O papel do Perito Qualificado na Estratégia para a Eficiência Energética nos Edifícios

Ernesto F. Peixeiro Ramos, Eng.º Mecânico, Presidente da ANPQ
Para que a certificação seja válida é necessário que a aplicação das metodologias seja uniforme a fim de assegurar a possibilidade da comparação. Esta necessidade pressupõe uma actividade, cujo desempenho requer uma qualificação a qual se designou por Perito Qualificado. Perito qualificado é a designação dada a quem desenvolve a actividade que resultou da entrada em vigor da Directiva 2002/91/CE de 16 de Dezembro de 2002, a qual estabeleceu que os Estados Membros da União Europeia implementassem a certificação energética dos edifícios. Esta directiva é conhecida como EPBD (Energy Performance Building Directive) e foi transposta em Portugal pelos Decretos-lei, 78/2006, 79/2006 e 80/2006, todos de 4 de Abril. A designação de perito qualificado, em Portugal, é conferida a pessoas que exercem a profissão de engenheiro ou arquitecto com experiência profissional mínima de 5 anos na área da valência a certificar, depois de frequentarem com aproveitamento um curso de formação, promovido por entidade acreditada, e de seguida, obterem a aprovação em exame específico a cargo da entidade gestora do sistema de certificação energética. Os peritos qualificados conduzem a certificação energética dos edifícios e as suas competências são as que constam no Decreto-lei n.º 78/2006. O objectivo do presente artigo não é analisarmos as acções que compõem esta actividade, mas sim mostrarmos de uma forma sintética como ela apareceu, quais são os seus elementoschave e a direcção que deve ser seguida para o êxito da eficiência energética dos edifícios. O contínuo aumento da utilização de energia, bem como o modo como a utilizamos, é cada vez mais um motivo de preocupação para todos nós, quer pelo conhecimento que temos da limitação dos recursos, quer pela ameaça do aquecimento global. Na Europa os edifícios residenciais e de serviços são responsáveis por mais de 40% da energia utilizada, enquanto em Portugal este valor é menos significativo, apenas 28%, distribuindo-se pelos residenciais e serviços em 17% e 11%, respectivamente. Esta diferença justifica-se não só pela amenidade do nosso clima, mas também pelo hábito generalizado de compensar com vestuário os dias mais frios e ainda pelo nosso menor poder de compra. Apesar dos esforços desenvolvidos nos últimos anos, com a incorporação de fontes renováveis de energia, os combustíveis fósseis continuam a dominar no mix energético, o que contribui para um impacto negativo no meio ambiente e na economia. No sentido de obviar esta situação, torna-se urgente a criação de um modelo de utilização parcimoniosa da energia - diminuindo as necessidades de utilização, reduzindo a dependência dos combustíveis fósseis e aumentando o recurso a fontes renováveis – que nos conduza à sustentabilidade.

acrescenta: “Os peritos são acreditados tendo em conta a sua qualificação.” Para cumprir a directiva. D. do recurso a fontes de energia renováveis. A. Assim. que o edifício teria se funcionasse em condições nominais (se a sua temperatura interior permanecesse nos 20ºC no Inverno.Peritos Independentes: “Os Estados-Membros asseguram que a certificação dos edifícios e a elaboração das recomendações de acompanhamento. A classificação dos edifícios é obtida em função de um modelo baseado:  nas necessidades de aquecimento. Depois tem que avaliar o desempenho energético do edifício e identificar as medidas que permitem melhorar a eficiência energética e + - .” A actualização da EPBD feita pela Directiva 2010/31/UE de 19 de Maio de 2010 a qual no seu Artigo 17. arrefecimento e de produção de água quente sanitária. E.fazendo a comparação com um dado referencial. já que os valores hipotéticos. F e G).  na utilização de energia pelo edifício a funcionar numas condições ditas nominais. B . cujo desempenho requer uma qualificação a qual se designou por Perito Qualificado. estabelece no seu Artigo 10. Para o efeito é preciso. não ultrapassasse os 25ºC no Verão e no consumo por pessoa de 40 L/dia de água quente à temperatura de 60ºC) no caso dos edifícios de habitação . se estas forem mantidas nas condições de referência. C. para que a certificação seja válida é necessário que a aplicação das metodologias seja uniforme a fim de assegurar a possibilidade da comparação. bem como a inspecção das caldeiras e sistemas de ar condicionado sejam efectuadas de forma independente por peritos qualificados e/ou acreditados. actuando a título individual ou ao serviço de organismos públicos ou privados. no caso dos edifícios de serviços – fazendo a comparação com valores de referência. A certificação é uma ferramenta que consiste em atribuir aos edifícios uma classificação em termos de utilização de energia para nos permitir compará-los (da melhor para a pior: A . a qual mantendo o nível dos serviços obtidos. deve estar centrada na diminuição da utilização da energia através da optimização das soluções construtivas. que constam nos certificados. A classificação serve única e exclusivamente para comparar os edifícios posicionando-os uns relativamente aos outros. Esta necessidade pressupõe uma actividade.º . de utilização de energia e de emissões de CO2.º . da instalação de sistemas e/ou soluções de equipamentos mais eficientes e da modificação dos hábitos comportamentais. o perito qualificado deve visitar o edifício a fim de caracterizar as soluções construtivas da envolvente e os sistemas técnicos utilizados para o aquecimento ambiente e para o aquecimento de água sanitária.Sabemos que um dos componentes fundamental deste modelo é a eficiência energética. não só actuar na construção e na reabilitação. quanto muito.Peritos independentes. mas também é necessário passar a informação aos utilizadores para que estes possam optar correctamente quando compram ou alugam. não correspondem aos valores dos somatórios anuais das facturas de utilização de energia. podem aproximar-se de uma média de 10 anos para as fracções em causa. A EPBD. B. relativamente ao desempenho energético dos edifícios.

mas não gera qualidade. Por isso. o perito para além das aptidões e conhecimento necessários ao desenvolvimento da sua actividade tem que pautar a sua actuação através de uma abordagem baseada nas evidências e uma conduta imparcial.” O que está em causa são os erros e a falta de qualidade dos certificados. a independência dos peritos qualificados e que seja dotado com instrumentos que permitam a auto-avaliação de funcionamento e resultados. detecção e estabelecimento de medidas correctivas do processo. De acordo com as conclusões de um relatório do Community’s Intelligent Energy Europe programme “Quality assurance for energy performance certificates”. a maioria dos Estados-Membros reconhece o papel de um sistema de garantia de qualidade. aperfeiçoamento e sistematização da actividade. e ter claramente documentadas e comunicadas todas as regras. pois sabemos que técnicos competentes cometem menos erros e que a competência se consegue através da formação contínua. apoiado publicamente pelas autoridades e deve possuir recursos humanos adequados sem conflitos de interesse. Deve ser eficaz. possa ser restabelecida e por consequência implementarmos a eficiência energética. financeiramente seguro. que eventualmente pode detectar defeitos. Um sistema que deve ser “independente. . Ora estes factores dependem mais do sistema e dos processos do que dos peritos qualificados. transparente e altamente profissional. A verificação inspectiva autoritária. como tem sido a prática em Portugal. devemos corrigir o sistema se queremos atingir os resultados planeados. que garanta a não conflitualidade de interesses. e actuando sempre livre de quaisquer conflitos de interesse. Para que a estratégia – emissão de um certificado do desempenho energético do edifício – seja eficaz na obtenção de eficiência energética é necessário que ela integre um sistema de qualidade. como um componente vital do sistema de certificação. o seu custo e a diminuição da utilização de energia.das quais deve elaborar relatório detalhado onde descreva individualmente cada medida. A qualidade tem que ser concebida. que a sua implementação implica. transformando a certificação numa mera obrigação burocrática e comprometer totalmente os objectivos de implementação da eficiência energética. projectada e produzida para que a confiança dos inquilinos e compradores nos peritos qualificados e nos certificados. de constatação. objectiva e íntegra que garanta a confidencialidade e a descrição. Portanto. Devemos optar por um sistema de qualidade que inclua um conjunto de métodos e actividades de prevenção. datado de Janeiro de 2011. A falta de qualidade da informação contida no certificado energético pode destruir a credibilidade junto dos potenciais inquilinos e compradores. é um processo passivo.

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