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SOCIOLOGIA NO VESTIBULAR E MINI CURSO DE


SOCIOLOGIA PARA O ENSINO MÉDIO: EXPERIÊNCIAS DA
UNIVERSIDADE FEDERAL DE UBERLÂNDIA

Elisabeth da Fonseca Guimarães


Universidade Federal de Uberlândia

O objetivo principal desta exposição é relatar a inclusão da disciplina


Sociologia nos concursos de vestibular e de seleção para o PAIES
( Programa Alternativo de Ingresso ao Ensino Superior) da Universidade
Federal de Uberlândia. Sem querer abusar da paciência de todos, vou
acrescentar ao meu relato uma outra experiência de ensino que venho
desenvolvendo com alunos do curso de Ciências Sociais: os Mini Cursos de
Sociologia para o Ensino Médio.
Gostaria de dizer que para mim é uma honra poder falar de
experiências que tenho vivido em minha Universidade. Sei que a
responsabilidade desta exposição fica um pouco maior, uma vez que entre
aqueles que me escutam estão os alunos da 1a turma do Curso de Ciências
Sociais da Universidade Estadual de Maringá. Será especialmente para estes
alunos que vou dirigir minha fala. Vocês estão iniciando uma trajetória
acadêmica em uma área do conhecimento científico que cria vínculo e
comprometimento profissional e ideológico por toda uma vida. Espero poder
contribuir com essa trajetória.
A Sociologia no vestibular

A inclusão da Sociologia como disciplina regular no vestibular da


Universidade Federal de Uberlândia só foi possível porque esteve
sedimentada em duas questões objetivas e que se tornaram determinantes em
todo o processo.
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A primeira, de ordem legal, expressa no Parágrafo único do Art. 195


da Constituição Mineira, assegura o ensino de Filosofia e Sociologia no
segundo grau. A segunda, de ordem científico/acadêmica, está voltada para a
importância do conhecimento que o aluno deve trazer consigo para a
universidade. Será preciso esclarecer um pouco mais as duas questões para
entender como as coisas aconteceram e como foi possível vencer essa
batalha.
A questão legal, que diz respeito a obrigatoriedade da Sociologia no,
então, 2o grau, foi uma luta travada por Sociólogos e Filósofos em todo o
Estado de Minas Gerais e começou muito antes da própria elaboração da
Constituição Mineira. Nesse período, houve um movimento muito forte em
prol da volta dessas duas disciplinas nos currículos. A Universidade Federal
de Minas Gerais foi sede de vários encontros com profissionais da área.
Professores de Filosofia e de Sociologia de todo o Estado foram convidados
a participar. Foram elaboradas estratégias de ação, de modo a envolver as
universidades, os departamentos e cursos de Ciências Sociais e de Filosofia,
os professores do 2o e 3o graus. Foi preciso, também, ganhar a adesão dos
burocratas, dos políticos, dos deputados. Fazer com que houvesse um
movimento organizado, maciço, capaz de convencer aos constituintes que a
inclusão da Sociologia e da Filosofia no 2o grau estava inserida em um
projeto maior de sociedade, situado muito além do próprio espaço curricular
reivindicado por essas duas disciplinas. A obrigatoriedade desses conteúdos
remetia a possibilidade de se poder trabalhar objetivamente com o despertar
de uma prática cidadã nas salas de aulas do 2o grau.
Nesse período de elaboração da Constituição Mineira, os profissionais
das áreas de Ciências Sociais e Filosofia lutaram de modo incansável com as
armas que possuíam, ou seja, a fala, a escrita e a vontade política de ver
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novamente essas disciplinas no currículo de 2o grau. Essa batalha foi vencida


em 21de setembro de 1989. A constituição promulgada estabeleceu no ART.
195, PARAGRAFO ÚNICO, que “o Estado deverá garantir o ensino de
Filosofia e Sociologia nas escolas públicas de 2o grau”. A inclusão das duas
disciplinas foi regulamentada pela Secretaria de Estado da Educação e, já em
1990 elas voltaram às sala de aula com carga horária definida. A partir desse
ano, os currículos do 2o grau das escolas públicas mineiras só seriam
aprovados se constassem Sociologia e Filosofia. Não importava a série em
que elas seriam ministradas, o fechamento da grade curricular da escola só
seria possível com um horário específico para cada uma delas. Essas
disciplinas passaram a fazer parte dos currículos das escolas públicas
estaduais e municipais do Estado de Minas Gerais.
De um modo geral, os primeiros anos foram os mais problemáticos.
Se em Belo Horizonte a prefeitura realizou concursos públicos para
professores de Sociologia; no interior do Estado, a disciplina foi ministrada,
basicamente, por professores licenciados em áreas afins. Os colégios
particulares nem ao menos tomaram conhecimento dessa obrigatoriedade,
uma vez que ela atingia apenas o ensino público; fizeram mesmo questão de
ignorá-la.
Em Uberlândia, o Departamento de Ciências Sociais promoveu
palestras, encontros, cursos de extensão e de especialização. Os professores
escreveram textos didáticos, organizaram coletâneas. O objetivo era preparar
minimamente os profissionais da rede pública. O próprio curso de Ciências
Sociais, criado em 1996, foi uma resposta à essas dificuldades.
Esta explicação, ainda que abreviada do aspecto legal, é necessária,
uma vez que foi a partir dessa obrigatoriedade, expressa na Constituição
Mineira, que os professores da Universidade Federal de Uberlândia puderam
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lutar pelo aspecto científico/acadêmico, que incluiu a Sociologia nos


concursos do vestibular e PAIES.
Em 1994, a UFU promoveu um fórum avaliativo de seu vestibular. O
que estava sendo colocado em pauta era o próprio significado do vestibular.
Foram convidados professores de todos os departamentos e cursos da
Universidade; representantes da Superintendência Regional de Ensino, das
escolas públicas e particulares, dos cursos pré-vestibulares.
Nesse fórum, havia uma preocupação muito grande com o aluno
treinado para as habituais “pegadinhas”, ou seja, com aquele aluno capaz de
dominar a técnica de responder as perguntar com pouco conhecimento do
assunto e muita “maldade” para decifrar as respostas. As próprias questões,
até então, estavam sendo muito técnicas. Foi feito um levantamento das
necessidades prementes dos alunos ingressantes. As questões básicas eram:
- O que esse aluno deveria saber?
- Que tipo de habilidades deveria dominar?
As respostas foram unanimes. Seria preciso, antes de mais nada, que
esse aluno tivesse uma formação ética, social, reflexiva, ligada diretamente e
especificamente ao campo das humanidades, independente da área que ele
iria se candidatar. Ao ingressar na Universidade, ele deveria ser capaz de
falar, escrever, se expressar claramente, criticamente. O domínio dessas
habilidades foi apontado como uma necessidade que o novo significado que
se desejava conferir ao vestibular deveria responder objetivamente.
Ficou definido que as provas deveriam priorizar a preparação que o,
então, 2o grau, oferecia ao aluno. Seriam cobrados os conhecimentos
recebidos nos três anos desse nível de escolaridade e não o contrário. Todas
as disciplinas ali ministradas deveriam estar representadas no exame e ser
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avaliadas com peso equivalente, de modo a evidenciar, concretamente , qual


foi o preparo que o aluno recebeu.
A participação de representantes das áreas de Humanas na
organização e condução desse fórum foi decisiva. Perseverantes e
incansáveis, nos quase quatro anos de debate, foram eles que seguraram a
discussão, acreditando, com convicção, que a mudança do vestibular não
podia acontecer sem que houvesse, também, uma mudança nos conteúdos e
na forma como seriam avaliados. Eles explicitaram com clareza as principais
dificuldades apresentadas pelos ingressantes e que iam de encontro ao novo
significado que se pretendia conferir ao vestibular. Esse novo significado
reclamava um aluno conhecedor dos problemas da sociedade em que vive,
capaz de refletir com racionalidade e coerência e de se posicionar
criticamente frente a realidade de seu tempo.
Durante o desenrolar desse fórum, muitos participantes desistiram.
Dentro da própria universidade, professores das áreas de exatas e biomédicas
abandonaram o debate por não entenderem ou não concordarem com as
discussões. Os representantes das escolas particulares e dos cursinhos foram
os grandes vilões da história. Foram eles que mais lutaram contra a
mudança, principalmente pelos custos que ela iria acarretar, como, por
exemplo, contratação de novos professores e aumento de horas aulas, o que,
sem dúvida, comprometia a rentabilidade dos negócios.
Durante a realização do fórum do vestibular, foi elaborado um
documento sobre as disciplinas que deveriam ser incluídas nos exames e o
que se esperava que o candidato soubesse de cada uma delas. Em janeiro de
1997, a Universidade Federal de Uberlândia realizou seu primeiro vestibular
com as novas disciplinas: Sociologia, Filosofia e Literatura.
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A prova de Sociologia do vestibular e o conteúdo programático


desenvolvido no Ensino Médio contempla as três sub-áreas: Sociologia,
Antropologia e Ciência Política. Tanto na primeira como na segunda fase, as
provas têm o mesmo número de questões das demais disciplinas, com o
mesmo valor, sem discriminação.
Um outro processo importante que teve sua semente germinada no
fórum do vestibular foi o processo seletivo seriado, que nós chamamos
PAIES, (Programa Alternativo de Ingresso no Ensino Superior), iniciado em
1998. Buscando os mesmos objetivos, ou seja, avaliar aquilo que o aluno
aprendeu no Ensino Médio, o PAIES também incluiu a Sociologia em seu
elenco de disciplinas. Em cada uma das três etapas, são avaliados os
conteúdos referentes àquela série do Ensino Médio que o aluno está
cursando. As provas de Sociologia fazem parte da segunda e terceira etapas.
A primeira turma de alunos aprovados pelo PAIES já está na Universidade.
A grande vitória resultante dessa mudança no vestibular e no PAIES é
que hoje a Sociologia faz parte não apenas do vestibular da Universidade
Federal de Uberlândia mas, principalmente, dos currículos das escolas da
cidade e da região, incluindo Distrito Federal, São Paulo e Goiás. Hoje, as
escolas particulares, que antes nem ao menos tomaram conhecimento do
ART. 195 da Constituição Mineira, todas têm Sociologia em seu currículo,
com uma carga horária muito superior a das escolas públicas. Algumas delas
têm a disciplina nos três anos do Ensino Médio.
As principais dificuldades encontradas no início da implantação, aos
poucos estão sendo sanadas. Pela diferença de qualidade entre as provas dos
primeiros vestibulares e as atuais, percebemos claramente que os professores
do Ensino Médio têm se preocupado em ministrar a disciplina com critérios
de cientificidade. As respostas escritas pelos candidatos estão cada vez mais
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bem elaboradas e denotam que está havendo um cuidado científico-


acadêmico com o conteúdo da disciplina, sinalizando para um nível mais
apurado de conhecimento e, consequentemente, um melhor aproveitamento
do aluno.
De 1997 até hoje, já foram realizados 8 vestibulares com provas
específicas de Sociologia. Da parte dos professores do Departamento de
Ciências Sociais, existe uma atenção muito grande em relação as possíveis
dificuldades, originárias do conteúdo sociológico que deve ser dominado
pelos alunos do Ensino Médio. Essa atenção é redobrada no que se refere a
oposição existente no interior da própria Universidade, advindas de grupos
mais conservadores. E na comunidade, advindas dos proprietários de escolas
particulares, que insistem em priorizar o caráter técnico e quantitativo dos
exames.

Os mini cursos de Sociologia

A outra parte desta minha exposição é sobre os Mini Cursos de


Sociologia para o Ensino Médio. A idéia de organizar os Mini Cursos teve
como objetivo primeiro desenvolver nos alunos da licenciatura do curso de
Ciências Sociais a capacidade de lidar com conteúdos básicos em sala de
aula, propiciando-lhes a experiência de ministrar Sociologia, Antropologia e
Ciência Política para o público externo à Universidade. A clientela seriam os
candidatos ao vestibular e PAIES. O intuito era fazer com que os futuros
professores pudessem lidar com uma sala de aula real, com alunos da
comunidade, diferentes de seus colegas da licenciatura, os quais eles já
estavam acostumados.
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Aliada a essa questão fundamental, de cunho mais pedagógico, foi


também nosso interesse preparar o vestibulando para uma disciplina
específica que é a Sociologia. Este interesse esteve diretamente relacionado
à realidade do Ensino Médio, ao preparo dos professores das escolas
públicas, onde, muitas vezes, as aulas são ministradas por profissionais de
outras áreas, sem os mesmos recursos. Decidimos, então, que seria mais
sensato priorizar alunos da rede pública, ou seja, eles teriam a preferência
para se matricularem no mini curso.
A procura foi grande; foram abertas duas turmas. A intenção de
favorecer a rede pública, contudo, não surtiu o efeito desejado. O que
pudemos perceber foi que o interesse em fazer o mini curso foi maior por
parte das escolas particulares, que enviaram seus alunos com uma cobrança
muito grande em cima do material didático.
A organização do mini curso foi totalmente planejada e discutida nas
aulas de Prática de Ensino. O objetivo era que os formandos em Ciências
Sociais tivessem um mínimo de traquejo na organização de situações que
envolvessem o público externo à Universidade. Que eles soubessem lidar
com questões reais de planejamento, organização de horários, conteúdo,
espaço físico, material, enfim, situações que envolvessem não apenas a
capacidade prática da docência, mas que espelhassem a realidade da vida
acadêmica.
O material didático foi todo selecionado pelos alunos da Prática de
Ensino. O meu objetivo foi de exercitar no futuro professor a capacidade de
decidir entre o texto mais adequado, mais interessante, mais objetivo para o
que se quer trabalhar. Despertar a criatividade de pensar outros meios de se
desenvolver um conteúdo, para além dos textos teóricos. Analisar os
clássicos das Ciências Sociais vinculados a questões vivenciadas por nós
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todos os dias, expressas em momentos do cotidiano, em letras de músicas


que escutamos nos rádios, em crônicas de jornais, obras de arte, objetos,
vídeos, enfim, propiciar um contato mais próximo e palpável com a
realidade.
A montagem do material didático procurou contemplar o
conhecimento teórico básico das Ciências Sociais, trabalhar os conceitos
fundamentais para a compreensão científica da realidade, intercalando esse
conhecimento com expressões não tão acadêmicas mas com inserção
garantida na experiência de vida dos alunos do Ensino Médio.
De acordo com os relatos dos próprios alunos da licenciatura, o que
mais marcou na experiência do Mini curso foi a possibilidade de analisarem,
produzirem e transmitirem um conhecimento necessário a vida do jovem. Na
organização e transmissão das unidades, foi enfatizada a preocupação com a
concreticidade do assunto ministrado. O importante não foi apenas dar uma
boa aula sobre, por exemplo, a Sociologia compreensiva de Max Weber ou
discutir os movimentos sociais contemporâneos. O que nós procuramos
valorizar o tempo todo foi a necessidade de trabalhar a cientificidade dos
conteúdos sem distanciá-los da experiência de vida daqueles jovens. Fazer
com que eles percebessem que a Ciência Política, a Antropologia e a
Sociologia são ciências que têm o objetivo fundamental de investigar e
interpretar a realidade, o que cria em seus profissionais compromissos
bastante estreitos com a necessidade de mudança.

Para Concluir

Para encerrar, eu gostaria de reafirmar que a inclusão da Sociologia


nos concursos de vestibular e PAIES da Universidade Federal de
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Uberlândia é a vitória de uma batalha que precisa ser travada por nós das
Ciências Sociais todos os dias, em todos os momentos da vida escolar. Faz
parte dela o embate diário com profissionais das áreas de exatas e
biomédicas da própria Universidade e com os demais setores da sociedade,
tais como, cursinhos pré vestibulares, donos de escolas de Ensino Médio,
vestibulando de outras cidades. O Mini Curso para preparar alunos para o
vestibular e PAIES, de certa forma, é uma ferramenta estratégica nessa luta.
As Ciências Sociais em suas três sub-áreas: Sociologia, Antropologia
e Ciência Política são fundamentais para a construção de uma sociedade
mais igualitária, mais consciente de seus valores, de sua cultura, de seu
compromisso com a transformação. Tornar esses conteúdos disciplinas
regulares nas salas de aula do Ensino Médio e do 3ograu é ter a certeza de
estar formando um aluno mais crítico, capaz de analisar com racionalidade,
objetividade e coerência a sociedade em que vive. É fazer da cidadania uma
possibilidade real, materializada na experiência vivida por cada um de nós
brasileiros. Reclama o envolvimento daqueles que acreditam ser as Ciências
Sociais necessárias e indispensáveis para a construção de uma mentalidade
coletiva cidadã.