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ASAE

Tribunal+da+Rela

Ana Luísa Silva

Segundo o Tribunal, o Governo carecia de uma autorização


legislativa da Assembleia da República para poder legislar
sobre a matéria

Transformação em órgão de polícia criminal em causa


Tribunal da Relação declara algumas atribuições da
ASAE inconstitucionais
14.07.2009 - 08h51 José Augusto Moreira
O Tribunal da Relação de Lisboa (TRL) considera que a ASAE (Autoridade de Segurança Alimentar e Económica) tem
funcionado de forma ilegal, uma vez que é inconstitucional a sua transformação em órgão de polícia criminal, ocorrida
em 2007.

Segundo a decisão do TRL, hoje noticiada pelo "Diário Económico", o Governo carecia de uma autorização legislativa
da Assembleia da República (AR) para poder legislar sobre a matéria, o que no entender dos juízes que apreciaram a
questão não acontecia, tendo assim decidido pela inconstitucionalidade daquele diploma legal (Decreto-Lei nº
274/2007, de 30 de Julho), na parte em que atribui àquele organismo competências de órgão de polícia criminal.

A decisão, subscrita pelos desembargadores Maria de Fátima Mata-Mouros e João Abrunhosa, foi proferida no passado
dia 25 de Junho e refere-se a uma detenção efectuada por elementos da ASAE, num café da Trafaria, em Almada. A
arguida, estaria a explorar um jogo de fortuna ou azar, estilo raspadinha, e acabou por ser condenada pelo Tribunal de
Almada numa pena de 90 dias de prisão, substituída por uma multa de 840 euros. No recurso para o TRL, defendia-se
que a detenção fora ilegal, por exorbitar as competências dos elementos da ASAE, pelo que a arguida não poderia ter
sido submetida a julgamento nas condições em que o foi.

Além de confirmar a inconstitucionalidade da atribuição de competências de órgão de polícia criminal, o acórdão


considera que igualmente fere a reserva de lei da AR uma outra norma do mesmo Decreto-Lei, que atribui à ASAE
competências para “desenvolver acções de natureza preventiva e repressiva em matéria de jogo ilícito”. Segundo o
entendimento dos juízes desembargadores, estas são atribuições que correspondem à actuação das forças de
segurança, matéria sobre a qual a Constituição atribui reserva de competência à AR.

Nas suas alegações, o Ministério Público defendia que, apesar da atribuição de competências de órgão de polícia
criminal, em nenhuma parte do Decreto-Lei 274/2007 a ASAE é definida como força de segurança, ao contrário
daquilo que acontece com as leias orgânicas da PSP ou da GNR. Por isso, concluía o MP, apenas devem ser entendidas
como forças de segurança as entidades com a função de manutenção da segurança e odem públicas, o que não é o
caso da ASAE.

O decreto que alterou – e reforçou – as competências da ASAE surgiu “no quadro das orientações definidas pelo
Programa de Reestruturação da Administração Central do Estado (PRACE) e dos objectivos do programa do Governo
no tocante à modernização administrativa e à melhoria da qualidade dos serviços públicos com ganhos de eficiência”,
conforme se lê no seu preâmbulo. Foi aprovado em Conselho de Ministros em 11 de Janeiro de 2007 e promulgado
pelo Presidente da República em 29 de Junho do mesmo ano.

A decisão o TRL tem apenas efeitos para o caso concreto do julgamento de Almada, que foi declarado nulo. Dada a
matéria, tudo indica que haverá recurso do Ministério Público para o Tribunal Constitucional (TC), cuja eventual
decisão continuará a ter efeitos apenas para este caso. Para que as normas em questão sejam declaradas
definitivamente inconstitucionais será necessário que o TC se venha a decidir nesse sentido em três casos concreto.
Este é apenas o primeiro a ter uma decisão de inconstitucionalidade nos tribunais da relação, mas a questão foi já
levantada por várias vezes noutros processos cujo desfecho não é ainda conhecido

Ministério da Economia aguarda por decisão do Constitucional


O Ministério da Economia (ME), que tem a tutela da ASAE, diz que a questão da atribuição de competências de
prevenção e repressão e de órgão de polícia criminal é matéria de natureza jurídica, sobre a qual compete ao Tribunal
Constitucional pronunciar-se de forma definitiva. Segundo disse ao PÚBLICO a porta-voz do ME, não era tomada
qualquer posição sobre a matéria até que o TC emita juízo de constitucionalidade. A mesma fonte salienta, no
entanto, que as atribuições da ASAE resultaram da fusão da Inspecção Geral das Actividades Económicas, da Agência
Portuguesa de Segurança Alimentar, e da Direcção Geral de Fiscalização e Controlo da Qualidade Alimentar, cujas
competências foram transferidas para a nova entidade.

O acórdão da relação de Lisboa nota que assim foi com o DL 237/2005, que criou a ASAE, mas o que está em causa
são as alterações introduzidas pela Lei Orgânica (DL 274/2007). Entre estas está o artº 15º, que estabelece que
passa a ter “poderes de autoridade e é órgão de polícia criminal”, e o artº 3º, al. aa) que atribui competência para
“desenvolver acções de natureza preventiva e repressiva em matéria de jogo ilícito”. São estas duas normas que o
TRL considera estarem feridas de inconstitucionalidade orgânica.

Última actualização às 11h21


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COMENTÁRIOS 1 a 5 de um total de 235 Escrever comentário

15.07.2009 - 10h12 - Anónimo, Lisboa


Entravam por ali a dentro, prontos a "matar e esfolar" porque em torno da ASAE foi criada a imagem de justiceiros,
de "feios e maus" e portanto, desviem-se que vamos entrar. Deveriam inspeccionar até à medula, deveriam passar
os autos, multas, coimas, o que seja, no âmbito das suas funções de fiscalização da segurança alimentar e
económica e deviam fazê-lo criteriosamente, com zêlo e isenção. Mas não, a ASAE tomou o gosto ao poder, saboreou
aquela sensação de ser temida e isso excitou a rapaziada que rapidamente assumiu uma pose como se se tratasse
de guerrilha urbana. Tapados, surgiam apenas com os olhos à mostra, arma em punho, passos largos. Será que
vamos ver a esta rapaziada com fatinhos azuis escuros, camisa e gravata, de bloco e esferográfica na mão, tomando
notas, apenas notas, elaborando relatórios de ocorrências, sem baterem, sem partirem, sem empurrarem ninguém?
Vão ficar tão tristes... estavam já tão acostumados a estas cenas à americana, cheias de acção, tipo cowboys!

15.07.2009 - 10h07 - Diogo Ruão, Paredes


Pérola 1:… uma visita a uma cantina escolar que impediu as crianças de almoçar durante cinco horas / Pérola 2: … o
fecho de uma quermesse social por não ter o estatuto de "agente económico / Pérola 3: …os inspectores da
Autoridade para a Segurança Alimentar e Económica (ASAE) estão a receber treino militar de ex-agentes dos
serviços secretos portugueses (SIS) e de elementos do corpo de polícia norte-americano SWAT… / Pérola 4: cada
inspector da ASAE “tem que detectar 124 infracções, levantar 61 processos de contra-ordenação, que vão terminar
em coimas, abrir oito processos crime, fechar ou suspender o funcionamento de pelo menos seis estabelecimentos e
fazer a detenção de pelo menos duas pessoas… O documento em causa terá carácter “confidencial” e diz respeito à
Direcção Norte da ASAE. … “instruções semelhantes estão a ser dadas a outras direcções regionais da ASAE… NÃO
SERÁ ESTE UM PAÍS DE PATETAS INCOMPETENTES MUSCULADOS… é vital fiscalizar, mas não desta forma…

15.07.2009 - 09h20 - NP, VN


Será desta que as tascas cá do sítio voltam ao antigamente? Esperemos que sim! Nada como, comer um valente
prato de couves e bacalhau acompanhado por um jarro de tinto, ter um galheteiro todo lambuzado de azeite e
vinagre e ver as aranhas no tecto da tasca, as baratas a passarem ao lado dos nossos pés, ...hum, que saudades! Ao
que chegou a hipocrisia neste país! Se se deslocarem a outros países da UE, poderão ver tascas por todo lado, a
funcionarem nas condições do antigamente com as leis actuais e sem qualquer intervenção das respectivas PIDE's.
Ah! Pois, pide só mesmo em Portugal! Alguém sabe se o Sócrates já pagou a multa por fumar em local proibido?
Deviam-lhe perguntar, srs jornalistas. As leis são para todos,... incluindo políticos!

15.07.2009 - 08h40 - José do Telhado, Azambuja


O Tribunal da Relação, decidiu com elegância, aquilo que o POVÃO já se tinha dado conta há muito tempo. Com o
disfarce de defender o Povo, a ASAE comporta-se como um bando de "capangas" armados ao serviço do governo de
turno, que neste momento é o PS, que é o pai da criatura !

15.07.2009 - 08h07 - Luis, Almada


"no conteúdo está certo a actuação da ASEA. E sim quem foge aos impostos, vende produtos estragadas também é
criminoso!" Foi exactamente isso e muito pior o que certos bancos por cá fizeram, lembra-se? BPN, BPP... e repare
como foi diferente o comportamento do BdP! Só para os pequenos é que há rigor na aplicação da lei. É o modo mais
repugnante de actuarem: fortes com os fracos e lambe-botas com os fortes!

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