Você está na página 1de 4

Mitsuo de Messias Kawamoto nº USP 9331152

Luiza Botelho Prince Xavier nº 9332240
Stefano Ramani Ribeiro Calgaro nº USP 8708553
Thiago Martínes Figueiredo nº USP 9332921
Victor Ávila Ferrasso nº USP 9333193

Estratégias Linguísticas do Texto “A Língua-Geral em São Paulo”
Sérgio Buarque de Holanda, na obra “Raízes do Brasil”, pondera sobre a
existência ou não de uma língua-geral em São Paulo, esta criada pela troca cultural
entre os portugueses e os nativos. O historiador inicia estabelecendo que, na era
das bandeiras, o tupi tinha um forte papel na comunicação em São Paulo, assim
como hoje o português tem para a população brasileira. Como argumento de defesa
deste posicionamento, Buarque apresenta declarações de Teodoro Sampaio e do
jesuíta Antônio Vieira apontando uma presença muito forte da língua indígena em
âmbito residencial.
Em sequência, o historiador soma aos apontamentos anteriores um
depoimento feito pelo governador Artur de Sá e Meneses que também indicava o
uso da língua-geral vinculado às mulheres e ao lar, resultado de um processo de
miscigenação gerado entre os conquistadores e colonos em relações de matrimônio
com as índias. Outro fator que favoreceu na era das bandeiras a presença de uma
língua de grande influência indígena é o fato de os bandeirantes saírem em
expedições deixando a criação das crianças a cargo dasmães, sendo estas muitas
vezes indígenas ou de forte relação com a cultura. Ainda dissertando sobre o papel
das mulheres na existência da língua-geral, Buarque cita o relatório do governador
Antônio Pais de Sande que também relata o aprendizado da “língua do gentio” antes
que a portuguesa pelas crianças que nasciam na colônia.
Em seguida, Buarque de Holanda estabelece um paralelo linguístico entre o
estado de São Paulo e o Paraguai por meio de observações feitas por d. Félix de
Azara. Este indicou que na região de Curuguati as mulheres só falavam guarani, e
os homens, para conseguirem se comunicar com elas, tinham de fazer o mesmo.
Sendo assim, o castelhano que era utilizado entre os homens foi sofrendo
alterações pelo contato constante com o idioma indígena
O autor, posteriormente, reconhece o aspecto genérico dos quatro
embasamentos apresentados, porém entende que eles servem de base para
observar o fenômeno e os credita certa confiança, uma vez que no período tratado a
comunicação com os indígenas pela camada mais humilde da população era
necessária. Sendo assim, essa comunicação acabava criando um contexto em que
a língua tinha de sofrer um retrabalho, resultando na língua-geral.

1995. 70 anos antes a seus escritos (seus escritos datam em 1828. favorece-se de outro argumento para sua tese. pois nota um aumento gradual de alcunhas de Língua Portuguesa em detrimento das de Língua-Geral. Após isso.Tentando dar maior precisão ao que ressaltou. Entretanto. pois a herdeira em questão. portanto) conversavam em língua geral. p. um “grande régulo parnaibano”. visto que era morador novo em São Paulo. organizando cronologicamente a aparição das evidências. na província argentina de Corrientes. Entretanto. em ambiente doméstico. e inicia uma comparação de documentos do século XVII com do século XVIII. Esta última ressalva dá a entender que a sua principal língua de uso era a língua geral. Desta forma. onde Florence escutava apenas advinda dos mais velhos. Buarque faz uma síntese. p. Buarque analisa as alcunhas do século XVII e percebe a predominância de alcunhas de procedência de língua indígena e. Sérgio faz uma aproximação entre os escritos de Florence e Azara. não compreendia amplamente. sendo a experiência datada em 1780. 126). A partir daí. por exemplo. . Florence compara com o Paraguai. p. de Campinas. o historiador apresenta um inventário no qual houve a necessidade de que o juiz fizesse um juramento a um prático da língua-geral. porém mais marcado por seu aspecto português. por sua vez. de descendência indígena. tendo a “necessidade de interprete para uma língua usual entre a população” (HOLANDA. em “lugares onde escasseavam índios administrados. ao comparar com as do século XVIII. implicando que a única alternativa que explicaria o ocorrido é de que Domingos tenha servido apenas para redigir documentos sem ter real conhecimento sobre a língua e as ideias que deixava impresso. o autor faz uso dos escritos de Hércules Florence. Buarque indica uma série de fatores que refutariam o posicionamento do bispo. para falar da transição do uso da língua geral para a predominância da Língua Portuguesa (como foi demonstrado a partir do exame das alcunhas). como a existência de documentos feitos por Domingos em que este faz o uso do português. Em seguida. “não falava bem a língua portuguesa”. Mesmo assim. um bispo declara que Domingos “nem falar sabe”. uma vez que precisou de um intérprete para se comunicar com ele. língua de qual o juiz. 126). sendo “mamaluca de primeiro grau” (HOLANDA. sobre a experiência de senhoras. Em seguida. 1995. Luiza Esteves. é indicado que Luiza. 130). Sergio Buarque começa a fazer uma aproximação a um contexto geográfico e marcado no tempo para explicar onde ocorria a língua geral: se na república do Paraguai. o português dominava sem contraste” (Idem. não serviria de um exemplo muito convincente. Facilitando o entendimento do que foi até então apresentado. e era o caso. é apresentado o caso de Domingos Jorge Velho. em partes do sul de Mato grosso e na São Paulo.

Como o grão de trigo dos evangelhos. Sergio Buarque. Primeiro ele levanta o ponto de que. 132). mas para os brasileiros. Em outras palavras. do próprio Portugal Metropolitano. 131). não pelos portugueses. o que é bem mais significativo. se apoiara no “trabalho monumental” (como o próprio autor coloca) de Georg Friederici. por sua vez. teriam de renunciar a muitos dos seus hábitos hereditários. e as fontes de vida do Brasil. a partir daí vai se basear em mais fatos históricos do que em análises textuais (voltará a autores. foi todo um mundo opulento e vasto. que levou à sua permanência no Brasil “o que ganharam ao cabo. Faz em seguida um pulo histórico para o século XVIII. como a carência de mão de obra para as lavouras. a contradição da convivência em que sem o índio. não se submetiam através da língua portuguesa. 131.Buarque. domesticados e catequizados de ordinário na língua geral da costa. como demonstra o autor: “é que. se transferem para o sertão remoto que as bandeiras desbravaram” (Idem. para manter a estabilidade. Essa anulação da identidade portuguesa. como aponta. o autor discorda ao historiador e etnólogo alemão para ter um ponto de convergência com Julio de Mesquita Filho: o movimento das bandeiras se enquadra. como elucida o autor). E foi. e por obra dos seus descendentes mestiços. 132). levando à miscigenação entre europeus e índios. os portugueses não poderiam viver no planalto. Portanto. 133). p. de sua linguagem. p. na obra realizada pelos filhos de Portugal na África. em substancia. Em seguida começa a se ater mais ao fato das bandeiras como fator de uso da língua geral. p. com ele não poderiam sobreviver em estado puro. precisando recorrer à mão de obra indígena. E daí surgirá. mestiços ou de sangue puro. p. para finalizar. p. . Henrique e de Sagres. 131). sobre o fato do Brasil ter sido descoberto para os europeus. na Ásia. o qual há de primeiramente morrer para poder descer e dar muitos frutos (idem. 132). para Hollanda. que dificultava o transporte (caso contrário do Nordeste. o fator do isolamento geográfico de São Paulo. por sua vez advinda da falta de recursos econômicos e de comunicação. e na América. Mas eu o subscreveria com esta reserva importante: a de que os portugueses precisaram anular-se durante longo tempo para afinal vencerem.mas que. em realidade o que ocorreu (Idem. não se entendiam com os senhores em outro idioma” (Idem. Entretanto. não eram apenas os índios da família tupi-guarani que utilizavam a língua geral. de suas aspirações e. de suas técnicas. p. mais adiante). galardão insuspeitado ao tempo do Tratado de Tordesilhas” (Idem. Soma-se a este. “para vencer tamanhas contrariedades impunha-se a caça ao índio” (Idem. em que “a situação já mudara de figura. mas qualquer outro submetido aos portugueses . desde os tempos do infante d. de suas formas de vida e de convívio. 132.

CONCLUSÃO O objetivo de S. São Paulo: Companhia das Letras. análise de depoimentos. porém jamais descartável. a partir da nota ao capítulo 4 (“A língua-geral em São Paulo”). há a exposição de argumentos que possivelmente refutariam a tese defendida. Bibliografia HOLANDA. . entende-se que o autor evidencia a fragilidade daquilo que ele mesmo propõe. ora pontual. Dessa forma.. enumeração de alcunhas de origem indígena. é apresentar dados históricos. ora genérico. In: Raízes do Brasil. Sua orientação argumentativa é baseada em material de procedência módica. geográficos e literários que comprovem a proeminência do uso da língua da terra quando comparado ao uso da língua portuguesa. como relatos populares. a língua-geral em São Paulo. Sergio Buarque. seria insuficientemente convincente. na província de São Paulo. Concomitante a essa apresentação. etc. 1995. B. durante a segunda metade do século XVII e início do século XVIII. uma vez que seu embasamento teórico. Sérgio Buarque reconhece a necessidade de mais estudos e documentos fortalecedores de sua asserção. encontrando reforço em autores contemporâneos à época ou estudiosos dela. de Holanda.