Introdução ao Qur'an

Breve Manual de Estudo do Qur’an para Obreiros Cristãos entre Muçulmanos
Por Joed Venturini de Souza

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Índice Introdução
1. Resumo da Vida e Obra de Muhamad 1.1 Arábia Pré-Islâmica 1.2 Infância e Juventude 1.3 Ministério em Meca 1.4 Ministério em Medina 1.5 Expansão do Islamismo 1.6 Influências de outras Religiões 2. O Qur’an 2.1 Formação do Texto atual 2.2 Divisões, organização e estilo 2.3 Suna, Hadith e Sharia (Tradição e Lei) 2.4 Algumas suras em seu próprio contexto 3. O Qur’an e a Bíblia 3.1 Textos Corânicos próximos da Bíblia 3.2 Textos Corânicos contrários à Bíblia 4. Argumentos muçulmanos para a superioridade do Qur’an 4.1 Estilo único 4.2 Analfabetismo de Muhamad 4.3 Preservação perfeita 4.4 Profecias cumpridas 4.5 Unidade textual 4.6 Vidas transformadas Conclusão: Como Classificar Muhamad? Anexo: Os Nomes de Deus no Qur'an Bibliografia

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Introdução
A obediência à ordem de Jesus de fazer discípulos de todas as etnias leva o Cristianismo até aos extremos da terra. O contacto com povos e religiões diferentes exige um esforço de contextualização por parte dos missionários. Há uma necessidade urgente de compreensão das culturas e da cosmovisão das diferentes etnias a que somos chamados a pregar a fim de lhes comunicarmos melhor o evangelho. Entre as religiões do mundo, o Islamismo tem se mostrado uma das mais resistentes à mensagem Cristã. Neste inicio de século e milênio há mesmo um risco crescente de divisão do mundo em campos opostos: mundo ocidental e mundo islâmico. Os missionários são recebidos cada vez com maior desconfiança em terras muçulmanas o que dificulta ainda mais a evangelização. Compreendê-los antes de julgá-los torna-se um imperativo. Se o missionário quiser entender o Islão e o muçulmano vai precisar entender o Alcorão ou Qur’an, pois é seu fundamento. A ignorância sobre Muhamad e o Qur’an é infelizmente um dos fatores que prejudica o obreiro cristão. Há muitos preconceitos, idéias equivocadas e até disparates completos no entendimento ocidental de Muhamad e do Qur’an. Uma avaliação da vida de Muhamad e de seu livro, à luz de seu contexto histórico-social, pode ajudar muito o obreiro cristão facilitando sua compreensão do mundo islâmico e abrindo portas para amizades e a partilha do evangelho. O próprio crescimento do fundamentalismo islâmico prova que há inquietação nas hostes muçulmanas. Muitos não sabem como reagir e acabam em extremismos violentos. Precisamos mostrar-lhes que a resposta é Jesus e que a salvação vem pela Graça. Nosso objetivo neste trabalho não é entrar a fundo em questões doutrinárias ou apologéticas. O propósito principal aqui é compreensão. Demasiadas vezes vemos obreiros cristãos procurando entrar em debate com muçulmanos e descobrir formulas fáceis de convencê-los sem nunca se dar ao trabalho de conhecer seu profeta e seu livro. Esse conhecimento, no entanto é fundamental para um debate útil. Esse conhecimento é inclusive prova de amor ao povo muçulmano. Quando queremos bem a alguém gostamos de saber tudo sobre essa pessoa. A ignorância quanto ao Islão irrita e afasta o muçulmano. Por outro lado, o conhecimento sério e bem fundamentado desperta amizade e respeito e abre portas para o diálogo. É nesse espírito que gostaríamos que este trabalho fosse lido. Não à busca de respostas ou argumentos de efeito para desfeitear, mas no interesse do entendimento. Entrar na mente e coração do Islamismo e compreender os seus porquês será muito mais útil do que colecionar dados para discussão.

Salvo nota em contrário todas as citações do Qur’an serão feitas a partir da tradução para o português de Mansour Challita. As passagens bíblicas serão da tradução de João Ferreira de Almeida versão contemporânea.

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1. Resumo da Vida e Obra de Muhamad 1.1 Arábia Pré- Islâmica Quando Muhamad nasceu, por volta de 570 a.D, a península arábica era uma região pobre, habitada por várias tribos árabes que lutavam constantemente entre si. Os muçulmanos se referem a esse período como “Jahiliyah” – a idade da ignorância, e por essa designação podemos ter uma idéia de como era a vida nessa época. O mundo de então estava dividido por uma longa guerra entre o Império Bizantino e o Império Persa. Os persas conquistaram a palestina, a Síria e o Egito em 614, mas os bizantinos recuperaram esses territórios por volta de 629. Estas guerras tinham forte influência sobre a península arábica. A região sul da Arábia (atual Yemen) era um pouco mais próspera que o resto devido a alguma terra fértil e era aí que mais se notava a influência da luta entre as potências mundiais. A região se tornara cristã após a conquista pelo reino Cristão da Abissínia em 521. Esse reino era aliado dos bizantinos e adotara o cristianismo monofisita. Em 575, porém os persas expulsaram os abissínios. A influência cristã continuou, mas agora a heresia dominante era a nestoriana. Havia também várias tribos judias que habitavam a Arábia desde a destruição de Jerusalém no ano 70. Entre essas constavam as três que se estabeleceram em Yatrib (Medina). Os árabes em geral desconfiavam tanto de cristãos quanto de judeus, mas havia uma crescente noção de que essas religiões monoteístas eram superiores à religião tradicional árabe e inclusive se verificavam conversões tanto a uma quanto a outra fé. Havia também aqueles que procuravam aquilo que chamavam de a religião verdadeira, a religião de Abraão. Eles eram chamados de Hanifs e um dos mais conhecidos era primo de Muhamad. Esse conceito de religião seria citado por Muhamad no Qur’an (Sura 3:67-70; Sura 6:79; Sura 2:135-139: Sura 4:125). Alguns princípios eram marcantes na vida árabe desse período. Um desses era um tipo de lei oral, uma espécie de código de honra que era chamado de “Muruwah”. Esse código implicava em hospitalidade e generosidade, mas também coragem, paciência e resistência às adversidades, o dever de vingança, a partilha de lucros e a proteção dos mais fracos. A principal lealdade do individuo era para com seu clã e tribo. Logo, matar era proibido apenas se o adversário em causa fosse da mesma tribo, de tribo aliada ou significasse uma vingança temida. Muitos desses conceitos foram incorporados no Alcorão por Muhamad. Outra prática muito valorizada era a da poesia. Havia os poetas comuns que recitavam suas estórias um pouco como os trovadores da idade média européia, e os “hakin”. Os Hakin eram uma

espécie de adivinhos que entravam em transe quando solicitados a resolver uma questão. Em ambos os casos, poetas e hakin, a crença popular era de que ficavam dominados por Jinn (espíritos) para fazer seu trabalho. Muhamad teve dificuldade com esse conceito, vindo a negar peremptoriamente no Qur’an ser ele poeta ou hakin (Sura 69:41 e 42). A ética da época pode ser considerada bárbara. O infanticídio era comum, principalmente o dos recém nascidos do sexo feminino. Muhamad condena fortemente esta prática (Sura 16:58-59 e Sura 81:8-9). Havia muitos escravos e eram tratados com extrema dureza. A mulher praticamente não tinha direitos e a poligamia era prática comum. Órfãos e viúvas viviam em situação muitas vezes dramática. O ataque a caravanas comerciais era habitual. Chamava-se “ghazu” e não era considerado um ato de pirataria ou roubo, mas uma verdadeira necessidade para manter o equilíbrio econômico das várias tribos. Muhamad recorreu a estes ghazu com freqüência, mas isso era tido como normal em sua época. Os árabes do período pré-islâmico era pagãos. O centro de adoração era Meca onde ficava a Caaba com seus 360 ídolos. Uma peregrinação anual à Caaba era feita pelas várias tribos com todos os rituais que Muhamad incorporou depois do Islão. Al-Llah era o Deus supremo dos árabes, mas no tempo de Muhamad parecia haver a noção de que ele era um deus distante. Conseqüentemente, havia uma ascendência das três deusas chamadas de banat Al-Llah (filhas de Deus), consideradas mais próximas dos homens. Eram elas Al-Lat (a Deusa) cujo santuário ficava em Taif perto de Meca, Al-Uzza (a Poderosa) reverenciada em Naklah, e Manat (a deusa do destino) adorada em Qudayd perto do mar. Ao longo do ano havia quatro meses sagrados durante os quais eram proibidos as guerras e os ghazu, um desses era o mês de ramadã. Nesse Tempo Meca era a principal cidade da península. Alcançara essa posição por razões religiosas (Caaba), mas também econômicas. A tribo dos coraixitas se estabelecera lá no fim do século V e percebendo a colocação estratégica da cidade transformara Meca em centro comercial. Na verdade, Meca estava na confluência de duas das maiores rotas comerciais da época e isso garantiu o sucesso dos coraixitas. O sedentarismo e a riqueza tinham, no entanto, tornado os coraixitas um grupo capitalista que desprezava a antiga ética tribal da partilha de bens. O dinheiro fora alçado a posição semi-sagrada e fortunas pessoais tinham aparecido como base de poder político. Muhamad se insurgiu contra este estado de coisas e fez disso um dos pontos de sua pregação. O descontentamento com o paganismo parecia crescer nos anos anteriores ao nascimento de Muhamad e há vários relatos de profecias sobre a chegada de um profeta para os árabes. Inclusive entre os judeus de Yatrib havia essa crença e Muhamad procurou usá-la a seu favor. Havia ansiedade por um profeta que trouxesse uma revelação que desse aos árabes um livro como os judeus e cristãos tinham. Muhamad foi esse profeta 8

1.2 Infância e Juventude (570-610) Assim como temos quatro evangelhos contando a vida de Jesus, há também quatro historiadores árabes que escreveram biografias oficiais de Muhamad. A diferença é que os biógrafos de Jesus foram contemporâneos do Mestre, sendo dois deles discípulos de Cristo e escreveram algumas décadas após a sua morte enquanto os biógrafos de Mohamed viveram séculos depois. Foram eles Muhamad ibn Ishaq (séc.VIII), Muhamad ibn Sa’d e Muhamad ibn Umar alWaqidi (ambos do século IX) e Abu Jafar at-Tabari (séc. X). Ibn Ishaq, o primeiro desses biógrafos, obteve suas informações de Zuhri que por sua vez as obtivera de um parente de Aisha, a esposa preferida de Muhamad. É a partir dos relatos desses biógrafos que temos as informações sobre a vida de Muhamad. O Profeta nasceu por volta de 570 d.C. no dia 12 do mês de Rabi’u al-awwal no clã dos Hashim que era nessa época um dos menos importantes da tribo dos coraixitas. Seu pai Abdallah morreu antes dele nascer e sua mãe Amina quando ele tinha apenas seis anos. Foi criado inicialmente por uma ama de leite beduína chamada Halima bint Dhuayb. Após a morte da mãe foi tomado por seu avô Abd al-Muttalib que morreu quando ele tinha oito anos passando enfim para os cuidados de seu tio Abu Talib o chefe dos Hashim. A situação financeira da família era difícil. Muhamad foi uma criança como as outras e trabalhou como pastor de cabras. Há uma estória sobre uma viagem que ele fez com seu tio quando tinha 12 anos. Nessa viagem um monge de nome Bahira o teria reconhecido como o profeta dos árabes. Muhamad cresceu com caráter forte inspirando confiança de tal modo que ficou conhecido em Meca como al-Amin (o confiável). Um relato de sua juventude explica bem sua boa fama na cidade. Conta-se que na reforma da Caaba chegou-se a um impasse na hora de devolver a pedra negra. Todos os clãs queriam ter essa honra e não se chegava a um consenso. Decidiram pedir um julgamento à primeira pessoa que aparecesse e essa pessoa foi Muhamad. Diante do dilema ele teria tirado sua capa e mandado colocar a pedra sobre ela. Depois sugeriu que um membro de cada clã pegasse uma ponta da capa e assim a pedra foi tornada e todos ficaram satisfeitos. Por volta de 595, Kadija bin Khuwayld, uma viúva, parente afastada de Muhamad, pediu-lhe que chefiasse uma caravana sua à Síria. O resultado foi tão positivo que ela lhe propôs casamento. Kadija era de um clã mais rico que o de Muhamad e o casamento lhe deu uma situação estável. Para aqueles que criticam tal casamento fica a informação de que foram felizes e durante a vida de Kadija, Muhamad não tomou outras esposas. Depois da morte de Kadija, Muhamad sempre se referiu a ela nos termos mais elogiosos. Ela lhe deu seis filhos: Dois rapazes, al-Qasim e Abdallah (que morreram ainda bebês) e quatro meninas, Zaynab, Ruqayyah, Umm Kulthum e Fátima.

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Muhamad teve ainda dois filhos adotivos: Zayd oferecido a ele por Kadija no dia do casamento e Ali, seu sobrinho que ele adotou mais tarde. Com o casamento e a estabilidade econômica Muhamad pode se dedicar mais à religião e ficou conhecido por seus períodos de oração e ascetismo nas montanhas próximas a Meca. Foi num desses retiros que ele recebeu sua primeira revelação.

1.3 Ministério em Meca (610-622) Foi na décima sétima noite do mês de ramadã de 610 que Muhamad teve sua primeira revelação. Ele foi abraçado por um anjo que lhe ordenou que recitasse. O texto então recitado encontra-se na sura 96. Como Muhamad era analfabeto não podia escrever as revelações, mas apenas recitá-las. Por isso o livro sagrado muçulmano se chama Al-Qur’an, ou seja, a recitação. Inicialmente Muhamad ficou apavorado julgando-se possuído por um Jinn. Ao longo de sua vida as revelações sempre tiveram um aspecto de êxtase e com freqüência ele perdia os sentidos. Nestes primeiros episódios foi fundamental o apoio de Kadija com quem Muhamad se refugiava. Após a primeira revelação ela compartilhou o sucedido com um primo cristão de nome Waraqa ibn Nawfal e este a convenceu de que as revelações eram de Deus e Muhamad era o profeta dos árabes. Após as primeiras revelações houve um período de silêncio conhecido como fatra e que durou entre seis meses e 3 anos. Esse silêncio deixou Muhamad confuso e ansioso indo a ponto de entreter idéias suicidas. No entanto as revelações recomeçaram e ele iniciou a recitação das mensagens recebidas. As primeiras revelações dão ênfase na crença num Deus único e soberano e na necessidade de estar preparado para o juízo final. Entre os primeiros convertidos estavam Kadija, Zayd, Ali e as quatro filhas do profeta. O trabalho inicial de Muhamad era quase secreto. O Islão foi crescendo lentamente entre amigos e parentes. A prostração requerida na oração parecia ofender os orgulhosos coraixitas e precisava ser feita às escondidas. Aos poucos, porém, foram acontecendo conversões importantes como a de Abu Bakr e Uthman ibn Affan que influenciaram vários outros. Havia tolerância surda a este “profeta” e suas novidades até que por volta de 616 ele entrou em choque direto com os coraixitas proibindo a adoração das banat al-Llah. A oposição aos deuses da Caaba alarmou os coraixitas, pois tocava seu comércio e minava sua principal fonte de renda. A perseguição passou a ser declarada e Muhamad só sobreviveu devido à proteção de seu tio Abu Talib que como chefe dos Hashim era muito respeitado. No ano 616 cerca de 80 muçulmanos emigraram para o reino cristão da Abissínia sendo bem recebidos pelo monarca. Apesar das dificuldades havia progressos como a conversão de Omar ibn al-Khatab. Ele 10

foi uma espécie de Paulo muçulmano passando de perseguidor feroz a crente fervoroso e viria a ser o segundo Khalifa. Em 617 os coraixitas tomaram nova iniciativa contra os muçulmanos. Liderados pos Abu Jahl e Abu Sufyan decretaram um boicote aos clãs dos Hashim e al-Muttalib. Era proibido casar ou negociar com os clãs considerados fora de lei. Se não podiam calar Muhamad, faria seus seguidores morrerem de fome. Os membros muçulmanos dos clãs afetados se mudaram para a rua de Abu Talib para proteção e se prepararam para enfrentar a escassez. No entanto, muçulmanos importantes de outros clãs como Abu Bakr e Omar mandavam alimentos a seus irmãos de fé e desse modo o bloqueio perdeu muito de sua força. Foi por fim levantado após dois anos. O ano de 619 foi catastrófico para Muhamad. Logo após o levantamento do boicote coraixita sua esposa Kadija faleceu seguida por Abu Talib seu protetor. O novo líder dos Hashim não lhe negou proteção, mas era-lhe claramente hostil. Nesse período Muhamad chegou a procurar proteção na cidade de Taif, mas lá, no centro de adoração de al-Lat que ele rejeitara, a situação não foi favorável. Em meio a essas dificuldades o ano de 620 trouxe experiências que se mostraram marcantes. A primeira foi de caráter espiritual e mística. É descrita como a miraj ou ascensão de Muhamad. Ele teria sido levado por um cavalo alado a Jerusalém de onde ascendeu aos sete céus. Encontrou Adão no primeiro, Jesus no segundo, Moisés no sexto e Abraão no sétimo. Ali ele teria ido até o trono de Deus e lá negociou o número das orações diárias sob orientação de Moisés descendo de 50 até 5. Essa experiência foi básica para a espiritualidade de Muhamad. O segundo fato importante desse ano foi a aceitação que Muhamad recebeu de um grupo de seis peregrinos de Medina. Eles deram resposta favorável à sua pregação e voltaram no ano seguinte com mais sete colegas. Finalmente em 622, 73 homens e 2 mulheres muçulmanos de Medina foram a peregrinação em Meca, juraram fidelidade a Muhamad e lhe prometeram proteção. A situação em Meca era desesperadora e a solução era emigrarem para Medina e assim aconteceu. Muhamad foi dos últimos a sair junto com Abu Bakr e escaparam por pouco com vida precisando se esconder em cavernas perto da cidade por três dias antes de seguir caminho. Chegaram a Medina no dia 4 de Setembro de 622 data que marca a hijra (fuga) e inicia o calendário muçulmano.

1.4 Ministério em Medina (622-632) A migração dos fiéis de Muhamad de Meca para Medina foi algo decisivo e marcante. Muito mais que uma simples fuga ela marcou um passo importante para o Islão. Os árabes viviam e 11

morriam em torno da lealdade aos laços de sangue. Na Hijra, um grupo de árabes aceitou deixar seus familiares e procurar proteção junta a uma tribo com a qual não tinham ligações sanguíneas. Em Medina, os emigrantes (crentes de Meca) e os ajudantes (crentes de Medina) se juntaram para formar algo novo. Uma comunidade (Umma) surgia, cuja força não estava na herança comum, mas na religião. Muhamad começava a se mostrar um elemento aglutinador. Yatrib, que os judeus chamavam Medina, era bem diferente de Meca. Medina era um oásis que vivia de sua produção agrícola, sobretudo de tâmaras. Estava dividida, como toda a Arábia, em vários tribos e clãs. As duas principais eram os Khasraj e os Aws que viviam em conflito quase constante num ciclo interminável de vinganças. Havia também três tribos judias, os Bani Qurayzah, os Bani Nadir e os Bani Qaynuqa que formavam alianças diversas com os grupos árabes. As lutas internas ameaçavam destroçar a pequena prosperidade de Medina e os líderes locais não conseguiam resolver a questão. Um deles, ibn Ubbay, era bastante reconhecido, mas era um dos Khasraj e logicamente os Aws não aceitavam sua liderança, Muhamad parecia ser uma solução possível pois seria, pelo menos inicialmente, um juiz neutro. Outra grande diferença de Medina era que ali os árabes não se mostravam tão avessos ao monoteísmo. Sua convivência com as tribos judias os introduzira nesse conceito e por isso mesmo o aceitaram mais facilmente. Muhamad entra assim em Medina como um juiz imparcial e traça uma constituição para Medina incluindo as tribos árabes locais, os árabes emigrantes de Meca e as tribos judaicas. Nesta fase de seu ministério Muhamad ajustava sua religião aos costumes judeus. A direção (qibla) da oração era Jerusalém, e as orações passaram de 2 a 3 por dia como os judeus. Os muçulmanos tinham uma reunião especial na sexta-feira na hora em que os judeus se preparavam para o Sabath e o dia de jejum judeu (Yom Kippur) foi adotado. Muhamad não se via como um profeta isolado. Ele respeitava os profetas judeus anteriores e se entendia como uma confirmação dos mesmos e um anunciador como os antigos. Ele era o profeta para os árabes, usando a língua árabe e dando finalmente a estes uma escritura sagrada como os demais povos do Livro (judeus e cristãos). Ele ansiava pelo reconhecimento dos judeus e tudo fez para o obter. Os judeus, porém não o aceitaram. Criticaram suas falhas na cronologia bíblica e seus relatos pouco precisos de eventos históricos da vida de Israel. Desafiaram sua incapacidade de fazer milagres. Por fim planejaram abertamente sua eliminação. A rejeição judaica foi em muitos aspectos mais dolorosa que a dos coraixitas para Muhamad e ele tece duros comentários aos judeus no Qur’an. Com essa rejeição Muhamad foi alterando sua religião. Em janeiro de 624, cerca de ano e meio depois da hijra, ele mudou a qibla para Meca e esse foi um corte decisivo com os judeus. A vida para os emigrantes de Meca em Medina era difícil. Eles eram comerciantes e não agricultores. Não conheciam o trabalho do campo e tinham dificuldades em arranjar fonte de 12

rendimento. A solução foi o tradicional costume dos ataques às caravanas comerciais conhecido por ghazu. Foi como conseqüência de um desses ghazu que Muhamad dirigia que em Março de 624 acontece a famosa batalha de Badr. Os cavaleiros de Meca correram em auxilio de sua caravana com cerca de mil homens e enfrentaram os 350 muçulmanos. A batalha começou com três desafios individuais bem ao estilo oriental em que os muçulmanos levaram a melhor. Na batalha subseqüente a superior organização dos soldados de Muhamad lhes deu o dia. Muhamad proibiu a costumeira morte dos prisioneiros de guerra e declarou a vitória um sinal de Deus confirmando sua autoridade profética. Dias depois ele mudava o dia de jejum muçulmano da data do jejum judaico para o mês de ramadã. A vitória de Badr teve importância capital na moral das tropas muçulmanas. Os espólios foram divididos e as viúvas casadas. Muhamad mesmo tomou uma nova esposa em Hafsa filha de Uthman (ele já se casara com Sawdah uma parente em Meca e com Aisha filha de Abu Bakr). No ocidente se critica bastante as múltiplas esposas de Muhamad, mas essa era prática comum no oriente principalmente para um líder. Os casamentos de Muhamad foram quase todos por razões políticas representando alianças importantes com personagens e clãs poderosos. Logo após a batalha de Badr Muhamad entrou em choque final com a tribo judia dos Qaynuqas. Os judeus foram sitiados e derrotados e como conseqüência foram expulsos de Medina. Foram se fixar em outro oásis e mais tarde ainda criaram problemas aos muçulmanos. Em Badr, Meca perdera cerca de 50 líderes entre os quais vários inimigos de Muhamad como Abu Jahl. O novo homem forte de Meca era Abu Sufyan e precisava dirigir uma vingança. Assim, um ano depois da primeira batalha, em março de 625 em frente ao monte Uhud se deu o segundo embate. Meca tinha três mil soldados e Muhamad mil. Inicialmente os muçulmanos fizeram valer sua organização, mas houve precipitação dos flecheiros achando que a vitória já estava ganha. Deixando seu flanco aberto a cavalaria de Meca aproveitou a oportunidade e os muçulmanos foram colocados em fuga inclusive com boatos de que Muhamad teria sido morto. Na verdade Muhamad não morrera e os homens de Meca perderam uma oportunidade de ouro de eliminar a ameaça inimiga. Muhamad interpretaria a derrota como culpa dos muçulmanos por sua falta de união. Ele teceu duras críticas contra aqueles que desertaram. Chamou-os de hipócritas (munafiqin) e há vários versos no Qur’an dirigidos a eles. Na seqüência de Uhud a tribo judia dos Nadir vai ser expulsa de Medina e Muhamad começa esforços missionários entre as tribos beduínas. Vários desses missionários foram mortos e se tornaram mártires do islão. Muhamad terá palavras duras para os beduínos que o rejeitaram, mas no fim os verá unidos ao Islão que mais não seja por razões políticas. Em Março de 627 Meca fez uma confederação contra Muhamad e juntou 10 mil homens. Muhamad tinha apenas três mil e entendeu que desta vez deveria se entrincheirar em Medina. A 13

batalha das trincheiras surpreendeu e frustrou os coraixitas. Eles não foram capazes de furar as defesas muçulmanas e por fim se retiraram derrotados. A tribo judia dos Qurayzah tinha se proposto a ajudar o exército de Meca providenciando uma entrada furtiva em Medina, mas não chegaram a acordo. Sua traição foi punida quando da retirada dos coraixitas. Todos os homens da tribo foram mortos, suas mulheres e crianças foram vendidas como escravos e as propriedades foram divididas entre os muçulmanos. Muhamad era agora senhor absoluto de Medina. Várias tribos se converteram e ele começava a formar uma confederação própria que podia impor um verdadeiro bloqueio a Meca. Em 628 ele dá uma cartada decisiva quando decide fazer a peregrinação a Meca, desarmado como um simples árabe. Cerca de mil muçulmanos foram com ele. Os defensores de Meca se viram diante de um dilema. Não podiam negar acesso aos lugares sagrados a um grupo de peregrinos árabes sob o risco de ferirem o coração da ética árabe. Por outro lado, não podiam admitir a entrada de seu maior inimigo em sua cidade sem reagir sob pena de parecerem fracos. Uma solução de compromisso foi obtida. Muhamad aceitou não entrar em Meca, mas um tratado de paz foi assinado que previa dez anos de tréguas. O tratado de Hudaybiyah pareceu uma derrota para os demais muçulmanos, mas foi uma vitória estratégica e moral para Muhamad. A partir dali ele consolidou sua força, aumentou sua confederação e quando certos aliados de Meca romperam o tratado em novembro de 629 Muhamad estava pronto para a vitória final. Marchou no inicio de 630 com um exército de dez mil homens para Meca onde entrou praticamente sem oposição. Ele destruiu os 360 ídolos da Caaba, declarou a fé muçulmana no coração da Arábia, cumpriu os ritos da peregrinação e recebeu as promessas de fidelidade da maioria dos líderes de Meca incluindo Abu Sufyan. O Islão tinha triunfado. No ano seguinte foram destruídos os santuários das deusas banat Al-Llah. Tropas muçulmanas tiveram várias vitórias em várias frentes na península. Em 632 Muhamad dirigiu pessoalmente todos os ritos da peregrinação. Em 8 de junho de 632 ele faleceu nos braços de sua esposa preferida Aisha com 63 anos de idade e foi enterrado em Medina perto da mesquita do profeta. Era analfabeto, mas criou uma grande obra da literatura árabe. Nascera em família pagã, mas criou uma religião monoteísta mundial. Ao seu nascimento num clã empobrecido os árabes estavam divididos por guerras fratricidas. Ao morrer Muhamad deixava a península unida e pronta para se tornar uma força mundial. 1.5 Expansão do Islamismo A morte de Muhamad veio inesperadamente e ele não chegou a designar seu sucessor. Depois de algum debate foi escolhido Abu Bakr, seu mais antigo e fiel amigo, pai de sua esposa favorita Aisha e que o substituíra na direção das orações. Ele governou apenas dois anos e teve que 14

lutar contra a desintegração do que Muhamad deixara devido a várias revoltas tribais. Foi sucedido por Omar (634-644). Omar era um muçulmano fervoroso e resoluto e levou o Islão à sua primeira expansão. Sob seu comando os bizantinos foram derrotados em Jarmuc (636) e os persas em Neavend (637). Ele anexou toda a Palestina, Síria, Iraque e Mesopotâmia tendo tomado Jerusalém em Fevereiro de 638. O terceiro Califa foi Uthman (644-656) um aristocrata do clã Omíada, companheiro de Muhamad desde cedo que governou sob a oposição de Aisha e o partido de Ali. Quando Ali finalmente tomou o poder o Islão estava dividido. Ali governou apenas até 661 sendo substituído pelos Omíadas. Foi Muawiyah, filho de Abu Sufyan que iniciou a dinastia e o governo Omíada (661-750). Sob os Omíadas a capital mudou para Damasco e o Islão foi crescendo. Foram eles que derrotaram Hussain, filho de Ali, na batalha de Karbala em 680. Este episódio e data são chaves na fé e prática dos Xiitas. Em 750 os Abássidas tomaram o poder com Abu al-Abbas al-Safful como seu primeiro califa. Eram descendentes de Abbas, tio de Muhamad do clã dos Hashim, logo família do profeta. Sob eles o Islão conheceu sua maior extensão dominando todo o norte da África e o médio oriente até a Índia além da Península Ibérica. Os Abássidas centralizaram seu poder em Bagdá que chegou a ser nesse tempo a maior e mais magnífica cidade do mundo. Esta dinastia só viria a cair em 1258 quando os mongóis tomaram Bagdá. Durante muitos séculos o Islão esteve dividido em inúmeros sultanatos como, por exemplo, o dos mamelucos que dominaram o Médio Oriente. Em 1453, porém, os Turcos Otomanos tomaram Constantinopla e aos poucos mostraram força suficiente para centralizar novamente o poder no Islão. O Império Otomano durou até a primeira guerra mundial e o último Califa foi deposto apenas em 1924 pelo líder Turco Ata Turk. Os muçulmanos em geral consideram a rápida e enorme expansão de sua fé como sinal da aprovação divina a seu profeta. Nisso podem rivalizar com o Judaísmo que nunca cresceu para além das fronteiras da raça israelita. No entanto, o Cristianismo também teve rápida e enorme expansão, é até hoje mais influente mundialmente que o Islão, e não cresceu na base da força armada, mas da simples evangelização em meio à perseguição e martírio. 1.6 Influência de outras Religiões no pensamento de Muhamad Muhamad reconheceu no Qur’an que ele não trazia novidades e que era apenas mais um profeta aceitando as revelações anteriores (Sura 2:136; 3:144; 41:5; 46:9). Na verdade ele incorporou crenças e práticas de outros credos e religiões de seu tempo. Não deveria ter treinamento formal religioso, mas teve a oportunidade de contactar com várias crenças. Parte desse contacto pode ter acontecido em suas viagens como comerciante, mas os maiores conhecimentos foram adquiridos na própria Meca que era centro de passagem de inúmeras caravanas. 15

Muito do Islão foi uma simples continuação da religião tradicional árabe. Muhamad manteve a centralidade de Meca bem como a peregrinação anual a esta. Os rituais da peregrinação como o uso de roupa branca, o rapar a cabeça, as circunvoluções em torno da Caaba, as sete corridas entre os montes Safa e Marwah, o apedrejamento dos três pilares em Mina, a vigília junto ao monte Arafat e o sacrifício de um carneiro, eram práticas árabes que Muhamad manteve dandolhes no entanto explicações que se encaixavam na história antiga de seus antepassados Abraão, Ismael e Agar. Da estória religiosa árabe Muhamad retira episódios de profetas como Hud, Saleh e Chuaib (Jetro?). Ele cita o famoso caso do elefante (Sura 105) que fazia parte das lendas de Meca. Usa também o código de honra árabe para dar corpo a boa parte de sua legislação. Do Zoroastrismo que Muhamad contatou através dos persas que comerciavam com Meca, ele usou a noção de Inferno e, sobretudo de Céu como um jardim abundante, repleto de árvores de fruto e de “huris”, belas virgens de grandes olhos negros e eternamente virtuosas. Seu entendimento dos Jinn e de seu exorcismo viria tanto do Zoroastrismo quanto das tradições árabes. A utilização dos 99 nomes de Al-Llah se aproxima muito dos 75 nomes de Ahura Mazda, a divindade persa. Do Budismo Muhamad incorporou certas lendas que os cristãos tinham adaptado. Assim, as lendas sobre o nascimento de Jesus que se encontram na Sura 19:22 a 26 bem como as estórias de Jesus pregando no berço em 5:113 são mitos referentes a Buda que os cristãos tinham transferido para Jesus e circulavam em textos apócrifos. Desta religião oriental foi também usada a prática do rosário para as orações. Há uma referência elogiosa no Qur’an aos Sabeus (2:62; 5:69). Trata-se de uma seita gnóstica do sul da Babilônia, região que tinha comércio com Meca. Os sabeus não eram judeus e nem cristãos, mas tinham princípios comuns com ambas essas religiões. Muhamad deveria saber pouco deles, mas parece que o pouco que sabia o levou a incluí-los nos crentes verdadeiros. Não foram, porém uma influência importante. A Influência cristã no Qur’an é menor do que alguns pensam já que é pouco provável que Muhamad tivesse alguma vez visto algum texto do novo testamento e seu contacto com o Cristianismo se daria, sobretudo com suas formas heréticas Monofisitas e Nestorianas. Mesmo assim Muhamad adotou termos como “evangelho”, seguiu o costume cristão de chamar os demais crentes de irmãos (49:10), e cita Zacarias, João Batista, Maria, Jesus e os discípulos com profusão. Suas estórias sobre Maria são, no entanto quase todas retiradas de textos apócrifos. Ele inclusive a confunde com Mirian irmã de Arão (19:17 e 28) num anacronismo grave. Muhamad, no entanto, mostrou respeito por ela e defendeu sua virgindade. Ele empregou termos bíblicos para Jesus como Verbo, Palavra de Deus e cheio do Espírito, mas é provável que não entendesse completamente o que esses termos queriam dizer.

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No Qur’an encontramos várias lendas cristãs correntes na época como a de Luckman (Sura 31), a de Alexandre o Grande (18:83-100) e a mesa que Jesus baixou dos céus (5:115). Lemos também a lenda dos jovens adormecidos que é uma adaptação de um mito cristão sobre sete jovens crentes de Éfeso (18:9). Muhamad parecia respeitar o monasticismo cristão e fala positivamente sobre os monges. Dito isto, é necessário lembrar que Muhamad desconhecia a doutrina cristã e nunca teve um contacto real com o evangelho genuíno. Inclusive sua noção de trindade surgiu numa época em que o culto de Maria crescia e é possível que entendesse a trindade como Deus Pai, Maria e Jesus (72:3; 5:116). Não há dúvida, porém, que a maior base para os ensinos de Muhamad veio do Judaísmo. A extensão do seu contacto com os judeus é muito debatida. As idéias variam de apenas contactos esporádicos até o ponto de o colocarem como quase prosélito do judaísmo. Muhamad parece ter tido grande admiração pela religião dos judeus, vendo-a como superior à religião tradicional árabe. Havia tribos judias em Yatrib e no oásis de Khaibar e certamente haveria judeus em Meca. Esses judeus eram quase sempre homens letrados e praticavam sua religião com algum rigor. É provável que Muhamad tenha tido acesso a seu ensino bem como a presenciar sua forma de culto. Há quem leia na Sura 16:103 (“Bem sabemos o que alegam: Alguém esta lhe ditando o Alcorão. Ora, esse alguém que supõem, só fala língua estrangeira. E o Alcorão é versado em árabe castiço”) uma referência clara a um judeu que seria uma espécie de Mestre de Muhamad. Isto seria corroborado pelo verso de 25:5: “E disseram: “Fábulas dos tempos antigos que ele faz escrever e que lhe são ditadas pela manhã e à tarde”. Essa hipótese não é porém confirmada pelas biografias oficiais. O que é certo é que Muhamad se entendeu inicialmente como um continuador dos profetas judeus que pregava para os árabes. Só após a rejeição dos judeus de Medina é que ele se distanciou deles, mas sua religião já estava impregnada de conceitos e práticas judias. O respeito que Muhamad desenvolveu pelos livros sagrados era bem judeu. A maneira que os muçulmanos irão usar para guardar o Qur’an em suas mesquitas lembra a dos judeus nas sinagogas. A utilização de uma declaração, a Shahada (Não há Deus senão Al-lah e Muhamad é seu profeta) é muito próxima do Shema de Israel (Ouve ó Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor). As várias orações diárias, em prostração e com determinada direção proferidas após lavagem ritual era um costume judeu que Muhamad adotou mudando depois o número das orações e a direção da mesma. A forma de declamar o texto sagrado quase cantando também era prática judaica bem como as vigílias de oração. O jejum judeu de Yom Kippur foi adotado por Muhamad e depois mudado para o mês de Ramadã. Em termos jurídicos Muhamad adotou várias leis judaicas. Leis como a utilização de areia para as lavagens cerimoniais quando não houvesse água, as limitações rituais às relações sexuais, a

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proibição de comer certos alimentos e a obrigação de amamentar o recém nascido até os dois anos, são alguns exemplos de práticas que foram incorporadas com o peso da lei no Islamismo. A doutrina judaica também permeou o ensino de Muhamad. Assim vemos sua ênfase no monoteísmo puro, a noção de ressurreição e de juízo final, existência de sete céus e sete infernos, a importância da revelação escrita, a noção de povo escolhido bem como a idéia de profeta, sua missão e autoridade são tiradas das crenças judaicas. No Qur’an há várias palavras em hebraico como Torah, Geena, Rabi, Tagut e Furqàn. Muhamad cita muitos episódios das vidas de profetas e reis do Antigo Testamento, mas sua fonte é quase que exclusivamente o Talmude judaico. Ele cita também várias lendas do folclore judeu como a morte de Abel (5:32 a 35), Abraão e os ídolos de seus pais (21:62 a 68; 37:91 e 92), Salomão com a rainha de Sabá (27:20 a 42) a rejeição que Moisés teria feito das amas egípcias (28:12). A arte de Muhamad esteve em saber unir estes vários aspectos com sabedoria e dar a antigos costumes, novos significados. Como sua base principal era o Judaísmo, ele interpretou muito dos costumes e locais árabes de acordo com a velha religião judia. Assim a cidade de Meca e a Caaba eram o templo construído por Adão para a adoração de Deus, que teria sido depois reconstruído por Abraão e Ismael. A fonte de Zemzem, sagrada para os árabes, seria o local onde o anjo Gabriel dera água a Agar e Ismael. O sacrifício da peregrinação era para lembrar o sacrifício feito por Abraão quando Deus lhe poupou a vida de Isaque. Muhamad foi muito bem sucedido na incorporação de todos esses conceitos. Ele correu o risco de criar uma colcha de retalhos, mas na verdade deu uma consistência inusitada à sua religião.

2. O Qur’an
2.1 Formação do Texto atual Segundo a tradição Muhamad era analfabeto. Há discussão entre os estudiosos a respeito disso. Muitos acreditam que sendo Muhamad um comerciante deveria ter algum nível de instrução. Seja como for, tudo indica que ele não escreveu o Qur’an, mas apenas o ditou. Isso não seria anormal numa cultura de tradição oral. Desde o inicio seus seguidores decoravam o que ele dizia e o repetiam à exaustão. Mais tarde, já em Medina, Muhamad passou a ter secretários que colocavam por escrito suas revelações. Um dos mais capazes era Zayd ibn Thabit. Outros também copiavam os ditos do seu profeta usando para isso papiros, folhas de palmeira, ossos de animais (omoplatas), 18

couro, pedaços de madeira e até pedras. Importante a esta altura é notar que durante a vida de Muhamad nenhum esforço foi levado a cabo para preparar uma coleção dessas revelações. O Qur’an na verdade ainda não existia como livro sagrado até então. Após a morte de Muhamad, Abu Bakr seu sucessor se viu a mãos com várias rebeliões. Precisou lutar duramente contra várias tribos para manter a unidade do Islão. Numa dessas batalhas em Yamanah em 633, morreram vários daqueles que eram conhecidos por ter decorado grande parte das revelações. Este fato criou o medo de que o Qur’an se perdesse. Logo, Abu Bakr instigado por Omar, elegeu Zayd ibn Thabit para fazer uma coleção de todas as revelações. Zayd fez o trabalho o melhor que pode. Alguns versos encontravam-se por escrito, outros porém, existiam apenas nas memórias de alguns fiéis. Havia inclusive certos versos que existiam na mente de apenas um crente. No fim do trabalho a coleção passou a Abu Bakr que depois a daria a Omar. Omar por fim a deixou a sua filha Hafsa que era uma das viúvas de Muhamad. Na verdade, porém, havia outras cópias do Qur’an circulando. Há relatos de coleções feitas por Salim, um antigo servo de Muhamad e por ibn Massud em Kufa. A tradição diz que Muhamad em vida reconhecera que Massud era o mais fiel conhecedor do Qur’an. Estas diferenças acabaram por criar problemas. Durante uma campanha militar para a conquista da Armênia, houve disputas ferozes entre tropas de regiões diferentes a respeito de qual era a coleção correta de textos sagrados. O general Hudhayfa levou o problema ao conhecimento do terceiro Kalifa, Uthman. Uthman convocou novamente Zayd que com outros três estudiosos ficou responsável por preparar uma versão revista do Qur’an e compará-la à coleção de Hafsa. Qualquer dúvida no texto em termos de dialeto deveria ser decidida em favor do dialeto coraixita no qual o profeta teria falado. A coleção foi feita e quatro cópias foram preparadas para cada um dos maiores centros do Islão de então, a saber: Medina, Kufa, Basrah e Damasco. Sob ordem de Uthman todas as outras coleções deveriam ser queimadas para evitar discussões futuras. O problema é que nem todas as cópias divergentes foram eliminadas. Massud, por exemplo, considerava sua coleção superior à de Zayd. Isso causava problemas porque na coleção de Massud faltavam a Sura 1, 113 e 114 que vieram a se tornar fundamentais do Islão como veremos mais adiante. A coleção de Hafsa teria também suas diferenças. Mais tarde se tentou eliminar essa coleção, mas isso só foi conseguido por Marwan, governador de Medina após a morte de Hafsa. Ao longo dos tempos o texto foi sendo melhorado para facilitar a leitura e foi definido que dialetos árabes poderiam ser usados. Existem hoje manuscritos de aproximadamente 150 anos após a morte de Muhamad, mas são incompletos. Os dois principais códices atuais são o Samarqana, que seria cópia do códice de Uthman e está em Tashkent no Uzbequistão e o códice Topkap que está num museu em Istambul na Turquia. Ambos datam do segundo século do Islamismo.

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2.2 Divisão, Organização e Estilo Divisão O Qur’an é um livro ligeiramente menor que o Novo Testamento e foi sendo composto ao longo de um período de 23 anos. Para efeitos de leitura ele é dividido como a Bíblia em capítulos e versos. Os capítulos se chamam Suras. A palavra Sura significa algo como degrau, etapa ou camada de blocos numa construção. O Qur’an seria um edifício perfeito e cada Sura seria uma fiada de blocos em sua construção. Ao todo temos 114 suras. As Suras variam muito de tamanho sendo a maior a Sura 2 com 286 versos e a menor a Sura 108 com apenas 3 versos. As Suras além do número têm todas um nome pelo qual são muitas vezes mais conhecidas. Assim a Sura 3 é chamada “A Tribo de Omran”, a Sura 4 é conhecida como “As Mulheres” e assim por diante. O nome da Sura pode indicar o tema central do capitulo como no caso da Sura 12 chamada de “José” que gasta cerca de 100 dos seus 111 versos contando a estória de José do Egito. Mas muitas vezes o titulo da Sura tem muito pouco a ver com seu conteúdo e é apenas uma palavra que ajuda a identificar o capitulo e que surge, na maioria das vezes, nos versos iniciais. Com a exceção da sura 9 todas as demais 113 começam com a mesma expressão: “Bismillah al-rahman al-rahim” (Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso). Esta expressão entra na conversação diária do muçulmano principalmente quando quer dar ênfase a uma afirmação ou quando fecha um negócio. No começo de 29 Suras, logo após a introdução há o nome de uma ou mais letras do alfabeto árabe. Por exemplo, no inicio da Sura 2 “A Vaca” estão as letras Alef, Lam, Mim. O significado dessas letras é um dos mistérios do Islão. Muitas sugestões têm sido feitas ao longo dos séculos sobre seu significado. Alguns acham que seriam abreviaturas dos nomes de pessoas que contribuíram com aquela sura para a coleção. Outros sugerem que seriam contrações de títulos antigos que caíram em desuso. Muitos ainda crêem que se tratam de letras mágicas ou místicas e que apenas Muhamad saberia seu significado. Para efeitos de leitura, cada Sura é dividida em Versos (Ayat) cujo tamanho também varia consideravelmente. Encontramos versos enormes como 2:187 ou 196 ou ainda 282 e versos minúsculos como 70:33 (“E prestamos testemunha”). Há ainda outras divisões comuns para efeitos devocionais. A mais conhecida é a divisão em 30 partes aproximadamente iguais conhecidas como juz (porção) ou siparah (trigésima parte). O objetivo dessa divisão é dar ao devoto uma porção do livro sagrado para ler a cada um dos dias do mês sagrado do jejum de Ramadã. Assim, cada juz deve ser recitada num dia. Essa divisão não respeita a cronologia e nem a divisão de suras e vem muitas vezes assinalada na parte lateral do texto.

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A divisão conhecida por Manzil (etapa) divide o texto completo em sete partes e serve para o crente que deseja ler o Qur’an todo em uma semana. Existe ainda a divisão Ruku (prostrar) que separa porções de dez versos após os quais o leitor deve fazer uma prostração ritual. Organização O leitor da Bíblia tem dificuldade na leitura do Qur’an principalmente por causa de sua organização. O Cristão está acostumado ao arranjo cronológico do texto bíblico tanto do antigo como do novo testamento e ao se deparar com o Qur’an pela primeira vez não consegue entender a lógica de sua organização. Na verdade o arranjo do Qur’an não respeita qualquer cronologia. Com exceção da sura 1 que serve como uma oração introdutória, as demais suras estão arranjadas por ordem decrescente de tamanho. Como as maiores suras foram declamadas mais tarde que as menores, a cronologia dos capítulos esta invertida e o leitor permanece em total confusão. Há, porém, maneiras de se contornar essa dificuldade inicial. É reconhecida no Islão a divisão básica das suras em suras de Meca e suras de Medina. Na verdade elas têm conteúdo diverso e geralmente tamanhos diferentes. As suras de Meca (cerca de 86) costumam ser menores, mais poéticas e religiosas, mais centradas em temas espirituais com admoestações constantes. As suras de Medina (cerca de 28) são em regra bem maiores, mais prosaicas e relacionadas com assuntos terrenos contendo leis, orientações práticas e explicações de acontecimentos recentes da vida da comunidade muçulmana. Os estudiosos costumam dividir ainda o período de Meca em três partes. Para um leitor cristão que deseje ter uma noção da evolução do pensamento de Muhamad a leitura das suras pode ser feita pela ordem arranjada pelo perito Theodore Noldeke que é: 96, 74, 111, 106, 108, 104, 107, 102, 105, 92, 90, 94, 93, 97, 86, 91, 80, 68, 87, 95, 103, 85, 73, 101, 99, 82, 81, 53, 84, 100, 79, 77, 78, 88, 89, 75, 83, 69, 51, 52, 56, 70, 55, 112, 109, 113, 114, 1, 54, 37, 71, 76, 44, 50, 20, 26, 15, 19, 38, 36, 43, 72, 67, 23, 21, 25, 17, 27, 18, 32, 41, 45, 16, 30, 11, 14, 12, 40, 28, 39, 29, 31, 42, 10, 34, 35, 7, 46, 6, 13, 2, 98, 64, 62, 8, 47, 3, 61, 57, 4, 65, 59, 33, 63, 24, 58, 22, 48, 66, 60, 110, 49, 9, 5.

Estilo Para o muçulmano árabe o estilo do Qur’an é único, sendo um verdadeiro milagre que prova sua origem divina. As traduções que são feitas perdem por regra a maior parte do impacto que o texto tem em seu original. Mas o mesmo pode se dizer da maioria das grandes obras da literatura mundial. O Qur’an não obedece às regras da poesia árabe da época, mas tem no seu original um efeito rítmico que é eletrizante e domina o ouvinte. A maior parte do texto está na forma de Deus falando 21

com os homens ou com Muhamad em particular. Normalmente Deus fala na primeira pessoa do singular (51:16 por ex.) ou do plural (15:26; 17:70; 21:16 por ex.), mas também acontece de Deus falar de si mesmo na terceira pessoa do singular. Aparecem casos em que no mesmo verso Deus fala na primeira pessoa do plural e na terceira do singular alternadamente (35:27 e 17:69). Em outras passagens Deus coloca as palavras na boca de Muhamad geralmente pelo imperativo “dizei” (2:136 por ex.). Há outros trechos em que Muhamad fala por si mesmo (7:158 por ex.). Há no Qur’an textos poéticos, mas também narrativas (como a história de José na sura 12), parábolas (como a da árvore boa e árvore má de 14:24 a 27), textos exortativos e apocalípticos (suras do período inicial de Meca), trechos legislativos (grande parte da sura 2) e muitas metáforas. O uso de metáforas é de se esperar num autor oriental. Os estudiosos encontram mais de 400 no Qur’an como, por exemplo, as que classificam os incrédulos de “surdos”, “cegos”, “com um véu no coração” ou “caminhando no escuro”. 2.3 Suna, Hadith e Sharia (Tradição e Lei) Além de ser visto como profeta por seus seguidores, Muhamad era também considerado o crente perfeito, o padrão para o homem muçulmano em tudo. Logo se desenvolveu toda uma tradição sobre a maneira como Muhamad fazia as coisas, como orava, como sentava, como comia, como reagia etc. Essa tradição viva é chamada de Suna e o muçulmano realmente praticante procura segui-la de modo a se aproximar o mais possível de seu profeta pois o próprio Qur’an diz que “o mensageiro de Deus é um belo exemplo para os que confiam em Deus e no último dia e recordam Deus com freqüência” (Sura 33:21). A tradição, no entanto cresceu de tal maneira que cerca de 200 anos após a morte de Muhamad haveria mais de 500 mil estórias a respeito dele circulando no mundo islâmico a grande maioria das quais não tinha qualquer base ou autoridade. Houve então alguns estudiosos muçulmanos que se deram ao trabalho de colecionar as tradições e colocá-las por escrito. A essas tradições escritas chama-se Hadith e é outra grande base da fé muçulmana. A seleção das estórias foi feita com base em dois princípios: a legitimidade da testemunha e a compatibilidade com o Qur’an. O primeiro dos colecionadores foi também o mais famoso e o que guardou a maior coleção. Al-Bukhari recolheu 300 mil estórias, mas acabou por aceitar como verdadeiras 7.275. Como há muitas repetições elas ficam em cerca de 3 mil. Mesmo das 2.210 hadiths atribuídas a Aisha, Bukhari só reconheceu 174. Ele faleceu em 870. Depois dele outros fizeram coleções de hadiths reconhecidas, como al-Muslim (morreu em 875), ibn Maia (886), Abu Dawd (888), Al-Tirmidi (892) e Al-Nasai (916). É de salientar que estas seis coleções não são aceitas pelos Xiitas.

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A partir do Qur’an e das hadiths sobre Muhamad foram surgindo as escolas de legislação. Á medida que o islamismo se espalhava e se tornava força dominante onde chegava, era preciso definir a maneira de governar as nações e a verdade é que o Qur’an só por si tinha pouca legislação para esse efeito. As escolas de lei criaram conjuntos de legislação para o mundo islâmico. Algumas dessas coleções de leis tomaram força e se estabeleceram como escolas de lei e são hoje as bases da Sharia muçulmana. A palavra Sharia significa “o caminho certo” ou “o caminho da água”. Já que a água significa vida no contexto árabe a idéia é que o cumprimento da Sharia leva o homem a viver corretamente de acordo com a vontade de Deus. Ao contrário do que o cristão ocidental pensa a Sharia não é uma só. Há pelo menos quatro escolas principais conhecidas pelos nomes de seus fundadores. Assim, temos a escola Hanifa (morreu em 767) e que é a mais praticada na Ásia ocidental, no Paquistão e Egito; a escola Malic (795) mais usada no norte e ocidente da África; a escola Shapih (819) usada, sobretudo na Indonésia; e a escola Hanbal (855) praticada no centro e norte da Arábia. É curioso notar que por vezes a Sharia se baseia mais na tradição chegando a contrariar o Qur’an. Assim acontece no caso da punição do adultério que tanta celeuma desperta no ocidente. No Qur’an a punição para o adultério é de cem açoites (Sura 24:2). A Hadith, porém confirma que o profeta considerava o castigo correto como sendo o apedrejamento e é essa a posição de várias escolas de Sharia. 2.4 Algumas Suras no seu Contexto Existem inúmeras cópias do Qur’an com explicações para os leitores. Os interessados podem encontrá-las nas mesquitas e até na Internet. Não cabe neste trabalho um comentário exaustivo de cada sura. É, no entanto útil para o obreiro cristão ter uma noção de algumas suras mais importantes. No geral, já referimos que as suras são divididas em suras de Meca e de Medina. Há discussão sobre a classificação de algumas suras. São atribuídas a Meca entre 86 e 94 suras e a Medina entre 20 e 28. Há uma diferença básica no tipo de suras conforme são de uma ou outra época. Por regra, as suras de Meca são menores, mais poéticas e exortativas. Versam sobre a soberania de Al-Lah e sua unidade, o advento da ressurreição e do juízo final, a necessidade de arrependimento, os castigos para os ímpios e as delicias para os crentes. Em Meca o profeta que recebe mais proeminência é Moisés e há grande aproximação a judeus e cristãos. As suras de Medina se modificam à medida que Muhamad assume uma posição cada vez mais política e de liderança. Há necessidade de legislação e de explicação das ocorrências principais do mundo islâmico. As suras de Medina são maiores e mais prosaicas, com mais argumentação, 23

estórias mais elaboradas e muita legislação. Passa a haver antagonismo cada vez mais evidente aos cristãos e, sobretudo aos judeus. Abraão passa a ter posição mais exaltada entre os profetas. Ele que não era nem judeu, nem cristão, passa a ser o paradigma do crente, o primeiro muçulmano. Muhamad procura se firmar na antiguidade para fazer sua religião sobrepujar as demais. Vejamos então algumas das suras mais importantes. Sura 1: Abertura Esta sura introdutória é chamada de Al-Fatiha. Segundo a tradição esta seria a primeira sura revelada por completo a Muhamad. Antes ele teria recebido apenas partes de outras suras. É um texto diferente do sentido geral porque enquanto na maioria do Qur’an encontramos Deus falando ao homem, na sura 1 é o homem que se dirige a Deus. Al-Fatiha é uma oração que Al-Lah teria ensinado aos homens. É considerada a oração perfeita. Deve ser usada sempre que se pretende ler o Qur’an porque abre as mentes para a compreensão do mesmo. Nesta abertura o crente faz uma oração pedindo orientação: “Guia-nos na senda da retidão” (v.6). As restantes suras seriam a resposta a este clamor. Trata-se de uma sura fundamental aos muçulmanos, pois é usada com grande freqüência em todos os rituais religiosos e profanos. Repete-se diariamente esta oração e é a primeira sura que os alunos das escolas corânicas aprendem de cor. Sura 112: A Sinceridade Apesar de ter apenas 4 versos, esta sura é muito estimada no Islão porque na tradição se diz que Muhamad teria atribuído a ela a importância de 1/3 do Qur’an. Recitá-la seria assim o mesmo que recitar 1/3 de todo o livro. Como é um capítulo pequeno esta colocação é bastante confortável e deve ter agradado aos fiéis. Sua mensagem é monoteísmo puro que se tornou a base do Islamismo. Sura 113: A Alvorada e Sura 114: Os Homens As duas últimas suras do Qur’an formam uma unidade importante e muito usada no cotidiano islâmico. Seu valor está ligado a um episódio da vida de Muhamad. Diz a tradição que os judeus procuravam eliminar Muhamad e fizeram um feitiço contra ele. Logo, Muhamad começou a sentir-se mal debaixo de seu efeito. O anjo Gabriel então lhe revelou que o feitiço estava em baixo da pedra central de certo poço e que precisava ser descoberto e destruído. Muhamad mandou tirar a água do poço e encontrou o feitiço composto por uma corda com onze nós e um boneco representando-o com onze alfinetes espetados. Ele teria recitado estas duas suras sob revelação Angélica e a cada verso um dos nós se desatava e um alfinete caía e ao fim ele estava plenamente recuperado. 24

Muitas outras tradições corroboram o poder destas suras. Ela teria salvado Muhamad da picada de um escorpião a certa altura. Ele as repetiria antes de dormir, sopraria nas mãos e então as passava sobre todo o corpo. Também gostaria de as repetir quando orava por seus netos Hassan e Hussein, filhos de Fátima e Ali. Outras tradições contam de como estas suras foram usadas por muçulmanos para curar doentes com a aprovação de Muhamad. Parece que a sura 1 também serviria para esse fim. Sendo assim podemos entender o peso da utilização destes textos na vida diária muçulmana principalmente quando lembramos da importância que o ocultismo tem em terras islâmicas. Sura 111: A corda de Esparto Aqui Não se trata tanto de uma sura importante, mas cujo significado só pode ser entendido se lida em seu contexto. Esta sura fala sobre a oposição a Muhamad e foi declamada em Meca. Entre os líderes de Meca que objetavam a Muhamad estava Abu Lahab seu tio e vizinho. Segundo a tradição este atormentava constantemente Muhamad seguindo-o na rua para negar suas mensagens. Quando Muhamad começou a pregar, Abu Lahab teria obrigado seus dois filhos que tinham desposado filhas de Muhamad a se divorciarem. Teria também festejado a morte dos dois filhos homens de Muhamad e Kadija num ato de ofensa grave. A mulher de Abu Lahab, Umm Jamil (irmã de Abu Sufyan) também atormentava Muhamad jogando espinhos em sua porta para que se picasse e fazendo poesias ridicularizando o pregador. É nesse contexto que surge esta sura de Meca com uma maldição específica para Abu Lahab e sua esposa. Não conseguimos evitar uma comparação com o Cristo crucificado que clama: Pai perdoa-lhes porque não sabem o que fazem... Sura 109: Os Descrentes Uma sura de Meca que marca o total rompimento de Muhamad com os Coraixitas. Teria sido revelada durante o período do bloqueio contra os muçulmanos entre os anos de 617 e 619. Uma delegação formada por líderes dos clãs mais importantes teria procurado Muhamad para tentar uma solução de compromisso para o problema muçulmano. Os líderes de Meca autorizariam a adoração a Al-Lah como Muhamad queria e este aceitaria que os demais adorassem as banat Al-Lah sem atacá-los. Era prometida a Muhamad fartas recompensas financeiras. Muhamad rejeitou essa proposta com a famosa declaração desta sura: “Não adoro o que adorais. Não adorais o que adoro. Nunca adorarei o que adorais. Nunca adorareis o que adoro.” (v.3 a 5). Não é possível ser mais definitivo que isso. Sura 105: O Elefante

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Este trecho só se entende em seu contexto histórico. Por volta do ano 570 o governador abissínio da Arábia do Sul, de nome Abraha, invejoso do sucesso de Meca, decidiu atacá-la. Abraha marchou contra Meca com 60 mil homens e vários elefantes. Negociações foram feitas com os líderes de Meca dirigidos por Abu Muttalib, avô de Muhamad, mas não se chegou a consenso. Abu Muttalib então, evacuou Meca e se preparou para resistir. Na pressa dos preparativos ele teria orado na Caaba, mas teve tempo apenas para rogar proteção a Al-Lah. No dia do ataque final o elefante de Abraha se negou a andar em direção a Meca. Caía de joelhos e não se mexia. Se colocado em outra direção logo marchava, mas assim que o viravam para Meca caía novamente. Surgiu então uma multidão de aves que apedrejaram as tropas abissínias. Quando as pedras tocavam a pele dos soldados provocavam coceira que degenerava em feridas horríveis com a própria carne caindo. As tropas de Abraha se puseram em fuga, mas a maioria morreu no caminho inclusive o próprio Abraha. Este episódio era alvo de grandes comemorações em Meca. Viu-se nele a intervenção divina para defender a Caaba. É possível que as tropas abissínias tenham sido vitimadas por uma praga, talvez varíola, mas para os habitantes de Meca a explicação era sempre sobrenatural. O ano deste acontecimento (570) ficou conhecido como o ano do Elefante e havia uma tradição segundo a qual Muhamad teria nascido nesse ano, mas é muito improvável. A sura 105 mostra que Muhamad cria nesse episódio e procurou usá-lo em seu favor.

Sura 2: A Vaca Trata-se de uma sura importante por seu conteúdo legislativo. A maioria dos versos é dos primeiros anos de Medina, mas os estudiosos divergem quanto à cronologia colocando inclusive os versos 284 a 286 como sendo de Meca. Um trecho importante deste capítulo é o dos versos 144 a 150 que nos fala da mudança da qibla (direção da oração) que passa de Jerusalém para Meca e como já notamos, foi o inicio do rompimento de Muhamad com os judeus. Sura 3: A Tribo de Omran Encontramos nesta sura, versos de períodos diferentes. Apesar de ser difícil especificar datas, os entendidos colocam os versos 1 a 32 logo após a batalha de Badr, os versos 33 a 63 no contexto da visita de uma comitiva de cristãos de Najram, e os versos 121 a 200 no seguimento da batalha de Uhud. Outra sura que fala da vitória de Badr e especifica a lei dos espólios é a sura 8. Sura 96: O Coágulo

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A importância desta sura está nos seus versos 2 a 5 que seriam os primeiros versos revelados a Muhamad. Devido a este fato historicamente importante, esta sura é tida em grande valor para os muçulmanos e é usada em muitas ocasiões. Versos Satânicos Muito debate tem havido a respeito desta tradição. A condenação do escritor Salmon Rushdie por seu uso deste episódio o tornou ainda mais famoso. A bem da verdade é preciso dizer que esta tradição foi preservada pelo reconhecido historiador at-Tabari um dos biógrafos de Muhamad. Segundo ele, este trecho foi revelado enquanto Muhamad estava sentado na Caaba junto a vários Coraixitas. O texto seria parte do inicio da sura 53 e nele Muhamad teria declamado: “Vistes vós Al-Lat e Al-Uzza, os ídolos e Manat, o terceiro deles? Elas são os nobres pássaros (gharaniq) cuja intercessão é permitida”. Ora, este pássaro (gharaniq) é uma espécie de grou que se cria ser o pássaro que voava mais alto. Muhamad estaria aqui fazendo uma concessão em sua religião. Não alterava a visão única de Al-Lah. As deusas não eram colocadas ao nível do Deus supremo, mas como entidades menores seriam toleradas para o bem comum. Segundo a tradição os Coraixitas teriam ficado encantados com esta revelação. Como esta questão foi resolvida é motivo de debate. Há quem diga que foram os colegas mais fiéis de Muhamad que chamaram sua atenção para os riscos da concessão. Segundo Tabari foi o anjo Gabriel que o alertou para o engano. Para que Muhamad não se sentisse demasiadamente mal teria sido revelado que os profetas anteriores também tinham tido erros semelhantes: “Jamais enviamos, antes de ti, mensageiro ou profeta algum sem que o demônio procurasse misturar-lhe os desejos com algum desejo seu. Mas Deus anula o que o demônio planeja e confirma suas próprias revelações” (Sura 22:52). Efetivamente o que ficou registrado na sura 53 foi: “Divindades que são meros nomes que vós e vossos pais investastes sem que Deus lhes tivesse outorgado autoridade alguma. Os descrentes seguem meras conjecturas e o que seus desejos lhes inspiram, embora tenham recebido orientação de seu Senhor” (v.23). Problemas Conjugais Há no Qur’an alguns trechos que lidam com problemas da vida familiar de Muhamad. A autorização divina em forma de revelação foi necessária para seus atos em várias ocasiões. Citamos os mais marcantes. A certa altura, Muhamad se encantou pela beleza de Zaynab bint Jahsh, sua prima que estava casada com Zayd seu filho adotivo. Quando Zayd percebeu o interesse de Muhamad propôs divorciar-se da esposa, mas Muhamad recusou. Não houve porém como evitar o desenlace e Zayd foi em frente com o divórcio para que Muhamad tomasse Zaynab. Parece que este episódio causou 27

mal estar na comunidade. Era contra a tradição árabe um pai tomar a esposa do filho. Muhamad estão declamou os versos que encontramos na Sura 33:37 a 40. Nesse trecho aparece a aprovação divina a Muhamad e a desculpa que ele não era realmente pai de Zayd, mas apenas aquele que o adotara e que sendo assim não era errado tomar Zaynab. Outro acontecimento teve a ver com a acusação de adultério feita a Aisha, a esposa mais nova e preferida de Muhamad. Teria sucedido que numa viagem, ela se atrasara e se perdera da caravana sendo depois encontrada por um jovem muçulmano que a levara de volta ao acampamento. O episódio despertou falatório e o próprio Muhamad ficou com dúvidas. Aisha protestou inocência, mas a situação ficou delicada. É nesse contexto que surgem os versos da Sura 24:11 a 26 que inocentam Aisha e colocam um ponto final à discussão.

3. O Qur’an e a Bíblia
Qual é a relação entre o livro muçulmano e o livro dos cristãos? O obreiro cristão pode usar o Qur’an para evangelizar? Isso não colocaria em cheque a autoridade da Bíblia? Essas questões são muito pessoais e a decisão quanto ao uso do Qur’an deve ser tomada por cada um em espírito de oração após uma avaliação séria do livro e do contexto em que o obreiro se encontra. Aqui pretendemos mostrar os dois livros lado a lado naquilo em que concordam e discordam e deixar que o leitor seja o juiz da situação. 3.1 Textos do Qur’an próximos da Bíblia Para aqueles que buscam o terreno comum entre muçulmanos e cristãos como ponto de partida para um relacionamento, há bastante material com que trabalhar. Pode ser útil conhecer estes pontos de proximidade para aquele que deseja cair na graça de um muçulmano letrado. Criação A Bíblia conta a criação do mundo, do homem e sua queda em pecado no livro de Gênesis capítulos 1 a 3. No Qur’an temos freqüentes referências à criação do mundo (16:3 a 16; 79:27 a 33 por ex.), e do homem (96:2 de sangue coagulado; 16:4 de uma gota de sêmen; 15:26 de barro). A criação é usada como sinal do poder de Deus em várias passagens como, por exemplo, 41:9 a 12 ou 28

45:3. A queda do homem no Qur’an é atribuída a Satanás, mas a razão do ódio do inimigo é o fato de Deus ter lhe ordenado inclinar perante o homem o que Satanás não quis fazer (15:26 a 42). As descrições bíblicas da criação não têm paralelo no Qur’an, mas temos em comum a crença num Deus Criador dos céus, da terra, de tudo que existe e do homem. Patriarcas e Profetas No Islão a tradição fala da existência de 124 mil profetas. O Qur’an cita cerca de 25. Não existe uma cronologia histórica sobre as vidas dos patriarcas e profetas no Qur’an. Como já vimos antes, muito do material usado por Muhamad vinha da tradição judaica e não do texto bíblico. Há porém vários relatos bíblicos que de modo mais ou menos completo são repetidos no Qur’an. Listamos alguns dos mais importantes: • • • Caim e Abel (5:27 a 32) Noé (11:32 a 48; 23:23 a 30) Abraão – Chamado (6:74 a 83; 29:16 a 27; 37:85 a 113) - Com Ló e Sodoma (11:69 a 83; 29:28 a 53) - Com Isaque (37:101 a 113) * Ismael (2:115 a 130) * José (12:4 a 162) * Moisés (5:20 a 26; 18:60 a 82; 20:9 a 98; 26:10 a 66; 28:3 a 43) * Jetro (11:84 a 95 segundo os estudiosos Chuaib seria Jetro) * Rebelião de Core (28:76 a 83) * Saul (2:247 a 251) * Davi (2:250 a 251; 17:55; 34:10 e 11; 38:21 a 26) * Salomão (27:17 a 44; 34:12 a 21) * Elias (37:123 a 132) * Jonas (37:138 a 148) * Jô (38:41 a 44) Apenas menção: Eliseu (38:48); Ezequiel (38:48); Esdras (19:56 segundo alguns Idriss seria Esdras). Muhamad considera profetas personagens que não são referidos como tal na Bíblia como Saul, Davi e Salomão. No, entretanto as citações destes nomes no Qur'an nos permitem utilizar suas estórias no diálogo com os muçulmanos.

Evangelhos 29

Alguns relatos no Qur’an são relativos a episódios dos evangelhos apesar de vários serem tirados de apócrifos ou de lendas cristãs. Alguns desses relatos podem ser usados do diálogo entre cristãos e muçulmanos. • • • • Zacarias e o nascimento de João Batista (19:1 a 15) Anúncio do nascimento de Jesus (3:42 a 51; 19:16 a 36) Nascimento e crescimento de Maria (3:35 a 41) Títulos de Jesus (cheio do Espírito 2:87; Verbo 3:45; Messias 3:45; Ilustre 3:45; Favorito de Deus 3:45; Recebedor do evangelho 57:27; Palavra de Deus 4:171; Servo de Deus 4:172) • • Milagres de Jesus (3:49; 5:110) Os Apóstolos (3:52 e 53)

Expressões e Figuras Semelhantes Há trechos no Qur’an que são muito próximos de textos bíblicos no conteúdo do ensino ou nas imagens usadas. Listamos alguns para comparação e possível uso: - Existência de um só Deus: “Ele é o único Deus” (Sura 112:1). “E não há outro Deus senão eu...” (Isaías 45:21b). - Medidas justas no comércio: “Pesai, pois com correção e não falsifiqueis medidas” (Sura 55:9). “Balanças justas, pesos justos, efa justa e justo him tereis” (Levítico 19:36). - Não invejar a prosperidade dos ímpios: “Não estendas os olhos para as boas coisas que outorgamos a alguns dos descrentes e não te aflijas por eles” (Sura 15:88). “Não te indignes por causa daquele que prospera em seu caminho, por causa do homem que executa astutos intentos” (Salmos 37:7). - Água abundante: “Se tivessem seguido a senda da retidão, dar-lhes-íamos para beber água abundante” (Sura 72:16). "... mas aquele que beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede. Deveras a água que eu lhe der se fará nele uma fonte de água que jorre para a vida eterna” (João 4:14). - Responsabilidade Individual: “Nenhuma alma carregará o fardo de outra alma. E jamais castigaremos um povo sem antes lhe enviar um mensageiro” (Sura 17:15). “A alma que pecar essa morrerá. O filho não levará a maldade do pai nem o pai a maldade do filho. A justiça do justo ficará sobre ele e a impiedade do ímpio cairá sobre ele”(Ezequiel 18:20). 30

- Deus recebe os contritos: Ele sempre perdoa aos que voltam para Ele contritos”(Sura 17:25). “Perto está o Senhor dos que tem coração quebrantado e salva os contritos de espírito” (Salmos 34:18). “A um coração quebrantado e contrito não desprezarás ó Deus” (Salmos 51:17). - Não presumir sobre o dia de amanhã: “E nunca digais de coisa alguma:" Sim, fa-la-ei amanhã ". Sem acrescentar:" Se Deus permitir”. (Sura 18:23 e 24). “E agora vós dizeis: Hoje ou amanhã iremos a tal cidade, lá passaremos um ano, negociaremos e ganharemos. Ora, não sabeis o que acontecerá amanhã... Em lugar disso, devíeis dizer: “Se o Senhor quiser, viveremos e faremos isto ou aquilo” (Tiago 4:13 a 15). - Valorização dos Filhos: “As riquezas e os filhos são o ornamento da vida terrena” (Sura 18:46). “Como flechas na mão do valente, assim são os filhos da mocidade. Bem aventurado o homem que enche deles sua aljava” (Salmos 127:4 e 5). - A vida humana como a erva: "... a vida terrena assemelha-se à vegetação produzida pela água que enviamos do céu; mas breve ei-la transformada em feno que os ventos espalham” (Sura 18:45). “Quanto ao homem, os seus dias são como a erva, o como a flor do campo, assim floresce, passando por ela o vento, logo se vai e o seu lugar não se conhece mais” (Salmos 103:15 e 16). - Proibições alimentares: “Proibiu-vos apenas os animais mortos, o sangue, a carne de porco e o abate sobre o qual foi invocado outro senão Deus” (Sura 16:115). “Não podereis comer animal morto por si mesmo...” (Levítico 22:8). “O porco, que tem a unha fendida, mas não rumina, será imundo para vós” (Deuteronômio 14:8). “Nenhuma gordura, nem sangue algum comereis” (Levítico 3:17). “Mas escreve-lhes que se abstenham das contaminações dos ídolos, da prostituição, do que é sufocado e do sangue” (Atos 15:20). - Deus vê o coração: “Descobre a traição nos olhos e vê o que escondem os corações” (Sura 40:19). “O Senhor não vê como vê o homem. O homem olha para o que esta diante dos olhos, porém o Senhor olha para o coração” (I Samuel 16:7b). - O Clamor dos condenados: “E os que estarão na Geena dirão aos guardiães: “Rogai ao vosso Senhor que nos alivie o suplicio, por um dia só que seja” (Sura 40:49). “Então clamou: Pai Abraão, tem misericórdia de mim, e manda Lázaro que molhe na água a ponta de seu dedo e me refresque a língua, porque estou atormentado nesta chama” (Lucas 16:24). 31

- Obras inesgotáveis de Deus: “Se todas as árvores fossem cálamos e o mar e mais sete mares fossem tinta, Não esgotariam as palavras de Deus, o Poderoso, o Sábio" (Sura 31:27). “Jesus fez muitas outras coisas. Se cada uma delas fosse escrita, cuido que nem ainda o mundo todo poderia conter os livros que seriam escritos” (João 21:25). - A Glória é só de Deus: “Quem procura a glória, toda a glória pertence a Deus” (Sura 35:10). “Eu sou o Senhor; este é o meu nome! A minha glória a outrem não darei, nem o meu louvor às imagens de escultura” (Isaías 42:8). - O pregador deve prestar contas a Deus: Pediremos contas aos mensageiros e àqueles a quem os mensageiros forem enviados” (Sura 7:6). “Se eu disser ao ímpio: Ó ímpio, certamente morrerás, e tu não falares, para desviar o ímpio do seu caminho, morrerá esse ímpio na sua iniqüidade, mas o seu sangue eu o requererei da tua mão. Mas se advertires o ímpio de seu caminho, para que ele se converta, e ele não se converter, morrerá na sua iniqüidade, mas tu terás livrado a tua alma "(Ezequiel 33:8 e 9)". - O camelo e a agulha: “Aos que desmentem e desprezam nossa revelação, as portas do céu serão fechadas; e não entrarão no Paraíso até que o camelo passe pelo fundo de uma agulha” (Sura 7:40). “Outra vez vos digo que é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino do céu” (Mateus 19:24). - Deus não permite tentação além das forças humanas: “Jamais impomos a alma carga superior às suas forças” (Sura 7:42). “E fiel é Deus, que não vos deixará tentar acima do que podeis resistir antes com a tentação dará também o escape para que a possais suportar” (I Corintios 10:13). - Só Deus sabe a hora do juízo final: “Interrogar-te-ão a respeito da hora; quando chegará?... Responde: Seu conhecimento esta com Deus” (Sura 7:187). “Porém a respeito daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos do céu, nem o Filho, mas unicamente o Pai” (Mateus 24:36). - A Futilidade dos ídolos: “Ídolos que nada criam e são eles mesmos criados, e não podem socorrer ou socorre-se a si mesmos... possuem acaso pé para andar ou mãos para combater, ou olhos para ver ou ouvidos para ouvir?” (Sura 7:191, 192 e 195). “Os ídolos deles são prata e ouro obra das mãos de homens. Têm boca, mas não falam, tem olhos, mas não vem, tem ouvidos, mas não ouvem,

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tem nariz, mas não cheiram, tem mãos, mas não apalpam, tem pés, mas não andam, nem som algum sai da sua garganta” (Salmos 115:5 a 7; ver também Isaías 40:10 a 20). - Os incrédulos não creriam nem se alguém ressuscitasse: “E ainda que fizéssemos descer os anjos até eles, e ainda que os mortos lhes dirigissem a palavra e ainda que reuníssemos todas as coisas ao redor deles, assim mesmo não acreditariam, a menos que Deus quisesse” (Sura 6:111). “Respondeu Abraão: Se não ouvem a Moisés e os profetas, também pouco acreditarão, ainda que algum dos mortos volte à terra” (Lucas 16:31). - Ajudar os necessitados em segredo: “fazer liberalidades em publico é bom. Mas oferecê-lo em segredo é melhor” (Sura 2:271). “Mas quando tu deres esmolas, não saiba a tua esquerda o que faz a tua direita para que tua esmola seja dada secretamente. Então teu Pai que vê em secreto te recompensará” (Mateus 6:3 e 4). - Contra os Juros: “Os que vivem de juros não se levantarão de seus túmulos senão como aquele que o demônio esmaga... Deus permite o comércio e proibi o juro” (Sura 2:275). “Não lhes emprestarás o teu dinheiro com juros, nem lhes darás o teu mantimento por lucro” (Levítico 25:37). - Deus é Fiel: “Deus nunca falta a seus compromissos” (Sura 3:9). “Deus fez isso para que duas coisas imutáveis, nas quais é impossível que Deus minta, tenhamos consolação nós, os que nos refugiamos em lançar mão da esperança proposta” (Hebreus 6:18; ver também I Corintios 1:29, Deuteronômio 7:9 e I Reis 8:56). - Deus recompensa os que sofrem por Ele: “Deus respondeu-lhes: Não desprezei o trabalho de nenhum de vós, homem ou mulher. Vós que precedeis uns dos outros. Aqueles que deixaram suas terras e foram expulsos de suas casas e perseguidos por minha causa e sofreram danos e combateram e foram mortos, absolvê-los-ei dos pecados e os conduzirei a jardins onde correm os rios, uma recompensa de Deus. Deus dá grandes recompensas” (Sura 3:195). “Em verdade vos digo, que ninguém há, que tenha deixado casa, irmãos, ou irmãs, ou pai, ou Mãe, ou mulher, ou filhos, ou campos, por amor de mim e do evangelho que não receba cem vezes tanto já no presente, em casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos, com perseguições e no mundo por vir a vida eterna” (Marcos 10:29 e 30). - Sobre a cobiça: “Não cobiceis o que Deus deu a uns mais do que a outros dentre vós”(Sura 4:32). “Não cobiçarás a casa de teu próximo, Não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu 33

escravo, nem a sua escrava, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo” (Êxodo 20:17). - Orientação a ajudar os fracos: “Sede bondosos para com vossos pais, vossos parentes, os órfãos, os necessitados, os vizinhos, quer aparentados ou não, os companheiros, os viajantes e os escravos” (Sura 4:36). “Praticai o que é reto, ajudai o oprimido, fazei justiça ao órfão, tratai da causa da viúva” (Isaías 1:17; ver também Deuteronômio 14:29, 24:17; 26:12). - Abraão, amigo de Deus: “Deus elegeu Abraão por amigo” (Sura 4:125b). “Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça e foi chamado amigo de Deus” (Tiago 2:23). - Um dia como mil anos: “Mas um dia para teu Senhor é como mil anos em vossos cálculos” (Sura 22:47). “Mas, amados não ignoreis uma coisa: que um dia para o Senhor é como mil anos, e mil anos como um dia” (II Pedro 3:8). - O que Deus quer de sacrifício: “A Deus não chegarão nem sua carne, nem seu sangue. Mas a Ele chegará a vossa devoção”(Sura 22:37). “Obedecer é melhor do que sacrificar, e atender é melhor do que a gordura de carneiros” (I Samuel 15:22b). “Não te comprazes em sacrifícios, senão eu os traria... os sacrifícios para Deus são o espírito quebrantado...” (Salmos 51:16 e 17). Certamente o obreiro cristão que estudar o Qur’an encontrará outros textos a acrescentar a esta lista. Cremos, porém, que os apresentados são suficientes para confirmar que há uma base comum que pode ser utilizada no diálogo cristão-muçulmano. Antes, contudo de nos entusiasmarmos, devemos notar que há muitos outros trechos do Qur’an diametralmente contrários à Bíblia. 3.2 Textos do Qur’an contrários à Bíblia - O conceito de eleição na doutrina muçulmana: No Islão Deus é quem decide o futuro de cada homem. Lemos no Qur’an essa afirmação com freqüência, como por exemplo: “Deus desencaminha e guia quem lhe apraz...” (Sura 74:31); “Se quiséssemos, poríamos todas as almas no caminho da retidão. Mas digo-o em verdade, encherei o inferno de djins e homens” (Sura 32:13). “Ele desencaminha quem lhe apraz e encaminha quem lhe apraz” (Sura 16:93); “Se Deus quisesse, todos os habitantes da terra seriam crentes” (Sura 10:99).

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Vários outros versos seguem essa linha de pensamento que é totalmente contrária ao texto bíblico. Na Bíblia lemos que Deus “... deseja que todos os homens se salvem e venham ao conhecimento da verdade” (I Timóteo 2:5). Deus amou o mundo todo (João 3:16) e fez tudo para que o homem se salvasse. Ele não tem prazer na morte do ímpio : “Tenho eu prazer na morte do ímpio? Diz o Senhor Deus. Não desejo antes que se converta de seus caminhos e viva?” (Ezequiel 33:11) - A Idéia da Expiação pelos pecados de outro: Quando o Qur’an diz que “nenhuma alma carregará o fardo de outra alma” (Sura 17:15; 35:18; 39:7) está também negando um principio chave no Cristianismo segundo o qual Jesus levou nossas cargas. “Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre si... ele foi ferido pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele e pelas suas pisaduras fomos sarados” (Isaías 53:4 e 5). A Bíblia diz que Jesus levou nossas cargas. O Qur’an nega que isso seja possível. - Justificação pela obras: No Qur’an encontra-se a idéia de que as obras salvam. “As boas ações cancelam as más ações” (Sura 11:114) quando a Bíblia diz que “... o homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo, também temos crido em Jesus Cristo para sermos justificados pela fé em Cristo, e não pelas obras da lei, porque pelas obras da lei ninguém será justificado” (Gálatas 2:16). Muhamad dá a entender que há uma escala de pecados mais e menos graves e que apenas os maiores condenam o homem. Lemos que “se evitardes os grandes pecados que vos foram proibidos, absolver-vos-emos dos vossos delitos menores e proporcionar-vos-emos uma entrada condigna do Paraíso” (Sura 4:31). Já na Bíblia lemos que “Não há justo, nem um sequer... todos se extraviaram e juntamente se fizeram inúteis... pois todos pecaram e destituídos estão da Glória de Deus“ (Romanos 3:10, 11 e 23). Logo, “O salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus nosso Senhor” (Romanos 6:23). O Qur’an menospreza o pecado quando diz que “quem cometer delitos, comete-os contra si mesmo” (Sura 4:111) enquanto que o conceito bíblico é que “pequei contra o céu e perante ti”(Lucas 15:21). Muhamad vai mais longe quando diz que quando os justos entrarem nos céus“... ser-lhes-á dito: herdastes este Paraíso pelo que fazíeis” (Sura 7:43) quando a Bíblia afirma que “pela graça sois salvos, por meio da fé e isto não vem de vós, é dom de Deus, não vem das obras para que ninguém se glorie” (Efésios 2:8 e 9).

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- Negação da Divindade de Jesus: Devido ao entendimento limitado que Muhamad tinha da doutrina de Cristo, entendeu que ao chamarem Jesus de filho de Deus os cristãos estavam atribuindo a Deus uma companheira que lhe dera um filho. É o que lemos, por exemplo, na Sura 72:3 e 4 quando diz “E cremos que Ele -exaltado seja- não tomou a si nem companheira nem filho e que só o insensato entre nós profere tais extravagâncias contra Deus”. Muhamad colocou nos lábios de Jesus a negação de sua divindade quando diz que “E quando Deus perguntou: Ó Jesus, filho de Maria, disseste tu aos homens: adorai-me e a minha mãe como dois deuses em vez de Deus? Respondeu: Glorificado seja! Como diria eu o que não me pertence?” (Sura 5:116). Na verdade, se Muhamad tivesse conversado com um Cristão genuinamente versado na Palavra este lhe explicaria que a idéia de Deus tomar uma mulher era tolice completa para os cristãos também. Quando Muhamad diz que Jesus é o Verbo de Deus (Sura 3:45), não sabia que estava citando o texto mais claro sobre a divindade de Jesus: “No principio era o Verbo, e o verbo estava com Deus e o verbo era Deus” (João 1:1). O nascimento virginal, a vida sem pecado, os milagres inúmeros e poderosos, o ensino ímpar, a morte, ressurreição e ascensão de Jesus diante de centenas de testemunhas são provas maiores e incontestáveis da divindade de Cristo. Sua negação no Qur’an é uma dos pontos mais graves das divergências entre muçulmanos e cristãos. - Negação da Crucificação de Jesus: Alguns escritores cristãos gostam de apresentar o verso da Sura 3:55 para dizer que o Qur’an fala da crucificação. Nesse texto se lê “Ó Jesus, matarte-ei e elevar-te-ei a mim, e purificar-te-ei dos que descrêem e colocarei teus seguidores acima dos descrentes até o dia da Ressurreição”. Esse texto porém, não altera aquilo que é dito muito claramente em 4:157 e 158: “E por terem dito: matamos o Messias, Jesus, o filho de Maria, o mensageiro de Deus, quando na verdade não o mataram nem o crucificaram: imaginaram apenas têlo feito. E aqueles que disputam sobre ele estão na dúvida acerca de sua morte, pois não possuem conhecimento certo, mas apenas conjecturas. Certamente não o mataram antes Deus o elevou até Ele”. Estes versos mostram novamente que Muhamad não conhecia Bíblia de primeira mão. A crucificação de Jesus foi atestada por seus seguidores, seus inimigos e pela autoridade romana. Um líder árabe que viveu 600 anos depois não pode certamente conhecer mais sobre esse assunto que aqueles que o presenciaram. Mais grave porém, é que ao negar a crucificação, Muhamad novamente ataca o coração do Cristianismo. Sem a cruz toda a fé cristã cai por terra. Essa negação é uma das maiores objeções à utilização do Qur’an pelos cristãos. As colocações de Muhamad revelavam seu contacto com as heresias nestoriana e monofisita que ele certamente não entendeu.

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Vimos assim, que Muhamad no Qur’an vai contra a essência do evangelho como salvação pela graça, por meio da fé, através do sacrifício propiciatório que Jesus fez na cruz do calvário. Mas há também outros pontos em que ele difere significativamente da Bíblia.

- Doutrina da Ab-rogação: Apesar de atestar da infalibilidade de Deus, e de se apresentar como um profeta perfeito, Muhamad instituiu uma doutrina própria do Islão em que há alteração das leis de Deus. A base desta idéia é que “os versículos que ab-rogamos ou desprezamos neste Livro, Nós os substituímos por outros, iguais ou melhores” (Sura 2:106). Casos já assinalados desta prática são, por exemplo, a mudança da qibla de Jerusalém para Meca ou a alteração de jejum do Yom Kippur para Ramadã. Para alguns, essa doutrina ajuda a explicar todos os textos contraditórios no Qur’an. Outros tentam colocar essa doutrina islâmica na categoria de revelação progressiva da teologia cristã. Mas há muita diferença entre a progressão de uma revelação que levou mais de mil anos a acontecer como no caso da Bíblia e a de um período de apenas 23 anos como é o caso do Qur’an. A verdade é que os versos do Qur’an vão surgindo de acordo com as circunstâncias e muitas vezes para beneficio direto de Muhamad. Suas alterações que chegam a ponto de dizer que Deus “desprezou” algo que dissera antes, vão contra a afirmação bíblica de que “o céu e a terra passarão, mas as minhas palavras jamais passarão” (Mateus 24:35). - Vingança e Violência: O Qur’an não somente sanciona, mas incentiva a vingança: “Se tiverdes que vos vingar, vingai-vos na medida em que fostes agredidos. E se tolerardes com paciência, melhor será para vós” (Sura 16:126). A lei do talião é prescrita: “Ó vós que credes, a pena do talião é prescrita contra quem infligir a morte: homem livre por homem livre, escravo por escravo, mulher por mulher” (Sura 2:178b). O assassinato só é condenado quando for de um muçulmano: “Não pode um crente matar outro crente a não ser por engano”(Sura 4:92). Já no caso de não muçulmanos há incentivo à violência: “E combatei pela causa de Deus os que vos combatem. Matai-os onde quer que os encontreis. E expulsai-os de onde vos expulsarem. O erro é pior que a matança... combatei-os até que não haja mais idolatria e que prevaleça a religião de Deus”(Sura 2:190, 191 e 193). E, no entanto em outra parte se lê: “Não sejais agressivos. Deus não ama os agressores” (Sura 15:87). Certamente o muçulmano mais letrado se justifica dizendo que o Qur’an apenas sanciona a violência nos casos em que o crente foi atacado: “aqueles que forem agredidos pelos idólatras terão 37

permissão para usar armas” (Sura 22:39). Mas a verdade é que o Islão se tornou uma religião de ódio e vingança cujo ciclo não tem fim. Tudo isso é totalmente contrário ao ensino bíblico que diz: “Eu porém vos digo que qualquer que, sem motivo se encolerizar contra seu irmão estará a julgamento e qualquer que disser a seu irmão: Raca, estará sujeito ao Sinédrio. Mas quem disser: Tolo! Estará sujeito ao fogo do inferno...Eu porém vos digo: Não resistais ao homem mau. Se alguém te bater na face direita oferece-lhe a outra. E se alguém quiser demandar contigo e tirar-te a túnica, deixa-lhe também a capa” (Mateus 5:22 e 39). A Palavra é clara sobre a vingança: “Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas daí lugar à ira, pois está escrito: Minha é a vingança; eu retribuirei diz o Senhor" (Romanos 12:19; ver também Deuteronômio 32:25; Levítico 19:18 e Provérbios 20:22). Afinal, segundo Jesus: ”... todos os que lançarem mão da espada à espada morrerão”. Contrariando tudo o que o Qur’an fala sobre o extermínio dos inimigos a Palavra diz: “Amai vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem para que sejais filhos de vosso Pai que esta nos céus” (Mateus 5:44 e 45). - Posição das Mulheres: Muito se tem discutido sobre a difícil vida das mulheres no universo muçulmano. Há quem defenda que Muhamad deu à mulher uma posição melhor que a tradicional em sua cultura. Isso parece ser real se estudarmos a época, mas na verdade Muhamad ficou muito longe do que é revelado na Bíblia. Ele chegou a aceitar que as mulheres entram no paraíso (Sura 9:42). Mas diante de sua descrição do céu fica difícil saber o que as mulheres irão fazer lá. Há uma clara distinção entre homens e mulheres no Qur’an quando se diz que “os homens tem autoridade sobre as mulheres pelo que Deus os fez superiores a elas...” (Sura 4:34). Isto é reforçado na autorização do homem ter até quatro esposas (Sura 4:3 e 4) e chegando a ponto de sancionar a prostituição das escravas (Sura 24:33). Na Bíblia a mulher também deve ser submissa ao homem (Efésios 5:22), mas nunca por uma questão de superioridade masculina já que fica claro que “desta forma não há judeu nem grego, não há servo nem livre; não há macho nem fêmea, pois todos vós sois um em Cristo” (Gálatas 3:28). Na Bíblia o casamento preconizado por Deus é monogâmico (Mateus 19:4 a 6) e a exortação distinta e repetida é para que o marido ame sua mulher (Efésios 5:25 e 28; Colossenses 3:19). - Racismo e Preconceito: O Islão quando está em minoria e tenta ganhar adeptos no Ocidente, se apresenta como uma religião de tolerância para com todos, benevolência para com os pobres e oprimidos e que não faz distinção de pessoas. No Qur’an, porém é diferente o que lemos. O mundo é claramente dividido entre muçulmanos e não-muçulmanos e os árabes são a melhor raça 38

do mundo: “Sois a melhor nação que já surgiu entre os homens” (Sura 3:110). Muhamad se mostra mesmo muito preconceituoso contra os deficientes físicos quando diz que “a pior categoria de seres aos olhos de Deus, é a dos surdos-mudos que não raciocinam. Se Deus soubesse de algum bem neles, tê-los-ia feito capazes de ouvir; mas se o tivesse feito, teriam virado as costas e se recusado a ouvir” (Sura 8:22 e 23). Trata-se de grande contraste com a afirmação bíblica de que “na verdade reconheço que Deus não faz acepção de pessoas” (Atos 10:34). Muhamad parece se ater à posição tradicional no médio oriente segundo a qual qualquer problema físico é sinal de pecado. Jesus discordava dessa posição (João 9: 3) e quando se deparou com surdos-mudos não os amaldiçoou mas os curou (Marcos 7:32 a 37 por ex.). - Divórcio: Outro grande contraste entre Qur’an e a Bíblia está na visão do divórcio. No Qur’an trata-se de algo fácil e mesmo banal (Sura 2:227 a 241). O próprio Muhamad como já foi citado, praticamente provocou o divórcio de um filho adotivo para poder tomar sua esposa. Em oposição a isso a Bíblia diz que Deus odeia o divórcio (Malaquias 2: 16) e o principio bíblico estabelecido por Jesus é que o casamento deve ser indissolúvel a não ser que ocorra adultério (Mateus 19:1 a 12). - Textos sobre os Cristãos: Muitos outros textos opostos à Bíblia podem ser encontrados no Qur’an. Estes, porém mostram pontos chaves e inultrapassáveis. Vejamos ainda o que o Qur’an fala sobre os Cristãos. Alguns se entusiasmam com certos versos positivos em relação ao “povo do livro”. Realmente há muitos versos em que Muhamad coloca os cristãos nos céus: “os que crêem e os que abraçam o judaísmo e os cristãos e os sabeus, todos os que crêem em Deus e no ultimo dia e praticam o bem obterão sua recompensa de Deus e nada terão a recear e não se entristecerão” (Sura 2:62, ver também 5:69). Nesse tempo Muhamad se via como continuador dos profetas antigos e afirmava: “Dizei: cremos em Deus e no que nos foi revelado e no que foi revelado a Abraão, a Ismael, a Isaac, a Jacó e às tribos, e no que foi outorgado a Moisés e a Jesus e aos profetas pelos seus sonhos. Não fazemos distinções entre eles e a Ele nos submetemos” (Sura 2:136). Os muçulmanos são instruídos para “não disputeis com os adeptos do livro senão com moderação, salvo os que prevaricam. E dizei:" Cremos no que nos foi revelado e no que vos foi revelado. Nosso Deus e vosso Deus são o mesmo. A Ele nos submetemos "(Sura 29:46). E Muhamad vai mesmo a ponto de sugerir que" se estiverdes em dúvida sobre o que te revelamos, consultai os que tem lido o Livro desde antes de ti "(Sura 10:94) já que" encontrarás entre os que dizem: ”Somos nazarenos” os mais próximos em afeição aos crentes "(Sura 5:82). Provavelmente por tudo isso que lemos, Muhamad autorizava o casamento com mulheres cristãs:" São-vos licitas 39

as mulheres honradas dentre os crentes e dentre os adeptos do livro com a condição que as doteis e vos caseis com elas e não vivais em sua companhia em fornicação ou como concubinas escondidas” (Sura 5:5). Antes, porém que nos deixemos levar pela alegria que estes versos podem trazer é preciso saber que em textos posteriores Muhamad nega quase tudo que disse antes. Na verdade ele vem a afirmar a separação entre cristãos e muçulmanos no juízo final quando escreve que “com certeza, Deus separará, no dia da ressurreição, os que crêem dos judeus e sabeus e nazarenos e magos e idólatras” (Sura 22:17). Ou seja, os cristãos já estão colocados ao lado dos idólatras. “Para Deus, a religião é o Islã, a submissão à sua vontade” (Sura 3:19) e logo “os cristãos que dizem:" O Messias é o filho de Deus "erram como erravam os descrentes antes deles. Que Deus os combata” (Sura 9:30). Os Cristãos são colocados entre os descrentes quando se lê que “descrêem os que dizem que Deus é o messias filho de Maria” (Sura 5:17). A associação prescrita com os cristãos é ab-rogada: “Ó vós que credes não tomeis por aliados os judeus e os cristãos” (Sura 5:51). Resta o consolo que Muhamad parecia entender que havia vários tipos de cristãos quando diz que: “há entre eles homens justos. Mas muitos são malfeitores” (Sura 5:66). - Muhamad falou, Jesus disse Ainda neste ponto de contraste entre Qur’an e Bíblia notaremos algumas afirmações de Muhamad e Jesus que podem ser úteis quando se está lidando com muçulmanos sedentos da verdade cujas mentes começaram a ser trabalhadas pelo Espírito Santo. Muhamad falou: “Quem sou eu senão um mortal, um mensageiro?” (Sura 17:93) Jesus disse: “Em verdade em verdade vos digo que antes que Abraão nascesse eu sou” (João 8:58). “No principio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. Ele estava no principio com Deus. Todas as coisas foram feitas por meio dele e sem ele nada do que foi feito se fez” (João 1: 1 a 3). Muhamad falou: “Tudo quanto te é dito, já foi dito aos mensageiros que te precederam” (Sura 41:43). “Não faço senão repetir o que me é inspirado” (Sura 10:15). Jesus disse: “Ouvistes que foi dito aos antigos... eu porém vos digo...” (Mateus 5:21,22,27,28,33,34,38,39,43,44). “Jamais alguém falou como este homem” (João 7:46). Muhamad falou: “O conhecimento esta exclusivamente com Deus. Não sou senão um admoestador fidedigno” (Sura 67:26).

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Jesus disse: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida, ninguém vem ao Pai senão por mim” (João 14:6). Muhamad falou: “Não vos digo que disponho dos tesouros dos céus. Não vos digo que conheço o invisível. Não vos digo que sou um anjo” (Sura 11:31). “Não vos digo que os tesouros de Deus estão comigo ou que conheço o invisível. Não vos digo que sou um anjo. Nada mais faço de que seguir o que me é revelado” (Sura 6:50). Jesus disse: “mas aquele que beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede. Deveras a água que eu lhe der se fará nele uma fonte de água que jorre para a vida eterna” (João 4:14). “Eu sou o pão da vida. Aquele que vem a mim não terá fome e quem crê em mim jamais terá sede” (João 6:35). “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim ainda que esteja morto viverá e todo aquele que vive e crê em mim nunca morrerá” (João 11: 25 e 26). “Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso” (Lucas 23:43). “É-me dado todo o poder no céu e na terra” (Mateus 28:18). De Muhamad foi dito: “Um sinal de que Deus te perdoou os pecados passados e futuros...” (Sura 48:2). “Implora o perdão dos teus pecados e conta louvores a teu Senhor à tarde e na aurora” (Sura 40:55). Jesus disse: “Pode algum de vós acusar-me de pecado?” (João 8:46). “... se aproxima o príncipe deste mundo, ele nada tem em mim...” (João 14:30). “Ele não cometeu pecado nem na sua boca se achou engano” (I Pedro 2:22). Muhamad falou: “não sou um inovador entre os mensageiros. E não sei o que será feito de mim ou de vós” (Sura 46:9). Jesus disse: “Ainda que eu testifique de mim mesmo, o meu testemunho é válido, pois sei de onde vim e para onde vou” (João 8:14). Vós sois de baixo; eu sou de cima. Vós sois deste mundo, eu não sou deste mundo” (João 8:23). Em verdade em verdade vos digo que quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna, e não entrará em condenação mas passou da morte para a vida” (João 5:24). Muhamad falou: “Dizem:" Porque o seu Senhor não faz descer sobre ele algum milagre?"Responde:" O invisível pertence a Deus. Aguardai pois. Aguardarei também (Sura 10:20)". De Jesus foi dito: “Sendo já tarde, tendo posto o sol, trouxeram-lhe todos os que se achavam enfermos e endemoninhados. Toda a cidade se juntou à porta e Jesus curou a muitos doentes de diversas enfermidades e expulsou muitos demônios...” (Marcos 1:32 a 34). “Eu tenho 41

maior testemunho que o de João. Pois as próprias obras que o Pai me deu para realizar, essas que eu faço, testificam de que o Pai me enviou” (João 5:36).

Muhamad falou: “O castigo dos que fazem a guerra a Deus e a seu mensageiro e semeiam a corrupção na terra é serem mortos ou crucificados ou terem as mãos e os pés decepados, alternadamente...” (Sura 5:33). “’Ó Profeta, combate os descrentes e os hipócritas e sê severo para com eles” (Sura 66:9). Jesus disse: “Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida pelas ovelhas” (João 10:11). “Ninguém a tira de mim, mas eu espontaneamente a dou” (João 10:18). “Ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém a própria vida pelos amigos” (João 15:11). “Mas Deus prova o seu amor para conosco em que Cristo morreu por nós sendo nós ainda pecadores” (Romanos 5:8). Muhamad falou: “Se o Clemente tivesse um filho, seria eu o primeiro a adorá-lo” (Sura 43:81). Jesus disse: “Não me conheceis, nem a me Pai. Se vós me conhecêsseis também conheceríeis a meu Pai” (João 8:19). “O Pai a ninguém julga, mas deu ao Filho todo o juízo, para que todos honrem o Filho como honram o Pai. Quem não honra o Filho não honra o Pai que o enviou... O Pai me enviou, Ele mesmo testificou de mim. Vós nunca ouvistes a sua voz, nem vistes a sua forma, nem a sua palavra permanece em vós, pois não credes naquele que Ele enviou” (João 5:22, 23,37 e 38).

4. Argumentos para a Superioridade do Qur’an
(Algumas respostas Cristãs) Para os muçulmanos o Qur’an é o livro de Deus. É a revelação suprema, superior e final. Por isso não sentem necessidade de conhecer os outros livros sagrados apesar de a Bíblia ser citada freqüentemente no próprio Qur’an. Vejamos em lista alguns dos argumentos mais usados pelo Islão e qual a resposta que o Cristão pode dar. 4.1 Estilo Único A maioria dos muçulmanos entende que Muhamad era analfabeto. Sendo assim, o fato de ter trazido uma revelação como o Qur’an é só por si um milagre para eles. Mais ainda, é um milagre maior quando considerado o estilo do livro. Para os muçulmanos o Qur’an tem um estilo único, 42

inultrapassável. Eles o consideram a maior obra da literatura mundial com seu ritmo quase hipnótico. A declamação do Qur’an teve desde os tempos de Muhamad um efeito avassalador. Muitas conversões são descritas de pessoas que aceitaram o Islão ao ouvi-lo. O próprio Muhamad desafiou seus inimigos a providenciarem uma única sura igual em valor ao Qur’an: “Trazei uma sura igual às dele, pedindo ajuda a quem quiserdes, exceto a Deus, se sois sinceros” (Sura 10:38). Há outras afirmações nesse sentido como: “Ainda que os homens e os djinns se reúnam para produzir um Alcorão igual a este, jamais o conseguirão, nem mesmo ajudando-se uns aos outros” (Sura 17:88). Para Muhamad apenas Deus poderia produzir o Qur’an: “É uma blasfêmia atribuir esta Alcorão senão a Deus” (Sura 10:37). Este argumento é todo ele subjetivo. A avaliação de uma obra literária varia de época para época e de língua para língua. Podemos admitir que em árabe, o texto do Qur’an é rico e belo, mas para quem não entende essa língua isso é de pouco valor. Outros autores criaram obras primas da literatura mundial como Luís de Camões e os Lusíadas na língua portuguesa, Miguel Cervantes e seu D. Quixote em espanhol ou William Shakespeare com suas peças teatrais em inglês. Qualquer um destes, e vários outros, escreveram textos riquíssimos, mas nem por isso se apresentaram como profetas de Deus. Numa leitura desapaixonada, o Qur’an nos aparece muitas vezes confuso, sem cronologia definida e com frases e idéias incompletas. Não duvidamos de seu valor para o ouvinte árabe, mas no mundo ocidental seu valor é diferente. Muhamad criou uma obra de literatura árabe valiosa, mas seu estilo não esta longe do que era comum entre os poetas da época, e os estudiosos encontram outros autores na língua árabe que escreveram tão bem quanto Muhamad. 4.2 Analfabetismo de Muhamad Este argumento vem unido ao anterior. A forma de pensar muçulmana é simples. Tendo em conta que o próprio Qur’an apresenta Muhamad como analfabeto (Sura 7:157 por ex.), não seria possível ele produzir tal obra literária se não fosse por intervenção direta de Deus. A verdade é que não existe consenso entre os estudiosos sobre o analfabetismo de Muhamad. Há vários sinais que dão a entender que ele sabia ler e escrever. A palavra traduzida em português por “analfabeto” pode ter outros significados como, por exemplo, “iletrado” no sentido de sem estudos formais. Em certos momentos da história de Muhamad ele aparece escrevendo como na assinatura do tratado de Hudaibah, e na hora de sua morte quando pediu material para escrever o nome de quem o sucederia, mas morreu antes de poder fazê-lo. É difícil que um mercador como Muhamad responsável por caravanas tão grandes que faziam longas viagens a terras diversas não soubesse ler.

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Como ele manteria o controle das mercadorias? Algum conhecimento de letras e números ele deveria ter. Mas mesmo que aceitemos seu analfabetismo, não é obrigatório crer em intervenção divina. Numa cultura de tradição oral como era o caso, não era incomum poetas analfabetos que decoravam textos enormes. Até hoje existem cantores repentistas que sendo iletrados podem produzir grandes obras de literatura popular. Muhamad era um individuo de grande capacidade. Além disso, suas declamações eram registradas por secretários e discípulos que podem ter trabalhado o texto. 4.3 Preservação do Qur’an Os muçulmanos apresentam a preservação do Qur’an como outra prova de sua origem divina. Segundo eles, o Qur’an foi preservado de toda corrupção e entre os milhões de muçulmanos no mundo apesar da divergência das seitas, existe apenas um livro igual para todos. Este argumento é uma afirmação forçada por parte do Islão. Desde o inicio da coleção de textos para a formação do Qur’an houve divergência quanto ao que devia e não devia ser guardado. Mesmo depois de Uthman definir o texto considerado universal, vimos que Massud, por exemplo, continuou mantendo um codex diferente. Até hoje há muçulmanos sunitas que aceitam o codex de Massud em detrimento do de Uthman. Há entre eles diferenças além de questões de dialeto e pronuncia. Os estudiosos encontram perto de 150 variações entre os dois códices só na Sura 2. É do conhecimento geral que os Xiitas até hoje acusam Uthman de ter retirado vários versos referentes à família de Muhamad de seu codex. Há também inúmeras hadiths que falam de versos perdidos como, por exemplo, os que Aisha guardava debaixo de sua cama e que foram comidos por ratos. Há ainda a história conhecida de Abdallah ibn Said, irmão adotivo de Uthman. Ele fora para Medina em 622 e se tornou um dos copistas de Muhamad. Certa vez, para experimentá-lo, trocou algumas expressões num texto. Ao lê-lo para Muhamad viu que este não notara a modificação e perdeu sua fé no Islão voltando para Meca. Este episódio traz muitas dúvidas sobre a preservação do texto original. Logo, verificamos que a afirmação da preservação perfeita do Qur’an só serve como argumento para aquele que desconhece a história verdadeira da compilação do texto. 4.4 Profecias O Islão aceita Muhamad como o ultimo e maior dos profetas, logo, é de se esperar que ele tenha profetizado. Os muçulmanos alegam que a profecia da Sura 30:2 a 4 é prova da origem divina do Qur’an. Nesse texto se lê: “Os bizantinos foram derrotados numa terra próxima. Depois de sua derrota, porém, vencerão dentro de poucos anos...” Esta é a única profecia do Qur’an e isso só por si deveria levantar dúvidas e não argumentos. Como pode ser que um profeta durante 23 anos tenha feito apenas esta previsão? Esta profecia não 44

é nem incomum e nem inesperada. Os bizantinos e persas lutavam há décadas com ataques e contrataques contínuos. Era perfeitamente previsível que após a derrota de Jerusalém em 614 os bizantinos revidassem e o fizeram em 625. Essa previsão seria fácil para qualquer analista da época. Além disso a profecia é inespecifica pois não determina local e nem tempo certo. A definição de pouco tempo dificilmente se enquadra num período de mais de 10 anos. 4.5 Unidade Para os muçulmanos a perfeita unidade do Qur’an é prova cabal de sua origem divina. Segundo eles, o Qur’an é totalmente consistente do inicio ao fim e isso o torna divino. A consistência de um texto outorgado por um único autor num período de cerca de 23 anos não deveria ser algo tão extraordinário. Diferente é falarmos da consistência da Bíblia que teve cerca de 40 autores ao longo de mais de mil anos. Mesmo assim, tal consistência no Qur’an esta longe de ser clara. Primeiro, devemos notar a doutrina da ab-rogação já citada. Apesar de lermos em 10:64 que “imutáveis são as palavras de Deus” e em 35:43 que “o caminho de Deus nunca muda”, lemos em 2:106 que “os versículos que ab-rogamos ou desprezamos neste Livro, nós os substituímos por outros, iguais ou melhores. Não sabeis que Deus tem poder sobre tudo?” Há aqui contradição nítida para favorecer as alterações nas orientações de Muhamad. Segundo temos várias ocasiões em que os versos no Qur’an se contradizem. Vejamos alguns casos: - Lemos que “não há compulsão na religião” (Sura 2:256) o que indica que não se pode forçar ninguém a crer. Mas em 9:5 se lê: “... matai os idolatras onde quer que os encontreis, e capturai-os e cercai-os e usai de emboscadas contra eles. Se se arrependerem e recitarem a oração e pagarem o tributo, então libertai-os”. - Em 18:29 diz-se que “a verdade emana de vosso Senhor. Quem quiser que creia e quem quiser que renegue”. Mas em 17:13 lê-se que “no pescoço de cada homem, penduramos seu pássaro de augúrio (destino)” e em 10:100 diz-se que “nenhuma alma crerá sem a permissão de Deus” e em 16:93 “Ele desencaminha quem lhe apraz e encaminha quem lhe apraz”. - Em 4:3 se permite a poligamia com a ressalva: “contudo, se não puderdes manter igualdade entre elas, então desposai só uma”. Mas o próprio profeta afirma em 4:129 que : “jamais podereis tratar da mesma forma todas vossas mulheres, embora vos esforceis”.

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Encontramos outras contradições quando notamos os textos sobre Jesus e os Cristãos que em certos versos são exaltados e em outros combatidos. Ora são amigos fiéis a serem procurados, para logo se tornarem os maiores inimigos. Fica portanto evidente que a famosa unidade do Qur’an esta longe de ser algo que suporta uma verificação cuidadosa do texto. 4.6 Vidas transformadas Os muçulmanos alegam que milhões de pessoas tiveram suas vidas transformadas pela leitura do Qur’an e isso testificaria de sua origem divina. Para tanto, citam os números de convertidos a nível mundial. Tal alegação é usada também para a Bíblia e com maior número de convertidos no mundo. Mas tal argumento é incapaz de se manter porque muitos são os livros que tem mudado vidas. Qualquer religião defenderá que seu livro sagrado mudou vidas. O mesmo se poderá dizer de livros políticos como as obras de Karl Marx ou até de manuais de auto-ajuda ou de dieta que ajudam pessoas a mudar o rumo de suas vidas. Quanto às acusações comuns de que o texto bíblico foi alterado, devemos estar preparados para responder com os argumentos acerca da formação e preservação do cânon bíblico. É útil também lembrar que o próprio Muhamad nunca questionou em vida a validade da Bíblia, mas orientou seus seguidores a procurar os cristãos como se lê em 10:94: “Se estiverdes em dúvida sobre o que te revelamos, consulta os que têm o Livro antes de ti. Teu Senhor te revelou a verdade. Não sejas como um dos que duvidam”. Muhamad não ordenaria a busca de um texto adulterado, logo aceitava a Biblia de seu tempo. De lá para cá o texto bíblico não foi alterado como não foi alterado anteriormente e mantém-se fiel à revelação de Deus.

CONCLUSÃO Como Classificar Muhamad?
Depois de tudo o que foi dito resta ainda a pergunta clássica: O que pensamos sobre Muhamad? Como podemos classificá-lo? O obreiro cristão precisa ter presente em seu espírito uma visão clara de quem foi Muhamad. Primeiro para si mesmo e sua orientação, segundo porque é comum que um amigo muçulmano lhe pergunte. Como devemos responder? Talvez a maior dificuldade dos cristãos em geral no tocante a Muhamad seja o fato de quererem naturalmente compará-lo a Jesus. Mas, tal comparação não pode ser feita. As alegações de ambos são totalmente diversas. Jesus no Cristianismo é a palavra de Deus feita carne, a própria revelação final de Deus. Ele é o Messias, o salvador prometido, aquele que morreu pelos pecados da humanidade. No Islão Muhamad é apenas um profeta, um anunciador. Ele é considerado o ultimo profeta, o selo dos profetas e um muçulmano exemplar, mas, não tem qualquer papel salvador 46

apesar de algumas hadiths lhe darem um papel intercessor. No Islã a palavra de Deus é o Qur’an. Logo, qualquer comparação terá que ser entre Jesus e o Qur’an. Comparações entre Jesus e Muhamad serão sempre desastrosas e levantarão animosidade entre os muçulmanos. Muhamad apresentava-se a si mesmo como um profeta, no seguimento dos profetas do antigo testamento. Podemos então reconhecê-lo como um profeta no sentido bíblico? Esta é uma questão importante. Os muçulmanos alegam inclusive que a Bíblia profetizou a vinda de Muhamad. Os textos mais usados para essa alegação são os de Deuteronômio 18:15 a 18 e João 14:16. As afirmações muçulmanas sobre esses textos não suportam uma exegese cuidadosa. Em Deuteronômio, Moisés se refere claramente a um judeu e Muhamad não era judeu. Em João, Jesus se refere a uma vinda que aconteceria prontamente e era eminentemente espiritual dando toda comprovação da divindade e salvação de Jesus. Muhamad esta longe de se encaixar em tal descrição. Ele veio mais de 600 anos depois de Cristo e não prontamente. Ele era um homem e não um espírito, e ele negou a divindade de Jesus em vez de confirmá-la. O Verso 61:6 do Qur’an que faz Jesus prever a vinda de Muhamad é totalmente contrário a qualquer coisa que encontramos no evangelho e não pode ser considerado pelos cristãos. Temos então que avaliar a Palavra e verificar se a pretensão de Muhamad de ser um profeta bíblico passa pelo teste das escrituras. Os profetas de Deus tinham algumas características especificas. As mais importantes seriam: 1) Consciência e convicção de chamada Divina (Êxodo 3, I Samuel 3, Isaias 6, Jeremias 1, Amós 7:15). Os profetas não falavam de sua vontade. Falavam o que Deus mandava. O oficio não era herdado ou aprendido, mas representava um chamado de Deus. 2) Função exortativa e de chamado ao arrependimento. Os profetas eram reformadores morais, sociais e religiosos. 3) Plena conformidade com a revelação que já tinha sido dada anteriormente. (Deuteronômio 3:1 a 5). 4) Confirmação da sua chamada e ministério por meio de sinais e milagres indisputáveis (Êxodo 4:8, Isaias 7:11). 5) Confirmação por meio do cumprimento das profecias feitas (Deuteronômio 18:21 e 22). 6) Anúncio que apontava para o plano de salvação de Deus que se cumpriria plenamente em Jesus. Vejamos um por um destes pontos em relação a Muhamad.

1) Muhamad não teve plena convicção de sua chamada por Deus no episódio do monte Hira no mês de ramadã de 610 após um período de meditação e oração. Sua impressão inicial era de que 47

poderia ter sido possuído por um demônio. Essa dúvida nunca acontece na Bíblia com um profeta de Deus. Quando Deus se revela não há dúvida de quem falou. Mais tarde Muhamad terá convicção de falar por Deus e o repetirá exaustivamente no Qur’an, mas não foi assim desde o principio. 2) Muhamad se apresentava como um nabi (anunciador). Ele era um exortador e freqüentemente apontava os erros de seu povo acusando-os de buscar o favor dos ídolos vãos que nada podiam fazer. Como já foi referido, nesse ponto, ele se aproxima dos profetas bíblicos. Ele foi um reformador moral, social e religioso no contexto árabe do século VII. 3) No tocante à conformidade com a revelação prévia, já notamos que Muhamad vai contra muito do que é revelado na Bíblia. Vários de seus conceitos são anti-biblicos, suas bases estavam mais nas tradições, nos livros apócrifos e nas lendas, e ele desmente doutrinas básicas da revelação anterior. 4) O próprio Muhamad reconheceu inúmeras vezes que não fazia milagres. Seu único milagre seria o Qur’an. Séculos após a sua morte, muitas tradições surgiram contando de milagres seus, mas que vão contra o próprio Qur’an. Muhamad reconheceu que a realização de sinais era uma confirmação da chamada profética, mas ele mesmo não foi capaz de reproduzir sequer um. 5) O Qur’an não contém profecias que atestem a alegação de Muhamad de ser profeta. Já vimos que a única profecia citada na Sura 30 era uma previsão pouco clara que erra na falta de especificidade quanto a tempo, local ou importância. Uma única profecia tão fraca certamente não faz um profeta. 6) Por fim temos que reconhecer que em momento algum a mensagem de Muhamad se coaduna com o plano de salvação dado por Deus nas escrituras. A palavra é clara ao apresentar Jesus como a revelação final de Deus, no entanto, Muhamad diz ser ele o portador da mensagem final. Ele nega assim o “Está Consumado” e se coloca fora de qualquer possibilidade de ser considerado um profeta bíblico. Acresce dizer que o novo testamento afirma o dom da profecia na igreja de Jesus (I Corintios 12:10) e muitos são os exemplos disso no livro de Atos (11:27; 21:10 e 11). Logo, Muhamad não pode biblicamente se apresentar como o último dos profetas. Não encontramos na vida de Muhamad sinais e milagres como os de Elias ou Eliseu, a vidência imediata e minuciosa de Samuel, o ensino completo e sistemático de Moisés ou a visão futura detalhada da história mundial 48

de Daniel. Para o Cristão que conhece as escrituras sagradas Muhamad não pode ser considerado um profeta. Voltamos à questão inicial: como classificar Muhamad? Senão o podemos entender à luz do Messias Jesus, e ele não é um profeta no sentido bíblico então o que foi? Creio que devemos ver Muhamad à luz de seu contexto e época. Precisamos entender que a Arábia do século VII era mais parecida com os tempos de Josué ou Davi do que com a Palestina do primeiro século. Muhamad foi um líder político-militar-religioso árabe vivendo num tempo em que a espada ditava as regras. Seus ataques a caravanas comerciais e o massacre dos judeus de Medina entram mais em perspectiva quando pensamos no bando de Jefté ou nos companheiros de Davi na cova de Adulão atacando os vizinhos filisteus e amalequitas. Sua poligamia é mais compreensível quando olhamos para Gideão ou Salomão. É costumeiro se criticar o surgimento das revelações no Qur’an de acordo com os interesses de Muhamad. Não desejamos negá-lo, mas apenas lembrar que ele fazia algo que é comum no contexto judaico-cristão. Avaliava as ocorrências e circunstâncias como sinais e respostas de Deus e se guiava desse modo. Seus atos denotam muito mais um homem que reagia às situações do cotidiano do que um estratega com um planejamento definido. Tudo leva a crer que Muhamad não se via como o iniciador de uma religião mundial. Ele foi um líder árabe para os árabes. Assim viveu e assim morreu. Não podia prever o crescimento que sua religião teria. Foi um orador apaixonado, um líder carismático com capacidade extraordinária de ler as situações e correr os riscos necessários. Soube ser radical não deixando de ceder onde era possível. Uniu seu povo, deu-lhes um livro sagrado e estabeleceu a religião do Deus único como a nova base para a comunidade. Por isso pode ser admirado.

ANEXO:

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Os Nomes de Deus
No Qur'an aparecem muitos atributos de Deus. Baseados nele o Islão tem 99 nomes para Deus. A seguir temos a lista segundo Muhammad al-Madani, citado por Geisler e Saleeb (1994:22 a 25) 1. Allah, o nome que é acima de todo nome 2. al-Awwal , o Primeiro, que existia antes do principio (57:3) 3. al-Akhir, o Último, que durará depois que tudo terminar (57:3) 4. al-Badi, o Inventor, que inventou a arte da Criação (2:117) 5. al-Bari, o Fazedor, de cujas mãos todos saímos (59:24) 6. al- Barr, o Beneficente, cuja liberalidade aparece em cada trabalho (58:28) 7. al-Basir, o Observador, que vê e ouve tudo (57:3) 8. al-Basit, o Espalhador, que estende sua misericórdia a quem deseja (13:26) 9. al-Battin. O Interior, que é imanente dentro de todas as coisas (57:3) 10. al-Baith, o Levantador, que levantará uma testemunha em cada comunidade (6:89,91) 11. al-Baqi, o Perseverante, que é melhor e mais perseverante (20:73,75) 12. at-Tawwab, o Abrandador, que se abrandou para com Adão e seus descendentes (2:37) 13. al-Jabbar, o Poderoso, cujo poder e força são absolutos (59:23) 14. al-Jalil, o Majestoso, poderoso e majestoso é Ele 15. al-Jami, o Ajuntador, que junta todos os homens para o dia designado (3:9) 16. al-Hasib, o Responsável, que é suficiente como prestador de contas (4:6-7) 17. al-Hafiz, O Guardião, que fica de guarda sobre tudo (11:57) 18. al-Haqq, a verdade (20:114) 19. al Hakem, o Juiz, que julga seus servos (40:48,51) 20. al-Hakim, o Sábio, que é conhecedor e sábio (6:18) 21. al-Halim, o Bondoso, que é perdoador e bom (2:225) 22. al-Hamid, o Digno de Louvor, a quem se deve todo louvor (2:267,270) 23. al-Hayy, o Vivo, que é fonte de toda vida (20:111) 24. al-Kabir, o Bem Informado, que é sábio e bem informado (6:18) 25. al-Khafid, o Humilhador, que humilha uns e exalta outros (56:3) 26. al-Khaliq, o Criador, aquele que criou todas as coisas que são (13:16-17) 27. Dhul-Jalal-wal-Ikram, Senhor de majestade e honra (55:27) 28. ar-Rauf, O Gentil, que é compassivo para com as pessoas (2:143) 29. ar-Rahman, o Misericordioso, o mais misericordioso de todos (1:3; 12:64) 30. ar-Rahim, o Compassivo, que é gentil e cheio de compaixão (1:3; 2:143) 50

31. ar-Razzaq, O Providenciador, que providencia mas não precisa de nada (51:57-58) 32. ar-Rashid, o Guia, que guia os crentes no caminho certo (11:87,89) 33. ar-Rafi, o Exaltador, que exalta uns e humilha outros (6:83) 34. ar-Raqib, O Vigilante, que vigia sua criação (5:117) 35. as-Salam, o Pacificador, cujo nome é Paz (59:23) 36. as-Sami, o Ouvinte, que vê e ouve tudo (17:1) 37. ash-Shakur, o Agradecido, que graciosamente aceita o serviço de seu povo (64:17) 38. ash-Shahid, a Testemunha, que testemunha todas as coisas 39. as-Sabur, aquele que Suporta, que tem grande paciência para com seu povo 40. as-Samad, o Eterno, que não gerou e não foi gerado (112:2) 41. ad-Darr, o que Aflige, que manda aflições como também bênçãos (48:11) 42. az-Zahir, O que esta fora, esta fora como dentro (47:3) 43. al-Adl, o Justo, cuja palavra é perfeita em veracidade e justiça (6:115) 44. al-Aziz, O Sublime, poderoso em sua sublime majestade (59:23) 45. al-Azim, O Forte, aquele que é o mais alto em poder (2:255-256) 46. al-Afuw, O que perdoa, sempre pronto a perdoar (4:99-100) 47. al-Alim, o Conhecedor, que esta consciente de tudo (2:29) 48. al-Ali, o Exaltado, que é grande em poder (2:255) 49. al-Ghafur, O perdoador, sempre pronto a pedoar (2:235) 50. al-Ghaffar, o que esquece, pronto a perdoar e esquecer (71:10) 51. al-Ghani, o Rico, possuidor de todas as coisas (2:267) 52. al-Fattah, o Abridor, que limpa e abre o caminho (34:26) 53. al-Qabid, aquele que pega, segura firme e abre mão também (2:245-246) 54. al-Qadir, o Capaz, que tem o poder para fazer o que quer (17:99,101) 55. al-Quddus, O mais Santo, a quem, todos atribuem santidade (62:1) 56. al-Qahhar, o Vitorioso, que vence todos (13:16-17) 57. al-Qawi, o Forte, sublime em poder e força (13:19) 58. al-Qayyum, O Auto-Suficiente, eternamente existente e auto-dependente (3:2) 59. al-Kabir, O Grande, que é alto e grandioso (22:62) 60. al-Karim, o Generoso, que é rico e dadivoso (27:40) 61. al Latif, o Gracioso, cuja graça se estende a todos os seus servos (42:19) 62. al-Mutaakhkhir, o Defensor, o que atribui julgamento (14:42-43) 63. al-Mumin, o Fiel, que dá segurança a todos (59:23) 64. al-Mutaali, o que se auto exalta, que se colocou acima de todos (13:9-10) 65. al-Mutakabbir, o Orgulhoso, que tem orgulho em suas obras (59:23) 51

66. al-Matin, o Firme, firme na posse do seu poder (51;58) 67. al-Mubdi, o Originador, que origina e restaura (85:13) 68. al-Mujib, o que Responde, que responde ao ser chamado (11:61) 69. al-Majid, o Glorioso, digno de louvor e glória (11:73,76) 70. al-Mushi, o Contador, que contou e ordenou todas as coisas (19:94) 71. al-Muhyi, o Rápido, que rapidamente dá vida aos mortos (30:50) 72. al-Mudhill, o Derrubador, que eleva e derruba quem deseja (3:26 73. al-Muzil, o Separador, que separará os homens dos falsos deuses que eles adoram (10:28-29) 74. al-Musawwir, o Moldador, que molda as suas criaturas como quer (59:24) 75. al-Muid, o Restaurador, que origina e restaura (85:13) 76. al-Muizz, aquele que Honra, honra e derruba quem ele quer (3:26) 77. al-Mutti, o Doador, de cujas mãos vem todas as coisas boas (20:50) 78. al-Mughni, o Enriquecedor, que enriquece os homens (9:74-75) 79. al-Muqit, o que esta bem guarnecido, tem poder sobre todas as coisas (4:85) 80. al-Muqtadir, o que Prevalece, tem os maus sob seu poder (54:42) 81. al-Muqaddim, o que se antecipa, que manda suas promessas na frente (50:28) 82. al-Muqsit, O Cumpridor da Justiça, ele mantém as balanças da justiça (21:47-48) 83. al-Malik, O Rei, que é rei dos reis (59:23) 84. Malik al-Mulk, possuidor do reino, que dá soberania a quem deseja (3:26) 85. al-Mumit, aquele que pode matar, como dar vida (15:23) 86. al-Muntaqim, o Vingador, que vinga dos pecadores e socorre os aflitos (30:47) 87. al-Muhainim, o Preservador, cujo olhar protetor está sobre todos (59:23) 88. an-Nasir, o Ajudador, e suficiente como ajudador é Ele (4:45) 89. an-Nur, a Luz,, que ilumina a terra e o céu (24:35) 90. al-Hadi, O Guia, que guia os crentes no caminho reto (22:54) 91. al-Wahed, o Um, único em sua divindade soberano (13:16-17) 92. al-Wahid, o Único, que criou sozinho (74:11) 93. al-Wadud, o Amoroso, compassivo e amoroso com seus servos (11:90, 92) 94. al-Warith, o Herdeiro, para quem todas as coisas retornarão (19:40-41) 95. al-Wasi, o que alcança tudo, cuja força alcança tudo (2:268) 96. al-Wakil, o Administrador, que toma conta de tudo (6:102) 97. al-Waliy, o Patrão, e suficiente como patrão é Ele (4:45,47) 98. al-Wali, o Guardador, fora de quem os homens não tem segurança (13:11-12) 99. al-Wahhab, o Doador Liberal, que dá abundantemente (3:8) 52

Bibliografia Consultada
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