Você está na página 1de 13

Biogeografia e religião

____________________________________________________________

Boldo e Suas Características, medicinais, místicas, culturais, e paisagísticas.

Universidade Federal Fluminense Instituto de Geociências Departamento de Geografia Disciplina: Biogeografia Professora: Rita Montezuma Alunos: Filipe Carvalho, Julio Lamblet e Thamara da Cunha Lima

03/2013

Sumário

Introdução

3

_______________________________________________

  • 1. Etnobotânica 4 ___________________________________________

  • 2. Boldo e suas características 6 _______________________________

  • 3. Inter-relação espacial

8

____________________________________

4.

Conclusão

12

_____________________________________________

  • 5. Referências Bibliográficas

13

________________________________

Introdução

A natureza é paisagem. É experiência de tempo e espaço através da qual os seres humanos podem se abrir para os mistérios da criação, para as possibilidades de outras espaço-temporalidades e, sobretudo, para a invenção do devir. A natureza entendida como paisagem significa a incorporação do natural ao patrimônio simbólico do território, possibilitando sua introdução ao terreno da criação cultural como paisagem de força de encontro dos homens com o divino e, especialmente, das relações dos homens entre si na construção de sua identidade sociocultural. (Jorge Luiz Barbosa).

Pensar na natureza como paisagem é empreender uma reunificação capaz de (re)construir as atitudes sensíveis para perceber, sentir, compreender, e exprimir a complexidade de estar envolvido no mundo. Portanto, a natureza também é matéria e espirito, imaginação e criação, vida e sonho: paisagem de encontros com a vida, com os outros e nós mesmos. (Jorge Luiz Barbosa).

Biogeografia é o estudo das distribuições geográficas dos organismos. Procura explicar como as espécies e táxons superiores são distribuídos e porque a composição taxonômica da biota varia de uma região para outra. Partindo dessa afirmativa, a proposta desse trabalho é esclarecer como a crença das ervas se perpetuam por vários séculos dentro do movimento umbandista, e para isso é necessário essa interdisciplinaridade (da etnobotânica e a umbanda). O interesse deste trabalho é estudar a distribuição geográfica no Rio de Janeiro de ervas, a apropriação deste espaço pela população circunvizinha, pelas atividades extrativistas (coleta de ervas e de plantas ornamentais), e cultivos diversos tipos diferentes de ervas, especificamente do boldo que está diretamente relacionada às religiões afro-brasileiras.

Para esse trabalho utilizaremos quase que intrinsecamente a etnobotânica que por definição, se ocupa da "inter-relação direta entre pessoas e plantas" (Albuquerque, 2005), incluindo todas as formas de percepção e apropriação dos recursos vegetais; Por esta definição a etnobotânica torna possível o reconhecimento da distribuição, origem e diversidade de plantas cultivadas no tempo e no espaço (Albuquerque, 1997).

1. Etnobotânica

As plantas sempre foram importantes para o homem, que em suas atividades terapêuticas, sociais ou religiosas e um dos objetivos da etnobotânica é conhecer e estudar o uso de plantas com fins medicinais, abrindo campo para pesquisas nas áreas de fitoquímica e farmacologia para a descoberta de novos medicamentos (Albuquerque, 2005).

A etnobotânica com sua investigação cientifica ajuda a valorizar o conhecimento tradicional de vários povos antigos, compreendendo e recuperando parte de sua historia. Diversas sociedades desenvolveram conhecimento botânico aliando mitos, cantos, danças, ritos, atribuindo divindades às arvores e poderes mágicos a plantas, o que de certa forma colocou limites ao pesquisador, dificultando sua divulgação justamente por considerar esses povos como de cultura primitiva, valorizando a sua “superioridade racial”, pensamento dominante do século passado (Albuquerque, 2005).

O conhecimento popular fitoterápico no Brasil provém das relações interculturais dos povos que deram origem a formação do povo brasileiro. Essa junção foi feita a partir da integração das culturas; europeia com o português colonizador, do negro africano escravizado e do indígena dominado pela catequese. Porem com vantagens para a cultura branca, embora sendo minoria, a cultura europeia prevaleceu, pois possuía a escrita, enquanto as outras culturas mantinham suas filosofias pela tradição oral. Essa integração de culturas aconteceu também nos cultos religiosos, ocasionando o sincretismo. Dessa miscigenação, surgem então os diferentes ritos, hoje adaptados aos movimentos umbandistas.

Na liturgia e nos rituais de umbanda, vemos o uso de ervas seja na forma de amacís, imantações, banhos de descarga, etc. isso porque as ervas detêm grande quantidade

de energia vital, no elemento vegetal, que através de suas combinações podem produzir determinado efeito positivo ou negativo, como tudo que é energia do universo.

As ervas possuem forte poder para atuarem em nossa aura, em nosso campo energético, fato este já conhecido pelos indígenas, e demais povos ancestrais que já utilizavam para diversos fins.

Como já dito, através do uso de sua energia as ervas podem ser classificadas quanto aos seus efeitos, sejam positivos, negativos ou neutros. Diante desse conhecimento, a umbanda utiliza-se desse elemento para desenvolver seus rituais, seus descarregos, curas ou fortalecimentos, tudo comandado pelas entidades espirituais que determinam o uso apropriado do elemento vegetal conforme o caso.

Uma das formas de utilização das ervas na umbanda, são na forma de banho. Os banhos de descarrego são usados para eliminar vibrações negativas, limpando o períspirito de miasmas negativos, magia negativa ou mesmo influencia de obsessores. Os banhos de fixação, para adquirir vibrações positivas, vitalizando os chácaras do médium de energia positiva para fortalecimento dos processos mediúnicos ou de ligação do espirito encarnado com seus guias e entidades atuantes.

Os usos destes banhos são de grande importância e depende do conhecimento e uso de ervas e raízes, nas suas diferentes qualidades e afinidades, que devem entrar na composição dos mesmos, não podendo facilitar quanto a isso. Geralmente para banhos deve-se usar ervas frescas, e este deve ser preparado dentro de um ritual.

2. Boldo e suas características

Nome Científico: Plectranthus barbadus Classificação Científica Reino: Plantae Classe: Magnoliopsida Ordem: Lamiales Família: Lamiaceae Género: Plectranthus Espécie: P. barbadus Composição Química: Óleo essencial rico em guaieno e fechona, barbatol, barbatesina, Cariocal e barbatusol. Formas de Propagação: Sementes produzidas a partir de estacas de galhos.

Descrição Botânica: Erva perene, com ramos deitados sobre o solo e também eretos, semi-suculentos, densamente também eretos, semi suculentos, densamente providos de pêlos longos, duros e grossos, folhas opostas, ovado – oblongas, grossas, de margem serrada, pilosas em ambas as faces, curto – pecioladas, flores hermafroditas de cinco pétalas, com dois envoltórios, e metades laterais simétricas, azul – violácea, agrupadas em longas inflorescências eretas do tipo cacho

Originária das regiões do Mediterrâneo, sendo cultivada em todo sul da Europa, na Ásia Menor e ainda, na América do Sul e principalmente no Brasil. O Boldo ou Plectranthus barbadus, foi trazido ao Brasil durante o tráfico de negros que se deu durante quase três séculos de escravidão. Tendo se difundido em toda mata atlântica.

A utilização desta erva varia de acordo com grupos sociais que as manejam. Por ser uma planta de pequeno porte, é usada também como paisagismo. Seu aroma exótico e suas funções medicinais como já dito anteriormente são atrativos para este tipo de manejo. Na umbanda, os banhos (despacho e fixação) são comuns e o boldo é uma das ervas utilizadas neste ritual. Conhecido religiosamente como Tapete de Oxalá, o boldo está relacionado aos orixás Oxalá, Iemanjá.

Houve uma sucessão ecológica com o Boldo, diferenciando-se como Boldo – do Chile, Boldo – da – terra (ou boldo – de – jardim) e o boldo – baiano. Vejamos algumas de suas características.

Boldo – do – Chile (Peumus boldus)

Planta originária do Chile é considerada uma árvore, pois quando adulta atinge de 12 a 15 metros de altura. Apresenta propriedades estomáquicas, diuréticas e hepáticas.

Efeitos colaterais:

pode ser abortivo e provocar

hemorragias internas. Deve ser usado com cautela. No

Brasil, é possível encontrar o boldo-do-chile (produto importado) em farmácias.

∑ Boldo – do – Chile (Peumus boldus) Planta originária do Chile é considerada uma árvore,

Boldo – baiano (Vernonia condensata)

Arbusto também originário da África chega a alcançar de 2 a 5 metros de altura e pode se quebrar facilmente com o vento. Apresenta efeito carminativo e

alivia

os

sintomas

de

úlceras

e

gastrite.

Efeitos

colaterais:

ainda não foram verificados.

 

Boldo – da – terra (Coleus barbatus ou Plectranthus barbatus)

Arbusto originário da África

atinge

de

1

a

2

metros de

altura, apresenta folhas aveludadas e produz flores azuladas. Indicado como analgésico, estimulante da digestão e combate azias.

Conhecida popularmente como Boldo – de – Jardim e por “tapete de Oxalá” o boldo é usado para fins medicinais dentro além de manutenção energética dos chacras, impedindo que eles se impregnem de energias nocivas em determinados rituais.

∑ Boldo – do – Chile (Peumus boldus) Planta originária do Chile é considerada uma árvore,

Efeitos colaterais:

quando usado por longos períodos, pode causar irritação

gástrica.

O boldo-da-terra pode ser cultivado em todas as regiões do Brasil e é muito resistente, sendo sensível apenas às geadas. Propaga-se por meio de estacas retiradas da planta-matriz, sendo recomendável manter um espaçamento de 1 metro entre as mudas. Para o cultivo em vasos ou jardineiras, é preciso garantir pelo menos 30 cm de profundidade. Desenvolve-se melhor a pleno sol, em locais sombreados a produção é menor. Como as folhas são as partes utilizadas com finalidades medicinais, o ideal é fazer a poda das inflorescências (pendões florais), um pouco antes da colheita, para obter uma planta volumosa.

O conhecimento sobre plantas medicinais simboliza muitas vezes o único recurso terapêutico de muitas comunidades e grupos étnicos. Atualmente nas regiões mais pobres do país e até mesmo nas grandes regiões brasileiras, plantas medicinais são comercializadas em feiras livres, mercados populares e encontradas em quintais residenciais (MACIEL et al., 2002).

3. Inter-relação Espacial

O comércio das plantas utilizadas como medicinais e de uso religioso no município do Rio de Janeiro pode ser caracterizado pelo mercado formal, que inclui os feirantes (erveiros) com licença para utilização de bancas em feiras ou mercados e pelo mercado informal, constituído por vendedores não legalizados que comercializam as plantas em bancas isoladas e nas calçadas, geralmente próximas às feiras livres e mercados, mas não fazendo parte dos mesmos.

A CEASA está vinculada à Secretaria de Agricultura, Abastecimento, Pesca e Desenvolvimento do estado do Rio de Janeiro. Tem como objetivos básicos promover, desenvolver, dinamizar e organizar a comercialização de produtos hortigranjeiros, ao nível de atacado. No pavilhão destinado às verduras, encontram-se as espécies de uso medicinal e religioso, que são comercializadas, em grande parte, durante a madrugada, para erveiros de feiras livres, pequenos mercados e bancas isoladas. O contato entre os erveiros e mateiros costuma ser bastante rápido, sendo suficiente para que o pagamento e pedido de novas encomendas ocorram.

O Mercado de Madureira, fundado no início do século passado, servia como centro de distribuição de alimentos para a zona suburbana da cidade do Rio de Janeiro. Tornou-se, nas últimas décadas, um mercado tipicamente popular, com vendas a atacado e varejo, que funciona todos os dias da semana, exceto aos domingos, no período de 7 h às 19 h. Inclui diversas papelarias, drogarias, mercearias e lojas especializadas, principalmente, no comércio de artigos religiosos. Para Falcão (2002) este mercado é uma via para se conhecer o mundo afro-brasileiro e apresenta- se como mediador de um processo de socialização das diversas categorias de pessoas iniciadas no candomblé e umbanda, funcionando como uma caixa de ressonância dos terreiros. Na área denominada de pavilhão das ervas, as plantas são trazidas pelos mateiros, geralmente na hora de abertura do mercado, dentro de sacos de aniagem ou similar.

O Mercado de Madureira, fundado no início do século passado, servia como centro de distribuição de

As espécies de uso religioso são provenientes na maioria do extrativismo (64,3%), seguidas do cultivo (32,1%) com 36% encontrando-se em ambos os casos. Este extrativismo se dá predominantemente na Mata Atlântica (83,3%) em relação àquelas retiradas de áreas ruderais (16,7%), o que provavelmente reflete a crença de que estas espécies devam ser retiradas prioritariamente de seu local de origem.

De acordo com Trindade et al. (2000), os vegetais cultivados têm um emprego sacro no candomblé e umbanda, entretanto afirmam que a utilização de vegetais colhidos em área não cultivada é indispensável ao culto religioso. Camargo (1998) chama a atenção para a influência portuguesa e indígena ao acervo de plantas empregadas em rituais afro-brasileiros e lembra que, na medida em que os negros foram se fixando em novas terras, desprovidos dos recursos naturais de que dispunham em suas regiões de origem, encontraram não só plantas conhecidas, como foram também se aproximando de sucedâneos.

Da mesma forma Ugent (2000) relata a utilização de numerosas espécies asiáticas e européias por curandeiros no México. Verificou-se que a Mata Atlântica pode ser considerada como um bioma fornecedor de grande número de espécies, tanto para uso medicinal quanto religioso. As informações obtidas nas entrevistas com mateiros e feirantes demonstram que a grande parte das plantas comercializadas é coletada nas serranias do município do Rio de Janeiro (Serra do Mendanha e maciços da Pedra Branca e da Tijuca), bem como em municípios vizinhos como Barra do Piraí, Guapimirim, Paracambí e Nova Iguaçu, distantes em média 50 km da capital. Todas estas áreas de coleta fazem parte ou circundam unidades de conservação, tais como o Parque Estadual da Pedra Branca, Parque Nacional da Tijuca, Parque Natural Municipal da Serra do Mendanha e Reserva Biológica do Tinguá. São ambientes que sofreram intensas explorações no passado, e que atualmente vêm sendo protegidos por dispositivos legais, que na prática não conseguem controlar o impacto do crescimento da malha urbana que os rodeiam.

Os desmatamentos para estabelecimento de pastagens e culturas, o crescente processo de urbanização e favelização de centros urbanos, o comércio ilegal de espécies da fauna, a retirada da madeira e a introdução de espécies exóticas são elementos de contínua agressão, comuns a todos os remanescentes florestais do Estado (Rocha et al. 2003).

Assim sendo, a apropriação deste espaço pela população circunvizinha se dá, entre outras formas, pelas atividades extrativistas (coleta de ervas e de plantas ornamentais, caça clandestina e cultivos diversos). Para Reis et al. (2002), parte considerável das unidades de conservação dos estados do Sul e Sudeste funciona como principal fonte de extração de recursos florestais, especialmente não madeireiros Possivelmente a demanda decorrente da extração de plantas destinadas ao uso medicinal, mas principalmente aquelas de uso religioso, contribuem para uma maior pressão sobre as espécies nativas da Mata Atlântica no Rio de Janeir

Assim sendo, a apropriação deste espaço pela população circunvizinha se dá, entre outras formas, pelas atividades

Conclusão

Desta forma, o envolvimento e parceria de mateiros, erveiros, pesquisadores e gestores do meio ambiente poderia apontar alternativas de extração racional, cultivo e produção de espécies utilizadas para fins religiosos. A presença do poder público é fundamental no sentido de disciplinar as coletas e também para oferecer alternativas cientificamente embasadas, principalmente para as populações da periferia da cidade do Rio de Janeiro, também no que se refere à utilização de plantas medicinais.

Vimos aqui pontos de análise indicados por Younés e Garay em seu texto como impactos humanos na biodiversidade, variação cultural, subsistência, efeitos indiretos e de escala. Como que em diferentes escalas de análise um produto pode se multiplicar, diferenciar, tornar-se outro, multiplicar-se. Os diferentes usos em diferentes grupos.

Bibliografia

ALBUQUERQUE, Ulysses Paulino de e HANAZAKI, Natália. As pesquisas etnodirigidas na descoberta de novos fármacos de interesse médico e farmacêutico: fragilidades e perspectivas. Revista brasileira farmacogn. vol.16 suppl.0 João Pessoa Dec. 2006

ALVES, Elaine Moreira, CRUZ, Monelise Pinto da e MESSEDER, Jorge Cardoso. Os saberes populares na utilização do boldo (Plectranthus barbatus AndrewsLamiaceae) como fitoterápico nos distúrbios gástricos e hepáticos. Ciência em Tela, Volume 2, Número 1, Rio de Janeiro, 2009

GILLUNG, Jéssica Paula. Biogeografia: a história da vida na terra. Revista da Biologia da USP, Volume Especial de Biogeografia, São Paulo, Dec. 2011.

SANTOS, Charles

Morphy D. Sobre

a busca de padrões congruentes

na

biogeografia. Revista da Biologia da USP, Volume Especial de

Biogeografia, São Paulo, Dec. 2011

YOUNÉS, Talal e GARAY, Irene. As Dimensões Humanas das Biodiversidade: o Imperativo das Abordagem intergrativas. Editora Vozes, Petrópolis,

2006

http://tendadeoxala.com.br/banhos.html

http://www.jardimdeflores.com.br/ervas/ervas4.html

http://umbandistas.blogspot.com.br/2007/09/o-poder-das-ervas-na-

umbanda.html

http://www.scielo.br/pdf/abb/v20n1/17.pdf