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Série de mensagens: “Aliviando as bagagens”

É possível...
João 8. 1-11

Introdução:

Tão difícil e desconfortável é carregar bagagens. Alguns podem até pensar que não é tão complicado
assim. Contudo, carregar ou levar qualquer tipo de bagagem, por vezes, torna-se algo cansativo e até
muito estressante. Se existe uma certeza é saber que todos, pelo menos, uma vez na vida já passou
pela experiência de carregar alguma bolsa, sacola, mochila ou mesmo mala, onde foi uma tarefa nada
fácil. Assim, se já é algo um tanto complicador carregar bagagens de mão, o que dizer das bagagens
que a vida traz a todas as pessoas. Isto porque, não existem apenas bagagens que estão fora de nós,
mas há aquelas que estão dentro de nossa interioridade; escondidas no mais íntimo do nosso ser;
devidamente guardadas – umas há anos – dentro da nossa alma.

Caso pudéssemos mensurar o tamanho da bagagem que carregamos dentro no coração, qual seria esse
tamanho? Uma pequena bagagem, como se fosse apenas uma sacola plástica? Ou, um bagagem de
tamanho médio, como se fosse uma mochila? Ou então, uma bagagem de tamanho grande, como se
fosse uma enorme mala? Também, se pudéssemos pesar tal bagagem qual seria o seu devido peso. Algo
leve, como uma pequena e sensível pena? Ou, algo de peso médio, como um amontoado de papéis? Ou,
algo mais pesado, como uma grande pedra? Independentemente, de qual seja o tamanho ou mesmo o
peso da bagagem, uma vez sob nossa responsabilidade e fazendo parte de nós, não é uma das tarefas
mais fáceis que temos. E, não são poucos aqueles que estão carregando tais bagagens ao longo da vida.

A variedade de bagagens é ampla e diversificada. Isto significa entender, que não existe apenas um
tipo de bagagem, mas muitas e tantas bagagens. (a) Existem bagagens que herdadas (biológicas). Assim
como herdamos a cor dos olhos, dos cabelos, da pele de nossos pais, também é possível herdar
bagagens “biológicas”, como por exemplo, uma hipertensão ou outra doença de ordem genética. (b)
Existem bagagens adquiridas. Tais bagagens, por vezes, não são da nossa escolha, contudo, acontecem
e tornam-se parte da nossa história, como por exemplo, a separação de nossos pais enquanto éramos
crianças ou a morte de um ente querido. São situações que estão fora do nosso controle, porém, as
adquirimos por acontecer a nós. (c) Existem bagagens de livre arbítrio. São bagagens que escolhemos
para nós mesmos, como por exemplo, torcer por um time ou fazer algum tipo de escolha. Essas
bagagens são de inteira responsabilidade pessoal e desta maneira intransferível. Poderíamos ainda,
trazer outros tipos de bagagens, contudo, estas já são suficientes para entender quão diversificada é as
bagagens que temos ao longo de nossa existência.

Seja qual for à natureza da bagagem (de ordem biológica, adquirida ou de livre arbítrio), a verdade é
que por vezes, não conseguimos diferenciar qual delas está pesando, trazendo uma sobrecarga. De
maneira didática é possível fazer uma distinção de bagagem, mas de maneira vivencial, por vezes, é
difícil fazer tal diferenciação. O que se tem de concreto é o peso, o fardo, bem como o cansaço por ter
que carregar tais bagagens.
1
Sendo assim, o que fazer com tantas bagagens? Como então ou onde encontrar alívio para as bagagens
que a vida trouxe sobre nossos ombros? É possível encontrar o descanso tão necessário e renovador?
Existe alguém que pode nos auxiliar? A quem podemos pedir por ajuda?

João 8.1-11

(1) Jesus, porém, foi para o monte das Oliveiras. (2) Ao amanhecer ele apareceu novamente no
templo, onde todo o povo se reuniu ao seu redor, e ele se assentou para ensiná-lo. (3) Os mestres da
lei e os fariseus trouxeram-lhe uma mulher surpreendida em adultério. Fizeram-na ficar em pé diante
de todos (4) e disseram a Jesus: “Mestre, esta mulher foi surpreendida em ato de adultério. (5) Na Lei,
Moisés nos ordena apedrejar tais mulheres. E o senhor, que diz?” (6) Eles estavam usando essa
pergunta como armadilha, a fim de terem uma base para acusá-lo.

Mas Jesus inclinou-se e começou a escrever no chão com o dedo. (7) Visto que continuavam a
interrogá-lo, ele se levantou e lhes disse: “Se algum de vocês estiver sem pecado, seja o primeiro a
atirar pedra nela”. (8) Inclinou-se novamente e continuou escrevendo no chão.

(9) Os que o ouviram foram saindo, um de cada vez, começando pelos mais velhos. Jesus ficou só, com
a mulher em pé diante dele. (10) Então Jesus pôs-se em pé e perguntou-lhe: “Mulher, onde estão eles?
Ninguém a condenou?” (11) “Ninguém, Senhor”, disse ela. Declarou Jesus: “Eu também não a condeno.
Agora vá e abandone sua vida de pecado”.

Talvez não tenha existido alguém que tanto trouxe refrigério e alívio para o coração humano do que
Jesus de Nazaré. Os cientistas podem até desvendar os mistérios do Universo; os sociólogos podem até
desatar o nó dos conflitos sociais; os antropólogos podem até encaixar o quebra-cabeça dos primeiros
passos do homem na Terra; os psicólogos podem até vasculhar a interioridade humana. Contudo,
ninguém foi tanto responsável em trazer o conforto e consolo necessário do que Jesus de Nazaré.
Muitos foram aqueles que por ele foram tocados, tiveram suas vidas transformadas. A presença de
Jesus trazia vida e vida com abundância. Assim foi com uma mulher pega em adultério. Vejamos o que
lhe aconteceu...

2
1. Uma mulher e as bagagens do adultério, 3;

Tão logo que Jesus começou a ensinar, muitos foram aqueles que ficaram admirados por sua sabedoria
e habilidade (Mateus 13.54/ Lucas 4.22), não por acaso que multidões ficavam ao seu redor (Mateus
4.25). Jesus não somente encontrava corações e ouvidos dispostos a ouvi-los, mas existiam grupos
religiosos que confrontavam e se opunham aos ensinamentos de Jesus. Um desses grupos religiosos mais
avessos a Jesus foram os fariseus. E mais uma vez, os vemos em atuação, juntamente com os mestres
da lei [escribas] (“estudiosos judaicos daquela época, instruídos para profissionalmente desenvolver,
ensinar e aplicar a lei do AT. A autoridade deles era rigorosamente humana e tradicional.”1), tentando
sabotar os ensinamentos de Jesus. Os grupos religiosos que se colocavam em oposição a Jesus, não
tinham qualquer limite, até mesmo espreitar uma mulher até surpreendê-la em flagrante adultério.

A mulher que o texto nos faz referência, não os deixa dúvida acerca daquilo que lhe aconteceu. A
saber, deitou-se com um homem que não era seu. Não sabemos se fora o primeiro ou mais um de
tantos encontros com esse homem. Também, não sabemos se esse homem foi à primeira experiência ou
mais uma de muitas experiências. Não sabemos se tal mulher era uma profissional do ramo ou então,
uma jovem mulher traída pelos seus desejos incontroláveis. O fato concreto e indefectível é o adultério
não forjado, nem tão pouco inventado, mas sim, acontecido por essa mulher. Alguém poderá supor da
invencionice ou então da manipulação do adultério por parte dos grupos religiosos, até porque eram
opositores ferrenhos de Jesus. Isto é pouco provável, pois tiraria o peso da verdade do acontecimento e
também, o fato muito provável que não somente tais religiosos a assistiram ao adultério, mas outros.
Portanto, não nos resta dúvida da veracidade dos fatos. Certamente, tal mulher praticou o delito. O
adultério não foi uma mentira, mas uma verdade inegável.

O que impressiona no texto e ao mesmo tempo é digno de destaque, é o silêncio dessa mulher. Não há
nenhuma queixa, ou mesmo tentativa de argumentar, de justificar, de transferir a responsabilidade.
Tão somente um silêncio, que reforça ainda mais a verdade dos fatos. Sendo o primeiro ou não, a
mulher carregar o fardo do adultério. Não somente tem que carregar a bagagem do adultério, como
também, todos estão “vendo” sua bagagem (João 8.2: “Ao amanhecer ele [Jesus] apareceu
novamente no templo, onde todo o povo se reuniu ao seu redor, e ele se assentou para ensiná-lo.”),
tão amplamente anunciada pelos grupos religiosos.

Nesse contexto público as bagagens que fazem parte da vida dessa mulher ficam totalmente expostas
conhecidas, vulneráveis (João 8.3b: “Fizeram-na ficar em pé diante de todos.”), em silêncio e nas
“mãos” a bagagem do erro. O prazer momentâneo transformou-se em pesar imediato. O “doce” sabor
do adultério transformou-se em amargor. O que era “doce” como um mel, se desfez, e tornou-se como
fel. Não tinha mais as mãos do cúmplice, ao contrário, estava sob a tutela arrogante dos grupos
religiosos que intentavam tramar algum tipo de acusação a Jesus.

A experiência amarga e sofrível desta mulher é semelhante a muitos ainda nos dias de hoje. Não é
necessário passar concretamente pelo adultério para descobrir quão difícil é carregar sob os ombros os
erros que um dia aconteceram em nossas vidas. Tal mulher carrega a bagagem do erro e muitos são
aqueles que hoje, igualmente carregam a bagagem dos erros que um dia cometeram e ainda não

1
Bíblia de Estudo NVI.
3
conseguiram se desfazer. Como aquela mulher que fora “torturada” pelos grupos religiosos, são
torturados pelas lembranças ainda vivas, trazendo culpa e sofrimento. É possível ficar livre de tal
bagagem?

2. Uma mulher e as bagagens da acusação, 4-6;

Os grupos religiosos tentavam de todas as formas encontrar motivos para incriminar a Jesus. Usavam
todos os meios para alcançar esse fim. No entendimento dos religiosos de plantão valia a máxima de
Maquiavel no livro o “O Príncipe” que diz: “os fins justificam os meios”. Para tentar incriminar a Jesus
valia qualquer coisa, ainda que espreitar e apanhar uma mulher em ato de adultério. Contudo, não foi
à única tentativa dos religiosos, em outro momento, arrumaram outro “bode expiatório” (Mateus 12.9-
14). Um homem com a mão atrofiada foi levado a Jesus e era um sábado (dia da semana onde os
judeus entediam que deveriam guardar, daí não faziam qualquer tipo de atividade). Para tentar
incriminar a Jesus o perguntaram se tal homem poderia ser curado (Mateus 12.10b: “Procurando um
motivo para acusar Jesus, eles [líderes religiosos] lhe perguntaram: “É permitido curar no
sábado?”). Como aconteceu ao homem de mão atrofiada, agora aconteci à mulher adultera.

Não bastava o erro em si, mas ainda a mulher teve que carregar a bagagem da acusação. Não bastasse
conviver com o fato de ter dormido com um homem que não era o seu, também tem que enfrentar as
duras conseqüências previstas pela lei judaica quanto ao adultério. São os próprios líderes religiosos
que dão o veredicto com base em Deuteronômio 22.23-24 (“Se numa cidade um homem se encontrar
com uma jovem prometida em casamento e se deitar com ela, levem os dois à porta daquela cidade
e apedrejem-nos até a morte: a moça porque estava na cidade e não gritou por socorro, e o homem
porque desonrou a mulher doutro homem. Eliminem o mal do meio de vocês.”). A intenção maior dos
líderes religiosos não era necessariamente fazer valer a lei acerca do adultério (algo secundário da
perspectiva dos escribas e fariseus), mas sim, encontrar algum motivo para acusar Jesus2. O
cumprimento da lei tornou-se algo tão secundário que a lei previa o apedrejamento ambos que
cometeram o adultério e não apenas uma parte como desejam os líderes religiosos.

Apesar de tentar usar a mulher como motivo para condenar a Jesus, não tira sob os ombros da mulher a
acusação. Alguém já disse que contra fatos não há argumentos. O máximo que aquela mulher poderia
fazer para não ser apedrejada diante da multidão que assistia a tudo era adiar sua execução, não
necessariamente, revertê-la. Adiar até encontrar a outra parte envolvida e uma vez isto ocorrendo, a
pena seria executada. Sob seus ombros, então, estava à acusação.

A semelhança da mulher que carregou a bagagem da acusação, muitos nestes dias igualmente estão
sobrecarregados por conta das acusações, das exigências, das cobranças. Não conseguem encontrar
descanso para tantas exigências e cobranças. Exigências de serem pais melhores; cobranças de serem
casais melhores. Como tal mulher que fora acusada, tantos hoje guardam em seus corações acusações
antigas, onde tempo não tem conseguido apagar. É possível ficar livre de tal bagagem?

2
Os romanos não permitiam que os judeus executassem a pena de morte, de modo que, se Jesus tivesse aconselhado apedrejá-la, poderia ter
entrado em conflito com os romanos. Se tivesse aconselhado não apedrejá-la, seria acusado de estar contra a lei de Moisés.
4
3. Todos tem suas bagagens e por isso necessitam de descanso, 7-11;

O cenário era digno de um filme de drama. Uma multidão ao redor de Jesus. Líderes religiosos ansiosos
em encontrar enfim um motivo para condenar seu opositor. Uma mulher em silêncio por conta da
verdade do adultério. Qual seria o desfecho desta cena? No ponto alto da situação, Jesus então decide
escrever na areia. Estava ele tentando ganhar tempo para encontrar uma melhor resposta? Estava ele
tentando sinalizar uma saída mirabolante para tais questionamentos? Estava ele escrevendo os erros e
delitos daqueles que o questionavam, como pensavam muitos estudiosos? Não há como supor o que
Jesus escrevia.

O fato é que essa atitude de Jesus é um divisor de águas dentro de tudo o que estava acontecendo.
Antes de escrever na areia, havia uma mulher com sua bagagem de erros e acusações; havia líderes
religiosos com sua bagagem de aparente santidade e perfeição. Após a escrita na areia, tudo muda.

A resposta de Jesus a tentativa de incriminá-lo deixa todos surpresos. Segundo a resposta de Jesus
(João 8.7b: “...“Se algum de vocês estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar pedra nela”.), não
apenas a mulher tinha suas bagagens pesadas, mas também, aqueles que tentavam procurar bases para
acusá-lo, a saber, os líderes religiosos. A mulher tinha a bagagem do adultério. Os líderes religiosos, a
bagagem da arrogância. Ninguém era melhor do que ninguém. Por serem religiosos não eram melhores
que a mulher em flagrante adultério. Por ser adultera seu erro não era pior do que toda a prepotência
e vaidade dos lideres religiosos. Em suma, todos necessitavam de descanso para suas bagagens.

Assim, fica apenas a mulher e Jesus. Um de frente ao outro. Jesus então questiona a mulher sobre os
acusadores (João 8.10: “Então Jesus pôs-se em pé e perguntou-lhe: “Mulher, onde estão eles? Ninguém
a condenou?”). Não mais acusadores, até porque não era a acusação a prioridade daqueles. Mas, ainda
há uma mulher com sua devida bagagem.

Jesus então reconhece a bagagem da mulher, contudo, não traz mais peso. Não é por acaso que o
profeta Isaias declara acerca do Servo do Senhor (Jesus) o seguinte: “Não quebrará o caniço rachado, e
não apagará o pavio fumegante.” (Isaías 42.3). Ao invés de trazer mais peso ou mesmo condenação,
traz descanso e alívio (João 8. 11: “Declarou Jesus: “Eu também não a condeno. Agora vá e abandone
sua vida de pecado”.). Jesus aponta para um novo recomeço.

Da mesma forma que aquela mulher no passado encontrou descanso e uma novo começo para sua vida,
igualmente muitos são aqueles que carecem de estar frente a frente com Jesus e ouvir dEle, “eu
também não o(a) condeno. Agora vá e abandone sua vida de pecado.”.

Por que não hoje, recolher todas as nossas bagagens e deixar nas mãos daquele que tem toda a
sabedoria e autoridade para trazer descanso as nossas vidas? Com carinho,

Rev. André Nobre Esteves


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