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foto: Thiago Gustavo

Ano 1 | nº 1 | São Luiz do Paraitinga | 1ª quinzena / Março de 2010

Como tudo aconteceu


Você sabe por que houve uma en- sul do estado do Rio de Janeiro, onde Com isso, ao longo do tempo, o do município, correspondente à bacia
chente tão grande, que destruiu boa estão as cidades de Angra dos Reis e solo ficou impermeável, impedindo a do Paraitinga, que vai de Catuçaba ao
parte de São Luíz do Paraitinga e pre- Paraty, formou-se um ciclone que gira- penetração da águas nas chuvas.Assim, limite com Taubaté, existem apenas
judicou a vida de tanta gente? va no sentido horário. Os ventos fortes todo volume das chuvas escoa pela manchas de matas naturais, insuficien-
De acordo com o diretor do Nú- impediram que um dos blocos de nu- superfície do terreno, levando junto tes para a proteção do rio – que ainda
cleo Santa Virgínia do Parque Estadual vens da corrente amazônica fosse para os detritos e terras soltas para os ria- conta com pouca vegetação ciliar.
da Serra do Mar, engenheiro florestal mar, e este ficou estacionado sobre a chos, ribeirões e, depois, para o Rio
João Paulo Villani, com base em infor- região do Alto Paraíba, entre o Bairro Paraitinga. O leito do rio, então, fica Audiência pública
mações do Instituto Nacional de Pes- do Chapéu Grande, em São Luiz do Pa- assoreado, isto é, cada vez mais raso Você poderá ficar sabendo mais so-
quisas Espaciais (INPE), a enchente na raitinga e o distrito de Campos Novos, e entulhado de detritos, facilitando o bre esse assunto, com detalhes muito
virada de 2009 para 2010 foi o resul- no município de Cunha.
tado de diversos fatores. Os primeiros Com isso, se formou
sinais começaram ainda no último in- uma área de baixa pres-
verno que, ao contrário de anos ante- são sobre esse bloco de
riores, foi muito chuvoso, tanto que à nuvens, provocando a sua
época foram registradas poucas quei- condensação, ou seja, o

foto: Rogerio Marques - Valeparaibano


madas. E, um fato muito raro, o Rio Pa- grande volume de chuvas
raitinga começou a transbordar ainda que prejudicaram também
no mês de outubro. aquelas cidades fluminen-
Com isso, a terra foi ficando satura- ses. A de maior intensi-
da, muito encharcada, não permitindo a dade caiu nos rios Jacuí e
absorção de mais água. No final do ano Jacuizinho, em Cunha, que
passado, a toda chuva que caía, em vez fazem parte da bacia do
de uma parte penetrar no solo, todo o Paraitinga. Foi tanta a pre-
volume acabava desaguando no Paraitin- cipitação de água que na
ga. Em dezembro de 2009, o índice de cidade de São Luiz o rio
precipitação de chuvas na região foi de subiu cerca de 12 metros,
605 milímetros, quando o normal para provocando a maior tra-
o mês varia entre 150 e 200 milímetros. gédia da nossa história.
Somente no dia 31 de dezembro cho-
veu 200 milímetros, isto é, em um único Outras causas Chuva em excesso + destruição da mata ciliar + manejo inadequado de pastagens = desastre
dia, caiu mais água do que era esperado João Paulo acredita
para todo o mês de dezembro. que as enchentes do Rio Paraitinga transbordamento das águas. É, em re- importantes, numa audiência pública
Repare: quando se afirma que cho- – que começaram a aumentar de in- sumo, um processo perverso. organizada pelo promotor público
veu 200 milímetros num dia, significa tensidade a partir da década de 1960 João Paulo aponta um outro fator Manoel Carlos Monteiro, integran-
que, no período, caiu o equivalente a – têm causas mais remotas, que vão que ajudou a potencializar o desastre: te do Grupo de Atuação Especial de
200 litros de água por metro quadra- além do grande volume de chuvas e as florestas nativas cobrem uma área Defesa do Meio Ambiente (GAEMA),
do de terreno. estão ligadas principalmente às ativi- muito restrita de cada um dos mu- vinculado ao Ministério Público.
dades econômicas praticadas na re- nicípios que formam a bacia do Rio A audiência está prevista para abril,
Causa principal gião ao longo dos últimos 150 anos. Paraitinga. em data ainda a ser confirmada. Será
Mas, qual a principal causa da en- Uma delas é a compactação do solo, No caso de São Luiz do Paraitinga, uma oportunidade para que mora-
chente? João Paulo explica que nessa decorrente das pastagens que se for- os números não explicam tudo, uma dores de São Luiz conheçam o que
época do ano é comum vir da Amazô- maram no município. Segundo João vez que dos 21,6% de vegetação natu- os técnicos das universidades e dos
nia um conjunto de nuvens muito car- Paulo, aproximadamente 70% dos pas- ral, 70% estão no Parque Estadual da órgãos do governo têm a explicar a
regadas de umidade, que após atraves- tos na bacia do Rio Paraitinga são mal Serra do Mar, onde existem 50% de partir dos estudos que estão realizan-
sar boa parte do Brasil vão para o mar, manejados, utilizando métodos primi- mata nativa e 20% da chamada zona do. O que de fato aconteceu, quais as
passando por cima do Vale do Paraíba tivos para o trato do gado, com exces- de amortecimento, que é um entorno medidas que já estão sendo tomadas
e da Serra da Bocaina, onde nasce o so de animais por hectare, pastagens de proteção às matas naturais. Portan- para proteger a população, que ações
Rio Paraitinga. degradadas e uso regular das queima- to, quase todas estão na bacia do Rio preventivas são necessárias.
No entanto, entre os dias 30 e 31 de das, que têm como consequência o Paraibuna, e não do Paraitinga. Toda a comunidade está convidada
dezembro, na Baía de Ilha Grande, no empobrecimento da terra. Nos 30% que sobram no restante a participar.

Inscrições no Projeto Guri AMI São Luiz


O Projeto Guri está com as inscrições abertas Em 10 de janeiro, foi criada a Associação dos Ami-
para turmas 2010. O início das aulas será em mar- gos para a Reconstrução e Preservação do Patrimô-
ço, com novos instrumentos doados pela Secretaria nio Histórico e Cultural de São Luis do Paraitinga
de Turismo em parceria com o governo do Estado (AMI São Luiz). Sua meta é ter uma atuação fundada
de São Paulo. A nova sede do Projeto fica em uma no diálogo, na cooperação e na construção coletiva de projetos que con-
casa na Via de Acesso Renato de Aguiar, em frente à tribuam para a recuperação do patrimônio histórico e cultural, material e
antiga usina do Vigor, próximo ao Mangueirão. imaterial de São Luiz do Paraitinga. É a sociedade civil se mobilizando.
Conselhos para a reconstrução
A gestão participativa de São Luiz to e de caráter deliberativo, tem a fun- sentantes de organizações não-gover-
do Paraitinga conta com diversos con- ção ordenar as ações no setor, planejar e namentais, da Câmara Municipal, do
Depois das águas selhos, formados por representantes emitir licenciamentos, executar projetos Ministério Público e da comunidade.
de instituições da sociedade civil e e, principalmente, fiscalizar as ações que A assessora de Planejamento muni-
Se alguma vantagem pôde ser órgãos públicos, que vêm trabalhando possam ter impacto ambiental. cipal, Cristiane Bittencourt de Paiva, fi-
obtida a partir do desastre cau- voluntariamente para a reconstrução Um terceiro conselho, o de Ges- cou encarregada de fazer a coordena-
sado pela cheia histórica do Rio do município, afetado pela enchente tão do Patrimônio Cultural, foi criado ção entre esses conselhos, a fim de se
Paraitinga, esta foi o reforço do do início do ano. A iniciativa da revi- para estudar os casos de restauração evitar lacunas e sobreposição de deci-
enorme sentimento de solidarie- talização desses conselhos partiu da de prédios tombados que foram da- sões. Conforme informou Cristiane, o
dade que sempre caracterizou Prefeitura, quando se constatou que nificados pela enchente. Incide ainda plano é ainda em março ter todos os
os moradores de São Luiz. O es- os documentos referentes aos conse- sobre a reconstrução dos imóveis que conselhos institucionalizados à luz da
trago provocado pelas forças da lhos institucionais anteriormente exis- ruíram e as reformas e novas constru- Lei Orgânica do Município, que esti-
natureza foi grande, mas não foi tentes foram destruídos pelas águas. ções no entorno e no núcleo histórico mula a prática da gestão democrática,
maior do que a vontade presen- O primeiro a se reorganizar, o
te de reconstruir a cidade. Conselho de Planejamento e De-
Tão logo as águas baixaram, co- senvolvimento Econômico, insti-
meçou o trabalho de limpeza. A tuído por ato da prefeita Ana Lúcia
rapidez na desobstrução das ca- Bilard Sicherle, foi formado pelas
sas, dos estabelecimentos comer- pessoas que elaboraram o Plano
ciais e das ruas foi determinante Diretor da cidade, por represen-
para que, junto com a tragédia, tantes da Câmara Municipal e de
não viessem também as doen- professores da Universidade de
ças. Essa atitude, aliás, foi elogiada Taubaté (Unitau), Universidade
pela Cruz Vermelha, Secretaria da Estadual Paulista (Unesp) e da
Saúde e Defesa Civil do Estado: o Universidade de São Paulo (USP).
trabalho bem-feito evitou a ocor- A finalidade desse conselho é
rência de epidemias. propor medidas emergenciais e ela-
Mas a cidade sofreu muito, ain- borar estudos técnicos para o de-
da está machucada. O processo de senvolvimento do município, como
recuperação e reconstrução será forma de contribuir para a solução
longo, necessariamente complexo, de problemas sociais causados pela
Canto do Largo da Matriz: desenho em bico de pena de Tom Maia, 1976
e cabe à comunidade não deixar enchente. Busca também fazer um
que ele fique complicado. diagnóstico das causas ambientais e cli- tombado pelo Condephaat (Conselho aberta a representantes dos diversos
A enchente deixou muitos es- máticas da enchente e avaliar a medidas de Defesa do Patrimônio Histórico, setores da comunidade.
tragos, mas também proporcio- de proteção a serem tomadas, para o Arquitetônico, Artístico e Turístico Qualquer morador de São Luiz do
nou importantes lições. Fez ver caso de futuras ocorrências. Este grupo, do Estado de São Paulo) ou em vias Paraitinga pode participar das reuniões
a todos que o desenvolvimento que reunia muita gente, ainda em janeiro de tombamento pelo Iphan (Instituto desses conselhos, que ocorrem sema-
de São Luiz do Paraitinga ha- foi desdobrado para um novo conselho, do Patrimônio Histórico e Artístico nalmente. A partir de abril as reuniões
verá que se dar em bases mais o de Meio Ambiente. Nacional). Por essa razão, integran- serão centralizadas no Ceresta (leia
sustentáveis do ponto de vista O Conselho de Meio Ambiente, com tes desses dois órgãos participam do matéria abaixo), no sobrado número
ambiental, econômico e social. autonomia em relação ao de Planejamen- conselho, que também reúne repre- 22 da Praça da Matriz.
O poder público está atento a
isso, mas, o mais importante, é
que a sociedade civil organizada
também está.
Haveremos de ter uma São Luiz Ceresta de trabalho
melhor. Esta jóia voltará a brilhar. A sigla vem bem ao gosto da tradi- de São Paulo (Unesp) e a Uni-
ção musical da cidade, que entre tantas versidade de Taubaté (Unitau).
manifestações sempre teve lugar para Desde os momentos mais críti-
Expediente as serestas. Também por isso, Ceresta cos, essas instituições cederam
Editor: Luiz Egypto
(Centro de Reconstrução Sustentável professores, técnicos e estagiários
Secretária de redação: Ângela Loures de São Luiz do Paraitinga) foi o nome de diversas áreas para trabalhar em
Chefe de Reportagem: Judas Tadeu de Campos escolhido para o local que logo estará parceria com os órgãos públicos lo-
Arte e diagramação: Renata Maria Monteiro
Alunos voluntários: Maria Clara de Carvalho,
funcionando, aberto ao acompanha- cais na tarefa da reconstrução.
Vanessa Cunha, Felipe Guerra, Pedro Funchal mento público, no número 22 da Praça O espaço será dividido também
Colaboradores: Luciano Dinamarco, Tom Maia Oswaldo Cruz, no sobrado Dirceu Ivo. com o Conselho de Defesa do Pa-
O Ceresta nasceu para ser um cen- trimônio Histórico, Arqueológico,
O Jornal da Reconstrução é um projeto de extensão tro integrado de trabalho, a juntar ór- Artístico e Turístico (Condephaat),
do Departamento de Comunicação Social da gãos públicos e demais instituições en- o Instituto do Patrimônio Históri-
Universidade de Taubaté e órgão informativo da
Câmara de Desenvolvimento Sócio-econômico de
volvidas na reconstrução da cidade e na co e Artístico Nacional (Iphan) e a
São Luiz do Paraitinga. aplicação do Plano Diretor do municí- Companhia de Desenvolvimento
pio. É o núcleo onde cada organização Habitacional e Urbano do Estado de
Coordenadores:
Edson Wanderley Alves (UNITAU)
poderá trabalhar de forma coordenada, São Paulo (CDHU), responsável pela
José Xaides de Sampaio Neves (UNESP-Bauru) sob os olhos da comunidade. São ini- construção de 150 moradias popula-
Maurício Dellamarco (UNESP-Guaratinguetá) ciativas que, se bem geridas, podem res. “Até abril deverão ser entregues Na próxima edição
Jornalista Responsável: Ângela Loures
ser muito úteis para a cidade. Mas será as 18 primeiras unidades”, informa a
MTB 173/01/87v DRT-MS preciso andar rápido, porque o governo prefeita Ana Lúcia Billard Sicherle. ** As preocupações da prefeita
do Estado se comprometeu a bancar o No Ceresta haverá lugar para a - entrevista com Ana Lúcia Billard
Impressão: Imprensa Oficial
Tiragem: 2.000 exemplares
projeto por um ano, apenas. E depois? Defesa Civil, responsável por ações Sicherle
Quem estará lá preventivas, de assistência e fiscaliza-
O Ceresta tem tudo para se con- ção, para evitar ou minimizar danos ** Como reconstruir seu imóvel
verter em exemplo importante das causados por calamidades. O prédio - a atuação do Condephaat e do
potencialidades do trabalho colabora- abrigará ainda o programa de inclusão Iphan
tivo. Estarão ali a Universidade de São digital Acessa São Paulo e a Assesso-
Paulo (USP), a Universidade Estadual ria de Planejamento da Prefeitura. ** Os anjos e os heróis do rafting

Histórias de superação no comércio Os serviços
bancários
São Luiz do Paraitinga transformou- perdeu o material estocado para o re- da família vem passando de geração Os bancos que
se em um grande canteiro de obras, torno às aulas, ele calcula um prejuízo em geração desde 1941. operam em São
com homens, mulheres e máquinas em torno de R$ 150 mil. Edson Anacleto, também herdei- Luiz oferecem pla-
trabalhando por todos os lados, su- Peixinho mostra os danos sofri- ro gerações de comerciantes, gosta nos de financia-
ando a camisa e buscando retirar dos dos pelo casarão de paredes de taipa, de tratar todos os seus clientes pelo mento, emprésti-
escombros algo mais do que entulho. principalmente na face lateral, violen- nome. Ele tem uma banca de verduras mos e parcelamento de dívidas em
A cidade está bem limpa, se compara- tamente atingida pelo desabamento e um açougue no Mercado Municipal, condições especiais. Confira:
da ao caos dos primeiros dias, quando de uma das torres da igreja Matriz, além de duas mercearias na cidade. O Banco do Brasil – Oferece refinan-
tudo estava tomado pelo lixo. As ruas que fica ao lado. Ele reclama da bu- estabelecimento em que marca ponto ciamento de dívidas com até seis me-
agora estão desobstruídas e o comér- rocracia para poder iniciar as refor- todos os dias, em frente ao Mercado, ses de carência. Há financiamento na
cio, aos poucos, vai retomando fôlego mas, mas prefere falar do seu negócio. já está limpo, pintado e cheio de pro- área de turismo com carência de dois
e começa a abrir suas portas. Gastou dinheiro da poupança com dutos para vender. anos e com taxa de juros de 0,72 ao
Ainda há muito o que fazer, mas a limpeza e pintura da loja, além da Anacleto só para de sorrir quando mês. Está localizado na Av. Celestino
os trabalhos de limpeza ganharam compra de produtos para oferecer lembra do desespero que foi correr Campos Coelho, ao lado do posto
ritmo (veja matéria na pág. 4) e o nas prateleiras. com a família para fugir das águas, e de gasolina. Atende nos dias úteis, 9h
ambiente hoje é bem mais agradável Mais adiante, nos Quatro Cantos, a deixar tudo para trás. Mas logo se ani- às 16h. Dispõe de máquinas de auto-
do que no início de janeiro, no ápice esquina mais famosa da cidade (Coro- ma ao contar que, apesar de ter per- atendimento.Telefone 3671-1662
da tragédia. Restou a marca escura Banco Santander – Dispõe de um
deixada pela água nas paredes dos plano de crédito consignado especí-
antigos casarões da Praça da Matriz. fico para funcionários da Prefeitura,
Parecem uma cicatriz a lembrar, a com taxa especial e pagamento em
todo o momento, o quanto o ser até 94 meses. O banco atende em

foto: Pedro Funchal


humano é vulnerável diante da as- uma agência móvel na Av. Celestino
sustadora força na natureza. Campos Coelho, ao lado da Caixa
Mas há algo mais em São Luiz do que Econômica, de segunda a sexta, en-
os escombros e as memórias do desas- tre 10h e 15h. O auto-atendimento
tre – algo que se sente no ar, nos olhos funciona das 6h às 22h. Telefones
de cada cidadão e cidadã. Persiste um (12) 9781-6385 e 9781-1869
lampejo de esperança, uma esperança Caixa Econômica Federal – Ofe-
guerreira que parece não querer espe- rece planos de financiamento para
rar pela vontade do destino. pessoas físicas e jurídicas. Para retirar
Um senhor atarefado passa ligeiro o Fundo de Garantia, o interessado
pela calçada da Praça Oswaldo Cruz deve comparecer à agência com um
e entra por uma porta sob o letreiro comprovante de endereço postado
“Papelaria do Peixinho”. No interior antes de janeiro de 2010. O banco
do estabelecimento, duas mulheres O comércio retoma suas atividades: a roda da economia começa a girar atende em uma agência móvel, na Av.
conversam com ele, que agora tra- Celestino Campos Coelho, em fren-
balha com uma furadeira. A papelaria nel Domingues de Castro com Monse- dido tudo, conseguiu reerguer o negó- te ao número 502, de segunda a sex-
voltou à ativa e já tem o que ofere- nhor Ignácio Gióia), a Padaria São Luiz cio com a ajuda de seus funcionários: ta, de 9h às 16h. Telefone 3671-1748
cer aos seus clientes: lápis, canetas, funciona em ritmo acelerado. Raquel fizeram um mutirão, limparam tudo, Banco do Povo – Empresta valores
cadernos, cola, papel sulfite, material de Campos Fernandes, a proprietária, reformaram o forro, rebocaram as pa- entre R$ 200 e R$7.500, com taxa de
escolar, brinquedos... sorri ao contar que a sua foi a primei- redes e restauraram prateleiras. juros de 0,7% ao mês, podendo ser
Antônio Augusto, que prefere ser ra padaria a reabrir na cidade, graças a Assim se recupera a economia de pago em até 36 meses, com carên-
chamado de Peixinho, conta que sua muito esforço de sua equipe e a boa uma cidade: com vontade, tijolo por cias de 180 dias. Atende provisioria-
papelaria existe há 17 anos na parte vontade de fornecedores, que estica- tijolo, negócio por negócio – cada his- mente às quintas-feiras, em período
inferior do antigo casarão da família. ram os prazos de pagamento. “Volta- tória é uma história de superação. “A integral, na Casa de Oswaldo Cruz.
Na enchente, a água cobriu o baten- mos a funcionar no dia 12 de feverei- gente tem que seguir em frente”, diz Telefone (11) 7304-0506
te da janela do segundo andar. Como ro”, diz, orgulhosa. O estabelecimento Anacleto. Ele está certo.

Do desastre ao recomeço
Passados dois meses da enchente Gabriela Mendonça lembra de sua nos de prato e roupas de inverno, que
que destruiu boa parte da cidade, a cachorrinha “Sacha”, que quase mor- poderão ser encaminhados mediante
vida está sendo reconstruída pelos reu afogada: “Na hora do desespero, contato pelo telefone (12) 9147 8457
moradores de São Luiz do Paraitinga. a primeira coisa que tirei da casa foi – falar com a Cristina Rodrigues de To-
“Nas áreas da várzea ficou tudo des- a Sacha. Quando fomos para o abri- ledo, assessora de Promoção Social.
foto: Luciano Dinamarco

truído, pareceu que um furacão tinha go ela ficou com febre, porque não se Os moradores que ainda precisarem
passado por lá”, lembra a funcionária adaptava e sentia saudades da casa que de cestas básicas, produtos de limpeza
pública Neide Alves, que ficou muito desabou”. e de higiene pessoal deverão se cadas-
assustada com a situação da cidade. O local que faz as distribuições de trar na Casa de Oswaldo Cruz, levando
Nos primeiros dias, as pessoas que roupas ficou conhecido pelos mo- os comprovantes de endereço, renda,
perderam suas casas ficaram alojadas radores como “Shopping Enchente”. carteira de trabalho e RG de todos da
na Escola Monsenhor Ignácio Gióia e família. O atendimento é realizado às se-
na creche do Bairro do São Benedito. gundas-feiras, de manhã e à tarde, e nas
Depois de cadastradas pela Prefeitu- “Vamos priorizar quartas-feiras, no período da manhã.
ra, as famílias desabrigadas passaram quem mais precisa Vinte senhas são distribuídas por
a receber do governo estadual um de ajuda” período, e os cadastrados são selecio-
auxílio-moradia de R$ 300 mensais, nados de acordo com a renda familiar.
para poderem alugar uma moradia. Segundo Cristina, “as doações estão
Com todas as dificuldades, os Apesar das brincadeiras, a população diminuindo e a gente quer dar prefe-
sonhos e o bom humor não fo- reconhece a gravidade da situação e rência para as pessoas que perderam
ram perdidos com a enchente. apóia como pode aqueles que mais a casa e para os desempregados. Esta-
necessitam. No entanto, apesar das mos promovendo uma reavaliação de
Ruínas da Igreja Matriz: muitas doações recebidas, ainda fal- forma a priorizar as pessoas que mais
reconstruir tijolo por tijolo tam cobertores, roupas de cama, pa- precisam de ajuda”, acentuou.

O mutirão da limpeza
O trabalho de remoção dos entu- perto esse trabalho de manipulação, pamentos, caminhões e trabalhadores de análise mais pormenorizada, pois po-
lhos nas ruas de São Luiz do Paraitinga transporte e descarte de alimentos es- para atuarem no grande mutirão. deriam estar com suas estruturas com-
foi fruto do empenho dos funcioná- tragados, impróprios para o consumo. Aterro sanitário prometidas.Técnicos envolvidos no tra-
rios do município, da comunidade e de A cidade foi tomada por um mutirão O fiscal municipal Ederaldo Luiz de balho garantem que mesmo sendo em
voluntários. Logo que as águas come- de pás e caçambas. Um dos bairros mais Oliveira, que liderou as frentes de tra- caráter de emergência, as ações foram
çaram a baixar, o lixo se amontoou em atingidos pela enchente foi a Várzea dos balho, afirma que fazer a limpeza urbana planejadas para a segurança da popula-
vários pontos da cidade, impedindo a Passarinhos. Ali também as equipes de foi uma tarefa árdua e coletiva: “Não foi ção e a integridade da arquitetura local.
o esforço apenas dos funcionários. Reinaldo Campos, funcionário da
O luizense também colaborou Prefeitura de Limeira (SP), conta que
com a limpeza de nossas ruas”. quando recebeu a notícia de que viria
A cada dia de trabalho, o trau- para São Luiz integrar o grupo de auxí-
ma ia ficando mais distante. Em- lio na limpeza das ruas, não imaginava a
bora todos saibam que as mar- realidade em que a cidade vivia. “Che-
cas profundas vão permanecer, a guei aqui e vi um tremendo caos, era
rotina da cidade aos poucos está entulho por toda parte. O trabalho foi
sendo retomada. duro, mas hoje vemos o resultado de
Ederaldo teve a casa em que nosso esforço. Quando, nas ruas, vejo
vivia com a mãe e o irmão in- o povo circulando livremente, me or-
vadida pelas águas. Restou-lhe gulho e sei que contribuí para isso.”
apenas a roupa do corpo e a res- Luiz Fernando dos Santos, que é
ponsabilidade de restabelecer o luizense mas deixou a cidade ainda
foto: Maria Clara de Carvalho

asseio da cidade. “Foi difícil ver na infância, diz que antes de se tor-
tudo o que construímos virar nar funcionário municipal, em Caçapa-
um amontoado”, afirma. O jeito va, cortou as estradas do Brasil como
foi apostar no trabalho coletivo motorista de caminhão. No início de
“em favor de todos”, janeiro, Luiz Fernando foi chamado à
O fato de Aderaldo conhecer sala do diretor de obras e recebeu a
bem a cidade foi decisivo para a notícia de que voltaria a São Luiz do
O rápido trabalho de limpeza evitou a ocorrência de epidemias no município montagem da logística de remo- Paraitinga, desta vez para ajudar nos
ção dos entulhos. E deu certo. Pou- trabalhos de limpeza. Longe de cidade
circulação de pedestres e de veículos. limpeza demonstraram força e boa von- co mais de três semanas depois do início natal havia tempo, Luiz diz que nesta
Cerca de 100 pessoas trabalharam tade. O objetivo comum era ver a cidade dos trabalhos, pessoas e carros já transi- empreitada fez muitos amigos. “Aqui
diariamente na desobstrução das vias livre da destruição deixada pela água. tavam nas principais vias do município. mora uma gente trabalhadora que ba-
e na destinação do entulho. Escombros Com a limpeza das casas e o aumen- O aterro sanitário no Bairro do talha pela restauração da cidade”, diz.
das casas e dos locais de comércio, to do volume de lixo, as equipes pas- Morro Acima fica a quase 10 quilôme- Pouco a pouco, as ruas de São Luiz
móveis e utensílios, eletrodomésticos, saram a estender o horário de traba- tros do centro urbano de São Luiz. Na retomam a normalidade. “Hoje restam
madeira, tijolo e alimentos formavam lho até o anoitecer. Beneficiados pelo estrada de chão batido, os caminhões apenas alguns pontos isolados com
enormes montanhas de lixo. As primei- horário de verão, 14 caminhões ope- chegaram a fazer 60 viagens diárias. entulho”, confirma o Ederaldo.
ras ações de limpeza foram realizadas ravam na condução do entulho até o Solidariedade A importância do bom trabalho da
nos açougues e supermercados, que aterro sanitário da cidade. Prefeituras Enquanto o lixo e o entulho eram limpeza pode ser medido por um fato
armazenavam quantidades importantes de municípios vizinhos, como Roseira, retirados das casas e comércios, funcio- relevante: as epidemias foram prevenidas.
de produtos perecíveis. Profissionais da Tremembé e Caçapava, além de Taubaté nários da Defesa Civil atuavam na pre- Houve apenas cinco casos de leptospiro-
Vigilância Sanitária acompanharam de e São José dos Campos, cederam equi- servação dos imóveis que precisavam se no município, logo controlados.

Zona rural retoma a produção


Legumes, frutas e verduras produzi- pontes precisaram de serviços emer- As chuvas que têm atingido o muni- tros acima do telhado da minha casa e
dos na zona rural de São Luiz do Pa- genciais para ser liberadas. “São pon- cípio trazem problemas para o restauro fico feliz de ela continuar inteira, já que
raitinga já estão chegando às quitandas tes de diversos tamanhos, incluindo de estradas e pontes. Embora estejam a Várzea dos Passarinhos é o primeiro
e feiras da cidade. Isso mostra a efi- uma sobre o Rio Paraitinga, na estra- liberadas ao tráfego, o serviço de me- lugar a ser atingido quando há enchen-
cácia do trabalho de recuperação das da do Rio Acima, com custo maior de lhoria dos trechos ainda não se comple- tes.” Apesar de tudo, Adriana pensa
plantações empreendido pelos pro- manutenção”, explicou. tou em razão das chuvas frequentes. em voltar: “Eu e meu marido não vol-
dutores. Desde o final de 2009 a área Sobre os deslizamentos de terra, o O comerciante Rogério Lenze, dono tamos ainda, porque vamos reforçar a
rural vinha sofrendo com o aumento coordenador da Defesa Civil no muni- de um açougue no Mercado Municipal, estrutura da casa para voltar”.
fora do comum das chuvas. Com a en- cípio, José Carlos Luzia Rodrigues, in- explicou que tem sido difícil dirigir até Paulatinamente vão se normalizan-
chente que atingiu todo o município, forma que “não há um número exato, sua propriedade rural. “O sítio é afasta- do os serviços de energia e o abaste-
agravou-se ainda mais a situação, mas mas estima-se que tenham ocorrido do, no Bairro da Barra, e o excesso de cimento de água potável das proprie-
isso não desanimou os produtores, 50 deslizamentos pelas estradas. Igual chuva está tornando mais difícil chegar dades inundadas. Segundo Donizete,
que continuam a ir à cidade para ven- ao serviço nas pontes, houve trabalho lá, devido aos problemas na estrada.” “quase todas as famílias voltaram para
der os seus produtos. emergencial para desobstruir as passa- Afora as mais de 50 casas inundadas casa e estão trabalhando”. A zona ru-
Trechos como a estrada para os gens e permitir a retirada das famílias”. na zona rural, Donizete avalia que “as ral não quis saber de parar.
bairros de Santa Cruz do Rio Abaixo e Semente e energia principais perdas, além das casas, fo-
para o Bom Retiro foram afetados por Donizete informa que, além da ram dos produtores de leite, que não
pelo menos duas fortes inundações equipe da Prefeitura, o governo do puderam transportá-lo, e dos cultiva-
em 2009, além da ocorrida no início Estado contratou um grupo da Co- dores de milho, que tiveram grande
foto: Felipe Guerra

de 2010. Importantes estradas vicinais dasp (Companhia de Desenvolvimen- área de plantação afetada”.
do município acompanham o curso to Agrícola de São Paulo), que conta A artesã Adriana Vieira, que está vi-
Rio Paraitinga, do Rio do Chapéu ou com equipamentos pesados, tratores vendo provisoriamente em seu ponto
de algum córrego, e ali o estrago foi e retro-escavadeiras que podem ace- comercial, explicou que, apesar de ter
grande em razão das enchentes. lerar os trabalhos de desobstrução e perdido grande parte de sua plantação
O diretor de Agricultura e Abaste- recuperação das estradas: “Temos 25 de frutas, é animador o fato de sua casa
cimento do município, Donizete José pessoas trabalhando para liberar as – localizada na Várzea dos Passarinhos Recuperar estradas vicinais:
Galhardo, explica que cerca de 30 estradas o quanto antes”, disse. – não ter caído. “A água subiu seis me- uma prioridade