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PADRE FERNANDO AUGUSTO DA SILVA

DOS PtiQUEOLOGQS PORTUGUESES

FUNCHAL
KDI~&oM) AUTOR
1834
Cam6es e a Madeira
Trabalhos históricos do autor :

Ellicidário Madeirense-2 gr. vol.


(De colaboração com Carlos Azevedo de ~Menezes)

Paróquia de Santo António da Ilha da Madeira-1 vol.

A Lombada dos Esmeraldos na Ilha da Madeira-Um opúscuIo.

DlionBrio Corogrhfico do Arquiphlago da Madeira-1 gr. vol.

Camões e a Madeira

NO PRELO:
A Mocese do Funchal-(Subsídios para a sua história)

-
EM P R E P A R A Ç Á O :
A Antiga Escola ~ 6 d i c o - ~ i r d r ~ do
i c aFunchal-(Monografia histórica)

h t o l o g i a de Poetas Madeirenses (Séculos XVI a XIX), com notas criticas


e biogriificas.
PADRE FERNANDO AUGUSTO DA SILVA.
DOS ARQUEOLOGOS PORTUGUESES

A MADEIRA

FUNCHAL
EDIÇAO DO AUTOR
1934
COMPOSTO E IMPRESSO N A S OFICINAS
DO .DIARIO DA MADEIRAY, AVENIDA
no DR. ANTONIO JOSÉ DE ALMEIDA

FUNCHAL
AD VERTÊNCIA PRELIMINAR

Sendo esfe pequeno estudo, de ocenfuado feiçáo mo-


deirense, especialrnenfe destinado 6s escolos e ás classes
menos doufas da nossa ferra, não causará esfronhezo
que mencionemos a /qurnas por ficuloridodes de coroefer
literário e hisfórico, de fodo desnecessórius puro os pes-
soas de mediana culfuro e uersadus em matérias desfcl.
nofureza. Deixúrnos jó esboçudo o assunto nos co/unus
do <<Diário da Madeiro >>, o que ugoro damos maior loti-
fude e urna mais rigorosa coordenação, compofíoeis com
os escassos e/ernenfos de que é possíuel dispôr-se no iso-
/umenfo desfo ilha. O objecto deste ensoio, que porficu-
formente inferesso ò história do nosso arqc/ipé/ugo, é pelo
primeiro vez fraíodo, no seu conjunto, nesfas despreten-
ciosas póginos, aguardando-se quem mais pro ficien te-
menfe o gueiro fazer com o brilho e o desenuohimenfo
que o imporfancia do assunto está cerfornenfe o exigir.
Madeiro, Dezembro de 1934.
Comentários e interpretaçoss dos "Lnsíadas"
Os grandes poemas nacionais teem sido sempre
objecto de aprofundados estudos de interpretação e de
critica, e provocado também a elaboração de notaveis
trabalhos sobre os variados assuntos, que guardam com
essas epopeias uma mais íntima e próxima afinidade. As
obras escritas ácêrca da Divina Comédia, da Jerusalkm
Libertada, do Paraíso Perdido, . . . dos Lusiadas consti-
tuem ricas e copiosas bibliotecas, em que os trabalhos
de hermeneutica aplicados aos respectivos textos andam
a par duma exposição apa;atosa de carácter científico,
literário e artístico, despertada pela leitura ou análise dos
mesmos controvertidos textos. Foi por isso que a geogra-
fia, a história, a astronomia, a fauna, a flora.. . a medicina
relacionadas com a nossa chamada bíblia nacional, deter-
minaram o aparecimento, no nosso pais, de muitas e
valiosas monografiaq que teem imensamente contribuido
para um mais perfeito e completo conhecimento da obra
genial de Luís de Carnóes. No número dos interpretes e
comentadores, que vai desde o mais antigo, o licenceado
Manuel Correia, (1613), ate o mais recente de todos o
mais ilustre, o dr. Jose Maria Rodrigues, 6 longa a série
dos que afanosamente se consagraram ao exame paciente
das priginas camonianas, enriquecendo-as com nume-
rosas e eruditas anotaçóes e agitando ao mesmo tempo a
discussão de importantes problemas, especialmente sus-
citados pelos mais modernos trabalhos das ciências da
linguagem. Como e sabido, abundam os Lusiadas em
dificuldades provenientes de causas variadas manten- (11,

do-se ainda como insoluveis alguns interessantes assun-


tos, que talvez permaneçam eternamente sem obter uma
interpretaçáo satisfatbria ou ao menos uma explicação
plausível.
De alguns desses comentadores nos vamos em parte
servir, para o pequeno estudo que pretendemos realisar
&cerca das relaçóes que seja permitido aventar-se entre a
narrativa dos Lusiadas e a ilha da Madeira, fazendo um
rápido bosquejo dos assuntos, que se teem ventilado em
tomo dessas relaçóes e que particularmente interessam a
histbria do nosso arquipelago.

I- I

A Ilha da Madeira nos "Lnsíadas"


A estância 5.' do Canto v dos Lusiadas, que começa
pelas palavras-Passámos a grande ilha da Madeira-
forneceu assunto a variados comentiirios, que datam dos
princípios do século XVII e se estenderam ate a idade
contemporânea, como abaixo mais pormenorisadamente
se verá, sendo os versos 4." e 5." os que sempre ofere-
(i) V. *Li@o haugural da cadeira de estudos camoneanos...., 1925, pelo
dr. Jose Maria Rodrigues.
A ILHA DA MADEIRA NOS ~ L U S ~ A D A S ~

ceram um maior campo de análise para os críticos, que


tentaram a sua mais perfeita e rigorosa interpretaçáo.
Algumas interessantes questões de feição filológica e
histórica se debateram a propósito dessa interpretação,
divergindo bastante as opiniões dos autores, não che-
gando a apurar-se um conceito unanime e conforme entre
os diversos comentadores da jai famigerada estrofe.

O ilustre camonianista dr. José Maria Rodrigues, ao


interpretar o sentido das primeiras doze estâncias do
Canto v dos Lusiadas, em que Camões nos dá uma nar-
ração sumária da primeira viagem marítima á índia, sus-
tenta que o poeta faz menção de duas rótas distintas,
embora entrelaçadas, sendo uma de Lisbôa ás Canárias,
em direcçao ás ilhas de Cabo Verde, e outra de Lisbôa á
Madeira, com rumo ás mesmas ilhas. Desta opinião di-
vergiu o distinto almirante Gago Coutinho, o que pro-
vocou uma larga discussão, a que adiante se fará também
mais desenvolvida referencia.

Os medianamente versados na obra camoniana sa-


bem que já muito se tem escrito acêrca da suposta
<<situaçãogeográfica. da Ilha dos Amores, descrita nos
cantos IX e x do imortal poema. Embora a maioria dos
autores mantenha a opinião de que o poeta, criando um
episódio de pura ficção, não <<localisou>>
a fantasiosa ilha
em nenhum ponto da róta seguida pelo Gama, e todavia
certo que graves e autorisados escritores afirmam que êle
tomou algumas das ilhas oceanicas como rnodêlos para
aquela conhecida narração poética, não faltando quem
houvesse indicado a ilha da Madeira, como elemento de
inspiração para essa mesma narrativa.

Em vários lugares e especialmente na estância 28."


10 C A M ~ E ES A MADEIRA

do canto IX, refere-se Luís de Cambes em termos pouco


lisonjeiros aos governantes da kpoca, em que alguns
teem visto uma acre censura aos irmãos Câmaras e de
modo particular ao onipotente ministro Martim Gonçalves
da Câmara, natural da Madeira e filho do quarto capitão-
donatáirio do Funchal.
Pelo que se deixa rápidamente exposto, deve inferir-
se que as relaçdes de próxima afinidade, que porventura
se possam estabelecer entre a Madeira e a epopeia camo-
niana, ficam reduzidas a estes quatro pontos principais,
que sumáriamente explanaremos em capítulos subse-
quentes :
I .*-Interpretação da conhecida estância 5." do Can-
to v e particularmente dos versos 4.0 e 5.0;
2."-Polernica suscitada entre o dr. Jose Maria Ro-
drigues e o almirante Gago Coutinho acêrca da única ou
dupla rbta, descrita por Camaes, desde Lisboa ás ilhas de
Cabo Verde ;
3."-Hipotetica localisaçáo ou situaçdo geográfica
da chamada Ilha dos Amores ;
4."-Supostas ou verdadeiras censuras dirigi das
pelo poeta aos ilustres madeirenses Luis e Martim Gon-
çalves da Câmara.

Interpretatoes da Estância 5." do Canto V


dos "Lusíadas"
E sabido que Vasco da Gama, depois duma longa:
derrota, aportou ii cidade de Melinde, na costa oriental
de Africa, onde foi bem acolhido pelo rei daquelas para-
INTERPRETA ÇÕES DA EST. $.a DO CANTO V 1I

gens, tendo este rogado ao chefe da expediçãio que lhe


fizesse uma narrativa circunstanciada das terras de Por-
tugal, da sua história e da arriscada viagem que tinham
empreendido. Camões põe na boca do Gama uma admi-
rável descrição do nosso país e da nossa história nas
eloquentes e formosas estrofes, que se alongam pelo se-
gundo, terceiro e quarto cantos do poema. Prosseguindo
essa narrativa no canto quinto, nêle se inicia propriamente
a descrição da celebre viagem, e depois de referir-se ao
desaparecimento da foz do Tejo, da serra de Cintra, das
terras da Mauritânia e da entrada no largo oceano, con-
tinúa deste modo a bela narração :
Passámos a grande ilha da Madeira
Que de muito arvoredo assim se chama;
Das que nós povoámos a primeira,
Mais célebre por nome que por fama.
Mas, nem por ser do mundo a derradeira,
Se lhe avantajam quantas Vénus ama ;
Antes, sendo esta sua, se esquecera
De Cipro, Gnido, Pafos e Citera.

I verso : Pandmor a grande ilha da Malein -Parece que o


.O

verbo passamos, saído dos lábios de Vasco da Gama na1


sua fala ao rei de Melinde, não corresponde a realidade
dos factos, figurando ali apenas como uma liberdade poé-
tica, destinada a pôr em relevo a importância, que já então
tinha a Madeira, e a encarecer a grandeza dos nossos
descobrimentos, de que a mesma ilha fora o brilhante e
auspicioso inicio. E com efeito o reconhecimento deste
arquipelago era o grande padrão irnorredouro, que ver-
dadeiramente marcava o comêço da nossa odisseia de-
navegantes. Antes dos portugueses apartarem a. estas
plagas ignoradas, realisaram, por certo, empreendimentos
arrojados, mas quási de todo infrutiferos, e sdmente de-
pois disso 6 que descobriram os Açores, a Guine, Cabo
12 CAMÕES E A MADEIRA

Verde, S. Tomé e Príncipe, Angola, Cabo da Boa Espe-


rança, a índia, o Brasil e essa infinidade de ilhas dispersas
na vastidão do Atlântico e do Pacífico. Não deve, pois,
ser motivo de estranheza que Camões, fazendo poesia e
não escrevendo história, se referisse desvanecidamente,
por aquêle motivo, a passagem da armada pelos mares
que banhavam as costas da Madeira. Cingindo-nos a le-
tra dos cronistas e dos seus mais autorisados intérpretes,
teremos que admitir, com grandes probabilidades de cer-
teza, que a frota capitaneada por Vasco da Gama não
avistaria o arquipélago madeirense, navegando a uma tão
consideravel distância, que nos leva a excluir a ideia
.expressa no primeiro verso da estrofe que fica transcrita.
<< . . . grande ilha da Madeira.-É evidente que o qualifica-
tivo não póde referir-se a área ou extensão territorial da
Madeira, pois que qualquer das ilhas de São Tiago, São
Tomé, Príncipe, etc., tinha uma mais dilatada superfície.
Apesar de haver apenas setenta anos que se iniciaram os
trabalhos da colonisação e ainda das dificuldades resul-
tantes da falta de suficiente número de povoadores e de
outros indispensáveis recursos para se empreender uma
larga exploração agrícola, é todavia certo que a Madeira,
por fins do século xv, atingira já um extraordinário grau
de desenvolvimento e de prosperidade, devido particular-
mente a vitalidade da raça, a feracidade do s61o e a beni-
gnidade do clima, sendo de modo especial as culturas da
cana sacarina e das videiras, com os seus correlativos e
preciosos produtos, os factores que mais contribuiram
para essas notáveis prosperidades. Era então a Madeira
o mais importante empdrio comercial que se formara nos
nossos dominios ultramarinos e tambem um apetecido
ponto de atracção para muitos nacionais e estrangeiros,
que aqui encontravurn condições favoraveis para o exer-
cicio da sua actividade e aptidões. Ao tempo, era tarnbem
I N T E R P R E T A Ç ~ E SDA EST. 5.a DO CANTO V 15

o Funchal um centro de convergencia para grande nu-


mero dos que se entregavam 6s aventuras e explorações
marítimas, tornando-se uma verdadeira escola de nave-
gação e onde se podiam colher as mais seguras informa-
çóes ácêrca dos mares, ilhas e continentes, que muitos
pretendiam avidamente devassar e entre os quais poderá,
porventura, contar-se o ilustre descobridor do Novo
Mundo. Por estas apreciaveis circunstancias, que ficam
ligeiramente indicadas, não é para admirar que o poeta
chamasse grande a ilha da Madeira, pois na verdade e
com inteira justiça o era, comparada com os nossos res-
tantes domitiios coloniais.

2.0 verso :Rue do muilo aplroredo assim se chama.-O nome Ma-


deira dado a esta ilha pelos primitivos povoadores tira
sua origem da rica e luxuriante vegetação que a cobria
em toda a sua superficie. O abundante e gigantesco arvo-
redo, que tanta admiração despertou nos primeiros nave-
gantes que aqui aportararn, estendia-se em floresta cer-
rada desde as orlas do Oceano até os píncaros das mais
elevadas montanhas. É o que pode lógica e imperiosa-
mente deduzir-se das antigas crónicas, da tradição local
e ainda do testemunho e da observação de muitas gera-
çbes conservados em vários monumentos escritos. Gaspar
Frutuoso, o ilustre historiador das ilhas, diz que o pri-
meiro capitão-donatário lhe pôs êsse nome <<porcausa d o
muito espesso e grande arvoredo de que era coberta e
ser toda cheya de infinidade de madeira.. A este propó-
sito faz Pinheiro Chagas uma pergunta, que não deixa de
ser judiciosa mas que náo invalida a razão de ser daquela
denominação. <<Eraêsse nome que mais naturalmente lhe
ocorreria ? Quando o termo madeira designa especial-
mente os troncos de arvores já derrubadas e preparadas
para usos próprios, náo era estranho que fosse esse nome
que servisse imediatamente a Gonçalves Zarco para de-
signar a ilha, em vez de ilha do Arvoredo, ilha das Flores,
ilha das Matas?.
(<Ehavia tanta quantidade de madeira tão formosa e
rija, continúa Frutuoso, que levavam para muitas partes
c6pia de tábuas, traves, mastros, que tudo se serrava
com engenhos em serras de água, das quais ainda hoje
(1590) ha muitas da banda do norte da mesma ilha; e
neste tempo, pela madeira, que dahi levavam para o
Reyno, se começara com o fazer navios de gávea e cas-
tello d'avante, porque dantes náo os havia no Reyno,
nem tinham para onde navegar, nem havia mais navios
que caravellas do Algarve e barineis em Lisboa e Porto..
E o visconde de Santarem, citado por Pinheiro Chagas,
afirma <<quea madeira transportada a Portugal . . . princi-
palmente da ilha da Madeira fora em tanta quantidade,
que a sua abundancia fizera mudar o systema de cons-
trução dos predios urbanos, augmentando os andares,
elevando assim as casas, substituindo-o por esta sorte ao
romano e árabe, que ate então provavelmente se usavam.
Para o desbravamento das terras virgens e cultura
das glebas impunha-se absolutamente a destruição par-
cial desse arvoredo, que cobria as vertentes e encostas
susceptíveis duma imediata exploração agricola. Embora
o incendio ateado para êsse fim, não atingisse as propor-
ções que João de Barros lhe atribui, e no entretanto indu-
bitavel que destruiu uma parte bastante consideravel das
florestas, obrigando até muitos dos primitivos colonisa-
dores a buscar refugio a bordo das caravelas contra o
alastramento e violencia das chamas.

3: verso :*!a$ due ok povoamor a primeira. - Ao repetir-se


a&da mais uma vez que a Madeira foi a primeira terra
povoada pelos portugueses nas novas ilhas e continentes
I N T E R P R E T A Ç ~ E SDA EST. 5.a DO CANTO V 15

que descobriram ou conquistaram, bom é lembrar, com


legítimo e patriótico orgulho, que Portugal iniciou aqui a
sua obra grandiosa de maior colonizador de todos os
tempos e lugares, constituindo o facto um dos aconteci-
mentos mais brilhantes e assinalados da nossa história.
Deve fixar-se o comêço da colonizaçáo madeirense nos
primeiros anos do segundo quartel do século XV, segundo
se depreende duma carta de doação, feita pelo infante
D. Henrique a Ordem de Cristo e datada de 18 de Se-
tembro de 1460, em que se leem estas palavras: .co-
mecei a povoar a minha ilha da Madeira averá ora trinta
e cinco anos, e isso mesmo a do Porto Santo, e deshi,
proseguindo, a Deserta, das quais ilhas que assim edifi-
quei e novamente achei.. .>>. Como já ficou referido, os
primeiros trabalhos de povoamento, com a correlativa
exploração das terras incultas, desenvolveram-se rápida-
mente, e em breve se criaram as importantes industrias
do fabrico do açucar e do vinho, exportação de madeiras
e de outros produtos agrícolas, etc., que desde logo
constituiram apreciaveis elementos de riqueza e prospe-
dade para os nascentes povoados. Nos fins do séculÓ xv,
existiam já neste arquipélago tres vilas e dez freguesias
social e legalmente organisadas, sendo nos princípios do
século seguinte criadas a cidade do Funchal e as vilas de
Santa Cruz, Ponta do Sol e Calhêta.

4: verso :!ais télebie por nome que por lama.-É um dos ver-
sos de mais difícil interpretação da estrofe que estamos
analisando e talvez ainda de todo o poema. Ha três sé-
culos que vem sendo objecto de aturado estudo por
parte de distintos homens de letras e 'continua a oferecer
a critica mais esclarecida fundas divergencias de inter-
pretação, segundo o criterio individual de cada comen-
tador. Esse verso estará porvenhira incorrecto, conforme
16 CAMÕES E A MADEIRA

já lembrou um crítico distinto, tendo escapado um êrro


a correcção das provas de imprensa feita pelo próprio
poeta? 6 possível.
Faltando-nos autoridade para emitir um juizo seguro
Acerca deste controvertido assunto, vamos limitar-nos a
reproduzir a opinião de vários intérpretes, deixando ao
leitor a faculdade de adoptar o parecer que julgar mais
conforme à razão e ao bom senso.
O licenciado Manuel Correia, contemporâneo e a-
migo de Camóes, foi o mais antigo comentador da epo-
peia camoniana e o primeiro que interpretou aquêle
conhecido verso, na obra intitulada Os Lusindas do gran-
de Luis de Camóes, principe da poesia heroica, comen-
tados por.. ., publicada póstuma no ano de 1613. E da
ediçao de 1720, que textualmente transcrevemos as suas
palavras ;-<<Isto se ha de declarar desta maneira : a ilha
da Madeyra he mais conhecida pelo nome que pela obra,
porque sendo conhecida no mundo por este nome de
Madeyra, huma das cousas de que tinha maior falta aol
tempo que o poeta escreve0 estes cantos, era a madeyra
pelo fogo de que acima tratamos. Hoje sabemos por in-
formaçáo certa de pessoas da ilha ter madeyrav-Trata-
se dum breve e pobre comentário, em que o rigor da
interpretação, a correcção da linguagem e ainda a verdade
histórica deixam bastante a desejar.
Socorrendo-nos do depoimento do ilustre camonista
dr. José Maria Rodrigues (Fontes dos Lusiadas, a pg. 96
e 635) podemos citar a opinião de Manuel de Faria e-
Sousa, um dos mais autorisados comentadores dos Lu-
siadas, que referindwse ao verso-Mais celebre por nome
que por fama-afirma, na edição do poema de 1639, que
aêsse verso deve ser incluido no número dos que estão á
espera de quem os explique>>.Sem ser uma interpretação,.
constitui no entretanto um juizo prudente e talvez o mais
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acertado que se possa emitir sobre este debatido assunto.


Inácio Garcês Ferreira, acreditado embora severo
intérprete dos Lusiadas, na sua ediçao comentada do
poema, que publicou no ano de 1731, dá-nos daquela
passagem uma sibilina explicação, que transcrevemos na
integra : <<Maiscélebre por nome que por fama. Porque
sòmente teve fama, isto he, divulgamento, depois que
teve nome, he mais celebre por este que por aquella.
Alguns dizem que esta foi huma das ilhas de Juno; e
poderá ser que a esta aludisse o Poeta, querendo dizer,
que por este nome, ou titulo he mais celebre, que pela
fama, ou positiva noticia della; o que náo parece invero-
simil, pois lhe contrapõem as ilhas de Venus..
O breve comentário do ilustre filblogo e considerado
interprete dos Lusiadas, Epifânio da Silva Dias, 6 assim
-concebido: <<Osdois últimos versos da estrofe mostram
que o sentido 6, que a ilha da Madeira era sim já co-
nhecida de nome em grande parte da terra (<<Nomejá
muy celebrado e sabido por toda a Europa e assi em
muitas partes de Africa e ~ s i a(como diz Barros I, 3);
-porém não gosava, na literatura, da celebridade que tinha,
por ex., a ilha de Chipre: nicht hech beriihrnt zwar, aber
weit bekanntt (Storck)..
Francisco de Sales Lencastre, que tambem goza de
bons creditos como anotador do poema, diz que a ailha
era memorada pelo nome, que lembrava os antigos e
opulentos bosques ; não havia factos hist6ricos 18 passa-
d o s de fama e glória..
O ilustre humanista António Jose Viale, na sua Se-
lecta Camoniana, dh-nos uma interessante explicaçao do
quarto verso desta estancia, que é ao mesmo tempo uma
verdadeira apologia das belezas da nossa terra: .Talvez
-o poeta tenha querido dizer que a ilha da Madeira era
ainda melhor, mais deliciosa, em realidade, do que a fama
18 CAMOES E A MADEIRA

a apregoava.. Compartilha desta opinião o distinto co-


mentador Artur Viegas, na sua edição dos Lusiadas, pu-
blicado ha poucos anos.
Para o final das interpretaçbes apresentadas acêrca
desta táo descutida passagem do poema, reservámos a
opiniáo do abalisado camonista dr. José Maria Rodrigues,
trasladando-a qudsi integralmente neste lugar, apesar da
sua extensa0 e das discordancias que tenha suscitado
(Epif. 1910, 1-270), em vista da grande autoridade que
nestes assuntos tem o ilustre aca'démico e ainda do inte-
resse. que a sua opiniáo pode incontestavelmente oferecer
aos estudiosos.
.Mais &lebre por nome que por fama. Como expli-
car este Último verso, se <<nome.e <<fama>> são sinónimos
e como tais os emprega Camóes em mais de um lugar ?
O Iinico meio de a tornar inteligivel é admitir que o
poeta escreveu

.Mais cblebre por nome e pela fama*

devendo alem disso o N a . final do verso anterior repetir-


se antes de dMais>>;a Madeira 6 a primeira das ilhas que
n6s povofimos e destas a mais celebre por nome e por
fama.
~Desenvolvarnosestes pontos.
a) I? uma particularidade estilistica de Os Lusiadas,
de que ali4s nao faltam exemplos no Palmeirim, etc., o
emprego de duas e sls vezes mais palavras sinónimas ou
de significaçáo próxima, com o fim de reforçar o conceito
que se quer exprimir ou, muitas vezes, por conveniencia
da - metrica. Exemplos de verbos : .amostra e avisa *
(VIII-4); apode e v a l ~(WII-94); Julga e sente. (1x458) ;
.pesa e agrava. (X-3), etc. De substantivos : <<festase
alegria. (1-59 e 1V-67) ; *manha e ardil. (1-81); agesto e
I N T E R P R E T A Ç ~ E SDA EST. 5.a D O CANTO V 19

modo >> (11- 101); esforço e animo >> (111-75); <<reinoe esta-
do. 011-4); <<força,esforço e animo. (VI-60); <<obrase
feitos. (VII-2); .jugo e lei>>(~111-57);<<propositoe von-
t a d e ~(IX- 1) ; etc.
ora é a estas parelhas de vocábulos que pertence o
.nome e fama., de que o poeta usa mais de uma vez:
>
Ás musas agradeça o nosso Gama
O muito amor da patria, que as obriga
A dar aos seus na lira nome e fama
(V-99)

A dama, como ouviu que este era aquele


Que vinha a defender seu nome e fama ...

Não e justo que a outrem se ofereça


Obra alguma que possa ser famosa,
Senão a quem por armas resplandeça
No largo mundo, com tal nome e fama,

i
Que louvor imortal sempre mereça
(Elegia Depois que Magalhães)

L3 *Ecom a substituição de <<nome>>


por outro s i n b

Assim que sempre, emfim, com fama e gloria


Teve os trofeus pendentes da vitória

Nunca juizo algum, alto e pr~fundo,


Nem citara sonora ou vivo engenho
Te de por isso fama nem memória
(1% 102)
CAMÕES E A MADEIRA

Cegos, que dos trabalhos que tiveram,


Se alta fama e rumor deles se estende,
Escuros deixam sempre seus menores,
Com lhe deixar descansos corrutores ('1
(VIII-40)

.Não podia, pois, Camões, em vista do que fica


exposto contrapôr anome. a <<fama>>, em v 5.
.Faria e Sousa, depois de no pr6logo ao comentário
de Os Lusiadas, (As Luziadas, diz êle) haver incluido este
passo entre os que estão A espera de quem os explique,
alarga-se, no lugar respectivo, em inuteis tentativas para
resolver a dificuldade da contraposição ('1 e os comen-
tadores modernos nao são mais felizes. O prof. Epiftinio
Dias, por exemplo, escreve o seguinte : .Os dois últimos
versos da est. (5.a do c. V), mostram que o sentido é, que
a ilha da Madeira era, sim, já conhecida de nome em
grande parte da terra (.Nome já mui celebrado e sabido
por toda a Europa, e assi em muitas partes de Africa e
Asia.-Barros, I, 1,3); porem não gozava, na literatura da
celebridade que tinha, por exemplo, a ilha de Chipre:
nicht hoch beruhmt zwar, aber weit bekannt (Storck)..
qcomecemos por notar que Barros não diz apenas
que ca Madeira era já conhecida de nome em grande
parte da terra. ; as suas palavras váo mais longe. A Ma-
deira era celebrada, era famosa, em toda a Europa e em

C ) Cf. ainda : 11-105(dama e gloria*) ; 11-107(*noticia e fama*) ; IV-96


(*fama e gloriam) ; IV-102(ufama e memoria*) ; VI-43(.honras e famas).
(a) SEI entendimento deste lugar puede ser en dos maneras, i la primera
explicaremos por dos maneras... E1 niodo primero es que e1 nombre aqui no
significa outra coisa que Ia propria isla, i com este entendimento, que es
seguro, diremos que Ias delicias mn tales, que es menos Ia fama dellas, que
&as mismas. O (si es mejor) menos dize la fama de 10 que hay en esta isla,
de que ella dize de si con su proprio nome (este es consigo propria), que
siempre está diziendo Madera, i debajo deso, bosque, amenidades, bellezas*
cfelicias. O leitor, por certo, dispensa o resto*.
' DO CANTO V
INTERPRETAÇÕESDA EST. 5
. 2t

muitas partes de ~ f r i c ae de Asia; entre as ilhas que


ficavam a ocidente da Europa pertencia-lhe o primeiro
lugar depois da Inglaterra. <(A qual (ilha) chamaram da
Madeira (se lê no passo que serviu de fonte ao poeta),
por causa do grande e mui expesso arvoredo de que era
coberta. Nome jB mui celebrado'e sabido por toda a nossa
Europa e assi em muitas partes de Africa e Asia, por os
frutos da terra de que todos participam; e era tao nobre,:
fertil e generosa em seus moradores que, tirando Ingla-
terra, mui antiquissima em povoação e ilustre com a ma-
jestade de seus reis, em todo o mar oceano, ocidental a
esta nossa Europa, ela se pode chamar primeira de todas*.
*Como 6 que, com estas palavras diante de si, podia:
o poeta chamar a Madeira

Mais célebre por nome que por fama,

se o que nelas se acha expresso é que esta ilha é das


que n6s possuimos, a
Mais celebre por nome e pela fama ?

.Refugia-se o comentador na <<literatura>> : A Ma--


deira, embora já conhecida de nome em grande parte da
terra, náo gozava na literatura da celebridade que tinha,
por exemplo, Chipre.
Mas falta dizer que se avantajava a esta e a todas as
outras que Vénus amava; por aquela, se fosse sua, se
esqueceria a deusa destas, tão superior lhes era. A que
proposito vem, pois, aqui a *literatura. 3 E nao poderia
Camóes, na hipotese da contraposi~áo,trocar os dois
substantivos e chamar a Madeira

Mais celebre por fama que por nome ?


22 CAMÕES E A MADEIRA

.Pela fama que hoje tem no mundo, do que pelo


nome que lhe viesse da antiguidade ?
<<Bastaa possibilidade desta substituição, possibili-
dade proveniente de serem sinónimos os dois termos,
para se ver que o poeta não poderia ter escrito o que
apareceu na primeira edição >>.
<<Parao Sr. professor C. Basto o verso Mais célebre
por nome que por fama quer dizer: <<Maisconhecida (a
Madeira) de nome (o seu nome era sabido no mundo) do
que por fama (não corria acêrca desta ilha, porem, nada
de famoso, como acêrca de outras ilhas).
.Se a Madeira era ou náo celebrada no mundo, se
era ou não famosa, dizem-no as palavras de Barros.
<<Equerendo fazer, como quer, o elogio da ilha que,

...nem por ser do mundo a derradeira,


Se lhe avantajam quantas Venus ama,
Antes, sendo esta sua, se esquecera
De Cipro, Gnido, Pafos e Citera,

como 6 qae o poeta recorreria escusadamente a um con-


ceito mais ou menos depreciativo ?. @e A Lingua Portu-
guesa, n." 5 do vol. 11) (1)

É de estranhar que Jose Agostinho de Macedo nas


Censuras dos Lusiadas, náo dirija a Camões as suas cos-
tumadas objurgatorias, a proposito deste tão questionado
verso, guardando a tal respeito um significativo e abso-
luto silencio.
Temos visto como esta estância (5."-V), e especial-
mente o seu quarto verso, oferece as maiores dificulda-
(I) Esta opinião do abalisado camonista já tinha sido expendida na sua
monumental obra As Fonfes dos Lusiadas (pg. 96 e W), publicada em 1906,
que parece não harmonisar-se inteiramente com o que s e lê no Aparato Cri-
tico (pg. 27) da reimpressão afac-similadan da 1.a edição dos Lusiadas, feita
no ano de 1921.
INTERPRETAÇÕESDA EST. 5.a DO CANTO V 23

des de interpretação aos comentadores nacionais, não


sendo de estranhar que para os estrangeiros se tornam
essas dificuldades quási inteiramente insolúveis e con-
duzam a êrros deploráveis. Na conhecida tradução fran-
cesa do poema, Les Lusiades, feita por Hyacinthe Garin
e publicada ha poucos anos, a versão desta estrofe apro-
xima-se muito do significado do texto português, com
excepção do verso-Mais célebre por nome que por
fama-, que foi assim traduzido :-la nature se plut a Ia
combler d'attraits-, cujo sentido se distancia bastante
do que escreveu o imortal poeta. Seria interessante fazer
um confronto de algumas das traduções existentes em
diversas línguas com o respectivo original, verificando-se
deste modo as notaveis diferenças que certamente se
encontrarão entre os textos cotejados da referida es-
tância.

Todos sabem que são inumeraveis, e dia a dia


opulentamente acrescentadas, as composições em prosa
e vergo, tanto em vernáculo como em línguas estran-
geiras, que cantam e enaltecem as conhecidas e já pro-
verbiais belezas da Madeira e em que admiravelmente
avultam e' se distinguem a elevação e o . maravilhosp
acidentado das suas montanhas, o aprumo inverosimil
das suas ravinas e desfiladeiros, a profundidade dos seus
vales, o relevo caprichoso do seu ~610,as diferentes to-
nalidades e matizes da sua luxuriante vegetação e ricas
culturas agrícolas, a magnífica variedade e fragrância das
suas flores, os seus famosos vinhos, frutos e bordados, a
eterna primavera do seu clima, os seus típicos e interes-
santes costumes regionais, a patriarcal hospitalidade dos
seus habitantes, etc., etc. . . . É certo que tudo isso tem
sido dito e redito em mil variados escritos e com mil
variadas formas pelas mais altas mentalidades nos diver-
24 CAMÕES E A MADEIRA

sos campos da actividade humana (11, mas talvez não se-


pusesse ainda em destacado realce a circunstância de
haver sido o genial poeta Luis de Camdes, o maior ou
um dos maiores de todos os tempos e lugares, o primeiro
que entoou um elevado e magnífico panegírico aos mara-
vilhosos encantos da nossa terra, abrindo assim a emi-
nente falange, que em breve se tornou numerosa legiao,
dos que teem celebrado as belezas naturais com que a
onipotência divina dotou o privilegiado ríncáo madeirense.
A estância que vimos analisando neste capítulo, publi-
cada ha 362 anos, 6 um verdadeiro madrigal a enaltecer
essas belezas, constituindo os seus últimos três versos
um dos mais laudatarios enc6mios que se conhecem,
destinados a cantar a %grande ilha, mais celebre pelo
nome e pela fama*.

5." verso: Mao, nem pei aer do nindo a ledrin.-A opiniáo


mais comum sobre o verdadeiro sentido a dar a esta
passagem 4 a de que o poeta se referia a noçao que
havia entre os antigos povos &cercado mundo ent8o co-
nhecido, cuja vastidão pouco passava, para esses mes-
mos povos, alem das colunas de Hdrcules e porventura
das costas da Lusitânia e das de Marrocos itlántico. A
Madeira, que náo ficava muito distanciada daqueles limi--
tes, foi colocada por Carndes, numa justificada liberdade
poktica, num dos extremos do mundo antigo e chamou-
lhe por isso .a derradeira.. Ouçamos alguns conhe-
cidos comentâdores.
O mais antigo de todos e acima citado Manuel Cor-
reia diz assim: ....chama-a o Poeta aqui, do mundo a

(i) No Dic. Cotog. do Arquip. da Madeira, d a nossa autoria, pag. 227 a


233,transcrevemos alguns brilhantes trechos de varias escritores e homens
.dadend, m que &o enaitecidas as belezas naturais da ilha da Madeira.
INTERPRETAÇÕESDA EST.5.aDO CANTO V 25

derradeira, por ser a mais ocidental de todas ... ; Inicio


Garces Ferreira, também já mencionado, opina : ahe
a derradeira do Mundo, ou da Terra, que os antigos
crerão terminar na costa de Portugal e Galiza.. . ; F.
Sales Lencastre, igualmente atrds referido, afirma que
. ..era última no fim do mundo antigamente conhe-
cido )>.
É essa a interpretação mais vulgar e geralmente
aceita, mas também houve opiniaes contrárias, como
vamos ver. E assim temos que José Agostinho de Ma-
cedo, o conhecido detractor de Camóes, se expressa nos
seguintes termos, que aliás não primam por uma notavel
clareza :
<<Nãosei por que se ha de chamar a Madeira a ú1-
tirna ilha do Mundo. E se as Antilhas não eráo já desco-
bertas no tempo do Gama, e as Canárias n%o são muito
mais a Oéste, presupondo que não existia a America,
porque ainda no tempo do Gama não estava o seu con-
tinente descoberto? Deixemos isto. A posição da Ma-
deira como a ultima do mundo não a faz avantajar As que
Venus ama, porque podia ser a última do mundo e ser
hum rochedo quasi esteril como a de Santa Helena ou a
despovoada ilha de Ascensão. A posiçáo geografica nao
a faria nem melhor nem peor.~
Os acreditado's comentadores Epifânio da Silva Dias
e Claudio Basto sustentam que a palavra derradeira se
refere a circunstância de ser a ilha da Madeira a última
em fama e em celebridade, o que não parece aceitável a
vista das expressbes empregadas pelo historiador JoBo
de Barros, fonte de que o poeta claramente se serviu
para escrever aquele verso, como já atrás deixámos
dito.
Escutemos a autorisada opiniiio do dr. Jose Maria
Rodrigues : aDerr&deira por estar nos confins ocidentais
26 CAMÕES E A MADEIRA

do mundo antigo, no mesmo sentido que a palavra tem


80 Cant VIII, est. 71 :

Conceito digno foi do ramo claro


Do venturoso rei que arou primeiro
O mar, por ir deitar do ninho caro
O morador de Abila (1) derradeiro

Inadmissivel a interpretação do prof. E. Dias e C.


Basto : *a derradeira sc. em celebridade. ; <<derradeira
(em fama).. O qualificativo refere-se não a ordem cro-
nológica ou A extensão da fama, mas a situação geogra-
fica da ilha. Cf. 111-20:
Eis aqui, quasi cume da cabeça
Da Europa toda, o Reino Lusitano,
Onde a terra se acaba e o mar começam

6.0 verso :Og lhe avaniajaai doanlas #nos ama.-A rápida apre-
ens%odo sentido deste verso náo oferece qualquer difi-
culdade. As ilhas e cidades, que veem enumeradas no
Mimo verso desta estancia, eram da particular predilec-
qáo da deusa Venus, mas não excediam a Madeira nas
suas belezas naturais ou em outros notáveis predicados,
de que aliás o poeta tiáo nos faz menção especial. Cons-
tituem essas palavras um dos mais altos louvores tribu-
tados a esta ilha, podendo Camaes ser considerado como
o verdadeiro percursor dos que teem cantado e enalte-
cido as maravilhas da Perola do Oceano, como já acima
ficou referido.

7.0 verso: I&, @doilassla ma 8 eque@ra.-A explicação a


dar, 6 simplesmente esta: .Se a ilha da Madeira fosse de
- (I) Antigo nome dos arredores de Ceuta, em Marrocos, 'fronteiros a Calpe.
?fhoj;eGibtãItaf).
INTERPRETAÇÕESDA EST. 5.a D O CANTO V 27

Vénus, a deusa dar-lhe-ia preferencia, sobre todas as


outras.. E a interpretação comum, que logo ressalta da
primeira leitura.

8.0 verso : De Cypro, tnido, Palos e Eiléia.-Entre os antigos


povos, que seguiam os abomináveis êrros da mitologia,
era especialmente nessas ilhas e cidades onde se pres-
tava generalisado culto a deusa Vknus e ali se encon-
travam os mais suntuosos templos erigidos em sua
honra.
Cypro. E a ilha de Chipre, situada no extremo ori-
ental do mar Mediterrâneo, ao sul da regiao da Asia
Menor. Foi muito celebrada na história antiga e esteve
sob o domínio de diversos povos. Tem cêrca de 350.000
habitantes e ha pouco mais de meio século que faz parte
do império britânico. Era afamada pela produção dos
seus preciosos vinhos, e lembra o ilustre anotador das
.Saudades da Terras (Saud. ed. de 1873, pag. 707) que
dela teriam vindo tambkm para a Madeira vidonhos de
castas superiores, alem das que foram trazidas da ilha de
Candia, como largamente nos informa o doutor Gaspar
Frutnoso.
Gnido. Antiga cidade da província de Cária, na Ásia
Menor, rival da tambem antiga cidade de Helicarnasso,
que ficava nas suas proximidades. Em Gnido existia uma
famosa estatua de Venus, devida ao cinzel do grande
escultor Proxateles. Montesquieu, o grave autor do Espi-
rito das Leis, escreveu um poema intitulado Gnido, que
lhe n%ograngeou merecida reputação.
Pafos. Na ilha de Chipre existiam duas cidades com
o nome de Velha e Nova Pafos, sendo esta iiltirna consa-
grada a Vénus e destrsiida por meados do s6culo IV da
era cristã.
C i f h . Tem hoje o nome de Ckrigo e estii quási
CAMÕES E A MADEIRA

deserta, mas gozou de grande nomeada na antiguidade,


sendo-lhe dedicadas algumas notáveis obras de arte. Faz
parte do Arquipélago Grego.

Iv

Única ou dupla rota? (Est.4." a 12." do Cant. Vr


Como é sabido e ficou dito no capítulo anterior,
Vasco da Gama fez ao rei de Melinde uma larga exposi-
$ao dos factos mais assinalados da nossa história, que se
prolonga em todo o decurso do canto IV, iniciando no
canto seguinte a descriçao propriamente dita da grande
viagem marítima, a partir do momento em que os navios
"deixaram as águas que banhavam a pequena praia do
Restelo. O insigne anotador da aediçao nacional* dos
Lusiadas,, publicada em 1928, diz que Camóes, nas es-
tsncias 4 a 12 do cant. V, descreve duas rotas na pri-
meira etapa dessa viagem, que compreende a travessia
realisada desde o ponto de partida ate o arquipklago de
Cabo Verde. E assim afirma: .Contam-se nestas nove
estrofes duas rotas entrelaçadas: a) a de Vasco da Gama,
de Lisboa As CanBrias, destas ds ilhas de Cabo Verde e
depois atraves do imenso lago; e b) outra de Lisboa B
Madeira, daqui ao Cabo Verde, depois a par da Lasâ
africana, e, passado o arqiripklago de Bijagós pelo Omn-
dissinto GoIfãoB.
Nas sessbes da Academia das Ciencias de Lisboa
de 15 de Novembro e 6 de Dezembro de 1928, o ilustre
almirante Gago Coutinho impugnou a afirmativa do dr.
Jose Maria Rodrigues, sustentando que o poeta traçara
uma s6 rota na descrição que fizera da viagem ate ás
~ N I C AOU DUPLA ROTA? (4-12, V)

alturas das ilhas de Cabo Verde. O abalisado comentador


da #edição nacional. manteve, nas mesmas sessões, a s
opinióes anteriormente expendidas, seguindo-se a publi-
cação duma série de opúsculos da autoria dos dois con-
tendores, que em cêrca de quatrocentas páginas esta-
dearam a abundante cópia dos seus conhecimentos e a
habil dialética da sua argumentação. Longe iriamos se
quisessemos seguir de perto essa interessante discussão,
que não cabe nos limites deste pequeno estudo, alem de
nos falecer a cornpetencia para abordar com segurança o
assunto ali versado com tamanha largueza e erudiçao.
Essa extensa e acalorada controvérsia obrigou a
longas e repetidas referencias a ilha da Madeira, todas
dignas de ponderação e estudo, sendo particularmente
recomendável, para a história do nosso arquipélago, o
capítulo intitulado NA passagem da Madeira. do opús-
culo Mais uma ver a rota de Vasco da Gama em os .Lu-
siadas~,V,4-13.

(E) Para OS feitores que pretenderem ter um conhecimento mais porme-


debte assunto, damos os nomes dos principais opúsculos publicados
pelos dois ilustre academicos : *A Dupla Rota de Vasco da Gama em os Lu-
s i ~ ~V,s 4-13,
, e as objecçbes do Sr. almirante Gago Coutinho., 1929 (Dr. J.
M. R.) ; -0Roteiro da viagem de Vasco da Gama e a sua versão nos Lusia-
das*, 1930 (Alm. G. C.); *Ainda a Dupla rota de Vasco da Gama em Os
Lusiadas, V, 4-13, e a argumentação do sr. almirante Gago Coutinho~,1930
(Dr. J. M. R.) ; *Desdobramento da derrota de Vasco da Gama nos Lusiadas,
1931 (Alm. G. C.); *Mais uma vez a dupIa rota de Vasco da Gama em Os
Lusiadas, V, 4-13., 1931. (Dr. J. M. R.) ; *Possibilidade da rota única de Vasco
da Gama em Os Lusiadas-Impossibilidade de Vasco da Gama ter, de Cabo
Verde, navegado sempre para o sul. 1931, (Alm. G. C.); *Pela quarta vez a
dupla rota de Vasco da Gama em os Lusiadas, V, 4-13>, 1932 (Dr. J. M. R.) ;
(Pela segunda vez possibilidade de ler, em Os LusWas, uma rota única de
Vasco da Gamas, I933 (Alrn. (3. C.) ; *Pela quinta vez a dupla rota de Vasco
.da Gama em Os Lttsiadas, V, 4-13., 1933, (Dr. J. M. R.)
CAMÕES E A MADEIRA

MA Ilha dos Amores*

Não ignoram os medianamente versados na obra


camoniana as múltiplas questões de caracter crítico e lite-
rário, que surgiram em volta do conhecido episódio da
<<Ilhados Amores., sendo muito copiosa a bibliografia
portuguesa que delas largamente se ocupa. Sem falar nos
autores mais antigos, bastará citar os nomes dos contem-
porâneos Teófilo Braga, conde de Ficalho, Epifânio da
Silva Dias, dr. José Maria Rodrigues, Ludovico de Me-
nezes e ainda outros para se avaliar o interêsse que êsse
assunto tem despertado entre muitos comentadores dos
Lusíadas.
Como se sabe, esse episódio é considerado como
uma das mais arrebatadoras criações da ardente imagi-
nação do poeta, mas não faltaram zoilos audaciosos que
nêle descobriram um servil plagiato forrageado em al-
guns poemas gregos e latinos ou em diversas lendas
trazidas dos países orientais. Alem das demasias de lin-
guagem da sua musa por vezes licenciosa, o que de modo
algum se póde contestar, viram ainda nêsses dois cantos
d o poema imaginárias imperfeiçóes, que não abonavam o
alto.conceito, que em geral se formava da grande epo-
peia nacional.
Um dos pontos, que teem sido mais amplamente dis-
cutidos, e o da 4ocalisaçSLo ou situação geográfica. da
fantástica ilha, sendo êsse o úhico que agora nos oferece
particular interêsse, em virtude da relação próxima ou
remota, que possa haver entre êle e a ilha da Madeira.
E certo que o maior número dos críticos e intér-
A ILHA DOS AMORES 31

pretes consideram aquêle episódio com um produto de


pura ficção poética, sem que Camdes o houvesse deter-
minadamente fixado em qualquer lugar do mundo conhe-
cido, quer tivesse apenas recorrido aos mais rasgados
vôos da sua incandescente fantasia, quer buscasse inspi-
ração em alguns poemas de nomeada universal, como
seriam a Odisseia de Homero e o Orlando Furioso de
Ariosto ou ainda em varias lendas árabes e indianas,
cujas narrativas se assemelham a descrição camoniana.
Não escasseiam, porém, autores de reconhecida autori-
dade, que teem tambem sustentado, não diremos com
argumentos absolutamente irrespondiveis mas de certo
com presunções muito ponderosas e aceitáveis, que
Luís de Camões, na sua longa derrota a África, a Índia,
a China e outros países orientais, houvesse descoberto
campo fertil de inspiração para a inventiva do seu epi-
sódio nas inumeras ilhas, que os seus olhos extasiados
contemplaram na vastidáo dos dois Oceanos.
Ambas as hipóteses se aventaram e ambai teem en-
contrado seus autorisados e fervorosos paladinos. Em
abono da primeira, diz muito expressivamente um notável
comentador dos Lusiadas: <<Opoeta, por um gracioso
esforço de imaginaçãio, toma uma ilha mitológica com
todos os seus caracteres e transporta-adas temperadas
regióes do Mediterraneo-pátria da velha poesia-para
os mares do oriente . . . A sua verdadeira situação geo-
gráfica e na fantasia do poeta e não esta mal colocada..
Para outros, tambem ilustres e considerados interpretes,
a s ilhas Angediva, Ceiláo, Zanzibar Ascensão, Santa
Helena, Madeira e Terceira são outros tantos estádios em
que o glorioso poeta pousou^ a sua ardente fantasia e
recebeu os primeiros motivos de inspiraçao para a traça
%dasua sublime e não excedida criação.
Sustentam alguns que a ilha fantasiada por Camóes
32 CAMÕES E A MADEIRA

.estacionaria. na vastidão do mar das Índias e preten-


dem outros que .ficaria situada. nas planuras do Atlân-
tico. A favor das duas modalidades deste problema de
critica literária aduzem-se razoes e arquitectam-se argu-
mentos de vária especie, que a brevidade da nossa expo-
siç8o nao permite serem reproduzidos neste lugar. A ter
que admitir-se a <<existencia~ dessa ilha, opina o mais
abalisado dos nossos camonistas, o dr. José Maria Ro-
drigues, que a sua <<situaçáogeográfica. deve fixar-se no
oceano indico, comprovando o seu parecer com uma va-
liosa argumentaçiio, disseminada em toda a sua vasta
obra e fundamentada na interpretação das próprias ex-
pressões do poeta. Embora não tenha f6ros dum argu-
mento decisivo, 6 no entretanto plausivel, em contraposi-
çáo áquela afirmativa, o sustentar-se que, sendo a recep-
Ç ~ dos
O portugueses, na encantadora ilha, um premio dos
seus árduos e perigosos trabalhos, teria maior verosimi-
lhança que êle se proporcionasse em terras mais visinhas
da pdtria do que em lugar dela tao afastado por uns me-
ses de longa travessia, sujeita ainda a todas as incer-
tezas e contingencias duma arriscada e trabalhosa víagem
marítima.
O grande sábio Humboldt afirma que Cam~esfez a
descrição dum ilha mediterrânea, fundando especialmente
essa opiniao na nomenclatura das especies vegetais nela
existentes, opiniao que 6 seguida e largamente corrobo-
rada pelo ilustre botânico conde de Ficalho na sua valiosa
obra intitulada Flora dos Lusiadas. Parece-nos que o
argumento tem pouco valor probativo, porque Camaes
nem ligeiramente esboçou os traços dum trabalho cientí-
fico e ate viveu numa epoca em que ainda niio se conhe-
ciam os princípios mais elementares da geografia botâ-
nica.
Quem quiser considerar como mais verosímeis a s
A ILHA DOS AMORES

razões geralmente aduzidas em abono da <<situaçãogeo-


gráfica~da Ilha dos Amores no Oceano Atlântico e em
mais aproximada vizinhariça da terra pátria, militam as
probabilidades dessa situação em favor da Madeira ou
Terceira, sendo indubitável que 6 a primeira dessas ilhas,
que terá maior número de intérpretes que a adoptem;
como principal fonte de inspiração para a genial criação
do poeta. Ainda ha poucos anos, em conferencia publica,
na cidade do Porto, o distinto professor dr. Luis A. Rodri-
gues Lobo sustentou que as conhecidas belezas panorá-
micas desta ilha teriam sugerido ao poeta a invenção do
seu maravilhoso episódio. Deixemos aqui arquivadas as
suas palavras.
.A CamOes inspirado de certo pelas belezas naturais
da Madeira, ocorreu-lhe a liberdade poética de consagrar
também esta ilha a deusa bela, afeiçoada da gente lusi-
tana, e com o nome de Ilha dos Amores a disfarçou,
intrigando a posteridade com tam subtil véu de mistério.
.Todavia, uma ponta do veu se levanta, denunciando
que a formosa ilha se achava mui perto de Portugal,
quando as estâncias 143 e 144 do canto X solicitam e
prendem a nossa atenção :

~Podeis-vosembarcar, que tendes vento


e mar tranquilo, para a patria amada..
Assim lhe disse; e logo movimento
fazem da ilha alegre e namorada.

Assi foram cortando o mar sereno


com vento sempre manso e nunca irpdo,
até que houveram vista do terreno
em que naceram, sempre desejado.
CAMÕES E A MADEIRA

*De acordo com o roteiro da índia, Vasco da Gama


fez-se a vela para Lisboa, partindo da Ilha Terceira.
.As distâncias a que esta ilha e a da Madeira ficam
de Portugal, silo pouco mais ou menos as mesmas: cêrca
de 1.000 milhas para uma e de 750 para outra, o que em
pouquissimos dias se percorre com vento de feição.
*Sendo assim, porque há-de ser a Madeira a Ilha
dos Amores e não a Terceira ?
&Primeiramente, Camóes nunca foi aos Açores ('1 e,
em segundo lugar, exaltando os navegadores portugueses
na pessoa do Gama, de quem era parente, Cambes devia
ter escrúpulos de fazer com que o herói do poema fosse
gozar as delícias duma nova Cápua naquela ilha onde
seu irmáo querido da vida se libertara.
aA Madeira era, com efeito, a Ilha dos Amores..

(I) Os escritores terceirenses padre Jerónimo Emiliano de Andrade e dr,


António Moniz Baneto Côrte Real tentaram provar que Camões tomou a ilha
Terceira como fonte de inspiração para a inventiva do episódio da Ilha dos
Amores, invocando especialmente os traços de semelhança topográfica, por-
wntura existentes entre a descrição dos Lusiadas e aquela formosa ilha.
Alguns anos depois, o distinto investigador da histbria açoriana João Teixeira
Soares, adoptando as razões expostas pelos dois escritores, perfilhou a
mesma opinião, que reforçou com novos argumentos, corroborados ainda
com o facto não provado do poeta ter passado na Terceira, por ocasião do
seu regresso da Índia a terra pátria. É forçoso, porém, confessar que êsses
escritos, embora habilmente arquitectados e inspirados no mais louvavel sen-
timento patriotico, encerram apenas umas bem urdidas conjecturas ou talvez
umas verosimeis hipoteses, mas sem fundamento sdrio que as possa admitir
ou justificar. Até o próprio Teixeira Soares, segundo vemos no Archivo dos
Açores (IV-25) modificou posteriormente o seu juizo, a vista das novas in-
vestigações a que procedera. Tudo isso, porém, nãcr obstoti a que Teofilo
Braga, talvez o mais ilustre filho dos Açores, aduzindo o testemunho dos
tres citados escritores e com a costumada facilidade, que as conveniencias
de momento o aconselhavam, afirmasse peremptoriamente e como caso ave-
riguado que Carnóes estivera na ilha Terceira e neh se teria inspirado na
criação do episódio narrado nos cantos 1X e X do seu poema. Lê-se isso
nos alentados volumes Cambes-Epoca e Vida, Camões-Obra Lirica e Epica,
CamBes e o Sentimento Nacional e não sabemos se ainda em outras obras
do distinto e fecundo esçritgr. , , , , . . . . .
NOS a ~ u s IFIGURAM
~ ~ ~ DOIS
~ D MADEIRENSES? 35

Aceitando esta possível hipótese, teriamos encon-


trado mais uma próxima correlaçáo entre a ilha da Madeira
e a admirável narrativa dos Lusiadas.

Nos ~Lnsíadas~
figuram dois madeirenses ?
Embora veladamente, teria sido intenção de Camões
o referir-se a duas personagens suas contemporâneas,
que então gozavam de grande prestigio e influencia nas
altas esferas do poder? Pela leitura que fizemos dos
estudos de diversos comentadores e também do próprio
texto do poema, vemos que essas verdadeiras ou hipoté-
ticas referencias se encontram principalmente nos versos
das estâncias 84." e 85." do canto VI1, 54." e 55."-VIII,
27.",28.", 92.", 93." e 94."-IX, 119.", 152.' e 153."-X..
Transcreveremos algumas dessas passagens.

..................................................
Nenhum ambicioso que quizesse
Subir a grandes cargos, cantarei,
So por poder com torpes exercicios
Usar mais largamente de seus vicios ;
(VII-84)

.................................................
Nem, Camenas, tambem cuideis que cante
Quem, com habito honesto e grave, veio,
Por contentar o Rei, no oficio novo,
A despir e roubar o pobre povo I
(Vn-a)
Oh! Quanto deve o Rei que bem governa
De olhar que os conselheiros ou privados
De consciencia e de virtude interna
E de sincero amor sejam dotados !

Nem tam pouco direi que tome tanto


Em grosso a consciencia limpa e certa
Que se enleve num pobre e humilde manto,
Onde ambição acaso ande encoberta.

......................................................
Vê que esses que frequentam os reais
Paços, por verdadeira e sã doutrina
Vendem adulação, que mal consente
Mondar-se o novo t r i g ~florescente.

Vê que aqueles que devem á pobreza


Amor divino, e ao povo caridade,
Amam sómente mandos e riqueza,
Simulando justiça e integridade
...........................................................
Leis em favor do Rei se estabelecem;
As em favor do povo só perecem

...............................................................
Por isso, ó vós que as famas estimaiq
Se quizerdes no mundo ser tAmanho,
Despertii jd do sono do ócio ignavo
Que o Animo, de livre, faz escravo.
NOS e ~ u FIGURAM
~ I ~ DOIS
~ MADElRENSES
~ ~ s ? 32

E ponde na cobiça um freio duro,


E na ambição tambem, que indignamente
Tomais mil vezes, e no torpe e escuro
Vicio da tirania infame e urgente;
...........................................................................

...dai na paz as leis iguais, constantes,


Que aos grandes não dem o dos pequenos,
......................................

E vos outros que os nomes usurpais


De mandados de Deus, como Tome,
Direi: se sois mandados, como estais
Sem irdes a pregar a Santa Fé ?

............................................................
Tomai conselhos só de experimentados,
Que viram largos anos, largos meses,
Que, posto que em scientes muito cabe,
Mais em particular o experto sabe.
(X-152)

.................................
Máo se aprende, Senhor, na fantasia,
Sonhando, imaginando ou estudando,
Senão vendo, tratando e pelejando.
(X-153)

Nos versos que deixamos transcritos, teem muitos


visto alusões directas aos governantes da época, aos
membros da Companhia de Jesus e particularmente ao
padre Luis Gonçalves da Câmara, mestre do rei D. Sebas-
titio, e a Martim Gonçalves da Camara, escrivao da puri-
dade e ministro onipotente do mesmo monarca, que am-
bos eram madeirenses e filhos de João Gonçalves da
Câmara, quarto capitão-donatário do Funchal. Em abono
desta, talvez temeraria afirmativa, vamos textualmente ou
em abreviada sumula reproduzir alguns comentários, que
nesse sentido interpretaram as palavras pouco explícitas
do poeta.
Tem especialmente ferido a atenção dos comenta-
dores as estrofes 84.a e 85" do Canto V e de modo parti-
cular os tres versos finais da última dessas estâncias,
havendo já Faria e Souca, no ano de 1639, conjecturado
que neles se via uma alusão ao padre Luís Gonçalves da
Câmara e ainda recentemente disse o Dr. José Maria Ro-
driques que ali se encontrava ama manifesta referencia
aos irmãos Câmaras. Epifânio da Silva Dias afirma,
porem, que o tom de generalidade que domina as est. 84."
e 86."tem a sua explicação na espantosa imoralidade dos
funcionários públicos daquele tempo e não autorisa a
conjectura de Faria e Sousa. Outro comentador pretende
que a alusão se dirige aos validos dos reis novos e inex-
perientes, mostrando-se muito zelosos pelo poder rial,
aconselhando-o a exercer tirania sobre o povo.
Nas est. 54." e 55."do Cant. VIII, continuam os intér-
pretes a descobrir referencias directas aos membros da
Companhia de Jesus e aos irmãos Luis Gonçalves e Mar-
tim Gonçalves da Câmara. Assim opina o Dr. J. M. Ro-
drigues, e também Epifanio diz claramente: ga aluslío aos
jesuitas, que senhorearam inteiramente o Animo do rei de
Portugal, transparente B, alem de outros comentadores.
Prosseguem ainda a s mesmas opinióes de alguns
autores na interpretaçao das est. 27.' e 28' e 92.a-9494." do
do Canto IX, que teem provocado exageradas acusaçbes
aos indivíduos atingidos nos comentários das estrofes
precedentes. Diz especialmente respeito aos governantes
NOS *LUSIADAS* FIGURAM DOIS MADEIRENSES 3 39

do tempo esta acerada referencia: .Alusão aos detentores


do poder civil que não são caridosos para o povo ...
pensando só nos meios de terem preponderância, fin-
gindo justiça, ou cuidando de alcançar riquezas e fin-
gindo independência. Os que assim procedem, chamam
justos aos seus actos de tirania; chamam severidade ao
que é dureza e crueldade. Os últimos dois versos (Leis
em favor do rei se estabelecem-As em favor do povo só,
perecem) comprimem a consequência dos êrros aponta-
dos: o fazerem-se leis em favor do rei e caírem no es-
quecimento as leis existentes em favor do povo..
Nas est. do Cant. X continuam os zoilos a ver nas
palavras do poeta reciminações e censuras, que ap'enas
poderão ser aceitáveis como 'possiveis conjecturas e não
como argumentos duma prova incontestiivel.
Sobre o assunto publicou o padre Domingos Mau-
ricio Gomes dos Santos um extenso e notável artigo
(Broteria, nov. de 1929), demonstrando, com irrespondi-
veis argumentos, que das palavras de Carnbes niío se
pode 16gica e imperiosamente deduzir que êle se tivesse
referido duma maneira directa aos jesuitas e de modo
particular aos madeirenses Luís Gonçalves da Câmara e
Martim Gonçalves da Câmara. Cremos que a opini8o
contrária póde talvez constituir uma conjectura verosímil
ou uma hipótese admissivel, mas não uma verdade com-
provada.
Mas a admitir-se, como o próprio autor do artigo
confessa <<quea respeito dos jesuitas aí pelos anos de
1569 (um ano antes do regresso do poeta da Índia e tres
da publicação dos ~Lusíadas., acrescentamos 116s) cor-
riam opiniões encontradas e que os irmãos Câmaras eram
objecto, sobretudo em Lisboa e Coimbra de recrimina-
çóes severas >>, e conhecendo-se o poder quaisi ilimitado
de que ao tempo dispunham, um como escriváo da puri-
40 CAMÕES E A MADEIRA

dade e outro como mestre do monarca, não é de estra-


nhar que aquela conhecida interpretação tivesse grande
voga, sabendo-se que Luis Gonçalves da Câmara era um
dos membros mais qualificados da Companhia de Jesus
e amigo intimo do fundador Santo Inacio de Loiola, e que
Martim Gonçalves da Câmara, embora padre secular, foi
sempre um desvelado protector dos jesuitas, em cuja
casa passou os Últimos anos e ali terminou a sua exis-
tencia. E assim tambem julgamos não poder demonstrar-
se claramente que Camóes, ao traçar as palavras, algo
sibilinas, das estâncias 85-VII, 55-VIII, 28-IX e 119-X,
não tivesse porventura em mente referir-se, embora muito
veladamente, aos dois irmãos Câmaras, tão notória e táo
contraditóriamente discutidos naquela kpoca.
Tem reconhecido valor probativo o argumento que
um moderno anotador dos Lusíadas aduz em abono do
ilustre madeirense e afamado escrivão da puridade : K.. .s e
Camóes tivesse deste modo criticado os Câmaras, como
se explica que um deles-Martim Gonçalves da Câmara
-lhe restaurasse a sepultura arruinada e substituisse
nela o epitáfio por outro em versos latinos do jesuita
Matos Cardozom e que um distinto articulista achou digno
de figurar num mausoltiu toscano da renascença?
NOTAS
..
Pág. 7 : a .é longa a série dos que afanosamente se consagra-
...
ram ao exame paciente dus páginas camonianas s -O vol, XIV do
Dicwnúrio Bibliografico Português publicado em 1886 e que uni-
camente se ocupa de Luís de Camões, dá-nos uma relação circuns-
tanciada dos comentadores e interpretes da obra do Poeta conhe-
cidos ate aquele ano, a que podemos aqui acrescentar os de mais
recente data e que gozam de maior autoridade neste assunto. São
principalmente Wilhelm Storck (Vida e Obras de Luis de Ca-
mbcs... vemao do alemão com notas por D. Carolina Michaelis d e
Vasconcelos 18971, D.r Jose Maria Rodrigues (Fontes dos Lusía-
das, 1905, Al'as observações 'a m a edição comentada.. 1 91 5,
Os Lusiadas ... anotações ás edições de 1921 e 1928, a série d e
opusculos citados a pág. 29 deste folheto e muitos outros escritos),
Mendes dos Remedios (Lusiadas, 1913), Epifânio da Silva Dias
(Os Lusiadas... 191 6), F . Sales de Lencastre (Os Lusiadas.. . 1927),
Artur Viegas (Os Lusiadas, 1929), Afranio Peixoto (Dicionário dos
Lusiadas, 1924, e outras publicações).

Pdg. 8: *...abundamos Lusiadas em difcuiáad es..... -São


do ilustre camonista D.r José Maria Rodrigues as seguintes pala-
vras : NO seu conteúdo histórico-geogrdfico ; a multiplicidadè das
42 CAMÕES E A MADEIRA

fontes de que o Poeta se utilizou e que precisamos de conhecer,


para bem o interpretarmos; as frequentes referências a história geral,
sobretudo a dos povos cllissicos ; o largo emprego da mitologia,
eniaçada com a acção do poema; as noções cosmograficas, indis-
pensáveis para entender tantos lugares; o propósito de deixar
arquivadas muitas particularidades de métrica, de fonética, de cons-
trução, para o reconhecimento das quais se exige ampla e atenta
leitura de numerosos livros ; a adopção intencional de opiniões
divergentes sobre o mesmo assunto ; a contaminação não só de
construções gramaticais, mas tambem de narrativas discordantes ;
o tempo decorrido desde o aparecimento do poema, que tornou
antiquadas certas palavras e modos de dizer; a desastrada inter-
vençáo de todos os que têm pretendido melhorar o texto do poema,
intervenção que principiou no manuscrito, que ia ser entregue ao
compositor-tudo isto criou aos Lusiadas a fama de serem um
poema dificil; tudo isso tem desanimado muito leitor, e por mim
próprio falo, que mais de uma vez senti bem fundo esse desánimo.
Hoje estou convencido que essa fama hade desaparecer.. . S.

Pág. 29: ~ U n i c aou dupla rota?+-Aos opúsculos ali citados,


podemos acrescentar os seguintes : *Alguns êrros em que se apoiou
t, desdobramento de Vasco da Gama em os Lusiadas~,1934, pelo
almirante Gago Coutinho, e apela sexta vez, a dupla rota de Vasco
da Gama em os Lusiadas, V, 4-13., 1934, pelo D.' José Maria
Rodrigues.
Pág. 32 : .a sua situação geogrdfica deve fixar-se no oce-
S..

ano M c o . . ..-Quando a armada da primeira viagem à fndia re-


gressou a pátria, resolveu a deusa Vénus preparar uma ilha ano
meio das águas., para receber festivamente o s portugueses, em
prémio dos trabalhos e perigos que tinham heroicamente supor-
tado. E ld diz o poeta, na est. 219 do Canto IX, que determina :
De ter-lhe aparelhado, lá no meio
Das dpas, alguma insula divina,
Ornada de esmaltado e verde arreio :
Que muitas tem no reino que confina
Da primeira co terreno seio
Afóra as que possui soberanas
Para dentro das portas Herculanas.
NOTAS 43

O sexto verso é, talvez, de todo o poema, o que tem oferecido


maior dificuldade na sua interpretaçao. O português Bento Caldeira,
que fez uma versão espanhola dos Lusiadas, publicada em Madrid
no ano de 1580, alterou êsse verso, que, traduzido em português,
ficou assim redigido: Da mãe primeira co ierreno seio. Quási todas
as edições dos Lusiadas adoptaram essa alteração, e ainda recen-
temente as de 1927 e 1929, muito recomendaveis pelas suas belas
anotações, seguiram o trilho de Bento Caldeira. O distinto escritor
dr. Alfredo Pimenta, aproximando êsse discutido verso da estância
(5.a-V), que fica transcrita a phg. 11 deste opúsculo, estabeleceu
uma correlação entre êle e a Madeira, que não sabemos suficiente-
mente explicar. É concebida nos seguintes termos :
*Em que se fundam os emendadores para nos darem aquêle
verso assim alterado : da mãe primeira co terreno seio ? Fundam-
s e na obscuridade, no sentido e na irregularidade do verso. Apro-
ximando &te verso do verso 5 da estância 5 do Canto V, em que
o Poeta, referindo-se a ilha da Madeira, diz : Mas nem por ser do
mundo a derradeira, já não oferece mistério que Camões escreva
que ha um reino que confina com o terreno seio da primeira ilha
das muitas que Vénus possui no dito reino. Se a ilha da Madeira
era a derradeira do mundo, qual seria a primeira? Conjectura-se,
como se teria de conjecturar, se o lugar da estância 5 d o Canto V
não fosse claro, e tivessemos que formular a pregunta: a derra-
deira ? Mas qual, e em que derradeira?.

Pdg. 34: ~...CamoVesnunca foi aos Agor cs...s- A nota, que


sobre o assunto m encontra nessa página, pertence ao autor d o
presente escrito, n%o sendo ela da responsabilidade d o dr. Luis Ro-
drigues Lobo, de quem, no respectivo texto, se faz apenas a trans-
criçao dum pequeno excerpto do seu discurso.

Pág. 35 : Nos a Lusiadasa fimrarn dois madeirenses ?.-Para


mais completo conhecimento deste assunto, vamos deixar aqui
esboçadas algumas notas biográficas dos dois ilustres madeirenses
Luis Gonçalves da Câmara e Martim Gonçalves da CAmara.
Em geral tem sido Luis Gonçalves d a Cgmara injustamente
apreciado pelos historiadores, sobretudo depois que o marquês de
Pombal, num odiento libelo contra o s jesuitas, fez recair sobre
aquêle ilustre membro d a Companhia de Jesus as mais graves
acusações, e a quem atribui a responsabilidade de muitos actos de
governo praticados por D. Sebastião, abusando assim do ascen-
dente que criara no espírito irreflectido e versátil d~ monarca.
O insuspeito escritor e homem de ciencia Manuel Bento de
..
Sousa fórma do padre Luis da Câmara o seguinte juizo : . .foi um
bom. Os seus olhares eram para o céu, os seus pensamentos para
Deus, as suas inclinações para a virtude. Era um crente, um santo,
um místico..
Na cidade de Coimbra, quando ali exercia o lugar de reitor d o
afamado Colégio da Companhia, que era então um dos mais ele-
vados cargos da Ordem, foi mandado desempenhar um obscuro
serviço nas cosinhas da casa, sem que a brusca mudança lhe fi-
zesse soltar o mais pequeno queixume ou lhe alterasse a alegre
compostura do semblante. Em Marrocos, para onde quisera ir
míssionar, tornou-se a verdadeira providencia dos presos e cativos,
dispensando-lhes toda a sorte de serviços, ainda os mais baixos e
humildes, tendo-se até prestado a ficar em refens por alguns pri-
sioneiros, se ponderosos motivos, estranhos á sua vontade, a isso
se não tivessem oposto. Um homem dotado com estes rarissirnos
predicados não era, por certo, um ambicioso de honrarias e pre-
dominios, como tantas vezes se tem afirmado.
Achava-se em Roma, quando foi escolhido para mestre d e
D. Sebastiáo, sabendo-se que junto dos seus superiores, residentes
naquela cidade e por todos os meios ao seu alcance, empregou o s
maiores esforços para subtrair-se ao desempenho daquela espi-
nhosa missão, tendo por fim que render-se aos desejos da raínha
D. Catarina e do cardial infante D. Henrique, qne no caso interpu-
seram todo o seu poderoso vafimento. Uma das mais tremendas
arguições dirigidas a austêridade do seu caracter tS a de haver in-
cutido no animo do seu régio discipulo um amor desordenado a
arriscadas emprêsas belicosas, como seria a da conquista do império
de Marrocos, com o fim de alargar a esfQa de acção da igreja cató-
lica, sem todavia se aduzirem argumentos que comprovem essa
acusação. O que de positivo se sabe & que ao padre Luis Gon-
çalves da Câmara, diz Fortunato de Almeida na sua acreditada
História de Portugal, abalado pelo desgosto que lhe causara a
primeira jornada de Africa adoecera gravemente. Quando viu que
D. Sebastião não desistia do intento de voltar a fazer guerra, agra-
varam-se-lhe os padeciment~se morreu cheio de apreensões amar-
NOTAS 45

gas. ... Isto deu-se tres anos antes d o desastre de Alcacer-Quibir.


Tambem se afirma que abusara da influencia que adquirira junto
do monarca para proteger e beneficiar a ordem religiosa a que
pertencia. Era natural e ate parece legitimo que assim houvesse
acontecido a um homem graduado desse instituto nascente, que
muito carecia da protecção dos altos poderes do estado, sendo
além disso amigo intimo do respectivo fundador e particularmente
desejoso do desenvoIvimento da Companhia, para a larga e heroica
evangelização que ela empreendera nas novas terras descobertas,
sempre selada com os mais árduos trabalhos e frequentemente-
coroada com as paImas d o martirio.
A acção do padre Luís Gonçalves da Câmara nos negocios de
administração pública, em que interveiu, ao contrário d o que vaga-
mente se tem afirmado, foi sempre reveladora do mais acrisolado
patriotismo e de grande dedicação pelos interêsses do estado
sobresaindo sempre a sua desassombrada atitude em contrariar a s
pretensões de Castela c de levar D. Sebastião a contrair matrimó-
nio com uma princesa, que não favorecesse as ambições do mo-
narca castelhano.
Diz um insuspeito escritor que una corte não provocou uma
queixa, não requereu um beneficio, não empregou um parente ...
indo a sua isenção ao ponto de não querer comer nem dormir no
Paço, sendo necessário que a rainha a isso o obrigasses.
Luís Gonçalves da Câmara foi o segundo filho de João Gon-
çalves da Câmara, quarto capitão-donatário do Funchal, e de D.?
k o n o r d e Vilhena, filha dos condes de Tarouca, achando-se por
isso ligado ás mais nobres e distintas familias de Portugal e sendo
irmão do primeiro conde da Calhêta Simão Gonçalves da Câmara.
Frequentou a afamada universidade de Paris e ali revelou superior-
mente o s seus dotes de inteligência, não somente nos cursos de
filosofia e teologia mas ainda no aprofundado conhecimento das
línguas latina, grega e hebraica, sendo chamado por D. João 1x1
para fazer parte do corpo docente da universidade de Coimbra,
por ocasião da reforma que se realisou neste estabelecimento de
ensino. Abraçou a recente instituição religiosa fundada por Inácio
de Loiola, que viria imprimir ás corporações monasticas novas
directrizes, pelos eminentes predicados de virtude, de saber e de
heroica abnegaçao que a caracterisava, e nela se distinguiu nota-
velmente, exercendo elevados cargos e desempenhando várias mis-
sões da maior responsabilidade no seu pais e também no estran-
geiro. Manteve em Roma estreitas relações de amisade com o ilustre
fundador da Companhia de Jesus, de quem talvez foi o mais íntimo
confidente e de quem recebeu a comunicação oral da sua auto-
biografia espiritual e ascetica, que Luis da Câmara ia recolhendo
e reduzindo a escrita, constituindo ela uma das mais extraordiná-
rias revelações da vida interior duma alma privilegiada, que rápi-
mente ascendera ás culminancias da santidade.
O insigne mestre e aio do rei D. Sebastião nasceu no Funchal
no ano de 1518 e morreu em Lisboa a 15 de Março de 1575.

Vários historiadores teem sido ainda mais implacliveis no juizo


que emitiram acerca de Martim Gonçalves da Câmara, irmão do
precedente e celebre ministro de D. Sebastião, do qual já se disse
que anteriormente ao marquês de Pombal ninguem gozara de maior
poder e influência do que ele nas altas regiões do estado. Era
talvez um homem duro e inflexivel na aplicação das leis e bastante
autoritário no exercício dos importantes cargos que desempenhou.
As suas enérgicas medidas de govêrno impunham-se absolutamente,
em virtude da grande corrupção de costumes que então se alastrara
e dos graves erros e desmandos cometidos nos diversos ramos da
administraç%o pública, mas iam elas ferir interêsses inconfessáveis
e velhos e inveterados abusos, provocando tão violentos protestos
e uma tão forte reacção, que em breve prepararam a quéda do
onipotente escriváo da puridade.
Pouco se sabe do seu C&-riculum vitae durante os primeiros
anos da sua existência. Nasceu na Madeira nos fins d o primeiro
quartel do século XVI e era filho de João Gonçalves da Câmara,
quarto capitao-donatário do Funchal e de D. Leonor de Vilhena.
Doutorou-se na faculdade de teologia da universidade de Coimbra
e nela professou o magistério e dela foi reitor, tendo adquirido a
mais prestigiosa reputação como homem de inteligência superior e
de uma vastissima cultura.
Afirma-se e não é para causar estranheza que a influencia e o
prestigio de que o padre Luís da Câmara merecidamente gozava
na corte junto da rainha D. Catarina e do cardial D. Henrique
houvessem concorrido para a rápida ascensão de Martim Gon-
qalves aos mais elevados cargos da governação piiblica, que exerceu
sucessiva e até simultaneamente e em que deu provas exuberantes
NOTAS 47

.do seu saber, do seu tino governativo, da sua energia, da s u a


coragem e também, por vezes, da sua despótica autoridade. E assim
se lê em vários autores que desempenhou os lugares de presidente
da Mesa da Consciência e Ordens, presidente do Desembargo d o
Paço, membro do Conselho Real e Védor da Fazenda, que eram
dos mais categorisados do tempo, sobresaíndo a todos o de escri-
vão da puridade, que aproximadamente corresponder8 ao de chefe
do govêrno e no qual residiam os mais altos poderes do estado.
Em 1574, quando D. Sebastião regressou da primeira jornada de
África, Maftim Gonçalves da Câmara abandonou todos os cargos
que exercia e recolheu-se a casa da Companhia de Jesus, em
Lisboa, e ali faleceu alguns anos depois.
Encerraremos estes breves dados biográficos com o valioso
testemunho, fundado em auténticos documentos, de Fortunato de
Almeida, na sua História de Portugal: a 0 que se tem escrito dos
padres Luis Gonçalves e Martim Gonçalves é uma lenda; para a
formarem aproveitaram difamações e intrigas registadas por antigos
escritores e nascidas de invejas e rivalidades dos contemporiineos.
Já vimos, em documento digno de toda a fé, que o padre Luis
Ooncalves se lastimava da não poder influir no ânimo de el-rei por
ocasião das negociações de casamento ... Tal e o prémio póstumo
que lhes dão por defenderem contra Filipe 11 os interêsses e a honra
d e Portugal, com tanto zêlo, como se já tivessem presentes os acon-
tecimentos de 1580%.
Ouffas referencias aos Câmaras - Como se sabe e tivémos
-acasIllo de verificar 00 capítulo VI, foram muitos os autores que a o
comentarem e interpretarem o texto dos Lusiadas quiseram desco-
brir alusões mais ou menos veladas aos dois irmãos Câmaras,
Luis Gonçalves e Martim Gonçalves. Não é, pois, de estranhar que
em trabalhos literários de simples invenção romiintica ou dramática
figurem também aquêles dois ilustres madeirenses, não sómente
representando um papel divorciado da verdade histórica, o que
teria sua justificação nas exigências da acção desenvolvida no
drama ou no romance, mas ainda sem a mais leve sombra de lógica,
de verosimilhança e de realidade, embora aparentes, que devem
caracterisar os escritos dessa natureza.
Assim o fez o visconde de Castilho, no seu drama Cam?es,em
que os dois irmãos Cgmaras sofrem tratos de polb, na linguagem
castiça mas amaneirada do grande poeta.
48 CAMÕES E A MADEIRA

Almeida Garret, numa das notas ao seu poema Camões, da a


conhecer que no texto se quis referir a Luis e Martim Gonçalves
da Câmara, dizendo Castilho que forneceu ao autor das Viagens na
~ninhaterra os elementos para a redacção dessa nota.
Em 1880, por ocasião da celebração do terceiro centenário da
morte do Poeta, publicou-se em dois volumes e com o titulo A
Velhice de Camões a tradução dum romance escrito na língua fran-
cesa por G . de Landelle, em que figuram como personagens secun-
dárias os dois irmãos Câmaras.
No romance Luis de Camões, de Antonio de Cam$os Junior,
encontram-se algumas ligeiras referencias aos referidos madei-
renses.

Leão iienriques.-O autor da Censura dos Lusiadas, que tanto


s e esforçou em apoucar a obra genial de Camões, não se esqueceu
tambem de dirigir ásperas censuras aos membros da Companhia
de Jesus, que tiveram uma acção preponderante na sociedade por-
tuguesa em tempo do rei D. Sebastião. Comentando a est. 55.a do
Cant VI11 (vid. pág. 36 dêste opusculo) diz Jose Agostinho de Ma-
cedo que o Poeta (<aludeaos jesuitas Leão Henriques ... que tanto
iludiram el-rei.. .*, sem todavia aduzir argumentos que comprovem
essa gratuita afirmativa. Trata-se do distinto madeirense padre Leão
Henriques, acerca do qual deixámos exaradas algumas linhas no
Elucidário Madeirense, que vamos aqui transcrever : *Nasceu na
vilá da Ponta do Sol no primeiro quartel do século XVI, sendo
filho de D. João Henriques e de D. Filipa de Noronha. Era próximo
parente do padre Luis Gonçalves da Câmara, celebre aio de D. Se-
bastião, e descendia de João Gonçalves Zarco, o ilustre descobridor
-da Madeira. Estudou canones em Paris e em Coimbra, e foi o pri-
meiro reitor d a Universidade de Evora. Abraçou o instituto da
Companhia de Jesus ainda em tempo do fundador, tendo mantido
com êle estreitas relações de amizade e de quem directamente
recebeu provas da mais alta consideração e apreço. Exerceu na sua
ardem os mais elevados cargos, como os de reitor dos colegios
d e Coimbra e Evora, provincial, delegado em Roma, etc. Foi du-
rante muitos anos confessor e conselheiro do cardial e rei D. Hen-
rique, junto de quem gozou. de muito prestigio e influência. Teve
uma grande nomeada na sua época como homem de vasta erudi-
çáo e de extraordinbrio talento. Os seus biógrafos referem-se par-
ticularmente aos sentimentos da mais generosa e ardente caridade
NOTAS

de que era dotado, tendo para com os pobres e infelizes as mais


requintadas expansões de carinho e ternura de que e susceptivel o
coração humano. Morreu em Lisboa a 8 de Abril de 1589.

Camões teve parentes na Madeira ?-Apesar do nenhum inte-


resse que isso possa oferecer a história do nosso arquipélago e de
se tratar apenas duma mera curiosidade genealógica, vamos deixar
aqui arquivada a noticia que nos e dada pelo ilustre escritor Teo-
filo Braga (~amões-Épocae Vida) acêrca dum afastado parentesco
existente entre Camões e alguns filhos da Madeira, proximos des-
cendentes de João Gonçalves Zargo, primeiro capitão-donatário
do Funchal. E assim temos que no tempo do rei D. Fernando viera
para Portugal o fidalgo galego Vasco Pires de Camões, que casou
com a portuguesa D. Maria Tenreiro e deste consorcio nasceram o
primogénito Gonçalo Vaz de Camões e Jo2o Vaz de Camões, sendo
este bisav6 do Poeta. Mestre Teofilo diz-nos mais que Lopo Vaz
de Camões, primeiro neto do já citado Gonçalo Vaz de Camões,
casou nesta ilha com Inés Gonçalves da Ctimara, filha de Diogo
Afonso de Aguiar e de D. Isabel Gonçalves da Câmara, filha d o
donatário João Gonçatves Zargo. Lopo Vaz e Inês da CArnara dei-
xaram descendentes, que tiveram parentesco, embora remoto, com
o imortal autor dos h i a d a s . Esta opiniáo não discrepa das pala-
vras de Oaspar Frutuoso, quando diz que Ines da Câmara ...foi
casada com um fidalgo de Evora, por nome Fuão de Camões ...*
.
(Saud. pág, 167).
Naq 6 para surpreender que alguns distintos linhagistas ve-
nham a descobrir, em bolorentos e esfarrapados nobiliários, uma
larga parentela do mais ilustre cantor das glorias nacionais, espa--
fhada em muitas freguesias da nossa ilha ...
Índice

...............
I Comenthtios e interpretações dos aLusíadas* 7

I1 A Ilha da Madeira nos -Lusíadas~........................ 8

iIi Interpretações da . Est3neia 5.a do Canto V .................. 10

N Única ou dupla rota? (Est. 4 a 12 do Canto V) ............... 28

V A Ilha dos Ambresm ................................. 30

VI Nos . Lusiadass figuram dois madeirenses ?. . . . . . . . . . . . . . . . . . 35

VI1 Notas .......................................... 41