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Acreditaram os Gregos nos Seus Mitos?

“Basta admitir a existência do sobrenatural para deixar de poder demonstrar a inexistência de um milagre. Basta ter interesse em acreditar que Auschwitz não existiu para que todos os testemunhos sobre Auschwitz se tornem incríveis. Também nunca ninguém demonstrou que Júpiter não existia.” (p. 14)

“Um fato mostra ate onde vai a nossa duplicidade para conosco próprios: se os imperadores eram deuses e se os arqueólogos encontraram dezenas de milhares de ex- voto consagrados aos diferentes deuses, para cura, feliz regresso, etc., não existe contudo um único ex-voto consagrado a um imperador deus; quando os fieis tinham necessidade deus, não se dirigiam ao imperador.” (p. 109)

“A nossa vida quotidiana é composta por um grande numero de programas diferentes e

a impressão de mediocridade quotidiana nasce precisamente dessa pluralidade, a qual, em certos estados de escrúpulo neurótico, é sentida como uma hipocrisia; passamos incessantemente de um programa para outro, como se muda de comprimento de onda de

na radio, mas fazemo-lo sem nos darmos conta.” (p. 107)

A depuração do mítico pelo logos não é um episodio da luta eterna entre superstição e

razão. (p. 13 - 14)

Citar referencias remetendo-se a autoridades: A grande razão disto é a ascensão da universidade com o seu monopólio cada vez mais exclusivo sobre a atividade intelectual. (p. 24)

“Acabamos de escrever uma carta de ciúmes confusa e interminável, que desmentimos precipitadamente uma hora mais tarde, por telegrama” (p. 36)

O que é o mito? É historia alterada? Historia engrandecida? Uma mitomania coletiva?

Uma alegoria? Que era ele aos olhos dos gregos? O que nos dará ocasião de verificar

que o sentimento da verdade é muito amplo (engloba facilmente o mito), mas também

que “verdade” quer dizer muitas coisas (p. 28)

Chegando a englobar a literatura e a ficção.

Para o grego o mito era uma verdade alterada pela ingenuidade popular. (p. 28)

Pausanias: uma espécie de historiador ou arqueólogo grego estudou os mitos. Pluralidade de crença. Acreditar em mundos e fatos mitológicos, mas ao mesmo tempo saber que eles não existem aqui nesse mundo, pertencem a outra atmosfera:

Estes mundos de lenda eram tidos por verdadeiros, no sentido em que não se duvidava deles, mas não se acreditava neles como se acredita nas realidades que nos rodeiam. Para o povo dos fiéis, as vias dos mártires, recheadas de maravilhoso, situavam-se num passado intemporal, de que apenas se sabia que era anterior, exterior e heterogêneo ao tempo atual; era “o tempo dos pagãos”. (p. 30)

O tempo e o espaço da mitologia eram secretamente heterogêneos aos nossos. (p. 30)

Não distinguimos os limites dos séculos de que conservamos a memória, do mesmo modo que não discernimos a linha que limita o nosso campo visual; para alem desse

horizonte, não vemos estenderem-se séculos obscuros; deixamos de ver, e é tudo. (p.

30)

Antes de ter tomado a atitude critica que reduz o mito ao verossímil, a atitude do grego médio era diferente: conforme a sua disposição, ora encarava a mitologia como contos velhinha ingênua ora tinha, perante o maravilhoso longínquo, uma atitude tal que a questão da historicidade ou da ficção não fazia sentido. (p. 27)

É esse o mundo mítico em cuja existência os pensadores, de Tulcidides ou Hecateu,

Pausanias ou Santo Agostinho, continuarão a acreditar; só que deixarão de ver como um

outro mundo e quererão reduzi-lo às coisas do mundo atual. Farão com que o mito relevasse do mesmo regime de crença que a historia. (p. 31)

1. Não é menos banal acreditar em verdades diferentes acerca do mesmo objeto (p. 31):

a) As crianças sabem, ao mesmo tempo, que os brinquedos são trazidos pelo Pai Natal e

dados pelos pais.

primitivo pode ver almas por todo o lado na natureza, pode situar numa arvore

qualquer força sensível e atuante que deverá apaziguar ou venerar; mas, noutra ocasião,

não deixará de cortar essa arvore para a transformar em materiais de construção ou em combustível.

b) Um

c) Os Sedang Moi da Indochina, que instituíram meios que permitem ao homem renunciar ao seu estatuto de ser humano e tornar-se javali, reagem, todavia, de forma diferente, consoante se encontrem perante um javali autentico ou perante um javali nominal.

d)

Apesar das tradições verbais, raramente se toma um mito no mesmo sentido em que

se

tomaria uma Verdade empírica; todas as doutrinas que floresceram no mundo acerca

da imortalidade da alma pouco ou nada afetaram o sentimento natural do homem perante a morte.

Havia nos tempo de Píndaro a prática de que, quando o atleta se tornava vencedor, o poeta lhe contava um mito perante os demais: por que é que o poeta contará ao vencedor este ou aquele mito, cuja relação com o sujeito não é visível? (p. 32)

Pindaro é um exemplo do entendimento e uso comum dos mitos na sociedade grega

Píndaro eleva o vencedor e a sua vitoria ao mundo superior que é o do poeta (p. 32) (mundo dos deuses e dos heróis)

Pindaro aumenta a gloria do seu vencedor exaltando essoltro mundo mais alto, onde a

gloria, é, ela própria, maior. (p. 34)

Pindaro aumenta a gloria do seu vencedor exaltando essoutro mundo mais alto, onde a gloria, é ela própria maior. (p. 34)

É precisamente porque o mundo mítico é definitivamente outro, inacessível, diferente e

espantoso, que o problema da sua autenticidade permanece em suspenso

(p. 34)

Mas, precisamente, seria necessário saber se a literatura e a religião serão mais ficções

do que a historia ou a física [

] (p. 35)

Porque a verdade é uma palavra homônima que só deveria empregar-se no plural;

apenas existem programas heterogêneos de verdade [

] (p. 35)

Um mundo não pode ser fictício em si próprio, isso depende de se nele acreditamos ou não; entre uma realidade e uma ficção, a diferença não é objetiva, não esta na própria

coisa, mas sim em nós [

] (p. 35)

Digamos que uma obra de arte é, a sua maneira tida por verdadeira, mesmo quando passa por uma ficção. (p. 35)

Todas as verdades nos parecem análogas entre si, de tal modo que Racine nos parece ter pintado a verdade do coração humano. (35)

O mundo de Alice, no seu programa de fantasmagoria, oferece-se-nos como tão plausível, tão verdadeiro como o nosso, tão real em relação a si próprio, por assim dizer; mudamos de esfera de verdade, mas continuamos no verdadeiro, ou na sua analogia. (p. 36)

Mesmo que consideremos Alice ou Racine como ficções acreditamos neles enquanto os lemos. (36)

Longe de se opor a verdade, a ficção não é mais do que um seu subproduto: basta-nos abrir a ilíada para entrarmos na ficção, como se diz, e perdermos o norte; a única diferença é que a seguir não acreditamos nela. Há sociedades em que uma vez o livro fechado, se continua a acreditar e outras em que se deixa de acreditar. (p. 36)

A ilíada é verdadeira no seu programa de verdade mítico. (36)

Literatura de antes da literatura, nem verdadeira nem fictícia, porque exterior ao mundo

] (p. 36)

empírico, mas mais nobre do que ele [

] [

consistia, não em comunicar aquilo que se tinha visto, mas em repetir aquilo que

“se dizia” dos deuses e dos heróis [

] (p. 37)

um discurso indireto: “diz-se que (p. 37)

[

]

”,

“a musa canta que

”,

“um logos diz que

uma narrativa, mas anônima, que se pode recolher e repetir, mas de que não seria possível ser-se o autor. (p. 37)

[

]

Conhecimento por informação: modo de conhecimento.

] [

antecipadamente ao locutor competência e honestidade; de modo que uma informação

se situa de antemão fora da alternativa do verdadeiro e do falso. (p. 38)

a informação é uma ilocução que só pode realizar-se se o destinatário reconhecer

Este modo de conhecimento em ação:

Quando uma coisa esta separada do nosso alcance por abismos, nós próprios não sabemos se acreditamos nela ou não. (p. 44)

O mito era um tertiun quid, nem verdadeiro nem falso. Einstein seria isso para nós se a

sua verdade não viesse de uma terceira fonte, a da autoridade dos profissionais. Naqueles tempos longínquos, esta autoridade não havia nascido e não existiam teologia física, ou historia. O universo intelectual era exclusivamente literário (p. 45)

Não se chocavam com ficções que não iam contra a autoridade de nenhuma ciência.

(p.45)

Mais valeria dizer reconhecer-se que todo o conhecimento é interessado e que

verdades e interesses são duas palavras diferentes para uma mesma coisa

(105)

A religiosidade ocupa, num dia, apenas uma parte mínima dos pensamentos de um homem religioso, mas pode-se dizer o mesmo de um desportista, de um militante, de um poeta. Ela ocupa uma estreita faixa, mas ocupa-a sincera e intensamente.

(107)

De constante a verdade apenas tem a pretensão de ser, e essa pretensão é só

formal; o seu conteúdo de normas depende das sociedades, ou melhor, na mesma

sociedade existem várias verdades

ou antropologia

Imaginário não é uma palavra de psicologia

Mas um juízo dogmático sobre certas crenças de outrem. (108)

Só a reflexão histórica pode explicitar os programas de verdade e mostrar as suas variações.

Passamos incessantemente de um programa para outro, como se muda de comprimento de onda de radio, mas fazemo-lo sem nos darmos conta. (107)

tomá-la-á por uma

historiografia; tomará o mythos por uma espécie de “tradição” local; tratará a temporalidade mítica como se ela fosse tempo histórico. (p. 38)

Eis, pois, esta mitologia que cada historiador vai criticar [

]

Sobre os grandes problemas, diz o Fédon, quando não conseguimos encontrar por nós próprios a verdade nem recebemos a revelação de algum deus, só nos resta adotar o que

se diz de melhor ou instruir-nos junto de outro que saiba. (p. 46)

Com esta pergunta o autor mostra que a crença tem muitas modalidades. Exemplifica com o caso da criança que acredita que o Papai Noel vai lhe trazer presentes, e ao mesmo tempo sabe que na verdade são seus pais que lhe presenteiam. Cita Dan Sperber. Os Dorzé, povo da Etiópia e membros da Igreja copta acreditam que:

“O leopardo é um animal cristão, que respeita os jejuns da Igreja Copta, observância que, na Etiópia, é o teste principal da religião; um Dorzé não é por isso menos vigilante na proteção de seu gado à quarta e à sexta feira, dias de jejum, do que nos outros dias da semana; ele tem por verdadeiro não só que os leopardos jejuam, mas também que comem todos os dias; os leopardos são perigosos todos os dias: Sabe-o por experiência; são cristãos: A tradição garante lho”. (p. 11 introdução).

Em referencia a outros livros, o autor cita diversos exemplos onde há analises sobre as modalidades de crença (duas verdades ou mais num mesmo cérebro):

“A pluralidade das modalidades de crença é um fato demasiado banal para que se torne

útil insistir

acerca do mesmo objeto; as crianças sabem, ao mesmo tempo, que os brinquedos são

Não é menos banal acreditar-se simultaneamente em verdades diferentes

trazidos pelo Papai Noel e dados pelos pais” (p. 31 nota de rodapé)

“A literatura é um tapete mágico que nos transporta de uma verdade para outra, mas em estado de letargia; quando acordamos, chegados à nossa verdade, julgamo-nos ainda na precedente.” (p. 36)

“É a analogia dos sistemas de verdade que nos permite entrar nas ficções romanescas, achar ‘vivos’ os seus heróis e também encontrar um sentido interessante nas filosofias e nos pensamentos de outrora.” (p. 36)

“Acabamos de escrever uma carta de ciúmes confusa e interminável, que desmentimos precipitadamente uma hora mais tarde, por telegrama” (p. 36)

Há pessoas informadas que estão ligadas, não a uma revelação, mas muito simplesmente a um conhecimento difuso que tiveram oportunidade de recolher. (p. 37)

Conhecimento por informação entre os gregos: “este estado de coisas poderia ter durado mais de mil anos; não se modificou por os gregos terem descoberto a razão ou inventado a democracia, mas por o campo do saber ter visto o seu quadro alterado pela formação de novos poderes de afirmação (a investigação histórica, a física especulativa) que faziam concorrência ao mito e que, ao contrário do mito, punham expressamente a alternativa do verdadeiro e do falso. (p. 38)

1. Em relação aos mitos os gregos tiveram duas modalidades de crença:

a) Informação e confiança: O mito era, aliás, uma informação obtida com base na palavra de outrem. Foi esta a primeira atitude dos gregos perante o mito; nesta

modalidade de crença, estavam em estado de dependência em relação a palavra de outrem. (p. 44)

b) Experiência: Em seguida, esta dependência acabará por suscitar uma revolta: eles

pretenderão julgar de tudo por si próprios, segundo a sua própria experiência

(p. 44)

O mito tinha um conteúdo que se situava numa temporalidade nobre e platônica, tão

estranha a experiência individual e aos seus interesses

(p. 44)

Cita M. Nilsson: “Uma criança de treze anos que estava a tomar banho num riacho cheio de pequenas ondas dizia: ‘o riacho esta afranzir as sobrancelhas’; se esta expressão for tomada à letra, seria um mito; mas a criança sabia perfeitamente, ao mesmo tempo, que o riacho era água, que podia beber-se, etc. da mesma maneira, um primitivo pode ver almas por todo o lado na natureza, pode situar numa arvore qualquer força sensível e atuante que devera apaziguar ou venerar; mas, noutra ocasião, não deixará de cortar esta arvore para a transformara em materiais de construção ou em combustível” (p. 31 nota de rodapé)

Desse modo, Veyne nos mostra que a estrutura de uma crença no mito, é complexa, e de modo algum implica uma alienação com relação a realidade:

"Digamos antes que é possível acreditar no mito como na historia, mas não em vez da historia, nem nas mesmas condições que na historia; as crianças também não exigem aos seus pais o Don da levitação, da ubiqüidade e da invisibilidade que atribuem ao

Papai Noel. Crianças, primitivos e crentes de toda espécie não são ingênuos" (p. 32 nota

de rodapé)

"Como os gregos pensavam o mito"

Todas as cidades, grandes ou pequenas, tinham as suas origens e era possível fazer o elogio de todas elas; os manuais de retórica forneciam receitas para descobrir algum mérito mesmo à mais insignificante cidadezinha. (p. 102)

Estes panegíricos, mais do que exaltar uma cidade acima de todas as outras, visavam reconhecer a cidade a sua dignidade de pessoa. (p. 102)

Os gregos não tinham a visão que temos hoje do mito:

Enquanto para nós, um mito é o engrandecimento épico de um grande acontecimento, para eles o mito era uma verdade alterada pela ingenuidade popular, mas que tinha um núcleo autentico. Não necessitavam de classificar um mito como verdadeiro ou falso

"Ora encaravam a mitologia como contos de velhinha ingenua ora tinham uma atitude que nao levava em consideraçao a historicidade".

Com relação aos mitos, os gregos tinham uma forte ligação com a tradição oral, a historia era sempre baseada na autoridade de outrem, por isso mesmo possuía um caráter nobre e platônico. Para Veyne isso possui um papel decisivo na atitude que eles tinham perante a mitologia.

Os gregos procuravam uma verdade através das mentiras

(76)

" Estavam em estado de dependência em relação à palavra de outrem. Daí dois efeitos.

Em primeiro lugar, uma espécie de indiferença letárgica ou, pelo menos, de hesitação perante a verdade e a ficção; em seguida, esta dependência acabara por suscitar uma revolta, e será precisamente este o principio das coisas atuais que fará avaliar o maravilhoso pela realidade e passar a outras modalidades.” (p. 44)

Acredita-se também por experiência, mas é a palavra dos outros, e a confiança nesta, o que me faz acreditar.

“ Acredito na existência de Tóquio, aonde ainda não fui, porque não vejo que

interesse teriam os geógrafos e as viagens em enganar-me. Esta modalidade pode durar enquanto o crente confiar em profissionais ou não existirem profissionais que façam lei na matéria; os ocidentais, ou pelo menos aqueles de entre eles que não são bacteriólogos, acreditam nos micróbios e multiplicam as precauções de assepsia pela mesma razão que os Azandé acreditam nos feiticeiros e multiplicam as precauções mágicas contra eles: Acreditam por confiança.” (ibidem, p. 44-45)

A modalidade de crença mais difundida é aquela em que se acredita na palavra de

outrem; acredito na existência de Tóquio, aonde ainda não fui, porque não vejo que interesse teriam os geógrafos e as agencias de viagens em enganar-me. (p. 44-45)

A verdade definia-se, quer a partir da experiência quotidiana, quer a partir do locutor,

que é leal ou enganador; as afirmações que permaneciam estranhas à experiência não

eram nem verdadeiras nem falsas [

] (p. 45)

O mito era um tertium quid, nem verdadeiro, nem falso. Einstein seria isso para nós se a sua verdade não viesse de uma terceira fonte, a da autoridade dos profissionais. Naqueles tempos longínquos, esta autoridade não havia nascido e não existiam teologia, física ou historia. (p. 45)

Escolher a montanha: segundo a autora Veyne utiliza termos como “nem verdadeiro nem falso” numa tentativa de mostrar que tudo é mais complicado do que as visões contrárias.

Habitualmente nós não distinguimos entre crença e afeto. (61)

O útil nós acreditamos ser verdadeiro. (62)

"

Os gregos viveram mil anos neste estado

A rejeição do maravilhoso e a convicção

de

que as lendas tinham um fundo de verdade; dai a sua consciência confusa."

" Os gregos não se preocupavam muito, pois uma mentira não tem nada de positivo: é

um não-ser. Eis tudo. Não perguntavam muito por que é que alguns haviam mentido, mas antes porque é que os outros haviam acreditado." (p. 75)

Para eles "O mediun desaparece por detrás da mensagem" (p. 74)

A tese de Tales com base na tradição, não era nem metafísica nem ontológica, era

alegórica. O que Tales faz é encontrar uma resposta para um problema, uma chave:

Tales foi o primeiro a encontrar a chave de todas as coisas: “Tudo é água”. (p. 46)

Uma palavra é uma metáfora. Uma frase é uma metáfora mais longa, ou menor (dependendo do sentido que está por detrás dela). Um pensamento que elucida um problema, não é a elucidação do problema. É uma chave, que serve para avançar, compreender melhor o problema.

[

]

as coisas são feitas de água, da mesma maneira que, para nós, o sal marinho é feito

de

cloro e de sódio, e, visto que tudo é água, tudo passa, tudo corre, tudo muda, tudo

foge. (p. 47)

Estranha química: como pretenderá ela recompor a diversidade dos compostos a partir

de um único corpo simples? Não pretende; não é uma explicação, mas sim uma chave, e

uma chave deve ser simples. (p. 47)

“Ora uma chave não é uma explicação. Ao passo que uma explicação dá conta de um fenômeno, uma chave, por seu lado, faz esquecer o enigma, apaga-o, toma o seu lugar. Tal como uma frase mais clara eclipsa uma primeira formulação confusa e pouco compreensível.” (p. 47)

Com efeito, esquecemo-nos do texto de uma adivinha, que só serve para nos fazer chegar a sua conclusão. (p. 47)

Somente os gênios criam estas chaves, o resto dos mortais apenas tece comentários ao seu redor.

"A coexistência, numa mesma cabeça, de verdades contraditórias não deixa de ser um fato universal. O feiticeiro de Levi Strauss acredita na sua magia e manipula-a cinicamente, o mágico segundo Bergson so recorre a magia quando não existem receitas técnicas seguras." (p. 104)

Veyne explica:

" Todos os povos dao um jeitinho aos seus oraculos ou aos seus indices estatisticos

para obterem a confirmaçao daquilo em que desejam acreditar. Ajuda-te a ti proprio que o ceu te ajudará." (p. 104)

"Nao há verdades contraditorias num mesmo cerebro, mas simplesmente programas

diferentes, cada um dos quais encerra verdades e interesses distintos, mesmo quando essas verdades usam o mesmo nome."

Para Veyne verdade é uma palavra que so se deveria usar no plural. Ele cita o exemplo de um medico homeopata amigo seu que toma a prudencia de prescrever antibioticos quando a doença é grave. Justifica dizendo que o objetivo em comum entre medico e paciente é a cura do doente. Estas atitudes nao sao contraditorias, sao simplesmente dois programas de verdade diferentes.

“A verdade é o nome que damos às nossas opções, de que não queremos desfazer- nos; se nos desfizéssemos delas, considerá-las-íamos decididamente falsas, de tal modo respeitamos a verdade” (p. 149)

Em Roma havia a divinização do Imperador por parte dos fieis:

“Um fato mostra ate onde vai a nossa duplicidade para conosco próprios: se os imperadores eram deuses e se os arqueólogos encontraram dezenas de milhares de ex- voto consagrados aos diferentes deuses, para cura, feliz regresso, etc., não existe contudo um único ex-voto consagrado a um imperador deus; quando os fieis tinham necessidade deus, não se dirigiam ao imperador.” (p. 109)

“A pluralidade das verdades, chocante para a lógica, é conseqüência normal da pluralidade das forças” (p. 110)

“A nossa vida quotidiana é composta por um grande numero de programas diferentes e a impressão de mediocridade quotidiana nasce precisamente dessa pluralidade, a qual, em certos estados de escrúpulo neurótico, é sentida como uma hipocrisia; passamos incessantemente de um programa para outro, como se muda de comprimento de onda de na radio, mas fazemo-lo sem nos darmos conta.” (p. 107)

"Para Veyne, no passado houve um tempo em que a verdade se encontrava naturalmente envolta em falsidades." (a minha duvida é quanto a sutileza das manifestações daquilo que se pode chamar de sobrenatural. Se ele existe, em que medida ele transparece?"

"Sobre a Falta de Sentido em Classificar o Mito Como Mentira"

“A questão de saber se as fabulas tem um conteúdo autentico nunca se põe em termos positivos: Para saber se Minos existiu, é preciso decidir primeiro se os mitos não passam de contos vãos, ou se são historia alterada; nenhuma critica positivista liquida a fabulação e o sobrenatural” (p. 14)

MITHODES: “Aquilo que de falso se vem misturar com o fundo histórico”

“Basta admitir a existência do sobrenatural para deixar de poder demonstrar a inexistência de um milagre. Basta ter interesse em acreditar que Auschwitz não existiu para que todos os testemunhos sobre Auschwitz se tornem incríveis. Também nunca ninguém demonstrou que Júpiter não existia.” (p. 14)

Os testemunhos são convergentes: a maioria do publico acreditava nas lendas acerca de Cronos, diz Sextus Empiricus; acredita no que as tragédias contam de Prometeu, Niobe, e Teseu, escrevem Artemidoro e Pausânias. E por que não? Não acreditavam os doutos, também eles em Teseu? A multidão limitava-se a não depurar o mito. (p. 66)

Sobre a verdade:

" Ninguém pode mentir inicial ou totalmente pois o conhecimento nao passa de um

espelho; e o espelho confunde-se com aquilo que reflete, de tal maneira que o mediun não se distingue da mensagem." (p. 74)

"O mito é verídico, mas em sentido figurado, nao é verdade historica misturada com mentiras, é um alto ensinamento filosófico inteiramente verdadeiro, desde que, em vez de tomarmos à letra, vejamos nele uma alegoria" (p. 79)

(parece que é isso quando se diz que a ficçao é verdadeira em si mesma. Dessa forma é erroneo dizer simplesmente que um mito seja uma mentira pois basea-se em imaginaçoes, pois assim toda a arte deve ser descartada ).

"A tradição mítica transmite um núcleo autentico que ao longo dos séculos se foi rodeando de lendas. Só estas lendas é que põem problemas não o núcleo" (p. 27)

(exatamente como diz Otto em Teofania). Estas lendas diz Veyne, sao acidentes na transmisao do nucleo, tais como: Entender uma palavra por outra ou uma coisa por uma palavra.

Veyne chega a falar muitas vezes sobre esse nucleo autentico como sendo a parte depurada. Afastando as lendas que acumularam-se, voce tera aquilo que aconteceu de verdade. Fala do exemplo do minotauro que Aristoteles explicou como sendo na verdade um antigo rei. Ele mesmo fala sobre a lenda do centauro como sendo os primeiros homens que se utilizaram de cavalos para caçar touros selvagens.

Trata-se de pensar que a mentira é algo que nao existe em si mesma, sendo apenas

a deformaçao de uma verdade, e nao uma mentira totalmente. Se o mito fala de

É pois necessaio

algo que nao existe, entao como é que algo pode falar do nada? "

que o que nao é seja, para que se possa falar dele." "Se a palavra é um espelho,

como ela pode refletir um objeto que nao esta lá? Refletir o que nao existe equivale

a nao refletir."

“Um mundo não pode ser fictício em si próprio, isso depende de se nele acreditamos ou não; entre uma realidade e uma ficção, a diferença não é objetiva, não esta na própria coisa, mas sim em nós, se subjetivamente nela vemos ou não uma ficção: O objeto nunca é incrível em si próprio e o seu desvio em relação ‘à’ realidade não pode chocar- nos, pois nos nem sequer dele nos apercebemos, uma vez que as verdades são todas analógicas.” (p. 36)

Existia, com efeito, um público crédulo, mas culto, que exigia um maravilhoso novo; este maravilhoso já não podia situar-se, para alem do verdadeiro e do falso, num passado intemporal; pretendia-se que fosse “cientifico”, ou melhor, histórico. (p. 63)

“ Trata-se de velhíssimos vinhos que tiveram por nome razão, moral, Deus e verdade.

Estes vinhos parecerão ter um sabor moderno se os vertermos na desmistificação, na

questionarão da consciência e da linguagem

” (p. 148)

“ Acreditamos ser verdadeiro tudo aquilo que lemos enquanto o estamos a ler; só a

seguir é que o consideramos ficção e mesmo assim só se pertencermos a uma sociedade em que exista a idéia de ficção.” (p. 125)

" A poesia esta do mesmo lado que o vocabulário, o mito e as expressões feitas; longe

de tirar a sua autoridade do gênio do poeta, ela é, apesar da existência do poeta, uma espécie de fala sem autor; não tem locutor, é o que se diz; não pode, pois, mentir, pois só um locutor poderia fazê-lo" (p. 82)

“Para nos enganarmos, mentirmos ou falarmos no vazio, temos de falar do que não existe; é pois necessário que o que não é seja, para que se possa falar dele; mas que é um vazio que não é nada?” (p. 87)

(assim como diz Veyne e Mircea, esse diz-se, no caso dos mitos, possui uma estranha autoridade, e é por isso que nao pode existir conversa entre um homem religioso e um homem de crenças estritamente cientificas)

"O mito tem de transmitir quer algum ensinamento útil, quer uma doutrina fisica ou teologica sob a capa de alegoria, quer a recordaçao de acontecimento do tempo passado." (p. 84)

Plutarco: "A verdade e o mito tem entre si a mesma relaçao que o sol e o arco iris, que dissipa a luz numa variedade matizada" (p. 84)

( o sol é a verdade, a luz do arco iris é uma sub verdade, mas ainda é luz, portanto ainda é verdade!)

CAP.5

"Para depurar o mito e fazer dele uma tradiçao exclusivamente historica, bastara eliminar tudo o que nao tem equivalente detectado na nossa existencia historica."

"As coisas atuais fornecem a medida do que é naturalmente possivel" (p. 89)

(com isso nos podemos pensar que o mundo, esse em que vivemos, sempre foi igual ao que é hoje, as diferenças encontradas estao apenas no modo de pensar de cada homem, exemplar de seu tempo historico)

"Quando deuses, homens e felinos conviviam familiarmente, era a idade de ouro; mas

desde que o mundo se tornou real, os deuses se escondem e ja nao é possivel qualquer comunicação." (p. 90)

A questao que se poe aqui, é se o sobrenatural tem lugar nesse mundo " fronteiras da realidade"

Conhecer as

" Dissociemos a desmitologizaçao de irreligiao" (seria isso a filosofia da religiao?

Buscar um nucleo autentico num mito, nao significa negar a sacralidade e o miraculoso

de um acontecimento)

Nietzsche: "Nao há mentira quando o mentiroso nao tem interesse em mentir!"

CAP.7

Relaloes imaginarias com o nosso mundo estao em toda a parte e em todas as coisas "A declaraçao dos direitos do homem nao sao, nem menos reais nem menos verbais que os mitos" (isso lembra a estrutura dos mitos que é inerente a linguagem do homem e a tudo o que ele postula. A minha duvida aqui é, se o mito é inerente a linguagem do homem, de que modo o homem se livraria dele. Há esta possibilidade?)

"Quando foi que se começou a tratar o mito como sinônimo de mentira"

E precisamente para voltarmos ao mito, a incredulidade a seu respeito veio de pelo

menos dois focos: uma brusca indocilidade a palavra de outrem e a constituição dos centros profissionais de verdade. (p. 48)

partilhar utilmente a credulidade

popular, pois o povo acredita tão docilmente como obedece, ou então recusar uma

A aristocracia grega hesitava entre duas atitudes [

]

submissão humilhante, sentida como um efeito da ingenuidade [

] ( p. 48)

No primeiro caso, os aristocratas ganhavam ainda com o fato de poderem reclamar-se de genealogias míticas. (p. 48)

Um escravo, desesperado com a sua sorte, diz ao seu companheiro de infortúnio: “Já só

nos resta lançarmo-nos aos pés das imagens dos deuses”, e o seu camarada responde- lhe: “Ah sim! Ouve lá, acreditas de fato que há deuses?”. Não creio que os olhos deste escravo lhe tenham sido abertos pelas Luzes dos Sofistas; ele pertence à franja incompreensível de incrédulos cuja recusa se deve menos a raciocínios e ao movimento

das idéias do que a uma reação contra uma forma sutil de autoridade

(p. 49)

O mito começou a sofrer a concorrência de especialistas do verdadeiro, os ‘inquiridores’ ou historiadores, os quais, como profissionais, começaram a fazer autoridade. Ora, aos olhos destes, os mitos deviam concordar com o resto da realidade, visto que se apresentavam como reais. (p. 49)

Os que nos informam estão, pois, informados e, neste domínio, o que se opõe é menos a verdade ao erro do que a informação a ignorância. (p. 50)

Doravante, os outros homens terão de se referir de preferência a este profissional, sob pena de não passarem de espíritos incultos. E, como o inquiridor verifica a informação, impõe a realidade a obrigação de coerência. (p. 50)

A esta elasticidade natural chama-se também vontade de poder. (p. 52)

Eles vão tentar se desvencilhar de tudo o que seja maravilhoso, e vão tentar julgar tudo por si próprios segundo a sua própria experiência, vão começar a comparar o fabuloso com o real (me parece ser este, o surgimento da filosofia). Veyne cita um acontecimento na Grécia:

Xenofanes não quer que, nos banquetes, os convivas discutam ou digam parvoíces e, conseqüentemente, proíbe que se fale “dos Titãs, dos Gigantes, dos Centauros, tudo invenções dos antigos. (p. 48)

Deve-se falar apenas do que é humano. Assim o pensamento ocidental começa a mudar de atitude, o mito passa a ser sinônimo de falsidade.

Mas é necessario salientar que mesmo esse ato de se desvincular da linguagem mitica, nao implica o suceso desta empreitada. Por que mesmo a elite grega dos tempos de Xenofanes, mesmo ela possuia uma relaçao profunda com a mitologia, no caso a questão do mito como alegoria.

Os historiadores modernos escrevem tomando sempre referencias e notas de rodapé, caso nao o façam, aquilo que estao dizendo pode perder a credibilidade, podem ser simplesmente mitos, no sentido de ilusao. Veyne mostra que os antigos historiadores nao o faziam por que nao viam essa necessidade:

"A credibilidade da obra sera dada pelo tempo e pelos leitores". Os historiadores tem papel importante na transformaçao da relaçao com os mitos. Sao dois focos: "Uma brusca indocilidade com relaçao a palavra de outrem e a constituiçao de centros profissionais de verdade".

Tambem sao duas as escolas (atitudes) perante o conteudo dos mitos:

"A critica das lendas pelos historiadores e a interpretaçao alegorica pelos filosofos." (é interessante que esta atitude critica nao aceita o mito como possuindo um nucleo autentico, para eles acho que o mais sensato é que o mito surgiu do nada, ou seja nao possui verdade figurada alguma. "Alguem começou a mentir!")

"O espirito de seriedade faz com que, desde Marx, tenhamos vindo a encarar o devir historico ou cientifico como uma sucessao de problemas que a humanidade equaciona e resolve, ao passo que com toda evidencia, a humanidade nao cessa de esquecer cada problema para pensar em outra coisa" (p. 54)

"Einstein é verdadeiro aos nossos olhos num certo programa de verdade, o da física dedutiva e quantificada; mas se acreditarmos na Ilíada, ela será não menos verdadeira,

no seu programa de verdade mítica". (p. 36)

"Hesiodo nao era um falsario." Veyne afirma que alguem que vive num tempo onde nao se quetsiona a historicidade das coisas, mas antes, acredita-se ou semi acredita-se, nela nao pode ser um mentiroso. É simplesmente alguem que vive de acordo com o programa de verdade vigente em sua época, e nao poderia ser diferente.

“Esta analogia da verdade faz com que a heterogeneidade dos programas passe despercebida; continuamos na verdade quando mudamos inadvertidamente de comprimento de onda; a nossa sinceridade é total quando nos esquecemos dos imperativos e usos da verdade de há cinco minutos para adotarmos os da nova verdade.” (p. 107)

93 – Não temos nunca, sobre o verdadeiro, o falso, o mito, a superstição, uma visão

completa, uma evidencia, um índex sui. Tulcidides acreditava nos oráculos, Aristóteles na adivinhação pelos sonhos, Pausanias obedecia aos seus sonhos.

93 – nota de rodapé – Galeno dedicou-se a medicina na seqüência dos sonhos de seu

pai, que via no filho um médico (vol X, 609 e XVI, 223 kuhn); um sonho enviou-lhe a composição de um remédio.

A relação de forças entre as verdades

Programas distintos: quando os discursos se chocam

1. Século V a. c ao século IV d. c.

Por

docilidade à palavra de outrem, por ausência de sistematização da experiência

quotidiana. Os doutos

(p. 58)

2. Em qualquer caso, a literatura oral e a iconografia davam a conhecer a todos a existência e a modalidade de ficção de um mundo mitológico cujo sabor era

sentido

(p. 61)

3. Como na época arcaica, o passado da humanidade era, pois precedido, a seus olhos, por um período maravilhoso que era outro mundo. Real em si próprio e irreal em relação ao nosso. (p. 66)

4. A partir do momento em que queremos convencer e fazer-nos aceitar, temos de respeitar as idéias estranhas, se forem forças, e temos que pensá-las um pouco. (p. 74)

5. Galeno

indigna-se

ao

ver

um

Crisipo

renunciar

com

tanta

freqüência

a

demonstrar cientificamente e preferir multiplicar as citações de Homero, do mesmo modo que os retóricos procuram impressionar os juízes chamando à barra o maior numero possível de testemunhas. (p. 81)

6. Visto que os estóicos estão de antemão seguros de que mitos e poesia dizem a verdade, só lhes resta torturarem-nos, para os fazer encaixar nessa verdade; a alegoria será o seu leito de Procustes. (p. 83)

7. O feiticeiro de Levi Strauss acredita na sua magia e manipula-a cinicamente, o mágico segundo Bérgson só recorre a magia quando não existem receitas técnicas seguras, os gregos interrogam a pítia sabendo que, por vezes, essa profetiza faz propagandas em favor dos Persas ou da Macedônia, os Romanos falsificam a sua religião de Estado para fins políticos, deitam a água os frangos sagrados quando eles não predizem o que seria preciso, e todos os povos dão um jeitinho aos seus oráculos ou aos seus índices estatísticos para obterem a confirmação daquilo em que desejam acreditar. Ajuda-te a ti próprio que o céu te ajudará; o paraíso, sim, quanto mais tarde melhor. (p. 104)

8. Mas as verdades não estão inscritas como estrelas na esfera celeste; elas são o pequeno circulo de luz que aparece na ponta da luneta de um programa, de tal modo que a dois programas diferentes correspondem, evidentemente, duas verdades diferentes, ainda quando o seu nome é o mesmo. (p. 106)

9. Conheço um médico que, sendo homeopata apaixonado, tem no entanto a prudência de prescrever antibióticos quando a doença é grave e reserva a homeopatia para os casos anódinos ou desesperados

10. O nosso espírito não se apoquenta quando parecendo contradizer-se, muda sub- repticiamente de programa de verdade e de interesse, o que acontece vezes sem conta. (p. 106)

11. Um Romano que manipula a religião de Estado segundo os seus interesses políticos pode estar de tão boa fé quanto o meu amigo homeopata; se estiver de má fé, será por não acreditar num dos seus dois programas, apesar de o utilizar, mas não por acreditar em duas verdades contraditórias. (p. 106)

12. Aliás, a má fé nem sempre está onde se julga; o nosso Romano pode ser sinceramente piedoso; quando afecta um escrúpulo religiosos em que pouco ou nada acredita, a fim de interromper uma reunião eleitoral em que está iminente uma má votação. (p. 106)

13. Pensará que há que defender todos os valores conjuntamente, religião ou pátria, e que uma razão nunca é má quando se trata de apoiar uma boa causa. (p. 107)

14. A religiosidade ocupa, num dia, apenas uma parte mínima dos pensamentos de um homem religioso, mas pode dizer-se o mesmo dos pensamentos de um

desportista, de um militante, de um poeta, Ela ocupa uma estreita faixa, mas ocupa-a sincera e intensamente. (p. 106)

15.

A religião, a política ou a poesia podem bem ser as coisas mais importantes desse mundo ou do outro e nem por isso deixam de ocupar um espaço reduzido na prática (p. 106)

16.

Sentimo-nos mais a vontade para estudar as crenças, religiosas ou outras, quando compreendemos que a verdade é plural e analógica.

17.

Se pensássemos os fantasmas com o mesmo espírito que nos faz pensar os fatos físicos, não teríamos medo deles, ou pelo menos da mesma maneira; temê-lo- íamos como a um cão feroz, ao passo que o medo dos fantasmas é medo perante

a

intrusão de um mundo diferente. Pela minha parte considero os fantasmas

como simples ficções, mas não deixo por isso de sentir a sua verdade; tenho deles um medo quase neurótico; e os meses que passei a selecionar os papéis de um amigo morto foram um longo pesadelo; neste preciso momento em que

datilografo estas frases, um arrepio de terror começa a subir-me nuca a cima

É

por isso que a ficção cientifica, longe de me dar medo, me tranqüiliza deliciosamente. (108)

18.

"

O que é conforme um programa de verdade de uma sociedade sera visto

como impostura ou elocubraçao noutra. Um falsario é um homem que se enganou de seculo."

19.

Sobre o rigor, especificamente sobre distinguir entre a história ficção e a historia que se pretende séria, como julgar? “Com base no rigor? Ele é igual num falsário, cuja imaginação segue inconscientemente os ditames de um programa de verdade tão determinado como o que seguem, sem o saber, os historiadores considerados sérios. (p. 126)

20.

A

discussão dos fatos passa-se sempre no interior de um programa. (p. 128)

21.

Não duvidamos daquilo em que outros acreditam, se forem respeitáveis: as relações entre verdades são relações de força. Dai aquilo a que se chama a má fé. (p. 57)

22.

É

claro que a existência ou a não existência de Teseu e das câmaras de gás, num

ponto do espaço e do tempo, tem uma realidade material que nada deve a nossa imaginação. Mas essa realidade ou irrealidade é percepcionada ou ignorada, é interpretada de uma maneira ou de outra, de acordo com o programa em vigor; não se impõe por si própria, as coisas não nos saltam aos olhos. (p. 129)

23.

A

idéia famosa de que “os fatos não existem” (estas palavras são de Nietzsche e

não de Max Weber) não se refere à metodologia do conhecimento histórico nem

a pluralidade das interpretações do passado pelos diferentes historiadores;

descreve a estrutura da realidade física e humana; um fato (a relação de produção, o “poder”, a “necessidade religiosa” ou as exigências do social) não desempenha o mesmo papel, ou antes, não é a mesma coisa de conjuntura para conjuntura; o seu papel e identidade são de circunstancia. (p. 54)

24. Para se rejeitar o mito ou o Dilúvio, não basta um estudo mais atento ou um método melhor; é preciso mudar de programa; não reconstruímos o que estava mal construído, vamos habitar para um outro lado. (p. 129)

25. Não quero dizer que os fatos não existem; a materialidade existe incontestavelmente, é atuante. (p. 129)

26. A materialidade das câmaras de gás não arrasta consigo o conhecimento que delas podemos ter. (p. 129)

27. Um falsário é um peixe que, por razões caracteriais, não entrou no aquário adequado. (p. 129)

28. Mas estas verdades não deixam de ser analógicas entre si (parecem ser a mesma) e a sua sinceridade é igual em todas elas, visto que todas elas fazem agir os seus fiéis com a mesma intensidade. A pluralidade das modalidades de crenças é, de fato, pluralidade dos critérios de verdade. (p. 135)

29. Como a verdade parecia una e insuspeitável, talvez a explicação esteja em modalidades de crença desiguais em intensidade e em valor. Talvez a humanidade tenha cometido o erro de ser, por demasiado tempo, dócil perante o argumento de autoridade ou as representações sociais.

30. Não

acreditamos nos neutrões, nos mitos ou no anti-semitismo como

acreditamos no testemunho dos sentidos ou na moral da tribo; é que a verdade não é una. Mas estas verdades não deixam de ser analógicas entre si (parecem ser a mesma) e a sua sinceridade é igual em todas elas, visto que todas elas fazem agir os seus fiéis com a mesma intensidade. A pluralidade das modalidades de crença é, de fato, pluralidade dos critérios de verdade. (135)

31. Se assim não fosse, a quase totalidade da cultura universal começaria a ser inexplicável, mitologias, doutrinas, farmacopéias, falsas ciências e ciências falsas. Enquanto falarmos de verdade, não compreenderemos nada da cultura nem conseguiremos ter, em relação a nossa época, o mesmo recuo que temos em relação aos séculos passados em que se falava de mitos e deuses. (p. 135 – 136)

32. A. B. Drachmann mostrou que o ateísmo antigo, menos do que negar a existência de deuses, criticava a idéia popular dos deuses, não excluindo uma concepção mais filosófica da divindade. (p. 136)

33. Cristãos à sua maneira, não foram mais longe na negação dos deuses do

paganismo; disseram menos “fabulas ocas” do que “concepções indignas”. Uma vez que queriam por o seu deus no lugar do dos pagãos, poderia pensar-se que o programa ideal consistiria em mostrar que Júpiter não existia, para num segundo tempo, exporem as provas da existência de Deus. Não foi este o seu programa; menos do que censurarem os deuses pagãos por não existirem, parecem acusá- los de não serem os bons. (p. 136)

34. É que o objetivo dessa polemica consistia menos em convencer adversários do que em excluir rivais; em fazer sentir que o Deus cioso não toleraria nenhuma partilha, ao contrário dos deuses dos paganismos, que se toleravam entre si (pois todos eram verdadeiros e nenhum excluía os outros). (p. 136)

35. Quando se torna necessário, por escrúpulo de pensador, traduzir em doutrina esta indignidade, dir-se-á, com Eusébio, que os deuses pagãos são menos deuses falsos do que falsos deuses; trata-se de demônios que, para enganarem os homens se fazem passar por deuses. (p, 137)

36. Só se deseja conhecer os deuses dos outros nas negociações internacionais

As

nações passam bem sem a noção do verdadeiro e do falso, que só praticam ou crêem praticar certos intelectuais em certas épocas. (p. 137)

37. É muito difícil negar um deus, nem que seja o deus dos outros e mesmo o judaísmo antigo dificilmente o conseguia. Afirmava antes que os deuses estrangeiros eram menos fortes que o deus nacional, ou então que não eram interessantes; desprezo ou horror, mas não negação, o que para um patriota, é a mesma coisa. Os deuses dos outros existem? Pouco importa a sua existência; o importante é que os deuses dos outros nada valem, são ídolos de madeira ou de pedra que tem orelhas incapazes de ouvir. (p. 137)

38. A verdade é o nome que damos as nossas opções, de que não queremos desfazer-nos; se nos desfizéssemos delas considerá-las-íamos falsas, de tal modo respeitamos a verdade; até os nazis a respeitam a respeitavam pois diziam que tinham razão, não diziam que estavam enganados. Poderíamos ter-lhes replicado que estavam enganados, mas para quê? Não estavam no mesmo comprimento de

onda que nós

(150)

39. A vitoria definitiva dos gregos sobre os persas estava proxima, e Atenas ja falava como lider. mas havia uma outra cidade que se opunha. Entao Atenas cita toda a sua historia mitologica de heroismos e façanhas, e diante disso se é aceito que ela é verdadeiramente lider (o que ha na verdade, é a aceitaçao da força militar que Atenas possuia).

40. "Judeus afirmam aos espartanos que nao se atrevem a duvidar que os dois povos sao irmaos em Abraao." (uma fraternidade selada assim dificilmente é colocada em prova)

"Se refletirmos um instante, a ideia de que a verdade nao existe, nao é mais paradoxal nem mais paralizante que a de uma verdade cientifica perpetuamente provisoria e destinada a ser falsificada" (p. 137)

“A ciência não encontra verdades, matematizáveis ou formalizáveis, descobre fatos desconhecidos que podem ser glosados de mil maneiras; descobrir uma partícula subatômica, uma receita técnica eficaz ou a molécula do ADN não tem nada de mais sublime do que descobrir os infusórios, o cabo da Boa Esperança, o Novo Mundo ou a anatomia de um órgão.” (p. 137)

A

própria vida quotidiana, longe de ser um imediatismo, é encruzilhada de imaginações

e

é ai que acreditamos ativamente no racismo ou no mau olhado. O empirismo e a

experimentação são quantidades desprezáveis. (p. 139)

Acreditamos nas religiões, em Madame Bovary durante a leitura, em Einstein, em Fustel de Coulanges, na origem troiana dos francos; todavia, em certas sociedades, algumas dessas obras são consideradas ficções. (1983, p. 139)

Longe de ser um índice eloqüente em si próprio, a verdade é a mais variável das medidas. (p. 139)

"O programa de verdade histórica em que o presente livro se inscreve não consiste em

dizer como a razao progride

dos seculos

Mas em refletir sobre a constituição da verdade através

A verdade é que a verdade varia." (p. 140)

" Cada época pensa e age no interior de quadros arbitrários e inertes (é obvio que,

num mesmo século, estes programas podem contradizer-se de um setor de atividade para outro, e que estas contradições, o mais das vezes, serão ignoradas). Uma vez que

estamos dentro de um desses aquários, é preciso gênio para dele sairmos e inovarmos; em contrapartida, quando a genial mudança de aquário se opera, as criancinhas podem ser socializadas no novo programa desde a mais tenra idade. Encontram-se tão satisfeitas com ele como os seus antepassados com o seu e não vêem maneira de sair dele, uma vez que não avistam nada para alem dele" (p. 140)

Com mais forte razão ainda, desconhecemos a forma extravagante desses limites, pois julgamos habitar dentro de fronteiras naturais. (p. 140)

Não concedemos qualquer papel a uma só investida da razão, a uma luz natural, a uma relação entre as idéias e a sociedade que fosse funcional. (p. 143)

A ilusão da verdade fará que cada palácio passe por se encontrar plenamente instalado

dentro das fronteiras da razão. (p. 144)

"A construção do edifício da verdade, nao é orientada por grandes razoes, tais como a natureza humana, as necessidades sociais, a lógica das coisas que sao, ou as forças de produçao" (é o acaso!)

Justificação para uma teoria pluralista

O programa de verdade histórica em que o presente livro se inscreve não consiste em dizer como é que a razão progride, como é que a França se construiu, como é que a sociedade vivia ou pensava sobre as suas bases, mas em refletir sobre a constituição da verdade através dos séculos, em virar a cabeça para ver o traçado do caminho percorrido. (p. 140)

Não quer isto dizer que este programa seja mais verdadeiro que os outros, e ainda menos que tenha mais razões para se impor e para durar que os outros. (p. 140)

Seria demagógico não especificar que a análise reflexiva de um programa ou “discurso” não conduz a instauração de um programa mais verdadeiro nem à substituição da sociedade burguesa por uma sociedade mais justa, mas simplesmente a outra sociedade, a outro programa ou discurso. É perfeitamente lícito preferir esta nova sociedade ou esta nova verdade; basta abstermo-nos de a declarar mais verdadeira ou mais justa. (p. 148)

O propósito deste livro era pois muito simples. Apenas com a leitura do título, qualquer um com a menor cultura histórica teria respondido antecipadamente: "Mas é claro que eles acreditavam em seus mitos!" Nós quisemos simplesmente fazer com que o que era evidente para "eles" o fosse também para nós e extrair as implicações desta verdade primeira. (p. 151)

Citação retirada da edição mais antiga (Editora Brasiliense, São Paulo, 1984, p. 99)

Pois existem naturalmente objetos inscritos sobre a esfera da realidade, e uma luz natural do espírito irá refleti-los para nós; ora o raio de luz nos alcança diretamente, ora ele é desviado pela imaginação ou a paixão, como se dizia no Grande Século, ou pela autoridade ou o interesse, como se diz hoje;

p. 138

a cada momento, nada existe nem atua no exterior deste palácio da imaginação (a não ser a semi-existência de realidades "materiais", isto é, de realidades cuja existência ainda não foi levada em conta e não receberam a sua forma, fogo de artifício ou explosivo militar, se se tratar de pólvora).