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Controle do Tabagismo no Hospital Psiquiátrico

SIEXBRASIL: 17787

Área Temática Principal: Promoção da saúde e qualidade de vida Área Temática Secundária: Educação Linha Programática: Uso e dependências de drogas Autoria: Alda Martins Gonçalves – Coordenadora Flavio Cesar Rodrigues – aluno bolsista PBEXT Ângelo Andrade Pereira – aluno voluntário Edna Alves dos Santos – aluna voluntária Luisa Pereira Storino – aluna voluntária.

Instituição: UFMG/ Escola de Enfermagem/ Departamento de Enfermagem Aplicada Palavra-chave: Tabagismo

Introdução e objetivos: O presente trabalho é fruto do projeto de extensão: Controle do

tabagismo no hospital psiquiátrico. O projeto está sendo realizado no Hospital Psiquiátrico Galba Veloso da rede FHEMIG com o apoio do Programa de Bolsa de Extensão - PBEXT da Universidade Federal de Minas Gerais, com um aluno bolsista e três voluntários. Atualmente,

o tabagismo representa um grave problema de saúde pública, não somente nos países

desenvolvidos como também em países em desenvolvimento, como o Brasil. As evidências científicas, hoje, apresentam o tabagismo como uma doença gerada pela dependência à nicotina que obriga seus consumidores a se exporem a mais de 4700 substâncias tóxicas, e

consequentemente, ao risco de desenvolver agravos e doenças, limitantes e fatais como doenças coronarianas, hipertensão arterial, acidente vascular encefálico, bronquite, enfisema e cânceres. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), morrem no mundo cerca de 5 milhões de pessoas por ano devido ao consumo de tabaco, e caso não ocorra uma mudança de curso da exposição mundial ao tabagismo. Estima-se que o número de fumantes passará do ano 2000 a 2030 de 1,2 bilhões para 1,6 bilhões, e que o número de mortes anuais atribuíveis ao tabagismo aumentará de 4,9 para 10 milhões, sendo que 70% ocorrerão nos países menos desenvolvidos. No caso do Brasil, são 200 mil mortes prematuras que poderiam ser evitadas

se as pessoas não consumissem o tabaco (BRASIL, 2004). Em 1988, o Ministério da Saúde dos Estados Unidos publicou um amplo relatório sobre estudos que comprovaram a

capacidade do tabaco de causar dependência, levando assim a comunidade científica mundial

a reconhecer o tabagismo como uma dependência química (BRASIL, 2004). Vale ressaltar

que a elevada prevalência de fumantes no mundo deve-se principalmente à ação da indústria

do tabaco, que investe grandes quantias em promoção e propaganda de cigarros. Para se

manter viva, a indústria do tabaco precisa repor continuamente seu contingente de fumantes, fazendo dos jovens e adolescentes os principais alvos de suas campanhas promocionais. Outro ponto importante é que o tabagismo provoca enormes custos sociais, econômicos e ambientais

e segundo Brasil (2004) em países desenvolvidos, os custos relacionados aos cuidados com

doenças associadas ao tabagismo consomem de 6% a 15% do gasto total com saúde. Em todas

as faixas etárias, o custo médio com cuidados à saúde de fumantes supera o de não-fumantes. Quanto aos danos causados ao meio ambiente, destaca-se a poluição por pesticidas e

fertilizantes durante o plantio bem como as grandes áreas de desflorestamento necessário para

o plantio e a cura da folha de tabaco. Com a expansão do tabagismo, em países desenvolvidos,

maiores prevalências eram observadas entre pessoas de classes sociais mais abastadas. Pelo

menos em homens, sobre os quais há mais informações, essa situação foi progressivamente se invertendo, ou seja, pessoas de melhor situação econômica foram progressivamente abandonando o tabagismo e, atualmente, nesses países, a população de mais baixa renda e escolaridade encontra-se mais exposta. Na Noruega, por exemplo, enquanto a prevalência de tabagismo entre homens de alta renda diminuiu de 75% para 28% no período de 1955 a 1990, o declínio, nesse mesmo período, foi bem menor entre pessoas de baixa renda: 60% para 48%. (BRASIL, 2004). Segundo Inquérito Domiciliar sobre Comportamentos de Risco e Morbidade Referida de Doenças e Agravos Não Transmissíveis, realizado em 2002 e 2003, a prevalência de tabagismo entre pessoas de 15 anos ou mais, residentes em 15 capitais brasileiras e no Distrito Federal, variou 12,9 a 25,2%. Essa pesquisa constatou que a concentração de fumantes é maior entre as pessoas com menos de oito anos de escolaridade do que entre pessoas com oito ou mais anos de escolaridade. As mulheres apresentaram prevalência menor que os homens, em todas as cidades pesquisadas. Outra análise do tabagismo como problema de saúde pública deve incluir também os efeitos do tabagismo passivo. A exposição involuntária das pessoas à fumaça ambiental do cigarro aumenta o risco de câncer de pulmão, doença pulmonar obstrutiva crônica e insuficiência coronariana. É sabido que em crianças, aumenta o risco de sintomas respiratórios, episódios de asma, episódios de doenças respiratórias agudas, síndrome da morte súbita na infância e infecções de ouvido médio. Estudos sobre os efeitos na gravidez e feto mostram que o tabagismo passivo aumenta o risco de abortamento, de baixo peso ao nascer e de mortalidade perinatal. Segundo a OMS, são atribuídos ao uso de tabaco e seus derivados cerca de 4 milhões de mortes por ano em todo mundo. Para OPAS (2004) só no Brasil, 200.000 mortes por ano estão relacionadas ao tabagismo. Além disso, a ciência reconhece o tabaco como causador de mais de 50 diferentes doenças. Portanto, nos serviços de saúde deve-se evitar o uso de cigarros com o objetivo de proteger a saúde dos usuários e funcionários. Para isto deve-se tomar medidas como: restrição de áreas para se fumar, implantação de avisos a respeito da restrição, registro sistematizado sobre o consumo de tabaco nos prontuários e, principalmente, a conscientização de pacientes, familiares e funcionários a respeito da importância de se controlar o consumo de cigarro dentro de uma unidade de saúde. Existem causas associadas ao alto consumo de cigarros por pacientes psiquiátricos que devem também ser levadas em consideração para se analisar a importância desse controle. O fato dos pacientes, em tratamento em instituição psiquiátrica, estarem com freqüência ociosos contribui para o aumento do consumo de cigarros. Outro fator que estimula o uso do tabaco no hospital psiquiátrico é a nicotina provoca um relaxamento temporário, levando ao alívio do mal estar e do humor depressivo em alguns fumantes. Muitas outras explicações associam distúrbios psíquicos com o ato de fumar, a maior pré-disposição destes pacientes faz com que se tornem cada vez mais dependentes do cigarro e agravem seu estado de saúde. Entende-se que o “mau hábito” de não considerar o tabagismo como uma doença está arraigado no cotidiano desses hospitais, portanto tratar essa postura de forma crítica é um desafio educacional a ser enfrentado por meio da educação permanente dos profissionais. A mudança de visão dos profissionais do hospital a cerca do tabagismo é fundamental para que o paciente, seja cuidado com integralidade. Em 1993, a OMS incluiu o tabagismo no grupo dos transtornos mentais e de comportamentos decorrentes do uso de substâncias psicoativas na Décima Revisão de Classificação Internacional de Doenças (CID-10) (OMS, 1997). Não há muitos estudos publicados no Brasil quanto à abordagem do tabagismo em instituição psiquiátrica. Segundo pesquisa exploratória de literatura realizada por Rondina (2003), o tabagismo pode estar relacionado a quadros como depressão maior, onde existiriam quatro hipóteses que poderiam explicar tal fato: 1- “automedicação”, de sentimentos, de tristeza ou humor negativo; 2 - que a nicotina interfere nos sistemas neuroquímicos da acetilcolina, dopamina e norepinefrina associadas a circuitos neuronais responsáveis pela regulação do humor; 3-

relação entre tabagismo-depressão influenciando-se reciprocamente; 4- que o tabagismo teria algumas variáveis como fatores genéticos e psicossociais. Tais hipóteses apontam possibilidades de estudos e investigações, bem como de facilitar a compreensão para lidar com os fumantes, principalmente os doentes mentais. Nos Estados Unidos, em um estudo citado por Rondina (2003), entre os pacientes psiquiátricos houve uma prevalência média de 50% de fumantes. Dentre os esquizofrênicos a prevalência é de 70% a 80%. E na população geral essa taxa é de 25%. Tal estudo cita para pacientes esquizofrênicos que o hábito de fumar traz alívio para efeitos colaterais das medicações, reduza a apatia, o tédio e melhora os processos de atenção e concentração, além de diminuir as emoções da síndrome de abstinência da nicotina. A autora também faz citações de estudos que relacionam tabagismo e outros transtornos mentais, como transtorno de ansiedade, fobias e transtorno do pânico. Segundo De Boni (2003), em pesquisa realizada em uma instituição psiquiátrica de Porto Alegre revelou uma prevalência de aproximadamente 50% de tabagistas entre os pacientes internados. A proposta da enfermagem moderna é principalmente cuidar do ser humano de maneira integral. Para que essa meta seja cumprida uma das providências primordiais é garantir, dentro das possibilidades, condições ambientais para que o indivíduo possa recuperar ou manter a sua saúde. A partir desse princípio, estamos realizando o projeto de controle do tabagismo no hospital psiquiátrico. A visão da enfermagem fica comprometida em função da negligência que é tratada tradicionalmente a questão tabagista dentro das instituições psiquiátricas. Considerando o tabagismo como problema de saúde pública, sua relação com alguns transtornos mentais e a proposta da enfermagem moderna, o presente trabalho tem por objetivos: - caracterizar o paciente psiquiátrico internado e identificar a abordagem dos profissionais de saúde quanto ao uso do tabaco; - desenvolver e discutir a utilização de ações educativas, de sensibilização e de informação quanto aos danos do cigarro, envolvendo pacientes, familiares, profissionais da saúde, estudantes e funcionários do hospital psiquiátrico em questão. Metodologia: Trata-se de um estudo exploratório, descritivo orientado pela concepção teórico-metodológica da pesquisa qualitativa. Para caracterizar o paciente psiquiátrico e identificar a abordagem dos profissionais de saúde quanto ao uso do tabaco, foi feita à leitura de 236 prontuários de pacientes internados no mês de abril de 2005 coletando-se as seguintes informações: sexo, idade, escolaridade, profissão, atividade atual, procedência, diagnóstico mental e freqüência de internação, informação sobre o uso de tabaco, álcool e drogas ilícitas. Para conscientizar os pacientes e familiares quanto aos riscos do tabaco, foram realizadas ações educativas desenvolvidas pelos alunos participantes deste projeto. Levou-se em consideração a limitação dos pacientes, o interesse que as ações poderiam provocar e, principalmente, os benefícios para a saúde que as informações vinculadas pela atividade poderiam possibilitar. As atividades acontecem semanalmente com temas relacionados aos cuidados com a saúde, enfatizando o controle do tabagismo. As ações educativas foram realizadas em uma ala do hospital, escolhida aleatoriamente, utilizando como recursos estratégicos: - jogo recreativo/educacional de bingo. As cartelas do jogo foram criadas com números acompanhados de informações sobre os malefícios do tabagismo e vantagens de não fumar como forma de promoção a saúde. Foram realizadas também rodas de conversa, atividades artísticas e conversas individuais com os pacientes, com ênfase na promoção à saúde, abordando a prevenção do tabagismo. Para os profissionais está sendo elaborada uma atividade educativa na modalidade de oficina, cujo produto final esperado é a conscientização e a construção conjunta de estratégias a serem implantadas por esses profissionais, visando controlar o consumo de tabaco no hospital. Resultados e discussão: A análise dos dados obtidos dos prontuários da presente pesquisa revelou que 39,83% dos pacientes foram identificados como tabagistas. Levando-se em conta que o tabagismo ou não tabagismo não é registrado de forma sistematizada pelos profissionais de saúde, a realização de um levantamento epidemiológico dos fumantes e não-fumantes pode ser considerada pouco

fidedigna. Na amostragem pesquisada identificamos que 31,36% dos pacientes negam tabagismo e em 28,81% dos prontuários não há informações sobre o uso do tabaco, o que nos permite inferir que existe uma falta de conscientização por parte dos profissionais de saúde quanto ao controle do tabagismo. Vale ressaltar que nos prontuários pesquisados não se constatou abordagens sobre os malefícios e prevenção do tabagismo. Outro ponto importante percebido através da leitura dos prontuários é que não existe um consenso geral por parte dos profissionais de saúde quanto à definição do tabaco como uma droga. Essa situação é identificada em prontuários onde o profissional de saúde relata que o paciente é etilista e tabagista e que não faz uso de drogas, o que aponta uma concepção de drogadição voltada apenas para as drogas ilícitas. Os pacientes identificados como tabagistas são, em sua maioria, do sexo masculino, com uma média de 32 anos de idade, primeiro grau incompleto, com profissão, mas sem exercer atividades laborais, procedente da região metropolitana de Belo Horizonte, diagnóstico de transtornos mentais e comportamentais devido ao uso de álcool e em primeira internação. Em relação às ações educativas feitas com pacientes e familiares, obtivemos uma boa adesão por parte dos mesmos, mostrando interessados quanto ao tema trabalhado. As dificuldades para realizar tais ações são relacionadas às particularidades dos pacientes com transtornos mentais, tais como: vivência de delírios e alucinações, problemas relacionados à socialização e compreensão da realidade, diferentes níveis de capacidade de participação, interação e comunicação. No entanto, essas dificuldades não impedem a participação dos pacientes desde que considerada à singularidade e o momento da crise de cada um. Considerando a cultura do tabagismo enraizada na sociedade, sem resistência por parte dos profissionais de saúde, abordamos a questão do tabagismo de forma indireta, evitando a recusa por parte dos pacientes e dos familiares. As ações educativas buscaram conscientizar pacientes e familiares esclarecendo, discutindo e refletindo, sobre a importância da promoção à saúde e da prevenção de agravos relacionados à incorporação de atos saudáveis e riscos pelo uso do tabaco. Conclusões: O tabagismo dentro do hospital psiquiátrico é um problema arraigado na rotina de trabalho dos profissionais. A cristalização dessa cultura nas instituições psiquiátricas deve-se principalmente à tolerância a esse tipo de dependência química por se tratar de uma droga lícita. Outro fator importante é a associação com o poder de aliviar os sintomas causados pelos transtornos psiquiátricos. Por isso, os profissionais não dão a devida importância ao controle do tabagismo na instituição psiquiátrica. Considerando-se tratar de um hospital psiquiátrico, o diagnóstico de tabagismo não deve ser negligenciado e é relevante abordar o tabagista quanto aos malefícios e possibilidades de se evitar o fumo. Além disso, deve-se atentar que o tabagismo sem controle, no hospital, pode apresentar um risco ocupacional para os profissionais. Diante da análise dos registros nos prontuários, da vivência dos executores das ações educativas, da experiência junto à realidade do hospital, concluiu-se que o controle do tabagismo é importante para que a qualidade de assistência integral ao indivíduo seja respeitada. Efetivar essa proposta implica mudanças nas atitudes dos profissionais, na organização dos serviços e na sistematização da assistência. Para isso faz-se necessário investir na educação permanente dos profissionais da saúde e na manutenção de projetos de controle do tabagismo nas instituições psiquiátricas. Para que essa proposta seja efetivada, é preciso realizar um trabalho com todos os profissionais de saúde e demais funcionários das instituições psiquiátricas com o intuito de sensibilizar os mesmos quanto à importância da promoção à saúde e prevenção dos agravos provenientes do uso do tabaco. Por fim, vale ressaltar que este projeto continua em desenvolvimento, e a próxima etapa é a implementação de um programa de educação permanente e a participação ativa na elaboração de propostas para a reforma tabagista na instituição.

Referências Bibliográficas:

BRASIL, Ministério da Saúde. Secretária da Vigilância em Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Instituto Nacional de Câncer. Coordenação de Prevenção e Vigilância. Inquérito domiciliar sobre comportamentos de risco e morbidade referida de doenças e agravos não transmissíveis: Brasil, 15 capitais e Distrito Federal, 2002-2003. Rio de Janeiro:

INCA, 2004. BRASIL, Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Instituto Nacional de Câncer. Coordenação de Prevenção e Vigilância. Por um mundo sem tabaco: Mobilização da sociedade civil. 3. ed. Rio de Janeiro: INCA, 2004. DE BONI, Raquel e PECHANSKY, Flávio. Prevalência de tabagismo em uma unidade de internação psiquiátrica de Porto Alegre. Rev. psiquiatr. Rio Gd. Sul, dez. 2003, vol.25, no.3, p.475-478. RONDINA, Regina de Cássia, GORAYEB, Ricardo e BOTELHO, Clovis. Relação entre tabagismo e transtornos psiquiátricos. Rev. psiquiatr. clín., 2003, vol.30, no.6, p.221-228. ISSN 0101-6083.