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ESTA PARÁBOLA DA MISERICÓRDIA

Setembro 10, 2016
1. Este Domingo XXIV do Tempo Comum oferece-nos a proclamação e
audição integral, assim vivamente o espero, da grande parábola guardada
em Lucas 15,1-32. A página lucana tem lugar garantido em qualquer
antologia dos mais belos textos de todos os tempos.
2. É a história dos pecadores e dos publicanos, dos escribas e dos fariseus.
De uns e de outros, todos temos um pouco. Todos se aproximam de Jesus:
os primeiros para o escutar com alegria; os segundos para o recriminar com
azedume pelo facto de ele receber os primeiros e comer com eles. Há,
portanto, aqui um comportamento novo, misericordioso, inclusivo e
acolhedor por parte de Jesus. Os pecadores compreendem que Jesus traz
um Evangelho, uma Notícia Boa e Feliz. Os escribas e os fariseus, porém,
não consideram a Notícia suficientemente Boa. Por isso, dele se aproximam
os pecadores, até então marginalizados e hostilizados pela tradição religiosa
vigente; por isso, o recriminam os fariseus e os escribas, os garantes da
velha tradição religiosa, rigorista, classista e exclusivista.
3. A estes últimos conta Jesus uma parábola. Note-se bem: uma parábola,
«esta parábola» (taútên parabolên) (v. 3), no singular, e não três parábolas,
como é usual dizer-se. Note-se também que, para escutarmos
correctamente «esta parábola» de Jesus, é do lado dos fariseus e dos
escribas que nos devemos postar, dado que é para eles que Jesus conta a
parábola. «Esta parábola» é, portanto, para eles e para o nosso lado
orgulhoso, farisaico, classista e exclusivista, para o nosso como eles. É
notório que, dado o desenrolar da história contada por Jesus, gostemos mais
de nos rever na ovelha perdida e encontrada do que nos noventa e nove
fariseus cumpridores de ordens e que, por isso, se julgam piedosos e justos
com direitos e créditos sobre Deus, como também nos revemos
habitualmente naquele filho que sai de casa e que acaba por voltar, sendo
recebido por um Pai carinhoso que o espera de braços abertos. Mas, para
que a história contada por Jesus nos caia em cima, como um relâmpago, é
mesmo do outro lado de nós que nos devemos colocar.
4. A eles e a nós mostra Jesus a premura do pastor que corre, ainda que
tenha de ser a vida inteira, à procura da sua ovelha perdida. E mostra
depois a alegria incontida que sente quando a encontra, e em que quer
fazer participar os seus amigos e vizinhos. A mesma premura e alegria toma
conta da mulher que procura e encontra a moedinha que perdeu no chão de
terra e basalto negro da sua humilde casa.
5. Mas já Jesus traz para a cena, sem deixar a audiência respirar, um Pai
excepcionalmente maravilhoso e bom, em quem pulsa um imenso coração e
vibram entranhas de misericórdia. Tem dois filhos, que nos representam a
todos: um claramente pecador, que opta por sair de casa, depois de ter
pedido ao pai a sua parte da herança. Note-se que todo o pai dá três coisas

3) trata-me como um dos teus assalariados» (Lucas 15. pequei contra o céu e contra ti. Sempre igualzinho aos fariseus que no início da história recriminavam Jesus porque acolhia e comia com os pecadores.24). verdadeiramente comovido. isto é. um imenso dramatismo. este filho como que mata o pai. a transbordar de misericórdia desde as entranhas (splagchnízomai) (Lucas 15. que regressa. Esta nota do «campo» serve só para nos dizer que é um dia de semana.22).25). roupas novas. 6. Parte para longe. ou que responde de forma brusca. e o filho já não o diz. Ei-lo. Não porque não quisesse. vai mesmo até ao ponto de chamar uma orquestra (symphônía)! Alegria excessiva deste Pai pródigo de amor e misericórdia! 9. mas um patrão que tem de lhe pagar. que estava no campo (Lucas 15. portanto. faz uma festa. 2) não sou mais digno de ser chamado teu filho» (Lucas 15. Em Deus não vê um Pai. Depois. precede-nos. na soleira da porta ou à janela. É então que a surpresa enche outra vez a cena. também este filho recrimina o seu pai por acolher e ter tudo preparado para .29).20). 2) não sou mais digno de ser chamado teu filho. Fazendo o pedido que faz. pouco antes de morrer. mas porque o Pai o interrompe. Tal como estes. distribui a tua herança» (33. como os porcos!). a herança. prepara um banquete de arromba (euphraínô). quando nós queremos é serassalariados. não como filho. 7. todos os dias. guarda porcos. mata o vitelo gordo. O pedido deste filho de receber a herança assume. Está lá sempre à nossa espera. Mas já o Pai está à espera dele com um imenso abraço de alma a alma. dizendo aos criados: «Depressa…» (Lucas 15. também este filho se acha com direitos e créditos sobre Deus.18-19). pequei contra o céu e contra ti. mas como assalariado. 8.21). de braços abertos. ao mesmo tempo que morre como filho! Não quer mesmo mais ser filho nem depender de nenhum pai. vive abaixo de porco (não lhe é sequer permitido comer com os porcos. nos tempos festivos. Como se compreende. É o seu ponto mais baixo. recebe-nos. Pensa então em voltar para casa. portanto. na hora da tua morte. o que vestíamos antes e abandonámos. gasta tudo. o terceiro ponto do discurso que tinha preparado era fatal. portanto. Quando nós regressamos a casa. e que o Pai desta história faz festa sem esperar pelo fim-desemana! Este filho mais velho é retratado como um bom cumpridor de ordens. É aqui que surge em cena o outro filho. nunca encontraremos um Pai distraído. reabilita-nos como filhos fazendo-nos vestir «o primeiro vestido» (stolê tê prôtê) (Lucas 15. Prestemos atenção ao discurso em três pontos que prepara: 1) «Pai. torna-se um assalariado desamparado.aos seus filhos: o pão. e ei-lo que começa a debitá-lo: 1) «Pai. um «justo» e zeloso fariseu.22). o de filhos. a Deus. uma única vez na vida. ao deixar escrito: «No último dia dos dias da tua vida. distante e fria. igualzinho aos fariseus «justos» e zelosos que tinham aparecido no início da história. O Livro de Ben-Sirá tira-nos todas as dúvidas. Mas o filho tinha preparado o seu discurso em três pontos. ou que mudou de residência. pois «nunca transgrediu uma ordem dele» (Lucas 15.

podemos pensar que somos zelosos e até beatos (!). que oteu povo. mostra-nos Deus a falar com Moisés acerca de um Israel desviado de Deus e obstinado. no deserto. a oferecer-lhe sacrifícios. 7). também como nós. Êxodo 32. no v. portanto: podemos andar perdidos em casa. História deixada propositadamente em aberto pelo narrador. que encontramos em Êxodo 32. como a ovelha e o filho mais novo.7. numa casa fria. ó Israel. o caudal do texto de hoje atinge-nos em duas vagas: a primeira. e a . Final estratégico. Mas a história termina sem nos dizer se este filho. Parece que também neste aspecto a história de Jesus põe a nossa vida a descoberto! 11. como a moeda e o segundo filho. 13. a segunda.1-6 mostra que o povo faz. Posto isto. corrompeu-se» (v. É então a nós que cabe tomar a decisão! Entramos ou não entramos na sala do banquete? Como vemos Deus? Como um Pai ou como um patrão? E os nossos irmãos são para nos alegrarmos com eles ou para os insultarmos e denegrirmos? 10. A primeira vaga abre com Deus a dizer para Moisés: «Vai. Se calhar. ainda por cima. com Deus a atender a súplica de Moisés e a desistir do seu projeto de destruição do povo. para começar tudo de novo só com Moisés. Por último. sem mesa e sem alegria! Só com patrão e assalariados! E. não a Palavra de Deus. 8). Afinal a história de Jesus foi contada para os fariseus. entrou ou não entrou na sala da alegria. É sabido que o texto assinalado segue imediatamente o episódio do bezerro de ouro. portanto! 12.3. muito melhores do que os outros. Todos os cuidados.7-14. ao seu Pai comum. ruptura e perversão do assentimento do povo em Êxodo 19. 14. Mas em nenhum momento da história se falam um ao outro. terminando. e que Deus pretende destruir. a história que ouvimos mostra-nos e adverte-nos que tanto nos podemos perder lá longe. sem lareira. em que o povo afirmou: «Faremos todas as palavras que o Senhor falou». 7-10. mostra-nos Moisés no papel de intercessor. Atenção. 11-13. que te fez subir da terra do Egipto» (v. pois também nós temos uma boa parte de fariseus. como fazem os cristãos. insultos e desprezo. que tu fizeste subir da terra do Egipto. que somos também nós. e a confessar diante dele: «Este é o teu deus. É também interessante notar que os dois filhos desta história falam ao Pai. e que constitui como que uma paródia. Como fazemos nós. desce. Só sabemos falar por trás. entra ou não entra na sala do banquete.1-6.8 e 24. e nós devemos ter compreendido que devemos tomar lugar ao lado deles. Faz sintonia com o quadro impressionante do Evangelho de hoje a página igualmente fascinante do Livro do Êxodo 32. expressa nos vv. como que dizendo a Deus: «Não faças isso!». pondo o povo a adorá-lo. sem Pai e sem irmãos. fariseu. entre raivas acumuladas. expressa nos vv. A história termina sem nos dizer se aquele filho. como nos podemos perder em casa.comer com um pecador! O Pai implora-lhe que entre para o banquete da alegria. mas um bezerro! A página de hoje recupera o episódio do bezerro. para sermos atingidos em cheio pela história contada por Jesus. Não nos esqueçamos que a história foi contada para nós.

12-17. 15. Cantamos hoje. Como se vê. de Charles de Foucauld. vemos São Paulo em ação de graças a Jesus Cristo. Assim. e se propõe destruir o povo e começar tudo de novo só com Moisés: «E agora deixa-me a sós comigo mesmo. Eis como a porta fica entreaberta: se Deus decidiu mesmo destruir Israel. 11. início da segunda vaga. 17). de que ele é o primeiro. Valeu a intercessão vigilante de Moisés. Fecha a perícope uma extraordinária doxologia: «Ao Rei dos séculos. alguns acordes do Salmo 51. Senhor Nosso. apelando a Deus. perseguidor e insolente. ao dizer o que diz e como o diz. hoje também lida. 7). Deus como que está. 16. em que Deus avança a disjunção entre Moisés e o povo. porque sendo blasfemo. que tu fizeste subir da terra do Egipto»). a fazer recair sobre Moisés a responsabilidade da condução e do comportamento do povo («o teu povo. para ficar finalmente em boas mãos. Percebe-se aqui alguma coisa do mistério deste Deus que não se comporta em relação aos homens como um homem ou como um princípio abstrato. e repondo a verdade do credo: «Mas Moisés implorou face ao Senhor. que «permaneceu de pé. Dizendo o que diz e como o diz. Senhor. «para fazer voltar atrás a sua cólera de destruição». que constitui a ossatura espiritual de Agostinho. como o diz. sobre a fresta. e arderá a minha cólera contra eles e os devorará. e ecoa na música de Bach. para fazer regredir a sua cólera de destruição». e de novo de Moisés para Deus (v. em perfeita consonância com toda a liturgia deste Domingo. Na lição da 1 Carta a Timóteo 1. Donizetti. pelos séculos dos séculos. em ordem a poder transformar em perdão o seu projecto destruidor.23. Amen» (v. de certa maneira. não sobre o povo. o narrador põe logo Moisés no papel de mediador-intercessor. a quem o diz. sobre a fresta (baperets). pode Paulo apresentar-se como exemplo para aqueles que hão de acreditar. que Tu fizeste sair da terra do Egipto?”». honra e glória. teu) muda de Deus para Moisés (v. 11). Lulli. diante dele.1. e disse: “Porquê. posição incómoda e difícil de quem deve assumir a vigilância e intercessão. nas mãos de Deus. no v. por outro lado. E afirma com fé esclarecida e verificada que Jesus Cristo veio ao mundo para salvar os pecadores. É o povo pecador a passar de mão em mão. Este convite à intercessão de Moisés parece mesmo impor-se a partir da afirmação do v. invisível e único. extraordinária expressão do Salmo 106. mas sobre Deus. ao Deus incorruptível. a pronominalidade (tu. que inspirou a pena de muitíssimos Padres da Igreja. arderá a tua cólera contra o Teu povo. dizendo o que diz. e de ti farei um grande povo».repeti-lo em Êxodo 33. diante d’Ele». Convenhamos que um tal dizer de Deus é estranho e traduz bem a corrupção do povo e a consequente ruptura da Aliança. 10. quando o diz. a súplica penitencial por excelência. Na verdade. Deus está a abrir a Moisés a porta para repor a verdade dos factos e assumir o papel de mediador-intercessor. seu Deus. foi objeto da graça e da misericórdia superabundantes que há em Cristo Jesus. de Joana D’Arc. Honegger… Hoje é a nossa vez de nos . Deus como que força Moisés a «ficar de pé. por que razão diz que o vai fazer antes de o fazer? 14. De facto.

iniquidade. de que religião for. pecado. Disse Rabiʽa: “Não. de seu nome: «Um homem disse a Rabiʽa: “Cometi muitos pecados e muitas transgressões. 3-4). se Ele te perdoar”» (I detti di Rabiʽa. apaga as minhas transgressões (peshaʽîm)! Lava-me e relava-me da minha iniquidade (ʽawah). misericórdias. a fechar. se me arrepender. seja ele quem for. de que raça for. de qualquer homem. ó Deus. Deus perdoar-me-á?”. 2).sentarmos um pouco a trautear a música que nos atravessa e nos põe de pé. Deixo aqui. Quem é Deus? Graça. António Couto . amor. Rabiʽa. segundo o Teu amor (hesed)! Segundo a multidão das a Tuas misericórdias(rah mîm). as palavras altíssimas da grande mística muçulmana do século VIII. Quem sou eu? Transgressões. e do meu pecado (hathaʼ) purifica-me!» (vv. Enxerto aqui as palavras preciosas que constituem a introdução: «Faz-me graça (hannenî). Tu arrepender-te-ás. Está aqui a letra e a música do homem. Será Deus o vencedor ou serei eu? Claro que é Deus. XII.