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CHALHOUB Sidney - Visões Da Liberdade

Tese de doutorado de Sidney Chalhoub sobre os momentos finais da escravidão no Brasil

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Diego de Farias
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SIDNEY CHALHOUB UTSGES DA LIBERDADE: uma historia das iltimas décadas da escravidgo na Corte. Tege apresentada ago curs so de doutorado em histo~ ria da Universidade Esta~ dual de Campinas = como parte dos requisitos para a obtengdo do titulo de Doutor em Histéria. Orientador: Professor Dr. ROBERT U. SLENES. UNIUERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS Institute de Filosofia @ Ciéncias Humanas Departamento de Historia Campinas 1989 lOTECA CENTRAL vA 10718/BC Para meus pais, Nabih @ Ermelinda: por tudo. Para meus avés. Norival « Ilka: porque suas histérias sempre emba— laram meu interesze pela historia. AGRADECIMENTOS: A maior parte da pesquisa que dau cricem a esta tesa foi realizada na Arquivo do Primeiro Tribunal do Juri da cidade do Rio de Janeiro (APTI? @ no Arquivo Nacional (AN). No APTI. deve’ agradecer primeiramente ao juiz presidente da tribunal. Dr. Carlos Auguste Lopes Filho, que me concedeu a autorizacdo para pasquisar os autos criminais 14 arquivades. OG escrivée Luiz da Costa Guimaraes @ os funciondrios Ailton Alves de Mello « Cicero Hébraga Gales fizeram o possivel para me proporcionar condi gées minimas de trabalho no juiri. No AN, foram tantas as pessoas que me atenderam, e@ que se desdobraram para localizar meus pedides, que seria impossivel agradect-las nominalmente. Registre winha gratidae a todos com uma mengdo henrosat toda uma serasio de historiadares que tem passado pela sala de consulta do AN nes Wltimos anes saberd reconhecer @ que deve ao conhecimenta e ao profissionalismo de Eliseu de Aradio Lima, o "Sau" Eliseu. Ne capitulo dog agradecimentos 20s Ieiteres critices, a lista poderia ser muito longa. Desculpando-me antecipadamanta pelas omisses, agradeso acs amigos que leram @ comentaram artigos e verstes preliminares de capitulos: Michael Hall, Edgar de Decca, Maria Stella Bresciani ¢ Luiz Marques estdo entre eles. Maria Clementina Pereira Cunha leu = comentou a tese inteira, incentivou sempre, riu da tese, as vezes riudo autor «, sem saber, ajudou assim a manter o meu humor --e @ humor da texto-~ em oniveis razodveis mesmo nos momentos mais dificeis da trajetéria. Duss outras amigas continuam a ser para mim pontos necessérios de referéncia, e sempre acodem a meus pedides de gocorro intelectual: Gladys Ribeiro e Martha Esteves. Por mais que eu tente, nfd consigo pensar esta tase come um rebento individual, Posso agsumir individualmente a responsabili- dade pelos seus erros, pio pelos seus acertos, Desde o inicio, foi essencial a convivéncia intelectual com os companheires da linha de pesquisa sobre escraviddo no departamento de histéria da UNICAMP. Eu era um neéfito no assunte, e de repente me vi cercado por vérios pesquisadores experientes, com muitos anos de trabalho sobre a histéria da escravidéo. Célia Azevedo e Leila Algranti leram ¢ comentaram comigo parte do texto. Rebecca Scott visitou o departamento em 1986, -ministrou um seminario importante, @ me ajudou no precesso de definicko do tema. Peter Eisenberg lia sempre meus textos, fazia seus comentdrios por escrita, e depois repassava camigso os textos @« os comentdrios. Suas cartas comantériogs estiveram sempre comigo, e@ me ajudaram inclusive no esforsa final de revisfo, Silvia Lara fei, nos iltimos anos, uma interlocutera constante. Sua contribuicéo néo estd neste ou naquele ponte espacifico do texte, mas na propria maneira de conceber todo o problema. Como sempre, cla terd suas er{ticas e discordincias om relagio a esta versio final, mas eu rnéo teria chegado até aqui sem estas criticas ¢ discordéncias ©, certamante, precisarei delas para ir adiante. Desta var talver seja maiz facil agradecer a Robert Slenes, ma orientador em duas teases @ ac longo de mais de oito anos. Seria desnecessdrio dizer que o disc{pulo aproveiteu ao maxima todo © conhecimenta e a erudigéa do mestre a respeito do tema do trabalho. Seria desnecessério, porque € ébvio, © ainda seria pouco. 0 que agradeco ao Bob é aquilo que um discipulo deve a0 verdadeire mestre: obrigado por ma ter ensinada o seu off{cic, e 2 waior ambicéo que tenho em relacdo a esta tese é que ela estesa & altura de seus ensinamentos. A familia me brindou com @ apoie incandicienal de sempre. Quanto & Sandra... Bem, 0 que dizer? §é voce conhece "a cutra histéria" de duaz tezes, @ voc soube lidar com isso com uma generosidade e elegincia impressionantes. Nos \Wltimes meses, quando o cansago chegou a abalar a minha garra habitual, foi vec quem me manteve em pa. Agradeco ainda ac CNPq pela ajuda financeira que viabilizou = pesquisa num perfodo em que as autoridades estaduais em 3F pareciam seriamente empenhadas em dastrogar a universidade. Infelizmente, 9 CNPq desistiu de prestar seu auxflio na rete final; felizmente, eu J estava embalado o suficientes para gquir terminar o texto. Finalmente, devo um obrigado aes meus alunos na UNICAMP: aqueles dentre eles que se aventurarem pelas paginas sue se seguem certamente lerio agora muitas coisas que ouviram antes. Maz néo lerfo agora exatamente aquilo que cuviram antes, = isto porque tive a sorte de encontra-los no meio do caminho. Rig de Janeiro, margo de 1989. RESUMOs O objetivo da tese 4 contar uma histéria do processo de aboligto da escraviddéa na Corte. A narrativa se tece a partir da idéia de que € possival entender aspectos dest= processo através da recuperacts da diferentes interpretacdes ou visdes de cativei-~ roe de liberdade existentes no perfode, assim como das lutas das personagens histéricas produtoras destas diferentes interpre taghes ou visées. G primeira capftulo sborda © problema daz percepctes @ das atitudes dos prépricg escravos diante daz situagtes de transferancia de sua propriadade. ( argumento proposte @ 0 de que havia Vistes escravas da escravidéo que transformavam as iransacées de compra @ venda de negros em situagées muite mais complexas do que simples trocas de mercado. © segundo capitulo & uma andlise da ideologia da alforria e suas transformagées na Gorte na segunda metade do século XIX. Propée-se aqui uma reinterpretacdo da lei de 28 de setembro de 1871: em algumas de suas disposicde: mais importantes, como em relagio ao pecdlio dos escravos ¢ ao direito 4 alforria por indentzacéo de preco, a lei ntow o reconheciments legal de uma série do ventre livre repr de direitos que os catives vinham adquirinds pelo costume, @ a aceitacto de alguns doz objetivos das lutas dos. negroes. ultimo capitulo trata da “cidade negra": os escravos, libertos e nearoz livres pobres do Rio institutram ac lenge do século XIX uma cidade arredia @ alternativa, possuidora de suas préprias racio~ nalidades © mowimentos, © cujo sentido fundamental foi fazer desmanchar a instituicto da ascravidido na Corte. SUMMARY: This digsertation is a history of the pracess of the zbolition of slavery in the city of Rio. The text is built on the idea that it is possible to understand important aspects of this historical process through the reconstruction of the Si fferent interpretations or Visions of slavery and freedom which existed in the period, as well as through the investigation of the histerical struggles of the people whe produced such interpretations or visions. The first chapter deals with the problem of the slaves! own perceptions and attitudes regarding property transactions which invelved the selling af themselves. My argument ig that these transactions became increasingly complicated throughout the 13th century due to the pressures and expectations spelled out by the Slaves. The second chapter analuzes the ideology of manumission and its changes in Rio in the last decades of slavery. I alge propose a reinterpretation of the Free Girth Law of 1871: such las was in some essential aspects the legal recognition of a series of rights that slaves had been gradually acquiring in their daily struggles under bondages that ig, in 1@71 the ingti- tutional framework of society was somawhat enlarged in order to encompass customary rights slaves had been seeking and actually obtaining in everyday social relations. The third chapter deals with the “black city that is, blacks transformed the urban environment in the Imperial Court inte an ensemble of meaninas and actions which, independently ar not of the intentions of the historical agents, led to the gradual demise of slavery. SUMARIO: Introducdo: Zadig 2 a Historia. Kotas a Introdugda. | Capitulo I: NegScios da escravidado. 4. Inquérito sobre uma sublevagéo de escraves. 2. FiceGes do direito e da histéria. %. Veludo © os negécios da escravidéo. 4. Nesécios pelo avesso. 5. Castigos © aventuras: as vidas de Bréulic « Sera fim. 6. Gs irmfos Carlos @ Ciriacor mais contusdo ne loja de Veludo. 7. Epflogo. finexo ac Capitule I. Notas ao Capitulo I. Capitulo Il: Vises da liberdade. 3. BONS DIAS: 2. Vida de peteca: entre a propriadade @ a 1i- berdade. 3. Sedutoras @ avarentos. 4. Charadas escravistas. 5. Atos solenes. 6. Cenas do cotidianc. 7. 1871: az prostitutas @ 0 significado da lei. &. G retorna ingléria de José Moreira Veludo. Notas ac capitule IT. pas. ar 69 92 188 412 125 131 132 142 151 1rd 187 226 235 255 Cap{tulo II: Cenas da cidade neora. ie De Bonifécio a Pancrdcio: a concluséo do capitula anterior. 2. Um "objeto" grauissimo: "a sesuranca a guranga". 3. "Profundo abalo em nossa sociedade". 4. & cidade esconderijo. 5. OQ esconderijo na cidade: of cortices « Jiberdades Netas ao capitulo TIT. Epilogo: A despedida de Zadig, # breves considera- gties sobre o centenirio da Abolicto. Fontes @ Bibliografia. I, Fontes manuscritas. Il. Fontes impressas citadas. Ill. Bibliografia citada. Indice Gnomastica. 268 286 2e4 33 358 381 a94 402 40s 47 419 425 INTRODUGAO: Zadig e a histéria. Yadis, 9 sébio da Babildnia que protagoniza go livra de Voltaire --intitulada Zadig ou o Destino, publicado pela primeira i $ vez em 1747 —-, estava decepcionado com seu casamente @ procurou #@ consolar como estudo da natureza, Secunda ele, ninguém poderia ser mais feliz do que “um fildéscfo que 1@ 0 grande livro aberta por Deus diante das nossos olhos". Fascinado por estas idéias, @ como a esposa se tornara mesmo “dificil de aturar’, o sébio recolheu-se a uma casa de campo @ nfo se ocupou, por exemplo, em “calcular quantas polegadas de dgua correm por segundo sob os arcos de uma ponte, ou se no més do rato cai uma linha cdbica de chuva a wais que na més do carneiro". Tais cdlculos nfa o cativavams o que Lhe interessava sobretudo era oo astudo das propriedades dos animais @ das plantas. Zadig acabou adquirindo tal sagacidade, que consaguia apontar "mil diferencas onde os outros homens viam sé uniformidade". 0 mozo entrou logo em apures por causa disso. Carte dia, Passeava ona orla de um bosque quando wiu aproximares-se, esbaforides, um eunuco da rainha e vérios oficiais. Os homens Pareciam 4 procura de alguma preciosidade perdida. Com efeito, o eunuco Perguntou a Zadig s# ele nfo havia visto o cachorre da rainha, que estava desaparecide: este rezpondeu-lhe com uma sorregdo: tratava-se de uma cadela, e@ néo de um cachorro, © Prossequiut "é uma cachorrinha de caca que dew cria ha pouco tempos wanqueia da pata dianteira esquerda @ tem orelhas muito compridas". “Uiueu entio?", tornou a perguntar, impacients, o eunuce. "Néo", respondeu Zadig, “nunca a vi @ nem mesmo sabia que & rainha livesse uma cadela". Justamante naquela ocasige, por um desses caprichas do destina, também c mais belo cavalo da rei fugira para as campinus da Babilénia. (ie perseguidores do cavalo, t#o esbaforidos quanta os da cadela, encontraram=se com Zadia 6 perauntaram-the ge nto “dio cawale Vira passer ¢ animal, 0 sébio respondeu. explicando que melhor galopa..< tem cinco pis da altura eos cascos muito Pequencs; sua cauda mede trés pds de compriments ¢ as rodelas de seu frei séo de oure de vinte e trés quilates: usa ferraduras de prata ge onze dengrios". “Cue caminho tomou ele?", persuntou entdo um dos oficiaig do rei. “Mfo sei", respondeu Zadia, "nao o vi nem nunca ouvi falar nele" Zadig foi preso, suspeito de ter roubado a cadela da rainta @ © savele do rei. Qs animais, todavia, apareceram logo em Seguida, livrando-se assim © moga da acusacto, Apesar disso, os duizes aplicaram-ihe uma wulta “por dizer que no vira o que tinha visto". Paga a mults, os magistrados finalmante resclueram ouvir ag explicagées do sébio da BabilSnia: "juro-vos... qua nunca vi a respeitdvel cadela da rainha, nem o ssarado cavalo do rei dos reis. Aqui asta 9 que ma sucedeur andava eu passeando pelo pequeno bosque onde depois encontrei o venerdvel eunuco © 2 muito ilustre monteiro-mor. Percebi na areia pegadas de um animal, @ facilwente concluf serem az de um cdo. Leves e longos sulces, Visiveis nas ondulagtes da areia entre og vestisios das patas, revelaran-me tratar—se de uma cadela com as tetas pendentes, ¢ que, portante, devia ter dado cria poucos dias antes. Outros traces em sentido diferente, sempre marcando a superficie da areia ao lado das patas dianteiras, acusavam ter la orelhas muito grandes? © coma aldm disso notei sue as impressties de uma das patas eram menos Tundas que das outras trés, deduzi que = vadela da nossa auay rainha manquejava um pouco...". 2 Em seguida, Zadig explicou aos juizes admirades como, usando o mesmo método, fora capaz de descrever o cavalo da rei sem t#-to jamais visto. © fascinio do Zadig de Voltaire vem resistinds ac tempo. Em G Nome da Rosa, de Umberto Eco, a sabederia de Guilherme de Baskerville etd firmamante enraizada em sua capacidade de “recontecer os tragos com que nos fala a mundo coma um grande Lira’ Logo no inicio da narrativa, Guilherme oferece sua primeira demonstracéo de argicia através da aplicacéo do métoda se Zadig. Ele @ Adso, pouco antes de adentrarem a abadia, se encontraram com um agitado grupo de monges © dea famulos. Feitos os cumprimantos de pra: Guilherme agradeceu ao despenseire a gentileza de ter interrcmpids a persesuicde av cavalo do abade Por sua causa, Surpreso, o despenseiro quis saber da visitante quando havia visto o animal. Com um ar divertide, Guilherme respondau ac homem que née vireo cavale, ¢ prosseguiu: "é evidente que andais 4 procura de Brunello, @ cavalo favorito do Abade, o melhor salopador de vossa escuderia, de pélo preta, cinco pés de altura, de cauda guntuosa, de casco pequenc e redon— do mas de galope bastante regulary cabeca diminuts, orelhas finas © olhos grandes. Foi para 4 direita, Os monses 2 os famulos zeguiram na directo apontada por ecapturaram o animal, © retornaram para a abadia Guilherme, logo satisfeitos como sucesso da operagda © um tants atordoadas com a que haviah presenciado. Guilherme explicou depois a Adso como descabrira tanta coisa a reaspeite do cavalo de abade sem jamais ter posto nele os olhes. Assim como no case de Zadig eo cavale a cadela sumides ma Gabilénia, © sdbie retratado por Umberto Eco se valeu de uma observacto cuidadosa day pegadas deixadas no solo, doz galhos de drvore partides, dos pélos grudadoz am egpinhos, etc. Q discfrulo, pordm, née compreendia como o mestre pudera saber que o animal tinha “cabeca diminuta, arelhas finas @ olhos grandes". Cada vez mais orgulhoso de sus perspicdcia, Guilherme explicou a fidso que realmente ndo sabia se o cavalo tinha tais caracter{sticas, “mas com certeza os monges acreditam piamente niss Esta descrigéo condizia com os padrées da beleza de um cavalo segundo Isidore de Sevilha e, portanto, @ cavalo favorito de um douto beneditine certamente teria estas caracterfsticas ou, © que naste contexto significa a mesma coisa, todos no mosteira acreditariam que o animal possufa tais caracterfsticas. Um vaciocinio semelhante fez com que Guilherme adivinhasse que o savalo favorite do abade sé poderia se chamar Brunello. Q Zadia de Voltaire parecia preccupado em aplicar sau método Principalmente ao @studo das "propriedades dos animais © daz plantas"; Umberto Eco sugera que procedimentos setmelhantes podem ser utilizades na andlize de contextes culturais. Como comentou Adso a respeito de Guilherme de Saskerville: "Assim era meu mestre. Sabia ler nfo apenas no grande livre da ratureza, mas também np modo como of monges liam os livros da eeeritura, Bensavam através ‘deles, Dote que, come veremas, lhe seria bastante util nos dias que se sequiriam". 5 QO wdétode de Zadig tem encontrada seus adeptos também entre os historiadores. Nie 4 outro, por exemplo, o pracedimenta de Robert Darnton em O Grande Massacre de Gatos. Partindo de documentos inicialments "opacos" -~algo semelhante aos rastros ou Pistas analisados por Zadig e Guilherme--, Darnton procura ter acasco 2 “um Universo mental estranho”, a significados que lhe ravelem come pessoas de outre tempo e sociedade pensavam aspectos de au Prépria mundo. Gaui tudo comeca com a premissa de que “a expressdo individual ocorre dentro de um idioma geral, de que aprendemos a classificar. ar sensagdes ¢ a entender as coisas pensanda dentro de uma estrutura fornecida por nossa cultura’. o historiador, portante, através de um esforco minuciogo de decodificagio @ cantextualizacto de documentes, poda chesar a descobrir a “dimensfo gocial do pensaments". Assim, torna-se possivel aprender muito sobre a historia cultural francesa do Século MUIII se conseguimos entender o porqué de um grupo de artestos parisianses achar deveras hilariante um episédio aparentements tfo sem grasa quanto uma carnificina de gatos. Podemas lembrar também da forma sistemdtica com que o historiador Carlo Ginzburg persegue e reconstitui as experiancias de leitura de moleiro Menocchio come uma forma de acesso a 4 aspectos da cultura popular na norte da Itdlia no séeulo KUT. 0 Queijo e os Vermes aparece. na Itdlia em 1976; em 1980, exatamente o ano da primeira adi¢do italiana de G Nome da Rosa, Gingburs publicou um artigo sobre os métodge da histéria na revista inglesa History Workshop ~~o artigo intitula-se "Morelli, Freud and Sherlock Holmes:, Clues and Scientific Method" <"Pistas s° @ Método Cienti fica"). ~~Indicios® Mais do que uma reflexdéo e descrig&o pormancrizadas de sua prépria pratica como historiador, o artigo de Ginzburg tem o objetivo de digcutir o suraimento, em fins do século NIX, de um paradigma de construgde do conhecimento mas ciéncias humanas que busca ir além do eterno contrastar esterilizante entre oo “vacional” @ o “irracional", o "particular" @ o “geral", a atitude "fragmentdria" @ a "holistica", ete. Morelli foi um eritico de arte do século passado que criou um controvertido método para a identificac&a correta da autoria de quadros da velbos mestres da pintura. Segundo Morelli, os critices deveriam abandonar a convengdo de que a mangira mais segura de distinguir 2 obra de um mestre da de seus imitsdores era concentrar a andlise nas caractaristicas mais importantes daz pinturas do mestre. Por exemplo, a melhor forma de diztinguir um verdadeiro Leonardo da Uinci de uma imitacéo da Leonardo nfo era centrar tedo © asforso na observaste do sorriso das mulheres nos quadros; este seria um aspecto crucial, @ qualquer impostor mais esperto nfo se deixaria pegar neste ponte. 0 procedimento mais apropriads, entéo, na opinige de Morelli, era focalizar os detalhes & primeira Vista mais irrelevantes na escola do artista em questac —-podiam ser as unhas, os lébuloz daz orelhas, ou qualquer outro aspects nfo explicitamante valorizado naquele contexto--, detalhes que os mestres certamente teriam sua prépria Waneira de abordar, mas aos quais os imitadoras provavelmante nda prestariam tanta atengdo. Numa téenica de cruzamento de fontes semelhante & utilizada em G Queijo @ os Vermes, Ginzburg prova que as idéias de Morelli seduziram pessoas tdo diferentes quante Freud @ Arthur Conan Doyle, © criador das aventurag detetivescas de Sherlock Holme: Freud, num artigo de 1914, comantou assim a méteds de Morelli: "Parece-me que seu metodo de investigacdo tem estreita relacdo com a técnica da pgicandlise que também estd acostumada a adivinhar coisas secretas e@ ocultas a partir de aspectos menosprezades ou inebservades, do monte de Lixo, por assim dizer. 6 de nossas observagtas". Segundo Ginzburg, estes tras casos estamos diante do chamado "paradigma conjectural", ou seja, da proposia de criagio de um método interpretative no qual detalhes aparentemente arginais = irrelavantes sSo formas exsenciais de acesso a uma determinada realidader sic tais detalhes que podem dar a chave para redes de significades sociais ¢ psicelégicos wais profundes, inacessiveis por outros métedos. Zadig foi parar na prisdca porque os juizes da Babilénia de inicio nfo acreditaram que ele pudesse ter descrite tsa detalhadamante a cadela da rainha eo cavalo do rei sem t&-loz jamaiz visto. Para os Juizes, assim como para o eunuca e 9 monteire-mor, parecia inconcebivel que alouém. legrasse saber tanta coisa a respeito dos animais sem ter tide a experi€ncia de encontrd~los cars a cara. O sdbio, porém, consaguiu explicar sos juizes como, a partir dos rastros ou dos vestigios deixados pelos animais, ele fora capaz de construir descrigtes verossimais da eadela da rainha @ do cavalo do rei. Na verdade, Zadig articulou as pistas disponiveis no sentido de oferecer ao eunuco @ ao menteiro-mar visties possiveis dos animais, passiveis de astarem corretas dentro de seus limites ¢ de seu ponte de vista, paren mais ou menos corretas dependendo da acuidade do observador. Assim como Zadig @ Guilherme de Baskerville nunca haviam wisto os animais sue descraveram, Ginzburg © Darnten jamais se depararam com os fatos histéricos ac dobrarem uma esquina mais ou menos deserta da zrauivo, Néo, os fatos nunca estiveram 14, de tocaia, prontos para tomar de agsalto as piéginas dos historiadores; foi preciso investigar seus ragtros --os documantos-- @ constru{-los a partir dos interesses especificos de cada autor e@ da imaginacdo controlada caracterfstica da disciplina histérica. Ginzbura utilizou um-método semelhante 20 de Zadig para desvendar aspects da cultura popular na Itdlia do século UI em 0 Queijo e os Vermes =, no artigo de 1930, para discutir suestées epistemolégicas comune as chawadaz ciéncias humanass Darnton extava empenhado em entender episédion da historia cultural francesa no Antico Regime. Em qualquer dos casos, 9 método utilizado ¢ também una tomada de posicio a respeito do objetive do esforca de produc&o do conhecimente. Ou seja, a explicitagdo de um métoda traz em seu bojo uma concerpaéo a respeito de como construir o objeto a ser estudado. Dapendende das opcées tomadas a este nivel, @ objetive do estore intelectual passa a ser a produgio de uma visto da “cadela da rainha", "da cultura popular do norte da Ttdlia no sécule XVI", etc. "no qualquer visio da cadela da rainha ou da cultura 9 Popular, mas aquela wisdo que a estudiesa far capaz de producir a vartir de suas escolhas tedricas @ metodologicas. Nesta tese, a cadela da rainha 4 © procesza histdrico de abolicdo da escravidéo ma Corte. Ao escrever apenas isto, todavia, jd percebo que hé uma lacuna na fornia coma a discussda vem sendo conduzida até aqui. O que falta ao méteda de Zadig, mesmo am suas formulagées maiz racentes em Ginzburg e Darnton, ¢ 2 movimento da histéria, a preecupacto em propor una teoria explicativa das mudangas historicas. Q sdbio da Babilsnia foi levado 3 investigar as propriedades dos animais @ das plantas porque néo lhe era wais possivel aturar B esposa. J4 o trauma de origem desta tese, aquile que me levou a ascrevé-la, & de natureza completamente diversa. Em Trabalho, Lar ¢@ Gotequim, um estude sobre cultura popular na cidade do Rio de Janeiro no inicia do sécule HH, @ utilizando fontas em grande parte semelhantes 4: que utilize nesta texto, encontrei extrema dificuldade em integrar o material bastante rico coletado na z Pesquisa a uma visdo articulada do processo histérico da épaca. Incapaz de abordar criativamente a questgo, porem i intuitivamants cético quante aos esquemaz historiografices tradicionalmente postulados para o perfodo, acredito aue tenha terminado aquele livra num impasse. Por um lado, os processo criminais analisados se revelaram extremamente uteis no sentido de possibilitar uma "“descricko le densa" --lembrando Clifford Geertz, uma leitura que me foi g bastante importante na gcasiao ~ de aspectos da cultura popular carioca no inicio daste século. Isto é espero ter conzeguido reconstruir entgo, mesma que muito parcialmente, alguns aspects significatives das fortias de sentir, pensar @ agir da classe Arabelhadora carioca da época, Por outro lade, nao foi possiuel higtoricizar of sistemas d@ valores, as crengas e as alternativas de conduta tdo minuciosamente descritas na documentaggo coligida. Sendo assim, naquele momento, sé conzegui tratar do problema das mudangas histéricas recorrendo de forma pouco erf{tica ao “caldo” de culture historiogrdfica dispontvel: aquele era um livre sobre a “implantacéo de uma ordem burguesa na cidade do Rio de Janeiro"; gobre o “pracesgoa de constituigdo piena da ordem capitalista" na capitals ou ainda sobre “a transicéo do trabalho escravo para o trabalho livre no Brasil". Ndo pude ir muito alan da simples repetigdo destas frases: slags entravam onde precisaua estar a explicagdo histérica, no lugar onde precisava figurar uma teoria convincenta a respeito da “légica da mudanca” naquela sociedad, A construgde de uma tal teoria é o’objete desta tesa; @ a cadela da rainha que procuraremos "ver", © cujos movimentos Pelo bosque da BabilSnia tentaremos seguir. Serd sempre uma visto da cadela e de seus movimentoss uma visio, porém, abjetiva e@ verdadeira enquante tal. A €nfase na chamada "transigdo" da escravidde ‘ou do escravisme, ou do moda de pradugéo escravista) ao trabalho livre cou & ordem burguesa> @ problemética porque passa a nocds de lingaridade e de pravisibilidade de sentido ne movimento da historia. Gu seja, postulands uma teoria do reflexc mais ou menos a ornamentada pelo politico @ pelo ideolaaico, 9 que se diz é que 2 decadencia ea extinggés da escravidie sa explicam om dltina andlise a partir de légica da producde @ do mercado. Trata-se, portanto, por mais variadas que sejam az nuancas, da viganeia da metdfors base-superestrutura, da idéia, freatientementa geradora da reducionismos grotescos, de "determinacio am Gltima instancia pelo econamico", Em outras palavras, trata-se da postulate de uma espécia de exterioridade determinants dos rumos da histdria, coma se houvesse um destina histérico demiurga de seu destino — @ das intenstes = das lutas dos propricos agentes sociais. Talvez caita frecorrer aqui a intuisto de um poeta: "34 se For wodificaram muitas nogGes relativas ao movimento: hd de se reconhacer, oz PoUces, que aquilo a que chamamos destino sai de dentro dos homens em vez de entrar neles". Prefiro, entéo, falar em "processo histérica", ndc am “transicto", porque o objetivo do esforco aqui, pelo manos em parte, recuperar indeterminacdo, a imprevigibilidade dos acontecimentos, esforse aste que ¢ essencial se quisermos compreender adequadamente o sentido que as personagens histéricas de outra dpoca atribufam as 18 suas préprias lutaz Ao iniciar a longs pesquisa que iria desembocar neste texto, Procurei administrar da melhor maneira possivel o trauma que ertava ona arigem do esfarce. Oe infcio, & preciso reconhecer francamente que, como alias scorre com freqiignciz, © resultado 12 final que ora se apresents ao leiter @ also bastante divers duquilo que 9 autor havia imaginado 14 no ponto de partida. Para comegar, nfo havia nenhuma decis€o préyia em escrever uma histéria do process de aboligdo da escraviddo na Corte. La, nas erigens, hd quaze cinco anos, axistia um aprendiz de historiador. sinco anos mais jovem, com apenas duas idéias na cabec Primeivo, 14 estava a idéia traumatica geral, meio nebulosa, que sonsistia em dar continuidade, como recua de alqumas décadas, aos seus estudos sobre cultura popular na cidade do Ria de Janeiro: © “recuo de algunas décadas" pareceu aquele jovem aprendiz uma maneira infalivel de garantir que, dasta feita, seria possfvel apreendar a "“légica da mudanca” na sociedade estudada. A segunda iddia era muite especifica, resultado de uma circunsténcia: era preciso aproveitar a aportunidade, que havia surgide na ocasido, de pasquisar os processos criminaiz quardados ho Arquivo do Priweiro Tribunal do Juri da cidade do Rio tratava~se de uma documentagdée rica @ Volumosa, com material a partir da década de 1970. O procedimants inicial foi, digames, ambiciozo ¢ aleatorio estava decidido a pesquisar todos os pracessos criminais que ancontrasse nos masos impares do arquivo do jdrd. Desempenhava- minha tarefa cabalistica de andlise dos impares com disciplina espartana: descia os macos daz estantes, abria-os, espanava o pd, esmagava implacavelments as traqas @ baratas que encontrava pelo caminhe, @ fichava os processos conforme eles iam aparecendo. Come ainda no sabia bem acnde queria chegar. of dias no arquivo @ram longos @ sonolentos. Mas fui percebends, sox poucos, que algumas histériaz sacudiam a letargia: Genuine, Addo Africans, 13 Juvéncio, Erdulio... Tedos negros, vdrios escravos. Resolvi antéo dar uma olhada também rox mages pares. Ld estavam o escravo Bonifacio @ seus parceiros, a quitandeira Maria de So Pedro, a Preta Francelina... Eram processos incriveis, pretagonizados por Personagens densaz 2 enmolventes, © que me obrigaram a centar a sua historia. Surgira, entda, um norte para a pesquisa. Passei a abrir todas os maces referentes 4s d&cadas de 1874 © 1880, @ decidi fichar dai em diante apenas os processos que comprovadamente siwolvessem negros --fossem livres ou escraves, aparecessem eles ma condiséo de réus. ofendidas ou testemunhas. Chaguei a ler qase 580 processos criminais no Arquivo do Frimeiro Tribunal do Juri, @ fichei minuciosamante 137 destes processes --sendo que cerea de T@ dos dossiés fichados néo envolvem comprovadamente nesros, jd que foram pesquisados ainda durante a estratésia ecultista de ler sé 0 que havia nos magos {mpares. Ficou loa evidente que nfo havia motivo para fazer qualquer distingdo muito rigida entre os casos que envolviam negros escraves & aquel: if que diziam respeito a negros libertos ou livres. Aa contrérie, as fantes confundiam, misturavam, carregavam de ambigllidade as gavetinhas cartesianas que o pesquisador procuraua inpingir 4 realidada. O trabalho se diracionava cada vez mais, como veremor logo adiante, para a tentative de compreensio do significado da liberdade para escravos e libertos, © era ébvio que a consecusio de tal objetivo dependia da recureragio mais sistemética da experiéncia histérics doz negros da Certe em aeral. A pesquisa ono juri me ocupou durante dois bens anos de 146 Julho de 1964 até meados de 1986. Por essa época, comacei a tatear um outro tipo de documantagéo --as agées civeis de liberdade, que se encgntram no Arquivo Hacional, @ que consisten em processes judiciais nos quais os escravos, através de seus curadores, “procuram conseguir a alforria a seus senhores pelos Wais variades motives. A historia se repeter Felicidade, Pompeu, Carlota, Desideria @ Joana, Christina... E a frase também: eram Processos incriveis, protagonizados por personasens densas ¢ enolventes, 2 que ma obrigaram a contar a sua higtéria. Trabalhei ono Arsuiva Nacional, em tempo integral, de julho de 1986 a fevereiro de 1987: fichei outros 78 procassos, referentes as décadas de 1860, 78 e 88, ates de liberdade na sua arande meioria, @ pesquisei pontualmente alsumas outras fontes. Paralelamente, procurei me familiarizar um pouca com os debates Politicos que resultariam na chawada lei do ventre livre. Agora, olhando para tris, entendo que foi acertada a decisdo de tentar superar o trauma de origem da tese com um maior adensamento @ variedade de fontes e um alargamento no perfode de tempo a ser abordade. & solugdo era essa, sem poder ser bem essa. be fate, hd um certe parentesco entre o meu raciocinio e aquele utilizado pelos jufzes da Babilénia ao tomarem a deliberagio imicial de encarcerar o jovem Zadig: o sébio nga podia ter descrite corretamente a cadela da rainha eo cavalo do rei sem té-los visto: eu nao conseguiria compreender as transformacder sociais na cidade do Rio no perfoda sem “wi-las" estampadas

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