Os meninos cantores do Ghetto de Varsóvia, Arquivo Yad Vashem, Israel

ECCO EDUCATIVO. Volume 30
Exposição “Os Desenhos das Crianças de Terezín”
XVI JORNADA INTERDISCIPLINAR SOBRE O ENSINO DA HISTÓRIA DO HOLOCAUSTO

Brasília, abril/maio de 2011

Material didático para educadores Como Ensinar e Estudar o Holocausto no Século XXI

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ÍNDICE
SOBRE AS JORNADAS INTERDISCIPLINARES ...................................................................................................................................3 APRESENTAÇÃO ....................................................................................................................................................................................3 NAZISMO E ANTISSEMITISMO TEORIAS E PRÁTICAS DA EXCLUSÃO, Profª. Drª. Maria Luiza Tucci Carneiro .............................................................................4 1. Da reflexão à ação .............................................................................................................................................................4 2. Temas transversais: nazismo, antissemitismo e Direitos Humanos ..............................................................................5 AS CRIANÇAS DE TEREZIN Arte e criatividade em tempos de intolerância, Profª. Silvia Rosa Nossek Lerner .....................................................................7 A Infância no Campo ..............................................................................................................................................................8 As atividades das crianças ....................................................................................................................................................9 a) Apresentação teatral ................................................................................................................................................9 b) Os desenhos ..............................................................................................................................................................9 c) Poesias .......................................................................................................................................................................10 d) As publicações ..........................................................................................................................................................10 e) Música .......................................................................................................................................................................11 LEITORES DE DRAMAS E MEMÓRIAS RELATO DE UMA EXPERIÊNCIA, Profª. Silvana Feitosa ...................................................................................................................13 1. Justificativa .........................................................................................................................................................................13 2. Objetivos .............................................................................................................................................................................14 3. Metodologia........................................................................................................................................................................14 4. Materiais utilizados para a realização da atividade em sala de aula ............................................................................16 5. Avaliação das atividades realizadas .................................................................................................................................16 DESAFIOS DO ENSINO DA HISTÓRIA DO HOLOCAUSTO (Shoah) DA “QUESTÃO JUDAICA” à SOLUÇÃO FINAL, Prof. Dr. Marcelo Vieira Walsh ...............................................................................17 1. O papel do educador na construção da Memória do Holocausto (Shoah) ....................................................................17 2. Educação em prol da promoção da Cultura de Paz, dos Direitos Humanos, Coexistência e Diálogo ...........................................................................................................................................................18 3. Holocausto (Shoah): como foi possível acontecer?.........................................................................................................19 4. O Terceiro Reich e o Antissemitismo: ...............................................................................................................................20 5. A Segunda Guerra Mundial e a “Solução Final” na Conferência de Wannsee (1942) .................................................21 LEITURAS COMPLEMENTARES ............................................................................................................................................................24 AS LEIS DE NUREMBERG A INSTITUCIONALIZAÇÃO DA EXCLUSÃO DE MINORIAS, Prof. Tulio Chaves Novaes ..................................................................24 1. PROPOSTA PEDAGÓGICA: Uma abordagem histórica sobre o processo de construção dos direitos humanos na modernidade................................................................................................................................24 2. Noções Teóricas Sobre Direitos Humanos Fundamentais .............................................................................................25 3. As Leis de Nuremberg .......................................................................................................................................................26 4. Premissas Discriminatórias de Nuremberg .....................................................................................................................27 5. A Efetivação Obrigatória dos Direitos Humanos Fundamentais .....................................................................................29 6. Ações Afirmativas e Oportunidades Sociais.....................................................................................................................29 7. Considerações finais sobre o tema ...................................................................................................................................30 SOLIDARIEDADE EM TEMPOS SOMBRIOS “JUSTOS ENTRE AS NAÇÕES” e “SALVADORES DE JUDEUS” Profª. Drª. Helena Lewin ...............................................................30 EXERCÍCIOS ............................................................................................................................................................................................35 GLOSSÁRIO.............................................................................................................................................................................................43 FICHA TÉCNICA ......................................................................................................................................................................................44

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SOBRE AS JORNADAS INTERDISCIPLINARES
Acreditamos que através da história, do teatro, da dança, da música, do cinema, das artes, da literatura e, inclusive, das ciências exatas e biológicas, poderemos promover a CULTURA DE PAZ e contribuir para o desenvolvimento de uma consciência universal de respeito aos povos ou nações, salvaguardando as suas identidades. As Jornadas Interdisciplinares vêm sendo desenvolvidas desde 2002 pela B’nai B’rith do Brasil em parceria com o LEER/USP – Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação , da Universidade de São Paulo, como segmento de um projeto maior intitulado Educando para a Cidadania e a Democracia. A B’nai B’rith – Filhos da Aliança, em hebraico, é uma entidade Judaica, presente em 54 paises e ativa no Brasil desde 1932. É membro permanente da Organização das Nações Unidas, como ONG e atua em inúmeros serviços sociais, contra o racismo, o antissemitismo e a discriminação, através de ações humanitárias e políticas, em favor do reconhecimento do valor da Declaração Universal dos Direitos humanos. O LEER tem sede no Departamento de História da FFLCH/USP sendo coordenado pela Profa. Dra. Maria Luiza Tucci Carneiro. Vários projetos são ali desenvolvidos reunindo pesquisadores de múltiplas áreas do conhecimento e alunos bolsistas, que têm participado e colaborado nos programas dedicados a promoção de valores democráticos e de cidadania. Sempre que possível, e assim tem acontecido, procuramos desenvolver as Jornadas em parceria com as Secretarias Municipais e Estaduais de Educação. Através deste intensivo programa de Jornadas Interdisciplinares visamos à capacitação dos educadores procurando minimizar as deficiências de formação e de material paradidático nas escolas que, nem sempre dispõem de condições para atualizar suas propostas pedagógicas. A atual realidade brasileira exige a revisão e a implementação do respeito aos valores e direitos humanos em prol da vida, da justiça social e da dignidade promovendo a CULTURA DE PAZ e da TOLERÂNCIA. Compreendemos que através da produção de atividades pedagógicas - que têm como motivo tema–matriz, a Shoah (Holocausto), além de outros genocídios e formas de intolerância no mundo contemporâneo – poderemos alertar as futuras gerações para os perigos das políticas racistas empreendidas por um Estado totalitário e, até mesmo, por uma sociedade desinformada, em vias de democratização. Profª. Dra. Maria Luiza Tucci Carneiro e Dr. Abraham Goldstein Coordenação Geral

SOBRE AS I JORNADA DE BRASÍLIA
Prezados professores, O material didático preparado para este XXX Encontro Técnico organizado pelo Espaço Cultural Contemporâneo - ECCO é todo em torno do tema “Como Ensinar e Estudar o Holocausto no Século XXI”. O evento é fruto de uma parceria realizada com a USP, a UNB e a Secretaria de Educação do GDF e constitui-se na XVI JORNADA INTERDISCIPLINAR SOBRE O ENSINO DA HISTÓRIA DO HOLOCAUSTO”. Paralelamente ocorrem 2 (duas) exposições sobre o tema, quais sejam: (i) “Os Desenhos das Crianças de Terezín“, em corealização com as Embaixadas de Israel e da República Tcheca, composta de desenhos feitos por milhares de crianças com idades entre 10 a 15 anos, que converteram-se em verdadeiro testemunho da experiência por elas vividas sob o rigor do cruel domínio nazista e (ii) “Variações Grünewald“, obra contemporânea em vídeo-arte e fotografia, do artista belga Geert Vermeire, em memória a um dos locais simbólicos do Holocausto, por meio de imagens e poesia. O vasto conteúdo teórico aqui reunido contém textos de grandes especialistas e poderá contribuir para complementar formação de educadores. A meta é reforçar a importância do ensino do tema do genocídio, fenômeno singular na história da Humanidade, para promover valores fundamentais como convivência, diversidade cultural e direitos humanos, bem como para reforçar a cultural da paz e da tolerância. Esperamos que o material, cujo teor é diretamente relacionado aos Parâmetros Curriculares Nacinais - PCN’s, sirva de subsídio para desenvolvimento de trabalhos em sala de aula, com exercícios interdisciplinares que incentivam aprendizagem por meio da arte, bem como colaborem para implementação do Concurso de Redação sobre o tema que é lançado com mo evento. Com este tipo de iniciativa, o ECCO reforça, ainda mais, o cumprimento de sua missão de formar público, educar com arte e gerar inclusão social, para formar cidadãos mais conscientes, colaborando de forma concreta para formação de uma sociedade melhor e mais justa. Dra. Karla Osorio Netto Coordenadora Regional Curadoria do ECCO

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O LEER tem sede no Departamento de História da FFLCH/USP sendo coordenado pela Profª. Dra. Maria Luiza Tucci Carneiro. Vários projetos são ali desenvolvidos reunindo pesquisadores de múltiplas áreas do conhecimento e alunos bolsistas que têm participado e colaborado nos programas dedicados a promoção de valores democráticos e de cidadania.

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NAZISMO E ANTISSEMITISMO TEORIAS E PRÁTICAS DA EXCLUSÃO Maria Luiza Tucci Carneiro2 1. Da reflexão à ação A julgar pelo número de pessoas que hoje negam o Holocausto ou que usam erroneamente o conceito de genocídio aplicando-o de forma deturpada à casos que não condizem com a realidade histórica, podemos afirmar que o antissemitismo e o negacionismo encontram-se na ordem do dia. Apesar dos movimentos sociais comprometidos com a luta contra a negação do Holocausto3 e o combate a intolerância, multiplicam-se pelo mundo -- incluindo aqui o Brasil -- os grupos neonazistas, os sites de exaltação ao nazismo, os atos de xenofobia e intolerância religiosa, racial ou étnica. As cartas abertas aos leitores para comentários junto aos grandes jornais brasileiros (impressos ou nos seus formatos virtuais) devem ser interpretadas como um termômetro expressivo do grau de ignorância e da força dos mitos que continuam a instigar o ódio e a violência contra as minorias. Valendo-se de uma linguagem reducionista, estes “leitores” defendem os feitos de criminosos nazistas minimizando a barbárie cometida em nome de uma ideologia. Ignoram, sem escrúpulos, ao plano de extermínio arquitetado pelo Terceiro Reich que, entre 1933-1945, culminou com a morte de 6 milhões de judeus e outros tantos milhares de ciganos e dissidentes políticos. O racismo teórico pregado por Hitler em Mein Kampf, infelizmente sobrevive movido por impulsos irracionais e/ ou acobertado por interesses políticos. Não devemos ser coniventes com a ideia de que, pelo fato de vivermos em uma democracia, temos “o direito ao erro” ainda que cada um “tenha o direito de viver segundo suas convicções”, retomando aqui o pensamento de Paulo Ricceur sobre a intolerância.4 Liberdade de expressão não deve ser confundida com a

cultura da indiferença ou com o silêncio proposital da História. E, com relação ao Holocausto, vivemos momentos críticos da ideia de verdade histórica esfoliada por discursos negacionistas sustentados por intelectuais e ativistas comprometidos com a reedição da demagogia totalitária5. Muitos, aproveitam-se da vulnerabilidade sociocultural dos cidadãos -- que nem sempre têm conhecimento do nosso passado histórico – para impôr versões maniqueístas, deturpadas por matrizes ideológicas comprometidas com avaliações simplistas. Enfim, as velhas intolerâncias, como muito bem ressaltou Elie Wiesel, “ainda estão presentes, como se sabe: as xenofobias, o medo ao estrangeiro, o ódio ao que não é como nós, o ódio racial, religioso, cultural, a exclusão. O ódio tem muitos nomes, mas nunca muda”.6 Aqueles que endossam o revisionismo histórico que nega o Holocausto, assim como outros genocídios e massacres -relembro aqui o genocídio armênio e o massacre de Ruanda - além de estarem endossando os crimes cometidos pelo Estado contra os cidadãos, estão também reforçando o ódio e as práticas de aniquilamento de um povo ou grupo. Na qualidade de educadores e profissionais identificados como “formadores de opinião” devemos ter em mente que certos valores são inegociáveis: negar o Holocausto é crime, assim como é crime admitir a apologia da crueldade e o ódio ao Outro. Para combater a intolerância precisamos ampliar os círculos de responsabilidades, pois cabe ao público e o privado gerar políticas comprometidas com o respeito aos Direitos Humanos. É com este objetivo – de incentivar o estabelecimento definitivo de sistemas educacionais que ensinem a não odiar – que proponho o ensino da História e a preservação da memória do Holocausto sob uma visão multidisciplinar. As universidades, assim como as escolas de ensino médio e fundamental, devem incentivar pesquisas e debates sobre este tema que extrapola os estudos sobre a Segunda Guerra Mundial. A realidade tem demonstrado que para combater a intolerância precisamos ampliar os círculos de responsabilidades para além do Estado. Não podemos nos

2 Historiadora, Professora Doutora e Livre Docente do Departamento de História (FFLCH/USP), coordenadora do LEER- Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação, onde desenvolve o projeto Arqshoah- Arquivo Virtual sobre Holocausto e Antissemitismo. Autora dos livros: O Anti-semitismo na Era Vargas (3ed. Perspectiva); O Veneno da Serpente. Reflexões sobre o Anti-semitismo no Brasil (Perspectiva); Holocausto, Crime contra a Humanidade (Ática), dentre outros. 3 Na primeira semana de agosto de 2010 foi firmado em Israel um compromisso de 87 países para lutar contra a negação do Holocausto e do antissemitismo no mundo. Uniram-se duas grandes entidades: a “Força de tarefas Internacional para a Memória do Holocausto (ITF) e o Bureau de Instituições Democráticas e Direitos Humanos (ODIHR), segmento executivo da Organização para a Segurança e Colaboração Mutua na Europa.” A ITF, que conta com 27 países membros, promove a memória do Holocausto através da educação, investigação e monumentos recordatórios, enquanto que a ODIHR, da qual são membros 57 países, ocupa-se de programas educativos e monitoração de manifestações de xenofobia e, em especial, de antissemitismo. 4 RICCEUR, Paul, “Etapa atual do pensamento sobre a intolerância”, em A Intolerância. Direção de Françoise Barret- Ducrocq. Foro Internacional sobre a Intolerância. Unesco, 27 de março de 1997. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2000, p. 21. 5 Importante a leitura de VIDAL- NAQUET, Pierre. Os Assassinos da Memória: ‘Um Eichmann de papel” e outros ensaios sobre o revisionismo. Campinas, Papirus, 1988; FERRO, Marc. Os Tabus da História. A face oculta dos acontecimentos que mudaram o mundo. Rio de Janeiro, Ediouro, 2003. 6 WISSEL, Elie, “Debate entre Elie Wisel, Yehudi Menuhin e Jorge Semprun, conduzida pelo jornalista Guilhaume Durant”, em A Intolerância, op. cit., p. 209.

Velhos judeus deportados, Museu Lasar Segall, SP.

Coral de crianças em Terezín, Yad Vashem, Israel

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referências importantes para a reconstrução de um passado que nem todos querem lembrar. nazismo e antissemitismo nos oferecem amplas oportunidades para refletirmos sobre o caráter inato da intolerância. Ática. compromissos e atitudes dos cidadãos.). a formação do Estado de Israel e os atuais conflitos no Oriente Médio. 2010.esquecer que “há uma moral universal do gênero humano e que essa moral deve ser ativamente defendida”7. imigração. Ensaios sobre Memória. 2005. incentivá-lo a produzir um texto ou uma exposição iconográfica. com ênfase nos temas transversais e suas possibilidades de reflexões para um mundo mais tolerante. A seguir apresentamos algumas possibilidades de cruzamentos temáticos que poderão integrar um projeto temático sobre o Holocausto. 2. são exemplos expressivos de resistência enquanto forma de luta para preservar a dignidade humana. Martin. Daí a história do Holocausto. Por outro lado. muçulmana e pequenas seitas). possibilitando-nos refletir sobre a responsabilidade do Estado pela preservação da vida do cidadão. este é um dos objetivos da escola. Arte. direitos humanos. as comunidades religiosas (judaica. os grupos raciais distintos (negros. legislação discriminatória contra os judeus na Espanha e Portugal. produtos a serem apresentados em um seminário. O Veneno da Serpente. Imagens de morte em massa. católica. indígenas. indagar. 2003. SELIGMANN-SILVA. ser um tema instigante para avaliarmos os limites da barbárie. Crime contra a Humanidade. Jerusalém. Campinas. Editora 34. o Holocausto pode alertar sobre as conseqüências catastróficas dos regimes totalitários e autoritários. em A Intolerância. estratégias de exclusão dos judeus obrigados a residir em guetos. Tanto o debate sobre nazismo como o Holocausto passam. O essencial é que os educadores tenham consciência da importância desses conteúdos garantindo-lhes um tratamento apropriado. Língua Portuguesa: o poder de persuasão da palavra Retomo aqui as conclusões de Philippe Douste-Blazy. Se avaliado sob múltiplos aspectos. antissemitismo e Direitos Humanos Os estudos sistemáticos sobre genocídio. Primeira Guerra Mundial e o Tratado de Versalhes. os autosde-fé enquanto formas de “purificação” da sociedade Ibérica. através da história do nazismo e do Holocausto. o conceito de Estado Totalitário e Democrático. Márcio (org. David. pp. Rio de Janeiro. grupos e povos na construção e na reconstrução das sociedades. Ática. Memória. O desafio da escola está em reconhecer a diversidade etnocultural procurando superar qualquer tipo de discriminação. 2000. São Paulo. História Medieval e Moderna: a Inquisição Ibérica e a perseguição aos cristãos-novos. a Partilha da Palestina. Literatura. Literatura e Tradução. pesquisar documentos e fotografias. 2007. funkeiros). 2005. Márcio. Editorial Magnes. a luta pela preservação do judaísmo e da cultura judaíca. Maria Luiza Tucci. 63-80. brancos. CARNEIRO.que implica num conjunto de leis universais que são os direitos do homem – deve integrar o contrato democrático ou seja. Editora da UNICAMP. responsável e construtiva em diferentes situações sociais. no cap. pela compreensão dos Direitos Humanos. enquanto crime contra a Humanidade9. assim como o perigo das idéias racistas. O Testemunho na Era das Catástrofes. matrizes ideológicas. A própria realidade em que vivemos pode se prestar como ponto de partida para a abertura do debate: as paisagens urbanas (com grafites e pichações preconceituosas). os grupos de jovens (punks. o professor poderá orientar o jovem aluno a posicionar-se de forma crítica. Hucitec. Universidad Hebrea. amarelos). Reflexões sobre o Antissemitismo no Brasil.8 Com este intuito elaboramos os programas das jornadas interdisciplinares sobre o ensino da história do Holocausto realizadas. Cabe ao professor criar situações que deixem os alunos intrigados incentivando-os a fazer pesquisas. 2003. BANKIER. Testemunhas de Jeová. Temas transversais: nazismo. p. o antissemitismo como um fenômeno político. Através do estudo dos fatos e do debate sobre o uso dos conhecimentos científicos e do abuso de poder. enquanto genocídio singular na História da Humanidade. 9 Estas propostas foram por mim abordadas nos livros de minha autoria: Holocausto Crime contra a Humanidade. etc. 5 . Para este ano de 2010. por parte da coordenação de São Paulo. Curitiba e Porto Alegre. o Nazismo e Segunda Guerra Mundial. Através de uma análise crítica das teorias e práticas da exclusão implementadas pelo Terceiro Reich a partir de 1933 (e que culminaram com o extermínio de milhões de judeus e não judeus) podemos desenvolver atitudes que favoreçam a convivência democrática e a construção da cidadania. selecionar matérias de jornais noticiando os fatos e. eleger. o papel dos líderes na História. A elaboração de um projeto pedagógico multidisciplinar poderá envolver várias disciplinas de um programa escolar. até mesmo. Perspectiva. Holocausto. o papel dos líderes e dos intelectuais nos regimes totalitário e democrático. SELIGMANN-SILVA. História. S. fome e degradação humana em todos os níveis se prestam para avaliarmos as consequências do nazismo para humanidade. São Paulo. Mas como passar da reflexão à ação ? Ensinando. Tradução Samuel Feldberg e Nancy Rosenchan. pois o tolerância assim como o racismo não nascem com o homem: são uma conquista para o bem ou para o mal. como objeto de ensino. Enfim. independente de qualquer religião. 3 “A ação dos políticos”. envolvendo um conjunto de disciplinas: História Contemporânea: que certamente colocará em discussão fatos sobre a República de Weimar. rappers. o contrato dos cidadãos comprometidos com o respeito ao Outro. cuja aprendizagem e assimilação são consideradas essenciais para que os alunos possam exercer seus direitos e deveres”. nestes últimos anos. seguindo as propostas dos Parâmetros 7 8 Curriculares: “formar cidadãos capazes de atuar com competência e dignidade na sociedade atual. Aliás. heavy metals. Holocausto.Paulo. optamos por trabalhar os temas da repressão e da resistência. darks. valorizando o resgate da memória histórica e o debate de idéias. 1986. Yad Vashem. Múltiplas são as possibilidades pedagógicas. 235. não podemos jamais perder a capacidade de nos indignarmos diante do ódio e dos sofrimentos que o homem inflige ao homem. os atos de salvamento. Dependendo do conteúdo selecionado por cada disciplina. conteúdos que estejam em consonância com as questões sociais que marcam cada momento histórico. E esta moral -. o mito ariano sacramentado através dos estatutos de pureza de sangue. São Paulo. em São Paulo. El Holocausto. São Paulo. O local da diferença. necessariamente. o professor poderá orientar o aluno a fazer entrevistas com sobreviventes do Holocausto. 2003. etnia ou grupo político. História dos Judeus da Europa na Segunda Guerra Mundial. educando para a democracia e a cidadania. Sobre este tema ver GILBERT. A escola e a sociedade devem ser vistas como espaços vivos onde a cidadania pode ser exercida e aprendida. as ações de solidariedade. símbolos e indumentária usada para discriminar os judeus e cristãos-novos.

Reflexões sobre o Antisemitismo no Brasil (Perspectiva). Ciência Naturais/Biologia: ciência médica a serviço do nazismo. etc). a partir de 1933. Cinema: o cinema enquanto veículo da ideologia nazista e registro da memória. de Arthur de Gobineau. 1935) e Olympia (1938). Hungria. Perspectiv. alterou o mapa populacional da Europa e de vários países das Américas. Nesta categoria se encaixam os documentários: O Triunfo da Vontade (Triumph des Willens. crítica do discurso antissemita analisando os valores e personagens. os jornais antissemitas enquanto formadores de opinião. a moderna tecnologia a serviço da prática do extermínio. ciganos. etc. comunistas. o papel social dos médicos e cientistas (os chamados “guerreiros biológicos”). testemunhas de Jeová. São Paulo. triângulo. autor popular na Alemanha nazista). das doenças. os refugiados e os sobreviventes dos campos de concentração. Dia da Liberdade: Nosso Exército (Tag der Freiheit: Unsere Wehrmacht. o papel de Speer (o arquiteto oficial do Reich) que projetou a “nova Berlim” segundo o estilo idealizado pelo regime (o neoclassicismo monumental). campos de concentração e pontos de massacre. a morte nos campos de concentração. LAFER. dos guetos e as condições deterioração da vida humana marcadas pela proliferação da fome. os músicos judeus do campo de Terezin e os pequenos violinistas do gueto de Varsóvia. Música: o jazz segundo o nazismo (enquanto música degenerada). retratou a guerra. Geometria: o poder simbólico das formas (suástica. São Paulo. Estética: o nazismo como uma empreitada para “embelezar”o mundo. Maria Luiza Tucci. 2003. CARNEIRO. a mensagem dos posters políticos e antissemitas. as leituras de Adolf Hitler (livros infantis. O Anti-semitismo na Era Vargas. El Holocausto. as caricaturas antissemitas. escultura e símbolos nazistas (águia. aqrshoah. A manipulação dos números e dos dados estatísticos pelas autoridades do III Reich com o objetivo de sensibilizar a opinião pública contra os judeus. Romênia. diários de memórias. militarismo e delimitação de fronteiras. Matemática: estatísticas populacionais e da barbárie nos campos de concentração/extermínio. livrando-se de tudo que era considerado “impuro”. da desintegração do “eu” e da morte planejada pelo Estado nazista. __________ Holocausto. Urbana e Humana: conceito de espaço vital. obras antissemitas do compositor Richard Wagner. produzidos pela cineasta Leni Riefenstahl. durante e no após-guerra. Língua Estrangeira (alemão): estudo das expressões totalitárias (Heil Hitler!) e antissemitas (judenrein = limpa de judeus). e outros teóricos racistas do século XIX). a imigração forçada dos judeus/apátridas que. Este conjunto de imagens pode ser também consultado no livro Judeus e Judaísmo na Obra de Lasar Segall. Importante analisar o espaço e a construção dos campos de concentração. Editorial Magnes. 2001. da exclusão e das minorias éticas consideradas como ‘indesejadas”. David (org. Jerusalém. estrela de David. é uma oportunidade impar para o conhecimento da produção artística desse pintor que. como Joseph Goebbels e Adolf Hitler. gritos e aclamações) e símbolos enquanto expressão da mística nazista. etc). os diferentes caminhos da estética. Fotografia: a fotografia enquanto veículo de propagação do ideário nazista. 1986. cartografia da Europa antes da ascensão de Hitler.escrita e oral (discursos antissemitas).).10 Arquitetura: analisar a projeção do ideário do Estado alemão através da estética nazista. composição plástica das cenas (a linguagem cinematográfica). São Paulo. o conceito de arte/raça pura e degenerada. as várias edições dos Os Protocolos dos Sábios de Sião. literatura sobre o Holocausto. em São Paulo. “repugnante”. radicado no Brasil. Os meios de comunicação e a propaganda política: o poder da máquina de propaganda do III Reich na formação de uma mentalidade racista. cone. 1935) e os filmes Vitória da Fé (Sieg des Glaubens. BIBLIOGRAFIA BANKIER. “imperfeito”. Yad Vashem. Crime contra a Humanidade. o conceito de “sujeira biológica” e de “limpeza racial”. círculo) e das cores (identificação das minorias: homossexuais. o papel dos livros de infantis entre as crianças alemãs com suas histórias sobre os judeus e os arianos (ver livros de Karl May. que teve várias de suas obras confiscadas pelos nazistas. Celso. Maria Luiza Tucci. o emprego de signos (efeitos ideológicos). o conceito de países satélites na época da Segunda Guerra Mundial (Eslováquia. No caso dos artistas judeus considerados pelo regime nazista como “produtores de arte degenerada” pode-se analisar o caso do pintor Lasar Segall.br). ciganos. as trilhas do avanço nazista (para o Leste) e as rotas de fuga dos refugiados judeus (Oeste). judeus. conceito de raça e minorias nacionais.objetivo. Matemática: estatísticas populacionais e da barbárie nos campos de concentração/extermínio. a música de Richard Wagner à serviço do Terceiro Reich. Uma visita ao Museu Lasar Segall. os “artistas frustrados do III Reich. Albert Einstein contra o nazismo. ciganos. a realidade forjada e filmada no campo 10 de concentração de Terezin. conceito endossado pelo governo brasileiro conforme documentação diplomática sob a guarda do Arquivo Histórico do Itamaraty (consultar o site www. Universidad Hebrea. __________ O Veneno da Serpente. os pogrons. o III Reich fotografado por Heinrich Hoffmann (o fotógrafo oficial de Adolfo Hitler e membro da Comissão de Exploração da Arte Degenerada) ou as fotografias do “gueto” de Varsóvia enviadas pelo diplomara brasileiro Jorge Latour para o Itamaraty. CARNEIRO. 1933). Importante discutir o uso que as fotografias podem ter se empregadas na construção da imagem do grande salvador (no caso Hitler) ou para identificar o inimigo . caveira).com. Em alguns casos é possível interpretar o nazismo enquanto “empreitada para embelezar o mundo” ou a arquitetura à serviço do totalitarismo. Judeus e Judaísmo na obra de Lasar Segall. o papel do rádio na transmissão de valores. etc. Artes Plásticas: o papel da arte enquanto instrumento de protesto e de crítica social. 200 6 . índices populacionais. A manipulação dos números e dos dados estatísticos pelas autoridades do III Reich com o objetivo de sensibilizar a opinião pública contra os judeus. Ateliê Editorial. comunistas. mapeamento dos guetos. os livros e discursos antissemitas. a força dos gestos (saudações. 3ed. no caso os judeus classificados como “raça inferior” pelo Estado nazista. os padrões de beleza física adotados pelo III Reich (o culto ao classicismo. entre 1937 e 1946. da arte e da arquitetura. Geografia Física. em 1936. os programas de eutanásia.

não encontrara no seu bolso sequer um bilhetinho enfiado às pressas. História dos Judeus da Europa na Segunda Guerra Mundial. Maria Luiza Tucci. Adolf Eichmann junto com Joseph Goebbels escolheram Theresienstadt como local para o campo de trânsito dos judeus do Protetorado e como moradia para os heróis (judeus) da Primeira Guerra pela Alemanha Em 1944. a 60 quilômetros da capital da então Tchecoslováquia. assim como os nazistas passaram a chamálo.um jardim de infância para funcionar como escola. 2000. Marc. Portugal. Márcio (org. é professora da Sociedade Israelita de Ensino e Cultura Colégio A Liessin e professora do Colégio Talmud Torah Hertzlia. Trad. “Debate entre Elie Wisel. São Paulo. Israel 11 Iniciou em agosto/2009 o Mestrado Profissional em Psicanálise. A verdade é que Theresienstadt. Memória.Ducrocq. Muitos internos na qualidade de figurantes ganharam roupa nova e foram instruídos sobre como se comportar e os riscos de desobediência. Bertrand Brasil. 2005. São Paulo. LAFER. Gradiva. 1997. 2004. Direção de Françoise Barret. fazendo projetos.Paulo. Paul. São Paulo. Atualmente. Após a visita da Cruz Vermelha. Tradução Samuel Feldberg e Nancy Rosenchan. S. graduação em Licenciatura em Pedagogia pelo Instituto Isabel Centro de Ciências Humanas de Sociais (1979) e graduação em História pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (1976). onde os internos exerciam seu próprio metier. foi criado um gueto judaico em 10 outubro de 1941. era considerado o mais famoso ”campo cultural”. Memória da Barbárie. Ensaios sobre Memória.Campus Tijuca / RJ. CYTRYNOWICZ. Dr. GOLDHAGEN. conduzida pelo jornalista Guilhaume Durant”. Edusp. AS CRIANÇAS DE TEREZIN arte e criatividade em tempos de intolerância Silvia Rosa Nossek Lerner11 Na cidade de Terezín. 2003. A escola parece bem equipada.” Ainda se observou que havia uma cozinha especializada preparando o alimento dos pequeninos. Ateliê Editorial. Saúde e Sociedade da Universidade Veiga de Almeida . Bertrand Brasil. Rio de Janeiro. Celso. Yad Vashem. Daniel Johah. democracia e cidadania.Ática. Salazar e os Judeus.identidade. grandes transformações foram introduzidas no campo. Elie. FERRO. gráficos para firmas alemãs.NAQUET. atuando principalmente nos seguintes temas: judeus . 2005. MILGRAM. rabinos. Papirus. Praga. Yehudi Menuhin e Jorge Semprun. foi um aparelho de extermínio. no relatório apresentado pelos visitantes constava “que o pessoal de ensino parece “extremamente qualificado” e o jardim da infância adequado e moderno. São Paulo. “Etapa atual do pensamento sobre a intolerância”. Avraham. Literatura. GILBERT. e convencê – lo de que esses campos nada mais eram do que áreas de estabelecimento. Os Assassinos da Memória: ‘Um Eichmann de papel” e outros Ensaios sobre o Revisionismo. Editora 34. embora um cartaz assinalasse que as crianças “estavam em férias”. Direção de Françoise Barret. Na expectativa da visita-inspeção da Cruz Vermelha e preparando-se o cenário para o filme-propaganda. Lisboa. Companhia das Letras. Os Tabus da História. Editora da UNICAMP. SELIGMANN-SILVA. 1990. Judeus e Judaísmo na obra de Lasar Segall. desenhos técnicos. 27 de março de 1997. Alegravam com pinturas os espaços superlotados dos dormitórios. fosse ela habitada por artistas. em A Intolerância. Rio de Janeiro. era um “campo-modelo” para mostrar ao mundo as condições dos guetos e campos de concentração sob domínio nazista. 2003. História. A Face Oculta dos Acontecimentos que Mudaram o Mundo. Campinas. Unesco. Pierre.cultura. Nova Stella. Maurice Rossel. judaísmo. SELIGMANN-SILVA. Hucitec. os internos nada fizeram que despertasse suspeita. este campo foi usado para fazer um filme de propaganda chamado “O Führer dá uma cidade para os judeus” e para provar à Cruz Vermelha que os judeus eram bem tratados. O campo de Theresienstadt. 2010 RICCEUR. judeus . WISSEL. Holocausto. velhos soldados ou crianças. Martin. Campinas. os barracões Sudeten e Madgeburg foram transformados em salões de concerto e um novo pavilhão foi construído. Mas representavam o mundo que viam e escondiam suas melhores obras nos grandes portfólios da biblioteca ou nos desvãos dos Pôster ‘Dia do Boicote’. Unesco.Ducrocq. Ediouro. Foro Internacional sobre a Intolerância. Márcio. cidade artificial criada para propaganda. VIDAL. pois esta havia recebido denuncia com informações do que realmente acontecia nos campos de concentração. 27 de março de 1997. Para dezenas de milhares de prisioneiros tratava-se de um campo de passagem para as câmaras de gás de Auschwitz. confessava para a humanidade o engano em que incorrera: não observara nenhum ríctus nos rostos. Foro Internacional sobre a Intolerância. 2010. O Testemunho na Era das Catástrofes. 2003. 2007 CARNEIRO. 2000. em A Intolerância. O Povo Alemão e o Holocausto. 1988. sábios. durante a Segunda Guerra Mundial. como: jardineiras e balanços de crianças. Lúcia Liba Mucznik. Possui graduação em Direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1973). Arte. Para o regime nazista. A História do Genocídio dos Judeus na Segunda guerra Mundial. 7 . Literatura e Tradução. Os Carrascos Voluntários de Hitler. Roney.). O Local da Diferença. um coreto para música. O depoimento registrado do médico da Cruz Vermelha. casas pintadas. Foram criadas oficinas de produção artística. calçadas lavadas. Rio de Janeiro.

Thomas e anos depois. militantes comunistas ou sionistas. Seu nome verdadeiro era Fritz Taussig. como que aguardando a morte. e até a óperas escritas para elas. tinha seu braço direito no alemão Freddy Hirsch. cientistas. nos deixou um retrato de Fritta e outro do seu filho Thomas. Leo Haas. morte. Interrogados em presença de Adolf Eichmann foram aprisionados na Pequena Fortaleza com suas famílias. assistiam também às cenas de deportação dos próprios pais. Para o administrador Redlich. As crianças. estreitos e super populosos. Desde logo. Este jovem imaginativo inventou histórias. teatro de marionetes. testemunhou sobre a vida das crianças em Terezin. Os outros foram deportados para Auschwitz onde Bedrich Fritta morreu. trabalho. escritores e do humorista tcheco Karel Polácek com quem conversavam. muito se preocupava com o grande contingente infantil que ali chegava. ciências. os judeus deixarão de existir. onde expressavam seus sentimentos. músicos que tocam no Caféconcerto com rostos sem expressão. Com o tempo percebeu-se que a ração alimentar média diária era insuficiente. algumas chegaram com suas famílias. que participara da seleção dos que iriam partir para o leste. O alto comando liberou os trabalhos de recuperação de um velho piano. previamente combinado. responsável pela organização infantil de Terezín. morrendo alguns meses depois. separadas conforme a idade e o idioma que falavam. e seus pais só podiam vê-las algumas tardes na semana. Bedrich Fritta. Com o passar dos meses. colagens com papel usado e antigo. isto dava uma certa tranquilidade para as crianças. As crianças de Terezín eram crianças como o são em qualquer lugar. No outono de 1944 os trens para Auschwitz levaram a maioria das crianças do gueto. Para essas crianças. E decidiu-se que os trabalhadores braçais e as crianças receberiam porções suplementares.sótãos. adotou o filho de Bedrich. pinturas e poemas. dele se ocupavam pedagogos conceituados da Europa. línguas e literatura era clandestino. Havia um barracão para crianças a partir de 10 anos e havia o L318 para crianças até 10 anos. que se encarregava do policiamento. sobre os transportes que saiam do gueto. O vôo desses artistas se interrompeu em 1944 com a prisão de cinco membros do atelier. viam mortos nas ruas. a administração judaica deu-lhes atividades educacionais e esportivas. pelos quarteirões e dormitórios. Bedrich expressou sua cólera em duzentos desenhos que enterrou no solo dentro de um cofre de ferro. roubavam alimentos e carvão para se aquecer e presenciavam cenas que nenhum ser humano deveria presenciar. As crianças recebiam visitas de filósofos. Os instrutores faziam o máximo para transmitir tanto conhecimento quanto possível. oferecendo-lhes um barracão para viverem entre elas. sonhos e esperanças. Mas o material para desenhar não era abundante. jovem esportivo e muito ligado aos alunos. As pinturas. esse grupo foi rodeado por mestres devotados.” Os SS requeriam o trabalho das crianças maiores de 14 anos na produção de guerra e só permitiam o ensino do trabalho manual. chegou a vez de partir também e foi no último comboio para Auschwitz. doenças e transportes. O atelier de desenho era dirigido por um artista extraordinário. Havia também jornais.Birkenau. Seu discípulo e amigo Leo Haas. As obras desse artista causam consternação e dor porque narram a verdade que os nazistas escondiam: filas de deportados fustigados pelas chuvas. Esses concertos serviram de matéria prima para ilustrar o fraudulento filme de propaganda do Gueto Paraíso. gráfico e caricaturista em Praga. Aos poucos foram sendo tiradas das casernas superlotadas e sendo alojadas em blocos de moradia. Muitos deles. mas por causa da fome. saúde. Freddy acompanhou as crianças quando foram enviadas para Auchwitz. Egon Redlich. 8 . A Infância no Campo Aproximadamente 15 mil crianças viveram em Theresienstadt. histórias contadas. encontrados nas oficinas. O ensino da história. pela neve. Por isso encontramos em seus desenhos. Quando os campos de extermínio estiverem concluídos. de onde não voltaram mais. Aos velhos eram dadas quantidades menores e assim rondavam as latas de lixo em busca de comida. divulgando sua obra. jogos e canções para entretê-los e criou uma ilha de humanidade e de esperança dentro do sinistro espaço de Birkenau. a administração judaica conseguiu autorização da Gestapo para oficializar a realização de atividades musicais durante as horas de folga. pelo frio. Essas representações nos contam sobre sua vida diária no gueto. Os nazistas diziam: “Deixem que eles se divirtam um pouco. medos. com sua esposa Grete e o bebê de seis meses. Algumas dessas crianças vieram de orfanatos judaicos de Praga. acreditavam numa sociedade fraternal a ser construída no futuro. em comunidade e encorajando-os para atividades culturais e esportivas. além das canções compostas no campo. Quando em 1944 os meninos foram conduzidos à câmara de gás. Em comparação com os barracões em que os adultos viviam. Os aspectos mais cruéis do gueto não lhes foram poupados. A administração judaica (Judenrat). ele se suicidou. À noite. encontrado em um depósito e aprovou a realização de concertos. outras possuíam seus pais no gueto (mas não podiam viver junto com eles). sobre seus pensamentos. abastecimento. onde no Bloco das Crianças continuou sua obra de educação com esforços heróicos. lazer . nos saraus. que sobreviveu. crianças com olhos que nos enviam mensagens aflitivas. ainda mais uma criança. onde viviam cerca de 100 crianças. e sobre a partida de familiares e amigos. Um deles Otto Ungar teve sua mão destruída para que não pudesse mais pintar. as crianças assistiam à leitura de poesias e histórias. desenhos e poemas são a melhor forma de conhecer como as crianças se sentiam em Theresienstadt. interno em 1941. outras sós. bem como sua participação em atividades culturais dos adultos. Acusação: fazer propaganda mentirosa (Greuelpropaganda) para prejudicar a imagem do gueto. Pinturas e desenhos se tornaram bastante popular entre as crianças de todas as idades e era permitido pelos nazistas. sentimentos profundos desproporcionais à sua idade. contudo. elas cresceram mais rápido tornando-se pequenos adultos. por isso encontramos esse tipo de atividade feito em diferentes tipos de papel. economia. ensinando-lhes também a viver juntos. a corais. que sobreviveu.

as crianças colocavam nome e idade nos seus trabalhos. Das 15 mil crianças judias de Terezín. foram utilizados pelas crianças.. b) Os desenhos No pavilhão das meninas L410 vivia a desenhista Friedl Dicker-Brandeis. As crianças tiveram em Friedl Dicker-Brandeis (Frederieke Brandeis) uma mestra excepcional. Thomas Fritta-Haas. A ópera se encerra com as palavras: “Aquele que ama a justiça. saudades e esperanças e compartilhar suas ansiedades.. era uma das crianças que cantava na apresentação de Brundibár e sobreviveu para contar que “quando nós cantávamos. Israel Representação teatral num celeiro Bedrich Fritta. ainda mantêm o dramatismo da época e a tragédia que os determinou. crianças brincando. não só pela alegria de cantar. nós esquecíamos a fome. mesmo mais de sessenta anos depois de realizados. nós esquecíamos onde estávamos. que lhe permanece fiel e não tem medo.” Também nos seus pavilhões havia apresentação de teatro. Lideradas por animais domésticos. todas as crianças da rua uniram-se aos dois irmãos. Em Terezin. crianças estudando sob a vigilância de soldados do gueto. ainda que por alguns momentos. vencendo e expulsando Brundibár. A 55ª récita teve de ser cancelada por falta de cantores. Yad Vashem. mas a maioria foram feitos por meninas de 10 a 15 anos de idade e. pratos com muita comida. é nosso amigo e pode vir brincar conosco. Encontramos desenhos feitos pelas crianças do barracão L318. Stein Weissberger.com poucos gizes de cera e aquarelas. Israel 9 . as crianças pintaram sobre quase qualquer superfície que tiveram por perto . Ela. prados verdes. as festividades em casa e a família em torno da mesa e temas ligados a paisagens de ruas e cidades. incentivando a sua imaginação e criatividade para expressar suas dificuldades. que sobreviveu. era o único momento permitido para remover a estrela amarela. onde seguiu cursos com Paul Klee e outros mestres. conforme atestam os desenhos infantis que hoje pertencem ao Memorial de Terezín. com a infância roubada: “Sentíamos falta de ser ainda crianças”. serve como testemunha silenciosa da riqueza interior de seus criadores em face de seu trágico destino. outras vezes escrito por adultos para as crianças apresentarem. nascida em Viena.” Brundibar foi apresentada para a Cruz Vermelha Internacional. temores e expectativas de retorno ao lar e o encontro com seus familiares. Em Terezín levou as crianças a estudar as cores e a luz e a fazer colagens sobre desenhos. procedeu a sua revisão adaptando-a aos instrumentos existentes entre os músicos prisioneiros e iniciando em seguida os ensaios com as crianças. Como exemplo dessas apresentações. Anna Flachová sobrevivente do “lar de meninas” L410 de Terezín adorava Brundibár. Yad Vashem. O que mais aparecia nas pinturas eram funerais. apesar da maioria das crianças não terem sobrevivido. a ópera BRUNDIBÁR teve diferentes elencos. só cem sobreviveram. Renomada arquiteta de interiores em Berlim. ali abandonados. Os formulários da antiga guarnição da fortaleza. de brincadeiras infantis. Ela ensinava as crianças a pintar e desenhar. Na maioria das vezes. foi aluna da Bauhaus. onde as crianças participavam. de seus familiares. ora na confecção de suas roupas. de imaginação e fantasia e de suas experiências de vida dentro do campo de concentração.AS ATIVIDADES DAS CRIANÇAS a) Apresentação teatral Hans Krasa escreveu a ópera infantil BRUNDIBÁR em 1938 e como prisioneiro de Terezín. Frederieke Brandeis. citamos a peça Esther (uma peça tcheca que tem relação com a Ester bíblica) e que foi adaptada para as crianças de Terezin dirigida por Hans Jochowitz (interno do campo). Eram apresentações bastante encorajadas pelos adultos . Esse material. assim como materiais combinados para formar textura. em Weimar. havia apresentação de marionetes. Curiosamente foi encontrado um Mickey desenhado numa lasca de madeira. embora não tivessem material suficiente naquele ambiente subumano. Brundibár era o nome do terrível tocador de realejo que monopolizava a rua. Com meios tão pobres a arte se Cartaz da opéra infantil Brundibár. Para essa apresentação sempre havia um grande público. Quando as crianças estavam no palco apresentando-a. Nos primeiros tempos do gueto. impedindo dois irmãos de nela poderem pedir algum dinheiro para ajudar a mãe doente. no dia 23 de junho de 1944. acabou caindo nas mãos dos nazistas. Viena e Praga. muitas vezes com um repertório escrito pelas próprias crianças. ora na própria apresentação. Esses desenhos. Todos ficaram muito bem impressionados. recortados e aparecendo sob uma nova luz. como pelo reencontro. de flores e animais. sendo substituídos conforme as crianças eram enviadas para Auschwitz – e foi apresentada 54 vezes.

Aquela borboleta foi a última. incluindo desenhos. Friedl reuniu em 2 malas mais de 5000 trabalhos feitos pelas crianças. em 6 de abril de 1942 e que deu origem ao livro “I Have never seen a Butterfly around here” (Eu nunca vi uma borboleta aqui). Pavel faleceu em Auchwitz. mas a maioria mostra a espera por dias melhores. O jornal inteiro. Uma das seções chamava-se Passeando por Theresienstadt e compreendia descrição de diferentes lugares do gueto como padarias. outros maturidade.9. Israel Edita Polachova (02/07/1925 . porque desejava beijar o mundo pela última vez. Só que eu nunca mais vi outra borboleta. não perca seu humor Segure-o que dias melhores virão. a capela mortuária. e as pessoas que trabalhavam nesses lugares eram entrevistadas. Os meninos do Quarto 7 do Pavilhão L 417 publicaram o RIM.sobrevivente) Paisagem Noturna. que amarelo! Foi carregada levemente para o alto Foi-se embora. a BoRBoLETa A última. Talvez se as lágrimas do sol pudessem cantar E escorrer sobre a pedra branca. em 1944. o mais conhecido era VEDEM(Avante!) órgão da “República Skid”. E que. Yad Vashem. casa central de banhos. Era semanal e foi produzido por um periodo de 2 anos. confiou a pessoas de sua confiança onde as malas estavam escondidas.1944) . Os desenhos eram povoados de imagens do lar perdido. assim como a amargura de terem sido arrancados de sua vida normal. de desenhos. incluindo desenhos e poemas das crianças. etc. cheia de encanto amarelo. da cidade amada para onde um dia queriam retornar. Dentre os poemas encontrados.faz e o seu amor pela liberdade de criação se expressa num texto de Brandeis chamado “Sobre a arte das crianças” onde ela questiona: “Dirigir os lampejos de inspiração das crianças. quando não existe direito? Para que existe o sol. No gueto. d) As publicações Em relação aos jornais produzidos em Theresienstadt. Mas eu encontrei minha gente aqui. tanto quanto os desenhos evidenciam a recordação dos lares perdidos e da infância que lhes foi roubada. muitas vezes. que chegou a 55 números. Terezín concentrou em si a resistência à “banalidade do Eva Riesova (25/07/1931 . Cheia de vida e brilho. mais do que última . aquarela. Yad Vashem. como o abaixo encontrado no diário de Raya Englander(14 anos) e morta em 1944 em Auchwitz: Depois da tormenta vem o sol Depois do deserto vem a floresta Depois da sexta vem o shabat Depois do inverno a primavera bate na nossa porta Não fique deprimido. Tristemente dentro desse gueto. em diferentes seções.1. Israel 10 . Borboletas não vivem aqui. Alguns poemas denotam infantilidade. que teve pequena tiragem. Por que os adultos se apressam tanto em fazer com que as crianças se assemelhem a eles? Somos a tal ponto felizes e satisfeitos com nós mesmos?” Suas aulas serviam como um meio de reconstrução psicológica dos pequenos prisioneiros. Devemos a Friedl Dikker-Brandeis o fato dos desenhos terem sido preservados. As flores me chamam E os galhos floridos das castanheiras no campo. trecho do poema de Hanus Hachenburg (1929-1944).. aquarela. quando não há dia”. escrito em 1943. temos A Borboleta escrito por Pavel Friedmann (7.sobrevivente) Vista de Terezín a noite. foi produto do trabalhos dos meninos do pavilhão L 417. Os poemas foram encontrados nos sótãos. c) Poesias “Para que serve o mundo. acompanhados. na Biblioteca e nas revistas que eles publicaram dentro do próprio gueto. eu tenho certeza.Antes de ser deportada para Auschwitz. RIM (sinal de reunião da turma) que publicou 21 números e os meninos do pavilhão de crianças Q 690 publicaram um jornal chamado Kamarád (“Amigos”) que chegou a 22 números e a publicação Noviny. Há sete semanas eu vivo aqui. Atualmente. suas súbitas iluminações é criminoso. Os poemas. esse material é de propriedade da Sinagoga Pinkas em Praga.. RIM. Outra publicação preparada pelas crianças do Pavilhão L 414 e que durou pouco tempo chamava-se BONAKO.1922 – 29.

no teatro. piratas e far-west. Nicht alle leute durfen In diese Stadt hinein Es mussen Auser wahlte der “als ob” Rasse rein. únicos.764 crianças e jovens. Die menschen auf den strassen die laufen in galop wenn man auch nichts zu tun hat tut man doch so “als ob”. Die leben dort ihr Leben “Als ob” ein Leben war. na pintura. Em 1943. para que elas tenham consciência do mundo fictício em que estavam vivendo. sabiam tudo e observavam com aquela justiça insubornável das crianças. ja. somente cem crianças sobreviverão. Man trägt das schewere Schicksal. Mas. principalmente para as crianças. am Samstag Da gibt´s “als ob” Haché. Eles viam tudo. Und mancher ist mit manchem Auch manchmal ziemlich grob Daheim war er kein Grosser. na poesia a arte da denuncia. Enfim. Em Leningrado havia um orfanato que recolheu meninos abandonados de guerra: era a “Escola (Shkola) de educação social e individual Dostoievski”. Und spricht von schöner Zukunft. und freuen sich mit geruchten “Als ob” die Wahrheit war. Des Morgens und des Abends trinkt man “als ob” Kafee Am Samstag. como podemos ler a seguir: als ob Ich kennn ein kleines stadchen ein Stadchen ganz tip top Ich nenn es nicht baim namen ich nennes die stadt “als ob”. Alguns professores se inspiravam em modelos de pedagogia soviética adaptados de comunidades de crianças abandonadas durante a guerra. se escreviam aventuras em capítulos: viagens na estratosfera. Vive-se lá sua vida “Como se“ isso fosse vida E se alegram com notícias 11 . Como se Eu conheço uma pequena cidade Uma cidade bem tip top Eu não me lembro qual seu nome Eu chamo a cidade “como se”. Nem todas as pessoas devem Nessa cidade morar Tem que ser eleito Para “como se” ter raça pura. “Als ob” schon morgen wär. A revista Kamarád ainda publica seu último número onde os amiguinhos prometem se reencontrar depois da guerra numa certa rua de Praga. o jovem Walter Roth. explorações polares. O coro tinha um importante papel para manter as meninas unidas. alemão e hebraico. um “sentimento coletivo elevado” animava os jovens e seus pedagogos. Até a administração judaica é criticada: “sem proteção não se pode obter coisa alguma no gueto. uma nuvem sombria avançava sobre a Europa. descobertas. Por ocasião das festas judaicas. também se desenhava história em quadrinhos. Os jovens redatores de Kamarád nunca mais se verão numa certa rua de Praga. As meninas cantavam em tcheco. E elegeram como presidente. Man legt sich auf dem Boden “Als ob” es wär ein Bett Und denkt an seine Lieben “Als ob” man Nachricht hätt. passavam à noite de mão em mão. através do trabalho e disciplina relatou que havia a responsabilidade entre os “camaradas” de querer transformar seu destino numa “realidade alegre e consciente”. com as iniciais desse orfanato. Hier macht er so “als ob”. das 8. Os mais velhos apreciavam muito essa visita pelos momentos de prazer que lhes proporcionavam. Leo Strauss produziu uma música chamada Als Ob (Como se) e que foi apresentada. ou mesmo permanecer vivo”.. No outono de 1944 os trens para Auschwitz levaram a maioria das crianças do gueto. os adolescentes do Bloco L 417 proclamaram em Terezin uma república de jovens que denominam República Skid. Revelavam o que foi o quotidiano no campo. Man stellt sich an um Suppe “Als ob” da etwas drin Und man geniesst die Dorsche “Als ob” Vitamin. deportadas entre 1942 e 1944 para os campos do leste. Havia 2 professores de música que organizaram um coro. Enquanto a República Skid afirmava seus princípios esperançosos na revista Vedem (Avante!). O Conselho tentou reter as crianças até o fim. Essas revistas em geral manuscritas eram ilustradas por lápis de cor e aquarela. as meninas visitavam os mais velhos e cantavam para eles..mal” apresentando-a em formas expressivas na música. Roth. Es Gibt auch ein kaffeehaus Gleich dem café l’ Europe Und bei Musikbegleitung Fühlt man sich dort “als ob”. e) Música No pavilhão L410 também se fazia música. Nem a valorosa República Skid virá cumprir suas promessas. Seus exemplares. Ao Conselho dos Judeus coube a amarga tarefa de selecionar os que deviam partir nos comboios da morte. “Als ob” nicht so schwer.

milhares de almas infelizes vindo para cá e outras milhares de almas infelizes que se vão e não voltarão. aguardando a visita diária dos médicos.1944 ME DESTRÓI a DoR. enfermeiras que trazem os termômetros. saídas do cárcere. Porém. pequeno paciente. “Como se” deles tivéssemos notícia. Trinta olhos que procuram a tranquilidade. As pessoas nas ruas Correm num galope Mesmo quando não se tem nada a fazer Finge-se “como se” tivesse. para ajudar aos pequenos sofredores. Quinze corpos torturados com medicamentos. “Nós ficamos na fila das 7 da manhã até meio dia e de novo às 7 da noite. quando não há dia? Para que serve D’s? Apenas para punir? Ou um nova humanidade para moldar? Ou somos apenas bestas que sofrem Para apodrecer sob a vontade da paixão? Para que serve a vida. entre sujeiras e imundícies e ver médicos sem ter o que fazer. fresca como maio? Que uso um mundo que é mera ilusão? Que uso o sol. ora podemos caminhar na calçada. Quinze placas com nomes.1929 -10. Quinze corpos que aqui querem viver. tiros e execuções. E tem também uma cafeteria Igual o Café l’ Europe E no acompanhamento musical A gente se sente “como se”. enfermeiras que deixam para trás só uma sombra. encontrado no Pavilhão dos meninos L 410. E UMa RESPoSTa. “Como se” lá tivesse algo E se se delicia com algo “Como se” fosse vitamina. saudando cada uniforme que passa. A gente se deita no chão “Como se” fosse uma cama E pensa em seus amores. Que uso tem a arte humana e a ciência? Beleza das mulheres. O mundo uma fortaleza contra a luz? Saiba: todas as coisas são como são aqui Que você seja um homem! E lute! HANUS HACHENBURG. a DoR DE TEREZIN Quinze camas. de Hana Volavkova. que dia após dia cheira estranho e carbônico. 12 . Nós nos acostumamos a ver pessoas morrer nos seus excrementos. Lá tem “como se” fosse uma refeição. A beleza do ar. no chão eu vou deitar? Todas essas atividades cessaram quando começaram os grandes transportes a partir do inverno de 1944. de ver doentes 12 .7. ora não caminhar na calçada. A comida é um luxo aqui. E alguns estão com outros Que por vezes se sentem grandiosos Em casa não era grandioso Aqui se comporta “como se”. Então eu gostaria de viver e voltar para casa. que não me importa. Colocamo-nos para a sopa. EM TEREZIN Quando chega uma nova criança Tudo parece estranho para ele Onde. “Como se” o amanhã tivesse chegado. As crianças nunca mais voltaram. seus nomes ficaram para sempre gravados nos desenhos. Nós nos acostumamos a ver isso o tempo todo. A manhã e a noite Bebe-se “como se” fosse café E aos sábados. de ver carroças cheios de corpos.“Como se” isso fosse a verdade. Queria ficar aqui. talvez um pouco de batata e um copo com o que seria café. E se fala de um bonito futuro. muito tempo.” Exemplo de alguns poemas escritos em Terezin: PERGUNTaS. não quero ir embora e deixar os quartos com luz e os olhos ardentes. Cabeças raspadas. Ficamos numa longa fila com um prato na mão. Apesar de tudo. no qual ele colcocam um pouco de água morna com sal. A noite é muito longa e o dia curto. DEPOIMENTO DE PETR FISCHL (9/setembro /1929 – Auschwitz-1944) retirado do livro I Never Saw Another Butterfly. Nós dormimos sem cama. se a vida é tormento. Autor desconhecido. Quinze pessoas sem nenhuma linhagem. A santidade do sofrimento. que eu fique bom. nos poemas. E se carrega o pesado destino. nas canções e nas estórias que elas deixaram em Terezín. sim aos sábados. Mães que procuram por um sorriso. e depois de muito.7. Camas manchadas com sangue de outros tempos. “Como se” não fosse tão pesado. Nós nos acostumamos a bofetadas sem razão.

Eu contemplo e contemplo em direção a meu lar. mostra o comportamento do indivíduo em sociedade. Minha cidade. L 410. assim Isto talvez ajude a adoçar A dor e a tragédia do pobre homem. la ilusión de los que perdieron. Hana . sueño de la vida y de la historia Leon Gieco 1.10. Jehuda and DRORI. Israel – Holocausto Y Memoria KUSHNER. eu tenho medo! Eu tenho que dormir nele? Eu vou ficar todo sujo! Aqui o som de gritos. Sua estética teatral com intuito didático tem a intenção de apresentar um palco científico capaz de mostrar ao público a sociedade e a necessidade de transformá-la. Perante seus olhos agora está claro E ao longo da rua a passos largos Muitos pés marchando eu ouço. possibilitando-lhe ser protagonista de mudanças sociais. O largo e inteiro mundo está sob as regras De uma determinada justiça. é empoeirado. do escritor italiano Primo Levi. Outra opção de leitura foi direcionada ao estudo da obra literária É Isto um Homem?. torna-se um espaço privilegiado para se trabalhar a autenticidade das relações humanas. Hana – I never saw another Butterfly RUBIN. Terezin está cheia de beleza. deve ser concebido como conjunto de relações sociais. ao mesmo tempo. 13 . A proposta se faz a partir da leitura vinculada aos seguintes questionamentos: • Como e qual seria o papel do indivíduo no processo de mudança social? • Como e em que condições ele “faz” a História? • Qual o papel de cada indivíduo em busca de construção da tolerância. culturais e individuais.Brundibar LAQUEUR. Um quarteirão kilometros de terra Me tira do mundo que é livre II. y los que en cualquier guerra se cayeron Todo está guardado en la memoria.1944 HUPPERT. Brecht chamava suas peças de “experimentos”. formada pela Faculdade de Artes Dulcina de Morais. minha terra nativa. Susan Goldman – Fireflies in the Dark: The Story of Friedl Dicker-Brandeis 12 Arte Educadora. de Bertolt Brecht. Eu contemplo e contemplo em direção sul-leste. Brasília-DF. choros. todas las promesas que se van.Theresienstadt GUTMAN.1930 – 28. O grande e distante mundo.Comer batas pretas? Não! Não eu! Eu terei que ficar? Aqui está sujo! O chão. 1943 LaR Eu contemplo e contemplo o largo mundo. FRANTA BASS. de ativar o público. isto é.10. olhe. Como seria feliz se eu retornasse para você.The Holocaust Encyclopedia LEITORES DE DRAMAS E MEMÓRIAS RELATO DE UMA EXPERIÊNCIA Silvana Feitosa12 Los viejos amores que no están. MIROSLAV KOSEK. professora do Centro de Ensino Médio Setor Oeste.9.1932 – 19. sendo portanto experimentos sociológicos. Você a acha em todo lugar. Morte. Eu vislumbro meu lar Em direção a cidade onde nasci. E agarra qualquer um Que coloque seu semblante para fora. vida é inferno E quando eu vou para casa. do respeito e de convivência com o outro? Partindo de questionamentos dessa natureza fomos encontrar na obra O Terror e a miséria no III Reich. ainda não posso dizer. No Gueto de Terezin. O caminho que me aparece. E oh! Tantas moscas. JUSTIFICATIVA A proposta consiste na força tarefa de desenvolver uma experiência em sala de aula que desperte o interesse dos educadores a respeito das memórias do Holocausto e o dilema de sua transmissão na sociedade global da atualidade. por meio da análise da representação cênica. Essa e outras temáticas estão contidas na concepção épica de Brecht: o ser humano deve ser compreendido com base nos processos por meio dos quais existe. Todos sabemos que moscas trazem doenças Oh! Algo me mordeu! Será que foi um besouro? Aqui em Terezin. especialista em Teatro-Educação. gritam todos.3. BIBLIOGRAFIA VOLAVKOVA. fornecendo-lhe recursos para avaliação do seu vínculo com o grupo. Essa prática transcende o espaço destinado à ilustração do texto escrito. 30. o homem na condição de escravo de um sistema no qual se tornara praticamente difícil modificar a situação na qual vivia em conseqüência do sistema totalitário. numa construção cênica interativa entre atores e espectadores. Tony . A antropologia teatral. Walter . de nele suscitar a ação transformadora.1944 DEPENDE DE CoMo SE VÊ I. depois de tudo. 4. fazendo uma analogia com as Ciências Sociais. TEDDY.

A etapa final se concretizou com a realização da leitura dramática da peça Terror e Miséria no III Reich. professores e policiais. como são aplicadas as sanções? Qual a relação entre papéis. • Ensinar aos alunos os valores da democracia e dos Direitos Humanos. A abertura da roda de leitura foi com o poema do Primo Levi (. Alguns personagens não se ajustam a determinada norma e. comparando com os jovens de nossos dias cujo o papel procuramos enfatizar para a construção de uma sociedade mais justa. posicionamentos frente a aceitação de regras impostas por um sistema totalitário e antissemita.com). A leitura nos favorece uma imersão na situação dos jovens daquele tempo. • Desenvolver o senso crítico e reflexivo de ações transformadoras das relações sociais através de leitura da obra É Isto um Homem?. são submetidos a um conjunto de sanções simbólicas e físicas evidentes em cenas que se desenrolam em campos de concentração: a substituição do nome por números. rádio ou qualquer forma que pudesse levar a informação além das fronteiras do Reich. étnica. H e I. Fazendo um contraponto com o presente é possível avaliar a liberdade de escolhas. Nos grupos sociais em geral. história de famílias. utilizando-se 14 . Paralelo a leitura da peça. por tratar do panorama da vida na Alemanha nazista.Roda de leitura selecionando capítulos do livro É Isto um Homem? E poemas para debate com a presença do professor Marcelo Walsh – Pesquisador do LEI/USP: Linha de Pesquisa “Holocausto e Antissemitismo”(2008). sempre citado. e para encorajá-los a repudiar o racismo e a promover a tolerância na sua respectiva sociedade. solidária e igualitária. Tarefa 2 . os alunos foram convidados a ler o livro É Isto um Homem?. o controle de suas escolhas. cenários virtuais com referências imagéticas do contexto histórico das ações. estudantes. que enriqueceu o debate reflexivo em torno da questão do Holocausto. • Desenvolver o bom hábito da leitura dramática através da obra O Terror e a miséria no III Reich do dramaturgo alemão Bertolt Brecht. roupas. Comprei o livro numa livraria virtual. coexistência e Direitos Humanos. normas e sanções? Nessa relação. símbolos. por isso. O Führer é um personagem de fundo. As tarefas relacionadas à leitura do livro são: tarefa 1 . Daí.Registro de comentários com as impressões pessoais e opiniões dos alunos na página de relacionamentos criada no Orkut para fins de diálogo pedagógico entre os alunos e professora. do escritor italiano Primo Levi. conforme suas escolhas. (endereço eletrônico: hypokrites. idéias. acessórios. no turno de atuação dos alunos (vespertino) de acordo com o cronograma das aulas de Artes Cênicas. A obra de Levi é otimista dentro deste universo literário. As turmas escolhidas foram as turmas do 2º ano do ensino médio: 2º G.cemso@gmail. qual seria o grau de autonomia do indivíduo? Por intermédio de que processos ele se torna membro da sociedade? Enfim. Primo Levi foi deportado para o campo de concentração de Auschwitz com a idade de 24 anos.seguida da leitura de trechos e passagens do livro pelos alunos. Mas. A primeira etapa partiu da leitura da obra O Terror e Miséria no III Reich. detalhes expostos pelo professor Marcelo. as personagens. cultural. Dentre as peças de Brecht esta me chamou muito a atenção. 2.. • Transformar a leitura em memória viva do Holocausto procurando avaliar as ideologias e controvérsias do Terceiro Reich utilizando o espaço cênico. • Contribuir para a formação de senso crítico contando e recontando a história com o propósito de promover a avaliar o passado para compreender o presente aprendendo com as lições a partir do Holocausto. fazendo uso de recortes de jornal. Em seu texto apresenta diversas situações do cotidiano. nos grupos humanos. seremos capazes de responder de forma crítica e reflexiva aos inúmeros questionamentos aqui elencados. do escritor italiano Primo Levi. que colaboram para formação da identidade individual e coletiva. o que acontece com aquele que não se adapta? Em É Isto um Homem? podemos identificar as respostas para tais questionamentos. como nos tornamos quem somos? O que é ser homem? O que é ser mulher? O que é ser branco? O que é ser negro? O indivíduo compartilha valores. Através desta leitura procuramos identificar e analisar os conceitos de liberdades individuais e invasão da esfera privada pelo Estado. peça teatral contendo 24 cenas. etc. o indivíduo desenvolve seus papéis de acordo com normas. Foram selecionadas 9 cenas para a leitura. notícias recebidas da resistência. e tenta demonstrar que é possível acreditar e apostar no homem após Auschwitz.). representações sociais que tendem a influenciar suas ações. 3.Sabe-se que. • Informar e educar o aluno sobre questões de tolerância. regras e valores. Após a leitura abrimos o debate para esclarecimentos de fatos e do próprio momento da vivência do autor. O livro insere-se na vasta obra testemunhal escrita sobre a experiência dos campos de concentração e extermínio dos judeus e outras minorias pelos nazis. Como o encontro com a diversidade artística. Brecht vivia então na Dinamarca.. sendo as dúvidas resolvidas no grupo respeitando o ponto de vista de cada um. METODOLOGIA As atividades foram desenvolvidas dentro do tempo regular das aulas. sentimentos. mas nunca aparecendo de fato. e ter sido escrita entre 1935 e 1938. Durante 2 meses de leitura os alunos se dividiram em pequenos grupos para elaborar um roteiro de apresentação da peça como parte da avaliação do processo de aprendizagem. OBJETIVOS • Realizar em sala de aula a leitura de fragmentos selecionados das obras O Terror e a Miséria no III Reich e É Isto um Homem? Este exercício deverá ser realizado dentro de um processo de aprendizagem onde se busca a qualidade e a eficácia do ensino no cumprimento de competências e habilidades do programa de avaliação seriada promovido pela universidade federal (UNB) para que os alunos alcancem êxito em sua avaliação que ocorre de forma processual ao longo dos 3 anos do ensino médio. as estrelas vermelhas e amarelas para selecionar grupos étnicos. Nesta ocasião. as insígnias triangulares na cor verde. religiosa e com as diferenças de orientação sexual e de gênero interfere na constituição dessa identidade? Como podemos constatar isso? Através dos papéis sociais representados por personagens das duas obras citadas acima podemos fazer as diversas leituras dos papéis sociais que representamos no meio em que vivemos. tirei 25 cópias das cenas e montei o texto em recortes facilitando o acesso a leitura em sala. sendo necessária a cópia do texto para ser lido em sala.

(A Torá na Terra de Santa Cruz.descendentes dos judeus ibéricos – a serem perseguidos como “judaizantes”. porque vivemos em grupo? O que significa dizer que o homem é um ser social? Que papel desempenhamos no meio em que vivemos? Importante ressaltar que precisamos perceber que. Em 2009 com objetivo de provocar questionamentos acerca de algumas questões inquietantes. o projeto Teatro e Protagonismo Juvenil com a montagem cênica da peça O Santo Inquérito. As cenas foram apresentadas na seguinte ordem: Cena 1 – desfile do povo alemão. O enredo enfoca a personagem Branca Dias. As caixas são cobertas conforme a criatividade de cada um. cena 9 . cena 8 – Os revolucionários.O vídeo são fragmentos da obra O Cavaleiro da Esperança especificamente no momento em que Jorge Amado conta a uma amiga imaginária a captura de Olga Benário. das mais denunciadas durante a primeira visitação. (. p. de Frances Goodrich para leitura e montagem de fragmentos. Ainda em 2010 participei juntamente com dois alunos do concurso Jorge Amado promovido pela Companhia das Letras e os alunos ganharam o prêmio de 2º e 3º lugar respectivamente. • Do livro didático de História – autor Heródoto Barbeiro. o Visitador (personagem que representa o Clero) diz: Acho que nos iludimos com ela desde o princípio. eu e Anne Frank. por representantes dos Nazis no Brasil. Lá. Num dos determinados momentos em que Branca é interrogada pelo Tribunal do Santo ofício. São as seguintes tarefas: Quem eu sou. sabe ler e suas leituras mostram que seu espírito está minado por idéias exóticas. Seus ossos foram desenterrados e queimados. Nas aulas de História o estudo partiu do capítulo 5 – A História dos Hebreus da antiguidade até a criação do Estado de Israel e perfazendo caminho sobre o conflito Árabe/Israelense. por exemplo. A instalação de tribunais da Inquisição na Península Ibérica levou os cristãos novos . urgentes e precisas no espaço da escola como. os indivíduos devem desenvolver papéis de acordo com normas. morreu no cárcere. A primeira vez que apresentei em sala de aula um tema dessa natureza relacionado com a questão do antissemitismo foi quando desenvolvi. uma judia do interior da Paraíba. há desempenho de papéis e divisão de tarefas que por sua vez podem gerar desigualdades. A ESPERANÇA E UMA AMIGA . signos. imagens imaginárias de um tempo real e cruel vivido pela humanidade e que não poderá jamais apagar-se da nossa memória. • Instalação malas e memórias – nesta tarefa os alunos transformam uma caixa de sapatos em uma mala onde selecionam objetos e pertences pessoais que tragam memórias de suas vidas. O objetivo de resgatar a memória utilizando atividades que interagem entre si contribui para que os alunos percebam o passado não como um tempo longínquo onde a história registra fatos esquecidos e estagnados na lembrança morta. Em 2011 buscando mais uma vez tratar do estudo do holocausto em sala de aula com as turmas de 2º Ano. em 2002. Portanto. Os inquisidores tinham profunda convicção de que as mulheres eram os hereges mais perigosos. Foi culpada mais de dez anos depois de sua morte. utilizando tecnologia da informação em programas como: Power Point e Movie Maker. cena 2 – Exortação à mocidade hitleriana. de Dias Gomes..dos recursos técnicos da metodologia didática do teatro de Brecht: uma leitura com cenários virtuais compostos de imagens. ao discordar veementemente do padre Bernardo a respeito de suas convicções religiosas. • Criação de portfólio contendo atividades relacionadas às questões discutidas em sala – leitura da peça e do filme O Diário de Anne Frank (seriado). sinal de que a Inquisição não estava alheia ao que acontecia na colônia portuguesa de além-mar. A fogueira foi o destino de muitas mulheres. Com o objetivo de auxiliar os educadores que pretendam aplicar esta sugestão em sala de aula apresento a minha proposta seguida de alguns relatos expressivos desta experiência. mas que esta memória seja um bem imaterial dentro de cada um de nós e que através dela sejamos instrumentos de mudança no mundo. mãe de uma criança chamada Anita. Olga Benário é uma mulher judia. na coletividade humana.. Não se trata de uma provinciana ingênua e desorientada. • Conexão com outras disciplinas – Nas aulas de Filosofia o estudo se deu a partir do capítulo 16 – A Memória da autora Marilena Chauí – Editora Ática. A obra é recheada de poemas que foram lidos antes de cada cena. amando Deus à minha maneira. como todos os de sua raça. esposa. ela se lembra de seu amado e da terra que a acolheu. além do site YouTube. reflexões a partir do livro O Diário de Anne Frank. estará sendo partidário de 15 . A pesquisa dos cenários foi realizada pelos alunos mais familiarizados com as habilidades em recursos audiovisuais. Declara-se ainda inocente porque quer impor-nos a sua heresia. regras e valores que preservem a dignidade do ser humano em todas as suas dimensões. tem instrução. Caso contrário. condenada à fogueira por violar as leis do clero. eu não pretendi nada disso! Nunca pensei senão em viver conforme a minha natureza e o meu entendimento. Com a presença do Tribunal do Santo Ofício no Brasil. isto é. Hanukah em tempos de Holocausto. Sua obstinação e sua arrogância provam que tem absoluta consciência de seus atos. • Escolha da peça O Diário de Anne Frank. Eu e meus amigos. octogenária acusada de liderar uma família de judaizantes na Bahia. companheira. O que é o Hanukah. cena 7 – Uma família no gueto. vários cristãos-novos foram insistentemente denunciados. Presa e enviada para Lisboa. O 2º lugar coube a aluna que montou o vídeo sobre a obra O Cavaleiro da Esperança denominando-o de UM CAVALEIRO. nem fazer mal algum a ninguém.A judia. condenada à fogueira pela Inquisição era uma mulher: a cristã-nova Ana Rodrigues. praticantes secretos da religião ancestral. verdadeiras responsáveis pela transmissão do judaísmo. Numa narração caseira mostra-se ao espectador através das entrelinhas do texto. Como todos os que pretendem enfraquecer a religião e a sociedade pela subversão e pela anarquia. Ela passa por horrores no campo de concentração para tentar sobreviver junto com sua filhinha. de Brecht. vídeos com trechos de filmes e textos/poemas relacionados ao tema das cenas que seriam projetados simultaneamente ao tempo de duração da cena. mas seu processo continuou. eu e o mundo. 18-20). nunca quis destruir nada. O que será o Amanhã? Cada tarefa acompanha um comentário e uma ilustração. cenas 3/4/5/6 – Campo de concentração.) A primeira vítima do Brasil. Branca responde: Mas senhores. nasce o projeto O Dever da Memória com as seguintes estratégias metodológicas: • A partir do estudo do Teatro Épico e de leitura e montagem das cenas O Batalhão do Pântano e A Judia.

Como se dá o encontro da diversidade cultural? As diferenças de orientação sexual? Como estes valores interferem na construção das identidades e das memórias? No contexto da sociedade brasileira algumas facetas da desigualdade. dos papéis sociais representados. a experiência de cada um. tremo no vento. aprende-se em breve a apagar da nossa mente o passado e o futuro. uma vez que a obra está inserida como instrumento de avaliação do Programa de Avaliação Seriada – PAS. Como pano de fundo tem a grande questão social que não cala: a prostituição de adolescentes.) Já apareceram. além de compartilhar valores.. trabalho com a pá. As atividades realizadas em sala de aula foram feitas em grupo partindo da leitura de partes do texto dramático Ópera do Malandro. A escola deve. outros cinzenta. • Documentários: 1) No tempo da Segunda Guerra. É Isto um Homem?) “Os ataques aéreos estão se tornando cada vez piores. dia e noite. personagem. O ruído é assustador. Outra proposta de avaliação é o debate entre o grupo e alunos de outra escola vizinha à nossa através da apresentação do espetáculo culminando com debate em torno da obra.) Na opinião de Pim a guerra pode terminar de um momento para outro. Avaliação das atividades realizadas Nesta última etapa os alunos apresentaram um portfólio das atividades relacionadas à montagem cênica da Ópera do Malandro em recortes abordando todo o processo de construção da montagem que posteriormente seria avaliada na prática através de encenação pública para a escola. de Primo Levi • Documentários da coleção HOLOCAUSTO • Filme Ópera do Malandro. à noite. 2) Anos 30: entre duas Guerras. Quinze dias depois da chegada. da discussão ética provocada pelos fatos ocorridos em função da violação dos direitos humanos durante a segunda guerra. tempo/espaço passando pela discussão da relação do contexto histórico e social da ação com o contexto histórico do país no percurso da ação. desfaleço na chuva. etc. de Chico Buarque de Holanda. (. mesmo meu corpo já não é meu. tudo isso num bojo de conflitos de identidade incessantes e pós-modernos bem próximos de nós. a escolha do texto. Materiais utilizados para a realização da atividade em sala de aula Os recursos materiais selecionados para a elaboração das aulas constituem-se do seguinte material audiovisual: • Audiovisuais: filme Escritores da Liberdade e Promessas de um novo mundo. onde a escola investe sistematicamente em manter seu projeto pedagógico em torno deste programa. objeto de estudo desta aula. indumentárias. quanto maior for o número de aviões. portanto. que faz sonhar. artista. custamos a reconhecer-nos.situações de exclusão e intolerância. quando não nos vemos durante três ou quatro dias. o poder centralizado na mão de contraventores de toda espécie. Quando a necessidade aperta. da inserção da linguagem audiovisual como ferramenta de estudo no contexto da linguagem cênica para pesquisa de construção de personagens. • Peça teatral Terror e Miséria no III Reich.(.. entre duas Artes. no peito de meus pés. Outro aspecto relevante de análise dentro do documentá- rio é a participação do Brasil na segunda guerra. se apresentar como um espaço social que valorize os aspectos aqui abordados de forma a incentivar o indivíduo a respeitar a diversidade. 4. os alunos puderam compreender e analisar criticamente a intenção do autor de provocar no espectador/leitor reflexões substanciais em torno da construção de identidade. Qual a repercussão da obra de um artista na formação da identidade de um grupo? De que forma a obra contribuiu para a “construção” de uma versão para História do Brasil? Onde encontramos os personagens deste enredo social? Eles estão somente no imaginário do autor ou são parte da realidade brasileira? É possível nos dias de hoje nos conectarmos com o tempo da obra? Essas perguntas podem ser respondidas ä medida que nos embrenhamos pelas entrelinhas do texto. mais próximo estará o fim da guerra. essa fome crônica que os homens livres desconhecem. de Chico Buarque. a indústria nacional e a relação do papel social representado por Max Overseas. da série Panorama Histórico Brasileiro do Instituto Itaú Cultural. das salas de aula. Empurro vagões. Numa outra análise foi sugerida a leitura do filme Ópera do Malandro. FRAGMENTOS DE OBRAS “Aqui estou. Só de farra. meu rosto túmido de manhã e chupado à noite. de Ruy Guerra na perspectiva de mostrar a importância do cinema na colaboração das descobertas de novos caminhos de se pensar e olhar o mundo. o autor. cenários.” (Primo Levi. malandro/protagonista da trama na Ópera do Malandro com o malandro político. da exploração do homem pelo homem.. contrabandista brasileiro/ estrangeiro. • Peça teatral e músicas da Ópera do Malandro. e por fim o autor e sua trajetória de vida. de Bertolt Brecht • É Isto um Homem?. meus membros ressequidos. a marginalização e discriminação de pessoas como prostitutas e homossexuais. já tenho a fome regulamentar. ação. meu ventre está inchado. 5. retalhando ou desconstruindo a história no tempo. Pim diz que para nós deveria soar como música. desencadeando um processo de estudo detalhado da obra em seus aspectos estruturantes da linguagem dramática: enredo. que fica dentro de cada fragmento de nossos corpos.. perguntou noutro dia a 16 . do jogo político. de Ruy Guerra. O critério de avaliação sistemática se dá através de uma ficha distribuída com a platéia para que a mesma pontuasse o desempenho de cada aluno/ator. ideias e representações sociais que possivelmente influenciem em suas ações colaborando para a formação da identidade e da memória (individual e coletiva) no contexto de uma sociedade democrática. Num outro encontro a proposta foi inserir a leitura do documentário No tempo da Segunda Guerra fazendo uma conexão com o papel social representado pela personagem Duran da obra Ópera do Malandro que estabelece uma relação simbólica de poder entre o personagem e sua idolatria em torno da figura personificada de Hitler. Através do filme e do documentário os alunos tiveram uma visão maior e mais esclarecedora dos fatos para resolver situações de ordem técnica e avançar na questão estética de suas criações. as torpes chagas que nunca irão sarar. Os aviões passam sobre nossas cabeças. Aqui. dentro das escolas. então: no fundo do poço. alguns de nós têm a pele amarelada. podem ser refletidas através da obra A Ópera do Malandro.

O Longo Século XXI.. na ótica historiográfica de Eric Hobsbawn. em cursos de graduação. Eric.digno de filme do agente britânico 007. cabe refletir-se sobre as palavras de um dos mais notáveis historiadores britânicos e especialistas em Memória da Shoah. apresenta um vigoroso espírito de renovar de esperanças. filósofa política de sua época. Marcelo Vieira. (. da Declaração Universal dos Direitos Humanos. a tirania implacável de Mao Tse-Tung (1949-1976). 2006. Hackett). de Bertolt Brecht). DESAFIOS DO ENSINO DA HISTÓRIA DO HOLOCAUSTO (Shoah) Da “Questão Judaica” à Solução Final Marcelo Vieira Walsh13 1. em retrospecto. p. que. referindo-se ao carrasco-chefe nazista. que seja recordada sempre a tragédia da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). 15 GILBERT.. (fragmento da peça teatral O Terror e Miséria no Terceiro Reich. Mas agora porque havemos de virar tudo ao contrário? Eu vou-me embora para não perderes o teu lugar de cirurgião –chefe. “alguém habituado a não pensar nas conseqüências dos seus atos” em nome do regime nazista do terror. recorda-se o Iom Hashoah. que ocupa supostamente uma das cadeiras) . Especialista em Análise de Informações Estratégicas (1995) (SAE-PR). data de libertação do campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau. com os seus nefastos Gulags (campos de concentração soviéticos) e KGB (Serviço de Inteligência soviético). o de Nuremberg. O Diário de Anne Frank. de maneira especial. ela foi designada pela Revista New Yorker. O papel do educador na construção da Memória do Holocausto (Shoah) Na noite do dia 20 de abril. os regimes ditatoriais laicos e os fundamentalistas islâmicos do Oriente Médio. Conselho Fiscal). na Polônia.. denominado pelo historiador britânico Eric Hobsbawn como “Século Sangrento”. É membro da Associação Nacional dos Ex-Combatentes da Força Expedicionária Brasileira (FEB) (qualidade de descendente). 14 WALSH. lecionando no Centro de Ensino Médio Ave Branca (CEMAB). demonstrou que a Humanidade ainda não aprendera a profunda lição histórica. pelo exército vermelho. Disponível em: <http://www. Racismo e Discriminação. Igualdade e Fraternidade para países que experimentaram ou experimentam ainda regimes Docente superior. Israel) (2010). Ambas as efemérides contêm um profundo significado e lição para o século XXI e servem como referências pedagógicas para os professores14.” (fragmento da peça teatral”. para mim quanta coisa gostaria de fazer . que foram aniquilados pelo império do terror nazista do Terceiro Reich (19391945). as ditaduras de esquerda e de direita do Terceiro Mundo.. e a aprovação. Liberdade. na III Seção Ordinária da Assembléia Geral da ONU (contando apenas com a abstenção de países socialistas). De fato. Atividades como pesquisador: Laboratório de Estudos sobre Etnicidade. desde 1998. que o mal tem gradações. Especialista no Ensino da História do Holocausto (Shoah) (Yad Vashem. episódio fabricado pelo regime nazista na Alemanha: A Kristallnacht ensinou. resistentes e sobreviventes judeus dos anos 1930 e 1940.15 Primeiramente.responsável direto pelo planejamento sistemático da “Questão Final” (eufemismo do plano de aniquilamento físico. Associação Nacional de Professores de História (ANPUH-DF. sem esforço. 16 HOBSBAWN. uma lição 13 histórica de que aquilo que começa como algo finito em matéria de destruição e limitado no tempo pode rapidamente evoluir para um monstro de extermínio em massa.andar outra vez de bicicleta. É professor concursado da Fundação Educacional do Distrito Federal. A pensadora. A Noite de Cristal – A Primeira Explosão de Ódio Nazista contra os Judeus. à frente da República Popular da China. inicia-se com o desmoronamento do império soviético e o fim da Guerra Fria.Há dez anos quando todos achavam que ninguém diria que eu era de raça judaica tu dizias logo: vê-se bem. Afinal.br/content/mail/press_especial. Martin. pelos Macabeus modernos. em Taguatinga Sul (DF). Atua no magistério superior... meter-me dentro dela. Associação Brasileira de História das Religiões (ABHR). é o Dia da Recordação das Vítimas do Holocausto ou da Shoah. Demonstra preferência pelos seguintes assuntos: Holocausto (Shoah). Especialista em Prática de Contratos Internacionais (2001) (PUC-PR). vestir roupa nova da cabeça aos pés – encher a banheira de água até transbordar. 17 . a segunda metade do século XX. Foi dela a autoria da expressão “banalidade do mal”17. 1995.cada um de nós o que mais gostaríamos de fazer ao sair daqui. Direitos Humanos. lamentavelmente. Rio de Janeiro: Ediouro. no livro de mesmo nome. “O Papel do Docente na Construção da Memória do Holocausto”. História das Relações Internacionais. Era dos Extremos: O Breve Século XX (1914-1991). política e filosófica da tragédia humana e social da Segunda Guerra Mundial (1939-1945)16. social e espiritual do povo judeu). Muito embora tivesse havido duas salutares reações mundiais – a instituição dos tribunais militares para julgar crimes de guerra. E isso dava-me alegria. medo e destruição18. de Ian Flemming . Antissemitismo. contra chineses opositores e tibetanos. Em 1961. rir até me doer a barriga. Japão).com. Goodrich e A. Enfim. 282. constitui uma das maiores referências para os docentes do século XXI.) Mas. de inquietações e de expectativas. intelectual judia alemã.. de F. História da Política Exterior do Brasil. ficar aí de molho até não poder mais. e que se celebra anualmente no dia de 27 de janeiro. mas também é um processo e pode mover-se suavemente. Política Internacional das Grandes Potências (Estados Unidos. por unanimidade.bnai-brith. afirma. China. Hannah Arendt (1906-1975).. ao abordar a “Noite de Cristal” (Kristallnacht). da Universidade de São Paulo (LEER-USP). cultural. tecnólogo. asp?cod=152>. que exterminaram milhões de opositores e civis inocentes. data em que se presta homenagem aos mártires. Justiça.. iniciada em 1943. através da sua Assembléia Geral. Acessado em 29/04/2011. em 1991. para um mal ainda maior. de 1938. instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU). que foi o Nazismo. capturado numa operação secreta do Mossad (Serviço de Inteligência Israelense) na Argentina . Era por encarar os fatos como fatos. pós-graduação e preparatórios. Judite – (Ensaia o que vai dizer ao marido. qual o significado dessas datas para esse início do século XXI? O que elas têm a ensinar às novas gerações (crianças. há o renovar de esperanças quanto à difusão universais dos valores da Democracia. na sua privilegiada argúcia. voltar ao colégio com minhas amigas. Mestre em História das Relações Internacionais (1994-1997) (UNB). Bacharel em Relações Internacionais (1988-1992) (UNB). Esta data se complementa com o “Dia Internacional em Honra às Vítimas do Holocausto”. em 1945. Coexistência. adolescentes e jovens)? Elas estariam restritas às comunidades judaicas pelo mundo? O que há de pedagógico nelas? E qual deverá ser o papel do docente no tocante à Memória do Holocausto ou Memória da Shoah? A propósito. São Paulo: Companhia das Letras. É a data da revolta do Gueto de Varsóvia. Martin Gilbert. provocada pelo ímpio e execrável sistema político-ideológico totalitário. em 1948 – novas tragédias humanas não deixaram de se repetir: a ditadura de Josef Stálin (1928-1953). acarretou a morte de mais de 11 milhões de pessoas em campos de extermínios nazistas. para cobrir o julgamento do criminoso nazista Adolf Eichmann.

enfatiza que o professor deve transmitir “sabedoria. antissemitismo. 7ª ed. justiça. afetividade. Op. Direitos Humanos. baseados num nacionalismo exacerbado. 72. negador sistemático da existência da Shoah e do legítimo direito de existência do Estado de Israel19. segundo a vigente Lei de Diretrizes e de Base da Educação (Lei 9394.br/ arquivos/pdf/ldb. quanto mais consciente dos valores da democracia.mec. Complementarmente. “Discurso de Abertura da V Jornada Interdisciplinar sobre o Ensino do Holocausto”. se harmoniza e enriquece o seu rico acervo. e na atuação passiva deste no processo de ensino aprendizagem. Abraham Goldstein. sua ampla vigência e constante aprimoramento. Caçando Eichmann – Como um Grupo de Sobreviventes do Holocausto Capturou o Nazista mais Notório do Mundo. Deve ser lembrado. numa visão atualizada. Cit. que patrocina a máquina de terror (Hezbollah e Hamas) e apóia os grupos de intolerância (revisionistas europeus ou negacionistas do Holocausto. pelas razões já expostas. coexistência e diálogo entre os todos os povos do mundo. 19 HOBSBAWN. à pergunta essencial: qual deve ser o papel do docente. realizado em Curitiba. A forma fratricida como ocorreu o desmoronamento da antiga Iugoslávia (1990-1991). Hannah. 2001. Disponível em: <http://portal. BASCOMB. o Genocídio de Ruanda (1991) e os atentados terroristas do 11 de Setembro de 2001 contra os Estados Unidos são exemplos de assustadores conflitos internacionais. 20 FOXMAN. serenidade. desde as tenras gerações do Ensino Fundamental até o nível do Ensino Superior. heróis e sobreviventes do Holocausto judeu e de outros povos – torna-se um imperativo de toda a Humanidade. racismo. mais compreensiva e atuante ela o será em busca de justiça social. racistas como a organização norte-americana Klu Klux Klan). Augusto. 23 BRASIL. para este importante processo. utilizando-se dos inúmeros recursos didáticos. no trabalho. “Lei de Diretrizes e de Base da Educação”(Lei 9394/96). mas. encontra-se enraizado na promoção da cultura e da educação em prol da Paz. 2005. SUBSECRETARIA DE INFORMAÇÕES. de influenciar pessoas”21. FOXMAN. A sociedade internacional – gerenciado pelos Estados soberanos e organismos internacionais . coexistência e fraternidade universal. de gangues neo-nazistas. Acessado em 27/04/2011. organizações racistas e antissemitas ou de governos intolerantes (como o do Irã e o do Sudão). p. Que se retorne. Os Direitos Humanos são universais e – ao contrário de ofuscar a diversidade cultural dos povos. Abraham. Entendemos que. para nossa sociedade. capacidade de falar ao coração. no moderno de ensino. novamente. pelo contrário. A Memória da Shoah ou do Holocausto – das vítimas. Rio de Janeiro: Sextante. E expectativas de que novas conturbações possam abalar o sistema internacional . São Paulo: Cia das Letras. Abraham. na qualidade de líder e formador de gerações. quanto mais preparada para o exercício da cidadania estiver nossa sociedade. a não-indiferença. SENADO FEDERAL. Manter acesa a chama da Memória da Shoah ou do Holocausto é perpetuar a chama da Vida! 2. Educação em prol da promoção da Cultura de Paz. No Brasil.como o caso do atual regime totalitário teocrático do Irã. São Paulo: Francis. na distante relação entre professor e aluno. 18 ARENDT. xenofobia20. ela. dos Direitos Humanos. primeiramente.. 2010.fechados. face ao desafio universal da Memória da Shoah ou do Holocausto? Deve-se referir ao papel do educador. 21 CURY. Eichmann em Jerusalém. ensi- nar a Memória da Shoah ou do Holocausto. defendeu a seguinte posição: Todas estas iniciativas têm o principal objetivo de disponibilizar ferramentas que permitem ao educador aprofundar o seu trabalho em sala de aula com informações e referências a documentos e argumentos interpretativos que lhe apóiam. Augusto Cury. os organismos internacionais contribuir para o amplo entendimento e consenso dos Estados soberanos quanto ao imperativo moral e à premência da observância dos Direitos Humanos. combater e proporcionar uma resposta adequada e firme a toda e qualquer forma de intolerância religiosa. amor pela vida. em sua tarefa e responsabilidade de educar os filhos de nossa sociedade. 22 GOLDSTEIN. estaremos garantindo.22 Encontra-se praticamente superada. promove o seu programa nuclear para fins militares e estimula o discurso de intolerância e de ódio antissemita do seu presidente. promulgada em 20 de dezembro de 1996). Cit. A Memória do Holocausto ou Memória da Shoah pode contribuir. um Brasil sem discriminação. assim define a Educação. Nunca mais? – A Ameaça do Novo Anti-Semitismo. Cit. Neal. coexistência e diálogo entre os povos do mundo. Coexistência e Diálogo Um dos principais pilares da Democracia e da Liberdade. nas instituições de ensino e pesquisa.tem o dever não só de recordar a tragédia singular do aniquilamento de mais de seis milhões de judeus (ou mais de 60% da população judaica da época). além da Paz Internacional.. paz. psiquiatra e pedagogo entusiasta da análise sobre o imprescindível papel do professor na sociedade e da sua missão de formar as novas gerações. presta-se não apenas a recordar a tragédia histórica da Segunda Guerra Mundial (1939-1945).. Eric. em 6 de junho de 2008. no sentido de se evitar que novas tragédias se repitam e de se ensinar a combater todos os tipos de intolerância. neo-nazistas. O papel do Estado deve ser o de zelar e garantir a plenitude dos Direitos Humanos. nessa perspectiva. Rio de Janeiro: Objetiva. embates inter-étnicos e fundamentalismos religiosos. Ora. O dever de também de estar vigilante às manifestações de intolerância – venham de indivíduos isolados. Realizada em Curitiba. nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas 17 ARENDT. a não-omissão e a imortal lição da Memória da Shoah ou do Holocausto. Pais Brilhantes e Professores Fascinantes. E utilizando o Direito Internacional. 18 . Co-Presidente Nacional da B´nai B´rith Brasil. 2003. tolerante e assentado no princípio da paz. O professor – tanto em sala de aula como em atividades extraclasses –. que a História apresenta um profundo conteúdo pedagógico. Mahamoud Ahmadinejad. no dia 06 de junho de 2008. a recordação. de nossa nação. dos Direitos Humanos.pdf>. mas também para cultivar o mais profundo Humanismo – e com ele os valores e ideais universais da democracia. Abraham (Co-Presidente Nacional da B´nai B´rith Brasil). o não-esquecimento. a antiga concepção do processo educacional centrado no simples transmitir de conhecimentos. Tomando para si e não delegando a ninguém a sua capacidade de conduzir e progredir no convívio pluralista e integrador. na convivência humana. o de educar às novas gerações para uma Cultura de Paz. deverá ensinar às novas gerações o respeito.gov. Op. na abertura da V Jornada Interdisciplinar para o Ensino da História do Holocausto. Op. sensibilidade. no quadro e giz. Hannah. no caput do Artigo 1º: A educação abrange os processos formativos que se desenvolvem na vida familiar.

social./Theodor-Adorno-EducaCAo-ApOs-Auschwitz>. entendia que deveria se desenvolver uma pedagogia universal em torno da tragédia humana e social incomensurável do Holocausto. Mas não se trata de uma ameaça. ADORNO. A diversidade cultural – de religiões. Bauman e Adorno: Sobre a Posição do Holocausto em Duas Leituras da Modernidade. Justificá-la teria algo de monstruoso em vista de toda monstruosidade ocorrida.. constitui um legado riquíssimo para a construção de pontes de entendimento. em Hebraico. Não devemos nos esquecer. No Brasil. drásticas transformações sociais e conseqüências humanas. levando-nos a refletir sobre a responsabilidade do Estado na preservação da vida do cidadão. de fato. valores –. harmonioso entre diferentes indivíduos. muito menos. compactuar com a intolerância. pois Auschwitz 24 foi a regressão. “Educação após Auschwitz”. Médio e Superior. Acessado em 23/04/2011. Para que lo sepan las Generaciones Venideras: La Recordación Del Holocausto em Yad Vashem. na perspectiva do Yad Vashem. cultural. proposta pelo Prof. E isto que apavora.com/. O Yad Vashem. Ben. Felipe Quintão. Theodor W. ADORNO. ABRAHAM. sintoma da persistência da possibilidade de que se repita no que depender do estado de consciência e de inconsciência das pessoas. Deve-se ensinar às novas gerações. a barbárie continuará existindo enquanto persistirem no que têm de fundamental as condições que geram esta regressão. pois alerta a humanidade a não incorrer mais nos erros do passado. 5ª Ed. Refletindo sobre Auschwitz. que recebe grupos de educadores. Programa de Pós-Graduação em Educação. Fala-se da ameaça de uma regressão à barbárie. E pensei nos seis milhões de judeus que morreram. Educar que o convívio pacífico e interativo entre pessoas de distintas condições constitui o fundamento da Democracia e dos Direitos Humanos. Jerusalén: Yad Vashem. Primeiro-Ministro israelense (1948-1952). da Coexistência e do Diálogo. violências. Não consigo entender como até hoje mereceu tão pouca atenção. e construído no Monte da Recordação (Har Hazikarón). o diálogo deve estar plenamente incorporado como instrumento de aperfeiçoamento das instituições democráticas. o estudo da história da Shoá desempenha um importante papel de conscientização. Rio de Janeiro: Paz & Terra. em 14 de maio de 1948.25 O Yad Vashem26 (literalmente. poderá contribuir para o aprofundamento da consciência histórica em prol dos Direitos Humanos. sexual ou outra.scribd. ao proferir a Declaração de Independência de Israel recordou a incomensurável tragédia humana que se abateu sobre o povo judeu nos 1930 e 194030: A catástrofe que recentemente caiu sobre o povo judeu . a discriminação.uma das principais líderes do Sionismo28. desempenha uma função importante na promoção da tanto da Educação como da Cultura em prol da Paz. “Monumento aos Nomes”) ou Museu do Holocausto.o massacre de milhões de judeus na Europa . portanto. Educação e Emancipação. estudantes e visitantes do mundo inteiro. a construção de uma sociedade não apenas pluralista e tolerante. 2005. todos aqueles que deveriam estar aqui. Israel] 27 ISRAEL. mas do pleno convívio pacífico. e aprovada pelo Knesset (Parlamento israelense). econômica.. exclusões. intensidade dos conflitos. nos termos da história mundial. instituições. Através de uma análise crítica das teorias racistas implementadas pelo III Reich podem-se desenvolver atitudes que favoreçam a convivência democrática e a construção da cidadania.manifestações culturais.foi outra demonstração clara da urgência de resolver o proble- CARNEIRO. 2010. o pensador alemão argumenta: A exigência que Auschwitz não se repita é a primeira de todas para a educação. 1972. 26 O Yad Vashem foi criado em 1957. chegou a comentar no momento da Independência de Israel. De tal modo ela precede quaisquer outras que creio não ser possível nem necessário justificá-la. mas também para a toda a Humanidade. Universidade Federal de Santa Catarina. que novos preconceitos.24 Theodor Adorno (1903-1969). Ela impele as pessoas em direção ao que é indescritível e que. Mas a pouca consciência existente em relação a essa exigência e as questões que ela levanta provam que a monstruosidade não calou fundo nas pessoas.23 O papel da educação. todos aqueles que não verão Israel”29. a pressão social continua se impondo. David Ben-Gurion (1886-1973). em Jerusalém. Não ser indiferente. ensinando que estes valores são o fundamento do convívio pacífico e harmonioso entre os povos. A Humanidade não pode ficar indiferente e nem ser omissa face às novas correntes de intolerâncias. o preconceito. discriminações. São Paulo: WG Comunicações e Produções. YAD VASHEM. converteu-se numa das principais referências internacionais de pesquisa e no estudo do Holocausto. destacado filósofo e sociólogo alemão do século XX. presente no mundo. sendo hoje o mais importante centro judaico e mundial da Memória da Shoah27. apenas direcionada para o povo judeu. ALMEIDA.. expoente da Escola de Frankfurt. ESCUELA INTERNACIONAL PARA EL ESTUDIO DEL HOLOCAUSTO. Ela foi a barbárie contra a qual se dirige toda a educação. num misto de tristeza e alegria: “Pensei em meus filhos lutando e seus colegas morrendo nessa hora. São Paulo: Ática. p. DEPARTAMENTO DE EDUCACIÓN Y DESARROLLO. …E o Mundo Silenciou. étnica. Maria Luiza Tucci. o mais ativo campo de extermínio nazista. nem omisso e. a inclusão da temática da Memória da Shoah ou do Holocausto na grade curricular ou no conteúdo programático do Ensino Fundamental. Theodor. Golda Meir (1898-1978) . 2008. culminaria em Auschwitz. Este conflito culminou com o extermínio de mais de seis milhões de judeus e cinco milhões de não-judeus. consciente das suas responsabilidades individuais e sociais. mas envolve a formação do cidadão ético. Disponível em: < www. por meio da educação. por sua extensão geográfica. Como afirma Maria Luiza Tucci Carneiro. compreensão e comunicação entre os povos. dos Direitos Humanos. Esta é a atitude social e individual imperativa para que a Barbárie não retorne e nem se imponham ditadores sobre a Humanidade. Dissertação de Mestrado. 2007. no seu livro Holocausto – Crime contra a Humanidade: [O livro] pretende mostrar que aquele processo de extermínio de um povo passa pela compreensão dos direitos humanos. Holocausto: Crime contra a Humanidade. A Memória da Shoah ou do Holocausto não é. costumes. 25 19 .5. Neste sentido.. Qualquer debate acerca de metas educacionais carece de significado e importância frente a essa meta: que Auschwitz não se repita. Apesar da nãovisibilidade atual dos infortúnios. línguas. 3. não está voltada tão somente à colocação de profissionais competentes no mercado de trabalho. Holocausto (Shoah): como foi possível acontecer? A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) constituiu a maior tragédia da História da Humanidade. pela Lei da Recordação. através de uma sistemática política implementada pelo Terceiro Reich (1933-1945). Ben Zion Dinur. genocídio não se repitam. não importando a sua condição religiosa.

O judeu seria. Declaração de Independência (Governo de Israel. foi um crime contra a Humanidade. aparece a figura do “homem de Estado” – democrático ou ditatorial. Produtores Executivos: Richard Bradley.visaojudaica. podemos refletir e discutir a História das Relações Internacionais como resultante da dialética entre as ”forças profundas” e o papel dos “homens de Estado”. dos poloneses. à dignidade humana. maçons. 1967. envolvendo diversas áreas do conhecimento: Sociologia.9. apesar das dificuldades.1948). além disso. etc. uma questão identitária. Antropologia Cultural. dentre outros. A morte dos judeus não foi uma oferta. Para o Rabino Benjamin Blech.C. 2º Volume. 20 . 5 Iyar 5708. ao próprio existir? • Qual a importância do resgate da memória histórica 28 do Holocausto (em hebraico. perguntamos: • Historicamente. Kátia Lerner destaca: “Um campo de disputa se formou entre historiadores de diferentes correntes – e. É. as forças resistentes e o templo sagrado de Jerusalém. Ciência Política. econômicos.com. concebidos para tal fim. 14. Estatística Aplicada ao campo das Ciências Humanas. inter e transdisciplinaridade. História. liberdade e trabalho honesto em seu lar nacional. Na Segunda Guerra Mundial. quando os romanos destruíram a cidade. comerciais. com o lançamento do livro O Estado Judeu (Der Judenstaat) (1895) – que preconiza o direito à autodeterminação do Povo Judeu e à existência de um Estado judeu independente e soberano no território. Gratton Puxon e Ian Hancock. idosos e doentes)? • Como puderam ser implementados centenas de campos de extermínio que. midiáticos. social e política do Povo judeu que sofreu a Diáspora (Dispersão geográfica) Romana. visão estratégica.. sob a perspectiva da multi. Do outro lado. Kátia. assim como os judeus do resto do mundo. desde a ascensão de Hitler ao poder em 1933. Holocausto. entre outros”. mais especificamente. História dos Judeus. a palavra Holocausto é a mais usada. Mesmo assim.ma da falta de um lar através do reestabelecimento em Eretz-Israel do Estado Judeu. sob a alegação de que isto enfraqueceria a singularidade da tragédia judaica. existem objeções ao seu emprego. Sobreviventes do holocausto nazista na Europa. Edward McNall. Gunter Grau. demográficos. Pierre & DUROSELLE.5. no caso da perseguição aos ciganos. Tel Aviv. etc. sobre o Holocausto. Para Bernado Sorj. A historiografia das Relações Internacionais permite delinear um quadro abrangente da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e. Jean-Baptiste.cuja moderna corrente foi fundada por Theodor Herzl. “grave tragédia”. culturais. Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia. Introdução à História das Relações Internacionais. como foi possível a deliberação. O Terceiro Reich e o Antissemitismo: Antes de qualquer abordagem sobre o antissemitsmo. Sob a perspectiva do pensamento de Pierre Renouvin e Jean-Baptiste Duroselle. negar o direito dos judeus e não-judeus à vida. o planejamento e a implementação de um plano de extermínio sistemático de milhões de pessoas (judeus. JOHNSON. no qual historicamente existiu o antigo Reino de Israel (Eretz Israel). em especial. a qual significa: “aniquilação”. 1986. Rio de Janeiro: Globo. garantiram a execução da última etapa do plano que ficou conhecida como “Solução Final”. Shoah) e da construção de uma Cultura de Paz atrelada à valorização dos Direitos Humanos. 4. p. Uma das inúmeras abordagens possíveis sobre este tema é à luz da História das Relações Internacionais que analisa a evolução da vida internacional no tempo histórico. 2003. assim como do próprio Estado. portanto. Robert E. Diante do reconhecimento de que o Holocausto. Direito Internacional. no ano de 70 d. enfim. 1995. nacionais. Acessado em 25/04/2011. Memória e Identidade Social: A Experiência da Fundação Shoah. ganhou o direito de ser reconhecida entre os povos que fundaram as Nações Unidas. em Israel e em círculos judaicos fora de Israel. com o sangue de seus soldados e seus esforços de guerra.. um modo especial de viver e encarar a vida. negros. enquanto genocídio singular. História da Civilização Ocidental – Do Homem das Cavernas às Naves Espaciais. Standish. a qual divide teólogos (rabinos). continuaram a migrar para Eretz-Israel. evangélicos. 29 Criação do Estado de Israel. as pessoas optam por utilizar a palavra hebraica “Shoah”. 32 RENOUVIN. importante assinalar. em plena Segunda Guerra Mundial (19391945)? • O extermínio de milhões de seres humanos resultou de uma decisão momentânea ou de um longo e contínuo processo que antecedeu à própria eclosão da Segunda Grande Guerra (1939-1945)? • Qual o papel desempenhado pela Conferência de Wannsee (1942) na história do Holocausto? Em que contexto deve-se entender a “Solução Final da Questão Judaica” (Endlösung der Judenfrage)? • O estudo da história do Holocausto limitar-se-ia ao registro histórico e da justa homenagem às vítimas e sobreviventes ou transcenderia ao tempo histórico abarcando também o presente e o futuro? • Como entender o inexplicável? Como foi possível. Tendo em vista que o significado original da palavra Holocausto é “oferta sacrificial” em honra de D´us/Deus. 30 ISRAEL. católicos. antropólogos e historiadores. financeiros. o Judaísmo não é somente uma religião. 2ª Ed. homossexuais. São elementos que moldam as relações internacionais. BURNS. da coexistência e do diálogo entre os povos de todas as nações? • Qual o papel da educação e dos educadores frente as questões colocadas?31 De fato. caráter. Porém. ideológicos. ideologia e processo decisório32. opositores políticos. dispersando parte considerável dos judeus. Economia. Paul. filósofos. 1 DVD.html>. Universidade Federal do Rio de Janeiro. São Paulo: Imago. sob comando do general Tito. sendo diversas coisas simultaneamente. Tese de Doutorado. Richard Lukas. desígnios.C/E. Adam Kemp e Neil McDonald. Disponível em: < http://www. aparece nos texto sagrados do Judaísmo (Torah) e no do Cristianismo (Antigo Testamento) com o significado “queimado em sacrifício de Deus”. Por isso. No caso das “forças profundas” constituem um conjunto de fatores ou causas que desencadeiam o processo histórico: geográficos. a comunidade judaica deste país contribuiu por completo com as nações que amam a paz e a liberdade contra as forças da tirania nazista e. dos homossexuais. Entre os autores que criticavam o alargamento desta definição estavam Stephen Katz e Yehuda Bauer. LERNER. & MEACHAM.. Psicologia Social. LERNER. ciganos. que abriria bem os portões da terra natal para todo judeu e conferiria ao povo judeu o status de membro privilegiado na comunidade de nações. Relações Internacionais. 31 Os termos Holocausto e Shoah são empregados normalmente para representar a mesma idéia: a do genocídio cometido pelos nazistas contra judeus e não-judeus em campos da morte durante a Segunda Guerra Mundial. há inúmeras reflexões suscitadas – ou ainda a serem suscitadas – a respeito da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e. origens étnicas – quanto à inclusão ou não de outros grupos além dos judeus enquanto vítimas [do Holocausto]. atualmente. à liberdade. São Paulo: DIFEL. A idéia de retorno ao seu espaço nacional encontra-se expresso na vida religiosa. sociólogos. deve-se refletir acerca do significado de “ser judeu33”. caracterizado como adepto de uma reli- Sionismo constitui movimento político e filosófico . Filosofia. 2004. restrições e perigos e nunca deixaram de assegurar o seu direito a uma vida de dignidade.br/Abril2006/artigos/2. A sua origem etimológica no Grego holokausto. Estas perspectivas se chocam com as demandas de representantes destes grupos e acadêmicos como Donald Kenrick. Produtores Bill Locke e Chris Kelly. constituiria uma identidade inerentemente plural e. mulheres. BBC Worldwide. não se enquadrando em sistemas classificatórios rígidos e unívocos. muitos dos quais eram crianças. à propriedade. etc. sempre houve uma presença ininterrupta de judeus na Terra Santa. sobre o Holocausto. moderno ou tradicional – com sua personalidade.

o discurso antissemita encontrou um campo propício para proliferar identificando o judeu como “elemento degenerado. História Geral do Anti-Semitismo. na obra apócrifa dos Protocolos dos Sábios de Sião. Ásia e Europa. pelo Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães. assim como sobre a posterior elite intelectual nazista. com o tempo.cit. otomano (1517-1917). dos quais os alemães e demais povos de cultura alemã. consolidado com a vitória eleitoral de Adolf Hitler. supervisor do processo de extermínio contra os judeus42. Alfred Rosenberg (1893-1946). endossada como elemento principal da ideologia nazista. Desta época.. Rio de Janeiro: Globo. Desde a Antigüidade. Op. árabe (639-1099). LERNER. Benjamin (Rabino). proliferou a ideia da “inferioridade racial” dos judeus e o mito político “conspiração judaico-maçônica”37 contra o mundo. mameluco (1291-1516).36 Na Era moderna. bizantino (313-636). 37 Falsa idéia encontrada. o NSDAP. 21 . Para compreendermos a persistência do antissemitismo e a execução da “Solução Final” devemos avaliá-los no contexto histórico do Terceiro Reich39 (1933-1945). 2004. chanceler do Terceiro Reich. Cit.. Benjamin (Rabino). contudo. com o Império Germânico (1871-1918). persas e helênicos (538-142 a. Mas também na criação do mundo moderno: na origem das idéias seculares. os judeus foram estigmatizados como “cosmopolitas”. e declinado. na narrativa das Sagradas Escrituras (no Livro da Torah/ no Antigo Testamento). portanto. Comandante Supremo da SS (Reichsführer-SS) e elemento chave processo de execução do Holocausto. militarista e conservadora. e no impulsionamento da cultura contemporânea (JOHNSON. num tempo mítico – baseado em crenças das tradições nórdicas pagãs -. perdendo seus poderes originais45. Heinrich Himmler (1900-1945).). A missão mística do nazismo. no noroeste da Mesopotâmia. ou seja. 39 O Primeiro Reich ocorreu com o Sacro Império Romano-Germânico (962-1806) e o Segundo Reich. assim como Edward Burns. Edward McNall. Op. 2006. Hermann Göring (1893-1946). secretário particular e homem de confiança de Hitler. Op. “judeu revolucionário” e/ou “judeu degenerado”38. no Oriente Próximo. e sua língua pertencia à família semítica do Oriente Próximo. 35 Muitos povos combateram os judeus e invadiram seu território ao longo dos séculos: babilônios (586-538 a. preconizava a idéia de que. no contexto de intensa Revolução Industrial e (re) ordenamento da Alemanha no concerto entre as grandes potências européias40. sobretudo. Existem diversas motivações. com as conversões forçadas de judeus e a Inquisição. passando pela ideia do deícidio . Reinhard Tristan Eugen Heydrich (1904-1942). por exemplo. Por sua vez. de 1925 . São Paulo. 1986).C. Do período da Unificação Alemã (1871-1918). O antissemitismo transformou-se em instrumento de poder do Terceiro Reich (1933-1945). do antisemitismo moderno.. Certamente. JOHNSON. produzida pela polícia secreta do Tzar Nicolau II. o antissemitismo tem suas origens remotas. a produção dos Textos Sagrados. não identificados com a cultura igualitária nacional. BLECH. A teoria da raça ariana. 2004. A partir de então. “judeu avarento”. Maria Luiza Tucci. O Mais Completo Guia sobre Judaísmo. Sem contar o Mandato Britânico sobre a Palestina (1918-1948). Benjamin (Rabino). “judeu capitalista”.. 38 BLECH. alimentando esta nova expressão de antissemitismo que seria assimilada pelos nazistas a partir da criação do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei (NSDAP). STIVELMAN.C. 34 BLECH.cit. 36 Sobre estes conceitos ver CARNEIRO. A primeira vez que os fundadores da nação de Israel aparecem na história é.C). A maioria dos historiadores admite que o berço primitivo dos hebreus tenha sido o deserto da Arábia.-313 a. a partir da segunda metade do século XIX. Cit. Op. Segundo Tucci Carneiro temos que estar atentos a essas definições que distinguem o antissemitimo tradicional. social. liderado pelo Patriarca Abraão. deve-se mencionar a influência do intelectual britânico Houstin Stewart Chamberlain41 (18551927). Paul.). surgiu uma agressiva ideologia nacionalista. teria existido um continente [imaginário] denominado Thule. O discurso nazista fortaleceu-se com base na ideia de revolução social e instauração de uma Nova Ordem Internacional fundamentada no mito do arianismo. na evolução do capitalismo e sua contraparte ideológica. Gerard. com Otto Von Bismarck (1815-1898). fundado. o Cristianismo e o Islamismo. seria a de redimir a “raça ariana”. que o elegeu chanceler e fundindo com as funções de Presidente após a morte do Marechal Paul Von Hindenburg (1847-1934)43. no qual habitavam homens-deuses. Perspectiva. aparentemente. Preconceito Racial em Portugal e Brasil Colônia. Marechal do Reich. sobretudo a partir da Revolução Francesa (1789). econômico. militarismo expansionista territorial e misto de conservadorismo tradicional. cultural. Ministro da Propaganda. São Paulo: Civilização Brasileira. Tanto o crescimento do nacional-socialismo assim como dos sentimentos de pangermanismo e antissemitismo devem ser compreendidos no conturbado contexto social. teriam se integrado às “raças inferiores” ou “bestiais”. Standish. um dos principais teóricos do nazismo. suas ramificações. “arianos”. em 1897.C. Mas. no Séc. o historiador Paul Johnson destaca as inestimáveis contribuições dos judeus em legar ao mundo o monoteísmo ético.. em parte. com sua filosofia da teocracia democrática e sua noção de igualdade perante a lei.35. desde o confronto entre o monoteísmo dos judeus e os politeísmos dos povos vizinhos. Já em 1800 a. Considerada a mais antiga forma de ódio social e individual. “raça pura”. revolucionário e cosmopolita” contrário ao “espírito nacional alemão”.e por toda elite nazista. no hemisfério Norte. Rio de Janeiro: Imago. cruzado (1099-1291).gião. praticamente na ligação entre os três continentes: África. Com o passar do tempo. defendida por Adolf Hitler – ideário presente na sua obra Minha Luta (Mein Kampf). Paul. no nacionalismo exacerbado. incluindo Adolf Hitler (1889-1945). Raquel. “racial” (étnico). da “superioridade da raça e sangue dos arianos”.C. no desenvolvimento das ciências e das artes. O Ódio entre os Homens – Anti-Semitismo: o mais Longo dos Ódios. XVIII a. com o processo de “purificação e 33 Edward Burns situa a origem do Povo hebreu/judeu em tempos históricos remotos: “A origem dos hebreus ainda constitui um problema confuso. se instaurou um Estado totalitário de direita. eles não possuíam quaisquer características físicas capazes de distingui-los nitidamente dos povos vizinhos. 3ed.suposta culpa coletiva de morte de Jesus atribuída indiscriminada e continuamente contra os judeus -. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.C. desde o estabelecimento do povo judeu na Terra Prometida.). Assim. um grupo de hebreus sob a chefia de Abraão se estabelecera ali”(BURNS. & MEACHAM. romano (63 a. 2003. do “judeu errante”. Robert E. assim como os emigrantes e as futuras gerações germânicas seriam os representantes diretos da Nação e do Povo alemães44. 1º Volume. de fundamento religioso. 2010. até a eclosão da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). ou pseudo-científica. no entendimento de Raquel Stivelman. As narrativas encontram-se impregnadas de estereótipos como. com sua obra Os Fundamentos do Século XX que exerceu grade influência sobre a elite do império alemão. e. para o antissemitismo multifacetado: religioso. político-ideológico. SORJ. Paul Joseph Goebbels (1897-1945). História da Civilização Ocidental – Do Homem das Cavernas às Naves Espaciais. de funadamentação científica. Um dos principais fatores que explicam as invasões estrangeiras é a posição estratégica da Eretz Israel. podemos identificar diversas e contextuais manifestações antissemitas. o socialismo. Comandante da Luftwaffe e segundo homem importante da hierarquia nazista do Terceiro Reich.. assim como membro de grupo étnico e portador de uma identidade coletiva34. Rudolf Hess (1894-1987). cuja plataforma política resultou do fortalecimento dos grupos da extrema-direita na Alemanha desde o final do século XIX. Bernardo. dos primórdios do Cristianismo ao fim da Idade Média. MESSADIÉ. São Paulo: Sefer. Judaísmo para Todos. econômico e político da Europa no período do Entre-Guerras (1919-1939).

3 milhões de judeus até o final da Guerra. em 1º de setembro de 1939 e o ataque militar desferido contra a União Soviética. Rio de Janeiro: DIFEL. Hitler. Donald. São Paulo: Madras. São Paulo: Companhia das Letras. HOBSBAWN. ciganos.). deficientes. Essa questão deve ser encarada sem sentimentalismo. Esta estratégia baseava-se na doutrina geopolítica do Espaço Vital (Lebensraum). 1995. empreenderam massacres indiscriminados contra inúmeras comunidades judaicas do Leste Europeu. contra judeus. devido à sua origem teológica semítica e oposição ao paganismo. Cit. em especial. Não apenas o Judaísmo foi eleito como inimigo principal do Estado nazista. José Flávio Sombra (Org. homossexuais. Op. da escala de produção de armamentos. Não eram ameaças vãs. Ian. homossexuais. The Complete Illustrated History of World War Two: An Authoritative Account of the Deadliest Conflict in Human History with Analysis of Decisive Encounters and Landmark Engagements. 2006. 2010.). filha do compositor alemão antissemita Richard Wagner (1813-1883). Paul. USA Filmes. na “forma industrial de larga escala” – a “Solução Final e da Questão Judaica (Endlösung der Judenfrage)”. A História do Terceiro Reich. Inicialmente. “o processo de massacres e genocídios – sobretudo. Nesta reunião foram discutidos o estado da guerra (com base em extenso relatório) e a questão dos judeus..). Pierre & DUROSELLE.52 Então. São Paulo: Companhia das Letras. José Flávio Sombra (Org. o extermínio de todos os judeus da Europa ocupada pela Alemanha nazista. representou o conflito mais abrangente do ponto de vista geográfico. 47 SARAIVA. Adolf Hitler seria uma espécie de “messias ariano”. De fato. Joseph Goebbels (1897-1945) pronuncia as seguintes palavras. 42 DAVIES. em Berlim. na sua obra Mein Kampf (Minha Luta). totalizando mais de setenta milhões de mortos49.d. de inteligência e científica a serviço dos esforços de guerra. SARAIVA. . Reino Unido. Portanto. país HOBSBAWN. Japão imperialista e aliados menores). 2008. Caracterizado por significativos ataques contra civis. Em 12 de dezembro do mesmo ano. com mais de 100 milhões de militares mobilizados47. O nazismo acreditava que judeus e cristãos eram “incapazes” de uma verdadeira espiritualidade [Sic]. os ciganos e agentes políticos soviéticos também foram outros alvos51. tecnologia militar avançada. católicos. esquadrões da morte (Einsatzgruppen). em 1941. iriam ter de enfrentar a própria aniquilação. e atingindo a cifra total de mais de 1. A essência desta forma de pensar se faz centrada no conceito de arianismo que tem sua origem nos tempos pagãos dos povos germânicos anteriores à sua conversão cristã. Jacques. Era dos Extremos: O Breve Século XX (1914-1991). evangélicos. a Alemanha nazista preparou-se para uma ampla ofensiva militar em direção do Leste Europeu. Eric. marcam o início do processo de extermínio sistemático contra o povo judeu e outras “categorias sociais indesejáveis”50. 2009. John. Não devemos nutrir simpatias pelos judeus. 43 KERSHAW. . A invasão da Polônia. tornou-se inevitável com o estabelecimento do regime totalitário nazista”46. São Paulo: Saraiva. devemos considerar uma somatório de elementos para conseguir entender como foi possível um Estado planejar o extermínio de um povo e de outras tantas minorias éticas e políticas. 2ª Ed.d. Era dos Extremos: O Breve Século XX (1914-1991). História das Relações Internacionais Contemporâneas –da Sociedade Internacional do Século XIX à Era da Globalização. 45 Idem 46 SÉMELIN. usar mão de obra escrava (eslavos e não-eslavos) 40 e eliminar os “indesejados sociais” ou “raças inferiores” (doentes mentais. etc. S. de 1925. O antissemitismo não estava mais vinculado apenas à questão religiosa (na ideia do “deicídio”). da Polícia de Segurança. Além dos judeus. mas também o Cristianismo. no Japão em 1945. um conflito militar efetivamente global.em larga escala. 41 Casado com Eva Wagner. União Soviética e outros aliados) e o Eixo (Alemanha nazista. Adolf Hitler tem uma reunião de alta-cúpula do partido nazista na Chancelaria do Reich. Itália fascista. 22 . caso os judeus viessem a causar outra guerra mundial. que chegaram a mais de 300 mil judeus. econômica e tecnológica mundial. Uma História da Guerra. contra as cidades de Hiroshima e Nagasaki. USA Filmes.A História do Terceiro Reich. Desde então. KEEGAN. contra a União Soviética – após ter ocupado a Polônia. mas somente simpatia por nosso povo alemão. A guerra mundial é uma realidade. e ao alemão. Op. Neste contexto. para depois também incluírem mulheres e crianças. São Paulo: Companhia das Letras. Portanto. envolvendo a maioria das nações do mundo – incluindo todas as Grandes Potências –. Norman. judeus. industrial. 2007.destruição” dos elementos “não-arianos” seja da Alemanha ou do exterior. 2009. pertencente à Schutzstaffel (SS). um dia após anunciar a declaração de guerra nazista contra os Estados Unidos. a qual defendia que seria necessário expandir o espaço territorial do povo alemão. caminhando atrás das tropas do Exército alemão (Wehrmacht). Revista e Atualizada. O ministro da Propaganda. Pablo. contando com o sucesso inicial da Operação Barbarossa. S.. 2003. Até o mês de dezembro de 1941. só visavam homens adultos. Eric. tratava-se de uma “guerra total”. A conclusão é de que se tornou o embate militar mais trágico. As Forças Negras desencadeadas pelo Terceiro Reich. cristãos ortodoxos. 1 DVD. França. imprimira uma roupagem ainda mais agressiva. Cit. organizadas em duas alianças militares opostas: os Aliados (Estados Unidos. Rio de Janeiro: Record. Jean-Baptiste. 1 DVD. neste estágio da Segunda Guerra Mundial (19391945). etc. eslavos. sistemática e implacável ao antissemitismo europeu. incluindo o Holocausto e o uso pioneiro de armas nucleares.. Cumpre lembrar que Adolf Hitler. em 12 de junho de 1941. na qual os principais envolvidos utilizaram toda sua capacidade econômica. São Paulo: Companhia das Letras. 1995. Ele profetizou que. tecnológica. no geral. Eric. Tempos Interessantes – Uma vida no Século XX. brutal e violento da História da Humanidade. 5. extinguindo a antiga distinção entre recursos civis e militares na guerra48. Purificar e Destruir: Usos Políticos dos Massacres e dos Genocídios. segundo o historiador John Keegan. SOMMERVILLE. ALLEGRITTI. New York: Lorenz Books. por fuzilamento. SOMMERVILLE. com a Operação Barbarossa.. Op.Cit. RENOUVIN. foi defendido pelo ditador Adolf Hitler e toda a elite do comando nazista. como parte da sua estratégia para se tornar a superpotência militar. São Paulo: Companhia das Letras. sob as ordens de Heinrich Himmler. financeira. O Clã de Hitler. 2009. Europa na Guerra (1939-1945). mas era reforçado por argumentos pseudo-científicos. 1995.. assassinados ao ar livre. ciganos. São Paulo: Planeta do Brasil. Como Jacques Sémelin argumenta. dos cinco continentes. A Segunda Guerra Mundial e a “Solução Final” na Conferência de Wannsee (1942) A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) constituiu. A conseqüência necessária deve ser a aniquilação dos judeus. o Führer [líder] está determinado a realizar uma limpeza completa. propagandística. 48 HOBSBAWN. a tropa de elite de Adolf Hitler. Donald. 44 ROLAND. com autorização do próprio ditador Adolf Hitler: Com relação à Questão Judaica. o regime nazista.

Robert E. Nesta reunião. era de tornar factível a idéia de extermínio físico dos judeus defendida por Adolf Hitler. reuniram-se. Reichsamtleiter Dr.um dos mentores da Conferência de Wannsee (1942). da vida européia (e. da África do Norte (e. Cit.. Pode-se propor a seguinte seqüência: 49 1ª) A divulgação propagandística (1925-1933) e a institucionalização (1933-1945) do mito ariano fortalecido com o livro Mein Kampf (1925). Mark. União Soviética. & MEACHAM. O objetivo primordial da Conferência. se a Alemanha tivesse vencido a Guerra)53. Georg Leibbrandt (Ministro do Reich para os territórios ocupados no Leste). 2010. na Polônia e na União Soviética. e Adolf Eichmann (1906-1962). dominado a França e enfraquecido o Reino Unido . LERNER. este já existia. em 1938. São Paulo: Companhia das Letras. São Paulo: Cia das Letras. e Tunísia). Dr. Reinhard Heydrich. Ibidem. tenha-se como ponto de partida. não apenas à luz dos assassinatos isolados ou em massas praticados contra os judeus. tanto a ideologia como o regime totalitário. para que se alcançasse um “esboço de projeto” dos elementos essenciais – organizacional. no paulatino. e ocupando militarmente a Tchecoslováquia. Itália em conflito contra a Líbia e a Etiópia. Op. Josef Buhler (Governo do Governo Geral). em seu cerne. do contexto mundial. Op. antes mesmo do advento do Cristianismo. Cit. 2003.consolidou a ideia da eliminação do judeu. e a Lei da Proteção do Sangue e Honra Alemães (Gesetz zum Schutze des deutschen Blutes und der deutschen Ehre): normatização do processo de arianização da sociedade e Estado alemães e da crescente exclusão da vida social. Op. a Lei da Cidadania do Reich (Reichsbürgergesetz). 52 GILBERT. 23 . Karl Eberhard Schongarth (Comandante da SD). com a devida premeditação e planejamento do Estado nazista: destruição e saque de mais de mil sinagogas e dezenas de milhares de lojas e lares judaicos. a corrida armamentista e o expansionismo militarista agressivo . Cit. identitária. levaram às últimas conseqüências o ódio coletivo e institucionalizado aos judeus: a sua efetiva eliminação física. embora tenebroso à razão humana e ao próprio pensamento humanista. Japão contra a China e outros países do Extremo Oriente. BURNS. tiveram participação ativa Reinhard Heydrich. as demais regiões do mundo)60: a “industrialização em larga escala” do extermínio dos judeus (sobretudo. 2008. nacionalismos exacerbados. a mais violenta. social. Porém. com a participação de oficiais nazistas. 2ª) Leis de Nuremberg (Nürnberger Gesetze) (1935). Reino Unido e França. há dois milênios58. Edward McNall. 3º) Noite de Cristais (Kristallnacht) (10 de novembro de 1938). Rudolf Lange (Comandante da SD para a Letônia).Companhia das Letras. 4ª) Processo de Guetorização: criação dos guetos. de Adolf Hitler. ou seja. SOMMERVILLE. SS-Gruppenführer Heinrich Muller. LERNER. Erich Neumann (Chefe da secretaria do plano dos 4 anos). e imbuído do mais extremado fanatismo pela ideologia nazista . Op. Dentre as principais causas da eclosão da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) encontram-se: os defeitos do Tratado de Versalhes (1919). Argélia. designado por Adolf Hilter e por Heinrich Himmler. a intensa polarização ideológica – totalitarismos de direita (Alemanha. Heinrich Himmler e Hermann Göring e outros membros da cúpula nazista55. 53 Idem. econômica e cultural do judeu da vida coletiva na Alemanha nazista. Itália e Japão) versus Democracias Liberais (Estados Unidos. o Acordo de Munique (1938) BURNS. ROSEMAN. de países aliados (como a Hungria). factual e material – em relação à “Solução Final”. 1995. Há distintas formas de se abordar o processo de extermínio do povo judeu pelo Estado nazista. não inventou o antissemitismo alemão ou europeu. Esta questão deve ser analisada. religiosa. 2010. Dr. SS-Gruppenführer Otto Hofmann (Race and Settlement Main Office). de países ainda não invadidos (o Reino Unido) e países neutros (Portugal..293. a deportação em massa das comunidades judaicas remanescentes e amplo processo de extermínio de mais de 11 milhões de judeus em toda a Europa. radial e sistemática versão do antissemitismo europeu em toda sua história. Hitler. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. por exemplo) e de países africanos (Marrocos. 6º) Institucionalização dos Campos de Extermínio (Vernichtungslager): a tentativa de exterminar todos os judeus da Europa. Dr. A Conferência de Wannsee (1942) constitui um pontochave. p. SS-Oberführer Dr. 2º Volume 51 KERSHAW.. homem de confiança de Adolf Hitler e Heinrich Himmler. Ibidem. KERSHAW. o enfraquecimento institucional e político da Liga das Nações (1919-1939). O nazismo. Cit. Wilhelm Stuckart (Ministro do Reich para o Interior). interpretado como “inimigo da raça ariana”. funcionários civis graduados e oficiais da SS e do Partido Nazista.defendia a “Solução Final”. incluindo os territórios ocupados (Polônia. histórica e econômica. & MEACHAM. Standish. Espanha e Suíça. Norman. certamente. Cit. agressiva. negligenciado pelos historiadores)57. no mesmo ano. desde a Kristallnacht (ou “Noite de Cristais”. O Holocausto: História dos Judeus na Europa na Segunda Guerra Mundial. Joseph Goebbels. com amplo consentimento e aprovação do ditador Adolf Hitler e de Heinrich Himmler. Roland Freisler (Ministro do Reich da Justiça). muito provavelmente..000 judeus para campos de concentração e quase 100 judeus assassinados – início do processo de eliminação física dos judeus.. na Alemanha nazista. de direita. Standish. Em 20 de janeiro de 1942. Ministerialdirektor Friedrich Wilhelm Kritzinger (Chancelaria do Reich). 2º Volume. Robert E. Dr. 50 DAVIES. Martin. principalmente) e Totalitarismo de esquerda (representado pela União Soviética). 55 Idem.Alemanha anexando a Áustria.. São Paulo: HUCITEC. num palacete em Wannsee. 54 GILBERT. República da Tchecoslováquia. mas também da própria ideologia nazista. Reinhard Heydrich. compostas por três textos fundamentais adotados pelo Reichstag sob iniciativa de Adolf Hitler: a Lei da Bandeira do Reich (Reichsflaggengesetz). Donald. Op. progressivo e tenaz processo de extermínio dos judeus do continente europeu e também do Norte da África (ponto este. França). cultural. e como “Plenipotenciário para a Preparação da Solução Final da Questão Judaica Européia”. a partir da Operação Barbarossa (12 de junho de 1941): o início do processo de assassinato em larga escala de comunidades judaicas. a Guerra Civil Espanhola (1936-1939). Nesta reunião. Dez Decisões que Mudaram o Mundo (1940-1941). em 1938)56 até os extermínios promovidos pelos Einsatzgruppen. Dela também participaram os seguintes nazistas: Gauleiter Dr. detenção de mais de 30. às margens do lago que leva este nome. estes) e de todos os “inimigos da raça ariana”61. Ian. SS-Sturmbannführer Dr. sobretudo. Edward McNall. com certeza. muitas vezes. orientado por Herman Göring. homem de confiança e provável sucessor do segundo. Dr. 5º) A atuação dos esquadrões de extermínio (Einsatzgruppen) no Leste europeu. o combate rígido à “conspiração judaico-maçônica universal” e ao judeu “degenerado racial”. a qual apresentava. Ian.de maior contingente populacional judaico. SS-Obersturmbannführer (Secretaria Central da Segurança (Gestapo)54. Martin. Os Nazistas e a Solução Final – A Conspiração de Wannsee: do Assassinato em Massa ao Genocídio. nos subúrbios de Berlim. caso houvesse vitória da Alemanha nazista. Alfred Meyer (Ministério do Reich para os territórios ocupados no Oeste). superando a quantidade de mil: isolamento e segregação dos judeus em relação às sociedades européias que os envolviam59. Martin Luther (Ministério do Exterior). SS-Oberführer Gerhard Klopfer (Chancelaria do Partido).

BLECH. p. Mas não apenas isso: a SS estaria vocacionada. O Holocausto: História dos Judeus na Europa na Segunda Guerra Mundial. Martin. Edward McNall. Acessado em 23/04/2011. Adolf Hitler assim expressava suas expectativas em relação ao rumo da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e à Questão Judaica. 2005. Martin.d. 2010. DAVIES. Ian. Theodor. Rio de Janeiro: Sextante. GILBERT. Raquel. São Paulo: HUCITEC. Norman. na cosmovisão da ideologia nazista. 56 57 24 . O Holocausto: História dos Judeus na Europa na Segunda Guerra Mundial. Hannah. Richard. GILBERT. ARENDT. Sobibór e Treblinka. A Conferência de Wannsee (1942) veio a confirmar o papel principal desempenhado pela SS no fortalecimento do Terceiro Reich (1939-1945). SENADO FEDERAL. São Paulo: HUCITEC. ao Exército alemão (Wermacht). 5ª Ed. BURNS. 2006. O Holocausto: História dos Judeus na Europa na Segunda Guerra Mundial. História da Civilização Ocidental – Do Homem das Cavernas às Naves Espaciais. ROLAND. São Paulo: WG Comunicações e Produções. CARNEIRO.. A Noite de Cristal: A Primeira Explosão do Ódio Nazista contra os Judeus. São Paulo: Planeta do Brasil. Disponível em: <http://portal.gov. em discurso proferido na Chancelaria. 2010. 61 KERSHAW. 2006. 2006. 2005.com/. 2010. Majdanek. GILBERT. Cit. 2010. Nunca mais? – A Ameaça do Novo Anti-Semitismo. ADORNO. Richard. USA Filmes. 2010. Europa na Guerra (1939-1945). 2009.pdf>. BASCOMB. …E o Mundo Silenciou. Holocausto: Crime contra a Humanidade. 2006. Mestres da Morte – A Invenção do Holocausto pela SS Nazista. eles não sangrarão outros povos até a morte.) a guerra não terminará como imaginado pelos judeus. GILBERT. Pais Brilhantes e Professores Fascinantes./Theodor-Adorno-EducaCAo-ApOs-Auschwitz>. ___. seja com a “industrialização em larga escala” da máquina da morte nos campos de extermínio nazistas (Vernichtungslager) . O Mais Completo Guia sobre Judaísmo. São Paulo: HUCITEC. 1 DVD. Preconceito Racial em Portugal e Brasil Colônia. REFERÊNCIAS ABRAHAM. São Paulo: Ática.. dez dias após a realização da Conferência de Wannsee (1942). Gerard. GILBERT. pela primeira vez. ALMEIDA. mais o antissemitismo se difundirá. 2010. Cit. Bauman e Adorno: Sobre a Posição do Holocausto em Duas Leituras da Modernidade. “Lei de Diretrizes e de Base da Educação” (Lei 9394/96). depois de manifestar a “confiança da vitória” da Alemanha62: (. Rio de Janeiro: Ediouro.. Martin. Martin. GILBERT.. A SS constituiu a peça-chave do processo de extermínio do povo judeu e de outros “inimigos da raça ariana”. Programa de Pós-Graduação em Educação. Richard. Abraham (Co-Presidente Nacional da B´nai B´rith Brasil). Agora. 2008. ADORNO. 2010. 62 GILBERT. Rio de Janeiro: Ediouro. 63 EVANS. sendo a tropa de elite de confiança de Adolf Hitler. Augusto. 2006.. Além disso.Auschwitz-Birkenau. com a eliminação dos arianos. 59 As autoridades nazistas de ocupação estabeleceram o primeiro gueto na Polônia em Piotrków Trybunalski. GILBERT.Adolf Eichmann tornou-se . Abraham. Em 30 de janeiro de 1942. Chełmno. Martin. Maria Luiza Tucci. Benjamin (Rabino). Disponível em: <www. Martin. no mês de outubro de 1939 60 GILBERT. Neal. “Educação após Auschwitz”. STIVELMAN. 3ed. São Paulo: HUCITEC. S. 2010. Standish.. Ben. Dissertação de Mestrado.. O Holocausto: História dos Judeus na Europa na Segunda Guerra Mundial. São Paulo: Sefer.por sua fidelidade a Reinhard Heydrich. & MEACHAM. RHODES. Dez Decisões que Mudaram o Mundo (1940-1941).. Martin. 2004. BRASIL. Bełżec. de modo especial. Martin. 2003. FOXMAN. Perspectiva..br/arquivos/pdf/ldb. São Paulo. pelo menos por mil anos.. 58 MESSADIÉ. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. promovidos pelo Terceiro Reich (1933-1945). Rio de Janeiro: Record. Caçando Eichmann – Como um Grupo de Sobreviventes do Holocausto Capturou o Nazista mais Notório do Mundo. 2010. Acessado em 27/04/2011. 2007. Rio de Janeiro: Objetiva. A Noite de Cristal: A Primeira Explosão do Ódio Nazista contra os Judeus. São Paulo: Planeta. 2010. A Noite de Cristal: A Primeira Explosão do Ódio Nazista contra os Judeus. Eichmann em Jerusalém – Um Relato sobre a Banalidade do Mal. Rio de Janeiro: Paz & Terra. 7ª ed. encontrava-se na centralidade do processo de arianização do Estado. Rio de Janeiro: Ediouro. Cit. 2º Volume. 2004 CURY. Rio de Janeiro: Ediouro.297.scribd. a SS desponta paulatinamente com uma importância estratégica crescente durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945)63. 2003. São Paulo: HUCITEC. Martin. 1999.. São Paulo: Cia das Letras. seja com os esquadrões da morte (Einsatzgruppen). E chegará a hora em que o mais vil inimigo universal de todos os tempos será derrotado. SUBSECRETARIA DE INFORMAÇÕES.mec. “Discurso de Abertura da V Jornada Interdisciplinar sobre o GILBERT. E – os judeus de todo o mundo podem até ter consciência de que – quanto mais se estendem as batalhas desta guerra.o implacável antissemita. Martin. Ele se alimentará em cada campo de prisioneiros e em cada família que descobrir a razão dos sacrifícios que são obrigados a fazer. 1972. A Chegada do Terceiro Reich. a velha lei judaica de ‘olho por olho e dente por dente’. 64 A História do Terceiro Reich. Universidade Federal de Santa Catarina. Rio de Janeiro: Globo. Paul. da sociedade e da cultura alemães. Pablo. São Paulo: Companhia das Letras. ___. Op. O Holocausto: História dos Judeus na Europa na Segunda Guerra Mundial. será aplicada. São Paulo: Planeta. A Chegada do Terceiro Reich. Felipe Quintão. fanático nazista e obsessivo “arquiteto” da Solução Final. Educação e Emancipação. Op. desde os tempos em que havia servido no Campo de Concentração de Dachau . Theodor W. pela primeira vez. A Noite de Cristal: A Primeira Explosão do Ódio Nazista contra os Judeus. São Paulo: HUCITEC. o resultado desta guerra será a completa aniquilação dos judeus. a se transformar tanto na nova aristocracia como na classe de “sacerdotes” dos mistérios antigos teutônicos (anteriores à cristianização da Alemanha)64. EVANS. ALLEGRITTI.. O Holocausto: História dos Judeus na Europa na Segunda Guerra Mundial. das Forças Armadas. LERNER. Concorrente ao poder das Forças Armadas tradicionais. 1986. em comunicação interceptada pelo Serviço de Inteligência aliado. O Clã de Hitler. São Paulo: Francis. GOLDSTEIN. Op. mas. Robert E.

Acessado em 25/04/2011. Paul. 27ª Edição 2006 Goodrich. Declaração de Independência (Governo de Israel. Bernardo. não é algo comprometido com a noção de bem ou mal – que são vetores morais contingentes à determinada conjuntura sócio-cultural. USA Filmes. entendido como sinônimo de lei. 1 DVD. Rio de Janeiro. STIVELMAN. RHODES. Produtores Bill Locke e Chris Kelly. Programa de PósGraduação em Sociologia e Antropologia. Todos os atos opressivos. Os Nazistas e a Solução Final – A Conspiração de Wannsee: do Assassinato em Massa ao Genocídio. Levi. KERSHAW. este ramo do conhecimento humano em si não se confunde com ciência. 1967. Jerusalén: Yad Vashem. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. São Paulo: Civilização Brasileira. Rio de janeiro. 2010. RENOUVIN. O Ódio entre os Homens – Anti-Semitismo: o mais Longo dos Ódios. Richard.1948). WALSH. SORJ. 2004. New York: Lorenz Books. Rio de Janeiro: Imago. FILMOGRAFIA A História do Terceiro Reich. Jean-Baptiste. LERNER. PROPOSTA PEDAGÓGICA: uma abordagem histórica sobre o processo de construção dos direitos humanos na modernidade O direito. no dia 06 de junho de 2008. Historicamente. Mark.. Memória e Identidade Social: A Experiência da Fundação Shoah. São Paulo: Madras. Purificar e Destruir: Usos Políticos dos Massacres e dos Genocídios. São Paulo: Saraiva. Dias. por exemplo. ESCUELA INTERNACIONAL PARA EL ESTUDIO DEL HOLOCAUSTO. SOMMERVILLE. The Complete Illustrated History of World War Two: An Authoritative Account of the Deadliest Conflict in Human History with Analysis of Decisive Encounters and Landmark Engagements.bnai-brith. 2003.. 1995. 5ª Edição. Donald. Criação do Estado de Israel. É Isto um Homem? . 1995. conduzido pelo poder totalitário.Coleção Teatro Moderno. Era dos Extremos: O Breve Século XX (19141991). O Santo Inquérito. Bertold.html>. ___. mecanismo instrumental 65 Tulio Chaves Novaes é bacharel em direito pela Universidade Federal do Pará (UFPA).com. BBC Worldwide. Judaísmo para Todos. foram praticados dentro da mais rigorosa aferição legal. sob certo viés analítico. Jacques. Primo. Portugália Editora. Universidade Federal do Rio de Janeiro. ___. Gerard. o direito. Paul. filosofia. Ian. ISRAEL. São Paulo: Companhia das Letras. 2006. proveniente de um conjunto de leis concebidas de maneira perfeitamente válida em sua aparência.. Revista e Atualizada.5. 2003. O Diário de Anne Frank . O Terror e a miséria no Terceiro Reich. Gomes. Hitler. 2008. 2003. Kátia. S.visaojudaica. As Forças Negras desencadeadas pelo Terceiro Reich. Adam Kemp e Neil McDonald. visto como o conjunto de regras e princípios que regulamentam e organizam a vida social em determinado tempo e espaço. ROSEMAN. 2009. Apesar de admitir diversas abordagens metodológicas. Assim. 25 . São Paulo: Cia das Letras. Produtores Executivos: Richard Bradley. 1975.br/Abril2006/artigos/2. São Paulo: DIFEL. Uma História da Guerra. 14. Raquel. SARAIVA. 2º Ed. F e Hackett . São Paulo: Companhia das Letras.br/content/mail/press_especial. 1 DVD. “O Papel do Docente na Construção da Memória do Holocausto”. representa. MESSADIÉ. DEPARTAMENTO DE EDUCACIÓN Y DESARROLLO. JOHNSON. no entanto. José Flávio Sombra (Org. SÉMELIN.A . 1988. Realizada em Curitiba. Acessado em 29/04/2011. 1995. 5 Iyar 5708. com. KEEGAN. São Paulo: Companhia das Letras. ISRAEL. doutorando em direitos humanos pela Universidade de São Paulo (USP) e membro do LEER/USP desde 2009. 2010. Dez Decisões que Mudaram o Mundo (1940-1941). 2003. Eric. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. Tel Aviv. São Paulo: Companhia das Letras. mestre em direitos fundamentais e relações sociais pela UFPA. Disponível em: < http://www. Editora Ediouro. São Paulo: Imago. HOBSBAWN. História dos Judeus. Introdução à História das Relações Internacionais. Pierre & DUROSELLE. YAD VASHEM. Atualmente exerce a profissão de Promotor de Justiça e professor de Direito Constitucional e Administrativo na Universidade Luterana do Brasil em Santarém (PA). Disponível em: < http://www. Editora Agir . apresentou-se durante o século XX como um dos instrumentos mais eficazes de sujeição e controle das pessoas através da força ou autoridade de determinado governo. Mestres da Morte – A Invenção do Holocausto pela SS Nazista. SUGESTÕES DE LEITURA Brecht. Editora Rocco. John. 2008.d. 2ª Ed. Holocausto. ou arte tampouco. Tese de Doutorado. Tempos Interessantes – Uma vida no Século XX. LEITURAS COMPLEMENTARES AS LEIS DE NUREMBERG: A INSTITUCIONALIZAÇÃO DA EXCLUSÃO DE MINORIAS Tulio Chaves Novaes65 1. o aval oficial de uma lei nacional de referência funcionou como etapa estratégica pedagógica ao projeto progressivo de dominação global. Para que lo sepan las Generaciones Venideras: La Recordación Del Holocausto em Yad Vashem. realizados pelo Estado nazista no início da perseguição aos judeus.asp?cod=152>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. História das Relações Internacionais Contemporâneas – da Sociedade Internacional do Século XIX à Era da Globalização. ROLAND.). 2003. História Geral do Anti-Semitismo. mas de forma completamente deplorável em seu conteúdo. 2007. Rio de Janeiro: DIFEL. 2009. Marcelo Vieira.Ensino do Holocausto”. 2008.

proporcionou a cristalização moderna daquilo que costumeiramente chamamos direito internacional dos direitos humanos. a história da discriminação e do preconceito. determinada pelo consenso internacional e aprendizado histórico proveniente do reconhecimento de graves erros do passado. igualdade e na dignidade67. Ao contrário disto. 73 Ibidem. a razão de Estado define possibilidade de ingerência da política no sistema jurídico. Noções Teóricas Sobre Direitos Humanos Fundamentais66 Existem diversas explicações que procuram conceituar teoricamente o que seriam os Direitos Humanos Fundamentais. transformou-se em algo trivial. ou por algum outro tipo de fonte inspiradora politicamente conveniente. propiciando seu condicionamento ideológico. como veremos nos tópicos seguintes. nem trilho. o qual entende os direitos humanos da seguinte maneira: . São Paulo: Boitempo. evidenciados pela sua necessidade de gozo ou efetivação. Segundo SARLET. Além de reconhecer o papel da cidadania na construção dos direitos humanos fundamentais e na prevenção aos influxos autoritários do poder político. E foi justamente através da via ideológica que o poder que oprime introduziu no direito posto suas regras de dominação. apresentamos a definição fornecida pelo professor André de Carvalho Ramos. Porto Alegre: Ed. p. bem como pela profundidade de conteúdo. que visam proteger certos valores históricos universais. A partir do momento em que a violência tornou-se juridicamente institucionalizada. com a presente exposição. um complexo de direitos e deveres fundamentais que assegurem a pessoa tanto contra todo e qualquer ato de cunho degradante e desumano. André de Carvalho. Não são direitos unilateralmente prescritos por uma mente privilegiada. São Paulo: Editora Lazuli. portanto. da Universidade de São Paulo. o qual. tidos como pertencentes a todas as pessoas. Na Alemanha nazista a desumanização do povo judeu não representou fenômeno vinculado somente a causas sociológicas ou culturais. 71 Mas o problema primordial não se resumia apenas na ausência de estrutura orgânica e funcional eficiente para implementar tais direitos – fato que vincula-se muito mais às controvérsias humanísticas de hoje em dia. Na definição encontramos alguns elementos estruturais que denotam a raiz pragmática destes tipos especiais de normas.. praticado pelo governo nazista em nome da lei. tende a reproduzir em escala seus efeitos na atualidade. supranacionais. p. 70 Para aprofundamento da temática vide: LÖWY. encabeçadas pela Declaração Universal de 1948. A principal característica deste momento inicial. destes três últimos elementos listados. 2. caminham quase sempre de mãos dadas. Regina Célia. promulgadas pelo Estado alemão em 24 de setembro de 1935. de fato. Entendidos desta maneira.conjunto mínimo de direitos necessário para assegurar uma vida do ser humano baseada na liberdade. Conforme o nível de institucionalização dos vetores e necessidade de controle das massas. sem freio. Rio de Janeiro: Renovar. resultante da superação de momentos históricos de opressão e do reconhecimento dos povos da necessidade de proteção de certos valores fundamentais à vida com dignidade. 2001. sem a memória dos fatos opressivos e sem consciência crítica para identificar e combater manifestações pragmáticas da intolerância moderna. Partindo deste ponto específico. que tipos de direitos seriam estes? Qual a sua ontologia? Para responder a estas perguntas acrescentaríamos à idéia conceitual inicial o referencial histórico que lhes condiciona e define o conteúdo. o menosprezo pelo direito à diferença. hodiernamente. entender como a retirada da cidadania dos judeus representou etapa essencial ao processo 67 68 de desumanização perpetrado pelo Estado nazista. desta feita. o conjunto sistemático de normas positivas e princípios jurídicos.60 apud RAMOS.19. culminando com a bestialização de seres humanos. as “Leis de Nuremberg” de 1935 representaram o passo fundamental ao reforço do discurso ideológico totalitário. dignidade é “a qualidade intrínseca e distintiva de cada ser humano que o faz merecedor de respeito e consideração por parte do Estado e da comunidade. além de propiciar e promover sua participação ativa e co-responsável nos destinos da própria existência e da vida em comunhão com os demais seres humanos” – SARLET. Tendo a condição humana como única exigência. A complexa etiologia do holocausto inclui o incentivo pedagógico. em parte. propostos pela Lei da Cidadania do Reich e pelas Leis para a Proteção do Sangue e Honra Alemã. Opressão institucionalizada e racismo. na sua RAMOS. como venham a lhe garantir as condições existenciais mínimas para uma vida saudável. que culminou com o genocídio praticado nos campos de extermínio. pois as mesmas são apresentadas como um conjunto de direitos. tais elementos variaram da oficialização dos mitos sociais ao apelo ostensivo ao nacionalismo unificador do discurso do triunfo sobre o inimigo objetivo. 2006. estes direitos especiais fornecem base concreta para a caracterização do valor dignidade humana68. como as referidas “Leis de Nuremberg”. no rol de suas causas essenciais. Muito pelo contrário.20. Ingo Wolfgang. op. Pela objetividade semântica e didática. dado pela oficialização da discriminação através da promulgação de legislação nacional francamente racista e restritiva. 10 de Dezembro de 1948 – A Declaração Universal dos Direitos Humanos. apesar do grande malefício provocado ao povo judeu. como o castigo de Prometeu. Não fortuitamente. os direitos humanos. organização e controle do poder. estava na ausência de uma base normativa internacional capaz de aglutinar objetivamente estes direitos em espécie.. série Rupturas. cit. como ocorria na Idade Média com o chamado direito natural.indispensável à sistematização. Sem o direito o poder é como um pesado vagão de trem. Livraria dos Advogados. Assim. no seu conjunto. procuraremos demonstrar. Teoria Geral dos Direitos Humanos na Ordem Internacional. criando verdadeiras aberrações jurídicas do ponto de vista ético e moral. ditado pela cúpula da Igreja Católica Romana. Mas. Dignidade da Pessoa Humana e Direitos Fundamentais. Ocorre que. Michael. o resgate histórico da memória da legislação nazista dos anos 30. nem maquinista definido! Este papel estruturante referenciado não diminui a importância pragmática do universo jurídico na reprodução dos valores sociais vigentes. tais direitos encontram-se vinculados em base socialmente verificável. correspondem à conquista moderna da sociedade humana. 72 Para melhorar o entendimento sobre o tema vide PEDROSO. Walter Benjamin: Aviso de Incêndio: Uma Leitura das Teses “Sobre o Conceito de História”. 2005. descendo uma ladeira íngreme. que representava verdadeiro óbice a qualquer iniciativa de sistematização de leis. 2005. 26 . ou seja. explicitaremos algumas convicções generalizadas sobre a natureza de tais direitos para. em seguida. Os mecanismos de ideologização do direito. que. foram os mais diversos possíveis. implicando neste sentido. da justiça e da desvirtuada razão de Estado. André de Carvalho. p.

o direito ao julgamento pelo juiz natural. à associação sindical. a família. classicamente. hoje em dia não mais entendida como sinônimo de poder absoluto. sugeria a necessidade de intervenção do Estado para o desenvolvimento de políticas públicas que dariam azo à diminuição de desigualdades e ao estabelecimento de melhores oportunidades de vida e subsistência. à vida cultural73.71 Tal documento jurídico coroava normativamente uma série de direitos fundamentais e inalienáveis. das pilhagens e carnificinas organizadas. à nacionalidade. soa como verdadeira Constituição Mundial que. a não ser para reforçá-las e protegê-las. Já a idéia de dignidade suscitaria propriedade bem diferente. Em espécie. ou brasileira de 1934. a integridade física e mental. como as que resultaram na Constituição Mexicana de 1919. via de regra. ano da fundação oficial do Estado de Israel em meio à dor proveniente das seqüelas incuráveis do pós-guerra e diante das imagens das atrocidades praticadas pelos nazistas nos campos de extermínio. foram concebidos a partir das conquistas trabalhistas do século XIX e XX. nem mesmo diante do dogma da soberania estatal. ou seja. igualdade. ao direito ao trabalho. A vida do homem em sociedade. O processo de construção do sistema jurídico internacional de direitos humanos fundamentais. ao sacralizar tais valores. parte 2. 74 27 . –. Neste primeiro momento. Próximo ao conceito de história. a educação. Bem como outros direitos que venham à lume através do processo de desenvolvimento dialético histórico. Os direitos de primeira geração. Assim. ao repouso. São espécies destes bens a liberdade. Na prática o diploma internacional referido sintetizou diversos direitos históricos. em primeiro momento. baseada na possibilidade irrestrita dos Estados gerenciarem a vida e os Citamos. diante da fragmentação da ordem política internacional – proveniente. tínhamos o que se pode chamar de fase pré-jurídica. que foi aderida pelo Brasil também em 1992. a regra passa pelo gerenciamento e controle por parte do Estado. em reação em cadeia. tidos como pertencentes a todos os seres humanos. que. Assim. provocaram lutas proletárias intensas que evidenciaram a necessidade de se resguardar direitos relacionados à esfera social das relações humanas. proibição de discriminações. de forma fundamental. a Assembléia Geral das Nações Unidas. a liberdade de casar e os chamados direitos políticos18. o trabalho remunerado de forma justa. pp. a segurança pessoal etc. Esta característica ensejaria noção de preço. Por tal característica estes direitos são vistos como liberdades positivas. por sua vez. firma impossibilidade de se estabelecer qualquer tipo barganha com certos bens humanos tidos por inalienáveis. qualificada pela doutrina kantiana como inegociável. proibição de prisões arbitrárias. dos pogrons. nem tratado como coisa fungível ou descartável. Concomitantemente vieram os direitos de segunda geração. pela sua importância.essência. a ordem jurídica internacional – simbolicamente através da negação dos campos de concentração. a alimentação. Com a proeminência de tal sistema jurídico específico a idéia westffaliana de soberania política. 2) O segundo momento só viria com o fim da Segunda Guerra Mundial. Esta base normativa internacional. não seria admissível qualquer intromissão estatal. 75 Rol apresentado por RAMOS. tomando por base a Declaração Universal de 1948. diferentemente do homem em suas relações interindividuais. op. a liberdade de opinião. à saúde. Igualmente mencionamos a Convenção americana sobre Direitos Humanos (conhecida com Pacto de São José da Costa Rica). resultou em diversos outros documentos jurídicos internacionais74. presunção de inocência. 163-255. a liberdade de pensamento e de crença. acaba por entender e determinar a existência de alguns bens que não se sujeitam a nenhum tipo de preterição ou pechincha. lugar onde. correspondem à seguridade social. em resumo. a proteção por tribunais oficiais neutros. o direito de propriedade. que a base ético-material desta noção teórica permanece ligada à negação de todos os momentos históricos em que seres humanos foram tratados como objetos inanimados. Estas disposições normativas. este conjunto de leis suscitou a subsistência de verdadeiro sistema mundial de disposições defensivas dos direitos humanos fundamentais. o direito ao asilo. a propriedade. necessária à imposição de certos deveres e obrigações jurídicas aos entes estatais –. Por isso tais direitos foram também qualificados como liberdades negativas. em 10 de dezembro de 1948. O significado moral desta injunção reside no entendimento de que o ser humano não pode ser comparado. o Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos. percebe-se. à educação. A exploração e a ausência de regulamentação da jornada de trabalho. de associação. onde a força normativa de certos direitos tidos como inalienáveis ainda se sujeitava sobremaneira ao empirismo resultante do direito natural e às vicissitudes sócioculturais de cada país soberano no exercício de sua boa vontade. André de Carvalho. Diferentes em abrangência e importância temática. ou direitos sociais. o direito à vida. qualificados como liberdades públicas essenciais. ao contrário dos direitos individuais. fundada na legitimidade proveniente de concordância internacional. ocorrido em circunstâncias suspeitas em setembro de 1940. representada pela Declaração Universal de 1948 e seus documentos primordiais. à segurança. de reunião. fornecido por Walter Benjamim69 antes de seu suicídio. onde. Sua base subjetiva estabelecia um campo de garantias individuais imune à ingerência estatal. aos lazeres. a privacidade. na prática administrativa diária cada Estado ditava a solução mais conveniente no campo da preservação de valores essenciais70. foram provenientes da declaração francesa de 1789 e representaram os valores relacionados à liberdade individual do cidadão frente ao Estado. dos genocídios e etnocídios etc. promulgou a Declaração Universal dos Direitos do Homem. das disputas bélicas e econômicas que motivaram a Primeira Grande Guerra e da inexistência de estrutura supranacional consensual. estas liberdades são as seguintes: liberdade pessoal. independentemente do que poderiam definir os Estados nacionais. pode ser dividido em dois momentos estruturalmente distintos: 1) Antes deste marco. a nacionalidade. cit. Sociais e Culturais e o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos (ambos ratificados pelo Brasil apenas em 1992). sob a pressão da invasão nazista à França e diante da instauração da ditadura de Vichy. a liberdade de ir e vir. ditos de primeira e segunda geração. a saúde. mormente. passíveis de submissão ou destruição por parte de outras pessoas ou estruturas políticas totalitárias.

compostas pelo conjunto integrado de duas outras legislações – as Leis para a Proteção do Sangue e Honra Alemã e a Lei da Cidadania do Reich – representam um destes malsinados modelos. ou seja. representado por deveres e garantias que devem ser obedecidos por todos. Eficácia horizontal: além de validade nas relações entre particulares e o poder público. cometidos em nome da lei contra direitos fundamentais. As Leis de Nuremberg A vigência da noção da soberania estatal como poder absoluto. ou seja. na ocasião. mas também todos os Estados nacionais. Abertura: o valor que vivifica seu conteúdo não é imutável. Indivisibilidade: pois nenhum dos direitos humanos pode ser separado do seu contexto conjuntural. independentemente da idéia de soberania nacional ou idiossincrasias culturais. podem ser listadas didaticamente através dos seguintes pontos objetivos75: Superioridade normativa: no plano interno ou no internacional as regras e princípios de direitos humanos sempre ocupam lugar de destaque. Adéquam-se a todas as pessoas. Desta forma. quem não se enquadrasse biologicamente dentro dos padrões étnicos e culturais. Interdependência: não se podem desgarrar tais direitos. que. estaria completamente alijado da proteção estatal. por seu turno. II) O Direito de cidadania é conseguido pela concessão dos documentos de cidadania do Reich. A regulamentação informada estruturava-se em duas direções: uma se relacionava aos aspectos formais da concessão e do reconhecimento da cidadania alemã. compunha a delimitação e identificação dos sujeitos destes direitos. os direitos humanos fundamentais só podem ser ampliados ou aperfeiçoados. Desta forma. que se integram e interagem em uma mesma base intercomplementar. os mesmos direitos também valem e devem ser respeitados nas relações entre os próprios particulares. Esta legislação discriminatória prenunciou a perseguição sistemática ao povo judeu. tais direitos são suscetíveis à evolução histórica e ao aprimoramento cultural. cedeu espaço a outro modelo protetivo. Esta lei foi estabelecida nestes termos: artigo 1º: I) São proibidos os casamentos entre judeus e cidadãos de sangue alemão ou aparentado. cindiu-se a sociedade alemã. Consistiram de per si em conjunto de normas jurídicas. independentemente de assinaturas de tratados ou outros documentos internacionais. Universalidade: os direitos humanos fundamentais extrapolam a órbita da nacionalidade. III)Somente o cidadão do Reich desfruta de Direitos políticos completos de acordo com as determinações das leis. definidos pela ordem jurídica como oficiais. Os artigos desta lei afirmavam o seguinte: artigo 1º: I) Um sujeito do Estado é uma pessoa que pertence à união protetora do Reich alemão e que tem obrigações particulares com o Reich. também em 15 de setembro de 1935. que deseja servir fielmente ao povo alemão e ao Reich. Aplicabilidade imediata: tais direitos não dependem de outras leis ou quaisquer outros desdobramentos normativos para se efetivarem. Proibição de retrocesso: como patrimônio da humanidade. ou seja. não se pode agredir um determinado direito humano fundamental sem agredir os outros. Dentro da primeira definição. objetivando diretamente à marginalização dos judeus. Dimensão objetiva: além de representarem direitos de pessoas. relegou-se discricionariamente ao Estado o poder para a concessão da cidadania alemã como condição ao exercício de certos direitos fundamentais e proteção estatal. outorgadas em 15 de setembro de 1935 na cidade de Nuremberg pelo Parlamento Alemão (o chamado Raichstag). hoje em dia. II).O status de sujeito é adquirido conforme providências do Reich e lei do Estado de Cidadania. para rebaixar oficialmente os judeus à qualidade de cidadãos de terceira categoria. Os casamentos celebrados apesar dessa proibição são nulos 28 . 3. As chamadas “Leis de Nuremberg”. baseado na possibilidade de interferência internacional em qualquer lugar para a garantia destes direitos inalienáveis. As características primordiais dos direitos humanos fundamentais. Caráter erga homnes: estes direitos foram criados para englobar não só as pessoas do mundo inteiro. a outra. vedando-se aos Estados a possibilidade de diminuição ou aviltamento direto ou indireto do nível de proteção já alcançado. que privava os judeus de quase todos os direitos civis individuais e políticos. sobretudo. modelando as regras da chamada “Lei da Cidadania do Reich”. Complementando os objetivos discriminatórios da legislação apresentada. não há nem mesmo a necessidade de assinatura de tratados internacionais para obrigar determinado Estado a respeitar os limites salutares à sobrevivência das pessoas. podendo ser invocados de imediato nos Tribunais por parte dos interessados. Exigibilidade: os direitos humanos fundamentais são eminentemente vinculados a uma necessidade ética. em critérios relacionados à pureza de sangue. o governo nazista promulgou a chamada “Lei para a Proteção do Sangue e Honra Alemã”. pelo menos em tese. por sua conduta. artigo 3º: O Ministro do Interior do Reich e o substituto do Führer emitirão os decretos legais e administrativos necessários para executar e completar esta lei. ligadas a valores culturais segregacionistas e racistas. Indisponibilidade: em regra. a implementação prática de seus preceitos é crescente e obrigatória. ninguém pode renunciar aos direitos humanos fundamentais. baseado. revelando superioridade na hierarquia das normas. Com a iniciativa. criando um sistema racial de reconhecimento de cidadania. artigo 2º: I) Um cidadão do Reich é aquele sujeito que é alemão ou que é de sangue alemão e que provar. os direitos humanos fundamentais também denotam aspecto institucional. estava composto por integrantes do partido nazista. sujeitando-se a qualquer tipo de anátema. determinaram exemplos históricos contundentes de abusos. bem como a inexistência orgânica e funcional de sistema jurídico internacional apto a fazer valer suas prescrições normativas. merecendo igual proteção. ou limites de tempo e espaço. em qualquer momento da história.direitos das pessoas sujeitas ao seu poder.

imagine retirar todo o patrimônio jurídico. individuais e sociais. no início do século XX. arregimentado por alguém durante sua existência – tal como o nome. por seu turno. passou pela perda gradual de cidadania e alcançou o paroxismo. à necessidade de oficialização dos valores antissemitas no seio da sociedade alemã. não temos nada além de um objeto76.e de nenhum efeito. com o assentimento do representante do Führer e do Ministro da Justiça. consistiu em etapa secundária dentro do programa de totalização do poder. relata com precisão este processo de degradação sofrido por todas as vítimas do holocausto. Assim. do qual todos nós ainda hoje estamos sujeitos. políticos. basta ser homem para ter direitos fundamentais indisponíveis assegurados. ao descrever o 76 O que os direitos humanos procuram fazer é vincular parte significativa do potencial transformativo da ordem jurídica a serviço do próprio homem. coisas e animais. a opinião amplifica-se em importância na medida em que se verifica que a desumanização derradeira. parece sempre representar o passo antecedente à transformação de seres humanos em coisas descartáveis. Este termo. As premissas que fundamentaram esta legislação extravagante ligavam-se. o imaginário social. artigo 3º: Os judeus são proibidos de terem como criados em sua casa cidadãos de sangue alemão ou aparentados com menos de 45 anos.. já estava preparado para receber tal legislação. O exercício dessa autorização é protegido pelo Estado. Neste sentido. nesta situação. oficializada com as “Leis de Nuremberg”. II) Quem infringir os artigos 3º e 4º será condenado à prisão que poderá ir até um ano e multa. durante quase duas centenas de anos. espalhados amiúde em diversos momentos históricos significativos. Perceba que a retirada oficial das faculdades que compõem a idéia de cidadania. artigo2º: As relações extra-matrimoniais entre judeus e cidadãos de sangue alemão ou aparentado são proibidas. II). na prática. ou seja. nunca sujeitos. Com a noção de dignidade da pessoa humana. O início deu-se com o apelo simbólico a estigmas sociais personificadores do inimigo objetivo. II) Só o procurador pode propor a declaração de nulidade. artigo 5º: I) Quem infringir o artigo 1º será condenado a trabalhos forçados. 4. artigo 4º: I) Os judeus ficam proibidos de içar a bandeira nacional do Reich e de envergarem as cores do Reich.. sob a ótica dos direitos humanos. ou com os judeus que sofreram a perseguição nazista. 29 . percebemos diversos exemplos em que membros da espécie foram alijados da condição humana simplesmente por um capricho conceitual da legislação. sofrida pelos judeus que se encontravam sujeitos ao sistema de dominação nazista. aptas ao descarte através da chamada solução final. baseada no discurso da idéia de pureza de raça. transmuta-se a idéia de homem do “ter” para o “ser”. ou a uma ou outra destas duas penas. Aliás. Em regra. políticas e sociais necessárias para que determinada pessoa possa usufruir os benefícios e gozar isonomicamente as oportunidades resultantes da vida em sociedade com justiça e equidade. o que resta? Biologicamente vemos um membro da espécie humana. necessário ao projeto nazista de extermínio total. da maneira como se deu a manipulação das consciências individuais. a noção dogmática de homem para o direito positivo. são apenas objetos de direitos. que não poderia ocorrer abruptamente de uma hora para outra. com a transformação daqueles seres humanos em coisas completamente substituíveis. Desta maneira. um dos poucos judeus que sobreviveram a Auschwitz. físico e moral. Estes grupamentos humanos subordinados foram tendenciosamente identificados como inimigos do bem comum e como estorvo ao desenvolvimento sócio-econômico. os direitos civis. reconhecemos que o processo de desumanização sofrido pelo povo judeu. Seguindo a lógica moral dos valores humanísticos fundamentais. por sua vez. mas. a honra subjetiva.Mas são autorizados a engalanarem-se com as cores judaicas. para o mundo cívico. Primo Levi. relacionase à possibilidade de se titularizar direitos e de se vincular a obrigações em determinado cenário legislativo. mas o processo de desumanização permanece semelhante. os predicados pessoais de estado. somente uma pessoa física ou jurídica pode assumir estas qualidades. Assim ocorreu com as vítimas diretas do escravismo no Brasil. revela-se como a somatória dos atributos físicos e morais que determinada ordem jurídica define como pertinente em momento específico. mesmo que tenham sido contraídos no estrangeiro para iludir a aplicação desta lei. artigo 6º: O Ministro do Interior do Reich. publicará as disposições jurídicas e administrativas necessárias à aplicação desta lei. e. desta maneira. O fato histórico pode até mudar. sobretudo. transformou-se em obrigação e meta política com a introdução de tais preceitos no sistema jurídico. A cidadania pode ser entendida como a possibilidade de realização do conjunto de prerrogativas legais individuais. A introdução de tais elementos anímicos no direito posto. em regra através de leis discriminatórias. Sem a possibilidade de realização das faculdades disponíveis e indisponíveis que compõem institucionalmente a figura do cidadão não há nem mesmo como assegurar a noção jurídica de pessoa. libertando sua definição das vicissitudes e conveniências de alguma legislação politicamente variante no tempo e no espaço. com a retirada completa de todos os direitos e garantias fundamentais. passava de forma imprescindível pela necessidade de formação de mentalidade nacionalista. Para entender melhor a assertiva. tal condição existencial pode ser simplesmente compreendida como capacidade de exercício de direitos e garantias essenciais à vida com dignidade. os bens materiais etc. com os negros americanos que vivenciaram as leis de “Jim Crow”. desenvolveu-se aos poucos a partir da decomposição gradual de aspectos centrais ao direito de cidadania daquelas pessoas. o que era antes considerado como simples conveniência social. Parte do projeto de recrudescimento do poder político nazista. Neste aspecto. impregnado de referências simbólicas desqualificantes da comunidade judaica e de outras minorias étnicas. fez parte de processo paulatino de transformação da consciência coletiva. Premissas Discriminatórias de Nuremberg O estudo e o reconhecimento pedagógico da importância da educação para os direitos humanos através do aprendizado histórico viabilizam a compreensão da cidadania como requisito imprescindível para se viver com dignidade. por exemplo.

A legislação da ocasião. a mobilidade e o acesso de grupos de cristãos-novos a certas posições. como vetor importantíssimo na formação de espécie de cultura da desconfiança. 79 Ibidem. como a dos afro-descendentes americanos e asiáticos. o mecanismo excludente de desumanização do outro permanece intocável na origem do problema. mesmo diante disto. mas permanece o mesmo no conteúdo. os sapatos. portando-se. emprestados pela estrutura de dominação aos desonrados que. utilizada para disfarçar o espanto de suas incongruências morais. temos uma massa de pessoas que reproduzem o discurso dominante e que auferem as vantagens do poder. permanecia como espécie de etapa necessária à solidificação da consciência nacional e ao desenvolvimento social inclusive no Brasil colonial. 80 A Suprema Corte declarou a inconstitucionalidade da segregação escolar resultante destes dispositivos discriminatórios somente em 1954. Identificada com o primeiro grupo – o dos preferidos – de um lado. as atitudes sociais contra o cristão-novo assumiram as características de um racismo institucional. sujeitos à discriminação social e à perseguição pelos mecanismos de Estado. Primo.. de forma percuciente. Este conjunto difuso de leis específicas. às Ordens Militares e aos cargos de governos administrativos e militares. que se disfarça na forma. É Isto um Homem? Rio de Janeiro: Rocco. um homem privado não apenas dos seres queridos. do que éramos. 58-68. essas instituições definiam onde e como deveriam se processar as práticas sociais. No início do século XVI. Essas coisas fazem parte de nós. 1998. a própria implementação destes respectivos LEVI. Nada mais é nosso: tiraram-nos as roupas. tudo. esquecido de dignidade e discernimento. como o modelo deturpado de cidadania exposto nas chamadas leis de “Jim Crow”. para que. 78 30 .. A revogação completa de todas as outras demais disposições normativas segregacionista somente ocorreu mais tarde. A autorização velada para a eliminação do diferente. de forma contundente. seus hábitos. o grande ativista menciona o seguinte: Condição humana mais miserável não existe. Percebidos como inimigo objetivo. enfim. deveriam estar disponíveis a todo cidadão80. A professora Maria Luiza Tucci Carneiro.. podemos perceber como se processava o sistema de relações sociais articulado de forma a afastar os cristãos-novos do grupo de status. os cristãos-novos já eram proibidos de ocupar cargos eclesiásticos. mas de sua casa. 5. Maria Luiza Tucci. sob certa ótica salutar. uma velha carta. percebemos que o viés discriminatório da legislação foi camuflado por concessões. Neste aspecto. ele será um ser vazio. pp. permaneceram aquém da fronteira dos escolhidos..517. como etapa progressiva sintomática de determinado processo de dominação política autoritária. diferenciando e segregando entre as hipotéticas raças os direitos de utilização do espaço e dos serviços públicos que. pela mencionada Professora: Através do estudo das narrativas discursivas impressas na 77 legislação. Posições estas consideradas dignas apenas daqueles que não tinham “mancha” da raça da gente da Nação79. e. ou favores. não dá para imaginar.. no caso Brown versus Board of Education. formou verdadeiro sistema jurídico discriminatório em face de minorias étnicas existentes nos Estados Unidos. Para tanto. sua roupa. que facilmente se decidirá sobre sua vida e sua morte. Mas que cada um reflita sobre o significado que se encerra mesmo em nossos pequenos hábitos de todos os dias. Apesar desta maquiagem perturbadora.. suscita a discriminação do cristão novo. São Paulo: Perspectiva. do outro lado temos os indivíduos e grupos minoritários marginalizados e renegados. até os cabelos.mecanismo sistemático de desumanização que as pessoas submetidas aos campos de concentração sofreram no apogeu da administração nazista. retratando com precisão o processo normativo de oficialização da exclusão e do racismo como peças integrantes de empreendimento mais amplo de controle absoluto social. o qual faz questão de esconder sua verdadeira fisionomia. com o Civil Rights Act. não nos escutarão – e. Dessa forma. deveremos encontrar dentro de nós a força para tanto. Mais uma vez percebemos a necessidade do estabelecimento de estrutura jurídica conveniente e de um sistema de leis compatível para se efetivar qualquer projeto totalitário de dominação e controle. antes mesmo das leis discriminatórias se institucionalizarem em Portugal através da legislação geral. passando a limitar as escolhas. agora.. onde somente os bem nascidos teriam o merecimento suficiente para gerenciar os interesses da nação78. vocacionada à preservação de certos valores humanos supremos e indisponíveis na sociedade mundial. fomos batizados. e sua conseqüente exclusão dos setores participativos da sociedade.. que vigorou por quase cem anos a partir de 1876. se falarmos. A Efetivação Obrigatória dos Direitos Humanos Fundamentais Diante de sua dimensão ética. exposta dentre outras pérolas através dos chamados “estatutos de pureza de sangue”. os direitos. sobre alguma coisa de nós. se nos escutarem. a fotografia de um ser amado. rigorosamente tudo que possuía. de ter acesso às confrarias.77 A demonstração desta característica em vários outros momentos históricos da humanidade indica a discriminação de minorias como característica arquetípica constante no projeto multigeracional do poder totalitário. sem qualquer sentimento de afinidade humana. em todos esses objetos nossos. pp. se quisermos mantêlo. demonstrou elementos jurígenos discriminatórios quase idênticos aos do projeto nazista. além do nome. Preconceito Racial em Portugal e Brasil Colônia: Os Cristãos-Novos e o Mito da Pureza de Sangue. de 1964. Em alguns outros exemplos históricos. Imaginese. Este verdadeiro arquétipo da discriminação e dominação política institucionalizada pode também admitir variações quantitativas que servem utilitariamente para disfarçar qualquer vestígio de perplexidade capaz de dimanar crítica ao sistema de opressivo. são algo como os órgãos de nosso corpo. Oficializou-se com tal modelo jurídico espécie de regime de apartheid naquele país da América do Norte. fundamentalmente. levaremos até a morte essa marca tatuada no braço esquerdo. Roubarão também o nosso nome. Ao impor regras para a seleção de seus membros. reduzido a puro sofrimento e carência.25. não nos compreenderão. Meu nome é 174.. 2005. CARNEIRO. transformado em algo tão miserável.. é significativa a seguinte constatação apresentada. que até o mendigo mais humilde possui: um lenço. analisando as características do processo de dominação do Brasil colônia pela coroa portuguesa. do inimigo objetivo. p. 67-68.

determinando antecipadamente tendência ao fracasso de uns e o sucesso de outros. como instrumento de concretização de justiça equitativa. efetuadas pelas três esferas de poder. São Paulo: Editora Companhia das Letras. As “Leis de Nuremberg”. na prática judiciária.83 A idéia das ações afirmativas. O Liberalismo Político. Executivo. 6. necessárias à efetivação de direitos fundamentais.81 Ocorre que efetividade também indica necessidade de estabelecimento de nova forma menos dogmática de interpretação de preceitos jurídicos relacionados aos direitos humanos. que alicerçaram todo o seu projeto de extermínio em estrutura legislativa kelseniana. A primeira é que devem estar vinculadas a cargos e posições abertos a todos e em condições de igualdade equitativa de oportunidades. não há democracia. sem democracia. 3. apesar dos tropeços renitentes e cheios de opróbrio. No primeiro aspecto suscitado. originam ostensivas diferenças de oportunidades. Aliás. por exemplo –.direitos também se porta como direito humano fundamental. a democracia é a sociedade dos cidadãos. ed. 2000. ressaltamos que o processo de caminhada da humanidade. não basta apenas perfeição formal. A efetividade destes direitos é. como as três esferas de competência tradicionalmente representativas do poder político no modelo constitucional brasileiro. Amartya. pois a introdução da idéia de preservação de valores parece romper o paradigma técnico que enxerga na lei positivada em algum texto normativo o único limite ao direito e à justiça. democracia e paz são três momentos necessários do mesmo movimento histórico: sem direitos do homem reconhecidos e protegidos. Torna-se. demonstraram com precisão como a perda progressiva da cidadania. 344-345. pp. 18-19 81 82 31 .no Judiciário: decisão do STF que determinou a constitucionalidade da Lei de Anistia. percebemos francamente manifestações mais ou menos veladas de autoritarismo estatal no Brasil. evidenciadas sintomaticamente pelo capitalismo tardio. 2. pp. informa que o desenvolvimento humano poderia ser visto como processo contínuo de expansão das liberdades substantivas reais que as pessoas deveriam desfrutar através do exercício de oportunidades sociais85. Segundo princípio. uma paz que não tenha a guerra como alternativa. esta maneira vetusta de interpretar a norma jurídica foi amplamente utilizada pelos arquitetos do sistema nazista. ligada mais à preservação do conteúdo valorativo dos direitos fundamentais que à esterilidade estética de formas inanimadas. mas também compatibilidade material de conteúdo. em detrimento do dever de efetivação dos direitos humanos fundamentais. importantíssima a seguinte lição do Veccio de Turim. ligado à necessidade de concretização da igualdade material em Estado comprometido com a implementação de valores democráticos. ligados de várias formas à cultura da paz e do respeito ao outro. Ações afirmativas. contribuindo para a formação de cultura de inclusão e igualdade82. não existem as condições mínimas para a solução pacífica dos conflitos. 84 Tal legislação garante 30% no mínimo de presença feminina nas candidaturas dos partidos políticos. perfeitamente válida do ponto de vista formal. 85 SEN. Legislativo e Judiciário. Apesar de todas as pessoas serem formalmente iguais diante da lei. não teríamos condições mínimas de conquistar este novo momento histórico. As desigualdades sociais e econômicas devem satisfazer duas condições. Amartya Sen. da maneira como foram introduzidas na sociedade alemã pelo governo nazista. Ações Afirmativas e Oportunidades Sociais John Rawls. 2004. sem a efetivação propriamente dita dos direitos humanos fundamentais. Norberto. Assim. as estabelecidas pelo Estatuto do Idoso e como as gerenciadas pela Lei 9504/9684. Citamos alguns tristes exemplos: 1. procurando entender o processo de formação das crescentes desigualdades sociais. 2003. encontra-se descrita no final do segundo princípio e surge como instrumento político. e a segunda é que devem redundar no maior benefício possível para os membros menos privilegiados da sociedade. que não pode ferir a estrutura valorativa preexistente. são discriminações positivas. desta forma.no Executivo: Acordo assinado entre o Brasil e o Vaticano estabelecendo a volta do ensino religioso nas escolas públicas e a demolição de monumentos estéticos da opressão. 83 RAWLS. Este segundo aspecto tratado é de suma importância. quanto a decisão judicial ou medida administrativa praticada pelo Estado. A Era dos Direitos. devem contribuir igualmente dentro de suas funções para a efetivação destes direitos em todas as suas dimensões. através da retirada das oportunidades de determinado grupo discriminado de pessoas. haverá paz estável. Toda pessoa tem um direito igual a um sistema plenamente adequado de liberdades fundamentais iguais que seja compatível com um sistema similar de liberdades para todos. Em outras palavras. servem justamente para balancear este desnível social de cidadania. neste sentido. assim. desenvolveu sua teoria da justiça baseando-se em dois princípios estruturais nodais. São Paulo: Editora Ática. somente quando existirem cidadãos não mais apenas deste ou daquele Estado. relacionada à concretização destes direitos? Ou poderíamos entender a efetividade como parte de mudança estrutural na forma de interpretação da norma jurídica por parte dos administradores e aplicadores da lei? Acreditamos que a resposta à questão acaba por admitir as duas possibilidades tratadas nestes mesmos questionamentos. bem como a concentração de riquezas. Todavia. pp.01-02. mas do mundo. é capaz de impossibilitar qualquer tentativa de concretização do ideal da dignidade humana que nos referimos acima.no Legislativo: retirada do regime de cotas do Estatuto da Igualdade Racial e modificação da proposta inicial relacionada à Lei da Ficha Limpa. Sem o cumprimento desta condição de fundo torna-se inválida tanto a regra produzida. O reconhecimento dos direitos fundamentais introduziu a necessidade de compatibilidade de conteúdo para a validação de determinadas disposições normativas. por vicissitudes inerentes ao poder totalitário. Neste sentido. tende à conformação prática de nova geração de direitos. que desde 1951 ensinava o seguinte: Direitos do homem. culturais ou políticas. o que ocorre na prática é que as profundas desigualdades econômicas e sociais. Desenvolvimento como Liberdade. e os súditos se tornam cidadãos quando lhes são reconhecidos alguns direitos fundamentais. quais sejam: Primeiro princípio. 2ª. As ações afirmativas – como o regime de cotas para negros. O BOBBIO. Rio de Janeiro: Elsevier. o que é efetividade? Tal potencialidade admitiria apenas uma dimensão pragmática. em linha geral. por exemplo. John. cujas causas podem ser históricas. obrigatória. Poderíamos citar vários casos onde.

o desenvolvimento humano pode e deve ser visto de maneira integrada. 1989. Ingo Wolfgang. 7. Direitos Humanos Fundamentais. Raul Hilberg. Porto Alegre: Ed. vice-presidente da Direção Executiva – (FIERJ). BIBLIOGRAFIA ARENDT. O fato é que. ao contrário do que ocorreu nos regimes de exceção que apresentamos nesta exposição. diretora do Departamento de Sociologia e Política da PUC/RJ. RAMOS. SCHOENBERNER. ensejarão valores melhores ainda. 2008. Se. fomentando-se a si mesmos como os galhos e folhas de uma mesma árvore. só que em sentido contrário. podendo comandar o próprio futuro e o dos seus semelhantes através do exercício da solidariedade.a Alemanha dos 1000 anos . pois. Também é presidente do Conselho Deliberativo da Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro (FIERJ). SEN. mediante oportunidades sociais adequadas. assistência médica e outras correlacionadas. A destruição processada pelos nazistas não emergiu de um vácuo sócio-político. afirma que na história européia houve três modalidades de política anti-judaica: conversão. ampliadas sucessivamente nos anos posteriores . professora Titular da Universidade Federal Fluminense – UFF. 2003. ed. PEDROSO. o instrumento utilizado foi a expulsão. Preconceito Racial em Portugal e Brasil Colônia: Os Cristãos-Novos e o Mito da Pureza de Sangue. ed. Manoel Gonçalves. A estimulação ao preconceito antissemita criou um inimigo visível. Livraria dos Advogados. os indivíduos aprimoram sua capacidade de autodeterminação. deixando largos espaços não escritos para ações rotuladas de “espontâneas” praticadas 86 Doutora em Sociologia pela Universidade de São Paulo – USP. e exibindo poder inquestionável. Considerações finais sobre o tema A presente reflexão histórica serviu para entendermos melhor como a necessidade de efetivação da cidadania e de aprimoramento dos direitos humanos fundamentais portamse como requisitos primordiais à valorização do homem como sujeito de direitos. representou a culminação de uma tendência historicamente progressiva. 2005. Rio de Janeiro: Renovar. o condutor das massas e não um representante destas. São Paulo: Editora Cia. o judeu. LEVI. por sua vez. Michael. Da mesma maneira. São Paulo: Editora Lazuli. Por sua vez. membro do Conselho consultivo – (FIERJ) e membro do Diretório de várias Escolas Judaicas do Rio de Janeiro. CARNEIRO. retroalimentando-se de maneira a fechar a cadeia de eventos. Segundo esse autor. Seu início já ocorre em 1933 cuja escalada observa-se a partir das Leis de Nurenberg de 1935. os seculares atestavam “vocês não têm o direito de viver entre nós”. Hannah. o estímulo às privações originarão outras privações maiores ainda. A Era dos Direitos. Origens do Totalitarismo. são gerenciados por discussões públicas e interações sociais contínuas. A Estrela Amarela: A Perseguição aos Judeus na Europa 1933-1945. através da expansão das liberdades substantivas interligadas – como a liberdade de participação política. estão dependentemente interligados. 2004. aprimorando e expandindo a miséria como resultado material. Gerhard.. Por fim. de despojá-las de sentido crítico que porventura pudessem exibir. 10 de Dezembro de 1948 – A Declaração Universal dos Direitos Humanos. Assim. aprimorando em verdadeira reação em cadeia a prática social existente. Teoria Geral dos Direitos Humanos na Ordem Internacional. Amartya. que. por outro lado. série Rupturas. Primo. O Liberalismo Político. Walter Benjamin: Aviso de Incêndio: Uma Leitura das Teses “Sobre o Conceito de História”. contraditoriamente. a eliminação. 10ª. LÖWY. os nazistas decretaram “vocês não tem o direito de viver”. Desenvolvimento como Liberdade. fácil de ser alcançado e sobre o qual repousava a atribuição de inimigo da pátria. São Paulo: Companhia das Letras. sua dominação carismática dependia da devoção irracional e do fanatismo das mesmas. alienálas completamente. Rio de Janeiro:Elsevier. SOLIDARIEDADE EM TEMPOS SOMBRIOS “JUSTOS ENTRE AS NAÇÕES” e “SALVADORES DE JUDEUS” Helena Lewin86 O sistema político nazista estabeleceu-se ancorado em uma economia bélica tendo como foco o domínio mundial . colocava-se ditatorialmente acima do bem e do mal. FERREIRA FILHO. O governante convertido em Führer. o discurso dos missionários afirmava: “vocês não têm o direito de viver entre nós como judeus” correspondendo à etapa da conversão. se social e politicamente cultivados. na medida que aglutinava. 1998. RAWLS. devem ser estimulados e aprimorados substancialmente pelos gestores da coisa pública. O processo é cíclico e contínuo. É Isto um Homem? Rio de Janeiro: Rocco. John.expulsão e eliminação. em seu livro “The Destruction of the European Jews”.uma nova era a ser instituída pela pretendida raça superior ariana. os dois grandes sistemas políticos vigentes: ora rotulado de capitalista explorador das finanças internacionais. Rio de Janeiro: Imago. contínuo e crescente. sempre em movimento cíclico. possui diversos livros e artigos publicados em revistas científicas nacionais e internacionais. ou seja. Norberto. BOBBIO. São Paulo: Boitempo. ora de comunista responsável pela instabilidade mundial devido ao chamamento ideológico à luta de classes. 1994. por um lado. 2006. das Letras. de receber educação básica. Coordenadora do Programa de Estudos Judaicos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ.exercício de tais liberdades substantivas é mediado por valores. 32 . 2005. 2001. verifica-se um processo de discriminação crescente. Correlacionando estas diferentes fases à legislação na Alemanha de Hitler. Regina Célia. São Paulo: Editora Ática. 2005. contribuindo para a prevenção de novas possibilidades de opressão a grupos populacionais desfavorecidos. 2ª. nesse caso. ou seja. via de regra. 2000. São Paulo: Perspectiva. Hitler jamais ocultou seu desprezo pelas massas visto considerá-las destituídas de heroísmo e inteligência. Daí a importância de organizá-las. Bens materiais e valorativos bons. SARLET. André de Carvalho. Dignidade da Pessoa Humana e Direitos Fundamentais. Maria Luiza Tucci. como fatores essenciais ao desenvolvimento da sociedade. Estes direitos fundamentais. São Paulo: Saraiva.

de solidariedade e de compaixão além de sua postura políticoideológica democrática. Todos esses foram reconhecidos pelo Yad Vashem. Assim. compartindo seu pão. O título “Justo entre as Nações” designa uma pessoa de elevada moral. meses ou anos. o aparelho de estado nazista utilizava dois mecanismos de repressão: o oficioso cujas ações eram acionadas para intervir com violência em movimentos de rua sobre aqueles marcados para morrer. O tema relacionado ao “risco” e ao “perigo de vida. interpretando como uma onda que vem e que vai embora. contendo 80 mil livros e 4500 revistas especializadas nesta temática. caminhando para uma planejada política de estado de destruição massiva dos judeus através de seu encarceramento em campos de trabalho e de aniquilamento. A esses cônsules e a todos aqueles que salvaram judeus da matança nazista. denotando em meio à barbárie reinante seus sentimentos de humanidade. suas comendas foram retiradas. Mais adiante os nomes dos principais cônsules brindados com o título de “Justos entre as Nações” serão brevemente apresentados. considerando que os maiores salvadores de judeus em termos numéricos foram os cônsules sediados na Europa. cujo pastor. O nome Yad Vashem foi inspirado no livro de Isaias 56:5: “dar-lhes-ei na minha casa. A publicação SHOÁ. perdendo seus postos de trabalho. que não perecerá jamais” O Yad Vashem é também conhecido como o Museu do Holocausto de Jerusalém que abriga arquivos . compaixão e ajuda a judeus em tempos de grandes dificuldades e perseguições. André Trocmé. não acreditavam que um país de alta cultura civilizatória como a Alemanha pudesse representar um perigo para com sua população judaica ou ser portador de atitudes de violência programada. vem funcionando uma comissão para a designação dos Justos. entre 1942 e 1943 resolveram de forma conjunta que cada família ocultaria a uma família ou indivíduo judeu. uma instituição especificamente dedicada à lembrança e estudo do Holocausto. ética e profissional além de riscos de vida para aquele que se dispõe a salvar os judeus. O Parlamento israelense baseando-se na Lei de Recordação dos Mártires e Heróis definiu entre os objetivos do Yad Vashem a permanente celebração religiosa e histórica em memória das vítimas do terrível massacre nazista além de manifestar os agradecimentos a todos aqueles. 310/11. foram humilhados e discriminados. Em Israel foi criada. o respeito e admiração por seu silencioso trabalho de resgate de vidas sendo merecedores do título de heróis da 2ª Guerra Mundial. sendo alimentado em tempo de grande escassez de comida. poderia resultar em impedimento à outorga do título na medida que aqueles que gozavam imunidade diplomática não estavam necessariamente ameaçados de riscos de vida. cursos e pesquisa. principalmente os alemães. Noruega. implicando em perigos relativos à segurança de sua liberdade física. seria impossível excluí-los da lista tendo em vista que foram punidos por seus governos por desobedecer às proibições emitidas no que se refere à concessão de vistos às minorias semitas. nas pags. Julgavam tratar-se do clássico fenômeno do antissemitismo tão presente na historiografia do cotidiano das comunidades européias. Este salvador geralmente construía um “bunker” para esconder o judeu que ali permanecia durante semanas. arriscando suas vidas e carreiras. trata de recuperar historicamente o papel desses protagonistas nos tempos sombrios do Holocausto – o maior assassinato em massa perpetrado contra 6 milhões de judeus pela política antissemita nazista – livrando os judeus da perseguição e do extermínio iminente ao lhes conceder oportunidades reais para fugirem daquela Europa conflagrada ou para esconde-los em lugar seguro. não 33 . número que reúne 50 milhões de páginas de testemunhos. não-judeus que arriscaram suas vidas para salvar judeus durante o Holocausto. Em muitos casos. Neste contexto. a salvação veio de grupos como as unidades clandestinas de resistência existentes na Holanda. uma biblioteca que possui a mais importante documentação do mundo sobre o Holocausto. e nas minhas muralhas a dentro. os judeus. em 1953. faz-se necessário assinalar o desempenho de determinados consulados sediados na Europa. Porém. no processo de salvação de milhares de judeus concedendo-lhes visto de entrada em seus países apesar das proibições.conforme acima mencionado. Quando um nome é proposto para receber o reconhecimento oficial do Yad Vashem. Na Dinamarca. expresso inicialmente pela legislação vigente que se auto-legitimava como um estado de direito embora calcado sobre um arcabouço autoritário. O presente texto. cidadãos comuns elegeram salvar judeus assumindo conscientemente todas as consequências de risco de vida que uma ação dessas implicava. passando por drásticas necessidades financeiras. o Yad Vashem. que oferece empatia. Todos os 117 habitantes desta pequena comunidade foram honrados como “Justos entre as Nações”. morrendo. portanto. cidadãos comuns transportaram 7200 dos 8000 judeus do país em lanchas pesqueiras até a Suécia em uma arriscada operação. Até o início de 1941. O número de judeus salvos por nãojudeus durante o Holocausto é impreciso. decorrente da sua atuação excepcional. Bélgica e França que encontravam esconderijos para judeus. publicando livros e realizando seminários. afirma que em certos casos. Alguns dos judeus morreram depois da guerra ou mesmo durante a mesma. em grande miséria. e o formal. um lugar e um nome ainda melhor do que o que dão os filhos e as filhas: Dar-lhes-ei um nome eterno. Desde 1960.pelas brigadas dos SA como a que ocorreu na Noite de Cristais. Um dos casos mais impressionante foi o da pequena aldeia holandesa de Nieuwlande cujos habitantes. Essa atitude de conformidade das populações judaicas decorrente de leituras ingênuas da realidade social foi responsável pelo volumoso aporte demográfico na deportação para os campos de extermínio apesar dos movimentos de resistência que ocorreram. muitos deles. essa comissão analisa detalhadamente as provas e suas motivações acompanhadas do relato dos sobreviventes envolvidos que devem prestar testemunho sobre a veracidade dos argumentos declarados. organizou seus fiéis para prover esconderijo e assistência aos judeus que fugiam dos nazistas. ocultando um ou mais judeus em suas próprias casas. Outro salvamento coletivo teve lugar na aldeia francesa de Le Chambon-sur-Lignon. os “Justos entre as Nações” conforme o título de homenagem a eles conferida.

como é Israel. a partir de 1934. serão apresentados na trajetória de quatro cônsules envolvidos no resgate de judeus. reconhecidos como heróis do povo judeu aos quais várias gerações lhe devem suas vidas. oriundos do Brasil. alguns nomes foram selecionados visando apresentar. há duas figuras marcantes. Rebelou-se contra as determinações do governo de Getúlio Vargas que através de circulares secretas. discretamente. elevada consciência moral e um incomensurável respeito à vida de seu semelhante. Esses anônimos “Salvadores de Judeus”. o diplomata brasileiro João Guimarães Rosa foi nomeado Cônsul-adjunto em Hamburgo que afirmou. Casaram-se em 1940. Libertado. Multidões de nazistas enfurecidos atacaram sinagogas e queimaram objetos do ritual litúrgico judaico. Portugal e Suécia. Grande foi a contribuição destes dois personagens no cenário da 2ª Guerra Mundial no que se refere a salvação de foragidos judeus. entre outros refugiados. confinados em Bad Godesberg. porém calcula-se que seu número deve ter alcançado a casa dos 1000. posteriormente. em que cada árvore plantada constitui uma esperança no futuro e uma mensagem exemplar de paz. Muito deles preferiram manter-se anônimos mesmo depois da guerra afirmando que seu comportamento era ditado por princípios imperiosos de consciência frente o trágico silêncio da maioria dos europeus que não reagiam à brutalidade vigente contra os judeus e. Do Brasil. 20. os alemães romperam o armistício e invadiram a parte ainda não ocupada da França. por 14 meses. sendo que muitos deles foram convidados a plantar árvores em sua homenagem visando comemorar suas ações humanitárias. figura que sequer aparece nos livros didáticos brasileiros. como chefe do serviço de vistos. Souza Dantas foi mantido no ostracismo da vida pública. a facilitar a emissão de vistos a dezenas de pessoas que buscavam ajuda no consulado brasileiro de Hamburgo. até final do ano de 2003 haviam sido registrados como “Justos entre as Nações”. Enquanto durou o Estado Novo. Luis Martins de Souza Dantas e Aracy de Carvalho Guimarães Rosa. Foi invadida e o Embaixador Souza Dantas juntamente com seus auxiliares foram presos. Reconhecido pelo Museu do Holocausto em Jerusalém (Yad Vashem) como “Justo entre as Nações” por ter emitido centenas de vistos durante os difíceis anos do domínio nazista na Europa. embora estejam disponibilizados. no silêncio de seus atos. Mataram 90 pessoas com requinte de crueldade. por falta de provas e de testemunhos orais. elegeu-se uma pequena amostra de diplomáticos que atuaram significativamente no cenário europeu. seu nome é inscrito no Livro de Mérito Nacional. Invadiram residências de judeus e violentaram mulheres e crianças. portanto não se julgavam merecedores de prêmio ou reconhecimento algum. Para tal. são os seus nomes. que tanto benefício aportou àqueles para os quais ele foi diretamente responsável pelo seu salvamento. Passou. em 1954. posteriormente. Essas publicações foram responsáveis por trazer ao conhecimento público esse personagem. Somente no dia 21 de dezembro de 1944. que. Segundo os dados contidos na Enciclopédia del Holocausto. nas cerimônias dedicadas à Lembrança das vítimas da 2ª Guerra Mundial. Este acontecimento marca o início da repressão sistemática contra os judeus que objetivava. de forma breve. um homem e uma mulher. todos os diplomatas sediados na França passaram a despachar em Vichy que foi tomada pelos nazistas. de forma religiosa ou secular. Perplexa e indignada com as terríveis perseguições e matança de judeus promovidos pelo nazismo. Assim. Porém. na Alemanha. principalmente em uma terra árida. determinava a proibição de atender solicitações de vistos a semitas para entrar no Brasil. Morreu pobre e abandonado em Paris.tendo sido possível obter testemunhas ou saber o nome desses salvadores. Quando. sem alarde. em 1942. leia-se judeus. centenas deles não constam nos registros do Yad Vashem que. Viveram em Hamburgo até quando regressaram ao Brasil. segundo os dados do Yad Vashem. quando as relações diplomáticas entre a Alemanha e o Brasil foram rompidas. Alemanha. não puderam ser nomeados institucionalmente como “Justos entre as Nações”. Em 1938. ter ciência da desobediência de Aracy e ter lhe dado pleno apoio. A recuperação histórica do diplomata Souza Dantas. embaixador brasileiro em Paris de 1922 a 1942. Consta do Concise Encyclopedia of the Holocaust que Aracy de Carvalho Guimarães Rosa começou a ajudar os judeus depois do terrível “pogrom” na noite de 9 de novembro de 1938 que ficou conhecida como Kristallnacht – Noite dos Cristais . foi analisada no livro ”Anti-semitismo na Era Vargas” de autoria de Maria Luiza Tucci Carneiro e. O governo brasileiro havia rompido com a Alemanha e a ela declarado guerra e a embaixada brasileira em Vichy não ficou livre da violência nazista. denotando heroísmo e grandeza de caráter. contemplando sua distribuição geográfica por país de origem desses diplomatas. ele volta ao Brasil onde havia sido planejada uma recepção festiva que foi abortada por ordem de Getúlio Vargas. que por medida de segurança não foram computados por conta de sua natureza secreta. O simbolismo da plantação de árvores e seu conseqüente Bosque de Recordação estão intimamente associado ao significado de Vida que a árvore representa. trabalhou no consulado brasileiro em Hamburgo. silenciosamente. deixando claro que estes não esgotam o elenco de nomes a quem se deve o respeito e os agradecimentos pelo desempenho heróico de salvar vidas tanto de judeus como de não-judeus e que. através 34 . sua “biografia de guerra”. reconhecimento formal de seu elevado desempenho nos serviços prestados à Pátria. Aracy de Carvalho Guimarães Rosa. resolveu desobedecêlas. Depredaram estabelecimentos comerciais e saquearam-nas. Aracy ciente das proibições do Ministério das Relações Exteriores do Brasil que determinava a não concessão de vistos aos apátridas. o número atual de diplomatas condecorados alcança o número de vinte. demonstraram enorme bravura. celebradas em todas as comunidades judaicas de todo mundo. Luis Martins Souza Dantas. em 1942.uma prece especial é dedicada a esses Salvadores. tornou-se tema da dissertação de mestrado de Fabio Koifman “Quixote nas Trevas”.que se estendeu por várias cidades da Alemanha e Áustria. enviadas às embaixadas brasileiras instaladas na Europa. Na impossibilidade de nominar cada um dos “Justos entre as Nações” em decorrência do difícil acesso aos arquivos do Yad Vashem. Os vistos emitidos por Souza Dantas salvaram comprovadamente 478 pessoas.200 nomes de homens e mulheres. Certamente. esta é a única diplomata do sexo feminino de todo o grupo de diplomatas homenageados pelo Yad Vashem.

mas sobretudo política de resgate dos judeus húngaros. Em apenas dois meses. o espaço fora do domínio alemão na Europa se estreitava. Raoul Wallenberg perseguiu as colunas de judeus em marcha para a morte retirando aqueles que portavam os “passaportes de proteção” anteriormente expedidos e os conduziu de volta à capital. o exército soviético invade a Hungria liberando-a do domínio nazista. Em 1954. ele morre na mais extrema miséria. Ela protegia esses refugiados dando-lhes cobertura diplomática.000 judeus para os campos de extermínio. ou seja. Oitenta judeus foram salvos por esta corajosa mulher aos quais se deve acrescentar muitos outros não-judeus perseguidos pelo nazismo. o extermínio total dos judeus da Europa. sem respeitar suas imunidades diplomáticas. Souza Mendes ignorou as circulares governamentais passando a desrespeitálas. consul português em Bordéus. Recebeu o título de honra “Justo entre as Nações” do Yad Vashem e era carinhosamente chamada de “o Anjo de Hamburgo” por todos aqueles a quem havia salvo. Em outubro do mesmo ano. Esses albergues e espaços protegidos ficaram conhecidos como o “Gueto Internacional” em cujas janelas tremulavam bandeiras brancas como sinal de interdição de entrada aos alemães e seus aliados. Grupos de voluntários se encarregaram da provisão de alimentos e atendimento médico formando uma subterrânea rede de solidariedade que ajudou a salvar os judeus aí abrigados. Wallenberg tentou negociar o destino dos judeus internados no “Gueto Internacional” e no “Gueto Principal da cidade de Budapest” argumentando que os primeiros tinham proteção do governo sueco enquanto portadores dos “passaporte de proteção” e os demais como refugiados de guerra ou/e apátridas dado o confisco de seus documentos pelos nazistas. transformara-se em a única porta de saída para o deslocamento destes refugiados tentando alcançar outros destinos fora da Europa. Aracy revoltada não se intimidou e passou daí em diante a acelerar a emissão de vistos para os fugitivos judeus. o que muito facilitou o estabelecimento de albergues e seus esquemas de vigilância. contou com a cumplicidade de um funcionário da polícia de Hamburgo que emitia passaportes para os judeus retirando do documento o “J” vermelho que os identificava como judeus. Aristides de Sousa Mendes é o único português portador do título “Justo entre as Nações”. entre os quais se sobressaiu Angel Sank Briz da Espanha. Estes ofereceramlhe apoio e ajuda. Concomitantemente. declaradamente antissemita e aliado dos nazistas. assinou milhares de vistos para fugitivos judeus. Aristides de Souza Mendes foi considerado culpado no inquérito disciplinar tendo como pena a sua reforma compulsória com uma pensão reduzida que lhe impossibilitava sustentar sua família sendo socorrido por seu irmão e pela comunidade judaica de Lisboa. Os milhares de vistos eram assinados de dia e de noite. salva o mundo” como reconhecimento de seus méritos. Até ser afastado do cargo pelo ditador português. Eduardo de Carvalho Tess. salvando-os da morte certa se fossem enviados para os campos de concentração. Até quando Portugal poderia se manter neutro? Esta era uma pergunta recorrente! E justificava sua pressa como um mandamento a ser cumprido! Quando inquirido sobre o porquê de seu comportamento. Raoul Wallenberg. Para tanto. nomeando para assumir a chefia desta perigosa missão humanitária. abrigando judeus em sua própria casa ou de pessoas de sua confiança e garantindo sua saída da Alemanha. a situação dos judeus remanescentes tornou-se ainda mais perigosa tendo em vista a subida ao poder do partido Cruz de Flechas. concedido pelo Yad Vashem de Jerusalém. Este foi o álibi! Paralelamente. Em sua lápide foi inscrita uma passagem da Torá (Bíblia judaica) “Quem salva uma vida.000. embora sem nenhuma repercussão na imprensa portuguesa. nomenclatura usada para encobrir o uso da palavra objetivamente concreta de extermínio. ignorando as determinações do Itamaraty. Wallenberg resolveu intensificar seus esforços: durante os três meses seguintes emitiu milhares de passaportes denominados de “passaporte de proteção”(The Wallenberg‘s Passaport). assinando vistos a quantos lhe solicitassem. também foram alvo de sua atividade de salvamento os judeus já embarcados em trens que se dirigiam à Auschwitz ou a campos de trabalho forçado que possuíam “passaporte de proteção”. Wallenberg teve apoio de diplomáticos de outros países. que as razões que o levaram a optar por tal atitude se vinculavam “à situação aflitiva de toda aquela gente que o comoveu profundamente”. Os soviéticos suspeitavam ser Wallenberg e os demais diplomatas suecos em Budapest. sua mãe. Entrevista realizada com seu filho. ele afirma que. a Embaixada da Suécia propôs emitir passaportes aos judeus húngaros que tivessem alguma vinculação com cidadãos suecos. viabilizando a emissão de vistos nesses passaportes. as deportações foram reativadas em ritmo acelerado.da chamada “Solução Final”. relatam que sua ação foi mais ampla: além de resgatar os judeus que compunham a Marcha da Morte. Souza Mendes. Frente a essa conjuntura. Esta decisão do Ministro das Relações Exteriores da Suécia converteu-se em um decisivo sinal para iniciar a operação de salvamento. arriscou sua vida. os alemães já haviam deportado 435. contrariando as ordens expressas de Salazar. Percebeu que a rapidez na emissão dos vistos era crucial na medida que.Esse sistema de abrigamento foi considerado como um espaço territorial neutro que teria que ser admitido por força das convenções internacionais. Em janeiro de 1945. a Raoul Wallenberg. Aracy não emitia apenas os vistos. Quando Adolf Eichman ordenou a “Marcha da Morte” dos judeus de Budapest até a fronteira austríaca. 2/3 dos judeus húngaros haviam sido deportados. diplomata da Embaixada da Suécia sediada na Hungria foi responsável pelo salvamento de milhares de Judeus em arriscadas operações de proteção contra o exército alemão nazista que ocupou este país em março de 1944. Desde 1967. Portugal. Da população nativa judaica sobraram apenas 200. vivendo em plena cena da guerra pode certificar-se das conseqüências terríveis que pudessem advir do avanço das tropas alemães no continente europeu. Observando a tragicidade do destino de grandes contingentes populacionais marcados para morrer. cada vez mais. Aristides de Sousa Mendes. todos os dias até a exaustão física. ao transportar judeus no porta-malas de seu carro apesar da vigilância da Gestapo. Um 35 . ele declarou no seu processo de defesa a que foi submetido por ter descumprido as ordens governamentais. agentes ou espiões alemães convocando-os a prestar esclarecimentos sobre sua conduta. Os dados registrados nos arquivos de vários institutos de pesquisa histórica sobre a missão Wallenberg durante a 2ª Guerra Mundial. como país neutro. muitas vezes.

1985 Koifman. Michel R. Lucy S. Este foi criado pelos nazistas e congregava no seu interior mais de 450 mil pessoas amontoadas em 4 kilometros quadrados. Seu trabalho de salvamento não terminava com o resgate físico das crianças. mas Irena nada revelou. já exercia sua profissão atendendo os bairros pobres de Varsóvia onde viviam muitas famílias judias. Sua atenção preferencial. Jerusalem:Magnes . resgatas pela mão de Irena Sendler. Sua coragem e sua consciência democrática são modelo para todas as gerações e o Yad Vashem lhe outorgou merecidamente o título de “Justo entre as Nações”. após a data declarada pelo governo soviético. 2003 Rozett. Assim. Irena e sua equipe de colaboradores fizeram sair do gueto de Varsóvia milhares de crianças judias que colocavam em casa de famílias polonesas e em conventos católicos. preferindo morrer juntos”. no departamento de História.& Samuel Spector (org) – Encyclopedia of the HolocaustJerusalem. o governo sueco exigiu informações do governo soviético que. Segundo dados preliminares. Depois da guerra. em sacos de batata e até de caixões que depois eram transportados pelos bombeiros ou em caminhões de lixo. 2000 Marrus. A eles que sigilosamente desenvolveram importantes ações que se converteram em muitas vidas resgatadas. 2004 36 . Sua preocupação era com o registro das crianças. foi salva a caminho da execução por um soldado alemão subornado pela resistência polonesa. ia registrando os nomes das crianças e das famílias e dos conventos nas quais ficaram abrigadas anotando tudo em papéis que ia juntando e guardando em potes de vidro e os enterrando. Prisioneiros de guerra alemães que retornaram das prisões soviéticas afirmaram ter visto Wallenberg e que o conheceram na prisão. SP: Ed.D. sua família não acreditou nessas explicações baseando-se em informações de prisioneiros soviéticos ao afirmarem que ele ainda estaria vivo. medicamentos e roupas aos habitantes do Gueto de Varsóvia. Ao todo foram salvas cerca de 2500 crianças.grande mistério se abateu sobre o destino de Raoul Wallenberg que misteriosamente desapareceu sem deixar rastros. tornado-se enfermeira diplomada do Departamento de Assistência Social desta cidade. REFERÊNCIAS Arendt. Tanto ela e sua equipe assim como as crianças retiradas do gueto corriam risco de vida. Que eu podia prometer. Como homenagem e como tributo a sua memória. foi muitas vezes entrevistada antes de morrer.1999 Bankier. 1988 Hilbert. das famílias e dos conventos. Durante anos. Raul – The Destuction of European Jews – NY: Holmes & Méier Publ.. em outubro de 1943. principalmente pelas crianças que havia salvo. 1988 ---------------------. dentro do projeto Arqshoá. 8a impressão. David (org) – El Holocausto: Perpetradores -Vítimas -Testigos. ajudando as mães com conselhos e apoio.2009 Davidovitch. Seu nome foi acolhido pela comissão do Yad Vashem de Jerusalém que a homenageou com o título de “Justo entre as Nações”. os soviéticos alegavam desconhecer seu paradeiro. confessou que ele havia sido preso e falecido na prisão em 1947. as reações eram trágicas. As mães não concebiam a idéia de se separar deles. essas já na condição de adultos quando descobriram sua história e identidade. prestado-lhe homenagens. M.Luiza Tucci – Anti-semitismo na Era Vargas. Condenada à morte. R. Irena Sendler. quando ia visitar o Gueto para ajudar seus habitantes.Holocausto – Crime contra a Humanidade. Fora da órbita diplomática. Raoul Wallenberg é um dos maiores heróis daqueles tempos sombrios.1986 Carneiro. A partir destes testemunhos. Até 1943. quando sequer sabia se conseguiria sair do gueto?”. Irena Sendler usava a Estrela de David. SP: Brasiliense. Guerra Mundial. Foi presa e torturada pela Gestapo. – A Assustadora História do Holocausto – RJ: Ediouro. Era extremamente perigosa a operação estabelecida por Irena para salvar este enorme contingente de crianças. Sua modéstia era impressionante. cabe uma importante menção ao nome de Irena Sendler que a partir de 1940 correu elevados riscos para levar víveres. Ática. Assim o fazia para não chamar atenção dos soldados alemães. Começou a busca dos pais biológicos mas a maioria havia morrido nos campos de concentração. Quebraramlhe os ossos dos pés e das pernas. Ainda antes da 2ª Guerra Mundial.Z Nativ Ediciones. Este visa identificar os inúmeros brasileiros “salvadores de judeus” que se dedicaram com afinco a buscar caminhos de salvação para minorar o terrível sofrimento dos judeus durante a 2a. tendo os Estados Unidos lhe outorgado a distinção de Cidadão Honorário. Ainda hoje permanece o dramático mistério! Wallenberg tem sido alvo de inúmeras manifestações de solidariedade e de admiração por seu corajoso papel no salvamento de milhares de vítimas da 2ª Guerra Mundial. “Perguntavam-me se eu lhes prometia que os filhos sobreviveriam. comportando-se da mesma maneira que uma anônima judia. ela mesma desenterrou os frascos com os nomes das crianças. As que tomaram essa decisão demonstraram a maior coragem. À época da invasão alemã na Polônia e a instalação do Gueto de Varsóvia. Hannah – Las Orígenes del Totalitarismo – Madrid: Alianza.. ela dedicava às crianças trazendo alimentos e remédios às desnutridas e doentes. 1aed. aos 33 anos. 2000 Shoá – Enciclopedia del Holocausto –Jerusalem: E. Afirmou em um de seus depoimentos que “quando propunha às famílias salvar-lhes os filhos. a maior da Polônia. tendo declarado que “podia ter feito mais!” Foi um exemplo de dignidade e de amor ao próximo. Fábio – Quixote nas Trevas – o embaixador SOUZA DANTAS e os refugiados do nazismo – RJ: Record. Irena estudou na Universidade de Varsóvia. Não obstante. Nascida em 1910. as homenagens devidas. somente após a morte de Stalin. seu nome está em ruas e praças de inúmeros países. seu número é significativo. – The War Against The Jews – NY: Bantam Books. o futuro resgate de sua identidade passada. Como fazia? Dava-lhes um calmante e escondiaas dentro de malas. afirmou Irena anos depois. agradecimentos e testemunhando suas heróicas ações. Foi uma valorosa mulher! Uma ampla pesquisa está sendo realizada na USP.

é que tais temas . reconhecer o perigo da proliferação das práticas racistas e totalitárias. a importância de estudarmos o passado para evitarmos que crimes como o Holocausto sejam praticados contra a Humanidade. Parte da população brasileira só tomou ciência dos fatos quando filmes -. 2. o Führer) é apresentado como infalível. os discursos de Hitler e dos seus generais são verdadeiros “modelos de propaganda”. Autores e professores (não-judeus) sempre se esquivaram deste debate e. o professor poderá traçar comentários sugerindo novos conhecimentos e reflexões possíveis. Filmes contemporâneos de ficção sobre o nazismo têm conseguido ilustrar o fascínio que o movimento nacional-socialista exerceu sobre os alemães valendo-se da idéia de espetáculo. o professor pode debater com os alunos a situação vivenciada pelos negros no Brasil e nos Estados Unidos. Neste caso. de Volker Schlondorff e “Cabaret”.mereceram espaço especial junto aos livros didáticos. fábulas. 4. tendo por base os termos da atual Constituição do seu país. Como você situa o Brasil no debate sobre o Holocausto? É possível afirmar que “vivemos um eterno relativismo perverso”. erradicar a pobreza e a marginalização. de Roberto Begnini. Ao poder externo corresponde a ordem jurídica interna do Estado forte. O diálogo pode ser antecedido pela apresentação do filme “A Outra História Americana” que explora a história de um jovem neonazista nos EUA de hoje e proporciona a reflexão sobre o emprego da violência entre um grupo de skinhead. somente nesta última década. muitas vezes. O povo acaba por viver uma verdadeira “guerra psicológica”. Será importante o aluno comentar acerca dos seguintes itens: a conseqüência catastróficas dos regimes totalitários e das teorias racistas. Tanto o Nazismo na Alemanha. são exemplos-padrão para os estudos sobre totalitarismo. cor. tentam minimizar a catástrofe do Holocausto distorcendo os fatos. o Estado policial. As respostas poderão ser ampliadas tendo como base as informações e análises aqui sugeridas: 1. Você considera importante o ensino do tema do Holocausto em sala de aula? Justifique. um agente de forças superiores. dirigido por Bob Fosse. de Steven Spilberg e “A Doce Vida”. 3. liberdade de expressão. com exceção dos centros de ensino gerenciados pela comunidade judaica que procura manter viva parte desta memória. Funciona como se fosse uma sociedade secreta mantida por uma Policia que é o principal braço repressor do Estado. valores sociais do trabalho e da livre iniciativa. É com esta intenção que os grupos de extrema-direita (como os neonazistas e os revisionistas) procuram banalizar o sofrimento dos povos calcados em falsas comparações estatísticas e históricas apresentando grandes dramas humanos (como o Holocausto) como “mero detalhe” ou “um mal menor”. Esta questão poderá ser respondida a partir de um debate em classe durante o qual os alunos devem ser incentivados a dar sua opinião pessoal. apresentando imagens através de equipamentos de multimídia ou analisando textos de época em classe. o triunfo da vontade”. culturais e políticas. pluralismo político. sem preconceitos de origem. Defina o conceito de Estado Totalitário em oposição ao conceito de Estado Democrático. dignidade da pessoa humana. No seu entorno sobrevive uma “elite paramilitar” composta de homens poderosos com qualidades demagógicas e burocráticas-organizacionais. foram premiados com o Oscar 37 . No Estado totalitário pode ser observada uma dupla autoridade: do Partido e do Estado que convivem e atuam em nome da Ordem. (Sobre este conceito.EXERCÍCIOS (Questões a serem formuladas para o aluno com sugestões de respostas) Profª. por falta de orientação. por motivos políticos. Através da propagação de livros. Dentre estes filmes cabe lembrar “O Tambor”. O III Reich pode ser considerado como a expressão máxima de um Estado totalitário. Nos países de regime totalitário. de falsas estatísticas e de teorias racistas para impor a sua verdade criando um “mundo fictício” que compete com o mundo real. Podemos afirmar que.como “A Lista de Schindler”. Vale-se de uma pseudo-ciência. empregando a violência para assustar o povo. promover o bem de todos. O chefe (no caso. Antes dos alunos responderem o questionário. Drª. o racismo e o anti-semitismo são encarados com grande benevolência? O tema do Holocausto é raramente debatido e estudado nas escolas estaduais e particulares. Neste particular. reduzir as desigualdades sociais e regionais. que avaliando os atos de barbárie praticados pelos nazistas teremos condições de refletir sobre o papel do Estado que deve preservar a vida do cidadão. citados na bibliografia. sagrado. Nazismo e Racismo . raça. o professor pode consultar a clássica obra de Hannah Arendt “O Sistema Totalitário”. de Alcir Lenharo “Nazismo. O que você entende por “relativismo perverso”? Os adeptos do “relativismo perverso”costumam eximir a responsabilidade do regimes totalitários da responsabilidade dos crimes contra a Humanidade. países em conflitos no Oriente Médio e grupos partidários da extremadireita na França e Alemanha. as massas são cooptadas por meio da propaganda e pelo terror. e desenvolver uma atitude de solidariedade e capacidade de conviver com as diferenças étnicas. como o Stalinismo na ex-União Soviética. histórias em quadrinhos e revistas especializadas procuram impedir que outros cidadãos tomem consciência da verdade. idade e quaisquer outras formas de discriminação. o Estado detém o poder absoluto. proibindo toda e qualquer crítica ao regime. em que o autoritarismo. Para enriquecer esta questão. A hierarquia é rígida obedecendo o grau de militância dos seus membros. apesar das diferenças ideológicas que os distinguem. O Estado Republicano tem por objetivos: construir uma sociedade livre. Maria Luiza Tucci Carneiro Seguem aqui algumas sugestões de perguntas/respostas” ao professor que poderá ampliá-las discutindo junto aos seus alunos filmes. panfletos. O Estado Totalitário opõe-se ao Estado Democrático cujos fundamentos podem ser identificados na atual Constituição Brasileira: cidadania. Totalitarismo pode ser entendido como um sistema de governo característico do século XX. sofrendo ameaças. justa e solidária. Solicitar aos alunos que pesquisem o texto original da atual Constituição Brasileira. Muitas vezes.Holocausto. países governados por uma democracia).

a Editora Revisão. ao lucro fácil. . negros e homossexuais. o degenerado (o judeu. o perigoso. Nada disto era fortuito. vermes e serpentes viscosas. estes artefatos visuais se prestavam para influenciar a opinião pública colaborando para a sustentação de uma “estética nazista”. dirigido por Goebbels. campos para prisioneiros de guerra. explorador. Quais seriam as principais diferenças entre as imagens veiculadas sobre os judeus e os arianos na Alemanha nazista ? Observação: antes do aluno responder esta questão. Castan chegou a publicar várias obras que tratam o Holocausto como a maior mentira do século. campos de concentração e campos de extermínio. onde a comunhão entre o povo (ariano) e o Führer são divinos. Uma destas obras Holocausto: judeu ou alemão ? esteve entre os livros de não-ficção mais vendidos em novembro de 1987. acompanhada pelo avanço das tropas alemãs em direção ao Leste europeu. nestas últimas décadas. animais perigosos. podemos identificar aqueles que foram “eleitos”pelo regime nazista para representar o belo. assumem o perfil de cidadãos “iluminados” envolvidos por signos nazistas. limitada à condição de “reprodutora de novos arianos”. Israel. saúde. Em 28 de fevereiro de 1933. os negros e os mulatos como “raças inferiores”.E. de Leni Riefenstal. Os homens igualam-se aos heróis. campos penais. expressando altivez. o governo e intelectuais brasileiros discriminavam os japoneses. são gordos e barrigudos representando a figura do capitalista. do processo de Eichmann (julgado em Israel em 1961) e de pesquisas acadêmicas que.em 1994 e 1998. Além destes existiam outros campos com especificidades próprias: campos de trânsito. por sua vez. Sua imagem vem sempre ligada ao dinheiro. As figuras das mulheres arianas (consideradas como as guardiãs da raça ariana) são perfeitas. comunistas. Nestas imagens os judeus têm o nariz adunco. Valendo-se de elementos retirados da realidade. de Pierre Vidal-Naquet. Testemunhas de Jeová. vasculharam os arquivos secretos do extinto Reich. homossexuais. Grande parte dos conhecimentos que temos do funcionamento deste aparato foram extraídos dos processos do julgamento de Nuremberg. Os posters. No Rio Grande do Sul. físico proporcional. os judeus são representados através de “traços negativos” que expressam a ideia de malignidade que lhes era atribuída pelo regime. louras de olhos azuis. 38 . ambos desta autora) 5. 1933. Assim temos: Judeus Escoltados pela SA. Os arianos. alegria e felicidade. de propriedade de S. campos para prisioneiros civis. coragem e bravura. Durante o governo de Getúlio Vargas (1930-1945) vigoraram circulares secretas proibindo a entrada dos judeus e ciganos refugiados do nazismo. Vale lembrar que. A instalação destes campos acompanha as diferentes fases de perseguição aos “inimigos do regime” (judeus. Tais imagens se prestavam para justificar a prática da eutanásia e do extermínio. ciganos. A ideologia eliminacionista do Reich e as necessidades econômicas decorrentes de uma situação de guerra. fossem “reais ou imaginários”. Esteticamente irradiam beleza. se não avaliarmos o papel da propaganda. campos para poloneses. Confinada ao lar é apresentada como a fiel companheira do homem. A instalação dos “campos da morte” inauguraram uma nova fase da metódica eliminação dos judeus na Europa. panfletos e propaganda racista circulam pela Internet (ainda que proibido por lei) propondo a morte de judeus. 6. (O professor pode ampliar suas leituras acerca deste tema lendo algumas obras básicas como: “Os Assassinos da Memória”. dignos de respeito e confiança. a perfeição (o ariano) em contraposição com o feio. São jovens ingênuos. Podemos lembrar aqui. exigiram a diversificação dos campos de prisioneiros: campos de trabalhos forçados. Em outras situações. cores e símbolos adotados pelo serviço de propaganda do Reich. desde o final do século XIX. Nestes materiais de propaganda. as fotografias impressas e os cartões –postais nazistas devem ser avaliados como representações visuais capazes de condensar uma síntese das principais idéias defendidas pelo regime. “O Anti-semitismo na Era Vargas”. Através das imagens reproduzidas por sofisticadas técnicas. os guetos e os campos como “espaços da exclusão e da morte premeditada”. olhos de ave de rapina. saudáveis. repelentes. a Polícia enquanto agente do terror . ávido de lucros. Raras são as pesquisas realizadas por historiadores brasileiros que tratam da nossa realidade racial e do passado racista do Brasil. doentes mentais e físicos). a lei para a proteção do povo e do Estado. sua figura é animalizada tomando a forma de vampiros. lembrando a figura de Judas que segura as moedas que recebeu pela traição de Cristo. os álbuns de figurinhas. Podemos afirmar que havia uma tipologia para os campos ? Você vê diferença entre campos de concentração e campos de extermínio? É impossível estudarmos o Holocausto enquanto fenômeno político. o puro. Obras anti-semitas. Avaliar os personagens. Yad Vashem. possibilitou a abertura dos primeiros campos de concentração que tinham como principal objetivo ‘eliminar os inimigos internos do regime. pois um dos objetivos dos antissemitas é de identificá-los com seres inumanos. “O racismo na História do Brasil: Mito e Realidade”. o cigano). o professor deve orientá-lo na observação dos cartazes e postais antissemitas que documentam este livro sobre Holocausto. Algumas expressões fisionômicas se repetem com o objetivo de produzir no “leitor” um sentimento de aversão e ódio. algumas cenas do filme O Triunfo da Vontade e Olympia.

Outros campos: Theresienstadt. de extermínio. Após a invasão da Polônia pelos alemães.inicialmente. Letônia. comunistas e seus simpatizantes. Outras rebeliões foram registradas nos guetos de Minsk.obra dos territórios ocupados. Os Eizatzgruppen cuidaram dessa operação. Varsóvia (1940). Vilna. sendo Pruszkow o principal deles. Treblinka e Auschwitz. uma grande número de guetos foram alí construídos em: Pietskow (1939). Campos de trânsito na Europa ocidental e meridional para onde foram transladados milhares de judeus: Drancy (França). transformou-se no laboratório da “Solução final”. na 2ª etapa da guerra que exigia a abertura de estradas. prestou-se como matriz para os demais campos). foi encarregado de administrar os prisioneiros dos campos de concentração. Assassinatos esporádicos e. Königswusterhausen. Um mês após a invasão da Polônia. 3ª fase: 1941-1945 Observação: o professor deverá orientar os alunos a observarem um mapa que identificando os locais de massacre (direção a leste) e os campos de extermínio. social-democratas. Posteriormente. Em 1944. -Grupos de prisioneiros distintos: os Aussenkommando (levados para trabalhar fora dos campos cuidando da abertura e preservação de estradas. anarquistas. Berlim. Sobibor. Entre 1940-1941. Ravesnsbrück (campo feminino) e Mauthausen. invadida pelos alemães em 1º de setembro de 1939. etc. Outros campos: Lublin-Majdanek. A Polônia. Oranienburg. Quednau. ciganos. Kovno. Discutir com os alunos o item “O aparato institucionalizado do terror: etapas da perseguição”. Os demais campos foram assumidos pela SS. alimentos e roupas para os soldados. Oswald Pohl. 2ª etapa: 1939-1941 Campos de trabalho: já existiam na 1ª fase. cerca de 13 campos de trânsito foram construídos em Varsóvia. Auschwitz-Birkenau (principal local de extermínio). Transilvânia e Frankfurt. nas proximidades da fronteira soviética. Vilna. Guetos: Bairros fechados e reservados especilamente para os judeus. Dados complementares Categoria dos presos: judeus. passaram a ser empregadas câmaras de gás que tinham aparência de banheiro coletivo. mas a tendência se acentou após 1942. Westerbork (Holanda) e Breendonck (Bélgica). Deveriam construir fortificações para garantir uma infra-estrutura para a invasão alemã na ex-União Soviética. trincheiras e aeroportos) e os Firmenlanger (trabalhavam nos campos de empresas encarregadas de produzir material bélico). doenças e desespero. posteriormente. Em abril de 1943 ocorreu a rebelião do gueto de Varsóvia. Outros morriam de fome. -Os judeus eram exterminados. Letônia. Campos para poloneses: criados durante o confronto com a Polônia em setembro de 1938. Minsk-Mazowiwcki. fabricação de material bélico. Ali eram alojados cidadãos poloneses e prisioneiros de guerra que seriam deportados para a Alemanha. 39 . Belzec (para onde foram transportados os judeus de Lublin e Lvov). Número de presos entre 1933-1939: cerca de 165 mil a 170 mil Supervisão: Dachau e Columbia Haus estavam sob a supervisão da AS que tinha Himmler como seu comandante. começaram a ser praticados.Etapas da Perseguição 1ª etapa: 1933-1938 Categoria e identificação Campos de concentração: Dachau (criado em 1933. Kyrchów. Bornim. Após 1941 foram construídos na Estônia para onde levados os judeus dos campos de Theresienstadt. Treblinka II(para onde foram os judeus do gueto de Varsóvia). Há registros de revoltas nos campos de extermínio de Kruszyna. Sobibor. Kovno e Zetl Campos de extermínio: às categorias identificadas nas fases anteriores somaram-se os campos de extermínio: Chelmno (1942: iniciou o extermínio dos judeus de parte da Polônia anexada pelo Reich). em caminhões a gás. Kovno. Transilvânia e Frankfurt. Sugerir-lhes a montagem de um quadro seguindo o exemplo acima. homossexuais. O mesmo acontecendo nos campos para prisioneiros civis e campos de trânsito. morrendo por asfixiamento. Heydrich ordenou que os judeus fossem reagrupados nos grandes centros ferroviários e ali concentrados nos guetos. Berlim. Hammerstein. Campos de concentração: passaram por uma reformulação em decorrência da política anti-semita e da situação de guerra. Lodz (1940). Algumas cenas do filme A Lista de Schindler podem ser avaliadas prestandose para os alunos observarem como os judeus eram empregados nas indústrias que serviam ao Estado e aos industriais nazistas. Fossoli e Bolzono (norte da Itália). foram criados campos de trabalho forçado para judeus. Deveriam fazer uso da infra-estrutura e da mão-de. Columbia Haus (Berlim). diretor da WVHA.

mas “limpa” de tudo que pudesse comprometer o projeto de arianização da Alemanha cujo povo deveria ser formado por elementos representativos de uma raça pura. 1996). Artistas “degenerados” perderam os seus cargos. Caso o professor queira ter maiores informações sobre este texto deverá consultar a obra “Europa Saqueada”. chegaram a clamar por uma “depuração da arte” . eram colocadas lado a lado com pinturas e esculturas modernas. controlada por Himmler e seu auxiliar Heydrich. obtidas de textos médicos. de Lynn H. 8. bela. Explicavam que cabia aos membros da hierarquia nazista as “ordens”para a matança. Van Gogh e outros. fazendo valer a “vontade autoritária”. O debate não era exclusivo da Alemanha: aconteceu em outros países que julgavam os artistas “degenerados” como produtos do liberalismo. Estes mesmos critérios (de raça pura/superior e impura/ inferior) foi aplicada à arte. selecionar e exterminar os cidadãos indesejáveis foram criados institutos de pesquisa e uma polícia especial. os deficientes físicos e mentais. raciais. que “serviam à Pátria alemã”. o tema foi discutido no Reichstag e o parlamento aprovou uma resolução contra a “degeneração”da arte. O extermínio de seis milhões de judeus foi decidido e executado por Hitler e seus homens (além de homens comuns do povo) entre 1939-1944. o antissemitismo deixaria de existir. as Testemunhas de Jeová. Não apenas de judeus. ideia pregada por intelectuais desde o século XIX. ciganos e outras minorias. 9. Dois conceitos foram amplamente explorados pelo nazistas: o de raça degenerada e arte degenerada. POVO. As obras de Matisse. assumindo o cargo de “zelador de todo o treinamento e educação intelectual e espiritual do partido e das associações coordenadas”” . a um grupo de homens. além do cidadão comum que foi cooptado pelo regime. sem degenerações de qualquer espécie (ideológicas. foi o elemento detonador de uma mentalidade antissemita pré-existente. Até novembro de 1941. raciais e ideológicos) deveriam ser eliminados. Aliás. Matisse. Slides das pinturas de Picasso. perfeito. neste caso. o ex-teórico da arte. espalhou o ódio contra judeus. esses comandos haviam assassinado cerca de meio milhão de judeus. Importante papel tiveram os médicos e cientistas conhecidos como os “anjos da morte”. A partir de um projeto de arianização. Com a 40 . contrários à arte impressionista. Em 1913. Coleções valiosas de obras confiscadas iam sendo empilhadas no Holfburg e no Kunsthistorisches Museum. subsidiada pelo aparelho burocrático do Estado. de gênere e culturais). O tratamento de “patológica” dado à arte moderna não foi uma invenção do nazismo. A Alemanha queria ser uma bloco coeso. a partir do momento em que os judeus tivessem um lar próprio. Nicholas. Persistia o sentimento de que a multidão e a cultura alemãs deveriam formar um todo único. a arte entrou em voga. O destino dos tesouros artísticos europeus no Terceiro Reich e na Segunda Guerra Mundial. Dezenas de outros cidadãos. A SS. homens comuns. A tese defendida por Goldhagen é de que o Holocausto foi compartilhado pela maioria do povo alemão que não se limitou apenas a assistir o espetáculo do horror. Assim. Hitler. também se proibia o jazz e a pintura moderna. Com a ascensão dos nacionais-socialistas ao poder. Aqueles que apresentassem desvios (leia-se aqui “defeitos” morais. foram mobilizados pelo regime aderindo ao programa de extermínio. A idéia de Herzl era de que. Entre os indesejáveis (inimigos do regime) estavam: os judeus. Muitos daqueles que foram julgados no Tribunal de Nuremberg. Conseguiu seguidores por toda a Europa e países da América. Em 1928. estes homens (inferiores) formavam uma categoria biológica e cultural de sub-homens (os Untermenschen). Pilhagem e destruição marcou esta investida nazista contra objetos e pessoas. os homossexuais. Deu-se início a um programa de “purificação da arte” que corria paralelo ao “programa de purificação da raça”. alegavam que estavam apenas “cumprindo ordens”. Segundo a terminologia nazista. Que papel tiveram os membros da SS na execução da “Solução Final” nos campos de extermínio? A questão da “Solução Final” não deve ser atribuída. poderão ser mostrados para os alunos abrindo o debate para esta questão. sem desvios. o III Reich “estetizou” a vida alemã. Paul Schultze-Naumberg publicou o livro Arte e Raça. acusados de crimes contra a Humanidade. Verdades sobre as raças puras e as raças inferiores” foram “construídas” com o apoio de cientistas. tornouse cabeça intelectual do partido. discussão que ganhou forças após o lançamento do livro Os Carrascos Voluntários de Hitler. comunistas. Munch e Picasso estavam entre as obras “expurgadas”. São Paulo: Companhia das letras. de Daniel Goldhagen (ver bibliografia citada). Críticos de arte. a vontade do Führer.7.Da mesma forma como se proibiam casamentos entre judeus e arianos. especificamente. Qual a relação que pode ser feita entre a Shoah e a criação do Estado de Israel ? No final do século XIX. em que fotografias de pessoas doentes e deformadas. um jornal alemão já havia classificado as obras de Kandinsky como “um sólido emaranhado de linhas” e o próprio artista como um “pintor insano”. obras confiscadas e museus reformulados. Este se tornou vitorioso em 1948 com a criação do Estado de Israel. Essas ideias foram se tornando mais extremadas à medida que o movimento nazista ganhava forças. educadores e filósofos. perfeita. resultantes de uma degeneração (um desvio). Van Gogh. Qual a relação deles com o programa de arianização idealizado pelo Reich? Um dos principais slogans anti-semitas do III Reich era o de construir uma Alemanha “limpa de judeus”. ciganos. Explicações convencionais procuram mostrar que os alemães (enquanto coletividade nacional) adotaram posições neutras ou condenatória em relação ao genocídio. Muitos preferiram deixar a Alemanha pois sequer podiam comprar tintas e pincéis. Estes estavam divididos em dois grupos distintos: Wafen SS (que atuavam como divisões militares de guerra) e os Einsatztruppen (comandos especiais responsáveis pela execução da política de extermínio na Rússia ocupada e pela segurança dos campos de concentração). Cézanne. Os comandantes da polícia política (os Eisatzgruppen) colocaram em execução as ordens recebidas de Heydrich. comunistas. ARTE e ESTADO constituíram um trinômio inseparável no ideário nazista. Alfred Rosenberg. irresponsável pelos seus atos. Em 1914. Para avaliar. médicos. podemos definir o Holocausto como o produto de uma mente maquiavélica e calculista que. Theodor Herzl fundou na Europa um movimento nacionalista judaico que tinha por objetivo o restabelecimento de um Lar Judaico na Palestina. foi realmente o maior braço de repressão do regime. galerias foram fechadas. a “culpabilidade” é um dos temas mais debatido nestes últimos anos.

Vale ressaltar que diversos desfiles organizados pelo Partido nazista entre 1933-1945. levados por outros meios. As cabeças raspadas compõem o seu visual. judeus. judeus. Durante o ato de protesto. como os nazistas a supremacia da raça ariana. catálogos e fanzines (revistas produzidas manualmente). cinemas. em 29 de novembro de 1948.ascensão de Hitler ao poder em 1933 e com o incremento da política anti-semita pelo Reich. os judeus alemães perseguidos pelo nazismo – e adeptos da idéia de terem um lar em terras da Palestina – começaram a procurar refúgio na Terra de Israel (Eretz Israel). nasceria o Estado de Israel.No caso de documentários observar o uso de luz e sombra. O grupo sionista mais radical liderado por Davi Bem Gurion. Têm seguidores em várias partes do mundo. campos de concentração. finalmente. o governo britânico limitou a imigração judaica e a aquisição de terras na Palestina.Se a moral nazista e o discurso antissemita se fazem presentes nos diálogos. foram conduzidos através deste portão que ficou fechado quase 50 anos. Vários navios eram aprisionados com sobreviventes dos campos de concentração à bordo. A agência clandestina Mossad Aliya Beit conseguiu fazer chegarem à Palestina cerca de 70. Meses mais tarde. Prevendo um período transitório de 5 anos. Organismos e comitês judaicos internacionais tentavam apoiar aqueles que estavam interessados em emigrar para a Palestina.Reconstituição dos cenários da época (1933-1950): residências dos nazistas e dos judeus. expressando seu ódio contra negros. tendo por base os índices demográficos do momento: 2/3 de árabes e 1/3 de judeus. os neonazistas portavam bandeiras imperiais alemãs e vestiam roupas pretas compondo uma “estética nazista”. A grande fuga dos judeus perseguidos pelos nazistas precipitou o fim desta política sustentada pelos ingleses. oficinas. proposta por um projeto encaminhado em 1º de setembro de 1947 pela Comissão de Inquérito das Nações Unidas (UNSCOP). desde a Segunda Guerra Mundial. disse que esse projeto é “uma mancha indesejável na capital do Reich”. espaços de lazer (praças públicas. balneários) e espaços de educação (colégios) . hinos. presidente da ala neonazista do Partido Nacional Democrático.000. Têm profanado cemitérios judaicos. uso de símbolos (suástica. espaços de trabalho (fábricas. A partilha da Palestina foi. como aconteceu com o navio Êxodus em 1947. etc. a figura do cidadão “ariano” e do cidadão “judeu”. Só foi reaberto após a queda do Muro de Berlim e o processo de reunificação do país. confirmado pela maioria de dois terços na Assembléia Geral das Nações Unidas. 41 . selecionar alguns dos filmes para serem debatidos em classe. antes da exibição. O Livro Branco marcou o início da luta final pela formação de um Lar Nacional Judaico na Palestina e devem ser vistos como símbolo das restrições impostas pelos ingleses à emigração judaica durante a Segunda Guerra. onde fazem ecoar as clássicas saudações nazistas: Heil Hitler! e Sieg Heil! Hitler é considerado o seu líder espiritual enquanto que seus atos são valorizados como expressão de heroísmo. em conjunto com seus alunos e direção da escola. Caberá ao professor. Você já assistiu a algum filme sobre o Holocausto? Qual? Comente a respeito. 11. Alimentam seus seguidores distribuindo um farto material de propaganda racista e política que circula através da Internet. incendiado ambientes e pessoas consideradas como “indesejáveis”. . Você certamente já ouviu falar dos neonazistas. prisões militares. AS. estrela-de-davi. chefes nazistas. Até então. inclusive no Brasil. cenas de exaltação à Alemanha. num protesto contra um monumento em homenagem aos judeus mortos no Holocausto (futuro Memorial do Holocausto). a sacralização do Führer. Adotam o nazismo e a Ku Klux Klan como modelos. Paulo noticiou que “cerca de 600 jovens neonazistas desfilaram pela primeira fez. Seria interessante que.000 pessoas que se somaram a outros 13. de forma a não alterar essa proporção. .).considerados como grupo de violência . decidiu por infringir as diretrizes dos Livros Brancos incentivando a imigração ilegal em massa para Eretz Israel. Udo Voigt. arrolados algumas elementos à serem observados como por exemplo: . Os neonazistas -. etc). mendigos e homossexuais. através do Portão de Brandembrugo (Arco do século XVIII e o maior símbolo da nação alemã) em Berlim. ciganos). além de portarem suásticas tatuadas no corpo. O comportamento e as idéias do neonazistas americanos poderão ser avaliadas através de um debate acerca do filme A Outra História Americana.País ou cidade onde se desenvolve o filme procurando observar os diferentes espaços de segregação (guetos. 10. campos de trabalho). Londres decidiu encerrar o mandato e preparar o país para a independência. Entre o final da guerra e a criação do Estado de Israel (1948) uma imensa corrente emigratória Ilegal) se intensificou levando refugiados judeus até a “terra prometida”. o jornal Folha de S. um regime de mandato era estreitamente fundamentado na cooperação entre as autoridades britânicas e o movimento sionista. águia. Persistia nesta época a Política do Livro Branco que limitava a entrada de judeus na Palestina. Em 1939. indumentária dos diferentes grupos (SS. Qual a similaridade das idéias defendidas por esses grupos com os princípios sustentados pelos nazistas nos anos 1930 e 1940 na Alemanha ? No dia 31 de janeiro de 2000.defendem.

Israel 42 .sobrevivente) Depois de uma tempestade no mar. Israel Ruth Reinová (19/02/1931 . Israel Anna Flachová (26/11/1931 . Museu Lasar Segall. Israel Desembarque de judeus para campo de concentração Yad Vashem. SP Buchenwald. fornos crematórios. Israel Deportação de judeus para os campos.Momentos antes da Câmara de Gás. aquarela. Yad Vashem.22/10/1944) Feira. Yad Vashem. giz de cera. Yad Vashem. Yad Vashem.

raciais. judeus e comunistas (bem como outras correntes políticoideológicas correlatas à esquerda política). além da igualdade perante a lei. Foi promovido pela cúpula do partido também conhecido como partido (1915-1917). de pessoas ou populações. Os regimes ou movimentos totalitários mantêm o poder político através de propaganda abrangente divulgada por meios de comunicação controlados pelo Estado com partido único. Os indivíduos e grupos que optam pela dissidência são denominados dissidentes políticos. entre a Tríplice Entente (liderada pelo Império Britânico. aversão ou a profunda antipatia em relação aos estrangeiros. Arianismo: teoria nazista que afirmava a superioridade do povo ariano como suposta raça pura. muito frequente em regimes autoritários e totalitários. O poder Legislativo era constituído por parlamento (Reichstag). com ânimo permanente ou temporário e com a intenção de trabalho e/ou residência. agressão e desenho de eliminar a sua presença para assegurar uma suposta pureza. como homossexuais e outros não-heterossexuais ou não-cisgêneros. que tinha posto fim aos confrontos. significando cremação dos corpos. Dissidentes Políticos: Dissidência é o ato de discordar de uma política oficial. Exposição Iconográfica: O termo “Iconografia” provém do grego . embora nascido em 1920. Nazismo: Conhecido oficialmente na Alemanha como nacional-socialismo. normalmente sob o controle de uma pessoa. Os seguidores da doutrina promovem discriminação contra minorias e grupos específicos. o tratado foi assinado como continuação do armistício de Novembro de 1918. negros. O Presidente da República nomeava chanceler que seria responsável pelo poder Executivo. com controle sobre a economia.GLOSSÁRIO Adolph Hitler: (1889-1945) Líder político alemão nascido em (Braunnau-Austria). nacionais. logo “escrita da imagem”. em muitos aspectos emulando a primeira. Mein Kampf (Minha Luta): Título do livro de dois volumes de autoria de Adolf Hitler. facção ou classe. que muitas vezes é marcado por culto de personalidade. não reconhece limites à sua autoridade e se esforça para regulamentar todos os aspectos da vida pública e privada. Tornou-se guia ideológico e de ação que até hoje influencia neonazistas e é chamado de “Bíblia Nazista”. político. Foi a guerra mais abrangente da história. A disputa pela hegemonia do continente causou grande guerra chamada Primeira Guerra Mundial. Judaísmo: Nome dado à religião do povo judeu. quase um milhão de tutsis. Pode ser definido como comportamento em que instituição ou pessoa se excede no exercício da autoridade que lhe foi investida. República de Weimar: Instaurada na Alemanha após a Primeira Guerra Mundial. liderando a 2. Império Russo (até 1917) e Estados Unidos (a partir de 1917) que derrotou a Tríplice Aliança (liderada pelo Império Alemão. União Soviética e Estados Unidos) e o Eixo(Alemanha. religiosas e (por vezes) políticas. França. Império Austro-Húngaro e Império Turco-Otomano). é a ideologia praticada pelo Partido Nazista da Alemanha. o avanço do capitalismo provocou uma disputa por novas áreas e mercados. fizesse reparações a um certo número de nações da Tríplice Entente. o fascismo italiano. Shoah: Corresponde à palavra holocausto em hebraico. Instituiu na Alemanha o regime ditatorial nazista. na África. nacionalistas e socialistas. Seu principal ponto determinava que a Alemanha aceitasse todas as responsabilidades por causar a guerra e que. Pode manifestar-se de várias formas. a mais antiga das três principais religiões monoteístas (as outras duas são o cristianismo e o islamismo). Nazifascismo: Termo que designa em conjunto. e adotada pelo governo (1933 a 1945). Massacre de Ruanda: Em Ruanda. teve como sistema de governo o modelo parlamentarista democrático. é amplamente utilizado na Alemanha Nazi. Após seis meses de negociações em Paris. Exposição iconográfica representa a exibição em forma de linguagem que agrega imagens na representação de determinado tema. envolvendo todas as grandes potências – organizadas em duas alianças militares opostas: os Aliados (Império Britânico. doutrina totalitária desenvolvida por Benito Mussolini (1919) e o nazismo alemão. Em 1994. adotadas pelo partido nazista. Segunda Guerra Mundial: Conflito militar global (19391945). parte do exército e muitos esquadrões da morte perseguiram. A partir do século XIX passou a designar grandes massacres e após a Segunda Guerra Mundial foi utilizado especificamente para referirse ao extermínio de milhões de pessoas que compunham grupos politicamente indesejados pelo regime nazista. caracterizado pelo uso do abuso de poder e da autoridade confundindo-se com o despotismo. culminando no colapso de quatro impérios e mudando de forma radical o mapa geo-político da Europa e do Médio Oriente. A guarda presidencial. a vigilância em massa e o disseminado o uso do terrorismo de Estado.“eikon” significa imagem e “graphia” significa escrita. Normalmente o conceito de direitos humanos engloba a liberdade de pensamento e de expressão. sobre suas idéias anti-semitas. sob os termos dos artigos 231-247. cultural ou religioso. Direitos Humanos: São direitos e liberdades básicos de todos os seres humanos. incluindo o medo de perda de identidade. França. É sistema político controlado por legisladores não eleitos que usualmente permitem algum grau de liberdade individual. Antissemitismo: Preconceito ou hostilidade contra judeus baseada em ódio contra seu histórico étnico. Regimes autoritários: Forma de governo caracterizada pela ênfase na autoridade do Estado em uma república ou união. exterminando deliberadamente. que. Tratado de Versalhes: Tratado de paz assinado pelas potências europeias em 1919. o presidente hutu Habyarimana foi morto. poder instituído (ou constituído) ou decisão coletiva. ameríndios. Terceiro Reich: Nome do período do governo estabelecidou na Alemanha (1933-1945) liderada por Adolf Hitler e o Partido Nacional Socialista Alemão dos Trabalhadores (NSDAP). 43 . Imigação: Movimento de entrada. a regulação e restrição da expressão. Itália e Japão). Genocídio: Assassinato deliberado de pessoas motivado por diferenças étnicas. com mais de 100 milhões de militares mobilizados. Regimes totalitários: Sistema político em que o Estado. Genocídio Armênio: governista Ittihad dos Jovens Turcos deportação forçada origem armênia. racialistas. Grupos Neonazistas: Associado ao resgate do nazismo tem suas origens assentadas na intolerância e em preceitos racistas. causando matança e de mais de um milhão de pessoas de Primeira Guerra Mundial: Com início do século XX. Xenofobia: Medo irracional. em Compiègne.ª Guerra Mundial (19391945) promovendo o extermínio de cerca de 6 milhões de judeus. formulada por Adolf Hitler. primando sempre pela “raça pura ariana”. há dois grupos étnicos: a maioria hutu e o grupo minoritário de tutsis. encerrando oficialmente a Primeira Guerra Mundial. de um país para outro.

Jaime Spitzcovsky (CONIB). Kanda Nehgme.. Pereira e Luiz H. Rachel Becher. Natanry Osorio. Embaixador Ivan Jancárek. Adilson Cesár de Araújo.br Realização Co-Realização Embaixada da República Tcheca Patrocínio Apoio Parceria Educativa Produção Secretaria de Estado de Educação . Jessica Paiva. Carmem Gramacho. Claudio Lottenberg. Mônica Vinovezky. Lunare G. Sr. Impressão em Braile na ABDV www. Janaina Botelho Jeremias Barros. Agradecimentos Abraham Goldstein.Brasília Abraham Goldstein (B’nai B’rith do Brasil) Karla Osorio Netto (ECCO) Maria Luiza Tucci Carneiro (LEER/USP) Espaço Cultural Contemporâneo .ECCO Direção e Coodernação Geral Diva Maria Osorio Camargo Curadoria Karla Osorio Netto Coordenação Ivan Aires Produção Giselle Queiroz Ricardo Caldeira Equipe de Agendamento e Suporte Elizete Campos Melissa Resende Equipe de Apoio e Manutenção Abgail Sousa Meneses Edson Santos Equipe de Montagem Eduardo dos Santos Francisco Bento da Silva Rubens de Oliveira Teodoro Silva Vicente Pires Administração Cláudia Alves Domingos Lacerda Júnior Vilany Batista Programa ECCO Educativo Concepção de Conteúdo do Educativo Maria Luiza Tucci Carneiro Autores Colaboradores Helena Lewin Marcelo Vieira Walsh Silvana Feitosa Silvia Rosa Nossek Lerner Túlio Chaves Novaes Consultoria Ana Beatriz Goldstein Diretora da CAL – DEX/UnB Ana Queiroz Coordenadora Pedagógica da CAL – DEX/UnB Ariane Abrunhosa Supervisão Ana Cristina Caracol Mediadores Daniel Muniz. Embaixador Giora Becher. Renata Machado Roberta Zrycki e Wilder Santos.abdv. Patrícia Lima Pederiva. Fábio Balestro. José Geraldo de Sousa Jr.gov.FICHA TÉCNICA Comissão Organizadora da Jornada . Flávia Santos. Gicia Falcão. Marcelo Vieira Walsh. Joe Valle. Leo Vinovezky. Oliveira. Regina Vinhaes Gracindo.