Você está na página 1de 156
Do Mundo Fechado LIM TAKS CM TUTTE) Alexandre Koyré 200810 32257 1519648 Do mundo fechado ao universo infinito erat lexandre Koyré, nascido em Ta- ganrog, na Russia, em 1892, es- ‘tudou em Gottingen, na Alema- nha, tendo sido aluno de Husserl € Hilbert. Durante a guerra, naturali- zou-se frances. Doutorou-se em segui- da com um monumental estudo sobre a filosofia de Jacob Boehme. A partir de 1930, por seus estudos sobre a histé- ria das revolucées cientificas e filosofi- as dos séculos XVI e XVII, tornou-se mundialmente famoso, exercendo as fungGes de Secretario Perpétuo da Aca- demia Internacional de Historia das Encias, Secretério-geral do Instituto In- ternacional de Filosofia, Diretor do Cen- tro de Pesquisas de Historia das Ciénci- ase das Técnicas da Ecole Pratique des Hautes Etudes, Presidente do Grupo Francés de Historiadores das Ciéncias e membro do Institute for Advanced Study de Princeton. Ocaréter singular da obra histé- rica e tedrica de Koyré pode ser defini- do por uma ruptura decisiva com toda uma tradicao empirista e evolucionista reinante no campo da histéria das idéi as, das ciéncias e dos saberes. Postura ilustrada por analises, que cobrem a irrupcao do heliocentrismo na Astro- nomia e a fundagao da Fisica classica. Por isso, seus trabalhos ~ dos Estudos Gallleanos aos Estudos Newtonianos, das investigagées sobre a Revolucao Astronémica aos Estudos de Historia do Pensamento Cientifico e aos Estudos de Historia do Pensamento Filosdfico ~ ‘ocupam um lugar estratégico no qua- dro atual da Filosofia e da Historia das Ciencias. Do conjunto de investigacées so- bre os comecos da ciéncia moderna, Koyré enunciou algumas teses funda. ‘mentais, que so a0 mesmo tempo nor- Do Mundo Fechado ao Universo Infinito $15i/3F6 Coleco Campo Tedrico Dirigida por Manoel Barros da Motta © Severino Bezerra Cabral Filho Da mesma colegio: Estudos de Historia do Pensamento Cientifico Alexandre Koyré Estudos de Historia do Pensamento Filoséfico Alexandre Koyré ONormal e 0 Patolégico Georges Canguithem O Nascimento da Clinica iche! Foucault Da Psicose Parandica em Suas Relagdes com a Personalidade Jacques Lacan Teoria e Clinica da Psicose Antonio Quinet Michel Foucault — Uma Trajetoria Flosofica Paul Rabinow ¢ Hubert Dreyfus Raymond Roussel Michel Foucault Alexandre Koyré Do Mundo Fechado ao Universo Infinito 4 Edigao Revista Tradugao Donaldson M. Garschagen Apresentagiio e Revisio Técnica Manoel Barros da Motta 200810 32257, 113/119 KOY /dom 4.ed. deta 4 edigio 2006 ©Copyright 1987 by The Johns Hopkins University Press ‘Teadrido de: From the closed weld tothe infinite universe se SO sna nite Ta Detmas haber ni Akande Ky emda de Daa Gee rata ro, bho Saxasaizoms ‘coma Tt Pros repro wal opi de gulf ‘opr qualquer men eerico oa mecinic, semper) cues do Er (Ls 9 610, 192198), Reser ot ion erode eto ela 'EDITORA FORENSE UNIVERSITARIA io de Janie Ran do Ress 100 Cerro CEP 20081402 "res ax 2509-3148 /208.7395 ‘Sao Pan: Senador Pas E480. 72 sla Cento ~CEPO1006-010 "es ax 3106-2057 310403963107 0842 ‘maids frenteniverstucombe agnor corte ors Apresentagao Alexandre Koyré: revolugdo e verdade na histéria do pensamento cientifico e filoséfico Koyré nasceu na Rassia, em Tiflis, no fim do século XIX, em uma familia judia burguesa. Participou da Revolugdo de 1905 e foi preso. Na prisdo, onde terminou seus estudos secundérios, leu As in- vestigagdes Idgicas, de Husserl. Estudou em Paris ¢ Gottingen, e, na época da eclosdo da Primeira Guerra Mundial, estava exilado na Sui- ‘sa. Participou dessa guerra no exéreito francés por decisaio propria. Na Rissia, participou da revolugao de fevereiro, aliado aos so« tas revolucionérios, Porndo apoiar a revolugdo de outubro, deixou sua terra natal em 1919. Na Franga, tornou-se professor da Escola Pratica de Altos Estudos, no entreguerras. Com a derrota da Franga, em 1940, foi para os Estados Unidos, pelas forgas francesa livres no Oriente, via Cairo, onde também ensinara por certo tempo. Parti pou, em Nova lorque, da fundagao, junto com outros universitarios franceses emigrados, de uma escola de altos estudos, reconhecida pelo governo Roosevelt. Viajou a Londres para dar conta a De Gaulle dessas atividades, Ainda nos Estados Unidos, apresentou Jakobson a Lévi-Strauss, encontro que sera um dos lugares de nascimento da or entagio estruturalista. Koyré viveu os principais acontecimentos da Politica mundial da primeira metade do século XX, eseu pensamento, influente nos dois lados do Atléntico, é também um sinal do cardter ‘mundializante de nossa época, Fundou, em 1932, um anuério, Recherches philosophiques, cuja ir“as tendéncias novas, nao ainda completamente de- Senvolvidas, que surgem na filosofia, nfo apenas na Franga, mas nos paises mais diversos”. Nesse anudrio escreveram J. Wahl, Gaston Ba- chelard, Martin Heidegger, Gabriel Marcel, Pierre Klossovski, Geor- ‘ge Bataille, Jacques Lacan, Alexandre Kojéve, Raymond Aron, Ro- ger Caillois ¢ Jean-Paul Sartre. Assim, as obras de fildsofos que vio atingir seu pleno desenvolvimento depois da Segunda Guerra Mundi: al tiveram um lugar de acolhimento na revista fundada por Koyré. Suas pesquisas sobre Galileu ou Hegel, no entanto, nio foram publi cadas nas Recherches philosophiques, que foi a mais importante re- vista filos6fica do entreguerras. Koyré realizou importantes estudos sobre Hegel, em especial no que diz respeito 4 natureza do conceito de tempo. Kojéve reconhece sua divida para com Koyré em sua Introducdo d leitura de Hegel. Diz ele: “O texto decisivo sobre o Tempo encontra-se na Filosofia da na- tureza, da Genenser Realphilosophie. Esse texto foi traduzido e co- ‘mentado por Koyré em um artigo que nasceu de seu curso sobre os es- crtitos da juventude de Hegel: artigo decisivo que esté na base de mi: nha interpretagdo da Fenomenologia do Espirito” (Introducdo a leitu- ra de Hegel, Patis, Gallimard, 1947, p. 367). Essa interpretagao de Kojéve teve um papel extremamente importante na fenomenologia francesa, e em particular sobre Sartre. Koyré conheceu, também, Roman Jakobson, tendo participado dos trabalhos do “Cireulo de Praga”. Ele insistiu junto a Lévi-Strauss para que este encontrasse Jakobson. O trabalho de Jakobson a partir de ‘Saussure, que vai ser introduzido de forma especifica em antropologia com Lévi-Strauss, vai tera irradiagdo que se conhece nas ciéncias hu- ‘manas e sociais a partir da Segunda Guerra Mundial. Koyré também vai falar de estrutura das revolugdes cientificas. Seu pensamento vai estar presente nas pesquisas de Foucault, Althusser, Thomas Kuhn ¢ em toda a corrente americana e francesa de histéria das ciéncias Koyré estudou Boehme e Copérnico, Galileu e Descartes, Kepler Newton, entre outros. Realizou pesquisa filoséficas sobre Spinoza, Descartes, Hegel ¢ Heidegger. Como lembra Yvon Belaval, Alexandre Koyré lia em russo, alemao, inglés, holandés, italiano, Conhecia o difi cil latim cientifico da Idade Média e da Renascenga, e também o ale- ‘mio medieval, sem falar da lingua de Galileu. Trabalhava a partir dos vl proprios textos na sua propria lingua, quer tratassem de Jacob Bochme, Hegel ou Galileu, que citava com notas precisas¢ miltiplas, Nesse sen- tido, ele procurava respeitar a originalidade dos pensadores, valorizan- do.aobrana sua realidade histdrica. Era preciso, segundo Koyré, adotar alguns modos de pensar ou principios metafisicos abandonados hoje. Ble denunciava, também, a mania dos precursores. Ele estudou os pequenos misticos alemies, como Valentin Wei- gel, ¢ também Paracelso; estudou o desenvolvimento do conceito de inércia, a geometria dos indivisiveis, a lingua e a terminologia de He- gel. Koyré estudou os paradoxos de Zenio, a filosofia de Santo Anselmo, o pensamento de Condorcet, Bakunine, Tartalia, Come- nius, Hume, Schelling, Fichte Belaval lembra que Koyré refletiu sobre Deus ¢, em seguida, so- bre o mundo. Em 1922, ele comegou a escrever sobre Descartes, que surgiu para cle sob a forma de um crente que sacrificaria a filosofia fé, na linha da tradi¢do escolastica. No seu Essai sur I'idée de Dieu et les preuves de Son existence chez Descartes, Koyré diz que, “se bem que 0 Discurso do método seja um preficio para os ensaios, disto no se deve concluir que a filosofia de Descartes seja apenas um ‘preficio’ a sua ciéncia. E exatamente o contrario que é verdade” (Essai sur l'idée de Dieu et les preuves de Son existence chez Des- cartes, Paris, 1922, p. 199-200). Koyré lembra que as regras do mé- todo cartesiano “esto, no fundo, tanto no raciocinio matemitico quanto naquele da escolastica” (ibidem, p. 201). Mas nfo é & esco- listica, mas & mistica da iluminago, que Descartes recorre para seu intuicionismo. Assim, nessa época, para Koyré, 0 pensamento car- tesiano, no seu ponto de partida, ndo esta banhado de preocupagées de ordem logica, cientifica ou epistemologica. No ensaio de 1922, é ‘central a avaliagao da idéia de infinito renovada por Descartes. Ago- andi se passa mais do finito ao infinito por uma série intermedia- tia. Oacesso ao infinito é direto.O finito no émais o aspecto posi ‘Vo, mas constitui uma negagdo que implica o infinito. Assim, Koyré adotou a tese cartesiana da precedéncia do infinito sobre 0 finito ara resolver os paradoxos de Zenio. vil No ano seguinte, Koyré estuda a idéia de Deus em Santo Ansel- mo. Ele vai ligaro pai da escolistica a Santo Agostinho. Santo Ansel- mo situa-se no campo de uma heranga de idéias neoplaténicas. Em sua obra Monologium, prova aexisténcia de Deus pelos graus de per- feigtio (L"idée de Dieu dans la philosophie de Saint Anselme, Tese para o Doutorado da Universidade de Paris, Paris, 1923). Koyré con- sidera, no entanto, que o argumento mais sério de Santo Anselmo é 0 do Proslogium, que ele traduziu (Fides Quaerens Intellectum, Intro dugio, texto e tradugtio por Alexandre Koyré, Paris, 1927). Santo Anselmo combina o principio de perfeigao e o principio de contradi- go. Assim, ele chega & necessidade passando pela impossibilidade dgica, o que constituiria uma prova ou uma demonstragao extrema- mente adequada para os crentes. Tanto Descartes quanto Santo Anselmo partem da idéia de perfeigao, ainda que, por sua teoria do in- finito, Descartes se afaste deste. Em 1929, Koyré empreende seu grande trabalho sobre a filosofia de Jacob Bochme, sua tese para o Doutorado em Letras. E uma obra extremamente bem construida, em que ele expde com clareza a filo- sofia desse mistico alemao, que nao dispunha de um aparelho concei- tual para construir um sistema. Koyré chega a dizer de Bochme que ele permanece “mais ou menos intraduzivel, mesmo em alemo. Nao 6 sempre o sentido dos termos, & de fato 0 som de suas silabas que nos sugere a sensagio que Boehme quer nos fazer experimentar” (La phi- losophie de Jacob Boehme, Tese para o Doutorado em Letras, Paris, 1929), Boehme utiliza uma mistura de Paracelso e da Biblia, Em sua concepsao, é de Deus que tudo advém, inclusive o mal, que nao cons- titui mera privagio. Deus se expressa também no mundo. Nele hé ‘uma auséncia de toda determinaco, ou um nada eterno. Essa ausén- cin de toda determinagio, Bochme chama ungrund; por outro lado, urkund € a origem de todas as determinagdes do ser, inclusive de Deus. O nada de Deus em si sugere que, para Boehme, 0 ser surge do devir, ¢ isso constitui “o ser do mistério” (ibidem, p. 314). Boehme pensava que Deus devia ter uma vida organica, pois Nele um fogo vital nutre a luz.espiritual. Esse fogo pode serentendido ‘como desejo, que é angiistia, fuga, negagio positiva de si. Em Boeh- vat ‘me, Deus nao eria a partir do nada, mas a partir de Sua substincia, que preenche 0 espaco absoluto a partir de toda eternidade. Deus, movido pelo desejo, engendra o que vé. O mundo nasce de Sua agao, ¢ no de ‘Seu pensamento. As qualidades criadas refletem aquelas que perten- cem A natureza do criador. O homem é, ao mesmo tempo, microcos- mo ¢ microtheos (ibidem, p. 452, 497, 502), Quanto 20 mal, ele é positivo. Em sua esséncia, o nio é correlati- yo do sim, No entanto, o mal resulta de um acidente: da liberdade ab- soluta concedida a Lucifer. Em Bochme, hd intuigdo do lado notumo da natureza, do sentimento tragico da existéncia ¢ do demoniaco da vida, antes dos romanticos. No entanto, Boehme leu Paracelso, S. Franck, Caspar Schwenefeld e Valentin Weigel, todos estudados por Koyré e reunidos no pequeno livro Mystiques, espirituels, alchimis- tes du XVI siécle allemand. Em Paracelso ha o lugar da imaginagdo, através da qual o mundo & criado por Deus. Para ele, toda ago & magica, A imaginagao opera a partir do corpo astral da alma. Ela produz a imagem, na qual tomam corpo o pensamento eo desejo (ver Mystiques, espirituels, alchimistes du XVE siécle allemand, p. 58-60). Em Paracelso, 0 universo ¢ expres- sto de Deus, cujo centro nio criado é 0 germe, 0 ovo, que ele chama de ‘Mysterium magnum, Dele emanam a matéria astral, Yliaster, e, em se- ‘Buida, as trés forgas constitutivas: Sulphur, Mercurium e Sal, além dos ‘quatro elementos da tradigdo antiga: ar, gua, terra e fogo, No pensa- ‘mento alquimico, a expressio de Deus é viva; e no corpo astral é forga, principio de vida. Essas teorias vao reverberar e aparecer em Hegel, ou ainda em Heidegger, como eco da mistica do século XVI. A partir da década de 1930, mais precisamente em 1933, Koyré di tige-se do problema de Deus para 0 mundo e para o estudo epistemols- Bico da historia das ciéncias. Ele vai do mundo fechado ao universo in- Ainito, Ou ainda de Nicolau de Cusa e Copémico a Kepler, Descartes € ‘Newton, Em um novo estudo sobre Descartes, este aparece destruindo ‘antiga légica aristotélica, e prolonga a obra de Montaigne, Descartes, Ix aparece menos voltado para Deus do que para o mundo incerto, 0 cos- mos desaparecido, para um mundo e para um universo redescobertos. Para Koyré, a idéia de ordem e mesmo o conceito de razio, agora, estiio articulados & matemtica, fora da qual nfo tém nenhum sentido ou im- portincia. O quadro central da nova problemética de Koyré ¢ a mate- ‘matizagao da fisica, que inaugura a ciéncia moderna, No entanto, é preciso nfo esquecer que, mesmo nessa nova orien- taco, o pensamento de Koyré permanece inspirado pela conviegio da unidade do pensamento humano, Para ele, é impossivel separar a historia do pensamento filoséfico e a histéria do pensamento religio- 0, seja para neste se inspirar ou para.a este se opor. Esse é um princi- pio de pesquisa que vai permanecer nos seus novos trabalhos, mesmo ‘quando ele estuda a estrutura do pensamento cientifico. Koyré estu- dou, inicialmente, a historia da astronomia, e depois a historia da fisi- ca.e das mateméticas. Para ele, a astronomia copernicana nao traz apenas um novo arranjo dos circulos, mas também o que ele chama ‘uma nova imagem do mundo € um novo sentimento do ser. Em Ke- pler, a nova concepgao da ordem césmica, fundada na idéia de um Deus gedmetra, & 0 que permite que ele se liberte do fantasma do cit culo. O circulo, com efeito, dominara o pensamento antigo; e mesmo ode Copémnico. Koyré publicou, em 1933, um estudo sobre Copérni co, ¢, em 1934, uma tradugo, com introdugao e notas, do primeiro li- ‘ro cosmolégico do De revolutionibus orbium coelestium. Em 1940, ele publicou os Etudes galiléennes, que dio conta de seus estudos sobre a revolugdo cientifica do século XVII. Trata-se da ppassagem do cosmos fechado dos Antigos para o universo infinito dos ‘modemos, que € o titulo das conferéncias que explicam o conjunto de seus trabalhos. Essa revolugio tem como conseqliéncia refundir os principios mesmos da racionalidade filos6fica e cientifica, assim como 6 das noges de movimento, espago, ¢ mesmo do saber e do se. A partir de 1945, Koyré empreendeu uma série de pesquisas no- vas a partir de Kepler sobre a sintese newtoniana, Ele mostrou que as concepgdes filoséficas de Newton, no que tange ao papel das mate- Iméticas e das medidas, tiveram tanta importincia quanto seu gér matemético. Ele estudou, simultaneamente, a transigdo do mundo do x mais ou menos ao universo da preciso, analisando a construgao das nogdes ¢ técnicas de medida exata e a criagdo de instrumentos cient ficos. E esse trabalho que permitiu a passagem da experiéncia qualita- tiva. experimentago quantitativa da ciéncia modema. O estudo des- sa revolugio cientifica nao deixava de trazer a marca das grandes re- volugdes das ciéncias contempordneas, que conheceram mutagSes epistemologicas também extremamente importantes, cujo estudo foi desenvolvido por Gaston Bachelard., Arrevolugio galileanae a cartesiana se caracterizam por uma mu- danga de ontologia axiomitica, Trata-se da construgdo de uma fisica matemética a partir daquilo que era impensavel no pensamento ari totélico. E uma questio filoséfica que divide, no século XVII, no pe- riodo que Foucault vai chamar de idade clissica, os aristotélicos e os platénicos. Diz Koyré: “Se proclamamos o valor supremo das mate- éticas e, além disso, Ihe atribuimos um valor real, uma posigao do- inante em e para a fisica, somos platdnicos; se, pelo contratio, ve~ mosnas matematicas uma ciéncia ‘abstrata’,e, conseqiientemente, de valor menor que o das ciéncias— fisica e metafisica— que se ocupam do real, se, em particular, pretendemos fundar a fisica diretamente a partir da experiéncia, atribuindo as mateméticas apenas um papel acessério, somos aristotélicos.” y ‘A questo nfo € cientifica. Nao se duvida da certeza das demons- {rages geomeétricas; trata-se de saber 0 que deve ser o mundo real para que a cigncia desse mundo possa ser matemética. Do ponto de vista aristotélico, a constituigdo de uma fisica ¢ impossivel, porque arealida- de fisica opde-se as matemiticas, na medida em que ¢ imprecisa e qua- litativa. O platonismo antigo também no podia dar conta desse proble- ‘ma, na medida em que a realidade é uma cépia das figuras geomeétricas —cépia imperfeita. A solugao de Galileu & negar a distancia ontoligica centre as figuras da geometria e os objetos do mundo real; donde sua tese, entendida como metaférica, mas que vai além disso, de um mundo criado por Deus em linguagem matemitica: a natureza esté escrita em linguagem geométrica, capaz de miltiplas combinagses. Ha também uma dimensio epistemolégica no platonismo de Gali- do vivido, a qualidade vai ser excluida do que é pensdvel. Assim, existe apenas a dimensio quantitativa, grandezas, A conseqiléncia é que osa- ber cientifico nao vem mais dos sentidos; a ciéncia possui uma dimer so racional. Diz Koyré: “E impossivel fornecer uma dedugao mate- ética da qualidade. Sabemos que Galileu, assim como Descartes um pouco mais tarde, ¢ pela mesma razio, foi obrigado a suprimira nogao de qualidade, declari-la subjetiva e bani-la do dominio da natureza. que implica, ao mesmo tempo, que ele foi obrigado a suprimir a per- ccepgaio dos sentidos como fonte do conhecimento e declarar que o co- nhecimento intelectual, e mesmo a priori, & 0 nosso tinico e exelusivo meio de aprender a esséncia do real.” Na verdade, esse platonismo é bem distante do antigo, na medida em que tanto a compreensio do es- ppago quanto a do movimento, agora submetidos lei do niimero, “per- deram 0 valor eésmico que podiam ter para Platio”. No debate sobre a infinitude do mundo, Galileu, segundo Koyré, niio teria tomado partido. Para ele, o problema seria insolivel, por nao ‘admitir limitagao do mundo. Por outro lado, Koyré cita outros textos nos quais Galileu sustenta a impossibilidade de decidir entre finitude infinitude, Bruno é0 primeiro a ter afirmado a infinitude do universo, subs- tituindo o antigo espago aristotélico pelo espago georhétrico, Bruno faz transitaro mundo na diregdo da concepeao copernicana, atingin- do de forma decisiva o cosmos antigo e medieval. Seus argumentos, no entanto, sao de ordem teolégica. E com o principio de plenitude, de onipoténcia divina e de infinitude da criagao que ele trabalha. Ele substitui a criagaio em um espago homogéneo pela infinitude dos mundos. Em Descartes, o mundo nao é mais simbolo de Deus, nao hé mais, vinculo analégico entre Deus ¢ mundo: “O Deus de Descartes, dife- rentemente da maioria dos outros deuses, nao se revela e nio se ex- pressa no mundo que Ele eriou; no ha nesse mundo Vestigia e Ima- genes Dei, salvo o homem, na medida em que ele é substincia pen- sante.” E ainda: “E impossivel, na concepgao cartesiana, remontar ‘do mundo a Deus’; € deliberadamente que Descartes quebra todo Jago analégico entre o Criador e o mundo criado por Ele, também ele xi se recusa a concluir a partir da infinitude divina a infinitude do mun- do, como fizeram Bruno e More, e s6 the atribui a indefinitude.” Henry More, tal como descreve Koyré, é uma figura da Renascen- ca que “actedita na magia, nas feiticeira, nas aparigdese espiritos que retomam”. Ele se sente “perdido no mundo desencantado da nova filo- sofia, a qual vota uma guerra destinada ao fracasso”. More mobiliza a tradigdio hermética no quadro da nova fisica. E, no entanto, a ele que se deve 0 “principio fundamental da nova ontologia, quer dizer, ainfiniti- zacio do espago”. Koyré mostra, a partir da correspondéncia entre ‘More e Descartes, como a metafisica da nova cineia deriva da metafi- sica cartesiana. More critica a identificagao cartesiana entre a extensio ceamatéria. Segundo ele, se essa identificagao € afirmada, Deus e todos 0s espiritos no possuem extensio. A conseqiiéncia dessa tese € que eles no podem comunicar movimento a matéria, Entraem cena, entio, oconceito de impenetrabitidade: matéria impenetravel e espirito pene- trvel. More vairejeitar, também, a negago cartesiana do vazio, e criti- car, ainda, o argumento de Descartes contra os tomos. Para More, 0 espago vazio e infinito é o quadro da presenga de Deus no mundo. Koyré demonstra como esses conceitos se distribuem no espago do pensamento filos6fico, cientifico e teolégico do século XVII: “O espago absoluto é infinito, ndo suscetivel de movimento homogéneo, indivisivel e unico. Sao propriedades muito importantes que Spinoza © Malebranche descobrirao quase ao mesmo tempo que More, e que Ihes permitirdo colocar a extenso — uma extensio inteligivel, dife- rente daquela que é dada & nossa imaginagdo, a nossos sentidos—em seus respectivos deuses. Sto as mesmas propriedades que Kant deve- 4 redescobrir cem anos mais tarde.” E a ontologia axiomatica fundada por Descartes que é a base do novo sistema de pensamento, Ela constitui o ponto de referéncia fun- damental de todos os estudos de Koyré sobre a historia do pensamen- to na época clissica, ‘Manoel Barros da Motta xi Sumario Prefiicio 1 Introdugdo ese ese eeeeeeeeeeeeeeeeeeee es 1.Océu eos eéus.... ey Nicolau de Cusa e Marcelo Palingenius IL A nova astronomia e a nova metafisica 28 Copérnico, Thomas Digges, Giordano Bruno e William Gilbert IIL A nova astronomia contra a nova metafisica 54 A rejeicao do infinito por Johannes Kepler IV. Coisas que ninguém nunca viu antes e pensamentos {que ninguém teve: a descoberta de novos astros no espago fisico e a materializago do espago........2c.ee0200+ 80 Galileu e Descartes \V. Extensdo indefinida ou espago infinito?. 99 Descartes ¢ Henry More VI. Deus e espaco, espfrito e matéria 2 Henry More ‘VIL. O espaco absoluto, o tempo absoluto e suas relagdes com Deus. . 138 Malebranche, Newton e Bentley VII. A divinizagao do espago, a 169 Joseph Raphson xv IX, Deus e 0 mundo: espago, matéria, éter ¢ espirito Isaac Newton X. Espago absoluto e tempo absoluto: o quadro de ago de Deus Berkeley e Newton XI. O Deus da semana e 0 Deus do Sabéi Newton e Leibniz XII Conclusdo: o Artifice Divino e 0 Dieu Fainéant.... Notas. . Indice remissivo Iustragdes Figura 1 Figura 2 Tipico diagrama do universo, antes de Copénico. Diagrama do universo infinito de Copémico, por Thomas Digges. AA figura M de Kepler... ‘A imagem estelar do escudo e da esp: : de Orion, de Galileu.. Figura3 Figura4 XVI 183 196 208 241 245 215 Prefacio Vezes sem conta, ao estudar a histéria do pensamento cientifico e filosofico dos séculos XVIe XVII—na verdade, esto de tal forma en- trelagados e vinculados que, separados, se tornam ininteligiveis — vieme forgado a reconhecer, como muitos outros antes de mim, que durante esse periodo o espirito humano, ou pelo menos o europeu, so- freu uma revolugdo profunda, que alterou o préprio quadro e padroes denosso pensamento, e da qual a ciéncia e a filosofia modernas so, a ‘um s6 tempo, raize fruto. Essa revolugto ou, como ja foi chamada, essa “crise de conscién- cia européia”, foi descrita ¢ explicada de muitas formas. Assim, con- quanto se admita geralmente que o surgimento da nova cosmologia— que substituiu o mundo geocéntrico, ou mesmo antropocéntrico, da astronomia grega e medieval, pelo universo heliocéntrico e, poste- riormente, acéntrico, da astronomia moderna —desempenhou um pi pel fundamental nesse processo, alguns historiadores, interessados Principalmente nas implicagdes sociais das mudangas espirituais, tém dado realce a suposta conversao do espitito humano da teoria para a praxis, da scientia contemplativa para a scientia activa et ope- "ativa, 0 que transformou o homem de espectador em proprietario & senhor da natureza; outros salientaram a substituigdo do modelo teleolégico e organicista do pensamento e da explicagao pelo modelo ‘mecénico e causal, que levou, em tiltima instncia, 4*mecanizagao da Concepeao do mundo”, que ocupa lugar to destacado nos tempos ‘modernos, sobretudo no século XVIII; outros simplesmente descre- Veram o desespero e a confusio trazidos pela “nova filosofia” a um ‘mundo do qual havia desaparecido toda coeréncia e no qual os céus ja no proclamavam a gloria de Deus Quanto a mim, tentei em meu livro Galilean studies definir os modelos estruturais da antiga e da nova concepgio do mundo, e deter- minar as mudangas acarretadas pela revolugao do século XVII. Essas _mudangas me pareciam ser redutiveis a duas agdes fundamentais ees- treitamente relacionadas entre si, que caracterizei como a destruigo do cosmos ¢ a geometrizagao do espago, ou seja, (a) a substituigao da concepgio do mundo como um todo finito e bem ordenado, no qual a estrutura espacial materializava uma hierarquia de perfeigdo ¢ valor, por um universo indefinido ou mesmo infinito, nio mais unido por subordinagdo natural, mas unificado apenas pela identidade de seus, ‘componentes supremos e bisicos; e (b) a substituigtio da concepgao aristotélica do espago, um conjunto diferenciado de lugares intra- ‘mundanos, pela concepgio da geometria euclidiana — uma extensio essencialmente infinita e homogénea -, a partir de entao considerada como idéntica ao espago real do mundo. A mudanga espiritual que descrevi nao ocorreu, naturalmente, em uma mutagio sibita. Tam- bém as revolugdes precisam de tempo para se consumar; também as revolugdes tém uma historia, Assim, as esferas celestiais que conti- nham 0 mundo 0 mantinham integro nao desapareceram de unia ‘vez, em uma colossal explosio; a bolha terrestre eresceu e inchou an- tes de rebentar e fundir-se no espago que a circundava, ‘© caminho que levou do mundo fechado dos antigos para o aber- to dos modernos nao foi, na verdade, muito longo: pouco mais de cem anos separam De revolutionibus orbiun coelestium, de Copémnico (1543), dos Principia philosophiae, de Descartes (1644); pouco mais de quarenta vio deste Principia aos Philosophia naturalis principia ‘mathematica, de Newton (1687). Por outro lado, esse caminho foi bastante dificil, pontilhado de obsticulos e passagens perigosas. Ou, para usarmos linguagem mais simples, os problemas envolvidos na infinitizagao do universo sao por demais profundos, as implicagdes das solugdes demasiado amplas e importantes para permitirem um progresso desimpedido. A ciéncia, a filosofia e até mesmo a teologia mostram interesse legitimo por questdes sobre a natureza do espaco,a estrutura da matéria, os padres de agdo e, last but not least, sobre a natureza, a estrutura ¢ o valor do pensamento e da ciéncia humana, Assim, a ciéncia, a filosofia e a teologia, representadas freqiiente- mente pelos mesmos homens ~Keplere Newton, Descartes ¢ Leibniz = tomam parte no grande debate iniciado com Bruno e Kepler ¢ que termina (provisoriamente, decerto) com Newton Leibniz. Nao tratei desses problemas em Galilean studies, em que desere- ‘yo apenas os estidios que conduziram a grande revolugao e que for- maram, por assim dizer, sua pré-histéria, Mas, em minhas conferén- ccias na Johns Hopkins University, intituladas “As origens da ciéncia moderna”, em 1951, “Ciéncia ¢ filosofia na era de Newton”, em. 1952, nas quais estudei a prépria histéria dessa revolucao, tive opor- tunidade de tratar, como mereciam, as questdes que avultavam nas mentes de seus protagonistas. E essa hist6ria que, com 0 titulo de Do ‘mundo fechado ao universo infinito, procurei narrar nas Noguchi Lec- ture, que tive a honra de proferir em 1953; e é exatamente a mesma histdria que, como que retomando o fio de Ariadne, reconto neste vo- lume; este livro representa, na verdade, tio-somente uma versio am- pliada das Noguchi Lecture. Gostaria de expressar minha gratidio ao Comité Noguchi por sua ‘entil permissao para que eu expandisse as conferénciase Ihes desse as atuais dimensdes, ¢ ainda agradecer ds senhoras Jean Jacquot, Janet Koudelka e Willard King pela ajuda na preparagio dos originais. Devo agradecer também a Abelard-Schuman, editores, pela per- missio de citar a tradugo de Dorothea Waley Singer do livro de Gio- ‘damo Bruno De Iinfinito universo et mondi (Nova lorque, 1950). Alexandre Koyré Princeton Introdugao Admite-se de maneira geral que 0 século XVII softeu, ¢ realizou, ‘uma radicalissima revolugao espiritual de que a cigneia moderna é, a0 mesmo tempo, a raizeo fruto, ' Essa revolugao pode ser descrita, e foi, de varias maneiras. Assim, por exemplo, alguns historiadores viram seu aspecto mais caracteristico na secularizago da consciéncia, seu afastamento de metas transcendentes para objetivos imanentes, ou seja, a substituigo da preocupagao pelo outro mundo e pela outra vida pela preocupago com esta vida e este mundo. Para outros auto- res, sua caracteristica mais assinalada foi a descoberta, pela conscién- cia humana, de sua subjetividade essencial e, por conseguinte, asubs- tituigao do objetivismo dos medievos e dos antigos pelo subjetivismo dos modemos; outros ainda créem que o aspecto mais destacado da- quela revolugio terd sido a mudanga de relagio entre Bswpla mpdé1g, 0 velho ideal da vita contemplativa cedendo lugar ao da vita activa, Enquanto o homem medieval e o antigo visavam a pura con- templagdo da natureza ¢ do ser, o moderno deseja a dominagio ea subjugacao. Tais caracterizagdes nao sto de nenhum modo falsas, ecertamen- te destacam alguns aspectos bastante importantes da revolugio esp ritual - ou erise~ do século XVI, aspectos que nos sio exemplifica- dos e revelados, por exemplo, por Montaigne, Bacon, Descartes ou Pela disseminagao geral do ceticismo e do livre pensamento. Em minha opinio, no entanto, esses aspectos so concomitantes € expressdes de um processo mais profundo e mais fundamental, em resultado do qual o homem, como as vezes se diz, perdeu seu lugar no mundo, ou, dito talvez mais corretamente, perdeu o proprio mundo em que viviae sobre o qual pensava, e teve de transformar e substituir no s6 seus conceitos eatributos fundamentais, mas até mesmo o qua- dro de referéncia de seu pensamento. Pode-se dizer, aproximadamente, que essa revolugao cientifica e filoséfica ~é de fato impossivel separar 0 aspecto filoséfico do pura- ‘mente cientifico desse processo, pois um e outro se mostram interde- pendentes ¢ estreitamente unidos ~ causou a destruigao do Cosmos, ‘ou seja, 0 desaparecimento dos conceitos validos, filoséfica e cienti- ficamente, da concepgaio do mundo como um todo finito, fechado e ordenado hierarquicamente (um todono qual a hierarquia de valor de- terminava ahierarquia e a estrutura do ser, erguendo-se da terra escu- ra, pesada e imperfeita para. perfeigo cada vezmais exaltada das es- trelas e das esferas celestes),” e a sua substituigao por um universo in- definido e até mesmo infinito que & mantido coeso pela identidade de seus componentes ¢ eno qual todos esses compo- nentes s2o colocados no mesmo nivel de ser. Isso, por seu turno, im- plica o abandono, pelo pensamento cientifico, de todas as considera- ‘¢0es baseadas em conceitos de valor, como perfeigdo, harmonia, sig- nificado e objetivo, e, finalmente, a completa desvalorizagaio do ser, 0 divétcio do mundo do valor e do mundo dos fatos. E este aspecto da revolugdo do século XVI, a histéria da destn 80 do Cosmos e da infinitizago do universo, que tentarei narrar aqui, pelo menos em sua principal linha de desenvolvimento. Na realidade, a historia completa e integral desse processo exigi- ria uma narrativa longa, complexae alentada, Teria de tratar da histé- ria da nova astronomia em sua passagem da concepeo geocéntrica para a heliocéntrica e em seu desenvolvimento técnico de Copémico para Newton, e da histéria da nova fisica em sua tendéncia coerente para a matematizagdo da natureza e sua énfase concomitante e con- vergente na experimentagao e na teoria, Teria de narrar a ressurreigio de doutrinas filoséficas antigas e do nascimento de novas, aliadas & nova ciéncia ¢ & nova perspectiva cosmolégica, ou a elas opostas Uma hist6ria assim completa teria de contar a formagao da “filosofia corpuscular”, aquela estranha alianga de Deméerito e Plato, bem como a luta entre os “plenistas” ¢ 0s “vacuistas”, e mais ainda aquela entre 0s partidérios e os adversirios do mecanismo estrito ¢ da atra- io. Teria de discutiras opinides ea obra de Bacon e Hobbes, de Pas- cal e Gassendi, de Tycho Brahe e Huygens, de Boyle e Guericke, as- sim como de muitissimos outros. No entanto, apesar desse tremendo niimero de elementos, desco- bertas, teorias © polémicas, que em suas interconexdes formam os complexos e comoventes antecedentes e as seqiielas da grande revo- |ug&0, a linha principal do grande debate, os principais passos da es- trada que leva do mundo fechado para o universo infinito destacam-se de modo claro nas obras de alguns grandes pensadores que, compre- endendo profundamente sua importéncia basilar, deram plena aten- ‘go ao problema fundamental da estrutura do mundo. E com eles, com suas obras, que nos ocuparemos aqui, tanto mais por eles se nos apresentarem na forma de uma discussio intimamente interligada, O céu e os céus ‘olau de Cusa e Marcelo Palingenius A concepedo da infinitude do universo, como tudo ou quase tudo ‘omais, origina-se, naturalmente, com os gregos; é seguro dizer que as cespeculagdes dos pensadores gregos a respeito da infinitude do espa- ‘50 ¢ da multiplicidade dos mundos desempenharam papel importante na histéria de que nos ocuparemos.‘ Contudo, parece-me impossivel reduzir a hist6ria da infinitizagio do universo & redescoberta da con- ‘cepeio do mundo dos atomistas gregos, concepgao esta que passou a ser mais bem conhecida por intermédio do recém-descoberto Lucré- cio® ou do recém-traduzido Didgenes Laércio.§ Cumpre-nos nao es- quecer que as concep¢des infinitistas dos ator jeitadas pela principal tendéncia, ou pelas principais tendéncias, do pensamento filos6fico e ciemtifico da Grécia — a tradigao epicurista nao era cientifica’ ~e que, por esse motivo, embora jamais esquecidas, de todo, nao podiam ser aceitas pelos medievais. Nao podemos esquecer, ademais, de quea “influéncia” nfo uma relagdo simples; pelo contrério, é bilateral e muito complexa. Nao so- ‘mos influenciados por tudo aquilo que lemos ou aprendemos. Em cer- to sentido, talvez o mais profundo, somos nds mesmos que determi- ‘amos as influéncias a que nos submetemos; nossos ancestrai lectuais nao sto de modo algum dados a nés; nds é que os escolhemos livremente, Pelo menos, em grande parte, De outra forma, como poderiamos explicar que, a despeito de sua grande popularidade, nem Didgenes nem mesmo Lucrécio tenham exercido, por mais de um século, qualquer influéncia sobre o pensa- ‘mento cosmolégico quinhentista? O primeiro homem a levar a cos- istas gregos eram re- ‘mologia lucreciana a sério foi Giordano Bruno. Nicolau de Cusa (ari- gor, nfo se sabe com certeza se quando escreveu De doctaignorantia, em 1440, ele conhecia De rerum natura) nao parece ter-Ihe dado mui- taatengao. No entanto, foi ele o iltimo grande filésofo da moribunda dade Média que pela primeira vez rejeitou a concepgo cosmol6gica ¢ se atribui em geral o mérito, ou o crime, de ter afir- do a infinitude do universo. Realmente, assim ele foi interpretado por Giordano Bruno, Ke- plere, finalmente, por Descartes, que em uma carta bastante conheci- da.a seu amigo Chanut (Chanut relata algumas reflexdes da rainha Cristina da Suécia, a qual duvidava que, no universo infinitamente ‘expandido de Descartes, 0 homem pudesse ainda ocupar a posigéo central que, segundo os ensinamentos da religiao, Ihe fora dada por Deus na criagiio do mundo) diz-Ihe que, afinal de contas, “o cardeal de Cusa ¢ varios outros teélogos jd supuseram o mundo infinito sem serem jamais repreendidos pela Igreja; ao contririo, acredita-se que fazer suas obras grandissimas seja honrar a Deus”.* A interpretagio cartesiana da doutrina de Nicolau de Cusa é bem plausivel e, com efei- to, ele nega a finitude do mundo e sua contengao pelas paredes das es- feras celestes, Mas ele nao afirma sua infinitude positiva; na verdade, evita tio cuidadosa e continuamente como Descartes atribuir ao uni- ‘verso 0 qualificativo “infinito”, que ele reserva somente a Deus. Seu universo no & infinito (infinitum), mas sim intérmino (intermina- ‘um, 0 que significa nao s6 que ele nao possui limites nem se acaba em um invélucto exterior, como também que nao é“terminado” em seus constituintes, ou seja, que carece inteiramente de precisio e rigi- da determinagao. Ele nunca alcanga o “limite”; o mundo €, no sentido pleno da palavra, indeterminado. Por conseguinte, nio pode ser obje- to de conhecimento total e preciso, mas apenas de conhecimento par- cial e conjectural” E a admissao desse cardter necessariamente par- cial ~ e relativo — de nosso conhecimento, da impossibilidade de se construiruma representago univoca e objetiva do universo que cons- titui ~em um de seus aspectos —a docta ignorantia advogada por Ni- colau de Cusa como meio de transcender as limitagdes de nosso pen- samento racional medieval, Schema huiuspramufl duis Sphararum. Figura 1 Tipico diagrama do universo, antes de Copémico (a edicao de 1539 de Peter Apian's Cosmographia) Konsmmsesen Acconcepgtio do mundo de Nicolau de Cusa niio se baseia em uma critica das teorias astronémicas cosmoldgicas contemporiineas, nem leva, pelo menos em seu proprio pensamento, a uma revoluga0 na ciéncia, Nicolau de Cusa, ainda que muitas vezes tenha sido assim descrito, nio é um precursor de Nicolau Copémico. No entanto, sua concepeao ¢ extremamente interessante e, em algumas de suas ousa- das assertivas ~ ou negativas -, vai muito além de qualquer coisa que Copémico jamais ousou pensar"? Ouniverso de Nicolau de Cusa é uma expressio ou um desenvol- vimento (explicatio), ainda que, naturalmente, imperfeito e inade- quado, de Deus. Imperfeito e inadequado porque apresenta no domi- rio da multiplicidade e da separago aquilo que em Deus se acha pre- sente em uma unidade indissolivel e intima (complicatio), uma uni- dade que compreende nao sé as qualidades ou determinagdes diferen- tes, mas até mesmo as opostas, do ser. Por sua vez, todo objeto singu- larno universo o representa -o universo—e, portanto, também Deus— de sua prépria maneira particular; cada um de uma maneira diferente de todos 0s outros, “contraindo” (contractio) ariqueza do universo de acordo com sua propria individualidade tinica. As concepgdes metafisicas € epistemologicas de Nicolau de Cusa, sua idéia da coincidéncia dos opostos no absoluto que os trans- cende, bem como o conceito correlato da douta ignorancia como oato intelectual que apreende esse relacionamento que transcende o pen- samento discursivo, racional, seguem e desenvolvem o modelo dos paradoxos mateméticos envolvidos na infinitizagio de certas rela- ‘s0es vilidas para objetos finitos. Assim, por exemplo, ndo ha nada mais oposto na yeometria do que “reto” ¢ “curvo"; e, no entanto, no circulo infinitamente grande, a circunferéncia coincide com a tangen- te, e, no infinitamente pequeno, com o didmetro, Em ambos 0s casos, ademais, o centro perde sua posigdo tinica, determinada; coincide com a circunferéncia; nao esta em parte alguma, esti em toda parte, Mas “grande” ¢ “pequeno” constituem um par de conceitos opostos que s6 so vilidos ¢ significativos no reino da quantidade finita, no reino do serrelativo, onde nao existem objetos “grandes” ou “peque- hnos”, mas somente “maiores” e “menores”, e onde, portanto, nao 2 existe “o maior” nem “o menor”, Comparado com 0 infinito, nao ha nada que seja maior ou menor do que qualquer outra coisa. O maximo absoluto, infinito, ndo pertence, nfo mais do que o minimo absoluto, infinito, & série do grande e do pequeno. Estio fora dela, e, portanto, como Nicolau de Cusa conclui corajosamente, coincidem, Outro exemplo pode ser fornecido pela cinemética. Realmente, no ha coisas mais opostas do que o movimento e 0 repouso. Um cor- poem movimento nunca esté no mesmo lugar; um corpo em repouso nunca esté em outro lugar. No entanto, um corpo que se mova com ve- locidade infinita a0 longo de uma rota circular estard sempre no lugar de partida, e a0 mesmo tempo estard sempre em outra parte, uma boa prova de que o movimento é um conceito relativo, que compreende as oposigdes de “veloz” e “lento”. Segue-se entio que, tanto quanto na esfera da quantidade puramente geométrica, nao existe movimento minimo ou maximo, movimento que seja o mais lento ou o mais répi: do, e que o maximo absoluto da velocidade (velocidade infinita)e seu minimo absoluto (lentidao infinita ou repouso) se encontram fora do conceito de movimento e, como vimos, coincidem, Nicolau de Cusa tem plena consciéncia da originalidade de seu pensamento, e ainda mais do cardter um tanto paradoxal eestranho da conclusio a que é conduzido pela douta ignordncia." E possivel fafirma ele] que aqueles que lerem coisas nunca ou- vidas anteriormente e agora estabelecidas pela Douta Ignordncia fiquem atdnitos. autor nao pode evité-lo; na realidade, ficou determinado pela douta ignordncia!® «que o universo ¢ uma triunidade e que nada ha que ndo seja uma unidade de potencialidade, realidade € movimento de cone- xo; que nenhuma destas pode subsistir absolutamente sem as ou- tras; e que todas essas qualidades estdo presentes em tudo em graus diferentes, do diferentes que no universo ndo hé duas {coisas} que possam ser completamente iguais entre si em tudo. Consequente- B mente, se considerarmos os diversos movimentos dos orbes [celes- tes}, [constataremos que] ¢ impossivel para a maquina do mundo possuir qualquer centro fixo e imével, seja esse centro a terra sensi- vel, 0 ar, 0 fogo ou qualquer outra coisa. Pois nao pode existir ne- ‘nhum minimo absoluto em movimento, isto &,nenhum centro fixo, porque 0 minimo deve necessariamente coincidir com 0 méximo. ‘Assim, 0 centro do mundo coincide com a circunferéneia, e, oitava nem de [qualquer] outra esfera, nem a ascensfo dos seis sig 1nos [do Zodiaco] sobre o horizonte implica que a Terra seja 0 cen- tro da oitava esfera, Pois, mesmo que ela estivesse um tanto distan- tedo centro fora do eixo, que atravessa os pélos, de modo que em uma parte estivesse alongada em direo a um polo, ena outra {par- te] deprimida em relago 20 outro, ainda assim fica claro que, es- tando a distancia tdo grande dos polos e sendo o horizonte tao vasto, como é, 0s homens 6 avistariam metade da esfera [e, portanto, acreditariam estar localizados em seu centro). como veremos, nio é um “centro” fisico, e sim metafisico, que néo pertence ao mundo. Esse “centro”, que éa mesma coisa que a “circun- ia”, ou seja, comego e fim, fundamentoe limite, o“Iugar” que o no & nada mais sendo o Ser Absoluto ou Deus. Na verdade, prossegue Nicolau de Cusa, invertendo curiosa- ‘mente um famoso argumento aristotélico em favor da limitagao do \ ‘Além do mais, o proprio centro do mundondo se encontra mais, dentro da Terra do que fora dela; pois nem esta Terra, nem qualquer ultra esfera, possui um centro; na verdade, o centro é um ponto cqllidistante da circunferéncia, mas no ¢ possivel que haja uma verdadeira esfera ou circunferéncia tal que uma mais verdadeira,e mais precisa, nfo pudesse ser possivel; uma eqiidistancia precisa mundo:!? ‘Omundo néo possui circunferéncia, porque se possuisse um cen- {roe uma circunferéncia, e assim possuisse comego e fim em simes- ‘mo, seria limitado com relagao a alguma outra coisa, e fora do mu- do haveria alguma outa coisa, e espago, coisas que no existem de ‘modo algum. Portanto, uma vez que é impossivel encerrar o mundo centre um centro e uma circunferéncia corpéreas,é [impossivel para] nossa razio ter uma plena compreenséio do mundo, posto que impli- ea a compreensio de Deus, que € seu centro e sua circunferéncia. Assim," --Conquanto 0 mundo nio sejainfinito, ndo pode porém ser concebido como finito, uma vez que néo possui limites entre os quais se confine. A Terra, por conseguinte, que nfo pode ser 0 cen- ‘wo, ndo pode carecer de todo movimento; mas é necessério que se ‘mova de modo tal que pudesse ser movida infinitamente menos. Da ‘mesma forma que a Terra nfo 60 centro do mundo, também a esfe- +adas estrelasfixas ndo é sua circunferéncia, ainda que, se compa- rarmos a Terra com oéu, a Terra parega estar mais perto do centro, ©0céu,dacircunferéncia, A Terra portanto,ndo é 0 centro, nem da 4 de [objetos] varios nfo pode ser encontrada fora de Deus, pois so- ‘mente Ele €a igualdade infinita. Assim, €0 Deusabengoado que éo centro do mundo; Ele éo centro da Terra e de todas as esferas,¢ de todas (as coisas] que existem no mundo, uma vez que Ele € a0 mes- ‘mo tempo a circunferéncia infinita de tudo. Além disso, no exis- tem no céu polos iméveis,fixos, ainda que o céu das estrelas fixas pareca, por seu movimento, descrever circulos de dimensdes gra- ‘Nao se diga tampouco que, comoa Terra é menordo que o Sol, ¢ recebe influéncia dele, & também mais vil; pois toda a regido da Terra, quese estende atéa circunferéncia do fogo, é grande. Eainda que a Terra seja menor do que o Sol, como sabemos devido a sua sombra ea0s eclipses, ainda nfo sabemos se aregido do Sol é maior ‘oumenor do que a regito da Terra; contudo, ndo podem ser precisa- ‘mente iguais, porquanto nenhum astro pode ser igual a outro. Tam- poucoa Terraéomenorastro, pois é maior do que a Lua, como nos ensina a experiéncia dos eclipses, ¢ até mesmo, como dizem algu- ‘mas pessoas, maior do que Mercirioe possivelmente do que alguns ‘outros astros. Assim, o argumento para a mesquinhez, derivado da dimensio, nfo é conclusive. ‘ampouco se podera argumentar que a Terra seja menos perfeita do que 0 Sol eos planetas porque recebe influéncia deles; na verdade, & bem possivel que ela, por sua vez, os influencie:®* 2 finitamente rico, infinitamente diversificado e organicamente inter-relacionado, nao existe um centro de perfeigdo em relago ao qual o resto do universo pelo contratio, € por se- rem eles préprios e por firmarem suas préprias naturezas que os varios componentes do universo contribuem para a perfeigao do todo. quanto 0 Sol owas estre~ Fica claro, portanto, nfo ser possivel a0 conhecimento huma- no determinar se a regio da Terra possui, em algum grau, maior perfeigdo ou imperfeigio em relagdo as regides dos outros astros, do Sol, da Lua ¢ do restante, ‘Alguns dos argumentos em favor da relativa perfeigaio da Terra ‘io bastante curiosos. Assim, convicto de que o mundo é nao s6 ilimi- tado como também povoado por toda parte, Nicolau de Cusa diz-nos {que nenhuma conclusao quanto a imperfeigdo da Terra pode ser infe- rida da alegada imperfeigao de seus habitantes, uma conclustio que ninguém, ao que eu saiba, jamais afirmou, pelo menos em seu tempo. Seja como for, em todo caso, Nicola de Cusa afirma que” _nfo se pode dizer que este lugar do mundo [seja menos per- feito por ser] onde habitam os homens, 0s animais ¢ 0s vegetais, {que sto menos perfeitos do que os habitantes da regitio do Sol edos demais astros, Pois, embora Deus seja 0 centro ¢ a circunferéncia de todas as regidesestelares, e ainda que em todas as regides habi- tantes de nobreza de natureza diversa procedam Dele, a fim de que tais vastas regides dos céus ¢ das estrelas no permanecessem vazias, e que nfo apenas esta Terra fosse habitada por seres inferio- res, ainda assim nfo parece que, segundo a ordem da natureza, pu- desse haver uma natureza mais perfeita e mais nobre do que anatu- reza intelectual que habita aqui nesta Terra eem sua regio, mesmo que existam nos outros astros habitantes pertencentes a outro gene- ro: com efeito, o homem ndo deseja outranatureza, mas apenas a perfeigio da sua propria Entretanto, é claro que temos de admitir que no mesmo género possa haver varias espécies diferentes, que materializem a mesma na- tureza comum de maneira mais ou menos perfeita. Assim, parece @ ‘olau de Cusa bastante razodvel conjecturar que os habitantes do Sol eda Lua ocupam um lugar mais elevado na escala de perfeigiio do que nds: sio mais intelectuais, mais espirituais do que nds, menos ma- teriais, menos oprimidos pela carne. 2B Finalmente, Nicolau de Cusa declara que o grande argumento, segundo o qual a mesquinhez decorre da mudanga e da corruptibil de, nao tem mais valor do que o resto. Isso porque." “como ha um tinico mundo universal, e como todos os astros par ciam-se uns aos outros em uma certa proporgd0”, nfo ha nenhum mo- tivo para se crer que a mudanga e corrupgao s6 ocorram aqui, na Ter- ra, endo em toda parte do universo, Ou melhor, temos toda raziio para supor —embora, naturalmente, ndo 0 possamos saber ~ que em toda parte seja igual, sobretudo porque essa corrupgio, que nos é apresen- tada como o trago particular do ser terrestre, nao é de maneira alguma uma destruigdo real, ou seja, uma perda total e absoluta de existéncia, Ela é, na verdade, a perda daquela forma particular de existéncia, Fundamentalmente, porém, representa menos o desaparecimento simples do que a dissolugdo, ou a resolugao, de um ser em seus ele- ‘mentos constitutivos e sua reunificagdo em alguma outra coisa, um processo que pode ter lugar —e provavelmente tem mesmo—em todo Oo universo, justamente porque a estrutura ontolégica do mundo é fun- damentalmente a mesma em toda parte. Na verdade, ela expressa, em toda parte, da mesma maneira temporal, isto &, mutavele cambiante,a perfeigdo imutavel e eterna do Criador. Como vemos, um novo espirito, o espirito da Renascenga, per passa na obra do cardeal Nicolau de Cusa, Seu mundo ja néo é 0 cos- mos medieval. Mas ainda nao é, de modo algum, o universo infinito dos modernos la Abhonra de haver afitmado a infinitude do universo tem sido tam- bém reivindicada por historiadores modernos para um escritor do sé- culo XVI, Marcelo Stellatus Palingenius,?” autor de um livro popula- rissimo, Zodiacus vitae, publicado em latim, em Veneza, no ano 1534 (€ traduzido para o inglés em 1560); em minha opiniao, porém, essa reivindicagdo tem ainda menos fundamentos do que no caso de Nico- lau de Cusa, r Palingenius mostra-se profundamente influenciado pelo reaviva- mento neoplaténico do século XV, e, portanto, rejeita a autoridade absoluta de Aristételes, ainda que, vez por outra, cite aprovativamen- te textos seus. E possivel que ele tenha tido algum conhecimento da concepsiio do mundo de Nicolau de Cusa, tendo sido encorajado por seu exemplo a desmentir a finitude da criagao. No entanto, io pode- mos afirmar isso com certeza, pois, com excegio da afirmagio enér- gica da impossibilidade de se impor limite & ago criadora de Deus, rio encontramos em seus escritos qualquer referéncia aos principios da cosmologia de Nicolau de Cusa ‘Assim, por exemplo, a0 examinar a estrutura geral do universo, ele diz:” Ha quem seja da opinigo de que todos os astros so mundos e de que a Terra que habitamos é um astro opaco, ¢ mais infimo de todos. E ébvio que nao é Nicolau de Cusa que ele tem em mente, pois 0 cardeal jamais disse nada semelhante, e sim os antigos cosmologistas gregos. Cabe observar, ademais, que Palingenius nio compartilha suas opinides. Seus pontos de vista sio muito diferentes. Ele nao afir- ma ser a Terra um astro. Pelo contrario, mantém continuamente a oposicao entre a regifio terrestre e a celeste; e ndo é a imperfeigao da primeira que o leva a negar ser ela o tinico lugar povoado do mundo. Na verdade,*! Deveremos imaginar que somentea Terra eo Mar sejam habi tados? O Céu e tudo quanto dele depende nada s80? O que sto a ‘Terra. o Mar em comparagao com o Espaco imenso eadmirivel do Mundo? Se examinardes com atengdo, vereis que 0 Orbe Terrestre que habitamos no é mais que um ponto. O menor dos Astros ndo é maior, a acreditarmos nos célculos astronmicos? Ora, um lugar tio pequenoe tao vazio seré povoado de Peixes, Homens, Animais, assaros, Bestas ferozes et., enquanto o resto do universo ser va- io de Habitantes? Como o Ar € 0 Olimpo serio desertos? 25 r E claro que no podemos partilhar dos erros desse: mais bela e mais grandiosa do que os Céus, ¢ nao o quis fazer, sua ‘espiritos va- zios” que assim eréem. E claro também que”? Ciéncia e seu Poder tomam-se initeis. a0 contrério, cabe erer que Col6nias magnificas povoam es- ‘Nao bstante, Palingenius mantém a finitude do mundo material, ses lugares encantadores e que a Felicidade delas & proporcional & encerrado nas oito esferas celestes € cercado por elas: cexceléncia dos Lugares que eles {seus habitantes] habitam, e con- fessar com sinceridade que a Terra éatiltima das Habitagdes, ainda Embora a opinio do stbio Aristteles fosse de que nfo existe «que muito boa para os Homens eas Bestas. Mas o Aracima das Nu- corpo infinito, com o que eu concordo, isto nfo destrbi o que et vens ¢ um Céu feliz e sereno. E ali que reina uma Paz eterna; 6 16 afirmo a respeito da infinitude do Mundo, pois no pretendo que que brilha a Luz-do mais belo dia; l estéa morada Real dos Deuses haja Corpos além dos limites do Céu: ali ndo existe sendo uma Luz que nossos olhos corpéreos nao podem perceber. imensa, purissimae incorpdrea, que é levada por sua claridade mil ‘vezes além da do nosso Sole que nossos olhos terrestres ndo pode- Entretanto, Palingenius nao afirma a infinitude do mundo. E ver- riam suportar. Sua fonte esti no proprio Deus e¢ dele que ela proce- de, énela que estiodifundidas, por toda parte, as mais nobres in- teligéncias que habitam essa Luz com seu Rei soberano. As inteli- sgncias de ordem inferior habitam o Eter. Destate, o Mundo est dividido em trés Dominios outs Reinos, que sfo:aparte celeste, a {que esta sob os Céus, cada uma das quais possuindo seus limites; ea terceira, que se situa além do Céu, britha com admiravel claidade. ‘Alguém pode objetar que nfo existe luz incorpérea e que, por con- seqiéncia, nfo hé Luz além do Céu, Esta objegdo nfo teré funda mento: @razdo justifica a verdade do que eu declaro, dade que, aplicando com muita coeréncia o pr Lovejoy denominou “principio da plenitude”, ceriagdo de Deus ¢ diz:™ que o professor "elenega a finitude da Acredita-se que fora dos limites do Céu nfo exista nada e ima- ‘gna-se que as extremidades do Céu sejam os confins do universo; que a Natureza, abatida, deixa de atuar para além de seus limites; ‘mas a razo me persuade do contrério; pts se a Natureza termina ‘com o ter, por que Deus nada tera feito além dele? Porventura se- ria porque Ele nfo soube fazer mais nada? Ter-Lhe-iam falecido a Ciencia eo Poder? Tanto um como outro desses raciocinios nto so Mas Palingenius néo aceita essa teoria, que faz.a luz depender da ‘matéria e assim a materializa. Mesmo que a luz natural, fisica, fosse fatto Noh neshun oa Serpe Barnes le | sim, decent este nfo seria caso da uz sobrenatural de Deus, Aci ‘io imporia limites a Simesmo...Se alguma coisa for capaz de par ima do céu estrelado nao ha corpos. Masa luz ¢ 0 ser imaterial podem fim a Deus, entio essa coisa mais forte que o proprio Deus e sua cexistir—e existem de fato —na regito supraccleste eilimitada, sobre- agto ultrapassa 0 poder divino, Nao se pode certamente imaginar natural. que algum Ser seja dotado de tal poder. Logo, Deus nfo pode ja- esse modo, é 0 céu de Deus, e nfo o mundo de Deus, que Palin- rais acabar, ¢ Ele nfo imporia limites a Si mesmo, Quem deseja genius afirma ser infinito. dar fim a si mesmo?... Logo, como Deus pode ser muito grande, : quereria sé-lo; ¢ evidentemente ndio poupou suas forcas; no & pos- sivel crer 0 contrério, Por conseguinte, devemos concluir que a Obra do Todo-Poderoso seja infinita, sem o que seu poder sua ciéncia seriam vdos: porque se Ele péde e soube criar alguma coisa 26 2 Il. A nova astronomia e a nova metafisica Copérnico, Thomas Digges, Giordano Bruno e William Gilbert Palingenius ¢ Copérnico sao praticamente contemporaneos. Na verdade, Zodiacus vitae ¢ De revolutionibus orbium coelestium devem ter sido escritos mais ou menos na mesma época. No en- tanto, nada ou quase nada tém em comum. E como se séculos os separassem, Alliés, na verdade as duas obras estilo separadas por séculos, por todos aqueles séculos durante os quais a cosmologia totélica ea astronomia ptolomaica dominaram 0 pensamento ocidental. Copér- nico, naturalmente, utiliza de modo pleno as técnicas matemiticas elaboradas por Ptolomeu — uma das maiores re: gdes da mente hu- mana! —, mas vai buscar inspiragao antes dele, antes de Aristételes, remonta a idade durea de Pitégoras ¢ Platio. Cita Heraclides, Ecfanto ¢ Hiquetas, Filolaos e Aristarco de Samos; e, segundo Rético, seu dis- cipulo e porta-voz, foi? -seguindo Platfo e 0s pitagéricos. os maiores mateméticas daquela era divina, que [ele] julgou que a fim de determinar a causa dos fenémenos cumpria atribuir movimentos circulares a Terra es- férica. E escusado insistir na enorme importincia cientifica e filoséfica da astronomia copernicana, a qual, removendo a Terra do centro do mundo e colocando-a entre os planetas, destruiu os proprios alicerces da ordem edsmica tradicional, com sua estrutura hierérquica e sua oposigio qualitativa entre o dominio celeste do ser imutivel ea regifio 28 terrestre ou sublunar de mudanga ¢ corrupgao. Em comparagdo com a critica profunda de sua base metafisica, feita por Nicolau de Cusa, a revolugfo copernicana pode parecer um tanto moma ¢ pouco radical. Por outro lado, essa revolugao foi muito mais efetiva, ao menos a lon- go prazo. Como sabemos, 0 efeito imediato da revolugio copernicana foiode espalhar o ceticismo ea perplexidade,? de que 0s famosos ver- sos de John Donne sao expresso notavel, ainda que um tanto tardia:* A nova Filosofia torna tudo incerto, E Elemento do fogo & desde logo extinto; Perde-se 0 Sol e a terra; e ninguém hoje Saberd indicar onde encontré-la. (Os homens confessam francamente que 0 mundo acabou, Enquanto nos Planetas e no Firmamento Procuram tantas coisas novas; e véem que este Dissolve-se mais uma vez em étomos. ‘Tudo esti em pedagos, toda coeréncia termin: ‘No hé mais relagdes justas, nem nada é conforme. Para dizer a verdade, 0 mundo de Copémico nao ¢ de modo al- gum isento de aspectos hierérquicos. Assim, quando ele afirma que no sfio os céus que se movem, e sima Terra, o faz porque nao sé pare- ce irracional mover um corpo tremendamente grande, em vez de um outro, relativamente pequeno, “aquele que contém ¢ situa, e nio aquele que é contido e situado”, mas também porque “a condigéo de estar em repouso € considerada mais nobre e mais divina do que aquela de mudanca e inconsisténcia; a Gltima, portanto, é mais apro- priada a Terra do que ao universo”.* E em virtude de sua suprema per- feigdo e importancia—fonte da luz eda vida—que ¢ atribuido ao Solo lugar que ele ocupa no mundo: o lugar central que, seguindo a trad 40 pitagérica, e invertendo assim completamente a escala aristotél cae medieval, Copémico acredita ser o melhor eo mais importante.* Assim, embora o mundo copernicano nao seja mais estruturado hierarquicamente (ao menos nao plenamente: ele possui, por assim dizer, dois pélos de perfeigao, o Sol ea esfera das estrelas fixas, com 29 1 planetas na posigdo intermédia), ainda é um mundo bem ordenado. ‘Além disso, ainda & um mundo finito. A finitude do mundo copernicano pode parecer ilégica. Na ver dade, sendo seu movimento comum o tinico motivo para se supor a existéncia da esfera das estrelas fixas, a negago daquele movimento deve levar imediatamente a negaco da prépria existéncia daquelaes- fera; além disso, como no mundo copernicano as estrelas fixas devem ser extraordinariamente grandes’ ~sendoa menor delas maior do que todo 0 Orbis magnus -, aesfera das estrelas fixas deve ser bastante es- essa; parece bem razodvel entender seu volume indefinidamente “para o alto”. E de todo natural interpretar assim Copérnico, ou seja, cré-lo um advogado da infinitude do mundo, tanto mais que ele levanta a ques- to da possibilidade de uma extensio espacial indefinida além da es- fera estelar, posto que se recusa a tratar este problema como nao cien- tifico, entregando-o aos fildsofos. Na verdade, foi assim que Gianbat- tista Riccioli, Huygens e, mais recentemente, MeColley interpreta- ram a doutrina de Copémico# Ainda que essa interpretagao parega razodvel e natural, no creio que represente os pontos de vista verdadeiros de Copémico. O pensa- mento humano, mesmo o dos génios supremos, nunca é completa- mente consequente ¢ légico. Nao devemos nos admirar, portanto, de que Copémico, que acreditava na existéncia de esferas planetarias materiais, porque necessitava delas a fim de explicar 0 movimento dos planetas, acreditasse também na existéncia de uma esfera das es- trelas fixas, de que no necessitava mais. Além disso, embora sua existéncia ndo explicasse coisa alguma, ainda tinha sua utilidade: esfera estelar, que “encerrava e continha tudo e a si mesma”, manti- nha o mundo coeso e, além disso, possibilitava a Copémico atribuir uma posigo determinada ao Sol. De qualquer forma, Copémico nos diz claramente que? Louniverso é esférico; em parte porque essa forma, sendo um todo completo e dispensando toda articulago, éa mais perfeita de todas; em parte porque ela constitui a forma mais espagosa, que & 30 r portanto a mais apropriada a conter e reter todas as coisas; ou tam- ‘bém porque todas as partes separadas do mundo, seja 0 Sol, a Luae os planetas, afiguram-se esferas. Arigor, ele rejeita a doutrina aristotelica segundo a qual “fora do mundo nao ha corpo, lugar nem espago vazio, de fato nada existe”, porque lhe parece “realmente estranho que alguma coisa seja encerra- dapornada” e acredita que, se admitissemos “que 0 céu fosse infinito ¢ limitado apenas por sua concavidade interior”, nesse caso terfamos melhor motivo para asseverar “que nada existe fora dos céus, porque tudo, qualquer que seja seu tamanho, esta dentro deles”,! caso em que, naturalmente, o céu teria de ser imével: 0 infinito, na verdade, no pode ser movido ou atravessado. No entanto, ele nunca nos afirma que o mundo visivel, o mundo das estrelas fixas, seja infinito, mas apenas que é imensurivel (im- ‘mensum), que € tio grande que nao s6 a Terra, em comparagéo com o ‘céu, 6 “como um ponto” (o que, alids, j tinha sido afirmado por Pto- Jomeu), mas também 0 é todo o orbe do circuito anual da Terra a0 re- dor do Sol; e que nio conhecemos nem podemos conhecer o limite, a dimensio, do mundo, Além disso, a0 tratar da famosa objegaio de Pto- Iomeu, segundo a qual “a Terra e todas as coisas terrestres, se postas «em rotagao, seriam dissolvidas pela ago da natureza”, ou seja, pelas forgas centrifugas produzidas pela altissima velocidade de sua revo- lusdo, Copémnico responde que esse efeito desastroso seria muito mais forte nos céus, porque seu movimento mais répido do que o da Terra, e que, “se esse argumento fosse verdadeiro, a extensio do céu ‘se tornaria infinita™. Nesse caso, naturalmente, o céu teria de ficar pa- rado; 0 que, embora seja finito 0 eéu, acontece. Assim, temos de admitir que mesmo que fora de mundo nao existisse nada sendo espago e matéria uniforme, ainda assim 0 mun- do de Copémico continuaria a ser um mundo finito, contido por uma esfera material ou orbe, a esfera das estrelas fixas ~ uma esfera que possui um centro, um centro ocupado pelo Sol. Parece-me no haver outra forma de interpretar o ensinamento de Copérnico. Diz ele que! 225% [08 31 a primeira e suprema dentre todas [esferas] éaesfera das es- trelas fixas, que contém a tudo e a si prépria e que esta, por conse- guinte, em repouso. Na verdade, trata-se do lugar do mundo que serve de referéncia para o movimento ea posigdo de todos os outros astro. Alguns [asironomos], na verdade, pensam que, de certa ma- neira, essa esferaesté tambeém sujeita a mudanga; mas em nossa de- dugdo do movimento terrestre determinamos outra causa pela qual ela parece mover-se assim. [Depois da esfera das estrelas fixas] ‘vem Saturno, que executa seu circuito em trinta anos; depois dele, Jit, que se move em uma revolugdo duodecenal. Entio, Marte, {que circungira em dois anos. O quarto lugar nessa ordem ¢ ocupado pela revolucdo anual, que, como j dissemos, contém a Terra, com © orbe da Lua como um epiciclo. No quinto lugar, Vénus resolve «em nove meses. Finalmente, osexto lugar ocupado por Merctirio, ue gira no espago de oitenta dias. ‘Mas no centro de tudo situa-se o Sol. Quem, com efeito, nesse esplEndido templo colocariaa luz em lugar diferente ou melhor do ue aquele de onde ele pudesse iluminar a0 mesmo tempo todo 0 templo? Portanto, no é impropriamente que certas pessoas cha- mam-no de lampada do mundo, outros de sua mente, outros de seu ‘governante, Trismegisto [chama-o] de Deus visivel, Electra de S6- focles, oOnividente, Assim, como que repousando no trono real, © Sol governa a circundante familia dos astros. ‘Temos de admitir a evidéncia: o mundo de Copémico ¢ finito. ‘Além disso, parece, do ponto de vista psicolégico, bastante normal ‘que ohomem que deu o primeiro passo, o de deter o movimento da es- fera das estrelas fixas, hesitasse antes de dar 0 segundo, o de dissol- vé-la em umn espayo ilimitado; bastava a um s6 homem movera Terra © aumentar 0 mundo a ponto de torné-lo incomensurével — immen- sum, Pedit-Ihe que 0 tornasse infinito seria realmente demais. Grande importancia tem sido atribuida a ampliagao do mundo copernicano em comparagao com 0 medieval — seu didmetro é pelo ‘menos duas mil yezes maior. No entanto, ndo devemos nos esque- 32 cer, como 0 professor Lovejoy 4 observou,"? que mesmo o mundo aristotélico ou ptolomaico no era absolutamente aquela coisinha miniscula que vemos representada nas miniaturas que adornam os ‘manuscritos da Idade Média e do qual Sir Walter Raleigh prestou uma descrig&o to encantadora.'* Ainda que bastante pequeno se~ gundo nossos padrdes astronémicos, e mesmo para os de Copéni co, esse mundo era por sis6 suficientemente grande para no ser vis- to como construido a escala do homem: cerca de 20,000 raios terres- tres, esse era o mimero aceito, ou seja, aproximadamente 200,000,000 quildmetros. ‘Nao nos esquegamos, além disso, que, em comparagao com oi finito, o mundo de Copérnico nao é absolutamente maior do que o da astronomia medieval; ambos so como nada, porque infer finitum ef infinitum non est proportio. Nao nos aproximamos do universo infi- nito aumentando as dimensdes de nosso mundo. Podemos torné-lo ‘to grande quanto quisermos; isto ndo nos situa em nada mais perto da infinitude."* ‘Nao obstante, € claro que é mais facil, psicolog logicamente, passar de um mundo muito grande, incomensurdvel € ‘em continuo crescimento, para um mundo infinito do que realizar ‘esse salto partindo de uma esfera bastante grande, mas ainda determi- navelmente limitada; a bolha do mundo tem de inchar antes de reben- tar. Parece também claro que com sua reforma, ou revoluglo, da as- tronomia, Copémico removeu uma das mais validas objegdes cienti- ficas contra a infinitude do universo, baseada, precisamente, no fato ‘empirico, sensorial), do movimento das esferas celestes. infinito néo pode ser atravessado, argumentava Aristoteles. ra, as estrelas giram, donde... Mas as estrelas nfio descrevem um iro, elas esto iméveis, donde... Nao surpreende, pois, que relativa- mente pouco depois de Copémico alguns espiritos ousados tenham dado 0 passo que ele recusou-se a dar, e asseveraram que a esfera ce- leste, isto é, a esfera das estrelas fixas da astronomia copernicana, nio existe, e que 0 céu estrelado, no qual os astros se situam a diferentes distancias da Terra, “estendia-se infinitamente para o alto”. mente, se no 33 Admitia-se comumente, até uma época bastante recente, que foi Giordano Bruno (inspirando-se em Luerécio e Nicolau de Cusa,"* os quais ele interpretou mal, porém de maneira criativa) o primeiro a dar esse passo decisivo. Hoje em dia, depois da descoberta por F. S. John- sone. V. Larkey,* em 1934, da Descrigdo perfeita dos orbes celes tes segundo a antigitissima doutrina dos pitagéricos, recentemente ressuscitada por Copérnico e reforcada por demonstracdes geomé- tricas, que Thomas Digges, em 1576, acrescentou a Prognosticacdo sempiterna (Prognostication everlasting) de seu pai, Leonard Dig- ges, essa honra, ao menos em parte, deve ser creditada a ele. Com efeito, embora o texto de Thomas Digges possa ser interpre- tado de muitas maneiras (nem a minha prépria concorda in forum com ade Johnson e Larkey), é evidente que Digges foi o primeiro coperni- cano a substituir a concepgaio de seu mestre, a de um mundo fechado pela de um mundo aberto, e que em sua Descri¢do, na qual ele oferece ‘uma tradugZo bastante boa, ainda que um tanto livre, de De revolutio- nibus orbium coelestium, ele faz alguns acréscimos bastante interes santes, Em primeiro lugar, a descrever o orbe de Saturo ele insere a informago de que esse orbe & “de todos 0s outros 0 mais préximo seguir, ele substitui o conhecido diagrama copernicano do mundo por outro, no qual as estrelas se acham dispostas em toda a pagina, tanto acima como abaixo da linha com a qual Copémnico representou a ulti- ‘ma sphaera mundi. O texto que Digges acrescenta a esse diagrama & curiosissimo, Em minha opinido, ele expressa a hesitagdo ea incerte- 2za de um espirito ~ dos mais ousados, aliés — que, se por um lado nto 86 aceitava a concepgiio do mundo de Copémico, mas ia até além dela, por outroainda estava dominado pela concepe0—ou imagem — religiosa de um céu situado no espago. Thomas Digges comega por nos dizer que:"” ( orbe das estrelas fixas se estende esfericamente na altitude infinitamente para o alto ¢ [é] por consequéncia imével, 34 Entretanto, ele acrescenta que esse orbe é ‘opalacio da felicidade, adomado de inumeraveis luzeiros glo- riosos, resplendendo perpetuamente e ultrapassando de Jonge em cexceléncia nosso Sol, tanto em quantidade quanto em qualidade, Equeeleé a corte do grande Deus, a habitagio dos eleitos e dos anjos ce- lestes. © texto que acompanha o diagrama desenvolve essa idéia:"* ‘Nao podemos jamais admirar suficientemente essa maravilho- sa e incompreensivel ordem imensa da obra de Deus, proposta @ nossos sentidos: com efeito, a bola da Terra, sobrea qual nos move- ‘mos, a0 senso comum parece grande, porém comparada com 0 orbe da Lua é muito pequena; mas comparada ao Orbis magnus, em que esta contida, mal conserva uma dimensio sensivel, tio maravilho- samente & esse orbe do movimento anual maior do que o pequeno ‘astro escuro em que vivemos. Mas ndo sendo esse Orbis magnus, como foi declarado antes, senfo semelhante a um ponto em relaglo ‘ imensiddo do céu imével, podemos facilmente nos dar conta de {quanto é pequeno na obra de Deus este nosso mundo Elementar ‘corruptivel, mas nio poderemos jamais ser suficientemente capa~ zes de admirar a imensidao do Resto. Especialmente daquele Orbe Fixo, adomado de imumeriveis luzviros e que se estende para o alto ‘em uma altitude Esférica sem fim. Desses luzeiros Celestes de- ‘e-se pensar que no percebemos seno aqueles que esto na parte inferior do mesmo Orbe, ¢ que, i medida que se alteiam, parecem cde uma quantidade cada vez menor, até que, nfo sendo nossa visio capaz de ir mais longe, ou de conceber, a maior parte deles perma- nece invisivel para nés, em raz de sua distincia espantosa. E bem podemos imaginar que ali se site acorte gloriosa do grande Deus, sobre cuja obra inacessivel e invisivel podemos em parte conjectu- rara partir desses luzeiros visiveis, ea cuja poténcia emajestade in- 35 Sw A poe kfaipioncf be Cabal Orbe, mal eet drat ft Pptbegorcane. Gre, He hte Sete ee a tet Figura 2 Diagrama do universo infinito de Copé por Thomas Digges (Ge A Perfit Description of the Caelestiall Orbes, 1576) 36 finitas somente convém um tal lugar infinito, excedendo todos os demais, tanto em qualidade como em quantidade. Mas como 0 mundo esteve por tanto tempo acostumado & opinito da estabilida- dda Terra, a opinido contraria ndo pode ter hoje em dia sentio mui- to pequena forga de persuasao. ‘Assim, como vemos, Thomas Digges coloca suas estrelas nos céus teoldgicos, ¢ nfo em um céu astronémico. Na realidade, nao estamos muito longe da concepgdo de Palingenius ~a quem Digges conhece © cita—e, talvez, mais perto dele do que de Copémico. E verdade que Pa- lingenius coloca seus céus acima das estrelas, a0 passo que Thomas Digges os coloca entre elas. No entanto, ele mantém a separago entre ‘nosso mundo ~o mundo do Sol e dos planetas—e a esfera celestial, ha- bitagdo de Deus, dos anjos celestes e dos santos. Escusado dizer, nfo ha lugar para o Paraiso no mundo astronémico de Copémico. E poresse motivo que, em que pese a habilissima defesa dos di tos de prioridade de Digges, feita pelo professor Johnson em seu ex- celente livro Astronomical thought in Renaissance England (O pen- samento astronémico na Inglaterra da Renascenca), ainda acredito que foi Bruno quem pela primeira vez nos apresentou o delineamen- to, ou 0 esbogo, da cosmologia que se tornou dominante nos iltimos dois séculos, e nao posso deixar de concordar com o professor Love- Joy, queem seu classico The great chain of being (A grande cadeiado ‘ser) nos diz que:!* Posto que os elementos da nova cosmografia jé houvessem en- ccontrado expresso em varios lugares, ¢ Giordano Bruno que deve ser considerado o principal representante da doutrina do univers descentralizado, infinito ¢ infinitamente povoado; ele nao s6 a apregoou em toda a Europa ocidental com o fervor de um evange- lista, como foi o primeiro a formular sistematicamente as razdes pelas quais ela foi aceita pela opinio pablica. Com efeito, a infinitude essencial do espago jamais tinha sido afirmada de maneira to precisa, resoluta e consciente 37 | | Assim, jd em La cena de le ceneri,® em que, seja dito de passa- gem, Bruno apresenta a melhor discussio, e refutagao, das objegées classicas aristotélicas e ptolomaicas— contra o movimento da Terra Jamais escritas antes de Galileu,”" ele proclama que??“o mundo ¢ in €, por conseguinte, nao existe nele nenhum corpo ao qual coubes- se simpliciter estar no centro, sobre o centro, na periferia ou entre es- ses dois extremos” do mundo (que, ademais, nao existe), mas somen- te estar entre outros corpos. Quanto ao mundo, que tem sua causa e sua origem em uma causa infinita e em um principio infinito, deve ser infinitamente infinito segundo sua necessidade corporal e seu modo de ser. E Bruno acrescent Estou certo de que... nunca serépossivel encontrar uma razdo sequer meio provavel para que devesse haver um limite a esse uni- Verso corporal, ¢, conseqientemente, para que 03 astros, que esto contidos em seu espago, devessem ser um niimero finito. No entanto, a mais clara e pujante apresentagao do novo Evange- tho da unidade e infinitude do mundo ¢ encontrada em seu didlogo em italiano De linfinito universo e mondi ¢ em seu poema latino De im- ‘menso et innumerabilibus.™ Ha um inico espago universal, uma tnica e vasta imensidao que podemos chamar livemente de 0 Vazio; neleexistem iniime- ros globos como este em que vivemos ecrescemos; declaramos ser este espago infinito, uma vez que nem arazao, nem a conveniéncia, ‘nem a pereeppio sensivel, nem a naturcza the conferens wi line Pois nfo hérazio, nem defeito dos dons da natureza, nem poder ati- vo ou passive que possam impedir a existéncia de outros mundos através do espago, que idéntico, em seu caréter natural, a nosso proprio espago, isto €, por toda parte cheio de matéria ou, pelo me- nos, de éter.”* E verdade que Nicolau de Cusa jé havia dito quase a mesma coi- sa. Entretanto, nfo podemos deixar de reconhecer a diferenga de énfa- se, Enquanto ele simplesmente afirma a impossibilidade de se atribuir 38 limites ao mundo, Giordano Bruno afirma sua infinitude, ¢ regozi- ja-se com isso. A determinagio e aclareza superiores do discipulo em svete. relagdo ao mestre so notiveis. ‘A.um corpo de dimensto infnitando se pode atribuirnem cen- tro nem limites. Pois quem fala do vazio ou do éter infinito nfo Ihe atribui nem peso, nem leveza, nem movimento, nem distingue ai regido superior, inferior ou intermediéria; supde, ademais, que haja nesse espago inimeros eorpos como nossa Terra e outras teras, 1noss0 Sol e outros s6is, todos os quais executam revolugdes nesse espago infinito, através de espagos finitos e determinados ou em tomo de seus préprios centro. Assim, nds na Terra dizemos que a “Terra esté no centro; ¢ todos 0s fil6sofos, antigos e modernos e de quaisquer credos, proclamam sem prejuizo para seus prprios prin- cipios que aqui se encontra verdadeiramente o centro. No entanto, Da mesma forma que dizemos que estamos no centro daquele circulo [universalmente] equidistante, que o grande horizonte eo limite da regido etérea que nos circunda e que nos & prépria, tam- bbém, sem divida, os habitantes da Lua acreditam-se no centro [de ‘um grande horizonte] que inclui a Terra, o Sole 05 outros asros, ¢ {que € 0 limite dos raios de seu proprio horizonte. Assim, a Terra, ‘no mais do que qualquer outro mundo, ndo se acha no centro; endo {stem pontos no espago que constituam péloscelestes determina- dos para nossa Terra, da mesma maneira que ela nfo forma um polo definido e determinado para qualquer outro ponto do éter ou do es- 1pago do mundo; ¢ isso é verdade para todos os demais corpos. De pontos de vista diferentes, todos eles podem ser considerados como ceentros ou como pontos sobre as circunferéncias, como pélos ou Zénites,e assim por diante, Assim, pois, a Terra nao esté no centro ‘do universo;elas6 é central em relagio ao espaco que nos circunda, Em sua interpretagio de Bruno, 0 professor Lovejoy insiste na importancia que ele atribui ao principio da plenitude, que governa seu pensamento domina sua metafisica.”” Ele esta coberto de razio: 39 Bruno utiliza o principio da plenitude de modo extremamente radical, rejeitando todas as restrigdes com as quais os pensadores medievais procuraram limitar sua aplicabilidade, e tirando dele, ousadamente, todas as consequléncias que ele implica. Assim, antiga e célebre 4questio dispurata: por que Deus nao criow um mundo infinito? ~ per- guntaa que os escolasticos medievais deram resposta tio boa, ou seja, negando a propria possibilidade de uma criatura infinita ~ Bruno res- ponde simplesmente, e se torna o primeiro a fazé-lo: Deus o fez. E mais ainda: Deus nao podia fazer outra coisa. Com efeito, 0 Deus de Bruno, a um tanto incompreendida infini- tas complicata de Nicolau de Cusa, nao podia se explicar ¢ se expres- sar sengio em um mundo infinito, infinitamente rico e infinitamente extenso2# Eassim queaexceléncia de Deus se exalta eque agrandeza de seu reino se manifesta; Ele ¢ glorificado no em um iinico, mas em incontaveis séis; no em uma tinica Terra, mas em mil, que digo?, ‘em uma infinidade de mundos. De sorte que nao é va essa pujanga de intelecto que, sempre, quer e logra a adigdo de espago a espago, massa a massa, unidade a lunidade, niimero a nimero, no é va a cincia que nos liberta dos erilhes de um reino estretissimo enos promove liberdade de um império verdadeiramente augusto, que nos livra de uma pobreza imaginada e nos conduz & possessto das riquezas pingues de to vasto espago, de um campo to digno de tantos mundos cultivados, Essa cigneia ndo permite que 0 arco do horizonte, que nossa visto iludida imagina sobre a Terra e que por nossa fantasia ésinvulada ro éter empireo,aprisione nosso espirto sob a custédia de um Plu- to ou a mercé de um Jipiter. A nds é poupada, assim, aidéia de um dono ti rico ¢ ao mesmo tempo de um doadar tio mesquinho, sér- ido e avarento. 4J4 se salientou muitas vezes ~ com justiga — que a destruigao do cosmos ¢ a perda, pela Terra, de sua situagdo central e singular (se ‘bem que por nenhum motivo privilegiada) levaram inevitavelmente a perda, pelo homem, de sua posicdo singular e privilegiada do drama 40 teocésmico da Criagao, da qual o homem era, até entdo, tanto a figura central como a cena. Ao fim da evolugao, encontramos 0 mundo mudo e aterrorizante do “libertino” de Pascal,”” 0 mundo desprovido de sentido da filosofia cientifica moderna, Ao fim, encontramos ni lismo e desespero. Contudo, nao foi assim no comego. 0 deslocamento da Terra do centro do mundo nao foi sentido como uma degradagio. Muito pelo contrario: é com satisfagdo que Nicolau de Cusa afirma sua promo- ‘¢40 a0 plano dos astros nobres quanto a Giordano Bruno, é com en- tusiasmo ardoroso — 0 entusiasmo de um prisioneiro que vé desmo- ronarem as paredes de sua prisdio —que ele anuncia a extingfio das es- feras que nos separavam dos vastos espagos abertos ¢ dos tesouros inexauriveis do universo eterno, infinito e sempre em mutagio. ‘Sempre em mutagao! Uma vez mais, lembramo-nos de Nicolau de Cusa, ¢ uma vez mais constatamos a diferenga entre suas concep- ges fundamentais do mundo —ou da maneira como eles sentiam 0 mundo. Nicolau de Cusa afirma que a imutabilidade nao pode ser encontrada em parte alguma de todo o universo; Giordano Bruno vai além dessa simples afirmaso; para ele, movimento e mutago so sinais de perfeigiio, e nao de auséncia de perfeigdo. Um universo iniutavel seria um universo morto; um universo vivo tem de ser ca- paz de mover-se e de se modificar.*° [Nao ha fin, termos, limites ou muralhas que nos possam us- para mulidio infinita das coisas ou privar-nos dela, Por isso a Ter- 2€ 0 oceano sfo fecundos; por iso o clario do Sol & eterno; por isso hé ctemamente provimento de combustivel para s fogusiras vorazes, ea umidaderestaura os mares exauridos, Porque do infin to é engendrada uma abundancia sempre renovada de materia, Assim, Demécrito ¢ Epicuro, que sustentavam que tudo atra- -vésdo infinito sofria renovagioe restauracdo, compreendiam essas {questBes melhor que aqueles que a todo custo mantém a crenga na imutabilidade do universo,alegando um niimero constant e inv ridvel de particulas de material idéntico que perpetuamente sofrem transformagdo umas em outras, - Sibi/UFG ‘Nao se pode sobrestimar a importancia do principio da plenitude para o pensamento de Bruno. Contudo, ha também nele dois outros aspectos que me parecem tao importantes quanto esse principio, asa- ber: (a) a utilizagao de um principio que, um século depois, Leibniz — que decerto conhecia Bruno e foi influenciado por ele — viria a deno- minar principio da razdo suficiente, que suplementa o principio da plenitude e que, no devido tempo, o substituiu; e(b) a transigao deci- siva (ja anunciada por Nicolau de Cusa) da cognigao sensual para a telectual em sua relago com 0 pensamento (intelecto). Assim, ao iar-se 0 Didlogo sobre o Universo infinito e os mundos, Bruno (1 oteo) afirma que a percepedo sensorial, como tal, é confusa e errénea endo pode ser erigida em base do conhecimento cientifico e filos6fi- co. Mais adiante ele explica que, enquanto para a percepgao sensorial para aimaginagio a infinitude ¢ inacessivel eirrepresentével, para o intelecto, a0 contrério, ela £0 primeiro e mais seguro dos conceitos." FILOTEO—Nenhum sentido corporal pode perceberoinfi 10, No podemos esperar que nenhum de nossos sentidos estabele- ‘sa essa conclusto; pois o infinito ndo pode ser objeto dos sentidos; portanto, quem intentar obter esse conhecimento através dos senti- dos é como aquele que desejasse ver com os olhos tanto a subst cia como a esséncia, E quem negara existéncia de uma coisa mera- ‘mente porque ela no pode ser apreendida pelos sentidos, ou nao fosse visivel, chegaria a negar sua propria substancia e seu préprio ser. Por conseguinte, deve haver algum limite na procura de teste- ‘muunho por parte denossos sentidos, pois 6 podemos aceiti-lo com Felagio a objetos sensiveis; mesmo assim. nfo esté acima de toda suspeita, a menos que comparega ao tribunal com o adjutério da boa razio. Compete ao intelecto julgar,atribuindo o devido peso a fatores ausentes e separados pela distancia do tempo e por interva- los de espago. E nessa questo nossos sentidos nos bastam ¢ nos proporcionam testemunho correto, uma vez. que eles no nos po- ‘dem desmentir; no mais, eles anunciam e confessam sua propria