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Depressão Dráuzio Varela

Depressão Dráuzio Varela

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Published by: Patricia Caetano on Mar 05, 2011
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Depressão: doença que precisa de tratamento Depressão não é tristeza. É uma doença que precisa de tratamento.

Cerca de 18% das pessoas vão apresentar depressão em algum período da vida. Quando o quadro se instala, se não for tratado convenientemente, costuma levar vários meses para desaparecer. É também uma doença recorrente. Quem já teve um episódio na vida, apresenta cerca de 50% de possibilidades de manifestar outro; quem teve dois, 70% e, no caso de três quadros bem caracterizados, esse número pode chegar a 90%. A depressão é uma patologia que atinge os mediadores bioquímicos que agem na condução dos estímulos através dos neurônios que possuem prolongamentos que não se tocam. Entre um e outro, há um espaço livre chamado sinapse absolutamente fundamental para a troca de substâncias químicas, íons e correntes elétricas. Essas substâncias trocadas na transmissão do impulso entre os neurônios, os neurotransmissores, vão modular a passagem do estímulo representado por sinais elétricos. Na depressão, há um comprometimento dos neurotransmissores responsáveis pelo funcionamento normal do cérebro. Diferença entre tristeza e depressão Drauzio – Vamos começar pela pergunta clássica: qual a diferença entre tristeza e depressão? R. Moreno - Tristeza é um fenômeno normal que faz parte da vida psicológica de todos nós. Depressão é um estado patológico. Existem diferenças bem demarcadas entre uma e outra. A tristeza tem duração limitada, enquanto a depressão costuma afetar a pessoa por mais de 15 dias. Podemos estar tristes porque alguma coisa negativa aconteceu em nossas vidas, mas isso não nos impede de reagir com alegria se algum estímulo agradável surgir. Além disso, a depressão provoca sintomas como desânimo e falta de interesse por qualquer atividade. É um transtorno que pode vir acompanhado ou não do sentimento de tristeza e prejudica o funcionamento psicológico, social e de trabalho. Sintomatologia da depressão Drauzio – Muitas pessoas que têm depressão não reconhecem os sintomas da doença. Que dicas dar aos familiares para ajudá-los a identificar o comportamento de um deprimido? R. Moreno – Em geral, o indivíduo com depressão reconhece que está sendo afetado por algo novo, diferente das outras experiências de tristeza que teve na vida. A família pode identificar o comportamento do deprimido pela mudança de atitudes, porque ele deixa de ser o que era, deixa de sentir alegria, apresenta queda de desempenho e passa a agir de forma diferente da habitual. Drauzio – Exatamente por estarem deprimidos, a maioria leva bastante tempo para procurar ajuda, não é? R. Moreno – Infelizmente, isso acontece. Muitas vezes, os indivíduos custam a identificar como anormal o que estão sentindo. É comum atribuírem a depressão a um mau momento da vida ou a relacionam com um obstáculo que poderá ser transposto sem se dar conta de que foram acometidos por uma doença que tem tratamento capaz de melhorar sua qualidade de vida. Drauzio - Quais são os sintomas mais característicos de um quadro depressivo? R. Moreno – São muitos os sintomas da depressão. Talvez o mais evidente seja o humor depressivo, que se caracteriza por tristeza e melancolia, acompanhado por falta de ânimo e de disposição, incapacidade de sentir prazer em atividades habitualmente agradáveis, alterações do sono e do apetite, pensamentos negativos, desesperança, desamparo. Drauzio – Um de meus pacientes dizia que apesar de estar tudo bem na vida, não conseguia olhar para nenhum lado sem ver os aspectos negativos e que esses assumiam importância muito maior do que os positivos. R. Moreno – De fato, essa doença provoca uma distorção na visão de mundo e de si mesmo. Lembro-me bem de um paciente que dizia existir uma nuvem cinzenta a seu redor que o impedia de olhar o espectro das cores. Achei uma definição interessante que bem traduz o sentimento depressivo. Comportamento familiar paradoxal Drauzio – Existe uma contradição que se estabelece nesses quadros. A família vê a pessoa nesse estado e quer que reaja, mas ela não consegue e os familiares se voltam contra o deprimido. Isso é regra? R. Moreno - Essa é uma armadilha em que caem as famílias e o deprimido porque, esgotadas todas as tentativas para estimulá-lo, surge a raiva: “Ele não reage; eu tento, mas ele não quer melhorar”. Tal comportamento reforça a desesperança e a baixa auto-estima

Pode-se dizer que o pico da incidência da doença ocorre dos 18 aos 30. A depressão tira-lhe as forças. os neurônios. é importante esclarecer familiares e paciente que essa incapacidade de reação é uma das características da doença e ajuda a diferenciar o estado patológico do normal. O deprimido dificilmente o consegue.Em que faixa etária os homens estão mais predispostos a sentir depressão? R. depressão era tratada com aconselhamento e psicoterapia. Doença prevalente nas mulheres Drauzio – Por que as mulheres têm mais depressão do que os homens? R. do parto e da perimenopausa. já fez o que tinha de fazer” é a explicação que se dá ignorando os sintomas da depressão e a possibilidade de mudar sensivelmente a condição de vida do velho porque existe tratamento para essa doença. Após a menopausa. Quando estamos tristes. justamente na fase mais produtiva do indivíduo. O que mudou no conhecimento da fisiologia da depressão que permitiu essa transformação no tratamento? R. na vida adulta e na velhice. Por isso. atribui-se a queda de energia e disposição ao peso da idade. Ele não tem como lutar contra ela. acontece algo semelhante. muitas mulheres se queixam de que de repente caem numa tristeza incontrolável e apresentam forte labilidade emocional. a relação da incidência entre homem e mulher tende a igualar-se. isto é. mas ela cai consideravelmente durante a crise de depressão. por último. especialmente desses quadros graves que se estabelecem no pós-parto quando mulheres chegam a matar seus próprios filhos? R. Moreno – A depressão pode ocorrer em qualquer ciclo da vida: na infância. depressão é tratada mais agressivamente. Moreno – No cérebro existem células nervosas. Depressão nos homens Drauzio . Depressão pós-parto Drauzio – Fale um pouco da depressão ligada ao parto. Depressão na menopausa Drauzio – Na passagem da menopausa. pois nessa fase cessam essas flutuações hormonais. Em condições normais. pois considera que a mulher perdeu a crítica e o ajuizamento da realidade. Muitos casos passam despercebidos. Moreno –O sexo feminino passa por vários processos hormonais durante a vida: o início dos ciclos menstruais. a depressão é mais freqüente nos adultos jovens. Hoje. pois os sintomas são atribuídos a características de personalidade da criança. os neurotransmissores.próprias do indivíduo com depressão. “Ele está velho. A outra é a depressão pós-parto propriamente dita. a depressão ocorre com maior freqüência. a gravidez. no final da adolescência e início da vida adulta. A primeira é um estado leve de melancolia que dura de 5 a 7 dias e não traz grandes conseqüências nem para as mães nem para as crianças. Moreno – Nos homens. 40 anos . Depressão na velhice Drauzio – E na velhice. Por que isso acontece? R. a quantidade dessas substâncias é suficiente. o parto e. Tanto é assim que no período da gravidez. Tudo isso implica alterações na produção dos hormônios sexuais femininos e torna a mulher mais vulnerável. Muitas vezes. Moreno – Existem duas posições no pós-parto. Na velhice. A infância é a fase de diagnóstico mais difícil. também ocorrem casos de depressão? R. um manifestação mais grave porque compromete a mulher e sua visão de mundo e favorece o risco de um infanticídio. É um caso tão sério que o código penal não o reconhece como crime. e substâncias químicas que estabelecem a comunicação entre elas. Mudanças no paradigma de tratamento Drauzio – No passado. É um fenômeno relacionado com a perda da capacidade reprodutiva e com as mudanças hormonais do sexo feminino. a menopausa. somos capazes de reagir aos estímulos de prazer. Os medicamentos antidepressivos aumentam a oferta de neurotransmissores e promovem a volta ao estado normal do paciente. adolescência. O tratamento da depressão mudou muito com a descoberta desses medicamentos que provocam algumas modificações químicas no cérebro pela oferta de substâncias mediadoras que estabelecem a comunicação entre uma célula nervosa e outra durante o processo de . Moreno – A menopausa também é um período de risco de depressão para as mulheres.

Em compensação. Por exemplo. Alguns provocam boca seca. Moreno – Existem vários grupos de antidepressivos. apesar das desvantagens dos efeitos colaterais. os médicos prescreviam um remédio para controlar a pressão arterial e desencadeavam um episódio depressivo. o estresse físico. o medicamento leva de 10 a 15 dias para começar a ter uma boa ação antidepressiva. tremores. Moreno – Sabemos hoje que existe predisposição genética para a depressão.O que se sabe sobre a influência do clima. náuseas e. certas doenças. a decisão tende sempre para o tratamento uma vez que restabelece a qualidade de vida e diminui o risco de morte por suicídio ou outras doenças. sobre a depressão? R. Gatilhos desencadeantes da depressão Drauzio – Existem fatores que disparam o processo depressivo? R. vômitos. no passado. por não receberem esclarecimentos sobre a ação das drogas. Em geral. os níveis dos neurotransmissores são baixos. isto é. Efeitos colaterais Drauzio – Quais são os principais efeitos colaterais da medicação? R. nos últimos 40 anos. inquietação. a depressão reflete uma alteração bioquímica do cérebro? R. Moreno – De fato. Drauzio – No tratamento da depressão existe um complicador importante. Os indivíduos nascem com vulnerabilidade para a doença que. que está relacionado diretamente com os fotoperíodos. com certa freqüência. Costumo dizer que. eles apresentaram uma evolução importante porque. Depressão sazonal Drauzio . talvez 20% ou 30% delas. outros. havia medicamentos associados. com a luminosidade. mas os efeitos colaterais desagradáveis são piores no começo. Drauzio – Na verdade. o estresse psicológico provocado por qualquer adversidade da vida. chamados estressores. às vezes. Moreno – Há um quadro de surtos depressivos. à ocorrência de suicídios. que funcionam como gatilho. promovem uma melhora significativa nos pacientes. leva algum tempo para que o doente sinta os benefícios da medicação. no entanto. No outono e no inverno. não se manifesta em todas as pessoas predispostas. a luz diminui muito e algumas pessoas se tornam mais vulneráveis às flutuações normais do humor e desenvolvem quadros depressivos. Os antidepressivos bloqueiam o mecanismo de recaptura (impedem que os neurotransmissores retornem à célula de origem) o que aumenta a quantidade dessas substâncias nesse espaço virtual entre os neurônios. podem ocasionar ansiedade. Isso depende de vários fatores. Moreno – Os estados depressivos são provocados por uma disfunção na bioquímica do cérebro o que acarreta manifestações psicológicas e comportamentais. Em alguns casos. o consumo de drogas lícitas ou ilícitas e alguns medicamentos de uso contínuo podem precipitar os quadros. No entanto. especialmente nos países frios. chamado depressão sazonal. Isso dificulta bastante a adesão ao tratamento e faz com que o paciente tenda a abandoná-lo precocemente.transmissão dos sinais. No deprimido. isso acontece com pequena parcela das pessoas que tomam essa medicação. . intestino preso. Na relação custo-benefício. Entre as drogas lícitas destaca-se o álcool e entre as ilícitas. especialmente nos países frios. os chamados antidepressivos de nova geração. Drauzio – O tratamento visa a uma modulação mais harmônica dessa bioquímica cerebral? R. R. Os mais recentes. Drauzio – Isso me faz lembrar de que. Moreno – O tratamento visa a regular essa disfunção e existem medicamentos bastante eficazes nesse aspecto. tremor. os efeitos colaterais são imediatos. os estimulantes como a cocaína e a as anfetaminas.

A tendência inicial é querer ajudar o indivíduo a reagir. Moreno – A primeira coisa é apelar para o bom-senso. Problemas todos temos. uma série de crenças populares. Moreno – A família pode fornecer parâmetros da realidade. nem deixá-la desrespeitar a necessidade de alimentação e higiene. Orientação aos familiares Drauzio – Como você orienta os familiares nesses casos? R. . Significa estimulá-lo de acordo com suas possibilidades de desempenho. que rotulam a depressão como falta de vontade. dentro das possibilidades. é preciso desenvolver a capacidade de enfrentar e resolver problemas. mas todos podemos contar com o bom-senso para conseguir uma qualidade de vida satisfatória. É importante respeitar as limitações que a doença impõe naquele momento. Ninguém incentiva um paciente de UTI a andar pelos corredores do hospital. dificuldades e conflitos. defeito de caráter e doença de rico. aprender a lidar com eles e a não deixar que nos abalem demais. Drauzio – O que a família pode fazer para ajudar a pessoa deprimida a sair da crise mais depressa? R. Depois. Abordados esses temas. é preciso vencer o medo. Esse paciente precisa ser estimulado o que não significa levá-lo ao shopping ou pô-lo para correr. Não deve deixar a pessoa trancada no quarto o dia todo com as cortinas fechadas. Drauzio – A atividade física ajuda? R. Possibilidades de prevenção Drauzio – O que se pode fazer neste mundo moderno para não cair em depressão? R. da loucura. Por outro lado.Reflexo nas relações afetivas Drauzio – Quando aparece um quadro depressivo na família. Além disso. interferem negativamente. precisam saber o que está sendo feito. Moreno – O primeiro passo é a informação. De modo geral. Como ninguém consegue. A mistura dessas crenças com as tentativas infrutíferas de auxílio distorcem as relações familiares. que riscos correm os doentes. Todos. os doentes e suas famílias têm medo da doença mental. como ficam as relações afetivas? R. Moreno – A atividade física ajuda bastante. aflora um sentimento de frustração difícil de contornar. Tanto isso é possível que apenas 18% da população apresenta quadros depressivos ao longo da vida. Acima de tudo. Moreno – Geralmente a família se desestrutura bastante. Há evidências de que associada a tratamentos medicamentosos e psicológicos pode ser um componente importante para alcançar resultados satisfatórios no tratamento. os benefícios do tratamento e o prognóstico a longo prazo. inclusive os pacientes. consegue-se melhorar o resultado do tratamento e as relações interpessoais. deve-se considerar o impacto social e econômico que a doença pode representar para toda a família. Não há uma receita básica . É necessário.

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