Partidos e voto em listas Fábio Wanderley Reis A proposta do voto em listas partidárias tem suscitado reações em que o eleitor

aparece como sendo esbulhado, em benefício de oligarquias partidárias, do direito de escolher o candidato que quiser. Como em vários outros aspectos do debate sobre partidos, especialmente no atual descrédito da atividade política, há nessas reações equívocos importantes. Elas envolvem, em primeiro lugar, a idealização das relações entre eleitores e candidatos ou partidos. Idealmente, o que caberia esperar é talvez que eleitores adequadamente informados sobre a complexidade do universo sociopolítico, e sobre a maneira pela qual seus interesses (ou sua identidade) são afetados por ela, fizessem a escolha de seus representantes depois de avaliar, dentre a “oferta” variada de candidatos, quais são os que trazem propostas mais bem ajustadas àqueles interesses. Em princípio, seria possível sustentar que a escolha não teria sequer por que transitar pela mediação de entidades como os partidos. É fácil ver, porém, que essa mediação surge como resposta à necessidade de agregar e dar consistência à infinidade potencial de propostas (que se multiplicariam na proporção da multiplicação dos candidatos), até como condição de viabilidade eleitoral e da eventual presença das propostas preferidas pelo eleitor nas decisões do governo. Isso se relaciona intimamente com a questão da informação, pois, como a análise política aponta há tempos, os partidos operam como meio de permitir ao eleitor economizar informação. Em vez da necessidade de informar-se sobre as políticas que lhe convêm em inúmeras áreas de problemas, a identificação com um partido, supostamente distinguido por determinada orientação geral, permitiria ao eleitor delegar a ele as deliberações quanto aos diferentes tópicos específicos. Naturalmente, várias qualificações surgem aqui. Para começar, a identificação e a delegação podem dar-se em torno de pessoas (candidatos...), e não de um partido ou outro – o que pode tomar a forma de um populismo
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personalista, ou do que associamos com nomes como “cesarismo”. Além disso, há variações dramáticas, em qualquer país (embora mais em uns do que em outros), nos níveis de informação de que dispõem diferentes categorias de pessoas. Análises de dados coletados mesmo em um país economicamente avançado e de tradição democrática, como o Canadá (vejam-se, por exemplo, os trabalhos de David Elkins), mostram o conteúdo e as fronteiras do debate político a serem estabelecidos por minorias sofisticadas e informadas, enquanto maiorias apáticas e desatentas são manipuladas, na luta por cargos, dentro das fronteiras assim estabelecidas. Como é sabido, em países em que as maiorias desinformadas são mais numerosas, como o Brasil, não só é maior a tendência de que predominem as identificações de tipo personalista: mesmo as identificações partidárias que ocorrem no eleitorado popular raramente estão ligadas com a idéia de políticas a serem executadas em campos diversos, tendo a ver antes com percepções toscas como as que contrapõem “pobres” e “ricos” e se referem eventualmente, no máximo, a políticas passíveis de tradução imediata nesses termos. De todo modo, não cabe desqualificar percepções como essas como fundamento do estabelecimento de identificações partidárias relevantes – tanto mais, justamente, quanto maior a desigualdade e a consequente desinformação do eleitorado. E a singular combinação que o PT realizou, à parte a crise recente, entre o potencial de penetração populista da figura de Lula e o esforço de construção de uma instituição partidária efetiva, presumidamente guiada por orientações distintivas, exemplifica inegavelmente o modelo que caberia buscar: não só vinha ele sendo (e ao que parece continua a ser) o objeto de identificação estável de uma proporção singularmente ampla da população, em comparação com os demais partidos brasileiros, como tem sido o maior beneficiário do voto em legenda. Não admira que os outros partidos tenham acordado, nos últimos dias, para a possibilidade de que o PT fosse também beneficiado pelo voto em listas. Isso provavelmente não ajuda, em termos de jogo político, que o voto em listas seja implantado. Mas a meta é algo à maneira do que teve (tem?) de singular o modelo do PT, e é bom ter presentes algumas ponderações correlatas. Em primeiro lugar, a de que o efetivo enraizamento social de um
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sistema partidário, composto de partidos capazes de mobilizar eleitoralmente e de obter sustentação e eficácia governativa, é indispensável ao avanço institucional do país. Em segundo lugar, a de que isso depende antes de tudo, sem dúvida, da identificação psicossociológica (eventualmente ideológica, no melhor sentido da expressão) que ligue estavelmente o eleitorado com alguns partidos. Finalmente, a reserva de que, diante das deficiências da realidade, não há razão para abrir mão da ajuda que os artifícios legais podem trazer: não cabe simplesmente esperar que as coisas “decantem”, a longo prazo, na direção desejável. E propostas como as que nasceram da comissão de que Ronaldo Caiado foi o relator no Congresso (incluindo fidelidade partidária, voto em listas e financiamento público da atividade político-partidária e das campanhas) são sem dúvida merecedoras de muito maior atenção e discussão do que as que de fato receberam – certamente, quanto às listas, com o acompanhamento de dispositivos destinados a minimizar os perigos “oligárquicos”. No caso do financiamento público (com que as listas partidárias se articulam), a atenção se impõe até pela razão doutrinária de que, se conseguimos assegurar o direito igual ao voto, o peso da riqueza privada é um claro impedimento a que o direito de ser votado seja também garantido igualmente a todos.

Valor Econômico, 25/6/2007

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