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Medo, humilhações, pressões

Entendendo o que é a

VIOLÊNCIA

PSICOLÓGICA

PANCADAS INTERNAS

A tortura causada pela violência psicológica, a mais comum e também silenciosa forma de pressão existente atualmente

Por André Almeida - 3º Período de Jornalismo

Q uando era criança, Gustavo* era constantemente agredido por colegas de classe. "Ouvia todo dia eles me chamando de bichinha, viadinho, essas coisas." Esse tipo de violência faz parte

de um quadro que não consta na lista de crimes mais denunciados, mas que é tão perigoso quanto qualquer outro tipo de violência. Trata-se da violência psicológica que ocorre diariamente, atinge um número enorme de pessoas e, ao contrário de outros crimes, não é denunciado na grande maioria dos casos. Gustavo superou tudo que passou numa boa. Hoje estuda direito, trabalha como funcionário público e vive uma vida tranqüila ao lado de amigos que aceitam sua homossexualidade. Só reclama que nos lugares héteros que freqüenta ainda é visto com "olhares estranhos". Mas que ainda assim consegue rir da própria condição de

estranho no ninho. A história de Gustavo pode ser considerada um bom exemplo de superação, mas nem tudo termina assim. A escola pode ser um ambiente de grande acúmulo de traumas que serão carregados durante a vida. A professora Virgínia Alexandrino diz que a prática do chamado bullying é comum e sempre que ela passa dos limites é necessária a intervenção do professor. Segundo a professora negros e afeminados são as maiores vítimas dos abusos de colegas de classe. Sua companheira de trabalho, professora Lígia Patrícia, afirma que é comum casos de alunos agressores que trazem de casa problemas que interferem no comportamento em sala de aula. "Os alunos que mais agridem são os mais agredidos", diz a professora. Neste ponto concorda o psicólogo João Alves Filho. Ele diz que pessoas que trazem histórico de traumas estão propensas a se tornarem pessoas agressivas. O que não significa que seja uma regra. Segundo o próprio psicólogo algumas pessoas apresentam o psiquismo frágil, o que as torna mais fracas em relação às conseqüências das agressões verbais. Na escola pode estar o início de tudo, mas a violência psicológica pode estar além das salas de aula. "Ela é muito comum em adultos, nos relacionamentos conjugais" afirma o psicólogo que exemplifica com casos em que ocorre uma dependência por parte de um dos parceiros e esta dependência se torna alvo de críticas destrutivas do tipo "você não faz nada" ou "você é um(a) inútil". Estas agressões, com o tempo, podem causar a baixa de auto-estima ou ainda se tornar uma patologia mais grave como a depressão. Uma situação de pressão psicológica combinada com o psiquismo frágil, tem o poder de marcar um indivíduo para sempre e de diversas formas. Há quem supere, há quem tome atitudes extremadas e há quem

Versões de Violência

tome atitudes extremadas e há quem Versões de Violência O Relatório Mundial da Organização Mundial da

O Relatório Mundial da Organização Mundial da Saúde (OMS) de 2002 divide a violência para que se possa explicar e trabalhar com cada tipo de forma mais clara e objetiva. Abaixo, um esquema de como se classificam as violências.

* Auto-infligidas, que se referem a comportamentos suicidas e os auto-abuso;

* Violências interpessoais, classificadas em dois âmbitos: o intrafamiliar e o comunitário. O primeiro ocorre entre os parceiros íntimos e entre os membros da família e o segundo acontece no ambiente social, entre conhecidos e desconhecidos;

* Violências coletivas, que são atos violentos que acontecem nos âmbitos macro sociais, políticos e econômicos.

Em conjunto com os tipos acima citados, tem-se ainda a violência expressa, que pode aparecersob a forma de violência física, psicológica, sexual e negligência ou abandono.

Violência Psicológica

agressões verbais ou gestuais com o objetivo de aterrorizar, rejeitar, humilhar a vítima, restringir a liberdade ou ainda, isolá-la do convívio social

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Trabalho Interdisciplinar - Junho de 2009

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repasse isso para frente. Não é incomum vermos pais que educam os filhos nos mesmos moldes que foram educados no passado. Além do bullying, existe na categoria violência psicológica um leque imenso de formas de pressão. O trabalho é um local onde regularmente se apuram casos. Margarete Bittencourt, Assistente Social e Terapeuta Familiar, afirma que profissionais das áreas da Saúde e Segurança estão sempre sujeitos à passarem por tal situação por lidarem com pressões e cobranças diariamente. Paulo Sérgio*, soldado do 14º Batalhão da PM de Ipatinga, afirma que o grande volume de trabalho, as cobranças e até mesmo ameaças podem se tornar um grande fator de risco para os militares. Sem dúvida, esses fatores estão atrelados a muitos casos de depressão que atingem os diversos tipos de profissionais. Nem mesmo profissões mais glamourizadas escapam. O publicitário Júlio Cézar Palhares convive diariamente com o stress de serviços a serem entregues, clientes exigentes, campanhas. Mas compensa tudo no fim de semana praticando seu hobby preferido: cozinhar, na cozinha ao lado do escritório que é fechado na sexta e reaberto somente na segunda-feira para recomeçar tudo de novo. O psiquismo forte é importante nessas horas. Júlio Cézar afirma que às vezes dá vontade de se jogar do 7º andar do prédio em que vive, mas fica só na vontade. O soldado Paulo Sérgio diz que em seus 11 anos de profissão viu colegas não suportarem a pressão e desistirem da carreira militar, entrando em depressão e acabando com a própria vida. "O caso que mais me chamou atenção foi o de uma militar que tinha dois filhos e se matou no dia das mães." A recepcionista Cristina* que trabalhou durante 5 anos na recepção do Pronto Socorro Municipal de

Ipatinga passou por momentos angustiantes. Ela atendia as pessoas que chegavam para se consultar, era a primeira pessoa a ser vista por quem ali entrava e também o alvo daqueles que se irritavam com o serviço de atendimento público. "As pessoas demoravam para serem atendidas e achavam que a culpa era minha, me xingavam." Começaram as dores de cabeças constantes, quase todos os dias até que ela teve um ataque convulsivo. Após consultas com Margarete, ela conseguiu ser remanejada para a área interna do hospital. Mas os recepcionistas não são os únicos que vivem à beira de um ataque de nervos. Auxiliares de enfermagem tem muito do que reclamar. O intenso ritmo de entra e sai muitas vezes não deixa espaço nem para um lanche, os plantões que podem se estender à mais de 12 horas de trabalho tornam muitos profissionais dependentes de calmantes, já que para eles o acesso à esse tipo de substância é facilitado. Juntando a esses fatores o medo da concorrência, a necessidade de atualização constante e o desrespeito aos limites comuns de cada pessoa tem-se uma situação de violência psicológica no trabalho, que, dependendo da abordagem, pode ser classificada como assédio moral. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) descreve o assédio moral como o comportamento de uma pessoa para rebaixar um trabalhador ou um grupo de trabalhadores, através de meios vingativos, cruéis, maliciosos ou humilhantes. São críticas repetitivas e desqualificações, isolando-o do contato com o grupo e difundindo falsas informações sobre ele. Marie-France Hirigoyen, psiquiatra francesa, elaborou uma lista de atitudes hostis e comportamentos que caracterizariam o assédio moral (veja o quadro abaixo). Nesta lista eles se dividem em Deterioração

Lista de Comportamentos hostis e destrutivos

Aqui estão listados os principais sintomas de abusos por parte de colegas e/ou chefes no ambiente profissional

Deterioração proposital das condições de trabalho

É

desacreditada diante de colegas, superiores ou

O

superior não transmite as informações úteis para a realização de tarefas As decisões são sistematicamente contestadas

subordinados Espalham rumores a seu respeito Atribuem-lhe problemas psicológicos

O

trabalho é criticado de forma injusta ou exagerada

 

Há pressão para não fazer valer os direitos de trabalho (férias, horas extras, prêmios) Atribuição, contra a vontade, de trabalhos perigosos O trabalho que normalmente lhe compete é substituído por outros Falta de respeito com relação à sua saúde São dadas instrunções impossíveis de se executar Indução ao erro Superiores hierárquicos ou colegas não dialogam com a vítima A comunicação com ela é unicamente por escrito Recusam todo o contato com ela, mesmo o visual É posta separada dos outros Ignoram sua presença, dirigindo-se apenas aos outros A direção recusa qualquer pedido de entrevista Utilizam insinuações desdenhosas para qualificá-la

Zombam de suas deficiências físicas ou de seu aspecto físico

É imitada, caricaturada, injuriada com termos obscenos ou degradantes Criticam sua vida privada Zombam de sua origem, nacionalidade, crença religiosa ou convicções políticas Atribuem-lhes tarefas humilhantes Ameaças de violência física Agressões físicas, mesmo que de leve, empurrões Falam com ela aos gritos Invadem sua vida privada com ligações telefônicas ou cartas Seguem-na na rua, é espionada diante do domicílio

É

assediada ou agredida sexualmente (gestos ou propostas) Não levam em conta seus problemas de saúde.

Fonte: Mal-estar no trabalho: redefinindo o assédio moral - Marie-France Hirigoyen Editora Bertrand do Brasil, São Paulo, 2002.

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proposital das condições de trabalho; Isolamento e recusa de comunicação; Atentado contra a dignidade; Violência verbal, física e sexual. Existem várias formas de assédio moral, mas é importante frisar que, para ser considerado assédio, é importante que haja os fatores repetição e intencionalidade, caso contrário a agressão é de natureza psicológica. Um outro fator que diferencia o assédio moral da violência psicológica é que o primeiro vem ganhando espaço nos fóruns de justiça. Já as vítimas da violência psicológica muitas vezes sofrem caladas e são raros os casos de pressões que renderam processos e vitórias às suas vítimas. Vale lembrar que o preconceito verbal contra negros, que se encaixa na categoria violência psicológica, segue uma linha contrária e o número de denúncias contra racistas vêm cresecendo. Um outro fator contribuinte de violência se encontra nas ameaças. Casos de abusos contra mulheres por parte de seus companheiros deixam de ser denunciados simplesmente pelo fator financeiro. Em muitos casos mulheres, de baixa renda, na maioria dos casos, chegam a chamar a polícia, mas ao verem que o chefe da família, o provedor, está indo embora retiram a queixa. "Algumas até pendem que a gente dê conselhos para o cara, acham que somos

psicólogos" diz o soldado Paulo Sérgio. Em ambientes assim, os filhos que assistem a tudo são marcados desde cedo pelo

fantasma da violência. E a falta de base familiar acaba sendo um fator decisivo para um futuro sem grandes perspectivas. O soldado relata o caso de um homem que matou a própria mãe, teve três filhos, duas meninas e um menino,

e engravidou a mais velha. A garota

casou-se com um homem que tempos depois veio a assassinar o pai estuprador. O filho mais novo e irmão da garota violentada é hoje um traficante perigoso do bairro Bom Jardim, em Ipatinga, com várias passagens pela polícia. To d o s e s s e s a g r a v a n t e s contribuíram e fizeram o rapaz ser

o que é hoje, mas como já afirmou

João Alves Filho, não existe uma regra. O mesmo soldado concorda e conta o caso de uma mãe traficante e usuária de drogas também moradora do bairro Bom Jardim que foi assassinada por questões ligadas ao tráfico. "Os filhos dela são todos honestos e trabalhadores". Casos como os citados acima mexem com toda estrutura familiar e quase sempre são tratados com o auxílio de um assistente social. Margarete já viu de perto situações como essas e vem tratando desses problemas há mais de 15 anos. Quando se depara

com uma situação de pressão que leva à uma tentativa de suicídio o primeiro passo é investigar o histórico e o contexto em que vive o paciente. "Para entender o ser humano é preciso entender o homem como um todo". Para isso é necessária uma investigação que envolve a família, os amigos, o trabalho. "Só assim é que descobrimos os motivos que levam uma pessoa a uma atitude dessas".

O tratamento de um caso de

violência psicológica é difícil pois este é um tipo de violência que não deixa marcas físicas em quem a sofre. Os sintomas iniciais são sutis. Agressividade, ansiedade e temperamento difícil podem estar relacionados. Depressão, disfunções sexuais e transtornos alimentares são

indícios que o trauma avançou para um estágio mais avançado.

é

s imprescindível a ajuda de um psicólogo que orientará a vítima. Em alguns casos mais graves o paciente deve ser encaminhado para um psiquiatra ou até mesmo para um terapeuta.

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VOCÊ TEM MEDO DE QUÊ?

Pessoas nas ruas falam sobre seus medos e relacionam-os com fatores psicológicos

sobre seus medos e relacionam-os com fatores psicológicos Maria Paulina Maior medo: dirigir, mas afirma que

Maria Paulina

Maior medo: dirigir, mas afirma que o seu segundo maior medo, o de lagartos e cobras, vem da infância devido ao medo da mãe.

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Centro Universitário do Leste de Minas Gerais - UNILESTE MG Ilza Rosário Maior medo: violência nas

Ilza Rosário

Maior medo: violência nas estradas.

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Violência Psicológica e Medo

Muitas vezes, casos de fobia estão diretamente ligados à algum trauma sofrido anteriormente. Arlete Ferreira, por exemplo, diz que seu medo de andar de moto começou quando viu um amigo sofrer um acidente e perder uma perna. Maria Aparecida Teixeira relata que após ter sido assaltada por um homem de boné, passou a ter medo da violência nas ruas. "Quando a gente é assaltada, o trauma nunca passa", afirma a dona de casa que após o incidente não consegue ver um homem usando boné sem se lembrar e ficar com medo. "Já cheguei a avançar um sinal por causa do medo", conta. Geraldo Lima também tem medo da violência, mais especificamente da agressão física "por causa de tudo que a gente vê na televisão". "Uma criança pode ter medo da polícia por ter visto alguém ser preso" diz o soldado Paulo, que já passou pela situação descrita acima. "Paramos uma viatura próximo a uma lanchonete e sem mais nem menos um menina começou a chorar, depois descobrimos que ela tinha visto o pai ser preso e ficou traumatizada". Esses traumas são totalmente comuns, mas quando são levados para a vida adulta passam a exigir cuidados. Os pais têm um papel importante nessas horas, pois a

violência psicológica pode vir

através de pequenas ações do dia-a- dia. Dizer coisas simples como "o monstro vai te levar", "cuidado com

anemia falciforme, tipo raro da

o

bêbado" ou "não sai de casa

doença. Por faltar muito às aulas

porque tem um doido lá fora" pode

devido à doença e ser discriminada

trazer para a criança medos e inseguranças que poderão acompanhá-la durante toda sua vida.

por seus colegas, ela não tinha mais vontade de ir à escola. O trabalho da equipe de assistência social foi levar à escola orientações sobre a doença

U m a p e s q u i s a d a ABRAPIA (Associação Brasileira Pais, Infância e Adolescência) divulgou que a violência psicológica está em 3º lugar no ranking das agressões sofridas por crianças com menos de dez anos. Atrás estão o abandono ou negligência e a agressão física. A tortura psicológica passa na frente da exploração sexual infantil. Este estudo tem sido utilizado pelo UNICEF para ajudar na elaboração

tanto para alunos quanto aos professores que também sabiam muito pouco a respeito. “Deu certo. A garota voltou a estudar, dentro dos seus limites, mas não reclama mais em ir para à escola”. Sem dúvida alguma é possível melhorar esta questão delicada que é a violência psicológica com muita educação e qualidade nas relações. Se levarmos em consideração que as agressões físicas são frutos de agressões

de

planos de combate a esses tipos

psicológicas, ao trabalhar essa

de

violência. A ABRAPIA também

questão desde o início estaremos

tem se preocupado em mudar esse quadro tomando medidas como orientação de pais, professores e alunos. Margarete Bittencourt não faz parte da ABRAPIA mas acredita que essas atitudes que poderão mudas os conceitos. Por isso ela e sua equipe mantém

mudando para melhor nossa relação uns com os outros.

frequentemente visitas a escolas no intuito de orientar as pessoas e ensiná-las de como conviver com

as diferenças. Um caso que chamou

a atenção da pesquisadora foi o de uma garota de 14 anos que sofria de

da pesquisadora foi o de uma garota de 14 anos que sofria de Laudelino Abreu Maiores

Laudelino Abreu

Maiores medos: solidão e desprezo, perder a memória como aconteceu quando tinha 26 anos.

* alguns nomes foram trocados a pedido de seus respectivos donos por questões pessoais

a pedido de seus respectivos donos por questões pessoais Arlete Ferreira Maior medo: perder a mãe.

Arlete Ferreira

Maior medo: perder a mãe. Seu segundo maior medo passou a ser a moto, depois de ver um amigo perder uma

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Centro Universitário do Leste de Minas Gerais - UNILESTE MG Mônica Laurentino Maior medo: morrer assassinada.

Mônica Laurentino

Maior medo: morrer assassinada. Seu outro grande medo é passar novamente pela situação de ter um assaltante em sua casa.

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