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ENCONTROS

com HOMENS NOT ÁVEIS COLE ÇÃO GANESHA

Louis Andneitr

G. I. GURDJIEFF G. GURDJIEFF

ENCONTROS

com HOMENS NOT ÁVEIS S ÃO PAULO T ítulo do original franc ê s. RENCONTRES AVEC D É S HOMMES REMARQUABLES T ítulo do original ingl ê s:

MEETINGS WITH REMARKABLE MEN Copyright © 1974 by Triangle Editions Traduzido por Eleonora Leit ã o de Carvalho com a colabora çã o de membros da Sociedade para o Estudo e Pesquisa do Homem - Instituto Gurdjieff. (Caixa Postal 1571, Rio de Janeiro) Na sua edi çã o original, Do TODO E DE TODAS AS COISAS compreende tr ê s s é ries: 1.*, Relatos de Belzebu a seu neto, Cr ítica objetivamente imparcial da vida dos homens; 2.", Encontros com homens not á veis; e 3 °, A vida s ó é real quando "Eu sou".

MCMLXXX

Direitos Reservados pela EDITORA PENSAMENTO Rua Dr. M á rio Vicente, 374, fone 63-3141, 04270 S ã o Paulo, SP

Impresso em Sã o Paulo, Brasil, pela EDIPE Artes Gr á ficas

***

Nota Este livro foi scaneado e corrigido por Edith suli;

de deficientes visuais, de acordo com as leis de direitos autorais.

para uso exclusivo

Numera çã o das pá ginas: cabe ç alho.

****

SUM Á RIO NOTA DO EDITOR

NOTA DOS TRADUTORES

1 - INTRODU ÇÃO

1

12

9

2 - MEU PAI

39

3 - MEU PRIMEIRO MESTRE

55

4 - BOGATCHEVSKY

63

5 - POGOSSIAN

82

6 - ABRAM YELOV

111

7 - O PR Í NCIPE LUBOVEDSKY

120

8 - EKIM BEY

176

 

9 - PIOTR KARPENKO

196

10 - O PROFESSOR SKRIDLOV

220

ANEXO: A QUEST ÃO MATERIAL

241

***

NOTA DO EDITOR

(ediçã o francesa)

No ver ã o de 1922, chegou à Fran ç a um desconhecido: George Ivanovitch Gurdjieff. Vinha acompanhado de pequeno grupo de homens e de mulheres, que o haviam conhecido em Moscou e S ã o Petersburgo e haviam-no seguido at é o C á ucaso durante a Revolu çã o; tinham tentado prosseguir com ele sua atividade, ao abrigo da guerra, em Constantinopla,

e depois fugiram da Turquia ante a imin ê ncia de nova crise e encontravam-se agora, depois de um ê xodo

atravé s de diversos pa íses da Europa, em busca de uma propriedade à venda nos arredores de Paris. Compraram a vasta propriedade do Prieur é d"Avon, perto de Fontainebleau, da vi úva de Maitre Labori, advogado de Dreyfus. Gurdjieff estabeleceu ali uma espantosa comunidade que, de pronto, suscitou grande curiosidade. Nesses anos de ap ó s guerra, quando tantas ilus õ es haviam sido extirpadas, o Ocidente sentia profunda necessidade de certezas. Foram inicialmente os ingleses que vieram ao Prieur é , atra í dos por P. D. Ouspensky (escritor russo, nascido em 1877, morto em Londres, em

1947). A ele reuniram-se, mais tarde, americanos.

Cr í ticos, editores, m é dicos, na maioria tinham um nome conhecido. Iam ao Prieur é como que ao encontro de

uma experiê ncia dif ícil, mas se Gurdjieff fosse quem lhes

haviam dito que era, abriria para eles a porta do Conhecimento.

O Prieur é correspondeu à sua esperan ç a.

Vinte e sete anos mais tarde, quando Gurdjieff morreu em Paris, seu nome era ainda desconhecido do grande público, sua obra in é dita e o lugar que ocuparia, na hist ó ria do pensamento, imposs ível de definir. Suas id é ias, por ém, tinham sido transmitidas e, de mais longe que viessem (as id é ias de Gurdjieff parecem, com efeito, ligar-se

a

ENCONTROS com HOMENS NOT ÁVEIS uma tradi çã o muito elevada e long í nqua), haviam encontrado um terreno adequado para germinar. Quem era, pois, Gurdjieff? George Ivanovitch Gurdjieff nasceu em 1. ° de janeiro de 1877 (segundo o antigo calend á rio russo), na cidade de Alexandr ó polis, situada na prov í ncia de Kars, at é ent ã o otomana, que acabava de ser conquistada pelos ex é rcitos do Tzar. Sobre seus pais, sobre sua inf â ncia, sobre a educa çã o que recebeu, s ó podemos recomendar ao leitor os primeiros cap ítulos deste livro. Durante o per íodo que se seguiu e que durou talvez uns vinte anos, Gurdjieff desapareceu. Sabe-se apenas que empreendeu long ínquas viagens, notadamente à Ásia Central. Esses anos foram da maior import â ncia para a forma ção de seu pensamento. Ele pr ó prio

diz: 1 "Eu nã o estava s ó . Havia toda sorte de especialistas conosco. Cada um estudava segundo os m é todos de sua

ciê ncia particular. Depois do que, quando nos reun íamos,

comunic á vamos uns aos outros os resultados obtidos." Fazia assim alus ã o ao grupo dos Buscadores da Verdade. N ã o sab íamos, at é agora, quem tinham sido esses

companheiros de juventude de Gurdjieff. Encontros com Homens Not á veis apresenta-nos alguns deles e d á -nos detalhes sobre suas aventuras e suas viagens. O leitor dever á , por é m, lembrar-se de que este livro, se é uma autobiografia,

nã o é seguramente uma autobiografia no sentido ordin á rio da palavra. N ã o dever á tomar tudo ao p é da letra

(como t ã o pouco transformar tudo em s ímbolos), nem tratar de, para voltar à s fontes do conhecimento, tentar uma explora çã o sistem á tica do curso do rio Piandj ou das montanhas do Kafirist ã o. Pois, embora o relato tenha um tom de ineg á vel autenticidade, parece evidente que Gurdjieff quis confundir as pistas Reencontramos Gurdjieff, na R ússia, em 1913. É em Moscou, na primavera de 1915, que ocorre o encontro de Ouspensky com Gurdjieff. Ouspensky tem uma forma çã o cient ífica.

Publicou, em 1909, um livro sobre a quarta dimens ã o. Na esperan ç a de encontrar no Oriente uma resposta à s quest õ es à s quais, segundo ele, a ci ê ncia do Ocidente n ã o trazia solu çã o, empreendeu uma longa viagem à índia

1. In Fragments d"un Enserg nement tnconnu, de P. D. Ouspensky, Paris, Ed. Stock, 1950. A tradu çã o em

portugu ê s deve sair dentro em breve. (N. dos T.)

3

e

ao Ceilã o. Voltou dessa viagem com a convic çã o de que sua busca n ã o era vã e de que existia realmente algo

no Oriente, mas "que o segredo estava muito mais profundamente

e muito mais bem guardado do que ele havia previsto". J á estava preparando nova viagem, desta vez à Ásia

Central russa e à Pé rsia, quando lhe falaram do espantoso personagem recentemente surgido em Moscou. Sua primeira entrevista com Gurdjieff modificaria todos os seus planos. "Lembro-me muito bem dela. T ínhamos chegado a um pequeno caf é , situado fora do centro, numa rua barulhenta. Vi um homem que j á nã o era mais jovem, de tipo oriental, com um bigode negro e olhos penetrantes; espantou-me antes de mais nada porque, de modo algum, parecia estar em seu lugar em tal local e em tal atmosfera; eu estava ainda repleto das minhas impress õ es do Oriente, e esse homem, com fei çõ es de raj á hindu ou de xeque á rabe,

que visualizaria sob um albomoz branco ou um turbante dourado, produzia, nesse pequeno caf é de lojistas e representantes do com é rcio, com seu sobretudo negro de gola de veludo e seu chap é u-coco negro, a impress ã o inesperada, estranha e quase alarmante, de um homem mal disfar ç ado." Nenhuma das perguntas que lhe fez Ouspensky embara ç ou Gurdjieff. Persuadido de que esse homem poderia ser o caminho em dire çã o ao conhecimento que havia buscado em vã o no Oriente, Ouspensky tornou-se aluno de Gurdjieff. Mais tarde, deveria ele fazer um relato preciso - de honestidade impressionante - dos sete anos que passou junto a seu mestre para elucidar e desenvolver tudo o que este lhe havia deixado entrever nessa primeira conversa çã o em Moscou, em 1915.

Gurdjieff, entretanto, atraiu outros buscadores, em plena guerra. Citemos o compositor Thomas de Hartmann (nascido na Ucr â nia em 1885, morto em Nova Iorque em 1956), que j á era bastante conhecido na R ússia. Foi, gra ç as à sua ciê ncia e ao seu trabalho postos à disposiçã o de Gurdjieff, que se

pô de coligir a obra musical deste.

A Revolu çã o encontrou Gurdjieff rodeado de alunos, em Essentuki, ao norte do C á ucaso. Acabava de lanç ar ali

as bases de um primeiro Instituto Para o Desenvolvimento Harmonioso do Homem. Quando a guerra civil se desencadeou, juntamente com alguns de seus alunos, realizou com ê xito uma expediçã o perigosa atrav é s dos colos do C á ucaso. Tendo, por esse meio inesperado, alcan ç ado T íflis, momentaneamente poupada, a í abriu um novo Instituto. Depois, estando o Sul do C á ucaso submerso pela revolu çã o, refugiou-se com seus alunos em Constantinopla, onde puderam novamente abrir o Instituto.

4

Esse itiner á rio prolonga-se, cada vez mais para Oeste at é Fontainebleau, onde Gurdjieff encontrou, por fim, as

condiçõ es desejadas para fundar o Instituto sobre bases est á veis.

Entre os ingleses que ali se foram reunir a ele, destaca-se a figura de Orage. Para vir ao Prieur é , vendera sua revista The New Age, na qual, no dizer de Bernard Shaw, se havia revelado, durante quatorze anos, "o ensa ísta mais brilhante desta é poca". Nada lhe era estranho, nem no campo liter á rio, nem no campo econ ômico. Orage, para muitos escritores jovens, fora mais que um conselheiro: uma esp é cie de irm ã o mais velho. Margaret Anderson tamb é m fez parte desse grupo, dois anos mais tarde. Havia fundado em Nova Iorque, em 1914, uma revista de vanguarda, The Little Review, na qual

apresentara à Am é rica Apollinaire, Cocteau, Gide, Satie, Schoenberg, Picasso, Modigliani, Braque

arriscado ser presa por nela ter ousado publicar

o Ulisses, de James Joyce. Alcan ç ado o ponto em que n ã o podia mais se satisfazer unicamente com os refinamentos do esp írito, decidiu, tamb ém, reunir-se a Gurdjieff.

Foram muito raros os franceses que se reuniram a Gurdjieff, nesses primeiros anos. Um homem inesquec í vel, Alexandre de Salzmann, tinha-se reunido a ele em T íflis. Era pintor e decorador de teatro. Sua mulher era francesa. Ela é quem deveria mais tarde fazer conhecer o pensamento de Gurdjieff na Fran ç a e levar-lhe os grupos aos quais transmitiu seu ensinamento em Paris, depois do fechamento do Prieur é . Katherine Mansfield, quando de sua chegada ao Prieur é , descreve:

Cuida-se de animais, faz-se jardinagem,

faz-se m úsica

em vez de discorrer sobre elas."

n

E, mais tarde:

há , certamente, outro lugar no mundo onde se

Tinha at é

um velho castelo muito belo, rodeado de um parque admir á vel

deve-se despertar para as coisas,

em tr ê s semanas, sinto que passei anos na í ndia, na Ar á bia, no Afeganist ã o, na P é rsia

ã o

possa aprender o que se aprende aqui"

A vinda de Katherine Mansfield ao Prieur é fez correr muita tinta.

"Da cal ú nia, escreve Pierre Schaeffer no "L ê Monde", sempre resta alguma coisa. No que diz respeito a Katherine Mansfield, por exemplo, à for ç a de repis à -lo em caracteres de imprensa, acabar-se- á por associar a hospitalidade de Gurdjieff ao desgra ç ado fim da pequena t ísica." Quando Katherine Mansfield, j á muito enferma, pedira para ser admitida no Prieur é , Gurdjieff, vendo a gravidade de seu estado, havia

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inicialmente recusado. Orage e os outros insistiram para que se lhe desse essa ú ltima alegria. Katherine Mansfield morreu, alguns meses mais tarde, no Prieur é e Gurdjieff recebeu em recompensa, como o escreve Ouspensky, "seu pleno sal á rio de mentiras e de cal únias".

Dentre os escritores franceses, Ren é Daumal e Luc Dietrich s ã o os que mais diretamente foram alimentados pelo ensinamento de Gurdjieff. Andr é Rousseaux, depois de haver reconhecido que o valor de uma influ ê ncia espiritual mede-se pela qualidade das obras que inspira, escreveu no Figaro Litt é raire: "Se, por exemplo, ficasse provado para n ó s que René Daumal deve verdadeiramente a Gurdjieff muito daquilo que estimamos e admiramos nele, nossa admira çã o por Gurdjieff receberia grande refor ç o. ." De fato, Daumal seguiu o ensinamento de Gurdjieff durante dez anos e L ê Mont Analogue *, dedicado a

. Alexandre de Sakmann, atravé s de quem Daumal conhecera Gurdjieff, é uma transposi çã o poé tica totalmente transparente da experi ê ncia interior que Daumal e seus companheiros perseguiam. Tomadas de posi çã o apaixonadas ocorreram, pr ó ou contra Gurdjieff, alguns anos depois de sua morte, quando seu nome, alcan ç ando o p ú blico, foi abusivamente empregado por pessoas que n ã o o haviam conhecido. Assim tiveram origem ditos absurdos aos quais, é claro, ningu é m jamais trouxe sequer um in ício de prova. Gurdjieff n ã o fechava sua porta para ningu é m. Gostar-se-ia de saber quais foram as impress õ es profundas do arcebispo de Cantu á ria, quando passou um fim de semana no Prieur é ou as de Louis Jouvet, quando visitou Gurdjieff em Paris. Entre os visitantes dos domingos, inclui-se tamb ém Denis Saurat, tipicamente universit á rio, ent ã o diretor do Institut Fran ç ais au Royaume-Uni (Instituto Franc ê s no Reino Unido), que ali reencontrava seu amigo A. R. Orage. Ao aproximar-se do Prieur é , Denis Saurat temia antes de tudo ser enganado e levou dez ou mais anos para "digerir" as m últiplas impress õ es que recebeu nesse dia. Muitos anos mais tarde, resumiu assim a impress ã o que havia colhido de sua entrevista com Gurdjieff: "De modo algum sou disc ípulo de Gurdjieff. O breve contato que tive com ele deixou-me a impress ã o de uma personalidade humana muito forte, acompanhada ou sobrepujada por uma espiritualidade muito elevada, tanto moral como metaf í sica.

Entendo por isto, que me pareceu que somente as mais altas

*

O Monte An á logo. (N. dos T.)

4

6

inten çõ es morais regiam sua conduta e que, por outro lado, sabia sobre o mundo espiritual coisas que poucos

homens sabem e que era verdadeiramente um mestre no dom í nio da intelig ê ncia e do esp írito."

A ú nica manifesta çã o pú blica de Gurdjieff e de seus alunos, durante esse per í odo, foi uma demonstra çã o de

dan ç as sagradas e de "movimentos" que apresentaram no Theatre

dê s Champs- É lys é es, em outubro de 1923. Esses exerc ícios foram apresentados como sendo ao mesmo tempo

uma restituiçã o de danç as dervixes e de cerim ô nias sagradas (das quais seu autor fora testemunha, no curso de suas viagens na Ásia Central) e como m é todo de educa çã o. Os parisienses n ã o estavam bem preparados para ver nas dan ç as, mesmo sagradas, outra coisa al é m de um simples espet á culo. Se a danç a era uma linguagem, gostariam que suas chaves lhes fossem dadas. Gurdjieff, por ém, sem se deter nessas obje çõ es, ia fazer com que seus alunos se defrontassem com uma prova mais dif ícil ainda. Acompanhado de quarenta deles, ia levar suas id é ias a Nova Iorque e dar ali representa çõ es de seus "movimentos". Embarcaram em 4 de janeiro de

1924.

Encontra-se, na imprensa da é poca, o relato de duas s é ries de representa çõ es que deu, uma no Neighbourhood

Playhouse e a outra no Carnegie Hall. Algumas semanas ap ó s seu regresso à Franç a, Gurdjieff ficou gravemente ferido num acidente de carro e s ó

lentamente recuperou as for ç as. Vendo que s ó lhe restava pouco tempo para cumprir a tarefa que se impusera, fechou parcialmente o Instituto e tornou-se escritor, a fim de "transmitir suas id é ias sob uma forma acess ível

a todos".

Desde ent ã o e por alguns anos, escrever tornou-se obrigaçã o essencial para ele. Nunca cessou, por é m, de

compor m úsica, improvisando quase todos os dias, numa esp é cie

de harm ô nio port á til, hinos, oraçõ es ou melodias de inspira çã o curda, arm ê nia ou afegã , que Thomas de Hartmann anotava e transcrevia. Essa m úsica simples e profunda

nã o é a parte menos espantosa de sua obra.

Submeteu-se ao of ício de escritor, com essa esp é cie de habilidade artesanal que lhe havia permitido, na juventude, aprender tantos outros of ícios.

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Conta ele pr ó prio, no primeiro cap ítulo dos R é cits de Belzé buth à son Petit-Fils *, quais foram as dificuldades que

encontrou desde o in ício. Depois de haver hesitado, decidira escrever em russo. Suas l ínguas maternas eram, al ém do grego, o arm ênio e o turco. Pensava em persa. Gracejava em russo. Contava hist ó rias em inglê s "com uma simplicidade oriental que desorientava por sua apar ê ncia de ingenuidade". N ã o escondia seu desdé m pelas conven çõ es gramaticais, englobadas por ele no vasto campo do que denominava, com acento carregado de ironia, "o bom-tom". Em compensa çã o, tinha profundo interesse pelo estilo de frase da sabedoria popular, manejando com grande per ícia prové rbios que atribu í a ao lend á rio Mullah Nassr Eddin, mesmo quando eram de sua lavra. Os que se aproximaram dele, durante esse per íodo, viram-no, freq üentemente, escrever at é horas avan ç adas da noite, no Prieur é , em viagem, nas mesas dos caf é s das cidades do interior e, naturalmente, no Caf é de Ia Paix que, dizia, era "seu escrit ó rio". Acrescentava que, quando precisava de grande concentra çã o, o vaivé m de seres humanos de toda esp é cie em torno dele estimulava seu trabalho. Assim que acabava um cap ítulo, fazia-o traduzir rapidamente, para que fosse lido para as pessoas que o rodeavam, cujas rea çõ es vigiava. Instru ído por essa experi ê ncia, refazia o trabalho. E recome ç ava a prova tantas vezes quanto necess á rio.

Escreveu, assim, durante uma dezena de anos. N ã o foi apenas um livro que comp ô s, sob o t ítulo de Du TOUT ET DE TOUT (Do Todo e de Todas as Coisas), mas tr ê s volumosas obras, cuja aparente diversidade corresponde à sua inten çã o de transmitir suas id é ias em tr ê s etapas e sob tr ê s formas diferentes.

A primeira, intitulada R É CITS DE BELZ É BUTH À SON PETIT-FILS ou CRITIQUE OBJECTIVEMENT

IMPARTIALE DE LA VIE D É S HOMMES (Relatos de Belzebu a seu Neto ou Cr ítica Objetivamente Imparcial da Vida dos Homens), visa - escreve ele - "extirpar as cren ç as e opiniõ es enraizadas no psiquismo

dos homens a respeito de tudo o que existe no mundo". Aos leitores que aceitaram essa d ú vida sobre si mesmos reserva a segunda obra, RENCONTRES AVEC D É S

HOMMES REMARQUABLES (Encontros com Homens Not á veis), por meio da qual quer "fazer conhecer o material necess á rio a uma reedifica çã o e provar a qualidade e a solidez deste".

*

Relatos de Belzebu a seu Neto. (N. dos T.)

8

A

terceira, intitulada LA VIE N"EST R É ELLE QUE LORSQUE "j £ Suis" (A Vida S ó É Real Quando "Eu Sou") tem

como meta "favorecer, no pensar e no sentimento do leitor,

a eclos ã o de uma representa çã o justa, n ã o fantasiada, do mundo real". Foi escrita para o pequeno n úmero daqueles que se haviam realmente engajado em seu ensinamento.

A primeira das tr ê s estava no prelo, nos Estados Unidos, por ocasi ã o da morte de Gurdjieff. Foi lan ç ada

sucessivamente em Nova York 2, em Londres s, em Viena 4, e, por fim, em Paris, em 1956 5.

A segunda, que entregamos ao p úblico onze anos depois da morte do autor, ter á ó interesse de dar, pela

primeira vez, algumas precis õ es sobre a parte mais misteriosa, até agora, da vida de Gurdjieff. Quando terminou de escrever, Gurdjieff - depois de haver definitivamente fechado o Prieur é - veio morar em Paris. Retomou a í, com um grupo de alunos, desta vez franceses,

o ensinamento direto, capaz de fazer apelo aos mais diversos meios de express ã o, dos quais possu ía o segredo.

Foi freq ü entemente

passou integralmente em Paris. Morreu em Paris, a 29 de outubro de 1949.

A primeira voz que se levantou, alguns dias depois de sua morte, veio da Am é rica. Foi a do arquiteto Frank

Lloyd Wright, declarando:

"Kipling disse, certa vez, que esses g ê meos - com isso indicava o Oriente e o Ocidente - jamais se poderiam

entender. Mas, na vida de Gurdjieff, em sua obra e em sua palavra, h á uma filosofia sa ída das profundezas da sabedoria da Ásia, há alguma coisa que o homem do Ocidente pode compreender. E na obra desse homem e em seu pensamento - no que fez e na maneira como o fez - o Ocidente encontra-se verdadeiramente com o Oriente." 2. tt í-Fils.

3 Harcourt Brace, All and Everything

4 Routledge and Kegan Paul, All and Everything

5 Verlag der Palme, All und Alles Editions Janus, distribua par Denoel, R é cils de Belzé buth à son Fils.

aos

Estados Unidos

durante

esse per íodo, exceto durante os anos da guerra, que

***

NOTA DOS TRADUTORES (ediçã o francesa)

A obra de Gurdjieff é m últipla. Mas, seja qual for a forma pela qual ele se exprime, sua palavra é sempre um

apelo. "- Chama, porque sofre com o caos interior no qual vivemos. Chama, para fazer-nos abrir os olhos. *" Pergunta-nos por que estamos aqui, o que queremos, a que for ç as obedecemos. Pergunta-nos principalmente se compreendemos o que somos. Quer fazer-nos recolocar tudo em quest ã o.

E porque insiste e porque sua insist ê ncia nos obriga a responder, estabelece-se, entre ele e n ó s, uma rela çã o que é parte integrante de sua obra. Durante cerca de quarenta anos, esse apelo ecoou com tanta for ç a que, de todos os continentes, homens vieram até ele. Mas, aproximar-se dele era sempre uma prova. Diante dele qualquer atitude parecia artificial. Quer fosse de defer ê ncia excessiva ou, ao contr á rio, de pretens ã o, desde os primeiros minutos era reduzida a caos. Ca ída a atitude, s ó restava uma criatura humana despojada de sua m á scara" e surpreendida, por um instante, em toda

a sua verdade

Experiê ncia impiedosa e para alguns imposs ível de suportar.

Esses n ã o lhe perdoavam o terem sido penetrados a fundo e, uma vez fora de seu alcance, procuravam justificar-se por todos os meios. Assim nasceram as lendas mais extravagantes.

O pr ó prio Gurdjieff divertia-se com essas hist ó rias. Se necess á rio, at é as provocava nem que fosse para se livrar

dos simples curiosos, incapazes de compreender

o sentido de sua busca

10

Quanto aos que haviam sabido aproximar-se dele e para os quais esse encontro fora um evento determinante, qualquer tentativa de descrev ê -lo parecer-lhes-ia irris ó ria. Eis por que os testemunhos diretos s ã o t ã o raros. Entretanto, a pr ó pria pessoa de Gurdjieff é insepar á vel da influ ê ncia que n ã o cessou de exercer. É , pois, leg ítimo

querer conhecer o que foi sua vida, ao menos nas linhas essenciais. Por isso, os alunos de Gurdjieff acharam necess á rio tornar p úblicos esses relatos, concebidos na origem para serem lidos em voz alta, num c írculo restrito de alunos

e de convidados. Neles, Gurdjieff fala do per í odo menos conhecido de sua exist ê ncia: sua inf â ncia, sua

adolesc ê ncia e as primeiras etapas de sua busca. Mas, se Gurdjieff se relata, é para servir a seu verdadeiro des í gnio. Vemos bem que n ã o se trata a í de uma

autobiografia, no sentido estrito da palavra. Para ele,

o passado s ó vale a pena ser relatado, na medida em que é "exemplar". O que sugere, nessas aventuras, n ã o s ã o exemplos a serem imitados exteriormente, mas toda uma

maneira de ser diante da vida, que nos toca diretamente e nos faz pressentir uma realidade de outra ordem. Pois Gurdjieff n ã o era, nã o podia ser, apenas um escritor. Sua fun çã o era outra. Gurdjieff era um mestre. Essa no çã o de mestre, t ã o corrente no Oriente, n ã o é praticamente aceita no Ocidente. N ã o evoca nada de preciso, seu conte údo é dos mais vagos, se n ã o até mesmo

suspeito. Digamos que, segundo as concep çõ es tradicionais, a fun çã o do mestre n ã o se limita ao ensinamento das doutrinas, mas significa uma verdadeira encarna çã o do conhecimento, gra ç as ao qual o mestre pode provocar em despertar e, por sua pr ó pria presen ç a, ajudar o aluno em sua busca. Est á aí para criar as condi çõ es de uma experi ê ncia, atravé s da qual o conhecimento poder á ser "vivido" t ã o completamente quanto poss ível. Esta é a pr ó pria chave da vida de Gurdjieff.

11

Desde seu regresso ao Ocidente, trabalha sem descanso para constituir ao seu redor um c írculo de homens decididos a partilhar com ele uma exist ê ncia totalmente voltada para o desenvolvimento da consci ê ncia. Exp õê -lhes suas id é ias, anima e sustenta-lhes a busca e leva-os à convic çã o de que, para ser completa, sua experi ê ncia deve dirigir-se simultaneamente a todos os aspectos do ser humano: é a pr ó pria idé ia do "desenvolvimento harm ônico do homem", da qual queria fazer a base desse "Instituto", que, durante numerosos anos, esfor ç ou-se por erguer. Para atingir essa meta, Gurdjieff teve que travar uma luta encarni ç ada atravé s de dificuldades acumuladas pela

guerra, pela revolu çã o, pelo ex ílio, pela indiferen ç a de uns e hostilidade de outros.

A fim de dar ao leitor uma id é ia do que foi essa luta e da engenhosidade incans á vel que desdobrou para

sustent á -la, inseriu-se no final deste livro um texto, que primitivamente n ã o lhe era destinado. É o relato que fez, um dia, em resposta a uma pergunta, aparentemente muito indiscreta, sobre a origem dos

recursos do Essa surpreendente narrativa, publicada sob o t ítulo de A Quest ã o Material, contribui para que melhor possamos compreender como a exist ê ncia de um mestre e todo

o seu comportamento est ã o sujeitos à realiza çã o de sua miss ã o.

1

INTRODU ÇÃO

***

Decorreu um m ê s, desde que terminei a primeira s é rie de minhas obras, um m ê s consagrado inteiramente ao repouso das partes de minha "presen ç a geral" subordinadas à minha razã o pura, Como disse 1, tinha-me prometido n ã o escrever mais uma s ó linha durante esse per íodo e contentar-me com beber bem devagar e suavemente - para o bem-estar da mais merit ó ria dessas partes - todas as garrafas de velho "calvados" que a vontade do destino havia posto à minha disposiçã o, na adega do Prieur é , preparada, com tanto cuidado h á uns. cem anos, por homens que compreendiam o verdadeiro sentido da vida. Agora minha decis ã o está tomada. Sem nenhum constrangimento e at é com o maior prazer, quero voltar a escrever - sustentado, é claro, por todas as for ç as que j á me vieram em aux ílio e, alé m disto, desta vez, pelos resultados c ó smicos, conformes à s leis, que fazem afluir, de toda parte em dire çã o à minha pessoa, os votos benfazejos que me dirigir ã o em pensamento os leitores dos livros da primeira s é rie. Proponho-me dar, ao conjunto das id é ias que Vou expor, uma forma acess ível a todos, na esperan ç a de que essas id é ias possam servir de elementos construtivos e preparar

o consciente das criaturas, minhas semelhantes, para a edifica çã o de um novo mundo - mundo real, a meu ver,

e suscet ível de ser percebido como tal, sem o m ínimo impulso de d ú vida, por todo pensar humano - em vez desse mundo ilus ó rio que nossos contempor â neos se representam. De fato, o pensamento de um homem contempor â neo, qualquer que seja o seu n ível intelectual, s ó toma consci ê ncia do mundo a partir de dados que desencadeiam nele

toda esp é cie de impulsos fant á sticos. E esses impulsos, modificando a cada instante o tempo das associa çõ es que se desenrolam sem cessar nele, desarmonizam completamente

1.

Ver o último cap ítulo dos R é ctts de Belzé buth à son Pettt-Fils

13

o conjunto de seu funcionamento. Diria, at é , que todo homem capaz de se isolar das influ ê ncias da vida

ordin á ria e de refletir de maneira mais ou menos s ã deveria ficar horrorizado com as conseq üê ncias dessa desarmonia, que chega at é a comprometer a dura çã o de sua pr ó pria exist ê ncia.

Mas, para dar um impulso ao meu pensamento, bem como ao seu e comunicar-lhes o ritmo desejado, quero seguir o exemplo do grande Belzebu e imitar aquele a quem ele venerava como eu - e talvez tamb é m como voc ê , intr é pido leitor de minhas obras, se é que teve a coragem de ler at é o fim os livros da primeira s é rie. Pedindo emprestado, pois, a nosso caro Mullah Nassr Eddin 2 sua forma de pensar e at é mesmo suas expres õ es, abordarei de pronto, como o teria dito este s á bio entre os s á bios, um "sutil problema filos ó fico".

2. Figura lend á ria em numerosos pa íses do Oriente Pr ó ximo, Mullah Nassr Eddin encarna a sabedoria

popular.

Se decidi agir assim desde o in ício, foi por ter a inten çã o de aproveitar t ã o freqüentemente quanto poss ível, tanto neste livro quanto nos seguintes, a sabedoria desse mestre universalmente reconhecido e a quem, de acordo com certos rumores, seria atribu ído dentro em breve, por quem de direito, o t ítulo oficial de Ü nico no

mundo. Ora, esse sutil problema filos ó fico surge j á nessa esp é cie de perplexidade, que n ã o ter á deixado de invadir o leitor desde as primeiras linhas deste cap ítulo, se tiver confrontado os numerosos dados sobre os quais repousam suas mais bem-estabelecidas convic çõ es sobre assuntos m é dicos, com a id é ia de que eu, o autor dos R é cits de Belzé buth à son Petit-Fils, enquanto o funcionamento de meu organismo ainda n ã o estava totalmente restabelecido, depois do acidente que quase me havia custado

a vida - o que nã o me havia impedido de sustentar um esfor ç o cont ínuo para expor minhas id é ias e transmiti-las aos outros com a maior exatid ã o poss ível - tivesse podido fazer um repouso totalmente satisfat ó rio, gra ç as a um uso generoso de á lcool, sob a forma de velho "calvados" ou de qualquer outro de seus admir á veis primos cheios de for ç a viril.

A bem dizer, para resolver sem erro o sutil problema filos ó fico, assim proposto de improviso, seria ainda

necess á rio poder julgar de modo eq ü itativo o fato de que

nã o me ative estritamente à palavra que me tinha dado, de beber todo o velho "calvados" que me restava.

De fato, durante esse per íodo consagrado a meu repouso, n ã o me foi poss ível, apesar de todo o meu desejo autom á tico, limitar-me

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a essas quinze garrafas de velho "calvados" e foi-me necess á rio combinar seu sublime elixir com o de outras

duzentas garrafas de velho "armagnac" leg í timo, também elas de aspecto encantador e de conte údo nã o menos sublime, a fim de que esse conjunto de subst â ncias c ó smicas pudesse bastar ao meu consumo pessoal, bem como ao de toda a tribo dos que se tornaram, no curso dos últimos anos, meus assistentes inevit á veis nas cerim ô nias dessa esp é cie.

O veredicto que seria pronunciado a meu respeito deveria, finalmente, levar em conta o fato de que, desde o

primeiro dia, abandojrtei meu h á bito de beber "armagnac"

em copos de licor para beb ê -lo em copos de ch á . E parece-me que foi por instinto que operei essa mudan ç a, sem dúvida para que, uma vez mais, a verdadeira justi ç a pudesse triunfar.

N ã o sei como vã o as coisas com voc ê , corajoso leitor, mas quanto a mim, meu pensamento j á encontrou seu

ritmo e posso agora, sem me violentar, tornar a sofisticar. Proponho-me, entre outras coisas, introduzir, nesta segunda s é rie, sete m á ximas chegadas at é nó s do fundo dos tempos, gra ç as a inscri çõ es que tive ocasi ã o de decifrar em diversos monumentos, durante minhas viagens, e nas quais nossos remotos ancestrais haviam exprimido certos aspectos da verdade objetiva, percept í veis por toda razã o humana, mesmo pela de nossos contempor â neos.

Para come ç ar, tomarei uma que poder á muito bem servir de ponto de partida-para as exposi çõ es que se seguir ã o e que, alé m disso, constituir á excelente tra ç o de uniã o com a conclus ã o da primeira s é rie.

A antiga m á xima, escolhida por mim como tema deste primeiro cap ítulo, formula-se assim:

Só merecer á o nome de homem e somente poder á contar com algo que foi preparado para ele, desde O Alto,

aquele que tiver sabido adquirir os dados necess á rios para

conservar indenes tanto o lobo como o cordeiro que foram confiados à sua guarda. Ora, a an á lise filoló gica dita "psicoassociativa", à qual essa m á xima de nossos ancestrais foi submetida, em nossos dias, por alguns verdadeiros s á bios - nada tendo em comum, é claro, com os que habitam o continente da Europa - demonstra claramente que nela a

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palavra lobo simboliza o conjunto do funcionamento fundamental e reflexo do organismo humano e a palavra cordeiro, o conjunto do funcionamento do sentimento. Quanto ao funcionamento do pensar humano, é este representado aqui pelo pr ó prio homem - o homem capaz de adquirir, no curso de sua vida respons á vel, por seus esfor ç os conscientes

e seus sofrimentos volunt á rios, os dados que conferem o poder de criar sempre condi çõ es que tornem poss ível uma exist ê ncia comum para essas duas vidas individuais,

estranhas uma à outra e de naturezas diferentes. Só um homem como esse pode esperar tornar-se digno de possuir o que é designado nessa m á xima como lhe estando preparado desde O Alto e que, de maneira geral, é destinado

ao homem. É interessante observar que, entre os numerosos enigmas aos quais os diferentes povos da Ásia recorrem freq üentemente, por um h á bito autom á tico, e que reclamam solu çõ es cheias de malícia, h á um - onde o lobo e a cabra (em vez do cordeiro) desempenham tamb ém seu papel - que, em minha opiniã o, corresponde bem à pr ó pria ess ê ncia de nossa m á xima.

A quest ã o que prop õ e esse astucioso enigma é a seguinte: como poder á um homem, tendo sob sua guarda um

lobo, uma cabra e alé m disto, desta vez, uma couve, transport á -los de uma para outra margem de um rio, se se considerar, por um lado, que n ã o pode levar com ele, em seu

barco, mais de uma dessas tr ê s cargas e, por outro, que, sem sua vigil â ncia constante e sua influê ncia direta, o lobo pode sempre comer a cabra e a cabra, a couve.

A solu çã o correta desse enigma popular n ã o s ó exige que nosso homem d ê provas da engenhosidade pr ó pria a

todo ser normal, mas ainda que n ã o seja preguiç oso nem poupe suas for ç as, pois para alcan ç ar seus fins dever á atravessar o rio uma vez mais. Se voltarmos à profunda significa çã o de nossa primeira m á xima, levando em conta o ensinamento que traz a solu çã o correta desse enigma popular e se refletirmos sobre isto, fazendo abstra çã o de todos esses preconceitos que, no homem contempor â neo, s ã o apenas o produto de seus "pensamentos ocos", é imposs ível deixarmos de admitir com a cabe ç a e reconhecer com o sentimento, que todo ser que se atribui o nome de homem deve dominar sua preguiç a e, inventando sem cessar novos compromissos, lutar

contra as fraquezas que descobriu em si, a fim de chegar à meta que se fixou: conservar indenes esses dois animais independentes que foram confiados à guarda de sua razã o e que s ã o, por sua pr ó pria ess ê ncia, opostos um ao outro.

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Julgando que havia terminado na v é spera com o que tinha chamado de minhas "sofistica çõ es para dar um impulso ao meu pensamento", reuni nessa manh ã todas as notas redigidas durante os dois primeiros anos de minha atividade de escritor, com a intençã o de servir-me delas como material para o in ício desta segunda s é rie e fui sentar-me no parque, sob as á rvores de uma al é ia hist ó rica, para -ali trabalhar. Depois de haver relido as duas ou tr ê s primeiras p á ginas, esquecendo tudo o que me rodeava, ca í em profunda medita çã o. Interrogando-me sobre a maneira de continuar e cheio dos pensamentos que isto me sugeria, ali fiquei, sem escrever uma s ó palavra, at é ao cair da noite. Estava t ã o absorto em minhas reflex õ es, que nem uma s ó vez me apercebi de que minha sobrinha mais nova, a que tinha por tarefa cuidar para que o caf é á rabe, ao qual recorro sempre em meus momentos de intensa atividade f ísica ou mental, n ã o esfriasse demasiado em minha x ícara, tinha vindo nesse dia, como soube mais tarde, troc á -lo vinte e tr ê s vezes.

Para que possam compreender toda a gravidade dessa medita çã o e visualizar, ao menos aproximadamente, em que situa çã o dif ícil me encontrava, devo dizer-lhes que, depois de ter lido essas p á ginas e de ter-me lembrado, por associa çã o, de todo o conte údo dos manuscritos que tinha a inten çã o de utilizar como introdu çã o, tornou-se-me claro que tudo aquilo sobre o que me tinha debru ç ado, durante tantas noites insones, n ã o convinha mais à minha meta, devido a todas as modifica çõ es e acr é scimos que tinha feito na reda çã o definitiva dos livros da primeira s é rie. Quando compreendi isso, experimentei durante cerca de meia hora esse estado que Mullah Nassr Eddin define assim: sentir-se enfiado dentro da galocha at é à raiz dos cabelos; depois, tomei meu partido e decidi refazer este cap ítulo de ponta a ponta. No entanto, continuei, por automatismo, a relembrar toda esp é cie de frases de meu manuscrito e lembrei-me, de repente, de uma passagem em que, desejando explicar por que me mostrava

tã o impiedoso em minha cr ítica da literatura contempor â nea,

havia introduzido certas reflex õ es tiradas do discurso de um velho letrado persa que me lembrava de haver escutado em minha mocidade e que descrevia, a meu ver, da melhor maneira poss ível, as caracter ísticas da civiliza çã o contempor â nea. Considerava ent ã o imposs ível privar o leitor das reflex õ es habilmente dissimuladas entre as linhas dessa passagem, pois, para aquele que soubesse decifr á -las, constituiriam

um material que permitiria uma

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compreens ã o justa do que me propunha explicar nas duas últimas s é ries, sob forma acess ível a todo buscador

da verdade. Essas considera çõ es levaram-me a me perguntar como fazer para dar à minha exposi çã o a forma que exigiam a partir de agora as importantes modifica çõ es feitas nos livros da primeira s é rie, sem com isso privar dessas reflex õ es o leitor. Evidentemente, o que havia redigido durante os dois primeiros anos deste of ício de escritor - que tinha sido for ç ado a adotar - nã o mais correspondia ao que era agora necess á rio.

De fato, havia ent ã o escrito quase tudo do primeiro jato, sob forma concisa, compreens ível apenas para mim, com a inten çã o de desenvolver mais tarde todo esse material em trinta e seis livros, cada um dos quais seria consagrado a uma quest ã o especial. No curso do terceiro ano, tinha dado ao conjunto do que havia assim sumariamente esbo ç ado, uma forma acess ível, sen ã o a todos, pelo menos aos que j á estivessem familiarizados com um pensar abstrato. Mas como, pouco a pouco, tinha-me tornado mais

há bil na arte de esconder pensamentos s é rios sob formas de express õ es agradá veis, f á ceis de compreender e

de associar aos pensamentos quotidianos da maioria dos homens contempor â neos certas id é ias que s ó podem ser percebidas com o tempo, vi que era necess á rio tomar

o caminho exatamente inverso daquele que havia adotado at é

ent ã o: em vez de procurar alcan ç ar, atravé s da quantidade de obras, a meta que me havia fixado, deveria a partir de agora alcan çá -la unicamente atrav é s de sua qualidade.

E retomei, desde o início, a exposi çã o de tudo o que havia esbo ç ado, desta vez, com a inten çã o de reparti-lo em tr ê s s é ries, cada uma delas devendo, por sua vez, ser dividida em v á rios livros. Estava, pois, nesse dia, imerso em profunda medita çã o, tendo ainda fresca na mem ó ria a s á bia m á xima da

vé spera, que aconselhava a nos esfor ç armos sempre para que

o lobo fosse saciado e o cordeiro permanecesse indene.

Quando, por é m, ao cair da noite, a famosa umidade de Fontainebleau, atravessando as solas dos meus

sapatos, havia afetado até minha faculdade de pensar, (ao passo

que de l á de cima, gentis criaturas de Deus, denominadas passarinhos, provocavam cada vez mais sobre meu

cr â nio liso uma sensa çã o de frescura), de s úbito, surgiu

em mim a decis ã o categó rica de n ã o levar nada nem ningu é m em conta e de inserir neste primeiro cap ítulo, a

título de desenvolvimento digressive, como diriam os escritores patenteados - nã o sem hav ê -los burilado de antem ã o - todos os fragmentos que me agradavam nesse manuscrito, destinado inicialmente a servir de introdu çã o a um dos

trinta

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e seis livros. Depois do que, por-me-ei a escrever, em estrita conformidade ao princ ípio adotado para as obras

desta s é rie.

Essa solu çã o ter á uma dupla vantagem. Poupar á a meu c é rebro, j á bastante sobrecarregado sem isso, novas

tens õ es supé rfluas e permitir á aos leitores, sobretudo à queles que tenham lido meus escritos anteriores, descobrir a opini ã o objetivamente imparcial que pode formar-se no psiquismo de certos homens que receberam por acaso uma educa çã o mais ou menos normal, em rela çã o à s manifesta çõ es dos eminentes representantes da civiliza çã o contempor â nea. Nesta introdu çã o, primitivamente destinada ao trig é simo livro e intitulada Por que me tornei escritor, falava das impressõ es acumuladas em mim, no curso de minha vida e sobre as quais se fundamenta a opini ã o pouco lisongeira que tenho dos representantes da literatura contempor â nea. Reproduzi, a prop ó sito disto, como j á disse,

o discurso que ouvira, em minha mocidade, quando de minha primeira estada na P é rsia, num dia em que assistia a uma reuni ã o de intelectuais, na qual se discutia sobre

a cultura contempor â nea.

Entre os que mais falaram nesse dia, estava o velho intelectual persa ao qual aludi - intelectual, n ã o na acep çã o europ é ia da palavra, mas no sentido que se lhe dá no continente da Ásia, isto é , n ã o somente pelo saber mas pelo ser. Era, ali á s, muito instru í do e possu ía um profundo conhecimento da cultura europ é ia. Disse, entre outras coisas:

"É muito lament á vel que o per íodo atual de cultura - que denominamos e ser á denominado pelas futuras gera çõ es civiliza çã o europ é ia - seja interm é dio, por assim dizer, na evolu çã o da humanidade; em outros termos, que seja um abismo, um per íodo de aus ê ncia no processo geral de aperfeiç oamento humano, uma vez que os representantes dessa civiliza çã o s ã o incapazes de transmitir a seus descendentes, como heran ç a, qualquer coisa de v á lido para

o desenvolvimento da intelig ê ncia, esse motor essencial

a todo aperfei ç oamento.

"Assim, um dos meios principais de desenvolvimento da intelig ê ncia é a literatura. "Mas, para que pode servir a literatura da civiliza çã o contempor â nea? Absolutamente para nada, a n ã o ser para

a propaga çã o da palavra prostitu í da.

"A razã o fundamental dessa corrup çã o da literatura contempor â nea é , a meu ver, que toda a aten çã o

concentrou-se pouco a pouco, por si pr ó pria, nã o mais sobre a qualidade do pensamento nem sobre

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a exatid ã o de sua transmiss ã o, mas apenas sobre uma tend ê ncia à car ícia exterior; em outros termos, à beleza

do estilo, para produzir afinal o que chamei palavra prostitu í da. "E, de fato, acontece a todos passar um dia inteiro lendo um grosso livro, sem saber o que quer dizer o autor e somente perto do final, depois de haver perdido um tempo precioso, j á demasiado curto para fazer face à s obriga çõ es da vida, descobrir que toda essa m úsica repousava sobre uma ínfima ideiazinha, por assim dizer nula. "Toda a literatura contempor â nea pode ser dividida, segundo seu conte ú do, em tr ê s categorias: a primeira

abrange o que se denomina o campo cient ífico, a segunda consiste em relatos e a terceira em descri çõ es. "Nos livros cient íficos, desenvolvem-se longas considera çõ es sobre toda esp é cie de antigas hip ó teses conhecidas de todo mundo há muito tempo, mas a cada vez combinadas, expostas e comentadas de maneira um pouco diferente. "Nos relatos ou como se diz, nos romances, que enchem volumes inteiros, conta-se, na maioria das vezes sem nos poupar nenhum detalhe, como um certo Jo ã o da Silva

e uma certa Maria Cunha chegaram por fim a satisfazer seu amor - esse sentimento sagrado que degenerou

pouco a pouco entre os homens, em raz ã o de sua fraqueza e de sua falta de vontade, at é tornar-se um vício definitivo para nossos contempor âneos, ao passo que a possibilidade de uma manifesta çã o natural desse sentimento nos havia sido dada pelo Criador, para a salva çã o de nossas almas e o sustent á culo moral rec íproco que exige uma exist ê ncia coletiva mais ou menos feliz. "Quanto aos livros da terceira categoria, oferecem-nos descri çõ es da natureza, de animais, de viagens e de aventuras nos mais diversos pa íses. As obras deste g ê nero s ã o escritas, geralmente, por pessoas que nunca foram a parte alguma e que, por conseguinte, nunca viram

nada de real; ou seja, pessoas que, como se diz, nunca sa íram de seu escrit ó rio. com raras exce çõ es, dã o simplesmente livre curso à sua imagina çã o ou transcrevem

fragmentos diversos, t ã o fantasistas quanto os anteriores, extra ídos

dos livros de seus antecessores. "Reduzidos a essa miser á vel compreens ã o da responsabilidade e do real alcance da obra liter á ria, os escritores atuais, em sua procura exclusiva da beleza do estilo, entregam-se, à s vezes, a incr íveis elucubra çõ es, unicamente com o fim de obter a deliciosa sonoridade da rima, como dizem, acabando deste modo por destruir o sentido, j á bastante fraco, de tudo o que haviam escrito.

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"Por mais estranho que lhes possa parecer, por é m, nada é mais prejudicial à literatura contempor â nea que as gram á ticas - quero dizer as gram á ticas particulares a cada um dos povos que tomam parte no que chamaria o concerto geral catastrof ô nico da civiliza çã o contempor â nea. "Essas gram á ticas, na maioria dos casos, s ã o constitu í das artificialmente e, tanto os que as inventaram como os

que continuam a modific á -las, pertencem a uma categoria de homens totalmente ignaros no que tange à compreens ã o da vida real e da linguagem que dela decorre para as rela çõ es m útuas. "Ao contr á rio, entre os povos das é pocas passadas, a verdadeira gram á tica, como no-lo mostra claramente a hist ó ria, foi moldada pouco a pouco, pela pr ó pria vida, de conformidade com as diferentes fases de seu desenvolvimento, as condi çõ es clim á ticas de seu principal local

de exist ê ncia e as formas predominantes que entre eles assumia a busca do alimento. "No mundo contempor â neo, a gram á tica de algumas l ínguas chegou a desvirtuar a tal ponto o verdadeiro sentido do que se deseja exprimir, que o leitor das obras liter á rias de hoje - principalmente se for um estrangeiro - encontra-se privado das últimas possibilidades de captar nem ao menos as min úsculas id é ias que nelas ainda podem se encontrar e que, expostas de outro modo, isto é , sem a aplica çã o dessa gram á tica, teriam talvez permanecido compreens íveis. "A fim de tornar mais claro o que acabo de dizer, prosseguiu o velho letrado persa, tomarei como exemplo um epis ó dio de minha pr ó pria vida. "Como sabem, de todos os meus pr ó ximos pelo sangue, s ó me restou um sobrinho que, tendo herdado h á alguns anos uma explora çã o de petr ó leo nos arredores de Baku, viu-se for ç ado a ir viver l á . "Vou, de vez em quando, a essa cidade, pois, todo entregue a seus in úmeros negó cios, meu sobrinho n ã o pode quase ausentar-se para ver seu velho tio, no pa ís que nos viu nascer a ambos. "O distrito de Baku, onde se encontra essa explora çã o, est á , atualmente, sob a depend ê ncia dos russos, que constituem uma das grandes na çõ es da civiliza çã o contempor â nea e que, como tal, produz uma literatura abundante. "Ora, a maioria dos habitantes de Baku e de seus arredores pertence a tribos que nada t ê m em comum com os russos; em sua vida familiar, empregam o dialeto materno, mas em suas rela çõ es exteriores s ã o obrigados a servir-se da lí ngua russa.

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"Durante as estadas que l á fiz, aconteceu-me entrar em contato com toda esp é cie de gente, por diversas razõ es pessoais, e resolvi aprender essa l íngua. "J á tinha tido que estudar muitas l ínguas, em minha vida e estava, pois, treinado para faz ê -lo. Assim, o estudo do russo n ã o apresentava dificuldade alguma para mim; muito depressa fiquei em condi çõ es de falá -lo correntemente mas, é claro, como os habitantes da regi ã o, com uma pron ú ncia e constru çõ es de frase um pouco r ústicas. "Como, de certo modo, tornei-me um ling üista, acho necess á rio observar aqui que é imposs ível pensar numa língua estrangeira, mesmo se a conhecermos com perfei çã o, enquanto se continua a falar a l í ngua materna ou uma l í ngua na qual se adquiriu o h á bito de pensar. "Por conseguinte, a partir do momento em que pude falar russo, embora continuando a pensar em persa, pus-me a rebuscar em minha cabe ç a as palavras russas correspondentes aos meus pensamentos persas. "E, vendo-me algumas vezes na impossibilidade de reproduzir com exatid ã o, em russo, nossos mais simples e mais quotidianos pensamentos, fiquei tocado por certos absurdos, inexplic á veis a princ ípio, dessa l í ngua civilizada contempor â nea. "Essa constata çã o interessou-me e, como ent ã o estava livre de qualquer obriga çã o, resolvi estudar a gram á tica

russa e depois a de outras l ínguas utilizadas por diferentes povos contempor â neos. "Comprendi, assim, a verdadeira raz ã o dos absurdos que havia observado e, de pronto, adquiri, como acabo de dizer, a firme convic çã o de que as gram á ticas das línguas empregadas pela literatura contempor â nea foram totalmente inventadas por pessoas que, em mat é ria de conhecimento real, estavam muito abaixo do n ível dos homens comuns. "Para ilustrar da maneira mais concreta o que acabo de explicar, citarei, entre as in úmeras incoer ê ncias que me haviam chamado a atençã o, desde o in ício, nessa língua civilizada, aquela que me levou a estudar a fundo essa quest ã o. "Um dia em que falava russo e traduzia, como de h á bito, meus pensamentos por frases constru ídas à maneira persa, precisei de uma express ã o que n ó s, persas, empregamos freq üentemente na conversa çã o, a de miam-diaram, que, em portugu ê s, traduz-se por digo, em ingl ê s por I say e, em franc ê s, por je dis. Entretanto, apesar de todos os meus esfor ç os para descobrir em minha mem ó ria alguma palavra que lhe correspondesse em russo, n ã o pude encontrar uma s ó , embora

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j á conhecesse e fosse capaz de pronunciar com facilidade quase todas as palavras dessa l í ngua, utilizadas,

seja na literatura, seja nas rela çõ es comuns, pelos homens

de todos os n íveis intelectuais. "N ã o encontrando uma express ã o correspondente a essas t ã o simples palavras e t ã o freqüentemente utilizadas entre nó s, acreditei, a princ ípio, é claro, que nã o a conhecia ainda e pus-me a procur á -la em meus numerosos dicion á rios e, depois, pedi a diferentes pessoas que passavam por competentes a palavra russa que traduziria meu pensamento persa; mas verificou-se que tal palavra n ã o existia e que, em seu lugar, empregava-se uma express ã o cujo sentido é o de nosso mian-sdú-yaram, que eq ü ivale em portugu ê s a falo, em franc ê s a je parle ou em ingl ê s a / speak, ou seja, a ia govori ú. "A voc ê s que s ã o persas e que, para digerir o sentido contido nas palavras t ê m uma forma de pensamento totalmente semelhante à minha, pergunto agora: é poss ível

a um persa, lendo em russo uma obra de literatura contempor â nea, deixar de sentir-se instintivamente

indignado quando, encontrando uma palavra que exprime o sentido contido em sdil-yaram, percebe que deve dar-lhe o sentido correspondente a diaranü É , evidentemente, imposs ível; s ó il-diaram e diaram, ou, em portugu ê s, falar e dizer, s ã o dois atos sentidos de maneira inteiramente diferente. "Esse pequeno exemplo é bem caracter ístico dos milhares de absurdos que se encontram nas l ínguas desses povos representantes do que se denomina a flor da civiliza çã o contempor â nea. E s ã o esses absurdos que impedem a literatura atual de ser um dos principais meios de desenvolvimento da intelig ê ncia entre os povos civilizados - do mesmo modo, ali á s, que entre outros povos que, por certas raz õ es, (que qualquer pessoa de bom senso j á suspeita) s ã o privados da felicidade de serem considerados como civilizados e at é , como o testemunha a hist ó ria, s ã o correntemente tratados de atrasados. "Em decorr ê ncia das numerosas incoer ê ncias da linguagem utilizada pelos literatos contempor â neos, todo homem que lê ou entende uma palavra empregada de maneira incorreta, como no exemplo que acabo de dar, se for dotado de um pensar mais ou menos normal e souber dar à s

palavras sua verdadeira significa çã o - e, principalmente, se pertencer

a um desses povos exclu ídos do n úmero dos representantes da civiliza çã o atual - perceber á inevitavelmente o sentido geral da frase segundo essa palavra impr ó pria e, por fim, compreender á alguma coisa totalmente diferente do que essa frase queria exprimir. "Embora a faculdade de captar o sentido contido nas palavras difira segundo os povos, os dados que permitem perceber as experi ê ncias

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repetidas, que formam a trama da exist ê ncia, s ã o constitu ídos, em todos os homens, de maneira id ê ntica, pela

pr ó pria vida.

"A aus ê ncia, nessa língua civilizada, de uma palavra que exprima exatamente o sentido da palavra persa diaram, que tomei como exemplo, confirma bem minha convic çã o, aparentemente mal fundamentada, de que os arrivistas iletrados de hoje, que se intitulam letrados e, por c úmulo, s ã o considerados como tais pelos que os rodeiam, conseguiram transformar at é a lí ngua elaborada pela vida num ersatz alem ã o. "É necess á rio dizer-lhes que, depois de haver empreendido o estudo dessa l í ngua civilizada contempor â nea,

bem como o de vá rias outras, para a í achar a causa das numerosas incoer ê ncias que ali se encontravam, resolvi, por ter uma queda pela filologia, estudar igualmente a hist ó ria da forma çã o e do desenvolvimento da l íngua russa. "Ora, essas pesquisas hist ó ricas trouxeram-me a prova de que essa l í ngua tamb é m havia possu ído outrora, para cada uma das experi ê ncias j á fixadas no processo da vida dos homens, uma palavra exatamente correspondente, mas que depois de haver atingido, no curso dos s é culos, um alto grau de desenvolvimento, se tinha por sua vez tornado um objeto apropriado apenas para afiar o bico dos corvos, isto é , um assunto de primeira para as sofistica çõ es de diversos arrivistas iletrados. A tal ponto que numerosas palavras foram deformadas ou terminaram caindo em desuso, pois n ã o mais respondiam à s exig ê ncias da gram á tica civilizada. Entre essas ú ltimas estava, justamente, a palavra correspondente a nosso diaram e que ent ã o se pronunciava skazivai ú . "É interessante observar que essa palavra conservou-se até nossos dias, mas que s ó a empregam e no seu sentido exato as pessoas que, embora pertencendo à mesma na çã o, ficaram por acaso isoladas da influ ê ncia da civiliza çã o contempor â nea, ou seja, os habitantes de certas aldeias afastadas de qualquer centro de cultura. "Essa gram á tica artificialmente inventada, cujo estudo é imposto em toda parte à s jovens gera çõ es, é uma das causas principais do fato de que, entre os europeus atuais, desenvolve-se apenas um único dos tr ê s dados independentes, indispens á veis à aquisi çã o de uma intelig ê ncia s ã , o pensamento, que tende a ocupar o primeiro lugar em sua individualidade. Ora, como todo homem capaz de refletir normalmente deve saber, sem o sentimento e o instinto, a verdadeira compreens ã o acess ível ao homem n ã o poderia constituir-se. "Resumindo tudo o que acaba de ser dito sobre a literatura da civiliza çã o contempor â nea, nã o posso encontrar definiçã o mais feliz que esta: ela n ã o tem alma.

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"A civiliza çã o contempor â nea destruiu a alma da literatura, como a de qualquer coisa sobre a qual dirigiu sua benevolente aten çã o. "Minha cr ítica impiedosa desse resultado da civiliza çã o contempor â nea é tanto mais justificada que, dando cr é dito aos dados hist ó ricos mais seguros que chegaram até nó s, provenientes da mais remota antig üidade, a literatura das antigas civiliza çõ es continha, realmente, tudo o que era necess á rio para favorecer o desenvolvimento da intelig ê ncia humana, a tal ponto que sua influê ncia ainda se faz sentir sobre as gera çõ es atuais. ""A meu ver, pode-se perfeitamente transmitir a quintess ê ncia de uma id é ia por meio de anedotas e ditos populares elaborados pela pr ó pria vida. "Por isso, servir-me-ei, para exprimir a diferen ç a entre a literatura das civiliza çõ es de outrora e a de hoje, de uma anedota muito difundida entre n ó s, na Pé rsia, sob o nome de Conversa de dois pardais. "Conta-se que um dia, sobre a comija de uma casa alta, estavam pousados dois pardais, um velho e outro novo. "Discutiam entre eles um evento que se tinha tornado a quest ã o candente do dia para os pardais: o ec ô nomo do

mulah tinha jogado pela janela, no local em que os pardais se reuniam para brincar, algo que se parecia com sobras de farinha molhada mas que, na realidade, nada mais era que corti ç a cortada fina, as quais alguns pardais novos, ainda inexperientes, haviam comido sofregamente e por isso quase se arrebentaram. "Enquanto falava, o velho pardal arrepiou-se de s ú bito e, com uma careta de dor, p ô s-se a procurar sob sua asa os piolhos que o torturavam - esses piolhos que invadem os pardais quando passam fome - e depois, tendo pegado um, disse com profundo suspiro:

"Ah! como os tempos mudaram! A vida hoje é dura para nossos irm ã os. "Antigamente, tu te pousavas em qualquer parte sobre um telhado, como n ó s neste momento e cochilavas bem tranq üilamente, quando de repente elevava-se um ru ído da rua, um estrondo, estalidos e de pronto se espalhava um odor que te enchia de alegria, pois podias estar seguro de que, voando sobre os locais onde tudo se tinha produzido, encontrarias com que satisfazer tua necessidade mais essencial. "Hoje em dia, barulho, estalidos, estrondo n ã o s ã o certamente o que falta e a cada instante espalha-se tamb ém um cheiro, mas um cheiro quase imposs ível de suportar;

e se por acaso voarmos, por h á bito antigo, nos momentos de acalmia, em busca de alguma coisa substancial, por mais que se procure

e se aguce a aten çã o, nada se encontra al é m de manchas nauseabundas de ó leo queimado."

"Esse relato faz alus ã o, como seguramente j á perceberam, à s antigas carruagens com seus cavalos e aos autom ó veis atuais que, como dizia o velho pardal, produzem rangidos, estrondos e cheiro, at é mais que anteriormente, mas tudo isso sem utilidade alguma para o alimento dos pardais. "E, sem comer, voc ê s admitir ã o que é dif ícil, mesmo para um pardal, engendrar uma descend ê ncia sadia. "Essa anedota ilustra, de maneira ideal, a diferen ç a que quis salientar entre a civiliza çã o contempor â nea e as civiliza çõ es das é pocas passadas. "A civiliza çã o moderna, do mesmo modo que as antigas, disp õ e da literatura para servir ao aperfei ç oamento da

humanidade, mas hoje em dia, nesse campo como em todos os outros, nada h á de utiliz á vel para essa meta essencial. Tudo é apenas exterior. Como dizia o velho pardal, tudo é s ó ruído, estrondo e cheiro nauseabundo. "Para todo homem imparcial, esta vis ã o da literatura atual pode ser confirmada, de maneira indiscut í vel, pelo fato de que existe uma diferen ç a evidente entre o grau de desenvolvimento do sentimento das pessoas que nasceram no continente da Ásia e nele passaram toda sua vida e o das que, nascidas na Europa, foram educadas ali, nas condi çõ es de vida da civiliza çã o contempor â nea. "De fato, como constataram numerosos contempor â neos, entre os homens que vivem hoje no continente da Ásia e que, devido a diversas condi çõ es geogr á ficas e outras, est ã o isolados da influ ê ncia da civiliza çã o atual, o sentimento conhece um desenvolvimento bem superior ao dos povos da Europa; e, sendo o sentimento a pr ó pria base do bom senso, esses homens, embora tendo menos conhecimentos gerais, t ê m uma concep çã o mais justa do objeto sobre o qual se dirige sua aten çã o do que aqueles que representam a fina flor da civiliza çã o moderna. "Num europeu, a compreens ã o do objeto observado s ó se pode fazer, se ele possuir a tal respeito uma informa çã o matem á tica completa, ao passo que a maioria dos asi á ticos capta, por assim dizer, a ess ê ncia do objeto observado, à s vezes, apenas com seu sentimento e, à s vezes, até mesmo com seu instinto." Nesse ponto de sua perora çã o, o velho persa abordou uma quest ã o pela qual se interessa, em nossos dias, a maior parte dos europeus que se preocupam em instruir e esclarecer o povo.

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Disse:

"Durante certo tempo, os povos da Ásia ficaram cativados pela literatura europ é ia, mas n ã o tardaram a sentir

toda a nulidade de seu conte ú do e cessaram, pouco a pouco, de se interessar por ela. Hoje em dia, n ã o é quase mais lida. "Nada contribuiu mais, a meu ver, para essa indiferen ç a crescente, que a esp é cie de literatura que tomou o nome de romance. "Esses famosos romances consistem, como j á disse, em descri çõ es intermin á veis das diversas formas de evolu çã o de uma doenç a que se declara em nossos contempor â neos

e se prolonga por bastante tempo devido à sua fraqueza e à sua falta de vontade.

"Os asi á ticos, que ainda n ã o estã o muito afastados da M ã e Natureza, consideram em seu consciente que esse estado ps íquico, que aparece nas pessoas dos dois sexos, é um estado vicioso, indigno do homem em geral e particularmente aviltante para o sexo masculino - e instintivamente olham-no com desprezo. "Quanto à s obras pertencentes aos ramos cient íficos e descritivos da literatura europ é ia ou a qualquer outra forma de pensamento did á tico, o oriental, menos diminuído em sua faculdade de sentir, isto é , tendo permanecido mais pr ó ximo da Natureza, experimenta semiconscientemente e sente instintivamente a aus ê ncia total, em seu autor, de qualquer conhecimento do real e de qualquer compreens ã o verdadeira do objeto de que trata em suas

obras. "Tais s ã o as razõ es pelas quais os povos da Ásia, depois de terem manifestado grande interesse pela literatura europ é ia, pouco a pouco cessaram de dispensar-lhe

a m ínima atençã o, a ponto de hoje n ã o lhe reservarem mais lugar algum; ao passo que na Europa, nas bibliotecas privadas e p úblicas e nas livrarias, as prateleiras desmoronam sob o n úmero crescente dos livros diariamente editados.

"Mas voc ê s devem, sem d úvida, perguntar como é poss ível conciliar o que acabo de dizer com o fato de que atualmente os asi á ticos, em sua imensa maioria, s ã o, propriamente falando, simples iletrados. "A isso responder-lhes-eí que a razã o essencial dessa falta de interesse, suscitada pela literatura contempor â nea, reside em suas pr ó prias falhas, "Eu mesmo vi como centenas de iletrados se re únem, em torno de um único letrado, para escutar a leitura das

Sagradas Escrituras ou a dos Contos das Mil e Uma Noites. "Objetar-me- ã o, naturalmente, que as hist ó rias que ouvem s ã o tiradas de sua pr ó pria vida, o que as torna compreens íveis e interessantes

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para eles. Mas a quest ã o n ã o est á aí; esses textos e, em particular, os Contos s ã o verdadeiras obras liter á rias,

em toda a acep çã o da palavra. "Quem quer que os leia e os ou ç a sente bem que tudo ali é pura fantasia, mas uma fantasia conforme à verdade, por mais inveross ímeis que sejam os diferentes epis ó dios com rela çã o à s condiçõ es ordin á rias da vida dos homens. O interesse desperta no leitor ou no ouvinte maravilhado com a sutileza com a qual o autor compreende o psiquismo dos homens de todas as castas em torno dele, segue com intensa curiosidade a maneira pela qual toda uma hist ó ria se constr ó i pouco a pouco, a partir de pequenos eventos da vida real. "As exig ê ncias da civilizaçã o contempor â nea geraram ainda uma forma muito espec ífica de literatura, que se

denomina jornalismo. "N ã o posso deixar em sil ê ncio essa nova forma liter á ria, pois, al é m do fato de n ã o trazer absolutamente nada de bom para o desenvolvimento da intelig ê ncia, tornou-se,

a meu ver, o mal desta é poca, no sentido de que ela exerce a mais funesta influ ê ncia sobre as rela çõ es m útuas

dos homens. "Essa esp é cie de literatura propagou-se muito nestes últimos tempos e isto se deve, estou firmemente convencido disto, a que responde, da melhor maneira poss ível, à s fraquezas e à s exig ê ncias que determinam nos homens sua falta crescente de vontade. Acaba ela, assim, por atrofiar sua última possibilidade de adquirir os dados que lhe permitiam, at é entã o, tomar mais ou menos consciê ncia de sua individualidade real - ú nico meio de chegar à lembranç a de si, esse fator absolutamente indispens á vel ao processo de aperfei ç oamento de si. "Por fim, essa literatura quotidiana, sem princ ípios, isola completamente o pensamento dos homens de sua individualidade, de maneira que a consci ê ncia moral, que ainda aparecia neles de vez em quando cessou agora de tomar parte em seu pensamento. Est ã o doravante privados dos dados que lhes tinham at é agora assegurado uma exist ê ncia mais ou menos suport á vel, pelo menos no campo das rela çõ es rec íprocas. "Para infelicidade de todos n ó s, essa esp é cie de literatura, que invade mais e mais a cada ano a vida corrente dos homens, faz com que sua intelig ê ncia, j á bastante enfraquecida, sofra um enfraquecimento pior ainda, entregando-a sem resist ê ncia a toda esp é cie de enganos e erros, desviando-a a cada passo, afastando-a de todo modo de pensar mais ou menos fundamentado e, em vez de um julgamento s ã o, estimula e fixa nas pessoas certas tend ê ncias indignas, tais como:

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incredulidade, revolta, medo, falsa

"A fim de pintar-lhes sumariamente todo o mal que faz ao homem essa nova forma de literatura, contar-lhes-ei

vá rios eventos provocados pela leitura dos jornais e

de cuja veracidade n ã o tenho d ú vida alguma, uma vez que o acaso quis que deles participasse. "Em Teer ã , um de meus amigos í ntimos, um arm ê nio, havia-me designado, ao morrer, seu testamenteiro. "Tinha ele um filho, j á de certa idade, cujos neg ó cios obrigavam-no a viver com toda a sua numerosa fam ília, numa grande cidade europ é ia. "Ora, no dia seguinte ao de uma refei çã o fatal, encontraram-nos mortos, ele e todos os membros de sua fam ília. Na minha qualidade de testamenteiro, tive que ir, imediatamente, ao local desse horroroso acontecimento. "Soube que, nos dias anteriores, o pai dessa infeliz fam ília havia acompanhado num dos di á rios que recebia, uma longa reportagem sobre uma salsicharia modelo, onde se preparava, com limpeza sem igual, salsichas feitas - dizia-se - a partir de produtos garantidos e leg ítimos. "Ao mesmo tempo, n ã o podia abrir esse jornal nem qualquer outro, sem deparar com um desses an úncios,

vergonha, dissimula çã o, orgulho, e assim por diante.

recomendando essa nova charcutaria. "Por fim, a tenta çã o tornou-se irresist ível e, apesar de n ã o gostar muito de salsichas - como, ali á s, nenhum dos seus, pois haviam sido educados na Arm ê nia, onde

nã o se come salsicha - acabou por compr á -las. Na mesma noite comeram-nas e ficaram todos envenenados.

"Chocado por esse incr ível incidente, consegui, mais tarde, com o aux ílio de um agente da pol ícia secreta,

descobrir o que se segue:

"Certa firma de grande porte havia adquirido a vil pre ç o um enorme love de salsichas destinado ao exterior, mas que, devido a um atraso na expedi çã o, nã o tinha sido aceito. Para desembara ç ar-se o mais depressa poss ível de todo esse estoque, a citada firma n ã o tinha regateado dinheiro aos rep ó rteres, aos quais havia confiado

o cuidado dessa mal é fica campanha nos jornais.

"Outro exemplo:

"No curso de uma de minhas estadas em Baku, eu mesmo li, v á rios dias seguidos, nos jornais locais que meu sobrinho recebia, longos

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artigos cujas colunas ocupavam bem a metade do jornal e que se extasiavam, com riqueza de detalhes, com os

m é ritos e as proezas de c é lebre atriz.

"Falavam dela com tanta insist ê ncia e exalta çã o que eu pr ó prio, homem idoso, fiquei inflamado; uma noite, deixando de lado todos os meus afazeres e renunciando a meus h á bitos, fui ao teatro ver essa estrela.

"E que pensam que vi?

artigos que enchiam a metade do jornal?

"Durante minha vida, havia encontrado numerosos representantes dessa arte, bons e maus e posso dizer, sem exagerar, que h á muito me consideravam um conhecedor na

mat é ria.

"Ora, sem mesmo expressar minhas concep çõ es pessoais sobre a arte, mas colocando-me do simples ponto de vista comum, devo reconhecer que nunca havia visto nada compar á vel

a essa

representar um papel. "Em todas as suas manifesta çõ es no palco, havia tal falta de presen ç a, como se diz, que pessoalmente, mesmo num impulso de altru ísmo, n ã o teria confiado a essa estrela

o papel de ajudante de cozinha em minha casa.

"Como soube mais tarde, um industrial de Baku - o tipo acabado do grande refinador de petr ó leo, enriquecido por acidente - adiantara a alguns rep ó rteres uma bela quantia, prometendo duplic á -la, se conseguissem fazer de sua amante uma celebridade, at é ent ã o arrumadeira

na casa de um engenheiro russo e a quem ele havia seduzido por ocasi ã o de suas visitas de neg ó cios. "Ainda um exemplo:

"Lia, de quando em vez, num jornal alem ã o muito difundido, longos paneg íricos sobre a gl ó ria de um pintor e esses artigos levaram-me a pensar que tal artista era uma esp é cie de fenô meno na arte contempor â nea. "Como meu sobrinho mandara construir uma casa na cidade de Baku e decidira, prevendo seu casamento, encomendar um interior suntuoso, aconselhei-o a nã o ser mesquinho

e mandar vir esse famoso artista, para dirigir os trabalhos de decora çã o e pintar alguns afrescos.

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(Eu nã o ignorava que, nesse ano, ele havia tido a sorte de perfurar v á rios poç os de petr ó leo de grande vaz ã o, o

que permitia esperar um polpudo rendimento.) Assim, suas enormes despesas seriam proveitosas, pelo menos, a seus descendentes, que receberiam como heran ç a os afrescos e outras obras desse mestre incompar á vel. "Foi o que fez meu sobrinho. Foi procurar pessoalmente esse ilustre artista europeu. E o grande pintor chegou em breve, arrastando atr á s de si toda uma coorte de assistentes e de trabalhadores e, parece-me, até seu pr ó prio har é m - no sentido europeu da palavra, é claro. Depois, sem se apressar, p ô s-se à obra. "O resultado do trabalho dessa celebridade contempor â nea foi que, em primeiro lugar, o casamento foi adiado e, em segundo, foi necess á rio gastar bastante dinheiro para recolocar tudo em condi çõ es e depois fazer pintar e enfeitar as paredes com iluminuras, de maneira mais conforme à verdadeira pintura, por simples artes ã os, desta vez persas. "No caso presente, é necess á rio, ali á s, fazer justi ç a aos jornalistas: foi de modo quase desinteressado que

Algo que correspondesse, por pouco que fosse, ao que se escrevia sobre ela nesses

"Nada disso.

quanto à falta de talento e à aus ê ncia das no çõ es mais elementares da arte de

ajudaram a esse pequeno pintor a fazer sua carreira, por simples camaradagem, como modestos escrevinhadores que eram. "Como último exemplo, contar-lhes-ei uma hist ó ria sombria, cujo respons á vel foi um dos pont ífices dessa esp é cie particularmente perniciosa da literatura contempor â nea. "Quando morava na cidade de Khorass ã , encontrei um dia, em casa de um amigo comum, dois rec ém-casados europeus, com quem fiz amizade. "Detiveram-se vá rias vezes em Khorass ã , mas sempre por muito pouco tempo. "Viajando em companhia de sua jovem esposa, meu novo amigo colhia observa çõ es e dedicava-se a aná lises

para determinar os efeitos da nicotina de diversos tabacos sobre o organismo e o psiquismo dos homens. "Tendo reunido, em v á rios países da Ásia, todas as informa çõ es de que necessitava, voltou com sua mulher para a Europa e p ô s-se a escrever um importante trabalho em que expunha as conclus õ es de sua pesquisa. "Ora, por inexperi ê ncia, a jovem senhora ainda n ã o tinha aprendido a encarar a eventualidade de "dias negros" e, durante essas viagens, esgotara todos os recursos. Assim, viu-se obrigada, para permitir

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que seu marido terminasse o livro, a entrar como datilografa numa grande editora. "Essa casa editora era freq üentada por certo cr ítico liter á rio, que a encontrava freq üentemente ali. Ca í do de

amores por ela, como se diz, ou apenas desejando satisfazer sua concupisc ê ncia, tentou lev á -la a uma liga çã o. Ela por é m, mulher honesta e conhecendo seu dever, n ã o

cedeu a suas investidas. "Enquanto, nessa esposa fiel de um marido europeu, triunfava a moral, esse indiv íduo contempor â neo t ípico, sujo sob todos os aspectos, nutria, com tanto mais for ç a quanto mais a sua concupisc ê ncia nã o havia sido satisfeita, o desejo de vingan ç a, habitual nessas pessoas, de tal maneira que conseguiu, com suas intrigas, fazer com que perdesse seu emprego, sem o menor motivo. E depois, quando o marido terminou e publicou sua obra, esse cr ítico pô s-se a escrever, por rancor, nos quotidianos dos quais era colaborador e at é "em outros jornais e revistas, toda uma s é rie de artigos nos quais dava uma interpretaçã o absolutamente falsa do livro. Em resumo, desacreditou-o a tal ponto que foi um fracasso total: ningu é m se interessou pelo livro nem o comprou. "As artimanhas de um desses representantes perniciosos de uma literatura sem princ ípios tiveram, dessa vez, como resultado levar um pesquisador honesto a desejar pô r fim à sua vida. Quando esgotou todos os seus recursos e n ã o teve nem com que comprar p ã o para ele ou

para sua querida

acordo, ambos se enforcaram. "Devido à influê ncia que lhes d á sua autoridade de escritores, sobre a massa dos homens ing ê nuos e f á ceis de

serem sugestionados, os cr íticos liter á rios s ã o, a meu ver, mil vezes mais nocivos que todos esses babosos garotos que s ã o os rep ó rteres.

"Conhecia, por exemplo, um cr ítico musical que nunca, em sua vida, havia posto a m ã o num instrumento e que, portanto, n ã o tinha nenhuma compreens ã o pr á tica da m úsica:

nã o sabia nem mesmo o que era um som, nem a diferen ç a entre as notas d ó e r é . As anomalias inerentes à

civiliza çã o contempor â nea haviam-lhe permitido, entretanto, ocupar o posto respons á vel de cr ítico musical e, depois, tornar-se uma autoridade para os leitores de um jornal em plena prosperidade, cuja difus ã o era consider á vel. Seus julgamentos, completamente ignaros, acabaram por inocular nos leitores opini õ es definitivas, quando

depois de se terem posto de

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a m úsica deveria ter sido para eles o que é em realidade: uma fonte de compreens ã o correta de um dos

aspectos do conhecimento. "O p úblico nunca sabe quem escreve. S ó conhece o jornal, o qual pertence a um grupo de comerciantes

experientes. "Que sabem, de fato, aqueles que escrevem nesses jornais e o que se passa nos bastidores da reda çã o? O leitor ignora totalmente. Por isso acredita piamente em tudo

o que encontra nos jornais.

"Minha convic çã o refor ç ou-se a esse respeito, nesses últimos tempos, para tornar-se mais firme que uma rocha

e todo homem capaz de pensar de maneira mais ou menos

imparcial pode fazer a mesma constata çã o: os que se esfor ç am para se desenvolver pelos meios que a civiliza çã o contempor â nea lhes oferece adquirem, quando muito, uma faculdade de pensar digna da primeira inven çã o de Edison e s ó desenvolvem em si mesmos, em mat é ria de sensibilidade, o que Mullah Nassr Eddin teria denominado a sutileza de sentimento de uma vaca. "Encontrando-se num grau muito inferior de desenvolvimento moral e ps íquico, os representantes da civiliza çã o contempor â nea s ã o como crianç as brincando com o fogo, incapazes de medir a for ç a com a qual se exerce a influ ê ncia da literatura sobre a massa das pessoas. "Se creio na impress ã o que me veio do estudo da hist ó ria antiga, as elites das civiliza çõ es de outrora nunca teriam permitido que semelhante anomalia prosseguisse por tanto tempo. "O que digo, ali á s, pode ser confirmado por informa çõ es que nos chegaram sobre o interesse que dedicavam à literatura quotidiana os dirigentes deste nosso pa ís - nã o faz ainda tanto tempo - na é poca em que ele estava entre as grandes pot ê ncias, isto é , na é poca em que Babilô nia nos pertencia e era, sobre a terra, o ú nico centro de cultura unanimemente reconhecido. "Segundo essas informa ções, existia tamb ém ali uma imprensa quotidiana, sob forma de papiros impressos, em quantidade limitada, é claro. Mas, s ó podiam colaborar nesses ó rgã os liter á rios, homens idosos e qualificados, conhecidos de todos por seus s é rios m é ritos e sua vida honesta. Existia at é uma regra segundo a qual esses homens s ó eram admitidos a desempenhar sua fun çã o depois de terem prestado juramento. Intitulavam-se ent ã o "colaboradores juramentados", como hoje h á jurados, peritos juramentados, etc. "Em nossos dias, ao contr á rio, qualquer fedelho pode tornar-se rep ó rter, desde que saiba expressar-se lindamente e, como se diz, literariamente. "Aprendi, ali á s, a conhecer bem o psiquismo desses produtos da civiliza çã o contempor â nea, que inundam com suas elucubra çõ es esses jornais e revistas e pude avaliar seu ser, pois durante tr ê s ou quatro meses tive ocasi ã o de estar lado a lado com eles todos os dias, na cidade de Baku e de ter com eles freq üentes conversas. "Encontrava-me em Baku, onde tinha ido passar o inverno em casa de meu sobrinho. Um dia, v á rios rapazes vieram pedir-lhe um dos grandes sal õ es do andar t é rreo de sua casa - onde tivera inicialmente a inten çã o de instalar um restaurante - para ali reunir sua Nova Sociedade dos Literatos e Jornalistas "Meu sobrinho aquiesceu de pronto a esse pedido e, a partir do dia seguinte, esses rapazes reuniam-se todas as noites para fazer o que chamavam suas assembl é ias gerais e seus debates cient íficos. "Os estranhos eram admitidos a essas reuni õ es e, como n ã o tinha nada que fazer à noite e meu quarto era ao lado da sala onde se reuniam, ia freq üentemente escutar seus debates. Dentro em breve, alguns deles me dirigiram a palavra e, pouco a pouco, estabeleceram-se entre nó s rela çõ es amistosas. "Em sua maioria eram ainda muito jovens, d é beis e efeminados. Em alguns os tra ç os do rosto revelavam que seus pais deviam ter-se dedicado ao alcoolismo ou a outras paix õ es, por falta de vontade ou que os donos desses rostos se entregavam a maus h á bitos ocultos. "Embora Baku seja uma cidade pequena, comparada à maioria das grandes cidades da civiliza çã o contempor â nea, e as amostras de humanidade que ali se reuniam n ã o fossem mais que "aves de v ô o baixo", n ã o tenho escr úpulo algum em generalizar, pondo todos os seus colegas no mesmo saco. "E sinto-me com esse direito, porque mais tarde, durante minhas viagens pela Europa, encontrei freq üentemente representantes dessa literatura contempor â nea e causaram-me sempre a mesma impress ão: a de parecerem-se uns aos outros como duas gotas d' á gua. "Só diferiam por seu grau de import â ncia, que dependia do ó rgã o liter á rio no qual colaboravam, isto é , da nomeada e da difus ã o do jornal ou da revista que inseria suas elucubra çõ es ou, ainda, da solidez da firma comercial à qual pertencia esse ó rgã o, com todos os seus obreiros liter á rios. "Muitos dentre eles se intitulavam "poetas" n ã o se sabe por qu ê . Em nossos dias, na Europa, qualquer um que escreva um absurdo deste g ê nero:

"Verde resed á Mimosa vermelha

A divina pose de Lisa

É como o pranto da ac á cia" recebe dos que o rodeiam o t ítulo de poeta; alguns fazem at é constar esse t ítulo nos cart õ es de visita.

"Nesses obreiros do jornalismo e da literatura contempor â nea, o esp írito de corpora çã o é muito desenvolvido:

ap ó iam-se mutuamente e elogiam-se, em toda ocasi ã o,

de modo imoderado. "Parece-me até que esse tra ç o é a causa principal de sua prolifera çã o, de sua falsa autoridade sobre a massa e da adula çã o servil e inconsciente que a multid ã o testemunha aos que se poderia qualificar, com a consci ê ncia tranq üila, de perfeitas nulidades. "Nessas assembl é ias, um deles subia ao estrado para ler, por exemplo, alguma coisa no g ê nero dos versos que

acabo de citar ou para examinar por que o ministro de tal ou qual Estado, durante um banquete, se exprimira sobre certa quest ã o de tal maneira e n ã o de outra.

Depois, o orador terminava, na maioria das vezes, seu discurso por uma declara çã o deste g ê nero:

"Cedo a palavra a essa luz incompar á vel da ciê ncia de nosso tempo, o Senhor Fulano, chamado à nossa cidade para um assunto da mais alta import â ncia e que teve a amabilidade de haver por bem assistir à nossa assemblé ia. Vamos ter, neste momento, a felicidade de ouvir sua voz ador á vel. "E, quando essa celebridade subia ao estrado, por sua vez, tomava a palavra nesses termos:

"Senhoras e Senhores,

"Meu colega foi bastante modesto ao chamar-me de podido captar o que dissera seu colega, pois chegaria da sala

vizinha cuja porta estava fechada.) "Para dizer a verdade, se me comparam a ele, n ã o sou nem mesmo digno de sentar-me em sua presen ç a.

"N ã o sou eu que sou uma luz, é ele: ele é conhecido n ã o somente por toda a nossa grande R ússia, mas por todo

o mundo civilizado. Seu nome ser á pronunciado com exalta çã o

por nossos descendentes e ningu é m esquecer á jamais o que ele fez pela ci ê ncia e pelo bem da humanidade.

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"Se esse deus de verdade vive hoje em dia, nesta cidade insignificante, n ã o é por acaso, parece, mas por

importantes razõ es s ó dele conhecidas. "Seu verdadeiro lugar n ã o é entre n ó s, é ao lado das antigas divindades do "E, somente depois desse pre â mbulo, essa nova celebridade pronunciava alguns absurdos sobre um tema como este: Por que os Sirikitsi declararam guerra aos Parnakalpi. "Depois dessas assembl é ias cient íficas, havia sempre uma ceia regada com duas garrafas de vinho barato. Muitos deles enfiavam tira-gostos nos bolsos - este uma rodela de salame, aquele um arenque com um peda ç o de pã o - e se, por acaso, um deles era surpreendido, dizia negligentemente: É para meu cachorro: o maroto tem seus h á bitos,

espera sempre sua parte, quando chego tarde em casa." "No dia seguinte, podia-se ler em todos os jornais locais o relato da reuni ã o e dos discursos, redigido num estilo incrivelmente empolado, sem que, é claro, se fizesse

a m ínima refer ê ncia à modé stia do jantar nem ao furto dos peda ç os de

"E s ã o essas pessoas que escrevem nos jornais a prop ó sito de toda esp é cie de verdades e descobertas cient íficas. O leitor ing ê nuo, que n ã o vê os escritores nem conhece seu modo de viver, forma uma opiniã o sobre os eventos e sobre as id é ias, segundo as lengalengas desses literatos que s ã o, nem mais nem menos, homens doentes e inexperientes, completamente ignorantes do verdadeiro sentido da vida. "com rar íssimas exce çõ es, em todas as cidades da Europa, os que escrevem livros ou artigos de jornal s ã o precisamente esses doidivanas, que chegaram a esse ponto em razã o de sua hereditariedade e de suas fraquezas espec íficas. "Para mim, n ã o há nem sombra de d ú vida: entre todas as causas das anomalias da civiliza çã o contempor â nea, a mais evidente, a que ocupa o lugar predominante, é essa literatura jornalística, pela a çã o desmoralizante e perniciosa que exerce sobre o psiquismo dos homens. Fico, aliá s, profundamente espantado que nenhum "detentor

de poder" se tenha algum dia dado conta disto e que cada Estado consagre quase mais de metade de seu

or ç amento para manter uma pol ícia, pris õ es, prefeituras, igrejas,

hospitais, etc., bem como para pagar in úmeros funcion á rios, padres, m é dicos, agentes da pol í cia secreta, procuradores, agentes de propaganda, etc., com o único fim de salvaguardar a integridade f ísica e moral de seus cidad ã os, sem despender um

(Diga-se, de passagem, que n ã o havia

para o cachorro.

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s ó tost ã o nem empreender seja o que for para destruir at é à s suas ra í zes essa causa evidente de toda esp é cie

de crimes e de mal-entendidos." Assim terminava o discurso do velho letrado persa.

"

Pois bem, corajoso leitor (que, sem d úvida, n ã o sabe mais muito bem sobre que p é danç ar), agora que

transcrevi esse discurso - e se o introduzi aqui é porque, a

meu ver, exprime uma id é ia muito instrutiva e at é proveitosa para a maioria de nossos contempor â neos que tê m

a ingenuidade de considerar a civiliza çã o moderna como

incomparavelmente superior à s precedentes, com rela çã o ao desenvolvimento da razã o humana - eis-me, enfim, livre para terminar esta introdu çã o e passar à revis ã o do material destinado à presente s é rie de minhas obras. No momento de retomar esses textos, com vistas a dar-lhes uma forma que seja acess ível a todos, vem-me a idé ia de pô r meu trabalho de acordo com o s á bio conselho,

freq üentemente relembrado pelo nosso grande Mullah Nassr Eddin- Esfor ç a-te, sempre e em tudo, para obter, ao mesmo tempo, o útil para os outros e o agrad á vel para ti mesmo, com a primeira metade desse judicioso conselho de nosso venerado mestre, n ã o preciso me inquietar: o que tenho a inten çã o de introduzir nesta s é rie responde plenamente

a isto. Quanto a obter o agrad á vel para mim mesmo, conto consegui-lo, expondo minhas id é ias sob uma forma

que me permitir á doravante ter uma exist ê ncia mais ou menos suport á vel e nã o mais a que conheci antes de minha atividade de escritor. Para tornar compreens ível o que entendo por isso, é necess á rio dizer que, depois de todas as minhas viagens à Ásia e à África - a pa íses pelos quais, n ã o se sabe por quê , muitas pessoas come ç aram a se interessar h á cerca de meio s é culo - consideravam-me, quase em toda parte, como um mago e como um perito em quest õ es do alé m.

De modp que todos aqueles que me conheciam, acreditavam-se no direito de vir me incomodar, para satisfazer sua curiosidade a respeito desse al é m ou, ainda, para

for ç ar-me a dar-lhes detalhes sobre minha vida pessoal ou a contar uma de minhas aventuras de viagem. E, por mais fatigado que estivesse, era-me absolutamente necess á rio responder alguma coisa, sen ã o eles se ofendiam e depois, animados de sentimentos hostis a meu respeito, se desfaziam em coment á rios

maldosos, buscando lan ç ar o descr é dito sobre mim e

atividades. Eis por que resolvi, revendo o material destinado a esta s é rie, exp ô -lo sob a forma de relatos separados, em que seriam inseridas certas id é ias, que poderiam servir de resposta a uma quantidade de perguntas que freq ü entemente me foram feitas. Assim, quando novamente

tiver que tratar com esses ociosos descarados, ser-me- á poss ível indicar-lhes simplesmente tal ou qual cap ítulo, suscet í vel de satisfazer sua curiosidade autom á tica, o que me permitir á falar com alguns deles, segundo seu modo habitual, isto é , seguindo apenas o curso das associa çõ es e de dar, assim, a meu pensar ativo o repouso indispens á vel à realiza çã o consciente e honesta de minhas obriga çõ es quotidianas. Entre as perguntas que me eram feitas por homens de todas as classes e de todos os níveis de instru çã o, as que, lembro-me, voltavam com mais freq üê ncia, eram as seguintes:

1. Que homens not á veis havia encontrado?

2. Que maravilhas havia visto no Oriente?

3. Tem o homem uma alma e essa alma é imortal?

4. A vontade do homem é livre?

5. O que é a vida e por que existe o sofrimento?

6. Cria eu nas ci ê ncias ocultas e no espiritismo?

7. O que s ã o o hipnotismo, o magnetismo, a telepatia?

8. Como havia sido levado a interessar-me por essas quest õ es?

9. Como tinha chegado a conceber meu sistema e a p ô -lo em pr á tica no Instituto que leva meu nome?

Decidi, pois, apresentar esta s é rie, em cap ítulos separados, sob forma de relatos, como tantas respostas à primeira das perguntas que freq üentemente me faziam: "Que homens not á veis tinha encontrado?" No curso destes relatos, disporia, segundo um princ ípio de sucess ã o

ló gica, todas as id é ias que tinha a inten çã o de dar a conhecer,

minhas

nesta s é rie de minhas obras, para que sirvam de material construtivo preparat ó rio e, ao mesmo tempo, responderia a todas as outras perguntas. Enfim, a seq üê ncia

dos relatos seria conduzida de modo que fizesse sobressair os contornos exteriores de minha autobiografia. Antes de prosseguir, acho necess á rio definir a express ã o "homem not á vel", pois tomou, como todas as outras,

nos

homens de hoje, um sentido relativo e puramente subjetivo.

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MEU PAI

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Durante todo o final do s é culo passado e os primeiros anos deste, meu pai havia alcan ç ado grande popularidade como ashokh, isto é , narrador e poeta. Era conhecido

sob o nome de Adash e, embora n ã o fosse profissional mas simples amador, sua reputa çã o se estendia at é muito longe, entre os habitantes de numerosas regi õ es da Transcaucasia

e da Ásia Menor.

O nome ashokh designa, em toda a Ásia e na pen ínsula dos Bá lc ã s, os bardos locais que comp õ em, recitam ou

cantam poemas, can çõ es, lendas, contos populares e hist ó rias de toda esp é cie. Os homens de antigamente que se consagravam a essa carreira embora fossem, na maioria, "iletrados", n ã o tendo nem freq üentado a escola do povoado em sua inf â ncia, nem por isso deixavam de possuir uma mem ó ria e uma vivacidade de esp írito de tal modo extraordin á rias que pareceriam hoje raiar ao prod ígio.

N ã o somente conheciam de cor in úmeros relatos e poemas, à s vezes muito longos, e cantavam de mem ó ria as

mais variadas melodias, mas dedicavam-se ainda, segundo sua "inspira çã o subjetiva", a improvisos, sobre temas conhecidos, sabendo com rapidez surpreendente, mudar

de cad ê ncia no momento adequado e encontrar a rima. Em vã o procurar-se-ia, hoje em dia, homens t ã o bem dotados Dizia-se j á , na minha inf â ncia, que eles estavam se tornando cada vez mais raros. Foi-me dado, entretanto, conhecer v á rios deles, entre os mais c é lebres dessa é poca e os rostos desses ashokhs ficaram profundamente gravados em minha mem ó ria. Se tive a oportunidade de ouvi-los, devo-o a meu pai, que me levava à s vezes com ele aos torneios em que vinham se defrontar, de vez em quando, os poetas-ashokhs de diversos pa íses. Chegavam da Persia,

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Turquia, C á ucaso e at é mesmo de certas regi õ es do Turquest ã o e, ante uma assist ê ncia consider á vel, engajavam-se em justas de improvisos e de cantos. Isso geralmente passava-se assim:

Um dos participantes do torneio, cujo nome tinha sido sorteado, propunha a seu advers á rio, improvisando uma melodia, uma pergunta sobre um assunto religioso ou filos ó fico ou, ainda, sobre o sentido e a origem de alguma lenda, tradi çã o ou cren ç a conhecida. O outro respondia improvisando, por sua vez, uma melodia e essa melodia subjetiva devia sempre estar em harmonia com a que a precedia, tanto em sua tonalidade como em rela çã o ao que a verdadeira ci ê ncia musical denomina sua seq üê ncia ansalpaniana de ecos, Tudo era cantado em versos, na l íngua turco-tá rtara, ent ã o adotada como língua comum pela maioria dos povos dessas regi õ es, que falavam dialetos diferentes. Esses torneios prolongavam-se por semanas inteiras, à s vezes at é por meses. E terminavam com uma distribuiçã o de recompensas concedidas, por assentimento un ã onime, aos cantos que mais se haviam destacado. Esses presentes consistiam mais comumente em gado, tapetes ou outros objetos de valor, oferecidos pela assist ê ncia. Fui testemunha, em minha inf â ncia, de tr ê s dessas grandes competi çõ es. A primeira realizou-se na Turquia, na cidade de Van, a segunda no Azerbaij ã o, na cidade de Karabagh e a terceira, no pequeno burgo de Subatan, no distrito de Kars.

Em Alexandr ó polis e em Kars, as duas cidades onde viveu minha fam ília, meu pai era muito freq üentemente

convidado a saraus, onde vinham ouvi-lo recitar ou cantar. Durante esses saraus, contava ele, a pedido da assist ê ncia, uma ou outra dessas in úmeras lendas, a n ã o ser que cantasse algum poema dialogado no qual interpretava alternadamente os pap é is.

A noite inteira era, à s vezes, curta demais para terminar o relato, de modo que reuniam-se novamente no dia

seguinte. Na vé spera dos domingos e feriados, como n ó s, crian ç as, tínhamos o direito de n ã o nos levantar cedo no dia seguinte, meu pai costumava contar-nos uma hist ó ria, quer sobre os grandes povos da antig ü idade, quer sobre homens not á veis, quer sobre Deus, sobre a natureza ou sobre toda esp é cie de maravilhas misteriosas.

E terminava sempre por algum conto das Mil e Uma Noites, dos quais sabia um n úmero t ã o grande que seguramente teria podido contar-no-las por mil e uma noites.

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Entre as fortes impress õ es que me deixaram as hist ó rias de meu pai, que imprimiram sua marca sobre toda a

minha vida, h á uma que me serviu mais tarde e, talvez,

nã o menos que cinco vezes, de "fator espiritualizante", abrindo-me uma compreens ã o do incompreens ível.

Essa forte impress ã o, que devia mais tarde servir-me de fator espiritualizante, cristalizou-se em mim, num dia em que meu pai havia cantado e contado para n ó s a Lenda do dil úvio antes do dil úvio, quando eclodiu uma discuss ã o a esse respeito entre ele e um de seus amigos. Isso se passava na é poca em que a imperiosa press ã o das circunst â ncias havia constrangido meu pai a adotar

o

of ício de carpinteiro.

O

amigo em quest ã o vinha freq üentemente visitá -lo em sua oficina e os dois passavam, à s vezes, a noite inteira

tentando decifrar o sentido das velhas lendas e dos prové rbios.

Esse amigo de meu pai n ã o era outro sen ã o o arcipreste da catedral militar de Kars, o Padre Borsh, o homem que, dentro em breve, se tornaria meu primeiro mestre,

o criador e autor de minha individualidade atual ou, dito de outro modo, a terceira face de meu Deus interior.

Na loite dessa discuss ã o, encontrava-me na oficina, bem como meu tio, que tinha vindo de uma aldeia vizinha,

onde possu ía grandes hortas e vinhedos.

Est á vamos sentados tranq ü ilamente num canto, meu tio e eu, sobre macias aparas, escutando meu pai que cantava, nessa noite, a lenda do her ó i babilô nico Gilgamesh

e nos explicava sua significa çã o.

A discuss ã o surgiu, quando terminou o canto XXI dessa lenda, em que certo Ut-Napishtin conta a Gilgamesh a

destruiçã o, pelas á guas, da terra de Shurupak.

Depois de ter feito uma pausa para encher seu cachimbo, meu pai disse que essa lenda remontava, segundo ele, aos sum é rios, povo mais antigo ainda que os babil ô nios,

e que ela estava, certamente, na origem do relato do dil úvio da B íblia dos hebreus e na origem da concep çã o crist ã do mundo; s ó os nomes haviam sido trocados, bem como certos detalhes em lugares diversos.

O Padre Borsh fez, imediatamente, obje çõ es, apoiando-se em numerosos dados contr á rios e a discuss ã o nã o

tardou a se acalorar, a ponto de se esquecerem de me mandar para cama, como sempre faziam nesses casos. Est á vamos de tal modo interessados por essa contrové rsia, meu tio e eu, que ficamos im ó veis sobre nossas aparas at é a hora em que,

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ao raiar da aurora, meu pai e seu amigo puseram fim a seu debate e se separaram. Esse XXI.0 canto foi tantas vezes repetido nessa noite, que ficou gravado em minha mem ória por toda a vida.

Dizia-se ali:

Revelar-te-ei, Gilgamesh, Um triste mist é