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SOFRIMENTO PSÍQUICO EM DEJOURS Karina Milanesi 1 Neusa Collet 2 Cláudia Silveira Viera 3 Beatriz

SOFRIMENTO PSÍQUICO EM DEJOURS

Karina Milanesi 1 Neusa Collet 2 Cláudia Silveira Viera 3 Beatriz Rosana Gonçalves de Oliveira 3

Resumo: Trata-se de um estudo bibliográfico que tem como objetivo compreender o

conceito de “sofrimento” no trabalho e as “estratégias defensivas” utilizadas pelos trabalhadores para lutar contra os efeitos desestabilizadores do trabalho. É parte de uma

pesquisa que está em andamento a qual busca compreender os pressupostos teóricos da Escola Dejouriana. Esse referencial subsidia a discussão de como fazem os trabalhadores para resistir aos ataques ao seu funcionamento psíquico provocados pelo seu trabalho e o que fazem para não ficar loucos. Salientamos que o intuito é estudar os trabalhadores “reais” e “normais” que estão nas organizações e são submetidos a pressões no seu dia-a-dia. Portanto, o objeto de estudo é o sofrimento no trabalho, um estado compatível com a normalidade, mas que implica numa série de mecanismos de regulação. Para Dejours a noção de sofrimento é central e implica um estado de luta do sujeito contra as forças que o estão empurrando em direção à doença mental. A partir dessa percepção o autor explica em que consistem as estratégias utilizadas pelos trabalhadores para enfrentar esse sofrimento e como elas surgem e evoluem. Assim, este estudo poderá fornecer subsídios aos pesquisadores e à equipe de saúde para apreender as complexas relações que se estabelecem no processo de trabalho em saúde.

Palavras-Chave: Sofrimento, trabalho, saúde.

Introdução

Em pesquisa realizada junto a uma unidade de internação pediátrica onde funciona o

sistema de alojamento conjunto pediátrico verificamos a presença do sofrimento no

trabalho decorrente da forma de organização do processo de trabalho, bem como das

relações que se estabelecem entre os agentes aí envolvidos. Na época, abordamos a

questão de forma mais superficial tendo em vista que este não era nosso objeto de

investigação.

Contudo, como esse se mostrou um tema relevante a ser trazido ao debate no interior da

profissão, sentimos a necessidade de um aprofundamento teórico acerca do referencial

1 Acadêmica da 3ª série do Curso de Enfermagem da Universidade Estadual do Oeste do Paraná – Unioeste. Rua Arquitetura, 935, Apto 02, Bairro Universitário. CEP 85819-233. E-mail:

ncollet@certto.com.br 2 Enfermeira, Doutora em Enfermagem, Professor Adjunto do Colegiado de Enfermagem da Universidade Estadual do Oeste do Paraná – Unioeste.

3 Enfermeira, Mestre em Enfermagem, Professor Assistente do Colegiado de Enfermagem da Universidade Estadual do Oeste do Paraná – Unioeste.

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sobre a relação prazer, sofrimento e trabalho abordado pela Psicopatologia do Trabalho

na perspectiva da Escola Dejouriana que se estabelecem no ambiente de trabalho da

equipe de enfermagem que atua em instituições hospitalares, mais especificamente a enfermagem pediátrica, nossa área de atuação.

A Psicopatologia do Trabalho tem discutido questões relacionadas à relação prazer

sofrimento e trabalho envolvendo os processos psicossociais que interferem nos indivíduos e nas organizações. Tem Christophe Dejours como expoente da Escola francesa na abordagem das questões que dizem respeito à organização do trabalho e seus impactos sobre a saúde mental do trabalhador. Esse referencial subsidia a discussão de como fazem os trabalhadores para resistir aos ataques ao seu funcionamento psíquico provocados pelo seu trabalho e o que fazem para não ficar loucos. Salientamos que o intuito não é estudar as doenças mentais descompensadas ou os trabalhadores por elas atingidos, mas sim os trabalhadores “reais” e “normais” que estão nas organizações e são submetidos a pressões no seu dia- a-dia. Portanto, o objeto de estudo não é a loucura, mas o sofrimento no trabalho, a saber, um estado compatível com a normalidade, mas que implica numa série de mecanismos de regulação (FERREIRA, 1992, p. 9). Para Dejours a noção de sofrimento é central e implica um estado de luta do sujeito contra as forças que estão empurrando em direção à doença mental. Por outro lado, o autor afirma que é na organização do trabalho que se deve procurar essas forças. Entende por organização do trabalho não só a divisão do trabalho, isto é, a divisão de tarefas entre os operadores, os ritmos impostos e os modos operatórios prescritos, mas também, e sobretudo, a divisão de tarefas, representada pelas hierarquias, as repartições de responsabilidade e os sistemas de controle (DEJOURS, 1992). Ao instalar-se o conflito entre a organização do trabalho e o funcionamento psíquico dos homens, quando estão bloqueadas todas as possibilidades de adaptação entre a organização do trabalho e desejo dos sujeitos, emerge o sofrimento patogênico (DEJOURS, 1992, 1999). A partir dessa percepção o autor explica em que consistem as estratégias utilizadas pelos trabalhadores para enfrentar esse sofrimento e como elas surgem e evoluem. Os principais conceitos utilizados por Dejours são o de prazer no trabalho, de sofrimento criativo e sofrimento patogênico. Com esses conceitos o autor busca

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entender as relações que se estabelecem entre organização do trabalho e sofrimento psíquico com um método inovador, a saber, realizando a interpretação da fala e dos silêncios dos trabalhadores, numa relação de intersubjetividade entre eles e o pesquisador. Aparentemente, parece um método simples, contudo, exige vários requisitos do pesquisador e segue regras deontológicas escritas. Acreditamos que esse referencial teórico contribuirá sobremaneira para avanços acerca de apreensão do processo de trabalho em enfermagem o que poderá possibilitar trazermos novos instrumentos de análise em relação às discussões ora realizadas. Este estudo faz parte de uma pesquisa mais abrangente que busca aprofundar os pressupostos teóricos da Escola Dejouriana.

Objetivo Compreender o conceito de “sofrimento” no trabalho e das “estratégias defensivas” utilizadas pelos trabalhadores para lutar contra os efeitos desestabilizadores do trabalho.

Metodologia Toda investigação da realidade tem como ponto de partida um interesse de conhecimento ou de saber. Nenhum interesse de conhecimento pode ser resolvido na forma como se manifestou espontaneamente à mente do investigador e foi formulado como tema de investigação. Todos necessitam ser delimitados, concretizados para serem acessíveis à indagação científica. O objeto de investigação é o fenômeno real, objetivo e que existe no universo de maneira independente do interesse de conhecimento, “es una parcela (un espaço) de la realidad, en la cual se concentra nuestro interés de conocimiento y que no puede explicarse en forma inmediata o sin utilización de la teoria” (DIETERICH, 1997, p.85). Partindo dessa concepção para fundamentar a construção do objeto desta investigação, realizamos uma pesquisa bibliográfica sobre os conceitos de “sofrimento” e de “estratégias defensivas” a partir da perspectiva da Escola Dejouriana, por meio da leitura, análise e interpretação dos escritos de Christophe Dejours a fim de compreendermos a proposta teórica-metodológica do autor para, posteriormente, trazermos esse referencial como um instrumento para apreender essas relações no interior da profissão enfermagem. Posteriormente, fizemos uma busca de outros autores

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que utilizam essa abordagem teórica a fim de verificarmos como a mesma tem sido interpretada e empregada no mundo do trabalho. A busca dos escritos foi baseada, a princípio, na leitura de textos da Escola Dejouriana que abordavam o tema de nosso interesse. A seleção do material bibliográfico se deu pelo conteúdo dos resumos numa perspectiva de apreender seu núcleo significativo, tendo em vista o tema de interesse desta investigação, caracterizando assim esta pesquisa como uma pesquisa bibliográfica. Os dados captados a partir do referencial citado, constituíram o conteúdo para o aprofundamento do tema proposto para investigação. Para Cervo e Bervian (1996, p.48) “a pesquisa bibliográfica procura explicitar um

problema a partir de referências teóricas publicadas em documentos (

e analisar as contribuições culturais ou científicas do passado existentes sobre um determinado assunto, tema ou problema”. Após o levantamento bibliográfico o material selecionado foi lido várias vezes a fim de apreendermos os conceitos de sofrimento e estratégias defensivas elaborados a partir da perspectiva da Psicopatologia do Trabalho, especificamente da Escola Dejouriana no que se refere à relação prazer, sofrimento e trabalho. Para análise, foram utilizados os princípios que regem a interpretação de textos, isto é, a organização prévia fundamentada em nossa experiência, a contextualização da linguagem em sua realidade histórica e a reflexão sobre o significado dos resultados, procurando a relação entre o conhecimento e sua base empírica e social, considerando o contexto, a tradição e as diferenças culturais (AYRES, 1997).

) busca conhecer

Resultados

O trabalhador inserido numa determinada organização de trabalho desenvolve uma

carga psíquica resultante das excitações exógenas e endógenas pelas quais é submetido constantemente, estas são acumuladas, retidas culminando na chamada tensão psíquica. Toda energia pulsional acumulada necessita de uma via de descarga, isto é, precisa ser

canalizada de maneira apropriada. Esta via de descarga o trabalhador deveria encontrar

na própria organização do seu trabalho a fim de assegurar um equilíbrio, rebaixando a

tensão e conseqüentemente diminuindo a carga psíquica. Mas o que se nota na organização do trabalho é exatamente o oposto, tornando o trabalho fatigante por não

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oferecer a via de descarga necessária, a energia é acumulada e ocorre conflito entre o desejo do trabalhador e a real organização do trabalho. No conteúdo significativo do trabalho a adaptação do conteúdo da tarefa às competências reais do trabalhador pode desencadear situações de subemprego de suas capacidades ou situações complexas com risco de um fracasso. Os fatores que envolvem tais situações envolvem a dificuldade prática da tarefa, a significação da tarefa acabada em relação a uma profissão e o estatuto social implicitamente ligado ao posto de trabalho (DEJOURS, 1992). Quando a liberdade de trabalho diminui, ou seja, o trabalhador não pode ter iniciativa diante de um acontecimento, caracterizando uma organização autoritária, a relação do trabalhador com a organização é bloqueada, pois este não tem a liberdade de fazer uso de suas aptidões psicomotoras, psicosensoriais e psíquicas. Se fizesse uso de sua criatividade para adequar o trabalho a sua personalidade teria possibilidade de diminuir sua carga psíquica e encontrar prazer no trabalho. Quando isso não acontece, a energia pulsional é acumulada no aparelho psíquico podendo refletir no corpo desencadeando perturbações e fadiga física (DEJOURS, 1992, 1999).

O trabalhador é impedido de ser sujeito de seu comportamento e surgem conflitos

decorrentes do confronto entre a personalidade e o desejo do trabalhador e a

organização do trabalho que não lhe oferece a liberdade necessária para que possa usar suas aptidões no exercício do trabalho, culminando no sofrimento e na alienação (DEJOURS, 1992, 1999).

O sofrimento é determinado pela insatisfação do trabalhador, tanto pelo fato de não ter

no trabalho uma via de descarga de energia que seja efetiva e de acordo com sua personalidade, como também no que se refere a desejos e motivações. O trabalhador, em confronto com a realidade, busca significação para as tarefas que realiza perante a organização do trabalho. Na existência do conflito, há sobrecarga comportamental e grande insatisfação do trabalhador pela falta de meios de canalização de suas pulsões.

Esse contexto e o fato de o trabalhador estar inserido numa organização de trabalho

influenciam seu funcionamento mental, pois tem que se submeter a ela para sobreviver (DEJOURS, 1992).

O trabalhador exposto e regido pela organização do trabalho vive numa realidade de

sofrimentos determinados pela despersonalização, realização de tarefas que não requer o

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uso da imaginação e inteligência, isto é, desqualificadas e sem finalidade. Isto gera uma depressão e o trabalhador, com seus desejos e motivação bloqueados, torna-se cansado tanto fisicamente quanto psicologicamente, pois sua relação com o conteúdo significativo do trabalho não é satisfatória e o trabalhador fica então condicionado ao comportamento produtivo (DEJOURS, 1999). Quando a organização é muito rígida, o trabalhador não pode adaptar o trabalho a sua personalidade, às suas competências, pois a tarefa não é compatível com seu nível de qualificação. Assim, surge a frustração, a insatisfação e o sofrimento do trabalhador, sofrimento este que pode ser manifestado ou não e é controlado por um sistema de defesas. O trabalhador se sente impotente quando, ao usar seus mecanismos de defesa, constata que é incapaz de mudar a tarefa ou de encontrar uma significação ao realizá-la. Neste contexto, os mecanismos de defesa ou as estratégias defensivas têm como principal objetivo camuflar o sofrimento existente, o que explica o fato de trabalhadores apresentarem características de normalidade aparente mesmo estando em processo de sofrimento psíquico (DEJOURS, 1992). Na origem do sofrimento, que leva à criação de estratégias defensivas, está a organização prescrita do trabalho e a sua significativa distância da organização real, assim como as pressões exercidas constantemente sobre o trabalhador, as pressões do ambiente de trabalho. O trabalhador exposto a estas pressões que culminam no sofrimento, exterioriza este sofrimento de várias maneiras. Portanto, pode-se identificar os conflitos interpessoais característicos de sofrimento por meio de comportamentos, condutas e atitudes dos trabalhadores que podem ser atitudes agressivas, comportamentos violentos, preocupações referentes a riscos, falta de relacionamento e interação entre os trabalhadores, o que caracteriza a falta de confiança e companheirismo entre eles, gerando conflitos e tensões. Para tentar contornar ou camuflar o sofrimento, os trabalhadores usam as ideologias defensivas, como deixar de tomar iniciativas e assumir responsabilidades, se fechar, não se comunicar com os outros e passar a se preocupar somente consigo, desconfiando dos colegas de trabalho que poderiam estar tentando prejudicá-lo de alguma maneira. Assim, o relacionamento é rompido para evitar conflitos (DEJOURS et al., 1994). As estratégias se manifestam por meio de comportamentos próprios de cada indivíduo, pois cada um reage de maneira particular a cada situação dependendo da sua

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personalidade. As estratégias defensivas podem ser individuais ou coletivas. As últimas surgem quando vários trabalhadores com sofrimento único se unem e constroem uma estratégia comum que nada mais é do que uma nova percepção da realidade, transformada e validada pela coletividade, é uma maneira de o trabalhador tentar se adaptar à organização do trabalho (DEJOURS, 1992, DEJOURS, et al. 1994). Contudo, pode-se compreender que o sofrimento pode ter como conseqüência a criação de uma defesa, isto é, a criatividade é usada para transformar o sofrimento aumentando

a resistência do trabalhador ao risco de desestabilização psíquica e somática. Neste caso,

o trabalho funciona como mediador da saúde. Mas quando o uso desta criatividade é barrado ou quando já foram usados todos os mecanismos possíveis e as pressões continuaram, o sofrimento torna-se patogênico, pois leva ao desequilíbrio psíquico e à descompensação e, conseqüentemente, à doença. Aqui, o trabalho irá funcionar como mediador da desestabilização e da fragilidade da saúde. Salientamos que os sujeitos têm singularidades frente às pressões da organização do trabalho e que isso deve ser levado em conta quando analisamos situações específicas.

Considerações Finais Acreditamos que os conceitos estudados e apresentados no texto poderão contribuir para avanços acerca da apreensão de questões relacionadas ao processo de trabalho em enfermagem possibilitando a construção de novos instrumentos de análise em relação às discussões ora realizadas. A partir desta pesquisa esperamos estar instrumentalizados para trazer esses conceitos da abordagem teórica da Escola Dejouriana para o interior do trabalho em enfermagem pediátrica a fim de compreendermos como se estabelece a relação prazer, sofrimento e trabalho nessa área e podermos contribuir para o avanço nas discussões sobre o processo de trabalho da enfermagem na assistência à criança hospitalizada. Acreditamos que esse referencial poderá tornar-se um excelente analisador e revelador da organização real do trabalho com a participação dos próprios sujeitos participantes da pesquisa. Sendo o trabalho um espaço de construção de sentidos, de conquista da identidade, da continuidade e historicização dos sujeitos, nossa busca estará pautada na apreensão da dinâmica das relações sujeito-organização do trabalho a fim que o trabalho possa ser um mecanismo de emancipação do homem.

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Assim, as repercussões desta pesquisa possibilitarão reflexões constantes da prática

profissional no cotidiano das ações em saúde/enfermagem pediátrica, bem como a

produção de conhecimento acerca da temática proposta.

Referências Bibliográficas:

AYRES, J.R. de C.M. Sobre o risco: para compreender a epidemiologia. São Paulo, Hucitec, 1997.

CERVO, A.L.; BREVIAN, P.A . Metodologia científica. 4.ed. São Paulo, Makron Books, 1996.

DEJOURS, C. A banalização da injustiça social. Rio de Janeiro, Fundação Getúlio Vargas, 1999.

A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho. 5.ed. São Paulo, Cortez, 1992.

DEJOURS, C.; ABDOUCHELI, E.; JAYET, C. Psicodinâmica do trabalho: contribuições da Escola Dejouriana à análise da relação prazer, sofrimento e trabalho. São Paulo, Atlas, 1994.

DIETERICH, H. Nueva guía para la investigación científica. México, Colinia Arenal,

1997.

FERREIRA, L.L. Apresentação. In: A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho. 5.ed. São Paulo, Cortez, p.9-10, 1992.