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Os meninos cantores do Ghetto de Varsóvia, Arquivo Yad Vashem, Israel

ECCO EDUCATIVO. Volume 30
Exposição “Os Desenhos das Crianças de Terezín”
XVI JORNADA INTERDISCIPLINAR SOBRE O ENSINO DA HISTÓRIA DO HOLOCAUSTO

Brasília, abril/maio de 2011

Material didático para educadores Como Ensinar e Estudar o Holocausto no Século XXI

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ÍNDICE
SOBRE AS JORNADAS INTERDISCIPLINARES ...................................................................................................................................3 APRESENTAÇÃO ....................................................................................................................................................................................3 NAZISMO E ANTISSEMITISMO TEORIAS E PRÁTICAS DA EXCLUSÃO, Profª. Drª. Maria Luiza Tucci Carneiro .............................................................................4 1. Da reflexão à ação .............................................................................................................................................................4 2. Temas transversais: nazismo, antissemitismo e Direitos Humanos ..............................................................................5 AS CRIANÇAS DE TEREZIN Arte e criatividade em tempos de intolerância, Profª. Silvia Rosa Nossek Lerner .....................................................................7 A Infância no Campo ..............................................................................................................................................................8 As atividades das crianças ....................................................................................................................................................9 a) Apresentação teatral ................................................................................................................................................9 b) Os desenhos ..............................................................................................................................................................9 c) Poesias .......................................................................................................................................................................10 d) As publicações ..........................................................................................................................................................10 e) Música .......................................................................................................................................................................11 LEITORES DE DRAMAS E MEMÓRIAS RELATO DE UMA EXPERIÊNCIA, Profª. Silvana Feitosa ...................................................................................................................13 1. Justificativa .........................................................................................................................................................................13 2. Objetivos .............................................................................................................................................................................14 3. Metodologia........................................................................................................................................................................14 4. Materiais utilizados para a realização da atividade em sala de aula ............................................................................16 5. Avaliação das atividades realizadas .................................................................................................................................16 DESAFIOS DO ENSINO DA HISTÓRIA DO HOLOCAUSTO (Shoah) DA “QUESTÃO JUDAICA” à SOLUÇÃO FINAL, Prof. Dr. Marcelo Vieira Walsh ...............................................................................17 1. O papel do educador na construção da Memória do Holocausto (Shoah) ....................................................................17 2. Educação em prol da promoção da Cultura de Paz, dos Direitos Humanos, Coexistência e Diálogo ...........................................................................................................................................................18 3. Holocausto (Shoah): como foi possível acontecer?.........................................................................................................19 4. O Terceiro Reich e o Antissemitismo: ...............................................................................................................................20 5. A Segunda Guerra Mundial e a “Solução Final” na Conferência de Wannsee (1942) .................................................21 LEITURAS COMPLEMENTARES ............................................................................................................................................................24 AS LEIS DE NUREMBERG A INSTITUCIONALIZAÇÃO DA EXCLUSÃO DE MINORIAS, Prof. Tulio Chaves Novaes ..................................................................24 1. PROPOSTA PEDAGÓGICA: Uma abordagem histórica sobre o processo de construção dos direitos humanos na modernidade................................................................................................................................24 2. Noções Teóricas Sobre Direitos Humanos Fundamentais .............................................................................................25 3. As Leis de Nuremberg .......................................................................................................................................................26 4. Premissas Discriminatórias de Nuremberg .....................................................................................................................27 5. A Efetivação Obrigatória dos Direitos Humanos Fundamentais .....................................................................................29 6. Ações Afirmativas e Oportunidades Sociais.....................................................................................................................29 7. Considerações finais sobre o tema ...................................................................................................................................30 SOLIDARIEDADE EM TEMPOS SOMBRIOS “JUSTOS ENTRE AS NAÇÕES” e “SALVADORES DE JUDEUS” Profª. Drª. Helena Lewin ...............................................................30 EXERCÍCIOS ............................................................................................................................................................................................35 GLOSSÁRIO.............................................................................................................................................................................................43 FICHA TÉCNICA ......................................................................................................................................................................................44

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SOBRE AS JORNADAS INTERDISCIPLINARES
Acreditamos que através da história, do teatro, da dança, da música, do cinema, das artes, da literatura e, inclusive, das ciências exatas e biológicas, poderemos promover a CULTURA DE PAZ e contribuir para o desenvolvimento de uma consciência universal de respeito aos povos ou nações, salvaguardando as suas identidades. As Jornadas Interdisciplinares vêm sendo desenvolvidas desde 2002 pela B’nai B’rith do Brasil em parceria com o LEER/USP – Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação , da Universidade de São Paulo, como segmento de um projeto maior intitulado Educando para a Cidadania e a Democracia. A B’nai B’rith – Filhos da Aliança, em hebraico, é uma entidade Judaica, presente em 54 paises e ativa no Brasil desde 1932. É membro permanente da Organização das Nações Unidas, como ONG e atua em inúmeros serviços sociais, contra o racismo, o antissemitismo e a discriminação, através de ações humanitárias e políticas, em favor do reconhecimento do valor da Declaração Universal dos Direitos humanos. O LEER tem sede no Departamento de História da FFLCH/USP sendo coordenado pela Profa. Dra. Maria Luiza Tucci Carneiro. Vários projetos são ali desenvolvidos reunindo pesquisadores de múltiplas áreas do conhecimento e alunos bolsistas, que têm participado e colaborado nos programas dedicados a promoção de valores democráticos e de cidadania. Sempre que possível, e assim tem acontecido, procuramos desenvolver as Jornadas em parceria com as Secretarias Municipais e Estaduais de Educação. Através deste intensivo programa de Jornadas Interdisciplinares visamos à capacitação dos educadores procurando minimizar as deficiências de formação e de material paradidático nas escolas que, nem sempre dispõem de condições para atualizar suas propostas pedagógicas. A atual realidade brasileira exige a revisão e a implementação do respeito aos valores e direitos humanos em prol da vida, da justiça social e da dignidade promovendo a CULTURA DE PAZ e da TOLERÂNCIA. Compreendemos que através da produção de atividades pedagógicas - que têm como motivo tema–matriz, a Shoah (Holocausto), além de outros genocídios e formas de intolerância no mundo contemporâneo – poderemos alertar as futuras gerações para os perigos das políticas racistas empreendidas por um Estado totalitário e, até mesmo, por uma sociedade desinformada, em vias de democratização. Profª. Dra. Maria Luiza Tucci Carneiro e Dr. Abraham Goldstein Coordenação Geral

SOBRE AS I JORNADA DE BRASÍLIA
Prezados professores, O material didático preparado para este XXX Encontro Técnico organizado pelo Espaço Cultural Contemporâneo - ECCO é todo em torno do tema “Como Ensinar e Estudar o Holocausto no Século XXI”. O evento é fruto de uma parceria realizada com a USP, a UNB e a Secretaria de Educação do GDF e constitui-se na XVI JORNADA INTERDISCIPLINAR SOBRE O ENSINO DA HISTÓRIA DO HOLOCAUSTO”. Paralelamente ocorrem 2 (duas) exposições sobre o tema, quais sejam: (i) “Os Desenhos das Crianças de Terezín“, em corealização com as Embaixadas de Israel e da República Tcheca, composta de desenhos feitos por milhares de crianças com idades entre 10 a 15 anos, que converteram-se em verdadeiro testemunho da experiência por elas vividas sob o rigor do cruel domínio nazista e (ii) “Variações Grünewald“, obra contemporânea em vídeo-arte e fotografia, do artista belga Geert Vermeire, em memória a um dos locais simbólicos do Holocausto, por meio de imagens e poesia. O vasto conteúdo teórico aqui reunido contém textos de grandes especialistas e poderá contribuir para complementar formação de educadores. A meta é reforçar a importância do ensino do tema do genocídio, fenômeno singular na história da Humanidade, para promover valores fundamentais como convivência, diversidade cultural e direitos humanos, bem como para reforçar a cultural da paz e da tolerância. Esperamos que o material, cujo teor é diretamente relacionado aos Parâmetros Curriculares Nacinais - PCN’s, sirva de subsídio para desenvolvimento de trabalhos em sala de aula, com exercícios interdisciplinares que incentivam aprendizagem por meio da arte, bem como colaborem para implementação do Concurso de Redação sobre o tema que é lançado com mo evento. Com este tipo de iniciativa, o ECCO reforça, ainda mais, o cumprimento de sua missão de formar público, educar com arte e gerar inclusão social, para formar cidadãos mais conscientes, colaborando de forma concreta para formação de uma sociedade melhor e mais justa. Dra. Karla Osorio Netto Coordenadora Regional Curadoria do ECCO

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O LEER tem sede no Departamento de História da FFLCH/USP sendo coordenado pela Profª. Dra. Maria Luiza Tucci Carneiro. Vários projetos são ali desenvolvidos reunindo pesquisadores de múltiplas áreas do conhecimento e alunos bolsistas que têm participado e colaborado nos programas dedicados a promoção de valores democráticos e de cidadania.

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NAZISMO E ANTISSEMITISMO TEORIAS E PRÁTICAS DA EXCLUSÃO Maria Luiza Tucci Carneiro2 1. Da reflexão à ação A julgar pelo número de pessoas que hoje negam o Holocausto ou que usam erroneamente o conceito de genocídio aplicando-o de forma deturpada à casos que não condizem com a realidade histórica, podemos afirmar que o antissemitismo e o negacionismo encontram-se na ordem do dia. Apesar dos movimentos sociais comprometidos com a luta contra a negação do Holocausto3 e o combate a intolerância, multiplicam-se pelo mundo -- incluindo aqui o Brasil -- os grupos neonazistas, os sites de exaltação ao nazismo, os atos de xenofobia e intolerância religiosa, racial ou étnica. As cartas abertas aos leitores para comentários junto aos grandes jornais brasileiros (impressos ou nos seus formatos virtuais) devem ser interpretadas como um termômetro expressivo do grau de ignorância e da força dos mitos que continuam a instigar o ódio e a violência contra as minorias. Valendo-se de uma linguagem reducionista, estes “leitores” defendem os feitos de criminosos nazistas minimizando a barbárie cometida em nome de uma ideologia. Ignoram, sem escrúpulos, ao plano de extermínio arquitetado pelo Terceiro Reich que, entre 1933-1945, culminou com a morte de 6 milhões de judeus e outros tantos milhares de ciganos e dissidentes políticos. O racismo teórico pregado por Hitler em Mein Kampf, infelizmente sobrevive movido por impulsos irracionais e/ ou acobertado por interesses políticos. Não devemos ser coniventes com a ideia de que, pelo fato de vivermos em uma democracia, temos “o direito ao erro” ainda que cada um “tenha o direito de viver segundo suas convicções”, retomando aqui o pensamento de Paulo Ricceur sobre a intolerância.4 Liberdade de expressão não deve ser confundida com a

cultura da indiferença ou com o silêncio proposital da História. E, com relação ao Holocausto, vivemos momentos críticos da ideia de verdade histórica esfoliada por discursos negacionistas sustentados por intelectuais e ativistas comprometidos com a reedição da demagogia totalitária5. Muitos, aproveitam-se da vulnerabilidade sociocultural dos cidadãos -- que nem sempre têm conhecimento do nosso passado histórico – para impôr versões maniqueístas, deturpadas por matrizes ideológicas comprometidas com avaliações simplistas. Enfim, as velhas intolerâncias, como muito bem ressaltou Elie Wiesel, “ainda estão presentes, como se sabe: as xenofobias, o medo ao estrangeiro, o ódio ao que não é como nós, o ódio racial, religioso, cultural, a exclusão. O ódio tem muitos nomes, mas nunca muda”.6 Aqueles que endossam o revisionismo histórico que nega o Holocausto, assim como outros genocídios e massacres -relembro aqui o genocídio armênio e o massacre de Ruanda - além de estarem endossando os crimes cometidos pelo Estado contra os cidadãos, estão também reforçando o ódio e as práticas de aniquilamento de um povo ou grupo. Na qualidade de educadores e profissionais identificados como “formadores de opinião” devemos ter em mente que certos valores são inegociáveis: negar o Holocausto é crime, assim como é crime admitir a apologia da crueldade e o ódio ao Outro. Para combater a intolerância precisamos ampliar os círculos de responsabilidades, pois cabe ao público e o privado gerar políticas comprometidas com o respeito aos Direitos Humanos. É com este objetivo – de incentivar o estabelecimento definitivo de sistemas educacionais que ensinem a não odiar – que proponho o ensino da História e a preservação da memória do Holocausto sob uma visão multidisciplinar. As universidades, assim como as escolas de ensino médio e fundamental, devem incentivar pesquisas e debates sobre este tema que extrapola os estudos sobre a Segunda Guerra Mundial. A realidade tem demonstrado que para combater a intolerância precisamos ampliar os círculos de responsabilidades para além do Estado. Não podemos nos

2 Historiadora, Professora Doutora e Livre Docente do Departamento de História (FFLCH/USP), coordenadora do LEER- Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação, onde desenvolve o projeto Arqshoah- Arquivo Virtual sobre Holocausto e Antissemitismo. Autora dos livros: O Anti-semitismo na Era Vargas (3ed. Perspectiva); O Veneno da Serpente. Reflexões sobre o Anti-semitismo no Brasil (Perspectiva); Holocausto, Crime contra a Humanidade (Ática), dentre outros. 3 Na primeira semana de agosto de 2010 foi firmado em Israel um compromisso de 87 países para lutar contra a negação do Holocausto e do antissemitismo no mundo. Uniram-se duas grandes entidades: a “Força de tarefas Internacional para a Memória do Holocausto (ITF) e o Bureau de Instituições Democráticas e Direitos Humanos (ODIHR), segmento executivo da Organização para a Segurança e Colaboração Mutua na Europa.” A ITF, que conta com 27 países membros, promove a memória do Holocausto através da educação, investigação e monumentos recordatórios, enquanto que a ODIHR, da qual são membros 57 países, ocupa-se de programas educativos e monitoração de manifestações de xenofobia e, em especial, de antissemitismo. 4 RICCEUR, Paul, “Etapa atual do pensamento sobre a intolerância”, em A Intolerância. Direção de Françoise Barret- Ducrocq. Foro Internacional sobre a Intolerância. Unesco, 27 de março de 1997. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2000, p. 21. 5 Importante a leitura de VIDAL- NAQUET, Pierre. Os Assassinos da Memória: ‘Um Eichmann de papel” e outros ensaios sobre o revisionismo. Campinas, Papirus, 1988; FERRO, Marc. Os Tabus da História. A face oculta dos acontecimentos que mudaram o mundo. Rio de Janeiro, Ediouro, 2003. 6 WISSEL, Elie, “Debate entre Elie Wisel, Yehudi Menuhin e Jorge Semprun, conduzida pelo jornalista Guilhaume Durant”, em A Intolerância, op. cit., p. 209.

Velhos judeus deportados, Museu Lasar Segall, SP.

Coral de crianças em Terezín, Yad Vashem, Israel

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o conceito de Estado Totalitário e Democrático. pesquisar documentos e fotografias. A elaboração de um projeto pedagógico multidisciplinar poderá envolver várias disciplinas de um programa escolar. enquanto genocídio singular na História da Humanidade. Ática. São Paulo. E esta moral -. O essencial é que os educadores tenham consciência da importância desses conteúdos garantindo-lhes um tratamento apropriado. com ênfase nos temas transversais e suas possibilidades de reflexões para um mundo mais tolerante. católica. Ática. imigração. Se avaliado sob múltiplos aspectos. a formação do Estado de Israel e os atuais conflitos no Oriente Médio. cuja aprendizagem e assimilação são consideradas essenciais para que os alunos possam exercer seus direitos e deveres”. heavy metals. seguindo as propostas dos Parâmetros 7 8 Curriculares: “formar cidadãos capazes de atuar com competência e dignidade na sociedade atual. Enfim. Tanto o debate sobre nazismo como o Holocausto passam. Rio de Janeiro. símbolos e indumentária usada para discriminar os judeus e cristãos-novos. Literatura. o professor poderá orientar o aluno a fazer entrevistas com sobreviventes do Holocausto. Aliás. Dependendo do conteúdo selecionado por cada disciplina. Primeira Guerra Mundial e o Tratado de Versalhes. 2003. brancos. Yad Vashem. Maria Luiza Tucci. SELIGMANN-SILVA. etnia ou grupo político. Ensaios sobre Memória. 9 Estas propostas foram por mim abordadas nos livros de minha autoria: Holocausto Crime contra a Humanidade. Através do estudo dos fatos e do debate sobre o uso dos conhecimentos científicos e do abuso de poder. este é um dos objetivos da escola. Daí a história do Holocausto. responsável e construtiva em diferentes situações sociais. possibilitando-nos refletir sobre a responsabilidade do Estado pela preservação da vida do cidadão. pp. ser um tema instigante para avaliarmos os limites da barbárie. Arte. necessariamente. Cabe ao professor criar situações que deixem os alunos intrigados incentivando-os a fazer pesquisas. direitos humanos. 2005. História dos Judeus da Europa na Segunda Guerra Mundial. São Paulo. rappers. O local da diferença. referências importantes para a reconstrução de um passado que nem todos querem lembrar. a luta pela preservação do judaísmo e da cultura judaíca. Língua Portuguesa: o poder de persuasão da palavra Retomo aqui as conclusões de Philippe Douste-Blazy. Múltiplas são as possibilidades pedagógicas. Por outro lado. S. os grupos raciais distintos (negros. Literatura e Tradução. 235. antissemitismo e Direitos Humanos Os estudos sistemáticos sobre genocídio. 5 . o papel dos líderes e dos intelectuais nos regimes totalitário e democrático. nestes últimos anos. os atos de salvamento. por parte da coordenação de São Paulo. Holocausto. A seguir apresentamos algumas possibilidades de cruzamentos temáticos que poderão integrar um projeto temático sobre o Holocausto. não podemos jamais perder a capacidade de nos indignarmos diante do ódio e dos sofrimentos que o homem inflige ao homem. CARNEIRO. SELIGMANN-SILVA. Universidad Hebrea. compromissos e atitudes dos cidadãos. eleger. Martin. produtos a serem apresentados em um seminário. funkeiros). através da história do nazismo e do Holocausto. 2010. Mas como passar da reflexão à ação ? Ensinando. darks. em A Intolerância. Para este ano de 2010. a Partilha da Palestina. pois o tolerância assim como o racismo não nascem com o homem: são uma conquista para o bem ou para o mal. Editora 34. o contrato dos cidadãos comprometidos com o respeito ao Outro.). Holocausto. 2007. Através de uma análise crítica das teorias e práticas da exclusão implementadas pelo Terceiro Reich a partir de 1933 (e que culminaram com o extermínio de milhões de judeus e não judeus) podemos desenvolver atitudes que favoreçam a convivência democrática e a construção da cidadania. Jerusalém. legislação discriminatória contra os judeus na Espanha e Portugal. História. Sobre este tema ver GILBERT. Campinas. envolvendo um conjunto de disciplinas: História Contemporânea: que certamente colocará em discussão fatos sobre a República de Weimar. Reflexões sobre o Antissemitismo no Brasil. BANKIER. os autosde-fé enquanto formas de “purificação” da sociedade Ibérica. o Holocausto pode alertar sobre as conseqüências catastróficas dos regimes totalitários e autoritários. El Holocausto. A escola e a sociedade devem ser vistas como espaços vivos onde a cidadania pode ser exercida e aprendida. valorizando o resgate da memória histórica e o debate de idéias. no cap. as ações de solidariedade.que implica num conjunto de leis universais que são os direitos do homem – deve integrar o contrato democrático ou seja. o papel dos líderes na História. o Nazismo e Segunda Guerra Mundial. pela compreensão dos Direitos Humanos. muçulmana e pequenas seitas). incentivá-lo a produzir um texto ou uma exposição iconográfica. A própria realidade em que vivemos pode se prestar como ponto de partida para a abertura do debate: as paisagens urbanas (com grafites e pichações preconceituosas). etc. 2003. p. Perspectiva. conteúdos que estejam em consonância com as questões sociais que marcam cada momento histórico. enquanto crime contra a Humanidade9.Paulo. Márcio (org. em São Paulo. Memória. Editorial Magnes. o professor poderá orientar o jovem aluno a posicionar-se de forma crítica. 1986. estratégias de exclusão dos judeus obrigados a residir em guetos. São Paulo. Temas transversais: nazismo. David. nazismo e antissemitismo nos oferecem amplas oportunidades para refletirmos sobre o caráter inato da intolerância. fome e degradação humana em todos os níveis se prestam para avaliarmos as consequências do nazismo para humanidade. até mesmo. O Veneno da Serpente. 63-80.8 Com este intuito elaboramos os programas das jornadas interdisciplinares sobre o ensino da história do Holocausto realizadas. Márcio. O desafio da escola está em reconhecer a diversidade etnocultural procurando superar qualquer tipo de discriminação. os grupos de jovens (punks. 2000. Crime contra a Humanidade. São Paulo. selecionar matérias de jornais noticiando os fatos e. Editora da UNICAMP. Tradução Samuel Feldberg e Nancy Rosenchan. 3 “A ação dos políticos”. grupos e povos na construção e na reconstrução das sociedades. História Medieval e Moderna: a Inquisição Ibérica e a perseguição aos cristãos-novos. o antissemitismo como um fenômeno político. 2005. assim como o perigo das idéias racistas. as comunidades religiosas (judaica. O Testemunho na Era das Catástrofes. Testemunhas de Jeová. optamos por trabalhar os temas da repressão e da resistência. 2. Hucitec. amarelos). são exemplos expressivos de resistência enquanto forma de luta para preservar a dignidade humana. 2003.esquecer que “há uma moral universal do gênero humano e que essa moral deve ser ativamente defendida”7. indígenas. como objeto de ensino. independente de qualquer religião. Imagens de morte em massa. o mito ariano sacramentado através dos estatutos de pureza de sangue. matrizes ideológicas. indagar. educando para a democracia e a cidadania. Curitiba e Porto Alegre.

1935) e os filmes Vitória da Fé (Sieg des Glaubens. das doenças. Língua Estrangeira (alemão): estudo das expressões totalitárias (Heil Hitler!) e antissemitas (judenrein = limpa de judeus). El Holocausto. A manipulação dos números e dos dados estatísticos pelas autoridades do III Reich com o objetivo de sensibilizar a opinião pública contra os judeus. cone. os livros e discursos antissemitas. os refugiados e os sobreviventes dos campos de concentração. São Paulo. o conceito de arte/raça pura e degenerada.com. índices populacionais. Geometria: o poder simbólico das formas (suástica. o conceito de “sujeira biológica” e de “limpeza racial”. literatura sobre o Holocausto. Cinema: o cinema enquanto veículo da ideologia nazista e registro da memória. Uma visita ao Museu Lasar Segall. o papel social dos médicos e cientistas (os chamados “guerreiros biológicos”). da desintegração do “eu” e da morte planejada pelo Estado nazista. Ciência Naturais/Biologia: ciência médica a serviço do nazismo. produzidos pela cineasta Leni Riefenstahl. Matemática: estatísticas populacionais e da barbárie nos campos de concentração/extermínio. Celso. da exclusão e das minorias éticas consideradas como ‘indesejadas”. campos de concentração e pontos de massacre. composição plástica das cenas (a linguagem cinematográfica). a realidade forjada e filmada no campo 10 de concentração de Terezin. Hungria. caveira). Universidad Hebrea. o papel de Speer (o arquiteto oficial do Reich) que projetou a “nova Berlim” segundo o estilo idealizado pelo regime (o neoclassicismo monumental). os padrões de beleza física adotados pelo III Reich (o culto ao classicismo. 2003. judeus. durante e no após-guerra. da arte e da arquitetura. No caso dos artistas judeus considerados pelo regime nazista como “produtores de arte degenerada” pode-se analisar o caso do pintor Lasar Segall. Ateliê Editorial. A manipulação dos números e dos dados estatísticos pelas autoridades do III Reich com o objetivo de sensibilizar a opinião pública contra os judeus. São Paulo. é uma oportunidade impar para o conhecimento da produção artística desse pintor que. Este conjunto de imagens pode ser também consultado no livro Judeus e Judaísmo na Obra de Lasar Segall. no caso os judeus classificados como “raça inferior” pelo Estado nazista. Maria Luiza Tucci. 3ed. conceito endossado pelo governo brasileiro conforme documentação diplomática sob a guarda do Arquivo Histórico do Itamaraty (consultar o site www. aqrshoah. os programas de eutanásia. os “artistas frustrados do III Reich. a mensagem dos posters políticos e antissemitas. Reflexões sobre o Antisemitismo no Brasil (Perspectiva). estrela de David. retratou a guerra. dos guetos e as condições deterioração da vida humana marcadas pela proliferação da fome. e outros teóricos racistas do século XIX). conceito de raça e minorias nacionais. os diferentes caminhos da estética. os músicos judeus do campo de Terezin e os pequenos violinistas do gueto de Varsóvia. CARNEIRO. Fotografia: a fotografia enquanto veículo de propagação do ideário nazista. Maria Luiza Tucci. etc). “repugnante”. o papel dos livros de infantis entre as crianças alemãs com suas histórias sobre os judeus e os arianos (ver livros de Karl May. 200 6 . 1933). Os meios de comunicação e a propaganda política: o poder da máquina de propaganda do III Reich na formação de uma mentalidade racista. a música de Richard Wagner à serviço do Terceiro Reich. 1986. ciganos. __________ O Veneno da Serpente. “imperfeito”. as várias edições dos Os Protocolos dos Sábios de Sião. Nesta categoria se encaixam os documentários: O Triunfo da Vontade (Triumph des Willens. BIBLIOGRAFIA BANKIER. Importante discutir o uso que as fotografias podem ter se empregadas na construção da imagem do grande salvador (no caso Hitler) ou para identificar o inimigo . etc. comunistas. Judeus e Judaísmo na obra de Lasar Segall. diários de memórias. Geografia Física. a moderna tecnologia a serviço da prática do extermínio. escultura e símbolos nazistas (águia. 1935) e Olympia (1938). círculo) e das cores (identificação das minorias: homossexuais. o papel do rádio na transmissão de valores. Jerusalém. comunistas. __________ Holocausto. livrando-se de tudo que era considerado “impuro”. autor popular na Alemanha nazista). os pogrons.objetivo. em 1936. David (org. ciganos. testemunhas de Jeová. crítica do discurso antissemita analisando os valores e personagens. etc. que teve várias de suas obras confiscadas pelos nazistas. CARNEIRO. triângulo. Estética: o nazismo como uma empreitada para “embelezar”o mundo. as leituras de Adolf Hitler (livros infantis. Editorial Magnes. Crime contra a Humanidade. Importante analisar o espaço e a construção dos campos de concentração. alterou o mapa populacional da Europa e de vários países das Américas. as caricaturas antissemitas. entre 1937 e 1946. os jornais antissemitas enquanto formadores de opinião. Romênia. Matemática: estatísticas populacionais e da barbárie nos campos de concentração/extermínio. mapeamento dos guetos. radicado no Brasil.br). as trilhas do avanço nazista (para o Leste) e as rotas de fuga dos refugiados judeus (Oeste). O Anti-semitismo na Era Vargas. em São Paulo. de Arthur de Gobineau. 2001.). Música: o jazz segundo o nazismo (enquanto música degenerada). a partir de 1933. Urbana e Humana: conceito de espaço vital. a morte nos campos de concentração.10 Arquitetura: analisar a projeção do ideário do Estado alemão através da estética nazista. cartografia da Europa antes da ascensão de Hitler. São Paulo. Dia da Liberdade: Nosso Exército (Tag der Freiheit: Unsere Wehrmacht. gritos e aclamações) e símbolos enquanto expressão da mística nazista. Em alguns casos é possível interpretar o nazismo enquanto “empreitada para embelezar o mundo” ou a arquitetura à serviço do totalitarismo. obras antissemitas do compositor Richard Wagner. LAFER. militarismo e delimitação de fronteiras. o III Reich fotografado por Heinrich Hoffmann (o fotógrafo oficial de Adolfo Hitler e membro da Comissão de Exploração da Arte Degenerada) ou as fotografias do “gueto” de Varsóvia enviadas pelo diplomara brasileiro Jorge Latour para o Itamaraty. a imigração forçada dos judeus/apátridas que. Perspectiv. Artes Plásticas: o papel da arte enquanto instrumento de protesto e de crítica social. o emprego de signos (efeitos ideológicos). Albert Einstein contra o nazismo. como Joseph Goebbels e Adolf Hitler.escrita e oral (discursos antissemitas). ciganos. etc). Yad Vashem. o conceito de países satélites na época da Segunda Guerra Mundial (Eslováquia. a força dos gestos (saudações.

2003.Paulo.Ducrocq. Literatura. Campinas. Trad. 2000. Lisboa. foi criado um gueto judaico em 10 outubro de 1941. São Paulo. pois esta havia recebido denuncia com informações do que realmente acontecia nos campos de concentração. Unesco. Literatura e Tradução. Maria Luiza Tucci. A Face Oculta dos Acontecimentos que Mudaram o Mundo. Rio de Janeiro. Possui graduação em Direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1973). 2005. Salazar e os Judeus. velhos soldados ou crianças. embora um cartaz assinalasse que as crianças “estavam em férias”. 27 de março de 1997. Mas representavam o mundo que viam e escondiam suas melhores obras nos grandes portfólios da biblioteca ou nos desvãos dos Pôster ‘Dia do Boicote’. assim como os nazistas passaram a chamálo. Papirus. atuando principalmente nos seguintes temas: judeus . Edusp. GILBERT. não encontrara no seu bolso sequer um bilhetinho enfiado às pressas. Ateliê Editorial. Praga. foi um aparelho de extermínio. A História do Genocídio dos Judeus na Segunda guerra Mundial. no relatório apresentado pelos visitantes constava “que o pessoal de ensino parece “extremamente qualificado” e o jardim da infância adequado e moderno. Rio de Janeiro. SELIGMANN-SILVA. “Debate entre Elie Wisel. 2004. 2003. democracia e cidadania. grandes transformações foram introduzidas no campo.identidade. Os Tabus da História. VIDAL. Arte. Direção de Françoise Barret. São Paulo. O campo de Theresienstadt. Editora 34. era considerado o mais famoso ”campo cultural”. 2010 RICCEUR. Memória da Barbárie. A escola parece bem equipada. O depoimento registrado do médico da Cruz Vermelha. 2003. Bertrand Brasil. Elie. durante a Segunda Guerra Mundial. Tradução Samuel Feldberg e Nancy Rosenchan. judaísmo.um jardim de infância para funcionar como escola. “Etapa atual do pensamento sobre a intolerância”. um coreto para música. 1988. este campo foi usado para fazer um filme de propaganda chamado “O Führer dá uma cidade para os judeus” e para provar à Cruz Vermelha que os judeus eram bem tratados. Campinas. os internos nada fizeram que despertasse suspeita. 27 de março de 1997. fazendo projetos. Yad Vashem. casas pintadas. Adolf Eichmann junto com Joseph Goebbels escolheram Theresienstadt como local para o campo de trânsito dos judeus do Protetorado e como moradia para os heróis (judeus) da Primeira Guerra pela Alemanha Em 1944. Márcio. confessava para a humanidade o engano em que incorrera: não observara nenhum ríctus nos rostos. 2010. a 60 quilômetros da capital da então Tchecoslováquia.cultura. Dr. é professora da Sociedade Israelita de Ensino e Cultura Colégio A Liessin e professora do Colégio Talmud Torah Hertzlia. fosse ela habitada por artistas. Unesco. Paul. Nova Stella. cidade artificial criada para propaganda. Daniel Johah. Os Carrascos Voluntários de Hitler. CYTRYNOWICZ. Marc. Os Assassinos da Memória: ‘Um Eichmann de papel” e outros Ensaios sobre o Revisionismo. SELIGMANN-SILVA. desenhos técnicos. 7 . e convencê – lo de que esses campos nada mais eram do que áreas de estabelecimento. Para dezenas de milhares de prisioneiros tratava-se de um campo de passagem para as câmaras de gás de Auschwitz.). Bertrand Brasil. 2007 CARNEIRO.Ática. Alegravam com pinturas os espaços superlotados dos dormitórios. em A Intolerância. São Paulo. Ediouro. rabinos. Foro Internacional sobre a Intolerância. como: jardineiras e balanços de crianças. 1997. O Povo Alemão e o Holocausto. Martin. sábios. em A Intolerância. era um “campo-modelo” para mostrar ao mundo as condições dos guetos e campos de concentração sob domínio nazista. Gradiva. Israel 11 Iniciou em agosto/2009 o Mestrado Profissional em Psicanálise. 2000. AS CRIANÇAS DE TEREZIN arte e criatividade em tempos de intolerância Silvia Rosa Nossek Lerner11 Na cidade de Terezín. S. Na expectativa da visita-inspeção da Cruz Vermelha e preparando-se o cenário para o filme-propaganda.Ducrocq. História dos Judeus da Europa na Segunda Guerra Mundial. FERRO. História. Ensaios sobre Memória. Celso. O Local da Diferença. 1990. 2005. conduzida pelo jornalista Guilhaume Durant”. Maurice Rossel. MILGRAM. Atualmente. Muitos internos na qualidade de figurantes ganharam roupa nova e foram instruídos sobre como se comportar e os riscos de desobediência. Companhia das Letras. Avraham. A verdade é que Theresienstadt. Portugal. Rio de Janeiro. Hucitec. Foro Internacional sobre a Intolerância. WISSEL. Editora da UNICAMP. Após a visita da Cruz Vermelha. Márcio (org. gráficos para firmas alemãs. Holocausto. São Paulo. graduação em Licenciatura em Pedagogia pelo Instituto Isabel Centro de Ciências Humanas de Sociais (1979) e graduação em História pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (1976). Foram criadas oficinas de produção artística. Pierre. Memória. Para o regime nazista. Direção de Françoise Barret. judeus .NAQUET. Roney. os barracões Sudeten e Madgeburg foram transformados em salões de concerto e um novo pavilhão foi construído.Campus Tijuca / RJ. O Testemunho na Era das Catástrofes. LAFER. Yehudi Menuhin e Jorge Semprun. Judeus e Judaísmo na obra de Lasar Segall. calçadas lavadas. Lúcia Liba Mucznik. onde os internos exerciam seu próprio metier.” Ainda se observou que havia uma cozinha especializada preparando o alimento dos pequeninos. Saúde e Sociedade da Universidade Veiga de Almeida . GOLDHAGEN.

Com o tempo percebeu-se que a ração alimentar média diária era insuficiente. Os instrutores faziam o máximo para transmitir tanto conhecimento quanto possível. nos deixou um retrato de Fritta e outro do seu filho Thomas. oferecendo-lhes um barracão para viverem entre elas. nos saraus. Em comparação com os barracões em que os adultos viviam. À noite. com sua esposa Grete e o bebê de seis meses. que participara da seleção dos que iriam partir para o leste. As crianças de Terezín eram crianças como o são em qualquer lugar. separadas conforme a idade e o idioma que falavam. como que aguardando a morte. Havia um barracão para crianças a partir de 10 anos e havia o L318 para crianças até 10 anos. Bedrich Fritta. ainda mais uma criança. 8 . As obras desse artista causam consternação e dor porque narram a verdade que os nazistas escondiam: filas de deportados fustigados pelas chuvas. Quando em 1944 os meninos foram conduzidos à câmara de gás. economia. Aos poucos foram sendo tiradas das casernas superlotadas e sendo alojadas em blocos de moradia. onde viviam cerca de 100 crianças. que sobreviveu. adotou o filho de Bedrich. teatro de marionetes. escritores e do humorista tcheco Karel Polácek com quem conversavam. a corais. Acusação: fazer propaganda mentirosa (Greuelpropaganda) para prejudicar a imagem do gueto. sonhos e esperanças. morte. as crianças assistiam à leitura de poesias e histórias. onde expressavam seus sentimentos. Muitos deles. Pinturas e desenhos se tornaram bastante popular entre as crianças de todas as idades e era permitido pelos nazistas. Este jovem imaginativo inventou histórias. ciências. Essas representações nos contam sobre sua vida diária no gueto. sobre os transportes que saiam do gueto. e seus pais só podiam vê-las algumas tardes na semana. pinturas e poemas. os judeus deixarão de existir. pelos quarteirões e dormitórios. Os nazistas diziam: “Deixem que eles se divirtam um pouco. Havia também jornais. que sobreviveu. militantes comunistas ou sionistas. Os outros foram deportados para Auschwitz onde Bedrich Fritta morreu. cientistas. Para o administrador Redlich. Seu nome verdadeiro era Fritz Taussig. por isso encontramos esse tipo de atividade feito em diferentes tipos de papel. A Infância no Campo Aproximadamente 15 mil crianças viveram em Theresienstadt. sobre seus pensamentos. saúde. Leo Haas. em comunidade e encorajando-os para atividades culturais e esportivas. estreitos e super populosos. isto dava uma certa tranquilidade para as crianças. e até a óperas escritas para elas. Os aspectos mais cruéis do gueto não lhes foram poupados. crianças com olhos que nos enviam mensagens aflitivas. Seu discípulo e amigo Leo Haas. pela neve. E decidiu-se que os trabalhadores braçais e as crianças receberiam porções suplementares. Algumas dessas crianças vieram de orfanatos judaicos de Praga. As crianças. doenças e transportes. Um deles Otto Ungar teve sua mão destruída para que não pudesse mais pintar. Interrogados em presença de Adolf Eichmann foram aprisionados na Pequena Fortaleza com suas famílias. jogos e canções para entretê-los e criou uma ilha de humanidade e de esperança dentro do sinistro espaço de Birkenau.” Os SS requeriam o trabalho das crianças maiores de 14 anos na produção de guerra e só permitiam o ensino do trabalho manual.sótãos. O vôo desses artistas se interrompeu em 1944 com a prisão de cinco membros do atelier. As pinturas. abastecimento. outras possuíam seus pais no gueto (mas não podiam viver junto com eles). Bedrich expressou sua cólera em duzentos desenhos que enterrou no solo dentro de um cofre de ferro. Esses concertos serviram de matéria prima para ilustrar o fraudulento filme de propaganda do Gueto Paraíso. a administração judaica conseguiu autorização da Gestapo para oficializar a realização de atividades musicais durante as horas de folga. roubavam alimentos e carvão para se aquecer e presenciavam cenas que nenhum ser humano deveria presenciar. acreditavam numa sociedade fraternal a ser construída no futuro. Para essas crianças. Por isso encontramos em seus desenhos. muito se preocupava com o grande contingente infantil que ali chegava. Quando os campos de extermínio estiverem concluídos. que se encarregava do policiamento. colagens com papel usado e antigo. medos. testemunhou sobre a vida das crianças em Terezin. assistiam também às cenas de deportação dos próprios pais. A administração judaica (Judenrat). previamente combinado. e sobre a partida de familiares e amigos. bem como sua participação em atividades culturais dos adultos. trabalho. viam mortos nas ruas. Desde logo. pelo frio. responsável pela organização infantil de Terezín. desenhos e poemas são a melhor forma de conhecer como as crianças se sentiam em Theresienstadt. de onde não voltaram mais. contudo. chegou a vez de partir também e foi no último comboio para Auschwitz. histórias contadas. a administração judaica deu-lhes atividades educacionais e esportivas. morrendo alguns meses depois. além das canções compostas no campo. tinha seu braço direito no alemão Freddy Hirsch. ele se suicidou. O atelier de desenho era dirigido por um artista extraordinário. jovem esportivo e muito ligado aos alunos. ensinando-lhes também a viver juntos. gráfico e caricaturista em Praga. onde no Bloco das Crianças continuou sua obra de educação com esforços heróicos. encontrado em um depósito e aprovou a realização de concertos. Aos velhos eram dadas quantidades menores e assim rondavam as latas de lixo em busca de comida. interno em 1941. outras sós. sentimentos profundos desproporcionais à sua idade. músicos que tocam no Caféconcerto com rostos sem expressão. dele se ocupavam pedagogos conceituados da Europa. Freddy acompanhou as crianças quando foram enviadas para Auchwitz. esse grupo foi rodeado por mestres devotados. encontrados nas oficinas. Egon Redlich. algumas chegaram com suas famílias. divulgando sua obra. No outono de 1944 os trens para Auschwitz levaram a maioria das crianças do gueto. mas por causa da fome. O ensino da história.Birkenau. lazer . Com o passar dos meses. elas cresceram mais rápido tornando-se pequenos adultos. Thomas e anos depois. O alto comando liberou os trabalhos de recuperação de um velho piano. As crianças recebiam visitas de filósofos. Mas o material para desenhar não era abundante. línguas e literatura era clandestino.

as crianças pintaram sobre quase qualquer superfície que tiveram por perto .. Com meios tão pobres a arte se Cartaz da opéra infantil Brundibár. Ela ensinava as crianças a pintar e desenhar. O que mais aparecia nas pinturas eram funerais. as festividades em casa e a família em torno da mesa e temas ligados a paisagens de ruas e cidades.” Também nos seus pavilhões havia apresentação de teatro. havia apresentação de marionetes. ora na própria apresentação.” Brundibar foi apresentada para a Cruz Vermelha Internacional. é nosso amigo e pode vir brincar conosco. nós esquecíamos a fome. A ópera se encerra com as palavras: “Aquele que ama a justiça. Todos ficaram muito bem impressionados. Lideradas por animais domésticos. Frederieke Brandeis. no dia 23 de junho de 1944. Yad Vashem. As crianças tiveram em Friedl Dicker-Brandeis (Frederieke Brandeis) uma mestra excepcional. vencendo e expulsando Brundibár. de seus familiares. crianças brincando. procedeu a sua revisão adaptando-a aos instrumentos existentes entre os músicos prisioneiros e iniciando em seguida os ensaios com as crianças. citamos a peça Esther (uma peça tcheca que tem relação com a Ester bíblica) e que foi adaptada para as crianças de Terezin dirigida por Hans Jochowitz (interno do campo). onde as crianças participavam. ali abandonados. só cem sobreviveram.AS ATIVIDADES DAS CRIANÇAS a) Apresentação teatral Hans Krasa escreveu a ópera infantil BRUNDIBÁR em 1938 e como prisioneiro de Terezín. A 55ª récita teve de ser cancelada por falta de cantores. Nos primeiros tempos do gueto. Brundibár era o nome do terrível tocador de realejo que monopolizava a rua. Encontramos desenhos feitos pelas crianças do barracão L318. Ela. acabou caindo nas mãos dos nazistas. assim como materiais combinados para formar textura. foram utilizados pelas crianças. crianças estudando sob a vigilância de soldados do gueto. incentivando a sua imaginação e criatividade para expressar suas dificuldades. nós esquecíamos onde estávamos. era uma das crianças que cantava na apresentação de Brundibár e sobreviveu para contar que “quando nós cantávamos. mas a maioria foram feitos por meninas de 10 a 15 anos de idade e. Thomas Fritta-Haas.com poucos gizes de cera e aquarelas. Esses desenhos. Israel 9 . Israel Representação teatral num celeiro Bedrich Fritta. muitas vezes com um repertório escrito pelas próprias crianças. foi aluna da Bauhaus. Na maioria das vezes. nascida em Viena. ainda mantêm o dramatismo da época e a tragédia que os determinou. Eram apresentações bastante encorajadas pelos adultos . conforme atestam os desenhos infantis que hoje pertencem ao Memorial de Terezín.. Quando as crianças estavam no palco apresentando-a. embora não tivessem material suficiente naquele ambiente subumano. Os formulários da antiga guarnição da fortaleza. Anna Flachová sobrevivente do “lar de meninas” L410 de Terezín adorava Brundibár. impedindo dois irmãos de nela poderem pedir algum dinheiro para ajudar a mãe doente. Renomada arquiteta de interiores em Berlim. com a infância roubada: “Sentíamos falta de ser ainda crianças”. Esse material. como pelo reencontro. prados verdes. em Weimar. não só pela alegria de cantar. ora na confecção de suas roupas. Stein Weissberger. ainda que por alguns momentos. onde seguiu cursos com Paul Klee e outros mestres. mesmo mais de sessenta anos depois de realizados. temores e expectativas de retorno ao lar e o encontro com seus familiares. era o único momento permitido para remover a estrela amarela. as crianças colocavam nome e idade nos seus trabalhos. Em Terezín levou as crianças a estudar as cores e a luz e a fazer colagens sobre desenhos. a ópera BRUNDIBÁR teve diferentes elencos. Das 15 mil crianças judias de Terezín. todas as crianças da rua uniram-se aos dois irmãos. que sobreviveu. recortados e aparecendo sob uma nova luz. saudades e esperanças e compartilhar suas ansiedades. de flores e animais. Curiosamente foi encontrado um Mickey desenhado numa lasca de madeira. pratos com muita comida. que lhe permanece fiel e não tem medo. de imaginação e fantasia e de suas experiências de vida dentro do campo de concentração. serve como testemunha silenciosa da riqueza interior de seus criadores em face de seu trágico destino. apesar da maioria das crianças não terem sobrevivido. outras vezes escrito por adultos para as crianças apresentarem. Como exemplo dessas apresentações. b) Os desenhos No pavilhão das meninas L410 vivia a desenhista Friedl Dicker-Brandeis. Em Terezin. sendo substituídos conforme as crianças eram enviadas para Auschwitz – e foi apresentada 54 vezes. Yad Vashem. Viena e Praga. Para essa apresentação sempre havia um grande público. de brincadeiras infantis.

faz e o seu amor pela liberdade de criação se expressa num texto de Brandeis chamado “Sobre a arte das crianças” onde ela questiona: “Dirigir os lampejos de inspiração das crianças. da cidade amada para onde um dia queriam retornar. Outra publicação preparada pelas crianças do Pavilhão L 414 e que durou pouco tempo chamava-se BONAKO. em 1944. temos A Borboleta escrito por Pavel Friedmann (7. Os desenhos eram povoados de imagens do lar perdido. mais do que última . acompanhados. E que. aquarela. foi produto do trabalhos dos meninos do pavilhão L 417. quando não existe direito? Para que existe o sol. confiou a pessoas de sua confiança onde as malas estavam escondidas. Yad Vashem. não perca seu humor Segure-o que dias melhores virão. e as pessoas que trabalhavam nesses lugares eram entrevistadas. porque desejava beijar o mundo pela última vez. que chegou a 55 números..1944) . Há sete semanas eu vivo aqui. tanto quanto os desenhos evidenciam a recordação dos lares perdidos e da infância que lhes foi roubada. Yad Vashem. aquarela. Os poemas. Borboletas não vivem aqui. Uma das seções chamava-se Passeando por Theresienstadt e compreendia descrição de diferentes lugares do gueto como padarias. como o abaixo encontrado no diário de Raya Englander(14 anos) e morta em 1944 em Auchwitz: Depois da tormenta vem o sol Depois do deserto vem a floresta Depois da sexta vem o shabat Depois do inverno a primavera bate na nossa porta Não fique deprimido. casa central de banhos.sobrevivente) Vista de Terezín a noite. Israel Edita Polachova (02/07/1925 . outros maturidade. Os poemas foram encontrados nos sótãos. O jornal inteiro. escrito em 1943. assim como a amargura de terem sido arrancados de sua vida normal. incluindo desenhos. suas súbitas iluminações é criminoso. Mas eu encontrei minha gente aqui. incluindo desenhos e poemas das crianças.1. Alguns poemas denotam infantilidade. a BoRBoLETa A última. em 6 de abril de 1942 e que deu origem ao livro “I Have never seen a Butterfly around here” (Eu nunca vi uma borboleta aqui)..1922 – 29. Cheia de vida e brilho. Tristemente dentro desse gueto. Os meninos do Quarto 7 do Pavilhão L 417 publicaram o RIM.sobrevivente) Paisagem Noturna. Israel 10 . RIM (sinal de reunião da turma) que publicou 21 números e os meninos do pavilhão de crianças Q 690 publicaram um jornal chamado Kamarád (“Amigos”) que chegou a 22 números e a publicação Noviny. Só que eu nunca mais vi outra borboleta. quando não há dia”. No gueto. esse material é de propriedade da Sinagoga Pinkas em Praga. Dentre os poemas encontrados. RIM.9. Pavel faleceu em Auchwitz. trecho do poema de Hanus Hachenburg (1929-1944). que amarelo! Foi carregada levemente para o alto Foi-se embora.Antes de ser deportada para Auschwitz. Atualmente. em diferentes seções. na Biblioteca e nas revistas que eles publicaram dentro do próprio gueto. de desenhos. o mais conhecido era VEDEM(Avante!) órgão da “República Skid”. Talvez se as lágrimas do sol pudessem cantar E escorrer sobre a pedra branca. etc. Aquela borboleta foi a última. d) As publicações Em relação aos jornais produzidos em Theresienstadt. que teve pequena tiragem. mas a maioria mostra a espera por dias melhores. eu tenho certeza. c) Poesias “Para que serve o mundo. Friedl reuniu em 2 malas mais de 5000 trabalhos feitos pelas crianças. cheia de encanto amarelo. Era semanal e foi produzido por um periodo de 2 anos. Terezín concentrou em si a resistência à “banalidade do Eva Riesova (25/07/1931 . a capela mortuária. Devemos a Friedl Dikker-Brandeis o fato dos desenhos terem sido preservados. muitas vezes. As flores me chamam E os galhos floridos das castanheiras no campo. Por que os adultos se apressam tanto em fazer com que as crianças se assemelhem a eles? Somos a tal ponto felizes e satisfeitos com nós mesmos?” Suas aulas serviam como um meio de reconstrução psicológica dos pequenos prisioneiros.

Os mais velhos apreciavam muito essa visita pelos momentos de prazer que lhes proporcionavam. Em Leningrado havia um orfanato que recolheu meninos abandonados de guerra: era a “Escola (Shkola) de educação social e individual Dostoievski”. os adolescentes do Bloco L 417 proclamaram em Terezin uma república de jovens que denominam República Skid. Eles viam tudo.mal” apresentando-a em formas expressivas na música. Vive-se lá sua vida “Como se“ isso fosse vida E se alegram com notícias 11 . com as iniciais desse orfanato. Ao Conselho dos Judeus coube a amarga tarefa de selecionar os que deviam partir nos comboios da morte. Em 1943. Havia 2 professores de música que organizaram um coro. piratas e far-west. Und spricht von schöner Zukunft. und freuen sich mit geruchten “Als ob” die Wahrheit war. Und mancher ist mit manchem Auch manchmal ziemlich grob Daheim war er kein Grosser. Nem todas as pessoas devem Nessa cidade morar Tem que ser eleito Para “como se” ter raça pura.. alemão e hebraico.. descobertas. Hier macht er so “als ob”. ja. Des Morgens und des Abends trinkt man “als ob” Kafee Am Samstag. para que elas tenham consciência do mundo fictício em que estavam vivendo. Die menschen auf den strassen die laufen in galop wenn man auch nichts zu tun hat tut man doch so “als ob”. A revista Kamarád ainda publica seu último número onde os amiguinhos prometem se reencontrar depois da guerra numa certa rua de Praga. ou mesmo permanecer vivo”. uma nuvem sombria avançava sobre a Europa. Até a administração judaica é criticada: “sem proteção não se pode obter coisa alguma no gueto. Nicht alle leute durfen In diese Stadt hinein Es mussen Auser wahlte der “als ob” Rasse rein. Como se Eu conheço uma pequena cidade Uma cidade bem tip top Eu não me lembro qual seu nome Eu chamo a cidade “como se”. deportadas entre 1942 e 1944 para os campos do leste. principalmente para as crianças. das 8. Revelavam o que foi o quotidiano no campo. se escreviam aventuras em capítulos: viagens na estratosfera. “Als ob” nicht so schwer. am Samstag Da gibt´s “als ob” Haché. Es Gibt auch ein kaffeehaus Gleich dem café l’ Europe Und bei Musikbegleitung Fühlt man sich dort “als ob”. Man stellt sich an um Suppe “Als ob” da etwas drin Und man geniesst die Dorsche “Als ob” Vitamin. Por ocasião das festas judaicas. o jovem Walter Roth. no teatro. também se desenhava história em quadrinhos. Man legt sich auf dem Boden “Als ob” es wär ein Bett Und denkt an seine Lieben “Als ob” man Nachricht hätt. As meninas cantavam em tcheco. passavam à noite de mão em mão. Enquanto a República Skid afirmava seus princípios esperançosos na revista Vedem (Avante!). únicos. Essas revistas em geral manuscritas eram ilustradas por lápis de cor e aquarela. Alguns professores se inspiravam em modelos de pedagogia soviética adaptados de comunidades de crianças abandonadas durante a guerra. Leo Strauss produziu uma música chamada Als Ob (Como se) e que foi apresentada. na pintura. as meninas visitavam os mais velhos e cantavam para eles. sabiam tudo e observavam com aquela justiça insubornável das crianças. O coro tinha um importante papel para manter as meninas unidas. na poesia a arte da denuncia. E elegeram como presidente. Die leben dort ihr Leben “Als ob” ein Leben war. Enfim. “Als ob” schon morgen wär. e) Música No pavilhão L410 também se fazia música. No outono de 1944 os trens para Auschwitz levaram a maioria das crianças do gueto. como podemos ler a seguir: als ob Ich kennn ein kleines stadchen ein Stadchen ganz tip top Ich nenn es nicht baim namen ich nennes die stadt “als ob”. somente cem crianças sobreviverão. um “sentimento coletivo elevado” animava os jovens e seus pedagogos.764 crianças e jovens. O Conselho tentou reter as crianças até o fim. Seus exemplares. Roth. explorações polares. Os jovens redatores de Kamarád nunca mais se verão numa certa rua de Praga. Nem a valorosa República Skid virá cumprir suas promessas. através do trabalho e disciplina relatou que havia a responsabilidade entre os “camaradas” de querer transformar seu destino numa “realidade alegre e consciente”. Man trägt das schewere Schicksal. Mas.

que dia após dia cheira estranho e carbônico. talvez um pouco de batata e um copo com o que seria café. Quinze corpos torturados com medicamentos. Mães que procuram por um sorriso. Trinta olhos que procuram a tranquilidade. EM TEREZIN Quando chega uma nova criança Tudo parece estranho para ele Onde. saudando cada uniforme que passa. 12 . Autor desconhecido. Lá tem “como se” fosse uma refeição. “Nós ficamos na fila das 7 da manhã até meio dia e de novo às 7 da noite. ora não caminhar na calçada. entre sujeiras e imundícies e ver médicos sem ter o que fazer. “Como se” não fosse tão pesado. que eu fique bom. A beleza do ar. Então eu gostaria de viver e voltar para casa. E alguns estão com outros Que por vezes se sentem grandiosos Em casa não era grandioso Aqui se comporta “como se”. DEPOIMENTO DE PETR FISCHL (9/setembro /1929 – Auschwitz-1944) retirado do livro I Never Saw Another Butterfly. se a vida é tormento. Nós nos acostumamos a ver pessoas morrer nos seus excrementos.1944 ME DESTRÓI a DoR. Ficamos numa longa fila com um prato na mão. Nós nos acostumamos a ver isso o tempo todo. pequeno paciente. nas canções e nas estórias que elas deixaram em Terezín. quando não há dia? Para que serve D’s? Apenas para punir? Ou um nova humanidade para moldar? Ou somos apenas bestas que sofrem Para apodrecer sob a vontade da paixão? Para que serve a vida. Quinze placas com nomes. Que uso tem a arte humana e a ciência? Beleza das mulheres. “Como se” lá tivesse algo E se se delicia com algo “Como se” fosse vitamina. no qual ele colcocam um pouco de água morna com sal. ora podemos caminhar na calçada.1929 -10. e depois de muito. a DoR DE TEREZIN Quinze camas. A comida é um luxo aqui.7. muito tempo. enfermeiras que trazem os termômetros. “Como se” deles tivéssemos notícia. Nós dormimos sem cama. Quinze corpos que aqui querem viver. encontrado no Pavilhão dos meninos L 410.“Como se” isso fosse a verdade. de ver doentes 12 . As pessoas nas ruas Correm num galope Mesmo quando não se tem nada a fazer Finge-se “como se” tivesse. A manhã e a noite Bebe-se “como se” fosse café E aos sábados. E se carrega o pesado destino. nos poemas. A gente se deita no chão “Como se” fosse uma cama E pensa em seus amores. Colocamo-nos para a sopa. A santidade do sofrimento. O mundo uma fortaleza contra a luz? Saiba: todas as coisas são como são aqui Que você seja um homem! E lute! HANUS HACHENBURG. Apesar de tudo. para ajudar aos pequenos sofredores. A noite é muito longa e o dia curto. E tem também uma cafeteria Igual o Café l’ Europe E no acompanhamento musical A gente se sente “como se”. sim aos sábados.7. Porém. que não me importa. de ver carroças cheios de corpos. Quinze pessoas sem nenhuma linhagem. saídas do cárcere. E UMa RESPoSTa.” Exemplo de alguns poemas escritos em Terezin: PERGUNTaS. As crianças nunca mais voltaram. “Como se” o amanhã tivesse chegado. seus nomes ficaram para sempre gravados nos desenhos. Queria ficar aqui. Camas manchadas com sangue de outros tempos. de Hana Volavkova. fresca como maio? Que uso um mundo que é mera ilusão? Que uso o sol. Cabeças raspadas. enfermeiras que deixam para trás só uma sombra. no chão eu vou deitar? Todas essas atividades cessaram quando começaram os grandes transportes a partir do inverno de 1944. aguardando a visita diária dos médicos. milhares de almas infelizes vindo para cá e outras milhares de almas infelizes que se vão e não voltarão. não quero ir embora e deixar os quartos com luz e os olhos ardentes. Nós nos acostumamos a bofetadas sem razão. tiros e execuções. E se fala de um bonito futuro.

Todos sabemos que moscas trazem doenças Oh! Algo me mordeu! Será que foi um besouro? Aqui em Terezin. Minha cidade. culturais e individuais. MIROSLAV KOSEK. sueño de la vida y de la historia Leon Gieco 1. 30. y los que en cualquier guerra se cayeron Todo está guardado en la memoria. minha terra nativa. Eu contemplo e contemplo em direção a meu lar. do escritor italiano Primo Levi. Susan Goldman – Fireflies in the Dark: The Story of Friedl Dicker-Brandeis 12 Arte Educadora. de nele suscitar a ação transformadora. numa construção cênica interativa entre atores e espectadores. todas las promesas que se van.Brundibar LAQUEUR. por meio da análise da representação cênica. Eu contemplo e contemplo em direção sul-leste. ainda não posso dizer. isto é.1944 DEPENDE DE CoMo SE VÊ I. 4. Você a acha em todo lugar.10. L 410. choros. E oh! Tantas moscas. Perante seus olhos agora está claro E ao longo da rua a passos largos Muitos pés marchando eu ouço. la ilusión de los que perdieron. torna-se um espaço privilegiado para se trabalhar a autenticidade das relações humanas. Hana . eu tenho medo! Eu tenho que dormir nele? Eu vou ficar todo sujo! Aqui o som de gritos. é empoeirado. 1943 LaR Eu contemplo e contemplo o largo mundo.9. Sua estética teatral com intuito didático tem a intenção de apresentar um palco científico capaz de mostrar ao público a sociedade e a necessidade de transformá-la. professora do Centro de Ensino Médio Setor Oeste. A antropologia teatral. Essa e outras temáticas estão contidas na concepção épica de Brecht: o ser humano deve ser compreendido com base nos processos por meio dos quais existe. o homem na condição de escravo de um sistema no qual se tornara praticamente difícil modificar a situação na qual vivia em conseqüência do sistema totalitário. possibilitando-lhe ser protagonista de mudanças sociais. do respeito e de convivência com o outro? Partindo de questionamentos dessa natureza fomos encontrar na obra O Terror e a miséria no III Reich. TEDDY. Eu vislumbro meu lar Em direção a cidade onde nasci. vida é inferno E quando eu vou para casa. Outra opção de leitura foi direcionada ao estudo da obra literária É Isto um Homem?. Um quarteirão kilometros de terra Me tira do mundo que é livre II. FRANTA BASS. de Bertolt Brecht. A proposta se faz a partir da leitura vinculada aos seguintes questionamentos: • Como e qual seria o papel do indivíduo no processo de mudança social? • Como e em que condições ele “faz” a História? • Qual o papel de cada indivíduo em busca de construção da tolerância. O largo e inteiro mundo está sob as regras De uma determinada justiça.Theresienstadt GUTMAN. Jehuda and DRORI. Essa prática transcende o espaço destinado à ilustração do texto escrito. Tony . olhe. JUSTIFICATIVA A proposta consiste na força tarefa de desenvolver uma experiência em sala de aula que desperte o interesse dos educadores a respeito das memórias do Holocausto e o dilema de sua transmissão na sociedade global da atualidade. Hana – I never saw another Butterfly RUBIN. deve ser concebido como conjunto de relações sociais.Comer batas pretas? Não! Não eu! Eu terei que ficar? Aqui está sujo! O chão. especialista em Teatro-Educação. Brecht chamava suas peças de “experimentos”. BIBLIOGRAFIA VOLAVKOVA. de ativar o público. Morte.1944 HUPPERT. ao mesmo tempo.3. E agarra qualquer um Que coloque seu semblante para fora. sendo portanto experimentos sociológicos. Walter . Brasília-DF.1930 – 28. O grande e distante mundo. fazendo uma analogia com as Ciências Sociais. mostra o comportamento do indivíduo em sociedade. No Gueto de Terezin.The Holocaust Encyclopedia LEITORES DE DRAMAS E MEMÓRIAS RELATO DE UMA EXPERIÊNCIA Silvana Feitosa12 Los viejos amores que no están. fornecendo-lhe recursos para avaliação do seu vínculo com o grupo. depois de tudo. gritam todos. Israel – Holocausto Y Memoria KUSHNER. 13 . assim Isto talvez ajude a adoçar A dor e a tragédia do pobre homem.1932 – 19. O caminho que me aparece. formada pela Faculdade de Artes Dulcina de Morais. Terezin está cheia de beleza. Como seria feliz se eu retornasse para você.10.

e ter sido escrita entre 1935 e 1938. • Contribuir para a formação de senso crítico contando e recontando a história com o propósito de promover a avaliar o passado para compreender o presente aprendendo com as lições a partir do Holocausto. normas e sanções? Nessa relação. do escritor italiano Primo Levi. comparando com os jovens de nossos dias cujo o papel procuramos enfatizar para a construção de uma sociedade mais justa. sempre citado.Registro de comentários com as impressões pessoais e opiniões dos alunos na página de relacionamentos criada no Orkut para fins de diálogo pedagógico entre os alunos e professora. no turno de atuação dos alunos (vespertino) de acordo com o cronograma das aulas de Artes Cênicas. Paralelo a leitura da peça. detalhes expostos pelo professor Marcelo. que colaboram para formação da identidade individual e coletiva. Mas. A etapa final se concretizou com a realização da leitura dramática da peça Terror e Miséria no III Reich. Comprei o livro numa livraria virtual. 3. Durante 2 meses de leitura os alunos se dividiram em pequenos grupos para elaborar um roteiro de apresentação da peça como parte da avaliação do processo de aprendizagem. o que acontece com aquele que não se adapta? Em É Isto um Homem? podemos identificar as respostas para tais questionamentos. estudantes. étnica. o controle de suas escolhas. posicionamentos frente a aceitação de regras impostas por um sistema totalitário e antissemita. por isso. como são aplicadas as sanções? Qual a relação entre papéis. METODOLOGIA As atividades foram desenvolvidas dentro do tempo regular das aulas. Alguns personagens não se ajustam a determinada norma e. Daí. coexistência e Direitos Humanos. A primeira etapa partiu da leitura da obra O Terror e Miséria no III Reich. rádio ou qualquer forma que pudesse levar a informação além das fronteiras do Reich.Roda de leitura selecionando capítulos do livro É Isto um Homem? E poemas para debate com a presença do professor Marcelo Walsh – Pesquisador do LEI/USP: Linha de Pesquisa “Holocausto e Antissemitismo”(2008). As tarefas relacionadas à leitura do livro são: tarefa 1 . A obra de Levi é otimista dentro deste universo literário. fazendo uso de recortes de jornal. Como o encontro com a diversidade artística. por tratar do panorama da vida na Alemanha nazista. tirei 25 cópias das cenas e montei o texto em recortes facilitando o acesso a leitura em sala. Primo Levi foi deportado para o campo de concentração de Auschwitz com a idade de 24 anos. O Führer é um personagem de fundo.). • Desenvolver o senso crítico e reflexivo de ações transformadoras das relações sociais através de leitura da obra É Isto um Homem?. religiosa e com as diferenças de orientação sexual e de gênero interfere na constituição dessa identidade? Como podemos constatar isso? Através dos papéis sociais representados por personagens das duas obras citadas acima podemos fazer as diversas leituras dos papéis sociais que representamos no meio em que vivemos. Dentre as peças de Brecht esta me chamou muito a atenção. Nos grupos sociais em geral. peça teatral contendo 24 cenas.. sendo as dúvidas resolvidas no grupo respeitando o ponto de vista de cada um. qual seria o grau de autonomia do indivíduo? Por intermédio de que processos ele se torna membro da sociedade? Enfim.Sabe-se que. solidária e igualitária.seguida da leitura de trechos e passagens do livro pelos alunos. símbolos. etc. As turmas escolhidas foram as turmas do 2º ano do ensino médio: 2º G. Brecht vivia então na Dinamarca. • Transformar a leitura em memória viva do Holocausto procurando avaliar as ideologias e controvérsias do Terceiro Reich utilizando o espaço cênico. idéias. Tarefa 2 . O livro insere-se na vasta obra testemunhal escrita sobre a experiência dos campos de concentração e extermínio dos judeus e outras minorias pelos nazis. as insígnias triangulares na cor verde. são submetidos a um conjunto de sanções simbólicas e físicas evidentes em cenas que se desenrolam em campos de concentração: a substituição do nome por números. representações sociais que tendem a influenciar suas ações. nos grupos humanos. cenários virtuais com referências imagéticas do contexto histórico das ações. Após a leitura abrimos o debate para esclarecimentos de fatos e do próprio momento da vivência do autor. A leitura nos favorece uma imersão na situação dos jovens daquele tempo. as personagens. • Ensinar aos alunos os valores da democracia e dos Direitos Humanos. o indivíduo desenvolve seus papéis de acordo com normas. Nesta ocasião. A abertura da roda de leitura foi com o poema do Primo Levi (. acessórios. do escritor italiano Primo Levi. OBJETIVOS • Realizar em sala de aula a leitura de fragmentos selecionados das obras O Terror e a Miséria no III Reich e É Isto um Homem? Este exercício deverá ser realizado dentro de um processo de aprendizagem onde se busca a qualidade e a eficácia do ensino no cumprimento de competências e habilidades do programa de avaliação seriada promovido pela universidade federal (UNB) para que os alunos alcancem êxito em sua avaliação que ocorre de forma processual ao longo dos 3 anos do ensino médio. como nos tornamos quem somos? O que é ser homem? O que é ser mulher? O que é ser branco? O que é ser negro? O indivíduo compartilha valores. utilizando-se 14 . cultural. professores e policiais. os alunos foram convidados a ler o livro É Isto um Homem?. roupas. e para encorajá-los a repudiar o racismo e a promover a tolerância na sua respectiva sociedade. história de famílias. conforme suas escolhas. H e I. Fazendo um contraponto com o presente é possível avaliar a liberdade de escolhas. as estrelas vermelhas e amarelas para selecionar grupos étnicos. • Informar e educar o aluno sobre questões de tolerância. (endereço eletrônico: hypokrites. regras e valores. Foram selecionadas 9 cenas para a leitura. Em seu texto apresenta diversas situações do cotidiano. • Desenvolver o bom hábito da leitura dramática através da obra O Terror e a miséria no III Reich do dramaturgo alemão Bertolt Brecht.cemso@gmail. que enriqueceu o debate reflexivo em torno da questão do Holocausto.com). mas nunca aparecendo de fato. e tenta demonstrar que é possível acreditar e apostar no homem após Auschwitz. notícias recebidas da resistência. 2. seremos capazes de responder de forma crítica e reflexiva aos inúmeros questionamentos aqui elencados. sendo necessária a cópia do texto para ser lido em sala.. Através desta leitura procuramos identificar e analisar os conceitos de liberdades individuais e invasão da esfera privada pelo Estado. sentimentos.

O enredo enfoca a personagem Branca Dias. Hanukah em tempos de Holocausto. sabe ler e suas leituras mostram que seu espírito está minado por idéias exóticas. • Conexão com outras disciplinas – Nas aulas de Filosofia o estudo se deu a partir do capítulo 16 – A Memória da autora Marilena Chauí – Editora Ática. O objetivo de resgatar a memória utilizando atividades que interagem entre si contribui para que os alunos percebam o passado não como um tempo longínquo onde a história registra fatos esquecidos e estagnados na lembrança morta. morreu no cárcere. o Visitador (personagem que representa o Clero) diz: Acho que nos iludimos com ela desde o princípio. em 2002. Seus ossos foram desenterrados e queimados. como todos os de sua raça. Com a presença do Tribunal do Santo Ofício no Brasil. Em 2011 buscando mais uma vez tratar do estudo do holocausto em sala de aula com as turmas de 2º Ano. 18-20). imagens imaginárias de um tempo real e cruel vivido pela humanidade e que não poderá jamais apagar-se da nossa memória. A fogueira foi o destino de muitas mulheres. nasce o projeto O Dever da Memória com as seguintes estratégias metodológicas: • A partir do estudo do Teatro Épico e de leitura e montagem das cenas O Batalhão do Pântano e A Judia. Ainda em 2010 participei juntamente com dois alunos do concurso Jorge Amado promovido pela Companhia das Letras e os alunos ganharam o prêmio de 2º e 3º lugar respectivamente. Branca responde: Mas senhores. amando Deus à minha maneira. porque vivemos em grupo? O que significa dizer que o homem é um ser social? Que papel desempenhamos no meio em que vivemos? Importante ressaltar que precisamos perceber que. A pesquisa dos cenários foi realizada pelos alunos mais familiarizados com as habilidades em recursos audiovisuais. ela se lembra de seu amado e da terra que a acolheu. além do site YouTube. Como todos os que pretendem enfraquecer a religião e a sociedade pela subversão e pela anarquia. os indivíduos devem desenvolver papéis de acordo com normas. eu não pretendi nada disso! Nunca pensei senão em viver conforme a minha natureza e o meu entendimento.dos recursos técnicos da metodologia didática do teatro de Brecht: uma leitura com cenários virtuais compostos de imagens. utilizando tecnologia da informação em programas como: Power Point e Movie Maker.. Os inquisidores tinham profunda convicção de que as mulheres eram os hereges mais perigosos. Não se trata de uma provinciana ingênua e desorientada. • Do livro didático de História – autor Heródoto Barbeiro. há desempenho de papéis e divisão de tarefas que por sua vez podem gerar desigualdades. Num dos determinados momentos em que Branca é interrogada pelo Tribunal do Santo ofício. Foi culpada mais de dez anos depois de sua morte. de Brecht. regras e valores que preservem a dignidade do ser humano em todas as suas dimensões. cena 8 – Os revolucionários. Ela passa por horrores no campo de concentração para tentar sobreviver junto com sua filhinha. condenada à fogueira pela Inquisição era uma mulher: a cristã-nova Ana Rodrigues. eu e o mundo. vários cristãos-novos foram insistentemente denunciados. Declara-se ainda inocente porque quer impor-nos a sua heresia. eu e Anne Frank..A judia. companheira. praticantes secretos da religião ancestral. urgentes e precisas no espaço da escola como. A primeira vez que apresentei em sala de aula um tema dessa natureza relacionado com a questão do antissemitismo foi quando desenvolvi. Sua obstinação e sua arrogância provam que tem absoluta consciência de seus atos. cena 7 – Uma família no gueto. Portanto.) A primeira vítima do Brasil. na coletividade humana. o projeto Teatro e Protagonismo Juvenil com a montagem cênica da peça O Santo Inquérito. • Escolha da peça O Diário de Anne Frank. O 2º lugar coube a aluna que montou o vídeo sobre a obra O Cavaleiro da Esperança denominando-o de UM CAVALEIRO. por exemplo. verdadeiras responsáveis pela transmissão do judaísmo. Caso contrário. por representantes dos Nazis no Brasil. p. uma judia do interior da Paraíba. Em 2009 com objetivo de provocar questionamentos acerca de algumas questões inquietantes. A instalação de tribunais da Inquisição na Península Ibérica levou os cristãos novos . O que será o Amanhã? Cada tarefa acompanha um comentário e uma ilustração.descendentes dos judeus ibéricos – a serem perseguidos como “judaizantes”. de Frances Goodrich para leitura e montagem de fragmentos.O vídeo são fragmentos da obra O Cavaleiro da Esperança especificamente no momento em que Jorge Amado conta a uma amiga imaginária a captura de Olga Benário. vídeos com trechos de filmes e textos/poemas relacionados ao tema das cenas que seriam projetados simultaneamente ao tempo de duração da cena. sinal de que a Inquisição não estava alheia ao que acontecia na colônia portuguesa de além-mar. Lá. das mais denunciadas durante a primeira visitação. mas que esta memória seja um bem imaterial dentro de cada um de nós e que através dela sejamos instrumentos de mudança no mundo. Eu e meus amigos. de Dias Gomes. As caixas são cobertas conforme a criatividade de cada um. Com o objetivo de auxiliar os educadores que pretendam aplicar esta sugestão em sala de aula apresento a minha proposta seguida de alguns relatos expressivos desta experiência. A obra é recheada de poemas que foram lidos antes de cada cena. octogenária acusada de liderar uma família de judaizantes na Bahia. Nas aulas de História o estudo partiu do capítulo 5 – A História dos Hebreus da antiguidade até a criação do Estado de Israel e perfazendo caminho sobre o conflito Árabe/Israelense. Presa e enviada para Lisboa. A ESPERANÇA E UMA AMIGA . signos. ao discordar veementemente do padre Bernardo a respeito de suas convicções religiosas. cena 2 – Exortação à mocidade hitleriana. São as seguintes tarefas: Quem eu sou. estará sendo partidário de 15 . isto é. condenada à fogueira por violar as leis do clero. esposa. tem instrução. nem fazer mal algum a ninguém. reflexões a partir do livro O Diário de Anne Frank. nunca quis destruir nada. Olga Benário é uma mulher judia. (. • Criação de portfólio contendo atividades relacionadas às questões discutidas em sala – leitura da peça e do filme O Diário de Anne Frank (seriado). mãe de uma criança chamada Anita. • Instalação malas e memórias – nesta tarefa os alunos transformam uma caixa de sapatos em uma mala onde selecionam objetos e pertences pessoais que tragam memórias de suas vidas. cena 9 . (A Torá na Terra de Santa Cruz. mas seu processo continuou. Numa narração caseira mostra-se ao espectador através das entrelinhas do texto. cenas 3/4/5/6 – Campo de concentração. O que é o Hanukah. As cenas foram apresentadas na seguinte ordem: Cena 1 – desfile do povo alemão.

Num outro encontro a proposta foi inserir a leitura do documentário No tempo da Segunda Guerra fazendo uma conexão com o papel social representado pela personagem Duran da obra Ópera do Malandro que estabelece uma relação simbólica de poder entre o personagem e sua idolatria em torno da figura personificada de Hitler. à noite. Através do filme e do documentário os alunos tiveram uma visão maior e mais esclarecedora dos fatos para resolver situações de ordem técnica e avançar na questão estética de suas criações. essa fome crônica que os homens livres desconhecem. o poder centralizado na mão de contraventores de toda espécie.(. meu ventre está inchado. de Ruy Guerra. Como pano de fundo tem a grande questão social que não cala: a prostituição de adolescentes. A escola deve. dentro das escolas. quando não nos vemos durante três ou quatro dias.. tempo/espaço passando pela discussão da relação do contexto histórico e social da ação com o contexto histórico do país no percurso da ação. meu rosto túmido de manhã e chupado à noite. Numa outra análise foi sugerida a leitura do filme Ópera do Malandro. de Chico Buarque de Holanda. Empurro vagões. no peito de meus pés. de Ruy Guerra na perspectiva de mostrar a importância do cinema na colaboração das descobertas de novos caminhos de se pensar e olhar o mundo. personagem. retalhando ou desconstruindo a história no tempo. desfaleço na chuva. da exploração do homem pelo homem. • Peça teatral e músicas da Ópera do Malandro. malandro/protagonista da trama na Ópera do Malandro com o malandro político. outros cinzenta. Qual a repercussão da obra de um artista na formação da identidade de um grupo? De que forma a obra contribuiu para a “construção” de uma versão para História do Brasil? Onde encontramos os personagens deste enredo social? Eles estão somente no imaginário do autor ou são parte da realidade brasileira? É possível nos dias de hoje nos conectarmos com o tempo da obra? Essas perguntas podem ser respondidas ä medida que nos embrenhamos pelas entrelinhas do texto. da série Panorama Histórico Brasileiro do Instituto Itaú Cultural. tremo no vento. • Peça teatral Terror e Miséria no III Reich.) Na opinião de Pim a guerra pode terminar de um momento para outro. a indústria nacional e a relação do papel social representado por Max Overseas. de Bertolt Brecht • É Isto um Homem?. Avaliação das atividades realizadas Nesta última etapa os alunos apresentaram um portfólio das atividades relacionadas à montagem cênica da Ópera do Malandro em recortes abordando todo o processo de construção da montagem que posteriormente seria avaliada na prática através de encenação pública para a escola. Pim diz que para nós deveria soar como música. a escolha do texto. É Isto um Homem?) “Os ataques aéreos estão se tornando cada vez piores. da discussão ética provocada pelos fatos ocorridos em função da violação dos direitos humanos durante a segunda guerra. desencadeando um processo de estudo detalhado da obra em seus aspectos estruturantes da linguagem dramática: enredo. além de compartilhar valores. custamos a reconhecer-nos. Só de farra. a experiência de cada um. das salas de aula. uma vez que a obra está inserida como instrumento de avaliação do Programa de Avaliação Seriada – PAS. podem ser refletidas através da obra A Ópera do Malandro.” (Primo Levi.) Já apareceram. Quinze dias depois da chegada. aprende-se em breve a apagar da nossa mente o passado e o futuro. Materiais utilizados para a realização da atividade em sala de aula Os recursos materiais selecionados para a elaboração das aulas constituem-se do seguinte material audiovisual: • Audiovisuais: filme Escritores da Liberdade e Promessas de um novo mundo. da inserção da linguagem audiovisual como ferramenta de estudo no contexto da linguagem cênica para pesquisa de construção de personagens. artista. onde a escola investe sistematicamente em manter seu projeto pedagógico em torno deste programa. • Documentários: 1) No tempo da Segunda Guerra. dia e noite. se apresentar como um espaço social que valorize os aspectos aqui abordados de forma a incentivar o indivíduo a respeitar a diversidade. Outra proposta de avaliação é o debate entre o grupo e alunos de outra escola vizinha à nossa através da apresentação do espetáculo culminando com debate em torno da obra.. então: no fundo do poço. meus membros ressequidos. mesmo meu corpo já não é meu. portanto.. indumentárias. etc. de Chico Buarque. objeto de estudo desta aula. mais próximo estará o fim da guerra. O ruído é assustador. a marginalização e discriminação de pessoas como prostitutas e homossexuais. Os aviões passam sobre nossas cabeças. Como se dá o encontro da diversidade cultural? As diferenças de orientação sexual? Como estes valores interferem na construção das identidades e das memórias? No contexto da sociedade brasileira algumas facetas da desigualdade. as torpes chagas que nunca irão sarar. quanto maior for o número de aviões. os alunos puderam compreender e analisar criticamente a intenção do autor de provocar no espectador/leitor reflexões substanciais em torno da construção de identidade. 4. dos papéis sociais representados. FRAGMENTOS DE OBRAS “Aqui estou. trabalho com a pá. entre duas Artes. de Primo Levi • Documentários da coleção HOLOCAUSTO • Filme Ópera do Malandro. tudo isso num bojo de conflitos de identidade incessantes e pós-modernos bem próximos de nós. (. ação. que fica dentro de cada fragmento de nossos corpos.. ideias e representações sociais que possivelmente influenciem em suas ações colaborando para a formação da identidade e da memória (individual e coletiva) no contexto de uma sociedade democrática. 2) Anos 30: entre duas Guerras. cenários. alguns de nós têm a pele amarelada. contrabandista brasileiro/ estrangeiro.situações de exclusão e intolerância. Aqui. 5. e por fim o autor e sua trajetória de vida. As atividades realizadas em sala de aula foram feitas em grupo partindo da leitura de partes do texto dramático Ópera do Malandro. o autor. que faz sonhar. do jogo político. Quando a necessidade aperta. perguntou noutro dia a 16 . já tenho a fome regulamentar. O critério de avaliação sistemática se dá através de uma ficha distribuída com a platéia para que a mesma pontuasse o desempenho de cada aluno/ator. Outro aspecto relevante de análise dentro do documentá- rio é a participação do Brasil na segunda guerra.

. Liberdade. Judite – (Ensaia o que vai dizer ao marido. O Longo Século XXI. Mas agora porque havemos de virar tudo ao contrário? Eu vou-me embora para não perderes o teu lugar de cirurgião –chefe. 14 WALSH. História das Relações Internacionais. episódio fabricado pelo regime nazista na Alemanha: A Kristallnacht ensinou. Eric... ficar aí de molho até não poder mais. demonstrou que a Humanidade ainda não aprendera a profunda lição histórica. desde 1998. na Polônia.br/content/mail/press_especial. ela foi designada pela Revista New Yorker. p. à frente da República Popular da China. social e espiritual do povo judeu). mas também é um processo e pode mover-se suavemente.. de F. intelectual judia alemã. Associação Nacional de Professores de História (ANPUH-DF. 15 GILBERT. que exterminaram milhões de opositores e civis inocentes. voltar ao colégio com minhas amigas. provocada pelo ímpio e execrável sistema político-ideológico totalitário. tecnólogo. sem esforço. Demonstra preferência pelos seguintes assuntos: Holocausto (Shoah). Conselho Fiscal). Rio de Janeiro: Ediouro. denominado pelo historiador britânico Eric Hobsbawn como “Século Sangrento”. Afinal. pelos Macabeus modernos. “alguém habituado a não pensar nas conseqüências dos seus atos” em nome do regime nazista do terror. para mim quanta coisa gostaria de fazer . para um mal ainda maior. A Noite de Cristal – A Primeira Explosão de Ódio Nazista contra os Judeus. em cursos de graduação.. (fragmento da peça teatral O Terror e Miséria no Terceiro Reich. capturado numa operação secreta do Mossad (Serviço de Inteligência Israelense) na Argentina . Coexistência. o de Nuremberg. contra chineses opositores e tibetanos.andar outra vez de bicicleta.15 Primeiramente.) Mas. referindo-se ao carrasco-chefe nazista. data de libertação do campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau. de inquietações e de expectativas. vestir roupa nova da cabeça aos pés – encher a banheira de água até transbordar. Era por encarar os fatos como fatos. Justiça. 282. da Universidade de São Paulo (LEER-USP). afirma. de maneira especial. em 1945. Antissemitismo. DESAFIOS DO ENSINO DA HISTÓRIA DO HOLOCAUSTO (Shoah) Da “Questão Judaica” à Solução Final Marcelo Vieira Walsh13 1. que. Especialista no Ensino da História do Holocausto (Shoah) (Yad Vashem. Direitos Humanos. em retrospecto. E isso dava-me alegria. lecionando no Centro de Ensino Médio Ave Branca (CEMAB). no livro de mesmo nome.digno de filme do agente britânico 007. há o renovar de esperanças quanto à difusão universais dos valores da Democracia. recorda-se o Iom Hashoah. ao abordar a “Noite de Cristal” (Kristallnacht). É professor concursado da Fundação Educacional do Distrito Federal. Goodrich e A. 1995. Muito embora tivesse havido duas salutares reações mundiais – a instituição dos tribunais militares para julgar crimes de guerra. O papel do educador na construção da Memória do Holocausto (Shoah) Na noite do dia 20 de abril. de Bertolt Brecht). através da sua Assembléia Geral. que o mal tem gradações. 17 . 16 HOBSBAWN. na ótica historiográfica de Eric Hobsbawn. Martin. data em que se presta homenagem aos mártires. Hannah Arendt (1906-1975). e que se celebra anualmente no dia de 27 de janeiro. Martin Gilbert. meter-me dentro dela. Igualdade e Fraternidade para países que experimentaram ou experimentam ainda regimes Docente superior.bnai-brith.responsável direto pelo planejamento sistemático da “Questão Final” (eufemismo do plano de aniquilamento físico. Especialista em Análise de Informações Estratégicas (1995) (SAE-PR).com. Israel) (2010). instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU). Disponível em: <http://www. filósofa política de sua época. Atividades como pesquisador: Laboratório de Estudos sobre Etnicidade. pelo exército vermelho. de Ian Flemming . constitui uma das maiores referências para os docentes do século XXI. Em 1961.cada um de nós o que mais gostaríamos de fazer ao sair daqui. Enfim. inicia-se com o desmoronamento do império soviético e o fim da Guerra Fria. cabe refletir-se sobre as palavras de um dos mais notáveis historiadores britânicos e especialistas em Memória da Shoah. Especialista em Prática de Contratos Internacionais (2001) (PUC-PR). que foram aniquilados pelo império do terror nazista do Terceiro Reich (19391945). acarretou a morte de mais de 11 milhões de pessoas em campos de extermínios nazistas. iniciada em 1943. de 1938. Esta data se complementa com o “Dia Internacional em Honra às Vítimas do Holocausto”. Marcelo Vieira. De fato. (. Associação Brasileira de História das Religiões (ABHR). que seja recordada sempre a tragédia da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). na III Seção Ordinária da Assembléia Geral da ONU (contando apenas com a abstenção de países socialistas). Atua no magistério superior. em Taguatinga Sul (DF). e a aprovação. Foi dela a autoria da expressão “banalidade do mal”17. Racismo e Discriminação. Política Internacional das Grandes Potências (Estados Unidos. apresenta um vigoroso espírito de renovar de esperanças. adolescentes e jovens)? Elas estariam restritas às comunidades judaicas pelo mundo? O que há de pedagógico nelas? E qual deverá ser o papel do docente no tocante à Memória do Holocausto ou Memória da Shoah? A propósito. asp?cod=152>. política e filosófica da tragédia humana e social da Segunda Guerra Mundial (1939-1945)16. pós-graduação e preparatórios. China. a segunda metade do século XX. em 1991. cultural. que ocupa supostamente uma das cadeiras) . Era dos Extremos: O Breve Século XX (1914-1991). Hackett). uma lição 13 histórica de que aquilo que começa como algo finito em matéria de destruição e limitado no tempo pode rapidamente evoluir para um monstro de extermínio em massa. é o Dia da Recordação das Vítimas do Holocausto ou da Shoah. História da Política Exterior do Brasil. lamentavelmente. para cobrir o julgamento do criminoso nazista Adolf Eichmann. O Diário de Anne Frank. da Declaração Universal dos Direitos Humanos.” (fragmento da peça teatral”. Ambas as efemérides contêm um profundo significado e lição para o século XXI e servem como referências pedagógicas para os professores14. em 1948 – novas tragédias humanas não deixaram de se repetir: a ditadura de Josef Stálin (1928-1953)... na sua privilegiada argúcia. “O Papel do Docente na Construção da Memória do Holocausto”. É membro da Associação Nacional dos Ex-Combatentes da Força Expedicionária Brasileira (FEB) (qualidade de descendente). os regimes ditatoriais laicos e os fundamentalistas islâmicos do Oriente Médio. resistentes e sobreviventes judeus dos anos 1930 e 1940. A pensadora. que foi o Nazismo. qual o significado dessas datas para esse início do século XXI? O que elas têm a ensinar às novas gerações (crianças. rir até me doer a barriga. a tirania implacável de Mao Tse-Tung (1949-1976). 2006. medo e destruição18. as ditaduras de esquerda e de direita do Terceiro Mundo. Mestre em História das Relações Internacionais (1994-1997) (UNB). por unanimidade... Japão). com os seus nefastos Gulags (campos de concentração soviéticos) e KGB (Serviço de Inteligência soviético). São Paulo: Companhia das Letras. É a data da revolta do Gueto de Varsóvia. Acessado em 29/04/2011. Bacharel em Relações Internacionais (1988-1992) (UNB).Há dez anos quando todos achavam que ninguém diria que eu era de raça judaica tu dizias logo: vê-se bem.

o de educar às novas gerações para uma Cultura de Paz. promulgada em 20 de dezembro de 1996). promove o seu programa nuclear para fins militares e estimula o discurso de intolerância e de ódio antissemita do seu presidente. no quadro e giz. quanto mais preparada para o exercício da cidadania estiver nossa sociedade. mais compreensiva e atuante ela o será em busca de justiça social. estaremos garantindo. Realizada em Curitiba. numa visão atualizada. 2003.br/ arquivos/pdf/ldb. São Paulo: Cia das Letras. coexistência e fraternidade universal. No Brasil. O professor – tanto em sala de aula como em atividades extraclasses –. utilizando-se dos inúmeros recursos didáticos. 22 GOLDSTEIN. Rio de Janeiro: Objetiva. presta-se não apenas a recordar a tragédia histórica da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Os Direitos Humanos são universais e – ao contrário de ofuscar a diversidade cultural dos povos. E expectativas de que novas conturbações possam abalar o sistema internacional . SUBSECRETARIA DE INFORMAÇÕES. Ora. Abraham. 72. à pergunta essencial: qual deve ser o papel do docente. organizações racistas e antissemitas ou de governos intolerantes (como o do Irã e o do Sudão). Eichmann em Jerusalém. Cit. pelo contrário. justiça. Caçando Eichmann – Como um Grupo de Sobreviventes do Holocausto Capturou o Nazista mais Notório do Mundo. O papel do Estado deve ser o de zelar e garantir a plenitude dos Direitos Humanos. desde as tenras gerações do Ensino Fundamental até o nível do Ensino Superior. 19 HOBSBAWN. Augusto. no dia 06 de junho de 2008. um Brasil sem discriminação. mas também para cultivar o mais profundo Humanismo – e com ele os valores e ideais universais da democracia. e na atuação passiva deste no processo de ensino aprendizagem. Entendemos que. na convivência humana. na qualidade de líder e formador de gerações. pelas razões já expostas. os organismos internacionais contribuir para o amplo entendimento e consenso dos Estados soberanos quanto ao imperativo moral e à premência da observância dos Direitos Humanos.pdf>. na distante relação entre professor e aluno. Acessado em 27/04/2011. p. assim define a Educação. realizado em Curitiba. Manter acesa a chama da Memória da Shoah ou do Holocausto é perpetuar a chama da Vida! 2. que a História apresenta um profundo conteúdo pedagógico.tem o dever não só de recordar a tragédia singular do aniquilamento de mais de seis milhões de judeus (ou mais de 60% da população judaica da época). mas. primeiramente. Co-Presidente Nacional da B´nai B´rith Brasil. Rio de Janeiro: Sextante. A forma fratricida como ocorreu o desmoronamento da antiga Iugoslávia (1990-1991). baseados num nacionalismo exacerbado. em sua tarefa e responsabilidade de educar os filhos de nossa sociedade. paz. embates inter-étnicos e fundamentalismos religiosos. além da Paz Internacional. ela.. 23 BRASIL. no sentido de se evitar que novas tragédias se repitam e de se ensinar a combater todos os tipos de intolerância. negador sistemático da existência da Shoah e do legítimo direito de existência do Estado de Israel19. Hannah. xenofobia20. neo-nazistas. E utilizando o Direito Internacional. O dever de também de estar vigilante às manifestações de intolerância – venham de indivíduos isolados. quanto mais consciente dos valores da democracia. segundo a vigente Lei de Diretrizes e de Base da Educação (Lei 9394. racistas como a organização norte-americana Klu Klux Klan). A Memória da Shoah ou do Holocausto – das vítimas. Abraham Goldstein. Op. Disponível em: <http://portal. novamente. Op. Hannah. para este importante processo. sensibilidade. antissemitismo. no trabalho. 7ª ed. 20 FOXMAN. coexistência e diálogo entre os todos os povos do mundo. Tomando para si e não delegando a ninguém a sua capacidade de conduzir e progredir no convívio pluralista e integrador. a não-omissão e a imortal lição da Memória da Shoah ou do Holocausto. de nossa nação. heróis e sobreviventes do Holocausto judeu e de outros povos – torna-se um imperativo de toda a Humanidade. São Paulo: Francis. tolerante e assentado no princípio da paz. Educação em prol da promoção da Cultura de Paz. capacidade de falar ao coração. FOXMAN. nessa perspectiva. Direitos Humanos. Coexistência e Diálogo Um dos principais pilares da Democracia e da Liberdade. defendeu a seguinte posição: Todas estas iniciativas têm o principal objetivo de disponibilizar ferramentas que permitem ao educador aprofundar o seu trabalho em sala de aula com informações e referências a documentos e argumentos interpretativos que lhe apóiam. na abertura da V Jornada Interdisciplinar para o Ensino da História do Holocausto. encontra-se enraizado na promoção da cultura e da educação em prol da Paz. que patrocina a máquina de terror (Hezbollah e Hamas) e apóia os grupos de intolerância (revisionistas europeus ou negacionistas do Holocausto. Que se retorne. “Discurso de Abertura da V Jornada Interdisciplinar sobre o Ensino do Holocausto”. A Memória do Holocausto ou Memória da Shoah pode contribuir. se harmoniza e enriquece o seu rico acervo. Cit. Mahamoud Ahmadinejad. BASCOMB. enfatiza que o professor deve transmitir “sabedoria. face ao desafio universal da Memória da Shoah ou do Holocausto? Deve-se referir ao papel do educador. A sociedade internacional – gerenciado pelos Estados soberanos e organismos internacionais . coexistência e diálogo entre os povos do mundo. dos Direitos Humanos. racismo. Cit. amor pela vida. 2010. SENADO FEDERAL. serenidade. 2001. nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas 17 ARENDT.22 Encontra-se praticamente superada. a não-indiferença. a recordação. 21 CURY. sua ampla vigência e constante aprimoramento. o Genocídio de Ruanda (1991) e os atentados terroristas do 11 de Setembro de 2001 contra os Estados Unidos são exemplos de assustadores conflitos internacionais. Eric. Neal. Abraham.. afetividade. deverá ensinar às novas gerações o respeito. 2005.. Abraham (Co-Presidente Nacional da B´nai B´rith Brasil). o não-esquecimento. 18 ARENDT. Pais Brilhantes e Professores Fascinantes. Augusto Cury. “Lei de Diretrizes e de Base da Educação”(Lei 9394/96). no moderno de ensino. ensi- nar a Memória da Shoah ou do Holocausto. Op. de influenciar pessoas”21. Deve ser lembrado.como o caso do atual regime totalitário teocrático do Irã. dos Direitos Humanos.mec. Complementarmente. nas instituições de ensino e pesquisa. combater e proporcionar uma resposta adequada e firme a toda e qualquer forma de intolerância religiosa.fechados. psiquiatra e pedagogo entusiasta da análise sobre o imprescindível papel do professor na sociedade e da sua missão de formar as novas gerações. 18 . de gangues neo-nazistas. no caput do Artigo 1º: A educação abrange os processos formativos que se desenvolvem na vida familiar. em 6 de junho de 2008. para nossa sociedade. Nunca mais? – A Ameaça do Novo Anti-Semitismo. a antiga concepção do processo educacional centrado no simples transmitir de conhecimentos.gov.

Ela impele as pessoas em direção ao que é indescritível e que. constitui um legado riquíssimo para a construção de pontes de entendimento. cultural. Programa de Pós-Graduação em Educação. dos Direitos Humanos. discriminações. Justificá-la teria algo de monstruoso em vista de toda monstruosidade ocorrida. o diálogo deve estar plenamente incorporado como instrumento de aperfeiçoamento das instituições democráticas. No Brasil. não importando a sua condição religiosa. compactuar com a intolerância. a barbárie continuará existindo enquanto persistirem no que têm de fundamental as condições que geram esta regressão. na perspectiva do Yad Vashem. por sua extensão geográfica. no seu livro Holocausto – Crime contra a Humanidade: [O livro] pretende mostrar que aquele processo de extermínio de um povo passa pela compreensão dos direitos humanos. harmonioso entre diferentes indivíduos. Rio de Janeiro: Paz & Terra. culminaria em Auschwitz. destacado filósofo e sociólogo alemão do século XX. o estudo da história da Shoá desempenha um importante papel de conscientização. De tal modo ela precede quaisquer outras que creio não ser possível nem necessário justificá-la.. de fato. nos termos da história mundial. Educação e Emancipação. Refletindo sobre Auschwitz. instituições. 2008. Holocausto: Crime contra a Humanidade. e construído no Monte da Recordação (Har Hazikarón). mas também para a toda a Humanidade. 1972. pela Lei da Recordação. Holocausto (Shoah): como foi possível acontecer? A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) constituiu a maior tragédia da História da Humanidade. converteu-se numa das principais referências internacionais de pesquisa e no estudo do Holocausto. num misto de tristeza e alegria: “Pensei em meus filhos lutando e seus colegas morrendo nessa hora. valores –. da Coexistência e do Diálogo. levando-nos a refletir sobre a responsabilidade do Estado na preservação da vida do cidadão. a pressão social continua se impondo. todos aqueles que não verão Israel”29. línguas. 5ª Ed. São Paulo: Ática. Maria Luiza Tucci. pois Auschwitz 24 foi a regressão. E isto que apavora. portanto. ALMEIDA. Mas a pouca consciência existente em relação a essa exigência e as questões que ela levanta provam que a monstruosidade não calou fundo nas pessoas.5. intensidade dos conflitos. em Hebraico. 2005. ESCUELA INTERNACIONAL PARA EL ESTUDIO DEL HOLOCAUSTO. 2007. Israel] 27 ISRAEL. Primeiro-Ministro israelense (1948-1952). genocídio não se repitam. DEPARTAMENTO DE EDUCACIÓN Y DESARROLLO. ensinando que estes valores são o fundamento do convívio pacífico e harmonioso entre os povos.25 O Yad Vashem26 (literalmente. econômica.com/. A diversidade cultural – de religiões. consciente das suas responsabilidades individuais e sociais. que recebe grupos de educadores. drásticas transformações sociais e conseqüências humanas. muito menos. 25 19 . em 14 de maio de 1948. Através de uma análise crítica das teorias racistas implementadas pelo III Reich podem-se desenvolver atitudes que favoreçam a convivência democrática e a construção da cidadania. Ben.. ADORNO. e aprovada pelo Knesset (Parlamento israelense). David Ben-Gurion (1886-1973). …E o Mundo Silenciou. Fala-se da ameaça de uma regressão à barbárie.manifestações culturais. nem omisso e. 2010. o pensador alemão argumenta: A exigência que Auschwitz não se repita é a primeira de todas para a educação. Mas não se trata de uma ameaça. étnica.23 O papel da educação. Disponível em: < www. Deve-se ensinar às novas gerações. compreensão e comunicação entre os povos. ao proferir a Declaração de Independência de Israel recordou a incomensurável tragédia humana que se abateu sobre o povo judeu nos 1930 e 194030: A catástrofe que recentemente caiu sobre o povo judeu . estudantes e visitantes do mundo inteiro. entendia que deveria se desenvolver uma pedagogia universal em torno da tragédia humana e social incomensurável do Holocausto. exclusões. O Yad Vashem. desempenha uma função importante na promoção da tanto da Educação como da Cultura em prol da Paz. São Paulo: WG Comunicações e Produções. a construção de uma sociedade não apenas pluralista e tolerante. por meio da educação./Theodor-Adorno-EducaCAo-ApOs-Auschwitz>. costumes. Universidade Federal de Santa Catarina. Jerusalén: Yad Vashem. A Humanidade não pode ficar indiferente e nem ser omissa face às novas correntes de intolerâncias. o mais ativo campo de extermínio nazista. A Memória da Shoah ou do Holocausto não é. “Educação após Auschwitz”. 26 O Yad Vashem foi criado em 1957. o preconceito. todos aqueles que deveriam estar aqui. Não ser indiferente. Theodor W. que novos preconceitos. E pensei nos seis milhões de judeus que morreram. Ben Zion Dinur. apenas direcionada para o povo judeu. Neste sentido. Para que lo sepan las Generaciones Venideras: La Recordación Del Holocausto em Yad Vashem. sintoma da persistência da possibilidade de que se repita no que depender do estado de consciência e de inconsciência das pessoas. Educar que o convívio pacífico e interativo entre pessoas de distintas condições constitui o fundamento da Democracia e dos Direitos Humanos. sexual ou outra. violências. Apesar da nãovisibilidade atual dos infortúnios. Ela foi a barbárie contra a qual se dirige toda a educação. YAD VASHEM. pois alerta a humanidade a não incorrer mais nos erros do passado. chegou a comentar no momento da Independência de Israel. ADORNO. p. presente no mundo.24 Theodor Adorno (1903-1969). Não consigo entender como até hoje mereceu tão pouca atenção. ABRAHAM. Golda Meir (1898-1978) .. mas do pleno convívio pacífico. Não devemos nos esquecer. através de uma sistemática política implementada pelo Terceiro Reich (1933-1945). mas envolve a formação do cidadão ético. expoente da Escola de Frankfurt. não está voltada tão somente à colocação de profissionais competentes no mercado de trabalho.o massacre de milhões de judeus na Europa . Médio e Superior. Este conflito culminou com o extermínio de mais de seis milhões de judeus e cinco milhões de não-judeus.scribd. a inclusão da temática da Memória da Shoah ou do Holocausto na grade curricular ou no conteúdo programático do Ensino Fundamental.uma das principais líderes do Sionismo28. Qualquer debate acerca de metas educacionais carece de significado e importância frente a essa meta: que Auschwitz não se repita. Bauman e Adorno: Sobre a Posição do Holocausto em Duas Leituras da Modernidade..foi outra demonstração clara da urgência de resolver o proble- CARNEIRO. a discriminação. Como afirma Maria Luiza Tucci Carneiro. Theodor. Felipe Quintão. Dissertação de Mestrado. Acessado em 23/04/2011. sendo hoje o mais importante centro judaico e mundial da Memória da Shoah27. 3. Esta é a atitude social e individual imperativa para que a Barbárie não retorne e nem se imponham ditadores sobre a Humanidade. poderá contribuir para o aprofundamento da consciência histórica em prol dos Direitos Humanos. proposta pelo Prof. social. “Monumento aos Nomes”) ou Museu do Holocausto. em Jerusalém.

JOHNSON. liberdade e trabalho honesto em seu lar nacional. sob a perspectiva da multi. Antropologia Cultural. podemos refletir e discutir a História das Relações Internacionais como resultante da dialética entre as ”forças profundas” e o papel dos “homens de Estado”. dentre outros. Direito Internacional. 20 . 1995. não se enquadrando em sistemas classificatórios rígidos e unívocos. Paul. culturais. a palavra Holocausto é a mais usada. Uma das inúmeras abordagens possíveis sobre este tema é à luz da História das Relações Internacionais que analisa a evolução da vida internacional no tempo histórico. homossexuais. importante assinalar. Acessado em 25/04/2011. 1 DVD. História dos Judeus. sobre o Holocausto.html>. financeiros. Tendo em vista que o significado original da palavra Holocausto é “oferta sacrificial” em honra de D´us/Deus. enquanto genocídio singular. portanto. & MEACHAM. “grave tragédia”. 2º Volume. BURNS. Na Segunda Guerra Mundial. 31 Os termos Holocausto e Shoah são empregados normalmente para representar a mesma idéia: a do genocídio cometido pelos nazistas contra judeus e não-judeus em campos da morte durante a Segunda Guerra Mundial. assim como do próprio Estado. a qual divide teólogos (rabinos). em especial. Sobreviventes do holocausto nazista na Europa. Estatística Aplicada ao campo das Ciências Humanas. antropólogos e historiadores. mais especificamente. Tel Aviv. Shoah) e da construção de uma Cultura de Paz atrelada à valorização dos Direitos Humanos. Holocausto. Declaração de Independência (Governo de Israel. aparece nos texto sagrados do Judaísmo (Torah) e no do Cristianismo (Antigo Testamento) com o significado “queimado em sacrifício de Deus”. à propriedade. da coexistência e do diálogo entre os povos de todas as nações? • Qual o papel da educação e dos educadores frente as questões colocadas?31 De fato. nacionais.C. no ano de 70 d. Robert E. maçons. Economia. A historiografia das Relações Internacionais permite delinear um quadro abrangente da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e. com o lançamento do livro O Estado Judeu (Der Judenstaat) (1895) – que preconiza o direito à autodeterminação do Povo Judeu e à existência de um Estado judeu independente e soberano no território. 5 Iyar 5708. no qual historicamente existiu o antigo Reino de Israel (Eretz Israel). Para o Rabino Benjamin Blech. midiáticos. São Paulo: Imago. deve-se refletir acerca do significado de “ser judeu33”. em plena Segunda Guerra Mundial (19391945)? • O extermínio de milhões de seres humanos resultou de uma decisão momentânea ou de um longo e contínuo processo que antecedeu à própria eclosão da Segunda Grande Guerra (1939-1945)? • Qual o papel desempenhado pela Conferência de Wannsee (1942) na história do Holocausto? Em que contexto deve-se entender a “Solução Final da Questão Judaica” (Endlösung der Judenfrage)? • O estudo da história do Holocausto limitar-se-ia ao registro histórico e da justa homenagem às vítimas e sobreviventes ou transcenderia ao tempo histórico abarcando também o presente e o futuro? • Como entender o inexplicável? Como foi possível. moderno ou tradicional – com sua personalidade. origens étnicas – quanto à inclusão ou não de outros grupos além dos judeus enquanto vítimas [do Holocausto]. caráter.visaojudaica. dos homossexuais. LERNER.9. filósofos. Introdução à História das Relações Internacionais. aparece a figura do “homem de Estado” – democrático ou ditatorial. 2ª Ed. à dignidade humana. O Terceiro Reich e o Antissemitismo: Antes de qualquer abordagem sobre o antissemitsmo. caracterizado como adepto de uma reli- Sionismo constitui movimento político e filosófico . Para Bernado Sorj. como foi possível a deliberação.. Sob a perspectiva do pensamento de Pierre Renouvin e Jean-Baptiste Duroselle. São elementos que moldam as relações internacionais. ao próprio existir? • Qual a importância do resgate da memória histórica 28 do Holocausto (em hebraico. sociólogos. Produtores Executivos: Richard Bradley. BBC Worldwide.com. o Judaísmo não é somente uma religião. Gratton Puxon e Ian Hancock. econômicos. Produtores Bill Locke e Chris Kelly. à liberdade. Entre os autores que criticavam o alargamento desta definição estavam Stephen Katz e Yehuda Bauer. enfim. sobre o Holocausto. perguntamos: • Historicamente. católicos. a comunidade judaica deste país contribuiu por completo com as nações que amam a paz e a liberdade contra as forças da tirania nazista e. etc. há inúmeras reflexões suscitadas – ou ainda a serem suscitadas – a respeito da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e. 2004. com o sangue de seus soldados e seus esforços de guerra. concebidos para tal fim. foi um crime contra a Humanidade. desígnios. inter e transdisciplinaridade. O judeu seria. dispersando parte considerável dos judeus. constituiria uma identidade inerentemente plural e. Diante do reconhecimento de que o Holocausto. quando os romanos destruíram a cidade. assim como os judeus do resto do mundo. apesar das dificuldades. além disso. sob comando do general Tito. entre outros”. existem objeções ao seu emprego. História da Civilização Ocidental – Do Homem das Cavernas às Naves Espaciais. Memória e Identidade Social: A Experiência da Fundação Shoah. São Paulo: DIFEL.ma da falta de um lar através do reestabelecimento em Eretz-Israel do Estado Judeu. Rio de Janeiro: Globo. 29 Criação do Estado de Israel. É. 2003. Psicologia Social. Tese de Doutorado. em Israel e em círculos judaicos fora de Israel.. Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia.1948). demográficos. ganhou o direito de ser reconhecida entre os povos que fundaram as Nações Unidas. Porém.C/E. Ciência Política.5. sendo diversas coisas simultaneamente.. Por isso. atualmente. no caso da perseguição aos ciganos. dos poloneses. ideologia e processo decisório32. Estas perspectivas se chocam com as demandas de representantes destes grupos e acadêmicos como Donald Kenrick. evangélicos. História. 4. sob a alegação de que isto enfraqueceria a singularidade da tragédia judaica. Do outro lado. visão estratégica. muitos dos quais eram crianças. social e política do Povo judeu que sofreu a Diáspora (Dispersão geográfica) Romana. Universidade Federal do Rio de Janeiro. Standish. desde a ascensão de Hitler ao poder em 1933. 32 RENOUVIN. No caso das “forças profundas” constituem um conjunto de fatores ou causas que desencadeiam o processo histórico: geográficos. 1986. Kátia. negar o direito dos judeus e não-judeus à vida.br/Abril2006/artigos/2. A morte dos judeus não foi uma oferta. Kátia Lerner destaca: “Um campo de disputa se formou entre historiadores de diferentes correntes – e. etc. envolvendo diversas áreas do conhecimento: Sociologia. um modo especial de viver e encarar a vida. A sua origem etimológica no Grego holokausto. negros.cuja moderna corrente foi fundada por Theodor Herzl. Edward McNall. uma questão identitária. as pessoas optam por utilizar a palavra hebraica “Shoah”. etc. Filosofia. comerciais. Pierre & DUROSELLE. Jean-Baptiste. Mesmo assim. Disponível em: < http://www. as forças resistentes e o templo sagrado de Jerusalém. Gunter Grau. ciganos. p. garantiram a execução da última etapa do plano que ficou conhecida como “Solução Final”. 30 ISRAEL. Richard Lukas. LERNER. sempre houve uma presença ininterrupta de judeus na Terra Santa. opositores políticos. 1967. o planejamento e a implementação de um plano de extermínio sistemático de milhões de pessoas (judeus. que abriria bem os portões da terra natal para todo judeu e conferiria ao povo judeu o status de membro privilegiado na comunidade de nações. a qual significa: “aniquilação”. A idéia de retorno ao seu espaço nacional encontra-se expresso na vida religiosa. mulheres. Relações Internacionais. 14. continuaram a migrar para Eretz-Israel. restrições e perigos e nunca deixaram de assegurar o seu direito a uma vida de dignidade. idosos e doentes)? • Como puderam ser implementados centenas de campos de extermínio que. Adam Kemp e Neil McDonald. ideológicos.

militarista e conservadora. 2004. Edward McNall. Benjamin (Rabino). no Oriente Próximo. Mas também na criação do mundo moderno: na origem das idéias seculares. Alfred Rosenberg (1893-1946). fundado. Considerada a mais antiga forma de ódio social e individual.. com sua filosofia da teocracia democrática e sua noção de igualdade perante a lei. 2010. os judeus foram estigmatizados como “cosmopolitas”. 3ed. chanceler do Terceiro Reich. “judeu capitalista”. praticamente na ligação entre os três continentes: África. a produção dos Textos Sagrados. de 1925 . Marechal do Reich. persas e helênicos (538-142 a. na obra apócrifa dos Protocolos dos Sábios de Sião. Standish.gião.C. Tanto o crescimento do nacional-socialismo assim como dos sentimentos de pangermanismo e antissemitismo devem ser compreendidos no conturbado contexto social. liderado pelo Patriarca Abraão. & MEACHAM.suposta culpa coletiva de morte de Jesus atribuída indiscriminada e continuamente contra os judeus -. do antisemitismo moderno. secretário particular e homem de confiança de Hitler. na narrativa das Sagradas Escrituras (no Livro da Torah/ no Antigo Testamento). MESSADIÉ. Op. que o elegeu chanceler e fundindo com as funções de Presidente após a morte do Marechal Paul Von Hindenburg (1847-1934)43. Op.. com o processo de “purificação e 33 Edward Burns situa a origem do Povo hebreu/judeu em tempos históricos remotos: “A origem dos hebreus ainda constitui um problema confuso. 34 BLECH. Desde a Antigüidade. BLECH. para o antissemitismo multifacetado: religioso.cit. Comandante da Luftwaffe e segundo homem importante da hierarquia nazista do Terceiro Reich. “racial” (étnico). Reinhard Tristan Eugen Heydrich (1904-1942). no noroeste da Mesopotâmia.C. 2003. Cit. aparentemente. 36 Sobre estes conceitos ver CARNEIRO. A missão mística do nazismo. Benjamin (Rabino)..C. Heinrich Himmler (1900-1945). não identificados com a cultura igualitária nacional. Paul Joseph Goebbels (1897-1945). Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. Hermann Göring (1893-1946). o NSDAP. “raça pura”. seria a de redimir a “raça ariana”. o socialismo. com sua obra Os Fundamentos do Século XX que exerceu grade influência sobre a elite do império alemão. teria existido um continente [imaginário] denominado Thule. 39 O Primeiro Reich ocorreu com o Sacro Império Romano-Germânico (962-1806) e o Segundo Reich. cuja plataforma política resultou do fortalecimento dos grupos da extrema-direita na Alemanha desde o final do século XIX. alimentando esta nova expressão de antissemitismo que seria assimilada pelos nazistas a partir da criação do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei (NSDAP).. com o Império Germânico (1871-1918). ou pseudo-científica. História da Civilização Ocidental – Do Homem das Cavernas às Naves Espaciais. portanto. otomano (1517-1917). no nacionalismo exacerbado. um dos principais teóricos do nazismo. de fundamento religioso. no Séc. O Ódio entre os Homens – Anti-Semitismo: o mais Longo dos Ódios. 2004.C. um grupo de hebreus sob a chefia de Abraão se estabelecera ali”(BURNS. assim como Edward Burns. A maioria dos historiadores admite que o berço primitivo dos hebreus tenha sido o deserto da Arábia. no entendimento de Raquel Stivelman. Maria Luiza Tucci. o Cristianismo e o Islamismo. Bernardo. na evolução do capitalismo e sua contraparte ideológica. eles não possuíam quaisquer características físicas capazes de distingui-los nitidamente dos povos vizinhos. São Paulo. XVIII a. O discurso nazista fortaleceu-se com base na ideia de revolução social e instauração de uma Nova Ordem Internacional fundamentada no mito do arianismo. LERNER. dos primórdios do Cristianismo ao fim da Idade Média. deve-se mencionar a influência do intelectual britânico Houstin Stewart Chamberlain41 (18551927). cruzado (1099-1291). até a eclosão da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). militarismo expansionista territorial e misto de conservadorismo tradicional. e no impulsionamento da cultura contemporânea (JOHNSON. em parte. social. preconizava a idéia de que.. Gerard. “judeu avarento”.. se instaurou um Estado totalitário de direita. 2006. num tempo mítico – baseado em crenças das tradições nórdicas pagãs -. e. teriam se integrado às “raças inferiores” ou “bestiais”. Segundo Tucci Carneiro temos que estar atentos a essas definições que distinguem o antissemitimo tradicional. Benjamin (Rabino).). SORJ. dos quais os alemães e demais povos de cultura alemã. Já em 1800 a. romano (63 a.). Do período da Unificação Alemã (1871-1918). passando pela ideia do deícidio . a partir da segunda metade do século XIX. no contexto de intensa Revolução Industrial e (re) ordenamento da Alemanha no concerto entre as grandes potências européias40. mameluco (1291-1516). Op. político-ideológico. A partir de então. contudo. no hemisfério Norte. Rudolf Hess (1894-1987). Sem contar o Mandato Britânico sobre a Palestina (1918-1948). o antissemitismo tem suas origens remotas. JOHNSON. sobretudo.36 Na Era moderna.). perdendo seus poderes originais45. Desta época. Comandante Supremo da SS (Reichsführer-SS) e elemento chave processo de execução do Holocausto. no desenvolvimento das ciências e das artes. econômico e político da Europa no período do Entre-Guerras (1919-1939). com as conversões forçadas de judeus e a Inquisição. cultural. supervisor do processo de extermínio contra os judeus42. o discurso antissemita encontrou um campo propício para proliferar identificando o judeu como “elemento degenerado. Paul. assim como os emigrantes e as futuras gerações germânicas seriam os representantes diretos da Nação e do Povo alemães44. Cit. Por sua vez.C). defendida por Adolf Hitler – ideário presente na sua obra Minha Luta (Mein Kampf). assim como sobre a posterior elite intelectual nazista. Ásia e Europa.cit. sobretudo a partir da Revolução Francesa (1789). Um dos principais fatores que explicam as invasões estrangeiras é a posição estratégica da Eretz Israel. Rio de Janeiro: Globo. o historiador Paul Johnson destaca as inestimáveis contribuições dos judeus em legar ao mundo o monoteísmo ético. Assim. Preconceito Racial em Portugal e Brasil Colônia. “arianos”. em 1897. Op. 21 .-313 a. São Paulo: Civilização Brasileira. surgiu uma agressiva ideologia nacionalista. árabe (639-1099). por exemplo. 1986). bizantino (313-636). STIVELMAN. do “judeu errante”. Com o passar do tempo. podemos identificar diversas e contextuais manifestações antissemitas. consolidado com a vitória eleitoral de Adolf Hitler. Perspectiva.C. História Geral do Anti-Semitismo. Existem diversas motivações. Rio de Janeiro: Imago. desde o confronto entre o monoteísmo dos judeus e os politeísmos dos povos vizinhos. da “superioridade da raça e sangue dos arianos”. endossada como elemento principal da ideologia nazista. O antissemitismo transformou-se em instrumento de poder do Terceiro Reich (1933-1945). no qual habitavam homens-deuses. Mas. Ministro da Propaganda. desde o estabelecimento do povo judeu na Terra Prometida. As narrativas encontram-se impregnadas de estereótipos como. O Mais Completo Guia sobre Judaísmo. com Otto Von Bismarck (1815-1898). ou seja. São Paulo: Sefer.e por toda elite nazista. 1º Volume. Para compreendermos a persistência do antissemitismo e a execução da “Solução Final” devemos avaliá-los no contexto histórico do Terceiro Reich39 (1933-1945). proliferou a ideia da “inferioridade racial” dos judeus e o mito político “conspiração judaico-maçônica”37 contra o mundo. de funadamentação científica. “judeu revolucionário” e/ou “judeu degenerado”38. Robert E. econômico. produzida pela polícia secreta do Tzar Nicolau II. 38 BLECH.35. e declinado. com o tempo. revolucionário e cosmopolita” contrário ao “espírito nacional alemão”. incluindo Adolf Hitler (1889-1945). Judaísmo para Todos. 37 Falsa idéia encontrada. pelo Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães. suas ramificações. Raquel. Paul. Certamente. A primeira vez que os fundadores da nação de Israel aparecem na história é. assim como membro de grupo étnico e portador de uma identidade coletiva34. 35 Muitos povos combateram os judeus e invadiram seu território ao longo dos séculos: babilônios (586-538 a. e sua língua pertencia à família semítica do Oriente Próximo. A teoria da raça ariana.

48 HOBSBAWN. A conclusão é de que se tornou o embate militar mais trágico.A História do Terceiro Reich. Tempos Interessantes – Uma vida no Século XX. a Alemanha nazista preparou-se para uma ampla ofensiva militar em direção do Leste Europeu. eslavos. São Paulo: Companhia das Letras. Além dos judeus. Portanto. União Soviética e outros aliados) e o Eixo (Alemanha nazista. Ian. o extermínio de todos os judeus da Europa ocupada pela Alemanha nazista. O ministro da Propaganda.Cit. no geral. História das Relações Internacionais Contemporâneas –da Sociedade Internacional do Século XIX à Era da Globalização. homossexuais. Joseph Goebbels (1897-1945) pronuncia as seguintes palavras. Hitler. da Polícia de Segurança. 2007.. da escala de produção de armamentos. 1995. contra judeus. propagandística. contra a União Soviética – após ter ocupado a Polônia. 2009. católicos. mas também o Cristianismo. devemos considerar uma somatório de elementos para conseguir entender como foi possível um Estado planejar o extermínio de um povo e de outras tantas minorias éticas e políticas. 5. Até o mês de dezembro de 1941. marcam o início do processo de extermínio sistemático contra o povo judeu e outras “categorias sociais indesejáveis”50. que chegaram a mais de 300 mil judeus. Em 12 de dezembro do mesmo ano. São Paulo: Planeta do Brasil. mas somente simpatia por nosso povo alemão. etc. tratava-se de uma “guerra total”. sob as ordens de Heinrich Himmler. totalizando mais de setenta milhões de mortos49. Como Jacques Sémelin argumenta. contra as cidades de Hiroshima e Nagasaki. França. e atingindo a cifra total de mais de 1. Eric. José Flávio Sombra (Org. De fato. empreenderam massacres indiscriminados contra inúmeras comunidades judaicas do Leste Europeu. 2006. Não devemos nutrir simpatias pelos judeus. Cit. em 12 de junho de 1941. iriam ter de enfrentar a própria aniquilação. financeira. New York: Lorenz Books. Reino Unido. Caracterizado por significativos ataques contra civis. Ele profetizou que. em 1º de setembro de 1939 e o ataque militar desferido contra a União Soviética. envolvendo a maioria das nações do mundo – incluindo todas as Grandes Potências –. 2010. na qual os principais envolvidos utilizaram toda sua capacidade econômica. 2003. Desde então. . brutal e violento da História da Humanidade. 22 . São Paulo: Saraiva. a tropa de elite de Adolf Hitler. mas era reforçado por argumentos pseudo-científicos. de inteligência e científica a serviço dos esforços de guerra. um dia após anunciar a declaração de guerra nazista contra os Estados Unidos. país HOBSBAWN. 2ª Ed. Norman. The Complete Illustrated History of World War Two: An Authoritative Account of the Deadliest Conflict in Human History with Analysis of Decisive Encounters and Landmark Engagements. em especial.d. ALLEGRITTI. Não apenas o Judaísmo foi eleito como inimigo principal do Estado nazista. Eric. Uma História da Guerra. para depois também incluírem mulheres e crianças. imprimira uma roupagem ainda mais agressiva. com autorização do próprio ditador Adolf Hitler: Com relação à Questão Judaica. Purificar e Destruir: Usos Políticos dos Massacres e dos Genocídios.. 1 DVD. SARAIVA. Paul. 42 DAVIES. 2009. homossexuais. extinguindo a antiga distinção entre recursos civis e militares na guerra48. 41 Casado com Eva Wagner.. S. o Führer [líder] está determinado a realizar uma limpeza completa. devido à sua origem teológica semítica e oposição ao paganismo. Cumpre lembrar que Adolf Hitler. na “forma industrial de larga escala” – a “Solução Final e da Questão Judaica (Endlösung der Judenfrage)”. pertencente à Schutzstaffel (SS). deficientes. Essa questão deve ser encarada sem sentimentalismo. “o processo de massacres e genocídios – sobretudo. Japão imperialista e aliados menores). Nesta reunião foram discutidos o estado da guerra (com base em extenso relatório) e a questão dos judeus. A conseqüência necessária deve ser a aniquilação dos judeus.d. O antissemitismo não estava mais vinculado apenas à questão religiosa (na ideia do “deicídio”). Op. assassinados ao ar livre. foi defendido pelo ditador Adolf Hitler e toda a elite do comando nazista. dos cinco continentes. A guerra mundial é uma realidade. 1995. como parte da sua estratégia para se tornar a superpotência militar. Rio de Janeiro: Record. Adolf Hitler seria uma espécie de “messias ariano”. representou o conflito mais abrangente do ponto de vista geográfico. incluindo o Holocausto e o uso pioneiro de armas nucleares. e ao alemão. Jean-Baptiste. Revista e Atualizada.). 2008. 2009. SOMMERVILLE. Donald. evangélicos. em 1941. O nazismo acreditava que judeus e cristãos eram “incapazes” de uma verdadeira espiritualidade [Sic]. 1995. A essência desta forma de pensar se faz centrada no conceito de arianismo que tem sua origem nos tempos pagãos dos povos germânicos anteriores à sua conversão cristã. esquadrões da morte (Einsatzgruppen). tecnológica. Portanto. com mais de 100 milhões de militares mobilizados47. caminhando atrás das tropas do Exército alemão (Wehrmacht). Donald.3 milhões de judeus até o final da Guerra. tecnologia militar avançada. Neste contexto. Eric. Jacques. etc. São Paulo: Companhia das Letras. um conflito militar efetivamente global. São Paulo: Companhia das Letras.). 43 KERSHAW. econômica e tecnológica mundial. Pierre & DUROSELLE. Rio de Janeiro: DIFEL. São Paulo: Madras. ciganos. caso os judeus viessem a causar outra guerra mundial. filha do compositor alemão antissemita Richard Wagner (1813-1883). ciganos.. SOMMERVILLE. por fuzilamento. A História do Terceiro Reich. A Segunda Guerra Mundial e a “Solução Final” na Conferência de Wannsee (1942) A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) constituiu. organizadas em duas alianças militares opostas: os Aliados (Estados Unidos. USA Filmes. Itália fascista. RENOUVIN. usar mão de obra escrava (eslavos e não-eslavos) 40 e eliminar os “indesejados sociais” ou “raças inferiores” (doentes mentais. o regime nazista.em larga escala. HOBSBAWN. As Forças Negras desencadeadas pelo Terceiro Reich. em Berlim. cristãos ortodoxos. 47 SARAIVA. Adolf Hitler tem uma reunião de alta-cúpula do partido nazista na Chancelaria do Reich. USA Filmes. de 1925. Era dos Extremos: O Breve Século XX (1914-1991). Pablo. neste estágio da Segunda Guerra Mundial (19391945). José Flávio Sombra (Org. segundo o historiador John Keegan. Inicialmente. Europa na Guerra (1939-1945). com a Operação Barbarossa. Op. contando com o sucesso inicial da Operação Barbarossa. São Paulo: Companhia das Letras. industrial. os ciganos e agentes políticos soviéticos também foram outros alvos51. KEEGAN. tornou-se inevitável com o estabelecimento do regime totalitário nazista”46. O Clã de Hitler. John. a qual defendia que seria necessário expandir o espaço territorial do povo alemão. Era dos Extremos: O Breve Século XX (1914-1991). judeus. no Japão em 1945. 45 Idem 46 SÉMELIN. sistemática e implacável ao antissemitismo europeu. S. . São Paulo: Companhia das Letras. Op. Esta estratégia baseava-se na doutrina geopolítica do Espaço Vital (Lebensraum). na sua obra Mein Kampf (Minha Luta). só visavam homens adultos.destruição” dos elementos “não-arianos” seja da Alemanha ou do exterior.. A invasão da Polônia. 1 DVD.52 Então.). Cit. 44 ROLAND. Não eram ameaças vãs.

& MEACHAM. Alfred Meyer (Ministério do Reich para os territórios ocupados no Oeste). por exemplo) e de países africanos (Marrocos. Op. A Conferência de Wannsee (1942) constitui um pontochave. Ibidem. desde a Kristallnacht (ou “Noite de Cristais”. Cit.. se a Alemanha tivesse vencido a Guerra)53. 53 Idem. LERNER. não apenas à luz dos assassinatos isolados ou em massas praticados contra os judeus. Ian. em 1938. 3º) Noite de Cristais (Kristallnacht) (10 de novembro de 1938). Nesta reunião. LERNER. Martin. Standish. Josef Buhler (Governo do Governo Geral). Standish. muitas vezes. Roland Freisler (Ministro do Reich da Justiça). o combate rígido à “conspiração judaico-maçônica universal” e ao judeu “degenerado racial”. superando a quantidade de mil: isolamento e segregação dos judeus em relação às sociedades européias que os envolviam59.. 54 GILBERT. França). SS-Obersturmbannführer (Secretaria Central da Segurança (Gestapo)54. 4ª) Processo de Guetorização: criação dos guetos. Rudolf Lange (Comandante da SD para a Letônia). BURNS. ROSEMAN. Esta questão deve ser analisada. Cit. era de tornar factível a idéia de extermínio físico dos judeus defendida por Adolf Hitler. Erich Neumann (Chefe da secretaria do plano dos 4 anos). 2º Volume 51 KERSHAW. Pode-se propor a seguinte seqüência: 49 1ª) A divulgação propagandística (1925-1933) e a institucionalização (1933-1945) do mito ariano fortalecido com o livro Mein Kampf (1925). histórica e econômica. funcionários civis graduados e oficiais da SS e do Partido Nazista. Robert E.293. e ocupando militarmente a Tchecoslováquia. e a Lei da Proteção do Sangue e Honra Alemães (Gesetz zum Schutze des deutschen Blutes und der deutschen Ehre): normatização do processo de arianização da sociedade e Estado alemães e da crescente exclusão da vida social. Dez Decisões que Mudaram o Mundo (1940-1941). detenção de mais de 30. Reino Unido e França. Japão contra a China e outros países do Extremo Oriente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 2ª) Leis de Nuremberg (Nürnberger Gesetze) (1935). Nesta reunião.Alemanha anexando a Áustria. Joseph Goebbels. p. homem de confiança e provável sucessor do segundo. Dr. Dentre as principais causas da eclosão da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) encontram-se: os defeitos do Tratado de Versalhes (1919). para que se alcançasse um “esboço de projeto” dos elementos essenciais – organizacional. com certeza. 5º) A atuação dos esquadrões de extermínio (Einsatzgruppen) no Leste europeu. incluindo os territórios ocupados (Polônia. tiveram participação ativa Reinhard Heydrich. Dr. negligenciado pelos historiadores)57. na Polônia e na União Soviética. com a participação de oficiais nazistas. Em 20 de janeiro de 1942. econômica e cultural do judeu da vida coletiva na Alemanha nazista. dominado a França e enfraquecido o Reino Unido . e Adolf Eichmann (1906-1962).. Reichsamtleiter Dr. antes mesmo do advento do Cristianismo. homem de confiança de Adolf Hitler e Heinrich Himmler. Op. Karl Eberhard Schongarth (Comandante da SD). muito provavelmente. designado por Adolf Hilter e por Heinrich Himmler. radial e sistemática versão do antissemitismo europeu em toda sua história. o enfraquecimento institucional e político da Liga das Nações (1919-1939).. Dela também participaram os seguintes nazistas: Gauleiter Dr. mas também da própria ideologia nazista. São Paulo: HUCITEC. Há distintas formas de se abordar o processo de extermínio do povo judeu pelo Estado nazista. compostas por três textos fundamentais adotados pelo Reichstag sob iniciativa de Adolf Hitler: a Lei da Bandeira do Reich (Reichsflaggengesetz). Donald. Argélia. principalmente) e Totalitarismo de esquerda (representado pela União Soviética). 23 . há dois milênios58. Mark. de países aliados (como a Hungria). a qual apresentava. a Lei da Cidadania do Reich (Reichsbürgergesetz). Dr. e Tunísia). este já existia. Porém. Dr. nos subúrbios de Berlim. Georg Leibbrandt (Ministro do Reich para os territórios ocupados no Leste). da vida européia (e. na Alemanha nazista. São Paulo: Cia das Letras. Ibidem. Ian. Martin Luther (Ministério do Exterior). as demais regiões do mundo)60: a “industrialização em larga escala” do extermínio dos judeus (sobretudo. não inventou o antissemitismo alemão ou europeu. estes) e de todos os “inimigos da raça ariana”61. 2008. orientado por Herman Göring. SS-Oberführer Gerhard Klopfer (Chancelaria do Partido). a partir da Operação Barbarossa (12 de junho de 1941): o início do processo de assassinato em larga escala de comunidades judaicas. social. Martin. a Guerra Civil Espanhola (1936-1939). caso houvesse vitória da Alemanha nazista. sobretudo. SOMMERVILLE. religiosa. Ministerialdirektor Friedrich Wilhelm Kritzinger (Chancelaria do Reich). Reinhard Heydrich. agressiva. às margens do lago que leva este nome. Robert E. de países ainda não invadidos (o Reino Unido) e países neutros (Portugal. o Acordo de Munique (1938) BURNS. no mesmo ano. cultural. 50 DAVIES. Op.defendia a “Solução Final”. num palacete em Wannsee. a corrida armamentista e o expansionismo militarista agressivo . 2003. O objetivo primordial da Conferência. nacionalismos exacerbados.. 1995. e imbuído do mais extremado fanatismo pela ideologia nazista . Cit. ou seja. de direita.de maior contingente populacional judaico. tanto a ideologia como o regime totalitário. com a devida premeditação e planejamento do Estado nazista: destruição e saque de mais de mil sinagogas e dezenas de milhares de lojas e lares judaicos. O nazismo. Cit. com amplo consentimento e aprovação do ditador Adolf Hitler e de Heinrich Himmler. de Adolf Hitler. Wilhelm Stuckart (Ministro do Reich para o Interior). KERSHAW. em seu cerne. 2010. Dr. Hitler.Companhia das Letras. SS-Gruppenführer Heinrich Muller. e como “Plenipotenciário para a Preparação da Solução Final da Questão Judaica Européia”. levaram às últimas conseqüências o ódio coletivo e institucionalizado aos judeus: a sua efetiva eliminação física. Espanha e Suíça. 2º Volume. identitária. em 1938)56 até os extermínios promovidos pelos Einsatzgruppen. Os Nazistas e a Solução Final – A Conspiração de Wannsee: do Assassinato em Massa ao Genocídio. do contexto mundial. Op.000 judeus para campos de concentração e quase 100 judeus assassinados – início do processo de eliminação física dos judeus. República da Tchecoslováquia. Heinrich Himmler e Hermann Göring e outros membros da cúpula nazista55. 2010. São Paulo: Companhia das Letras. interpretado como “inimigo da raça ariana”. Reinhard Heydrich. 55 Idem. União Soviética. Op. a intensa polarização ideológica – totalitarismos de direita (Alemanha. 52 GILBERT. da África do Norte (e. Itália e Japão) versus Democracias Liberais (Estados Unidos. factual e material – em relação à “Solução Final”. SS-Sturmbannführer Dr. tenha-se como ponto de partida.consolidou a ideia da eliminação do judeu. embora tenebroso à razão humana e ao próprio pensamento humanista. Edward McNall.. reuniram-se. SS-Gruppenführer Otto Hofmann (Race and Settlement Main Office).um dos mentores da Conferência de Wannsee (1942). a deportação em massa das comunidades judaicas remanescentes e amplo processo de extermínio de mais de 11 milhões de judeus em toda a Europa. no paulatino. 6º) Institucionalização dos Campos de Extermínio (Vernichtungslager): a tentativa de exterminar todos os judeus da Europa. Norman. O Holocausto: História dos Judeus na Europa na Segunda Guerra Mundial. certamente. Cit. progressivo e tenaz processo de extermínio dos judeus do continente europeu e também do Norte da África (ponto este. & MEACHAM. SS-Oberführer Dr. a mais violenta. Edward McNall. Itália em conflito contra a Líbia e a Etiópia.

em discurso proferido na Chancelaria. BRASIL. 63 EVANS. Pablo. a SS desponta paulatinamente com uma importância estratégica crescente durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945)63. 2006. Preconceito Racial em Portugal e Brasil Colônia. 2010. p. 2003. promovidos pelo Terceiro Reich (1933-1945). pela primeira vez. Neal. Mas não apenas isso: a SS estaria vocacionada. São Paulo: HUCITEC. ___. dez dias após a realização da Conferência de Wannsee (1942). GILBERT. Paul. 2006. Educação e Emancipação. 59 As autoridades nazistas de ocupação estabeleceram o primeiro gueto na Polônia em Piotrków Trybunalski. Abraham (Co-Presidente Nacional da B´nai B´rith Brasil). Nunca mais? – A Ameaça do Novo Anti-Semitismo.. 2009. GILBERT. depois de manifestar a “confiança da vitória” da Alemanha62: (. Martin. Dissertação de Mestrado.. no mês de outubro de 1939 60 GILBERT. RHODES. 5ª Ed. A Chegada do Terceiro Reich. Holocausto: Crime contra a Humanidade. em comunicação interceptada pelo Serviço de Inteligência aliado. A Noite de Cristal: A Primeira Explosão do Ódio Nazista contra os Judeus. ADORNO. Universidade Federal de Santa Catarina. 2005. São Paulo: Sefer. & MEACHAM. Europa na Guerra (1939-1945). Programa de Pós-Graduação em Educação. Chełmno. Caçando Eichmann – Como um Grupo de Sobreviventes do Holocausto Capturou o Nazista mais Notório do Mundo.297. História da Civilização Ocidental – Do Homem das Cavernas às Naves Espaciais. São Paulo: Planeta. Dez Decisões que Mudaram o Mundo (1940-1941).. Op. Em 30 de janeiro de 1942. Cit. GILBERT. Agora. Richard.. na cosmovisão da ideologia nazista. 61 KERSHAW.gov. ADORNO. Bauman e Adorno: Sobre a Posição do Holocausto em Duas Leituras da Modernidade. São Paulo: Companhia das Letras. O Mais Completo Guia sobre Judaísmo. Ian. 2010. CARNEIRO. EVANS. Martin./Theodor-Adorno-EducaCAo-ApOs-Auschwitz>. mas. São Paulo: HUCITEC. O Holocausto: História dos Judeus na Europa na Segunda Guerra Mundial. O Holocausto: História dos Judeus na Europa na Segunda Guerra Mundial. A Noite de Cristal: A Primeira Explosão do Ódio Nazista contra os Judeus. GILBERT. sendo a tropa de elite de confiança de Adolf Hitler. Cit. Bełżec. Rio de Janeiro: Globo. BLECH. STIVELMAN. Gerard. Perspectiva. o resultado desta guerra será a completa aniquilação dos judeus. Martin. 2010. O Holocausto: História dos Judeus na Europa na Segunda Guerra Mundial.pdf>. GILBERT. A SS constituiu a peça-chave do processo de extermínio do povo judeu e de outros “inimigos da raça ariana”. São Paulo: HUCITEC.. desde os tempos em que havia servido no Campo de Concentração de Dachau . a velha lei judaica de ‘olho por olho e dente por dente’. Ben. São Paulo: Planeta. Concorrente ao poder das Forças Armadas tradicionais. Standish. 1999. 1986. LERNER. A Chegada do Terceiro Reich. 2003. Acessado em 23/04/2011. 2º Volume. com a eliminação dos arianos. DAVIES. 2004 CURY. 2007. “Educação após Auschwitz”. Acessado em 27/04/2011. FOXMAN. 3ed. Richard. São Paulo: WG Comunicações e Produções.. Além disso. São Paulo: Cia das Letras. São Paulo. ALMEIDA. Pais Brilhantes e Professores Fascinantes. 56 57 24 . São Paulo: Planeta do Brasil. encontrava-se na centralidade do processo de arianização do Estado. 2010.d. Rio de Janeiro: Objetiva. Cit. Mestres da Morte – A Invenção do Holocausto pela SS Nazista. Rio de Janeiro: Ediouro. GOLDSTEIN.) a guerra não terminará como imaginado pelos judeus. 62 GILBERT. Martin. Theodor.. 2006. mais o antissemitismo se difundirá. das Forças Armadas. Adolf Hitler assim expressava suas expectativas em relação ao rumo da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e à Questão Judaica. Sobibór e Treblinka. Martin. Hannah. 1972. 2010. Martin. 2010. O Holocausto: História dos Judeus na Europa na Segunda Guerra Mundial. São Paulo: HUCITEC.Adolf Eichmann tornou-se .com/. Disponível em: <http://portal. Norman. São Paulo: Francis. Theodor W. Maria Luiza Tucci. Rio de Janeiro: Ediouro. E chegará a hora em que o mais vil inimigo universal de todos os tempos será derrotado. O Holocausto: História dos Judeus na Europa na Segunda Guerra Mundial. Rio de Janeiro: Sextante.o implacável antissemita. da sociedade e da cultura alemães. Op.. Martin. BURNS. Martin. 58 MESSADIÉ. BASCOMB. S. O Holocausto: História dos Judeus na Europa na Segunda Guerra Mundial. Felipe Quintão. pelo menos por mil anos. GILBERT. pela primeira vez. 2005. Rio de Janeiro: Ediouro. Martin.. 2008. Ele se alimentará em cada campo de prisioneiros e em cada família que descobrir a razão dos sacrifícios que são obrigados a fazer. Augusto.. Disponível em: <www. Eichmann em Jerusalém – Um Relato sobre a Banalidade do Mal. ARENDT. ALLEGRITTI.scribd. eles não sangrarão outros povos até a morte. “Discurso de Abertura da V Jornada Interdisciplinar sobre o GILBERT. Richard. Op. Abraham. 2004. USA Filmes. a se transformar tanto na nova aristocracia como na classe de “sacerdotes” dos mistérios antigos teutônicos (anteriores à cristianização da Alemanha)64. Martin.por sua fidelidade a Reinhard Heydrich. E – os judeus de todo o mundo podem até ter consciência de que – quanto mais se estendem as batalhas desta guerra. Benjamin (Rabino). 2010. Rio de Janeiro: Ediouro. Rio de Janeiro: Paz & Terra. A Noite de Cristal: A Primeira Explosão do Ódio Nazista contra os Judeus. GILBERT. 2010. será aplicada. 2006. Rio de Janeiro: Record. 7ª ed.mec. SENADO FEDERAL. ___. O Clã de Hitler. ROLAND. 2010. São Paulo: Ática.Auschwitz-Birkenau. 64 A História do Terceiro Reich. São Paulo: HUCITEC. 1 DVD... 2006. Raquel. Robert E. “Lei de Diretrizes e de Base da Educação” (Lei 9394/96). A Conferência de Wannsee (1942) veio a confirmar o papel principal desempenhado pela SS no fortalecimento do Terceiro Reich (1939-1945). São Paulo: HUCITEC. Edward McNall. seja com os esquadrões da morte (Einsatzgruppen). ao Exército alemão (Wermacht). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. de modo especial. REFERÊNCIAS ABRAHAM. fanático nazista e obsessivo “arquiteto” da Solução Final.br/arquivos/pdf/ldb. A Noite de Cristal: A Primeira Explosão do Ódio Nazista contra os Judeus. SUBSECRETARIA DE INFORMAÇÕES. seja com a “industrialização em larga escala” da máquina da morte nos campos de extermínio nazistas (Vernichtungslager) . 2010. …E o Mundo Silenciou. Majdanek.

visto como o conjunto de regras e princípios que regulamentam e organizam a vida social em determinado tempo e espaço. 2009. São Paulo: Cia das Letras. ISRAEL. São Paulo: Companhia das Letras. São Paulo: Companhia das Letras.Coleção Teatro Moderno. 2008.bnai-brith. 2010. o aval oficial de uma lei nacional de referência funcionou como etapa estratégica pedagógica ao projeto progressivo de dominação global. Jerusalén: Yad Vashem. Ian. Marcelo Vieira. STIVELMAN. no dia 06 de junho de 2008. Editora Rocco. proveniente de um conjunto de leis concebidas de maneira perfeitamente válida em sua aparência. 2006. não é algo comprometido com a noção de bem ou mal – que são vetores morais contingentes à determinada conjuntura sócio-cultural. YAD VASHEM. Para que lo sepan las Generaciones Venideras: La Recordación Del Holocausto em Yad Vashem. Mark.Ensino do Holocausto”.br/content/mail/press_especial. 27ª Edição 2006 Goodrich. Portugália Editora. Judaísmo para Todos. KEEGAN. JOHNSON. 2ª Ed. HOBSBAWN. New York: Lorenz Books. sob certo viés analítico.. entendido como sinônimo de lei. Atualmente exerce a profissão de Promotor de Justiça e professor de Direito Constitucional e Administrativo na Universidade Luterana do Brasil em Santarém (PA). mestre em direitos fundamentais e relações sociais pela UFPA. Purificar e Destruir: Usos Políticos dos Massacres e dos Genocídios. Tese de Doutorado. FILMOGRAFIA A História do Terceiro Reich. John.A . As Forças Negras desencadeadas pelo Terceiro Reich. Gomes. por exemplo. São Paulo: Companhia das Letras. Donald. Memória e Identidade Social: A Experiência da Fundação Shoah. O Ódio entre os Homens – Anti-Semitismo: o mais Longo dos Ódios. Rio de Janeiro. Apesar de admitir diversas abordagens metodológicas. 2010. O Diário de Anne Frank . SÉMELIN. Produtores Bill Locke e Chris Kelly. doutorando em direitos humanos pela Universidade de São Paulo (USP) e membro do LEER/USP desde 2009. 2003. 2003. ISRAEL. Assim. Todos os atos opressivos. conduzido pelo poder totalitário. RENOUVIN. Historicamente. Jacques. Hitler. São Paulo: DIFEL. Paul. PROPOSTA PEDAGÓGICA: uma abordagem histórica sobre o processo de construção dos direitos humanos na modernidade O direito. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. DEPARTAMENTO DE EDUCACIÓN Y DESARROLLO.. Tel Aviv. O Terror e a miséria no Terceiro Reich. São Paulo: Madras. WALSH. Realizada em Curitiba. Editora Agir . José Flávio Sombra (Org. USA Filmes. Kátia. Criação do Estado de Israel. Jean-Baptiste. História dos Judeus. Raquel. LERNER.visaojudaica. 2004. 1975. Programa de PósGraduação em Sociologia e Antropologia.html>. 5 Iyar 5708. Mestres da Morte – A Invenção do Holocausto pela SS Nazista.asp?cod=152>.. 1988. 2008. Era dos Extremos: O Breve Século XX (19141991). ___. mas de forma completamente deplorável em seu conteúdo. F e Hackett . 2003. Os Nazistas e a Solução Final – A Conspiração de Wannsee: do Assassinato em Massa ao Genocídio. 1995. 2008. Gerard. mecanismo instrumental 65 Tulio Chaves Novaes é bacharel em direito pela Universidade Federal do Pará (UFPA). 5ª Edição. LEITURAS COMPLEMENTARES AS LEIS DE NUREMBERG: A INSTITUCIONALIZAÇÃO DA EXCLUSÃO DE MINORIAS Tulio Chaves Novaes65 1.com. É Isto um Homem? . História das Relações Internacionais Contemporâneas – da Sociedade Internacional do Século XIX à Era da Globalização.1948). Holocausto. Primo. Pierre & DUROSELLE. Rio de Janeiro: Imago. SORJ. Adam Kemp e Neil McDonald. 1967. O Santo Inquérito. no entanto. Acessado em 25/04/2011. Declaração de Independência (Governo de Israel. “O Papel do Docente na Construção da Memória do Holocausto”. São Paulo: Imago. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. MESSADIÉ. Rio de Janeiro: DIFEL. 1995. realizados pelo Estado nazista no início da perseguição aos judeus. 25 . SOMMERVILLE. Dez Decisões que Mudaram o Mundo (1940-1941). São Paulo: Saraiva. BBC Worldwide. o direito. Rio de janeiro. 2003. Richard. 1995.br/Abril2006/artigos/2. apresentou-se durante o século XX como um dos instrumentos mais eficazes de sujeição e controle das pessoas através da força ou autoridade de determinado governo. ROLAND. Paul. Levi. 14. ou arte tampouco. Acessado em 29/04/2011. 2009. este ramo do conhecimento humano em si não se confunde com ciência. São Paulo: Companhia das Letras.5. SARAIVA. RHODES. História Geral do Anti-Semitismo. The Complete Illustrated History of World War Two: An Authoritative Account of the Deadliest Conflict in Human History with Analysis of Decisive Encounters and Landmark Engagements. Eric. Editora Ediouro. foram praticados dentro da mais rigorosa aferição legal. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. São Paulo: Civilização Brasileira. 2º Ed. 2003. com. 1 DVD. representa. Dias. Bernardo. 2007. Disponível em: < http://www.). 1 DVD. Disponível em: < http://www. KERSHAW. ROSEMAN. ESCUELA INTERNACIONAL PARA EL ESTUDIO DEL HOLOCAUSTO. SUGESTÕES DE LEITURA Brecht. Revista e Atualizada. filosofia. S. Tempos Interessantes – Uma vida no Século XX. Universidade Federal do Rio de Janeiro. Introdução à História das Relações Internacionais.d. Uma História da Guerra. Bertold. Produtores Executivos: Richard Bradley. ___.

como as referidas “Leis de Nuremberg”. como venham a lhe garantir as condições existenciais mínimas para uma vida saudável. pois as mesmas são apresentadas como um conjunto de direitos. descendo uma ladeira íngreme. destes três últimos elementos listados. no seu conjunto. foram os mais diversos possíveis. Assim. um complexo de direitos e deveres fundamentais que assegurem a pessoa tanto contra todo e qualquer ato de cunho degradante e desumano. Não são direitos unilateralmente prescritos por uma mente privilegiada. encabeçadas pela Declaração Universal de 1948. como veremos nos tópicos seguintes. Dignidade da Pessoa Humana e Direitos Fundamentais. a história da discriminação e do preconceito. criando verdadeiras aberrações jurídicas do ponto de vista ético e moral. sem freio. supranacionais. 2006. que visam proteger certos valores históricos universais.conjunto mínimo de direitos necessário para assegurar uma vida do ser humano baseada na liberdade. 72 Para melhorar o entendimento sobre o tema vide PEDROSO. Na definição encontramos alguns elementos estruturais que denotam a raiz pragmática destes tipos especiais de normas. que representava verdadeiro óbice a qualquer iniciativa de sistematização de leis. entender como a retirada da cidadania dos judeus representou etapa essencial ao processo 67 68 de desumanização perpetrado pelo Estado nazista. na sua RAMOS. Sem o direito o poder é como um pesado vagão de trem. dignidade é “a qualidade intrínseca e distintiva de cada ser humano que o faz merecedor de respeito e consideração por parte do Estado e da comunidade. ou seja. Teoria Geral dos Direitos Humanos na Ordem Internacional. que. o conjunto sistemático de normas positivas e princípios jurídicos. 2. o qual. A partir do momento em que a violência tornou-se juridicamente institucionalizada. da Universidade de São Paulo. procuraremos demonstrar.20. propiciando seu condicionamento ideológico. os direitos humanos. Pela objetividade semântica e didática. organização e controle do poder. tais elementos variaram da oficialização dos mitos sociais ao apelo ostensivo ao nacionalismo unificador do discurso do triunfo sobre o inimigo objetivo. estava na ausência de uma base normativa internacional capaz de aglutinar objetivamente estes direitos em espécie. bem como pela profundidade de conteúdo. promulgadas pelo Estado alemão em 24 de setembro de 1935. como o castigo de Prometeu. Muito pelo contrário.19..indispensável à sistematização. como ocorria na Idade Média com o chamado direito natural. tende a reproduzir em escala seus efeitos na atualidade. E foi justamente através da via ideológica que o poder que oprime introduziu no direito posto suas regras de dominação. p. André de Carvalho. 2005. da justiça e da desvirtuada razão de Estado. proporcionou a cristalização moderna daquilo que costumeiramente chamamos direito internacional dos direitos humanos. nem trilho. igualdade e na dignidade67. evidenciados pela sua necessidade de gozo ou efetivação. 2005. propostos pela Lei da Cidadania do Reich e pelas Leis para a Proteção do Sangue e Honra Alemã. sem a memória dos fatos opressivos e sem consciência crítica para identificar e combater manifestações pragmáticas da intolerância moderna. São Paulo: Boitempo. Ingo Wolfgang. dado pela oficialização da discriminação através da promulgação de legislação nacional francamente racista e restritiva. 26 . Mas. transformou-se em algo trivial. o qual entende os direitos humanos da seguinte maneira: . nem maquinista definido! Este papel estruturante referenciado não diminui a importância pragmática do universo jurídico na reprodução dos valores sociais vigentes. p.. apesar do grande malefício provocado ao povo judeu. em parte. caminham quase sempre de mãos dadas. A complexa etiologia do holocausto inclui o incentivo pedagógico. São Paulo: Editora Lazuli. 10 de Dezembro de 1948 – A Declaração Universal dos Direitos Humanos. apresentamos a definição fornecida pelo professor André de Carvalho Ramos. Tendo a condição humana como única exigência. Entendidos desta maneira. o resgate histórico da memória da legislação nazista dos anos 30. Ao contrário disto. Regina Célia.60 apud RAMOS. determinada pelo consenso internacional e aprendizado histórico proveniente do reconhecimento de graves erros do passado. culminando com a bestialização de seres humanos. que culminou com o genocídio praticado nos campos de extermínio. Não fortuitamente. Os mecanismos de ideologização do direito. op. Livraria dos Advogados. Opressão institucionalizada e racismo. hodiernamente. resultante da superação de momentos históricos de opressão e do reconhecimento dos povos da necessidade de proteção de certos valores fundamentais à vida com dignidade. correspondem à conquista moderna da sociedade humana. Walter Benjamin: Aviso de Incêndio: Uma Leitura das Teses “Sobre o Conceito de História”. de fato. Rio de Janeiro: Renovar. no rol de suas causas essenciais. com a presente exposição. explicitaremos algumas convicções generalizadas sobre a natureza de tais direitos para. 2001. tidos como pertencentes a todas as pessoas. praticado pelo governo nazista em nome da lei. que tipos de direitos seriam estes? Qual a sua ontologia? Para responder a estas perguntas acrescentaríamos à idéia conceitual inicial o referencial histórico que lhes condiciona e define o conteúdo. Porto Alegre: Ed. Noções Teóricas Sobre Direitos Humanos Fundamentais66 Existem diversas explicações que procuram conceituar teoricamente o que seriam os Direitos Humanos Fundamentais. Além de reconhecer o papel da cidadania na construção dos direitos humanos fundamentais e na prevenção aos influxos autoritários do poder político. cit. A principal característica deste momento inicial. o menosprezo pelo direito à diferença. implicando neste sentido. série Rupturas. Partindo deste ponto específico. 73 Ibidem. além de propiciar e promover sua participação ativa e co-responsável nos destinos da própria existência e da vida em comunhão com os demais seres humanos” – SARLET. André de Carvalho. Michael. 71 Mas o problema primordial não se resumia apenas na ausência de estrutura orgânica e funcional eficiente para implementar tais direitos – fato que vincula-se muito mais às controvérsias humanísticas de hoje em dia. ditado pela cúpula da Igreja Católica Romana. p. Na Alemanha nazista a desumanização do povo judeu não representou fenômeno vinculado somente a causas sociológicas ou culturais. Conforme o nível de institucionalização dos vetores e necessidade de controle das massas. 70 Para aprofundamento da temática vide: LÖWY. portanto. tais direitos encontram-se vinculados em base socialmente verificável. Ocorre que. Segundo SARLET. ou por algum outro tipo de fonte inspiradora politicamente conveniente. as “Leis de Nuremberg” de 1935 representaram o passo fundamental ao reforço do discurso ideológico totalitário. estes direitos especiais fornecem base concreta para a caracterização do valor dignidade humana68. a razão de Estado define possibilidade de ingerência da política no sistema jurídico. em seguida. desta feita.

que a base ético-material desta noção teórica permanece ligada à negação de todos os momentos históricos em que seres humanos foram tratados como objetos inanimados. André de Carvalho. a liberdade de pensamento e de crença. Próximo ao conceito de história. onde a força normativa de certos direitos tidos como inalienáveis ainda se sujeitava sobremaneira ao empirismo resultante do direito natural e às vicissitudes sócioculturais de cada país soberano no exercício de sua boa vontade. soa como verdadeira Constituição Mundial que. a liberdade de opinião. o direito ao julgamento pelo juiz natural. Diferentes em abrangência e importância temática. aos lazeres. percebe-se.71 Tal documento jurídico coroava normativamente uma série de direitos fundamentais e inalienáveis. estas liberdades são as seguintes: liberdade pessoal. a nacionalidade. de reunião. por sua vez. pp. Por tal característica estes direitos são vistos como liberdades positivas. presunção de inocência. sob a pressão da invasão nazista à França e diante da instauração da ditadura de Vichy. necessária à imposição de certos deveres e obrigações jurídicas aos entes estatais –. 74 27 . à segurança. o trabalho remunerado de forma justa. firma impossibilidade de se estabelecer qualquer tipo barganha com certos bens humanos tidos por inalienáveis. a propriedade. a privacidade. passíveis de submissão ou destruição por parte de outras pessoas ou estruturas políticas totalitárias. ao repouso. diante da fragmentação da ordem política internacional – proveniente.essência. a proteção por tribunais oficiais neutros. cit. igualdade. à nacionalidade. a regra passa pelo gerenciamento e controle por parte do Estado. ou direitos sociais. fornecido por Walter Benjamim69 antes de seu suicídio. Os direitos de primeira geração. à vida cultural73. proibição de discriminações. Estas disposições normativas. a segurança pessoal etc. representada pela Declaração Universal de 1948 e seus documentos primordiais. –. A vida do homem em sociedade. ou brasileira de 1934. a integridade física e mental. proibição de prisões arbitrárias. ano da fundação oficial do Estado de Israel em meio à dor proveniente das seqüelas incuráveis do pós-guerra e diante das imagens das atrocidades praticadas pelos nazistas nos campos de extermínio. independentemente do que poderiam definir os Estados nacionais. Na prática o diploma internacional referido sintetizou diversos direitos históricos. à saúde. dos genocídios e etnocídios etc. resultou em diversos outros documentos jurídicos internacionais74. na prática administrativa diária cada Estado ditava a solução mais conveniente no campo da preservação de valores essenciais70. sugeria a necessidade de intervenção do Estado para o desenvolvimento de políticas públicas que dariam azo à diminuição de desigualdades e ao estabelecimento de melhores oportunidades de vida e subsistência. onde. em reação em cadeia. pode ser dividido em dois momentos estruturalmente distintos: 1) Antes deste marco. via de regra. tínhamos o que se pode chamar de fase pré-jurídica. a liberdade de casar e os chamados direitos políticos18. ao sacralizar tais valores. lugar onde. que. tomando por base a Declaração Universal de 1948. a educação. Esta característica ensejaria noção de preço. op. parte 2. tidos como pertencentes a todos os seres humanos. a saúde. 2) O segundo momento só viria com o fim da Segunda Guerra Mundial. nem mesmo diante do dogma da soberania estatal. Sua base subjetiva estabelecia um campo de garantias individuais imune à ingerência estatal. Em espécie. Bem como outros direitos que venham à lume através do processo de desenvolvimento dialético histórico. qualificada pela doutrina kantiana como inegociável. pela sua importância. das disputas bélicas e econômicas que motivaram a Primeira Grande Guerra e da inexistência de estrutura supranacional consensual. promulgou a Declaração Universal dos Direitos do Homem. ou seja. Sociais e Culturais e o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos (ambos ratificados pelo Brasil apenas em 1992). a ordem jurídica internacional – simbolicamente através da negação dos campos de concentração. O processo de construção do sistema jurídico internacional de direitos humanos fundamentais. este conjunto de leis suscitou a subsistência de verdadeiro sistema mundial de disposições defensivas dos direitos humanos fundamentais. das pilhagens e carnificinas organizadas. qualificados como liberdades públicas essenciais. o direito ao asilo. a alimentação. fundada na legitimidade proveniente de concordância internacional. a não ser para reforçá-las e protegê-las. classicamente. ao direito ao trabalho. correspondem à seguridade social. São espécies destes bens a liberdade. diferentemente do homem em suas relações interindividuais. ocorrido em circunstâncias suspeitas em setembro de 1940. de associação. 163-255. em primeiro momento. o Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos. Assim. que foi aderida pelo Brasil também em 1992. em resumo. Neste primeiro momento. Assim. não seria admissível qualquer intromissão estatal. o direito de propriedade. à educação. Por isso tais direitos foram também qualificados como liberdades negativas. ao contrário dos direitos individuais. o direito à vida. hoje em dia não mais entendida como sinônimo de poder absoluto. O significado moral desta injunção reside no entendimento de que o ser humano não pode ser comparado. Esta base normativa internacional. baseada na possibilidade irrestrita dos Estados gerenciarem a vida e os Citamos. foram provenientes da declaração francesa de 1789 e representaram os valores relacionados à liberdade individual do cidadão frente ao Estado. de forma fundamental. a família. Igualmente mencionamos a Convenção americana sobre Direitos Humanos (conhecida com Pacto de São José da Costa Rica). como as que resultaram na Constituição Mexicana de 1919. A exploração e a ausência de regulamentação da jornada de trabalho. provocaram lutas proletárias intensas que evidenciaram a necessidade de se resguardar direitos relacionados à esfera social das relações humanas. ditos de primeira e segunda geração. a Assembléia Geral das Nações Unidas. a liberdade de ir e vir. Já a idéia de dignidade suscitaria propriedade bem diferente. à associação sindical. em 10 de dezembro de 1948. Com a proeminência de tal sistema jurídico específico a idéia westffaliana de soberania política. Concomitantemente vieram os direitos de segunda geração. 75 Rol apresentado por RAMOS. foram concebidos a partir das conquistas trabalhistas do século XIX e XX. nem tratado como coisa fungível ou descartável. mormente. acaba por entender e determinar a existência de alguns bens que não se sujeitam a nenhum tipo de preterição ou pechincha. dos pogrons.

revelando superioridade na hierarquia das normas. por seu turno. para rebaixar oficialmente os judeus à qualidade de cidadãos de terceira categoria. merecendo igual proteção. podem ser listadas didaticamente através dos seguintes pontos objetivos75: Superioridade normativa: no plano interno ou no internacional as regras e princípios de direitos humanos sempre ocupam lugar de destaque.direitos das pessoas sujeitas ao seu poder. não há nem mesmo a necessidade de assinatura de tratados internacionais para obrigar determinado Estado a respeitar os limites salutares à sobrevivência das pessoas. Abertura: o valor que vivifica seu conteúdo não é imutável. Indisponibilidade: em regra. em critérios relacionados à pureza de sangue. artigo 3º: O Ministro do Interior do Reich e o substituto do Führer emitirão os decretos legais e administrativos necessários para executar e completar esta lei. estaria completamente alijado da proteção estatal. objetivando diretamente à marginalização dos judeus. Os casamentos celebrados apesar dessa proibição são nulos 28 . que. sobretudo. Os artigos desta lei afirmavam o seguinte: artigo 1º: I) Um sujeito do Estado é uma pessoa que pertence à união protetora do Reich alemão e que tem obrigações particulares com o Reich. Adéquam-se a todas as pessoas. ligadas a valores culturais segregacionistas e racistas. relegou-se discricionariamente ao Estado o poder para a concessão da cidadania alemã como condição ao exercício de certos direitos fundamentais e proteção estatal. os mesmos direitos também valem e devem ser respeitados nas relações entre os próprios particulares. por sua conduta. podendo ser invocados de imediato nos Tribunais por parte dos interessados. sujeitando-se a qualquer tipo de anátema. As chamadas “Leis de Nuremberg”. Desta forma. que deseja servir fielmente ao povo alemão e ao Reich. cindiu-se a sociedade alemã. Esta legislação discriminatória prenunciou a perseguição sistemática ao povo judeu. Eficácia horizontal: além de validade nas relações entre particulares e o poder público. As Leis de Nuremberg A vigência da noção da soberania estatal como poder absoluto. independentemente de assinaturas de tratados ou outros documentos internacionais. ninguém pode renunciar aos direitos humanos fundamentais. Interdependência: não se podem desgarrar tais direitos. independentemente da idéia de soberania nacional ou idiossincrasias culturais. pelo menos em tese. determinaram exemplos históricos contundentes de abusos. a outra. 3. Proibição de retrocesso: como patrimônio da humanidade. modelando as regras da chamada “Lei da Cidadania do Reich”. Esta lei foi estabelecida nestes termos: artigo 1º: I) São proibidos os casamentos entre judeus e cidadãos de sangue alemão ou aparentado. baseado. o governo nazista promulgou a chamada “Lei para a Proteção do Sangue e Honra Alemã”. Desta forma. II). As características primordiais dos direitos humanos fundamentais. os direitos humanos fundamentais só podem ser ampliados ou aperfeiçoados. Aplicabilidade imediata: tais direitos não dependem de outras leis ou quaisquer outros desdobramentos normativos para se efetivarem. Complementando os objetivos discriminatórios da legislação apresentada. cometidos em nome da lei contra direitos fundamentais. Dentro da primeira definição. Com a iniciativa. ou limites de tempo e espaço. na ocasião. os direitos humanos fundamentais também denotam aspecto institucional. ou seja. definidos pela ordem jurídica como oficiais. III)Somente o cidadão do Reich desfruta de Direitos políticos completos de acordo com as determinações das leis. Indivisibilidade: pois nenhum dos direitos humanos pode ser separado do seu contexto conjuntural. Caráter erga homnes: estes direitos foram criados para englobar não só as pessoas do mundo inteiro. artigo 2º: I) Um cidadão do Reich é aquele sujeito que é alemão ou que é de sangue alemão e que provar. Exigibilidade: os direitos humanos fundamentais são eminentemente vinculados a uma necessidade ética. não se pode agredir um determinado direito humano fundamental sem agredir os outros. outorgadas em 15 de setembro de 1935 na cidade de Nuremberg pelo Parlamento Alemão (o chamado Raichstag). cedeu espaço a outro modelo protetivo. A regulamentação informada estruturava-se em duas direções: uma se relacionava aos aspectos formais da concessão e do reconhecimento da cidadania alemã. ou seja. ou seja. que privava os judeus de quase todos os direitos civis individuais e políticos. criando um sistema racial de reconhecimento de cidadania.O status de sujeito é adquirido conforme providências do Reich e lei do Estado de Cidadania. quem não se enquadrasse biologicamente dentro dos padrões étnicos e culturais. vedando-se aos Estados a possibilidade de diminuição ou aviltamento direto ou indireto do nível de proteção já alcançado. hoje em dia. Dimensão objetiva: além de representarem direitos de pessoas. em qualquer momento da história. também em 15 de setembro de 1935. tais direitos são suscetíveis à evolução histórica e ao aprimoramento cultural. estava composto por integrantes do partido nazista. compunha a delimitação e identificação dos sujeitos destes direitos. mas também todos os Estados nacionais. que se integram e interagem em uma mesma base intercomplementar. baseado na possibilidade de interferência internacional em qualquer lugar para a garantia destes direitos inalienáveis. representado por deveres e garantias que devem ser obedecidos por todos. bem como a inexistência orgânica e funcional de sistema jurídico internacional apto a fazer valer suas prescrições normativas. a implementação prática de seus preceitos é crescente e obrigatória. Consistiram de per si em conjunto de normas jurídicas. II) O Direito de cidadania é conseguido pela concessão dos documentos de cidadania do Reich. Universalidade: os direitos humanos fundamentais extrapolam a órbita da nacionalidade. compostas pelo conjunto integrado de duas outras legislações – as Leis para a Proteção do Sangue e Honra Alemã e a Lei da Cidadania do Reich – representam um destes malsinados modelos.

Neste sentido. espalhados amiúde em diversos momentos históricos significativos. Estes grupamentos humanos subordinados foram tendenciosamente identificados como inimigos do bem comum e como estorvo ao desenvolvimento sócio-econômico. relata com precisão este processo de degradação sofrido por todas as vítimas do holocausto. à necessidade de oficialização dos valores antissemitas no seio da sociedade alemã. transmuta-se a idéia de homem do “ter” para o “ser”. que não poderia ocorrer abruptamente de uma hora para outra. o imaginário social. coisas e animais. um dos poucos judeus que sobreviveram a Auschwitz. com a transformação daqueles seres humanos em coisas completamente substituíveis. consistiu em etapa secundária dentro do programa de totalização do poder. percebemos diversos exemplos em que membros da espécie foram alijados da condição humana simplesmente por um capricho conceitual da legislação. políticos. na prática. já estava preparado para receber tal legislação. A cidadania pode ser entendida como a possibilidade de realização do conjunto de prerrogativas legais individuais. Seguindo a lógica moral dos valores humanísticos fundamentais. a honra subjetiva. As premissas que fundamentaram esta legislação extravagante ligavam-se. o que resta? Biologicamente vemos um membro da espécie humana. 4. desenvolveu-se aos poucos a partir da decomposição gradual de aspectos centrais ao direito de cidadania daquelas pessoas. artigo2º: As relações extra-matrimoniais entre judeus e cidadãos de sangue alemão ou aparentado são proibidas.. artigo 3º: Os judeus são proibidos de terem como criados em sua casa cidadãos de sangue alemão ou aparentados com menos de 45 anos. em regra através de leis discriminatórias. Parte do projeto de recrudescimento do poder político nazista. baseada no discurso da idéia de pureza de raça. relacionase à possibilidade de se titularizar direitos e de se vincular a obrigações em determinado cenário legislativo.. Com a noção de dignidade da pessoa humana. libertando sua definição das vicissitudes e conveniências de alguma legislação politicamente variante no tempo e no espaço. necessário ao projeto nazista de extermínio total. imagine retirar todo o patrimônio jurídico. por sua vez. mas. desta maneira. O fato histórico pode até mudar. físico e moral. para o mundo cívico. Neste aspecto. sobretudo. fez parte de processo paulatino de transformação da consciência coletiva. políticas e sociais necessárias para que determinada pessoa possa usufruir os benefícios e gozar isonomicamente as oportunidades resultantes da vida em sociedade com justiça e equidade. nunca sujeitos. Assim. mas o processo de desumanização permanece semelhante. arregimentado por alguém durante sua existência – tal como o nome. artigo 6º: O Ministro do Interior do Reich. não temos nada além de um objeto76. os direitos civis. passou pela perda gradual de cidadania e alcançou o paroxismo. transformou-se em obrigação e meta política com a introdução de tais preceitos no sistema jurídico. Assim ocorreu com as vítimas diretas do escravismo no Brasil. ou seja. II) Quem infringir os artigos 3º e 4º será condenado à prisão que poderá ir até um ano e multa. Perceba que a retirada oficial das faculdades que compõem a idéia de cidadania. O exercício dessa autorização é protegido pelo Estado. Desta maneira. por exemplo. com a retirada completa de todos os direitos e garantias fundamentais. aptas ao descarte através da chamada solução final. da maneira como se deu a manipulação das consciências individuais. Aliás. os predicados pessoais de estado. Para entender melhor a assertiva. revela-se como a somatória dos atributos físicos e morais que determinada ordem jurídica define como pertinente em momento específico. publicará as disposições jurídicas e administrativas necessárias à aplicação desta lei. tal condição existencial pode ser simplesmente compreendida como capacidade de exercício de direitos e garantias essenciais à vida com dignidade. Este termo. oficializada com as “Leis de Nuremberg”. somente uma pessoa física ou jurídica pode assumir estas qualidades. impregnado de referências simbólicas desqualificantes da comunidade judaica e de outras minorias étnicas. 29 . e. Sem a possibilidade de realização das faculdades disponíveis e indisponíveis que compõem institucionalmente a figura do cidadão não há nem mesmo como assegurar a noção jurídica de pessoa. sofrida pelos judeus que se encontravam sujeitos ao sistema de dominação nazista. a opinião amplifica-se em importância na medida em que se verifica que a desumanização derradeira. basta ser homem para ter direitos fundamentais indisponíveis assegurados. artigo 4º: I) Os judeus ficam proibidos de içar a bandeira nacional do Reich e de envergarem as cores do Reich. passava de forma imprescindível pela necessidade de formação de mentalidade nacionalista. do qual todos nós ainda hoje estamos sujeitos. com os negros americanos que vivenciaram as leis de “Jim Crow”. ou a uma ou outra destas duas penas. Premissas Discriminatórias de Nuremberg O estudo e o reconhecimento pedagógico da importância da educação para os direitos humanos através do aprendizado histórico viabilizam a compreensão da cidadania como requisito imprescindível para se viver com dignidade. no início do século XX. O início deu-se com o apelo simbólico a estigmas sociais personificadores do inimigo objetivo.e de nenhum efeito. II). A introdução de tais elementos anímicos no direito posto. nesta situação. Primo Levi. os bens materiais etc. ao descrever o 76 O que os direitos humanos procuram fazer é vincular parte significativa do potencial transformativo da ordem jurídica a serviço do próprio homem. ou com os judeus que sofreram a perseguição nazista. são apenas objetos de direitos.Mas são autorizados a engalanarem-se com as cores judaicas. parece sempre representar o passo antecedente à transformação de seres humanos em coisas descartáveis. sob a ótica dos direitos humanos. reconhecemos que o processo de desumanização sofrido pelo povo judeu. II) Só o procurador pode propor a declaração de nulidade. durante quase duas centenas de anos. mesmo que tenham sido contraídos no estrangeiro para iludir a aplicação desta lei. a noção dogmática de homem para o direito positivo. artigo 5º: I) Quem infringir o artigo 1º será condenado a trabalhos forçados. Em regra. individuais e sociais. com o assentimento do representante do Führer e do Ministro da Justiça. por seu turno. o que era antes considerado como simples conveniência social.

Para tanto. mas permanece o mesmo no conteúdo. levaremos até a morte essa marca tatuada no braço esquerdo. uma velha carta. do que éramos. A revogação completa de todas as outras demais disposições normativas segregacionista somente ocorreu mais tarde. a mobilidade e o acesso de grupos de cristãos-novos a certas posições. Roubarão também o nosso nome. Nada mais é nosso: tiraram-nos as roupas. suscita a discriminação do cristão novo. Maria Luiza Tucci. utilizada para disfarçar o espanto de suas incongruências morais. Preconceito Racial em Portugal e Brasil Colônia: Os Cristãos-Novos e o Mito da Pureza de Sangue. que até o mendigo mais humilde possui: um lenço. um homem privado não apenas dos seres queridos.. em todos esses objetos nossos. percebemos que o viés discriminatório da legislação foi camuflado por concessões. 1998. com o Civil Rights Act. A Efetivação Obrigatória dos Direitos Humanos Fundamentais Diante de sua dimensão ética. se nos escutarem. 80 A Suprema Corte declarou a inconstitucionalidade da segregação escolar resultante destes dispositivos discriminatórios somente em 1954. o grande ativista menciona o seguinte: Condição humana mais miserável não existe. como o modelo deturpado de cidadania exposto nas chamadas leis de “Jim Crow”. o qual faz questão de esconder sua verdadeira fisionomia. vocacionada à preservação de certos valores humanos supremos e indisponíveis na sociedade mundial. do inimigo objetivo. Dessa forma. diferenciando e segregando entre as hipotéticas raças os direitos de utilização do espaço e dos serviços públicos que. se falarmos. não nos escutarão – e. 78 30 . Meu nome é 174. permanecia como espécie de etapa necessária à solidificação da consciência nacional e ao desenvolvimento social inclusive no Brasil colonial. é significativa a seguinte constatação apresentada. passando a limitar as escolhas.77 A demonstração desta característica em vários outros momentos históricos da humanidade indica a discriminação de minorias como característica arquetípica constante no projeto multigeracional do poder totalitário. 58-68. os direitos. seus hábitos.. até os cabelos. transformado em algo tão miserável. a fotografia de um ser amado. pp. analisando as características do processo de dominação do Brasil colônia pela coroa portuguesa.. mesmo diante disto. pela mencionada Professora: Através do estudo das narrativas discursivas impressas na 77 legislação. de ter acesso às confrarias. esquecido de dignidade e discernimento. 67-68. portando-se.25. que se disfarça na forma. a própria implementação destes respectivos LEVI. Ao impor regras para a seleção de seus membros. exposta dentre outras pérolas através dos chamados “estatutos de pureza de sangue”. Percebidos como inimigo objetivo. os cristãos-novos já eram proibidos de ocupar cargos eclesiásticos. que vigorou por quase cem anos a partir de 1876. Este conjunto difuso de leis específicas. retratando com precisão o processo normativo de oficialização da exclusão e do racismo como peças integrantes de empreendimento mais amplo de controle absoluto social. os sapatos. sua roupa. não nos compreenderão.mecanismo sistemático de desumanização que as pessoas submetidas aos campos de concentração sofreram no apogeu da administração nazista. deveremos encontrar dentro de nós a força para tanto. CARNEIRO. ou favores. reduzido a puro sofrimento e carência. o mecanismo excludente de desumanização do outro permanece intocável na origem do problema. Mais uma vez percebemos a necessidade do estabelecimento de estrutura jurídica conveniente e de um sistema de leis compatível para se efetivar qualquer projeto totalitário de dominação e controle. Primo.. ele será um ser vazio. antes mesmo das leis discriminatórias se institucionalizarem em Portugal através da legislação geral. Em alguns outros exemplos históricos. que facilmente se decidirá sobre sua vida e sua morte. 5. Mas que cada um reflita sobre o significado que se encerra mesmo em nossos pequenos hábitos de todos os dias. e sua conseqüente exclusão dos setores participativos da sociedade. enfim. demonstrou elementos jurígenos discriminatórios quase idênticos aos do projeto nazista. sob certa ótica salutar. A professora Maria Luiza Tucci Carneiro. formou verdadeiro sistema jurídico discriminatório em face de minorias étnicas existentes nos Estados Unidos. A autorização velada para a eliminação do diferente. Identificada com o primeiro grupo – o dos preferidos – de um lado. p. Este verdadeiro arquétipo da discriminação e dominação política institucionalizada pode também admitir variações quantitativas que servem utilitariamente para disfarçar qualquer vestígio de perplexidade capaz de dimanar crítica ao sistema de opressivo.517. para que. e. rigorosamente tudo que possuía. 2005. emprestados pela estrutura de dominação aos desonrados que.. podemos perceber como se processava o sistema de relações sociais articulado de forma a afastar os cristãos-novos do grupo de status. além do nome. de 1964. Neste aspecto. de forma contundente. agora. deveriam estar disponíveis a todo cidadão80. permaneceram aquém da fronteira dos escolhidos.. essas instituições definiam onde e como deveriam se processar as práticas sociais. Essas coisas fazem parte de nós. tudo.. como etapa progressiva sintomática de determinado processo de dominação política autoritária. É Isto um Homem? Rio de Janeiro: Rocco. 79 Ibidem. não dá para imaginar. são algo como os órgãos de nosso corpo. fundamentalmente. onde somente os bem nascidos teriam o merecimento suficiente para gerenciar os interesses da nação78. pp. às Ordens Militares e aos cargos de governos administrativos e militares... Apesar desta maquiagem perturbadora. temos uma massa de pessoas que reproduzem o discurso dominante e que auferem as vantagens do poder. Oficializou-se com tal modelo jurídico espécie de regime de apartheid naquele país da América do Norte. como vetor importantíssimo na formação de espécie de cultura da desconfiança. de forma percuciente. fomos batizados. A legislação da ocasião. se quisermos mantêlo. sobre alguma coisa de nós. Imaginese. São Paulo: Perspectiva. No início do século XVI. mas de sua casa. do outro lado temos os indivíduos e grupos minoritários marginalizados e renegados. no caso Brown versus Board of Education. sem qualquer sentimento de afinidade humana. Posições estas consideradas dignas apenas daqueles que não tinham “mancha” da raça da gente da Nação79. as atitudes sociais contra o cristão-novo assumiram as características de um racismo institucional. sujeitos à discriminação social e à perseguição pelos mecanismos de Estado. como a dos afro-descendentes americanos e asiáticos..

desenvolveu sua teoria da justiça baseando-se em dois princípios estruturais nodais. devem contribuir igualmente dentro de suas funções para a efetivação destes direitos em todas as suas dimensões. originam ostensivas diferenças de oportunidades. Legislativo e Judiciário. Este segundo aspecto tratado é de suma importância. esta maneira vetusta de interpretar a norma jurídica foi amplamente utilizada pelos arquitetos do sistema nazista. neste sentido. Executivo. assim. São Paulo: Editora Companhia das Letras. democracia e paz são três momentos necessários do mesmo movimento histórico: sem direitos do homem reconhecidos e protegidos. 18-19 81 82 31 . não teríamos condições mínimas de conquistar este novo momento histórico. informa que o desenvolvimento humano poderia ser visto como processo contínuo de expansão das liberdades substantivas reais que as pessoas deveriam desfrutar através do exercício de oportunidades sociais85. Assim. contribuindo para a formação de cultura de inclusão e igualdade82. 6. O reconhecimento dos direitos fundamentais introduziu a necessidade de compatibilidade de conteúdo para a validação de determinadas disposições normativas. determinando antecipadamente tendência ao fracasso de uns e o sucesso de outros. A primeira é que devem estar vinculadas a cargos e posições abertos a todos e em condições de igualdade equitativa de oportunidades. São Paulo: Editora Ática. A efetividade destes direitos é. haverá paz estável. Amartya Sen. Em outras palavras. Sem o cumprimento desta condição de fundo torna-se inválida tanto a regra produzida. por exemplo. ressaltamos que o processo de caminhada da humanidade. na prática judiciária. não basta apenas perfeição formal. é capaz de impossibilitar qualquer tentativa de concretização do ideal da dignidade humana que nos referimos acima. 2004.direitos também se porta como direito humano fundamental. bem como a concentração de riquezas. da maneira como foram introduzidas na sociedade alemã pelo governo nazista. não existem as condições mínimas para a solução pacífica dos conflitos.no Judiciário: decisão do STF que determinou a constitucionalidade da Lei de Anistia. Apesar de todas as pessoas serem formalmente iguais diante da lei. apesar dos tropeços renitentes e cheios de opróbrio. mas do mundo.no Executivo: Acordo assinado entre o Brasil e o Vaticano estabelecendo a volta do ensino religioso nas escolas públicas e a demolição de monumentos estéticos da opressão. relacionada à concretização destes direitos? Ou poderíamos entender a efetividade como parte de mudança estrutural na forma de interpretação da norma jurídica por parte dos administradores e aplicadores da lei? Acreditamos que a resposta à questão acaba por admitir as duas possibilidades tratadas nestes mesmos questionamentos. sem democracia. pp. 2000. cujas causas podem ser históricas. O BOBBIO. desta forma. 344-345. efetuadas pelas três esferas de poder. somente quando existirem cidadãos não mais apenas deste ou daquele Estado. em linha geral. a democracia é a sociedade dos cidadãos. ed. 85 SEN. 2ª. Citamos alguns tristes exemplos: 1. como instrumento de concretização de justiça equitativa. necessárias à efetivação de direitos fundamentais. culturais ou políticas. uma paz que não tenha a guerra como alternativa. o que ocorre na prática é que as profundas desigualdades econômicas e sociais. em detrimento do dever de efetivação dos direitos humanos fundamentais. As desigualdades sociais e econômicas devem satisfazer duas condições. pois a introdução da idéia de preservação de valores parece romper o paradigma técnico que enxerga na lei positivada em algum texto normativo o único limite ao direito e à justiça. 2. Ações afirmativas. quanto a decisão judicial ou medida administrativa praticada pelo Estado. como as três esferas de competência tradicionalmente representativas do poder político no modelo constitucional brasileiro.81 Ocorre que efetividade também indica necessidade de estabelecimento de nova forma menos dogmática de interpretação de preceitos jurídicos relacionados aos direitos humanos. através da retirada das oportunidades de determinado grupo discriminado de pessoas. Toda pessoa tem um direito igual a um sistema plenamente adequado de liberdades fundamentais iguais que seja compatível com um sistema similar de liberdades para todos. importantíssima a seguinte lição do Veccio de Turim. e os súditos se tornam cidadãos quando lhes são reconhecidos alguns direitos fundamentais. No primeiro aspecto suscitado. tende à conformação prática de nova geração de direitos. quais sejam: Primeiro princípio. perfeitamente válida do ponto de vista formal. ligada mais à preservação do conteúdo valorativo dos direitos fundamentais que à esterilidade estética de formas inanimadas. as estabelecidas pelo Estatuto do Idoso e como as gerenciadas pela Lei 9504/9684. mas também compatibilidade material de conteúdo.01-02. 3. Segundo princípio.83 A idéia das ações afirmativas. ligado à necessidade de concretização da igualdade material em Estado comprometido com a implementação de valores democráticos. Aliás. procurando entender o processo de formação das crescentes desigualdades sociais. A Era dos Direitos. John. 83 RAWLS.no Legislativo: retirada do regime de cotas do Estatuto da Igualdade Racial e modificação da proposta inicial relacionada à Lei da Ficha Limpa. As “Leis de Nuremberg”. são discriminações positivas. ligados de várias formas à cultura da paz e do respeito ao outro. servem justamente para balancear este desnível social de cidadania. por vicissitudes inerentes ao poder totalitário. Neste sentido. não há democracia. obrigatória. por exemplo –. Torna-se. Rio de Janeiro: Elsevier. evidenciadas sintomaticamente pelo capitalismo tardio. Norberto. Desenvolvimento como Liberdade. pp. Poderíamos citar vários casos onde. Ações Afirmativas e Oportunidades Sociais John Rawls. e a segunda é que devem redundar no maior benefício possível para os membros menos privilegiados da sociedade. encontra-se descrita no final do segundo princípio e surge como instrumento político. o que é efetividade? Tal potencialidade admitiria apenas uma dimensão pragmática. pp. que não pode ferir a estrutura valorativa preexistente. que alicerçaram todo o seu projeto de extermínio em estrutura legislativa kelseniana. Amartya. As ações afirmativas – como o regime de cotas para negros. demonstraram com precisão como a perda progressiva da cidadania. O Liberalismo Político. 2003. que desde 1951 ensinava o seguinte: Direitos do homem. Todavia. percebemos francamente manifestações mais ou menos veladas de autoritarismo estatal no Brasil. 84 Tal legislação garante 30% no mínimo de presença feminina nas candidaturas dos partidos políticos. sem a efetivação propriamente dita dos direitos humanos fundamentais.

São Paulo: Perspectiva. como fatores essenciais ao desenvolvimento da sociedade. A Era dos Direitos. Coordenadora do Programa de Estudos Judaicos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ. mediante oportunidades sociais adequadas. só que em sentido contrário. membro do Conselho consultivo – (FIERJ) e membro do Diretório de várias Escolas Judaicas do Rio de Janeiro. 2004. RAWLS. John. o judeu. afirma que na história européia houve três modalidades de política anti-judaica: conversão. SCHOENBERNER. Daí a importância de organizá-las. O fato é que. o condutor das massas e não um representante destas. Gerhard. alienálas completamente. através da expansão das liberdades substantivas interligadas – como a liberdade de participação política. os indivíduos aprimoram sua capacidade de autodeterminação. de despojá-las de sentido crítico que porventura pudessem exibir. ao contrário do que ocorreu nos regimes de exceção que apresentamos nesta exposição. ampliadas sucessivamente nos anos posteriores . sempre em movimento cíclico. ed. Hitler jamais ocultou seu desprezo pelas massas visto considerá-las destituídas de heroísmo e inteligência. FERREIRA FILHO.. ed.exercício de tais liberdades substantivas é mediado por valores. retroalimentando-se de maneira a fechar a cadeia de eventos. o estímulo às privações originarão outras privações maiores ainda. contraditoriamente. A destruição processada pelos nazistas não emergiu de um vácuo sócio-político. sua dominação carismática dependia da devoção irracional e do fanatismo das mesmas. Também é presidente do Conselho Deliberativo da Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro (FIERJ). via de regra. podendo comandar o próprio futuro e o dos seus semelhantes através do exercício da solidariedade. São Paulo: Saraiva. Livraria dos Advogados. São Paulo: Boitempo. 2005. verifica-se um processo de discriminação crescente. vice-presidente da Direção Executiva – (FIERJ). SOLIDARIEDADE EM TEMPOS SOMBRIOS “JUSTOS ENTRE AS NAÇÕES” e “SALVADORES DE JUDEUS” Helena Lewin86 O sistema político nazista estabeleceu-se ancorado em uma economia bélica tendo como foco o domínio mundial . São Paulo: Editora Lazuli. aprimorando e expandindo a miséria como resultado material. 1998. estão dependentemente interligados. Rio de Janeiro: Imago. Porto Alegre: Ed. 10ª.a Alemanha dos 1000 anos . diretora do Departamento de Sociologia e Política da PUC/RJ. São Paulo: Editora Cia. assistência médica e outras correlacionadas. Dignidade da Pessoa Humana e Direitos Fundamentais. 2000. os nazistas decretaram “vocês não tem o direito de viver”. aprimorando em verdadeira reação em cadeia a prática social existente. Bens materiais e valorativos bons.uma nova era a ser instituída pela pretendida raça superior ariana. devem ser estimulados e aprimorados substancialmente pelos gestores da coisa pública. Rio de Janeiro: Renovar. Ingo Wolfgang. Preconceito Racial em Portugal e Brasil Colônia: Os Cristãos-Novos e o Mito da Pureza de Sangue. que. SARLET. Direitos Humanos Fundamentais. os seculares atestavam “vocês não têm o direito de viver entre nós”. Se. colocava-se ditatorialmente acima do bem e do mal. Por fim. Teoria Geral dos Direitos Humanos na Ordem Internacional. São Paulo: Editora Ática. Origens do Totalitarismo. se social e politicamente cultivados. contribuindo para a prevenção de novas possibilidades de opressão a grupos populacionais desfavorecidos. André de Carvalho. Por sua vez. por sua vez. Rio de Janeiro:Elsevier. Seu início já ocorre em 1933 cuja escalada observa-se a partir das Leis de Nurenberg de 1935. fomentando-se a si mesmos como os galhos e folhas de uma mesma árvore. a eliminação. em seu livro “The Destruction of the European Jews”. 2006. RAMOS. O Liberalismo Político. o discurso dos missionários afirmava: “vocês não têm o direito de viver entre nós como judeus” correspondendo à etapa da conversão. 2008. 32 . das Letras. são gerenciados por discussões públicas e interações sociais contínuas. O governante convertido em Führer. 1989. de receber educação básica. PEDROSO. Assim. o instrumento utilizado foi a expulsão. possui diversos livros e artigos publicados em revistas científicas nacionais e internacionais. 7. A Estrela Amarela: A Perseguição aos Judeus na Europa 1933-1945. Primo. Hannah. Correlacionando estas diferentes fases à legislação na Alemanha de Hitler. Estes direitos fundamentais. 2ª. nesse caso. fácil de ser alcançado e sobre o qual repousava a atribuição de inimigo da pátria. ensejarão valores melhores ainda. ou seja. Amartya. na medida que aglutinava. ou seja. por um lado. Manoel Gonçalves. BIBLIOGRAFIA ARENDT. 2003. por outro lado. A estimulação ao preconceito antissemita criou um inimigo visível. SEN.expulsão e eliminação. Raul Hilberg. professora Titular da Universidade Federal Fluminense – UFF. Considerações finais sobre o tema A presente reflexão histórica serviu para entendermos melhor como a necessidade de efetivação da cidadania e de aprimoramento dos direitos humanos fundamentais portamse como requisitos primordiais à valorização do homem como sujeito de direitos. os dois grandes sistemas políticos vigentes: ora rotulado de capitalista explorador das finanças internacionais. Maria Luiza Tucci. 2005. série Rupturas. Michael. Norberto. 1994. o desenvolvimento humano pode e deve ser visto de maneira integrada. 2005. pois. contínuo e crescente. ora de comunista responsável pela instabilidade mundial devido ao chamamento ideológico à luta de classes. LÖWY. 10 de Dezembro de 1948 – A Declaração Universal dos Direitos Humanos. Da mesma maneira. São Paulo: Companhia das Letras. BOBBIO. Regina Célia. Desenvolvimento como Liberdade. deixando largos espaços não escritos para ações rotuladas de “espontâneas” praticadas 86 Doutora em Sociologia pela Universidade de São Paulo – USP. Segundo esse autor. representou a culminação de uma tendência historicamente progressiva. Walter Benjamin: Aviso de Incêndio: Uma Leitura das Teses “Sobre o Conceito de História”. LEVI. e exibindo poder inquestionável. O processo é cíclico e contínuo. 2001. CARNEIRO. É Isto um Homem? Rio de Janeiro: Rocco.

Na Dinamarca. meses ou anos. faz-se necessário assinalar o desempenho de determinados consulados sediados na Europa. expresso inicialmente pela legislação vigente que se auto-legitimava como um estado de direito embora calcado sobre um arcabouço autoritário. passando por drásticas necessidades financeiras. os judeus. Essa atitude de conformidade das populações judaicas decorrente de leituras ingênuas da realidade social foi responsável pelo volumoso aporte demográfico na deportação para os campos de extermínio apesar dos movimentos de resistência que ocorreram. A esses cônsules e a todos aqueles que salvaram judeus da matança nazista. a salvação veio de grupos como as unidades clandestinas de resistência existentes na Holanda. não 33 . Assim. foram humilhados e discriminados. Noruega. os “Justos entre as Nações” conforme o título de homenagem a eles conferida. Até o início de 1941. poderia resultar em impedimento à outorga do título na medida que aqueles que gozavam imunidade diplomática não estavam necessariamente ameaçados de riscos de vida. de solidariedade e de compaixão além de sua postura políticoideológica democrática.conforme acima mencionado. Desde 1960. Alguns dos judeus morreram depois da guerra ou mesmo durante a mesma. não-judeus que arriscaram suas vidas para salvar judeus durante o Holocausto. suas comendas foram retiradas. perdendo seus postos de trabalho. afirma que em certos casos. 310/11. ocultando um ou mais judeus em suas próprias casas. sendo alimentado em tempo de grande escassez de comida. nas pags. cujo pastor. cidadãos comuns elegeram salvar judeus assumindo conscientemente todas as consequências de risco de vida que uma ação dessas implicava. compaixão e ajuda a judeus em tempos de grandes dificuldades e perseguições. considerando que os maiores salvadores de judeus em termos numéricos foram os cônsules sediados na Europa. portanto. que não perecerá jamais” O Yad Vashem é também conhecido como o Museu do Holocausto de Jerusalém que abriga arquivos . morrendo. número que reúne 50 milhões de páginas de testemunhos. O presente texto. André Trocmé. O nome Yad Vashem foi inspirado no livro de Isaias 56:5: “dar-lhes-ei na minha casa. uma biblioteca que possui a mais importante documentação do mundo sobre o Holocausto. Todos os 117 habitantes desta pequena comunidade foram honrados como “Justos entre as Nações”. Julgavam tratar-se do clássico fenômeno do antissemitismo tão presente na historiografia do cotidiano das comunidades européias. decorrente da sua atuação excepcional. Um dos casos mais impressionante foi o da pequena aldeia holandesa de Nieuwlande cujos habitantes. que oferece empatia. O número de judeus salvos por nãojudeus durante o Holocausto é impreciso. implicando em perigos relativos à segurança de sua liberdade física. contendo 80 mil livros e 4500 revistas especializadas nesta temática. A publicação SHOÁ. denotando em meio à barbárie reinante seus sentimentos de humanidade. muitos deles. Todos esses foram reconhecidos pelo Yad Vashem. arriscando suas vidas e carreiras. trata de recuperar historicamente o papel desses protagonistas nos tempos sombrios do Holocausto – o maior assassinato em massa perpetrado contra 6 milhões de judeus pela política antissemita nazista – livrando os judeus da perseguição e do extermínio iminente ao lhes conceder oportunidades reais para fugirem daquela Europa conflagrada ou para esconde-los em lugar seguro. caminhando para uma planejada política de estado de destruição massiva dos judeus através de seu encarceramento em campos de trabalho e de aniquilamento. O tema relacionado ao “risco” e ao “perigo de vida. ética e profissional além de riscos de vida para aquele que se dispõe a salvar os judeus. compartindo seu pão. Em muitos casos. uma instituição especificamente dedicada à lembrança e estudo do Holocausto. cursos e pesquisa. seria impossível excluí-los da lista tendo em vista que foram punidos por seus governos por desobedecer às proibições emitidas no que se refere à concessão de vistos às minorias semitas. Porém. e nas minhas muralhas a dentro. não acreditavam que um país de alta cultura civilizatória como a Alemanha pudesse representar um perigo para com sua população judaica ou ser portador de atitudes de violência programada. vem funcionando uma comissão para a designação dos Justos. o respeito e admiração por seu silencioso trabalho de resgate de vidas sendo merecedores do título de heróis da 2ª Guerra Mundial. no processo de salvação de milhares de judeus concedendo-lhes visto de entrada em seus países apesar das proibições. organizou seus fiéis para prover esconderijo e assistência aos judeus que fugiam dos nazistas. Neste contexto. O Parlamento israelense baseando-se na Lei de Recordação dos Mártires e Heróis definiu entre os objetivos do Yad Vashem a permanente celebração religiosa e histórica em memória das vítimas do terrível massacre nazista além de manifestar os agradecimentos a todos aqueles. Bélgica e França que encontravam esconderijos para judeus. entre 1942 e 1943 resolveram de forma conjunta que cada família ocultaria a uma família ou indivíduo judeu. um lugar e um nome ainda melhor do que o que dão os filhos e as filhas: Dar-lhes-ei um nome eterno. Mais adiante os nomes dos principais cônsules brindados com o título de “Justos entre as Nações” serão brevemente apresentados. Em Israel foi criada. O título “Justo entre as Nações” designa uma pessoa de elevada moral. e o formal. essa comissão analisa detalhadamente as provas e suas motivações acompanhadas do relato dos sobreviventes envolvidos que devem prestar testemunho sobre a veracidade dos argumentos declarados. Outro salvamento coletivo teve lugar na aldeia francesa de Le Chambon-sur-Lignon.pelas brigadas dos SA como a que ocorreu na Noite de Cristais. interpretando como uma onda que vem e que vai embora. principalmente os alemães. cidadãos comuns transportaram 7200 dos 8000 judeus do país em lanchas pesqueiras até a Suécia em uma arriscada operação. Quando um nome é proposto para receber o reconhecimento oficial do Yad Vashem. o Yad Vashem. o aparelho de estado nazista utilizava dois mecanismos de repressão: o oficioso cujas ações eram acionadas para intervir com violência em movimentos de rua sobre aqueles marcados para morrer. Este salvador geralmente construía um “bunker” para esconder o judeu que ali permanecia durante semanas. em grande miséria. publicando livros e realizando seminários. em 1953.

demonstraram enorme bravura. por 14 meses. o número atual de diplomatas condecorados alcança o número de vinte. Consta do Concise Encyclopedia of the Holocaust que Aracy de Carvalho Guimarães Rosa começou a ajudar os judeus depois do terrível “pogrom” na noite de 9 de novembro de 1938 que ficou conhecida como Kristallnacht – Noite dos Cristais . em 1942. Grande foi a contribuição destes dois personagens no cenário da 2ª Guerra Mundial no que se refere a salvação de foragidos judeus. Certamente. Multidões de nazistas enfurecidos atacaram sinagogas e queimaram objetos do ritual litúrgico judaico. um homem e uma mulher. no silêncio de seus atos. quando as relações diplomáticas entre a Alemanha e o Brasil foram rompidas. 20. de forma breve. Alemanha. Mataram 90 pessoas com requinte de crueldade. Somente no dia 21 de dezembro de 1944. Enquanto durou o Estado Novo. que. Aracy ciente das proibições do Ministério das Relações Exteriores do Brasil que determinava a não concessão de vistos aos apátridas. como é Israel. leia-se judeus. Este acontecimento marca o início da repressão sistemática contra os judeus que objetivava. Do Brasil. figura que sequer aparece nos livros didáticos brasileiros. Na impossibilidade de nominar cada um dos “Justos entre as Nações” em decorrência do difícil acesso aos arquivos do Yad Vashem. discretamente. a partir de 1934. sem alarde. que tanto benefício aportou àqueles para os quais ele foi diretamente responsável pelo seu salvamento. Esses anônimos “Salvadores de Judeus”. Os vistos emitidos por Souza Dantas salvaram comprovadamente 478 pessoas. não puderam ser nomeados institucionalmente como “Justos entre as Nações”.tendo sido possível obter testemunhas ou saber o nome desses salvadores. até final do ano de 2003 haviam sido registrados como “Justos entre as Nações”. confinados em Bad Godesberg. alguns nomes foram selecionados visando apresentar. enviadas às embaixadas brasileiras instaladas na Europa. Luis Martins de Souza Dantas e Aracy de Carvalho Guimarães Rosa. em 1942. Quando. de forma religiosa ou secular. elevada consciência moral e um incomensurável respeito à vida de seu semelhante. nas cerimônias dedicadas à Lembrança das vítimas da 2ª Guerra Mundial. Reconhecido pelo Museu do Holocausto em Jerusalém (Yad Vashem) como “Justo entre as Nações” por ter emitido centenas de vistos durante os difíceis anos do domínio nazista na Europa. embora estejam disponibilizados. Perplexa e indignada com as terríveis perseguições e matança de judeus promovidos pelo nazismo. foi analisada no livro ”Anti-semitismo na Era Vargas” de autoria de Maria Luiza Tucci Carneiro e. posteriormente. embaixador brasileiro em Paris de 1922 a 1942. os alemães romperam o armistício e invadiram a parte ainda não ocupada da França. principalmente em uma terra árida. Assim. Em 1938. segundo os dados do Yad Vashem. resolveu desobedecêlas. são os seus nomes. Libertado. celebradas em todas as comunidades judaicas de todo mundo. Souza Dantas foi mantido no ostracismo da vida pública. Invadiram residências de judeus e violentaram mulheres e crianças. oriundos do Brasil. portanto não se julgavam merecedores de prêmio ou reconhecimento algum. Foi invadida e o Embaixador Souza Dantas juntamente com seus auxiliares foram presos. há duas figuras marcantes. por falta de provas e de testemunhos orais. Muito deles preferiram manter-se anônimos mesmo depois da guerra afirmando que seu comportamento era ditado por princípios imperiosos de consciência frente o trágico silêncio da maioria dos europeus que não reagiam à brutalidade vigente contra os judeus e. seu nome é inscrito no Livro de Mérito Nacional. Para tal. como chefe do serviço de vistos. em que cada árvore plantada constitui uma esperança no futuro e uma mensagem exemplar de paz. a facilitar a emissão de vistos a dezenas de pessoas que buscavam ajuda no consulado brasileiro de Hamburgo. A recuperação histórica do diplomata Souza Dantas.uma prece especial é dedicada a esses Salvadores. O governo brasileiro havia rompido com a Alemanha e a ela declarado guerra e a embaixada brasileira em Vichy não ficou livre da violência nazista. Viveram em Hamburgo até quando regressaram ao Brasil. reconhecimento formal de seu elevado desempenho nos serviços prestados à Pátria. Porém. porém calcula-se que seu número deve ter alcançado a casa dos 1000. Casaram-se em 1940. ele volta ao Brasil onde havia sido planejada uma recepção festiva que foi abortada por ordem de Getúlio Vargas. ter ciência da desobediência de Aracy e ter lhe dado pleno apoio. serão apresentados na trajetória de quatro cônsules envolvidos no resgate de judeus. O simbolismo da plantação de árvores e seu conseqüente Bosque de Recordação estão intimamente associado ao significado de Vida que a árvore representa. sua “biografia de guerra”. esta é a única diplomata do sexo feminino de todo o grupo de diplomatas homenageados pelo Yad Vashem. trabalhou no consulado brasileiro em Hamburgo. reconhecidos como heróis do povo judeu aos quais várias gerações lhe devem suas vidas. Depredaram estabelecimentos comerciais e saquearam-nas. deixando claro que estes não esgotam o elenco de nomes a quem se deve o respeito e os agradecimentos pelo desempenho heróico de salvar vidas tanto de judeus como de não-judeus e que. entre outros refugiados. silenciosamente. Morreu pobre e abandonado em Paris. Aracy de Carvalho Guimarães Rosa.que se estendeu por várias cidades da Alemanha e Áustria. contemplando sua distribuição geográfica por país de origem desses diplomatas. Luis Martins Souza Dantas. que por medida de segurança não foram computados por conta de sua natureza secreta. Essas publicações foram responsáveis por trazer ao conhecimento público esse personagem. na Alemanha. Portugal e Suécia. determinava a proibição de atender solicitações de vistos a semitas para entrar no Brasil. Passou. elegeu-se uma pequena amostra de diplomáticos que atuaram significativamente no cenário europeu. através 34 . centenas deles não constam nos registros do Yad Vashem que. denotando heroísmo e grandeza de caráter.200 nomes de homens e mulheres. o diplomata brasileiro João Guimarães Rosa foi nomeado Cônsul-adjunto em Hamburgo que afirmou. tornou-se tema da dissertação de mestrado de Fabio Koifman “Quixote nas Trevas”. todos os diplomatas sediados na França passaram a despachar em Vichy que foi tomada pelos nazistas. em 1954. posteriormente. Segundo os dados contidos na Enciclopédia del Holocausto. sendo que muitos deles foram convidados a plantar árvores em sua homenagem visando comemorar suas ações humanitárias. Rebelou-se contra as determinações do governo de Getúlio Vargas que através de circulares secretas.

que as razões que o levaram a optar por tal atitude se vinculavam “à situação aflitiva de toda aquela gente que o comoveu profundamente”. ao transportar judeus no porta-malas de seu carro apesar da vigilância da Gestapo. Em 1954. vivendo em plena cena da guerra pode certificar-se das conseqüências terríveis que pudessem advir do avanço das tropas alemães no continente europeu. ele morre na mais extrema miséria. Entrevista realizada com seu filho. ou seja. transformara-se em a única porta de saída para o deslocamento destes refugiados tentando alcançar outros destinos fora da Europa. como país neutro. a Raoul Wallenberg. cada vez mais. Aristides de Sousa Mendes. Este foi o álibi! Paralelamente. Para tanto. muitas vezes. também foram alvo de sua atividade de salvamento os judeus já embarcados em trens que se dirigiam à Auschwitz ou a campos de trabalho forçado que possuíam “passaporte de proteção”. Concomitantemente. Souza Mendes. ele declarou no seu processo de defesa a que foi submetido por ter descumprido as ordens governamentais. Portugal. Em apenas dois meses. Esses albergues e espaços protegidos ficaram conhecidos como o “Gueto Internacional” em cujas janelas tremulavam bandeiras brancas como sinal de interdição de entrada aos alemães e seus aliados.000 judeus para os campos de extermínio. ele afirma que. 2/3 dos judeus húngaros haviam sido deportados. Até ser afastado do cargo pelo ditador português. Frente a essa conjuntura. nomenclatura usada para encobrir o uso da palavra objetivamente concreta de extermínio.000. o exército soviético invade a Hungria liberando-a do domínio nazista. Wallenberg resolveu intensificar seus esforços: durante os três meses seguintes emitiu milhares de passaportes denominados de “passaporte de proteção”(The Wallenberg‘s Passaport). Em sua lápide foi inscrita uma passagem da Torá (Bíblia judaica) “Quem salva uma vida. Até quando Portugal poderia se manter neutro? Esta era uma pergunta recorrente! E justificava sua pressa como um mandamento a ser cumprido! Quando inquirido sobre o porquê de seu comportamento.Esse sistema de abrigamento foi considerado como um espaço territorial neutro que teria que ser admitido por força das convenções internacionais. Em janeiro de 1945. ignorando as determinações do Itamaraty. a Embaixada da Suécia propôs emitir passaportes aos judeus húngaros que tivessem alguma vinculação com cidadãos suecos. Eduardo de Carvalho Tess. a situação dos judeus remanescentes tornou-se ainda mais perigosa tendo em vista a subida ao poder do partido Cruz de Flechas. Recebeu o título de honra “Justo entre as Nações” do Yad Vashem e era carinhosamente chamada de “o Anjo de Hamburgo” por todos aqueles a quem havia salvo. Esta decisão do Ministro das Relações Exteriores da Suécia converteu-se em um decisivo sinal para iniciar a operação de salvamento. Da população nativa judaica sobraram apenas 200. Aracy não emitia apenas os vistos. declaradamente antissemita e aliado dos nazistas.da chamada “Solução Final”. sua mãe. Grupos de voluntários se encarregaram da provisão de alimentos e atendimento médico formando uma subterrânea rede de solidariedade que ajudou a salvar os judeus aí abrigados. salvando-os da morte certa se fossem enviados para os campos de concentração. o que muito facilitou o estabelecimento de albergues e seus esquemas de vigilância. consul português em Bordéus. concedido pelo Yad Vashem de Jerusalém. viabilizando a emissão de vistos nesses passaportes. diplomata da Embaixada da Suécia sediada na Hungria foi responsável pelo salvamento de milhares de Judeus em arriscadas operações de proteção contra o exército alemão nazista que ocupou este país em março de 1944. Aristides de Souza Mendes foi considerado culpado no inquérito disciplinar tendo como pena a sua reforma compulsória com uma pensão reduzida que lhe impossibilitava sustentar sua família sendo socorrido por seu irmão e pela comunidade judaica de Lisboa. Observando a tragicidade do destino de grandes contingentes populacionais marcados para morrer. Wallenberg teve apoio de diplomáticos de outros países. mas sobretudo política de resgate dos judeus húngaros. sem respeitar suas imunidades diplomáticas. o espaço fora do domínio alemão na Europa se estreitava. assinando vistos a quantos lhe solicitassem. o extermínio total dos judeus da Europa. assinou milhares de vistos para fugitivos judeus. Wallenberg tentou negociar o destino dos judeus internados no “Gueto Internacional” e no “Gueto Principal da cidade de Budapest” argumentando que os primeiros tinham proteção do governo sueco enquanto portadores dos “passaporte de proteção” e os demais como refugiados de guerra ou/e apátridas dado o confisco de seus documentos pelos nazistas. nomeando para assumir a chefia desta perigosa missão humanitária. todos os dias até a exaustão física. contrariando as ordens expressas de Salazar. salva o mundo” como reconhecimento de seus méritos. Souza Mendes ignorou as circulares governamentais passando a desrespeitálas. as deportações foram reativadas em ritmo acelerado. relatam que sua ação foi mais ampla: além de resgatar os judeus que compunham a Marcha da Morte. Os milhares de vistos eram assinados de dia e de noite. Percebeu que a rapidez na emissão dos vistos era crucial na medida que. Aristides de Sousa Mendes é o único português portador do título “Justo entre as Nações”. Um 35 . os alemães já haviam deportado 435. Raoul Wallenberg perseguiu as colunas de judeus em marcha para a morte retirando aqueles que portavam os “passaportes de proteção” anteriormente expedidos e os conduziu de volta à capital. Aracy revoltada não se intimidou e passou daí em diante a acelerar a emissão de vistos para os fugitivos judeus. abrigando judeus em sua própria casa ou de pessoas de sua confiança e garantindo sua saída da Alemanha. contou com a cumplicidade de um funcionário da polícia de Hamburgo que emitia passaportes para os judeus retirando do documento o “J” vermelho que os identificava como judeus. arriscou sua vida. Raoul Wallenberg. Desde 1967. entre os quais se sobressaiu Angel Sank Briz da Espanha. Oitenta judeus foram salvos por esta corajosa mulher aos quais se deve acrescentar muitos outros não-judeus perseguidos pelo nazismo. Ela protegia esses refugiados dando-lhes cobertura diplomática. Em outubro do mesmo ano. agentes ou espiões alemães convocando-os a prestar esclarecimentos sobre sua conduta. Os soviéticos suspeitavam ser Wallenberg e os demais diplomatas suecos em Budapest. embora sem nenhuma repercussão na imprensa portuguesa. Os dados registrados nos arquivos de vários institutos de pesquisa histórica sobre a missão Wallenberg durante a 2ª Guerra Mundial. Quando Adolf Eichman ordenou a “Marcha da Morte” dos judeus de Budapest até a fronteira austríaca. Estes ofereceramlhe apoio e ajuda.

cabe uma importante menção ao nome de Irena Sendler que a partir de 1940 correu elevados riscos para levar víveres. Irena estudou na Universidade de Varsóvia. Condenada à morte. 1aed. principalmente pelas crianças que havia salvo. Irena Sendler usava a Estrela de David. já exercia sua profissão atendendo os bairros pobres de Varsóvia onde viviam muitas famílias judias. Começou a busca dos pais biológicos mas a maioria havia morrido nos campos de concentração. foi salva a caminho da execução por um soldado alemão subornado pela resistência polonesa. Assim. medicamentos e roupas aos habitantes do Gueto de Varsóvia. Ainda antes da 2ª Guerra Mundial. Foi uma valorosa mulher! Uma ampla pesquisa está sendo realizada na USP. das famílias e dos conventos. em sacos de batata e até de caixões que depois eram transportados pelos bombeiros ou em caminhões de lixo. confessou que ele havia sido preso e falecido na prisão em 1947. as reações eram trágicas. 1985 Koifman. Ainda hoje permanece o dramático mistério! Wallenberg tem sido alvo de inúmeras manifestações de solidariedade e de admiração por seu corajoso papel no salvamento de milhares de vítimas da 2ª Guerra Mundial. ia registrando os nomes das crianças e das famílias e dos conventos nas quais ficaram abrigadas anotando tudo em papéis que ia juntando e guardando em potes de vidro e os enterrando.Z Nativ Ediciones. Sua coragem e sua consciência democrática são modelo para todas as gerações e o Yad Vashem lhe outorgou merecidamente o título de “Justo entre as Nações”. Irena e sua equipe de colaboradores fizeram sair do gueto de Varsóvia milhares de crianças judias que colocavam em casa de famílias polonesas e em conventos católicos.. prestado-lhe homenagens. Jerusalem:Magnes . agradecimentos e testemunhando suas heróicas ações. tornado-se enfermeira diplomada do Departamento de Assistência Social desta cidade. As que tomaram essa decisão demonstraram a maior coragem. SP: Ed. Michel R. Era extremamente perigosa a operação estabelecida por Irena para salvar este enorme contingente de crianças. em outubro de 1943. após a data declarada pelo governo soviético. Prisioneiros de guerra alemães que retornaram das prisões soviéticas afirmaram ter visto Wallenberg e que o conheceram na prisão. Raul – The Destuction of European Jews – NY: Holmes & Méier Publ. M. os soviéticos alegavam desconhecer seu paradeiro. Fora da órbita diplomática. 2003 Rozett. – A Assustadora História do Holocausto – RJ: Ediouro. Não obstante. ajudando as mães com conselhos e apoio. tendo os Estados Unidos lhe outorgado a distinção de Cidadão Honorário. Ática. Foi presa e torturada pela Gestapo. afirmou Irena anos depois. Quebraramlhe os ossos dos pés e das pernas. dentro do projeto Arqshoá. SP: Brasiliense. 1988 ---------------------. Que eu podia prometer. Sua atenção preferencial.& Samuel Spector (org) – Encyclopedia of the HolocaustJerusalem. Depois da guerra. 2000 Shoá – Enciclopedia del Holocausto –Jerusalem: E. o futuro resgate de sua identidade passada. Ao todo foram salvas cerca de 2500 crianças.Holocausto – Crime contra a Humanidade. Tanto ela e sua equipe assim como as crianças retiradas do gueto corriam risco de vida. 1988 Hilbert. essas já na condição de adultos quando descobriram sua história e identidade. Nascida em 1910. mas Irena nada revelou. Irena Sendler. as homenagens devidas. quando sequer sabia se conseguiria sair do gueto?”. 2000 Marrus. seu número é significativo. Fábio – Quixote nas Trevas – o embaixador SOUZA DANTAS e os refugiados do nazismo – RJ: Record. tendo declarado que “podia ter feito mais!” Foi um exemplo de dignidade e de amor ao próximo. Este visa identificar os inúmeros brasileiros “salvadores de judeus” que se dedicaram com afinco a buscar caminhos de salvação para minorar o terrível sofrimento dos judeus durante a 2a. REFERÊNCIAS Arendt.Luiza Tucci – Anti-semitismo na Era Vargas. Este foi criado pelos nazistas e congregava no seu interior mais de 450 mil pessoas amontoadas em 4 kilometros quadrados. foi muitas vezes entrevistada antes de morrer.grande mistério se abateu sobre o destino de Raoul Wallenberg que misteriosamente desapareceu sem deixar rastros. Durante anos. no departamento de História. Como fazia? Dava-lhes um calmante e escondiaas dentro de malas. Guerra Mundial. 8a impressão. A eles que sigilosamente desenvolveram importantes ações que se converteram em muitas vidas resgatadas. seu nome está em ruas e praças de inúmeros países.. sua família não acreditou nessas explicações baseando-se em informações de prisioneiros soviéticos ao afirmarem que ele ainda estaria vivo. o governo sueco exigiu informações do governo soviético que. resgatas pela mão de Irena Sendler. Segundo dados preliminares. À época da invasão alemã na Polônia e a instalação do Gueto de Varsóvia. ela mesma desenterrou os frascos com os nomes das crianças. Sua modéstia era impressionante. Sua preocupação era com o registro das crianças.1999 Bankier. Até 1943. Como homenagem e como tributo a sua memória. Seu trabalho de salvamento não terminava com o resgate físico das crianças. comportando-se da mesma maneira que uma anônima judia.2009 Davidovitch. As mães não concebiam a idéia de se separar deles. “Perguntavam-me se eu lhes prometia que os filhos sobreviveriam.1986 Carneiro. Assim o fazia para não chamar atenção dos soldados alemães. aos 33 anos. A partir destes testemunhos. preferindo morrer juntos”. quando ia visitar o Gueto para ajudar seus habitantes.D. David (org) – El Holocausto: Perpetradores -Vítimas -Testigos. ela dedicava às crianças trazendo alimentos e remédios às desnutridas e doentes. somente após a morte de Stalin. – The War Against The Jews – NY: Bantam Books. Raoul Wallenberg é um dos maiores heróis daqueles tempos sombrios. 2004 36 . R. Hannah – Las Orígenes del Totalitarismo – Madrid: Alianza. Afirmou em um de seus depoimentos que “quando propunha às famílias salvar-lhes os filhos. a maior da Polônia. Lucy S. Seu nome foi acolhido pela comissão do Yad Vashem de Jerusalém que a homenageou com o título de “Justo entre as Nações”.

dignidade da pessoa humana. somente nesta última década. Dentre estes filmes cabe lembrar “O Tambor”. fábulas. de Volker Schlondorff e “Cabaret”. Solicitar aos alunos que pesquisem o texto original da atual Constituição Brasileira. idade e quaisquer outras formas de discriminação. Neste caso. apesar das diferenças ideológicas que os distinguem. (Sobre este conceito. Ao poder externo corresponde a ordem jurídica interna do Estado forte. Para enriquecer esta questão. o Estado detém o poder absoluto. Parte da população brasileira só tomou ciência dos fatos quando filmes -. o racismo e o anti-semitismo são encarados com grande benevolência? O tema do Holocausto é raramente debatido e estudado nas escolas estaduais e particulares. um agente de forças superiores. valores sociais do trabalho e da livre iniciativa. dirigido por Bob Fosse. de Steven Spilberg e “A Doce Vida”. liberdade de expressão. proibindo toda e qualquer crítica ao regime. como o Stalinismo na ex-União Soviética. É com esta intenção que os grupos de extrema-direita (como os neonazistas e os revisionistas) procuram banalizar o sofrimento dos povos calcados em falsas comparações estatísticas e históricas apresentando grandes dramas humanos (como o Holocausto) como “mero detalhe” ou “um mal menor”. Funciona como se fosse uma sociedade secreta mantida por uma Policia que é o principal braço repressor do Estado. Através da propagação de livros. o Estado policial. pluralismo político. panfletos. são exemplos-padrão para os estudos sobre totalitarismo. citados na bibliografia. O Estado Totalitário opõe-se ao Estado Democrático cujos fundamentos podem ser identificados na atual Constituição Brasileira: cidadania. Drª. o Führer) é apresentado como infalível. O chefe (no caso. No Estado totalitário pode ser observada uma dupla autoridade: do Partido e do Estado que convivem e atuam em nome da Ordem. de Alcir Lenharo “Nazismo. erradicar a pobreza e a marginalização.Holocausto. reduzir as desigualdades sociais e regionais. é que tais temas . tendo por base os termos da atual Constituição do seu país. países governados por uma democracia). reconhecer o perigo da proliferação das práticas racistas e totalitárias. O Estado Republicano tem por objetivos: construir uma sociedade livre. Muitas vezes. Vale-se de uma pseudo-ciência. justa e solidária. Nos países de regime totalitário. o professor pode consultar a clássica obra de Hannah Arendt “O Sistema Totalitário”. que avaliando os atos de barbárie praticados pelos nazistas teremos condições de refletir sobre o papel do Estado que deve preservar a vida do cidadão. Antes dos alunos responderem o questionário. Filmes contemporâneos de ficção sobre o nazismo têm conseguido ilustrar o fascínio que o movimento nacional-socialista exerceu sobre os alemães valendo-se da idéia de espetáculo. Maria Luiza Tucci Carneiro Seguem aqui algumas sugestões de perguntas/respostas” ao professor que poderá ampliá-las discutindo junto aos seus alunos filmes. Podemos afirmar que. Nazismo e Racismo .mereceram espaço especial junto aos livros didáticos. a importância de estudarmos o passado para evitarmos que crimes como o Holocausto sejam praticados contra a Humanidade. raça. por motivos políticos. países em conflitos no Oriente Médio e grupos partidários da extremadireita na França e Alemanha. Autores e professores (não-judeus) sempre se esquivaram deste debate e. Tanto o Nazismo na Alemanha. de falsas estatísticas e de teorias racistas para impor a sua verdade criando um “mundo fictício” que compete com o mundo real. 3. Esta questão poderá ser respondida a partir de um debate em classe durante o qual os alunos devem ser incentivados a dar sua opinião pessoal. os discursos de Hitler e dos seus generais são verdadeiros “modelos de propaganda”. sem preconceitos de origem. tentam minimizar a catástrofe do Holocausto distorcendo os fatos. por falta de orientação. promover o bem de todos. O povo acaba por viver uma verdadeira “guerra psicológica”. culturais e políticas. O que você entende por “relativismo perverso”? Os adeptos do “relativismo perverso”costumam eximir a responsabilidade do regimes totalitários da responsabilidade dos crimes contra a Humanidade. e desenvolver uma atitude de solidariedade e capacidade de conviver com as diferenças étnicas. sofrendo ameaças. as massas são cooptadas por meio da propaganda e pelo terror. de Roberto Begnini. foram premiados com o Oscar 37 . cor. com exceção dos centros de ensino gerenciados pela comunidade judaica que procura manter viva parte desta memória. As respostas poderão ser ampliadas tendo como base as informações e análises aqui sugeridas: 1.EXERCÍCIOS (Questões a serem formuladas para o aluno com sugestões de respostas) Profª. Como você situa o Brasil no debate sobre o Holocausto? É possível afirmar que “vivemos um eterno relativismo perverso”. 2. em que o autoritarismo. Será importante o aluno comentar acerca dos seguintes itens: a conseqüência catastróficas dos regimes totalitários e das teorias racistas. 4. Você considera importante o ensino do tema do Holocausto em sala de aula? Justifique. O III Reich pode ser considerado como a expressão máxima de um Estado totalitário. empregando a violência para assustar o povo. Totalitarismo pode ser entendido como um sistema de governo característico do século XX. sagrado. Defina o conceito de Estado Totalitário em oposição ao conceito de Estado Democrático. No seu entorno sobrevive uma “elite paramilitar” composta de homens poderosos com qualidades demagógicas e burocráticas-organizacionais. histórias em quadrinhos e revistas especializadas procuram impedir que outros cidadãos tomem consciência da verdade. o professor poderá traçar comentários sugerindo novos conhecimentos e reflexões possíveis. apresentando imagens através de equipamentos de multimídia ou analisando textos de época em classe.como “A Lista de Schindler”. A hierarquia é rígida obedecendo o grau de militância dos seus membros. o professor pode debater com os alunos a situação vivenciada pelos negros no Brasil e nos Estados Unidos. muitas vezes. Neste particular. O diálogo pode ser antecedido pela apresentação do filme “A Outra História Americana” que explora a história de um jovem neonazista nos EUA de hoje e proporciona a reflexão sobre o emprego da violência entre um grupo de skinhead. o triunfo da vontade”.

São jovens ingênuos. Tais imagens se prestavam para justificar a prática da eutanásia e do extermínio. louras de olhos azuis. Uma destas obras Holocausto: judeu ou alemão ? esteve entre os livros de não-ficção mais vendidos em novembro de 1987. Testemunhas de Jeová. por sua vez. Nestas imagens os judeus têm o nariz adunco. físico proporcional. 6. campos para prisioneiros de guerra. homossexuais. ciganos. dignos de respeito e confiança. Yad Vashem. comunistas. as fotografias impressas e os cartões –postais nazistas devem ser avaliados como representações visuais capazes de condensar uma síntese das principais idéias defendidas pelo regime. Durante o governo de Getúlio Vargas (1930-1945) vigoraram circulares secretas proibindo a entrada dos judeus e ciganos refugiados do nazismo. repelentes. vasculharam os arquivos secretos do extinto Reich. onde a comunhão entre o povo (ariano) e o Führer são divinos. . a lei para a proteção do povo e do Estado. Podemos lembrar aqui. ao lucro fácil. (O professor pode ampliar suas leituras acerca deste tema lendo algumas obras básicas como: “Os Assassinos da Memória”. limitada à condição de “reprodutora de novos arianos”. sua figura é animalizada tomando a forma de vampiros. olhos de ave de rapina. Avaliar os personagens. No Rio Grande do Sul. são gordos e barrigudos representando a figura do capitalista. possibilitou a abertura dos primeiros campos de concentração que tinham como principal objetivo ‘eliminar os inimigos internos do regime. lembrando a figura de Judas que segura as moedas que recebeu pela traição de Cristo. pois um dos objetivos dos antissemitas é de identificá-los com seres inumanos. de propriedade de S. cores e símbolos adotados pelo serviço de propaganda do Reich. Através das imagens reproduzidas por sofisticadas técnicas. algumas cenas do filme O Triunfo da Vontade e Olympia. A instalação dos “campos da morte” inauguraram uma nova fase da metódica eliminação dos judeus na Europa. Sua imagem vem sempre ligada ao dinheiro. a perfeição (o ariano) em contraposição com o feio. o professor deve orientá-lo na observação dos cartazes e postais antissemitas que documentam este livro sobre Holocausto. de Pierre Vidal-Naquet. A ideologia eliminacionista do Reich e as necessidades econômicas decorrentes de uma situação de guerra. animais perigosos. dirigido por Goebbels. Esteticamente irradiam beleza. o governo e intelectuais brasileiros discriminavam os japoneses. os guetos e os campos como “espaços da exclusão e da morte premeditada”. “O Anti-semitismo na Era Vargas”. coragem e bravura. Em 28 de fevereiro de 1933. fossem “reais ou imaginários”. Os posters. Algumas expressões fisionômicas se repetem com o objetivo de produzir no “leitor” um sentimento de aversão e ódio. ávido de lucros. Os arianos. o degenerado (o judeu. exigiram a diversificação dos campos de prisioneiros: campos de trabalhos forçados. Os homens igualam-se aos heróis. Valendo-se de elementos retirados da realidade. o perigoso. o puro.em 1994 e 1998. panfletos e propaganda racista circulam pela Internet (ainda que proibido por lei) propondo a morte de judeus. expressando altivez. alegria e felicidade. do processo de Eichmann (julgado em Israel em 1961) e de pesquisas acadêmicas que. os negros e os mulatos como “raças inferiores”. Obras anti-semitas. saúde. Além destes existiam outros campos com especificidades próprias: campos de trânsito. Nada disto era fortuito. Quais seriam as principais diferenças entre as imagens veiculadas sobre os judeus e os arianos na Alemanha nazista ? Observação: antes do aluno responder esta questão. Raras são as pesquisas realizadas por historiadores brasileiros que tratam da nossa realidade racial e do passado racista do Brasil. Grande parte dos conhecimentos que temos do funcionamento deste aparato foram extraídos dos processos do julgamento de Nuremberg. os judeus são representados através de “traços negativos” que expressam a ideia de malignidade que lhes era atribuída pelo regime. nestas últimas décadas. desde o final do século XIX. Vale lembrar que. campos para prisioneiros civis. negros e homossexuais. “O racismo na História do Brasil: Mito e Realidade”. a Polícia enquanto agente do terror . se não avaliarmos o papel da propaganda. ambos desta autora) 5. explorador. 1933. campos de concentração e campos de extermínio. acompanhada pelo avanço das tropas alemãs em direção ao Leste europeu. a Editora Revisão. Assim temos: Judeus Escoltados pela SA. campos para poloneses. saudáveis. os álbuns de figurinhas. Podemos afirmar que havia uma tipologia para os campos ? Você vê diferença entre campos de concentração e campos de extermínio? É impossível estudarmos o Holocausto enquanto fenômeno político. Israel. estes artefatos visuais se prestavam para influenciar a opinião pública colaborando para a sustentação de uma “estética nazista”. 38 . Nestes materiais de propaganda. assumem o perfil de cidadãos “iluminados” envolvidos por signos nazistas.E. Confinada ao lar é apresentada como a fiel companheira do homem. podemos identificar aqueles que foram “eleitos”pelo regime nazista para representar o belo. Em outras situações. A instalação destes campos acompanha as diferentes fases de perseguição aos “inimigos do regime” (judeus. doentes mentais e físicos). As figuras das mulheres arianas (consideradas como as guardiãs da raça ariana) são perfeitas. o cigano). vermes e serpentes viscosas. Castan chegou a publicar várias obras que tratam o Holocausto como a maior mentira do século. campos penais. de Leni Riefenstal.

Hammerstein. Minsk-Mazowiwcki. 39 . trincheiras e aeroportos) e os Firmenlanger (trabalhavam nos campos de empresas encarregadas de produzir material bélico). prestou-se como matriz para os demais campos). na 2ª etapa da guerra que exigia a abertura de estradas. Em abril de 1943 ocorreu a rebelião do gueto de Varsóvia. começaram a ser praticados. Westerbork (Holanda) e Breendonck (Bélgica). cerca de 13 campos de trânsito foram construídos em Varsóvia. Königswusterhausen. Outros morriam de fome. Quednau. de extermínio. doenças e desespero. comunistas e seus simpatizantes. Posteriormente. posteriormente. Transilvânia e Frankfurt. Letônia. Campos para poloneses: criados durante o confronto com a Polônia em setembro de 1938. Berlim. -Os judeus eram exterminados. sendo Pruszkow o principal deles.obra dos territórios ocupados. transformou-se no laboratório da “Solução final”. 3ª fase: 1941-1945 Observação: o professor deverá orientar os alunos a observarem um mapa que identificando os locais de massacre (direção a leste) e os campos de extermínio. Campos de trânsito na Europa ocidental e meridional para onde foram transladados milhares de judeus: Drancy (França). Deveriam construir fortificações para garantir uma infra-estrutura para a invasão alemã na ex-União Soviética. homossexuais. Sobibor. Treblinka II(para onde foram os judeus do gueto de Varsóvia). Outros campos: Lublin-Majdanek. Vilna. Auschwitz-Birkenau (principal local de extermínio). Kovno. Kovno e Zetl Campos de extermínio: às categorias identificadas nas fases anteriores somaram-se os campos de extermínio: Chelmno (1942: iniciou o extermínio dos judeus de parte da Polônia anexada pelo Reich). Ali eram alojados cidadãos poloneses e prisioneiros de guerra que seriam deportados para a Alemanha. A Polônia. Heydrich ordenou que os judeus fossem reagrupados nos grandes centros ferroviários e ali concentrados nos guetos.Etapas da Perseguição 1ª etapa: 1933-1938 Categoria e identificação Campos de concentração: Dachau (criado em 1933. Entre 1940-1941. Discutir com os alunos o item “O aparato institucionalizado do terror: etapas da perseguição”. nas proximidades da fronteira soviética. Assassinatos esporádicos e. uma grande número de guetos foram alí construídos em: Pietskow (1939). Os Eizatzgruppen cuidaram dessa operação. Após a invasão da Polônia pelos alemães. Belzec (para onde foram transportados os judeus de Lublin e Lvov). fabricação de material bélico. Bornim. Letônia. alimentos e roupas para os soldados. Deveriam fazer uso da infra-estrutura e da mão-de. Fossoli e Bolzono (norte da Itália). Transilvânia e Frankfurt. Algumas cenas do filme A Lista de Schindler podem ser avaliadas prestandose para os alunos observarem como os judeus eram empregados nas indústrias que serviam ao Estado e aos industriais nazistas. Oswald Pohl. Outras rebeliões foram registradas nos guetos de Minsk. Número de presos entre 1933-1939: cerca de 165 mil a 170 mil Supervisão: Dachau e Columbia Haus estavam sob a supervisão da AS que tinha Himmler como seu comandante. Kyrchów. Vilna. anarquistas. Campos de concentração: passaram por uma reformulação em decorrência da política anti-semita e da situação de guerra.inicialmente. Dados complementares Categoria dos presos: judeus. Outros campos: Theresienstadt. Berlim. passaram a ser empregadas câmaras de gás que tinham aparência de banheiro coletivo. Um mês após a invasão da Polônia. Ravesnsbrück (campo feminino) e Mauthausen. foram criados campos de trabalho forçado para judeus. ciganos. Treblinka e Auschwitz. Columbia Haus (Berlim). foi encarregado de administrar os prisioneiros dos campos de concentração. diretor da WVHA. Os demais campos foram assumidos pela SS. Oranienburg. Em 1944. Após 1941 foram construídos na Estônia para onde levados os judeus dos campos de Theresienstadt. Sobibor. Lodz (1940). morrendo por asfixiamento. O mesmo acontecendo nos campos para prisioneiros civis e campos de trânsito. invadida pelos alemães em 1º de setembro de 1939. -Grupos de prisioneiros distintos: os Aussenkommando (levados para trabalhar fora dos campos cuidando da abertura e preservação de estradas. mas a tendência se acentou após 1942. Sugerir-lhes a montagem de um quadro seguindo o exemplo acima. etc. 2ª etapa: 1939-1941 Campos de trabalho: já existiam na 1ª fase. em caminhões a gás. Há registros de revoltas nos campos de extermínio de Kruszyna. Kovno. Guetos: Bairros fechados e reservados especilamente para os judeus. Varsóvia (1940). social-democratas.

o III Reich “estetizou” a vida alemã. Estes estavam divididos em dois grupos distintos: Wafen SS (que atuavam como divisões militares de guerra) e os Einsatztruppen (comandos especiais responsáveis pela execução da política de extermínio na Rússia ocupada e pela segurança dos campos de concentração). um jornal alemão já havia classificado as obras de Kandinsky como “um sólido emaranhado de linhas” e o próprio artista como um “pintor insano”. Em 1928. A SS. Importante papel tiveram os médicos e cientistas conhecidos como os “anjos da morte”. comunistas. POVO. Alfred Rosenberg. Entre os indesejáveis (inimigos do regime) estavam: os judeus. Os comandantes da polícia política (os Eisatzgruppen) colocaram em execução as ordens recebidas de Heydrich. tornouse cabeça intelectual do partido. Artistas “degenerados” perderam os seus cargos. ideia pregada por intelectuais desde o século XIX. o ex-teórico da arte. obras confiscadas e museus reformulados. os homossexuais. Verdades sobre as raças puras e as raças inferiores” foram “construídas” com o apoio de cientistas. Essas ideias foram se tornando mais extremadas à medida que o movimento nazista ganhava forças. Conseguiu seguidores por toda a Europa e países da América. homens comuns. galerias foram fechadas. médicos. Matisse. foi o elemento detonador de uma mentalidade antissemita pré-existente. ciganos. também se proibia o jazz e a pintura moderna. comunistas. fazendo valer a “vontade autoritária”. Coleções valiosas de obras confiscadas iam sendo empilhadas no Holfburg e no Kunsthistorisches Museum.Da mesma forma como se proibiam casamentos entre judeus e arianos. assumindo o cargo de “zelador de todo o treinamento e educação intelectual e espiritual do partido e das associações coordenadas”” . bela. 8. contrários à arte impressionista. acusados de crimes contra a Humanidade. a um grupo de homens. Explicavam que cabia aos membros da hierarquia nazista as “ordens”para a matança. mas “limpa” de tudo que pudesse comprometer o projeto de arianização da Alemanha cujo povo deveria ser formado por elementos representativos de uma raça pura. Muitos preferiram deixar a Alemanha pois sequer podiam comprar tintas e pincéis. espalhou o ódio contra judeus. Hitler. raciais. Dezenas de outros cidadãos. Com a 40 . Muitos daqueles que foram julgados no Tribunal de Nuremberg. irresponsável pelos seus atos. subsidiada pelo aparelho burocrático do Estado. podemos definir o Holocausto como o produto de uma mente maquiavélica e calculista que. eram colocadas lado a lado com pinturas e esculturas modernas. O tratamento de “patológica” dado à arte moderna não foi uma invenção do nazismo. Deu-se início a um programa de “purificação da arte” que corria paralelo ao “programa de purificação da raça”. esses comandos haviam assassinado cerca de meio milhão de judeus. de Daniel Goldhagen (ver bibliografia citada). Van Gogh e outros. em que fotografias de pessoas doentes e deformadas. resultantes de uma degeneração (um desvio). que “serviam à Pátria alemã”. Estes mesmos critérios (de raça pura/superior e impura/ inferior) foi aplicada à arte. Van Gogh. especificamente. o antissemitismo deixaria de existir. Segundo a terminologia nazista. educadores e filósofos. discussão que ganhou forças após o lançamento do livro Os Carrascos Voluntários de Hitler. perfeito. Qual a relação deles com o programa de arianização idealizado pelo Reich? Um dos principais slogans anti-semitas do III Reich era o de construir uma Alemanha “limpa de judeus”. A idéia de Herzl era de que. Até novembro de 1941. os deficientes físicos e mentais. O extermínio de seis milhões de judeus foi decidido e executado por Hitler e seus homens (além de homens comuns do povo) entre 1939-1944. de gênere e culturais). Theodor Herzl fundou na Europa um movimento nacionalista judaico que tinha por objetivo o restabelecimento de um Lar Judaico na Palestina. alegavam que estavam apenas “cumprindo ordens”. O debate não era exclusivo da Alemanha: aconteceu em outros países que julgavam os artistas “degenerados” como produtos do liberalismo. ARTE e ESTADO constituíram um trinômio inseparável no ideário nazista. Aqueles que apresentassem desvios (leia-se aqui “defeitos” morais. A Alemanha queria ser uma bloco coeso. A partir de um projeto de arianização. Nicholas. Dois conceitos foram amplamente explorados pelo nazistas: o de raça degenerada e arte degenerada. neste caso. O destino dos tesouros artísticos europeus no Terceiro Reich e na Segunda Guerra Mundial. a arte entrou em voga. A tese defendida por Goldhagen é de que o Holocausto foi compartilhado pela maioria do povo alemão que não se limitou apenas a assistir o espetáculo do horror. a partir do momento em que os judeus tivessem um lar próprio. foram mobilizados pelo regime aderindo ao programa de extermínio. o tema foi discutido no Reichstag e o parlamento aprovou uma resolução contra a “degeneração”da arte. Persistia o sentimento de que a multidão e a cultura alemãs deveriam formar um todo único. Assim. Críticos de arte. 1996). sem desvios. Explicações convencionais procuram mostrar que os alemães (enquanto coletividade nacional) adotaram posições neutras ou condenatória em relação ao genocídio. As obras de Matisse. Que papel tiveram os membros da SS na execução da “Solução Final” nos campos de extermínio? A questão da “Solução Final” não deve ser atribuída. Qual a relação que pode ser feita entre a Shoah e a criação do Estado de Israel ? No final do século XIX. São Paulo: Companhia das letras. Com a ascensão dos nacionais-socialistas ao poder. foi realmente o maior braço de repressão do regime. perfeita. selecionar e exterminar os cidadãos indesejáveis foram criados institutos de pesquisa e uma polícia especial. Munch e Picasso estavam entre as obras “expurgadas”. Este se tornou vitorioso em 1948 com a criação do Estado de Israel. 9. Para avaliar. chegaram a clamar por uma “depuração da arte” . Slides das pinturas de Picasso. Não apenas de judeus. Paul Schultze-Naumberg publicou o livro Arte e Raça. Pilhagem e destruição marcou esta investida nazista contra objetos e pessoas. de Lynn H. estes homens (inferiores) formavam uma categoria biológica e cultural de sub-homens (os Untermenschen). raciais e ideológicos) deveriam ser eliminados. Cézanne. controlada por Himmler e seu auxiliar Heydrich. Em 1914. Aliás. a “culpabilidade” é um dos temas mais debatido nestes últimos anos.7. Caso o professor queira ter maiores informações sobre este texto deverá consultar a obra “Europa Saqueada”. ciganos e outras minorias. a vontade do Führer. além do cidadão comum que foi cooptado pelo regime. Em 1913. obtidas de textos médicos. sem degenerações de qualquer espécie (ideológicas. as Testemunhas de Jeová. poderão ser mostrados para os alunos abrindo o debate para esta questão.

000 pessoas que se somaram a outros 13. Em 1939. Vale ressaltar que diversos desfiles organizados pelo Partido nazista entre 1933-1945. estrela-de-davi. 11. oficinas. A partilha da Palestina foi. Você já assistiu a algum filme sobre o Holocausto? Qual? Comente a respeito. Adotam o nazismo e a Ku Klux Klan como modelos. expressando seu ódio contra negros. Os neonazistas -. em 29 de novembro de 1948. levados por outros meios.considerados como grupo de violência . . ciganos). Entre o final da guerra e a criação do Estado de Israel (1948) uma imensa corrente emigratória Ilegal) se intensificou levando refugiados judeus até a “terra prometida”. num protesto contra um monumento em homenagem aos judeus mortos no Holocausto (futuro Memorial do Holocausto). prisões militares.defendem. disse que esse projeto é “uma mancha indesejável na capital do Reich”. As cabeças raspadas compõem o seu visual. inclusive no Brasil. judeus. Têm profanado cemitérios judaicos. cinemas. através do Portão de Brandembrugo (Arco do século XVIII e o maior símbolo da nação alemã) em Berlim. decidiu por infringir as diretrizes dos Livros Brancos incentivando a imigração ilegal em massa para Eretz Israel.ascensão de Hitler ao poder em 1933 e com o incremento da política anti-semita pelo Reich. onde fazem ecoar as clássicas saudações nazistas: Heil Hitler! e Sieg Heil! Hitler é considerado o seu líder espiritual enquanto que seus atos são valorizados como expressão de heroísmo. catálogos e fanzines (revistas produzidas manualmente). mendigos e homossexuais. a figura do cidadão “ariano” e do cidadão “judeu”. O grupo sionista mais radical liderado por Davi Bem Gurion. espaços de trabalho (fábricas. Persistia nesta época a Política do Livro Branco que limitava a entrada de judeus na Palestina. o jornal Folha de S.). 10. judeus. desde a Segunda Guerra Mundial. balneários) e espaços de educação (colégios) . proposta por um projeto encaminhado em 1º de setembro de 1947 pela Comissão de Inquérito das Nações Unidas (UNSCOP). nasceria o Estado de Israel. foram conduzidos através deste portão que ficou fechado quase 50 anos. tendo por base os índices demográficos do momento: 2/3 de árabes e 1/3 de judeus. etc. presidente da ala neonazista do Partido Nacional Democrático. campos de concentração.Reconstituição dos cenários da época (1933-1950): residências dos nazistas e dos judeus. uso de símbolos (suástica. Londres decidiu encerrar o mandato e preparar o país para a independência.País ou cidade onde se desenvolve o filme procurando observar os diferentes espaços de segregação (guetos. confirmado pela maioria de dois terços na Assembléia Geral das Nações Unidas. Seria interessante que. Udo Voigt. chefes nazistas. Meses mais tarde. águia. a sacralização do Führer. Vários navios eram aprisionados com sobreviventes dos campos de concentração à bordo. um regime de mandato era estreitamente fundamentado na cooperação entre as autoridades britânicas e o movimento sionista. além de portarem suásticas tatuadas no corpo. A agência clandestina Mossad Aliya Beit conseguiu fazer chegarem à Palestina cerca de 70. Durante o ato de protesto. incendiado ambientes e pessoas consideradas como “indesejáveis”. 41 .No caso de documentários observar o uso de luz e sombra. Caberá ao professor. cenas de exaltação à Alemanha. como aconteceu com o navio Êxodus em 1947. arrolados algumas elementos à serem observados como por exemplo: . O comportamento e as idéias do neonazistas americanos poderão ser avaliadas através de um debate acerca do filme A Outra História Americana. Alimentam seus seguidores distribuindo um farto material de propaganda racista e política que circula através da Internet. AS. Só foi reaberto após a queda do Muro de Berlim e o processo de reunificação do país. . antes da exibição. finalmente. em conjunto com seus alunos e direção da escola. campos de trabalho). indumentária dos diferentes grupos (SS. selecionar alguns dos filmes para serem debatidos em classe. os judeus alemães perseguidos pelo nazismo – e adeptos da idéia de terem um lar em terras da Palestina – começaram a procurar refúgio na Terra de Israel (Eretz Israel). Paulo noticiou que “cerca de 600 jovens neonazistas desfilaram pela primeira fez. de forma a não alterar essa proporção.000.Se a moral nazista e o discurso antissemita se fazem presentes nos diálogos. Têm seguidores em várias partes do mundo. hinos. Até então. etc). os neonazistas portavam bandeiras imperiais alemãs e vestiam roupas pretas compondo uma “estética nazista”. A grande fuga dos judeus perseguidos pelos nazistas precipitou o fim desta política sustentada pelos ingleses. Prevendo um período transitório de 5 anos. Organismos e comitês judaicos internacionais tentavam apoiar aqueles que estavam interessados em emigrar para a Palestina. o governo britânico limitou a imigração judaica e a aquisição de terras na Palestina. Qual a similaridade das idéias defendidas por esses grupos com os princípios sustentados pelos nazistas nos anos 1930 e 1940 na Alemanha ? No dia 31 de janeiro de 2000. O Livro Branco marcou o início da luta final pela formação de um Lar Nacional Judaico na Palestina e devem ser vistos como símbolo das restrições impostas pelos ingleses à emigração judaica durante a Segunda Guerra. Você certamente já ouviu falar dos neonazistas. espaços de lazer (praças públicas. como os nazistas a supremacia da raça ariana.

aquarela. Israel Desembarque de judeus para campo de concentração Yad Vashem.Momentos antes da Câmara de Gás. Yad Vashem. Yad Vashem. Museu Lasar Segall. Israel Anna Flachová (26/11/1931 . Israel 42 . SP Buchenwald. Israel Deportação de judeus para os campos. fornos crematórios.sobrevivente) Depois de uma tempestade no mar. Israel Ruth Reinová (19/02/1931 . giz de cera.22/10/1944) Feira. Yad Vashem. Yad Vashem.

logo “escrita da imagem”. culminando no colapso de quatro impérios e mudando de forma radical o mapa geo-político da Europa e do Médio Oriente. significando cremação dos corpos. ameríndios. negros. Seu principal ponto determinava que a Alemanha aceitasse todas as responsabilidades por causar a guerra e que. Nazifascismo: Termo que designa em conjunto. na África.ª Guerra Mundial (19391945) promovendo o extermínio de cerca de 6 milhões de judeus. o tratado foi assinado como continuação do armistício de Novembro de 1918. Itália e Japão). Segunda Guerra Mundial: Conflito militar global (19391945). a mais antiga das três principais religiões monoteístas (as outras duas são o cristianismo e o islamismo). facção ou classe. o avanço do capitalismo provocou uma disputa por novas áreas e mercados.“eikon” significa imagem e “graphia” significa escrita. Imigação: Movimento de entrada. a regulação e restrição da expressão. político. aversão ou a profunda antipatia em relação aos estrangeiros. que muitas vezes é marcado por culto de personalidade. é amplamente utilizado na Alemanha Nazi.GLOSSÁRIO Adolph Hitler: (1889-1945) Líder político alemão nascido em (Braunnau-Austria). formulada por Adolf Hitler. com controle sobre a economia. Massacre de Ruanda: Em Ruanda. Shoah: Corresponde à palavra holocausto em hebraico. a vigilância em massa e o disseminado o uso do terrorismo de Estado. Judaísmo: Nome dado à religião do povo judeu. sob os termos dos artigos 231-247. que tinha posto fim aos confrontos. causando matança e de mais de um milhão de pessoas de Primeira Guerra Mundial: Com início do século XX. nacionalistas e socialistas. liderando a 2. o presidente hutu Habyarimana foi morto. Antissemitismo: Preconceito ou hostilidade contra judeus baseada em ódio contra seu histórico étnico. Regimes totalitários: Sistema político em que o Estado. É sistema político controlado por legisladores não eleitos que usualmente permitem algum grau de liberdade individual. não reconhece limites à sua autoridade e se esforça para regulamentar todos os aspectos da vida pública e privada. Tornou-se guia ideológico e de ação que até hoje influencia neonazistas e é chamado de “Bíblia Nazista”. Pode manifestar-se de várias formas. envolvendo todas as grandes potências – organizadas em duas alianças militares opostas: os Aliados (Império Britânico. A guarda presidencial. e adotada pelo governo (1933 a 1945). adotadas pelo partido nazista. como homossexuais e outros não-heterossexuais ou não-cisgêneros. com mais de 100 milhões de militares mobilizados. embora nascido em 1920. é a ideologia praticada pelo Partido Nazista da Alemanha. além da igualdade perante a lei. União Soviética e Estados Unidos) e o Eixo(Alemanha. em Compiègne. muito frequente em regimes autoritários e totalitários. República de Weimar: Instaurada na Alemanha após a Primeira Guerra Mundial. há dois grupos étnicos: a maioria hutu e o grupo minoritário de tutsis. nacionais. com ânimo permanente ou temporário e com a intenção de trabalho e/ou residência. Normalmente o conceito de direitos humanos engloba a liberdade de pensamento e de expressão. raciais. Dissidentes Políticos: Dissidência é o ato de discordar de uma política oficial. Império Russo (até 1917) e Estados Unidos (a partir de 1917) que derrotou a Tríplice Aliança (liderada pelo Império Alemão. Genocídio: Assassinato deliberado de pessoas motivado por diferenças étnicas. Arianismo: teoria nazista que afirmava a superioridade do povo ariano como suposta raça pura. Xenofobia: Medo irracional. sobre suas idéias anti-semitas. cultural ou religioso. Após seis meses de negociações em Paris. Genocídio Armênio: governista Ittihad dos Jovens Turcos deportação forçada origem armênia. encerrando oficialmente a Primeira Guerra Mundial. agressão e desenho de eliminar a sua presença para assegurar uma suposta pureza. fizesse reparações a um certo número de nações da Tríplice Entente. Em 1994. Tratado de Versalhes: Tratado de paz assinado pelas potências europeias em 1919. Império Austro-Húngaro e Império Turco-Otomano). O poder Legislativo era constituído por parlamento (Reichstag). doutrina totalitária desenvolvida por Benito Mussolini (1919) e o nazismo alemão. entre a Tríplice Entente (liderada pelo Império Britânico. Pode ser definido como comportamento em que instituição ou pessoa se excede no exercício da autoridade que lhe foi investida. Foi promovido pela cúpula do partido também conhecido como partido (1915-1917). quase um milhão de tutsis. Nazismo: Conhecido oficialmente na Alemanha como nacional-socialismo. em muitos aspectos emulando a primeira. incluindo o medo de perda de identidade. Os indivíduos e grupos que optam pela dissidência são denominados dissidentes políticos. A partir do século XIX passou a designar grandes massacres e após a Segunda Guerra Mundial foi utilizado especificamente para referirse ao extermínio de milhões de pessoas que compunham grupos politicamente indesejados pelo regime nazista. França. normalmente sob o controle de uma pessoa. A disputa pela hegemonia do continente causou grande guerra chamada Primeira Guerra Mundial. Exposição iconográfica representa a exibição em forma de linguagem que agrega imagens na representação de determinado tema. exterminando deliberadamente. Foi a guerra mais abrangente da história. O Presidente da República nomeava chanceler que seria responsável pelo poder Executivo. poder instituído (ou constituído) ou decisão coletiva. Mein Kampf (Minha Luta): Título do livro de dois volumes de autoria de Adolf Hitler. 43 . religiosas e (por vezes) políticas. Os regimes ou movimentos totalitários mantêm o poder político através de propaganda abrangente divulgada por meios de comunicação controlados pelo Estado com partido único. racialistas. de um país para outro. caracterizado pelo uso do abuso de poder e da autoridade confundindo-se com o despotismo. teve como sistema de governo o modelo parlamentarista democrático. o fascismo italiano. judeus e comunistas (bem como outras correntes políticoideológicas correlatas à esquerda política). parte do exército e muitos esquadrões da morte perseguiram. Direitos Humanos: São direitos e liberdades básicos de todos os seres humanos. Grupos Neonazistas: Associado ao resgate do nazismo tem suas origens assentadas na intolerância e em preceitos racistas. Regimes autoritários: Forma de governo caracterizada pela ênfase na autoridade do Estado em uma república ou união. de pessoas ou populações. Os seguidores da doutrina promovem discriminação contra minorias e grupos específicos. Instituiu na Alemanha o regime ditatorial nazista. França. Terceiro Reich: Nome do período do governo estabelecidou na Alemanha (1933-1945) liderada por Adolf Hitler e o Partido Nacional Socialista Alemão dos Trabalhadores (NSDAP). primando sempre pela “raça pura ariana”. Exposição Iconográfica: O termo “Iconografia” provém do grego . que.

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