OPERAÇÃO DE CORAÇÃO ABERTO

Setembro 3, 2016
1. Desde Lucas 9,51 que Jesus está decididamente A CAMINHO de
Jerusalém. E assim continuará até Lucas 19,28. Com este belo recurso à
tipologia do CAMINHO (hodós) e do verbo CAMINHAR (poreúomai), Lucas
exemplifica e clarifica o modo cristão de viver. Porque todo o CAMINHO abre
o mundo ao meio, ao mesmo tempo que vai desenhando e actualizando a
nossa vida em duas partes: «para a frente» e «para trás». Note-se que
Lucas é, de longe, o Autor do Novo Testamento que mais vezes usa estes
vocábulos, sensivelmente 40 em 100 vezes «caminho» (hodós) e 88 em 150
vezes «caminhar» (poreúomai). Num mundo plano como o nosso, o
Evangelho de Lucas rasga CAMINHOS e procede a verdadeiras operações de
CORAÇÃO aberto. CAMINHO que abre CAMINHOS novos, novas maneiras de
viver, com Jesus, que é o CAMINHO, sabe o CAMINHO, mostra o CAMINHO e
faz o CAMINHO, a enxertar a plenitude nesta nossa imensa e chata
planitude.
2. E aí está o Evangelho deste Domingo XXIII do Tempo Comum (Lucas
14,25-33) a abrir com a indicação de que «CAMINHAVAM com Ele multidões
numerosas» (Lucas 14,25). E Jesus, sempre com tempo, a voltar-se para nos
dizer palavras cortantes como bisturis: «Se alguém vem ter comigo e
não odeia (miséô) o próprio pai e a mãe e a mulher e os filhos e os irmãos e
as irmãs, e até a própria vida, não pode ser meu discípulo» (Lucas 14,2627). O que se diz aqui da família mais directa e da própria vida, dir-se-á um
pouco mais à frente dos «próprios bens» (Lucas 14,33).
3. Compreenda-se, antes de mais, o sentido daquele «odiar» (miséô). É
óbvio que não se trata de ódio em sentido próprio. Colidiria, por exemplo,
com Lucas 18,20, em que Jesus, citando os mandamentos ao homem rico,
refere a «honra devida ao pai e à mãe». E contradiria o mandamento do
amor ao próximo. O «odiar» acima referido é, na verdade, a tradução do
modo de dizer aramaico, hebraico e semítico em geral, línguas que não têm
outro verbo para dizer «preferir». Vê-se melhor com exemplos: em Génesis
29,31, lê-se literalmente: «O Senhor viu que Lia era odiada», e em Génesis
29,33, após ter concebido Simeão, lê-se literalmente: «O Senhor viu que
eu era odiada». Em Deuteronómio 21,15-17, lê-se literalmente: «Se forem
para um homem duas mulheres, e ele amar uma e odiar a outra, e gerarem
para ele filhos, a que é amada e a que é odiada, e se for o filho
primogénito da odiada…». Nos dois textos do Génesis, a locução era
odiada aparece sempre traduzida por não era amada. No texto do
Deuteronómio, que apresenta o contraponto entre a mulher amada e
amulher odiada, a mulher odiada é a não amada ou de que não gosta.
Portanto, é facilmente compreensível que o sentido do texto acima não
passa por «odiar» a família ou a própria vida, mas por alguém «preferir» ou
«pôr antes», «à frente», do seguimento de Jesus a família, a própria vida ou
os bens.

é hoje a única oportunidade que a liturgia nos oferece para a conhecermos melhor por dentro e por fora.13-18. ele que é as minhas entranhas . de cortes. Sim. Não é necessário «odiar» ninguém. sobre a terra. endereçado a um certo Sabiniano em favor de um escravo fugido.4. o dizer de Jesus convida a «sentar-se primeiro» (Lucas 14. A lição é do Livro da Sabedoria 9. que nos liberte. Sim. com os bens. E dá também a Sabedoria. Em dia de Domingo. Sendo que «decisão» deriva de «decidere». com os amigos. Esta pequena Carta. o Moço. A ligação do discípulo a Jesus deve estar antes e ser a chave de leitura de todas as outras ligações: consigo próprio. «Despedir-se» (apotássomai) de todos os seus bens não significa detá-los fora. os nossos passos e pensamentos são falíveis. entenda-se bem que o CAMINHO de Jesus é um CAMINHO de decisões fortes. quase um bilhete postal (tem apenas 25 versículos). Aí estamos outra vez então no domínio do bisturi e da operação de CORAÇÃO aberto que tem de fazer todo o discípulo de Jesus. São incisões. dar-lhes o uso correto. Significa. seguir Jesus no seu CAMINHO implica ser fiel a Jesus da mesma maneira que Jesus é fiel ao Pai. serviam-nos (diakonéô) com os seus bens (Lucas 8. em que os discípulos de Jesus e as multidões se sentam para ouvir a Palavra de Deus. Posto isto. Mas Deus dá-o aos seus amigos até durante o sono (Salmo 127. Tudo. para sermos e termos «mais» irmãos. antes. Ainda há muitos «Onésimos» à espera de um amor novo que os liberte. 5. Verificação: as mulheres que seguiam Jesus e os seus discípulos desde a Galileia. é também um CAMINHO de ponderação e deliberação atenta e serena. é decisivo e incisivo «amar mais». e andamos muitas vezes cansados com o peso das preocupações do dia a dia. 6. nada do céu conseguimos saber.28 e 31).2). Não se pode compor uma espécie de cristianismo à medida. Todos os discípulos de Jesus se devem sujeitar urgentemente a esta operação de CORAÇÃO aberto. Vai nesse sentido o bilhete postal que Paulo envia a Filémon 9-17. E é urgente conhecer a vontade de Deus.3). e não como escravo. (61-112). Por isso. Decisões são cortes. Até o pão que comemos requer trabalho duro. Paulo. 7. Mas é preciso. já foi definida como uma «pequena obra prima de tacto e de coração». por duas vezes. Peçamo-la ao Senhor. A Assembleia Dominical é um tempo extraordinariamente denso e intenso. requer trabalho e sacrifício. para nos vincularmos a ela. para nos guiar. É sintomático que tenhamos encontrado um bilhete postal semelhante do escritor latino Plínio. E a única razão que Plínio invoca para mudar em suavidade a cólera do patrão é a da superioridade da mansidão sobre a ira e da generosidade sobre a violência. e sem a qual nada vale. selecionando de Jesus os aspetos que nos agradam. deixando outros de lado. «Envio-to. quase contemporâneo de S. para que receba Onésimo como filho. cuja etimologia remete para «cortar». enquanto estamos sentados a ponderar e discernir. fugir deles. Sendo um CAMINHO de decisões fortes. com a família. 8. Sem ela. e para tomar as decisões consentâneas com a força da Palavra que escutamos.

E nós somos todos seus Onésimos». 11-17. O Salmo 90 põe em cena a eternidade e a solidez de Deus em confronto com a fragilidade e o sabor efémero da vida humana. 17). como uma vigília da noite». «Recebe-o como se fosse a mim próprio» (v. 5-6). a miséria torna-se glória. alemão. de tradição Evangélica. 9. António Couto . 1-10. aquilo que parecia sem sentido.(splágchna) (v. exatamente sobre este pequeno escrito paulino que traduz «de modo magistral um delicioso exemplo de amor cristão». E o segundo movimento tem o seu ponto alto no v. como «irmão amado»… «no Senhor» (v. 1). a fragilidade recebe subsistência. Ele que é e permanece o nosso refúgio de geração em geração (v. não nos leva para o pessimismo. 12). Este confronto é cantado na elegia sapiencial dos vv. Um dos clássicos estudiosos dos Salmos. a ternura que há em mim. Estar de passagem e sermos tão frágeis como a flor da erva (vv. Artur Weiser (1893-1978). sendo de súplica os vv. sempre vista no microscópio de Deus. alcança significado… É como se a estrela de outro mundo viesse fazer luz sobre o fluir dos nossos dias». isto é. mas bela homilia que fez Lutero num Domingo de setembro de 1522. (…) «Cristo representa-nos a todos junto do Pai e ama-nos tanto. 16). Da parte de Deus. 4: «Mil anos aos teus olhos são o dia de ontem que passou. para chegarmos à sabedoria do coração». O primeiro movimento pode resumir-se na afirmação do v. expressa bem esta realidade: «Na luz da graça de Deus. um reflexo de eternidade cai também sobre a vida e sobre a obra do homem. 12: «Ensina-nos a bem contar os nossos anos. Deixamos aqui algumas palavras de uma pequena. mas para viver intensamente a vida que Deus nos dá.

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