Os meninos cantores do Ghetto de Varsóvia, Arquivo Yad Vashem, Israel

ECCO EDUCATIVO. Volume 30
Exposição “Os Desenhos das Crianças de Terezín”
XVI JORNADA INTERDISCIPLINAR SOBRE O ENSINO DA HISTÓRIA DO HOLOCAUSTO

Brasília, abril/maio de 2011

Material didático para educadores Como Ensinar e Estudar o Holocausto no Século XXI

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ÍNDICE
SOBRE AS JORNADAS INTERDISCIPLINARES ...................................................................................................................................3 APRESENTAÇÃO ....................................................................................................................................................................................3 NAZISMO E ANTISSEMITISMO TEORIAS E PRÁTICAS DA EXCLUSÃO, Profª. Drª. Maria Luiza Tucci Carneiro .............................................................................4 1. Da reflexão à ação .............................................................................................................................................................4 2. Temas transversais: nazismo, antissemitismo e Direitos Humanos ..............................................................................5 AS CRIANÇAS DE TEREZIN Arte e criatividade em tempos de intolerância, Profª. Silvia Rosa Nossek Lerner .....................................................................7 A Infância no Campo ..............................................................................................................................................................8 As atividades das crianças ....................................................................................................................................................9 a) Apresentação teatral ................................................................................................................................................9 b) Os desenhos ..............................................................................................................................................................9 c) Poesias .......................................................................................................................................................................10 d) As publicações ..........................................................................................................................................................10 e) Música .......................................................................................................................................................................11 LEITORES DE DRAMAS E MEMÓRIAS RELATO DE UMA EXPERIÊNCIA, Profª. Silvana Feitosa ...................................................................................................................13 1. Justificativa .........................................................................................................................................................................13 2. Objetivos .............................................................................................................................................................................14 3. Metodologia........................................................................................................................................................................14 4. Materiais utilizados para a realização da atividade em sala de aula ............................................................................16 5. Avaliação das atividades realizadas .................................................................................................................................16 DESAFIOS DO ENSINO DA HISTÓRIA DO HOLOCAUSTO (Shoah) DA “QUESTÃO JUDAICA” à SOLUÇÃO FINAL, Prof. Dr. Marcelo Vieira Walsh ...............................................................................17 1. O papel do educador na construção da Memória do Holocausto (Shoah) ....................................................................17 2. Educação em prol da promoção da Cultura de Paz, dos Direitos Humanos, Coexistência e Diálogo ...........................................................................................................................................................18 3. Holocausto (Shoah): como foi possível acontecer?.........................................................................................................19 4. O Terceiro Reich e o Antissemitismo: ...............................................................................................................................20 5. A Segunda Guerra Mundial e a “Solução Final” na Conferência de Wannsee (1942) .................................................21 LEITURAS COMPLEMENTARES ............................................................................................................................................................24 AS LEIS DE NUREMBERG A INSTITUCIONALIZAÇÃO DA EXCLUSÃO DE MINORIAS, Prof. Tulio Chaves Novaes ..................................................................24 1. PROPOSTA PEDAGÓGICA: Uma abordagem histórica sobre o processo de construção dos direitos humanos na modernidade................................................................................................................................24 2. Noções Teóricas Sobre Direitos Humanos Fundamentais .............................................................................................25 3. As Leis de Nuremberg .......................................................................................................................................................26 4. Premissas Discriminatórias de Nuremberg .....................................................................................................................27 5. A Efetivação Obrigatória dos Direitos Humanos Fundamentais .....................................................................................29 6. Ações Afirmativas e Oportunidades Sociais.....................................................................................................................29 7. Considerações finais sobre o tema ...................................................................................................................................30 SOLIDARIEDADE EM TEMPOS SOMBRIOS “JUSTOS ENTRE AS NAÇÕES” e “SALVADORES DE JUDEUS” Profª. Drª. Helena Lewin ...............................................................30 EXERCÍCIOS ............................................................................................................................................................................................35 GLOSSÁRIO.............................................................................................................................................................................................43 FICHA TÉCNICA ......................................................................................................................................................................................44

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SOBRE AS JORNADAS INTERDISCIPLINARES
Acreditamos que através da história, do teatro, da dança, da música, do cinema, das artes, da literatura e, inclusive, das ciências exatas e biológicas, poderemos promover a CULTURA DE PAZ e contribuir para o desenvolvimento de uma consciência universal de respeito aos povos ou nações, salvaguardando as suas identidades. As Jornadas Interdisciplinares vêm sendo desenvolvidas desde 2002 pela B’nai B’rith do Brasil em parceria com o LEER/USP – Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação , da Universidade de São Paulo, como segmento de um projeto maior intitulado Educando para a Cidadania e a Democracia. A B’nai B’rith – Filhos da Aliança, em hebraico, é uma entidade Judaica, presente em 54 paises e ativa no Brasil desde 1932. É membro permanente da Organização das Nações Unidas, como ONG e atua em inúmeros serviços sociais, contra o racismo, o antissemitismo e a discriminação, através de ações humanitárias e políticas, em favor do reconhecimento do valor da Declaração Universal dos Direitos humanos. O LEER tem sede no Departamento de História da FFLCH/USP sendo coordenado pela Profa. Dra. Maria Luiza Tucci Carneiro. Vários projetos são ali desenvolvidos reunindo pesquisadores de múltiplas áreas do conhecimento e alunos bolsistas, que têm participado e colaborado nos programas dedicados a promoção de valores democráticos e de cidadania. Sempre que possível, e assim tem acontecido, procuramos desenvolver as Jornadas em parceria com as Secretarias Municipais e Estaduais de Educação. Através deste intensivo programa de Jornadas Interdisciplinares visamos à capacitação dos educadores procurando minimizar as deficiências de formação e de material paradidático nas escolas que, nem sempre dispõem de condições para atualizar suas propostas pedagógicas. A atual realidade brasileira exige a revisão e a implementação do respeito aos valores e direitos humanos em prol da vida, da justiça social e da dignidade promovendo a CULTURA DE PAZ e da TOLERÂNCIA. Compreendemos que através da produção de atividades pedagógicas - que têm como motivo tema–matriz, a Shoah (Holocausto), além de outros genocídios e formas de intolerância no mundo contemporâneo – poderemos alertar as futuras gerações para os perigos das políticas racistas empreendidas por um Estado totalitário e, até mesmo, por uma sociedade desinformada, em vias de democratização. Profª. Dra. Maria Luiza Tucci Carneiro e Dr. Abraham Goldstein Coordenação Geral

SOBRE AS I JORNADA DE BRASÍLIA
Prezados professores, O material didático preparado para este XXX Encontro Técnico organizado pelo Espaço Cultural Contemporâneo - ECCO é todo em torno do tema “Como Ensinar e Estudar o Holocausto no Século XXI”. O evento é fruto de uma parceria realizada com a USP, a UNB e a Secretaria de Educação do GDF e constitui-se na XVI JORNADA INTERDISCIPLINAR SOBRE O ENSINO DA HISTÓRIA DO HOLOCAUSTO”. Paralelamente ocorrem 2 (duas) exposições sobre o tema, quais sejam: (i) “Os Desenhos das Crianças de Terezín“, em corealização com as Embaixadas de Israel e da República Tcheca, composta de desenhos feitos por milhares de crianças com idades entre 10 a 15 anos, que converteram-se em verdadeiro testemunho da experiência por elas vividas sob o rigor do cruel domínio nazista e (ii) “Variações Grünewald“, obra contemporânea em vídeo-arte e fotografia, do artista belga Geert Vermeire, em memória a um dos locais simbólicos do Holocausto, por meio de imagens e poesia. O vasto conteúdo teórico aqui reunido contém textos de grandes especialistas e poderá contribuir para complementar formação de educadores. A meta é reforçar a importância do ensino do tema do genocídio, fenômeno singular na história da Humanidade, para promover valores fundamentais como convivência, diversidade cultural e direitos humanos, bem como para reforçar a cultural da paz e da tolerância. Esperamos que o material, cujo teor é diretamente relacionado aos Parâmetros Curriculares Nacinais - PCN’s, sirva de subsídio para desenvolvimento de trabalhos em sala de aula, com exercícios interdisciplinares que incentivam aprendizagem por meio da arte, bem como colaborem para implementação do Concurso de Redação sobre o tema que é lançado com mo evento. Com este tipo de iniciativa, o ECCO reforça, ainda mais, o cumprimento de sua missão de formar público, educar com arte e gerar inclusão social, para formar cidadãos mais conscientes, colaborando de forma concreta para formação de uma sociedade melhor e mais justa. Dra. Karla Osorio Netto Coordenadora Regional Curadoria do ECCO

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O LEER tem sede no Departamento de História da FFLCH/USP sendo coordenado pela Profª. Dra. Maria Luiza Tucci Carneiro. Vários projetos são ali desenvolvidos reunindo pesquisadores de múltiplas áreas do conhecimento e alunos bolsistas que têm participado e colaborado nos programas dedicados a promoção de valores democráticos e de cidadania.

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NAZISMO E ANTISSEMITISMO TEORIAS E PRÁTICAS DA EXCLUSÃO Maria Luiza Tucci Carneiro2 1. Da reflexão à ação A julgar pelo número de pessoas que hoje negam o Holocausto ou que usam erroneamente o conceito de genocídio aplicando-o de forma deturpada à casos que não condizem com a realidade histórica, podemos afirmar que o antissemitismo e o negacionismo encontram-se na ordem do dia. Apesar dos movimentos sociais comprometidos com a luta contra a negação do Holocausto3 e o combate a intolerância, multiplicam-se pelo mundo -- incluindo aqui o Brasil -- os grupos neonazistas, os sites de exaltação ao nazismo, os atos de xenofobia e intolerância religiosa, racial ou étnica. As cartas abertas aos leitores para comentários junto aos grandes jornais brasileiros (impressos ou nos seus formatos virtuais) devem ser interpretadas como um termômetro expressivo do grau de ignorância e da força dos mitos que continuam a instigar o ódio e a violência contra as minorias. Valendo-se de uma linguagem reducionista, estes “leitores” defendem os feitos de criminosos nazistas minimizando a barbárie cometida em nome de uma ideologia. Ignoram, sem escrúpulos, ao plano de extermínio arquitetado pelo Terceiro Reich que, entre 1933-1945, culminou com a morte de 6 milhões de judeus e outros tantos milhares de ciganos e dissidentes políticos. O racismo teórico pregado por Hitler em Mein Kampf, infelizmente sobrevive movido por impulsos irracionais e/ ou acobertado por interesses políticos. Não devemos ser coniventes com a ideia de que, pelo fato de vivermos em uma democracia, temos “o direito ao erro” ainda que cada um “tenha o direito de viver segundo suas convicções”, retomando aqui o pensamento de Paulo Ricceur sobre a intolerância.4 Liberdade de expressão não deve ser confundida com a

cultura da indiferença ou com o silêncio proposital da História. E, com relação ao Holocausto, vivemos momentos críticos da ideia de verdade histórica esfoliada por discursos negacionistas sustentados por intelectuais e ativistas comprometidos com a reedição da demagogia totalitária5. Muitos, aproveitam-se da vulnerabilidade sociocultural dos cidadãos -- que nem sempre têm conhecimento do nosso passado histórico – para impôr versões maniqueístas, deturpadas por matrizes ideológicas comprometidas com avaliações simplistas. Enfim, as velhas intolerâncias, como muito bem ressaltou Elie Wiesel, “ainda estão presentes, como se sabe: as xenofobias, o medo ao estrangeiro, o ódio ao que não é como nós, o ódio racial, religioso, cultural, a exclusão. O ódio tem muitos nomes, mas nunca muda”.6 Aqueles que endossam o revisionismo histórico que nega o Holocausto, assim como outros genocídios e massacres -relembro aqui o genocídio armênio e o massacre de Ruanda - além de estarem endossando os crimes cometidos pelo Estado contra os cidadãos, estão também reforçando o ódio e as práticas de aniquilamento de um povo ou grupo. Na qualidade de educadores e profissionais identificados como “formadores de opinião” devemos ter em mente que certos valores são inegociáveis: negar o Holocausto é crime, assim como é crime admitir a apologia da crueldade e o ódio ao Outro. Para combater a intolerância precisamos ampliar os círculos de responsabilidades, pois cabe ao público e o privado gerar políticas comprometidas com o respeito aos Direitos Humanos. É com este objetivo – de incentivar o estabelecimento definitivo de sistemas educacionais que ensinem a não odiar – que proponho o ensino da História e a preservação da memória do Holocausto sob uma visão multidisciplinar. As universidades, assim como as escolas de ensino médio e fundamental, devem incentivar pesquisas e debates sobre este tema que extrapola os estudos sobre a Segunda Guerra Mundial. A realidade tem demonstrado que para combater a intolerância precisamos ampliar os círculos de responsabilidades para além do Estado. Não podemos nos

2 Historiadora, Professora Doutora e Livre Docente do Departamento de História (FFLCH/USP), coordenadora do LEER- Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação, onde desenvolve o projeto Arqshoah- Arquivo Virtual sobre Holocausto e Antissemitismo. Autora dos livros: O Anti-semitismo na Era Vargas (3ed. Perspectiva); O Veneno da Serpente. Reflexões sobre o Anti-semitismo no Brasil (Perspectiva); Holocausto, Crime contra a Humanidade (Ática), dentre outros. 3 Na primeira semana de agosto de 2010 foi firmado em Israel um compromisso de 87 países para lutar contra a negação do Holocausto e do antissemitismo no mundo. Uniram-se duas grandes entidades: a “Força de tarefas Internacional para a Memória do Holocausto (ITF) e o Bureau de Instituições Democráticas e Direitos Humanos (ODIHR), segmento executivo da Organização para a Segurança e Colaboração Mutua na Europa.” A ITF, que conta com 27 países membros, promove a memória do Holocausto através da educação, investigação e monumentos recordatórios, enquanto que a ODIHR, da qual são membros 57 países, ocupa-se de programas educativos e monitoração de manifestações de xenofobia e, em especial, de antissemitismo. 4 RICCEUR, Paul, “Etapa atual do pensamento sobre a intolerância”, em A Intolerância. Direção de Françoise Barret- Ducrocq. Foro Internacional sobre a Intolerância. Unesco, 27 de março de 1997. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2000, p. 21. 5 Importante a leitura de VIDAL- NAQUET, Pierre. Os Assassinos da Memória: ‘Um Eichmann de papel” e outros ensaios sobre o revisionismo. Campinas, Papirus, 1988; FERRO, Marc. Os Tabus da História. A face oculta dos acontecimentos que mudaram o mundo. Rio de Janeiro, Ediouro, 2003. 6 WISSEL, Elie, “Debate entre Elie Wisel, Yehudi Menuhin e Jorge Semprun, conduzida pelo jornalista Guilhaume Durant”, em A Intolerância, op. cit., p. 209.

Velhos judeus deportados, Museu Lasar Segall, SP.

Coral de crianças em Terezín, Yad Vashem, Israel

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antissemitismo e Direitos Humanos Os estudos sistemáticos sobre genocídio. Arte. Memória. CARNEIRO. O Veneno da Serpente. o mito ariano sacramentado através dos estatutos de pureza de sangue. responsável e construtiva em diferentes situações sociais. O Testemunho na Era das Catástrofes. pp. etnia ou grupo político. Mas como passar da reflexão à ação ? Ensinando. A própria realidade em que vivemos pode se prestar como ponto de partida para a abertura do debate: as paisagens urbanas (com grafites e pichações preconceituosas). direitos humanos. Múltiplas são as possibilidades pedagógicas. ser um tema instigante para avaliarmos os limites da barbárie. 1986. Literatura. brancos. E esta moral -. A seguir apresentamos algumas possibilidades de cruzamentos temáticos que poderão integrar um projeto temático sobre o Holocausto. Aliás. História Medieval e Moderna: a Inquisição Ibérica e a perseguição aos cristãos-novos. São Paulo. David. Dependendo do conteúdo selecionado por cada disciplina. 3 “A ação dos políticos”. compromissos e atitudes dos cidadãos. Maria Luiza Tucci. o papel dos líderes na História. Campinas. em A Intolerância. heavy metals. as comunidades religiosas (judaica. Tradução Samuel Feldberg e Nancy Rosenchan. 2000. a luta pela preservação do judaísmo e da cultura judaíca. Ensaios sobre Memória. indagar. Reflexões sobre o Antissemitismo no Brasil. SELIGMANN-SILVA. muçulmana e pequenas seitas). conteúdos que estejam em consonância com as questões sociais que marcam cada momento histórico. Ática. pela compreensão dos Direitos Humanos. 2007. símbolos e indumentária usada para discriminar os judeus e cristãos-novos. Ática. Editorial Magnes. eleger. nestes últimos anos. católica. Através de uma análise crítica das teorias e práticas da exclusão implementadas pelo Terceiro Reich a partir de 1933 (e que culminaram com o extermínio de milhões de judeus e não judeus) podemos desenvolver atitudes que favoreçam a convivência democrática e a construção da cidadania. Universidad Hebrea. enquanto crime contra a Humanidade9. Crime contra a Humanidade. o professor poderá orientar o aluno a fazer entrevistas com sobreviventes do Holocausto. cuja aprendizagem e assimilação são consideradas essenciais para que os alunos possam exercer seus direitos e deveres”. referências importantes para a reconstrução de um passado que nem todos querem lembrar.Paulo. o antissemitismo como um fenômeno político. o professor poderá orientar o jovem aluno a posicionar-se de forma crítica. 5 . S. enquanto genocídio singular na História da Humanidade. 235. o conceito de Estado Totalitário e Democrático. funkeiros). incentivá-lo a produzir um texto ou uma exposição iconográfica. envolvendo um conjunto de disciplinas: História Contemporânea: que certamente colocará em discussão fatos sobre a República de Weimar. os autosde-fé enquanto formas de “purificação” da sociedade Ibérica. Editora 34. Rio de Janeiro. Literatura e Tradução. Para este ano de 2010. as ações de solidariedade. O local da diferença. optamos por trabalhar os temas da repressão e da resistência. com ênfase nos temas transversais e suas possibilidades de reflexões para um mundo mais tolerante. possibilitando-nos refletir sobre a responsabilidade do Estado pela preservação da vida do cidadão. São Paulo. etc. 2. A elaboração de um projeto pedagógico multidisciplinar poderá envolver várias disciplinas de um programa escolar. Se avaliado sob múltiplos aspectos. Cabe ao professor criar situações que deixem os alunos intrigados incentivando-os a fazer pesquisas. o papel dos líderes e dos intelectuais nos regimes totalitário e democrático. 2003. o Nazismo e Segunda Guerra Mundial. pesquisar documentos e fotografias. p. 2010. a Partilha da Palestina. selecionar matérias de jornais noticiando os fatos e. Daí a história do Holocausto. Por outro lado. Yad Vashem. Língua Portuguesa: o poder de persuasão da palavra Retomo aqui as conclusões de Philippe Douste-Blazy. como objeto de ensino. São Paulo. 2003. os grupos raciais distintos (negros. Editora da UNICAMP. em São Paulo. Através do estudo dos fatos e do debate sobre o uso dos conhecimentos científicos e do abuso de poder. assim como o perigo das idéias racistas. são exemplos expressivos de resistência enquanto forma de luta para preservar a dignidade humana.esquecer que “há uma moral universal do gênero humano e que essa moral deve ser ativamente defendida”7. o contrato dos cidadãos comprometidos com o respeito ao Outro. Tanto o debate sobre nazismo como o Holocausto passam. Enfim. independente de qualquer religião. 2005.que implica num conjunto de leis universais que são os direitos do homem – deve integrar o contrato democrático ou seja.8 Com este intuito elaboramos os programas das jornadas interdisciplinares sobre o ensino da história do Holocausto realizadas. pois o tolerância assim como o racismo não nascem com o homem: são uma conquista para o bem ou para o mal. os grupos de jovens (punks. indígenas. a formação do Estado de Israel e os atuais conflitos no Oriente Médio. Holocausto. por parte da coordenação de São Paulo. Márcio (org. História dos Judeus da Europa na Segunda Guerra Mundial. matrizes ideológicas. os atos de salvamento. 2005. valorizando o resgate da memória histórica e o debate de idéias. educando para a democracia e a cidadania. amarelos). Holocausto. Martin. este é um dos objetivos da escola. darks.). nazismo e antissemitismo nos oferecem amplas oportunidades para refletirmos sobre o caráter inato da intolerância. grupos e povos na construção e na reconstrução das sociedades. o Holocausto pode alertar sobre as conseqüências catastróficas dos regimes totalitários e autoritários. Jerusalém. Sobre este tema ver GILBERT. Márcio. Primeira Guerra Mundial e o Tratado de Versalhes. imigração. no cap. 2003. até mesmo. através da história do nazismo e do Holocausto. produtos a serem apresentados em um seminário. BANKIER. 9 Estas propostas foram por mim abordadas nos livros de minha autoria: Holocausto Crime contra a Humanidade. 63-80. Curitiba e Porto Alegre. Testemunhas de Jeová. El Holocausto. São Paulo. estratégias de exclusão dos judeus obrigados a residir em guetos. A escola e a sociedade devem ser vistas como espaços vivos onde a cidadania pode ser exercida e aprendida. O essencial é que os educadores tenham consciência da importância desses conteúdos garantindo-lhes um tratamento apropriado. rappers. não podemos jamais perder a capacidade de nos indignarmos diante do ódio e dos sofrimentos que o homem inflige ao homem. Imagens de morte em massa. fome e degradação humana em todos os níveis se prestam para avaliarmos as consequências do nazismo para humanidade. seguindo as propostas dos Parâmetros 7 8 Curriculares: “formar cidadãos capazes de atuar com competência e dignidade na sociedade atual. Temas transversais: nazismo. SELIGMANN-SILVA. necessariamente. História. Hucitec. Perspectiva. legislação discriminatória contra os judeus na Espanha e Portugal. O desafio da escola está em reconhecer a diversidade etnocultural procurando superar qualquer tipo de discriminação.

a partir de 1933. o III Reich fotografado por Heinrich Hoffmann (o fotógrafo oficial de Adolfo Hitler e membro da Comissão de Exploração da Arte Degenerada) ou as fotografias do “gueto” de Varsóvia enviadas pelo diplomara brasileiro Jorge Latour para o Itamaraty. o emprego de signos (efeitos ideológicos). Este conjunto de imagens pode ser também consultado no livro Judeus e Judaísmo na Obra de Lasar Segall. BIBLIOGRAFIA BANKIER.br). campos de concentração e pontos de massacre. Matemática: estatísticas populacionais e da barbárie nos campos de concentração/extermínio. comunistas. estrela de David. São Paulo. retratou a guerra. a imigração forçada dos judeus/apátridas que. o papel social dos médicos e cientistas (os chamados “guerreiros biológicos”).10 Arquitetura: analisar a projeção do ideário do Estado alemão através da estética nazista. o papel do rádio na transmissão de valores. autor popular na Alemanha nazista). militarismo e delimitação de fronteiras. Geografia Física. LAFER. ciganos. a mensagem dos posters políticos e antissemitas. Perspectiv. as trilhas do avanço nazista (para o Leste) e as rotas de fuga dos refugiados judeus (Oeste). Celso. Uma visita ao Museu Lasar Segall. as várias edições dos Os Protocolos dos Sábios de Sião. ciganos. Maria Luiza Tucci. o conceito de “sujeira biológica” e de “limpeza racial”. literatura sobre o Holocausto. São Paulo. “imperfeito”. a moderna tecnologia a serviço da prática do extermínio. escultura e símbolos nazistas (águia. produzidos pela cineasta Leni Riefenstahl. entre 1937 e 1946. O Anti-semitismo na Era Vargas. Hungria. ciganos. as leituras de Adolf Hitler (livros infantis.). a música de Richard Wagner à serviço do Terceiro Reich. __________ O Veneno da Serpente. etc). Maria Luiza Tucci. etc).objetivo. No caso dos artistas judeus considerados pelo regime nazista como “produtores de arte degenerada” pode-se analisar o caso do pintor Lasar Segall. 1933). os livros e discursos antissemitas. cartografia da Europa antes da ascensão de Hitler. Cinema: o cinema enquanto veículo da ideologia nazista e registro da memória. o papel dos livros de infantis entre as crianças alemãs com suas histórias sobre os judeus e os arianos (ver livros de Karl May. caveira). os programas de eutanásia. Ciência Naturais/Biologia: ciência médica a serviço do nazismo. Matemática: estatísticas populacionais e da barbárie nos campos de concentração/extermínio. gritos e aclamações) e símbolos enquanto expressão da mística nazista. Ateliê Editorial. radicado no Brasil. a força dos gestos (saudações. os diferentes caminhos da estética. Reflexões sobre o Antisemitismo no Brasil (Perspectiva). 1935) e Olympia (1938). A manipulação dos números e dos dados estatísticos pelas autoridades do III Reich com o objetivo de sensibilizar a opinião pública contra os judeus. em 1936. Crime contra a Humanidade. das doenças. David (org. em São Paulo. Estética: o nazismo como uma empreitada para “embelezar”o mundo. diários de memórias. que teve várias de suas obras confiscadas pelos nazistas. 3ed. Yad Vashem. a realidade forjada e filmada no campo 10 de concentração de Terezin. Os meios de comunicação e a propaganda política: o poder da máquina de propaganda do III Reich na formação de uma mentalidade racista. e outros teóricos racistas do século XIX). etc. Artes Plásticas: o papel da arte enquanto instrumento de protesto e de crítica social. Romênia. Fotografia: a fotografia enquanto veículo de propagação do ideário nazista. círculo) e das cores (identificação das minorias: homossexuais. o conceito de países satélites na época da Segunda Guerra Mundial (Eslováquia. é uma oportunidade impar para o conhecimento da produção artística desse pintor que. Música: o jazz segundo o nazismo (enquanto música degenerada). CARNEIRO. Jerusalém. Universidad Hebrea. conceito endossado pelo governo brasileiro conforme documentação diplomática sob a guarda do Arquivo Histórico do Itamaraty (consultar o site www. índices populacionais.com. Importante analisar o espaço e a construção dos campos de concentração. da desintegração do “eu” e da morte planejada pelo Estado nazista. Urbana e Humana: conceito de espaço vital. triângulo. etc. judeus. Nesta categoria se encaixam os documentários: O Triunfo da Vontade (Triumph des Willens. conceito de raça e minorias nacionais. o papel de Speer (o arquiteto oficial do Reich) que projetou a “nova Berlim” segundo o estilo idealizado pelo regime (o neoclassicismo monumental). Geometria: o poder simbólico das formas (suástica. livrando-se de tudo que era considerado “impuro”. o conceito de arte/raça pura e degenerada. as caricaturas antissemitas. cone. 200 6 . aqrshoah. Dia da Liberdade: Nosso Exército (Tag der Freiheit: Unsere Wehrmacht. da arte e da arquitetura. dos guetos e as condições deterioração da vida humana marcadas pela proliferação da fome.escrita e oral (discursos antissemitas). Em alguns casos é possível interpretar o nazismo enquanto “empreitada para embelezar o mundo” ou a arquitetura à serviço do totalitarismo. os “artistas frustrados do III Reich. 1935) e os filmes Vitória da Fé (Sieg des Glaubens. “repugnante”. testemunhas de Jeová. da exclusão e das minorias éticas consideradas como ‘indesejadas”. El Holocausto. a morte nos campos de concentração. Judeus e Judaísmo na obra de Lasar Segall. os padrões de beleza física adotados pelo III Reich (o culto ao classicismo. Editorial Magnes. durante e no após-guerra. no caso os judeus classificados como “raça inferior” pelo Estado nazista. os pogrons. 2003. 1986. os refugiados e os sobreviventes dos campos de concentração. Importante discutir o uso que as fotografias podem ter se empregadas na construção da imagem do grande salvador (no caso Hitler) ou para identificar o inimigo . __________ Holocausto. São Paulo. de Arthur de Gobineau. crítica do discurso antissemita analisando os valores e personagens. mapeamento dos guetos. os músicos judeus do campo de Terezin e os pequenos violinistas do gueto de Varsóvia. Língua Estrangeira (alemão): estudo das expressões totalitárias (Heil Hitler!) e antissemitas (judenrein = limpa de judeus). comunistas. como Joseph Goebbels e Adolf Hitler. obras antissemitas do compositor Richard Wagner. Albert Einstein contra o nazismo. alterou o mapa populacional da Europa e de vários países das Américas. A manipulação dos números e dos dados estatísticos pelas autoridades do III Reich com o objetivo de sensibilizar a opinião pública contra os judeus. composição plástica das cenas (a linguagem cinematográfica). 2001. os jornais antissemitas enquanto formadores de opinião. CARNEIRO.

2005. 2005. Direção de Françoise Barret. Nova Stella. Rio de Janeiro. 2003. O Local da Diferença. 27 de março de 1997. grandes transformações foram introduzidas no campo.Ducrocq. SELIGMANN-SILVA.Paulo.NAQUET.). Márcio (org. 2010. Editora da UNICAMP. como: jardineiras e balanços de crianças. Unesco. Mas representavam o mundo que viam e escondiam suas melhores obras nos grandes portfólios da biblioteca ou nos desvãos dos Pôster ‘Dia do Boicote’. Gradiva. um coreto para música. Roney. graduação em Licenciatura em Pedagogia pelo Instituto Isabel Centro de Ciências Humanas de Sociais (1979) e graduação em História pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (1976). A Face Oculta dos Acontecimentos que Mudaram o Mundo. Atualmente. A escola parece bem equipada.” Ainda se observou que havia uma cozinha especializada preparando o alimento dos pequeninos. pois esta havia recebido denuncia com informações do que realmente acontecia nos campos de concentração. é professora da Sociedade Israelita de Ensino e Cultura Colégio A Liessin e professora do Colégio Talmud Torah Hertzlia. O depoimento registrado do médico da Cruz Vermelha. desenhos técnicos. Alegravam com pinturas os espaços superlotados dos dormitórios. cidade artificial criada para propaganda. não encontrara no seu bolso sequer um bilhetinho enfiado às pressas. era um “campo-modelo” para mostrar ao mundo as condições dos guetos e campos de concentração sob domínio nazista.um jardim de infância para funcionar como escola. rabinos. Rio de Janeiro. foi criado um gueto judaico em 10 outubro de 1941. democracia e cidadania. e convencê – lo de que esses campos nada mais eram do que áreas de estabelecimento. Possui graduação em Direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1973). Para o regime nazista. Ateliê Editorial. Elie. Rio de Janeiro. Campinas. VIDAL. Arte. O Povo Alemão e o Holocausto. O Testemunho na Era das Catástrofes. Papirus. São Paulo. Dr. Marc. 2000. História dos Judeus da Europa na Segunda Guerra Mundial. Ediouro. Daniel Johah. embora um cartaz assinalasse que as crianças “estavam em férias”. 2000. Paul. O campo de Theresienstadt. atuando principalmente nos seguintes temas: judeus . CYTRYNOWICZ. SELIGMANN-SILVA. AS CRIANÇAS DE TEREZIN arte e criatividade em tempos de intolerância Silvia Rosa Nossek Lerner11 Na cidade de Terezín. Saúde e Sociedade da Universidade Veiga de Almeida . gráficos para firmas alemãs. Para dezenas de milhares de prisioneiros tratava-se de um campo de passagem para as câmaras de gás de Auschwitz. Yad Vashem. 2010 RICCEUR. 1988. assim como os nazistas passaram a chamálo.identidade. GOLDHAGEN. Holocausto. Editora 34. Pierre. Hucitec. em A Intolerância. Martin. em A Intolerância. Campinas. no relatório apresentado pelos visitantes constava “que o pessoal de ensino parece “extremamente qualificado” e o jardim da infância adequado e moderno. sábios. Os Assassinos da Memória: ‘Um Eichmann de papel” e outros Ensaios sobre o Revisionismo. Os Tabus da História. este campo foi usado para fazer um filme de propaganda chamado “O Führer dá uma cidade para os judeus” e para provar à Cruz Vermelha que os judeus eram bem tratados. Na expectativa da visita-inspeção da Cruz Vermelha e preparando-se o cenário para o filme-propaganda. Celso. 27 de março de 1997. São Paulo. Após a visita da Cruz Vermelha. Unesco. Memória da Barbárie. foi um aparelho de extermínio. Márcio. Foro Internacional sobre a Intolerância. LAFER. Muitos internos na qualidade de figurantes ganharam roupa nova e foram instruídos sobre como se comportar e os riscos de desobediência. fazendo projetos. Memória. Salazar e os Judeus. Maurice Rossel. Adolf Eichmann junto com Joseph Goebbels escolheram Theresienstadt como local para o campo de trânsito dos judeus do Protetorado e como moradia para os heróis (judeus) da Primeira Guerra pela Alemanha Em 1944. os internos nada fizeram que despertasse suspeita. Judeus e Judaísmo na obra de Lasar Segall. Portugal. “Debate entre Elie Wisel. Bertrand Brasil. Companhia das Letras. Foram criadas oficinas de produção artística. fosse ela habitada por artistas. Yehudi Menuhin e Jorge Semprun. Ensaios sobre Memória. 2003. A verdade é que Theresienstadt. velhos soldados ou crianças. Literatura. Os Carrascos Voluntários de Hitler. São Paulo. judaísmo. WISSEL. Lúcia Liba Mucznik. durante a Segunda Guerra Mundial. conduzida pelo jornalista Guilhaume Durant”. 2003. Edusp.Ática. 2004. Direção de Françoise Barret. Maria Luiza Tucci. Trad. era considerado o mais famoso ”campo cultural”. 1990. 1997. Israel 11 Iniciou em agosto/2009 o Mestrado Profissional em Psicanálise. São Paulo. judeus . onde os internos exerciam seu próprio metier. Literatura e Tradução. 2007 CARNEIRO.cultura. Tradução Samuel Feldberg e Nancy Rosenchan.Campus Tijuca / RJ. S. a 60 quilômetros da capital da então Tchecoslováquia. História. MILGRAM. “Etapa atual do pensamento sobre a intolerância”. FERRO. GILBERT. os barracões Sudeten e Madgeburg foram transformados em salões de concerto e um novo pavilhão foi construído. confessava para a humanidade o engano em que incorrera: não observara nenhum ríctus nos rostos. casas pintadas. calçadas lavadas. Foro Internacional sobre a Intolerância. Avraham. 7 . A História do Genocídio dos Judeus na Segunda guerra Mundial.Ducrocq. Bertrand Brasil. Praga. Lisboa.

Acusação: fazer propaganda mentirosa (Greuelpropaganda) para prejudicar a imagem do gueto. contudo.” Os SS requeriam o trabalho das crianças maiores de 14 anos na produção de guerra e só permitiam o ensino do trabalho manual. Bedrich Fritta. Bedrich expressou sua cólera em duzentos desenhos que enterrou no solo dentro de um cofre de ferro. Os nazistas diziam: “Deixem que eles se divirtam um pouco. histórias contadas. No outono de 1944 os trens para Auschwitz levaram a maioria das crianças do gueto. Leo Haas. músicos que tocam no Caféconcerto com rostos sem expressão. a administração judaica deu-lhes atividades educacionais e esportivas. O vôo desses artistas se interrompeu em 1944 com a prisão de cinco membros do atelier. Seu nome verdadeiro era Fritz Taussig. que se encarregava do policiamento. pela neve.Birkenau. ciências. trabalho. em comunidade e encorajando-os para atividades culturais e esportivas. viam mortos nas ruas. e sobre a partida de familiares e amigos. tinha seu braço direito no alemão Freddy Hirsch. As obras desse artista causam consternação e dor porque narram a verdade que os nazistas escondiam: filas de deportados fustigados pelas chuvas. Havia também jornais. lazer . As crianças. Interrogados em presença de Adolf Eichmann foram aprisionados na Pequena Fortaleza com suas famílias. Os instrutores faziam o máximo para transmitir tanto conhecimento quanto possível. onde expressavam seus sentimentos. O ensino da história. elas cresceram mais rápido tornando-se pequenos adultos. que sobreviveu. interno em 1941. Quando em 1944 os meninos foram conduzidos à câmara de gás. gráfico e caricaturista em Praga. teatro de marionetes. morrendo alguns meses depois. Em comparação com os barracões em que os adultos viviam. Para o administrador Redlich. pelos quarteirões e dormitórios. as crianças assistiam à leitura de poesias e histórias. bem como sua participação em atividades culturais dos adultos. por isso encontramos esse tipo de atividade feito em diferentes tipos de papel. Havia um barracão para crianças a partir de 10 anos e havia o L318 para crianças até 10 anos. Thomas e anos depois. Os outros foram deportados para Auschwitz onde Bedrich Fritta morreu. línguas e literatura era clandestino. colagens com papel usado e antigo. encontrado em um depósito e aprovou a realização de concertos. que sobreviveu. Freddy acompanhou as crianças quando foram enviadas para Auchwitz. A Infância no Campo Aproximadamente 15 mil crianças viveram em Theresienstadt. Este jovem imaginativo inventou histórias. pelo frio. mas por causa da fome. além das canções compostas no campo. As crianças de Terezín eram crianças como o são em qualquer lugar. como que aguardando a morte. A administração judaica (Judenrat). a corais. a administração judaica conseguiu autorização da Gestapo para oficializar a realização de atividades musicais durante as horas de folga. Um deles Otto Ungar teve sua mão destruída para que não pudesse mais pintar. adotou o filho de Bedrich. onde viviam cerca de 100 crianças. Mas o material para desenhar não era abundante. ainda mais uma criança. Para essas crianças. jovem esportivo e muito ligado aos alunos. responsável pela organização infantil de Terezín. Os aspectos mais cruéis do gueto não lhes foram poupados. Com o tempo percebeu-se que a ração alimentar média diária era insuficiente. divulgando sua obra. testemunhou sobre a vida das crianças em Terezin. sentimentos profundos desproporcionais à sua idade. algumas chegaram com suas famílias. e até a óperas escritas para elas. Desde logo. acreditavam numa sociedade fraternal a ser construída no futuro. Pinturas e desenhos se tornaram bastante popular entre as crianças de todas as idades e era permitido pelos nazistas. Muitos deles. crianças com olhos que nos enviam mensagens aflitivas. medos. chegou a vez de partir também e foi no último comboio para Auschwitz. economia. morte. sonhos e esperanças. Por isso encontramos em seus desenhos. oferecendo-lhes um barracão para viverem entre elas. com sua esposa Grete e o bebê de seis meses. saúde. O atelier de desenho era dirigido por um artista extraordinário. nos saraus. E decidiu-se que os trabalhadores braçais e as crianças receberiam porções suplementares. outras sós. Algumas dessas crianças vieram de orfanatos judaicos de Praga. sobre os transportes que saiam do gueto. As crianças recebiam visitas de filósofos. O alto comando liberou os trabalhos de recuperação de um velho piano. Esses concertos serviram de matéria prima para ilustrar o fraudulento filme de propaganda do Gueto Paraíso. e seus pais só podiam vê-las algumas tardes na semana. isto dava uma certa tranquilidade para as crianças. os judeus deixarão de existir. de onde não voltaram mais. Com o passar dos meses. encontrados nas oficinas. muito se preocupava com o grande contingente infantil que ali chegava. que participara da seleção dos que iriam partir para o leste. dele se ocupavam pedagogos conceituados da Europa. estreitos e super populosos. previamente combinado. jogos e canções para entretê-los e criou uma ilha de humanidade e de esperança dentro do sinistro espaço de Birkenau.sótãos. As pinturas. abastecimento. Essas representações nos contam sobre sua vida diária no gueto. ensinando-lhes também a viver juntos. ele se suicidou. onde no Bloco das Crianças continuou sua obra de educação com esforços heróicos. outras possuíam seus pais no gueto (mas não podiam viver junto com eles). separadas conforme a idade e o idioma que falavam. desenhos e poemas são a melhor forma de conhecer como as crianças se sentiam em Theresienstadt. 8 . sobre seus pensamentos. cientistas. À noite. pinturas e poemas. Aos poucos foram sendo tiradas das casernas superlotadas e sendo alojadas em blocos de moradia. Seu discípulo e amigo Leo Haas. assistiam também às cenas de deportação dos próprios pais. Quando os campos de extermínio estiverem concluídos. nos deixou um retrato de Fritta e outro do seu filho Thomas. doenças e transportes. escritores e do humorista tcheco Karel Polácek com quem conversavam. roubavam alimentos e carvão para se aquecer e presenciavam cenas que nenhum ser humano deveria presenciar. Aos velhos eram dadas quantidades menores e assim rondavam as latas de lixo em busca de comida. militantes comunistas ou sionistas. esse grupo foi rodeado por mestres devotados. Egon Redlich.

havia apresentação de marionetes. Ela. Frederieke Brandeis. Yad Vashem. pratos com muita comida. temores e expectativas de retorno ao lar e o encontro com seus familiares.” Brundibar foi apresentada para a Cruz Vermelha Internacional. ora na própria apresentação. mas a maioria foram feitos por meninas de 10 a 15 anos de idade e. ainda que por alguns momentos. de imaginação e fantasia e de suas experiências de vida dentro do campo de concentração. onde seguiu cursos com Paul Klee e outros mestres. As crianças tiveram em Friedl Dicker-Brandeis (Frederieke Brandeis) uma mestra excepcional. Esse material. prados verdes. nascida em Viena. todas as crianças da rua uniram-se aos dois irmãos. Eram apresentações bastante encorajadas pelos adultos .. Renomada arquiteta de interiores em Berlim. acabou caindo nas mãos dos nazistas. a ópera BRUNDIBÁR teve diferentes elencos. as crianças colocavam nome e idade nos seus trabalhos. Israel 9 . que sobreviveu. outras vezes escrito por adultos para as crianças apresentarem. Lideradas por animais domésticos. era o único momento permitido para remover a estrela amarela. as festividades em casa e a família em torno da mesa e temas ligados a paisagens de ruas e cidades. A ópera se encerra com as palavras: “Aquele que ama a justiça. conforme atestam os desenhos infantis que hoje pertencem ao Memorial de Terezín. de flores e animais.. Encontramos desenhos feitos pelas crianças do barracão L318. com a infância roubada: “Sentíamos falta de ser ainda crianças”. onde as crianças participavam. apesar da maioria das crianças não terem sobrevivido. de seus familiares. Em Terezin. vencendo e expulsando Brundibár. sendo substituídos conforme as crianças eram enviadas para Auschwitz – e foi apresentada 54 vezes. nós esquecíamos onde estávamos. foi aluna da Bauhaus. Viena e Praga. é nosso amigo e pode vir brincar conosco. saudades e esperanças e compartilhar suas ansiedades. foram utilizados pelas crianças. crianças brincando. Na maioria das vezes. assim como materiais combinados para formar textura. Ela ensinava as crianças a pintar e desenhar. Todos ficaram muito bem impressionados. muitas vezes com um repertório escrito pelas próprias crianças. impedindo dois irmãos de nela poderem pedir algum dinheiro para ajudar a mãe doente. de brincadeiras infantis. ainda mantêm o dramatismo da época e a tragédia que os determinou.” Também nos seus pavilhões havia apresentação de teatro. ora na confecção de suas roupas. Os formulários da antiga guarnição da fortaleza. só cem sobreviveram. não só pela alegria de cantar. b) Os desenhos No pavilhão das meninas L410 vivia a desenhista Friedl Dicker-Brandeis. crianças estudando sob a vigilância de soldados do gueto. ali abandonados. citamos a peça Esther (uma peça tcheca que tem relação com a Ester bíblica) e que foi adaptada para as crianças de Terezin dirigida por Hans Jochowitz (interno do campo). embora não tivessem material suficiente naquele ambiente subumano. Esses desenhos. Brundibár era o nome do terrível tocador de realejo que monopolizava a rua. em Weimar. Yad Vashem. Para essa apresentação sempre havia um grande público. incentivando a sua imaginação e criatividade para expressar suas dificuldades. Quando as crianças estavam no palco apresentando-a. procedeu a sua revisão adaptando-a aos instrumentos existentes entre os músicos prisioneiros e iniciando em seguida os ensaios com as crianças. era uma das crianças que cantava na apresentação de Brundibár e sobreviveu para contar que “quando nós cantávamos. mesmo mais de sessenta anos depois de realizados. como pelo reencontro.com poucos gizes de cera e aquarelas. Com meios tão pobres a arte se Cartaz da opéra infantil Brundibár.AS ATIVIDADES DAS CRIANÇAS a) Apresentação teatral Hans Krasa escreveu a ópera infantil BRUNDIBÁR em 1938 e como prisioneiro de Terezín. O que mais aparecia nas pinturas eram funerais. as crianças pintaram sobre quase qualquer superfície que tiveram por perto . Em Terezín levou as crianças a estudar as cores e a luz e a fazer colagens sobre desenhos. Thomas Fritta-Haas. Curiosamente foi encontrado um Mickey desenhado numa lasca de madeira. recortados e aparecendo sob uma nova luz. Nos primeiros tempos do gueto. Israel Representação teatral num celeiro Bedrich Fritta. Como exemplo dessas apresentações. que lhe permanece fiel e não tem medo. Stein Weissberger. Das 15 mil crianças judias de Terezín. A 55ª récita teve de ser cancelada por falta de cantores. Anna Flachová sobrevivente do “lar de meninas” L410 de Terezín adorava Brundibár. no dia 23 de junho de 1944. serve como testemunha silenciosa da riqueza interior de seus criadores em face de seu trágico destino. nós esquecíamos a fome.

assim como a amargura de terem sido arrancados de sua vida normal. Devemos a Friedl Dikker-Brandeis o fato dos desenhos terem sido preservados. da cidade amada para onde um dia queriam retornar. Tristemente dentro desse gueto. Pavel faleceu em Auchwitz. muitas vezes.1. Talvez se as lágrimas do sol pudessem cantar E escorrer sobre a pedra branca. As flores me chamam E os galhos floridos das castanheiras no campo. incluindo desenhos e poemas das crianças. quando não há dia”. d) As publicações Em relação aos jornais produzidos em Theresienstadt. Mas eu encontrei minha gente aqui. Outra publicação preparada pelas crianças do Pavilhão L 414 e que durou pouco tempo chamava-se BONAKO. Uma das seções chamava-se Passeando por Theresienstadt e compreendia descrição de diferentes lugares do gueto como padarias. mas a maioria mostra a espera por dias melhores. Borboletas não vivem aqui. outros maturidade. que teve pequena tiragem. Israel 10 . na Biblioteca e nas revistas que eles publicaram dentro do próprio gueto. Os meninos do Quarto 7 do Pavilhão L 417 publicaram o RIM. Atualmente. mais do que última .. trecho do poema de Hanus Hachenburg (1929-1944). RIM (sinal de reunião da turma) que publicou 21 números e os meninos do pavilhão de crianças Q 690 publicaram um jornal chamado Kamarád (“Amigos”) que chegou a 22 números e a publicação Noviny.sobrevivente) Paisagem Noturna. etc. Há sete semanas eu vivo aqui. em 6 de abril de 1942 e que deu origem ao livro “I Have never seen a Butterfly around here” (Eu nunca vi uma borboleta aqui). o mais conhecido era VEDEM(Avante!) órgão da “República Skid”. cheia de encanto amarelo. acompanhados. No gueto. e as pessoas que trabalhavam nesses lugares eram entrevistadas. RIM. quando não existe direito? Para que existe o sol. c) Poesias “Para que serve o mundo. Os poemas. Por que os adultos se apressam tanto em fazer com que as crianças se assemelhem a eles? Somos a tal ponto felizes e satisfeitos com nós mesmos?” Suas aulas serviam como um meio de reconstrução psicológica dos pequenos prisioneiros.1922 – 29. não perca seu humor Segure-o que dias melhores virão. Dentre os poemas encontrados. suas súbitas iluminações é criminoso. em diferentes seções. a capela mortuária. casa central de banhos. Yad Vashem. como o abaixo encontrado no diário de Raya Englander(14 anos) e morta em 1944 em Auchwitz: Depois da tormenta vem o sol Depois do deserto vem a floresta Depois da sexta vem o shabat Depois do inverno a primavera bate na nossa porta Não fique deprimido. de desenhos. Terezín concentrou em si a resistência à “banalidade do Eva Riesova (25/07/1931 . Os poemas foram encontrados nos sótãos. temos A Borboleta escrito por Pavel Friedmann (7. Era semanal e foi produzido por um periodo de 2 anos. aquarela. aquarela. esse material é de propriedade da Sinagoga Pinkas em Praga. eu tenho certeza.Antes de ser deportada para Auschwitz. que chegou a 55 números. incluindo desenhos. foi produto do trabalhos dos meninos do pavilhão L 417. escrito em 1943. Israel Edita Polachova (02/07/1925 .sobrevivente) Vista de Terezín a noite. tanto quanto os desenhos evidenciam a recordação dos lares perdidos e da infância que lhes foi roubada. Friedl reuniu em 2 malas mais de 5000 trabalhos feitos pelas crianças.1944) .faz e o seu amor pela liberdade de criação se expressa num texto de Brandeis chamado “Sobre a arte das crianças” onde ela questiona: “Dirigir os lampejos de inspiração das crianças. Só que eu nunca mais vi outra borboleta. E que. Yad Vashem. Os desenhos eram povoados de imagens do lar perdido. porque desejava beijar o mundo pela última vez. O jornal inteiro. Alguns poemas denotam infantilidade. Cheia de vida e brilho. a BoRBoLETa A última. em 1944. Aquela borboleta foi a última. confiou a pessoas de sua confiança onde as malas estavam escondidas.9.. que amarelo! Foi carregada levemente para o alto Foi-se embora.

“Als ob” schon morgen wär. com as iniciais desse orfanato. No outono de 1944 os trens para Auschwitz levaram a maioria das crianças do gueto. Mas. um “sentimento coletivo elevado” animava os jovens e seus pedagogos. Nem todas as pessoas devem Nessa cidade morar Tem que ser eleito Para “como se” ter raça pura. Os mais velhos apreciavam muito essa visita pelos momentos de prazer que lhes proporcionavam. sabiam tudo e observavam com aquela justiça insubornável das crianças. através do trabalho e disciplina relatou que havia a responsabilidade entre os “camaradas” de querer transformar seu destino numa “realidade alegre e consciente”. ou mesmo permanecer vivo”. Und spricht von schöner Zukunft. Essas revistas em geral manuscritas eram ilustradas por lápis de cor e aquarela. “Als ob” nicht so schwer. alemão e hebraico. E elegeram como presidente. se escreviam aventuras em capítulos: viagens na estratosfera. Eles viam tudo. am Samstag Da gibt´s “als ob” Haché. das 8.. principalmente para as crianças. ja. Und mancher ist mit manchem Auch manchmal ziemlich grob Daheim war er kein Grosser. Roth. Até a administração judaica é criticada: “sem proteção não se pode obter coisa alguma no gueto. As meninas cantavam em tcheco. as meninas visitavam os mais velhos e cantavam para eles.mal” apresentando-a em formas expressivas na música. Enfim. O coro tinha um importante papel para manter as meninas unidas. Die menschen auf den strassen die laufen in galop wenn man auch nichts zu tun hat tut man doch so “als ob”. Vive-se lá sua vida “Como se“ isso fosse vida E se alegram com notícias 11 . os adolescentes do Bloco L 417 proclamaram em Terezin uma república de jovens que denominam República Skid. únicos. no teatro. somente cem crianças sobreviverão. Os jovens redatores de Kamarád nunca mais se verão numa certa rua de Praga. und freuen sich mit geruchten “Als ob” die Wahrheit war. Ao Conselho dos Judeus coube a amarga tarefa de selecionar os que deviam partir nos comboios da morte. deportadas entre 1942 e 1944 para os campos do leste. na pintura. Em Leningrado havia um orfanato que recolheu meninos abandonados de guerra: era a “Escola (Shkola) de educação social e individual Dostoievski”. Die leben dort ihr Leben “Als ob” ein Leben war. e) Música No pavilhão L410 também se fazia música. explorações polares. Des Morgens und des Abends trinkt man “als ob” Kafee Am Samstag. para que elas tenham consciência do mundo fictício em que estavam vivendo. Nem a valorosa República Skid virá cumprir suas promessas. na poesia a arte da denuncia. o jovem Walter Roth. O Conselho tentou reter as crianças até o fim. Como se Eu conheço uma pequena cidade Uma cidade bem tip top Eu não me lembro qual seu nome Eu chamo a cidade “como se”. Man legt sich auf dem Boden “Als ob” es wär ein Bett Und denkt an seine Lieben “Als ob” man Nachricht hätt. Revelavam o que foi o quotidiano no campo. passavam à noite de mão em mão..764 crianças e jovens. uma nuvem sombria avançava sobre a Europa. Leo Strauss produziu uma música chamada Als Ob (Como se) e que foi apresentada. Enquanto a República Skid afirmava seus princípios esperançosos na revista Vedem (Avante!). Hier macht er so “als ob”. Es Gibt auch ein kaffeehaus Gleich dem café l’ Europe Und bei Musikbegleitung Fühlt man sich dort “als ob”. Man stellt sich an um Suppe “Als ob” da etwas drin Und man geniesst die Dorsche “Als ob” Vitamin. Nicht alle leute durfen In diese Stadt hinein Es mussen Auser wahlte der “als ob” Rasse rein. Havia 2 professores de música que organizaram um coro. também se desenhava história em quadrinhos. A revista Kamarád ainda publica seu último número onde os amiguinhos prometem se reencontrar depois da guerra numa certa rua de Praga. descobertas. Por ocasião das festas judaicas. como podemos ler a seguir: als ob Ich kennn ein kleines stadchen ein Stadchen ganz tip top Ich nenn es nicht baim namen ich nennes die stadt “als ob”. Seus exemplares. Em 1943. piratas e far-west. Alguns professores se inspiravam em modelos de pedagogia soviética adaptados de comunidades de crianças abandonadas durante a guerra. Man trägt das schewere Schicksal.

12 . A manhã e a noite Bebe-se “como se” fosse café E aos sábados. Camas manchadas com sangue de outros tempos. A gente se deita no chão “Como se” fosse uma cama E pensa em seus amores. DEPOIMENTO DE PETR FISCHL (9/setembro /1929 – Auschwitz-1944) retirado do livro I Never Saw Another Butterfly.” Exemplo de alguns poemas escritos em Terezin: PERGUNTaS. entre sujeiras e imundícies e ver médicos sem ter o que fazer. “Como se” deles tivéssemos notícia. As pessoas nas ruas Correm num galope Mesmo quando não se tem nada a fazer Finge-se “como se” tivesse. “Como se” não fosse tão pesado. Então eu gostaria de viver e voltar para casa. Ficamos numa longa fila com um prato na mão. tiros e execuções. A comida é um luxo aqui. Cabeças raspadas. aguardando a visita diária dos médicos. Nós nos acostumamos a bofetadas sem razão. milhares de almas infelizes vindo para cá e outras milhares de almas infelizes que se vão e não voltarão. talvez um pouco de batata e um copo com o que seria café. de ver doentes 12 . E se carrega o pesado destino. pequeno paciente. As crianças nunca mais voltaram. Nós nos acostumamos a ver pessoas morrer nos seus excrementos. não quero ir embora e deixar os quartos com luz e os olhos ardentes. Nós dormimos sem cama.1944 ME DESTRÓI a DoR.“Como se” isso fosse a verdade. Lá tem “como se” fosse uma refeição. saídas do cárcere. para ajudar aos pequenos sofredores. A santidade do sofrimento. Apesar de tudo. nos poemas.7. “Como se” lá tivesse algo E se se delicia com algo “Como se” fosse vitamina. sim aos sábados. nas canções e nas estórias que elas deixaram em Terezín. A noite é muito longa e o dia curto. enfermeiras que trazem os termômetros. E alguns estão com outros Que por vezes se sentem grandiosos Em casa não era grandioso Aqui se comporta “como se”. Quinze corpos torturados com medicamentos. ora não caminhar na calçada. que dia após dia cheira estranho e carbônico. Quinze placas com nomes. “Nós ficamos na fila das 7 da manhã até meio dia e de novo às 7 da noite. E se fala de um bonito futuro. Nós nos acostumamos a ver isso o tempo todo. A beleza do ar. E UMa RESPoSTa.1929 -10. Que uso tem a arte humana e a ciência? Beleza das mulheres. encontrado no Pavilhão dos meninos L 410. e depois de muito.7. Porém. saudando cada uniforme que passa. que eu fique bom. fresca como maio? Que uso um mundo que é mera ilusão? Que uso o sol. Colocamo-nos para a sopa. que não me importa. “Como se” o amanhã tivesse chegado. Queria ficar aqui. seus nomes ficaram para sempre gravados nos desenhos. EM TEREZIN Quando chega uma nova criança Tudo parece estranho para ele Onde. de Hana Volavkova. quando não há dia? Para que serve D’s? Apenas para punir? Ou um nova humanidade para moldar? Ou somos apenas bestas que sofrem Para apodrecer sob a vontade da paixão? Para que serve a vida. Quinze pessoas sem nenhuma linhagem. a DoR DE TEREZIN Quinze camas. E tem também uma cafeteria Igual o Café l’ Europe E no acompanhamento musical A gente se sente “como se”. se a vida é tormento. Trinta olhos que procuram a tranquilidade. no qual ele colcocam um pouco de água morna com sal. enfermeiras que deixam para trás só uma sombra. O mundo uma fortaleza contra a luz? Saiba: todas as coisas são como são aqui Que você seja um homem! E lute! HANUS HACHENBURG. Mães que procuram por um sorriso. muito tempo. de ver carroças cheios de corpos. Autor desconhecido. no chão eu vou deitar? Todas essas atividades cessaram quando começaram os grandes transportes a partir do inverno de 1944. ora podemos caminhar na calçada. Quinze corpos que aqui querem viver.

10. Minha cidade. mostra o comportamento do indivíduo em sociedade. Brasília-DF. O caminho que me aparece. do escritor italiano Primo Levi. depois de tudo. eu tenho medo! Eu tenho que dormir nele? Eu vou ficar todo sujo! Aqui o som de gritos. Hana – I never saw another Butterfly RUBIN. Susan Goldman – Fireflies in the Dark: The Story of Friedl Dicker-Brandeis 12 Arte Educadora. Perante seus olhos agora está claro E ao longo da rua a passos largos Muitos pés marchando eu ouço.1930 – 28. fazendo uma analogia com as Ciências Sociais. TEDDY.10. olhe. MIROSLAV KOSEK. Essa e outras temáticas estão contidas na concepção épica de Brecht: o ser humano deve ser compreendido com base nos processos por meio dos quais existe. A proposta se faz a partir da leitura vinculada aos seguintes questionamentos: • Como e qual seria o papel do indivíduo no processo de mudança social? • Como e em que condições ele “faz” a História? • Qual o papel de cada indivíduo em busca de construção da tolerância.The Holocaust Encyclopedia LEITORES DE DRAMAS E MEMÓRIAS RELATO DE UMA EXPERIÊNCIA Silvana Feitosa12 Los viejos amores que no están. O largo e inteiro mundo está sob as regras De uma determinada justiça. assim Isto talvez ajude a adoçar A dor e a tragédia do pobre homem. Sua estética teatral com intuito didático tem a intenção de apresentar um palco científico capaz de mostrar ao público a sociedade e a necessidade de transformá-la. de Bertolt Brecht. A antropologia teatral.3. Eu vislumbro meu lar Em direção a cidade onde nasci. professora do Centro de Ensino Médio Setor Oeste.Comer batas pretas? Não! Não eu! Eu terei que ficar? Aqui está sujo! O chão.Brundibar LAQUEUR.1944 HUPPERT. fornecendo-lhe recursos para avaliação do seu vínculo com o grupo.1944 DEPENDE DE CoMo SE VÊ I. Brecht chamava suas peças de “experimentos”. formada pela Faculdade de Artes Dulcina de Morais.9. No Gueto de Terezin. possibilitando-lhe ser protagonista de mudanças sociais. minha terra nativa. Tony . 30. BIBLIOGRAFIA VOLAVKOVA. numa construção cênica interativa entre atores e espectadores. todas las promesas que se van. especialista em Teatro-Educação. Israel – Holocausto Y Memoria KUSHNER. Como seria feliz se eu retornasse para você. Um quarteirão kilometros de terra Me tira do mundo que é livre II.Theresienstadt GUTMAN. Todos sabemos que moscas trazem doenças Oh! Algo me mordeu! Será que foi um besouro? Aqui em Terezin. L 410. sendo portanto experimentos sociológicos. Essa prática transcende o espaço destinado à ilustração do texto escrito. Eu contemplo e contemplo em direção a meu lar. Hana . Walter . torna-se um espaço privilegiado para se trabalhar a autenticidade das relações humanas. sueño de la vida y de la historia Leon Gieco 1. 1943 LaR Eu contemplo e contemplo o largo mundo. por meio da análise da representação cênica. de nele suscitar a ação transformadora. Outra opção de leitura foi direcionada ao estudo da obra literária É Isto um Homem?. é empoeirado. o homem na condição de escravo de um sistema no qual se tornara praticamente difícil modificar a situação na qual vivia em conseqüência do sistema totalitário. O grande e distante mundo. choros. culturais e individuais. Morte. E agarra qualquer um Que coloque seu semblante para fora. 13 . Terezin está cheia de beleza. Você a acha em todo lugar. FRANTA BASS. y los que en cualquier guerra se cayeron Todo está guardado en la memoria. la ilusión de los que perdieron. vida é inferno E quando eu vou para casa. isto é. Eu contemplo e contemplo em direção sul-leste.1932 – 19. JUSTIFICATIVA A proposta consiste na força tarefa de desenvolver uma experiência em sala de aula que desperte o interesse dos educadores a respeito das memórias do Holocausto e o dilema de sua transmissão na sociedade global da atualidade. do respeito e de convivência com o outro? Partindo de questionamentos dessa natureza fomos encontrar na obra O Terror e a miséria no III Reich. de ativar o público. Jehuda and DRORI. ainda não posso dizer. 4. ao mesmo tempo. E oh! Tantas moscas. gritam todos. deve ser concebido como conjunto de relações sociais.

por isso. representações sociais que tendem a influenciar suas ações. Daí. o indivíduo desenvolve seus papéis de acordo com normas. • Informar e educar o aluno sobre questões de tolerância. que enriqueceu o debate reflexivo em torno da questão do Holocausto. as insígnias triangulares na cor verde. Alguns personagens não se ajustam a determinada norma e. Primo Levi foi deportado para o campo de concentração de Auschwitz com a idade de 24 anos. OBJETIVOS • Realizar em sala de aula a leitura de fragmentos selecionados das obras O Terror e a Miséria no III Reich e É Isto um Homem? Este exercício deverá ser realizado dentro de um processo de aprendizagem onde se busca a qualidade e a eficácia do ensino no cumprimento de competências e habilidades do programa de avaliação seriada promovido pela universidade federal (UNB) para que os alunos alcancem êxito em sua avaliação que ocorre de forma processual ao longo dos 3 anos do ensino médio. detalhes expostos pelo professor Marcelo. normas e sanções? Nessa relação.Registro de comentários com as impressões pessoais e opiniões dos alunos na página de relacionamentos criada no Orkut para fins de diálogo pedagógico entre os alunos e professora. que colaboram para formação da identidade individual e coletiva. e para encorajá-los a repudiar o racismo e a promover a tolerância na sua respectiva sociedade. A primeira etapa partiu da leitura da obra O Terror e Miséria no III Reich.). tirei 25 cópias das cenas e montei o texto em recortes facilitando o acesso a leitura em sala. • Desenvolver o bom hábito da leitura dramática através da obra O Terror e a miséria no III Reich do dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Comprei o livro numa livraria virtual. no turno de atuação dos alunos (vespertino) de acordo com o cronograma das aulas de Artes Cênicas. (endereço eletrônico: hypokrites. Paralelo a leitura da peça. solidária e igualitária.Sabe-se que. regras e valores. e tenta demonstrar que é possível acreditar e apostar no homem após Auschwitz. idéias. Através desta leitura procuramos identificar e analisar os conceitos de liberdades individuais e invasão da esfera privada pelo Estado. peça teatral contendo 24 cenas. H e I. por tratar do panorama da vida na Alemanha nazista. roupas.Roda de leitura selecionando capítulos do livro É Isto um Homem? E poemas para debate com a presença do professor Marcelo Walsh – Pesquisador do LEI/USP: Linha de Pesquisa “Holocausto e Antissemitismo”(2008). religiosa e com as diferenças de orientação sexual e de gênero interfere na constituição dessa identidade? Como podemos constatar isso? Através dos papéis sociais representados por personagens das duas obras citadas acima podemos fazer as diversas leituras dos papéis sociais que representamos no meio em que vivemos.. • Contribuir para a formação de senso crítico contando e recontando a história com o propósito de promover a avaliar o passado para compreender o presente aprendendo com as lições a partir do Holocausto. estudantes. METODOLOGIA As atividades foram desenvolvidas dentro do tempo regular das aulas. notícias recebidas da resistência. Em seu texto apresenta diversas situações do cotidiano. seremos capazes de responder de forma crítica e reflexiva aos inúmeros questionamentos aqui elencados. utilizando-se 14 . • Ensinar aos alunos os valores da democracia e dos Direitos Humanos. o que acontece com aquele que não se adapta? Em É Isto um Homem? podemos identificar as respostas para tais questionamentos. 3. são submetidos a um conjunto de sanções simbólicas e físicas evidentes em cenas que se desenrolam em campos de concentração: a substituição do nome por números. rádio ou qualquer forma que pudesse levar a informação além das fronteiras do Reich. A obra de Levi é otimista dentro deste universo literário. Mas. Fazendo um contraponto com o presente é possível avaliar a liberdade de escolhas. cenários virtuais com referências imagéticas do contexto histórico das ações. o controle de suas escolhas. cultural. • Transformar a leitura em memória viva do Holocausto procurando avaliar as ideologias e controvérsias do Terceiro Reich utilizando o espaço cênico. as personagens. As tarefas relacionadas à leitura do livro são: tarefa 1 . os alunos foram convidados a ler o livro É Isto um Homem?. 2. mas nunca aparecendo de fato. acessórios. sendo as dúvidas resolvidas no grupo respeitando o ponto de vista de cada um. posicionamentos frente a aceitação de regras impostas por um sistema totalitário e antissemita. A etapa final se concretizou com a realização da leitura dramática da peça Terror e Miséria no III Reich. Nesta ocasião.seguida da leitura de trechos e passagens do livro pelos alunos. símbolos. Tarefa 2 . Após a leitura abrimos o debate para esclarecimentos de fatos e do próprio momento da vivência do autor. e ter sido escrita entre 1935 e 1938. A abertura da roda de leitura foi com o poema do Primo Levi (. do escritor italiano Primo Levi. sentimentos.cemso@gmail. coexistência e Direitos Humanos. A leitura nos favorece uma imersão na situação dos jovens daquele tempo. O Führer é um personagem de fundo. história de famílias. comparando com os jovens de nossos dias cujo o papel procuramos enfatizar para a construção de uma sociedade mais justa. nos grupos humanos. Foram selecionadas 9 cenas para a leitura. Brecht vivia então na Dinamarca. O livro insere-se na vasta obra testemunhal escrita sobre a experiência dos campos de concentração e extermínio dos judeus e outras minorias pelos nazis. professores e policiais. Nos grupos sociais em geral. do escritor italiano Primo Levi. Durante 2 meses de leitura os alunos se dividiram em pequenos grupos para elaborar um roteiro de apresentação da peça como parte da avaliação do processo de aprendizagem. Como o encontro com a diversidade artística. as estrelas vermelhas e amarelas para selecionar grupos étnicos. etc. qual seria o grau de autonomia do indivíduo? Por intermédio de que processos ele se torna membro da sociedade? Enfim.. como nos tornamos quem somos? O que é ser homem? O que é ser mulher? O que é ser branco? O que é ser negro? O indivíduo compartilha valores. sendo necessária a cópia do texto para ser lido em sala. conforme suas escolhas. • Desenvolver o senso crítico e reflexivo de ações transformadoras das relações sociais através de leitura da obra É Isto um Homem?. fazendo uso de recortes de jornal. sempre citado. As turmas escolhidas foram as turmas do 2º ano do ensino médio: 2º G. como são aplicadas as sanções? Qual a relação entre papéis. Dentre as peças de Brecht esta me chamou muito a atenção.com). étnica.

cena 7 – Uma família no gueto. Seus ossos foram desenterrados e queimados. octogenária acusada de liderar uma família de judaizantes na Bahia. • Do livro didático de História – autor Heródoto Barbeiro. Com o objetivo de auxiliar os educadores que pretendam aplicar esta sugestão em sala de aula apresento a minha proposta seguida de alguns relatos expressivos desta experiência. morreu no cárcere. Presa e enviada para Lisboa. p. eu não pretendi nada disso! Nunca pensei senão em viver conforme a minha natureza e o meu entendimento. Num dos determinados momentos em que Branca é interrogada pelo Tribunal do Santo ofício. companheira.descendentes dos judeus ibéricos – a serem perseguidos como “judaizantes”.O vídeo são fragmentos da obra O Cavaleiro da Esperança especificamente no momento em que Jorge Amado conta a uma amiga imaginária a captura de Olga Benário. • Instalação malas e memórias – nesta tarefa os alunos transformam uma caixa de sapatos em uma mala onde selecionam objetos e pertences pessoais que tragam memórias de suas vidas.A judia. Como todos os que pretendem enfraquecer a religião e a sociedade pela subversão e pela anarquia. eu e o mundo. nasce o projeto O Dever da Memória com as seguintes estratégias metodológicas: • A partir do estudo do Teatro Épico e de leitura e montagem das cenas O Batalhão do Pântano e A Judia. Portanto. praticantes secretos da religião ancestral. cena 8 – Os revolucionários. Foi culpada mais de dez anos depois de sua morte. A fogueira foi o destino de muitas mulheres. Sua obstinação e sua arrogância provam que tem absoluta consciência de seus atos. verdadeiras responsáveis pela transmissão do judaísmo. regras e valores que preservem a dignidade do ser humano em todas as suas dimensões. mãe de uma criança chamada Anita. signos. sinal de que a Inquisição não estava alheia ao que acontecia na colônia portuguesa de além-mar. • Conexão com outras disciplinas – Nas aulas de Filosofia o estudo se deu a partir do capítulo 16 – A Memória da autora Marilena Chauí – Editora Ática. Os inquisidores tinham profunda convicção de que as mulheres eram os hereges mais perigosos. como todos os de sua raça. cena 9 . A primeira vez que apresentei em sala de aula um tema dessa natureza relacionado com a questão do antissemitismo foi quando desenvolvi. reflexões a partir do livro O Diário de Anne Frank. A pesquisa dos cenários foi realizada pelos alunos mais familiarizados com as habilidades em recursos audiovisuais. 18-20). Não se trata de uma provinciana ingênua e desorientada. Branca responde: Mas senhores. • Escolha da peça O Diário de Anne Frank. A ESPERANÇA E UMA AMIGA . vídeos com trechos de filmes e textos/poemas relacionados ao tema das cenas que seriam projetados simultaneamente ao tempo de duração da cena. por representantes dos Nazis no Brasil.) A primeira vítima do Brasil. em 2002. de Brecht. eu e Anne Frank. As caixas são cobertas conforme a criatividade de cada um. o projeto Teatro e Protagonismo Juvenil com a montagem cênica da peça O Santo Inquérito. mas seu processo continuou. o Visitador (personagem que representa o Clero) diz: Acho que nos iludimos com ela desde o princípio. porque vivemos em grupo? O que significa dizer que o homem é um ser social? Que papel desempenhamos no meio em que vivemos? Importante ressaltar que precisamos perceber que. imagens imaginárias de um tempo real e cruel vivido pela humanidade e que não poderá jamais apagar-se da nossa memória. mas que esta memória seja um bem imaterial dentro de cada um de nós e que através dela sejamos instrumentos de mudança no mundo.dos recursos técnicos da metodologia didática do teatro de Brecht: uma leitura com cenários virtuais compostos de imagens. O que será o Amanhã? Cada tarefa acompanha um comentário e uma ilustração. de Dias Gomes. esposa. (A Torá na Terra de Santa Cruz. Eu e meus amigos. amando Deus à minha maneira. (. urgentes e precisas no espaço da escola como. há desempenho de papéis e divisão de tarefas que por sua vez podem gerar desigualdades. tem instrução. O objetivo de resgatar a memória utilizando atividades que interagem entre si contribui para que os alunos percebam o passado não como um tempo longínquo onde a história registra fatos esquecidos e estagnados na lembrança morta. condenada à fogueira pela Inquisição era uma mulher: a cristã-nova Ana Rodrigues. Hanukah em tempos de Holocausto. sabe ler e suas leituras mostram que seu espírito está minado por idéias exóticas. ao discordar veementemente do padre Bernardo a respeito de suas convicções religiosas. Ela passa por horrores no campo de concentração para tentar sobreviver junto com sua filhinha. estará sendo partidário de 15 . O 2º lugar coube a aluna que montou o vídeo sobre a obra O Cavaleiro da Esperança denominando-o de UM CAVALEIRO. na coletividade humana. de Frances Goodrich para leitura e montagem de fragmentos. Nas aulas de História o estudo partiu do capítulo 5 – A História dos Hebreus da antiguidade até a criação do Estado de Israel e perfazendo caminho sobre o conflito Árabe/Israelense. A obra é recheada de poemas que foram lidos antes de cada cena. O enredo enfoca a personagem Branca Dias. Olga Benário é uma mulher judia. das mais denunciadas durante a primeira visitação.. A instalação de tribunais da Inquisição na Península Ibérica levou os cristãos novos . utilizando tecnologia da informação em programas como: Power Point e Movie Maker. Em 2009 com objetivo de provocar questionamentos acerca de algumas questões inquietantes. Ainda em 2010 participei juntamente com dois alunos do concurso Jorge Amado promovido pela Companhia das Letras e os alunos ganharam o prêmio de 2º e 3º lugar respectivamente. isto é. nunca quis destruir nada.. As cenas foram apresentadas na seguinte ordem: Cena 1 – desfile do povo alemão. São as seguintes tarefas: Quem eu sou. além do site YouTube. Numa narração caseira mostra-se ao espectador através das entrelinhas do texto. vários cristãos-novos foram insistentemente denunciados. Declara-se ainda inocente porque quer impor-nos a sua heresia. Caso contrário. cenas 3/4/5/6 – Campo de concentração. Com a presença do Tribunal do Santo Ofício no Brasil. Em 2011 buscando mais uma vez tratar do estudo do holocausto em sala de aula com as turmas de 2º Ano. condenada à fogueira por violar as leis do clero. • Criação de portfólio contendo atividades relacionadas às questões discutidas em sala – leitura da peça e do filme O Diário de Anne Frank (seriado). O que é o Hanukah. os indivíduos devem desenvolver papéis de acordo com normas. cena 2 – Exortação à mocidade hitleriana. Lá. ela se lembra de seu amado e da terra que a acolheu. por exemplo. uma judia do interior da Paraíba. nem fazer mal algum a ninguém.

trabalho com a pá. então: no fundo do poço. meu rosto túmido de manhã e chupado à noite.(. essa fome crônica que os homens livres desconhecem. O ruído é assustador.. das salas de aula. Os aviões passam sobre nossas cabeças. no peito de meus pés. de Primo Levi • Documentários da coleção HOLOCAUSTO • Filme Ópera do Malandro. meus membros ressequidos. a experiência de cada um. alguns de nós têm a pele amarelada. da discussão ética provocada pelos fatos ocorridos em função da violação dos direitos humanos durante a segunda guerra. de Ruy Guerra. malandro/protagonista da trama na Ópera do Malandro com o malandro político. Pim diz que para nós deveria soar como música. de Ruy Guerra na perspectiva de mostrar a importância do cinema na colaboração das descobertas de novos caminhos de se pensar e olhar o mundo. o autor. personagem. Como se dá o encontro da diversidade cultural? As diferenças de orientação sexual? Como estes valores interferem na construção das identidades e das memórias? No contexto da sociedade brasileira algumas facetas da desigualdade. de Chico Buarque. custamos a reconhecer-nos. tremo no vento. • Documentários: 1) No tempo da Segunda Guerra. dentro das escolas. retalhando ou desconstruindo a história no tempo. 4. quando não nos vemos durante três ou quatro dias. etc. Quinze dias depois da chegada.. Avaliação das atividades realizadas Nesta última etapa os alunos apresentaram um portfólio das atividades relacionadas à montagem cênica da Ópera do Malandro em recortes abordando todo o processo de construção da montagem que posteriormente seria avaliada na prática através de encenação pública para a escola. ação. já tenho a fome regulamentar. quanto maior for o número de aviões. a escolha do texto. Outro aspecto relevante de análise dentro do documentá- rio é a participação do Brasil na segunda guerra.) Na opinião de Pim a guerra pode terminar de um momento para outro. as torpes chagas que nunca irão sarar. FRAGMENTOS DE OBRAS “Aqui estou. da série Panorama Histórico Brasileiro do Instituto Itaú Cultural. da inserção da linguagem audiovisual como ferramenta de estudo no contexto da linguagem cênica para pesquisa de construção de personagens. Materiais utilizados para a realização da atividade em sala de aula Os recursos materiais selecionados para a elaboração das aulas constituem-se do seguinte material audiovisual: • Audiovisuais: filme Escritores da Liberdade e Promessas de um novo mundo. entre duas Artes. objeto de estudo desta aula. desfaleço na chuva. se apresentar como um espaço social que valorize os aspectos aqui abordados de forma a incentivar o indivíduo a respeitar a diversidade. aprende-se em breve a apagar da nossa mente o passado e o futuro. Qual a repercussão da obra de um artista na formação da identidade de um grupo? De que forma a obra contribuiu para a “construção” de uma versão para História do Brasil? Onde encontramos os personagens deste enredo social? Eles estão somente no imaginário do autor ou são parte da realidade brasileira? É possível nos dias de hoje nos conectarmos com o tempo da obra? Essas perguntas podem ser respondidas ä medida que nos embrenhamos pelas entrelinhas do texto. dos papéis sociais representados. Quando a necessidade aperta. podem ser refletidas através da obra A Ópera do Malandro. perguntou noutro dia a 16 . artista. Só de farra. É Isto um Homem?) “Os ataques aéreos estão se tornando cada vez piores. mesmo meu corpo já não é meu. Outra proposta de avaliação é o debate entre o grupo e alunos de outra escola vizinha à nossa através da apresentação do espetáculo culminando com debate em torno da obra. além de compartilhar valores. de Chico Buarque de Holanda. os alunos puderam compreender e analisar criticamente a intenção do autor de provocar no espectador/leitor reflexões substanciais em torno da construção de identidade. tempo/espaço passando pela discussão da relação do contexto histórico e social da ação com o contexto histórico do país no percurso da ação. portanto. outros cinzenta. • Peça teatral e músicas da Ópera do Malandro. indumentárias.) Já apareceram.” (Primo Levi. Através do filme e do documentário os alunos tiveram uma visão maior e mais esclarecedora dos fatos para resolver situações de ordem técnica e avançar na questão estética de suas criações. que fica dentro de cada fragmento de nossos corpos. As atividades realizadas em sala de aula foram feitas em grupo partindo da leitura de partes do texto dramático Ópera do Malandro. uma vez que a obra está inserida como instrumento de avaliação do Programa de Avaliação Seriada – PAS. Aqui. ideias e representações sociais que possivelmente influenciem em suas ações colaborando para a formação da identidade e da memória (individual e coletiva) no contexto de uma sociedade democrática. A escola deve. contrabandista brasileiro/ estrangeiro. e por fim o autor e sua trajetória de vida. a indústria nacional e a relação do papel social representado por Max Overseas. Empurro vagões. cenários. do jogo político. onde a escola investe sistematicamente em manter seu projeto pedagógico em torno deste programa. O critério de avaliação sistemática se dá através de uma ficha distribuída com a platéia para que a mesma pontuasse o desempenho de cada aluno/ator. 5. 2) Anos 30: entre duas Guerras. desencadeando um processo de estudo detalhado da obra em seus aspectos estruturantes da linguagem dramática: enredo. mais próximo estará o fim da guerra. o poder centralizado na mão de contraventores de toda espécie. que faz sonhar. à noite. da exploração do homem pelo homem. a marginalização e discriminação de pessoas como prostitutas e homossexuais..situações de exclusão e intolerância. Numa outra análise foi sugerida a leitura do filme Ópera do Malandro. • Peça teatral Terror e Miséria no III Reich. dia e noite. Como pano de fundo tem a grande questão social que não cala: a prostituição de adolescentes. (. meu ventre está inchado. de Bertolt Brecht • É Isto um Homem?. Num outro encontro a proposta foi inserir a leitura do documentário No tempo da Segunda Guerra fazendo uma conexão com o papel social representado pela personagem Duran da obra Ópera do Malandro que estabelece uma relação simbólica de poder entre o personagem e sua idolatria em torno da figura personificada de Hitler.. tudo isso num bojo de conflitos de identidade incessantes e pós-modernos bem próximos de nós.

recorda-se o Iom Hashoah. referindo-se ao carrasco-chefe nazista. para um mal ainda maior.. com os seus nefastos Gulags (campos de concentração soviéticos) e KGB (Serviço de Inteligência soviético). na sua privilegiada argúcia. contra chineses opositores e tibetanos. política e filosófica da tragédia humana e social da Segunda Guerra Mundial (1939-1945)16. da Declaração Universal dos Direitos Humanos. História das Relações Internacionais. Coexistência. (fragmento da peça teatral O Terror e Miséria no Terceiro Reich. mas também é um processo e pode mover-se suavemente. Associação Brasileira de História das Religiões (ABHR). social e espiritual do povo judeu). de inquietações e de expectativas. 16 HOBSBAWN. que exterminaram milhões de opositores e civis inocentes.. Martin Gilbert. (. à frente da República Popular da China. que ocupa supostamente uma das cadeiras) . desde 1998. Mas agora porque havemos de virar tudo ao contrário? Eu vou-me embora para não perderes o teu lugar de cirurgião –chefe. Disponível em: <http://www.” (fragmento da peça teatral”. lamentavelmente. Rio de Janeiro: Ediouro. Especialista em Prática de Contratos Internacionais (2001) (PUC-PR). de F. uma lição 13 histórica de que aquilo que começa como algo finito em matéria de destruição e limitado no tempo pode rapidamente evoluir para um monstro de extermínio em massa. ela foi designada pela Revista New Yorker. Era por encarar os fatos como fatos. data em que se presta homenagem aos mártires. Atividades como pesquisador: Laboratório de Estudos sobre Etnicidade. em 1948 – novas tragédias humanas não deixaram de se repetir: a ditadura de Josef Stálin (1928-1953). O Longo Século XXI. 1995. p. as ditaduras de esquerda e de direita do Terceiro Mundo. capturado numa operação secreta do Mossad (Serviço de Inteligência Israelense) na Argentina . Enfim.cada um de nós o que mais gostaríamos de fazer ao sair daqui. para mim quanta coisa gostaria de fazer . “alguém habituado a não pensar nas conseqüências dos seus atos” em nome do regime nazista do terror.. em cursos de graduação. Marcelo Vieira. Justiça. pós-graduação e preparatórios. de 1938.. episódio fabricado pelo regime nazista na Alemanha: A Kristallnacht ensinou.com. Direitos Humanos. O papel do educador na construção da Memória do Holocausto (Shoah) Na noite do dia 20 de abril. data de libertação do campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau. Judite – (Ensaia o que vai dizer ao marido. 17 .bnai-brith. 14 WALSH. pelo exército vermelho. resistentes e sobreviventes judeus dos anos 1930 e 1940. através da sua Assembléia Geral. vestir roupa nova da cabeça aos pés – encher a banheira de água até transbordar. pelos Macabeus modernos.15 Primeiramente. Liberdade. há o renovar de esperanças quanto à difusão universais dos valores da Democracia. Política Internacional das Grandes Potências (Estados Unidos. qual o significado dessas datas para esse início do século XXI? O que elas têm a ensinar às novas gerações (crianças.Há dez anos quando todos achavam que ninguém diria que eu era de raça judaica tu dizias logo: vê-se bem. na Polônia. Afinal.. China. instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU). Demonstra preferência pelos seguintes assuntos: Holocausto (Shoah). iniciada em 1943. Hannah Arendt (1906-1975). Especialista em Análise de Informações Estratégicas (1995) (SAE-PR). A pensadora. meter-me dentro dela. “O Papel do Docente na Construção da Memória do Holocausto”.. Ambas as efemérides contêm um profundo significado e lição para o século XXI e servem como referências pedagógicas para os professores14. ao abordar a “Noite de Cristal” (Kristallnacht). Acessado em 29/04/2011. filósofa política de sua época. provocada pelo ímpio e execrável sistema político-ideológico totalitário. de Ian Flemming . A Noite de Cristal – A Primeira Explosão de Ódio Nazista contra os Judeus. constitui uma das maiores referências para os docentes do século XXI. e que se celebra anualmente no dia de 27 de janeiro. a segunda metade do século XX. em 1945. apresenta um vigoroso espírito de renovar de esperanças. asp?cod=152>. na ótica historiográfica de Eric Hobsbawn. na III Seção Ordinária da Assembléia Geral da ONU (contando apenas com a abstenção de países socialistas). adolescentes e jovens)? Elas estariam restritas às comunidades judaicas pelo mundo? O que há de pedagógico nelas? E qual deverá ser o papel do docente no tocante à Memória do Holocausto ou Memória da Shoah? A propósito. Israel) (2010). Atua no magistério superior.responsável direto pelo planejamento sistemático da “Questão Final” (eufemismo do plano de aniquilamento físico. O Diário de Anne Frank. voltar ao colégio com minhas amigas. que foi o Nazismo.digno de filme do agente britânico 007. lecionando no Centro de Ensino Médio Ave Branca (CEMAB).. de Bertolt Brecht). Bacharel em Relações Internacionais (1988-1992) (UNB). e a aprovação. Era dos Extremos: O Breve Século XX (1914-1991). os regimes ditatoriais laicos e os fundamentalistas islâmicos do Oriente Médio. que o mal tem gradações. Associação Nacional de Professores de História (ANPUH-DF. Eric. Especialista no Ensino da História do Holocausto (Shoah) (Yad Vashem. Hackett). DESAFIOS DO ENSINO DA HISTÓRIA DO HOLOCAUSTO (Shoah) Da “Questão Judaica” à Solução Final Marcelo Vieira Walsh13 1. É professor concursado da Fundação Educacional do Distrito Federal. 15 GILBERT. São Paulo: Companhia das Letras. Em 1961. Antissemitismo. no livro de mesmo nome. rir até me doer a barriga. Japão). inicia-se com o desmoronamento do império soviético e o fim da Guerra Fria. História da Política Exterior do Brasil.) Mas. tecnólogo. em Taguatinga Sul (DF). Esta data se complementa com o “Dia Internacional em Honra às Vítimas do Holocausto”.andar outra vez de bicicleta. denominado pelo historiador britânico Eric Hobsbawn como “Século Sangrento”. acarretou a morte de mais de 11 milhões de pessoas em campos de extermínios nazistas. É membro da Associação Nacional dos Ex-Combatentes da Força Expedicionária Brasileira (FEB) (qualidade de descendente). da Universidade de São Paulo (LEER-USP). por unanimidade. é o Dia da Recordação das Vítimas do Holocausto ou da Shoah.. Foi dela a autoria da expressão “banalidade do mal”17. que. E isso dava-me alegria. É a data da revolta do Gueto de Varsóvia. o de Nuremberg. medo e destruição18. Martin. demonstrou que a Humanidade ainda não aprendera a profunda lição histórica. que foram aniquilados pelo império do terror nazista do Terceiro Reich (19391945). Muito embora tivesse havido duas salutares reações mundiais – a instituição dos tribunais militares para julgar crimes de guerra. 282. Mestre em História das Relações Internacionais (1994-1997) (UNB). cultural. intelectual judia alemã. a tirania implacável de Mao Tse-Tung (1949-1976). Igualdade e Fraternidade para países que experimentaram ou experimentam ainda regimes Docente superior. em retrospecto. 2006. cabe refletir-se sobre as palavras de um dos mais notáveis historiadores britânicos e especialistas em Memória da Shoah.br/content/mail/press_especial. De fato. sem esforço. em 1991. Conselho Fiscal). afirma. de maneira especial.. que seja recordada sempre a tragédia da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). ficar aí de molho até não poder mais. para cobrir o julgamento do criminoso nazista Adolf Eichmann. Goodrich e A. Racismo e Discriminação.

Op. 2005. em 6 de junho de 2008. Entendemos que. Os Direitos Humanos são universais e – ao contrário de ofuscar a diversidade cultural dos povos. Cit. na convivência humana. organizações racistas e antissemitas ou de governos intolerantes (como o do Irã e o do Sudão).. Neal. Disponível em: <http://portal. psiquiatra e pedagogo entusiasta da análise sobre o imprescindível papel do professor na sociedade e da sua missão de formar as novas gerações. justiça. Deve ser lembrado. E expectativas de que novas conturbações possam abalar o sistema internacional . Co-Presidente Nacional da B´nai B´rith Brasil. Direitos Humanos.. Abraham (Co-Presidente Nacional da B´nai B´rith Brasil). Augusto. Abraham. E utilizando o Direito Internacional. negador sistemático da existência da Shoah e do legítimo direito de existência do Estado de Israel19. 18 . coexistência e diálogo entre os povos do mundo. Caçando Eichmann – Como um Grupo de Sobreviventes do Holocausto Capturou o Nazista mais Notório do Mundo. Hannah. encontra-se enraizado na promoção da cultura e da educação em prol da Paz. Realizada em Curitiba. enfatiza que o professor deve transmitir “sabedoria. no sentido de se evitar que novas tragédias se repitam e de se ensinar a combater todos os tipos de intolerância. na abertura da V Jornada Interdisciplinar para o Ensino da História do Holocausto. Hannah. 2001. Augusto Cury. ela. Abraham. mas também para cultivar o mais profundo Humanismo – e com ele os valores e ideais universais da democracia. e na atuação passiva deste no processo de ensino aprendizagem. face ao desafio universal da Memória da Shoah ou do Holocausto? Deve-se referir ao papel do educador. novamente. FOXMAN. “Discurso de Abertura da V Jornada Interdisciplinar sobre o Ensino do Holocausto”. quanto mais consciente dos valores da democracia. a não-indiferença. sua ampla vigência e constante aprimoramento. neo-nazistas. Nunca mais? – A Ameaça do Novo Anti-Semitismo. baseados num nacionalismo exacerbado. tolerante e assentado no princípio da paz. Rio de Janeiro: Sextante.pdf>. Educação em prol da promoção da Cultura de Paz. Pais Brilhantes e Professores Fascinantes. BASCOMB. dos Direitos Humanos. Eichmann em Jerusalém. ensi- nar a Memória da Shoah ou do Holocausto.como o caso do atual regime totalitário teocrático do Irã. O papel do Estado deve ser o de zelar e garantir a plenitude dos Direitos Humanos. realizado em Curitiba. SUBSECRETARIA DE INFORMAÇÕES. sensibilidade. 72. combater e proporcionar uma resposta adequada e firme a toda e qualquer forma de intolerância religiosa. SENADO FEDERAL. na distante relação entre professor e aluno. para este importante processo. racistas como a organização norte-americana Klu Klux Klan).gov. coexistência e fraternidade universal. 23 BRASIL. nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas 17 ARENDT. presta-se não apenas a recordar a tragédia histórica da Segunda Guerra Mundial (1939-1945).br/ arquivos/pdf/ldb. O dever de também de estar vigilante às manifestações de intolerância – venham de indivíduos isolados. o não-esquecimento. que a História apresenta um profundo conteúdo pedagógico. na qualidade de líder e formador de gerações. Op. além da Paz Internacional. um Brasil sem discriminação. coexistência e diálogo entre os todos os povos do mundo. o Genocídio de Ruanda (1991) e os atentados terroristas do 11 de Setembro de 2001 contra os Estados Unidos são exemplos de assustadores conflitos internacionais. nessa perspectiva. paz. O professor – tanto em sala de aula como em atividades extraclasses –. Coexistência e Diálogo Um dos principais pilares da Democracia e da Liberdade. São Paulo: Cia das Letras. pelo contrário. nas instituições de ensino e pesquisa. antissemitismo. a antiga concepção do processo educacional centrado no simples transmitir de conhecimentos. primeiramente. racismo. quanto mais preparada para o exercício da cidadania estiver nossa sociedade. Eric. A Memória do Holocausto ou Memória da Shoah pode contribuir. No Brasil. de influenciar pessoas”21. 20 FOXMAN. Complementarmente. capacidade de falar ao coração. desde as tenras gerações do Ensino Fundamental até o nível do Ensino Superior. Rio de Janeiro: Objetiva. Cit. a recordação. no quadro e giz. São Paulo: Francis.fechados. amor pela vida. segundo a vigente Lei de Diretrizes e de Base da Educação (Lei 9394. xenofobia20. 2003.mec. promove o seu programa nuclear para fins militares e estimula o discurso de intolerância e de ódio antissemita do seu presidente. à pergunta essencial: qual deve ser o papel do docente. 2010. que patrocina a máquina de terror (Hezbollah e Hamas) e apóia os grupos de intolerância (revisionistas europeus ou negacionistas do Holocausto. deverá ensinar às novas gerações o respeito. mas.tem o dever não só de recordar a tragédia singular do aniquilamento de mais de seis milhões de judeus (ou mais de 60% da população judaica da época). Cit. de gangues neo-nazistas. A sociedade internacional – gerenciado pelos Estados soberanos e organismos internacionais . se harmoniza e enriquece o seu rico acervo. serenidade. o de educar às novas gerações para uma Cultura de Paz. heróis e sobreviventes do Holocausto judeu e de outros povos – torna-se um imperativo de toda a Humanidade. Ora. 7ª ed. dos Direitos Humanos. embates inter-étnicos e fundamentalismos religiosos.22 Encontra-se praticamente superada. 22 GOLDSTEIN. afetividade. Que se retorne. Manter acesa a chama da Memória da Shoah ou do Holocausto é perpetuar a chama da Vida! 2. A Memória da Shoah ou do Holocausto – das vítimas. Abraham Goldstein. no moderno de ensino. 19 HOBSBAWN. pelas razões já expostas. a não-omissão e a imortal lição da Memória da Shoah ou do Holocausto. Mahamoud Ahmadinejad. para nossa sociedade. os organismos internacionais contribuir para o amplo entendimento e consenso dos Estados soberanos quanto ao imperativo moral e à premência da observância dos Direitos Humanos. A forma fratricida como ocorreu o desmoronamento da antiga Iugoslávia (1990-1991).. em sua tarefa e responsabilidade de educar os filhos de nossa sociedade. de nossa nação. defendeu a seguinte posição: Todas estas iniciativas têm o principal objetivo de disponibilizar ferramentas que permitem ao educador aprofundar o seu trabalho em sala de aula com informações e referências a documentos e argumentos interpretativos que lhe apóiam. estaremos garantindo. Acessado em 27/04/2011. utilizando-se dos inúmeros recursos didáticos. no trabalho. assim define a Educação. no dia 06 de junho de 2008. 18 ARENDT. Tomando para si e não delegando a ninguém a sua capacidade de conduzir e progredir no convívio pluralista e integrador. 21 CURY. “Lei de Diretrizes e de Base da Educação”(Lei 9394/96). promulgada em 20 de dezembro de 1996). no caput do Artigo 1º: A educação abrange os processos formativos que se desenvolvem na vida familiar. Op. numa visão atualizada. p. mais compreensiva e atuante ela o será em busca de justiça social.

proposta pelo Prof. de fato. 26 O Yad Vashem foi criado em 1957. Justificá-la teria algo de monstruoso em vista de toda monstruosidade ocorrida. línguas. De tal modo ela precede quaisquer outras que creio não ser possível nem necessário justificá-la. 3. expoente da Escola de Frankfurt. a discriminação. em Jerusalém. A Humanidade não pode ficar indiferente e nem ser omissa face às novas correntes de intolerâncias. o mais ativo campo de extermínio nazista. harmonioso entre diferentes indivíduos. ao proferir a Declaração de Independência de Israel recordou a incomensurável tragédia humana que se abateu sobre o povo judeu nos 1930 e 194030: A catástrofe que recentemente caiu sobre o povo judeu . por sua extensão geográfica. num misto de tristeza e alegria: “Pensei em meus filhos lutando e seus colegas morrendo nessa hora. a inclusão da temática da Memória da Shoah ou do Holocausto na grade curricular ou no conteúdo programático do Ensino Fundamental. social.com/. Dissertação de Mestrado. DEPARTAMENTO DE EDUCACIÓN Y DESARROLLO.23 O papel da educação. intensidade dos conflitos. Primeiro-Ministro israelense (1948-1952). 2008. Israel] 27 ISRAEL. Educar que o convívio pacífico e interativo entre pessoas de distintas condições constitui o fundamento da Democracia e dos Direitos Humanos. Felipe Quintão. ESCUELA INTERNACIONAL PARA EL ESTUDIO DEL HOLOCAUSTO. que novos preconceitos. Ela foi a barbárie contra a qual se dirige toda a educação. mas do pleno convívio pacífico. genocídio não se repitam. A Memória da Shoah ou do Holocausto não é. 1972. E isto que apavora. nem omisso e. David Ben-Gurion (1886-1973). 2010. drásticas transformações sociais e conseqüências humanas. p. Jerusalén: Yad Vashem. ensinando que estes valores são o fundamento do convívio pacífico e harmonioso entre os povos. pois Auschwitz 24 foi a regressão. culminaria em Auschwitz. Não consigo entender como até hoje mereceu tão pouca atenção. Deve-se ensinar às novas gerações. Holocausto: Crime contra a Humanidade. 25 19 . Como afirma Maria Luiza Tucci Carneiro.. dos Direitos Humanos.. não importando a sua condição religiosa. o diálogo deve estar plenamente incorporado como instrumento de aperfeiçoamento das instituições democráticas. nos termos da história mundial. No Brasil. São Paulo: WG Comunicações e Produções. Fala-se da ameaça de uma regressão à barbárie. Rio de Janeiro: Paz & Terra.25 O Yad Vashem26 (literalmente. desempenha uma função importante na promoção da tanto da Educação como da Cultura em prol da Paz. mas também para a toda a Humanidade. Refletindo sobre Auschwitz. “Educação após Auschwitz”. ADORNO. compreensão e comunicação entre os povos. Bauman e Adorno: Sobre a Posição do Holocausto em Duas Leituras da Modernidade. Maria Luiza Tucci. ABRAHAM. na perspectiva do Yad Vashem.uma das principais líderes do Sionismo28. Ben Zion Dinur. presente no mundo. São Paulo: Ática. em Hebraico. todos aqueles que deveriam estar aqui.5. o estudo da história da Shoá desempenha um importante papel de conscientização. 2007. que recebe grupos de educadores. 2005. e aprovada pelo Knesset (Parlamento israelense). da Coexistência e do Diálogo. cultural. apenas direcionada para o povo judeu. estudantes e visitantes do mundo inteiro. Neste sentido. Holocausto (Shoah): como foi possível acontecer? A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) constituiu a maior tragédia da História da Humanidade. econômica. o preconceito. étnica. instituições. Programa de Pós-Graduação em Educação. Theodor W. por meio da educação. através de uma sistemática política implementada pelo Terceiro Reich (1933-1945). a barbárie continuará existindo enquanto persistirem no que têm de fundamental as condições que geram esta regressão. Mas a pouca consciência existente em relação a essa exigência e as questões que ela levanta provam que a monstruosidade não calou fundo nas pessoas. no seu livro Holocausto – Crime contra a Humanidade: [O livro] pretende mostrar que aquele processo de extermínio de um povo passa pela compreensão dos direitos humanos. violências. Não devemos nos esquecer.foi outra demonstração clara da urgência de resolver o proble- CARNEIRO. “Monumento aos Nomes”) ou Museu do Holocausto. Universidade Federal de Santa Catarina.manifestações culturais. a pressão social continua se impondo.. discriminações. Ela impele as pessoas em direção ao que é indescritível e que. entendia que deveria se desenvolver uma pedagogia universal em torno da tragédia humana e social incomensurável do Holocausto. e construído no Monte da Recordação (Har Hazikarón). Ben. sexual ou outra.o massacre de milhões de judeus na Europa . todos aqueles que não verão Israel”29. Não ser indiferente. Este conflito culminou com o extermínio de mais de seis milhões de judeus e cinco milhões de não-judeus. 5ª Ed. Golda Meir (1898-1978) . exclusões. sintoma da persistência da possibilidade de que se repita no que depender do estado de consciência e de inconsciência das pessoas. Apesar da nãovisibilidade atual dos infortúnios. ALMEIDA. costumes.24 Theodor Adorno (1903-1969). em 14 de maio de 1948. YAD VASHEM. …E o Mundo Silenciou. compactuar com a intolerância. consciente das suas responsabilidades individuais e sociais. sendo hoje o mais importante centro judaico e mundial da Memória da Shoah27. poderá contribuir para o aprofundamento da consciência histórica em prol dos Direitos Humanos./Theodor-Adorno-EducaCAo-ApOs-Auschwitz>. Mas não se trata de uma ameaça. portanto. Médio e Superior. Para que lo sepan las Generaciones Venideras: La Recordación Del Holocausto em Yad Vashem. destacado filósofo e sociólogo alemão do século XX. Qualquer debate acerca de metas educacionais carece de significado e importância frente a essa meta: que Auschwitz não se repita.scribd. chegou a comentar no momento da Independência de Israel. Acessado em 23/04/2011. pois alerta a humanidade a não incorrer mais nos erros do passado. O Yad Vashem. Esta é a atitude social e individual imperativa para que a Barbárie não retorne e nem se imponham ditadores sobre a Humanidade. levando-nos a refletir sobre a responsabilidade do Estado na preservação da vida do cidadão. Theodor. ADORNO. E pensei nos seis milhões de judeus que morreram. pela Lei da Recordação. valores –. constitui um legado riquíssimo para a construção de pontes de entendimento. não está voltada tão somente à colocação de profissionais competentes no mercado de trabalho. mas envolve a formação do cidadão ético. Educação e Emancipação. converteu-se numa das principais referências internacionais de pesquisa e no estudo do Holocausto. a construção de uma sociedade não apenas pluralista e tolerante. A diversidade cultural – de religiões.. Disponível em: < www. muito menos. Através de uma análise crítica das teorias racistas implementadas pelo III Reich podem-se desenvolver atitudes que favoreçam a convivência democrática e a construção da cidadania. o pensador alemão argumenta: A exigência que Auschwitz não se repita é a primeira de todas para a educação.

sendo diversas coisas simultaneamente. O judeu seria. Por isso. 2004. Relações Internacionais. A historiografia das Relações Internacionais permite delinear um quadro abrangente da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e. O Terceiro Reich e o Antissemitismo: Antes de qualquer abordagem sobre o antissemitsmo. Produtores Executivos: Richard Bradley. dentre outros. um modo especial de viver e encarar a vida. à propriedade. econômicos. liberdade e trabalho honesto em seu lar nacional. ideológicos. portanto. demográficos. financeiros. etc. negar o direito dos judeus e não-judeus à vida. Kátia. São Paulo: Imago. caracterizado como adepto de uma reli- Sionismo constitui movimento político e filosófico .1948). Economia. Adam Kemp e Neil McDonald. evangélicos. culturais. História da Civilização Ocidental – Do Homem das Cavernas às Naves Espaciais. LERNER. que abriria bem os portões da terra natal para todo judeu e conferiria ao povo judeu o status de membro privilegiado na comunidade de nações. além disso. Para o Rabino Benjamin Blech. Rio de Janeiro: Globo. aparece nos texto sagrados do Judaísmo (Torah) e no do Cristianismo (Antigo Testamento) com o significado “queimado em sacrifício de Deus”. Richard Lukas. mulheres. dispersando parte considerável dos judeus. constituiria uma identidade inerentemente plural e. Edward McNall. a palavra Holocausto é a mais usada. 5 Iyar 5708. envolvendo diversas áreas do conhecimento: Sociologia. com o sangue de seus soldados e seus esforços de guerra. a qual significa: “aniquilação”. Disponível em: < http://www. Kátia Lerner destaca: “Um campo de disputa se formou entre historiadores de diferentes correntes – e. História dos Judeus. Paul. Diante do reconhecimento de que o Holocausto. Standish. entre outros”. 2ª Ed. 4. filósofos. no ano de 70 d. antropólogos e historiadores. negros. etc. sob comando do general Tito. inter e transdisciplinaridade.com. Entre os autores que criticavam o alargamento desta definição estavam Stephen Katz e Yehuda Bauer. 14. à liberdade. 1995. concebidos para tal fim. homossexuais. opositores políticos. A idéia de retorno ao seu espaço nacional encontra-se expresso na vida religiosa. comerciais. social e política do Povo judeu que sofreu a Diáspora (Dispersão geográfica) Romana. ideologia e processo decisório32.C/E. Direito Internacional. atualmente. o Judaísmo não é somente uma religião. Holocausto. as pessoas optam por utilizar a palavra hebraica “Shoah”. não se enquadrando em sistemas classificatórios rígidos e unívocos. sob a alegação de que isto enfraqueceria a singularidade da tragédia judaica. uma questão identitária. Acessado em 25/04/2011. visão estratégica. assim como os judeus do resto do mundo. quando os romanos destruíram a cidade. aparece a figura do “homem de Estado” – democrático ou ditatorial.. o planejamento e a implementação de um plano de extermínio sistemático de milhões de pessoas (judeus. apesar das dificuldades.9. sempre houve uma presença ininterrupta de judeus na Terra Santa. São elementos que moldam as relações internacionais. com o lançamento do livro O Estado Judeu (Der Judenstaat) (1895) – que preconiza o direito à autodeterminação do Povo Judeu e à existência de um Estado judeu independente e soberano no território. 1967. nacionais. há inúmeras reflexões suscitadas – ou ainda a serem suscitadas – a respeito da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e. Memória e Identidade Social: A Experiência da Fundação Shoah. Estatística Aplicada ao campo das Ciências Humanas. no qual historicamente existiu o antigo Reino de Israel (Eretz Israel). Tese de Doutorado.C. garantiram a execução da última etapa do plano que ficou conhecida como “Solução Final”. podemos refletir e discutir a História das Relações Internacionais como resultante da dialética entre as ”forças profundas” e o papel dos “homens de Estado”. em especial. a qual divide teólogos (rabinos). midiáticos. No caso das “forças profundas” constituem um conjunto de fatores ou causas que desencadeiam o processo histórico: geográficos. JOHNSON. em Israel e em círculos judaicos fora de Israel. “grave tragédia”.cuja moderna corrente foi fundada por Theodor Herzl. 32 RENOUVIN. Gratton Puxon e Ian Hancock. Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia. Uma das inúmeras abordagens possíveis sobre este tema é à luz da História das Relações Internacionais que analisa a evolução da vida internacional no tempo histórico. Declaração de Independência (Governo de Israel. & MEACHAM. muitos dos quais eram crianças. Universidade Federal do Rio de Janeiro. Sob a perspectiva do pensamento de Pierre Renouvin e Jean-Baptiste Duroselle. sociólogos. sob a perspectiva da multi. É. assim como do próprio Estado. caráter. Para Bernado Sorj.br/Abril2006/artigos/2. 1986.5. BBC Worldwide. LERNER. Psicologia Social. em plena Segunda Guerra Mundial (19391945)? • O extermínio de milhões de seres humanos resultou de uma decisão momentânea ou de um longo e contínuo processo que antecedeu à própria eclosão da Segunda Grande Guerra (1939-1945)? • Qual o papel desempenhado pela Conferência de Wannsee (1942) na história do Holocausto? Em que contexto deve-se entender a “Solução Final da Questão Judaica” (Endlösung der Judenfrage)? • O estudo da história do Holocausto limitar-se-ia ao registro histórico e da justa homenagem às vítimas e sobreviventes ou transcenderia ao tempo histórico abarcando também o presente e o futuro? • Como entender o inexplicável? Como foi possível. a comunidade judaica deste país contribuiu por completo com as nações que amam a paz e a liberdade contra as forças da tirania nazista e. Ciência Política. desígnios. Porém. as forças resistentes e o templo sagrado de Jerusalém. Tel Aviv. enfim. mais especificamente. da coexistência e do diálogo entre os povos de todas as nações? • Qual o papel da educação e dos educadores frente as questões colocadas?31 De fato. ganhou o direito de ser reconhecida entre os povos que fundaram as Nações Unidas. no caso da perseguição aos ciganos. origens étnicas – quanto à inclusão ou não de outros grupos além dos judeus enquanto vítimas [do Holocausto]. católicos. dos poloneses. enquanto genocídio singular.visaojudaica. moderno ou tradicional – com sua personalidade. Filosofia. Antropologia Cultural. História. Mesmo assim. existem objeções ao seu emprego. importante assinalar. Gunter Grau. 30 ISRAEL. 29 Criação do Estado de Israel. perguntamos: • Historicamente.ma da falta de um lar através do reestabelecimento em Eretz-Israel do Estado Judeu. Do outro lado. p. sobre o Holocausto. à dignidade humana. restrições e perigos e nunca deixaram de assegurar o seu direito a uma vida de dignidade. 1 DVD. idosos e doentes)? • Como puderam ser implementados centenas de campos de extermínio que. BURNS. maçons.html>. Tendo em vista que o significado original da palavra Holocausto é “oferta sacrificial” em honra de D´us/Deus. 2003. continuaram a migrar para Eretz-Israel.. A sua origem etimológica no Grego holokausto. como foi possível a deliberação. Jean-Baptiste. 20 .. Estas perspectivas se chocam com as demandas de representantes destes grupos e acadêmicos como Donald Kenrick. 2º Volume. Sobreviventes do holocausto nazista na Europa. dos homossexuais. A morte dos judeus não foi uma oferta. Na Segunda Guerra Mundial. Introdução à História das Relações Internacionais. foi um crime contra a Humanidade. 31 Os termos Holocausto e Shoah são empregados normalmente para representar a mesma idéia: a do genocídio cometido pelos nazistas contra judeus e não-judeus em campos da morte durante a Segunda Guerra Mundial. sobre o Holocausto. desde a ascensão de Hitler ao poder em 1933. Robert E. ao próprio existir? • Qual a importância do resgate da memória histórica 28 do Holocausto (em hebraico. Shoah) e da construção de uma Cultura de Paz atrelada à valorização dos Direitos Humanos. deve-se refletir acerca do significado de “ser judeu33”. Pierre & DUROSELLE. ciganos. etc. São Paulo: DIFEL. Produtores Bill Locke e Chris Kelly.

Rudolf Hess (1894-1987). econômico. bizantino (313-636). Cit. Reinhard Tristan Eugen Heydrich (1904-1942). com sua obra Os Fundamentos do Século XX que exerceu grade influência sobre a elite do império alemão. portanto.). no noroeste da Mesopotâmia. com Otto Von Bismarck (1815-1898). o Cristianismo e o Islamismo. Op. surgiu uma agressiva ideologia nacionalista. 21 . passando pela ideia do deícidio . & MEACHAM. por exemplo. Por sua vez. “arianos”. STIVELMAN. Existem diversas motivações. JOHNSON. produzida pela polícia secreta do Tzar Nicolau II. 3ed.35. 2004. Alfred Rosenberg (1893-1946). desde o confronto entre o monoteísmo dos judeus e os politeísmos dos povos vizinhos. a partir da segunda metade do século XIX. Bernardo. social. praticamente na ligação entre os três continentes: África. liderado pelo Patriarca Abraão. Sem contar o Mandato Britânico sobre a Palestina (1918-1948). Um dos principais fatores que explicam as invasões estrangeiras é a posição estratégica da Eretz Israel. “judeu capitalista”. Com o passar do tempo. 2004. assim como membro de grupo étnico e portador de uma identidade coletiva34.C. Op. teria existido um continente [imaginário] denominado Thule. fundado. MESSADIÉ. Op. ou seja. “judeu revolucionário” e/ou “judeu degenerado”38. da “superioridade da raça e sangue dos arianos”. A teoria da raça ariana. Benjamin (Rabino). 35 Muitos povos combateram os judeus e invadiram seu território ao longo dos séculos: babilônios (586-538 a. Robert E. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. Para compreendermos a persistência do antissemitismo e a execução da “Solução Final” devemos avaliá-los no contexto histórico do Terceiro Reich39 (1933-1945). Já em 1800 a.cit. Maria Luiza Tucci.). Benjamin (Rabino). dos primórdios do Cristianismo ao fim da Idade Média. com as conversões forçadas de judeus e a Inquisição. o historiador Paul Johnson destaca as inestimáveis contribuições dos judeus em legar ao mundo o monoteísmo ético. e. Ministro da Propaganda. árabe (639-1099). teriam se integrado às “raças inferiores” ou “bestiais”. no Séc. deve-se mencionar a influência do intelectual britânico Houstin Stewart Chamberlain41 (18551927). Desde a Antigüidade. 1986). militarista e conservadora. Raquel. Perspectiva. A primeira vez que os fundadores da nação de Israel aparecem na história é. no qual habitavam homens-deuses. Rio de Janeiro: Globo. com o tempo. preconizava a idéia de que. 1º Volume. 36 Sobre estes conceitos ver CARNEIRO. assim como os emigrantes e as futuras gerações germânicas seriam os representantes diretos da Nação e do Povo alemães44. pelo Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães. político-ideológico. persas e helênicos (538-142 a. de 1925 . consolidado com a vitória eleitoral de Adolf Hitler. Do período da Unificação Alemã (1871-1918). “raça pura”. Mas. assim como Edward Burns. Op. incluindo Adolf Hitler (1889-1945).gião. de fundamento religioso. romano (63 a. Certamente. 2003. no entendimento de Raquel Stivelman.). endossada como elemento principal da ideologia nazista. para o antissemitismo multifacetado: religioso. O Mais Completo Guia sobre Judaísmo. defendida por Adolf Hitler – ideário presente na sua obra Minha Luta (Mein Kampf).36 Na Era moderna. Edward McNall. São Paulo. do “judeu errante”.. 39 O Primeiro Reich ocorreu com o Sacro Império Romano-Germânico (962-1806) e o Segundo Reich. suas ramificações. Benjamin (Rabino). Standish. Heinrich Himmler (1900-1945). Preconceito Racial em Portugal e Brasil Colônia. Assim. São Paulo: Civilização Brasileira. perdendo seus poderes originais45. cultural. eles não possuíam quaisquer características físicas capazes de distingui-los nitidamente dos povos vizinhos. na obra apócrifa dos Protocolos dos Sábios de Sião. XVIII a. no contexto de intensa Revolução Industrial e (re) ordenamento da Alemanha no concerto entre as grandes potências européias40. a produção dos Textos Sagrados. em parte. otomano (1517-1917). no hemisfério Norte.-313 a. Rio de Janeiro: Imago. na narrativa das Sagradas Escrituras (no Livro da Torah/ no Antigo Testamento). Mas também na criação do mundo moderno: na origem das idéias seculares. até a eclosão da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Cit. Marechal do Reich. supervisor do processo de extermínio contra os judeus42. os judeus foram estigmatizados como “cosmopolitas”. São Paulo: Sefer. Comandante Supremo da SS (Reichsführer-SS) e elemento chave processo de execução do Holocausto. cruzado (1099-1291).. desde o estabelecimento do povo judeu na Terra Prometida. 37 Falsa idéia encontrada. no nacionalismo exacerbado. num tempo mítico – baseado em crenças das tradições nórdicas pagãs -. 34 BLECH. no Oriente Próximo. Paul. O antissemitismo transformou-se em instrumento de poder do Terceiro Reich (1933-1945). chanceler do Terceiro Reich.C. que o elegeu chanceler e fundindo com as funções de Presidente após a morte do Marechal Paul Von Hindenburg (1847-1934)43. A maioria dos historiadores admite que o berço primitivo dos hebreus tenha sido o deserto da Arábia. “judeu avarento”. um grupo de hebreus sob a chefia de Abraão se estabelecera ali”(BURNS. Gerard. Segundo Tucci Carneiro temos que estar atentos a essas definições que distinguem o antissemitimo tradicional. A missão mística do nazismo. com o processo de “purificação e 33 Edward Burns situa a origem do Povo hebreu/judeu em tempos históricos remotos: “A origem dos hebreus ainda constitui um problema confuso.. Considerada a mais antiga forma de ódio social e individual. Desta época. dos quais os alemães e demais povos de cultura alemã. História da Civilização Ocidental – Do Homem das Cavernas às Naves Espaciais. LERNER. 38 BLECH. secretário particular e homem de confiança de Hitler. As narrativas encontram-se impregnadas de estereótipos como.C). sobretudo. contudo. e declinado. O discurso nazista fortaleceu-se com base na ideia de revolução social e instauração de uma Nova Ordem Internacional fundamentada no mito do arianismo. SORJ. Paul. mameluco (1291-1516).C. militarismo expansionista territorial e misto de conservadorismo tradicional.. um dos principais teóricos do nazismo.C. revolucionário e cosmopolita” contrário ao “espírito nacional alemão”. O Ódio entre os Homens – Anti-Semitismo: o mais Longo dos Ódios. o socialismo. Ásia e Europa. no desenvolvimento das ciências e das artes. ou pseudo-científica. assim como sobre a posterior elite intelectual nazista. História Geral do Anti-Semitismo. sobretudo a partir da Revolução Francesa (1789). proliferou a ideia da “inferioridade racial” dos judeus e o mito político “conspiração judaico-maçônica”37 contra o mundo. seria a de redimir a “raça ariana”..suposta culpa coletiva de morte de Jesus atribuída indiscriminada e continuamente contra os judeus -. o antissemitismo tem suas origens remotas. BLECH. o NSDAP.e por toda elite nazista. aparentemente. de funadamentação científica. econômico e político da Europa no período do Entre-Guerras (1919-1939). em 1897. Paul Joseph Goebbels (1897-1945). Hermann Göring (1893-1946). 2006. e no impulsionamento da cultura contemporânea (JOHNSON.cit. “racial” (étnico). Comandante da Luftwaffe e segundo homem importante da hierarquia nazista do Terceiro Reich. 2010.. não identificados com a cultura igualitária nacional. na evolução do capitalismo e sua contraparte ideológica. com sua filosofia da teocracia democrática e sua noção de igualdade perante a lei. se instaurou um Estado totalitário de direita. Judaísmo para Todos. podemos identificar diversas e contextuais manifestações antissemitas.C. cuja plataforma política resultou do fortalecimento dos grupos da extrema-direita na Alemanha desde o final do século XIX. com o Império Germânico (1871-1918). Tanto o crescimento do nacional-socialismo assim como dos sentimentos de pangermanismo e antissemitismo devem ser compreendidos no conturbado contexto social. do antisemitismo moderno. e sua língua pertencia à família semítica do Oriente Próximo. alimentando esta nova expressão de antissemitismo que seria assimilada pelos nazistas a partir da criação do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei (NSDAP). o discurso antissemita encontrou um campo propício para proliferar identificando o judeu como “elemento degenerado. A partir de então.

As Forças Negras desencadeadas pelo Terceiro Reich. 2008. Tempos Interessantes – Uma vida no Século XX. tratava-se de uma “guerra total”. o regime nazista. A História do Terceiro Reich. Op. Donald. ciganos. que chegaram a mais de 300 mil judeus. Rio de Janeiro: DIFEL. Norman. de inteligência e científica a serviço dos esforços de guerra. Nesta reunião foram discutidos o estado da guerra (com base em extenso relatório) e a questão dos judeus. judeus. . contra judeus. 2007. Cit. São Paulo: Planeta do Brasil. Não devemos nutrir simpatias pelos judeus. usar mão de obra escrava (eslavos e não-eslavos) 40 e eliminar os “indesejados sociais” ou “raças inferiores” (doentes mentais. Adolf Hitler seria uma espécie de “messias ariano”. O ministro da Propaganda. por fuzilamento. França.A História do Terceiro Reich. Reino Unido. Ele profetizou que. Neste contexto. homossexuais. mas também o Cristianismo. econômica e tecnológica mundial. Ian. São Paulo: Companhia das Letras. Em 12 de dezembro do mesmo ano. 2009. SOMMERVILLE. sistemática e implacável ao antissemitismo europeu. 2ª Ed. São Paulo: Madras. no geral. na qual os principais envolvidos utilizaram toda sua capacidade econômica. Eric.. Jacques. um conflito militar efetivamente global. Cit.52 Então. José Flávio Sombra (Org. Donald. 42 DAVIES. caso os judeus viessem a causar outra guerra mundial. USA Filmes.). com mais de 100 milhões de militares mobilizados47. como parte da sua estratégia para se tornar a superpotência militar. caminhando atrás das tropas do Exército alemão (Wehrmacht). O antissemitismo não estava mais vinculado apenas à questão religiosa (na ideia do “deicídio”). de 1925. mas era reforçado por argumentos pseudo-científicos. Portanto. industrial. devemos considerar uma somatório de elementos para conseguir entender como foi possível um Estado planejar o extermínio de um povo e de outras tantas minorias éticas e políticas. KEEGAN. União Soviética e outros aliados) e o Eixo (Alemanha nazista. Jean-Baptiste. Era dos Extremos: O Breve Século XX (1914-1991). SOMMERVILLE. 45 Idem 46 SÉMELIN. Paul.d. 41 Casado com Eva Wagner. e ao alemão. Purificar e Destruir: Usos Políticos dos Massacres e dos Genocídios. com autorização do próprio ditador Adolf Hitler: Com relação à Questão Judaica. Caracterizado por significativos ataques contra civis. Europa na Guerra (1939-1945). New York: Lorenz Books. Desde então. representou o conflito mais abrangente do ponto de vista geográfico. A conclusão é de que se tornou o embate militar mais trágico. Até o mês de dezembro de 1941. contra a União Soviética – após ter ocupado a Polônia. brutal e violento da História da Humanidade. A essência desta forma de pensar se faz centrada no conceito de arianismo que tem sua origem nos tempos pagãos dos povos germânicos anteriores à sua conversão cristã. contando com o sucesso inicial da Operação Barbarossa. mas somente simpatia por nosso povo alemão. o extermínio de todos os judeus da Europa ocupada pela Alemanha nazista. S. país HOBSBAWN. O nazismo acreditava que judeus e cristãos eram “incapazes” de uma verdadeira espiritualidade [Sic]. Uma História da Guerra. O Clã de Hitler. Pierre & DUROSELLE.. eslavos. propagandística.Cit. com a Operação Barbarossa. Itália fascista. em especial. organizadas em duas alianças militares opostas: os Aliados (Estados Unidos. etc. segundo o historiador John Keegan. São Paulo: Companhia das Letras. envolvendo a maioria das nações do mundo – incluindo todas as Grandes Potências –. e atingindo a cifra total de mais de 1. Como Jacques Sémelin argumenta. A conseqüência necessária deve ser a aniquilação dos judeus. São Paulo: Companhia das Letras. SARAIVA. . a Alemanha nazista preparou-se para uma ampla ofensiva militar em direção do Leste Europeu. Não eram ameaças vãs. 1995. em 1º de setembro de 1939 e o ataque militar desferido contra a União Soviética. 48 HOBSBAWN. HOBSBAWN. assassinados ao ar livre. tecnológica. financeira. homossexuais. no Japão em 1945. sob as ordens de Heinrich Himmler. RENOUVIN. 44 ROLAND. 1995.em larga escala. História das Relações Internacionais Contemporâneas –da Sociedade Internacional do Século XIX à Era da Globalização. 47 SARAIVA. imprimira uma roupagem ainda mais agressiva.). foi defendido pelo ditador Adolf Hitler e toda a elite do comando nazista. Hitler. na sua obra Mein Kampf (Minha Luta). Esta estratégia baseava-se na doutrina geopolítica do Espaço Vital (Lebensraum). 5. Era dos Extremos: O Breve Século XX (1914-1991). devido à sua origem teológica semítica e oposição ao paganismo. etc. 2003. católicos. 22 . totalizando mais de setenta milhões de mortos49. neste estágio da Segunda Guerra Mundial (19391945). USA Filmes. Revista e Atualizada. Portanto. The Complete Illustrated History of World War Two: An Authoritative Account of the Deadliest Conflict in Human History with Analysis of Decisive Encounters and Landmark Engagements. 43 KERSHAW. iriam ter de enfrentar a própria aniquilação.d. Joseph Goebbels (1897-1945) pronuncia as seguintes palavras. John. tornou-se inevitável com o estabelecimento do regime totalitário nazista”46. Adolf Hitler tem uma reunião de alta-cúpula do partido nazista na Chancelaria do Reich. A invasão da Polônia. contra as cidades de Hiroshima e Nagasaki. 1995. Essa questão deve ser encarada sem sentimentalismo. ciganos.). A Segunda Guerra Mundial e a “Solução Final” na Conferência de Wannsee (1942) A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) constituiu. ALLEGRITTI. em Berlim. o Führer [líder] está determinado a realizar uma limpeza completa. a qual defendia que seria necessário expandir o espaço territorial do povo alemão. Além dos judeus. Inicialmente. 1 DVD. esquadrões da morte (Einsatzgruppen). em 12 de junho de 1941. 2010. 2009. empreenderam massacres indiscriminados contra inúmeras comunidades judaicas do Leste Europeu. Cumpre lembrar que Adolf Hitler. só visavam homens adultos. 2006. deficientes. Eric. extinguindo a antiga distinção entre recursos civis e militares na guerra48. pertencente à Schutzstaffel (SS). da escala de produção de armamentos. para depois também incluírem mulheres e crianças. A guerra mundial é uma realidade. tecnologia militar avançada. São Paulo: Saraiva.. Op. evangélicos. Rio de Janeiro: Record. da Polícia de Segurança. dos cinco continentes. Op. Pablo. José Flávio Sombra (Org. um dia após anunciar a declaração de guerra nazista contra os Estados Unidos. a tropa de elite de Adolf Hitler. São Paulo: Companhia das Letras. cristãos ortodoxos. Japão imperialista e aliados menores). incluindo o Holocausto e o uso pioneiro de armas nucleares. em 1941. S. 2009. São Paulo: Companhia das Letras. “o processo de massacres e genocídios – sobretudo. 1 DVD.. filha do compositor alemão antissemita Richard Wagner (1813-1883).. os ciganos e agentes políticos soviéticos também foram outros alvos51.destruição” dos elementos “não-arianos” seja da Alemanha ou do exterior. Não apenas o Judaísmo foi eleito como inimigo principal do Estado nazista. Eric. marcam o início do processo de extermínio sistemático contra o povo judeu e outras “categorias sociais indesejáveis”50. De fato.3 milhões de judeus até o final da Guerra. na “forma industrial de larga escala” – a “Solução Final e da Questão Judaica (Endlösung der Judenfrage)”.

e imbuído do mais extremado fanatismo pela ideologia nazista . Cit. tiveram participação ativa Reinhard Heydrich. 1995. França). de direita. tenha-se como ponto de partida. superando a quantidade de mil: isolamento e segregação dos judeus em relação às sociedades européias que os envolviam59. Robert E. há dois milênios58. com amplo consentimento e aprovação do ditador Adolf Hitler e de Heinrich Himmler. KERSHAW. O objetivo primordial da Conferência. levaram às últimas conseqüências o ódio coletivo e institucionalizado aos judeus: a sua efetiva eliminação física. e como “Plenipotenciário para a Preparação da Solução Final da Questão Judaica Européia”. para que se alcançasse um “esboço de projeto” dos elementos essenciais – organizacional. Standish. Cit. o Acordo de Munique (1938) BURNS. Martin.. 2010. Josef Buhler (Governo do Governo Geral). principalmente) e Totalitarismo de esquerda (representado pela União Soviética). Ian. Roland Freisler (Ministro do Reich da Justiça). Reino Unido e França. Pode-se propor a seguinte seqüência: 49 1ª) A divulgação propagandística (1925-1933) e a institucionalização (1933-1945) do mito ariano fortalecido com o livro Mein Kampf (1925). o combate rígido à “conspiração judaico-maçônica universal” e ao judeu “degenerado racial”. SS-Gruppenführer Otto Hofmann (Race and Settlement Main Office). homem de confiança de Adolf Hitler e Heinrich Himmler. cultural. Standish. funcionários civis graduados e oficiais da SS e do Partido Nazista. SS-Oberführer Dr. ou seja. não inventou o antissemitismo alemão ou europeu. incluindo os territórios ocupados (Polônia. 54 GILBERT.. e Tunísia).293. num palacete em Wannsee. 53 Idem. histórica e econômica. p. muito provavelmente. O nazismo. Martin. com a participação de oficiais nazistas.consolidou a ideia da eliminação do judeu. Donald. 5º) A atuação dos esquadrões de extermínio (Einsatzgruppen) no Leste europeu.defendia a “Solução Final”. este já existia. A Conferência de Wannsee (1942) constitui um pontochave. por exemplo) e de países africanos (Marrocos. Porém. Dr. era de tornar factível a idéia de extermínio físico dos judeus defendida por Adolf Hitler. a intensa polarização ideológica – totalitarismos de direita (Alemanha.de maior contingente populacional judaico. nacionalismos exacerbados. Os Nazistas e a Solução Final – A Conspiração de Wannsee: do Assassinato em Massa ao Genocídio. Georg Leibbrandt (Ministro do Reich para os territórios ocupados no Leste). interpretado como “inimigo da raça ariana”. radial e sistemática versão do antissemitismo europeu em toda sua história. 23 . a mais violenta. Nesta reunião. Dr.000 judeus para campos de concentração e quase 100 judeus assassinados – início do processo de eliminação física dos judeus. SS-Sturmbannführer Dr. mas também da própria ideologia nazista.. SS-Oberführer Gerhard Klopfer (Chancelaria do Partido). República da Tchecoslováquia. homem de confiança e provável sucessor do segundo. Dr. Dentre as principais causas da eclosão da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) encontram-se: os defeitos do Tratado de Versalhes (1919). 2008. não apenas à luz dos assassinatos isolados ou em massas praticados contra os judeus. Rudolf Lange (Comandante da SD para a Letônia). Op. no paulatino. da África do Norte (e. dominado a França e enfraquecido o Reino Unido . Ministerialdirektor Friedrich Wilhelm Kritzinger (Chancelaria do Reich). orientado por Herman Göring. Alfred Meyer (Ministério do Reich para os territórios ocupados no Oeste). Martin Luther (Ministério do Exterior). O Holocausto: História dos Judeus na Europa na Segunda Guerra Mundial. tanto a ideologia como o regime totalitário. a deportação em massa das comunidades judaicas remanescentes e amplo processo de extermínio de mais de 11 milhões de judeus em toda a Europa. se a Alemanha tivesse vencido a Guerra)53. Joseph Goebbels.. na Polônia e na União Soviética. desde a Kristallnacht (ou “Noite de Cristais”.um dos mentores da Conferência de Wannsee (1942). 55 Idem.Alemanha anexando a Áustria. Argélia. Nesta reunião. e ocupando militarmente a Tchecoslováquia. & MEACHAM. Erich Neumann (Chefe da secretaria do plano dos 4 anos). União Soviética. detenção de mais de 30. Esta questão deve ser analisada. Karl Eberhard Schongarth (Comandante da SD). de países aliados (como a Hungria). Reinhard Heydrich. 2º Volume. SS-Obersturmbannführer (Secretaria Central da Segurança (Gestapo)54. Hitler. de países ainda não invadidos (o Reino Unido) e países neutros (Portugal. Edward McNall. antes mesmo do advento do Cristianismo.. sobretudo. com certeza. muitas vezes. certamente. Há distintas formas de se abordar o processo de extermínio do povo judeu pelo Estado nazista. Reichsamtleiter Dr. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. e Adolf Eichmann (1906-1962). caso houvesse vitória da Alemanha nazista. Reinhard Heydrich. São Paulo: HUCITEC. Itália e Japão) versus Democracias Liberais (Estados Unidos. com a devida premeditação e planejamento do Estado nazista: destruição e saque de mais de mil sinagogas e dezenas de milhares de lojas e lares judaicos. 2ª) Leis de Nuremberg (Nürnberger Gesetze) (1935). factual e material – em relação à “Solução Final”. Op. 52 GILBERT. Ian. Cit. 2º Volume 51 KERSHAW. Wilhelm Stuckart (Ministro do Reich para o Interior). agressiva. às margens do lago que leva este nome. nos subúrbios de Berlim. Ibidem. & MEACHAM. Dez Decisões que Mudaram o Mundo (1940-1941). estes) e de todos os “inimigos da raça ariana”61. Itália em conflito contra a Líbia e a Etiópia. a Guerra Civil Espanhola (1936-1939). da vida européia (e. social. a corrida armamentista e o expansionismo militarista agressivo . São Paulo: Cia das Letras. Op. identitária. Edward McNall. progressivo e tenaz processo de extermínio dos judeus do continente europeu e também do Norte da África (ponto este. LERNER. a Lei da Cidadania do Reich (Reichsbürgergesetz). SS-Gruppenführer Heinrich Muller. Dela também participaram os seguintes nazistas: Gauleiter Dr. e a Lei da Proteção do Sangue e Honra Alemães (Gesetz zum Schutze des deutschen Blutes und der deutschen Ehre): normatização do processo de arianização da sociedade e Estado alemães e da crescente exclusão da vida social. em 1938)56 até os extermínios promovidos pelos Einsatzgruppen. Cit.. 2010. no mesmo ano. a partir da Operação Barbarossa (12 de junho de 1941): o início do processo de assassinato em larga escala de comunidades judaicas. reuniram-se. Cit. o enfraquecimento institucional e político da Liga das Nações (1919-1939). designado por Adolf Hilter e por Heinrich Himmler. Heinrich Himmler e Hermann Göring e outros membros da cúpula nazista55. 3º) Noite de Cristais (Kristallnacht) (10 de novembro de 1938). 4ª) Processo de Guetorização: criação dos guetos. 6º) Institucionalização dos Campos de Extermínio (Vernichtungslager): a tentativa de exterminar todos os judeus da Europa. religiosa. compostas por três textos fundamentais adotados pelo Reichstag sob iniciativa de Adolf Hitler: a Lei da Bandeira do Reich (Reichsflaggengesetz).Companhia das Letras. SOMMERVILLE. 50 DAVIES. Dr. Robert E. Op. Espanha e Suíça. Op. do contexto mundial. LERNER. Ibidem. a qual apresentava. na Alemanha nazista. 2003. BURNS. Dr. em 1938. embora tenebroso à razão humana e ao próprio pensamento humanista. Mark. de Adolf Hitler. Norman. São Paulo: Companhia das Letras. em seu cerne. econômica e cultural do judeu da vida coletiva na Alemanha nazista. as demais regiões do mundo)60: a “industrialização em larga escala” do extermínio dos judeus (sobretudo. Em 20 de janeiro de 1942. negligenciado pelos historiadores)57. ROSEMAN. Japão contra a China e outros países do Extremo Oriente.

Martin. Mestres da Morte – A Invenção do Holocausto pela SS Nazista. 2010. 2009. 2006. GILBERT.. Disponível em: <www. Martin. 2005. 5ª Ed. Op. desde os tempos em que havia servido no Campo de Concentração de Dachau . São Paulo: Planeta do Brasil. Educação e Emancipação. LERNER.. São Paulo: HUCITEC.) a guerra não terminará como imaginado pelos judeus. Acessado em 23/04/2011. 2006. “Educação após Auschwitz”. fanático nazista e obsessivo “arquiteto” da Solução Final. 2004 CURY. CARNEIRO. Martin. Paul. BURNS. 2010. de modo especial. 2010. Richard. Rio de Janeiro: Ediouro. Rio de Janeiro: Paz & Terra. E – os judeus de todo o mundo podem até ter consciência de que – quanto mais se estendem as batalhas desta guerra. São Paulo. sendo a tropa de elite de confiança de Adolf Hitler. 2010. O Holocausto: História dos Judeus na Europa na Segunda Guerra Mundial. Martin. Além disso. 1 DVD. seja com a “industrialização em larga escala” da máquina da morte nos campos de extermínio nazistas (Vernichtungslager) . Em 30 de janeiro de 1942. São Paulo: HUCITEC. São Paulo: Companhia das Letras. 63 EVANS. 59 As autoridades nazistas de ocupação estabeleceram o primeiro gueto na Polônia em Piotrków Trybunalski. ALLEGRITTI. Richard. EVANS./Theodor-Adorno-EducaCAo-ApOs-Auschwitz>. 58 MESSADIÉ. Felipe Quintão. Abraham (Co-Presidente Nacional da B´nai B´rith Brasil). GOLDSTEIN. A Noite de Cristal: A Primeira Explosão do Ódio Nazista contra os Judeus. Chełmno. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. Martin. BASCOMB. Gerard. Cit. ROLAND.. pela primeira vez. A Chegada do Terceiro Reich. em comunicação interceptada pelo Serviço de Inteligência aliado. 2010. Cit.o implacável antissemita. O Holocausto: História dos Judeus na Europa na Segunda Guerra Mundial.. Caçando Eichmann – Como um Grupo de Sobreviventes do Holocausto Capturou o Nazista mais Notório do Mundo. 64 A História do Terceiro Reich. São Paulo: HUCITEC. A Noite de Cristal: A Primeira Explosão do Ódio Nazista contra os Judeus.por sua fidelidade a Reinhard Heydrich. na cosmovisão da ideologia nazista. Rio de Janeiro: Record. das Forças Armadas. GILBERT. promovidos pelo Terceiro Reich (1933-1945). p.com/. Richard. Rio de Janeiro: Objetiva. Rio de Janeiro: Ediouro. a SS desponta paulatinamente com uma importância estratégica crescente durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945)63. A Noite de Cristal: A Primeira Explosão do Ódio Nazista contra os Judeus. Augusto. Robert E. Standish. Abraham. BRASIL. O Mais Completo Guia sobre Judaísmo. Hannah. Martin. USA Filmes. Pais Brilhantes e Professores Fascinantes. 2010. 1999. 2010. encontrava-se na centralidade do processo de arianização do Estado. Ian. Martin. A Chegada do Terceiro Reich. eles não sangrarão outros povos até a morte. Majdanek. será aplicada.mec.Adolf Eichmann tornou-se . Eichmann em Jerusalém – Um Relato sobre a Banalidade do Mal.297. São Paulo: Planeta. E chegará a hora em que o mais vil inimigo universal de todos os tempos será derrotado. “Lei de Diretrizes e de Base da Educação” (Lei 9394/96). Perspectiva. Disponível em: <http://portal. O Holocausto: História dos Judeus na Europa na Segunda Guerra Mundial. Bauman e Adorno: Sobre a Posição do Holocausto em Duas Leituras da Modernidade. depois de manifestar a “confiança da vitória” da Alemanha62: (. São Paulo: Planeta. Martin. da sociedade e da cultura alemães. Dez Decisões que Mudaram o Mundo (1940-1941). pelo menos por mil anos. em discurso proferido na Chancelaria. Cit. dez dias após a realização da Conferência de Wannsee (1942). 2003. Op. “Discurso de Abertura da V Jornada Interdisciplinar sobre o GILBERT. 3ed. 2004. O Holocausto: História dos Judeus na Europa na Segunda Guerra Mundial. S. Ele se alimentará em cada campo de prisioneiros e em cada família que descobrir a razão dos sacrifícios que são obrigados a fazer. Rio de Janeiro: Ediouro.. Agora. A SS constituiu a peça-chave do processo de extermínio do povo judeu e de outros “inimigos da raça ariana”.. São Paulo: Ática. a se transformar tanto na nova aristocracia como na classe de “sacerdotes” dos mistérios antigos teutônicos (anteriores à cristianização da Alemanha)64. Benjamin (Rabino). 2008. ao Exército alemão (Wermacht). 2006. 61 KERSHAW. Rio de Janeiro: Sextante. 2010. Dissertação de Mestrado. São Paulo: HUCITEC. com a eliminação dos arianos. ___. Martin. Europa na Guerra (1939-1945). São Paulo: Francis. …E o Mundo Silenciou. Concorrente ao poder das Forças Armadas tradicionais. BLECH. mas. 7ª ed. 2007. Holocausto: Crime contra a Humanidade. 2005.scribd. ARENDT. São Paulo: HUCITEC. SUBSECRETARIA DE INFORMAÇÕES. Rio de Janeiro: Globo. SENADO FEDERAL. O Holocausto: História dos Judeus na Europa na Segunda Guerra Mundial. 2º Volume. Rio de Janeiro: Ediouro. 62 GILBERT. ADORNO. Adolf Hitler assim expressava suas expectativas em relação ao rumo da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e à Questão Judaica. no mês de outubro de 1939 60 GILBERT. 56 57 24 . RHODES.d. Ben. ___. GILBERT. Norman. Maria Luiza Tucci.br/arquivos/pdf/ldb. pela primeira vez. Martin. São Paulo: Cia das Letras. Pablo. Sobibór e Treblinka... 2006.Auschwitz-Birkenau. mais o antissemitismo se difundirá. Raquel.pdf>. 2010. o resultado desta guerra será a completa aniquilação dos judeus.. 2006. a velha lei judaica de ‘olho por olho e dente por dente’. A Noite de Cristal: A Primeira Explosão do Ódio Nazista contra os Judeus. GILBERT. GILBERT. ALMEIDA. Neal. Mas não apenas isso: a SS estaria vocacionada. REFERÊNCIAS ABRAHAM. GILBERT. Acessado em 27/04/2011. Op. 1986. 2010. Nunca mais? – A Ameaça do Novo Anti-Semitismo. seja com os esquadrões da morte (Einsatzgruppen). O Holocausto: História dos Judeus na Europa na Segunda Guerra Mundial. FOXMAN.. Theodor. ADORNO. São Paulo: Sefer. Edward McNall.gov. Programa de Pós-Graduação em Educação. GILBERT. São Paulo: HUCITEC. A Conferência de Wannsee (1942) veio a confirmar o papel principal desempenhado pela SS no fortalecimento do Terceiro Reich (1939-1945). STIVELMAN. São Paulo: WG Comunicações e Produções. História da Civilização Ocidental – Do Homem das Cavernas às Naves Espaciais. Preconceito Racial em Portugal e Brasil Colônia. Bełżec. Universidade Federal de Santa Catarina. Theodor W. O Clã de Hitler.. 1972. DAVIES. & MEACHAM. 2003..

FILMOGRAFIA A História do Terceiro Reich. Disponível em: < http://www. RHODES. Marcelo Vieira.Coleção Teatro Moderno.d. LEITURAS COMPLEMENTARES AS LEIS DE NUREMBERG: A INSTITUCIONALIZAÇÃO DA EXCLUSÃO DE MINORIAS Tulio Chaves Novaes65 1. Era dos Extremos: O Breve Século XX (19141991). ISRAEL. Tese de Doutorado. 25 . 1 DVD. 2009. 2008. não é algo comprometido com a noção de bem ou mal – que são vetores morais contingentes à determinada conjuntura sócio-cultural. F e Hackett . 27ª Edição 2006 Goodrich. no entanto. Declaração de Independência (Governo de Israel. Tel Aviv. O Diário de Anne Frank . 2004.. por exemplo. São Paulo: Madras. apresentou-se durante o século XX como um dos instrumentos mais eficazes de sujeição e controle das pessoas através da força ou autoridade de determinado governo. ___. Revista e Atualizada. Rio de janeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.A . SÉMELIN. Realizada em Curitiba. Paul. 1995. Judaísmo para Todos. Adam Kemp e Neil McDonald. Dez Decisões que Mudaram o Mundo (1940-1941). São Paulo: Companhia das Letras. Holocausto. New York: Lorenz Books. SORJ. Para que lo sepan las Generaciones Venideras: La Recordación Del Holocausto em Yad Vashem. 2003. ou arte tampouco. YAD VASHEM. visto como o conjunto de regras e princípios que regulamentam e organizam a vida social em determinado tempo e espaço. Eric. São Paulo: Imago. São Paulo: Civilização Brasileira. JOHNSON. 2º Ed. São Paulo: Companhia das Letras. Hitler. com. Mark. Jean-Baptiste. no dia 06 de junho de 2008.br/Abril2006/artigos/2. Pierre & DUROSELLE.com. mestre em direitos fundamentais e relações sociais pela UFPA. o direito.. Rio de Janeiro: DIFEL. São Paulo: Saraiva. ROSEMAN. Produtores Bill Locke e Chris Kelly. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. ESCUELA INTERNACIONAL PARA EL ESTUDIO DEL HOLOCAUSTO. Acessado em 29/04/2011. Jerusalén: Yad Vashem. The Complete Illustrated History of World War Two: An Authoritative Account of the Deadliest Conflict in Human History with Analysis of Decisive Encounters and Landmark Engagements. Raquel.html>.asp?cod=152>. 1975. Purificar e Destruir: Usos Políticos dos Massacres e dos Genocídios. 2003. STIVELMAN. DEPARTAMENTO DE EDUCACIÓN Y DESARROLLO. conduzido pelo poder totalitário. História das Relações Internacionais Contemporâneas – da Sociedade Internacional do Século XIX à Era da Globalização. As Forças Negras desencadeadas pelo Terceiro Reich. 2008. O Santo Inquérito. Memória e Identidade Social: A Experiência da Fundação Shoah. Criação do Estado de Israel. sob certo viés analítico.visaojudaica. 1988. Primo. Donald. Portugália Editora. USA Filmes. É Isto um Homem? . mas de forma completamente deplorável em seu conteúdo. RENOUVIN. 2003. Programa de PósGraduação em Sociologia e Antropologia. Atualmente exerce a profissão de Promotor de Justiça e professor de Direito Constitucional e Administrativo na Universidade Luterana do Brasil em Santarém (PA). São Paulo: DIFEL. o aval oficial de uma lei nacional de referência funcionou como etapa estratégica pedagógica ao projeto progressivo de dominação global. entendido como sinônimo de lei. Bertold. “O Papel do Docente na Construção da Memória do Holocausto”. 1 DVD. Levi. proveniente de um conjunto de leis concebidas de maneira perfeitamente válida em sua aparência. Editora Rocco.). doutorando em direitos humanos pela Universidade de São Paulo (USP) e membro do LEER/USP desde 2009. Produtores Executivos: Richard Bradley. representa. BBC Worldwide. 1995. foram praticados dentro da mais rigorosa aferição legal. José Flávio Sombra (Org. S. Bernardo.Ensino do Holocausto”. Gomes. KERSHAW. História dos Judeus. Rio de Janeiro. este ramo do conhecimento humano em si não se confunde com ciência.5. Introdução à História das Relações Internacionais. 5ª Edição. KEEGAN. São Paulo: Companhia das Letras. SUGESTÕES DE LEITURA Brecht. 2006. Dias. Uma História da Guerra. Paul. 2010.bnai-brith. Richard. Todos os atos opressivos. Apesar de admitir diversas abordagens metodológicas. O Ódio entre os Homens – Anti-Semitismo: o mais Longo dos Ódios. O Terror e a miséria no Terceiro Reich. Ian. mecanismo instrumental 65 Tulio Chaves Novaes é bacharel em direito pela Universidade Federal do Pará (UFPA). Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. 14. São Paulo: Companhia das Letras. Rio de Janeiro: Imago.1948). WALSH. ___. Editora Ediouro. 1995. Jacques. filosofia. Os Nazistas e a Solução Final – A Conspiração de Wannsee: do Assassinato em Massa ao Genocídio. São Paulo: Cia das Letras. Tempos Interessantes – Uma vida no Século XX. 2009. John. Acessado em 25/04/2011. Assim. LERNER. Kátia. Mestres da Morte – A Invenção do Holocausto pela SS Nazista. SOMMERVILLE.br/content/mail/press_especial. MESSADIÉ. Historicamente. Editora Agir . 1967. HOBSBAWN. Universidade Federal do Rio de Janeiro. SARAIVA. 2007.. ROLAND. 5 Iyar 5708. 2ª Ed. História Geral do Anti-Semitismo. 2003. realizados pelo Estado nazista no início da perseguição aos judeus. Disponível em: < http://www. ISRAEL. 2010. PROPOSTA PEDAGÓGICA: uma abordagem histórica sobre o processo de construção dos direitos humanos na modernidade O direito. 2008. 2003. Gerard.

criando verdadeiras aberrações jurídicas do ponto de vista ético e moral. Mas. Muito pelo contrário. com a presente exposição. 10 de Dezembro de 1948 – A Declaração Universal dos Direitos Humanos. 26 .19. a história da discriminação e do preconceito. op. implicando neste sentido.. A principal característica deste momento inicial. nem trilho. Assim. como ocorria na Idade Média com o chamado direito natural. culminando com a bestialização de seres humanos. Segundo SARLET. Não fortuitamente. Rio de Janeiro: Renovar. no rol de suas causas essenciais. apesar do grande malefício provocado ao povo judeu. 2. 2005. além de propiciar e promover sua participação ativa e co-responsável nos destinos da própria existência e da vida em comunhão com os demais seres humanos” – SARLET. o conjunto sistemático de normas positivas e princípios jurídicos. ou por algum outro tipo de fonte inspiradora politicamente conveniente. correspondem à conquista moderna da sociedade humana. Na definição encontramos alguns elementos estruturais que denotam a raiz pragmática destes tipos especiais de normas. sem freio. propostos pela Lei da Cidadania do Reich e pelas Leis para a Proteção do Sangue e Honra Alemã. Teoria Geral dos Direitos Humanos na Ordem Internacional. Tendo a condição humana como única exigência. A partir do momento em que a violência tornou-se juridicamente institucionalizada. Opressão institucionalizada e racismo. hodiernamente. tidos como pertencentes a todas as pessoas. que. Regina Célia. 72 Para melhorar o entendimento sobre o tema vide PEDROSO. desta feita. determinada pelo consenso internacional e aprendizado histórico proveniente do reconhecimento de graves erros do passado. 2001. encabeçadas pela Declaração Universal de 1948. que visam proteger certos valores históricos universais. igualdade e na dignidade67. p. Ingo Wolfgang. pois as mesmas são apresentadas como um conjunto de direitos. 71 Mas o problema primordial não se resumia apenas na ausência de estrutura orgânica e funcional eficiente para implementar tais direitos – fato que vincula-se muito mais às controvérsias humanísticas de hoje em dia. foram os mais diversos possíveis. Entendidos desta maneira. 70 Para aprofundamento da temática vide: LÖWY. como veremos nos tópicos seguintes. Porto Alegre: Ed. Walter Benjamin: Aviso de Incêndio: Uma Leitura das Teses “Sobre o Conceito de História”. entender como a retirada da cidadania dos judeus representou etapa essencial ao processo 67 68 de desumanização perpetrado pelo Estado nazista. as “Leis de Nuremberg” de 1935 representaram o passo fundamental ao reforço do discurso ideológico totalitário. tende a reproduzir em escala seus efeitos na atualidade. André de Carvalho. Livraria dos Advogados. no seu conjunto.20. na sua RAMOS. série Rupturas. descendo uma ladeira íngreme. São Paulo: Boitempo. em parte. os direitos humanos. evidenciados pela sua necessidade de gozo ou efetivação. Na Alemanha nazista a desumanização do povo judeu não representou fenômeno vinculado somente a causas sociológicas ou culturais. bem como pela profundidade de conteúdo. o qual. o resgate histórico da memória da legislação nazista dos anos 30. Ao contrário disto. a razão de Estado define possibilidade de ingerência da política no sistema jurídico. A complexa etiologia do holocausto inclui o incentivo pedagógico. da justiça e da desvirtuada razão de Estado. apresentamos a definição fornecida pelo professor André de Carvalho Ramos. ditado pela cúpula da Igreja Católica Romana. transformou-se em algo trivial. o qual entende os direitos humanos da seguinte maneira: . nem maquinista definido! Este papel estruturante referenciado não diminui a importância pragmática do universo jurídico na reprodução dos valores sociais vigentes. como o castigo de Prometeu. 2005. como as referidas “Leis de Nuremberg”. André de Carvalho. promulgadas pelo Estado alemão em 24 de setembro de 1935. Conforme o nível de institucionalização dos vetores e necessidade de controle das massas. que tipos de direitos seriam estes? Qual a sua ontologia? Para responder a estas perguntas acrescentaríamos à idéia conceitual inicial o referencial histórico que lhes condiciona e define o conteúdo. proporcionou a cristalização moderna daquilo que costumeiramente chamamos direito internacional dos direitos humanos. Michael. cit. organização e controle do poder. um complexo de direitos e deveres fundamentais que assegurem a pessoa tanto contra todo e qualquer ato de cunho degradante e desumano. Noções Teóricas Sobre Direitos Humanos Fundamentais66 Existem diversas explicações que procuram conceituar teoricamente o que seriam os Direitos Humanos Fundamentais.60 apud RAMOS. Não são direitos unilateralmente prescritos por uma mente privilegiada. propiciando seu condicionamento ideológico. caminham quase sempre de mãos dadas. Ocorre que. estes direitos especiais fornecem base concreta para a caracterização do valor dignidade humana68. tais direitos encontram-se vinculados em base socialmente verificável. Os mecanismos de ideologização do direito. supranacionais.conjunto mínimo de direitos necessário para assegurar uma vida do ser humano baseada na liberdade. ou seja.. Pela objetividade semântica e didática. p. da Universidade de São Paulo.indispensável à sistematização. como venham a lhe garantir as condições existenciais mínimas para uma vida saudável. dado pela oficialização da discriminação através da promulgação de legislação nacional francamente racista e restritiva. procuraremos demonstrar. praticado pelo governo nazista em nome da lei. de fato. tais elementos variaram da oficialização dos mitos sociais ao apelo ostensivo ao nacionalismo unificador do discurso do triunfo sobre o inimigo objetivo. em seguida. São Paulo: Editora Lazuli. que culminou com o genocídio praticado nos campos de extermínio. 73 Ibidem. explicitaremos algumas convicções generalizadas sobre a natureza de tais direitos para. destes três últimos elementos listados. estava na ausência de uma base normativa internacional capaz de aglutinar objetivamente estes direitos em espécie. E foi justamente através da via ideológica que o poder que oprime introduziu no direito posto suas regras de dominação. resultante da superação de momentos históricos de opressão e do reconhecimento dos povos da necessidade de proteção de certos valores fundamentais à vida com dignidade. o menosprezo pelo direito à diferença. Partindo deste ponto específico. p. 2006. sem a memória dos fatos opressivos e sem consciência crítica para identificar e combater manifestações pragmáticas da intolerância moderna. que representava verdadeiro óbice a qualquer iniciativa de sistematização de leis. Dignidade da Pessoa Humana e Direitos Fundamentais. Sem o direito o poder é como um pesado vagão de trem. Além de reconhecer o papel da cidadania na construção dos direitos humanos fundamentais e na prevenção aos influxos autoritários do poder político. portanto. dignidade é “a qualidade intrínseca e distintiva de cada ser humano que o faz merecedor de respeito e consideração por parte do Estado e da comunidade.

hoje em dia não mais entendida como sinônimo de poder absoluto. 2) O segundo momento só viria com o fim da Segunda Guerra Mundial. dos pogrons. ao direito ao trabalho. a liberdade de ir e vir. firma impossibilidade de se estabelecer qualquer tipo barganha com certos bens humanos tidos por inalienáveis. Esta característica ensejaria noção de preço. 163-255. acaba por entender e determinar a existência de alguns bens que não se sujeitam a nenhum tipo de preterição ou pechincha. o direito à vida. a privacidade. proibição de discriminações. 75 Rol apresentado por RAMOS. pode ser dividido em dois momentos estruturalmente distintos: 1) Antes deste marco. ditos de primeira e segunda geração. Com a proeminência de tal sistema jurídico específico a idéia westffaliana de soberania política. igualdade.71 Tal documento jurídico coroava normativamente uma série de direitos fundamentais e inalienáveis. Diferentes em abrangência e importância temática. Concomitantemente vieram os direitos de segunda geração. como as que resultaram na Constituição Mexicana de 1919. o Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos. tomando por base a Declaração Universal de 1948. Na prática o diploma internacional referido sintetizou diversos direitos históricos. a integridade física e mental. diante da fragmentação da ordem política internacional – proveniente. ao contrário dos direitos individuais. Estas disposições normativas. classicamente. à saúde. ou seja. soa como verdadeira Constituição Mundial que. Assim. ao repouso. a não ser para reforçá-las e protegê-las. Em espécie. de forma fundamental. qualificados como liberdades públicas essenciais. fundada na legitimidade proveniente de concordância internacional. diferentemente do homem em suas relações interindividuais. qualificada pela doutrina kantiana como inegociável. lugar onde. que a base ético-material desta noção teórica permanece ligada à negação de todos os momentos históricos em que seres humanos foram tratados como objetos inanimados. em primeiro momento. pela sua importância. a nacionalidade. Sua base subjetiva estabelecia um campo de garantias individuais imune à ingerência estatal. promulgou a Declaração Universal dos Direitos do Homem. A vida do homem em sociedade. Bem como outros direitos que venham à lume através do processo de desenvolvimento dialético histórico. tínhamos o que se pode chamar de fase pré-jurídica. ou direitos sociais. onde a força normativa de certos direitos tidos como inalienáveis ainda se sujeitava sobremaneira ao empirismo resultante do direito natural e às vicissitudes sócioculturais de cada país soberano no exercício de sua boa vontade. –. estas liberdades são as seguintes: liberdade pessoal. de associação. André de Carvalho. a ordem jurídica internacional – simbolicamente através da negação dos campos de concentração. a regra passa pelo gerenciamento e controle por parte do Estado. das pilhagens e carnificinas organizadas. a liberdade de casar e os chamados direitos políticos18. tidos como pertencentes a todos os seres humanos. cit. São espécies destes bens a liberdade. correspondem à seguridade social. a saúde. parte 2. a segurança pessoal etc. à nacionalidade. A exploração e a ausência de regulamentação da jornada de trabalho. à associação sindical. na prática administrativa diária cada Estado ditava a solução mais conveniente no campo da preservação de valores essenciais70. a liberdade de opinião. a Assembléia Geral das Nações Unidas. op. em resumo. que foi aderida pelo Brasil também em 1992. proibição de prisões arbitrárias. a proteção por tribunais oficiais neutros. passíveis de submissão ou destruição por parte de outras pessoas ou estruturas políticas totalitárias. representada pela Declaração Universal de 1948 e seus documentos primordiais. sob a pressão da invasão nazista à França e diante da instauração da ditadura de Vichy. a propriedade. Por tal característica estes direitos são vistos como liberdades positivas. à vida cultural73. percebe-se. Os direitos de primeira geração. O significado moral desta injunção reside no entendimento de que o ser humano não pode ser comparado. dos genocídios e etnocídios etc. a família. nem mesmo diante do dogma da soberania estatal. a liberdade de pensamento e de crença. por sua vez. que. aos lazeres. sugeria a necessidade de intervenção do Estado para o desenvolvimento de políticas públicas que dariam azo à diminuição de desigualdades e ao estabelecimento de melhores oportunidades de vida e subsistência.essência. em 10 de dezembro de 1948. pp. este conjunto de leis suscitou a subsistência de verdadeiro sistema mundial de disposições defensivas dos direitos humanos fundamentais. foram concebidos a partir das conquistas trabalhistas do século XIX e XX. ou brasileira de 1934. ao sacralizar tais valores. O processo de construção do sistema jurídico internacional de direitos humanos fundamentais. o trabalho remunerado de forma justa. resultou em diversos outros documentos jurídicos internacionais74. a alimentação. fornecido por Walter Benjamim69 antes de seu suicídio. Por isso tais direitos foram também qualificados como liberdades negativas. necessária à imposição de certos deveres e obrigações jurídicas aos entes estatais –. das disputas bélicas e econômicas que motivaram a Primeira Grande Guerra e da inexistência de estrutura supranacional consensual. baseada na possibilidade irrestrita dos Estados gerenciarem a vida e os Citamos. onde. à segurança. independentemente do que poderiam definir os Estados nacionais. mormente. Esta base normativa internacional. Próximo ao conceito de história. ocorrido em circunstâncias suspeitas em setembro de 1940. Igualmente mencionamos a Convenção americana sobre Direitos Humanos (conhecida com Pacto de São José da Costa Rica). Neste primeiro momento. ano da fundação oficial do Estado de Israel em meio à dor proveniente das seqüelas incuráveis do pós-guerra e diante das imagens das atrocidades praticadas pelos nazistas nos campos de extermínio. o direito ao asilo. presunção de inocência. via de regra. Assim. o direito de propriedade. de reunião. provocaram lutas proletárias intensas que evidenciaram a necessidade de se resguardar direitos relacionados à esfera social das relações humanas. Já a idéia de dignidade suscitaria propriedade bem diferente. não seria admissível qualquer intromissão estatal. à educação. o direito ao julgamento pelo juiz natural. em reação em cadeia. nem tratado como coisa fungível ou descartável. foram provenientes da declaração francesa de 1789 e representaram os valores relacionados à liberdade individual do cidadão frente ao Estado. Sociais e Culturais e o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos (ambos ratificados pelo Brasil apenas em 1992). 74 27 . a educação.

podendo ser invocados de imediato nos Tribunais por parte dos interessados. também em 15 de setembro de 1935. As Leis de Nuremberg A vigência da noção da soberania estatal como poder absoluto. que deseja servir fielmente ao povo alemão e ao Reich. pelo menos em tese. estava composto por integrantes do partido nazista. em critérios relacionados à pureza de sangue. Esta lei foi estabelecida nestes termos: artigo 1º: I) São proibidos os casamentos entre judeus e cidadãos de sangue alemão ou aparentado. estaria completamente alijado da proteção estatal. compostas pelo conjunto integrado de duas outras legislações – as Leis para a Proteção do Sangue e Honra Alemã e a Lei da Cidadania do Reich – representam um destes malsinados modelos. Desta forma. Com a iniciativa. sujeitando-se a qualquer tipo de anátema. artigo 2º: I) Um cidadão do Reich é aquele sujeito que é alemão ou que é de sangue alemão e que provar. que se integram e interagem em uma mesma base intercomplementar. Caráter erga homnes: estes direitos foram criados para englobar não só as pessoas do mundo inteiro. cometidos em nome da lei contra direitos fundamentais. Dentro da primeira definição. os direitos humanos fundamentais só podem ser ampliados ou aperfeiçoados. A regulamentação informada estruturava-se em duas direções: uma se relacionava aos aspectos formais da concessão e do reconhecimento da cidadania alemã. não há nem mesmo a necessidade de assinatura de tratados internacionais para obrigar determinado Estado a respeitar os limites salutares à sobrevivência das pessoas. Adéquam-se a todas as pessoas. baseado. bem como a inexistência orgânica e funcional de sistema jurídico internacional apto a fazer valer suas prescrições normativas. representado por deveres e garantias que devem ser obedecidos por todos. não se pode agredir um determinado direito humano fundamental sem agredir os outros. 3. Universalidade: os direitos humanos fundamentais extrapolam a órbita da nacionalidade. sobretudo. Interdependência: não se podem desgarrar tais direitos. objetivando diretamente à marginalização dos judeus. quem não se enquadrasse biologicamente dentro dos padrões étnicos e culturais. na ocasião. ou seja. independentemente de assinaturas de tratados ou outros documentos internacionais. definidos pela ordem jurídica como oficiais. hoje em dia. ou limites de tempo e espaço. relegou-se discricionariamente ao Estado o poder para a concessão da cidadania alemã como condição ao exercício de certos direitos fundamentais e proteção estatal. Abertura: o valor que vivifica seu conteúdo não é imutável. podem ser listadas didaticamente através dos seguintes pontos objetivos75: Superioridade normativa: no plano interno ou no internacional as regras e princípios de direitos humanos sempre ocupam lugar de destaque. independentemente da idéia de soberania nacional ou idiossincrasias culturais. II). Desta forma. determinaram exemplos históricos contundentes de abusos. artigo 3º: O Ministro do Interior do Reich e o substituto do Führer emitirão os decretos legais e administrativos necessários para executar e completar esta lei. II) O Direito de cidadania é conseguido pela concessão dos documentos de cidadania do Reich. a implementação prática de seus preceitos é crescente e obrigatória. outorgadas em 15 de setembro de 1935 na cidade de Nuremberg pelo Parlamento Alemão (o chamado Raichstag). Dimensão objetiva: além de representarem direitos de pessoas. Eficácia horizontal: além de validade nas relações entre particulares e o poder público. por seu turno. Complementando os objetivos discriminatórios da legislação apresentada. Consistiram de per si em conjunto de normas jurídicas. os direitos humanos fundamentais também denotam aspecto institucional. As chamadas “Leis de Nuremberg”.O status de sujeito é adquirido conforme providências do Reich e lei do Estado de Cidadania. Aplicabilidade imediata: tais direitos não dependem de outras leis ou quaisquer outros desdobramentos normativos para se efetivarem. mas também todos os Estados nacionais. Os casamentos celebrados apesar dessa proibição são nulos 28 . a outra. ou seja. III)Somente o cidadão do Reich desfruta de Direitos políticos completos de acordo com as determinações das leis. em qualquer momento da história. tais direitos são suscetíveis à evolução histórica e ao aprimoramento cultural. cindiu-se a sociedade alemã. Exigibilidade: os direitos humanos fundamentais são eminentemente vinculados a uma necessidade ética. Indivisibilidade: pois nenhum dos direitos humanos pode ser separado do seu contexto conjuntural. merecendo igual proteção. Proibição de retrocesso: como patrimônio da humanidade. Esta legislação discriminatória prenunciou a perseguição sistemática ao povo judeu. que. Os artigos desta lei afirmavam o seguinte: artigo 1º: I) Um sujeito do Estado é uma pessoa que pertence à união protetora do Reich alemão e que tem obrigações particulares com o Reich. ligadas a valores culturais segregacionistas e racistas. ninguém pode renunciar aos direitos humanos fundamentais. para rebaixar oficialmente os judeus à qualidade de cidadãos de terceira categoria. revelando superioridade na hierarquia das normas. modelando as regras da chamada “Lei da Cidadania do Reich”. As características primordiais dos direitos humanos fundamentais. baseado na possibilidade de interferência internacional em qualquer lugar para a garantia destes direitos inalienáveis. Indisponibilidade: em regra. que privava os judeus de quase todos os direitos civis individuais e políticos. por sua conduta. ou seja. vedando-se aos Estados a possibilidade de diminuição ou aviltamento direto ou indireto do nível de proteção já alcançado. os mesmos direitos também valem e devem ser respeitados nas relações entre os próprios particulares. o governo nazista promulgou a chamada “Lei para a Proteção do Sangue e Honra Alemã”. compunha a delimitação e identificação dos sujeitos destes direitos.direitos das pessoas sujeitas ao seu poder. cedeu espaço a outro modelo protetivo. criando um sistema racial de reconhecimento de cidadania.

individuais e sociais. artigo2º: As relações extra-matrimoniais entre judeus e cidadãos de sangue alemão ou aparentado são proibidas. ao descrever o 76 O que os direitos humanos procuram fazer é vincular parte significativa do potencial transformativo da ordem jurídica a serviço do próprio homem. nesta situação. Estes grupamentos humanos subordinados foram tendenciosamente identificados como inimigos do bem comum e como estorvo ao desenvolvimento sócio-econômico. à necessidade de oficialização dos valores antissemitas no seio da sociedade alemã. com a retirada completa de todos os direitos e garantias fundamentais. com os negros americanos que vivenciaram as leis de “Jim Crow”. mesmo que tenham sido contraídos no estrangeiro para iludir a aplicação desta lei. não temos nada além de um objeto76. espalhados amiúde em diversos momentos históricos significativos. Neste aspecto. os predicados pessoais de estado. 4. sobretudo. artigo 3º: Os judeus são proibidos de terem como criados em sua casa cidadãos de sangue alemão ou aparentados com menos de 45 anos.. As premissas que fundamentaram esta legislação extravagante ligavam-se. fez parte de processo paulatino de transformação da consciência coletiva. para o mundo cívico. políticos. A cidadania pode ser entendida como a possibilidade de realização do conjunto de prerrogativas legais individuais. 29 . a opinião amplifica-se em importância na medida em que se verifica que a desumanização derradeira. ou a uma ou outra destas duas penas. Aliás. a honra subjetiva. os bens materiais etc. políticas e sociais necessárias para que determinada pessoa possa usufruir os benefícios e gozar isonomicamente as oportunidades resultantes da vida em sociedade com justiça e equidade. da maneira como se deu a manipulação das consciências individuais. na prática. publicará as disposições jurídicas e administrativas necessárias à aplicação desta lei.e de nenhum efeito. coisas e animais. II) Quem infringir os artigos 3º e 4º será condenado à prisão que poderá ir até um ano e multa. mas. um dos poucos judeus que sobreviveram a Auschwitz. o que resta? Biologicamente vemos um membro da espécie humana. no início do século XX. ou seja. do qual todos nós ainda hoje estamos sujeitos. relata com precisão este processo de degradação sofrido por todas as vítimas do holocausto. tal condição existencial pode ser simplesmente compreendida como capacidade de exercício de direitos e garantias essenciais à vida com dignidade. II) Só o procurador pode propor a declaração de nulidade. reconhecemos que o processo de desumanização sofrido pelo povo judeu. O exercício dessa autorização é protegido pelo Estado. transmuta-se a idéia de homem do “ter” para o “ser”. O fato histórico pode até mudar. artigo 6º: O Ministro do Interior do Reich. Primo Levi. mas o processo de desumanização permanece semelhante. Parte do projeto de recrudescimento do poder político nazista. em regra através de leis discriminatórias. os direitos civis. por sua vez. Premissas Discriminatórias de Nuremberg O estudo e o reconhecimento pedagógico da importância da educação para os direitos humanos através do aprendizado histórico viabilizam a compreensão da cidadania como requisito imprescindível para se viver com dignidade. II). Seguindo a lógica moral dos valores humanísticos fundamentais. o que era antes considerado como simples conveniência social. durante quase duas centenas de anos. desta maneira. parece sempre representar o passo antecedente à transformação de seres humanos em coisas descartáveis. necessário ao projeto nazista de extermínio total. percebemos diversos exemplos em que membros da espécie foram alijados da condição humana simplesmente por um capricho conceitual da legislação. e. somente uma pessoa física ou jurídica pode assumir estas qualidades.. passava de forma imprescindível pela necessidade de formação de mentalidade nacionalista. sofrida pelos judeus que se encontravam sujeitos ao sistema de dominação nazista. desenvolveu-se aos poucos a partir da decomposição gradual de aspectos centrais ao direito de cidadania daquelas pessoas. Com a noção de dignidade da pessoa humana. oficializada com as “Leis de Nuremberg”. basta ser homem para ter direitos fundamentais indisponíveis assegurados. libertando sua definição das vicissitudes e conveniências de alguma legislação politicamente variante no tempo e no espaço. com o assentimento do representante do Führer e do Ministro da Justiça. físico e moral. aptas ao descarte através da chamada solução final. O início deu-se com o apelo simbólico a estigmas sociais personificadores do inimigo objetivo. Assim. artigo 4º: I) Os judeus ficam proibidos de içar a bandeira nacional do Reich e de envergarem as cores do Reich. com a transformação daqueles seres humanos em coisas completamente substituíveis. transformou-se em obrigação e meta política com a introdução de tais preceitos no sistema jurídico. que não poderia ocorrer abruptamente de uma hora para outra. A introdução de tais elementos anímicos no direito posto. ou com os judeus que sofreram a perseguição nazista. Sem a possibilidade de realização das faculdades disponíveis e indisponíveis que compõem institucionalmente a figura do cidadão não há nem mesmo como assegurar a noção jurídica de pessoa. consistiu em etapa secundária dentro do programa de totalização do poder. Perceba que a retirada oficial das faculdades que compõem a idéia de cidadania. arregimentado por alguém durante sua existência – tal como o nome. Este termo. nunca sujeitos. Assim ocorreu com as vítimas diretas do escravismo no Brasil. Para entender melhor a assertiva. por exemplo. revela-se como a somatória dos atributos físicos e morais que determinada ordem jurídica define como pertinente em momento específico. baseada no discurso da idéia de pureza de raça. impregnado de referências simbólicas desqualificantes da comunidade judaica e de outras minorias étnicas. sob a ótica dos direitos humanos. já estava preparado para receber tal legislação.Mas são autorizados a engalanarem-se com as cores judaicas. Neste sentido. a noção dogmática de homem para o direito positivo. por seu turno. artigo 5º: I) Quem infringir o artigo 1º será condenado a trabalhos forçados. o imaginário social. são apenas objetos de direitos. Desta maneira. Em regra. imagine retirar todo o patrimônio jurídico. passou pela perda gradual de cidadania e alcançou o paroxismo. relacionase à possibilidade de se titularizar direitos e de se vincular a obrigações em determinado cenário legislativo.

2005. uma velha carta. sem qualquer sentimento de afinidade humana. A Efetivação Obrigatória dos Direitos Humanos Fundamentais Diante de sua dimensão ética. fomos batizados. Primo. enfim.517. em todos esses objetos nossos. às Ordens Militares e aos cargos de governos administrativos e militares. de forma contundente. Mais uma vez percebemos a necessidade do estabelecimento de estrutura jurídica conveniente e de um sistema de leis compatível para se efetivar qualquer projeto totalitário de dominação e controle. no caso Brown versus Board of Education. os sapatos. do que éramos. de 1964... A autorização velada para a eliminação do diferente.. permanecia como espécie de etapa necessária à solidificação da consciência nacional e ao desenvolvimento social inclusive no Brasil colonial. antes mesmo das leis discriminatórias se institucionalizarem em Portugal através da legislação geral. mesmo diante disto. A revogação completa de todas as outras demais disposições normativas segregacionista somente ocorreu mais tarde. Percebidos como inimigo objetivo. p. portando-se. A legislação da ocasião. de forma percuciente. sobre alguma coisa de nós. não nos compreenderão. temos uma massa de pessoas que reproduzem o discurso dominante e que auferem as vantagens do poder. o grande ativista menciona o seguinte: Condição humana mais miserável não existe. formou verdadeiro sistema jurídico discriminatório em face de minorias étnicas existentes nos Estados Unidos. Roubarão também o nosso nome. 78 30 . são algo como os órgãos de nosso corpo. que se disfarça na forma.. pp. Mas que cada um reflita sobre o significado que se encerra mesmo em nossos pequenos hábitos de todos os dias. Este conjunto difuso de leis específicas. não dá para imaginar. sob certa ótica salutar. analisando as características do processo de dominação do Brasil colônia pela coroa portuguesa. vocacionada à preservação de certos valores humanos supremos e indisponíveis na sociedade mundial. a fotografia de um ser amado. tudo..mecanismo sistemático de desumanização que as pessoas submetidas aos campos de concentração sofreram no apogeu da administração nazista. suscita a discriminação do cristão novo. o qual faz questão de esconder sua verdadeira fisionomia... um homem privado não apenas dos seres queridos. Imaginese. além do nome. 5. transformado em algo tão miserável. a mobilidade e o acesso de grupos de cristãos-novos a certas posições. até os cabelos. 58-68. como etapa progressiva sintomática de determinado processo de dominação política autoritária. ou favores. os cristãos-novos já eram proibidos de ocupar cargos eclesiásticos. se nos escutarem. A professora Maria Luiza Tucci Carneiro. Identificada com o primeiro grupo – o dos preferidos – de um lado. Apesar desta maquiagem perturbadora. pela mencionada Professora: Através do estudo das narrativas discursivas impressas na 77 legislação. que até o mendigo mais humilde possui: um lenço. e..77 A demonstração desta característica em vários outros momentos históricos da humanidade indica a discriminação de minorias como característica arquetípica constante no projeto multigeracional do poder totalitário. deveremos encontrar dentro de nós a força para tanto. para que. exposta dentre outras pérolas através dos chamados “estatutos de pureza de sangue”. Posições estas consideradas dignas apenas daqueles que não tinham “mancha” da raça da gente da Nação79. No início do século XVI. Ao impor regras para a seleção de seus membros. como a dos afro-descendentes americanos e asiáticos. se falarmos. não nos escutarão – e. do inimigo objetivo. ele será um ser vazio. onde somente os bem nascidos teriam o merecimento suficiente para gerenciar os interesses da nação78. agora. que facilmente se decidirá sobre sua vida e sua morte. 80 A Suprema Corte declarou a inconstitucionalidade da segregação escolar resultante destes dispositivos discriminatórios somente em 1954. levaremos até a morte essa marca tatuada no braço esquerdo. 1998.. Maria Luiza Tucci. as atitudes sociais contra o cristão-novo assumiram as características de um racismo institucional. como vetor importantíssimo na formação de espécie de cultura da desconfiança. o mecanismo excludente de desumanização do outro permanece intocável na origem do problema. Em alguns outros exemplos históricos. percebemos que o viés discriminatório da legislação foi camuflado por concessões. Essas coisas fazem parte de nós. permaneceram aquém da fronteira dos escolhidos. rigorosamente tudo que possuía. mas de sua casa. essas instituições definiam onde e como deveriam se processar as práticas sociais. reduzido a puro sofrimento e carência. Neste aspecto. Este verdadeiro arquétipo da discriminação e dominação política institucionalizada pode também admitir variações quantitativas que servem utilitariamente para disfarçar qualquer vestígio de perplexidade capaz de dimanar crítica ao sistema de opressivo. que vigorou por quase cem anos a partir de 1876. pp. de ter acesso às confrarias. demonstrou elementos jurígenos discriminatórios quase idênticos aos do projeto nazista. É Isto um Homem? Rio de Janeiro: Rocco. passando a limitar as escolhas. 67-68. retratando com precisão o processo normativo de oficialização da exclusão e do racismo como peças integrantes de empreendimento mais amplo de controle absoluto social. esquecido de dignidade e discernimento. sua roupa. como o modelo deturpado de cidadania exposto nas chamadas leis de “Jim Crow”. diferenciando e segregando entre as hipotéticas raças os direitos de utilização do espaço e dos serviços públicos que. Nada mais é nosso: tiraram-nos as roupas. Meu nome é 174. Dessa forma.25. Oficializou-se com tal modelo jurídico espécie de regime de apartheid naquele país da América do Norte. mas permanece o mesmo no conteúdo. Para tanto. emprestados pela estrutura de dominação aos desonrados que. São Paulo: Perspectiva. do outro lado temos os indivíduos e grupos minoritários marginalizados e renegados. os direitos. CARNEIRO. Preconceito Racial em Portugal e Brasil Colônia: Os Cristãos-Novos e o Mito da Pureza de Sangue. podemos perceber como se processava o sistema de relações sociais articulado de forma a afastar os cristãos-novos do grupo de status. a própria implementação destes respectivos LEVI. se quisermos mantêlo. fundamentalmente. sujeitos à discriminação social e à perseguição pelos mecanismos de Estado. é significativa a seguinte constatação apresentada. deveriam estar disponíveis a todo cidadão80. 79 Ibidem. e sua conseqüente exclusão dos setores participativos da sociedade.. com o Civil Rights Act. utilizada para disfarçar o espanto de suas incongruências morais. seus hábitos.

apesar dos tropeços renitentes e cheios de opróbrio. A primeira é que devem estar vinculadas a cargos e posições abertos a todos e em condições de igualdade equitativa de oportunidades. não existem as condições mínimas para a solução pacífica dos conflitos. encontra-se descrita no final do segundo princípio e surge como instrumento político. 18-19 81 82 31 . relacionada à concretização destes direitos? Ou poderíamos entender a efetividade como parte de mudança estrutural na forma de interpretação da norma jurídica por parte dos administradores e aplicadores da lei? Acreditamos que a resposta à questão acaba por admitir as duas possibilidades tratadas nestes mesmos questionamentos. por exemplo –. As desigualdades sociais e econômicas devem satisfazer duas condições. 2004. necessárias à efetivação de direitos fundamentais. mas também compatibilidade material de conteúdo. é capaz de impossibilitar qualquer tentativa de concretização do ideal da dignidade humana que nos referimos acima. Executivo. contribuindo para a formação de cultura de inclusão e igualdade82. Legislativo e Judiciário. como instrumento de concretização de justiça equitativa.no Judiciário: decisão do STF que determinou a constitucionalidade da Lei de Anistia. Amartya Sen. Este segundo aspecto tratado é de suma importância. tende à conformação prática de nova geração de direitos. 2003. servem justamente para balancear este desnível social de cidadania. cujas causas podem ser históricas. A efetividade destes direitos é.no Executivo: Acordo assinado entre o Brasil e o Vaticano estabelecendo a volta do ensino religioso nas escolas públicas e a demolição de monumentos estéticos da opressão. As “Leis de Nuremberg”. Em outras palavras. São Paulo: Editora Ática. informa que o desenvolvimento humano poderia ser visto como processo contínuo de expansão das liberdades substantivas reais que as pessoas deveriam desfrutar através do exercício de oportunidades sociais85. ligada mais à preservação do conteúdo valorativo dos direitos fundamentais que à esterilidade estética de formas inanimadas. desenvolveu sua teoria da justiça baseando-se em dois princípios estruturais nodais. esta maneira vetusta de interpretar a norma jurídica foi amplamente utilizada pelos arquitetos do sistema nazista. a democracia é a sociedade dos cidadãos. perfeitamente válida do ponto de vista formal.direitos também se porta como direito humano fundamental. originam ostensivas diferenças de oportunidades. sem democracia. não basta apenas perfeição formal. quais sejam: Primeiro princípio. Poderíamos citar vários casos onde. 83 RAWLS. são discriminações positivas. o que ocorre na prática é que as profundas desigualdades econômicas e sociais. Norberto. A Era dos Direitos.83 A idéia das ações afirmativas. culturais ou políticas. que alicerçaram todo o seu projeto de extermínio em estrutura legislativa kelseniana. 3. percebemos francamente manifestações mais ou menos veladas de autoritarismo estatal no Brasil. por vicissitudes inerentes ao poder totalitário. que desde 1951 ensinava o seguinte: Direitos do homem. 344-345. como as três esferas de competência tradicionalmente representativas do poder político no modelo constitucional brasileiro. Neste sentido. John. Sem o cumprimento desta condição de fundo torna-se inválida tanto a regra produzida. Toda pessoa tem um direito igual a um sistema plenamente adequado de liberdades fundamentais iguais que seja compatível com um sistema similar de liberdades para todos. O Liberalismo Político. em detrimento do dever de efetivação dos direitos humanos fundamentais. devem contribuir igualmente dentro de suas funções para a efetivação destes direitos em todas as suas dimensões. Apesar de todas as pessoas serem formalmente iguais diante da lei. Torna-se. desta forma. O BOBBIO. efetuadas pelas três esferas de poder. o que é efetividade? Tal potencialidade admitiria apenas uma dimensão pragmática. em linha geral. não teríamos condições mínimas de conquistar este novo momento histórico. as estabelecidas pelo Estatuto do Idoso e como as gerenciadas pela Lei 9504/9684. ligado à necessidade de concretização da igualdade material em Estado comprometido com a implementação de valores democráticos. pp. assim. evidenciadas sintomaticamente pelo capitalismo tardio.no Legislativo: retirada do regime de cotas do Estatuto da Igualdade Racial e modificação da proposta inicial relacionada à Lei da Ficha Limpa. 84 Tal legislação garante 30% no mínimo de presença feminina nas candidaturas dos partidos políticos.81 Ocorre que efetividade também indica necessidade de estabelecimento de nova forma menos dogmática de interpretação de preceitos jurídicos relacionados aos direitos humanos. sem a efetivação propriamente dita dos direitos humanos fundamentais. Aliás. que não pode ferir a estrutura valorativa preexistente. da maneira como foram introduzidas na sociedade alemã pelo governo nazista. na prática judiciária. ed. No primeiro aspecto suscitado. Desenvolvimento como Liberdade. Rio de Janeiro: Elsevier. por exemplo. bem como a concentração de riquezas. importantíssima a seguinte lição do Veccio de Turim. procurando entender o processo de formação das crescentes desigualdades sociais. Ações Afirmativas e Oportunidades Sociais John Rawls. Amartya. Citamos alguns tristes exemplos: 1. não há democracia. e a segunda é que devem redundar no maior benefício possível para os membros menos privilegiados da sociedade. somente quando existirem cidadãos não mais apenas deste ou daquele Estado. As ações afirmativas – como o regime de cotas para negros. O reconhecimento dos direitos fundamentais introduziu a necessidade de compatibilidade de conteúdo para a validação de determinadas disposições normativas. demonstraram com precisão como a perda progressiva da cidadania. mas do mundo. pois a introdução da idéia de preservação de valores parece romper o paradigma técnico que enxerga na lei positivada em algum texto normativo o único limite ao direito e à justiça.01-02. 85 SEN. São Paulo: Editora Companhia das Letras. pp. determinando antecipadamente tendência ao fracasso de uns e o sucesso de outros. uma paz que não tenha a guerra como alternativa. 2000. Ações afirmativas. 2. pp. neste sentido. 2ª. Segundo princípio. ressaltamos que o processo de caminhada da humanidade. através da retirada das oportunidades de determinado grupo discriminado de pessoas. haverá paz estável. quanto a decisão judicial ou medida administrativa praticada pelo Estado. e os súditos se tornam cidadãos quando lhes são reconhecidos alguns direitos fundamentais. Todavia. democracia e paz são três momentos necessários do mesmo movimento histórico: sem direitos do homem reconhecidos e protegidos. Assim. obrigatória. ligados de várias formas à cultura da paz e do respeito ao outro. 6.

São Paulo: Boitempo. aprimorando em verdadeira reação em cadeia a prática social existente. 1998. série Rupturas. membro do Conselho consultivo – (FIERJ) e membro do Diretório de várias Escolas Judaicas do Rio de Janeiro. de despojá-las de sentido crítico que porventura pudessem exibir. professora Titular da Universidade Federal Fluminense – UFF. Da mesma maneira. que. RAWLS. São Paulo: Editora Cia. 2008. o instrumento utilizado foi a expulsão. Direitos Humanos Fundamentais. SEN. em seu livro “The Destruction of the European Jews”. sempre em movimento cíclico. Raul Hilberg.. 2006. Maria Luiza Tucci. André de Carvalho. 2ª. BOBBIO. 2005. assistência médica e outras correlacionadas. Assim. os nazistas decretaram “vocês não tem o direito de viver”. possui diversos livros e artigos publicados em revistas científicas nacionais e internacionais. 10 de Dezembro de 1948 – A Declaração Universal dos Direitos Humanos. Segundo esse autor. verifica-se um processo de discriminação crescente. de receber educação básica. A estimulação ao preconceito antissemita criou um inimigo visível. Teoria Geral dos Direitos Humanos na Ordem Internacional. A destruição processada pelos nazistas não emergiu de um vácuo sócio-político. É Isto um Homem? Rio de Janeiro: Rocco. 2004. CARNEIRO. PEDROSO. SCHOENBERNER. Rio de Janeiro: Renovar. Considerações finais sobre o tema A presente reflexão histórica serviu para entendermos melhor como a necessidade de efetivação da cidadania e de aprimoramento dos direitos humanos fundamentais portamse como requisitos primordiais à valorização do homem como sujeito de direitos. os dois grandes sistemas políticos vigentes: ora rotulado de capitalista explorador das finanças internacionais.a Alemanha dos 1000 anos . ensejarão valores melhores ainda. 10ª. ora de comunista responsável pela instabilidade mundial devido ao chamamento ideológico à luta de classes. diretora do Departamento de Sociologia e Política da PUC/RJ. fomentando-se a si mesmos como os galhos e folhas de uma mesma árvore. contínuo e crescente. Livraria dos Advogados. SOLIDARIEDADE EM TEMPOS SOMBRIOS “JUSTOS ENTRE AS NAÇÕES” e “SALVADORES DE JUDEUS” Helena Lewin86 O sistema político nazista estabeleceu-se ancorado em uma economia bélica tendo como foco o domínio mundial . 2000. podendo comandar o próprio futuro e o dos seus semelhantes através do exercício da solidariedade. São Paulo: Editora Ática. O governante convertido em Führer. São Paulo: Companhia das Letras. retroalimentando-se de maneira a fechar a cadeia de eventos. o condutor das massas e não um representante destas. afirma que na história européia houve três modalidades de política anti-judaica: conversão. 2005. ao contrário do que ocorreu nos regimes de exceção que apresentamos nesta exposição. 32 . Regina Célia. por um lado. os seculares atestavam “vocês não têm o direito de viver entre nós”. ou seja. vice-presidente da Direção Executiva – (FIERJ). devem ser estimulados e aprimorados substancialmente pelos gestores da coisa pública. Daí a importância de organizá-las. Dignidade da Pessoa Humana e Direitos Fundamentais. só que em sentido contrário. se social e politicamente cultivados. deixando largos espaços não escritos para ações rotuladas de “espontâneas” praticadas 86 Doutora em Sociologia pela Universidade de São Paulo – USP. Se. 2003. representou a culminação de uma tendência historicamente progressiva. colocava-se ditatorialmente acima do bem e do mal. LÖWY. Por fim. estão dependentemente interligados. na medida que aglutinava. Rio de Janeiro: Imago. FERREIRA FILHO.uma nova era a ser instituída pela pretendida raça superior ariana. mediante oportunidades sociais adequadas. aprimorando e expandindo a miséria como resultado material. das Letras. Ingo Wolfgang. Amartya.expulsão e eliminação. Hitler jamais ocultou seu desprezo pelas massas visto considerá-las destituídas de heroísmo e inteligência. Primo. Desenvolvimento como Liberdade. Estes direitos fundamentais. Também é presidente do Conselho Deliberativo da Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro (FIERJ). a eliminação. 1989. como fatores essenciais ao desenvolvimento da sociedade. Rio de Janeiro:Elsevier. Manoel Gonçalves. Por sua vez. Michael. 2005. alienálas completamente. Hannah. os indivíduos aprimoram sua capacidade de autodeterminação.exercício de tais liberdades substantivas é mediado por valores. São Paulo: Perspectiva. ed. por outro lado. 7. São Paulo: Saraiva. Norberto. O fato é que. Walter Benjamin: Aviso de Incêndio: Uma Leitura das Teses “Sobre o Conceito de História”. Porto Alegre: Ed. pois. por sua vez. via de regra. o estímulo às privações originarão outras privações maiores ainda. A Era dos Direitos. ed. Correlacionando estas diferentes fases à legislação na Alemanha de Hitler. 1994. nesse caso. BIBLIOGRAFIA ARENDT. RAMOS. o discurso dos missionários afirmava: “vocês não têm o direito de viver entre nós como judeus” correspondendo à etapa da conversão. Seu início já ocorre em 1933 cuja escalada observa-se a partir das Leis de Nurenberg de 1935. ou seja. Coordenadora do Programa de Estudos Judaicos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ. LEVI. e exibindo poder inquestionável. ampliadas sucessivamente nos anos posteriores . através da expansão das liberdades substantivas interligadas – como a liberdade de participação política. o desenvolvimento humano pode e deve ser visto de maneira integrada. John. O Liberalismo Político. 2001. contribuindo para a prevenção de novas possibilidades de opressão a grupos populacionais desfavorecidos. Origens do Totalitarismo. A Estrela Amarela: A Perseguição aos Judeus na Europa 1933-1945. fácil de ser alcançado e sobre o qual repousava a atribuição de inimigo da pátria. São Paulo: Editora Lazuli. contraditoriamente. são gerenciados por discussões públicas e interações sociais contínuas. O processo é cíclico e contínuo. Bens materiais e valorativos bons. SARLET. Preconceito Racial em Portugal e Brasil Colônia: Os Cristãos-Novos e o Mito da Pureza de Sangue. sua dominação carismática dependia da devoção irracional e do fanatismo das mesmas. Gerhard. o judeu.

Todos os 117 habitantes desta pequena comunidade foram honrados como “Justos entre as Nações”. contendo 80 mil livros e 4500 revistas especializadas nesta temática. morrendo. O presente texto. Quando um nome é proposto para receber o reconhecimento oficial do Yad Vashem. Alguns dos judeus morreram depois da guerra ou mesmo durante a mesma. arriscando suas vidas e carreiras. cujo pastor. O número de judeus salvos por nãojudeus durante o Holocausto é impreciso. interpretando como uma onda que vem e que vai embora. considerando que os maiores salvadores de judeus em termos numéricos foram os cônsules sediados na Europa. foram humilhados e discriminados. cidadãos comuns transportaram 7200 dos 8000 judeus do país em lanchas pesqueiras até a Suécia em uma arriscada operação. caminhando para uma planejada política de estado de destruição massiva dos judeus através de seu encarceramento em campos de trabalho e de aniquilamento. que não perecerá jamais” O Yad Vashem é também conhecido como o Museu do Holocausto de Jerusalém que abriga arquivos . no processo de salvação de milhares de judeus concedendo-lhes visto de entrada em seus países apesar das proibições. o respeito e admiração por seu silencioso trabalho de resgate de vidas sendo merecedores do título de heróis da 2ª Guerra Mundial. O Parlamento israelense baseando-se na Lei de Recordação dos Mártires e Heróis definiu entre os objetivos do Yad Vashem a permanente celebração religiosa e histórica em memória das vítimas do terrível massacre nazista além de manifestar os agradecimentos a todos aqueles. O tema relacionado ao “risco” e ao “perigo de vida. ocultando um ou mais judeus em suas próprias casas. Outro salvamento coletivo teve lugar na aldeia francesa de Le Chambon-sur-Lignon. e nas minhas muralhas a dentro. 310/11. O título “Justo entre as Nações” designa uma pessoa de elevada moral. cidadãos comuns elegeram salvar judeus assumindo conscientemente todas as consequências de risco de vida que uma ação dessas implicava. decorrente da sua atuação excepcional. Um dos casos mais impressionante foi o da pequena aldeia holandesa de Nieuwlande cujos habitantes. André Trocmé. Até o início de 1941. em 1953. meses ou anos. Em muitos casos. faz-se necessário assinalar o desempenho de determinados consulados sediados na Europa. uma instituição especificamente dedicada à lembrança e estudo do Holocausto. trata de recuperar historicamente o papel desses protagonistas nos tempos sombrios do Holocausto – o maior assassinato em massa perpetrado contra 6 milhões de judeus pela política antissemita nazista – livrando os judeus da perseguição e do extermínio iminente ao lhes conceder oportunidades reais para fugirem daquela Europa conflagrada ou para esconde-los em lugar seguro. portanto. passando por drásticas necessidades financeiras. um lugar e um nome ainda melhor do que o que dão os filhos e as filhas: Dar-lhes-ei um nome eterno. ética e profissional além de riscos de vida para aquele que se dispõe a salvar os judeus. número que reúne 50 milhões de páginas de testemunhos. poderia resultar em impedimento à outorga do título na medida que aqueles que gozavam imunidade diplomática não estavam necessariamente ameaçados de riscos de vida. que oferece empatia. de solidariedade e de compaixão além de sua postura políticoideológica democrática. uma biblioteca que possui a mais importante documentação do mundo sobre o Holocausto. não 33 . Este salvador geralmente construía um “bunker” para esconder o judeu que ali permanecia durante semanas. cursos e pesquisa. os judeus. seria impossível excluí-los da lista tendo em vista que foram punidos por seus governos por desobedecer às proibições emitidas no que se refere à concessão de vistos às minorias semitas. A publicação SHOÁ. implicando em perigos relativos à segurança de sua liberdade física. expresso inicialmente pela legislação vigente que se auto-legitimava como um estado de direito embora calcado sobre um arcabouço autoritário. compaixão e ajuda a judeus em tempos de grandes dificuldades e perseguições. Porém. Em Israel foi criada. o Yad Vashem. os “Justos entre as Nações” conforme o título de homenagem a eles conferida. Mais adiante os nomes dos principais cônsules brindados com o título de “Justos entre as Nações” serão brevemente apresentados. suas comendas foram retiradas. denotando em meio à barbárie reinante seus sentimentos de humanidade. nas pags. muitos deles. sendo alimentado em tempo de grande escassez de comida. perdendo seus postos de trabalho. compartindo seu pão. publicando livros e realizando seminários. Desde 1960. e o formal. Bélgica e França que encontravam esconderijos para judeus.pelas brigadas dos SA como a que ocorreu na Noite de Cristais. A esses cônsules e a todos aqueles que salvaram judeus da matança nazista. principalmente os alemães. Noruega. vem funcionando uma comissão para a designação dos Justos. o aparelho de estado nazista utilizava dois mecanismos de repressão: o oficioso cujas ações eram acionadas para intervir com violência em movimentos de rua sobre aqueles marcados para morrer. Na Dinamarca. organizou seus fiéis para prover esconderijo e assistência aos judeus que fugiam dos nazistas. O nome Yad Vashem foi inspirado no livro de Isaias 56:5: “dar-lhes-ei na minha casa. não-judeus que arriscaram suas vidas para salvar judeus durante o Holocausto. Essa atitude de conformidade das populações judaicas decorrente de leituras ingênuas da realidade social foi responsável pelo volumoso aporte demográfico na deportação para os campos de extermínio apesar dos movimentos de resistência que ocorreram. não acreditavam que um país de alta cultura civilizatória como a Alemanha pudesse representar um perigo para com sua população judaica ou ser portador de atitudes de violência programada. essa comissão analisa detalhadamente as provas e suas motivações acompanhadas do relato dos sobreviventes envolvidos que devem prestar testemunho sobre a veracidade dos argumentos declarados. em grande miséria. Julgavam tratar-se do clássico fenômeno do antissemitismo tão presente na historiografia do cotidiano das comunidades européias. afirma que em certos casos. Neste contexto.conforme acima mencionado. a salvação veio de grupos como as unidades clandestinas de resistência existentes na Holanda. entre 1942 e 1943 resolveram de forma conjunta que cada família ocultaria a uma família ou indivíduo judeu. Todos esses foram reconhecidos pelo Yad Vashem. Assim.

Souza Dantas foi mantido no ostracismo da vida pública. um homem e uma mulher. que. Em 1938. em que cada árvore plantada constitui uma esperança no futuro e uma mensagem exemplar de paz. esta é a única diplomata do sexo feminino de todo o grupo de diplomatas homenageados pelo Yad Vashem. Aracy ciente das proibições do Ministério das Relações Exteriores do Brasil que determinava a não concessão de vistos aos apátridas. Assim. que por medida de segurança não foram computados por conta de sua natureza secreta. demonstraram enorme bravura. através 34 . sua “biografia de guerra”. Passou.uma prece especial é dedicada a esses Salvadores. a partir de 1934. Somente no dia 21 de dezembro de 1944. Os vistos emitidos por Souza Dantas salvaram comprovadamente 478 pessoas. alguns nomes foram selecionados visando apresentar. reconhecimento formal de seu elevado desempenho nos serviços prestados à Pátria. Luis Martins de Souza Dantas e Aracy de Carvalho Guimarães Rosa. enviadas às embaixadas brasileiras instaladas na Europa. porém calcula-se que seu número deve ter alcançado a casa dos 1000. celebradas em todas as comunidades judaicas de todo mundo. Esses anônimos “Salvadores de Judeus”. são os seus nomes. denotando heroísmo e grandeza de caráter. em 1942. leia-se judeus. figura que sequer aparece nos livros didáticos brasileiros. Mataram 90 pessoas com requinte de crueldade. Porém. há duas figuras marcantes. Multidões de nazistas enfurecidos atacaram sinagogas e queimaram objetos do ritual litúrgico judaico. não puderam ser nomeados institucionalmente como “Justos entre as Nações”. Morreu pobre e abandonado em Paris. o diplomata brasileiro João Guimarães Rosa foi nomeado Cônsul-adjunto em Hamburgo que afirmou. Consta do Concise Encyclopedia of the Holocaust que Aracy de Carvalho Guimarães Rosa começou a ajudar os judeus depois do terrível “pogrom” na noite de 9 de novembro de 1938 que ficou conhecida como Kristallnacht – Noite dos Cristais . posteriormente. os alemães romperam o armistício e invadiram a parte ainda não ocupada da França. em 1942. de forma religiosa ou secular. Rebelou-se contra as determinações do governo de Getúlio Vargas que através de circulares secretas. sendo que muitos deles foram convidados a plantar árvores em sua homenagem visando comemorar suas ações humanitárias. portanto não se julgavam merecedores de prêmio ou reconhecimento algum. contemplando sua distribuição geográfica por país de origem desses diplomatas. Portugal e Suécia. Invadiram residências de judeus e violentaram mulheres e crianças. Libertado. como chefe do serviço de vistos. todos os diplomatas sediados na França passaram a despachar em Vichy que foi tomada pelos nazistas. embaixador brasileiro em Paris de 1922 a 1942. elegeu-se uma pequena amostra de diplomáticos que atuaram significativamente no cenário europeu. Grande foi a contribuição destes dois personagens no cenário da 2ª Guerra Mundial no que se refere a salvação de foragidos judeus. centenas deles não constam nos registros do Yad Vashem que. quando as relações diplomáticas entre a Alemanha e o Brasil foram rompidas. Foi invadida e o Embaixador Souza Dantas juntamente com seus auxiliares foram presos. Quando. trabalhou no consulado brasileiro em Hamburgo. foi analisada no livro ”Anti-semitismo na Era Vargas” de autoria de Maria Luiza Tucci Carneiro e. Alemanha. O governo brasileiro havia rompido com a Alemanha e a ela declarado guerra e a embaixada brasileira em Vichy não ficou livre da violência nazista. oriundos do Brasil. 20. reconhecidos como heróis do povo judeu aos quais várias gerações lhe devem suas vidas. Depredaram estabelecimentos comerciais e saquearam-nas. ele volta ao Brasil onde havia sido planejada uma recepção festiva que foi abortada por ordem de Getúlio Vargas. Segundo os dados contidos na Enciclopédia del Holocausto. por 14 meses. Este acontecimento marca o início da repressão sistemática contra os judeus que objetivava.tendo sido possível obter testemunhas ou saber o nome desses salvadores. na Alemanha. elevada consciência moral e um incomensurável respeito à vida de seu semelhante. Do Brasil. Aracy de Carvalho Guimarães Rosa. Na impossibilidade de nominar cada um dos “Justos entre as Nações” em decorrência do difícil acesso aos arquivos do Yad Vashem. Luis Martins Souza Dantas.200 nomes de homens e mulheres. serão apresentados na trajetória de quatro cônsules envolvidos no resgate de judeus. a facilitar a emissão de vistos a dezenas de pessoas que buscavam ajuda no consulado brasileiro de Hamburgo. Enquanto durou o Estado Novo. discretamente.que se estendeu por várias cidades da Alemanha e Áustria. tornou-se tema da dissertação de mestrado de Fabio Koifman “Quixote nas Trevas”. Essas publicações foram responsáveis por trazer ao conhecimento público esse personagem. Reconhecido pelo Museu do Holocausto em Jerusalém (Yad Vashem) como “Justo entre as Nações” por ter emitido centenas de vistos durante os difíceis anos do domínio nazista na Europa. embora estejam disponibilizados. Viveram em Hamburgo até quando regressaram ao Brasil. ter ciência da desobediência de Aracy e ter lhe dado pleno apoio. por falta de provas e de testemunhos orais. Certamente. que tanto benefício aportou àqueles para os quais ele foi diretamente responsável pelo seu salvamento. Para tal. Casaram-se em 1940. silenciosamente. determinava a proibição de atender solicitações de vistos a semitas para entrar no Brasil. sem alarde. Perplexa e indignada com as terríveis perseguições e matança de judeus promovidos pelo nazismo. principalmente em uma terra árida. resolveu desobedecêlas. deixando claro que estes não esgotam o elenco de nomes a quem se deve o respeito e os agradecimentos pelo desempenho heróico de salvar vidas tanto de judeus como de não-judeus e que. segundo os dados do Yad Vashem. entre outros refugiados. nas cerimônias dedicadas à Lembrança das vítimas da 2ª Guerra Mundial. no silêncio de seus atos. A recuperação histórica do diplomata Souza Dantas. como é Israel. até final do ano de 2003 haviam sido registrados como “Justos entre as Nações”. confinados em Bad Godesberg. O simbolismo da plantação de árvores e seu conseqüente Bosque de Recordação estão intimamente associado ao significado de Vida que a árvore representa. o número atual de diplomatas condecorados alcança o número de vinte. em 1954. de forma breve. seu nome é inscrito no Livro de Mérito Nacional. posteriormente. Muito deles preferiram manter-se anônimos mesmo depois da guerra afirmando que seu comportamento era ditado por princípios imperiosos de consciência frente o trágico silêncio da maioria dos europeus que não reagiam à brutalidade vigente contra os judeus e.

salvando-os da morte certa se fossem enviados para os campos de concentração. contou com a cumplicidade de um funcionário da polícia de Hamburgo que emitia passaportes para os judeus retirando do documento o “J” vermelho que os identificava como judeus. Observando a tragicidade do destino de grandes contingentes populacionais marcados para morrer. a Raoul Wallenberg. Esses albergues e espaços protegidos ficaram conhecidos como o “Gueto Internacional” em cujas janelas tremulavam bandeiras brancas como sinal de interdição de entrada aos alemães e seus aliados. Aristides de Souza Mendes foi considerado culpado no inquérito disciplinar tendo como pena a sua reforma compulsória com uma pensão reduzida que lhe impossibilitava sustentar sua família sendo socorrido por seu irmão e pela comunidade judaica de Lisboa. que as razões que o levaram a optar por tal atitude se vinculavam “à situação aflitiva de toda aquela gente que o comoveu profundamente”. assinando vistos a quantos lhe solicitassem. Da população nativa judaica sobraram apenas 200. Wallenberg tentou negociar o destino dos judeus internados no “Gueto Internacional” e no “Gueto Principal da cidade de Budapest” argumentando que os primeiros tinham proteção do governo sueco enquanto portadores dos “passaporte de proteção” e os demais como refugiados de guerra ou/e apátridas dado o confisco de seus documentos pelos nazistas. ele afirma que.000. Portugal. Concomitantemente. vivendo em plena cena da guerra pode certificar-se das conseqüências terríveis que pudessem advir do avanço das tropas alemães no continente europeu. também foram alvo de sua atividade de salvamento os judeus já embarcados em trens que se dirigiam à Auschwitz ou a campos de trabalho forçado que possuíam “passaporte de proteção”. Recebeu o título de honra “Justo entre as Nações” do Yad Vashem e era carinhosamente chamada de “o Anjo de Hamburgo” por todos aqueles a quem havia salvo. Até quando Portugal poderia se manter neutro? Esta era uma pergunta recorrente! E justificava sua pressa como um mandamento a ser cumprido! Quando inquirido sobre o porquê de seu comportamento. Percebeu que a rapidez na emissão dos vistos era crucial na medida que. Souza Mendes ignorou as circulares governamentais passando a desrespeitálas. sua mãe.da chamada “Solução Final”. diplomata da Embaixada da Suécia sediada na Hungria foi responsável pelo salvamento de milhares de Judeus em arriscadas operações de proteção contra o exército alemão nazista que ocupou este país em março de 1944. Aristides de Sousa Mendes. Os soviéticos suspeitavam ser Wallenberg e os demais diplomatas suecos em Budapest. muitas vezes. Em 1954. Esta decisão do Ministro das Relações Exteriores da Suécia converteu-se em um decisivo sinal para iniciar a operação de salvamento. Em sua lápide foi inscrita uma passagem da Torá (Bíblia judaica) “Quem salva uma vida. embora sem nenhuma repercussão na imprensa portuguesa. o que muito facilitou o estabelecimento de albergues e seus esquemas de vigilância. declaradamente antissemita e aliado dos nazistas. mas sobretudo política de resgate dos judeus húngaros. nomeando para assumir a chefia desta perigosa missão humanitária. Grupos de voluntários se encarregaram da provisão de alimentos e atendimento médico formando uma subterrânea rede de solidariedade que ajudou a salvar os judeus aí abrigados. Wallenberg resolveu intensificar seus esforços: durante os três meses seguintes emitiu milhares de passaportes denominados de “passaporte de proteção”(The Wallenberg‘s Passaport). Este foi o álibi! Paralelamente. ao transportar judeus no porta-malas de seu carro apesar da vigilância da Gestapo.000 judeus para os campos de extermínio. as deportações foram reativadas em ritmo acelerado. Souza Mendes. 2/3 dos judeus húngaros haviam sido deportados. Em outubro do mesmo ano. concedido pelo Yad Vashem de Jerusalém. Até ser afastado do cargo pelo ditador português. Aracy não emitia apenas os vistos. a Embaixada da Suécia propôs emitir passaportes aos judeus húngaros que tivessem alguma vinculação com cidadãos suecos. Estes ofereceramlhe apoio e ajuda. agentes ou espiões alemães convocando-os a prestar esclarecimentos sobre sua conduta. todos os dias até a exaustão física. relatam que sua ação foi mais ampla: além de resgatar os judeus que compunham a Marcha da Morte. salva o mundo” como reconhecimento de seus méritos. Aracy revoltada não se intimidou e passou daí em diante a acelerar a emissão de vistos para os fugitivos judeus. abrigando judeus em sua própria casa ou de pessoas de sua confiança e garantindo sua saída da Alemanha. ele declarou no seu processo de defesa a que foi submetido por ter descumprido as ordens governamentais. Os dados registrados nos arquivos de vários institutos de pesquisa histórica sobre a missão Wallenberg durante a 2ª Guerra Mundial. sem respeitar suas imunidades diplomáticas. Raoul Wallenberg. assinou milhares de vistos para fugitivos judeus. os alemães já haviam deportado 435. o espaço fora do domínio alemão na Europa se estreitava. Wallenberg teve apoio de diplomáticos de outros países. ele morre na mais extrema miséria. Oitenta judeus foram salvos por esta corajosa mulher aos quais se deve acrescentar muitos outros não-judeus perseguidos pelo nazismo. Em apenas dois meses. Ela protegia esses refugiados dando-lhes cobertura diplomática. Os milhares de vistos eram assinados de dia e de noite. cada vez mais. Frente a essa conjuntura. Raoul Wallenberg perseguiu as colunas de judeus em marcha para a morte retirando aqueles que portavam os “passaportes de proteção” anteriormente expedidos e os conduziu de volta à capital. o extermínio total dos judeus da Europa. o exército soviético invade a Hungria liberando-a do domínio nazista. transformara-se em a única porta de saída para o deslocamento destes refugiados tentando alcançar outros destinos fora da Europa. viabilizando a emissão de vistos nesses passaportes. contrariando as ordens expressas de Salazar. Eduardo de Carvalho Tess. entre os quais se sobressaiu Angel Sank Briz da Espanha. Para tanto. Entrevista realizada com seu filho. Um 35 . ignorando as determinações do Itamaraty. consul português em Bordéus. Em janeiro de 1945. como país neutro. Desde 1967. ou seja.Esse sistema de abrigamento foi considerado como um espaço territorial neutro que teria que ser admitido por força das convenções internacionais. a situação dos judeus remanescentes tornou-se ainda mais perigosa tendo em vista a subida ao poder do partido Cruz de Flechas. Quando Adolf Eichman ordenou a “Marcha da Morte” dos judeus de Budapest até a fronteira austríaca. nomenclatura usada para encobrir o uso da palavra objetivamente concreta de extermínio. arriscou sua vida. Aristides de Sousa Mendes é o único português portador do título “Justo entre as Nações”.

prestado-lhe homenagens. dentro do projeto Arqshoá. no departamento de História. 2004 36 . Guerra Mundial. quando sequer sabia se conseguiria sair do gueto?”.D. seu número é significativo. Lucy S.& Samuel Spector (org) – Encyclopedia of the HolocaustJerusalem. Não obstante.Holocausto – Crime contra a Humanidade. Tanto ela e sua equipe assim como as crianças retiradas do gueto corriam risco de vida. Irena e sua equipe de colaboradores fizeram sair do gueto de Varsóvia milhares de crianças judias que colocavam em casa de famílias polonesas e em conventos católicos.. David (org) – El Holocausto: Perpetradores -Vítimas -Testigos. Seu nome foi acolhido pela comissão do Yad Vashem de Jerusalém que a homenageou com o título de “Justo entre as Nações”. Como homenagem e como tributo a sua memória. As que tomaram essa decisão demonstraram a maior coragem. Ao todo foram salvas cerca de 2500 crianças. Michel R. cabe uma importante menção ao nome de Irena Sendler que a partir de 1940 correu elevados riscos para levar víveres. 2000 Marrus. Condenada à morte. À época da invasão alemã na Polônia e a instalação do Gueto de Varsóvia. Prisioneiros de guerra alemães que retornaram das prisões soviéticas afirmaram ter visto Wallenberg e que o conheceram na prisão. principalmente pelas crianças que havia salvo. Hannah – Las Orígenes del Totalitarismo – Madrid: Alianza. após a data declarada pelo governo soviético. Depois da guerra. tendo declarado que “podia ter feito mais!” Foi um exemplo de dignidade e de amor ao próximo. 2000 Shoá – Enciclopedia del Holocausto –Jerusalem: E. resgatas pela mão de Irena Sendler. Até 1943. 1988 ---------------------. 1aed. seu nome está em ruas e praças de inúmeros países. A partir destes testemunhos. 1988 Hilbert. tornado-se enfermeira diplomada do Departamento de Assistência Social desta cidade. em sacos de batata e até de caixões que depois eram transportados pelos bombeiros ou em caminhões de lixo. Jerusalem:Magnes . SP: Brasiliense. afirmou Irena anos depois.Luiza Tucci – Anti-semitismo na Era Vargas. foi muitas vezes entrevistada antes de morrer. “Perguntavam-me se eu lhes prometia que os filhos sobreviveriam. Seu trabalho de salvamento não terminava com o resgate físico das crianças. agradecimentos e testemunhando suas heróicas ações. Sua atenção preferencial. Ática. – A Assustadora História do Holocausto – RJ: Ediouro. Este foi criado pelos nazistas e congregava no seu interior mais de 450 mil pessoas amontoadas em 4 kilometros quadrados. ajudando as mães com conselhos e apoio. confessou que ele havia sido preso e falecido na prisão em 1947. foi salva a caminho da execução por um soldado alemão subornado pela resistência polonesa. comportando-se da mesma maneira que uma anônima judia. Quebraramlhe os ossos dos pés e das pernas.grande mistério se abateu sobre o destino de Raoul Wallenberg que misteriosamente desapareceu sem deixar rastros. M. Ainda antes da 2ª Guerra Mundial. já exercia sua profissão atendendo os bairros pobres de Varsóvia onde viviam muitas famílias judias. essas já na condição de adultos quando descobriram sua história e identidade. quando ia visitar o Gueto para ajudar seus habitantes. a maior da Polônia. medicamentos e roupas aos habitantes do Gueto de Varsóvia.. Sua modéstia era impressionante. Raul – The Destuction of European Jews – NY: Holmes & Méier Publ. Assim o fazia para não chamar atenção dos soldados alemães. R. 8a impressão. Irena Sendler usava a Estrela de David. Era extremamente perigosa a operação estabelecida por Irena para salvar este enorme contingente de crianças. o futuro resgate de sua identidade passada. Sua coragem e sua consciência democrática são modelo para todas as gerações e o Yad Vashem lhe outorgou merecidamente o título de “Justo entre as Nações”. REFERÊNCIAS Arendt. SP: Ed.Z Nativ Ediciones. Como fazia? Dava-lhes um calmante e escondiaas dentro de malas. sua família não acreditou nessas explicações baseando-se em informações de prisioneiros soviéticos ao afirmarem que ele ainda estaria vivo. Fábio – Quixote nas Trevas – o embaixador SOUZA DANTAS e os refugiados do nazismo – RJ: Record. Segundo dados preliminares. tendo os Estados Unidos lhe outorgado a distinção de Cidadão Honorário. As mães não concebiam a idéia de se separar deles. as homenagens devidas. mas Irena nada revelou. Durante anos. Foi uma valorosa mulher! Uma ampla pesquisa está sendo realizada na USP. Afirmou em um de seus depoimentos que “quando propunha às famílias salvar-lhes os filhos. Irena Sendler. 2003 Rozett.2009 Davidovitch.1986 Carneiro. os soviéticos alegavam desconhecer seu paradeiro. Que eu podia prometer. ela mesma desenterrou os frascos com os nomes das crianças. 1985 Koifman. as reações eram trágicas. ela dedicava às crianças trazendo alimentos e remédios às desnutridas e doentes. aos 33 anos. somente após a morte de Stalin. Irena estudou na Universidade de Varsóvia. Ainda hoje permanece o dramático mistério! Wallenberg tem sido alvo de inúmeras manifestações de solidariedade e de admiração por seu corajoso papel no salvamento de milhares de vítimas da 2ª Guerra Mundial. ia registrando os nomes das crianças e das famílias e dos conventos nas quais ficaram abrigadas anotando tudo em papéis que ia juntando e guardando em potes de vidro e os enterrando. – The War Against The Jews – NY: Bantam Books.1999 Bankier. Nascida em 1910. Fora da órbita diplomática. das famílias e dos conventos. o governo sueco exigiu informações do governo soviético que. A eles que sigilosamente desenvolveram importantes ações que se converteram em muitas vidas resgatadas. Foi presa e torturada pela Gestapo. Este visa identificar os inúmeros brasileiros “salvadores de judeus” que se dedicaram com afinco a buscar caminhos de salvação para minorar o terrível sofrimento dos judeus durante a 2a. em outubro de 1943. Sua preocupação era com o registro das crianças. Começou a busca dos pais biológicos mas a maioria havia morrido nos campos de concentração. Raoul Wallenberg é um dos maiores heróis daqueles tempos sombrios. preferindo morrer juntos”. Assim.

fábulas. Neste caso. O III Reich pode ser considerado como a expressão máxima de um Estado totalitário. O que você entende por “relativismo perverso”? Os adeptos do “relativismo perverso”costumam eximir a responsabilidade do regimes totalitários da responsabilidade dos crimes contra a Humanidade. muitas vezes. apresentando imagens através de equipamentos de multimídia ou analisando textos de época em classe. liberdade de expressão. o professor poderá traçar comentários sugerindo novos conhecimentos e reflexões possíveis. Dentre estes filmes cabe lembrar “O Tambor”. com exceção dos centros de ensino gerenciados pela comunidade judaica que procura manter viva parte desta memória. como o Stalinismo na ex-União Soviética. Antes dos alunos responderem o questionário. Vale-se de uma pseudo-ciência. proibindo toda e qualquer crítica ao regime. reduzir as desigualdades sociais e regionais. É com esta intenção que os grupos de extrema-direita (como os neonazistas e os revisionistas) procuram banalizar o sofrimento dos povos calcados em falsas comparações estatísticas e históricas apresentando grandes dramas humanos (como o Holocausto) como “mero detalhe” ou “um mal menor”. por falta de orientação. Neste particular. foram premiados com o Oscar 37 . países governados por uma democracia). dignidade da pessoa humana. Totalitarismo pode ser entendido como um sistema de governo característico do século XX. cor. de Alcir Lenharo “Nazismo. As respostas poderão ser ampliadas tendo como base as informações e análises aqui sugeridas: 1. Você considera importante o ensino do tema do Holocausto em sala de aula? Justifique. são exemplos-padrão para os estudos sobre totalitarismo. países em conflitos no Oriente Médio e grupos partidários da extremadireita na França e Alemanha. O chefe (no caso. o professor pode consultar a clássica obra de Hannah Arendt “O Sistema Totalitário”. erradicar a pobreza e a marginalização. panfletos. Tanto o Nazismo na Alemanha. Maria Luiza Tucci Carneiro Seguem aqui algumas sugestões de perguntas/respostas” ao professor que poderá ampliá-las discutindo junto aos seus alunos filmes. de falsas estatísticas e de teorias racistas para impor a sua verdade criando um “mundo fictício” que compete com o mundo real.EXERCÍCIOS (Questões a serem formuladas para o aluno com sugestões de respostas) Profª. idade e quaisquer outras formas de discriminação. Defina o conceito de Estado Totalitário em oposição ao conceito de Estado Democrático. reconhecer o perigo da proliferação das práticas racistas e totalitárias. A hierarquia é rígida obedecendo o grau de militância dos seus membros. sofrendo ameaças. de Volker Schlondorff e “Cabaret”. citados na bibliografia. o Führer) é apresentado como infalível. Drª. valores sociais do trabalho e da livre iniciativa. raça. as massas são cooptadas por meio da propaganda e pelo terror. os discursos de Hitler e dos seus generais são verdadeiros “modelos de propaganda”. que avaliando os atos de barbárie praticados pelos nazistas teremos condições de refletir sobre o papel do Estado que deve preservar a vida do cidadão. 2. um agente de forças superiores. Muitas vezes. sem preconceitos de origem. o Estado detém o poder absoluto. Será importante o aluno comentar acerca dos seguintes itens: a conseqüência catastróficas dos regimes totalitários e das teorias racistas.como “A Lista de Schindler”. e desenvolver uma atitude de solidariedade e capacidade de conviver com as diferenças étnicas. tentam minimizar a catástrofe do Holocausto distorcendo os fatos. promover o bem de todos. empregando a violência para assustar o povo. tendo por base os termos da atual Constituição do seu país. (Sobre este conceito. em que o autoritarismo. dirigido por Bob Fosse. de Steven Spilberg e “A Doce Vida”. o racismo e o anti-semitismo são encarados com grande benevolência? O tema do Holocausto é raramente debatido e estudado nas escolas estaduais e particulares. culturais e políticas. O Estado Totalitário opõe-se ao Estado Democrático cujos fundamentos podem ser identificados na atual Constituição Brasileira: cidadania. somente nesta última década. é que tais temas . Ao poder externo corresponde a ordem jurídica interna do Estado forte. Nos países de regime totalitário. Parte da população brasileira só tomou ciência dos fatos quando filmes -. 4. Filmes contemporâneos de ficção sobre o nazismo têm conseguido ilustrar o fascínio que o movimento nacional-socialista exerceu sobre os alemães valendo-se da idéia de espetáculo. Solicitar aos alunos que pesquisem o texto original da atual Constituição Brasileira.Holocausto. justa e solidária. por motivos políticos. O povo acaba por viver uma verdadeira “guerra psicológica”. pluralismo político. Para enriquecer esta questão. o triunfo da vontade”. Autores e professores (não-judeus) sempre se esquivaram deste debate e. histórias em quadrinhos e revistas especializadas procuram impedir que outros cidadãos tomem consciência da verdade. O diálogo pode ser antecedido pela apresentação do filme “A Outra História Americana” que explora a história de um jovem neonazista nos EUA de hoje e proporciona a reflexão sobre o emprego da violência entre um grupo de skinhead. No Estado totalitário pode ser observada uma dupla autoridade: do Partido e do Estado que convivem e atuam em nome da Ordem. Podemos afirmar que. a importância de estudarmos o passado para evitarmos que crimes como o Holocausto sejam praticados contra a Humanidade. Através da propagação de livros. de Roberto Begnini. o Estado policial. O Estado Republicano tem por objetivos: construir uma sociedade livre. No seu entorno sobrevive uma “elite paramilitar” composta de homens poderosos com qualidades demagógicas e burocráticas-organizacionais. o professor pode debater com os alunos a situação vivenciada pelos negros no Brasil e nos Estados Unidos. Esta questão poderá ser respondida a partir de um debate em classe durante o qual os alunos devem ser incentivados a dar sua opinião pessoal. Funciona como se fosse uma sociedade secreta mantida por uma Policia que é o principal braço repressor do Estado. Nazismo e Racismo . apesar das diferenças ideológicas que os distinguem. sagrado. Como você situa o Brasil no debate sobre o Holocausto? É possível afirmar que “vivemos um eterno relativismo perverso”. 3.mereceram espaço especial junto aos livros didáticos.

ávido de lucros. A instalação destes campos acompanha as diferentes fases de perseguição aos “inimigos do regime” (judeus. sua figura é animalizada tomando a forma de vampiros. 6. onde a comunhão entre o povo (ariano) e o Führer são divinos. se não avaliarmos o papel da propaganda.E. vermes e serpentes viscosas. A instalação dos “campos da morte” inauguraram uma nova fase da metódica eliminação dos judeus na Europa. o cigano). o professor deve orientá-lo na observação dos cartazes e postais antissemitas que documentam este livro sobre Holocausto. Algumas expressões fisionômicas se repetem com o objetivo de produzir no “leitor” um sentimento de aversão e ódio. podemos identificar aqueles que foram “eleitos”pelo regime nazista para representar o belo. Durante o governo de Getúlio Vargas (1930-1945) vigoraram circulares secretas proibindo a entrada dos judeus e ciganos refugiados do nazismo. Os arianos. o perigoso. Yad Vashem. homossexuais. campos para prisioneiros de guerra.em 1994 e 1998. saúde. Obras anti-semitas. a Editora Revisão. Assim temos: Judeus Escoltados pela SA. exigiram a diversificação dos campos de prisioneiros: campos de trabalhos forçados. desde o final do século XIX. Valendo-se de elementos retirados da realidade. Israel. fossem “reais ou imaginários”. pois um dos objetivos dos antissemitas é de identificá-los com seres inumanos. . estes artefatos visuais se prestavam para influenciar a opinião pública colaborando para a sustentação de uma “estética nazista”. vasculharam os arquivos secretos do extinto Reich. comunistas. Grande parte dos conhecimentos que temos do funcionamento deste aparato foram extraídos dos processos do julgamento de Nuremberg. Quais seriam as principais diferenças entre as imagens veiculadas sobre os judeus e os arianos na Alemanha nazista ? Observação: antes do aluno responder esta questão. Nestas imagens os judeus têm o nariz adunco. explorador. lembrando a figura de Judas que segura as moedas que recebeu pela traição de Cristo. acompanhada pelo avanço das tropas alemãs em direção ao Leste europeu. coragem e bravura. Esteticamente irradiam beleza. Em 28 de fevereiro de 1933. físico proporcional. doentes mentais e físicos). Uma destas obras Holocausto: judeu ou alemão ? esteve entre os livros de não-ficção mais vendidos em novembro de 1987. louras de olhos azuis. “O racismo na História do Brasil: Mito e Realidade”. assumem o perfil de cidadãos “iluminados” envolvidos por signos nazistas. campos de concentração e campos de extermínio. dignos de respeito e confiança. Em outras situações. campos para poloneses. as fotografias impressas e os cartões –postais nazistas devem ser avaliados como representações visuais capazes de condensar uma síntese das principais idéias defendidas pelo regime. No Rio Grande do Sul. São jovens ingênuos. nestas últimas décadas. “O Anti-semitismo na Era Vargas”. campos penais. Sua imagem vem sempre ligada ao dinheiro. As figuras das mulheres arianas (consideradas como as guardiãs da raça ariana) são perfeitas. panfletos e propaganda racista circulam pela Internet (ainda que proibido por lei) propondo a morte de judeus. campos para prisioneiros civis. a lei para a proteção do povo e do Estado. olhos de ave de rapina. Os homens igualam-se aos heróis. Os posters. ambos desta autora) 5. (O professor pode ampliar suas leituras acerca deste tema lendo algumas obras básicas como: “Os Assassinos da Memória”. de Leni Riefenstal. a perfeição (o ariano) em contraposição com o feio. Vale lembrar que. os judeus são representados através de “traços negativos” que expressam a ideia de malignidade que lhes era atribuída pelo regime. os guetos e os campos como “espaços da exclusão e da morte premeditada”. saudáveis. o puro. Testemunhas de Jeová. a Polícia enquanto agente do terror . 38 . Além destes existiam outros campos com especificidades próprias: campos de trânsito. os negros e os mulatos como “raças inferiores”. negros e homossexuais. Podemos lembrar aqui. Avaliar os personagens. ciganos. o degenerado (o judeu. os álbuns de figurinhas. por sua vez. repelentes. animais perigosos. alegria e felicidade. Tais imagens se prestavam para justificar a prática da eutanásia e do extermínio. Nada disto era fortuito. Podemos afirmar que havia uma tipologia para os campos ? Você vê diferença entre campos de concentração e campos de extermínio? É impossível estudarmos o Holocausto enquanto fenômeno político. dirigido por Goebbels. Nestes materiais de propaganda. Raras são as pesquisas realizadas por historiadores brasileiros que tratam da nossa realidade racial e do passado racista do Brasil. Castan chegou a publicar várias obras que tratam o Holocausto como a maior mentira do século. ao lucro fácil. são gordos e barrigudos representando a figura do capitalista. expressando altivez. do processo de Eichmann (julgado em Israel em 1961) e de pesquisas acadêmicas que. de Pierre Vidal-Naquet. 1933. algumas cenas do filme O Triunfo da Vontade e Olympia. possibilitou a abertura dos primeiros campos de concentração que tinham como principal objetivo ‘eliminar os inimigos internos do regime. o governo e intelectuais brasileiros discriminavam os japoneses. de propriedade de S. cores e símbolos adotados pelo serviço de propaganda do Reich. limitada à condição de “reprodutora de novos arianos”. A ideologia eliminacionista do Reich e as necessidades econômicas decorrentes de uma situação de guerra. Confinada ao lar é apresentada como a fiel companheira do homem. Através das imagens reproduzidas por sofisticadas técnicas.

2ª etapa: 1939-1941 Campos de trabalho: já existiam na 1ª fase. Outras rebeliões foram registradas nos guetos de Minsk. Auschwitz-Birkenau (principal local de extermínio). Em abril de 1943 ocorreu a rebelião do gueto de Varsóvia. morrendo por asfixiamento. Heydrich ordenou que os judeus fossem reagrupados nos grandes centros ferroviários e ali concentrados nos guetos. Deveriam fazer uso da infra-estrutura e da mão-de. Vilna. Oranienburg. Campos para poloneses: criados durante o confronto com a Polônia em setembro de 1938. Letônia. começaram a ser praticados. Após a invasão da Polônia pelos alemães. Entre 1940-1941. Em 1944. Hammerstein. Bornim. uma grande número de guetos foram alí construídos em: Pietskow (1939). invadida pelos alemães em 1º de setembro de 1939. nas proximidades da fronteira soviética.obra dos territórios ocupados. foram criados campos de trabalho forçado para judeus. Dados complementares Categoria dos presos: judeus. Algumas cenas do filme A Lista de Schindler podem ser avaliadas prestandose para os alunos observarem como os judeus eram empregados nas indústrias que serviam ao Estado e aos industriais nazistas. Königswusterhausen.Etapas da Perseguição 1ª etapa: 1933-1938 Categoria e identificação Campos de concentração: Dachau (criado em 1933. Campos de concentração: passaram por uma reformulação em decorrência da política anti-semita e da situação de guerra.inicialmente. A Polônia. Kovno. Belzec (para onde foram transportados os judeus de Lublin e Lvov). transformou-se no laboratório da “Solução final”. comunistas e seus simpatizantes. Guetos: Bairros fechados e reservados especilamente para os judeus. Vilna. Treblinka e Auschwitz. posteriormente. 3ª fase: 1941-1945 Observação: o professor deverá orientar os alunos a observarem um mapa que identificando os locais de massacre (direção a leste) e os campos de extermínio. Ravesnsbrück (campo feminino) e Mauthausen. em caminhões a gás. Transilvânia e Frankfurt. Sugerir-lhes a montagem de um quadro seguindo o exemplo acima. cerca de 13 campos de trânsito foram construídos em Varsóvia. mas a tendência se acentou após 1942. Minsk-Mazowiwcki. Fossoli e Bolzono (norte da Itália). Lodz (1940). Um mês após a invasão da Polônia. passaram a ser empregadas câmaras de gás que tinham aparência de banheiro coletivo. Ali eram alojados cidadãos poloneses e prisioneiros de guerra que seriam deportados para a Alemanha. anarquistas. prestou-se como matriz para os demais campos). Letônia. -Grupos de prisioneiros distintos: os Aussenkommando (levados para trabalhar fora dos campos cuidando da abertura e preservação de estradas. 39 . -Os judeus eram exterminados. Berlim. trincheiras e aeroportos) e os Firmenlanger (trabalhavam nos campos de empresas encarregadas de produzir material bélico). Westerbork (Holanda) e Breendonck (Bélgica). Após 1941 foram construídos na Estônia para onde levados os judeus dos campos de Theresienstadt. homossexuais. Outros campos: Lublin-Majdanek. Os demais campos foram assumidos pela SS. sendo Pruszkow o principal deles. Posteriormente. diretor da WVHA. O mesmo acontecendo nos campos para prisioneiros civis e campos de trânsito. Há registros de revoltas nos campos de extermínio de Kruszyna. Oswald Pohl. Outros morriam de fome. fabricação de material bélico. Varsóvia (1940). Outros campos: Theresienstadt. alimentos e roupas para os soldados. Deveriam construir fortificações para garantir uma infra-estrutura para a invasão alemã na ex-União Soviética. Os Eizatzgruppen cuidaram dessa operação. Columbia Haus (Berlim). Quednau. Discutir com os alunos o item “O aparato institucionalizado do terror: etapas da perseguição”. ciganos. Treblinka II(para onde foram os judeus do gueto de Varsóvia). Kyrchów. de extermínio. Transilvânia e Frankfurt. social-democratas. Berlim. doenças e desespero. etc. Assassinatos esporádicos e. Sobibor. Kovno e Zetl Campos de extermínio: às categorias identificadas nas fases anteriores somaram-se os campos de extermínio: Chelmno (1942: iniciou o extermínio dos judeus de parte da Polônia anexada pelo Reich). Kovno. na 2ª etapa da guerra que exigia a abertura de estradas. Campos de trânsito na Europa ocidental e meridional para onde foram transladados milhares de judeus: Drancy (França). Sobibor. Número de presos entre 1933-1939: cerca de 165 mil a 170 mil Supervisão: Dachau e Columbia Haus estavam sob a supervisão da AS que tinha Himmler como seu comandante. foi encarregado de administrar os prisioneiros dos campos de concentração.

Essas ideias foram se tornando mais extremadas à medida que o movimento nazista ganhava forças. poderão ser mostrados para os alunos abrindo o debate para esta questão. o ex-teórico da arte. Para avaliar. o antissemitismo deixaria de existir. Pilhagem e destruição marcou esta investida nazista contra objetos e pessoas. 1996). bela. chegaram a clamar por uma “depuração da arte” . irresponsável pelos seus atos. São Paulo: Companhia das letras. Estes estavam divididos em dois grupos distintos: Wafen SS (que atuavam como divisões militares de guerra) e os Einsatztruppen (comandos especiais responsáveis pela execução da política de extermínio na Rússia ocupada e pela segurança dos campos de concentração). acusados de crimes contra a Humanidade. fazendo valer a “vontade autoritária”. homens comuns. Dezenas de outros cidadãos. POVO. sem desvios. Hitler. Assim. esses comandos haviam assassinado cerca de meio milhão de judeus. Matisse. raciais. Este se tornou vitorioso em 1948 com a criação do Estado de Israel. ideia pregada por intelectuais desde o século XIX. Até novembro de 1941. foi o elemento detonador de uma mentalidade antissemita pré-existente. eram colocadas lado a lado com pinturas e esculturas modernas. O tratamento de “patológica” dado à arte moderna não foi uma invenção do nazismo. Caso o professor queira ter maiores informações sobre este texto deverá consultar a obra “Europa Saqueada”. neste caso. Deu-se início a um programa de “purificação da arte” que corria paralelo ao “programa de purificação da raça”. de Daniel Goldhagen (ver bibliografia citada). Alfred Rosenberg. controlada por Himmler e seu auxiliar Heydrich. Que papel tiveram os membros da SS na execução da “Solução Final” nos campos de extermínio? A questão da “Solução Final” não deve ser atribuída. A SS. A idéia de Herzl era de que. Críticos de arte. Theodor Herzl fundou na Europa um movimento nacionalista judaico que tinha por objetivo o restabelecimento de um Lar Judaico na Palestina. estes homens (inferiores) formavam uma categoria biológica e cultural de sub-homens (os Untermenschen). em que fotografias de pessoas doentes e deformadas. o III Reich “estetizou” a vida alemã. Com a 40 . resultantes de uma degeneração (um desvio). ciganos. Paul Schultze-Naumberg publicou o livro Arte e Raça. As obras de Matisse. as Testemunhas de Jeová. um jornal alemão já havia classificado as obras de Kandinsky como “um sólido emaranhado de linhas” e o próprio artista como um “pintor insano”. espalhou o ódio contra judeus. Munch e Picasso estavam entre as obras “expurgadas”. Aliás. a partir do momento em que os judeus tivessem um lar próprio. Van Gogh e outros. a “culpabilidade” é um dos temas mais debatido nestes últimos anos. comunistas. 8. além do cidadão comum que foi cooptado pelo regime. Persistia o sentimento de que a multidão e a cultura alemãs deveriam formar um todo único. galerias foram fechadas. Van Gogh. Importante papel tiveram os médicos e cientistas conhecidos como os “anjos da morte”. Os comandantes da polícia política (os Eisatzgruppen) colocaram em execução as ordens recebidas de Heydrich. discussão que ganhou forças após o lançamento do livro Os Carrascos Voluntários de Hitler. de gênere e culturais). Não apenas de judeus. subsidiada pelo aparelho burocrático do Estado. A partir de um projeto de arianização. comunistas. 9. obtidas de textos médicos. Verdades sobre as raças puras e as raças inferiores” foram “construídas” com o apoio de cientistas. Dois conceitos foram amplamente explorados pelo nazistas: o de raça degenerada e arte degenerada. podemos definir o Holocausto como o produto de uma mente maquiavélica e calculista que. tornouse cabeça intelectual do partido. especificamente. Nicholas. Artistas “degenerados” perderam os seus cargos. contrários à arte impressionista. perfeita. raciais e ideológicos) deveriam ser eliminados.Da mesma forma como se proibiam casamentos entre judeus e arianos. obras confiscadas e museus reformulados.7. médicos. Em 1913. Muitos preferiram deixar a Alemanha pois sequer podiam comprar tintas e pincéis. também se proibia o jazz e a pintura moderna. Explicações convencionais procuram mostrar que os alemães (enquanto coletividade nacional) adotaram posições neutras ou condenatória em relação ao genocídio. de Lynn H. O extermínio de seis milhões de judeus foi decidido e executado por Hitler e seus homens (além de homens comuns do povo) entre 1939-1944. a vontade do Führer. que “serviam à Pátria alemã”. perfeito. selecionar e exterminar os cidadãos indesejáveis foram criados institutos de pesquisa e uma polícia especial. foi realmente o maior braço de repressão do regime. o tema foi discutido no Reichstag e o parlamento aprovou uma resolução contra a “degeneração”da arte. Com a ascensão dos nacionais-socialistas ao poder. Cézanne. Em 1914. os deficientes físicos e mentais. Aqueles que apresentassem desvios (leia-se aqui “defeitos” morais. Muitos daqueles que foram julgados no Tribunal de Nuremberg. a arte entrou em voga. sem degenerações de qualquer espécie (ideológicas. ciganos e outras minorias. assumindo o cargo de “zelador de todo o treinamento e educação intelectual e espiritual do partido e das associações coordenadas”” . Coleções valiosas de obras confiscadas iam sendo empilhadas no Holfburg e no Kunsthistorisches Museum. Segundo a terminologia nazista. Estes mesmos critérios (de raça pura/superior e impura/ inferior) foi aplicada à arte. foram mobilizados pelo regime aderindo ao programa de extermínio. os homossexuais. a um grupo de homens. Qual a relação deles com o programa de arianização idealizado pelo Reich? Um dos principais slogans anti-semitas do III Reich era o de construir uma Alemanha “limpa de judeus”. O debate não era exclusivo da Alemanha: aconteceu em outros países que julgavam os artistas “degenerados” como produtos do liberalismo. Conseguiu seguidores por toda a Europa e países da América. Slides das pinturas de Picasso. A tese defendida por Goldhagen é de que o Holocausto foi compartilhado pela maioria do povo alemão que não se limitou apenas a assistir o espetáculo do horror. Qual a relação que pode ser feita entre a Shoah e a criação do Estado de Israel ? No final do século XIX. ARTE e ESTADO constituíram um trinômio inseparável no ideário nazista. Explicavam que cabia aos membros da hierarquia nazista as “ordens”para a matança. A Alemanha queria ser uma bloco coeso. Entre os indesejáveis (inimigos do regime) estavam: os judeus. mas “limpa” de tudo que pudesse comprometer o projeto de arianização da Alemanha cujo povo deveria ser formado por elementos representativos de uma raça pura. alegavam que estavam apenas “cumprindo ordens”. O destino dos tesouros artísticos europeus no Terceiro Reich e na Segunda Guerra Mundial. educadores e filósofos. Em 1928.

indumentária dos diferentes grupos (SS.). . Em 1939.defendem.País ou cidade onde se desenvolve o filme procurando observar os diferentes espaços de segregação (guetos. desde a Segunda Guerra Mundial. Paulo noticiou que “cerca de 600 jovens neonazistas desfilaram pela primeira fez. Organismos e comitês judaicos internacionais tentavam apoiar aqueles que estavam interessados em emigrar para a Palestina. Prevendo um período transitório de 5 anos. a sacralização do Führer.Reconstituição dos cenários da época (1933-1950): residências dos nazistas e dos judeus. confirmado pela maioria de dois terços na Assembléia Geral das Nações Unidas. foram conduzidos através deste portão que ficou fechado quase 50 anos. Vários navios eram aprisionados com sobreviventes dos campos de concentração à bordo. de forma a não alterar essa proporção. Udo Voigt. O comportamento e as idéias do neonazistas americanos poderão ser avaliadas através de um debate acerca do filme A Outra História Americana. Até então. o governo britânico limitou a imigração judaica e a aquisição de terras na Palestina. prisões militares. como os nazistas a supremacia da raça ariana. através do Portão de Brandembrugo (Arco do século XVIII e o maior símbolo da nação alemã) em Berlim. etc). campos de concentração. Você certamente já ouviu falar dos neonazistas. Caberá ao professor. campos de trabalho). judeus. Entre o final da guerra e a criação do Estado de Israel (1948) uma imensa corrente emigratória Ilegal) se intensificou levando refugiados judeus até a “terra prometida”. 10.Se a moral nazista e o discurso antissemita se fazem presentes nos diálogos. finalmente. inclusive no Brasil. cenas de exaltação à Alemanha. os judeus alemães perseguidos pelo nazismo – e adeptos da idéia de terem um lar em terras da Palestina – começaram a procurar refúgio na Terra de Israel (Eretz Israel). arrolados algumas elementos à serem observados como por exemplo: . Adotam o nazismo e a Ku Klux Klan como modelos. águia. Têm profanado cemitérios judaicos. incendiado ambientes e pessoas consideradas como “indesejáveis”. presidente da ala neonazista do Partido Nacional Democrático.No caso de documentários observar o uso de luz e sombra. hinos. disse que esse projeto é “uma mancha indesejável na capital do Reich”. ciganos). Os neonazistas -. Qual a similaridade das idéias defendidas por esses grupos com os princípios sustentados pelos nazistas nos anos 1930 e 1940 na Alemanha ? No dia 31 de janeiro de 2000. As cabeças raspadas compõem o seu visual. judeus. em conjunto com seus alunos e direção da escola. chefes nazistas. Têm seguidores em várias partes do mundo. etc. . Londres decidiu encerrar o mandato e preparar o país para a independência. O grupo sionista mais radical liderado por Davi Bem Gurion. um regime de mandato era estreitamente fundamentado na cooperação entre as autoridades britânicas e o movimento sionista. como aconteceu com o navio Êxodus em 1947. onde fazem ecoar as clássicas saudações nazistas: Heil Hitler! e Sieg Heil! Hitler é considerado o seu líder espiritual enquanto que seus atos são valorizados como expressão de heroísmo. os neonazistas portavam bandeiras imperiais alemãs e vestiam roupas pretas compondo uma “estética nazista”. Vale ressaltar que diversos desfiles organizados pelo Partido nazista entre 1933-1945. Meses mais tarde. selecionar alguns dos filmes para serem debatidos em classe.000 pessoas que se somaram a outros 13. espaços de lazer (praças públicas. nasceria o Estado de Israel. oficinas. A partilha da Palestina foi. estrela-de-davi. uso de símbolos (suástica. decidiu por infringir as diretrizes dos Livros Brancos incentivando a imigração ilegal em massa para Eretz Israel. cinemas. tendo por base os índices demográficos do momento: 2/3 de árabes e 1/3 de judeus. balneários) e espaços de educação (colégios) . AS. Alimentam seus seguidores distribuindo um farto material de propaganda racista e política que circula através da Internet.considerados como grupo de violência . catálogos e fanzines (revistas produzidas manualmente). Só foi reaberto após a queda do Muro de Berlim e o processo de reunificação do país. 41 . Seria interessante que. além de portarem suásticas tatuadas no corpo. A grande fuga dos judeus perseguidos pelos nazistas precipitou o fim desta política sustentada pelos ingleses.000. Persistia nesta época a Política do Livro Branco que limitava a entrada de judeus na Palestina. levados por outros meios. espaços de trabalho (fábricas. O Livro Branco marcou o início da luta final pela formação de um Lar Nacional Judaico na Palestina e devem ser vistos como símbolo das restrições impostas pelos ingleses à emigração judaica durante a Segunda Guerra. Durante o ato de protesto. proposta por um projeto encaminhado em 1º de setembro de 1947 pela Comissão de Inquérito das Nações Unidas (UNSCOP). num protesto contra um monumento em homenagem aos judeus mortos no Holocausto (futuro Memorial do Holocausto). antes da exibição. o jornal Folha de S. em 29 de novembro de 1948. a figura do cidadão “ariano” e do cidadão “judeu”.ascensão de Hitler ao poder em 1933 e com o incremento da política anti-semita pelo Reich. mendigos e homossexuais. 11. expressando seu ódio contra negros. A agência clandestina Mossad Aliya Beit conseguiu fazer chegarem à Palestina cerca de 70. Você já assistiu a algum filme sobre o Holocausto? Qual? Comente a respeito.

fornos crematórios.22/10/1944) Feira. Israel Anna Flachová (26/11/1931 . Israel 42 . Yad Vashem. SP Buchenwald. Israel Deportação de judeus para os campos. Yad Vashem. Israel Ruth Reinová (19/02/1931 . giz de cera. Israel Desembarque de judeus para campo de concentração Yad Vashem. Museu Lasar Segall. Yad Vashem.sobrevivente) Depois de uma tempestade no mar. Yad Vashem. aquarela.Momentos antes da Câmara de Gás.

43 . religiosas e (por vezes) políticas. é amplamente utilizado na Alemanha Nazi. Exposição Iconográfica: O termo “Iconografia” provém do grego . a vigilância em massa e o disseminado o uso do terrorismo de Estado. Regimes totalitários: Sistema político em que o Estado. exterminando deliberadamente. Foi a guerra mais abrangente da história. Exposição iconográfica representa a exibição em forma de linguagem que agrega imagens na representação de determinado tema. de um país para outro. entre a Tríplice Entente (liderada pelo Império Britânico. Seu principal ponto determinava que a Alemanha aceitasse todas as responsabilidades por causar a guerra e que. normalmente sob o controle de uma pessoa. União Soviética e Estados Unidos) e o Eixo(Alemanha. sobre suas idéias anti-semitas. Massacre de Ruanda: Em Ruanda. o presidente hutu Habyarimana foi morto. agressão e desenho de eliminar a sua presença para assegurar uma suposta pureza. o tratado foi assinado como continuação do armistício de Novembro de 1918. cultural ou religioso. fizesse reparações a um certo número de nações da Tríplice Entente. Instituiu na Alemanha o regime ditatorial nazista. Após seis meses de negociações em Paris. Direitos Humanos: São direitos e liberdades básicos de todos os seres humanos. que. A partir do século XIX passou a designar grandes massacres e após a Segunda Guerra Mundial foi utilizado especificamente para referirse ao extermínio de milhões de pessoas que compunham grupos politicamente indesejados pelo regime nazista. primando sempre pela “raça pura ariana”. não reconhece limites à sua autoridade e se esforça para regulamentar todos os aspectos da vida pública e privada. muito frequente em regimes autoritários e totalitários. o avanço do capitalismo provocou uma disputa por novas áreas e mercados. Império Austro-Húngaro e Império Turco-Otomano). formulada por Adolf Hitler. além da igualdade perante a lei. e adotada pelo governo (1933 a 1945). Império Russo (até 1917) e Estados Unidos (a partir de 1917) que derrotou a Tríplice Aliança (liderada pelo Império Alemão. É sistema político controlado por legisladores não eleitos que usualmente permitem algum grau de liberdade individual. O Presidente da República nomeava chanceler que seria responsável pelo poder Executivo. sob os termos dos artigos 231-247. França. caracterizado pelo uso do abuso de poder e da autoridade confundindo-se com o despotismo. na África. causando matança e de mais de um milhão de pessoas de Primeira Guerra Mundial: Com início do século XX. França. Mein Kampf (Minha Luta): Título do livro de dois volumes de autoria de Adolf Hitler. é a ideologia praticada pelo Partido Nazista da Alemanha. parte do exército e muitos esquadrões da morte perseguiram. significando cremação dos corpos. Os regimes ou movimentos totalitários mantêm o poder político através de propaganda abrangente divulgada por meios de comunicação controlados pelo Estado com partido único. doutrina totalitária desenvolvida por Benito Mussolini (1919) e o nazismo alemão. a mais antiga das três principais religiões monoteístas (as outras duas são o cristianismo e o islamismo). aversão ou a profunda antipatia em relação aos estrangeiros. com controle sobre a economia. Xenofobia: Medo irracional. teve como sistema de governo o modelo parlamentarista democrático.GLOSSÁRIO Adolph Hitler: (1889-1945) Líder político alemão nascido em (Braunnau-Austria). encerrando oficialmente a Primeira Guerra Mundial. A guarda presidencial. Pode ser definido como comportamento em que instituição ou pessoa se excede no exercício da autoridade que lhe foi investida. Antissemitismo: Preconceito ou hostilidade contra judeus baseada em ódio contra seu histórico étnico. Os indivíduos e grupos que optam pela dissidência são denominados dissidentes políticos. Imigação: Movimento de entrada. com ânimo permanente ou temporário e com a intenção de trabalho e/ou residência. Itália e Japão). Tornou-se guia ideológico e de ação que até hoje influencia neonazistas e é chamado de “Bíblia Nazista”. Terceiro Reich: Nome do período do governo estabelecidou na Alemanha (1933-1945) liderada por Adolf Hitler e o Partido Nacional Socialista Alemão dos Trabalhadores (NSDAP). Tratado de Versalhes: Tratado de paz assinado pelas potências europeias em 1919. A disputa pela hegemonia do continente causou grande guerra chamada Primeira Guerra Mundial. culminando no colapso de quatro impérios e mudando de forma radical o mapa geo-político da Europa e do Médio Oriente. embora nascido em 1920. liderando a 2. Dissidentes Políticos: Dissidência é o ato de discordar de uma política oficial. que tinha posto fim aos confrontos. Normalmente o conceito de direitos humanos engloba a liberdade de pensamento e de expressão. envolvendo todas as grandes potências – organizadas em duas alianças militares opostas: os Aliados (Império Britânico.ª Guerra Mundial (19391945) promovendo o extermínio de cerca de 6 milhões de judeus. Genocídio: Assassinato deliberado de pessoas motivado por diferenças étnicas. o fascismo italiano. com mais de 100 milhões de militares mobilizados. Shoah: Corresponde à palavra holocausto em hebraico. há dois grupos étnicos: a maioria hutu e o grupo minoritário de tutsis. racialistas. em muitos aspectos emulando a primeira. adotadas pelo partido nazista. Pode manifestar-se de várias formas. negros. nacionalistas e socialistas. facção ou classe. judeus e comunistas (bem como outras correntes políticoideológicas correlatas à esquerda política). Arianismo: teoria nazista que afirmava a superioridade do povo ariano como suposta raça pura.“eikon” significa imagem e “graphia” significa escrita. a regulação e restrição da expressão. Foi promovido pela cúpula do partido também conhecido como partido (1915-1917). poder instituído (ou constituído) ou decisão coletiva. político. Nazifascismo: Termo que designa em conjunto. Regimes autoritários: Forma de governo caracterizada pela ênfase na autoridade do Estado em uma república ou união. Os seguidores da doutrina promovem discriminação contra minorias e grupos específicos. Genocídio Armênio: governista Ittihad dos Jovens Turcos deportação forçada origem armênia. nacionais. logo “escrita da imagem”. Em 1994. Segunda Guerra Mundial: Conflito militar global (19391945). em Compiègne. O poder Legislativo era constituído por parlamento (Reichstag). de pessoas ou populações. quase um milhão de tutsis. como homossexuais e outros não-heterossexuais ou não-cisgêneros. Nazismo: Conhecido oficialmente na Alemanha como nacional-socialismo. República de Weimar: Instaurada na Alemanha após a Primeira Guerra Mundial. raciais. Grupos Neonazistas: Associado ao resgate do nazismo tem suas origens assentadas na intolerância e em preceitos racistas. que muitas vezes é marcado por culto de personalidade. ameríndios. Judaísmo: Nome dado à religião do povo judeu. incluindo o medo de perda de identidade.

Regina Vinhaes Gracindo.ECCO Direção e Coodernação Geral Diva Maria Osorio Camargo Curadoria Karla Osorio Netto Coordenação Ivan Aires Produção Giselle Queiroz Ricardo Caldeira Equipe de Agendamento e Suporte Elizete Campos Melissa Resende Equipe de Apoio e Manutenção Abgail Sousa Meneses Edson Santos Equipe de Montagem Eduardo dos Santos Francisco Bento da Silva Rubens de Oliveira Teodoro Silva Vicente Pires Administração Cláudia Alves Domingos Lacerda Júnior Vilany Batista Programa ECCO Educativo Concepção de Conteúdo do Educativo Maria Luiza Tucci Carneiro Autores Colaboradores Helena Lewin Marcelo Vieira Walsh Silvana Feitosa Silvia Rosa Nossek Lerner Túlio Chaves Novaes Consultoria Ana Beatriz Goldstein Diretora da CAL – DEX/UnB Ana Queiroz Coordenadora Pedagógica da CAL – DEX/UnB Ariane Abrunhosa Supervisão Ana Cristina Caracol Mediadores Daniel Muniz. Oliveira. Kanda Nehgme. Mônica Vinovezky. Fábio Balestro.br Realização Co-Realização Embaixada da República Tcheca Patrocínio Apoio Parceria Educativa Produção Secretaria de Estado de Educação . Agradecimentos Abraham Goldstein. Natanry Osorio. Patrícia Lima Pederiva. Leo Vinovezky. Carmem Gramacho. Janaina Botelho Jeremias Barros..FICHA TÉCNICA Comissão Organizadora da Jornada .abdv. Sr.Brasília Abraham Goldstein (B’nai B’rith do Brasil) Karla Osorio Netto (ECCO) Maria Luiza Tucci Carneiro (LEER/USP) Espaço Cultural Contemporâneo . Pereira e Luiz H. José Geraldo de Sousa Jr.gov. Embaixador Giora Becher. Rachel Becher. Jessica Paiva. Lunare G. Flávia Santos. Gicia Falcão. Renata Machado Roberta Zrycki e Wilder Santos. Joe Valle. Embaixador Ivan Jancárek. Adilson Cesár de Araújo. Impressão em Braile na ABDV www. Claudio Lottenberg. Jaime Spitzcovsky (CONIB). Marcelo Vieira Walsh.

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