A CASA DE DETENÇÃO VISTA À LUZ DE FOUCAULT1 Valéria Moura Venturella2 Em sua obra Vigiar e Punir, Michel Foucault nos

narra a evolução da história das punições impostas pelas sociedades humanas aos membros que não se adequam às suas regras. Dos suplícios corporais em público às modernas penitenciárias, Foucault nos auxilia a refletir criticamente sobre a resposta social ao crime, inclusive no que tange a possibilidade de reintegração dos desajustados a seu grupo social. Por sua vez, Drausio Varella, médico cancerologista que realizou, por uma década, um trabalho voluntário de prevenção ao vírus HIV naquela que foi a maior penitenciária brasileira – a Casa de Detenção – nos apresenta o surpreendente livro Estação Carandiru, em que expõe de modo muito peculiar a intimidade dos detentos da Casa e suas relações entre si, com os funcionários, com o médico e com a vida que levam. Neste trabalho, tentamos interpretar a rotina e as normas de comportamento implícitas e explícitas da Casa de Detenção, segundo demonstradas na narrativa de Varella, à luz das idéias contidas em Vigiar e Punir. Nosso objetivo é confrontar e contrastar os ideais de punição e imposição de disciplina expostos no livro de Foucault com a complexa realidade da Casa de Detenção, símbolo máximo, por meio século, do fracasso do sistema prisional brasileiro. A Casa de Detenção era um mal conservado conjunto de oito edifícios, um pátio fechado e dois campos de futebol construídos nos anos 50 no encontro das avenidas Cruzeiro do Sul e General Ataliba Leonel no complexo do Carandiru, Zona Norte de São Paulo. O “Casarão” funcionou como a maior penitenciária masculina do país de 1956 – quando foi inaugurada pelo então prefeito Jânio Quadros – a 15 de setembro de 2002, quando foi desativado. Em 8 de dezembro de 2002 o cárcere que foi palco do maior escândalo da história do sistema penitenciário brasileiro – o chamado “massacre do Carandiru” – finalmente começou a se extinguir, quando três de seus pavilhões foram implodidos. O grupo de construções inicialmente projetado para abrigar 3200 detentos era distribuído da seguinte maneira: um prédio pequeno para a administração e sete pavilhões quadrados ou retangulares de cinco andares, com pátio interno, que abrigavam no total mais de 7000 detentos oriundos em sua maioria das classes sociais desfavorecidas da grande
Texto produzido como pré-requisito para a aprovação na disciplina Sociedade, Cultura e Educação, ministrada pela Profa. Dra. Maria Helena Câmara Bastos no Mestrado do Programa de PósGraduação em Educação da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – Porto Alegre – de março a julho de 2004. 2 Mestranda em Educação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – Porto Alegre; Professora do curso de Pedagogia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – Uruguaiana.
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São Paulo (os raríssimos detentos com curso superior completo ocupavam celas individuais no pavilhão 4). Assassinos, estupradores, traficantes, arrombadores, assaltantes, estelionatários, trombadinhas, travestis, todos se mesclavam nos corredores, nas galerias e no pátio, uma situação que contrasta fortemente com o que Foucault chama “o princípio da classificação”, segundo o qual os apenados deveriam ser separados de acordo com a gravidade do crime que cometeram (FOUCAULT, 2003). A população do Carandiru – como a Casa de Detenção é até hoje conhecida – era bastante flutuante: cerca de 3000 homens entravam e saíam a cada ano. Havia, porém, uma parcela bastante estável da população, presos que estavam na Casa havia muitos anos, décadas até, conhecidos e respeitados por todos. A Casa de Detenção tinha um corpo de cerca de 85 funcionários, perfazendo uma média que sempre ultrapassava um funcionário para cada grupo de 80 detentos. Seus salários eram baixos e, para sobreviver, a maior parte tinha outros empregos, ou sucumbia à corrupção, o que contribuía para manter os círculos de contravenção dentro da prisão. Os carcereiros trabalhavam desarmados. Além dos carcereiros também atuavam ali 10 médicos – um para cada 700 prisioneiros – que tentavam, a maior parte das vezes sem sucesso, prestar algum tipo de atendimento de saúde à população carcerária. Segundo Foucault (2003), a prisão, além de ser um local de execução da pena, deveria ser ao mesmo tempo um local de observação dos indivíduos encarcerados, vigilância e conhecimento clínico de cada um dos detentos: seu comportamento, suas disposições, sua melhora progressiva, até mesmo para que se pudesse acompanhar o processo de regeneração e modular a pena de acordo com o progresso de cada preso. “É preciso que o prisioneiro possa ser mantido sob um olhar permanente; é preciso que sejam registradas e contabilizadas todas as anotações que se possa tomar sobre eles” (FOUCAULT, 2003, p. 209). É fácil perceber que as condições de trabalho no Carandiru tornavam impossíveis a realização dessa vigilância e a manutenção de qualquer tipo de arquivos de informações individuais. Talvez por essa razão, eram comuns os casos de prisioneiros que já haviam cumprido sua pena e continuavam na Casa, devido não só à lentidão dos processos na justiça brasileira, mas também a extravios de documentos importantes para seus casos. Em 1989, o médico cancerologista com vinte anos de experiência profissional Drauzio Varella iniciou na Casa de Detenção um trabalho voluntário de prevenção à AIDS, que se estendeu por 10 anos. Durante esse tempo, Drauzio proferiu palestras, mostrou vídeos educativos, produziu, com o auxílio de artistas paulistas e dos detentos, a revista em quadrinhos Vira Lata, que continha, entre outras atrações, esclarecimentos sobre prevenção à AIDS e relacionamento com os doentes, e promoveu um concurso de cartazes sobre a doença e sobre o uso de drogas. Drauzio também prestava um atendimento médico precário (segundo suas próprias palavras) aos detentos, com a ajuda inestimável de alguns

prisioneiros que demonstravam talento como paramédicos e enfermeiros. Muitas vezes, ele se limitava a ouvir os desabafos e as queixas dos presos, o que parecia lhes dar mais conforto do que qualquer tratamento medicinal. Apesar da resistência inicial dos detentos e dos funcionários, o médico desenvolveu um relacionamento bastante próximo com a população carcerária e com o quadro de empregados da Casa. Dessa experiência de 10 anos, resultou o livro Estação Carandiru, uma descrição bastante detalhada da Casa de Detenção, sua estrutura, seus habitantes, sua rotina, seus códigos de conduta explícitos e implícitos, e muitas histórias dignas de serem contadas. Segundo o próprio Varella, o objetivo do livro não é “denunciar um sistema penal antiquado, apontar soluções para a criminalidade brasileira ou defender direitos humanos de quem quer que seja” (VARELLA, 1999, p. 10). O que o autor busca é “mostrar que a perda da liberdade e a restrição do espaço físico não conduzem à barbárie, ao contrário do que muitos pensam” (VARELLA, 1999, p. 10). Em sua narrativa, ele demonstra que, na Casa de Detenção, os homens condenados ao cativeiro criam regras – não escritas, mas nem por isso menos severas – de comportamento com o objetivo de organizar suas vidas e de preservar sua integridade. Como conta o livro, ao chegar ao Carandiru os presos são registrados e fotografados, e passam por um ritual de despersonalização. Entregam suas roupas e seus pertences e recebem uma calça cáqui, cujo uso é obrigatório, e um corte de cabelo estilo “tigela”, o primeiro e único corte de cabelo grátis que receberão na prisão. Após ouvirem respeitosamente – de cuecas, cabeça baixa, mãos para trás – as normas da penitenciária proferidas por um dos três diretores, os novatos ou reincidentes são encaminhados para um dos sete pavilhões, onde devem procurar uma cela para morar. Como os funcionários não usam uniforme, os detentos são diferenciados deles por sua calça cáqui. O uso de uma peça de roupa na parte de cima do corpo é obrigatório. Pode ser camiseta, camisa, malha ou blusão, mas nada de propaganda política, muito mal vista na Casa. É obrigatório também o uso de calçados, cabelo curto e barba feita. A rotina da Casa de Detenção é bastante estável, e qualquer alteração provoca ansiedade e temor nos detentos. As celas são abertas às 8 manhã e trancadas às 8 da noite. É na abertura e no fechamento das celas que os funcionários realizam as contagens, um ritual rigoroso da prisão. Entre as contagens, a população carcerária se movimenta livremente por entre os corredores, galerias, pátios e pavilhões, observados por carcereiros desarmados. Talvez essa livre circulação seja um dos aspectos mais pitorescos da rotina do Casarão, e mais nefastos para qualquer possibilidade de submissão e mesmo de regeneração dos apenados. Segundo Foucault, um importante instrumento de reforma seria o isolamento, pois “jogado na solidão, o condenado reflete. Colocado a sós na presença de seu crime, ele aprende a odiá-lo” (2003, p. 199). A maneira como a rotina da Casa se

organiza está muito longe de favorecer a reflexão, e “a relação do indivíduo com a própria consciência” (p. 201). Ao contrário, uma das maiores causas de inquietação entre os detentos é a falta de privacidade e de quietude. “Sabe lá o que é isso, doutor, entra ano e sai ano, nenhum minuto o senhor poder ficar na sua? É onde que muito companheiro de mente fraca perde as faculdades e dá cabo da própria existência”, explica um detento (VARELLA, 1999, p. 39). Os suicídios ocorrem com freqüência, geralmente pela manhã, após uma longa noite de depressão e desespero no interior da cela coletiva. Não sem motivos, é grande o número de doentes mentais sob pesada medicação, muitos dos quais adoeceram quando já estavam na prisão. O trabalho na Casa de Detenção não é obrigatório, mas a maioria dos detentos prefere “tirar cadeia” trabalhando, pois o tempo passa mais depressa e “à noite, com o corpo cansado a saudade espanta”, como resume um detento (VARELLA, 1999, p. 141). Eles podem prestar serviços internos da Casa ou realizar trabalhos manuais encomendados por fábricas da região, tais como colocar espirais em cadernos, elásticos em pastas e costurar bolas de couro. Todas as tarefas da cadeia são realizadas por presos: eles realizam trabalhos burocráticos, lavam, limpam, coletam lixo, consertam, costuram, trabalham na barbearia, além de recozinhar e retemperar a comida. Para cada três dias trabalhados, o detento tem um dia de remissão da pena. Há também as atividades ilícitas, como a venda de revistas, roupas, calçados e utensílios em geral, a fabricação de facas e seringas, a destilação da “maria louca” (aguardente fortíssima feita de arroz ou pipoca), e o tráfico de drogas. Há, porém, os que são convictamente contra o trabalho. “Trabalhar? Nem na rua, com meu pai pegando no pé. Aqui dentro, jamais. Questão de princípio” (VARELLA, 1999, p. 141). Se fosse obrigatório, regrado e rotineiro, o trabalho na Casa constituiria, segundo Foucault, “um esquema da submissão individual” (p. 204) que viabilizaria a transformação dos detentos. “Um princípio de ordem e regularidade” (p. 203), o trabalho disciplinaria os corpos, eliminaria a agitação e a distração, e imporia hierarquia e vigilância que seriam bem aceitas e contribuiriam na transformação de um “prisioneiro violento, agitado e irrefletido em uma peça que desempenha seu papel com perfeita regularidade” (p. 203). O que parece ocorrer no Carandiru é que apenas aqueles detentos que já contam com auto-disciplina e com certa disposição para a ordem escolhem trabalhar, enquanto que os prisioneiros inquietos e agressivos optam por não dedicar seus dias a tarefas fecundas. Desse modo, o trabalho não chega a realizar a submissão individual necessária, segundo Foucault, ao assujeitamento que poderia levar à regeneração dos detentos. Além – ou em vez – do trabalho, muitos detentos praticam boxe, capoeira e halterofilismo. O esporte mais popular é o futebol. Periodicamente, os prisioneiros organizam campeonatos cujas regras são discutidas à exaustão. Há ainda os campeonatos

para os quais times da vizinhança são convidados. Nessas ocasiões, o respeito aos visitantes é observado com rigor. Nem sequer palavrões são permitidos. A Casa conta com uma biblioteca bastante desprovida, e Drauzio também menciona “aulas”, embora não especifique seu tipo ou freqüência. Entre os religiosos do Carandiru há a rigorosa rotina de orações. Diversas práticas religiosas têm lugar no Casarão: Catolicismo, Umbanda, Assembléia de Deus e Universal do Reino de Deus são as mais numerosas. “A crença na ajuda divina é para muitos presos a derradeira esperança de conforto espiritual, única forma de ajudá-los a estabelecer alguma ordem no caos de suas vidas pessoais” (VARELLA, 1999, p. 117). Os detentos respeitam os devotos, mas lhes exigem coerência absoluta. Em certa ocasião, conta Varella, um religioso foi flagrado fumando por um grupo de prisioneiros, e chegou à enfermaria com vergões, hematomas e cortes. Diante da perplexidade do médico, os enfermeiros justificaram a agressão do seguinte modo: “A cara dele é passar o dia rezando para Deus proteger nós, ladrões” (VARELLA, 1999, p. 118). A distribuição das refeições – café da manhã às 5, almoço às 9 e jantar às 17h00 – é feita pelos encarregados da “faxina”. Como a cozinha foi desativada em 1995 os “faxinas” entregam a cada detento uma refeição pronta, a “quentinha”. Nessas horas, os homens esperam pacientemente a entrega em suas celas, e a presença nos corredores de qualquer um que não seja encarregado da distribuição da comida é interpretada como um atentado à higiene alimentar da coletividade e punida com muita severidade. Os hábitos de higiene dos detentos são rigorosos. As celas são limpíssimas: varridas, escovadas e espanadas diariamente, em um rodízio entre seus habitantes. Cada cela tem um vaso sanitário que é limpo com água fervente três vezes no dia e fechado com sacos de areia para evitar odores ou a entrada de ratos e baratas que podem subir pelo encanamento. As celas contam também com uma pia e, apesar de a maioria não ter duchas ou chuveiros quentes, o banho diário é obrigatório mesmo nos dias mais frios de inverno. Os mais resistentes são ameaçados com surras, e acabam cedendo. As galerias são lavadas todos os dias. Não há lixo de qualquer tipo no chão e quem por descuido faz alguma sujeira é chamado de “maloqueiro” com desprezo. Na sexta-feira ao meio-dia há lavagem geral das celas e das galerias. Tudo é esfregado com água abundante e detergente, e depois seco. As celas são arrumadas com capricho para esperar as visitas. Os visitantes começam a chegar à porta da penitenciária na sexta de madrugada, após tomarem, muitas vezes, vários ônibus e metrôs. A maioria são mulheres: namoradas, esposas, amantes, e mães, que trazem crianças e sacolas com comida, dinheiro, presentes e cigarros, que são a moeda circulante na Casa. Muitos detentos iniciam namoros enquanto estão cumprindo pena, quando conhecem moças e mulheres através de suas mães e irmãs ou através da companheira de um colega de prisão. Elas ficam horas em pé ou sentadas nas calçadas, conversando com as outras visitantes, esperando o horário da visitação. Na

entrada, são revistadas uma por uma, mas mesmo assim há quem consiga entrar com drogas, geralmente para livrar o filho ou o companheiro de uma dívida. A partir dos anos 80 a Casa de Detenção passou a permitir as visitas íntimas, principalmente para evitar os estupros que aconteciam durante a noite. Os presos se vestem e se perfumam com esmero para a visita. Cada detento pode inscrever no programa de visitação íntima apenas uma companheira. No caso de separação, há um intervalo de seis meses para a indicação de outra. Durante a visita, não há carcereiros nos pavilhões. O esquema é rigorosamente administrado pela própria corporação. O ambiente é respeitoso. Quando um casal passa, todos baixam a cabeça. Ninguém sequer dirige o olhar para a namorada ou esposa dos companheiros. O tempo de visita é igualmente dividido entre o número de habitantes de cada cela, e a pontualidade dos encontros é inflexível. Nas celas em que há vinte ou trinta moradores, espaços privativos são improvisados com cobertores e lençóis pendurados. Para preservar a privacidade, os rádios são ligados em volume alto. O mesmo tratamento dispensado às mulheres que visitam os detentos nas sextasfeiras é dado às chamadas “mulheres de cadeia”: travestis, homossexuais e mesmo heterossexuais que assumem um papel sexualmente passivo e que formam um par estável com um dos prisioneiros. É proibido dirigir o olhar para a “bicha de outro”. E a “mulher” não deve circular pelos corredores ou “dar conversa para malandro”: deve viver recatadamente. Embora condenada de modo velado por alguns, esse tipo de união é socialmente aceita. O parceiro passivo não é considerado do sexo masculino. Nas entrevistas que Varella realizava com os detentos sobre sua conduta sexual, não bastava perguntar se eles tinham relações homossexuais. Era necessário estender a pergunta a mulheres de cadeia. O parceiro ativo deve estar em boa situação financeira porque é a ele que cabe o sustento da “casa”. Os prisioneiros não moram nas celas de graça. Eles pagam aluguel a outros detentos ou mesmo a ex-detentos. Esse estranho fenômeno iniciou há muitos anos, quando as celas necessitavam com urgência de manutenção e reformas, e o poder público não tinha condições de realizar as melhorias. Os próprios prisioneiros e suas famílias se encarregaram das benfeitorias e, após o investimento, não acharam justo que novos moradores desfrutassem do “barraco” reformado sem lhes pagar aluguel. Os preços variam de R$ 150 a R$ 2000, dependendo das condições do barraco. Há casos em que um detento é libertado e deixa um inquilino pagando aluguel. A situação é difícil para um prisioneiro que chega à Casa sem dinheiro ou amigos, pois não tem onde morar e deve se contentar com a “isolada” ou a “masmorra”, os piores lugares da cadeia, para onde vão os detentos que perderam o direito de conviver com os companheiros: os condenados à morte ou os que praticaram alguma contravenção local. As celas da Casa de Detenção não são todas do mesmo tamanho, e não têm grades na divisão com a galeria – como poderíamos esperar – mas uma parede de alvenaria com uma porta de ferro chapada. Do corredor, quando a porta está trancada, entre 8 da noite e 8

da manhã, não se pode ver o que acontece dentro da cela a não ser por uma pequena janela ao lado da porta, o “guichê”. As portas têm tranca externa, mas muitos prisioneiros instalaram uma tranca interna, para se proteger de eventuais ataques noturnos – cobranças de dívidas e acertos de contas, por exemplo. “O xadrez é espaço sagrado” (VARELLA, 1999, p. 43). Jamais se entra sem convite, sob risco de uma surra de pau e faca, ou mesmo da morte. Se compararmos as celas da Casa com o modelo do Panóptico idealizado por Jeremy Benthan e mencionado por Foucault como a arquitetura disciplinadora por excelência, veremos que o contraste é imenso. O Panóptico é um círculo de células individuais com paredes frontal e traseira de vidro. A transparência tem como objetivo permitir que o diretor da penitenciária, do alto de sua torre localizada no centro desse círculo, possa observar cada detento sem ser observado. Essa prática potencializaria um monitoramento minuto-aminuto das atividades dos prisioneiros, mesmo que esse acompanhamento não ocorresse. Mantidos na incerteza sobre estarem ou não sendo observados em um dado segundo, os presos teriam constantemente a sensação de ter sua privacidade invadida e examinada, e ele mesmo se vigiaria em seu comportamento, realizando a chamada “docilização” de seu próprio corpo e o controle de seu tempo. Na realidade da Casa de Detenção, mesmo sem a vigilância constante de um diretor ou carcereiro, impera, entre os detentos, um rígido código de ética que os mais velhos se encarregam de transmitir aos mais novos, por bem ou por mal. Praticar a higiene pessoal, manter o ambiente limpo e arrumado, respeitar as visitas e o sono alheio cedo da manhã ou tarde da noite, pagar as dívidas assumidas e jamais delatar um companheiro são algumas das regras inflexíveis. Muitos se orgulham de respeitá-las. “Para a sociedade, eu não passo de um reles, rejeitado que nem cachorro sarnento. Se aqui na cadeia os manos não tratar eu como considerado, não vou ser nada para ninguém, sou um zero no mundo”, diz Sem Chance, um dos muitos personagens que povoam a narrativa de Drauzio. Como discutido por Foucault em Vigiar e Punir, as regras disciplinares se estendem à maneira como os homens conduzem seu corpo, embora a linguagem corporal imposta por todos e a todos esteja baseada apenas em regras tácitas. Ao ouvirem música, por exemplo, ou assistirem a apresentações musicais na TV ou no telão, os presos no máximo marcam o ritmo discretamente no balanço do pé. Nenhum deles é visto dançando ou realizando gestos expansivos ou exagerados. “Onde já se viu malandro rebolar na frente do outro?”, censura um detento (VARELLA, 1999, p. 71). O filósofo francês interpreta a disciplina – tanto a corporal quanto a dos hábitos – como um mecanismo de dominação, controle e sujeição dos indivíduos, impondo-lhe ao mesmo tempo utilidade e docilidade. “A disciplina fabrica assim corpos submissos e exercitados, corpos dóceis” (FOUCAULT, 2003, p. 119). A conduta dos detentos descrita por Varella parece constituir um bom exemplo da concepção foucaultiana de poder: uma entidade dispersa, impossível de localizar, praticada e sofrida por todos ao

mesmo tempo. Podemos, assim, considerar a rígida disciplina não só parte do código de conduta da Casa, mas também – por seu poder de subjugar e dominar – um importante auxiliar na manutenção do quotidiano da Casa de Detenção. Para os que desconsideram as normas, o código penal dos detentos é implacável. Os faltosos são punidos com desprezo, espancamento ou morte, dependendo da falha. “Entre nós, um crime não prescreve”, declara um detento a Drauzio (VARELLA, 1999, p. 10), revelando a seriedade com que as faltas são vistas. A corporação de detentos, no tratamento das contravenções internas, põe em prática o que Foucault denomina “o princípio da modulação da pena”, segundo o qual as punições são impostas de modo proporcional ao crime cometido. Muitos acertos de contas têm lugar nas chamadas “Ruas Dez”, trechos das galerias de cada pavilhão opostos à entrada e longe dos olhos dos guardas. Estupradores e justiceiros – matadores de bandidos – são muitas vezes atraídos para a Rua Dez para lá serem eliminados. Nesses casos, os funcionários são orientados para não interferir. Apanhe quem tiver que apanhar, morra quem tiver que morrer, eles pouco podem fazer, pois trabalham desarmados. Pode-se assim dizer que, a seu modo, a própria corporação encarcerada do Carandiru se encarrega da vigilância permanente de seus membros, e da punição inexorável dos que não se enquadram em seu sistema de normas. Na perspectiva de Foucault em Vigiar e Punir, o poder não se encontra concentrado em órgãos e instituições sociais, mas difuso no conjunto da sociedade. O autor sustenta que o poder está em toda a parte e vem de toda parte também. Por outro lado, o poder não é um atributo, mas um exercício que se realiza nas práticas disciplinares que se encarregam de fazer com que os sujeitos – tanto individual quanto coletivamente – introjetem a disciplina e o esquema geral das normas que se impõem. Uma instituição, ao mesmo tempo surpreendente e fundamental para o funcionamento do Carandiru, que pode ilustrar o poder nessa perspectiva, é a Faxina. Drauzio se refere a esse grupo de prisioneiros como “a espinha dorsal da cadeia” (VARELLA, 1999, p. 99). Cada pavilhão tem seu grupo de faxineiros, cujo número varia de 20 a 150, de acordo com o número de habitantes do prédio. Quem seleciona os faxineiros não é a direção do presídio, mas a própria corporação de detentos, e os critérios são rigorosos. Um “faxina” não pode estar endividado, ser delator, ter ameaçado de morte um inimigo e voltado atrás, ou ter se responsabilizado pelo crime de outro. Não pode ser estuprador, justiceiro ou homossexual. Em suma, sua reputação na cadeia deve ser ilibada. Ao ser recrutado, um novo faxina aprende as tarefas e as regras de comportamento com os mais antigos. Caso ele discorde de uma ordem, deve primeiro obedecê-la e então discuti-la com seus superiores. A hierarquia é rígida. Os mais novos obedecem aos mais antigos, e cada andar tem um encarregado que se reporta ao encarregado geral do pavilhão.

A função oficial dos faxineiros é entregar em cada cela as três refeições diárias e cuidar da limpeza geral. Suas atribuições, porém, vão muito além disso. Eles colaboram na solução de desavenças e cobranças de dívidas, decidem quando e de que modo os acertos de conta vão ocorrer (se é caso para morte ou nem tanto), negociam com a diretoria em caso de reivindicações de ambos os lados, e encaminham transferências de detentos entre os pavilhões. Sua rotina é estafante. Eles são os primeiros a acordar – já que servem o café da manhã – e até a hora do trancamento das celas eles devem estar atentos a tudo o que ocorre. É deles a responsabilidade sobre todos os eventos do pavilhão. Varella narra que atendeu integrantes da Faxina que tinham todos os sintomas de estresse, “como se fossem altos executivos de multinacional” (VARELLA, 1999, p. 104). Quem chega a encarregado-geral da Faxina é geralmente um homem equilibrado e conhecido por seu bom senso, contando com capacidade de ouvir, e habilidades de resolver conflitos, formar alianças e tomar decisões sob pressão. Em resumo, um verdadeiro líder. A autoridade da Faxina é respeitada tanto pela corporação quanto pelos funcionários e diretores da Casa. O diálogo da administração com o comando da Faxina é essencial para a manutenção da disciplina e da ordem na prisão, e – segundo um antigo diretor – a única maneira de garantir o controle da violência interna. Bolacha, encarregado-geral de um dos pavilhões, confessou a Varella em certa ocasião: “No silêncio da noite, a mente trabalha solitária porque a decisão final é minha e dela depende a sorte de um ser humano” (VARELLA, 1999, p. 104). Não são apenas os acertos de contas que tiram a vida dos detentos do Carandiru. A AIDS e a tuberculose, causada pela dependência de crack, causam muitas mortes por ano, apesar das campanhas de prevenção e de esclarecimento. Os estudos de Varella mostraram que boa parte dos prisioneiros já chega à penitenciária infectada com o HIV. Outros adquirem o vírus na prisão, por contato sexual com parceiros doentes ou por compartilharem seringas infectadas em rodinhas de “baque” – a cocaína injetável. Nos últimos anos de seu trabalho, porém, o médico constatou que os “baqueiros” se tornavam cada vez mais raros. A droga reinante na Casa tornou-se o crack. Estima-se que 60% da corporação carcerária seja usuária da droga, que chega ao Carandiru trazida pelos visitantes – como já foi mencionado – e por alguns funcionários da Casa. Os dependentes vêem cair ainda mais sua qualidade de vida com a venda dos poucos pertences para manter o vício, o constante endividamento e o medo da cobrança das dívidas – surras ou morte – a qualquer momento, além dos efeitos colaterais da droga: a permanente síndrome de abstinência, os delírios, a debilitação da saúde em geral e a tuberculose. Varella conta que perdeu colaboradores prestimosos para o crack, e, impotente, viu muitos definharem até a morte. Segundo Foucault, por mais rígida que seja a imposição de disciplina, e por mais rigorosas que sejam as sanções impostas àqueles que a desobedecem, os indivíduos

acabam encontrando meios de reagir às normas. “O corpo, do qual se requer que seja dócil até em suas mínimas operações, opõe e mostra as condições de funcionamento próprias a um organismo”, explica Foucault (2003, p. 132). Talvez o abuso de drogas seja o mecanismo desenvolvido na Casa de Detenção para escapar da rígida conduta que lá vigora. A Casa de Detenção, como se poderia esperar, nunca cumpriu a função social de reabilitar seus detentos. A administração da penitenciária, devido a seus parcos recursos, e limitadíssimo número de funcionários, pouco podia realizar. A corporação carcerária, eficiente nas tarefas de vigiar e punir, nada fazia pela reeducação e pela recuperação dos detentos. Assim, a instituição falhou em seu papel de “aparelho para transformar os indivíduos” (FOUCAULT, 2003, p. 196), limitando-se ao papel de privá-los da liberdade de transitar na sociedade. A ordem, que deveria imperar no sentido de contribuir para a regeneração dos apenados, por ser imposta e mantida por eles mesmos, acabava por consolidar os traços de sua conduta que foram a própria razão de sua entrada na prisão. “O crime é uma profissão”, explica um antigo cadeeiro, exemplificando a definição de delinqüente colocada por Foucault: um infrator conectado a seu delito por uma complexidade de fatores, tais como “instintos, pulsões, tendências, temperamento” (FOUCAULT, 2003, p. 211). “O malandro chega aqui para tirar a cadeia em paz, voltar para a rua o mais rápido possível e assaltar, que essa é a vida dele” (VARELLA, 1999, p. 112). Embora a instituição prisional marque, segundo Foucault, um momento importante na história da justiça penal por tornar as punições mais humanas, sabemos que os sistemas penitenciários recebem críticas semelhantes em diferentes partes do mundo: apesar dos custos que representam aos cofres públicos, as prisões não fazem diminuir a taxa de criminalidade nas sociedades, provocam a reincidência no crime, favorecem a organização dos detentos no sentido de consolidarem as condutas que lhes levaram à prisão, fabricam delinqüentes de maneira direta – ao impor aos detentos um estilo de vida ocioso e improdutivo – e indireta – ao conduzir as famílias dos detentos à necessidade e à pobreza (FOUCAULT, 2003). Apesar dessas críticas, ainda não se conseguiu encontrar uma alternativa que exerça com eficácia um papel ao mesmo tempo punitivo e correcional. “Conhecem-se todos os inconvenientes da prisão”, afirma Foucault, “e sabe-se que é perigosa quando não inútil. Entretanto, não ‘vemos’ o que pôr em seu lugar” (FOUCAULT, 2003, p. 196). Poderíamos acreditar que, enquanto não se cria dispositivos alternativos mais eficientes para as atuais prisões, seria suficiente trabalhar para que o sistema carcerário funcionasse de acordo com os princípios fundamentais segundo os quais foi inicialmente projetado. Foucault define o cárcere como “um aparelho disciplinar exaustivo”, onidisciplinar, que deveria se ocupar de todos os aspectos do indivíduo: “seu treinamento físico, sua

aptidão para o trabalho, seu comportamento cotidiano, sua atitude moral, suas disposições” (2003, p. 198), e lista o que ele denomina “as sete máximas universais da boa ‘condição penitenciária’” (2003, p. 223), que são: • • • • • • • correção: transformação do comportamento do indivíduo; classificação: repartição dos detentos de acordo com a gravidade penal de seu ato, sua idade e suas disposições; modulação das penas: adequação das penas aos progressos e recaídas dos prisioneiros; trabalho como obrigação e como direito: com o objetivo de progressivamente socializar os encarcerados; educação penitenciária: para o bem do próprio preso e de toda a sociedade; controle técnico da detenção: especialização e capacitação moral e técnica dos funcionários das prisões; instituições anexas: medidas adicionais de controle e de assistência aos detentos. De maneira muito inquietadora, porém, Foucault coloca que mesmo que os sete princípios colocados acima fossem rigorosamente observados, ainda assim o sistema penitenciário fracassaria em seu duplo propósito de punir e corrigir os delinqüentes, uma vez que, segundo o autor, o fracasso faz parte do próprio funcionamento da prisão. O sistema carcerário – e seu malogro – serviria justamente para eternizar a delinqüência, e mesmo para transformar um infrator ocasional em um delinqüente reincidente. A prisão não se destina a eliminar ou reprimir as infrações, mas a diferenciá-las separá-las, distribuí-las e utilizá-las. “A penalidade seria então uma maneira de gerir as ilegalidades, de riscar limites de tolerância, de dar terreno a alguns, de fazer pressão sobre outros, de excluir uma parte, de tornar útil outra, de neutralizar estes, de tirar proveito daqueles” (FOUCAULT, 2003, p. 226), constituindo assim um mecanismo de dominação obrigatoriamente presente na sociedade. O que o autor afirma é que a história vem mostrando que toda sociedade necessita ter seus delinqüentes, uma parcela irrecuperável da população que deve ser isolada e preservada em suas características incorrigíveis. Esse mecanismo faria parte da própria estrutura de poder da sociedade. “Seria hipocrisia ou ingenuidade” explica Foucault, “acreditar que a lei é feita para todo mundo em nome de todo mundo. É mais prudente reconhecer que ela é feita para alguns e se aplica a outros” (FOUCAULT, 2003, p. 229). Drauzio Varella parece ter aceitado essa verdade inquietante e complexa desde seu primeiro dia de trabalho na Casa de Detenção. Embora inicialmente chocado e com a miséria humana e as precárias condições de vida na Casa, afirma que não resistiu à fascinação de mergulhar em um universo tão rico e tão diverso do seu. Como médico, ele explica, não lhe cabia julgar os crimes dos prisioneiros nem fora nem dentro do Carandiru.

Além disso, o respeito sincero dos detentos despertou nele o senso de responsabilidade que alimentou seu trabalho por dez anos. “Com mais de vinte anos de clínica, foi no meio daqueles que a sociedade considera a escória que eu percebi com maior clareza o impacto da presença do médico no imaginário humano”, afirma Varella (VARELLA, 1999, p. 75). A prática da medicina em um lugar tão desfavorável, contando apenas com o estetoscópio e com o escasso equipamento da enfermaria foi um desafio que lhe ensinou muito sobre a medicina. Ensinou-lhe mais ainda sobre a natureza humana e sobre sua própria natureza, que ele passou a conhecer melhor na experiência diária com os habitantes da Casa da Detenção. Entre os detentos, havia demonstrações impressionantes de respeito e de solidariedade. Os paraplégicos e doentes terminais eram auxiliados por seus companheiros nas tarefas diárias. A complexa lógica dos prisioneiros evidenciava um admirável bom senso, como demonstra a hierarquia da Faxina. Por outro lado, por muitas vezes o médico sentiu-se nauseado com a crueldade de um preso com o outro, e com a naturalidade com que essa crueldade era aceita pelos demais. Em seu trabalho Os Sete Saberes Necessários para a Educação no Futuro (MORIN, 2002), Edgar Morin coloca que geralmente “nos apressamos em encerrar na noção de criminoso aquele que cometeu um crime, reduzindo os demais aspectos de sua vida e de sua pessoa a esse traço único” (MORIN, 2002, p. 101). O autor nos aconselha a nos mantermos conscientes da complexidade que constitui o ser humano, e a fazermos um esforço para não reduzir uma pessoa a qualquer uma de suas partes, ou a um fragmento qualquer de seu passado. Drauzio, em sua narrativa, demonstra ter abraçado a idéia da complexidade humana, em seu trabalho e em suas relações com os habitantes do Carandiru.

REFERÊNCIAS: VARELLA, Drauzio. Estação Carandiru. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 1999. FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. 27. ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2003. MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez, 2002.

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