Você está na página 1de 3

Ser artista imigrante em Portugal…

Por Paulo Caldeira (nº 4039)

O que há de semelhante entre um Bordado de Viana e uma máscara africana? Ambos são
artefactos no puro sentido do termo. Ambos foram produzidos no âmbito de uma herança
cultural que, apesar de diferente, merece igual destaque em matéria de património material.
Ambos são, cada vez mais, realidade em muitos lares do Minho e do país, disputando
igualdade de tratamento e um olhar aberto para as diferenças artísticas e culturais que existem
actualmente em Portugal.

Vem isto a propósito da palestra proferida recentemente na Escola Superior de Educação por
Rachel Mason, investigadora da Universidade de Leicester, sobre qual o contributo que a arte
visual pode dar para a aprendizagem cultural.

Disse Rachel Mason que a cultura está em “contínua mudança” e que há quem defenda que as
artes podem desempenhar “um papel importante” nesse processo de mudança. A investigadora
britânica direccionou a sua atenção para o aspecto multicultural das sociedades modernas e
deu exemplos de alguns casos verificados no estrangeiro, mas não fez qualquer comparação
com que se passa em Portugal.

Ficou a saber-se, por exemplo, que vários países estão a tentar usar a arte para tratar os
problemas sociais mais urgentes “porque os governos pensam que elas podem ajudar a
resolver essas questões”. Em Portugal, sabe-se que os ministérios da cultura e da educação
apoiam financeiramente projectos que promovam a integração de minorias.

Porque a informação prestada durante a palestra foi muito superficial e pouco aprofundada em
evidências sobre como são assimiladas, ou não, as diferentes culturas num determinado país,
designadamente em Portugal, o autor deste relatório teve de procurar, na Internet, referências
bibliográficas a este tema.

E não foi difícil. O Observatório para a Imigração tem disponível, no seu sítio electrónico, um
estudo de 276 páginas, datado de Maio de 2007, onde foi feito o estudo da integração dos
artistas imigrantes na sociedade portuguesa.
Nesse documento, o Alto-comissário para a Imigração e Minorias Étnicas (ACIME), Rui
Marques, começa por referir que “não sendo obrigatório, torna-se claro que a interacção
permanente de pessoas com diferentes filiações culturais e artísticas, representa um ambiente
propício à criação fecunda.”

Por isso, considera Rui Marques, “ser destino de artistas imigrantes é um privilégio para
qualquer sociedade de acolhimento. “

O estudo “Licença para Criar” é da autoria de Magda Nico, Natália Gomes, Rita Rosado e Sara
Duarte e refere uma passagem de um relatório de 1996 da UNESCO onde se diz que “a
liberdade cultural é uma liberdade colectiva e não individual” e ao autorizar estilos de vida
diferentes, “ela encoraja a experimentação, a diversidade, a imaginação e a criatividade.”

Roberto Carneiro, Coordenador do Observatório da Imigração, aproveita para sublinhar que “as
artes são verdadeiramente a encruzilhada da liberdade multicultural, o futuro de um mundo de
diferentes, a trincheira definitiva da diversidade criadora.”

Os autores do referido estudo auscultaram algumas dezenas de artistas portugueses e


estrangeiros e concluíram, por exemplo, que estes últimos estão em maioria no nosso país, o
que, só por si, demonstra que Portugal é mais um território influenciado do que um agente
influenciador. Embora, segundo alguns investigadores, os mass media não façam eco desse
facto, dando relevo maior à cultura exclusivamente portuguesa, o certo é que os artistas
estrangeiros dizem conseguir desenvolver o seu talento em Portugal. Isto apesar de, ainda
assim, reconhecerem que, no seu domínio privado, ou numa outra actividade não directamente
artística, existem sinais de discriminação, sobretudo devido às barreiras linguísticas.

Mas, referem os autores do estudo, “este tipo de referência é mais frequente em artistas que
trabalham em domínios artísticos que evocam processos de trabalho mais individual do que
aqueles que estão integrados em trabalhos cooperativos.”

Apesar da transnacionalidade das artes, a origem dos indivíduos condiciona a sua aceitação ao
nível da distribuição e recepção dos produtos ou serviços prestados pelos artistas. Ou seja, o
estereótipo de “exotismo” ultrapassa o indivíduo e torna-se, segundo os entrevistados,
enviesador das potencialidades dos artistas.

Eis um desabafo de um dos artistas entrevistados pelos autores do estudo: “Uma pessoa que
pinta na Guiné-bissau... chega aqui e é um artesão. Um gajo que faz máscaras em África vem
aqui e é um artesão. Não obstante lá, ele é um conceptualista dentro da criação e discussão da
sociedade na Guiné-bissau ou em Angola... mas aqui não!”

A esmagadora maioria dos entrevistados coloca o problema ao nível de uma falha no sistema
de educação português apesar de o Curriculum Nacional do Ensino Básico definir as
competências essenciais da Literacia em Arte como forma de compreender o mundo e
entender as diferenças culturais.
Retenha-se o exemplo de uma indiana que foi colocada, durante uma semana, numa escola
inglesa, e que não gostou da experiência quando os professores da escola procuraram,
“amavelmente”, integrá-la mas a artista compreendeu que estava a ser tratada como algo
exótico e não como um ser humano.

Segundo alguns investigadores, este episódio poderia ajeitar-se muito bem a uma qualquer
escola portuguesa porque Apesar de já haver professores que compreendem o valor da
formação através das actividades artísticas, há ainda docentes que encaram as actividades
expressivas como meros momentos de recreio institucionalizado ou recursos comparáveis aos
didácticos meios audiovisuais.

De igual modo, alguns professores das áreas artísticas entendem que a sua área desenvolve
necessariamente todas as capacidades e competências que são apresentadas nos respectivos
programas. Estas concepções compartimentadas e implícitas da aprendizagem partem do
pressuposto de que esta se realiza de forma automática e distinta consoante a matéria
curricular, sem que haja uma interacção com o contexto educativo ou com a realidade social e
cultural dos alunos.

Estas atitudes levam, com certeza, a que muitos olhem para os artefactos (melhor dito,
objectos artísticos) de outros países como meros símbolos exóticos e não como formas de
cultura e arte tão valiosas como as portuguesas.

Mas uma constatação há a fazer: quantos, na feira da Romaria da Senhora da Agonia, não
terão preferido levar para casa um artefacto africano ou sul-americano ao invés de um Bordado
de Viana?