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Comunicação e Educação, São Paulo, [ 1I: 15 a 46, set.

1994 15

INFORMAÇÃO:
DO TRATAMENTO
goS nacionais
AO ACESSO
E UTILIZAÇÃO

A aquisição do conhecimento se dá através da busca de informações.


É por isso que conhecer o que é a linguagem documentária
e saber como utilizá-la adequadamente
é fundamental para o educador.
dificulta o acesso das pessoas. Em cada área
de conhecimento impõe-se não apenas iden-
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No quadro múltiplo e fragmentado dater critérios que permitam fazer recortes sig-
sociedade atual, a Informação, de maneiranificativos no conjunto da produção da área,
geral, assume grande importância. Quando pois existem linhas de orientação diversas,
nosso tempo de trabalho e de lazer parece ir
informações de qualidade diversas, interes-
diminuindo, frente a inúmeras solicitações,
ses de vários níveis, que dificultam o acom-
evidencia-se a necessidade crescente de me-
panhamento da produção de informação, até
canismos cada vez mais eficazes para a ob-
mesmo entre especialistas.
tenção de informações. Em que pese esta dificuldade de sele-
Em linhas gerais, dizemos que a infor-
ção, não se pode negar que a informação,
mação é utilizada para atualizar conheci-entendida de forma ampla, se constitui, na
mentos, para permitir o avanço nas diversas
sociedade moderna, num objeto de primeira
áreas de conhecimento, para divulgar novas
necessidade, capaz de mudar nosso rumo
idéias, para promover, enfim, a comunica-pessoal e de modificar a vida em sociedade.
ção entre os homens. Como é natural, a frequente e diversi-
Sem muita dificuldade observamos ficada utilização do termo informação vem
que o volume de informações de toda sortegerando grande variação conceitual, sendo
mesmo permiti-
AS AtPTORAS do dizer que te-
mos hoje vários
Maria de FALhmi GoqAva M.T W o Nair Yumlko Kobashi sentidos para
Prof. Doutora do Departamento de Prof. Doutora do Departamento de essa palavra, ou
Biblioteconornia da ELA-USE Biblioteconomia da ECA-USE? até mesmo di-
zermos que há
Anna Maria Marques Cintra Mariida Lopes Ginez de Lara várias palavras
Prof. Doutora do Departamento de Assistente do Depattamento de
com a forma in-
Biblioteconomia da ECA-USE? Biblioteconornia da ECA-USP.
formação.
16 Comunicação e Edi~ c a ç ã o São
, Paulo, 11 1: 1 5 a 46, set. 1994

Em estudo anterior, Cintra et alii ticos que, por conterem algum tipo de infor-
(1994), consideramos que a relação infor- mação, se constituem em documentos.
mação/conhecimento poderia ser observada Considerando, pois, a grande quanti-
a partir de aspectos complementares. Neste dade de documentos que atestam hoje o es-
trabalho ressaltamos que esses aspectos re- tágio de desenvolvimento de nossa socieda-
cobrem eixos definitórios de "informação" de, com facilidade percebemos a necessida-
e "conhecimento". de de sistemas de tratamento dessa massa
Assim, documental, para que ela possa ao mesmo
tempo ser divulgada e servir de matéria pri-
conhecimento^' é um estoque, ou con- ma para novos conhecimentos.
junto de saberes acumulados, enquanto É em função desta necessidade que
"informação" é um fluxo de mensagens; nasce o papel fundamental da Análise Do-
cumentária, área que cuida especificamente
O "conhecimento" se apresenta como algo da representação da informação, para que
estruturado, coerente e, frequentemente, ela possa ser adequadamente guardada e de-
universal, enquanto a "informação" é ato- vidamente encontrada, quando se fizer ne-
mizada, temporária, efêmera. cessário.
Na sociedade atual não só podemos Com apenas um pequeno esforço inte-
observar que o conjunto de conhecimentos lectual podemos perceber que não existem
de um indivíduo e da sociedade é alterado mecanismos capazes de dimensionar nem
com a "entrada" de novas informações, que com exatidão, nem próximo à exatidão a
provocam adições, reestmturações ou mu- quantidade de conhecimentos acumulados
danças, como também que há, por força do no mundo moderno. Inúmeras obras de re-
volume de informações que se apresenta em ferência (livros, revistas, catálogos etc.) ten-
cada área, uma significativa mudança na tam auxiliar a recuperação de informação,
forma de conhecer. servindo para minimizar fenômenos com-
Como assinala Moles (1967), o conhe- queiros como o da "redescoberta científi-
cimento atual se assemelha mais a um fel- ca", que podem pôr em risco muita pesqui-
tro, onde as informações são prensadas, do sa, caso os centros produtores de conheci-
que a um tecido, onde os fios formam uma mento não disponham de formas de interco-
trama organizada. É em função disso que o municação.
homem moderno sabe muito pouco sobre
muita coisa. liido indica que, sem sistemas potentes
Para evitar que o conhecimento produ- de informação, a sociedade tenderá à re-
zido se perca, ou mergulhe num caos onde descoberta de muitos fenômenos já co-
nada possa ser recuperado, toma-se neces- nhecidos e dominados, gerando forte li-
sária a criação e a adoção de sistemas de re- mitação ao desenvolvimento do conheci-
gistro capazes de propiciarem o comparti- mento humano,
lhamento de saberes entre pessoas.
Entre as várias formas de registro des- ao mesmo tempo em que se dará um grande
tacamos o livro, a imagem expressa em fo- desperdício de recursos humanos e materiais.
tos, gravuras, quadros etc., o jornal, a revis- Outro fenômeno que atesta a necessi-
ta, o disco, o vídeo e outros suportes magné- dade de bons recursos no campo da guarda
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e recuperação da informação vem do alto mundo, já que não dispõem de um mecanis-


nível de especialização atingido por algu- mo criador.
mas áreas, o que provoca também alto grau Assim, a linguagem natural opera com
de obsolescência da informação. estruturas que são, simultaneamente, estáti-
É bem verdade que o mundo moderno cas e dinâmicas e que permitem "a fixação
atravessa uma fase de busca de relações, de cada aparência dentro do esquema geral
mais nomeadas que vividas, de interdisci- de referência, ao mesmo tempo que deixa
plinaridade e multidisciplinaridade,reflexos espaço para que essa mesma aparência sur-
das tendências também desgastadamente ja num outro ponto do quadro, a partir de
nomeadas como pós-modernidade, onde os outras relações, repetindo o mesmo proces-
limites entre as áreas de conhecimento fi- so" (Cintra et alii, 1994:19).
cam tênues. De fato,
Neste contexto, a análise documentá-
ria não pode mais se ater a sistemas de clas- as linguagens documentárias operam
sificação rígidos, inflexíveis, em que o uni- com estruturas estáticas que permitem a
verso de conhecimentos pré-estabelecidos representação de inúmeros documentos,
determina o lugar do documento, sem mui-
tas possibilidades de cruzamentos. a partir dos mesmos parâmetros, para que se
Daí o interesse pela Análise Docu- garanta a forma de estocagem e recuperação
mentária, uma vez que através dela é feita a da informação.
descrição do conteúdo do documento e sua Essa tarefa supõe que o vocabulário
tradução numa linguagem construída espe- das linguagens dos documentos tenha sido
cialmente para este fim. submetido a uma sistematização. Este voca-
Entretanto é preciso considerar que as bulário sistematizado denominado termino-
linguagens documentárias podem ser cons- logia (por exemplo, a do campo da Biolo-
truídas a partir da linguagem natural, o que gia, da marcenaria, do esporte, etc...) é base
gera entre elas uma relação simultânea de importante para o trabalho documentário,
aproximação e distanciamento, bastante ca- porque permite que se opere, de início, com
racterística. significados estáveis e reconhecidos em ca-
Enquanto a linguagem natural é um da área.
sistema de formas, que supõe, entre outras Assim, áreas do conhecimento que
coisas, um trabalho de construção do vivido, não dispõem de uma terminologia assenta-
as Linguagens Documentárias são sistemas da, constituem problemas para a Documen-
construídos a partir da linguagem natural, tação. Desse modo, as Linguagens Docu-
mas profundamente restritivos, por estarem mentárias de áreas como as Ciências So-
vinculadas à organização da informação. ciais, por exemplo, tendem a refletir a pró-
Na prática a linguagem natural ex- pria natureza nem sempre sistemática do
pressa a tendência original do homem de seu domínio.
compreender, governar e modificar o mun- Outro aspecto a ser considerado diz
do. Também as Linguagens Documentárias respeito à eficiência das Linguagens Docu-
buscam alguma forma de compreensão e mentárias. Essa eficiência depende do grau
de "governo", sem, no entanto, chegar ao de adequação à literatura tratada e aos obje-
nível da modificação, da transformação do tivos da instituição e de seu usuário. Assim
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sendo, as linguagens que procuram abarcar Desta maneira, embora não seja possí-
todo o universo do conhecimento são mais vel recuperar exatamente o documento que
gerais e, via de regra, reproduzem uma or- contém a informação desejada, mas sim a
ganização do conhecimento já mais cristali- classe dos documentos que tratam do tema,
zada. Por seu lado, Linguagens Documentá- os assuntos dos documentos estão represen-
rias especializadas em determinados domí- tados de forma mais específica. Por exem-
nios tendem a ser mais detalhadas e procu- plo, através de uma Linguagem Documen-
ram refletir os estágios de desenvolvimento tária da área de Demografia pode-se repre-
do domínio específico. sentar documentos sobre Nupcialidade, Fe-
As Linguagens Documentárias mais cundidade, Migração, etc. e, mais detalha-
conhecidas (e muito utilizadas no Brasil) damente ainda, "costumes matrimoniais",
são os sistemas decimais de classificação, "endogamia", "planejamento familiar",
de natureza enciclopédica. Elas orientam "migração sazonal", etc.
tanto a distribuição dos livros e documentos As pesquisas mais recentes sobre Lin-
nas estantes e/ou arquivos de Bibliotecas, guagens Documentárias têm procurado res-
como determinam as formas de entrada saltar a importância do rigor tanto na cons-
(acesso por assunto) dos mesmos nos catá- trução e escolha de tais linguagens como no
logos colocados à disposição do público. seu uso. Nesse sentido, a Terminologia dos
Em sua maioria, tais linguagens têm domínios assume papel importante como
como ponto de partida disciplinas já conso- fonte de referência para a organização dos
lidadas como a Filosofia, a Religião, as conceitos, uma vez que a comunicação,
Ciências Sociais, as Ciências Puras, as Ciên- através de Linguagens Documentárias, é
cias Aplicadas, a Literatura, a História e a sempre realizada por meio de conceitos.
Geografia, que se subdividem, por sua vez, Outra fonte de referência importante é
em sub-disciplinas e assuntos. Muito utiliza- a linguagem do usuário do sistema de infor-
das em bibliotecas que contam com acervos mação. Ao selecionar as unidades que com-
amplos, essas linguagens fornecem pistas, porão o vocabulário das Linguagens Docu-
indicações para o assunto que se procura mentárias é preciso considerar, à exaustão, o
mas, na prática, uma boa parte do trabalho modo pelo qual o usuário se refere ao uni-
de seleção de documentos fica por conta do verso informacional, de modo que a própria
próprio usuário, face ao grau de generalida- Linguagem Documentária reflita de fato es-
de com que neles são tratados os assuntos. sa disposição que propicia que o usuário re-
Em sistemas informacionais especiali- conheça sua própria linguagem na organiza-
zados, as Linguagens Documentárias gerais ção da informação.
são substituídas por linguagens voltadas pa- Pode-se afirmar, portanto, que
ra domínios específicos. Nestes casos, a Lin-
guagem Documentária se impõe, principal- as Linguagens Documentárias funcionam
mente, como instrumento para recuperação como instrumentos intermediários, atra-
(localização) de referências bibliográficas vés dos quais se traduz, de forma sintéti-
sobre determinados assuntos, não sendo uti- ca, as informações contidas em textos, ou
lizada para a organização física de documen- as perguntas dos usuários, para a lingua-
tos (que podem ser arranjados, por exemplo, gem do sistema documentário.
pela cronologia de entrada na Biblioteca).
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Dito de outro modo, uma LD é utiliza- mentária, exigem formulações de sentido ri-
da na entrada do sistema, quando o docu- gorosas. Isso porque a condição para se ob-
mento é analisado para registro e armazena- ter resultados positivos na busca de infor-
mento. Seu conteúdo é identificado e "tra- mação é que a pergunta e a resposta sejam
duzido" de acordo com os termos da Lin- formuladas no mesmo sistema. É fácil per-
guagem Documentária utilizada. É da mes- ceber, desse modo, que a Linguagem Docu-
ma forma utilizado à saída do sistema quan- mentária deve se constituir de relações uní-
do, a partir da solicitação da informação, é vocas entre significante e significado.
feita a representação da pergunta, isto é, o Vale lembrar que,
pedido é analisado, seu conteúdo identifica- - - -

do e devidamente "traduzido" nos termos da isoladas, as palavras não têm significado


LD utilizada. ou podem ter todos os significados possí-
Estruturalmente a Linguagem Docu- veis. É só no discurso que as palavras as-
mentária é composta de um léxico, de uma sumem significados particulares.
rede paradigmática e de uma rede sintagmá- - - - - -

tica. O léxico é identificado como uma lista Embora organizadas de forma relacio-
de termos descritores (termos preferen- na], as unidades das Linguagens Documen-
ciais), devidamente filtrados e depurados e tárias são desvinculadas dos contextos onde
de termos não-descritores; a rede paradig- aparecem, podendo, desse modo, tornarem-
mática explicita as relações essenciais, e ge- se ambíguas.
ralmente estáveis, entre descritores, en- É preciso ainda ressaltar que, para rea-
quanto a rede sintagmática estabelece uma lizar com eficácia as funções de intermedia-
gramática de combinação dos descritores ção, as Linguagens Documentárias pressu-
(Cintra et al. 1994). põem o controle sobre o vocabulário, isto é,
Diferentemente, porém, da Lingua- o controle da fonte de significação. Esse
gem Natural, o sistema de relações das Lin- controle é necessário para que a cada unida-
guagens Documentárias não é virtual. Ao de preferencial integrada numa Linguagem
contrário, os elementos dessa linguagem Documentária corresponda um conceito.
são selecionados de universos específicos, Metodologicamente, recorre-se às Termino-
seu sistema de relações é construído e seu logias de modo que as unidades das Lingua-
uso requer a existência de regras explícitas. gens Documentárias assumam significados
Por esse motivo, as Linguagens Documen- vinculados a sistemas de conceitos determi-
tárias são linguagens construídas. nados. Confere-se, desse modo, referência
Cada Linguagem Documentária pro- às palavras, que passam a significar, segun-
cura, por sua vez, dar conta de esferas parti- do determinados sistemas conceituais, inter-
culares do real. Assim, o sistema de relações pretações pertinentes.
de cada linguagem determina um lugar es- Além disso, a estruturação Iógico-se-
pecífico para cada um de seus termos, fi- mântica das Linguagens Documentárias é
xando, desse modo, os seus significados es- fundamental. Sua estrutura básica é dada
pecíficos no interior do sistema. através das relações hierárquicas, não-hie-
As linguagens construídas, face à fun- rárquicas e de equivalência.
ção que devem desempenhar na representa- Uma vez elaboradas e postas em uso,
ção e na recuperação da informação docu- as LDs são atualizadas mediante operações
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de supressão de termos em desuso, reagru- Desse modo, a compreensão da natu-


pamento de descritores ou adição de termos reza e da função da Linguagem Documentá-
novos. Só assim as Linguagens Documentá- ria é fundamental.
rias se mantêm como instrumentos dinâmi- De fato, ao lado do ensino de outras
cos capazes de acompanhar os avanços do linguagens, a Linguagem Documentária de-
conhecimento materializados nos textos. ve ser objeto de aprendizado específico.
Com isso, o professor deixa de ser apenas
CONSIDERAÇÕES FINAIS um transmissor de conhecimento para juntar
às suas funções a de orientador na busca, or-
A necessidade crescente de o aluno, denação e avaliação do conhecimento.
desde as séries iniciais, ser instrumentaliza-
do para obter e organizar informação (nor-
malmente denominada pequisa) não pres-
cinde de um conhecimento específico do
modo de organização da própria informação
nas fontes em que é registrada. Como esse
"modo" não faz parte da experiência ime-
diata do aluno, é preciso que conteúdos pro-
gramáticos integrem itens específicos do BIBLIOGRAFIA
manejo de bibliotecas e demais fontes de re-
CINTRA, A.M.M et al. Para entender as linguagens
ferência que assegurem ao aluno qualificar- documentárias. São Paulo: Ed. Polis, 1994.
se como usuário de informação. FRANK, H. (1970) Informação e Pedagogia. In:
Nesse sentido, Cahiers de Royaumont. O Conceito de Informa-
ção na Ciência Contemporânea. Rio de Janeiro:
ao professor, independente da sua área de Paz e Terra. p. 127-153.
MOLES, A. (1967). Sociodinâmica da cultura. São
atuação, solicita-se o domínio do conheci- Paulo: Perspectival'ditora da USP, 1974.
mento mínimo para "navegar" no uni- WADDIGTON, C.H. (1977).lnstrumental para open-
verso da informação. samento. Belo HorizonteISão Paulo: Itatiaia-
EDUSP.