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Dissertação Baldinir Bezerra da Silva

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  • 1. Apresentação
  • 1.1. Introdução
  • 1.2. Contextualização
  • 1.2.2. O Enfoque Conceitual e Metodológico do PHSVC
  • 1.2.3. Os Grupos de Reflexão de Gênero do PHSVC
  • 1.2.4. Os temas Geradores
  • 2 .Objetivos:
  • 3. Referenciais Teóricos/Conceituais
  • 3.1. Ideologia – um conceito reformulado
  • 3.2. O Referencial de Gênero
  • 3.2.1. O Gênero Masculino em foco
  • 3.2.2. A Saúde do homem:
  • 4. Metodologia
  • 4.1. Discussão metodológica: Uma questão de Qualidade
  • 4.2. Tratamento dos Dados: Explicando o Vir-a-Ser
  • 5. – Os Informantes: Participantes dos Grupos Focais
  • 5.1. Os Informes - Resultados Encontrados:
  • 5.3. – Bloco 1 - Modelo Hegemônico de Masculinidade
  • 5.4. Bloco - Modelos Contra-Hegemônicos
  • 6. Conclusões
  • 7. Considerações Finais
  • 8. Bibliografia:

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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO CENTRO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE NÚCLEO DE ESTUDOS DE SAÚDE COLETIVA MESTRADO EM SAÚDE COLETIVA

Hom ens - Razã o e Sensibil idade Ideol ogias de gênero m asculin o e o cuidad o com a saúde

Dissertação submetida como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre em Saúde Coletiva

Autor: Baldinir Bezerra da Silva Orientadora: Regina Helena Simões Barbosa

Rio de Janeiro – 2005

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Resumo
Esta pesquisa analisa as ideologias de gênero expressas nas falas de homens participantes de Grupos de Reflexão de Gênero, como esses homens se relacionam com o processo saúde/doença. A base de dados utilizada foram as transcrições de três grupos focais realizados com homens participantes de grupos reflexivos formados pelo Projeto “Homens, Saúde e Vida Cotidiana – Uma Proposta de Pesquisa -Ação”, realizado pelo Núcleo de Gênero e Saúde– ENSP/FIOCRUZ e Laboratório de Gênero e Saúde – NESC/UFRJ. Os referenciais teóricos adotados foram o conceito de ideologia, conforme proposto por John B. Thompson (1995), e o Conceito de Gênero, focalizando especialmente o viés das masculinidades. A Hermeneutica-dialética foi escolhida como referencial metodológico para o tratamento e interpretação dos dados. Os resultados encontrados sinalizam a emergência de novos padrões de masculinidade Estes convivendo são com padrões hegemônicos fatores tradicionais. últimos reconhecidos como e as implicações decorrentes desses modelos de masculinidade nos modos

potencialmente agravantes à saúde do homem e à qualidade das relações humanas. A formação de grupos reflexivos mostrou ser uma técnica frutífera para o trabalho com homens.

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ABSTRACT
This research analyses the gender ideologies manifested in the speeches of men that took part on Gender Reflection Groups and the implications of these male models on the ways these men relate to the process of health/illness. The source of the data used are audio tape transcriptions of three focal groups with men who participated of reflection groups of the Project Men, Health and Daily Life (ENSP -FIOCRUZ and Gender and Health Laboratory, NESC/UFRJ). The theoretical guidelines were the concept of ideology, according to John B. Thompson’s proposal (1995) and the category of gender, with special focus on masculinities. Dialectic hermeneutics was chosen as methodological grounding for data treatment and interpretation. The findings point to the rise of new masculinity patterns parallel to traditional hegemonic patterns. The latter are recognized as potentially harmful to men’s health and to the quality of human relations. Reflection groups proved to be a fruitful technique for working with men.

Saúde do homem 5. Ideologia 2. 2005. Título .4 Ficha Catalográfica Bezerra da Silva . Baldinir Homens: Razão e Sensibilidade – Ideologias de gênero Masculino e o cuidado com a saúde / Baldinir Bezerra da Silva. 165 p. Tese (Mestr. Dissertação – Universidade Federal do Rio de Janeiro. CCS. Gênero 3. NESC. Rio de Janeiro: UFRJ / CCS / NESC. Masculinidade 4. 1. NESC/UFRJ) I.

5 Dedicatória Aos meus Pais. por terem assumido verdadeiramente o compromisso firmado com meus pais na pia de batismo. Francisca e Bartholomeu (in memoriam). por terem me dado o alicerce para construir meus caminhos. . Aos meus padrinhos. Ofélia e Ângelo. ensinando-me a ver beleza na vida.

Sinésio Jefferson de Andrade. Conheci muito poucas pessoas tão bem resolvidas como a professora Regina. Marcondes. junto com minha orientadora. Luis dos Santos Costa. Aos colegas de equipe dos projetos da ENSP-FIOCRUZ e NESC/UFRJ: Lucia Baptista. O Financiamento concedido pela CAPES. por todo apoio. A Karen Giffin. como profissional e como pessoa. Sem essa bolsa. incentivo. Agradeço também pela utilização do espaço do Laboratório de Gênero e Saúde da ENSP/FIOCRUZ. e me possibilitou experiências de crescimento incalculáveis. no segundo ano do mestrado. juntamente com Regina Helena Simões Barbosa. constituiu-se num ponto crucial para que eu conseguisse levar a termo esta pesquisa. contribuiram para enriquecer a vivência do Mestrado. Aos colegas. tolerância e cuidados manifestos durante toda essa trajetória. teria sido impossível. garantiram que agora eu pudesse estar apresentando os resultados desse meu trabalho. Foi um previlégio. professores e funcionários do NESC/UFRJ que.6 AGRADECIMENTOS No decorrer destes dois últimos anos. Mauro Brijeiro. À minha orientadora. Cristina Cavalcanti e Irene Lowenstein. Willer B. espaço que abriu meus horizontes para este objeto de pesquisa. Regina Helena Simões Barbosa. sem dúvida. me vi agraciado por toda uma gama de energias impulsoras que. . pela oportunidade de atuação nos projetos do NESC/URFJ.

Baldomar. apresentando contribuições valorosas por ocasião do meu exame de qualificação. Ao professor Romeu Gomes que. um agradecimento especial à. Elisabete Cataldi. Bernadete. pela sua perspicácia. possibilitando a construção de um novo conhecimento sobre as masculinidades. Ana Cristina Vieira. tornei-me um homem . Maria das Graças. deram muito estímulo para que eu prosseguisse até o fim. Byron. próximos ou distantes. Abadia. Nesse rol. Paulo Duarte. Aos meus irmãos. Estes homens. se prestou a uma leitura atenta de meu trabalho. Alberto Soffredini (in memorian). que me fez ver à minha vida de forma realista e serena. Ana Maria Brás. em especial os 18 participantes dos grupos focais que geraram as transcrições que ora analisamos. Lícia Nara. através de suas falas. Anália Lara. Aos homens. Nêga Simone.7 À professora Maria Lúcia Magalhães Bosi pelo apoio e incentivos fenomenais. Gracinha. Wilson Correa. pela torcida e por tornarem sempre presente a sensação de pertencimento à uma família deliciosa. Heloisa Castro Berro.da vez. juntamente com a professora Karen Giffin. a partir daí. À Vera Joana. Marco Antonio. e tantos outros que. e generosidade sem tamanho. participantes dos diversos grupos de reflexão de gênero do Projeto “Homens. Rogério. competência. Clotilde Tavares. todas as Donas Marias. Saúde e Vida Cotidiana”. C. João Paulo Bezerra. Maria Helena Belalian. Quero crer que. Beverly e Berenilde. Baldoméro. Diva. A todos os grupos e pessoas que me acolheram num recente período de caos pessoal. nos permitiram acessar uma parcela de sua subjetividade. Sebastião Juarez. mais sensível diante da vida. e meus respectivos sobrinhos.

o processo de autocrítica.. e as pessoas que realmente conhecem o mundo social não são capazes de falar dele. por essa razão. é vital.” Pierre Bourdieu . as pessoas habilitadas a falar sobre o mundo social não sabem coisa alguma do mundo social. que se pode praticar estudando a mente intelectual acadêmica.. uma condição pessoal necessária para qualquer tipo de comunicação sobre a ideologia.8 “Muitas vezes. É por assim dizer.

................... Considerações finais.................1....................................................................120 6............................ 78 5............ .....................2............. Os Grupos de Reflexão de Gênero do PHSVC.4................... 28 3.....101 5.................... Referencial de Gênero.................. Os Informantes: Participantes dos Grupos Focais.... 32 3.........83 5. 41 3.................................145 7................................... 26 2................... O Enfoque Conceitual e Metodológico do PHSVC...............: um conceito reformulado.................2...... Referenciais Teóricos/Conceituais...........19 1............... Bloco 2 – Modelos Contra-hegemônicos.............. 70 5...................................... 29 3.....................160 Anexo: Mapa de Atuação do Projeto Hom ens. A Saúde do homem...1......1..................1.........2..................2.................... Histórico do PHSVC.......... Metodologia......................3..........................................................2................. Objetivos......................................14 1.................................................... Apresentação ....... Saúde e Vida cotidiana.3..................................................2.. Bloco 3 – A relação do homem com a Saúde........85 5.................................................................... Discussão metodológica: Uma Questão de Qualidade......................Modelo Hegemônico de Masculinidade.............................................25 1.......... Masculinidade: Temas emergentes.............. Bibliografia..........9 SUMÁRIO 1...........1. 57 4.... Ideologia...... Resultados encontrado: Os informes...1.................. Tratamento dos Dados: Explicando o Vir-a-Ser............. Bloco 1 ......... Contextualização ...... O Gênero Masculino em foco....3................ Conclusões.....................................5..................2.2.155 8........50 3................................................22 1.......................... Os temas Geradores...2..........................20 1.........2....................... 29 3..................................................10 1.......................4.................67 4....... Introdução... 67 4..........2...2..........

Apresentação Esta pesquisa se propôs a identificar as ideologias de masculinidade expressas nos discursos de homens participantes de grupos de reflexão de gênero. parodiando uma famosa obra da cinematografia mundial. e que diz respeito aos conflitos em torno dos tradicionais papéis sociais de gênero masculino. o que confronta os homens com a perspectiva de experienciar novos e originais modos de exercerem sua condição de homem no mundo. . pretendemos contribuir com subsídios para a formulação de políticas públicas de saúde voltadas para a população masculina. a relevância da elaboração de propostas de trabalho com homens que tenham por objetivo promover o equacionamento das desigualdades de gênero. caso não sejam devidamente considerados. Nos detivemos nas questões inerentes aos diversos aspectos da masculinidade contemporânea que. O titulo escolhido. busca remeter-se à essência das transformações sociais que ora pretendemos colocar em foco. Estes parecem vir sendo sistematicamente colocados em cheque nas últimas décadas. tendem a caracterizar pontos agravantes à saúde dos homens. Em debate também. e suas relações com o cuidado com a saúde.10 1. Com isso.

visto que eram todos oriundos dos grupos de reflexão de gênero formados pelo referido Projeto. Em se tratando de uma proposta de intervenção sócio-pedagógica alicerçada na promoção de CONSCIENTIZAÇÂO. das implicações destas nas relações sociais como um todo. nos termos propostos por Paulo Freire. vamos nos deparar com discursos de indivíduos que encontravam-se altamente mobilizados pelas atividades desenvolvidas no Projeto. Saúde e Vida Cotidiana – uma proposta de pesquisa-ação” desenvolvido pela Escola Nacional de Saúde Pública – ENSP. estaremos discorrendo. especialmente no terreno da saúde reprodutiva. e o Núcleo de Estudos de Saúde Coletiva – NESC. sobre o Projeto “Homens. inicialmente. da Fundação Oswaldo Cruz – FIOCRUZ. Atividades estas que lhes possibilitaram um longo período de reflexão acerca de suas identidades sociais de gênero. O detalhamento dessa experiência se justifica como uma forma de apresentar a contextualização sócio-histórica em que se inserem os entrevistados. .11 Para uma melhor contextualização do perfil que caracteriza os informantes. da Universidade Federal do Rio de Janeiro -UFRJ. Isto porque os dados analisados na presente pesquisa foram gerados a partir das informações obtidas nesse Projeto.

Damatta. as ideologias que estruturam as relações de gênero correspondem às diversas posições sociais. Scott.12 A seguir. com seus significados diferenciados. Com isto. Nolasco. entre outros que discutem as relações de gênero através de práticas sociais do cotidiano e na produção do conhecimento. Num primeiro momento. Anyon. e traduzem as relações desiguais de poder. numa . Simões Barbosa. a partir das reflexões levantadas pelo movimento feminista. traçando um panorama dos pressupostos teóricos da Ideologia. 1995). masculino. suas relações com a questão da saúde dos homens. abordaremos a questão de gênero. como a análise do “sentido a serviço do poder” (Thompson. Medrado. que a descreve. Kimmel. conforme proposta por John B. Partimos do entendimento de que. De Lauretis. Para dar conta desse processo. esperamos contribuir para a melhoria na qualidade da assistência à saúde masculina em suas especificidades. na práxis. mais nesse especificamente. estaremos dissertando sobre os referenciais teóricosmetodológicos adotados nessa empreitada. Mantega. Costa. Corneau. Gomes. como Caldas. e outros. Na seqüência. O mesmo em termos dos autores que trabalham especificamente a questão da masculinidade. onde se instituem normas morais sobre papéis que homens e mulheres devem assumir. Thompson. numa visão ampla. as temáticas emergentes a questão de gênero âmbito e. focalizando brevemente o processo desde a estruturação do conceito. buscamos alicerce em autores como Giffin . Kergoat.

Os detalhamentos sobre a constituição desses grupos focais serão apresentados no capítulo sobre os informantes. do Ministério da Saúde. masculina e feminina. as contradições e os condicionamentos históricos que a envolvem (Minayo. uma vez que o objeto de estudo se insere no campo da subjetividade. 1998). mais próxima de nosso referencial teórico ao colocar a fala em seu contexto.13 perspectiva da integralidade. Vale salientar. a exemplo do que está prescrito para as mulheres no Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher (PAISM). buscando captar o movimento. e não expressa as práticas dos entrevistados. Ressalte-se. Serão analisadas as transcrições de três grupos focais realizados com participantes dos diversos grupos de reflexão de gênero formados pelo já citado Projeto Homens. A metodologia adotada será a qualitativa. sendo os participantes agentes sociais. Por outro lado. que o presente material empírico. já que é reconhecida uma grande distância entre o que está previsto na Lei e a sua aplicabilidade real.”. contudo. envolvidos com trabalhos que implicam no atendimento a muitos outros homens. A abordagem de análise será a hermenêutica -dialética.. contudo. que não se trata de uma disputa entre homens e mulheres. obtido em situação de entrevista grupal face -a-face estará mediado pelas expectativas e idealizações que validam a própria experiência. no âmbito do discurso da apresentação de si mesmo.. senão parcialmente. o que aqui será exposto está situado. Saúde e Vida Cotidiana. estas falas podem ser compreendidas como falas de informantes . e que o quadro de atenção à saúde da população. justamente. Em conseqüência disto. ainda está bastante longe de ser o ideal.

14 devidamente qualificados para reportar a experiência desses outros homens. Dessa forma, nos ajudam a compor um quadro bastante próximo das ideologias e práticas masculinas, inclusive em termos de cuidados com a saúde vigentes na atualidade.

1.1. Introdução Esta pesquisa analisa as ideologias de gênero masculino presentes na fala de homens participantes de Grupos de Reflexão de Gênero, e as implicações decorrentes desses modelos de masculinidade nos modos como esses homens se relacionam com o processo saúde/doença. Utilizamos como base de dados as transcrições de três grupos focais realizados com 18 dos cerca de 100 homens que participaram dos grupos formados pelo Projeto “Homens, Saúde e Vida Cotidiana – Uma Proposta de Pesquisa-Ação”1 - PHSVC, no qual foi privilegiado o debate sobre a saúde reprodutiva e a vida cotidiana em grupos reflexivos de gênero, dentro de uma perspectiva da pesquisa-ação. Os referidos grupos focais, levados a termo nos dias 19 de maio, 02 e 09 de julho de 2001, nas dependências do NESC/UFRJ, tinham como meta prioritária coletar de depoimentos coletivos para organização do livro “Palavra de Homem”, editado pela ENSP/FIOCRUZ e NESC/UFRJ em 2001, contendo histórias e experiências concretas de homens, enfocando diversos aspectos de suas vidas. Para tanto, foram
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O Projeto “Homens, Saúde e Vida Cotidiana – Uma Proposta de Pesquisa- ação” foi desenvolvido pelo NESC/UFRJ em parceira com a ENSP/FIOCRUZ no período de 1998 a 2001, no Rio de Janeiro- RJ e em Duque de Caxias- RJ.

15 elencados temas que permitissem a expressão do modo de ser destes homens no mundo, em suas relações consigo próprios, com outros homens e com as mulheres. Em razão da especificidade do objetivo acima descrito, as transcrições das falas dos três grupos focais não chegaram a ser utilizadas em sua totalidade, visto a impossibilidade de publicação de todo o conteúdo das cerca de 12 horas de gravação. Na ocasião, para compor a edição do referido livro, foi feita uma seleção de trechos relacionados aos diversos temas abordados pelos homens, levando-se em conta, especialmente, a expressividade das falas. Ressalte-se que, no processo de coleta de dados, foram

criteriosamente considerados os procedimentos metodológicos propostos para a realização da técnica de grupos focais. Na abordagem qualitativa, esta técnica é considerada uma estratégia de significativa importância no que se refere às questões de saúde coletiva, porque viabiliza a captação de dados representacionais no seio de grupos de interesses e instâncias diversas, possibilitando formular e precisar questões, coletar informações sobre peculiaridades locais e desenvolver hipóteses para novos estudos. (Minayo, 1992) Vale ressaltar também que nosso interesse pela temática advêm justamente do fato de termos participado da coleta destes depoimentos, ocasião que coincidiu com nossa inserção na equipe do PHSVC, na função de estagiário e co-facilitador de grupos de reflexão de gênero masculino. Propus emo-nos a revisitar as transcrições dos referidos grupos focais em sua integralidade, por considerar tratar-se de importante

16 material de referência para o estudo da subjetividade masculina sob

diversos aspectos e por acreditar que, nas falas desses homens, encontraríamos subsídios para avaliar os modos como administravam o processo saúde/doença naquele momento de suas vidas. Para efeito de contextualização do tema, utilizamos, como contraponto, uma revisão bibliográfica dos estudos de gênero masculino realizados no âmbito das ciências sociais, partindo da bibliografia utilizada pelo PHSVC, a temática em questão. Nesta reflexão, optamo s por fazer a articulação de dois conceitos que se inserem no campo das ciências sociais, ideologia e gênero, e que, embora elaborados sob referenciais teóricos distintos, são convergentes. Essa convergência se dá, entre outros aspectos, na possibilidade de se pensar a construção da consciência humana dentro da uma concepção crítica e dinâmica da realidade. A consciência abordada enquanto constructo social histórico e relacional, inscrito na ordem do simbólico e, portanto, passível de interpretação, porque referente ao pólo representacional das ciências sociais. Isto posto, passamos a uma breve exposição dos referenciais adotados, que serão melhor explicitados em capítulo específico. Adotamos o conceito de Ideologia, aqui utilizado a partir do entendimento de que as idéias têm participação significativa no processo de reprodução do status quo. Segundo Thompson, Ideologia deve ser pensada como uma sistema de crenças, valores e idéias manifestadas de múltiplas formas (imagens, textos, propagandas) e que tem os seus alicerçando-a com o material produzido pela equipe do Projeto (relatórios, textos, etc..), e outras publicações sobre

1995: 16). Assim. refere-se à maneira pela qual as formas simbólicas são mobilizadas para produzir sentidos que afirmem e corroborem as relações sociais de dominação existentes nas sociedades. Giffin. acreditamos que as matrizes teóricas eleitas podem oferecer instrumentos para compreendermos quais ideologias de gênero masculino permeiam o universo dos homens pesquisados. Scott. nos detivemos em abordar a questão do masculino. Paralelamente.17 significados orientados com vistas à manutenção de relações assimétricas (Thompson. A Ideologia. 1996. entendido como uma construção social que constitui a identidade de cada indivíduo em seu contexto social. e objeto central desta pesquisa. estes referenciais permitem pensar. entendida como questão de interesse emergente no campo da Saúde Coletiva. segundo ele. 1999. com base nas desigualdades de poder existentes entre homens e mulheres. Dentro desse contexto. 1989). de forma crítica. . onde a linguagem opera a mediação entre estruturas objetivas e a ordem simbólica. (Simões Barbosa. Além disso. especialmente no que se refere à percepção do ser humano inserido em um campo social. subjetiva. trabalharemos com o conceito de Gênero. de que modo elas se relacionam com o processo saúde/doença. expressa os diferentes significados atri buídos às posições sociais. 2001-A. e quais elementos apontam para a possibilidade de transformações nesse campo. A articulação desses referenciais se faz viável na medida em que apresentam pontos convergentes. e que se traduzem em desigualdades sociais. caminhos que apontam para mudanças. Kergoat.

e essa escolha se justifica pelo fato de que o presente objeto de estudo está inserido no campo da . e violência de gênero necessitam ser melhor investigados. Nesta perspectiva. nos quais ainda se faz notar uma certa lacuna no que diz respeito ao gênero masculino. uma vez que nossa base de dados para análise será alicerçada na fala de homens que participaram efetivamente desse processo de intervenção social. e onde a figura do homem começa a se fazer presente enquanto “sujeito e objeto” de atenção (Giffin & Cavalcanti. 1995. No sentido de apresentar uma adequada contextualização do objeto. estaremos relatando a trajetória de formação dos Grupos de Reflexão de Gênero. detendo-nos na descrição do perfil dos participantes e respectivos contextos em que se inseriam. controle de fecundidade. com a preocupação especial de esboçar o cenário que caracteriza os 18 Grupos Focais que homens que participaram especificamente dos originaram as falas ora utilizadas como base de dados desta pesquisa.PHSVC. DST/AIDS. onde aspectos como saúde reprodutiva. 1995). Giffin. gravidez na adolescência.18 Com esta pesquisa . Corneau. A metodologia adotada é a qualitativa. 1999. Ressaltamos também o interesse de colaborar para a implementação de programas em serviços públicos de saúde. Saúde e Vida Cotidiana – Uma Proposta de Pesquisa Ação” . paternidade. estaremos traçando inicialmente um retrospecto da trajetória do Projeto “Homens. pretendemos contribuir para que seja dada uma maior visibilidade ao quadro da saúde masculina.

. faremos uso da hermenêutica -dialética. em seus aspectos histórico e teórico-metodológico. passamos a retratar o PHSVC. Contextualização Dentro da perspectiva da Hermenêutica. efetivamente.. 1998).2. circulação e recepção das formas simbólicas. de modo a contextualizar a fala dos informantes que produziram as representações sobre as quais ora nos detemos. Saúde e Vida Cotidiana . convocados em uma fase em que a maioria deles já havia participado. do processo de intervenção sócio-pedagógica que a proposta representava. e busca captar o movimento. Assim sendo. as contradições e os condicionamentos históricos que a envolvem (Minayo.19 subjetividade humana.”. as formas simbólicas são produzidas. transmitidas e recebidas em condições sociais e históricas específicas. No que se refere ao referencial metodológico da análise. .. 1. Os informantes desta pesquisa foram 18 homens participantes dos diversos grupos formados pelo Projeto “Homens. visto que esta abordagem valoriza a compreensão da fala em seu contexto. Na análise sócio-histórica a finalidade é reconstruir as condições sociais e históricas da produção.

entre o tempo de preparação para entrada em campo. ano 7. “Participação Masculina na Esfera da Saúde Reprodut iva – uma Proposta de Pesquisa-Ação”. Salvador. Homens e Reprodução: o gênero masculino -objeto e sujeito emergente. 3 As fontes principais das informações aqui apresentadas foram: o texto original do projeto “Homens. Estudos Feministas. o Projeto “Homens. 1999. Saúde e Vida cotidiana – Uma Proposta de Pesquisa-Ação” mimeo. tendo sido aprovado para execução. e o campo propriamente dito. Saúde e Vida Cotidiana: Uma proposta de pesquisa-ação. ago/set. . 54. Giffin et all. Esta proposta se tornou possível a partir da articulação entre duas reconhecidas instituições de ensino e pesquisa: O Núcleo de Gênero e Saúde da Escola Nacional de Saúde Pública – ENSP/FIOCRUZ. que levaram a termo a proposta denominada. e os seguintes textos: Giffin & Cavalcanti. Saúde e Vida cotidiana – Uma Proposta de Pesquisa-Ação”3 Fruto de um trabalho que se desenvolveu ao longo de quatro anos. Rio de Janeiro. VI congresso/ABRASCO. constitui -se numa experiência de significativa relevância para a implementação dos debates na área de Gênero e Saúde na perspectiva das masculinidades.20 1. e o Laboratório de Gênero e Saúde do NESC/UFRJ. 2001 . Histórico do Projeto “Homens. 2000.1. Sua execução foi viabilizada com o apoio das Fundações Ford e MacArthur. o Relatório Final do PHSVC. Esta proposta foi submetida ao Comitê de Ética em Pesquisa do NESC/UFRJ. Saúde e Vida Cotidiana – Uma Proposta de Pesquisa-Ação” .2. no. inicialmente.mimeo. Homens.PHSVC.

entre seus principais objetivos. com formação nas áreas da psicologia. psicologia e história. destacam-se as mudanças no papel social das mulheres. e acabam por interferir negativamente no modo como as pessoas administram a relação saúde/doença. promovidas por sua inserção no mercado de trabalho. onde a mulher permanece submetida a uma condição de inferioridade perante ao . Assim. tendem a reforçar a continuidade das relações excludentes. antropologia e ciências sociais.21 Contando com uma equipe de nove pesquisadores. graduandos dos cursos de medicina. Essas ideologias dificultam o desenvolvimento de um processo de convivência em que sejam previlegiados sentimentos de cooperação e solidariedade. o PHSVC foi desenvolvido com base na formação de grupos de reflexão de gênero em torno da identidade masculina. Na verdade. e um total de seis estagiários. o aumento do número de famílias providas por mulheres. e a repercussão de suas estratégias organizadas na reivindicação de direitos femininos no âmbito político e social. O interesse na implantação dessa proposta foi alicerçado na convergência de uma série de fatores que contribuíram para fazer aflorar a necessidade de aprofundamento dos estudos de gênero sob a ótica do masculino. o PHSVC teve. Dentre e stes fatores. partindo do pressuposto de que essa prática pode facilitar o equacionamento de impasses gerados no confronto entre ideologias sociais que naturalizam o que é “ser homem” e o que é “ser mulher”. a criação de espaços coletivos para a discussão da experiência vivida no terreno das relações de gênero.

2000. Na Pesquisa-Ação. se dão na ação gerada a partir dos novos conhecimentos construídos no processo de reflexão coletiva em torno da . também podem ser compreendidos como sujeitos do conhecimento (Giffin et al. Interessava ao PHSVC. parte do pressuposto de que os sujeitos que dela participam. priorizando o referencial da saúde reprodutiva. a metodologia adotada no PHSVC foi a Pesquisa-Ação.22 homem. 2001-C). os seres humanos são enfocados como co criadores de sua realidade. e dos cuidados com a saúde. raça/etnia. além de não serem meros “objetos” da intervenção. 2000. 1999. 2001-A). O Enfoque Conceitual e Metodológico do PHSVC Apostando na possibilidade de estabelecer uma conexão entre o processo de Educação em Saúde e o debate em torno das Relações de Gênero. e os serviços de educação e saúde. Simões Barbosa. com o propósito de contribuir na implementação de metodologias de abordagem e sensibilização de homens para o debate e a participação no processo de desvelamento e transformação social das relações de gênero. Isto porque essa abordagem de intervenção social.2. experi ência geracional e identidade de gênero social e historicamente construída (Simões Barbosa. Giffin. 1.2. embasada nas vertentes compreensivas das ciências sociais. (Besse. portanto. Laurell. a geração compartilhada de conhecimentos sobre a identidade masculina em sua diversidade social. O que norteou essa pesquisa foi a premissa de que as mudanças realidade vivida. e devem ser compreendidos a partir de sua inserção em determinada classe social. 2002).

entre pesquisador e pesquisado. (Simões Barbosa. as doenças devem ser compreendidas a partir do contexto onde se manifestam. de participantes se apropriassem não conhecimentos acadêmicos. Somando-se a isto. objetivando romper com a tradição daquilo que Freire denominou de “educação bancária”. que diferem substancialmente tradicionalmente aplicado na área da Saúde. o Projeto buscou promover a facilitação de processos grupais de reflexão em torno da vida cotidiana dos participantes. De modo que. os diversos tipos de inserção social aos quais os sujeitos estão submetidos são seriamente considerados. Alternativamente. à saúde e às relações afetivas. 123). 2000). Esta propõe o estabelecimento de uma relação dialógica e horizontal entre o sujeito e o objeto do conhecimento. alicerçado na experiência com grupos reflexivos. o PHSVC foi buscar apoio na experiência dos Movimentos de Mulheres. o que nos permite constatar que as pessoas se expõem de forma socialmente distinta aos agravos à saúde. onde os conhecimentos são repassados por um educador que “sabe” para alunos que “aprendem”. Ao contrário. e na pedagogia libertária de Paulo Freire. uma vez que estes podem explicar muitos aspectos que influenciam no terreno da saúde. 2001-C:p. na Pesquisa-Ação. mas que também pudessem reconhecer e . (Giffin et al. modo que numa os atmosfera propícia à troca de experiências somente de relacionadas ao corpo.23 Estes conceitos do possuem modelo uma de estreita educação relação que com tem os sido pressupostos teóricos das metodologias participativas. onde ainda prevalece o modelo bio-médico e a ênfase no biológico. à sexualidade.

O eixo das ações em campo foi alicerçado na mobilização de grupos de agentes sociais masculinos que já atuavam em programas de intervenção dirigidos para homens. tinham caráter participativo. violência. percepções e sentimentos. reportagens e outros materiais educativos contendo dados e informações sobre temas específicos. lazer e movimentos sociais. com a utilização de vídeos. Nelas. O ponto de partida consistiu na formação de grupos de reflexão. o manual . Dentre os materiais educativos gerados pelo Projeto. foram empregadas técnicas de dinâmicas de grupo.24 nomear as emoções e experiências vividas no dia-a-dia. entre outros.124). espaços que a equipe denominou de “ofici nas”. onde foi priorizada a temática da saúde reprodutiva. que consistiram em um total de 20 encontros semanais com cada um dos grupos. morbi-mortalidade masculina. a começar pelo levantamento e eleição dos temas a serem debatidos pelo grupo. mas também para “as transformações no nível das representaçõe s. textos literários. Os Grupos de Reflexão de Gênero se traduzem em um espaço de interação e construção de conhecimentos com base nos diferentes saberes de seus membros. 2001-C:p. Essas oficinas. destinados às intervenções sociais na perspectiva de gênero: o boletim “Homens Hoje”. tanto no âmbito do individual como no comunitário” (Simões Barbosa. destacam-se alguns materiais de apoio e divulgação. tais como espaços de trabalho. como DST/AIDS. atividades lúdicas e culturais. mercado de trabalho. A estratégia inicial foi a de encontrá los nos seus locais de referência. filmes. Os métodos e técnicas adotados estiveram voltados não só para a apreensão de conteúdos cognitivos.

com referências metodológicas para intervenções junto à população masculina: o vídeo “Homens. dos quais participaram cerca de 100 homens de classes e grupos sociais diferentes. mimeo). na etapa de levantamento de dados.3. que agora resgatamos em sua totalidade para esta pesquisa. saúde e segurança. Este homens. opção religiosa. 2001. Este livro representa o primeiro recorte feito nas transcrições dos grupos focais realizados para a coleta de depoimentos. nível sócio-cultural. como também de relacionados ao seu cotidiano.25 “O Facilitador”. durante o período de atuação do projeto em campo. e o livro “Palavra de Homem”. no que se refere aos mais diversos aspectos: etnia. foram formados doze grupos de reflexão de gênero. produzido com a participação direta de integrantes de alguns grupos.2. 1. (Relatório Final do PHSVC. Para delinear o perfil dos participantes. A tônica que permeou o Projeto como um todo foi a questão da diversidade. nível de outros aspectos . Saúde e Vida cotidiana”. a equipe fez uso de um questionário denominado “Retrato Inicial”. com depoimentos de 18 participantes sobre os principais temas geradores que emergiram dos grupos de reflexão. atuavam como agentes sociais (ONGS/Associações Comunitárias) ou estavam ligados às áreas de educação. que possibilitou uma primeira análise das representações sobre suas identidades de gênero. atividade profissional. Os Grupos de Reflexão de Gênero do PHSVC Ao todo. em sua maior parte.

profissionais de nível superior. homossexuais assumidos. As primeiras oficinas tinham por objetivo promover a integração e esclarecer os propósitos do trabalho em grupo. pardos. portadores de HIV-AIDS. desempregados. 2000.” (Giffin et all. e tendo como base questões estreitamente ligadas à saúde reprodutiva. Nesse processo. questões estas que possibilitavam aflorar as ideologias e representações de gênero presentes nos grupos. medos e limitações para além do “foro íntimo” ou de um nível individual incomunicável. que se dispuseram a compartilhar um “espaço alternativo e solidário. de confiança e reflexão entre homens. onde foi possível o reconhecimento de fraquezas. estudantes adolescentes. Nesse processo. a equipe do PHSVC procurou facilitar a reflexão crítica dos atributos de gênero. machões convictos. onde se alternavam sentimentos de tristezas e alegrias.2.26 engajamento sócio-político e preferências sexuais.7) 1. casados e descasados. amarelos. o discurso dos homens foi permeado por uma série de temáticas que fazem parte de suas vidas cotidianas. Ao responder a essa primeira questão. conviveram brancos. dentro de uma atmosfera que permitisse a construção de uma fala masculina. e onde eram expressas as ambigüidades geradas diante das incertezas de um mundo repleto de drásticas e urgentes transformações. negros. . “O que é ser homem?”. p.4. os homens eram convidados a responder questões do tipo “o que somos?” e “o que queremos?”. solteiros. Os temas Geradores A partir de uma pergunta disparadora.

Os temas gerados nessa intensa experiência reflexiva foram os seguintes: As alegrias e dificuldades de ser homem hoje. os membros mantinham a garantia consensuada de propor revisão do que fora acordado. e a própria vivência nos grupos de homens.27 Como parte do processo. que se fazem valer não só nas falas mas também nas atitudes daqueles homens. pôde-se constatar que. do planejamento e levantamento temático. de acordo com a realidade de cada grupo. porque destoam do padrão de . relacionamentos. 2001). Para a maioria dos homens. enquanto um direito do grupo exercitar a gestão de seus próprios modos de existir. são fatos novos e desafiadores. violência. no qual as velhas e novas ideologias convivem e se entrelaçam dialéticamente (Giffin & Cavalcanti. alguns temas se destacam por se fazerem presentes de forma generalizada. trata-se de um fenômeno caracterizado pela dinamicidade. a qualquer tempo. Ao mesmo tempo em que essas questões eram definidas coletivamente. (Relatório final do PHSVC. e por ser relacional em sua gênese social. Saúde. Segundo Giffin. Sexualidade. Entretanto. falar de si. ser ouvido. Política e cidadania. Houve uma certa variação nas temáticas levantadas. Amor. Nesse processo. se caracterizando pelo fato de desencadearem uma série de processos identificatórios. havia a elaboração coletiva de um contrato informal de convivência. 1999). ainda é possível perceber a presença de velhos padrões de masculinidade. Paternidade e filiação. Trabalho e desemprego. ouvir o outro. ao mesmo tempo em que novas e diversas ideologias começam a se fazer notar.

nunca demonstrar afeto ou admitir incertezas. . na medida em que se percebe que há uma transversalidade entre eles. 1999). política. cidadania. 2 . A tentativa de classificar os assuntos levantados nos grupos de reflexão de gênero formados pelo PHSVC é relativizada. no qual ser forte. são os comportamentos esperados de um homem. violência. Assim. da paternidade. parece que falar de saúde acaba remetendo a desemprego.28 masculinidade tradicional.(Giffin & Cavalcanti. culminando com os comentários em torno da experiência no processo de participação em grupos de homens. ou termina por suscitar a fala em torno das relações sexo afetivas. que os torna indissociáveis.Objetivos: Geral: • Analisar as ideologias de gênero masculino expressas entre homens participantes de Grupos de Reflexão de Gênero. Específicos: • Compreender o modo como os serviços oficiais de saúde são percebidos pela ótica dos informantes. e sua interface com os padrões de cuidado com a saúde. • Fomentar o debate acadêmico e político sobre a questão de gênero no âmbito das masculinidades em sua interface com a saúde do homem.

ao invés de reabilitar alguma concepção anterior do seu significado. dentro do entendimento que ele tem de que: ideologia guarda sempre um estreito relacionamento com as relações de poder. Isto porque. Referenciais Teóricos/Conceituais 3. o autor caracteriza uma nova formulação do conceito de Ideologia. Na realidade.29 3. expor sua proposta de reformulação do conceito. ambigüidades e equívocos que contribuíram para que o conceito fosse caindo no descrédito.1.Thompson (1995). eleita como um dos aportes teóricos para esta pesquisa. (1995). Isto é o que explica John B. Thompson. que circulam em contextos sociais específicos. de acordo com a sua proposta. está interessada nas maneiras com que as formas simbólicas se entrecruzam com as relações . gerando contradições. em seguida. ele acredita que a análise da Ideologia. apresenta o seu conceito de ideologia realizando inicialmente um levantamento histórico da elaboração e utilização do termo para. Em um primeiro momento. Que essas relações de poder podem ser explicadas através da análise das formas simbólicas. no decorrer da história. Ideologia – um conceito reformulado Ideologia é um dos mais complexos conceitos encontrados nas ciências sociais. lhe foram sendo atribuídos os mais diversos significados. autor a quem recorremos para o esclarecimento dessa categoria.

trata-se do “estudo de um campo objetivo que consiste. de sujeitos que produzem. as formas simbólicas também podem ser uma imagem ou imagem com palavras. recebem e compreendem as formas simbólicas como uma parte rotineira de suas vidas cotidianas. Então.30 de poder e de como o sentido é mobilizado. “estudar a Ideologia é estudar as maneiras como o sentido serve para estabelecer e sustentar relações de poder'' (Thompson. p.76). p. à reprodução e à mudança social. crítico. quando afirma que ideologia pode ser entendida. 1995.” (Thompson. Para ele. Neste enfoque. para manter relações de poder sistematicamente assimétricas. imagens e textos. de interação. no mundo social. interacionista. P. na sua forma mais ampla como “O SENTIDO A SERVIÇO DO PODER” (1995. 16). 1995. entre outras coisas. formas simbólicas são: “Um amplo espectro de ações e falas. com os modos de sua reprodução e as possibilidades de sua transformação. às qualidades das formas simbólicas e a seus papéis na vida social.13). a análise do termo ideologia torna-se mais ampla. Segundo ele. ou não. que são . Porém o autor ressalta que. ou seja. pertencendo a um interesse mais geral ligado às características de ação. servindo para reforçar pessoas e grupos que ocupam posições de poder. à natureza da estrutura social. mas como parte de uma preocupação mais abrangente relacionada com a natureza da dominação do mundo moderno. além das falas lingüísticas e expressões faladas ou escritas. o estudo de ideologia exige que se pergunte se o sentido construído e usado pelas formas simbólicas serve. Dentro desse novo enfoque. o autor retém o valor do termo ideologia. Ele próprio faz uma síntese da proposta. às formas de poder e de dominação.

no seu modo de ver. p. p. que para nós é particularmente relevante: de que maneira o sentido serve para estabelecer e sustentar relações de poder? Ele enumera cinco modos de operações gerais da Ideologia que. Thompson destaca três aspectos que merecem atenção na abordagem analítica da ideologia. Dissimulação. na medida . Fragmentação e Reificação. e em grau significativo. a “dominação'' ocorre quando as relações. explicam os modos gerais de operação da Ideologia. São eles: Legitimação. garantem aos indivíduos diferentes graus de poder. Para analisar o caráter significativo das formas simbólicas. Thompson ainda levanta uma outra questão.31 produzidos por sujeitos e reconhecidos por eles e outros como construtos significativos'' (1995. permanecendo inatingível a outros agentes. Unificação. em condições socio-históricas específicas. 80). e a posição por elas ocupada nesse contexto. tal como proposta por ele: a noção de sentido. independente da base sobre a qual tal exclusão é levada a efeito'' (1995. isto é. Esses cinco modos. a capacidade que cada pessoa tem de tomar decisões. 79). o conceito de dominação e as maneiras como o sentido pode servir para estabelecer e sustentar relações de poder. estabelecidas de poder são “sistematicamente assimétricas''. ou seja. Thompson postula que o contexto onde as pessoas estão inseridas. através dos quais a Ideologia pode operar ajudam a analisar as maneiras que o sentido pode servir. para manter relações de poder. ou a grupos de agentes. conseguir seus objetivos e realizar seus interesses. “quando grupos particulares de agentes possuem poder de uma maneira permanente. Assim.

as maneiras como o sentido é const ruído e transmitido pelas formas simbólicas. onde uns buscam preservar e outros procuram contestar. e na igualdade de direitos. p. 1995. 81): A categoria de Ideologia. do dominado e do dominante. isto é. o Movimento das mulheres tem estado a frente de uma onda crescente e global de movimentos de grupos minoritários de reivindicação de direitos (calcados nos ideais de igualdade e liberdade herdados da Revolução Francesa) que. entre outras estruturas de opressão. encaram de forma questionadora. e como serve. nesse caso. procura chamar a atenção para as maneiras como o sentido é mobilizado a serviço dos indivíduos e grupos dominantes. sendo problematizadas pelos próprios sujeitos que supostamente detêm esse poder. em circunstâncias particulares. com objetivo político de transformação social. Acreditarmos que se tratam de aspectos da vida social onde as relações de poder e de dominação se fazem presentes mas. o . 3. a partir desta concepção. O Referencial de Gênero Desde que se estruturou a nível mundial. para estabelecer e sustentar relações sociais estruturadas no jogo do poder. e sobre a questão de como vivenciam o processo saúde/doença. (Thompson. Consideramos essa categoria bastante apropriada para a análise da falas de homens que participaram de um processo coletivo de reflexão sobre suas identidades de gênero.32 em que estão ligados à várias estratégias de construção simbólica. O fato é que esses padrões comprometem sobremaneira a perspectiva de construção de um mundo onde as relações humanas sejam baseadas na equidade entres os sexos.2.

dualista. as feministas começaram a utilizar o termo “gênero” como maneira de referir-se à organização social das relações entre os sexos. Segundo Scott . onde o gênero é entendido como elemento constitutivo das relações sociais. Ser homem ou ser mulher e. articulando as relações sujeito e sociedade (Scott. Na década de oitenta. O Gênero enfocado como uma categori a sociológica . Dessa forma.33 paradigma 2001). e para denominar uma categoria de análise histórica. Entretanto. pouco ou nada tem a ver com essa natureza biológica e a fisiologia de cada corpo. Frente a este fato. se levarmos em consideração a história de opressão feminina ao longo dos últimos três milênios em que vem imperando a cultura do patriarcado no seio da civilização ocidental. Cada ser humano nasce com um sexo geneticamente definido. traz novas possibilidades para se pensar a questão do homem e da mulher. agir de acordo com o que as pessoas em sociedade acreditam ser natural do homem e próprio da mulher. e sim de sua bagagem sócio-cultural.(Rohden. compartimentador. o conceito de gênero não se científico racionalista. e reducionista que ainda predomina na sociedade ocidental. o gênero não faz parte de seu capital genético. principalmente. baseado nas diferenças percebidas entre os sexos e forma primeira de significar as relações de poder. a história descreve esses processos como se estas posições normativas fossem produtos de c onsensos e não de um conflito na sociedade. de forma alguma é possível desconsiderar as transformações sociais decorrentes das múltiplas intervenções promovidas pelo movimento feminista numa trajetória relativamente curta. política e histórica. .1989).

2001. 1995. já que é no campo das relações sociais que as relações entre os sujeitos são estruturadas. gerar teorizações” (Simões Barbosa. 2001-A: p. impregnadas na cultura através das mais diversas vias. o que social e historicamente se construiu sobre os sexos feminino e masculino. “. 124).a elaboração histórica e epistemológica do conceito de gênero – enquanto uma categoria explicativa que deu visibilidade a questões até então referenciadas à esfera do natural. (Whishire. variam no tempo e em conformidade com as diversidades culturais inerentes a cada contexto. Scott. inviabilizam uma relação saudável e construtiva com o mundo.. do biológico – partiu da reflexão coletiva de mulheres sobre seus corpos. (Giffin. Louro.. 1995. também. conseqüentemente. Simões-Barbosa. em determinado momento histórico. podem estar impregnadas de padrões que são auto-destrutivos. 2001-A). Sendo os atributos de gênero frutos de um processo. no entanto. posteriormente. As ideologias de gênero. desde os “inocentes” contos de fadas que nos são. ou seja.34 remete às características biológicas sexuais. que tais atributos são de tal forma articulados que tendem a ser percebidos como parte da natureza de . mas às formas como estas são representadas em cada sociedade. na medida em que nos condicionam a um distanciamento de nós mesmos e. Conforme ressalta Simões Barbosa. nos impingiram ideologias com as quais fomos construindo o nosso modo de pensar e de existir. 1997) e que. Isto entendendo-se que as práticas sociais atuam sobre os corpos. vivências e emoções enquanto mulheres para. Constata-se. carinhosamente lidos na infância até as parábolas das escrituras sagradas.

do trabalho. 1995). uma análise da da prática educativa do e do desenvolvimento da teoria e epistemologia desse movimento. e a todos os conceitos que daí derivam. (Louro.35 cada um. toma o corpo feminino. Para ela. inicialmente. Dessa forma. enquanto que a faculdade da razão era atribuída ao masculino. delegando ao feminino o papel de objeto/ expressão da natureza – corpo e emoçã o. quer sejam no âmbito da política. relacionamentos sociais. Giffin o processo propõe parte. em que os grandes pensadores gregos já falavam da emoção em referência ao feminino. (Giffin. esses conceitos tornaram-se arraigados dentro da civilização ocidental. É como “objeto” que a ciência. da religião. De lá para cá. onde o masculino se colocou como sujeito da ciência/razão/mente. compreensão referencial dicotômico entre corpo-gênero -poder. Esse padrão pode ser percebido desde a idade clássica. (Jaggar. contribuindo para que uma série de distorções e preconceitos sobre as mulheres fossem incorporados como sendo de sua “natureza”. e o medicaliza. as mulhere s colocaram em debate a repressão de sua sexualidade. dentro desse ponto de vista androcêntrico. o corpo da mulher ganhou importância na definição científico social da mulher reprodutora (essencialmente mãe. A figura das mul heres foi sendo associada à natureza. Numa construção histórica. 1997). 2001). e que se contrapõem ao racional masculino. dando sustentação a toda ordem de relações interpessoais. e naturalmente situada na esfera do privado). parentais e afetivos. Daí decorre que a categoria de . caracteristicamente utilizada como recurso de dominação e controle social sobre as mulheres.

sobre os usos da ciência e sobre sua ideologia. A proposta de discussão em grupos das vivências individuais é vista como meio de fortalecer a auto-estima e a possibilidade das usuárias se tornarem sujeitos ativos no cuidado da sua saúde. possibilita que seja dada visibilidade às experiências das mulheres no espaço privado da vida social. Dentro desse novo paradigma. os objetivos e a maneira de pensar daqueles que fazem ciência. 1999). na reivindicação dos seus direitos dentro dos serviços de saúde . Giffin. 1995: p. tanto os profissionais como as usuárias são caracterizados como sujeitos com direito a um espaço de reflexão sobre suas vivências. colocado como categoria teórica. “Na discussão da prática educativa. Simões Barbosa. o feminismo col ocou em pauta a proposta de construção de uma Ciência de Sucessão.36 Gênero expressa uma rejeição frontal ao destino biológico proposto pelo discurso sócio-científico e. por parte da sociedade. 1995. tais como as emoções do investigador. ao mesmo tempo em que a ciência tem influência na formação das identidades de gêneros. estas também tem seu efeito sobre a ciência. refletem e derivam do processo social em que estão inseridos. já que se constituem mutuamente enquanto produtos de um processo social. 31) . e em outros âmbitos vitais” (Giffin. o que implica dizer que existe controle. onde as mulheres propõem a fusão das categorias sujeito/objeto na conceituação e na operacionalização das investigações. Assim. 1999). 1997. (Berman. (Giffin. passa-se a considerar aspectos que até então não eram valorizados nas pesquisas. Segundo Giffin. A visão que se tem atualmente é a de que trata-se de um processo de mão dupla onde. e a participação do objeto de pesquisa no processo.

2001:39). mesmo reconhecendo a presença das chamadas ideologias de gênero. gênero. cit. principalmente nas diferenças de classe social. nem rejeita totalmente os imperativos da “feminilidade”. avanços. a maioria das mulheres opta(consciente tanto quanto inconscientemente) por tentativas cotidianas de resistir à degradação psicológica e à baixa auto-estima que resultaria da aplicação exclusiva e total das ideologias correntes de feminilidade enquanto submissão. mulheres ou crianças. por vezes. raça/ etnia. que definem os papéis sexuais. 16) Assim sendo. sejam estes indivíduos homens. e c onsiderar também as deficiências das políticas públicas no campo da educação e saúde onde aspectos . Com isso. existe um processo dialético de acomodação e resistência que se apresenta a partir de respostas diversificadas dos indivíduos à contradição e à opressão. é necessário enfatizar a importância de que a categoria de gênero seja compreendida a partir das relações que se estabelecem no âmbito do social. ela quer dizer que a socialização dos referidos papéis está diretamente relacionada com as contradições que se apresentam. os grupos dominados são. “capazes de fazer dos espaços e das instâncias de opressão. as relações (entre mulheres e homens ou entre os sexos em si) são constituídas por “negociações. domesticidade e passividade” (Anyon.37 Para Louro (2001: p. consentimentos. dependência. Preferencialmente. Para ela. alianças” (op. através de diferentes práticas sociais.33). Dentro dessa mesma linha de raciocínio. e na forma como as pessoas respondem a isso. lugares de resistência e de exercício de poder”. Segundo esta autora. “Grande número de mulheres nem aceita. 1990: p. revoltas. recuos. afirma que as pessoas negociam sua condição de ser e estar no mundo. Anyon (1990).

(Anyon. etnia. a categoria gênero possui também um caráter de transversalidade. pelo fato de que é necessário levar em conta as condições concretas da existência de homens e mulheres (Giffin. .38 relacionados aos valores culturais. a classe social. Rangel & Sorrentino. caracterizado por sua vez. o capital cultural. a nova visão de ciência que as mulheres estão de propondo resgatar deve a levar em conta. em que o "corpo da mulher" foi tomado como questão de ordem. 2002). O movimento de mulheres desenvolveu muitas experiências de práticas educativas. A partir de uma pergunta chave: "o que é ser mulher?". o que implica considerar a existência de um processo de relações em que estão envolvidos tanto homens como mulheres. 2001). Louro. as diferenças de classe. Ainda parece clara a distinção social que é feita às mulheres pobres e de origem negra. por exemplo. Além do aspecto relacional. 1995)) Há que se considerar. Dessa forma. onde as participantes encontravam espaço para trocar experiências individuais. as identidades de gênero só podem ser compreendidas dentro de um âmbito em que se engloba fatores como as diferenças geracionais. entre outros. 1990. 1994. ainda. como as diferenças entre a experiência social feminina e masculina se fazem presentes. iniciou a prática das oficinas de sensibilização. Giffin. justamente. não é possível desprezar. (Simões Barbosa. ainda que construída em termos das desigualdades propiciadas pela opressão do masculino sobre o feminino. Em outras palavras. Para Rangel & Sorrentino (1994). da história a da necessidade dimensão relacional humanidade. que a categoria de gênero possui um caráter relacional. 2001-A. quando se fala em conquistas femininas.

ponto nevrálgico de uma estratégia de transformação das relações de gênero. reflexivos que tornava por naturalizada a condição da mulher enquanto reprodutora.. 126) do pelo discurso a sócio-científico prática nos dominante. confinada à privado. o que resultou. posteriormente. o Movimento Feminista se caracterizou pela promoção de experiências alternativas de mobilização em que a metodologia utilizada se focava na formação de grupos de reflexão. Tendo seus corpos com âncora de seus debates. “Não coincidentemente.39 podendo assim re-significá-las nas vivências em grupo e. também expressou uma nova consciência do corpo feminino colonizado por outros interesses – incluindo em primeiro plano. diante da constatação de sua utilização h istórica como alvo de mecanismos de controle esfera 1995). 2001-C: p. . com isso. tanto na esfera privada como na pública. “A bandeira feminista “nosso corpo nos pertence”. grupos acabou caracterizar uma proposta i novadora de educação para a saúde. a ciência médica” (Giffin. Num processo que se assemelha bastante às práticas educativas da educação popular descritas anteriomente. no confronto do próprio modelo biomédico. espaços nos quais se exercitava justamente as perspectivas do diálogo e da troca de experiências. 2002: p. esse percurso levou a um profundo questionamento sobre a construção social e ideológica dos conhecimentos da medicina sobre o corpo e a sexualidade feminina. resultando na formulação do conceito de saúde integral e de uma proposta educativa consoante com essa visão” (Simões Barbosa.104). (Giffin. e onde a mulheres puderam construir um novo conhecimento e sentido para suas vidas. re significar sua relação com o próprio corpo e com o mundo.

para pronuncia-lo” (Freire. pois a análise coletiva de suas vivências cotidianas possibilita que tenham uma melhor visibilidade das ideologias de gênero que acabam por determinar o modo como. mas também para que nos tornemos sujeitos sociais e morais.79). É uma mera ilusão. Um processo de crescimento pessoal desvinculado de sua consciência comunitária com o mundo não chega a ser um processo de crescimento verdadeiro. 1974. Isto porque o ser humano não consegue se ver a não ser olhando para fora. As experiências na formação de grupos de reflexão de gênero com homens tem demonstrado que esse é um espaço adequado para a análise coletiva de um necessário processo de desconstrução e desnaturalização das identidades de gênero socialmente construídas. tendem a responder ao mundo diante de . para os outros e se re-conhecendo como integrante de um coletivo.: p. o “homem” se revela a si mesmo em sua relação com o mundo: “O diálogo é esse encontro dos “homens” mediatizados pelo mundo. tende a resultar uma gama de novas descobertas e questionamentos que possibilitam a revisão e modificação de padrões de comportamento até então bastante arraigados. Segundo Paulo Freire. o que significa que ninguém consegue se tornar realmente humano a não ser na relação. Isto porque possibilitam o envolvimento crítico de homens numa verdadeira “varredura” em torno do que vem a ser a sua introjetada identidade masculina. Desse processo. via de regra.40 Um fato é inegável em relação à condição humana: pertencer a um grupo é exigência “sine qua non” não só para garantir à sobrevivência.

3. 2000). não raro. é uma ficção emocionalmente inviável. crianças ou deles próprios. Nestes tempos de assombrosos avanços tecnológicos. como forma de acesso à consciência das identidades de gêneros adotadas no decorrer de suas vidas. mimeo). “O grupo deve ser suficientemente sólido e durável para dizer “o que devemos ser” e “por que vale a pena viver!” . no sentido semântico ou epistêmico.(Giffin et all. as reflexões em torno das experiências cotidianas dos participantes. Não por acaso. políticas globalizadoras.1. ou não seremos! Somos o que o outro confirma que somos”! (Freire. de mulheres. os Grupos de Reflexões de Gênero Masculino do PHSVC tiveram como base para a sua estruturação. e não-problematizadas até então. Ou temos acesso a algo além de cada um de nós. O O Gênero Masculino em foco XIX inaugura um novo momento histórico. Identidade pessoal privada. 2000) Nesse entendimento. (Relatório Final do PHSVC. estão sujeitos a protagonizar desfechos violentos onde pode ocorrer a vitimização de outros homens. guerras intermináveis. 2001. e imensas e crescentes . O espelhamento que ocorre nas situações coletivas dão a oportunidade dos participantes realizarem trocas significativas. com século mudanças rápidas e radicais nos mais diversos aspectos da vida humana.2.41 situações de conflito e onde. que só são possiveis porque o ser humano necessida do outro para se compreender no mundo. Na fala de Jurandir Freire. a aposta no trabalho com grupos. que dê sentido ao que somos ou poderemos ser.

os parâmetros e valores que possam compor uma nova identidade masculina. justamente. que não se restringem à questão de gênero. homens deparam-se também com onde o estereótipo do "macho a dificuldade de estabelecer provedor" e dominador já não atende às demandas da vida cotidiana. Ao mesmo tempo em que se defronta com rápidas e drásticas transformações no contexto social. entre os gêneros. (Rangel & Sorrentino. particularmente. ocorre questionar. 1987. assiste-se a configuração de conflitos. . Moraes. em detrimento de quem quer que seja. quais os efeitos dessas mudanças no âmbito das relações humanas e. Giffin & Cavalcanti. 1999). tanto para homens como para mulheres. São inegáveis as transformações ocorridas no modo como homens e mulheres passaram a se relacionar nas últimas décadas. Modelos tradicionalmente impostos são confrontados com uma nova realidade que exige uma nova forma de ser no mundo. Isto provoca a hipertrofia da liberdade individual e a desvalorização do princípio de igualdade. e no qual a lógica do mercado passa a estruturar as relações sociais e políticas. é pautado em um individualismo competitivo e desagregador.42 desigualdades sociais. O Neo-liberalismo. e que caracterizam um cenário de ampla e contínua luta social. e Deus pra todos’. a chamada ‘Lei do Gerson’. 1999. Besse. 2000). 1994. Prevalece a política do ‘cada um por si. onde o que conta é a perspectiva de ‘se dar bem’. em prejuízo da cidadania social. ou como costuma se dizer por aqui. sistema global que tende a prevalecer entre as nações. Em decorrência dessa ideologia. (Luz.

especialmente no modo como as pessoas administram suas relações no cotidiano.43 Diante desse contexto. visto que sua saída para o mundo público não encontrou a reciprocidade de maior entrada masculina na esfera privada. a tal “independência” feminina implicou numa sobrecarga de trabalho para as mulheres. 2001-A. Muitas mulheres. Se a princípio. parece oportuno que se lance um olhar atento às repercussões dessas transformações sociais. e encarando duplas jornadas de trabalho. o discurso masculino vem se modificando no decorrer das décadas. precisam administrar o ônus de sustentar sozinhas suas famílias. a fala . Essa mudança de opinião parece estar mais ligada ao fato de que eles próprios já não dão conta de prover suas famílias sozinhos. A tal ponto. por exemplo. questão esta que não foi bem equacionada até hoje. o advento da inserção da mulher no mercado de trabalho aparece como um dos focos da desestabilização dos homens frente a sua identidade. Como já mencionado anteriormente. apesar das pretensas e tão propaladas conquistas feministas. 1994). submetendo-se a salários menores que o dos homens na mesma função. sejam mulheres. Com as mulheres buscando essa inserção no âmbito do público. o espaço do privado começa a demandar também uma divisão de trabalho. ainda se ressentem de muita discriminação nos mais diversos âmbitos da vida social. ou encarada como um “mal temporariamente necessário” (Giffin & Cavalcanti. De fato. De um modo geral. que alguns homens já passam a afirmar que o trabalho remunerado é benéfico para suas mulheres (Giffin. 1999). Estas últimas. Giffin. sejam homens. a reação foi de estranhamento. (Simões Barbosa. 1994). ao que tudo indica.

no que diz respeito à perspectiva de equidade de gêneros. Por sua vez. face à crise de valores que atinge as sociedades como um todo. nos sinaliza que vem sendo processada uma espécie de reavaliação em torno da masculinidade tradicional. designa arm adura de couro ou metal destinada à proteção das costas e do peito. Besse. 1986). (Giffin & Cavalcanti. 1997) não mais contempla as demandas destes novos tempos. elaborada há quase duas décadas atrás. Couraça. já num primeiro momento. 1999).44 atual das mulheres ainda expressa queixas que são legítimas. Diante disso. Simões Barbosa. que o autor tenha feito o uso de uma palavra tão contundente como 'couraça' para descrever a condição em que os homens se encontram. em sua obra "Análise do . A palavra dá noção da dificuldade implícita na tarefa de desempenhar o papel que lhes tem sido historicamente atribuído. Wilhelm Reich. constata-se que novos modelos vêm sendo adotados. Essa fala. defesa. Tem o sentido de proteção. fazendo com que a masculinidade passe agora a ser descrita em termos plurais. 2002. resguardo. e parece não querer mais suportar a couraça que o envolve e ao mesmo tempo o aprisiona" (Costa. Chama a atenção. já que a performance do antigo “Homem de Verdade” (Nolasco. o homem parece estar sendo pego de surpresa ao confrontar-se com a ausência de um papel previamente delineado para que ele esteja em cena nesse novo ce nário. "O homem atual começa a demonstrar sinais de cansaço. no dicionário Aurélio. 1999). 2001-A. (Giffin.

senão figuras inseguras. consolidam todo um conjunto de bloqueios. e impulsionar tanto a auto-desvalorização como reações violentas contra outra/os “ (Giffin. as meninas se individualizam identificando-se com a mãe. capaz de manter uma insegurança constante nos homens. é estabelecida e mantida por sucessivas afirmações sociais. os homens se envolverão em situações violentas que reafirmarão sua diferença das mulheres e sua virilidade. enquanto que os meninos se definem pela negação (Gaiarsa. empregou o termo "couraça caracterológica" para descrever as tensões musculares acumuladas através dos anos pelo indivíduo e que.45 Caráter". tensas. aprisionados à rigidez de uma cultura tão impregnante e exigente.1998). impressas no corpo. violentas. desajustamentos 1998). p. ajuda a conformar a identidade masculina no processo de diferenciação (quando não negação) mulheres. de modo público. Em casos limites. autoritárias. O que é possível esperar de indivíduos arbitrariamente e fixações a nível físico e psicológico. que impossibilitam o fluxo natural de sua energia criativa. Prover e ser ativo das sexualmente. nos moldes tradicionais. baseados nos afetos e emoções. diante da impossibilidade de se diferenciar. 2004. são eminentemente descartados. e irremediavelmente solitárias? Na busca de corresponder à uma identidade em que a interiorização de valores humanos essenciais.8) e até contra si mesmos. controversas. No terreno da psicanálise. A identidade masculina. (apud Gaiarsa. “O resultado é uma tensão entre ser macho e ser masculino. os homens tornam-se tanto .

viril. são suficientes apenas para definir um indivíduo solitário. Como afirma Pierre Bourdieu. no fim das contas. no mínimo. embora superficial. 1997) Precisam adequar-se às características desse tal “homem de limitado no que se refere às pessoais. política esta caracterizada pela violência.46 mais rígidos e insensíveis quanto possível. pela necessidade de recorrência ao uso da força para que seus propósitos sejam garantidos. o tão falado privilégio masculino não deixa de ser. (Nolasco. reservado e pontencialidades de suas experiências firmemente direcionado para agir. competitividade abusiva. objetivo. eficiente. para a manutenção desse status quo de macho dominador. 2003). 1997. o homem se vê obrigado a confirmar socialmente a sua virilidade a todo o momento. Essa constatação leva o autor a considerar esse país como um perigo . ser pragmático.(Bourdieu. mas no que diz respeito ao ser humano. visto que. versátil. É justamente nesse processo que esses atributos acabam se confundindo. ainda que em detrimento de outros sentimentos mais elevados. uma cilada. portanto. tal pretensão parece. realizar. as imagens de masculinidades construídas nos Estados Unidos no decorrer dos tempos podem ser análogas ao modo como essa nação se remete aos outros países através de sua política externa. Talvez uma máquina pudesse ser programada para atender a esse rol de proposições eficientemente. Ele deve estar verdade” que . discreto e contido nas emoções e sentimentos. de modo a provar aos outros homens e às mulheres que são “homens de verdade”. fazer. (Nolasco. quiçá cultivar. Gomes. desumanizadora. 2004). que sua condição de macho não lhe permite expressar. 1999) Segundo Kimmel (apud Giffin. e uma insegurança constante. ágil.

etc. Nesse período. etnia/raça. apud Giffin.. outros homens. entretanto. A autora ressalta. sendo que. no intuito de minimizar o famigerado padrão de dominação contra o qual elas se rebelavam. Giffin (2004) nos surpreende ao recordar que a questão do masculino vem requisitando espaço na pauta das discussões desde os anos 50. a homofobia é base para americana de macheza. de acordo com a origem. na visão norteKimmel afirma ainda que. Pesquisando autores como Carrigan. as mulheres descartaram a participação dos homens no debate sobre suas questões. a referida autora const ata a existência de estudos que relacionam a delinqüência .47 eminente para a sobrevivência do planeta. religião. Connell e Lee. geração. O autor salienta que. Mas não apenas isso. 2004) A despeito de quão equivocadas possam nos parecer as idiossincrasias americanas. não podemos nos furtar de sofrer seus efeitos em nossas vidas. época que antecede o início das primeiras manifestações feministas. envolvidas que estavam na meta de garantir um espaço no âmbito da vida pública. (Kimmel. no topo da pirâmide estariam os americanos. podem ser desqualificados em relação ao mito de superioridade masculina americana. com a prerrogativa de se auto-designar ao mais alto grau de masculinidade/poder em relação ao restante da população masculina do mundo. Teríamos aí uma verdadeira gradação de masculinidades. garantir a afirmação da identidade masculina. que o papel do homem nos estudos feministas desde esse período era o de “objeto”. tal o poder de influência a que somos submetidos na condição de país de terceiro-mundo. nessa visão norte-americana de masculinidade.

2000) Sendo o chamado "mundo dos homens" composto. (Connel. Kimmel. . mas também no que se refere à saúde integral dos homens . por homens e mulheres. o conceito de hegemonia caracteriza a liderança cultural. 1981). num processo que coloca em xeque a manutenção dos padrões masculinos socialmente impostos diante da vida real e suas contradições. (Giffin. 1999). e isso apenas reforça as dúvidas 2 Utilizaremos. Kaufman 1997. neste trabalho. Para ele. 2004). mas também estrutura um cenário em que surgem uma gradação de masculinidades subordinadas. De fato. (Coutinho. As formas históricas da hegemonia nem sempre são as mesmas e variam conform e a natureza das forças sociais que a exercem.ideológica de uma classe sobre as outras. (Giffin. Outros autores relevantes salientam também que a construção social da masculinidade dentro dos parâmetros tradicionais e hegemônicos se dá numa perspectiva de opressão feminina. uma série de questões acerca das desigualdades de gênero.48 e fracasso escolar com a ausência paterna. constata -se como relativamente recente o interesse das ciências sociais por essa temática. onde a questão de gênero é ampliada no sentido de abrigar também uma discussão sobre as implicações do modelo de masculinidade hegemônica2 no contexto global. 1995. na realidade. as insatisfações são tanto de mulheres quanto de homens. 1995. Silver. 1997. De qualquer forma. há que se atentar para o fato de que estas últimas já vêm deixando claro. e em especial a saúde reprodutiva. há algum tempo. de Keijzer. Vale citar também estudos desse período relacionados aos conflitos diante da masculinidade desencadeados pelas demandas emergentes de valores relativos à “sensibilidade” nas relações sociais. o conceito de hegemonia conforme proposto por Antonio Gramsci.

onde o estereótipo do “machão” parece não mais receber a mesma aceitação de algum tempo atrás. circunscritas a uma pequena parcela de homens pertencentes à classe média e. 1998. aparentemente. 1997). Isto porque. Barker & Loewenstein. em contraposição à "racionalidade" eminentemente masculina (Luz. Diante disso. justamente. (Giffin e Cavalcant i. Valores estes que remetem à "sensibilidade". Giffin. munidos de um nível de instrução diferenciado. 1987. mudanças caráter masculino relativamente tímido e incipiente e. O PHSVC reuniu majoritariamente homens de classe popular. existe a constatação de que essas transformações estão condicionadas à questão da relação. Curiosamente. 1999). Por outro lado. e estes demonstraram ser provável a confirmação dessa tendência. é no cotidiano dessas e de relações gênero que os atributos as de são de gênero são no ainda reproduzidos comportamento transformados.49 quanto à perspectiva do papel de dominador atribuído aos homens ser ou não um “privilégio” a ser mantido. parece importante ressaltar a necessidade de se . vários estudos demonstram que a busca atualmente parece ser. 1999) Alguns estudos apontam para a perspectiva de que esses questionamentos também venham sendo feitos entre homens de camadas de baixa renda. Contudo. portanto. por uma identidade onde os valores até então ditos femininos passam a ser levados em conta. Estas podem ou não aceitar as inovações propostas pelos homens dentro das relações cotidianas. uma vez que envolvem o posicionamento das mulheres. (Mota.

3. com isso. 2001). Num processo de construção coletiva do conhecimento sobre a realidade comum. Descobrem. que são os grandes responsáveis pela manutenção ou pela transformação da qualidade de suas vidas. a reflexão crítica dos atributos de gênero e. descobrem a possibilidade de se permitir escutar o outro. essas transcrições contemplam a fala de alguns dos homens que se envolveram. e que a construção de novas identidades de gênero não só é possível.2. 1999). em uma verdadeira maratona reflexiva sobre suas identidades de gênero. efetivamente.50 pensar metodologias e técnicas para se trabalhar a questão da alteridade.(Giffin & Cavalcanti. favorecer a construção de uma “fala masculina” . porque desqualificadas pelos padrões de masculinidade tradicional. nos propusemos a revisitar as transcrições que ora são alvo de análise nessa pesquisa.2. (Relatório Final PHSVC. podem chegar a descobrir juntos que também são responsáveis pela qualidade de vida pessoal e coletiva. Saúde e Vida Cotidiana”. sobre sua saúde e participação social. e identificar-se na fala do outro. A Saúde do homem: . como também pode lhes permitir a exploração então de muitas de suas potencialidades humanas até desconhecidas. e que a saúde do homens é uma questão de saúde pública. sobretudo. na medida em que são ouvidos. a exemplo do que ocorreu com os participantes dos Grupos de Reflexão de Gênero do PHSVC. Registro de um momento especialmente interessante do “Projeto Homens. Essas experiências dão indícios de que os homens começam a perceber que também podem falar sobre si e de que. Não por acaso.

Nesse trabalho.51 A pergunta: "O que é ser homem hoje?". em suas especificidades múltiplas. a partir dos parâmetros impostos por essa cultura. que diz respeito tanto a saúde das mulheres quanto a dos homens. e mesmo o fenômeno da violência em seus aspectos sociais mais abrangentes. Contudo. não amolecer. Observa-se também que. o mesmo não acontece em relação aos homens. na maioria dos países. (Bourdier. os homens adquirem uma capacidade especial para camuflar os próprios problemas. A preocupação com a saúde do homem. No processo de formação da identidade masculina. precisa ser considerada atentamente como mais um aspecto da questão de gênero. colocada enquanto masculino/feminino. Mas a saúde dos homens. não se mostrar dependente ou fragilizado. visto que “ser homem”. ainda é . implica em não ficar doente nunca. que vão desde a questão fisiológica. no sentido da criação de políticas públicas de saúde que levem em conta as necessidades da população masculina. a questão de gênero foi de um processo. há ministérios ou conselhos que defendem o estatuto da mulher. Nolasco 1995). não chorar jamais. apresenta-se como um fator preocupante em termos de saúde coletiva. permeou todo o trabalho realizado com os participantes dos Grupos de Reflexão de Gênero formados pelo PHSVC. onde a dicotomia reflexo tradicionalmente alicerçada numa relação onde prevalece a dominação. 1997. no entanto. A própria busca de cuidados para com a saúde não faz parte de seu repertório. até a questão da violência doméstica. demandando ser confrontada em sua integralidade. forjada em raízes que se baseiam na cultura patriarcal.

ou desejo de resgatar a prevalência do masculino. o objetivo é alertar para um necessário olhar de cuidado sobre as especificidades de “Acreditamos que são igualmente válidos os posicionamentos que enfocam a saúde da mulher e a saúde do homem. trata-se justamente de fortalecer a busca de equidade dos gêneros. levando em conta a perspectiva de incluir um número cada vez maior de homens como participantes e co -construtores desse conhecimento. primordiais de universalidade e equidade. Além do interesse de fazer valer as prerrogativas do Sistema Único de Saúde – SUS. no que tange aos princípios cada gênero. ainda está longe de se fazer realidade no Brasil. 2001 A). De forma alguma se invalida a necessidade de garantir programas de saúde especificamente voltados para as mulheres. Apesar das pretensas conquistas das mulheres em termos legais. a atenção integral à saúde. conforme previsto na legislação atual. 2003) Diante desse quadro.” (Gomes. os serviços est ão preponderantemente estruturados para a assistência às mulheres e crianças.(Simões Barbosa.52 assunto de pouca ressonância. ressalta-se a importância de ampliar o debate e os estudos que instrumentalizem as práticas de saúde. De um modo geral. Vale ressaltar. Como bem alerta Gomes (2003). embora atuem de forma bastante insatisfatória mesmo nessas áreas. que o interesse de colocar em pauta a saúde do homem nada tem a ver com sexismo machista. pois . desde que tais posicionamentos não percam a perspectiva relacional entre os gêneros e não se distanciem da promoção da saúde voltadas para as necessidades humanas em geral. entretanto. e os setores de saúde pública permanecem aparentemente alheios a esta problemática.

uma tendência acentuada dos homens morrerem antes das mulheres. Nesse processo. considerando-se também as variações relativas a classe. quase sempre. Não por acaso. é o homem que se compromete com as tarefas mais arriscadas e perigosas e que demandam maior vigor físico. e a perpetuação através da paternidade. 2003. especialmente no que diz respeito à saúde. é claro. situações de violência e acidentes. (de Keijzer. somam-se as experiências com drogas. Quanto a isso. alcoolismo. justamente em virtude dos fatores de risco e das conseqüências do trabalho sobre a saúde. está diretamente Ter filhos é uma forma .53 somente a partir de suas falas será possível acessar quais são suas reais preocupações e necessidades. 1998). De fato. (Hardy & Jiménez. geração e particularidades sócio-históricas. onde “ser homem é fazer coisas de homem”. 2000) Trata-se de um padrão que parece estar bastante imbricado na ideologia que prevalece na cultura latino-americana. quase sempre associadas à uma pré -disposição deliberada à se exporem a riscos e situações perigosas. destaca-se. relacionado com a perspectiva de ser pai. etnia. o corpo masculino é visto como instrumento de trabalho. realmente. principalmente. De Keijzer. Essa cultura acaba privilegiando uma estrutura de relações em que a m asculinidade é compreendida a partir de três aspectos: o trabalho. e não raro em virtude de causas externas. na maior parte dessa cultura. Observa-se que existe. o aspecto que diz respeito as atividades laborais onde. 1999). a saúde do homem tem sido relegada ao âmbito da saúde do trabalhador. 2000) Ser homem. a sexo-genitalidade. 1997. Isto. Giffin & Cavalcanti. (Jiménez & Garcia. (Gomes.

Nesse aspecto. por exemplo. nem sempre levando em conta o fato de que o uso de pílulas. De um modo geral. a tendência é eles se colocarem à margem. já é considerado direito legítimo das mulheres.54 categórica de provar a masculinidade. Ainda é preocupantemente reduzido o número daqueles que se referem a um uso contínuo e sistemát ico deste método. consequentemente. Daí também se depreendem questões ligadas ao processo reprodutivo. para eles. e ao modo como os homens se colocam diante da questão. sendo que os que se mostram mais reticentes alegam que suas dificuldades estão ligadas à perda de sensibilidade. Admitem . relegando às mulheres a responsabilidade por esses cuidados. (Kalckmann. (Kalckmann. pode ser um fator complicador da saúde delas. com orgulho. 1997). e à divisão da responsabilidade em relação ao uso de métodos contraceptivos. ao medo de perder a ereção. (ib idem. que podem engravida-las. 1997: 89). apresentando as mais diversas justificativas para isso. 1997) Vários estudos apontam para a resistência demonstrada por muitos homens em adotarem a utilização da camisinha. assumindo o papel do provedor de prazer. para muitos homens. especialmente no que se refere à prevenção de dst/AIDS. o mesmo não acontecendo quando o desejo é a prevenção de doenças. o mesmo não acontecendo em relação às doenças ”. medo este causador de ansiedade pelo receio de comprometimento do desempenho junto à parceira. o casamento aparece como . “Parece que evitar filhos. à interrupção do clima de erotismo e.

como produto das relações de poder que eles mantém em relação às mulheres. estaria em suas mãos o controle sobre a seleção de suas relações sexuais. (Almeida. somente à elas fica delegada a responsabilidade de submeterem-se a um processo de diagnóstico. 1998) De um modo geral. vários estudos descrevem como a enorme diversidade de praticas sexuais dos homens. bem como a forma como essas praticas são atravessadas pelos mecanismos de poder. nesse contexto. 2002). na medida em que se sente diminuído por não poder provar sua virilidade. concorrem para tornar a sexualidade um campo central para a compreensão das identidade masculinas. a extra-conjugalidade é tida como uma prerrogativa do gênero masculino. ou nem mesmo chega a ser feito. Um outro aspecto digno de nota tem ligação com a di ficuldade dos homens aceitarem a perspectiva da sua própria infertilidade. Ao mesmo tempo. a vulnerabilidade diante da possibilidade de contrair DSTs/AIDS fica maximizada frente as ideologias de masculinidades incorporadas no contexto das relações extraconjugais. Com a naturalização desse comportamento. frente as mais diversas repercussões que podem . fato que parece tratar-se de um acordo tácito aceito inclusive pelas mulheres. especialmente entre as camadas populares. um tratamento preventivo que poderia ser feito a partir de um simples exame de espermograma. Dessa forma. o que não se enquadra no modelo de masculinidade que precisam atender.55 um fator de segurança uma vez que. muitas vezes desnecessário. Assim. é retardado. (Hardy & Jiménez. visto que este fator interfere significativamente em sua identidade masculina. quando o casal não consegue conceber um filho. O fato é que a auto-estima do homem que não consegue procriar fica irremediavelmente comprometida.

a maioria dos homens não revela que mantém relações sexuais fora do casamento.56 acarretar no campo da saúde.” (de Keijzer. entre as profissionais do sexo. a sexualidade e o processo . 2001-A:p. (de Keijzer. Nesse aspecto. como poderia se supor. “No terreno da dupla moral que rege a cultura sexual. a abordagem das ideologias de gênero podem contribuir para esclarecer os modos como vem sendo construído esse contexto social de violência que já se apresenta com dimensões alarmantes. Neste sentido. mas sim entre as mulheres com um único parceiro e em idade reprodutiva. O ‘fator de risco’ que implica estar casada persiste para mulheres em sociedades culturalmente distintas. o eixo de muitas campanhas informativas centrado na (suposta) fidelidade mútua é irreal. a saúde mental. já que não questiona o comportamento masculino. desde a América Latina até a Índia” ( Simões Barbosa.19) O tema da violência também é uma das questões centrais na relação masculinidade X saúde. “Es llamativa la reciente proliferación de programas y modelos que utilizan diversas estrategias para detener la violencia com hombres que se acercan voluntariamente u hombres derivados por los servicios de justicia. 2000) Assim. em especial no âmbito do espaço doméstico. e onde o exercício de poder masculino nem sempre é expresso de maneiras ‘sutis’. haja visto as conseqüências que esse fator vêm acarretando em termos de prejuízos para a saúde tanto de homens como de mulheres. 2000) O quadro que se assiste atualmente é o aumento significativo de mulheres infectadas pelo HIV. a saúde reprodutiva. sendo que a incidência maior não é.

solidário e engajado”. colocado em xeque diante da eminência do desemprego e. que consistia no papel do provedor absoluto. a exemplo do PHSVC. 2001-C. de uma forma diferente da tradicional. na medida em que se apresentam como um contraponto ao papel tradicional masculino. Pode se destacar três aspectos como importantes vias de acesso à compreensão dessa questão: a paternidade. Nesse processo.2. Entretanto. do doméstico.3. onde o trabalho com homens é considerado de suma importância no sentido de se alcançar as soluções para a resolução dos conflitos entre os gêneros. as dimensões da afetividade. 1999) A paternidade pode ser compreendida como possibilidade de inserção no mundo do privado. a sexualidade e a violência. faz-se necessária a inclusão de um número cada vez maior de homens que se disponham a dar prosseguimento a esse debate. a partir daí. das emoções e da intimidade ganham novo contorno.57 de socialização do homem são aspectos que vem sendo observados na literatura recente e em algumas propostas de intervenção na área da educação popular. que implica não somente a apropriação de novos conhecimentos científicos. 3. eles passem a se perceber enquanto “sujeitos comprometidos com um processo educativo transformador”. o grande desafio é possibilitar que. . p. – Masculinidades: Os temas emergentes Identifica-se nas pesquisas realizadas. (Simões Barbosa. (Giffin & Cavalcanti. o conseqüente isolamento das relações produtivas. alguns temas centrais relativos às grandes tensões que permeiam a masculinidade atualmente. mas principalmente a adesão a “um papel social ativo. Em última instância. 125).

Vale ressaltar que essas pressões sociais podem ser responsáveis por graves implicações na saúde mental e na saúde da família como um todo. 1999. alimentar. já é objeto de lei em alguns estados. p. 1997. principalmente nas maternidades. “Como é que ele se sente dentro de uma sociedade que o valoriza pelo que possui em bens de consumo e não pelo que é como ser humano? Como é sentir-se apenas uma peça de uma engrenagem. 37) Surgem novos discursos sobre novas formas de ser pai. 1997). 2004). Muitos homens vem assumindo a participação nas tarefas rotineiras do cotidiano. além de favorecer uma vivência mais positiva do pós-parto e da amamentação. ser reconhecido e supervalorizar-se para adquirir o respeito da sociedade e de seus descendentes? “(Noronha. como Santa Catarina.(ib idem. Vários estudos vêm comprovando que o suporte emocional que o pai oferece para sua companheira contribui na adaptação à gestação. O direito da participação do Pai nos serviços públicos de saúde. 1997). Constatase que o homem atual está procurando definir melhor o seu papel. (Noronha. na escola e. que a presença do companheiro no parto contribui para diminuir a nece ssidade de uso de anestésicos. (Nolasco.58 . participar das consultas médicas dos filhos e da mulher. Percebe-se que tem havido uma mudança significativa no papel e participação dos pais nos cuidados e no acompanhamento do processo de desenvolvimento de seus filhos. com uma personalidade estereotipada e uma necessidade brutal de vencer. banhar. 1995. reformulando valores no sentido de direcionar seus afetos para caminhos menos frustrantes. Carvalho. tais como assistir. colocar pra dormir. Noronha. Zigoni 2001. ir buscar na creche. a sua identidade. São Paulo e . inclusive.

O resultado disso é a presença cada vez maior dos pais nos hospitais. (Baker & Loewnstein. (Giffin & Cavalcanti. passividade. 1995). “maricas”. 1998).59 Rio de Janeiro. Esses dados sinalizam o surgimento de uma nova consciência do papel do pai na formação da personalidades das crianças. Mas não somente isso. Desde muito cedo. por exemplo. A rua é o espaço onde os meninos vão encontrar as referências sociais para a construção de suas identidades. a educação tradicional busca estabelecer detidamente as fronteiras entre o que é de menino e o que é da menina. sendo o sexo encarado como uma forma explícita de exercer o poder sobre o outro. não como visitas apenas. o papel do homem dentro do modelo tradicional. supõe-se que possa ter relação com as altas taxas de incidência e mortalidade por . subordinação. A partir daí. fraqueza. Também nos ambulatórios e consultórios. ”corno”. Nolasco. mas como participantes do processo. Carvalho. Ser homem é mais que a mera oposição ao ser mulher. 1997). “bicha”. levando em conta a prerrogativa de descartar qualquer atributo que possa estar relacionado ao feminino. Implica em não ser “veado”. na medida em que o processo de socialização dos meninos é realizado fora do lar. figuras que incorporam as representações de feminilidade. No que diz respeito à sexualidade. 1999. No terreno da saúde. começa-se a observar a presença masculina acompanhando os filhos. impotência. atributo este que é aprendido desde muito cedo (Gomes. e onde também fica clara a delimitação do espaço público como de domínio masculino. (Mota. esteve sempre ligado à atividade. 2004). esse padrão acaba se refletindo enquanto repressão da sexualidade. 2003.

dentro de um padrão tradicional. Pode-se observar. Ribeiro. apresentam uma grande dificuldade para administrar as questões relativas aos sentimentos. No caso de adolescentes. eles lidam também com a emergência dos hormônios . e dos papéis destinados ao gênero masculino. Como bem ressalta Gomes (2003). “A desinformação faz parte do cotidiano de todas as camadas sociais. 1997: p. e sempre dispostos sexualmente. o que pode ser explicado a partir da dificuldade de se promover campanhas preventivas nesse sentido. Isso acaba por torna-los incapazes de administrar experiências em que precisem lidar com o fracasso. dentro de nossa cultura. em especial os homens jovens. corajosos. também. (Barasch. um grande distanciamento das questões afetivas. na medida em que precisam dar conta do ideário de macho viril e do “tesão”. uma vez que estão condicionados a uma identidade onde têm que se mostrar sempre fortes. têm a respeito das práticas sexuais. potentes. além do ideário masculino. Estudos comprovam a necessidade de se observar a concepção que os homens. de maneira geral. tende a apresentar diante da perspectiva de se submeter a um exame de toque retal. o que redunda na constatação de vários pesquisadores de que os homens. o que gera falta de comunicação e dificulta o conhecimento do potencial erótico dos parceiros” (Barasch. 1991). embora estas sejam inerentes às relações humanas. até a ignorância dos sentimentos próprios e alheios. 101). é óbvia a dificuldade que qualquer indivíduo do sexo masculino. que comportam ideologias de gênero que os coloca em situação de grande vulnerabilidade.60 câncer de próstata. Inclui desde a ignorância do sexo oposto e do próprio. 1997. em contraposição às demandas de satisfação carnal.

Numa verdadeira inversão de papel. tá limpo". utilizado para vender qualquer tipo de mercadoria. não fica escolhendo mulher" (sic). a "entidade" que se convencionou chamar de Mercado descobre um incrível potencial de lucratividade investindo no mercado masculino. as fronteiras dos mercados da moda. é caracterizado por uma voracidade sem limites. Isto acaba denunciando a existência. 1995). da estética. e com o corpo de um modo geral. os homens deixam de ser sujeitos para tornarem-se objetos de consumo. O corpo masculino está na ordem do dia. na qual também o homem vem sendo transformado em objeto de consumo. "Homem que é homem. entre outros tantos (Paiva. que poderiam ser evitadas. um objeto de consumo para além da mera e tradicional utilização da sua força física nesse mesmo padrão. Atualmente. ou melhor – seu corpo. não fosse uma forma de conduta baseada em constructos mentais do tipo "homem é homem. tem que pegar".em horários os mais diversos. ultrapassaram as costumeiras clientelas femininas. O contexto de intensa mercantilização que hoje rege as relações humanas. nas capas de revistas. 1998). e sendo ele próprio. (Messeder. prostituindo-se. caia acolá". especialmente do corpo masculino. na prática. caia aqui. de uma grande flexibilidade em relação à assunção de papéis no que se refere à atividade sexual propriamente dita. "lavou.61 característicos da idade. (Mota. 1996) Observa-se uma progressiva e exacerbada exploração da figura do homem. pela mídia e veículos de comunicação de massa. "Deu mole. desnudo nas telas das televisões . . Hoje em dia. A necessidade de atuar de acordo com essas ideologias tende a expor esses jovens a uma gama de DSTs/AIDS. dos cuidados com a beleza. nas esquinas.

questões relativas à afetividade acabam sendo desconsideradas.62 destinada ao trabalho. vem sendo rapidamente captado tanto pela mídia como pela indústria da moda. 1997. integrando em seus cuidados pessoais o uso de cosméticos. um longo caminho a ser percorrido no sentido de que esses padrões alicerçados na dominação masculina venham a ser remodelados. ainda. onde os homens estariam se permitindo dar vazão à vaidade e. a exemplo do que tem sido feito com o corpo da mulher no decorrer da história. detectaram primeiro o “desejo de realidade” do homem contemporâneo. e na sua forma de vestir elementos até então tidos como de exclusividade feminina. As pessoas parecem buscar alivio para suas tensões e insatisfações através de uma maratona mecânica e insana de atos sexuais repetitivos. 1997) “Os publicitários. onde corpos femininos e masculinos se tornam alvos de toda a atenção. Nesse contexto. nesse processo. atentos. onde a qualidade da vida afetiva não chega a ter .(Messeder. 1997: p. nesse movimento. Esse movimento. que espelha um desejo de ruptura com o tradicional. e tampouco assumiram o papel de dominadoras. 1995) Parece estar havendo uma visível transformação nos hábitos masculinos. não ocorreu uma inversão de papéis. Parece haver. As mulheres não deixaram de serem encaradas como objetos. 155) Contudo. que parece ter se tornado sinônimo de brutalidade. Seu corpo agora é também um produto de consumo erótico. (Caldas & Queiróz. em contraposição à já aparentemente desgastada figura do machão. cansado de ter de posar sempre de herói ou superhomem” (Caldas & Queiróz. Macedo. que investe cada vez mais na chamada proposta “unissex”.

o crescimento vertiginoso dos índices de violência mundial nos últimos anos. Nesses episódios. reconhecida enquanto tal em relatórios que a Organização Mundial de Saúde tem editado. tanto por . a violência começa a ser debatida enquanto uma questão de Saúde coletiva. são plurais e. enquanto um fenômeno social que vem apresentando índices cada vez mais alarmantes. (Chauí et all. Na realidade. os atores principais são do sexo masculinos. conforme o imaginário de gênero. Sendo assim. Giffin. apud Gomes. 1981. 2003: p. 12) Assim. e a grande tarefa no momento parece ser a busca da unidade em meio à diversidade. em sua maior porcentagem. individualmente. 1999. especialmente nos grandes centros. pois existem muitas/os e diferentes mulheres e homens. se revezando no papel de autor e vítima. Os dados de morbi-mortalidade são categóricos: É o homem o que mais mata. os conceitos que tentam explica-la. tratando especificamente dessa temática (Kruger et all. 2002). Muitos são os fatores envolvidos. Além da questão de gênero. repensar e problematizar cada pólo revela que eles se contêm e se integram. mas é também o homem quem mais morre. ainda. 2003) Nessa conjuntura. ser autor ou vítima é condição que tem a ver com a “encenação dos papéis que. (Amar. cabem às mulheres e aos homens desempenhar” (Suárez et all. fracionados. a homens jovens. 2002). as questões de classe social.63 lugar. há que ser considerado. e maiores ainda os índices de morbi-mortalidade masculina provocados por causas externas onde. raça/etnia e geração são acionadas para revelar que esses índices referem-se. pobres e negros.

trabalho. a expectativa de vida da população brasileira subiu 6 anos desde 1980. associados ao uso do álcool e outras drogas. a lei do mais forte. um indivíduo . elevou-se em 8. 1999. lazer e saúde. e no qual prevalece. origem negra. publicada em dezembro de 2003. IBGE. 1996. IBGE. onde os homens figuram como protagonistas de altos índices de violência criminal. Entre 1980 e 2003 a esperança de vida ao nascer. encontram-se submetidos a um regime de exclusão das condições básicas de uma vida humanamente digna. contraditóriamente. mais 16. Para estes jovens. majoritáriamente do sexo masculino. Vinte e três anos mais tarde. ou melhor.(Nolasco.64 causas violentas como por questões de saúde.4 anos de vida. De acordo com pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. moradia. sobretudo entre os jovens. suicídios. pela falta dela. Krug Eg et al. KRUG EG et al. Estes índices espelham o sofrimento de camadas cada vez onde e em sua maioria de maiores da população. Claves/Fiocruz/Cenepi. São dados que espelham uma significativa fragilidade m asculina. 2002l). ainda que a longo prazo.1999. mormente das comunidades periféricas jovens. Em 1980. perfazendo 76. 1995. como na selva.9 anos para os homens e mais 9. distúrbios de aprendizagem. como educação. 2001. 1995. em média.2002).8 anos: mais 7. (Vermelho & Mello Jorge. só resta a perspectiva de se enquadrar em um contexto de guerra urbana que parece não ter qualquer possibilidade de equacionamento. hiperatividade. 1995). esquizofrenia e autismo. só não sendo maior devido ao aumento no índice de mortalidade. Vermelho & Mello Jorge. uma pessoa que completasse 60 anos de idade teria.5 anos para as mulheres. 1996.4 anos. no Brasil. Corneau. (Corneau.

o alvo é ele mesmo.1 anos. Dessa forma. sem a pretensão de desmerecer as questões levantadas pelas mulheres enquanto objetos históricos da dominação masculina e. (Vermelho/ Mello Jorge.1 anos de vida. passando a se comportar sob os efeitos de uma tensão crescente e incontrolável que o faz atirar sem ver pra onde. o propósito é lançar um olhar sobre essa figura até certo ponto patética: o homem que. Aos 60 anos de idade os diferenciais por sexo já não são tão elevados comparativamente ao momento do nascimento: em 2003. esses informes tornam-se bastante preocupantes. enquanto uma mulher teria pela frente mais 22. 2002). Além disso. (IBGE. objeto de estudo e preocupação social.6 anos. quando percebemos que a situação no Rio de Janeiro aparece nesse cenário com índices que permitem um paralelo da situação local com a guerra civil instalada na Colômbia e outras sociedades em guerra. e sem perceber que. os 80. consequentemente. parece ter perdido o “fio-da-meada”.OMS. como atesta o último relatório sobre violência e saúde da Organização Mundial de Saúde . tornam-se. cada vez mais. . neste momento. Krug Eg et all. nesse contexto.65 na mesma situação alcançaria. na busca de se entender em um mundo cada vez mais complexo. 1996. ao completar tal idade. 2002). a questão das relações de gênero. da chamada violência de gênero. em média. um homem ainda viveria mais 19. individualista e tecnologizado. onde esse aspecto é reconhecido e reafirmado como questão de saúde pública que demanda soluções criativas e compartilhadas com o público alvo (Krug Eg et all. 2005) Essa afirmação é confirmada por dados de pesquisa tanto da área da saúde pública como das ciências sociais a nível mundial. Por nosso lado. muitas das vezes.

Neste processo de “tornar-se” homem. nunca expressar os sentimentos. Cuidar. (Giffin et all. dançar. não dançar. nem de si mesmo. onde está em xeque a possibilidade de interlocução. Nesse paradigma. cantar. o indivíduo vê -se obrigado a se diferenciar de tudo que NÃO É “ser homem”. Suas falas registram um desejo sincero de estabelecer relações mais eqüitativas com suas companheiras. a exemplo das experiências do PHSVC. sem poder chorar. ou sua sensualidade. a grande questão que se coloca é a própria capacidade de convivência da humanidade. Em última instância. 1995).1996). 2000). espaço onde ocorrem as num clima de confiança e abertura singulares. Em outras palavras. novamente. ser homem é não ser mulher. alguns homens trocas de experiências de vida vêm dispondo-se a participar da proposta de exercitar a reflexão em grupo. que encontram-se necessariamente em constante intercâmbio e relação (Velho. do processo de construção da tal “couraça” mencionada anteriormente. Contudo. que construiu sua identidade de gênero sob os parâmetros do modelo de masculinidade . chorar. e não ser homossexual. não ser menino. mostrar sentimentos.” (Corneau.66 Fala-se. ao mesmo tempo em que expressam uma grande satisfação por descobrirem que podem se colocar aberta e livremente para outros homens. convivência e diálogo entre "diferentes". significa não chorar. Na fala de Corneau. ser sensual. não cuidar dos outros. não cantar. de acordo com o padrão de masculinidade tradicional. Se levarmos em conta a impossibilidade de expressão de sentimentos por parte da população masculina. sem o receio de que suas masculinidades sejam colocadas em xeque por conta disso. são atributos femininos. “Ser homem significa amputar seu corpo e seu coração.

Nesta pesquisa. cabe às ciências sociais buscar o aprofundamento da compreensão do significado da ação humana em sua singularidade. porque indaguei. Ensino porque busco. onde tanto os investigadores quanto os investigados são agentes inter-ativos. intervenho. Não é possível buscar sem esperança.” (Paulo Freire. passamos à apresentação do referencial metodológico adotado para esta pesquisa. mais que se limitar à mera descrição dos comportamentos humanos.67 hegemônica. essa afirmação tem alguma razão de ser. Metodologia “Não posso estar no mundo de luvas nas mãos. educo e me educo. mas mover-me na busca. que reporta-se à subjetividade e ao simbolismo inerente ao universo das masculinidades. p. Discussão meto dológica: Uma questão de Qualidade A opção por uma abordagem qualitativa é justificada pela natureza do objeto de pesquisa. O que me faz esperançoso não é tanto a certeza do achado. tampouco.32) 4. Constatando.1. Segundo Weber (apud Minayo & Sanches. na solidão. Pesquiso para conhecer o que ainda não conheço e comunicar ou anunciar a novidade. constatando apenas. 1993). 4. porque indago e me indago. nem. 2000. Isto posto. a seguir. A pesquisa qualitativa postula que o mundo social é constituído por significações passíveis de serem investigadas. estamos interessados especificamente na análise do caráter significativo das formas simbólicas expressa nas falas de homens participantes de .

A qualidade. o mesmo não ocorrendo com a dimensão subjetiva. em sua dimensão objetiva. (Uchimura & Bosi. e a dimensão concreta. É mérito do trabalho qualitativo inclui r no conceito de cientificidade a idéia do "devir". crenças e valores expressos pela linguagem do cotidiano (Minayo & Sanches. e a relação entre essas ideologias e as práticas de cuidado com a saúde. 1993) atributo de coisas ou pessoas” (o sensível. que refere-se às estruturas e aos atores sociais em relação. O trabalho qualitativo descreve. contemplando os significados do sujeito. Entretanto. sua classificação quanto a ser um bom método ou não jamais pode ser atribuída ao método em si. visto que possui um caráter pluridimensional e exposto a uma série de definições diferentes que variam desde “propriedade ou que pode ser medido) a (Uchimura&Bosi. sentimentos. 2002). sendo que estes não comportam mensuração. sempre se incorre no risco de rejeição de parte da realidade. motivos. 1993). Segundo Minayo. já que seu objeto está sempre no nível dos significados. (Minayo & Sanches. intenções. Qualidade é um termo de definição complexa. atingindo as dimensões simbólicas. a dimensão histórica. atitudes. mas à maneira como é utilizado. e das coisas”. é mensurável (generalizável).68 grupos de reflexão de gênero. “aspecto . na escolha entre as possíveis definições. visando captar a dialética de acomodação e resistência às suas ideologias de gênero. há vários métodos e técnicas de análise qualitativa. compreende e explica. que remete às singularidades expressas nas emoções. 2002) Estas autoras salientam ainda que. que privilegia o tempo do espaço real e analítico.

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De acordo com Thiollent (1982), numa pesquisa qualitativa, “é o indivíduo que é considerado como representativo pelo fato de ser ele quem detém uma imagem, particular é verdade, da cultura (ou das culturas) à qual pertence” (p.199). Quando se trata, portanto, do fator humano, as condições objetivas nunca são tudo, assim como as condições subjetivas. A questão não é, dessa forma, tentar absolutizar um aspecto ou outro, mas perceber as propriedades de cada realidade. No que se refere ao objeto desta pesquisa, segundo Konder, para a apreensão do significado da ideologia em nossas vidas, de forma consciente, é preciso que se atente para a percepção da realidade cotidiana, uma vez que esta possível consciência, ao mesmo tempo em que pode refletir nossa vulnerabilidade aos efeitos das ideologias, por outro lado também pode (Konder, 2002). Assim, apostamos na perspectiva de, a partir dos depoimentos de um grupo de homens, agentes sociais em processo de reflexão e problematização do “ser homem”, abordados através de uma metodologia baseada no diálogo e na participação, capta um momento significativo de como os homens estão vivenciando suas masculinidades e o cuidado com a sua saúde atualmente. Nesse contexto, focalizamos nossa atenção nas inter-relações entre significado e poder, nas maneiras pelas quais as formas simbólicas podem ser usadas para estabelecer e sustentar relações de poder, fazendo com que a análise da Ideologia assumisse um caráter distintivo e crítico. Vale ainda ressaltar que, apesar da complexidade implícita na sinalizar saídas para a estruturação de resistências diante da opressão exercida pelos processos ideológicos.

70 perspectiva de se tentar compreender o humano, cabe sempre lembrar que ‘ciência’ demanda rigor metodológico. Na pesquisa qualitativa, esse rigor se faz ainda mais necessário. Cientes desta prerrogativa, para análise do material sobre o qual ora nos desbruçamos, e embuídos do desejo de fazer o melhor, procuramos nos ater criteriosamente aos passos da metodologia adotada, os quais passamos a descrever. 4.2. Tratamento dos Dados: Explicando o Vir -a-Ser Adotamos, para a interpretação dos dados coletados, a

abordagem Hermenêutica-dialética que, de acordo com Habermas (apud Minayo, 1998), não se propõe a determinar técnicas de tratamento dos dados, mas sim sua auto-compreensão. Trata-se de uma proposta que busca compreender a fala dos atores levando em conta o contexto sócio-histórico em que estão inseridos e no qual a fala é produzida, buscando captar o movimento, as contradições e os condicionamentos históricos que a envolvem. Na fala de Thompson, “o campo-objeto da pesquisa sócio-histórica não é apenas uma concatenação de objetos e acontecimentos que estão ali para serem observados e explicados: é também um campo subjetivo (um campo-sujeito) que é construído, em parte, pelos sujeitos que, no curso rotineiro de suas vidas cotidianas, estão constantemente interessados em compreender a si próprios e aos outros, em produzir ações e expressões significativas e em interpretar ações e expressões significativas produzidas pelos outros.” (1995, p.33) A análise hermenêutica-dialética nasceu do debate acadêmico entre dois pensadores, Habermas (das Ciências Sociais) e Gadamer (da Filosofia), por volta dos anos 60. Este diálogo acadêmico foi de grande

71 valia para as discussões sobre método nas Ciências Sociais, já que teve como proposta ser uma metodologia de abordagem da comunicação. Além disso, não se trata de uma simples teoria de tratamento dos dados, porque isso seria uma redução da proposta. O objetivo é o encontro da teoria com a prática transformadora. (Minayo, 1998) Por hermenêutica entende-se a arte de interpretar o sentido de

um pensamento através da linguagem. Uma compreensão simbólica da realidade através da palavra. A fala considerada é a da linguagem cotidiana, núcleo central da comunicação. Abordando a proposta apresentada por Hans-Georg Gadamer, na visão de Paul Ricouer, a hermenêutica situa-se na perspectiva da validação da consciência histórica como referência para a interpretação do conhecimento humano. Para Gadamer, o homem é marcado pela tradição, e a forma de estar no mundo comporta o passado como condição para o desenvolvimento da linguagem, a qual, num constante movimento de reinterpretação, constitui a realidade. (Ricouer, 1983). A compreensão será, portanto, sobre as condições cotidianas da vida. Por esta razão, a hermenêutica será condicionada por um conjunto de valores sociais que fazem parte do contexto do analista, e este, por sua vez, também precisa ter claro qual é o contexto de seus entrevistados, fazendo com que linguagem e práxis se interpretem mutuamente. Todo indivíduo, pesquisador e pesquisado, é marcado pela história, pelo seu tempo e sua cultura, e isto será sempre passado para o texto. A hermenêutica buscará, então, esclarecer sob quais condições surge este discurso. Daí as possibilidades de interpretação nunca se esgotarem (Minayo, 1998, 2002).

Ao contrário. contudo. Na medida em que esse momento ocorre.1987. até que encontrou. através do materialismo histórico. usaremos o conceito Ideologia proposto por John B. sem que. abandonado. Isto porque constitui o estudo de construções significativas e da contextualização social das formas simbólicas. A dialética. que é onde se aplica o termo dialético. as faces dialogam. sua maior contribuição. O conflito não é. Thompson. necessariamente. esta abordagem foi formalmente desenvolvida. da-se também a transformação da realidade humana. (Thompson . a análise da ideologia. em especial. a dialética significava a arte do diálogo. no marxismo. este conceito foi abordado. principalmente em termos históricos. por sua vez.1995). a Hermenêutica pode oferecer uma reflexão filosófica sobre o ser e a compreensão como uma reflexão metodológica sobre a natureza e as tarefas da interpretação na pesquisa social. se afastam. que é sempre social. com Hegel. “ é imprescindível haver interesses contrários (contrariados)” (Demo. (Idem. p64). Ao longo da história. 1997) Originalmente. de discutir. No processo histórico. criticado e resgatado por diversos pensadores.72 Como já dito anteriormente. No século XIX. Segundo esse autor. é o “motor” do processo histórico em que cada fase gera uma outra fase contrária. ao mesmo tempo em que se contém. além de fornecer um referencial metodológico para a condução da análise. . parte da concepção de que a realidade é constituída por uma unidade de contrários que. de acordo com seus referenciais teóricos. Conforme afirma Pedro Demo. esse diálogo seja sempre no sentido do consenso. algo desconstrutivo. distinguir e analisar as idéias.

2002). 2002). nem as idéias. portanto. grupos e culturas diferentes. e as mudanças são. é sempre dialético e complementar nesta forma de compreender a realidade em processo constante de transformação. são aspectos de um mesmo objeto. e. o contrário. marcado no tempo e no espaço. O encadeamento dos processos que participam desta transformação ocorre em espiral. Qualidade e quantidade. fixo ou absoluto. o método de transformação do real (Minayo. (Demo. morte e vida. que se complementam e dialogam. nos moldes que ele propõe. nem as instituições. A oposição. é parte integrante da luta travada no campo de contestação que . uma transformação constante relacionada ao estado anterior mas que não se resume a sua mera repetição porque não se dá de forma linear nem circular. 1987) Neste sentido. que nunca é absoluta. As contribuições de Hegel e do marxismo serviram de base para os princípios de trabalho do método dialético que. pois considera que a linguagem está fundamentada em relações sociais históricas e contraditórias. de uma mesma realidade.73 para quem nada é eterno. e para o exercício de poder entre c lasses. se afirmam e negam ao mesmo tempo. portanto. serve de veículo para a dominação. qualitativas e quantitativas. onde cada momento é único. à fala. podendo se remeter a outros momentos mas sem nunca se repetir. envolve considerar um eterno tornar-se. Thompson (1995) postula que a ideologia. ao mesmo tempo. segundo Minayo (2002). (Minayo. a dialética estabelecerá uma atitude crítica em relação ao texto. A dialética é.

mas não perde a perspectiva de contínua transformação a que o mundo está sujeito (Simões Barbosa. numa condição de provisoriedade. mas também através de palavras e símbolos.1990). 2001-A). promove a articulação do singular. Segundo ele. 1985). através da abstração. ele afirma que a ideologia é “uma característica criativa e constitutiva da vida social que é sustentada e reproduzida. as quais incluem a troca contínua de formas simbólicas. Ela se dá à nossa percepção a partir de uma relação dialética entre objetividade e subjetividade (Freire & Faundez. 19) Por esta razão. sem contudo perder de vista a totalidade de sua inserção histórica. . Nesse sentido. contestada e transformada. esconde e expressa os conflitos gerados pelas desigualdades. tomados como potenciais sujeitos deste conhecimento. pela exploração e dominação. a linguagem. o método dialético busca analisar a partir do concreto para. de acordo com a dialética. Ou seja. Ainda dentro da perspectiva Freireana. através de ações e interações. P. não é possível conhecer a realidade em que os indivíduos participam a não ser junto com eles. as idéias. da parte com o todo. Para Paulo Freire.” (1995.74 caracteriza a vida social. de uma certa forma. Nesse sentido. devem ser abordados relativamente à sua época e local de geração. chegar ao concreto pensado. no processo de apreensão de cada fenômeno. tal como buscamos investigar. bem como os mecanismos de resistência e acomodação explicitados anteriormente (Anyon. a realidade concreta é algo mais que os fatos ou dados tomados mais ou menos em si mesmos. essa luta se dá não somente no âmbito da força física propriamente dita. pensamentos e conhecimentos. Assim.

como propõe Thompson (1995).75 A união dessas duas concepções como formas de produzir racionalidade sem desprezar a parcialidade do intérprete. Sabemos. uma vez que a fala produzida é “resultado de um processo social (trabalho e dominação) e processo de conhecimento (expresso em linguagem) ambos frutos de múltiplas determinações mas com significado específico. onde o autor e o intérprete são parte de um mesmo contexto ético político e onde o acordo subsiste ao mesmo tempo que as tensões e perturbações sociais “ (Minayo. quais sejam: a) Análise sócio -histórica. b) Análise formal ou discursiva. pressupõe a compreensão pelo estranhamento. e estas formas são estruturadas de maneiras definidas e inseridas em condições sociais e históricas específicas. A Análise: abordagem da Ideologia É fundamental reconhecer. Portanto. Thompson (1995) propõe três fases para o processo de interpretação. caracterizam pontos-de-vista sustentados e compartilhados entre as pessoas que constituem os grupos sociais. que o objeto de nossas investigações se constitui em um campo pré interpretado. as maneiras em que as formas simbólicas são interpretadas pelos sujeitos que participam deste campo. e c) Interpretação / Re -interpretação . 1998:227). Esse texto é a representação social de uma realidade que se mostra e se esconde na comunicação. que os sujeitos interpelados possuem suas próprias formas de perceber e interpretar sua realidade. a priori.

comunidades populares. a UFRJ.76 a) Análise sócio-histórica As formas simbólicas são produzidas. as situações espaço-temporais são onde as formas simbólicas são produzidas (faladas. que pode ser visto como um espaço de posição e um conjunto de trajetórias. onde se dispuzeram a falar de si. lidas) por pessoas que pertencem a um lugar específico. todos eles encontravam-se envolvidos numa situação de dinâmica de “grupo Focal”. nas dependências de uma instituição de ensino superior. mas em sua maior parte. educação. e de como lidavam com sua saúde. que determinam algumas das relações entre pessoas e oportunidades acessíveis a elas. narradas. a maioria casados e com experiência de paternidade. No que tange a esta pesquisa. transmitidas e recebidas em condições sociais e históricas específicas. Esta fase tem como finalidade reconstruir as condições sociais e históricas da produção. De acordo com Thompson. analisamos depoimentos de um grupo de homens adultos. agentes sociais militantes na área da saúde. nível médio de formação. agindo e reagindo a tempo particulares e a locais especiais. Todos eles participantes do PHSVC. com base em uma pedagogia que propõe o comprometimento com a transformação. ouvidas. circulação e recepção das formas simbólicas. provenientes de localidades diversas da cidade do Rio de Janeiro. inscritas) e recebidas (vistas. As formas simbólicas estão situadas dentro de um campo de interação. . do modo de se viam como homens no mundo atual. fazendo com que a reconstrução desses ambientes seja uma parte importante da análise sócio-histórica.

375). também. por construção criativa de possíveis significados''. podem ser facilmente identificados numa proposta de análise formal das construções simbólicas. com suas características estruturais. que se tratam. que têm por objetivo dizer alguma coisa sobre algo. e nos elementos que caracterizam o discurso que premiam as ideologias de masculinidade hegemônicas. para a construção do campo-objetivo. As formas simbólicas são produtos contextualizados. tendem a se basear na naturalização. c) Interpretação / Re -interpretação Para Thompson (1995. servindo. No que diz respeito ao nosso objeto. Alguns modos de manutenção das ideologias de masculinidade.77 Estamos. ela procede por síntese. Este tipo de análise está preocupada com a organização interna das formas simbólicas. conforme proposto por Thompson. . portanto. p. imbricados nos discursos destes homens em relação à sua masculinidade e ao auto-cuidado. com toda certeza. seus padrões e relações. optamos por uma análise discursiva focada na questão de gênero. lidando com uma série de fatores sóciohistóricos. b) Análise Formal ou discursiva: A Análise Formal ou Discursiva surge em virtude dos objetos e das expressões que circulam nos campos sociais. “a interpretação implica um movimento novo de pensamento. de construções simbólicas complexas que apresentam uma estrutura articulada. na universalização e legitimação de conceitos que traduzem o masculino como naturalmente superior e dominante. Para nosso objetivos.

mas um ponto de vista crítico sobre a questão: o nosso ponto de vista. bem como os reflexos dessa conjuntura em sua saúde. sobretudo. – Os Informantes: Participantes dos Grupos Focais Estes três grupos focais foram estruturados a partir de uma carta convite aos homens que compunham os Grupos de Reflexão de Gênero . que são o nosso objeto de interpretação. Temos clareza de que não estaremos apresentando uma interpretação definitiva e completa das falas analisadas. profissional de saúde. 5. se posicionando e atuando nesse complexo e conturbado mundo atual. como já dito. tendem a provocar a emergência de outras. educador e. enquanto pesquisa dor. passíveis de novas interpretações e re-interpretações. Isto ocorre por que. e também possuem características estruturais internas. Com certeza. também enquanto homem. passamos a apresentar o perfil dos informantes. mas ao contrário. Justamente este conflito que foi gerado pelas divergências entre uma interpretação de superfície e outra de profundidade. simultaneamente. as questões colocadas não se esgotam aqui. fazem parte de um campo pré-interpretado pelos sujeitos que constituem o mundo sócio-histórico. as formas simbólicas. entre pré-interpretação e re-interpretação. A segui r. um processo de re-interpretação. no intuito de trazer à luz as formas possíveis e variadas como alguns homens estão se percebendo. cria o espaço metodológico que o autor descreve como potencial crítico da interpretação.78 É.

Responderam a esta chamada 18 daqueles homens. O processo se diferenciou substancialmente da metodologia aplicada nos GRGs. e os grupos de homens. Estes homens se dividiram. que assinaram um Têrmo de Consentimento Livre e Esclarecido. a começar pelo objetivo que era. trabalho.79 do PHSVC. A carta convite era acompanhada de uma relação de temas propostos (ver em anexo). especificamente. nas três sessões realizadas em três dias consecutivos. saúde. conforme a disponibilidade de cada um. 2001. pensar e decidir sobre as questões em pauta. Estas atividades conincidiram com meu ingresso na equipe do Projeto. já encaminhava -se para seu último ano em campo. sexualidades e relações amorosas. violência. tendo consolidado a formação de 12 grupos. conforme prescrito pelo comitê de Ética do NESC. Rio de Janeiro: ENSP/FIOCRUZ-NESC/UFRJ. O convite esclarecia que o objetivo das reuniões era a coleta de depoimentos para a edição de um livro com histórias de homens: Palavra de Homem. e eu tive a oportunidade de atuar como co-facilitador em dois dos referidos grupos focais. com duração média de 4 horas cada. As reuniões aconteceram nas dependências do NESC/UFRJ. paternidade e filiação. para que os participantes tivessem tempo de. no momento em que o Projeto já se encontrava em uma etapa avançada. dos quais participaram cerca de 100 homens. com alguma antecedência. quais sejam: ser homem hoje. a coleta de depoimentos em torno dos temas propostos. com intervalos para lanche e para almoço. . Nessa ocasião. referente a utilização das informações coletadas. infância.

A faixa etária dos participantes ficou entre 20 e 48 anos. e com preocupações e demandas convergentes quanto ao potencial de atuação política em seus respectivos contextos. e política. que assuntos Aos facilitadores e co-facilitadores. estado civil. ocupação profissional. Bangu: Rocinha. havia de comum entre eles a questão de terem participado do PHSVC por atenderem a um critério básico: serem agentes sociais atuantes com populações masculinas. Tijuca.80 Assim. geração. Dentre as ocupações declaradas. com base nesse roteiro de temas previamente elaborado. apenas 5 eram moradores de bairros considerados de classe média. o que caracterizou os homens que compareceram aos grupos focais foi a flagrante diversidade em relação a aspectos como nível sócio-econômico e cultural. A maior parte deles eram moradores de bairros periféricos. um cientísta social. ou mais centrais (Jardim Botânico. história específico. Inhaúma: Complexo da Maré. especialmente nas áreas de educação e saúde. Andaraí. raça/etnia. Rio Comprido. e Glória). caracterizados como de baixa renda (Complexo do Morro de São Carlos. a maioria estava envolvida com algum tipo de projeto social associado às respectivas profissões: . Por outro lado. além do fato de serem todos homens. Duque de Caxias e Belfort Roxo). religiosa. e um estudante de estava facultado intervir com perguntas ou sugestões para obter depoimentos mais profundos ou detalhados sobre algum ponto A exemplo do que se deu nos GRGs. orientação sexual. todos do sexo masculino – três psicólogos. os participantes estavam livres para escolher sobre desejavam falar.

1 universitário . Um deles alegou ter 4 filhos.atuante na área do desenvolvimento social coletivo. Quanto ao estado civil. Dentre eles.curso de história – animador cultural – facilitador de grupos 1 estudante 2 º grau – produtor de TV 1 artesão – animador cultural 3 envolvidos somente com projetos sociais comunitários. 5 filhos. 1 auxiliar de enfermagem . 1 pedreiro .agente comunitário.HIV/AIDS. 1 desenhista ilustrador . declarando-se militantes do movimento pela prevenção contra a epidemia.agente de saúde. Um participante declarou ser diabético. 1 psicólogo – facilitador de grupos de homens sobre a violência contra a mulher. 10 se declararam casados. 1 engenheiro civil – grupo de auto ajuda de soro-positivos. 1 técnico em eletrônica . Outro relatou . e 1 divorciado. e membro de grupo de auto-ajuda para diabéticos. e um outro. dois participantes eram assumidamente soro-positivos .81 • • • • • • • • • • • • • • • • 1 advogado.educador social.agente de saúde. 1 educador social – militante evangélico 1 comerciário – grupo de auto-ajuda para diabéticos 1 animador cultural – militante evangélico – organizador de ONG para trabalho social com crianças. Na questão da saúde. Apenas os dois mais jovens (20 e 21 anos) declararam não ter filhos. 1 ator – grupo de auto-ajuda de soro-positivos. 7 solteiros. e apenas um dos participantes declarou sua condição de homoerótico. 1 jornalista – elaboração de projetos sociais – Universidade Popular. a maioria é pai de no mínimo 1 filho ou dois filhos.

relatou sua experiência recente com uma úlcera gástrica. mais um elemento positivo. A maior parte deles. pelo período previsto para as oficinas. A atmosfera que caracterizou as 3 sessões de Grupos Focais foi de acentuada harmonia. através de depoimentos de cunho extremamente pessoal que. com 20 anos de idade. Isto porque permitem que se apreenda daí uma . até aquele momento. quase todos já possuíam um histórico de convivência com os participantes nas oficinas de seus respectivos grupos. e um outro participante. Os dados encontrados nesse acervo consolidam um painel discurso desses relevante a ser considerado na interpretação do homens sobre a questão de gênero e sobre a visão que têm do que é “ser homem hoje”. Quanto aos facilitadores. com certeza. Ficou evidenciada a capacidade de auto-expressão exercitada no percurso das oficinas. que contribuiu na coleta destas falas masculinas. Essa atmosfera também contribuiu para promover o entrosamento dos participantes de diversos GRGs do mesmo projeto que. como também de participar diretamente da eleição dos temas debatidos no processo. Temas estes resgatados no roteiro para os depoimentos dos grupos focais. nas quais tiveram a oportunidade de partilhar das mesmas reflexões sobre masculinidade e saúde reprodutiva. liberdade e confraternização entre homens preocupados em debater assuntos relativos a sua condição de gênero e à sua saúde. Este foi. Todos os participantes dos grupos focais haviam participado dos grupos de reflexão de gênero do PHSVC. algumas vezes.82 dificuldades relacionadas ao alcoolismo. espelhavam um caráter de confidência. não se conheciam.

de acordo com nosso foco de interesse e objetivos traçados. considera -se a perspectiva de que. ou não compartilhem do mesmo nível de consciência em termos da participação social. o que alicerça a pretensão de elaborar um conhecimento significativo sobre as representações e ideologias do universo masculino neste momento histórico. suas falas possam expressar as vivências de outros homens.Resultados Encontrados: Obedecendo aos pressupostos da hermenêutica dialética.1. 5. o percurso adotado no processo de tratamento dos dados foi o seguinte: Realizamos repetidas leituras das transcrições dos grupos focais em sua totalidade. foi feito o primeiro recorte delimitado por três eixos temáticos. justamente pelo fato de todos eles atuarem como “agentes sociais”. quais sejam: a) modelos de masculinidade hegemônica. e c) modelos de cuidado com a saúde A numeração colocada em cada uma das falas selecionadas refere se ao controle adotado para lidar com as transcrições dos três grupos . temas estes colocados como foco central da presente pesquisa.83 noção que abrange a participação masculina nas relações cotidianas e os modos de cuidado com a saúde. b) modelos de masculinidade contra-hegemônicos. Em seguida. Os Informes . Embora o perfil dos informantes evidencie um diferencial significativo em relação à maioria da população masculina que não teve acesso às mesmas discussões.

Assim sendo. denominamos de contra-hegemônicos. de acordo com os assuntos que se apresentavam. os depoimentos que se distanciavam substancialmente. dentro de um mecanismo de acomodação e resistência à ideologia dominante. Nos recortes feitos no bloco de falas detectou as seguintes categorias empíricas: . vale salientar não tratar-se. necessariamente. sendo estas categorizadas. de momentos estanques e que constituem esse padrão. foram selecionadas todas as falas que tinham referência ao assunto. conforme o tema e a categoria a que estavam associadas. utilizamos como norte a literatura sobre masculinidades. mas sim de um processo dialético onde essas manifestações convivem. Assim. Quanto à questão da saúde. em seguida. Para chegarmos a estabelecer uma classificação das falas como sendo referidas ao modelo hegemônico. as falas estão numeradas conforme o grupo a que correspondem. e concluída essa primeira etapa. o que possibilitou a definição dos novos recortes em cada um do blocos temáticos acima delimitados. por ordem de ocorrência. foram feitas várias leituras do material selecionado. na qual vários autores descrevem as características anteriormente. numa direção oposta. se conflitam. foram considerados pertinentes a um novo modelo que aqui. Dentro dessa lógica. Entretanto. no intuito de oferecer uma explanação didática. e se alternam.84 focais respectivamente. conforme descrito definitivos.

em seguida. – Bloco 1 . descrevem o homem como o Super-homem. Estes participantes. para.Modelo Hegemônico de Masculinidade A grande maioria das falas que apresentam identidade com esse padrão. apresentaram seus depoimentos de forma aleatória e voluntária. o que poderia facilmente ser feito caso se tratasse de entrevistas individuais.85 • • • • • • • • • Padrão patriarcal-hegemônico Sexo-afetividade Paternidade Trabalho Violência Reflexão / grupalização / mudança Modelo de criação patriarcal x cuidado c/ saúde Novos modelos de Cuidado com a saúde Relação com os Serviços de Saúde Antes de passarmos à descrição dos resultados encontrados. submetidos à técnica do Grupo Focal. Diante disso. é lícito recordar aqui que trabalhamos com as transcrições de três grupos focais realizados em três momentos diferentes. inviabilizando a perspectiva de atribuir autoria às falas. e à um mesmo rol de questões. com uma média de nove entrevistados em cada ocasião. traçar um paralelo dos resultados encontrados com o que dizem os autores que abordam a questão da masculinidade na perspectiva de gênero. 5.3. perfazendo um total de 18 participantes. optamos por registra-las de acordo com a freqüência com que os respectivos temas foram referidos. o herói que tem .

e tudo mais. externalizar os sentimentos. compromisso com resultados e competitividade são características bem marcadas dos atributos referidos ao modo como a identidade masculina é forjada dentro dos moldes tradicionais. o arquétipo do homem era ser militar” (02/06) “você cria ele com aquela coisa do ser forte. década de 50. incapaz de expressar seus sentimentos e que... eu não consigo expor a minha mágoa.” (01/61) “eu lá. eu me guardo muito. como pode ser observado nas frases seguintes. “O homem conhece a solução pela força e pela autoridade” (01/36) “eu viajava no arquétipo do herói.. eu sou da década de 50. A cobrança de não poder expor ou externar.” (01/01) “se ele se mostrar fraco. imune à dor.’Tu tem que apanhar calado!” (02/74) Objetividade. deve apanhar . sou uma pessoa retraída.. tanto que. responsabilidade. calado. em última instância. “eu acho que tem um estigma. chorando pra caramba.. A minha mãe foi e disse: ‘Para com isso! Você não é homem? E não sei o que mais. Aquele berreiro mesmo. Ele não sabe como ter medo” (03/13) Outra característica que aparece de forma bastante acentuada descreve o homem como sendo insensível. (01/10) “meu outro mal é esse.Me deu uns tapas. ele perde a fêmea ou perde a masculinidade dentro de casa como pai. O direito de gritar”.. uma pressão.. Ele não é criado para aprender a ter medo.86 que ser forte e que consegue o que quer através da utilização da força bruta. naquela época.

” (03/09) As referências à questão dos estereótipos de gênero se fazem presentes nas falas em que os entrevistados ressaltam a necessidade de diferenciação pela pessoa. expressa a partir de tudo que materialize a . com bigode.uma das coisas que aprendi na minha vida é a responsabilidade.”. A gente também tem que ser responsável pela não chegada. Então há distinção entre a criação do homem.. Eu fui chamado de moleque.. ’Vamos embora!’ Eu vou. Eu tenho responsa. do potente. ele tem que ser respeitado porque tem uma figura de homem” (01/17) Como podemos perceber. mas também passa pela exterioridade. a socialização na masculinidade do que não seja efetivamente masculino. e que geralmente se expressam na aparência ou ao tipo de atividade adotados hegemônica percorre o terreno da subjetividade. “nós enquanto homens ainda temos aquela coisa do machismo: isso não é coisa pra homem. garotinho e a garotinha” (03/12) “O cara é homem e tem uma figura do homem.. Eu posso chegar lá doidão. mas eu vou chegar lá..” (02/12) “Porque eu sou responsável.87 “Eu tinha que ser responsável.. pelo menos mantendo o mesmo nível de todos.” (02/12) “Porque eu queria sempre mostrar que eu era sempre o melhor. (01/08) “tem sempre aquela coisa do comedor. E eu nem dormi. Então. parece que é o todo poderoso. né? Do fodão.” (02/25) “O homem.

não tomava banho. consequentemente. anunciam a desvalorização da mulher. como algo normal/natural.88 aparência do macho. mulher era tudo coisa. a mulher toda suja atrás dele: ei. a) Sexo-Afetividade Em relação a este aspecto. e que passamos a descrever. estar sempre “pronto” para as possíveis demandas.. ela falou que o cara chegava da roça.” (03/66) “O cara chegava. O mecanismo . Esses aspectos ficam bem marcados no âmbito do que denominamos sexo-afetividade. ei que dia que eu posso ir lá na sua casa. A hora que você quiser um piru em pé também tá aqui pra você e acabou. com o tipo de sistema ideal que utilizam como argumento para a obediência ao padrão em que “ser homem” implica não ter controle diante do sexo. especialmente enquanto objeto sexual. (01/13) “daqui a pouco a mendiga. como que obedecendo a uma “vocação natural” para pegar todas.. só lavava as coisas e ia pra cima dela.”. “Ó. surgem com muita freqüência depoimentos que denotam a percepção do homem como sendo superior e. eu achava que mulher não prestava. toda menina que esbarrava na minha frente eu queria pegar e eu não queria saber. pra você me dar comida e fazer aquilo de novo comigo?” (01/19) A poligamia é dimensionada. por alguns participantes. Papai-mamãe e saía fora: “bota a minha janta agora!” (02/19) “até pra desrespeitar todo aquele conceito de mulher. só estou afim de te comer e nada mais.

na medida em que. você é ser humano. “várias vezes eu estava com uma e estava com outra e estava amando as duas” (01/22) “Mas eu me acho super fiel.” (01/26) Nesse processo de busca de explicações para o exercício da infidelidade. expressa na perspectiva do “não . se você foi feito do pó. Até por conta da cultura. assim mesmo. mesmo nos momentos em que era mais polígamo” (01/22-23) “eu acabo me traindo e saindo com mulheres constantemente.” ((01/30) “até porque. Também o fato de “gostar de mulher” parece suficiente para justificar o comportamento poligâmico masculino.” (01/31) Dentro desse esquema. mas a vida em si. até mesmo dogmas religiosos proibitivos são colocados em xeque. visto que o autor se declara amante das duas as mulheres e. as pessoas. você está aqui na terra pra desfrutar das coisas maravilhosas que tem aqui. pela facilidade que tem de estar com mulher e gostar de estar com mulher.. “tudo bem que a palavra é a palavra (Bíblia).89 ideológico da racionalização é bastante evidente numa fala em que fidelidade e poligamia deixam de ser termos que se contrapõem. esses preceitos são confrontadas com outras passagens que descrevem o modo de vida das culturas patriarcais da antigüidade. é declarada uma nítida cisão entre sexo e afeto. ainda hoje. num processo de racionalização. em vários momentos. fiel a ambas. foi feito homem. essas estão em você . era legal. algumas histórias bíblicas mostram que alguns homens tiveram v árias mulheres e era legal. os desejos.. os costumes. senão você não estaria aqui.

à noite.. E ela com 20. vale registrar um numero significativo de referências que apontam para a consciência. acaba tirando muito essa responsabilidade.. já botei outra.. estou grávida. mas naquela ainda todo sujo. e eu acabei botando. mas nunca me dava. Aí. mas quando você está lá dentro. ’E agora?’. está tudo lindo e belo. e confronta isso com a nossa sentimentalidade. e já fui embora. e pintou aquela atração de dar outra naquela hora. lavou.. eu. embora exista a consciência de que são dimensões pertinentes a todos os indivíduos... diante de um padrão em que o homem tende a se envolver sexualmente com diversas mulheres.... Acho que foi eu botar. aí. eu me apaixonava a todo momento.” (02/14) “Estou grávida’. no escuro. aí eu. e o racional é difuso.” (01/33) “eu não quero me sentir preso como homem. eu tinha medo de me dar às mulheres.” (01/26) Por outro lado. Nesse ponto.90 envolvimento”. razão e sensibilidade são colocadas em posições contraditórias. sacanagem . eu apenas não queria me sentir envolvido.. “Essa coisa de homem. Fora da responsabilidade daquele ato.. cada um de nós tem nossa racionalidade . é múltiplo.” (01/24) “Eu acho que é da nossa natureza [ser infiel]. eu tirei a camisinha assim.” (02/10) “Aí. na hora.. “pra demarcar meu espaço como homem. Um dos nossos elementos diferenciais é o racional. da irresponsabilidade masculina quanto ao processo reprodutivo. encher de ar.. parece que está num outro planeta. 21 anos de idade. por parte destes homens. tirou.

prevenção.. ser criado para atuar no público na construção de sua identidade.” (03/17) “O machista apareceu. a grande questão que se coloca é provar a eficiência sexual. o Paulista fica sem pau. atestando o que diz a literatura sobre o fato do homem. terça.” 40) (03/39- Vários depoimentos referem-se à questão da iniciação sexual precoce.91 tinha-se de monte..” Porra. e isso a partir do exercício precoce de sua sexualidade. alguém sumia porque naquela época se a mãe soubesse.. Tipo aquela piadinha: “Tira o pau de Paulista. como uma prática eminentemente masculina e naturalizada.... minha primeira relação foi dos 15 pros 16 anos.. Qual é o grande vilão do homem? O medo: “Cortar o caralho. na qual o falo tem importância fundamental. dentro da cultura machista.. segunda... pra 12 anos. acima mais ou menos da média. já com os amigos de convívio da mesma faixa etária. nenhuma. tava todo mundo na brincadeira. As menções ao falo caracterizam-no como um símbolo do poder masculino. de 11 aos 13 aproximadamente.”(01/21) Nesse exercício. faixa de 11. “Com 12 anos .tem a ver com a impotência.” (03/17) .” (01/19) “o meu contato mais forte com a sexualidade foi no colégio. . com 8 anos eu já tinha aquela maldade” (02/55) “depois passou a ter uma escala... “Qual é o mal do homem: câncer de próstata. não pode cortar o caralho.. e deixam evidente o temor em relação à possibilidade de sua perda.

(risos – falas sobrepostas – riso alto)”.. essa disponibilidade. 50 anos. (01/20) Beijar ou ser beijado por outro homem é tido como impróprio. beijo no rosto. com o meu padrasto não tinha essa virtualidade. geralmente.. Eu mesmo ficava retraído. 40. beijo na boca.. é dar beijinho na boquinha dela. e no processo de formação da cultura masculina tradicional. Você não vai continuar fazendo isso com filho homem. 30. Agora sou eu que to comendo. Desde cedo. Aparecem algumas referências à chamada “meinha” (vivências de experimentação sexual infanto-juvenis) que são sempre motivo de gracejo entre os participantes. refere-se à questão da homofobia.” (01/46) “Tem coisas que a gente sabe que é uma coisa meio machista.92 Um aspecto da sexo -afetividade que se faz notar de forma evidenciada nos depoimentos.” (01/48-49) Um depoimento utiliza de uma narrativa que pretende argumentar sobre como a criação doméstica pode ser uma causa provável para a homossexualidade. é machismo? Então é e acabou. dos atributos e funções socialmente definidos para os sexos. Todo mundo comia. Os padrões de criação diferenciados para meninos e meninas deixam isso bastante evidenciado. falas calcadas na questão dos estereótipos de gênero.. “O F. numa verdadeira disputa de poder. “a questão do beijo. as portas costumam estar abertas para . já que a formação da identidade masculina se dá no âmbito do público. mas que vai perpetuar o machismo. era vítima de fazer meinha. a gente fala a questão de dar carinho a filha mulher é dar carinho até os 20. São. comia. é fazer carinho.

ou vira aquilo. de apertar a mão de outro homem.” (02/03) Outro depoente sinaliza a utilização de uma estratégia de expurgo do outro [o diferente]. saí de casa. .esses caras que são pintores.93 que os meninos tenha acesso à rua. o sujeito se recusa a admitir a possibilidade de outras opções sexuais. eu era esculachado na rua pelos garotos..música não. detendo-se em avaliar apenas os de âmbito heterossexual. “Meu padrasto é uma pessoa que acha que todo artista é gay. referem-se. isso é coisa pra fresco.” (01/64) Alguns depoimentos. e desqualificando a perspectiva de relacionamentos que não os convencionais. decoração são associadas à homossexuais. “Vou falar só dos relacionamentos heteros . dentro de um processo de discussão sobre a saúde masculina. tu é preso em casa.. o cara que.. “E quando eu saí de casa com 11 anos de idade. O cara que pega no pincel. assado. quando. aquilo.. nesse papel assim de decorar. desenho. ao medo de olhar. de cuidar do ambiente... “Pô. enquanto fatores que parecem representar uma verdadeira ameaça à identidade masculina.Os homos não é o caso. criatividade. saí de casa. assim também como a possibilidade de um homem demonstrar afeto. inclusive. atividades ligadas à arte. Ou vira isso. está entendendo?” (01/63) “É muito pouco os homens. e assim possam aprender a “ser homem”. todo artista é sem moral. me chamavam de filho da mamãe.. todo artista é veado.” (03/60) De um modo geral. e tal.

aí você já fica cabreiro.” (02/01) Como pudemos perceber. desde sei lá. registramos vários depoimentos onde surgem diversas referências ao pai com as características do provedor..... ele já é olhado de outra maneira.. desde 10 anos de idade eu acho que. é um fator conflitante. dentro dessa perspectiva. Ser pai. Mesmo estando .. aquele que ‘garante’ o aspecto material..” (02/01) “O homem não vai mudar. eu comecei a trabalhar com criança desde cedo. não ser fraco.. como veremos a seguir. dentro desse contexto... Certinho. Tem aquele preconceito em apertar a mão. botou um brinco.. E a minha maior dificuldade é estar com a educação deles em dia. A grande preocupação dos homens é não ser feminino. “Eu sempre quis muito ser pai. hoje. O homem olha para o outro. que o outro também é homossexual.. bonitinho. mais do que com o “ser”. b) Paternidade No tópico que registra as falas onde a paternidade é descrita em tons que mais se aproximam do discurso masculino tradicional. O desemprego. eu tenho um casal de filhos.94 “Porque o cara.. figura como significativa fonte de stress.. pensa que ele é homossexual. . sempre quis ter um filho..de idade eu teria sido. tanto que desde cedo eu trabalho. um homem abraçar o outro. (risos) se eu pudesse ter sido pai com 14 anos..” (03/35-36) “Por exemplo.o cara sentou perto de você.O homem vai ver o outro nu: “o que é isso?”. e assim por diante. a cultura masculina hegemônica é marcada por um comprometimento com o “não ser”. não ser gay.

..95 desempregado. . “pra mim.” (01/42) “É ciúme. parece que ele me aproximou mais da mulher... a minha filha é tão novinha! Nossa que mãozão [pretendente da filha]. alguns depoimentos levam a considerar a paternidade como um modo de afirmação da masculinidade. eu senti ciúmes da minha filha. eu fiquei com ciúme mesmo. “nasceu o nosso filho. ser pai foi me fazer me ver como gente. eu fiquei mais perto dela e isso fez com que ficasse e eu fui ficando e foi bom..” (01/25) Aparecem também falas em que o nascimento de um filho é colocado como condição para a manutenção do casamento. Ontem . pela primeira vez. está.. a minha filha não. porra. Em dia. num processo bem diferenciado do tratamento dado ao filho homem...” (01/40) O ciúme extremado da filha mulher aparece como uma característica desse tipo de pai. é egoísmo. A questão parece ligada justamente à necessidade de auto-afirmação enquanto . é o papel de pai. mas não deixa de ser sempre minha filhinha..” (01/43) Alguns depoimentos registram que o nascimento do filho é tido por alguns homens como fator de reforço ao vínculo do casal. como uma pessoa que tem que ter responsabilidade com o futuro. meu irmão (risos).” (01/42) “Ela tem 19 anos. como trabalhador.. A Educação dele está. como homem. “fiquei: poxa.” (02/07) Dentro dessa categoria.

previamente delineados pela cultura.” (03/30) “E nisso. As dificuldades de exercer seus papeis de macho.. polícia na porta. se não dá pra ter filho.”. Até hoje eu ainda não fui em cana mesmo. Com isso. introduzimos a categoria Trabalho e seu significado para a população masculina. “Que vocês sabem muito bem que a pensão alimentícia. justiça. algemado. Ser pai poderia garantir isso. que é pensão alimentícia. pai é preso.96 homem. c) Trabalho . eu não tinha como provar que eu dava dinheiro pro meu filho. Mas. eu ainda não fui por causa das minhas filhas. “Falei: porra. A recusa da mulher em ter filhos pode caracterizar uma ameaça à concretização de sua identidade social.. eu comecei a sofrer penalizações que até então eu não tinha sofrido.” (03/45) “eu já vacilei umas 3 ou 4 vezes com esse negócio de pagamento pensão . Por causa das minhas filhas. o ethos masculino atua de forma categorica na conformação do quadro. Já atrasei e tal. em que o fantasma do desemprego ronda suas vidas o tempo todo. não dá pra continuar casado não” (ri) (01/46) A questão das responsabilidades não cumpridas após uma separação legal torna-se assunto polêmico entre os participantes. se configuram no confronto com um contexto socio-econômico extremamente árido e opressivo. (03/57) Pudemos observar que. e às represálias associadas ao não pagamento. também no aspecto da paternidade. de ter que sair fugido e o cacete. seguinte. Muitas são as referências ao ônus proveniente das pensões alimentícias.

. ... .” (02/42-43) . numa inversão de valores em que a mulher passa a ocupar sua posição. Reportando-se a uma trabalho pode situação real.. além de constituir o registro de um momento histórico deprimente para a Saúde Pública do Estado do Rio de Janeiro.. a dimensão de importância que o ter na vida de um homem... aí começou a voltar ao normal.. traduz. especialmente no que diz respeito ao salário. aí ela começou a se pôr um pouco no lugar dela e pensar um pouco: pô. o participante relata o episódio desencadeado por um processo de demissões coletivas ocorrido naquele período. figura como um dado gerador de muitos conflitos de identidade. porque eu acho que eu só tava concentrado na minha vida em relação ao salário dela. “12 companheiros meus que trabalhavam na Fundação Nacional de Saúde. eles não agüentaram a pressão do desemprego e acabaram se suicidando. o limite passou a ser compatível com o meu. que é justamente o papel do provedor. não sei porque não conseguia. eu não conseguia chegar . tá difícil pra caramba.. cada vez mais..” (02/39) Um depoimento específico.97 A perspectiva de encontrar-se numa condição inferior a da mulher.. o homem tende a se mostrar completamente desestruturado emocionalmente. Ao se perceber destituído do poder representado pelo seu salário. de forma brutal... a firma dela começou a cair de produção e meses sim precisam do trabalho dela e meses não. visto que coloca em cheque um dos aspectos mais marcantes da ideologia masculina tradicional. ela chegou até a me pedir desculpa.. “quando eu perdi os empregos começou a pintar as barreiras e dificuldades.

como se diz ’ele só foi feito pro trabalho’. e o potencial de desestruturação que sua perda pode acarretar na vida de um homem. boto uma luva. “Hoje eu acho que eu já passei um bom tempo da minha vida correndo atrás de grana. aí tá ótimo. Eu tenho a minha responsabilidade.” (02/74) Fica evidente o peso do trabalho na estruturação da identidade masculina. não pode parar nunca. você precisa. mas estou lá.98 Outro depoimento vem esclarecer um pouco mais sobre a importância do trabalho na formação da identidade masculina.” (02/11) “muitos homens pensam que. como homem” (01/02) Por outro lado. com a pessoa pela qual eu sou. ou você é responsável pela tua estrutura de família. é.. Ao mesmo tempo. eles me respeitam profissionalmente. com meu trabalho. por conta desse arquétipo de que você é homem. Quer dizer. O peso da responsabilidade parece contribuir para a perda de perspectiva do indivíduo ter prazer com o trabalho. que. enquanto ele tiver disponível e com saúde pra estar trabalhando. categoria que passamos a . Em outras palavras. existe o mito de que o homem é feito para o trabalho e. ou você é responsável por alguma coisa. então a gente acaba se afastando um pouquinho do tesão de fazer a coisa. mas sou responsa.eu tenho o meu lado rebelde. que. você é pai de filho. “Dou resposta com as minhas atuações. a violência.. Como poderemos ver. sendo assim.” (02/07) “Pego no trabalho. o autor da fala esta nos dizendo que o trabalho faz dele um home m. e na das pessoas que lhe são próximas. uma pessoa humana digna e respeitada pelos outros. alguns depoimentos refletem a consciência do desgaste resultante da necessidade de atender a esse padrão no decorrer do tempo.

“o homem. A gente reage de formas diferenciadas. em um número significativo de depoimentos. por homens casados e pais de família.” (01/03) “Enquanto homens e enquanto seres humanos. o sexo masculino meio que tá com o poder na mão e meio que é responsável pelas estatísticas desfavoráveis que a gente tem.99 apresentar a seguir. está no nosso cotidiano. d) Violência A violência como sendo um atributo natural do homem é colocada de maneira categórica e enfática.. fruto do acúmulo de situações sociais diversas que geram medo e reações também violentas. parece possuir estreita ligação com os efeitos desestruturantes do desemprego. Então. podemos constatar que a Violência Doméstica é percebida enquanto um tema masculino. o medo nos torna protetores da nossa intimidade. e contribuem. Em várias falas. responsável pela desestabilização masculina diante das dificuldades materiais que impossibilitam ao homem forma significativa.” (01/33-34) No entanto. o medo nos faz omitir. e provavelmente pelo fato de nosso grupo de informantes ser composto. ela apa rece como uma prática banalizada. o exercício de suas atribuições tradicionais no dia-dia. Morre mais gente no Brasil por causa da violência do que morre nas guerras que a gente escuta falar. de . para a desestruturação familiar. em sua maioria. a exemplo deste abaixo. os homens no Brasil são aqueles que mais matam e mais morrem. e o medo nos faz reagir agressivamente. e a gente traduz aquilo em práticas também violentas. Sua gênese aparece estar associada à questão do desemprego. o medo está sempre presente nas nossas vidas.

e acaba sendo violento realmente pra demarcar o seu espaço.9% dos casamentos se roem. ele pra mim é a mola mestra de vários problemas familiares. mas não é só isso. atingindo negativamente a todos os envolvidos “a violência intrafamiliar de homem pra mulher. e pelos altos índices de violência de desestruturação da identidade masculina. É claro que tem muito a ver com a questão econômica. cocaína.” (Lopes et all. traz a miséria e a miséria traz o fracasso emocional e o fracasso emocional rói como a família. A gente até compreende que existe todo um ciclo que faz com que o homem se torne violento na residência. Mas fica patente a consciência de que o padrão em foco é altamente pernicioso. a questão do desemprego é referida como fator responsável doméstica. ela aparece. em vários momentos.” (02/41) “Eu acho que no âmbito da violência doméstica a mulher ainda é muito vitimizada. parece existir uma tendência ao consumo abusivo de álcool e drogas. se destroem? Por que? Porque vem a imagem do desemprego.” (03/04) Não por acaso. mas a mulher e os filhos é que saem perdendo.100 “Por que que a violência no lar. pessoal? Porque 99. Como o companheiro falou. ele se sente inferiorizado e tenta compensar esse sentimento com posturas agressivas. 2001: p. maconha. dentre outros fatores. fatores que contribuem significativamente para o agravamento do quadro. na maioria das vezes tá embasada pelo desemprego do homem e com isso o uso abusivo de drogas seja ela qual for. 110) . e isso acaba generalizando de uma forma louca. o desemprego causa a pobreza. por que que a mulher começa a gerar problemas para o homem. Aí o que acontece gente: o desemprego. Não posso deixar de ver. Neste processo em que o homem se vê destituído do seu “poder”. álcool.

no qual um grupo de homens se disponibiliza. percorrer estas categorias empíricas da masculinidade hegemônica foi bastante esclarecedor. e anseios por outros modelos de “ser . começam a surgir as resistências ao estabelecido e a concomitante mobilização para promover mudanças.Modelos Contra-Hegemônicos Seguindo nosso propósito de estabelecer. anseios. visto tratar-se de um processo. angústias. Nesse processo. o que veremos a seguir. a título meramente didático. 5. selecionamos as falas que apresentavam um distancia mento efetivo do modo de ser descrito no modelo de masculinidade hegemônica. Bloco . alegrias acerca de suas identidades de gênero um novo bloco. pudemos compor surgem homem”. visto que se situam numa espécie de fronteira em que sinais de sérios questionamentos em torno das ideologias de masculinidade tradicionais.4. num processo de confronto com novos modos de perceber o mundo. o agrupamento de padrões de comportamento masculinos. visto que foi possível identificar. É válido reforçar que este nosso ‘esquema’ classificatório não tem a menor pretensão de representar posições absolutas. conforme explicitado anteriormente. Com estas falas. especialmente no caso de nossos informantes. com alguma facilidade. os padrões vigentes nessa cultura ainda bastante expressivos embora. por um espaço de tempo determinado. em que suas identidades de gênero são problematizadas. o qual denominamos ‘Modelos Contra hegemônicos’. à troca de impressões.101 Em suma. experiências de vida.

ele tá fazendo mal à minha garota. Então.. avanços e recuos. já que é isso que elas querem. com que mulher ele tá se envolvendo.” (Lopes et al. qualquer cara que chegar perto é. eu fico preocupado com as relações que ele tem. 2001: p.. Então eu danço conforme a música.” (Lopes et al. “Nós viramos abate de mulher.. em um processo marcado por conflitos . Agora a minha filha. Vamos ser sincero. 67) Assim. Mas tu acha que eu me sinto bem? Claro que não! Muito pelo contrário. A ponto de às vezes dar vontade de vomitar. novamente percorreremos as categorias que melhor expressaram essa dinâmica.. Me arrumo todo. num movimento dinâmico de convivência entre as velhas e novas ideologias. a presença de velhos padrões de masculinidade não passa despercebida.102 e de sua saúde. porra. Essa . Nesse processo em que novas e diversas ideologias começam a se fazer notar. mas é assim que elas querem. encontramos falas que reforçam a percepção da mulher enquanto complemento. a) Sexo-afetividade Especialmente no terreno da Sexo -Afetividade. Não estou conseguindo nesse momento.. numa perspectiva que parece levar em conta a equidade dos gêneros. tem uma coisa que é assim: o meu filho.. que vai perpetuar o machismo. 2001: p. eu sou a caça delas. 35) “Tem coisas que a gente sabe que é meio machista. um lar e uma família. vou todo perfumado pro pagode. Eu queria tranqüilidade.

a observar melhor o que aquela outra pessoa está falando ou fazendo.” (02/10) “Porque. não interessa se você é homossexual. assim como a necessidade de maior aceitação do outro. mais comuns a homens e mulheres.” (02/25) Nesse contexto. . mais fraternos. Ajuda a gente a conviver. ajuda a gente a aceitar o diferente. em que flui um movimento direcionado para a mudança. “A gente precisa criar ambientes mais solidários.” (01/36) “Você é responsável pelo seu prazer e pelo prazer do outro. ainda que diferente. encontramos falas que acentuam a necessidade de maior disponibilidade para ver o outro.103 percepção das relações humanas como complementares abre espaço para um novo tipo de negociação entre homens e mulheres.” (01/33) Algumas falas apontam para o desejo de ter uma vida sexual de qualidade. objetivando o prazer de ambos. não interessa. ele vai.. Interessa é que você é um ser humano. né. de uma certa forma. ele nunca percebeu a sexualidade feminina como um complemento da sexualidade dele. se você é homem.” (01/17) “Importante que a gente se veja como animal complexo. “Aceitar você do jeito que você é. onde valores e sentimentos de afeto e amor. que é uma coisa de complemento. e a valorização do diálogo são considerados fatores importantes e indispensáveis para efetivamente garantir o alcance dessa almejada qualidade nas relações..

a percepção do outro como complemento. crescimento como .” (02/26) Pudemos constatar que. e ela também tem prazer com aquilo. optamos por utilizar a função dos termos sexualidade e afetividade. visto ser marcante a cisão desses aspectos dentro da cultura masculina hegemônica .” (01/27) “Amor. a aceitação do outro. porque depende da maneira como você vai convencer a parceira. aquela troca de idéia e isso é muito legal. né? não é só prazeroso pra você. esta é descrita como um ‘motivo de alegria’. ter uma outra pessoa. o que. né. é muito legal. são questões que se mostram passíveis de serem debatidas por homens contemporâneos. Na categoria paternidade encontramos elementos que endossam este parecer. mas que ainda tá vivo. é uma coisa que passou. como já demonstrado. Não por acaso. um momento mágico que significa mudança. a proximidade com o outro. do diferente. tende a caracterizar um série de dificuldades na estruturação dos relacionamentos.104 “Ato sexual não vai ser tão gostoso como aquele papo que você bateu. ou pra gente. b) Paternidade Com relação à Paternidade. da gente ter carinho. a dar prazer. da gente amar. Quando a gente sente isso. dentro da cultura masculina. O amor.” (01/54) “Tudo é válido. a busca parece ser pela valorização de aspectos até então relegados a segundo plano.

cobra a mulher. ele tá com vinte e um anos. Pedir desculpa aos filhos: foi mal. passou. errei. Foi me fazer me ver como gente. mas é só eu ligar e ele fica: “Ah. esse tentar crescer. [mas] não me coloco como um pai modelo. fazendo faculdade. 2001: p. banca a casa. tomar um chope junto. “Pra mim. como uma pessoa que tem que ter responsabilidade com o futuro. 58) Fala-se também da consciência de que é necessário rever valores e padrões tradicionais que não se enquadram mais no processo de criação dos filhos atualmente. adoro ele. ou você está certo e eu estou errado. especialmente no que se refere à participação efetiva do pai no processo de cuidar. paizão. ao cinema. saber dizer você está errado.” (Lopes et al. 63) “Ele é tudo pra mim. ser pai foi mágico. eu mando foto. tomar um sorvete. como trabalhador. o pai hoje pega o filho e leva pra passear.” (01/27) . apesar de ter sido criado longe de mim.” (01/40) “Minha experiência como pai foi a coisa mais maravilhosa! Deus me deu o melhor filho do mundo.” (Ib idem: p. estar atualizado. não perder o norte. “Eu sou um pai super corujão.105 pessoa. atualização enquanto homem e enquanto ser humano. leva na praçinha.. A mentalidade do pai que bota dinheiro. reciclagem. A dificuldade é estar reciclando. se fala por telefone. eu sou pai pra cacete. Não acho que é uma coisa minha. [saber] até onde o filho precisa do apoio total ou parcial. como homem.. a gente se escreve. como é que você tá? hoje já tem um assunto mais de homem. acho que ele tem boa parte em todo esse tentar mudar.

companheirismo. Dificuldade eu acho que é aquela coisa de você estar se reciclando enquanto pai. amizade. de tomar um sorvete. respeito. de você estar atualizado.106 “O pai hoje em dia está assumindo um papel de pegar o filho e levar pra passear. o meu filho dá banho no cachorro. e ressaltam a responsabilidade com o futuro.” (01/38) “É um respeito que é recíproco.” (01/38) “É tudo muito construído na base da amizade na base da divisão de responsabilidades. de levar ao cinema. é uma relação que a gente construiu e eu me sinto super orgulhoso que. de companheirismo. diálogo. de tomar um chopp junto. ele varre a casa. de amizade. em que pese não morar com os meus filhos. de você não perder o norte. de levar na praçinha. Eu toda hora descubro uma série de motivos pra estar feliz com essa minha relação com meus filhos. eu acho que passou. Essas descobertas se tornam mais significativas quando confrontadas com os contextos inóspitos a que a maioria dos informantes está exposto nas comunidades onde vivem. você vê que ainda existe . ele lava um louça junto comigo às vezes. “Hoje com os meus filhos eu tenho uma relação de cumplicidade.” (01/50) Vários depoimentos falam da paternidade como uma relação de cumplicidade. ‘cadê o resultado?’. cobra da mulher. dentro de uma favela. dentro de toda essa onda com uma porrada de situações. e onde criam seus filhos.” (01/39) “Eu tento transar um relacionamento com o meu filho diferenciado. A mentalidade do pai que bota o dinheiro. que banca a casa.

Mas é diferente. mas de forma diferenciada. Percebe-se um grau de dificuldade considerável no processo de educação da filha mulher.”(01/39) A relação com a filha mulher tende a configurar-se com uma série de fatores complicadores. como ele não admite que a outra tá ali. de menina pra mocinha. especialmente no que tange à questão da sexualidade. “Eu acho que o pai pode sentir ciúme também do filho. entre nós.” (01/48) Paradoxalmente. minha filha tá’.. segundo alguns depoentes. de criação com graus de respeito e muito atualizada. que sente a mesma . parece necessário reconhecer que existe sim ciúme do filho. “É difícil de lidar com isso. o cara que não consegue sair disso. com essa mudança. sabe. né. cinco meninas já menstruaram ensaiando lá.107 uma relação muito ligada na que eu tive. conforme já descrito anteriormente. há mostras de que essa relação pode ser refletida e modificada no processo... homens. que continua.” (02/23) “Eu não vejo gente. Por que.. é mas. já que. “E eu acho que.Que bonitinho. hein!” (02/24) O mesmo não ocorre em relação ao filho homem. ele vai ter dificuldade de se relacionar com a sexualidade da filha dele. estes estreitamente relacionados às ideologias machistas de dominação e posse. em relação ao filho homem é muito diferente. o ciúme do pai é diferente. falar assim: ‘Ah! Minha filha já tá se masturbando. o que é expresso em falas que descrevem um ciúme que chega à beira do exacerbado.

meio ciúme mesmo. e à dificuldade de administrar os padrões.” (01/46) “A minha relação com a minha filha começou a mudar quando eu comecei a conversar com ela. Vale lembrar que nosso grupo de informantes é composto por agentes sociais que assistem. né ?” (02/25) “Então. da responsabilidade que ela tinha em tudo. “Eu acho que nós temos que expandir mais pra outros pais essa preocupação da sexualidade precoce nos meninos. como ele. Dentre estas.108 coisa que ele. a gente tem que ter preocupação com a filha dos outros. culturalmente tendenciosos na formação do homem. no dia-a-dia. “A gente tem preocupação com a nossa filha. paterno mesmo. os altos índices de gravidez na adolescência. especialmente os de estimulo à experimentação sexual precoce.” (01/51) . as conseqüências nefastas dessas práticas na vida de muitos jovens de suas comunidades. de gozar e de sentir. como esta que se refere à experimentação sexual em idade precoce. que tem direitos também. eu acho que esse negócio do ‘mãozão’ [pretendente da filha] mesmo. é meio egoísmo nosso. Curiosamente.” (01/50) Em várias falas. a preocupação entre os informantes é justamente a de corrigir rotas traçadas previamente.” (02/09) A preocupação de não reproduzir valores ditos “obsoletos” fica mais evidenciada quando em referência à criação do filho homem. de ter prazer. percebe-se a consciência de que este tipo de comportamento não é saudável para o desenvolvimento do menino.

que teimam em se chocar com aqueles mais antigos e já tão bem introjetados. sai pegando primeiro pra tu vê’”.” (01/52) “E aí. ‘filho. de.” (02/27) “Tem todo um discurso de uns pais lá que falaram pra menina que antes dela casar. adora mulher.109 “Em outra ocasião. assim como eu falei pra minha filha. mas não sabe ele que isso pode acarretar um problema muito sério pra ele amanhã. ela tem que transar pra poder ver se gosta do cara? É a mesma coisa que eu falasse pro meu filho. outro pai acharia fantástico isso que o meu filho faz: pô... é. Esse pai que pensaria dessa forma. né. pegar todas. no âmbito da cultura hegemônica. né.. e tem aquela coisa.” (01/51) Como já mencionado anteriormente. que também ela tem um universo todo. eu me preocupo muito com isso. eu não estou sabendo lidar com isso porque é meu filho. o cara vai comer todas. eu sou muito apaixonado. não.comecei. ao mesmo tempo que são ditas falas tão diferenciadas do discurso hegemônico acerca do processo de formação da identidade masculina... “A exemplo do pai dele [o próprio depoente]. (02/27) Interessante constatar que. observamos que um número significativo de depoimentos trazem a informação de uma acentuada consciência masculina acerca da .. inaugurei com ele um espaço pra conversar sobre essas coisas.. eu comecei a fazer com que ele pudesse ver também a menina. um atributo feminino. a despeito do ato de ‘cuidar’ ser considerado. não namora não.. percebe-se ainda a dificuldade de levar à termo os novos conceitos.

.. uma pessoa que eu possa carregar no braço.” (01/41) “Como eu não tive um modelo de pai muito presente. de dar cuidado mesmo. como o estudo por exemplo. A dimensão desse desejo é que pode garantir a energia para criar as condições necessárias.110 necessidade de cuidar.. depende muito da forma que a gente escolhe pra criá-los. como é que vai ser essa minha experiência como pai?” (02/08) “Eu falei: ‘Vou me impor como homem. “Eu acho que ter filho é bom e é ruim.’ E .. falas que resgatam as conquistas alcançadas com a adoção efetiva das funções paternas... e para superar todos os obstáculos e dificuldades. uma pessoa certa e vou correr atrás. vou ser uma pessoa digna.. como também da importância da participação dos homens nesse processo.. e que informam da prevalência do ‘desejo de ser pai’ em detrimento de outras coisas. entre os entrevistados. eu acho que é a questão do cuidado. viver .” (01/47) “Então eu acho que é a questão da necessidade de dar cuidado.. sempre foi uma coisa muito confusa para mim. de ter uma outra pessoa dependendo de mim. como eu vou ser pai? Como é que eu vou.” (01/47) Ao mesmo tempo em que encontramos expressos alguns medos e receios diante da perspectiva da paternidade. paralelas. eu gosto muito.” (01/41) “Eu acho que é pela questão de ter uma coisa cuidada por mim. “A gente ainda tem aquela comunicação que eu tinha quando ela tava na barriga da mãe dela. fora a minha esposa.. surgem.

né? Não foi nada planejado. “Eu não planejei ter um filho. certo. a minha filha está aí. “ (02/22) Uma fala. com homens assumindo o ‘cuidar’ de forma prazeirosa e desencouraçada. “E a minha filha nasceu. pelo projeto de maternidade. das responsabilidades em relação ao processo reprodutivo. não foi. quer dizer. ‘naturalmente’. assim. foi um acontecimento. percebemos a paternidade apontando como um campo de evidentes transformações no masculino.” (02/14) Diferentemente do padrão de masculinidade tradicional. denota uma certa queixa diante da exclusão do homem na hora de opinar sobre ter ou não filhos. Os meus filhos foram acontecimentos. onde atributos até então relegados ao feminino são re-alocados para a função paterna. onde o homem tende a se excluir. ao que o participante denomina de ‘Projeto de Maternidade’. E hoje em dia. d) Violência . encontramos várias falas que refletem a importância do planejamento familiar e da participação masculina no momento da decisão.111 foi o que aconteceu. “ (02/10) “Tá sendo bárbaro a experiência de ser pai do Victor. Mas não foram planejados. mas foram acontecimentos maravilhosos. não de paternidade” (02/22) Enfim. Então. e eu tenho muito orgulho de ter ela. em especial. E eu vejo que muita gente sofre pelo não planejamento.

” (03/82) “Hoje. 109). que produz a marginalização dos indivíduos e que. entre aspas. o medo nos faz omitir.. destacando a presença de uma consciência política na crítica à sociedade. eu acho que essa coisa da violência é um tema muito interessante pra gente discutir enquanto gênero masculino. desencadeia a violência. o medo nos torna protetores da nossa intimidade. Então.” (Lopes et al.” (03/85) Neste terreno. E joga lá dentro. “Eles viram marginais. mais sagrado. tratada a partir do reconhecimento desta questão como um tema masculino. está no nosso cotidiano e a gente traduz aquilo em práticas também violentas.. morre mais gente no Brasil por causa da violência do que nas guerras que a gente escuta falar. Eu acho que tem também essa coisa do homem achar que ele pode. É claro que isso tem muito a ver com a questão econômica. de uma instituição caótica que só produz mais violência. 2001: p. que foram feitos pela falta da política pública. deixando de lado aquilo que a gente considera. mas não é só isso. porque a gente pode estar sofrendo um grande estresse” (03/86) . a mulher e os filhos é que saem perdendo muito com essa lógica da violência doméstica. é dado foco especial à violência doméstica.112 A violência está presente na descrição das vivências cotidianas de forma marcante. Então eu acho que a nossa relação com o medo tá muito forte. por conseqüência. ainda. o medo está sempre presente nas nossas vidas e o medo nos faz reagir agressivamente. são aqueles que mais matam e mais morrem. que é a educação. “Hoje o que lota os presídios são homens. “Os homens no Brasil.. e essa mesma política pública pega esses marginais.

113 Vale destacar a expressão de uma visão crítica acerca da tendência que a maioria tem de incorporar a ‘vitimização’.. a violência contra filho. que expressam. que eu fui um.né. do agressor. mais humana e solidária. alguns homens relatam sua experiência nestes grupos de homens como sendo efetivamente transformadora.. de forma séria. fator que dificulta o processo de transformação dessa conjuntura. hoje e em dia eu tenho até vergonha de falar isso. como em relação a si próprios. despojada e sensível. que de repente resolveu abandonar a violência doméstica. eu m senti um cara violento antes. como veremos a . “A gente fica sempre numa situação da vítima. visto que contribui para a imobilidade. contra o pai. e a gente acaba também não mudando determinadas formas de pensamento. Isto tanto no que se refere a comportamentos violentos que antes expressavam em relação à família. uma sociedade menos violenta. “A primeira impressão que se tem é que eram homens que eram violentos em casa. um cara violento. seus desejos de participarem efetivamente da construção de seguir. como reflexo das discussões levantadas nas oficinas das quais eram participantes. contra a mulher. mas indiretamente eu era mais violento comigo. contra a mãe.” (01/03) “E só o fato da gente trabalhar a questão da violência doméstica..” (02/75-76) Estas falas parecem configurar descobertas importantes feitas por estes homens.” (03/88) Por outro lado. vítima e vitimizado. de repente não diretamente com a minha família.

falou. diretamente ligado à essa questão. para simplesmente .” (01/20) “Ter interagido como homem no grupo Consciência Masculina [do PHSVC] me deu mais clareza de poder trabalhar isso e até me respeitar mais. todo mundo. é reportado em relatórios do PHSVC..114 e) Reflexões transformadoras Em contraposição à propalada tendência masculina ao isolamento. que todo mundo falou. às vezes eu encontro com o v. com o V. quando inicialmente convidados a participar dos grupos de reflexão de gênero propostos pelo Projeto. eu me sinto bem. mas hoje que tá se tornando uma coisa comum.. pudemos constatar que um número significativos de falas se reportam ao desejo confesso de se reunir com outros homens. “A alegria é justamente aquilo que o P.” (01/04) “Quantas coisas sérias a gente tá falando no meio disso tudo aí. dou um abraço nele.” (01/25) Um dado interessante. poder estar com outros amigos. então eu acho que isso é legal. surgiram questionamentos em torno da proposta de formar “grupos de homens”. que é poder se reunir. e que não economizam adjetivos para falar do prazer e dos ganhos pessoais auferidos com essa prática. e refere -se ao sentimento expresso por vários homens. A idéia de estar reunido com outros homens. Em várias ocasiões. Eu percebo que isso há algum tempo atrás não era uma coisa muito comum. alguns destes tratando explicitamente da possibilidade de haver alguma ligação do projeto com o movimento gay..

multiplicar os espaços . a experiência de participação no grupo reflexivo é relatada como sendo a de se deparar com um espaço sério e de confiança. De um modo geral. Ainda numa mesma visão estereotipada. Entretanto. onde esses homens afirmam se sentirem seguros para estar expressando livremente seus sentimentos. todos os seus desejos.. os espaços de encontro masculinos. é muito fantástica. denotando ser esta uma prática estranha aos padrões tradicionais de masculinidade. é difícil mesmo” (01/57) “Esta reunião nossa aqui. todos os seus preconceitos. falando. (. o tipo de comunicação que estabelecem costuma ser regido pelos estereótipos de gênero. ajuda muito. é muito legal. todas as suas questões. “Difícil essa coisa que está acontecendo entre a gente. o botequim..) é muito gostoso. é você conversar com outro e se emocionar” (01/57) “São homens que estão colocando pra fora. todas as suas frustrações. a rinha de galo. auto -suficiente. etc. isso é complicado. no qual cada um tem que afirmar-se socialmente como forte.115 “conversar”... causava um certo estranhamento. de mulheres ou de política. eficiente e. de reproduzir essa vivência de grupalização. os temas gerais das conversas masculinas costumam girar em torno do futebol.. heterossexual. entendeu? E pra gente. principalmente.” (01/57) São falas que denunciam o desejo de promover mudança. como o estádio de futebol.. em grande parte dos depoimentos que ora analisamos. Mas nesses espaços. numa visão à luz desta cultura. parecem estar bastante bem definidos socialmente.

E o que eu tento fazer com essa experiência é tentar multiplicar isso” (01/55) “Em função disso estar trazendo outros companheiros que tão repensando sua situação de homem e tão tentando modificar. ou seja. localizados no modelo tradicional. porque ajudam a gente a desarmar. eu acho que o homem pode ser. como marido. a criar ambientes comuns de identificação. outrem. . Então na verdade estamos construindo uma história. eu acho que um encontro como esse ajuda muito isso. como pai. de participar das questões mais gerais..” (01/03) “A gente ainda tem a evoluir. com muita sensibilidade. segundo os informantes.. onde afeto. tem um grande espaço pra ser mais coletivo. Várias falas confidenciam sobre a constatação de estar “aprendendo a colocar pra fora”.116 propícios à prática reflexiva em grupo. Esse movimento parece vir em resposta à consciência da necessidade de construir uma ‘nova história do homem’. como gente. tem efeito transformador em suas vidas. descrevem a consciência de que é saudável falar sobre os próprios sentimentos.” (01/35) Outros falam dos da descoberta de do prazer no de auto-cuidado. como filho. masculina sim.” (01/34) “Os homens que trabalham com a gente são pessoas que estão buscando esse entendimento mais participativo. a mudança como pessoa. cumplicidade e companheirismo entre homens não mais ameaçam a ‘virilidade’. Várias falas espelham o desejo de ser mais coletivo. e de diferentemente padrões dependência alheamento de si próprio. Essa prática. “Foi maneira a mudança.

é ter uma comunicação melhor.. de criança.por isso que é bom reuniões iguais a essa. parece ter mais a ver com o desejo de apreensão de valores de humanidade. inclusive.” (01/17) Outros depoimentos refletem sobre a importância da informação. Tem muitas coisas acontecendo. algumas informações pela qual você sai dessa linha e começa a se cuidar. nós. ainda temos aquela coisa do machismo.117 “A gente tem que falar de coisas gostosas. A gente só consegue falar essas coisas. (01/07) De um modo geral. Infelizmente.. esse processo de construção de um ‘novo homem’ ao qual vários participantes se referem. mas não é bem por aí não..” (01/54) “Coisas que são traumáticas. Então ele tem que ser respeitado porque tem a figura do homem.. e da necessidade de melhorar a comunicação. hoje..” (01/08) “Um problema que o homem precisa vencer. possam adotar novas posturas em relação. Só de acordo com algumas conversas. O porque o cara é homem e tem uma figura do homem com bigode.. de sexo. a gente tem que falar das nossas experiências. quando a gente tá assim numa reunião entre homens sérios. que marcam. a partir daí. Então a gente se sente à vont ade pra falarmos a respeito disso. onde cada um vai falar de seus desejos. todo um lance cultural. opção sexual de homem. à própria saúde. Essas reuniões aqui são ótimas pra gente conversar a respeito disso. para que. pra gente tirar um pouco essa cabeça. que temos toda essa informação. enquanto homens. alguns bate-papos. “Nós homens.” (01/15) “É um assunto muito interessante quando a gente fala a respeito de sexualidade de homem. ‘isso não é coisa de homem’. do que com a . onde cada um tá falando de suas frustrações.

eu tenho muito prazer em ser gente. “Eu me defino hoje em dois momentos: primeiro momento.118 mera reafirmação de valores da masculinidade propriamente dita. com sua família.. como nos abaixo selecionados.. e ouvir. ele vai aceitar mais.” (01/55) “Como grupo. o grupo Consciência Masculina e depois de ter conhecido o grupo.. de gênero masculino. primeiro ele vai ter que vir né. né? No seu comportamento no trabalho.. muito difícil falar” (01/56) “Esse caminho que o [grupo] Consciência Masculina tá me ajudando a trilhar como homem. e o .. De qualquer forma. e aceitar e se posicionar. em muitos depoimentos. cada vez mais me reciclar como homem.. uma enfática valorização do processo reflexivo. do. ser cúmplice dessa realidade de ser homem. tem prazer em ser gente. uma maior auto-aceitação. como a que eles se permitiram experienciar.” (01/56) “Eu conheço muitas pessoas que precisam passar por essa experiência que nós passamos né? E que com certeza vão se tornar HOMENS MELHORES (ênfase). com seu filho. O caráter transformador decorrente dessa participação aparece evidente em muitos depoimentos. antes de eu ter conhecido o grupo de reflexão. Mas isso falta essa coisa né. ele vai ponderar mais antes de tomar certas atitudes. trata-se de um processo que demanda a abertura para a participação. né.” (01/58) Observa-se. me educar como homem e ser solidário às dificuldades que outros homens possam estar tendo. da participação.” (01/58) “Vai ficar mais tolerante. e como homem.

“Intimidade é quando você se deixa vulnerável. é um processo de troca. Eu acho que você tem que ter um passado. “Hoje você tem livre -arbítrio sente.. Isto tudo. mas também coletivamente pra gente criar identidade. numa perspectiva que vai ao encontro dos interesses da coletividade. naquela pessoa pra poder trocar com ela. aparece uma acentuada valorização da sensibilidade..119 exercício explicito de maior liberdade de expressão. identificações que nos estimulam a seguir. criar novas relações ... quando você confia naquela assunto.” (02/08) .. de auto - descoberta.” (01/21) “A gente busca estabelecer uma nova relação. quando você desarma todo os seus preconceitos .” (01/34) “Eu acredito que seja a base familiar.” (01/37) Nesta perspectiva de consideração da alteridade. é fundamental que a gente cresça enquanto indivíduo..somos estranhos porque a gente tem um montão de coisas pra poder se esconder e camuflar essa nossa maneira de ser. da saúde.” (01/15) de você falar o que “A gente pode estar se escondendo atrás de uma série de paradigmas pra se justificar. e de revisão de paradigmas. da base familiar. do processo de troca.. uma história para você levar aquilo adiante.

de criação. que apresentamos a seguir. para em seguida apresentar as falas com tons diferenciados. onde o chavão principal é o de que ‘o homem só procura o médico quando está realmente mal’. Bloco . as colocações que denotavam a acomodação e identidade com o padrão de masculinidade hegemônico. inicialmente. inseridos em um contexto social passível de transformação.Modelos de Cuidado com a Saúde A exemplo de como procedemos à análise das ideologias de gênero. 5. os receios de demonstrar e trocar afeto. a relação com a questão saúde é explicada a partir da introjeção de padrões de socialização tradicionais. Vamos encontrar sentimentos correlatos nos depoimentos sobre a saúde. eu evito qualquer . “Aquela coisa já antiga.” (01/04) “Eu não tomo remédio. constatamos que estes homens alegam estar perdendo o medo do contato. a) Modelo Hegemônico No âmbito das falas classificadas como correspondentes ao modelo hegemônico. percorrendo.”(01/06) remédio. de serem eles mesmos. de que médico é pra quando não tá legal. a partir de ações promovidas por eles. optamos por estabelecer o mesmo critério em relação ao tema saúde. Vários depoimentos dão conta de que esse padrão também implica na recusa em tomar remédios.120 Em suma.5.

121 “Tenho um medo de médico, eu acho que quando você vai no médico é porque tá mal.” (01/06) “O homem só vai procurar quando já está bem ruim. Caindo aos pedaços é que ele vai.” (02/01)

Neste contexto, onde o adoecimento masculino compromete as expectativas sociais de desempenho, objetividade, resolução, ação, e utilização da força bruta pretensamente inegostável, o receio de parecer fraco impossibilita ao homem a mera expressão de dor. “Uma coisa muito preocupante, ele [o pai] falava que homem não expressa dor.” (01/08) “Então em parte eu penso, homem não pode expressar dor, homem não pode exp ressar que tá doente, homem não pode expressar de forma alguma.” (01/10) De um modo geral, a visão que predomina é a de que a saúde é uma preocupação da mulher.

“Quem empurra muito pra saúde é a mulher, cara! Entendeu? A mulher, devido à gestação, à gravidez, pré-natal, etc, isso vai acabando, vai levando ela à conviver com saúde, e se interessar mais sobre saúde. O homem não, o homem fica naquela, “sou o poderoso, nada me acontece”, aí quando acontece é, “estou derrotado, destruído, desarmado”. (03/23) Outro aspecto bem marcado dentro desse padrão, e que parece associado à indisposição para o auto-cuidado por parte do homem, refere-se à declarada dependência do cuidado feminino, ou de outrem, no cuidado com a saúde.

122 “Desde pequeno, a mãe levou ao médico, fez um cházinho, deu um remédio, depois a namorada, a esposa tá sempre dando uma atenção.” [descrevendo o padrão masculino] (01/04) “Associo muito a essa coisa de sempre ter alguém, uma figura feminina, sobretudo, cuidando, dizendo...” (01/04) “Eu só tava sentindo dor de cabeça, aí ela me cuidou.” (01/06) “Aquela história que a gente foi acostumado o tempo inteiro com mão feminina apontando, sinalizando, indicando.” (01/36) “Quando tá mal, mal mesmo que ele vai procurar um médico e assim mesmo se alguém levar ele.” (02/65)

Esse perfil é associado ao processo de socialização, mas parece haver, também, a percepção de que se trata de uma estratégia de troca, na qual é feito um investimento na saúde mediante a perspectiva de otimização de seu desempenho como provedor.

“A minha esposa, aliás, inclusive ela cuida mais da minha saúde do que eu cuido e eu gosto disso. É uma pessoa que cuida mais da minha saúde do que de mim.” (01/12) “Claro que ela não vai se descuidar porque ela gosta de você, ela quer que você tenha perfeita saúde,, até pra você cumprir com todas as suas obrigações pelas quais você tem que cumprir, pagar dívida ...” (01/12)

123 Os tabus em torno da sexualidade masculina se fazem notar em diversos momentos, atuando sempre como fator complicador e de risco no processo de cuidado com a saúde. Tu vai num consultório médico, aí tu vê um monte de florzinha. Aí nós como somos homens machistas: ‘Essa porra é pra viado! Essa porra não é para mim, não.’ Então o cara vai sentindo uma dor, aí começa a olhar aquelas florzinhas, sei lá, eu acho que ele vê muito mais mulher.” (03/16) Nesse aspecto, o tema da homofobia é, com certeza, um fator

que merece a devida atenção, na medida em que muitos dos tabus existentes em torno da homossexualidade, tendem a dificultar a prevenção de algumas doenças. O que mais causa espécie, entre os entrevistados, são as menções ao exame de próstata. As referências a esse tipo de exame são sempre permeadas de gracejos. A simples menção ao assunto é, constantemente, motivo de piada, o que denuncia o temor despertado por um mero exame de toque retal, e o que este toque pode simbolizar em termos de ameaça à identidade masculina. “não fez um exame precoce, porque tem toda aquela imaginação do exame: esse exame não é pra homem...” (01/08) “Tabus ainda acompanham o homem, e tem gente aí morrendo de próstata porque não fez um exame.” (01/08) Qualquer problema que venha a colocar sua região anal em evidência pode deixa o homem inseguro, especialmente diante de uma mulher. Dentre os aspectos a que este padrão pode estar relacionado, acentuamos o receio de ter sua virilidade ou seu desempenho como homem questionados diante de uma mulher. Na visão masculina tradicional, uma mulher sempre representa a perspectiva de uma

este dado evidencía o quanto a mídia dirigida ao público masculino desconsidera o cuidado com a saúde..” dizer....” Se for se for homem. “A vergonha de dizer. o cara engole e achar que eu sou viado. . de o cara dizer: “Tô com mulher. e não em outras revistas eminentemente masculinas. o que não rima com masculinidade.. muitos depoimentos fazem referência às influências do processo de formação cultural. Por outro lado. o cara vai me dar uma dedada e eu vou deixar de ser homem!” (02/65) O nível acentuado de preconceito homofóbico também se faz notar no depoimento de um participantes que se queixa de encontrar informações sobre a questão da saúde do homem. é numa revista que é gay. nos parâmetros da cultura masculina hegemônica. alguns depoimentos sinalizam novas reflexões e atitudes frente a este padrão. tratada seriamente. em publicações gay. não é o meu caso. pra você procurar uma informação como essa né. . Ou seja. na qual é estimulado o exercício da prepotência masculina.124 ‘relação sexual’ em potencial. “até pra você dar uma informação de saúde do homem. né. você não tem uma coisa oficializada. esse cara vai (03/17) “Nós homens já temos essa: pô. dotados de uma força sem limite...” (03/21) De um modo geral. um homem se sentiria ameaçado de ter que comprar G Magazine pra poder saber daquele assunto. Ao mesmo tempo. a exigência de que os homens se comportem como super-homens. mas uma dor no ânus. Buscar ajuda pode significar um sinal de fraqueza.

há um resgate da experiência com as figuras parentais. pela própria criação. isso não é nada. realmente. com todo o tipo de coisa. Ele não vai ao médico. para explicar a reprodução de conta a questão da saúde. em especial a figura paterna.”(03/25) “O homem. Da gente ser treinado para ser assim. na formação de que o homem é machão e tal.125 “Além do que. a minha infância foi muito assim. até hoje eu sou assim. ele acha que é dono das coisas mais impossíveis e é por isso que ele se torna vulnerável.” (03/13) Paradoxalmente. Isso vai passar. Ser o máximo. é o cultural. nós fomos criados. não vai ao posto. o mais forte que eu vejo mesmo. Que ele está fraco.” (03/16) “Imprudente também. não é que eu não ligasse.” (03/12) “Agora. sem limite. por ele sentir.” (03/’14) “Ele [o homem] acha que é dono da verdade.” (01/09) “Ele ir a um médico é ele reconhecer que está passando por uma fragilidade nesse momento. com a saúde.” (02/11) Nesse processo de reflexão sobre si mesmos. “Não aprende a lidar com o medo [o homem]. agüentar. e jamais ele vai ser atingido por algo que venha de fora e que vai criar todo um problema orgânico e tal. o machão. o todo poderoso. comportamentos que não levam em . ou então seja por essa cultura machista que ele se acha o super homem. ele: “Ah. constata-se que a necessidade de atender a este padrão os deixa numa posição extremamente vulnerável em relação à perspectiva do adoecimento.

toma uma cachaça que passa. se alguma coisa está funcionando fora de uma normalidade. a força -de-trabalho. . não pode falhar nem ficar doente nunca. “Porra. tô com uma dor no estômago.. a exploração do trabalho do homem se dá pelo seu próprio ‘corpo’ produtivo. E quando fala ainda escuta assim: “Ah.” (03/14) Além do padrão de sexualidade desenfreada. Meu pai é um exemplo e era um cara super maneiro.126 “Perdi o meu pai também com problema de saúde. aparece o trabalho como potencial fator de risco à saúde do homem. visto que acenam daí algumas luzes para a compreensão do mêdo causado pela perspectiva do desemprego. se o meu pai nunca foi ao médico. initerruptamente.. ah não. era um cara fortão. Isto caracteriza ser esta temática transversalizada pela questão de gênero. Aquele que provê. para ser ‘homem de verdade’. coroa bom de chinfra. e conseguir que sua queixa seja levada em conta. já que parece haver uma acirrada cobrança social por uma resposta masculina efetiva ao estereótipo do super-homem. por exemplo. é uma dorzinha. No regime capitalista.. porque eu vou?” (01/08) Alguns depoimentos dão conta da dificuldade de externalizar a respeito da própria saúde. o que é facilitado com a naturalização do paradigma de que o homem.” (03/16) “Não fui ensinado a: “você tem que ter uma preocupação com a sua saúde. com 80 anos ainda se masturbava. Filho tem aquela coisa de quando eu crescer vou querer ser igual ao meu pai.” Não fala.e eu venho construindo a mesma história” (01/06) “O meu pai morreu com 88 anos. você precisa sim... nunca foi ao médico Falei porra.

Tô com minha paraibinha há 3 anos. achando que sair metendo é que era. No anseio de solucionar rapidamente suas mazelas. os comportamentos de risco ficam evidentes no numero indiscriminado de parcerias.” (01/09) “Eu tava trabalhando com dengue. entre os homens..” (01/36) “É a única que eu pego sem camisinha. o sentimento de impossibilitadade de tornar pública sua fraqueza. uma vez que há o risco de vê -la desdenhada. “Ia trabalhar com o corpo doente e a dengue tava se agravando. parece prevalecer. eu não cheguei a ir no posto e acabei me curando por pura teimosia. para poder dar conta de garantir seu trabalho.” (01/10) Quanto à sexualidade. Essa eu pego sem camisinha. tende a recorrer a auto-medicação. eu tava suando frio. com suas possíveis conseqüências para a saúde como um todo.que houve tio Márcio? Nada não .. em que prevalecem as relações de confiança estabelecidas pelo critério do “conhecimento” para justificar a relutância quanto ao uso dos métodos contraceptivos e de prevenção de dst/AIDS nas relações sexuais. como se diz “ele só foi feito pro trabalho. ... “Eu não sabia usar a sexualidade de uma forma bem saudável. tá tudo bem. Mas eu dou orientação à ela...127 “Muitos homens pensam que.” (02/19) .até pra desrespeitar todo aquele conceito de mulher. tava sentindo dores no corpo. é.” (02/74) De um modo geral. eu trabalho num posto. e claro me medicando deliberadamente. eu usava mais assim pra me posicionar como homem..

. Consultório médico. ou não sei as brasileiras. a visão de que o Posto de Saúde ‘não tem um perfil para atender homens’. E hoje. “Poxa. o que eu fiz. parece que a vida acabou ali mesmo. Hoje o cara tem que botar camisinha. o que eu fiz?” E depois quando eu ouvi aquilo (som da camisinha estourando).” (02/14) “Aí.Tomou até Coca-Cola fervida!” (02/16) “É. Pra não ter filho...” (02/20) Algumas falas atentam para o fator ‘desinformação’. são feminilizadas. Aí nós como somos homens machistas.128 Por outro lado. É a mesma coisa você comer um arroz sem sal. o que eu fiz. “As instituições de saúde brasileiras..” (03/16) . não. não. . o que contribui sobremaneira para o afastamento da população masculina da busca de ajuda profissional. no escuro e pintou aquela atração de dar outra naquela hora. convive paralelamente às práticas inconseqüentes. Aliado a isso.. o fantasma da concepção de um filho.. tive que correr atrás lá. nêgo tem que botar camisinha. “Acho que foi eu botar. como um dado complicador da saúde masculina. mas acho que a carioca que onde eu convivo.. pra ela tomar uns remédios lá [abortivos]. Hoje. aí tu vê um monte de florzinha. ou de contrair alguma doença. na hora a noite. “essa porra é pra viado! Essa porra não é para mim. encher de ar.

eu fiquei com vergonha. porra eu tô com a cueca ficando amarela. se tiver homem atendendo você vai pedir de outra maneira.” (02/69) “Vou tomar um café e falar com o rapaz.” (03/15) “Muitos homens não vão ao médico porque pensam que não te m um médico qualificado pra eles.. a ignorância é de machão. o que corresponde. se tiver um botequim.” (02/73) “Mas a gente é também desinformado e nem se interessa em se informar com relação a saúde.” (02/68) “Ele vai chegar lá na triagem: tô com um caroço no cú. o risco de perda do poder sobre a mulher. Ele não vai falar nunca nisso.. de possíveis problemas que podem atingi –lo. refere-se à inadequação ao atendimento feminino no Serviços de Saúde. é ou não é?” (02/69) “Nós já temos essa ignorância. porque na triagem só trabalha mulher.” (02/67) Um dado que aparece com bastante freqüência em vários depoimentos. falta de informação e eles pensam muito também que posto de saúde é coisa de mulher. eu fui ali. é igual pedir uma cerveja num botequim.. eu saí com uma mina aí tem duas semanas. tiver uma mulher atendendo você pede uma cerveja de uma maneira. Nesse aspecto. figurando essa questão como um dos aspectos que mais dificultam a opção por buscar os recursos da medicina.129 “Eu acredito que por timidez eles não procuram (médico). nós temos essa ignorância. você não pode . fica evidenciado o receio de se mostrar enfraquecido. mas tem uma mulher ali na janela. no imaginário masculino. isso é papo de homem.. Eu acredito que seja por falta de informação. “Dá pra tu ir ali fora comigo.

do que ir no médico.. Farmacêutico e tem o vovô vai com Deus lá também. “Os meninos não descem para posto. a questão não se reduz a ele. faz o exa me.” (02/66) “Que eles falam que a saúde tá precária.... ele qualquer coisinha dá o diagnóstico. “Onde nós moramos tem o Milton da farmácia.. não.” (02/71) A desinformação. ou então recorrendo ao terreno da religiosidade.” (02/68) .. seja através da indicações de amigos... vou chegar e vou ser destratado no hospital. associada à dificuldade de adequação ao perfil apresentado pelos serviços. compra o remédio. aí.”. São dois atendimentos. “Vem cá. num posto de saúde..130 conversar com uma mulher uma coisa que você pode conversar com homem. chega aí..eles vão numa farmácia. me consegue isso. não. o santo espiritual e o farmacêutico. ou diretamente junto ao balcão da farmácia. O que a gente pode fazer?” (02/06) “O amigo indica uma coisa. esta realizada aleatoriamente. vão à drogaria. então ele confia mais nesse farmacêutico e nos centros de macumba. nem hospital. denotando que. acaba concorrendo para a prática da auto medicação. benzedeiras e similares. ele recebe o caboclo. Pô. (02/67) Essa questão remete às relações – tensas e conflitivas – entre o sistema de saúde ‘científico’ e a cultura popular. embora possamos identificar um aspecto de gênero nesse padrão. pro curando os pais e mães-desanto. por isso que ninguém vai.

em relação aos padrões apresentados anteriormente. a saúde de cada um. associado à reprodução de valores tradicionais do “ser homem”.. ele chega assim: to querendo ir no médico.. a gente é que tem que cuidar. destacam-se várias falas que nos levam a crer na emergência de novos modelos.. que nós não somos onipotentes. a) Modelos Contra-hegemônicos Numa postura completamente reformulada. aquela fila ali.” (02/68) Constatamos que o fator desinformação. é lugar pra você ver se está doente . e de revisão de antigos valores. no qual pode-se detectar uma certa consciência da necessidade de auto-superação. meu irmão é ali. entra naquela fila ali. É o que passamos a descrever a seguir. Isso num discurso em que a responsabilidade por si próprio é colocada como opção à postura de vítima.” (01/04) . Entretanto. acho que a gente tem que olhar mais o nosso lado.131 “O homem foge. “Hospital é lugar pra todo mundo. aí ele olha pro pau e fala: vou lá no vovô.” (01/08) “Na verdade a nossa saúde. o cara vai olhar. cheio de mulher. e mais próximos do que se chama humanização. criança ali. encontramos falas que traduzem um padrão diferenciado. contribuem de maneira marcante para o agravamento do quadro da saúde do homem. diferenciados.

” (03/12) Outra questão que fica patente. estão tendo a oportunidade de estar criando novos homens com novas mentalidades. deixa eu gemer. Eu também vou morrer rápido.” (03/15) A percepção de si mesmos como protagonistas na construção da história social.” (01/06) “(as pessoas).” (01/11) “Se você está precisando do médico. “Tô começando a ficar preocupado porque a minha história é uma história muito triste. fica marcada em depoimentos que expressam a consciência da responsabilidade com o futuro. eu quero viver. é a noção de que esse processo de reformulação pessoal tem a ver com as demandas da paternidade. tentar garantir escolhas mais saudáveis que as experimentadas no decorrer da vida. vou morrer de repente. quero passar minhas experiências. mas eu não quero isso. resgatamos também as falas que reportam a preocupação com a questão coletiva. ... nesse processo. De um modo geral. No bojo desses sentimentos. Novos jeitos de ser. então se eu tiver doente. você tem que independente da sua criação você tem que procurar imediatamente o recurso de saúde.132 “Eu descobri que gemer alivia a dor. referindo-se à consciência da necessidade da prevenção. parece haver uma preocupação com a necessidade de atuar como agente norteador de rumos para as gerações futuras e.

... desse medo de se tratar. nós temos muito pouca coisa sobre a saúde do homem. também fica clara a percepção de que há algo a ser revisto no terreno das políticas públicas. na saúde. nossa primeira escola é dentro de casa. material.. na associação mesmo reunir os líderes comunitários... nos grupos . na medida em que vários depoimentos levantam sérias questões sobre a forma como as coisas são conduzidas nessa área..” (03/79) Ao mesmo tempo. os moradores mesmo e passar isso pra eles .” (01/06) “Prevenção é a solução em tudo. no trabalho. claro. Um exemplo disso é encontrado nas falas que questionam a eficácia de algumas campanhas. folder. o primeiro estudo. o fulano tá lá fudido mesmo. mostrando não só com prospecto. hoje pessoas mal informadas..” (02/71) “Eu não acreditava na prevenção e hoje essa palavra prevenção pra mim é tudo. mostrando com slides. cartilha. se a gente for ver bem. vai tudo mudar. na verdade. tirar um pouco desse preconceito. mostrar um pouco da saúde do homem. na violência. que é como a política de saúde pensa essa saúde preventiva do homem. “Se nossa cabeça começar a mudar. Porque. na infância.133 “Que testemunho você vai dar pra esse jovem? Se o cara daqui a pouco fala. a gente podia abranger esses temas e trabalhar com a comunidade também.” (03/20) . por que tu não se cuidou?” (01/04) “Fazendo manifestações. uma conseqüência dessa cultura machista.. só podem estar mal informadas e estarem se contaminando com doenças sexualmente transmissíveis e com o vírus da AIDS. né. e em outras que alertam para a necessidade de campanhas adequadas.. Sempre a gente vê muita coisa sobre a saúde da mulher..

do que simplesmente com a quantidade.. “Porque quando a gente fala da informação.” (03/21) . “Se você tem uma campanha. e a valorização de práticas educativas dialógicas e horizontais. não tem como. gente tem que encontrar novos mecanismos. “Enquanto houver a falta de cultura e a desinformação não vai haver prevenção. como é que você vai prevenir um monte de ignóbil.134 “Teria que haver uma campanha.. podemos perceber a crítica à educação “bancária”. um esclarecimento. tem retorno. também. conduzida pra população. socio-educativa. como que a gente vai trabalhar isso? Pra que essa informação ela faça sentido em você. também. educativa.. de pessoas ignorantes. Por isso que o ministério da saúde tem que mudar a forma de fazer as campanhas. com o fato de que ainda existe muita desinformação comprometendo o processo. quem viu aí? O Nuno Leal Maia falando sobre o câncer na próstata?” (03/17) Paralelamente.. com a qualidade da informação. obviamente. várias falas dão conta que a questão da saúde do homem tem a ver.” (03/90 -91) Num possível reflexo da metodologia empregada no processo de intervenção que caracterizou o PHSVC. também. conforme proposto pela Pedagogia de Paulo Freire.” (03/89) Parece que o questionamento tem a ver. maciça.. e que é necessária a formulação de medidas efetivas nesse sentido. A grande questão é como fazer que essa informação realmente atinja aquele menino dentro dos desejos dele. a gente pensa a informação como uma coisa mágica – AIDS prova que não é assim. .. Eu achei super bacana.

135 “Deveria ter uma divulgação por parte das coordenadorias explicando... a televisão mostra um mundo feminista, você vê que o mundo machista acabou, agora é só o mundo feminista.” (02/67) A questão da qualidade também é questionada quando em um depoimento, é

referência ao contexto da escola e da mídia. Em

explicitada a preocupação com a influência da mídia, descrita como negativa para o processo de formação sexual das crianças. A escola é vista como uma instituição que necessita ser reavaliada em sua base. Nesse contexto, há sugestões explicitas de inserção do debate sobre a questão de gênero no currículo escolar, objetivando a melhoria da qualidade das relações. “A medida que a gente leve essa reflexão do gênero masculino pra dentro a escola, por exemplo, que eu acho que é um espaço hoje muito forte de se fincar valores e contra valores, que a família não é mais tanto, como ela era há 40 anos.” (03/87) “Um conjunto de relações que influencia muito mais que a família muitas vezes, eu acho que a escola ainda é um espaço especial, eu acho que essa necessidade de refletir o gênero masculino na educação, desde a educação infantil ela é fundamental. (03/87) “Eu acho que é mudando o estilo, o estilo de vida, as educações primárias...” (03/87) Denotando uma consciência crítica sobre a sociedade capitalista, o discurso sobre a mídia, de um modo geral, apresenta-a comprometida com a difusão do consumo, descrita como elemento deformador dos valores da família, sendo um elemento negativo à formação sexualidade saudável entre as crianças. de uma

136 “A mesma televisão que fala com droga, sem droga, coloca um comprimido lá dizendo que aquele comprimido tomou doril a dor de cabeça sumiu!” (03/81) “Hoje essas crianças não tem mais essas regras, e além de não ter essas regras tem todos esses veículos de comunicação que, com essas músicas que falam: ‘bota na boca, bota na bunda, bota onde quiser’, estão influenciando de uma forma totalmente negativa, sexualmente falando.” (01/51 A experiência nos grupos de reflexão de Gênero demonstrou que, na medida em que esses desafios são encarados, propiciam transformações significativas tanto na dimensão do pessoal como na do coletivo, na medida em que estes homens descobrem que podem se beneficiar do espaço dos grupos para aprender a lidar com as insatisfações e inseguranças diante dos papéis de gênero socialmente impostos. “Eu me recuso a acreditar que essa possibilidade, a descoberta dessa reunião de homens, não tenha surtido um efeito positivo na vida das pessoas. Porque é notório que tem muita gente procurando uma situação dessas. Eu gostaria até de perguntar onde vocês estavam que não apareceram há mais tempo? É legal você [ver que uma] coisa que você achava que era só tua, e [encontrar], numa reunião homens que têm problemas igual eu tenho, igual qualquer um tem, e discutir essa questão.” (Lopes et al, 2001: p. 129)

Esta

vivência

é

relatada

como

altamente

gratificante

e

transformadora. Fica evidente o reconhecimento do grupo como um espaço de troca de informações e práticas de saúde que promove a “conscientização”, na medida em que essas atividades permitem a ampliação da consciência associada ao proce sso reflexivo grupal.

137

“Hoje tá sendo muito importante estar fazendo parte de um grupo de homens que fala da prevenção de saúde com homens, hoje eu tenho mais cuidado com a minha saúde.” (01/06) “Nós homens hoje, que temos toda essa informação, todo um lance cultural...por isso que é bom reuniões iguais a essa.” (01/08) “Tem um grupo de homens aí, que quer falar sobre a saúde do homem e falar também sobre doenças e tratamentos... é uma coisa importantíssima.” (02/71) “Um homem, que a gente vai se entender com ele, vai se abrir com ele, vai poder chegar pra ele: ó, eu estou assim, assim e assim.” (02/70)

Vários deles afirmam terem obtido mais informações, realizado novas descobertas sobre si mesmos, sobre sua sexualidade, sua saúde, a constataçã o de sua inserção como sujeito dentro de um contexto mais amplo. Falam de como se perceberam transformados a partir dessa experiência, e também do efeito dessas mudanças em seu modo de ver o mundo, e nas pessoas de suas relações. Fica patente que o mencionado processo de conscientização se dá a partir da percepção do particular, ampliando-se em direção ao mais geral, ou seja, a coletividade, ao sistema social como um todo. A partir da ação de cada um deles, essa consciência tende a ser multiplicada. “Muita gente cara, tudo amigos meus , compadre, sobrinhos, tenho um sobrinho que tá praticamente louco por causa de droga, ele espanca a mulher.... só a minha mudança já mexeu um pouco com ele, já mexeu bastante com ele, já deu um baque nele legal.” (02/74)

nas escolas.. e seus padrões de comportamento social. ele é um caminho pra você levar mais a sério essa reflexão sobre o gênero masculino. na íntegra com a coisa saudável mesmo. na academia.. na comunidade. seja no posto de saúde. Tá se tornando algo novo. depois da minha entrada no [grupo] Consciência Masculina..” (01/34) Interessante constatar a percepção que estes homens têm de estarem sendo.” (01/13) “Esse tipo de encontro é muito saudável.. eu vim entender um pouco mais da sexualidade masculina como homem. pioneiros no que tange a perspectiva de homens se dispondo à grupalização para colocar em cheque suas vidas. não de homem pra homem. mas também coletivamente. saúde. pode acarretar.” (03/92) “Os grupo de homens...138 “Houve uma mudança assim de ser homem.. levar isso pra outros espaços. inclusive pra práticas profissionais..é fundamental que a gente cresça enquanto indivíduo. acho que vai facilitar mais tarde um diálogo e a gente vai ter vários espaços pra dialogar. Mais que isso. .” (03/87) Contrariamente aos efeitos benéficos e transformadores .. em que o diálogo é privilegiado. a consciência do potencial de transformação social que esse tipo de iniciativa. Nós! foi o que ele falou. praticamente. educação. é muito comum falar de machismo de mulher pra homem. nós estamos começando a virar as exceções! Nós estamos começando a ser as vias de regra.. “Mas nós somos. o que cada um pensa sobre as coisa que permeiam o nosso cotidiano.. identificações que nos estimulam a seguir. criar identidade.” (03/18) “Se a gente se dispor a ouvir outros homens. depois de ter um filho. enquanto homens.

permeia os discursos constantemente. ter uma segurança.. Ele faz a prevenção da mulher .” (02/67) “Tem que ter ali um planejamento pra tanto nós confiarmos no médico. Pra evitar até. dela tomar o remédio. agora. Como já percebido em momentos anteriores. pra passar isso pra comunidade.” (02/68) Algumas falas apontam para uma nova postura masculina em que pode se vislumbrar um certo reconhecimento da responsabilidade no processo reprodutivo. tem que ter um médico ali pra atender os homens e um médico pra atender as mulheres.” (02/01) “Parece que eles tem mais preocupação com a mulher do que com a gente. dor de cabeça. pelo “Quando a gente tem uma coisa dentro da gente. ter um apoio.139 desencadeados ‘não-dito’. a visão de que a saúde da mulher parece estar em primeiro plano no âmbito dos Programas Oficiais de Saúde.. a camisinha. aquilo te dá uma úlcera.. aumenta a sua pressão arterial.” (01/16) Em um número significativo de depoimentos. eu acho que o preconceito já vem daí mesmo. “O governo também devia trabalhar mais nessa parte.. “Tenho usado sempre. que ela tá com uma .. destaca-se a consciência da responsabilidade do G overno em relação à questão da saúde do homem.e não tem a sensibilidade de colocar pra fora .. um depoimento descreve a perspectiva de somatização potencializada pelo ‘encouraçamento’. pela grupalização.

de repente. b) Visão dos Serviços de Saúde . a resposta que nós dermos ao [Centro Municipal de Saúde] Valdir Franco. cada vez mais.. de uma facção. que gera as condições para manutençlão da desordem nos ambientes que deveriam funcionar como sistemas de reabilitação da pessoa humana. que passaremos a descrever a seguir. a gente tem que inverter isso mesmo. Também fica clara a consciência da necessidade de formulação de políticas públicas que dêem conta dessas questões de forma efetiva. Acabou vindo. espaços de fomento ao crime organizado. pode acabar desencadeando toda uma resposta nos outros postos. ela tá tendo uma visibilidade tão grande.veio dois. Essa visão questionadora fica bem marcada com relação aos serviços de saúde.” (01/07) “Uma sigla que saiu dentro de um presídio. Ao contrário. tá se tratando. “Porque. evidencia-se a consciência de que essa transformação é possível quando caracterizada enquanto ação refletida coletivamente.140 inflamaçãozinha. como salienta nosso depoente em fala anterior.. né?” (02/20) Chama a atenção o fato de alguns depoimentos serem incisivos quanto ao potencial para “colocar ação” no seu desejo de transformar as coisas em seu entorno. eu ia na hora tirava fora. Nesse ponto.. tão potencializando aquela questão de uma forma tão perigosa como todas as outras e não dão visibilidade pra questões como essa.(risos). (03/91) Fica evidenciada uma consciência crítica sobre a sociedade.. sob os auspícios das próprias autoridades. que está massacrando. os presídios tornam-se. há um tempo atrás. Mas.

alguns depoimentos expressam a opinião de que os serviços públicos de saúde. procura isso aí e nem olha pra tua cara.” (01/09) Muitas falas atestam a dificuldade de sentirem-se à vontade para recorrer a esses serviços. não me sinto dentro. que parecem passar a imagem de estarem fazendo um “favor”. pra segurar o filho pra. um homem ali só tem que estar ali pra trabalhar ou fazer alguma outra coisa. “O homem chega dentro de um posto de saúde. fazendo parte daquilo ali.” (01/06) “Literalmente não me sinto bem dentro de um posto de saúde.. toma. “Me sinto um marciano dentro de um posto de saúde. a despeito de tratar-se de um serviço público. aquilo ali também é meu. então não tem como você se sentir bem num ambiente desses. parece que é um lugar pra crianças. parece que ele vai lá pedir um favor.. ao invés de atuarem como fatores geradores de conforto e ... pra mulheres e pra senhores. eu acho que o tratamento é que devia ser mais trabalhado. mas não pra ser atendido. Além de tudo.” (01/11-12) Essa imagem é refletida também nas queixas que referem-se a um possível “descompromisso” com a clientela carente.parece que o espaço de saúde não parece que tem um perfil pra homem.” (01/11) “Não sabe nada e tá lá. tem que ser tratado com um pouco mais de dignidade.141 A visão que os homens tem dos serviços de saúde oficiais é permeada por sentimentos de inadequação.

A pessoa até quer. convivemos com as principais manchetes locais. o Estado que está capenga.. seja pra criança.porra.142 confiança. que abordam justamente este fato. O cara bota o pé no hospital. ter acesso à saúde mas existe dificuldade. Aí o cara entra em pânico. são percebidos como elementos que geram potenciais usuários. para sua promoção. mas que parece se acentuar nas regiões do interior do país. seja pro homem... né. que é aquele que deveria dar acesso. seja pra mulhe r. numa emergência então. “Qualquer espaço de hospital.” “E garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem o risco de doenças e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços..” (03/25) Alguns depoimentos denotam a consciência da desigualdade de recursos. e onde assistimos o processo de intervenção Federal nos principais hospitais do Rio de Janeiro. após um longo período em que a saúde do município vinha se tornado visivelmente caótica. ele é assustador.” (03/17) No momento em que estas linhas são traçadas (março/2005). Uma temeridade no ser humano. medo nos “A estrutura hospitalar ela gera um medo. o gestor. posto de saúde. . já visível nos grande centros. comprovando a procedência do que foi dito acima pelo depoente. proteção e recuperação.

mas de toda aquela população ao acesso a saúde. e de que o grupo pode promover mudanças no âmbito das políticas políticas a partir de sua atuação. né? Porque na parte desenvolvida do país. do nosso ministério que tá saindo e saindo de forma errônea.. e a gente tá entendendo. começar a ter campanhas. honesta e comprometida por parte dos órgãos públicos. apesar de tudo isso que nós falamos aqui.” (03/83) “Começar a identificar essas questões e produzir material educativo sobre isso. Essas almejadas transformações implicam numa atuação séria. nós estamos entrando em políticas públicas. e devem levar em conta os interesses da maioria. nas grandes cidades. a valorização de um consciência mais ampla. na parte regional.. cada vez mais.” (02/26) Vários depoimentos reforçam a percepção da necessidade de construção de uma consciência coletiva. mas no país tem que ter uma visibilidade mais séria porque é dinheiro.143 “Ele falou lá da dificuldade que às vezes o homem tem no interior. ter a consciência de querer um mundo melhor pra você ter o poder interno transformador e influenciar as políticas públicas. é uma necessidade hoje. né.. ainda há o acesso!” (03/24) “Existe uma grande dificuldade não só do homem. de classe.” (03/80) ... visto que devem ser voltadas para a melhoria da qualidade de vida de cada cidadão.” (03/23) “Esse trabalho de divulgação dentro da prevenção não só no Rio de Janeiro. “Tem que ser nós aqui botando ação.. que nós podemos melhorar a nossa qualidade de vida e dos outros homens. Observa-se também. nos grandes centros. pra até mudar esse lance... a clareza da necessidade de nos organizarmos de verdade. pelo menos é o meu entendimento.

que vai fazer ela se aproximar de lá.” (03/23) Contudo. dar apoio. falava. por causa da questão da criança!” “Fui várias vezes com o meu. que impressionam o público. revistas. e de que esse processo se dá justamente por conta da maternidade. (03/22) “o filho. eu olhava e a grande maioria lá eram de mulheres. parece haver a clareza que não se trata de um quadro estanque. e quando eu chegava lá. por uma única empresa de marketing. fazer leis.” (03/80) “Eu acho que essa experiência daqui. eu acho que um grande barato dessas ações é quando começa a ter impacto na política . E aí. “Os postos de saúde sendo caracterizados cada vez mais pra atender os homens porque é um consenso do [grupo] Consciência masculina que a característica pode ser adequada pro homem se sentir mais à vontade. “A mulher tem um contato maior com a rede de saúde. e compreendida como fruto de uma ação coletiva. não deixar essas campanhas que a gente julga caótica. “não. né. ajudar. uma coisa que nós representantes de todos os grupos podemos fazer é em qualquer segmento a gente pode pedir a nossa palavra. visto que a transformação é percebida como possível.144 Aqui. no caso do [grupo] Pela Vida. vai à mídia mal feita. novamente confirmamos o sentimento genérico de que a Saúde Pública é dirigida para mulher. é uma experiência muito significativa. é porque o cara tá no trabalho”. porque ela pode conduzir. sempre a mesma mesmice. jornais. levar o meu filho. no posto de saúde. né. é a mulher. em livros.” (03/81) “Esses nossos pensamentos.

em especial a saúde do homem. pudemos constatar que a grande maioria das falas que apresentam identidade com o padrão hegemônico de masculinidade. descrevem o homem como o Super-homem. como tá sendo pensada. como atores. São inúmeras as referências que indicam um efetivo processo de conscientização nos diversos níveis. Essas ideologias ainda aparecem naturalizadas no discurso da maioria dos entrevistados. desde o individual. num esforço de síntese que aponte para propostas concretas em práticas de educação para a saúde.. como para comunicar o relato de experiências de outros homens. o herói que tem que ser forte. se estendendo para o espaço do grupo e apontando para questionamentos que se remetem à perpectiva de participação.. e que consegue tudo o que quer a través da utilização da força bruta.145 pública e nessa política de saúde. na elaboração de políticas públicas. Conclusões Aqui vão ser agrupados os dados identificados como os mais pertinentes aos objetivos propostos por esta pesquisa. surgem muitos questionamentos acerca da validade dessas ideologias para garantir uma vida relacional e social de . Homens em Movimento Em conformidade com o que é encontrado na literatura correlata. pudemos observar que são relevantes os dados coletados a partir da vivência de grupalização. perpassando questões ligadas ao próprio corpo.. Paralelamente.” (03/17) Em suma. seja para descrever situações de nível pessoal. 6.

passe a encarar o mundo com mais “sensibilidade”. Diferentemente do padrão homofóbico e de auto-suficiência atribuído ao “homem de verdade. No bojo dessas considerações. . e questionar seus próprios valores enquanto frutos de uma construção social que lhes foi imposta. tendo consolidado um espaço onde esses homens afirmam se sentirem seguros para serem eles mesmos. se dispõem a falar livremente de si. entendendo que as mudanças podem ser viabilizadas com a participação de cada um. o entendimento de que esta consciência pode ser fortalecida através da multiplicação dessa vivência de grupalização. aparecem muitos discursos em torno do processo de construção de um ‘novo homem’. Um homem que. Nesse processo. e a seu modo. mas como um processo coletivo e político visando transformações sociais mais amplas.146 qualidade. observa-se uma enfática valorização do processo reflexivo. a partir do exercício reflexivo da razão. a experiência de participação no grupo reflexivo é descrita como muito gratificante. expressar sentimentos. Muitos fazem questão de ressaltar o desejo de promover mudanças. Percebe-se ainda. Associado a isso. Assim. junto a um número de homens cada vez maior. como a que eles fizeram parte. Muitas falas denotam resistências diante da manutenção de padrões que comprometem não só as relações destes homens com o mundo. mas também tendem a comprometer seriamente sua saúde. encontramos muitos depoimentos que expressam o desejo confesso de se reunir com outros homens para realizar trocas de experiências de vida.

tal como vivenciado em suas histórias de vida. por alguns homens. Nesse sentido. onde detectamos o padrão de desvalorização da mulher como algo normal/natural e onde figuram. Diferentemente do padrão de desvalorização feminina identificado anteriormente. se vale dos estereótipos de gênero. e para a obtenção de uma vida relacional de qualidade. Vale salientar . eu sou homem! A afirmação da identidade masculina no padrão hegemônico. Assim. encontramos indícios de que alguns homens estão considerando importante a valorização do diálogo e do afeto para a manutenção satisfatória de seus relacionamentos. ter filhos garantiria a envolvimento emocional pelos participantes. sendo que vários deles fazem questão de expressar o desejo de des-identificação com o modelo paterno. argumentações que questionam o sistema monogâmico. Como nasce o pai da criança No que se refere à Paternidade. a perspectiva do “não envolvimento” amoroso. Contudo. com muita freqüência. de um modo geral.147 Prazer. chama a atenção também ser percebida. afirmação social da sua identidade sexual. no âmbito da sexo-afetividade. Estes tem a finalidade de reforçar as diferenças entre homens e mulheres em todas as instâncias da vida social. como pode ser observado. Essas diferenças tendem a ser naturalizadas. o tema é debatido com grande o fato dela como um modo de afirmação da masculinidade. encontramos falas que declaram a percepção da mulher enquanto um complemento.

amizade. Hoje vejo que isso ainda continua. ou a filha. diz respeito ao conceito de Paternidade Social descrito nas falas de diversos participantes. para que tê -los? Se não temos. 64). Em suma. que bom ter filho. Um dado peculiarmente interessante. e fazendo questão de ressaltar seu comprometimento e sua responsabilidade pessoal com o futuro. e essa noção vem sendo gradativamente incorporada aos modelos de masculinidade emergentes. como sabê-lo? Grita. eu me achava diferente. 2001. Segundo . Muitas vezes. a relação ainda tende a configurar-se a partir de uma série de fatores complicadores. o sofrimento de ser homem é que nunca podia ter sentimento. "Não sei quem falou: filhos. especialmente quanto às questões que permeiam o terreno da sexualidade. Ainda que esse outro seja o filho. mas pô. pela sensibilidade. chora. denotando a consciência de que o pai apresenta o mundo ao filho. caga. o que implica em ser mais sensível aos interesses do outro. parece que "ser sensível" começa a tornar-se um atributo de significativa importância." ( Lopes et al. p.148 que a maioria dos entrevistados fala de uma experiência concreta de paternidade. as pessoas me tratavam diferente. companheirismo. já que a maior parte tem filhos. Diferentemente do distanciamento proposto pelo modo de paternidade hegemônico. "No passado. respeito. diálogo. descrevendo uma relação de cumplicidade. há mostras de que essa relação pode ser refletida e modificada no processo. No entanto. No caso da filha mulher. estes homens traduzem suas experiências como pais. [mas é] mais fácil pra mim agora".

a ponto de terem preocupações filiais semelhantes às que envolvem seus filhos legítimos. Contrariamente. coloca em cheque o papel do provedor.149 estes. alguns discursos trazem uma acentuada consciência masculina acerca da importância do cuidar. De acordo com as narrativas. associada aos problemas materiais agravados pelo fantasma do desemprego. se configura nas relações estabelecidas com os jovens com quem trabalham nas comunidades em que atuam como agentes sociais. contrariando os preceitos da masculinidade hegemônica. conforme caracterizada nos depoimentos. fica patente a responsabilidade de ‘imagens positivas’ do masculino. estes homens se sentem realmente sensibilizados com as histórias de vida dos jovens que acompanham em seu trabalho. corresponderem à “Sem o seu trabalho. importância do planejamento familiar e da participação masculina no momento da decisão de ter ou não um filho. um homem não tem honra” (Gonzaguinha) A questão do Trabalho. Nessa mesma toada. e principalmente da falta dele. num primeiro momento. percebe-se o desejo de comprometimento homens. muitos conflitos acabam se . A Paternidade Social. com questões historicamente ignoradas onde pelos ‘cuidar’ é atributo como a feminino. Nesse processo de assumir a função de ‘Pais Sociais’. Os conflitos e desajustamentos ficam bastante evidenciados diante da perspectiva do desemprego. sendo ambas perspectivas reportadas co mo provedoras de satisfação e prazer. Além da questão da violência doméstica. parece não haver grande diferenciação entre a paternidade biológica e a paternidade social.

Da mesma forma. o homem tende a se sentir extremamente diminuído. o trabalho aparece identificado como fonte permanente de tensão e de adoecimento. algumas falas dão indícios de onde se pode-se encontrar explicações para a questão da violência de gênero. Mas é clara a percepção do fator cultural como um aspecto importante.150 agravando quando a mulher recebe uma remuneração mais alta. mas também a crítica ao modelo penitenciário adotado no país. em muitos momentos. e concluir que. Existe a percepção do envolvimento de questões maiores. Quando isso ocorre. Saúde é o que interessa! No terreno especifico da saúde. seja pela necessidade de corresponder ao estereotipo do homem que não falha nunca. que incluem não só a crise econômica e seus reflexos sobre a so ciedade. Os brutos também amam! Ainda no que diz respeito à nova condição masculina. nem mesmo frente à doença. foi possível comprovar a prevalência de um padrão em conformidade com o que é descrito na literatura que aborda a masculinidade. pois se percebe impotente diante da realidade que o impede de exercer seu papel de provedor. diante da . seja por não corresponder às expectativas de realização pessoal do indivíduo. destituída do papel do provedor. passível de transformação.

no caso. do qual deve se orgulhar. é cuidado.151 necessidade de atender ao padrão de gênero socialmente imposto. Parece que a questão do “cuidar” ainda é compreendida como um atributo feminino. porque demarca socialmente sua condição de homem. . visto que o adoecimento masculino compromete as expectativas sociais. Várias falas endossam a ideologia de gênero na qual o homem é socializado como sendo naturalmente nascido para o trabalho. Não cuidado com a de garantir “estabilidade”. também está ligada a essa questão. ao mesmo tempo em que necessita administrar a pressão para se manter na ativa. Assim. Este aspecto tem grande peso no sistema capitalista. e vários deles sinalizam que essa questão está diretamente relacionada com o processo de socialização das atribuições de gênero no modelo tradicional. não é de estranhar que algumas falas denunciem o trabalho identificado como fonte permanente de tensão e de adoecimento. A a chamada atividades laborais sem levar em conta os próprios limites físicos. o trabalho costuma preceder o necessidade de “ser responsável” e se envolvam nas saúde. Fica patente uma certa dependência do cuidado feminino em relação à saúde em muitos depoimentos. especialmente em relação ao trabalho. A mulher cuida e o homem. Nesse padrão. muitos homens colocam-se em posição extremamente vulnerável frente à perspectiva do adoecimento. São inúmeras as colocações que fazem alusão ao fato de que o homem só procura o médico quando está realmente mal. a tendência é que os homens raro.

enquanto homens. que tendem a redundar na prática da auto-medicação. e aos curandeiros. especialmente quando fortemente identificada com os valores da cultura masculina. No processo de reflexão sobre a construção social de suas identidades masculinas. os que tem a ver com a homofobia.152 Por outro lado. onde o cuidado recebido parece possuir estreita relação com a perspectiva de otimização de seu desempenho enquanto provedor. os tabus da sexualidade masculina adquirem um significado de grande relevância para os estudos sobre a saúde do homem e. e o reconhecimento das influências negativas das ideologias hegemônicas transmitidas geracionalmente à sua qualidade de vida. alguns depoimentos acusam o entendimento desse processo como se fosse o de uma estratégia de troca. De um modo geral. e à ‘desinformação’ generalizada surgem como fatores considerados agravantes. a visão que predomina é a de que a saúde é uma preocupação da mulher. o que parece estar relacionado ao fato de . que desencadeia mais questionamentos e resistências à manutenção de padrões hegemônicos. Em verdade. onde recorrem ao auxílio dos balcões de farmácia. é quase que imediato o resgate da experiência com as figuras parentais. é a figura paterna. a partir daí. Constata-se que esse padrão acaba contribuindo sobremaneira para comprometer a saúde do homem. Questão que aparece com intensa regularidade nas falas. Nesse processo. em especial. parece tratar-se mais de uma questão de sobrevivência do grupo familiar do que qualquer outra coisa. associada à confessa inadequação ao atendimento feminino no serviços de saúde. A falta de costume de buscar ajuda.

pode-se observar discursos que privilegiam a responsabilidade pessoal que cada um tem consigo mesmo. A desinformação aparece identificada como um fator preocupante. inclusive numa escala coletiva. Em contrapartida. São falas onde se identifica a consciência da necessidade de auto-superação. prosseguindo em seguida no acompanhamento da saúde do filho. O mesmo ocorre em relação aos meios de comunicação. onde a qualidade da escola. Nesse processo. numa dinâmica onde não se colocam na posição de vítima. Diante desse contexto.153 que a mulher pode gerar filhos. fica patente a consciência da importância da prevenção. acaba se envolvendo com toda uma estrutura de saúde muito antes do nascimento da criança. Observa-se aqui naturalização dos papéis de gênero socialmente atribuídos. e si de responsáveis por si mesmos e pela qualidade de suas vidas. padrão este que é reproduzido pelos serviços de saúde. e. em que prevalece a visão estereotipada da mulher como procriadora. a partir da educação básica. e nos moldes com hoje se apresenta. com ênfase na programação televisiva. Neste sentido. encontramos muitas falas que remetem à emergência de novos valores masculinos em relação ao trato com a saúde. sendo que há a percepção de que isso só é possível com a . levando em conta a responsabilidade com os filhos e com o futuro destes. que tenham eficácia junto à população. e com seu corpo. surgem declarações sobre a import ância de campanhas educativas em saúde adequadas. por conta disso. uma vez que informação é compreendida como vital para a melhoria dos padrões de saúde da população como um todo. são severamente criticadas. avaliada como sendo de influência danosa ao desenvolvimento psicosexual das crianças.

154 utilização de uma linguagem que fale de perto às pessoas. dado o descompromisso detectado pelos informantes nas atitudes de muitos profissionais da saúde. onde não se sentem a vontade com o perfil ‘feminilizado’ dos postos. No que diz respeito à visão masculina sobre os Serviços de Saúde. como um todo. para implementar a participação masculina no quadro dos usuários dos serviços públicos de saúde. refletida como uma questão masculina. Dentre estas. o que aponta como indi cativo de estratégias de ação que pode ser adotado em Programas de Saúde Coletiva. fica clara a consciência da responsabilidade do Governo com a saúde dos cidadãos. O atendimento é percebido como se fosse ‘favor’. e a saúde reprodutiva. destaca-sea questão da violência. surge o reconhecimento do grupo como espaço de troca de informações e práticas no campo da saúde. de um modo geral. . Paralelamente à esta constatação. muitas falas ressaltam o potencial que cada um tem para promover mudanças no sentido de ampliar um consciência coletiva a esse respeito. da qual o homem se percebe excluído. Frente à consciência da desigualdade de recursos identificada nos serviços. mas de que também existe a necessidade de uma atenção maior às especificidades inerentes ao gênero masculino. prevalece o sentimento de inadequação. Nesse ponto.

Sendo um processo. descrever sua experiência com base na introjeção dos preceitos de uma formação social tradicional opressiva e profundamente arraigada. em um determinado momento. que os hábitos e costumes associados ao modo tradicional de ser homem podem comprometer a saúde do homem seriamente. pudemos constatar a convivência do novo e do antigo. um homem pode. o trabalho e a violência. Num outro momento.155 7. em relação aos papéis socialmente atribuídos ao homem nas relações cotidianas. e sua interface com os padrões de cuidado adotados frente ao processo saúde/doença no cotidiano. e sua identificação com a luta por um mundo onde as relações humanas sejam mais igualitárias e mais justas. esse mesmo homem pode estar expressando sua perplexidade diante do novo. em nossas avaliações. São comportamentos que permeiam os grande temas da masculinidade. marcados pelas ambigüidades que permeiam a dialética dos processos de acomodação e resistência das ideologias de gênero. Considerações Finais Consideramos que nosso propósito de analisar as ideologias de gênero masculino entre homens participantes de Grupos de Reflexão de Gênero. que são a sexo-afetividade. . masculino e feminino. Assim. ficam visíveis as ambigüidades traduzidas no modo como esses homens resistem ou se acomodam às pressões das ideologias dominantes. a paternidade. Ficou patente. Atentando para as ambigüidades presentes nas falas dos homens participantes dos GRGs. seu de sconforto com o estabelecido. foi alcançado de maneira satisfatória.

na medida em conflita diretamente bastante masculinidade hegemônica. parece ficar claro o desejo anunciado de uma inserção no fundamental importância na vida dos participantes. isto levando-se em conta o contexto social vivido atualmente nas comunidades periféricas . As que questões referentes com às escolhas valores sexuais diferenciadas arraigados da aparecem como tema sempre presente e perturbador. a sexualidade masculina é um fator que tende a ser fonte de risco para a saúde reprodutiva e sexual. Os tabus. mas também de preocupações. marcante refere -se à questão da paternidade. Frente à gravidade da questão. sendo fonte de grande alegrias. As falas denotam que essa questão é de representa um subsídio para a reflexão sobre a possibilidade de expressão das diversas formas Neste ponto. acreditamos que a questão é merecedora de uma maior atenção por parte daqueles que são responsáveis pela elaboração de políticas públicas de saúde. Identificada com o modelo de dominação e descontrole. em que ao homem cabe a tarefa de garantir um desempenho e disponibilidade constantes.156 A Sexualidade é uma temática recorrente e de forte apelo para os participantes. constituem-se em pontos nevrálgicos para a compreensão do padrão de alheamento por parte dos homens em relação à própria saúde. especialmente os ligados à esfera da sexualidade. Outra temática espaço do privado. Ao mesmo tempo. especialmente no que diz respeito à contracepção e à prevenção de DST/AIDS. de ser masculino na contemporaneidade. e os prejuízos que tais comportamentos podem acarretar.

Sendo verdadeira ou não esta percepção. Este segue os preceitos de uma medicina preventiva. a imagem que os homens. Fala-se em demonstração de afeto e de “cuidado” com os filhos. uma vez que esse quadro se caracteriza num grande impedimento para o alcance das metas previstas no Sistema Único de Saúde – SUS. descrédito e desidentificação. que diferem em muito do modo de ser pai tradicional. percebe-se nas falas o reconhecimento e identificação com novos padrões de paternidade. esses homens se mostraram participantes de um . visto como feminilizado. os servi ços são percebidos com estranhamento. parecem ter dos serviços de saúde oficiais está longe de ser a ideal. até então. os princípios de universalidade. já que não leva em conta as especificidades da saúde masculina. esteve sempre circunscrito ao âmbito do feminino. no que diz respeito à saúde do homem e da população. com caráter igualitário e universal a todos os cidadãos. em geral. A perspectiva de classificar os homens. de um modo geral. naturalizadamente.157 de uma cidade como o Rio de Janeiro. A grande maioria parece não se sentir adequado ao formato adotado pelos serviços. equidade e integralidade ainda estão muito distantes de serem efetivamente incorporados e praticados pelos Serviços Públicos de Saúde. atributo este que. Da mesma forma. afastam o homem do cuidado com a saúde. Ao mesmo tempo. acreditamos que cabe aí uma investigação mais detalhada sobre esse aspecto. como foi dito antes. como fizemos no exercício acadêmico desta pesquisa. é meramente um recurso didático. já que. Além dos padrões que. atrelada à medicina curativa. Em outras palavras.

É gratificante constatar. atuam efetivamente na transformação do seu mundo. já que não se tem outras respostas para a complexidade que representa a perspectiva de reversão do quadro atual. Parece uma boa aposta a ser considerada. absorvida inicialmente das experiências do Movimento de Mulheres. já que esse tipo de proposta parece atuar como uma contracorrente diante das ideologias que cultuam o individualismo em nossas sociedades atuais. a influência das ideologias dominantes na cultura machista lhes é fundamentalmente perniciosa. das mulheres e das crianças. o que se destaca é a capacidade de se auto avaliarem. a busca de resposta em grupo parece ser uma boa aposta. conscientizados. visto os prejuízos acarretados a sua saúde como um todo. A fala dos entrevistados atestou o quanto a proposta de formação de grupos reflexivos com homens é pertinente.158 momento de transição. também. e perceberem que. São inúmeras as evidências de que essa prática. em que ousam testar novos modos de colocarem-se no mundo. Mundo este que se mostra cada vez mais complexo e opressivo para todos. no processo de construção de suas identidades de gênero. pode realmente conduzir a uma nova realidade em que os homens. e que demanda novas formas de organização e luta para sua transformação. que a perspectiva de mudança é . mulheres e homens. melhorando a qualidade de suas vidas. Alicerçada numa proposta pedagógica que privilegia o diálogo e o exercício da pergunta. e implementada com os conceitos da pedagogia libertadora formulada por Paulo Freire. Num primeiro momento.

embora meu trabalho – todo o meu trabalho – seja uma espécie de autobiografia. “Meu problema principal é tentar compreender o que aconteceu comigo. recorremos novamente à clareza e discernimento despojado do mestre Bourdier. Por essa razão. finalmente. o que foi perdido na aquisição dela. ao mesmo tempo.159 encarada pela maioria dos nossos personagens como um caminho que pode. a exemplo de como fizemos no início. conduzir à uma dimensão mais próxima do que se compreende por felicidade. “Em determinado momento na minha vida eu pensava em mudar explodindo.” (Bourdieu & Eagleton. para poder viver num mundo que não é meu.” (03/92) Para concluir. tenho que procurar entender as duas coisas: o que significa ter uma mente acadêmica – como é que se cria isso – e. acho eu – uma ascensão a um lugar de que não faço parte. Assim. e já sem garantia de conseguir expressar os sentimentos em relação a empreita que constituiu este trabalho de pesquisa acadêmica. trata-se de um trabalho para pessoas que têm o mesmo tipo de trajetória e a mesma necessidade de compreender. hoje eu penso que o teatro e a dança e reflexões como essa pode dar uma resposta que ecoe bem mais do que uma bomba sendo explodida ali. 1996) . Minha trajetória pode ser descrita como milagrosa.

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