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Georgette Silen

PANACEIA
Volume 2 da Série Lázarus
São Paulo, 2013

Para Morgana Souza Viana, minha sacerdotisa de além-mar, e Aicha Souza Viana, a luz da minha vida.

Sumário
prólogo........................................................................................... 11

Livro Quatro: Jornada...................... 15
capítulo um. ...................................................................................17 capítulo dois................................................................................48 capítulo três.................................................................................75 capítulo quatro.........................................................................108 capítulo cinco............................................................................128 capítulo seis............................................................................... 163

Livro Cinco: Encruzilhada..........195
capítulo um. ................................................................................ 197 capítulo dois..............................................................................239 capítulo três..............................................................................283 capítulo quatro.........................................................................323 capítulo cinco............................................................................367

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Livro Seis: Destino............................419
capítulo um. ................................................................................421 capítulo dois............................................................................. 456 capítulo três............................................................................. 485 capítulo quatro.........................................................................536 capítulo cinco............................................................................570

epílogo..........................................................................................611

Uma Olhada em Nênia..........................625

prólogo
Ravena – Itália

O

zumbido em meus ouvidos ficou mais forte. Minha cabeça estava pesada e os olhos não queriam abrir. Tentei mover braços e pernas. Para minha surpresa, alguma coisa me prendia, impedindo esses movimentos. A sensação de dormência e letargia se dissolvia à medida que a mente clareava. Aos poucos consegui vislumbrar algo. Percebi o teto espelhado, com suas lâmpadas fluorescentes laterais que feriam minha visão. Quando me acostumei à claridade, encarei o reflexo do meu corpo: o rosto estava pálido, mais do que de costume, meus olhos verdes arregalados agora, os cabelos loiros soltos, usando uma camisola de hospital. Desviei o olhar e encarei a estranha sala, com suas paredes brancas, de mais ou menos um metro e meio de altura, que depois se estendiam até o alto, formando uma gaiola envidraçada. O vidro grosso deixava à mostra pessoas que me observavam do outro lado, usando roupas, máscaras e toucas, como funcionários de um hospital. Entendi, então, que estava presa a uma maca, meus membros atados com grossas tiras de couro. Ao redor, monitores cardíacos bipavam, seus eletrodos colocados sobre a pele do meu peito, pulsos e outros pontos da cabeça. Máquinas zumbiam e gráficos eram expulsos. O que eu estava fazendo ali? — Olá? Quem está aí? — falei para os vultos no alto.
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Não conseguia me lembrar muito bem, mas tinha certeza de que havia saído de um bar com algumas amigas, após um happy hour que avançou pela noite, e me dirigido para o ponto de ônibus, a caminho de casa. Então... Nada. Minha cabeça estava oca. Alana, sua idiota. Por que não pegou um táxi? Deveria ter ouvido os conselhos de minhas colegas da faculdade, ou ter dormido na casa de uma delas. Meu raciocínio começava a ficar mais rápido quando alguém entrou. Não podia dizer se era um homem ou mulher, pois estava usando uma daquelas roupas que só se veem em filmes onde os personagens cuidam de pessoas infectadas por doenças altamente perigosas. Roupas isolantes. Meu Deus! Será essa a resposta? Peguei algum tipo de bactéria ou vírus e vim parar numa ala para infectados de algum hospital? Isso explicaria o vidro, as roupas e todo o aparato e cuidado. — Por favor, o que está acontecendo? Você é médico? Eu estou doente? — perguntei ao estranho, que me ignorava. — Ei! Quer me responder, por favor? Alguém avisou minha família que estou aqui? Ele não se dignou a me atender. Era como se eu não estivesse ali. O estranho abriu uma autoclave de alumínio e retirou de lá uma caixa prateada. De costas para mim, não pude ver o que fazia com ela. Só quando se virou percebi a seringa brilhando em suas mãos, com um líquido azulado dentro. Então veio em minha direção. — Espere, o que está fazendo? — tentei me soltar. — Pare! O que tem aí? Por que vai me aplicar isso? — me debati, mas estava fortemente presa. — Não! Socorro! Pare! Senti o apertar do torniquete, a veia que saltou e a dor da picada. O líquido azulado desapareceu rápido. O estranho se afastou e ficou me observando. — O que fez comig...? — a frase morreu na garganta. Os aparelhos na sala começaram a bipar loucamente. O monitor cardíaco dava saltos e os eletrodos registravam sucessivos riscos nas folhas. Mas foi só por pouco tempo que minha atenção ficou presa a eles. Uma dor lacerante percorreu meu braço, espalhando-se a partir da picada da injeção, como um choque elétrico. Meu corpo se curvou para o alto em desespero e a respiração ficou presa. Queria ajuda, mas o estranho não se movia. Apenas observava. Espasmos violentos tiveram início, como se os músculos fossem rasgados e retirados dos ossos. Gritei. Num gesto de de• 12 •

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sespero levantei minha cabeça. E o que vi me fez gritar ainda mais. Veias azuis, enormes, cobriam minha pele como gigantescas cobras. A cada segundo se multiplicavam como raízes de uma planta. Deitei a cabeça com força na maca e pelo espelho no teto pude vê-las tomarem conta do meu pescoço, subindo mais. A falta de ar era excruciante, enquanto meu rosto se dissolvia numa máscara grotesca de músculos e veias que queriam explodir. Com um último movimento de dor violenta, o bater frenético do meu coração atingiu um nível insuportável e algo como um tiro pareceu atingir alguma parte do meu cérebro. Minha imagem foi ficando turva e disforme, as máquinas ao redor silenciando gradativamente. Alana, você devia ter pegado um táxi...

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Eles acharam que seria uma desgraça seguirem adiante, em grupo. Assim, separaram-se e cada um adentrou a floresta num ponto diferente, de sua escolha. Demanda do Santo Graal, século XIII.

Jornada

Livro Quatro

capítulo um
Ilha de Lesbos – Grécia – outono

M

eus pés se machucavam nas pedras grossas e os dedos das mãos agarravam com violência o tronco das árvores da floresta petrificada de sequoias. Cada passo exigia mais esforço do que o corpo parecia conseguir. O ar entrava dolorido e entrecortado em meus pulmões. Você não devia ter saído, Laura. Deveria ter escutado quando ela me alertou para descansar, ou deixar que uma delas tivesse vindo comigo. Mas agora isso não tinha importância. A dor forçava meu pensamento em apenas uma direção: precisava voltar, o mais rápido que pudesse. Havia muito a fazer e pouco tempo. A sombra das árvores eternamente petrificadas criava espectros no solo à luz da lua, os galhos dos arbustos ressecados ao redor se contorciam com o vento. Por um momento essas imagens trouxeram de volta a lembrança de outro grupo de arbustos desfolhados numa noite de inverno em Bristol, em frente ao museu, parecendo-se com garras lúgubres de criaturas sobrenaturais e mitológicas que ameaçavam me agarrar com dedos cadavéricos e ossudos. Mas isso foi em outro tempo, onde eu sabia, ou acreditava, pelo menos, que tais criaturas não pudessem existir de verdade. Que tudo o que havia visto era o fruto de uma imaginação cansada e iludida pelo cenário de inverno. Isso foi naquele tempo.
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Pois desde aquele dia minha vida seguiu outro rumo, não ditado pelos homens. Passei a percorrer um mundo onde a cortina entre o real e o imaginário era tênue como poeira no ar, onde forças milenares ainda imperavam com seus encantos e vaticínios, nada era o que realmente parecia e a diferença entre o que é ou não humano se revela. Às vezes, da pior maneira possível. Olhei para o movimento das estrelas no céu, agora claros e reais em muitos sentidos. Cada passo que elas davam iluminava com força o caminho dentro do meu sangue. Seus segredos me foram ditos, o poder de sua força e o que representavam para mim, e eu para elas. Mas mesmo essa força não parecia fazer nenhuma diferença hoje, não equilibrava o peso da balança a meu favor. Forcei o corpo a continuar, passo a passo. As pernas não obedeciam e cada respiração trazia consigo dor e sofrimento. Eu não estava longe da casa. A caminhada fora breve, apenas para espairecer as ideias e encarar o destino que tomara conta da minha vida. Uma realidade que me chamou agora, mais cedo do que esperava. A faca em meu pescoço, armada durante meses, dava seus primeiros sinais de corte. E a lâmina era afiada. Precisa. Tão exata que penetrava fundo em meus músculos e alcançava os ossos, separando-os com a perícia de um anatomista habilidoso. O latejar constante não dava tréguas para que pudesse recuperar o equilíbrio, agir com rapidez ou pedir ajuda. Não tinha forças para chamar alguém, se fizesse elas chegariam rápido. Não que isso pudesse me salvar, mas havia coisas mais importantes em jogo agora do que apenas a minha segurança ou a necessidade de ficar longe, afastada e distante até que tudo se consumasse como me foi dito. Mesmo porque, em breve, não estaria presente para ser uma ameaça. Ao menos esse consolo minha alma poderia levar, o de que todos os que amo estariam definitivamente a salvo quando a notícia se espalhasse entre os clãs. E também entre os humanos. Esse havia sido o pedido que fiz a ela, o segundo entre os dois únicos e mais importantes: a guerra precisava acabar. Fechei os olhos na tentativa de deter a tontura e a dor, impedir que os pontos pretos, que brincavam diante deles, me fizessem perder o foco. Nesses minutos de ausência visual os rostos de todos dançaram na minha frente, um por um, amados e queridos com toda a força de um coração que um dia bateu, deixou de bater, e voltou a latejar para uma vida nova e completamente diferente de tudo o que alguém sonharia existir na
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Terra. As lágrimas escorreram. Só os veria em minhas lembranças, e não mais que isso. Não havia retorno agora. Meus dedos agarraram o tronco de pedra e o sangue escorreu do corte provocado pela pressão das unhas contra a madeira fossilizada. Antes, me perguntava se ainda haveria o tempo de pedir perdão. Mas agora sei que não virá mais, ele se foi. Se foi entre as quedas-d’água do Mato Grosso do Sul, se foi entre a densa floresta Amazônica. Se foi dentro de uma velha cabana abandonada, com as gotas da chuva lavando meus cabelos, onde meu destino foi selado. Que assim seja então. Forcei o choro a parar e a mente a procurar o caminho de pedras. Se essa fosse a solução, a única saída, não tinha por que temer. Tudo seria resolvido da melhor maneira, para todos eles. Ninguém mais sofreria. Nenhum dos lados se mataria ou mataria inocentes por minha causa. Então, meus olhos o viram. Não os olhos reais, os físicos, mas os da alma, do coração: o rosto alvo, lindo, amado e desejado. O semblante de cabelos castanhos, a pele fria iluminada pelos primeiros raios de sol. Nem ao menos pude ver seus olhos uma última vez... Mas não tinha por que lamentar. Tive mais dessa vida junto a ele do que poderia esperar. Mesmo por pouco tempo, nossa história valeria a eternidade. Deus! Não me deixe fraquejar agora, não agora! Obriguei os pés a seguirem a trilha de seixos pontudos e ásperos. Os sapatos de lona que usava não pareciam isolar minha pele e cada passada deixava farpas entre os dedos dos pés. Por tudo que há de mais sagrado eu imploro, me permita concluir essa etapa com força, só essa. E depois... que seja feita Sua vontade e não a minha. Não tinha o hábito de rezar. Minha fé, em muitos momentos, era motivada apenas pela razão dos fatos. Mas nessa hora, aqui e agora, quando a morte parece inevitável e seu anjo paira sobre a cabeça, rezar parece ser o único consolo. Principalmente quando muita coisa importante será deixada para trás e você não estará ali para cuidar e proteger. Esse pensamento me motivou. Caminhei o mais rápido que pude, debaixo de uma lua que banhava minha pele, deixando-a azulada, com a brisa salgada do mar Mediterrâneo balançando meus cabelos castanhos. O suor escorria de todos os poros e minha respiração era descontrolada. Do corpo uma profusão de diferentes aromas era exalada e os batimentos cardíacos estavam muito acelerados. Isso deve tê-la alertado, pois, quando virei à trilha que dava acesso à casa encravada na rocha sólida da ilha, sua imagem apareceu do nada a minha frente. Os cabelos loiros
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sacudiam-se com o vento e seus olhos vermelhos estavam arregalados de horror, estampados numa face ainda mais translúcida por causa da lua. Se seu coração batesse, acredito que estaria tão ou mais acelerado que o meu. Mas mesmo a visão do medo não tiraria do rosto perfeito a beleza de Alexia, nem a antecipação do perigo que estava por vir faria sua voz ser menos encantadora. — Por Ilícia! — o som preencheu o silêncio da noite. — Eu... preciso de ajuda... — consegui espremer as palavras, enquanto sentia os joelhos falharem. Mas não toquei o chão. No instante seguinte ela me segurava nos braços e cruzava os portões de pedra que conduziam à porta da casa. Em segundos eu estava deitada no divã da sala e a mão fria de Alexia tocava minha testa. — Eu disse que ficasse aqui! — repreendeu-me enquanto o bipe do relógio apitava incessante nos meus ouvidos. — Por que não me escutou? — Prometo que, se tivermos outra chance... não vou contrariar você, Alexia... — respondi com a voz engasgada e parei de falar, o calor se espalhando pelo meu corpo em ondas. — Sibila! Olímpia! — ela chamou, mais alto do que necessário para a audição de um vampiro. Alexia estava com medo. As formas morenas das lâmias gregas estavam lá, o olhar de pânico igual ao de sua líder. — Chame Claudia e Hipólita, mas sem alertar mais ninguém! — advertiu para Sibila. — E volte rápido! — a lâmia se foi. Agarrei a mão de Alexia com força. — Eu preciso delas, Alexia. Por favor... Nossos olhos se encontraram e o pensamento dela estava tão claro que podia vê-lo em seu rosto. — Você prometeu, lembra? — encarei-a com seriedade. — Não vai avisar mais ninguém, não agora. Depois poderá fazer o que quiser, mas antes preciso que cumpra o primeiro dos meus dois pedidos. — senti o calor aumentar e apertei sua mão. — Elas têm que estar aqui. O olhar de Alexia se demorou um minuto a mais no meu. Quando percebeu que não havia como me desmotivar, desistiu. A promessa de uma lâmia, como ela mesma me garantira antes, era para toda a eternida• 20 •

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de. Houve um movimento no ar. Sibila e mais duas mulheres chegavam. Mestiças de Hidra, a antiga comunidade destruída. Sua cabeça voltou-se para Olímpia. — Vocês sabem o que fazer — Alexia disse. — Sejam o mais rápidas e discretas possível — seu olhar vagou delas para mim. A brisa leve indicava que Sibila e Olímpia haviam partido. Em algumas horas estariam de volta. Espero que haja tempo. Senti a cabeça ficar pesada e o calor aumentar. O ar não parecia fazer parte do ambiente ao meu redor. Alexia dava instruções para as outras mulheres, que silenciosamente se moveram. Meu corpo foi erguido sem dificuldade e transportado, mas a essa altura não podia identificar para onde, nem o que estavam fazendo comigo. Apenas sabia qual seria o final, estava muito claro. Nem mesmo a cura da Panaceia poderia me salvar agora.

Alto do Riviera – São Paulo primavera – dois anos antes
O som dos atabaques indicava o início do ritual. Meu coração batia no mesmo compasso dos tambores, alto e ritmado. Sim, Nelson, chegou sua hora, pensei, experimentando uma onda de orgulho. Há vinte e um dias estava recluso no roncó, o quarto de recolhimento do terreiro, em preparação para esse momento: o dia em que deixaria de ser um Yáwó, um iniciado, e passaria a fazer parte da comunidade de Ilê Axé, no Alto do Riviera, como Ogan. Uma cerimônia pela qual esperei toda a minha vida, ser aceito e servir aos Orixás. Uma vez que nunca entrei em transe, nem antes e nem durante minha preparação, não poderia ser um Iaô, aquele que recebe o orixá em seu corpo. Por isso a Iyalorixá me escolheu para ser Ogan, que dentro do candomblé significa ter a responsabilidade de zelar pela casa e pelo terreiro enquanto a Iyalorixá estiver em transe nos rituais. Era igualmente importante e não podia deixar de me sentir orgulhoso. Cresci dentro desse terreiro e fé, acompanhei todos os rituais públicos, as saídas dos Iaôs e Ogans. Durante os anos de infância sonhei em fazer parte desse mundo.
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