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Como se deu o Processo de Utilização das Tintas Acrílicas no Brasil Resumo: Para a Conservação e Restauro é importantíssimo definir os marcos

artísticos e
estilísticos da Arte, para que a peritagem nas obras que intencionamos preservar seja correta. A linha do tempo da História da Arte Ocidental não coincide com as expressões artísticas desenvolvidas no Brasil e, embora esta se inspire em cânones internacionais, a adesão dos artistas aos novos materiais não se fez homogênio. O conhecimento do histórico dos aglutinantes e pigmentos, numa abordagem nacional, pode facilitar a definição de uma metodologia correta de intervenção. Este trabalho acadêmico pretende definir o porquê houve demora na aceitação das resinas acrílicas no Brasil no séc. XX, se os artistas europeus e norte-americanos já evidenciavam em suas obras as vantagens modernas deste material.

A tinta acrílica se caracteriza por ser uma emulsão plástica, solúvel em água, de ótima durabilidade, rápida secagem e ótima fixação. Em comparação com a tinta óleo, causa menos danos a saúde, já que não possui metais pesados na sua composição. A técnica proporciona aplicações de aguadas, velaturas e grossos relevos, sem a utilização de secantes. Também possibilita uma correção automática de erros, o que torna a técnica prática e atraente aos artistas contemporâneos. No entanto, em técnicas mistas onde se utiliza também a tinta à óleo, sua aplicação deve vir em primeiro lugar, pois, do contrário, não há fixação do pigmento. As resinas acrílicas para a pintura de superfícies foram desenvolvidas por volta de 1920, nos Estados Unidos1. Inicialmente, sua função era proteger as superfícies das máquinas industriais contra a corrosão. Posteriormente as tintas industriais2, foram incorporadas a Arte, ao serem aplicadas em murais externos3, valorizando sua durabilidade e economia. Estas vantagens seduziram pouco a pouco os artistas do segundo pós-guerra, que expressavam seu descontentamento com o mundo massificado e impessoal da Era Industrial. Nesta época, a herança das linguagens conceituais e os abstracionistas, formaram uma vanguarda já bem conceituada na Europa, tornando a Arte Contemporânea evidentemente multifacetada. A massificação e impessoalidade das cores ácidas, fluorescentes, brilhantes e de formas repetidas do Pop; a negação do figura nas abstrações, a grande importância do cromatismo nas geometrizações; a evidente valorização da forma sem qualquer simbolismo do Construtivismo...Primeiro, estas obras –definidas apenas pelos matizes de cores difusas ao acaso- utilizaram-se do óleo para exaltar a planaridade e o cromatismo de um quadro. Logo, inúmeros artistas adotaram as resinas sintéticas como forma de experimentação e explicitação do mundo tecnológico que viviam, afastando-se de vez das técnicas tradicionais de pintura. No entanto, nos anos de 1950, uma nova polêmica mundial surge a fim de rediscutir a linguagem plástica: aos olhos do observador as formas abstratas aparecem tridimensionais no espaço pictórico. Isto contraria a tendência bidimensional que inicialmente os artistas buscavam, porque valoriza a construção dos relevos formados na obra. Este impasse resulta numa “de-composição” da Arte, numa evidente valorização da obra como um objeto e suas matérias. Os quadros eram apenas “coisas” resultantes do trabalho industrial, que utilizavam elementos plásticos para evidenciar as suas estruturas de formas seriadas e geométricas (Concretismo).
1 Conforme informação obtida na Nova Enciclopédia Barsa, acrílico é o nome genérico dos derivados do ácido
acrílico (ácido orgânico etilênico), cuja fórmula espacial é CH2CHCOOH. O produto é incolor, corrosivo de cheiro forte, de forte tendência a formar polímeros e que quando aquecido em presença de substância alcalina se decompõe para formar os ácidos acético e fórmico. 2 A tintas industriais são aquelas à base de nitrocelulose, alquídicas e acrílicas. 3 Segundo Oliveria, 2007, p.127, Pablo Picasso e o muralista mexicano Alfaro Siqueiros já experimentavam as tintas sintéticas desde a década de 1920.

127) 4 Desde de 1922. essas produções nacionais não tinham uma homogeineidade na aplicação de tintas sintéticas: “Podemos citar. cuja composição exibe tons rebaixados.. em 1959. os intelectuais e artistas puderam se contrapor ao governo. Com as vanguardas mais aproximadas. A Arte Concreta brasileira surge. e sendo seguida pela arte concreta e neoconcreta. . Este sentimento também embala o campo da arte brasileira até o fim do Estado Novo. pois havia um otimismo por conta da modernização. concretos cariocas e paulistanos se dividiram: os primeiros pregavam a total abstração. a arte abstrata. naturezas mortas.127). as novas estéticas puderam renovar a arte brasileira. que mesmo atingindo grandes desenvolvimentos no país. e estimuladas pela elite intelectualizada4 que mudou a mentalidade reinante. Contudo. aos moldes internacionais. foscos e de cores acinzentadas. Mesmo unidos por um antinacionalismo.” Segundo a Enciclopédia Itaú Cultural os santelenistas foram imigrantes italianos. os outros valorizavam a forma. cujas obras evidenciavam os valores e os dissabores da modernização. experimentando mais consideravelmente as novas técnicas e os novos materiais. Na pesquisa. ainda nos artistas deste movimento se percebe um uso extenso das tintas a óleo e têmperas tradicionais. na utilização de materiais contemporâneos disponíveis. se percebe que o Concretismo e Neoconcretismo são os movimentos que introduzem de fato as tintas acrílicas no Brasil. Este positivismo só aumentou na década de 1940. conforme Oliveira (2007). o a pintura à óleo persistia: “[. p. pelo menos na intenção de representar temas sociais reais. retratos e auto-retratos. o neoconcretismo brasileiro surge. em meio a este contexto efervecente de desenvolvimento nacional. que ocupam os lugares públicos. fundamentais para a consolidação da Arte Moderna no Brasil. Deste racha. a elite intelectualizada tentava valorizar as produções artísticas nacionais. se entende a clara influência do Muralismo5..O conflito entre academicismo e vanguarda avança para a América Latina. não era um produto industrial. Entretanto. em 1946. a largos 40 anos. com a Semana da Arte Moderna. segundo Oliveira (2007. causado pela democratização. Voltando ao objeto desta pesquisa. que é a materialidade das obras. metropolização das cidades e a restituição das liberdades políticas. no entanto. Suas obras eram realistas. Mas. através dos artistas argentinos e muralistas mexicanos.” (p. no Brasil das décadas de 30 e 40. as únicas tintas para artistas que eram obtidas no país eram as tradicionais francesas e holandesas. mas um resultado criativo do artista. Este apego a realidade não era coisa comum no Brasil destes tempos. de tamanho monumental e caráter decorativo e/ou comemorativo. de temas que representavam paisagens urbanas. não se pode deixar de relembrar: as vanguardas internacionais já. que pintavam nas horas de folga. 5 O Muralismo é um movimento moderno que iniciou no México. na época da Revolução Mexicana (1910-1920) que exibia uma pintura realista. entram em choque com o academicismo brasileiro. Entretanto. as representações internacionais construtivistas exibidas nas exposiçôes do MASP em 1951 (1ª Bienal Internacional de São Paulo e Museu de Arte Moderna de São Paulo). A “forma” paulista exaltava a criatividade do artista. utilizavam o acrílico nas telas.] de acordo com relatos de artistas do grupo Santa Helena. e estabeleceu um forte nacionalismo no país.

Isto em parte é verdade. este preconceito. Por isto. o que dá a entender que após esta data o acrílico foi incorporado plenamente nas artes brasileiras. . analisando que na linha do tempo da História da Arte o descompasso existente não é considerável. que se arrastou durante todo o séc. até hoje a pintura à óleo é mais valorizada. há um preconceito com as obras produzidas em acrílico. mas até hoje. e ainda. XX. se os estilismos de vanguarda foram incorporados em âmbito nacional quase que paralelamente6.Se este intercâmbio entre artistas nacionais e internacionais existia desde 1922. a primeira pergunta que se faz é: porque o acrílico não foi aceito aqui no Brasil em conjunto com os respectivos movimentos que lhe valorizaram? As referências bibliográficas pesquisadas e citadas fornecem resultados até a década de 1960. então. a resposta para esta questão é uma conclusão lógica: nosso país tem forte raiz academicista. nem mesmo a tecnologia de hoje destituiu. E. É como se o aglutinante resinoso diminuisse o valor da criação. Referências Bibliográficas 6 Se usou a palavra “paralelamente” como força de expressão. se havia uma industrialização que possibilitava acesso a resinas modernas.

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