P. 1
criminologia

criminologia

|Views: 271|Likes:
Publicado porPaulo Cirino

More info:

Published by: Paulo Cirino on Jul 06, 2012
Direitos Autorais:Attribution Non-commercial

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as PDF, TXT or read online from Scribd
See more
See less

08/07/2015

pdf

text

original

C

i
ê
n
c
i
a
s

C
r
i
m
i
n
a
i
s

C
r
i
m
i
n
o
l
o
g
i
a


-

A
u
l
a

0
1
LEITURA OBRIGATÓRIA
Apresentação Esquemática da Criminologia
1

Podemos, didática e provisoriamente, adotarmos a seguinte denição de Criminologia:
“ciência empírica e interdisciplinar que se ocupa do estudo do crime, da pessoa do infrator,
da vítima do controle social do comportamento delitivo e que trata de subministrar uma
informação válida, contrastada, sobre a gênese, dinâmica e variáveis principais do crime –
contemplando este como problema individual e como problema social, assim como sobre
os programas de prevenção ecaz do mesmo e técnicas de intervenção positiva no homem
delinqüente e nos diversos modelos ou sistemas de resposta ao delito”
2
.
Nessa denição temos:
a) o método da criminologia – empirismo e interdisciplinaridade;
b) seus objetos – crime, infrator, vítima e controle social;
c) funções – subministrar informações validas sobre o crime (gênese,
dinâmica e variáveis principais) bem como sobre os programas de
prevenção ecazes;
Vantagens da denição:
a) parte do crime como um problema (base conitual + aspecto humano
– doloroso);
b) amplia o conceito de criminologia na medida em que incorpora a questão
das vítimas e do controle social;
c) acentua a orientação prevencionista do saber criminológico;
d) substitui a termo tratamento por aquele outro de intervenção;
1. Ciência:
A criminologia é uma ciência, ou seja, reúne uma informação válida, conável e contrastada
sobre o problema criminal, que é obtida graças a um método (empírico) que se baseia na
análise e na observação da realidade.
Uma das conseqüências do empirismo é sua relação com o mundo do ser: é sempre mutável
e sempre uma analise parcial, fragmentada da realidade. Logo se abandona uma busca de leis
gerais e aumenta a busca de retratos de parcelas das realidades COM SEGURANÇA.
2. Método:
Imperava no assunto do crime a especulação. Veremos oportunamente a etapa pré-
cientíca onde imperavam especulações genéricas acerca da criminalidade. A inserção do
método empirista se dará em razão do positivismo criminológico. Até então o pensamento
criminológico era pautado por abstrações da realidade, com base na moral e no Iluminismo,
absolutamente desprovida de um saber sistemático, de um método. Vide a fala de Enrico
Ferri, representante desse positivismo: “A Escola Criminal Positivista não consiste unicamente
no estudo antropológico do criminoso, pois constitui uma revolução completa, uma mudança
radical de método cientico no estudo da patologia social criminal e do que há de mais ecaz
1
C
i
ê
n
c
i
a
s

C
r
i
m
i
n
a
i
s

C
r
i
m
i
n
o
l
o
g
i
a


-

A
u
l
a

0
1
entre os remédios sociais e jurídicos que nos oferece. A Ciência dos delitos e das penas era
uma exposição doutrinaria de silogismos, dados aa luz pela força exclusiva da fantasia lógica;
nossa escola fez disso uma ciência de observação positiva que, fundando-se na Antropologia,
na Psicologia e na Estatística criminal, assim como no Direito Penal e nos estudos penitenciários
chega a ser a ciência sintética que eu mesmo chamo Sociologia criminal, e assim esta ciência,
aplicando o método positivo no estudo do delito, do delinqüente e do meio, não faz outra coisa
que levar aa Ciência Criminal clássica o sopro vivicador das ultimas e irrefutáveis conquistas
feitas pela ciência do homem e da sociedade, renovada pelas doutrinas evolucionistas”.
A criminologia é uma ciência do ser, empírica, que se vale do método indutivo. Já o Direito é
uma ciência cultural (do dever ser), normativa cujo método é o lógico, abstrato, dedutivo. A
criminologia pretende primeiramente conhecer a realidade para depois explica-la. A realidade
é alheia ao jurista. Seu ponto de partida é a norma juridicamente válida.
A criminologia mais tradicional era composta por inúmeros saberes especícos, sem coesão
e sem dialogo interno. Tais áreas do saber eram a biologia, psicologia e sociologia, sobretudo.
Era mister uma instância superior que coordenasse tais conhecimentos e garantisse a coesão
interna do sistema (retroalimentaçao). Essa é a idéia de INTERDISCIPLINARIDADE.
3. Objetos:
Houve, recentemente, uma ampliação e problematização do objeto. As posturas mais
tradicionais apenas atentavam para o delinqüente e o delito. Mais modernamente incluiu-se
na criminologia as questões da vítima e do controle social.
Consensos tradicionais:
a) o conceito meramente legal de delito que não era questionado;
b) teorias etiológicas da criminalidade;
c) diversidade patológica do delinqüente;
d) nalidades da pena: resposta justa e útil ao delito;
Questionamentos modernos:
a) rechaça o conceito formal de delito;
b) normalidade do homem delinqüente;
c) funcionalidade do comportamento desviante;
d) natureza conitual da ordem social;
Em resumo, houve uma revisão do saber criminológico.
I) DELITO
- Direito Penal: conceito legal e normativo: delito é toda conduta prevista
na lei penal e somente a que a lei penal castiga;
- Positivismo criminológico: Garófalo: “ uma lesão daquela parte do
sentido moral que consiste nos sentimentos altruístas fundamentais
(piedade e probidade) segundo o padrão médio em que se encontram
as raças humanas superiores, cuja medida é necessária para a adaptação
do individuo aa sociedade”. Ainda, outros positivistas realçam ainda a
nocividade social da conduta ou a periculosidade do seu autor;
- Sociologia: trabalha com a idéia de delito como conduta desviada
sendo os critérios de referencia para a desviação as expectativas sociais.
Desviado será um comportamento concreto na medida em que se afaste
das expectativas sociais em um dado momento, enquanto contrarie os
padrões e modelos da maioria social;
Há, claramente, uma diferença de enfoques. Não nos basta o conceito jurídico uma vez que
o Direito não está preocupado com questões previas ao crime tais como a esfera social do
infrator, as cifras negras, a prostituição, o alcoolismo etc. Ainda, certas condutas são típicas,
mas merecem outro olhar da criminologia tais como a piromania e a cleptomania. O mesmo
se diga de denição sociológica na medida em que ignora os aspectos individuais da conduta
delitiva.
2
C
i
ê
n
c
i
a
s

C
r
i
m
i
n
a
i
s

C
r
i
m
i
n
o
l
o
g
i
a


-

A
u
l
a

0
1
Criminologia moderna: o crime é um problema social e comunitário. Não é mera
responsabilidade do sistema de justiça: ele surge na comunidade e é um problema da
comunidade.
Critérios:
a) incidência massiva na população;
b) incidência dolorosa e aitiva;
c) persistência espaço –temporal;
d) falta de consenso social sobre a etiologia e ecazes técnicas de
intervenção;
e) consciência social generalizada a respeito de sua negatividade;
II – Delinqüente
Figura central do positivismo criminológico, o delinqüente passa a ter um papel de segundo
plano na moderna criminologia. Quando analisado, o delinqüente tende a ser examinado
como unidade biopsicossocial e não mais como unidade biopsicopatológica.
Grosso modo podemos apontar quatro imagens do delinqüente:
a) modelo clássico:
- imagem sublime, ideal do ser humano, centro do universo, dono e senhor
absoluto de si. Portanto, todos são iguais – DOGMA DA LIBERDADE;
- o crime só pode ser entendido como um mau uso da liberdade;
- as raízes do crime são enigmáticas ou misteriosas; o delinqüente OPTOU
pelo mal embora pudesse e devesse respeitar a lei;
b) positivismo criminológico:
- negação do modelo clássico;
- nega ao indivíduo a possibilidade de livre controle de seus atos;
- ao princípio (ou dogma) da liberdade, contrapõe o princípio da
diversidade do homem: onde, no classicismo, todos os homens eram
iguais e igualmente livres, no positivismo há uma diferença qualitativa
entre o sujeito criminoso e aquele honrado, cumpridor das leis;
- o infrator é um prisioneiro da sua patologia (determinismo biológico) ou
de processos causais alheios ao mesmo (determinismo social): um ser
escravo de uma carga hereditária;
c) losoa correcionalista:
- de inspiração pedagógica e pietista, entende o criminoso como um ser
inferior, deciente, incapaz de dirigir por si mesmo sua vida; é tal qual um
menor de idade, um inválido;
d) marxismo:
- Muda totalmente o enfoque da construção do delinqüente: a
responsabilidade do crime é de determinadas estruturas econômicas. O
infrator é vítima inocente cujo culpável é a sociedade;
Normalidade do delinqüente:
- não é o pecador dos clássicos, não é o animal selvagem dos positivistas,
não é o inválidos da losoa correcionalista, não é a pobre vítima da
sociedade dos marxistas;
- é o homem real e histórico do nosso tempo que pode acatar as leis ou não
cumpri-las por razões nem sempre acessíveis à nossa mente – um homem
como qualquer outro;
III - Vítima
3
C
i
ê
n
c
i
a
s

C
r
i
m
i
n
a
i
s

C
r
i
m
i
n
o
l
o
g
i
a


-

A
u
l
a

0
1
A análise criminológica das vítimas teve sua idade de ouro nos idos tempos da vingança
privada: nunca a vítima teve tanta importância e poder social de ação;
Modernamente as vítimas foram completamente abandonadas pelo sistema de justiça penal
e sofrem, além dos efeitos do crime, a insensibilidade do sistema legal e a indiferença dos
poderes públicos.
a) abandono:
Para o Direito Penal a vítima é mera testemunha. Não há qualquer disposição no sentido da
reintegração social da vítima – um dos pilares teóricos da teoria penal moderna no Estado de
Direito.
É da gênese mesma do processo penal a alienação das vítimas: justamente por se entender
que a vítima não pode tutelar, por si só, sob pena de se tornar vingança, a resposta a uma
infração penal, o processo penal entrega ao Estado quase toda capacidade de ação em
termos criminais de modo a garantir uma atuação distante, fria, objetiva. Nesse momento
a vítima é descartada do sistema e cria-se um abismo innito entre a vítima e o ofensor em
razão do Estado intermediador dessa relação.
As conseqüências negativas desse abismo são inúmeras:
- o infrator só tem como interlocutor o Estado e só assume
responsabilidades perante Ele, esquecendo-se, assim, de sua vítima;
- a vítima se sente maltratada pelo sistema, tornando-se mera pretexto da
investigação processual;
- não é informada do que foi feito de seu agressor;
b) redescobrimento:
Sobretudo em razão do pós-segunda guerra quando se começou a reetir acerca do acontecido
nos campos de concentração.Passa-se a entender a importância da desvitimização, ou seja, de
retirar da vítima um papel inafastável, innito e passivo. A vítima passa a ser entendida como
sujeito ativo capaz de inuir signicativamente no próprio fato delituoso, em sua estrutura,
dinâmica e prevenção.
c) alargamento do foco
- atitudes e propensão de sujeitos para se converterem em vítimas do
delito (riscos de vitimização);
- variáveis – idade, sexo, raça – que intervem no processo de vitimização;
- danos que sofrem as vítimas como conseqüência do delito (vitimização
primária), assim como da posterior intervenção do sistema legal
(vitimização secundária);
- atitude da vítima perante ao sistema legal e seus agentes (vitimologia
processual);
IV - Controle Social
a) dois enfoques:
Positivismo criminológico:
- não se questionam as denições legais;
- não se questiona o funcionamento do sistema: a interpretação é
igualitária; noticiante, policial, juiz, são meras correias de transmissão que
não ltram comportamentos;
- a população reclusa é representativa da população criminal real dado que
o sistema não tem ltros;
Labelling Approach:
4
C
i
ê
n
c
i
a
s

C
r
i
m
i
n
a
i
s

C
r
i
m
i
n
o
l
o
g
i
a


-

A
u
l
a

0
1
- a criminalidade não tem natureza ontológica, porém denitorial. O crime
é uma realidade construída;
- foco: processo de aplicação das regras/leis à realidade social: ATRIBUIÇÃO
DO STATUS DE DELINQUENTE;
- há, no sistema jurídico, FILTROS: o sistema está mais sensível a
determinados grupos sociais: as classes sociais mais oprimidas atraem as
taxas mais elevadas de criminalidade, não porque cometam mais crimes,
mas porque o controle social se orienta prioritariamente para elas;
- o controle social não apenas detecta a criminalidade; antes, ele cria ou
congura essa criminalidade;
b) denições:
controle social: é o conjunto de instituições, estratégias e sanções sócias que pretendem
promover e garantir o submissão do indivíduo aos modelos e normas comunitárias. Pode
ser dividido em duas instâncias: controle social formal e informal. O primeiro grupo é
formado pelos órgãos estatais que compõem o sistema de justiça criminal: polícia, justiça,
administração penitenciária etc; Já o controle social informal é aquele exercido pelos grupos
sociais, ou seja, família, escola, prossão, opinião pública etc.
c) efetividade
- mais controle social formal não implica menos crimes;
- a prevenção se dá quando da melhor integração ou sincronização dos
controles sociais formal e informal;
- controle social formal não incide nos fatores criminais, mas em suas raízes
últimas;
d) evolução e tendências do controle social penal:
1. racionalização do controle social formal (sobretudo do penal) –
subsidiariedade e intervenção mínima;
2. como deve o Direito Penal intervir (garantias);
3. substituir a intervenção do sistema legal por outros mecanismos
informais, não institucionalizados: mediação e conciliação, reparação do
dano etc.;
4. Funções:
Básica: informar a sociedade e os poderes públicos sobre o delito, o delinqüente, a vítima e
o controle social, reunindo um núcleo de conhecimentos seguros que permita compreender
cienticamente o problema criminal, preveni-lo e intervir com ecácia e de modo positivo no
homem delinqüente.
· Não é causalista com leis universais exatas;
· Não é, também, mera fonte de dados – banco de dados;
· Os dados são em si mesmos neutros e devem ser interpretados por teorias
cientícas;
· É uma ciência prática preocupada com problemas e conitos concretos,
históricos;
a) papel da criminologia: luta contra a criminalidade ou o controle e a
prevenção do delito.
· Não é de extirpação;
· Qual o preço a pagar – imperativos éticos;
· Não é – denitivamente – 100 % penal.
Tríplice alcance da criminologia:
1. explicação cientíca do fenômeno criminal;
2. prevenção do delito;
3. intervenção no homem delinqüente;
5
C
i
ê
n
c
i
a
s

C
r
i
m
i
n
a
i
s

C
r
i
m
i
n
o
l
o
g
i
a


-

A
u
l
a

0
1
A prevenção ecaz é entendida como aquela NÃO PENAL:
1. intrínseca nocividade da intervenção penal;
· estigmatiza o infrator;
· desencadeia a sua carreira criminal;
· consolida seu status de desviado;
2. maior complexidade do mecanismo dissuasório;
· efetividade do castigo – complexidade do mecanismo;
· não depende só da severidade da pena;
· rapidez da aplicação do castigo (estímulo/resposta);
· probabilidade de sua efetiva imposição;
· gravidade e conteúdo real do castigo (rigor real x nominal);
3. possibilidade de ampliar o âmbito de intervenção incidindo em outros
elementos do cenário criminal;
· intervenções ambientais;
· melhoria das condições de vida;
· riscos de vitimização;
· reinserção social efetiva dos ex-reclusos;
Intervenção no homem delinqüente:
Crise da ideologia do tratamento: 3 metas:
1. impacto real da pena em quem a cumpre;
2. programas de reinserção;
3. o crime é um problema de todos (não só do sistema);
Relação com a política criminal e direito penal:
a) Criminologia – fornecer o substrato empírico do sistema, seu fundamento
cientíco; MOMENTO EXPLICATIVO.
Política Criminal – transformar a experiência criminológica em opções e
estratégias concretas assumíveis pelo legislador e pelos poderes públicos;
MOMENTO DECISIVO
Direito Penal - converter em proposições jurídicas gerais e obrigatórias o
saber criminológico com respeito às garantia individuais e os princípios
jurídicos de segurança e igualdade típicos do Estado de Direito – FUNÇÃO
LIMITADORA MOMENTO OPERATIVO.
Notas
1 Esse texto, de inspiração didática, teve suas informações coletadas nos seguintes manuais
de Criminologia: GOMES, Luiz Flávio e GARCIA-PABLOS DE MOLINA, Antonio. Criminologia.
São Paulo: RT, 2002; FIGUEIREDO DIAS, Jorge e COSTA ANDRADE, Manuel da. Criminologia.
Coimbra: 1997 e SHECAIRA, Sérgio Salomão. Criminologia. São Paulo: RT, 2004.
2 GOMES, Luiz Flávio e GARCIA-PABLOS DE MOLINA, Antonio. Criminologia. São Paulo: RT,
2002, página 37.
6
C
i
ê
n
c
i
a
s

C
r
i
m
i
n
a
i
s
C
r
i
m
i
n
o
l
o
g
i
a


-

A
u
l
a

0
1
-&*563"'"$6-5"5*7"
Processo HC 9584 / RJ ; HABEAS CORPUS 1999/0045793-5
Relator(a) Ministro LUIZ VICENTE CERNICCHIARO (1084)
Órgão Julgador T6 - SEXTA TURMA Data do Julgamento
15/06/1999
Data da Publicação/Fonte DJ 23.08.1999 p. 153
Lmenta HC - CONST|TUC|ONAL - PLNAL - PPOCLSSUAL PLNAL - PLNA - |ND|v|DUAL|ZAÇÃO -
O art. 59 do Codlgo Penal encerra conqulsta hlstorlca, lmpulslonada pelos movlmentos, ho[e,
conhecldos por Dlreltos Humanos. varlos seculos sao passados. Da vlngança prlvada, quando
o ofendldo respondla ao ofensor, como qulzesse, ou pudesse. A pena de tallao, na otlca atual,
exemplo de barbarle, em seu tempo, representou conqulsta lenta e pesarosa. Dellmltou a
sançao: dente por dente, olho por olho, braço por braço. A hlstorla da Crlmlnologla e o relato
das causas da dellnquencla a ñm de a sançao ser adequada, [usta e oportuna. Nessa llnha o
posltlvlsmo de LOM8POSO, o soclologlsmo de PLPP|, a busca do dellto natural de GAPOPALO,
a Crlmlnologla Clinlca de D| TULL|O, Soclologla Crlmlnal, com a celebre Lscola de Chlcago,
retomando a teorla da "anomlaª de Durkheln. Plrma-se a moderna soclologla amerlcana,
devendo ser realçado o surglmento do lnstltuto, ho[e, unlversalmente reconhecldo - "whlte
collar crlmeª - que lembra sempre as pesqulsas de Sutherland. Nao se olvldem alnda as
tendenclas soclallstas com estelo nas ldelas de Carlos Marx. Apesar das dlversas ldeologlas,
notadamente do ponto de partlda, voltam-se para o mesmo ñm: dlsclpllnar a atuaçao do
Lstado, presente no processo penal, e que a sançao penal, ao contrarlo do lniclo, da vlngança
prlvada, tenha - utllldade soclal. Alem dlsso, com a experlencla alnda das consequenclas
lniquas e funestas da menclonada etapa hlstorlca, pollclar o proprlo Lstado - detentor do
poder (nao e slmples dlrelto) de punlr. Lm sintese, a atlvldade [udlclal de apllcar a pena e
- dlscrlclonarla. Dlscrlclonarla quanto a materla. vlnculada na forma. O [ulz preclsa expllcar
(fundamentar, enñm) todos os seus passos. L, para tanto, catlvo a este raclocinlo: adequar
o fato a norma. Lsta e extensa (sentldo loglco do termo). O fato, por seu turno, posto nessa
extensao. Lm outras palavras, o ser compreendldo no dever-ser. Dessa forma, na motlvaçao o
[ulz preclsa adequar o fato a norma. L mals. Paze-lo expressamente. Nao ha fundamentaçao
lmpliclta.
O Codlgo de Processo Penal, nessa llnha hlstorlco-politlca, comanda no art. 38l: "A sentença
contera ... ||| - "a lndlcaçao dos motlvos de fato e de dlrelto em que se fundar a declsao.ª L -
lmportante - no lnclso |v - acrescenta - "a lndlcaçao dos artlgos de lel apllcadosª.
A lel, entao, formallzou a referlda adequaçao - ser/dever-ser. Outra partlcular lmportancla:
como toda norma e extensa (no sentldo menclonado) o [ulz preclsa lndlcar - nessa extensao
- onde se coloca o fato delltuoso.
L mals, comando do menclonado dlsposltlvo legal: nao basta apontar o artlgo, lmpresclndivel
a[ustar o fato ao artlgo. |mposlçao expressa. Tecnlcamente, porque constltutlvo, requlslto de
exlstencla. No caso sub [udlce, como transcrlto, o llustre maglstrado reglstrou: "... levo tao
somente em conslderaçao a lntensldade do dolo...ª
(ns. l3). Dolo e aspecto do elemento sub[etlvo, de vontade do agente: agasalhado pelo Codlgo
Penal em dols aspectos: dlreto e eventual (art. l8, |). Dolo e elemento animlco, pro[eçao de
llvre escolha do agente entre
1
C
i
ê
n
c
i
a
s

C
r
i
m
i
n
a
i
s
C
r
i
m
i
n
o
l
o
g
i
a


-

A
u
l
a

0
1
aglr, ou omltlr-se no cumprlmento do dever [uridlco. Nao tem lntensldade. |ntensldade refere-
se a graus, do malor ao menor. Nada tem com o dolo. L relatlva, lsso slm, a - culpabllldade
- entendlda, no sentldo moderno da teorla geral do dellto, como - reprovabllldade,
censurabllldade - ao agente - nao ao fato. Porque, podendo aglr de modo dlverso, nao o
fez. |nslsta-se, nao exlste - dolo lntenso. A culpabllldade, slm, e lntensa, medla, reduzlda, ou
mensurada lntermedlarlamente a essas referenclas.
No caso sub [udlce, a pena-base fol ma[orada "pela lntensldade do doloª. Lssa quallñcaçao
e normatlvamente lnadequada. Alem do mals, alnda que tals conslderaçöes nao se façam
procedentes, dada a exlgencla da fundamentaçao expliclta, o [ulz preclsarla motlvar a referlda
lntensldade. Termo que, ontologlcamente, contem graus. Allas, a lel vlgente, nao menclona
mals - lntensldade do dolo - como se referlra a Parte Geral revogada do Codlgo Penal.
Abandonou-se a teorla da causalldade. Alnda que permltldo fosse lnvocar a antlga
nomenclatura, lmpunha-se, pelo menclonado art. 38l, |||, "a lndlcaçao dos motlvos do fatoª.
Lsta referencla generlca, sem duvlda, reclama, no caso concreto, descrlçao do aconteclmento
hlstorlco em [ulgamento. Se asslm nao o ñzer, llmltar-se-la a lndlcar - o artlgo de lel. A nulldade,
porque lnstltuto de exceçao, deve alcançar somente o que nao for aproveltavel. Na especle,
somente o toplco da lndlvlduallzaçao da pena evldencla viclo. Nessa extensao devera ser
recepclonada.

Acórdão

vlstos, relatados e dlscutldos estes autos, acordam os Mlnlstros da Sexta Turma do Superlor
Trlbunal de 1ustlça, na conformldade dos votos e das notas taqulgrañcas constantes dos
autos, por unanlmldade, conceder o habeas corpus, nos termos do voto do Sr. Mlnlstro-
Pelator. votaram com o Sr. Mlnlstro-Pelator os Srs.
Mlnlstros Pernando Gonçalves, Hamllton Carvalhldo e vlcente Leal. Ausente, por motlvo de
llcença, o Sr. Mlnlstro wllllam Patterson.
Resumo Estruturado
NUL|DADL, SLNTLNÇA PLNAL CONDLNATOP|A, PAPTL, APL|CAÇÃO DA PLNA, H|POTLSL,
AUMLNTO, PLNA-8ASL, LXCLUS|v|DADL, PUNDAMLNTAÇÃO, |NTLNS|DADL DO DOLO,
|NO8SLPvANC|A, |ND|v|DUAL|ZAÇÃO DA PLNA, PPLSSUPOSTO, LL|.

2
C
i
ê
n
c
i
a
s

C
r
i
m
i
n
a
i
s

C
r
i
m
i
n
o
l
o
g
i
a


-

A
u
l
a

0
2
-&*563"0#3*("5»3*"
Conceito de Criminologia Clínica
Prof. Dr. Alvlno Augusto de Sa
A abordagem que se faz da motlvaçao crlmlnal e a "pedra de toqueª pela qual se dlferenclam
os mals dlversos poslclonamentos clentiñcos e ldeologlcos sobre crlme, crlmlnalldade
e homem crlmlnoso (Plguelredo Dlas e Costa Andrade, l997, Pablo de Mollna e Gomes,
l997). A grande questao ai colocada refere-se a busca de anallse e dlscussao das "causasª
do comportamento crlmlnoso, dos motlvos por que as pessoas cometem crlmes, dos fatores
assoclados a conduta crlmlnosa. Pols bem, observa-se, a esse respelto, uma evoluçao do
pensamento crlmlnologlco, que val de uma concepçao causallsta, passa pela multlfatorlal,
chegando, por ñm, a uma concepçao critlca. Cada uma dessas concepçöes nos conduz a
uma forma de entender e conceltuar a Crlmlnologla Clinlca, lsto e, a Crlmlnologla apllcada a
execuçao penal.
l - Concepçao causallsta em motlvaçao crlmlnal e o concelto tradlclonal de Crlmlnologla
Clinlca.
A concepçao causallsta entende haver entre a conduta crlmlnosa e o que a "orlglnouª uma
relaçao de causa e efelto. Lntenda-se por causa um fato, fenómeno, ob[eto, etc., que tenha
com seu efelto uma relaçao dlreta, de natureza quase que fislca, pre-determlnlsta, de tal sorte
que, constando-se sua presença, pode-se ter quase como certa a ocorrencla do referldo efelto.
Lstabelece-se aqul um tlpo de lnvestlgaçao e anallse proprlo das clenclas exatas, blologlcas,
da proprla medlclna. Dentro dessa otlca, o crlme serla uma consequencla natural, ou quase
que "necessarlaª, de certas condlçöes lmanentes daquele que o pratlcou.
Uma prlmelra decorrencla desse tlpo de concepçao e que a "causaª nos posslblllta, alnda
que enganosamente, uma expllcaçao do fenómeno do crlme. A expllcaçao como que eluclda
ou pretende elucldar, desvendar por completo o fenómeno estudado. Por lsto mesmo, a
concepçao causallsta apresenta-se mals convlncente e sedutora, comparatlvamente as demals,
ao menos aos olhos dos "lelgosªou dos lncautos na seara das clenclas crlmlnologlcas.
Outra decorrencla e o concelto de perlculosldade do crlmlnoso. A perlculosldade e uma
condlçao lmanente do lndlviduo, por força da qual sua conduta estarla pre-determlnada
a pratlca de crlmes. Nao deve ser ldentlñcada com o prognostlco de relncldencla, como
alguns entendem, erroneamente, a meu ver. O reconheclmento da perlculosldade conduz
necessarlamente a conclusao pelo prognostlco da relncldencla, mas este nao necessarlamente,
estrltamente falando, assenta suas bases sobre a perlculosldade. O prognostlco de relncldencla
nao se vlncula a concepçao causallsta, mas a multlfatorlal, como se vera adlante.
O reconheclmento da perlculosldade em determlnado lndlviduo deverla conduzlr naturalmente
a conclusao de que nao se poderla exlglr desse lndlviduo que ele aglsse de forma dlferente da
forma como aglu, ou se[a, deverla conduzlr naturalmente ao lgual reconheclmento da chamada
"lnexlglbllldade de conduta dlversaª e, por coerencla, a conclusao pela sua lnlmputabllldade
ou seml-lmputabllldade. Por força da concepçao causallsta, a leglslaçao penal em vlgor ate
l984 dava margem a que os condenados, em sua malorla, fossem declarados perlgosos. Os
requlsltos para tal eram dols. O prlmelro era a relncldencla, por conta da qual se pressupunha
haver no condenado uma tendencla para o crlme. O segundo era a constataçao que o [ulz
fazla (por sua conta e rlsco), a partlr do modus operandl do agente, de condlçöes (morbldas,
1
C
i
ê
n
c
i
a
s

C
r
i
m
i
n
a
i
s

C
r
i
m
i
n
o
l
o
g
i
a


-

A
u
l
a

0
2
desa[ustadas, desequlllbradas) da personalldade, que [ustlñcassem o reconheclmento da
perlculosldade. A partlr deste reconheclmento, era lmposta ao condenado a medlda de
segurança. So que, a contrarlo sensu do que aclma fol dlto, e numa total lncoerencla de
prlnciplos, do ponto de vlsta crlmlnologlco (e por que nao penal), o condenado contlnuava
sendo conslderado lmputavel e lhe era lmposta tambem a pena de reclusao, atraves do
chamado "duplo blnarloª.
A concepçao causallsta e a que predomlnava na Crlmlnologla Clinlca tradlclonal. Nas
pratlcas penltenclarlas, ela deñnla uma metodologla de trabalho baseada estrltamente no
modelo medlco-pslcologlco. Nesse modelo, enfatlzavam-se e valorlzavam-se os exames
medlco-pslqulatrlcos, recorrendo-se lncluslve ao eletroencefalograma, e, a segulr, o exame
pslcologlco, com a utlllzaçao de provas de personalldade. Para um enrlqueclmento dos
dados relatlvos a hlstorla de vlda do condenado, recorrla-se ao estudo soclal. Tudo lsso era
felto, lndependentemente do tlpo de crlme pratlcado. Lvldentemente, quando se tratava de
crlmes de natureza expresslvamente mals grave, os exames eram mals aprofundados. Lm
decorrencla dessa metodologla baseada no modelo medlco-pslcologlco, ao dlagnostlco (no
caso, crlmlnologlco) segula-se naturalmente um prognostlco, lsto e, uma conclusao sobre
as probabllldades de "recuperaçaoª do condenado ou de desdobramentos futuros de sua
conduta crlmlnosa, e a concepçao que se tlnha da chamada "recuperaçaoª do preso vlnculava-
se dlretamente a ldela de tratamento.
A concepçao causallsta em motlvaçao crlmlnal fundamenta um concelto tradlclonal da
Crlmlnologla Clinlca, que e allas o concelto com o qual comumente a mesma e ldentlñcada
na llteratura e pelos proñsslonals do Dlrelto, e que nos poderiamos asslm enunclar:
Crlmlnologla clinlca e a clencla que, valendo-se dos conceltos, conheclmentos, prlnciplos
e metodos de lnvestlgaçao e prevençao medlco-pslcologlcos (e soclo-famlllares), ocupa-
se da pessoa do apenado, para nele lnvestlgar a dlnamlca de sua conduta crlmlnosa, sua
personalldade e seu "estado perlgosoª (dlagnostlco), as perspectlvas de desdobramentos
futuros da mesma (prognostlco) e asslm propor e persegulr estrateglas de lntervençao, com
vlstas a superaçao ou contençao de uma possivel tendencla crlmlnal e a evltar uma recldlva
(tratamento). Portanto, dentro desta conceltuaçao tradlclonal de Crlmlnologla Clinlca, sao
ldelas centrals as de dlagnostlco, prognostlco e tratamento. A conduta crlmlnosa tende a ser
compreendlda como conduta anormal, desvlada, como possivel expressao de uma anomalla
fislca ou psiqulca, dentro de uma concepçao pre-determlnlsta do comportamento, pelo que
ocupa lugar de destaque o dlagnostlco de perlculosldade.
2 - Concepçao multlfatorlal em motlvaçao crlmlnal e o concelto moderno de Crlmlnologla
Clinlca
Sob a lnnuencla das teorlas soclologlcas do crlme, a concepçao causallsta fol cedendo espaço
a concepçao multlfatorlal, a qual, no 8rasll, velo ter os seus renexos tanto na leglslaçao
penal, com a reforma de l984, como nas pratlcas penltenclarlas, estlmulando um novo
dlreclonamento para a Crlmlnologla Clinlca.
A concepçao multlfatorlal entende que a conduta crlmlnosa deve-se a uma serle de fatores e
clrcunstanclas, que se entrelaçam e se lnteragem, dos quals nenhum mantem relaçao dlreta e
pre-determlnlsta com o crlme. Nao se perqulre aqul nenhuma relaçao dlreta, organlca, fislca
e de necessldade entre a conduta crlmlnosa e determlnada "causaª. Portanto, nao se parte do
pressuposto de que o crlmlnoso e portador de alguma condlçao lmanente que o dlferencla
das demals pessoas. No estudo do por que do comportamento crlmlnoso, lnvestlga-se uma
rede complexa de fatores, se[am lnternos, se[am extrinsecos ao agente, dos quals nenhum
e expllcatlvo do comportamento crlmlnoso. A personalldade, o pslqulsmo e o corpo nao
sao mals o eplcentro das anallses crlmlnologlcas, o que se constltul num grande desaño
para a Crlmlnologla Clinlca, na medlda em que esta, nas pratlcas penltenclarlas, tem, ou
reslste em permanecer tendo, como foco de atençao, o lndlviduo, sobretudo o lndlviduo
descontextuallzado do grupo.
Uma prlmelra decorrencla dessa concepçao e que, a partlr da lnvestlgaçao de um con[unto
bastante complexo de fatores das mals dlferentes ordens e prlnclpalmente de sua lnteraçao,
busca-se uma compreensao da conduta crlmlnosa. Atente-se para o fato de que o que se
pretende e desenvolver uma compreensao e nao obter uma expllcaçao do fenómeno crlme.
A expllcaçao pretende esgotar o assunto e resolver de vez a questao. A compreensao nao se
obtem, desenvolve-se. Lla nao pretende resolver de vez a questao, mas aprofundar-se cada
vez mals na sua dlscussao e lnvestlgaçao. Lla e sempre passivel de novos lncrementos e, por
consegulnte, de novos redlreclonamentos.
2
C
i
ê
n
c
i
a
s

C
r
i
m
i
n
a
i
s

C
r
i
m
i
n
o
l
o
g
i
a


-

A
u
l
a

0
2
Uma segunda decorrencla e que, dos fatores que compöem a rede, nenhum constltul-se num
referenclal da dellnquencla, de forma a estabelecer uma llnha dlvlsorla entre dellnquentes
e nao dellnquentes, como e o que ñca lmpliclto na concepçao causallsta. Noutros termos,
nenhum fator e tiplco do dellnquente. Os fatores de personalldade, os famlllares, os soclo-
económlcos, os culturals sao os mesmos, em dellnquentes e nao dellnquentes. O que crla
condlçöes para o surglmento do comportamento dellnquente e o peso destes ou daqueles,
dentro de um contexto complexo de lnteraçöes. Quanto ao papel especiñco da personalldade
e a relaçao entre ela e a conduta crlmlnosa, na concepçao multlfatorlal, dlscutlr-se-a essa
questao no ltem Personalldade e Crlme.
Como nao se pressupöe haver no lndlviduo nenhuma condlçao lnterna que o predlspöe para
o crlme, ou nenhum fator que se[a uma referencla para dlferenclar o dellnquente do nao
dellnquente, nao ha se falar aqul em perlculosldade. No amblto da Crlmlnologla Clinlca e no
que tange a avallaçao das posslbllldades de desdobramentos futuros da conduta crlmlnosa,
passou-se a se falar unlcamente em prognostlco de relncldencla, e nao mals em perlculosldade.
O prognostlco de relncldencla, para alguns pensadores e proñsslonals, como [a se dlsse
aclma, ldentlñca-se com o reconheclmento da perlculosldade. A nosso ver, porem, nao e
a mesma colsa, embora ambas as ldelas este[am bastante proxlmas uma da outra e ambas
lntlmamente comprometldas com a crlmlnologla posltlvlsta. Lnquanto a perlculosldade e
de natureza pre-determlnlsta e vlncula-se as condlçöes blo-pslcologlcas do agente, sendo,
pols, o seu posltlvlsmo de cunho blo-pslcologlco, o prognostlco de relncldencla refere-se ao
reconheclmento da uma probabllldade de que o lndlviduo venha a cometer novos delltos,
desde que lnserldo nas mesmas condlçöes soclals, culturals, económlcas, etc., e desde que
portador das mesmas condlçöes lndlvlduals, condlçöes todas essas por conta quals (conforme
se supöe, a partlr do dlagnostlco crlmlnologlco) velo a dellnqulr anterlormente. Nao ha duvlda,
conforme [a añrmado aclma, de que o prognostlco de relncldencla tambem e de natureza
posltlvlsta, porem seu posltlvlsmo nao e de natureza marcadamente blo-pslcologlca, e nem
traz lmpliclta a ldela de pre-determlnlsmo.
Comparatlvamente com a concepçao causallsta, nao se tem na multlfatorlal slmplesmente
um acresclmo de "causasª ou slmplesmente uma enfase malor aos fatores amblentals. Tem-
se, lsso slm, uma concepçao crlmlnologlca dlferente de crlme e de homem crlmlnoso. O crlme
nao e mals entendldo como uma conduta pslcologlcamente desa[ustada ou pslqulcamente
doentla, mas, se tanto, como soclalmente desa[ustada. O lndlviduo crlmlnoso nao e mals
concebldo a prlnciplo como uma pessoa pslcologlcamente desa[ustada, ou ate mesmo
pslqulcamente anormal, mas como uma pessoa cu[a conduta, naquele(s) ato(s) reconhecldo
como crlmlnoso(s), nao se moldou pelos parametros e normas soclals vlgentes.
Com lsso, a partlr de l984, a leglslaçao penal nao mals reconheceu o lmputavel como perlgoso,
mas somente os lnlmputavels e seml-lmputavels. Com a reforma penal de l984 (lsto e, a Nova
Parte Geral do Codlgo Penal e a Lel de Lxecuçao Penal), nao mals era cabivel a apllcaçao
concomltante da pena recluslva e da medlda de segurança, mas, para os lmputavels, somente
a prlmelra, enquanto que, para os lnlmputavels, somente a segunda, atraves do chamado
"slstema vlcarlanteª. Quando reconheclda a perlculosldade do agente, contlnua a ser exlgldo,
para a concessao da llberdade, um parecer de cessaçao de perlculosldade, que deve conter
obrlgatorlamente a asslnatura de medlco(s) pslqulatra(s). 1a o prognostlco de relncldencla se
faz com base no exame crlmlnologlco, cu[a prevlsao legal se deu a partlr da reforma penal de
l984, e que, nas pratlcas penltenclarlas, era felto por equlpe tecnlcas lnterdlsclpllnares.
Peconhecldamente, houve uma evoluçao da concepçao causallsta para a multlfatorlal, o que,
certamente, velo lnnuenclar o espirlto da proprla Lel de Lxecuçao Penal, caracterlzado, entre
outras colsas, pela preocupaçao por buscar a lndlvlduallzaçao da execuçao da pena, respeltar
o preso como pessoa, como cldadao, e nao slmplesmente, como crlmlnoso. Nesta llnha de
respelto pela pessoa do preso, a Lel de Lxecuçao Penal preve a reallzaçao do exame de
personalldade, o qual, conforme orlentaçao de sua Lxposlçao de Motlvos, nº 34, dlferencla-se
essenclalmente do exame crlmlnologlco, [a que este lnvestlga a relaçao crlme - crlmlnoso,
enquanto o de personalldade busca compreender o preso enquanto pessoa, "para alem das
gradesª, vlsando uma perqulrlçao de todo seu hlstorlco de vlda, numa abordagem bem mals
abrangente e mals profunda.
A equlpe prlorltarlamente encarregada de reallzar os exames crlmlnologlcos e a do Centro de
Observaçao, consoante preceltua o caput do art. 96 da LLP. No entanto, a mesma LLP preve
a crlaçao das Comlssöes Tecnlcas de Classlñcaçao (C.T.C.), a qual e responsavel por reallzar o
exame de personalldade (art. 9º), elaborar os programas lndlvlduallzadores de execuçao de
3
C
i
ê
n
c
i
a
s

C
r
i
m
i
n
a
i
s

C
r
i
m
i
n
o
l
o
g
i
a


-

A
u
l
a

0
2
pena e (antes da reforma da LLP de 2004) de fazer os pareceres tecnlcos para concessao dos
beneficlos legals. A C.T.C. exlstente em cada estabeleclmento e composta, nao mals somente
por pslqulatras, pslcologos e asslstentes soclals, mas tambem, no minlmo, por dols chefes
de servlço e e presldlda pelo Dlretor da unldade (art. 7º). O parecer da C.T.C. (extlnto com
a reforma da LLP de 2004) voltava-se (ou deverla voltar-se) para o aproveltamento que o
lnterno vem tendo dos programas e oportunldades que lhe sao oferecldos. Percebe-se pols
que tal parecer, se[a por sua natureza e ob[etlvo, se[a pelos proñsslonals dos mals dlversos
saberes e experlenclas que partlclpam da sua elaboraçao, tem (ou deverla ter) um cunho
bem menos ou nada posltlvlsta, [a que centrado prlorltarlamente sobre o contexto atual
de vlda do lnterno. A LLP, por lnnuencla, a nosso ver, do redlreclonamento do pensamento
crlmlnologlco advlndo a partlr das teorlas soclologlcas do crlme, da margem a que os
dlferentes proñsslonals do presidlo, lncluidos os de segurança, partlclpem mals dlretamente
das estrateglas de relntegraçao dos lnternos e dos processos de avallaçao.
A partlr de todo esse movlmento que val de um posltlvlsmo blo-pslcologlco (concepçao
causallsta) para um posltlvlsmo soclal (concepçao multlfatorlal), a concepçao multlfatorlal
fundamenta um concelto moderno de Crlmlnologla Clinlca, que podemos asslm enunclar:
Crlmlnologla Clinlca e uma clencla lnterdlsclpllnar, que oferece um con[unto de prlnciplos de
anallse do comportamento crlmlnoso e estrateglas de lntervençao [unto ao encarcerado, as
pessoas envolvldas dlreta ou lndlretamente com ele e com a execuçao de sua pena. Procurara
conhece-lo como pessoa, conhecer suas asplraçöes e as verdadelras motlvaçöes de sua
conduta crlmlnosa, o que ela representou para ele dentro de seu contexto famlllar, amblental
e hlstorlco. Quanto as pessoas envolvldas, lnteressar-se-a por conhecer sua familla. voltar-se-
a para os dlretores e agentes de segurança penltenclarla, vlsando envolve-los num trabalho
con[unto com os tecnlcos. No que tange as estrateglas de lntervençao, buscara plane[a-las de
forma a envolver o presidlo como um todo, em seu con[unto de servlços e de proñsslonals,
asslm como buscara envolver a familla do detento. No tocante a avallaçao do preso, levara
em conta, sobretudo, sua resposta as estrateglas de lntervençao propostas, valendo-se, nao
so das avallaçöes tecnlcas, mas, prlnclpalmente, das observaçöes dos proñsslonals que se
envolverem atlvamente nessas estrateglas, lncluidos ai os proprlos agentes de segurança
penltenclarla, observaçöes essas que serao tecnlcamente colhldas e lnterpretadas pelo corpo
tecnlco.
3 - O poslclonamento da Crlmlnologla Critlca acerca da motlvaçao crlmlnal e a proposta de
um concelto critlco de Crlmlnologla Clinlca
A Crlmlnologla Critlca opöe-se, nao so as duas concepçöes aclma, como, tambem, aos
proprlos termos em que a questao fol formulada, lsto e, a perqulrlçao das "causasª da conduta
crlmlnosa, ou dos fatores a ela assoclados e que, de certa forma, lhe deram orlgem. Na
medlda em que nos perguntamos "por que certas pessoas cometem crlmesª, nos estariamos
encobrlndo o verdadelro problema, a verdadelra questao que estarla por tras de tudo. Para a
Crlmlnologla Critlca, o centro das preocupaçöes e questlonamentos deve ser o segulnte: por
que e que determlnadas condutas sao seleclonadas como crlmlnosas, enquanto outras, as
vezes multo mals pre[udlclals a socledade, nao o sao! Por que e que determlnadas pessoas
sao seleclonadas como crlmlnosas e dellnquentes, enquanto outras, as vezes multo mals
"perlgosasª, nao o sao! Dai que, a Crlmlnologla Critlca, no lugar de se voltar para os motlvos
da conduta crlmlnosa, volta sua critlca para os proprlos fundamentos e prlnciplos norteadores
do Dlrelto Penal e do Slstema de 1ustlça em geral. Para Zanaronl (l998), o crlme serla o
resultado de um estado de vulnerabllldade do lndlviduo perante o proprlo slstema penal, na
medlda mesma em que este e seletlvo. Lsse estado de vulnerabllldade, por sua vez, resulta
do processo de marglnallzaçao tanto económlca, quanto soclal e cultural. A marglnallzaçao
acarreta para o lndlviduo uma vulnerabllldade lncluslve psiqulca, o que o torna presa facll
perante o slstema punltlvo. Allas, o proprlo Preud (l927) reconhece que, enquanto a mlnorla
opressora se fortalece perante as lels, [a que consegue elabora-las lnterlormente, a malorla
oprlmlda ve-se su[elta unlcamente a repressao, pelo que se empobrece pslqulcamente e se
enfraquece perante essas mesmas lels.
Ao falar de vulnerabllldade, propöe Zanaronl (l998), um dos pensadores expoentes da
Crlmlnologla Critlca, que a Crlmlnologla Clinlca deverla ter como funçao buscar compreender
e caracterlzar o estado de vulnerabllldade do encarcerado perante o slstema punltlvo,
conhecer os motlvos pelos quals ele se vulnerablllzou, bem como procurar dlstlngulr o que
e que, nessa vulnerabllldade, antecede a lntervençao penal e o que a ela se segue, como
consequencla. Por lsso mesmo, o cltado autor propöe que, pelo fato do nome Crlmlnologla
4
C
i
ê
n
c
i
a
s

C
r
i
m
i
n
a
i
s

C
r
i
m
i
n
o
l
o
g
i
a


-

A
u
l
a

0
2
Clinlca estar vlnculado a uma hlstorla de exerciclo do poder, se[a ele substltuido pelo de
Clinlca da vulnerabllldade.
O poslclonamento critlco na questao da motlvaçao crlmlnal fundamenta um concelto critlco
da Crlmlnologla Clinlca, o qual nos poderiamos, asslm, deñnlr:
Crlmlnologla Clinlca e uma clencla lnterdlsclpllnar que vlsa conhecer o homem encarcerado
enquanto pessoa, conhecer sua hlstorla de marglnallzaçao soclal, pela qual ele sofreu um
processo de deterloraçao soclal e ate mesmo psiqulca, fraglllzando-se perante o slstema
punltlvo e se delxando crlmlnallzar pelo mesmo. Deve preocupar-se em estudar, nao
fatores crlmlnogenos, mas os fatores soclals e lndlvlduals que promoveram e facllltaram a
crlmlnallzaçao por parte do slstema penal. Deve preocupar-se em estudar a vulnerabllldade
do encarcerado perante o slstema punltlvo, dlstlngulndo a vulnerabllldade anterlor a
lntervençao penal daquela que e consequencla da lntervençao penal. Dai que Zanaronl
(l998) sugere que o termo "Crlmlnologla Clinlcaª, dada a conotaçao hlstorlca de poder que
tal Crlmlnologla recebeu do posltlvlsmo, se[a substltuido por "Clinlca da vulnerabllldadeª.
Lm termos de lntervençao, volta-se para o fortaleclmento soclal e psiqulco do encarcerado,
para sua promoçao como pessoa e cldadao, desenvolvendo estrateglas de "relntegraçao
soclalª (concelto de Alessandro 8aratta,l990), de lntercamblo socledade - carcere, nas
quals o encarcerado deve atuar como su[elto (e nao como ob[eto). Por essas estrateglas,
proporclonam-se a socledade (comunldade) oportunldades de rever seus conceltos de crlme
e de "homem crlmlnosoª e seus padröes etlcos e humanos de relaclonamento com este, e, ao
encarcerado, oportunldades de se re-descobrlr como cldadao, de ter uma vlsao construtlva
de seus deveres, dlreltos e qualldades.
5
C
i
ê
n
c
i
a
s

C
r
i
m
i
n
a
i
s
C
r
i
m
i
n
o
l
o
g
i
a


-

A
u
l
a

0
2
-&*563"'"$6-5"5*7"
Estatuto do Desarmamento reduz em 14,8% homicídios na capital
Estudo mostra que programa provocou queda dos crimes violentos em
todo o Estado. Os latrocínios caíram 17,8%
Por Marcelo Godoy
Os efeltos do Lstatuto do Desarmamento sobre a crlmlnalldade no Lstado de Sao Paulo sao
malores do que se pensava. A lel provocou reduçao dos homlcidlos - na capltal, a queda fol
de l4,8% -, dos latrocinlos e das agressöes com armas e dlmlnulu os casos de apreensöes e
perdas de armamentos. O lmpacto na crlmlnalldade nao era o ob[etlvo prlnclpal da lel, que
vlsava a dlmlnulr as lnternaçöes hospltalares por ferlmentos a tlro e homlcidlos causados por
connltos entre as pessoas.
Os resultados estao em um estudo lnedlto felto no Centro de Lstudos 8rasllelros da
Unlversldade de Oxford, na |nglaterra. Alem de verlñcar as consequenclas do estatuto - a lel
prolblu o porte, crlou a campanha do desarmamento e preve um referendo sobre a venda
de armas -, o trabalho assocla a queda dos homlcidlos a! um con[unto de politlcas, como a lel
seca e açöes de lnclusao soclal, alem da repressao pollclal e mudanças na segurança publlca.
Num prlmelro estudo, com dados de 2000 a 2004, o pesqulsador Tullo Kahn, autor do trabalho,
[a tlnha verlñcado reduçao de 5% nas mortes na capltal. Agora, com numeros consolldados
ate este ano, que apontam queda de 37% nos homlcidlos, Kahn chegou a conclusao de que se
pode atrlbulr especlñcamente ao Lstatuto do Desarmamento l4,8% dessa reduçao.
Para medlr os efeltos do estatuto, Kahn comparou as medlas mensals reglstradas de [anelro
de 200l a novembro de 2003 com as do periodo de dezembro de 2003 a [anelro de 2005. Com
base nos numeros do prlmelro period! o, fez uma prevlsao para o segundo. Conclulu que a
tendencla era de queda - reduçao que se lntenslñcou alnda mals na epoca da aprovaçao do
estatuto, novembro de 2003. A dlferença entre a prevlsao e os dados reals fol credltada como
beneficlo da lel.
Os resultados! No Lstado, queda nos latrocinlos (- l7,8%), no numero de lnternaçöes em
hospltals por agressöes com armas (-l7%) e nas armas apreendldas (- l2,9%). Na capltal, a
reduçao nos latrocinlos fol alnda malor (-25,9%). No lnterlor, o estudo nao ldentlñcou dlferença
nos indlces dos homlcidlos por causa do estatuto - fenómeno mals evldente nas cldades com
mals de 500 mll habltantes - , mas as lnternaçöes por agressöes com armas de fogo cairam
em todo o Lstado.
Segundo Kahn, a lel nao fez calr de forma generallzada a vlolencla, mas provocou 'reduçao no
grau de le! talldade assoclado a esta vlolencla'. De acordo com ele, boa parte dos homlcidlos
de Sao Paulo se deve a 'connltos lnterpessoals' e nao a mortes llgadas ao trañco e ao crlme
organlzado.
O prlmelro dado que conñrma essa tese e o fato de que os exames toxlcologlcos do |nstltuto
Medlco-Legal (|ML) em mortos mostram que 42% tlnham residuos de alcool no sangue. 1a o
Departamento de Homlcidlos e Proteçao a Pessoa lnforma que 89% dos assasslnatos foram
1
C
i
ê
n
c
i
a
s

C
r
i
m
i
n
a
i
s
C
r
i
m
i
n
o
l
o
g
i
a


-

A
u
l
a

0
2
cometldos com armas de fogo.
Lm 25% dos casos, a vitlma morreu com um tlro e em 64% o tlro nao atlnglu a cabeça. Para
Kahn, lsso mostra que a malorla dos assasslnos nao tlnha lntençao clara de matar, mas 'como a
arma de fogo exlge menos esforço fislco e pslcologlco por parte do agressor, ela e mals letal'.
Lm outras palavras, a chance de uma dlscussao termlnar em morte e bem menor quando
nlnguem esta armado.
Segundo Kahn, a queda na apreensao de armas nao ocorreu por relaxamento da atlvldade
pollclal - o estatuto nao lnterferlu nlsso -, mas pela 'declsao dos lndlviduos de andarem ou nao
armados'. O reglstro de armas perdldas, por sua vez, [a vlnha calndo, por causa da politlca de
restrlnglr o porte em Sao Paulo, lnlclada em l995. Lm l994, eram concedldos 69 mll portes e
em 2004 foram 2 mll.
So que a balxa dos reglstros se acentuou com o estatuto.
Prorrogaçao
Segundo o Mlnlsterlo da 1ustlça, nao fol so em Sao Paulo que o estatuto levou a reduçao do
numero de ferlmentos por arma de fogo. No Plo, as lnternaçöes cairam l0,5%. Lm Marlnga
(PP), os homlcidlos tlveram reduçao de 30%.
A campanha do desarmamento recolheu 360 mll armas desde [ulho de 2004. A adesao fez o
governo ampllar o prazo de entrega, de [unho para 23 de outubro. No caso do referendo, a
regulamentaçao deve salr esta semana no Congresso.
2
C
i
ê
n
c
i
a
s

C
r
i
m
i
n
a
i
s

C
r
i
m
i
n
o
l
o
g
i
a


-

A
u
l
a

0
3
LEITURA OBRIGATÓRIA
Escolas Sociológicas da Criminologia I: as teorias do consenso.
1. Introdução
Toda ciência comporta divisões internas. Essas servem não só a ns didáticos, porém permitem
ao estudioso chegar ao mesmo objeto a partir de abordagens distintas, embora igualmente
cientícas. Entre as ciências interdisciplinares, essa partição se faz sentir de modo especial:
cada enfoque teórico que compõe a ciência interdisciplinar formará um subgrupo do saber
essencial à compreensão do todo. Dessa forma, a Criminologia, interdisciplinar que é, pode
ser dividida em três grandes ramos: a Biologia Criminal, a Psicologia Criminal e a Sociologia
Criminal.
O objetivo desse breve estudo é percorrer panoramicamente as teorias que compõem
a Sociologia Criminal, sendo que também essas se dividirão em dois grupos: as teorias do
consenso e as teorias do conito.
O pano de fundo da distinção está nos pressupostos de cada teoria, especialmente no que diz
respeito à natureza do corpo social, da sociedade ou ainda no que diz respeito ao papel que o
fenômeno criminal cumpre na sociedade. Na lição de Shecaira, “Para a perspectiva das teorias
consensuais a nalidade da sociedade é atingida quando há um perfeito funcionamento das
suas instituições de forma que os indivíduos compartilham os objetivos comuns a todos os
cidadãos, aceitando as regras vigentes e compartilhando as regras sociais dominantes”
1
.
Como se infere da citação, as teorias do consenso partem do ponto de partida de que há
uma universalidade de valores comungada por todos os componentes de uma sociedade, de
tal sorte que as normas que tutelam tais valores consensuais são necessariamente justas e,
dessa feita, aceitas por todos. Em outras palavras, as regras que determinam o convívio social
dominantes representam a vontade geral.
Ralf Dahrendorf busca explicitar os traços comuns às teorias do consenso:
· toda sociedade é uma estrutura de elementos relativamente persistente e
estável;
· toda sociedade é uma estrutura de elementos bem integrada;
· todo elemento em uma sociedade tem uma função, isto é, contribui para
sua manutenção como sistema;
· toda estrutura social em funcionamento é baseada em um consenso entre
seus membros sobre valores
2
.
Por outro lado, continua Shecaira, para as teorias do conito “a coesão e a ordem na sociedade
são fundadas na força e na coerção, na dominação por alguns e sujeição de outros; ignora-
se a existência de acordos em torno de valores de que depende o próprio estabelecimento
da força”
3
. De inspiração marxista, as teorias do conito põem em xeque o consenso social,
armando, ao contrário, que a sociedade está marcada pelo conito de classes e que as
normas vigentes são produto da imposição de classes dominantes, que detêm o poder. Assim,
a norma perde o caráter de vontade geral do povo e passa a representar a tradução jurídica
1
C
i
ê
n
c
i
a
s

C
r
i
m
i
n
a
i
s

C
r
i
m
i
n
o
l
o
g
i
a


-

A
u
l
a

0
3
da vontade da classe que exerce o poder.
Novamente é de Dahrendorf o elenco de características centrais das teorias do conito:
· toda a sociedade está, a cada momento, sujeita a processos de mudança;
· a mudança social é ubíqua;
· toda sociedade exibe a cada momento dissensão e conito e o conito
social é ubíquo;
· todo elemento em uma sociedade contribui de certa forma para sua
desintegração e mudança;
· toda sociedade é baseada na coerção de alguns de seus membros por
outros”
4
.
O conceito e a concepção de crime, como poder-se-á perceber nas teorias estudadas infra,
serão determinados pelo ponto de partida losóco das teorias, sejam elas do consenso do
conito. Ao primeiro grupo (consenso), pertencem a Escola de Chicago, a Teoria da Associação
Diferencial, a Teoria da Anomia e a Teoria da Subcultura Delinqüente; ao segundo (conito), o
Labeling Approach e a Criminologia Crítica.
2. A Escola de Chicago
Vide texto Escolas Sociológicas da Criminologia III: A Escola de Chicago.
3. Teorias da Associação Diferencial
Há, em verdade, inúmeras teorias englobadas dentro da terminologia, talhada por Edwin
Sutherland, representante mais conhecido dessas teorias e a quem de atribui o nome teoria
da associação diferencial propriamente dita.
Partindo dos preceitos de Chicago, Sutherland notabilizou-se por buscar uma explicação
para a criminalidade de colarinho branco (White collar crimes). Segundo ele, os conceitos de
desorganização social, falta de controle social informal e distribuição ecológica não seriam
capazes de explicar a criminalidade dos poderosos, uma vez que estes residiam nas melhores
regiões da cidade e não tinham qualquer desadaptação social ou cultural.
Como ensina Shecaira, o contexto histórico em que Sutherland escreveu sua obra foi marcado
pelo crescimento econômico do pós Primeira Grande Guerra “Tal período (...) é marcado por
uma ‘volta à normalidade’. Os grandes negócios passam a ter lucros consideráveis. ‘Entre 1920
e 1929 o produto nacional bruto americano cresceu de 103,6 para 152,7 bilhões de dólares
(a preços constantes), o que representa um aumento da renda per capita de mais de 35 por
cento’
5
. No entanto, há um alastramento da corrupção administrativa bem como o surgimento
de escândalos nanceiros. O Promotor Daugherty, pessoa de conança do Chefe de Justiça, é
demitido por pactuar com quadrilheiros; Charles Forbes, diretor do Serviço de Veteranos de
Guerra, foi preso por apropriação indébita de fundos do governo; Albert Fall, Secretário do
Interior, é denunciado no Senado por entregar a particulares campos petrolíferos do Estado,
sendo condenado e preso”
6
.
Com a vitória de Franklin Delano Roosevelt, implementou-se a política denominada de New
Deal (nova política), cuja regência econômica cabia a John Maynard Keynes, marcada pela
intervenção do Estado na ordem econômica, com vistas a reverter a crise que assolara o
país. “A mudança do paradigma”, continua Shecaira, “de não intervenção na economia para
uma perspectiva agrantemente intervencionista não se fez sem resistência. Esta partiu não
somente de alguns empresários, mas também da própria Suprema Corte Americana
7

8
.
A transição de modelos econômicos, conclusivamente, poderia indicar uma situação tal que
não permitisse ao homem de negócio compreender os limites do ético e do ilícito. De qualquer
forma, esse negociante não poderia ser entendido com inadaptado socialmente tampouco
como ecologicamente desfavorecido como pretendiam os sociólogos de Chicago.
Sutherland partia de duas teses centrais: a primeira, a de que os valores e atitudes criminais
são aprendidos como quaisquer outros valores e atitudes sociais. A inuência, nesse ponto, de
Gabriel Tarde é notória. Ensina o mestre francês que “Todo comportamento tem sua origem
social. Começa como uma moda, torna-se um hábito ou costume. Pode ser uma imitação por
2
C
i
ê
n
c
i
a
s

C
r
i
m
i
n
a
i
s

C
r
i
m
i
n
o
l
o
g
i
a


-

A
u
l
a

0
3
costume, por obediência, ou por educação. O que é a sociedade? Eu já respondi: sociedade é
imitação”
9
. Aoram de tal pensamento as chamadas leis da imitação. Para ele as classes sociais
exercem uma inuência sobre as outras, assim como os campesinos imitam as atitudes dos
citadinos. A imitação decorre, ademais, do grau de intimidade dos contatos interpessoais
10
.
Assim, ninguém nasce criminoso, mas o delito (e a delinqüência) é o resultado de socialização
incorreta. Não há, pois, “herança biológica” mas sim um processo de aprendizagem que
conduz o homem à prática dos atos socialmente reprováveis.
Assim, tal qual se transmitem valores culturais tais como “lho meu não leva desaforo para
casa” ou “mulher que veste roupa sensual é prostituta”, também o valor “lesar o Fisco” ou
“sonegar impostos” é ensinado no meio social.
Shecaira exemplica com as investigações de Sutherland: “Suas primeiras investigações
esbarraram nas violações da Lei Antitruste nos Estados Unidos, que feriam as normas
reguladoras dos monopólios. Suas pesquisas apontaram problemas com as companhias
produtoras de aparelhos elétricos, que haviam dividido o território americano em 4 grandes
zonas de inuência. Independentemente dos custos de produção, e fazendo ouvidos moucos
à lei da oferta e da procura, tais companhias xavam os preços com base exclusiva em seus
interesses econômicos. Ele observou, ainda, que quando os representantes dessas corporações
queriam se encontrar para suas decisões, procuravam sempre hotéis de província e usavam
um jargão especíco que não pudesse ser identicado por aqueles que não pertencessem
àquela esfera de produção. Assim, ao invés de falarem em lista de preços utilizavam expressões
como “lista de natal”. Telefonavam-se através de telefones públicos, registravam-se em hotéis
não indicando as companhias por eles representadas etc. Sutherland considerou todas essas
atitudes como similares às dos chamados criminosos convencionais, ainda que não tivessem
todas aquelas características
11

12
.
O crime do colarinho-branco é aquele que é cometido no âmbito da sua prossão por uma
pessoa de respeitabilidade e elevado estatuto social. Cinco aspectos relevantes podem ser
destacados a partir desta denição. O crime de colarinho-branco é um crime
13
. E o é porque
suas conseqüências são tão gravosas como quaisquer condutas criminais. Algumas vezes até
mais gravosas. Ademais, é cometido por pessoas respeitáveis. Com elevado estatuto social. Ele
é praticado no exercício da sua prossão, o que evidentemente exclui todos os demais crimes
que, embora praticados por aqueles agentes acima nomeados, relacionam-se com a sua vida
privada. Ocorre, em regra, com uma violação de conança
14
. Outras características diferenciais
— ainda que secundárias — podem ser agregadas a essas. Inicialmente, o crime do colarinho
branco não pode ser explicado pela pobreza, nem por má habitação, carências de recreação,
falta de educação etc, enm, aqueles critérios tradicionais explicativos da criminalidade. Um
segundo aspecto a destacar é a grande diculdade na elaboração de estatísticas, pois a cifra
negra é alta, e conta com certa proteção das autoridades governamentais na ocultação de
certos fatos. Como conseqüência disso são enormes as diculdades em descobrir tais crimes
bem como em sancioná-los. Além disso, a própria comunidade, através da opinião pública,
traduz alguma perplexidade em identicar tais fatos como delituosos. Muitas pessoas comuns
não captam a essência danosa de alguns dos atos cometidos normalmente identicados como
crimes de colarinho branco. Isto faz com que a própria legislação seja mais condescendente
com tais agentes, sejam não considerando tais atos como delituosos, seja para conceder
certas imunidades a seus autores, tais como: tribunais especiais, prisões diferenciadas, penas
mais leves etc
15
.
Para demonstrar sua tese quanto ao delito do colarinho branco, Sutherland estudou as 70
principais corporações americanas por vários anos (dos anos 20 a 44) demonstrando que
elas haviam sido processadas por infringirem diversas leis, especialmente aprovadas após a
grande depressão de 29, quando já havia mecanismos especícos para controle da produção
e distribuição de bens. Os atos nocivos à comunidade tinham sido praticados por todas as
corporações e 91,7% eram reincidentes. Elas praticaram, em média, 14 infrações por empresas.
No entanto, por várias razões havia uma apreciação diferencial dos grandes empresários,
comerciantes e industriais
16
. É que estes homens tinham um status que não os permitia ser
confundidos com as pessoas que comumente praticavam delitos. Em primeiro lugar, o juízo
que se faz dos grandes empresários, dos banqueiros poderosos ou dos megaindustriais inclui
um misto de medo e admiração. Aqueles que são responsáveis pelo sistema de justiça penal
podem sofrer as conseqüências de um enfrentamento com os homens que detêm o poder
econômico
17
. Além disso, os legisladores admiram e respeitam os homens de negócios, não
sendo concebível tratá-los como delinqüentes. No período medieval algumas pessoas da
sociedade eram beneciadas com imunidades quanto ao castigo, denominadas “benefício
3
C
i
ê
n
c
i
a
s

C
r
i
m
i
n
a
i
s

C
r
i
m
i
n
o
l
o
g
i
a


-

A
u
l
a

0
3
do clero”. Hoje, tal imunidade relativa decorre do “benefício do negócio”
18
. Em segundo
lugar, também justicam uma implementação de respostas diferenciais, normalmente não
penais, aos autores de crime do colarinho-branco. E o fazem para coibirem tais atos não com
o mesmo rigor que coíbem outros delitos patrimoniais. Em geral, as penas não são altas,
admitem mecanismos substitutivos da privação da liberdade, as penas são mais pecuniárias
que pessoais, tudo com base na idéia da desnecessidade de uma ressocialização de tais
delinqüentes, pois não estão eles dessocializados. Um terceiro fator a que normalmente
se recorre para tratar diferenciadamente o criminoso do colarinho-branco diz respeito às
conseqüências de tais delitos não serem diretamente sentidas pela comunidade. As violações
da lei feitas pelos poderosos são complexas e seus efeitos são difusos. Não são ataques
simples e diretos de uma pessoa a outra, como em um assalto ou em uma agressão pessoal,
ou mesmo um furto. Muitas vezes uma grande empresa viola uma norma por uma década ou
mais antes que as agências administrativas de controle ou a própria comunidade identiquem
a violação. Todos esses fatores, convergentes, levam a comunidade jurídica a não querer punir
da mesma forma o crime de colarinho-branco, ainda que suas conseqüências possam ser
muito, muito mais lesivas à comunidade, atingindo difusamente a sociedade e produzindo
lesões a inúmeras vítimas. Pode-se dizer, de outro modo, que o crime do colarinho branco
é um crime; é uma espécie delitiva tratada com especial brandura; este tratamento desigual
— por sua leniência — é injusto, estando a demandar medidas especícas mais severas das
instâncias formais de controle
19
.
Com isso o autor pôs em relevo características criminais das classes superiores, demonstrando
que o paradigma da desorganização social não se aplica a qualquer criminalidade. Ao contrário,
aquele que comete crime valendo-se de sua respeitabilidade e posição social fazem-no com
apoio e admiração de seus pares, mostrando que não se trata de um defeito de socialização,
porém de uma socialização com base em valores criminais. Tais valores são aprendidos no
meio social como quaisquer outros e não são exclusividade das lower classes.
4. Teoria da Anomia
(para esse tópico, utilizaremos o texto abaixo, consultado em 27/06/2005 em http://www.
karlmarx.pro.br/apostilas/sociologia/emille_durkhein.pdf).
O CRIME SEGUNDO A PERSPECTIVA DE DURKHEIM
Jorge Adriano Carlos
A demonstração da permanência do crime em todas as sociedades
20
constituiu o factor
determinante da sua integração no pensamento sociológico sistemático, cujo contributo mais
signicativo se deve a Durkheim em três das suas obras fundamentais que são De la Division
du Travail Social (1893), Les Règles de la Méthode Sociologique (1895) e Le Suicide (1897).
Todavia, será legítimo situar o início da sociologia criminal a partir do segundo quartel do
século XIX
21
, altura em que foram desenvolvidos inúmeros estudos, em diversos países (França,
Bélgica, Alemanha e Grã-Bretanha), com aplicação de métodos e instrumentos sociológicos,
nomeadamente a recolha e interpretação de dados estatísticos
23
. Mas é efectivamente com
os trabalhos de Lacassagne
24
, Gabriel Tarde
24
, e Émile Durkheim
25
que a sociologia criminal
adquire o seu estatuto de ciência, especialmente a partir do 3.º Congresso de Antropologia
Criminal, realizado em Bruxelas, em 1892, que marca a viragem das explicações da escola
positiva em favor das teorias sociológicas. A sociologia criminal aparece-nos assim como uma
ciência muito recente
26
, muito depois do direito penal, cuja origem remonta à antiguidade, e
depois ainda da criminologia, cuja origem se poderá situar na escola clássica
27
, muito embora
apenas tenha atingido a sua forma sistemática com a escola positiva italiana
28
.
Mas, se ao direito criminal importa a denição do tipo de crime e a sua consequência
sancionatória, à criminologia importa a compreensão da realidade criminal em todos os seus
aspectos. Numa primeira fase, a criminologia debruçou-se sobre a pessoa do delinqüente,
servindo-se de métodos próprios da biologia e da psiquiatria — aquilo que alguns autores
designaram por criminologia «clínica». Numa fase mais avançada da reexão criminal, o
criminólogo deslocou o seu estudo para o meio social onde se gerou a prática delitiva —
a acentuação deste aspecto da criminologia deu lugar à sociologia criminal que apareceu
também como um novo ramo da sociologia. A partir do momento em que se compreende
que não existe sociedade sem crime, não só não é concebível uma sociologia que ignore
este fenómeno, como não é possível estudar o crime, considerado em abstracto, sem evocar
o meio social onde se desenvolve. A obra de Durkheim deve uma grande parte da sua
importância ao facto de ter compreendido esta relação entre o crime e a sociedade numa
4
C
i
ê
n
c
i
a
s

C
r
i
m
i
n
a
i
s

C
r
i
m
i
n
o
l
o
g
i
a


-

A
u
l
a

0
3
altura em que as escolas positivas se refugiavam por detrás das concepções individualistas.
Este autor compreendeu que a sociedade não era simplesmente o produto da acção e da
consciência individual, pelo contrário, «as maneiras colectivas de agir e de pensar têm uma
realidade exterior aos indivíduos que, em cada momento do tempo, a elas se conformam»
29

e, mais que isso, «são não só exteriores ao indivíduo, como dotados dum poder imperativo e
coercivo em virtude do qual se lhe impõem»
30
. O tratamento do crime como um facto social,
de carácter normal e até necessário, permitir-lhe-á reabilitar cienticamente o fenómeno
criminal e demonstrar que a prática de um crime poderá depender não tanto do indivíduo que,
de acordo com esta concepção, age e pensa sob a pressão dos múltiplos constrangimentos
que se desenvolvem na sociedade mas, diversamente, poderá apresentar em abstracto uma
ampla raiz de imputação social.
A consideração sociológica da anomia, que etimologicamente não signica senão «ausência
de normas», apesar dos vários desenvolvimentos que conheceu, em Merton, Cloward, Ohlin,
Parsons, Dubin e Opp, remonta aos estudos desenvolvidos por Durkheim, particularmente em
A Divisão do Trabalho Social e em O Suicídio. O facto de o homem não viver num ambiente de
eleição, mas sujeito a uma ordem «imposta», permite a Durkheim formular a sua concepção
da anomia e estabelecer as condições da produção do crime.
A Divisão do Trabalho Social, cujo tema central incide sobre a relação do indivíduo e a
colectividade, está dominada pela idéia de que a divisão do trabalho é portadora de uma
nova forma de coesão social, a solidariedade orgânica. Nas solidariedades mecânicas,
características das sociedades ditas «primitivas», a consciência colectiva cobre a maior parte
das consciências individuais, pelo que se poderá dizer que o indivíduo está estreitamente
integrado no tecido social. No caso das sociedades orgânicas, dominadas pela divisão do
trabalho, a consciência colectiva apresenta uma menor extensão face ao indivíduo que se
determina com uma maior autonomia. Porém, compreender a solidariedade orgânica como
correspondente a uma sociedade contratualista — marcada pela atomização do indivíduo
cujos contratos se efectivariam num dado contexto interindividual — sem uma consciência
colectiva mínima, não só constituiria uma paradoxal sociedade sem sociedade como
«implicaria a desintegração social».
O normal será que a sociedade desenvolva os seus mecanismos de solidariedade, ainda que
estejamos perante uma sociedade acente na diferenciação social e marcada pela especialização
das funções. Isso não signica que não existam, no âmbito do processo de desenvolvimento
da solidariedade social, algumas patologias na divisão do trabalho, como é o caso da divisão
forçada e da divisão anómica do trabalho. Assim, se não existir uma adequada interacção de
funções e um ecaz sistema normativo capaz de regular essa interacção, estaremos perante
uma anomia na divisão do trabalho.
A teoria da anomia aparece também desenvolvida em O Suicídio
31
que se revela, além do
mais, como a primeira etapa da teoria do controlo social. O estudo do suicídio, que é um
fenómeno especicamente individual, apesar de só em aparência, permitirá a Durkheim
demonstrar as fortes relações entre o indivíduo e a colectividade. A estrutura da obra acenta
no pressuposto da existência de três tipos de suicídios: o suicídio egoísta, «que resulta de
uma individualização excessiva»
32
e cujo grau de integração do indivíduo na sociedade não
se apresenta sucientemente forte; o suicídio altruísta, que ao contrário resulta de uma
«individualização insuciente»
33
; e o suicídio anómico, que se relaciona com uma situação
de desregramento, típica dos períodos de crise, que impede o indivíduo de encontrar uma
solução bem denida para os seus problemas, situação que favorece um sucessivo acumular
de fracassos e decepções propícias ao suicídio
34
. Pela observação de estatísticas ociais, este
autor observou que o suicídio era mais frequente nas comunidades protestantes que nas
comunidades católicas, fenómeno que explicou através da noção de integração religiosa.
No mesmo sentido, Durkheim vericou que o suicídio ocorria menos entre os indivíduos
casados que entre os celibatários, viúvos e divorciados, situação que, segundo ele, se
explicaria através da noção de integração familiar. Neste trabalho, notou ainda que a taxa
de suicídios diminuía em períodos de grandes acontecimentos políticos, em que aumentava
a coesão sócio-política em torno da ideia de nacionalidade. A partir destas bservações, o
sociólogo francês pôde assim concluir que o suicídio variava na razão inversa do grau de
integração da sociedade religiosa, familiar e política. O suicídio altruísta apresenta-se como a
situação oposta ao suicídio egoísta. Um exemplo deste tipo de suicídio é o existente entre os
esquimós, em que um velho que se torne um fardo para a colectividade se deixa morrer ao
frio; um outro, que ocorre na índia, é o suicídio da mulher ou dos servidores de um defunto, os
5
C
i
ê
n
c
i
a
s

C
r
i
m
i
n
a
i
s

C
r
i
m
i
n
o
l
o
g
i
a


-

A
u
l
a

0
3
quais se deixam imolar no dia do seu funeral. Em qualquer dos casos, o indivíduo determina
a sua morte por força de «um imperativo social interiorizado, obedecendo ao que o grupo
ordena ao ponto de asxiar dentro de si próprio o instinto de conservação»
35
.
O terceiro tipo de suicídio, o suicídio anómico, é estudado através do relacionamento do
suicídio com os movimentos económicos. A análise das estatísticas revelou que os suicídios
aumentavam tanto em períodos de recessão como de crescimento económico. O que se
observa desses resultados é que «se a inuência reguladora da sociedade deixa de se exercer,
o indivíduo deixa de ser capaz de encontrar em si próprio razões para se auto-impor limites»
36
.
Numa época de rápidas transformações económicas a acção reguladora da sociedade não
pode ser exercida de modo ecaz e por forma a garantir ao indivíduo um conjunto normativo
conciliável com as suas aspirações. Ora, esta situação de desregramento, que lança o indivíduo
num universo sem referências, caracteriza uma situação de anomia que corresponde, no
fundo, a uma situação de dissociação da individualidade face à consciência colectiva.
As conclusões extraídas do estudo do suicídio permitem, como se referiu, enquadrar a
construção durkheimiana nas teoria do controlo social. Com efeito, um dos postulados
denidos ao longo da sua obra foi o da necessária integração social do indivíduo que revela
uma maior tendência para a prática de certas «patologias» sociais, como o suicídio e o crime,
quando desinserido do grupo social a que pertence. O facto de se vericar que as instituições
tradicionais de coesão social (a família, a religião, etc.) não constituírem um factor de agregação
ecaz das sociedades modernas, leva Durkheim a defender que o único grupo social capaz
de favorecer a integração social é a prossão ou a empresa. Ora, se uma integração social do
indivíduo poderá diminuir a sua tendência para se conformar com os imperativos sociais, isso
signicará de certa maneira que a sociedade terá de encarar uma grande parte das condutas
suicidas e criminógenas como perfeitamente normais numa sociedade caracteristicamente
dinâmica.

A denição dos factos sociais normais
37
permitiu a Durkheim importantes considerações
acerca da natureza normal ou patológica do crime, como resulta do seu estudo em As
Regras do Método Sociológico. O crime, denido como um «acto que ofende certos
sentimentos colectivos»
38
, apesar da sua natureza aparentemente patológica, não deixa de
ser considerado como um fenómeno normal, no entanto, com algumas precauções. O que é
normal é que «exista uma criminalidade, contanto que atinja e não ultrapasse, para cada tipo
social, um certo nível»
39
. A sociedade constrói-se, na verdade, em torno de sentimentos mais
ou menos fortes, sentimentos cuja dignidade parece tanto mais inquestionável quanto mais
forem respeitados. No entanto isso não quer dizer que todos os membros da colectividade
partilhem dos mesmos sentimentos com a mesma intensidade. De facto, alguns indivíduos
tenderão a interiorizar mais esses sentimentos que outros, o que explica que possam existir
condutas que, pelo seu grau de desvio, venham a apresentar-se como criminosas.
Isso explicará naturalmente a natureza do crime como um facto de sociologia normal.
Essa constatação não impede contudo que se considerem algumas condutas como
particularmente anormais, o que será perfeitamente admissível, segundo Durkheim, tendo
em consideração alguns factores de ordem biológica e psicológica na constituição da pessoa
do delinqüente
40
.
Para além disso, o crime deverá ser reconhecido não como um «mal» mas pela sua função
utilitária enquanto um indicador da sanidade do sistema de valores que constitui a consciência
colectiva. Nesse sentido, o crime será mesmo um elemento promotor da mudança e da
evolução da sociedade. É a este propósito que Durkheim refere peculiarmente que, face aos
sentimentos atenienses, a condenação de Sócrates «nada tinha de injusto»
41
. Efectivamente,
será esta dimensão do crime que explica que a mesma conduta poderá ser censurada por
uma determinada sociedade num determinado momento da sua evolução cultural como
poderá nada ter de censurável na mesma sociedade num outro e diferente momento da
sua evolução cultural. Isso permitir-nos-á compreender que um acto criminoso transpõe, de
modo negativo, uma construção valorativa, de tal modo que poderá dizer-se que «não há
acto algum que seja, em si mesmo, um crime. Por mais graves que sejam os danos que ele
possa causar, o seu autor só será considerado criminoso se a opinião comum da respectiva
sociedade o considerar como tal»
42
.
Um dos aspectos mais salientes da sociologia de Durkheim passa pela consideração
obrigatória de uma estreita relação entre as determinações individuais e as construções
sociais, donde resulta, antes que tudo, uma clara ascendência da consciência colectiva sobre
6
C
i
ê
n
c
i
a
s

C
r
i
m
i
n
a
i
s

C
r
i
m
i
n
o
l
o
g
i
a


-

A
u
l
a

0
3
a consciência individual. Ao contrário do que defendiam os contratualistas, que imaginavam
uma sociedade de indivíduos, a sociedade não é o mero somatório das partes, pois ainda
assim não passaria de um conjunto heterogéneo de armações diferenciais. A sociedade,
muito pelo contrário, é, para Durkheim, um depositório de valores que de uma forma mais ou
menos regular se consensualiza. Esta visão da sociedade não deixou de ter a sua projecção
no modelo sóciocriminal que Durkheim defendeu. Antes de tudo porque o crime, embora
de modo algo ambíguo, passou a ser considerado não apenas como o resultado de condutas
anti-sociais, mas como condutas contextualizadas socialmente. O crime mais que um
fenómeno do criminoso passou a ser encarado como uma realidade social cuja importância
era inquestionável para o estudo sociológico, nomeadamente para a compreensão das
grandes estruturas de sedimentação e desenvolvimento social. A um crime tão atomizado
na sua explicação como o foi o homem desde a escola clássica até à escola positiva opôs-
se, através desta nova dimensão da criminologia, uma explicação das causas do crime que
procura a solução do problema criminal não apenas na responsabilização exclusiva do
delinqüente mas na responsabilização do comportamento criminal por elementos típicos
da própria sociedade que funciona como um ambiente verdadeiramente condicionador da
acção individual. Mas, mais que isso, a concepção de Durkheim explica já que as causas do
crime poderão estar em relação directa com as disfuncionalidades fácticas e normativas do
conjunto inter-relacional, como poderão resultar das opções consensuais dos ordenamentos
sociais de cada época.
Mas se isto será assim para Durkheim, para alguns autores contemporâneos, inspirados no
modelo de conito marxista, o importante não será, no entanto, penetrar nos problemas, o
importante e «imperioso é criar uma sociedade em que a realidade da diversidade humana,
seja pessoal, orgânica ou social, não esteja submetida ao poder de criminalizar>>
43
.
5. A Teoria das Subculturas Criminais
A expressão subcultura criminal foi consagrada na literatura criminológica pela obra de Albert
Cohen: Delinquent boys e sua conceituação. Como pondera Shecaira
44
: “Etimologicamente
falando, o termo subcultura nos remete para a idéia de “uma cultura dentro da cultura”. Esta
denição enfrenta o problema de se dizer claramente o que é cultura. Problema ainda mais
agravado se nós pensarmos que, algum tempo depois de consagrada a idéia da subcultura,
passou-se a conhecer um outro conceito: o da contracultura. Há que se iniciar, pois, pela
idéia do que venha a ser chamado de cultura. Na realidade, cultura é, ao mesmo tempo,
objeto de estudo da Filosoa, da Antropologia, da Sociologia e da História, dentre outras
ciências. Todos esses domínios, não obstante a clareza da expressão, apresentam distintas
abordagens pela própria equivocidade do termo. Como a abordagem deste trabalho volta
sua atenção para a Sociologia Criminal, tentaremos, a partir da idéia sociológica, junto com
Figueiredo Dias e Costa Andrade, conceituar a cultura como “todos os modelos coletivos
de ação, identicáveis nas palavras e na conduta dos membros de uma dada comunidade,
dinamicamente transmitidos de geração para geração e dotados de certa durabilidade”
45
. Na
realidade, aos complexos mecanismos de conhecimento, artes, crenças, costumes, direito,
bem como no que concerne a todas as atividades humanas de uma determinada sociedade,
pode-se traduzir a idéia de cultura. No mesmo sentido o pensamento de Lola Aniyar de
Castro ao denir cultura como “um conjunto de símbolos, de signicados, de crenças, de
atitudes e de valores, que têm como característica o fato de serem compartilhados, de serem
transmissíveis e de serem apreendidos. Quando esta cultura penetra na personalidade, o faz
através de um processo que se denomina processo de socialização
46
”.
Albert Cohen posiciona-se armando que o conceito é sucientemente familiar ao leigo.
Refere-se ao conhecimento, crenças, valores, códigos, gostos e preconceitos que são
tradicionais em grupos sociais e que são adquiridos pela participação nesses grupos. A
linguagem habitual do americano, seus hábitos políticos, o gosto por hambúrguer e coca-
cola e a aversão por carne de cavalo são parte da cultura americana
47
.
A tese central desse pensamento é de que “cada sociedade é internamente diferenciada
em inúmeros subgrupos, cada um deles com distintos modos de pensar e agir, com suas
próprias peculiaridades e que podem fazer com que cada indivíduo, ao participar destes
grupos menores, adquira “culturas dentro da cultura”, isto é, subculturas. Qualquer sociedade
diferenciada encontrará formas distintas de cozinhar, expressar-se artisticamente, jogar,
vestir-se, enm agir. Tais mecanismos permitem a visualização de subculturas de lojas ou
empresas, fábricas, quartéis, universidades, associações dentro da universidade, organizações
7
C
i
ê
n
c
i
a
s

C
r
i
m
i
n
a
i
s

C
r
i
m
i
n
o
l
o
g
i
a


-

A
u
l
a

0
3
maçônicas, presídios e outras instituições fechadas”
48
.

A subcultura delinqüente, por sua vez, pode ser resumida como um comportamento de
transgressão que é determinado por um subsistema de conhecimento, crenças e atitudes
que possibilitam, permitem ou determinam formas particulares de comportamento
transgressor em situações especícas. Esse conhecimento, essas crenças e atitudes precisam
existir, primeiramente, no ambiente cultural dos agentes dos delitos e são incorporados à
personalidade, mais ou menos como quaisquer outros elementos da cultura ambiente
49
.
Quando se fala da subcultura delinqüente está se considerando um modo de vida que em
certa medida tornou-se tradicional entre certos grupos sociais norte-americanos.
Estes grupos de criminalidade juvenil oresceram mais pronunciadamente nas vizinhanças
de algumas grandes cidades dos EUA, fazendo nascer uma criminalidade particular mais
prossional também na idade adulta, ainda que estes fossem portadores daqueles valores
criminais adquiridos em seu período de amadurecimento intelectual e físico (especialmente
na adolescência). Na realidade, em todos os momentos os teóricos da subcultura delinqüente
não tiveram qualquer interesse em armar que explicariam todos os crimes de massas ou
mesmo toda criminalidade juvenil. Seria muita presunção se assim quisessem fazê-lo.
Propuseram, somente, uma perspectiva tópica de explicação de algumas modalidades de
crimes e dentro de determinados contextos bastante especícos
50
.

Nos dizeres de Garcia-Pablos de Molina, Cohen atribui à subcultura delinqüencial três
fatores: não utilitarismo da ação; malícia da conduta; e seu negativismo
51
. Com isso pretende
armar que as condutas são um m em si mesmo e não um meio para obterem alguma coisa
(utilitarismo), realizadas com a intenção de chocar, escandalizar (malícia) e para negar os
valores considerados como universalmente vigentes (negativismo).

Mais recentemente, noticia Shecaira, abordagens “sobre o tema têm sido feitas com análises
especícas de grupos subculturais. Interessante estudo é aquele feito sobre os ravers, também
denominados clubbers, e que mostra as principais características de funcionamento desse
grupo. As regras próprias, seguidas pela maioria de seus membros, incluem a utilização de
indumentária especíca com bandanas na cabeça, roupas largas e informais como camisetas,
blazers e calças jeans tipo baggy. As festas ravers, que podem durar até 3 dias, são embaladas
por ecstasy ou outras drogas e por músicas de uma batida acelerada que permitem uma dança
intensiva, com muito movimento lateral do corpo. Os ravers apareceram para eliminar todas
as diferenças entre idade, sexo, classe ou condição social e é um produto de um escapismo
surgido em face das diculdades advindas de uma sociedade pós-industrial com altos índices
de desemprego, que limita a possibilidade de acesso de todos a um Estado de Bem-Estar
Social
52

53
.
Albert Cohen acaba por concluir pela normalidade do crime e pela armação do crime como
valor do grupo e não como negação de uma pretensa universalidade de valores sociais.
Mais importante, porém, é a “lição que se pode tirar de tais teorias, sem qualquer dúvida,
é que dadas suas características particulares, o combate a essa criminalidade não se pode
fazer através dos mecanismos tradicionais de enfrentamento do crime. Primeiro porque
a idéia central dessa forma de prática delituosa tem certas particularidades que são
dessemelhantes de outras formas mais corriqueiras. Ademais, algumas dessas manifestações
não se combatem com a pura repressão, mas sim com um processo de cooptação dos grupos,
envolvendo-os com o mercado de trabalho e com o acesso à sociedade produtiva (é o caso
dos grupos de pichadores nas grandes cidades)
54
. Outros, ao contrário, demandam uma
delicada investigação cujo foco precípuo estaria na inteligência da polícia, com delegacias
especializadas para controle dessas manifestações criminais (assim, nas hipóteses de gangs
punks, skin-heads, ou semelhantes, tais como “Carecas do ABC”)
55

56
.
6. Considerações Finais
Com isso, analisamos panoramicamente as teorias denominadas do consenso. No próximo
texto, debruçar-nos-emos sobre as teorias do conito que invertem o paradigma “Por que as
pessoas cometem crimes?” para o paradigma “Por que chamamos determinadas condutas de
crime” e as conseqüências que essa mudança trará para o pensamento criminológico.
8
C
i
ê
n
c
i
a
s

C
r
i
m
i
n
a
i
s

C
r
i
m
i
n
o
l
o
g
i
a


-

A
u
l
a

0
3
Notas
1 SHECAIRA, Sérgio Salomão. Criminologia. São Paulo: RT, 2004, pág. 134.
2 DAHRENDORF, Ralf. As Classes e seus Conitos na Sociedade Industrial.Brasília, Ed. da
Universidade de Brasília, 1982, p. 148.
3 SHECAIRA, op. cit, pág. 135.
4 DAHRENDORF, Op. Cit., p. 149
5 FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. Cia Ed. Nacional/ Publifolha, 2000, p. 197.
6 SHECAIRA, op. cit, pág. 189.
7 Sete dos nove membros da Suprema Corte tinham sido indicados pelo ex-presidente
Herbert Hoover, antes dos anos 30. Em fevereiro de 37, Roosevelt ataca a Suprema Corte,
dizendo que a diferença de 10.000.000 de votos sobre o candidato republicano autorizavam-
no o adotar políticas públicas em benefício da população que não podiam ser vetadas por
alguns juízes. A polêmica só acaba em março de 37 com a aprovação de duas novas leis que
regulamentavam a atividade sindical e o seguro social, aprovadas como constitucionais na
Suprema Corte, por cinco votos a favor e quatro contra.
8 SHECAIRA, op. cit, pág. 191.
9 TARDE, Gabriel. The Laws of Imitation. Trad. E. C. Parsons. New York, Henry, Holt and Co.,
1903, p. 74.
10 É de extremo interesse a leitura, contemporânea, do sociólogo e antropólogo Pierre
Bourdieu. Em seus Gostos de Classe e Estilos de vida o autor traça um panorama intrigante das
diferenças culturais e estéticas dos diferentes extratos sociais e suas distintas manifestações
exteriores. Para ele, “constituindo num tipo determinado de condições materiais de existência,
esse sistema de esquemas geradores, inseparavelmente éticos ou estéticos, exprime segundo
sua lógica própria a necessidade dessas condições em sistemas de preferências cujas oposições
reproduzem, sob uma forma transgurada e muitas vezes irreconhecível, as diferenças ligadas
à posição da estrutura da distribuição dos instrumentos de apropriação, transmutadas, assim,
em distinções simbólicas”. In BOURDIEU, Pierre. Gostos de Classe e Estilos de Vida. Sociologia.
Renato Ortiz (org.). São Paulo, Ática, 1993, p. 83.
11 ANIYAR DE CASTRO. Lola. Criminologia da Reação Social. Trad. Ester Kosovski. Rio de
Janeiro, Forense, 1983, p. 73.
12 SHECAIRA, op. cit, pág. 198.
13 Em sua monograa especíca sobre o assunto, um dos capítulos tem exatamente o título:
o crime do colarinho-branco é um crime? In SUTHERLAND. Edwin H. El Delito de Cuello Blanco.
Trad. Olga de Olmo. Caracas, Universidad Central de Venezuela, 1969, p. 29 e seguintes.
14 SANTOS, Cláudia Maria Cruz. O Crime de Colarinho Branco: da origem do conceito e
sua relevância criminológica à questão da desigualdade na administração da justiça penal.
Coimbra, dissertação de mestrado, 1999, p. 42; também MANNHEIM, Herman. Criminologia
comparada. Trad. Faria costa e Costa Andrade. Lisboa, Fund. Calouste Gulbenkian, 1985, pp.
724 e seguintes.
15 ANIYAR DE CASTRO. Lola. Criminologia da Reação Social. Trad. Ester Kosovski. Rio de
Janeiro, Forense, 1983, pp. 78/80.
16 Estudo extremamente interessante realizado entre nós foi o de Ela Wiecko V. de Castilho
em que a autora examina, com estudos estatísticos precisos, Estado a Estado da Federação,
os casos de crimes econômicos no Brasil. In: O Controle Penal nos Crimes contra o Sistema
Financeiro Nacional. Belo Horizonte, Del Rey, 1998.
17 Este fato é bastante visualizável nos Estados Unidos em que muitos promotores e juízes
9
C
i
ê
n
c
i
a
s

C
r
i
m
i
n
a
i
s

C
r
i
m
i
n
o
l
o
g
i
a


-

A
u
l
a

0
3
são eleitos diretamente pelo povo, o que faz com que haja uma dependência direta dos
detentores do poder econômico. No Brasil, este fato só ocorre indiretamente, mas não deixa
de ser identicado, especialmente nos grotões mais distantes. É que em tais lugares o próprio
funcionamento do Poder Judiciário depende diretamente das colaborações dadas ora pelo
Executivo, ora por pessoas de nomeada da comunidade local.
18 Podemos notar o tratamento diferenciado, modernamente, nas concessões de prisões
especiais para algumas categorias de cidadãos portadores de título superior ou de algumas
prossões especícas.
19 SHECAIRA, op. cit, pág. 201.
20 O facto de em todas as sociedades, desde as menos evoluídas às mais evoluídas, se
encontrarem manifestações anti-sociais não signica que todas as sociedades denam
os mesmos tipos de crimes e que os mesmos crimes sejam delimitados com as mesmas
características. Na realidade, a tipologia dos crimes evolui no mesmo sentido da evolução
social, o que quer dizer que, em certa medida, o crime é produzido pela sociedade, em termos
abstractos, e praticado, em concreto, por um determinado membro da sociedade que não
aderiu à ordem social. Assim, seguindo a diferenciação social de Durkheim entre sociedades
de solidariedade mecânica e orgânica, poderá dizer-se que nas primeiras, correspondentes
a sociedades menos evoluídas, e porque o indivíduo se encontra rmemente ligado ao
grupo, os crimes mais graves são os que ponham em «perigo o conjunto da colectividade»,
enquanto que nas segundas, onde o indivíduo se encontra grandemente emancipado, se
tutelam valores em torno dos quais o indivíduo constrói a sua personalidade, seja sob a forma
de crimes contra a pessoa (os crimes contra a vida, os crimes contra a integridade física, os
crimes contra a honra, os crimes sexuais, etc.), seja contra a propriedade individual (crimes
de roubo, crimes de furto, crimes de abuso de conança, etc. que implicam geralmente um
enriquecimento verso empobrecimento para cada uma das partes envolvidas). Ora, o que
nos permite considerar que o crime constitui uma realidade de natureza sócio-cultural da
maior importância: não só espelha uma dimensão negativa da ordem social estabelecida
pela colectividade, como ainda se revela como uma dimensão de absoluta necessidade
conceptual na doutrina do controlo social.
21 Cf. RADZINOWICZ, L., Ideology and Crime, London: Heinemann. 1966.
22 Destacam-se, na escola franco-belga, A. Guérry (Essai sur la statistique morale de la
France,1833) e A. Quételet (Essai sur le dévelopment de facultés de 1 ‘home ou essai de
phisique social, 1835), que utilizam cartas geográcas para indicar a distribuição diferencial
das taxas e tipos de criminalidade pelas diversas áreas geográcas, na escola alemã, A. von
Oettingen (Die moralstatistik in ihre bedeutung für eine sozialethik) e G. von Mayr (Statistik der
gerichtlichen polizei im königreiche bayern und in einigen landern, 1868), na escola inglesa,
Benthan (Princípios do código penal), W. Rawson (An inquirity into the statistics of crime in
England and Wales, 1839), W. Buchanan (Remarks on the causes and state of juvenil crime in
the metropolis with hints for preventing its incrase, 1846), J. Flechter (Moral and educational
statistics of England and Wales, 1848) e H. Mayhew (The criminal prisons of london and scenes
from prison life, 1862, e Those that will not work, 1864).
23 Lacassagne é o autor de Marche de la criminalité en France — 1825-1880 (1881) e de Les
vois á l’etalage et dans les grands magasins (1986) e é fundador, com Manouvrier, dos Archives
d’ Anthropologie Criminelle. A sua importância é assinalável por ter iniciado as hostilidades
ao positivismo lombrosiano, ao proclamar, no 1.º Congresso de Antropologia Criminal, em
1885, que «cada sociedade tem os criminosos que merece» e ao apontar como causa do crime
o meio social.
24 Gabriel Tarde (1843-1904) foi magistrado, dirigiu os Service de la Statistique Criminelle
e publicou um grande número de obras dedicadas ao fenômeno criminal. A sua teoria do
crime explicava-se pelo princípio da imitação que se explicaria segundo três «leis»: a imitação
funcionaria em razão directa da proximidade social; a imitação funcionaria no sentido das
classes mais baixas para as mais elevadas, quando existisse conito entre dois modelos
contrários de comportamento, um poderia substituir outro. Durkheim refere-se à teoria da
imitação a propósito do suicídio, revelando o seu desprezo por esta teoria quando diz que
«uma coisa é sentir em comum, outra coisa inclinar-mo-nos perante a autoridade da opinião
e outra coisa ainda repetir automaticamente o que outros zeram». Embora constitua uma via
de recurso para alguma da investigação no
10
C
i
ê
n
c
i
a
s

C
r
i
m
i
n
a
i
s

C
r
i
m
i
n
o
l
o
g
i
a


-

A
u
l
a

0
3
domínio da teoria da aprendizagem em psicologia social, poderá dizer-se que a teoria da
imitação pouco representa hoje para a criminologia (Cf. LÉVY-BRUHL, Henri, «Problemas
da Sociologia Criminal», in Georges Gurvitch (org.), Tratado de Sociologia, Porto: iniciativas
editoriais, 1964, pp. 290-291; DIAS, Figueiredo, e ANDRADRE, Costa, Criminologia: o Homem
Delinquente e a Sociedade Criminológica, Coimbra: Coimbra Editora, 1992, pp. 20-25.
MANNHEIM, Hermann, Criminologia Comparada, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian,
1985, p. 698, Vol. II).
25 Durkheim (1858-1917) destaca-se na sociologia criminal pela sua denição do crime
como um facto social e pela tese da normalidade e funcionalidade do crime. A importância
paradigmática de Durkheim deve-se ainda ao facto de o seu pensamento representar uma
das vertentes das modernas teorias sóciocriminológicas, o modelo de consenso, que se
opõem à fundamentação marxista, o modelo de conito.
26 O facto de a sociologia criminal aparecer apenas no século XIX não signica que só a
partir desta altura tenha iniciado a preocupação e a reexão criminal, signica tão só que
é nesta altura que a reexão criminal atinge um elevado nível de sistematização e rigor na
explicação do crime, mediante a elaboração de complexos estudos apoiados na consideração
do meio social onde se desenvolve o crime e numa metodologia sucientemente idónea
para a abordagem credível deste fenómeno. Assim, poderemos encontrar vestígios dessa
preocupação e reexão em Platão (As Leis) que viu o crime como uma doença cujas causas
derivavam das paixões, da procura de prazer e da ignorância. Aristóteles, por seu turno,
considerou que a causa do crime tinha origem na miséria (Tratado da Política) e que o criminoso
era um «inimigo» da sociedade que deveria ser castigado (Ética a Nicómaco). São Tomas de
Aquino, na sequência de Aristóteles, também atribuirá a origem do crime à miséria. Mas, o
primeiro autor a dar-se conta das causas sociais do crime foi Thomas Morum (1478-1535) na
sua obra Utopia. Porém, apenas no século XVIII, com o movimento iluminista, nasceu uma
forte reacção à arbitrariedade com que se determinava a medida das penas e à desigualdade
com que concretamente se aplicavam.
27 A escola clássica caracteriza-se por ter projectado na doutrina do crime os ideais
do movimento iluminista, donde se destacam, por terem tomado posição nesta luta,
Montesquieu, Hobbes, Voltaire, Rousseau, Diderot, d’Holbach. Mas os autores que de modo
mais directo participaram no debate do problema criminal foram Beccaria, Feuerbach,
Benthan, Blackstone, Carranara, etc. O mais representativo de todos estes autores geralmente
apontado é o italiano Cesare Beccaria que expõe o principal do seu pensamento em Dei delitti
e delle pene (1764), onde defendia uma construção do tipo legal de crime em condições
de oferecer o mínimo de segurança ao homem no exercicio da sua liberdade social face às
autoridades públicas que manuseavam o respectivo processo sem sujeição a qualquer tipo
de regras, aplicando as respectivas penas de forma «arbitrária». Menos feliz parece ter sido a
sua explicação hedonista do crime, quando defende que a prática do crime estaria associada
ao prazer, de modo que a pena deveria estabelecer-se por forma a anular as compensações
da sua prática. Pelo que a pena teria como nalidade diminuir a ocorrência do crime de modo
a assegurar a continuidade da sociedade civil livremente constituída. Neste sentido, a teoria
clássica surge como uma teoria de controlo social, partindo da ideia de que a sociedade para
existir celebrou livremente um contrato social, através do qual estabeleceu o regime de tutela
dos bens essenciais (o «bem-estar pessoal» e a «propriedade privada») à convivência pacíca
do homem. Os homens, «iguais perante a lei», deveriam por isso determinar racionalmente
a sua liberdade em conformidade com aquele contrato. Mas todo o homem, com base em
motivações de ordem irracional, aparecia como um potencial violador do contrato, razão pela
qual estava sujeito às consequências de um estatuto penal, cujas penas, que visavam dissuadi-
lo preventivamente dessa conduta, deveriam ser «exactas» na sua correspondência ao crime
cometido. Só que a teoria clássica ao estabelecer que os homens eram formalmente iguais
perante a lei, apresenta, por um lado, uma contradição básica na sua formulação quando
«não presta atenção ao facto de a carência de bens poder ser motivo para que o homem
tenha uma maior probabilidade para cometer crimes», tornou-se, por outro lado, numa
técnica duplamente perversa, ora porque em certos casos se revelava excessiva, ora porque
noutros se revelava insuciente. Os neo-clássicos, como Rossi, Garaud e Joly, para superarem
tais diculdades, introduziram algumas reformas tendentes a ultrapassar as contradições
dos princípios clássicos «puros» que colocavam algumas diculdades na determinação
prática da medida da pena. Com esta revisão, os neoclássicos tiveram de tal modo em
conta as «circunstâncias atenuantes», os «antecedentes criminais» e a «inimputabilidade» do
delinquente, ou seja, «pegaram no homem racional solitário da criminologia clássica e deram-
lhe um passado e um futuro» (Cf. TAYLOR, I., WALTON, P. e YOUNG, J., La Nueva Criminologia:
11
C
i
ê
n
c
i
a
s

C
r
i
m
i
n
a
i
s

C
r
i
m
i
n
o
l
o
g
i
a


-

A
u
l
a

0
3
Contribuicion a una Teoria Social de la Conduta Desviada, Amorrortu Editores, Buenos Aires,
1990, p. 22).
28 O positivismo cientíco, na área da criminologia, surgiu, no Século XIX, com a inauguração
da escola positiva italiana em 1876, com a publicação de L ‘Uomo Delinquente, de Cesare
Lombroso, que reage contra os fracassos da escola clássica no tratamento do problema
criminal. Efectivamente, a escola clássica, representada por Beccaria, centrara a sua
preocupação no sistema penal estabelecido de modo arbitrário; contudo a criminalidade
ao invés de reduzir aumentara e diversicara-se sem que a teoria clássica oferecesse uma
explicação satisfatória. A escola positiva surge assim, num ambiente de crise, como alternativa
da explicação das causas do crime, deslocando a investigação criminal para o próprio
delinquente e propondo-se tratar o crime com base nos métodos e instrumentos utilizados
pelas ciências ditas «objectivas». Como características fundamentais desta escola realça-se
o postulado determinista do comportamento e a rejeição do livre arbítrio de raiz metafísica.
Entre os fundadores da escola positiva destacam-se não só Lombroso, que se detém na
questão antropológica, mas também dois dos seus discípulos: Enrico Ferri, que realçou na
sua investigação sobre o crime os elementos sociológicos, e Raaele Garófalo, que põem em
destaque para a explicação do crime o elemento psicológico. A formulação da antropologia
criminal de Lombroso contou com alguns trabalhos precursores que tentaram encontrar as
causas do crime nos estigmas individuais do delinquente, caso das teorias siológicos (J. K.
Lavater, Fragmentos Fisionómicos, 1775), que pretendiam diferenciar o criminoso pelos seus
traços sionómicos, das teorias frenológicas (F. Gall, Sur les fonctions du cerveau, 1791- 1825,
H. Lauvergue, Les forçat considérés sous le rapport physique, moral et intellectuel, observés
au Bagne de Toulouse, 1848, e C, Caldwell, Elements of Phrenology, 1829), que procurou os
sinais identicadores do delinquente no formato craniano, entre outros. Mas, foi com base em
Darwin (The origin of species, 1859, e Descent of man, 1871) que formulou urna teoria baseada
na natureza atávica de todos os delinquentes — o criminoso seria reconhecível através
de certos estigmas físicos («dentição anormal», «assimetria do rosto», «orelhas grandes»,
«defeitos dos olhos», «características sexuais invertidas», etc.) correspondentes a um homem
menos civilizado que os seus contemporâneos —, o que conrmaria estatisticamente. No
entanto, perante as críticas que lhe foram dirigidas, Lombroso seria forçado a moderar a
extensão da sua teoria, porém não ao ponto de corrigir alguns defeitos que serão denitivos
para a sua descredibilização, nomeadamente defeitos técnicos, relacionados com a utilização
de técnicas estatísticas inadequadas (Cf. C. Goring, The english convict, 1913), uma errada
consideração dos estigmas físicos, que geralmente são uma consequência directa do meio
social, uma infundada teoria genética, já que está excluída pela moderna teoria genética
a regressão evolutiva até espécies anteriores. O pensamento de Ferri — considerado por
alguns autores como o fundador da sociologia criminal —, no domínio da criminologia, foi
exposto na sua obra Nuovi horizonti del diritto e della procedura penalle (1851) que serviu
de base à sua obra principal Sociologia criminale (1892). Segundo ele, as causas do crime
seriam não só de carácter antropológico e físicas, mas também sociais. Será neste autor
que Durkheim irá encontrar uma grande parte da sua inspiração no tratamento social do
crime, porém enquanto Ferri utiliza um método predominantemente empírico, a análise de
Durkheim «faz-se em profundidade e não se satisfaz com a mera descrição» (Lévv-Bruhl, Op.
Cit., p. 291). Por seu turno, Garófalo conta com uma extensa bibliograa dedicada ao tema
da criminologia, de onde se destacam Criminologia (1885), Ripparazione alle vittime dei
delitto (1887) e La superstition socialiste (1895). A sua obra está marcada pela tentativa de
denição de um conceito sociológico de crime, concebido como violação dos sentimentos
básicos da colectividade, a que se reconduzia a sua explicação psicológica do crime. As
críticas ao positivismo não se zeram esperar. Tanto a sociologia criminal (Lacassagne, Tarde
e Durkheim) como da antropologia criminal (Baer e Goring) criticaram o determinismo
lombrosiano determinado pelas suas teses antropológico-causais. Mas, o certo é que de certa
maneira permanece o perigo das ideologias de tratamento que marcam uma vasta inuência
na política criminal, sustentando-se, ao contrário do que defendia a escola clássica, não uma
redução mas uma ampliação da reacção social ao crime, posição que leva Garófalo a admitir
a hipótese de irradiação do delinquente quando fosse «incapaz para a vida social» (Cf. DIAS,
Figueiredo, e ANDRADRE. Costa, Op. Cit, pp. 18-19).
29 DURKHEIM, Émile, As Regras do Método Sociológico, Lisboa: Editorial Presença, 6.ª Ed.,
1995, Prefácio à segunda edição original, p. 23.
30 Idem, p. 30.
31 A actualidade da obra O Suicídio de Durkheim deve-se em grande medida ao facto de
12
C
i
ê
n
c
i
a
s

C
r
i
m
i
n
a
i
s

C
r
i
m
i
n
o
l
o
g
i
a


-

A
u
l
a

0
3
estar na base da investigação de uma serie de condutas que se inserem no quadro dos desvios
e que continuam a preocupar o mundo moderno. Isso não quer dizer que não haja nela um
conjunto de aspectos cuja validade é hoje contestável, desde logo a validade das estatísticas
(no caso, ociais), a ambiguidade do conceito de anomia (Cf. Teoria da Anomia de Merton),
as diculdades de distinção do suicídio egoísta do anómico (Cf. DURKHEIM, Émile.O Suicídio:
Estudo Sociológico, Lisboa: Editorial Presença, 1996, p.286), etc. É ainda, por isso, uma obra
de referência para a investigação social nos diversos domínios, nomeadamente na área da
criminologia social ou sociologia criminal. Por isso, merece especial apreço a compreensão
dos princípios e conceitos em que se estrutura toda a obra. Desde logo, Durkheim entende
por suicídio «todo o caso de morte que resulta directa ou indirectamente de um acto positivo
ou negativo praticado pela própria vítima, acto que a própria vítima sabia dever produzir este
resultado» (Idem, p. 10) (V. ARON, Raymond, Op. Cit., 1994, p.325), ou, em síntese, o «acto de
um homem que prefere a morte a vida» (DURKHEIM, Émile, Op. Cit., p. 275).
32 DURKHEIM, Op. Cit.., p. 200.
33 DURKHEIM, Op. Cit., p. 207.
34 A esta tipologia Durkheim acrescentou ainda os suicídios fatalistas que se opõem aos
suicídios anómicos: o suicídio fatalista, de modo inverso, é «aquele que resulta de um excesso
de regulamentação» (DURKHEIM, Émile, Op. Cit., p. 273, n.29).
35 ARON, Op. Cit., p. 329.
36 CUSSON, Maurice, «Desvio», in Rayrnoud BOUDON, Tratado de Sociologia, Porto: Edições
Asa, 1995, p. 391.
37 Um facto social, segundo Durkheim, «é normal para um tipo social determinado,
considerado numa fase determinada do seu desenvolvimento, quando se produz na média
das sociedades dessa espécie, considerada na fase correspondente da sua evolução»,
DURKHEIM, Émile, As regras do Método
Sociológico, Lisboa: Editorial Presença, 6.ª Ed., 1995, p. 84.
38 DURKHEIM, Émile, Op. Cit.., p. 87.
39 DURKHEIM Émile Op. Cit.., p. 86.
40 DURKHEIM, Émile, Op. Cit., p. 86, nota 10.
41 DURKHEIM Émile, Op. Cit., p. 90.
42 LÉVY-BRUHL, Henri, Op. Cit., p. 292.
43 TAYLOR, I., WALTON, P e YOUNG, I., Op. Cit., p. 298.
44 SHECAIRA, op. cit, págs. 241 e 242.
45 DIAS, Jorge de Figueiredo e ANDRADE, Manuel da Costa. Criminologia: o homem
delinqüente e a sociedade criminógena. Coimbra, Coimbra Ed., 1992, p.290.
46 Criminologia da Reação Social. Trad. Ester Kosovski. Rio de Janeiro, Forense, 1983, p. 10.
47 COHEN, Albert K. Delinquent Boys: the culture of the gang. Nova York, Free Press, 1955,
p. 12.
48 SHECAIRA, op. cit, pág. 249.
49 Note-se, desta denição do próprio Cohen, escrita em 1966, como ela já sofre as inuências
das teorias interacionistas, que serão objeto de análise em capítulo posterior. In Transgressão
e Control. Op. Cit., p.199.
50 SHECAIRA, op. cit, pág. 250.
51 COHEN, Albert K. Delinquent Boys: the culture of the gang. New York/London, The Free
13
C
i
ê
n
c
i
a
s

C
r
i
m
i
n
a
i
s

C
r
i
m
i
n
o
l
o
g
i
a


-

A
u
l
a

0
3
Press/Collier Macmillan Publishers, 1955, p. 25.
52 PRIDDLE, Jacqueline. Discuss and Ilustrate the Main Changes in Youth Subcultures Over
the Last Twenty Year. Ilustrate with particular reference to two examples. Disponível via www.
arasite.org, consultado em 19/1/2002, p.3.
53 SHECAIRA, op. cit, pág. 258.
54 Tal processo foi tentado na cidade de São Paulo, na gestão da então Prefeita Luísa
Erundina com os pichadores; houve a “concessão” de alguns muros da cidade, em locais de
grande visibilidade, onde aqueles jovens podiam expressar livremente sua forma artística de
grates. No momento, postura semelhante vem sendo adotada pela Prefeita Marta Suplicy,
ao incentivar os grupos de periferia em suas manifestações artísticas, especialmente o hip-
hop, antes associado esteriotipicamente à marginalidade.
55 A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, por ocasião do assassinato a pontapés
de um homossexual na Praça da República por membros de um grupo skin-head, criou o
GRADI: Grupo de Repressão a Delitos de Intolerância, órgão ligado diretamente ao Gabinete
do Secretário, com participação das polícias civil e militar. Tal grupo de investigações tem
permanente contato com o Ministério Público do Estado, que também tem pessoas envolvidas
especicamente na investigação de delitos de intolerância, vinculadas ao Assessor de Direitos
Humanos do Procurador Geral.
56 SHECAIRA, op. cit, pág. 268 e 269.
14
C
i
ê
n
c
i
a
s

C
r
i
m
i
n
a
i
s
C
r
i
m
i
n
o
l
o
g
i
a


-

A
u
l
a

0
3
LEITURA FACULTATIVA
Escolas Sociológicas da Criminologias III: A Escola de Chicago
O Meio Ambiente Criminógeno: possibilidades de prevenção da
criminalidade urbana violenta por meio de intervenções ambientais.
1. Introdução
Classicamente, do ponto de vista do Direito Penal, aborda-se o meio ambiente amplamente
considerado como bem jurídico relevante que demanda, nessa qualidade, a tutela penal.
Com efeito, a degradação contínua e crescente do meio ambiente, incluso o urbano, tem
sido o foco dos mais acalorados debates concernentes ao futuro da humanidade mesma.
Sobre o tema, sobejam especialistas e teses, de modo que a contribuição desse trabalho
pretende ser dada sob um outro aspecto: os efeitos criminógenos do meio ambiente ou
mais precisamente, os efeitos nos fenômenos criminais típicos das grandes metrópoles da
degradação do meio ambiente urbano. Dessa forma, resta evidenciado que na presente
análise pressupõe-se já ter havido um primeiro crime ou uma primeira sucessão de crimes
que redundou na construção de espaços urbanos degradados, no mais das vezes impróprios
para a ocupação humana. Discutem-se, infra, os efeitos que tal degradação trouxe, do ponto
de vista meramente criminológico, para o surgimento de áreas na cidade de São Paulo cujos
índices de homicídio por cem mil habitantes/ano supera o de cidades em países em guerra
ou dominadas pelo narcotráco, como Cali, na Colômbia.
2. A ocupação ecológica da Cidade
A relação entre a criminalidade e a Cidade foi primeiramente percebida na assim denominada
Escola Criminológica de Chicago, cuja produção acadêmica concentrou-se grosso modo
entre as décadas de 20 a 40 do século passado e deu-se no Departamento de Sociologia
da Universidade de Chicago. Essa relação, aparentemente óbvia, representa a superação
do paradigma positivista criminológico segundo o que o criminoso é um ser perturbado,
doente, uma verdadeira degeneração. Admitir que a Cidade, entidade relativamente nova
nos Estados Unidos do início do século XX, é um fator criminógeno implica reconhecer o
crime como um fenômeno gerado no seio da cidade mesma e, dessa feita de inegável caráter
ecológico.
Com efeito, a Escola de Chicago também é chamada de teoria ecológica justamente por
ter como base de seus modelos explicativos a Ecologia Humana, entendido o conceito de
ecologia como “(...) o estudo dos seres vivos, não como indivíduos, mas como membros de
uma complexa rede de organismos conexos”
1
.
O primeiro sociólogo a dar tratamento sistemático à ecologia humana Chicago foi Robert
Park em seu artigo The City, de 1915
2
. No entender do autor, dois são os princípios ecológicos
centrais: o da dominância e o da sucessão. No reino vegetal, podemos perceber a dominância
na disputa das plantas pela luz: aquelas mais altas, cujas folhas se projetam sobre as demais
são as plantas dominantes de uma região. No reino humano, por assim dizer, a dominância
está presente em vários campos sociais, como fruto dos processos de competição. Na disputa
pelas áreas da cidade, as áreas de dominação serão aquelas cujos terrenos tenham valor mais
1
C
i
ê
n
c
i
a
s

C
r
i
m
i
n
a
i
s
C
r
i
m
i
n
o
l
o
g
i
a


-

A
u
l
a

0
3
alto
3
. O mesmo poder-se-ia dizer dos estatutos social, econômico etc.
Outro princípio ecológico central é o da sucessão. Ensina Park que “sucessão é o termo usado
pelos ecólogos para descrever e designar a seqüência ordenada de mudanças através das
quais uma comunidade biótica passa, no curso de seu desenvolvimento, de um estádio
primário e relativamente instável, a um estádio relativamente permanente ou de clímax”. No
campo da ecologia humana, a sucessão pode ser ilustrada “pelos processos de deterioração
física dos prédios que levam a uma modicação do tipo de povoamento, que produz, por
sua vez, uma tendência de diminuição dos alugueres, selecionando níveis de população de
rendimento cada vez mais baixo, até que um novo ciclo seja iniciado, quer como mudança de
residência para negócio, ou por meio de um novo desenvolvimento do uso antigo, como por
exemplo, a mudança de apartamentos para hotéis”
4
.
Em síntese a ecologia humana seria uma tentativa de investigação dos processos por meio
de que os equilíbrios biótico e social se mantêm bem como por meio de que processos tais
equilíbrios são perturbados, a partir da interação de quatro fatores centrais: população,
artefatos (cultura tecnológica), costumes e crenças e recursos naturais
5
.
Em 1921, Park adensará o debate acerca da ecologia humana introduzindo-lhe o conceito
de competição, o processo de interação humana mais elementar, universal e fundamental.
Embora o mais intenso, trata-se do processo social mais impessoal, ou seja, onde há menos
contato social, ou melhor, onde não há qualquer contato social. Park e Burgess o denem
como “o processo pelo qual a organização distributiva e ecológica da cidade é criada”. É por
meio da competição que se dá a distribuição populacional ao longo do território, isto é, os mais
fortes ocuparão os melhores lugares. Também a divisão social do trabalho será ditada pela
competição. Em síntese, “a competição determina a posição do indivíduo na comunidade”
6
.
3. O crescimento da cidade e a formação de áreas de degradação
O crescimento urbano seria bastante semelhante ao de um ser vivo não só no que tange ao
movimento centro-periferia, mas no que tange à organização desse fenômeno. Muito embora
o modelo perfeito de crescimento organizado seja aquele decorrente de um planejamento
anterior e vinculante, tal qual se observou em Brasília, o extremo oposto - aquele aleatório
e anárquico – não se pode conceber. O objeto primeiro das investigações de sociologia
urbana em Chicago foi justamente o mapeamento e compreensão das forças agentes e
conformadoras do crescimento urbano. Ainda em 1925, Ernest Burgess formula um primeiro
modelo teórico de explicação do crescimento urbano
7
. Das duas possíveis acepções da
expansão urbana, como crescimento físico e como processo, interessa-nos primordialmente a
última. A expansão pode ser representada esquematicamente por uma série de cinco círculos
concêntricos como se pode ver na Figura 01.
Figura 01: O Crescimento da Cidade
2
C
i
ê
n
c
i
a
s

C
r
i
m
i
n
a
i
s
C
r
i
m
i
n
o
l
o
g
i
a


-

A
u
l
a

0
3

O modelo mesmo traduz a idéia de que a cidade cresce a partir de seu centro, essencialmente
comercial, rumo à periferia. A Zona I, conhecida como zona do Loop comportaria as atividades
bancárias, comerciais e industriais. Na Zona II, ou zona de transição, encontra-se uma região
da cidade que está sendo invadida pelo comércio e indústria leve e onde se concentram as
casas de prostituição e jogo bem como as moradias mais baratas e decadentes da cidade.
Em seguida, a Zona III pode ser caracterizada como zona de moradia dos trabalhadores
das indústrias, “que fugiram da área de decadência, mas que desejam viver em ponto de
fácil acesso no seu trabalho”. A zona IV é a zona residencial, composta por residências mais
luxuosas e por prédios de apartamento de alta classe. Finalmente, a Zona V, a rigor fora dos
limites da cidade, é a zona do commuters, trabalhadores que residem em vilarejos ou distritos
fora da cidade, mas que a ela se dirigem regularmente para trabalharem
8
.
Evidentemente o esquema de divisão da cidade em cinco zonas características é mero artifício
didático posto que nenhum processo pode ser apontado estaticamente. Cada uma dessas
zonas encontra-se em expansão o que resulta na expansão da cidade como um todo. Nesse
processo, porém, uma área forçosamente invade a outra para fazer lograr sua expansão. Assim,
a zona comercial para crescer tem de invadir sua zona adjacente, impingindo-lhe sempre
um caráter de transitória posto que sempre comportando elementos da zona I (comércio e
indústria) e da zona III (residências). Este aspecto da expansão urbana pode ser denominado
de sucessão.
Ainda em 1915, quando Robert Ezra Park escreve o artigo A cidade: sugestões para a
investigação do comportamento humano no meio urbano, no American Journal of Sociology,
obra que inaugurou o programa de pesquisa em sociologia urbana da Universidade de
Chicago, o autor aponta serem de três naturezas as forças que agem sobre o crescimento
urbano: as dos meios de comunicação e transporte, as econômicas e as culturais
9
.
O primeiro grupo – as forças dos meios de comunicação e de transporte – comportam
“todas as coisas que tendem a ocasionar a um mesmo tempo maior mobilidade e maior
concentração de populações urbanas”. Ao analisar o crescimento da cidade de Columbus,
Ohio, Estados Unidos, Roderick McKenzie observa que aquela cidade acabou adquirindo a
forma de cruz grega como resultado de limites geográcos - os rios Sciotto e Oletangy – e do
3
C
i
ê
n
c
i
a
s

C
r
i
m
i
n
a
i
s
C
r
i
m
i
n
o
l
o
g
i
a


-

A
u
l
a

0
3
entroncamento das duas importantes avenidas da cidade: a Broad Street e a High Street
10
.
O segundo grupo de forças, de acordo com Park, seriam aquelas econômicas. “Comércio e
indústria buscam localizações vantajosas circundando-se de certas partes da população.
Surgem quarteirões de residências elegantes, dos quais são excluídas as classes mais pobres
em virtude do acréscimo do valor da terra. Crescem então cortiços que são habitados
por grandes números das classes pobres incapazes de se defenderem da associação com
marginais e viciados”
11
. A conseqüência da ocupação da cidade de acordo com tais forças,
aponta Park, redunda na quebra da antiga organização social, baseada em laços familiares,
por outra, baseada em interesses vocacionais e ocupacionais
12
.
O último grupo de forças, no entender de Park, é o composto pela forças culturais. Já temos
até aqui uma cidade ideal dividida de acordo com os recortes geográcos, condicionada
pelas forças econômicas sendo que os mais ricos encontram-se em regiões mais agradáveis,
notadamente, aquelas afastadas do comércio e das indústrias. As forças culturais serão as
últimas a determinar a ocupação da cidade. A dimensão mais ampla desse processo é o
surgimento de áreas culturais segregadas e bastante homogêneas quanto à composição
interna. Park enumera alguns exemplos clássicos: as Chinatowns de São Francisco e Nova
Iorque e a Litte Sicily de Chicago
13
. Em São Paulo, ao longo principalmente do século XX,
os imigrantes formavam grupos bem denidos tal qual observados nas grandes cidades
estadunidenses: a Liberdade, congregava os povos orientais, marcadamente japoneses, os
bairros do Brás, Bixiga, Bela Vista e Móoca receberam principalmente italianos, o bairro do
Brooklin caracterizou-se como um reduto de alemães etc. Ainda hoje alguns bairros podem
ser caracterizados etnicamente: a Liberdade ainda mantém os fortes traços japoneses, o
Bom Retiro, anteriormente ocupado por pequenos comerciantes judeus, hoje se encontra
marcado pela imigração chinesa e coreana. Finalmente, o bairro de Higienópolis congrega os
judeus mais abastados.
Outra dimensão, mais especíca, da ocupação da cidade a partir das forças culturais, é a
formação das vizinhanças, localidades com sentimentos, tradições e uma história comum.
A vizinhança seria a forma mais elementar de associação dentro da cidade, marcada pela
proximidade e contato entre vizinhos. Segundo Park seria, na organização social e política da
cidade, a menor unidade local
14
.
Como aponta Burgess, o crescimento da cidade importa especialização das áreas que
surgem, implicando um processo mais amplo de interdependência
15
. Um dos aspectos dessa
diferenciação é a descentralização das atividades econômicas com o surgimento de um
comércio local. Em verdade, o crescimento seguido da especialização e da descentralização
é fruto de um processo centrífugo de expulsão das zonas centrais: a competição entre as
unidades comerciais do centro expele os menos fortes a regiões menos interessantes ao
estabelecimento dessas atividades
16
. É o mesmo processo delineado supra quanto às
ocupações residenciais humanas: o centro expele os indivíduos para a zona de transição, mais
barata e deteriorada
17
.
Em estudo realizado por Taschner, que dividiu a cidade de São Paulo em anéis concêntricos,
repetindo a experiência de Burgess, de 1929, esta pôde conrmar o padrão de ocupação da
cidade por círculos. Dividiu-se a cidade em cinco círculos: central, interior, intermediário,
exterior e periférico. “[os estudos] mostraram uma lógica de ocupação da metrópole e da
cidade de São Paulo com padrão em círculos concêntricos, em que a pobreza espalha-se
por uma periferia cinzenta e sem serviços, e as camadas mais altas ocupam espaços mais
bem servidos e mais próximos do centro”
18
. No que tange especicamente ao crescimento
populacional, conclui-se que desde a década de 60 o anel mais afastado (periférico) vem
ganhando população, recebendo, inclusive, a população que vinha (e vem) sendo expulsa dos
anéis mais centrais. “O anel periférico foi responsável por 43% do incremento populacional
nos anos 60, por 55% nos anos 70, por 94% entre 1980 e 1991 e por 262% entre 1991 e 96. O
aumento de mais de 500 mil pessoas no anel periférico compensou a perda de cerca de 312
mil nos outros anéis. A região entre as avenidas marginais perdeu quase 130 mil residentes
nos anos 80 e 230 mil nos seis primeiros anos da década de 90. De outro lado, a periferia
ganhou cerca de 1,3 milhão entre 1980 e 1991 e quase 505 mil entre 1991 e 1996. O número
absoluto de novos moradores de São Paulo tem diminuído: o aumento de população era de
2,5 milhões entre 1970 e 1980, reduzindo-se para 1,13 milhão nos anos 80, cerca de 105 mil
pessoas por ano, e no início dos anos 90 diminui ainda mais, para 32,6 mil pessoas por ano
entre 1991-96. Mas esse incremento deu-se exclusivamente na periferia”
19
.
4
C
i
ê
n
c
i
a
s

C
r
i
m
i
n
a
i
s
C
r
i
m
i
n
o
l
o
g
i
a


-

A
u
l
a

0
3
Esse processo contínuo de crescimento e diferenciação faz com que uma zona da cidade tenda
sempre a invadir a sua zona adjacente: esse processo, como já apontamos supra, denomina-
se sucessão
20
. Existem inúmeras condições que iniciam as invasões intracomunidades: 1)
mudança de forma e de vias de transporte, 2) obsolescência resultante de decadência física
ou por mudança de uso ou de moda, 3) construção de importantes estruturas públicas ou
particulares, prédio, pontes, instituições com signicado atraente ou repelente, 4) introdução
de novos tipos de indústria, ou mesmo uma mudança na organização das indústrias existentes,
5) mudanças na base econômica as quais levam à redistribuição do rendimento, necessitando
assim mudança de residência, 6) desenvolvimento imobiliário criando a procura repentina de
localizações especiais etc
21
.
Evidentemente, os processos de invasão e, conseqüentemente, de acomodação, embora
contínuos e dinâmicos tendem a dar um desenho geral da cidade, ou seja, muito embora
as áreas continuem progressivamente a invadir umas às outras, não se deve ter a falsa
impressão de serem processos caóticos ou geradores de “anomia urbana”. Ao contrário, o
efeito geral desses processos é dar contornos bastante claros às comunidades, cada qual com
características próprias, sobretudo culturais. Em síntese, o fruto dos processos de invasão e
acomodação será o surgimento de áreas relativamente estáveis, com características próprias,
mormente no que tange às condições econômicas e culturais. a esse processo denomina-se
segregação e seu resultado direito é o surgimento das áreas naturais
22
.
4. As áreas criminais
Um das áreas naturais mais bem denidas é a área criminal. A construção dessas áreas é fruto
de um intenso trabalho de Cliiford Shaw e Kenry McKay, que distribuíram em um mapa da
cidade de Chicago a residência de 60.000 jovens infratores ao longo de diferentes períodos,
compreendidos entre 1900 e 1926. Dividida a cidade em quarteirões de meia milha quadrada,
dividiu-se o número de jovens infratores pelo total de jovens, obtendo-se, assim, um índice
que permitisse comparar as diversas regiões da cidade.
Finalmente, como havia uma hipótese geral da ecologia humana de que a cidade cresce
do centro para a periferia, gerando zonas de transição, instáveis e desorganizadas, de se
supor que os índices criminais decresceriam do centro para a periferia. Assim, para que isso
pudesse ser observado, oito radiais foram construídas. Essas radiais eram linhas imaginárias
que acompanhavam aproximadamente o traçado de grandes vias de transporte em Chicago
e que atravessam, somadas, quase todas as regiões de Chicago. Esse instrumento permitiria
visualizar como se comportam os índices na medida em que se distancia do centro da
cidade.
O resultado foi surpreendente: todos os amostrais apontavam a concentração dos jovens
infratores nas mesmas regiões da cidade. Contrastou-se, ainda, com dados de criminalidade
adulta, conrmando-se mais uma vez o padrão. O Mapa 01, abaixo, traz a construção das
mencionadas radiais para o grupo de jovens infratores levados à corte juvenil no ano de 1926.
Se se percorrem as radiais ali apontadas, nota-se, logo no início da radial II, uma região cujo
índice é de 22,5, o mais alto da cidade. Trata-se da primeira milha quadrada após o Loop.
Essa região era conhecida como Litlle Italy, “que se distribui ao norte e leste as propriedades
industriais que acompanham o braço norte do rio Chicago. É tipicamente uma área de
mudança rápida e deterioração com concomitante desorganização social”
23
. Na obra The
Gang de Frederic Thrasher, temos uma descrição dessa região: “No horror monótono dos
slums, apesar de um êxodo contínuo para distritos mais desejáveis, pessoas estão amontoadas
na razão de mais de 50.000 por milha quadrada. A vida está emaranhada em uma rede de
trilhos, canais e diques, indústrias e cervejarias, armazéns e madeireiras . Não há nada fresco
para acariciar a vista; por todos os lados estão prédios periclitantes, não pintados, enegrecidos
e manchados com a fumaça da indústria”
24
.

Nas duas milhas quadradas subseqüentes, com índices de 14,3 e 8,0, xaram-se as populações
polonesas, áreas de marcada concentração populacional. Nesse ponto, Shaw considera que
as organizações comunitárias espontâneas e de auto-apoio interessadas em desenvolver
programas comunitários são virtualmente inexistentes nos slums. “Tais organizações parecem
desempenhar um papel mais relevante na vida das comunidades mais afastadas onde os
objetivos sociais e os desejos pessoais tendem a tornarem-se integrados”
25
.
Mapa 01: Índice de delinqüentes por milha quadrada com base em 9.243 jovens do sexo
5
C
i
ê
n
c
i
a
s

C
r
i
m
i
n
a
i
s
C
r
i
m
i
n
o
l
o
g
i
a


-

A
u
l
a

0
3
masculino levados à Corte Juvenil, ao longo de oito radiais (1926)
26



O fato de essas áreas serem sempre criminais ao longo dos anos, sendo certo que houve
marcada alteração populacional gera a conclusão de que elas contenham em si elementos
propiciadores do crime e não seus residentes. Shaw indica como sua composição
populacional alterou sensivelmente, sem impacto na redução dos índices: “Na década de 80
[do século XIX] a área que contorna o Loop era ocupada largamente por alemães, irlandeses e
ingleses. Conforme os imigrantes mais recentes chegavam, eles se estabeleciam nas mesmas
áreas e afastavam os primitivos ocupantes. Por exemplo, ao longo da Avenida Milwaukee,
imediatamente ao noroeste do Loop, os escandinavos sucederam os alemães e ingleses,
expulsando-os de lá. Em um curto espaço de tempo, porém, deram caminho ao inuxo aos
poloneses a os italianos imigrantes. Esses estão agora se retirando em razão da ocupação
negra. Logo a oeste do Loop, os alemães e irlandeses mudaram-se ante à chegada dos judeus.
Agora, estes estão sendo expulsos pelos negros. Em South Side, os alemães e irlandeses se
mudaram quando da chegada dos italianos. Os italianos, por sua vez, deram lugar aos negros.
6
C
i
ê
n
c
i
a
s

C
r
i
m
i
n
a
i
s
C
r
i
m
i
n
o
l
o
g
i
a


-

A
u
l
a

0
3
A área diretamente ou Sul do Loop, entre a State Street e a Cottage Grove Avenue até a Rua
51 é praticamente apenas composta por negros e esse grupo ainda está pressionando ao sul
ao longo da State Street. Nessa conexão é interessante notar que entre os negros, o mesmo
processo geral acontece. Os novos imigrantes se estabelecem em áreas de maior deterioração
e empurram os moradores precedentes para áreas de menor deterioração física”
27
.
A explicação do fenômeno estaria na desorganização social e na conseqüente falta de
controle social local existentes nessas regiões que além de concentrarem os maiores índices
criminais, também concentravam os piores indicadores sociais da cidade. Em sua tentativa
de interpretação da distribuição e gênese do fenômeno criminal, ainda em 1929, Shaw
apontou que as maiores concentrações criminais coincidiam justamente com as áreas mais
degradadas, com população descendente e em franco processo de desintegração da cultura
convencional da vizinhança e de sua organização. Essa desconguração da vizinhança,
segundo o autor, faz com esta deixe de funcionar efetivamente como um meio de controle
social
28
. Em 1942, em uma formulação mais sintética, tem-se que “em comunidades onde os
controles convencionais são enfraquecidos por tradições divergentes e por mudança social,
as taxas de delinqüência são altas”
29
.
Esse diagnóstico, aliás, atesta Faris, já era sugerido por Burgess que enfatizava que o crescimento
rápido e a redistribuição populacional afetam os índices de criminalidade porque minam as
instituições locais e seus controles
30
. De fato, Shaw e McKay inferem de suas análises que “altos
índices de criminalidade, (...), estão associados com a diminuída capacidade de instituições
locais e organizações em controlar o comportamento dos residentes”
31
, condição chamada
de desorganização social. Nos dizeres de Reiss Junior: “a conclusão deles foi que as diferenças
em valores sociais comunitários e organização eram responsáveis pelas diferenças nos
índices de delinqüência. Em comunidades que são caracterizadas por divergentes sistemas
de valores, os índices de delinqüência são exacerbados porque a divergência enfraquece o
controle convencional”
32
.
Essa hipótese, é conrmada por um estudo de Angell, independente da Universidade
de Chicago, do mesmo ano de Juvenile Delinquency and Urban Áreas, 1942. A partir do
documento The Community Welfare Picture as Reected in Health and Welfare Statistics in
29 Urban Areas (Children´s Bureau of the United States Department of Labor), Angell buscou
vericar a validade do índice “do esforço da comunidade para o bem comum” (Community
Welfare Eort - CWE), construído na pesquisa como um índice positivo de integração social.
Para tanto, contrastou os índices de CWE com os criminais, uma vez que o crime “é geralmente
encarado como um dos melhores indicadores de desorganização social”. Assim, esperava-se
que as cidades com altos índices criminais tivessem baixos WCE, o que foi razoavelmente
conrmado por Angell. Assim, o autor concluiu, dentre outros, que a integração social de uma
cidade tende a ser tão maior quanto (i) tiverem as escolas, bibliotecas e serviços recreacionais
sido apoiados no passado e (ii) menor for a disparidade de renda entre as várias classes
sociais
33
.
Em síntese, tem-se que a taxa criminal é, assim, um reexo do nível de desorganização
dos mecanismos de controle em uma sociedade
34
, na medida em que a raiz ecológica da
criminalidade encontra-se (i) na capacidade de um grupo social de impor condutas em
conformidade com as normas, ou ainda, (ii) na intensidade de organização social de um
grupo, ou, nalmente, (iii) na capacidade do grupo de exercer o controle social informal
correspondente.
Inegável, porém, que a criminalidade acaba também a reforçar a condição de desorganização
social de uma dada região, na exata medida em que também é um problema social que
afrouxa os laços sociais e fragmenta ainda mais a dimensão comunitária. Ao contrário, o rótulo
que se impõe ao criminoso – objeto central de estudos posteriores aos de Chicago – reforçará
a bipartição comunitária entre os que obedecem à lei e os criminosos, solapando ainda mais
as forças sociais autóctones. Na ponderação de Shecaira: “A pena, da forma como ainda é
aplicada no Brasil, atua como geradora de desigualdades. Ela cria uma reação dos círculos
familiares, de amigos, de conhecidos, que acaba por gerar uma marginalização no âmbito
do mercado de trabalho e escolar. Levar uma conduta desviada para o âmbito da reprovação
estigmatizante tem uma função reprodutora de controle social”
35
.
5. Recuperação do meio ambiente urbano: um caminho de prevenção
da criminalidade.
7
C
i
ê
n
c
i
a
s

C
r
i
m
i
n
a
i
s
C
r
i
m
i
n
o
l
o
g
i
a


-

A
u
l
a

0
3
Até esse momento, nos dizeres de Garcia-Pablos de Molina, a prevenção do crime era apenas
pensada como o evitamento da conduta indesejada a partir da intimidação do agente mediante
a ameaça da pena (modelo clássico) ou de reforço de validade do sistema normativo (modelo
neoclássico)
36
. Prevenir assume em Chicago, pela primeira vez, o conteúdo de evitar que se
produzam as causas produtoras da criminalidade mesma, em qualquer relação direta com o
sistema de justiça criminal, em especial com o Direito Penal. Nas palavras de Garcia-Pablos de
Molina: “Prevenção, pois, e comunidade são conceitos necessariamente inter-relacionados.
Até o ponto de que já não pode compreender-se a prevenção do crime nem em um sentido
“policial”, nem “situacional”, desligada da comunidade: a prevenção é prevenção comunitária,
prevenção “na” comunidade e prevenção “da” comunidade. Reclama uma mobilização de
todas as forças vivas, uma dinamização social e uma atuação ou compromisso de todas elas
no âmbito local
37
.
Nesse ponto, de se considerar que as ações intencionais de prevenção da criminalidade urbana
encontram-se agrupadas em duas grandes categorias: as estatais e as patrocinadas pela
sociedade civil. Quanto às estatais, merece atenção outra divisão possível das mencionadas
ações: as políticas de segurança pública e as políticas públicas de segurança. Às primeiras
correspondem aquelas ações vinculadas ao poder punitivo estatal ou ainda ao controle social
formal: polícia, leis penais, política penitenciária etc. Às últimas, aquelas ações que, embora
públicas, não estão ligadas ao sistema de justiça criminal: educação, habitação, transporte
público, intervenção urbanística etc.
Classicamente, o tema da prevenção é pensado dentro de políticas de controle social formal.
O direito criminal brasileiro, todo ele erigido a partir da idéia de pena, no mais das vezes de
natureza aitiva, tem sua racionalidade na utilidade e necessidade da pena para a repressão e a
prevenção do delito, como se pode ler no artigo 59 do Código Penal pátrio. Por conseqüência,
vivenciou-se no Brasil uma coincidência semântica entre política criminal (assim entendido o
conjunto de medidas adotadas para a repressão e prevenção do delito) e política penal (assim
entendido o conjunto de medidas de reforço ou ampliação do sistema de justiça criminal).
O foco desse trabalho é justamente a prevenção da criminalidade urbana violenta mediante
outros recursos que não o sistema de justiça criminal; em especial, as intervenções de natureza
urbanística. O paradigma será a cidade de São Paulo
6. Possibilidades de prevenção por meio da intervenção no meio
ambiente urbano em São Paulo
O termo “periferia”, quando se trata da cidade de São Paulo, assume um conteúdo que extravasa
aquele geográco, ou seja, de distância em relação a um centro. As periferias paulistanas não
estão apenas longe do centro; elas estão fora da urbe, fora da mancha urbana a que se pode
denominar cidade. E, mais triste, não estão dentro de lugar algum; a periferia paulistana é o
não lugar. As conseqüências da condição de não lugar, como se sabe, são nefastas.
Ninguém escolhe morar nas periferias paulistanas. Trata-se, evidentemente, da única escolha
possível, eis que além de concentrar os piores indicadores sociais da cidade, as periferias
estão muito distantes dos locais de trabalho, o que aumenta a jornada semanal para números
próximos daqueles da Revolução Industrial. Como estabelecer vínculos sociais a uma região
que lhe causa repulsa, onde não se quer morar, onde pouco se ca – essencialmente para
dormir – e que, nalmente, é violenta? Superados esses obstáculos, em querendo um cidadão
integrar-se harmonicamente àquele meio, encontrará quais espaços de socialização?
O desao de prevenção da criminalidade na cidade de São Paulo começa pela integração
dos bairros periféricos à cidade propriamente dita, ou seja, pelo acesso dessas populações
segregadas aos serviços públicos tais como saúde, educação, lazer etc. A cidade é o locus das
possibilidades, da infra-estrutura, do saneamento básico, dos meios ecientes de transporte,
dos empregos e da renda. Essa condição deve ser estendida aos bairros excluídos do pacto
urbano.
A crescente tensão entre os bairros abastados e os periféricos alimenta ainda mais a sensação
de segregação urbana. Teresa Caldeira, em sua obra Cidade de Muros
38
, explicita esse
processo de formação de enclaves urbanos, ou seja, construções inspiradas pela sensação de
insegurança, voltadas o isolamento dos amedrontados. Surgem assim condomínios fechados
8
C
i
ê
n
c
i
a
s

C
r
i
m
i
n
a
i
s
C
r
i
m
i
n
o
l
o
g
i
a


-

A
u
l
a

0
3
em todas as partes da cidade, inclusos bairros periféricos, substituem-se as ruas de comércios
por shopping centers, abandona-se o precário sistema de transporte coletivo para a utilização
de veículos particulares, não raro blindados. As construções viárias são sempre inspiradas
em corredores que levam mais rapidamente o cidadão motorizado a sua residência com a
menor interação possível com o quadro urbano. “Por outra parte, como conseqüência do
incremento dos delitos violentos e do aumento do terror frente a eles, em praticamente todas
as cidades latino-americanas se construíram muralhas ao redor dos conjuntos residenciais.
Essa tendência começou em bairros mais acomodados onde foram aparecendo condomínios
ou zonas controladas e delimitadas para o uso exclusivo de seus residentes. Durante a década
passada esse fenômeno também foi se expandindo até zonas onde habitam famílias que
dispõem de menor recurso, como o qual se realizaram mudanças visíveis na conformação da
trama urbana e debilitando a sociabilidade entre vizinho”
39
.
A conseqüência desse fenômeno é o esvaziamento do espaço público físico. Em São Paulo
raros são os locais em que as mais diversas classes sociais possam interagir harmonicamente.
Com isso, a distribuição ecológica da população e dos problemas sociais assume ares muito
mais cristalizados, criando verdadeiro apartheid não apenas social, mas também urbano, o
que alimenta ainda mais a tensão social entre classes.
A criação de espaços públicos pela cidade, com especial atenção aos bairros periféricos, é
de fundamental importância. Além da questão do convívio das diferentes classes sociais,
é espaço privilegiado de interação dos moradores daquela comunidade, o que estimula a
socialização e a criação de laços comunitários, redundando em um maior controle social
informal.
Nesse aspecto, de se mencionar o denominado Programa Bairro Legal, desenvolvido pela
Secretaria de Habitação e Desenvolvimento Urbano (Sehab) do Município de São Paulo, “que
tem como foco a urbanização e a regularização fundiária de áreas degradadas, ocupadas
desordenadamente e sem infra-estrutura. O objetivo é transformar favelas e loteamentos
irregulares em bairros, garantindo a seus moradores o acesso à cidade, com ruas asfaltadas,
saneamento básico, iluminação e serviços públicos”
40
.
A parte do projeto Bairro Legal dedicada ao bairro de Cidade Tiradentes, em análise realizada
nessa região, serve como forma de se ilustrar como políticas de recuperação urbana não
se confundem com políticas meramente habitacionais. O bairro de Cidade Tiradentes foi
construído pelo poder público na década de 1980, sob a condenada forma de gigantesco
conjunto habitacional. De sua atual população de 220 mil habitantes, nada menos que
150 mil foram transferidos compulsoriamente para lá em razão de políticas denominadas
populacionais. Como não poderia deixar de ser, há pouquíssimo empregos, um para cada
cerca de 400 habitantes, de tal sorte que quase todos os moradores têm de deixar o bairro
para trabalhar
41
.
Como já se pôde indicar neste trabalho, o centro de São Paulo vem sofrendo um processo
crescente de expulsão populacional, gerando, por conseqüência, um alto índice de unidades
de habitação desocupadas. Com vistas a reocupar a região central, onde se concentram os
empregos e serviços da cidade, a Prefeitura de São Paulo criou o programa denominado Morar
no Centro, desenvolvido pela Secretaria da Habitação e Desenvolvimento Urbano (Sehab)
e Companhia Metropolitana de Habitação de São Paulo (Cohab-SP). A idéia do projeto é a
“reabilitação da região central, que inclui o resgate histórico e arquitetônico. (...) O objetivo
do programa é melhorar as condições de vida de quem já reside na área central, atrair novos
moradores, de todas as classes sociais, e promover a reforma e reciclagem de prédios ociosos
para moradia. O repovoamento dessa área da cidade é estratégico para a sua preservação e
para o desenvolvimento equilibrado da metrópole”.
Três são as estratégias centrais de consecução desse objetivo: o Programa de Arrendamento
Residencial em parceria com a Caixa Econômica Federal, dirigido a famílias com renda mensal
de até seis salário mínimos; o programa de Locação Social, para famílias com renda inferior a
três salários mínimos, variando o aluguel de maneira proporcional e a requalicação de áreas
degradadas nos bairros centrais e produção de novas moradias com o programa Perímetros
de Reabilitação Integrada do Habitat
42
.
Muito embora não se possa traçar uma relação direta entre esses programas e a redução
da violência, na medida em que incidem positivamente nas causas da criminalidade já
identicadas nesse trabalho, razoável supor que corroborarão, ainda que indiretamente, na
9
C
i
ê
n
c
i
a
s

C
r
i
m
i
n
a
i
s
C
r
i
m
i
n
o
l
o
g
i
a


-

A
u
l
a

0
3
melhoria dos índices criminais.
A recuperação das regiões degradadas pressupõe a integração com a cidade formal por meio
dos transportes públicos. Robert Park apontava em seu A cidade que as forças dos meios de
comunicação e de transporte são as primeiras a dar conformidade à cidade, pois comportam
“todas as coisas que tendem a ocasionar a um mesmo tempo maior mobilidade e maior
concentração de populações urbanas”.
Em São Paulo, a adoção do denominado Bilhete Único representou verdadeira revolução na
integração da periferia com o centro urbano. A necessidade de trocar de transporte público
para se locomover até o centro, pagando-se nova tarifa a cada vez, representava um custo
altíssimo para o trabalhador. Com a possibilidade de se locomover por duas horas pagando
uma única vez, diminui-se o peso no orçamento familiar com transporte e permite que novas
viagens sejam feitas, seja para procurar emprego, seja para a fruição por parte dos moradores
dessa região das benesses da cidade formal.
Finalmente, de se apontar que a par de grandes programas de inserção urbana de bairros
periféricos, são possíveis intervenções pontuais de natureza urbanística com vistas à melhoria
da qualidade de vida e da organização comunitária. Há, no Brasil, diversas experiências nesse
sentido, que se narra infra, a título de exemplicação.
O centro do município de Recife (PE) era uma região extremamente degradada, com alta
concentração de prostituição e exploração sexual de menores. Aproveitando a riqueza
urbanística das antigas construções que dominavam o bairro, o poder público incentivou o
restauro das fachadas, que foram pintadas com cores vivas, atraindo bares e restaurantes.
Hoje, transformou-se em um bairro de entretenimento, mantido, inclusive, por turistas do
Brasil e do Mundo.
Os bairros mais centrais de São Paulo também concentram casas cujas fachadas remontam
aos séculos XIX e XX e que poderiam sofrer a mesma forma de intervenção. O mesmo se diga
de determinadas regiões de bairros hoje periféricos e outrora núcleos urbanos independentes
de São Paulo como a Freguesia do Ó.
Inspirada na mesma losoa está a criação de Puerto Madero, em Buenos Aires, capital
argentina. Ao longo do rio da Prata havia uma série de armazéns abandonados, compondo
um desagradável clima portuário degradado, muito comum no cenário latino-americano.
A área circunvizinha era afetada pela presença dessas construções em desarmonia com a
cidade. Após a intervenção na região, em parceria com a iniciativa privada, os armazéns
foram reconstruídos, mantendo parte da aparência original, transformando-se em prédios
comerciais modernos, tendo ao térreo restaurantes e bares. Transformou-se em uma das
maiores atrações turísticas portenhas.
São Paulo comportou intervenção semelhante na conhecida Estação Júlio Prestes, na região
central da cidade. O prédio, de grande riqueza arquitetônica, estava abandonado e sofreu
obras de restauro, tornando-se em parte numa dos melhores espaços musicais do mundo,
a assim batizada Sala São Paulo. Outras experiências semelhantes podem ser apontadas
como a reforma do Mercado Municipal e o Projeto Pomar, voltado para o cultivo de plantas
ornamentais ao longo da feia e cinza Marginal do Rio Pinheiros.
Indefensável um conjunto de intervenções a priori para São Paulo. Cada região comportará
suas áreas mais ou menos degradadas que demandarão esforços diferentes. Muitas vezes o
que se necessita é a jardinagem de uma praça e o conserto dos brinquedos ali presentes. Outras
vezes, trata-se da melhoria dos meio-os por meio de um planejamento paisagístico, como já
se observa nas avenidas Brigadeiro Faria Lima, Rebouças e Nove de Julho. Finalmente, poderá
ser uma obra de grande fôlego como a que demandaria o resgate das regiões circunvizinhas
de excrescências urbanísticas como o Elevado General Costa e Silva.

A losoa, porém, é da criação de um espaço ecologicamente equilibrado, propício para a
ocupação urbana e facilitador do convívio comunitário.

Notas
1 HOLLINGSHEAD, A. B. Noções básicas da ecologia humana. Capítulo III de PIERSON, Donald.
10
C
i
ê
n
c
i
a
s

C
r
i
m
i
n
a
i
s
C
r
i
m
i
n
o
l
o
g
i
a


-

A
u
l
a

0
3
Estudos de Ecologia Humana (org.). São Paulo: Martins, 1970, p. 53.
2 WIRTH, Louis. Histórico da Ecologia Humana. Capítulo IV de PIERSON, Donald. Estudos de
Ecologia Humana (org.). São Paulo: Martins, 1970.
3 PARK, Robert Ezra. Ecologia Humana. Capítulo I de PIERSON, Donald. Estudos de Ecologia
Humana (org.). São Paulo: Martins, 1970, pp. 47 e 48.
4 MCKENZIE, Roderick. Matéria objeto da ecologia humana. Capítulo II de PIERSON, Donald.
Estudos de Ecologia Humana (org.). São Paulo: Martins, 1970, pp. 51 e 52.
5 A ecologia humana embora parta de um campo mais amplo, o da ecologia, difere
substancialmente daquelas vegetal e animal. A mais importante delas diz com a existência
de outros âmbitos vitais. Nos reinos vegetal e animal, todos os âmbitos são regidos pelas leis
ecológicas. O mesmo não acontece com as sociedades humanas. Park nos ensina que quanto
mais o ser humano aperfeiçoa a divisão social do trabalho, tanto menor é sua dependência
de seu hábitat. Assim, nos dizeres de Pierson, “no nível ecológico da vida humana, atua um
processo espontâneo, não intencional, contínuo, que leva os seres humanos a desenvolverem
inconscientemente uma organização biótica interdependente, e a se distribuírem juntamente
com suas instituições, ordenadamente, em espaço (PIERSON, Donald. Estudos de Ecologia
Humana (org.). São Paulo: Martins, 1970, p. 13).
6 PARK, Robert E., BURGESS, Ernest W. Introduction to the science of sociology. Chicago:
University of Chicago, 1921, pp. 508 e 574.
7 BURGESS, Ernest W. (1923) 1925. O crescimento da cidade: introdução a um projeto de
pesquisa, in:
8 PIERSON, Donald. Estudos de Ecologia Humana (org.). São Paulo: Martins, 1970, pp. 353-
368.
9 Idem, ibidem, p. 356.
10 PARK, Robert Ezra. A cidade: sugestões para a investigação do comportamento humano
no meio urbano. In: VELHO, Guilherme Otávio. O fenõmeno urbano. Rio de Janeiro: Zahar, 2
edição, 1973, pp. 26 a 67, p. 27.
11 MCKENZIE, Roderick. The Neighborhood- A study of local life in the city of Columbus, Ohio.
Chicago: The University of Chicago Press, 1923. Tradução parcial de Mário Antonio Eufrásio
(Departamento de Ciência Política – USP), p. 02.
12 PARK, Robert Ezra. A cidade: sugestões para a investigação do comportamento humano
no meio urbano. In: VELHO, Guilherme Otávio. O fenômeno urbano. Rio de Janeiro: Zahar, 2
edição, 1973, pp. 26 a 67, p. 30.
13 Idem, ibidem, p. 31.
14 MCKENZIE, Roderick. The Neighborhood- A study of local life in the city of Columbus, Ohio.
Chicago: The University of Chicago Press, 1923. Tradução parcial de Mário Antonio Eufrásio
(Departamento de Ciência Política – USP), p. 34.
15 PARK, Robert Ezra. A cidade: sugestões para a investigação do comportamento humano
no meio urbano. In: VELHO, Guilherme Otávio. O fenômeno urbano. Rio de Janeiro: Zahar, 2
edição, 1973, pp. 26 a 67, pp. 30 e 31.
16 BURGESS, Ernest. As áreas urbanas. Tradução de Mário Antonio Eufrásio do original Urban
Areas, capítulo VIII de SMITH, T. V. & WHITE, L. D. (Eds.). Chicago, an experiment in social science
research. Chicago: The Chicago University, 1929, p. 01.
17 MCKENZIE, op. cit., p. 104.
18 Para um estudo mais aprofundado dos processos de centralização e descentralização
urbanas, vide HOYT, Homer. Centralização e descentralização urbanas. Capítulo XVI de
PIERSON, Donald. Estudos de Ecologia Humana (org.). São Paulo: Martins, 1970.
11
C
i
ê
n
c
i
a
s

C
r
i
m
i
n
a
i
s
C
r
i
m
i
n
o
l
o
g
i
a


-

A
u
l
a

0
3
19 TASCHNER, Suzana P., BOGUS, Lúcia, São Paulo: o caleidoscópio urbano. São Paulo em
Perspectiva (Revista da Fundação SEADE), vol. 15, n. 1, jan-mar, 2001, pp. 31 a 44, p. 34.
20 Idem, ibidem, p. 35.
21 BURGES, op. cit., págs. 356-58. Para uma análise mais completa dos conceitos de sucessão,
vide PARK. Robert Ezra. Sucessão. Capítulo XIX de PIERSON, Donald. Estudos de Ecologia
Humana (org.). São Paulo: Martins, 1970.
22 MACKENZIE, op. cit. , pp. 107-8.
23 ZORBAUGH, Harvey W. Áreas naturais. Capítulo XXI de PIERSON, Donald. Estudos de
Ecologia Humana (org.). São Paulo: Martins, 1970, págs. 339-349.
24 Idem, ibidem, p. 45.
25 Apud: idem, ibidem, p. 47.
26 Idem, ibidem, p. 48.
27 Shaw, Delinquency Areas, p. 63. Título adaptado pelo autor.
28 SHAW, Cliord. Delinquency Áreas. Chicago: The University of Chicago, 1929, p. 205.
29 SAHW, Cliord e McKAY, Henry. Delinquency Areas. Chicago: The University of Chicago,
1942, p. xv.
30 REISS JR, Albert. Why are communities important in understanding crime? In: REISS JR.,
Albert e TONRY, Michael (orgs.). Communities and Crime. Chicago and London: The Chicago
University, 1987, p. 05.
31 Idem, ibidem, p. 05.
32 Idem, ibidem, p. 18.
33 ANGELL, Robert. The social integration of selected American Cities. The American Journal
of Sociology, vol. 47, January, 1942, n. º 04, pp. 575 a 592.
34 FARIS, Robert. E. L. Social disorganization. New York: The Ronald Press Company, 1955 , p.
194.
35 SHECAIRA, Sérgio Salomão. Controle social punitivo e a experiência brasileira. São Paulo:
Revista Brasileira de Ciências Criminais, ano 8, jan-mar de 200, pp. 401 a 411, p. 405.
36 Garcia-Pablos de Molina, Tratado, pp. 886 a 889.
37 Idem, ibidem, p. 917.
38 CALDEIRA, Teresa. Cidade de muros. São Paulo: 34, 2000.
39 LAFOY, Patrício e ROJAS, Emilio. Seguridad ciudadana y prevencion del delito. Un análisis
crítico de los modelos y estrategias contra la criminalidad. Santiago do Chile: Revista de
Estudios Criminologicos y Penitenciarios, n. º 01, nov., 2000, pp 15 a 62, p. 53.
40 Extraído do sítio http://www6.prefeitura.sp.gov.br/secretarias/habitacao/programas/0002,
consultado em 25 de janeiro de 2005.
41 FUNDAÇÃO ABRINQ. A história de Ana e Ivan. Consultado na rede mundial de computadores
no sítio http://www.fundabrinq.org.br/biblioteca/acervo/1152.pdf em 25 de janeiro de 2005.
42 Extraído do sítio http://www.saopaulo.sp.gov.br/home/index.htm, consultado em 25 de
janeiro de 2005.
12
C
i
ê
n
c
i
a
s

C
r
i
m
i
n
a
i
s

C
r
i
m
i
n
o
l
o
g
i
a


-

A
u
l
a

0
4
LEITURA OBRIGATÓRIA
OLIVEIRA: Edmundo
1
. AS VERTENTES DA CRIMINOLOGIA
CRÍTICA.
Consultado em http://www.ufpa.br/posdireito/caderno3/texto2_c3.html em 30 de junho de 2005.
Criminologia Crítica, também conhecida como Nova Criminologia, é o movimento
criminológico que se levantou, na segunda metade do século XX, contra o romantismo da
Criminologia Tradicional, que prosperou a partir do século XIX
As legiões de conitos e os recém-chegados modos de comportamento registrados no mundo,
ao longo da década de sessenta, mormente nos Estados Unidos e na Europa Ocidental, são
as marcas dos abalos sociais que estimularam o aparecimento da Criminologia Crítica. São
memoráveis, nesse quadro, as mudanças nas formas de Governo, as campanhas dos direitos
cívicos, as desavenças raciais, a revolta estudantil contra as mazelas do ensino, a proliferação
do uso das drogas, a guerra do Vietnã, a revolução da música jovem e o surgimento de um
novo estilo de conduta, como a auência dos Hippies. Em todos esses acontecimentos foram
detectadas fontes de antagonismos a exigir não só respostas satisfatórias à sociedade por
parte do Estado, como a tomada de inusitados posicionamentos do homem, nos vários
setores da vida comunitária.
A obra The New Criminology: For a Social Theory of Deviance, publicada em primeira edição na
Inglaterra, em 1973, por IAN TAYLOR, PAUL WALTON e JOCK YOUNG, simboliza a inauguração
do movimento crítico no campo criminológico, porque abriu a discussão sobre pioneiras
vertentes em torno do processo de criminalização e sobre a legitimação e funcionamento da
Justiça Penal, como sistema dinâmico do controle social.
Assim, imediatamente, oresceram as teses progressistas com delineamentos ideológicos e
indicações metodológicas que constituíram um agrupamento de críticas ao tradicionalismo
criminológico, em face da indispensável criação de uma cultura de política criminal com
apropriadas medidas alternativas.
Passemos, então, à apreciação dos valores peculiares aos seguimentos da Criminologia Crítica
ou Nova Criminologia.

A - CRIMINOLOGIA INTERACIONISTA OU LABELING
APPROACH
A Criminologia Interacionista ou Labeling Approach tem por meta considerar que as questões
centrais da teoria e da prática criminológicas não devem se voltar ao crime e ao delinqüente,
mas, particularmente, ao sistema de controle adotado pelo Estado no campo preventivo, no
campo normativo e na seleção dos meios de reação à criminalidade. No lugar de se indagar
os motivos pelos quais as pessoas se tornam criminosas, deve-se buscar explicações sobre
os motivos pelos quais determinadas pessoas são estigmatizadas como delinqüentes, qual a
fonte da legitimidade e as conseqüências da punição imposta a essas pessoas. São os critérios
ou mecanismos de seleção das instâncias de controle que importam, e não dar primazia
aos motivos da delinqüência. HANS BECKER, Sociólogo norte-americano, é considerado o
fundador do interacionismo criminológico.
1
C
i
ê
n
c
i
a
s

C
r
i
m
i
n
a
i
s

C
r
i
m
i
n
o
l
o
g
i
a


-

A
u
l
a

0
4
B - CRIMINOLOGIA DA ETNOMETODOLOGIA
A Criminologia da Etnometodologia prega a precisão do exame da intersubjetividade do
cotidiano para penetrar nas regras, atitudes, linguagem, signicados e expectativas assumidos
pelo homem no universo social. A etnometodologia da delinqüência confere, então, enorme
relevo ao conhecimento sociológico do comportamento desviante, daí por que o crime é visto
como uma construção social, devendo ser bem interpretado pelas agências ou organizações
de controle (Legislador, Polícia, Ministério Público, Juízes e Órgãos de Execução Penal) para
satisfazer as exigências suscitadas pela comunhão social. A repercussão da delinqüência
juvenil é o exemplo típico de preocupação dessa tendência criminológica. H. GARFINKEL,
Professor da Universidade da Califórnia, nos Estudos Unidos, é o pai do pensamento
Etnometodológico. Situam-se também, na mesma linha dos postulados metodológicos da
Etnometodologia Criminal, os seus seguidores N. DENZIN, J. DOUGLAS e A. CICOUREL.
C - CRIMINOLOGIA RADICAL
A Criminologia Radical desenvolveu-se a partir dos anos setenta, simultaneamente, nos
Estados Unidos e na Inglaterra. Nos Estados Unidos, a Escola Criminológica da Universidade
de Berkeley foi o berço desse movimento, tendo à frente os Sociólogos HANS e JOHN
SCHWENDINGER. Na Inglaterra, IAN TAYLOR, PAUL WALTON e JOCK YOUNG, autores da mais
conhecida obra da corrente The New Criminology: For a Social Theory of Deviance (1973),
representam o pioneirismo dos Estudos da Criminologia Radical na Europa.

Embora recente, a Criminologia Radical já dispõe de considerável número de cultores.
Na Itália, avultam os nomes de D. MELOSSI, M. PAVARINI, M. SIMONDI e A. BARATTA. Na
Alemanha, destacam-se F. SACK, M. BAURMAN e K. SCHUMANN. Na Holanda, H. BIANCHI. Na
França, MICHEL FOUCAULT se tornou respeitado Criminólogo Radical com a sua famosa obra
Surveiller et Punir (1975).
Partindo da raiz comum a todos os ramos da Criminologia Crítica, a vertente Radical se distingue
ao se apresentar como uma Criminologia Marxista por pressupor uma anuência à losoa de
KARL MARX em torno do fenômeno do crime e do seu controle. Dentro dessa abordagem,
são cuidadosos na diferenciação que se deve atribuir entre os prismas de observação dos
fatos criminosos, que são expressão de determinada conjuntura intrinsecamente voltada à
prática de crimes (white-collor, tráco, racismo, corrupção etc.) e os aspectos da criminalidade
inerente às classes menos protegidas, comumente traduzida como demonstração de revolta
no dia dia da engrenagem coletiva.
Nessa perspectiva, a Criminologia Radical reclama uma redenição do objeto e do papel da
investigação criminológica, sem se ater às ligranas dogmáticas respeitantes aos elementos
da conceituação legal de crime e ao controle das pessoas legalmente identicadas como
delinqüentes.
Os Criminólogos Radicais chamam os Criminólogos Tradicionais de tecnocratas a serviço
do funcionamento do sistema vigente, especialmente nas Sociedades Capitalistas onde a
crise criminal é crescente e de difícil solução. Argumentam: como podem os estudiosos da
Criminologia prestar auxílio à defesa da sociedade contra o crime, se o propósito último deve
ser a defesa do homem contra esse tipo de sociedade?
Eis a razão pela qual os Criminólogos do radicalismo não aceitam as metas de prevenção
especial vinculadas ao ideal de ressocialização do delinqüente, pois não é o criminoso
que pode ou deve ser ressocializado, todavia a própria sociedade punitiva que precisa ser
radicalmente transformada. Desse modo, o contraste existente entre o comportamento do
infrator e o caráter seletivo de sua denição, ou de sua criminalização pelas instâncias de
controle, tornam inútil ou mesmo impossível qualquer propósito legal de ressocialização
desse delinqüente, concluem os Radicais.
D - CRIMINOLOGIA ABOLICIONISTA
A Criminologia Abolicionista é uma especialíssima vertente da Criminologia Crítica, que
apresenta a proposta de acabar com as prisões e abolir o próprio Direito Penal, substituindo
2
C
i
ê
n
c
i
a
s

C
r
i
m
i
n
a
i
s

C
r
i
m
i
n
o
l
o
g
i
a


-

A
u
l
a

0
4
ambos por uma prolaxia de remédios para as situações—problemas com base no diálogo,
na concórdia e na solidariedade dos grupos sociais, para que sejam decididas as questões das
diferenças, choques e desigualdades, mediante o uso de instrumentos que podem conduzir
à privatização dos conitos, transformando o juiz penal em um juiz civil.
Os abolicionistas consideram o Direito Penal um mal gerador de diculdades e, por
conseguinte, um instrumento impossibilitado de resolver as colisões em uma sociedade
repleta de desigualdades. O sistema penal, em vez de ressocializar, fabrica rotineiramente
culpados, prolifera a violência, estigmatiza a personalidade do condenado, não satisfaz a
vítima, cria e reproduz a delinqüência, sem nada resolver satisfatoriamente. O Juiz Penal, que
deveria ser o primeiro a se rebelar contra esse status quo, está distante do homem a quem
condenou e, freqüentemente, pertence a uma classe social que não é a das pessoas menos
favorecidas, as quais constituem a clientela da ordem legal.
O movimento abolicionista, com o seu sistema informal e comunitário de soluções para a
situação—problema (substituidora da denição de crime), admite o estabelecimento de
medidas coercitivas, bem como a aferição da responsabilidade pessoal e a presença da
autoridade selecionada, incumbida de obter a solução de um conito. Tudo isso, desde
que as instituições sejam aceitas plenamente pela sociedade e haja uma relação de vida
comunitária entre quem castiga e quem é castigado, para justicar o reconhecimento social
de autoridade. Se a autoridade é contestada ou impugnada, a pena ou castigo surgirá como
ilegítima e violenta.
A Criminologia Abolicionista está dividida em três Subcorrentes.
A primeira Subcorrente prega a abolição do sistema penal, tendo como seu grande líder o
Professor holandês LOUK HULSMAN. Muitos adeptos da Criminologia Tradicional já chamaram
essa subcorrente de Anarquismo Penal, porque fundamenta a abolição do sistema penal,
como um todo, com base nos primitivos valores da sociedade, não admitindo a intromissão
do Estado na solução dos conitos.
LOUK HULSMAN diz que o Poder Estatal pode muito bem existir, no terreno da autoridade—
castigo dos Abolicionistas, sendo o Estado uma instituição anônima e estranha diante da
situação—problema, exatamente como ocorre com a constatação da regra habitual da
impunidade, haja vista a cifra negra da criminalidade, segundo a qual a grande maioria dos
conitos na sociedade não chega sequer ao conhecimento da Polícia e, dentre os que se tornam
conhecidos da Autoridade Judicial, somente um pequeno número impõe a seus autores uma
condenação. Acrescenta HULSMAN: tal análise estatística mostra que a impunidade, como
elo do Direito Penal, tem sido a regra e nem por isso o mundo foi vitimado por uma grande
comoção social.
A segunda Subcorrente Abolicionista, defendida por THOMAS MATHIESEN, quer apenas a
abolição da prisão, com base no raciocínio de que o cárcere é mero instrumento de ação
política contra as classes sociais mais pobres, nada resolvendo, entretanto sempre criando
diculdades tanto para a sociedade como para a própria ecácia do sistema penal.
A terceira Subcorrente Abolicionista traz NILS CRHISTIE como seu expoente. Para esse
bloco de doutrinadores, deve ser extinta toda e qualquer sanção penal que inigir dor ou
sofrimento pessoal e, conseqüentemente, provocar o desvio para um comportamento
moral insuportável. Sem aderir abertamente ao Abolicionismo de CHRISTIE, o Professor
argentino RAÚL ZAFFARONI salienta que, realmente, os exemplos dos Sistemas Penais, nos
Países da América Latina, existem, fundamentalmente, para provocar sofrimento nas pessoas
condenadas.
A Criminologia Abolicionista, que atualmente se projeta, em grande escala, na Europa
Ocidental, não foi bem acolhida na grande maioria dos povos, como na América Latina, onde
a realidade social, a estrutura dos Governos e do Poder Judiciário não propiciam estímulos
para a adoção dos princípios e experiências abolicionistas no campo hoje dominado pelo
Direito Penal.
É verdade que a administração da Justiça Penal é seletiva e tem sua capacidade de operação
limitada, haja vista os ltros da delinqüência simbólica representada, maciçamente, pelos
pobres que enchem as prisões e constituem a clientela do sistema penal, daí dizerem os
Abolicionistas, como LOUK HULSMAN, que a supressão do castigo carcerário já está em
3
C
i
ê
n
c
i
a
s

C
r
i
m
i
n
a
i
s

C
r
i
m
i
n
o
l
o
g
i
a


-

A
u
l
a

0
4
funcionamento para a criminalidade subterrânea praticada pelos que se valem da impunidade
por prestígio, privilégio ou inuência.
Assim sendo, o Abolicionismo não é, efetivamente, uma tarefa imediata para todo e qualquer
sistema de Justiça. Sem condições de se chegar a esse extremo, comporta, pelo menos,
dar chance, sempre que possível, para que se opere, em benefício do aprimoramento da
Justiça, as ferramentas de descriminalização, da despenalização, da desprisionalização, da
desjudiciarização e, por último, da desinstitucionalização.
E - CRIMINOLOGIA MINIMALISTA
Criminologia Minimalista é a teoria do Direito Penal Mínimo, que tem como expressões
a Professora venezuelana LOLA ANIYAR DE CASTRO e o Mestre italiano ALESSANDRO
BARATTA.
Na essência, a teoria do Minimalismo não difere do Abolicionismo por reconhecer que
o Sistema Penal é fragmentário e seletivo, atuando, incisivamente, sobre as classes sociais
mais débeis, indiferente à violência estrutural e favorecendo a impunidade dos que estão
vinculados às relações de poder.
A Criminologia Minimalista acha-se amparada em dois fundamentos.
O primeiro fundamento, que porta a tese de LOLA ANIYAR DE CASTRO, sustenta a necessidade
do estabelecimento de uma legislação penal de conteúdo mínimo, destinada à preservação
dos direitos humanos e liberdades individuais para garantir a defesa dos mais fracos e evitar
reações injustas e indesejáveis, não só por parte do Estado, mas também de qualquer órgão
de natureza pública ou privada e até mesmo da vítima.
O segundo fundamento Minimalista, enriquecido pelas lições de ALESSANDRO BARATTA,
aprofunda a concepção de que é preciso limitar o Direito Penal, que está a serviço de grupos
minoritários, tornando-o mínimo, porque a pena, representada em sua manifestação mais
drástica pelo Sistema Penitenciário, é uma violência institucional que limita direitos e reprime
necessidades fundamentais das pessoas, mediante a ação legal ou ilegal de servidores do
poder, legítima ou ilegitimamente investidos na função.

ALESSANDRO BARATTA adiciona que as instituições do controle formal, atuando nos diversos
níveis da organização da Justiça Penal (Legislador, Polícia, Ministério Público, Juízes e Órgãos
de Execução Penal) não representam nem tutelam interesses comuns a todos os cidadãos, e
sim interesses de grupos minoritários socialmente privilegiados. Por outro lado, rearma, o
Sistema Penal é altamente seletivo, seja no que diz respeito à proteção dos direitos humanos,
dos bens e interesses sociais, seja em relação ao processo de criminalização (incriminalização
e descriminalização), seja no que tange ao recrutamento da clientela, o que fortica a ilação
de que o sistema punitivo é absolutamente inadequado para atuar de maneira útil e saudável
na sociedade, conforme é sempre declarado no discurso ocial.
Vê-se que a Criminologia Minimalista grita pela legitimação de uma intervenção mínima das
agências formais de controle e das garantias do Direito Penal e do Direito Processual Penal,
de maneira a agir com a prudência de um modelo punitivo alternativo que satisfaça o sistema
social global e não como fórmula punitiva que se apóie na pena com sentido ontológico,
conforme bem lembrou RAÚL ZAFFARONI no seu interessante livro Em busca de las Penas
Perdidas.

F - CRIMINOLOGIA NEO-REALISTA
A Criminologia Neo-Realista é adotada por alguns Criminólogos, com destaque para os
ingleses JOCK YOUNG e JOHN LEA, que formalizam suas hipóteses em duas direções. Em
primeiro lugar, essa corrente se intitula Realista em reação aos Idealistas que nos anos
oitenta lideraram a pregação da losoa sustentada pela Criminologia Crítica em oposição à
Criminologia Tradicional. Em segundo lugar, a Criminologia Neo-Realista foi denominada de
NEO-REALISMO DE ESQUERDA por preconizar contra a política criminal de direita que, através
de campanhas de lei e ordem, ajudou a levar ao poder MARGARET THATCHER, na Inglaterra,
e RONALD REAGAN, nos Estados Unidos.
4
C
i
ê
n
c
i
a
s

C
r
i
m
i
n
a
i
s

C
r
i
m
i
n
o
l
o
g
i
a


-

A
u
l
a

0
4
Para os Neo-Realistas, a Criminologia Crítica deve regressar à investigação completa das causas
e circunstâncias do delito, com o m de denunciar os padrões de injustiça estrutural, da qual
o delito é forma de expressão. Eles explicam que as frágeis condições econômicas dos pobres
na sociedade capitalista fazem com que a pobreza tenha seus reexos na criminalidade. Mas
essa não é a única causa da atitude criminosa, também gerada por fatores como: expectativa
superdimencionada, individualismo exagerado, competitividade, agressividade, ganância,
anomalias sexuais, machismo etc.
Desse modo, insistem, só uma política social ampla pode promover o justo e ecaz controle das
zonas de delinqüência, desde que os Governos, com determinação e vontade, compreendam
que carência e inconformidade, somadas à falta de solução política, geram o cometimento de
crimes. Eis a razão pela qual os Neo-Realistas se preocupam com todos os aspectos do delito,
concentrando atenção a todos os atores da cena: o criminoso, a vítima e a reação social.
Tudo dentro de uma estratégia realista para situar o delito como ressonância de conitos
devido à falta de solidariedade entre os membros das classes sociais. Essa é a justicativa
da Criminologia Neo-Realista para fechar questão em cima do princípio de que a pena deve
recuperar o seu sentido de restauração moral.
CONCLUSÃO
Em linhas gerais, assentamos o panorama da Criminologia Crítica. Conamos em que, deste
ensaio, sejam colhidos bons frutos, em condições de favorecer o estudo mais aprofundado do
tema a espera de novas sendas a trilhar para a suavização da criminalidade e melhor exercício
da cidadania no terceiro milênio.
BIBLIOGRAFIA
ANIYAR DE CASTRO, Lola. Criminologia de la liberación. Maracaibo, Editorial de la Universidad del Zulia, 1987, pp. 85-93.
BERGALLI, Roberto. Crítica a la criminologia. Bogotá, Editorial Temis, 1982, pp. 178-185.
CARRANZA, Elías. Criminalidad: prevención o promoción. San Jose, Editorial Universidad Estatal a Distancia, 1994, pp.
84-88.
CHRISTIE, Nils. Los limits del dolor. México, Fondo de Cultura Económica, 1985, pp. 83-84.
DEL OLMO, Rosa. Ruptura criminológica. Caracas, Ediciones de la Universidad Central de Venezuela, 1979, pp. 179-186.
DELMAS-MARTY, Mireille. Les grands systèmes de politique criminelle. Paris, Editions Presses Universitaires de France,
1992, pp. 50-56.
GASSIN, Raymond. Criminologie. Paris, Editions Dalloz, 1994, pp. 471-474.
HULSMAN, Louk e DE CELIS, Jacqueline Bernat. Peines perdus: Le système pénal en question. Paris, Edition Centurion,
1982, pp. 104-111.
PAVARINI, Massimo. Control y dominación. Madri, siglo Veintiuno Editores, 1983, pp. 155-156.
TAYLOR, Ian; WALTON, Paul e YOUNG, Jock. Critical criminology. London, Routledge and Kegan Paul Ltd., 1975, pp. 16-41.
TRAVERSO, Giovanni e VERDE, Alfredo. Criminologia crítica. Padova, Cedam, 1981, pp. 123-130.
ZAFFARONI, Eugenio Raúl. Em busca de las penas perdidas. Bogotá, Editorial Temis, 1990, pp. 71-73.
5
C
i
ê
n
c
i
a
s

C
r
i
m
i
n
a
i
s

C
r
i
m
i
n
o
l
o
g
i
a


-

A
u
l
a

0
4
SegundoTema: Personalidade e Crime
Prof. Dr. Alvino Augusto de Sá
Introdução
A Criminologia Clínica Tradicional, dentro do modelo médico-psicológico, estabeleceu uma
relação de natureza pré-determinista entre personalidade e crime, oferecendo-nos uma
“explicação” do crime à luz quase que exclusivamente dos fatores orgânicos e psíquicos, na
qual os fatores ambientais tinham um papel secundário. As escolas sociológicas enfatizaram
o papel dos fatores ambientais, fazendo com que grande parte dos pensadores atuais
descartasse o papel da personalidade na prática criminal, o que se apresenta como um
absurdo, do ponto de vista psicológico, pois a prática criminal é um ato do indivíduo, um
comportamento do indivíduo. Ora, como descartar o papel da personalidade em qualquer
conduta do indivíduo? Por outro lado, as escolas sociológicas tiveram o grande mérito de
fazer com que se repensasse o papel da personalidade na conduta criminosa, com que se
repensasse a relação entre personalidade e crime. Uma relação que passe a ser concebida não
mais numa linha pré-determinista. Não se trata mais de uma relação bi-unívoca, pela qual,
para determinados tipos de personalidade, teríamos determinados tipos de crimes e vice-
versa. Hoje, não há mais como se falar em personalidade criminosa, em personalidade de
criminoso. Aliás, nem seria isto possível, pois o único ponto em comum que os diferentes tipos
de crime têm entre si é o fato de constituírem uma infração à norma penal e serem tipicados
no Código Penal. O que poderiam ter de comum, para se pensar um substrato psicológico do
crime, os autores de crimes de roubo, os de estelionato e os de estupro, por exemplo? Não
existe um comportamento criminoso, mas múltiplos comportamentos criminosos. Mesmo
porque não existe uma só norma penal básica, mas múltiplas normas, todas se diversicando
entre si em função dos diversos bens tutelados, aliás muito diferentes uns dos outros. Ou
melhor, existem múltiplos comportamentos que, numa determinada época e cultura, sob a
força e na vigência de determinada lei, são tidos como criminosos.
Como se dá então a relação entre personalidade e crime? É o que tentaremos analisar.
Inicialmente, veremos a conceituação de personalidade, pressuposto para as considerações
subsequentes. Teceremos a seguir considerações teóricas acerca da relação entre
personalidade e crime, buscando inclusive discutir como se poderia entender essa relação
à luz dos postulados da Criminologia Crítica. Para nalizar, retomaremos os conceitos
anteriormente expostos de Criminologia Clínica, o tradicional, o moderno e o crítico, para
reetirmos sucintamente sobre a relação entre personalidade e crime em cada um deles.
1. Conceituação de personalidade
A personalidade pode ser entendida e conceituada das mais diferentes formas, em função
dos referenciais teóricos, sobretudo porque ela não é uma entidade concreta, mas sim
um constructo teórico. Escapa ao nosso objetivo discorrer sobre as diferentes formas de
se conceituar personalidade e toda a polêmica que as envolve. Entretanto, cumpre-nos
esclarecer que a compreensão que teremos aqui do que seja a personalidade, e que embasa
o desenvolvimento do tema, supõe o indivíduo como um todo, físico e psíquico, consciente e
inconsciente, e em contínua interação com o ambiente.
Sem mais delonga, diremos, no contexto do tema que nos ocupa, que personalidade é um
padrão peculiar de conduta do indivíduo, que caracteriza e garante sua identidade, abrange
6
C
i
ê
n
c
i
a
s

C
r
i
m
i
n
a
i
s

C
r
i
m
i
n
o
l
o
g
i
a


-

A
u
l
a

0
4
suas disposições orgânicas e psíquicas, conscientes e inconscientes, manifestas e latentes. A
personalidade vai se moldando e se readaptando por força de novas experiências signicativas
do indivíduo e dos fatores externos, ambientais, aos quais está sujeito. (Sobre conceituação
de personalidade e seus diferentes aspectos e dimensões, ver Vargas, 1990, cap. II, p.12 a 24;
especicamente sobre uma compreensão psicanalítica da personalidade, ver Pepe, 1996, p.
187 a 196).
2. Considerações teóricas sobre a relação entre personalidade e crime
Se não há como se falar em personalidade criminosa ou em personalidade do criminoso, se
não há como se falar em traços de personalidade que guardem uma relação linear com o
crime, uma relação de natureza pré-determinista, ou uma relação bi-unívoca, e se, por outro
lado, sendo o comportamento criminoso um tipo de comportamento ao lado de tantos
outros, o qual, como todos os outros, supõe também uma compreensão psicológica, isto
é, uma compreensão à luz das características e traços de personalidade, como se entender
então essa relação entre personalidade e crime?
De início, diremos que o que existe são certos tipos de personalidade, ou certos traços e
características de personalidade que, frente a determinadas circunstâncias, favorecem a
prática de atos anti-sociais, tornam mais viável sua ocorrência, assim como há certos tipos
de personalidade, ou certos traços e características de personalidade que fortalecem as
resistências contra a pratica de atos infrancionais. Esses traços e características que favorecem
tal prática ou os mecanismos de resistência podem situar-se nos planos psíquico ou físico,
consciente ou inconsciente, constitucional ou experiencial. Por si sós, não são absolutamente
determinantes da conduta criminosa, de tal sorte que, unicamente a partir da constatação
de sua presença, jamais se pode presumir a ocorrência da prática criminosa. Inserem-se,
isto sim, tais traços e características muna malha muito complexa de outros fatores das mais
diversas ordens. Quando se quer compreender uma conduta criminosa, não basta analisar
o “epicentro” do comportamento-crime, mas é mister conhecer a fundo todo seu contexto
e toso o seu entorno. Portanto, nada mais óbvio do que dizer que tudo vai depender de um
interjogo entre os fatores individuais e os ambientais, conforme se pode depreender da
teoria das “séries complementares”, proposta por Freud para uma compreensão da origem
das neuroses (ver Simon, 1977), teoria essa que pode ser aplicada à análise e compreensão
da conduta criminosa (ver Sá, 1987). Nunca será demais repetir que não poderemos concluir
que um indivíduo tem tendências criminosas por constatarmos determinadas características
de personalidade. De fato, determinada característica de personalidade poderá favorecer,
em um indivíduo, a prática de um crime, enquanto que, em outro indivíduo, essa mesma
característica vai favorecer que tenha outros tipos de conduta. Como muito bem diz Lewin,
citado por Soares (1990), o mesmo calor que faz endurecer o ovo, faz derreter a manteiga.
Como exemplos de traços e características de personalidade que podem favorecer a prática
criminosa, mas que também podem favorecer outros tipos de comportamento, às vezes
até opostos e/ou socialmente ajustados, poderíamos citar a agressividade, sentimento de
inferioridade, sentimento de culpa, imaturidade, deciência mental, entre outros.
Ainda que retomando o óbvio, não poderemos nos furtar à observação de que crime,
enquanto tal, consiste numa infração a uma norma penal, a uma lei, e lei, conforme lembra
Segre (1996), é feita pelos homens. Nenhum comportamento é criminoso por sua própria
natureza, a não ser que adotemos a teoria do “delito natural”, de Garófalo. Para ilustrar o
caráter “infracional” do crime, em oposição a um caráter “naturalista”, Segre recorre ao
exemplo do próprio homicídio, que, essencialmente, consiste no ato de matar alguém, e
que poderá constituir-se num crime, ou num ato de legítima defesa, ou até mesmo num ato
heróico e louvável de defesa da Pátria ou de outras pessoas. De se frisar ainda que, nessa
mesma linha de pensamento, o crime é de natureza denitorial, ou seja, ele é resultado de
uma “denição” prevista em lei, e não de natureza ontológica. No entanto, se existe uma
relação entre personalidade e um comportamento assim dito criminoso, ela independe
do fato desse comportamento ser denido pela norma penal como crime. O que importa
são as motivações psicológicas que possam estar sustentando essa conduta, é a dinâmica
psicológica do ato. Assim, por exemplo, a relação entre personalidade e o uso de drogas vem
sendo investigado e toda a experiência que se vem colhendo independe do fato de tal uso
ser denido ou não pela norma penal como crime. Voltando do ato homicida, é evidente que
sua dinâmica psicológica estará estritamente associada aos motivos e circunstâncias por que
ele se deu (legítima defesa, ou ato heróico, socialmente valorizado, ou ato voltado sobretudo
7
C
i
ê
n
c
i
a
s

C
r
i
m
i
n
a
i
s

C
r
i
m
i
n
o
l
o
g
i
a


-

A
u
l
a

0
4
à destruição do outro, por interesses próprios), independentemente de se tratar de crime.
Sintetizaríamos então o que foi dito acima, armando que a relação entre personalidade e
determinada conduta denida como criminosa pode ser entendida como se dando entre
certas características da personalidade que, somadas às circunstâncias ambientais, sociais,
etc. poderão viabilizar a ocorrência da referida conduta. No entanto, aprofundemos um
pouco essa reexão, agora já não só levando em conta a inuência das teorias sociológicas
propriamente, mas também os postulados e preocupações da Criminologia Crítica.
À Criminologia Crítica não interessa indagar o por quê da conduta criminosa, sob o enfoque
seja dos fatores sociais, seja dos fatores psicológicos. Interessa-lhe, isto sim, indagar sobre
o por quê da seletividade do Direito Criminal em relação às condutas por ele tipicadas
como crime e à seletividade do sistema punitivo em relação às pessoas “escolhidas” para
serem condenadas. No que diz respeito especicamente à pessoa “incriminada”, interessa à
Criminologia Crítica indagar sobre o processo de criminalização das mesmas. A Criminologia
Crítica não pergunta “por que essas pessoas cometeram crimes”, mas sim “por que elas foram
criminalizadas pelo sistema punitivo”.
Considerando-se as indagações da Criminologia Crítica, o que se deve questionar, no
tema que nos ocupa e no âmbito da Criminologia Clínica, não é como se dá a relação
entre personalidade, mas sim como se dá a relação entre personalidade e o processo de
criminalização. Discutiremos essa questão à luz do conceito de personalidade acima exposto,
dividindo-o em duas partes.
Na primeira parte do conceito, diz-se que “personalidade é um padrão peculiar de conduta
do indivíduo, que caracteriza e garante sua identidade, abrange suas disposições orgânicas
e psíquicas, conscientes e inconscientes, manifestas e latentes”. Diremos então que o
indivíduo condenado e encarcerado, por conta de toda uma história de marginalização e
exclusão sociais, sofreu um processo de deterioração social e psíquica, graças ao qual ele se
tornou vulnerável perante o sistema punitivo, conforme Zaaroni (1998). Ora, se ele sofreu
um processo de deterioração social e psíquica, seu “padrão peculiar de conduta” apresenta
disposições psíquicas, quiçá até orgânicas, conscientes e/ou inconscientes, manifestas e/ou
latentes, por conta das quais ele tende a se fragilizar e a sucumbir perante o sistema punitivo
e a se tornar presa fácil do mesmo, ou, por conta das quais ele se torna “candidato predileto” a
ser eleito pelo Estado para nele se fazerem valer a sua “força moralizadora” e a força punitiva
da norma.
Na segunda parte do conceito, diz-se que “a personalidade vai se moldando e se readaptando
por força de novas experiências signicativas do indivíduo e dos fatores externos,
ambientais, aos quais está sujeito”. Têm-se a considerar aqui os efeitos altamente danosos
para personalidade do processo de criminalização e de prisionização, enm,os efeitos da
intervenção penal, no seu todo. O indivíduo, após criminalizado, condenado e encarcerado,
sentir-se-á “ocialmente” colocado no mundo do crime e “ocialmente” isolado da sociedade
pelo Estado. Sentirá todo o peso da instituição prisional enquanto instituição total. Daí que,
dependendo do tempo de sua convivência nesse contexto, dicilmente sua personalidade
deixará de se moldar de acordo com o mesmo e de acordo com as pressões que passa a sofrer,
sejam pressões do sistema punitivo e da instituição prisional, sejam pressões do próprio
mundo do crime. O indivíduo moldará seu padrão de conduta até mesmo por uma questão
de necessidade de sobrevivência.
3. Os conceitos de Criminologia Clínica e a relação entre
personalidade e crime
Retomando agora os conceitos de Criminologia Clínica já expostos anteriormente, poderíamos
reetir sobre como se entenderia a relação entre personalidade e crime, em cada um deles.
Pelos seus conceitos tradicional e moderno já expostos, a Criminologia Clínica visa estudar
a conduta criminosa, com vistas às estratégias de reabilitação ou de ressocialização do
encarcerado. A diferença entre ambos é que a tradicional vai colocar o foco no indivíduo, em
seu corpo e em sua personalidade, enquanto que a moderna vai colocar o foco no indivíduo
em seu contexto. Quanto à relação entre personalidade e crime, a tradicional reconhece tratar-
se de uma relação direta, de ordem explicativa e quase que pré-determinista. Já a moderna
vai buscar na personalidade, não propriamente características que “levam” o indivíduo a
cometer crimes e que, por isso mesmo, explicam a conduta criminosa, mas características
8
C
i
ê
n
c
i
a
s

C
r
i
m
i
n
a
i
s

C
r
i
m
i
n
o
l
o
g
i
a


-

A
u
l
a

0
4
que simplesmente tornam possível essa conduta, que a viabilizam.

Pelo conceito crítico, a Criminologia Clínica não é mais o estudo da conduta criminosa, mas
sim do processo de criminalização, com vistas às estratégias de reintegração social. Entenda-
se por reintregração social, conceito de Baratta (1990), um processo no qual o encarcerado
é um participante ativo e a sociedade, representado por segmentos comunitários, também
deverá rever seus padrões de conduta e de relacionamento com as camadas excluídas. A
Criminologia Clínica vai colocar seu foco, não mais no indivíduo, e nem mesmo no indivíduo
em seu contexto, mas no processo de deterioração social e psíquica, nas relações que a
sociedade tem estabelecido com ele. No que diz respeito ao papel da personalidade, a
diferença é fundamental. Já não se fala em relação entre personalidade e crime, mas entre
personalidade e a conduta que o direito penal e o sistema punitivo reconhecem como crime.
E o que se vai estudar na personalidade são suas características de deterioração social e
psíquica, decorrentes da exclusão e marginalização sociais, que viabilizam o processo de
criminalização por parte do sistema punitivo, bem como suas características de deterioração
que decorrem do processo de criminalização e prisionização.
Notas
1 Professor Titular de Direito Penal da Universidade Federal do Pará - Amazônia (Brasil) Pós-
Doutorado em Direito Penal e Criminologia pela Universidade de Paris (França) Estágio Sênior
em Direito Penal na Universidade de Miami - Flórida (Estados Unidos) Professor Associado
do Centro de Pesquisas de Política Criminal da Universidade de Paris (França) Professor
Pesquisador junto à Universidade de Miami - Flórida (Estados Unidos)
Referências Bibliográficas
ANIYAR DE CASTRO, L. (1990). Notas para um sistema penitenciário alternativo, “in” Oliveira,
E. (Coord.), Criminologia Crítica (Fórum Internacional de Criminologia Crítica), Belém: CEJUP,
108-121.
BARATTA, A. (1990). Por un Concepto Critico de Reintegración Social del Condenado, in
Oliveira, E. (Coord.). Criminologia Critica (Forum Internacional de Criminolgia Crítica): 141-157.
Belém: CEJUP.
DAHER, S. (1990). Funções da equipe interprossional criminológica. Revista da Escola do
Serviço
DIAS, J. F. & ANDRADE, M. da C. (1997). Criminologia: o homem delinqüente e a
sociedade criminógena. 2 ª reimpressão. Coimbra (Portugal): Editora Coimbra.
PABLOS DE MOLINA, A. G. & GOMES, L. F. (1997). Criminologia: introdução a seus fundamentos
teóricos; introdução às bases criminológicas da Lei 9099/95 – Leis dos Juizados Especiais
Criminais. 2 ª Ed. rev., atualizada e ampliada. São Paulo, Editora Revista dos Tribunais.
PEPE, M. J. (1996). Personalidade, “in”, Cohen, C., Ferraz, F.C. e Segre, M., Org., Sáude Mental,
Crime e Justiça, São Paulo: EDUSP, p. 187-196.
SÁ, Alvino A. (1998). Prisionização: um dilema para o cárcere e um desao para a comunidade.
Revista Brasileira de Ciências Criminais, ano 6, no 21, janeiro – março de 1998: 117-123.
____________. (2001). Concepção de crime como expressão de uma história de conitos:
implicações na reintegração social dos condenados à pena privativa de liberdade. Revista da
ESMESC (Escola Superior da Magistratura do Estado de Santa Catarina), ano 07, vol. 11, 2001:
169 – 178.
SCHNEIDER, H.J. Recompensación en Lugar de Sanción. Restablecilmento de la Paz entre
el Autor, la Victima e la Sociedade, in KOSOVSKI, E. (Org. e Ed.) (1993). Vitimologia: enfoque
interdisciplinar: 212-229. Rio de Janeiro: Reproarte.
THOMPSON, A. (1980). A questão penitenciária, 2ª ed., Rio de Janeiro: Forense.
ZAFFARONI, E. Raul (1998). Criminologia: aproximación desde um margen. Santa Fe de Bogotá
(Colombia): Editorial Temis S. A.
9
C
i
ê
n
c
i
a
s

C
r
i
m
i
n
a
i
s
C
r
i
m
i
n
o
l
o
g
i
a


-

A
u
l
a

0
4
LEITURA FACULTATIVA
ROBERTO LYRA FILHO
1

Assumi o compromisso de redigir este ensaio, devido ao interesse com que venho
acompanhando a carreira de Juarez Cirino dos Santos, desde os seus primeiros passos. Nele,
reconheci, de imediato e o tenho proclamado, repetidamente (Lyra Filho, 1980A: 157) o maior
talento da nova geração de criminólogos brasileiros. É, portanto, duplamente grato conrmar,
agora, este juízo e saudar a passagem do marco doutoral.
A Criminologia Radical (Cirino, 1981) é o seu texto mais recente e, ao tempo, a tese de
doutoramento que, com os meus insignes colegas Albuquerque Mello, Fragoso, Mestieri e
Papaleo, aprovei na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro,
atribuindo-lhe a nota máxima. Isto, é claro, não importa em concordar, sem ressalvas, com
tudo quanto o autor, ali sustenta. A própria banca examinadora constituía, como é normal, na
vida universitária, uma seleção de professores com signicativas diferenças de ponto de vista.
Aliás, dentre eles, era eu, sem dúvida, quem demonstrava maiores anidades com a orientação
esposada pelo candidato. A minha proposta duma Criminologia Dialética (Lyra Filho, 1972;
1975; 1981) representa um subgrupo da extensa gama de modelos da Criminologia Crítica, a
que também pertence, com seu peculiar matiz, a Criminologia Radical.
Depois de encerrado o debate acadêmico, de argüição e defesa de tese, podemos, assim,
retomar, em tom mais repousado, um diálogo fraterno, assinalando as divergências e
convergências das nossas posições, dentro da unidade substancial de propósitos e esperanças,
em que comungamos.
Exprimindo a harmonia da nossa visão criminológica, referi-me, na argüição mencionada,
ao trabalho de dois arquitetos que projetassem a morada cientíca, tendo em mira as
mesmas opções democráticas, populares e socialistas. A diversidade do estilo nada retira à
fecundidade das sugestões alternativas, que antes enriquece o repertório dos moldes, no
empenho comum a que ambos servimos (Lyra Filho, 1981A: 4).
Se a Criminologia Radical mais não zesse e estou convicto de que tem muitas outras
excelências bastar-lhe-ia a não pequena virtude, que manifesta, de quebrar o marasmo dos
trabalhos rotineiros, ainda predominantes, entre nós.
Na verdade, após o impulso dado à Criminologia pelos mais ilustres precursores, de Tobias
Barreto a Roberto Lyra, pai (Lyra, 1964: 107 ss.) este último inclusive antecipando a nota crítica,
cou a nossa disciplina em grande parte relegada aos dúbios cuidados de não rigorosos
especialistas e constantes repetidores do positivismo, de várias espécies. Em 1964, Roberto
Lyra, pai, chegava a arrematar uma síntese histórica, fazendo este apelo, quase patético:
“peço aos novos valores que me enviem seus trabalhos, para as menções merecidas” (Lyra,
1964: 138).
Apareceu em 1967 a minha primeira contribuição crítica (Lyra Filho, 1967), resumindo
idéias divulgadas anteriormente, em aulas e seminários, e iniciando o rompimento com as
posições conservadoras (Tavares, 1980: 5),que culminou na posição denitiva, em 1972 (Lyra
Filho, 1972). Alguns colegas, daqui e do estrangeiro,a colheram então, generosamente, a
Criminologia Dialética, assinalando que se tratava de perspectiva útil e original (Lyra Filho,
1975: 29). O objetivo marcante e cada vez mais nítido era, e é, alistar-me entre os intelectuais
1
C
i
ê
n
c
i
a
s

C
r
i
m
i
n
a
i
s
C
r
i
m
i
n
o
l
o
g
i
a


-

A
u
l
a

0
4
orgânicos do novo bloco histórico, visando o socialismo democrático. Isto, por si só, delineia
uma evidente solidariedade com os propósitos declarados pelo meu jovem e brilhante
colega, Cirino (Cirino, 1981; 126). Além deste aspecto fundamental, no engajamento sócio-
político, de próximo parentesco apesar de alguns matizes distintivos liga-nos também a
oposição à Criminologia Tradicional, de timbre positivista e conservador. Desde o período de
estagnação, em que apareceu o primeiro esboço da Criminologia Dialética subsiste, apesar
de tudo, o desbramento da produção mais comum dos criminólogos brasileiros, perante o
qual as idéias de Cirino me reconfortam, como esforço notável de questionamento. As nossas
sugestões são paralelas, solidárias e ans.
Criminólogos de vanguarda, consideramos a dogmática jurídica uma fatal obstrução (Lyra
Filho, 1980; 1980 B; 1981 B; 1981 C), e era constrangedor vericar que a Criminologia brasileira
se deixava car a reboque do Direito Criminal dogmático (Mestieri, 1972: 90-94). Campeava,
então, no Brasil, a atitude dogmática, e era no terreno jurídico-penal que surgiam obras de
mérito, erudição e preocupações positivas. Nestas, inclusive, medravam, apesar das limitações
do enfoque, os posicionamentos progressistas, oscilando entre um liberalismo avançado
e a aberta simpatia pelo socialismo, vale citar, a propósito, os ilustres Albuquerque Mello,
Fragoso, Mestieri, Nilo Batista e, mais recentemente, Juarez Tavares. É claro que menciono,
ao acaso, apenas algumas guras de respeitabilidade e proeminência incontroversas. Não
tenho a pretensão de organizar o rol completo dos melhores criminalistas nacionais. O meu
propósito é insistir em que a Criminologia não pode enfrentar essa plêiade, com sugestões
aproveitáveis, sem uma reciclagem, que procurei dar-lhe e na qual Cirino desempenha um
papel de relevo.
Acho, ademais, de justiça assinalar que os juristas mencionados, a título de exemplo
egrégio, revelaram, sempre, o maior interesse pela Criminologia, apesar de se prenderem a
outras tarefas, em virtude da própria formação, tendência e hábitos (Tavares, 1980: 5-6). Não
creio que as ressalvas honestas, por eles traçadas, dentro do círculo dogmático, pudessem
redimi-los da prisão voluntária, em que se connaram (Lyra Filho, 1980; 1980 B; 1981 B; 1981
C). Mas, em qualquer hipótese, cabia a nós, que militamos na Filosoa e Sociologia jurídica e
na Criminologia, avivar a dialética e instaurar a revisão antidogmática. Aliás, aqueles juristas
continuavam esperando e, eventualmente, chegando a solicitar é este o caso, por exemplo,
do eminente Fragoso (Fragoso, 1977:25) um subsídio criminológico e um diálogo aberto,
sem acharem resposta nos imitadores das velhas direções, que nada mais têm a dizer, em tal
confronto. Por isto mesmo, custa a descongelar-se a “questão criminal”, entre nós. Como se
não bastassem as diculdades gerais, resumidas por Baratta (Baratta, 1919), ainda aqui cam
os requintes idealistas da “teoria jurídica do delito” mal compensados por uma Criminologia,
praticada, em regra, segundo a inspiração dos positivismos superados.
A falência da Criminologia Tradicional é tão óbvia e retumbante que um dos seus mais
prestigiosos corifeus, no âmbito internacional, já se encarregou de decretá-la, sem rebuços:
“para resumir o que alcançamos, num século de pesquisa e debate, bastam poucas palavras:
o que propusemos nunca funcionou, e não sabemos por que” (Ferracuti, 1975:53). Somente
a Criminologia Crítica poderia oferecer a alternativa, mas foi precisamente esta que tardou a
manifestar-se no Brasil, em que pese uma voz isolada, a que Cirino traz, agora, o auspicioso
reforço. De fato, creio que é lícito registrar uma certa precedência histórica para a Criminologia
Dialética, talvez devida ao fato de que se inspirou, antes de tudo, na Antipsiquiatria (Lyra
Filho, 1967), sem dever nada ao movimento propriamente criminológico, depois ampliado,
no estrangeiro. Em 1967 e mesmo em 1972, quando iniciei e arrematei a minha proposta,
ainda não se tinham avolumado os surtos que Cirino registra (Cirino, 1981: 5). Lembra este que
“um dos primeiros estudos sistemáticos”, resultante do trabalho coletivo de Taylor, Walton e
Young, aparece em 1973, e que mesmo “a ruptura coordenada e coletiva com a Criminologia
Tradicional” (Cirino, 1981: 6) só em 1968 marca sua presença. Entre 1972 e 1974 é que se dá, em
todo caso, o “acontecimento crucial” (Cirino, 1981: 7), quando a Criminologia Dialética já estava
esboçada, pois a sua primeira publicação é de 1971, nas páginas da Revista de Direito Penal,
que celebrava o centenário hegeliano. Ali se oferecia o delineamento completo de uma nova
abordagem, ligada à práxis sócio-política e com todo o seu recorte voltado para o que hoje
se denomina Criminologia da Libertação (Lyra Filho, 1972: 121-124). Dialetizava-se o enfoque,
armando verdadeira “metadisciplina do Direito Criminal” (Ferracuti, 1975: 53), que pergurava
a reunicação das perspectivas jurídico-criminal e criminológica. E assim se concluía a aluição
do Direito Criminal dogmático, iniciada com o desmentido de seus princípios básicos, que
ocorreu no próprio seio da Criminologia Liberal (Baratta, 1979: 147-183).
A negação, segue-se a negação da negação, na etapa em que poderá surgir, sem dogmas,
2
C
i
ê
n
c
i
a
s

C
r
i
m
i
n
a
i
s
C
r
i
m
i
n
o
l
o
g
i
a


-

A
u
l
a

0
4
um Direito Criminal in eri ainda obstaculizado pelas resistências conservadoras e para o qual
a Criminologia Dialética desejaria oferecer um apoio, que remonta às perspectivas losócas
e sociológicas indispensáveis (Lyra Filho, 1972; 1975; 1981). Por outro lado, assim como a
Antipsiquiatria evoluiu, sobretudo com Basaglia, para a mais positiva Psiquiatria Alternativa,
a Anticriminologia (que se opõe aos endereços tradicionais) expunha, alternativamente, com
a Criminologia Dialética, o roteiro duma reconstrução. Deter-se no âmbito negativista seria
favorecer um anarquismo, que apenas traduz, com repercussão cientíca, o implícito estímulo
do niilismo sócio-político, já por mim denunciado em 1975, em Taylor, Walton e Young (Lyra
Filho, 1975: 29-57) e novamente combatido na Carta Aberta que dirigia a um colega brasileiro,
hoje radicado no Canadá (Lyra Filho, 1981).
A Criminologia Radical emergiu neste panorama, e foi por isto que não aceitei, sem
reservas, a denominação que se impôs. É certo que Cirino pretende atribuir-lhe o sentido de
uma descida às raízes (Cirino, 1981: 39), marcando, por outro lado, o que se lhe agura um
avanço, em relação às limitações, que aponta noutros modelos de Criminologia Crítica. Fico à
vontade para debater este ponto, uma vez que o ilustre colega me situa entre os criminólogos
“radicais” (Cirino, 1981: 123) e não me dirige, portanto, a censura voltada para certas teorias e
pessoas, que não teriam desdobrado, convenientemente, o impulso crítico.
Subsiste, porém, o desconforto que experimento, sob tal rótulo, pois o termo – radical
– é muito ambíguo, para não dizer visceralmente polissêmico. Pouco importa, é claro, que a
obtusidade conservadora chame de radical todo aquele que visa à substituição, mesmo por
meios pacícos, e até convencionais, da estrutura implantada (Lyra Filho, 1979: 16 ss). Com
isto, o conservantismo visa reprimir qualquer teoria e práxis progressistas, e é extremamente
honroso incorrer em tais iras reacionárias. Ocorre, todavia, que, no lado esquerdo, o
“radicalismo” pode signicar um posicionamento anarquista ou, em todo caso, o tipo da
“doença infantil”, que eu mesmo enfrentei, no Criminólogo da Carta Aberta (Lyra Filho,
1981). Considero isto um perigo para os nossos objetivos comuns e uma fonte de equívocos
políticos, principalmente em face do modelo de socialismo autogestionário, não “estatista”,
não burocrático, antes livre e respeitador dos direitos humanos, que defendo, com inspiração
na advertência solene de Bloch (Bloch, 1976: 13).
Mais grave ainda é o inconveniente que surge no próprio setor criminológico. Os esquemas
classicatórios da reação já adotaram, aqui, a etiqueta radical, para indicarem os anarquismos
e “esquerdismos” puramente destrutivos, tanto assim que os distinguem como “radicais” até
da Criminologia marxista... (Pinatel, 1980: 263; Szabó,, 1980: 22-23.)
Todavia, se tomarmos o “radicalismo” como uma descida às raízes, todo aperfeiçoamento
da Criminologia Crítica é, sem dúvida, um mergulho “radical”; e nisto Cirino e eu estamos
propriamente de acordo. Uma Criminologia Dialética, tal como preconizo, ou Radical, como
prefere ele, são esforços para consumar o impulso crítico, indo aos condicionamentos infra-
estruturais e denunciando as cções e paliativos de superfície, tanto quanto propondo a
Aufhebung, para não car na pura negação. Aliás, tive ensejo de insistir neste ponto, em
minha argüição, quando confrontava a obra anterior de Cirino Criminologia da Repressão
(Cirino, 1979) e, com ou sem ressalva do rótulo, a sua Criminologia Radical, mais recente
(Cirino, 1981).
Assinalei, então, que o parágrafo inicial e a conclusão 5ª da Criminologia da Repressão
(Cirino, 1979: 1-2; 115) pareciam condenar a ciência criminológica mesma, enquanto a
Criminologia Radical manifesta uma clara alternativa. Por outras palavras, deseja superar a
Criminologia Tradicional, e não destruir a ciência que praticamos. Como nota a eminente
Lola Aniyar, há espaço indiscutível para uma “Criminologia da Libertação” (Aniyar, 1981), e
este rótulo tem, para mim, conotações simpáticas, devido à proximidade com a Teologia da
Libertação, em que busquei paralelo para combater os dogmas dos juristas (Lyra Filho, 1980:
17-18; 21;42). Celebro, assim, como brasileiro, os movimentos de liderança, aparecidos no seio
do cristianismo nacional. Neste ângulo e sem prejuízo de qualquer eventual desconformidade
de táticas e objetivos “nais” (aqui, é claro, eu me rero ao modelo socialista democrático, do
meu compromisso político), estamos em aliança, numa frente única e ampla. Os “matizes”
a que acertadamente se refere a colega venezuelana, em nada obscurecem as “matrizes”
(Ayiar, 1981: 6). Cienticamente e em nosso terreno especíco de atuação, a matriz é mesmo
a Criminologia Crítica.
Mas, para atender melhor o que ela signica, enquanto nos opõe à Criminologia Tradicional
e seu positivismo, creio que é necessário remontar, brevemente, às origens da disciplina.
3
C
i
ê
n
c
i
a
s

C
r
i
m
i
n
a
i
s
C
r
i
m
i
n
o
l
o
g
i
a


-

A
u
l
a

0
4
Ninguém ignora que a Criminologia nasceu sob o comando da Scuola Positiva do Direito
Criminal e que destes primeiros ensaios advém todo o corpus teórico, servindo ao que, em
contraste com a atual Criminologia Crítica, já se designa como Criminologia Clássica (Mestieri,
1972). Assim também os positivistas chamaram de clássicos os próprios antecessores, na
ciência jurídica. O termo clássico refere, aí, o tradicional, o consagrado peço establischment,
o que já desempenhou seu papel histórico e que novos tempos e circunstâncias permitem
superar.
A Criminologia Clássica aparece, deste modo, em ns do século XIX e, à maneira das ciências
naturais e sociais, de que então se desgarrou como a Biologia, a Antropologia Física, a Psicologia
e a Sociologia, principalmente vai inserir-se no positivismo, à época generalizado, nos meios
cientícos. Todo este movimento participava da ideologia, então ainda hegemônica, do
assentado mundo capitalista.
O positivismo criminológico, entretanto, se tinha as mesmas raízes classistas do positivismo
legalista da “ciência jurídica” burguesa (Lyra Filho, 1980: 19 ss. e passim), cedendo as mesmas
conveniências, inuentes na teoria social da intelligentzia reinante, não pactuava, sem mais,
com os procedimentos de exegese, presos ao dogma da lei e do Estado e seus “entes jurídicos”
abstratos. Ao contrário, os positivistas criminológicos nutriram a sua polêmica de argumentos
até certo ponto antidogmáticos, ao menos na fase inicial da Escola Positiva, substituindo a
visão do crime, como criação legislativa, pela noção da criminalidade, como fato humano e
social; e desencadearam, assim, as técnicas de “defesa da sociedade”, no plano das medidas
“substitutivas”, com a “prevenção especial” do delito e os processos de “reeducação” do
delinqüente. Está visto que tal deslocamento apenas trocava a idéia de controle social
classístico, mediante formalismos jurídicos, pelo controle mais requintado e porventura (foi
a ilusão) mais ecaz, não abandonando o vezo ideológico de enxergar, na engrenagem do
Poder e na atuação da classe dominante, o veículo (assim disfarçadamente legitimado) da
reação contra toda conduta discrepante.
No positivismo criminológico avultava a inuência de Augusto Comte, seus discípulos
e sucessores (Lyra Filho, 1972A: 14-19; 35-37). E o pensamento de Comte não era menos
centrípeto e conservador. Em última analise, vinha a assegurar o processo de dominação
burguesa. Comte foi “uma espécie de Napoleão da Filosoa, para a denitiva ordem
(instituída) e progresso (dentro dessa ordem e segundo seus parâmetros e teleologias)” (Lyra
Filho, 1972A: 37). Assenta ele o cienticismo burguês.
Por isto mesmo, a rebeldia supercial da Scuola Positiva logo se acomodou, através
de expedientes ecléticos. De Florian a Grispigni, perdeu até o nome, pois este último já
preconizava um “novo endereço técnico-cientico”, de quase pura dogmática e total
capitulação ao legalismo. Bem se percebe, deste modo, que os dois positivismos legalista
e “naturalista comteano” eram conciliáveis, no seu teor básico. Juristas e criminólogos do
positivismo amalgamado poderiam, conseqüentemente, manejar, como alternativas, as
medidas do tecnicismo jurídico e do “naturalismo” criminológico. Assim nasceu o “duplo
binário”, chegando ao disparate de certas “soluções”, como a de, primeiro, “castigar” o “doente”
e, depois, tentar “curá-lo” (Fragoso, 1980: 206/7). De qualquer forma, o elemento repressivo
continuava a funcionar, seja na punição, seja nos provimentos “curativos” e “reeducativos”.
Não à toa a Criminologia Crítica é irmã gêmea da Antipsiquiatria.
Pena, defesa social, reeducação, prevenção geral ou especial, intimidação, retribuição e
medidas “assistenciais” enriqueciam a palheta, mas, ao m e ao cabo, destinavam-se à mesma
pintura.
De fato, no plano da investigação criminológica, a pesquisa, dita causal-explicativa, do delito
(considerado individual ou coletivamente nos ramos “clínico” e “sociológico” da Criminologia
Tradicional) lançava um dado aparentemente mais solto, na análise dos fenômenos criminais.
Todavia, o parâmetro utilizado não se alterava, substancialmente, já que a visão do crime
conservava a admissão de que o delito era denido, em todo caso, pelos Códigos ou por
outras normas sociais da classe dominante. O Estado subsistia, como um poder supostamente
isento, em todo o básico sentido de hegemonia do capital, espoliando a classe trabalhadora.
Neste panorama, uma reta colocação dialética não deve, entretanto, minimizar as
contradições, seja do próprio Direito estatal burguês, seja da doutrina criminológica e
penitenciária. Nisto, confundiríamos os esforços, por exemplo, duma vida à Concepcion Arenal
4
C
i
ê
n
c
i
a
s

C
r
i
m
i
n
a
i
s
C
r
i
m
i
n
o
l
o
g
i
a


-

A
u
l
a

0
4
com a perseguição de um Javert a todo Jean Valjean; e, ainda mais gravemente, caríamos
em queda no que até as posições originárias e ortodoxas do marxismo já viam como certo
mecanismo manifesto (Engels, 1977: 38).
Um grande entusiasmo em denunciar os condicionamentos classísticos e infra-estruturais
tangencia, no próprio Cirino e decerto contra as suas melhores intenções, a redução
mecanicista. Na sua Tese, o lado crítico nem sempre se volta para aquele fundamental
aspecto, cando mais preso à consideração sem dúvida relevantíssima do outro lado, isto é,
do que trai os interesses e conveniências da classe dominante. Devo dizer que encaro com
certa preocupação a ênfase excessiva, que se distrai das contradições, sobretudo quando
se volta para situações concretas e contribuições teóricas especiais. Talvez esteja aí a razão
da simpatia que Cirino demonstra, na Criminologia Radical, pelas colocações de Foucault.
Decerto, ele arrola Foucault entre os autores “idealistas” (Cirino, 1981: 61); mas, em seguida,
passa à resenha de Surveiller et Punir com o arroubo de quem vai saudar uma importante
contribuição teórica. Não haveria, nisto, uma incompreensão do próprio sentido da obra
focalizada? Foucault mesmo ressalva que, no seu livro, não está o enquadramento teórico do
estudo sobre as prisões, ali desenvolvido (Foucault, 1975:315, nota). Este deveria se buscado
em trabalhos anteriores (quanto à epistemologia empregada) e subseqüentes (no que se
refere à investigação histórica, intentada como preliminar). Ora, na epistemologia aplicada
não há traço que o salve do idealismo e, assim, se compromete a própria focalização especíca
do problema penitenciário (Coutinho, 1972: Gianotti, 1979; Gianotti, 1980). Quero dizer, com
isto, que, nada obstante agudas observações, chamentos e críticas do autor francês, o seu
esforço é, em última análise, em tese e em concreto, deturpado pala visão idealista, que advém
de variações prisionais ligadas a substrato incompatível com uma perspectiva “radical” dos
problemas. Nem me parece que a crítica de Melossi, esposada por Cirino, seja suciente para
compensar a superestimação do trabalho daquele ardiloso francês, pois, Melossi, o que vem
à tona é precisamente a tendência reducionista e mecanicista, com o vezo de “liquidar” toda
a evolução penitenciária, como se fosse apenas a expressão, em contradições, da dominação
classista. Entre o anarquismo de Foucault e o mecanicismo de Melossi, não vejo qualquer
avanço ou melhora.
É certo, porém, e nisto acompanho a posição de Cirino, que as projeções institucionais
hão de trazer o zelo da estrutura social implantada e segundo ela se enformarem, nas linhas
gerias. Da mesma forma, o positivismo criminológico, dando tais estabelecimentos uma
“justicação” defensista, que requinta e mascara a crueza do do “castigo”, transforma-se em
canonização indireta da repressão burguesa. Reeducação e defesa social desenvolvem teses
que agravam as coisas, na medida em que se concedem álibis teóricos e comodidades da
“boa consciência”.
Atribuir, como faz a Criminologia Clássica, ao comportamento desconforme no estalão
das leis ou das “normas de cultura” da classe dominante, um elenco de causas (ou, menos
rigidamente, fatores de propiciação), de natureza bio-psíquica ou “social” deixa intocados os
preceitos ditados pela dominação ilegítima (sem prejuízo das contradições emergentes).
Aliás, um certo “marxismo” positivista” não deixou de engolir gato por lebre. Se identicava
aquelas “causas” da delinqüência como determinações da miséria, da injusta repartição
de bens, até da propriedade privada dos meios de produção, olvidava, contudo, que a
criminalidade mesma das condutas é denida pela classe dominante, em forma que resguarda
os seus interesses e posição. Torno a acentuar, aqui, é evidente, as contradições, muito bem
destacadas na distinção de Roberto Lyra, pai, entre crimes de criação classística e “crimes e
perigo e dano comuns”, que, “mesmo numa sociedade estruturada em classes”, não estão
ausentes do elenco de tipicações legais (Lyra, 1948:15), Está visto, quanto a estes últimos,
que, então, reaparece o problema dos fatores, inclusive econômicos, de propiciação. De toda
sorte, o economicismo de Bonger (Taylor, Walton e Young,1973:222ss) ainda lembrava aquele
“socialismo de juristas” (juristas legalistas, entenda-se), que despertou o sarcasmo de Engels
(Engels,1980:3).
Em síntese, falar de causas ou fatores econômicos, omitindo (e, portanto, consagrando)
os condicionamentos econômicos da tipicação criminal da conduta, revertia, sempre, ao
positivismo, apesar das pretensões “marxistas”.
Em que pesem, torno a acentuar, as contradições da dominação classista (que ainda não
eram apontadas e exploradas, sequer na direção que hoje toma o “uso alternativo” do Direito
de Barcellona, com repercussão na Criminologia Sola, 1979:54), o parâmetro “ocial” da
estrutura podia absorver os reformismos de superfície, tal como a reeducação, em lugar do
5
C
i
ê
n
c
i
a
s

C
r
i
m
i
n
a
i
s
C
r
i
m
i
n
o
l
o
g
i
a


-

A
u
l
a

0
4
castigo, trocando a retribuição pela “defesa social”. Esta, assim, permanecia como defesa de
classe. Aliás, a mudança de cartas não afetaria as regras do jogo. Para este, as “mãos”, tomadas
com o idealismo dos rótulos, eram francamente intercambiáveis. Mais adiante, o esboço de
crise social, ameaçando o establishment, produziria um retorno de preocupações repressivas.
Reapareceu, conseqüentemente, o “castigo”, mediante incriminações especiais ou mais
violentas penas, assecuratórias dos abalados privilégios, da dominação.assim, o “liberalismo”
das cções educativas, sucedeu o valho esquema da porretada, com a histeria conservadora
a pedir sanções cruéis contr ao lumpen que ela própria gerara, na violência estrutural do
sistema. Na hora da escalada, rompem-se os esgotos sociais, as baratas e ratazanas invadem
as ruas e o burguês manipula o susto da pequena-burguesia, levando-a a berrar com ele o
“morra per ello” da mais antiga tradição absolutista e autocríticas (Lyra Filho,1972:22). Isto
visa, é claro, ocultar a violência estrutural.
Pouco importa que uma tradição positivista houvesse trocado as leis pelo “sentimento
médio de piedade e probidade”, como pedra de toque das licitudes ou ilicitudes criminais,
pois tal noção, manobrada pelos intelectuais burgueses, a partir de Garafalo (com baronia
e tudo), acaba conuindo nos critérios-gêmeos de incriminação. O “sentimento médio” é
moldado pela classe dominante, a mesma classe que produz as leis, no mundo capitalista.
A Criminologia veio, em conseqüência, presa, na origem, a uma espécie de idealismo
“reeducador”, “terapêutico” e “defensista”, como desdobramento da ideologia sociológica-
centrípeta do controle social conservador. Ele foi, apenas, transposto da Sociologia burguesa
(Lyra Filho,1980B:13) para a ciência criminológica nascente. Neste ângulo, de resto, é que se
entende a colaboração de Cirino, na sua Criminologia da Repressão, quando nega à “ciência
positiva” do crime o próprio status cientíco (Cirino,1979:115). Nada obstante, se quisermos
evitar todo maniqueísmo infradialético, em que aparece uma Ciência (a atual, a nossa) e
uma pseudociência (a antiga, a alheia), temos de convir em que o juízo puramente negativo
sobre a tradição criminológica, não só desdialetiza o enfoque, mas chega a manifestar
um evidente anacronismo. Não se poderia solicitar à visão dos precursores um horizonte
histórico não discernível, à altura em que trabalharam. Nem havia condições favoráveis
para a conscientização que lhes é cobrada. Por outro lado, a condenação, pura e simples, do
positivismo como ideologia, além desse pecado de inversão temporal, parece insinuar que
agora chegamos à verdadeira, exata e denitiva ciência, que basta aplicar, dogmaticamente
pois há o perigo de um dogmatismo neo-criminológico também. Nenhuma etapa cientíca
escapa a certo grau de contaminação ideológica e nenhuma delas se limita, relativisticamente,
a isto. Sempre se progride nas conquistas do que Scha denominou a “verdade-processo”
(Scha, 1970:69), sem atingir um “saber adulto”, que engendra todos os dogmas (inclusive os
do marxismo dogmático).
Antes de render-se ao fascismo da velhice, que lhe macula a biograa, Ferri pregava um
“socialismo de jurista” que, nada obstante as suas limitações desempenhou importante
função dinamizadora. Seu reformismo, é evidente, continuava preso à Sociologia “positiva”
(sobretudo na via do organicismo à Spencer). Mas ninguém poderá contestar-lhe, validamente,
certas contribuições importantes, desde a polêmica mantida com Lombroso, para negar a
tese do criminoso nato, até o esboço dos “fatores” e as sugestões da “saturação”, que iriam,
dali por diante, governar toda a Criminologia Clássica e, apesar da básica insuciência dessa,
emergir, transgurados, numa Criminologia Crítica e Dialética (Lyra Filho, 1975:29-57; Lyra
Filho, 1981).
Também a Criminologia Liberal, como já foi lembrado, cumpre uma etapa importante, no
desenvolvimento interno da ciência criminológica. Basta destacar, entre outros elementos,
a noção de white collar crime, que os nossos autores teimam em traduzir como “crime de
colarinho branco”. Isto, em português, simplesmente não tem sentido. O “colarinho branco”
designa aqueles empregados, que se distinguem dos que realizam trabalhos manuais e
portam uniformes, simbolizados pelo “colarinho azul” (blue collar). A partir desta indicação
semiológica, ina-se e cresce a separação, com base nas situações opostas de operário e
pequeno-burguês, tendendo, através do conceito de white collar crime, a designar certos
privilégios que principiam na faixa oscilante da “classe média” e terminam englobando a alta
burguesia. Por isso mesmo, prero abranger as modalidades abrangidas na expressão de
“crimes privilegiados”, que melhor indica o grau crescente de “consideração” e “imunidades”,
sejam elas legais, sejam consuetudinárias, até contra legem, dos não-operários ou não-
trabalhadores, no sentido classístico. A atenção dada a esse fenômeno por Sutherland
adquire muito mais relevo, na Criminologia Crítica do que a “associação diferencial”, isto
é, a tese criminológica (para ele) básica. Em qualquer hipótese, a Criminologia Crítica tem
6
C
i
ê
n
c
i
a
s

C
r
i
m
i
n
a
i
s
C
r
i
m
i
n
o
l
o
g
i
a


-

A
u
l
a

0
4
dedicado ? e com razão ? estudos avançados e aprofundados ao “crime privilegiado”. Assim
se estabeleceu o programa de pesquisa comparada na América Latina (Aniyar, 1978:89-102),
com o ramo brasileiro, projetado justamente por Cirino, que distingue o “falso colarinho
branco” da pequena burguesia e o “colarinho branco” propriamente dito, da “alta classe”
(Cirino, 1979A: 7ss). Sutherland mesmo não estava alheio a essa transposição do white collar,
da sua modesta designação pequeno-burguesa, para a vista assestada nos que manipulam
os cordéis de todo o sistema capitalista. É, de fato, a preocupação com o “crime privilegiado”,
que ascende à matriz dos mais “altos” privilégios.
Também o arremate da obra de Cloward & Ohlin, embora em perspectiva timidamente
neo-clássica, abre passo, no contexto liberal, à agudeza da critica à estrutura social, na
medida em que esta, criando obstruções à ascensão social das classes diatas inferiores, gera
a criminalidade convencional, sobretudo através do lumpen, por ela mesma produzido. Esta
particularidade da delinqüência, criada pela falta de “oportunidades”, não só desencadeou a
resistência conservadora muito sintomática (Göppinger, 1980: 62), mas também me permitiu
desdobrar as sugestões dos criminólogos americanos, em uma análise da problemática,
referente a drogas e criminalidade (Lyra Filho, 1976: 26 ss). Aliás, a disposição crítica, pelo
menos em Ohlin, era tão marcante, que dele pude receber a inesperada e reconfortante
aprovação do avanço, em carta cheia de simpatia e compreensão.
A rotulagem (labelling), cujo restrito alcance é corretamente acentuado por Cirino (Cirino,
1981: 19 ss), já assentava numa expressa adoção daquele modelo-conito, presente na
Criminologia Liberal sob o acicate da crise de estrutura da sociedade e, embora sem ameaçar
basicamente o modelo centrípeto-conservador (Lyra Filho, 1980B: 10-13), vinha revelando
todo o desconforto, ante a situação óbvia. Devido à supercialidade com que encara o conito
social, o modelo novo pôde ser inteligentemente cooptado por Dahrendorf. E a rotulação,
a ele vinculada, acabou descrevendo, sem explicar, devidamente, a “marginalização” dos
grupos oprimidos (que é preciso distinguir, nesta mediação, das classes espoliadas Lyra Filho,
1981C: 25). Entre estes grupos oprimidos estão aqueles cuja “marginalidade” não se prende,
em forma direta, à cisão classista. Miaille arrola, por exemplo, as minorias étnicas, regionais e
sexuais (Miaille, 1978: 123), que o sistema “condena” e cuja posição reprimida pode, inclusive,
subsistir, apesar da troca do modo de produção. Assim é que, mesmo em paises socialistas,
a “rotulação” prossegue e a repressão continua, ilegitimamente (a exemplo do que ocorre,
perante o machismo cubano, com a situação das mulheres e dos homossexuais; ou, no ante-
semitismo soviético, para as restrições de direitos do judeu, por ser judeu). Isto, é claro, não
afeta a pureza do ideal socialista, na medida em que aqueles socialismos autoritários revelam
a própria deturpação inadmissível. “Um socialismo autoritário”, como dizia Bloch, “é uma
contradição em termos” (Bloch, 1965: 231-232; Lyra Filho, 1981B: 9-11). A propósito, vejam-se
as justas ressalvas de Loney, quanto ao caso cubano (Loney, 1973: 42-60).
De toda sorte, a teoria da rotulação também não precisa ser abandonada, sem mais,
porque cumpriu e ainda cumpre (inclusive entre nós Misse, 1979) uma função útil de análise e
desmascaramento, sobretudo se enriquecia com os reenquadramentos mais precisos.
Não quero alongar o rol de exemplos, que visam, em todo caso, a sublinhar a minha visão
da marcha e superações da doutrina criminológica tradicional. Receio que, na demarcação
frisante das rupturas, o meu colega Cirino tenda, às vezes, a esquecer o lado positivo da
Criminologia Clássica e a tomar aquela superação, que intenta na Criminologia Radical, um
tanto ... “radicalmente”. Tem-se a impressão de que vai por terra, e de forma irremediável,
um passado, que a meu ver se cuida, mais exatamente, de transcender, incorporando-o,
transgurando-o e reenquadrando-o, na forma dialética de “negação da negação” e que
não é caso dum simples aniquilamento. Por outras palavras, além do perigo do mecanicismo,
ronda, no texto, o jogo, também arriscado, da “verdade” após o “erro”, assim como uma
espécie de ardente denúncia dos antecedentes, por uma fé muito vigorosa na “ciência”
imaculada que se segue à “pura” ideologia. Creio, ao revés, que ainda temos, na perspectiva
histórica, os sempre novos caminhos a trilhar e que a melhor convicção, em que estamos (e
na qual coincido, em larga parte, com a de Cirino), de todos os modos conduz a precários
resultados humanos. Quanto ao itinerário percorrido, cará empre alguma coisa que não se
reduz a “erro” e “ideologia” apenas, porém que se integra na busca da “verdade-processo” de
Scha, a que já me referi. Por isso mesmo, Ortega, numa de suas melhores páginas, aplica a
lição de Hegel ao exame, crítico da losoa de Kant, notando que “toda superação é negação,
mas toda verdadeira negação é conservação”. A partir daí, nota o pensador espanhol, é que
podemos “ser outra coisa, mais além” (Ortega, 1966, IV: 25-26).
7
C
i
ê
n
c
i
a
s

C
r
i
m
i
n
a
i
s
C
r
i
m
i
n
o
l
o
g
i
a


-

A
u
l
a

0
4
Um leitor malicioso poderia dizer, a esta altura, que escrevo uma espécie de prefácio à
obra de Cirino, com a preocupação mais constante de ressalvar as minhas divergências e que,
nisto, estou mais propenso a falar da Criminologia Dialética, de meu repertório, do que da
Criminologia Radical, da preferência do meu colega.
Antecipo esta intriga, destacando que ela é inteiramente falsa. Em primeiro lugar, não
somos, eu e Cirino, donos da verdade, a criticar todos os demais, numa dogmática pelo
avesso (isto é, à luz de outra dogmática), mas, ao invés disto, procuramos ambos o acerto,
dentro de nossas visões peculiares, como engajamento comum da lógica ontológica, que é
precisamente a dialética (Cirino, 1981: 129). Em segundo lugar, o meu estudo foi concebido
exatamente no padrão que me parece mais fecundo e adequado àquele compromisso: o
confronto de dois modelos da Criminologia Crítica, de evidente parentesco e estimulantes
características pessoais. É, por assim dizer, o relatório sobre a maneira de situar-nos, um e
outro, no cotejo fraternal duma só procura da “verdade-processo”. O admirável Gerard
Lebroun, da mesma forma, prefaciou, com todo o apreço merecido, a tese de Valério Rohden
sobre Kant, sem preocupar-se com “resolver”, em “acorde perfeito”, a mais moderna harmonia
do seu discurso.
E até assinalou: “eis que pareço pronunciar um requisitório contra Rohden sob o pretexto de
prefaciar o seu livro. Mas, juro, não é nada disto. Ao contrário, tento dizer o mais exatamente
possível que espécie de interesse encontrei em seu estudo” (Lebrun, 1981: 20). Registrar os
aporismos é também uma espécie de homenagem, e ela resulta de tipo superior; é mais sutil
e desembaraçada do que os améns e rapapés. Estes, no fundo, representam o que chamo
“política de galinheiro”, como se o panorama das idéias comportasse apenas um galo e a
opção fosse partir para a rinha ou adotar a posição de franga submissa.
Em todo caso, estamos rmes, dentro da Criminologia Crítica, naquilo que a distingue
do passado e tradição superados. E este posicionamento comum, já o disse noutra ocasião,
ca bem demarcado pelo critério sugerido por Chambliss: “o ponto de partida para o estudo
sistemático do crime não é perguntar” (como na Criminologia Clássica) “por que certas pessoas
se tornam criminosas, e outras não, mas indagar, primeiro, por que certas condutas são
denidas como criminosas, e outras não” (Chambliss, 1974: 7). Aborda-se, então, o que cava
omisso no positivismo criminológico, determinando as insuciências a que já me referi. Seja
qual for a modalidade da Criminologia Crítica, de que se cogite, no entanto, a característica
se mantém: é um questionamento do fenômeno da incriminação, como pressuposto e base
de toda análise das condições de emergência do delito, assim procurado em suas raízes
histórico-sociais. A este respeito, comungo com Cirino na excelente colocação que faz, nestes
termos: “a redenição do objeto cientíco da Criminologia” (que a meu ver, não se confunde
com uma denição apriorística, idealista e formal de crime, indicando, num elenco xo, cada
tipo “eterno” Lyra lho, 1981) “introduz um critério político no estudo da criminalidade (e das
formas de controle do crime), capaz de dotar a teoria criminológica da dimensão histórica
de seu objeto real”. Não se poderia dizer melhor; e nem vai nisto um simples relativismo
caótico, mas um posicionamento ante a questão criminal, em totalidade e devenir; isto é, no
contexto da situação histórica e nas transformações dos critérios de incriminar, que absorvem
a dialética dominação-libertação e, para a Criminologia da Repressão, oferecem alternativa
duma Criminologia da Libertação. Diga-se, de passagem, aliás, que não se trata de aniquilar
todo controle social ou de imaginar, niilisticamente, a mítica sociedade sem crime. Trata-se de
contribuir para a desideologização da teoria e a “desopressão” do controle social, entregue,
não a dominadores ilegítimos e, sim à própria classe ascendente e em vias de libertação.
É neste sentido que nos propomos o trabalho de intelectuais orgânicos do novo bloco
histórico.
Também sob tal inspiração carece de sentido opor prevenção geral e especial, punição
e defesa social, com medidas readaptadoras. Esta é uma antonomia idealista, e não uma
antítese dialeticamente superável. Porque o importante é notar a que serve o controle social:
às garantias da construção duma sociedade socialista ou à salvaguarda de uma sociedade
que se estrutura em dominação espoliativa. Numa comunidade socialista (reenquadraremos,
assim, a distinção de Tönnies), há sempre, a punição dos que atentam contra a sua legítima
organização, como deve existir (se a queremos legítima) a atenção aos direitos humanos,
sem os quais se desnatura o próprio socialismo. Punir ou reeducar, impor um justo castigo
ou defender a sociedade (e não a classe que espoliativamente a domina) são instrumentos
que só ganham sentido, quando situados perante o problema relativo à comunidade que os
empregue e seu grau de legitimidade. Isto, sem prejuízo, como nota bem Ernest Bloch, da
8
C
i
ê
n
c
i
a
s

C
r
i
m
i
n
a
i
s
C
r
i
m
i
n
o
l
o
g
i
a


-

A
u
l
a

0
4
questão jurídica (que às vezes confunde os pretextos de defesa socialista, em desnaturamento
autocrático do modelo, e as razões de uso do controle social para o socialismo, sem
desnaturamentos). “A dignidade humana é impossível, sem a libertação econômica, e esta,
acima de empreiteiros e empreitados de todo gênero, é impossível também, se desaparece a
causa dos Direitos do Homem. Esses dois resultados nas nascem, automaticamente, do mesmo
ato, mas reciprocamente se reportam um ao outro. Não há verdadeiro estabelecimento dos
Direitos Humanos, sem o m da exploração, sem o estabelecimento dos Direitos Humanos
(Bloch, 1976: 13). Mais do que isto: em relação aos sistemas socialistas implantados (Lyra
Filho, 1981 B; 8-11), nota Bloch que “depois de desaparecida a exploração e opressão dos
trabalhadores, os Direitos do Homem não são menos militantes; então, assumem signicado
mais positivo, enquanto direitos à crítica, inexoravelmente objetiva e prática, pelo avanço
da construção socialista, dentro do quadro de solidariedade; (...) sem ela, o socialismo seria
autoritário uma contradição em termos” (Bloch, 1965: 231-232).
Sobre tal pano de fundo é que se estendem os desdobramentos, em ciência criminológica,
do que chamo de Criminologia Dialética e cuja síntese de princípios atualizados se encontra
em recente obra, já citada (Lyra Filho, 1981). À sua luz, ademais, é que me cabe perquirir a
proximidade das minhas conclusões com as que Cirino propõe, na sua obra.
O miolo por assim dizer descritivo da Criminologia Radical, depois condensado nas conclusões
(n° 2) (Cirino, 1981: 124-125), pode ser traduzido, a meu ver, nos termos seguintes.
Dadas as relações de produção, o modo de produção, representando a infra-estrutura
social; dado o modo de produção, as classes, nele divididas; dada a dominação de uma classe,
a ideologia e as instituições, com seus aparelhos; dada a articulação das instituições, o Estado;
dado o Estado, o “Direito”, que exprime e resguarda os interesses e privilégios da classe
dominante; dado o “Direito”, como síntese quintessenciada de “tradição, família e propriedade”
(sobretudo a última, é claro), o Direito Criminal; dado o Direito Criminal, o processo e
julgamento e, no capitalismo, a prisão, a que praticamente só chegam as classes dominadas;
dada a prisão, como um microcosmo, espelhando o universo social da estrutura capitalista,
uma espécie de imitação interna das relações de classe, como os mitos da reeducação e
defesa social, em última análise disfarçando o castigo, que cai sobre o espoliado; dada tal
situação institucional, a cobertura ideológica, em que todas as criminologias, salvo a Radical,
constituem reforço e disfarce (consciente ou não) do mesmo processo de dominação.
Já armei, na argüição da tese, que estaria longe de negar que cada traço aplicado nesta
construção tem ponderáveis elementos conrmadores na realidade social. O que me afasta
do conjunto é o seu caráter unilateral e compacto, que parece não enxergar mediações e
contradições, pondo todo o justo fervor de denúncia numa simplicação infradialética do
processo.
Tenho, por exemplo, uma visão diferente, da colocação do fenômeno jurídico (Lyra Filho,
1981, 1981 A, 1981 B, 1981 C; Sousa Jr., 1981), que não posso desenvolver aqui, porém que ca
bem apartado do simples jogo de infra-estrutura-superestrura, no qual o Direito é reduzido
a um dos seus aspectos. Imre Szabó, o iurislósofo húngaro, chamou esta leitura reducionista
de “marxismo kelseniano”, de vez que, com a aposição “explicativa” da infra-estrutura,
camos dentro do formalismo jurídico-estatal, como se o Direito estatal fosse todo o Direito
e não o é; é, ao revés, cuido eu, a sua parte mais freqüentemente desnaturada, dentro do
processo jurídico, seja no desaçaimado domínio capitalista, seja na embriaguez do Poder,
em um socialismo, que, por isto mesmo, se tornou autoritário. Dentro daquela concepção
reducionista, não cabem as aquisições mais importantes do próprio marxismo atual, e cito,
como exemplo, além dos “iurisnaturalismos de combate”, como os de Bloch e Miaille, a
contundente observação (a meu ver exata) de Boaventura de Sousa Santos, mostrando que a
“metáfora topográca” (infra-estrutura superestrutura), pondo o direito apenas na segunda
parte, obscurece o problema da dualidade de poderes, perturba a estratégia socialista e não
capta, sequer, a melhor utilização não-burguesa da legalidade burguesa (o que Barcellona
denomina “uso alternativo”). Além disso, não favorece a reta “criação e expansão das instâncias
de legalidade socialista alternativa” (Santos, 1980: 247-248). Em síntese, espero, com vivo
interesse, o momento em que a obra de Cirino, até agora voltada para a crise da Criminologia
Clássica, incorpore ao seu instrumental teórico de superação a pluralidade de ordenamentos
jurídicos, que é a via adotada pela vanguarda sociológica e losóca-jurídica presente. De
toda sorte, a conclusão n°1, exceto se, por dialética, entendermos a infradialetização do
“marxismo preguiçoso” ainda exposta, sob tal rótulo, em obras soviéticas (Sartre, 1966; 48).
9
C
i
ê
n
c
i
a
s

C
r
i
m
i
n
a
i
s
C
r
i
m
i
n
o
l
o
g
i
a


-

A
u
l
a

0
4
Por outro lado, confesso que não entendo muito bem a razão de connar-se a Criminologia
Radical, enquanto ciência, àquelas superestruturas do capitalismo, como se os paises
socialistas, existentes ou que venham a fundar-se, não tivessem uma questione criminale.
E eles a têm, é indiscutível, não apenas como “remanescente” do capitalismo anterior. Esta
colocação, que debitava os “restos” à estrutura substituída, não é mais defendida, sequer,
na União Soviética (Lyra, 1966: 9). Sakharov mesmo volta, embora debite tal desajuste
(pressuposta, et pour cause, a perfeição estrutural e funcional da sociedade soviética o que
é uma premissa desaada pelos fatos) à consideração de que “a consciência do homem não
acompanhou a evolução das condições materiais” (Lyra, 1966: 9).
Eliminado este ângulo russo, há que convir, creio eu, em que o problema criminal não é só
uma questão de troca dos modelos e “correção” da infra-estrutura. Ele subsiste, e subsistirá
sempre, numa visão dialética, a que se poderia dar uma expressão sempre, mais ou menos
assim: nas sociedades (ou momentos da sua estrutura) em que o uxo histórico condiciona a
pressão reforçada do meio (espoliação de classes, opressão de grupos), cresce e se avoluma
o ângulo macro-criminológico e, de par com a proliferação violenta das normas sociais de
repressão da conduta desconforme, esta mesma conduta não pode ser analisada como se fora
( e não mais) uma emanação de fatores condicionantes ou causas individuais e biopsíquicas
(Lyra Filho, 1976). Ao revés, quando o avanço desafoga a pressão estrutural, em novas
conquistas da estruturação social mais avançada, o ângulo macro-criminológico tem menos
vigor condicionante e explicativo e revalorizam-se as condições pessoais do delinqüente ou
grupo de delinqüentes. Este, o motivo por que, em paises socialistas, onde, malgrado todas
as distorções autoritárias, houve um indiscutível progresso nas condições materiais da vida
popular, a atenção se volta, mais uma vez, para os fatores “clínicos” da criminalidade. E, da
mesma forma, quando estas mesmas sociedades socialistas manifestam mais intensamente
as suas contradições autoritárias e desvios antidemocráticos, retorna o pensamento crítico,
a indicar a pressão social, as incriminações ilegítimas e os fatores mesológicos fortemente
conducentes ao comportamento desaador, mesmo na criminalidade “convencional” (já que
estão presentes os dados de “enervamento” determinados pelo meio mais acre). Veja-se, a
propósito, o problema do alcoolismo e suas derivadas, na União Soviética. Essas transmutações
de foco logo constituem a expressão sociológica da anomia, feita por Adam Podgorecki, na
Polônia, e continuada na Inglaterra, quando se agravaram as tensões, no país de origem.
Em síntese e com respeito ao conjunto das conclusões da tese de Cirino, parece-me que
ela apresenta, saudavelmente, uma crítica embora algo compacta, simplicada e mecânica
da questão criminal (em teoria e prática), nas sociedades capitalistas em crise e decadência;
mas não funda uma ciência criminológica, dentro das características de universalidade,
totalidade e devenir, ao nível histórico em que captamos a “verdade-processo”. Esta carência
deriva-se, a meu ver, do fato de que se prende, com excessiva unilateralidade, aos esquemas
de um marxismo em vias da superação, que, de toda sorte, o conserva (dialeticamente) e
(dialeticamente) transgura, como uma conquista do pensamento humano, a ser tratada
com reverência algo menos sacramental. Aliás, isto seria, penso seu, o que Marx e até Engels
pediriam, pois já solicitei que me mostrem onde e quando algum deles condenou qualquer
tipo de “revisionismo”, que é conseqüência fatal de um ponto de vista dialético. Marx e Engels
começaram por ser (felizmente) os “revisionistas” de si mesmos, em diferentes fases da sua
construção e às vezes trataram até com rudeza os fãs mais ardosos e “incondicionais”. São
exemplo disto as cartas de Engels a Schmidt, reclamando novos estudos históricos e a noção
duma sociedade socialista, não como epílogo e solução estável de tudo; e mais: sem antíteses
polares, sem absolutos (Engels: 1975, 518, 519, 529). Neste ângulo, reconforto-me na conclusão
de Engels, a respeito de certa rigidez dogmática do que Lefebvre chamou “marxismo bruto”:
“para ela, Hegel não existiu ...” (Engels, 1975: 529).
Gostaria, entretanto, de ser bem compreendido, quando vou desenvolvendo à margem
das páginas, freqüentemente admiráveis, de Cirino as minhas dúvidas e ressalvas. Estes
comentários manifestam, antes de tudo, o meu grande respeito e admiração pela trajetória
ascendente do colega e pelo já considerável lastro que acumulou, em tão curto período. Se me
parece que A Criminologia Radical constitui um fruto ainda não totalmente amadurecido de
seu talento, é logo de se destacar, nele, a rara qualidade. Ademais, quando nos empenhamos,
anal, em posicionamentos concretos, o mais freqüentemente decrescem as reservas como,
por exemplo, no corretíssimo esboço duma política cientíca, em vista da nova política
criminal. Esta regressa na tese, a título de conclusão 8ª, ecoando o estudo anterior sobre
defesa social e desenvolvimento, justamente aplaudido nas Jornadas Latino-Americanas de
Defesa Social (México, 1979). Reporto-me, especialmente, aos parágrafos nais, muito bem
inspirados e muito precisos (Cirino, 1979 B: 31-32).
10
C
i
ê
n
c
i
a
s

C
r
i
m
i
n
a
i
s
C
r
i
m
i
n
o
l
o
g
i
a


-

A
u
l
a

0
4
Já estamos longe das promessas. Há realizações ponderáveis e continuo atento, para dar
ao jovem colega paranaense os novos testemunhos da minha admiração. Até me sinto como
tentado, em que pesem divergências menores, aqui lealmente arroladas, a repetir o que
atribuem a Verdi, perante Carlos Gomes: “questo giovine comincia dove nisco io”... No limiar
da velhice e das despedidas, é reconfortante saber que a Criminologia brasileira conta com
um lutador de tão excepcional inteligência, íntegro caráter e destacado ardor progressista.
Notas
1 Consultado em 30 de junho de 2005 no endereço eletrônico http://www.nplyriana.adv.
br/link_geral.php?item=geral15
11

You're Reading a Free Preview

Descarregar
scribd
/*********** DO NOT ALTER ANYTHING BELOW THIS LINE ! ************/ var s_code=s.t();if(s_code)document.write(s_code)//-->