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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MATO GROSSO DO SUL JANAÍNNA ENEDINA TERUEL DANO MORAL E MERO DISSABOR:

UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MATO GROSSO DO SUL JANAÍNNA ENEDINA TERUEL

DANO MORAL E MERO DISSABOR:

REFLEXO NO PODER JUDICIÁRIO

Dourados – MS

2007

UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MATO GROSSO DO SUL JANAÍNNA ENEDINA TERUEL DANO MORAL E MERO DISSABOR:

UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MATO GROSSO DO SUL JANAÍNNA ENEDINA TERUEL

DANO MORAL E MERO DISSABOR:

REFLEXO NO PODER JUDICIÁRIO

Trabalho de Conclusão de curso apresentado à Banca Examinadora do Curso de Direito da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul como exigência parcial para a obtenção do título de graduação, sob orientação do Profº. Esp. Rogério Turella e co- orientação do Profº. Msc. Hassan Hajj.

Dourados – MS

2007

TERMO DE APROVAÇÃO O trabalho de conclusão de curso intitulado: DANO MORAL E MERO DISSABOR:

TERMO DE APROVAÇÃO

O trabalho de conclusão de curso intitulado: DANO MORAL E MERO DISSABOR:

REFLEXO NO PODER JUDICIÁRIO, apresentado por JANAÍNNA ENEDINA

TERUEL, como exigência parcial para a obtenção do título de Graduação em Direito da

Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, obteve nota

, para aprovação.

BANCA EXAMINADORA

PROFº. ESP. ROGÉRIO TURELLA

ORIENTADOR

PROFº. MSC. HASSAN HAJJ

CO-ORIENTADOR

PROFº. ESP. JOAQUIM CARLOS KLEIN DE ALENCAR

CONVIDADO

PROF . ESP. LOURDES ROSALVO DA SILVA DOS SANTOS

CONVIDADA

Agradeço à Deus por me dar saúde e disposição;

À minha família, pelos valores que me passaram desde a infância;

Aos meus professores e amigos, pelo incentivo ao estudo;

Ao meu orientador Profº. Rogério Turella e ao meu co- orientador Profº. Hassan Hajj, pela sabedoria e dedicação no decorrer desse trabalho.

Dedico à minha amada família.

“A perfeição da própria conduta consiste em manter cada um a sua dignidade sem prejudicar a liberdade alheia.”

Voltaire

RESUMO

As lesões de natureza moral ocorrem no plano da subjetividade, na esfera dos valores da pessoa enquanto ser social. Pode-se conceituar o dano moral como uma lesão à personalidade anímica da pessoa, afetando seu patrimônio ideal e atentando, entre outras possibilidades, contra a sua segurança, tranqüilidade, amor-próprio, integridade física e intelectual. Nasce da própria noção de Justiça o dever de reparar danos causados a outrem. Contudo, para ser devida a reparação do dano moral mister a ocorrência, concomitante, de uma lesão a um bem jurídico, pertencente a uma pessoa; efetividade ou certeza do dano; nexo de causalidade entre a ação e o dano; subsistência do dano no momento da reclamação; legitimidade para a percepção do direito a indenização; ausência de causas excludentes de responsabilidade; demonstração de dolo ou culpa do ofensor; bem como, a potencialidade do fato lesivo. Assim, somente se deve considerar como dano moral a dor ou sofrimento dotado de certa gravidade. Nota-se, hodiernamente, que a busca cada vez maior pela reparação de danos, fez aumentar significativamente o número de pedidos de indenizações na Justiça brasileira. Todavia, grande parte desses pedidos não passam de mero dissabor, mágoa ou sensibilidade exacerbada. Nem toda insatisfação decorrente do convívio social gera dano moral indenizável, existe um piso de inconvenientes que deve ser suportado em razão mesmo do viver em sociedade. Desse modo, a doutrina e a jurisprudência sinalizam que o dano moral não se confunde com os meros dissabores ou aborrecimentos que o ser humano sofre no dia-a-dia, sob pena de colocar em descrédito o próprio instituto do dano moral. Portanto, somente haverá indenização por dano moral naqueles casos em que o ofendido tiver experimentado um sofrimento atroz, que exorbite o limite do suportável, e consequ entemente a naturalidade dos fatos da vida.

Palavras-chave: Dano Moral; Mero Dissabor; Reparação.

ABSTRACT

The damages of moral nature occur in the subjectivity plan, in the sphere of the people’s values while social beings. The moral damage can be appraised as damage to the person’s psychic personality, affecting his ideal patrimony and attempting, among other possibilities, against his own safety, tranquility, self-love, physical and intellectual integrity. The duty of repairing damages caused to others comes from the Justice notion itself. However, so that is correct the repairing of the moral damage fundamental to the occurrence, concomitantly, of a harm to a legally protected interest, which belongs to a person; effectiveness or certain of the damage; causality nexus between action and plan; subsistence of the damage in the moment of the complaint; legitimacy to the perception of the right to the indemnity; lack of responsibility exculpatory causes; demonstration of deceit or guilt by the offender; as well as, the potentiality of the harmful fact. Considering that, must only be regarded as moral damages the pain or suffering endowed with certain gravity. It is clear, nowadays, that the increasing quest for damage repairs increased significantly the number of indemnity requests to the Brazilian Justice. However, most of these requests are no more than mere displeasure, hurt or exaggerated sensitivity. Not all the dissatisfaction which elapses from the social conviviality generates moral damage that can be subject to indemnification, there is a limit of inconveniences that must be supported due to the society living. The doctrine and jurisprudence signal that the moral damage is not confounded with mere displeasures or annoyances which the human suffers in his daily life, under penalty of putting in discredit the institute of the moral damage itself. Therefore, there will only be indemnity for moral damage in the cases in which the offended person has experienced an atrocious suffering, which exceeds the bearable limit.

Keywords: Moral Damage; Mere Annoyance; Repairing.

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO

10

CAPÍTULO 1 – EVOLUÇÃO DO DANO MORAL

1.1 BREVE HISTÓRICO

12

1.2 CONCEITUAÇÃO

14

1.3 DIREITO – DEFINIÇÃO DO TERMO

17

1.4 DEVER DE REPARAÇÃO DOS DANOS MORAIS

19

1.5 FORMAS DE REPARAÇÃO

21

CAPÍTULO 2 – DANO MORAL INDENIZÁVEL

2.1 REQUISITOS DO DANO INDENIZÁVEL

23

2.2 LEGITIMIDADE PASSIVA E LEGITIMIDADE ATIVA NAS AÇÕES DE

INDENIZAÇÃO POR DANO MORAL

24

2.3 FIXAÇÃO DO QUANTUM INDENIZATÓRIO

26

2.4 INDENIZAÇÃO SATISFATIVA E NÃO ENRIQUECIMENTO SEM CAUSA

28

2.5 CONDIÇÕES PESSOAIS DO OFENSOR E DO OFENDIDO

30

2.6 CARÁTER PUNITIVO DA INDENIZAÇÃO MORAL

32

CAPÍTULO 3 – DANO MORAL E MERO DISSABOR

3.1 BREVES ANOTAÇÕES SOBRE MERO DISSABOR

34

3.2 CONFIGURAÇÃO DO DANO MORAL E A GRAVIDADE DO FATO

 

LESIVO

36

3.3 NECESSIDADE DE PROVAR A OCORRÊNCIA DO DANO

38

3.4 AUMENTO SIGNIFICATIVO DO NÚMERO DE AÇÕES PLEITEANDO POR

DANOS MORAIS

40

3.5

A MATÉRIA NA VISÃO DOS TRIBUNAIS

41

CONSIDERAÇÕES FINAIS

48

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

51

INTRODUÇÃO

O vocábulo ‘moral’ deriva da etimologia latina moralis que significa

costume, uso. Desse modo, a moral esta relacionada aos usos e costumes de cada

coletividade e, portanto, tem uma grande carga de subjetividade.

A ‘moral’ também pode ser entendida como o patrimônio ideal de uma

pessoa. Assim, o dano moral é aquela lesão que afeta o patrimônio ideal da pessoa, causando-lhe sentimentos negativos, dores, desprestígio, desequilíbrio em sua situação psíquica, transtornos em sua integridade pessoal, moral ou física.

No que tange ao dano moral, este é reconhecido desde a época em que o ser humano começou a ditar regras de conduta e de respeito a seus semelhantes, todavia na vigente legislação brasileira, as lesões na esfera moral são tratadas em sentido amplo e ilimitado, gerando, por vezes, uma má compreensão do que, efetivamente, configura o dano moral indenizável. É importante notar que a busca pelo reparo de danos morais, apesar de existente na história do direito, nem de longe se compara à situação jurídica atual.

A escolha do tema para realização do presente trabalho foi no sentido de

que é uma área de pesquisa importante, pois a busca cada vez maior pelo reparo de danos sofridos, fez aumentar significativamente o número de pedidos de indenizações na Justiça brasileira. Pelo que se verifica junto ao Judiciário, existem muitos pedidos que não passam de mero aborrecimento, dissabor ou sensibilidade exacerbada. Sendo assim, o sentido do instituto do dano moral está de certa forma sendo desvirtuado, eis que, da maneira como vem sendo utilizado, muitas vezes chega a tornar-se abusivo.

Trata-se de uma pesquisa bibliográfica descritiva que visa estudar, analisar e compreender o dano moral e o mero dissabor, bem como o reflexo no poder judiciário, de ações desta natureza. Os dados foram coletados em obras científicas, revistas jurídicas, artigos, doutrinas, legislações e jurisprudência referente ao assunto.

Para atingir o objetivo do trabalho, no primeiro capítulo faz-se um estudo sobre o dano moral e seus significados, bem como uma abordagem quanto à definição do termo “Direito”. O trabalho consigna também uma breve evolução histórica sobre danos morais, ressaltando ainda um estudo sobre o dever de reparar os danos morais e suas formas de reparação.

No segundo capítulo, visando esclarecer aspectos relevantes do dano moral indenizável, faz-se um estudo objetivo sobre: os requisitos do dano indenizável; a legitimidade passiva e a legitimidade ativa nas ações de indenização por dano moral; a fixação do quantum indenizatório; o caráter satisfativo da indenização de modo a não configurar enriquecimento sem causa; as características individuais do ofensor e da vítima; e a natureza punitiva da indenização.

Finalmente, o terceiro capítulo apresenta uma análise mais detida dos danos morais e meros dissabores inerentes à vida em sociedade, mediante considerações iniciais sobre o mero dissabor, bem como estudo sobre: a configuração do dano moral e a gravidade do fato lesivo; a necessidade de provar a ocorrência do dano; o aumento significativo do número de ações pleiteando por danos morais; salienta-se ainda, o dano moral e o mero dissabor na visão dos tribunais, utilizando, para elucidar a problemática, diversas decisões proferidas nos tribunais do país.

Portanto, ressalta-se ao longo deste trabalho, que o dano moral indenizável não se confunde com meros percalços ou aborrecimentos afeitos às relações sociais, e para tanto, é exigível do profissional do direito prudência e, principalmente, bom senso ao operar a Justiça. Não se pretende com o presente trabalho substituir obras que expressam sobre o tema e muito menos esgotar o debate, mas que seja um ponto de reflexão sobre um tema de grande importância nas ciências jurídicas, além da incontestável incidência na vida social.

CAPÍTULO 1

EVOLUÇÃO DO DANO MORAL

1.1 BREVE HISTÓRICO

A história das nações comprova que desde tempos imemoriais, ações

humanas lesivas têm acarretado, alguma forma de compensação para aqueles moralmente ofendidos. Desse modo, nota-se no Código de Hamurabi (datado de aproximadamente 2.200 a.C.), parágrafo 127: “Se alguém difama uma mulher consagrada ou a mulher de um homem livre e não pode provar, se deverá arrastar esse homem perante o Juiz e tosquiar- lhe a fronte.” 1 Assim sendo é uma pena de caráter punitivo por um dano causado a honra de uma mulher.

O Alcorão também traz preceitos de repressão às lesões na esfera moral, conforme se verifica nos termos seguintes: “V – O adúltero não poderá casar-se senão com

uma adúltera [

caracteriza como uma autêntica lesão moral. 2

Esta proibição demonstra que entre os mulçumanos o adultério se

]”.

No Direito Romano a reparação de danos assume caráter pecuniário, a cada ofensa moral correspondia uma reparação em dinheiro aplicada pelo Juiz. Encontra-se na Lei das XII Tábuas (em latim – Lex Duodecim Tabularum ou simplesmente Duodecim Tabulae) diversos preceitos concernentes à reparação de danos, nos quais naturalmente se inserem os de caráter moral. Logo, verifica-se na Tábua VII, parágrafo 2: “Se alguém causa um dano premeditadamente que o repare”. 3

se um homem encontrar uma donzela virgem, que não tem

esposo, e tomando-a à força a desonrar, e a causa for levada a juízo, o que a desonrou dará

ao pai da donzela cinqüenta ciclos de prata, tê-la-á por mulher, porque a humilhou, não

Na

Bíblia: - “[

]

1 ALTAVILA, Jayme de. Origem dos Direitos dos Povos. 11 ed. São Paulo: Ícone 2006. p. 47.

2 GAGLIANO, Pablo Stolze; PAMPLONA FILHO, Rodolfo. Novo Curso de Direito Civil. Responsabilidade Civil. III vol. 2 ed. São Paulo: Saraiva, 2004. p. 66.

3 Ibidem. p. 69-70.

poderá repudiá-la em todos os dias de sua vida [ Testamento a honra era amplamente tutelada.

]”

4 . Nota-se, portanto, que no Antigo

Von Ihering (1818/1892) sustentava que qualquer interesse, mesmo o moral, é merecedor de proteção jurídica. Concluiu que a pessoa deveria ser respeitada, tanto em sua integridade patrimonial, como em sua integridade física, psíquica e espiritual. Desse modo, afirmava que a pessoa tanto pode ser lesionada no que é, como no que tem. Lesionada no que é – diz respeito aos bens intangíveis, aos bens morais (nome, fama, dignidade, honradez). Lesionada no que tem relacionam-se aos bens tangíveis, materiais. 5

No Brasil, as primeiras defesas da reparabilidade do dano moral surgem com o advento do primeiro Código Civil brasileiro (Lei n. 3071 de 1 de janeiro de 1916). Assim, ressalta-se a redação dos arts. 76 e 159. 6

Art. 76. Para propor, ou contestar uma ação, é necessário ter legítimo interesse econômico, ou moral. Parágrafo único. O interesse moral só autoriza a ação quando toque diretamente ao autor, ou à sua família.

Art. 159. Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência, ou imprudência, violar direito, ou causar prejuízo a outrem, fica obrigado a reparar o dano.

Em função do art. 159 não se referir taxativamente às lesões de natureza moral, “bem como a argumentação de que a regra contida no art. 76 se referia a dispositivo de ordem processual, condicionando, simplesmente, o exercício do direito de ação à existência de um interesse, a doutrina e a jurisprudência nacional passaram a negar, peremptoriamente, a tese da reparabilidade dos danos morais.” 7

Contudo, sobrevieram leis especiais regulando expressamente a matéria em determinados setores. Desse modo, o Código Brasileiro de Telecomunicações (Lei n. 4117 de 27 de agosto de 1962), previa em seu art. 81: “Independentemente de ação penal, o

4 ALMEIDA, João Ferreira. Bíblia Sagrada. Edição revista e corrigida. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1995. p.153 (Bíblia Sagrada, Livro de DEUTERONÔMIO, cap. 22, vs. 13-30. passim. “As penas para diversos pecados cometidos para com mulheres”)

5 IHERING, Von. apud. SANTOS, Antonio Jeová da Silva. Dano Moral Indenizável. 3. ed. 2. tir. São Paulo: Editora Método, 2001. p. 89-90.

6 GAGLIANO, Pablo Stolze; PAMPLONA FILHO, Rodolfo, op. cit., p. 72.

7 Ibidem., p. 73.

ofendido pela calúnia, difamação ou injúria, cometida por meio de radiodifusão, poderá

demandar, no juízo civil, a reparação do dano moral [

] ” 8

Posteriormente, a Lei dos Direitos Autorais (Lei n. 5988 de 14 de dezembro de 1973), art. 25, previa: “quem na utilização, por qualquer meio ou processo, de obra intelectual, deixar de indicar ou de enunciar como tal, o nome, pseudônimo ou sinal convencional do autor, intérprete e executante, além de responder por danos morais, está obrigado a divugar-lhe a identidade.” 9

Todavia, somente nos últimos anos a reparabilidade moral toma efetivamente envergadura concreta nas Cortes de Justiça, pois, foi com a promulgação da vigente Constituição Federal, em 5 de outubro de 1988, que indiscutivelmente se reconheceu a ampla reparabilidade do dano moral. 10

Assim, a Magna Carta, no título “Dos direitos e garantias fundamentais” (art. 5º), assegura o “direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização por dano material, moral ou à imagem” (inciso V); e declara invioláveis “a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação” (inciso X). 11

Consequ entemente, o Código Civil brasileiro de 2002 adequando-se ao novo perfil constitucional, reconhece expressamente, o instituto do dano moral em seu art. 186 e, por força do art. 927, a sua reparabilidade. Desde então, a reparação por dano moral vem sendo amplamente aceita pelos tribunais pátrios . 12

1.2 CONCEITUAÇÃO

Observa-se primeiramente, o significado da palavra ‘dano’ 13 : “mal que se faz a alguém; prejuízo causado por alguém em coisas alheias; perdas”. No mesmo sentido,

8 BRASIL. Código brasileiro de Telecomunicações. Lei n. 4117 de 27 de agosto de 1962. 9 BRASIL. Lei dos Direitos Autorais. Lei n. 5988 de 14 de dezembro de 1973.

10 COELHO, Fábio Ulhoa. Curso de Direito Civil. II vol. São Paulo: Saraiva, 2004. p. 414.

11 BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal, 1988.

12 GAGLIANO, Pablo Stolze; PAMPLONA FILHO, Rodolfo GAGLIANO, op. cit., p. 74-75.

13 GARCIA, Hamílcar de, et.al. Dicionário da língua portuguesa. 3. ed. São Paulo: Rideel LTDA, 1980, p.

734.

Pontes de Miranda 14 preleciona “dano é a perda, dano é o prejuízo sofrido.” No entanto,

estrago; é uma danificação sofrida por

alguém, causando-lhe prejuízo; implica, necessariamente, a diminuição do patrimônio da pessoa lesada.”

Nunes e Caldeira 15 interpretam o ‘dano’ como: “[

]

Segundo Bittar 16 o dano pode se originar:

seja de quebra de dever geral do ordenamento jurídico, seja de

inexecução de obrigação, legal ou contratual, seja como resultado de fato relacionado com o exercício de atividades que, pela natureza, ou pelos

meios, se consideram perigosas, como, por exemplo, a perda de componentes de automóvel, em acidente de trânsito; perda de negócios derivada de ruptura injusta de contrato; a lesão sofrida em razão de emanações poluidoras provindas de determinada indústria; o vexame suportado por alguém pela veiculação de notícias falsa e deletéria em jornal; o constrangimento injusto imposto a alguém pelo uso indevido de criação intelectual de sua autoria, e assim por diante.

] [

Pode advir de pessoa ou entidade, relacionada, ou não, com o lesado, que, por ação ou por omissão, de caráter injusto, alcança elementos de sua esfera jurídica geral, com reflexos negativos em seu patrimônio e/ou em sua personalidade. Há, assim, dano simplesmente patrimonial ou moral, ou das duas ordens, conforme a hipótese, sempre com a possibilidade de reparação na área jurídica.

Verifica-se, pois, que o “dano é o prejuízo experimentado por alguém em

]”

danos que podem ser: dano material e dano moral. Material é o dano que atinge somente o

patrimônio do ofendido. Moral é o que afeta o indivíduo como ser humano, não produzindo qualquer efeito patrimonial. 18

razão de ação ou de omissão de outrem [

17 . Contudo vale conceituar e distinguir os

O vocábulo ‘moral’ deriva do latim moralis (relativo aos costumes) e indica a parte da filosofia que estuda os costumes, para assinalar o que é honesto e virtuoso, segundo os ditames da consciência e os princípios de humanidade. “A moral, assim, tem

14 PONTES DE MIRANDA, Francisco. Tratado de Direito Privado. 26 vol. 3. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1984, p. 23

15 NUNES, Luiz Antonio Rizzatto; CALDEIRA, Mirella D’Angelo. O DANO MORAL e sua interpretação jurisprudencial. São Paulo: Saraiva, 1999, p.1.

16 BITTAR, Carlos Alberto. Reparação civil por danos morais. 3. ed. revista, atualizada e ampliada. 2. tir. São Paulo: Revistas dos Tribunais. 1999, p. 255.

17 BITTAR, Carlos Alberto, op. cit., p. 255.

18 GONÇALVES, Carlos Roberto, op. cit., p. 338-339.

âmbito mais amplo que o Direito, escapando à ação deste muitas de suas regras, impostas aos homens como deveres.” 19

Garcia, et.al. 20 fazem interpretações de forma bastante clara.

Parte da Filosofia que trata dos costumes, deveres e modo de proceder dos homens para com os seus semelhantes; corpo de preceitos e regras para dirigir as ações dos homens segundo a justiça e a eqüidade natural; conclusão moral que se tira de uma obra, de um fato etc.; o conjunto das nossas faculdades morais; o que há de moralidade em qualquer coisa; relativo ou favorável aos bons costumes; que tem bons costumes; que se refere ao domínio da alma ou da inteligência (em oposição ao físico ou material).

Encontra-se nas diversas literaturas de diferentes autores muitas outras interpretações sobre moral, demonstrando, assim, a grande importância do assunto. Deste modo, valem destacar algumas dessas interpretações presentes na doutrina.

Segundo Nunes e Caldeira 21 a “moral, pode-se dizer, é tudo aquilo que está fora da esfera material, patrimonial do indivíduo. Diz respeito à alma, aquela parte única que compõe sua intimidade. [

Para Silva 22 a moral “É o patrimônio ideal da pessoa, entendendo-se por patrimônio ideal, em contraposição a patrimônio material, o conjunto de tudo aquilo que não seja suscetível de valor econômico. Jamais afeta o patrimônio material.”

Nunes e Caldeira 23 continuam suas interpretações:

Assim, o dano moral é aquele que afeta a paz interior de uma pessoa, atingindo-lhe o sentimento, o decoro, o ego, a honra, enfim, tudo o que não tem valor econômico, mas que lhe causa dor e sofrimento. É, pois, a dor física e/ou psicológica sentida pelo indivíduo. (grifo nosso).

A imagem denegrida, o nome manchado, a perda do ente querido, ou até mesmo a redução da capacidade laborativa em decorrência de acidente, traduz-se numa dor íntima.

19 DE PLÁCIDO E SILVA, Vocabulário Jurídico. 27. ed. 3. tir. Rio de Janeiro: Forense, 2007, p. 930.

20 GARCIA, Hamílcar de, et.al., op. cit., p. 1744.

21 NUNES, Luiz Antonio Rizzatto; CALDEIRA, Mirella D’Angelo, op. cit., p. 1.

22 SILVA, Wilson Melo. 1983, p. 1-2 apud. NUNES, Luiz Antonio Rizzatto; CALDEIRA, Mirella D’Angelo, op. cit., p. 1.

23 NUNES, Luiz Antonio Rizzatto; CALDEIRA, Mirella D’Angelo, op. cit., p.1.

Nesse sentido, Rui Stoco 24 preleciona que “a ofensa moral se traduz em dano efetivo, embora não patrimonial, atingindo valores internos e anímicos da pessoa.” Deste modo, “os danos morais dizem respeito ao foro íntimo do lesado.”

De Plácido e Silva 25 esclarece “assim se diz da ofensa ou violação que não vem ferir os bens patrimoniais, propriamente ditos, de uma pessoa, mas os seus bens de ordem moral, tais sejam os que se referem à sua liberdade, à sua honra, à sua pessoa ou à sua família.”

Portanto, o dano moral ocorre no plano da subjetividade, na esfera dos valores da pessoa enquanto ser social, deriva de práticas atentatórias à personalidade, atinge o patrimônio ideal da vítima, causando-lhe sentimentos negativos, dores, desprestígio, desequilíbrio em sua situação psíquica, transtornos em sua integridade pessoal, moral ou física. Enfim, encontra-se na Constituição Federal de 1988 e no Código Civil brasileiro de 2002 no que diz á respeito dos direitos da personalidade e os seus cinco ícones principais: direito à vida e à integridade física; direito ao nome; direito à honra; direito à imagem; direito à intimidade.

1.3 DIREITO – DEFINIÇÃO DO TERMO

O vocábulo ‘direito’ deriva do latim directum, do verbo dirigere (dirigir, ordenar, endireitar). Etimologicamente, significa “o que é reto, o que não se desvia, seguindo uma só direçao, entendendo-se tudo aquilo que é conforme à razão, à justiça e à equ idade.” 26

Segundo Nunes 27 direito é o ramo das ciências sociais que tem como objeto de estudo o conjunto de normas coercitivas que regulamentam a vida em sociedade, ou seja, são normas que disciplinam as relações entre os indivíduos, desses para com o Estado e do Estado para com seus cidadãos, por meio de normas que permitam solucionar os conflitos.

24 STOCO, Rui. Responsabilidade civil e sua interpretação jurisprudencial: doutrina e jurisprudência. 3.ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1997, p. 523 e 527.

25 DE PLÁCIDO E SILVA, op. cit., p. 410.

26 DE PLÁCIDO E SILVA, op. cit., p. 461.

27 NUNES, Luiz Antonio Rizzatto. Manual de Introdução ao Estudo do direito. 6. ed. 2. tir. São Paulo:

Saraiva, 2006, p. 1-60-85, passim

No entanto, Reale 28 no livro “Lições preliminares de Direito” descreve:

O direito é, por conseguinte, um fato ou fenômeno social; não existe senão na sociedade e não pode ser concebido fora dela. Uma das características da realidade jurídica é, como se vê, a sua sociedade, a sua qualidade de ser social.

Admitido que as formas mais rudimentares e toscas de vida social já implicam um esboço de ordem jurídica, é necessário desde logo observar que durante milênios o homem viveu ou cumpriu o Direito, sem se propor o problema de seu significado lógico ou moral. É somente num estágio bem maduro da civilização que as regras jurídicas adquirem estrutura e valor próprios, independente das normas religiosas ou costumeiras e, por via de conseqüência, é só então que a humanidade passa a considerar o Direito como algo merecedor de estudos autônomos.

Essa tomada de consciência do Direito assinala um momento crucial e decisivo na história da espécie humana, podendo-se dizer que a conscientização do Direito é a semente da Ciência do Direito.

Destarte, o Direito divide-se em dois grandes ramos: público e privado e, em diversas especialidades, constitui-se numa das Ciências Sociais cujo objeto não está no indivíduo, diretamente, mas no estudo das regras e princípios que disciplinam as relações humanas. 29

O Direito Público dispõe sobre interesses ou utilidades imediatas da comunidade (direito constitucional ou político, direito administrativo, direito criminal ou penal, direito judiciário ou processual). É um complexo de normas que disciplinam a constituição e a competência dos órgãos do Estado, assim como o exercício dos direitos e poderes políticos dos cidadãos e a estes concedem o gozo dos serviços públicos e dos bens do domínio público. 30

O Direito Privado é caracterizado quando há uma ação entre pessoas. É o conjunto dos preceitos e normas que regulam a condição civil dos indivíduos e das coletividades organizadas (pessoas jurídicas), inclusive o Estado e as autarquias, e bem assim os modos pelos quais se adquirem, conservam, desfrutam e transmitem os bens e também as relações de família e as sucessões. 31

28 REALE, Miguel. Lições Preliminares de Direito. 27. ed. 5. tir. São Paulo: Saraiva, 2005, p.2.

29 REALE, Miguel, op. cit., p. 2-32, passim.

30 NUNES, Luiz Antonio Rizzatto, op.cit., p. 27-117, passim; DEDA, Artur Oscar de Oliveira. A reparação dos danos morais. São Paulo: Saraiva, 2000, p. 36.

31 Ibidem

Salienta-se ainda a definição de Direito de acordo com Kant, pois vem ao encontro dos estudos a seguir:

Segundo Kant 32 , o "Direito é o conjunto de condições pelas quais o arbítrio de um pode conciliar-se com o arbítrio do outro, segundo uma lei geral de liberdade." Como se percebe, há três palavras-chave nesta asserção: conjunto de condições, arbítrio e liberdade. Para Kant, liberdade é a posse de um arbítrio próprio independente do de outrem, é o exercício externo desse arbítrio: arbítrio é o querer consciente de que uma acção pode produzir algo; conjunto de condições ou obrigações jurídicas implica ser honesto, não causar lesão/dano a ninguém e aderir a um Estado em que se assegure, frente a todos, aquilo que cada um possua.

Com o suporte dessas notas fornecidas pelo próprio Kant e por Recaséns Siches, poderíamos refazer a afirmação: "o direito implica pressupostos (honestidade e respeito à posse de outrem, verbi gratia) que possibilitam a concretização recíproca do querer de cada um e de todos, observando-se que o querer exercido/possuído por cada um encontra como limite o querer de todos". Esta definição, de carácter valorativo/axiológico, reflecte a importância do elemento liberdade (posse e exercício de arbítrio). Só há liberdade dentro de limites e estes são impostos pela idéia de preservá-la. Jusnaturalista, Kant não menospreza o papel desempenhado pelo direito posto, embora afirme ser este posterior ao natural, que o legitima. 33

Portanto, o direito busca conciliar o querer de cada um e de todos visando preservar a paz social. É um sistema de normas que edifica uma pretensão de justeza, compõe-se do conjunto de todas as normas que disciplinam, em termos gerais, a vida em sociedade.

1.4 DEVER DE REPARAÇÃO DOS DANOS MORAIS

Princípio informador da teoria da responsabilidade civil, sem o qual a vida em sociedade seria quase inconcebível, é aquele que impõe a quem causa dano a outrem o

32 KANT, Emanuel - é uma das maiores figuras da História da Filosofia. Escreveu vários livros. Viveu -1724

à 1804, residindo sempre em Königsberg. Disponível: <http://www.hottopos.com/harvard4/jmskant.htm>. Acesso em: 23 maio 2007.

33 KANT, Emanuel. A paz Perpétua. Trad. Rafael Benaion. Rio de Janeiro: Co-editora Brasileira , 1939 apud.

A definição de Kant. Disponível:

<http://pt.wikipedia.org/wiki/Direito#Cole.C3.A7.C3.A3o_de_defini.C3.A7.C3.B5es_de_Direito>. Acesso

em: 23 maio 2007.

dever de repará-lo. Este anseio de obrigar o ofensor a reparar o dano causado se inspira na própria idéia de justiça. 34

Pontes de Miranda ensina “nas relações da vida, o ser humano há de indenizar o dano que causa. O ser humano que sofreu o dano há de ser protegido pelo direito material no sentido de ter direito, pretensão e ação contra o ofensor.” 35

Assim, para que se alcancem os objetivos visados, em especial a manutenção do equilíbrio necessário nas relações privadas, a reação da ordem jurídica às ações lesivas manifesta-se através de mecanismos de submissão do agente aos efeitos do dano que causou a outrem. Com a superveniência do resultado danoso e presente o nexo causal - preenchidos, assim, os três pressupostos gerais da responsabilidade civil: ação, dano e vínculo - surge para o lesante a obrigação de indenizar. 36

O Código Civil de 2002 prevê o dano moral ao se referir, no art. 186, ao ato ilícito: “Aquele que por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito” 37 . Consequ entemente reconhece a reparabilidade do dano e abre uma gama de possibilidades de indenização quando expressa:

Art. 927. Aquele que, por ato ilícito (arts.186 e 187), causar dano a outrem, fica obrigado a repará-lo.

Parágrafo único. Haverá obrigação de reparar o dano, independentemente de culpa, nos casos especificados em lei, ou quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar, por sua natureza, risco para os direitos de outrem. 38

Portanto, aquele que causa dano a outrem deve suportar as conseqüências advindas do ato ilícito, assumindo o ônus correspondente, na satisfação dos interesses do ofendido. A responsabilização do ofensor é, nesse contexto, a resposta do Direito às ações lesivas. Sob o prisma do ofendido, funda-se a reparação na necessidade de preservação da

34 RODRIGUES, Silvio. Direito Civil: Responsabilidade civil. IV vol. 19. ed. São Paulo: Saraiva, 2002, p. 4- 13, passim.

35 PONTES DE MIRANDA, Francisco, op.cit., p. 23.

36 BITTAR, Carlos Alberto, op. cit., p. 119-122.

37 BRASIL. Código Civil. Lei n. 10.046, de 10 de janeiro de 2002. 3. ed. São Paulo: Saraiva, 2007.

38 Ibidem.

individualidade, a fim de que se mantenham íntegros os valores individuais e sociais da pessoa humana. 39

Quanto à natureza jurídica da reparação por dano moral, divergem os autores. Carbonnier 40 , por exemplo, vislumbra que a reparação possui caráter apenas punitivo, enquanto outros autores, como Espínola Filho 41 , afirmam que tal colocação não satisfaz para fundamento da reparação do dano moral, bastando considerar que, nos casos em que o ato ilícito assume maior gravidade, pelo perigo social dele resultante, a ponto de considerar-se crime, o direito penal intervém, aplicando a pena ao delinqüente.

Entretanto, para Gonçalves 42 , prevalece o entendimento de que a reparação do dano moral possui duplo caráter: compensatório para a vítima e punitivo para o ofensor. Atua como um lenitivo, uma compensação para minimizar o sofrimento havido pela vítima e, ao mesmo tempo, serve de sanção ao lesante, como fator de desestímulo, a fim de que não volte a praticar atos lesivos.

1.5 FORMAS DE REPARAÇÃO DOS DANOS MORAIS

Maria Helena Diniz 43 ensina que a responsabilidade civil cinge-se à reparação do dano moral ou patrimonial causado, garantindo o direito do lesado à segurança, mediante o pleno ressarcimento do prejuízo, restabelecendo-se na medida do possível. Hodiernamente, o princípio que domina a responsabilidade civil é o da restitutio in integrum, ou seja, da completa reposição da vítima à situação anterior à lesão, por meio:

- de uma reconstituição natural (sanção direta), por exemplo, no delito contra a reputação, a publicação, pelo jornal, de desagravo; no dano estético, mediante cirurgia plástica; no caso de poluição, a remoção do aparato causador do dano ou;

39

40

43

BITTAR, Carlos Alberto, op. cit., p. 120-122.

CARBONNIER, p. 308 apud. GONÇALVES, Carlos Roberto, op. cit. p. 374.

ESPINDOLA FILHO, p 27 apud. GONÇALVES, Carlos Roberto, op. cit, p. 374.

32

GONÇALVES, Carlos Roberto, op. cit., p. 375.

43 DINIZ, Maria Helena. Curso de Direito Civil Brasileiro. Responsabilidade Civil. VII vol. 21. ed. rev. e atual. São Paulo: Saraiva, 2007, p.106.

- de indenização (sanção indireta) que represente do modo mais exato possível o valor do prejuízo no momento de seu ressarcimento. Deveras, comumente, dá-se pagamento de certa soma em dinheiro, mesmo na reparação de danos morais, como os alusivos à honra, à vida, à imagem, hipóteses em que se configura a execução por equivalente, sempre em atenção às alterações do valor do prejuízo, posteriormente, a sua ocorrência, inclusive desvalorização monetária.

Do mesmo modo, quanto às formas de reparação dos danos, esclerece

Bittar: 44

Acentuem-se, a propósito, as duas vertentes básicas, a saber, a da

submissão da pessoa do lesante, ou a de seu patrimônio, aos efeitos da

ação lesiva: na primeira, são fatos que deve prestar o agente, como resposta pelo dano produzido; na segunda, é pelo pagamento de soma de dinheiro que, normalmente, se traduz a reparação, cabendo ao juiz a respectiva determinação no caso concreto.

] [

Pontes de Miranda preleciona: “A pretensão à indenização, se a restauração em natura não pode ser feita, ou não seria satisfatória, exerce-se para se haver a quantia em dinheiro que valha o dano sofrido, material ou imaterial.” 45

Portanto, ante a impossibilidade de reconstituição natural da situação anterior à lesão, o dano moral deve ser compensado pecuniariamente, buscando-se minimizar os sentimentos negativos de dor, mágoa e tristeza do ofendido. Assim, inexistindo meios de se banir a dor por completo, aspira-se, ao menos, atenuar o sofrimento havido com uma compensação pecuniária. 46

44 BITTAR, Carlos Alberto, op. cit., p. 212.

45 PONTES DE MIRANDA, Francisco, op.cit., p. 27.

46 DINIZ, Maria Helena, op. cit., p. 106-107.

CAPÍTULO 2

DANO MORAL INDENIZÁVEL

2.1 REQUISITOS DO DANO INDENIZÁVEL

Dano moral é aquela lesão que atinge exclusivamente o patrimônio ideal do ofendido, atentando, entre outras possibilidades, contra a sua segurança, tranqüilidade, amor-próprio, integridade física e intelectual. 47 Contudo, a configuração do dano indenizável pressupõe, necessariamente, a ocorrência dos seguintes requisitos:

- Lesão a um bem jurídico, patrimonial ou moral, pertencente a uma

pessoa. Não há reparação sem que haja dano a um interesse tutelado juridicamente e, não

há dano sem ofendido, pois só pode reclamar a indenização aquele que foi atingido pelo fato lesivo. 48

- Efetividade ou certeza do dano. A mera possibilidade de dano não enseja

indenização. O dano deve ser certo quanto à sua existência, impedindo-se indenização por algo fantástico, fruto da imaginação do ofendido. 49

- Nexo causal. Para que se possa impor a alguém o dever de indenizar o

dano experimentado por outrem é indispensável que haja uma relação de causalidade entre a conduta comissiva ou omissiva e o dano. 50

- Subsistência do dano no momento da reclamação. Se o ofensor já

reparou satisfatoriamente o dano que causou a outrem, não há razão para fazê-lo novamente. O prejuízo tornou-se insubsistente. 51

- Legitimidade. Para pleitear a indenização, o ofendido deverá ser titular do

direito atingido pela lesão. Assim, os titulares poderão ser as pessoas sobre as quais repercutiu o fato lesivo, ou seus beneficiários (pessoas que dele dependam). 52

47 CIANCI, Mirna. O valor da reparação moral. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2007, p. 6.

48 DINIZ, Maria Helena, op. cit., p. 63.

49 SANTOS, Antonio Jeová da Silva, op. cit., p. 77-78 e 112.

50 RODRIGUES, Silvio, op. cit., p. 163.

51 DINIZ, Maria Helena, op. cit., p. 65.

- Ausência de causas excludentes de responsabilidade. De acordo com o art. 393 do Código Civil, não existe a obrigação de indenizar o dano diante da ocorrência de excludentes da responsabilidade civil, como o caso fortuito e a força maior. 53

Necessário considerar, ainda, a demonstração de dolo ou culpa do ofensor. O art. 186 do Código Civil menciona a culpa em sentido lato (abrangente do dolo), por meio das expressões “ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência”. Enquanto o dolo consiste na conduta lesiva de forma consciente e voluntária, a culpa caracteriza-se pela inobservância de cuidado objetivo, inerente ao comportamento do homo medius, desde que previsível o fato nas circunstâncias em que ocorreu. 54

Portanto, para que haja dano moral indenizável, será imprescindível a presença concomitante dos requisitos acima expostos, sem os quais não será cabível a indenização compensatória de danos morais.

2.2 LEGITIMIDADE PASSIVA E LEGITIMIDADE ATIVA NAS AÇÕES DE INDENIZAÇÃO POR DANO MORAL

Inicialmente, incluem-se no pólo passivo da ação de indenização por dano moral, “as pessoas que praticam atos ilícitos, por si ou por elementos outros produtores de danos, ou exercem atividades perigosas, compreendidas, pois, as diferentes situações de responsabilidade por fato próprio, ou de terceiro, ou de animal, ou de coisa relacionada.” Logo, responsáveis pela indenização do dano moral são as pessoas que, direta ou indiretamente, nos termos da lei, se relacionam com o fato gerador da lesão. 55

Inserem-se, portanto, as pessoas ou entidades das quais emana a energia danificadora, ou que estão relacionadas juridicamente com o causador da lesão. Deste modo, figuram no pólo passivo da ação de reparação quaisquer pessoas, físicas ou jurídicas, de direito público ou privado, nacionais ou estrangeiras, incluídos os próprios

52 DINIZ, Maria Helena, op. cit., p. 65.

53 CARVALHO, Acelino Rodrigues. Pressupostos da Responsabilidade Civil. À luz do Novo Código (Lei N. 10.406 de 10 de janeiro de 2002). São Paulo: LED, 2000. p. 42-55, passim e; GONÇALVES, op. cit p.

401-405.

54 CARVALHO, Acelino Rodrigues, op. cit, p. 42-55, passim.

55 BITTAR, Carlos Alberto, op. cit., p. 143.

entes políticos, ou seja, a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, partidos políticos, sindicatos, corporações profissionais e outras. 56

Assim, no âmbito dos fatos próprios, a responsabilidade de reparar o dano cabe a quem por ação pessoal, infringindo dever legal ou social, prejudica terceiro. Quanto aos demais fatos, inserem-se, em sua órbita, os de pessoas dependentes, civil ou economicamente, do agente, de animais sob sua guarda e de coisas de que seja titular, ou de que tenha posse, nas condições descritas na lei. 57

Já no que tange à legitimidade ativa para percepção do direito à

indenização, podem apresentar-se as pessoas que suportam os reflexos negativos de fatos danosos, destacando-se aquelas em que as esferas de ação repercutem os eventos lesivos. 58

] é

Exemplo disso encontra-se na Revista Datavenia – Opinião Jurídica – Souza 59 aduz: “[ possível ao julgador identificar e quantificar o dano moral, em casos de erro médico, podendo ser a legitimidade ativa evidente (por óbvia) ou demonstrável em juízo.”

Deste modo, “além do próprio ofendido, poderão reclamar a reparação do dano moral, dentre outros, seus herdeiros, seu cônjuge ou companheira e os membros de sua família a ele ligados afetivamente.” 60

Segundo proclama a Súmula 227 do Superior Tribunal de Justiça, a pessoa jurídica também pode sofrer dano moral e, portanto, está legitimada a pleitear reparação. Embora não possua capacidade afetiva, a pessoa jurídica pode sofrer dano moral, por ter atributos sujeitos à valoração extrapatrimonial da sociedade, assim, o abalo de credibilidade da pessoa jurídica pode ocasionar dano à sua esfera moral. 61

Para Carlos Alberto Bittar, com a evolução operada, na linha de coletivização da defesa de interesses, entidades não personalizadas e grupos ou categorias de pessoas indeterminadas passam também a figurar como titulares de direito à reparação civil, inclusive a sociedade, ou certas coletividades como um todo, que são titulares de

56 BITTAR, Carlos Alberto, op. cit., p. 144.

57 Ibidem. p. 144-145.

58 BITTAR, Carlos Alberto, op.cit., p.151.

59 SOUZA, Neri Tadeu Câmara. Erro médico e dano moral. Revista Datavenia. Opinião Jurídica. Disponível: <http://www.datavenia.net/opiniao/erromedicoedanomoral.htm>. Acesso em: 20 maio 2007.

60 GONÇALVES, Carlos Roberto, op. cit., p. 360.

61 Ibidem. p. 366-367.

direitos concernentes à defesa de valores sociais e individuais relevantes, como o patrimônio histórico e cultural, o meio ambiente e o consumidor. 62

Portanto, poderão pleitear a reparação por danos morais os ofendidos, direta ou indiretamente, pelo ato lesivo. Deste modo, são titulares diretos aqueles atingidos de frente pelos reflexos danosos, enquanto titulares indiretos são os que sofrem, por consequ ência, esses efeitos (assim, por exemplo, a morte do pai provoca dano moral ao filho, o ataque lesivo à mulher pode ofender o marido, o filho ou a própria família). 63

2.3 FIXAÇÃO DO QUANTUM INDENIZATÓRIO

Houve duas correntes atinentes ao quantum indenizatório com reflexos no vigente Código Civil – sobre a admissibilidade ou não do grau de culpa. Nasce, pois, a classificação doutrinária da culpa em grave (equivalente ao dolo), leve e levíssima. Assim, no momento da fixação do montante a ser pago pelo responsável, aquela deve variar, principalmente se o juiz verificar que a culpa do agente pode ser classificada como leve. Neste caso em especial não seria justo o pagamento da mesma indenização para aquele que agiu dolo ou culpa grave. 64

Verifica-se no Código Civil de 2002, art. 944, caput: “A indenização mede- se pela extensão do dano.” E, visando evitar que tal regra, em alguns casos, se mostre injusta, anuncia o parágrafo único: “Se houver excessiva desproporção entre a gravidade da culpa e o dano, poderá o juiz reduzir, equ itativamente, a indenização.”

Como visto, a legislação proclama que o quantum indenizatório deve ser compatível com a extensão do dano e, não havendo culpa grave do ofensor, o magistrado poderá diminuir o valor da indenização, equ itativamente, adotando a doutrina da graduação da culpa. Por outro lado, se o ofendido, por ato culposo, veio a concorrer para o prejuízo que sofreu, o órgão judicante, na fixação do montante indenizatório, deverá considerar a gravidade de sua culpa, confrontando-a com a do ofensor.

62 BITTAR, Carlos Alberto, op. cit., p. 151-153, passim.

63 Ibidem. p. 155.

64 CASILLO, João. Dano à pessoa e sua indenização. 2. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1994, p.89 e; GONÇALVES, Carlos Roberto, op. cit., p. 398-405.

Desse modo, têm-se ciência que cabe análise caso a caso para a fixação da indenização e, conforme preceitua o Código Civil, arts. 944 e 945, deve o magistrado agir com equ idade, arbitrando a indenização por danos morais pela extensão do dano e o grau de culpa do agente, de terceiro e da vítima.

Gonçalves 65 afirma, com relação ao estabelecimento do quantum indenizatório, que além da situação patrimonial das partes, deve-se considerar, também, como agravante o proveito obtido pelo lesante com a prática do ato ilícito. A ausência de eventual vantagem, porém, não o isenta da obrigação de reparar o dano causado ao ofendido.

Acertadamente, Venosa 66 preleciona que “a reparação do dano moral deve guiar-se especialmente pela índole dos sofrimentos ou mal-estar de quem os padece, não estando sujeita a padrões predeterminados ou matemáticos.”

Portanto, da análise da legislação aqui destacada e da observância da doutrina pode-se traçar alguns elementos para a fixação do valor do dano moral, quais sejam: a posição social e política do ofensor e do ofendido; a extensão do dano e a repercussão da ofensa.

Para se estipular o valor do dano moral devem ser consideradas as condições pessoais dos envolvidos, evitando-se que sejam desbordados os limites dos bons princípios e da igualdade que regem as relações de direito, para que não importe em um prêmio indevido ao ofendido, indo muito além da recompensa ao desconforto, ao desagrado, aos efeitos do gravame suportado. 67

Impõe-se a observância de padrões de prudência e equidade para evitar que as ações de reparação por dano moral se transformem em expedientes de extorsão ou de espertezas maliciosas e injustificáveis, não devendo se limitar em fundamentar a condenação isoladamente na fortuna eventual de um ou na pobreza do outro, sendo que, obrigatoriamente, estarão presentes na análise do magistrado as duas posições, sociais e econômicas, da vítima e do ofensor. 68

65 GONÇALVES, Carlos Roberto, op. cit., p. 377-384.

66 VENOSA, Sílvio de Salvo. Direito Civil. Responsabilidade Civil. 4. vol. 7. ed. São Paulo: Atlas, 2007, p. 40.

67 GONÇALVES, Carlos Roberto, op. ct. p.385-386.

68 CIANCI, Mirna, op. cit., p. 82-90, passim.

2.4 INDENIZAÇÃO SATISFATIVA E NÃO ENRIQUECIMENTO SEM CAUSA

O valor da indenização por dano moral deve corresponder aos efeitos da ofensa evitando-se o enriquecimento sem causa do ofendido. Deste modo, Pontes de Miranda 69 ensina: “Nos sistemas jurídicos há o princípio de que a indenização dos danos não há de conduzir a que o ofendido fique em situação mais favorável do que era a sua.” E, esclarece, “reparar com lucro para o titular da pretensão seria enriquecê-lo injustificadamente. ”

Segundo o ensinamento de Alfredo Colmo: 70

Enriquecimento sem causa, pois o credor teria, com a reparação do dano moral, um aumento patrimonial, sem que antes tivesse tido nenhum desembolso. Entretanto, é bom lembrar que a ordem jurídica não ampara apenas os bens econômicos. Deveras, a inviolabilidade do domicílio, o bom nome, a honra, a vida, o decoro, a liberdade gozam de tutela jurídica, constituindo assim um patrimônio ideal que se compõe de bens íntimos e subjetivos. A reparação pecuniária do dano moral não pretende refazer o patrimônio, visto que este, em certos casos, não sofreu nenhuma diminuição, mas dar ao lesado uma compensação, que lhe é devida, pelo que sofreu, amenizando as agruras oriundas do dano não-patrimonial.

Nesse mesmo sentido, aduz Tartuce Silva 71 : “Nunca se pode esquecer, ademais, da função social da responsabilidade civil. Se por um lado deve-se entender que a indenização é um desestímulo para futuras condutas, por outro, não pode o valor pecuniário gerar o enriquecimento sem causa.”

Assim sendo, as recentes decisões do Superior Tribunal de Justiça buscam um limite para a indenização por danos morais nos casos de morte de pessoa da família e de inscrição do nome da pessoa em cadastros de inadimplentes. Este Tribunal consoante entendimento pacífico, tem admitido a alteração do valor da indenização de danos morais, para ajustá-lo aos limites do razoável, quando evidente, a sua desmesura. 72

69 PONTES DE MIRANDA, Francisco, op.cit., p.52. 70 COLMO, Alfredo, p. 128 apud DINIZ, Maria Helena, op. cit., p. 96.

71 TARTUCE SILVA, Flávio Murilo. Questões controvertidas quanto à reparação por danos morais: aspectos doutrinários e visão jurisprudencial. Revista Juristas. Disponível:

<http://www.juristas.com.br/mod_revistas.asp?ic=214>. Acesso em: 03 jun. 2007.

72 Ibidem.

Para atingir homogeneidade pecuniária na avaliação do dano moral Maria Helena Diniz propõe as seguintes regras, a serem seguidas pelo órgão judicante no arbitramento:

a) evitar indenização simbólica e enriquecimento sem justa causa,

ilícito ou injusto da vítima. A indenização não poderá ter valor superior

ao dano, nem deverá subordinar-se à situação de penúria do lesado; nem poderá conceder a uma vítima rica uma indenização inferior ao prejuízo sofrido, alegando que sua fortuna permitiria suportar o excedente do menoscabo; (grifo nosso)

b) [ ]

c) diferenciar o montante indenizatório segundo a gravidade, a extensão e

a natureza da lesão;

d) verificar a repercussão pública provocada pelo fato lesivo e as

circunstâncias fáticas;

e) atentar as peculiaridades do caso e ao caráter anti-social da conduta

lesiva;

f) averiguar não só os benefícios obtidos pelo lesante com o ilícito, mas

também a sua atitude ulterior e situação econômica;

g) apurar o real valor do prejuízo sofrido pela vítima;

h) levar em conta o contexto econômico do país. No Brasil não haverá

lugar para fixação de indenização de grande porte, como as vistas nos Estados Unidos;

i) verificar a intensidade do dolo ou o grau de culpa do lesante;

j) basear-se em prova firme e convincente do dano;

k) analisar a pessoa do lesado, considerando a intensidade de seu

sofrimento, seus princípios religiosos, sua posição social ou política, sua condição profissional e seu grau de educação e cultura;

l) procurar a harmonização das reparações em casos semelhantes;

m) aplicar o critério do justum ante as circunstâncias particulares do caso

sub judice (LICC, art. 5º), buscando sempre, com cautela e prudência

objetiva, a eqüidade. 73

Ao analisar as regras propostas por Maria Helena Diniz, vale salientar que vem se acentuando nos tribunais, recomendações no sentido de que também seja considerada a situação socioeconômica do responsável pela indenização, por que a condenação por dano moral não pode gerar outro dano moral no sentido de privar a família do requerido do necessário à sobrevivência digna.

Quanto à reparação do dano moral, Caio Mario da Silva Pereira 74 disciplina:

pôr nas mãos do ofendido uma soma que não é um pretium doloris,

porém um meio que pode amenizar a amargura da ofensa e, de qualquer maneira, o desejo de vingança. Na ausência de um padrão ou de uma contra-prestação que dê o correspectivo da mágoa, o que prevalece é o

] [

73 DINIZ, Maria Helena, op. cit., p. 101-102. 74 PEREIRA, Caio Mário da Silva. Instituições de Direito Civil. II vol. 19. ed. 4. tir. Rio de Janeiro:

Forense, 2000, p. 218-219.

critério de atribuir ao juiz o arbitramento de indenização [ ],

moderadamente arbitrada [

de provocar o enriquecimento do ofendido, para que não se converta o sofrimento em móvel de captação de lucro. (grifo nosso)

A indenização não pode ter o objetivo

].

Segundo Gonçalves 75 “por outro lado, se o valor arbitrado não pode ser muito elevado, também não deve ser tão pequeno, a ponto de se tornar inexpressivo e inócuo. Daí a necessidade de se encontrar um meio-termo ideal.”

Deste modo, como esclarece Maria Helena Diniz, o “lesado pode pleitear uma indenização pecuniária em razão de dano moral, sem pedir um preço para sua dor, mas um lenitivo que atenue, em parte, as conseqüências do prejuízo sofrido, melhorando seu futuro, superando o déficit acarretado pelo dano.” 76 Nesse caso é uma indenização satisfativa e não enriquecimento sem causa.

2.5 CONDIÇÕES PESSOAIS DO OFENSOR E DO OFENDIDO

Segundo Gonçalves 77 as condições pessoais do ofensor devem ser levadas em consideração, no momento da fixação do dano moral, para que esta possa ser justa e suficiente. Isto porque o valor da indenização não deve ser tão alto que possa levá-lo à míngua, nem tão insignificante que possa incentivá-lo a persistir na ofensa.

Leandro Vieira, em artigo publicado na Revista Jurídica Consulex, aduz:

É preciso mudar a consciência de quem julga, para que, sensível aos argumentos das partes, observe atentamente o potencial econômico do ofensor, e não do ofendido, arbitrando de forma justa a indenização moral. Sim, porque seja pobre ou seja rico, a dor de quem sofre o dano moral é a mesma. 78

Condenar o pequeno comerciante a indenizar o ofendido em cinco mil reais pode significar sua bancarrota; já condenar um banco ou empresa de telefonia nesse mesmo valor é estimular que continue lesando seus clientes. 79

75 GONÇALVES, Carlos Roberto, op. cit., p. 386.

76 DINIZ, Maria Helena, op. cit, p. 241.

77 GONÇALVES, Carlos Roberto, op. cit, p. 377-386.

78 VIERA, Leandro. Dano Moral. O que é isso, afinal? Portal Jurídico. Revista Jurídica Consulex, n. 225, 2006. p. 52.

79 Ibidem. p. 53.

Assim, segundo compendiam as Cortes de Justiça, as indenizações devem ser fixadas de acordo com padrões de proporcionalidade e razoabilidade visando evitar que

a indenização se converta em medida ineficaz, com a fixação de um valor ínfimo, ou abusiva, se arbitrado um valor exagerado.

CIVIL. AÇÃO DE INDENIZAÇÃO. DANO MORAL. QUANTUM INDENIZATÓRIO. PRINCÍPIO DA PROPORCIONALIDADE E DA RAZOABILIDADE. REDUÇÃO. 1) Para a fixação do valor da indenização por dano moral, deve ser aferida a situação sócio-econômica do ofendido, a capacidade econômica do ofensor, a natureza e extensão do dano e o grau de culpa do autor, a fim de evitar o enriquecimento sem causa para o autor e garantir o caráter pedagógico para o réu, sempre se levando em consideração os princípios da razoabilidade e da proporcionalidade [ ]

80

Contudo, é oportuno assinalar que o princípio da proporcionalidade, utilizado para se apurar o quantum da indenização, não liberta o juiz dos limites e possibilidades oferecidos pelo ordenamento jurídico para, diante da realidade apurada, decidir o justo montante compatível ao caso concreto. 81

No que tange às condições do ofendido, deverá ser considerado o seu modo de vida como um todo, mediante análise de suas características pessoais, como a profissão,

o estado civil, a idade, a atividade social, os vínculos familiares e outras circunstâncias de natureza objetiva e subjetiva que o caso oferecer. Essas circunstâncias do caso concreto, somadas aos outros fatores destacados, deverão determinar o quantum da indenização. 82

Assim, observa-se alguém que tenha vida social intensa e que se apresente em público constantemente, como é o caso dos artistas, por certo que uma cicatriz no rosto terá mais relevância do ponto de vista jurídico e do direito de danos, na esfera moral, do que a de outrem que não têm essa atividade como profissão. 83

Quando o dano moral atinge os governantes, ministros ou representantes de certas classes sociais, nesses casos em particular a jurisprudência tem registrado como praxe ao arbitramento do dano moral a importância de duzentos salários mínimos, contudo

80 AMAPÁ. Tribunal de Justiça. Apelação Cível n. 2.626/2005. Relator Desembargador Luiz Carlos. Disponível: <http://www.tjap.gov.br/apjurisnet_new/intteor.php?id=9247>. Acesso em: 10 set. 2007.

81 LIMA, Erick C. L. O valor do dano moral na casuística do STJ . Jus Navigandi, n. 743. Disponível:

<http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=7014>. Acesso em: 10 set. 2007.

82 COSTA, Dahyana Siman Carvalho da; GANDINI, João Agnaldo Donizeti. Liquidação do dano moral . Jus

Navigandi, n. 696. Disponível: <http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=6027>. Acesso em: 08 maio

2007.

83 Ibidem.

prevalece o entendimento de que devem ser fixados com excepcionalidade em parâmetros maiores, entre quinhentos e mil salários mínimos. 84

“Esse tratamento diferenciado se deve ao entendimento de que nesses casos o ofensor atua no sentido de desmoralizar o poder constituído, tentando enfraquecer e comprometer a autoridade conferida ao ofendido.” 85

Nesse caso exemplificado acima não se pretendeu menosprezar uns em detrimento de outros indivíduos, nem ferir o princípio constitucional da igualdade de todos perante a lei. Ao contrário, é justamente tratando desigualmente os desiguais, considerando suas condições particulares, que se atende aos anseios de isonomia e proporcionalidade.

2.6 CARÁTER PUNITIVO DA INDENIZAÇÃO MORAL

Confirmando o caráter punitivo da indenização por danos morais, prevalece na doutrina moderna o entendido de que a reparação civil, ao lado do seu efeito compensatório, tem também efeitos punitivos. Nesse sentido, preleciona Maria Helena Diniz 86 :

A reparação pecuniária do dano moral é um misto de pena e de satisfação compensatória. Não se pode negar sua função: a) penal, constituindo uma sanção imposta ao ofensor, visando a diminuição de seu patrimônio, pela indenização paga ao ofendido, visto que o bem jurídico da pessoa – integridade física, moral e intelectual, não poderá ser violado impunemente, subtraindo-se o seu ofensor às conseqüências de seu ato por não serem reparáveis; e b) satisfatória ou compensatória, pois como dano moral constitui um menoscabo a interesses jurídicos extrapatrimoniais, provocando sentimentos que não têm preço, a reparação pecuniária visa proporcionar uma satisfação que atenue a ofensa causada.

Do mesmo modo, Caio Mário aduz que se deve preponderar “um jogo duplo de noções”. De um lado, a idéia de punição ao infrator, que não pode ofender em vão

84 COSTA, Dahyana Siman Carvalho da; GANDINI, João Agnaldo Donizeti, op. cit.

85 Ibidem.

86 DINIZ, Maria Helena, op. cit., p. 105.

a esfera jurídica alheia. E, de outro, proporcionar à vítima uma compensação pelo dano suportado. 87

Carlos Alberto Bittar 88 esclarece:

Ora, num momento em que crises de valores e de perspectivas assolam a humanidade, fazendo recrudescer as diferentes formas de violência, esse posicionamento (o da condenação em quantia significativa, em razão das potencialidades patrimoniais do lesante) constitui sólida barreira jurídica a atitudes ou a condutas incondizentes com os padrões éticos médios da sociedade. De fato, a exacerbação da sanção pecuniária é fórmula que atende às graves conseqüências que de atentados à moralidade individual ou social podem advir.

Neste contexto, a indenização por seu peso nas finanças do ofensor, visa dissuadi-lo a não preservar na prática lesiva. As decisões judiciais têm trilhado pelas mais variadas alternativas e soluções, sempre com base nas formulações teórico-doutrinárias e nos precedentes jurisprudenciais. O entendimento moderno de indenização por danos morais baseia-se no binômio ‘valor de desestímulo’ e ‘valor compensatório’. 89

A propósito, já compendiou o Tribunal de Justiça de São Paulo: “A indenização por dano moral é arbitrável, mediante estimativa prudencial que leve em conta

a necessidade de, com a quantia, satisfazer a dor da vítima e dissuadir, de igual e no atentado, o autor da ofensa.” 90

Segundo Mirna Cianci, “a reparação do dano moral tem natureza também

punitiva, aflitiva para o ofensor, com o que tem a importante função, entre outros efeitos,

de evitar que se repitam situações semelhantes [

].”

91

Portanto, a reparação do dano moral, possui caráter satisfativo-punitivo. Visa satisfazer o ofendido, através de uma compensação que atenue o sofrimento havido e, ao mesmo tempo, punir o ofensor, por meio de uma sanção pecuniária que possa inibir ou desestimular a repetição de situações semelhantes.

87 PEREIRA, Caio Mário da Silva, op. cit., p. 218.

88 BITTAR, Carlos Alberto, op. cit., p. 233.

89 OLIVEIRA JÚNIOR, Osny Claro de. Danos morais: Judiciário pune adequadamente quem ofende honra alheia. Disponível: < http://www.tj.ro.gov.br/emeron/sapem/2002/julho/2607/ARTIGOS.htm> . Acesso em:

18 maio 2007, passim.

90 SÃO PAULO. Tribunal de Justiça. Segunda Câmara Cível. Apelação Cível 198.945-1/7. RT 706/67.

91 CIANI, Mirna, op. cit., p. 57

CAPÍTULO 3

DANO MORAL E MERO DISSABOR

3.1 BREVES ANOTAÇÕES SOBRE MERO DISSABOR

Importante ressaltar a gênese psicossocialógica da noção de Justiça, que nasce dos próprios indivíduos. Há no coração do homem uma sede de justiça, uma expectativa de reparação dos danos sofridos, uma necessidade que está além do desejo de vingança. Também é uma exigência da inteligência humana saber quem é o culpado, onde está o mal. A razão é apaixonada pela clareza, ela pretende que a luz recaia sobre os mais tenebrosos acontecimentos. Escandaliza–se com o fato de os culpados não serem punidos, indigna-se com o fato de que a verdade possa ser dissimulada. 92

Segundo Santos 93 existe para todos uma obrigação genérica de não prejudicar e, por conseguinte, existe um direito de ser ressarcido, que assiste a toda pessoa que invoque e prove que foi afetada em seus sentimentos. “Esse princípio sofre mitigação quando se trata de ressarcimento de dano moral. Simples desconforto não justifica indenização.”

Atualmente, em razão das inúmeras atividades realizadas na sociedade, o homem esta sujeito a diversos acontecimentos que poderiam enfadá-lo, todavia, essas situações, em regra, não geram qualquer verossimilhança de uma indenização, ou seja, meros dissabores são inerentes à vida em sociedade e não ensejam reparação por danos morais. 94

Destarte, o colendo Superior Tribunal de Justiça já ponderou que: “mero aborrecimento decorrente da má prestação de serviço não tem o condão de conduzir à caracterização do dano moral, notadamente porque não representa ofensa a direito da personalidade.” De forma correlata, o Ministro César Asfor Rocha do Superior Tribunal de Justiça, Relator do Recurso Especial 215666, originário de ação de indenização por dano

92

93

92

FARAGO, France. A Justiça. São Paulo: Manole, 2004, passim.

SANTOS, Antonio Jeová, op. cit., p. 119.

MARINS, Felipe Fernandes. Dano moral ou mero aborrecimento? Jus Navigandi. Disponível:

<http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=3540>. Acesso em: 20 mar. 2007.

moral, lecionou de maneira clara que: “[

]

mero dissabor, aborrecimento, mágoa, irritação

ou sensibilidade exacerbada estão fora da órbita do dano moral”. 95

Portanto, somente haverá indenização por dano moral naqueles casos em que a vítima tiver experimentado um sofrimento atroz, de envergadura. Logo, a apreciação do dano é feita diante do que de concreto aconteceu, considerando a índole do fato lesivo e sua repercussão na personalidade anímica do ofendido. 96

As lágrimas, muitas vezes, acompanham o dano moral, porém ele também pode existir onde estiver ausente sofrimento psíquico algum. O dano moral é afetação espiritual do sujeito. O que não quer dizer que todo estado espiritual desvalioso seja um dano moral. 97

A idéia de fato é a condição material que a ordem legal considera como determinante de efeitos jurídicos. Logo, para se conceber a ocorrência de um dano deverá este ter origem num determinado fato, considerado em toda sua abrangência. 98

Assim sendo, nem todo mal-estar configura dano moral, nesse sentido aduz Antonio Jeová Santos: 99

] [

exsurgimento do dano moral. Qualquer modificação no espírito, ainda que fugaz, aquele momento passageiro de ira, pode causar indenização. Sem contar que existem pessoas de suscetibilidade extremada. Sob qualquer pretexto, ficam vermelhas, raivosas, enfurecidas. Não se pode dizer que não houve lesão a algum sentimento. Porém, seria reduzir o

pode parecer que qualquer abespinhamento propícia o

dano moral a mera sugestibilidade, ou proteger alguém que não suporta nenhum aborrecimento trivial, o entendimento que o dano moral atinge qualquer gesto que cause mal-estar. (grifo nosso)

]Conquanto [

não se pode considerar que qualquer mal-estar seja apto para afetar o âmago, causando dor espiritual. Quando alguém diz ter sofrido prejuízo espiritual, mas este é conseqüência de uma sensibilidade exagerada ou de uma suscetibilidade extrema, não existe reparação. Para que exista dano

existam pessoas cuja suscetibilidade aflore na epiderme,

moral é necessário que a ofensa tenha alguma grandeza e esteja revestida de certa importância e gravidade. (grifo nosso)

95 PORTO, Emílio Geraldo. Ação de dano moral: o abuso de sua utilização. Disponível:

<http://www.ampb.org.br/ponto_de_vista.jsp?id=6>. Acesso em: 27 maio 2007, paráfrase.

96 SANTOS, Antonio Jeová da Silva, op. cit. passim

97 Ibidem. p. 118.

98 CARVALHO, Acelino Rodrigues, op. cit., p.70.

99 SANTOS, Antonio Jeová da Silva, op. cit., p. 119 e 120.

O mero incômodo, o desconforto, o enfado decorrentes de alguma circunstância o ser humano tem que suportar em razão mesmo do viver em sociedade, eis que, essas situações não configuram dano moral indenizavél. 100

A vida em sociedade traz consigo, em muitos momentos, dissabores e incômodos corriqueiros, e não será qualquer acontecimento desagradável que poderá ensejar a pretensão à reparação civil. É indubitável que as pessoas merecem ampla tutela, contudo, somente se concebe a indenização estando presente efetiva lesão a um bem juridicamente tutelado.

3.2 CONFIGURAÇÃO DO DANO MORAL E A GRAVIDADE DO FATO LESIVO

Como visto anteriormente (seção 2.1), para que nasça a pretensão à indenização de danos morais, mister a presença de uma lesão a um bem jurídico, pertencente a uma pessoa; efetividade ou certeza do dano; nexo de causalidade entre a ação e o dano; subsistência do dano no momento da reclamação; legitimidade para a percepção do direito a indenização; ausência de causas excludentes de responsabilidade e, ainda, demonstração de dolo ou culpa do ofensor.

Contudo, a presença destes pressupostos, por si só, não enseja a reparação moral. Deve-se, ainda, analisar a gravidade do fato lesivo. Desse modo, para evitar excessos somente se deve considerar como dano moral a dor ou sofrimento dotado de certa gravidade. “Se não teve gravidade o dano, não se há pensar em indenização. De minimis non curat praetor.101

Acertadamente, o Código Civil português prevê em seu art. 496: “Na fixação da indenização deve ater-se aos danos não patrimoniais que, pela sua gravidade, mereçam tutela do direito” 102 .

Nesse sentido, o Tribunal Regional Federal da 1 Região ponderou:

Para o deferimento de indenização por danos morais é necessário examinar a conduta do agente causador do fato, verificar sua

100 SANTOS, Antonio Jeová da Silva, op. cit., p. 124

101 PONTES DE MIRANDA, Francisco, op. cit., p. 35.

102 GONÇALVES, Carlos Roberto, op. cit., p.359.

reprovabilidade e a potencialidade danosa da conduta em relação ao patrimônio imaterial da vítima, sopesando a situação em face do

sentimento médio da população, objetivando reprimir a prática de condutas que atinjam a honra, a imagem e outros direitos inerentes à

personalidade.

O dano moral não se confunde com o mero

aborrecimento, que é inerente à vida cotidiana, mas que não enseja reparação financeira ante sua ocorrência [

[

]

103

Destarte, o reconhecimento do dano moral exige determinada cautela e bom senso, visto ser uma lesão que ocorre no plano da subjetividade. Assim, deve-se examinar a gravidade da ofensa e sua repercussão na esfera anímica do ofendido, sopesando a situação face ao sentimento médio da coletividade. As sensações desagradáveis, por si sós, que não trazem em seu bojo lesividade a algum direito, não merecerão ser indenizadas. Existe um piso de inconvenientes que o ser humano deve tolerar sem que exista o autêntico dano moral.

Vale destacar que em uma mesma situação pode-se caracterizar mero dissabor ou dano moral dependendo de como é conduzida. Segundo Santos 104 na hipótese da compra de uma mercadoria o funcionário (caixa) esquece de retirar o artefato de segurança e, o comprador ao sair da loja, o sensor dá sinais de bip emitindo sons, obrigando os funcionários:

a) de forma cavalheiresca e sutil, pedir ao comprador para verificar a sacola

contendo o bem comprado, ao verificar sem estardalhaço que tudo não passou de esquecimento do funcionário. É obvio que essa circunstância é um mero dissabor;

b) por outro lado, se os funcionários da loja agirem com o comprador de

forma ríspida e o obrigarem a tirar as roupas, fizerem requintada busca pessoal sob impropérios, claro que aquilo que poderia ser um mero dissabor indiferente ao direito de danos, transformou-se em impacto nos sentimentos do honesto comprador. Nesse caso, emerge o dano moral em toda a sua plenitude.

Há profissionais (juiz de futebol e caixa de supermercado, por exemplo) que estão sujeitos a deparar-se com pessoas insatisfeitas e é natural, embora reprovável, que essas pessoas procurem desabafar o seu descontentamento com o funcionário mais

103 CATALAN, Marcos. Dos pressupostos do dever de indenização e o enunciado 159 do Conselho da justiça Federal. Temas Jurídicos em Debate. Disponível:

<http://www.professorsimao.com.br/artigos_convidados_catalan_01.htm>. Acesso em: 08 maio 2007. 104 SANTOS, Antonio Jeová da Silva, op. cit., p.120-121, passim.

próximo. Isso é um mero aborrecimento. Todavia, se esse profissional não está no exercício de sua profissão e escuta chama-lo de ladrão ou de outras expressões ofensivas, evidente que o dano moral adveio e grande é a possibilidade do ofensor ser condenado ao pagamento de indenização. 105

3.3 NECESSIDADE DE PROVAR A OCORRÊNCIA DO DANO

A ocorrência de um efetivo dano ao ofendido é indispensável à constituição

da responsabilidade de indenizar. Em regra, a prova do dano compete ao ofendido que deve apresentar documentos, produzir perícia ou trazer testemunhas que comprovem, em

juízo, a lesão sofrida (Art. 333 do Código de Processo Civil). 106

Contudo, dada a dificuldade de prova em relação aos danos morais, por ser inacessível a personalidade anímica do ofendido, “a tendência jurisprudencial é de ampliar os casos de desnecessidade da prova do dano moral, diante do princípio de proteção da dignidade da pessoa humana (art. 1º, III, da CF/88), um dos baluartes do Direito Civil Constitucional.” 107

Assim, Gonçalves afirma: 108

O dano moral, salvo casos especiais, como o de inadimplemento

contratual, por exemplo, em que se faz mister a prova da perturbação da esfera anímica do lesado, dispensa prova em concreto, pois se passa no interior da personalidade e existe in re ipsa. Trata-se de presunção

absoluta. Desse modo, não precisa a mãe comprovar que sentiu a morte

do filho; ou o agravado em sua honra demonstrar em juízo que sentiu a

lesão; ou o autor provar que ficou vexado com a não-inserção de seu nome no uso público da obra, e assim por diante.

Nesse mesmo sentido, preleciona Sérgio Severo 109 “nas situações em que uma pessoa normal padeceria de um sofrimento considerável, forma-se uma presunção juris tantum de que sofreu um dano extrapatrimonial.”

A propósito, os Tribunais já decidiram:

105 SANTOS, Antonio Jeová da Silva, op. cit., p.121, passim.

106 COELHO, Fábio Ulhoa, op. cit., p. 384.

107 TARTUCE SILVA, Flávio Murilo. Questões controvertidas quanto à reparação por danos morais:

aspectos doutrinários e visão jurisprudencial. Revista Juristas. Disponível:

<http://www.juristas.com.br/mod_revistas.asp?ic=214>. Acesso em: 03 jun. 2007.

108 GONÇALVES, Carlos Roberto, op. cit., p. 369.

109 GAGLIANO, Pablo Stolze; PAMPLONA FILHO, Rodolfo, op. cit., p. 79.

RESPONSABILIDADE CIVIL. DANO MORAL. COMPROVAÇÃO PELO OFENDIDO. DESNECESSIDADE. EXISTÊNCIA DE ATO ILÍCITO APTO A OCASIONAR SOFRIMENTO ÍNTIMO. SUFICIÊNCIA. PROVA NEGATIVA A CARGO DO OFENSOR. VERBA DEVIDA. RECURSO

PROVIDO. 110 (grifo nosso)

RECURSO ESPECIAL. CIVIL. AÇÃO DE INDENIZAÇÃO. INSCRIÇÃO NO SPC. AUSÊNCIA DE APONTAMENTO DOS DISPOSITIVOS DO CDC VIOLADOS. MANUTENÇÃO DO NOME DO DEVEDOR POSTERIORMENTE À QUITAÇÃO DA DÍVIDA. RETIRADA. ÔNUS DO CREDOR. DANO MORAL CARACTERIZADO. DESNECESSIDADE DE DEMONSTRAÇÃO. DANO PRESUMIDO. RECURSO CONHECIDO EM PARTE E, NA EXTENSÃO, PROVIDO.

A inércia do credor em promover, com brevidade, o cancelamento do

] [

registro indevido gera o dever de indenizar, independentemente da prova do

abalo sofrido pelo autor, sob forma de dano presumido [

] 111 (grifo nosso)

Todavia, no entender de Fábio Ulhoa a presunção da prova não é a melhor maneira de tratar a matéria. “A presunção do dano estimula a autovitimização e a simulação da dor, e não tem base no direito positivo. Caso a vítima não prove a verificação do dano e sua extensão, não terá direito à indenização.” 112

Mirna Cianci 113 aduz que “em sede de responsabilidade civil por dano moral, o tema da prova tem importância fundamental, especialmente na identificação do instituto, evitando a banalização que decorre da pretensão à reparação em razão de fatos corriqueiros, meros percalços.”

Assim, quanto à presunção da existência de dano moral, o Tribunal de Justiça de São Paulo compendiou: “Há danos morais que se presumem, de modo que ao autor basta a alegação, ficando a cargo da outra parte a produção de provas em contrário; há, porém, outros que devem ser provados, não bastando a mera alegação.” 114

Portanto, recomenda-se cautela ao se presumir a dor, sob pena de se considerar dano moral situações de sensibilidade extremada ou de autovitimização. Há situações em que a lesão é indubitável e nesses casos o dano pode ser reconhecido sem que haja apresentação de provas. Contudo, há outras em que o dano não é tão evidente e caberá

110 JTJ, Lex, 216/191 apud GONÇALVES, Carlos Roberto, op. cit., p. 369.

111 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Recurso Especial n. 588429-RS. Relator Ministro Hélio Quaglia Barbosa. Disponível: <http://www.stj.gov.br/SCON/jurisprudencia/doc.jsp?livre=desnecessidade+prova +dano+moral&&b=ACOR&p=true&t=&l=10&i=2>. Acesso em: 14 ago. 2007.

112 COELHO, Fábio Ulhoa, op. cit., p.385.

113 CIANCI, Mirna, op. cit., p. 61.

114 SÃO PAULO. Tribunal de Justiça. Relator Itamar Gaino. JTJ-LEX 167/44 apud STOCO, op. cit., p.568.

ao proficiente magistrado exigir a apresentação de provas para a comprovação do dano moral sofrido.

3.4 AUMENTO SIGNIFICATIVO DO NÚMERO DE AÇÕES PLEITEANDO POR DANOS MORAIS

Hodiernamente, o Poder Judiciário vem se deparando com ações indenizatórias a título de ressarcimento por danos morais infundadas e sem qualquer essência jurídica, enfrentando, o que se costumou dizer, uma verdadeira indústria do dano moral, na qual o menor desconforto ou dissabor é invocado como aparato fático para fundamentar uma pretensão indenizatória.

Logo, nota-se certa preocupação nos círculos jurídicos diante da grande quantidade de descabidas indenizações morais pleiteadas perante o Judiciário. Tendo em vista que muitas dessas pretensões não passam de aborrecimentos corriqueiros, mágoa, irritação ou sensibilidade exacerbada, portanto o sentido do instituto do dano moral está de certa forma sendo desvirtuado, eis que, da forma como vem sendo utilizado, às vezes chega a tornar-se abusivo.

Tendo a Constituição de 1988 superado a célebre discussão sobre a indenizabilidade do dano puramente moral, viu-se nos pretórios uma enxurrada de demandas em que litigantes buscam a reparação de agravos que entendem constituir-se dano moral. Sem embargo, a par de ações em que se verifica em toda plenitude a existência do dano moral, outras existem, sob o fundamento de que houve agravo moral que, nem de longe, chegaram a existir. 115

De fato, a busca cada vez maior pela reparação de danos morais, aumentou expressivamente o número de pedidos de indenizações no Superior Tribunal de Justiça – de 1.748 ações em 2001 contra 8.201 em 2004. Quando são comparados os números recentes com dados da década passada, o crescimento é ainda maior. Em 1993, o STJ recebeu apenas 28 pedidos de indenização ao passo que no ano de 2005 foram 5.844 até o início do mês de julho 116 .

115 SANTOS, Antonio Jeová da Silva, op. cit., p. 73-74. 116 ERDELYI, Maria Fernanda. Explode o volume de ações por danos morais no país. Revista Consultor Jurídico. Disponível: <http://conjr.estado.com.br/static/text/36481,1> Acesso em: 18 maio 2007.

Assim, demonstrada a importância de dados referentes ao assunto em questão, segue-se o número de ações de indenização por danos morais impetradas no STJ entre 1993 e 2005:

Ano ---------- Número de processos

1993 ---------- 28

1994 ---------- 47

1995 ---------- 181

1996 ---------- 228

1997 ---------- 440

1998 ---------- 540

1999 ---------- 962

2000 ---------- 1.331

2001 ---------- 1.748

2002 ---------- 3.990

2003 ---------- 4.632

2004 ---------- 8.201

2005 ---------- 5.844 (até o início de julho). 117

Marcelo Di Rezende Bernardes 118 afirma que é de conhecimento de todos os que militam na justiça brasileira, em quaisquer carreiras jurídicas, e de grande parte da população, da avalanche de interposições de contendas de indenização por danos morais.

Verifica-se que o grande aumento no número de ações por danos morais decorre de fatos benéficos, porém, por vezes mal interpretados pela população, quais sejam a crescente conscientização da sociedade sobre seus direitos e a facilitação do acesso ao Judiciário. Contudo, não se pode, como vem ocorrendo, confundir danos morais com meros dissabores ou aborrecimentos cotidianos, evitando-se, consequ entemente, que ações descabidas atravanquem a Justiça brasileira.

3.5 A MATÉRIA NA VISÃO DOS TRIBUNAIS

É profícuo observar os muitos contornos do cidadão sentir-se ofendido e desta forma equivocar acreditando que seja ‘dano moral’, casos que não passam de mero dissabor, desconforto ou aborrecimento trivial, provocando de certa forma uma ‘banalidade do dano moral’. Assim, ressalta-se que nem toda insatisfação decorrente do convívio social gera dano moral indenizável.

117 ERDELYI, Maria Fernanda, op. cit. 118 BERNARDE, Marcelo Di Rezende. Enriquecimento fácil. Mero aborrecimento vira indenização na indústria do dano. Revista Consultor Jurídico. Disponível:<http://conjr.estado.com.br/static/text/37145,1>. Acesso em: 18 maio 2007.

Algumas pessoas empolgadas com todas as informações sobre ‘indenização por danos morais’, movidas talvez por uma intenção mesquinha, sensibilidade extremada ou demasiado apego aos bens materiais, resolveram provocar e inflacionar o Poder Judiciário com ações indenizatórias absurdas.

Segundo Tartuce Silva 119 os olhos da justiça estão atentos à pretensão de pessoas equivocadas como verifica-se a seguir pela Jurisprudência brasileira:

DANO MORAL. Responsabilidade civil. Compra e venda. Entrega de faqueiro acondicionado em caixa de papelão em vez de estojo de madeira, em desacordo com o que adquirido. Posterior a entrega desse produto como presente de casamento. Inocorrência de dano moral. Caracterização como aborrecimento do dia-a-dia que não dá ensejo a referida indenização, pois se insere nos transtornos que normalmente ocorrem na vida de qualquer pessoa, insuficientes para acarretar ofensa a bens personalíssimos. Indenizatória improcedente. Recurso improviso. 120 (grifo nosso)

CONSTITUCIONAL. RECURSO EXTRAORDINÁRIO. CABIMENTO

INDENIZAÇÃO: DANO MORAL. I – O dano moral indenizável é o que atinge a esfera legítima de afeição da vítima, que agride seus valores, que humilha que causa dor. A perda de uma frasqueira contendo objetos pessoais, geralmente objetos de maquiagem de mulher, não obstante

] III – agravo não

desagradável, não produz dano moral indenizável [ provido. 121 (grifo nosso)

INDENIZAÇÃO. DANOS MORAIS. O desfazimento de noivado não gera direito à percepção de indenização por danos morais. Tirante o dissabor natural do “fora”, não há prova de verdadeiro dano moral. 122

CIVIL. PROCESSUAL CIVIL. PEÇA RECURSAL VEICULADA MEDIANTE CÓPIA REPROGRÁFICA. INDENIZAÇÃO. DANOS MORAIS. OPERAÇÃO POLICIAL. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DO FATO CONSTITUTIVO DO DIREITO.

INDENIZAÇÃO INDEVIDA. MERO ABORRECIMENTO. [

há o dever de indenizar quando o autor não comprovou que a abordagem policial, realizada sem exorbitação ou abuso de autoridade, em virtude de denúncia anônima, violou direito subjetivo seu, principalmente quando acompanhou de livre e espontânea vontade a autoridade policial.

Não

]

119 TARTUCE SILVA, Flávio Murilo. Questões controvertidas quanto à reparação por danos morais:

aspectos doutrinários e visão jurisprudencial. Revista Juristas. Disponível:

<http://www.juristas.com.br/mod_revistas.asp?ic=214>. Acesso em: 03 jun. 2007.

120 SÃO PAULO. Primeiro Tribunal de Alçada Civil. Apelação 1114302-1. 5ª Câmara. Relator Desembargador Álvaro Torres Júnior. 02 de outubro de 2002. Disponível:

<http://www.juristas.com.br/mod_revistas.asp?ic=214>. Acesso em: 03 jun. 07.

121 BRASIL. Supremo Tribunal Federal, Recurso Especial 387014. Relator Ministro Carlos Velloso. 08 de junho de 2004. Segunda Turma. Publicação: DJ, 25 de junho de 2004, p.57.

122 SÃO PAULO. Tribunal de Justiça. Relator Ministro Antonio Vilenilson. Apelação Cível 135.120-4/2. 20 de maio de 2003 apud CIANCI, Mirna, op. cit., p. 640.

Portanto, mero aborrecimento não tem o condão de gerar o direito à indenização por dano moral. 123 (grifo nosso)

DANOS MORAIS. Programa radiofônico. Inexistência de abuso do direito de informar e criticar. Não constitui dano moral a crítica, ainda que dura e pesada, a que pessoas públicas estão sujeitas. Ação improcedente. Recurso provido". 124 (grifo nosso)

INDENIZAÇÃO. DANO MORAL. FUNDAMENTO. ANSIEDADE DECORRENTE DO TRÂMITE DO PROCESSO JUDICIAL. NÃO CABIMENTO. VERBA NÃO DEVIDA. SENTENÇA CONFIRMADA. Não é de se acolher pedido de composição de dano moral, visto que qualquer processo acarreta estado de ansiedade nos litigantes, tornando- os intranqüilos, sem que se possa falar em condenação judicial pela causa deste estado de ânimo. 125 ( grifo nosso)

Verifica-se, portanto, que a hipótese de mero aborrecimento faz parte do quotidiano de qualquer cidadão, não ensejando direito à indenização por dano moral. Observa-se ainda os seguintes exemplos:

a) Travamento de porta detectora de metais em agência bancária, o Superior Tribunal de Justiça decidiu improcedente o pedido de indenização moral. 126

b) Atraso da oficina na entrega de automóvel que lhe foi confiado para conserto. Segundo decisão do STJ trata-se de mero aborrecimento, incapaz de gerar dano moral indenizável. 127

c) Receber por engano troco inferior ao valor devido é situação a que qualquer pessoa está sujeita, não constitui dano moral e sim mero dissabor. O Tribunal de

123 AMAPÁ. Tribunal de Justiça. Apelação Cível n. 1.488/2003. Relator Desembargador Agostino Silvério Júnior. Câmara única. 14 de março de 2006. Disponível:

<http://www.tjap.gov.br/apjurisnet_new/intteor.php?id=9257>. Acesso em: 03 jun. 07.

124 SÃO PAULO. Tribunal de Justiça. Apelação Cível n. 92.106-4. 4ª Câmara. Relator Desembargador Narciso Orlandi. 03 de fevereiro de 2000. Disponível:

<www.flaviotartuce.adv.br/secoes/jurisprudencias/JULGADOS-DANOMORAL.doc>

125 SÃO PAULO. Tribunal de Justiça. Relator Desembargador Telles Corrêa. 24 de outubro de 1994. JTJ- LEX 168/177 apud STOCO, Rui, op. cit., p. 568.

126 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Recurso Especial. 2004/0134113-5. Relator Ministro Jorge Scartezzini. Disponível: <http://www. stj.gov.br/SCON/jurisprudencia/toc.jsp?tipo_visualizacao=RESUMO&livre=dano+moral+aborrecimento&b =JUR2&p=true&t=&1>. Acesso em: 04 maio 07.

127 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Acórdão Unânime. Quarta Turma. Recurso Especial 337.771-RJ. Relator Ministro César Asfor Rocha. Disponível: < http://www.stj.gov.br/SCON/>. Acesso em: 20 jul. 2007.

Justiça do Rio Grande do Sul negou provimento ao recurso de uma consumidora contra um estabelecimento comercial. 128

d) Recusa em transportar animal de estimação em ônibus não gera dano

moral, mas mero dissabor. O entendimento é da 9ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, que acolheu recurso de uma empresa de ônibus e a livrou de pagar indenização para uma pessoa impedida de embarcar com seu cachorro em um dos coletivos. 129

e) Sedução de mulher maior, funcionária pública, de boa formação escolar,

com promessa de casamento, o Tribunal de Justiça de São Paulo negou a existência de dano moral. 130

Como visto, não configura dano moral indenizável situações que, embora desagradáveis, não são dotadas de potencialidade lesiva. Existem transtornos afeitos à vida em sociedade que o homem deve suportar. Assim, não há que se falar em dano moral sem que haja efetiva agressão a um bem de caráter moral tutelado juridicamente.

A propósito o Superior Tribunal de Justiça compendiou: “O mero receio ou dissabor não pode ser alcançado ao patamar do dano moral, mas somente aquela agressão que exacerba a naturalidade dos fatos da vida, causando fundadas aflições ou angústias no espírito de quem ela se dirige.” 131

Deste modo, somente haverá indenização por dano moral naqueles casos em que a vítima tiver experimentado um sofrimento atroz, de envergadura. Não se concebe indenização por mero dissabor ou receio. A função dos danos morais é compensar a dor extremada, a dor pungente da vítima. 132

128 Ministério Público do Estado do Rio Grande do Sul. Erro na devolução de troco é mero aborrecimento. Disponível: <http://www.mp.rs.gov.br/consumidor/noticias/id10195.htm>. Acesso em: 04 maio 07.

129 MINAS GERAIS. Tribunal de Justiça. 9 Câmara Cível. Consultor Jurídico. Disponível: < http://conjur.estadao.com.br/static/text/52513,1>. Acesso em: 04 maio 07.

130 SÃO PAULO. Tribunal de Justiça. Apelação Civil n. 64.998-1. Relator Desembargador Nery Almada. apud. MARINS, Felipe Fernandes. Disponível em: <http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=3540>. Acesso em: 20 mar. 2007.

131 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Agravo Regimental nos Embargos de Declaração no Recurso Especial 2001/0194252-2. Relator Ministro Humberto Gomes de Barros. Disponível: <http://www. stj.gov.br/SCON/jurisprudencia/toc.jsp?tipo_visualizacao=RESUMO&livre=dano+moral+aborrecimento>. Acesso em: 04 maio 07.

132 COELHO, Fábio Ulhoa, op.cit., p. 416-417.

A indenização por danos morais é uma compensação pecuniária por

sofrimentos de grande intensidade, pela tormentosa dor experimentada pela vítima em alguns eventos danosos. Imagine o que sente a mulher estuprada, o pai que assiste ao bárbaro espancamento do filho, o paciente vítima de erro médico numa cirurgia plástica, o trabalhador honrado contra quem foi indevido protesto de título. Não são sofrimentos irrelevantes, desprezíveis, facilmente absorvíveis, mesmo pelas pessoas mais amadurecidas e experimentadas. Agride os valores de justiça cultivados pela civilização do nosso tempo deixar de atender a esses doídos desdobramentos dos eventos danosos. 133

Como visto, para que exista dano moral indenizável é necessário que a ofensa tenha alguma grandeza e esteja revestida de certa gravidade. Deve-se considerar a magnitude do ato lesivo, sofrimentos irrelevantes e facilmente absorvíveis pela figura do homem médio não ensejam reparação por dano moral.

O Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, bem enfrentou a questão ao

enunciar: 134

RESPONSABILIDADE CIVIL. Dano Moral. Configuração. Princípio

da Lógica do Razoável. Na tormentosa questão de saber o que configura

o dano moral, cumpre ao juiz seguir a trilha da lógica do razoável, em busca da sensibilidade ético-social normal. Deve tomar por paradigma o cidadão que se coloca a igual distância do homem frio, insensível e o homem de extremada sensibilidade. Nessa linha de princípio, só deve ser reputado como dano moral a dor, vexame, sofrimento ou humilhação que, fugindo à normalidade, interfira intensamente no comportamento psicológico do indivíduo, causando-lhe aflição, angustia e desequilíbrio em seu bem estar, não bastando mero dissabor, aborrecimento, mágoa, irritação ou sensibilidade exarcebada [ ]

No mesmo sentido, o Tribunal de Justiça de São Paulo compendiou “indenizável é o dano moral sério, aquele capaz de, em uma pessoa normal, o assim denominado ‘homem médio’, provocar grave perturbação nas relações psíquicas, na tranqüilidade, nos sentimentos e nos afetos.” 135

Quando alguém diz ter sofrido prejuízo moral, mas este decorre de uma sensibilidade exagerada ou de uma suscetibilidade extrema, não existe dano moral

133 COELHO, Fábio Ulhoa, op.cit., p. 416-417.

134 RIO DE JANEIRO. Tribunal de Justiça. Apelação Cível n. 1996.001.04946. Relator Desembargador Sergio Cavalieri Filho. Segunda Câmara. 10 de setembro 1996. Disponível: <http://www.tj.rj.gov.br>. Acesso em: 20 jul. 2007.

135 SÃO PAULO. Tribunal de Justiça. Ac 133.286-4/4-00. Relator Desembargador Elliot Akel. 28 de janeiro de 2003 apud CIANCI, Mirna, op. cit., p. 624.

indenizável. Assim, nas decisões quanto ao cabimento da indenização por dano moral, há de ser buscada a figura do homem médio e a razoabilidade. 136

Para configurar-se o dano moral deve estar presente uma dor, vexame, sofrimento ou humilhação que fuja à normalidade e interfira intensamente no comportamento psicológico do ofendido, a alteração desvaliosa em seu bem-estar deve apresentar certa magnitude. Mero dissabor, aborrecimento, mágoa, irritação ou sensibilidade exacerbada não ensejam reparação moral.

Nesse contexto, o Superior Tribunal de Justiça alertou que “a indenização por dano moral não deve ser banalizada. Ela não se destina a confortar meros percalços da vida comum se o fato trazido a julgamento não guarda excepcionalidade.” 137

O Ministro Sálvio de Figueiredo Teixeira assinalou ainda que “não é em qualquer hipótese, que se inclui nos percalços do dia-a-dia da pessoa, que se pode intentar pedido de indenização por dano moral.” 138

Deste modo, o dano moral somente irá ingressar no mundo jurídico, com a subseqüente reparação, em havendo alguma grandeza ou gravidade na repercussão do ato considerado lesivo. Se o ato tido como gerador do dano moral não possui virtualidade para lesionar a esfera anímica do ofendido, causando-lhe considerável aflição, angustia ou desequilíbrio em seu bem estar, não existe o dano moral passível de ressarcimento. 139

Portanto, a doutrina e jurisprudência sinalizam que o dano moral suportado por alguém não se confunde com os meros dissabores e aborrecimentos que o ser humano sofre no dia-a-dia, sob pena de colocar em descrédito o próprio instituto do dano moral. Logo, cabe ao juiz, analisando o caso concreto, buscar a figura do homem médio e a razoabilidade para apontar se a indenização moral é cabível ou não.

136 SANTOS, Antonio Jeová da Silva, op. cit., p. 120-121.

137 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Recurso Especial 217.916-RJ. Quarta Turma. Relator Ministro Aldir Passarinho Junior.

138 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Recurso Especial 293.118-SP. Quarta Turma. Relator Ministro Sálvio de Figueiredo Teixeira.

139 SANTOS, Antonio Jeová da Silva, op. cit., p. 122.

Meros percalços ou sensações desagradáveis, por si sós, não trazem em seu bojo o direito à percepção de indenização por prejuízo moral, notadamente porque o mero percalço, dissabor, aborrecimento, mágoa ou irritação são sentimentos inerentes à vida em sociedade, fazem parte de um piso de inconvenientes que o ser humano tem que tolerar em seu dia-a-dia. Portanto, para exsurgir o direito a indenização é exigível que a lesão psíquica exorbite o limite do suportável, pois, não é qualquer sensação de desagrado ou de contrariedade que faz jus a indenização por dano moral.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Como visto, dano moral é aquela lesão que afeta a paz interior de uma pessoa, atingindo seu patrimônio ideal e causando-lhe sentimentos negativos, dores, desprestígio, desequilíbrio em sua situação psíquica. Ocorre, portanto, no plano da subjetividade, na esfera dos valores da pessoa enquanto ser social.

Pôde-se observar que embora a aceitação da ampla reparabilidade dos danos morais seja tese que só há pouco tempo se tornou razoavelmente pacífica na maioria das legislações contemporâneas, a história das nações demonstrou de forma clara, que sempre houve preceitos normativos que amparavam algumas dessas pretensões.

No Brasil, a ampla reparabilidade dos danos de natureza moral foi efetivamente reconhecida com o advento da Constituição Federal, em 5 de outubro de 1988, que prevê taxativamente, entre os direitos e garantias fundamentais, o direito a indenização por danos morais. Consequ entemente, o Código Civil brasileiro de 2002, adequando-se ao novo perfil constitucional, reconhece expressamente o instituto do dano moral em seu art. 186 e, por força do art. 927, a sua reparabilidade.

Princípio informador da teoria da responsabilidade civil é aquele que impõe a quem causa dano a outrem o dever de repará-lo, sem o qual a vida em sociedade seria quase inconcebível. Este anseio de obrigar o ofensor a reparar o dano causado se inspira na própria idéia de justiça.

Todavia, a configuração do dano moral indenizável pressupõe, necessariamente, a ocorrência de alguns requisitos, quais sejam: lesão a um bem jurídico moral, pertencente a uma pessoa; efetividade ou certeza do dano; relação de causalidade entre a conduta lesiva e o dano; subsistência do dano no momento da reclamação; legitimidade para pleitear a indenização; ausência de causas excludentes de responsabilidade, como o caso fortuito e a força maior.

Deve-se, ainda, analisar a gravidade do fato lesivo. Desse modo, para evitar excessos, somente se deve considerar como dano moral a dor ou sofrimento dotado de certa gravidade. Se não teve potencialidade a lesão moral, não é cabível indenização.

Com arrimo na Magna Carta e no Código Civil, os brasileiros definitivamente despertaram para a existência de um direito reconhecido e que significa o direito a indenização por danos morais. A par disso, tornou-se corrente nos meios jurídicos apregoar a existência do que chamam de ‘indústria do dano moral’.

Nota-se no Judiciário um grande número de ações ajuizadas com pedidos de indenizações por danos morais, quando na verdade trata-se de transtornos diários inerentes ao cotidiano de uma sociedade complexa.

Inúmeras são as ações que movem a ‘máquina’ do Poder Judiciário desnecessariamente, pois são casos de pessoas que pleiteiam uma indenização por danos morais descabida, em virtude de algum dissabor ou aborrecimento inerente ao cotidiano. Não se pode, como vem ocorrendo, confundir danos morais com meros percalços da vida em sociedade, evitando-se, consequentemente, que ações descabidas atravanquem a Justiça brasileira.

Destarte, somente haverá indenização por dano moral naqueles casos em que a vítima tiver experimentado um sofrimento atroz, de envergadura. Não se concebe indenização por mero dissabor, receio ou insatisfação decorrente das relações sociais.

As Cortes de Justiça já compendiaram que o mero dissabor, aborrecimento, mágoa, irritação ou sensibilidade exacerbada não ensejam reparação moral. Para configurar-se o dano moral deve estar presente uma dor, vexame, sofrimento ou humilhação que fuja à normalidade e interfira intensamente no comportamento psicológico do ofendido.

Do mesmo modo, a doutrina ressalta que o dano moral suportado por alguém não se confunde com os transtornos ou percalços que o ser humano sofre no dia-a- dia, sob pena de colocar em descrédito o próprio instituto do dano moral. Assim, cabe ao juiz, analisando o caso concreto, buscar a figura do homem médio e a razoabilidade para apontar se a indenização moral é cabível ou não.

Certamente, este é um tema que merece toda a atenção, visto que, é indispensável determinada cautela àqueles que movem a ‘máquina’ judiciária pleiteando indenizações por danos morais. É indubitável que, para se obter uma decisão favorável nessas ações, exige-se do profissional certa prudência, razoabilidade e, principalmente, bom senso ao operar a Justiça. Não se pretende substituir obras que expressam sobre o tema e nem que o presente trabalho seja o ponto final, mas que seja um ponto de reflexão dessa matéria tão complexa quanto instigante, que envolve o relacionamento social.

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