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Viste-O Chegar na Noite de Natal?

“Realmente, Ele disse que aquilo que fizéssemos


aos mais pequeninos era a Ele que o fazíamos”,
respondeu o pobre, pensativo.
Era noite de Natal. Fazia frio e as ruas estavam
“Pois. Mas quando cheguei a casa vi a tolice
desertas. Tomé voltava para casa a pé e ia
disto tudo. O pobre não era Cristo, mas sim
pensativo. Os seus passos ecoavam na rua deserta
apenas um pobre. E agora vejo bem que tinha
e, de vez em quando, passava um automóvel…
razão: o pobre eras tu.” Tomé levantou os braços
Mas ele não ouvia nada. Estava irritado.
desanimado, e repetiu a sua descrença: “A noite
Desde miúdo que lhe tinham dito que Cristo vinha de Natal é uma noite igual a todas as outras.
na noite de Natal. E desde miúdo que ele sempre Cristo já não vem neste nosso tempo miserável.”
achara a noite de Natal igual a todas as outras. Os
Tomé, então, tirou duas notas da carteira, mais do
presentes e os fritos sempre lhe pareceram uma
que dera no ano anterior, e entregou ao pobre. O
forma de esconder a verdade evidente: Cristo não
pobre agradeceu, mas insistiu:
viria. Ele fartara-se de esperar. Esta noite perdera
a esperança. “Ele disse que estaria connosco todos os dias até
ao fim do mundo.”
De tal forma estava embrenhado nos seus
pensamentos que, sem notar, começou a falar alto “Disse, mas isso devia ser uma figura de
e, olhando para o céu, acusou: expressão. Hoje Cristo já não vem. Tu vês bem o
Natal à tua volta? Só se fala de compras, de
“E tudo mentira, não é? Tu já não vens, pois
comidas e de festas. Já nem se vê os presépios.
não?”
Estão substituídos pelo Pai Natal e pelos cartões
As suas palavras ecoaram na noite dos prédios de crédito. Provavelmente, nós os dois somos os
silenciosos. Então, uma voz respondeu-lhe: únicos que estamos a falar de Cristo, em toda
“Porque estás a falar para o céu? É cá para esta rua, cheia de prédios altos, cheios de gente,
baixo que deves falar!” que se acham cheios do espírito de Natal.”

Tomé parou, surpreendido. Depois notou que, O pobre abanou a cabeça e respondeu:
sentado num de grau de uma porta, estava um “Pode ser que tenhas razão. Mas eu às vezes
pobre andrajoso. Fora ele quem falara. Tomé penso: neste nosso tempo, em que já não se
dirigiu-se-lhe: respeita nada e não se presta ouvidos aos valores,
“Que dizes? Porventura viste alguma vez Cristo é no Natal que toda a gente se esforça por ser
aqui, na Terra? Viste-O chegar na noite de simpática e prestável. É verdade que muitos são
Natal?” os que não o fazem com o espírito que devem, e
ainda mais os que só o fazem nesta época. Mas o
O pobre ficou sério, e respondeu: facto é que o fazem. E fazem-no no dia dos anos
“Por acaso vi, sim! Foi o ano passado. Era noite de Cristo. Podem nem saber quem Ele foi, mas
de Natal e eu estava cheio de fome. Passou um todos são bons neste dia. Porque é Natal.”
homem e deu-me uma enorme esmola. Depois “Não vês que tudo isso é um truque
olhou-me e disse-me: “O reino de Deus está no publicitário?”
meio de nós”. Eu tive medo que fosse uma
daquelas seitas malucas, ou que me viesse pregar “É verdade”, respondeu o pobre. “É o maior
um sermão. Mas não. O homem foi-se, deixando- golpe publicitário de todos os tempos. Cristo,
me com o seu dinheiro e as suas palavras. Então além do mais, é um grande publicitário.
eu compreendi: só Cristo faria uma coisa Conseguir que mesmo aqueles que O
daquelas, desinteressada e salvadora. Hoje estou desconhecem, e até aqueles que O odeiam, se
aqui à espera, a ver se O vejo outra vez: esforcem por ser bons no dia dos Seus anos é
notável. Neste dia todos fazem aquilo que Ele
“Oh! Isso não era Cristo! Era eu!” disse Tomé. queria que eles fizessem. É o maior sucesso
“Estou agora a lembrar-me. O ano passado publicitário da História! A bem de ver, como Ele
passei por aqui na noite de Natal e dei esmola a é Deus, não admira que saiba tanto de
um pobre e falei com ele. E sabes porque fiz isso? publicidade.”
Porque pensei que fosse Cristo que me aparecia
na figura de um pobre, na noite de Natal.” Tomé ficou pensativo. A argumentação do pobre
era demasia forte para um pobre normal. Os
pobres que ele tinha conhecido pouco falavam. A
dúvida voltava ao seu espírito. Seria aquele pobre Proposta de trabalho:
Cristo disfarçado? E decidiu enfrentar a questão
claramente. Quer fosse Cristo, quer fosse apenas
um pobre eloquente, queria ver respondido o que → Que desafios os temas de reflexão te têm
o perturbava. lançado e como concretizas esses desafios neste
tempo de Natal?
“Mas alguma vez viste Cristo vir na noite de
Natal? Aquilo do ano passado era só eu! Viste-O
a Ele alguma vez?”
“Realmente”, respondeu o pobre pesaroso,
“nunca O vi.”
“Aí está!”, afirmou Tomé triunfante, “Cristo não
vem na noite Natal.”
“Querem ver Cristo na noite de Natal?” disse
uma voz atrás deles.
Os dois tiveram um sobressalto de susto. Virando-
se, viram um homem, com chapéu e sobretudo.
Era ele quem falava.
“Tu viste Cristo chegar na noite de Natal?”,
perguntou Tomé.
“Sim”, respondeu simplesmente o homem. “Está
ali em baixo. Vinde ver.”
O pobre levantou-se rapidamente e começou a
seguir o homem pela rua. Tomé hesitou. Mas,
encolhendo os ombros, acabou por seguir os
outros dois. Começaram a descer a rua. Tomé,
rindo interiormente, perguntava-se se iria entrar
em alguma gruta. Chegou a olhar à volta, à
procura dos pastores.
Um pouco adiante parou, surpreendido. Podia ser
a sua imaginação, mas parecia-lhe ouvir os cantos
dos anjos. Apressou o passo intrigado. O homem
que os guiava entrou numa rua lateral e depois
numa pequena igreja. Era de lá que vinham os
cânticos que Tomé ouvira.

Na igreja, a “Missa do Galo” estava a começar.


Tomé e o pobre ficaram de pé, ao fundo. O padre
dizia:
“Cristo é a videira, e nós os seus ramos. Um
ramo de uma videira não vê a videira. Apenas vê
os o ramos, como ele. Esses ramos fazem a
videira. Mas a videira é mais do que os ramos,
porque só enquanto os ramos permanecem na
videira é que produzem muito fruto. E esses são
os frutos de Cristo.”
Depois, o padre dirigiu-se para o altar e tomou o
pão e o vinho. E Cristo apareceu ali, naquela noite
de Natal. Como estivera presente na Terra, todos
os dias, desde o primeiro Natal.