Você está na página 1de 11

Fredric Jameson

Tradução Vinicius Dantas

Nota do tradutor — Este tex- ós-modernidade" é até hoje um art mas também o mais recente Hiper-rea-
to foi originalmente apresen-
tado como uma conferência conceito pouco aceito ou com- lismo; em música, o apogeu de John
no W hitney M useum , em
1982. Fredric Jameson am- preendido. Algumas das resis- Cage, assim como a posterior síntese dos
pliou e desenvolveu seus
principais tópicos no longo tências a ele podem ser atri- estilos clássico e "popular" de compo-
ensaio "P o stm o d ernism o r
the Cultural Logic of Late
buídas à falta de familiaridade com as sitores como Philip Glass e Terry Riley
Capitalism", recentemente pu- obras que abrange e que são encontráveis ou, ainda, o rock new wave e punk de
blicado na New Left Review
(n.º 146, julho-agosto 1984). em todas as artes: a poesia de John grupos tais como Clash, Talking Heads
Ashbery, por exemplo, mas também a e Gang of Four; no cinema, tudo o que
poesia conversacional, muito mais sim- deriva de Godard — filme e vídeo con-
ples, lançada nos anos 60 como reação temporâneos de vanguarda — além de
à ironia e complexidade do modernismo um novo estilo de filmes comerciais ou
acadêmico; a reação à arquitetura mo- ficcionais, cujo equivalente no romance
derna e, em particular, aos monumentais contemporâneo são as obras de William
edifícios do International Style, bem Burroughs, Thomas Pynchon e Ishmael
como as construções pop e os tetos de Reed, de um lado, e o nouveau roman
vidro decorado elogiados por Robert francês, de outro, que merecem ser cita-
Venturi em seu manifesto Aprendendo dos como variedades do que se pode
com Las Vegas; Andy Warhol e a pop chamar pós-modernismo.

16 NOVOS ESTUDOS N.º 12


Uma lista como esta esclarece duas tal, biografia popular, mistério policial,
coisas ao mesmo tempo: primeiro, os ficção científica ou visionária). Os auto-
casos de pós-modernismo citados acima res pós-modernos não "citam" mais tais
aparecem, na sua maioria, como reações "textos" como um Joyce ou um Mahler
específicas a formas canônicas da mo- fariam, mas os incorporam a ponto de fi-
dernidade, opondo-se a seu predomínio car cada vez mais difícil discernir a linha
na Universidade, nos museus, no circuito entre arte erudita e formas comerciais.
das galerias de arte e nas fundações. Estes Outro indício completamente diverso
estilos, que no passado foram agressivos da dissolução dessas velhas categorias de
e subversivos — o Expressionismo Abs- gênero e linguagem pode se encontrar
trato, a grande poesia de Pound, Eliot e naquilo que, às vezes, se denomina teoria
Wallace Stevens, o International Style contemporânea. Na geração passada ainda
(Le Corbusier, Frank Lloyd Wright, existia o rigor de linguagem da filosofia
Mies), Stravinsky, Joyce, Proust e Tho- profissional — os grandes sistemas de
mas Mann —, que escandalizaram e Sartre, ou dos fenomenólogos, a obra de
chocaram nossos avós, são agora, para a Wittgenstein, a filosofia analítica ou a
geração que entrou em cena com os filosofia da linguagem —, ao lado da
anos 60, precisamente o sistema e o ini- qual se podia distinguir o discurso intei-
migo: mortos, constrangedores, consa- ramente diferente das demais disciplinas
grados, são monumentos reificados que universitárias — da ciência política, por
precisam ser destruídos para que algo exemplo, da sociologia ou da crítica lite-
novo venha a surgir. Isto quer dizer que rária. Hoje, se pratica mais e mais uma
serão tantas as formas de pós-modernis- espécie de escrita simplesmente denomi-
mo quantas foram as formas modernas, nada "teoria" que, ao mesmo tempo, é
uma vez que as primeiras não passam, todas e nenhuma dessas matérias. Esta
pelo menos de início, de reações especí- nova espécie de linguagem, associada em
ficas e locais contra os seus modelos. geral à França e à teoria à francesa, tem
Obviamente isto não facilita em nada a se difundido amplamente, marcando o
discussão da pós-modernidade como algo fim da filosofia como tal. Como, por
coerente, porque a unidade deste novo exemplo, deve ser chamada a obra de
impulso — se é que tem alguma — não Michel Foucault — filosofia, história,
se funda em si mesma mas em relação teoria social ou ciência política? É "in-
ao próprio modernismo contra o qual ela decidível", como se diz nos nossos dias;
investe. o que estou insinuando é que esse tal
O segundo traço desta linha de pós- "discurso teórico" pode perfeitamente
modernismos é a dissolução de algumas ser incluído entre as manifestações da
fronteiras e divisões fundamentais, nota- pós-modernidade.
damente o desgaste da velha distinção Cabem aqui algumas palavras sobre o
entre cultura erudita e cultura popular emprego apropriado deste conceito: ele
(a dita cultura de massa). Possivelmente não é apenas mais um termo para a des-
esta é, entre todas, a mais desalentadora crição de determinado estilo. É também,
manifestação da pós-modernidade, sob o pelo menos no emprego que faço dele,
ponto de vista universitário — o qual um conceito de periodização cuja prin-
tem tradicionalmente interesses declara- cipal função é correlacionar a emergên-
dos tanto na preservação de um domí- cia de novos traços formais na vida cul-
nio de cultura qualificada e de elite con- tural com a emergência de um novo tipo
tra o cerco de filistinismos, do kitsch, de vida social e de uma nova ordem eco-
da porcaria, da cultura de Seleções ou nômica — chamada, freqüente e eufe-
dos seriados de TV, quanto na transmis- misticamente, de modernização, socieda-
são de técnicas de leitura, audição e de pós-industrial ou sociedade de consu-
modos de ver difíceis e complexos a seus mo, sociedade dos mídia ou do espe-
iniciados. Porém, muitos dos mais re- táculo, ou capitalismo multinacional.
centes pós-modernismos têm se deslum- Podemos datar esta nova fase do capi-
brado precisamente com todo esse uni- talismo a partir do crescimento econô-
verso da propaganda e dos motéis, dos mico do pós-guerra nos Estados Unidos,
luminosos de Las Vegas, do espetáculo no final dos anos 40 e começo dos 50,
noturno e do filme classe B de Holly- ou então, na França, a partir da insti-
wood, da chamada paraliteratura, com tuição da Quinta República, em 1958.
seus vários gêneros padronizados de li- A década de 60, sob muitos aspectos, é
vros de bolso (terror, romance sentimen- o período-chave de transição, um perío-

JUNHO DE 1985 17
PÓS-MODERNIDADE E SOCIEDADE DE CONSUMO

do em que a nova ordem internacional ter a capacidade de se colocar na pessoa


(neocolonialismo, a Revolução Verde, a imitada. Todavia, o efeito geral da pa-
informatização e a mídia eletrônica) não ródia é — quer simpática quer maledi-
só se funda como, simultaneamente, se cente — ridicularizar a natureza privada
conturba e é abalada por suas próprias destes maneirismos estilísticos bem co-
contradições internas e pela oposição mo seu exagero e sua excentricidade em
externa. Gostaria de esboçar aqui alguns relação ao modo como as pessoas nor-
modos pelos quais a pós-modernidade malmente falam e escrevem. Assim, sub-
nova expressa a verdade interior desta jaz à paródia o sentimento de que existe
ordem social emergente do capitalismo uma norma lingüística, por oposição à
tardio. Vou limitar a descrição a somen- qual os estilos dos grandes modernistas
te dois de seus traços mais significati- podem ser arremedados.
tivos, os quais passo a denominar pas- Porém, o que aconteceria se ninguém
tiche e esquizofrenia; eles oferecem mais acreditasse na linguagem normal,
ocasião para sentirmos a especificidade na fala comum, na norma lingüística
da experiência pós-moderna do espaço e (uma espécie de precisão e de força co-
do tempo, respectivamente. municativas elogiadas por Orwell em seu
famoso ensaio)? Podemos considerar
esta situação da seguinte maneira: tal-
ma das práticas ou traços mais vez a imensa fragmentação e privatiza-
importantes da pós-modernida- ção da literatura moderna — sua explo-
de hoje é o pastiche. Preciso são em um bando de estilos privados e
primeiro explicar este termo maneirismos distintos — prefigurem
que as pessoas tendem em geral a con- tendências mais gerais e profundas da
fundir ou a assimilar ao fenômeno ver- vida social como um todo. Suponhamos
bal afim que é a paródia. Tanto pastiche que realmente a arte moderna e o mo-
quanto paródia envolvem imitação ou, dernismo — longe de serem uma curio-
melhor ainda, o mimetismo de outros sa especialização estética — tenham
estilos, particularmente dos maneirismos antecipado desenvolvimentos sociais nes-
e tiques estilísticos de outros estilos. É ta direção; e que nas décadas que se
óbvio que a literatura moderna em geral seguiram à emergência dos grandes esti-
oferece campo especialmente fértil para los modernos a sociedade tenha começa-
a paródia, visto que os grandes escrito- do a se fragmentar neste sentido — cada
res modernos têm em sua totalidade se grupo passando a falar uma curiosa lin-
sobressaído pela invenção ou produção guagem privada própria, cada profissão
de estilos preferencialmente singulares: passando a desenvolver seu ideoleto ou
cite-se a frase longa faulkneriana ou o código privado e, por fim, cada indiví-
conjunto de imagens da natureza tão ca- duo passando a ser uma espécie de ilha
racterístico de D. H. Lawrence; cite-se lingüística, cindido dos demais. Se este
o modo peculiar de Wallace Stevens em- for o caso, a própria possibilidade de
pregar abstrações; citem-se também os uma norma lingüística por meio da qual
maneirismos dos filósofos, de Heideg- pudéssemos escarnecer as linguagens pri-
ger, por exemplo, ou de Sartre; citem-se vadas e os estilos idiossincráticos teria
os estilos musicais de Mahler ou Proko- sumido, e só disporíamos então da diver-
fiev. Estes estilos todos diferem um do sidade e da heterogeneidade estilísticas.
outro e, contudo, são comparáveis nisto: É este o momento em que o pastiche
cada um é absolutamente inconfundível; aparece e a paródia se torna impossível.
uma vez identificado provavelmente não O pastiche é, como a paródia, a imitação
se deixa mais confundir com qualquer de um estilo singular ou exclusivo, a uti-
outro. lização de uma máscara estilística, uma
Assim sendo, a paródia se aproveita fala em língua morta: mas a sua prática
da singularidade destes estilos para incor- desse mimetismo é neutra, sem as moti-
porar suas idiossincrasias e singularida- vações ocultas da paródia, sem o impul-
des e criar uma imitação que simula o so satírico, sem a graça, sem aquele sen-
original. Não estou querendo dizer que timento ainda latente de que existe uma
o impulso satírico seja deliberado em norma, em comparação com a qual aqui-
todas as formas de paródia. De qualquer lo que está sendo imitado é, sobretudo,
maneira, um bom parodista precisa ter cômico. O pastiche é paródia lacunar,
uma certa simpatia tácita pelo original, paródia que perdeu seu senso de humor:
tal como um excelente mímico precisa o pastiche está para a paródia assim co-

NOVOS ESTUDOS N.º 12


18
mo aquela coisa curiosa, a prática mo- Há também uma segunda posição, a
derna de uma espécie de ironia branca, mais radical, que pode ser considerada
está para o que Wayne Booth chama as a posição pós-estruturalista. Acrescenta:
ironias cômicas e estáveis, isto é, as iro- o sujeito individual burguês não é so-
nias do século XVIII. mente coisa do passado como também
não passa de um mito, antes de mais
nada ele nunca existiu realmente; nunca
gora, porém, convém introdu- existiram sujeitos autônomos desse tipo.
zir uma nova peça neste que- Este construto não passaria, mais preci-
bra-cabeça que pode nos auxi- samente, de uma mistificação filosófica
liar a explicar por que a mo- e cultural que procurava persuadir as
dernidade clássica é coisa do passado e pessoas de que elas "tinham" sujeitos
por que a pós-modernidade ocuparia seu individuais e possuíam tal identidade
lugar. Este componente novo é o que pessoal singular.
geralmente se costuma chamar a "morte Para nossos propósitos, não é parti-
do sujeito" ou, em expressão mais tra- cularmente importante decidir qual des-
dicional, o fim do individualismo como sas posições é a correta (ou melhor, qual
tal. Os grandes modernismos estavam, delas é mais produtiva e interessante).
como dissemos, ligados à invenção de Ao invés, o que precisamos reter é um
um estilo pessoal e privado, tão incon- dilema estético: se está esgotada a expe-
fundível como a nossa impressão digital, riência e a ideologia do eu singular, uma
tão incomparável como nosso próprio experiência e uma ideologia que susten-
corpo. Porém, isto significa que a esté- tavam a prática estilística da moderni-
tica da modernidade estava, de certo dade clássica, já não fica claro o que
modo, organicamente vinculada à con- artistas e escritores do período atual afi-
cepção de um eu singular e de uma nal estariam fazendo. Fica claro, con-
identidade privada, uma personalidade tudo, que os modelos mais antigos —
e uma individualidade únicas, das quais Picasso, Proust, T. S. Eliot — não fun-
se podia esperar o engendramento de sua cionam mais (ou são propriamente no-
visão singular de mundo, forjada em seu civos), visto que ninguém mais possui
próprio estilo, singular e inconfundível. essa espécie de mundo privado e único,
Contudo, hoje, a partir das mais dis- nem um estilo para expressá-lo. E isto
tintas perspectivas, os teóricos sociais, talvez não seja uma questão apenas
os psicanalistas, mesmo os lingüistas, "psicológica": temos também de levar
para não mencionar aqueles que como em conta o peso imenso de setenta ou
nós trabalham na área da cultura e das oitenta anos da própria modernidade
mudanças formais e culturais, estão clássica. Há mais uma razão pela qual
todos investigando a hipótese de que os artistas e os escritores do presente
esse tipo de individualismo e de identi- não conseguirão mais inventar novos
dade pessoal é coisa do passado; de que estilos e mundos — é que todos estes
o antigo indivíduo ou o sujeito indivi- já foram inventados; o número de com-
dualista está "morto"; de que podemos binações possíveis é restrito; os estilos
considerar o conceito de indivíduo sin- mais singulares já foram concebidos.
gular e a própria base teórica do indi- Assim, a influência da tradição estética
vidualismo como ideológica. De fato, de modernidade — agora morta — "pe-
existem duas posições sobre esta ques- sa como um pesadelo sobre o cérebro
tão, uma mais radical que a outra. A dos vivos", como dizia Marx em con-
primeira se contenta em afirmar: sim, texto diferente.
em tempos idos, na era clássica do capi- Daí, repetimos, o pastiche: no mun-
talismo competitivo, no apogeu da fa- do em que a inovação estilística não é
mília nuclear e na ascensão da burguesia mais possível, tudo o que restou é imi-
como classe social hegemônica, existia tar estilos mortos, falar através de más-
isso que se chama individualismo, exis- caras e com as vozes dos estilos do mu-
tiam sujeitos individuais. Mas hoje, na seu imaginário. Mas isto significa que a
era do capitalismo corporativo, do assim arte pós-moderna ou contemporânea de-
chamado homem-da-organização, das bu- verá ser arte sobre a arte de um novo
rocracias empresariais e estatais, da modo; mais ainda, isto significa que
explosão demográfica — hoje não mais uma de suas mensagens essenciais impli-
existe o velho sujeito individual burguês. cará necessariamente a falência da esté-

JUNHO DE 1985 19
PÓS-MODERNIDADE E SOCIEDADE DE CONSUMO

tica e da arte, a falência do novo, o caixa do fim do mundo, e a atribulação


encarceramento no passado. à beira do abismo, no instante final, cujo
Como isto talvez pareça muito abstra- miraculoso desenlace haveria de ser visto
to, desejo apresentar alguns exemplos, no sábado seguinte. Guerra nas Estrelas
um dos quais é tão presente que, rara- reinventa esta experiência sob a forma
mente, ocorreria relacioná-lo às várias do pastiche: isto é, não mais existe qual-
manifestações da arte erudita aqui dis- quer motivação para uma paródia de tais
cutida. Esta prática específica do pasti- seriados, pois eles acabaram há muito
che não é "culta", mas existe no próprio tempo. Guerra nas Estrelas, ao contrá-
interior da cultura de massa e é generi- rio de uma sátira insossa dessas formas
camente conhecida como o "filme de já mortas, satisfaz um anseio profundo
nostalgia" (o que os franceses com pre- (talvez dissesse mesmo reprimido) de
cisão denominam la mode rétro). Temos vivê-las novamente: é um objeto com-
de imaginar esta categoria da maneira plexo através do qual, em um plano pri-
mais ampla possível: não há dúvida que, meiro, crianças e adolescentes podem
em termos estritos, ela consiste tão-so- fruir plenamente as aventuras, enquanto
mente de filmes sobre o passado e so- o público adulto pode saciar um desejo
bre momentos geracionais deste passado. mais profundo e propriamente nostálgi-
Assim, um dos filmes que inauguraram co de retornar àquele período antigo, de
este novo "gênero" (se chegar a tanto) viver uma vez mais suas estranhas enge-
foi American Graffiti, de George Lucas, nhocas estéticas do passado. Este é, pois,
que, em 1973, procurou resgatar toda metonimicamente, um filme de nostalgia
a atmosfera e as singularidades estilísti- ou um filme histórico: não reinventa,
cas dos anos 50 nos Estados Unidos, dos diferentemente de American Graffiti,
Estados Unidos da era Eisenhower. Chi- uma imagem do passado em sua totali-
natown, o conhecido filme de Polanski, dade vivida; ao contrário, ele reinventa
procede da mesma maneira em relação a sensação e a forma dos objetos de arte
aos anos 30, assim como faz O Confor- característicos de uma época passada (os
mista de Bertolucci para o contexto ita- seriados), procurando despertar um sen-
liano e europeu da mesma época — a tido do passado que se associa a tais
era fascista na Itália — etc. Poderíamos objetos. Por sua vez, Caçadores da Arca
passar horas enumerando estes filmes: Perdida ocupa uma posição intermediá-
por que chamá-los pastiche? Não seriam ria: em certa medida é sobre os anos 30
antes obras pertencentes a um gênero e 40, mas na verdade também concebe
mais tradicional, conhecido como filme metonimicamente esse período, medi-
histórico — obras que talvez pudessem ante suas mais características estórias
ser mais facilmente analisadas pela am- de aventura (que não são mais as
pliação desta outra forma bastante co- nossas).
nhecida que é a do romance histórico? Permitam-me, agora, discutir mais
uma interessante anomalia que pode nos
levar adiante nesta compreensão do fil-
enho minhas razões para jul- me de nostalgia em particular e do pas-
gar que precisamos de novas tiche em geral. Nesta anomalia inclui-
categorias para tais filmes. se um filme recente chamado Corpos
Permitam-me, antes, cometer Ardentes (Body Heat), o qual, como foi
um disparate: digamos que eu seja de bastante assinalado pelos críticos, é uma
opinião que Guerra nas Estrelas é tam- espécie de refilmagem remota de O Des-
bém um filme de nostalgia. O que signi- tino Bate à Porta (The Postman Always
ficaria isto? Presumo que possamos estar Rings Twice) ou Pacto de Sangue (Dou-
de acordo quanto ao fato de que ele ble Indemnity) (a cópia alusiva e factí-
não é um filme histórico sobre nosso cia de velhas tramas não passa de outro
próprio passado intergaláctico. Permi- traço de pastiche). Além disso, Corpos
tam-se colocá-lo de modo um pouco di- Ardentes não é, rigorosamente, um fil-
ferente: uma das experiências culturais me de nostalgia, uma vez que se passa
mais importantes para as gerações que em cenário contemporâneo, numa peque-
cresceram entre os anos 30 e 50 era o na cidade da Flórida, perto de Miami.
seriado da vesperal de sábado tipo Buck Por outro lado, sua contemporaneidade
Rogers — vilões de mundos desconhe- no detalhe específico é, no fundo, ainda
cidos, verdadeiros heróis americanos, he- mais ambígua: os créditos — sempre
roínas em apuros, o raio da morte ou a nossa primeira pista — estão desenha-

20 NOVOS ESTUDOS N.º 12


dos com letras em estilo art-déco dos sido, a meu ver, os romances de E. L.
anos 30, o que não pode senão estimu- Doctorow — Ragtime, com sua atmos-
lar reações nostálgicas (primeiramente a fera de passagem de século, e Loon Lake,
Chinatown, sem dúvida, mas também a cuja maior parte transcorre nos anos 30.
alguma referência histórica além do fil- Mas estes, a meu ver, não são roman-
me). Afinal, o próprio estilo do herói ces históricos senão pela aparência. Doc-
é ambíguo: William Hurt é um novo torow é um artista sério e um dos pou-
astro, mas que não tem nada do incon- cos romancistas radicais, genuinamente
fundível estilo da geração precedente de de esquerda, em ação hoje em dia. Não
superestrelas (Steve McQueen ou mes- é nenhum desserviço a ele, contudo, su-
mo Jack Nicholson), melhor ainda, sua gerir que suas narrativas representam
máscara aqui é uma espécie de mescla menos o nosso passado histórico do que
de características desses últimos com o as nossas idéias ou estereótipos culturais
papel mais antigo de um tipo em geral sobre esse mesmo passado.) A produção
associado a Clark Gable. cultural foi empurrada para o interior da
Há, portanto, uma tênue sensação de mente, para dentro do sujeito monádico:
arcaísmo em relação a tudo. O especta- já não mais fita diretamente, com seus
dor começa a se perguntar por que esta próprios olhos, o mundo real à procura
estória, que poderia se passar em qual- do referente; como na caverna de Platão,
quer parte, ambienta-se em uma cidade- ela é forçada a buscar as suas imagens
zinha da Flórida, a despeito de suas re- mentais do mundo nas paredes de seu
ferências contemporâneas. Após um certo confinamento. O realismo que nos resta
tempo, começa-se a perceber que o cená- é um "realismo" que decorre da captação
rio interiorano tem uma função estraté- — chocante — deste confinamento e da
gica crucial: permitir que o filme pres- consciência viva de que, por razões espe-
cinda da maioria dos sinais e referências ciais de algum tipo, nos vemos conde-
que pudessem ser associados ao mundo nados a buscar o passado histórico atra-
contemporâneo, à sociedade de consumo vés de nossas imagens pop e de nossos
— utensílios, artefatos, especulações, o estereótipos a seu respeito, sendo que o
mundo material do capitalismo avança- próprio passado permanece, para sempre,
do. Em termos precisos, então, seus obje- fora de alcance.
tos (carros, por exemplo) são produtos
dos anos 80, mas tudo no filme conspira
para borrar essa referência imediata e
contemporânea, possibilitando sua aceita- esejo agora retornar ao que
ção como uma obra de nostalgia também considero o segundo traço bá-
sico da pós-modernidade, a sa-
— como uma ambientação da narrativa
ber, sua específica relação com
em algum passado nostálgico indefinível,
o tempo — o que se poderia chamar de
uma década de 30 eterna, digamos, fora "textualidade" ou écriture — mas que
da história. Parece-me extremamente eu prefiro discutir em termos das teorias
sintomático constatar que o estilo dos fil- correntes da esquizofrenia. Antecipada-
mes de nostalgia esteja invadindo e colo- mente quero refutar possíveis equívocos
nizando até mesmo os filmes atuais que quanto ao emprego feito aqui desta pa-
têm cenários contemporâneos: como se, lavra: sua intenção é descritiva, e não
por alguma razão, fôssemos hoje incapa- diagnóstica. Nunca me ocorreu que
zes de focalizar nosso próprio presente, alguns dos artistas pós-modernos mais
como se tivéssemos nos tornado inaptos significativos — John Cage, John Ashbe-
para elaborar representações estéticas de ry, Philippe Sollers, Robert Wilson,
nossa própria experiência corrente. Se for Andy Warhol, Ishmael Reed, Michael
este o caso, trata-se de uma terrível incri- Snow e mesmo o próprio Samuel Beckett
minação à própria sociedade capitalista de — sejam de alguma maneira esquizofrê-
consumo — ou, quando menos, de um nicos. Nem se trata de um diagnóstico
sintoma alarmante e patológico de uma do tipo cultura-e-personalidade de nossa
sociedade que se tornou incapaz de se sociedade e de sua arte: obviamente há
relacionar com o tempo e a história. coisas mais comprometedoras a dizer con-
Voltemos, assim, à questão: por que tra o nosso sistema social do que permite
o filme de nostalgia ou o pastiche preci- o uso de uma psicologia de almanaque.
sam ser distinguidos do filme ou romance Nem estou seguro de que a teoria da
histórico antigo? (O melhor exemplo esquizofrenia que vou esboçar — uma
literário para toda essa discussão teria teoria amplamente desenvolvida na obra

JUNHO DE 1985 21
PÓS-MODERNIDADE E SOCIEDADE DE CONSUMO

do psicanalista francês Jacques Lacan — vras ou significantes que se deduz uma


é clinicamente precisa; o que pouco significação mais global — denominada
importa aos meus propósitos. agora um "efeito-de-sentido". O signifi-
A originalidade do pensamento de La- cado — talvez mesmo a ilusão ou a mi-
can neste campo está no fato de haver ragem do significado e do sentido em
considerado a esquizofrenia substancial- geral — é um efeito produzido pelo
mente como uma desordem de lingua- interrelacionamento das materialidades
gem, associando-a a toda uma teoria da significantes.
aquisição da linguagem como o elo esque- Tudo isso nos coloca em condições de
cido da concepção freudiana da formação compreender a esquizofrenia como um
do psiquismo adulto. Para tanto, ele nos distúrbio do relacionamento entre signi-
dá uma versão lingüística do complexo ficantes. Para Lacan, a experiência da
de Édipo, segundo a qual a rivalidade temporalidade, da temporalidade humana
edipiana é interpretada não em termos (passado, presente e memória), a persis-
do indivíduo biológico, o rival das aten- tência da identidade pessoal através de
ções maternas, mas em termos daquilo meses e anos — a própria sensação vivi-
que ele chama Nome-do-Pai, a autoridade da e existencial do tempo — são também
paterna agora considerada como função um efeito de linguagem. Porque a lin-
lingüística. O que precisamos extrair guagem possui um passado e um futuro,
disso é a idéia de que a psicose e, mais porque a frase se instala no tempo, é que
particularmente, a esquizofrenia se for- nós podemos adquirir aquilo que nos dá
mam a partir da deficiência infantil em a impressão de uma experiência vivida e
aceder plenamente ao domínio da fala e concreta do tempo. Mas já o esquizofrê-
da linguagem. nico não chega a conhecer dessa maneira
Quanto à linguagem, o modelo laca- a articulação da linguagem, nem conse-
niano é um modelo estruturalista orto- gue ter a nossa experiência de continui-
doxo, baseado em uma concepção do dade temporal tampouco, estando con-
signo lingüístico dotada de dois (ou tal- denado, portanto, a viver em um pre-
vez três) componentes. Um signo, uma sente perpétuo, com o qual os diversos
momentos de seu passado apresentam
palavra, um texto são aqui modelizados
pouca conexão e no qual não se vislum-
conforme o relacionamento de um signi- bra nenhum futuro no horizonte. Em
ficante — uma materialidade, o som de outras palavras, a experiência esquizofrê-
uma palavra, a escrita de um texto — nica é uma experiência da materialidade
com um significado, o sentido da materia- significante isolada, desconectada e des-
lidade da palavra ou do texto. O terceiro contínua, que não consegue encadear-se
componente seria o assim chamado "refe- em uma seqüência coerente. O esquizo-
rente", o objeto "real" do mundo "real" frênico não consegue desse modo reco-
ao qual o signo remete — o gato real nhecer sua identidade pessoal no refe-
em oposição ao conceito de gato ou ao rido sentido, visto que o sentimento de
som "gato". Ocorre porém que existe em identidade depende de nossa sensação da
geral no estruturalismo uma tendência de persistência do "eu" e de "mim" atra-
tratar está referência como uma espécie vés do tempo.
de mito, de tal modo que ninguém possa Por outro lado, o esquizofrênico viven-
mais falar sobre o "real" de forma obje- cia mais do que nós, e com nitidez, uma
tiva e exterior. Assim, o que nos resta experiência muito mais intensa de um
é o próprio signo e seus dois componen- definido instante do mundo, pois nosso
tes. Ao mesmo tempo, o estruturalismo próprio presente é sempre parte de algum
trata de refutar a velha concepção da conjunto mais amplo de projetos, o que
linguagem como nomeação (e.g. Deus deu nos obriga a focalizar e a selecionar nos-
a linguagem a Adão com a finalidade de sas percepções. Em outras palavras, não
nomear os animais e as plantas do Éden), receptamos o mundo exterior globalmen-
a qual envolve uma correspondência ter- te como uma visão indiferenciada: esta-
mo-a-termo de cada significante com cada mos sempre empenhados em utilizá-lo,
significado. Ao adotar uma visão estru- sempre enveredamos por ele, sempre
tural, com razão notamos que frases não atentamos neste ou naquele objeto ou
funcionam desse modo: não traduzimos pessoa que nele está. Contudo, o esqui-
uma a uma as palavras ou significantes zofrênico não só é "ninguém" por não
em termos de seu significado. Pelo con- ter uma identidade pessoal, como seu
trário, o que lemos é a frase inteira, e desempenho é nulo, pois ter projeto sig-
é do interrelacionamento de suas pala-

22 NOVOS ESTUDOS N.º 12


nifica estar apto a se envolver com algu- ficante isolado se torna sempre mais ma-
ma continuidade futura. O esquizofrênico terial — ou, melhor ainda, literal —,
está sujeito desse modo a uma visão indi- sempre mais vívido em termos sensórios,
ferenciada do mundo no presente, uma quer a nova experiência seja atraente
experiência que não é de modo algum quer atemorizante. A mesma coisa pode
agradável: ser demonstrada no domínio da lingua-
gem: o que o distúrbio esquizofrênico da
Eu me lembro muito bem o dia em linguagem faz a cada palavra remanes-
que aconteceu. Passávamos uma tempo- cente é reorientar o sujeito ou o falante
rada no campo e eu tinha ido sozinha a dirigir uma atenção ainda mais litera-
passear como sempre fazia. De repente, lizante para cada uma delas. Ao passo
ao passar pela escola, ouvi uma canção que, na fala normal, procuramos penetrar
alemã, as crianças estavam tendo uma a materialidade das palavras (suas estra-
aula de canto. Fiquei escutando parada nhas sonoridades, sua aparência impres-
e naquele instante um estranho sentimen- sa, meu timbre de voz e especial acento,
to me percorreu, um sentimento difícil e assim por diante) em direção ao seu
de precisar mas parecido com aquilo que sentido. Ultrapassado o sentido, a mate-
depois eu haveria de conhecer muito bem rialidade das palavras se torna obsessiva,
— uma desnorteante sensação de irreali- como ocorre quando crianças repetem
dade. Eu me sentia como se nunca tivesse sem cessar uma mesma palavra até seu
visto a escola, ela se tornara tão grande sentido desaparecer e ela adquirir um
quanto um quartel; as crianças que can- fascínio ininteligível. Para retomar nossa
tavam eram prisioneiros, forçados a can- descrição anterior — um significante que
tar. Era como se a escola e a canção perdeu seu significado se transforma com
das crianças estivessem separadas do isso em imagem.
resto do mundo. Ao mesmo tempo meu
olhar se deparou com um trigal cujos
limites não dava para discernir. A vasti- sta longa digressão sobre esqui-
dão amarela, ofuscando ao sol, juntamen- zofrenia nos permite acrescen-
te com a cantiga das crianças aprisiona- tar agora um dado que não
das no quartel-escola de pedra lisa enche- podia ser tratado em nossa
ram-me de tal angústia que eu desatei exposição anterior — a saber, a própria
a chorar. Voltei correndo para nosso jar- temporalidade. Para tanto, devemos des-
dim e comecei a brincar de "transformar viar nossa discussão da pós-modernidade
as coisas naquilo que elas são", brincar das artes visuais para as artes temporais
de voltar à realidade, em suma. Foi a — para música, poesia e certas modali-
primeira manifestação daqueles elemen- dades de textos narrativos como os de
tos que viriam sempre a estar presentes Beckett. Alguém que já ouviu a música
em posteriores sensações de irrealidade: de John Cage pode perfeitamente ter
vastidão sem limites, luz brilhante, su- vivenciado uma experiência similar àque-
perfície lisa e cintilante das coisas. (Re- las que acabamos de evocar: frustração
nee Sechehaye, Autobiografia de uma e desespero — a audição de um único
Moça Esquizofrênica.) acorde ou nota seguidos de um silêncio
tão longo que a memória não pode mais
Notem como as continuidades tempo- reter aquilo que acabou de ouvir; enfim,
rais são quebradas, a experiência do pre- um silêncio condenado ao esquecimento
sente torna-se assoberbante e poderosa- a cada novo e estranho presente sonoro,
mente vivida e "material": o mundo sur- o qual também vai desaparecer. Esta
ge ante o esquizofrênico com alta inten- experiência podia ser ilustrada com mui-
sidade, contendo uma misteriosa sobre- tos tipos de produção cultural contem-
carga afetiva, resplandecendo de energia porânea. Selecionei um texto de um
alucinatória. Porém, o que parecia uma poeta mais jovem, em parte porque seu
experiência das mais desejáveis — um "grupo" ou "escola", conhecido como
aumento de nossas percepções, uma Poetas da Linguagem, tem feito experi-
intensificação libidinal ou alucinógena de mentos de várias naturezas com a des-
nosso ramerrão normal e de nossas situa- continuidade temporal (aqui descrita em
ções comuns — é sentido aqui como per- termos da linguagem esquizofrênica), o
da, como "irrealidade". que é fundamental tanto para sua expe-
O que desejo sublinhar, contudo, é rimentação lingüística quanto para aquilo
precisamente o modo pelo qual o signi- que eles gostam de chamar "Frase No-

JUNHO DE 1985 23
PÓS-MODERNIDADE E SOCIEDADE DE CONSUMO

va". É um poema de Bob Perelman inti- político, parece mesmo captar algo da
tulado "China" (incluído na sua recente emoção da imensa e inacabada experiên-
antologia Primer, publicada por This cia social da nova China, sem paralelo
Press, de Berkeley, Califórnia): na história mundial: o surgimento impre-
visto, entre as duas superpotências, do
Vivemos no terceiro mundo a contar do "número três"; a novidade de um mun-
sol. Número três. Ninguém manda em do material completamente novo, produ-
nós. zido por seres humanos com pleno do-
As pessoas que nos ensinaram a contar mínio de seu próprio destino coletivo;
estavam sendo muito bondosas. a experiência marcante de uma coletivi-
Sempre é hora de cair fora. dade que, acima de tudo, se tornou um
Em caso de chuva, você tem ou não tem novo "sujeito da história" e que, após
o guarda-chuva. longa sujeição ao feudalismo e ao impe-
O vento leva embora seu chapéu. rialismo, fala em seu próprio nome, por
O sol também se levanta. si mesma, pela primeira vez ("Sabe o
Preferia que as estrelas não nos que aconteceu?... Aprendi a falar").
descrevessem umas às outras, preferia Contudo, tal significado paira sobre ou
que a gente fizesse isto por nossa conta. sob o texto. Não se consegue, creio, ler
Corra na frente de sua sombra. este texto segundo qualquer uma das
Uma irmã que aponta para o céu pelo velhas categorias da Nova Crítica, nem
menos uma vez a cada década é uma encontrar as complexas relações internas
boa irmã. e texturas que caracterizavam o "univer-
Paisagem motorizada. sal concreto" dos modernismos clássicos
O trem te leva aonde ele for. tais como o de Wallace Stevens.
Pontes no meio da água. A obra de Perelman (e a Poesia da
Gente se arrastando ao longo de Linguagem em geral) deve alguma coisa
vastas áreas de concreto, a Gertrude Stein e, além dela, a certos
caminhando para o avião. aspectos de Flaubert. Assim, não é des-
Não esqueça o estado em que os seus cabido nesta altura introduzir uma velha
sapatos e chapéu ficarão quando você opinião de Sartre, sobre as frases flau-
não estiver por perto. bertianas, que comunica uma impressão
Até as palavras flutuando no ar têm vívida do movimento de tais frases:
sombras azuis.
Comemos se for gostoso. Sua frase cerca o objeto, agarra-o,
As folhas caindo. Olhe as coisas ali. imobiliza-o e aniquila-o, enreda-se nele,
Perceba o lance. transforma-se em pedra e petrifica-o con-
Sabe o que aconteceu? O que? Aprendi sigo mesma. É cega e surda, sem sangue,
a falar. Ótimo. sem um sopro de vida; um silêncio pro-
Uma pessoa com a cabeça cortada caiu fundo a separa da frase seguinte; ela cai
no choro. no vazio, eternamente, e arrasta sua pre-
Após cair, o que é que a boneca podia sa nessa queda infinita. Toda realidade,
fazer? Nada. uma vez descrita, é riscada da lista.
Vá dormir. (Jean-Paul Sartre, O que é a Literatura?)
Você está demais de short. E a bandeira
também está demais. A descrição é hostil e a vivacidade de
Todo mundo vibrou com as explosões. Perelman é historicamente bem diversa
Hora de acordar. da prática homicida de Flaubert. (Para
Melhor é se acostumar aos sonhos. Mallarmé, observou Barthes há tempos,
em chave semelhante, a frase, a palavra
são modos de assassinar o mundo exte-
aturalmente é possível objetar rior.) Ademais esta última exprime um
que isto não é uma escrita pouco do mistério de frases que caem no
esquizofrênica no sentido clí- vazio de um silêncio tão grande que, mo-
nico, parece inexato afirmar mentaneamente, a gente se pergunta se al-
que estas frases sejam materialidades guma frase nova teria ainda condições de
significantes pairando livremente, cujos aflorar para tomar o lugar das anteriores.
significados tenham evaporado. Real- Passemos, no entanto, ao segredo des-
mente, existe aqui um sentido global. Na te poema. É um pouco como o Hi-
verdade, na medida em que este é, de per-realismo que parecia um retorno à
um jeito velado e estranho, um poema representação, depois das abstrações anti-

24 NOVOS ESTUDOS N.º 12


figurativas do Expressionismo Abstrato, dominantes, e traços que eram dominan-
até que as pessoas começassem a se dar tes se tornam, por sua vez, secundários.
conta de que estas pinturas não são exa- Neste sentido, tudo o que foi descrito
tamente realistas, porque o que elas re- aqui é encontrável em períodos anterio-
presentam não é o mundo exterior mas, res e, de modo evidente, na própria mo-
tão-somente, uma fotografia do mundo dernidade: meu palpite é que até o mo-
exterior ou, em outras palavras, uma ima- mento atual esses elementos não pas-
gem deste mundo. Falsos realismos, eles savam de traços menores ou secundários
são, na verdade, arte sobre arte, imagens da arte moderna, marginais ao invés de
de imagens. No nosso caso, o objeto re- centrais, e que passamos a ter algo novo
presentado de fato não é, apesar de tudo, no instante em que eles se tornam os
a China: aconteceu a Perelman encontrar traços centrais da produção cultural.
em uma papelaria de Chinatown um livro Posso, não obstante, apresentar este
de fotos, um livro cujas legendas e carac- argumento de forma mais concreta, vol-
teres não passavam obviamente de letra tando ao relacionamento entre produção
morta para ele (ou deveríamos dizer ma- cultural e a generalidade da vida social.
terialidades significantes?). As frases do A modernidade clássica ou mais antiga
poema são as suas legendas para tais fo- era uma arte do contra; ela despontou
tos. Suas referências são outras imagens, dentro da sociedade comercial da época
um outro texto, e a "unidade" do poema dourada ao mesmo tempo como escân-
não existe absolutamente no texto, mas dalo e insulto para o público burguês —
fora dele, na unidade fechada de um livro feia, dissonante, boêmia, sexualmente
ausente. chocante. Era objeto de zombaria (quan-
do a polícia não era requisitada para
apreender os livros e fechar as exposi-
ara concluir, devo agora tentar ções): um insulto ao bom gosto e ao
caracterizar ligeiramente o re- senso comum ou, como Freud ou Mar-
lacionamento da produção cul- cuse colocariam, um provocador desafio
tural deste tipo com a vida aos princípios de realidade e desempenho
social nos Estados Unidos hoje. Chegou reinantes na sociedade burguesa do co-
o momento também de responder à prin- meço do século XX. A modernidade
cipal objeção a conceitos de pós-moder- em geral não se dá nada bem com os
nidade, como esse aqui esboçado: a saber, tabus morais vitorianos, nem com seu
que todos os traços que enumeramos não mobiliário carregado, tampouco com as
são de maneira alguma novos, caracteri- etiquetas da sociedade elegante. Quer
zaram abundantemente a modernidade dizer, seja qual for o conteúdo político
propriamente dita ou aquilo que chama- explícito do modernismo, este sempre
mos modernismo canônico. Afinal de foi, de um modo mais ou menos implí-
contas, não é sabido o interesse de Tho- cito, perigoso, explosivo e subversivo em
mas Mann pelo pastiche, e não são certos relação à ordem estabelecida.
capítulos de Ulysses a sua mais cabal Se, agora, voltarmos repentinamente
ilustração? Não mencionamos Flaubert, ao momento atual, podemos medir o
Mallarmé e Gertrude Stein neste balanço enorme alcance das mudanças. Joyce e
da experiência da temporalidade pós- Picasso não somente deixaram de ser
moderna? Afinal, o que é novo nisso esquisitos e repulsivos como se tornaram
tudo? Precisaríamos realmente de um clássicos e adquiriram agora para nós
conceito de pós-modernidade? uma aparência de realistas. Ao passo que
Responder a esta pergunta é trazer à muito pouca coisa restou da arte con-
tona toda uma discussão sobre periodi- temporânea, em forma ou conteúdo, que
zação, sobre como um historiador (lite- pareça intolerável e escandaloso à socie-
rário ou não) postula uma ruptura radical dade de nosso tempo. As formas mais
entre dois períodos a partir de certo mo- agressivas desta arte — punk rock, diga-
mento distintos. Devo me limitar a suge- mos, ou o chamado material sexual explí-
rir que as rupturas radicais entre perío- cito — são consumidas com voracidade
dos não envolvem em geral mudanças pela sociedade e comercializadas com
completas de conteúdo, mas sobretudo a êxito, ao contrário das produções da ante-
reestruturação de um certo número de rior modernidade. O que significa que,
elementos anteriormente existentes: tra- mesmo que a arte contemporânea ainda
ços que, em período ou sistema ante- apresente os mesmos traços formais do
rior, eram secundários se tornam agora antigo modernismo, a sua posição dentro

JUNHO DE 1985 25
PÓS-MODERNIDADE E SOCIEDADE DE CONSUMO

de nossa cultura está basicamente altera- sumo. Acredito também que seus traços
da. Por um lado, a produção de mer- formais expressam de muitas maneiras a
cadorias, em particular nosso vestuário, lógica mais profunda do próprio sistema
mobiliário, moradia e outros artefatos, social. No entanto, vou limitar-me a indi-
está agora intimamente associada às car esta relação a propósito de um só de
mudanças do styling que decorreram da seus temas capitais: o desaparecimento
experimentação artística: nossa propagan- do sentido da história, o modo pelo qual
da, por exemplo, se alimenta da pós- o sistema social contemporâneo como um
modernidade em todas as artes e não todo demonstra que começou, pouco a
pode mais dispensá-la. Por outro lado, pouco, a perder a sua capacidade de pre-
os clássicos da modernidade anterior são servar o próprio passado e começou a
agora parte do assim chamado cânon, e viver em um presente perpétuo, em uma
são ensinados em escolas e universidades perpétua mudança que apaga aquelas tra-
— o que, por sua vez, os esvazia de dições que as formações sociais anterio-
todo seu velho potencial subversivo. De res, de uma maneira ou de outra, tive-
fato, um modo de marcar a ruptura entre ram de preservar. Basta mencionar a
os períodos e datar o surgimento da pós- saturação informacional gerada pelos
modernidade pode se encontrar precisa- meios de comunicação: como Nixon e,
mente aí: na época (parece que início ainda mais, Kennedy, são figuras de um
dos anos 60) em que a posição do mo- passado agora distante. Sinto-me tentado
dernismo radical e sua estética domi- a afirmar que a própria função dos meios
nante se institucionalizaram na Universi- de comunicação é de relegar ao passado
dade, quando passaram a ser considera- tais experiências históricas recentes, isto
dos acadêmicos por toda uma geração de o mais rapidamente possível. A função
poetas, pintores e músicos. informativa dos meios seria, desse modo,
Pode-se também chegar à ruptura por a de ajudar a esquecer, a de servir de
um outro caminho, para descrevê-la em verdadeiro instrumento e agente de nos-
termos de períodos da atual vida social. sa amnésia histórica.
Como venho sugerindo, marxistas e não- Neste caso, os dois traços da pós-mo-
marxistas confluíram para um sentimento dernidade sobre os quais muito me alon-
comum de que a certa altura, após a II guei — a transformação da realidade em
Guerra Mundial, uma nova espécie de imagens, a fragmentação do tempo em
sociedade começava a se formar (variada- uma série de presentes perpétuos — são
mente descrita como sociedade pós-indus- ambos extraordinariamente consentâneos
trial, capitalismo multinacional, socieda- com este processo. Minha conclusão aqui
de de consumo, sociedade dos mídia e deve tomar a forma de uma pergunta
assim por diante). Novos tipos de con- sobre o valor crítico da novíssima arte.
sumo, obsolescência programada, um Há uma certa concordância de que a
ritmo ainda mais rápido de mudanças na modernidade velha funcionou em oposi-
moda e no styling, a penetração da pro- ção à sociedade, de modos variadamente
paganda, da televisão e dos meios de descritos como negativo, crítico, contes-
comunicação em grau até agora sem pre- tante, subversivo, oposicionista etc. Po-
cedentes e permeando a sociedade intei- de-se dizer algo no gênero sobre a pós-
ra, a substituição do velho conflito cida- modernidade e a sua situação social?
de e campo, centro e província, pela
Vimos que existe um modo pelo qual a
terciarização e pela padronização univer-
pós-modernidade repercute e reproduz
sal, o crescimento das grandes redes de
auto-estradas e o advento da cultura do — reiterando a lógica do capitalismo da
automóvel — são vários dos traços que sociedade de consumo. A questão mais
pareciam demarcar uma ruptura radical importante é saber se também existe uma
com aquela sociedade antiquada de antes forma de resistência a essa lógica. Tal
da guerra, na qual o modernismo era questão devemos, todavia, deixar em
ainda uma força clandestina. aberto.

Fredric Jameson é professor na Universidade da Cali-


fórnia, Santa Cruz, junto ao Programa de História da
credito que a emergência da Consciência. Autor de vários livros, entre os quais
Marxismo e Forma (1971, tradução brasileira no prelo
pós-modernidade está estreita- da Editora Hucitec); coeditor da Revista Social Text.
mente relacionada à emergên-
cia desta nova fase do capita- Novos Estudos CEBRAP, São Paulo
n.°12, pp. 16-26, jun. 85
lismo avançado, multinacional e de con-

26 NOVOS ESTUDOS N.º 12