desses dois trechos da barragem. e é constituída de barragem. cercada por usinas hidroelétricas. logo nos primeiros meses após o início de operação. Estes ensaios. com 1277m de comprimento. Hélio Gadelha de Abreu e Nédio Lopes Marques. uma casa de força e um descarregador de fundo provido de comportas de segmento. sediada no Rio de Janeiro. A barragem Leste com 3117m de extensão tem sua ombreira na margem esquerda e atravessa o braço principal onde escoava cerca de 90% da descarga do rio. pelo seu falecimento.1 MW que havia sido instalada por Delmiro Gouveia em 1913 e de outra pequena hidroelétrica denominada Usina Piloto. Posteriormente. Othon Soares. da Bahia. a CHESF contou com a geração da usina de Angiquinho com 1. marcaram o nascimento da Mecânica das Rochas no Brasil. tendo 171 . realizados em 1951. e políticos como Luiz Vianna Filho. a partir de 1949. foi implantada mais uma usina denominada Paulo Afonso IV. Graças à vigilância do governador Otávio Mangabeira. realizando ensaios de deformação diametral sofrida por câmaras escavadas em rocha.

no BIRD e no Banco Nacional de Desenvolvimento Industrial. depois de quase 47 anos de operação. Além da previsão insuficiente de recursos por parte do governo federal. as instalações do modelo reduzido das usinas de Paulo Afonso podem ser vistas durante visitas turísticas e escolares agendadas previamente com a CHESF. Além do capital financeiro inicialmente subscrito para formação da CHESF e reconhecidamente insuficiente. para a cidade de Glória e. Atualmente. Alagoas). apesar de serem esses estados e municípios os mais beneficiados com a implantação da primeira usina de Paulo Afonso. XX e XXI uma unidade geradora de 2. A Usina Piloto foi projetada e construída pelos engenheiros J. de inestimável valor para as definições de projeto e construção. permaneceu em operação no Centro de Formação da CHESF em Paulo Afonso.A História das Barragens no Brasil . foram efetuados aumentos de capital e conseguidos empréstimos junto ao Eximbank. Ao longo de todo o projeto e construção de Paulo Afonso I e continuando durante quatro décadas.Usina piloto 172 . para a fábrica de linhas que havia sido implantada por Delmiro Gouveia no povoado de Pedra (hoje cidade de Delmiro Gouveia. para permitir a construção da usina e funcionamento da empresa. No início da construção de Paulo Afonso I as escavações para a implantação da casa de força subterrânea foram comandadas pelo enge- Figura 4 . sob a administração da Fundação Delmiro Gouveia. O sítio desta usina teve seu tombamento histórico decretado pelo estado de Alagoas e atualmente é ponto de visitação turística na região. após seus equipamentos terem sido danificados por uma forte enchente. Esse desinteresse financeiro permaneceu mesmo após a entrada em operação da usina. com possibilidade de instalação de uma segunda máquina. a usina de Angiquinho foi desativada pela CHESF.0 MW. ocorreu ainda pronunciada inadimplência de aportes financeiros que haviam sido assumidos por estados e municípios nordestinos por subscrição de ações da CHESF. complementando Angiquinho. um laboratório de modelos hidráulicos reduzidos.Séculos XIX. Em março de 1960. Leal Corrêa e Leopoldo Schimmelpheng e passou a fornecer energia elétrica para a obra e seu acampamento.

especialista em túneis. foram executadas sob a supervisão dos engenheiros Roberto Montenegro e Reginaldo Sarcinelli. uma vez que foi bastante reduzida a velocidade das águas nestes locais. 12 m de altura e peso de 350 t. A construção de Paulo Afonso exigiu a presença de milhares de trabalhadores e também atraiu outros milhares de pessoas que afluíam ao local da usina à procura de trabalho. Marcondes Ferraz implantação de recursos básicos requeridos. À medida que as células iam sendo 173 . detentor de profundos conhecimentos de hidráulica adquiridos na sua formação em Grenoble. De costas. O flutuante afundado desviou as correntes mais intensas e possibilitou a instalação das estacas prancha sem que essas vergassem.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens nheiro Domingos Marchetti. Importante contribuição para a concepção do projeto e para a execução das obras foi dada pelos que trabalharam no modelo reduzido sob a orientação do engenheiro francês André Balança. além da irregularidade do fundo rochoso. ambas marcas de cimento. Esse flutuante foi imerso no rio em posição previamente definida através de controle por cabos de aço fixados nas margens.Início da obra em 1950 com Marcondes Ferraz e Alves de Souza (primeiro e segundo da esquerda) Figura 6 . O modelo reduzido definiu a solução considerando a montagem de um flutuante chamado localmente de “Navio”. André Balança se fixaria no Brasil até seu falecimento. As ensecadeiras propostas pelo engenheiro Gentil Norberto. A vila Poty é hoje o centro da cidade de Paulo Afonso. um crescente conjunto de casebres. A CHESF participou do apoio à melhoria de vida dos moradores das novas vilas. esquerda e direita. contribuindo com assistência social e a Figura 5 . estabelecendo-se ao lado do acampamento da CHESF. povoado do município de Delmiro Gouveia. Os estudos hidráulicos para o barramento do rio determinaram a aplicação de ensecadeiras celulares de estacas prancha. A impossibilidade de execução de batimetria. dentro das realidades da época.5 m/s) e profundidade do rio nas imediações das cachoeiras (10 m a 12 m). principalmente através de empresas de consultoria. e a vila Zebu. em parte cobertos por sacos de cimento vazios surgindo no linguajar popular a Vila Poty e a Vila Zebu. tendo contribuído em inúmeros empreendimentos hidrelétricos. uma das mais prósperas do estado da Bahia. Dutra ao lado de Alves de Souza. construído na França e montado no local da obra. com 18 m de comprimento. dificultavam a execução da ensecadeira como fora projetada. devido à velocidade de escoamento (cerca de 3.Visita do pres.

Séculos XIX. com o término da ensecadeira foi divulgado para toda a nação e meio técnico de engenharia. a velocidade da água ia aumentando progressivamente. Em depoimento ao autor o engenheiro Rubens Vianna de Andrade que. disse que o esquema de desvio tinha sido realmente muito ousado.Montagem da guia das estacas prancha Figura 9 . a ensecadeira de estacas prancha pôde então ser concluída. e que uma escavação de canal com estrutura de desvio como feito em Itaipú teria sido um esquema mais garantido. Essa treliça passou a reter blocos de pedra de grandes dimensões lançados na corrente do rio e retidos por redes apoiadas na treliça.5 m/s.A História das Barragens no Brasil . Decidiu-se pela implantação de uma estrutura metálica em treliça semi-flexível. Outra alternativa que havia sido estudada para fechamento desse trecho final do rio era a da construção de um obelisco com uma das Figura 7 . XX e XXI executadas barrando e estrangulando a seção do rio. atingindo valores de 8. Essa vitória da engenharia brasileira foi comunicada durante uma sessão do Clube de Engenharia no Rio de Janeiro. Com a diminuição da velocidade de escoamento. a qual foi interrompida para que a notícia fosse conhecida pelos presentes que vibraram com o êxito da solução de engenharia. O fechamento do rio São Francisco. posicionada a jusante da linha de centro da ensecadeira celular em construção.Construção da ensecadeira celular com apoio do navio defletor 174 . quando jovem participou da construção de Paulo Afonso I. A solução do “Navio” que protegera a construção das células por montante não mais seria aplicável. com calorosos aplausos.Montagem do navio defletor Figura 8 .

Construção da ensecadeira celular Figura 11 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 10 .Construção da ensecadeira celular 175 .

XX e XXI Figura 12 .A História das Barragens no Brasil .Construção da ensecadeira celular Figura 14 .Séculos XIX.Ensecadeira celular concluída e fase inicial do fechamento do rio 176 .Construção da ensecadeira celular – Carga hidráulica de 9 m Figura 13 .

Treliça posicionada para fechamento do rio Figura 17 .Fase final do fechamento do rio 177 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 15 .Início do lançamento da treliça para fechamento do rio Figura 16 .

desaconselhara os dois métodos para o ensecamento do leito do rio. XX e XXI faces reproduzindo da melhor maneira possível. presidente do banco. Adolph Acker mann que se opusera ao esquema de desvio do rio. como o laboratório de modelo reduzido e a fazenda modelo. concluiu o discurso de recepção à delegação com as seguintes palavras. quando jovem na profissão.. Let us hope that in the passing of time the same ideal penetrates into the mind and heart of all men so that mankind may live in peace. o professor Amauri Menezes que assumiu a diretoria técnica durante as ampliações de Paulo Afonso. por Mr. com sua vasta experiência posteriormente em diversos desvios de grandes rios inclusive o desvio do rio Paraná em Itaipú. Essa posição fora transmitida ao ministro Oswaldo Aranha que tivera contato com Mr. requisitados na Ilha das Flores. 178 . No dia 4 de agosto de 1954. o esquema de desvio foi mantido. o engenheiro Rubens Vianna de Andrade que.Séculos XIX. demonstrando a importância daquele momento histórico. o fundo do rio e colocado em pé em uma das margens do rio. admitiu ao autor que o esquema que foi empregado em Paulo Afonso não teria sido o mais recomendado nem o mais seguro.” No dia 20 de setembro de 1954 foi iniciado o enchimento do reservatório. João Café Filho. antecipando-se a John Lennon: “As the World Power Conference represents the triumph of cooperation over isolationism. engenheiro Marcondes Ferraz. in a way. Esse fato gerou a substituição do representante do banco em Paulo Afonso. we are pleased to note that. a jusante das comportas o leito do rio ficou seco. iniciou uma grande transformação do entorno da usina em vasto ambiente de agradável paisagismo implantando dezenas de pequenos lagos. formada principalmente por imigrantes europeus após a II Grande Guerra Mundial. na fase final de construção e com o desvio já equacionado. a Conferência Mundial de Energia que na época ainda incluía a Comissão Internacional de Grandes Barragens. de elevada competência e distinto cavalheirismo. intensa arborização pública e jardim zoológico. Paulo Afonso passou a ser visitado por vastos contingentes de pessoas para apreciar a grandeza das obras ali implantadas. participou da epopéia do desvio em Paulo Afonso. Mr. Mr. Dessa legião estrangeira participaram Cyrill Iwanow. Considerando essa afluência de visitantes.A História das Barragens no Brasil . Nessa visita. A inauguração de Paulo Afonso ocorreu no dia 15 de janeiro de 1955 em solenidade comandada pelo Presidente da República. efetuou uma visita técnica a Paulo Afonso. além de preservar as realizações da diretoria anterior. reduto na baía da Guanabara onde os estrangeiros eram recebidos e triados. Aproveitando o fato de que o banco havia chamado Alves de Souza a Washington sem dar conhecimento da pauta da reunião e sem a convocação do diretor técnico. engenheiro Alves de Souza. Dunn. Importante realçar que o consultor do Banco Mundial. da American Engineering Co. a common and generous inspiration is the source of both your and our success. decency and liberty. durante a visita a Washington do presidente da CHESF. Abdank Abzantovsky e Andre Bijnik. No dia 1° de dezembro era ligado o primeiro circuito que atenderia Recife e poucos dias após era energizada a linha de transmissão para Salvador. Bass. com o fechamento das comportas. Ao ser derrubado esperava-se que esse obelisco obstruísse quase totalmente o fluxo de água. Quando. Black. advogado Afranio de Carvalho. Pensava em esquema semelhante ao de Itaipú com escavação de canal de desvio com aplicação da rocha escavada na barragem e a construção de estrutura de fechamento nesse canal. uma legião estrangeira prestou importantes serviços para a CHESF nos seus primeiros anos. para atender a convocação feita pelo banco. Além do francês André Balança que chegou com 29 anos e ficou para sempre no Brasil. o que foi caracterizado como deslize de ética. o diretor da CHESF. criada por Apolônio Sales para difusão de conhecimento e transferência de tecnologia para produtores rurais e pecuaristas do sertão do São Francisco. um dos muitos que estavam assistindo o evento atravessou a pé o leito do rio empunhando a bandeira nacional. Cinquenta anos após o desvio do rio. Além de sua vital importância econômica e social para todo o Nordeste.

promoveu alterações na diretoria da CHESF.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A notável beleza da cachoeira com suas diferentes quedas em seu estado natural ainda hoje pode ser vista por ocasião de cheias extravasadas pelos vertedouros. por ter Marcondes Ferraz apoiado o presidente da República Carlos Luz. Marcondes Ferraz foi destituído em 1960 por Juscelino Kubitschek como presidente da república. A expansão da CHESF A partir de 1953 a CHESF iniciou as negociações para obtenção de recursos junto ao governo federal para o primeiro plano de expansão de Paulo Afonso que incluía a terceira unidade da primeira casa de força e a construção da segunda casa de força denominada Paulo Afonso II que. Ao saberem que haveria mudanças na diretoria. convite declinado com o argumento de que não se deveria deslocar um homem do gabarito de Alves de Souza. como as que se seguiriam. no seu efêmero governo de dois dias e participado da fuga no cruzador Tamandaré após o primeiro dos dois golpes desferidos pelo general Henrique D. o ministro João Agripino. todos os diretores se demitiram e realçaram a importância da Figura 18 . Após doze anos na direção técnica da CHESF e sendo um dos principais artífices do que ficou sendo conhecida como a epopéia de Paulo Afonso. tendo convidado Marcondes Ferraz para a presidência. Lott que depôs dois presidentes. Quando Jânio Quadros foi eleito em 1960. notável pintor vindo na comitiva pessoal de Maurício de Nassau. A primeira imagem da cachoeira foi captada em 1647 pelos pincéis de Franz Post. Dom Pedro II quando esteve na cachoeira em 1859 reproduziu a imagem que vislumbrava a lápis em seu diário de viagens. T.O aproveitamento de Paulo Afonso em seu estágio final 179 . O afastamento teve motivação política. seria também subterrânea.

000 m³/s em hidrógrafas de cheia de pequenos volumes poderiam se somar ao pico de cheia afluente ao reservatório de Moxotó. Ao se projetar a barragem de Paulo Afonso IV verificou-se que. XX e XXI Figura 19 – A usina hidroelétrica de Moxotó continuidade de gestão que seria garantida pela permanência de Alves de Souza na presidência.Séculos XIX. difere destas por captar. Paulo Afonso III inaugurada em 1972 pelo presidente Emílio Garrastazu Médici. Novas casas de força subterrâneas foram se sucedendo. Fausto Alvim na diretoria administrativa e Ivan Macedo Melo na diretoria comercial. água no nível do reservatório da usina de Moxotó implantada a montante da bacia de decantação Paulo Afonso I.5 km a jusante das suas precursoras. descargas de até 10.000 m³/s). Ele foi mantido e os demais diretores foram substituídos por Amauri Menezes. Como essa condição excepcional não havia sido considerada no projeto da barragem de Paulo Afonso. na diretoria técnica. o vertedouro de Moxotó foi dimensionado para a mesma descarga de projeto da barragem das usinas de Paulo Afonso I. II e III. e a usina inaugurada em 1980 pelo presidente João Batista Figueiredo. devido principalmente às características torrenciais do rio Moxotó. tendo a última das seis unidades geradoras entrado em operação em 1983. Paulo Afonso IV cujas obras civis foram concluídas em 1979. 180 A usina de Paulo Afonso IV. afluente pela margem esquerda do rio São Francisco na região de Paulo Afonso. por meio de um canal. Para garantir o escoamento da cheia máxima possível. o canal de adução entre os reservatórios de Moxotó e . e concluída em 1974. Com o rio São Francisco domado em 1954. as ampliações que se sucederam foram muito mais simples.A História das Barragens no Brasil . II e III (25. situada a cerca de 1. Paulo Afonso II concluída em 1968.

Os dirigentes da Eletrobras. Além disso. garantindo também o simultâneo escoamento de possível cheia gerada na bacia do rio Moxotó. Xingó já em operação e Pão de Açucar. entraram em operação em 1977. causou constrangimentos na subsidiária. Uma equipe de técnicos da CHESF e consultores (Aurélio Vasconcelos. monitorando os efeitos da expansão e garantindo o aumento da vida útil da casa de força.00. o trabalho conjunto de Apolônio Sales e Eunápio Queiroz. O reservatório da barragem de Moxotó. além de João Paulo Maranhão de Aguiar. formando um apreciável acervo sobre a reação álcali-agregado. Em meados de 1971 a Eletrobras havia determinado a estruturação de uma superintendência sob o comando do engenheiro Eunápio Peltier de Queiroz que havia criado a Centrais Elétricas do Rio de Contas. Alberto Jorge Cavalcanti. de 100 MW cada. em empreendimentos de engenharia. ocorrendo o enchimento do reservatório de Sobradinho em 1978 e início de geração de energia em 1979. Em maio de 1974 a CHESF recebeu instruções para motorizar Sobradinho. As quatro unidades geradoras. As alternativas seriam a construção das hidroelétricas e reservatórios de Itaparica (em cota elevada). II e III. As sucessivas ampliações em Paulo Afonso passaram a demandar descargas afluentes mais regularizadas. situado a montante de Paulo Afonso I. na Bahia. estimulando a construção de usinas termoelétricas junto aos grandes centros de consumo. 181 . o que exigiu a execução de serviços para convivência com esse fenômeno e manutenções periódica nas unidades geradoras.000 m³/s. Mário Bhering e Pinto Aguiar foram sensibilizados pelos argumentos de Apolônio Sales. Norman Costa. II. uma das barragens contendo a tomada d’água e casa de força e a outra o descarregador de fundo (barragem móvel) controlado por comportas de segmento.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens de Paulo Afonso IV foi ampliado para permitir o fluxo adicional de 10. Posteriormente foi constatada a presença de reação álcali-agregado ocasionando expansão do concreto. então presidente da CHESF. Na ocasião da concepção do projeto não foi considerada a construção de um obra de barragem para o controle de cheias do rio Moxotó que teria trazido importantes benefícios econômicos à construção de Paulo Afonso IV e aos vertedouros de jusante. Japhet Diniz. Essa decisão da Eletrobras. As obras civis da usina de Moxotó foram iniciadas em 1971 e concluídas em 1974. Paulo Pacheco e Margarida Maria Dantas de Oliveira. Gláucio Furtado. Ricardo Barbosa e João Francisco Silveira). quando o barril de petróleo foi cotado a menos de US$ 2. a partir de relatório do Comitê de Estudos Energéticos do Nordeste foi a construção da barragem de Sobradinho inicialmente sem casa de força por ser a solução de menor investimento para a regularização do rio. A barragem de Moxotó se situa a cerca de 2 km a montante da barragem do Complexo Paulo Afonso I. Hilton Silveira. dedicaram-se aos estudos e acompanhamento. Eunápio Queiroz e Ernani Gusmão. recomendações plenamente atendidas. Em 1983 a usina de Moxotó passou a ser denominada oficialmente de Usina Apolônio Sales em homenagem ao criador da CHESF. que entre outros motivos buscava tirar do comando da Diretoria Técnica da CHESF uma das duas obras gigantescas e simultâneas (Sobradinho e Paulo Afonso IV). mais econômica. presentemente em fase de inventário. A usina é composta por duas barragens de enrocamento com núcleo de argila. que haviam sido companheiros no Congresso Nacional. O planejamento energético foi influenciado também pelo baixo custo do petróleo. III. foi construído para promover a regularização semanal das vazões e possibilitar através do canal de adução acima descrito. separadas por uma ilha. com apoio de Léo Amaral Penna. conduziram a implantação da hidroelétrica de Sobradinho. ou de Sobradinho ambas no rio São Francisco e a montante de Paulo Afonso e Moxotó. e implantado com sucesso a hidroelétrica de Funil e que teria como missão implantar o empreendimento de Sobradinho. e criaram. Essa opção não prosperou em função do aumento de preços pela OPEP e da deflagração da guerra do Yom Kippur. Foi necessária a construção de um núcleo urbano para transferência da população da cidade de Glória-BA. uma solução de compromisso: a concessão da hidroelétrica de Sobradinho seria da CHESF. inundada com a formação do reservatório. sendo projetado e construído um vertedouro de 10 000 m³/s de capacidade na barragem de Paulo Afonso IV. época do chamado “milagre brasileiro“. a derivação do fluxo d’água para a tomada d’água e vertedouro da usina de Paulo Afonso IV. neutralizou as componentes negativas desta divisão. A solução adotada pelo setor elétrico.

A usina hidroelétrica Sobradinho 182 . com uma depleção de até 12 metros.214 km2 possibilitando. o que. um significativo aumento de descargas garantidas para as usinas a jusante. atingindo seus 1050 MW de capacidade instalada. gerou um reservatório de grandes dimensões com volume acumulado de 34. Apesar de se situar a cerca de 50 km a montante de Juazeiro (BA) e Petrolina (PE).Minas Gerais e o sub médio rio São Francisco. gerou impactos sócio-ambientais de porte. portos terminais do trecho navegável entre Pirapora . o Departamento Nacional de Portos e Vias Navegáveis. Remanso. O reservatório de Sobradinho. A casa de força de Sobradinho teve a entrada de sua primeira máquina em operação em novembro de 1979 e a última unidade geradora em março de 1982.A História das Barragens no Brasil . XX e XXI Uma barragem de terra zoneada flanqueia as estruturas de concreto gravidade da tomada d’água e dos vertedouros de fundo e superfície. tão importante para a segurança do suprimento de energia ao Nordeste. mesmo limitando a altura da barragem e definindo a usina como de baixa queda. sucedido pela Portobrás. exigiu e assumiu os custos de implantação de uma grande eclusa de navegação. num arranjo característico de hidroelétrica brasileira em vale aberto.Séculos XIX. que na época era um sistema isolado do resto do País. concluída em 1980. Sento Sé e Pilão Arcado e de outros pequenos povoa- Figura 20 . Foi necessário a relocação das cidades de Casa Nova.1 bilhões de metros cúbicos e extensa área alagada de 4. No local da barragem de Sobradinho e em toda a área do seu reservatório o rio São Francisco apresentava margens abatidas em vale muito aberto.

proporcionando significativa economia de petróleo. Hiromito Nakao. Hamilton Oliveira. durante cerca de quatro anos.A usina hidroelétrica de Itaparica dos situados às margens do rio São Francisco. Guy Bordeaux e Pedro Tanajura) com a consultoria e acompanhamento de um dos mestres mundiais da engenharia de solos – James L. o canteiro e acampamento dessa hidroelétrica. única disponível na área em quantidades compatíveis com os volu- mes requeridos. Além do papel importante na redução de piques de cheia e interligação Norte – Nordeste.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 21 . a cidade de Belém do Pará e cidades vizinhas foram abastecidas com energia elétrica gerada em Sobradinho.400 famílias (cerca de 70. A construção da barragem de Sobradinho trouxe importante contribuição para a engenharia nacional de barragens ao ter seu núcleo impermeável executado com argila dispersiva. avaliações e tarefas de controle de laboratório e construção dos maciços.000 hectares. em Sobradinho foi construída a tomada d’água que abastece o mais bem sucedido projeto público de irrigação no Brasil – o Projeto Nilo Coelho. Hilton Silveira. Antonio Martins. antecedendo à inauguração de Tucuruí. Como Tucuruí ainda estava em construção quando Sobradinho iniciou sua operação. com área irrigável de 25. no escritório e no campo.000 pessoas) reassentadas para formação do reservatório. Ao todo foram 11. O usina de Sobradinho permitiu a interligação das regiões Nordeste e Norte através de linha de transmissão entre Sobradinho e Tucuruí. Com Sobradinho ainda em fase de construção a CHESF iniciou em 1975 no rio São Francisco e a cerca de 40 km a montante de 183 . com a transferência das suas populações. Técnicos brasileiros da CHESF e da Projetista (Esmeraldino Pereira. que garantiram todos os requisitos de qualidade e segurança na utilização de argila dispersiva. desenvolveram estudos. Sherard.

já com a denominação de Usina Hidroelétrica Luiz Gonzaga. que abastecia um núcleo agrícola e operou de 1945 até a década de 1970 e foi alagada pelo reservatório da nova hidroelétrica em 1988. Manuel Rocha. Houve forte resistência política dos que consideravam que essa concessão não atendia aos interesses do Brasil e do Nordeste. Armando Lencastre e Don Deere que. abrigando cerca de 36. Os trabalhos foram apoiados por uma junta de consultores composta por James Libby. Essas usinas. Nesse ano a usina foi inaugurada pelo presidente José Sarney e atingiu plena capacidade em 1990 com seis unidades geradoras de 246. Boa Esperança no rio Parna- 184 . e da antiga pequena usina existente em Itaparica. Somente em 1975 foram contratados pela CHESF. A concessão teria sido para autoprodutor por 30 anos e reverteria à União no entorno de 1985. abrigando seis unidades de 527 MW cada que entraram em operação entre 1994 e 1997. sob comando de Eunápio Queiroz. a Usina de Xingó. a construção de uma barragem em abóbada com casas de forças subterrâneas nas duas margens. todas as demais usinas incorporadas pela CHESF se situam em outros rios do Nordeste. No após guerra. A jusante de Paulo Afonso o rio São Francisco escavou profundo e estreito cânion de paredes rochosas de elevadas qualidades geomecânicas. a menos de Angiquinho já mencionada.Séculos XIX. O Empreendimento Itaparica foi realizado num período de intensas dificuldades financeiras do setor elétrico estatal. vislumbrou a construção de uma hidroelétrica nesse cânion. Clemente Mariano e pelo industrial e político paulista José Ermírio de Moraes com os argumentos de que haveria prejuízo da incipiente indústria nacional e que absorveria grande consumo de energia com pequena utilização de mão de obra. de enrocamento com face de concreto e com desvio por túneis escavados na margem direita onde também foi localizada a casa de força. houve a necessidade do assentamento da população ribeirinha que teve que ser desalojada. James Sherard. Itacuruba. Ao lado da tomada d’água para geração de energia elétrica foram implantadas duas tomadas para os projetos de irrigação Califórnia e Jacaré Curituba. do Grupo Votorantim) no rio Paraguaçu na Bahia. Rodelas e o povoado de Barra do Tarrachil. Foram construídas as novas cidades de Petrolândia. O vale aberto do rio foi barrado por um extenso maciço de enrocamento com núcleo de saprolito compactado ladeando as estruturas de concreto gravidade da tomada d’água e do vertedouro. Com tanta oposição. da Kaiser. foi decidida a implantação dessa segunda alternativa de projeto que se situa imediatamente a montante das sedes municipais de Piranhas – Alagoas e Canindé do São Francisco – Sergipe. os estudos preliminares para seleção de local e de alternativas de projeto. a usina e a indústria não foram adiante. que teve sua operação iniciada em 1913 e desativada em 1960 devido a uma inundação. Dada a carência de experiência nacional em barragens em abóbada e como o esquema com barragem de enrocamento no final do cânion era viável. ambos no estado de Sergipe e viabilizados pela elevação de mais de 120 metros no nível d’água no cânion. outras foram incorporadas à CHESF ao longo dos anos. recomendou.6 MW cada. em 1951. Essas hidroelétricas foram: Bananeiras (inundada pela usina hidroelétrica Pedra de Cavalo. que atingem até 200m de altura. O nível d’água do reservatório da hidroelétrica de Xingó foi definido pelo valor aceitável de afogamento do canal de fuga de Paulo Afonso IV com conseqüente redução de geração nessa usina. constituída por uma barragem com 145 m de altura. capitaneada pelo político baiano. homenagem ao grande compositor e cantor nordestino. o engenheiro Gerdes. motivo pelo qual as obras se prolongaram muito além do que fora previsto no planejamento de construção.A História das Barragens no Brasil . XX e XXI Paulo Afonso as obras para implantação da hidroelétrica de Itaparica. Além das hidroelétricas acima mencionadas e implantadas pela CHESF.000 pessoas. A indústria americana Reynolds Metals propôs a construção dessa hidroelétrica numa das partes mais estreitas do cânion com uma barragem em arco. Essa usina teria como finalidade a geração de grandes blocos de energia para uma unidade fabril de produção de alumínio a ser implantada na região. Tendo em vista a extensa área de reservatório de 834 km². sob a supervisão de Felício Limeira de França e a coordenação do engenheiro José Geraldo Araújo. com a empresa consultora. por mais econômica. Somente em 1988 foi fechado o reservatório e entraram em operação as primeiras unidades.

situada no rio Parnaíba entre os estados do Maranhão e do Piauí. que foi implantada no local. com a participação dos estados do Piauí e Maranhão e do Ministério de Minas e Energia. Curemas a partir dos açudes públicos Estevam Marinho e Mãe-d’água do DNOCS nos rios Piancó e Aguiar na Paraíba e Araras no açude público Paulo Sarasate do DNOCS no rio Acaraú no Ceará. Hilton Ahiran da Silveira e Ebenezer Gueiros. A usina hidroelétrica de Boa Esperança. teve origem na iniciativa do DNOCS de criar uma comissão para inventariar as possibilidades de implantação de hidroelétricas no rio Parnaíba. A hidroelétrica de Bananeiras. situada no rio Paraguaçu. Essa usina foi transferida da COELBA para a CHESF em 1967 e desativada em 1981 por interferência com a hidroelétrica de Pedra do Cavalo. de maior potência.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens íba na divisa dos estados do Maranhão e Piauí. as Funil e Pedra no rio de Contas no sul da Bahia. havia entrado em operação em 1920 e teve 9 MW instalados para suprir o Recôncavo Baiano. Walter Barros da Silva. A usina de Boa Esperança teve suas obras iniciadas em 1964. Em julho de 1963 a COHEBE foi formalmente constituída e sua primeira diretoria foi composta por César Cals de Oliveira Filho. e sua Figura 22 . Dessa iniciativa nasceu a Companhia Hidro Elétrica de Boa Esperança COHEBE.A usina hidroelétrica de Xingó 185 . representado pela Eletrobras. a montante da cidade de Cachoeira. a partir de Grupo de Trabalho formado pelo DNOCS e pela SUDENE.

De modo semelhante ao que aconteceu com Paulo Afonso na década de 1940. com duas unidades geradoras totalizando 4 MW. no estado da Paraíba.A História das Barragens no Brasil . atendida pelas hidroelétricas do rio São Francisco através de linha de transmissão 500 kV Sobradinho – Boa Esperança. no Ceará. As obras foram iniciadas pelo DNOCS em 1956. a casa de força passara a ser denominada Presidente Castelo Branco. no sul da Bahia. sendo acionista minoritária nas usinas hidroelétricas de Dardanelos. Teve suas obras iniciadas pelo DNOCS em 1939. a construção de Boa Esperança sofreu grande oposição dos que consideravam que a demanda dos estados do Nordeste Ocidental (Maranhão e Piauí) não justificava a implantação de um empreendimento desse vulto. A usina só entrou em operação em 1967 e em 1969 foi incorporada à CHESF. Pinto Aguiar e Antônio Carlos Bastos. Em 1973 a COHEBE foi então absorvida pela CHESF. A hidroelétrica de Araras. sendo suas obras civis iniciadas em setembro de 1976. nos rios Piancó e Aguiar.Séculos XIX. A barragem é do tipo contrafortes de concreto com 24 blocos dos quais os sete blocos centrais são vertentes. possui apenas uma unidade geradora de 20 MW cuja entrada em operação aconteceu em novembro de 1978. Somente em 1991 as duas últimas unidades geradoras de 63. sendo transferida da COELBA para a CHESF em 1980. o passivo da COHEBE foi coberto com recursos da reserva legal para desapropriação de empresas de energia elétrica. encontra-se situada a jusante da barragem do açude público Paulo Sarasate. a montante da usina de Funil. Anteriormente. a CHESF voltou a investir e participar de grandes empreendimentos de geração de energia elétrica. Em 1957 a hidroelétrica entrou em operação tendo sido incorporada pela CHESF em 1969. após a morte do ex-presidente Castelo Branco. Esse procedimento foi replicado quando da morte do deputado federal Milton Brandão. Jirau e Belo Monte. Novos tempos – século XXI A partir de 2006. no rio Acaraú. Em oposição a esses. que foi homenageado com a denominação Barragem Milton Brandão. mantendo-se para o empreendimento a denominação Usina de Boa Esperança. o que explica a grande defasagem entre as instalações das unidades geradoras.65 MW cada. e com a passagem para o Patrimônio da União do imobilizado não ligado diretamente à geração. composta por três unidades geradoras de 10 MW cada. Em 1972 Alde de Castro Salgado. haviam os que alegavam que a usina seria um investimento pioneiro fomentador de progresso para a região. dotados de comportas de segmento. formando sociedades de propósito específico (SPE).5 MW encontra-se situada a jusante da barragem dos açudes públicos Estevão Marinho e Mãe-d’Água. XX e XXI primeira etapa com duas unidades de 54 MW de potência unitária foi concluída em 1970 proporcionando energia abundante e confiável aos estados do Maranhão e Piauí . Ela encontrou apoio na Eletrobras através dos seus diretores Mario Bhering. então vice presidente executivo da CHESF. A barragem é uma estrutura de concreto gravidade incluindo a tomada d‘água e o vertedouro em vale relativamente fechado. entraram em operação. complementando a necessidade de expansão da geração para a região. A barragem tem múltipla finalidade e além de geração de energia. dentro do novo modelo do Setor Elétrico Brasileiro. 186 . grande defensor desta usina. A usina hidroelétrica de Funil no rio de Contas. A usina de Curemas com duas unidades geradoras totalizando 3. abastecimento d’água e ir rig ação ag rícola. A usina de Pedra também no rio de Contas. Para não onerar os consumidores. foi implantada inicialmente com 20 MW em 1962 e posteriormente ampliada para 30 MW em 1970. assumiu a presidência da COHEBE avançando no processo de absorção dela pela CHESF. per mite a regularização do rio para controle de enchentes. previsto no planejamento do setor elétrico e reforçado pela interligação elétrica CHESF – COHEBE. todas na modalidade de consórcio privado. atingida com a energização de LT 230 kV Teresina – Sobral – Fortaleza.

possuindo três sítios. composto de casa de força complementar e vertedouro. A usina está sendo construída no local denominado ilha do Padre.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Na usina hidroelétrica Dardanelos a CHESF participa em sociedade com a Neoenergia e a Eletronorte. A potência instalada total de Belo Monte é de 11. na Região Amazônica. no rio Madeira. no Complexo Hidrelétrico de Belo Monte a CHESF se associou a outras 18 empresas.800 m3/s.233 MW. a Eletrosul e a Camargo Corrêa. um deles denominado Pimental onde ocorrerá o barramento do rio Xingu. a 120 km de Porto Velho. com unidades Bulbo na casa de força complementar. em Rondônia. Seu vertedouro possui 44 vãos e permite uma descarga de vazão de projeto de 85. A usina será construída no rio Xingu. na região amazônica.85 MW. na região amazônica. A usina está localizada na margem esquerda do rio Aripuanã. com dezoito unidades geradoras de potência unitária 611. tendo uma capacidade instalada de 261 MW. Figura 23 . no Pará. Na usina hidroelétrica Jirau a CHESF participa em sociedade com a GDF Suez. quatro delas de 58 MW cada e uma de menor porte de 29 MW. Finalmente. sendo composta de 5 unidades geradoras. outro composto do canal de adução e interligação e o último composto do reservatório intermediário e sítio Belo Monte com a usina principal. dispostas em duas casas de força. Sua capacidade instalada é de 3. com turbinas Francis na casa de força principal denominada Belo Monte e 6 unidades geradoras de potência unitária 38. uma na margem esquerda e outra na margem direita.1 MW.Vista aérea da hidroelétrica de Xingó 187 . no noroeste do Mato Grosso.450 MW com 46 unidades Bulbo de 75 MW cada.

188 .

a energia elétrica era praticamente só gerada por empresas privadas.4 x 109 m3 189 . A situação da Light. começassem a criar empresas estatais de energia elétrica. gerou crescente aceleração urbana que passou a pressionar por demanda de energia elétrica. alguns estados como São Paulo e Minas Gerais principalmente. a maioria delas nacionais.” Leopoldo Miguez Desde os primórdios da produção de energia elétrica no País até pouco depois da II Grande Guerra Mundial. por sua vez. Havia também inúmeros pequenos autoprodutores rurais. a maior concessionária do País na época. essa oferta era inferior à demanda que crescia acima da capacidade de investimento da concessionária. Nessa época o País começou a deixar de ser apenas essencialmente rural para iniciar a industrialização que. tirando o incentivo da iniciativa privada em promover acréscimos de investimento de geração. já nos anos 40. as companhias de energia elétrica passaram a enfrentar problemas no atendimento da crescente demanda. transmissão e distribuição de energia elétrica. mas as duas maiores eram de capital canadense (Light) e americano (AMFORP American Foreign Power).Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Furnas no século XX Flavio Miguez de Mello “No Brasil nunca se fez nada demasiadamente grande. fazendo com que. por exemplo. evidenciava esse cenário. tendo sido adotado em 1934. Esse cenário começou a se tornar crítico a partir do Código de Águas que. Reservatório de Serra da Mesa. o maior do País com capacidade de 54. criou desequilíbrio econômico nos contratos de concessão de fornecimento de energia elétrica. Apesar de procurar aumentar sua oferta de energia elétrica. Com as restrições tarifárias.

estimuladas pela própria Light e com perspectivas de racionamentos. O local foi identificado por Francisco Noronha e Anton Rydland em viagem exploratória sugerida por John Cotrim. em reconhecimento do potencial do rio Grande entre a hidroelétrica de Itutinga e o remanso do reservatório de Peixoto. as indústrias passaram largamente a instalar grupos geradores Diesel. foi seguido pelas fundações da CEMIG (1951).Séculos XIX. O vulto das obras que seriam necessárias para erguer uma das maiores hidroelétricas do mundo na época era muito superior à capacidade das empresas Figura 1 . As sinalizações de déficit passaram a ser evidentes. os sistemas do Rio de Janeiro e de São Paulo eram em frequências diferentes. XX e XXI Desse modo. A solução estava no local recém descoberto pela CEMIG. CHERP (1955) e Escelsa (1956). Nos anos cinquenta. o governo federal que havia criado a CHESF para explorar o potencial do rio São Francisco em Paulo Afonso. USELPA (1953).A História das Barragens no Brasil . EFE (1954). Os estudos iniciais mostraram que a capacidade instalada seria quase um terço da capacidade instalada nacional. Este se mostrou excepcional para uma grande usina com grande reservatório de regularização. Só em São Paulo. havia cerca de 100 MW instalados pela indústria em grupos Diesel que representavam quase 20% da capacidade instalada da São Paulo Light. então diretor técnico da CEMIG. Havia apenas uma pequena conversora de muito baixa capacidade entre os dois sistemas. Mesmo na Light. de obra que acrescentasse cerca de 1000 MW na Região Sudeste. Os dois engenheiros pernoitaram na fazenda e receberam de Mendes Júnior indicações sobre o local das corredeiras. COPEL (1953). em cujas margens o engenheiro José Mendes Júnior costumava pescar. em 1956. em muito curto prazo. sendo agravadas pela inexistência de interligação dos sistemas das concessionárias. ficou claro que a diferença entre a capacidade em construção e a demanda projeta- da exigia o início.Francisco Noronha e Anton Rydland no local de Furnas 190 . em 1954. No local havia as corredeiras de Furnas que se situavam em vale apertado de encostas íngremes. No início do governo Kubitschek. nas proximidades de sua fazenda.

então presidente do BNDE. Ele queria garantir que Três Marias fosse feita antes de Furnas para ter certeza de que seria concluída. Jânio disse que só entraria no projeto se houvesse garantias que o governo federal investisse também nos projetos do estado que eram os aproveitamentos hidroelétricos de Urubupungá e Caraguatatuba. à época exercido por Bias Fortes. enquanto que a CEMIG apenas aportaria recursos para a construção da casa de força situada ao pé da barragem. depois de serem mostrados os benefícios para o estado que seriam trazidos por Furnas. em cumprimento à promessa feita ao professor Cândido Holanda. Além disso. O famoso tripé de Furnas estava formado. sucessor de Lucas Lopes na presidência da CEMIG. Quando tudo estava pronto para a fundação da empresa. foi convidado o engenheiro Benedito Dutra. veio a idéia de finalmente concordar com o governador que então parou de se opor e a empresa pode ser finalmente constituída. sem influências políticas e procurando não sacrificar a CEMIG. A primeira oposição a Furnas veio do governo de Minas Gerais. Lucas Lopes articulou um esquema de participação da Comissão do Vale do São Francisco em Três Marias. tendo resultando nas usinas de Jupiá e Ilha Solteira. A Comissão pagaria pelo reservatório e pela barragem. Apesar de ser diretor da CEMIG. Esses aspectos fizeram com que ficasse claro que a empresa a ser constituída deveria ser federal. das finanças e dos suprimentos. Lucas Lopes teve que concordar. O aproveitamento de Urubupungá foi feito. Lopes e Cotrim foram a São Paulo e. Para cuidar da administração. ele era contra grandes áreas alagadas em Minas para gerar energia para outros estados: costumava dizer que queriam “fazer de Minas a caixa d’água do Brasil”. Candido Holanda e Flavio H. Bias Fortes. Flavio Lyra que residia no Rio de Janeiro. Seu derradeiro lance foi exigir que a sede de Furnas fosse localizada em Minas Gerais. já que Belo Horizonte na época não Figura 2 – John Cotrim . e o escritório central ficou instalado no Rio de Janeiro. o governador Jânio Quadros disse que só autorizaria a participação de São Paulo na empresa se Lucas Lopes fosse falar com ele pessoalmente. Mas a oposição do governador Bias Fortes continuava. selecionaram os principais membros da nova empresa. No impasse. O mercado a atender era primeiramente São Paulo que se encontrava em situação mais crítica e depois os demais estados da Região Sudeste. Ele temia que o governo federal não tivesse recursos para as duas obras simultaneamente e criou toda sorte de obstáculos para atrasar o início de Furnas até que Três Marias estivesse em construção e em estágio irreversível. As negociações políticas com São Paulo foram mais fáceis. O aproveitamento de Caraguatatuba não saiu do papel por ser derivação de descargas 191 . e John Cotrim. foi selecionado como diretor técnico. Lucas Lopes. Enquanto ele pensava que tinha trazido a empresa para Belo Horizonte. sendo pessoas perfeitamente intercambiáveis dadas a formação e a experiência dos três.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens estaduais na época. Os três constituiriam a diretoria executiva de Furnas. Isso tinha justificativa uma vez que Três Marias era um empreendimento de finalidades múltiplas. Essa situação só foi normalizada cerca de vinte anos depois com a transferência oficial da sede para o Rio de Janeiro. a sede foi para Passos. o que foi um presente do governo federal para a CEMIG. mas também tiveram seu preço. pequena cidade nas proximidades do local da usina. Lyra dispunha da infra-estrutura adequada. As atas das assembléias eram referidas a Passos apenas nominalmente. de diretor técnico da CEMIG para presidente de Furnas.

Sérgio Otaviano de Almeida. necessitariam de alteração no gargalo tributário a que eram sujeitas. Delphim Mazon Fernandes e Jarbas Di Piero Novaes. diretor da CEMIG. tais como João da Silva Monteiro. Juscelino Kubitschek. além do engenheiro Souza Dias. diretor da Light. Por Furnas participaram os engenheiros Cotrim. José Luiz Bulhões Pedreira. Lucas Lopes.Séculos XIX. Menção é devida a outras pessoas que tiveram destaque na formação da empresa. e os estados de Minas Gerais e São Paulo. empresa de energia do estado de São Paulo. XX e XXI da bacia do rio Paraíba do Sul para o oceano. Emerson Nunes Coelho. haveria diretores representando os outros principais investidores: a Light. Além desses diretores executivos.A História das Barragens no Brasil . Participaram da reunião que se estendeu até a madrugada muitos proprietários de terras da região e advogados que os incitavam com o objetivo de angariar clientes em ações contra a empresa que estava sendo constituída. chefe do planejamento elétrico do governo de São Paulo. pelas suas mãos. Juscelino então perguntou: “E eu? Não sobrou nada para mim aí nessa diretoria?” Lucas Lopes esclareceu: “Não temos Figura 3 – JK e Lucas Lopes reunidos com os indicados para diretoria de Furnas por ocasião da constituição da companhia. em Petrópolis. José Pilz Filho. Barreto de Carvalho e Julival de Moraes que encontraram um clima de hostilidade inédito até aquela época. Ernani da Motta Rezende. bem como políticos que tinham suas bases na área. diretor da CELUSA. Lyra na diretoria técnica e Benedito Dutra na diretoria de administração e finanças. que defendia que era melhor para São Paulo que investimentos fossem feitos em obras estaduais e não em obras federais. Resolvidas as participações estaduais. Flavio Lyra e Benedito Dutra 192 . foi apresentada por Lucas Lopes a estrutura organizacional da empresa. Mário Lopes Leão. Lyra. Maurício Bicalho. com graves impactos para as regiões a jusante no Vale do Paraíba. Flavio H. Carlos Mário Faveret. A diretoria executiva seria composta por John Cotrim na presidência. Da esquerda João Monteiro. John Cotrim. foram negociadas as participações da Light e da AMFORP que. L. Uma reunião em Alfenas com a comunidade local foi a antevisão das atuais audiências públicas. para qualquer aumento de capital. Em reunião com o presidente JK realizada no palácio Rio Negro. C. Essas alterações foram impedidas pelos parlamentares que se designavam como nacionalistas e a participação dessas duas empresas foi sendo diluída pela renúncia de investimentos adicionais. o advogado Noé Azevedo se tornou patrono de muitos proprietários e municípios em uma ação cominatória que visava impedir a construção da barragem de Furnas.

Delphim Mazon Fernandes e senhora em 1966 Figura 5 .Flavio H. piloto e convidado Figura 6 . Lyra em solenidade no canteiro de obra de Furnas 193 .Assis Chateaubriand e Flavio H. Lyra. José Pilz Filho.CINQUENTA ANOS DO COMITÊ BRASILEIRO DE BARRAGENS Figura 4 .

Inicialmente essa barragem seria construída nas cercanias da pequena cidade de Capitólio. houve a necessidade de se construir os modelos em área do laboratório do Departamento Nacional de Portos e Vias Navegáveis. situado no Caju. no Centro da cidade do Rio de Janeiro. no início dos estudos. Furnas conseguiu do BIRD. houve inflação de capacidade de descarga nos vertedouros a jusante. um dos arranjos que estavam sendo considerados: barragem de concreto gravidade.” Disse então o presidente Juscelino: “Ah bom. Flavio Lyra. O projeto teve que ser mudado devido à pressão da população da cidade. Na maior parte do tempo os residentes de Furnas na obra foram Rodrigo Mário Penna de Andrade e Franklin Fernandes Filho. Com isso. foi enviado às pressas. mas você tem as vagas do conselho de administração e do conselho fiscal. o reservatório é fechado com a barragem de terra de Pium-I que impede que as águas afluam para a área de drenagem do rio São Francisco.A História das Barragens no Brasil . quero você na presidência do Conselho de administração. o concreto e a comporta do vertedouro e do acréscimo de calha desnecessários. concentrando na margem esquerda as estruturas do vertedouro e da tomada d’água. já constavam das duas relações. o maior empréstimo feito pelo BIRD para um só empreendimento até então. conhecedor da capacidade do professor Theophilo Benedicto Ottoni Netto e de seus ex-alunos. em outubro de 1958.000 m³/s. representando os investidores. Esse foi o primeiro grande passo para a formação de várias gerações de excelentes engenheiros hidráulicos no País. além dos gastos com a escavação. XX e XXI Figura 7 . A indicação dos projetistas era de um laboratório nos Estados Unidos. um empréstimo de US$ 73 milhões. Além da barragem principal e do conjunto tomada d’água e vertedouro. assumiu a responsabilidade da execução dos ensaios no Brasil pelo Laboratório Saturnino de Brito.Séculos XIX. Um marco importante para a engenharia hidráulica brasileira foi a seleção do laboratório que deveria desenvolver os ensaios em modelo hidráulico reduzido. revoltada com a 194 . Como o laboratório era instalado no subsolo de um prédio situado na rua Araujo Porto Alegre. para se candidatar ao empréstimo do BIRD.Visita do presidente Juscelino Kubitscheck à hidroelétrica de Furnas no início de sua obra como mexer na diretoria. Entretanto. A construção seguiu um projeto muito bem concebido que resultou em uma alta barragem de enrocamento com núcleo de terra no leito do rio. O diretor técnico propôs ao BIRD a eliminação de um vão do vertedouro. Com o aprofundamento dos estudos hidrológicos verificou-se que não seria possível a ocorrência de uma descarga superior a 10. mais convencional na época.” E indicou alguns nomes para compor os dois conselhos respeitando os que. mas o engenheiro responsável por esse empreendimento no BIRD. quantia impressionante para a época. traumatizado por já ter perdido uma barragem por ruptura causada por transbordamento. então Lucas. propiciando enrocamento para a barragem.500 m³/s no local da barragem. e vertedouro com seis comportas de segmento com capacidade total de 13. Os recursos em moeda nacional vieram do BNDE e do Fundo Federal de Eletrificação. O canal de adução a essas estruturas foi escavado em cota elevada. não aceitou que a redução fosse efetuada. uma vez que não havia experiência nesse setor da engenharia no Brasil para encarar os ensaios de uma obra dessa magnitude.

sendo o vertedouro. um de seus redutos políticos. Tarde demais. Durante a construção houve uma ruptura da fundação em argila muito compressível. na reconstrução da barragem.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens possibilidade de ser impactada pela obra. sujeita à imagem desagradável das áreas que afloravam quando o reservatório era deplecionado. não mais havia tempo para alterações. A montante do canal de acesso à tomada d’água e ao vertedouro. assumiu a vicepresidência da República e o Ministério de Minas e Energia o político mineiro e engenheiro Aureliano Chaves que pressionou Furnas para construir a pequena barragem de Boa Esperança com a finalidade de manter o nível d’água constante em frente à cidade de Capitólio. a população verificou as muitas melhorias que Furnas havia introduzido em outras cidades na área do reservatório e pressionou em sentido contrário para que a barragem retornasse ao local originalmente selecionado para que houvesse em Capitólio os benefícios propiciados às outras cidades. o morro dos Cabritos em fase inicial de erosão.Vista aérea de Furnas nos primeiros anos de operação. A cidade de Capitólio ficou às margens do reservatório. sido deslocado para um local onde ocorria rocha competente. Cerca de vinte anos após o reservatório ter sido formado. Figura 8 . com o passar do tempo. 195 . Entretanto.

nessa ordem. Voltando aos anos sessenta. ministros e demais autoridades. apesar de ter iniciado o programa de grandes privatizações quando era presidente. a montante das comportas de desvio. Flavio Lyra disse a ele que ele havia chegado tarde pois não havia mais qualquer possibilidade física de retirar as comportas que já estavam com bem mais de 20 m de água sobre elas. vendo os VIPs congregados no avião. A pressão política foi grande e a privatização de geradoras do setor elétrico nessa fase se limitou à Eletrosul. na parte a montante dos plugues. areia e argila. se colocou frontalmente contrário à privatização do setor elétrico. que. o fechamento do reservatório foi sigilosamente programado para o dia 9 de janeiro de 1961. Quando foi impedido de entrar. se realmente executada. ocorreram explosões que acarretaram acréscimos substanciais e crescentes de vazão que indicavam que alguma coisa havia colapsado no túnel. passou uma descompostura no diretor presente. ao final desse período tivesse ficado grisalho. O governo Fernando Henrique Cardoso se propunha privatizar o setor elétrico estatal federal. prejudicaria enormemente todas as usinas a jusante de Furnas. pois até o carro que conduzia o Cotrim foi barrado. principalmente de Furnas. enrocamento fino. Na guarita da obra foi montado um esquema do tipo operação padrão para impedir ou retardar ao máximo a entrada de qualquer pessoa estranha. Magalhães Pinto. por ocasião da inauguração da usina. disse para o guarda abrir a cancela. Essa longa operação para solucionar o mais importante acidente que até então havia ocorrido em obras no País fez com que o engenheiro Flavio Lyra. que aguentou firme tal estupidez. que vinha atrás em outro carro. O ex-presidente Itamar Franco. A operação ocorreu com sucesso. O guarda. saberia efetuar essa sabotagem com eficiência. O oficial de justiça se retirou. Ao adotar essa inédita postura afirmava que por ser engenheiro. Flavio Lyra com um megafone começou a comandar o fechamento dos dois túneis de desvio. concessionária de várias hidroelétricas em Minas Gerais.Séculos XIX. três das quais concessões da CEMIG. a começar por Furnas. O piloto que naturalmente acompanhava as atividades de construção. que não conhecia o presidente da empresa e seguindo instruções disse: “Nem Cotrim nem Delphim. com a bem sucedida privatização da CSN. O piloto afirmou que ele não sabia de nada e que apenas supôs que o fechamento do reservatório iria ocorrer vendo quem eram os passageiros no avião. na época governador de Minas Gerais. o oficial de justiça entregou o mandato. só tendo sido liberado quando Flavio Lyra. Ainda não havia amanhecido quando chegou na portaria um oficial de justiça com um mandato para impedir o fechamento do reservatório. o engenheiro Franklin 196 . Tempos depois. Flavio Lyra. Depois de perder muito tempo na operação padrão da portaria. John Cotrim também saiu no meio da manhã. quando os plugues estavam quase concretados. enrocamento grosso. mobilizou uma força policial para a região de Pium-I com equipamentos de terraplanagem e ameaçou abrir a barragem fazendo com que as águas do rio Grande represadas pela barragem de Furnas fossem afluir para a bacia do rio São Francisco.A História das Barragens no Brasil . John Cotrim disse para o guarda: “Eu sou o Cotrim”. o governador Magalhães Pinto foi convidado junto a outros governadores. O avião de Furnas não pôde decolar do aeroporto Santos Dumont. Poucos dias depois começou o pesadelo na execução dos plugues dos dois túneis de desvio. A derivação do rio Grande. O esquema funcionou muito bem. Após extensos trabalhos. Na conclusão dos serviços. já sem problemas de oposição ao empreendimento. No meio do dia chegou na obra o então governador de Minas Gerais. aqui não pode entrar ninguém.” Perto das 24 horas. No seu esforço político contra a privatização. Em cada um dos dois túneis. comentou que deveria ser para o fechamento do reservatório. Flavio Lyra ficou na obra para acompanhar o desempenho do fechamento. inclusive a usina de Furnas. Foi acionado um avião da Líder que costumava fazer o trajeto entre Rio e Furnas. ou comprometido com o mandato de segurança acima mencionado ou querendo ter colhido dividendos políticos na operação de fechamento. Esse ingênuo comentário fez com que Cotrim entrasse em desespero dizendo que a operação já era do conhecimento geral. Como havia oposição ao empreendimento mesmo depois dele já consolidado. XX e XXI A respeito da barragem de Pium-I um episódio interessante ocorreu muitos anos depois de sua construção. os vazamentos foram controlados pela colocação de tetrápodos. No dia anterior membros da diretoria se deslocaram para a obra.

Apesar do importante acidente nos túneis de desvio. de acordo com o modelo hidráulico reduzido. se incidisse no reservatório poderia. Com o progresso da erosão foi se formando um grande monólito que. Com a elevação do nível d’água na área do reservatório.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Fernandes Filho. provocar uma onda de até 30 m sobre a barragem.” Teve que ser tirado à força. Mais uma vez houve uma corrida contra o tempo para que a usina de Estreito entrasse em operação para evitar colapso no suprimento de energia elétrica à Região Sudeste. quase frontal à barragem apresentava constante e acelerada erosão com desplacamento de material. hidroelétrica anterior e a jusante de Furnas. Toda a área instável foi então removida. Se a água vier até aqui eu bebo ela todinha. do grupo AMFORP. Como consultores internacionais para o projeto e a obra.950 m³/s e da tomada d’água foram implantadas cada uma em uma das margens. a concessão foi transferida para Furnas que. A obtenção dessa concessão foi obtida graças ao elevado desempenho da empresa na construção de Furnas e quebrou a orientação governamental de que Furnas se limitaria à implantação da usina de Furnas e à sua operação. A usina foi inaugurada pelo presidente Castelo Branco em 12 de maio de 1965. ambas com largos canais de acesso que propiciaram os enrocamentos necessários à barragem. naquela época. o senhor não garantiu que as águas iriam subir até a estaca branca?” Após a resposta afirmativa. houve efetiva colaboração das Forças Armadas na retirada de algumas pessoas que. Aos que lá foram ter com ele. Nessa ocasião eram impressionantes as fotografias dos reservatórios em São Paulo completamente deplecionados. Na última hora foi reportado que ainda havia um teimoso na área do reservatório. Furnas contou com o canadense Richard L. estava mais bem estruturada para executar a construção. A Companhia Paulista de Força e Luz detinha a concessão do aproveitamento hidroelétrico de Estreito situado no rio Grande a jusante da usina de Peixoto. naquela vila. ele acrescentou: “Pois assim seja. permaneciam na área que estava sendo alagada. principalmente os da São Paulo Light. por exemplo. com barcos encalhados na lama do fundo dos reservatórios. o austríaco Arthur Casagrande e o americano Portland Port Fox. Muitos anos se passaram e a encosta do morro dos Cabritos. tendo salvado o estado de São Paulo de uma concreta ameaça de forte racionamento. Nessa obra 197 . A regularização promovida pelo reservatório beneficiou sobremodo os potenciais a jusante propiciando a ampliação da capacidade instalada de Peixoto (Mascarenhas de Moraes) e viabilizando os muitos e grandes aproveitamentos a jusante que foram todos construídos até Itaipu com exceção de Ilha Grande no rio Paraná que.” O projeto e a obra de Furnas foram executados com grande sucesso. A barragem de enrocamento com núcleo de terra fecha o vale e as estruturas do vertedouro com capacidade de 12. Dizia ele que “nem a cheia de 1930 trouxe água até aqui e não será essa tal de Furnas que fica a léguas de distância. para a visualização dos residentes antes do fechamento do reservatório de Peixoto. Hearn. havia um habitante que teimava em permanecer na casa que já havia sido comprada e paga por Furnas. Foi então descoberta a causa das explosões: mistura de oxigênio com gás metano acumulado nos túneis. apesar de ter tido iniciadas as obras. viu uma delas cair. fincou estacas brancas de madeira em diversos pontos onde a linha d’água iria atingir quando da formação do reservatório. proveniente da decomposição de matéria orgânica da área do reservatório. Centros urbanos como a cidade de Guapé e a vila de São José da Barra haviam sido reconstruídas com melhores habitações e equipamentos urbanos às margens do reservatório. não foi construída por ter sido criado um parque nacional na área que seria o reservatório. ao adentrar num túnel com outras pessoas. Eu peguei a estaca e finquei ela lá em baixo. que vai trazer água até a minha roça. A Companhia Paulista de Força e Luz. foi dito: “Seu Doutor. Um desses desplacamentos causou uma onda que incidiu contra a barragem. Cenas como essas não eram incomuns na época. embora avisadas. a usina e seu sistema de transmissão associado entraram em operação como programado. Entretanto. A partir de acordo entre as duas companhias. 1965.

O rio Paraíba do Sul após a cidade de Cruzeiro (SP) passa a apresentar gradientes progressivamente mais acentuados até pouco a montante da cidade de Itatiaia (RJ) onde se localizavam três corredeiras que despertaram o interesse da Estrada de Ferro Central do Brasil e da Light. John Cotrim e presidente Castelo Branco na inauguração da usina hidroelétrica Estreito 198 . A barragem de Nhangapi. o que pode ter gerado ineficiência de gestão. XX e XXI Figura 9 – John Cotrim. em 1967. A usina. São Paulo e de Minas Gerais além do governo federal. principalmente quando comparada à eficiência demonstrada por Furnas. com capacidade final de 1050 MW (duas unidades foram montadas em segunda fase) entrou em operação antes da data programada. Consta que a diretoria abrigava indicações dos governos dos estados da Guanabara. também estava com considerável atraso. a tempo de se evitar uma crise de suprimento de energia em toda Região Sudeste. sendo que o mais elevado não ultrapassava a cota do piso dos geradores.Séculos XIX. Nessa época apenas sete dos dezessete blocos da barragem principal haviam sido concretados. na época a segunda maior barragem de terra do País. Furnas Figura 10 – Ministros Mauro Thibau e Roberto Campos. em 1969. transferiu essa responsabilidade a Furnas. Rio de Janeiro. no ano seguinte. A Eletrobras assumiu a construção da hidroelétrica de Funil e. Naquela época esses governos eram de diferentes correntes políticas. ambas tendo desenvolvido estudos preliminares. No final dos anos 50 foi criada a CHEVAP. empresa estatal destinada a desenvolver os aproveitamentos no Vale do Paraíba. presidente Castelo Branco e ministro Mauro Thibau em visita a Estreito foi usado pela primeira vez no País rigoroso planejamento e controle de construção em PERT/CPM permitindo que a obra tivesse controle de prazos.A História das Barragens no Brasil .

tendo tido excelente desempenho. por falta de inundações periódicas. ocorrida em fevereiro de 2000. A barragem principal com altura de 85 m permanece sendo a única barragem em abóbada no País. venha sendo ocupado por construções irregulares e até por instalações da Prefeitura de Resende. Episódio pitoresco ocorreu a partir das primeiras investigações realizadas no local da barragem.Barragem de Funil 199 . Por ocasião da maior cheia registrada no rio Paraíba do Sul. beneficiando as cidades a jusante. Um místico chamado Savananda que se assemelhava a um guru indiano e residia em Resende. esse eficiente controle de cheias tem feito com que o leito secundário do rio. situados a montante. Santa Branca e Jaguari. Entretanto. o reservatório de Funil amorteceu totalmente a cheia afluente. Presentemente a usina com 210 MW instalados é também e principalmente usada como elemento de regularização de vazões e de controle de cheias. portanto Figura 12 . assim como as usinas e os reservatórios de Paraitinga/Paraibuna.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 11 – Luiz Carlos Barreto de Carvalho aplicou um verdadeiro choque de gestão e iniciou a geração comercial em dezembro de 1969.

A barragem não rompeu. situado a jusante. e. O ministro afirmou que “palavra de ministro não volta atrás. Poucos dias depois. Em 1968. ambas situadas no rio Grande entre São Paulo e Minas Gerais. seriam de pouca expressão as áreas a serem inundadas no vale do rio Pardo. muitos anos depois.Séculos XIX. capitaneou um movimento de oposição à alternativa de barragem a jusante da foz do rio Pardo. Flavio Lyra propôs que o reservatório de Marimbondo. No inventário realizado pela Canambra o aproveitamento de Porto Colômbia foi situado pouco a montante da foz do rio Pardo no rio Grande.” Até a presente data (maio de 2011) cerca de 25 milhões de megawatts hora deixaram de ser economicamente gerados. Foi produzida vasta documentação fotográfica enviada ao engenheiro Erton Carvalho. que providenciou a devida correção. Furnas recebeu as concessões de Porto Colômbia e Marimbondo. Essa operação não pode ser efetuada devido à interferência da ponte Gumercindo Penteado sobre o rio Grande entre as cidades de Planura e Colômbia. A usina de Porto Colômbia é de queda modesta. o ministro Costa Cavalcanti das minas e energia. Além do considerável acréscimo de energia gerada em Porto Colômbia. O rio Pardo contribui com cerca de 30% da descarga média do rio Grande. numa solenidade em Jupiá. portanto.A História das Barragens no Brasil . cinquenta e um dias antes do inicialmente programado. após a cheia de 2000. O movimento conseguiu que. na época chefe do Departamento de Engenharia Civil. afirmava que a barragem iria romper causando um desastre sem precedentes. Os primeiros estudos de Furnas visaram o confronto do arranjo do inventário com uma alternativa de projeto situada logo a jusante da confluência dos dois rios. Ao serem iniciados os estudos de campo. A construção e montagem da usina foram feitas sem maiores problemas. A usina entrou em operação no dia 29 de junho de 1973. Após a decisão do ministro.Usina hidroelétrica de Porto Colômbia a jusante do local da barragem. a alternativa propiciava uma pequena regularização das vazões do rio Pardo que beneficiaria todas as usinas a jusante. pouco superior a 20 m. paralisando o desenvolvimento da vossoroca. afirmasse que a usina de Porto Colômbia seria implantada a montante da foz do rio Pardo. XX e XXI Figura 13 . o autor por acaso esteve em ponto remoto do reservatório e verificou que estava se desenvolvendo uma grande vossoroca que se formava a jusante de uma estreita sela topográfica. diretores e assessores de Furnas mostraram a conclusão dos estudos que demonstrava que a inundação no vale no rio Pardo seria muito menor do que estava sendo alardeada. 200 . o prefeito da pequena cidade de Guaira. Entretanto. julgando que a inundação das terras do seu município seria grande. pudesse amortizar as cheias do rio Pardo por elevação de seu nível d’água acima do nível máximo normal por ocasião da afluência das cheias.

Porto Colômbia com 320 MW e Marimbondo com 1440 MW foram as últimas usinas de Furnas no rio Grande. após o primeiro choque do petróleo ocorrido no final de 1973. Logo a seguir dessa decisão. foram iniciadas em 1971 e a usina foi inaugurada em 28 de maio de 1976. As obras que transcorreram sem atropelos. palavra indígena que significa o caminho da cachoeira. A antiga usina foi adquirida por Furnas. Figura 14 – Usina hidroelétrica de Marimbondo 201 . A concessão seguinte foi o aproveitamento de Itumbiara. a perspectiva era de que essa usina supriria de abundante energia todo interior paulista na região de influência de São José do Rio Preto até o Século XXI. mas com ligeira defasagem. implantada pelo governador de São Paulo Armando de Salles Oliveira em 1928 com 8 MW instalados. Assim que foram iniciados os estudos. A usina aproveitava parte das descargas do rio Grande no seu braço esquerdo. A nova usina que começou a ser construída 30 anos antes da virada do século. ela foi selecionada para construção. dentro do previsto na programação. Ao inaugurar essa usina. Essa alternativa teria barragem e reservatório muito ampliados. Flavio Lyra recomendou que fosse estudada uma alternativa de projeto que englobasse a usina prevista a montante pelo inventário da Canambra. sendo desativada após a construção da barragem da margem esquerda. No local de Marimbondo havia a primeira usina de Marimbondo. Apesar das análises energéticas e econômicas internas não terem recomendado essa alternativa. tem potência 175 vezes superior à antiga usina de 1928.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A hidroelétrica de Marimbondo foi implantada em paralelo com Porto Colômbia.

tendo sido definido um aproveitamento designado como São Felix. Furnas instituiu um concurso/concorrência entre empresas consultoras. pode se lançar com vigor ao mercado externo obtendo resultados compensadores. muito superiores às do local de São Felix. denominado Serra da Mesa.A História das Barragens no Brasil . Em Itumbiara foram ultrapassados os recordes de concretagem anteriores e foram instaladas as maiores turbinas já fabricadas até então. o setor elétrico não sendo exceção. A obra foi iniciada no final de 1973 e. Em 1981.Séculos XIX. foi ultrapassado o índice de 90% de nacionalização nos equipamentos permanentes. pela primeira vez. Os estudos conduziram a uma barragem de enrocamento com núcleo de terra com 154 m de altura represando 202 . Furnas recebeu a concessão do aproveitamento do alto rio Tocantins em trecho que havia sido estudado inicialmente pela CELG e posteriormente pela ELETRONORTE. Nessa época as indústrias de bens de capital.Usina hidroelétrica de Itumbiara nova análise energética e econômica revelou que essa alternativa adotada era muito mais viável do que a do inventário. baseada no desenvolvimento que experimentou nas décadas anteriores. com excepcionais características geológicas. Na implantação de Itumbiara. Essa marca foi muito importante para a indústria porque nas últimas duas décadas do século passado o País vivenciou forte recessão. em 1980 as primeiras unidades geradoras entraram em operação comercial dentro da programação original. sendo que pelo menos duas recomendaram a adoção de um eixo a montante do local de São Felix. XX e XXI Figura 15 .

Em 1988 foram executadas as ensecadeiras de terra e rocha que permitiram. Agenor Antônio Bailão Galletti. As ensecadeiras e a parte da barragem construída foram galgadas por cinco vezes por descargas de até 6. A elevada qualidade do granito do local permitiu a adoção de casa de força subterrânea abrigando três unidades de 431 MW cada na margem esquerda e desvio por dois túneis escavados na margem direita. no mesmo ano.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 16 – Arthur Casagrande e Guy Bordeaux na área de empréstimo de Itumbiara Figura 17 – Arthur Casagrande. A recessão acima referida e a falência do Banco Nacional fizeram com que a obra fosse paralisada de 1990 a 1994. A usina foi concluída em 1997.5 m e 16.5 m de altura com o objetivo de permitir a passagem de cheias no período construtivo sem danificar o aterro da barragem que seria executado. no caso inicialmente ao grupo do Banco Nacional. com tirantes de água de até 12.24 bilhões de metros cúbicos de volume útil para efeitos de regularização de descargas.4 bilhões de metros cúbicos que possibilitam a utilização de 43.Os consultores Don Deere e Arthur Casagrande em Itumbiara com o engenheiro Ludgero Pimenta de Ávila 203 .571 m³/s. Essa foi a primeira usina em que Furnas se associou a uma empresa privada. Figura 18 . a construção de duas ensecadeiras de concreto compactado com rolo com 25. João Alberto Bandeira de Mello e Don Deere inspecionando a barragem de Itumbiara 54.4 m.

No ano seguinte a Eletrobras solicitou a Furnas para examinar a partição de quedas do rio. estas de terra e rocha. Furnas implantou a usina hidroelétrica de Corumbá sobre o rio Corumbá em Goiás com potência instalada de 375 MW.Séculos XIX. Atenção especial foi dedicada à preservação das águas termais da região de Caldas Novas. Figura 19 . A barragem de enrocamento com núcleo de terra teve também na sua construção ensecadeiras galgáveis.A História das Barragens no Brasil . A obra começou a ser implantada pela CELG e interrompida em dezembro de 1982. No Século XXI Furnas passou a atuar com frequência associada a empresas privadas para implantação de novas hidroelétricas como reportado por Márcio Porto nesse livro.Usina hidroelétrica de Serra da Mesa 204 . XX e XXI Em paralelo à construção de Serra da Mesa.

F.Usina hidroelétrica de Corumbá Referências Carvalho. Desvio do Rio. F. – Grandes Barragens Brasileiras – Construção Pesada n° 47. 2011 205 .R. _ O Aproveitamento Hidroelétrico de Porto Colômbia – Construção Pesada n° 27. et al. M.A. 1973 Miguez de Mello.H. Closure of Diversion Tunnels – Institution of Civil Engineers. 1994 Lyra. – O Aproveitamento Hidroelétrico de Itumbiara – Construção Pesada n° 26. F. – Furnas Hydroelectric Scheme. 2009 Cotrim. J. 1979 Porto. F. – A Nova Face das Empresas Estatais Frente à Expansão da Oferta de Energia Elétrica no País – A História das Barragens no Brasil – CBDB. 1967 Miguez de Mello. F. – A História de Furnas das Origens à Fundação da Empresa – Comitê Brasileiro do Conselho Mundial da Energia. Ensecadeiras Galgáveis – Desvio de Grandes Rios Brasileiros – CBDB. 1975 Miguez de Mello. – Barragem da Usina de Serra da Mesa. et al.A. – General Paper – XIII International Congress on Large Dams.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 20 . 1973 Miguez de Mello. E.

Usina Hidroelétrica de Tucurui .

no governo Costa e Silva. em 2011. pois foi sua capacidade empreendedora que consolidou a empresa executando Tucuruí e outras obras a serem relatadas adiante. mas neste histórico. mostravam a situação que havia no País antes desse impulso.A Eletronorte e as Barragens da Região Amazônica Alexandre Magno Rodrigues Accioly. já tivesse em seu cur­ rículo importantes obras tanto em porte quanto em quantida­ de. Embora a engenharia nacional. ao mesmo tempo. sociedade anônima de economia mista e subsidiária da Centrais  Elétricas Brasileiras S. Alvaro Lima de Araujo e Humberto Rodrigues Gama A história da Eletronorte. na época. como  concessionária de serviço público de energia elétrica com sede em Brasília no Distrito Federal. Llano recebendo o presidente João Figueiredo em Tucuruí A Eletrobras anunciou a intenção de construir a usina Tucuruí. será simplesmente Eletronorte. resumida nas linhas que se seguem. O início Estávamos na época do chamado Brasil Grande depois que. os governos da épo­ ca incentivaram a marcha para o oeste. mais precisamente a Amazônia. Encampando a ideia do presidente Juscelino. em 1964. – Eletrobras. assim incluindo o norte do Brasil. construir o maior projeto inteiramente nacional: a usina de Tucuruí. podemos perceber. “Rio de Janeiro. Raul Garcia Llano (Fi­ gura 1). mas bastante críticas. de noite falta luz”. foi criada a Centrais Elétricas do Norte do Brasil S. baseada em estudos do Comitê Coordenador de Estudos Ener­ géticos da Amazônia (Eneram) que havia sido criado em 1968. Hoje o nome da empresa é Eletrobras Eletronorte. Optou-se por descrever alguns fatos relacionando-os aos grandes eventos e obras que marcaram a empresa entremeados por comentários dos tempos atuais. –  Eletronorte. cidade que me seduz. em 20 de junho  de 1973. 207 . caminhando para o que hoje. Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 1 . a Eletronorte já nasceu com o duplo desafio de constituir a empresa propriamente dita e. os militares assumiram o poder e deram grande impulso às obras de infraestrutura no País. como neste trecho de uma delas. Os saudosos tempos das marchinhas de carnaval bem humoradas. de dia falta água. Era o início da inte­ gração do Brasil como um todo. A presidência da empresa coube ao Cel. Para isso.Cel.A.A. nome que se confunde com a própria Eletronorte. não será contada de forma linear.

que garantiriam o consumo de boa parte da produção. sendo o último aproveitamento hidrelétrico antes da foz do Tocantins. cada uma com 350 MW de potência nominal. para funcionar com uma carga de 32 m. a decisão de maior significado daquela fase. A usina teria. totalizando uma potência instalada de 4. Érico Bittencourt de Freitas. canalões de até 40 m abaixo do nível do mar. entre outros. A usina foi concebida para ser construída em duas etapas. era uma região carac­ terizada por inóspitas florestas tropicais com quase nenhuma infraestrutura. Albrás e Alumar. especialmente em termos logísticos. distando aproximadamen­ te 300 km de Belém. na segunda etapa. a que determinaria o local exato da barragem. as duas pontas de terra separadas por quase dois quilômetros de água revolta entre as quais seria feito o barramento do Tocantins. Do tipo vertedouro em salto de esqui. José Augusto Pimentel Pessoa. eles localizaram precisamente. a Amazônia. como já dito anteriormente.000 m³/s e picos de mais de 40.000 m³/s registrados até então). Isso tornava o desafio importante. na carta elaborada pelos topógrafos. Para viabilizar a produção de tamanha quantidade de energia. mais 11 unidades de 375 MW totalizando 8. A cota de coroamento da barragem de terra seria de 78 m acima do nível do mar sendo que.000 m³/s exigiu a construção de 40 adufas sob o vertedouro. Logo. Dário Gomes (Fi­ gura 2).5 MW de potência nominal cada. reuniu os futuros comandantes da obra. XX e XXI A concessão para a construção de Tucuruí foi outorgada à Eletro­ norte. consultores brasileiros e estrangeiros contratados para assessorá-lo. À sombra de uma grande árvore da margem esquerda do rio. naqueles tempos.Séculos XIX. o topógrafo Geraldo Magela Barbosa. profissionais egressos da Cemig. o projeto foi as­ sociado ao fornecimento de energia para indústrias de alumínio eletrointensivas. Esta obra foi concebida para ser construída em duas etapas. O vertedouro da usina. em boa parte. em alguns trechos. Depois de longa confabulação. era um empreendimento caracterizado pelo pioneirismo em vários aspectos. e a alta diretoria executiva das empresas escolhidas para o proje­ to e a construção de Tucuruí. A execução da obra de Tucuruí Não bastasse o porte do rio Tocantins quanto à largura (mais de 2 km) e vazões (média de longo termo da ordem de 11.279 em julho de 1974. Embora ainda não tenha sido testado para os limites de vazão.245 MW. A vazão de desvio de 51. projetado e construído para a vazão de 110. A primeira missão O batismo de fogo da empresa. em alguns trechos do leito do rio havia A Eletronorte formou seus primeiros quadros buscando. Curiosamente. a evolução do desempenho do vertedouro vem correspon­ dendo às previsões do modelo hidráulico reduzido. As vazões específicas adotadas foram pionei­ ras e ousadas. inicialmente com a instalação de 12 unidades geradoras princi­ pais. João Eduardo de Moura Guido. José Antônio da Silveira.000 m³/s era o maior do mundo na ocasião. previa o descarregamento de toda essa energia ao pé da própria obra. Berilo Mamoré Pereira Belo. foi a usina de Tucuruí. 208 . pelo decreto 74.5 m de largura por 13 m de altura.370 MW de potência instalada. o diretor técnico da Eletronorte. Enfim. e mais duas unidades auxiliares com 22. Foi assim que vieram para a empresa os engenheiros Geraldo Afonso Pra­ tes. Humberto Rodrigues Gama. a barragem chegou a ter quase 120 m de altura. cada uma com 6. capital do Estado do Pará.A História das Barragens no Brasil . foi posterior­ mente tomada num ambiente muito mais bucólico do que técnico.

Érico Bittencourt de Freitas. Sebastião Florentino da Silva durante celebração do lançamento da 1ª caçamba de concreto em Tucuruí O principal obstáculo à construção do novo complexo residencial de apoio às obras da usina foi o isolamento de Tucuruí. a ensecadeira de primeira fase do desvio do rio. seriam efetivamente começadas as obras civis. o 8º. marcando o início dos trabalhos de terraplenagem. que tivera de ser recrutado em locais próximos.000 pessoas enxameava em torno do canteiro da obra.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 2 . 209 . O primeiro desvio do Tocantins. comunicações. sem nenhuma experiência. o 5º Fausto Cesar Vaz Guimarães. Geraldo Afonso Prates. e que precisou ser treinado para as tarefas específicas de uma construção. Sebastião Camargo. energia elétrica confiável e saneamento básico não existiam.Engenheiro Dário Gomes na cabeceira da mesa em reunião no escritório da vila pioneira Figura 3 . foi feito em 1975. em 1977. sr. em 1975. Llano e o último. Era um grupo heterogêneo. Nesse am­ biente foi construída. a Amazônia começou a revelar aos pioneiros o tipo de dificuldades que eles podiam esperar no futuro imediato. Transpor­ tes.Da direita para a esquerda: o 2º. uma mul­ tidão de mais de 30. Mas somente quando as obras civis foram efetivamente iniciadas. em 1977 (Figura 3). Cel. para ensecar a superfície em que as estruturas de concreto e a barragem seriam assentadas sobre a rocha do fundo do rio. Somente dois anos depois. Durante o período de trabalho mais intenso. o que marcou o início das obras civis.

a única voz que Sebastião Camargo. José Armando Del Greco Peixoto. os encarregados de turmas convocaram seus homens para enfrentar o problema. Os homens do alto comando da obra.000 m³/s. Além disso. inclusive a maior de todas. As obras de concreto e terra na área ensecada já estavam adiantadas Figura 4 . o residente da Eletronorte também se chamava Osório Correa Neto. construtora de Tucuruí quando. segundo seus companheiros em Tucuruí. ameaçavam as ensecadeiras que protegiam as obras em construção. tendo sob sua responsabilidade as demais obras além de Tucuruí. afogaria cinco anos do trabalho de dezenas de milhares de homens e uma considerável fatia do orçamento da Eletronorte.Séculos XIX. O rio estava desviado por ensecadeiras e a tempora­ da de chuvas mais copiosas já parecia ter chegado ao fim. Osório Ferrucci. Gilson Nakamura e mais um punhado de executivos sabiam muito bem o que aconteceria se a água que chegava a perigosos 15 centímetros do topo da enseca­ deira conseguisse galgá-la. Sobretudo. Por isso. que já ultrapassara o nível da maior enchente observada em 1926. vindo uma delas a se romper leitura das réguas linimétricas a montante da obra. ocorreram três das quatro maiores cheias do histórico. Mas. um com até 40 m abaixo do nível do mar. XX e XXI por piping inundando o trecho de jusante da obra. 210 . Ser viços de alteamento e proteção das ensecadeiras foram feitos com sucesso durante dez dias de trabalho ininterrupto sob violento estresse. o sistema de previsão de vazões a partir da Também entre os primeiros a entrar no grande palco que o governo montara em plena selva para a encenação da primeira grande aventura tecnológica na Amazônia. Contudo. Outro fato relevante foi que. com vários canalões muito profundos. visto que o mo­ nitoramento das estruturas detectou em tempo hábil o problema possibilitando a retirada de pessoas e equipamentos. Entre elas. a capacidade técnica e in­ tegração das equipes de projeto e principalmente de construção possibilitaram atravessar esse imprevisto sem maiores transtornos. Luiz Fernando Rufato. estava Osório Ferrucci (Figura 4). Por coincidência. ouvia sem contestar. as condições do leito do rio. que alcançou 68. O céu carregado e a cheia. durante a construção. Érico Bittencourt de Freitas. revelava uma situa­ ção inquietante. José Antônio da Silveira. a área afetada permaneceu pouco tempo inundada porque o acidente ocorreu ao final da cheia. Ele era funcionário da Camargo Corrêa desde 1947 e. nos dias 2 e 3 daquele mês. em março de 1980. o lendário capitão da grande empreiteira.A História das Barragens no Brasil . Humberto Gama. em 1980. O Tocantins levaria por água abaixo equi­ pamentos e materiais. preenchidos com material aluvionar e seixos rolados que difi­ cultaram a execução das ensecadeiras. que ficou na memória do alto comando técnico da obra como uma espécie de marco do empreendimento. Essa ruptura causou danos materiais relativamente pequenos. às ordens dos chefes. da Camargo Corrêa. o rio Tocantins teve um verdadeiro acesso de mau humor.Sebastião Camargo e Osório Ferrucci. que foi substituído em 1977 pelo engenheiro residente Érico Bittencourt de Freitas responsável pela condução da obra até 1982 quando passou a gerente do Departamen­ to de Construção da Eletronorte.400 m³/s contra uma vazão de projeto de desvio de 51. O desvio do rio foi um dos grandes desafios superados apesar das adversidades.

A superação dessa ocorrência excepcional em 1980 foi fundamental para a equipe concluir a construção de Tucuruí com êxito. Mais tarde. Victor F. percebeu claramente que “aqueles senhores (Balança e sua equipe) mesmo com toda a experiência mostravam uma preocupação excepcional com o projeto”. presidente da empresa e detentor de profundos conhecimentos de hidráulica adquiridos na sua formação em Grenoble e na experiência iniciada no Brasil na construção de Paulo Afonso da CHESF. o gerenciamento do projeto foi feito pelos en­ genheiros João Eduardo de Moura Guido (civil). essa equipe iria compreender a dimensão de sua primeira experiência. a água parou de subir. Nelson Souza Pinto. na manhã do décimo dia da operação. com um board internacional de consulto­ res composto por James Libby. James Libby e Milton Vargas 211 . Somente para corroborar comentários anteriores sobre as dimensões do empreendimento. O engenheiro Fausto César Vaz Guimarães. de Mello. Da esquerda Don Deere. no Rio de Janeiro. As ensecadeiras haviam sido alteadas em três metros e o nível d’água alcançara dois metros acima do topo da ensecadeira original. a equipe de engenheiros que operava o mode­ lo e não tinha elementos de comparação com outros projetos.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Finalmente. sucessor do engenhei­ ro Dário Gomes na Diretoria Técnica da Eletronorte. Don Deere. O projeto da usina foi desenvolvido pelo Consórcio Engevix-The­ mag tendo pelo lado da Engevix o comando do engenheiro francês radicado no Brasil André Jules Balança. o engenheiro Balança se interessava pessoalmente pelos estudos hidráulicos em modelo reduzido de Tucuruí realizados pelo Hidroesb – Laboratório Hidrotécnico Saturnino de Brito SA. João Ângelo Casagrande (mecânico) e Leôncio Gotti (planejamento). Na Eletronorte. ainda. O projeto contou. O episódio ficou poeticamente conhecido como “águas de março”.Os consultores examinando os testemunhos de sondagem. Por conta de sua formação e gosto pessoal. Lyra. Milton Vargas e Flavio H. e que era Figura 5 .B.

Entretanto. engenheiro Geraldo Afonso Prates. apesar da importante perda. Nesta etapa. justamente em momento festivo de conclusão do desvio de Samuel. XX e XXI responsável pelas construções. as usinas de Samuel em Rondônia e Balbina no Amazonas.Séculos XIX. Figura 6. Em 1982. O engenheiro Kerman José Machado assu­ miu a Diretoria Técnica e o engenheiro Érico Bitencourt de Freitas foi empossado chefe do Departamento de Construção. com duas unidades de 350 MW em operação comercial. a usina foi inaugurada pelo Presidente da República João Figueiredo em 22 de novembro de 1984. Balbina e Samuel.A História das Barragens no Brasil . a Eletronorte já contava com funcionários dos mais diversos rincões do país chamados para auxiliar nas tare­ fas da empresa e. nível máximo normal. O enchimento do reservatório teve início em setembro de 1984. atingindo a cota 72. houve um grave acidente aéreo que causou a morte dos diretores da Eletronorte Fausto César Vaz Guimarães (diretoria técnica) e Jayme Barcessat (diretoria de Suprimentos) e do chefe do Departamento de Construção. em março de 1985. a obra continuou em ritmo normal. então condutor dos três empreendimentos Tucurui. quando a Eletronorte construía simultaneamente com Tucuruí. A Figura 6 dá idéia da dimen­ são do estator de uma forma lúdica muito bem compreendida pelo brasileiro em geral. imprimia seu dinamismo aos trabalhos contagiando toda a equipe envolvida no empreendimento. A chefia da obra de Tucuruí foi assumida pelo engenheiro Humberto Rodrigues Gama.Jogo de futebol de salão dentro do estator de uma máquina da primeira etapa 212 .00 m.

Equipe com o José Antônio Muniz. porém. A motorização da primeira etapa foi concluída em 1992. Almir Gabriel em visita às obras da segunda etapa de Tucuruí. Essa elevação aumentou a área de inundação de 2. presidente da Eletronorte. Em junho de 1998 as obras de expansão de Tucuruí foram autorizadas e iniciadas. com um ganho de energia firme de 109 MW. José Antônio Muniz (presidente da Eletronorte) e governador do Pará. estando em operação comercial desde abril de 2003. o nível máximo normal operacio­ nal foi elevado para a cota 74. por conta do destino não chegou a ver concluída a obra que hoje tem seu nome. As obras de terra­ plenagem e escavação em rocha foram concluídas no ano de 2002. Posteriormente.00 m. Figura 7 .Presidente da República Fernando Henrique Cardoso.875 km² para 3. 213 . A unidade geradora 13 (Figuras 7.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens O coronel Raul Garcia Llano.Descida do estator da unidade 13 em 3 de maio de 2002 Figura 8 .007 km². 8 e 9) teve sua montagem concluída no final de novembro de 2002. tendo ao seu lado esquerdo Adailton de Sousa Pinto. grande incentivador do empreendimento. residente da obra da segunda etapa de Tucuruí celebrando a descida do estator da unidade 13 Figura 9 . ao centro.

XX e XXI A unidade 23 entrou em operação em julho de 2006.Séculos XIX. totalizando 8. com as indústrias do alumínio Albrás e Alumar.A História das Barragens no Brasil . O mercado principal de Tucuruí é o sub-mercado Norte de energia que abrange os estados do Pará. Tucuruí tem hoje os maiores contratos de fornecimento de energia elétrica em bloco do mundo.370 MW de potência instalada. foi concluída a eclusa constituída de duas câmaras que vencem um desnível de cerca de 68 m e são separadas por um ca­ 214 . Em 2011. e é segmentado em prestadores de serviços públicos de energia elétrica e indústrias eletrointensivas. Maranhão e Tocantins.

Tucuruí . e daí ao oceano Atlântico.400 sacos de 50 kg. A Vale e outras empresas da região já iniciaram o transporte de seus produtos pelo rio Tocantins de Marabá até Belém utilizando a eclusa.O volume máximo diário de concreto lançado na obra foi de 11.4% do faturamento global de toda empresa.200 m³. foi a primeira hidroelétrica do mundo certificada pela JIPM (Japan Institute of Plant Maintenance) com Prêmio Excelência em TPM – 1 a Categoria (Total Productive Maintenance. . Figura 11 .400.000 m³. a cada semana de trabalho era aplica­ do o equivalente ao volume empregado na construção do estádio do Maracanã. isto é Manutenção Total Produtiva). ou seja.800. Tucuruí (Figuras 10 e 11) responde por 28. em 2002.vista do vertedouro em operação 215 .Tucuruí Casa de Força Figura 10 . é a principal responsá­ vel pelo intenso desenvolvimento regional. equivale a 28. .000 t.O aço aplicado totaliza cerca de 222. como podemos ver a seguir: .O volume total dos aterros executados na obra foi da or­ dem de 59.000. Os números do empreendimento impressionam. Atualmente. Essa obra é fundamental para a implantação da hidrovia do Tocantins.000 m³ e o volume de concreto utilizado. além dos programas socioambientais.O cimento empregado na obra.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens nal intermediário. . da ordem de 9. e a primeira unidade do setor elétrico brasileiro a conquistar o Prêmio de Qualidade do Governo Federal – PQGF. fruto da abundante oferta de energia e recolhimento de impostos resultantes da comercialização e compensação pela utilização de recursos hídricos.

suficiente para apontar graves defeitos do vertedouro. o município veio a ser o segundo maior arrecadador do Pará – só perde para Belém – e abriga 80 mil habitantes que dispõem do primeiro hospital modelo da região. apesar da importância que tem tido para a Eletronorte e para o estado do Amapá. a usina exporta energia para os sistemas Nordeste. o Brasil e muitos de seus filhos – aqueles que influiram diretamente sobre a monumental empreitada da usina e os que hoje estão sob sua influência – vivem melhor do que viviam antes dela. entrasse incontestavelmente para o mapa do Brasil. esta obra não foi submetida a estudos em modelo hidráulico reduzido. Outro exemplo significativo dos benefícios trazidos pela usina é a própria cidade de Tucuruí.Séculos XIX. Maranhão e Tocantins. Essa linha permite a preservação de  energias estocadas em reservatórios de hidroelétricas situadas em outras regiões durante o período hidrológico favorável no rio Tocantins. Além de atender os mercados do Pará. Tucuruí fez com que uma imensa região coberta de densa floresta. com a conclusão da Interligação Norte-Sul. a usina vem operando desde a inauguração sem apresentar problemas relevantes. Em segundo lugar.500 MW médios mensais. Logo no início da vida da usina. apesar de seu gigantismo.000 m³/s escoava as águas para um braço do rio diferente da casa de força. O vertedouro (Figura 10) com capacidade para 12. um simples entreposto de pesca e castanhas. tinha duas máquinas de 20 MW e previsão de ampliação para mais uma máquina de 30 MW. ocupando efetivamente um território que já vinha sendo invadido­ desordenadamente e acrescentando uma formidável potência de geração ao sistema elétrico nacional.A História das Barragens no Brasil . a Eletronorte recebeu da Eletrobras a incumbência de operar a usina de Coaracy Nunes situada no rio Araguari no Amapá. Sudeste e Centro-Oeste. mas sem expressiva identidade geográfica. Tucuruí passou a fazer parte do Sistema Interligado Nacional – SIN em março de 1999. a documenta­ ção técnica que a Eletronorte conseguiu obter foi muito precária. com o uso inteligente de sua especialidade. O reservatório tem 120 km² e a operação é a fio d’água. Mais que isso. A contribuição dos engenheiros da Eletronorte formou assim.000 m³/s. praticamente não havia obra para dissipação de energia: as águas vertidas eram lançadas no canal do rio constituído de material rochoso com um ligeiro salto ao pé da superfície de vertimento. A usina hidroelétrica Coaracy Nunes Em 1975. Finalmente. 216 . o rio Araguari submeteu a obra a uma cheia de cerca de 4. construída por terceiros. Hoje se pode comemorar dois fatos indiscutíveis: Tucuruí foi a obra isolada de maior impacto sobre a Amazônia. a mais significativa coleção de tecnologias para a construção de grandes barragens em am­ biente remoto. Mesmo sendo um vertedouro com o porte citado. Esta usina. com cerca de 4. com população esparsa e arrecadação ínfima até o início dos anos 1970. mas ela foi também a de melhor repercussão socioambiental e econômica entre todas as que foram feitas na região. Com os impostos locais pagos pela Eletronorte. Esta missão surgiu numa época em que todos os olhos estavam voltados para Tucuruí de modo que a história dessa usina foi de certa forma ofuscada. e passou a ser servido por extensa rede de estradas e tem uma pista de pouso capaz de receber aeronaves de grande porte. Isso ao mesmo tempo em que construíam Tucuruí. Como a usina foi construída por vários empreiteiros numa obra que levou mais de quinze anos para ser concluída. A energia firme e renovável de Tucuruí é escoada por linhas de trans­ missão de 230 kV e 500 kV. Como ca­ racterística. Ainda hoje há certos aspectos do projeto e da construção sobre os quais não se tem informação precisa. XX e XXI Principal geradora do Sistema Norte-Nordeste.

Figura 13 .Casa de Força Figura 12 . não ocorreram incidentes com o vertedouro embora a vazão não tenha alcançado o valor que causara os danos iniciais. as máquinas de 20 MW foram recapacitadas aumentan­ do sua potência para 24 MW cada uma e a terceira máquina com 30 MW foi instalada entrando em operação em 2000 e aumentando a potência instalada da usina para 78 MW (Figura 12). A recomendação do CEHPAR foi executada e.Usina Hidroelétrica Coaracy Nunes . Na Eletronorte o funcionário que todos identificamos com Coaracy Nunes é o engenheiro Mário Dias Miranda que tem sido o grande entusiasta do empreendimento.Vertedouro da Usina Hidroelétrica Coaracy Nunes 217 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A Eletronorte contratou então o CEHPAR. laboratório hidrotéc­ nico da UFPR na ocasião sob a direção dos engenheiros Nelson Pinto e Sinildo Hermes Neidert que ofereceram uma solução para o problema. Em 2004. desde então.

como citado no capítulo dedicado aos estudos ambien­ tais. O problema não era totalmente novo para a empresa uma vez que algumas ocorrências do fenômeno haviam sido constatadas em Tucuruí.Enge Rio. 218 . O projeto foi executado pelo Consórcio Monasa . município de Presidente Figueiredo. economizando divisas. A solução. Seria como construir uma barragem sobre um “queijo suíço”. a usina foi projetada e executada apesar da área inundada ser exagerada para a potência instalada. Com capacidade instalada de 250 MW composta por 5 unidades de 50 MW. apesar de tudo. essas hidroelétricas foram escolhidas para construção por serem as mais econômicas do País na época. a Eletronorte vem se dedicando à análise mais aprofundada dessa possibilidade tendo em vista que a região está para ser interligada ao SIN o que tornará ainda mais interessante o investimento. foi resultado de um embate do cel.A História das Barragens no Brasil . mas sim o presidente da província do Amazonas. que na época era contra as construções de hidroelétricas na Amazônia por julgar que usinas térmicas a carvão em Manaus e Porto Velho com transporte do carvão do sul pelos navios da Vale (então Vale do Rio Doce) seriam mais vantajosas. O primeiro por não ser totalmente conhecido de nossos técnicos: a existência abundante de canalículos com diâmetro de até 5 cm no solo de fundação que tornava a construção de barragem altamente problemática. assim como a casa de força e a tomada d’água. em uma época em que a situação da balança de pagamentos do País era um fator de entrave ao desen­ volvimento. Enfim. XX e XXI Devido às características hidrológicas do rio Araguari.840 m³/s com bacia de dissi­ pação convencional. O segundo aspecto foi a área do reservatório. Ademais. quando os atuais estados eram chamados de província na época do Império. quando comparadas com as alternativas de geração para atendimento da evolução das cargas locais. não o Presidente da República da década de 80. Os benefícios econômicos das hidroelétricas de Balbina e de Samuel se acentuaram pela substituição do óleo importado para termoelé­ tricas. Situada no rio Uatumã. que se mostrou eficiente. Esse proble­ ma viria a nos assombrar com mais intensidade na construção de Samuel como veremos oportunamente. fato não divulgado convenientemente para o público. Balbina era uma obra comum para o estado da arte de então.Séculos XIX. mas a quantidade tornava muito sério o problema. critério básico do setor elétrico de então. Raul Garcia Llano com a Eletrobras. Balbina é mais uma usina pioneira que coube à Eletronorte construir. O vertedouro com capacidade para 5. bem como a de Samuel. Entretanto. para obturar esses canalículos. já se havia vis­ lumbrado a possibilidade de ampliação do aproveitamento por meio de uma segunda casa de força com potência instalada superior à atual. os projetistas haviam recomendado que fosse A usina hidroelétrica Balbina A decisão sobre a construção da Usina Hidroelétrica Balbina. no entanto a escolha recaiu sobre Balbina que era o menor investimento e a menor distância de transmissão e de acesso. eram obras sem nenhum aspecto inovador ou preocupante. Considerando a provável área do reser­ vatório de Balbina. Concebida numa época em que não havia as agências reguladoras e controladoras com os poderes de hoje nem tampouco a consciência ambiental havia se desenvolvido nos níveis atuais. O Consórcio havia elaborado os estudos de inventário e recomen­ dado a construção da usina de Katuema no rio Jatapu como hidro­ elétrica prioritária para suprir Manaus. No momento. foi a execução de uma cortina por injeção de calda de solo cimento com ruptura hidráulica do solo (cracagem). a usina trouxe muitos benefícios socioambientais à região. Contudo dois aspectos mereceram considerações especiais. destinava-se a abastecer Manaus visando solucionar o caos energético ainda reinante na região no final da década de setenta.

O grande maestro da construção de Balbina por parte da Eletronorte foi o engenheiro Francisco Nelson Queiroga da Nóbrega. Figura 14 – Usina Hidroelétrica Balbina A usina (Figuras 14 e 15) vem operando desde a inauguração sem apresentar problemas relevantes. Este atraso deveu-se à falta de recursos para sua realização em prazos normais. mas isto só foi feito após o início da construção por restrições financeiras. A construção se iniciou em 1º de maio de 1981.vista de jusante 219 . A construtora foi a Andrade Gutierrez cujo residente geral se destacou como responsável pela execução da obra a contento. tendo em vista o elevado custo de restituições aerofotogramétricas em função da espessa cobertura vegetal que  acarretava dificuldades logísticas ainda não enfrentadas até aquela época. Figura 15 . com a primeira máquina entrando em operação em fevereiro de 1989.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens feito levantamento da área a ser alagada. problema constante na época.Usina Hidroelétrica Balbina – Casa de Força .

Contudo o aspecto dos canalículos já constatados em Tucuruí e em Balbina mereceu considerações e esforços especiais pela sua incidência em quantidades exageradas e pela quantidade de diques que compunham o projeto. Esta solução vem funcionando satisfatoriamente. Neste caso.Séculos XIX. a usina hidroelétrica Samuel foi construída no período de 31 de março de 1982 a 31 de julho de 1989 (última unidade) sob o comando do engenheiro Adailton de Souza Pinto residente da Eletronorte. A usina foi projetada pela Sondo­ técnica S/A. tornando a extensão do problema ainda maior que o usual. Com capacidade instalada de 220 MW. XX e XXI A usina hidroelétrica Samuel Situada no rio Jamari no Estado de Rondônia. a solução adotada foi a construção de tapetes impermeáveis a montante das obras de terra para au­ mentar a distância de percolação.820 m³/s e um reservatório de cerca de 600 km². vertedouro para 4. Figura 16 – Usina Hidroelétrica Samuel – Vista panorâmica de jusante 220 220 . era uma obra comum para o estado da arte de então. Tal como Balbina. em linhas gerais. cujo coordenador geral foi o engenheiro Paulo Pinho Lopes e a obra foi feita pela Construtora Norberto Odebrecht.A História das Barragens no Brasil . a usina hidroelétri­ ca Samuel (Figura 16) tem como particularidade ter sido a única usina da Eletronorte a contar com o apoio popular e do governo local personificado no governador Jorge Teixeira. mas tem exigido muita atenção das equipes de instrumentação e manutenção da usina. quando entrou em operação a primeira máquina.

Como peculiaridade é uma usina construída sobre uma gran­ de queda d’água natural de cerca de 90 m de altura apro­ veitando esta queda como vertedouro. 221 . O usina hidroelétrica Dardanelos A usina está localizada na margem esquerda do rio Aripuanã. composta por 5 unidades geradoras. a usina de Curuá Una (Figura 17). não tem reser­ vatório. participa minoritariamente em sociedade com a Neoenergia e a CHESF. a Eletronorte está em vias de executar a instalação desta quarta máquina. no noroeste do Mato Grosso e tem capacidade instalada de 261 MW. Esta foi uma das primeiras usinas desse porte construídas na Amazônia. No momento. No AHE Dardanelos (Figura 18). Atualmente. situada no rio de mesmo nome no município de Santarém. Apenas foi construída uma soleira vertente mais com o intuito de nivelar o leito natural do rio para garantir o nível normal de montante. PA tem três unidades de 10 MW e previsão de insta­ lação de uma quarta unidade de 11 MW. é uma usina que além de não ter um vertedouro clássico.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 17 – Usina Hidroelétrica Curuá Una – Casa de Força A usina hidroelétrica Curuá Una Adquirida em 2005 da CELPA em permuta de dívidas. Enfim. quatro delas de 58 MW cada e uma de menor porte de 29 MW. a Eletronorte foi responsável pelos estudos de inventário e viabilidade.

233 MW. com turbinas Francis na casa de força principal denominada Belo Mon­ te e 6 unidades geradoras de potência unitária 38. O grande mentor deste projeto cuja personalidade se identifica com o empreendimento é o engenheiro José Antônio Muniz Lopes. a seguir. no Pará. com dezoito unidades geradoras de potência unitária 611. desde 1975. com unidades Bulbo na casa de força complementar. dos estudos de inventário do rio Xingu e das otimizações de projeto realizadas desde então que culminaram com o leilão da ANEEL realizado em 20 de abril de 2010. outro composto do canal de adução e interligação e o último composto do reservatório intermediário e sítio Belo Monte com a usina principal. um deles denominado Pimental onde ocorrerá o barramento do rio Xingu. A potência instalada total de Belo Monte é de 11. composto de casa de força complementar e vertedouro.1 MW. Desde os tempos em que foi diretor de engenharia da Eletronorte no final da década de 80.85 MW. ele não mediu esforços até levar o projeto a ser leiloado pela ANEEL com sucesso.Usina Hidroelétrica Dardanelos A usina hidroelétrica Belo Monte O aproveitamento hidrelétrico Belo Monte será construído no rio Xingu.Figura 18 . A Eletronorte participou. a participação da empresa é minoritária. Finalmente. possuindo três sítios. No empreendimento. Aspectos sócioambientais comuns aos diversos empreendimentos “Preservando a biodiversidade amazônica e a cultura brasileira” A geração de energia hidroelétrica na Amazônia é um tema que sempre estará presente nas discussões sobre meio ambiente e de­ senvolvimento sustentável. seja pela alta diversidade biológica e 222 . a Figura 19. presidente da empresa no final da déca­ da de 90 e início dos anos 2000 e finalmente como presidente da Eletrobras. junto com outras 18 empresas. mostra a equipe de residentes das obras da Eletronorte.

e equipes técnicas com profissionais especiali­ zados nas mais diversas áreas do conhecimento ambiental. A legislação ambiental brasileira determina que empreendimentos de grande impacto compensem os danos causados ao meio ambiente com a implantação e apoio a unidades de conservação. Isso significa 4. a fim de aliar desenvolvimento e conservação da natureza. Fauna .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens cultural encontrada na região. na maioria das vezes. São áreas que aliam o desenvolvimento de pesquisas com uso racional dos recursos naturais. Gustavo Reis Lobo de Vasconcelos (Manso enquanto era da Eletronorte). a Eletronorte apoia as seguintes atividades em unidades próximas a seus empreendimentos: demar­ cação das terras. inun­ Figura 19 . Com o objetivo de conservar a fauna. res­ ponsável pelos estudos ambientais. projetos de desenvolvimento das populações resi­ dentes. as águas e as tradições amazônicas. Atendendo a essas exigências. com foco na qualidade de vida dos seres humanos. e atividades de educação ambiental às populações locais. Em to­ dos os seus projetos são realizados estudos ambientais. A Eletronorte é grande conhecedora da região amazônica. a Eletronorte criou uma ampla organização interna. sendo treze de proteção integral e quatro de uso sustentável. a flora. As Unidades de Conservação tem o objetivo de manter a diversi­ dade biológica regional. José Antônio da Silveira (Tucuruí). Érico Bittencourt de Freitas (Tucuruí).A geração de energia hidroelétrica requer. Adailton de Sousa Pinto (Samuel e Tucuruí II e Humberto Rodrigues Gama (Tucuruí) 223 .000 hectares protegidos. em parceria com as mais capacitadas instituições técnicas e científicas.700. Luiz Fernando Rufato (Tucuruí). centros de proteção ambiental em suas maiores usinas. foram ou são apoiadas financeiramente pela Eletronorte. Francisco Nelson Queiroga da Nóbrega (Balbina).Residentes da Eletronorte: da esquerda para a direita. Dezessete unidades de conservação ambiental. todas na Amazônia Legal. Vanderlei Ângelo de Menezes (Ávila – convênio com a CERON). desenvolvimento de técnicas racionais do uso dos recursos naturais e formação de recursos humanos. seja pelo grande potencial de geração hidráulica da Região Norte do Brasil. a formação de reservatórios que modificam a paisagem. atividades de proteção e vigilância às áreas.

é preciso criar e conso­ lidar unidades de conservação para compensar a perda do habitat. Foi um trabalho de resgate. espécie por espécie. as espécies de árvores mantidas nas áreas de coleta de sementes florestais da Ilha de Germoplasma. O banco de conservação in situ compreende 32 ha de floresta nativa. “Esta é uma conservação consciente. com a Operação Jamari. que vão elaborar. alimentação e remessa de animais para instituições de pesquisa e preservação. mais de 16 mil animais foram resgatados. pois por meio dos inventários florestais e o monitoramento fenológico das matrizes de sementes. com as ações de identificação das áreas. As principais atividades desenvolvidas nas operações de resgate são a triagem e manejo. das áreas de soltura e da Terra Indígena Parakanã. A Operação Jamari. deu início ao processo de resgate do material genético das principais espécies florestais existentes na área de inundação e de plantio em local específico. criado a partir da construção da Usina Hidroelétrica Balbina. perten­ centes a 221 espécies botânicas distribuídas em cinquenta famílias. em conjunto com outras instituições ligadas ao meio ambiente. realizada em Tucuruí. envolveu aproximadamente 60 instituições nacionais. no Pará. a Eletronorte realiza o resgate dos animais. apoio à 224 . A área da Ilha é de 129 hectares. e investir na capacitação de novos profissionais. resgatou 300 mil animais. atendimento vete­ rinário.A História das Barragens no Brasil . monitoramento e estudos científicos. saúde. Para o analista ambiental da Eletronorte. A primeira e a mais importante delas é dar prioridade às espécies raras ou ameaçadas de extinção.Muita gente não sabe que Tucuruí guar­ da boa parte do DNA da Amazônia na Ilha de Germoplasma. no entorno da Usina Hidroelétrica Tucuruí. afirma. Rubens Ghilardi Ju­ nior. Em Bal­ bina. com a identificação e marca­ ção de 100% das árvores com diâmetro igual ou superior a 25 cm. Para evitar o afogamento da fauna habitante desses ecossistemas. muitas ilhas seriam formadas. sociais e comerciais.914 indivíduos adultos. foram plantadas aproximadamente 15 mil mudas distribuídas em 29 quadras. No banco ex situ estão representadas 28 famílias botânicas e 82 espécies. Banco de Germoplasma . e Parakanã. Era sabido que. depois do enchi­ mento do reservatório da Hidroelétrica Tucuruí. Atualmente. Programas indígenas . A Eletronorte conduziu três grandes operações de resgate da fauna. XX e XXI dando áreas de florestas. as ações dos resgates são baseadas em conservação e aproveitamento científico e cultural da fauna local. conduzir e supervisionar esses procedimentos. zoologia.A Eletronorte é responsável pelo desen­ volvimento de dois programas indígenas cujos resultados apresentados desde o final da década de 1980 são considerados referência no Brasil e no mundo. quando uma parceria entre a Eletronorte e o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia – Inpa. E em Samuel. fisiologia e taxonomia (identificação e classificação dos animais) e ecologia. São os programas Waimiri Atroari. Para isso. Os dois programas envolvem ações de educação. Para esse fim. são delimitadas e o trabalho começa antes mesmo da formação do lago. Foram identificados e mapeados 2. conhecidas como áreas de soltura.Séculos XIX. com área total de 22. O plantio foi feito numa área dividi­ da em quadras e a Ilha passou a abrigar a parte nativa (in situ) e a plantada (ex situ). A do Germoplasma foi uma delas. que tem o objetivo de conservar as espécies da região. Os bancos de germoplasma mantidos pela Eletronorte permitirão que a região de Tucuruí e outras regiões recuperem sua vocação natural de uso sustentável de florestas nativas”. A Eletronorte. com a participação de outras instituições de pesquisa. estabeleceu orientações pioneiras para resgates futuros. incluindo soltura. garantem a perpetuação dos recursos da floresta em seu estado natural. manejo de filhotes. Uma das 1. A Operação Curupira. a Operação Muiraquitã resgatou 26 mil animais. As novas áreas que receberão os animais.600 ilhas que formam o Mosaico de Tucuruí é especial. E essa diferença começou a ser construída em 1980.6 ha. o monitoramento e manejo dos animais. incluindo o aproveitamento científico. é possível conhecer cada uma das ‘árvores-mães’ que geram sementes saudáveis e que estão sendo utilizadas para reflorestamentos com objetivos ecológicos. Esse procedimento faz parte do Programa de Resgate da Fauna. pré-resgate. no Amazonas. Os ani­ mais resgatados foram de suma importância para pesquisas realizadas em diversas áreas de conhecimento. como genética.

A cultura encontrava-se em processo de perda dos seus valores. Na educação são doze escolas com 57. falta de vacinação e qualquer controle so­ bre a saúde. com fiscalização sistemática dos seus limites e dos transeuntes da rodovia Transamazônica. e controle informatizado da saúde dos índios. Na saúde. Na produção observase grandes roças. Na cultura houve o resgate de todas as práticas culturais e de sua dignidade como povo indíge­ na. nem demarcada e com processo de invasão em andamento. além de uma grande parte da população em processo de alfabetização. A situação fundiária está totalmente regularizada. sua tecnologia. diarreias crônicas. controle de malária e de outras doenças endêmicas. das terras e da dignidade daqueles povos indígenas. diarreias crônicas. vacinação de 100% da população. seus mitos. as escolas eram inexistentes e a escrita desconheci­ da. resultado de uma taxa de crescimento de 4. No campo da saúde o quadro era grave: epidemias de sarampo. Hoje. A cultura encontrava-se em processo de perda dos seus valores como festas tradicionais. controle in­ formatizado da saúde dos índios e um programa de saúde bucal preventivo. não se realizando mais as principais manifestações de seu patrimônio cultural e em fase de desmoralização como etnia. falta de vacinação e qualquer controle sobre a saúde. A população era de 247 pessoas. curativo e corretivo. nenhum atendi­ mento odontológico. nenhuma doença imunoprevenível nos últimos 15 anos. homologada. controle total de doenças respiratórias. Em julho de 2010. A terra está demarcada. vacinação de 100% da população. As escolas não existiam e a escrita era desconhecida. controle total de doenças respiratórias. Na saú­ de não se observa nenhuma doença imunoprevenível nos últimos 12 anos. Em julho de 2010 a população dos índios Parakanã era de 840 pessoas. com registro em cartório de imóveis e serviço de patrimônio da União. subnutrição. A situação fundiária está totalmente regularizada. hepatite B.404 pessoas. além da situação fundiária totalmente irregular.77% ao ano.86% da população Paraka­ nã alfabetizada na língua materna e em português. A terra está demarcada. a população dos Waimiri Atroari era de 1. mas com pendências de registros e regularização. A língua estava sendo perdida gradativamente bem como os conhe­ cimentos dos mais velhos sobre a natureza. sem nenhum invasor e com fiscalização sistemática dos seus limites e dos transeuntes das estradas existentes dentro das terras indígenas Waimiri Atroari. em 1988. A situação dos Parakanã antes do início do Programa. casta­ nha entre outros. estoque de animais para abate (peixes e gado) e total independência alimentar. A terra era demarcada. sua medicina. Na produ­ ção havia dependência total dos alimentos fornecidos pela Funai. boa nutrição. malária e gripes.8% ao ano. controle to­ tal da hepatite B. o quadro era de epidemias de sarampo. enfim sua história.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens produção e proteção ambiental. Hoje. Na educação. subnutrição. homologada.40% da população Waimiri Atroari alfabetizada e o restante em processo de alfabetização. sem nenhum invasor. a população era de 374 pessoas. em 1986. Na pro­ dução havia pequenas roças e dependência alimentar externa. A redução populacional chegava a 20 % ao ano. 63. além do aumento populacional. grandes roças têm tido produção de excedentes. pinturas corporais. que faz limite com a Terra Indígena Parakanã. boa nutrição. o que resultou em total independência alimentar. a situação é totalmente diferente. 225 . era totalmente diferente. foi regatada a prática do extrativismo e coletas de frutos para comercialização como açaí. Na educação são 21 escolas com 60 professores indígenas. A terra não estava delimitada. No campo da saúde. com registro em cartório de imóveis e serviço de patrimônio da União. e ritos de passagem e morte. cupuaçu. nenhum atendi­ mento odontológico. possibilitando o resgate das tradições. malária e gripe. controle da malária e de outras doenças endêmicas. Também na cultura houve o resgate de todas as práticas culturais. Antes do início do Programa. com uma taxa de crescimento de 5.

Calha do vertedouro de Foz do Areia. primeiro vertedouro do Brasil com aeração da calha .

os cursos d’água apresentam elevados gradientes. A orografia que cria a barreira da Serra do Mar e faz com que os rios se afastem do litoral não favorece à navegação fluvial. PontaGrossa e Londrina. vencendo desníveis da ordem de 800 a 1000 m e com isso favorecendo a instalação de aproveitamentos hidroelétricos.Estado do Paraná à criação de pequenos reservatórios para o suprimento de água potável a algumas comunidades. Ivaí e Paranapanema. com desníveis de 500 a 800 m vencidos em percursos menores de 80 quilômetros. onde o rio flui no planalto e não se requeriam obras específicas para permitir a navegação. com altitudes da ordem de 800 m e desenvolve em direção ao litoral entrando no estado de São Paulo através de uma região onde a Serra do Mar permite uma passagem. Isto foi no trecho superior do rio Iguaçu. e. no planalto. A leste da Serra do Mar. Este rio faz a divisa do esta­ do com o Paraguai e com Mato Grosso do Sul e recebe. O aproveitamento dos recursos hídricos do estado foi fundamen­ talmente ligado à geração hidroelétrica. A exceção é o rio Ribeira. 227 . Piquirí. e em muito menor grau. a oeste de Curitiba com altitudes entre 1200 a 1800 m acima do nível do mar. em sua margem esquerda. A maior parte de seu território pertence à bacia hidrográfica do rio Paraná. Isto faz com que os principais cursos d’água do estado nas­ çam próximo ao litoral e se desenvolvam em direção ao inte­ rior. que nasce a noroeste de Curitiba. este último formando a divisa entre os estados do Paraná e São Paulo. que se desenvolve paralelamente ao litoral Atlântico. dotado de um sis­ tema fluvial importante. havia interesse econômico no transporte de erva-mate da região sul para as indústrias de beneficiamento instaladas em Curitiba. entre os quais se destacam os rios Iguaçu. Figura 1. A drenagem em relação ao rio Paraná é conformada pela Serra do Mar. além disso. entre União da Vitória e Curitiba. os principais cursos de água que formam a hi­ drografia paranaense.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens História das Barragens no Paraná Brasil Pinheiro Machado e Denise Araújo Vieira Krüger Introdução O Paraná é um estado rico em recursos hídricos. em­ bora tenha havido um período histórico em que esta atividade ocorreu. particularmente Curitiba.

onde se destacam as cidades de Foz do Iguaçu e Cascavel. a partir dos anos 40. incluindo a implantação de obras de infraestrutura. Ponta-Grossa.A História das Barragens no Brasil . (iii) a região sudoeste. Em função destas peculiaridades a implantação de obras de eletrificação no Paraná ocorreu inicialmente. o poder político sempre esteve em Curi­ tiba e as ações de governo. centrada em Curitiba. Curitiba. e colonizada com deslocamentos populacionais originados principalmente no Rio Grande do Sul. originadas ou Figura 2 . Apesar desta diversidade. na região leste do estado. Os primórdios da geração elétrica no Paraná Historicamente o estado do Paraná se desenvolveu em três regi­ ões economicamente distintas: (i) o leste incluindo o litoral e os planaltos que formam o primeiro e o segundo degraus em direção ao rio Paraná. XX e XXI Com a diminuição do valor desta atividade econômica. (ii) a região norte. e durante muitos anos. a navegação neste trecho desapareceu e não prosperou de forma significativa em nenhum outro local do Estado. com a agricultura de ce­ reais entre os quais trigo e soja. onde se destacam a cidades de Paranaguá. que se desenvolveram a partir dos anos 50-60. de colonização antiga. União da Vitória. enfrentando grandes dificuldades até pelo menos o início dos anos 70. Por estas razões. colonizada a partir de Londrina e incluindo cidades como Maringá e Apucarana.Usina Termoelétrica de Curitiba . a história das barragens no Paraná se confunde com a história da implantação da geração de energia elétrica para o atendimento público. sempre tiveram a preocupação da integração das regiões.1901 228 . desenvolvida a partir dos anos 30-40 com base na agricultura do café atingindo seu pico econômico nos anos 50 e estreitamente vincula­ da economicamente ao estado de São Paulo. inicialmente desenvolvidas a partir do comércio de tropas entre o Rio Grande do Sul e São Paulo.Séculos XIX.

Figuras 3a. somente dispuseram de geração elétrica na segunda década do século vinte. no litoral paranaense. Vicente Machado. 229 . Um ano mais tarde. que começou a operar em 1910 com a potência de 510 kW. Outras cidades na região. em 12 de outubro de 1892. Ponta Grossa. entrou em operação a usina de Pitangui. e com uma conces­ são por 20 anos. construída por técnicos ingleses. localizada atrás do então Congresso Estadual. os serviços de suprimento e distribuição diretamente aos consumido­ res finais. com 760 kW de potência. Em 1901 foi instalada a primeira usina. propriamente dita. As primeiras usinas geradoras. A maior parte destes empreen­ dedores era imigrante de origem alemã ou da Europa Central. instaladas no estado. Dr. Nomes como Hauer. pertenciam a empreendedores priva­ dos locais que contratavam. 3b e 3c . entre elas Pa­ ranaguá. Grollmann. com dois conjuntos geradores de 200 cavalos-vapor cada. num terreno próximo à antiga estação ferrovi­ ária. termoelé­ trica. A usina começou a funcionar.Usina Hidroelétrica Serra da Prata – 1910 A primeira usina hidroelétrica do estado foi Hidroelétrica Serra da Prata. para abastecer a cidade de Paranaguá.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens O primeiro esforço para eletrificação ocor­ reu no dia 9 de setembro de 1890. oficialmente. União da Vitória e Campo Largo. até 3 de agosto de 1970. assinou o contrato com a Companhia Água e Luz do Estado de São Paulo. a citada companhia instalou a primeira usina elétrica do Paraná. quando o presidente da Intendência Municipal de Curitiba. Baseada nesse contrato. para iluminar a cidade com “uma força iluminativa de onze mil velas”. Blitzkow e Schlemm tiveram papel importante nas iniciati­ vas pioneiras no final do século XIX e primeiras décadas do século XX. térmi­ cas ou hidráulicas. geralmente com as prefeituras dos municípios corres­ pondentes. na região de Ponta Grossa.

Usina Hidroelétrica Pitangui – 1911 É interessante observar que no discurso político. XX e XXI Figura 4 .. na Serra do Mar. o presidente do estado sabendo que o estado de Mato Grosso pretendia outorgar a concessão das Sete Quedas. que também implantava a ligação ferroviária entre São Paulo e o Rio Grande do Sul. Neste contrato o governo do estado requeria que a concessionária construísse “. com a finalidade de “interessar a todos nossos industriais na organização de uma sociedade anonyma que tome a seu cargo a construção de uma usina hydro-eletrica e sua exploração”..uma usina para geração de energia eletrica por força hydraulica . sobre o qual tinha “direito de posse”. embora as insta­ lações geradoras existentes e em estudo fossem todas privadas. no rio São João. Em 1926 o governo do estado adquiriu de particulares.v. disto resultou a constru­ ção da usina hidroelétrica de Chaminé. mu- nicípios de Campina Grande e Bocaiuva com capacidade de 30. em 1928. quando então o rio Capivari foi aproveitado para geração de energia elétrica com um esquema muito diferente do que foi imaginado originalmente. a associação da geração de energia elétrica com recursos hidráulicos começa a aparecer no Paraná na segunda década do século XX.” no prazo máximo de 3 anos. um braço da empresa americana Electric Bond & Share Company se estabele­ ceu no Brasil e. com o nome de Empresas Elétricas Brasileiras contratou com o governo do Paraná a concessão da distribuição de energia elétrica em Curitiba.Séculos XIX. Em 1927. na máxima estiagem” situadas próximas a Curitiba. pela soma de 500 contos de réis.A História das Barragens no Brasil . no Rio Paraná para exploração energética (hoje inundadas pelo reservató­ rio de Itaipu). Neste ano a con­ cessão do suprimento elétrico da cidade de Curitiba foi adquirida do empresário local José Hauer pela empresa anglo-francesa South Brazilian Railways Company Ltd.. Efetivamente. telegrafou ao presidente daquele estado dizendo que este era um recurso paranaense. Em 1913. iniciada em 1929 230 .. “as quedas d’água existentes no Rio Capivary. O ano de 1910 marca a entrada das grandes empresas internacio­ nais no negócio de energia elétrica no Paraná. no município de São José dos Pinhais. Logo em seguida constituiu uma empresa com o nome de Companhia Força e Luz do Paraná (CFLP) e a ela transferiu a concessão.000 c. a AMFORP – American Foreign Power . Nada resultou desta iniciativa até 50 anos depois..

Mr.Mr. suficiente apenas para regularização diária. Fry era o engenheiro residente e assistente do superinten­ dente geral. como o aces­ so era difícil para transportar pessoal. A barragem de Salto do Meio é do tipo concreto gravidade. com 12 m de altura e 92 m de extensão. desde os 22 anos trabalhou e se dedicou ao Brasil. máquinas e peças. O vertedouro fica no trecho central da barragem e é equipado por flash-boards perfazendo 34 m de vão. O trole acabou se tornando a principal característica de Chaminé por proporcionar uma viagem de 720 m. Howell Lewis Fry – Visita a Chaminé em outubro de 1978 motores eram operados a vapor na época da obra e foram automatizados em 1999. nascido nos Estados Unidos. para a segunda a bicicleta e para a terceira. Operando desde 1929.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figuras 5a e 5b . preparando acampamento (1928) e na inauguração da usina de Guaricana (1957) e concluída em 1931. 12 km a montante. de aprova­ ção das fundações da barragem e da casa de força e. Seu reservatório tem um volu­ me útil de 500 mil m³. ia-se a pé. ligando os escri­ tórios à casa de força. e “em 1930 havia três escalas de prioridades para serviços urgentes: para a primeira. por uma exuberante reserva da Mata Atlântica. Mr.. ao centro. vagonete sobre trilhos. Aproveitando um desnível de mais de trezentos metros. Esses Figura 6 . Howell Lewis Fry.” O trabalho de construção durou três anos e. A usina hidroelétrica Chaminé é atualmente alimentada por dois reservatórios no rio São João. 231 . segundo ele: “Em 1929 nós tivemos que colocar cascalho na avenida principal de São José dos Pinhais para poder passar com os equipamentos que seriam usados na construção da usina de Chaminé”. foi construído um trole. Howell Lewis Fry. Em 1928 começou a trabalhar nas Empresas Elétricas Brasileiras. quando esta realiza­ va estudos no rio São João. a usina gera 18 MW através de quatro unidades Pelton. usava-se o cavalo. responsável por todo serviço de campo.. formados pelas barragens de Salto do Meio e Voçoroca. o trole é acionado por motores que liberam e recolhem cabos de aço. ven­ cendo declives de até 55 graus. com capacidade máxima de descarga de 360 m³/s. que resultaram na usina de Chaminé. Mr.

Em 1954 contratou um levanta­ mento de possíveis locais nos rios Iguaçu e Tibagi.5 x 6. Fry. Esta usina comissionada em 1957 utiliza as águas do rio Arraial. tam­ bém projetada e construída por Mr. cujo reservatório é criado por uma barragem de concreto a gravidade. a usina hidroelétrica de Guaricana. Conforme explicado por ele. que embora distantes da região de Curitiba. três vãos vertedores com comportas radiais de 5.4 m para uma capacidade máxima de descarga 495 m3/s. Daí surgiu o nome Guaricana. onde hoje se situam as usinas 232 . Além destas duas usinas hidráulicas. também sob a responsabilidade de Mr.Séculos XIX. Durante os 45 anos em que foi responsável por este mercado. possui três vãos de 12. Fry. na parte central. onde era concessionária. A usina aproveita uma queda superior a trezentos metros. a CFLP desenvolveu outros estudos visando identificar locais promissores para a instalação de reservatórios e usinas geradoras. mencionada anteriormente. a CFPL construiu. é de concreto a gravidade. “na região destas usinas havia uma palmeirinha que os colonos usavam para fazer paredes e coberturas de casas e se chamava Guaricanga. com 29.3 m de largura e flash boards de 2 m de altura.Trole para acesso à casa de força – Usina hidroelétrica Chaminé Figura 7 b – Barragem de Salto do Meio A barragem de Voçoroca foi iniciada somente em 1947. com 21 m de altura e 152 m de comprimento tendo em seu trecho cen­ tral. Este estudo foi contratado com a firma americana de consultoria EBASCO International Corporation e nas suas conclusões há a iden­ tificação das possibilidades técnicas de implantação de projetos de grande porte no rio Iguaçu. po­ deriam no futuro vir a ser alimentadores do seu sistema.5 m de altura e 95 m de extensão. a 75 km de Curitiba.” O vertedouro.A História das Barragens no Brasil . gerando os 36 MW com quatro turbinas Pelton. além da usina de Chaminé. A CFLP continuou com a concessão e o suprimento de energia elé­ trica à região de Curitiba até a década de 70 quando foi absorvida pelo governo do estado através da COPEL. XX e XXI Figura 7a . com 36 MW instalados também na Serra do Mar.

O desenvolvimento dos recursos hídricos do estado para fins energéticos passou a ser explicitamente considerado como preocupação política governa­ mental nos anos 40. com a criação do Serviço de 233 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 8a – Usina hidroelétrica Chaminé – Casa de força Figura 8b . As conclusões deste relatório não ge­ raram nenhuma ação específica e a CFLP continuou operando unicamente as hidroelétricas da Serra do Mar e instalações térmicas a Diesel em Curitiba até desa­ parecer como empresa concessionária. nos anos 70.Interior da casa de força com os grupos geradores de Segredo (chamada na ocasião de Encantillado) e Salto Santiago.

do norte pelas usinas de Salto Grande do Paranapanema. a curto prazo. em nível estadual. a mini-usina de Cotia. Na realidade. União da Vitória e cidades do chamado norte-velho. dependente de financiamentos especiais. O primeiro Plano Hidroelétrico do Estado foi elaborado em 1948. Tibagi (36 MW). previa a cons­ trução das centrais de maior porte. XX e XXI Energia Elétrica do estado. Nos municípios em que atuou instalou geradores Diesel e realizou um único projeto hidráulico. Posteriormente. do suprimento de energia elétrica e do desenvolvimento de projetos hidroelétricos. com recursos orçamentários do DAEE. tais como Capivari-Cachoeira (105 MW). e do oeste com centros gera­ dores isolados.A História das Barragens no Brasil . em 1952. a ser cumprido em duas etapas: a primeira. Capivara e Mourão. O Departamento foi responsá­ vel pela construção das usinas hidroelétricas de Ocoí em Foz do Iguaçu. os dois interligados em Teixeira Soares. este plano transformou-se em outro.Séculos XIX. Caiacanga e Laranjinha) e a segunda. bem como pelo início das usinas de Chopim I em Pato Branco e Mourão I em Campo Mourão que foram posteriormente concluídas pela COPEL. Ponta Grossa. Caverno­ so no rio Laranjeiras e Melissa em Cascavel. transformado em 1948 no Departa­ mento de Águas e Energia Elétrica (DAEE) com a atribuição de cuidar. Figura 9 – Usina hidroelétrica Presidente Vargas – Rio Tibagi – Grupo Klabin de Papel e Celulose (1947) 234 . na região de Antonina. este departamento governamental encampou incipientes serviços em municípios que não eram atendidos por empresas privadas organizadas como os das regiões de Curitiba. Carvalhópolis (27 MW) e a termo­ elétrica de Figueira (20 MW). no litoral do estado. com previsão dos sistemas elétricos do sul apoiados nas usinas de Capivari-Cachoeira e Salto Grande do Iguaçu. desativada para a formação do lago de Itaipu. Lon­ drina. previa a construção de pequenas hidroelétricas (Cavernoso.

distribuição e comércio de energia elétrica e serviços correlatos. in­ clusive. O professor Parigot tinha já.” e teve como seu presidente nomeado The­ místocles Linhares. Nesta primeira diretoria da COPEL foi de sua res­ ponsabilidade a formulação técnica racional de uma evolução objetiva e realista da oferta de energia elétrica no estado que. uma reputação técnica ligada a questões energéticas por ter participado da discussão de planos governamentais envolvendo usinas hidroelétricas na Serra do Mar.COPEL.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 10 – Usina hidroelétrica de Ocoí A era da COPEL Em 1954. A nova sociedade se destinava a “planejar. na época. A primeira diretoria da COPEL incluiu como diretor técnico. o professor Pedro Viriato Parigot de Souza. era extremamente precária. do então gover­ nador Bento Munhoz da Rocha Neto. Esta empresa seria uma instituição mais flexível que os órgãos governamentais tradicionais e poderia. seguindo o exemplo de Minas Gerais. cate­ drático da cadeira de hidráulica na Escola de Engenharia da Uni­ versidade do Paraná (atualmente Universidade Federal do Paraná). construir e explorar sistemas de produção. como indicado anteriormente. através do decreto n°14. habilitar-se de maneira mais eficaz aos financiamentos requeridos para a realização de obras de geração e transmissão. uma empresa de econo­ mia mista que teria a atribuição de implementar o suprimento de energia elétrica do estado. transmissão e transformação. o governo do es­ tado criou a Companhia Paranaense de Energia Elétrica . En­ tretanto.917 de 26 de outubro. mudanças no governo do estado afastaram a diretoria inicial da empresa em menos de um ano após sua instalação. 235 .

Péricles Tourinho e Clodoveu Holz­ mann. o professor Parigot implantou uma filosofia de seriedade e respeito técnico. e consiste em uma barragem no rio Capivari e desvio para o rio Cachoeira. na curta gestão de sua participação inicial na em­ presa. Fizeram parte deste grupo os engenheiros Hiran Lamas. atualmente denominado usina hidroelétrica Governador Parigot de Souza. francesa. Maurício Schulman. subterrânea. era antiga. entre outros. instalada com quatro grupos Pelton somando 260 MW de potência. a derivação para o litoral vencendo desnível importante foi nesta ocasião revista e estudada detalhadamente. no litoral.Mapa de 1915 com os primeiros estudos para o aproveitamento do Rio Capivari 236 . A idéia do aproveitamento do rio Capivari. instaladas ao longo da encosta da serra. vencen­ do o degrau de mais ou menos 800 m da Serra do Mar. foram chamadas e encarregadas de propor soluções técnicas para o aproveitamento. Outras soluções propostas consideravam várias usinas menores em sequência. XX e XXI Não obstante. quando novamente este voltou à empresa. agora como presidente e go­ zando da inteira confiança do governador.Séculos XIX. para o rio Cachoeira. Entre estas obras destaca-se o aproveitamento hidroelétrico CapivariCachoeira. Nel­ son Luiz de Sousa Pinto. que tinham sido admitidos na empresa entre 1955-60 e neste período desenvolveram estudos importantes que deram origem às obras executadas no período seguinte. de países diferentes. Para isto três empresas internacionais. no litoral. que corre relativamente próximo a Curitiba. Isto fez com que a COPEL pudesse atrair um con­ junto de engenheiros que teve uma atuação decisiva na evolução bem sucedida da empresa especialmente nos anos 60. A solução que prevaleceu foi proposta pela SOGREAH. Figura 11 . Entretanto. através de sistema de túneis de grande extensão e casa de força única. que consiste na derivação do rio Capivari que se desenvolve no planalto. como mencionado anteriormente.A História das Barragens no Brasil .

A barragem do Capivari pode ser considerada como a primeira bar­ ragem de porte realizada no Paraná. A chamada Usina Piloto do Salto Grande do Iguaçu foi também nesta época projetada e construída. contro­ lado por comportas vagão. Neste local. se estudou um aproveitamento de porte médio que foi considerado muito grande para atender a demanda existente. controla­ do por duas comportas de segmento. CEPHH (mais tarde CEHPAR e hoje Lactec) recebeu a incumbência de realizar os estudos hidráulicos em mode­ lo reduzido.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 12 – Usina hidroelétrica Capivari . Tem 60 m de altura. não foi este o único empreendimento desenvolvido pela COPEL no início dos anos 60. Maurice Bouvard foi contratado como consultor ge­ ral do projeto. que foi utilizado para o desvio e suple­ menta a capacidade do vertedouro em 250 m3/s. Apesar de inusitada e mesmo arriscada. conquistando dois recordes para a época: maior avanço médio em escavação subterrânea em obras do gênero e maior volume de concretagem mensal no interior dos túneis. Na construção desta usina a Copel se projetou no panorama da energia brasileira. a decisão de executar o projeto e a supervisão da construção com equipe pró­ pria. para uma vazão de projeto de 750 m3/s. Apesar da relevância de Capivari-Cachoeira. prescindindo da contratação de uma empresa de projeto. assistido por consultores pessoas físicas e não empresas. Imaginou-se então 237 . na divisa com Santa Catarina. é de terra homogênea e dispõe de vertedouro de superfície em canal. Logo a jusante desta cidade o rio entra na região dos basaltos e aí ocorre o primeiro salto abrupto dos vários que o rio apresenta ao longo de percurso. Juntamente com as demais obras do aproveitamento a barragem começou a operar em outubro de 1970 e ao longo deste período demonstrou um desempenho excelente sem nenhum incidente. no início dos anos 60. não só foi muito bem sucedida como também foi importante na for­ mação e desenvolvimento de quadros técnicos locais treinados em empreendimentos de dimensões e de grande complexidade. Dispõe também de um descarregador de fundo. uma subsidiária específica a ELETROCAP e outorgou a Hiran Lamas e Nelson de Sousa Pinto a responsabilidade de sua implementação. Foi decidido desenvolver o projeto detalhado com esforço próprio. naquela época.Cachoeira – Perfil esquemático Para a construção do aproveitamento a COPEL criou. Este é o chamado Salto Grande do Iguaçu. O rio Iguaçu nasce na região urbana de Curitiba e se desenvolve em uma região do planalto com baixas declividades até as imediações da cidade de União da Vitó­ ria. que nunca haviam sido feitos no estado. Milton Vargas como consultor para a barragem de terra no rio Capivari e o incipiente laboratório de hidráulica da Universidade do Paraná.

000 MW instalados e restituição através de túneis de fuga descarregando próximo a Garuva. entre outras razões. O projeto foi contratado com o engenhei­ ro Cardellini. Houve tentativas 238 . O projeto de características hidráulicas e constru­ tivas complicadas foi estudado no laboratório de hidráulica do CEHPAR. alimentando uma barragem-tomada d’água em arco com 4 grupos geradores de 3.Séculos XIX. que tinha contratos em andamento com Furnas e grande repu­ tação técnica. de formação italiana e radicado em São Carlos. São Paulo. Por isso foi chamada de “usina piloto”. O fluxo principal do rio não era afetado e continuava livre so­ bre o salto. mas agora revertendo uma vazão muitas vezes maior. O estudo final viabilizava o empreendimento (supondo a existência de demanda) com três barragens no alto Iguaçu associadas a estações elevatórias. O conceito do projeto previa um canal de adução de pare­ des curvas na margem esquerda. Este empreendimento. Para isto foi contratada a IECO – International Engineering Company. túneis de adução e casa de força subterrânea com aproximadamente 4. XX e XXI Figura 13 – Usina hidroelétrica Capivari Cachoeira – fotos da casa de força uma usina menor que serviria como passo inicial para um apro­ veitamento futuro de maiores dimensões. não existia demanda para tal potência. 15 anos mais tarde. Outra iniciativa importante nesta época foi a contratação de um estudo para verificar a viabilidade técnica e econômica da reversão do alto rio Iguaçu para o litoral. num esquema semelhante ao projeto CapivariCachoeira. dos Estados Unidos. O empreendimento não prosperou porque.A História das Barragens no Brasil . na divisa entre o Paraná e Santa Catarina. foi construído a partir de 1962 e entrou em operação em setembro de 1967.8 MW cada um. foi inundado pelo reservatório de Foz do Areia.

não podiam politicamente ser trocados por projeto em outro estado. embora mais distantes da capital do estado e mais caros que a alternativa do Iguaçu. do governo paulista. entre os estados de São Paulo e do Paraná. mas que também não progrediram porque este estado estava iniciando na ocasião os grandes projetos do Complexo Urubupungá. houve uma parceria importante para ocasião. Figura 15 . Entretanto.Vista da casa de força da usina de Salto Grande do Iguaçu – 15. com base na qual foi possível o suprimento de energia elétrica à região de Londrina e Maringá a partir da usina de Salto Grande do Paranapanema.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 14 – Barragem de Capivari-Cachoeira modestas de acordo com o estado de São Paulo para o desenvolvi­ mento em parceria. no rio Paraná (Jupiá e Ilha Solteira) que. através da participação da COPEL na USELPA – Usinas Elétricas do Paranapanema.200 kW 239 .

Piquiri 240 .Inauguração de Salto Grande do Iguaçu em 29 de setembro de 1967. e foi formado por engenheiros canadenses e americanos que haviam atuado no Sudeste e por profissionais locais designados pela COPEL. atingindo este rio após desenvolvimento em várias curvas (falsos meandros) ocasionadas pela orografia da região basáltica. a vazão do rio Chopim é encaminhada por meio de canal aberto e conduto forçado a uma casa de força equipada com dois grupos de 22 MW cada. Da esquerda para direita: professor Parigot de Souza. sediado em Curitiba e organizado sob a gestão da COPEL. além de alguns designados pelas empresas de Santa Catarina e do Rio Grande Figuras 17a e 17b . chamada pos­ teriormente de Júlio de Mesquita Filho. XX e XXI Na segunda metade dos anos 60 a COPEL desenvolveu o projeto e construiu a usina hidroelétrica de Foz do Chopim.casa de força e barragem Figura 16 . O objetivo do Comitê Sul era o levantamento das principais bacias hidrográficas dos três estados sulinos (menos os rios que já tinham sido considerados no estudo do sudeste: Tibagi e Ribeira do Iguape e dos trechos que formam fronteira internacional) com o propósito de identificar e avaliar os locais potencialmente ade­ quados. O rio Chopim é um afluente pela margem esquerda do rio Iguaçu. general José Costa Cavalcanti e governador Paulo Pimentel do Sul. Este empreendimento foi projetado pela SERETE Engenharia. com 44 MW. técnica e economicamente. situada na margem esquerda do rio Iguaçu. Pela COPEL o responsável foi o engenheiro Arturo Andre­ oli.Séculos XIX. Um fato extremamente relevante ocorrido na segunda metade dos anos 60.Usina hidroelétrica de Foz do Chopim . Com uma pequena barragem-tomada d’água na última curva. no oeste do Estado. O Comitê Sul era a continuação dos estudos executados na região Sudeste pela CANAMBRA. foi a constituição do Comitê de Estudos Energéticos da Região Sul – Comitê Sul. de São Paulo. O estudo desenvolvido entre 1967 e 1969 identificou as principais obras no curso principal e afluentes dos rios Iguaçu.A História das Barragens no Brasil . que mais tarde viria a ser presidente da empresa e responsável pelas obras subsequentes no rio Iguaçu até o final dos anos 70. para desenvolvimento hidro­ elétrico.

A decisão e a implementação com su­ cesso das gestões voltadas para a realização da obra são devidas ao engenheiro Arturo Andreoli. em 1974. A solução técnica do projeto inclui uma barragem de enrocamen­ to com núcleo inclinado de argila.. conseguiu ser designada a “gestora” do empreendimento e seguiu assim até o final da obra. A COPEL. a ELETROSUL e a COPEL se mobilizaram politicamente para realizar outras obras no rio Iguaçu tomando sempre por base a previsão de obras formulada pelo Comitê-Sul – CANAMBRA. a COPEL decidiu pleitear e cons­ truir a usina hidroelétrica de Salto Osório. de uma empresa federal que teria a exclusividade na geração de obras de propósito supra-esta­ dual.000 m3/s. entretanto. situada imediatamente a montante de Salto Osório com a possibilidade de iniciar serviços de campo a partir da base estabelecida em Salto Osório. a COPEL não aceitou a sugestão. A ELETROSUL fixou seu objetivo na usina de Salto Santiago (1. Depois de Capivari-Cachoeira. Ibirapuitã e Camaquã. a recente criação. Nas discussões para a formulação do arranjo e do tipo de barragem. houve a sugestão da junta de consultores para adoção de uma barragem de enrocamento com face de concreto. Esta junta era formada pelos engenheiros J. fez com que a concessão fosse transferida para a ELETRO­ SUL. Canoas e Uruguai. então diretor técnico da empre­ sa. com 56 m de altura máxima e 750 m de comprimento. Pela primeira vez no Paraná.A. foi tomada por razões prá­ ticas uma vez que no local estava sendo finalizada a construção de Foz do Chopim e existia uma estrutura de apoio para o início de um novo empreendimento. No final dos anos setenta. e Rio Grande do Sul. em 1974.Usina hidroelétrica de Salto Osório Antes do final de Salto Osório. na época. pois iniciava o desenvolvimento do rio com uma obra situada longe das cabeceiras. dos Estados Unidos. de Mello. que re­ tomou alguns estudos preliminares já executados para a ELETRO­ SUL em anos anteriores. O gerente do projeto do consórcio projetista foi o engenheiro Warren Schumann que teve um papel fundamental no desenvolvimento da maioria das obras do rio Iguaçu. no Paraná. O projeto de engenharia de Salto Osório foi contratado com o consórcio SERETE (que já atuava em Foz do Chopim) e Kaiser Engineers Corp. Um outro aspecto relevante no desenvolvimento deste projeto foi o fato de que. James Libby. B. Thomas Leps e Victor F. Barry Cooke. que também teriam um papel muito importante nas obras subsequentes. Figura 18 . mas como não havia antecedentes deste tipo de obra no Brasil. e dois vertedouros com capacidade con­ junta de descarga de 27. pela SERETE. Ela obteve sucesso em seu pleito pela concessão do aproveitamento e contratou os estudos de engenharia de projeto com a Milder-Kaiser Engenharia S. Esta decisão. Apesar de ter havido revisões nos resultados dos estudos. Jacuí. naquela 241 . quase todos os potenciais identificados estão hoje aproveitados. com base no resultado dos estudos do Comitê Sul – CANAMBRA. foi estabelecida pela COPEL uma junta de consultores independentes. A ELETROSUL.050 MW) foi a grande realização da COPEL no início dos anos 70 e o ponto de partida para os sucessos seguintes. em Santa Catarina. apesar da COPEL ter tido a iniciativa do empreen­ dimento. no Rio Grande do Sul. Salto Osório (1.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens e Ivaí.420 MW). que poderia parecer injustificada.

B. XX e XXI Figura 19 . James Libby.A História das Barragens no Brasil . O projeto incluiu uma barragem principal de enrocamento com núcleo de argila. A MilderKaiser que tinha sido organizada em São Paulo por Isaac Milder.Obra e fechamento do desvio do rio da usina hidroelétrica de Salto Santiago.Séculos XIX. de Mello e Thomas Leps. Victor F. Engenheiros e consultores (a partir da esquerda: Brasil P. Arturo Andreoli) época. projetada para uma insta­ lação de 2. era dirigida pelo engenheiro Mario Lannes e seu diretor técnico era o engenheiro Fernando Correa de Azevedo. foi construída pela Camargo Correa estrita­ mente no cronograma estabelecido inicialmente. Lança a montante de União da Vitória. montou uma estrutura técnica no Rio de Janei­ ro e designou para a gerência do Projeto Salto Santiago o engenheiro Jaime Leivas Piuma que foi o principal responsável pela engenha­ ria desta obra. com a primeira unidade entrando em operação no final de 1980. Salto 242 . oriundo da SERETE. Jaime L. Thelmo Thompson Flores. A COPEL centrou sua atenção nas obras previstas no trecho ini­ cial do rio Iguaçu. Kamal Kamel. Barry Cooke. A ELETROSUL. e uma barragem de terra homogênea fechando um ponto baixo no reservatório.000 MW. Piuma. Machado. A usina hidroelétrica de Salto Santiago. seguindo a prática de Salto Osório contratou o mesmo grupo de consultores especiais daquela obra: J. com 80 m de altura.

Esta alternativa. inundasse o Salto Grande do Iguaçu estabelecendo o nível máximo em cota compatível com a cidade de União da Vitória. chamada na época Foz do Areia Alto. tinha menor área e criava uma queda aproveitável para geração de energia. já dis­ punha de um quadro técnico de primeiro nível e a COPEL trouxe da Colômbia o engenheiro Bayardo Materón. A COPEL contratou. de Warren Schu­ mann. da Kaiser Engineers.Usina hidroelétrica Salto Santiago Grande do Iguaçu e Foz do Areia a jusante desta cidade. A influência de Barry Cooke fez com que se decidisse por uma barragem de enrocamento com face de concreto. uma junta de consultores especiais. teve o gran­ de mérito de assegurar o projeto para o Paraná e de convencer a ELETROBRAS a criar uma exceção à regra que determinava que só empresas federais poderiam construir obras de geração que ultra­ passassem a demanda do estado onde se situam. A projetista. mas seria na época a mais alta do mundo neste tipo. Os estudos realizados pela Milder-Kaiser mostraram que Lança. que não só seria a primeira do tipo no país. Milder-Kaiser. Isto tudo fez com que o grupo técnico envolvido na concepção e desenvolvimento da obra fosse formado e mantido com pessoal de alta qualificação. prevaleceu pois. agora formada por J. Victor F. B. que tinha experiência 243 . presidente da COPEL na época. além de criar um reservatório regulador semelhante ao previsto para Lança. Definidas as características energéticas e orográficas de Foz do Areia a seleção do tipo de barragem que teria 160 m de altura demandou longas discussões técnicas. como fizera em Salto Osório. Barry Cooke.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 20 . uma barragem baixa criando um reservató­ rio de área muito extensa tinha méritos. Em 1973 contratou os serviços de engenharia da Milder-Kaiser e assegurou a participação técnica. de Mello e Nelson Luiz de Sousa Pinto. mas resultava economica­ mente menos atraente que uma variante de Foz do Areia que. como gerente do projeto. com uma barragem muito mais alta. O engenheiro Arturo Andreoli.

Com a influência da novela da época (1973). cerca de 12 km da obra. a Copel ini­ ciou a implantação das obras de infraestrutura que incluíam uma verdadeira cidade. a pequena vila em formação recebeu o nome de Nova Divinéia e seus principais personagens inspiraram nomes de bares. estrita­ mente de acordo com o cronograma formulado 5 anos antes. para o restante das obras civis foi outorgado à CBPO hoje uma empresa do Grupo Odebre­ cht.600 residências e to­ dos os serviços urbanos necessários. para o acompanhamento e controle dos ma­ teriais de enrocamento e questões ge­ ológicas associadas.Usina hidroelétrica Foz do Areia 244 .A História das Barragens no Brasil . XX e XXI Figuras 21a e 21b – Obras da usina hidroelétrica Foz do Areia neste tipo de obra nas realizações na­ quele país.Séculos XIX. A construção da obra foi dividida em dois contratos: o primeiro para os túneis de desvio e préensecadeiras foi realizado pela Andrade Gutierrez.500 MW teve sua primeira unidade entrando em operação em outubro de 1980. Para que a obra começasse a deslan­ char. em janeiro de 1975. com o interesse da população ribeirinha por Foz do Areia. A usina. com 1. projetada para 2. e designou o experiente en­ genheiro Pedro Marques Filho. em busca de um novo “Eldorado” iniciou-se a formação de um pequeno povoado próximo ao canteiro da usina. Faxinal do Céu. tais como Barbearia Sandra Bréa e Bar Pedro Azulão. “Fogo sobre Terra”. Figura 22 . Um pouco antes da implantação da planejada Faxinal. pensões e outros ramos comerciais. o segundo.

no princípio da década de oitenta as grandes barragens do Paraná vinculadas à COPEL e ELETROSUL eram Capivari. Segredo e desta obra so­ mente conseguiu executar os túneis de desvio e escavações preliminares para a barragem. governador Ney Braga e o presidente João Figueiredo discursando as empresas MDK (sucessora da Milder-Kaiser agora parte do grupo CNEC) e CENCO. Fernando Luiz Correa de Azevedo (presidente Milder Kaiser) e Willian Simonsen (diretor comercial da Milder-Kaiser) 245 . No Paraná a COPEL fez várias tentativas de viabilizar financiamentos para a próxima usina do rio Iguaçu. Salto Osório. hoje denominada usina hidroelétrica Go­ vernador Bento Munhoz da Rocha Netto. a obra de Segredo foi postergada. Brasil Pinheiro Machado (diretor técnico da Milder Kaiser). A partir da esquerda Douglas Souza Luz. Douglas Souza Luz (presidente da COPEL). naquele tempo. Se­ gredo seria uma obra da ELETROSUL que efetivamente realizou estudos incluindo al­ ternativas com barragens de concreto em abóbada propostas pela Enge-Rio. A década de oitenta foi marcada pela crise da dívida externa brasileira que fez com que as fontes de financiamento do governo secas­ sem e poucas obras pudessem ser realizadas. na MDK. Salto Santiago e Foz do Areia. a jusante de Foz do Areia tinha sido planejada para ser cons­ truída contemporaneamente com Salto Santiago. na qual foi confirmada a concessão da usina hidroelétrica Segredo. O projeto incluiu uma barragem de enrocamento com face de concreto com 145 m de altura formulada com os mesmos conceitos de Foz do Areia. Entretan­ to.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Desta forma. Da esquerda para direita Lindolfo Zimmer (diretor de engenharia e construções da COPEL). Neste conceito. foi confir­ mada a concessão da usina de Segredo para a COPEL. Durante a visita do então presidente da re­ pública João Figueiredo à obra de Foz do Areia. Em 1985 foi contratada Figura 24 – Assinatura do contrato do projeto da usina hidroelétrica Segredo em 19 de março de 1980. governador Ney Braga assinando. em 31 de agosto de 1979. com potência prevista à época de 2. que por isso tinha tido a cota má­ xima do seu reservatório aumentada em 15 m de modo que numa operação conjunta houvesse ganho de volume em Santiago e de queda em Segredo. Manteve a mesma junta de consultores especiais de Foz do Areia. por problemas econômico-financeiros. A usina de Segredo. Para isso foram contratadas Figura 23 – Visita às obras de Foz do Areia em 31 de agosto de 1979.100 MW e foram iniciadas as ativida­ des de projeto. De 1982 a 1987 o projeto foi desenvolvido sob a gerência do engenheiro Kamal Kamel.

Estas obras duraram aproximadamente um ano e a continuação não pode ser realizada por problemas políticos e econômico-financeiros.Usina hidroelétrica Segredo 246 . O conjun­ to de obras de derivação do rio Jordão contempla ainda uma pequena central hidroelétrica para aproveitamento da vazão mínima de 10 m3/s necessária à pereni­ zação do trecho a jusante do rio Jordão. permi­ Figura 26 . Desde o inventário. por questões ambientais. A obra foi concluída em 1992 e a geração inicial ocorreu em julho daquele ano sendo hoje denominada Usina Hidroelétrica Governador Ney Braga.A. o eixo da usina de Segredo foi modificado para montante da foz do rio Jordão. considerou-se para efeito de motorização a derivação das águas do rio Jordão através de conjunto barra­ gem. Durante a implantação da hidroelétrica de Segredo. Em 1988 foi possível a retomada da obra que foi contratada com um consórcio de empresas do Paraná: DM Construtora de Obras. CESBE e SINODA.A História das Barragens no Brasil .Séculos XIX. a motorização e energia da usina hidroelétrica Segredo consideraram as águas do rio Jordão. A obra foi iniciada em maio de 1994 e concluída em outubro de 1996. que é um tributário importante do rio Iguaçu. Com a definição da implantação da usina de Salto Santiago em cota mais alta que a originalmente prevista. vertedouro e túnel de interligação entre os dois reservatórios. XX e XXI Figuras 25a e 25b – Obras da usina hidroelétrica Segredo a construção das obras do desvio com a Construtora CR Almeida S.

A proposta vencedora foi apresentada pelo consórcio formado pela empresa paranaense Ivaí Construtora de Obras e pela italiana Del Favero S.000 m3 de concreto convencional.5 MW e queda líquida de 71. O túnel da derivação tem extensão de 4. utilizando 570. A PCH entrou em operação em 2 de dezembro de 1997 comple­ tando o complexo energético SegredoJordão. A licitação para contratação das obras permitiu a escolha pelo empreiteiro entre dois projetos. considerando o arranjo utilizando barragem de concreto compacta­ do com rolo. e o projeto executivo foi feito internamente pela COPEL . Barragem e túnel de derivação tindo a geração na usina hidroelétrica Segredo com as águas derivadas do rio Jordão.Companhia Paranaense de Energia.800 m e diâmetro de 9 m.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figuras 27a e 27b – Derivação do rio Jordão durante a construção. O projeto básico foi executado pela MDK Engenharia de Projetos.p. que possui altura máxima de 95 m.000 m3 de concreto compactado com rolo e 80.A. O arranjo selecionado tem o vertedouro em soleira livre incorporado à barragem. com uma potência instalada de 6. Figura 28 – Derivação do rio Jordão 247 .5 m. um com solução da barragem em enrocamento com face de con­ creto e o outro arranjo em barragem de concreto compactado com rolo. concessionária dos dois apro­ veitamentos do complexo.

000. da INTERTECHNE. Leps e Paolo Cassano. à contratação do consórcio projetista liderado pela INTERTECHNE e formado adicionalmente por ENGEVIX. em 1992. A barragem selecionada foi de concreto compactado a rolo (CCR) com 67 m de altura e 1. Este consórcio realizou os estudos de engenharia e meio-ambiente incluindo projeto básico e executivo civil e eletromecânico.000 m3/s. A usina entrou em operação em 1998 seguindo estritamente o cronograma de obras pré-determinado. Esta foi a primeira barragem de porte expressivo de CCR no Brasil. 248 . também. XX e XXI Figura 29 – Engenheiros da COPEL e consultores durante reunião da junta de consultores da derivação do rio Jordão O projeto executivo foi gerido e coordenado pelo engenheiro José Marques Filho da COPEL. Uma característica significativa é o vertedouro controlado por comportas com vazão de projeto de 50. O gerente do projeto foi o engenheiro Kamal Kamel. A construção foi contratada com a DM Constru­ tora de Obras que já havia atuado no Projeto Segredo. Thomas M. no processo de definições da barragem de CCR. levando o re­ manso até Salto Osório e inundando Foz do Chopim. mencionada anteriormente. Esta foi a solução adotada e que deu origem. Colaboraram. A última barragem realizada no curso do rio Iguaçu foi a usi­ na hidroelétrica de Salto Caxias.083 m de comprimento.A História das Barragens no Brasil . e a primeira que demonstrou a competitividade deste tipo de solução. permitindo a construção de uma outra obra – Cruzeiro – a jusante de Salto Osório e a mon­ tante de Foz do Chopim. A junta de consultores foi composta pelo renomado engenheiro paranaense Nelson Luiz de Sousa Pinto e os con­ sultores internacionais J. Paulo José Melaragno Monteiro e Brian Forbes. os consultores Walton Pacelli de Andrade. que havia ven­ cido a licitação promovida pela COPEL. porém com nível de represamento mais baixo. Barry Cooke. Estudos realizados ao longo da década de oitenta pela COPEL indicaram a conveniência de aumentar o nível de represamento. LEME e ESTEIO. tendo como consultor de mate­ riais para a barragem o engenheiro Francisco Rodrigues Andriolo.000 de m³ e em capacidade do vertedouro incorporado. Esta obra estava prevista na divisão de quedas proposta pelo Comitê-Sul – CANAMBRA.Séculos XIX. atualmente usina hidroelétrica Governador José Richa. Na época de sua construção foi um passo muito significativo em termos de volume da barragem com cerca de 1.

Usina hidroelétrica Salto Caxias 249 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figuras 30a e 30b – Obras da usina hidroelétrica Salto Caxias Figura 31 .

250 .

A capital do estado era suprida pelo grupo da AMFORP. Fazendo progresso com energia Flavio Miguez de Mello A pré-história No estado de Minas Gerais antes da II Gran­ de Guerra Mundial a energia elétrica era escassa. A mais importante usina da Cemig: a de maior produção de energia e a mais rentável 251 . 2007. pois as concessões eram dadas por estados e municípios. Dentre as Figura 1 – Início da obra da hidroelétrica de Gafanhoto sobre o rio Pará em Divinópolis.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Companhia Energética de Minas Gerais – CEMIG “Trata-se (a Cemig) da mais bem sucedida história dentre todas as experiências em âmbito estadual” Antonio Dias Leite Jr. Essas empresas passaram a sofrer as consequências funestas do Código de Águas.. inaugurada em 1946 Usina hidroelétrica de São Simão. nas pro­ ximidades de Juiz de Fora. criado em 1934 com o pretexto de disciplinar o regime de concessões dos serviços de eletricidade que até então era anárquico. Destacava-se na época a Zona da Mata que era suprida pela Companhia Força e Luz Cataguazes Leopoldina CFLCL no vale do rio Pomba e pela Companhia Mineira de Eletricidade no vale do rio Paraibuna. Muitas micro-usinas hidroelétricas supriam a necessidade de energia de fazendas isoladas e mesmo de pequenas cidades.

A idéia era criar a infra­ estrutura energética para incentivar a implantação de indústrias e de atividades de mineração. época em que houve forte incremento da economia em quase todos os outros países. Águas era só o pretexto.A História das Barragens no Brasil . O gargalo acima mencionado propiciou o aparecimento do estado na geração de energia elétrica. primeiro presidente da CEMIG 252 . passou a haver dificuldades para o correto equilíbrio econômico e financeiro dos contratos de con­ cessão na medida em que a inflação. XX e XXI consequências funestas estava a eliminação da cláusula ouro que ga­ rantia às empresas o reajustamento das tarifas. antecessora do Departamento de Águas e Energia Elétrica DNAEE que deu origem às atuais Agências Nacionais de Águas ANA e de Energia Elétrica ANEEL. O Código de Águas estabeleceu determinados princípios tais como o de que todos os recursos hídricos eram da União e. Figura 2 – Lucas Lopes. ainda que nos níveis modestos da época. os mineiros não perdoaram Getúlio Vargas por não instalar a primeira grande siderúrgica em Minas Gerais apesar do Macedo Soares ter explicado inúmeras vezes que foi selecionado o local de Volta Redonda por questões de mer­ cado pois siderúrgicas devem ficar próximas ao mercado e não ao minério. A esse respeito. consequen­ temente. Entretanto. No estado de Minas Gerais o início da participação do estado na geração de energia elétrica começou a ocorrer no governo Milton Campos que formulou um plano de maior envergadura para aten­ dimento das necessidades de eletrificação do estado. desestimulava novos empreendimentos de geração. o poder concedente passou a ser exercido pela União.Séculos XIX. trans­ missão e distribuição de energia elétrica. consequente­ mente. O principal objetivo do Código de Águas era a paralisação das empresas privadas do setor elétrico o que gerou considerável gargalo na expansão da oferta de energia elétrica e. desaceleração no desenvolvimento econômico no pós guer­ ra. A intenção do engenheiro Seabra era que o engenheiro Lucas Lopes se encarregasse de comandar a elaboração do plano com o apoio da consultora. apenas a CFLCL sobreviveu ao Código de Águas que era mais de energia do que de águas. engenheiro José Rodrigues Seabra contratou a consultora Companhia Brasileira de Engenharia para elaborar o Plano de Eletrificação de Minas Ge­ rais. Para tanto foi criada a Divisão de Águas no Ministério da Agricul­ tura. Foi feito um detalhado levantamento das vocações econômicas mineiras e dos locais onde essas vocações deveriam ter o suporte de energia elétrica. Na formação da equipe foram incluídos os engenheiros Mauro Thibau e John Cotrim. Mas o Plano de Eletrificação garantiu a energia necessária para a instalação da Mannesmann em Minas Gerais. Pela primeira vez foi feito no Brasil um plano de obras públicas tão abrangente. O secretário de viação e obras públicas entre 1947 e 1951. Das empresas privadas que atuavam em Minas Gerais. Como as empresas acima mencionadas eram privadas. nem a consultora nem Lucas Lopes tinham experiência na elaboração de planos dessa natureza.

a Companhia de Eletricidade do Alto Rio Grande para implementar a hidroelétrica de Itutinga. Em resposta Getúlio disse “Eu dou tudo que os senhores quiserem contanto que essa usina vá para Minas”. Grato. os membros da equipe de transição ficaram sendo diretores dessas empresas. Júlio Soares e José de Castro. a Companhia de Eletricidade do Médio Rio Doce para a construção da hidroelétrica de Tronqueiras. dirigido ao seu secretário de Viação e Obras Públicas. Foram criadas empresas estatais estaduais para implantação das primeiras hidroelétricas estatais em Minas Gerais que posteriormente foram incorporadas pela CEMIG quando esta foi criada no governo Juscelino Kubitschek. Peço combinar com eles e assentar em definitivo as medidas. datado de 22 de fevereiro de 1951: “O Sílvio Barbosa e o Júlio vão lhe falar sobre os planos que desejo pôr em execução no sector de energia elétrica. Pedro Laborne Tavares.CINQUENTA ANOS DO COMITÊ BRASILEIRO DE BARRAGENS Na campanha presidencial de 1950 Getúlio se disse em dívida com Minas Gerais e prometeu a instalação de uma segunda siderúrgica em território mineiro. Juscelino afirmou aos alemães: “Podem instalar a usina que nós garantimos a energia”. titular da Secretaria de Agricultura. foram diretores dessas empresas Lucas Lopes.” 253 . Indústria. A Mannesmann tinha planos de se instalar no Rio de Janeiro e foi ao Getúlio. para pedir apoio federal para implantação da nova siderúrgica. José Esteves. Assim. Os alemães argumentaram que em Minas Gerais não havia energia elétrica. então presidente da República. enquanto o Plano de Eletrificação era formulado. Como essas empresas existiam e como era necessário haver recursos para o pagamento dos salários dos executivos que iriam comandar a CEMIG que ainda não existia. Para facilitar-lhe a organização e dar-lhe o caráter comercial que possibilite entendimentos com firmas financiadoras. o engenheiro Américo René Gianetti.Bilhete do governador Juscelino Kubitschek. precisamos estabelecer um “holding” que controle as atividades gerais das diversas centraes elétricas que pretendemos construir. Assim. algumas das quais já se encontravam em Figura 3 . John Cotrim. Comércio e Trabalho. Empossado no governo Milton Campos. Essa garantia dada pelo governador foi a principal razão do sucesso inicial da CEMIG uma vez que passou a haver a necessidade de promover o suprimento de energia elétrica tão logo que a siderúrgica ficasse pronta. dava início a algumas hidroelétricas. Getúlio disse aos alemães que procurassem o recém governador de Minas Gerais pois ele havia mencionado o Plano de Eletrificação elaborado no governo Milton Campos. foram criadas a Companhia de Eletricidade do Alto Rio Doce para implantar a hidroelétrica de Santo Antônio. A CEMIG em seus primeiros anos A CEMIG foi fundada em 22 de maio de 1952. Desde o seu início até 1955/1956 a CEMIG dedicou-se basicamente à construção de usinas hidroelétricas.

Inauguração da Usina Hidroelétrica de Camargos em janeiro de 1961. vice-presidente da Cemig. Cândido Hollanda de Lima 254 . presidente do Eximbank Figura 5 .Assinatura de contrato para financiamento no Export Import Bank para construção da usina de Camargos. Cândido Hollanda de Lima. e S. XX e XXI Figura 4 .A História das Barragens no Brasil . Wangh. presidente da Cemig.Séculos XIX. Da esquerda para a direita: Mário Bhering. ao lado do presidente da Cemig. vendo-se o governador Bias Fortes descerrando a placa inaugural.

não havia levantamento topográfico completo da área de implantação da usina. John Reginald Cotrim.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 6 – Inauguração da Usina de Itutinga. Piáu e Cajuru. Mauro Thibau e Mario Bhering. vice-presidente da Cemig construção. Após a constituição da CEMIG foram agregados ao grupo de diretores anteriormente composto os engenheiros Flavio H. Tancredo Neves. totalizando quase 150 MW instalados. Os passos iniciais da CEMIG na implantação de suas usinas eram apoiados por recursos diretamente destinados à empresa sem pas­ sar pela Secretaria de Finanças para desespero do secretário José Maria Alkmin. Entre os primeiros engenheiros que foram contratados estavam Camilo Penna e Henrique Guatimosin. Na realidade havia uma disputa nesse sentido entre o secretário de finanças Alkmin e o engenheiro Lucas Lopes que conse­ guiu manter os recursos financeiros diretamente alocados à CEMIG. Há relatos de que os estudos existentes eram muito superficiais. os equipamentos permanentes já haviam sido comprados e entregues. Troqueiras. Da esquerda para a direita. Salto Grande. vendo-se o governador Juscelino Kubitschek no momento simbólico em que aciona a chave. não haviam sido executadas prospecções geológicas e geotécnicas. a casa de força estava em terreno não apro­ priado. estando há mais de um ano abandonados em caixotes em terreno marginal à ferrovia em Coronel Fabriciano sem qualquer identificação. 255 . Lyra. deputado federal. Seu programa inicial compreendia a construção ou a conclusão das hidroelétricas de Itutinga. Vários equipamentos elétricos estavam estragados. em 3 de fevereiro de 1955. colocando a usina em operação. os túneis estavam mal locados. Das obras iniciadas no governo anterior a que demandou mais trabalho foi a hidroelétrica de Salto Grande.

candidato a presidente da República do Brasil e Mario Bhering. Essa indispensável alteração teve suas implicações políticas. John Cotrim como diretor técnico. Após a instituição da CEMIG surgiu a oportunidade do Banco Mundial financiar a aquisição dos equipamentos e de alguns serviços de engenharia. econômica e financeira que nunca antes havia sido feito em empreendimento não privado no País. Como na época não havia empresas nacio­ nais com reconhecidas capacitações para o desenvolvimento do projeto e da construção. Flavio H. Com isso foi necessário que se fizesse um estudo completo de viabilidade técnica. foram contratadas a IECO de São Fran­ cisco e a Morrison & Knudsen. Com uma nova estrutura geren­ cial que compreendeu a contratação de novos quadros da CEMIG foram incluídos engenheiros civis que permaneceram no setor elétrico como Carlos Alberto Pádua Amarante e João Alberto Bandeira de Mello. Mário Bhering como responsável pelas compras e uma equipe de supervisão de obras que contava com Camilo Penna. outro 256 .Séculos XIX. ambas americanas que já estavam engajadas em outros contratos no Brasil. Lyra acumu­ lando a diretoria financeira da CEMIG com a superintendência de Itutinga. através de Julio Soares.A História das Barragens no Brasil . Juscelino Kubitschek. estocar e recuperar os equipamentos que haviam se estragado pela chuva no matagal marginal à ferrovia. pois uma obra iniciada no governo da UDN estava sendo novamente concebida e projetada num governo do PSD. a implantação de Itutinga não causou problemas como os verificados em Salto Grande. se tornar uma empresa com gestão moderna para a época. a obra de Salto Grande que envolvia duas barragens.Inauguração da barragem de Cajuru em 1959. Carlos Gomes foi o engenheiro eletricista encarregado de identificar. vice-presidente da Cemig A Techint italiana foi contratada e o projeto foi alterado e detalhado. dois túneis de adução e uma casa de força foi concluída com sucesso. Um dos fatores que garantiram o sucesso nos primeiros anos da CEMIG foi o criterioso processo de contratação. Numa oportu­ nidade o governador Israel Pinheiro. des­ de seu início. Os padrões exigidos pelo Banco Mundial fizeram com que a CEMIG fosse obrigada a. A implantação da hidroelétrica de Itutinga teve uma história diversa. XX e XXI Figura 7 .

Figura 8 – Escavação do túnel de adução da hidroelétrica de Salto Grande 257 .

autarquia destinada ao desenvolvimento do vale do rio São Fran­ cisco. Tornovsky e os Popof. Ele conseguiu alguns poucos veteranos de outras empresas que operavam no Brasil como Mr. inclusive Vítor Cataldo que veio de Porto Rico organizar a operação e Mr. na Comissão do Vale do São Fran­ cisco CVSF. Leslie T. contraparente e amigo do governador Bias Fortes e ex-professor de muitos que compunham os quadros técnicos da CEMIG. por ser destinada a atender a demanda regional e principalmente socorrer centros de carga situados em outros estados estrangulados pelos efeitos do Código de Águas em empresas privadas do setor elétrico. em dezembro de 1948. Os primeiros estudos foram concluídos em 1952. foi de fundamental importância. John Cotrim e Flavio H. e a CEMIG se encarregou apenas da casa de força. Como o Israel queria se livrar do referido cidadão.Séculos XIX. indicou um engenheiro para contratação. Lucas Lopes.” Passado algum tempo o próprio Israel foi assediado por um cidadão que queria um emprego em qualquer lugar. presidente da CEMIG. Três Marias. contador inglês vindo da Light. A solução encontrada para a CEMIG foi a colocação do professor Cândido Holanda de Lima na presi­ dência uma vez que. John Cotrim pediu inicialmente que lhe enviassem o currículo do referi­ do engenheiro. essa companhia não vai funcionar nunca. Lyra começaram a trabalhar para viabilizar a hidro­ elétrica de Furnas.A História das Barragens no Brasil . pois na hora de desempatar a disputa por recursos. mas grande parte do pessoal veio de fora. Crowl que trouxe a disciplina financeira do TVA. cunha­ do do Juscelino e responsável por sua educação. assumiu o BNDE (hoje BNDES). tinha as condições de bom trânsito interna­ mente na empresa e externamente junto ao governo do estado. nome­ adamente a Light e as empresas do grupo AMFORP. XX e XXI diretor da empresa. posteriormente denominada SUVALE. Dificuldades iniciais existiram com a Comissão do Vale do São Francisco que queria gerenciar a obra civil e com ofertas de fabricantes despreparados para o fornecimento de equipamentos. A receita era insuficiente para os gastos da recém criada CEMIG. Schnaptis. Quando os esforços estavam direcionados para a conclusão das usinas de Salto Grande. Três Marias – A primeira grande obra Desde 1946 foram acentuadas as discussões sobre os problemas de controle das vazões do rio São Francisco que desembocaram na criação. Também vieram mais de dez russos após a revolução chinesa de 1949 como Alissof. A barragem de Três Marias deveria ter sido uma obra da SUVALE. Nessa época a atuação de Júlio Soares. A ferrenha oposição à implantação de Furnas fez com que o governo federal firmasse um acordo muito vantajoso com a CEMIG para a implantação de Três Marias pelo qual o governo federal custeou o reservatório e a obra civil. situada em uma área pobre de recursos naturais e com baixíssima ocupação demográfica. Smith. a única fonte de receita operacional vinha da venda de energia da usina de Gafa­ nhoto herdada do DAE. desempatava sempre a favor da CEMIG. Veio a posse do Juscelino como presidente da República e um natural esvaziamento da CEMIG com a drenagem de seus quadros para o governo federal. era um empreendimento simpático aos mineiros enquanto que Furnas. Israel comentou “Que bobagem é essa que o Cotrim está inventando?” Julio Soares explicou: “É o curriculum vitae. lembrou-se do ocorrido anteriormente e per­ guntou ao Júlio Soares: “Como é que se chama aquilo que o Cotrim pede quando não quer contratar alguém?” Cabia ao engenheiro Mauro Thibau a organização das equipes de operação das primeiras usinas. 258 . O governo federal passou a atuar no sentido de viabili­ zar dois grandes empreendimentos de geração com grandes reservatórios em Minas Gerais: Três Marias com objetivos de regularizar e melhorar as condições de navegabilidade do rio São Francisco e Furnas com objetivo de vir a ser o principal regularizador de todo rio Grande onde muitas hidroelétricas grandes viriam a se localizar. foi alvo de ferrenha oposição a partir do governo estadual.” Israel con­ cluiu: “Ah. Itutinga e Tronqueiras.

retirando com um cilindro na praça de compactação da barragem. Consta que o diretor técnico John Cotrim. diretor da Cemig. engenheiro da CVSF e Henrique Guatimosin. Embora o local de Três Marias fosse na época considerado remoto. e que havia expedido circular proibindo que veículos da empresa dessem carona.P. o vice-presidente da Cemig. Mário respondeu que estava fazendo o controle de compactação pelo método Hilf. um técnico de solos que posteriormente trabalhou no IPT e na Enge-Rio. ficou aguardando. Mario Penna Bhering. numa visita do presidente Juscelino ao canteiro de obra. vice-presidente da MorrisonKnudsen. o presidente da República. em construção. Em outra opor­ tunidade. Muitas horas depois Cotrim chegou na obra e mandou chamar o motorista do veículo que. Assis Scafa.” Para a implantação de Três Marias foi repetida a estrutura que teve excelente desempenho em Itutinga: o projeto pela IECO que insta­ lou um escritório em Belo Horizonte e a construção pela Morrison Knudsen. explicou o método. Cautelosamente ele se aproximou do técnico e. Da esquerda para a direita: o embaixador dos EUA no Brasil. teve seu carro danificado em uma das longas estradas não pavimentadas. este elogiou o motorista que havia cumprido o que determinava a circular apesar da difícil situação daquele que pedia carona e que ele não conhecia. tremia de medo. ao saber quem era o pretenso carona.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 9 – Visita presidencial às obras de Três Marias. Os principais equipamentos permanentes vieram da Voith e da Siemens da Alemanha e contribuíram decisivamente para 259 . superintendente de construções da Cemig Três Marias era obra estratégica para o governo federal e se situava a meio do caminho entre a então capital federal e a futura capital. Como ele sabia que uma viatura da CEMIG passaria por ali naquele dia. tido como nervoso e bravo. ele viu Mário. o superintendente da CVSF. Ao aparecer o veículo salvador levantando uma nuvem de poeira. novidade na época. o presidente da Cemig. os dirigentes da CEMIG lhe dispensavam toda atenção. Ao se apresentar ao Cotrim. ele começou a fazer sinais para que o veículo parasse. Juscelino não entendeu nada mas disse ao pé do ouvido: “A qualidade é importante mas não retarde a construção. Juscelino Kubitschek de Oliveira. Galdino Mendes. perguntou o que ele estava fazendo. em voz baixa. O veículo diminuiu a marcha mas não parou. no caminho para a obra. C. Cândido Hollanda de Lima. Júlio Soares. Shoeller.

Luiz Francisco Gualda Pereira. Marcou também a evolução da engenha­ ria geotécnica em obras de terra.Inauguração de Três Marias. Guy Vilella. Celso Melo de Azevedo. Roberto Fonseca. e principalmente nas usinas que se seguiram. Paulo do Val. a Ebasco de Nova Iorque efetuou um estudo dos recursos hidroenergéticos do esti­ rão de 33 km do rio Grande nas proximidades da cidade de Rifaina concluindo pela recomendação da implantação de uma hidroelétrica 260 . Archimedes Viola. resultante de concorrência internacional em que o fator financiamento e contrapartidas pesaram na decisão da concorrência.Séculos XIX. entre outros. da Sul-Mineira de Eletricidade e da Companhia Força e Luz de Minas Gerais. Construtoras nacionais passaram a ser con­ tratadas com uma única exceção: a construção da hidroelétrica de São Simão. nomeadamente Jaguara e Volta Grande. Mais tarde a CEMIG assumiu a área de concessão da Bragantina em território mineiro. seguidas das hidroelétricas no rio Paranaíba. A partir de Três Marias a CEMIG foi gradativamente passando a contratar consultoria nacional. vendo-se o presidente João Goulart. esta vinda do grupo AMFORP. O desvio do rio foi feito no término do governo Juscelino e a inauguração da usina pouco antes da revolução de 31 de março de 1964. XX e XXI Figura 10 . cooperativas de eletrificação rural e de empresas e Jaguara e Volta Grande. Três Marias marcou a transição da CEMIG na implantação de obras de porte modesto para grandes usinas e obras de grande vulto. em 25 de julho de 1962. Logo após dava início às hidroelétricas no rio Grande. Cássio Viotti. Sérgio Brito. este por estar em oposição a Trancredo Neves. que esses fabricantes posteriormente instalassem fábricas no Brasil. Paulo e Mario Mafra. começaram a aparecer as segunda e terceira gerações de engenhei­ ros e gestores nas quais despontaram nomes de projeção tais como. não sem dificuldades políticas pois a Bragantina apelou para congressistas ligados a Paulo Maluf e ao ministro Murilo Badaró da Indústria e Comércio. já com a CEMIG estabelecida como grande empresa.A História das Barragens no Brasil . Sorridentes na fotografia. José Augusto Pimen­ tel. Octávio Mello Areas. meses depois Magalhães participaria ativamente da deposição de Goulart usinas geradoras como as da Companhia Mineira de Eletricidade. acionando a chave de funcionamento da usina. Marcos Vasconcelos e Gilson de Almeida Furtado e muitos outros. Em Três Marias. o governador José de Magalhães Pinto e o presidente da Cemig. importantes passos no rio Grande Sob encomenda da Companhia Geral de Minas. Vinício Noce de Magalhães Gomes. São Simão e Emborcação. Licínio Marcelo Seabra. José Maria Baptista. ocorreram incorporações de pequenas usinas. além dos mais novos colaboradores do CBDB como Ricardo Aguiar Magalhães. Wellington Sebastião Jacarandá. Pouco após essa época.

em 1964. governador de Minas Gerais que veio a ser confirmada pelo inventário da Canambra realizado a partir de 1963 e confirmada pelo Comitê Energético da Re­ gião Centro-Sul. Coube inicialmente à CEMIG a hidroelétrica de Volta Grande com 27. e Israel Pinheiro.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 11 – Usina hidroelétrica de Jaguara Figura 12 – Inauguração da usina de Jaguara. A necessidade de deslocamento do eixo para montante por motivos geológicos em sua fundação demandou tempo para tomada de decisão e ocasionou importante retardo no cronograma inicial de construção. Sua segunda hidroelétrica com capacidade acima de 600 MW propiciou à CEMIG importante desenvolvimento nos campos de barragens de enrocamento com núcleo de terra e de mecânica de rochas.50m de queda bruta como recomendada pelos estudos de inventário hidroenergéticos feitos pela Canambra em 1966. A construção foi iniciada pela Mendes Jr em 1966 e. presidente da Cemig. No início de 1969 foi assinado com o consórcio TAMS/ENGEVIX o contrato para desenvolvimento do projeto 261 . a primeira unidade entrou em operação. Em primeiro plano Mario Bhering. No estirão do rio Grande entre Jaguara e as cachoeiras Dos Patos e Das Andorinhas (local da antiga e da nova hidroelétrica de Marim­ bondo) não havia nenhuma concentração de queda natural no rio Grande. O projeto foi contratado à Eletroprojetos/ Eletrowatt associada à Geotécnica. A queda nesse trecho do rio Grande foi dividida em três locais com quedas brutas modestas. em 1971.

A História das Barragens no Brasil .Séculos XIX. XX e XXI Figura 13 – Usina hidroelétrica de Volta Grande 262 .

cujo enchimento foi iniciado em novembro de 1973 e de Porto Colômbia (1. As consequências na cidade foram pequenas e os tremores não se repetiram desde então. Esse local não passou desapercebido no inventário da Canambra e resul­ tou na hidroelétrica de São Simão com capacidade instalada de 1608 MW na primeira etapa (projetada capacidade de 2680 MW na segunda etapa). cujo enchimento foi iniciado em junho de 1973.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 14 . se constituiu em excelente local para implantação econô­ mica de hidroelétrica de elevada capacidade instalada. Os primeiros levantamentos de campo visando a implantação de uma hidroelétrica foram efetuados a partir de 1960 pela Comissão da hidroelétrica de Volta Grande e no início de 1970 começou a construção pela Mendes Jr. O reservatório com área de 674 km² demandou a relocação das cidades de São Simão e Paranaiguara. 263 . As unidades geradoras entraram em operação entre julho de 1974 e agosto de 1975. além das vilas de Chaveslândia e Gouveilândia. Pela primeira vez a CEMIG ultrapassou os 1000 MW instalados em uma única casa de força.Assinatura de contrato de financiamento com o Banco Mundial. totalizando 380 MW. com importante operação de reassentamento populacional. No dia 24 de fevereiro de 1974 foi sentido na cidade de Conceição das Alagoas pouco ao norte dos dois reservatórios um sismo de intensidade VIII na escala Mercalli modificada. de im­ pressionante riqueza cênica pelo fato do rio Paranaíba despencar em saltos verticais pelos dois lados de longa fenda longitudinal em seu leito.17x109 m³). em 14 de junho de 1972 A conquista do rio Paranaíba: as hidroelétricas de São Simão e Emborcação O local das quedas conhecidas como Canal de São Simão. Poucos problemas ocorreram na construção. na cidade de Washington. podendo ser citadas as erosões nos blocos de impacto da bacia de dissipação e a ocorrência de sismos induzidos pelos reservatórios de Volta Grande (2.5x109 m³). Tremores se seguiram nos últimos dias de fevereiro e no início de março. Esse foi o maior sismo induzido por reservatórios no Brasil. para a construção da usina hidroelétrica de São Simão.

a segunda é do Bradesco. A pressão sobre a diretoria da CEMIG foi grande. se realmente existiam. Foi necessário grande esforço para captar recursos externos para equi­ pamentos e para a obra civil. Um dos mais ferrenhos argüidores foi o deputado Sylo Costa disse que a CR Almeida não tinha referências bancárias. em 14 de junho de 1973 Interestadual da Bacia do Paraná-Uruguai CIBPU. XX e XXI Figura 15 . Camilo Penna. São Simão era um empreendimento gigantesco para a CEMIG.O governador Rondon Pacheco e o presidente da Cemig. construtora italiana.. a quarta é do Banco Real. Em 1970 foi assinado o contrato com o consórcio projetista composto pela IECO e sua filial brasileira. Paulo Lyra. Em depoimento ao Congresso Nacional o presidente da CEMIG foi argüido por horas. Interessante realçar que dias depois da abertura das propostas.”. teriam sido dadas por um “banquinho vagabundo”. apresentando toda documentação: “a primeira referência é do Banco do Brasil. A concorrência foi vencida pela Impregilo. Por mais de duas vezes o Camilo Penna desconversou. 264 . Em 1969 a CEMIG desenvolveu estudos visando a obtenção da concessão. Nessa hora Camilo Penna solicita a Licínio Marcelo Seabra que mostre as garantias. Camilo Penna disse que a CEMIG sempre pedia em suas concor­ rências referências bancárias dos concorrentes. em consórcio com a CR Almeida. Camilo Penna por estar escondendo documentos que são solicitados”. Seu investimento era equivalente a todo capital da CEMIG.. O Banco Mundial foi inflexível e a CEMIG teve que reconhecer a Impregilo/CR Almeida como vencedora. Isso gerou muita reclamação das empreiteiras nacionais. Licínio começou. o presidente do Banco Central.. mas o deputado irado pros­ seguia pedindo as referências e afirmou “denuncio o Sr. a terceira é do Banco Nacional. ao valorizar o Cruzado aumentou a diferença a favor da Impregilo/CR Almeida. tendo a Mendes Júnior em segundo lugar com uma diferença de apenas cerca de 2%. assinam o contrato com a Impregilo para a construção das obras civis da usina hidroelétrica de São Simão.A História das Barragens no Brasil . O referido deputado insistiu várias vezes e Camilo Penna desconversava até que o depu­ tado repetiu a afirmação de que as referências. Estes vieram de financiamento do Banco Mundial que exigiu uma concorrência internacional.Séculos XIX.

João Camilo Penna afirmou que “Da luta por Estreito a CEMIG ganhou Jaguara e depois ganhou Volta Grande. São Simão conferiu à CEMIG nova importante ampliação em sua escala de obras civis e principalmente em equipamentos permanentes. Cadman que havia trabalhado na CEMIG quando da realização do inventário da Canambra. Pimentel. E tanto lutamos por Marimbondo que acabamos ganhando São Simão. Retorno às hidroelétricas de porte médio Após São Simão e Emborcação a CEMIG passou a implantar hidroelétricas de porte médio em território mineiro. contratou a Construtora Andrade Gutierrez que construiu a usina de Emborcação entre 1977 e 1982.” O País atravessava a segunda metade dos anos setenta com dificuldades econômicas geradas a partir do primeiro choque do petróleo (1973). Entretanto. John D. Igarapava 265 . voltou a perder quadros técnicos com a instituição da Eletronorte. O rio Grande. por exemplo. Outro erro dessa época foi. A hi­ droelétrica de Emborcação se caracteriza pela alta barragem de enrocamento com núcleo de terra. O governo Figueiredo passou a se interessar intensamente por obtenção de empréstimos externos o que endividou as estatais federais. Cachoeira Dourada e Itumbiara.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Em junho de 1973 o consórcio construtor composto pela Impregilo e a CR Almeida foi contratado para a execução das obras civis. João Eduardo de Moura Guido. o de ligar a rentabilidade das empresas de energia elétrica ao esquema de tarifa única. tendo que transferir recursos através da Reserva Global de Garantia. com a obra sendo iniciada dois meses depois. Desde 1976 as tarifas passaram a ser manipuladas pelo governo federal longe do princípio de serviço pelo custo. Naquela época a disputa por concessões era intensa entre as prin­ cipais empresas do setor elétrico que se concentravam na Região Sudeste. Figura 16 . desvio e adução subterrânea e capacidade de 1192 MW. desde o governo Geisel. Em junho de 1978 a primeira unidade entrou em operação comercial após cinco anos de construção. Érico Bitencourt entre outros. em seu trecho inferior dividia os estados de Minas Gerais e São Paulo. foi ao longo do início da obra de São Simão que a CEMIG. onde havia empresas importantes na geração de energia elétrica. o que penalizou a CEMIG como empresa de elevada eficiência. Inicialmente relegado a um segundo plano por causa de sua baixa queda e potência inferior a de outros aproveitamentos. presidente da Cemig na época da usina hidroelétrica São Simão Dentro dessas perspectivas sombrias para o setor elétrico. que havia sofrido uma sangria de recursos humanos quando da formação de Furnas. O aproveitamento de Igarapava havia sido identificado pela COBAST em 1960 e reavaliado pela Canambra em 1964/1965. Nessa ocasião foram da CEMIG para a Eletronorte os engenheiros Dário Gomes. a CEMIG que havia contratado a TAMS em 1976 para projetar a hidroelétrica de Emborcação a partir dos estudos de inventário da Canambra no rio Paranaíba a montante de São Simão.João Camilo Penna. estando também na área de Furnas. também foi da UFRJ para a Eletronorte levando consigo o geólogo Homero Teixeira.

266 . teve o aprofundamen ­ to técnico inicial em 1985 pelo consórcio Leme-EPC. sob a coordenação de José Turco Neto e a liderança técnica de Joaquim Pimenta de Ávila. a Enge-Rio desen­ volveu o estudo de viabilidade com aplicação de unidades bulbo. entrou em operação no final de 1988 e passou a ser referência para outros projetos posteriores de usinas de baixa queda. Morro Velho e Cia Mineira de Metais). A usina. Em 1985. por carência de recursos. CSN. No final de 1987 a IESA foi contratada para o desenvolvi­ mento do projeto mas. A partir de 1986 a IESA foi contratada para o desenvolvimento do projeto e em 1995 a Queiroz Galvão iniciou a construção.A História das Barragens no Brasil . tendo conseguido viabilizar o até então “patinho feio” do rio Grande. com quatro unidades bulbo de 40 MW cada sob a queda bruta de 17m. afluente do rio Paranaíba. Também identificada pela Canambra. a construção só foi iniciada em 1987 pela CNO após a CEMIG se associar outros inves­ tidores (Vale. XX e XXI Figura 17 – Usina hidroelétrica de Emborcação foi o último aproveitamento a ser desenvolvido no baixo rio Grande.5 MW cada entraram em operação.Séculos XIX. a usina de Miranda no rio Araguari. Durante o ano de 1998 as três unidades Francis de 132.

em 1991. Em 1971 a CEMIG encaminhou ao DNAEE relatório de pré-via­ bilidade. no que se refere à asso­ ciação com outros investidores. Após 20 anos. A primeira das três unidades geradoras Kaplan entrou em operação em fevereiro de 2006. o local foi adotado pelos estudos da Canambra nos anos sessenta. Já nos anos 2000 foi formado o consórcio construtor composto que teve como projetista a SPEC que alterou o projeto adotando uma barragem de terra com­ pactada. frutificou também em Funil do rio Grande. a Cemig e a Vale implantaram a hidroelétrica de Aimorés denominada Elie­ zer Batista em homenagem ao engenheiro que fez carreira na Vale atingindo a sua presidência e exercendo cargos públicos de relevância política no cenário federal. túnel de desvio e estruturas de concreto situadas na margem direita. O baixo rio Doce envolvendo Figura 18 – Usina hidroelétrica de Igarapava 267 . Esses estudos foram complementados em 1996 indicando uma barragem em concreto compactado com rolo. A capacidade instalada da usina é 180 MW. Vale e CEMIG se associaram para a implantação da hidroelétrica de Funil situada no rio Grande. os estudos foram retomados. Após reconheci­ mento preliminar executado pela IECO em 1955.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens O exemplo das hidroelétricas anteriores. como construtor foi contratada a Servix/Mendes Jr. Prosseguindo com a associação bem sucedida com a Vale.

XX e XXI Figura 19 .Guy Maria Villela Paschoal. no rio Grande Figura 22 – Usina hidroelétrica de Irapé 268 .A História das Barragens no Brasil . ex-presidente da Cemig Figura 20 – Usina hidroelétrica de Miranda Figura 21 – Usina hidroelétrica de Funil.Séculos XIX.

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Mario Penna Bhering. Aparecem na fotografia o presidente da Cemig.Séculos XIX.A História das Barragens no Brasil . com a presença de ex-presidentes e do atual presidente da Cemig. no momento simbólico de acionamento das unidades geradoras. Djalma Bastos de Morais. o governador Aécio Neves. a filha de Juscelino Kubitschek. Wilson Bruner Figura 24 .Solenidade de entrega da “Medalha Lucas Lopes” à família de Licínio Seabra. Djalma Bastos de Moraes. Maristela Kubitschek Lopes e o presidente do conselho de administração da Cemig. Francisco Afonso Noronha e Guy Maria Villela Paschoal 270 . João Camilo Penna. XX e XXI Figura 23 . realizada na Sociedade Mineira dos Engenheiros – SME.Inauguração da Usina de Irapé. Hidroelétrica Presidente Juscelino Kubitschek. no dia 22 de fevereiro de 2001. Da esquerda para a direita: Celso Mello de Azevedo. no dia 8 de junho de 2006.

Implantada em uma das regiões mais carentes do Estado de Minas Gerais. os da Monasa para a CEMIG e Vale em 1992 e finalmente os da Promon SPEC em 1997 para a CEMIG que resultaram no projeto executivo da SPEC. os da Themag/Montreal no mesmo período para a Portobrás. funcional e social. A implantação dessa usina fez jus ao prêmio Puente de Alcántara que a cada dois anos é entregue a obras que congreguem grande importância cultural. os da CEMIG entre 1975 e 1980. A constru­ ção foi feita pela Queiroz Galvão e a primeira unidade entrou em operação em fevereiro de 2006. a CEMIG ultra­ passou as fronteiras do Estado de Minas Gerais com importantes participações em grandes empreendimentos como sua participação de 10% no aproveitamento hidroelétrico de Santo Antônio no rio Madeira. Essa derivação per­ mite o aproveitamento de uma queda bruta de 26. os da Canambra a partir de 1964. estética. área que supera em quatro vezes a área ocupada pelo reservatório. tradicional e importante empresa do setor elétrico no Estado do Rio de Janeiro. Todos esses estudos e projetos revelam que a concepção da hidroelétrica sofreu grandes alterações ao longo do tempo em função das interferências e dos impactos sócio-ambientais com a cidade de Aimorés e com a fer­ rovia da Vale. tecnológica. . Ao final desse meio século de intensas atividades. Em 2002 a CEMIG iniciou a construção da usina de Irapé no vale do Jequitinhonha com projeto Leme/ Intertechne e construção Andrade Gutierrez/CNO.9m resultando em três unidades geradoras Kaplan com 110 MW cada. a hidroelétrica de Irapé representou um investimento de cerca de R$ 1 bilhão dos quais R$ 250 milhões foram destinados a programas sócio-ambientais. tendo vindo ter grande participação na Light. A barragem de enrocamento com nú­ cleo de terra com 208m de altura é a mais alta do País e a segunda mais alta da América Latina. As 638 famílias que ocupavam a área da hidroelétrica foram reassentadas em proprie­ dades que ocupam sessenta mil hectares.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens o local de Aimorés foi alvo de diversos estudos sendo os principais os da Servix em 1963/1964. implicando em derivação das descargas por vales laterais situados na margem esquerda do rio. os da IESA para a Eletrobras entre 1985 e 1989.

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º 328. seguida pelas hidroelétricas de Ernestina. bem como inte­ grar esforços para a eletrificação dos municípios riograndenses através do Plano de Eletrificação do Estado. totalmente projetada e construída pela Companhia. condutos forçados.520 kW) Usina hidroelétrica de Itauba. pertencen­ tes aos municípios e empresas privadas. Andorinhas e Herval. casa de força e subestação 273 . elas foram basicamente repassadas para a CEEE. Guaporé. vinculada à Secretaria de Estado dos Negócios e Obras Públicas com a finalidade de prever e sistematizar. Vertedouro. anteriores à formação da CEEE. Forquilha. com a participação do DNOS.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Companhia Estadual de Energia Elétrica do Rio Grande do Sul .Barragem Capingui no rio do mesmo nome (2. vinculada à hidroeletricidade. a usina do Passo do Inferno. Santa Rosa e Guari­ ta. estando. era inaugurada a primeira unidade geradora de energia elétrica da Companhia. sendo assumidos seus passivos e encargos trabalhistas. Figura 1 . Em 1948.CEEE Lúcia Wilhelm Véras de Miranda A história da Companhia Estadual de Energia Elétrica do Rio Gran­ de do Sul se apresenta em cinco principais períodos. projetista nesse período. construídas pelo DNOS ou empresas privadas. Saltinho. Picada 48. acompanhado dos engenheiros Primeiro período: A CEEE como Comissão Estadual de Energia Elétrica Criada em 1º de fevereiro de 1943 através do decreto lei n. Pirapó. foram encampadas pelo valor histórico menos a depreciação. Bugres. que acompanhou a história da CEEE até a sua gestão como diretor de obras no período de 1965 a 1970. Como se tratava de unidades antigas. tomada d’água. como Inglês. Iniciava uma vida profissional talentosa o engenheiro Pedro Holtermann Netto. o aproveitamento dos potenciais hidráuli­ cos e carboníferos para a produção de energia. Seriam seguidas por Ijuizinho. a termoelétrica de São Jerônimo e a usina Diesel de Porto Alegre. Canastra. desde o seu início. Ivaí. em plano geral elaborado para todo o estado. Touros. lançado em 1945. As hidroelétricas construídas no estado. Toca. Capingui.

pela Lei n. tendo cada vez mais importância devido ao seu crescimento. apresen­ tara ao Coronel Osvaldo Cordeiro de Farias. José Loureiro da Silva. Segundo período: A CEEE como autarquia Em 20 de fevereiro de 1952. É neste período que começam a se materializar as intenções da comunidade gaúcha de agregar à CEEE esses serviços. primeiro presidente da CEEE quando assinava o contrato da usina hidroelétrica Jacuí 274 .Séculos XIX. Participou ativamente de todas as obras relacionadas à hidroeletricidade da CEEE. Já em 1939 o então Prefeito de Porto Alegre. Dietrisch Kuhlmann. continuou atuando como projetista de hidroelétricas. quando foi diretor de obras. da energia necessária para o atendimento do seu mercado. Heinrich Kotzien e Silvio Freitas. Após essa data.Noé de Melo Freitas. Mario Lanes Cunha. Interventor Federal no governo do estado. atuando inclusive em Tucuruí. um empréstimo con­ cretizado por parte do BNDE permitiu o desenvolvimento de projetos diferenciados. e logo formado. a CEEE foi conver­ tida em autarquia. em 1948.   Jorge Ernesto Dreher.especialmente entre os anos de 1965 e 1970. em valores da época de 30 milhões de dólares não foi viabilizado. A foto foi tirada em 23 de julho 2011 em sua residência. A disponibilidade de um empréstimo do Banco Mundial arquite­ tada por Assis Chateaubriant.A História das Barragens no Brasil . XX e XXI Figura 2 – Engenheiro Pedro Holtermann Netto iniciou sua atividade profissional como estagiário da CEEE. como engenheiro civil. No entanto. que era basicamente Porto Alegre.º 1744. de capital americano. pois já no ano de 1950 a CEEE supria a Companhia de Energia Elétrica Rio Grandense – CEERG. um estudo sobre os contratos de concessão Figura 3 .

Noé de Mello Freitas.  O engenheiro-chefe da CEEE.  destinada a projetar. Bugres e Canastra. os bens da CEERG. em 1965 o governo federal passou a estatizar os serviços de energia elétrica. havia a discutível alteração de valores de tarifas nos contratos. assim discriminadas: 1 .900 autorizando o poder executivo a reestruturar societariamente e patrimonialmen­ te a CEEE. que é a Companhia Estadual de Energia Elétrica. como o setor elétrico. com túnel de importante valor técnico para a época.466 assinado pelo então governador Leonel Brizola. a Companhia de Geração Hídri­ ca de Energia Elétrica e a Companhia de Geração Térmica de Energia Elétrica. O modelo adotado desenvolveu-se sob a égide das empresas multinacionais e do setor produtivo estatal. controladas ou subsidiárias. Em 26 de dezembro de 1996 a lei estadual n. Somado a isso. acontece a Revolução de 1964. No ano de 1957 inicia-se o processo de encampação. sendo que em 11 de maio de 1959. a Companhia Centro-Oeste de Distribuição de Energia Elétrica e a Companhia Norte-Nordeste de Distribuição de Energia Elétrica. com tubulação adutora de 7 km. No dia 21 de outubro de 1997 ocorreu o leilão na sede da FIERGS. Terceiro período: a CEEE como sociedade de economia mista Na década de 60 ocorreram profundas mudanças no setor elé­ trico em âmbito nacional.136 de 13. 3 . construir e explorar sistemas de produção. a Companhia Sul-Sudeste de Distribuição de Energia Elétrica. Com o objetivo de melhorar a infra-estrutura para o desenvolvimento na­ cional. em docu­ mento enviado ao secretário de obras públicas do estado.duas sociedades anônimas de geração de energia elétrica. começaram a ser privatizados. determinando a forma­ 275 .uma sociedade anônima de transmissão de energia elétrica. 2 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens dos serviços públicos de energia elétrica com a CEERG.três sociedades anônimas de distribuição de energia elétrica. passando a denominar-se Companhia Estadual de Energia Elétrica – CEEE. Foram criados o Ministério das Minas e Energia e a Eletrobras. ção de um novo pacto político com a participação preponderante dos militares. pois já no ano de 1945 se pronunciava a respeito da encampação. A CEEE viabilizava a construção de obras relevantes como as hidroelé­ tricas de Ernestina. extinção. transmissão e distribuição de energia elétrica no estado. a qual foi efetivamente criada  em 19 de dezembro de 1963. 4 . Walter Jobim.uma sociedade controladora (holding) das sociedades de energia elétrica.º 10. sacramentava-se a en­ campação de contratos de concessão e declarava-se de utilidade pública. Quarto período: a privatização Nos anos 90 setores antes considerados estratégicos para a economia.09. através de cisão. sob controle acionário do Estado do Rio Grande do Sul.º 4. fusão. podendo criar sociedades coligadas. incorporação. Em 1961 o então governador Leonel de Moura Brizola foi autoriza­ do a criar uma sociedade por ações para os serviços de eletricidade. Na década de setenta as concessionárias do setor de energia elétrica passaram a ter capital nacional. Foi então discutida a encampação dos serviços de energia elétrica prestados pela CEERG. transformação. redução ou aumento de capital ou a combinação destes instrumentos.1961. a Companhia Transmissora de Energia Elétrica. através do decreto n. Um ano após a transformação da CEEE em sociedade de econo­ mia mista. para fins de desapropriação. através da lei estadual n. no qual a Companhia Centro-Oeste de Distribuição de Energia Elétrica e a Companhia Norte-Nordeste de Distribuição de Energia Elétrica foram adquiridas por capital privado. que passou a ser considerado bem pú­ blico e promotor do desenvolvimento nacional. desempenhou um papel fundamental neste processo.º 10. A Centro-Oeste foi vendida à AES Guaíba Empreendimentos e a Norte-Nordeste foi adquirida pelo consórcio formado pela VBC (Votorantim. e Maia Filho.

No final de 2004.º 10. mediante altera­ ção de sua denominação e constituição de duas outras sociedades.2006. possuia na mesma empre­ sa atividades de distribuição.2% dos lares urbanos e 84% das economias rurais abastecidos com energia elétrica. no mínimo. exigida pela legislação federal.593. para separar a distribuidora de energia das demais.CEEE-Par. A Centro-Oeste alterou sua razão social para AES Sul Distribuidora Gaúcha de Energia S/A e a Norte-Nordeste passou à denomina­ ção de Rio Grande Energia S/A. através de uma assembléia geral de constituição.CEEE-GT. Previ (fundo de pensão dos fun­ cionários do Banco do Brasil) e Community Energy Alternatives.A História das Barragens no Brasil . Nesta ocasião. foram eleitos os conselheiros de administração e fiscalização da companhia. Em seus dispositivos a Lei proíbe que uma empresa de distribuição de energia exerça atividades de geração.CEEE-D -.CEEE . O modelo societário adotado compreendeu a criação de uma empresa holding com duas subsidiárias. dois terços da área de Distribuição deixaram de pertencer à CEEE.º 12. A ANEEL. anteriormente citada. transmissão e venda de energia a consumi­ dores livres. a Diretoria da CEEE aprovou  os organogramas iniciais para a CEEE-Par. uma vez que a data-limite ini­ cial para a adequação da empresa ao novo modelo expirou em 15. mais uma empresa. Em 13 de setembro de 2006. para ajustá-la ao disposto na Lei Federal n. Uma vez que a CEEE era uma empresa verticalizada. transmissão e venda de energia a consumidores livres. a necessidade de realização de plebiscito ou de alterações na Constituição Estadual e de promulgação de Lei Esta­ dual específica. com a finalidade de segregar as ativi­ dades de distribuição de energia elétrica das demais atividades por ela exercidas. fa­ zendo com que o estado alcançasse um dos mais altos índices de eletrificação rural do país. rogação de prazo à ANEEL.848. autorizando o Poder Executivo a promover a re­ estruturação societária e patrimonial da Companhia Estadual de Energia Elétrica . a CEEE procedeu à contratação de consultoria para indicar alternativas para a desverticalização da empresa. Desta forma. a Assembléia Legislativa aprovou a Lei n. ou seja.para Companhia Estadual de Geração e Transmissão de Energia Elétrica . controlada. deno­ minada Companhia Estadual de Energia Elétrica Participações . a qual será controladora das duas sociedades referidas nos itens seguintes. atendendo aos argumentos apresentados pela CEEE concedeu a prorrogação solicitada até 30. de distribuição de energia elétrica. XX e XXI Bradesco e Camargo Correa). assim discriminadas: a) constituição de uma sociedade por ações holding. A CEEE havia chegado. de 15 de março de 2004. a CEEE-Par foi declarada formalmente constituída. com 99. geração.  Em 26 de outubro de 2006. Quinto período: a desverticalização Em 15 de março de 2004 foram aprovadas pelo Congresso Nacional novas regras para o setor elétrico brasileiro. fato que levou a CEEE a solicitar pror­ 276 . a segregação da atividade de distribuição. a qual será resultante da cisão parcial da atual Companhia Estadual de Energia Elétrica . em espe­ cial. CEEE-GT e CEEE-D. ela teve que desverticalizar-se.6. data limite para a cisão. denominada Companhia Estadual de Distribuição de Energia Elétrica . b) alteração da denominação da atual Companhia Estadual de Energia Elétrica . entretan­ to. Para viabilizar a adequação societária da companhia à legis­ lação federal e implantar o modelo proposto havia.09. c) constituição de uma sociedade por ações.CEEE. Em 20 de outubro de 2006.Séculos XIX.2005.CEEE. dentre outras restrições. permanecendo o Governo do Estado do Rio Grande do Sul com o controle acionário das empresas oriundas do processo de reestruturação. em 1997. criando. para adequar-se à lei.

houve a participação consultiva do engenheiro Casemiro Munarski.850 m de barramento. As hidroelétricas no plano de eletrificação do estado Em 1824 chegaram ao Rio Grande do Sul os primeiros colonos alemães e da mesma forma os italianos em 1874. criando o maior lago artificial do estado através dos 3. não somente sob o ponto de vista técnico. A etapa seguinte do Plano de Eletrificação trouxe as hidroelétri­ cas do Jacuí. com o objetivo de ressarcir e compartilhar o exercício de ativi­ dades comuns e de apoio necessárias à consecução dos seus respectivos objetos sociais. Forquilha e Ijuizinho. Passo Real foi o segundo aproveitamento do rio Jacuí. Os estudos de viabilidade técnico-econômica da usina hidroelétrica de Itaúba foram iniciados em 1969. Na fronteira. Em 1° de dezembro de 2006 foi assinado um termo de com­ promisso e cooperação entre a CEEE-GT e a CEEE-D. como princi­ palmente de potencialidade econômica das zonas de influência de cada usina. do endereço da sede social e objeto social. Pirapó. Sendo então anunciado em 1945 o Plano de Eletrificação. tendo como base dados hidrológicos desde o ano de 1917. que tolhia o desenvolvimento econômico do Rio Grande do Sul. Na transformação de povo pastoril para povo agrícola e industrial. assim como de inúmeros pequenos estabelecimentos fabris completavam a feliz diversidade de atividades econômicas que asseguravam o progresso da região. através de uma assembléia geral extraordiná­ ria de acionistas. Touros. que se constituiriam em centrais destinadas a abastecer as zonas de maior densidade demográfica. o braço do colono foi sua força propulsora. foi aprovada a mudança de denominação social da CEEE para Companhia Estadual de Geração e Transmissão de Energia Elétrica – CEEE-GT. enquanto já estavam sendo construídas. ocorreu a constituição formal da Companhia de Distribuição de Energia Elétrica – CEEE-D. ficando estabele­ cido que a companhia deveria iniciar as atividades previstas em seu objeto social a partir do dia 1. Preocupados com a falta de energia. As obras tiveram início em 1972 e a operação comercial ocorreu em 1978. com a conseqüente alteração do estatuto social. Na mesma assembléia. Canastra. pois ali se localizava a bacia carbonífera. Assim vieram as hidroelétricas de Passo do Inferno. conjugando-os a usinas termoelétricas a vapor. Com o advento da república entrou o Rio Grande do Sul na fase da industrialização. colonizada por ale­ mães e italianos. Ivaí. Todos os projetos hidroelétricos foram feitos. assim como a maior produção agrícola. Na Colônia Nova a noroeste do estado se desenvolviam a opulen­ ta riqueza madeireira e o desenvolvimento das serrarias. Saltinho. O prazo de vigência deste ter­ mo é de dois anos a partir da data de sua assinatura. Na Zona Central encontravam-se as indústrias transformativas. engenhos de farinha.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Em 27 de novembro. poden­ do ser prorrogado por até igual período ou rescindido de comum acordo entre as empresas. resolveu o governo do estado estudar o aproveitamento racional de seus potenciais hidráulicos. ou estavam construídas. as hidroe­ létricas dos Bugres. Forquilha e o segundo grupo de Capingui. Na década de 60 foi dado o início da operação da usina hidroe­ létrica do Jacuí e gerado o projeto da usina de Passo Real. em etapa inicial de urgência.º de dezembro de 2006. também criador da cadeira de mecânica dos solos na Universidade do Rio Grande do Sul. a industrialização da carne era feita nos grandes frigo­ ríficos. O estudo das diversas centrais foi baseado em investigações cui­ dadosas. Na Colônia Antiga do norte do estado. 277 . a atividade relacionada com a suinocultura e laticínio demandava energia. colaborando com o seu conhecimento em barragens de terra. Guarita. Ernestina. Capingui e Santa Rosa. Nesse período.

Barragem Dona Francisca em concreto compactado com rolo. XX e XXI Figura 4 .Usina hidroelétrica de Itaúba Figura 5 .A História das Barragens no Brasil . no rio Jacui 278 .Séculos XIX.

As cortinas possuem protensão nas A barragem de Ernestina e sua concepção original. quando a CEEE obteve a concessão para implantar a usina. Através de convênio firmado entre CEEE e o extinto DNOS.Vertedouro da barragem de Ernestina antes das obras de reforço Figura 7 . 145.75 m de Figura 6 . A barragem de Ernestina foi originalmente concebida como bar­ ragem de gravidade. a quem coube realizar a correspondente con­ corrência. extensão compreendendo trecho retilíneo na região das comportas e tomada d’água. – DFESA. A barragem foi concebida com extensão de 400 m e altura de 14. Para ga­ rantir a estabilidade externa essa estrutura é atirantada por uma linha de cabos verticais ancorados na rocha 4 metros abaixo do embutimento em concreto.A. com eixo curvo. em 1995.25 m de trecho retilíneo sem vertedores e 46 m de ombreira esquerda. Segundo o memorial descritivo da obra. No final da década de 1990. No seu comprimento. o sistema estrutural foi concebido de forma a ter-se toda a estrutura em concreto protendido. 65. alternativa escolhida em substituição ao projeto original do tipo enrocamento com núcleo de argila. e a possibilidade de formação de consórcios. a construção da usina se viabilizou. tem-se 44 m na ombreira direita.Grandense. O consórcio entre a filial brasileira das Estacas Franki e empresa Campenon Bernard francesa foi o vencedor da licitação.Vertedouro da barragem de Ernestina antes das obras de reforço 279 . ao norte do Estado do Rio Grande do Sul. um projeto único no mundo A barragem de Ernestina sobre o Rio Jacuí está localizada no atual município de Tio Hugo. a execução do projeto ficou a cargo deste segundo. 99 m em curva. Na variante apresentada pelo consórcio contratado. com a permissão de parceria com in­ vestidores privados por meio de lei.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A história do empreendimento de Dona Francisca iniciou em 1980.32 m. O grupo investidor deu origem à Dona Francisca Energética S. no Planalto Rio .50 m de largura também protendidos que são independentes. mediados por pilares com 1. A barragem foi construída em concreto compacta­ do com rolo. a barragem é configurada por cortinas protendidas com cabos curvos com painéis de 15 m de largura.

qualidade do concreto e dos agregados. já que eram consultores associados à Campenon Bernard. Figura 8 – Planta da barragem e seção típica do vertedouro Figura 9 – Seções transversais típicas dos pilares do vertedouro da barragem de Ernestina. detalhando o estado da prática na épo­ ca da construção. alguns estudos foram elaborados.00 m por medida de segurança. XX e XXI duas direções: na direção vertical para resistir aos principais esfor­ ços e na direção transversal para garantir comportamento uniforme sem fissuração. a fim de elucidá-las. a sistemática do atiran ­ tamento dos cabos verticais na rocha adotados assim como os cabos transversais e as cabeças de ancoragem. várias dúvi­ das quanto à estabilidade estrutural da barragem de Ernestina foram levantadas e. mesmo estimando a relaxação dos cabos de protensão e as acomodações por fluência e retração do concreto após 40 anos de construção. foi realizada uma reavaliação do projeto estrutural original concluindo que nenhuma tensão de tração deveria ser esperada para as cortinas ou pilares. O laudo consistiu na recuperação dos documentos de projeto originais. iniciado em 1954. Em 1963 foram instalados clinômetros junto aos pilares para co­ nhecimento dos deslocamentos e. a CEEE contratou a execução de um completo lau­ do técnico de avaliação da estrutura da barragem de Ernes­ tina. O reservatório passou a ser operado com rebaixamento de 1. com a posição dos cabos de protensão 280 . Ao que tudo indica. o sistema de protensão empregado. coordenado pelo engenheiro Marco Aurélio Azambuja. O trabalho apresentou as estruturas pro­ tendidas em barragens. à semelhança de uma laje armada em duas direções. realizado pela empresa gaucha Azambuja Engenharia e Geotécnica. Seguiu-se a apresentação do sistema de injeção dos cabos de proten­ são.Séculos XIX. na década de 90. Durante o seu período de operação. a própria equipe de Eugéne Freyssinet foi responsável pela elaboração do projeto.A História das Barragens no Brasil . geologia e geotecnia da região de Ernestina. os fios de aço empregados em cabos. a corrosão dos cabos de protensão e suas consequ­ ências. Foi sugerido que fosse realizado monitoramento das vibrações para verificar o risco de amplificação dinâmica. Em 2008.

A condição de ancoragem dos tirantes na rocha sugeria uma grande vulnerabilidade à corrosão. Da mesma for ma. sendo possível muitos desses cabos já tivessem se rompido ou viriam a fazê-lo brevemente. Ao final do estudo foram apresentadas as informações que con­ cluiam estar Ernestina no final de sua vida útil.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 10 . restauração e reforço. utilizando o paramento existente apenas como paramento de veda­ ção. A solução adotada para reforçar a barragem fora da região do vertedouro foi a construção Figura 11 – Fundação da barragem 281 . à semelhança de uma barragem convencional de enrocamento com face de concreto. exigindo intervenções de manutenção. A solução para o reforço do vertedouro foi a transformação do mesmo em um maciço de concreto gra­ vidade com perfil Creager. Com a estabilidade crítica para excitações dinâmicas. a estrutura poderia entrar em ressonância com o galgamento dos vertedores. sendo previstas fraturas na face de montante. Assim. prova de carga dinâmica e verificação estrutural. com a posição dos cabos de protensão de um maciço de enrocamento reforçado com grelhas metálicas. As condições de ve­ dação das cabeças de ancoragem e a presença de fluxo d’água nos bicos de injeção denunciavam que a corrosão nos cabos estaria avançada. de soleira vertente.Seções transversais típicas dos paineis do vertedouro da barragem de Ernestina. Os ensaios dinâmicos das cortinas mostravam perda grave de rigidez. Foi realizado um diagnóstico da qualidade dos materiais. podendo ser esse fenômeno progressivo para os painéis e pilares. os estudos hidrológicos e hidráulicos sugeriram capacidade insuficiente do vertedouro. foi desenvolvido projeto de reforço. retirando-se as comportas e a passarela.

Séculos XIX. XX e XXI Figura 12 – Seção transversal típica do vertedouro reabilitado Figura 13.Obras de reforço do vertedouro 282 .A História das Barragens no Brasil .

a bar­ ragem em seu trecho não submer­ sível passará a ser uma barragem de enrocamento com face de mon­ tante verticalizada em concreto protendido. Com a reforma. Figura 15 – Obras de reforço da barragem no trecho não submersível 283 .Seção transversal típica do trecho não submersível A obra de reforço estrutural en­ contra-se em fase de finalização (julho de 2011). A barragem de Ernestina pode ser considerada como a única no mun­ do com essa concepção original executada.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 14 . prolongando-se assim a vida útil da barragem. também concepção única no mundo.

284 .

Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Companhia Energética de São Paulo – CESP Fabio De Gennaro Castro A CESP Centrais Elétricas de São Paulo foi criada em 5 de dezembro de 1966. fez chegar ao então governador. inicialmente foi deno­ minada CESP Centrais Elétricas de São Paulo S. Souza Dias. que detinha o controle acionário de: Central Elétrica de Rio Claro (Sacerc) e de suas associadas. vindo a exercer a terceira presidência entre 23 de março de 1979 a 27 de maio de 1982. de chapéu. Seu idealizador foi o Dr. pela unificação de todas as empre­ sas estatais de energia elétrica então existentes.A. Deposto o governador Adhemar de Barros. Laudo Natel. com área de atuação mais abrangente. assumiu seu vice. são paulino que era. Companhia Hidroelétrica do Rio Pardo (Cherp). sendo seu primeiro presidente Henry Aidar. os seus sonhos de unificação das empresas de energia elétrica do estado. Em 27 de outubro de 1977 a CESP passou a ser Companhia Energética de São Paulo. Bandeirante de Eletricidade (Belsa). Francisco Lima de Souza Dias Filho. As onze empresas que formaram a CESP eram: Usinas Elétricas do Paranapanema (Uselpa). Souza Dias. Dai foi criada a CESP. com Garcez em visita às obras de Ilha Solteira Usina hidroelétrica de Ilha Solteira a maior do sistema CESP Empresa Luz e Força de Mogi Mirim Centrais Elétricas de Urubupungá (Celusa). Empresa Melhoramentos de Mogi Guaçu. por meio de um amigo comum e também presidente do São Paulo Futebol Clube. em 1966. 285 . que controlava: Companhia Luz e Força de Tatuí e Empresa Luz e Força Elétrica de Tietê Companhia Melhoramentos de Paraibuna (Comepa). Companhia Luz e Força de Jacutinga e Figura 1 – Souza Dias. advogado e são paulino! Souza Dias foi designado como o primeiro Diretor Técnico. no governo Laudo Natel.

A.Séculos XIX. Foi também formadora da CESP. Em 1911 foi inaugurada a Usina Hidroelétrica São Valentim. Em 1931 foi fundada a Companhia Sanjoanense de Eletricida­ de.A História das Barragens no Brasil .A. e a Empresa Luz e Força de Mogi Mirim S. Souza Dias. que governou o estado de São Paulo de 1951 a 1955. Em 1909 foram fundadas de forma independente a Empresa Luz e Força Elétrica de Tietê S. todas formadoras da CESP. XX e XXI Em 1912 Eloy de Miranda Chaves e outros empresários paulis­ tas adquiriram o controle acionário da Central Elétrica Rio Claro e a reorganizaram como SACERC. pela sua visão técnica e também por ser formador e agregador de ca­ pacitações. com o objetivo de ser a grande distribuidora de energia no estado. Em 1915 foi fundada a Companhia Luz e Força de Tatuí.Fantinatto. assim como em 1919 também foi criada a Companhia Luz e Força de Jacutinga S. Logo no início de seu mandato de governador criou o Departamento de Águas e Energia Elétrica DAEE. Esta usina atualmente encontra-se totalmente res­ taurada e tombada pelo Patrimônio Histórico. e em 1923 a Empresa Melhoramentos de Mogi Guaçu. originando em 1962 a empresa estadual Bandeirante de Eletricidade S. incorporada à CESP em 1973. encampada em 1953 pelo governo do paulista. Justiça deve ser feita à figura pública do professor Lucas Nogueira Garcez. Figura 3 . Figura 2 – Os engenheiros Souza Dias e Gelazio da Rocha em avião de Furnas Primórdios da geração hidroelétrica no estado de São Paulo Relevante também relembrar a situação anterior à criação.A. re­ motamente iniciando pela inauguração da Usina Hidroelétrica do Corumbatai. interior do estado e pertencente à Com­ panhia Força e Luz São Valentim. BELSA. em Santa Rita do Passa Quatro. que foi comprada em 1923 pela Companhia Prada de Eletricidade. na função de diretor geral. José Gelazio da Rocha. Arqueológico e Turístico do Estado de São Paulo.A. em 1895. propriedade da Central Elétrica de Rio Claro. chefiado pelo engenheiro Octávio Sampaio Ferraz. Darcy Andrade de Almeida e Reynaldo de Barros em Jupiá 286 .

Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens

As estaduais de economia mista foram:

Usinas Elétricas do Paranapanema S.A. USELPA
Nascera objetivando a eletrificação da Estrada de Ferro Sorocabana e tendo como meta a implantação da Usina Salto Grande no rio Para­ napanema, inaugurada em 28 de abril de 1958 e hoje merecidamente chamada Lucas Nogueira Garcez. Importante registrar a Comissão Mista Brasil Estados Unidos, instituída logo após o término da Segun­ da Guerra Mundial e sediada na então capital do País, Rio de Janeiro. Tal comissão canalizava recursos para auxiliar o desenvolvimento bra­ sileiro. Os dirigentes da Estrada de Ferro Sorocabana desenvolveram estudos para eletrificação da ferrovia e para tal conceberam que seria construída uma usina hidroelétrica no rio Paranapanema, Salto Grande. Foram pleitear recursos financeiros na referida Comissão Mista Brasil Estados Unidos. Junto com a negativa recebe­ ram a orientação que somente poderiam obter financiamento se fosse organizada uma empresa de economia mista espe­ cífica para tal finalidade. Daí foi criada a USELPA em 1953,
Figura 4 - Professor Lucas Nogueira Garcez

que obteve os recursos necessários e construiu Salto Grande. O principal executivo da USELPA era Dagoberto Salles Filho, o qual se apoiou na SERVIX, como projetista e construtora para as duas primeiras barragens e início da terceira. Posteriormente os planos feitos foram concretizados com a Usina de Jurumirim, hoje Armando A. Laydner,tendo a seguir iniciado a usina Chavantes, também no mesmo rio Paranapanema. Desnecessário mencionar que o objetivo de eletrificação da Estrada de Ferro Sorocabana deixou de ser prioritário.

O DAEE era organizado por Serviços de Vales. Quatro eram os vales abrangidos, a saber do Rio Pardo, chefiado pelo enge­ nheiro Souza Dias, o do rio Tietê, chefiado pelo engenheiro Catullo Branco, o do rio Paraiba, chefiado pelo engenheiro Antonio Graef Borba e o do rio Ribeira de Iguape, chefiado pelo en­ genheiro Dagmar Malet de Andrade. Foi o DAEE o embrião das mais importantes empresas de economia mista na área de energia elétrica do Estado de São Paulo, como será exposto neste texto. No governo Garcez também foi realizado o primeiro Plano de Eletrificação do Estado de São Paulo, que embora somente tenha sido formalizado no mandato sucessivo, em 1956, já fora posto em prática enquanto elaborado. Garcez também foi presidente da CESP por dois mandatos sucessivos, de 16/02/1967 a 20/03/1975, o que contribuiu fortemente para a continuidade da gestão. Onze foram as empresas agregadas para formar a CESP, cinco estaduais e seis empresas privadas, porém controladas pelas estaduais.

Companhia Hidroelétrica do Rio Pardo CHERP
Como já mencionado o Serviço do Vale do rio Pardo do DAEE era chefiado pelo engenheiro Souza Dias, o qual também participava da Comissão Mista Brasil Estados Unidos. Em 1952, o jovem engenheiro José Gelazio da Rocha foi convidado para integrar a equipe de Souza Dias e designado para estudar o

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A História das Barragens no Brasil - Séculos XIX, XX e XXI

aproveitamento de Limoeiro, hoje Armando de Salles Oliveira, dizendo que havia sido encarregado pelo Lucas Nogueira Garcez para construir as usinas do rio Pardo. Assim sendo acrescentou: “Você vai projetando e eu vou dando as orientações que você precisar.” Para realizar a missão foi constatado que não existia nem levantamento topográfico e menos ainda o perfil do rio em toda sua extensão. Gelazio contratou então o engenheiro Gustavo Pratti para tal escopo, ou seja, fazer o perfil do rio que daria assim origem ao plano de aproveitamento integrado de toda a bacia, com Graminha, duas barragens menores a jusante de Graminha, Euclides da Cunha e Limoeiro. Em 1954 o DAEE iniciou Euclides da Cunha, mesmo antes de ser criada a CHERP em 1955. Essa barragem teve o projeto de seu túnel de desvio feito pela TECHINT e executado pela NORENO do Brasil. Para construir o túnel de desvio de Graminha Gelazio fez um contato com Sebastião Camargo, com o objetivo de obter uma proposta, enquanto Dr. Souza Dias fez o mesmo com a Noreno. Ao ser procurado Sebastião perguntou ao interlocutor quem era seu chefe e por que o mesmo não estava presente, sugerindo que fosse marcada outra reunião com Souza Dias presente. Na segun­ da reunião Souza Dias acompanhou Gelazio e a Camargo Correa decidiu apresentar proposta. Venceu a concorrência por ter sido a única empresa proponente. O projeto da barragem de terra de Graminha foi feito pelo Professor Milton Vargas e o projeto das estruturas de concreto pelo engenheiro Henrique Herweg, ambos contratados com a chancela do IPT. Em 1955 era criada a CHERP, que embora somente tivesse rio Pardo em seu nome posteriormente também incorporou toda a responsabilidade do rio Tietê. A necessidade de sua criação foi decorrente de apresentar ao BNDES uma empresa de economia mista que tivesse projetos sólidos para obter seus recursos. Parale­ lamente às atividades do rio Pardo, o Serviço do Vale do rio Tietê, chefiado por Catullo Branco, realizou estudos à semelhança da­ queles do Tennessee Valley Authority TVA, que contemplassem o desenvolvimento integrado do vale, com barragens e usinas que gerassem energia e tivessem eclusas que viessem permitir

a navegação interior. Assim, em 1957, iniciavam-se as obras de Barra Bonita, com projeto da TECHINT. Em 1959 tiveram início as obras de Bariri, hoje Engenheiro Álvaro de Souza Lima, antigo diretor do DAEE e pai do professor Victor de Souza Lima. E em 1963 foram iniciadas as obras de Ibitinga. Os quadros da CHERP no setor Tietê contaram com ilustres engenheiros, tais como Geraldo Queiroz Siqueira, Jacob Leiner, Julio Petenucci e Reolando Silveira, além de Darcy Andrade de Almeida, que foi da área do rio Pardo.

Centrais Elétricas do Urubupungá S.A. CELUSA
Uma palavra inicial sobre a CIBPU Comissão Interestadual da Bacia Paraná Uruguai. Tal comissão, chefiada pelo Professor Paulo Mendes da Rocha, criada em 1952, tinha por objetivo o estudo e o desenvolvimento dos estados brasileiros que pertenciam às bacias dos rios Paraná e Uruguai. A CIBPU tinha recursos e contratara a empresa italiana Edison de Milão para desenvolver os estudos do aproveitamento do Salto de Urubupungá, no rio Paraná, junto à foz do rio Tietê. Em 1961 foi lançada a concorrência para as ensecadeiras da usina de Jupiá, no rio Paraná, concorrência essa vencida pela Camargo Correa. Lançada a concorrência para a obra principal, a vencedora Camargo Correa apresentou uma variante que fora estudada na França pela SOGREAH, pelo engenheiro Charles Blanchet. Tal alternativa apresentava vantagens sobre aquela estudada por Edison de Milão para a CIBPU. A variante foi aceita e exe­ cutada a usina de Jupiá que hoje é denominada Engenheiro Francisco Lima de Souza Dias. Eleito Carvalho Pinto como governador do estado, Plínio de Ar­ ruda Sampaio, de sua equipe, foi motivado por Gelazio para levar ao coordenador do Plano de Ação do Governo, Diogo Gaspar, a idéia de construir a usina hidroelétrica de Jupiá. Assim nasceu a CELUSA. Posteriormente, ainda no governo Adhemar de Bar­

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Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens

Figura 5 – Usina hidroelétrica de Jupiá

ros, foram iniciados os estudos e as obras de Ilha Solteira, com projeto THEMAG e obras da Camargo Correa. A THEMAG foi criada como um departamento técnico da CELUSA e também em caráter de exclusividade, o qual somente foi extinto por decisão da CESP, por ocasião do projeto do Metrô de São Paulo, quando a projetista ficou desobrigada de sua cláusula de exclusividade.

das cheias e contenção de várzeas, tendo construído com ma­ estria muitos quilômetros de “polders”. A COMEPA realizou ainda a usina de Jaguari e iniciou as de Paraitinga e Paraibuna, duas barragens formando um único reservatório com só uma casa de força ao pé de Paraibuna, com projeto Hidroservice e construção Camargo Correa.

Outras empresas de energia elétrica
Em 1962 foi criada a Bandeirante de Eletricidade S.A. BELSA. Em 1963 foi criada a Companhia Melhoramentos de Paraibuna COMEPA, por inspiração de Plinio de Queiroz. O antigo Serviço do Vale do Paraíba, que ocupava-se do rio Paraíba do Sul, preocupou-se prioritariamente com o problema

Estudos de inventário
Ainda na década de 60, foram desenvolvidos os estudos da Canambra, primeiros estudos de planejamento integrado, com critérios uniformes, que propiciaram condições técnicas de com­ paração e priorização de usinas em uma mesma bacia hidrográ­ fica. Na área de São Paulo foram muito importantes e também com papel de formação de técnicos.

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A História das Barragens no Brasil - Séculos XIX, XX e XXI

Figura 6 a – Barragem de Três Irmãos no rio Tietê com suas eclusas na margem direita

Figura 6 b – Barragem de Três Irmãos - entrada da eclusa inferior no lago intermediário

Consultores que atuaram nas hidroelétricas na área de São Paulo
Menção deve ser feita sobre os consultores independentes que atuaram na área de São Paulo, contribuindo para a garantia da qua­ lidade dos projetos e obras, assim como na formação de pessoas que com eles conviveram. Dentre eles podem ser citados Karl Terzaghi, Arthur Casagrande, Tom Leps , James Sherard, Victor de Mello, Don Deere, Milton Vargas, Roy Carlson, Manuel Rocha, Fernando de Oliveira Lemos, Charles Blanchet, Flavio H. Lyra, Ven Te Chow, Araken da Silveira, Evelina Bloem Souto, Vic­ tor Souza Lima e inúmeros outros que no dia a dia contribuíram para colocar a CESP na posição de destaque que ocupa.

senvolvimento do Canal Tietê-Paraná, como também pelas inúmeras eclusas construídas. Pode também ser afirmado que ela foi pioneira nos estudos ambientais. Chegou a ter vinte e cinco usinas, todas com alta expressão técnica e padrão de projetos, construção e operação.

Anos recentes
Em 1996 iniciou-se o processo de privatização do setor de energia do Estado de São Paulo. Em 1999 CESP passou por uma cisão parcial, sendo criada a Companhia de Transmissão de Energia Elétrica Paulista, a CTEEP e três empresas de geração. Hoje a CESP possui apenas seis usinas e sete barragens, pelo fato de Paraitinga não ter casa de força.

Navegação interior
A CESP detém o mérito de ter contribuído de forma ampla para o desenvolvimento da navegação interior no país, não só pelo de­

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Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens

Figura 7 – Usina hidroelétrica Porto Primavera (Sergio Motta)

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Usina Mauricio, primeira hidroelétrica da CFLCL

Usina hidroelétrica de Nova Maurício. Primeiro financiamento do BNDE para empresa privada, em 24 de agosto de 1954. Em operação desde março de 1956

Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens

Companhia Força e Luz Cataguazes Leopoldina – Energisa - Cem anos de luz na Zona da Mata
“A trajetória da CFLCL é exemplar para demonstração de que a livre iniciativa tem tanta vitalidade quanto a vida.” João Camilo Penna Flavio Miguez de Mello

Na virada do Século XIX para o Século XX o Brasil tinha apenas dez usinas geradoras totalizando 12.085 kW instalados. Nesse início de século na Zona da Mata Mineira, incentivados pelo agente executivo (equivalente ao atual cargo de prefeito) de Ca­ taguazes, Araújo Porto, destacavam-se o Senador José Monteiro Ribeiro Junqueira, o Dr. Norberto Custódio Ferreira e o comer­ ciante, político e banqueiro João Duarte Ferreira como homens que gerenciavam seus negócios com clarividência e se interes­ savam pelo desenvolvimento da tecnologia, principalmente pela incipiente aplicação da energia elétrica. Em 26 de fevereiro de 1905 os três fundaram a Companhia Força e Luz Cataguazes Le­ opoldina com capital de 400 contos de réis em quatro mil ações adquiridas por 263 investidores, com o objetivo de “exploração da eletricidade para fins industriais em suas diversas aplicações e comércio de materiais elétricos, dentro ou fora da república, principalmente nos municípios de Cataguazes e Leopoldina.” Pouco após um ano da fundação da empresa, dois dos três fundado­ res, João Duarte Ferreira e Norberto Custódio Ferreira renunciam a seus cargos de diretores para, respectivamente, cuidar de seus empreendimentos particulares e para assumir elevada posição no Banco do Brasil do qual assumiu a presidência em 1910.

Foi lançada concorrência (mesmo sem projeto) para a construção da primeira usina geradora, a hidroelétrica de Maurício, na cacho­ eira da Fumaça, no rio Novo. Oito concorrentes se apresentaram, tendo a obra sido alocada à Trajano de Medeiros & Cia, destacada indústria metalúrgica para os padrões do início do século passado. O contrato foi assinado em maio do ano seguinte. Pela primeira vez uma usina hidroelétrica foi construída por uma empreiteira ge­ nuinamente brasileira. Os primeiros estudos para o aproveitamento parcial da queda natural da cachoeira da Fumaça no distrito de Leopoldina foram desenvolvidos pelo engenheiro Eupídio de Lacerda Werneck, na época recém formado nos Estados Unidos. O potencial a ser aproveitado foi definido como sendo de 1,3 MW, suficiente para suprir de energia elétrica outros muni­ cípios da região como Rio Novo e São João Nepomuceno, bem como a fábrica do industrial Daniel Sarmento que fez um contra­ to de pré-venda de energia. A organização geral e as compras de materiais ficaram a cargo do engenheiro Otávio Carneiro e a res­ ponsabilidade da construção com o engenheiro Ferreira Martins. O engenheiro L. Luck, enviado pela Westinghouse, supervisionou as instalações elétricas. O engenheiro Paulo Saboia, recém chega­ do dos Estados Unidos, supervisionou as montagens. A primeira unidade geradora entrou em operação em 7 de julho de 1908.

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A História das Barragens no Brasil - Séculos XIX, XX e XXI

Figura 1 - Cachoeira da Fumaça no rio Novo, local da hidroelétrica de Maurício

Figura 2 - Cachoeira da Fumaça no rio Novo, local da hidroelétrica de Maurício

Figura 3 – Casa de força da hidroelétrica de Maurício

Figura 4 - Geradores da hidroelétrica de Maurício

Os primeiros anos consolidaram a empresa e, em 1915, apenas dez anos após sua fundação e sete anos de geração e distribui­ ção de energia elétrica, a empresa contava com ilustres investi­ dores de outras localidades de Minas Gerais, do Rio de Janeiro e de São Paulo entre eles o então presidente de Minas Gerais, Raul Soares de Moura, e o presidente da república, Wenceslau Braz. Em 1918 a empresa adquiriu a usina Coronel Domiciano de 360 HP que era concessão da Câmara Municipal de Muriaé, o que possibilitou que seus serviços fossem estendidos às localidades de Piedade, Laranjal, Palma, Guarani e Tebas, além da cidade de Coronel Domiciano.

Os anos vinte do século passado propiciaram expressivo crescimen­ to da indústria de energia elétrica. Uma das principais causas foi a rápida difusão dos serviços de bondes e de iluminação pública. Além disso, o perfil das indústrias modificava-se rapidamente; o recensea­ mento de 1920 revelara que a energia elétrica já assumia 47% da força motriz consumida pelas fábricas no País. Com o objetivo de su­ prir esse acentuado acréscimo de demanda, ocorreu intenso surto de instalações de novas hidroelétricas que ultrapassaram com folga a geração térmica.

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CINQUENTA ANOS DO COMITÊ BRASILEIRO DE BARRAGENS

Figura 5a – Barragem da hidroelétrica Coronel Domiciano Figura 5b - Usina hidroelétrica Coronel Domiciano

Imagens dos aspectos logísticos dos primeiros tempos da CFLCL

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A História das Barragens no Brasil - Séculos XIX, XX e XXI

Aquisições de empresas e de concessões foram realizadas pela Light nesse período principalmente no eixo Rio de Janeiro e São Paulo. A Cataguazes Leopoldina também entendeu o momento e adquiriu em 1920 a Companhia Pombense de Eletricidade que detinha a hidroelétrica de Santo Antônio situada no município de Rio Pomba e que, dada as suas desfavoráveis condições geotécnicas, teve que ser desativada. Iniciaram-se as atividades visando a implan­ tação de uma nova usina: a hidroelétrica de Ituerê que aproveita a queda natural da cachoeira do Sumidouro. A barragem de concreto tem 15 m de altura, imponente para a época, e 74 m de comprimen­ to de crista, fechando um vale estreito. O projeto foi comandado pelo engenheiro Vanor Ribeiro Junqueira, os equipamentos foram

contratados junto à Siemens e as obras ficaram a cargo da Christia­ ni Nielsen e da Trajano Medeiros & Cia. Inicialmente foi instalada uma unidade Francis dupla horizontal de 2,83 MW. A adução era feita com um trecho inicial de conduto em concreto armado com 3 m de diâmetro e 600 m de extensão; a adução em alta pressão foi executada em aço vindo da Alemanha. Entretanto foi verificado no início da montagem que não havia luvas de dilatação da tu­ bulação forçada. As luvas foram fabricadas em Jundiaí. A usina foi inaugurada em 16 de agosto de 1928 pelo presidente de Mi­ nas Gerais, Antônio Carlos Ribeiro de Andrade que, em discurso solene, afirmou que teve “a grande ventura (...) de acionar as máquinas da monumental instalação de Ituerê”.

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Cachoeira do Sumidouro no rio Pomba. local da hidroelétrica de Ituerê Figura 7 .Cinematografando a inauguração da usina hidroelétrica de Ituerê 11 297 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens 6 7 8 9 10 Figura 6 .Construção do vertedouro de Ituerê Figura 9 .Construção do vertedouro de Ituerê com o desvio num vão rebaixado Figura 8 .A barragem de Ituerê e o vertedouro de soleira livre Figura 10 .Casa de força da usina hidroelétrica de Ituerê Figura 11 .

iniciati­ va patronal de vanguarda para a época. passou a presidência para seu sobrinho. Foi datado do dia 24 de agosto de 1954. promulgado em 1934. investimentos e distribuição de dividendos aos acionistas.58 MW da hidroelétrica de Nova Maurício que apro­ veita a queda total de 90 m da cachoeira da Fumaça. inserira um capítulo sobre a ordem econômica e social.A História das Barragens no Brasil . estabelecendo a legitimidade da intervenção do Estado em atividades consideradas de importância para o interesse nacio­ nal. sociais e políticas ocorreram no País. aí incluídas a “exploração de quedas d’água para geração de energia”. pela primeira vez. O Código de Águas gerou o confronto entre uma corrente interessada em manter os serviços de eletricidade com a iniciativa privada e outra corrente radical que pugnava por uma profunda intervenção estatal com a encam­ pação de concessionárias estrangeiras. houve a expansão da intervenção do estado na economia a partir da promulgação da constituição de 1934 que. Esse ambiente foi propício ao aparecimento do Código de Águas. dia do suicídio de Getúlio Vargas. tendo sido eleito pela Assembléia Constituinte em 1934 e se tornado ditador de 1937 até a queda do Estado Novo. Já em 1950 a empresa obteve permissão para proceder a um racionamento preventivo que se estendeu às fábricas de tecido em até três ve­ zes por semana. Como as demais empresas do setor elétrico. em 1945. já que João Duarte Ferreira havia falecido em 1924 e José Monteiro Ribeiro Junqueira. garantindo a manutenção dos serviços e não mais podendo expandi-los por longo período. O Código introduziu o absurdo instrumento do reconhecimento apenas dos custos histó­ ricos dos investimentos realizados pelos concessionários no am­ biente inflacionário vigente no País. o que penalizou sobremodo as empresas privadas. Com a eclosão da revolução de 1930. A empresa ultrapassara a marca de 9.000 consumidores e havia instalado mais de 900 km de redes de transmissão e de distribuição. candidatura esta que foi oficialmente derrotada nas urnas. a Cataguazes Leopoldina não passou incólume por essa legislação equivocada e pela II Guerra Mundial e teve que reduzir gastos. A segunda unidade geradora só entrou em operação em abril de 1958. A situação de carência de energia perdurou até março de 1956 quando entrou em operação a primeira uni­ dade de 5. tendo Getúlio assumido o comando de um governo provisório em novembro de 1930 com plenos po­ deres. A empresa se voltou à ampliação das capaci­ dades instaladas das usinas de Ituerê e Coronel Domiciano. Ormeo Junqueira Botelho ajustou a empresa às condições políticas e econômicas advindas da Constituição Federal de 1937. O quadro estatizante do setor elétrico foi ampliado nos anos cin­ quenta. pela proibição de rea­ juste de tarifas de serviços públicos em função da inflação. após trinta anos de intensa dedicação à empresa e com o ambiente economicamente hostil à iniciativa privada no setor elétrico. o primeiro financiamento do Banco para uma empresa privada. A crise econômica mundial de 1929 gerou profundas conseqüências nos cenários econômicos e políticos no Brasil que acarretaram con­ flito aberto com lançamento de candidatura de oposição na figura de Getúlio Vargas à presidência da república. mes­ mo porque nesse período se instalou a inadimplência no pagamento de energia fornecida para o serviço público de prefeituras. o engenheiro Ormeo Junqueira Botelho forma­ do pela Escola Politécnica da Universidade do Brasil (UFRJ) em 1918. cerceando a expansão da capacidade instalada com nefastos reflexos na evolução do crescimento da economia nacional. no governo Juscelino Kubitscheck. tendo tido como uma das principais dificuldades a entrega dos equipa­ mentos encomendados em 1938 a países que se envolveram na II Guerra Mundial. Norberto Custódio Ferreira faleceu e abriu caminho para o encerramento do ciclo dos fundadores da empresa na sua direção. além dos desconfortos que haviam sido introduzidos pelo Código de Águas e pela inflação que passou a ser acelerada nesse governo.Séculos XIX. fortemente influenciada pela doutrina fascista e que instituíu um regime de exceção. profundas modificações econômicas. Em 5 de fevereiro de 1935. o contrato de empréstimo do Banco Nacional de Desenvolvimento para a construção da hidroelétri­ ca de Nova Maurício. XX e XXI Os anos vinte foram também importantes para os funcionários da empresa que passaram a ter participação nos lucros. Nesse longo período. O Código havia inicialmente sido preparado por Alfredo Valadão em 1907 com colaboração de Inácio Verís­ simo de Melo e José Castro Nunes. 298 .

a presidência da empresa.Ormeo Junqueira Botelho na campanha eleitoral Figura 14 .Ormeo Junqueira Botelho com Tancredo Neves 299 . engenheiro também formado pela Escola Politécnica da Universidade do Brasil (UFRJ). tendo nesse período transferido para o engenheiro Vanor Ribeiro Junqueira. No período entre 1962 e 1965 o engenheiro Ormeo Junqueira Botelho foi eleito deputado federal pela UDN.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 12 . Figura 13 .Engenheiro Ormeo Junqueira Botelho No início dos anos sessenta o agravamento do cenário político e a aceleração da inflação que atingiu 80% ao ano com a impossibilidade de se obter a devida correção tarifária. encontrou totalmente descapitalizadas as empresas priva­ das de energia elétrica.

No final desse período o próprio governo federal adquiriu por US$ 380 milhões a Light. Vanor teve como sucessor o enge­ nheiro Ivan Müller Botelho. tendo vindo a tempo de salvar as empresas de energia elétrica da destruição devida ao arrocho tarifário tão prolongado. Passou a haver a concentração de investimentos estatais em grandes obras hidroelétricas e no pro­ grama nuclear com a construção das usinas de Angra 1.Engenheiro Ivan Müller Botelho 300 . Com o advento do governo Castelo Branco ocorreu profunda e benéfica alteração na política eco­ nômica do País por terem composto o ministério dois políticos. Em 1977 a em­ presa ofereceu ao grupo Brascan US$ 330 milhões para adquirir a Light. Somente em 1993 pela Lei 8631 é que as tarifas diferenciadas vol­ taram a ser praticadas. Os constantes abatimentos nas tarifas produziram intensas cri­ ses de liquidez nas concessionárias. climáticas. O Decreto 1383 passou a fazer com que a parcela da remuneração que ultrapassasse 12% ao ano fosse revertida para subsidiar as empresas com retorno inferior a 10% ao ano sobre os investimentos num cenário chama­ do de Robin Hood em que as empresas mais eficientes passaram a socorrer as menos eficientes. autorizou a correção monetária do valor original do ativo imo­ bilizado. no Centro-Oeste e no Nordeste. A empresa nesse novo cenário pode ampliar seu parque gerador instalando mais duas unidades geradoras em Maurício Nova que passou a ter 31 MW de capacidade instalada. identificados com o li­ beralismo econômico mais ortodoxo. XX e XXI Ao se aposentar em 1965. Em dezembro de 1974 veio novo golpe para as empresas eficientes: passa a vigorar a tarifa unificada independentemente das diferenças geográficas. No ano seguinte a empresa tentou adquirir a Companhia Mineira de Eletricidade. implantado pelo ministro Mauro Thibau das Minas e Energia. esta até hoje (2011) ainda inacabada. 2 e 3. Entretanto. A Brascan respondeu que venderia se tivesse o consenti­ mento do governo federal. Em 1976 a Cataguazes Leopoldina adquiriu a Companhia Leste Mineira de Eletricidade na região de Manhuaçu. A então chamada de realidade tarifária e serviço pelo custo veio proporcionar novo desenvolvimento do setor elétrico. culturais e sociais.Séculos XIX. principalmente nas estatais federais. O Decreto 54936 de novembro de 1964. Os anos setenta foram iniciados sob o signo do Brasil Grande com Estado todo poderoso sob o excesso de consumo deno­ minado de milagre brasileiro. A orientação do governo federal passou a ser voltada para a contenção da inflação e a reto­ mada do desenvolvimento. Entretanto.A História das Barragens no Brasil . Esse decreto acabou com a concorrência e com os esforços para redução de custos. muitas delas concentradas no Norte. Bulhões de Carvalho e Roberto Campos. que ocasionaram elevados índices de inadimplência que geraram o colapso da engenharia consultiva no País. Durante um ano a empresa consultou o ministério de Minas e Energia sob Shigeaki Ueki sem obter qual­ quer resposta. geomorfológicas. nessa década o governo federal passou a utilizar as tarifas de energia elétrica para controle da inflação que retomava o ritmo do início dos anos sessenta. Figura 15 .

Engenheiro Manoel Otoni Neiva em manobra considerada pela Comissão de Valores Imobiliários como tendo sido “ao arrepio da lei”. subsi­ diária da Vale. Ituerê e Nova Maurício.02 por ação. as hidroelétricas de Anna Maria e Guary (6.8 MW instalados. estado do Rio de Janeiro. Em 1991 as hidroelétricas do Gloria. a Cemig arrematou a Mineira de Eletricidade por Cr$ 2. Em 1999 a empresa adquiriu a Companhia Figura 17a – Barragem da hidroelétrica Sinceridade Figura 17b – Barragem da hidroelétrica Santa Cecilia 301 . Em 1997 a em­ presa adquiriu a Companhia de Eletricidade de Nova Friburgo CENF e a Empresa Energética de Sergipe ENERGIPE. todas situadas no rio Grande. concessões de serviço público. A usina. Em 1999 a empresa criou a Cat-Leo para operar como produtor independente de energia elétrica. No início dessa década a empresa começou o projeto da hidroe­ létrica do Gloria com barragem de concreto com 14 m de altura e taladas das hidroelétricas de Coronel Domiciano e Neblina II e adquiriu. em 1999. a empresa ampliou as capacidades ins­ Figura 16 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens adução por túnel. foram vendidas à Valesul. somente em 1983 entrou em operação comercial com 13. Catete e Xavier. como auto-produtora para suprir parte da carga de sua fábrica no Rio de Janeiro. localizadas em Santos Dumont e colocou em operação a hidroelétrica de Ervália de 6 MW instalados.5 MW). Com a aquisição da CENF a empresa passou a operar as hidroelétricas de Hans. Nessa década. projeto da Promon. o engenheiro Ivan Botelho assumiu a presidência do Conselho do grupo de em­ presas e o engenheiro Manoel Otoni Neiva assumiu a presidência da CPFL Minas onde se concentravam as hidroelétricas. Com o falecimento de seu pai em fevereiro de 1990.

Em 2000 a Cat-Leo construiu em 362 dias a PCH Benjamin Ma­ rio Baptista com 9. Figura 18 . instalou as PCHs Ivan Botelho I. hoje Brookfield. carinhosamente chamado de Zé Tunim. para se capitalizar. Em 2004 o engenheiro Manoel Otoni Neiva se aposentou. teve que se desfazer de algumas hidroelétricas acima em favor do grupo Brascan. em apenas dois anos. Ivan Botelho II.Séculos XIX. o grupo. Ormeo Junqueira Botelho e Ivan Botelho III. tendo assumido a presidência da Energisa Minas o engenheiro José Antônio da Silva Marques. Túlio Cordeiro de Melo. Considerando a grande expansão do grupo em diversos ramos industriais e nas diversas aquisições de conces­ sões de distribuição de energia elétrica em outros estados. que veio a falecer prematuramente em 2009. em 2000. a Sociedade Anônima de Eletrificação da Paraíba Saelpa.A História das Barragens no Brasil . tendo sido substituído pelo engenheiro Gabriel Pereira. Em segui­ da.5 MW instalados. XX e XXI de Eletricidade de Borborema CELB e. em Manhuaçu.Engenheiro José Antônio da Silva Marques (Zé Tunim) Figura 19 .Barragem da hidroelétrica Túlio Cordeiro de Mello (Granada) 302 .

Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 20 Barragem da hidroelétrica Ormeo Junqueira Botelho (Cachoeira Encoberta) Figura 21 .Barragem da hidroelétrica Ivan Botelho I (Ponte) Figura 22 – Casa de força da hidroelétrica Benjamim Mario Baptista (Nova Sinceridade) de 9.5 MW com apenas uma única unidade geradora 303 .

304 .

CPFL Fabio De Gennaro Castro No dia 16 de novembro de 1912. para em 1919 incorporar a Empresa de Eletricidade de Bauru. com foco na produção de energia elétrica por iniciativa dos engenheiros Manfredo Antonio da Costa. pelas mãos de Ataliba Vale. Paralelamente. José Balbino de Siqueira e outros capitalistas.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Companhia Paulista de Força e Luz . onde atual ou futuramente se possa explorar tal indústria. seguida da Empre­ sa Força e Luz Agudos-Pederneiras. promovendo ou auxiliando. em 1912 era criada a Empresa de Eletricidade de Araraquara. Fonseca Rodrigues e Usina hidroelétrica de Campos Novos. O ponto de partida da CPFL foi a Empresa Força e Luz de Botucatu. direta ou indiretamente. na capital de São Paulo. com ou sem privilégio. isto em 1914. quaisquer empreendimentos que possam contribuir para o desenvolvimento do consumo de energia elétrica e também comércio de mercadorias relativas à indústria da eletricidade”. exemplo recente de parceria da CPFL com outros agentes do setor elétrico na implantação de grandes hidroelétricas 305 . Já em 1913 incorporou a Empresa Força e Luz de São Manoel e a Companhia Elétrica do Oeste de São Paulo. O artigo 3º de seu Estatuto Social dispunha que a empresa “terá por fim a exploração industrial da eletricidade em todas as suas variadas aplicações no Estado de São Paulo. foi criada a Companhia Paulista de Força e Luz.

sendo criada em 1875 a Companhia Campineira de Iluminação a Gás. Companhia Auxiliar de Empresas Elétricas Brasileiras S A. a qual.55 MW. Em 1946 inaugurou-se a usina Avanhandava no rio Tietê. Bradesco e  Camargo Corrêa).A História das Barragens no Brasil . inicia-se a construção da usina de Americana e da termoelétrica de Carioba.Usina hidroelétrica de Salto Grande com 4. e pela Bonaire Participações (que reúne os fundos de pensão Funcesp. tais como as usinas hidro­ elétricas de Campos Novos e Foz do Chapecó. American & Foreign Power Company. que atuava em parte do vale do Paraíba. Nos anos recentes a CPFL passou a atuar intensamente com outros parceiros em grandes hidroelétricas. XX e XXI Ramos de Azevedo. Em 1904 a firma Cavalcante Byington & Cia construiu a Usina Salto Grande no rio Atibaia também para iluminação pública. pelo Fundo de Pensão dos Funcionários do Banco do Brasil (Previ). em 1920. subsidiária da AMFORP. Por outro lado. Em 1975 o controle acionário passa a ser exercido pela CESP. sem conseguir atender Campinas. atual Mascarenhas de Moraes. em 1871 fora implantada a iluminação pública a querosene em Campinas. com a privatização. Em 1957 entra em operação Peixoto. o controle da com­ panhia passou para o atual grupo composto pela VBC Energia (Grupo Votorantim. pois esta deveria ser atendida pela Companhia de Iluminação a Gás. Figura 2 . Sistel. Figura 1 – Barragem de Lavrinha Em 1927 o controle acionário da CPFL passa para a CAEEB. po­ rém de Itatiba e Souzas. Figura 3 .Usina hidroelétrica de Americana com 30 MW 306 . Petros e Sabesprev). passou a controlar a Empresa de Eletricidade de São Paulo e Rio.Séculos XIX. no rio Atibaia Em novembro de 1997.

Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Em 2011 ocorreu a fusão da CPFL com a ERSA dando origem à CPFL Reno­ váveis. com 21 MW. tais como Alto Irani. Cocais Grande. Paiol.Visão artística do arranjo da usina hidroelétrica de Foz do Chapecó 307 .Barragem de São Gonçalo com 11 MW Figura 5 .Barragem da PCH Alto Irani. Plano Alto. Esta usina foi agregada a CPFL Renováveis pela fusão da ERSA e CPFL Figura 6 . Figura 4 . Com isso o parque gerador foi ampliado com diversas outras usinas de pequeno porte. Arvoredo. São Gonçalo e Ninho da Águia. Varginha. Corrente Grande.

308 .

e Raúl Sapena Pastor. Com a finalidade de realizar o aproveitamento hidroelétrico. pelo Brasil. o Tratado cria a entidade binacional Itaipu. representando o Paraguai. O Tratado é complementado por acordos. Apresentamos neste capítulo um breve relato histórico sobre a obtenção desse ingente resultado por ambos os países. pertencentes em condomínio aos dois países. instalada em 15 de maio de 1974 e constituí­ da com igual participação em seu capital pela Centrais Elétricas Brasileiras S. Nesse período.A. representando o Brasil. no Paraguai. o Anexo B – Des­ crição das instalações destinadas à produção de energia elétrica e das obras auxiliares. notas reversais. leis e protocolos. tendo como signatários os chanceleres Mário Gibson Barboza. no Brasil. eram presidentes Emílio Garrastazu Médici.Itaipu Binacional 309 .2011 Miguel Augusto Zydan Sória 1. pelo Paraguai. Fazem parte do Tratado o Anexo A – Estatuto. e Alfredo Stroessner. e o Anexo C – Bases financeiras e de pres­ tação de serviços de eletricidade. (Eletrobras).Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Breve Memória sobre a Usina de Itaipu 1966 . e pela Administración Nacional de Electricidad (ANDE). Barragem principal e condutos forçados Foto de Caio Francisco Coronel . Como são Usina hidroelétrica de Itaipú. Introdução A hidroelétrica de Itaipu é fruto do Tratado celebrado em 26 de abril de 1973 pelo Brasil e pelo Paraguai para o aproveitamento dos recursos hídricos do rio Paraná. desde e inclusive o Salto Grande de Sete Quedas ou Salto de Guaíra até a foz do rio Iguaçu.

das referências bibliográficas exis­ tentes recomendamos pesquisa no livro “Itaipu Hydroelectric Project – Engineering Features” . editado pela Itaipu Binacional em 1994. e o Quadro II. nominando alguns de seus inúmeros protagonistas. XX e XXI muitos os aspectos da Itaipu possíveis de serem explorados. Como nosso intento é o de dissertar sobre a história da constru­ ção da hidroelétrica de Itaipu. abaixo.Aspectos de Engenharia”. de modo resumido. decorrentes estas das escolhas julgadas mais favoráveis. por isso mais ligada à engenharia civil e à geologia. Fonte: livro “Usina Hidroelétrica de Itaipu . pode ser considerada como o momento que encerra a fase estratégica do processo. 2. Registra a concepção da idéia e prescreve as estratégias de alto nível a serem seguidas. e considerando que a presente publicação se propõe a organizar em um único volume a memória das principais barragens cons­ truídas no Brasil para várias finalidades . mostram. Esses marcos nos permitem separar com nitidez as diferentes fases do processo de construção de Itaipu. no caso de Itaipu. Sugerimos que os leitores que esti­ verem interessados em conhecer informações técnicas sobre o projeto Itaipu consultem outras publicações. descreveremos as motivações e a concepção do projeto e enfatizamos os tópicos relacionados aos estudos prévios realizados e às obras civis. onde as encontrarão fartamente. em 1966. Cronologia do Projeto Itaipu O Quadro I.Séculos XIX.A História das Barragens no Brasil . ITAIPU Binacional 2009. Nesse sentido. realizada em conjunto com o Paraguai -. As menções feitas a eles devem ser consideradas uma homenagem a todos os que indistintamente participaram no esforço de construir Itaipu. publicada em 2009. a qual constitui também o texto-guia deste trabalho.e. A assinatura da Ata de Iguaçu. Aspectos de Engenharia”. 310 . as principais etapas e datas relativas ao Projeto Itaipu. anexo. limitamo-nos a apresentar refe­ rências sobre detalhes técnicos do empreendimento quando as descrições assim o exigirem. que possui versão em português “Usina Hidroelé­ trica de Itaipu.

A declaração conjunta manifestava a disposição de estudar o apro­ veitamento dos recursos hidráulicos pertencentes em condo­ mínio aos dois países. pois a indefinição quanto à posse das Sete Quedas interferia nos planos de um e de outro para o aproveitamento pretendido. É importante frisar que era central nessa discussão a estratégica aspiração de suficiência no suprimento futuro de energia elétrica para os dois países. no trecho do rio Paraná “desde e inclusive o Salto de Sete Quedas até a foz do rio Iguaçu”. pela sua enorme importância. A primeira dessas motivações é oriunda da política externa. O entendimento diplomá­ tico abriu caminho para o início dos estudos técnicos. Mas. 3. a inteligência política quando se estabeleceu que a construção e o uso da futura instalação seriam realizados em conjunto. sabiamente. No entanto. Em 26 de abril de 1973. em vez de medir forças. até o Salto. O entendi­ mento da questão sob esse prisma acabou por reverter totalmente a situação. um acima e outro abaixo das Sete Quedas. primeira descrição minuciosa da fronteira brasileiro-paraguaia. Prevaleceu. o detalhamento completo dos limites da fronteira jamais foi concluído em face de desacordo entre as partes em relação à demarcação da Serra de Maracaju no trecho em que ela se divide em dois ramos. pela pri­ meira vez cogitou-se de os dois países se unirem para produzir 3. uma Comissão Mista foi criada para implementar a Ata do Iguaçu. optaram por unir forças. que pre­ via o alagamento de grande parte da área em litígio. pode dar causa a signi­ ficativos conflitos de interesses. porém. Raúl Sapena Pastor. E foi justamente o que aconteceu com Brasil e Paraguai no início da década de 60 com a desco­ berta do potencial hidroelétrico do rio Paraná. O consórcio formado pelas empresas IECO – International Engineering Company Inc.1. Motivação decorrente da política externa Para explicar a origem da motivação fundamentada na política externa remontamos a 1750. energia em conjunto. foi escolhido para a realização dos estudos de viabilidade e para a elaboração do projeto da obra. con­ vergiram e se somaram. a disposição de construir uma hidroelétrica para atender à demanda de energia elétrica foi motivo de desa­ cordo entre Brasil e Paraguai nos anos 60. em 1966 foi assinada a Ata de Iguaçu pelos ministros das Relações Exteriores do Brasil. Brasil e Paraguai assinam então o Tratado de Itaipu. Juracy Magalhães. as quais. e pelo cume da Serra de Maracaju. O Tratado de Paz assinado em 1872. deparamo-nos com hábitos da sociedade que 311 . acabou por reabrir a polêmica em torno da fronteira na região das Sete Quedas porque estabelecia que os territórios deveriam dividir-se pelo rio Paraná. Em 1962.2. encerrou a disputa por terras na fronteira. A solução proposta por um consórcio de empresas estrangeiras. os dois go­ vernos. Ao investigarmos a formação da demanda de energia naquele mo­ mento da história. da socioeconomia. Esse brevíssimo repasse pela história nos serve para compreen­ der que a possibilidade de exploração de um grande potencial hidroelétrico. devido a circunstâncias intrínsecas.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens 3. colocando ambos os países em oposição. O texto. depois de adequada avaliação das propostas de diversos grupos qualificados. era impreciso ao determinar os limites entre os territórios na margem direita do rio Paraná. e do Paraguai. logo após o término da Guerra do Paraguai (1865-1870). Principais motivações para a construção de Itaipu A análise mais profunda dos acontecimentos que levaram à construção de Itaipu revela que duas foram as suas motivações primordiais. Em 1967. A inauguração da Ponte da Amizade em 1965 alimentou o clima de cooperação ao oferecer a perspectiva de facilitar o intercâmbio comercial entre eles. Motivação decorrente da socioeconomia Conforme assinalado. (EUA) e ELC – Electroconsult SpA. porém. (Itália). e a segunda. ano em que Espanha e Portugal assinaram em Madri o Tratado de Limites. Como resultado de intensas negociações.

na região Sul. Mas considerava-se também a possibilidade de aprovei­ tamento conjunto dos rios compartilhados com países vizinhos. Secundariamente. que serviu mais tarde para os outros tantos projetos que foram realizados. que se inscreve na magnanimidade das políticas de estado. gás e petróleo. um predicado. A experiência na execução desses projetos proporcionou adicionalmente a acumulação do capital inte­ lectual. a pro­ dução de energia elétrica com base em energia atômica (Usina de Angra I – 1976) e a expansão da geração de energia de base hidráulica. e constrói hidroelétricas de grande por­ te. uma decisão de cunho macroeconô­ mico. onde disponível e viável. A hidroeletricidade é. Pelo lado da oferta. Em razão disso. numa miría­ de de aplicações cotidianas. estimulando o rápido desenvolvimento de iniciativas em diversos segmentos no campo da produção de energia. etc. Furnas (1963) e Jupiá (1968). portanto. portanto. O contraste. A forma preferen­ cial. geotermia. pois em 1973. os dados da questão eram razoavelmente claros. o que podia ser feito de diferentes formas. voltadas para a substituição de importações do petróleo. tendo como pontos altos justamente o início. a primeira na inexplorada região Norte do País. principalmente com a Argentina e o Paraguai. consiste no fato de que os combustíveis fósseis não são renováveis. pois o Brasil evoluía da construção de barragens baixas e médias para barragens e hidroelétricas de grande vul­ to. não restava alternativa a não ser incrementar a produção maciça de energia elétrica nos níveis demandados. tendo reflexos profundos nas decisões toma­ das sobre a matriz energética brasileira. de construção do futuro dos dois países. Entre as principais. incluindo o de Itaipu. em sociedade com o Paraguai. em 1975. preponderantemente). a segunda. Foi antes de tudo. faz valer sua visão de “se­ gurança energética”.). A visão de “seguran­ ça energética” tomou então contornos dogmáticos.Séculos XIX. é a de produzir energia elétrica com o emprego de combustíveis fósseis (carvão. 3. Paulo Afonso I (1954). de longo alcance. dos citados fatores políticos e socioeco­ nômicos formaram o argumento de base para Brasil e Paraguai decidirem pela construção em conjunto de uma usina hidroelétri­ ca sobre o rio Paraná. e de suas implicações nas demais infra-estruturas públicas e privadas que foram posteriormente implantadas.A História das Barragens no Brasil . Àquela época já se sabia que o potencial hidroelétrico dos rios interiores brasileiros era imen­ so. abrangendo os entendimentos prévios entres 312 . Ou seja. E as previsões sobre a importância que viria a ter a hidroeletricici­ dade acabaram por se confirmar. o Brasil. um diferencial competitivo. proporcionadas por tecnologias cada vez mais inovadoras e sofisticadas. É nesse clima de grande atenção ao tema energético nacional que foi criado em 1961 o Comitê Brasileiro de Grandes Barra­ gens (CBGB). da construção das mega-hidroelétricas de Tucuruí e de Itaipu. Esse preciso diagnóstico feito com competência pelo meio téc­ nico acabou por ser em grande parte internalizado pela classe dirigente do país. Dessa presciente decisão maior decorreram todas as demais. solar. A decisão de construir Itaipu A conjugação. objeto de nosso relato. o que indicava autossuficiência de energia elétrica a médio prazo. que naquele momento não pas­ sou despercebido pelos estrategistas mais argutos. vem a pro­ dução de energia elétrica de base hidráulica e atômica. ondas. que perdura até então mundo afora. A iniciativa de criação do CBGB foi dos engenheiros que naquela época estavam assumindo gradativamente a respon­ sabilidade pelas atividades técnicas relacionadas à implantação dessas barragens no País. XX e XXI requeriam crescentes níveis de uso da eletricidade. sobreveio a crise mundial do petróleo. no trecho de fronteira fluvial entre os dois países. coincidentemente o mesmo ano em que é assinado o Tratado de Itaipu. de profundos impactos na economia e no ordenamento social de muitas nações. têm início a produção de etanol de cana-de-açúcar (Pró-Álcool – 1975). A essas formas acresce-se hoje o emprego da biomassa e de outras fontes alternativas (eólica. pelo lado da procura.3. Três Marias (1962). já nas décadas de 50 e 60. en­ quanto a água que corre nos rios o é. de caráter mais técnico.

traduzido pela Ata de Iguaçu. A Comissão Mista Técnica. que. Período preparatório Conforme salientado. documento que marca o início do período preparatório. na época. complementado depois pelo Acordo Tripartite. o consórcio ítalo-americano IECO-ELC. em 18 de novembro de 1970.200 kW de potência instala­ da em um dos braços das Sete Quedas. ”. então. que intercedeu a favor do projeto perante o Congresso Nacional brasileiro... é.1. firma convênio de cooperação com a Eletrobras e com a ANDE. Esses aspectos serão tratados com mais detalhes nas seções seguintes deste capítulo. a assinatura do Tratado de Itaipu. a divisão da energia em partes iguais. a execução da obra e montagem dos equipamentos e. a cessão da energia não utilizada e a necessidade de entendimentos com os estados ribeirinhos da Bacia do Prata. 4. eram esperados óbices de diversas naturezas para sua concretização. a contratação de estudos de alternativas de locali­ zação da obra. porém. no princípio da década de 60 cresce com rapidez a demanda de energia elétrica na metade Centro-Sul do Brasil.2. dirigida pelo engenheiro Octávio Marcondes Ferraz. da usina de Paulo Afonso. portanto. o que revela o reconhecimento explícito das partes de que. visando ao aproveitamento hi­ droelétrico conjunto. . No documento consta “. a elaboração dos estudos e projeto de en­ genharia. Foi. Para esse fim foi então contratado. por ocasião do enchimento do reservatório de Itaipu. em 1967 foi criada a Comissão Mista Técnica Brasileiro-Paraguaia com a finalidade de realizar o estudo e o levantamento das possibilidades econômicas do aproveitamento hidroelétrico pretendido e apresentar o resul­ tado aos dois governos. fundada antes de tudo na amizade e no respeito mútuo cultivado entre os dois países. 4. Foram esses os principais antecedentes do acordo prévio que Brasil e Paraguai alcançaram em 1966. O papel da Comissão Mista Técnica Para cumprir o disposto na Ata de Iguaçu. achando-lhes solução compatível com os interesses de ambas as Nações. entre outras obras. na região mais meridional da porção brasileira da imen­ sa bacia hidrográfica do rio Paraná. com a supervisão de uma firma de consultores de engenharia. o Serviço de Navegação da Bacia do Prata já havia construído uma pequena hidroelétrica com 1. num projeto daquela envergadura. em 10 de abril de 1970. a produção de eletricidade. quaisquer dificuldades ou problemas. tal como será visto na con­ tinuidade deste trabalho. A Ata de Iguaçu A “Ata de Iguaçu: Brasil – Paraguai”. por sua vez. sob a direção geral e coordenação de um Comitê Executivo. 313 . tais como a decisão de dar início ao estudo e levantamento das possibilidades econômicas de uso dos recursos hidráulicos comuns. assinada em 22 de junho de 1966. após alguns estu­ dos realizados em 1955-56. dentro de um mesmo espírito de boa-vontade e de concórdia. já estava ciente das potencialidades energéticas que representavam os aproximadamente 100 me­ tros de queda existentes no Salto Grande de Sete Quedas. a constituição da Itaipu Binacional. O governo brasileiro. O convênio estabelecia que o trabalho fosse realizado por um gru­ po de técnicos de ambos os países... o registro do entendimento a que chegaram os governos do Brasil e do Paraguai e que expressa irrefutavelmente o amadurecimento da ideia de construir Itaipu. A Ata de Iguaçu. projetista. contratada a empresa EMF. em 1959. por fim.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens os dois países. Antes disso. por conseguinte. não pode ser aceito porque se pre­ via sua implantação exclusivamente em território brasileiro. a qual foi desmontada em 1982. Cabe destacar a atuação do engenheiro e economista Antonio Dias Leite Júnior. 4. o vivo desejo de superar. faz prescrições sobre alguns aspec­ tos relevantes do empreendimento. desviando-se o rio em trecho de fronteira e desconsideran­ do-se o aspecto binacional do sítio. que se encerra com o Tratado de Itaipu. Ministro de Minas e Energia do Brasil de 1969 a 1974. A EMF propôs um aproveitamento hidroelétrico da ordem de 10 mil MW.

Santa Maria. XX e XXI Figura 1 .4. pluviometria. topografia. Disso resultou a indicação de dez locais possíveis para a construção de barragens (Guaíra. com todo o potencial concentrado em uma única usina hi­ droelétrica e (ii) Itaipu Baixo e Santa Maria. assim como a disponibilidade de materiais de construção e seus meios de transporte. Os estudos de viabilidade Em 1 de fevereiro de 1971 foram iniciados os estudos do aprovei­ tamento. São Francisco.Séculos XIX.Comissão Mista-Técnica Brasileiro-Paraguaia 4. investigações geotécnicas e um inventário completo de al­ ternativas possíveis de projeto. os saltos hidráulicos líquidos seriam menores e os custos da potência instalada maiores. condições geológicas e geotécnicas. Porto Mendes. Itaipu. a serem desenvolvidos em quatro fases metodológicas. Além disso. fluviometria. 4. A escolha do local Itaipu No cotejamento entre as duas alternativas finais selecionadas. com o potencial dividido em duas hidroelétricas. Alex Gage. análises hidrológi­ cas. duas barragens. sedimentação. uma única barragem na ilha de Itai­ pu. uma na ilha de Itaipu e outra 150 km a montante em Santa Maria. Laguna Verá. Puerto Embalse e Ilha Acaray) e 50 diferentes arranjos. Comparando-se os arranjos. Arroio Guaçu. as estimativas de custos e os resul­ tados das simulações operacionais. que envolveram levantamentos de campo. a solução Itaipu Baixo e Santa Maria mostrou-se menos competi­ tiva porque os custos dos desvios do rio e dos vertedouros seriam duplicados.A História das Barragens no Brasil . Foi então feita a classificação e análise das informações existentes e aquisição de dados adi­ cionais envolvendo a meteorologia. 314 . a topografia. duas soluções se mostraram preferenciais: (i) Itaipu Alto.3.

foi apresentado o relatório sobre o estu­ do preliminar de viabilidade. Por outro lado. A partir daí passou-se a utilizar a denominação Itaipu simplesmente. quase sem­ pre submersa.Ilha de Itaipu – rio Paraná Figura 3 .A partir da direita: Pierucci. R. A ilha de Itaipu. Figura 4 . concluiu-se que o esquema com uma única barragem fornecia maior capacidade instalada ao menor custo por quilowatt (kW). Ou seja.1972 a geologia e as condições de vazão do rio também encareceriam os custos em Santa Maria. Ela consistia em um afloramento de rocha. o que foi aceito pela Comissão Mista Técnica. após a realização das três primeiras fases previstas na metodologia.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 2 . cujo maru­ lhar provocado pela correnteza inspirou os indígenas a chamá-la “Itaipu”. que deu nome ao empreendimento. Taboada. No final de dezembro de 1972. W. que indicou como mais favorável o projeto Itaipu Alto. a capacidade instalada para Itaipu Alto seria 5.Trabalhos de sondagem na Ilha de Itaipu . o consultor Arthur Casagrande e outros não reconhecidos – 1973. a pouco mais de 20 quilômetros da confluência com o rio Iguaçu. que significa na língua tupi “a pedra que canta”. era localizada logo após uma curva acentuada do rio Paraná. 315 . Delgado. Giovanni Salerno e Piero Sembenelli (todos da IECO-ELC).5% maior e a energia firme por volta de 33% superior à da combinação Itaipu Baixo e Santa Maria.

tendo-se como limite apenas a capacidade de cada um. 4. XX e XXI oportunidades iguais para mobilização da força de trabalho e para a realização dos fornecimentos em geral. o Tratado foi ratificado pelos poderes legislativos de ambos os países no mesmo ano de 1973. O Tratado de Itaipu O Tratado de Itaipu. O acordo foi feito de modo equilibrado. superando divergên­ cias pretéritas. O Tratado também define que a ITAIPU é administrada por um Conselho de Figura 5 . De modo a conferir a adequada segurança jurídica ao acordo. e em igualdades de condições.1973 Administração e uma Diretoria Executiva integrados por igual número de nacionais de ambos os países. portanto. na medida do possível. o instru­ mento-chave de consolidação do acordo alcançado pelo Brasil e pelo Paraguai para a execução do aproveitamento hidroelétrico. com igual participação no capital. basicamente. 4. O relatório final dos consultores foi apresentado posteriormente. foi apresentada uma minuta do re­ latório final de viabilidade à Comissão. Essa deci­ são possibilitou o avanço dos entendimentos que resultaram na redação do Tratado de Itaipu. em julho de 1974. com detalhamento e profundidade adequados à obtenção de empréstimo perante os organismos financeiros internacionais. de 26 de abril de 1973. não aplicação de impostos (mediante isenções fiscais) e de algumas restrições administrativas. A ITAIPU foi então constituída pela Eletrobras e pela ANDE. para detalhar o “como fazer” no empreendimento. oportunidade em que se optou pelo prosseguimento do projeto Itaipu. o que inviabilizava investimentos com uso de recursos próprios.Consultor Arthur Casagrande (à esquerda) e Piero Sembenelli (IECO-ELC) na travessia do rio Paraná . a Comis­ são Mista Técnica determinou que fosse realizado pelos con­ sultores estudo completo de viabilidade para confirmação da alternativa escolhida. Os três anexos do Tratado servem. Essa harmonização de interesses contribuiu para que se estabelecesse o “espírito binacional” que reinou durante toda a empreitada e perdura até hoje. Essas altas cifras. atribuindo a ambos os países o mesmo poder de decisão e. A singular engenharia econômico-financeira do projeto As simulações de custo do projeto que foram feitas na fase inicial dos estudos de viabilidade já indicavam a necessidade de recur­ sos financeiros da ordem de bilhões de dólares americanos para a execução das obras. ultrapassavam em muito a própria economia do Paraguai. Na continuidade. Algumas disposições do Tratado refletem a adoção das me­ Em 12 de janeiro de 1973. 316 . regendo-se por normas esta­ belecidas no próprio Tratado e seus anexos. sendo seus documentos oficiais redigidos em português e espanhol. que são: a possibilidade de aporte de recursos financeiros mediante operações de cré ­ dito.6. se já eram onerosas para o Brasil. é.A História das Barragens no Brasil . didas prévias que o viabilizaram. a divisão da energia pro­ duzida em partes iguais e o estabelecimento da obrigação de aqui­ sição por um país da energia não utilizada pelo outro país para seu próprio consumo.5.Séculos XIX.

pelo financiamento integral do Projeto Itai­ pu por meio de empréstimos bancários.Presidentes Alfredo Stroessner (Paraguai) e Emílio Garrastazu Médici (Brasil). Essas duas disposições viabilizaram economicamente o empreendimento. Paralelamente. por meio da Eletrobras. o Brasil. Optou-se. produziria anualmente uma quantida­ de variável de energia. medido 317 . assim. o Brasil estaria apto a ab­ sorver a metade que lhe corresponderia. na prática. encargos financeiros e demais itens de custeio do empreendimento se­ riam depois pagos com as receitas resultantes da produção de energia elétrica da própria usina. utilizando aproximadamente 92% da energia gerada pela usina. dependendo das condições hi­ drológicas na bacia do rio Paraná e do grau de regularização a montante da barragem. Dessa imensa quantidade de energia. assegurando assim o necessário suporte dos gastos a serem realizados nas diversas frentes de obra. Ficou definido que os empréstimos. o Brasil em 2011 assume cerca de 95% de todos os encargos da ITAIPU.medida em MWh. e assim viabilizar economicamente o empreendimento.Assinatura do Tratado de Itaipu em 26 de abril de 1973 . os gover­ nos do Brasil e do Paraguai resolveram então adotar um modelo de comercialização pelo qual as contratações anuais seriam feitas não pela produção de energia . Para garantir que a totali­ dade da potência disponível da ITAIPU fosse sempre contratada. e. respectivamente. passou a assumir todas as incertezas financeiras e de mercado associadas a um empreendi­ mento desse porte.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 6 . concordou em celebrar contratos com a ITAIPU de forma que o total da potência contratada fosse igual à potência instalada. pois só utilizaria para consumo próprio algo em torno de 10% de sua metade. o Brasil e o Paraguai se comprometeram a contratar conjuntamente o total da potência instalada da usina. pois o Brasil. quando estivesse completa. portanto. mas pela potência do conjunto gerador da usina. Para que se alcançasse a constância de receitas almejada. Os modelos matemáticos utilizados nos estudos de viabilidade indicaram que a hidroelétrica. com 18 unidades geradoras operando. Para aferir o grau dessa responsabilidade. va­ riável -. com uma média estimada da ordem de 70 milhões de megawatts-hora por ano (MWh/ano). acompanhados pelos chanceleres Raúl Sapena Pastor (esquerda da foto) e Mário Gibson Barboza. enquanto o Paraguai não conseguiria fazer o mesmo.

em 15. praticamente blindado contra os efeitos dessas sazonalidades. em razão de o setor elétrico brasileiro ser de grandes proporções. sendo nomeados Diretores-Gerais José Costa Cavalcanti. e Enzo Debernardi. exemplificandose pelo extremo. A prestação do serviço de eletricidade seria então remunerada pela capacidade de produção posta à disposição do usuário. os Ministros das Relações Exteriores e de Minas e Energia do Brasil conjuntamente com os Ministros de Relações Exteriores e de Obras Públicas e Comunicações do Paraguai deram posse nos respectivos cargos aos Membros do Conselho de Administração e da Diretoria Executiva. Contudo. às demais enti­ dades compradoras a elas vinculadas. com a presença dos Presidentes Ernesto Geisel.Séculos XIX.A História das Barragens no Brasil . do Paraguai. Figura 7 . e Alfredo Stroessner. ele teria condições de absorver e diluir eventuais variações de demanda para menos que viessem a ocorrer. em seu patamar mais elevado. pelo Brasil. é claro. por sua vez. Execução do projeto Atendidas as condições necessárias ao desenvolvimento do proje­ to. as avaliações feitas indicaram que.1974 é efetuada a instalação da ITAIPU Binacional. grandeza invariável cujo valor seria fixado nos limites de potência necessários à produção da “energia garantida”. e estar em expansão. pelo Paraguai. assim. do Brasil. 5. e destas. em uma fase predominantemente de intervenção na realidade. XX e XXI em MW. na transferência das incertezas para a Eletrobras e para a ANDE. viabilizando-o defini­ tivamente. Como o Brasil consumiria a maior parte da energia produzida. Ou seja. passou-se então à sua execução. esta pagaria sempre pelo direito de ter potência energética à sua disposição. o maior impacto dessas incer­ tezas recairia sobre seu setor elétrico. Isso acarretava para o comprador au­ mento do componente de custeio devido à energia adquirida da Itaipu sempre que o consumo fosse inferior à capacidade contratada. Constituição da Itaipu Binacional Cumprindo o disposto no Tratado e seus anexos. Tal modelo acabou por constituir o fator diferencial que selou a decisão de construir Itaipu. mesmo que nada fosse consumido pela entidade compradora.05. independente­ mente do que fosse consumido de energia. O Paraguai ficava. Para esse fim. tornando suportável desse modo os efeitos da contratação por potência sinalizado para o Projeto Itaipu.Constituição da Itaipu Binacional em 17de maio de 1974: Presidentes Alfredo Stroessner (Paraguai) e Ernesto Geisel (Brasil) 318 .1. Esse modelo implica. 5.

Euclides Girolamo Scalco (1998-2002). para a edificação da vila residencial para os trabalhadores. organização e direção das atividades da Itaipu. e. para as instalações do aproveitamento hidroelétrico e suas obras auxiliares. Altino Ventura Filho (1998). Euclides Girolamo Scalco (1995-98). Ney Aminthas de Barros Braga (1985-90). De igual manei­ ra. Estavam desse modo estabelecidos o local.Organograma geral da ITAIPU Binacional Foram Diretores-Gerais Brasileiros. responsáveis pela coorde­ nação. para a formação do reservatório. para instalação dos serviços administra­ tivos. são então destinadas áreas de terras no Brasil para a construção da hidroelétrica. o aparato organizacional e o instrumental necessários ao início da execução do projeto. são destinadas áreas de terras no Paraguai. Francisco Luiz Sibut Gomide (1993-95). posteriormente. o orçamento inicial. a estratégia de alto nível. Fernando Xavier Ferreira (1990-91). em caráter parcial. Desde 2003 o cargo é ocupado por Jorge Miguel Samek. Figura 8 . Antonio José Correia Ribas (2002-03).Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Logo após. 319 . Jorge Nacli Neto (1991-93). José Costa Cavalcanti (1974-85). tendo sido posteriormente definida a área total delimitada.

2. Edwin Smith . A.A História das Barragens no Brasil .600 m3/s. XX e XXI 18 unidades de 700 MW.1974 5. na ordem de 62. passou-se à realização da quarta e última fase dos estudos de viabi­ lidade do projeto. na escala 1:100. Belloni. (vi) as unidades geradoras principais. Lyra (Chairman do Board de Consultores da Itaipu) – outubro de 1977 320 . P.A partir da esquerda: Luis Carlos Domenicci (Unicon). José Gelazio da Rocha (Itaipu. para elaborar o projeto de engenharia de Itaipu. detento­ res de conhecimentos compatíveis com as necessidades técnicas de Figura 9 . (iv) a capacidade instalada da usina. portanto logo após a instalação da ITAIPU Binacional. no Paraguai e em outros países. (viii) o arranjo geral. Piasentin. (ix) o vertedouro. (x) as barragens. Sembenelli. Rubens Vianna de Andrade (Itaipu. (v) os ensaios em modelo de regulari­ zação do rio e instalações para navegação. e (xi) a casa de força. vários grupos especialistas. (iii) os estudos da frequência das enchentes. com o emprego de técnicas apuradas de gerenciamento de projetos. Superintendente de Engenharia). Arthur Casagrande (consultor). Consoante a complexidade e importância da tarefa. Nauroz Khan (gerente do estudo de viabilidade). cujo relatório foi apresen­ tado em julho de 1974. Don Deere. A partir da esquerda: Castro. na margem direita. concluindo pela instalação de Figura 10 . 5.Grupo de engenheiros com os consultores. Gallico . Esse relatório final incorporou: (i) os estudos hidrológicos levados adiante. foram forma­ dos. Estudos e investigações confirmatórios Com vistas a cumprir a determinação da Comissão Mista Técnica para que fossem desenvolvidos pelos consultores estudos de viabilidade adicionais e de confirmação da alternativa escolhida.3. Arthur Casagrande. Superintendente da Obra).Séculos XIX. de maneira concatenada. (ii) a enchen­ te de projeto do vertedouro. José Roberto Monteiro (Itaipu) e Flavio H. Projeto de engenharia: dados básicos e características Com base nas prescrições do relatório final de viabilidade do em­ preendimento a partir do segundo semestre de 1974 deu-se início a ampla mobilização de pessoas e empresas no Brasil. decorrente do fato de que o Brasil adota a frequência de 60 Hz e o Paraguai de 50 Hz. (vii) a dupla frequência.

vertedouro. de subprojetos e de esquemas organizacionais do empreendimento. que. Klaus John.A partir da esquerda: Corrado Piasentin. representado pelo experiente Engenheiro Gurmukh Sarkaria. foram subdivididas em diversas outras. Figura 11 . naquela fase. Fernão Paes de Barros. casa de força e equipamentos de geração de energia. Isso necessariamente implicou o atendimento de rigorosas exigências. Gurmukh Sarkaria (Coordenador-Geral da IECOELC). por sua vez. pois não se revela possível nes­ ta memória resumida listar as muitas outras empresas e profissionais que participaram do esforço. Lyra (Chairman do Board de Consultores da Itaipu) – outubro de 1977 321 . Orlando Gomes dos Santos e Flavio H.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens dimensionamento e especificações das principais partes da hidroe­ létrica: estruturas de desvio. Arthur Casagrande. Don Deere. reservatório. em razão do aprofundamento dos estudos. relacionando somente as principais empresas participantes. o arranjo geral das instalações permanentes foi diferente em alguns aspectos daquele definido durante a fase de viabilidade. Conforme mencionado. Essas partes principais. barragens e ensecadeiras. apresenta uma síntese das principais atividades desenvolvidas nessa etapa de estudos e projetos. anexo. e mediante os resultados dos testes e verificações feitos na fase de projeto. O Quadro III. desempenhou a função de Coordenador-Geral do Projeto. A diretriz geral que marcou essa etapa essencialmente conceptiva do Projeto Itaipu foi a do emprego incondicional de critérios de excelência técnica mundialmente disponíveis para projetos des­ sa natureza. que se refletiram posteriormente em toda a cadeia de processos. igualmente tratadas por especialistas de diversas áreas. Cabe destacar que a Itaipu manteve a liderança do processo a cargo do consórcio internacional IECO-ELC.

Essas descontinuidades. áreas fraturadas e zonas cisalhadas. partiu-se para as investigações geotécnicas. e. que foram devidamente instrumentadas para posterior monitoramento. Foram também mobilizados muitos consultores. se reuniam re­ gularmente para analisar aspectos especiais do projeto e da cons­ trução das obras civis. representativos do conhecimento acumulado no mundo até aquela época em projetos hidroelétricos. poço de investigação e de acesso. encontradas na forma de juntas. especialistas e firmas encarregadas dos ensaios em modelos para resolverem problemas específicos de engenharia civil e aspectos ligados ao projeto. cortinas de injeção e de drenagem. com o emprego principalmente de chavetas de con­ creto na descontinuidade da margem direita. anexo. complementares às estruturas das fundações. escavações de trincheiras. que definiram a deformabilidade e a resistência dos diversos tipos de brecha. por meio de sondagens e perfurações.A História das Barragens no Brasil .Rubens Vianna de Andrade (esquerda. As­ sim. por conse­ guinte. bem como identificaram as principais descontinuidades existentes no subsolo de assentamento das fundações. O Quadro V. Dessas investigações. XX e XXI Figura 12 . foi também prescrita a execução de injeções. nas fundações da barragem principal no leito do rio. pôde-se dar início ao aprofundamento das investigações geológicas e geo­ técnicas feitas na Fase 1 dos estudos de viabilidade. basalto vesicular e basalto denso. os recursos de simulação auxiliaram significativamen­ te nas decisões dos projetistas. Caracterizada a geologia da área do projeto e do reservatório. e Diretores-Gerais José Costa Cavalcanti (Brasil) e Enzo Debernardi (Paraguai) – dezembro de 1977 A Itaipu manteve um painel permanente de consultores inter­ nacionais (Board). contatos. a geometria e a disposição territorial do conjunto. tendo em vista 322 . o cálculo e dimensionamento das fundações das barragens e das demais estruturas a serem erigidas. Superintendente da Obra).4. exigiram o emprego de tratamen­ tos subterrâneos para assegurar sua estabilidade frente às cargas a serem suportadas. que jazem sobre grandes derrames basálticos da bacia superior do rio Paraná. poços e túneis para verificação e a realização de ensaios in situ e ensaios em laboratório. Esses consultores. de maior extensão e volume.Séculos XIX. apre­ senta uma relação dos principais ensaios e estudos especiais realizados e das instituições que os conduziram. furos e túneis de drenagem. Fundações: investigações geológicas e geotécnicas Definido o arranjo geral das instalações permanentes e. relacionados no Quadro IV. fabricação e funcionamento dos geradores. bem como do projeto e da fabricação das unidades geradoras. 5. anexo.

Nelson Infanti Jr. Desde 2002 o cargo é ocupado por Antonio Otelo Cardoso. passou-se para a cons­ trução da barragem principal e do vertedouro e da casa de força. pela expressiva monta das di­ mensões e volumes envolvidos na construção da usina. e Maurício Muller – maio de 1977 ainda não existiam normas avançadas de controle de qualidade. Tratava-se de uma operação complexa. O material das escavações foi utilizado para a construção das ensecadeiras principais no leito do rio Para­ ná e da barragem de enrocamento na margem esquerda.6. que tiveram seu advento nos anos seguin­ tes. situado no contexto geral do Sistema de Qualidade das Construções de Concreto. a cronologia e a organização dos trabalhos a serem realizados. Márcio de Almeida Abreu (1991-92). tais como as séries ISO. Rubens Vianna de Andrade (1990-91). Foram Diretores Técnicos brasileiros da Itaipu.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Por essa lógica. Planejamento e organização dos trabalhos A Itaipu. Sendo a construção do canal de desvio a atividade mais crítica. Flávio Decat de Moura (1993-95). definiu que no ano de 1983 seria iniciada a operação da primeira unidade geradora. Roberto Ramón Acosta Alvarez. Marcos Antônio Schwab (1995-96) e Altino Ven­ tura Filho (1996-2002). envolvendo algumas importantes obras civis e diversas encomendas de equipamentos e componentes eletromecânicos com perfil de fornecimento de longo prazo. merece menção especial a contribuição do La­ boratório de Materiais e Concreto da Itaipu (que atualmente se denomina Laboratório de Tecnologia do Concreto da Itaipu – LabTecon). em 1975. e com dinâmica adequada à velocidade de construção da obra. Nesse sentido. no programa de construção. A partir da esquerda: Minervino Buosi. e desviado o rio. suas ensecadeiras em arco e a estrutura de controle nele existentes. o que permitiu que. Relações do trabalho e previdência social Para o normal andamento da obra. Na época de sua implantação (1975-76) Figura 13 . No laboratório foram adotados padrões até mais exigentes do que aqueles que essas normas depois vieram a estabelecer.Grupo de geólogos das projetistas se apronta para inspecionar os túneis e poços. responsáveis pela condução do projeto. segundo indicou a rede CPM (Critical Path Method) elaborada. 5. Conclu­ ído o canal de desvio. 5. construção das obras e operação das instalações: John Reginald Cotrim (1974-85). se previsse o início em 1975 de diferen­ tes frentes de trabalho em paralelo. Essa decisão determinou o planeja­ mento. parte desta última no leito do rio ao pé da barragem principal e parte dela ao pé da estrutura do desvio. Roberto Lei­ te Schulman (1985-90). John Cabrera. as obras civis tiveram início com a execução de vá­ rias frentes conjuntas de escavações. a calha do vertedouro e a fundação da barragem de enrocamento. Szolt Gombosy. 323 . foram en­ tão separadas as atividades que dela independiam.5. tendo como mais volumosas o próprio canal de desvio. era importante assegurar direitos laborais e proteção social que favorecessem a recepção e a perma­ nência do expressivo contingente de trabalhadores e suas famílias na área do projeto.

Roberto Monteiro. clubes e áreas de lazer. As obras do desvio têm como elementos 5. Logo depois.02.5 acima. é também assinado. o Protocolo Adicional so­ bre Relações do Trabalho e Previdência Social relativo aos contratos de trabalho dos trabalhadores. dos empreiteiros e subem­ preiteiros de obras e locadores e sublocadores de serviços.1974. como mencionado no item 5. Execução das obras civis As obras tiveram início em janeiro de 1975. Na mesma linha. e estradas pavimentadas permanentes para garantir o transporte de pessoal.Ultima inspeção das adufas e do canal antes do desvio do rio Paraná em outubro de 1978. redes de serviços de eletricidade. em 10. O desvio do rio Paraná se deu em quatro etapas.09. aos trabalhadores contratados pela Itaipu. o Protocolo sobre Relações de Trabalho e Previdência Social. Por sua impor­ tância e complexidade. anexo. 5.Séculos XIX.7. esgoto e comunicação. Francisco Andriolo e Ademar Sonoda (todos da Itaipu) 324 . Ronan Rodrigues da Silva (Diretor de Construção da Unicon). não dispunham de condições de absorver os contingentes humanos que a elas afluiriam em breve. escolas. uma vez que as cidades de Foz do Iguaçu e Puerto Stroessner. materiais e equipamentos. Figura 14 . Essas obra incluíram conjuntos habitacionais. que foram concluídas em 1991. Infraestrutura de apoio Foram implantadas obras de infraestrutura destinadas a abrigar e dar assistência aos trabalhadores brasileiros e paraguaios das várias empresas contratadas para executar as obras e serviços. No Quadro VI. em ambas as margens. XX e XXI Para tanto. centros comunitários.8. em que também é previsto a constituição de comissões de prevenção de acidentes de trabalho. as matérias relativas a higiene e a segurança do trabalho são objeto de acordo complementar ao Protocolo. iniciando-se em outubro de 1975 pela escavação do canal de desvio e terminando em julho de 1979 com o esgotamento da área de trabalho entre as ensecadeiras principais. água. as conhecidas CIPAs. em 11. Foi também melhorada e expandida a rede viária existente para integrar as instalações do projeto com as cidades da área e organizados serviços de coleta de lixo. com a constru­ ção do canteiro e da infraestrutura. começaram as obras civis propriamente ditas.1974. em matéria do direito de trabalho e previdência social. creches.A História das Barragens no Brasil . foi assinado pelo Brasil e pelo Paraguai. estabelecendo as normas jurídicas aplicáveis. em maio do mesmo ano. consta a relação dos consórcios e empresas que as executaram. hospitais. segurança física e de assistência social aos trabalhadores e suas famílias. à época. independentemente de sua nacionalidade. Da esquerda para a direita: José Augusto Braga (Itaipu).

Consultores Klaus John (à esquerda). foi possível operar o vertedouro. Atenção es­ pecial foi dada às comportas de desvio e seu fechamento.294 m) e na margem direita (872 m). A experiência de operar a contento o vertedouro durante muitos anos atestou sua absoluta confiabilidade para extravasar as descargas necessárias. testes nos trampolins e análises dos efeitos erosivos a jusante. A barragem de enrocamento da margem esquerda (1. requereram em suas extremidades zonas de transi­ ção para contato entre si e dispositivos de abraço para contato com as estruturas de concreto (barragem de contrafortes e vertedouro). sendo reali­ zados ensaios e estudos em modelo hidráulico necessários ao projeto e fabricação de seus componentes. Don Deere e Arthur Casagrande – outubro de 1978.1982.984 m de com­ primento) e as barragens de terra existentes na margem esquerda (2. Uma das fases mais importantes e críticas foi o fechamento do rio Paraná e seu desvio para o canal e a estrutura de desvio. que são os principais componentes que formam a geometria dessas estruturas. Foram então executados a estrutu­ ra da crista. 325 . As comportas de desvio foram posteriormente recuperadas e recondicionadas para uso como comportas de tomada d´água. a estrutura de controle do desvio. as ensecadeiras auxiliares em arco de montante e de jusan­ te no canal de desvio (demolidas a fogo posteriormente. o túnel rodoviário. que exigiram os cuidados executivos de costume para terraplenos com essa tipologia. teve seu arranjo final precedido de ensaios em mo­ delo hidráulico em escala 1:100. construtivos principais o canal de desvio.10. A partir de 1982. observar seu desempenho hidráulico e seu desempenho estrutural e os processos erosivos de jusante. as calhas. com capacidade de evacuar 62. localizado na margem direita do rio Paraná. evento que marca o início do enchimento do reservatório de Itaipu.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 15 . gerando imagens que ficaram famosas devido à ampla divulgação do fato na mídia) e as ensecadeiras principais de montante e de jusante no rio. testes de funcionamento e seu fechamento final que aconteceu em 13. O vertedouro. os muros. os trampolins e as galerias. e que depois receberam as respecti­ vas comportas e equipamentos associados.200 m3/s por meio de três calhas com trampolim. que compõem o arranjo geral da Itaipu. com o enchimento do reservatório.

Essa atividade de auscultação da barragem continua na fase atu­ al de operação e inclui a avaliação do comportamento estrutural. e feitas as injeções.Séculos XIX. Essas obras civis envolveram colossais quantidades: mais de 23 mi­ lhões de metros cúbicos de escavação em terra. hidráulico e térmico das barragens pelos resultados da instrumentação. quase 32 milhões de metros cúbicos de escavação em rocha.A História das Barragens no Brasil . XX e XXI Figura 16 .Maquete da escavação da barragem de Itaipu . associada às inspeções dos engenheiros e técnicos da Itaipu.5 milhões de metros 326 . o Edifício da Produção.Paul Joachim Folberth (à esquerda) e Gurmukh Sarkaria (ambos da IECO-ELC) – abril de 1979 A parte central da hidroelétrica. em grande volume. foi dotada de uma barragem de concreto de gravidade aliviada. Enquanto eram executadas as escavações para as fundações. Arthur Casagrande e Gurmukh Sarkaria (IECO-ELC) no canal de desvio – outubro de 1978 Figura 17 . foram se erigindo gra­ dualmente as estruturas das tomada d’água e dos demais blocos de concreto. enquanto o longo segmento em curva que liga a barragem ao vertedouro na margem direita e a estrutura de desvio na margem esquerda foram dotados de barragens de concreto de contrafortes. que aloja a casa de força e. O desempenho da barragem durante a fase de construção e o enchimento do reservatório foram avaliados pela instrumenta­ ção de monitoramento instalada nas estruturas e suas fundações.Consultores Charles Blanchet (à esquerda). tratamentos e construção de chavetas sob o leito do rio. sobre esta. 6.

12.Enchimento do reservatório.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens cúbicos de argila compactada e 15 milhões de metros cúbicos de enrocamento. (motorista IECO-ELC). Dillo Rocha (Engevix) – outubro de 1982. Alessandro Gallico (Engenheiro Chefe da ELC . não identificado. No projeto original de Itaipu foi adotado o critério da leitura manual da instrumentação. em vez da leitura centralizada e automática. assegurando assim a observação direta das estruturas e fundações e dos próprios instrumentos.9. não identificado. representatividade de um trecho e peculiaridades da fundação. Existe também uma rede de sismômetros que cobre a área da bar­ ragem e do reservatório de Itaipu. Ricardo Abrahão (Promon).5 milhões de toneladas de peso. Os blocos mais instrumentados. pois a leitura manual obriga os técnicos a visitar roti­ neiramente toda a barragem.Milão). Superintendente de Obras. o que consumiu mais 2. Libero Medaglia (IECO-ELC). O objetivo é monitorar a even­ tual ocorrência de sismos induzidos pelo reservatório. José Antônio Rosso (Itaipu). Engenheiro Gurmukh Singh Sarkaria (Coordenador Geral IECO-ELC). Figura 18 . tipo. A partir da esquerda: Adão K. Hilário Da Fré (motorista IECO-ELC). nessa complexa etapa do projeto. É importante salientar a decidida atuação do Engenheiro Rubens Vianna de An­ drade. Michael Sucharov (Engevix). 5.6 milhões de metros cúbicos de concreto com 31. Giacomo Re (Themag). A auscultação da barragem e a junta de consultores civis O projeto de auscultação da represa de Itaipu busca a garantia da segurança da barragem. foram selecionados levando em conta altura. até hoje não 327 . Fernão Paes de Barros (Itaipu).5 milhões de toneladas de cimento e 481 mil toneladas de aço. denomi­ nados blocos-chave. posição.

Essa Junta de consultores. Marcos Antonio Daniel Damus e Roberto Ramón Acosta Alvarez. Por outro lado. mobilizou-se para assegurar uma regulação do fluxo que não prejudicasse seus direitos e interesses sobre as águas do rio Paraná. a Itaipu mantém um painel permanente de consultores inter­ nacionais especialistas em engenharia de barragens. na manutenção da viabilidade da navegação e do abastecimen­ to de água. Foram presidentes da Junta Flavio H. os consultores recomendam eventuais ações de melhoria e correção. exigiram mais um tour de force da área diplomática. Deve-se destacar a presença no Projeto Itaipu desses renomados engenheiros. As questões estavam centradas no estabeleci­ mento de um nível de água de operação de Itaipu que permitisse a viabilidade do futuro aproveitamento hidroelétrico argentinoparaguaio de Corpus. Ao término de cada reunião é elaborado um relatório técnico sobre a segurança da barragem e seus temas correlatos. Alguns desses profissionais são colaboradores de longa data da Itaipu.10. e do Paraguai. Gurmukh S. para as três Partes. 5. que se reunia com frequência maior durante a fase de estudos e projetos e iní­ cio da construção das obras. em cujos traba­ lhos participaram trinta consultores. João Francisco Al­ ves da Silveira. As negociações. Corrado Piasentin. bem como na adoção de medidas de segurança e de preservação ambiental. Os argumentos se contrapunham ao ponto de o assunto ter sido debatido inclusive durante a Assembléia Geral da ONU realizada em 1972.3. Lyra (1974 a 1992). de Souza Pinto (2010). a ser erigido logo a jusante de Itaipu. atualmente se reúne a cada qua­ tro anos aproximadamente para verificar o desempenho das estruturas civis da Itaipu. para satisfação de todos os interessados. Entre estes men­ cionamos: do Brasil.A História das Barragens no Brasil . Nascia desse modo o Acordo sobre Cooperação Técnico-Opera­ tiva entre os Aproveitamentos de Itaipu e Corpus. Se necessário. Os equipamentos são capazes de registrar terremotos que ocorrem inclusive em regiões distantes. A Junta realizou 20 reuniões entre 1975 e 2010. tendo participado dos trabalhos de engenharia desde o início do projeto. também chamado de “Junta de Consultores Civis” ou “Board de Con­ sultores Civis”. a efetiva convergência de interesses e a obtenção de benefícios recíprocos. passando depois pelas fases de construção. que não foram isentas de momentos tensos. ciente das expressivas dimensões da barragem de Itaipu e de sua capacidade de armazenamento e de contro­ le dos caudais. que. Sarkaria (1995 a 2006) e Nelson L. como a Cordilheira dos Andes e as Filipinas. As reuniões da Junta são precedidas de acurados preparativos. a natureza do assunto o insere ainda como última providência do período preparatório. conforme citado no Quadro IV do item 5.1979 pela Argentina. A Junta realiza inspeções técnicas e analisa os dados da auscultação para aferir as condições de uso e segurança da usina. levantamentos e pré-análises técnicas.10. 328 . conhecidos in­ ternacionalmente. feitas por consultores especialistas que acompanham por anos o cotidiano da aus­ cultação da barragem e apóiam as equipes técnicas da Itaipu. XX e XXI registrados.”. montagem e operação da usina. Michael Maxwell Dayan Dermont Sucharov. Isso se deu em boa parte graças ao hábil uso pelos diplomatas dos elementos fornecidos pelo meio técnico que possibilitaram o alcance de entendimentos operativos que vieram a pacificar a questão. pelo Brasil e pelo Paraguai. Brasil e Paraguai avocavam direitos de uso das águas do rio. Criado em 1974. celebrado em 19. sem dúvida os mais qualificados para exercer a gestão técnica do empreendimento. que consideravam igualmente legítimos e pertinentes. O Acordo Tripartite A Argentina. Embora nessa oportunidade a obra de Itaipu já estivesse em andamento.Séculos XIX. mais uma vez triunfou. em que “As deliberações (do Acordo) caracterizam-se por um espírito de boa vizinhança e de cooperação na busca de uma solução que representasse.

Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 19 . dentro de um espírito de cooperação entre os países do Cone-Sul da América do Sul.10. elevandose em quase 100 metros . que antes comportava inte­ gralmente o veloz rio Paraná. Esse evento. invade e se espraia com rapidez nas adjacências mais altas e mais planas. da mais alta importância para todo o projeto.11. O rio Paraná. passou da cota 109 me­ tros para a cota 205. em pé). O cânion.80 metros (acima do nível do mar). Cabe salientar que a existência desses reservatórios faz com que o rio Paraná saia do Brasil. Carlos Washington Pastor (Argentina) e Ramiro Saraiva Guerreiro (Brasil). Esse lago. passa a ser insuficiente para a água que se acumula. justamente por Itaipu. foi antecedido de uma série de preparativos. que enfim transborda da calha do rio. no prazo de 15 dias.1979 – Chanceleres Alberto Nogués (Paraguai. então. sendo por isso o último de um conjunto de 47 reservatórios de usinas com potência maior que 30 MW existentes na Região Hi­ drográfica do Paraná. compartilhado pelo Brasil e pelo Paraguai.Assinatura do Acordo Tri-Partite Argentina-Brasil-Paraguai em 19. em 13 de outubro de 1982 as comportas de desvio foram completamente fechadas e teve início o enchimento do reservatório de Itaipu. A cessão desse benefício é feita pelo Brasil sem ônus para a Argentina e para o Paraguai. tal como ocorreu. a montante e a jusante da barragem. que drenam os cursos de água de uma vasta área com mais de 820 mil quilômetros quadrados a montan­ te de Itaipu.350 km2 (780 km2 no Brasil e 570 km2 no Paraguai). 329 . em direção ao Paraguai e à Argentina. profundidade máxima de 180 m e su­ perfície de 1. A formação do reservatório Conforme mencionado. situa-se na porção mais a jusante do rio Paraná ainda em território brasileiro. 5. com elevado grau de regu­ larização. fundamentais para que a operação fosse bem-sucedida. Formou-se desse modo um lago artificial de expressivas dimensões: 170 km de comprimento. que se deu em três etapas. capaz de armazenar 29 bilhões de metros cúbicos de água.

inusuais à época. limpeza da área do reservatório. 330 . Robert Goodland e por especialistas da própria IECO-ELC. Esse estu­ do categorizou os possíveis efeitos físicos. como se previa. a implantação de reservas e refúgios (em um total de oito no Brasil e no Paraguai). XX e XXI Afora os aspectos ambientais relacionados à formação do lago de Itaipu. Os levantamentos previstos se deram então quanto ao meio am­ biente físico (qualidade da água. a elaboração de um plano-mestre para utili­ zação da área do reservatório e a aplicação de medidas de prote­ ção ambiental. além.A História das Barragens no Brasil . o qual posteriormente publicou o livro “Hidroelétricas. Essas considerações ambientais. o pro­ jeto previu também a avaliação do desempenho geofísico do reservatório no que se refere a recalques da crosta terrestre devido ao peso da água e à atividade sísmica relacionada ao reservatório (sismo induzido). setores de aproveitamentos múltiplos. é claro. Essa avaliação serviu principalmente para definir qual estru­ turação seria mais adequada ao Plano-Mestre de utilização da área do reservatório. pois. foi elaborado o “Plano Básico de Conservação do Meio Ambiente”. da geração de energia elétrica: nave­ gação. em 1973. a constru­ ção de Itaipu inevitavelmente interviria no ambiente natural.12. não ocorrem fenômenos geofísicos que afetem adversamente a segurança e a estabilidade das estruturas da represa. A partir dos estudos de 1973. O plano também estipula os procedimentos de gestão dos usos múltiplos pela Itaipu e a coordenação dessa com as autoridades das diversas esferas de governo. levantamento da fauna e levan­ tamento da pesca) e ao meio ambiente social (programas sanitários e de saúde pública e investigações arqueológicas). na agricultura e na pecuária. tendo o relató­ rio referente a esse último item sido elaborado pelos consultores James Albert Harder e Hans Albert Einstein). e prescreveu a realização de levantamento ambiental na área do projeto. suas formas de ocupação e usos permitidos. Ltda. efeitos climáticos e transporte de sedimentos. meio ambiente e desenvolvimento”. ainda que naquela época parte da região registrasse importante inter­ venção humana. Meio ambiente e ecologia Como a maioria dos empreendimentos de grande porte. conforme estabelecido no Anexo A do Tratado. A medição desses parâmetros tem indicado que. turismo e lazer. Cabe men­ cionar a participação do Engenheiro Arnaldo Carlos Muller na liderança desses trabalhos. que já havia alterado significativamente o meio ambiente local.C. Definiu também um zoneamento territorial do reservatório: (1) zona do reservatório e (2) zona do litoral (onde se encontra a área de proteção do reservatório): setores especiais. projeto em que atuou o arquiteto e paisagista Fernando Magalhães Chacel e que foi executado pelas empresas PARELC – GCAP e Arquitetura Ambiental S. biológicos e sociais e traçou diretrizes para a proteção e valorização do meio ambiente na área do projeto e nas regiões afetadas. o resgate de animais (operação Mymba Kuera – pega-bicho). ao meio ambiente biológico (levantamento florestal. abastecimento de água para consumo doméstico e irrigação. O plano definiu então os usos múltiplos do reservatório. entre cujas atribuições está a de ser responsável “pelos serviços relacionados com a preservação das condições ambientais na área do reservatório”. As informações e os resultados obtidos com os levantamentos realizados mostraram quais seriam as várias utilizações possíveis do reservatório. foi criada a Diretoria de Coordenação. As medidas de proteção e valorização do meio ambiente envolveram a proteção das florestas existentes e reflorestamento (que nos dias atuais contabiliza 44 milhões de árvores plantadas). principalmente na mar­ gem brasileira. que serão apresentados na sequência. que definiu a política ambiental da Itaipu a partir de 1975. A possibilidade de adoção de medidas voltadas ao meio ambien­ te deu o tom para toda a ação que se seguiu. Isso foi percebido pelos projetistas que. se aprofundaram no assunto e apresentaram à Comissão Mista Técnica Brasileiro-Paraguaia estudo elaborado pelo Dr.Séculos XIX. 5. pesca. setores de lazer e setores de integração urbana. algumas delas potencialmente conflitantes entre si. tiveram reflexo inclusive na estrutura organizacional da Itaipu. a aqui­ cultura (tanques-rede e canal de migração e desova – Canal da Piracema) e a recuperação e paisagismo da área de construção da obra.

uma vez que o nível de água do reservatório permanece pratica­ mente inalterado ao longo do tempo. onde exis­ tiam 8.13. Márcio de Almeida Abreu (1994-95). houve melhorias e expansão da infra-estrutura nos municípios da área de influência do reservatório. Nessas cidades e em outras. da submersão de equipamentos urbanos e de construções lo­ cais de valor cultural ou afetivo. proporcionando assim um uso regular de sua linha costeira para atividade de turismo e lazer. José Luiz Dias (1997-2000). Tais áreas requeridas pelo projeto perfaziam em torno de mil qui­ lômetros quadrados no lado brasileiro (ver item 5. Tércio Alves de Albuquerque (1991). talvez o mais im­ portante tenha sido a necessidade de reassentamento de pessoas que residiam ou tinham suas posses ou desenvolviam suas atividades (majoritariamente agrícolas. com reflexos socioeconômicos locais. a tal ponto de ter sido visitada por cerca de 16 milhões de pessoas de 1977 a 2010. a grande atratividade que a represa exerce sobre os turistas.6 mil urbanas). com vias pavimentadas. para a maior permanência de turistas na região da fronteira trinacional Argentina-Brasil-Paraguai. estendendo-se também às localidades próximas ao lago.e por isso forte­ mente turística -. no entanto. como pelo consumo de bens e serviços proporcionados pelos milhares de trabalhadores que recebiam salários e benefícios de seus empregadores vinculados ao projeto. verifica-se que.9 mil rurais e 1. próximas a elas.5 mil propriedades (6. com uma média histórica por volta de meio milhão de pessoas por ano. Alia-se ao fato da Itaipu ter sido construída na região que abriga as mundialmente famosas Cataratas do Iguaçu . Figura 20 . Desde 2003.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens principalmente em Foz do Iguaçu e em Ciudad del Este (anti­ ga Puerto Stroessner). Antonio José Correia Ribas (2000-2002) e Olivo Zanella (2002). o que coopera também para o processo de desenvolvimen­ to da região. água. Luiz Eduardo Veiga Lopes (1985-90). Entre os impactos físicos de repercussão social. cuja compensação paga pela Itaipu foi equivalente a US$ 190 milhões. Nos dois municípios foram construídas 10 mil casas nas áreas residenciais. o que exigiu que outros 390 km fossem reabertos com novo traçado. o que de­ senvolveu o comércio e a prestação de serviços locais. ele­ tricidade. 5. além do aumento populacional. o cargo é ocupado por Nelton Miguel Friedrich. A atividade turística. Brasílio de Araújo Neto (1995-97). responsá­ veis pelos serviços relacionados com a preservação das condições ambientais na área do reservatório e à execução de projetos e obras fora da área das instalações destinadas à produção de energia elétrica: Cássio de Paula Freitas (1974-85). ou seja.Faixa de proteção do reservatório. esgoto e demais equipamentos urbanos. Nelson Farhat (1990-91). Esses valores possibilitaram que os deslocados comprassem em média uma metade a mais em relação às terras que possuíam antes. Desenvolvimento regional e turismo No que se refere ao desenvolvimento econômico e social da re­ gião com a implementação do Projeto Itaipu. tanto pelo atendimento da diversidade de suprimentos necessários às diversas frentes das obras. com balneários e marinas. por­ tanto. A Itaipu contribui. cuja densidade demográfica era de 35 habitantes/km2.1). e a grande maioria deles permaneceu nas proximidades da área do projeto. houve notório incremento da circulação econômica. Além da perda das áreas cultiváveis (a maior parte no Brasil). 331 . produtivas) nas áreas que seriam inunda­ das pelo lago. não se limita ao sítio da usina. foram também submersos 577 km de estradas. Foram Diretores de Coordenação brasileiros da Itaipu.

A História das Barragens no Brasil . As obras de montagem eletromecânica foram iniciadas em 1980 e concluídas em 1991. Conforme é característico dessa fase da construção de uma hidro­ elétrica. pertencente a empresa Furnas Centrais Elétricas S. pondo em funciona­ mento a primeira de suas 18 unidades geradoras contratadas à época.1984 – Congratulações dos Diretores-Gerais José Costa Cavalcanti (Brasil) e Enzo Debernardi (Paraguai. 332 . esses portos eram bastante afastados da região das obras. utilizando o sistema de corrente contínua (HVDC – High Voltage Direct Current). no setor de 50 Hz. No caso de Itaipu. alguns dias depois. Foi um importante marco na história do empreendimento. O Quadro VII. em 17 de dezembro de 1983 ocorre o primeiro giro mecânico da turbina da unidade geradora U1. e os segmentos da construção foram sendo liberados. boa parte das peças eletromecânicas provém de centros industriais ou do exterior. anexo. contém a relação dos consórcios e empresas fabricantes.Séculos XIX. Logo depois. ao passo que foram também sendo instalados os sistemas de controle. foram então montadas as tomadas de água. Obede­ cendo-se os delays programados. localizada na extremidade direita da Casa de Força. também anexos. O Quadro VIII e o Quadro IX. Figura 21 .. supervisão e proteção.A. Superintendente de Engenharia da Itaipu em 1974. acarretando para a Itaipu dispêndios em obras de acon­ dicionamento de rodovias e de pontes no Brasil para a passagem dessas cargas de grandes dimensões e peso. Foram também montadas as linhas de transmissão que conectam a usina ao sistema elétrico interligado. sincronizada com a rede da ANDE.14. A usina alcançava desse modo autonomia parcial. Esses trabalhos contaram com a experiente atuação do engenheiro José Gelazio da Rocha. à direita). deu-se continuidade à montagem dos equipamentos de geração da casa de força e dos equipamen­ tos e sistemas auxiliares desta. em 5 de maio de 1984. de acordo com o cronograma geral. por meio das subestações construídas na margem brasileira e na margem paraguaia. ela passou a transmitir energia em caráter experimental para São Paulo. contêm as relações dos consórcios e empresas que fizeram respectivamente o controle de qualidade e inspeção e exe­ cutaram a montagem propriamente dita dos equipamentos. o que exigia transportes de longa distância em veículos especiais. foram também iniciadas as montagens eletromecânicas. passando por portos marítimos.15. XX e XXI 5. A montagem eletromecânica À medida que obras civis foram avançando.05. foi iniciada sua operação efetiva. os condu­ tos forçados e os equipamentos na barragem de concreto. Funciona a primeira unidade geradora Cumprindo o cronograma de montagem. Desse modo.Entra em operação a primeira unidade geradora em 05. 5. e.

333 . que passou a adminis­ trar o Hospital Ministro Costa Cavalcanti.1. foi então iniciada a comercializa­ ção da energia produzida pelas duas primeiras unidades geradoras (U1 e U2). anexo. sem fins lu­ crativos. Nesse sentido. passando a hidroelétrica a contar en­ tão com 20 unidades geradoras. que seria de longa duração. decorridos.8 bilhões ao pagamento dos encargos e rolagem da dívida durante a construção. para atender aos empregados do quadro permanente da Entidade binacional. O Governo Federal Brasileiro apoiou integralmente o esforço de captação de recur­ sos para o financiamento da construção e o Tesouro Nacional do Brasil ofereceu todas as garantias para os empréstimos. 6. o que resu­ me o histórico do endividamento da Itaipu.1. Antes. fase que exigiria competências e relações de trabalhos diferentes das aplicáveis aos trabalhado­ res que atuaram durante o tempo que durou a construção e a montagem. Desse modo. O ápice da participação da Itaipu Binacional no mercado brasilei­ ro foi então alcançado em 1997. Desse montante.2.1. Nessa linha foi também criada em 1994 no Brasil a Fundação de Saúde Itaiguapy. Posteriormente. alcançando. assim.5 acima. portanto. a Itaipu começou o processo de mobilização da força de trabalho necessária para a futura ope­ ração e manutenção da usina.600 megawatts (MW) que consta no Anexo B. sua potência máxima de 14. muitos deles vindos de outras empresas do setor elétrico. US$ 12. em face do novo vínculo emprega­ tício.1. em 6 de maio de 1991. por volta de 1982. em 25 de outubro de 1984 foram então oficialmente inauguradas as unidades geradoras U1 e U2. os governos do Brasil e do Paraguai resolveram realizar a obra mediante a obtenção de emprés­ timos a serem pagos a longo prazo. utilizando as receitas a serem geradas com a própria produção da usina. é enfim inaugurada a uni­ dade geradora U18. e US$ 14. foram também montadas as unidades U9A e U18A. montantes da ordem de US$ 26. Início da operação comercial da usina A partir de 1 de março de 1985. a Itaipu instituiu a Fundação Itaipu-BR de Previdência e Assistência Social.000 megawatts (MW). 6. mostra a relação dos consórcios e empresas que executaram a instalação das unidades de reserva. com o atendimento de 26% da demanda do setor elétrico do país. ativando assim a contabilidade dos suprimentos de ele­ tricidade da Itaipu às entidades compradoras Eletrobras e ANDE. para efeitos de faturamento.2 bilhões correspondem aos investimentos diretos. última das 18 unidades previstas do conjunto gerador principal com 12. que via­ bilizaram a obra. Mantido o ritmo de montagem de duas a três unidades por ano. Custo direto de Itaipu De acordo com o item 4.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens 6. foram captados. uma entidade fechada de previdência privada (fundo de pensão). cuja descrição será apresentada adiante. A operação da usina Decorrido o breve período inicial. porém. assim. ainda em 1984 foram produzidos por Itaipu 277 gigawatts-hora (GWh) de energia. Na margem paraguaia foram criadas para as mesmas finalidades a Caja Paraguaya de Jubilaciones y Pensiones del Personal de la Itaipu Binacional (Cajubi) e a Fundación de Salud Tesai . entregues ao sistema interligado. de 1974 a 2008. de 2000 a 2007. Foi. sete anos da entrada em operação das duas primeiras unidades. Operação da usina e desenvolvimento organizacional 6. gradualmente constituído o quadro de trabalhadores per manentes da usina.9 bilhões. A exemplo dessas empresas. ambas em 50 Hz. O Quadro X. que somados aos US$ 100 milhões relativos ao capital social inicial. totalizam a cifra de US$ 27 bi­ lhões de recursos utilizados no empreendimento.

alcançado seu recorde operativo em 2008 com a produção de 94. que possui 18. localizada na China. XX e XXI Figura 22 . Pagamento dos “royalties” e seus benefícios Conforme mencionado. O pagamento dos royalties é então feito às Altas Partes Contratantes. ao regime hidrológico favorável do rio Paraná e à regularização do fluxo a montante na Região Hidrográfica do Paraná e.3.685 gigawatts-hora (GWh) de energia. que passa então de 12. a usina chinesa dificilmente superará a de Itaipu em geração anual de energia. Esse efeito pode ser constatado pela elevação verificada no IDH (Índice de Desenvolvimento Humano do PNUD . proporcionam um aumento da capacidade realizadora dos dois países.600 MW para 14. sendo contabilizado no custo anual do serviço de eletricidade prestado pela Itaipu. em valor equivalente a US$ 650 por gigawatt-hora (GWh) gerado e medido na central elétrica. Recorde operativo e comparações A Usina de Itaipu.1. e.Reunião do Board de Consultores Civis em novembro de 2006. Os valores transferidos a título de Royalties entre 1991 e 2010 ao Brasil e ao Paraguai. de um lado. que auferem inegáveis benefícios para sua população. 334 .Séculos XIX. atualmente. o Tratado de Itaipu estabeleceu os royalties em seu Anexo C como mecanismo compensatório pelo uso do potencial hidráulico do rio Paraná no trecho em condomínio entre os dois países. 6. como a maior usina hidroelétrica do mundo em geração de energia. principalmente por parte dos municípios da região impactada. acrescido do respectivo fator de ajuste. Pinto.A História das Barragens no Brasil . Gurmukh Sarkaria (Chairman). em montantes iguais.4.000 MW de capacidade. Nelson L. na assessoria aos consultores.Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) de vários municípios da região. devido. 6. Vidal Galeano. é superada nesse quesito somente pela Usina de Três Gargantas. questão primordial quando se trata de hidroeletricidade. A partir da esquerda: Victor de Souza Lima. de S. que alcançaram a casa dos US$ 7 bilhões. ao fato de que o projeto de Três Gargantas prioriza o controle de cheias em detrimento da geração de energia. Essa excepcional condição fez com que desde 1997 a Itaipu venha gerando em torno de 90 mil gigawatts-hora (GWh) por ano. A Itaipu se consagra desse modo. Paulo Teixeira da Cruz.1.2 mil megawatts (MW) de potência instalada. João Francisco Alves Silveira (consultor especialista) e Carlos Leonardo (Itaipu). Mas. de outro lado. Juan Bosio.

” . Cabe registrar que. da ordem de 80 milhões de megawattshora (MWh) por ano. decorrente da escassez de chuvas naquele período e conseqüente dificuldade de reposição da água armazenada nos reservatórios da maior parte das hidroelétricas do País. conforme será percebido pelas ações mostradas cronologicamente na seqüência. A Itaipu se desenvolve organizacionalmente O Tratado de Itaipu define como propósito específico da Enti­ dade Binacional construir e operar unicamente a hidroelétrica de Itaipu. Essa limitação. Esses dois ambientes perma­ neceram originalmente incomunicáveis entre si. a construção da barragem sobre o rio criou dois ambientes bastante distintos. que é uma vereda pela 6. mantendo ele­ vados níveis de produção. novo. com águas calmas. no lago.2. não prevendo sua expansão para outros negócios. praticamente também ocorria na região de Guaíra. na crise de abastecimento de energia elétrica vi­ vida pelo Brasil em 2001 . a montante. acompanhados dos respectivos Diretores-Gerais da Itaipu Jorge Miguel Samek e Victor Luis Bernal Garay.2005. Itaipu pôde deplecionar seu reservatório.. já antes da construção da usina. 335 . com mais intensidade durante os períodos secos do rio Paraná. na restituição do fluxo de água no leito do rio Paraná. Tal fenômeno. e outro a jusante. pelas quais o Brasil e o Paraguai defi­ nem “.03.2007 – Presidentes Luis Inácio Lula da Silva (Brasil) e Nicanor Duarte Frutos (Paraguai). não impede o desenvolvimento endógeno da Itaipu como organização empresarial.1. Isso é sobremaneira reforçado pelas Notas Reversais sobre Responsabilidade Social e Ambiental. conseguindo desse modo mitigar sobre­ maneira os efeitos da redução da oferta de energia no sistema interligado brasileiro naquele momento crítico. a partir do início da operação da usina.2.05. 6.Inauguração das duas últimas unidades geradoras em 17.. qual a Entidade tem experimentado significativo êxito. porém..Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 23 . sob determinados parâmetros e normas. O canal de transposição de peixes Em termos de ictiofauna. que as iniciativas no campo da responsabilidade social e ambiental devem inserir-se como componente permanente na atividade de geração de energia. um.2002. todavia.. assinadas em 31.

6. na foto da direita. em corredeiras especialmente Figuras 24 e 25 . Pinto (Chairman).Séculos XIX. complexo. mesmo nas épocas de estiagem. 2. O Canal da Piracema permite então que os peixes migradores cheguem às áreas de reprodução e berçários acima da usina no período da piracema (migração reprodutiva). como um espaço para a integração educacional. Essa decisão foi precedida do estudo denominado “A ictiofauna de ocorrência do rio Bela Vista”. enunciado mais amplo à Missão da Entidade. XX e XXI Por isso. Nelson L. portanto. Selmo Kuperman. a desempenhar um papel importante para a conservação da biodiversidade. Giuseppe Stevanella. firmadas em 2003. entre outros aspectos. Com essas concepções. O parque tecnológico Itaipu Ao por em operação suas duas últimas unidades geradoras.2. 336 . A comunicação estabelecida finalmente entre o lago e o rio passa.A História das Barragens no Brasil .2. foi projetado e construído pela Itaipu o Canal da Piracema. mediante acordo deste com a Itaipu. de S. Assim. os consultores em túnel de drenagem. a administração da Itaipu deu.Reunião do Board de Consultores Civis em novembro de 2010 – foto da esquerda (a partir da esquerda). construídas para essa finalidade. em parte artificial e em parte regularizando o rio Bela Vista. inclusive na região de Guaíra. O Canal foi inaugurado em 2002. embora sua execução tenha sido iniciada em 1997 pelo Governo do Estado do Paraná. como canoagem de rafting e slalom. tecnológica e cultural da América Latina. logo depois. e retornem no outono e inverno (migrações ascendente e descendente). resultou apreciável acúmulo de conhecimento por parte dos profissionais e da organização. o PTI. Vidal Galeano. o necessário impulso ao desenvolvimento tecnológico sustentável no Brasil e no Paraguai. hoje e no futuro e pode ser útil ao meio externo à Itaipu. Ruben Brasa Soto (Diretor Técnico de Itaipu) e João Francisco Alves Silveira (consultor especialista da assessoria ao Board). inserindo nela. cuja foz se localiza na margem esquerda do rio Paraná. a Itaipu encerrou suas obras principais da usina. no Brasil e no Paraguai. Antonio Otelo Cardoso (Diretor Técnico Executivo da Itaipu). John Gummer. As competições ali realizadas também contribuem para o desenvolvimento do turismo regional. idéia que surgiu depois de muitas discussões.5 km a jusante da usina. Paulo Teixeira da Cruz. Desse processo. cuja reutilização é indispensável ao adequado funcionamento da empresa. No Canal da Piracema são também praticados esportes náuticos. com 10 km de extensão. hoje é livre a migração de peixes de jusante para montante e vice-versa. A partir daí foi implantado em 2003 o Parque Tecnológico Itaipu.

a Itaipu. o que passou a exigir determinados resultados empresariais antes não requeridos ou requeridos de for­ ma diferente. hoje e sempre. correlacionar me­ dições com as prováveis causas e desenvolver técnicas de inteligência computacional relacionadas ao comportamento e segurança de barragens. no Brasil e no Paraguai”. O CAB define como território de atuação a unidade de planejamen­ to da natureza: a bacia hidrográfica. além dos comitês específicos dos programas transver­ sais. de viver. principalmente relacionadas às pequenas propriedades. 6. Em decorrência desse conceito.2. com qua­ lidade.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens O PTI se dedica.que tiveram áreas inundadas pelo  reservatório da usina.4.3.600 parceiros. pós-doutores e profissionais de notório saber. foi então criado o Programa Cultivando Água Boa (CAB). trabalha com a sociedade para mudar os seus valores e sua maneira de se conduzir. na margem brasileira - para os 29 municípios da Bacia Hidrográfica do Paraná 3 (BP3). O comitê faz também a articulação perante os órgãos públicos do Poder Executivo. de um movimento de participação permanente. pelo PTI. que se justifica a existên­ cia de Itaipu. os comporta­ mentos das estruturas de barragens e seus respectivos materiais. associações de classe. O Programa Cultivando Água Boa Considerando-se que é pela água. portanto. próprias de qualquer empresa contemporânea. à educação. enfim. Desse modo. mestres. com o propósito final de dedicar cuidados extremos à água de que dispomos. em que a Itaipu. portanto. A Missão ampliada da Itaipu passa então de: “Aproveitamento hidroelétrico dos recursos hídricos do rio Paraná. o CAB conta com mais de 1. além de mitigar e cor­ rigir passivos ambientais existentes nas comunidades da região. que era a reprodução do objeto do caput do Tratado de Itaipu. à pesquisa. Atualmente. que organizados em Comitês Gestores em cada um dos 29 municípios. 337 . entre prefei­ turas. entre outros. para “Gerar energia elétrica de qualidade.09.”. atuam nos programas e ações que estão sendo de­ senvolvidos. Trata-se. pela Universida­ de Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste) e por instituições parceiras. do Po­ der Judiciário e dos órgãos ambientais para ajudarem a encaminhar soluções. de produzir e de consumir. Os membros do Comitê Gestor se reúnem periodicamente para dialogar sobre o an­ damento das ações do CAB no município. que permeiam todo o tecido social da BP3. que se constitui em um espaço técnico-científico implantado pela Universidade Corporativa Itaipu. a organização exterioriza para as sociedades de Brasil e Paraguai valores convergentes com uma governança corporativa atualizada.2. representantes da sociedade civil organizada e outros. O objetivo do CEASB é estudar. o que inclui também o CBDB. sustentável. ao turis­ mo (em 2007 foi repassada à Fundação PTI a exploração do Complexo Turístico Itaipu. em 05. na forma de uma Missão ampliada em relação ao enunciado anterior.2003 aprovou a revisão de seu planejamento estratégico. a área de influência de atuação direta de Itaipu deslocou-se dos 16 mu­ nicípios conhecidos como lindeiros . órgãos governamentais. proporcionando desse modo uma fonte de receitas que ajuda no financiamento de suas atividades) e ao empreendedorismo. até a foz do rio Iguaçu. A Missão ampliada da Itaipu e seus reflexos Conforme citado nos itens anteriores. Nas atividades de pesquisa conta com o CEASB – Centro de Estudos Avançados em Segurança de Bar­ ragens. cooperativas. O CEASB conta com alunos de graduação. moldando-se assim uma nova maneira de operar a 6. com responsabilidade social e ambiental. de especial interesse para a engenharia de barragens. nele explicitando aquelas ini­ ciativas que já vinha conduzindo. doutores. que consiste em uma das 16 bacias hidrográficas instituídas oficialmente no Estado do Paraná. Essa Missão ampliada obrigou o reajustamento das políticas e di­ retrizes fundamentais da Itaipu e influiu diretamente na redefinição de seus objetivos estratégicos. desde e inclusive o Salto Grande de Sete Quedas. após reflexões feitas por parte de sua Direção. impulsionando o desenvolvimento econômico. para que ela se mantenha abundante. avaliar resultados das medições efetuadas. pertencentes em condomínio aos dois países. produtores rurais. turístico e tecnológico. ou Salto de Guaíra. ONGs.

Consoante a Missão ampliada. Com esse ordenamento conceitual. dada à importância do assunto... a Itaipu. partem da Universidade Corporativa Itaipu (UCI) para seu de­ senvolvimento. o projeto do veículo elétrico.2005 o Brasil e o Paraguai trocaram notas diplomáticas reversais. desenvolve alguns projetos. com a cooperação do PTI. com nível de superintendência. em 1995 classificaram a Itaipu como “uma das sete maravilhas do mundo moderno”.2. subjacentes à exatidão dos números e de seus resul­ tados materiais. comentários e adjetivos servem para demonstrar que o Brasil e o Paraguai decidiram construir juntos não só uma hidroelétrica de extragrande porte. o ferro e aço utilizados permitiriam a construção de 380 Torres Eiffel. tecnológico . dentro de um espírito de cordialidade e os laços de fraternal amizade. Responsabilidade social e ambiental De acordo com a Missão ampliada da Itaipu. em 31. com poucas alterações para atender a essas demandas. o Brasil teria que queimar 536 mil barris de petróleo por dia para obter em plantas termoelétricas a mesma produção de energia de Itaipu.Séculos XIX. em 2003. Nesse sentido. a capacidade de descarga máxima do vertedouro de Itaipu (62. e o volume de concreto é 15 vezes maior. o projeto do Centro Internacional de Hidroinformática (junto com a UNESCO) e a Uni­ versidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA).”. estão sendo conduzidos o projeto de modernização da usina (atualização tecnológica).. de desenvolvimento e inovação e de gestão do conheci­ mento. XX e XXI empresa. a revista norte-americana Popular Mechanics e a Associação Norte-Americana de Engenheiros Civis (American Society of Civil Engineers . próprios de uma atuação empresarial moderna. mas uma forma de gestão da empresa na sua inte­ gralidade.. Isso reafirma a visão de que a responsabilidade social não é apenas um conjunto de ações. a Itaipu criou a Coordenação dos Progra­ mas de Responsabilidade Social. quer sob a de pesquisa. Contudo. a ação de gerar energia pressupõe que sua execução se dê com responsabilidade social e ambiental. mas sim eri­ gir uma das obras de engenharia mais portentosas existentes no planeta. o projeto de software livre. que são considerados estratégicos para a organização porque estão alinhados com objetivos da organização e procuram apresentar os resultados que se pretende obter com o desenvolvimento tecnológico da usina e do seu entorno.ASCE). desenvolvimento . quer sob a linha da educação corporativa. dentre os quais se encontra o próprio PTI. a Plataforma Itaipu de Energias Re­ nováveis.5 vezes superior ao do Eurotúnel no Canal da Mancha. Epílogo Os números de Itaipu suscitam impressionantes comparações: o volume total de concreto utilizado na construção da usina seria suficiente para construir 210 estádios de futebol como o do Maraca­ nã.. Embora essa concepção não seja novidade na Itaipu. 338 . Foi a solidez dessa base de entendimento e de união que verdadeiramente permitiu que 6. 7. que estabelece também o “.. E. Portanto. o fato de ela passar a constar na Missão serve para reiterar a convicção das Altas Partes Contratantes quanto à necessária e contínua assimilação desses valores pela Itaipu.  Em razão disso. o volume de escavações de terra e rocha em Itaipu é 8. A altura da barragem principal (196 metros) equivale à altura de um prédio de 65 andares.A História das Barragens no Brasil . essas comparações. que a todos tanto impressiona. de grandeza obliterante. Esses projetos estratégicos.2 mil metros cúbicos por segundo) corresponde a 40 vezes a vazão média das Cataratas do Iguaçu. sob o título “Missão da Itaipu Binacional no campo da responsabilidade socioambiental”.03.5. mas aproveitando-se sua estrutura organizacional. estão os valores maiores do acordo que os cidadãos brasileiros e paraguaios souberam consolidar. que selam o acordo celebrado pelos dois países quanto à conduta de ambos no campo da responsabilidade socioambiental na Itaipu.

que foi fundamental para a concretização do Projeto Itaipu. Esperamos que esse texto tenha sido útil ao leitor. Superintendência de Engenharia e Superintendência de Obras. todos órgãos da Itaipu. Joran Alfredo Sachs e ao Centro de Documentação da margem brasileira. José Ricardo da Silveira. Agradecimentos Pelas contribuições ao texto e quadros anexos: a Margaret Mussoi Luchetta Groff. Corrado Piasentin. Marco Aurélio Vianna de Escobar. principalmente para a com­ preensão desse aspecto sinérgico. Ademar Sérgio Fiorini. S. Cláudio Porchetto Neves. Pela cessão das fotografias: à Assessoria de Comunicação Social. de Mendonça. 339 . José Augusto Braga e a Corrado Piasentin (álbum particular). na pessoa de seu gerente Jorge Henn. João Emílio C.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens ambos os países convergissem para o interesse comum de re­ alizar o aproveitamento hidroelétrico. Flavio Miguez de Mello.

Séculos XIX. Centro de Documentação da ITAIPU Binacional. ITAIPU Binacional 2009. margem brasileira. XX e XXI Continuação da página anterior Fontes: livro “Usina Hidrelétrica de Itaipu .Aspectos de Engenharia”. 340 .A História das Barragens no Brasil .

341 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Fontes: livro “Usina Hidrelétrica de Itaipu . Centro de Documentação da ITAIPU Binacional. margem brasileira.Aspectos de Engenharia”. ITAIPU Binacional 2009.

Séculos XIX.Aspectos de Engenharia”. margem brasileira.A História das Barragens no Brasil . Fontes: livro “Usina Hidrelétrica de Itaipu Aspectos de Engenharia”. Centro de Documentação da ITAIPU Binacional. ITAIPU Binacional 2009. XX e XXI Fontes: livro “Usina Hidrelétrica de Itaipu . margem brasileira. 342 . ITAIPU Binacional 2009. Centro de Documentação da ITAIPU Binacional.

Centro de Documentação da ITAIPU Binacional. Itaipu .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Fontes: livro “Usina Hidrelétrica de Itaipu .vista aérea 343 .Aspectos de Engenharia”. ITAIPU Binacional 2009. margem brasileira.

ITAIPU Binacional 2009.Séculos XIX. 344 . XX e XXI Fontes: livro “Usina Hidroelétrica de Itaipu Aspectos de Engenharia”. Centro de Documentação da ITAIPU Binacional. margem brasileira.A História das Barragens no Brasil .

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PCH Ivan Botelho III (Triunfo) no rio Pomba em Minas Gerais .

Neste capítulo são enfocados o nascimento. a força motriz do Brasil no final do século XIX e no início do século XX. o apogeu e. além de fornecerem força motriz para bondes nas cidades maiores. muito mais importante pelo pio­ neirismo e como alavanca do desenvolvimento. complexidades e tecnologia que orgulham a engenharia nacional e são referência internacional. Foi um período notável para o País. Até 1930 mais de mil diferentes empre­ sas de geração e distribuição de energia elétrica estavam ativas. um quadro elaborado pela ABRAGEL – Associação Brasileira de Geração de Energia Limpa. antes denominada APM­ PE – Associação Brasileira dos Pequenos e Médios Produtores de Energia. atualmente. ultrapassa­ vam 1.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens As Pequenas Centrais Hidroelétricas no Brasil Ricardo Nino Machado Pigatto Introdução As pequenas centrais hidroelétricas sempre fizeram parte da his­ tória do Brasil no que diz respeito à geração de energia elétrica. O desenvolvimento do país sempre esteve ligado diretamente à expansão da geração de energia. relaciona a soma das PCHs em operação no Brasil com as grandes hidroelétricas e apresenta o conjunto das PCHs como a terceira maior fonte geradora de energia hidráulica nacional. Entre 1901 e 1910 foram construídas em todo o Brasil setenta e sete usinas hidroelétricas. a crise das pequenas centrais hidroelétricas. operando hidroelétricas de pequeno ou médio portes. As usinas. Naquela época. Naquela época. o desenvolvimento.000 kW instalados. as usinas eram de potências modestas porque alimentavam pequenas cidades. com mais de 10 anos de história na defesa das PCHs. No início do século passado as usinas hidroelétricas eram referidas como “pujantes e estru­ turantes”. Foram. algumas poucas indústrias e iluminação pública. literalmente. a geração de energia elétrica era eminentemente privada. mas com características. do que os em­ preendimentos dos dias de hoje. Para demonstrar a atual importância das PCHs na matriz elétrica brasileira. Quadro 1 – Quadro comparativo UHE x PCH 347 . com raras exceções. Pela definição atual. as pequenas cen­ trais hidroelétricas PCHs são de até 30 MW e são chamadas de “pequenas”. A caracterização e definição do conceito de pequenas centrais hidroelétricas – PCHs só foi criado no Brasil nos anos 80 do século XX.

PIEs. Poderia. como para auto­ produtores de energia APEs de usinas hidrelétricas com potên­ cia igual ou maior que 1. o momento econômico do Brasil não era fa­ vorável para quaisquer investimentos que necessitassem de capi­ tal intensivo e retorno de longo prazo. Era uma mu­ dança de paradigmas e um mundo novo a ser explorado. mesmo que difíceis. Algumas poucas usinas. os valores praticados como tarifas eram relativamente baixos e aplicados pelas distribuidoras. com geração de empregos e renda para especialistas nessas áreas de desenvolvimento de projetos. não havendo qualquer estímulo para aderir ao novo programa criado. foi criado o conceito de produtor independente de energia elétrica.000 kW e menor ou igual a 30. foi descortinado. para construir uma PCH era necessário capital intensivo e financiamento de longo prazo. a industrializa­ ção do País exigia maior expansão da geração e o braço forte estatal migrou dos pequenos aproveitamentos para as grandes hidroelétricas. sem licitação. O desenvolvimento das PCHs Em 1998 também foi criado o MAE – Mercado Atacadista de Energia. é claro. aquele que poderia escolher seu fornecedor de energia elétrica. Um novo horizonte para o desenvolvimento de profissionais nas áreas de engenharia. assim como o conceito de autoprodutor que poderia vender exce­ dentes de energia elétrica. com características de concessão de serviço público. Mesmo que tenha havido um programa de pequenas centrais nos anos 1980’s. 348 . mas faltava o essencial: o comprador da energia. um marco para o setor. mas faltava alguma coisa. somente seria possí­ vel havendo geração de energia garantida. com restrições quanto às áreas  de seus reservatórios nos níveis d’água máximos normais. ser um con­ sumidor livre.Séculos XIX. Em suma. Para haver um fluxo financeiro previsível era necessária receita previsível e não sujeita a sazonalidades ou a variáveis climáticas. Para haver uma receita previsivelmente segura para fins de garantias de financiamento. posteriormente. permaneceram ativas.A História das Barragens no Brasil . Para produtores independentes seriam concedidos. tendo sido analisados e aprovados pela ANEEL.000 kW. E assim a implantação de novas pequenas usinas hidráulicas foram se arrastando até 1995. até 10. mediante licitação. Para os aproveitamentos com potên­ cia inferior a 1. estavam em andamento. mas como garantir a entrega da energia contratada de uma PCH se tratava-se de empreendimentos dependentes da hidraulicidade e de variáveis climáticas? E mais. geologia. Esse debate alimentou os ambientes acadêmicos e ainda nos anos oitenta o governo federal buscou criar um programa de pequenas usinas denominado de Programa Nacional de Pequenas Centrais Hidroelétricas que buscava incentivar a autoprodução de energia. aproveitamentos com potência superior a 1.000 kW cabia (e ainda permanece assim) apenas comunicação ao poder concedente. Para haver um project finance era necessário um fluxo-de-caixa previsível. Passou a ser atri­ buição da ANEEL conceder outorgas de autorização. os questionamentos sobre os “danos” dos grandes reservatórios e o retorno do conceito de que muitas peque­ nas usinas poderiam ser melhores do que uma grande usina. Mas. Mas vieram os questiona­ mentos ambientais. após a criação da ANEEL (1996). cinquenta e sessenta. desati­ vados. através da Lei das Concessões. havia um grande potencial de empreendimentos para serem construídos. O Brasil cresceu muito nos anos setenta e consolidou o conceito de que usina “boa” era usina grande. XX e XXI Nos anos seguintes. Os licenciamentos ambientais. por serem também novos assuntos tratados no âmbito dos órgãos li­ cenciadores. Muitos novos projetos de PCHs foram desenvolvidos.000 kW. etc. Para autoprodutor seria autorização. Para obter financiamento de longo prazo era fundamental ter garantias de pagamento num conceito moderno denomina­ do project finance (onde o próprio negócio gera suas condições de financiabilidade).000 kW. tanto para produtores independentes de energia. Neste ano. Havia sobra de energia. Havia um nicho para ser explorado pelas PCHs. Já estava criado o conceito de consumidor livre. foi a partir de 1998 que passou a ser definida comercialmente como PCH as usinas com capacidade instala­ da acima de 1 MW e até 30 MW. Neste período muitos dos pequenos aproveita­ mentos foram caindo no ostracismo e. estes limites foram mudados. e isto as PCHs não tinham. Realmente uma equação difícil e de contornos assustadores diante dos desafios das soluções possíveis. infelizmente. Em 1998. meio-ambiente.

era impossível. teve um caráter didático e de­ senvolvimentista que permitiu a expansão da indústria de equipa­ mentos. E então foi criado. geologia.setembro/10 Relatório Acompanhamento da Expansão da Oferta de Geração de Energia Elétrica . não havia como vender a energia para consumidor livre por não haver uma energia garantida e também não havia como vender para a Eletrobras porque a forma que esta estava pensando em adotar para calcular a energia firme das PCHs não era su­ ficiente para garantir o pagamento dos financiamentos. A questão ambiental foi foco de discussões acaloradas e ainda assim permanece. sem adotar o conceito de project finance. Apenas o governo tinha. além das PCHs. produtos financeiros e muito mais. Como vender para consu­ midor livre ainda era uma novidade. as fontes biomassa e eólicas. Neste período muito se aprendeu. tais como projetos.1 a 30 MW A figura na página a seguir é o resultado desta expansão e mostra as localizações das PCHs no Brasil em 2011. as PCHs passaram a fazer parte do MRE (Mecanismo de Realocação de Energia) com o cálculo da energia média através da Resolução ANEEL 169/2001 de 3 de maio de 2001. Mais um dos grandes marcos do setor. de forma a assegurar uma expansão do setor de PCHs com segurança para o mercado cativo (ambiente regulado). ONS. que se encerra neste ano de 2011. mas dentro de certos limites garantidos de geração que.ANEEL . pela modelagem pro­ posta pela Eletrobras na época. serviços ambientais. com controle de re­ servatórios. topografia. O Brasil tinha cerca de 850 MW em operação de PCHs em 1998 passando para 3. Era um programa no qual a Eletrobras garantia a compra da energia gerada pelas PCHs. assim como os agentes financiadores confiarem nos mecanismos de atenuação de riscos e garantias de pagamentos. Pelo critério de cálculo ado­ tado para as hidroelétricas de maior porte. na época. Os empreendedores de PCHs foram convidados para apoiar uma iniciativa louvável da Eletrobras de criar um programa chamado de PCH-Com. o grande problema a ser solucionado era firmar a energia das PCHs. em 2002 e consolidado em 2004.500 MW. Ter uma energia de placa. que então englobou. mas com ares de sécu­ lo XXI. haja vista que a quase totalidade dos reservatórios de PCHs eram projetados para operar a fio d’água.: consideradas apenas as PCH . um cír­ culo virtuoso desde o ano 2000 até 2008. Para financiar com segurança era necessário um comprador/garantidor com bom rating na praça e contratos de compra e venda de energia de longo prazo. da construção civil. Mas ainda não estava tudo resolvido. O denomina­ do “aproveitamento ótimo”.300 MW. Então. Desta forma.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Já era o ano de 2000.Programa de Incentivo (de geração de ener­ gia elétrica através) de Fontes Alternativas. já então confiantes da capacidade das PCHs atenderem suas demandas de energia. Foram contrata­ dos 3. exige o estudo e a definição de uma sucessão de aproveitamentos no 349 . o agente financiador exigia garantias corporativas dos empreendedores. numa ação conjunta e bem conduzida pelo MME. divididos entre as três fontes. Este programa. este perfil. Atualmente (2011) está em torno de 3. segu­ ros. o PROINFA. no caso o BNDES. mas altamente preparador para o atendimen­ to do mercado dos consumidores livres. resultava em fatores de capaci­ dade muito baixos para as usinas. hidrologia. Logo. talvez o mais importante sob o ponto de vista regulatório e viabilizador dos empreendimentos de hoje. gerando uma receita incapaz de suportar as exigências do agente financiador de longo prazo. de serviços especializados. ANEEL e Eletrobras com seus corpos técnicos qualificados e empenhados em dar as condições necessárias para a expansão do setor. Ou seja. estabelecido por Lei em 1995.000 MW em 2008. um dos programas mundiais mais importantes de geração de energia através de fontes ambientalmente corretas e socialmente justas. Um crescimento digno de nota e de reconhecimento. Ainda século XX.setembro/10 Obs. Quadro 2 – Evolução das pequenas centrais hidroelétricas Qtde Total até 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 189 15 12 23 7 11 18 17 38 30 22 189 204 216 239 246 257 275 292 330 360 382 Potência (MW) 831 69 51 268 68 126 228 253 650 463 248 Total (MW) 831 900 952 1219 1287 1413 1641 1894 2544 3007 3256 Fonte: BIG . o programa não progrediu. Ou seja.

Os ór­ gãos ambientais e ONGs ambientais questionam se esta é melhor condição ambiental para o curso d’água e. Nesta área.: não foi considerado potencial em fase de inventário Obs.454 1. houve uma avalanche de novos projetos e inventários junto à agencia reguladora ANEEL que resultou no enorme potencial identifica­ do no Brasil.931 (1) prazo estimado de maturação dos projetos . de forma cíclica.:Dados ANEEL Janeiro/2011. As teses do passado voltaram a as­ sombrar novamente. salvo o Potencial Teórico.A História das Barragens no Brasil . mas no sentido inverso. Figura 2 – Distribuição das PCHs nos diversos estados Fonte: Abragel / 2011 Na tabela acima a coluna prazo é uma estimativa de tramitação na ANEEL até a emissão da outorga de autorização. 350 . Prazo (1) (anos) Com autorização (com LP/LI) 2.Séculos XIX. Em janeiro de 2011 encontravam-se em tramitação dentro da ANEEL projetos conforme tabela abaixo: Figura 1 . XX e XXI mesmo curso d’água. que é um estudo do CERPCH de Itajubá.725 1.035 194 6 Subtotal 1 5.980 473 Em Elaboração/Complementação 2. certamente.705 1. ou apogeu. provocando uma cascata de usinas. Com o grande desenvolvimento das PCHs. baseada em mé­ dia histórica de 2007 até 2010. as discussões nunca terão fim. Agora há necessidade de um profundo estudo para cada inventário de rio denominado de análise ambiental integrada – AAI que ampliou os limites das discussões.288 15 Subtotal 2 17.ANEEL (com LP/LI) 856 66 5 Aguardando Análise ANEEL 3.089 213 3 Análise/Aceite .458 TOTAL 23.271 170 7 Potencial Teórico 15. Entretanto há movimentos firmes e sérios na agência para redução drástica dos prazos de tramitação.início da construção Obs.Localizações das PCHs no Brasil em 2011 Quadro 3 – Situação dos projetos de PCH em tramitação na ANEEL em janeiro de 2011 Potência (MW) Quant. ques­ tionam se não seria melhor um grande reservatório ao invés de uma sequência de pequenos.

de forma abrupta. Naturalmente esta crise teve reflexo no desenvolvimen­ to do Brasil e estancou. fazendo competir entre si diversas fontes de geração e. a busca de fornecedores incentivados. As PCHs. atualmente. Passou a ter excesso de oferta de energia e o mercado spot desde então esteve.ambiente de contratação regula­ da . então este ciclo se encerrou. também agravada por desequilíbrios tributários. à perda de mão-de-obra qualificada desenvolvida ao longo dos últimos anos e ao desenvolvimento de outras fontes ambientalmente menos qualificadas.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A crise das PCHs Em 2008 o mundo foi sacudido por uma crise econômico-finan­ ceira que envolveu os principais bancos internacionais e provocou uma falta de liquidez e. fazendo com que as PCHs. Os valores que passaram a ser negociados no ACL . que vinham se desenvolvendo muito bem através da venda antecipada de sua energia e assim viabilizando os project finance. socialmente inseridas nas comunidades. O Governo passou a fazer leilões de energia tendo como competição apenas o valor do MWh. houve uma importante e fatal perda de compe­ titividade em função da evolução tecnológica de outras fontes. sustentável. no caso das PCHs. capaz de construir usinas memoráveis do passado e brilhantes. As cir­ cunstâncias atuais levam à desindustrialização do setor. renovável. a expansão industrial. fiquem completamente alijadas dos processos de leilões no ACR. levando o potencial de geração através de PCHs no Brasil aos almejados 25. Mas como “não há mal que sempre dure. no mercado livre (as PCHs são denominadas como fonte incentiva­ da pois há desconto de 50% nos custos de transporte da energia). com va­ lores modestos. ficaram sem mercado potencial de comercialização de seu produto. Nem tudo estava perdido.. Mas ainda existia (e existe) o ACR .que são os leilões de energia levados a efeito pelo poder conce­ dente. além da disponibilidade internacional de equipamentos. foi capaz de desenvolver o estado da arte na engenharia hidroelétrica. A esperança no futuro Não há dúvidas de que as PCHs são fontes de geração de energia limpa. em média. sem levar em consideração as características e as regionalidades de cada fonte. sem impactos de êxodos rurais. redução da atividade econômica.000 MW em 20 anos.. Ledo engano. desde 1883.ambiente de contratação livre . não induzindo aos consumidores livres. descentralizada. Figura 3 – PCH Antônio Brennand no rio Jauru 351 . além de outros adjetivos qualificativos favoráveis ao seu desenvolvimento.” certamente as PCHs retomarão o mes­ mo caminho virtuoso que.não foram mais capazes de viabilizar a cons­ trução dos empreendimentos.. por consequência. tudo em nome da “modicidade tarifária”.

no Espírito Santo Figura 6 . em Goiás Figura 5 – PCH São Simão com 27 MW no rio Itapemirim Braço Norte Esquerdo.A História das Barragens no Brasil .PCH São Joaquim no rio Benevente. XX e XXI Figura 4 – PCH Irara com 30 MW no rio Doce. no Espírito Santo Figura 7 – PCH Anna Maria no rio Pinho em Minas Gerais 352 .Séculos XIX.

Nascimento. Cristiano .2005 Figura 9 . Camila . Bortoni. Afonso Henriques.Pequenas Centrais Hidroelétricas do Estado de São Paulo – 2. Zulcy. Interciência – 2009 (5) Site da ANEEL – Agência Nacional de Energia Elétrica (6) Tolmasquim. Interciência . Santos. Galhardo.000 – Governo do Estado de São Paulo (4) Souza. Ferrari. Jason.PCH Santa Fé no rio Paraibuna. Rio de Janeiro e Minas Gerais 353 .A Evolução Histórica do Conceito das PCHs no Brasil. Maurício – Geração de Energia Elétrica no Brasil – Ed. José Guilherme. Fernando. Edson – Centrais Hidrelétricas – Ed. Amaral. Geraldo.– CERPCH – Itajubá/MG (2) ABRAGEL – Associação Brasileira de Geração de Energia Limpa – Diversas apresentações em palestras (3) Prado Jr.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 8 – PCH Ivan Botelho I (Ponte) no rio Pomba em Minas Gerais Referências (1) Tiago.

354 .

desverticalizando as empresas. com foco particular nas novas usinas hidroelétricas. as adaptações às quais tiveram que se submeter para se manterem como agentes importantes no setor elétrico e as carac­ terísticas (e desafios) para a gestão dos empreendimentos no novo contexto. por certo de forma muito bre­ ve. sob esse contexto político e econômico. Dada a natureza peculiar do sistema brasileiro – forte prevalência da hidroeletricidade. entre outras – a adaptação dos modelos importados mostrou-se particularmente desafiadora e não isenta de riscos. No primeiro movi­ mento da reestruturação. que seriam gradualmente privatizadas. como nos segmentos de transmissão e distribuição. a empreendimentos relacionados à empresa Furnas Centrais Elétricas. Tal reestrutu­ ração teve por objetivo promover a criação de um mercado competitivo de energia elétrica no país. dessa forma. sob amplamente majoritário controle estatal. especialmente aqueles voltados à sua ex­ pansão. Ao Estado restaria o papel da regulação. A partir de então as empresas públicas. desse modo. inspiração de experiências desenvolvidas em outros países oci­ dentais. tendo sido criada. tanto no plano da expansão da oferta de energia elétrica (geração). na qual os autores exercem suas atividades profissionais. A justificativa para essa reestruturação era introduzir uma maior competitividade nesse importante segmento da infraestrutura e. tiveram que se adap­ tar às mudanças de cenários e às diferentes lógicas às quais o setor elétrico foi submetido nos anos seguintes. que em um desenho inicial da reestruturação seriam todas privatizadas. ten­ do como grande divisor de águas o traumático racionamento de energia elétrica vivenciado em 2001 e 2002. diversida­ de de hidrologias entre regiões. a ANEEL – Agência Nacional de Energia Elétrica.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A Nova Face das Empresas Estatais frente à Expansão da Oferta de Energia Hidroelétrica no País Márcio Antônio Arantes Porto e João Batista Gribel Soares Neto O setor elétrico brasileiro vivenciou mudanças profundas em sua orga­ nização estrutural a partir de meados da década de 1990. em sua maio­ ria. dando oportunidade de acesso a novos agentes às receitas expressivas dessa atividade econômica. dada a dificuldade de o poder público continuar a arcar com os vultosos recursos demandados pelo setor. Os exemplos contidos no texto que se segue referem-se. então. buscando. sob Usina hidroelétrica de Anta 355 . todos. Neste capítulo procura-se discutir. O contexto de mudanças A partir da década de 1990 a estrutura regulatória e funcional do setor elétrico brasileiro foi profundamente modificada. As atividades de geração. à época. com a consequente redução da presença do Estado nesse segmento da economia. atrair os investimentos privados. atrair os capitais privados para o setor. transmissão e distribuição seriam segregadas. privatizando todas as empresas públicas então existentes. Essa reestruturação setorial viveu dois momentos distintos. a meta era retirar completamente do Estado o papel de agente econômico no setor. essas experiências das empresas públicas no novo ambiente setorial. extensão continental.

o “Ambiente de Contratação Regulada (ACR)” e o “Ambiente de Contratação Livre (ACL)”. aos consumidores. com o setor público. Estabeleceu dois ambientes de comercialização. Ou seja. ficou em meio do caminho com a ascensão de um novo governo a partir de 2003 e após o fracasso do modelo anterior. desde o início. observandose maiores deságios sobre os tetos de remuneração estabelecidos pela ANEEL. Os novos empreendimentos. insumo essencial para o desenvolvimento econômico e social do país. que devem ser regulados. com a comple­ ta retirada do Estado da atividade econômica na área da energia elétrica.2004. o planejamento do setor pelo Estado foi retomado (com a criação da EPE – Empresa de Pesquisa Energética) e o modelo setorial radicalmente revisto.A História das Barragens no Brasil . Em especial quando se consorciam com empresas privadas para a exploração dos novos empreendimen­ tos. As tarifas aos consumidores não tem mais como base os custos incorridos na construção dos empreendimentos (a tarifa pelo cus­ to).848. enquanto no ACL se daria a comercialização direta de energia pelos agentes de geração aos consumidores livres. ainda em curso. mas – e até mesmo mais importante – tem atraído a participação dos investidores privados para compartilhar. introduziu uma nova regula­ mentação para a outorga de concessões de geração e para a comercialização de energia no país. investidores nacionais e estrangeiros para os leilões de outorga das concessões dos ativos de transmissão. determinados pelo planejamento setorial. causando prejuízos profundos à economia do país. conforme ocorria anteriormente sob a égide da prestação do serviço público – onde não havia uma preocupação dominante com a minimização dos custos. que desaguou no racionamento de 2001-2002. Mudanças culturais importantes. enfim. tema ao qual será dedicada. enquanto a Trans­ missão e a Distribuição são consideradas monopólios naturais. A Lei n o 10. somando experiências e capacitações que se complementam.03. embora mantida a ênfase na competição. A concorrência tornou-se notoriamente mais acirrada. que seriam repassados. O modelo de competição na Transmissão se consolidou primeiro. O ACR para a compra e venda de energia elétrica por concessionárias. adiante. são outorgados aos agentes que se dispuserem a realizálos pela menor tarifa para os usuários. um compromisso entre qualidade (regulada) e o preço (tarifa) do serviço. Requisitos essenciais para o sucesso das empresas públicas no novo modelo O modelo setorial vigente tem por base a competição nos segmentos de Geração e Comercialização. Tais parcerias tem-se mostrado não somente rentáveis. que era inicialmente vedada. foram necessárias às empresas estatais para adaptar sua atuação ao novo contexto. no modelo competitivo busca-se a efici­ ência econômica.Séculos XIX. após liberada a participação das empresas públicas nos leilões. a menor Receita Anual Permitida ou RAP. No segmento da Transmissão a concorrência se dá através de leilões para outorga das novas obras de ampliação do sistema. ao tratar-se dos Modelos de Gestão dos empreendi­ mentos e da Engenharia do Proprietário. permissionárias e autorizadas do serviço público de distribuição de energia elétri­ ca. Em verdade elas vem sendo particularmente bem sucedidas nessa nova configuração do setor. atraindo. alguma reflexão. mas agora sob uma lógica que priorizava a segurança energética. enfim. É esse o ambiente competitivo complexo onde hoje convivem empresas privadas e públicas. 356 . XX e XXI A privatização conforme originalmente planejada. Esse equilíbrio entre a qualidade e os investimentos – custos. ou seja. o desafio imenso que é expandir a oferta de energia para o vigoro­ so mercado brasileiro. de 15. para o empreendedor – é um dos grandes desafios a ser en­ frentado nas obras do setor. O movimento de privatização das empresas públicas foi suspenso.

no rio São Marcos. participa­ ção minoritária das empresas públicas. tanto em parceria com a iniciativa privada – maio­ ria dos casos – como através de empreendimentos corporativos. a parceria das empresas estatais. com a reformulação do modelo setorial introduzida a partir de 2004. sob uma estrutura organizacional projetada. podem justificar o sucesso das empresas públicas nos certames para expansão da oferta de energia. Na transição de modelo ocorrida após 2003. alguns fatores que se consideram essenciais para o desenvolvimento favorável dos novos projetos de geração no ambiente competitivo e que. muitas vezes. Daí o agente negociaria sua energia livremente. a partir de um piso. motivado pela competição acirrada por sua outorga. as SPE podem exercer uma gestão do projeto moderna e dentro das melhores práticas. em muitos casos. de forma sinérgica. as 357 . com cus­ to de produção mais econômico. Ademais. ressurgiram como agentes de relevo. Podem incorporar parceiros com perfis bastante distintos. não obstante aplicáveis a todos os agentes. em sua constituição societária. No modelo competitivo inicial a outorga das concessões se dava àquele agente que mais pagasse por essa outorga. teriam dificuldades. As parcerias com a iniciativa privada e o contexto de com­ petição pelas novas outorgas de concessão proporcionaram um importante aprendizado às empresas públicas. A ótica do “negócio” e sua rentabilidade tiveram que prevalecer frente à tradição das obras de altíssima qualidade. como investi­ dores puros. Os parceiros individualmente. fornecedores de bens e serviços e concessionárias. em virtuosa complementaridade. foi necessário um forte empenho no âmbito da regulação bem como. ficavam oneradas por um ágio elevado na UBP. as empresas públicas. 100% estatais. Aquelas usinas mais atraentes. ou seja. Ou seja. que teve ágio de 554%. prejudicados pela mudança de modelo. Alguns fatores de sucesso Relacionam-se. em especial no que se refere às novas usinas hidroelétricas. estando presentes em vários empreendimentos importantes. Houve necessidade de mudanças culturais profundas no modo de atuar das empresas públicas com vistas à sua adaptação e sobrevi­ vência no novo modelo competitivo setorial. devido às características do modelo seto­ rial. Por desenvolver um empreendimento específico. finalmente. com 855 MW de capacidade. sempre cara. O desenvolvimento dos projetos através de SPE As SPE – Sociedades de Propósito Específico são empresas priva­ das quando apresentam. Caso típico foi a excelente usina de Serra do Facão (210 MW).Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Já no segmento de Geração houve. valor de referência estipulado pelo governo.090% sobre o piso de UBP estabelecido – agregando elevação de cerca de 30% aos seus custos de produção. no rio Uruguai. através de contratos bilaterais registrados no Mercado Atacadista de Energia – MAE. Nesse ambiente a energia disponibilizada ao mercado acabava. por disporem. em gerir o projeto com tais ca­ racterísticas – fato especialmente verdadeiro para as empresas públicas. Outro exemplo. em Goiás. Para resgatar esses projetos. dentro das estruturas funcionais de suas organizações. Nesse novo contexto setorial. mas ainda há muito por avançar frente às exigências do mercado. a seguir. muitas dessas usinas. outorgadas sob o modelo anterior – e que ficaram conhecidas como “Botox” – encontraram dificuldades para se viabilizar e comercia­ lizar sua energia no novo ambiente. que teve um ágio de 3. Aliam. as melhores características das empresas privadas e das empre­ sas públicas em prol do desenvolvimento do projeto. liberadas para participar dos leilões de novas concessões. recebia a concessão para as novas usinas hidroelétricas aquele inves­ tidor que ofertasse o maior valor pelo Uso do Bem Público (UBP). de receitas antecipadamente estabelecidas e de longo prazo. mas que eram construídas com elevados custos. a usina de Foz do Chapecó. uma mudança radical de con­ ceitos.

Tratamento da questão ambiental O tratamento adequado da questão ambiental – aí incluídos.A História das Barragens no Brasil . Engenharia financeira do projeto O equacionamento financeiro do projeto talvez seja o ítem mais importante. que muitas vezes são o grande diferencial que define o vencedor de um leilão de outor­ ga. Não observar essa “regra de ouro” significa condenar o projeto a atrasos no seu licenciamento. a antecipação da produção e a eventual geração de caixa durante Conhecimento aprofundado do projeto Aos agentes interessados. os aspectos sociais – é absolutamente determinan­ te no sucesso dos empreendimentos hidrelétricos na atualidade. ademais. negociando prioridades de forma aberta com a sociedade organizada. O papel do financial advisor é essencial. em geral.Séculos XIX. Assim conseguem. sua otimização energética. Permite. por isso. com a possível profundidade que os prazos em geral escassos permitem. envolve várias componen­ tes: a busca pelas melhores fontes de financiamento. Há necessidade de transparência no trato com os órgãos ambientais e com os afetados. e seus riscos. As interações com os órgãos ambientais devem ser constantes e tecnicamente elevadas. paralisações. a ANEEL disponibiliza participar dos leilões de outorga dos novos empreendimentos de geração um con­ 358 . É preciso reconhecer que toda e qualquer obra de infraestrutura. biológico e social – e que. em suas várias disciplinas. impacta o meio ambiente – físico. A adequada modelagem financeira do negócio. Nesse aspecto. agregando-se sempre. com­ prometer fortemente sua rentabilidade. com o adequado atendimento às condicionantes de licencia­ mento. alavancar seus projetos com custos de financiamento bastante atraentes. maior competitividade nos leilões. por disporem de equipes próprias e capacitadas – quer na engenha­ ria. a colocação de parcela de energia no ACL. e deixando claro à população o que é factível realizar a título de compensação. dá ensejo aos agentes a propor soluções inovadoras para sua execução. técnico-econômica e ambiental. junto de estudos nos quais é definida a concepção global da usina. XX e XXI SPE podem usar tais receitas futuras como garantia para obter os financiamentos. Investir. A qualidade dos estudos ambientais deve ser a melhor possível. o melhor perfil da dívida e dos desembolsos. o conhecimento científico existente na região do empreendimento. dando agilidade na realização de estudos complementares àqueles disponibilizados pela ANEEL. que deve inserir-se de forma sustentável no contexto regional ao qual que se incorpora. enfim. quer nas áreas ambiental e fundiária – e pela grande intimidade que muitas vezes tem com as regiões de desenvolvimento dos projetos. Um ambiente de mútua confiança e de aceitação do empreendimento é construído a partir do tratamento respeitoso às partes interessa­ das. bem como o que não é viável. Vantagens essas que são potencia­ lizadas através de parcerias venturosas. não obstante sua utilidade pública. o que acarreta em menores prêmios de risco e melhores condi­ ções de contratações das obras e outros serviços – enfim. a melhor solução tributária. definidor do sucesso e da rentabilidade empreendimento no ambiente competitivo existente em nosso modelo setorial. que se somam ao expertise das empresas públicas. são necessárias compensa­ ções àqueles atingidos pelo empreendimento. Con­ templa os Estudos de Viabilidade Técnico-Econômica (EVTE). os incentivos fiscais. mas não exclusivamente. as empresas públicas são naturalmente fortes. construção e operação. face aos baixos riscos envolvidos. os Estudos de Impacto Ambiental (EIA) e o Relatório de Im­ pacto Ambiental (RIMA). direta e indiretamente pelo empreendimento. no conhecimento técnico que envolve o pro­ jeto. com toda a ênfase. embargos. redução dos riscos associados ao projeto. com avaliação de benefícios e custos associados à nova usina cuja outorga será licitada.

· Modernização de usinas existentes Em suas obras de modernização de usinas hidroelétricas (usina hidro­ elétrica Mal. tendo em mira benefícios mútuos para as partes. e (ii) os empreendedores estão. 359 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens a construção – tudo isso é absolutamente crucial para a proposição de uma tarifa módica e tecnicamente sustentável nos leilões. jun­ tamente com seus parceiros. Mascarenhas de Moraes – MG e Luiz Carlos Barreto de Carvalho – MG/SP). em que todos os envolvidos perdem. Modelos de gestão dos empreendimentos As características atuais do modelo setorial reforçam a necessida­ de. Modelos de gestão recentemente utilizados Percebe-se. o que pressupõe que: (i) não há uma única modalidade que possa ser considerada como ideal para o atingimento dos objetivos e atendimento das necessidades de todas as partes interessadas no negócio. não ha­ vendo. perde a sociedade brasileira. Furnas adotou a modalidade de contratação mista com EPC – Engineering. ganha importância a busca por modelos de gestão apropriados. a existência de várias modalidades de gestão de empreendimentos na área de geração. podemos elencar as perdas de receita de geração por atrasos das obras. Na discussão que se segue procura-se identificar alguns dos mo­ delos já utilizados ou em utilização. A não observância desses preceitos tem como consequência perdas diretas para os empreendedores e indiretas para o negócio de geração de energia no país. maior preocupação da sociedade civil quanto à segurança dos empreendimentos e maiores cuidados dos organismos de licenciamento ambiental. o fato é que. multas impostas pelos órgãos públicos de fiscalização e regulação. Independentemente de outras possibilidades. buscando e testando fórmulas que possam viabilizar os novos negócios de maneira a reduzir riscos e atender aos objetivos de todas as partes interessadas. As empresas públicas incorporaram e vem aperfeiçoando essa abordagem financeira “privada” nos leilões do setor elétrico. tanto durante a implantação quanto na fase de operação. combinando aspectos positivos de modelos de gestão já utilizados e minimizan­ do seus pontos falhos. que tem sido desenvolvidas desde 2001. com reflexos positivos para a sociedade. pois. para o sucesso efetivo dos empreendimentos. é preciso gestão consistente dos projetos no sentido de assegurar a qualidade dos serviços. os participantes que se consorciam para a competição – investidores e fornecedores de bens e serviços – identificam a necessidade de atuar de forma solidária. dentre outros – com sacrifícios à rentabilidade dos projetos. Estes devem procurar blindar todas as partes interessadas. os agentes devem compartilhar a visão de longo prazo que as inversões no setor elétrico requerem. através de uma atuação em parceria entre os proprietários dos empreendimentos e os consórcios contratados para a execução. a fim de contribuir para que o tema seja analisado sob vários ângulos pelos profissionais do setor. Regidos pela modelagem financeira abrangente e detalhada. por parte dos empreendedores. que pagará por uma energia mais cara e menos favorável sob o ponto de vista ambiental. No primeiro caso. Igualmente. Portanto. Sendo de risco moderado os retornos dos investimentos em geração hidroelétrica. prejuízos à imagem das empresas envolvidas. no modelo competitivo em vigor. espaço para retornos espetaculares e em curto prazo. efetivamente. para vencer os leilões de outorga dos novos empreendimentos. No segundo caso. sacrificar margens e compartilhar ganhos. de buscar soluções que garan­ tam a conclusão das obras conforme os preços e prazos definidos nos planos de negócios (uma vez que a energia já está vendida com preço e data de entrega contratados). na atualidade. necessidade de aquisição de energia no mercado livre para suprir os compromissos assumidos. podemos citar os aumentos dos prêmios de seguros. no fim da linha.

Furnas adotou o regime de EPC. o projeto. reservando para si os licenciamentos ambientais e os fornecimentos dos turbo-geradores. pelo licenciamento ambiental. concluída ao longo de 2006. com contratos a preços globais. Figura 1 – Usina hidroelétrica Peixe Angical 360 . Os Consórcios contratados respon­ sabilizam-se pelo projeto. Furnas resguardou para si a prerrogativa de apro­ vação de todos os projetos. incluindo as obras de reservatório. a Enerpeixe (parceria entre Energias do Brasil e Furnas) contratou. XX e XXI Procurement and Construction (Engenharia. À Concessionária coube a responsabilidade pelo controle da qualidade das obras. pela gestão fundiária e pelos programas ambientais. Já na modernização e ampliação da UTE Santa Cruz (RJ). da execução dos comissionamentos e dos licenciamentos ambientais.A História das Barragens no Brasil . o fornecimento/mon­ tagem e a construção civil. pelos fornecimentos dos equipamentos. ini­ ciada em 2002. pela construção e pela montagem eletromecânica. Os contratados só podem desenvolver suas intervenções nos equipamentos após aprovação de Furnas. · Novas usinas hidroelétricas Na implantação da usina hidroelétrica Peixe Angical. a preço global. separadamente.Séculos XIX. todas a preços globais. Fornecimentos e Construção) e execução direta.

pela gestão fundiária e pela execução dos programas ambientais e das obras de reservatório.A. a preço global. cuja obra teve início em janeiro de 2007. optou pela contratação de um EPC tradicio­ nal (engenharia. do 361 . que iniciou as obras em março de 2007. Furnas. Na construção da usina hidroelétrica Simplício (RJ/MG). o Consórcio Empresarial Foz do Chapecó (pertencente à CPFL. Camargo Corrêa Cimentos). também reservou para si as responsabilidades pelo licenciamento ambiental. (pertencente à Alcoa. similarmente a Foz do Chapecó. incluindo o contro­ le da qualidade).Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 2 – Usina hidroelétrica de Foz do Chapecó Para a implantação da usina hidroelétrica Foz do Chapecó (SC/ RS). pela gestão fundiária. a Serra do Facão Energética S. DME. manteve. fornecimentos e construção. No caso da usina hidroelétrica Serra do Facão (GO). fornecimentos e construção. CEEE e Fur­ nas) optou pela contratação de um EPC tradicional (engenharia. cujas obras foram iniciadas em janeiro de 2007. sob sua tutela direta. Analogamente ao caso anterior. a empresa decidiu pelas contratações separadas do projeto (preço global). pela execução dos programas ambientais e das obras de reservatório. a preço global. incluindo o controle da qualidade). No entanto. as res­ ponsabilidades pelo licenciamento ambiental. concessão 100% de Furnas.

Tal opção foi feita buscando eliminar volumes significativos de verbas de contingenciamento relativas a riscos geotécnicos. pela gestão fundiária e pelos programas ambientais. O contrato da construção civil não inclui o controle da qualidade das obras. nem as obras de reservatório. Além disso. 362 . A novidade no caso de Simplício foi a utilização. XX e XXI Figura 3 – Barragem de Foz do Chapecó Figura 4 . A integração das responsabilida­ des que se interfaceiam é gerida diretamente pela própria conces­ sionária. Furnas se responsabiliza pelo licenciamento ambiental. A contrapartida é que tal risco está sendo assumido por Furnas. no contrato das obras civis. anterior mente embutidos no preço global da empreiteira.Usina hidroelétrica de Serra do Facão no rio São Marcos fornecedor/montador (preço global) e das obras civis (misto de preço global e preços unitários). de um sistema misto de preços: parte do contrato é por um preço global e parte é por preços unitários.Séculos XIX.A História das Barragens no Brasil .

também denominado internamente por Turn Key.A. outra concessão 100% de Furnas. incluindo o controle da qualidade. Furnas se responsabiliza pelo licenciamento ambiental.Usina hidroelétrica de Retiro Baixo 363 .O contrato da construção civil não inclui as obras de reservatório. do fornecedor/ montador (preço global) e das obras civis (preço unitário). A integração das responsabilidades que se interfaceiam também será gerida diretamente pela própria concessionária. a Retiro Baixo Energética S. possui a seguinte formatação atual: contratações separadas do projeto (preço global).Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Já a implantação da usina hidroelétrica Batalha (GO/MG). optou pela contratação de um EPC mais amplo. obras iniciadas em março de 2007. pela gestão fundiária e pelos programas ambientais. Analogamente à usina hidroelétrica Simplício. Na usina hidroelétrica Retiro Baixo (MG). Figura 5 – Obras da barragem e usina de Anta do aproveitamento hidroelétrico de Símplicio Figura 6 .

Percebe-se. as responsabi­ lidades sobre os licenciamentos ambientais. em substituição aos preços unitários. em que o contratado se responsabiliza pelo projeto. Manteve também sob responsabili­ dade direta da SPE o licenciamento ambiental. projeto. fornecimentos. Para a implantação da usina hidroelétrica Santo Antônio (RO). as gestões fundiárias e os programas ambientais. (parceria de FURNAS. a Companhia Hidroelétrica Teles Pires (FURNAS. incluin­ do o controle da qualidade das obras. a Santo Antônio Energia S. CNO e AG).A.Séculos XIX. a preço global. CEMIG. NEOENERGIA e ODE­ BRECHT) igualmente optou pela contratação de um EPC tradicio­ nal – engenharia. pela execução dos programas ambientais e das obras de reservatório. tudo por um preço global. Uma delas é a adoção da modalidade de preço global. FIP. Mesmo havendo variações percebidas em tal modalidade de contratação. algumas fortes tendências. montagem eletromecânica. programas ambientais e obras de reservatório. gestão fundiária. construção civil e montagem eletromecânica. com obras previstas para iniciar em julho de 2011. bastante ricos em diversidades de modelos de ges­ tão. Outra modalidade comumente observada é a utilização de contrata­ ções do tipo EPC. Via de regra. incluindo o controle da qualidade). Não obstante. dado o caráter crítico dessas atividades para o sucesso dos empreendimentos e para a imagem da empresa na região de inserção dos projetos. Tal constatação deve-se ao fato de que as obras de reservatório tem uma dependência direta da área afetada e dos condicionantes 364 . OII. para si. No entanto. incluindo o controle da qualidade – a preço global. ratificando a inquietude dos diversos empreendedores quanto à busca pelo melhor modelo a ser utilizado para os negócios de geração de energia elétrica no país. licenciamento ambien­ tal. controle da qualidade. fornecimentos e construção. mostrando. já há movimentos mais recentes no sentido de se mesclar os regimes de preço global com partes por preços unitários. As experiências têm mostrado que os regimes de preços globais fixos não eliminam por completo possibilidades de situações como acima relatadas. em nossa opinião. São.A História das Barragens no Brasil . fornecimento. Por tal motivo. XX e XXI onde o contratado responsabiliza-se pela integralidade das ações necessárias à implantação completa do empreendimento. percebe-se algum movimento no sentido de se incluir preços unitários em partes do projeto mais sensíveis a previsões muito antecipadas. pela gestão fundiária. que findam por gerar: (i) preços mui­ to avultados em função de grandes contingenciamentos embutidos pelos construtores. os organismos financiadores dos projetos tem colocado para as viabilizações dos empréstimos. os concessionários reservam. Tal tendência tem forte relação com a transferência de riscos do empreendedor para o construtor. contudo. pode-se afirmar que ela ainda é a que mais agrada aos investidores. construção civil. ou seja. optou pela contratação de um EPC tradicional (engenharia. ou por alterações de projeto ou por situações reais distintas daquelas previstas nos projetos básicos. cuja obra foi iniciada em setembro de 2008. por ser entendida como a que melhor transfere os riscos de execução e integração dos empreende­ dores aos contratados. ou (ii) pleitos de reequilíbrios econômicofinanceiros em função de serviços adicionais imprevisíveis. comissionamentos. uma das exigências que A questão das obras de reservatório não tem uma tendência defini­ da. com foco na hidroeletricidade. ELETROSUL. uma tendência para o futuro próximo. · Tendências Obviamente. no entanto. manteve sob sua tutela direta as responsabilidades pelo licenciamento ambiental. fornecimentos e construção. No caso da usina hidroelétrica Teles Pires (MT/PA). que recebem tal exigência dos órgãos financiadores. os exemplos acima não encerram todos os ca­ sos recentemente utilizados ou em implantação atual no Brasil. a gestão fundiária a execução dos programas ambientais e das obras de reservatório.

e não a vitória na batalha dos tribunais. A questão da responsabilidade integral do contratado. Fica patente que. possíveis as prédefinições necessárias aos orçamentos seguros pelas construto­ ras e. com base no contrato EPC. impossível uma orçamentação isenta de riscos. especialistas passaram a questionar esse modelo sob a ótica da segurança. é secundária. fornecimento. em outros casos. sob o ponto de vista da engenharia. Complementarmente. sendo. pois o interesse do investidor é o empreendimento concluído da forma como foi planejado. Entretanto. incluindo eventos em usinas hidroelétricas e também no metrô de São Paulo. em alguns casos. fizerem parte do mesmo grupo responsável pela execução das obras o construtor e o projetista. montagem.Figura 7 . o empreendedor deve ter em seu auxílio equipe técnica que exerça a engenharia do proprietário de forma ostensiva.Vista aérea das obras da usina hidroelétrica de Santo Antônio sobre o Rio Madeira dos licenciamentos. de forma a atender aos objetivos previamente estabelecidos para o empreendimento e aos critérios de segurança operativa definidos Engenharia do proprietário Não resta dúvida quanto às inúmeras vantagens que o modelo de contrato EPC – Turn key trazem ao empreendedor sob o ponto de vista econômico. bem como a preservação de sua imagem. a engenharia do proprietário deve disponi­ bilizar informações para subsídio técnico ao empreendedor na to­ mada de decisões frente ao construtor. ainda mais quando 365 . comissionamento e operação de empreendimentos de geração devem ser controladas. visto que as incertezas inerentes à execução dos serviços de construção. por meio do monitoramento adequado dos processos empregados. para o emprego desse modelo de contrato. Entendemos que a engenharia do proprietário tem como principal papel a atenuação de riscos envolvidos quanto a prazos e confor­ midade de produtos contratados. com a ocorrência de inúmeros acidentes em obras de grande porte. que fatalmente elevaria o preço proposto em função de contingenciamentos altos.

Organização das reuniões de coordenação e de produção. fornecedor e montador e emissão de pareceres ao empreendedor. Certificações parciais dos produtos entregues pelo contratado e certificação global. Análise e emissão de pareceres relativos a fornecimentos ne­ cessários que estejam fora do escopo do Contrato EPC. as seguintes atividades: Acompanhamento das obras civis e eletromecânicas. subsidiando-o de elementos necessários para análise econômico-financeira afetos à relação contratual estabelecida com o contratado. emitidos pelo contratado.data book Acompanhamento das obras e serviços em face das normas de higiene e segurança industrial pertinentes. Por outro lado. Análise de planejamentos executivos elaborados pelo cons­ trutor. Atendimento às solicitações do empreendedor. para subsidiar solu­ ção de impasses ou divergências que possam ocorrer entre o empreendedor e o construtor. caso requerido pelo empreendedor. Acompanhamento rigoroso dos processos executivos emprega­ dos pelo contratado previstos nos anexos da qualidade. Análise de redes de precedência emitidas pelo contratado e emissão de pareceres ao empreendedor. A forma de atuação da Engenharia do Proprietário De modo geral. Análise dos dossiês de qualidade . Com a en­ trada de diversos agentes econômicos no setor de energia elétrica 366 . Emissão de relatórios. Análise e parecer sobre relatórios de progresso emitido pelo empreendedor. Acompanhamento de liberações de serviços por parte da projetista. Emissão de pareceres. comissionamento e pré-operação. quanto a questões técnicas no âmbito das atividades no local da implantação.A História das Barragens no Brasil . Emissão de relatórios técnicos destinados à análise de pleitos. XX e XXI nos procedimentos de rede do ONS e nas regulamentações da ANEEL e MME. Atividades contempladas na Engenharia do Proprietário Dessa forma. a engenharia do proprietário deverá exercer. Acompanhamento de quantitativos dos serviços executados das obras civis e de montagem eletromecânica. Análise dos métodos e resultados relativos ao controle de qualidade dos materiais de construção desenvolvido pelo laboratório contratado pelo contratado.Séculos XIX. quando na entrega do empreendimento para operação comercial. filmes e vídeos relativos à obra. quanto a alterações no projeto básico consolidado e/ou especifica­ ções técnicas. Emissão de relatórios e documentações específicos para os órgãos financiadores. Emissão de pareceres ao empreendedor quanto a pedi­ do de modificação de projeto – pedido de modificação de campo. os conceitos anteriormente apresentados não encontram discordâncias entre os diversos segmentos e atores envolvidos nas gestões de empreendimentos de grande porte. há grandes divergências com relação à forma e/ou intensidade de atuação da engenharia do proprietário. sem se limitar a elas. quando solicitados. Seleção de assuntos de interesse do empreendedor para serem discutidos nas reuniões de produção (semanal) e de coordenação (mensal). especificações técnicas. Acompanhamento do pré-comissionamento. plano de inspeções e testes. registros fotográficos. normas técnicas aplicáveis e aos demais documentos técnicos contratuais. quanto à conformidade em relação aos documentos de projeto.

e deve. O termo “fiscalização” passou a sofrer forte preconceito por trazer consigo a ideia da presença da mão-forte do empreendedor nas de­ cisões de obra. sem acompanhamento integral das obras. muitas vezes quando o construtor já estiver isento de qualquer responsabilidade legal sobre o problema. uma vez que importantes etapas das obras deixam de ser acompanhadas. onde se faz a checagem do atingimento de grandes marcos. de então. uma das principais alterações conceituais percebida foi no enfoque dado à questão da engenharia do proprietário. com atuação restrita aos horários comerciais. desenvolvendo um trabalho de verificação de aderência das atividades às normas e especificações técnicas. sem um acompanhamento passo a passo da obra. Com receio de trazer para o empreendedor riscos contratualmente definidos como de responsabilidade dos fornecedores/construto­ res. A interferência direta se dá apenas em casos extremos. acompanhando o emprei­ teiro em todos os turnos de trabalho. em que se verificam riscos às obras e às pessoas.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens no Brasil. diretamente pelo “olho do dono”. mas tão somen­ te verifica o atendimento às normas e especificações executivas. ficaram reduzidas a poucos profissionais. a exemplo do que sempre ocorria nas gestões de grandes obras no Brasil. Figura 8 . traduzido do inglês owner’s engineering. vindo a manifestar suas consequências danosas apenas na fase de operação. uma vez que não interfere diretamente na execução das atividades das obras. Entendemos que as equipes de engenharia do proprietário deverão ser dimensionadas de maneira a que as obras sejam fiscalizadas em sua integralidade. sem que isso traga ao empreendedor a assunção de riscos que não são de sua responsabilidade. A engenharia do proprietário pode. Vemos uma grave omissão dos empreendedores em tal tipo de atuação. o emprego do neologismo “engenharia do proprietário”. Vem. apontando eventuais não-conformidades para subsidiar as decisões do proprietário. as equipes de engenharia do proprietário. dimensionadas dentro desse conceito de atuação extremamente distante e pontu­ al. Tal tipo de atuação não transfere riscos sob responsabilidade dos construtores para o empreendedor. Eventuais defeitos poderão ficar ocultos por vários anos. Com isso. acompanhando a integralidade das obras. o exercício da engenharia do proprietário passou a ser defini­ do como de spot check. a partir das mudanças no marco regulatório observadas desde 1995.Usina hidroelétrica de Serra do Facão no rio São Marcos com 212 MW de capacidade instalada 367 . atuar de maneira mais consistente. com a intensidade devida.

368 .

sendo que uma lavra rudimentar foi iniciada em 1729. a sudeste de Belo Horizonte. lugar da passagem da estrada entre Ouro Preto e Mariana. que criou a primeira companhia mineradora do País de capital pri­ vado. pela importância histórica que tem na mineração brasileira. a exploração do ouro utilizava técnicas e ferra­ mentas rudimentares na lavagem e beneficiamento do minério. Eschwege aplicou técnicas modernas para a época. dando inicio a uma profunda galeria para esgotamento de água e elaborou o primeiro plano de lavra subterrânea em Passagem. A Mina da Passagem é um bom exemplo de iniciativa de valorização e utilização de minas antigas para geoturismo. entre a Forma­ ção Cauê. em Mariana. Antes até da corrida do ouro no oeste americano. vá­ rios mineiros obtiveram concessões para explorar a propriedade mineral da Passagem até que em 1819 ela foi adquirida. ficando a exploração paralisada em alguns momentos devido à conjuntura econômica do Brasil e à baixa cotação do ouro no mercado. Em 1821. O acesso é feito por meio de um trolley. até então não usados no Brasil. Descreve. De acordo com Ruchkys e Renger [Ref. a evolução histórica das barra­ gens de rejeitos no Brasil. e instalou um engenho com nove pilões e moinhos para pedras. Há alguns anos. pelo Barão de Eschwege. 1]. e a estrutura é a mesma uti­ lizada na época de Eschwege. a atividade de mineração de ouro no Brasil já ha­ via se iniciado com a Mina da Passagem. Atualmente. com o nome de Sociedade Mineralógica da Passagem. no topo. as quais tiveram seu início em épocas que remontam a cerca de 300 anos atrás. conforme é descrito adiante neste capítulo. com foco em seu desenvolvimento de tecnologias de disposição e na aplicação das técnicas da engenharia de barragens ao projeto e construção de barragens de rejeitos. a mina também passou a ser utilizada para mergulho nas galerias e túneis inundados pelas águas do lençol freático. o que já é bastante difundido na Europa. de forma sintética. 1] Barragem São Bento . e o Grupo Caraça (Formação Moeda e Batatal) ou Grupo Nova Lima (Supergrupo Rio das Velhas). As barragens de rejeitos no Brasil surgiram das atividades de mi­ neração. Até essa época.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens As Barragens de Rejeitos no Brasil: Sua evolução nos últimos anos Joaquim Pimenta de Ávila e Marta Sawaya 1. junto com algumas concessões vizinhas. Introdução O presente capítulo apresenta um sumário da experiência brasileira em barragens de contenção de resíduos de mineração e de indús­ tria. a Mina da Passagem foi transformada num complexo turístico onde os equipamentos desativados foram requalificados. A mineralização está inserida no Supergrupo Minas. o ouro primário foi descoberto na região no início do século XVIII. Esta mina é descrita a seguir. [Ref.2005 369 . A Mina da Passagem está localizada na Vila da Passagem. Entre 1729 e 1819. Eschwege deixou o Brasil e desta época em diante a propriedade passou pelas mãos de vários mineradores. sob o Ribeirão do Carmo.

e a evolução deste assunto no panorama mundial pode ser percebida por um levantamento feito pelo USCOLD. por mui­ to tempo descartaram seus resíduos na natureza. as indústrias investiram na construção das primeiras barragens de contenção de rejeitos. Até meados de 1930. Na década de 40. as atividades de mineração. o desenvolvimento tecnológico aumen­ tou ainda mais a habilidade de minerar corpos com baixo teor mineral. quando fortes chuvas ocorriam. com considerações limitadas apenas para inundações. com a introdução da força a vapor e com o aumento significativo da ca­ pacidade de processamento dos minerais de interesse econômico. que abriram caminho para elaboração das primeiras legislações sobre o gerenciamento de resíduos da mineração. a geração de rejeitos pelas empresas de mi­ neração e os impactos decorrentes de sua disposição no meio ambiente eram considerados desprezíveis. Os produtores rurais começaram a associar a diminui­ ção da colheita nas terras impactadas aos rejeitos. e os aspectos relacionados ao uso da terra e da água conduziram os confli­ tos iniciais. Consequentemente. em 2004 [Ref. As barragens construídas no início do século XIX geralmente eram projetadas transversalmente aos cursos d’água. continua sendo utilizado. além de contaminar as áreas a jusante. com o cessamento de práticas inadequadas que ocorriam até 1930. mais rejeitos estavam sendo depositados e transportados por distâncias cada vez maiores das fontes geradoras para os cursos d’água. de maneira similar às barragens convencionais. Um pequeno dique era inicialmente preenchido com rejeitos hidraulicamente depo­ sitados e depois incrementado por pequenas bermas. especialmente em minas a céu aberto. com cada vez menor granulometria. Entretanto. Na diversidade das condições brasileiras. a geração de rejeitos aumentou significativamente e estes pre­ cisavam ser removidos da área de produção. O desenvolvimento da tecnologia para construção de barragens de contenção de rejeitos ocorreu de modo empírico. Precedentes legais gradativamente trouxeram um fim à dispo­ sição incontrolada de rejeitos na maioria dos países ocidentais. particularmente por inte­ resses agrícolas. Raramente existiam engenheiros ou critérios técnicos envolvidos nas fases de construção e de operação. geralmente próximo aos rios ou cursos d’água. ainda prevalece em minas de tecnologia mais rudimen­ tar a construção empírica. a disponibilidade de equipamentos de alta ca­ pacidade para movimentação de terras. para a manutenção da mineração e a mitigação dos impactos ambientais. engrena­ do pelas práticas de construção e equipamentos disponíveis em cada época. Entretanto. Foi somente a partir do início do século XX. que se desenvolveu a partir da década 370 .Séculos XIX. No entanto. A situação no Brasil não foi diferente do resto do mundo. Esse procedimento de construção. pois os rejeitos frequentemente acumulados no solo obstruíam os poços de irrigação. como resultado. XX e XXI Em relação aos rejeitos gerados. Esse desenvolvimento ocorreu ainda sem a aplicação das técnicas da engenharia de barragens.A História das Barragens no Brasil . Surgiram também conflitos pelo uso da terra e da água. as práticas de dispo­ sição de rejeitos permaneceram inalteradas e. lagos e oceanos. Foi a partir da década de 30 que. em cursos d’água ou lançando-os em terrenos adjacentes. resultando na produção ainda maior de rejeitos. como descrito a seguir. A partir do século XV. formando depósitos sem nenhuma preocupação de ordenação e sistematização. atualmente mecanizado. poucas destas barragens permaneciam estáveis.3]. sendo então enca­ minhados para algum local conveniente. tornou possível a construção de barragens de con­ tenção de rejeitos com técnicas de compactação e maior grau de segurança. embora em algumas mi­ nas sejam hoje aplicadas tecnologias disponíveis de implantação de barragens. Antes do século XV. algumas destas práticas acontecem até hoje em muitos países em desenvolvimento. atraindo indústrias de apoio e desenvolvendo a comunidade local. equipamentos para movimentação de terras não eram acessíveis para a construção das barragens. que os pequenos dis­ tritos minerários começaram a se desenvolver.

liquefação e estabilidade da fundação) já eram bem entendidos e controlados pelos projetistas. um terremoto causou rompimento de muitas barra­ gens no Chile. de projetos mal elaborados. em Mariana. de supervisão deficiente durante a construção. muitas vezes. as técnicas de observação do comportamento das barragens durante a operação vieram reforçar a necessidade do controle da segurança em longo prazo. abordados em outras áreas como a de geração de energia elétrica. infiltração. Exemplos desta aplica­ ção são as barragens de: Pontal. em geral. novos desenvolvimentos na ciência de mecânica do solo. 2 e 3] 371 . Em 1965. por causa de recentes acidentes com barragens de rejeitos que ganharam amplo espaço na mídia. O progresso das tecnologias de implantação de barragens de re­ jeitos foi sempre entremeado pelos acidentes com rupturas de barragens. os aspectos ambientais também cresceram em importância. com implicações financeiras severas em muitos casos. Com o passar do tem­ po. a produção de rejeitos aumentou. A partir da década de 80. da Vale. da Samarco. em que a característica básica era investir contra a causa potencial da ruptura da barragem. a construção de barragens de rejeitos no Brasil teve por muitos anos aplicada a prática de utilizar os equipamentos de la­ vra. Aspectos de estabilidade física têm permanecido na vanguar­ da. especiali­ zados nas técnicas de lavra. Numa primeira fase. o qual se resumia a operações de britagem e peneiramento com lavagem. e as áreas para disposição se tornaram cada vez mais escassas. construindo aterros com o material estéril removidos da mina e lançados em forma de aterros. Enquanto estas barragens rudimentares se resumiam a estruturas baixas e de menores volumes de represamento. devido à falta de aplicação adequada dos métodos conhecidos. Entretanto. compatível com probabilidade de ruptura adequadamente baixa. introdução de equipamentos cada vez mais robustos para movimentação de terra.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens de 30. Esses projetos se torna­ ram possíveis com a ampliação contínua do conhecimento e con­ trole dos aspectos de segurança. [Ref. sem grandes acidentes. recebendo considerável atenção e tornou-se um fator chave na pesquisa sobre as causas das rupturas. e às populações residentes nos vales a jusante. A regra era optar pelo controle rigoroso do projeto. os problemas estruturais destas barragens passaram a representar riscos maiores e rupturas significativas começaram a ocorrer. Na década de 70. as atividades eram bem sucedidas. culminando no desenvolvi­ mento dos projetos de engenharia permitindo a construção de barragens com alturas cada vez maiores. Assim. em Itabira. os quais sempre foram catalisadores do progresso tec­ nológico da engenharia de barragens. Entretanto. Águas Claras. com orientação técnica dos engenheiros de minas. tais como melhor compreensão do comportamento dos materiais. para criar volumes de retenção dos rejeitos do beneficiamento do minério. pela exigência da sociedade de eliminação desses desastres. falhas ocorrem. considerando o potencial de dano ambiental e os mecanismos de transporte de contaminan­ tes. mui­ tos dos princípios fundamentais de geotecnia já eram compre­ endidos e aplicados em barragens de contenção de rejeitos. e Germano. a maioria dos aspectos técnicos (por exemplo. quando o progresso na fabricação dos equipamentos de terraplenagem foi aproveitado nas operações de lavra e constru­ ção de barragens. embora nem sempre fossem usados os conhe­ cimentos sobre a engenharia de barragens. ou negligência das características vitais incorporadas na fase de construção. Posteriormente. na década de 50. Assim. o controle da segurança das barragens era basicamente orientado para a segurança estrutural e hidráulicooperacional. resultando em volumes de resíduos a serem represados pelas barragens. com o progres­ so das atividades de mineração e aumento da escala de operações. construção e operação como for­ ma de garantir à sociedade. em Nova Lima. A atenção foi amplamente voltada para estabili­ dade física e econômica das barragens. uma segurança satisfatória. da então MBR Minerações Brasileiras Reunidas. trans­ versalmente aos vales.

o limite do “estado da arte” vigente à época. Em 2001. nas ações preven­ tivas. XX e XXI A ocorrência destes acidentes tem tido grande influência na atitu­ de dos profissionais de geotecnia de barragens. na Itália. tanto na direção da redução do potencial de dano dos reservatórios de rejeitos. publicou um boletim (Bulletin 121: “Tailings Dams. em grande parte. Stava foi uma barragem projetada segundo a prática corrente da engenharia. Participaram deste inventário represen­ tantes de 52 países. As duas maiores catástrofes ocorridas: Stava. Os métodos de disposição de rejeitos têm também evoluído po­ sitivamente. o panorama desta área da engenharia. e no estabelecimento de regulamentações específicas sobre a segurança de barragens de rejeitos. Na primeira tabela. à época dois extremos. em termos de aplicação de engenharia: Buffalo Creek era uma pilha de estéril que estava operando como dique de contenção dos rejeitos. Cerca de 400 casos foram analisados para identificar as causas principais destes eventos. muitas das quais catastróficas. 372 . As causas des­ tes acidentes têm sido atribuídas. e Buffa­ lo Creek. inventariou os acidentes e incidentes ocorridos desde 1970. em suas particularidades principais. como do aumento da segurança das estruturas de contenção dos mesmos. O melhor conhecimen­ to do comportamento geotécnico dos rejeitos vem permitindo implantar estruturas mais seguras. o que tem catalisado uma evolução positiva da própria tecnologia de rejeitos. que marcaram. Lessons Learnt From Practical Experiences ) com o resultado de um trabalho da comissão de barragens de rejeitos que.Séculos XIX.A História das Barragens no Brasil . sem qualquer engenharia de barragem. desde os anos 70. nos EUA. portanto. representaram. até 2001. atingindo. são mostrados os acidentes com maior número de mortes. à não aplicação das tecnologias existentes. Risk of Dangerous Occurrences.Principais Acidentes com Mortes (1970-2001) Ano 1985 1972 1970 1994 1974 1995 1986 2001 1978 Barragem / País Stava / Itália Buffalo Creek / USA Mufilira / Zambia Merriespruit/ África do Sul Bakofeng / África do Sul Placer / Filipinas Fernandinho / Brasil Rio Verde / Brasil Arcturus / Zimbabwe No de mortes 269 125 89 17 12 12 7 5 1 (dados segundo ICOLD-2001) 2. foram preparadas as duas tabelas apresentadas a seguir. Tabela 1 . durante cinco anos. o ICOLD ( International Commission on Large Dams ). Rupturas e incidentes em barragens de rejeitos A apresentação destes fatos relevantes inicia-se obrigatoriamente pelos acidentes com rupturas. que colaboraram com informações sobre acidentes e incidentes. quando esta estatística foi atualizada. aspectos que são abordados resumidamente.1. Fatos relevantes na evolução recente da geotecnia de barragens de rejeitos 2. po­ rém em uma situação de ocorrência de uma geologia complexa e materiais de fundação com comportamento de difícil análise. embora seja observado o aparecimento em número crescente de publicações específicas sobre barragens de rejeitos e temas correlatos. A partir dos resultados apresentados. Observa-se que o Brasil comparece na tabela com dois casos: Fernandinho e Rio Verde.

Várias entidades internacionais têm trabalhado para a cons­ cientização dos proprietários e têm produzido excelentes contri­ buições sobre a segurança das barragens de rejeitos.estes mais nume­ rosos . porque os proprietários não os revelam. tirando a chance de aprendizado com suas causas. 373 . na grande maioria dos ca­ sos.2 milhões de m³ de lama com cianeto (dados segundo ICOLD-2001) 2006 2003 2000 2000 2000 1999 1998 1998 1995 Romênia Romênia Filipinas Haelva/ Espanha Aznalcóllar/ Espanha Omai / Guiana Os acidentes em barragens de rejeitos continuam insistente­ mente a ocorrer no Brasil. Tabela 2 . construção e operação de barragens de rejeitos. Existem ain­ da numerosos incidentes que.Acidentes Recentes com Contaminação Ano Local Consequência 2007 Mirai / Brasil Mirai / Brasil Cataguases/ Brasil Kentucky/ Usa Vazamento de rejeitos de bauxita Interrupção de fornecimento de água Vazamento de rejeitos de bauxita Interrupção de fornecimento de água Lixívia negra liberada Interrupção de fornecimento de água Mortalidade de peixes Interrupção no fornecimento de água Contaminação das águas c/ metais pesados 100.000 m³ de água ácida tóxica liberada 5. composto de especialistas de diversos países. porém com degradação ambiental significativa. mas ocorre o vazamento de sólidos para jusante com conseqüências variáveis. Observa-se que o Brasil compa­ rece novamente na tabela.onde não ocorre a ruptura. Alguns são citados a seguir: O ICOLD. para redução de riscos. Esta situação não é exclusiva do Brasil. pro­ duziu nos últimos anos 10 boletins. situações já resolvidas pela tecnologia disponível. sem mortes. em forma de recomen­ dações de boa prática para projeto. como um todo. com três casos. Além destes acidentes ocorrem incidentes . com consequências indesejáveis para a sociedade e para o setor de mineração e indústria. e outros países já identifi­ caram as mesmas deficiências de proprietários e operadores.000m³ de cianeto contaminando águas 700. não são informados. As causas desses acidentes incluem.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A segunda tabela mostra os aciden­ tes. e as defici­ ências decorrem da não aplicação de ações voltadas a garantir a segurança de estruturas. infelizmente. de cianeto contaminando águas 50.000 t.0 milhões de m³ de água ácida liberada 4. que falham na sua responsabilidade de adotar procedimentos gerenciais de segurança.

3. DN 62/2002.FEAM. Embora as ações para implantação de uma legislação federal de segurança de barragens tenham já cerca de 30 anos no Brasil (basi­ camente. em 2001. levando a tentativas diversas de regulamentação legal que obrigue os proprietários de barragens a tomarem providências efetivas de redução de riscos. concentrada nas barragens de rejeitos.Séculos XIX. desde diretores até operadores de barragens de rejeitos. em 2001. No Brasil.A História das Barragens no Brasil . A lei federal 12. com a colaboração do ICOLD. a FEAM coordenou a elaboração de regulamenta­ ção específica. por meio do IFC (International Finance Corporation). As barragens de rejeitos em MG somente são licenciadas se atenderem aos requisitos das regulamentações.334/2010. No Brasil. Nos países mais desenvolvidos.2. em 2010. O Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM) tem incentivado debates sobre o tema de segurança de barragens.334/2010 tem as características a seguir listadas. as tentativas que vêm sendo feitas há mais de trinta anos somente agora. Austrália. com forte influência da ocorrência de acidentes e da atuação dos órgãos re­ guladores e fiscalizadores como o Ministério Público Estadual e a Fundação Estadual do Meio Ambiente . somente em 2010 foi criada uma lei federal de segurança de barragens (Lei 12. onde são apresentados e analisados os acidentes e incidentes com barragens de rejeitos nos últimos anos. Embora existam algumas empresas de grande desempenho.334/2010). No estado de Minas Gerais. essas ações resultaram em regulamentações sobre a segurança de barragens e esses países contam com legislação sobre o assunto. já mencionado.br. à disposição final ou temporária de rejeitos e à acu­ mulação de resíduos industriais que apresentem pelo menos uma das características abaixo:  374 . infelizmente ainda desconhecem os aspectos principais da técnica de segurança de barragens. África do Sul 2. entretanto. e contou com consultoria especializada. como EUA. estabeleceu requisitos mínimos de segurança que as barragens de rejeitos devem atender para receberem empréstimos daquela instituição. DN 65/2003. As regulamentações resultantes deste processo estão hoje nas Delibe­ rações Normativas. Implementação de legislação e regulamentação de segurança de barragens Os acidentes em barragens provocaram sempre reações da sociedade em todo o mundo. que conhecem a necessidade de uma boa gestão da segurança. algumas empresas de menor porte. ações do CBDB junto ao governo). do corpo docente de universidades e de empresas de engenharia. a comissão de barragens de rejei­ tos do ICOLD publicou o boletim 121. com recomendações sobre a melhor prática para a segurança.com/tailings). que financia o setor privado. diversos países da Europa. Canadá. um website de boas práticas para a engenharia de barragens de rejeitos. 2. 87/2005 e 124/2008. resultaram em uma legislação federal sobre segurança de barragens. (www.goodpracticemining. A MAC (Mining Association of Canada) produziu vários trabalhos de interesse aos procedimentos de segurança de barragens para uso de seus associados. sobre a segurança de barragens A Lei 12. · Aplica-se às barragens destinadas à acumulação de água para quaisquer usos. XX e XXI Dentre os 10 boletins. O Banco Mundial. a situação não é diferente. promovendo se­ minários e workshops específicos e instituiu cursos de treinamento para empresas de mineração em todas as esferas hierárquicas. que foi discutida com representantes das empresas mineradoras. constata-se um maior progresso na regulamentação. que podem ser consultadas pelo site da FEAM: www. O ICMM (International Council on Mining Metals) criou.feam. Após o acidente com a barragem de rejeitos da Mineração Rio Verde.

Tailing Disposal Today. Vick. contada do ponto mais baixo da fundação à crista. Volume 1. REGEO e COBRAMSEG´s. construção. Colorado University. trabalhos de pesquisa nas universidades brasileiras passaram a enfocar o comportamento dos rejeitos.  V . Volume 1: Proceedings of the First International Symposium (1972). S.O Relatório de Segurança de Barragens. • • Proceedings of an International Bauxite Tailings Workshop (1992).  · Os fundamentos da Política Nacional de Segurança de Barragens – PNSB são: I .A promoção de mecanismos de participação e controle social.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens I . de início como Uranium Mill Tailings Management. indicando as principais referências bibliográficas sobre cada um destes estágios. Jr (Ed.O Cadastro Técnico Federal de Atividades e Instrumentos de Defesa Ambiental. ambientais ou de perda de vidas humanas. Jr (Ed. em termos econômicos. 10 boletins a partir de 1982.A população deve ser informada e estimulada a participar. primeiro enchimento e primeiro vertimento.A segurança de uma barragem deve ser considerada nas suas fases de planejamento. VII . maior ou igual a 15 m (quinze metros).Reservatório que contenha resíduos perigosos conforme normas técnicas aplicáveis. IV .Categoria de dano potencial associado. Argall. Desenvolvimento de tecnologia específica sobre barragens de rejeitos Vários trabalhos têm sido publicados sobre a tecnologia de pro­ jeto. A partir dos anos 80. 3.goodpracticemining.000 m³ (três milhões de metros cúbicos).  II . direta ou indiretamente. Argall.A segurança de uma barragem influi diretamente na sua sustentabilidade e no alcance de seus potenciais efeitos sociais e ambientais. ABMS (Associação Brasileira de Mecânica dos Solos e Engenharia Geotécnica). Planning. Design and Analysis of Tailings Dams ( 1983). 375 . operação e fechamento de barragens de rejeitos. concluiu o boletim Improving Tailings Dams Safety. conforme definido no art. projeto. operação.  IV .  III . Tailing Disposal Today. desativação e de usos futuros. construção. (1978). ICMM site: www.com/tailings Recentemente. Os principais estão listados a seguir: • • • • • • C.). construção. vários anos a partir de 1978. cabendo-lhe o desenvolvimento de ações para garanti-la. 6o. G. em todos os aspectos de seu comportamento geotécnico.Capacidade total do reservatório maior ou igual a 3. Volume 2: Proceedings of the Second International Symposium.Altura do maciço. a Comissão de Barragens de Rejeitos do ICOLD.O Sistema Nacional de Informações sobre o Meio Ambiente. opera­ ção e fechamento de barragens de rejeitos. ICOLD Committee on Tailings Dams and Waste Lagoons.  IV . e vá­ rios projetos com aplicação de novos métodos de disposição têm resultado em significativa evolução das práticas de engenharia de barragens de rejeitos.  II .O Sistema Nacional de Informações sobre Segurança de Barragens (SNISB). VI . II . que aborda os aspectos relevantes relacionados ao projeto.O empreendedor é o responsável legal pela seguran­ ça da barragem.L. (1987 e seguintes). III .).O Cadastro Técnico Federal de Atividades Potencialmente Poluidoras ou Utilizadoras de Recursos Ambientais.  III .O sistema de classificação de barragens por categoria de risco e por dano potencial associado. das ações preventivas e emergenciais. V . George O. Aplin e George O. médio ou alto.O Plano de Segurança de Barragem. sociais.  · Os instrumentos da Política Nacional de Segurança de Barragens são: I .000. Proceedings: Tailings and Mine Wastes.

a partir dos trabalhos pioneiros do professor Robert Schiffman. após a ocorrência de grandes rupturas com mortes e grandes impactos ambientais.1. como para aplicação de métodos de análises dos problemas de disposição. foram desen­ volvidas nos últimos 25 anos. Nos aspectos de compressibilidade de rejeitos. 3.Séculos XIX. com importantes contribui­ ções ao conhecimento deste comportamento e possibilitando a implantação de projetos de novos métodos de disposição. UnB Universidade de Brasília e UFV Univer­ sidade Federal de Viçosa. para a previsão das densidades e cálculos da vida útil dos reservatórios. em geral. têm na água dos poros do rejeito e do reservatório. XX e XXI Na área da pesquisa as universidades PUC-Rio Pontifícia Uni­ versidade Católica Rio de Janeiro. Entretanto. Na área de novos métodos de disposição. assim como de potencial de liquefação. pesqui­ sando as características de compressibilidade de rejeitos com uti­ lização de ensaios de adensamento em laboratório (inicialmente CRD e atualmente HCT). baixo potencial de dano e benefícios ambientais que estes métodos proporcionam. pela aplicação da teoria do adensamento a grandes deformações. abordando estas características dos rejeitos nas universidades: PUC/Rio. mento por diferenças finitas. UFOP Universidade Federal de Ouro Preto. um grande pro­ gresso foi possibilitado. já produziram dezenas de teses so­ bre o comportamento de rejeitos. Aplicação de novos métodos de disposição de rejeitos Os métodos mais comuns de disposição de rejeitos consideram. Várias teses de mestrado e doutorado foram desenvolvidas sobre esse tema. Vários aspectos importantes têm sido pesquisados. em um núme­ ro crescente de casos. Alguns projetos simplesmente lançavam os rejeitos nos cursos de água existentes. UNB. UFV. a de rejeitos finos com secagem e a aplicação de empilhamento drenado merecem des­ taque pelas características de economia. embora tecnicamente este método seja uma solução muito favorável. Comportamento geotécnico dos rejeitos Nos anos anteriores à década de 70.A História das Barragens no Brasil . ou armazenavam os rejeitos em reservatórios cria­ dos por aterros de estéril de lavra. Estudos sobre a influência da mineralogia na resistência ao cisalha­ mento de rejeitos granulares. com os modelos de simulação de adensa­ 3. No Brasil. Cerca de 50 dissertações de mestrado até o presente. na Universidade do Colorado. Deve ser mencionado que o desenvolvimento dessas pesquisas tem sido aplicado tanto para determinação de características geo­ técnicas dos rejeitos. Os métodos de alteamento por montante e por linha de centro têm vantagens econômicas. A disposição de rejeitos em pasta ainda não conseguiu superar os problemas do seu custo alto. inicialmente na PUC-Rio (anos 80). Estudos em laboratório sobre secagem de rejeitos (Lúcio Villar) também foram desenvolvidos. 376 . Conforme já mencionado. e posteriormente de forma mais intensa na UFOP (anos 90 e atual) e UFV. a polpa represada em barragem convencional (projetada como barragem para água) ou como parte do maciço do barramento. pois apresentam redução do custo de implantação e têm o custo de construção e custo operacional distri­ buído no tempo. UFOP. podem ser encontrados em trabalhos produzidos pela UNB e UFOP. a aplicação da tecnologia disponível de engenharia de barragens ao problema. passou-se a considerar e. como nos casos de alteamento por linha de centro e alteamento por montante. a disposição de rejeitos era feita sem uma abordagem de engenharia adequada. o principal elemento instabilizador. algumas universidades passaram a dar atenção à geotecnia de disposição de rejeitos. elaborando projetos de pesquisas em co­ laboração com empresas de mineração e indústria.2.

que não retém a água livre que sai dos poros dos rejeitos.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Os novos métodos de disposição procuram reduzir o grau de satu­ ração da polpa de rejeitos por meio da drenagem da água dos poros ou da evaporação. os métodos que utilizam a disposição com menor grau de saturação dos rejeitos têm assumido maior importância por introduzirem situações de menor risco. Este método tem sido utiliza­ do no Brasil. portanto com maior estabilidade. foram iniciados há algumas décadas e vêm sendo aprimorados ao longo do tempo. o problema da segurança das barragens de rejei­ tos. que está sendo proposto para reduzir o potencial de dano. é semelhante ao de uma barragem para retenção de água. • Aplicação segura do método de montante. Em conseqüência. São apresentadas aqui duas situações de projeto. mas libera essa água através de um sistema de drenagem interna. de grande capacidade de vazão. ligada aos rejeitos do reservatório. Empilhamento drenado Neste método. o que se pretende apresentar são méto­ dos que priorizam a disposição com menor grau de saturação dos rejeitos. portanto. predominando argila e silte. embora contenham aspectos de desenvolvimento recente.2.0 m). • Aumento da segurança. • Obter maior densidade e. al­ guns dos métodos hoje chamados de novos. com a mesma in­ tenção de diferenciar do método clássico de bombear lama de alto grau de saturação para uma barragem impermeável que retém os sólidos e a água. e Pilha da Cava do Germano (altura de 160 m). embora em poucos casos. deste método. assumiu uma expressão maior e vem condicionando várias escolhas na seleção de alternativas. Além destas características. 3. Monjolo (Mina de Água Limpa). Entretanto. quanto mais água for retirada dos rejeitos. sendo que a polpa de rejeito fica retida com praticamente o mesmo grau de saturação da ocasião do bombeamento. com baixo teor de argila e de grande conteúdo de fração granular. com baixo risco de liquefação e de ruptura. Nos anos mais recentes. as pilhas do Xin­ gu (Mina de Alegria). maior capacidade e vida útil. Na presente abordagem. Os dois tipos de rejeitos podem ser dispostos por métodos que retiram água dos mesmos. ao invés de utilizar uma estrutura impermeável de barramento. São exemplos principais. surgiu recentemente a expres­ são pervious dam para designar um “novo método”. • Vantagens para o fechamento. • Maior aproveitamento da água. É interessante notar que na Europa. desde a década de 80. no Brasil.1. • Menor chance de contaminação. Este tipo de disposição é o mais utilizado. • Maior capacidade do reservatório. Os objetivos principais do método de empilhamento drenado são: • Obter um maciço não saturado. 377 . Há também a expressão “métodos alternativos”. A expressão “novos métodos de disposição” contém implícita uma expectativa de inovação na técnica de disposição. com fração mínima de areia. • Obter maior facilidade para o fechamento e recuperação ambiental. Pilha da Barragem do Germano. e b) os que contêm maior conteúdo de material mais fino. No caso dos rejeitos arenosos. também da Samarco. de forma que inovações estão presentes em processos antigos de disposição. nestes casos. O projeto da barragem. adota-se uma estrutura drenante. Desta forma. a disposição é mais econômica por tonelada de rejeito disposto. envolvendo os dois tipos básicos de rejeitos: a) os que contêm uma fração expressiva de material arenoso/siltoso. • Obter menor potencial de dano em uma eventual ruptura. Os objetivos principais dos novos métodos de disposição são: • Redução do custo. mais vantajoso é o método. a água é retirada por drenagem e no caso dos rejeitos argilosos a evaporação é o principal agente da retirada da água. da Samarco (altura de 175.

XX e XXI Nas figuras a seguir são apresentadas fotos das pilhas da Samarco.Superfície final do talude da pilha Figura 4 . na umidade natural. onde duas áreas são preenchidas com pilha drenada.Aspecto do rejeito após a drenagem Figura 3 . sem risco de ruptura que provoque uma onda de lama para jusante.A História das Barragens no Brasil .Empilhamento drenado após drenagem Figura 2 . que devem ter suas características de drenabilidade bem estudadas previamente no projeto. O dreno de base é implantado no fundo do reservatório e recebe toda a água drenada dos rejeitos.Séculos XIX. Figura 1 . O maciço de rejeitos obtido ao final é uma pilha de material arenoso.Correia transportadora implantada sobre a pilha de rejeitos 378 .

acima de 50%. e bombeado para um reservatório onde sua superfície é exposta à evaporação com o teor de sólidos crescendo até valores da ordem de 80%. procura-se bombear a lama na máxima densidade bombeável com bombas centrífugas. em Paragominas.2. e da Vale. Disposição de rejeitos finos com secagem O método de disposição chamado de dry stacking é antigo e muito utilizado pelas empresas de alumínio para disposição econômica de rejeitos de resíduo de produção de alumina (red mud).Lançamento de lama de bauxita no reservatório 3. passando na #400. com vantagens em relação ao bombeamento convencional de lama. Neste método o rejeito fino (em geral de granulometria passando na peneira 400) é adensado em espessadores até teores de sóli­ dos elevados. São exemplos deste tipo de disposição os projetos da MRN. A solução de projeto depende do comportamento reológico da lama. As figuras e as fotos a seguir mostram as características de secagem das lamas da MRN e Paragominas.2. Basicamente. devendo a escolha ser feita pela combinação do menor custo com a viabilidade da secagem com menores densidades. pois suas características podem inviabilizar em custo uma so­ lução.Vista geral da pilha a jusante da barragem Figura 6 . Figura 5 . em Porto Trombetas.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Em minas de bauxita. A disposição com secagem apresenta diferenças em relação ao método de dry stacking de lama vermelha. os resíduos da lavagem do minério é tam­ bém uma lama com sólidos de granulometria fina. O Método de Secagem pode também ser aplicado. 379 . procurando-se obter um teor de sólidos entre 30 e 35% para então ser submetido à evaporação no reservatório final.

a qual contém a barragem de rejeitos mais alta do Brasil. A segunda barragem aqui apresentada é a barragem do Germano. Algumas barragens de rejeitos representativas Apresenta-se aqui um resumo das informações de duas dessas barragens: uma que pode ser considerada como o primeiro siste­ ma de rejeitos implantado no Brasil. Minas Gerais. XX e XXI Figura 7 .Séculos XIX.0 m de altura. A descri­ ção apresentada é do sistema em sua configuração atual. em Nova Lima.Lama lançada. atualmente com cerca de 175. da Samarco.Teste piloto de secagem 4.Lama em estágio final de secagem Figura 9 .A História das Barragens no Brasil . em 1944. 380 . em processo inicial de secagem Figura 8 . na Mina de Morro Velho (Mina do Queiroz).Aterro construído sobre lama após a secagem Figura 10 . no município de Mariana.

O acesso ao empreendimento. A planta possui duplo circuito.000 m2. três barragens e seis valas para disposição de rejei­ tos.Nova Lima . pode ser feito pela rodovia MG-030. denominado Cuia­ bá . incluindo. afluente do Rio das Velhas (Figura 12). transportado por meio de um teleférico com 15 km de extensão e capacidade no­ minal instalada de 830.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens 4. que liga Nova Lima a Belo Horizonte a uma distância aproximada de 30 km.Sistema de disposição de rejeitos – foto aérea das instalações A planta metalúrgica do Queiroz possui uma área útil de 480. Os dados aqui apresentados têm como base os documentos mencionados nas referências desta publicação [Ref. além da planta de beneficiamento industrial propriamente dita. próximo à divisa com o Município de Raposos.Raposos. alimentado pelo minério sulfetado da Mina de Cuiabá. em região da bacia hidrográfica do Córrego do Queiroz. Em particular aqui. 4 a 8].MG. será abordado o tratamento na planta industrial do Queiroz. partindo-se de Belo Horizonte. Figura 11 . A planta industrial do Queiroz está situada no Município de Nova Lima .000 toneladas de minério por ano. Localização e acessos A Anglogold Ashanti Córrego do Sítio Mineração (AGACSM) ope­ ra algumas minas e plantas metalúrgicas para beneficiamento de minério aurífero na região de Minas Gerais e Goiás. na região do chamado Quadrilátero Ferrífero de Minas Gerais.MG . O concentrado do minério da Mina de Cuiabá. através das etapas de ustulação (que corresponde à Figura 12 – Localização da planta industrial do Queiroz (AngloGold Ashanti) 381 .Anglo Gold Ashanti Este item foi redigido pelo engenheiro Murilo Amorim Costa e gentilmente cedido pela Anglo Gold Ashanti. principal unidade em operação no Brasil (Figura 11).1 Mina do Queiroz .

de for­ ma a adequar o sistema às necessidades decorrentes da expansão da Empresa (Projeto Cuiabá/ Raposos). que se situa na mesma bacia hidrográfica da planta in­ dustrial do Queiroz. A produção média mensal (2010) é de 800 kg de ouro. foi via­ deposição previu uma sequência de lançamentos com os consequentes alteamentos dos maciços.Barragem de Cocuruto . foram concebidas de forma a serem alteadas à medida em que venha a ocorrer a ocupação do seu reservatório pelos rejeitos lançados: para isso. A partir do ano de 1995. virá a ser pro­ movido o alteamento da barragem de Cocuruto. 382 . 60 kg de prata e 17.capacidade de . o programa de Descrição do sistema O sistema de deposição de rejeitos industriais processados pela An­ gloGold Ashanti Brasil Mineração na sua Instalação de Beneficia­ mento localizada no Queiroz é contido em 03 reservatórios e mais um sistema de valas fechadas.A História das Barragens no Brasil .capacidade total de . (denominada Barragem de Queiroz) a qual assegurou a deposi­ ção dos rejeitos da Empresa até meados do ano de 1954. Parte do material resultante da ustulação volta para receber o processo de cianetação. foi necessário introduzir a tecnologia de ustulação. O rejeito gerado no processo de beneficiamento do minério é conduzido para tanques na unidade industrial e então bombeado para as barragens por meio de tubulações em PEAD ou aço car­ bono.Barragem de Calcinados . Hoje con­ templa as seguintes unidades: barragem de rejeitos de Cocuruto. No momento atual.Barragem de Rapaunha . de cerca de 2. o que irá capacitar aquele reservatório a um incremento de deposição de cerca de 12 x 106 m3. desde o ano provável de 1944. que passaram a operar no final do ano de 1982. este sistema foi ampliado com a construção de mais duas barragens. de Calcinados e o conjunto de valas de deposição de arsenato férrico (lama de gesso). bilizada a construção de uma fábrica de ácido sulfúrico.500 toneladas de ácido sul­ fúrico. em Nova Lima. Inicialmente. Uma vez que o processo de ustulação retém os gases de SO2. à altura do antigo bairro do Galo.Séculos XIX. O circuito Raposos é alimentado por minérios não-sulfe­ tados extraídos de minas menores do entorno de Nova Lima e está atualmente paralisado. e o ácido sulfúrico. neste período. a barragem de rejeitos Calcinados. denominadas Rapaunha e Cocuruto.Barragem de Queiroz . XX e XXI oxidação ou queima do minério na presença de oxigênio e tempera­ tura elevada) e a hidrometalurgia (responsável pela extração do ouro contido no minério).5 x 106 m3. No circuito de Cuiabá. exaurida a capacidade de deposição na barragem de Rapaunha. além de uma outra. foram sistematicamente instituídos pro­ cedimentos de gerenciamento das atividades de operação e moni­ toração das barragens de rejeitos integrantes do sistema.capacidade total de ~4 x 106 m3 17 x 106 m3 12 x 106 m3 12 milhões de m³. para a recuperação do ouro no processo industrial. encontram-se sob utilização os reservatórios das barragens de Rapaunha e Calcinados. No futuro. a saber: . um sistema de deposição de seus rejeitos industriais na região do vale do Queiroz. Essas barragens. o que dará vez à chamada barragem do Queiroz. de um modo geral. inserindo nestes a criação de uma equipe permanente de fiscalização e controle. O produto final obtido são os metais ouro e prata. Histórico A AGACSM mantém. constava este de uma barragem interposta ao vale do Queiroz. A operação deste sistema foi iniciada no ano de 1944. construída em 1986. de Rapaunha. todos eles localizados no vale do Queiroz. com a acumulação. suportadas por estruturas metálicas por um caminhamento sempre em nível ascendente. e os resíduos são encaminhados para barragem de Calcinados e valas de lama arsenical.capacidade total de . com a primitiva barragem ali existente. A partir de 1981.

A barragem de rejeitos de Rapaunha situa-se no vale Queiroz. construída a montante e simultaneamente com a barragem de Cocuruto. posicionado sobre a crista da barragem) e o nível d’água do reservatório na elevação 853. A capacidade total de deposição em seu reservatório é de cerca de 17 milhões de toneladas de rejeitos.2 Barragem do Cocuruto A barragem de Cocuruto. o aporte de rejeitos foi interrompido. entrada em operação da planta metalúrgica de Cuiabá.50 m. servindo apenas como reservatório de água para suprimento à planta metalúrgica. que abriga rejeitos não inertes. um lago protegido por dique é formado e o sobrenadante é bombeado para uma estação de tratamento de efluentes.1. no momento. que consiste em um alteamento da antiga barragem da MMV. Após esse período. de acordo com a necessidade de enchimento do reservatório. 4. Desde a Figura 13 . que abriga os rejeitos inertes. encontra-se no momento sem receber aporte de rejeitos. dos quais 5 milhões encontram-se ocupados por rejeitos depositados no período de 1986 até a presente data. mantidas as taxas de produ­ ção previstas até o momento. havendo sido utilizada até o final do ano de 1985.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Na barragem do Rapaunha. esses são lançados por meio de espigotes posicionados sobre o barra­ mento. como abordado anteriormente. esses são lançados na posição mais a montante possível. Na barragem de Calcinados. quando teve esgotada a sua capacidade adicional do alteamento. Quando de sua operação. prevê-se disponibilizar a barragem do Queiroz. de tal ma­ neira que a formação da praia ocorra de montante para o barra­ mento. formando a partir daí a praia. O final de sua vida útil está previsto para se dar até o ano de 2025. não recebe rejeitos por estar com sua capacidade volumétrica tomada.50 m (topo do muro de concreto.Seção esquemática da barragem do Rapaunha 383 . teve sua construção e início de operação em meados de 1983. Na posição a montante e mais próximo da ombreira esquerda.1 Barragem do Rapaunha A barragem de rejeitos de Rapaunha. que veio a operar até o ano de 1957. os rejeitos eram conduzidos por gravidade por meio de canaletas construídas em concreto e lançadas tal como em Rapaunha na posição mais a montante possível. A barragem do Cocuruto. aproximadamente 10 milhões de metros cúbicos. e foi concebida para que sua construção ocorresse em fases. sendo que 4. Sua elevação de crista encontra-se na cota 856.1. onde está posicionado o lago e o sistema de recirculação de água para aproveitamento nas operações industriais.

A área da bacia de deposição de rejeitos é caracterizada pela ocor­ rência da série Rio das Velhas. O maciço original foi construído de um núcleo de aterro argiloso compactado. ocorreu até a cota 860 m. passando a operar desde então.A História das Barragens no Brasil . Os filitos se apresentam menos alterados na ombreira esquerda e na região de descarga das vazões. Figura 14 . XX e XXI a disposição desses rejeitos passou a ser feita no reservatório da barragem Rapaunha. apresentandobons parâmetros de resistência à penetração. Figura 15 . Esta barragem não descarta efluen­ tes para jusante. graças a sua maior resistência aos processos de erosão e denudação. utilizando para o alteamento material ciclonado do rejeito originário do circuito de Raposos e do Rejeito da Flotação. contendo para isso dispositivos especiais que lhe asseguram a operação em regime de “circuito-fechado”.Seção da barragem de Calcinados Os filitos apresentam-se alterados. 384 . competentes para garantir a estabilidade das fun­ dações das barragens de terra. a partir de quando terá sua capacidade acrescida em aproxi­ madamente 12 milhões de metros cúbicos. caracterizados geomorfologicamente por cristas ou cordões realçados na topografia. A cons­ trução do maciço ciclonado. Geologia e Fundação O maciço de fundações. é relativamente homogêneo. O alteamento da barra­ gem de Calcinados. A barragem do Cocuruto tem previsão de alteamento no futu­ ro. embora anisotrópico devido à xistosidade. de acordo com as condições de projeto. na forma de camadas descontínuas ou lentes de médio porte. O pacote estratigráfico do Grupo Nova Lima é local­ mente cortado por diques metadiabásicos e veios de quartzo de espessura métrica. excetuado seu recobrimento coluvionar e horizontes superficiais mais alterados. os alte­ amentos passaram a ser realizados por jusante. mantendo bombeamentos dos fluxos internos e do excedente da fração líquida do reservatório de retorno para a planta industrial. por vezes na forma de solo re­ sidual resistente. secundaria­ mente. com predominância de rochas do Grupo Nova Lima.Séculos XIX.1. tendo sua crista situada na cota 830 m. Quanto às propriedades hidráulicas do solo da fundação. da ordem de 10-5 cm/s. devido à presença de siltes micáceos. em conseqüência da elevação de sua crista em mais 20 m. destinando-se aos depósitos de rejeitos calcinados pro­ cessados na planta do Queiroz. o mesmo apresentabaixas permeabilidades. utilizando como material de cons­ trução o underflow da ciclonagem dos rejeitos gerados na Planta ocorreu por meio do método construtivo centerlining (linha-decentro) até atingir a cota 846 m. Esse grupo é representado principalmente por xistos e filitos metassedimentares e metavulcanicos e.3 Barragem de Calcinados A barragem de Calcinados foi construída em 1986. por Formação Ferrífera laminada e conglomerado de matriz xística.Seção da barragem do Cocuruto 4. A partir desta elevação.

pouco consistente. De uma maneira geral. com coloração variegada (rosa. constituído inicialmente por uma camada de silte argiloso de consistência média. Sistema de coleta e bombeamento de água percolada. b) Leituras sistemáticas dos instrumentos. até ser alcançado o impenetrável. c) Avaliação das condições de funcionamento e/ou de segurança da estrutura. sendo que o índice de resistência à penetração SPT cresce com a profundida­ de. onde são feitas observações superficiais nas várias estruturas que constituem o sistema de con­ tenção de rejeitos. Vertedouro de emergência. A calha do rio apresenta material impenetrável a percussão em profundidades de 5 a 15 metros – xisto alterado. Reservatórios das barragens. passando gra­ dativamente a rijo e duro com xistosidade preservada. marrom. uma camada de silte arenoso. que se apresenta descontínua em face de escavações anteriormente re­ alizadas na área. Existe uma camada superficial de argila. A estrutura mais marcante dos xistos é a foliação. que assumem localmente direção variando de N10 a N30. Corta-rio. O perfil do subsolo apresenta basicamente uma camada superficial de argila siltosa mole. de consistência mole. quando for o caso. sem estrutura preservada. Tubulação de rejeitos. marrom ou amarela. com espessura média de 2 m. O perfil típico do manto de intemperismo apresenta. Monitoramento e controle do sistema O monitoramento e o controle do sistema de contenção de rejeitos são realizados na seguinte seqüência: a) Inspeções periódicas de campo. geralmente róseo. 385 . nas leituras dos instrumentos. em destacado. apresentando índice de resistência à pe­ netração crescente com a profundidade. o coeficiente de permeabilidade dos solos varia de 3 x 10-5 cm/s a 2 x 10-4 cm/s. Tubulação de recirculação de água. Bombas flutuantes. amarelo). na utilização de ferramentas auxiliares como as ”cartas de risco”. com mergulhos acentuados para SE. com espessura média de 2 metros. Cada uma delas é abordada de forma conveniente. com espessura de poucos metros.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A área é recoberta por espesso manto de intemperismo. e fi­ nalmente o xisto são. até a superfície da rocha alterada. ocorrem solos residuais de xisto. Estação de tratamento de efluentes. A margem direita do vale apresenta inclinação média. constituídos de silte argiloso de consistência média a rija. pouco compac­ to. A margem esquerda apresenta inclinação acentuada. representado pela superfície de rocha alterada. d) Aplicação de medidas de controle. uma camada de argila pouco arenosa. As estruturas seguintes são objeto de monitoramento e controle. da ordem de 11º. aparecendo ainda uma camada superficial descontínua de argila sil­ tosa mole. amarela ou mar­ rom. Sob essa camada. no conhecimento teórico e na experiência acumulada tanto com as atuais estruturas quanto com estruturas semelhantes. O coeficiente de permeabilidade é da ordem de 10-5 cm/s. vermelho. entre outras. Sobrejacente ao solo residual de xisto. Sobre esse ma­ terial. pro­ veniente da alteração dos xistos metassedimentares. representada pelos seus planos de xistosidade. compacto. com trechos bastante íngremes. com coloração esverdeada. feita com base nas inspeções periódicas. a partir da super­ fície. na sequência do Manual de Operação: Barragens de rejeitos. pouco espessa. ocorrem solos silto argilosos de consistência rija a média. sendo coberta por manto de intemperismo de espessu­ ra de 15 a 25 metros. uma camada de silte argiloso vermelho. uma camada de xisto alterado.

para avaliação do potencial de ruptura. foi preparada uma carta de risco. tem seu sistema extravasor. Medidor de vazão. Sistema de vertimento O sistema de disposição de rejeitos do Queiroz. A figura 16 apresenta a localização dos pontos de monitoramento ambiental.Pontos de monitoramento ambiental Diante das dificuldades de detecção de problemas pela simples inspeção visual.Séculos XIX. seja por erosão interna. Com as informações obtidas nas inspeções periódicas e na leitura dos instrumentos pode-se então avaliar a segurança da barragem para as condições de ruptura por erosão interna.A História das Barragens no Brasil . Régua graduada e pluviômetro. conforme adiante descrito: 386 . XX e XXI O monitoramento da segurança da barragem é feito utilizando-se dos seguintes tipos de instrumentos: Marcos superficiais. cisalhamento ou galgamento. Piezômetros e medidores de nível d’água. cisalhamento ou galgamento. Figura 16 . constituído pelas três barragens e mais seis valas de lama.

Calcinados e Cocoruto Barragem Status Volume m3 Área km2 Rapaunha Operação 12 x106 4 x 106 4.00 m. para o fechamento da barragem.20 m e declividade igual a 2. portanto. suficiente para amor­ tecimento de uma PMP (Precipitação Máxima Provável).4.5%. 4.9 x 106 1. Barragem do Rapaunha Esta barragem possui a missão de armazenar rejeitos e água para uso na planta metalúrgica e utiliza um vertedouro tipo poço. foi elaborado um plano de fechamen­ to para a Planta Metalúrgica do Queiroz. 628 1.50 m. com seção transversal igual a 2. o vertedouro permite operação até quando o nível do rejeito atingir a elevação 859. responsável por lançar os vertimentos no córrego do Queiroz a jusante da barragem. Barragem do Cocuruto O barramento é dotado de um vertedouro tipo poço.60 4. onde os fluxos são coletados e bombeados para a estação de tratamento de efluentes.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Barragem de Calcinados É uma barragem em circuito fechado. não havendo. 560 Drenagem Filtro vertical e tapete Tapete Filtro inclinado e tapete Classe III III III Calcinados Operação Cocuruto Fechada FS = Fator de segurança 387 . construído na ombreira esquerda da barragem. Valas de lama As valas de lama não possuem sistema de vertimento.60 0. Muito embora haja outros orifícios inferiores a esta elevação. seja pelo maciço. incluindo o sistema de disposição de rejeitos.50 52 41 FS 1. seja pelas fundações. vão sendo adicionadas placas de concreto na torre de captação dessa estrutura para evitar o vertimento de rejeitos. Como foi construído contemplando o arranjo inicial.20 m e altura igual a 1.55 Construção Aterro compactado Rejeito ciclonado Aterro compactado Altura m 50. que é direcionada para jusante para um poço. com ori­ fícios verticais duplos com dimensões iguais a 2. A água acumulada no reservatório é encaminhada ao sistema de tratamento de efluentes por meio de bombeamento e posteriormente conduzida à barragem do Rapaunha. O fluxo oriundo das águas de percolação.0 m.40 m x 1.3 m e soleira na elevação 802. com diâmetro igual a 1. apenas drena­ gem interna. garantindo uma borda livre igual a 3.0 m x 1. estes encontram-se selados por stop-logs em virtude do avanço de rejeitos. que atravessa o maciço e liga-se a uma tubulação em aço. A torre do vertedor acopla-se a uma galeria em concreto arma­ do. À medida que são dispostos rejeitos no interior do reservatório. Tabela 3 – Ficha Técnica das Barragens Rapaunha.1.80 m e declividade igual a 22%. em seção retangular com base igual a 1. 592 1. ver­ timento de seu reservatório. sendo que está prevista a construção de outro vertedouro de superfície.0 m. é captado a jusante em poço e bombeado para o reservatório. Ficha Técnica Plano de Fechamento Com vistas no futuro.

gerados pelas Plantas I e II. localizados a montante. A seguir estão apresentadas as informações do sistema do Ger­ mano. Além da função de reservação de água. na Unidade Germano. posicionados sobre três antigas selas Figura 17 – Mapa com a localização da Unidade Operacional Germano 388 . no final de 2008. Na Samarco. somado à proximidade do final da vida útil do Reservatório do Germano.2 Sistema de Disposição de Rejeitos do Germano Samarco Mineração S. para ade­ quação da dinâmica das operações e atendimento às novas leis ambientais que venham a ser aprovadas.MG. Este sistema não faz parte da presente descrição. em Mariana . Esse plano de fechamento atende também o disposto no Código Internacional de Cianeto.Séculos XIX. 4. Esse fato. que está localizada a jusante dos reservatórios do Germano e do Fundão. fez surgir a necessidade de um novo local para a disposição dos rejeitos gerados pelas duas unidades de beneficiamento (Planta I e Planta II). denominado rejeito arenoso. XX e XXI Esse plano de fechamento é revisado periodicamente. e pelos diques da Sela. que levam o minério para a planta de beneficiamento. 9 a 11]. em um horizonte de operação de aproximadamente 9 anos. A empresa realiza lavra a céu aberto por meio de equipamentos móveis e por correias de banca­ da. aos sistemas de certificações obtidos e implementados pela empresa.A é uma empresa brasileira de mineração que extrai minério de ferro das frentes de lavra do complexo de Alegria. alimentando um sistema de correias transportadoras de longa distância. houve um aumento na geração de rejeitos. como uma nova área para a disposição dos rejeitos granulares (arenosos) e finos (lamas). Com o início de operação da segunda unidade de beneficiamento (Planta II) da Samarco.A História das Barragens no Brasil . Neste contexto surge o Sistema de Rejeitos do Fundão. Tulipa e Selinha. o reaproveitamento da água utilizada no processo de beneficiamento do minério de ferro é realizado através de um sistema de recirculação com captação no reservatório da barragem do San­ tarém. Localização do sistema O reservatório do Germano é formado pela barragem prin­ cipal. com base nos documentos mencionados no item 6 deste capítulo [Ref. são gerados dois tipos de rejeitos com ca­ racterísticas bastante distintas: um rejeito mais fino.A Introdução A Samarco Mineração S. denominado lama e um rejeito com granulometria mais grosseira. ex­ traído pela Samarco. A partir do processo de beneficiamento do minério de ferro. que fecha o vale no lado extremo leste. a barragem do Santarém tem como finalidade a contenção dos sedimentos provenientes destes reservatórios.

no sistema do Germano. com o ponto mais baixo das funda­ ções na elevação 745. visando a situação de fechamento. A partir daí. foi necessária a construção dos diques da Sela. com a subida do nível de rejeitos no interior do reservatório do Germano.1 Barragem principal e empilhamento a jusante Generalidades A implantação da barragem do Germano foi iniciada com a construção de um dique de partida de enrocamento. em 1976. O empilhamento de rejeitos a jusante da barra­ gem principal teve início a partir de um dique de partida. sem comprometer a estabilidade da barragem. provenientes da planta de beneficiamento de minério de ferro. A mesma entrou em operação em 1977. lançados no interior do seu reservatório. A partir de 1993 o alteamento da barragem principal. A Figura 18 ilustra a configuração das estruturas. Este dique foi construído com crista na elevação 849. os alteamentos sub­ sequentes foram executados com afastamento entre 60 e 100 metros para montante da crista existente na elevação 886 m. finos e granulares. construído com aterro compactado. 4. Posteriormente.Vista geral do sistema de disposição de rejeitos da Samarco O reservatório do Germano foi formado a partir da construção da barragem Princi­ pal do Germano. O sistema de drena­ gem interna deste dique de partida consistia em Figura 18 . foram realizados altea­ mentos sucessivos para montante. o empilhamento drenado de rejeitos arenosos.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens topográficas na margem nordeste do reservatório. com a finalidade de receber os rejeitos. por diques a montante junto à crista do estágio anterior. a jusante da barragem do Germano.5H e crista na cota 790 m. montante.0 m. na medida em que se elevava o nível de rejeitos arenosos. A crista da barragem alcançou a elevação 899 m com aproximadamente 120 metros de altura. Tulipa e Selinha para o fechamento das três selas topográficas existentes na região nordeste do reservatório. com inclinação dos taludes igual a 1V:1.2. foi a alternativa adotada para postergar a implantação de uma nova área de disposição de rejeitos e me­ lhorar as condições de estabilidade da barragem principal.5 m e altura máxima igual a 70 m. Os alteamentos foram realizados através de diques de aterro com­ pactado com altura variável entre 4 e 6 metros. com uma camada de transição entre o núcleo e o enrocamento. até ser atingida a elevação 886 m. A partir daí. separando uma área do reservatório a montante e servindo de estrada de acesso para o lado norte. Com o ob­ jetivo de garantir a continuidade do lançamento dos rejeitos no reservatório. impermeabilizado por um núcleo de material argiloso a 389 . passou a ficar inviável por razões de estabilidade da barragem. O dique Auxiliar atravessa o reser­ vatório do Germano.

A partir da construção deste dique de partida foram feitos alteamentos consecutivos para montante. O sistema de drenagem superficial é constituído por uma escada de descida d’água. Com este sistema de drenagem interna. em um maciço não saturado estável e de baixo potencial de dano. O sistema de drenagem interna do empilhamen­ to consiste. composto por camadas de oversize fino e grosso. a altura total atual é de 175. além do dreno do dique de partida.A História das Barragens no Brasil . O reservatório da barragem do Germano unificará com o reservatório da barragem do Fundão na cota 920.Séculos XIX. O sistema será expandido à medida que os alteamentos forem sendo implantados Na figura 19 está apresentada uma seção típica da barragem principal do Germano incluindo o empilhamento de rejeitos a jusante. blocos passados em gre­ lha e blocos de maior dimensão. desde o dique de partida do empilhamento até o offset de jusante da barragem do Germano. a cada 5 m de altura. posicionada na ombreira esquerda.0 m. portanto. o maciço de rejeitos é drenado constituindo-se. Figura 19 – Seção transversal típica da barragem principal do Germano com o empilhamento a jusante Figura 20 – Foto de estrutura construída sobre o empilhamento drenado 390 . O núcleo dos diques é constituído por rejeito arenoso. em seu ponto mais baixo. O talude de jusante foi protegido com blocos.0 m. disposta perpendicularmente às canaletas lon­ gitudinais das bermas. pro­ tegido na face de jusante por solo argiloso compactado Os taludes de jusante possuem inclinação igual a 1V:2H com um talude médio global igual a 1V:3H. Considerando a cota de fundação. No contato dos rejeitos do reservatório da Pilha a Jusante com o talude de jusante da barragem prin­ cipal do Germano há um dreno interligado ao dreno de fundo. de um dreno situado no fundo do vale. XX e XXI um filtro inclinado no talude de montante e na crista do dique.

Monitoramento O monitoramento da barragem principal do Germano consiste na leitura dos piezômetros instalados. em geral são constituídos em seção mista. foram necessários novos alteamentos dos diques da Sela e da Tulipa.2 Dique da Sela e Dique da Tulipa Devido à existência de duas selas topográficas na margem norte do re­ servatório do Germano.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Ficha Técnica Na Tabela 4 estão apresentadas as principais características da barragem principal do Germano.0 m 169.2. Devido ao início de operação da segunda planta de beneficia­ mento de minério de ferro da Samarco e o conseqüente aumento na geração de rejeitos. com uti­ lização de uma zona impermeável em aterro argiloso compacta­ do. 4. com crista na El. Na barragem principal do Germano foram instalados 14 piezôme­ tros do tipo Casagrande. Os maciços. os dois diques foram alteados pelo método de mon­ tante. areia e cascalho. foi necessária a construção de dois diques. comprovando a boa drenagem do maciço de rejeitos. funcionando como núcleo. A parte superior das ombreiras é formada por filito decomposto.913.00 m 300.0 m e nas bermas do talude de jusante. quanto do dique da Tulipa. nas porções inferiores das ombreiras esquerda e direita e em todo o fundo do vale. sendo alterada para cada 15 dias em caso de anomalias. e uma zona em enrocamento no espaldar de jusante. No final de 2010. 391 . denominados dique da Sela e dique da Tulipa. Os materiais de construção disponíveis para a implantação dos maciços de alteamento dos dois diques conduziram a uma geo­ metria em blocos sujos com uma faixa de material argiloso im­ Etapa Construtiva Atual Data Conclusão Cota Atual da Crista Altura Atual do Maciço Comprimento Atual da Crista Sistema Extravasor - 919. Os piezômetros instalados na pilha de jusante indicam leitu­ ras com poropressões nulas.0 m. foram instalados 6 piezômetros Tabela 4 – Características da Barragem do Germano (maio/2008) Dados gerais Finalidade Empresas Projetistas Contenção de rejeitos Bechtel / Pimenta de Ávila Consultoria do tipo Casagrande. À medida que o nível de rejeitos dentro do reservatório do Germa­ no foi sendo elevado foram necessários vários alteamentos. localizados no patamar da cota 886. matacões. Em toda a região de fundação da barragem foi removida a camada superficial de material orgânico.0 m Tipo tulipa com galeria de descarga (localizado adjacente ao dique da Tulipa) Geologia e fundações A fundação da barragem principal do Germano é composta por fili­ to são. para possibilitar a continuidade do lançamento de rejeitos no interior do reservatório. tanto do dique da Sela. Na pilha a jusante do Germano. Na região do fundo do córrego foram removidos blocos de rocha. A frequência das leituras é mensal.

c).na extremidade de jusante da Baia 3.0 m Sistema extravasor As condições de amortecimento das cheias. em soleira construída sobre a encosta rochosa. Tabela 5 – Características do Dique da Sela Dados gerais Finalidade Empresas Projetistas Etapa Construtiva Atual Data Conclusão Cota Atual da Crista Altura Atual do Maciço Comprimento Atual da Crista Contenção de rejeitos Figueiredo Ferraz / Pimenta de Ávila Consultoria Alteamento para El. apenas para dar suporte ao alteamento. 4. conectada a um canal rápido e uma bacia de dissipação à jusante deste.0 m dos diques da Sela e Tulipa é composto por uma galeria ligeiramente inclinada associada a uma torre vertical. Monitoramento No dique de Sela estão instalados 3 piezômetros de Casagrande e 3 indicadores de nível de água.0 m 41. XX e XXI permeabilizante a montante.0 m 23. O sistema extravasor construído na ocasião do alte­ amento para El.3 Dique da Selinha Na região sudeste do reservatório do Germano. na confluência do acesso ao Empi­ lhamento de Rejeitos Granulares de Germano Jusante e do acesso à mina de Fábri­ ca Nova (Vale). supõe a distribuição dos deflúvios nas várias sub-áreas. ambos em concre­ to celular pré-fabricado PÁDUA e um trecho de galeria em concreto armado.A História das Barragens no Brasil .2.0 m Ficha Técnica Nas Tabelas 5 e 6 estão apresentadas as princi­ pais características do dique da Sela e do dique da Tulipa.0 m concluído Março de 2011 913. a sul do reservatório do dique auxiliar. no reserva­ tório do Germano.910. foi verificada a existência de uma nova sela topográfica. Tabela 6 – Características do Dique da Tulipa Dados gerais Finalidade Empresas Projetistas Etapa Construtiva Atual Data Conclusão Cota Atual da Crista Altura Atual do Maciço Comprimento Atual da Crista Contenção de rejeitos Figueiredo Ferraz / Pimenta de Ávila Consultoria Alteamento para El.0 m 375.no local do antigo túnel bala.na área imediatamente a montante da tulipa. b).Séculos XIX.0 m concluído Março de 2011 913. controladas por soleiras vertentes situadas nas seguintes posições: a). No dique da Tulipa estão instalados 3 piezômetros de Casagrande e 3 indicadores de nível de água.0 m 450.913. com cota 392 .913. Na fundação do alteamento dos dois diques foi implantada uma base constituída de blocos sujos. respectivamente.

apenas como suporte ao alteamento.0 m.0 m 23. em Fá­ brica Nova. sendo utiliza­ do laterita na sua construção. denominado dique da Selinha. Dessa forma tornou-se necessário im­ plantar um dique de sela nesta região.0 m de espessura.0 m concluído 913.913. resultou em uma estrutura submersa tanto a montante como a jusante.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens de topo posicionada na elevação 901. inicialmente para se­ parar as lamas dos rejeitos arenosos.0 m 135. Tabela 7 – Características do Dique da Selinha Dados gerais Finalidade Empresas Projetistas Etapa Construtiva Atual Cota Atual da Crista Altura Atual do Maciço Comprimento Atual da Crista Contenção de lama Pimenta de Ávila Consultoria Alteamento para El. O dique não possui sistema de drenagem interna.2. retendo as lamas na área de montante do reservatório do Germano e ficando o restante do reservatório para a descarga. O sistema de drenagem interna é composto por tapete horizontal de areia. de aproximadamente 1. Na fundação do alteamento do dique foi implantada uma base constituída de blocos sujos. Os materiais de construção disponíveis para a implantação do maciço de altea­ mento do dique conduziu a uma geometria com utilização de uma faixa imper­ meável de material argiloso a montante e em blocos sujos no espaldar de jusante.50 m). Atualmente a cota da crista do dique Auxiliar está na elevação 917. que conectam o reservatório do dique Auxiliar ao reservatório do dique da Sela/Tulipa. e filtro vertical de areia. A drenagem interna do dique foi prolongada nesse trecho. sendo alteada sucessivamente. foi executado um alteamento emer­ gencial de 0.4 Dique Auxiliar O dique Auxiliar foi implantado.913. 393 . atra­ vés de tubulação. Ao longo do tempo. A jusante do dique foi im­ plantada uma berma de blocos sujos afim dar estabilidade à estrutura alteada. 4. Para o estabelecimento de uma borda livre. Monitoramento Ficha técnica Na Tabela 7 estão apresentadas as principais características do dique da Selinha.0 m. dos rejeitos da flotação em célula. Ficha Técnica A Tabela 8 apresenta as características gerais do dique Auxiliar. Extravasor Até dezembro de 2010 o dique Auxiliar possuía um sistema extravasor composto por três tubos ARMCO’s (Ø 1.50 m. O dique da Selinha foi construído utilizando uma seção composta por aterro compactado de material argiloso proveniente da pilha de estéril da Vale. simultaneamente aos alteamentos a serem implantados nos diques da Sela e da Tulipa.50 m em julho de 2010. Monitoramento No dique da Selinha estão instalados 4 piezômetros de Casagrande e 5 indicadores de nível de água.0 m Atualmente. em ambos os lados do dique auxiliar. encontram-se instalados e funcionando corretamente 3 indicadores de nível d’água. No final de 2010 a crista do dique da Selinha foi alteada pelo método de montante para a El. o lançamento simultâneo de lamas e rejeitos arenosos.

foram instalados mais quatro ARMCO’s (Ø 1. exaurida no final da década de 80. O material assoreado funcionou como a fundação da pilha de re­ jeitos na primeira fase de recuperação da cava.50 m). 5. Esse projeto de recuperação foi divido em duas partes. com superfície da funda­ ção na elevação 945.50 m 820.A História das Barragens no Brasil .100 m. A cota de crista do dique foi projetada na elevação 950. Além disso. XX e XXI Tabela 8 – Características do Dique Auxiliar Dados gerais Finalidade Empresas Projetistas Etapa Construtiva Atual Cota Atual da Crista Altura Atual do Maciço Comprimento Atual da Crista Sistema Extravasor Contenção de rejeitos Figueiredo Ferraz / Pimenta de Ávila Consultoria Alteamento para El.50 m de altura em substituição aos três tubos ARMCO’s (Ø 1. com base menor de 5.00 m de altura. foram projetados com suas bermas com declividade de 2% para sul.00 m e o tapete drenante com 30. Recentemente. com o objetivo de manter a linha de saturação afastada do talude externo da pilha. alteados para montante.5 Cava do Germano A Cava do Germano é uma antiga área de lavra. com taludes de 5. dando continuidade ao projeto de reabilitação dessa área degradada. sendo desenvolvido um projeto de recuperação.50 m e 4 tubos ARMCO’s Ø 1.5 m concluído 917. A partir dessa época a cava passou a ser assoreada pelo Figura 22 – Seção transversal típica da Cava do Germano Figura 21 – Vista da Cava do Germano 394 . A crista do dique de partida foi posicionada na elevação 955. taludes 1V:1H e 2. vislumbra-se a possibilidade de implantação de um canal trapezoidal em enrocamento. A pilha de rejeito atingirá a elevação 1.0 m 3 tubos ARMCO’s Ø 1. denominadas de primeira e segunda fase. Como a fundação é em solo.00 m e os diques de alteamento da pilha.00 m.00 m de largura da crista e uma inclinação média de 1V:3H.917.00 m de extensão e para montante.2.50 m 37.00 m) com o intuito de melhorar a eficiência de extravasão desse reserva­ tório.00 m material proveniente da erosão das suas paredes. tanto o dique quanto o tapete possuem camadas de transição fina junto a fundação da pilha.0 m. O dique de partida e o tapete drenante são os principais dispositivos de drenagem interna da pilha de primeira fase. 4. Em 2006 iniciou-se o empilhamento de rejeito arenoso da segunda fase da Cava do Germano.Séculos XIX.

icold. 2007. Julho /2002.0 m 54. 11. 4. 6.Manual de Operações do Sistema de Rejeitos da Planta Metalúrgica do Queiroz. Tese de Doutorado.Estudos de Descomissionamento das Barragens de Rejeitos da Área da Planta do Queiroz. 2008. 3. 395 . 2004. 9. 8.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens O sistema de drenagem interna é constituído de tapete drenan­ te associado a drenos de fundo e por um dique de partida com paramento de montante drenante. 7. SA-410-LT-22349-00 .Avaliação do Trânsito de Cheias nos Reservatórios da Barragem do Germano – Atualização Base Topográfica – Dezembro 2010. Geotécnica de Maio de 1980. Dezembro de 2003. Março de 2011.Pimenta de Ávila Consultoria.0 m concluído Março de 2011 992. Referências 1.Laudo Técnico de Segurança de Barragem – Barragem do Germano.Anderson Pires Duarte.0 m 325. Patrimônio Geológico e Geoconservação no Quadrilátero Ferrífero. UFMG. Programa Preliminar de Estudos Geológico-Geotécnicos.Azevedo. de Setembro de 2004. 82p. Disponível em: http://www. SA-901-RL-4596-0C – Sistema de Rejeitos – Rejeito Arenoso – “Manual de Operação da Barragem do Germano”. 2. Agradecimentos Agradecemos à Pimenta de Ávila Consultoria Ltda a utilização de informações de seu arquivo técnico e a preparação dos textos aqui publicados. da Golder Associates. Barragem do Queiroz.O sistema de drenagem su­ perficial do talude de jusante da pilha é composto por canaletas e escadas em concreto estrutural.Bacia de Acumulação de Rejeitos.0 m Tubo flauta conectado a uma galeria de concreto Monitoramento O monitoramento na Cava é realizado através de instrumentos insta­ lados sendo dez piezômetros do tipo Casagrande e dois indicadores de nível de água. Rapaunha e Cocuruto da CMEC.br. Potencial Para Criação de Um Geoparque da UNESCO. U. UFMG.MMVREPAA. Classificação das Barragens de Contenção de Rejeitos de Mineração e de Resíduos Industriais no Estado de Minas Gerais em Relação ao Potencial de Risco.Pimenta de Ávila Consultoria. SA-410-RL-22801-0C .G3-PR-13-0017/79.Estudo de Operação dos Reservatórios das Barragens de Calcinados. Tailings Dams Incidents. 5. 10. Revisão ano 2009. Sistema extravasor O sistema extravasor é composto por tubo flauta acoplado a uma galeria de concreto posicionada na parede direita da cava (sul). Tabela 9 – Características da Cava do Germano Dados gerais Finalidade Empresas Projetistas Etapa Construtiva Atual Data Conclusão Cota Atual da Crista Altura Atual do Maciço Comprimento Atual da Crista Sistema Extravasor Empilhamento de rejeito arenoso Pimenta de Ávila Consultoria Ltda Alteamento para El. Relatório Final de Estudos Geológico-Geotécnicos.Pimenta de Ávila Consultoria.913. Barragem do Queiroz. da Geotécnica de Novembro de 1978.Bacia de Acumulação de Rejeitos. Setembro de 2010. Minas Gerais. Ficha técnica As principais informações da Cava do Germano estão apresentadas na Tabela 9.RT-039-5133-1310-0007-00-B .PI-PR-130005/78. R.UNITED STATES COMMITTEE ON LARGE DAMS – USCOLD.

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com plena dominância estatal dos investimentos em grandes obras públicas. ELETRONORTE. CESP. foram definidos vários tópicos que requeriam atenção urgente e ações O canal da Piracema de Itaipu. em 1972. ao mesmo tempo em que os demais não queriam que se impusessem limitações ao seu próprio desenvolvimento. O Governo impunha a sua vontade e. à custa de endividamento externo. COPEL e CEEE. foi construído o canal de águas bravas. Em primeiro plano o lago de Itaipu e a tomada de água do canal. com cerca de 10 km de extensão e desnível médio de 120 m. ficou estabelecido como o Dia Mundial do Meio Ambiente. a necessidade de acelerar a disseminação de tecnologias ambientalmente amigáveis e de desenvolver tecnologias alternativas àquelas danosas ao meio ambiente. participaram representantes de 113 países e de cerca de 250 organizações não-governamentais e o seu foco de atenção principal foi a constatação de que a ação do homem vinha produzindo severa degradação da natureza. O Brasil. predominantemente com o objetivo de formação de reservatórios para geração de energia elétrica. uma significativa quantidade de usinas hidroelétricas teve sua construção iniciada na década de 70. que veio a realizar-se em Estocolmo. não haver exigência legal de licenciamento ambiental. O dia 5 de junho de 1972. de forma a minimizar os riscos ambientais de suas estratégias de desenvolvimento. Os primeiros externaram suas preocupações com os danos impostos ao ambiente pelo modelo de desenvolvimento predatório por eles próprios empreendido. quando foi realizada a primeira plenária dessa Conferência. As primeiras manifestações de preocupação com o meio ambiente podem ser identificadas na convocação. em seguida o canal para peixes e mais abaixo o lago e a represa. Como resultados. utilizado para competições esportiva desaguando no rio Bela Vista (foto Caio Francisco Coronel) Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Homero André dos Santos Teixeira em larga escala. ELETROSUL. entre elas.Evolução do Licenciamento Ambiental de Barragens no Brasil Para abordar o tema do licenciamento ambiental de barragens no Brasil. as mais destacadas: usina hidroelétrica Itaipu e usina hidroelétrica Tucuruí. Nesse evento. e a necessidade de prestar assistência a países em desenvolvimento. àquela época. Dessa Conferência. foram identificados como prioritários a necessidade de compreensão e controle das modificações ambientais produzidas pela humanidade nos principais sistemas ecológicos. Apesar de. pela Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). além da ITAIPU 397 . em junho de 1972. CHESF. a necessidade de encorajar a distribuição internacional da capacidade industrial. Além desses temas. conecta o lago de Itaipu ao rio Paraná aproveitando em seu trecho inferior o leito natural do rio Bela Vista. e as principais geradoras estaduais como CEMIG. em que se incluíam as barragens. criando condições de grande risco para a própria sobrevivência da humanidade. vivia sob um regime ditatorial. A jusante do lago. a necessidade de somente aceitar a introdução de novas tecnologias após a avaliação das consequências de sua utilização sobre o ambiente. via fluvial para migração de peixes. do Sistema ELETROBRAS. é preciso lançar um olhar histórico sobre a questão do meio ambiente como um todo e situá-lo no contexto político do País. ficou patente a divisão de enfoque entre os representantes de países desenvolvidos e de países em desenvolvimento. mas não visível na foto. em 1968. como suprimento de água. as empresas do chamado setor elétrico de então (FURNAS. poluição de mares e oceanos e ocupação urbana desordenada. da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano.

430 km2. Consultor de meio ambiente Robert Goodland em 2011 Consultor ambiental Robert Goodland (à direita) junto com Rupert Spearman (Ieco-Elc) na primeira inspeção a Itaipu em 1972 398 . Simultaneamente. o tratamento das questões ligadas aos povos indígenas foi. com um reservatório da ordem de 2. Iniciativas anteriores de preservação ambiental. despertou nos responsáveis pelo empreendimento a certeza de que ações de diagnóstico dos meios físico e biótico. Esse despertar para o meio ambiente foi iniciado pelos problemas de conflitos de reassentamentos de populações desalojadas pela formação de reservatórios e pela necessidade de compatibilizar a eventual explotação de recursos minerais em áreas alagáveis antes de sua inundação. conceituado profissional ligado ao Cary Arboretum of the New York Botanical Garden. para elaborar um relatório diagnóstico da problemática ambiental relativa à implantação da usina hidroelétrica Tucuruí e recomendar ações para minimizar os potenciais impactos ambientais identificados.A História das Barragens no Brasil . quando do enchimento do reservatório. O ecólogo Goodland. Com o início do aproveitamento de potenciais hidrelétricos na Região Amazônica. Assim. a ELETRONORTE criou. uma Divisão de Ecologia que passou a concentrar as atividades ligadas ao meio ambiente. ligadas principalmente à qualidade da água e à introdução de peixes em reservatórios. em setembro de 1977. culminaram na denominada Operação Curupira. o relatório Environmental Assessment of the Tucuruí Hydroelectric Project. Essas ações desenvolvidas entre 1978 e 1984. já eram objeto de ações das empresas do Setor Elétrico desde a década de 60.Séculos XIX. que teve por objetivo promover o salvamento do maior número possível de indivíduos da fauna silvestre. Rio Tocantins. que já havia prestado consultoria para FURNAS. a ELETRONORTE. A implantação da usina hidroelétrica Tucuruí. Amazônia (Avaliação ambiental do aproveitamento hidroelétrico de Tucuruí – Rio Tocantins). A partir desse relatório. que já vinha enfrentando a problemática ambiental. também. na companhia de profissionais da ELETRONORTE. continuou ações ambientais sistematizadas em nove subprojetos. em 1976. XX e XXI BINACIONAL) já demonstravam alguma consciência da importância do componente ambiental em seus empreendimentos. CEMIG e ITAIPU. bem como o reflorestamento de suas margens. para soltura em áreas protegidas ou aproveitamento científico. seriam indispensáveis para o sucesso do projeto. contratou o ecólogo Robert Goodland. avaliação de impactos a montante e a jusante da barragem e monitoramento ambiental. que abrangeram estudos a montante e a jusante da barragem. abordado. em um bioma sensível – Floresta Amazônica. realizou várias campanhas de campo na região e apresentou.

recuperação de áreas degradadas. a instituição do licenciamento ambiental de atividades efetiva ou poten cialmente poluidoras. com a preservação de áreas representativas. III . 01. também foi realizada operação de salvamento de animais silvestres. VII . IX . visando assegurar. considerando o meio ambiente como um patrimônio público a ser necessariamente assegurado e protegido. da água e do ar . encampa os resultados da Primeira Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano e estabelece. define que a PNMA visa: “I .450 indivíduos. 2º. concorrendo para a manutenção do equilíbrio ecológico propício à vida.938. VIII .à preservação e restauração dos recursos ambientais com vistas à sua utilização racional e disponibilidade permanente. ao usuário.à compatibilização do desenvolvimento econômico-social com a preser vação da qualidade do meio ambiente e do equilíbrio ecológico. ao poluidor e ao predador.ao estabelecimento de critérios e padrões de qualidade ambiental e de normas relativas ao uso e manejo de recursos ambientais. e da Secretaria Especial do Meio Ambiente – SEMA em caráter supletivo. Ill . condições ao desenvolvimento sócio-econômico..Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Na implantação da usina hidroelétrica Itaipu. 4º. VII . inclusive a educação da comunidade. à divulgação de dados e informações ambientais e à formação de uma consciência pública sobre a necessidade de preservação da qualidade ambiental e do equilíbrio ecológico. A Lei 6. tendo em vista o uso coletivo. de 31. com resgate de 36.DOU a Resolução CONAMA n o. tais como: 399 . o licenciamento de atividades modificadoras do meio ambiente. já restabelecida a democracia no Brasil.incentivos ao estudo e à pesquisa de tecnologias orientadas para o uso racional e a proteção dos recursos ambientais. cujo fechamento do desvio e enchimento do reservatório ocorreu em 1982. dos Estados. pela primeira vez no Brasil. define que são instrumentos da PNMA “o licenciamento e a revisão de atividades efetiva ou potencialmente poluidoras”. no Brasil.controle e zoneamento das atividades potencial ou efetivamente poluidoras. V . Em seu Art. portanto.938. da contribuição pela utilização de recursos ambientais com fins econômicos.ação governamental na manutenção do equilíbrio ecológico. do subsolo.EIA e respectivo Relatório de Impacto Ambiental – RIMA. Somente nove anos após a realização da Conferência de Estocolmo é que surge. II . aos interesses da segurança nacional e à proteção da dignidade da vida humana. X .02. de forma integrada.” E o inciso IV do Art. a serem submetidos à aprovação do órgão estadual competente.à definição de áreas prioritárias de ação govername tal relativa à qualidade e ao equilíbrio ecológico. VI . IV . 9º. VI .81). do Distrito Federal. que dispõe sobre critérios básicos e diretrizes gerais para a avaliação de impacto ambiental.86. V . No entanto. da obrigação de recuperar e/ou indenizar os danos causados e. e define no Art.proteção de áreas ameaçadas de degradação.planejamento e fiscalização do uso dos recursos ambientais.” Já o Art.PNMA (Lei 6.08.racionalização do uso do solo.à imposição. objetivando capacitá-la para participação ativa na defesa do meio ambiente. a primeira lei que trata. II .educação ambiental a todos os níveis de ensino. no País. é publicada no Diário Oficial da União . IV . somente em 17. esta lei estabelece: “A Política Nacional do Meio Ambiente tem por objetivo a preservação. melhoria e recuperação da qualidade ambiental propícia à vida. atendidos os seguintes princípios: I . que: “Dependerá de elaboração de Estudo de Impacto Ambiental . 2º. atendendo aos interesses da União. da Política Nacional do Meio Ambiente .ao desenvolvimento de pesquisas e de tecnologias nacionais orientadas para o uso racional de recursos ambientais. dos Territórios e dos Municípios.acompanhamento do estado da qualidade ambiental.proteção dos ecossistemas.à difusão de tecnologias de manejo do meio ambiente.

1997.12. em decorrência da evolução esperada para o assunto. composto por técnicos de notório saber nas áreas social e ambiental. cuja regulamentação se apresentava. . sempre que julgar necessário. 01/86. foi promulgada a Resolução CONAMA no. que esses órgãos públicos e demais interessados deverão ter prazo para se manifestarem. 237. sem.Séculos XIX. do Departamento Nacional de Águas e Energia Elétrica – DNAEE. no processo de licenciamento ambiental. A mesma Resolução CONAMA no. Esse Comitê.07. O órgão estadual competente. diagnosticando problemas e propondo soluções. o município. a ELETROBRAS criou. quando couber. Apesar de o número de barragens para outros fins.87. Imediatamente após a publicação do I PDMA. Com o objetivo de organizar a estrutura gerencial e executiva para o trato da temática ambiental.. em agosto de 1989. tinham em foco o licenciamento dos empreendimentos. pelo município.. liderou uma série de ações que. receberão cópia. A realização de Audiências Públicas. ou pela SEMA ou. O esforço de um trabalho conjunto de representantes das principais empresas do setor elétrico. além de demonstrarem a importância atribuída ao tema. de saneamento ou de irrigação.A História das Barragens no Brasil . manual esse previsto para ser revisado em 1991. o licenciamento ambiental de barragens no Brasil.” . em fevereiro de 1987. Essa Divisão tornou-se. só veio a se tornar efetiva quando de sua publicação no DOU. Nasce. foi o setor elétrico que comandou as ações para estruturar o seu processo de licenciamento ambiental. em junho de 1986. em dezembro de 1986. também. Determina. Em novembro de 1986. que propôs uma política socioambiental para o Setor. o DOU publicou a Resolução CONAMA no. ainda. uma Divisão de Meio Ambiente ligada ao Departamento de Estudos Energéticos. 01/86 determina que o Estudo de Impacto Ambiental e respectivo RIMA devam ser analisados pelo órgão estadual competente. embora tenha sido objeto da Resolução CONAMA no. uma análise dos empreendimentos considerados de maior impacto social e ambiental e propunha medidas mitigadoras e compensatórias. que o RIMA deverá ser dado a público e que os órgãos públicos que manifestarem interesse. pela sua importância. articulação interinstitucional e com a sociedade.. XX e XXI . o Departamento de Meio Ambiente – DEMA. a ELETROBRAS publicou o primeiro Plano Diretor para Proteção e Melhoria do Meio Ambiente nas Obras e Serviços do Setor Elétrico (I PDMA). contudo estabelece-lo. em 05. a SEMA ou. bastante inconsistente. ou tiverem relação direta com o projeto. apresentando. de 03. quando couber. Na mesma data de publicação da Resolução CONAMA no. VII – Obras hidráulicas para exploração de recursos hídricos. 09. acima de 10MW. uma vez mais não o estabelecendo. que dispõe sobre a revisão e complementação dos procedimentos e critérios utilizados para o licenciamento ambiental. Esse documento orientava a forma de conduzir o Setor sob a égide das diretrizes que o norteavam. foi publica- do o Manual de Estudos de Efeitos Ambientais dos Sistemas Elétricos. Define. para conhecimento e manifestação. Assim.12. analisando os aspectos de suas especialidades. com predominância daquelas para abastecimento de água (açudes). inserção regional. 06/86. Em 19. representar cerca de duas vezes o das barragens para geração de energia elétrica.90.. e alinhado com as preocupações com o meio ambiente.. prestou assessoria à alta direção da ELETROBRAS. O setor elétrico. assim. também. o Comitê Consultivo de Meio Ambiente da ELETROBRAS – CCMA. promoverá a realização de Audiência Pública para informação sobre o projeto e seus impactos ambientais e discussão do RIMA. que dispõe sobre a aprovação de modelos para publicação de pedidos de licenciamento. construção e projeto nas décadas de 70 e 80 do século passado. ainda. sem vínculos com o setor. foi criado. e eficácia gerencial. responsável por considerável quantidade de barragens em operação. que estabelece a exigência de licenciamento para barragens e diques. baseando-a em quatro diretrizes: viabilidade ambiental. que terá prazo para essa análise. coordenado pela Eletrobras. pela sua importância e estruturação por concessionárias estatais. elaborado por um grupo de trabalho constituído por profissionais de empresas do setor.. 400 . tais como: barragens para fins hidrelétricos.

de 05.197. Em 1996.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens da Secretaria Especial de Meio Ambiente – SEMA e de órgãos ambientais estaduais resultou na elaboração e publicação da Resolução CONAMA no. 130). em que se incluem.02.735.12. de 30.668. Para as barragens. o IPHAN. estabelecendo os documentos necessários a cada solicitação. ao consumidor. a promulgação da lei que disciplina a ação civil pública de responsabilidade por danos causados ao meio ambiente. com a criação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – SPHAN (Decreto-Lei 25. a criação do Instituto Brasileiro do Desenvolvimento Florestal (Decreto-Lei 289.34). ou não.95.347.73). a possibilidade de o empreendedor debater essas exigências. de 27. o que hoje se denomina discussão do Termo de Referência . Resguardou-se. bem como nos próprios órgãos ambientais licenciadores.87. Essa resolução. desde a promulgação dessas leis. resguardado o disposto na Resolução CONAMA no.10. a organização do patrimônio histórico e artístico nacional.65 e suas modificações).07.88). os Órgãos Estaduais do Meio Ambiente – OEMAs.371. diploma que também disciplinou o regime de concessões de serviços públicos de energia elétrica.70). que devem ser consi derados na elaboração dos estudos ambientais e formam um elenco legislativo de grande porte. que absorveu as atribuições do IBDF. a criação da Fundação Cultural Palmares – FCP (Lei 7. a criação do Instituto de Colonização e Reforma Agrária – INCRA (Decreto-Lei 1. Essa lei particularizou.987. de 26. A partir do estabelecimento das exigências de produção de estudos e projetos ambientais para o licenciamento de barragens e outras atividades consideradas “modificadoras do meio ambiente”. conforme atribuições constantes da Constituição Federal de 1988 (Art. a FUNAI. contudo. foi desencadeado um processo de formação de equipes técnicas multidisciplinares em empresas de consultoria e nas empresas e autarquias estatais. de 22. O aprendizado das partes envolvidas no processo de licenciamento ambiental de barragens vem sendo paulatino. Licença de Instalação – LI e Licença de Operação – LO).110. estético.67).07. o conteúdo.09. o que determina a Lei 8.87. de 13. publicada no DOU em 22. criado pela Lei 7. pois pela primeira vez os tipos de licenças são correlacionados a etapas de desenvolvimento do empreendimento (Licença Prévia – LP.37). de 30.85). 06/87 não tornou. abrange também obras de transmissão. de 16.01. As empresas estatais de água e energia perdem a exclusividade de receber concessões e os agentes privados entram em cena.89. histórico e paisagístico (Lei 7. de 28.67 e suas modificações). o Códig o Florestal (Lei 4.771. a criação da Secretaria Especial do Meio Ambiente – SEMA (Decreto-Lei 73.07. foi criada a Agência Nacional de Energia Elétrica – ANEEL (Lei 9. a Lei de Criação de Estações Ecológicas e Áreas de Proteção Ambiental (Lei 6. A modificação do marco regulatório das concessões vem alterando.427. a FCP e o Ministério Público. de 09.10. de 15. essa resolução é um marco histórico. de 10. É de ressaltar que essa modificação é marcante para as barragens para fins de 401 .11.04. 127 a Art. Ficou também estabelecido que o órgão ambiental competente definirá. os trâmites e a responsabilidade pela obtenção das licenças ambientais. cuja ementa informa que dispõe sobre o licenciamento ambiental de obras do setor de geração de energia elétrica. a criação da Fundação Nacional do Índio – FUNAI (Lei 5. da SEMA. de 22. Destacam-se o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis – IBAMA. o licenciamento ambiental de barragens uma questão simples e pacífica.67). de 24.08. que dispõe sobre o regime de concessão e permissão de serviços públicos. etc. cada vez mais com a presença de atores que são determinantes para o sucesso.TR. a abrangência e a profundidade dos estudos ambientais.02. hoje IPHAN. a bens e direitos de valor artístico. para o setor elétrico. bem como o nível de detalhe dos programas do Projeto Básico Ambiental.030. o Código de Águas (Decreto 24. Os mais variados diplomas legais de proteção ambiental.96). O estabelecimento das diretrizes da Resolução CONAMA n o. destacando-se o Estudo de Impacto Ambiental e o RIMA para a LP e o Projeto Básico Ambiental para a LI. contudo. no entanto.09. de 03. de cada processo individualmente. 01/86.81 e suas modificações).902. entre outros. 06.02. da Superintendência de Desenvolvimento da Pesca – SUDEPE e da Superintendência da Borracha – SUDHEVEA.643.12. a Lei de Proteção à Fauna (Lei 5.

muitas remoções foram feitas para novas vilas ou cidades. “obter a licença prévia ambiental e a declaração de disponibilidade hídrica necessárias às licitações envolvendo empreendimentos de geração de energia elétrica e de transmissão de energia elétrica.12. a FUNAI. especialmente para as barragens que formam reservatórios. com voz presente. Eles estão ligados à remoção de populações das áreas dos reservatórios. selecionados pela EPE” .847. mesmo antes da existência de legislação referente ao licenciamento ambiental de barragens. respectivamente à emissão da LP. Essa legislação. incrementos de prazos e custos para a obtenção das licenças ambientais. Em 04. É dessa época a fundação do MAB – Movimento dos Atingidos por Barragens. quando da implantação de grandes barragens e imensos reservatórios (usinas hidroelétricas Tucuruí. que trata dos procedimentos gerais para registro e aprovação de Estudos de Viabilidade e Projeto Básico de empreendimentos de geração hidroelétrica. XX e XXI geração hidroelétrica. necessários. desde a publicação da Resolução CONAMA no.03. em audiências públicas. ao longo dos anos. implantadas. às interferências com populações indígenas. obviamente. Essa determinação está sendo seguida para a licitação de concessões de geração hidroelétrica. às margens dos lagos formados. Itaparica. Mesmo não havendo interferência direta com essas unidades. de 15. assim como autorização para exploração de Centrais Hidroelétricas até 30 MW. Itaipu. cria.Séculos XIX. os principais problemas ligados aos potenciais impactos dessas obras se focavam em aspectos ambientais ligados aos meios físico. um complicador no processo de licenciamento. inciso IV). a LI e a LO. tem feito exigências de estudos etnoecológi- 402 . garantindo ao empreendedor a certeza da viabilidade ambiental do empreendimento. com evidente desperdício de recursos. organização que milita pelos direitos dos afetados pelas barragens. em especial as de proteção integral. conforme disposto na Resolução Normativa no. que permite a apresentação de mais de um estudo ou projeto para uma única usina hidroelétrica ou PCH. Esse requisito se aplicava tanto para em preendimentos a serem colocados em licitação (Usinas Hidroelétricas) quanto àqueles com características de Pequena Cen tral Hidroelétrica. com sítios arqueológicos. expressa pela LP. sendo hoje muito atuante e geradora de dificuldades nos processos de licenciamento ambiental. tendo sido. A remoção e o reassentamento de populações para implantação de reservatórios de barragens vêm sendo feitos mediante acordos dos empreendedores (públicos ou privados) com os atingidos. cada vez mais. da LI e da LO para cada empreendimento. Essa situação perdura. Historicamente. a cada dia.A História das Barragens no Brasil . tanto dos empreendedores quanto dos analistas dos órgãos ambientais. 343. Os aspectos ambientais mais importantes atrás mencionados estão diretamente ligados ao processo de licenciamento. em geral. passou a ser de sua competência. Com a criação da Empresa de Pesquisa Energética – EPE. Sobradinho. 4º. que se manifesta necessariamente na análise do Estudo de Impacto Ambiental.08. paleontológicos e espeleológicos e com áreas de preservação ambiental. do Projeto Básico Ambiental e dos Relatórios de Acompanhamento da Implantação dos Programas Ambientais. 01/86. não tendo sofrido alterações para barragens de outras finalidades. para PCHs. de 09. especialmente. geralmente por meio de desapropriação por utilidade pública. com comunidades quilombolas. (Art. Tem-se conhecimento que a ANEEL está estudando uma modificação nas diretrizes de apresentação de projetos para permitir que apenas um empreendedor autorizado seja o responsável pelo licenciamento ambiental. 12. a Resolução Normativa ANEEL no. à proteção da flora nativa e da fauna silvestre e à preservação da qualidade dos recursos hídricos. Os problemas de interferências com aldeias e terras indígenas vêm sendo. implica o licenciamento ambiental do mesmo objeto por mais de um interessado. Nas décadas de 1970 e 1980.98.12. Ita e Machadinho) construídos por empresas estatais. estabelece que a obtenção do licenciamento ambiental pertinente é de responsabilidade do interessado. biótico e antrópico. objeto de legislação elaborada por diversas entidades que interferem diretamente no grau de detalhamento do Estudo de Impacto Ambiental. Essa Resolução. pela Lei 10. 395.04. conforme inciso VI do Art. embora lhe caiba a obtenção das demais licenças ambientais.

230. delimitação. em seu Art. A proteção das cavidades naturais subterrâneas existentes no território nacional foi estabelecida pelo Decreto 99. Essa Resolução institui o Cadastro Nacional de Informações Espeleológicas – CANIE. ampliação. que “a localização. A Fundação Cultural Palmares tem necessariamente que ser ouvida no processo de licenciamento. desde que sejam implementas medidas e compensações.12. de 20. para fins de liberação das LP e LI. que dispõem sobre os procedimentos para obtenção de licenças ambientais referentes à apreciação e acompanhamento das pesquisas arqueológicas no País. 403 . A proteção do patrimônio espeleológico. de 20. Para a realização dos trabalhos de arqueologia é necessário submeter ao IPHAN um projeto de pesquisa que. a realização de diagnóstico das Áreas de Influência da barragem. pela Resolução CONAMA n o. submetidos a qualquer tipo de impacto.10. que regulamenta o procedimento para identificação.556. desde 1942.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens cos dos grupos indígenas que se encontram. Devido à falta de quadros técnicos. reconhecimento. 4º. Esse tipo de omissão pode acarretar atraso no processo. para inclusão no Estudo de Impacto Ambiental. nos termos da legislação vigente”. construção.04. com o atraso na emissão das Portarias e. que modificou a redação do anterior Decreto 99.556. Com esse Decreto. O patrimônio arqueológico é protegido. de 10. O patrimônio paleontológico é protegido. também. de 15. bem como desenvolver um Programa de Educação Patrimonial a ser implantado nas comunidades próximas ao achado.11. havendo sempre o risco de existir algum processo de autorreconhecimento em andamento e isso não ser informado na consulta prévia que as consultoras costumam fazer na fase inicial de elaboração do EIA. para a obtenção da LI é requerida a realização de Prospecção Arqueológica que. 347. uma vez autorizado. Mesmo não havendo evidências da existência de vestígios arqueológicos relatada no Diagnóstico Arqueológico. exceto nas de relevância máxima. considerando-o dentro do processo de licenciamento ambiental de empreendimentos. A definição dos critérios para estabelecimento da relevância das cavidades na turais subterrâneas foi feita através da Instrução Normativa do Ministério do Meio Ambiente no.02.146. independente de seu porte. sendo obrigatória. instalação. em qualquer hipótese. deverá promover o seu salvamento e deposição em instituição de pesquisa. considerados efetiva ou potencialmente poluidores ou degradadores do patrimônio espeleológico ou de sua área de influência dependerão de prévio licenciamento pelo órgão ambiental competente.640. com a edição do Decreto 6. Para a realização dos trabalhos de arqueologia. passou a ser possível a convivência de barragens e outros empreendimentos com a proteção às cavidades naturais subterrâneas. realizados em atenção ao Termo de Referência específico. que provam não haver impacto. que. modificação e operação de empreendimentos e atividades. caso identifique algum vestígio. deve-se obedecer ao disposto nas Portarias SPHAN no. em áreas cujas rochas apresentem potencial paleontológico.03. praticamente. a cargo do IBAMA.08. As comunidades remanescentes de quilombos. Mesmo após estudos antropológicos conclusivos. foi regulada. gera uma Portaria específica para o arqueólogo responsável. inviabilizava a implantação de empreendimentos em regiões dotadas de cavernas naturais. a aprovação dos seus relatórios.09.88 e IPHAN no. inicialmente. 2.11. que oneram o empreendedor e que são motivo de atraso no licenciamento. o IPHAN vem atrasando a análise dos projetos de pesquisa. mediante o Decreto-Lei 4.08. requer a identificação e o resgate dos fósseis. foi definido que deveriam ser criados critérios de relevância para a classificação das cavidades naturais subterrâneas e a possibilidade de implantar empreendimentos em áreas em que elas ocorram. A implantação de barragens e reservatórios.12. de 01. demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentes de comunidades quilombolas. são amparadas pelo disposto no Decreto 4. 07. para a obtenção da LP. muitas vezes.. de 17. definindo. cujos serviços só podem ser iniciados após a publicação da mesma no DOU.09. de 07.90. a mais de 20 km de distância da barragem e seu reservatório e que não seriam. Depois de muita discussão. Esses procedimentos oneram e atrasam o processo de licenciamento ambiental das barragens. ou até inviabilizar um empreendimento.887. tem havido imposição de “compensações”. que são passíveis de autorreconhecimento.

proteger paisagens naturais e pouco alteradas de notável beleza cênica. 13. de 05.promover o desenvolvimento sustentável a partir dos recursos naturais.12. VIII .contribuir para a preservação e a restauração da diversidade de ecossistemas naturais. finalmente. regulamentada pelo Decreto 4. 36. com fundamento em Estudo de Impacto Ambiental e respectivo relatório . 4 o o SNUC tem os seguintes objetivos: I . assim considerado pelo órgão ambiental competente.” Como houve muita discussão quanto aos critérios de cálculo da compensação financeira. X .00. Outra limitação à implantação de barragens e outros empreendimentos é a que define critérios de distância para proteção do entorno de Unidades de Conservação. A proteção da fauna silvestre é um tema que passou a ser encarado com extremo rigor no âmbito do licenciamento ambiental de barragens.02.proteger e recuperar recursos hídricos e edáficos. 404 . abrangendo mamíferos. de 18. espeleológica. foi revogada. V . estudos e monitoramento ambiental. a qualquer tipo de empreendimento. As unidades de conservação. III . 10/87 e Resolução CONAMA n o. XII .proteger as características relevantes de natureza geológica. 428. 371.Séculos XIX.contribuir para a manutenção da diversidade biológica e dos recursos genéticos no território nacional e nas águas jurisdicionais.08. devem possuir uma zona de amortecimento e.12. Esses diagnósticos só podem ser realizados mediante autorização do IBAMA. II . XX e XXI O Sistema Nacional de Unidades de Conservação – SNUC foi estabelecido pela Lei 9. com captura. 2/96).01.07. quando conveniente. depois de várias determinações exaradas em Resoluções do CONAMA para o tema (Resolução CONAMA n o.05. corredores ecológicos.06. A Portaria Normativa do MMA no.340. transporte e exposição de grupos da fauna. para tal. a barragens com essa finalidade. que caíram para 3 km no caso de empreendimentos sujeitos a elaboração de EIAe RIMA e para 2 km para os de reduzido impacto ambiental. répteis e peixes. Essa distância foi estabelecida sem qualquer critério de avaliação de impactos ambientais. Nos casos de licenciamento ambiental de empreendimentos de significativo impacto ambiental. de 11.” No apoio às Unidades de Conservação de Proteção Integral. De acordo com seu “Art. IX .985. em 10 quilômetros. de 06.proteger as espécies ameaçadas de extinção no âmbito regional e nacional. a chamada Lei do SNUC estabelece: “Art. paleontológica e cultural.” Essa zona de amortecimento foi estipulada na Resolução CONAMA no. XIII . a obrigatoriedade de realizar diagnósticos da fauna. indistintamente. em seu “Art.EIA/RIMA.09. para qualquer empreendimento. ou seja. Essa IN veio sendo aplicada. a recreação em contato com a natureza e o turismo ecológico. em 17. coleta. aves. de 22. exceto Área de Proteção Ambiental e Reserva Particular do Patrimônio Natural. como definido na Lei do SNUC.10. o assunto está finalmente regulado pela Resolução CONAMA no. embora o seu espírito original fosse de que deveria ser aplicada a barragens formadoras de reservatórios. 25. arqueológica. passando o assunto a ser regulado pela Resolução CONAMA no.valorizar econômica e socialmente a diversidade biológica.proporcionar meios e incentivos para atividades de pesquisa científica. respeitando e valorizando seu conhecimento e sua cultura e promovendo-as social e economicamente.favorecer condições e promover a educação e interpretação ambiental. estabeleceu.recuperar ou restaurar ecossistemas degradados.04. de acordo com o disposto neste artigo e no regulamento desta Lei. de 22. IV . requerendo-se.proteger os recursos naturais necessários à subsistência de populações tradicionais. A Instrução Normativa do MMA n o.10. o empreendedor é obrigado a apoiar a implantação e manutenção de unidade de conservação do Grupo de Proteção Integral.promover a utilização dos princípios e práticas de conservação da natureza no processo de desenvolvimento. que estabeleceu critérios para definição das distâncias a serem consideradas para as zonas de amortecimento. Essa Resolução. VI . VII .A História das Barragens no Brasil .90. geomorfológica. 146. restringiu a sua aplicação a empreendimentos de geração hidroelétrica. a execução de um processo dispendioso e demorado.07. XI .

Centro nacional de desenvolvimento de PCH. de 27.com. 2011. jun. 1987. se pode dizer que a “evolução” tenha um sentido de aprimoramento. exigindo. O processo é penoso. para a concessão das licenças.br/biblioteca/ fe_e_meio_ambiente/principais_conferencias_internacionais_ sobre_o_meio_ambiente_e_documentos_resultantes. Disponível em: http://www.ecclesia. como elemento base para a concessão da LP e Relatório de Detalhamento dos Programas Ambientais – RDPA para a solicitação da LI. tornando os processos demorados e.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Finalmente. 2011. nem sempre atendendo aos requisitos exigíveis.asp Acesso em: mar. Rio de Janeiro. Disponível em: http://www. consultores ambientais.html Acesso em: mar. ELETRONORTE/ENGEVIX. Brasília. 1990. os órgãos ambientais sofrem de falta de pessoal qualificado para analisar os estudos ambientais que são apresentados para instruir os processos de licenciamento.01. Entendendo o meio ambiente: principais Conferências Internacionais sobre o meio ambiente e documentos resultantes. 1977.279. cabe mencionar a Resolução CONAMA no. 405 . Pelo exposto.unep. analistas dos órgãos licenciadores. praticamente. hoje. consequentemente. out. detalhamentos incompatíveis com o porte dos empreendimentos e. Ecclesia. Os prazos constantes dos diplomas legais não são cumpridos. 1978. Essa Resolução vem sendo aplicada. que estabelece procedimentos para o licenciamento ambiental simplificado de empreendimentos elétricos com pequeno potencial de impacto ambiental. Relatório Final. em atenção a ações do Ministério Público. elaboram pareceres sobre estruturas de pequeno porte semelhantes aos aplicáveis a grandes barragens. Ela instituiu o Relatório Ambiental Simplificado – RAS. Livro Branco sobre o Meio Ambiente na Usina Hidrelétrica de Tucuruí. Referências CBGB. bem como da avaliação fundamentada dos impactos sobre o patrimônio paleontológico e espeleológico e as Unidades de Conservação. ______. Legislação ambiental. nem sempre. Topmost dams of Brazil. promoverem constante troca de experiências no sentido de que o licenciamento sofra. 1986. Disponível em: http://www. Relatório Condensado. Inventário do baixo Araguaia – Tocantins. Estudos Tocantins: inventário hidrelétrico das bacias dos rios Tocantins e Araguaia. Rio de Janeiro. principalmente.cndpch. A legislação aplicável é vasta. a consideração de todos os aspectos ambientais atrás mencionados. efetivamente. o mercado de consultoria ambiental cresceu. intervém na maioria dos processos como guardião da lei. bem como sobre a fauna silvestre. Relatório Geral. às PCHs com pequenas barragens e reservatórios. Brasília. da FCP e do IPHAN. 2011. restando às partes envolvidas. verifica-se que a evolução do licenciamento ambiental de barragens no Brasil é um tema complexo e. posto que com o aumento da demanda. Rio de Janeiro. Plano Nacional de Energia Elétrica 1987/2010: Plano 2010. pelos órgãos licenciadores. ______. no entanto. essa Resolução introduz a Reunião Técnica Informativa – RTI.06. UNEP.org/DocumentsMultilingual Default. dez. 1984. São Paulo: Novo Grupo Editora Técnica. Stockholm 1972: Brief summary of the general debate.com. empreendedores. caros. Em substituição à Audiência Pública.br/ zpublisher/paginas/legislacao_ambiental. Os analistas tendem a se resguardar. O processo de licenciamento simplificado não desobriga. que. é exigida por praticamente todos os órgãos ambientais licenciadores. ELETROBRAS. como as manifestações da FUNAI. muitas vezes esses de qualidade duvidosa. demais instituições intervenientes e à sociedade civil. ELETRONORTE. uma evolução sustentável. por receio de ação do Ministério Público que.asp?DocumentID=97&ArticleID=1497&l=en Acesso em: mar. Plano Diretor de Meio Ambiente do Setor Elétrico 1991/1993. em geral.

uma barragem densamente monitorada com elevado nível de segurança.Itaipu . Figuras selecionadas dos resultados da instrumentação Deslocamentos horizontais máximos para jusante (períodos de inverno) .

Todavia. empreendimentos que tem papel relevante no desenvolvimento do nosso país. Dentre as diversas publicações do ICOLD relacionadas à segurança de barragens. Durante o Congresso Internacional de Grandes Barragens. gerando energia elétrica e controlando enchentes”. Ciro Humes Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens 1. com graves conseqüências ocorridas na época. III World Water Fórum (Kyoto.000 grandes barragens ao redor do mundo servindo a sociedade por meio do fornecimento de água para uso doméstico. 2003). construção e operação desses empreendimentos são tratados com seriedade. Existem aproximadamente 45. em Nova Delhi. danos ambientais e conseqüências de elevado valor econômico decorrentes de uma eventual ruptura. não haveria desenvolvimento humano. tendo atuado neste campo com a formação de diversos comitês. promovido pelo ICOLD em 1979.1 Panorama internacional O ICOLD (Inter national Commission on Lar ge Dams) sempre esteve preocupado com a segurança de barragens.A Evolução da Legislação Aplicada às Barragens “A História prova que se as barragens não fossem construídas. aumento nas dimensões das novas barragens e envelhecimento de uma quantidade apreciável de outras. Neste capítulo será resumidamente apresentada a atuação do CBDB na evolução dos aspectos ligados à implantação de uma política de segurança de barragens no Brasil. Histórico da legislação sobre segurança de barragens 2. 2. deixa claro a grande responsabilidade das concessionárias e proprietárias quanto à preservação da segurança das barragens. além do incremento da quantidade de barragens sendo construídas em países com pouca ou nenhuma experiência em engenharia de barragens. “Deterioration 407 . industrial e irrigação. destacam-se: “Lessons from Dams Incidents” (1974). foi decidido investir maiores esforços no âmbito de segurança em função de: diversos incidentes em barragens. A ruptura de barragens é uma hipótese pouco provável e de baixíssima probabilidade de ocorrência quando os aspectos de projeto. O Comitê Brasileiro de Barragens sempre esteve atento à necessidade da implantação de uma política e de uma legislação que tratassem do aspecto de segurança de barragens. o imenso potencial de perdas de vida. “Automated Observations for Safety Control of Dams” (1982). que seguramente contribuirá para reduzir os riscos de acidentes nas nossas barragens. Introdução Obras de tamanha importância devem ter a sua segurança gerenciada ao longo de toda a sua vida. seminários e cursos. assim como levanta a importância do papel da Comunidade Técnica e dos pertinentes órgãos governamentais no sentido de minimizar a possibilidade da ocorrência de eventos desta natureza. edição de boletins e organização de congressos.

Inspeções periódicas por meio da autoridade competente. A partir desta constatação foi dada maior ênfase aos aspectos de segurança. “Dam Failures Statistical Analysis” (1995). Constituição de um plano de observação e sua adaptação quando necessário. Foi organizado um serviço especial de inspeção de barragens pertencentes aos “State Power Board” que passou a inspecioná-las com especialistas. verificou que a legislação de todas as províncias e territórios era genérica e continha poucos artigos específicos sobre programas de segurança e monitoramento. para que as barragens existentes passassem a aplicar as imposições do regulamento. o Serviço Nacional de Proteção Civil. em 1990. tendo sido preparado o Dam Safety Guidelines em 1995. “Dam Safety Guidelines” (1987). Um terceiro órgão. na década de 70. principalmente no tocante aos planos de ações emergenciais em barragens. Revisão de critérios de segurança. a FERC (Federal Energy Regulatory Commission) também atua na área. em um intervalo de cinco anos. Em Portugal foi promulgado. Army Corps of Engineers a inventariar e inspecionar barragens não federais (1972). o Comitê de Segurança de Barragens do Canadian National Commitee on Large Dams. Além da FEMA. em 1972. foram criados outros dois organismos encarregados de desenvolver. Ordem presidencial para que o Guia de Segurança de Barragens fosse aplicado e que suas conclusões fossem encaminhadas à nova agência FEMA (Federal Emergency Management Agency). “Dams less than 30 m high – Cost Savings and Safety Improvements” (1998). organizada em 1979. Entre estas imposições pode-se destacar: Designação dos responsáveis pela segurança englobando o governo (representado pela Direção Geral dos Recursos Naturais). “Monitoring of Dams and Their Foundations” (1989). “Inspection of Dams Following Earthquake” (1988). Os mesmos procedimentos foram seguidos pelas companhias associadas à Swedish Power Association. autorizando o financiamento federal a programas estaduais de segurança de barragens (1986). “Dam Monitoring-General Considerations” (1988). Entre as iniciativas adotadas pelo governo americano figuram: Lei autorizando o U. No Canadá. as rupturas das barragens de Buffalo Creek (causando 125 mortes e enormes prejuízos materiais) e Canyon Lake. Na Suécia o controle de construção e manutenção é regido pelo Water Rights Act de 1918. 408 . revisão dos procedimentos adotados por agências federais (1977) por junta de consultores independentes. “Rehabilitation of Dams and Appurtenant Works – State of the Art and Case Histories” (2000). coordenação centrali zada de programas de segurança de barragens.Séculos XIX.A História das Barragens no Brasil . a Comissão de Segurança de Barragens e o proprietário da obra. XX e XXI of Dams and Reservoirs” (1983). Aprovação do National Dam Safety Act e respectivas dotações orçamentárias (1997). o decreto-lei sobre o “Regulamento de Segurança de Barragens”. o LNEC – Laboratório Nacional de Engenharia Civil. revisado em 1997. A legislação sobre recursos hídricos foi reformulada no início da década de 80. supervisionar e divulgar a segurança de barragens: o ICODS ( Interagency Committee on Dam Safety ) e a ASDSO (Association of State Dam Safety Officiais). passando as autoridades municipais a arcar com a responsabilidade pela supervisão. Methods and Current Applications” (2005).A Reconnaissance of Benefits. Nos Estados Unidos da América. inspeção e eventuais medidas a serem tomadas junto aos proprietários das barragens. obrigatoriamente a cada 20 anos. “Risk Assessment in Dams Safety Management .S. em 1980. Publicação do Water Resources Development Act . em intervalos pré-fixados. em 1976. Kelley Barnes (causando 39 mortes) e Teton (causando 14 mortes e danos avaliados em um bilhão de dólares). contribuíram decisivamente para uma revisão geral da legislação para a segurança e inspeção de barragens no país.

outr os Estados viz inhos e Municípios. ele nunca foi implementado.. Outras rupturas ocorreram no início da década de 70 dando ensejo a mudanças legais. e dr enagem e à correta utilização das várzeas”. foi emitido o Decreto nº. quando de eventos hidr ológicos indesejáveis . Em 1982. A Inglaterra possui várias barragens muito antigas e a ruptura de algumas delas deu origem a uma legislação especifica sobre segurança de barragens. O Ministério de Minas e Energia. atuação para apr oveitamento e controle dos recursos hídricos em seu território .. Alguns trechos de certos artigos podem ser aplicáveis à segurança de barragens e ao seu funcionamento adequado. em 1930. em 1995 o Cadastro Brasileiro de Deterioração de Barragens e Reservatórios e.2 Histórico da segurança de barragens no Brasil e o papel do CBDB Os fatos mostram que as demandas por programas de segurança de barragens ocorrem principalmente após a ocorrência de acidentes de vulto. foram muito importantes para nortear os procedimentos de segurança adotados por algumas organizações brasileiras. propostas em 1975. na época CBGB: Comitê Brasileiro de Grandes Barragens. o Estado . editou em 1979 e 1983 as Diretrizes para a Inspeção e Avaliação da Segurança de Barragens em Operação. bem como enfoca a segurança durante a operação e aborda aspectos técnicos. A Finlândia editou. criou um grupo de trabalho com o objetivo de normalizar procedimentos preventivos e de manutenção voltados à segurança 2. de 1988. elaboradas por comissões do CBGB. no art. em 1994. a contr ole de cheias. em 1986. a pr e venção de inundações. tais como os que dizem que: o Estado assegurará meios financeiros e institucionais para “defesa contra eventos hidrológicos c r í t i c o s .. logo após os acidentes ocorridos com as barragens de Euclides da Cunha e Armando de Salles Oliveira.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A Noruega adotou. seguindo a tendência mundial da década de 70. O CBDB.. quanto à garantia de segurança e saúde pública. ambos de 1984. 409 . Auscultação e Instrumentação de Barragens no Brasil. com vista a . q u e o f e r e ç a m riscos à saúde e segurança pública.. A Constituição do Estado de São Paulo aborda de maneira indireta o assunto ao se referir. em 1996. com vistas. como não houve a regulamentação deste decreto.. Estas publicações. através de decreto real de 1980. através da Portaria nº. o Regulamento para Planejamento. Construção e Operação de Barragens. Entretanto. Especificamente no Estado de São Paulo. que editou em 1992 o Projeto Norueguês de Segurança de Barragens que estabelece responsabilidade e respectivos impactos. em 1977. quando de eventos hidrológicos indesejáveis. formalmente. o Estado realizará pr ogramas conjuntos com os Municípios mediante convênios . o Dam Safety Code of Pratice obrigando que o mesmo fosse obedecido em conjunto com o Dam Safety Act e o Dam Safety Decree. assim como prejuízos econômicos e sociais.implantação de sistemas de alerta e defesa civil para garantir a segurança e a saúde pública. 10752 dispondo sobre segurança das barragens no Estado e recomendando auditorias técnicas permanentes. Posteriormente.000 m 3..articulará com a União. nº. editou as Recomendações para a Formulação e Verificação de Critérios e Procedimentos de Segurança de Barragens. onde são indicadas as responsabilidades que envolvem os diversos organismos nas várias fases de um empreendimento. a Itália editou um decreto aplicável e barragens com altura superior a 10 m e reservatórios com capacidade superior a 100.. O mesmo nível de abordagem consta da Lei 7663 que esta belece normas de orientação à Política Estadual de Recursos Hídricos bem como ao Sistema Integrado de Gerenciamento de Recursos... 739. 210. que se mostraram eficazes.

Outra importante iniciativa do CBDB. o qual não conseguiu dar prosseguimento a esta proposta do CBDB. definição das responsabilidades pela execução das ações. elaborado com participação do CBDB. Neste momento o deputado Leonardo Monteiro. por meio do Núcleo Regional de São Paulo. o projeto de lei passou pelas comissões do Meio Ambiente e Infraestrutura. cujo relator foi o deputado Arnaldo Jardim. 410 . XX e XXI das diversas barragens existentes. Em 2003. elaborou minuta de Portaria do Ministério de Minas e Energia. Também concluiu. Meio Ambiente e Constituição e Justiça. em 1989. coordenador do projeto de lei.A História das Barragens no Brasil . através da Comissão de Deterioração e Reabilitação de Barragens. com apoio de outras entidades como a ABMS (Associação Brasileira de Mecânica dos Solos) e com o apoio importante da ANA (Agência Nacional de Águas).Departamento Nacional de Águas e Energia Elétrica. Este acidente espalhou resíduos no rio Paraíba do Sul e causou graves danos ao meio ambiente e à sociedade. Este documento foi apresentado para debate no XXII Seminário de Grandes Barragens realizado na cidade de São Paulo e posteriormente foi consolidado com as sugestões recebidas de vários associados e encaminhado para a análise do DNAEE . Foi realiza do um processo de aproximação e apoio a esta iniciativa. Nesta ocasião O CBDB deslumbrou a oportunidade de suportar tecnicamente a implantação desta lei. órgão do Ministério de Minas e Energia. Encaminhado para o Senado. procedimentos gerais a serem seguidos em casos de acidentes. Ele foi apresentado à nossa comunidade no XXIII Seminário Nacional de Grandes Bar ragens que aconteceu em Belo Horizonte em 1999. Após este acidente o Deputado Leonardo Monteiro propôs o projeto de lei (PLC-168) com foco na Segurança de Barragens. definição da periodicidade de inspeção. com base nos diversos trabalhos pertinentes já desenvolvidos. Este instrumento previa que o CNSB providenciaria a redação de um Regulamento de Segurança de Barragens e Reservatórios e na etapa seguinte seria responsável pela supervisão da correta aplicação deste regulamento. hoje ANEEL Agência Nacional de Energia Elétrica). um relatório que abordou entre outros aspectos importantes: estabelecimento de mecanismo de monitoração e da instrumentação. estabelecendo as diretrizes para a avaliação da segurança das barragens e propondo a criação do Conselho Nacional de Segurança de Barragens (CNSB). Em 1996 o CBGB. a uniformidade e a posição de lei que estabelece a Política Nacional de Segurança de Barragens.Séculos XIX. deixando uma vasta população sem água nos Estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro. a instalação de um Cadastro Nacional de Barragens e a caracterização do potencial de risco de cada barragem. foi a elaboração do Guia Básico de Segurança de Barragens pela sua Comissão de Segurança. Este guia foi desenvolvido com base no Canadian Dam Safety Guidelines com a incorporação da cultura e experiência nacional. aceitou o substitutivo proposto pelo Conselho Nacional de Recursos Hídricos. de onde saiu aprovado em março de 2010 e recebeu a sanção presidencial em 21/09/2010 que conferiu ao projeto de lei. Este projeto passou pelas Comissões de Minas e Energia. novamente confirma-se que a demanda por programas de segurança de barragens ocorrem principalmente após a ocorrência de acidentes de vulto. Coordenado pela Eletrobras o grupo publicou em 1987 a publicação Avaliação da Segurança de Bar ragens Existentes que é uma tradução do Manual SEED (Safety Evaluation of Existing Dams) do Bureau of Reclamation dos Estados Unidos da América. Neste ano ocorreu a ruptura de uma barragem de rejeitos situada no rio Pombas no município de Cataguases no Estado de Minas Gerais. O relatório previa a criação de uma Sub-Comissão de Segurança de Barragens.

O CBDB continuará atento para que a concretização da legislação que cria uma política de Segurança de Barragens seja efetivada. Considerações finais A atuação do CBDB na área de segurança de barragens. Vale registrar que a caminhada ainda não está finalizada. Figura 1 .Ferdinand M. por meio de publicação de documentos técnicos consistentes e atuando firmemente para a criação de uma legislação específica. coordenador da Comissão Técnica de Segurança de Barragens do CBDB e membro do Comitê de Segurança de Barragens da CIGB 411 .Fábio De Gennaro Castro. pois falta a regulamentação da lei. Precursor das atividades sobre implantação de legislação aplicada a barragens no Brasil Figura 2 .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens 3. promovendo o debate deste tema nos seus seminários e simpósios.G. foi relevante e fundamental para que após uma luta de décadas uma lei sobre segurança de barragens fosse promulgada. Budweg.

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dando continuidade aos estudos em modelo reduzido das hidroelétricas da empresa. junto à subestação de Jacarepaguá. 413 . hoje denominado Fundação Centro Tecnológico de Hidráulica (FCTH) que. implantados a partir da década de 1950. O Departamento de Águas e Energia de São Paulo (DAEE) em convênio com a Universidade de São Paulo (USP) implantou um importante laboratório de hidráulica. dos projetos e das construções de barragens. A seguir. mecânica dos solos e mecânica das rochas. posteriormente denominado Centro de Hidráulica e Hidrologia professor Parigot de Souza. IPH. prestando. (CEHPAR).Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Centros de Pesquisas Tecnológicas Aplicadas a Barragens . desenvolveu importantes estudos para as Companhia Paranaense de Energia (COPEL).Introdução Erton Carvalho A história das barragens brasileiras contempla os centros de pesquisas que foram. serviços a outras empresas do setor elétrico. Furnas agrupou em Goiânia os seus laboratórios em um moderno centro de pesquisas (DCT) e passou a atender os projetos e construções das barragens de Furnas. também. Dentre os vários estudos realizados em modelo reduzido des tacam-se os ensaios para a hidroelétrica de Itaipu. localizado junto à hidroelétrica de Ilha Solteira. No sul do país. teve as suas instalações ampliadas visando a atender o desenvolvimento de ensaios e pesquisas que permitiram subsidiar principalmente os grandes projetos de aproveitamentos hidrelétricos construídos pela Companhia Energética de São Paulo (CESP) bem como várias obras no país. que estavam sendo estudadas pelo Hidroesb. O Centro de Estudos e Pesquisas de Hidráulica e Hidrologia (CEPHH). tornando-se um laboratório de grande importância nacional a partir de 1965. devido à necessidade de se ter um apoio tecnológico para o desenvolvimento dos estudos. seu Laboratório de Hidráulica Experimental e Recursos Hídricos (LAHE). que trabalhava desde 1938 em investigações geotécnicas para a construção de barragens e obras de terra de um modo geral. Em 1983. o laboratório. Furnas implantou no Rio de Janeiro. ficou mais dedicado ao desenvolvimento de pesquisas no campo da hidráulica experimental. complementado pelo Laboratório CESP de Engenharia Civil (LCEC). Furnas (DCT e LAHE). desenvolveram praticamente todos os estudos em modelo reduzido das usinas da CESP. na sua maioria. estão apresentados os textos específicos dos centros de pesquisas: CEHPAR. Os laboratórios de hidráulica experimental foram surgindo para atender à exigência da ampliação do setor elétrico no Sudeste Brasileiro. Pela necessidade de se ter um grande desenvolvimento na área tecnológica de concreto massa. Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) do Rio Grande do Sul. IPT e LCEC. o Laboratório Hidrotécnico Saturnino de Brito SA (Hidroesb) que teve sua origem no Escritório Saturnino de Brito Filho. O Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo (IPT). sendo o responsável pelos estudos em modelo reduzido da Usina de Furnas. Hidroesb. Dentre eles.

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Cabe a ele o mérito do Laboratório ter conquistado o reconhecimento internacional. com uma liderança inquestionável.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens CEHPAR . Desde então. 415 . Em todo o processo é indiscutível a importância que teve o professor Nelson Pinto. fruto do convênio Figura 1 – Primeiro modelo em operação no Centro Politécnico da UFPR. As atividades de Hidrologia também começaram logo em seguida e a Divisão de Hidrologia tem uma história de muitas realizações. preciso e eficiente no Laboratório de Hidráulica. estavam sendo estudadas em modelos reduzidos as obras de Salto Osório e São Simão. Antes mesmo da inauguração do Centro Politécnico. no CEHPAR.CEHPAR em julho de 1973. realizando trabalhos considerados úteis à sociedade e ainda respeitando os limites do mercado das empresas de engenharia. que posteriormente foi Presidente da COPEL e Governador do Estado do Paraná e seu assistente professor Isaac Milder grande idealista que mais tarde veio a presidir a SERETE e a MILDER KAISER. com mostra a Figura 1. O Centro passou a ser chamado de Centro de Hidráulica e Hidrologia professor Parigot de Souza . responsável pela implantação do trabalho sério. mas o presente texto enfoca basicamente o caminho percorrido pelo laboratório de Hidráulica.50 Anos de muito Trabalho André Luiz Tonso Fabiani e José Junji Ota Introdução Em 14 de março de 1959 o Centro de Estudos e Pesquisas de Hidráulica e Hidrologia CEPHH passou a existir legalmente com a aprovação do seu primeiro estatuto. em 1961. Os estudos das usina hidroelétrica Itaipu e Foz do Areia estavam para se iniciar. professor Pedro Viriato Parigot de Souza. Teve como fundadores o Catedrático da Cadeira de Hidráulica Teórica e Aplicada. diretor do Centro por quase trinta anos. Em 1976 o Centro passou a ser administrado pela Companhia Paranaense de Energia – COPEL. o CEPHH iniciou suas atividades dentro do Campus Universitário. o Centro de Hidráulica conta com uma história de mais de 50 anos. Na época. em homenagem ao seu fundador que faleceu enquanto Governador do Estado. com preocupação universitária permanente de seus membros. Outra grande personagem foi o professor Sinildo Neidert.

Séculos XIX. No Seminário CEHPAR 30 anos. por exemplo. 416 . XX e XXI Figura 2 – Fechamento do Rio Uruguai para a construção da usina hidroelétrica Itá. a Figura 3 apresenta estudos de aeração para Foz do Areia. como mostrado na Figura 2. até aquela data o laboratório vinha mantendo um ritmo acelerado de sucessos. Nos anos setenta o CEHPAR teve um considerável avanço. De fato. O convênio com a COPEL foi bastante favorável ao Centro pois tornou os salários dos funcionários mais competitivos.A História das Barragens no Brasil . deu estabilidade ao emprego dos engenheiros e técnicos do laboratório. na consolidação da metodologia para os estudos de fechamento de grandes rios com a construção de ensecadeiras em água corrente. houve quem afirmasse que “o Centro de Hidráulica jamais teve uma fase de baixa” . eliminando o risco da perda dos seus seletos e treinados profissionais para o mercado externo. O convênio garantiu também a existência Figura 3 – Testes em modelo reduzido escala 1:8 do aerador da usina hidroelétrica Foz do Areia. Os estudos sobre aeração de fluxos de altas velocidades para evitar cavitação em descarregadores de cheias se desenvolveram nos anos setenta e oitenta. entre a Universidade Federal do Paraná e a empresa de energia.

uma associação civil. O aniversário de 40 anos. o laboratório poderia ter entrado em colapso. CHESF. O curso de pós-graduação em engenharia hidráulica foi criado em 1986 e patrocinado pelo CEHPAR que colocou seus engenheiros à disposição do curso. França e Holanda para o curso de mestrado. Por uma época. que nem teve uma comemoração formal. Ironicamente. respectivamente. São João. os projetos de pesquisa e desenvolvimento. Havia até quem dissesse que os estudantes deveriam pagar para es tagiar no Centro pois sempre foi um invejável treinamento reservado a poucos selecionados entre os bons alunos do curso de engenharia civil. 30 tiveram algum tipo de apoio para a sua formação no seu mestrado ou doutorado. da Inglaterra. Mesmo nesse período difícil. como Foz do Areia e Segredo. o CEHPAR 417 . Estados Unidos. A Universidade não pôde assumir o CEHPAR e. conhecidos como P&D ANEEL foram essenciais. Nesse período o CEHPAR teve a satisfação de ver lançado dois de seus grandes líderes a serviço da Diretoria da COPEL. tanto para ministrar aulas como para administrar o curso. de direito privado. O LACTEC é uma OSCIP . O Seminário 30 anos do CEHPAR. Projetos da ELETRONORTE. o laboratório investiu na formação dos seus engenheiros. Nos primeiros anos da privatização o período era de muitas dificuldades para o setor de construção de usinas e o CEHPAR teve que buscar outra forma de garantir o caráter de auto-sustentabilidade. auto-sustentável e sem fins lucrativos que também nasceu da privatização dos laboratórios da COPEL e da Universidade. em maio de 2000 o CEHPAR passou a ser administrado pelo LACTEC. Se não fosse a competência dos que os substituíram. foi dos mais difíceis para o Centro. que provê seus recursos através da venda de projetos de pesquisa e desenvolvimento e outros serviços tecnológicos. Ficaram nas chefias os professores Marcos Tozzi (Hidráulica) e Heinz Fill (Hidrologia) até suas aposentadorias em 1999. seguindo a própria orientação do Reitor da época. Entretanto o Brasil estava em recessão em termos de construção de hidroelétricas desde 1982 (ano do enchimento do reservatório de Itaipu). CERJ e CEB foram desenvolvidos com muito empenho e eficiência na Divisão de Hidráulica. O CEHPAR trouxe vários professores. 14 de Julho) e estrangeiras. Os engenheiros do Laboratório começaram a ser procurados por empresas que ofereciam melhores oportunidades e salários. Brilhou aqui o caráter universitário do CEHPAR que jamais limitou suas atividades aos estudos em modelo reduzido e procurou sempre investir e dar um passo a mais para desenvolver conhecimentos. A passagem do CEHPAR da COPEL para o LACTEC foi gerenciada pelo engenheiro Ralph Carvalho Groszewicz que soube conduzir a transição com muita habilidade e paciência. Castro Alves. O laboratório e a oficina foram também disponibilizados para se desenvolver pesquisas na área de Hidráulica. professor Carlos Roberto Antunes dos Santos. Nesse aspecto. O Centro sempre apoiou a formação de seus engenheiros . o aquecimento do mercado trouxe também alguns problemas. pois o Governo Estadual estava prestes a privatizar a própria COPEL e o processo começou pelos laboratórios que hoje compõem o LACTEC – Instituto de Tecnologia para o Desenvolvimento. COPEL. São José. realizado nos dias 24 e 25 de novembro de 1989. Com a vinda do modelo reduzido de Paute Mazar. os professores Francisco Gomide e Sinildo Neidert que deixaram as chefias das Divisões de Hidrologia e de Hidráulica. com palestras de professores estrangeiros (Maurice Bouvard da França e Vujica Yevjevich dos Estados Unidos). o laboratório começou a recuperar o seu ânimo. incentivando a realizar seus cursos pós-graduação. uma obra importante do Equador.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens de trabalhos de modelos reduzidos das usinas da COPEL que estavam em acelerado processo de projeto e de construção no rio Iguaçu. período negro que se estenderia até a virada do milênio. reuniu 108 pessoas inscritas e se desenvolveu em grande estilo. A Universidade teve o seu retorno com o aperfeiçoamento do seu quadro de docentes do Departamento de Hidráulica e Saneamento e dos seus estudantes através de estágios.Organização da Sociedade Civil de Interesse Público.dos 33 engenheiros que trabalharam na Divisão de Hidráulica. Aos poucos o CEHPAR começou a ser procurado para realizar estudos hidráulicos de várias obras brasileiras (Itapebi.

Séculos XIX. com seus funcionários trabalhando com bastante otimismo. Figura 5 – Modelo de Salto Grande do Iguaçu. o Centro utiliza essa técnica para reproduzir o aluvião em modelo reduzido. uma série de estudos que relatam os passos da Divisão de Hidráulica do CEHPAR. – UTELFA que apoiou os primeiros passos do CEHPAR. como pode ser visto na Figura 4. mostrando. Ainda hoje. Cambambe da Angola. o engenheiro Octavio Marcondes Ferraz (na época da usina e depois presidente da Eletrobras) e um técnico do Laboratório 418 . recém retornado dos EUA. Ituango da Colômbia) até o início dos estudos para a usina hidroelétrica Belo Monte. o primeiro projeto do Laboratório de Hidráulica foi um trabalho singelo. o de estudar em modelo hidráulico as condições de assoreamento na tomada de água da Termoelétrica de Figueira. Hoje o laboratório está bastante ativo. com representação de aluvião realizar estudos sobre erosão ao redor de pilares de pontes. realizou ensaios com fundo móvel utilizando serragem de imbuia peneirada e tratada para Figura 4 – Teste de fechamento na usina hidroelétrica Itapebi. O Professor Nelson Pinto.A. Esta foi uma iniciativa do engenheiro Leão Schulman. Primeiros estudos do Laboratório de Hidráulica e estudos sobre erosão ao redor de pilares de pontes Segundo o que consta nos anais do Seminário CEHPAR 30 anos. que mostra o fechamento do rio na usina hidroelétrica Itapebi. Presidente da Central Elétrica de Figueira S. Gibe III da Etiópia.A História das Barragens no Brasil . mas com objetivo bem claro. Pedro Viriato Parigot de Souza e Nelson Luiz de Sousa Pinto. XX e XXI passou a ter mais estudos de obras estrangeiras do que brasileiras (Palomino da República Dominicana. Lista-se a seguir. da esquerda para a direita os professores Sinildo Hermes Neidert.

acumulando conhecimentos para que fossem confiados. e a estrutura de dissipação de energia na restituição ao rio Cachoeira. Hoje o Centro executa com seções transversais de Duratex. cujos estudos se desenvolveram no começo dos anos setenta. a chaminé de equilíbrio com câmara de expansão. O relevo do modelo foi feito com fitas de aço niveladas segundo as curvas de nível. Estudos hidráulicos para o aproveitamento hidroelétrico de Itaipu Itaipu foi um marco importante para o setor elétrico e foi sem dúvida um ponto alto para o CEHPAR. Como havia uma camada de sedimentos na região. Foram cinco modelos reduzidos. Nessa época. Foi instalado um novo sistema de recalque. os estudos de grandes obras do rio Iguaçu. Testes de fechamento requeriam um controle dinâmico das pontas de aterro com medições de níveis de água e de velocidades do escoamento. constituiu a primeira experiência concreta de participação no desenvolvimento e otimização de um projeto de grande porte. no início da década de 1960. Os ensaios dinâmicos foram feitos de maneira ininterrupta. na seqüência. Essas construções podem ser vistas na Figura 6. Os estudos em modelo incluíram a descarga de fundo e o vertedouro. com duração de três dias. Um pavilhão de 70 m por 50 m em estrutura metálica foi construído especialmente para abrigar o grande modelo. 419 . mas ainda foi usado muito cedro nas partes importantes das estruturas. A reprodução do leito. o sistema de restituição das águas das turbinas Pelton ao túnel de fuga. analisando-se a estabilidade do enrocamento a cada deposição de material. desde a verificação do grande canal. capaz de circular 1000 l/s. como Estudos hidráulicos de Salto Osório e São Simão A hidroelétrica de Salto Osório é uma grande obra do rio Iguaçu. O modelo contribuiu com a definição do esquema de desvio que era sofisticado. duas para a ensecadeira de montante e duas para a de jusante. Um dos modelos foi implantado no interior do pavilhão com estrutura em madeira com grande vão. onde pode-se ver ainda os professores Parigot de Souza. A contratação do Centro para os estudos para a hidroelétrica de São Simão em 1971 foi um marco que levou o CEHPAR para além dos limites do Estado do Paraná. Foram importantes os estudos para Salto Grande do Iguaçu (estudos de vórtices na tomada de água) e de Mourão. que não só orientou o desenvolvimento geral desse projeto como participou em diversas atividades didáticas promovidas pelo CEHPAR. Dirigido pelo professor Sinildo Neidert. Para fechamento de rios com considerável profundidade.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens A usina de Capivari-Cachoeira. a construção das préensecadeiras devia proporcionar uma limpeza automática através da apropriada escolha da seqüência de avanço nas pontas de aterro. O fechamento do rio foi feito em avanços simultâneos de quatro pré-ensecadeiras. A Figura 5 apresenta uma visita do representante da empresa de Salto Grande do Iguaçu ao modelo. O custo dessas instalações foi financiado pela COPEL e pago posteriormente pelos trabalhos realizados pelo CEHPAR. construída na década de sessenta (1963-1970). Havia também uma preocupação com a ponte que tinha seus pilares fixados dentro do canal. Nelson Pinto e Sinildo Neidert. de Grenoble. um prédio que merece ser visitado. caracterização do vertedouro e erosão da rocha a jusante do vertedouro com material coesivo. uma região de corredeira e cachoeira foi feita de forma muito minuciosa numa época em que não se dispunham de técnicas eletrônicas de levantamento e de registro de imagens. A técnica de construção de modelos de estruturas com acrílico estava sendo consolidada na época. da estrutura das comportas até dos detalhes da construção das ensecadeiras. Os estudos da hidroelétrica Capivari-Cachoeira marcaram o início das relações do Centro com o engenheiro Maurice Bouvard. O laboratório fez também estudos sobre vórtice na tomada de água. O primeiro modelo foi destinado ao estudo do desvio. um grupo de engenheiros e bem intencionados técnicos começaram seus trabalhos em 1972 para a maior obra hidroelétrica do mundo. o CEHPAR enviou o seu engenheiro Sinildo Neidert para aperfeiçoamento na Alemanha.

No modelo geral de Itaipu foram desenvolvidos os estudos do vertedouro de encosta com 14 comportas e calhas bem longas de concreto. A tomada de água e a casa de força foram ensaiadas extensivamente. começou a tornar um consenso uma “regra prática”. a Figura 8 apresenta um dos resultados obtidos nos ensaios.Séculos XIX. Com o intuito de Figura 6 – Construção do pavilhão para o modelo tri-dimensional de Itaipu e a a instalação de recalque.A História das Barragens no Brasil . A capacidade de descarga do vertedouro foi cuidadosamente verificada no modelo geral e confirmada também no modelo parcial construído em escala maior. que pode ser visto na Figura 7. Para escoamentos com pequenas profundidades essa regra não parece ser válida. Foram feitos os testes de verificação das tendências à formação de vórtices e condições de aproximação. que o diâmetro do enrocamento necessário para o fechamento com um desnível é da ordem de 30% a 40% desse valor. ou seja. assunto que foi também explorado no modelo parcial da tomada de água. Grandes planilhas bem estruturadas foram utilizadas para gerenciar esses testes de fechamento. 420 . Vários arranjos foram verificados uma vez que a equipe de projeto se preocu- pava muito com a erosão provocada pela enorme concentração de energia do jato efluente do vertedouro. . Para o arranjo final do vertedou ro foram feitos testes de erosão com leito coesivo envolvendo enorme volume de material. com defletores em salto de esqui nas extremida des de jusante. XX e XXI é o caso de Itaipu.

por exemplo). os cálculos sobre índices incipientes de cavitação indicaram que a configuração da calha do vertedouro de Itaipu é favorável. 421 . (Karun no Irã. com a reprodução de três vãos. forçando intensificar no modelo a formação de vórtices aumentando a vazão de teste. O Centro teve a oportunidade de contribuir com vários ensaios sobre juntas da laje de concreto da barragem. Influenciado pela cavitação ocorrida em grandes obras da época. cogitou-se instalar no vertedouro de Itaipu um sistema de auto-aeração das calhas. a exemplo do adotado em Foz do Areia. Entretanto. foram feitos testes em um modelo parcial construído na escala 1:50.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Para o vertedouro. não necessitando a implantação de aeradores. a maior área de laje do mundo). o Centro conduziu os ensaios para Foz do Areia e Salto Santiago. Emborcação e Sabaneta – estudo sobre aeração Figura 7 – Modelo tri-dimensional do AHE Itaipu em operação De forma paralela aos estudos para Itaipu. Foz do Areia trazia uma novidade que é a barragem de enrocamento com face de concreto (na época. o laboratório realizou ensaios com distorção da escala das velocidades. compensar possíveis efeitos de escala. Estudos hidráulicos de Foz do Areia. Figura 8 – Resultado dos testes de erosão a jusante do vertedouro de Itaipu.

o CEHPAR iniciou seus primeiros testes de aeração no modelo reduzido (escala 1:30) do descarregador de fundo de Foz do Areia. pela Universidade de São Paulo. O estudo sobre vertedouro em degraus culminou em mais uma tese de doutorado. venturi) com manômetro dotado de micrômetro. Estudos sobre vertedouros em degraus Já em 1985 o CEHPAR defrontou com o estudo de barragens de concreto compactadas com rolo (CCR). que faz a ligação da estrutura da crista com a longa calha inclinada. O laboratório desenvolveu uma técnica própria para dimensionar a espessura dessas tiras e passou a considerar. Mas logo concluiu que os efeitos de escala são consideráveis e que não há correspondência entre modelo e protótipo em termos de demanda de ar em testes realizados em modelos construídos nas escalas usuais. O CEHPAR efetuou uma série de ensaios medindo a vazão de ar no modelo utilizando medidores simples (bocal. quando desejável. Estudou-se também uma descarga de fundo instalada em um dos túneis de desvio. O laboratório também teve uma contribuição importante para a definição do aerador do descarregador de cheias no túnel de Sabaneta (República Dominicana). Até no dia do fechamento. feito para o vertedouro de Emborcação foi também confirmado no protótipo. mas foi retomado como um estudo mais aprofundado para a tese de doutorado do então chefe da Divisão de Hidráulica. A pressão sobre a crista que deveria ser nula pelo conceito original. do engenheiro Júlio César Olinger que se preocupou em estudar as pressões nos degraus.A História das Barragens no Brasil .000 anos de 422 . (1982) na revista Water Power & Dam Construction (Aeration at High Velocity Flow). estava majorada pela presença da contracurva. concluiu-se que as pressões registradas na crista estavam totalmente a favor da segurança. Em 1991 realizou os primeiros ensaios de vertedouros em degraus para fins de pesquisa utilizando como projeto piloto o vertedouro de Cubatão. a sobrescavação do túnel e a rugosidade. O laboratório levou o programa adiante e efetuou estudos em modelos parciais de escalas maiores (1:15 a 1:8 – Figura 3) que culminou na publicação do trabalho: Pinto et al. orifício. XX e XXI Os desastres devido à cavitação ocorridos na calha do vertedouro de Karun do Irã e nos túneis americanos de Palisades e Yellowtail preocuparam o meio técnico e já se sabia que a solução é a aeração do escoamento. Analisando-se a crista do vertedouro que seguia aproximadamente o padrão US Army Corps of Engineers. o CEHPAR estava realizando testes para instruir o passo seguinte na obra. o perfil seria desenhado mais delgado de forma que a pressão final fosse razoável e garantisse uma boa capacidade de descarga. mais um engenheiro do CEHPAR defendeu sua tese de mestrado. Até então. Assim. Os estudos em modelo tornaram possível um dos mais complicados esquemas de fechamento do rio. Este estudo permitiu a caracterização do escoamento conhecido como skimming flow. Em conjunto com a COPEL. provocava um aumento excessivo das pressões que atingia a linha da crista. pitot. A crista do vertedouro foi redimensionada com uma carga de projeto 25% menor que a carga máxima de operação. de forma a produzir um escoamento mais próximo do esperado para o protótipo. Com estudos feitos posteriormente. Mas a contracurva. Estudo semelhante. estudando a possibilidade de se operar os vertedouros com degraus de grandes dimensões para fins de economia. Xingó foi outra usina que o CEHPAR veio a contribuir decisivamente. O laboratório teve a oportunidade de estudar os aeradores da calha do vertedouro de Foz do Areia e de medir a vazão correspondente de ar no protótipo. Estudos hidráulicos de Segredo e Xingó No estudo do desvio de Segredo os túneis foram reproduzidos por tubos de acrílicos dotados de rugosidades em forma de tiras. Coincidência ou não. as cristas tinham como carga de projeto a carga máxima de operação (enchente de 10. O mesmo pesquisador veio a atuar na pesquisa e desenvolvimento ANEEL para a Eletronorte. isto é.Séculos XIX. mas estavam prejudicando a sua capacidade de descarga. Esse estudo foi realizado a título de mestrado por um aluno que veio a desistir do curso. o CEHPAR sugeriu uma redução da carga de projeto da crista. conforme havia mostrado os russos no vertedouro de Nurek e Bratsk. engenheiro Marcos Tozzi. hoje muitas obras brasileiras adotam como padrão a carga de projeto igual a 75% da carga máxima de operação. O laboratório também se despertou no uso de modelo matemático (elementos finitos e elementos de contorno) para estudos dessa natureza. recorrência). A cavitação e aeração tornaram-se assuntos muito enfocados na época.

que veio trabalhando essencialmente com engenheiros civis. perfeitamente aceitável sob o ponto de vista da engenharia. Depois recebeu o desafio de estudar a comporta do aqueduto da eclusa de Porto Primavera. Mas o talento dos engenheiros fez surgir uma nova oportunidade 423 . que não se limitasse ao resgate manual dos peixes aprisinados. da tomada de água e do canal de fuga. Os ensaios mostraram que água acumulada nas vigas constituía um peso adicional exigindo que aumentasse a capacidade do servomecanismo. O laboratório reativou o modelo e prestou uma contribuição importante à usina. tendo em vista o cuidado com que as estruturas foram executadas.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Estudos hidráulicos para a hidroelétrica de Salto Caxias O modelo de Caxias foi o que permaneceu mais tempo no CEHPAR. que não apresenta semelhança física e não pode ser transposto ao protótipo. Foram estudados os problemas de desvio. do vertedouro. O material erodido e depositado a jusante (barra) tornou-se também um obstáculo para a saída dos peixes. Nos modelos de Itá e Machadinho foram realizados ensaios de erosão em rocha utilizandose materiais coesivos. como de praxe. O outro projeto que foi um desafio interessante foi o da definição do esforço no servomecanismo de acionamento da comporta da tomada de água de Tucuruí (Figura 9). Destaca-se. A título de pesquisa de mestrado. A COPEL procurou uma medida definitiva. Campos Novos. A conclusão foi que modelos muito pequenos não conduzem a bons resultados. tornou-se um problema para a usina devido ao aprisionamento de peixes nas fossas de erosão e em locas. Estudos hidrodinâmicos de movimentação de comportas O CEHPAR. o CEHPAR chegou a construir um modelo reduzido de Itá na escala 1:300 para verificar a viabilidade de estudo em modelo em escala mais reduzida visando a economia no estudo. de comportas. Machadinho e Barra Grande O CEHPAR teve a oportunidade de trabalhar com as obras catarinenses dos rios Canoas. com o engº Edie Taniguchi em primeiro plano Pesquisa e desenvolvimento: projetos ANEEL e modelos matemáticos A Divisão de Hidráulica passou por uma fase difícil no período em que no Brasil o ritmo de construção de usinas teve acentuada queda. Começou nos anos noventa e só foi demolido em 2010. Pelotas e Uruguai. Realizaram-se testes de abertura e de fechamento da comporta para extrair o atrito do modelo. realizando ensaios para várias alternativas de canais para a liberação dos peixes. teve a preocupação de contratar um engenheiro eletrônico para dar assistência à instrumentação. Neste projeto o grande problema foi o atrito do modelo da comporta. após o fechamento das comportas do vertedouro. Caxias representou o último grande estudo da fase do convênio entre a Universidade e a COPEL que terminou em maio de 2000. O CEHPAR estudou o downpull e catapultamento da comporta da tomada de água de Segredo. e a tão esperada redução do custo não ocorreu a contento. no entanto. em geral por efeito de escala mais pronunciados. Estudos das hidroelétricas de Itá. que a erosão a jusante do vertedouro. Esse engenheiro foi fundamental no desenvolvimento de ensaios hidrodinâmicos de movimentação Figura 9 – Estudo da Comporta de Fechamento daTomada de Água de Tucuruí – 2a fase.

ELETRONORTE. O modelo reduzido. A CERJ e a CEB foram as empresas que estudaram metodologias para repotenciação de usinas antigas. Atualmente o Centro faz um estudo sobre geração de energia alternativa. foi concluído que o rio tem um potencial de gerar uma vazão de 7. Ao estudar o habitat de peixes no projeto de P&D ANEEL da Chesf o CEHPAR deparou com o modelo RIVER 2D. o projetista foi forçado a sugerir uma configuração não convencional semelhante a um vertedouro lateral. Cambambe é uma obra da Angola que estava inacabada por anos. uma pesquisa aplicada ao rio São Francisco. Com a CHESF o Centro executou um interessante trabalho sobre a capacidade natatória de peixes. O modelo CFX deu origem a uma tese de mestrado de um bolsista LACTEC.500 m3/s. Com a COPEL o Centro desenvolveu um estudo sobre o uso de perfilador acústico ADCP como medidor de transporte de sedimentos e outro estudo sobre assoreamento de reservatório (parte de um projeto maior do CEHPAR). O Centro fez também um estudo do escoamento no rio Iguaçu para a usina de Baixo Iguaçu da COPEL. LIGHT. A passagem dessa vazão tornou-se requisito para o vertedouro. em cujo topo pretende-se instalar um vertedouro orifício. De certa forma essa é também uma contribuição importante do CEHPAR ao setor elétrico. As duas estruturas são objetos de estudo no CEHPAR.Séculos XIX. Para a Duke está sendo desenvolvido um equipamento para geração de energia elétrica. Está programado também implantar um vertedouro de encosta. do U. Army Corps of Engineers em uma aplicação à sua tese de mestrado e ao projeto de P&D ANEEL com a COPEL. Ituango e Gibe III A demanda de energia em vários países fez com que as empresas brasileiras encontrassem um excelente mercado. sendo necessária a operação sem comportas. Desde então muitos engenheiros passaram a usar esse modelo. Palomino. Paute Mazar no Equador foi 424 . CERJ. a COPEL. Um dos engenheiros começou os estudos em modelos matemáticos com o uso do modelo RMA. utilizando o HEC-RAS e o DELFT-3D. Depois a COPEL liberou mais dois projetos. Cambambe. Foram os projetos de pesquisa e desenvolvimento da ANEEL.A História das Barragens no Brasil . de vertedouro em degraus. Para a LIGHT o laboratório fez estudos sobre escadas de peixes. CEB e DUKE firmaram parcerias que deram oportunidades de pesquisa ao Centro. XX e XXI para Centro. Figura 10 – Modelo de Gibe III em operação uma dessas obras estudadas pelo CEHPAR. S. Principalmente a ELETRONORTE propiciou três estudos. um software livre bastante útil em projetos. sobre dissipadores de energia em fenda e pilares defletores e sobre vertedouros labirinto que haviam sido submetidos anteriormente. Para o rio Paute havia sido calculada uma vazão decamilenar de 2. Sendo o vertedouro construído em um reduzido espaço devido aos íngremes taludes das encostas. O modelo de Palomino (República Dominicana) trouxe um novo desafio. na escala 1:60 mostrou que essa configuração não é propícia e contribuiu na seleção de uma nova forma aceitável sob o ponto de vista técnico e econômico. Foi feita uma pesquisa para a COPEL um estudo sobre sedimentação na baia de Antonina utilizando o DELFT 3D. CHESF. em modelo reduzido construído na escala 1:70.340 m3/s. Assim. Modelos de Paute Mazar. Pela primeira vez o CEHPAR realizou um ensaio de purga de sedimentos conhecida como flushing. mas em vista de que já havia experimentado um desastre com rompimento de uma barragem natural formada pelos restos de um desmoronamento de encostas. O Coordenador do CEHPAR no período de 1999 a 2008 tomou uma iniciativa bastante positiva à Divisão de Hidráulica com a aquisição do modelo computacional DELFT 3D. vertedouro não convencional em curva e vertedouro de ogiva baixa. Trata-se de uma barragem de concreto em arco.

Modelo reduzido da hidroelétrica de Belo Monte O CEHPAR está iniciando os estudos para a terceira maior hidroelétrica do mundo. Os trabalhos dos serventes. a ser construída no Rio Xingu. visto que a de Itaipu está localizada na fronteira entre o Brasil e o Paraguai. Atrás do reconhecimento internacional do Centro de Hidráulica está o apoio imprescindível dos artífices que contribuem a cada dia com excelentes idéias dentro de suas especialidades. Os estudos se- Figura 11 – construção do modelo reduzido do sítio Pimental do AHE Belo Monte 425 . Construiu-se no laboratório um modelo com 4. pressões e erosão provocada pelo jato efluente e a operação da usina. pois uma boa maioria dos estagiários do CEHPAR escolhe o setor elétrico para desenvolver seus talentos. A seriedade. rão feitos em 5 modelos reduzidos e levará um tempo total de 3 anos. O laboratório fez questão de oferecer uma solução para realizar testes dinâmicos do sistema de refrigeração. incluindo a sua capacidade de descarga.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens O projeto Gibe III é uma contratação feita diretamente por uma empresa italiana que faz serviços para a obra a ser construída na Etiópia. O ponto forte do laboratório são ainda os estudos hidráulicos em modelos reduzidos. A Figura 11 apresenta o trabalho de construção do modelo principal (sítio Pimental) no pavilhão antes ocupado por 13 outros estudos. são responsáveis pela precisão dos resultados. levando em conta a inclusão iminente da unidade III. Segundo palavras do seu fundador. Está em estudo o desempenho do vertedouro.233 MW. professor Parigot. o “CEHPAR faz trabalhos úteis à sociedade. simulando paradas instantâneas das usinas e levando em conta as condições de maré na região de descarga da água. mas a privatização do laboratório tornou o grupo mais forte e fez descobrir que seus integrantes têm potencial para ampliar seus campos de atuação. e a medida dessa utilidade é a vontade da sociedade pagar por estes trabalhos”. pedreiros e artífices.5 m de altura. Observações finais O laboratório de hidráulica do CEHPAR faz questão de lembrar que os sucessos dos estudos em modelos reduzidos não se devem apenas aos engenheiros. O termo “pesquisa aplicada útil” sempre foi o foco do CEHPAR. o que fará dela a maior capacidade instalada em hidroelétrica inteiramente brasileira. Modelo reduzido do sistema de refrigeração da usina nuclear de Angra dos Reis A ELETRONUCLEAR procurou o Centro de Hidráulica para realizar os estudos em modelo reduzido do sistema de refrigeração da usina nuclear de Angra dos Reis. normalmente considerados modestos em outras áreas de atuação. A seleção de bons estagiários é uma contribuição importante para o setor elétrico. no Estado do Pará. Sua potência instalada será de 11. a humildade e o compromisso com a verdade têm ajudado em muito o CEHPAR.

Corumbá Marimbondo Serra Mesa Itumbiara .

com maior disponibilidade de execução de ensaios. Lyra concedeu a permissão para a aquisição. depois denominada Luiz Carlos Barreto. Os ensaios especiais eram contratados junto a laboratórios de empresas ou a institutos de pesquisa.Resumo histórico e atividades de pesquisa Resumo histórico O início dos ensaios especiais O ano de 1968 estava iniciando quando o Departamento de Obras de Furnas. Em Marimbondo outro jovem engenheiro.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Centro de Tecnologia de Furnas em Goiânia . O pedido de aquisição dos equipamentos e o trabalho sobre ensaios triaxiais percolou em sentido contrário ao anterior mas dessa vez atingindo a Diretoria Técnica. Funil e Nhangapi) laboratórios de campo apenas para os controles de liberação de obra. Até então Furnas mantinha nas suas barragens que na época estavam em estágios avançados de construção (Estreito. Com instruções de apenas tomar ciência antes do arquivamento. Flavio Miguez de Mello 427 . Os equipamentos foram instalados no acampamento de Marimbondo em 1968. obter informações necessárias e abundantes para o desenvolvimento dos projetos das hidroelétricas de Marimbondo e de Porto Colômbia cujos estudos preliminares indicavam grandes maciços de terra com extensas fundações em solo. a solicitação percolou sem despertar interesse no sentido do seu atendimento tendo por destino o seu arquivamento. para aquisição de equipamentos para ensaios triaxiais em amostras de solo. A documentação foi enviada para o engenheiro Humberto Pate coordenador do grupo de estudo dos novos projetos de Furnas. Esses foram os primeiros equipamentos de laboratório de Furnas além dos equipamentos de ensaios correntes em obras. Esse engenheiro preparou um trabalho com considerações teóricas sobre os diversos tipos de ensaios triaxiais e desenvolveu um estudo do aproveitamento da instalação desses aparelhos em laboratório próprio para. chefiado por Geofredo de Moraes. O engenheiro Flavio H. Pate entregou a documentação a um engenheiro recém formado que acabara de integrar o grupo dos novos projetos. A referida solicitação foi enviada ao Departamento de Engenharia chefiado por Franklin Fernandes Filho que passou a documentação para a Divisão de Engenharia Civil sob o comando do engenheiro Adolfo Szpilman. os aproveitamentos de Porto Colômbia e de Marimbondo. além de prever a aplicação em eventuais projetos futuros. Ao longo desse percurso. com pouca perda de carga. recebeu uma solicitação vinda da obra da hidroelétrica de Estreito. Agenor Bailão Galletti ficou encarregado do laboratório de solos.

Figura 1 – Engenheiro Walton Pacelli de Andrade. não tenha trabalhado com o DCT e aqui relata o início dessa história de sucesso. tendo como assistente o engenheiro Nelson Caproni que acumulava a chefia dos laboratórios de solos e rocha. ele ficou sempre ligado profissionalmente à engenharia de barragens embora.A História das Barragens no Brasil . tendo sido decidida pela instalação em área anexa à subestação de Furnas. Em 1975 os laboratórios de solos e de concreto foram transferidos para Itumbiara onde Furnas passou a implantar sua maior hidroelétrica. Três locais foram considerados: Brasília. Nessa época estava começando a obra da hidroelétrica de Serra da Mesa e em seguida Corumbá. Com a aposentadoria dos engenheiros Pacelli e Caproni em dezembro de 2002. A construção inicial foi concluída em 1985 já abrigando também o laboratório de mecânica de rochas.Séculos XIX. Flavio H. XX e XXI Os laboratórios nos seus primeiros anos Em 1969 Furnas acelerava as obras e montagens da hidroelétrica de Funil para que pelo menos uma das três unidades entrasse em operação antes do fim do ano para que os custos de construção já incidissem na tarifa do ano seguinte. Figura 2 – Ambiente de trabalho no DCT As instalações definitivas Com o término da obra de Itumbiara foi pensada a criação de um centro tecnológico. entre outros. O DCT passou a dar crescentes e importantes contribuições técnicas para os projetos e obras. que incorporasse o engenheiro Walton Pacelli de Andrade para atuar na tecnologia do concreto nas novas obras que se iniciavam. Quanto ao engenheiro recém formado mencionado acima. De 1970 a 1975 Pacelli melhorou a capacitação do laboratório de concreto com a instalação de prensas de grande capacidade e estudos de propriedades térmicas. Inicialmente o centro foi comandado pelo engenheiro Ludgero Pimenta de Ávila. expoente na construção de barragens. É importante realçar as contribuições dos consultores Roy Carlson e Paulo Monteiro para o DCT e os laboratórios que o antecederam. Na fase de Itumbiara houve expansão da capacidade dos laboratórios. assumiu a chefia do DCT o engenheiro Rubens Machado Bitencourt. tendo sido presidente do Instituto Brasileiro do Concreto IBRACON. Belo Horizonte e Goiânia. em Goiânia. superintendente das obras do rio Grande. por capricho do destino. Lyra recomendou a Rubens Vianna de Andrade. destaque na tecnologia do concreto e Epaminondas Mello do Amaral Filho. A usina entrou em operação comercial nos últimos dias de dezembro de 1969. cargo que exerce presentemente (agosto de 2011). A partir de dezembro de 1992 o centro foi chefiado já em nível de departamento (Departamento de Apoio e Controle Técnico – DCT) pelo engenheiro Walton Pacelli de Andrade que acumulava a chefia do laboratório de concreto. A destacada atuação do engenheiro Pacelli no DCT projetou-o como consultor no País e no exterior. presidente do CBDB e do IBRACON 428 . Com a obra tendo sido concluída em 1970.

em operação. UnB. direcionadas aos novos empreendimentos com foco nas aplicações de engenharia civil e correlatas. Posteriormente. UFG. Em meados dos anos noventa. Possui alguns diferenciais. único do mundo em funcionamento. capaz de executar pistas experimentais de concreto compactado com rolo em laboratório. o DCT implantou e inaugu rou o seu laboratório de mecânica das rochas. tendo como intuito o incremento do 429 . esta tecnologia foi intensificada com a aplicação da metodologia do concreto compactado com rolo na construção das ensecadeiras galgáveis da barragem de Serra da Mesa. como por exemplo: O único equipamento do mundo. Ao longo de sua história. também em meados dos anos noventa.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Atividades de pesquisa do DCT Furnas constituíu o DCT. A área de instrumentação e segurança de barragens com a certificação ISO 9001 Sistema de gestão implantado com reconhecimentos obtidos desde o ano de 1994. possibilitando a obtenção da acreditação junto ao Inmetro em 1994 e a sua certificação ISO 9000 no ano de 1996. desenvolvimento e inovação. como a COPPE/UFRJ. diversos ensaios na área de geotecnia iniciaram o processo de informatização e automação. no final da década de 90. unidade criada para atuar no desenvolvimento de serviços tecnológicos e atividades de pesquisa. dentre outras. Realização de pesquisas e desenvolvimentos em parceria com as principais universidades e centros de tecnologia do Brasil. um laboratório singular. PUC-RJ. Europa e África. USP. certificação segundo as normas da série ISO 9000 e premiações pelo Prêmio Nacional da Gestão Pública do Governo Federal. No início dos anos noventa os processos foram mais bem estruturados dentro de padrões internacionais de gestão da qualidade. Extraido de texto redigido pela equipe do DCT No limiar da década de 70. os laboratórios também participaram de estudos e desenvolvimentos da tecnologia para as usinas hidroelétricas Itaipu e Tucuruí. de cisalhamento e de compressão unidirecional em rochas. Em paralelo. O mais bem equipado laboratório do Brasil na área de mecânica das rochas e enrocamento. O DCT é hoje reconhecido nacionalmente como uma das mais importantes instituições tecnológicas em sua área de atuação. implicando em relevantes benefícios de segurança no empreendimento. UFSC. UFRGS. que possibilita um conjunto de análises aplicadas que vão desde a análise em nível microscópico por análise eletrônica de varredura até a análise de resistência por meio de ensaios triaxiais. A partir dos anos 90 consolidou-se com a participação em mais de 200 empreendimentos hidrelétricos no seu acervo de serviços prestados em países da América. o DCT sempre procurou identificar e acompanhar os avanços necessários à superação dos desafios que a evolução do setor de energia impunha. Ao final da década de 80. foi implantado e inaugurado o laboratório de concreto compactado com rolo. incluindo-se acreditações junto ao INMETRO. Diversos estudos para a construção de barragens de enrocamento com face de concreto foram desenvolvidos com o apoio desse laboratório. Alguns exemplos destes avanços são descritos a seguir. além da central nuclear de Angra dos Reis que já se encontrava em curso e que demandava padrões de garantia de qualidade estabelecidos pela Agência Internacional de Energia Atômica.

juntamente com o setor de análises de materiais. sinalizando no momento atual desenvolvimentos ainda maiores. buscando o domínio e aplicação de técnicas em tecnologia dos materiais em nano e microtecnologia. O primeiro está basicamente sob a responsabilidade da projetista e o segundo basicamente sob a responsabilidade da construtora. quando obteve a extensão do escopo certificado segundo a ISO 9000 para essa atividade. cimento. adequadamente gerenciados. Análises que chegam próximo ao nível nano possibilitaram o desenvolvimento de competências únicas no Brasil nesta área. além de avaliar a qualidade especificada dos materiais utilizados nas obras civis. por toda sua vida útil.A História das Barragens no Brasil . que em casos de barragens estima-se da ordem de 100 anos. XX e XXI desempenho em prazos. ampliando a busca de agregação de valor por este centro de tecnologia. No final dos anos noventa e no início da década seguinte. Dando continuidade a conhecimentos técnicos pré–existentes na análise da microestrutura dos materiais. conduz estudos e pesquisas de materiais para subsídios ao projeto. o DCT intensificou. prevenção e correção de reações álcalis-agregado e também na área de sulfetos. os projetos de P&D desenvolvidos possibilitaram o exercício de um importante papel na construção da usina hidroelétrica Foz do Chapecó. Do ponto de vista tecnológico. o DCT desenvolve um conjunto de estudos e pesquisas avançadas. O adequado emprego dos materiais disponíveis nos locais onde os grandes empreendimentos deverão ser construídos leva à otimização de estruturas. empreendimento que utilizou a solução do núcleo asfáltico pela primeira vez no País. Dentro desta área de competência encontram-se estruturadas as seguintes linhas de trabalho: Ensaios físicos de caracterização de rochas. água e asfalto. aditivos. para as obras civis. na segunda metade dos anos noventa. A proficiência e a competência nesta nova linha de trabalho foi reconhecida em 2004. Uma intensa atividade de pesquisa e desenvolvimento foi desenvolvida aproveitando os estímulos trazidos pela lei 9. possibilitou o exercício do papel de controle e apoio tecnológico à execução dessa solução de engenharia. o desenvolvimento de pesquisas na área de durabilidade de estruturas. A junção destes três pilares. anterior ao empreendimento. à redução de impactos ambi entais e a estruturas mais seguras e mais duráveis. Visando aprimorar o conhecimento dos materiais e dos métodos construtivos a serem implementados nos diversos empreendi mentos da empresa. que desempenhará suas funções com o mínimo de intervenções externas pela equipe de ma nutenção. à redução de custos. com destaque para técnicas de diagnóstico. O co nhecimento das características técnicas dos materiais do local do empreendimento permite subsidiar análises de custo. à construção e à otimização do custo final do empreendimento. fica sob a responsabilidade da equipe do controle tecnológico. pela dinâmica que é a escolha e emprego dos materiais.991 e outras que se seguiram. Análises químicas para caracterização dos materiais de construção. O desenvolvimento de um projeto de P&D desta tecnologia. outra área que ganhou impulso foi a de instrumentação e auscultação de barragens e estruturas anexas. A atuação da equipe do controle tecnológico durante a construção. Análises microscópicas e mineralógicas. incluindo reatividade potencial. O aprimoramento de tecnologias existentes e o desenvolvimento de outras novas tecnologias se seguiram desde então. a utilização de métodos e técnicas construtivos adequados e a qualidade e uso dos materiais empregados.Séculos XIX. prazo e qualidade global das estruturas. Três pilares sustentam bons empreendimentos no que tange à sua qualidade: um bom projeto. areias. permite a obtenção de um empreendimento “saudável”. O terceiro pilar. custos e confiabilidade dos resultados e análises realizados. O DCT possui equipe qualificada e infraestrutura adequada para o desenvolvimento deste processo. Estes estudos possibilitam os seguintes diferenciais competitivos: 430 .

o seu conhecimento e a sua cultura. Baseado na premissa de que nos tempos atuais. Confiabilidade metrológica e calibração de instrumentos de medição. Tecnologia do Ambiente Construído. Capacitação e treinamento voltados aos empreendimentos e às atividades de tecnologia. Essa área de competência tem os seguintes produtos principais: Padrões de trabalho adequados e atualizados.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Dentro desta área de competência encontra-se estruturadas as seguintes sub-áreas: Ensaios Especiais. são os seguintes: Estudos e pesquisas avançadas como subsídios às otimizações de projeto e de custos dos empreendimentos. Uma das áreas de competência decorrente desta atividade é a de confiabilidade metrológica. Assessoria em tecnologias de gestão. Desenvolvimento de Novas Soluções de Engenharia. Os principais produtos entregues. Vista aérea do DCT 431 . como elementos agregadores de valor aos serviços prestados. Estudos e pesquisas do ambiente construído voltado às instalações de FURNAS. a base para o sucesso de qualquer organização. por intermédio da qual se busca a garantia e a precisão de todos os processos de medição técnica voltados aos empreendimentos. é o capital humano. em consonância com as equipes técnicas em todas as áreas de atuação do DCT é implementado e desenvolvido um conjunto de atividades que visam à identificação de necessidades e demandas de co nhecimento e capacitação. no âmbito desta área de competência. dos empreendimentos em construção e à sociedade. em especial na área de serviços.

Ensaio em modelo reduzido e o protótipo em operação .Sangradouro do açude de Orós.

Seu fundador desenvolveu técnicas de projetos de saneamento que vieram a ser adotadas em países como França. decidiu criar. já então sob a supervisão direta de Theophilo Benedicto Ottoni Neto (Porangaba. A partir do final da década de 40 a empresa desenvolveu diversos estudos hidrológicos e hidráulicos aplicando técnicas inovadoras no Brasil para a época como foi o caso da utilização do método do hidrograma unitário nos estudos hidrológicos do rio Joanes. Presidiu o Clube de Engenharia do Rio de Janeiro e foi membro de várias outras associações como ASCE (American Society of Civil Engineers) e AWWA (American Water Works Association). ainda ligado ao Escritório Saturnino de Brito. com o aumento no volume de serviços. Saturnino de Brito Filho. Há indicações de que o Escritório Saturnino de Brito foi a primeira empresa constituída no Brasil com a finalidade específica de atuação na engenharia consultiva tendo sido responsável. na zona sul da cidade do Rio de Janeiro. no centro da cidade do Rio de Janeiro. Em 1946. Desenvolveu ao longo da vida intensa atividade em associações de engenheiros tendo sido fundador da FEBRAE (Federação Brasileira de Associações de Engenheiros) e da UPADI (Associação Panamericana de Associações de Engenheiros).Rio de Janeiro. o laboratório de hidráulica. com o apoio de seu assistente Theophilo Benedicto Ottoni Neto. Formado em 1º lugar na turma de 1923 da Escola de Minas de Ouro Preto foi professor catedrático da cadeira de Higiene e Saneamento da Escola Politécnica da Universidade do Brasil e teve onze livros publicados. pelo projeto de saneamento básico de várias cidades brasileiras. responsável.CINQUENTA ANOS DO COMITÊ BRASILEIRO DE BARRAGENS O Laboratório de Hidráulica HIDROESB – Saturnino de Brito SA Luiz Felipe Pierre O HIDROESB – Saturnino de Brito SA . 1977). onde havia espaço suficiente para expandir suas atividades. até hoje. embrião do que viria a se transformar no Hidroesb. o Escritório passou a ser dirigido por Francisco Saturnino de Brito Filho (Campos dos Goytacazes. pela captação de parcela significativa da água potável consumida na cidade do Rio de Janeiro e pelo projeto do sistema hidráulico de renovação das águas da lagoa Rodrigo de Freitas. no sub-solo do prédio ocupado pelo Escritório Saturnino de Brito. 2009). 1864 – Pelotas. Em 1959.foi a mais importante instituição privada de hidráulica experimental no Brasil. Na década de 50 a empresa foi pioneira na realização das primeiras medições de descarga sólida em rios brasileiros e foi responsável por projetos de destaque como a tomada d’água do rio Guandu. o primeiro laboratório de hidráulica do país. Após a morte de seu fundador. no estado da Bahia. 1899 – Rio de Janeiro. Ceará. então recém formado. se transferiu para uma grande área no bairro do Andaraí. Inglaterra e Estados Unidos. no Rio de Janeiro. Sua origem remonta ao Escritório Saturnino de Brito fundado por Francisco Rodrigues Saturnino de Brito (Campos dos Goytacazes. 1921 . 1929) considerado o “Patrono da Engenharia Sanitária Brasileira”. desde o final do século XIX. 433 .

páginas 68 a 70. Seu maior destaque. no rio Paraíba do Sul.A História das Barragens no Brasil . modelos para estudos especiais como as eclusas do AHE Tucuruí e do AHE Boa Esperança Figura 1 .293 a 300. Boa Esperança. todos no rio Grande. hidrometria e sedimentometria bem como a estudos e projetos hidráulicos. O Hidroesb construiu. ministro de viação e obra públicas. no rastro dos grandes projetos que o País desenvolveu na época.Juarez Távora. se deu no campo da hidráulica experimental. no rio Jaguaribe. em Volta Redonda e para a usina termoelétrica de Santa Cruz. Na década de 60 o Hidroesb realizou projetos e estudos hidráulicos em modelo reduzido de tomadas d’água para fins industriais para as instalações da USIMINAS.123 a 128). Nas décadas de 60 e 70 desenvolveu estudos hidráulicos em modelo reduzido de vários dos mais importantes aproveitamentos hidroelé tricos projetados na época dentre os quais Estreito. também.Main Brazilian Dams II pág. ouvindo a explicação do professor Theophilo B. para a CSN. CBDB . No ano de 1962 desenvolveu os estudos hidráulicos em modelo reduzido e os projetos hidráulico e estrutural para reconstrução do sangradouro do açude de Orós. no rio Piracicaba. no canal de São Francisco. em Ipatinga. no rio Uatumã.Séculos XIX. no Rio de Janeiro. empresa independente do Escritório Saturnino de Brito. Porto Colômbia e Ma rimbondo. Grandes Vertedouros Brasileiros pág. que havia sido destruído por uma cheia ocorrida em 1960 (ver ICOLD – “Lessons from Dam Incidents” – 1974. XX e XXI Em 1965 foi criado o Laboratório Hidrotécnico Saturnino de Brito SA . A nova empresa se dedicou a estudos de campo nas áreas de topografia. no rio Doce. Ottoni Netto sobre o modelo reduzido do vertedouro de Orós 434 . porém. Volta Grande. no Ceará. Jaguara. no rio Parnaíba e Balbina. Mascarenhas.Hidroesb.

atuou profissionalmente na área da Educação Superior e na prestação de ser viços de Engenharia Consultiva. PUC. Pelo pioneirismo de sua atuação o Hidroesb deu importante contribuição ao desenvolvimento da engenharia hidráulica no país. Hidrologia Geral. Ecologia Aplicada e Engenharia Sanitária. Hidrologia. Em 1978 a empresa teve sua razão social alterada para Hidroesb – Saturnino de Brito SA. desempenharam importante papel na evolução da engenharia hidráulica e na formação de novos profissionais na área. UFF. Hidrotécnica. Engenharia Costeira. em universidades como UFRJ. Saneamento Ambiental. ministrou aulas em cursos de graduação e pósgraduação. Planejamento Integrado dos Recursos Hídricos. Foi professor titular e emérito da UFRJ. O Hidroesb e o professor Theophilo Benedicto Ottoni Netto. Recursos Hídricos. vice-presidente da Associação de Antigos Alunos da Politécnica. professor Theophilo Ottoni. como Escola Técnica do Exército (Ministério da Guerra). Controle de Enchentes e de Secas. Saneamento. Como docente. do Conselho de Pesquisas e Ensino para Graduação da UFRJ. Empreendimentos Hidráulicos. 435 . membro do Conselho de Curadores da UFRJ. envolvendo Hidráulica. Perenização e Regularização Fluvial. do Conselho Diretor da Fundação de Ensino Especializado de Saúde Pública e coordenador da Sub-Comissão da Associação Brasileira de Normas Técnicas para Projeto de Construção de Órgãos Auxiliares de Barragens. com a sua experiência prática de engenharia e acadêmica de professor pesquisador. Seu principal executivo. Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz e SUDENE. Fluviometria. chefe do Departamento de Hidráulica e Saneamento do Curso de Engenharia Civil da UFRJ.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 2 . UnB e em instituições oficiais. Aproveitamentos Hidroelétricos. em temas de Hidráulica.Professor Theophilo Benedicto Ottoni Netto tendo à sua esquerda os engenheiros Lúcio Washington e Olívio Kalckman e a tomada d’água do AHE Fur nas visando avaliar a possibilidade de redução da cota do seu nível mínimo operativo. Abastecimento d’Água de Cidades e Impactos Ambientais.

436 .

que designou uma comissão para criação deste novo instituto em 7 de agosto de 1953. Barragem Bom Retiro do Sul (Figura 5). estudos e treinamento que atuasse nos 437 . de pesquisa. de que havia necessidade do domínio da técnica dos modelos reduzidos. em função de uma idéia circulante na Escola de Engenharia e na Secretaria de Obras Públicas do Estado do Rio Grande do Sul. incluindo o Laboratório de Ensino. na então Universidade do Rio Grande do Sul. navegação. todos os prédios do projeto original (Figura 1) estavam concluídos e operando. pois a universidade aprovou. que começou em 1956 para o DEPRC (Figura 2) com a ajuda de pesquisadores franceses. termina do em 1955 e inaugurado oficialmente em 1957 pelo Presidente Juscelino Kubitschek. de extensão e de prestação de serviços em hidráulica. planejado pelo engenheiro Pierre Engeldinger do Laboratoire National d’Hydráulique de Chatou .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens O Instituto de Pesquisas Hidráulicas . a localização da nova Cidade Universitária junto à área destinada à implantação do IPH. irrigação.França. A conjuntura histórica da época ajudou nesse objetivo. fluviais. entre outros. O primeiro prédio do IPH foi o Pavilhão Marítimo. seus anseios tiveram eco no reitorado do Professor Elyseu Paglioli. tais como: Travessia do Delta do Jacuí para o DAER (Figura 3). Barragem do Arroio Duro para o DNOS (Figura 4). também em 1953. O primeiro trabalho realizado foi sobre o estudo da desembocadura do Rio Tramandaí.IPH Marcelo Giulian Marques. hidroelétricas e assemelhados na região sul do Brasil e da América Latina. recursos hídricos e meio-ambiente atuando ativamente em diferentes setores (elétrico brasileiro. abastecimento de água. em função de um oficio do professor Adolfo Laranjeira Mariante solicitando a criação de um centro destinado às questões hidráulicas. Vários docentes de então atuavam simultaneamente na referida secretaria e na universidade. assim como de um laboratório de hidráulica para ensino. Figura 1 – Vista geral do Instituto de Pesquisa Hidráulicas da UFRGS (1962) Um breve histórico O Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) é o instituto das águas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). entre outros). Em seguida outros estudos foram realizados em modelo reduzido. Em 1962. realizando atividades de ensino. Desta forma. Luiz Augusto Magalhães Endres e André Luiz Lopes Silveira setores das obras marítimas. A sua criação tomou corpo em 1953.

Barragem Bom Retiro do Sul (DEPREC) .Séculos XIX.Barragem do Arroio Duro (extinto DNOS) – estudo do vertedouro 438 . Figura 4 . XX e XXI Figura 3 .escoamento com comporta de fundo e lâmina vertente.estudo da proteção com enrocamento – DAER Figura 2 .A História das Barragens no Brasil .Vista do modelo da travessia do Jacuí (DAER) .Desembocadura do rio Tramandaí RS – DEPREC Figura 5 .

Rio Jacuí –RS (Figura 8). em 1969.Rio Taquari . atuando no ensino (técnico.ex-Usina Hidroelétrica do Jacuí . modelos reduzidos de obras hidráulicas. usina hidroelétrica Dona Francisca 1º arranjo de obra (Figura 7) . usina hidroelétrica Passo Fundo – rios Passo Fundo e Erechim . e está em fase de implantação o curso de engenharia hídrica. 439 .RS Figura 6 . graduação e pósgraduação) e apoiado por ampla atividade em pesquisa e extensão. Rios e Canais (DEPRC) Barragem de Bom Retiro do Sul .RS * Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE) – Barragem do Anel de Dom Marco – Rio Jacuí (Figura 6). tem um acervo de centenas de trabalhos de prestação de serviços à comunidade nas áreas de hidráulica. Cerca de um terço destes trabalhos são referentes ao setor elétrico brasileiro e as obras hidráulicas ligadas a barragens. abastecimento de água. entre outros.Barragem do Arroio Ribeiro -RS * Instituto de Pesquisa Hidráulicas (IPH) . juntamente com a reforma universitária de 1970 marca uma segunda fase do IPH. usina hidroelétrica Leonel de Moura Brizola .Rio Jacuí –RS. e a meta: “A capacitação de indivíduos e de instituições aptas a lidar com os problemas que envolvem o uso da água”. completando efetivamente todos os níveis de ensino e diplomação. Em função da visão de tratar de maneira mais ampla os recursos hídricos.AHSUL .usina hidroelétrica Machadinho (1º arranjo de obra) – Rio Pelotas –RS (Figura 10) * Garcia de Garcia . que passa a ser um instituto de pesquisas também em recursos hídricos e saneamento ambiental. irrigação. atuando ativamente em diferentes setores: hidrelétrico. Esse convênio com a UNESCO. foi implantado o curso de engenharia ambiental.RS * ELETROSUL . usina hidroelétrica Passo Real . ainda hoje. Destes. sobretudo franceses. com apoio de pesquisadores estrangeiros. o IPH também se tornou um pólo de capacitação e pesquisa em hidrologia no âmbito do Decênio Hidrológico Internacional 1965-1975. único na América Latina. O IPH.rio Santa Cruz.Barragem do Anel de Dom Marco Rio Jacuí . Barragem Laranjeira .RS * Departamento Estadual de Portos. Em 2006.escoamento no vertedouro As pesquisas O IPH como instituto de pesquisa sempre teve a visão: “O uso da água com sustentabilidade. usina hidroelétrica Salto Grande – Rio Santa Cruz .RS. Desta forma.Rio Jacuí –RS. usina hidroelétrica Itaúba . pr eser vação e conser vação” . com o apoio da UNESCO. navegação. podendo-se citar: * Administração das Hidrovias do Sul . 15 foram estudos em modelo reduzido de barragens.RS (Figura 5) * Departamento Nacional de Obras de Saneamento (DNOS) Barragem do Arroio Duro –RS (Figura 4) * Departamento Nacional de Portos e Vias Navegáveis (DNPVN) .Rio Jacuí – RS (Figura 9).Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Os anos 60 consolidam o IPH como referência nacional e sulamericana para estudos hidráulicos. foi criado o curso de pós-graduação do IPH e o Curso Técnico em Hidrologia. até o presente momento.Barragem do Arroio Mãe D’água .Barragem do Anel de Dom Marco (CEEE) . Em 1989 o doutorado foi implantado no seu programa de pós-graduação.Barragem eclusa do canal São Gonçalo Lagoa dos Patos e Lagoa Mirim . de recursos hídricos e de meio-ambiente. além de dar novo impulso e amplitude às pesquisas.

XX e XXI Figura 7 – Usina hidroelétrica Dona Francisca (CEEE) 1º arranjo escoamento no vertedouro Figura 8 – Usina hidroelétrica Itaúba (CEEE) – erosão a jusante do salto de esqui 440 .Séculos XIX.A História das Barragens no Brasil .

Figura 9 – Modelo da usina hidroelétrica Leonel de Moura Brizola . à qualidade. necessárias para uma abordagem integrada dos problemas que envolvem os recursos hídricos ligados à quantificação. influenciando diretamente os projetos e a operação das barragens e do setor elétrico. Para isso reuniu e busca atualizar o seu conhecimento para: * Avaliar as disponibilidades desses recursos. * Preservar a sua qualidade e * Promover a gestão integrada dos mesmos.apresentação do modelo pela equipe do IPH durante vista técnica Isto levou o IPH a desenvolver uma ampla gama de especialidades nas ciências da água. da forma mais eficiente possível.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 10 – Usina hidroelétrica Machadinho (ELETROSUL) – escoamento pelo vertedouro. 441 . * Projetar obras e sistemas para aproveitá-los. ao armazenamento e ao controle das águas fluviais.ex-Jacuí (CEEE) .

A História das Barragens no Brasil . o IPH (http://www. o IPH vem desenvolvendo projetos através do seu Laboratório de Obras Hidráulicas (LOH). * desenvolver.br/apresentacao/) conta com diferentes laboratórios e núcleos de pesquisa que trabalham de forma integrada nas diferentes áreas dos recursos hídricos: * Laboratório da Estação Recuperadora da Qualidade da Água da UFRGS (ERQA) * Laboratório de Clima e Recursos Hídricos * Laboratório de Eficiência Energética e Hidráulica (LENHS) * Laboratório de Engenharia de Água e Solo * Laboratório de Ensino de Hidráulica * Laboratório de Hidráulica Marítima (LAHIMA) * Laboratório de Hidrometria * Laboratório de Instrumentação e Canal de Velocidade * Laboratório de Limnologia * Laboratório de Obras Hidráulicas (LOH) * Laboratório de Processos Erosivos e Deposicionais * Laboratório de Saneamento * Laboratório de Sedimentos * Núcleo de Águas Urbanas * Núcleo de Estudos em Correntes de Densidade (NECOD) * Núcleo de Estudos em Transição e Turbulência (NETT) * Núcleo de Planejamento e Gestão de Recursos Hídricos Aproximadamente 35 pesquisas desenvolvem-se regularmente nesses laboratórios e núcleos. foram desenvolvidas nove teses e mais de dezesseis dissertações.br/handle/10183/2). obras hidráulicas. Na área de pesquisa e desenvolvimento (P&D) relacionados a empreendimentos no setor elétrico. * desenvolver ferramentas e metodologias de previsão de esforços hidrodinâmicos provocados pelo escoamento. Vertedouro em Degraus e Salto esqui a Jusante de comportas. Há participação efetiva dos professores e alunos nos principais eventos na cionais e internacionais no domínio das águas. planos nacionais e estaduais de recursos hídricos e de meio-ambiente.iph.ufrgs. Entre os trabalhos dos últimos 10 anos referentes diretamente ao setor elétrico brasileiro e as obras hidráulicas ligadas às barragens.Mecanismo de Transposição para Peixes (MTPs).ufrgs. * desenvolver linhas de pesquisa na área de eficiência energética e hidráulica. aprimorando os conhecimentos sobre fenômenos hidráulicos.lume. O acervo de dissertações de mestrado e teses de doutorado do curso de pós-graduação do IPH é resumidamente de cerca: 110 teses de doutorado e 315 dissertações (http://www.Séculos XIX. seguras e de menor custo para o dimensionamento de obras hidráulicas. As pesquisas têm sido desenvolvidas dentro das seguintes Linhas Mestras: * Esforços Hidrodinâmicos: em Dissipadores de Energia Hidráulica e a Jusante de comportas. a fim de gerar soluções técnicas que sejam eficientes. assim como nos principais fóruns de discussões sobre hidráulica. Esses projetos de P&Ds visam: * compreender os processos físicos envolvidos nos fenômenos hidráulicos. * Vibração em Estrutura Hidráulica em Cilindro e em Comporta. XX e XXI Hoje. * Transientes Hidráulicos em Usinas Hidroelétricas e em Eclusa. * Eco Hidráulica . 442 . com cerca de 150 publicações anuais entre periódicos e anais de eventos. verificar e comparar os critérios de dimensionamento existentes na literatura.

Figura 11 .em desenvolvimento Estudo dos processos geomecânicos provocados por esforços hidrodinâmicos em fossas de erosão a jusante de saltos de esqui . aplicados a barragens no setor elétrico estão listados acima.em desenvolvimento (Figura 16) Padrões de vibração em estruturas hidráulicas por ação de escoamentos (Figura 17) Transientes hidráulicos em circuitos de usinas hidroelétricas Utilização de modelos numérico e experimental para dimensionamento e otimização de bacias de dissipação Parceiros LAHE/FURNAS INA e IST (colaboradores) DFESA IST (colaborador) LAHE/FURNAS e UFMG URI e UNISINOS (colaboradores) CPH/UFMG IST (colaborador) LAHE/FURNAS UFSM (colaborador) LAHE/FURNAS IST (colaborador) DFESA IST (colaborador) LAHE/FURNAS. (Figura 12) Análise do comportamento hidráulico dos sistemas de enchimento e esgotamento de eclusas de navegação (Figura 13) Análise do escoamento em mecanismo de transposição para peixes – MTPs (Figura 14) Análise dos processos físicos envolvidos na formação de fossas de erosão em leito Coesivo a jusante de salto de esqui .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Titulo do P&Ds Análise da macro turbulência em dissipadores por ressalto hidráulico (Figura 11) Análise das características macro turbulentas ao longo da calha de um vertedouro em degrau e no ressalto hidráulico formado a jusante.Análise de vibrações induzidas pelo escoamento sobre uma comporta 443 . PUC/Rio e UFMG UFSM (colaborador) LAHE/FURNAS LAHE/FURNAS e IME LAHE/FURNAS e IME Os P&Ds desenvolvidos ou em desenvolvimento nos últimos 10 anos pelo LOH.em desenvolvimento (Figura 15) Características de escoamentos sobre vertedouros em degraus Determinação das características geométricas da soleira terminal em bacias de dissipação a jusante de vertedouro em degraus .

Séculos XIX.A História das Barragens no Brasil . Figura 14 – Análise do escoamento a jusante de uma comporta tipo segmento invertida de uma eclusa 444 . XX e XXI Figura 12 – Análise da macro turbulência em dissipadores por ressalto hidráulico Figura 13 – Análise das características macro turbulentas ao longo da calha de um vertedouro em degrau e no ressalto hidráulico formado a jusante.

445 . a qualidade.Análise das pressões dinâmicas em um jato direcionado Figura 15 – Análise do escoamento em mecanismo de transposição para peixes – MTPs Em resumo. o controle e a gestão deste recurso de maneira a tornar os empreendimentos sustentáveis. o armazenamento. o IPH construiu uma história voltada às águas buscando a quantificação.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 16 – Análise das pressões dinâmicas a jusante de um salto esqui Figura 17 .

446 .

Ensaio de cisalhamento de grandes dimensões do maciço rochoso num bloco de rocha de 6 m x 6 m de seção por 4 m de altura. no rio Paranapanema. realizou.IPT Carlos de Sousa Pinto. na caracterização das jazidas naturais. Pichler iniciou a prática de estudos geológicos para projeto e construção de barragens baseados em sondagens rotativas adaptadas aos fins de engenharia civil. realizado em Ilha Solteira em 1969. Ainda no final da década de 1940. Paraíba. este. o IPT teve atuação relevante no desenvolvimento das barragens no país. na determinação das propriedades de comportamento de solos. como pelo seu papel de difusor de conhecimentos técnicos. CELUSA – Centrais Elétricas de Urubupungá SA. o engenheiro Mario Brandi Pereira. .O. o primeiro laboratório de solos a se dedicar ao apoio tecnológico das barragens no Brasil. professor da Escola Politécnica do Rio de Janeiro. Mas a atuação mais marcante do IPT nas obras de barragens passou a ocorrer a partir da década de 1950. No ano seguinte. em Campina Grande.N. dando origem à CESP – Companhia Energética de São Paulo. no controle de execução dos maciços de terra e das estruturas de concreto e no monitoramento das obras. as barragens de Poço Preto e Piraçununga. A participação do IPT se desenvolveu nas áreas de geotecnia. Esta atuação se realizou no reconhecimento geológico dos locais. em 1938.S. na cons trução da Usina de Salto Grande. após estagiar no IPT. o primeiro ensaio de perda d’água sob pressão em furo de sondagem. destacou-se a atividade do engenheiro Ernesto Pichler. USELPA – Usinas Elétricas do Paranapanema e de outras que foram unidas. pioneiro da geologia aplicada às obras hidráulicas. geologia de engenharia. com a construção de usinas hidroelétricas construídas no estado de São Paulo pelas empresas CHERP – Centrais Elétricas do Rio Pardo. tanto pelo seu envolvimento direto em muitas obras. na barragem de Barra Bonita (rio Tietê). O maior ensaio in situ de resistência ao cisalhamento feito no mundo 447 . sem dúvida.C.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens O Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo . Nos levantamentos geológicos dos locais das obras. Em 1953.Inspetoria Nacional de Obras Contra a Seca. além da consultoria técnica na formulação e a adaptação dos projetos durante a construção. dando as primeiras contribuições ao avanço da área de hidrogeologia no País. Ronaldo Rocha e Antonio Marrano Pela sua característica de instituto pioneiro no Brasil na tecnologia da engenharia civil. Geotecnia e geologia de engenharia Um exemplo do papel difusor de conhecimentos do IPT se fez notar logo após a fundação de sua Seção de Solos. concreto e estruturas. o IPT estudou fundações e solos de empréstimo para duas pequenas barragens de terra. No início da década de 1940. que já em 1947 havia publicado um conjunto de conferências intitulado “Elementos básicos de Geologia Aplicada”. rochas e agregados para concreto. fundou o laboratório da I.

diversas pesquisas foram realizadas durante a obra.A História das Barragens no Brasil . Faleceu. com desenvolvimento de pressões neutras baixas quando devidamente compactados. com equipamentos da mais alta qualidade. Notável foi o conjunto de ensaios de cisalhamento do maciço rochoso. Euclides da Cunha (1956 a 1960) e Graminha (1959 a 1966). obtendo o desenvolvimento das pressões neutras durante o alteamento do aterro e o enchimento do reservatório. por ele batizada de “célula DM”. Em reconhecimento à relevante contribuição. em plena atividade no campo. com câmaras de ensaios triaxiais. dentre as investigações realizadas pela equipe do IPT. passaram a prestar assistência tecnológica a outras barragens e. a influência das condições de compactação nas propriedades geotécnicas do solo compactado e a comparação entre as características apresentadas pelos corpos de prova compactados em laboratório com as dos corpos de prova moldados a partir de blocos indeformados extraídos do maciço. principalmente o de Ilha Solteira.Séculos XIX. Limoeiro (1953 a 1958). por exemplo. o engenheiro Hamilton de Oliveira fez uma adaptação para solos brasileiros do método de Hilf de controle de compactação. Frustrado com a perda de algumas destas células. tendo se notabilizado pela determinação das tensões in situ e realização de ensaios de deformação de maciços rochosos nas escavações da casa de força da usina de Paulo Afonso. Seus resultados tiveram repercussão internacional. Cinco piezômetros deste tipo foram instalados na barragem de Ilha Solteira Nas barragens de Jupiá (1961 a 1969) e de Ilha Solteira (1966 a 1973) o IPT especificou e colaborou na instalação dos laboratórios de solos e de mecânica das rochas instalados pela CESP. Já na barragem de Limoeiro. onde se sucediam camadas de constituição bem distintas. em 1959. pelo efeito de descargas elétricas nas proximidades das barragens. o que serviu de orientação para o projeto de barragens posteriores. três pesquisadores do IPT ficaram permanentes. No laboratório de solos de Ilha Solteira. esclarecendo. importados da Suíça. Os laboratórios de Ilha Solteira. característico de solos tropicais. que passou a ser adotada em muitas obras. introduzindo no Brasil esta técnica. o IPT coordenou todo o controle de compactação dos maciços. A atuação do IPT nas barragens do rio Tietê. Nesta ocasião. um manômetro lendo diretamente a pressão neutra no maciço e o outro acionado por ação pneumática a partir da superfície fazendo a leitura do primeiro. sob a liderança do engenheiro Murilo Ruiz. 448 . O engenheiro Pacheco Silva analisou este comportamento. Além da determinação das propriedades mecânicas dos solos usados na barragem. Estes estudos foram fundamentais para a definição das cotas de fundação dos diversos setores da obra. Os laboratórios foram muito bem equipados. Barra Bonita (1952 a 1962) e Promissão (1966 a 1975) envolveu a supervisão do controle de compactação e a instrumentação dos maciços. na coordenação dos trabalhos. atualmente. fazendo levantamento geológico no local da barragem de Jupiá. XX e XXI Pichler foi também pioneiro na implantação da mecânica das rochas no Brasil. merecem destaques as relacionadas com as características das fundaçõesdas barragens de Jupiá e Ilha Solteira. em virtude da deformação lenta. o seu nome foi atribuído ao aeroporto de Jupiá. Nas barragens do Rio Pardo. Estes trabalhos passaram a ser referência para projetos de outras obras. Tendo notado que primeiros piezômetros instalados nas barragens do rio Pardo não se mantinham confiáveis por muito tempo. Pacheco dedicou-se ao desenvolvimento de outra. inclusive um ensaio de grandes dimensões. No campo da mecânica das rochas. equipamentos de cisalhamento direto e de adensamento. para só passarem a aumentar após ser atingido um certo nível de carregamento. enquanto que no laboratório de mecânica das rochas toda a equipe era do IPT. o que caracterizava o maior ensaio in situ de resistência ao cisalhamento feito no mundo. com extensômetros elétricos colados em membrana de aço inoxidável. num bloco de rocha de 6 m x 6 m de seção por 4 m de altura (Figura 1). com algumas alterações propostas pelo engenheiro Pacheco Silva e aceitas pelo fabricante. fato totalmente inesperado. o engenheiro Pacheco Silva instalou piezômetros de sua própria idealização. a partir da característica de “duplo manômetro”. Ibitinga (1964 a 1969). passou-se a usar piezômetros de corda vibrante. Bariri (1959 a 1960). tornou-se laboratório do curso de engenharia civil da UNESP. Observou que as pressões neutras decresciam inicialmente durante o alteamento do aterro. após a conclusão da barragem.

com a colaboração do consultor alemão Klaus W. assim como na caracterização tecnológica de agregados naturais.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Figura 1 – Usina hidroelétrica de Ilha Solteira. destacaram-se os trabalhos junto à Centrais Elétricas de São Paulo (CESP) que possibilitaram o desenvolvimento de especificações de sondagens e de critérios para a classificação dos graus de alteração e de fraturamento das rochas. destacam-se o desenvolvimento dos obturadores de impressão e um protótipo de equipamento para o televisionamento de furos de sondagens. os estudos de caldas de cimento e argamassa para tratamento de maciços de fundações e análise da eficiência dos tratamentos de fundações de barragens. bem como a definição de vários outros procedimentos até hoje utilizados. estabelecendo uma prática brasileira para os estudos e investigações de eixos de barragens. Também foi desenvolvido o primeiro sistema de classificação de maciços rochosos utilizados no Brasil. as lavas em almofadas (pillow lavas) em Nova Avanhandava e os basaltos leves de Porto Primavera. John. rio Paraná. empregado com sucesso na fundação de Ilha Solteira e posteriormente adotado em todas as demais obras da CESP com fundação em maciço basáltico. especialmente na identificação de ar gilominerais expansivos. Ensaio de cisalhamento em bloco de grandes dimensões (1969) Também a partir do final da década de 1960. Na década de 1970. na compreensão do comportamen to das juntas-falhas e na avaliação da rápida decomposição das rochas basálticas (alterabilidade). Contribuições significativas decorrentes da experiência com grandes obras envolveram desenvolvimentos na caracterização geológico-geotécnica de basaltos. 449 . Na década de 1990. destacaram-se a formulação das primeiras orientações técnicas de normatização dos ensaios de permeabilidade em furos de sondagens. Avanços significativos na compreensão do comportamento dos basaltos como fundações de barragens foram obtidos com os estudos a respeito das estruturas circulares em Água Vermelha.

em 450 . Após diversas tentativas de impermeabilização das ombreiras. que passou a dar assistência a várias obras de engenharia. em 1989. com poucos centímetros de diâmetros. construída pela Petrobrás. sem sucesso. pelas suas peculiaridades. liderado pelo engenheiro Murilo Ruiz. já acima do nível d’água em função do que era liberado o lançamento de novas camadas. como nos recursos humanos. de difícil secagem em virtude do clima na região e com peculiaridades de compactação (grande alteração dos parâmetros de compactação com ligeira secagem a partir da umidade natural). são apresentados a seguir. destacam-se estudos voltados ao monitoramento dos processos erosivos nas margens do reservatório de Porto Primavera. Na execução desta obra. pioneiramente no Brasil. juntamente com a inspeção de amostras indeformadas. cuja primeira aplicação com equipamentos idealizados e construídos pelo IPT foi na barragem de Porto Primavera. construída pelo DAEE . de 1960 a 1962. a melhoria e desenvolvimento das técnicas da geofísica e as primeiras pesquisas desenvolvidas no Brasil para estudo da permeabilidade tridimensional dos maciços rochosos que começaram em 1984. apresentou infiltração e surgimento de água a jusante. A partir da década de 2000. dividindo a represa em duas áreas. tanto no investimento em recursos materiais. em que se compactou o solo com umidade muito acima da ótima.Séculos XIX. permitiu assegurar a estabilidade da barragem e a plena utilização do reservatório na cota de projeto. muito úmido. feito pelo IPT. O IPT contribuiu muito no campo da geotecnia e geologia de engenharia nas barragens da CESP. proporcionando a oportunidade para a formação de especialistas que vieram posteriormente contribuir para a engenharia nacional em diversas atividades. Após a execução de cortina de solo-cimento nas ombreiras e fundações. no Paraná. o DAEE optou pela instalação de laboratório de solos completo no local. A barragem de Saracuruna. nas ombreiras. XX e XXI Igualmente importante foram os estudos de sismicidade induzida decorrente da instalação de reservatórios de barragens. o IPT teve a oportunidade de participar de diversas obras de barragens de outras entidades. A experiência da obra anterior possibilitou ao IPT atuação importante na construção da Barragem do Rio Verde. Além dos trabalhos para as barragens da CESP. ensaios de injeção de corantes e de traçadores radioativos que. resultantes de antigas colônias de formigas. o desenvolvimento e aplicação da geologia estrutural para a análise dos condicionantes geológico-geotécnicos. próxima às nascentes do rio Tietê. estudos para identificar as características da percolação. inclusive rodoviárias e de fundações. permitiram a identificação de pequenos túneis. a profundidades de cerca de 3 m. garantindo-se a estabilidade dos taludes do maciço. constituindo o Laboratório Rankine. podendo ser operadas de maneira distinta. realizou. Em virtude das peculiaridades da obra. as infiltrações cessaram e o monitoramento posterior. o IPT instalou e operou piezômetros que registravam o crescimento e a dissipação da pressão neutra após cada lançamento do aterro. e área de empréstimo de solo muito argiloso. teve a assistência do IPT tanto nos ensaios dos materiais como no controle de compactação. localizada na Baixada Fluminense. passando de montante para jusante. fundação em sedimentos arenosos (que requereu paredes diafragma para vedação).A História das Barragens no Brasil . Na construção da rodovia dos Imigrantes os projetistas optaram por fazer a travessia da Represa Billings por meio de um aterro lançado dentro d’água. mas deve-se registrar que igualmente importante para o próprio IPT foi o apoio recebido da CESP para o desenvolvimento desta instituição. como reguladora do rio e parte do sistema de abastecimento da cidade de São Paulo. em 1970. Alguns destes casos. para abastecimento de água para a Refinaria Duque de Caxias. quando atingida cota parcial de enchimento do reservatório. no seu aproveitamento no suprimento de água na região. A barragem de Ponte Nova.Departamento de Águas e Energia Elétrica do estado de São Paulo. projetado de maneira a poder ser transformado numa posterior barragem. Foram realizados. Este laboratório foi posteriormente vendido a um consórcio de empresas empreiteiras. o grupo de geologia aplicada e de geotecnia do IPT.

apresentava muita dificuldade em virtude da pouca disponibilidade de materiais. quando os projetistas recorrem a eles para esclarecer dúvidas sobre o comportamento da estrutura em obras cujo valor e importância os justifiquem. utilizou-se argamassa de areia. Quando o material deveria ter módulo de deformação muito baixo. projetou um laboratório especial. devido às características dos agregados. Itália. Conduzido com sucesso. o professor Telêmaco van Langendonck. constituiu-se no primeiro modelo estrutural voltado a barragens no Brasil. Medido res de recalque e piezômetros mostraram o comportamento adequado da barragem. com o ganho adicional de redução da temperatura do concreto durante a cura e o endurecimento. onde é necessário evitar que a pressão hidráulica interna conduza à ruptura do maciço. No caso específico dos modelos da barragem de Itaipu. e para o seu desenvolvimento. O modelo foi de comportamento elástico. a partir de matérias primas. conforme descrito a seguir. Posteriormente. O conhecimento sobre o estado de tensões do maciço também contribui significativamente para o dimensionamento da blindagem do conduto forçado. Conhecer o estado de tensões nos maciços rochosos é particularmente importante para o projeto de túneis de alta pressão. solicitou ao IPT um modelo dos apoios das comportas nos contrafortes da barragem. construiu um equipamento para realização de ensaios de medidas de tensões in situ por meio de fraturamento hidráulico. de maneira que resulte em material com propriedades reológicas adequadas à escala do modelo. 1968. O contraforte da barragem. cimento e pérola de isopor. em substituição às pedras-pomes diatomito. representando a barragem numa escala de 1:100 e foi carregado por meio de pesos mortos até serem atingidas as pressões na escala empregada. a realização dos ensaios. de 1977 a 1979.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens virtude das condições de umidade muito elevada na região. justificando a solução adotada. micro-concreto de pedra pomes e sistema especial de aplicação de cargas de peso próprio. tendo sido construído com poliéster. a possibilidade de reações álcali-agregados que comprometeriam a durabilidade das obras. Papel importante ocorreu nas barragens de Jupiá e Ilha Solteira. depois de um estágio na Itália. por parte da empresa projetista. tinha cerca de 50 cm de altura. Esta técnica se caracteriza pela utilização de modelos de grandes dimensões. foram realizados dois estudos com modelos físicos de características diferentes. conciliando-se esta solução com a baixa resistência do solo da fundação. que não precisou ser escavado. Modelos físicos estruturais Modelos físicos de estruturas de barragens não são rotineiros nos projetos destas obras. Restringem-se a casos especiais. de Bergamo. na realidade um pórtico de reação que permite ensaio de modelos de até 3 m. No Brasil. sendo um trabalho que na época. foram executados dois modelos para o projeto da barragem de Itaipu. Em 2010. colaborando para o contínuo desenvolvimento tecnológico das barragens brasileiras. A técnica de ensaio é extremamente complexa. também. onde se constatou. ou o gesso. 451 . com o consequente abatimento dos taludes do maciço para garantir a estabilidade. Os estudos apontaram para a incorporação de pozolanas na constituição dos concretos. o engenheiro Fausto Tarran do IPT. Para a barragem de Jupiá. que foi construído pelo IPT. foi desenvolvido um material básico com micro-concreto de argila expandida. segundo a técnica de ensaios em modelo desenvolvida pelo Istituto Sperimentale Modelli e Strutture (ISMES). Tecnologia de concreto No campo de concreto o IPT contribuiu na consultoria e supervisão das dosagens e no controle dos materiais constituintes. o que requereu um estudo preliminar para a determinação da adequada proporção dos componentes e dos procedimentos de cura. o IPT. utilizado pelo Laboratório Nacional de Engenharia Civil de Lisboa. Os micro-concretos utilizados para a representação das fundações e do elemento estrutural em estudo são executados com materiais especiais e misturas adequadas. empregados pelo ISMES. Coube a ele. o que foi adotado. no modelo. O modelo foi moldado com as dimensões estudadas. formas de resina.

pelo engenheiro Alinor Figueiredo e equipe. No modelo do corpo da barragem. a aplicação mais importante e extensiva ocorreu nas barragens do Jaguari e Jacareí da SABESP. Foram muitas as barragens instrumentadas com piezômetros e células de pressão tipo IPT. de maneira a simular o empuxo correspondente ao reservatório em plena altura.Séculos XIX. o ensaio foi até a ruptura da junta vertical de concretagem dos contrafortes. Os ensaios foram conduzidos até a observação de indícios de ruptura nas fundações. As formas das estruturas foram construídas sobre contra-formas. juntamente com os aperfeiçoamentos na unidade de leitura. estas uma réplica. Em seguida. As primeiras utilizações destes instrumentos pneumáticos em barragens foram nas barragens de Rio Verde da Petrobrás. XX e XXI Os modelos tinham alturas de 1. foram instalados instrumentos pneumáticos tipo IPT ao lado de instrumentos elétricos de corda vibrante tipo Maihak.Figura 2). as importações de instrumentos geotécnicos eram difíceis e tal fato favoreceu o crescimento e aplicação dos instrumentos fabricados no Brasil. em função do que foi feita modificação do projeto estrutural da obra. No entanto. a semelhança do ocorrido na barragem de Piraquara onde se utilizou piezômetros elétricos tipo Geonor. da estrutura do modelo a ser construído.5 m (bloco de gravidade aliviada da barragem principal. No modelo do contraforte. foram aplicados 22 macacos. Figura 2 – Usina hidroelétrica Itaipu. Nesta fase. As cargas hidrostáticas na face do modelo foram aplicadas por pequenos macacos hidráulicos.A História das Barragens no Brasil . incluindo as fundações . foram desenvolvidas as células de pressão total que. em 1978 (Figura 3). Também foram instrumentadas barragens na América do Sul com Instrumentação de barragens Em meados da década de 1970. em madeira. A comparação dos resultados alcançados revelou o bom desempenho dos pneumáticos. em 1979. no modelo da estrutura de desvio. e Piraquara da SANEPAR. Nas barragens da SABESP.8 m (estrutura de controle do desvio do rio) e 2. foi desenvolvido o primeiro piezômetro pneumático no IPT. Rio Paraná Modelo reduzido do bloco da barragem principal (1978) 452 . foram nomeados de instrumentos pneumáticos tipo IPT. entre elas destaca-se a barragem de Itaparica da CHESF onde foram instalados quase duas centenas de instrumentos pneumáticos. No corpo dos modelos foram introduzidos tirantes para simulação do peso próprio da estrutura. em 1976.

por exemplo. São Paulo. atendendo solicitação da SABESP.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens estes pneumáticos como. duas barragens em cascata no Rio Pardo. o IPT também desenvolveu instrumentos elétricos. A partir dos anos 2000 os instrumentos pneumáticos perderam espaço para os instrumentos elétricos de corda vibrante. Por falta de regulamentação este decreto não foi implementado por todas as autarquias e companhias. 24/06/1999 453 . Instalação de piezômetro pneumático (1978) companhias em cujo capital o Estado tivesse participação majoritária. Em 1978. Publicação IPT no 2600. entre outras. para monitorar a segurança das barragens dessa companhia responsável pelo abastecimento da Grande São Paulo.752. o IPT organizou uma equipe formada por especialistas de diversas áreas do próprio instituto acrescida de consultores externos. em 21 de novembro de 1977. Vinte e três barragens na região metropolitana de São Paulo tiveram suas características técnicas levantadas e passaram a ser vistoriadas anualmente. com princípio de transdução por strain-gauge . dispondo sobre a realização de auditoria técnica externa permanente em autarquias e Figura 3 – Barragem de Piraquara. que também foram aplicados em várias barragens nacionais e internacionais. o governo de São Paulo promulgou o decreto estadual no 10. SANEPAR. constituindo-se este projeto num exemplo da auditoria externa de segurança de barragem (Figura 4). Além dos instrumentos pneumáticos. Dentro destes conceitos de segurança de barragens também foi objeto de continuidade dos trabalhos a barragem de Saracuruna da Petrobrás. Mapeamento de fissuras no paramento de jusante (1992). SABESP. em 1977. Segurança de barragens Após os acidentes ocorridos com as barragens de Euclides da Cunha e Armando de Salles Oliveira (Limoeiro). IPT 100 anos de Tecnologia. em razão da automação das medidas e não em função do desempenho deste tipo de instrumento. Referências Figura 4 – Barragem de Pedro Beicht. Paso Severino no Uruguai.

Vista aérea do LAHE .

Visando exercer maior controle técnico sobre os trabalhos realizados e manter os modelos de suas usinas construídos mesmo após as definições de projeto das mesmas. Essa medida se apoiou Figura 1 LAHE – Sede em Jacarepaguá – Instalações 455 . no Rio de Janeiro. em área própria da empresa. em 26 de dezembro de 1983 foi iniciada a implantação do Laboratório de Hidráulica Experimental (LAHE) de Furnas. aumentando o seu grau de participação nos estudos em modelo até assumir integralmente a coordenação dos mesmos. sendo inicialmente desenvolvida através da contratação do laboratório Hidroesb. Furnas foi. pouco a pouco. Furnas começou a supervisionar diretamente os testes realizados para a validação e otimização dos projetos de seus empreendimentos e a atividade de desenvolvimento de estudos hidráulicos em modelo reduzido passou a ser de responsabilidade do seu Departamento de Engenharia Civil. junto a subestação de Jacarepaguá. Com isso.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Laboratório de Hidráulica Experimental e Recursos Hídricos de Furnas .LAHE Fátima Moraes de Almeida e Marcos da Rocha Botelho Para atender necessidades específicas que foram surgindo ao longo de seus projetos.

no início desse período. o LAHE. em operação. a saber: Usina de Serra da Mesa. XX e XXI Figura 2 .Engenheiro Erton Carvalho (segundo à frente. Nas instalações de Furnas esse laboratório desenvolveu as atividades de projeto. Para o desenvolvimento do projeto e construção de toda a infraestrutura necessária ao funcionamento de um laboratório de hidráulica. Nos seus primeiros quatro anos de funcionamento.Séculos XIX. em projeto e Usinas de Anta e Simplício. da esquerda para direita). em projeto. Furnas os teria disponíveis para atender a qualquer necessidade que surgisse durante ou mesmo após a construção das suas usinas. A construção da sede própria do LAHE foi iniciada somente após três anos de funcionamento efetivo do laboratório. contou com a prestação de serviços do Laboratório Hidroesb Saturnino de Brito S. Usina de Cana Brava. Usina de Furnas.A. nas fases de projeto e construção. em operação. a importante atuação do engenheiro Dirceu Pennafirme Teixeira (do Hidroesb) que ao lado da equipe de Furnas colaborou ativamente no processo de implantação do laboratório. seu substituto imediato. Esse trabalho foi coordenado pelo engenheiro Erton Carvalho. No modelo de conjunto da usina de Serra da Mesa foi feito o acompanhamento dos projetos básico e executivo e de alguns pro- 456 . construção e operação dos modelos dos empreendimentos em estudo àquela época. Responsável pela criação do LAHE – Visita ao modelo vertedouro da usina hidroelétrica de Batalha no fato do modelo reduzido também se revelar uma importante ferramenta de trabalho para as fases de construção e operação dos empreendimentos hidráulicos. em operação. Com a construção dos modelos em área própria. e pelo engenheiro Carlos Alfredo de Almeida Paiva. Usina Luiz Carlos Barreto de Carvalho (Estreito).A História das Barragens no Brasil . em suas instalações. então chefe da Divisão de Estudos e Projetos Hidrotécnicos de Furnas. fez-se necessário um enorme trabalho de mobilização dos recursos internos da empresa. Usina de Porto Colômbia. Ressalta-se. criado com objetivo de atender exclusivamente aos empreendimentos da empresa.

os danos que ocorreriam a montante da barragem e os níveis de segurança do reservatório. a instrumentação necessária às medições de ondas. num modelo de detalhe de seu circuito de geração. Figura 4 . o LAHE contou com o apoio técnico e logístico do INPH (Instituto de Pesquisas Hidroviárias) e da COPPE (Coordenação de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro). entre outras coisas. modificando assim as características de lançamento do jato.Modelo de conjunto da usina hidroelétrica de Serra da Mesa. Diversas possibilidades de queda desse maciço rochoso foram estudadas. foi a alteração da geometria da concha de arremesso do vertedouro. Sem os recursos de instrumentação necessários às medições a serem realizadas. vam comprometer a estabilidade da estrutura de seu vertedouro em salto de esqui. esse estudo 457 . Além da aproximação com outro centro de tecnologia. Foram avaliadas as alturas das ondas. os coeficientes de forma que alimentaram o modelo matemático adotado para a simulação dos transientes hidráulicos a que a usina estaria submetida durante a sua operação. trazendo assim grande economia ao empreendimento. de fácil execução e baixo custo. Foram estudadas as ondas geradas por esse deslizamento e que poderiam ameaçar seriamente as estrutura da barragem. Com o INPH foi obtida. Já a COPPE contribuiu com o desenvolvimento de parte da instrumentação necessária ao LAHE e com o estudo teórico do fenômeno em estudo. A solução encontrada. por empréstimo. otimizando. Isso permitiu a integração entre as diversas etapas de construção da usina. Detalhe da reprodução da tomada d’água Foram pesquisados também.CINQUENTA ANOS DO COMITÊ BRASILEIRO DE BARRAGENS cessos construtivos utilizados pela obra. o balanço de materiais. No modelo da usina Luiz Carlos Barreto de Carvalho as pesquisas foram direcionadas para eliminar as erosões regressivas que ameaça- Para a usina de Furnas foi analisada a ameaça de desmoronamento de parte da encosta do Morro dos Cabritos.Modelo de conjunto da usina Luiz Carlos Barreto de Carvalho (Estreito) Figura 3 .

A História das Barragens no Brasil - Séculos XIX, XX e XXI

marcou assim a primeira interface do LAHE com um centro acadêmico de pesquisa. Nessa ocasião, os dados obtidos no modelo físico foram confrontados com o resultado de estudos em modelos matemáticos desenvolvidos pela COPPE. No modelo bidimensional do vertedouro de Porto Colômbia foi diagnosticada a causa das erosões existentes no concreto da bacia de dissipação do vertedouro. Os estudos que conduziram à solução adotada na obra foram complementados em um modelo de conjunto da usina que permitiu, inclusive, direcionar as obras de ensecamento da bacia. Em parceria com outros laboratórios e entidades de pesquisa, após a realização da obra corretiva sugerida pelo modelo, foi realizada uma campanha de medição de pressões instantâneas na bacia de dissipação do empreendimento.

Tirando partido das informações modelo-protótipo, os dados de pressão obtidos em Porto Colômbia foram posteriormente utilizados na calibração de um modelo matemático de previsão do campo de pressões, velocidades e níveis d’água em bacias de dissipação. Com orientação do IME, esse estudo gerou a tese de mestrado intitulada “Estudo Numérico e Experimental de Bacia de Dissipação” da Renata Cavalcanti Rodrigues, na época engenheira do LAHE. No modelo da usina de Cana Brava, construída a jusante de Serra da Mesa, no rio Tocantins, foi feito o acompanhamento de toda a fase de estudo do projeto básico.

Figura 6 - Modelo da usina de Cana Brava

Figura 5 - Modelo de conjunto da usina de Porto Colômbia. Medição de pressões instantâneas na bacia de dissipação

Nos modelos onde foram estudados os arranjos originais da usinas de Anta e Simplício, no rio Paraíba do Sul, foram otimizados os projetos básicos das mesmas. Após quatro anos de existência do LAHE, e num momento em que alguns dos estudos acima citados ainda se encontravam em andamento, Furnas se deparou com o término do contrato com a Hidroesb e com a impossibilidade de sua renovação. Diante desse impasse, parte da mão de obra especializada da Hidroesb acabou

Esses dados foram disponibilizados para a comunidade científica que não dispunha, até aquele momento, de dados suficientes de protótipo que pudessem validar os estudos teóricos que vinham sendo desenvolvidos nessa área de atuação.

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Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens

Figura 7 - Engenheiros Marcos da Rocha Botelho e Fátima Moraes de Almeida, técnicos pioneiros do LAHE

por ser absorvida por Furnas que, contando com o apoio de seus técnicos locais, passou a se responsabilizar pelo completo desenvolvimento dos estudos em modelo. Dentre esses técnicos, responsáveis pela supervisão dos serviços do laboratório, destacam-se como pioneiros os engenheiros Marcos da Rocha Botelho (atual gerente do LAHE) e Fátima Moraes de Almeida (que atua ainda hoje na coordenação de estudos em desenvolvimento no laboratório). Esse foi um dos momentos decisivos para a constituição da atual identidade do laboratório de Furnas que, ainda sob a condição de uma atividade de uma divisão de projeto da empresa, precisou obter recursos para a aquisição de todo o ferramental, equipamento e instrumentação eletrônica indispensável aos estudos em modelo. Itens esses que antes eram fornecidos através do contrato com o laboratório Hidroesb. Nessa ocasião, mais uma vez o espírito empreendedor do engenheiro Erton Carvalho entrou em ação. Como chefe da divisão responsável pelo Laboratório e tendo em mãos uma carteira de trabalhos já realizados, ele foi buscar junto aos órgãos superiores de Furnas os recursos necessários à consolidação do controle total pela empresa de todos os estudos hidráulicos em modelo reduzido de seus empreendimentos. A superação dessa fase acabou por trazer ao LAHE alguns grandes benefícios, tais como: modernização da instrumentação utilizada nos seus processos de construção e operação de modelos, reformulação dos processos de construção de modelos que geraram facilidades construtivas e operativas dos mesmos e maior possibilidade de investimento no aperfeiçoamento de seu quadro técnico. Quanto à usina de Manso, estudada pelo CEHPAR quando de propriedade da Eletronorte, ao assumir 70% de seus investimentos em parceria com o consórcio PROMAN, Furnas decidiu pela construção de um novo modelo da usina em seu laboratório para a realização de estudos complementares, acompanhamento do término da construção e fornecimento de subsídios para a operação da mesma. Visando subsidiar o projeto, construção e operação de um vertedouro complementar que compatibilizasse a capacidade de vertimento da usina com os demais aproveitamentos da cascata, foi construído e operado no LAHE um modelo de conjunto da Usina Marechal Mascarenhas de Moraes, inicialmente em concessão da CPFL e que, a partir de 1973, passou a ser operada por Furnas. Em 1994, o LAHE foi procurado pela Light para subsidiar, através de estudos hidráulicos em modelo reduzido, o projeto de reabilitação da Usina de Ilha dos Pombos. Esses estudos foram realizados entre os anos de 1995 e 1996. Essa primeira solicitação de desenvolvimento de um serviço externo motivou o LAHE a investir, a partir de 1997, na melhoria contínua de seus processos e produtos por meio da busca pela certificação através da Norma NBR ISO 9001. Esse projeto, incentivado pelo engenheiro Erton Carvalho, chefe do Departamento de Engenharia Civil de Furnas, foi desenvolvido na gestão do engenheiro Danilo Lopes Marques da Silva que exercia, àquela época, a chefia da divisão responsável pelas atividades do Laboratório. Para alcançar esse objetivo fez-se

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A História das Barragens no Brasil - Séculos XIX, XX e XXI

Figura 8 - Modelo da usina Marechal Mascarenhas de Moraes (Peixoto)

necessário, além de um intenso treinamento de sua equipe, a elaboração de instruções de trabalho prescritivas de cada uma das etapas dos estudos. Tecnicamente apoiada nos fundamentos teóricos da hidráulica, da mecânica dos fluidos e de outras disciplinas afins, a realização de estudos hidráulicos em modelo reduzido não possui um conjunto rígido de critérios ou normas próprias que norteiem ou que, obrigatoriamente, devam ser aplicadas nas fases de projeto e construção dos modelos e durante a fase de estudos propriamente dita. Toda a fundamentação teórica em que se baseiam os estudos experimentais é extraída dos manuais clássicos tanto de hidráulica, quanto de projeto de estruturas hidráulicas, de trabalhos e pesquisas acadêmicas e, ainda, de publicações de estudos específicos realizados em diversos laboratórios do ramo.Embora possam ser encontrados alguns trabalhos esparsos, em que se procurou reunir o maior número possível das informações em que se baseiam os estudos em modelo físico, os mesmos estão longe de se constituírem num compêndio

ou num manual clássico dessa disciplina. Por essa razão, as dificuldades encontradas na sistematização dessas tarefas foram enormes tendo em vista que, ao longo de anos, elas se basearam unicamente na experiência profissional dos técnicos envolvi dos nos serviços de modelo. A elaboração dessas “normas” de projeto, construção e realização de ensaios em modelo, além de consolidar a experiência adquirida pelo LAHE ao longo dos seus, até então, 16 anos de serviços prestados a Furnas, contribuiu de forma marcante, não só para o auxílio à formação de seus profissionais iniciantes, como também para o trabalho daqueles que já atuantes na área, passaram a poder contar com um roteiro organizador de suas atividades. Após três anos de trabalho nesse sentido o laboratório, ainda na condição de uma atividade de uma divisão, obteve em outubro de 2000 a sua Certificação ISO 9001. A partir desse momento o Laboratório de Furnas, apresentando como diferencial o fato de ser o primeiro laboratório de hidráulica

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Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens

experimental do Brasil certificado pela ISO 9001, passou a participar de várias concorrências para a prestação de serviços externos, colocando-se lado a lado com os tradicionais laboratórios brasileiros já citados. Logo após a sua primeira prestação de serviço externo, foram estudados no LAHE: A usina de São Gabriel da Cachoeira para a qual, por solici-

de energia elétrica as concessionárias de geração e empresas autorizadas à produção independente de energia elétrica ficaram obrigadas a aplicar, anualmente, o montante de, no mínimo, um por cento de sua receita operacional líquida em pesquisa e desenvolvimento do setor elétrico. O primeiro ciclo de participação de Furnas nesse programa compreendeu os anos de 2000/2001. Com o programa de P&D assim implementado por Furnas, o LAHE passou também a participar dos projetos anuais de pesquisas que utilizassem os estudos hidráulicos em modelo reduzido como ferramenta de trabalho. Desde então, em parceria com universidades e entidades afins, o LAHE vem realizando estudos em pesquisa e desenvolvimento que abrangem, dentre outros temas, as áreas de: Transientes hidráulicos em circuitos de usinas hidroelétricas; Escoamento sobre vertedouros em degraus;

tação do Ministério da Aeronáutica, foi avaliado num modelo bidimensional o comportamento de seu vertedouro de superfície com paramento de jusante em degraus; A usina Cana Brava, da Tractebel. Esses estudos foram reto-

mados para atender ao projeto executivo e fases construtivas da usina. A usina de Monte Claro, da CERAN (Companhia Energética

Rio das Antas), localizada no Rio das Antas, no Rio Grande do Sul, cujos estudos objetivaram o diagnóstico do projeto, a otimização e a caracterização dos vertedouros da usina; As usinas de Capim Branco I e II, ambas da CEMIG, lo-

Padrões de vibração em estruturas hidráulicas por ação de escoamentos; Dimensionamento e otimização de bacias de dissipação através da utilização de modelos numérico e experimental;

calizadas no Rio Araguari, em Minas Gerais. Para a realização desses estudos o LAHE foi contratado pela Intertechne visando o diagnóstico dos arranjos propostos e a otimização das estruturas hidráulicas e A usina de Foz do Rio Claro, localizada a montante da foz

Análise de macroturbulência em estrutura de dissipação de energia; Eclusa de navegação; Previsão de erosões a jusante de vertedouros

do Rio Claro (afluente do Rio Paranaíba pela margem direita), no estado de Goiás. Esse estudo foi desenvolvido para a Alusa Engenharia Ltda e teve por objetivo fornecer informa ções de interesse ao projeto executivo do aproveitamento no sentido de avaliar, otimizar e consolidar o projeto das estruturas hidráulicas do mesmo. Com a implementação da lei 9.991, de 24 de julho de 2000, que dispõe sobre a realização de investimentos em pesquisa e desenvolvimento e em eficiência energética por parte das em presas concessionárias, permissionárias e autorizadas do setor

Os assuntos abordados nas pesquisas que vem sendo desenvolvidas pelo LAHE são aqueles em que o laboratório sente maior necessidade de aprofundamento para o desempenho de suas atividades e os que, por apontarem para tendências futuras, possam permitir o seu desenvolvimento e expansão. Os parceiros tecnológicos foram, inicialmente, aqueles com os quais o LAHE havia desenvolvido trabalhos em conjunto e onde as exigências de cumprimento de cronograma e metas haviam se

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A História das Barragens no Brasil - Séculos XIX, XX e XXI

Figura 9 - Modelo físico utilizado no P&D sobre eclusa de navegação

Nessa mesma época o LAHE havia recebido outro grande desafio: realizar o diagnóstico do projeto de viabilidade da usina hidroelétrica de Jirau, no rio Madeira, projeto esse que Furnas vinha desenvolvendo em parceria com outras empresas do ramo. Para atender a essa solicitação o LAHE precisou, num exíguo espaço de tempo, ampliar as suas instalações adequando-as às necessidades de área, volume d’água e vazão exigidas por um empreendimento do porte das usinas da Região Amazônica. Esses estudos foram concluídos em dezembro de 2006. Posteriormente, a topobatimetria implantada nesse modelo foi aproveitada para o estudo do sistema de interceptação e coleta de troncos que estava sendo estudado em conjunto com os empreendedores das usinas de Jirau e de Santo Antônio, ambas no rio Madeira. Foi também estudado no LAHE o modelo de conjunto da usina de Anta, de concessão de Furnas e integrante do complexo Simplício. Esse modelo foi utilizado para o estudo de desvio do rio, diagnóstico das estruturas e definição do plano de operação das comportas do seu vertedouro. Logo a seguir surgiu outro grande desafio: a construção de um posto avançado de trabalho para o desenvolvimento dos estudos em modelo da usina hidroelétrica de Santo Antônio. Somente o modelo de conjunto da usina hidroelétrica de Santo Antônio, na escala 1:80 por exigência da empresa projetista, compreende uma área útil de 4.000 m². Como, para atender a toda essa demanda, as instalações existentes em Jacarepaguá se mostraram insuficientes, o LAHE viabilizou a utilização de outra área de Furnas localizada ao lado da Subestação de São José, em Belford Roxo. Nesse local, com o apoio dos parceiros de Furnas nesse empreendimento, foi montada uma nova unidade do

revelado satisfatórias. Posteriormente foram feitos contatos com outros centros de pesquisa em função das áreas de estudo a que estes estavam se dedicando e novas parcerias surgiram. A diversidade de parceiros é vista como benéfica, pois cada instituição de pesquisa tem características e excelências próprias que aumentam as perspectivas e os horizontes do LAHE. Em parceria com o IPH (Instituto de Pesquisas Hidráulicas) da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), o IME (Instituto Militar de Engenharia) e a UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), os projetos de P&D desenvolvidos geraram doze teses de mestrado e quatro de doutorado. Após 22 anos de existência, em janeiro de 2005 o LAHE foi transformado num órgão oficial de Furnas. Na qualidade de escritório regional da empresa, incorporou em suas atribuições as atividades da área de recursos hídricos da extinta DEPH.T, divisão a qual pertencia. Nessa ocasião, para atender a demanda de serviços e poder fornecer acomodações adequadas ao seu novo corpo técnico, o LAHE teve a área de suas instalações prediais duplicada.

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LAHE para atendimento exclusivo dos estudos da usina hidroelétrica de Santo Antônio. Em contribuição ao projeto dessa usina já foram realizados em modelo: O diagnóstico e otimização do arranjo geral das estruturas; O levantamento da capacidade de vazão dos seus vertedouros; As simulações das condições de desvio do rio; O diagnóstico e otimização do sistema de transposição de peixes;

O último projeto diagnosticado e otimizado no LAHE foi o da usina hidroelétrica Batalha, concessão de Furnas. Encontra-se hoje em andamento a realização dos estudos hidráulicos em modelo reduzido da usina hidroelétrica de Teles Pires, localizada no Rio Teles Pires.

A trajetória do LAHE, desde a sua criação em 1983 até a presente data, esteve calcada na competência e dedicação dos profissionais que atuam nos diversos setores que o compõem, a saber: estudos, projeto, construção e modelagem, operação, documentação cinefotográfica, instrumentação, pesquisa e desenvolvimento, administração e qualidade. Foi com o traba lho e o comprometimento desses profissionais que o laboratório de Furnas conseguiu, ao longo de sua existência, se colocar no patamar de visibilidade em que se encontra. Todo o seu histórico de serviços realizados, tanto para Furnas quanto para clientes externos, sua iniciativa em pesquisas voltadas ao setor de energia, sua política de valorização de pessoal, sua respon sabilidade técnica e, principalmente, seu compromisso com os princípios éticos na condução de seus trabalhos, consolidaram a imagem do LAHE a nível nacional e o tornou conhecido internacionalmente.

Figura 10 - LAHE – Unidade Belford Roxo

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O Laboratório CESP de Engenharia Civil - LCEC
Flávio Moreira Salles, Wanderley Ognebene, Luiz Morita
O Laboratório CESP de Engenharia Civil - LCEC, instalado em Ilha Solteira/SP, é o mais antigo laboratório de tecnologia das empresas ligadas ao setor elétrico no país, tendo completado 40 anos de existência em agosto de 2009, e considerado uma referência na prestação de serviços tecnológicos para os empreendimentos da CESP e de terceiros. Reviver a história do Laboratório CESP é passar a limpo o desenvolvimento da tecnologia de construção de barragens no Brasil. É verificar como se deu a transposição da ponte do desenvolvimento - passando da total dependência dos estrangeiros ao domínio da arte de construir hidroelétricas no Brasil e permitir a participação em obras de usinas no exterior. Na seqüência foram construídas usina hidroelétrica Jurumirim no rio Paranapanema e usina hidroelétrica Euclides da Cunha no rio Pardo. A partir da segunda metade dos anos 50 foram tomadas algumas iniciativas governamentais, como a instalação da CIBPU - Comissão Interestadual da Bacia Paraná-Uruguai, para estudar o desenvolvimento sócio-econômico e os aproveitamentos energéticos dessa importante bacia hidrográfica. Por solicitação da CIBPU, a Societá Edison de Milão-Itália desenvolveu estudos para o aproveitamento das quedas de Urubupungá, contemplando a construção de duas barragens: uma em Jupiá e outra em Ilha Solteira. Aprovada a construção, realizadas as investigações geológicas, iniciou-se a construção da usina hidroelétrica Jupiá em 1961, que sem dúvida, constituiu-se num marco na história das grandes hidroelétricas do país, quer pela dimensão do projeto e o desenvolvimento técnico que propiciou, quer pelas dificuldades enfrentadas para sua execução. Ainda vivia-se sob forte dependência tec nológica do exterior. O projeto foi desenvolvido no Brasil, mas modelo hidráulico foi feito na França, os estudos de mecânica das rochas realizados no Laboratório Nacional de Engenharia Civil, de Lisboa, e o concreto e seus constituintes estudados na Universidade de Berkeley, nos Estados Unidos. Os frutos desses investimentos foram colhidos a partir do projeto executivo de Ilha Solteira, a hidroelétrica de maior capacidade de geração da CESP, que foi desenvolvido no Brasil.

O início do laboratório com o IPT
A década de 50 se notabilizou pelas iniciativas empreendedoras, destacadas pelo início dos trabalhos de projeto e construção das grandes barragens no Brasil. Particularmente no Estado de São Paulo, a Usina Hidroelétrica Salto Grande no rio Paranapanema foi a primeira, tendo sido totalmente projetada no exterior. Depois se seguiram as usinas Barra Bonita (1952) no rio Tietê e Limoeiro (1953) no rio Pardo, que tiveram assistência de técnicos estrangeiros, principalmente nas questões de hidráulica e de equipamentos.
Usina hidroelétrica de Porto Primavera (Sérgio Motta)

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A História das Barragens no Brasil - Séculos XIX, XX e XXI

Na ocasião da obra, instalou-se em Jupiá, ainda na CELUSA, um laboratório de hidráulica, com a consultoria francesa da SOGREAH (Société Grenobloise d’Etudes et d’Applications Hydrauliques) onde foram estudados os modelos hidráulicos reduzidos da Usina hidroelétrica Ilha Solteira, e posteriormente das usinas Promissão, Água Vermelha, Capivara, Nova Avanhandava, Porto Primavera,Taquaruçu, Rosana e Três Irmãos. Posteriormente, tal laboratório foi incorporado ao CTH, da USP. Em Jupiá foram instalados laboratórios de concreto e solos, formando o Laboratório de Obras, com a colaboração do Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo - IPT: o Laboratório de Solos, implantado quando as ensecadeiras começaram a ser construídas em Jupiá, era caracterizado como área de apoio do Setor de Terraplenagem da obra, e seu quadro era formado por técnicos especializados do IPT que supervisionavam os empregados da recém formada CELUSA - Centrais Elétricas de Urubupungá S.A., proprietária da obra, orientando-os nos ensaios de controle de qualidade. Eram de sua responsabilidade, compreendendo tanto as atividades de campo como as de laboratório, os serviços de controle de qualidade das barragens de terra e de enrocamento, os filtros, drenos e transições e a proteção de taludes, além das sondagens nas jazidas e áreas de empréstimo da barragem e das estradas da região, executados como serviços de apoio para outros setores do empreendimento. A necessidade de se contar com gente experiente em algumas atividades, trouxe para trabalhar na CELUSA e se incorporar à equipe do Laboratório de Obras o técnico Agostinho Maldonado Guirão, com a missão de adequar os ambientes físicos e os equipamentos e implantar os métodos de ensaios, consolidando a Área de Solos. Papel semelhante cumpriu, à época, o técnico Clarindo Brandão na Área de Concreto. O Laboratório de Concreto se instalou no mesmo ano de 1961, sob a supervisão do engenheiro Fausto Cesar Vaz Guimarães. Destacam-se na época, as relevantes análises de aplicabilidade dos materiaisdisponíveis na região da obra para confecção do concreto.

As seções do laboratório de concreto foram implantadas e incrementadas com suas diferentes modalidades e especialidades, para possibilitar o adequado controle de qualidade dos materiais, da produção dos aglomerantes e dos concretos lançados. Foram desenvolvidos estudos multidisciplinares para determinação do mecanismo de desagregação das rochas basálticas e a sua influência no comportamento do concreto, quando usadas como material de construção. Deve-se ressaltar a participação do ilustre professor Arthur Casagrande, que em muito contribuiu para o sucesso dessas pesquisas com suas opiniões e ensinamentos. Importante contribuição foi oferecida pelo engenheiro Heraldo de Souza Gitahy do IPT, em visitas sistemáticas à obra, por suas obser vações e pesquisas da reatividade potencial do seixo rolado do rio Paraná para a reação álcali-agregado, oferecendo ao Brasil o conhecimento dessa anomalia recém descoberta e as conseqüências para o concreto. A constatação de que a composição mineralógica dos terraços aluvionares da região de Jupiá era constituída em grande parte por minerais deletérios, sujeitos a reações químicas com os álcalis do concreto, intensificou a pesquisa para obtenção do inibidor da reação. Após pesquisa com emprego da pozolana artificial produzida no canteiro de obras, a partir da argila calcinada e moída, comprovou-se os benefícios desse material, impulsionando a tecnologia do uso da pozolana, que adicionada à mistura de concreto provoca a mitigação do processo expansivo da reação. Em 1964, o técnico Adonis Thimóteo dos Santos dedicouse à tradução das normas da ASTM - The American Society for Testing Materials e do US Army Corps of Engineers , para a adaptação e implantação dos métodos de ensaios de tecnologia do concreto no Laboratório de Obras, que foram usados por mais de duas décadas no país, suprindo a necessidade de metodologia referência para os ensaios em concreto no Brasil.

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Figura 1 - Vista aérea do canteiro de obras de Ilha Solteira, mostrando localização do LCEC

O laboratório da CESP
Em 1969, os laboratórios de Concreto e Solos foram transferidos para o canteiro de obras de Ilha Solteira, constituindo-se formalmente o Laboratório da CESP para fazer frente às experiências tecnológicas que aquele projeto exigia, e se consolidando a partir de então, em local para ensaios de materiais da própia CESP, das congêneres no Brasil e do exterior. O Complexo Urubupungá, integrado por Jupiá e Ilha Solteira, se destacou nesse contexto como um marco brasileiro na construção das grandes barragens. E o Laboratório se notabilizou pelo suporte oferecido àqueles empreendimentos, quer pelas inovações tecnológicas conquistadas, quer pela conduta do experimentar para aplicar, desenvolvendo técnicas construtivas e empregando materiais alternativos, e pela metodologia de ensaios oferecida ao meio técnico nacional. Esse processo se deu com maestria, capitaneado por técnicos dedicados e competentes, aos quais muito se deve por essa jornada desenvolvimentista.

O professor Roy Carlson, da Universidade da Califórnia em Berkeley, se destacou neste período, na transferência da tecnologia do concreto para os engenheiros brasileiros, particularmente do concreto-massa, e teve no Laboratório CESP guarida para seus experimentos e ensinamentos. Menção para o engenheiro José Florentino de Castro Sobrinho, idealista determinado, que naquela época como gerente do laboratório estabeleceu os contornos da independência tecnológica externa e a forma de trabalho do Laboratório idealizado, sustentado pelas viagens de intercâmbio aos Estados Unidos, especificamente na Universidade da Califórnia em Berkeley. É inegável a contribuição oferecida por Ilha Solteira à engenharia nacional, com as inovações tecnológicas e novas técnicas construtivas, o emprego de equipamentos e materiais não convencionais. E a participação do Laboratório CESP foi intensa e fundamental, oferecendo suporte para as decisões e garantindo a qualidade do empreendimento. Na construção de Ilha Solteira foi empregado pela primeira vez no Brasil o concreto refrigerado com gelo em escamas, marco pioneiro da CESP, introduzido pelo seu Laboratório de Concreto.

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Esse trabalho. instalava o canteiro para as obras da usina hidroelétrica Nova Avanhandava e concluía os projetos básicos para as três obras do Pontal. pela forma e disposição dos espécimes.Cemitério de blocos de concreto integral.LCEC. possibilitando acompanhar eventual fissuração e sua evolução. As subestações se multiplicavam. construía a usina hidroelétrica Água Vermelha. Nesse período. Em área de destaque. com os seus diversos barramentos. desenvolvido pela CESP nos anos 80.A História das Barragens no Brasil . confeccionados com diversos agregados e aglomerantes (desde 1971) Período bastante promissor para o laboratório de ensaios tecnológicos da CESP. Couto Magalhães. com avanços para os estados circunvizinhos. levantamento e liberação das fontes de agregados e controle das resistências dos concretos. Mecânica dos Solos. particular mente da equipe de Geotecnia. Médio Tietê. tendo a participação do Laboratório em testes de arrancamento em bases das torres. possibilitou mapear o potencial energético remanesceste nas bacias dos rios Turvo. e o LCEC realizava os trabalhos de controle da compactação das suas áreas de implantação. a partir de 1971. As malhas de linhas de transmissão de responsabilidade da CESP se espalhavam pelo interior do Estado. o conjunto de blocos de concreto é conhecido por “cemitério”. Segurança e Controle de Barragens e Instrumentos e Modelos Estruturais. a Unidade foi denominada Laboratório Central de Engenharia Civil . Sapucaí. reconstruía as usinas acidentadas do rio Pardo. Itaparica.Séculos XIX. XX e XXI Naquela oportunidade existiam seis áreas distintas. Mecânica das Rochas. e instalando instrumentos ou realizando provas de carga nas estruturas. ou liberando escavações e tratamentos geológicos. Sobradinho. para uma no Alto rio Tietê e realizava as investigações no Canal Pereira Barreto. Figura 2 . Diversos foram os clientes. com atribuições para atender as demandas internas da CESP e com estrutura que possibilitou intensificar a prestação de serviços a projetos externos nacionais e internacionais. 468 . nos trabalhos de investigação e levantamento de campo nos estudos de viabilidade de aproveitamentos hidráulicos no Estado de São Paulo. acompanhamento da produção e qualidade dos maciços e dos concretos. Registra-se importante participação do Laboratório CESP. O Laboratório Central de Engenharia Civil – LCEC No ano de 1976. com quadros especializados e atividades específicas: Concreto e Materiais. Promissão e Paraibuna/Paraitinga. Geologia Aplicada. destacando-se as obras das barragens: Itaipu. Ribeira e Alto Mogi-Guaçú. Juquiá. pois a Companhia vivia época de franca expansão: terminava as construções das usinas hidroelétricas Capivara. Tucuruí. Alto e Baixo Pardo. Sob o comando do engenheiro George Antonio Mellios. Aqueles blocos de concreto foram expostos ao tempo e assim estão até hoje. e certificar a eficiência da aplicação de material pozolânico nas misturas para inibir os processos expansivos. realizando pesquisas e análises em materiais. teve início um notável programa de ensaios com a moldagem de blocos para verificar o comportamento de concretos confeccionados com diferentes composições de agregados e de aglomerantes. particularmente da reação álcali-agregado. o Laboratório reuniu vinte e quatro colaboradores com formação superior em atividades permanentes nas salas de ensaios e nos canteiros de obras.

Francelino Fernandes Neto. de concessão do Consórcio CESP . reconstrução de Limoeiro e Euclides da Cunha. Luiz Carlos Mendes. verificações de processos construtivos e testes para controle de qualidade e acompanhamento das obras das hidroelétricas e barragens da CESP: Capivara.Ensaios geotécnicos especiais triaxiais sobre amostras indeformadas usinas hidroelétricas Canoas I e Canoas II.Ensaio de cisalhamento direto em materiais rochosos 469 . Taylor Castro Oliveira. Sérgio Silva Macedo. Figura 4 . Promissão. em modelo diferente daquele praticado até então nas obras da Companhia. particularmente na caracterização das propriedades geodinâmicas dos arenitos da escavação do Canal Pereira Barreto. Miguel Normando Abdalla Saad. Francisco Rodrigues Andriolo. Adilson Barbi.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens Começaram suas atividades profissionais no Laboratório CESP e de lá partiram para outras conquistas em novos desafios: Ademar Sonoda. Taquaruçu. Rosana. O Laboratório CESP de Engenharia Civil realizou investigações e pesquisas em materiais e jazidas. Dilermando Hermínio Bispo. não pode ser omitida a participação do professor Manuel Rocha. Luércio Scandiuzzi. Assim como a construção das Figura 3 .CBA . Nova Avanhandava. José Eduardo Costanzo. Paraitinga. Porto Primavera e Mogi Guaçu. Horácio Sverzut Júnior. Assim como foi mencionada a colaboração dos professores Arthur Casagrande e Roy Carlson. João Luiz Armelin. Água Vermelha. Três Irmãos. Paraibuna. As escavações no Canal Pereira Barreto também contaram com os serviços do LCEC. entre outros.Companhia Brasileira de Alumínio teve a participação do Laboratório nas atividades de controle de qualidade. além de Jupiá e Ilha Solteira. Regis Frota. Bento Carlos Sgarbosa.

Podem ser citados alguns exemplos na CESP. O emprego de concreto com agregado pré-colocado. Desenvolvimento de técnicas de produção. outras obras de hidroelétricas de concessão da CESP se seguiram. Benefícios técnicos e vantagens econômicas O desenvolvimento de um eficiente Controle Tecnológico dos materiais e produtos aplicados nas estruturas construídas. os canteiros das obras tinham Laboratório de Campo para o acompanhamento das construções e o LCEC em Ilha Solteira executava os ensaios especiais e não corriqueiros. conseqüentes vantagens econômicas. identificadas 470 . praticado nos anos 70.Ensaio de módulo de elasticidade de corpo de prova de concreto de grandes dimensões (450 mm x 900 mm) Estruturas para o controle tecnológico Concluídas as usinas Jupiá e Ilha Solteira. Emprego de aglomerante em concreto abaixo do limite de 100 kg/m3. O controle tecnológico sempre mereceu atenção e destaque. através da montagem de moinhos de cimento e pozolana em Jupiá. pela formação heterogênea e alterabilidade. com a finalidade de melhor explorar toda a potencialidade do cimento. e a possibilidade de se contar com os serviços de um Laboratório.A História das Barragens no Brasil . Uso de cimento de alta finura. A utilização de caldas refrigeradas e técnicas de injeção a vácuo em cabos de protensão. e oferecia metodologia e procedimentos para padronização das atividades em campo. XX e XXI compatibilizados com o cronograma de obras. com estruturas específicas e atribuições definidas. desenvolvendo pesquisas e avaliando os materiais e os processos executivos empregados nas obras. resultou em benefícios técnicos (bons desempenhos e eficiência dos concretos). com grandes contribuições aos empreendimentos e à Engenharia Nacional. em alguns pilares da subestação de Ilha Solteira. Figura 5 . com uso de 84 kg/m3. A aplicação de pré-moldados incorporados à barragem. acima das recomendações das normas. peculiares a cada empreendimento. a saber: a Usinas hidroelétricas Jupiá e Ilha Solteira A identificação da reatividade potencial álcali-agregado do seixo rolado do rio Paraná e o emprego de material pozolânico para o combate desta reação. O emprego de armadura pré-montada. que tiveram a participação do LCEC. reduzindo o índice de homens/hora por tonelada de barras de aço aplicada.Séculos XIX. Ao seu tempo. devidamente b Usina hidroelétrica Três Irmãos Emprego racional e seletivo de alguns basaltos e recusa de outros. e controle da qualidade do produto.

Verificação da condição aceitável para manutenção dos perfis de veda-junta e de barras de aço aplicadas nos blocos. resultando cimento Portland CP IV de excelente qualidade. que foi superior se considerados transporte e criação de bota-fora com volume de 160.Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens a partir de estudos conduzidos no Laboratório. empregado nos diferentes concretos da obra de Porto Primavera. trouxe benefícios técnicos com vantagens econômicas significativas. atrasos no cronograma e retrabalho. Pesquisa de mercado para definição de cimento a ser aplicado com material potencialmente reativo com os álcalis. computando-se o volume de escavação. d Complexo Canoas Confecção de concretos convencional e bombeado com emprego de areia artificial como agregado miúdo. após longo período de exposição. E também nas construções das hidroelétricas Rosana. susceptível ao intemperísmo. com condição de restrição. c Usina hidroelétrica Porto Primavera Estudo da viabilidade de emprego do basalto de escavação. no concreto da barragem. Porto Primavera e Canoas.000 m3 e ampliação da pedreira com decape superior a 10 m. avaliando soluções para as mais diferentes situações e controlando os materiais e suas aplicações. . garantindo o produto requerido e evitando-se rejeições. A economia resultante dessa seleção foi de aproximadamente US$ 1 milhão. Desenvolvimento de cimento pozolânico com características específicas de finura e teor de adição do material pozolânico. com economia da ordem de US$ 30 milhões. minimizando descarte de materiais. Taquaruçu. Alternativa aprovada pelos ensaios desenvolvidos no Laboratório. Considerações finais A atuação do LCEC acompanhando par e passo a evolução da obra. Vantagens que se apresentaram também junto aos fornecedores.

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Depoimentos Anexo 3 . Diretorias do CBDB Anexo 4 . Simpósios sobre Pequenas e Médias Centrais Hidroelétricas Anexo 6 . Congressos Internacionais e Reuniões Anuais e Executivas Anexo 7 . Entrevistas Anexo 2 .Anexos Anexo 1 .Sócios Mantenedores e Coletivos 473 . Seminários Nacionais de Grandes Barragens Anexo 5 .

irrigação. entre 1978 e 1980.E quando você veio para o Brasil? ELB . Tive. antes de sua vinda para o Brasil como foi a sua carreira no Uruguai? ELB . qual foi a mais interessante tarefa que você vivenciou? ELB . as empresas estatais partiram para a paralisação total de seus estudos e obras ou a manutenção em ritmo lento e ajustes no planejamento setorial GCPS (Grupo Coordenador do Planejamento do Sistema). Em paralelo à regulamentação do Art 175.Exatamente.Como consequência da necessidade de reestruturar o setor elétrico diversas disposições legais foram estabelecidas a partir do final da década de 80. portarias e outros tipos de disposições. onde fui Coordenador Geral de Concessões. na fronteira entre Brasil e Uruguai. entre outros. no Projeto Lagoa MirimBrasil/Uruguai/FAO/PNUD. da qual participo da direção até hoje. hidroeletricidade. você veio para Brasília e permanece aqui até hoje.Depois dessas experiências em consultoria.Na sua trajetória no DNAEE. sem este acerto era impossível pensar em reestruturação do setor elétrico.Larrosa. FMM . FMM . FMM . destacando-se as UHE’s Belo Monte. Entre 1980 e 1991 atuei na Eletronorte. no Mato Grosso e de Samuel. tendo sido gerente do Departamento de Estudos e Projetos de Geração onde foram desenvolvidos empreendimentos em bacias hidrográficas e de usinas. Em 1991 fui convidado para trabalhar no DNAEE. ELB . decretos.Séculos XIX.A História das Barragens no Brasil . em 1968 Entrevistador: Flavio Miguez de Mello Abril de 2010 FMM . então. XX e XXI Anexo 1 Entrevista com o engenheiro Eduardo Larrosa Bequio Formação: Faculdade de Engenharia da Universidad de la Republica Oriental del Uruguay. Em 1968 cursei uma pós-graduação em hidrologia e hidráulica em Madri. Jirau e Santo Antônio.que estabeleceu que os serviços de energia elétrica são responsabilidade da União e podem ser outorgados em regime de concessão ou permissão. No final de 1997. sai do setor estatal e fundei a Larrosa & Santos Engenheiros Consultores. A sequência de tarefas que surgiram depois foi imensa e é difícil escolher a mais interessante.Larrosa. Lajeado.Sou engenheiro civil formado em 1968 pela Faculdade de Engenharia da Universidad de la Republica Oriental del Uruguay FMM . como foi a sua formação profissional? ELB . surgiram ações implantadas para resolver a situação de falência econômico-financeira das empresas concessionárias. contacto com mais de 50 técnicos nacionais e estrangeiros nas diversas disciplinas de uso de recursos naturais. entidade esta responsável pelas outorgas de água para irrigação. mas essa vez. FMM . na sua maioria estatais (lei 8631/97). 474 . meio ambiente.De inicio trabalhei.Em 1974 vim trabalhar na Sondotécnica no Rio de Janeiro em estudos. também no Rio de Janeiro. A necessidade de regulamentar o dispositivo constitucional incorporou varias leis. sempre através de licitação. Como foi a época em que a implantação de usinas hidroelétricas era feita com as verbas de desmobilização? ELB . em Rondônia.Ante à falta de recursos.Nos anos oitenta havia sérias dificuldades de investimento na quase totalidade das empresas estatais. no período 1966/1973. fui chefe do departamento de Estudos de Recursos Naturais da ECP/Projest. do Vale do Paraíba do Sul e dos aproveitamentos hidroelétricos de Manso. etc. economia. entre outros. Exerci também a presidência do Comitê de Irrigação do Leste do Uruguai. Posteriormente. Posteriormente fui co-diretor pela contrapartida uruguaia dos estudos dos aproveitamentos hidroelétricos de Salto Centurião e Talavera no rio Jaguarão.Art 175. estudo de desenvolvimento integrado desta bacia internacional. com a criação da ANEEL. Santa Isabel. Desse arcabouço sobressai-se a Constituição de 1988.

Também foi estabelecido o livre acesso aos sistemas de transmissão e distribuição. Outra disposição do Modelo foi a obrigatoriedade das empresas de serviços públicos desverticalizar suas atividades de geração. FMM . o Mercado Atacadista de Energia (livre negociação de energia) e o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). Machadinho. pois coube ao DNAEE ajudar na formação das parcerias. Algumas empresas partiram para este processo enquanto outras permaneceram 475 . Como foi a transição para a entrada de investidores privados no setor? ELB . FMM .Cinquenta Anos do Comitê Brasileiro de Barragens FMM . em alguns ca