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P rojeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LINE

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizacáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoríam)
APRESENTAQÁO
DA EDIQÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos
estar preparados para dar a razáo da
nossa esperanga a todo aquele que no-la
pedir (1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos


conta da nossa esperanga e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora,
visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrarias á fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crenga católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.

Eis o que neste site Pergunte e


Responderemos propóe aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
vista cristáo a fim de que as dúvidas se
dissipem e a vivencia católica se fortalega
no Brasil e no mundo. Queira Deus
abencoar este trabalho assim como a
equipe de Veritatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.

Pe. Estevao Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicagáo.

A d. Estéváo Bettencourt agradecemos a confiaca


depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
A reforma gregoriana do calenda
e novas perspectivas

Que é o "Opus Del"?

Tradicionalista e fidelidade
á S. Igreja

Objecdes protestantes
ao catolicismo

A tgreja Católica Apostólica


Brasileira

Livros em estantes

Ano jubilar — Set.-Out. — 19


PERGUNTE E RESPONDEREMOS
Publicacao bimestral
SET-OUT — 1982

1957 - ANO JUBILAR - 1982 N° 264

Diretor-Responsável:
. D. Estevao Bettencourt OSB SUMARIO
Autor e Redator de toda a materia
publicada neste periódico
NUNCA PARAR 1

Diretor-Administrador:
Há qualrocéntos anos:
0. Hildebrando P. Martins OSB
A REFORMA GREGORIANA .DO CALEN
Administradlo e distribuicao: DARIO E NOVAS PERSPECTIVAS . . 2

Edades Lumen Christi A obra de Mons. Escrívá de Balaguer:


Oom Gerardo, 40 - 59and., sala 501
QUÉ é O "OPUS DEI"? 13
Tel.: (021) 291=7122
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TRADICIONALISTA E FIDELIDADE A
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S. IGREJA , . . 30

"Vocé sabia?"

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ou vale postal as: LICISMO 46

Edicoes Lumen Christi


Fenómeno doloroso:
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20001 Rio de Janeiro RJ A IGREJA CATÓLICA APOSTÓLICA
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ASSINATURA ANUAL- 1982


1.200,00
NO PRÓXIMO NÚMERO
N? avulso 200,00
Universo em expansáo.
Assinatura comeca no mes da Inscricao
"Inteligencia" dos animáis.

Renove-a quanto antes O problema dos andaos.

"Filosofía da Ciencia" de R. Alves.

"A Nomenklatura" de M. Voslensky.


COMUNIQUE-NOS QUALQUER
"A luta dos deuses" por varios.
MUDANCA DE ENDERECO
"Arijos e demonios na Biblia", por varios.

Composicáo e imprettSo: Ainda a confissao sacramental.

Marques-Saraiva Que é a excomunháo?

Com aprovacao eclesiástica


NUNCA PARAR
O famoso escritor russo Léon Tolstoi (1828-1910) quis
certa vez caracterizar o Cristianismo mediante a seguinte
imagem:

«Cristo riostra ao hornero urna perfeic.áo que ele nao consegue


atingir, mas á qual ele aspira do fundo do seu corajáo; mosira ao
homem um ideaJ tal que o homem sempre pode medir a distancia
que dele o separa. A doutrína de Cristo se assemelha a um homem
que traz urna lantema diante de si na ponta de urna vara mais ou
menos longa: a luz está sempre diante dele e Ihe revela a cada ins
tante um espacp novo que ela ilumina e que vai caminhando com ele»
(Postfácio da Sonata a Krautzer).

Tolstoi acertou... Ele nao nega que o Cristianismo seja


amor, justica, paz..., mas póe em relevo a nota dinámica e
sequiosa do amor, da justica e da paz cristas. As suas palavras
háo de ser entendidas á luz do sermáo da montanha (Mt 5-7),
que aponía ao cristáo metas sempre mais elevadas: «Se a
vossa justiga nao for melhor do que a dos escribas e fariseus,
nao entrareis no reino dos céus» (Mt 5,20). Donde se vé que
o cristáo é alguém que nunca se pode assentar contente consigo
mesmo como se já tivesse alcancado o seu ideal; ao contrario,
é um perene caminheiro, que á sua frente vé constantemente
um sinal de mais ou «inda mais. Chamado a ser filho de Deus
nao por nome apenas, mas em realidade (cf. Uo 3,1-3), sabe
que nunca estará conforme ao modelo que o Pai tracou para
ele. Por isto tende sempre a ultrapassar...: ultrapassar pri-
meiramente a si mesmo, desenvolvendo a sua estatura interior;
ultrapassar também a sua criatividade, descobrindo novas
maneiras de implantar o Evangelho neste mundo, embora o
cristáo saiba que nao é neste mundo de penumbras e símbolos
que os homens chegaráo á plenitude da vida.
Fazendo eco a Tolstoi, dizia sabiamente Henri Bergson,
o filósofo judeu que muito se aproximou do Evangelho:

«O que me impressionou em Jesús, é o programa de ir sempre


á frente. Em conseqüencia, poder-se-ia dizer que o elemento estável
do Cristianismo é o de nunca, parar».

É para excitar tais anseios que mais um fasciculo de PR


é dado a lume. Tentando dissipar dúvidas e projetar luz,
possa contribuir para abrir caminhos aos que foram chamados
a ser peregrinos do Absoluto!

E.B.

— 333 —
«PEROUNTE E RESPONDEREMOS»
Ano XXIII — N« 264 — Setembro-outubro de 1982

Há quatrocentos anos:

A Reforma Gregoriana do Calendario


e Novas Perspectivas
Em sfntese: Em 1982 comemoram-se os quatrocentos anos da
reforma do calendario juliano empreendida pelo Papa Gregorio XIII por
Bula de 24/02/1582. Com efelto, o Imperador Julio César em 45 a.C.
estipulou, na base dos estudos do astrónomo egipcio Sosígenes, que o
ano civil teria 365 dias e 6 horas. Como, na verdade, este só conta 385
dias, 5 horas, 48 minutos e 46 segundos, no decorrer dos séculos deu-se
defasagem cada vez mais senslvel entre o ano oficial civil e o ano real
solar. Os sabios medlevais lam percebendo isto, mas somente no sé-
culo XVI se descobriram as fórmulas necessárias para proceder á reforma
do calendario. Após amadurecidos estudos e ampias consultas aos princi
pes e ás Universidades, o Papa Gregorio XIII estabeleceu que o dia 5 de
outubro de 1S82 seria tido como dia 15 e baixou normas para que a
mesma defasagem nao se repetisse no futuro. O calendario tinha im
portancia religiosa, visto que a festa de Páscoa há de ser celebrada na
primavera (da Europa), mas, por causa do atraso do calendario civil em
relacfio ao solar, passaria a ser festejada no ve rao. Os países católicos
e protestantes aceitaram a reforma gregoriana, estes mais lentamente do
que aqueles. Quanto aos ortodoxos, fazem-lhe restricoes, que explicam
seja a Páscoa ortodoxa celebrada dias depois da Páscoa de católicos e
protestantes. O progresso da clvilizacáo e do diálogo religioso há de con-
tribuir para a superacSo de tal divergencia.

Nos últimos decenios tém-se preconizado novas reformas do calen


darlo, que permitam tornar fixa a data de Páscoa e fazer coincidir perma
nentemente os dias do mes com os dias da semana. A Igreja Católica
nada tem em contrario, desde que se conserve a semana de seis dias de
trabalho e um de repouso e se procure o acordó de todos os ¡nteressados
na reforma do calendario.

Comentario: Em 1982, entre outros centenarios, cele-


bram-se os quatrocentos anos da reforma do calendario uni
versal (1582), devida ao Papa Gregorio xm. Nao somente
interesses civis, mas também premissas religiosas tém influido
na fixagáo das grandes datas do calendario. Ainda hoje entre

O9/I
REFORMA DO CALENDARIO

cristáos verifica-se que os orientáis ortodoxos (cismáticos) nao


celebram a Páscoa na mesma data em que os cristáos ociden-
tais a festejam. Ñas páginas subseqüentes procuraremos expor
os porqués de tal divergencia e o significado da reforma gre
goriana do calendario, qua poderá talvez um dia ceder a outra
reestruturagáo da contagem do tempo.

Comesaremos por explanar urna questáo preliminar de


importancia capital.

1. A ■data da celebrase» da Páscoa

Nao poucas pessoas perguntam se nao se sabe o dia em


que Cristo morreu, pois a comemoragáo da sua morte oscila
todos os anos dentro dos meses de margo e abril.

Em resposta, observaremos que os Evangelhos nao nos


referem exatamente o dia em que o Senhor morreu pregado á
cruz... Na verdade, a data precisa da morte de Cristo parece
ter interessado menos aos antigos cristáos do que o significado
dessa morte; sim, Cristo morreu como o Cordeiro de Páscoa
que levou á plenitude a Páscoa dos judeus. Por isto a morte
de Jesús foi sendo comemorada, desde os primeiros anos da
Igreja, de acordó com o cómputo da Páscoa prescrito pela
Biblia em Ex 12,1-20.

Com efeito. A Lei de Moisés mandava que a salda do


Egito ou a Páscoa dos judeus fosse comemorada anualmente
a 14 de Nisá, ou seja, na primeira lúa cheia da primavera (do
hemisferio setentrional); por conseguinte, a Páscoa dos judeus
era festa móvel, dependendo sempre dos ciclos lunares, que
compreendem um total de 29 dias, 12 horas, 44 minutos e 38
segundos. Os cristáos adotaram o computo bíblico da Páscoa;
viram-se, porém, diante do problema de conciliar entre si o
ciclo lunar e o ciclo solar, pois era necessário que a Páscoa
caisse sempre na primavera. A questáo foi resolvida pelo Con
cilio de Nicéia I (325), o qual determinou que a Páscoa seria
sempre celebrada no domingo após a lúa cheia subseqüente ao
equinócio da primavera (21 de margo). É de notar que o Con
cilio fixou a celebragáo da Páscoa no domingo após a primeira
lúa cheia, em vez de a colocar no 14* dia do mes lunar, como
faziam os judeus. — No século II, houve, sim, entre os cristáos
algumas comunidades da Asia menor que queriam seguir estri-
tamente o calendario judaico celebrando a Páscoa a 14 de Nisá,

— 335 —
A «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 264/1982

qualquer que fosse o día da semana; tal, porém, nao era a


praxe de Roma, que propugnava a celebragáo de Páscoa sem-
pre em domingo, pois foi em domingo que Cristo ressuscitou,
apresentando-se aos homens como a nova criatura ou o segundo
Adáo (cf. 2Cor 5,17; ICor 15,13-19). Prevaleceu o costume de
Roma, que era também o de Alexandria. O Concilio de Ni-
céia I pos termo definitivo ia questáo indicando o domingo como
día de celebragáo da Páscoa.

Eis, porém, que tal Concilio, estipulando o dia 21 de margo


como o do equinócio da primavera, se baseava no calendario
juliano, que estava entáo em voga, mas que viria oportuna
mente a exigir reforma. Voltemo-nos entáo para a questáo do
calendario juliano e da sua reforma gregoriana.

2. Calendario juliano e reforma gregoriana

A palavra calendario vem do vocábulo latino Hatendae,


derivado da raíz grega ka], que significa chamar; donde o verbo
latino kaJane. Kalendae era usado na linguagem sacra para
designar a convocacáo do povo feita no Campidoglio por um
dos Pontífices de Roma paga, quando no céu aparecía a pri-
meira faceta da lúa crescente; anunciavam-se entáo as datas
da lúa crescente (nonae) e da lúa cheia (idus). Kalendae veio
a ser, portante, o dia primeiro do mes lunar.

A palavra kalendarium, a principio, entre os romanos sig-


nificava o registro no qual os banqueiros anotavam os juros
correspondentes aos empréstimos no primeiro dia de cada mes.
Depois kalendarium passou a significar a tabela das datas im
portantes do ano.

2.1. Calendario juliano

O calendario religioso romano contava doze meses, de


29 e 31 dias alternadamente. Comecava em margo; mas, a par
tir de 153 a.C, o seu inicio foi fixado, para fins civis, em 1* de
Janeiro, pois nesta data os cónsules romanos assumiam as suas
fungóes. O ano assim construido era corrigido de dois em dois
anos para corresponder ao ano solar mediante a intercalagáo
de um mes de 22 ou 23 dias, chamado mes intercalar ou mer-
cedónio. Essa insergáo se fazia segundo o arbitrio dos pontí
fices, que nao eram exatos em seus cálculos. Tal situagáo

— 336 —
REFORMA DO CALENDARIO

levou o Imperador Julio César (101-44 a.C.) a intervir refor


mando o calendario; para tanto, encarregou o astrónomo egip
cio Sosígenes de fazer os cálculos; em conseqüéncia, César deu
ao ano de 45 a.C. a duracáo de 445 dias, acrescentando ao
referido ano os 90 dias de atraso do calendario; pelo que tal
ano foi dito «annus confusionis» (ano de confusáo). De 45 a.C.
em diante, cada ano contaría 365 dias e 6 horas; os meses
teriam 30 ou 31 dias e de quatro em quatro anos se acrescen-
taria um dia complementar que compensaría as seis horas nao
calculadas nos outros anos; tal dia seria inserido após 24 de
fevereiro e se chamaria bissexto, porque se contaría duas vezes
o sexto dia antes das calendas de margo ou antes de 1» de
margo. Tal foi a reforma juliana do calendario.

2.2. Reforma gregoriana

Com o passar do tempo, verificou-se que havia uma defa-


sagem entre o calendario oficial e o calendario solar real, pois
o ano solar nao consta de 365 dias e 6 horas, mas de 365 dias,
5 horas, 48 minutos e 46 segundos. Esta diferenpa, por
pequeña que fosse, era causa de que o equinócio da primavera
(importante para se fixar a data de Páscoa) ficasse sempre
mais deslocado para tras em relagáo ao calendario real. No
decorrer dos sáculos, a Páscoa nao seria mais celebrada em
margo-abril, mas em abril-maio, maio-junho,... nao mais na
primavera, mas no veráo (do hemisferio Norte).

Já em 1232 um monge escocés, Joáo de Holywood, propós


no De aoni ratione uma alteracáo na intercalacáo dos dias bis-
sextos. Em 1252 os astrónomos que, por ordem de Afonso X
de Gástela, redigiram as tabelas afonsianas, chegaram á con-
clusáo de que o ano trópico compreende 365 dias, 5 horas, 49
minutos e 12 segundos. O franciscano Rogério Bacon (t 1294),
no Opus Maius ad Clementem IV, propós uma reforma do
calendario. O Papa Clemente IV em 1345 encarregou dois
matemáticos franceses dos estudos necessários. No século XV,
os Concilios de Constanga (1414-1418) e Basiléia (1431-1437)
trataram do assunto, mas sempre sem chegar a resultado satis-
fatório. O Papa Sixto IV (1471-84), por sua vez, pediu a Joáo
Müller de Konigsberg, famoso matemático, que preparasse os
cálculos para a reforma. No Concilio do Latráo V (1511-1517),
o Papa Leáo X deu novo impulso aos trabalhos já realizados,
valendo-se especialmente da eolaboracáo de Paulo de Middle-
burg, que, por assim dizer, completou a tarefa preparatoria.
Também o Imperador Maximiliano I (1459-1519) se interessou
j} <PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 264/1982

pelo assunto, pedindo a cooperacáo dos matemáticos Pighius,


Lucidus, Pitatus, Sepulveda e outros. Por fim, o Concilio de
Trento (1545-1563), em sua última sessáo (4/12/1563), soli-
citou ao Papa a reforma do calendario juntamente com a do
Breviario e a do Missal. O Papa Gregorio Xm (1572-85) assu-
miu decisivamente o propósito em pauta, recorrendo aos mais
ilustres matemáticos da época: os calabreses Antonio e Luís
Giglio, o dominicano Inácio Danti, construtor do gnomon de
S. Petrónio de Bolonha, o jesuíta alemáo Cristóváo Clávio
(Clau) e o espanhol Pedro Chacón. Foi Luis Giglio quem resol-
veu um problema que parecía insuperável, a saber: o de con-
ceber um novo ciclo de epatas (a epata é o número de días
do ciclo lunar ou a idade da lúa no primeiro día de cada ano;
na base da epata se calculam as lúas novas e as lúas cheias do
respectivo ano). Antonio Giglio, médico e literato, apresentou
finalmente ao Papa o projeto de reforma do calendario; Gre
gorio Xm enviou tal esquema «aos príncipes cristáos, as mais
célebres Universidades», que Ihe deram parecer favorável. O
mesmo projeto, depois disto, aínda foi submjetido a urna Comis-
sáo de insignes astrónomos e matemáticos, que o aperfeigoa-
ram. Percorridas estas etapas, Gregorio Xm houve por bem
promulgar a Bula de reforma do calendario ínter gravissimas
na Vila de Mondragone (Frascati) aos 24/02/1582.

A reforma tinha em mira dois objetivos: 1) retificar a


data do equinócio da primavera, que estava dez dias em atraso,
e 2) evitar que, para o futuro, se repetisse o deslocamento do
equinócio. Em conseqüéncia, foi estipulado que se suprimiriam
dez dias do mes de outubro, passando o dia 5 a ser o día 15
desse mes (pois de 5 a 15 era menor o número de santos a
serem festejados do que em outras ocasióes do ano); assim em
1583 o equinócio da primavera seria tranquilamente assina-
lado no dia 21 de margo. Para evitar o deslocamento do equi
nócio no futuro (deslocamento devido ao fato de que o ano
civil tem 11 minutos e 14 segundos a mais do que o solar), foi
definido que, segundo a seguinte regra, se cancelaría periódi
camente um dia: o ano correspondente ao inicio de um século
que, sendo divisível por 4, deveria ser bissexto, nao seria bis-
sexto, com excecáo dos anos de sáculos cujos dois primeiros
algarismos dessem um múltiplo de 4; assim nao seriam bis-
sextos os anos de 1700, 1800 e 1900 (porque 17, 18 e 19 nao
sao divisíveis por 4 ou nao sao múltiplos de 4), mas 1600 seria
bissexto. Assim de 400 em 400 anos se recupera o atraso
sofrido pelo equinócio em quatro sáculos, atraso que é de 21
horas e 18 minutos (quase um dia de 24 horas).
REFORMA DO CALENDARIO

A reforma gregoriana devia encontrar aceitacáo imediata


ao menos em todos os países cristáos. Houve, porém, resisten
cia mesmo da parte dos católicos; os dentistas levantaram obje-
cóes contra a mesma. Isto levou o Papa Clemente VIH (1592-
-1605) a pedir mais urna vez a colaboracáo do jesuíta Cristóváo
Clau de Bamberg, grande matemático e astrónomo; Clau editou
em 1603 um volumoso tratado sobre o calendario, que ficou
sendo clássico: Romani Calendarii a Gregorio XHÍ P. M. Res
tituía Explicatio (Apud Aloysium Zannettum, Romae MDCm
pp. 682). A obra, que se abre com um Breve de aprovacáo do
Clemente Vm, contém a explicacáo do novo calendario e o
cálculo das datas das festas cristas até o ano de 5000.

Nos séculos seguintes, os estudiosos reoonheceram o


alto valor científico do calendario gregoriano. Os países cató
licos todos nao tardaram muito a adotá-lo. Quanto aos países
protestantes, diz-se que «preferiam estar em desacordó com o
sol a estar de acordó com a Curia Romana». Assim os Esta
dos protestantes da Alemanha só o aceitaram em 1699; a Di
namarca, em 1700; a Inglaterra, em 1752; a Suécia, em 1753;
a Suíca, conforme a religiáo e a autonomía de cada cantáo,
entre 1584 e 1811; o Japáo, em 1873.

Os países cismáticos do Oriente — a Grecia, a Rússia, a


Serbia, a Bulgaria, a Ruménia, a Armenia, a Georgia, o Egito
copta — nao aceitaram a reforma, apesar das tentativas de
acordó feitas por Gregorio XHI. Ao contrario, em 1593 reu-
niram-se os quatro Patriarcas bizantinos e muitos bispos em
Constantinopla para anatematizar a reforma gregoriana como
se fosse contraria as normas do Concilio de Nicéia I (325).
Todavía em 1917 o Governo soviético aceitou-a, mas o Pa
triarcado de Moscou nao a segué. Em 1923 o Patriarcado de
Constantinopla e as Igrejas de Atenas, de Chipre, da Polonia
(cismática) e da Ruménia adotaram o calendario gregoriano
para as festas fixas (Natal, Epifanía, Apresentagáo de Jesús no
Templo...), mas nao para as festas movéis (Páscoa e seu
ciclo), que sao calculadas segundo o calendario juliano.

É de crer que o progresso mesmo da civilizacáo e o diá


logo religioso se encarreguem de unificar o calendario dessas
comunidades, adaptando-o aos criterios da ciencia.
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 264/1982

3. Reforma do calendario em nossos lempos?

O atual calendario, por mais bem fundamentado que esteja,


deixa margem a ulteriores aspiragóes.

3.1. Esbo(o histórico

Em 1834 o Pe. Mastrofini publicou em Roma urna obra


em que preconizava um calendario imutável. Cinqüenta anos
depois, a revista L'Astronomie, dirigida em París por Camille
Flammarion, abriu um concurso referente ao assunto, resol-
vendo premiar os primeiros vencedores.

No sáculo XX a adesáo de novas nagóes ao calendario gre


goriano mais chamou a atengáo para o valor do «padráo único»
no tocante á contagem dos días: as Cámaras de Comercio tra-
taram do assunto em seus Congressos (Praga, 1908; Londres,
1910; Bostón, 1912; París, 1914). Em 1914 o governo suígo
se aprestava para fazer urna comunicagao diplomática a todos
os povos sobre o assunto quando irrompeu a primeira guerra
mundial.

Pouco depois desta, em 1922, a Uniáo Astronómica Inter


nacional elaborou um projeto que a Liga das Nagóes em 1923
resolveu submeter a todos os governos civis e autoridades reli
giosas. A própria Liga das Nacóes constituiu urna comissáo
encarregada do estudo da questáo, comissáo em que figuravam
o Prof. Van Eysingha, de Leyde, perito técnico no assunto, o
R. P. Gianfranceschi, Presidente da Academia Pontificia dos
Nuovi Ldnoei, D. Eginitis, Diretor do Observatorio Nacional de
Atenas, designado pelo Patriarca de Constantinopla, o Rev.
Philipps, representante do arcebispo de Cantuária (anglicano),
Willis Booth, Presidente da Cámara Internacional de Comer
cio, G. Bigourdan, ex-presidente da comissáo da Uniáo Astro
nómica. Esses representantes de diversos credos e interesses
concordaran! logo numa de suas primeiras sessóes em que, «do
ponto de vista estritamente dogmático, o exame da reforma
do calendario, no que concerne tanto á festa de Páscoa como
á questáo mais geral da reforma do calendario gregoriano, nao
suscita dificuldades de natureza tal que se devam de antemáo
considerar insuperáveis» (Rapport relatif a la Reforme da Ca-
lendrier, Gonéve 1926,7).
REFORMA DO CALENDARIO

Por fim, em 1930 fundou-se em Nova Iorque urna Asso-


ciagao Universal do Calendario que publica a revista Journal
of Calender Reform. Essa associacáo coordena eficazmente os
esforgos dos estudiosos de cada nagáo em prol do objetivo
comum.

3.2. As teses reformistas

As propostas de inovagóes nao visam retocar a correcto


feita ao calendario juliano por obra do Pontífice Gregorio Xm
em 1582. Esta emenda é tida por táo adequada quanto possí-
yelno estado atual da ciencia. Os observadores, porém, foca-
iizam dois pontos defeituosos no atual sistema:
a falta de correspondencia regular dos días do mes eom
os días da semana (o dia 1» de Janeiro, se num ano caí em
domingo, no ano seguinte cai em segunda ou, no caso de bis-
sextilidade, em terga-feira);

a mutabilidade da data de Páseoa. Esta solenidade é tra-


dicionalmente celebrada no domingo que se segué a primeira
ma cheia após o equinócio da primavera. Ora, sendo o equi-
nócio da primavera colocado no dia 21 de margo (de acordó
oom o concilio de Nicéia), a data de Páseoa pode deslocar-se
de 22 de margo a 25 de abril. A variabilidade de Páseoa acar
reta naturalmente a de urna serie de celebragóes religiosas e
civis (Ascensáo, Pentecostés, Quaresma, Carnaval, etc.).

Nao há dúvida de que estas duas características do calen


dario vigente causam transtornos aos diversos setores da ati-
vidade humana, principalmente á industria, ao comercio e ao
ensino. Além disto, a vida crista, diz-se, seria beneficiada pela
fixagáo da data de Páseoa, pois o culto sagrado se desenvol
vería dentro de um quadro mais regular e compreensível aos
fiéis.

Em vista desse estado de coisas, os estudiosos, coligindo


os diversos postulados dos grupos interessados, elaboraram o
seguinte plano, que se tornou o mais focalizado dentre os seus
congéneres:

— 341 —
10 <PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 264/1982

1* Trimestre 2» Trimestre 3* Trimestre 4' Trimestre

1. Dom. 1. Dom. 1. Dom. 1. Dom.


1* Janeiro 1' abril 1* julho 1* out.
8. Dom. 8. Dom. 8. Dom. 8. Dom.
15. Dom. 15. Dom. 15. Dom. 15. Dom.
22. Dom. 22. Dom. 22. Dom. 22. Dom.
29. Dom. 29. Dom. 29. Dom. 29. Dom.
32. 1' fev. 32. 1' mato 32. 1' agosto 32. 1' nov.
36 Dom. 36. Dom. 36. Dom. 36. Dom.
43. Dom. 43. Dom. 43. Dom. 43. Dom.
50. Dom. 50. Dom. 50. Dom. 50. Dom.
57. Dom. 57. Dom. 57. Dom. 57. Dom.

62. 1* margo 62. 1' junho 62. 1« set. 62. V dez.


64. Dom. 64. Dom. 64. Dom. 64. Dom.
71. Dom. 71. Dom. 71. Dom. 71. Dom.
78. Dom. 78. Dom. 78. Dom. 78. Dom.
85. Dom. 85. Dom. 85. Dom. 85. Dom.

91. Sábado 91. Sábado 91. Sábado 91. Sábado


• Bissextil t 365' dia

* De quatro em quatro anos, um dia bissextil, após 30 de junho


T Todos os anos, o 365' dia, após 30 de dezembro

Como se vé, o ano de doze meses estaría repartido em


quatro trimestres, cada qual constando de dois meses de 30
dias e um mes de 31 dias (ao todo, 91 días). Cada trimestre
cometaria por um domingo e terminaría por um sábado; o dia
1» de Janeiro seria sempre um domingo. O 365* dia do ano
tomaría lugar após o dia 30 de dezembro, com o nome de
«sábado bis» ou «dia branco», podendo ser equiparado a um
domingo. O dia bissextil (outro «dia branco»), quando ocor-
resse, ocuparía o fim do segundo trimestre, após 30 de junho;
seria o dia 31 de junho, assemelhado a um domingo.

Em resposta, observe-se que o cálculo da data de Páscoa


na base do ciclo da lúa, por muito tradicional que seja, per-
tence aos preceitos rituais da Antiga Leí, preceitos em parte
condicionados pelas instituicóes vigentes na civilizaQáo anterior
a Cristo (o mes lunar e o calendario luni-solar tinham outrora
urna importancia de que hoje já nao desfrutam); ora os pre
ceitos rituais do Antigo Testamento, sendo evidentemente pro
visorios, nada tém de dogmático; cabe, portante, á autoridade
da Igreja dispor a seu respeito, adaptando-os aos usos de épo
cas posteriores; a fé crista apenas exigirá que Páscoa continué

— 342 —
REFORMA DO CALENDARIO 11

a ser celebrada em domingo. — Verdade é que a Igreja nunca


aceitará sem serios motivos a derrogagáo á tradigáo que sem-
pre esteve em vigor no povo de Deus; ela só aprovará a fixa-
gáo da data de Páscoa, caso esta corresponda realmente as
aspiragóes do bem comum, tanto no setor religioso como no
civil.
Em junho de 1935 urna comissáo de estudiosos ingleses
foi a Roma entregar ao Santo Padre Pió XI um. memorial das
mudangas que desejariam ver introduzidas no calendario gre
goriano. A Santa Sé se mostrou de certo modo favorável ao
projeto, contanto que o plano de reforma receba o apoio ao
menos da maioria das comunidades interessadas no assunto.
Semelhante atitude tem sido adotada pelos cristáos cismá
ticos orientáis e pelos protestantes; requer-se naturalmente
acordó previo sobre qualquer reforma, a fim de evitar multi-
plicidade de calendarios, fomentadora de confusáo entre os
fiéis.

Em 1963 a Igreja Católica pronunciou-se sobre os proje


tos de reforma do calendario, declarando em Apéndice á Cons-
tituigáo Sacrosanctum Ooncilium do Concilio do Vaticano n
quanto segué:

"O Sacrossanto Concilio Ecuménico do Vaticano II, julgando serem


de grande Importancia os desejos de muitos no sentido de fixar a festa
da Páscoa em domingo determinado e de estabelecer um calendario fixo,
tendo considerado com diligencia tudo o que pode resultar da IntroducSo
do novo calendario, declara o seguinte:

1. O Sacrossanto Concilio nSo se opSe a que a festa da Páscoa


seja flxada num domingo certo do calendario gregoriano, com o consentl-
mento dos interessados, principalmente dos Irmáos separados da comunhao
com a Sé Apostólica.

2. Da mesma forma, o Sacrossanto Concilio declara que nfio se


opfle ¿s Iniciativas que visam a ¡ntroduzir um calendario perpetuo para a
socledade civil.

Dos varios sistemas, porém, que se excogltarem para estabelecer um


calendario perpetuo e IntroduzMo na sociedade civil, a Igreja só nio se
opde aqueles que conservam e guardam a semana de sete días com o
domingo, nSo Intercalando nenhum dia fora da semana, de forma que se
deixe inlata a sucessáo das semanas, a nio ser que se apresentem gra
vísimas razdes, sujeitas á constderacSo da Sé Apostólica".

Como se vé, a Igreja Católica é ciosa de que

1) nao se destrua a semana com seus seis dias de traba-


lho e o repouso dominical, por causa do fundamento bíblico de
tal instituicáo;

— 343 —
12 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 264/1982

2) nao se criem maiores distancias entre orientáis e lati


nos por causa da fixagáo da data de Páscoa.

Era necessario trazer toda esta temática ao público estu


dioso neste ano do quarto centenario da reforma gregoriana,
que certamente foi urna das grandes benemerencias da cultura
crista na historia universal.

A propósito vejam-se

CHAUVE-BERTRAND, A., Vers un calendrter nouveau, em "Epheme-


rtdes Llturglcae" 54 (1940), págs. 67-87.

DE ROSA, G., Quatro secoll fa la rlforma del calendarlo, em "La


Civilta Cattolica" n<? 3160, 20/02/82, págs. 350-362.

DIVERSOS, verbete Calendarlo, em "Enciclopedia Cattolica" MI. Cittá


del Vaticano, cois. 344-364.

PR 14/1959, pág.s. 51-57;


218/1978, págs. 51-62;
222/1978, págs. 254s.

* * *

(Continuacio da pág. 420)

gao como um produto da sociedade de consumo; resultarla dos mecanismos


de exploracáo da mulher e do machismo Imperante, que levam multas
jovens e nao jovens a praticar o aluguel do seu corpo como meio de sobre
viven em conseqüéncia, o llvro apregoa urna reforma da sociedade atual
para que a mulher seja devidamente reconhecida em sua dignidade incon-
fundlvel. Ao lado desta tese, sSo registradas tentativas de sanar de (me
diato a situacüo da mulher prostituta no Brasil, tentativas empreendidas
especialmente por Irmas da Congregacao do Bom Pastor.

Embora o livro dé a ver com fidelidade multos aspectos da realidade


em foco, é, em varias de suas páginas, um tanto unilateral. Assim, por exem-
plo, ao considerar o aspecto moral da prostituIcSo, so realga o pecado social
e a correspondente libertacao social, quando haveria que enfatizar também
normas de disciplina pessoal do homem e da mulher hoje (cf. pp. 59-76).
A p. 21 J. A. da Silva Curado cita sentencas de filósofos gregos e de dou-
tores cristfios que depreciaram a mulher através dos tempos; todavía o autor
nao cita as fontes das quais terá tirado as frases transcritas. Na verdade, a
respeito de S. Bernardo, que teria chamado a mulher "urna peste", existe
interessante e documentado estudo de Jean Leclercq, que mostra como o
santo doutor reverenciava a mulher, tendo em vista principalmente a figura
de Maria SS., da qual era grande devoto. A propósito veja-se Jean Leclercq:
A mulher na teología dos monges da Idade Media, em COMMUNIO n? 4,
jul.-ago. 1982, pp. 334-344.

E.B.

— 344 —
A obra de Mons. Escrivá de Balaguer:

Que é o "Opus Dei"?

Em sfrttese: O Opus Del (Obra de Deus) é unía Instituicáo da Igreja


Católica, de extensSo e reglme universais, fundada\por Mons. Josemaría
Escrivá de Balaguer y Albas em 1928, a fim de avivar em homens e mu-
Iheres cristSos a conscléncia de que todos sao chamados á santidade,
mesmo que tenham voca;5o secular; é através do cumplimento dos deve
res na familia e na profissao que o cristáo deve chegar á perfeícSo. O
Opus Dei nao impSe votos aos seus socios, mas pede-lhes que assumam,
com toda a seriedade, os seus compromissos de Batismo; oferece-lhes
outrossím melos de santificacao e formafáo doutrinárla, em estrita fideli-
dade & S. Igreja. NSo há segredos no Opus Dei nem opcdes politico-
•partídárias próprias da Institulcao nem empresas que pertencam a Obra;
cada socio ó llvre para fazer suas opgóes políticas e profissionais hones
tas de acordó com a sua consciéncla bem formada. O Opus Dei nao
oferece vantagens pecuniarias aos seus adeptos, pois geralmente as tare-
fas que empreende s§o deficitarias.

Numa palavra, como dizia Pauto VI, o Opus Dei é urna resposta da
vitalidade da Igreja aos desafios dos novos tempos; é urna expressáo da
perene juventude da Igreja.

Comentario: Fala-se, as vezes, de Opas Dei em tom


curioso, como se fosse algo de misterioso e secreto, á seme-
Ihanga de urna sociedade" macónica dentro da Igreja ou de
um «Rotary de Deus» ou de urna «sociedade anónima» ou de
um «grupo reacionário»... Na verdade, poucas pessoas conhe-
cem devidamente o Opus Dei; por isto imaginam a respeito
proposigóes que nao correspondem á realidade.

É o que nos leva a escrever algo sobre tal Obra: suas ori-
gens, suas finalidades, seu caráter jurídico, seus socios... seráo
objeto dé nossa atengáo. A elucidado aquí proposta está ba-
seada nos livros, ensaios e artigos publicados sobre essa Insti-
tuigáo bem como em bibliografía fornecida pela própria orga-
nizagáo do Opus Dei no Brasil.

1. Opus Dei: origens

O fundador do Opus Dei é Mons. Josemaria Escrivá de Ba


laguer y Albas, nascido em Barbastro (Espanha) aos 9/01/1902
e falecido em Roma aos 26/06/1975, em odor de santidade.
O seu processo de beatificagáo já está em curso a partir de
5/02/1981.

— 345 —
14 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 264/1982

Mons. Escrivá fez os estudos humanísticos em Barbastro


e Lorgoño, e os estudos eclesiásticos na Pontificia Universi
dade de Saragoga, onde se licenciou em S. Teología. Mais
tarde em Roma obteria o grau de doutor. Oportunamente dou-
torou-se também em Direito Civil pela Universidade de Madrid.

Ordenado sacerdote no dia 28 de margo de 1925, iniciou a


sua atividade pastoral em paróquias rurais e, desde 1927, entre
os pobres e enfermos dos suburbios e dos hospitais de Madrid.
Poucos anos mais tarde, foi nomeado Reitor do Real Patro
nato Santa Isabel, também em Madrid. Depois de muitos anos
de oragáo, pedindo a Deus que Ihe fizesse conhecer a sua Von-
tade, em 2 de outubro de 1928 o Pe. Escrivá viu com clareza
o que Nosso Senhor Ihe pedia. Nessa data foi fundado o Opus
Dei. A partir desse momento, o Pe. Escrivá comecou a traba-
Ihar, cercado de um pequeño grupo de estudantes e operarios,
aos quais mostrava os caminhos da uniáo com Deus em meio
aos embates universitarios e profissionais. Tinha por obje
tivo a santificagáo dos seus membros — qualquer que fosse a
respectiva categoría social — através do trabalho e da vida
no mundo vivida em profunda atitude de oragáo (ou mesmo
contemplacáo).

O Anuario Pontificio, ao apresentar o Opus Dei, atribui-


-lhe a finalidade de «promover a busca da plenitude da vida
crista em todas as classes sociais, especialmente entre os inte-
lectuais...» Estas últimas palavras se entendem pelo fato de
que foi dos intelectuais que partiu o movimiento de descristia-
nizacáo da sociedade; será, pois, necessário procurar que, a
partir dos mesmos, se expanda a recristianizagáo da sociedade.
Isto, porém, nao quer dizer que o Opus Dei seja reservado as
classes de élite; ao contrario, nele se encontram modestos tra-
balhadores, como se depreenderá das entrevistas que publica
remos no finí deste artigo.

Aos 14/02/1930, Mons. Escrivá fundou a Seccáo Femi-


nina do Opus Dei, e aos 14/02/43, dentro do Opus Dei mesmo,
a Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz, destinada aos sacerdo
tes. A última aprovacáo que o Opas Dei recebeu da Santa Sé,
ocorreu aos 16/06/1950. Com oragáo, penitencia e trabalho
incessante, o fundador promoveu a expansáo da sua obra por
todo o mundo ao longo de quarenta e sete anos. Quando ter-
minou a sua carreira terrestre, o Opus Dei já estava esparso
pelos cinco continentes e contava com mais de 60.000 socios
de oitenta nacionalidades.

— 346 —
QUE é O «OPUS DEI>f 15

Mons. Escrivá deixou numerosos escritos — publicados e


inéditos , dos quais o mais difundido traz o título Caminho:
é urna coletánea de 999 pensamentos, curtos e profundos, que
refletem alguns dos aspectos fundamentáis da espiritualidade
do autor e da instituicao por ele fundada; a primeira edicáo
saiu em 1934 com o título Considera§5es espirituais; desde entáo
foram publicadas mais de 152 edicóes num total de 34 línguas
e perto de 2.775.650 exemplares. Notem-se também outros títu
los: Questóas Atoáis do Cristianismo (texto de entrevistas),
É Cristo que passa e Amigos de Deus (duas coletáneas de
homilías), Santo Rosario (meditacóes sobre os misterios do
Rosario), Via Sacra,

Examinemos agora de mais perto a obra de Mons. Es


crivá e suas facetas.

2. Opus De¡: finalidades

A grande meta do Opus Dei é contribuir para que pes-


soas de todas as condicóes sociais tomem consciéncia da digni-
dade da vooacáo crista e das conseqüéncias que esta acarreta.
O Opus Dei oferece aos seus socios a formacáo necessária para
que vivam, no mundo e no exercício da sua profissáo, as gran
des normas da vocacáo crista.

Diz o n* 939 do Caminhor. «Sede homens e mulheres do


mundo, mas nao sejais homens e mulheres mundanos».

Cada membro do Opus Dei há de fazer do seu trabalho


de advogado, médico, professor, militar, operario, camponés...
o meio de sua santificagáo pessoal e de sua irradiagáo apostó
lica. Sao palavras de Mons. Escrivá: «O trabalho profissio-
nal. é nao somente o ámbito no qual os membros do Opus
Dei devem procurar a perfeigáo crista, mas é também o meio
e o caminho de que se servem para a conseguir» (Carta, Ma
drid, 24/03/1930). Alias, o decreto Primum inter, pelo qual
a Santa Sé aprovou o Opus Dei, frisa que os socios «exercem
com o máximo empenho todas as profissóes civis honradas e,
por mais profanas que sejam, procurara sempre santificá-las
mediante pureza de intengáo constantemente renovada, com o
afá de crescer na vida interior, com urna abnegacáo continua
e alegre, com o sacrificio de um trabalho duro e tenaz, que
deve ser perfeito em todas as suas dimensóes».

— 347 —
16 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 264/1982

O fundador chegou mesmo a propor insistentemente a


norma: «Almas contemplativas em meio ao estrépito do
mundo».

Em conseqüéncia, os membros do Opas Dei procuram con


ferir um significado transcendental as suas tarefas; observa
Mons. Escrivá:

"Espero que chegue um momento no qual a frase os católicos pene-


tram nos ambientes soclais deixe de ser repetida e todos se déem conta
de que é urna expressáo clerical. Em todo caso, nio se aplica em nada
ao apostolado do Opus Del. Os socios da Obra nio tém necessidade de
penetrar ñas estruturas temporais pelo simples fato de que sio cidadSos
Iguais aos demais e, por conseguidle, já integram as estruturas da socie-
dade" (Carta Madrid, 24/03/1930).

Via de regra, os socios nao se entregam a atividades eon-


fessionais ou eclesiásticas precisamente para poder santificar
os setores de trabalho que sao específicos dos leigos. Note-se
a ponderagáo de Mons. Escrivá:

"Se deixassem de atender as suas tarefas no mundo para ocupar-se


com atividades da Igreja, tornariam ineficazes os dons divinos recebldos e,
na ilusáo de urna eficacia pastoral Imediata, causariam um daño real a
Igreja, porque nio haveria tantos cristáos dedicados a santificar-se em
todas as profissdes e oficios da sociedade civil e no imenso campo do
trabalho secular. Ademáis, a exigente necessidade de continua formacao
profissional e de formacáo religiosa, juntamente com o tempo dedicado
pessoalmente á piedade, á oracio e ao abnegado cumprimento dos deve
res de estado, toma a vida intelra: nio há horas llvres" (Ibd.).

A fim de que os membros do Opus Dei sejam realmente o


fermento na massa, Mons. Escrivá exige deles nao sonriente o
preparo espiritual, mas também, na medida do possível, o
estudo:

"Urna hora de estudo, para um apostólo moderno, é urna hora de


oracio. Antes, os conhecimentos humanos — a ciencia — eram multo
limitados; parecía muito posstvel que um só Individuo sabio pudesse fazer
a defesa e apología da nossa santa fé. Hoje, com a extensio e a inten-
sidade da ciencia moderna, é necessário que os apologistas repartam entre
si o trabalho para defender científicamente a Igreja em todas as frentes"
(Camlnho, n.°» 335 e 236).

Pergunta-se agora: qual o estatuto jurídico do Opus Dei


na Igreja?

— 348 —
QUE £ O «OPUS DEI»? 17

3. Estatuto pirídico

Jurídicamente falando, o Opus Bei foi aprovado em 1947,


dentro do quadro que oferecia o direito da Igreja anterior ao
Concilio do Vaticano n, como Instituto Secular, embora esta
forma jurídica nao corresponda ao carisma fundacional da
instátuigáo, de modo que, na realidade concreta, nao pode ser
considerada um de tais Institutos. Melhor se poderia classifi-
car como instituigáo ou associagáo de fiéis, de extensáo e
regime universais.

Mas que vem a ser um Instituto Secular?

— Os Institutos Seculares sao urna realidade relativa


mente recente na Igreja. Devem a sua origem ao fato de que
a organizacáo das Ordens e Congregagóes Religiosas tradicio-
nais parece um tanto rígida para enfrentar desafios do apos
tolado moderno; principalmente a exigencia de vida comuni
taria dificulta a penetracáo em certos setores da sociedade
(fábricas, laboratorios, minas, etc.). Em conseqüéncia, surgi-
ram na Igreja do sáculo XX certas formas de vida consagrada
a Deus pelos tres votos religiosos, dotadas, porém, de maior
flexibilidade do que as anteriores: assim os seus membros se-
riam autorizados a viver com a familia ou em seu recinto
mesmo de trabalho, emitir votos ou promessas de caráter pri
vado, praticar a pobreza em termos adequados ao exercício de
urna profissáo secular, guardar o sigilo da sua identidade...,
a fim de terem mais livre acesso a todo e qualquer ambiente
de trabalho, mesmo hostil ao Cristianismo. Sao espécimens
dessa tendencia os padres-operarios da Franga, que iam tra-
balhar ñas fábricas, participavam da vida dos sindicatos e cele-
bravam a Eucaristía em trajes de trabalhadores (tal expe
riencia, nao tendo produzido os frutos almejados, sofreu serias
restrigóes da Santa Sé em 1959).

A nova forma de vida consagrada a Deus no mundo foi


cuidadosamente estudada pelo Papa Pió XII, que aos 2/02/1947
houve por bem dar-lhe forma jurídica oficial mediante a Consti-
tuigáo Provida Mater Ecclesia, á qual se seguiu o Motu proprio
«Primo feliciter» de 2/03/1948. A Santa Sé nesses documen
tos reconhece a tais organizagóes chamadas Institutos Secula
res o direito de nao terem vida comum nem votos públicos;
exige, porém, o celibato, a obediencia as Constituigóes e a po
breza de acordó com estas, da parte dos respectivos membros.

— 349 —
18 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS* 264/1982

Ora o Opas Dei nao é urna Ordem Religiosa (embora


Opus Dei lembre o Oficio Divino dos beneditinos) nem Ordem
Terceira, mas foi classificado por Pió XII como «Instituto
Secular» ou mesmo «o modelo dos Institutos Seculares». Na
prática, porém, tem-se verificado que o Opus Dei nao preen-
che as condigSes de um Instituto Secular, pois: 1) os seus mem-
bros nao emitem votos religiosos, sendo muitos deles casados,
2) nao se consagram a obras explícitamente apostólicas ou
confessionais, mas ao trabalho profissional. Em conseqüéncia,
hoje em día é comum reconhecer-se que o Opus Dei na prá
tica nao é um Instituto Secular, mas, sim, urna Associacáo de
fiéis ou urna Associacáo católica internacional, como se exprime
o jornal L'Osservatore Romano (ed. italiana de 3/08/74;
ed. castelhana de 23/02/75; ed. alema de 2/08/74; ed. inglesa
de 29/08/74). Este estatuto próprio do Opus Dei vem sendo
estudado, há alguns anos, pela Santa Sé, de modo que possi-
velmente terá nova classifioacáo jurídica dentro da Igreja, ple
namente adaptada ao carisma fundacional.

4. Opus Dei: organiza^áo inferna

1. Dentro do Opus Dei podem-se distinguir quatro tipos


de associados, de acordó com a forma de vinculagáo que assu-
mam com a Obra (vinculagáo que depende de condigóes de
familia, trabalho profissional, saúde, etc.):

1) Os numerarios (numeraríi) optam pelo celibato. Es-


tudam durante seis anos Filosofía e Teología e tém um diploma
civil universitario de médico, advogado, engenheiro...

2) Os agregados também recebem formacáo filosófica e


teológica, mas nao possuem necessariamente diploma civil;
podem exercer qualquer profissáo. Sao celibatários e even-
tualmente vém a ser ordenados sacerdotes.

3) Supernumerarios. Podem casar-se e tém por ideal


viver intensamente o espirito do Evangelho na sua vida pro
fissional e em familia.

4) Cooperadores. Sao amigos que colaboram com o Opas


Dei, dos quais alguns sao sacerdotes e outros podem nem ser
católicos.
QUE fi O «OPUS PEE»? 19

2. Além do ramo masculino, no Opus Dei há também o


femínino, que goza de autonomía frente ao setor dos homens,
mas que está sob o mesmo Presidente Geral da Associagáo.
Os sacerdotes do Opas Dei prestam assisténcia espiritual aos
associados da Obra.

3. Aínda se deve registrar a existencia da Sociedade


Sacerdotal da Santa Cruz, composta de sacerdotes e alguns
leigos do Opas Dei. Com efeito; verifíca-se que todos os anos
certo número de associados da Obra recebe as Ordens sacras;
sao homens que, depois de ter vivido as virtudes recomendadas
pela instituicáo, dentro do exercício de seu trabalho profissio-
nal, e, depois de ter cursado sem pressa todos os estudos ecle
siásticos, sao chamados ao sacerdocio. Dentro do Opus Dei os
sacerdotes nao gozam de prerrogativas jurídicas; por isto a
mor parte dos cargos de governo da Obra sao ocupados por
leigos, resultando daí o caráter marcadamente laical da Obra;
os sacerdotes dentro desta exercem principalmente a funcáo
de manter vivo o espirito do Opas Dei em todos os associados.
Escreve Mons. Balaguer:

"O apostolado profesional é exercido fundamentalmente pelos lei


gos... Cada socio procura ser apostólo em seu ambiente de trabalho,
aproximando de Cristo as almas mediante o exemplo e a palavra: o diá
logo. Todavía no exercício do apostolado quem conduz as almas pelo
caminho da vida crista, chega ao muro sacramental. A fungSo santiflca-
dora do leígo precisa da funjáo santificadora do sacerdote, que admi
nistra o sacramento da Penitencia, celebra a Eucaristía e proclama a Pa
lavra de Deus em nome da Igreja. E, como o apostolado do Opus Del
supoe urna espiritualidade especifica, é necessário que o sacerdote tam
bém dé um testemunho vivo desse espirito peculiar".

4. O Governo Geral do Opas Dei é assaz descentralizado:


consta de um Presidente Geral, que é assistido por um Conselho
constituido por um número elevado de profissionais de países
diferentes, conforme as necessidades apostólicas da Instituigáo.
A esse Conselho compete orientar, em suas linhas fundamen
táis, o apostolado da Obra no mundo inteiro, de tal modo, po-
rém, que se deixe aos dirigentes de cada país urna ampia mar-
gem de iniciativas.

Organizacáo análoga existe no plano das «circunscricóes


regionais», presididas por um Conselheiro ou Diretor, que é
sacerdote; é a este que toca manter os devidos contatos com
os senhores Bispos, visto que um dos tragos mais característi
cos do Opus Dei é o fato de trabalhar sempre em estreita e

— 351 —
20 «PERGTJNTE E RESPONDEREMOS» 264/1982

leal oomunháo com a Hierarquia, sem outra mira que a de


servir á Igreja, de acordó com seu modo de ser e as formas
apostólicas especificas, aprovadas pela Santa Sé.

Em plano local, existem residencias e centros do Opas Dei


dirigidos por leigos.

A respeito do Governo do Opus Dei declarou certa vez


Mons. Escrivá a um jornalista:

"Nao pense numa organizacSo poderosa, capllarmente estendida até


o último rincáo. Imagine, antes, urna organizado desorganizada, pois o
trabalho dos dirigentes do Opus Dei tende principalmente a fazer que a
todos os socios chegue o genuino espirito do Evangelho — espirito de
caridade, de convivencia, de compreensSo, absolutamente alheio ao fana
tismo —, através de sólida e oportuna formacáo teológica e apostólica.
Depois, cada um procede com total liberdade pessoal e, formando autó
nomamente a sua própria consciéncla, procura a perfeicüo crista e esfor-
pa-se por cristianizar o seu ambiente, santificando o trabalho intelectual
ou manual, em qualquer momento de sua vida e em seu próprio lar".

«Organizagáo desorganizada»: foi a expressáo que Mons.


Escrivá encontrou para designar a flexibilidade de Governo do
Opus Dei.

5. Opus Dei: espiritualidade

Os aspectos jurídicos do Opus Dei só tém o sentido de


favorecer a espiritualidade ou o encaminhamento dos socios
para Deus. Dai a importancia de urna abordagem explícita da
espiritualidade do Opus Dei.

Pode-se dizer que Mons. Escrivá quis recordar, já antes do


Concilio; urna grande proposigáo da teología católica que o
Concilio do Vaticano n (1962-1965) haveria de por em relevo
especial: a vocacáo universal á santidade (cf. Constituicjio
Lumen Gentium, c. 3). Com efeito, nao somente os Religiosos
consagrados a Deus por votos de pobreza, castidade e obedien
cia e reunidos em casas de vida comum sao chamados á per-
feigáo crista ou á santidade, mas também todos os leigos; em
outras palavras: o cristáo, como cristáo, desde o seu Batismo
alimentado pela participagáo da Eucaristía, é chamado á san
tidade. Escreve Mons. Escrivá em Caminho 291:

"Tens a obrigacSo de santlficar-te. Tu também. Quem julga que tal


dever ó exclusivo de sacerdotes e Religiosos? A todos sem excecSo disse
o Senhor: 'Sede perfeltos como meu Pai celestial é perfeito'".
Que ± ó «OPUs déi»? 21

Isto explica que as virtudes mais enfatizadas, dentro da


espiritualidade do Opus Dei, sejam — aiém das virtudes teo-
logais e cardeais — precisamente as que correspondem ao seu
caráter secular e laical, isto é, as condigoes de horneas e mu-
Iheres que sao chamados por Deus a santificar-se e a exercer
o apostolado em meio ao mundo: a fidelidade ao trabalho pro-
íissional e nao proiissionaJ, a sinceridade, a lealdade, a perse-
veranga, a forga de vontade, o otimismo, a alegría, a cari»
dade... Em sintese: as tarefas cotidianas — grandes e peque
ñas — da vida de um cristáo no século sao apresentadas a
cada socio como a ocasiáo de se santificar e de santificar o
respectivo ambiente (de familia ou de trabalho). O cumpri-
mento de tais deveres exato, inspirado pela fé, torna-se verda-
deira ascese para o cristáo; este, consequentemente, é liberto
de suas paixoes desregradas para melhor poder elevar-se a
Deus na oragáo. A perfeigáo crista incluí certamente a mis-
tica ou a contemplado de Deus em meio as tarefas da vida
ativa. Refere-se que em 1941 o espanhol Víctor García Hoz,
depois de confessar-se, ouviu o sacerdote dizer-lhe: «Deus te
chama por caminhos de contemplagáo». Ficou desconcertado.
Sempre ouvira dizer que a contempiacáo era coisa de santos
que andam pelos caminhos da vida mística e que somente a
alcangavam alguns eleitos, que, alias, se afastavam do mundo.
«Mas eu — escrevia García Hoz •*— naqueles anos era casado,
tinha dois ou tres filhos e estava á espera de ter mais, como
realmente aconteceu, e trabalhava para sustentar a familia».
— Quem era esse confessor revolucionario, que pulava por
cima das barreiras tradidonais e propunha metas místicas até
para os fiéis casados? Era Josemaría Escrivá de Balaguer.

Este, alias, escrevia em 1967:


"Somos urna pequeña porcentagem de sacerdotes que anteriormente
exerclam uma prolissáo ou um oficio laical; um grande número de sacer
dotes seculares de multas dioceses do mundo...: uma grande multidáo
formada por homens e por mulheres — de diversas najóes, Ifnguas e
racas — que vivem do seu trabalho prolisslonal, casados a malor parte
deles, solteiros mullos outros, e que, ao lado de seus concidadaos, tomam
parte na grave tarefa de tornar mais humana e mais justa a sociedade
temporal, na nobre lide dos afás diarios, com responsabilidade pessoai,
experimentando com os outros homens, lado a lado, éxitos e malogros,
tratando de cumprir seus deveres e de exercer seus direitos sociais e
cívicos. E tudo com naturalidade, como qualquer cristáo consciente, sem
mentalidade de gente seleta, fundidos na massa de seus colegas, enquanto
procuran) descobrir os fulgores divinos que reverberam ñas realidades mais
vulgares".

Comenta Mons. Albino Luciani, o futuro Papa Joáo


Paulo I, em artigo publicado em H Gaazetino de 25/07/78:

— 353 —
22 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 264/1982

«Com palavras simples, as realidades vulgares sao o trabalho


que temos de realizar todos os días; os fulgores divinos qus
reverberan! sao o vida santa que devenios levar. Escrivá de Bala
guer, com o Evangelho, disse continuamente: Cristo nao qver de nos
somente um pouco de santidade, mas muita santidade. Quer, porém,
que a alcancemos, nao através de acoes extraordinarias, mas com
acoes comuns; o modo de executar as acoes é que deve ser inco-
mum. É lá, bem no meio da rúa, no escritorio, na fábrica, que nos
tornamos santos, desde que cumpramos o nosso dever com compe
tencia, por amor de Deus e com alegría, de forma que o trabalho
cotidiano nao se torne a tragedia cotidiana, mas o sorriso cotidiano.

Coisas semelhantes haviam sido ensinadas há mais de trezentos


anos por Sao Francisco de Sales (...). Mas Escrivá de Balaguer
ultrapassa Francisco de Sales em muiros aspectos. Também este pro-
punha a santidade para todos, mas parece ensínar somente urna
espiritualidade dos leigos, ao passo que Escrivá quer urna espiritua-
lidade laical. Isto é, Francisco sugere quase sempre aos leigos os
mesmos meios utilizados pelos religiosos, com as devidas adapracdes.
Escrivá é mais radical: fala inclusive de materializar — no bom sen
tido — a santificacao. Para ele, é o próprio trabalho material que
se deve transformar em oracao e santidade.

O lendário Bardo de Münchausen tecia fantasias a respeito de


urna lebre monstruosa, provida de urna dupla serie de patas: quatro
debaixo do ventre e quatro sobre o dorso. Perseguida pelos caca-
dores e' percebendo que estava .prestes a ser apanhada, dava urna
cambalhota e continuava a correr com as patas descansadas. Para
o Fundador do Opus Deí, é um monstro a vida do cristao que pre
tenda ter urna dupla serie de acoes: urna constituida por oracoes
dedicadas a Oeus, e outra composta de trabalho, divertimentos, vida
familiar, dedicados a si mesmo. Nao — diz Escrivá —, a vida é
única e deve ser santificada como um todo. Por isso nos fala de
espiritualidade materializada (...).

Como é que o trabalho pode ser de Deus — pergunta Es


crivá —, se é mal feito, com pressa e sem competencia? Como é
que pode ser santo um pedreiro, um arquiteto, um médico, um pro-
fessor, se nao é também, na medida das suas possibilidades, urn
bom pedreiro, um bom arquiteto, um bom médico, um bom professor?
Nesta mesma linha escrevia Gilson em 1949: Dizem-nos que foi a fé
que construíu as catedrais da Idade Media; de acordó... mas foi
também a geometría. Fé e geometría, fé e trabalho desempenhado
com competencia, para Escrivá, caminham de braco dado: sao as
duat asas da santidade».

354
QUE é O tOPUS t>EI»? 23

O socio do Opus Dei (como gualguer cristáo) deve sen-


tir-se obrigado a levar um estilo de vida profundamente cristáo.
Observava Mons. Escrivá: «Pois que nao somos Religiosos, eu
vos disse mil vezes desde a fundagáo que nao me interessam
os votos. O que o Opus Dei requer, sao virtudes, e com vir
tudes é que nos ganharemos o céu» (Carta, Roma, 31 de maio
de 1954).

No tocante á doutrina da fé, o Opus Dei professa abso


luta fidelidade á S. Igreja e as suas normas. Os estudos teo
lógicos háo de ser realizados «segundo o método, a doutrina
e os principios do Doutor Angélico», como desejava o Concilio
do Vaticano II (cf. Decreto Optatam totius n* 16; Declaracáo
Gravissimum Educationis n' 10). Observam os comentadores
que esse propósito de fidelidade á S. Igreja tem preservado o
Opus Dei de tensóes, crises e desergóes que afetaram diversas
familias religiosas nos últimos decenios; é notável o índice de
perseveranga dos socios da Obra.

Passemos agora a outro item importante. '

6. Desfazertdo equívocos

1. Os membros do Opus Dei nao estáo obrigados a guar


dar segredo a respeito da sua insergáo na Obra; esta nao é
sociedade secreta. Pede-se-lhes apenas que nao falem, sem
razáo, da sua vocagáo pessoal, como ninguém fala, sem propó
sito definido, da sua fidelidade a esposa ou da sua lealdade
para com a patria. Doutro lado, porém, nao há por que dis
simular a pertenga ao Opus Dei sempre que se faga oportuno
manifestá-la.

2. Em materia de política, o Opus Dei nao assume posi-


góes partidarias. Está a criterio de cada um dos seus socios
fazer a opgáo política que Ihe parega conveniente dentro dos
referenciais da fé católica; podem mesmo os socios aspirar ao
exercício da militáncia política dentro de algum partido legí
timo ao cristáo.

Por conseguinte, verifica-se que é falso atribuir ao Opus


Dei alguma vinculagáo com o antigo regime franquista da Es-
panha ou com algum sistema de direita; acontece mesmo que,
sob o govemo franquista, alguns socios eram avessos a este,
chegando a estar presos ou a ser destituidos de fungóes públi
cas por sua oposigáo ao regime. Sao palavras de Mons. Escrivá:

— 355 —
24 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS* 264/1982

"Há tempos escrevl que, se o Opus Del vlesse alguma vez a fazer
política, eu me retirarla da Obra. Por conseguirte, nfio se dé crédito a
noticias que assoclem a Obra com questOes políticas, económicas ou tem-
porals de alguma especie. De um lado, os nossos melos sao sempre llm-
pos, e os nossos flns sSo sempre e exclusivamente sobrenatural. De
outro lado, cada um dos socios e dos assocfados goza da mals plena
liberdade pessoal, respeitada por todos os demais, para fazer suas opcfies
clvls, assumlndo as suas responsabilidades, também pessoais. NSo será
poESfvel que o Opus Dtel se ocupe com tarefas que nSo sejam dlretamente
esplrltuals e apostólicas; as suas ativídades nada teráo que ver com os
interesses da política de algum país. Um Opus Dei envolvido na política
é um fantasma que nunca existiu, nSo existe e Jamáis poderá existir; caso
ocorresse essa Impossível hipótese, (mediatamente se dissolvería a Obra"
(entrevista ao diario ABC de Madrid).

3. Paralelamente deve-se dizer que o Opus Dei nao con


trola empresas nem bancadas nem industriáis nem jornalisti-
cas; nao pretende dirigir Universidades nem exercer fungóes
públicas como as vezes se diz. Certa vez, Mons. Escrivá, infor
mado a respeito de tais equívocos, observou:

"Suponhamos que numerosa familia italiana tenha um filho a tra-


balhar como operario na Montecatini, outro é empregado da Fiat, um ter-
ceiro comeca a ser dirigente no Banco Comercial e assim, em outras
atívidades, o pai e os outros fllhos. Pode-se, por isso, afirmar que essa
pobre gente é proprietária de tais grandes empresas e de tal Banco?

O mesmo acontece no Opus Del: todos os seus filhos, os seus socios,


trabalham sempre com liberdade onde querem e podem. Contudo todos
sabem que a 'familia espiritual' é pobre; nao ganha dlnheiro com as suas
tarefas cristas. Digo mals: ela nSo se sustenta; o déficit ó coberto com
o fruto do trabalho profesional dos seus socios e com os donativos dos
cooperadores, crlstaos ou nfio" (entrevista ao diario ABC de Madrid).

Na verdade, o Opus I>ei nao dirige atívidades lucrativas


nem oferece lucros aos seus socios; nao há vantagens pecunia
rias em tornar-se membro do Opus Dei. Este empreende ser-
vigos que geralmente sao deficitarios, como cursos noturnos
para operarios, residencias de estudantes, escolas agrícolas,
cursos de veráo. oficinas de costura, casas de retiros espiri-
tuais, clínicas e dispensarios, centros de assisténcia e beneficen
cia em regióes subdesenvolvidas, centros de catequese, etc.
Principalmente o magisterio tem merecido a atengáo do
Opus Dei.

— 356 —
QUE É O «OPUS DEI»? 25

7. Conclusfio

O Opus Dei nada tem de suspeito ou faccioso dentro da


Igreja e da sociedade. É, antes, um novo e genuino rebento da
vitalidade do Cristianismo, que através dos sáculos tem sabido
•responder de maneiras inéditas aos desafios que os tempos
lhe propóem. Dizia a propósito o S. Padre Paulo VI:

"O Opus Del surgiu em nossos tempos como viva expressSo da perene
juventude da Igreja, plenamente aberta ás exigencias de um apostolado
moderno, cada vez mals ativo, capilar e organizado" (carta a Mons. Escrivá,
10/10/1964).

Parecem ressoar no Opus Dei as palavras de Jesús que


chama seus discípulos «sal da térra» ou que compara os cris-
táos a «fermento na massa» (cf. Mt 5,13; 13,33). O Opus Dei
nao tenciona retirar os homens do mundo para de novo enviá-
•los ao mundo como apostólos, mas, deixando-os no mundo,
oferece-lhes formacáo doutrinária e instrumentos de santifica-
gao que, com a graga de Deus, os habilitem a ser portadores
de santidade no mundo e para o mundo. Este ideal é ilustrado
nos seguintes termos pelo próprio Mons. Escrivá:

"Se procuráronos alguma c.omparacSo, a maneira mais fácil de enten


der o Opus Dei é pensar na vida dos primeiros cristáos. Vlvlam a fundo
a sua vocacio crista; asplravam seriamente á perfeicSo á qual eram cha
mados pelo fato, simples e sublime, do Batismo. Nao se dlstlngulam
exteriorícenle dos dentáis cldadaos. Os socios do Opus Dei sSo pessoas
comuns; exercem seu trabalho de praxe, vivem em meio ao mundo como
cidadáos que querem responder fielmente ás exigencias da fé" (Conver
saciones con Monseñor Escrivá de Balaguer, Madrid 1971).

Em outra passagem diz o mesmo autor:

"O Senhor suscitou o Opus Del em 1928 para ajudar a recordar aos
cristSos que, como narra o livro do Génesis, Deus criou o homem para
trabalhar. Temos chamado a atencio para o exemplo de Jesús, que.
durante trlrita anos, permaneceu em Nazaré trabalhando, exercendo um
oficio. Em maos de Jesús o trabalho, e um trabalho profissional seme-
Ihante ao que executam milhoes de homens no mundo, se converte em
tarefa divina, em labuta redentora, em caminho de salvacáo.

O espirito do Opus Dei recolhe a realidade bela — esquecida durante


sáculos por muitos cristSos — de que qualquer trabalho digno e nobre no
plano humano se pode converter em obra divina. No servico de Deus nao
bá tarefas de pouca categoría, todas sao de multa Importancia".

— 357 —
26 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS> 264/1982

É precisamente esta observagáo final de Mons. Escrivá


que explica o titulo dado <a sua fundacáo: Opus Del — obra
de Deus... Sim; todo trabalho humano digno pode conver-
ter-se em trabalho de Deus ou obra de Deus desde que reali
zado em uniáo com Cristo, o carpinteiro de Nazaré. Santifi-
cando-se pelo trabalho, o cristáo vem a ser continuador da
obra criadora de Deus. Tal é o ideal simples, arraigado nos
principios mais fundamentáis do Cristianismo e, ao mesmo
tempo, pujante que o Opas Dei propóe aos seus socios.

Os bons frutos tém comprovado a boa árvore!

APÉNDICE

DEPOIMENTOS

Félix, o motorista de praca

Jean-Jacques Thierry, em seu notável livro El Opas Dei.


Mito y Realidad, (Buenos Aires 1976, tradugáo do francés),
recolheu urna serie de entrevistas realizadas pelo repórter Mi
guel Veyrat do Nuevo Diario de Madrid com socios modestos
do Opas Dei. Tais entrevistas foram publicadas ñas edigóes
daquele jornal de 18 a 25 de margo de 1970. Através délas
falam um motorista de taxi, um guarda civil, um porteiro, um
camareiro, urna telefonista, urna cabelereira, um barbeiro, etc.,
mostrando que o Opus Dei está longe de ser urna associacáo
elitista.

Nao podendo transcrever todos os interessantes depoimen-


tos assim registrados, publicaremos a seguir dois deles, em
tradugáo brasileira.

Félix, o motorista de taxi

Eis o depoimento de Félix del Valle, motorista de taxi, de


45 anos de idade, pai de quatro filhos:

«Félix (F.): Aquelas senhoras estavam mal informadas, como


estao aino'a outras pessoas hoje em día: falam do Opus Dei sem
saber coisa alguma. O Opus Dei tem sido a minha felicidade. Antes
eu via o trabalho como algo de forcado, que nao podia deixar de
execular, poit tinha que sobreviver. Agora minha vida experimentou

— 358 —
QUE £ O «OPUS DEI»? 27

mudanca total; dei-me conta de que o Senhor me colocou a traba-


Ihar para servir aos outros homens. O Opus Dei nao é senáo urna
associacao de pessoas que procuram a santidade no meio do mundo.
Nem mais nem menos.

Repórter (R.): Seus amigos labem que vocé pertence ao Opus


Dei?

F.: Meus companheiros motoristas de praca e também colegas


de outrora — eu era vaqueiro nos campos — o sabem. Estamos
sempre a falar da Obra.

R.: Pertencem ao Opus Dei?

F.: Nao. Mas nao importa. Bem, alguns sim. Conheci o Opus
Dei precisamente através de outro motorista de praca.

R.: Como é que alguém se inscreve lá?

F.: O homem, que pergunta! Ninguém se inscreve.

R.: E preciso pagar entrada ou algo semelhante?

F.: Nada disso. O que faz falta, é víver na presenca de Deus.


Solicitar a admissao e querer ser.

R.: Como pode levar vida de oragáo em meio ao seu trabalho?

F.: Desde que saio para trabalhar — Félix sorri —, pensó


que comeca um día novo para oferecer ao Senhor. Cada passageiro
que entra no taxi... procura tratá-lo como o trataría Ele.

R.: Entao vocé se considera a servico dos outros?

F.: Sim.

R.: E ao servico do Opus Dei?

F.: Nao, em absoluto. É o Opus Dei que serve a nos através


da doutrina que recebemos, e dos meios de formacao espiritual.

R.: É doutrina especial?

F.: E doutrina do comum dos cristáos.

R.: Nessa formacao estao incluidas idéias políticas e sociaii


determinadas?

— 359 —
28 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 264/1982

F.: Absolutamente nao; ninguém se intromete de modo nenhum


naquilo que pensó. E-o nao o deixarei. Trata-se apenas de formagáo
espiritual.

R.: Sua esposa sabe que vocé pertence ao Opus Dei?

F.: Claro, e tem muito prazer nisto.

R.: Ela nao pertence á Obra?

F.: Nao, mas muito a estima.

R.: Gostaria de que ela Ihe pertencesse?

F.: Claro, se tivesse vocacáo.

R.: Quantos motoristas de praca sao membros do Opus Dei


em Madrid?

F.: Como o saberla eu?

R.: E Ministros?

F.: Conforme li nos ¡ornáis, há tres.

R.: Se alguém quer conhecer o Opus Dei, que tem de fazer?

F.: Ir procurá-lo. Tenho um amigo que sabia que um colega


pertencia á Obra. Chegava a espreitá-lo. Quando esse colega
entrava no metro ou num bar, seguia-o para poder falar com ele.
Hoje tal senhor pertence ao Opus Dei. Ademáis crelo que há um
posto de informacoes, nao?

R.: Sim; na Calle Vitrubio n' 3.

F.: Como é que vocé o sabe?

R.: Sou ¡ornalista.

Félix me explica que faz o seu apostolado entre os colegas de


trabalho e entre os amigos.

— 360 —
QUE é O «OPUS DEI»? 29

F.: Nao sei é explicar-me, porque a minha cultura é pouca.


Mas está claro que nao pretendo deixar de ser motorista de taxi.
Melhorar, sim, eu o quero mediante o meu trabalho, pois ¡sto é
obrigacao de todo pai de familia; quero também que meus filhos
sejam bons cristaos e bons trabalhadores».

Gala Camocho, a cabeleireira

«A Gala Camocho, do Saldo Ángela, de Madrid,— que tam


bém é do Opus Del, perguntei se ¡ulgava importante haver Ministros
de Estado pertencentes ao Opus Dei.

— Sim, é claro, dissc-me ela. Tanto quanto é importante que


ha ¡a operarios no Opus Dei. Se todos tratarmos de nos desempenhar
bem das nossas obrigacóes, como espanhola que sou, tico tranquila,
porque estou certa de que seráo bons Ministros.

Repórter: Como explicaría o Opus Dei a urna amiga?

Gala: Dir-lhe-ia que somos urna familia, e que procuramos ser


santos vivendo com naturalidade e alegría e que nos ensinam a mui'o
amar o próximo».

Bibliografía:

BERNAL, S., Mons. Josemarla Escrivá de Balaguer. Perfil do fundador


do Opus Del. Sio Paulo 1978.

BYRNE, A., Santificacáo do trabalho ordinario. Natureza e espirito


do Opus Del. SSo Paulo 1981.

DEL PORTILLO, A., Monsenhor Escrivá de Balaguer, Instrumento de


Deus. S3o Paulo 1980.

■ESCRIVÁ, J., Caminho, 5? ed. SSo Paulo 1978.

ÍDEM, Questfies atuais do Cristianismo. SSo Paulo 1975.

ÍDEM, É Cristo que passa. SSo Paulo 1975.

ÍDEM, Amigos de Deus. SSo Paulo 1979.

THIERRY, J.-J., £1 Opus Dei. Mito y Realidad. Buenos Aires 1976.

— 361 —
Em Campos:

Tradicionalistas e Fidelidade á S. Igreja

Em síntese: Na Igreja de hoje certos grupos rejeitam a renovacfio


litúrgica preconizada pelo Concillo do Vaticano II, insistindo na celebrado
da Santa Missa segundo o rito estabelecido por S. Pió V em 1570; acusam
o novo Ritual de favorecer teses e práticas protestantes. Últimamente tal
movlmento dito "tradicionalista" teve expressoes enfáticas na diocese de
Campos, por ocasiáo da mudanca do governo diocesano. — Ora quem exa
mina as razóes aduzidas pelos irmáos renitentes, verifica que sao Inconsls-
tetnes; o novo Missal (que nSo pretende apresentar urna exposicio sistemá
tica da Teología da Eucaristía), lido em sua globalidade, é o genuino eco
da clássica fé da Igreja; se a primeira edicáo em 1969 ainda flcou obscura
no entender de alguns comentaristas, a segunda edicáo em 1970 nao delxa
margem a dúvidas. NSo há, pois, razoes objetivas para a celeuma em foco.

De resto, os ionios "tradiclonalistas", no seu afS de evitar caír no


Protestantismo, parecem (paradoxalmente) estar adotando o principio fun
damental da Sola Scriptura dos protestantes. Asslm como os protestantes
pretendem entender a mensagem de Cristo únicamente a partir da Palavra
escrita, sem levar em conta a Tradicao oral, assim os "tradlcionalistas" so
querem considerar o texto escrito do Missal de Paulo VI sem levar em conta
a vida e as expressSes históricas da Igreja contemporánea. Em conseqüén-
cla, os protestantes deturpam a mensagem de Cristo e se excluem da plena
comunhüo com a Igreja; paralelamente os "tradicionalistas" deturpam o au
téntico pensamento da única Igreja de Cristo e se excluem da plena fidelidade
a esta, para detrimento seu e tristeza do povo de Deus. A verificacio destes
fatos, na presenca de Oeus, sugere um apelo aos irmSos "tradicionalistas"
para que revejan) sua poslcáo e tomem nova consciéncia de que o Cristo
vivo se encontra em seu Corpo Místico, que é a Igreja confiada a Pedro e
seus sucessores; procurar Cristo fora destes parámetros é sujeitar-se a
mutilar o Cristo.

Comentario: Após a posse do atual Sr. Bispo de


Campos (RJ), Dom Carlos Alberto Navarro, aos 15/11/81, a
diocese de Campos tem sido sacudida por pronunciamentos de
sacerdotes e leigos que, dizendo-se «tradicionalistas», recusam
as orientacóes do novo pastor, ou seja, as diretrizes oficiáis da
Igreja de hoje. A renitencia de tais grupos tem por objeto
principal a Liturgia da S. Missa promulgada por Paulo VI em
1969/1970 em substituicáo ao Ritual promulgado por S. Pió V
aos 14/07/1570, após o Concilio de Trente (1545-1563).
TRADICIONALJSTAS E FIDEUDADE A IGREJA 31

Quem lé os manifestos dos irmáos tradicionalistas, nao


pode deixar de perceber nos mesmos um profundo zelo pelos
valores da fé e um intenso amor á vida ascético-mística da
Tradicüo crista. Sofrem por se ver diante de normas que lhes
parecem dissolver tais valores. Todavía quem reflete serena
mente sobre os arrazoados emitidos por esses cristáos, nao
pode deixar de verificar que nao há razáo objetiva para tanto
sofrimento; na verdade, as proposic.óes teológicas e as deter-
minacóes litúrgico-disciplinares da Igreja pos-conciliar em nada
ferem os artigos do Credo Apostólico; antes, procuram revi-
gorar a vida ascético-mística dos fiéis com genuínos elementos
da Tradigáo católica.

Cientes disto, com a estima que merece todo irmáo,


vamos, ñas páginas subseqüentes, deter-nos sobre as principáis
objecóes levantadas pelos tradicionalistas contra a nova Litur
gia, procurando ponderar o seu alcance.

1. Um livro sobre a «Missa de Paulo VI»

O Prof. Arnaldo Xavier da Silveira, de Sao Paulo (SP),


membro-fundador da Sociedade Brasileira de Defesa da Tra
dicáo, da Familia e da Propriedade, reuniu em volumoso livro
os argumentos e a discussáo referentes á nova Liturgia. Tal
obra foi traduzida para o francés com o título «La nouvelle
Messe de Paúl VI: qu'en penser?» (A nova Missa de Paulo VI:
que pensar a respeito?). Essa edicáo francesa, enviada á reda
cto de PR por amigos, servirá de base para o presente estudo ».

Em poucas palavras, o autor quer dizer o seguinte:

1.1. Nova Liturgia e Protestantismo

A nova Liturgia Eucaristica estaría impregnada de ten


dencias protestantes. Tais seriam: a tendencia a dessacralizar,
a tendencia a confundir o sacerdocio hierárquico e o sacerdocio
comum dos fiéis, a tendencia a colocar em pé de igualdade a
liturgia da palavra e a liturgia eucaristica e, em síntese, a
tendencia a romper com costumes e ritos tradicionais altamente
veneráveis; cf. p. 110 da citada edicáo francesa.

i TraducSo do portugués para o francés por Cerbelaud Salagnac. Edicáo


da "Diffuslon de la Penséo Frangalse". Chiré-en-Montreuil, 86190 Vouillé, 1975,
357 pp., 135 x 210 mm.

— 363 —
32 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 264/1982

O Prof. Xavier da Silveira aponta, no novo Missal, nu


merosas frases e gestos que lhe parecem ambiguos ou sujeitos
a interpretagáo protestante... Outros pontos lhe parecem re
ticentes por nao exprimir de maneira suficientemente clara a
doutrina católica. Note-se, porém, que o autor jamáis aponta
um elemento do novo Missal como herético, protestante ou
antagónico ao Credo católico. O que Xavier da Silveira mais
indica, sao verdades que lhe parecem nao estar plenamente
explicitadas (e que, por isto, poderiam..., poderiam..., po-
deriam... ser entendidas em sentido heterodoxo) ou verdades
afirmadas por um lado e (segundo o autor) quase contradi-
tadas por outro lado. O autor observa que as heresias, no de-
correr da historia da Igreja, sempre procuraram camuflar-se
ou dissimular-se de modo a poder ter livre curso no povo de
Deus, sem que se percebesse o seu veneno: tal foi o caso do
semiaríanismo, que veio a ser uma quase reedigáo do arianismo
(séc. IV), o do semipelagianismo, que fez reviver o pelagianis-
mo (séc. VI), o do monotelitismo, que restaurou veladamente
o monofisismo (séc. VII), o do jansenismo, que propagou, en-
cobertas, teses protestantes (séc. XVII/XVIII).

Xavier da Silveira, para confirmar sua posigáo, lembra


que o novo Missal foi promulgado em 3/04/1969, mas o seu
texto provocou tais reparos e críticas, por parte de comenta
ristas, que aos 26/03/1970 o Missal foi reeditado com algumas
modificacóes; estas tencionavam responder as observacóes fei-
tas nos meses anteriores, de modo a dissipar qualquer dúvida
a respeito da ortodoxia do novo Missal. O Prof. Xavier da Sil
veira, embora reconheca que as alteragóes publicadas em 1970,
representam progresso na clareza da exposigáo, julga que elas
aínda foram insuficientes ou que guardaram a inspiracáo pro
testante do texto de 1969 sob forma atenuada ou «mascara
da»; deram origem a um «semiprotestantismo litúrgico», cor
respondente ao semiarianismo, ao semipelagianismo... O autor
brasileiro chega a crer que os protestantes mais tradicionais
nao teriam dificuldade em concelebrar a nova Liturgia Euca-
ristica com os católicos, de tal modo esta lhe parece correspon
der aos principios teológicos de Lutero.

1.2. ConseqDente recusa

Em conseqüéncia, segundo o Prof. Xavier da Silveira, um


fiel católico deve, em consciéncia, recusar-se a participar da
Liturgia renovada e tem o direito de denunciar publicamente
a intrusáo da heresia no culto católico.

— 364 —
TRADICIONALISTAS E FIDEIJDADE A IGREJA 33

Para justificar esta resistencia públicá,o autor pondera


tongamente a hipótese de um Papa tornar-se herético; cita a
propósito diversas sentencas de teólogos e termina insinuando
que Paulo VI, promulgando a nova Liturgia, cedeu a heresias
protestantes; por conseguinte, náoi merece a obediencia da
parte dos católicos que se queiram manter fiéis as verdades
da fé. O livro se encerra de maneira dramática, como se a
Igreja tivesse passado por urna catástrofe, cujas conseqüéncias
aínda nao se possam prever por completo; deixa o leitor a
compartilhar a perplexidade do próprio autor e de sua escola.

A obra de Xavier da Silveira detém-se sobre minucias que


nao é possível analisar em poucas páginas, mas que podem
ser ponderadas a partir de grandes principios. Nao se pode
deixar de reconhecer a erudigáo teológica do autor, que, alias,
tem por mestre o Sr. Bispo Dom Antonio de Castro Mayer,
ex-diocesano de Campos; essa erudigáo, porém, repete nao raro
as mesmas afirmacóes ou exprime insistentemente algumas
teses fundamentáis.

As reflexóes que tal obra e a questáo em foco nos suge-


rem, seráo apresentadas em tres etapas: 1) os porqués da re
novagáo litúrgica, estudo este que nos fará tocar as raizes do
problema; 2) os criterios da renovagáo; 3) tragos salientes da
posigáo «tradicionalista».

2. Refletineto sobre o problema...

2.1. Os porqués da reitovajáo litúrgica

1. Quem freqüentava a Missa antes do Concilio do Va


ticano II (1962-1965), sabe quáo pouco era entendida pelos
fiéis católicos: assistiam ao rito sagrado, procurando murtas
vezes nutrir a piedade em outras fontes de alimento espiritual
como a recitacáo do tergo e de ladaínhas... Rezando ou can
tando em latim, de costas para os fiéis, o sacerdote parecía
realizar um ato que, por sua natureza mesma, deveria ficar
hermético ou incompreensível á assembléia; o aspecto de «mis
terio» prevalecía sobre outras facetas do rito sagrado. Já a
renovagáo litúrgica iniciada por S. Pió X (1903-1914) tentou
modificar tal atitude dos fiéis, apregoando que deviam «rezar
a Missa», e nao «rezar na Missa», isto é, convidando os fiéis a
que participassem da agáo sagrada. Nos anos subseqüentes o

— 365 —
34 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 264/1982

movimento litúrgico desenvolveu os principios reafirmados pelo


Santo Pontífice, embora nao tenha escapado a exageras con
denados por Pió XII na encíclica «Mediator Dei» (1947).

Ora, já que a Missa é o centro da vida crista e o ponto de


convergencia de toda a ordem sacramental, a Igreja, ao fazer
o seu balanco no Concilio do Vaticano n, preconizou urna re-
novacáo do Ritual da S. Missa que possibilitasse ao fiéis de
todos os níveis culturáis participar mais intensamente da Eu
caristía. Eis palavras da Constituigáo «Sacrosanctum Conci-
Iiom» de 1963:

"A Igreja zela com diligente solicltude para que os fiéis nSo asslstam
a este misterio da fé como estranhos ou espectadores mudos. Mas cuida para
que, mediante cerimftnias e orac6es, partlcipem consciente, piedosa e atlva-
mente da acáo sagrada...

Em vista disto, para que o sacrificio da Missa alcance plena eficacia


pastoral, também quanto a forma das cerimónlas, o sacrossanto Concilio,
considerando as MÍssas que se celebram com a asslsténcia do povo, princi
palmente nos domingos e ñas festas de preceito, determina o seguinte:

O Ordinario da Missa seja revisto de tal forma que apareca claramente


a índole próprla de cada urna das partes, bem como sua mutua conexfio, e
facilite a partlcipacao piedosa e ativa dos fiéis.

Por Islo as cerimónias sejam simplificadas, conservando cuidadosa


mente a sua substancia. Omita-se tudo o que foi duplicado no decurso dos
tempos ou foi acrescentado sem verdadeira utilidade. Em troca restaurem-se,
segundo a primitiva norma dos Santos Padres, alguns ritos que cairam em
desuso, caso Isto pareja oportuno ou necessárlo" (n? 48.50).

2. O texto conciliar apregoa algumas alteragóes no rito


de celebragáo da Eucaristía «ad pristiuam sanctonim Patrum
normam» (segundo a norma primitiva dos santos Padres).
Esta observacáo se explica pelos fatos seguintes:

Jesús Cristo celebrou a sua última ceia (ou a primeira


S. Missa) no contexto da refeicáo de Páscoa dos judeus. A
Igreja guardou nao poucos elementos do ritual pascal de Israel,
mas desenvolveu-os de acordó com a concepcáo crista da ceia
eucarística: leituras, cantos, oracóes, gestos e objetos simbóli
cos de inspiragáo crista foram, em conseqüéncia, aduzidos para
constituir a moldura da S. Eucaristía. Esse ritual foi comen
tado no Idade Media e na Idade Moderna por autores que sou-
beram descobrir nele a grandeza e a profundidade do misterio
que ele velava e revelava.

— 366 —
TRAPICIONALISTAS E FIDELIDADE A IGREJA 35

É inegável, porém, que a Liturgia da Missa gradativa-


mente acrescida de oracóes e gestos através dos sáculos trazia
a marca de diversos estilos. O Pe. J. A. Jungmann S.J. em 1948
a comparava a um edificio antigo e venerável no qual houvesse
retoques e acréscimos, inspirados todos pela mesma fé, mas
carecentes de um planejamento unitario1. Jungmann cita a
propósito textos de respeitáveis estudiosos que já haviam cha
mado a atencáo para o fato. Assim, por exemplo, o sabio Car-
deal Bona (t 1674) observava que muitos elementos haviam
sido introduzidos na Liturgia Romana da Eucaristía por moti
vos ocasionáis e momentáneos; com o passar do tempo, porém,
as razóes históricas de tais gestos ou símbolos haviam sido es-
quecidas de modo que se procuravam para os mesmos explica-
c5es de índole alegórica e mística2. O Cardeal Merati (t 1744)
faz suas tais observacóes na obra de Gavanti-Merati, Thesaurus
1,11, 6 (1,111). Ainda o erudito monge Jean MabiUon (f 1707),
ao editar os Ordines Bomani (textos da Liturgia Romana),
fazia semelhante anotacáo, e pedia ás autoridades eclesiásticas
encarregadas do culto divino nao perdessem de vista os antigos
modelos litúrgicos:

"Hoc... referimus... ut eos que elusmodi officiís praepositl sunt In-


vitemus ad consulendum antiquitatem, quae quanto fontl propior tanto vene-
rabilior est" (In Ordines Romanos Commentartum praevium, c. 21 PL 78,
934 D).

3. A guisa de exemplos de sobreposigáo de ritos e ora


cóes, podem-se citar entre outros os seguintes, que sao assaz
significativos:

a) Após a béncáo final e a despedida dos fiéis (Ite missa


est), o celebrante ainda lial o último Evangelho (Jo 1,1-14) em
voz baixa... Isto se deve ao fato de que os padres dominicanos
do século XTTT recitavam, por devogáo, tal segáo do Evangelho
ao regressar do altar para a sacristía ou ao tirar os paramen
tos após a Missa; esta prática foi-se tornando mais e mais

1 Cf. J. A. Jungmann, Mlssarum Solemnla I, 3? ed., München 1952, p. 5s.

2 Eis palavras do Cardeal Bona ao referir-se ¿ posicáo que o diácono


devia tomar durante o canto do Evangelho na Missa solene:
"Hic apparet quam verum sit... mui.a hodie pro lege haber! in his
quae pertlnent ad eccleslasticas observatlones, quae sensim ex abusu Irrep-
serunt; quorum origines cum recentiores ignorent, varias conantur congruen-
tlas et mystlcas invenire rallones ut ea sapienter Instituta vulgo persuadeant"
(Rerum Uturgicarum 1, II, 7, 3.670).

— 367 —
36 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS> 264/1982

comum até o sáculo XVI a ponto de ter sido finalmente reco-


nhecida como parte integrante do rito da Missa (apesar de
Ihe antecederem a béngáo e a despedida dos fiéis).

b) O Salmo 42 (Iudica me Deas) nos sáculos X e se-


guintes era dito pelo celebrante enquanto se paramentava para
a Missa na sacristía ou enquanto oaminhava desta para o altar;
quando o sacerdote se paramentava diante do próprio altar,
recitava tal salmo ai mesmo. A partir do sáculo XVI tornou-se
parte integrante do rito da Missa o salmo 42. A Missa come-
cava, daquela época em diante, pela recitacáo do Indica me;
em conseqüéncia, o introito ou a antífona de entrada ficou para
depois, deixando de ser o introito propriamente dito da Missa.

Outros muitos exemplos de sobreposigáo de preces e ritos


se poderiam assinalar. Mas os que aquí se acham enunciados,
sao espécimens assaz expressivos de como se foi configurando
aos poucos o rito da S. Missa.

4. Baseando-se em tais fatos, o Pe. Jungmann multo a


propósito observava ainda em 1948:

"A grandiosidade do objeto, o reverente entusiasmo pela obra mals


sublime que nos, homens, possamos realizar, levam-nos a procurar sempre
atingir expressoes mais perfeitas. £m milhares de ocasióes no decorrer da
sua longa historia a Igreja... tentou renovar e aperfeicoar as formas da
Liturgia Eucarfstica. A Igreja no futuro neo estará Isenta de tal tarefa sempre
premente e nunca terminada. Temos fundadas esperanzas de que o zelo da
Igreja pelo tesouro mais santo que Ela guarda, será tanto mais frutuoso
quanto mais claras estiverem ante os seus olhos as linhas que desde o Inicio
orientaram tal tarefa. Os estudos de historia da Liturgia tém justamente con
tribuido para lancar luz sobre as Idéias que inspiraram as diversas fases da
evolucSo da Liturgia; verifica-se, com efeito, que ñas atuais cerimonias as
linhas originarias est5o bastante deformaüas por épocas posteriores" (obra
citada, vol. I, p. S).

As palavras de Jungmann encontraram pleno eco na Cons-


tituigáo conciliar sobre a S. Liturgia. Como dito, esta mandou
rever o Ordinario da Missa, a fim de «retirar tudo que ai ti-
vesse entrado por duplicagáo no decurso dos tempos... e res
taurar alguns elementos da Tradigáo que houvessem caído em
desuso e fossem tidos como oportunos ou necessários»; cf. n» 50.

Estáo assim expostos os porqués da reforma litúrgica que,


iniciada logo após o Concilio, chegou a seu termo em 1969 e
1970. Tal reforma, como se vé, nao se deve á procura leviana
de novidades, nem á tendencia de fazer eco a costumes ou lin-

— 368 —
TRADICIONALISTAS E FIDELIDADE A IGREJA 37

guajar mundanos, estranhos k Igreja, nem a urna perda de fé


ou de piedade, mas, ao contrario, foi inspirada pelo desejo
de afervorar' e revigorar nos mananciais mais genuinps da vida
crista a fé, a piedade e o amor do povo de Deus.

2.2. Criterios da renova$ao

Os criterios da reforma litúrgica foram principalmente


dois, como se pode perceber de quanto até agora foi dito:

1) tomar a Liturgia Eucaristica mais inteligível aos fiéis


e mais participada por estes, pois na verdade a Missa é o ato
central da vida do cristáo e o manancial de todas as gragas de
que este precisa. Além disto, a Eucaristía é a perpetuacáo do
sacrificio da cruz, perpetuagáo que tem como única finalidade
fazer que toda a Igreja (ou cada um dos fiéis) possa oferecer
ao Pai o sacrificio de Cristo, participando das funcóes de Cristo
Sacerdote e da condigáo de Cristo Hostia. Tem-se dito com
razáo: no Calvario, Cristo se ofereceu ao Pai a sos ou sem a
sua Igreja (que aínda nao existía)-; no sacrificio do altar o
mesmo Cristo sacerdote oferece a mesma Vítima Cristo, en-
volvendo, porém, a Igreja neste duplo aspecto da sua oblagáo.
Sem dúvida, há graus de participacáo do sacerdocio de
Cristo: os sacerdotes ministeriais oferecem in persona Christí
o sacrificio do altar. Os fiéis que nao possuem o caráter pres
biteral, mas trazem os caracteres do Batismo e da Crisma,
oferecem doutro modo, exercendo assim o sacerdocio comum
dos fiéis (que, por ser diferente do sacerdocio ministerial, nem
por isto deve ser silenciado). Ensina o Concilio do Vaticano II:
«O sacerdocio comum dos fiéis e o sacerdocio ministerial ou hierár-
qulco ordenam-se um ao outro. embora se diferenciem na essencia e nao
apenas em grau. Pols ambos partlcipam, cada qual a seu modo, do único
sacerdocio de Cristo. O sacerdote ministerial, pelo poder sagrado de que
goza, forma e rege o povo sacerdotal, realiza o sacrificio eucarlstico na
pessoa de Cristo e o oferece a Deus em nome de todo o povo. Os fiéis, no
entanto em virtude do seu sacerdocio regio, concorrem na oblacáo da cu-
caristia e exercem esse seu sacerdocio na recepcSo dos sacramentos, na
oracSo e acáo de gracas, pelo testemunho de urna vida santa, pela abnega-
cáo e pela caridade ativa" (Constituiclo "Lumen Gentium" rfl 10).

Compreende-se, pois, que, se todos os fiéis participam da


oblacáo de Cristo (embora nem todos do mesmo modo), o res
pectivo rito litúrgico deve exprimir essa participacáo. Foi o
que a reforma litúrgica, antes do mais, teve em mira. Os abu
sos que , em verdade, se registraram na celebracáo da nova

— 369 —
3g «PERGUNTE E RESPONDEREMOS> 264/1982

Liturgia ocorreram á revelia desta e sob a condenacao da Sé


Romana; devem-se a atitudes imaturas, a interpretacóes ten
denciosas ou mesmo a explícita desobediencia da parte de
pessoas sujeitas á fraqueza humana.

2) O segundo criterio da renovacáo litúrgica foi a pro


cura de um ritual mais unitario e, ao mesmo tempo, mais rico,
que melhor pusesse em evidencia o significado da oblacáo do
altar. Isto ocasionou, sem dúvida, a supressáo de alguns ele
mentos como o SI 42, o prólogo de S. Joáo (Jo 1,1-14), a
absolvicáo dada aos fiéis antes da Comunháo (que fazia dupli-
cata com aquela dada aos mesmos no inicio da S. Missa...).
Mas ocasionou também o acréscimo de outros elementos, como,
por exemplo, a possibilidade de duas leituras bíblicas antes do
Evangelho1, a restauracáo da homilia (que nao deve faltar
desde que haja fiéis presentes ao ato litúrgico), as preces co
munitarias (que explicitam os votos a ser depositados sobre a
patena)... Em vez de urna única Oracáo Eucarística ou
Canon, existem mais tres (as quais também sao cánones ou
padrees, que nao é lícito ao celebrante retocar ou alterar).
Estas múltiplas Oragóes Eucarísticas nada mais sao do que
reminiscencias de textos antigos. É de notar, sim, que nos pri-
meiros séculos as diversas Liturgias (a antioquena, a alexan-
drina, a romana...) tinham mais de urna Oragáo Eucarística,
também chamada «Anáfora» ou «Canon». Em Roma, por
exemplo, tem-se noticia do Canon de Hipólito (t235), apre-
sentado por este bispo na obra «Tradigáo Apostólica» de inicio
do século IH; foi restaurado pela renovacáo litúrgica de modo
que aparece no novo Missal como Oracáo Eucarística n» II, ao
lado do Canon Romano. A Oracáo Eucarística tí> IV, expondo
a historia da salvagáo como fundo de cena da consagrasáo
eucarística, segué o modelo da tradifiáo de Antioquia da Siria.
Como se vé, a reforma litúrgica, restabelecendo a variedade de
anáforas eucarísticas, nada mais fez do que voltar a um cos-
tume da época patrística, vigente até hoje em Liturgias orien
táis. As varias anáforas exprimem, melhor do que urna só, a
riqueza da teología e da espiritualidade eucarísticas.

i Nota a Instrugáo Geral sobre o Missal Romano que, quando nao se


podem fazer essas duas leituras antes do Evangelho, "jamáis se escolha um
texto únicamente por ser mais breve ou mais fácil' (n? 318).

— 370 —
TRADICIONALISTAS E FIDELJDADE A IGRÉJA 39

2.3. Tragos salientes da posicáo tradidomalista

Antes do mais, impóe-se urna consideragáo de ordem geral.

2.3.1. A palavra escrita só? A «Sola ScripHrra» dos protestantes

Quem lé a argumentagáo do Prof. Xavier da Süveira, nao


se pode furtar á impressáo de que versa em torno de um livro
ou de um escrito: o Missal de Paulo VI e suas edicóes de 1969
e 1970. Esse Missal é lido, relido, submetido a exegese minu
ciosa, comparado com o Missal de Pió V...; em conseqüéncia,
o autor o rejeita como livro impregnado de heresia e norteador
de comportamento litúrgico herético. As correcóes de 1970 nao
teráo anulado os «erros» da edicáo de 1969, de modo que o
Missal aparece marcado por contradigóes, que deixam preva
lecer sentengas heréticas.

Ora por mais paradoxal que isto pareca — tal modo


de proceder da escola tradicionalista, no caso, é o dos próprios
protestantes, com os quais os tradicionalistas nao se querem
identificar.

Com efeito. Os1 protestantes estabelecem o principio de


que somente a Escritura é norma de fé e, por conseguinte, nao
se deve levar em conta a Tradigáo oral do Cristianismo nem
como fonte de fé nem como luzeiro para interpretar a Escri
tura. Deste principio resulta a ruina do próprio Protestantis
mo. Com efeito; a S. Escritura é o eco da pregagáo oral dos
Profetas e dos Apostólos; ela supóe a Palavra viva ou falada
que lhe é anterior, que a bergou, que a acompanha e que há
de ser sempre evocada para que se possa entender devidamente
a Palavra escrita; separada da Tradigáo oral (que é a sua ma
triz), a Escritura pode parecer cheia de contradigSes, como
parece cheio de contradigóes o Missal de Paulo VI aos tradi
cionalistas. Com efeito,

enquanto S. Paulo em Rm e Gl diz que a fé sem as


obras nos salva, S. Tiago afirma que a fé sem as obras é morta
e insuficiente á salvagáo;

. em Jo 10,30 Jesús diz: «Eu e o Pai somos um», mas


em Jo 14,28 afirma: «O Pai é maior do que eu» — texto este
do qual o arianismo e o seminarianismo fizeram largo uso;

— 371 —
40 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 264/1982

— enquanto em Jo 13,1-3; 2,24s; 18,4, o evangelista atri-


bui a Jesús a oniciéncia do próprio E>eus, em Me 13,32 se lé
que o Filho do homem ignorava a data do juízo final — texto
este do qual os agnoetas no sáculo VI deduziram sua heresia
sobre a «ignorancia de Cristo».

Estes poucos exemplos, aos quais outros se poderiam acres-


centar, bem mostram quanto é erróneo querer interpretar a
S. Escritura independentemente da Tradigáo viva da Igreja.
Por certo, os irmáos tradicionalistas reconhecem e denunciam
esse erro. Todavía vém a incidir em algo de análogo quando
pretendem ler o Missal de Paulo VI sem levar em consideracáo
a praxe da Igreja a outros pronunciamentos dos Papas de 1965
a nossos dias. Além de lerem tendenciosamente1, os irmáos
abstraem da praxe da Igreja Católica pós-conciliar, da qual
convém realcar alguns tragos que ajudam a interpretar o Novo
Missal:

— Muito digna de nota é a chamada «Terceira Instrucáo


para a exata aplicacáo da Constituicáo sobre a Liturgia»,
datada de 5/07/70, documento este que corrige minuciosa
mente os abusos introduzidos na celebragáo da Eucaristía e que
manifesta com toda a clareza a mente da Igreja frente a pos-
síveis más interpretagóes da nova Liturgia. Cf. Notitiae n» 60,
Janeiro 1971, pp. 9-26. É importante verificar que o Prof.
Xavier da Silveira nao menciona tal Instrugáo em seu livro;
ela bastaría para dissipar todos os escrúpulos dos tradiciona
listas.

A encíclica «ÜHysterium íidei» de 1965, exarada por


Paulo VI, é outro eloqüente testemunho da fé da Igreja na
transubstanciagáo, na Missa como sacrificio, na singularidade
do ministerio sacerdotal... em consonancia com o Concilio de
Trento.

i O modo como os nossos lrmSos de Campos léem o Missal renovado


é faino, porque sempre pronto a suspeilar de antemáo a Influencia de here-
sias, mesmo quando a interpretacio ortodoxa dos textos é perfeitamente
possível. — No momento, porém, nfio vem ao caso a maneira como é lido o
Missal de Paulo VI pelos tradicionalistas; interessa apenas considerar que
so levam em conta o texto escrito desse Missal.

— 372 _
TRADICIONALJSTAS E FIDEUDADE A IGREJA 41

A Igreja rejeita a intercomunháo de católicos e protes


tantes, porque sabe que a fé protestante difere da católica no
tocante a Eucaristía e a outros pontos; a nova Liturgia pro
fessa verdades que os protestantes nao reconhecem1.

Merecem particular atencáo as duas cartas do S. Padre


Joáo Paulo II escritas aos sacerdotes por ocasiáo da quinta-
-feira santa de 1979 e 1980: incutem a mais clássica doutrina
da Igreja sobre a Eucaristía, com recomendacóes práticas cora
josas; exprimem as mesmas normas que os irmáos de Campos
e a Igreja sempre respeitaram e querem respeitadas.

— Por que nao lembrar também a alocugáo do S. Padre


Joáo Paulo II sobre o sacerdocio e a Eucaristía proferida no
Brasil aos 2 de julho de 1980?

De resto, nao se requer grande esforgo para verificar


na historia ou nos.acontecimentos de nossos dias que a clássica
fé na Eucaristía e no sacrificio da Missa é exatamente a mesma
de todas os épocas. Seria perda de tempo tentar enunciar
fatos que comprovem esta afirmacáo, tal é o número dos
mesmos.

Em conseqüéncia, tornamos a perguntar: será que a ati-


tude resistente dos irmáos de Campos nao vem a ser, em últi
ma análise, um paralelo do principio «Sola Scriptara» (Somente
a Escritura) do Protestantismo, que os mesmos irmáos tanto
desejam evitar? Querendo dizer Nao aos protestantes, os
nossos tradicionalistas nao estariam assumindo urna posicáo
que é a própria premissa de toda a derrocada protestante e que
tem levado a tantas heresias e cismas através dos sáculos? —
A fé católica professa a adesáo á Palavra de Deus que é viva
e vivida na Igreja e que nao pode ser entendida, sem perigo
de heresia2, fora da Tradicáo proclamada por palavras e feitos:

1 Houve, na verdade, após o Concilio do Vaticano II (1962-1965), en-


salos de cele'bracfio e intercomunhSo ditas "ecuménicas"... Foram explíci
tamente rejeitados pelo Secretariado para a Unldade dos CristSos em Decla-
racao datada de 7/01/70. Cf. NotiUae, n? 52, margo 1970, pp. 90-95.

2 A palavra heresia vem do grego halresls, que significa escolha, selecSo


(de doutrinas, no caso).

— 373 —
42 cPERGUNTE E RESPONDEREMOS» 264/1982

«gestís verbisque ¡ntrínsece ínter se oonnexis» (cf. Constituigáo


«Dci Verbum» n» 2). Para que essa Palavra nao se deteriorasse
através dos tempos, o Senhor Deus quis outorgar á hierarquia
da Igreja um dom especial ou o carisma da verdade, como se
lé em «Dei Verbum»: esta, com efeito, menciona «aqueles que
com a sucessáo do episcopado receberam o carisma seguro da
verdade» (ii qui cum episcopatus sueessione charisma veritatis
certum accepenmt) (n« 8).

Qualquer cisáo na Igreja, motivada pelo estudo exclusivo


da Palavra escrita, vem a ter sabor de Protestantismo; já nao
é inspirada pelo Espirito de Deus, nem realiza a obra do
Senhor Jesús. — Alias, diga-se ainda: nenhum livro pode ser
entendido auténticamente se nao é colocado no contexto his
tórico em que se originou ou se nao é lido á luz da palavra
oral que o bergou e o acompanha.

2.3.2. Os lemas particulares da «denuncia»

A obra do Prof. Xavier da Silveira aceña a diversos pontos


do novo Missal que lhe parecem eivados de Protestantismo...
Já muito se tem escrito em resposta a cada urna das objegóes
levantadas; nao o tornaremos a fazer. A propósito dizia sa
biamente o Cardeal Gabriel Garrone aos 7/09/1969:

"Ll com a devida atengSo nSo só o texto do Ordo Mlssae, mas a Ins-
trucfio que o precede, e tenho dificuldade em compreender tais rea?6es.
Parece-me que as aparentes reticencias de algumas frases sSo elucidadas por
outras sentencas explícitas do mesmo documento. A Instruyo, lida de ponta
a ponta, em atitude Isenta de preconceltos, suscita a nítida ImpressSo de
que estamos na linha e no fluxo da tradifüo da Igreja e que um padre do
Concilio de Trente encontrarla al toda a sua fé" (cf. Notitiae, n? SO, Janeiro
1970, p. 40).

Com efeito, quem nao isola frases, mas percorre o novo


Missal em perspectiva serena, encontra ai a profissáo da fé
constante da Igreja. Alias, o próprio Prof. Xavier da Silveira
cita as pp. 330s afirmagóes de S. Ambrosio (t397), que con-
denam a propriedade particular. O mesmo professor, porém,
mostra que tais frases nao podem ser isoladas do pensamento
global do autor e da doutrina geral da Igreja.

— 374 —
TRAPICIONAUSTAS E KDEUDADE A IGREJA 43

Eis, porém, que podem merecer especial atengáo duas das


objecóes formuladas pelos irmáos de Campos. Embora já te-
nham recebido resposta em outros documentos, detemo-nos
sobre as mesmas.

1) O Canon em voz alta e em vernáculo. Verdade é que


o Concilio de Trento (cf. Denz.-Schon. 1759) e o Missal de
S. Fio V rejeitaram a recitagáo do Canon em voz alta e em
vernáculo. Fizeram-no em vista do movimento protestante da
época, que precisamente quería servir-se da Liturgia como
veículo de difusáo de doutrinas heréticas; no sáculo XVI, por-
tanto, nao seria oportuno alterar a praxe medieval. Em nossos
dias, porém, a Igreja julga que pode voltar ao costume, da
época patrística, de se recitar o Canon em voz alta e em ver
náculo; a restauragáo desta prática antiga traz reais bene
ficios ao povo de Deus, e está longe de acarretar erros protes
tantes. O Protestantismo hoje está táo diversificado em relacáo
ao que era no século XVI, que ele nao recorre á Liturgia (ou
a contrafacóes da Liturgia católica) para se propagar, mas
fá-lo de outras maneiras (mediante reunióes em pragas públi
cas, visitas de colportores da Biblia as casas de familia, disse-
minagáo de panfletos...).

Se hoje a Igreja diz Sim ao vernáculo e á recitacáo pública


do Canon depois de Ihe haver dito Nao no século XVI, Ela
apenas está alterando um parágrafo do seu Código disciplinar
e nao um artigo do Credo. Essas mudancas de disciplina, sem
detrimento das verdades da fé, nao sao apenas cabíveis, mas
tornam-se necessárias, visto que as circunstancias em que os
fiéis católicos vivem, suscitam novas e novas situagoes através
dos sáculos. Alias, as pp. 331s o Prof. Xavier da Silveira cita
e aprova um caso paralelo de mudanga da disciplina da Igreja,
a saber: o do empréstimo a juros, que S. Tomás de Aquino e
os moralistas do século Xm condenavam, mas que hoje em
dia pode e deve ser reconhecido como legítimo.

2) Dessacraliza$ao. Os irmáos de Campos lamentam a


diminuigáo do número de inclinagóes, reverencias, genuflexóes,
sinais da cruz e ósculos prescritos ao celebrante durante a Li-

37»; —
44 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 264/1982

turgia Eucaristica. Identificam-na com dessacralizagáo ou com


«urna tendencia a enfraquecer a índole sacral da Missa» (ob.
cit, p. 78). — Ora tal nao é o sentido da modificagáo em pauta:
trata-se apenas de evitar repetigóes desnecessárias. De resto,
milito a propósito se lé na «Terceira Instrugáo...» de 5/09/70:
«A reforma litúrgica nao é sinónimo de dessacralizagáo, nem
pretende ser motivo ou pretexto para o fenómeno que chama
mos 'a secularizagáo do mundo'. Por isto é necessário conservar
aos ritos dignidade, seriedade e sacralidades (n* 1).

3. Conclusao

A análise de ponto por ponto das objegóes tradicionalistas


leva á conclusao de que, objetivamente falando, nao há por que
nao aceitar a Liturgia renovada como se estivesse imbuida de
heresias.

Todavia pode-se tentar compreender, em parte, a descon-


fianga dos irmáos tradicionalistas em relagáo ao novo rito pelo
fato de que, pretextando aplicar o Concilio, muitos grupos ca
tólicos tém cometido lamentáveis abusos ou mesmo sacrilegios.
Tais desordens continuam a se repetir até nossos dias sob jus
tificativas sofisticadas e inconsistentes. A vista disto, nao pou-
cos fiéis tendem a associar a nova Liturgia a tais desmandos.

Ora está claro que as normas litúrgicas vigentes nao so-


mente nao recomendam, mas repudiam tais irreverencias e
deturpagóes. A nova Liturgia, devidamente celebrada, é digna
e bela; comunica a impressáo de estarmos diante de urna Igreja
orante,... Igreja que é comunidade (corpo eclesial) devida-
mente hierarquizada com a distribuigáo de fungóes decorrente
dos sacramentos do Batismo, da Crisma e da Ordem. Muitos
e muitos fiéis tém concebido nova consciéncia de sua vocagáo
crista mediante a participagáo no Ritual renovado.

Verdade é que a Igreja deseja certa aculturagáo litúrgica,


ou seja, o aproveitamento das formas genuinas das diversas
culturas humanas para louvar a Deus. Essa aculturagáo, porém,

— 376 —
TRADICIONAIJSTAS E FIDELIDADE A IGREJA 45

1) é delimitada pelas próprias rubricas do Missal; a


Igreja declarou que já nao é lícito fazer experiencias litúrgicas,
ou seja, celebrar a Liturgia sem o amparo das rubricas oficiáis
ou fora da latitude prevista por estas. Cf. «Terceira Instru-
cáo» n» 12, em «Notitiae» n» 60, Janeiro 1971, p. 24;

2) jamáis deverá servir de ocasiáo á proclamacao de


posicóes políticas ou ideológicas. A manipuia~cáo~das funcóes
sagradas em favor de causas aberta ou dissimuladamente ideo
lógicas fere a consciéncia crista. Por isto, ao mesmo tempo que
professamos neste artigo plena adesáo á Liturgia de Paulo VI,
exprimimos nosso profundo pesar pelas «contrafacóes litúrgi
cas», que se realizam com intengóes espurias ou politizantes.

Tudo ponderado, fica, para finalizar, um apelo aos irmáos


no sacerdocio da diocese de Campos no sentido de que repen-
sem sua posicáo de resistencia: será um servico prestado a
Deus e á Igreja, que eles amam? Será um testemunho constru-
tivo para o povo de Deus? Há razáo real e objetiva para tanto
desgaste e tanta dor? Aínda mais: nao será possível a um
católico guardar a fé ortodoxa, a piedade fervorosa e a ascese
necessária, desde que aceite a Liturgia de Paulo VI? Nao há
pessoas de doutrina ortodoxa, fé ardente e conduta de vida
modelar entre as que participam da Missa renovada?

Que o Espirito Santo mesmo lhes inspire as respostas!

— 377
"Vocd sabia?"

Objecóes Protestantes ao Catolicismo

Em síntese: O presente artigo analisa onze objec6es que o Jornal


pentecostal "O Semeador" levanta contra a Igreja Católica, fazendo eco,
alias, a panfletos e publicares de outras fontes. Tais objegdes sSo desti
tuidas de fundamento histórico e apresentadas de maneira pró-clentlfica,
ou seja, mencionando datas erróneas e fatos mal narrados. Todavía, dado
que podem impressionar o grande público, a revista PR as percorre, citando
a documentac/io necessária para esclarecer os pontos abordados.

Comentario: Tém sido enviados a. redagáo de PR panfletos


e jornais protestantes que divulgam contra a Igreja Católica a
acusagáo de deteriorar a mensagem da fé mediante a intro-
ducáo de crengas e práticas «inventadas» pelos homens no
decorrer dos sáculos. Visto que tais panfletos sao destituidos
de valor histórico, permanecen! abaixo do nivel científico ou
mesmo do nivel de um diálogo religioso elevado. Por isto PR
nao Ihes tem dado resposta. Contudo, a pedido de leitores, pas-
samos a analisar o artigo «Vocé sabia?» do jornal pentecostal
«O SEMEADOR» de abril 1982, p. 10. Antes do mais, seja
transcrita a parte do artigo que interessa a estas páginas de
PR. Procuraremos, desta maneira, dissipar dúvidas que possam
existir na mente de fiéis católicos e nao católicos impressio-
¡ nados pela leitura das objegóes protestantes.

1. «Vocé sabia...?»

«— Que a palavra 'protestante' vem do protesto que o apos


tólo Pedro fez, quando queriam Ihe negar o direito de pregar o
cristianismo em Jerusalém e nao por deixarmos o catolicismo romano,
como dizem. Vejamos At 4,17 a 20 e 5,27; logo somos mais antigos
que os próprios católicos.

— Que a igreja católica modifícou e introduziu sem respaldo


bíblico todos esses a tos:

Ano 300 AD foi instituida a oracáo pelos morios

Ano 300 AD foi instituido o sin a I da cruz

— 378 —
0BJEC6ES PROTESTANTES AO CATOLICISMO £7

Ano 788 AD foi instituido o culto a María e aos santos

Ano 1000 AD foi instituida a fabricagáo de agua benta

Ano 1190 AD foi instituida a venda de indulgencias


Ano 1270 AD foi instituida a confissao auricular (confessio-
nário) „
Ano 1438 AD foi instituido o purgatorio
Ano 1870 AD foi instituida a infalibilidade do papa

Ano 1879 AD foi instituida a proibicao de casamento dos pa


dres (antes podiam casar)

— Que María, mae de Jesús, é venerada por 57 nomes dife


rentes somente na Italia (Na. Sra. disso, Na. Sra. daquilo) contra
riando a Biblia.

Colaboracao de Gedival Vieira da Rocha».

Passemos a refletir sobre o texto em pauta.

2. Observagoes gerais

A simples leitura dos tópicos atrás propostos, como


também a de panfletos semelhantes, evidencia a falta de cri
terios científicos dos respectivos autores. Procedendo de ma
neira pouco escrupulosa, afirmam sem provar; e afirmam de
maneira imprecisa («fabricagáo de agua benta», «instituido o
purgatorio», «confissao auricular» seria equivalente a «con-
fessionário»...); afirmam mesmo erróneamente nao poucas
coisas — o que dá a impressáo de que os autores mal sabem
o que estáo afirmando, mas falam por ouvir dizer, repetindo
chavóes.

Outra impressáo que se colhe da leitura atrás, é a de que


a S. Igreja move os seus fiéis como que a toques de decretos,
determinando que, de certa data em diante, será preciso crer
ou praticar isto ou aquilo... Ora tal impressáo nao corresponde
á realidade: o que a Igreja declara e manda, através do eeu
magisterio oficial, nao é senáo a expressáo da consciéncia que
os fiéis, em seu senso comum, possuem a respeito deste ou
daquele ponto de doutrina, ou a respeito desta ou daquela
prática. Antes de ser proferidas de maneira solene e definitiva

— 379 —
48 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 264/1982

pela autoridade da Igreja, tais verdades ou práticas já fazem


parte da vida dos cristáos. O magisterio apenas as explícita;
assim dissipa os perigos de mistura com o erro. É isto, alias, o
que se dá em todo organismo vivo: a vida real, vivida, é ante
rior as fórmulas ou definigóes.1

Impóe-se agora a consideragáo de cada qual dos pontos


mencionados.

3. Percorrendo as ob¡e$5es.. .

3. T . Orígem da designasáo «protestante»

Os textos de At 4,17-20; 5,27 nada tém que ver com a


existencia do Protestantismo (basta lé-los para tomar cons-
ciéncia disto). O Protestantismo, com as suas doutrinas carac
terísticas («somente a Biblia», «somente a fé», «somente a
graga»), comeca com Lutero, que em 1517 langa o seu primeiro
brado contra a Igreja Católica. Antes do sáculo XVI, nao se
falava de «protestantismo».

Mais precisamente, o termo «protestante» teve origem


nos seguintes fatos: o Parlamento alemáo reunido em Espira
no ano de 1529 encarou as conseqüéncias políticas da reforma
luterana, e houve por bem determinar que esta seria deuda
em seus progressos (nao, porém, cancelada) até se reunir um
Concilio Ecuménico para julgar a problemática religiosa. Com
outras palavras: foi estipulado que o Edito de Worms seria
aplicado nos Estados católicos (o que quer dizer que nestes a
propagagáo do luteranismo seria coibida); quanto aos Estados
que aderiam á Reforma, esta seria tolerada, com as cláusulas,
porém, de que os luteranos nao pregassem contra a S. Euca
ristía e aos católicos fosse tranquilamente permitida a celebra-
gáo da S. Missa. Desta maneira, o Parlamento promulgava a
manutengáo da situagáo vigente ou- do status quo. Diante desta
resolugáo, seis príncipes protestantes, entre os quais Joáo da

iCom efeito; primeiramente respiramos, camlnhamos.... depois defi


nimos o que é respirar, camlnhar... Assim o povo de Deus, movido pelo
Espirito Santo, no decorrer dos séculos professou tais e tais proposlcoes,
8egulu tais e tais costumes... Em conseqüéncla, o magisterio da Igreja,
asslstldo pelo mesmo Espirito Santo, quis oportunamente apolar com a sua
autoridade dirimente essas expresases auténticas da vida.

— 380 —
0BJEC6ES PROTESTANTES AO CATOLICISMO 49

Saxónia e Füipe de Hesse, e quatorze cidades da Alemanha


levantaram seus protestos veementes; nao queriam aceitar que
a S. Missa continuasse a ser celebrada em territorios protes
tantes, nem entendiam que os pregadores protestantes dei-
xassem de atacar a S. Eucaristía. Ora foi precisamente a
partir dessa ocasiáo (19 de abril de 1529) que os seguidores
da Reforma foram chamados «protestantes».

De modo especial importa notar que, dentro do bloco


protestante, os pentecostais constituem urna das denominagóes
mais recentes (ao contrario do que julga o articulista em
pauta). Com efeito, devem sua origem a um grupo de pastores
metodistas e batistas dos Estados Unidos, os quais julgavam
que o sinal de auténtica conversáo e vida no Espirito Santo
seria o dom das linguas; esta concepcáo provocou a formagáo
de grupos cada vez mais numerosos, que, durante a oracáo,
aspiravam a falar em linguas estranhas e a experimentar o
«batismo no Espirito Santo». Esses grupos de orantes separa-
ram-se das suas comunidades originarias e passaram a cons
tituir o Pentecostalismo protestante, que se ramifica em
diversos subgrupos: Assembléia de Deus, Congregagáo Crista
do Brasil, Pentecostais Independentes, Cruzada «Brasil para
Cristo» de Manuel de Mello, Cruzada da Nova Vida, o Evan-
gelho Quadrangular Pentecostal, o Cristo Pentecostal da
Biblia, etc.

3.2. Orasáo (ou sufragio) em favor dos mortos

1. Conforme o artigo citado, a oracáo pelos mortos terá


sido iniciada no Cristianismo no ano de 300. Ora tal datagáo
revela ignorancia dos documentos da Igreja antiga. Com efeito;
note-se o seguinte:

Sao JoSb Crisóstomo (t407) refere que «os Apostólos


institiiiram a oracáo pelos mortos e que esta lhes presta grande
auxilio e real utilidades (cf. In Philipp. III 4, PG 62, 204).

Em outra passagem o S. Doutor corroborava a afirmacáo,


dizendo:

"Fagamos nossos sufragios pelos defuntos e celebremos a sua memo


ria. Se os filhos de Jó foram purificados pelo sacrificio oferecido por seu
pal, como duvidaremos de que nossas oferendas pelos mortos lhes pro-
porclonam alivio? Sem hesitacSo, portento, • demos nossos sufragios aque
les que |á se foram e por eles oferecamos as nossas preces" (In I Cor
41,6 PG 61. 361).

— 381 —
50 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 264/1982

A instituicáo de sufragios fúnebres por parte dos Apos


tólos nao poderia ser rigorosamente demonstrada; escassos sao
os documentos que nos restam do primeiro sáculo. Apenas se
pode citar a seguinte passagem de Sao Paulo, a qual nao deixa
de ser imprecisa no caso:

"Que c Senhor conceda a Oneslforo encontrar misericordia da parte


do Senhor naquele dial" (2Tm 1,18).

O contexto dá a crer que Onesíforo, dedicado amigo do


Apostólo, já falecera. O Senhor mencionado pela primeira vez
(com artigo) é Deus Pai; na segunda mengáo (sem artigo, em
grego), o Senhor é Cristo Jesús, Juiz do mundo. Conforme
certos comentadores, Sao Paulo estaría fazendo urna prece em
favor do defunto; estaña, sim, pedindo a Deus Pai que seu
discípulo Onesíforo obtivesse misercórdia no juízo final. Esta
interpretagáo, porém, nao é unánime.

No sáculo n também sao sobrios os documentos literarios;


os escritores cristáos se dedicavam mais á Apologética (frente
ao Imperio Romano perseguidor e aos hereges) do que á des-
crigáo dos costumes das comunidades cristas.

Logo, porém, no inicio do sécalo ni encontram-se as Atas


do Martirio de S. Perpetua de Cartago (África), muito signifi
cativas para a nossa pesquisa. A mártir ai aparece orando por
seu irmáo Dinócrate, o qual morrera jovem: pedia fosse ele
transferido do lugar de padecimento em que se achava, para
«um lugar de refrigerio, de saciedade e de alegría». Finalmente,
viu Dinócrate, de coragáo puro, revestido de bela túnica, a
gozar de refrigerio, saciedade e alegría, como urna criancinha
que sai da agua e se dispóe a brincar (cf. Passio S. Per
petua© VIIs).

Nao se atribua demasiada importancia aos símbolos que


esta narrativa apresenta. Considere-se apenas o testemunho
que ela dá, de oragáo em favor de um defunto.

Na mesma época Tertuliano atesta o uso de sufragios na


Liturgia oficial de Cartago: referindo-se, por exemplo, a um
defunto, diz que, no intervalo ocorrente entre a morte e o sepul-
tamento do mesmo, fora beneficiado pela «oracáo do sacerdote»
(Da anima 51). O mesmo escritor, avesso a segundas nupcias,
argumentava contra estas, sugerindo o embaraco em que se
deveria encontrar um viúvo casado de novo, todas as vezes

— 382 —
OBJECOES PROTESTANTES AO CATOLICISMO 51

que tivesse de fazer as habituáis preces e oblagóes em favor de


sua primeira esposa (cf. «De exhortatíone castitatis» 51). O
mesmo embaraco havia de atingir também a viúva que hou-
vesse contraído novas nupcias e quisesse orar por seu primeiro
marido nos dias de aniversario de sua morte (cf. «De mono
gamias 10).

Pouco depois, o bispo de Cartago, S. Cipriano, refere-se á


oferta do sacrificio eucarístico em sufragio dos defuntos como
sendo praxe recebida de heranga dos bispos seus antecessores
(cf. epist. 1, 2). Ñas epístolas do santo nao é rara a expressáo
«offerre sacrifitíum pro aliquo, sacrificium pro dormitione eius»
(oferecer o sacrificio por alguém ou por ocasiáo dos funerais
de alguém).

Baseando-se nestes e em outros depoimentos da mesma


época, escreve Vacandart:

"Podemos de certo modo conceber o que terá sido a vida religiosa


de Cartago em meados do século III. Al vemos o clero e os fiéis a cercar
o altar... ouvimos os nomes dos defuntos lidos pelo diácono e o pedido
de que o bispo ore por esses fiéis falecidos; vemos os crlstSos... voltar
para casa reconfortados pela mensagem de que o Irmfio falecido repousa
na unidade da Igreja e na paz do Cristo" (Revue du clergé trancáis 1907 t.
Lll 191).

Encontramos outrossim ñas mais antigás coletáneas de


preces litúrgicas que po'ssuímos, a expressáo do costume de
sufragar os defuntos no culto público.

Assim a Didascalia («Doutrina» atribuida aos doze Apos


tólos), redigida nos primeiros decenios do século m para o uso
dos cristáos da Siria, ordena:

"Ao fazerdes as vossas comemoracdes, reunl-vos, lede as Sagradas


Escrituras e oferecei preces a Deus; oferecel também a regla Eucaristía...
tanto em vossas assemblélas quanto nos cemitérios. O pSo puro que o
fogo tlver purificado e que a Invocacfio houver santificado, oferecel-o
orando pelos morios" (cf. i I 2* parte, fragmento de Verana).

Os chamados «Cánones de Hipólito», que referem em


substancia a Liturgia do século m, contení urna rubrica con-
cernente ao caso de se fazer a «anamnese» (memorial, sufra
gios) em favor dos defuntos: «Si fit anamnesis pro iis qui
defuncti sunt... Caso se faca a memoria em favor daqueles
que faleceram...» (Gañones HippoJvti, em Monumenta Ecclesiae
litúrgica por Cabrol e Leclercq, t I, parte 2a.).

— 383 —
52 «PERPUNTE E RESPONDEREMOS> 264/1982

Na primeira metade do século IV, o bispo SerapiSo de


Thmois, no Egito, fez-se autor de urna coletánea litúrgica, em
que se lé a seguinte fórmula de intercessáo pelos irmáos
falecidos:

"Por todos os defuntos dos quais fazemos comemoracfio, assim ora


mos: 'Santifica essas almas, pols Tu as conheces todas; santifica todas,
aquelas que dormem no Senhor; coloca-as em meio ás santas Potestades
(anjos); dá-lhes lugar e permanencia em teu reino'" (Journal of theological
Studies t. I, p. 106).

O mesmo Serapiáo consignou urna prece a ser dita por


ocasiao da inumacáo do defunto:

"Nos Te suplicamos pelo repouso da alma de teu servo (ou de tua


serva) N.; dá paz ao seu espirito em lugar verdejante e aprazivel, e
ressuscita o seu corpo no dia que determinaste" (ib. t. I 268).

As ConstituicSes Apostólicas foram campiladas no fim do


século IV por um autor que recolheu documentos bem mais
antigos. — No livro VUI da colecáo se lé:

"Oremos pelo repouso de N., a fim de que o Deus bom, recebendo


a sua alma, Irte perdoe todas as faltas voluntarias e, por siu» misericordia,
Ine dé o consorcio das almas santas".

Também se poderiam aduzir documentos da arqueología,


que o leitor encontrará coletados em PR 78/1964, p. 270-272.

2. Pergunta-se agora: qual o sentido da oragáo em favor


dos defuntos?

A oracáo em favor de um defunto supóe que a alma dessa


pessoa esteja no purgatorio.

Morreu na amizade do Senhor, mas ainda contaminada


por aderéncia ao pecado, isto é, por más inclinagóes que as
faltas antigás, mesmo depois de perdoadas, deixaram nessa
alma. Tal pessoa nao empregou, durante a vida terrestre, a
energía necessária para extirpar as suas tendencias desre-
gradas.

Por estar na amizade de Deus, a pessoa que assim morre,


é chamada á visáo beatífica. Contudo nao pode sustentar a
presenca de Deus face-a-face quem traga em si a mínima
nódoa de impureza. Por isto a Justica Divina lhe concede um
estágio de purificacjio preliminar ao céu, que é o purgatorio.

— 384 —
OBJEQOES PROTESTANTES AO CATOLICISMO 53

Cientes disto, os cristáos na térra oferecem a Deus preces


e atos meritorios em favor das almas do purgatorio. O Senhor,
aceitando esses sufragios, faz que as almas no purgatorio
sejam mais profundamente penetradas pelo amor de Deus, o
qual nelas deve consumir mais rápidamente as impurezas do
pecado. Tal é o sentido das oragóes em favor dos defuntos.

Os sufragios assim feitos nao derrogam iá obra satisfatória


de Cristo, pois os merecimentos apresentados nao sao mais do
que os frutos dos méritos do Salvador; é a imagem de Cristo
vivendo no cristáo que dá valor de salvagáo as preces e ás boas
obras deste e lhe possibilita acesso ao Pai.

3.3. O purgatorio

Segundo o artigo analisado, o purgatorio terá sido insti


tuido em 1438 d.C. Ora tal sentenga é nítidamente falsa, como
demonstra quanto acaba de ser dito. O autor conhece táo pouco
os pontos de doutrina impugnados que ele chega a cair em
incoeréncia; como poderiam os sufragios pelos defuntos ter sido
introduzidos em 300 se somente em 1438 teve inicio a crenca
na existencia do purgatorio?

Os fundamentos da doutrina do purgatorio estáo na pró-


pria S. Escritura. Note-se, por exemplo:

Moisés e Aaráo cederam á pouca fé em dado momento da


sua vida. Nao há dúvida, a culpa lhes foi perdoada (cf. Dt
34,10-12; Ex 33,11; Num 12,6-8); nao obstante, viram-se pri
vados de entrar na Térra Prometida (cf. Dt 34,4; Nm 20,12s;
27, 12-14).

Davi, culpado de homicidio e de incesto, foi agraciado ao


reconhecer o delito; nao obstante, teve que sofrer a pena de
perder o filho do adulterio (cf. 2Sm 12,13s).

Em outros textos, o perdáo é estritamente ligado a obras


de expiagáo:

Assim o velho Tobías ensina a seu filho que a esmola o


libertará de todo pecado e da morte eterna (cf. Tb 4,8-11).
Algo de semelhante é anunciado por Daniel ao rei Nabucodo-
nosor (cf. Dn 4,24). O profeta Joel, junto com a conversáo do
coragáo, exige jejum e pranto (cf. Jl 2,12s).

— 385 —
54 <rPERGUNTE E RESPONDEREMOS» 264/1982

Entenda-se bem: a expiagáo nada tem que ver com vin-


ganca ou castigo da parte de Deus sobre o pecador, mas é
exigida para que este apague os resquicios do pecado existentes
em sua alma. A expiagáo liberta o homem das suas paixóes e
excita o amor a Deus necessário para que o pecador seja isento
das raizes do pecado, que permanecem na alma mesmo depois
de*-perdoada a culpa. Se o pecador, ao pedir perdáo de suas
faltas, tivesse um amor a Deus táo forte que lhe apagasse as
inclinagóes para o pecado, estaría dispensado de prestar expia-
gáo pelas faltas cometidas; mas o fato é que tal amor a Deus
capaz de extinguir toda tendencia ao pecado é extremamente
raro enquanto peregrinamos nesta vida. É preciso, pois, excitar
este amor mediante prolongada ascese, mortificacáo ou ex-
piagáo a fim de que no homem nao permanega mais nenhum
resquicio de concupiscencia desordenada.

Se alguém morre com a alma já purificada de todo res


quicio do pecado, pode usufriur diretamente da visáo de Deus
face-a-face (céu). Se, porém, morre ainda portador de tenden
cias desregradas, deverá purificar-se das mesmas num estágio
postumo (entre a morte e a visáo beatifica), que é chamado
purgatorio. Este nao é um lugar, mas um estado, no qual o
amor a Deus consomé os resquicios do amor próprio, do
egoísmo e das cobigas desordenadas que nao foram consumidos
nesta vida por causa da covardia do sujeito. É necessário que
haja esse estágio, pois na presenca de Deus tres vezes santo
nao pode subsistir o mínimo vestigio de pecado.

Tal é a lógica da doutrina do purgatorio, que está na con-


tinuidade da mensagem bíblica.

3.4. O sinal da cruz

Diz-nos o objetante que o sinal da cruz foi instituido


em 300 d. C.

Tal assercáo se evidencia errónea desde que se pesquise a


literatura crista anterior ao ano 300. Assim, por exemplo, o
escritor Tertuliano (f pouco após 220) atesta o ampio uso que
do sinal da cruz faziam os fiéis ñas mais variadas contingencias
da vida humana:

— 386 —
OBJEQOES PROTESTANTES AO CATOLICISMO 55

"Quando nos pomos a camlnhar, quando salmos e entramos, quando


nos vestimos, quando nos lavamos, quando iniciamos as reíelsOes, quando
nos vamos deitar, quando nos sentamos, nessas ocasides e em todas as
nossas demals atlvldades, perslgnamo-nos a testa com o 8lnal da cruz"
(De corona militte 3).

Diz aínda Hipólito de Roma (t 235/6), descreyendo as


práticas dos cristáos do secuto IH:

"Marca! com respailo as vossas cabecas com o sinal da cruz. Este


slnal da PalxSo opoe-se ao diabo e protege contra o diabo, se é felto com
fé, nao por ostentado, mas em virtude da conviccfio de que é um escudo
protetor. é um sinal como outrora foi o cordelro verdadeiro; ao fazer o
sínal da cruz na fronte e sobre os olhos, rechacemos aquele que nos
espreita para nos condenar" (Tradlclo dos Apostólos 42).

Estes testemunhos dáo a ver que o sinal da cruz já no


inicio do sáculo III estava muito difundido entre os cristáos,
de tal modo que as suas origens se identificam com as dos
primordios do Cristianismo.

3.5. O culto a Mario, e aos santos

Terá tido origem em 788, conforme o articulista em pauta.


— Nao se sabe por que tal data foi escolhida pelo autor.

Também esta afirma.gáo é errónea.

Como a S. Escritura mesma indica, já os judeus julgavam


que os justos falecidos continuam a interceder pelos seus
irmáos sobreviventes na térra. Tenha-se em vista, por exemplo,
o texto de 2Mc 15,11-14, segundo o qual Judas Macabeu con-
templou no céu Onias, o antigo Sumo Sacerdote, «de aspecto
modesto e costumes brandos... entregue desde a infancia a
todas as práticas da virtude, o qual estendia as máos e orava
por toda a nagáo dos judeus». Viu também Jeremías, «notável
por sua dignidade, revestido de prodigiosa e soberana majes-
tade», a respeito do qual lhe foi dito: «Este é o amigo dos seus
irmáos, aquele que muito ora pelo povo e por toda a Cidade
Santa, Jeremías o profeta de Deus».

Conscientes de que a morte nao interrompe a comunháo


dos membros da Igreja entre si, os antigos cristáos, desde os
primeiros sáculos, voltaram sua atencáo para os santos (em
primeiro lugar, para os mártires, que sao os mais belos frutos
da obra do Redentor). Anualmente no dia aniversario da morte

— 387 —
56 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 264/1982

(chamado com muito acertó «o día natalicio») de tal mártir


ou tal justo famoso, os fiéis se reuniam para celebrar a Litur
gia votiva do santo. Nessa celebragáo, antes do mais, louvavam,
adoravam e agradeciam a Deus por quanto havia feito de
grande e belo na pessoa do santo cultuado (a veneracáo aos
santos é teocéntrica ou cristocéntrica, pois se dirige sempre
a Deus, que realiza maravilhas em seus santos); a seguir, os
fiéis pediam ao Senhor Deus, por intercessao do santo cul
tuado, as gragas de que necessitavam para chegarem também
eles á mansáo eterna.

O mais antigo testemunho que se tenha dessa prática,


data de meados do século II. Com efeito, a Ata do Martirio
de S. Policarpo (1156) foi redigido pouco depois da morte
deste; relata a atitude corajosa do santo mártir ao confessar
a fé diante dos juízes; morreu finalmente em meio as chamas,
tendo ainda recebido um golpe de punhal dos carrascos. A ata
se encerra com a seguinte observagáo:
"Os Irmáos recolheram os ossos de Policarpo, mais preciosos do que
pérolas e mais caros do que o ouro, e os depositaran) em lugar conve
niente a fim de que a comunidade se pudesse reunir em torno desses despo
jos todos os anos no dia do aniversario de seu natalicio"1 (Martirio 17).

A praxe relatada por este documento era coraura entre os


cristáos desde os inicios da Igreja; os restos moríais dos santos
eram guardados com grande honra e visitados regularmente
por peregrinos; junto a eles se celebrava a S. Eucaristía. É o
que atesta ainda a existencia de antigos Martirologios, Meno-
lógios e Sinaxários, que sao catálogos de mártires e justos
falecidos em odor de santidade e cultuados pelos fiéis. Tal culto
se diferencia nitidamente da veneragáo tributada pelos pagaos
aos seus heróis, pois os motivos inspiradores e a finalidade
ético-religiosa do culto cristáo estáo longe das concepgóes e
piráticas pagas, que muitas vezes tinham o caráter de magia.
Nao se diga que o culto de veneracáo dos santos derroga
á adoragáo devida ao Senhor Deus ou a estima devida ao Cristo
Redentor, pois nos santos o cristáo vé o triunfo da graga de
Cristo, que ele exalta quando exalta os santos.

3.6. A agua benta

Conforme o artigo em foco, terá sido instituida a sua


«fabricagáo> no ano 1000!

1 Natalicio, neste contexto, é o día da entrada na vida «terna.

— 388 —
QBJEC6ES PROTESTANTES AO CATOLICISMO OT

Ora deve-se dizer que o uso da agua benta na Igreja se


prende ao uso da agua batismal. Sim; o elemento natural
«agua» tendo sido escolhido por Jesús para comunicar a rege-
neracáo e a vida eterna, os cristáos julgaram oportuno renovar
o seu compromisso batismal usando agua sob forma de
sacramental (o Batismo é um sacramento; a agua benta é um
sacramental). Por conseguinte, o sinal da cruz com agua benta
e a aspersáo de agua benta foram tidos como cañáis que con-
tinuam a derramar as gracas da Redencáo sobre pessoas e
objetos atingidos por essa agua.
Entende-se, pois, que o uso da agua benta nao tenha tido
origem em 1000 d. G, mas, sim, nos primordios da Igreja, em
íntima conexáo com o Batismo.

3.7. As indulgencias
«Em 1190 foi instituida a venda de indulgencias»!
Antes do mais, é preciso observar que nunca houve venda
de indulgencias. Um autor que estude objetivamente a materia,
nunca dirá isto. Para se compreender as indulgencias, faz-se
mister recordar quanto segué:
Como dito atrás, todo pecado, mesmo quando perdoado,
implica a necessidade de reparacáo da parte do pecador. Essa
reparagáo consistirá em apagar os efeitos do pecado, que as
vezes sao intrínsecos e também extrínsecos ao pecador (se
roubei um relógio, estou obrigado a devolvé-lo ao proprietário),
as vezes sao efeitos meramente intrínsecos (o pecado deixa
resquicios de si no pecador, alimentando as paixóes e tenden
cias desregradas). Esse cancelamento ou essa erradícagáo das
conseqüéncias do pecado exigirá do pecador maior amor a
Deus,... amor que mortifique ou extinga o egoísmo e o amor
próprio. Por isto na Igreja antiga o confessor impunha ao
penitente que se confessasse, urna reparacáo deveras mortifi
cante, que o ajudava a excitar o amor a Deus e o odio ao
pecado. No inicio da Idade Média,porém, a Igreja verificou
que tal praxe era sempre mais difícil, em grande parte por
causa da debilidade da saúde dos penitentes. Em conseqüéncia,
prevaleceu o seguinte raciocinio: a Igreja é depositarla dos
méritos de Cristo, que sao o tesouro da Redencáo do género
humano; por conseguinte, é licito a Igreja aplicar esse tesouro
em favor dos penitentes que, nao podendo realizar urna obra
dura como jejum prolongado, peregrinagóes, vigilias sucessi-
ves..., se disponham a realizar obra mais suave, animados,
porém, pelo mesmo amor a Deus e repudio ao pecado. Cons
ciente disto, a Igreja comecou a «indulgenciar» certas obras
— 389 —
58 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 264/1982

como oragóes, visitas a um santuario, esmolas...; istoquer


dizer: a Igreja declarou que os fiéis que executassem determi
nadas oragóes ou atos de devogáo ou de caridade, movidos pelo
amor que os levaría a jejuar durante quarenta días, por exem-
plo, poderiam obter os frutos de um jejum de quarenta días
(pois o que dá sentido as obras visíveis do cristáo é a dispo-
sigáo interior com que as pratica). Assim foram sendo conta
das as indulgencias segundo o sistema de días, semanas, anos,
tendo-se em vista os días, as semanas ou o tempo de rigorosa
penitencia física que sería substituida pela obra indulgenciada.
Está claro, porém, que quem nao tivesse o amor heroico corres
pondente ao dos grandes penitentes da Igreja antiga nao ga-
nharia as indulgencias. Vé-se, pois, que a justificativa das
indulgencias é lógica e harmoniosa.
É neste contexto que se fala de esmolas indulgenciadas.
Estas nao significam compra de indulgencia ou de perdáo, mas
simplesmente a Igreja entendía que quem desse determinada
esmola para urna instituigáo de caridade ou para fins apostó
licos, poderia lucrar urna indulgencia por causa do amor a
Deus pressuposto pelo ato de dar esmola. Por conseguinte, a
proposta de indulgencia era apenas um elemento provocador
de caridade interior ou de mais intenso amor a Deus; o que
valia, para os fiéis, nao era a entrega de dinheiro ou a execucáo
mecánica de algum ato bom, mas, sim, o amor profundo com
que os fiéis realizassem a entrega do dinheiro ou a obra
meritoria.

Tal é a teología das indulgencias. Dito isto, é preciso


reconhecer que houve mal-entendidos por parte dos fiéis do
fim da Idade Media; fizeram da instituigáo das indulgencias
algo de mecánico, esquecendo a importancia imprescindível da
atitude interior com que os fiéis deviam dar suas esmolas para
lucrar as indulgencias. Daí a aparéncia de que se vendiam
indulgencias na Idade Media. Nunca houve venda, mas, sim,
a proposta de que os fiéis fizessem um ato de amor a Deus e
ao próximo, que lhes seria útil para apagar os resquicios do
pecado.

3.8. A confissáo auricular

«Ano 1270 AD foi instituida a oonfíssáo auricular (con-


fessionário)».
Antes do mais, pergunta-se: por que o autor do artigo cita
o ano de 1270? Nada há na historia desse ano que possa, de
algum modo, ser interpretado como ponto inicial da confissáo
auricular.
— 390 —
OBJBQOES PROTESTANTES AO CATOLICISMO 59

Esta, alias, nao comecou na Idade Media, mas tem suas


raízes no próprio Evangelho. Com efeito; Jesús disse aos seus
Apostólos: «Recebei o Espirito Santo. Aqueles a quem perdoar-
des os pecados, seráo perdoados; aqueles a quem nao os per-
doardes, nao seráo perdoados» (Jo 20,22s). Jesús assim quis
conferir aos seus Apostólos o poder de perdoar e também o de
nao perdoar:... nao perdoar a quem nao esteja arrependido,
a quem nao queira mudar de vida ou converter-se. Ora, para
poder exercer esta dupla faculdade, os ministros de Cristo pre-
cisam de ter conhecimento de causa, isto é, necessitam da ma-
nifestagáo da consciéncia do penitente que é chamada «con-
fissáo auricular». Por isto declarou o Concilio de Trento
(1545-1563) que a confissáo foi instituida pelo próprio Cristo.

A prática da confissáo auricular é testemunhada nos pri-


meiros séculos da Igreja. Tenha-se em vista, por exemplo, o
depoimento do bispo S. Cipriano de Cartago (f 258). Este autor
teve, mais do que os anteriores, a ocasiáo de considerar a dou-
trina da Penitencia sacramental. Com efeito; viveu sob a per-
seguigáo do Imperador Décio (249-251), que, por sua extrema
veeméncia, provocou numerosas apostasias ou defecgóes de
cristáos. Urna vez, porém, passada a celeuma, muitos apóstatas,
quiseram voltar á Igreja. O bispo de Cartago entáo viu-se
obligado a repreender severamente aqueles que, «antes de
confessar a sua culpa, antes de purificar a sua consciéncia pelo
sacrificio e pelo ministerio do sacerdote», ousavam achegar-se
á mesa do Senhor (De lapsis 16; cf. ep. 16,2). Para o santo
bispo, portante, nao era possivel reconciliacáo com Deus sem
confissáo previa do pecado; esta inicia todo o processo de volta
do pecador:

«Qufio grande fé e que salutar temor manifestam aqueles que, sem


ter cometido o mal de sacrificar aos (dolos ou de obter para si um ates
tado de sacrificio (Idólatra), tendo, porém, concebido a ¡ntencfio de sacri
ficar, vém mut contritos confessar Isto aos sacerdotes de Deus, e eles o
dSo a conhecer e, embora pequeninos e leves sejam os seus ferimentos,
pedem o remedio que os cura...

Rogo-vos, portante, irmáos meus, que cada qual confesse a sua falta,
enquanto aínda está neste mundo, enquanto a sua confissfio ainda pode
ser aceita, enquanto a satisfacáo e a remissáo por meio dos sacerdotes
aínda sfio agradáveis a Deus" (De lapsis 28s).

A confissáo individual assim inculcada por S. Cipriano era


considerada táo necessária que o concilio regional de Cartago
em 251 a incutiu por sua vez, ao permitir que cristáos apóstatas
fizessem oficialmente penitencia para receber a reconciliacáo:

— 391 —
60 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 264/1982

sería preciso, recomendava o sínodo, examinar o caso de cada


um em particular, averiguar a boa vontade do pecador e as
suas necessidades (examinarentur causae et voluntates et ne-
cessitates singulorum; S. Cipriano, ep. 55,6), pois, mesmo dentro
da mesma categoría de pecados, há diversidades de individuo
para individuo: «Ínter ipsos etiam qui sacrificaverint et con-
ditio frequenter et causa diversa sit;... multa sit diversitas»
(ib. 13s).

Sao Cipriano também sabia referir como haviam sido


punidos certos cristáos que tinham recebido a Sagrada Euca
ristía com a consciénda manchada de pecados secretos: «Quan-
tos há, cada dia, que, por nao fazerem penitencia e nao con-
fessarem as culpas que tém na consciéncia, sao possuidos pelos
espirites malignos!» (De lapsis 26).

Este texto incute bem que até os pecados ocultos deviam


ser confessados (ao sacerdote ou <a Igreja), a fim de ser can
celados pelo Senhor Deus.

Ao mesmo tempo que S. Cipriano, Orígenes de Alexandria


(t 254/55) dava importante testemunho neste setor.

Em urna de suas homilías (In Lev 2,4), o escritor alexan-


drino enumera sete meios de obter a remissio de pecados: o
batismo, o martirio, a esmola (cf. Le 11,41), a concessáo de
perdáo ao próximo que nos tenha ofendido (cf. Mt 6,14), o
zelo pela conversáo de um irmáo errante (cf. Tg 5,20), a prá-
tica da caridade (cf. Le 7, 47; 1 Pd 4,8)... Orígenes nao
trata de explicar quando ou em que casos cada um desses
meios é aplicável (os dois primeiros apagam irrestrítamente
todos os pecados, ao passo que os quatro seguintes estáo subor
dinados a certas circunstancias: impossibilidade de receber o
sacramento... existencia, na alma, de pecados leves ape
nas. ..). Por fim, acrescenta o escritor:

"Há aínda um sétimo meló de obter o perdáo, meló duro e penoso;


é a penitencia, quando o pecador molha seu leito com lágrimas e faz
do pranto o seu pao dia e noite, quando o pecador nSo tem recelo de
confessar o seu pecado ao sacerdote do Senhor e de procurar asslm o
remedio".

Em outra passagem, Orígenes compara o pecado a um


alimento indigesto e a um tumor maligno do estómago; conse-
qüentemente assevera que, assim como o doente precisa de
eliminar tais males para nao ser levado á morte, da mesma
forma o pecador deve expelir o pecado pela confissáo:

— 392 —
QBJEC6ES PROTESTANTES AO CATOLICISMO 61

"Quando o pecador se acusa e se confessa, cospe o pecado e purl-


flca-se de toda Infeccfio má. Ora considera bem a quem (trata-se do sacer
dote, segundo o trecho precedente) deves confessar os pecados. Examina
antes de tudo o médico a quem deves expor a causa da tua fraqueza: seja
um médico que salba ser doente com os doentes, chorar com os que cho-
ram; que seja cheio de compaixSo e piedade, a fím de que, confiando
ñas suas palavras, palavras que o comprovem como médico experimen
tado, tu sigas o seu conselho. Se ele vler a decidir que a tua doenca é
tal que deva ser confessada e saneada diante de toda a Igreja — o que *
será talvez ediflcacio para os outros e meló de salvacáo para ti — depois
de madura reflexao deverás agir segundo o sabio conselho desse médico"
(In Ps 37 h. 2, 6, ed. Migne gr. 12, 1386).

Esta passagem é particularmente significativa, pois distin


gue confissáo secreta (auricular) e confissáo pública: a pri-
meira é tida como necessária para a remissáo do pecado;
quanto á confissáo pública, ela se torna oportuna caso o sacer
dote, tendo o devido conhecimento de causa, julgue que deve
ser prestada pelo penitente. — E note-se que Orígenes, ao
incutir essas duas modalidades de confissáo do pecado, nao dá
a impressáo de estar inovando alguma coisa; ao contrario, do
tom categórico e espontáneo de suas palavras depreende-se que
está apenas insistindo em práticas já usuais entre os cristáos.

Em outra homilía, referindo-se aos Apostólos e aos seus


sucessores, diz Orígenes:

"Basta descobrir-lhes o mal, para obter a cura: a manlfestacfio do


pecado confere o saneamento. Se pecamos, devemos dizer: 'Del-Vos a
conhecer o meu pecado e nfio dlsslmulel a mlnha iniqüidade. Disse: Pro
nunciare! contra mim mesmo ao Senhor a minha injusttica' (SI 31,5). Na
verdade, se fazemos isso, se revelamos os nossos pecados nio somente a
Deus, mas também aqueles que Ihes podem dar remedio, serfio apagados
por quem disse: 'Dlssiparei as vossas enfermidades como urna nuvem e
os vossos pecados como um nevoelro' (Is 44,22)" (In Le h. 17).

Como se vé, Orígenes nao hesita em inculcar a necessidade


da confissáo, mesmo para as faltas secretas. Tal confissáo há
de ser feita a um sacerdote: embora o Alexandrino muito
valorize a santídade ou a capacidade pessoal do médico da alma,
nao resta dúvida (feito o confronto entre passagens paralelas
das obras de Orígenes) de que esse médico é o sacerdote da
Igreja (cf., por exemplo, In Lev h. 3,4).

A imagem do médico ocorre de novo sob a pena de Sao


Padano de Barcelona (1391), o qual na seguirte passagem
fez eco aos textos de Sao Cipriano e Orígenes já citados:

— 393 —
62 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 264/1982

"Mullos catram no pecado, até por pensamiento. Muitos sSo culpa


dos de homicidio; mullos, apegados eos ídolos; muitos, adúlteros. Acres-
cento aínda: nfio sonriente aquele que ergue a mfio para matar, torna-se
culpado de morticinio, mas também aquele que com o seu conselho impele
urna alma á morle. NSo somente aquele que oferece Incensó aos ídolos
sobre o altar é digno da morte eterna, mas também todo aquele que por
desejos Ilícitos viola o direito do matrimonio, merece esta morte... Rogo-
•vos, irmáos, pelo Senhor, que nao pode ser engañado nem mesmo a res-
peito de coisas ocultas aos homens, deixai de encobrir a vossa conscléncla
ferlda. Os doentes sensatos nao temem os médicos, mas delxam-se operar
e queimar mesmo ñas partes escondidas do seu corpo" (Paraenet. ad
paenit. 5,8).

No séc. IV, alias, após a paz concedida por Constantino á


Igreja (313), a literatura crista se pode tornar cada vez mais
ampia e explícita: em conseqüéncia, multiplicaram-se os teste-
munhos de autores cristáos sobre a necessidade de confissáo
para se obter a remissáo dos pecados.

Tenham-se em vista, por exemplo, as palavras de S. Am


brosio (t397), bispo de Miláo:

"A febre, enquanto seu foco permanece oculto no organismo, nfio


pode ser curada; mas, quando o foco se manlfesta, há esperance de cura.
Do mesmo modo a infeccao dos pecados...: enquanto flca oculta, causa
um calor ardente; mas, caso seja manifestada pela confissfio, desaparece"
(In Pa 37, ed. Migne lat. 14, 1057).

O próprio S. Ambrosio se dedicava pessoalmente e com


todo o zelo pastoral ao ministerio da confissáo, como refere p
seu biógrafo S. Paulino de Ñola:

"Costumava alegrar-se com os que se alegravam e chorar com as


que choravam; todas as vezes que alguém Ihe confessava as suas faltas,
a flm de obter a reconcillacSo, ele chorava de tal modo que induzia o
penitente a chorar também; parecía (¡car prostrado com quem estivesse
prostrado. Quanto & materia dos pecados que Ihe eram confessados, ele
nfio a manlfestava senfio a Oeus so, junto a Quem Intercedía (pelo peca
dor). Destarte deixava aos sacerdotes futuros o bom exemplo, para que
se tomassem intercessores junto a Oeus, e nfio acusadores junto aos ho
mens" (Vita S. Ambrosfi 39; cf. De paen. 2, 8).

Esta passagem atesta, portante, que S. Ambrosio


ouvia confissóes,
que versavam sobre casos pessoals e particulares,
e se faziam secretamente (c. auriculares),
ficando sob segredo ou sigila

Seja aínda aqui citado um interessante episodio das obras


atribuidas a S. Basilio (t 379):

— 394 —
OBJECOES PROTESTANTES AO CATOLICISMO 63

"Havia um jovetn, do qual a infancia e a educacSo haviam sido ple-


dosas. Era assfduo aos oficios; dedicava-se, tanto quanto possfvel, as
obras de beneficencia; tinha sempre na mente o jufzo eterno de Deus e
era closo de guardar com fidelidade os ensinamentos da doutrina crista.
Um belo día, porém, caiu na fornicado. Sua virtude asslm se esvaneceu,
e os frutos da sua educacSo foram devastados... O mau estado de sua
consciéncia o Impedía de comparecer á ¡greja; af nao poderia tomar lugar
entre os fiéis, pois se separara deles interiormente. Contudo por vergonha
ele nao quería agregar-se 'aos que choravam' (penitentes públicos). Entáo
pós-se a Inventar pretextos para responder aos que o interrogavam. Tal
ou tal pessoa, dizia ele, está á mlnha espera, de modo que nao tenho
tempo de asslstlr á Liturgia'. De outra feita, para salr da Igreja antes da
oracáo dos fiéis, imaginou nao sei qual motivo. Fol assim, em virtude
do hábito, que aos poucos ele concebeu a idéia de apostatar, chegando a
perder tudo que tinha (de valores espirituais)" (ed. MIgne gr. 30,152).

Merece atencáo o fato de que os desvíos moráis desse


jovem nao deviam ser de conhecimento público; pois, em caso
contrario, nao teria que recorrer a pretextos para explicar a
sua abstencáo da comunháo e seu afastamento da Igreja. Con
forme S. Basilio, as faltas desse adolescente poderiam ser
expiadas mediante penitencia pública... penitencia pública que
o ministro de Deus Ihe indioaria após haver ouvido a respectiva
confissáo. — O episodio portante supde a praxe da confissáo
estensiva mesmo aos pecados secretos.

Pode-se por último notar que em Constantinopla existían)


a partir do séc. III sacerdotes especialmente destinados a ouvir
as confissóes individuáis dos penitentes: sacerdotes peniten
ciarios.

Eis como um advogado de Constantinopla, Sozómeno


(t após 450), autor de urna «Historia da Igreja», explicava a
instituigáo desses ministros:

Pecar, dizia ele, é deficiencia decorrente do estado atual


da natureza humana; seria preciso nao ser criatura humana
para nao pecar. Por isto também o Senhor Deus perdoa as
faltas cometidas, por mais numerosas que sejam. Contudo, já
que nao se pode pedir o perdáo sem confessar as culpas, outrora
a confissáo se fazia ao bispo mesmo. Este procedimento em
breve se evidenciou pouco viável; ñas funcóes da Liturgia, o
bispo se assentava na ábside do templo, em meio aos clérigos,
de modo que o penitente devia quase fazer certo exibicionismo
teatral para dirigir-se ao prelado e declarar-lhe os pecados, sob

— 395 —
64 «PERGUNTE K RESPONDEREMOS» 264/1982

os olhares de todos os fiéis. Em conseqüéncia, os bispos julga-


ram preferível designar um simples sacerdote para ouvir as
confissSes e administrar a penitencia (cf. Historia da Igreja
VH 16, ed. Migne gr. 67, 1460).

Deste texto se depreende que, para Sozdmeno, a necessi-


dade da confissáo era anterior á instituigáo dos sacerdotes
penitenciarios, instituigáo que ele atribuía ao séc. m pelo
menos. Sozdmeno nao hesitava em reconhecer que a confissáo
ao ministro de Deus é urna das instancias normáis e obligato
rias para se obter, da parte do Senhor, a remissáo dos pecados.

Poder-se-iam multiplicar as citacóes de testemunhos.

Estes depoimentos provam sobejamente a prática da con


fissáo auricular na Igreja antiga. Há testemunhos anteriores
aos de S. Cipriano e Orígenes, todavia menos claros. Nos seus
primordios a literatura crista yersava principalmente sobre
temas apologéticos, tendo em vista o Imperio Romano hostil
e as primeiras heresias da historia (gnosticismo, docetismo...).

3.9. A infalibilidade papal

«Ano 1870 AD foi instituida a infalibilidade do Papa».


No caso seria melhor dizer: «foi definida a infalibilidade
do Papa quando fala como Mestre da Igreja Universal em
materia de fé e de moral». Com efeito; o Concilio do Vaticano I
naquela data nao fez senáo formular, em linguagem de defini-
cáo teológica, urna verdade já contida implícitamente no Evan-
gelho e professada pela Tradicáo crista.

A fim de nao repetir, aqui apenas citamos o que está dito


neste fascículo as págs. 409s, onde se apresentam textos bí
blicos referentes ao primado de Pedro.

Este primado foi sendo mais e mais afirmado através dos


tempos. Todavia nao seria razoável crer que nos primeiros
sáculos o primado romano se tenha manifestado como hoje.
De um lado, as comunicagóes entre os diversos núcleos cristáos
eram dificéis; de outro lado, foi o surto de heresias e desordens
que deu ocasiáo a que a Santa Igreja mostrasse aos poucos a
sua estrutura petrina. Como se verá adiante, o primado era
atribuido aos Pontífices Romanos nao em virtude da prepon
derancia política de Roma, mas por motivo estritamente
religioso.

— 396 —
0BJEC6ES PROTESTANTES AO CATOLICISMO 65

a) No fim do séc. I, tendo surgido um litigio entre os


fiéis de Corinto, o bispo de Roma, Salo Clemente!, lhes escreveu
urna carta autoritativa, chamando-os enérgicamente á ordem:

«Se alguns nao obedecem ao que Deus mandou por nosso


intermedio, saibam que incorrem em falta e em perigo muito
grave» (c. 69). A carta terminava anunciando o envió de
legados romanos a Corinto, os quais, esperava o Pontífice,
haveriam de voltar para Roma levando a noticia da restaura-
Cao da paz entre os discordantes.

É altamente significativo o fato de que o bispo de Roma,


e ele só, tenha intervindo em questóes internas da comunidade
de Corinto, embora em Éfeso ainda vivesse o Apostólo Sao
Joáo, e outras comunidades que nao a de Roma tivessem talvez
relagóes mais freqüentes e facéis com Corinto. Leve-se em
conta também a deferencia que a igreja de Corinto (embora
fosse, como a de Roma, fundada por um Apostólo) prestou ao
documento de Roma: a admoestacáo surtiu o almejado efeito,
como se depreende do fato de que em 170 aproximadamente a
carta de S. Clemente ainda era habitualmente lida ñas reunióes
dominicais dos fiéis de Corinto (cf. Eusébio, Hist ed. IV 23,11).

b) No inicio do séc. II, S. Inácio de Antíoquia escrevia


aos cristáos de Roma, reconhecendo ser a sua comunidade a
mestra de outras: «Nao invejastes a ninguém; instruistes os
outros. Também eu quero guardar aquilo que ensinais e precei-
tuais» (3,1). Aos Romanos confiava S. Inácio o cuidado das
comunidades da Siria: «Sonriente Jesús Cristo e a vossa caridade
(agápe) exercam para com elas o papel do bispo» (9,1). Agápe
vem a ser, para S. Inácio, o sinónimo de «comunidade crista»
ou de «Igreja» (cf. Tral. 13,1; Esmirn. 12,1; Filad. 11,2); é este
o sentido que o santo bispo parece supor quando diz ser a Igreja
de Roma «a que preside á caridade (agápe)» e «a que preside
na regiáo dos Romanos» (Rom., prol.). Estas expressóes, se
gundo bons historiadores, significam preeminencia em relacáo
as demais comunidades cristas. O testemunho de Inácio torna-se
particularmente significativo desde que se leve em conta que
era proferido por um bispo de Antioquia, cidade onde Pedro
teve urna de suas primeiras sedes episcopais (cf. Eusébio, Hist.
ed. m 36).

c) Na segunda metade do séc. II registrou-se a contro


versia de Páscoa: um grupo de bispos da Asia Menor, recusando
seguir o calendario e os costumes vigentes em Roma, assim

— 397 —
66 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS? 264/1982

como ñas demais regióes cristas, foi ameacado de excomunháo


pelo Papa S. Vítor (cf. Eusébio, Hist ecl. V 24, 9-18). E nin-
guém contestou ao Pontífice o direito de assim proceder; devia
parecer claro a todos que nenhum bispo pode estar em comu-
nháo com a Igreja universal sem estar em comunháo com a
Igreja de Roma.

d) S. Irineu (|202 aproximadamente) deixou-nos um


dos mais eloqüentes testemunhos em favor de Roma:

Tendo afirmado que a verdade se encontra ñas comunida


des fundadas pelos Apostólos, continua: «Mas, já que seria de
masiado longo enumerar os sucessores dos Apostólos em todas
as comunidades, so nos ocuparemos com urna destas: a maior
e a mais antiga, conhecida por todos, fundada e constituida
pelos dois gionosissimos Apostólos Pedro e Paulo. Mostraremos
que a tracucáo apostólica que ela guarda, e a íe que ela comu-
mcou aos homens, chegaram a nos atraves da sucessáo regular
dos bispos, coniundinao assim todos aqueles que... querem
procurar a verdade onde nao se pode encontrar. Com esta
comunidade, de tato, dada a sua autoridade superior, é neces-
sário esteja de acordó toda comunidade, isto é, os fiéis do
mundo inieiro; nela sempre foi conservada a tradigáo dos
Apostólos» (Adv. haer. ILL 3,2).

Este texto atribuí á Igreja de Roma o papel de padráo,


ao qual todos os núcleos cristáos ou a Igreja universal se devem
contormar; é somente esta conformidade que garante a auten-
ticidade da doutrina professada cá e lá entre os cristáos. E,
essa preeminencia de Koma, Irineu a deduz do fato de que tal
cidade recebeu diretamente dos santos Apostólos Pedro e Paulo
a sua doutrina, doutrina conservada ciosamente pelos bispos
sucessores de Pedro, que S. Irineu, pouco adiante, assim enu
mera: Pedro e Paulo «confiaram a Lino o ministerio do epis
copado... A Lino sucedeu-se Anacleto; a seguir, Clemente.
Clemente vira os Apostólos, conversara com eles, aínda tinha
no ouvido a sua pregacáo... A Clemente sucedeu Evaristo, e a
Evaristo Alexandre. Depois, em sexto lugar após os Apostólos,
veio Xisto, e, a seguir, Telésforo; depois, Higino, Pío e Aniceto;
Sotero sucedeu a Aniceto. É agora Eleutero que, em duodécimo
lugar, possui a heranga do episcopado após os Apostólos»
(Adv. haer. HE 3,3).

Em urna palavra diz S. Irineu: a conformidade com o ensi-


namento dos sucessores de Pedro é o criterio da ortodoxia.

— 398 —
QBJEC6ES PROTESTANTES AO CATOLICISMO 67

e) Era meados do séc. ni, S. Cipriano, bispo de Cartago,


chamava a cátedra de Roma «cátedra de Pedro, a Igreja prin.-
cipa], donde se origina a unidade sacerdotal (isto é, a unidade
dos bispos)» (epist. 55,14). Contudo S. Cipriano parece nao ter
tirado as últimas conseqüéncias destas palavras, pois recusou
submeter-se ao Papa S. Estéváo no tocante á validade do ba-
tismo conferido por hereges.

A medida que nos adiantamos no decorrer dos séculos, váo


aumentando em número e significado os textos e fatos que
atestam o primado de Roma. Visando brevidade, limitar-nos-
-emos aquí a recordar que, por ocasiáo dos litigios teológicos
verificados do séc. IV em diante, a Sé de Roma foi geralmente
tida como supremo tribunal de apelo, donde os teólogos e os
simples íiéis, tanto do Ocidente como do Oriente, esperavam
ouvir a palavra da verdade: os hereges arianos, por exemplo,
pediram ao Papa Julio I (f 352) aprovasse a deposicáo do bispo
de Alexandria, S. Atanásio, campeáo da ortodoxia; o Pontífice
entáo chamou a Roma acusadores e acusados, e fez-lhes justioa.
O seu sucessor, o Papa Libério (t 366), foi exilado pelo Impe
rador por haver recusado aprovar a condenacáo de Eustácio
de Sebaste, mestre da reta fé. O Imperador Justiniano I man-
dou buscar o Papa Vigilio (t 555) em Roma e submeteu-o a
vexames em Constantinopla, porque o Pontífice se recusava a
sancionar os editos dogmáticos de S. Majestade; o mesmo
aconteceu ao Papa Martinho I (t 653) — o que bem mostra o
valor (diríamos: dirimente) que se atribuía a sentenca de
Roma, mesmo quando os bizantinos mais e mais se deixavam
levar por tendencias separatistas e autonomistas.

A esses testemunhos, que aínda poderiam ser acrescidos


de outros, aplique-se agora um principio clássico no Cristia
nismo: «Quod apud multos unum invenitur, non est erratum,
sed traditum» (Tertuliano), isto é: urna crenca uniformemente
professada por diversas comunidades nao pode provir do erro,
mas deriva-se de legítima tradigáo. Testemunhas numerosas,
independentes e rigorosamente unánimes, merecem fé já no
plano meramente humano...; muito mais merecem-na no
plano sobrenatural, onde Cristo assiste á sua Igreja.

Concluir-se-á entáo: o primado que os bispos de Roma


desde o séc. I exerceram na Igreja, é legítimo, pois nao fez
senáo continuar o primado de Pedro, primado que este Apos
tólo recebeu diretamente de Cristo.

— 399 —
68 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 264/1982

Após esta explanagáo, entende-se que os Concilios Ecumé


nicos hajam sucessivamente até os tempos modernos inculcado
o primado romano.

3.10. Celibato do <lera

«Ano 1879 AD foi instituida a proibicJLo de casamento dos


padres (antes podiam casar)».

Quem lé esta proposigáo, nao pode deixar de verificar a


profunda ignorancia do autor no tocante ao assunto em pauta.

A praxe do celibato sacerdotal tem suas razóes remotas


em ICor 7,32-34, texto em que S. Paulo afirmava ser a vida
celibatária um estado em que mais fácilmente se pode servir
ao Senhor, sem divisóes e sem solicitudes supérfluas. Em lTm
3,3 (cf. Tt 1,6) o Apostólo recomenda que o ministro de Deus
seja «marido de urna só esposa»; com isto Sao Paulo quena
inculcar que no século I da nossa era, quando as comunidades
cristas constavam de muitos adultos e casados recém-conver-
tidos, nao se escolhesse para o ministerio algum homem casado
em segundas nupcias; estas, com efeito, eram geralmente desa-
conselhadas pela antiga Igreja por parecerem urna expressáo
de incontinencia.

Ve-se, pois, que desde os tempos apostólicos a vida una


era recomendada e praticada pelos ministros do Senhor
(tenha-se em vista, por exemplo, o caso de Sao Paulo).

No Ocidente, a primeira legislacáo restritiva ao casamento


dos clérigos se deve ao Concilio de Elvira (Espanha) por volta
do ano 300: proibia aos bispos, sacerdotes e diáconos, sob pena
de degradacáo, o uso do matrimonio e o desejo de ter prole
(canon 33). Esta determinacáo, que era regional, em menos de
um século estava em vigor (as vezes sob forma de conselho
apenas) em todo o Ocidente. A fórmula definitiva de tal disci
plina foi promulgada pelo Concilio Ecuménico do Latráo I em
1123: a todos os clérigos, a partir do subdiaconato, foi prescrito
o celibato; em conseqüéncia, o matrimonio contraído por algum
eclesiástico depois da respectiva ordenacáo, era tido como
inválido. O Concilio de Trento (1545-1563) reafirmou tal de
terminacáo.

Isto bem mostra quáo inexata é a noticia (e a acusagáo)


do jornal em pauta.

— 400 —
0BJEC6ES PROTESTANTES AO CATOLICISMO 6?

3.11. Os títulos de María Santísima

«A M§» de Jesús é venerada por 57 nomes diferentes


somente na Italia (Nossa Senhora disso, Nossa Senhora
daquilo) contrariando a Biblia».

— Os títulos de María SS. póem em relevo os diversos


predicados da figura bendita de Maria SS., que sempre é unía
só «Nossa Senhora». Esta foi imaculada em sua conceigáo,
gloriosa em sua Assuncáo; apareceu em Lourdes, Fátima, La
Sálete; é a Auxiliadora dos cristáos, o Refugio dos pecadores,
a Máe dos homens, etc. O uso desses diversos títulos nao con
traria á Biblia, que nada diz a respeito.

4. Conclusao

Poder-se-ia alongar a resposta as falsas objecóes levan-


datas pelo jornal «O SEMEADOR». Cremos, porém, que o
quanto foi dito basta para mostrar a improcedencia de tais
acusacóes. A ignorancia e o preconceito deformam as mentes.

De resto, observe-se o seguinte:

Houve realmente inovacóes na vida da Igreja através dos


sáculos, mas todas de caráter acidental, sem afetar os artigos
de fé. Tais sao o uso da agua benta, a Liturgia em língua
latina, a concessáo de indulgencias... Essas inovacóes aciden-
tais nao somente sao aceitáveis, mas constituem valores positi
vos, pois manifestam a vitalidade da Igreja. Com efeito; Cristo
comparou a sua Igreja a um grao de mostarda que se vai
desenvolvendo através dos tempos, de modo a dar urna árvore
com novas e novas expressóes de seu vigor (cf. Mt 13,31s);
tal planta tem necessariamente aspectos diferentes de acordó
com a sua idade; nunca, porém, deixa de ser mostarda para se
transformar em cerejeira ou macieira. Algo de análogo se dá
com a S. Igreja; já que Ela nao é cadáver, mas o Corpo de
Cristo vivo e prolongado através dos sáculos, Ela vai tirando
do seu ámago novas e novas expressóes de sua vitalidade, de
modo a poder adequadamente transmitir o Cristo a cada época
e incorporar no Reino de Cristo tudo que os homens váo pro-
duzindo de bom em cada fase da historia. Afim de que Ela
realizasse tal tarefa sem perverter o Evangelho, o Senhor
prometeu a sua assisténcia e a do Espirito Santo aos Apostólos
e aos seus sucessores até o fim dos sáculos (cf. Mt 28,20).

— 401 —
Fenómeno doloroso:

A Igreja Católica Apostólica Brasileira

Em sínlese: A Igreja Católica Apostólica Brasileira (ICAB) ou as


"Igrejas Brasileras" tiveram sua origem aos 6/07/1945, quando D. Carlos
Duarte Costa, ex-blspo de Botucatu, houve por bem separar-se de Roma,
para fundar urna Igreja Nacional Brasileira. D. Carlos era fortemente antl-
-fasclsta e Julgava que as autoridades da Igreja Católica estavam aliadas
ao fascismo italiano e ao nazismo alemao. Antes de chegar á ruptura com
Roma, D. Carlos, agitado como era, fora preso pela policía brasileira.
A ICAB se dividlu em diversos ramos Independentes uns dos outros e
carentes de doutrina definida; ver¡fica-se que grande parte de seus minis
tros sSo ex-sacristSes ou ex-candidatos ao sacerdocio na Igreja Católica
que, nSo tendo conseguido atingir a sua meta, se passaram para a ICAB,
onde as exigencias de estudo e preparo para o sacerdocio sao mínimas.
Os fiéis que freqüentam a ICAB, também sao ocasionáis: multos, nSo
conseguindo casar-se ou batizar criancas no Catolicismo, vSo procurar a
ICAB.

Na verdade, a Igreja de Cristo é urna só: aqueta fundada pelo pro-


prlo Jesús e entregue ao pastoreio de Pedro e seus sucessores. Cristo
prometeu estar com os Apostólos até o fim dos tempos (cf. Mt 28,18-20)
o que quer dizer que a condigao para que algum grupo cr¡st§o goze
da infalível assisténcia de Cristo é a sua adesSo a Pedro. As falhas
humanas que haja na única Igreja de Cristo sSo decorrénclas do misterio
da encarnadlo e nao impedem a acBo santiíicadora de Cristo. Quanto á
nacionalidade da Igreja, é algo que nao existe; a Igreja Católica é romana
como Jesús era nazareno; tanto o Governo central da Igreja (Pedro e
seus sucessores) quanto Jesús precisavam e preclsam de um endereco ou
de um habitat na térra; desse habitat tiram seu sobrenome, que nao excluí
a universalidade da missao de Cristo e da Igreja.

A Igreja Católica nSo reconhece o sacerdocio da ICAB.

Comentario: Os jomáis falam ocasionalmente de ocor-


rencias religiosas que, á primeira vista, parecem dizer respeito
á Santa Igreja de Cristo, mas, na verdade, se devem a segui
dores da chamada «Igreja Católica Apostólica Brasileira»
(ICAB) ou também «Igrejas Brasileiras», visto que o fenómeno
se expandiu em varios ramos autónomos.

Há também quem, nao podendo casar-se na Igreja Cató


lica, procure a ICAB, que proclama freqüentemente nao exigir
curso previo para celebrar casamentos e balizados; realiza
IGREJAS BRASHJ3RAS 71

outrossim unióes matrimoniáis de desquitados, divorciados,...


celebra Missas em terreiros de Umbanda, etc. — Prevalecen-
do-se dessas «vantagens», a ICAB tem feito grande propaganda
de si mesma, visando assim a seduzir o povo fervoroso, mas
pouco esclarecido.

Estes fatos exigem a elucidacáo do que sejam realmente


a ICAB e as suas intengóes. O presente artigo continuará os
que sobre o mesmo assunto já foram publicados em FR
54/1962, págs. 303-310; 149/1972, págs. 218-228; 159/1973,
págs. 132-137.

1. ICAB: que é?

1.1. Funda$cío

O fundador da ICAB é o bispo Dom Carlos Duarte Costa.


Nascido aos 21 de julho de 1888, recebeu a ordenacáo de pres
bítero a 1» de abril de 1911. Foi sagrado bispo aos 8/12/1924
na catedral metropolitana do Rio de Janeiro. Enviado para
Botucatu como bispo diocesano, Dom Carlos foi infeliz na sua
gestáo pastoral, dando expansáo a estranha devoeáo. Com
efeito, Dom Carlos trouxe de Miláo para Botucatu urna estatua
de Nossa Senhora Menina, á qual atribuia numerosos milagres;
percebendo os desvíos da piedade popular decorrentes das
das falsas concepcóes de Dom Carlos, o Nuncio Apostólico in-
terveio em Botucatu; a Santa Sé entáo chamou de volta ao
Rio Dom Carlos, que ficou sendo bispo titular de Maura K

Durante a guerra mundial de 1939-1945, Dom Carlos


tomou posicoes políticas muito acentuadas; era anti-fascista e
Nacusava de fascismo o S. Padre Pió XII assim como as autori
dades da Igreja Católica. Apregoava a queima das encíclicas
Rerum Novarum de Leáo xm (1891) e Quadragesimo Anno
de Pió XI (1931), porque as tinha como fascistas. Julgava que
a Igreja ortodoxa da Ruménia se unirá á Igreja Católica, tor-
nando-se nazista. Sao palavras textuais de Dom Carlos:

i Maura é a capital da antiga provincia romana de Cesaréla da Mau


ritania (Norte da África). Todo bispo que nSo administre urna dlocese,
torna-se titular de um blspado Já extinto. Na verdade, a Invlsfio árabe
no Norte da África e na Asia menor fez que multas dioceses da S. Igreja
delxassem de existir como tais no sáculo Vil.

— 403 —
72 «tPERGUNTE E RESPONDEREMOS» 264/1982

"Todas as paróquias, mostelros, escolas e a Imprensa católica coló*


caram-se a servlco do nazismo e do fascismo. Em todas as paróquias da
Ruménla, havia urna sede do Fascio, obedecendo todas ás ordens de um
sacerdote italiano, nomeado por Mussolinl... Um dols olto sacerdotes
católicos enviados por Goebbels á Ruménia foi nomeado pelo metropolita
Assessor Consistorial ordinario. E o Rmo. Dr. Sherer, inspetor supremo
dos sacerdotes nazistas, teve seus servicos premiados com a promoc&o a
cónego honorario da catedral metroppoliana...

A pedido de von Papen, o meu irmüo Eugenio Pacelli transferlu o


Nuncio Apostólico na Ruménia, Monsenhor Valerio Valer!, fanático nazista,
para Nuncio em París, de onde foi obrlgado a se retirar por exigencia do
povo, apenas os alemaes evacuaram a cidade" (extraído do Manifestó a
Nacáo de Dom Carlos Duarte Costa publicado no "Mensageiro de Nossa
Senhora Menina" de Janeiro de 1946).

De passagem note-se que tais declarares carecem de apoio


na realidade histórica, correspondiendo a devaneios; o autor
nao oferece prova do que afirma. Alias, sabe-se que Dom
Carlos foi sujeito a atitudes temperamentais ou passionais que
o impediam de ver a realidade com a devida objetividade; há
mesmo quem lhe atribua certa insanidade mental.

Imbuido de espirito pretensamente anti-fascista, Dom


Carlos Duarte, aos 17/09/1942, enviou o seguinte telegrama
ao Presidente da República Getúlio Vargas (o Brasil pouco
antes entrara em guerra contra o Eixo Roma-Berlim):
"No momento em que V. Excia. decreta mobilizacSo, venho trazer-lhe
meu abraco e Irrestrita solidariedade, pondo-me inteiro dispor NacSo. Com
mobllizacio geral, chamando ás armas todos os brasileiros defesa Patria,
lembro ser necessária outra mobilizacSo — a espiritual — para que nao
suceda ao Brasil o que se passou com a Franca, devendo ser retirados
suas dloceses, prelazias, paróquias, conventos, colegios, bispos, prelados,
padres, frades, freirás, estrangelros e nacionais, partidarios nazi-fascismo-
-falangismo... Dom Carlos Duarte".

Conforme os dizeres do próprio Dom Carlos, este também


«denunciou de Hispanidad o episcopado brasileiro, unido ao
episcopado das dentáis nagóes americanas do norte, do centro
e do sul, preocupado com a situacáo da Igreja fascista... Era
a falange em acáo. A organizagáo constava de um comité
conjunto dos partidos fascistas de Portugal e de Espanha, com
apoio governamental de Lisboa e de Madrid».
Conta ainda o mesmo Dom Carlos:
"Em 6 de julho de 1944 a minha casa foi cercada por agentes da
policía e no dia seguinte eu era preso por ordem do Governo da Repú
blica ... Meu destino era a fortaleza de Santa Cruz. Ful, porém, enviado
para Belo Horizonte, onde ful fichado como comunista, e, em seguida,
recolhldo a urna casa na cidade de Bonfim, no Estado de Minas Gerals,
com sentírtela á porta e investigadores dentro de casa.

AM-
IGREJAS BRASILEIRAS 73

Lá (Iquel até 6 de setembro de 1944, quando, a pedido da Assoclacfio


Brasilelra de Imprensa e da Política (ate) das Nacóes Unidas, intervlndo
Junto ao Governo Brasllelro, por Intermedio de suas Embalxadas, ful posto
em llberdade.

Aquí manifestó toda a mlnha gratldSo & Assoclasfio Braslleira de


Imprensa, de modo especial ao seu ilustre presidente Herbert Moses e as
Embalxadas dos Estados Unidos, da Inglaterra e do México" (extraído da
fonte atrás citada).

Imbuido de idéias políticas obsessivas e de concepedes


religiosas erróneas, Dom Carlos Duarte, rebelde á autoridade
da Igreja, incorreu em excomunhháo. Isto o levou a fundar
aos 6/07/1945 a sua «Igreja» ou a igreja crista nacional, rom-
pendo definitivamente com o Papa e, por conseguinte, com
toda a Igreja Católica. Logo ordenou bispos e presbíteros, que
constituiriam a hierarquia da nova sociedade. Entre outras
coisas, declarava Dom Carlos, logo após a fundagáo da ICAB,
que esta nao admitía a confissáo auricular nem o celibato do
clero nem a indissolubilidade do matrimonio.

Dom Carlos Duarte Costa fez o possível para impulsionar


a sua obra — o que nao lhe foi difícil, pois muitos homens
(ex-sacristáes, ex-candidatos dos Seminarios e das Ordens
Religiosas) que nao haviam conseguido chegar ao sacerdocio
dentro da Igreja Católica, encontraram na ICAB a oportuni-
dade de «se promover», até mesmo sem estudos previos e sem
adequada preparagáo.

O infeliz aventureiro faleceu aos 26/03/1961, num domingo


de Ramos. Em seus escritos publicados no periódico «Luta!»
da ICAB revelava ánimo amargurado e violento contra a
Igreja Católica. Dizem (sem que haja comprovagáo) que no
fim dos seus dias, já bastante doente, pediu a presenga de um
sacerdote católico, a fim de poder reconciliar-se com Deus e
com a Igreja, mas os seus adeptos, que o cercavam, tudo
fizeram para impedir que tal desejo fosse atendido. Os seus
seguidores o declararam «Sao Carlos do Brasil».

1.2. Doutrina e práticas

Quanto ao corpo de doutrinas e á teología professadas


pela ICAB, sao algo de vago e flutuante. Essa sociedade guarda
grandes linhas da fé católica, mas tende a ceder cada vez mais
ao subjetivismo e as arbitrariedades dos seus hierarcas. Os
candidatos as ordenacóes sacerdotal e episcopal nao estudam

— 405 —
74 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 264/1982

teología, de mpdo que mal conhecem a doutrina da fé e


se revelam assaz incultos e ignorantes. O que importa á ICAB,
é conservar as práticas de devocáo popular (celebracóes litúr
gicas, procissóes, novenas...), pois sao estas que atraem o
povo e dáo dinheiro aos ministros da ICAB. Como dito, estes
sao, em grande parte, pessoas frustradas ou fracassadas na
Igreja Católica que se tornaram aventureiros e oportunistas
na ICAB; realizam os atos que mais rendosos lhes parécam.
Conservam também as fórmulas, o vocabulario e os títulos
existentes na Igreja Católica a fim de que o público creia
tratar-se simplesmente da Igreja Católica fundada por Jesús
Cristo.

Sabe-se outrossim que os ministros da ICAB se tém


desentendido entre si, dando lugar a dissídios e rupturas. Donde
o nome de «Igrejas Brasileiras», que, a justo título, se tem
dado á ICAB.

Quanto as pessoas que freqüentam a ICAB, sao muitas


vezes gente simples, que nao conhece as origens e as intengóes
da ICAB, mas apenas procura um desabafo para o seu senso
religioso e as suas devocóes. Em outros casos, sao católicos que
se acham em situagáo irregular na Igreja Católica e váo pro
curar a Igreja Brasileira na qual sao celebradas todas as
Missas e as «unióes matrimoniáis» que atendam aos interessa-
dos. Todavia nem aqueles nem estes freqüentadores da ICAB
sao pessoas convictas ou firmes adeptos da ICAB; apenas a
consideram qual meio de «legalizar» no plano religioso os seus
projetos de vida.

Para atrair tal tipo de «clientes», a ICAB nao poupa es-


forgos e «apelagóes». Vai abaixo transcrito um espécimen de
tais recursos rico em oratoria pomposa:

Num folheto cuja primeira capa apresenta a bandeira do


Brasil e as palavras do Duque de Caxias: «Quem for brasileiro,
que me siga!», lé-se a «Mensagem Pastoral de Dom Víctor de
Tarso Sanches Pupo, bispo do ABC (SP)»:

"Carissim.

Considerando-te como pessoa amiga, leal e cívica, venho de coracfio


religioso, IN NOMINE DOMINI, chamar-te á COMUNIDADE destas ovelhas
seletas, que de varios anos escolheram a honra e a firmeza do báculo
nacional da Igreja Brasileira no ABC.

— 406 —
IGREJAS BRASILEIRAS 75

Sem o bombardeio de fúteis debates, quero comunicar-me contigo


sempre para dizer-te que a hora presente exige de ti a resposta de pre-
senga, de servico e de atuacáo responsável dentro da Igreja Brasilelra,
trincheira de fé e de ressurreicao briosa, nos moldes do patriotismo com
pleto. Juntos, ergueremos o pavilháo do Evangelho vivo, substantivo, que
alertará energúmenos, tibios e a sobre-carga do beatério perambuiante pelas
sacristías do espirito frió, neutro, desnudo, je|uno e anestesiado de Indl-
gestao piética, credulidade lateral, rito obsoleto, canonismo medieval e de
outros entraves que obstruem a torca do Espirito Evangélico e Pastoral
da Igreja Católica...

Embora tantos embargos premeditados, óbices, e o anti-patriolismo dos


cariotas politicos e endinhelrados, corramos para o selo da Igreja Brasilelra,
somando com Ela, a fim de que alcance días pentecostais de calor caris-
mático, nesse retorno de ressurreicáo da Primitiva Fé.

O binomio Igreja-Brasll é a solucSo liquida e certa! Pertencamos-lhe


com denodo, energía, decisSo, amor e alto grau de brasllidade. Nao se
trata de transferir crencas, mas de aclarar o nosso batismo, legitimá-lo e
de consclentizar o brio nacional...

Urge urna declaracSo patriótica: desligar o cordáo umbellcal rema-


nescente, sustar evasSo de esmolas, dlzer á Roma "tico" brasileiro, com
a bravura de manté-lo e de projetá-lo até a Etemidade também. A Máe
Comum é adulta, gracas á emancipacao de setembro e de novembro, Dom
Pedro I e Marechal Deodoro; agora, cerremos fileira, ombro a ombro, para
cingir-lhe a fronte com o diadema de soberanía religiosa no conttinente
sul-americano. É o testemunho de urna decisSo pacifica.

Para tanto, convido-te á matricula em nossos templos nacionals, em


varias cidades, ingressando como aquele cireneu prestativo, acólito, que
contrlbulu na Via Crucis do Senhor.

Nesta cidade do Apostólo Irmao, SANTO iANDRé, há um templo de


pedras e de mármore, a Gruta de fé e de utilidade patria, onde o teu
lugar ainda está vazio. Venha ocupá-lo incontinenti! Espero dialogar con
tigo, no próximo domingo, ás 10 horas, antes da missa jovem em louvor
ao Bom Jesús do Llvramento...

Preciso de ti, porque represento urna InstituicSo que hoje te convoca.


Acredito no teu juramento á Bandeira e espero ver-te militante neste quartel
dos lidimos heróis da Patria...

Recorta o roda-pé desta missiva intima e alegra-me com a data do


teu aniversario natalicio, pois quero rezar por ti e envlar-te pelo meu
programa da Radio ABC, sábado, ¿s 11 horas, e também pelo córrelo, urna
saudacSo, urna béncSo, afeto do meu coracáo nesse teu dia feliz. Aguar
do-te, e desde já invoco sobre ti a béncSo do Pal, do Filho e do Espirito
Santo. Pelo Brasil, também o sagrado exercfcio da tua Fé Católical Opinla
per Dominara nostram puelam.

407 —
76 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 264/1982

Quem lé esta conclamacáo, nao pode deixar de ficar im-


pressionado, pois

1) o autor, embora diga rejeitar as peregrinacoes de


Aparecida e Tambaú, mantém o famoso santuario do Bom
Jesús do Livramento, para o qual convida todos os homens que
estejam sofrendo de males físicos ou espirituais; promete-lhes
béngáos e curas. Varios sao os folhetos de Dom Víctor que
convídam para a cura. Assim, por exemplo, se lé num destes:

"Servido Espiritual de conforto aos enfermos da alma e do corpo.

Servlco Pastoral de Dom Víctor de Tarso nos Hospitais e na Santa


Gruta do Bom Jesús do Livramento segundas, quartas e sextas".

Outro tópico:

"ProcIssSo contra o cáncer

Sexta-feira santa

Seis de Agosto, dia do Bom Jesús

Último domingo de outubro

SSo Judas Tadeu".

2) Outro tópico curioso é o uso de expressSes latinas em


meio as conclamafióes da ICAB. Embora o povo nao as en-
tenda, elas tem a fungáo de fazer crer que na ICAB tudo se
dá como na Igreja Católica.

Estas noticias sao suficientes para que se ponha a


pergunta:

2. Que cfizer. .. ?

Salientaremos dois pontos importantes.

2.1. Fundagño de nova Igreja

Quem lé as Escrituras do Novo Testamento, percebe sem


dificuldade que a Igreja de Cristo é urna só, fundada pelo
próprio Jesús e entregue ao pastoreio de Pedro e dos seus
sucessores; cf. Mt 16, 16-19; Le 22, 31s; Jo 21, 15-17;
ICor 12, 12-27.

— 408 —
IGREJAS BRASILEJRAS 77

A unicidade e a unidade da Igreja de Cristo sao freqüente-


mente incutidas por Sao Paulo:
"Exorto-vos a andar de modo digno da vocagáo pela qual fostes cha
mados procurando conservar a unidade do Espirito pelo vinculo da paz.
Há um so Corpo e um só Espirito, assim como é urna só a esperanca da
vocacSo com que fostes chamados; há um só Senhor, urna só fé, um só
batismo, há um só Deus e Pai de todos, que é sobre todos, por meló de
todos e em todos" (Et 4,1-6).

"Cristo é a nossa paz... Ele velo e anunciou a paz a vos que está-
vels longe, e paz aos que estavam perto, pois, por meló dele, nos, judeus
e gentíos, num só Espirito temos acesso Junto ao Pal... Estáis edificados
sobre o fundamento dos apostólos e dos profetas, do qual é Cristo Jesús
a pedra angular. Nele bem articulado todo o edificio se ergue em san
tuario sagrado no Senhor, e vos também nele sois co-edificados para
serdes urna habitacáo de Deus no Espirito" (Ef 2,14.17-19. 21s).

Pergunta-se, porém: essa unicidade nao é, de fato, violen


tada ou quebrada pelas fainas humanas dos membros da
Igreja? Pode a Igreja ser portadora de pecado?

A isto responderemos sob o título abaixo.

2.1.1. Falhas na Igreja

A Igreja nao é sociedade meramente humana, que os


homens possam re-fundar, dividir e organizar segundo o seu
«bom senso» pessoal. É o sacramento de Cristo ou o Cristo
prolongado em sua encarnacáo. Isto quer dizer que a face
humana da Igreja, por mais frágil que seja, encobre urna
realidade divina: nao sao os homens (os ministros) que san-
tificam os fiéis na Igreja, mas é o próprio Cristo quem, ope
rando pelos homens, santifica os fiéis. Disto se segué que nao
é lícito apelar para pretensas ou reais fraquezas humanas da
Igreja a fim de fundar nova Igreja; foi Cristo quem fundou a
Igreja, e a fundou mediante homens, assegurando a todos os
fiéis a sua agio indefectível através dos tempos desde que O
fossem procurar na Igreja por Ele fundada. Com efeito, diz
Jesús ao se despedir dos Apostólos em Mt 28,19s: «Ide e fazei
que todas as nacóes se tornem discípulos... Eis que estou
convosco todos os dias até a consumacáo dos séculos». Estas
palavras significam que Jesús permanecerá até o fim dos tem
pos com os Apostólos e seus sucessores, independentemente da
cultura ou da santidade destes; nao é a virtude dos homens
(predicado subjetivo) que garante a acáo de Cristo, mas, sim,
a continuidade da sucessáo apostólica (característica objetiva).
Quem se afasta da sucessáo apostólica e de Pedro, exdui-se do

— 409 —
78 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 264/1982

6acramento de Cristo e sujeita-se as contingencias de obra


meramente humana; a nova «comunidade eclesial» assim fun
dada pode ter seu periodo de fervor, mas inevitavelmente será
vítima da fragilidade humana, tornando-se falha a ponto de
provocar a necessidade de se fundar outra comunidade «mais
santa e virtuosa»; a nova comunidade reformada estará, por
sua vez, sujeita &s contingencias humanas, o que levará alguns
mestres a querer abandoná-la para fundar outra; esta igual
mente sucumbirá as limitacóes humanas, o que suscitará o
desejo de se criar nova «Igreja» e assim por diante! Cada nova
comunidade acha-se mais distante das suas origens, mais im
pregnada do subjetivismo e das arbitrariedades dos respectivos
fundadores. Tal fenómeno é claramente perceptível no Protes
tantismo, onde centenas de denominacóes existem derivadas de
tres ou quatro grupos iniciáis (luterano, calvinista, zvingliano,
anglicano). — Na ICAB o esfacelamento e a diluigáo dos va
lores cristáos chegou a grau extremamente doloroso nos seus
quarenta anos de existencia; o oportunismo e interesses pes-
soais sao freqüentemente os criterios que regem a historia
da mesma.

A fragilidade humana na única Igreja de Cristo nao sur-


preende os cristáos; é inerente ao próprio misterio da Encar-
nagáo. Sempre que se manifesta, a Igreja tira do tesouro
mesmo da sua vitalidade os recursos necessários para dar-lhe
remedio; assim ocorreu no sáculo XI, por ocasiáo da luta
contra a investidura leiga e a simonía (dos mosteiros de Cluny
6aiu o fermento renovador, tendo á frente o Papa Gregorio
VII),... no sáculo XVI, quando o Concilio de Trento (1545-
1563), frente ao Protestantismo e ao humanismo paganizante
da época, encontrou a vitalidade renovadora da Igreja ñas
Ordens e Congregagóes Religiosas que entáo se fundaram.
Cristo, sempre presente na sua Igreja, suscita do ámago desta
as potencialidades de que necessita para reformar sua face
humana. A Igreja, na medida em que é o Cristo prolongado,
é santa, e indefectivelmente santa; todavía, na medida em que
é dos homens, está sujeita á fraqueza humana.

2.1.2. Igreja nacional?

A ICAB acentúa o fato de que a Igreja de Cristo é romana


e, por isto, parece estrangeira no Brasil; donde a necessidade
de se cortar o cordáo umbilical em favor de urna Igreja
nacional. O sentimento patriótico dos brasileiros estaña inte-
ressado nisto.

— 410 —
IGREJAS BRASILEIRAS 79

Observe-se que a única Igreja de Cristo nao tem nació-


nalidade, mas paira ácima de qualquer estreitamento nacional;
ela é católica, universal. O título de «romana» que lhe foi dado,
significa apenas que o seu chefe visível tem sede em Roma ou
é o bispo de Roma. Sabemos, sim, que Cristo confiou a 6ua
Igreja a Pedro; ora este Apostólo precisava de urna sede ou
de um «habitat» neste mundo; tal sede foi a de Roma, a qual
por conseguinte se tornou a sede primacial; donde o nome de
«romana» dado á Igreja de Cristo. Como se v§, este nada tem
que ver com identidade nacional. Note-se que paralelamente
Jesús, o Salvador de todos, foi dito «Nazareno», simplesmente
pelo fato de que precisava de ter um enderego e um «habitat»
na térra (nao podia viver sem sede neste mundo) e tal
«habitat» foi a cidade de Nazaré.
Seria falso dizer que o relevo ou a hegemonía dos bispos
de Roma é produto da época constantiniana (século IV); na
verdade, desde os escritos do Novo Testamento se registra a
primazia de Pedro sobre os demais Apostólos. Com efeito, em
tais escritos Pedro é citado 171 vezes; o segundo Apostólo mais
citado é Joáo, que aparece 46 vezes. Observemos ainda que
Pedro é o porta-voz dos Apostólos: Me 8,29.32; 10,28;
Mt 18,21; Le 12,14; Jo 6,67s;
— Pedro é sempre o primeiro no catálogo dos Apostólos:
Me 3,16-19; 10,1-4; Le 6,12-16; At 1,12 13;
— nao raro se lé «Pedro e os seus companheiros»: Le 9,32;
Me 16,7;
tres textos póem em relevo explícito o primado de
Pedro: Mt 16,13-19; Le 22,31s; Jo 21,15s;
— em At 10 Pedro, guiado por revelagáo divina, introduz
um gentío na Igreja sem lhe impor a circuncisáo, tomando
assim urna iniciativa absolutamente nova e decisiva para o
futuro da Igreja.

Logo no século II os escritos de S. Inácio de Antíoquia


(t 110), S. Ireneu (t 202), S. Justino (tl65) dáo a ver a pri
mazia da sé de Roma, que com o decorrer do tempo foi mais e
mais encontrando a ocasiáo de exercer as suas funcóes prima-
ciais. É o que se veriflca através de um estudo sereno e objetivo
das fontes da historia.
Por conseguinte, nao há sentido em falar de «cortar o
cordáo umbilical» e de apelar para o senso patriótico dos fiéis
de alguma nacáo em vista da fundagáo de urna Igreja nacional.

— 411 —
80 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 264/1982

2.2. Válidos os ritos da ICAB?

Os ministros da ICAB afirmam ter sido validamente


ordenados, pois receberam a ordenacáo de um bispo autentica-
mente ordenado, que foi Dom Carlos Duarte Costa, e segundo
o ritual usado pela S. Igreja Católica. Por conseguinte, as
Missas celebradas na Igreja Brasileira seriam válidas (embora
ilícitas); o mesmo poderia ser dito no tocante á Ungáo dos
Enfermos, á Crisma e a outros ritos.

Na prática, porém, a Igreja Católica nao reconhece as


ordenacóes das Igrejas Brasileiras; e nao as reconhece por dois
motivos principáis:

1) para que algum rito sacramental seja validamente


administrado, requer-se, além da materia e da forma do res
pectivo sacramento, a intencáo, por parte do ministro, de fazer
o que a Igreja faz quando administra o sacramento. Per-
gunta-se, pois: os ministros Dom Carlos Duarte Costa e seus
sucessores, ao ordenarem novos padres e bispos, tiveram (ou
tém) a intencáo de fazer o que a Igreja faz em tal caso? — É
claro que nao; a Igreja, por ser a continuacáo do Cristo e una,
jamáis pode ter a intencáo de ordenar ministros para urna
comunidade irregular (tanto na doutrina quanto na disciplina)
como é a ICAB. Verdade é que alguns teólogos discutem a
apücacáo de tal principio á ICAB e, por isto, preferem nao se
valer do mesmo para rejeitar as ordenagoes das Igrejas Bra
sileiras. Como quer que seja, nao se pode negar o peso do
argumento.

2) O segundo motivo faz eco ao primeiro. As Igrejas


Brasileiras constituem um «cipoal» de congregacóes táo com
plexo, indefinido e sujeito a oscilacóes arbitrarias que nao se
lhe pode tributar crédito. Embora custe dizé-Io, é preciso
reconhecer que as Igrejas Brasilieras carecem de seriedade e
idoneidade. Daí a recusa de qualquer dos seus ritos de orde
nacáo e, por conseguinte, das funcóes litúrgicas ai celebradas.

A propósito dos fiéis católicos que, nao estando habilitados


para se casar na Igreja Católica, váo procurar a ICAB, obser-
ve-se o seguinte: Quem dá a béngáo ao casamento, é Deus...,
Deus através dos homens; por conseguinte, se algum casamento
nao pode ser abencoado por Deus visto ser ilegítimo, de nada
adianta fazerem os homens o sinal da cruz sobre tal uniáo;
tal sinal da cruz ou tal «béngáo» nao tem valor nenhum; vem

— 412 —
IGREJAS BRASILEIRAS « 81

a ser urna pantomina ou urna palhagada; é preciso sempre


levar em conta que quem abengoa, é Deus através dos homens;
o Senhor Deus é a fonte de toda béngáo, e nao os homens.
Estes nao sao «donos» das béngáos de Deus.

As consideragóes até aqui propostas seráo corroboradas


pelo documento que passamos a transcrever. Trata-se de um
parecer jurídico, da lavra do Dr. Ataliba Nogueira, professor
emérito da Universidade de Sao Paulo que foi publicado em
eco a urna Carta Pastoral do Episcopado Paulista datada de
8/12/1972. Este documento considera aspectos jurídieo-legais
das «Igrejas Brasileiras», evidenciando que tais instituigóes
nao tém, perante a lei civil brasileira, o direito de funcionar
como estáo funcionando. Eis o teor de tal estudo.

3. Um parecer jurídico

AS «IGREJAS BRASILEIRAS» INFRINGEM A LEI E O DIREITO

«A recente Carta Pastoral dos bispos da Provincia Eclesiástica


de Sao Paulo veio esclarecer, mais urna vez, os fiéis sobre as atitu-
des da chamada 'igreja católica apostólica brasileira'. Alias, dividida
hoje em numerosas "¡grejas brasileiras'.

Nenhuma leal'dade há em substituir 'romana' por 'brasileira',


pois o que desejam é que haja mesmo confusáo entre a Igreja Cató
lica, que é a da maioria do povo brasileiro, e as diversas faccoes
q-ue enganam muitos fiéis.

Em direito há urna palavra que define bem a atitude dessas


igrejas: é malicia. Ao contrario do que possam supor, a expressao
é forte, pois reconhece, em todos os seus atos, a fraude, a vontade
de fraudar, de engañar, de fazer-se passar por romana, quando o
que faz é afrontar a Igreja verdadeira, insinuando-se sorrateira-
mente entre os fiéis cristaos. £ maliciosa a 'igreja brasileira'.

Dizem os franceses: 'le mal ne veut pas chasser le bien, il veut


seulement cohabiter avec luí"'.

i Isto é: O mal nao quer expulsar o bem; quer apenas coabitar com este.
82 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 264/1982

O DIREITO CONSTITUCIONAL

A Igreja Católica Romana mantém as melhores relac.5es com


as outras confissoes religiosas, tanto cristas quanto nao cristas, res-
peitadoras do culto, dos ritos, símbolos e outras características da
Católica Romana.

Convivem na inteira accepcao do vocábulo ecuménico. Convi


vencia fraterna e pacífica, muitas vezes se reunindo sob o mesmo
teto. Cada qual délas faz questao de guardar a sua individuali-
dade, e mostrar .que se nao confunde com a Igreja Romana.

Históricamente vieram para o Brasil muito depois de agui estar


a Igreja Romana e com ela nao querem confundir-se.

Por que entáo a 'igreja brasileira' procede em sentido inteira-


mente oposto as demais confissoes religiosas, buscando ludibriar os
fiéis católicos? Estes conhecem a sua religiáo há qua:e cinco séculos.
Buscam-na em todos os momentos, principalmente ñas alegrías e tris
tezas, ao nascer um filho, ao casar, ao dar gracas a Deus, ao socor
rer o enfermo e o moribundo, ao sufragar a alma dos entes queridos
falecidos.

Pois a 'igreja brasileira', com reconhecida malicia, nao quer


afastar os fiéis da sua Igreja centenaria, mas dar-lhes a impressao
de que é a mesma Igreja que buscam. Sao 'padres', sao 'bispos';
sao templos e altares, pias batismais, sacrários; sao vestes e outros
paramentos; sao formularios; sao os ritos, os símbolos, os sacramen
tos, os santos, as festividades. Tudo para dizer ao fiel cristao que
se trata da Igreja de seus antepassados, da Igreja que eles que
rem. Pura mentira e mistificacáo.

Por certo que inferiere aqui o direito. A comecar do preceito


constitucional: 'E plena a liberdade de consciéncia e fica asegurado
aos crentes o exorcício dos cultos religiosos que nao contrariem a
ordem pública e os bons costumes1 (Const. Federal de 1969. art. 153,
§ 5*).

A expressáo constitucional 'ordem pública' significa que os cul


tos religiosos, que gozam de plena liberdade, sao aqueles que res-
peitam a ordem jurídica e, pois, nao ofendem direitos, nao querem
engañar, ludibriar ninguém; nao desejam usurpar direitos de outrem.
Nao assumem posicoes capcosas e sofísticas, ardilosas e fraudulentas.
IGREJAS BRASILEIRAS _J3

Ora que fazem as 'igrejas brasileras' $e nao pretendem passar


por 'romana'?

Pode o direito tolerar o exercído de cultos religiosos que sao


apropriacao dolosa do culto de outra religiao?

A PRÁTICA CONSTITUCIONAL

A materia ¡ó foi apreciada, quer na esfera federal, quer na


estadual.

Em requerimento do finado arcebispo do Rio de Janeiro, Dom


Jaime de Barros Cámara, o entáo Presidente da República submeteu
o exame do caso primeiramente ao Consultor-Geral da República,
um dos maiores juristas patrios, o Professor Haroldo Valadao.

Extraímos do seu fundamentado parecer o tópico seguinte:

'Cabe á autoridade civil, no exercício do seu poder de policía,


alendendo ao pedido que foi feito pela autoridade competente da
Igreja Católica Apostólica Romana e assegurando-lhe o livre exercício
do seu culto, impedir o desrespeito ou a perturbacao do mesmo culto,
através de manifestacoes externas, quais procissoes, missas campáis,
cerimonias em edificios abertos ao público, etc., quando praticadas
pela lgre¡a Católica Apostólica Brasileira com as mesmas insignias,
as mesmas vestes, enfim o mesmo rito daquela1 (Haroldo T. Valadao.
Pareceres do Consultor-Geral da República, v. III, CXIX, p. 41).

O parecer do Consultor-Geral foi aprovado pelo Presidente da


República e publicado, com a respectiva aprovacáo, no 'Diario Ofi
cial'. Tornou-se assim normativo para todas as autoridades e fun
cionarios federáis. Quer dizer que Ihes constituí norma obrigatória
de comportamento.

Dirigiu-se a 'igreja brasileira1 ao Tribunal Federal de Recursos,


logo no primeiro caso em que as autoridades federáis Ihe impediram
o exercício público do culto com o mesmo rito, as mesmas vestes e
pretendendo misturar os mesmos sacramentos da lgre¡a Romana.
Perdeu o recurso.

Em nove exame da questáo, o Consultor-Geral da República


exarou parecer análogo ao anterior. Nele se lé: 'O Presidente da
República, deferindo o requerimento da ljgre¡a Católica Apostólica
Romana e ¡mpedindo que a Igreja Católica Apostólica Brasileira, que
84 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 264/1982

nao tem culto próprio, exerca o culto daquela, está cumprindo o


art. 141, § 7', assegurando á Igreja Católica Apostólica Romana o
direito de livre exercício do seu culto e nao está violando o art. 31,
n* 11, urna vez que nao está embaracando o exercício do culto da
Igreja Católica Apo.tólica Brasileira, que nao tem culto próprio a
ser embarazado, mas facilitando e garaníjndo o exercício do culto
romano, culto da Igreja Católica Apostólica Romana, embaracado
pela igreja católica apostólica brasileira... O fato de ter a igreja
do impetrante (isto é, a ¡gre¡a brasileira) escolhido e adotado e, a
seguir, exercitado (e ainda pretende exercer) o culto romano da
Igreja Católica Apostólica Romana, é atentado efetivo ao livre exer
cício do culto desta última, que a Constituicao Federal... manda-
• Ihe seja assegurado pelo poder público (cf. o mesmo volunte dos
Pareceres, p. 47).

Incansáveis, os dirigentes da "igreja brasileira' foram bater as


portas do Supremo Tribunal Federal, cuja decisao deixou claro que
nao é permitida a usurpacao do culto católico romano pela 'igreja
brasileira' (acórdáo no 'habeas-corpus' n« 4.200).

NO ESTADO DE SAO PAULO

Em face da repressao policial, também foi suscitada a quesfao


no Estado de Sao Paulo. O Secretario da Segutanca Pública, em
1958, solicitou parecer ao ilustre Dr. Gualter Godinho, entáo Con
sultor Jurídico da Secretaria e hoje Presidente da Justina Militar no
Estado de Sao Paulo.

No seu parecer, analisa os falos em face do preceito consti


tucional da liberdade de imprensa. Alude principalmente as vestes,
cerimónias, nomenclatura, imagens de santos. E, fundado no poder
de policio que compete ao Estado, concluí pelo fechamento de 'tais
igrejas'.

Aprovado pelo Secretario de Seguranca Pública, determinou a


mesma alta autoridade que a conclusáo do parecer fosse aplicada
normativamente em todo o Estado (Processo n' 9.950, de 1958, Pa
recer n« 259, de 17 de ¡unho de 1958).

üifi
IGREJAS BRASILEIRAS 85

FATO ESTRANHO

Pouco antes da hora de saída do enterro do ilustre Prefeito


Prestes Maia, surgió na cámara ardente um 'bispo', revestido de para
mentos pontificáis. Quando se dispunha a fazer a encomendacáo do
cadáver, para ali é levado, por pessoas da familia do morto, Mon-
senhor Deusdedit de Araujo.

Assim que o 'bispo' viu o pároco das Perdizes, tirou a mitra da


cabeza e saiu apressado. £ que Monsenhor Deusdedit era amigo do
morto, havia celebrado seu casamento religioso e, a seu pedido,
ministrado os sacramentos da Igreja.

Vé-se até que ponto chega a malicia e mistificacao da 'igreja


brasileira*.

Além disto, ela infringe a lei e viola o direito».

Este interessante documento vem esclarecer a situacáo


jurídica das «igrejas brasileiras», que se tém prevalecido da
boa fé e da exigua cultura religiosa do povo brasileiro para se
propagar. Tal artificio, a mais de um titulo, ai está a solicitar
a intervencáo das autoridades responsáveis pela ordem pública.

Estévao Bettencourt O&B.

livros em estante ."T^


JESÚS DE NAZARÉ: vencedor ou perdedor? pelo Pe. M. P. Lacerda.
— Ed. Loyola, S§o Paulo 1982, 140 X 210 mm, 161 pp.

O Pe Lacerda, lá conhecldo por suas obras sobre a Juventude, apre-


senta agora ao público urna "análise transacional do Jesús histórico" (sub
titulo do livro em foco). A tarefa é realmente algo de original, mas assaz
arduo pelos percalcos que encerra. O autor oferece o perfil psicológico
de Jesús com multa finura, citando textos que mostram como Jesús sabia
responder a questóes embarazosas, como era firme em suas decisSes, closo
das suas responsabilidades... E concluí: "Jesús de Nazaré se aprésenla
como o modelo máximo de Okeldade. Ele é um vencedor, na acepcSo
mais plena da palavra: Tende coragem, eu vencí o mundo!' (Jo 16,33) .
O fecho do llvro, portante, corresponde a um laudo multo positlvol

— 417 —
86 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 264/1982

Todavia urna questáo de exegese bíblica aflora ao leltor e é repas-


sada ao Pe. Lacerda. Este, ás pp. 553, baseando-se em escritos de Freí
Leonardo Boff, afirma que Jesús nao tinha ciencia previa de tudo o que
Ihe acontecería na térra, nem mesmo sabia como haveria de morrer: "Qual
seria a vontade de Deus para cada momento, nao o podia saber Jesús
a prior!. Mas, slm, assumindo a historia com todo o seu teor Imprevisível,
fortuito e casual" (palavras de LB, citadas á p. 56). Ora quem aceita tal
itse, n9o cita as passagens do Evangelho segundo SSo Jofio ñas quais
Jesús afirma ter o conhecimento profundo de sua natureza divina e do
plano do Pai (tais passagens nao le rio saldo dos labios de Jesús, mas
te rao sido atribuidas a Jesús pelo evangelista numa elaboracáo teológica,
dizem os autores que reduzem a ciencia de Jesús á de um profeta). Acon
tece, porém, que ás pp. 27-30 o Pe. Lacerda reconstituí o perfil interior
de Jesús sob os títulos "Ele se conhece e se Identifica", "Jesús sabe
sltuar-se no espago e no seu ambiente", citando os textos do quarto Evan
gelho em que mais se manifesta a transcendencia de Jesús e o dominio
da sua consciéncia sobre o presente e o futuro: Jo 8,24.28.58: Jo 5,17s.45s;
8,42.54b; 13,19; 14,8-11; 17,3-5; 14,2-6; 15,5; 12.35s.46...

Que diremos diante desta aparente incoeréncia?

— O Pe. Lacerda fez multo bem em citar o Evangelho segundo Jofio


com toda a sua profundldade teológica, pols esta nao é mera criacfio ou
flccSo do evangelista, mas corresponde á realidade Intima ou á conscidncia
psicológica que Jesús trazia. O Jesús dos Evangelhos é o Jesús da fé e
é o próprio Jesús da historia. — O que se pode pedir ao Pe. Lacerda, é
que reveja as pp. 55s do seu livro e nSo quelra reduzir a consciéncia de
Jesús á de um super-profeta, pois o Filho de Deus, ao se fazer homem,
nada perdeu do que tinha no seio da Divindade. O Pe. Lacerda mesmo
reconhece a natureza divina de Jesús e afirma: "Nao é válido aplicar sem
mais os criterios de urna psicología do homem comum áo caso de
Jesús de Nazaré. Jesús foi (e é) verdadeiro homem; entretanto, para fazer
essa experiencia profundamente humana que fez, n§o abdicou totalmente
de sua condicáo divina. Nao pode, portanto, ser colocado slmplisticamente
sob a observacSo e os criterios de urna Psicología 'onipotente'. Jesús é
urna excecSo que precisa ser respailada" (p. 53s).

S3o estas as observacfies que em poucas linhas e com grande estima


Julgamos dever apresentar ao autor da obra.

Cultura Religiosa, Vol. I: As RelfgISes do mundo, 3? edicSo reformulada,


por Irlneu Wllges. — Ed. Vozes, Petrópolls 1982, 140 x 210 mm, 215 pp.

Este livro é o resultado de cursos ministrados pelo autor em Facul-


dades do Rio Grande do Sul. Frei Irineu é franciscano e doutor em Teología.

A obra comeca por apresentar a nocSo e a fenomenología da Rell-


giáo; cita as teses de varias correntes e opta pela posicáo do Pe. Gul-
Iherme Schmidt e da Escola Anthropos de Viena, que ó realmente a mais
aceitável. A seguir, o autor expde sintéticamente o histórico e a mensagem
das principáis crencas religiosas e das escolas filosófico-religlosas exis
tentes no mundo: o panorama parece completo, pois abrange tantas as
mais antigás correntes da India como as denominacdes recentes (Johrel,

— 418 —
jjvRQá EM ESTANTE

selcho-No-ié, Moonlsmo, Meninos de Deus Candoroblé...); nem foram


esquecldas a Maconarlá, a Rosa-Cruz, a Teosofía... O ultimo capitulo
vlrea* soto parSologia. apresentando urna sfntese de suas proposisoes
e explicares.

Asslm o livro toma o caráter de urna pequeña enciclopedia das ReN-


glSes de uso didáticp e claro. Faz-se mister, porém, registrar o capitulo 6.
que aborda o tema «Revelacfic." segundo a escola de Frei Leonardo Boff,
relativlzando asslm a Revelacfio bíblica (pp. 180-186).

Cultura Religiosa. Vol. II: Temas Religiosos Atuais, 3? edicáo refor-


mulada, por Irineu Wilges e Olirlo Colombo. — £d. Vozes, Petrópolis 1982
140 x 210 mm, 264 pp.

Este segundo volume continua o anterior, abordando temas teológicos,


como fé Jesús Cristo, Igreja, homens, reerncarnacfio, o fim do mundo...
Considera também questóes de Moral como ética sexual, divorcio, aborto,
pena de morte... Os capítulos referentes aos assuntos teológicos sao
redigidos em perspectiva seria e construtiva; apresentam súmulas do pen-
samento católico sobre as questBes levantadas. O mesmo, porém, nao se
pode dizer a respeito dos capítulos 7 e 10 concernentes ao amor e á liml-
tacSo da prole: o respectivo autor, Olírio Colombo, parte do principio de
que "a ética sexual nao pode buscar orientacSes na natureza... Somos
nos que damos sentido ás coisas... Em funcáo do homem é que podemos
dizer se urna coisa é ótica ou nao... A ética sexual deve estar baseada
no segulnte pressuposto: a experiencia sexual é humanizante" (p. 69).
Este enfoque básico enfatiza demais o papel do subjetivo na avaliacáo
moral dos atos humanos e do uso do sexo; em conseqüéncia, o sexo pra-
ticado por amor (subjetivamente entendido ou desligado das leis da natu
reza) poderia ser legitimado; o autor nao é claro no tocante ás relacdes
pré-matrimoniais; tende a reoonhecer a sua liceldade ñas páginas 73-76,
que seo ambiguas ou cheia de ¡nslnuacóes um tanto contraditórlas. No
tocante á limitacáo da prole, o autor é francamente favorável aos métodos
contraceptivos em geral, sem distinguir entre os que respeitam e os que
nao respeitam a natureza humana (p. 86s). Ora tais posicóes nSo corres-
pondem ao pensamento da Igreja, que, após prolongada reflexSo, já se
pronunciou contrariamente ás relacóes pré-matrlmonlais (cf. Instrucáo
"Persona Humana" da S. Congregacáo para a Doutrina da Fé, de 22/12/1975)
e contra os meios contraceptivos artificiáis (cf. encíclica "Humanae Vitae").
Infelizmente o setor da Moral está hoje em dia penetrado de subjetivismo
e antropocentrismo existenclalista, de sorte que a própria palavra oficial da
Igreja é posta de lado por quem a deverla respeitar. Sao estas ponde-
racoes que nos levam a fazer restricdes aos capítulos 7 e 10 do volume
em foco. O capitulo 11, sobre o celibato, quase só apresenta o histórico
da temática em forma de fichamento, sem mostrar o significado teológico
e grandioso do celibato.

Drogas e Drogados. O individuo, a familia, a socledade. Colaboracóes


de Amauri M. Tonuccl Sánchez e outros. — Ed. Pedagógica e Universitaria
Ltda., SSo Paulo 1982, 137 x 206 mm, 261 pp.

Eis um livro de alto valor sobre tema candente e delicado. Deve-se a


uma equipe de médicos, advogados, psicólogos e educadores, entre os
quais aparece o Pe. Paul-Eugéne Charbonneau.

— 419 —
88 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS> 264/1982

A obra aborda os aspectos clássicos do problema: o médico, o es


colar, o sócio-econdmico, o jurldico-policial... Distingue-se, porém, de es-
tudos congéneres pelo fato de colocar a toxicomanía dentro do quadro geral
da socledade (entendida como familia, escola, setor profesional...); a toxi
comanía seria como um Ice-berg que, emerglndo, deixa perceber a existencia
de urna realidade muito profunda ou, no caso, de urna problemática social
muito ampia: a familia, a escola, os ambientes profissionais estariam táo
dissolvidos pela civilizacáo do consumo e a pulverizacáo dos valores fun
damentáis que os jovens já nao perceberiam o sentido"da vida; senlem urna
vazio dentro de si mesmos que eles procuram preencher mediante recursos
artificiáis. Por isso o livro, através de seus diversos artigos, sugere que a
solucáo para o problema das drogas nio é simplesmente de ordem mora
lizante ("é proibido...") nem apenas de ordem policial, mas é a redes-
coberta de que "a vida, embora nio seja fácil, vale a pena de ser vivida";
"o que importa, é a consideracáo de que nao há vidas inúteis nem sacri
ficios gratuitos" (p. 70).

Diz oportunamente o médico Dr. Claude Olievenstein: "Nao se pode


lutar contra a droga quando se tem urna visáo mecanicista do problema e
quando nao nos interrogamos a respeito das motivlcóes dos que se tornam
usuarios" (p. XI). Por consegulnte, será preciso "procurar entrever..., no
escuro das situagoes, razoes positivas para que se possa voltar a acreditar,
voltar a ter esperanca, voltar a confiar no outro. Razdes para querer viver
construtivamente" (p. XIV). Por isto, aos adultos cabe importante fungió na
solucáo do problema, funcáo que ó a de "mostrar aos jovens que, em lugar
de escorregar pelo plano inclinado abaixo, eles podem subir, crescer, me-
Ihorar, ser. Basta que eles quelram rejeitar a mensagem referida de Sartre'
pela boca do seu Roquentln, no que ela tem de negativo, absurdo e des
truidor, para querer viver construtivamente" (p. 70).

Em última análise, a sabia mensagem do livro em foco só se concre-


tiza numa perspectiva de fé, e de fé crista; é somente em Deus e por Deus
que se pode preencher o vazio da vida e descobrir o sentido da lula ardua
de todos os dias. Oestaca-se no conjunto da obra c estudo do Dr. Ernesto
Urna Gongalves: "O individuo perante o tóxico" (pp. 53-70).

A prostituicáo em debate. Depoimentos, anáilses, procura de solucSes,


por urna equipe sob o patrocinio da Faculdade de Teología Nossa Senhora
da Assuncáo (Sao Paulo, SP). Colecáo "Teología em diálogo" ifi 8. —
Ed. Paulinas, Sao Paulo 1982, 160 x 230 mm, 96 pp.

Eis urna coletánea de estudos sobre a prostituicáo realizados por es


pecialistas (Assls Angelo, Frei Barruel de Lagenest, Irma Margarida de
Moraes Campos e outros) com a apresentacSo do Pe. Dr. Beñl dos Santos,
diretor da Faculdade da Assuncáo em Sao Paulo. Refere dados numéricos e
estatfstlcos, episodios históricos ou flashes, documentos emanados no am
biente da prostituicáo assim como resultados de experiencia pastoral e pon-
deracóes de ordem moral a respeito do fenómeno analisado.

A leitura de tal obra é altamente Instrutiva pela farta documentado


que oferece ao estudioso, incluindo mesmo os tópicos da leglslacáo bra-
silelra atinentes ao assunto. Em geral, os articulistas apresentam a prostltul-

(Continua na pág. 344)

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