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Intervenção da Terapia Ocupacional no tratamento de adolescentes dependentes químicos.

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Intervenção da Terapia Ocupacional no tratamento de adolescentes dependentes químicos.

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Caroline MATOS ², Hannah SERRUYA ², Jeovana SILVA ², Juliana BASSALO ², Karoline RODRIGUES ², Kelvia MIRANDA ², Lucas FRANÇA ², Renata MOURA ², Rodrigo NOGUEIRA ²; Jorgeane PANTOJA³; Enise NAJJAR 4, Andréa MACEDO 4
RESUMO Estudos epidemiológicos têm constatado altos índices no consumo de drogas por adolescentes, caracterizando o fato como um problema de saúde pública. As drogas são substâncias psicoativas, ou seja, que alteram as funções corporais e psicológicas podendo ser divididas em sedativas, estimulantes e perturbadoras do Sistema Nervoso Central e no campo legal são classificadas em lícitas e ilícitas. Este estudo proporciona descrições sobre o consumo de drogas na adolescência, seus fatores desencadeantes, suas formas de uso, seus aspectos fisiológicos, quadro clínico e destacando a importância da Terapia Ocupacional no tratamento. Este artigo tem por objetivos apontar os fatores que predispõem os adolescentes a envolver-se com as drogas, descrever os efeitos das drogas no contexto biopsicossocial dos dependentes químicos e identificar os métodos e técnicas que o terapeuta ocupacional pode utilizar para intervir no tratamento de dependentes químicos. Esta pesquisa se caracteriza por uma revisão da literatura no acervo da Universidade do Estado do Pará do Centro de Ciências Biológicas e da Saúde – Campus II e sites de publicações cientifica como SCIELO E CEBRID. Os principais fatores que predispõem o adolescente a envolver-se com as drogas são o constante distanciamento da família e a influência do meio extrafamiliar no qual está inserido. A droga pode surgir como busca de prazer e novas experiências, aceitação grupal, fuga da realidade, auto-afirmação, dentre outros. A Terapia Ocupacional, através de vivências e de atividades criativas e expressivas, busca a exteriorização de pensamentos e sofrimentos internos do adolescente, contribuindo assim em sua reestruturação biopsicossocial. A Terapia Ocupacional por meio de atividades individuais e grupais tem como fim a reinserção social, edificação psicológica dos usuários, prescrever orientações aos cuidados familiares, afirmação de valores e auto-estima, além de estimular a percepção do adolescente para um melhor entendimento sobre a dependência química, tendo como um dos fins a prevenção de recaídas. Palavras – chave: Adolescência. Drogas. Terapia Ocupacional. 1 INTRODUÇÃO A partir dos anos 60 o intenso consumo de drogas transformou-se em uma preocupação mundial, em decorrência de sua alta frequência de uso e dos riscos
_______________________________ ¹ Artigo referente a 4ª avaliação parcial do curso de Terapia Ocupacional da Universidade Estadual do Pará. ² Autores do artigo, discentes do curso de Terapia Ocupacional da Universidade Estadual do Pará. ³ Monitora de Prática Comunitária em Terapia Ocupacional 4 Orientadoras de Prática clinica em Terapia Ocupacional I e Metodologia Científica e Pesquisa.

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que esta pode acarretar à saúde. Nos dias atuais o número de usuários de substâncias psicoativas é cada vez maior, mobilizando vários segmentos da sociedade. Uma das fases caracterizadas pelo intenso consumo de drogas é a adolescência, devido ser uma etapa do desenvolvimento em que o indivíduo passa por diversas alterações corporais, emocionais e sociais (VIEIRA, 2008). Para Vieira (2008) é na adolescência, marcada pelos conflitos resultantes da passagem da infância protegida pelos pais e cuidadores para uma vida adulta cheia de compromissos e responsabilidades, que o jovem adquire novas práticas, consolida conceitos e valores e começa a adquirir e a buscar autonomia. Devido essas intensas transformações, o adolescente pode tornar-se mais vulnerável, envolvendo-se em diversos contextos que afetam sua saúde, dentre eles o uso de drogas. As drogas surgem, dentre outros fatores, como uma fuga da realidade ou solução para os problemas do adolescente. Durante o seu consumo, há a sensação de capacidade em lidar com os problemas, diminuição do sono e apetite, presença de alucinações, e outros sintomas que causam um desejo incessante em continuar consumindo a substância. Observa-se também o aparecimento de doenças secundárias, decorrentes do uso abusivo de drogas, como câncer, doenças isquêmicas do coração, tuberculose, entre outros. O consumo dessas substâncias traz conseqüências danosas, que envolvem também os âmbitos da família, educação, da saúde e da segurança pública (RABANÉA et al., 1998). Apesar de ser um problema de saúde pública, considera-se dependência química como uma doença que pode ser tratada e controlada, precisando assim de acompanhamento e apoio de familiares e profissionais, já que o dependente tem seus vários aspectos da sua vida afetados. Dentre os profissionais envolvidos no tratamento de dependentes químicos, destaca-se a importância do Terapeuta Ocupacional. Dessa forma, no decorrer do processo de aprendizagem acadêmica foram reconhecidos os mais diversos temas relacionados à saúde, dentre eles a dependência química. Este assunto foi o que mais despertou o interesse diante da necessidade de investigação. Sendo assim, este artigo teve como enfoque principal a relação da adolescência com essa problemática sob o prisma biopsicossocial, ressaltando a importância do terapeuta ocupacional que através de atividades grupais e individuais busca o resgate da saúde mental deste indivíduo que foi

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abalada pelo uso de tais substâncias. Neste sentido, esse estudo buscou alcançar as seguintes questões: apontar os fatores que predispõem as pessoas a envolver-se com substâncias psicoativas, descrever os efeitos das substâncias psicoativas no contexto físico e psicossocial dos dependentes químicos e identificar os métodos e técnicas que o terapeuta ocupacional pode utilizar para intervir no tratamento de dependentes químicos. Para tanto, este artigo foi dividido em introdução, dois capítulos e conclusão. O capitulo 1 aborda as características biopsicossociais da adolescência, os fatores que predispõe o adolescente ao uso de drogas, a classificação das drogas e seus efeitos psicoativos. O capitulo 2 trata da intervenção da Terapia Ocupacional com adolescentes dependentes químicos, ressaltando a importância da profissão na integração social do adolescente. 2 ADOLESCÊNCIA E DROGAS A adolescência é uma fase de transição entre a infância e a idade adulta em que há o desenvolvendo dos aspectos biopsicossociais. Esta fase dura aproximadamente dez anos e tem início com a puberdade, período no qual os hormônios sexuais produzidos desde a infância (entre 5 e 9 anos), começam a modificar significativamente o corpo. Nas moças, os ovários aumentam a produção de estrogênio, que estimula o crescimento dos genitais femininos e o crescimento dos seios, já nos rapazes os testículos aumentam a fabricação de androgênios, estimulando o crescimento dos genitais masculinos, massa muscular e pêlos no corpo (PAPALIA, 2006). Devido às modificações em seu corpo, o adolescente passa por alterações psicossociais decorrentes do esforço de adaptação, reorganização e reestruturação da nova fase de sua vida. Segundo Seibel e Toscano Jr. (2001), os hormônios sexuais provocam além de mudanças físicas, alterações psicológicas. Estas alterações podem ser experimentadas com constrangimento devido a percepção de si mesmo e a exposição das novas características do seu corpo para os outros, tal como o timbre de voz. Na esfera social, a interação grupal é perceptível, já que o adolescente busca pertencer a um grupo com o qual se identifique e passa a compartilhar valores comuns. Nesse período, a família deixa de ser a única referência e os amigos

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passam a ter influência importante e significativa nas suas decisões e atitudes. (CAVALCANTE; ALVES; BARROSO, 2008). Amato (2010) acrescenta que a adolescência é um período de consolidação de valores, busca por novas experiências, desejo de maior autonomia, e procura por desafios, caracterizando esta etapa como a fase das muitas oportunidades. Assim, mudanças que ocorrem na vida do adolescente, tais como: corporais, psicológicas, aceitação de papeis sociais, relações familiares, dentre outros, poderão influenciar na construção da personalidade do adolescente.
Os processos de maturação e de aquisição da capacidade de auto-controle e de estima pessoal tendem a interromper-se, deixando o adolescente excessivamente vinculado aos fatores externos, em detrimento dos fatores internos, principalmente quando há baixa auto-estima, ocorrência que parece deixar o jovem mais suscetível às influências do grupo (SEIBEL;TOSCANO JR., p. 286, 2001.).

Dessa forma, a perda parcial do controle dos pais sobre o adolescente, a forte influencia exercida pelo grupo no qual ele está inserido e a necessidade de independência e autonomia são fatores que podem provocar conflitos familiares e crise de identidade. O adolescente busca maior liberdade para vivenciar novas experiências, além disso, é importante para ele pertencer e ser aceito pelo grupo de iguais. Neste contexto, a droga pode surgir ou como uma fuga da realidade e solução temporária para os problemas; ou como possibilidade de explorar situações desconhecidas, ou ambas. As drogas são consideradas substâncias psicoativas, ou seja, que alteram as funções corporais e psicológicas ao ser inaladas, ingeridas ou injetadas. Podem ser classificadas em lícitas, tais como o álcool e o tabaco, e ilícitas, como a maconha, a cocaína, o crack, a merla, o esctasy, dentre outras. As drogas lícitas são aquelas que sua fabricação, seu transporte e sua comercialização não são proibidos por lei, ao contrário das drogas ilícitas, que possuem uso e comercialização ilegais. Dentre os fatores que contribuem para o envolvimento do adolescente com o consumo de drogas lícitas destaca-se o apelo dos meios de comunicação, a aceitação social e o envolvimento familiar com o uso de tal substância. Posteriormente, este tipo de droga pode se tornar a porta de entrada para o consumo de drogas ilícitas pelo adolescente (GONÇALVES,1998; CAVALCANTE; ALVES; BARROSO, 2008). Quando envolvido neste contexto, o adolescente acaba perdendo o controle, após o uso repetido de uma substância psicoativa, sentindo necessidade orgânica e

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desejo psicológico pelo bem-estar que ela produz, tornando-se assim um dependente químico (GONÇALVES, 1998; RABANÉA et al., 1998). Segundo um levantamento de dados do Centro Brasileiro de Informação sobre Drogas (CEBRID), realizado em 2005, a partir de uma amostra parcial de 7.939 entrevistados, em comparação ao total de habitantes no âmbito nacional, estima-se que 22,8% já fizeram o uso de drogas, o correspondente a mais de 10 milhões de pessoas, exceto tabaco e álcool no decorrer da vida. Em relação ao tabaco e ao álcool quanto ao nível de dependência apresentam em torno de 12,3% e 10,1%, respectivamente, referente a mais de 5 milhões e mais de 4 milhões de pessoas. Na denominação das drogas ilícitas, a maconha aparece em primeiro lugar como a mais consumida (8,8%) das pessoas consultadas. O estudo ressalta que na faixa etária de 12 a 17 anos já houve o uso das mais variadas drogas por esses jovens.

2.1

EFEITOS

DAS

SUBSTÂNCIAS

PSICOATIVAS

NO

CONTEXTO

BIOPSICOSSCIAL DOS DEPENDENTES QUÍMICOS Segundo Rabanéa et al. (1998) as substâncias psicoativas podem ser divididas em sedativos, estimulantes e perturbadores do sistema nervoso central. Os sedativos (álcool, ansiolíticos e heroína), também chamados de depressores, diminuem, enfraquecem e deprimem a atividade geral do cérebro, relaxando e acalmando a pessoa de forma que ela consiga lidar com os problemas. As drogas estimulantes (anfetaminas, tabaco, cafeína, cocaína, crack e merla) aceleram o funcionamento do sistema nervoso, deixam a pessoa em alerta, diminuindo o sono e o apetite. E as drogas perturbadoras (maconha, ecstasy e LSD) possibilitam ao usuário entrar em contato com o sobrenatural e provocam sintomas similares a de uma pessoa com distúrbios mentais graves. Azevedo (s.d.) acrescenta que as drogas depressoras diminuem a dor e a ansiedade, provocando euforia no inicio do uso e sonolência posteriormente. As estimulantes provocam insônia e aumentam a atividade psíquica. Por fim, as perturbadoras provocam alucinações e delírios. Dentre as principais drogas, pode-se ressaltar o álcool, o tabaco, a maconha, a cocaína, o crack e a merla. Toscano (2001) classifica os efeitos do álcool em transtorno psicótico e alterações somáticas. Os quadros a nível psicótico e

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afetivo determinam o transtorno psicótico, em que transtornos psicomotores, delírios, alucinações e falsos reconhecimentos ocorrem durante ou imediatamente após o uso prolongado e pesado do álcool. Em relação a alterações somáticas, o sistema digestivo gastrintestinal e o sistema nervoso central serão os mais afetados, ocasionando diarréia crônica, gastrite, desnutrição, hepatite alcoólica, cirrose hepática, esteatose hepática, pancreatites, miocardiopatia alcoólica e hipertensão arterial. Há evidências que o alcoolismo também pode causar câncer na boca, pescoço, faringe, laringe, esôfago, estômago e fígado. Além disto, existe uma estreita relação entre as doenças infecciosas com a ingestão do álcool, como tuberculose pulmonar e endocardite bacteriana. O tabaco é composto por várias substâncias, dentre elas acetona, naftalina, fósforo P4 e P6 e terebitina. Este último, quando inalado, pode causar irritação nos olhos e mucosas, vertigens e danos ao sistema nervoso central. A nicotina, também presente na composição do tabaco, quando tragada é absorvida pelas mucosas, atingindo o cérebro em 7 segundos, causando euforia. O tabaco pode causar ainda doenças isquêmicas do coração, isquemias ou hemorragias cerebrais, doença pulmonar obstrutiva crônica, câncer de boca, laringe, pulmão, esôfago e bexiga e morte (TORRES, 2005). A cocaína provoca vários efeitos no organismo, tais como acentuar a ação dos neurotransmissores dopamina e noradrenalina, provocando euforia,

hiperatividade, insônia, perda da sensação de cansaço e falta de apetite. O crack (fumo preparado com coca, bicarbonato de sódio e amônia) e a merla (preparada com as folhas de coca banhadas com gasolina ou querosene e usada com tabaco ou maconha) também são cocaína, portanto os efeitos são os mesmos. Porém, a falta de apetite é característica de usuários de crack e/ou merla, que em menos de um mês perdem de 8 a 10 kilos, e com um tempo maior de uso perdem as noções básicas de higiene e o interesse sexual. A diferença do crack e da merla para a cocaína é o tempo para surtir efeito, o crack e a merla levam de 10 a 15 segundos, a cocaína inalada leva de 10 a 15 minutos e a injetada de 3 a 5 minutos. Devido o crack ter um efeito rápido, com duração de 5 minutos, os usuários utilizam a droga repetidamente, causando uma dependência mais rápida do que a cocaína inalada ou injetada (CARLINNI et al., 2001). Quanto à maconha Carlinni et al. (2001) acrescenta que o mecanismo de ação desta droga não está esclarecido, mas seus efeitos dependem de sua

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qualidade e da sensibilidade de quem fuma. Os efeitos são antagônicos, para algumas pessoas provocam bem-estar, calma, relaxamento e vontade de rir, já para outras os efeitos são angústia, tremor, suor intenso e medo de perder o controle da cabeça. A maconha também pode comprometer a memória, a atenção e a capacidade de calcular tempo e espaço, além de quando usada em uma dose alta pode causar efeitos psíquicos mais evidentes como alucinação e delírio. No âmbito social, as drogas irão interferir na vida do adolescente, colocandoo, diante dos efeitos biológicos e psicológicos que esta produz, em situações de vulnerabilidade, a exemplo dos acidentes, suicídios, conflitos familiares, violência, gravidez não planejada e a transmissão de doenças por via sexual e intravenosa, nos casos das drogas injetáveis (CAVALCANTE; ALVES; BARROSO, 2008). Diante de tais efeitos biopsicossociais que além de modificarem a vida do adolescente, modificam também sua estrutura familiar, o jovem necessita de um tratamento complexo, com uma equipe multiprofissional e interdisciplinar, que desenvolva um trabalho capaz de reestruturar o adolescente e sua família. Neste âmbito, destaca-se a importância da Terapia Ocupacional, que utiliza a atividade como instrumento de reestruturação durante o tratamento do adolescente, podendo ser aplicada de maneira individual ou grupal.

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INTERVENÇÃO

DA

TERAPIA

OCUPACIONAL

EM

ADOLESCENTES

DEPENDENTES QUÍMICOS A Terapia Ocupacional como campo de conhecimento da saúde tem sua intervenção pautada em atividades e tecnologias que visam a (re) socialização e autonomia de indivíduos que por razões ligadas a transtornos físicos, sensoriais, mentais e psicológicos (temporários ou permanentes) adquiriram total ou parcial perda da capacidade de interação com a sociedade (TAKAHOSHI; NASCIMENTO, 2005). Segundo Cavalcanti e Galvão (2007), a inclusão social é um dos principais focos da Terapia Ocupacional, uma vez que trabalha com

restabelecimento da cidadania e dignidade humana por meio da valorização da diversidade cultural. O profissional da Terapia Ocupacional utiliza-se da atividade como instrumento capaz de resgatar a unidade do sujeito, sendo isso um fator

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fundamental nos processos de restabelecimento da saúde, pois é também por meio da atividade que se pode estimular o organismo e ativar um novo potencial de vida. A Terapia Ocupacional pela ação e pelo fazer, retoma a unidade interna da natureza humana (DE CARLO; BARTOLOTTI, 2001 apud TAKAHOSHI; NASCIMENTO, 2005). Dentre as diversas abordagens da Terapia Ocupacional na área da saúde, enfatiza-se a intervenção terapêutica ocupacional no campo da saúde mental. Entre as abordagens teóricas acerca da definição de saúde mental, enfatiza-se o bem estar subjetivo, a autonomia, a competência e a auto-realização do potencial emocional e intelectual do indivíduo. Portanto a saúde mental não se restringe apenas a ausência de transtornos mentais, mas ao desenvolvimento integral da pessoa (GUIMARÃES; GRUBTIS, 2004 apud PRATTA; SANTOS, 2006). Desse modo, fica evidente a influência direta do estado emocional na saúde física e no comportamento social do indivíduo. Segundo Guimarães e Grubtis (2004) apud Prata e Santos (2006), em um modelo de saúde integrado e baseado em fatos concretos, a saúde mental, incluindo emoções e padrões de pensamento, projeta-se como determinante chave para a saúde geral. O estado afetivo angustiado e deprimido, inicia uma sucessão de mudanças adversas no funcionamento endócrino e imunitário criando uma susceptibilidade maior a uma série de doenças físicas. A dependência química tem influência direta na saúde mental do indivíduo, pois pode ocasionar danos psíquicos além de afetar as relações sociais, alterando seu bem-estar. É considerada uma doença crônica, uma vez que acompanha o indivíduo por toda a sua vida (LEITE, 2000). Estudos apontam que atualmente o consumo de drogas entre os adolescentes ocorre cada vez mais cedo e apresentam altas prevalências (CARRANZA; PEDRAO; CURSINO apud PRATTA; SANTOS,2006). Os jovens por viverem em um corpo e uma mente em constante transformação, fato que pode gerar um sofrimento psíquico, constituem um grupo de risco para o consumo de drogas (REBOLLEDO; SUARÉZ; GALERA apud PRATTA; SANTOS,2006). Para o dependente, a droga é vista como algo norteador,ou seja, aquilo que dá sentido a sua vida. Quando ela é retirada do cotidiano desse indivíduo, provoca crises que afetarão diretamente a sua saúde na esfera biopsicossocial. No período

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do uso de drogas, ela proporciona um bem-estar momentâneo, uma “fuga da realidade”, fazendo com que a maioria dos usuários torne-se dependente (SILVERA; FILHO,1995; PRATTA; SANTOS,2009). Segundo Leite (2000), o tratamento com os dependentes químicos deve envolver a esfera biopsicossocial, devido o impacto que o consumo excessivo das drogas e a ausência das mesmas têm sobre as diversas áreas da vida desses indivíduos. Fragilidade, baixa auto estima, depressão, psicose, comportamento autodestrutivo, dentre outros, são sintomas característicos do período da abstinência,aspectos enfocados durante o tratamento. Nesse contexto se faz necessária a presença de uma equipe multidisciplinar que possa contribuir de maneira satisfatória para a reabilitação dos dependentes químicos. Dentre os profissionais envolvidos no processo de reabilitação estão o assistente social, o psicólogo, o educador físico, o médico, o nutricionista e o terapeuta ocupacional. Este estudo dedica-se a atuação deste último profissional. O tratamento realizado pelo terapeuta ocupacional pode ser conduzido tanto individualmente quanto em grupo, de acordo com os objetivos propostos aos sujeitos (CUNHA; SANTOS, 2009). A abordagem em grupo possibilita o estabelecimento de vínculos, trocas de experiências, vivências e sentimentos, facilitando assim a compreensão e elaboração da problemática não somente da dependência, mas sim de todos os problemas que afetam a desorganização física e psíquica do indivíduo naquele momento(CUNHA; SANTOS, 2009). Segundo Oliveira (2007), um dos objetivos da Terapia Ocupacional com essa clientela é o de intervir na (re) construção da história dos sujeitos. O melhor recurso terapêutico está no próprio ato de fazer, oferecendo oportunidades para o indivíduo evoluir, uma vez que o trabalho constitui, também, o instrumento de conciliação entre o idealizar e o concretizar. Para a Terapia Ocupacional, a atividade é um instrumento de intervenção, pois representa toda e qualquer expressão humana, verbal ou não-verbal. Utiliza-se de atividades criativas e expressivas como, pintura, desenho, modelagem e escultura,como intuito principal de expressar e compreender pensamentos, sentimentos e conflitos internos do indivíduo (LIBERMAN, 1998 apud OLIVEIRA, 2007).

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As atividades reúnem sob esta designação uma infinidade de possibilidades e procedimentos que permitem a compreensão do indivíduo em seu meio; e através delas desenvolver estratégias que auxiliem este indivíduo no desenvolvimento de suas potencialidades e na melhora de sua qualidade de vida (OLIVEIRA, 2007).

Dessa forma, a intervenção terapêutica ocupacional tem como principal objetivo a reintegração social do indivíduo, de maneira que o mesmo passe a construir de modo autônomo a sua nova realidade sem a adicção química, retirandoo do seu isolamento intelectual, emocional e afetivo, dando ao jovem novas perspectivas relacionais e projetos de vida. Por meio das interações grupais e atividades, o terapeuta ocupacional busca recuperar vários aspectos afetados do cotidiano desses indivíduos durante o período da dependência, como as AVD’S, AVP’S, desvios comportamentais, alterações nas áreas de trabalho, educação, dentre outras (CASTRO, 2001 apud OLIVEIRA, 2007). O terapeuta ocupacional tem por objetivo melhorar a auto-estima, favorecer a construção psicológica saudável do indivíduo, favorecer a compreensão sobre o uso abusivo de drogas e restabelecer laços do usuário consigo mesmo e com a sociedade. Todos esses fatores irão, desse modo, contribuir para a melhoria na qualidade de vida do adolescente. Além disso, o terapeuta ocupacional busca despertar no dependente químico condições para que ele se previna de contextos que o levem a recair na ingestão de substâncias químicas e orienta a família para um melhor convívio com o adolescente, de forma a possibilitar, nesse momento da recuperação, apoio e ajuda para que ele vença a dependência química (OLIVEIRA, 2008).

4 METODOLOGIA Esta pesquisa teve como fontes bibliográficas o acervo da biblioteca da Universidade do Estado do Pará do Centro de Ciências Biológicas e da Saúde – Campus II e sites de publicações científicas como SCIELO E CEBRID, e outros sites relacionados ao tema. A pesquisa foi realizada no período do segundo semestre como parte do núcleo de atividades integradoras: Metodologia Científica e Pesquisa e Prática em Terapia Ocupacional Clínica I. Elegeu para a pesquisa autores como: WAGNER E OLIVEIRA, ALVES, BARROSO E CALVALCANTE dentre outros que

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fazem relação com os seguintes descritores: Drogas, Adolescência e Terapia Ocupacional.

5 CONCLUSÃO Este artigo nos possibilitou evidenciar os efeitos e as implicações que as drogas proporcionam no contexto biopsicossocial do adolescente. O estudo permitiu, no âmbito dos adolescentes adictos, abordar a intervenção da Terapia Ocupacional a partir de uma análise bibliográfica. Estas drogas interferem na vida dos adolescentes na esfera biopsicossocial, pois além de produzir vários efeitos, tais como diminuição da dor, ansiedade, euforia, aumento da atividade psíquica, alucinações e delírios, também acarretam situações de vulnerabilidade, conflitos familiares e a transmissão de doenças sexuais. Neste contexto, o jovem necessita de um tratamento complexo, por intermédio de uma equipe multiprofissional, para desenvolver um trabalho de atenção ao mesmo e reestruturação do seu convívio familiar. A partir desta pesquisa concluímos que a intervenção terapêutica ocupacional é de suma importância, pois busca resgatar o bem estar, a autonomia e a auto-realização do potencial emocional e intelectual do adolescente. Sendo assim, o terapeuta ocupacional tem como principal objetivo a reintegração psicossocial do jovem. Verificamos que ainda é bastante incipiente as publicações acerca da intervenção terapêutica ocupacional com adolescentes dependentes químicos. Nesse sentindo, este estudo pretende contribuir para ampliar os conhecimentos da Terapia Ocupacional nesta área.

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