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BRINCADEIRA E PESQUISA: UM DIÁLOGO NECESSÁRIO

GONÇALVES, Larissa Silva - UFRR larissa@ccla.ufrr.br

VASCONCELOS, Emanuella Silveira UFRR emanuellasvasconcelos@hotmail.com

Grupo de Trabalho: Educação Infantil

Agência Financiadora: não contou com financiamento

Resumo O trabalho apresentado versa sobre o percurso, as reflexões e resultados alcançados no primeiro ano de atividades do projeto A Formação Cultural dos Sujeitos de Educação Infantil vinculado ao Grupo de Pesquisa CrEAr Criança, Educação e Arte certificado pela Universidade Federal de Roraima - UFRR/CNPq. A pesquisa partiu da compreensão de que crianças e educadores são sujeitos da educação infantil, com funções específicas no processo de aprendizagem, mas em contínuas transformações. Investigar as produções culturais realizadas neste âmbito da educação se caracteriza como objetivo maior do projeto, e permitiria contribuir para qualificação deste nível de ensino, bem como para o desenvolvimento de meninas e meninos. No caminho para realização de tal proposta atuamos em duas escolas de educação infantil, uma na capital e outra no interior do Estado de Roraima, onde objetivávamos potencializar as competências e habilidades dos sujeitos envolvidos, com o intuito de estimular a criatividade (capacidade essencial para o efetivo exercício da autonomia almejada na educação), e o desenvolvimento integral sensível e intelectual, de crianças e professores. Com a metodologia da pesquisa-ação sistematizada em vivências educativas lúdicas e criativas, propomos e desenvolvemos atividades, sensíveis e expressivas, por meio do brincar e das interações e mediações advindas deste processo, realizamos análises embasadas nas teorias de Vygotsky, Wallon, Benjamin e Hortelio, que buscam dar voz as especificidades, desta fase de desenvolvimento humano, caracterizada como infância. Salientamos então que, para alem de pensar a prática educativa com a criança e falar de sua importância, é preciso brincar com ela, dialogar com a voz brincante que qualifica o início da formação humana e a partir desta vivência, refletir sobre as aprendizagens de meninas e meninos.

Palavras-chave: Criança. Brincar. Formação.

Introdução

No primeiro ano de atividade do projeto Formação Cultural dos Sujeitos da Educação

Infantil (2011/2012), vinculado ao Grupo de Pesquisa CrEAr Criança, Educação e Arte da

Universidade Federal de Roraima, nossa pesquisa andou por lugares diversos, alem dos

encontros para estudo e troca de experiência no espaço da universidade, a ida à campo (Escolas Municipais da capital de Roraima e interior), tem proporcionado colher o alimento para nossa pesquisa, do chão da escola. Partimos com a crença na importância de uma formação artística e estética para a criança, indivíduo criativo, dotado de potencialidades, ações e expressividade diversas, possuidor de uma fala, diversas ações e um lugar diante das constantes aprendizagens dos seres humanos em suas mais diversas idades, que vive em relação e interações variadas com o mundo e expressa criativa e ludicamente esse encontro. Acreditamos na necessidade de fixar raízes no contexto da cultura local, nos saberes e fazeres da criança pequena, relacionados a uma natureza específica (do lavrado roraimense no caso desta pesquisa), que resultam em variadas produções criativas, material para pesquisa das práticas pedagógicas em arte experimentadas na educação infantil e sua contribuição, ou não, para o desenvolvimento emocional, sensível, físico e cognitivo de meninas e meninos. Diante de tal premissa objetivamos investigar os meandros da formação cultural dos sujeitos da educação infantil, a partir de vivências culturais, atividades sensíveis, criativas e lúdicas realizadas neste âmbito da educação, bem como potencializar as competências e habilidades dos sujeitos envolvidos, com o intuito de contribuir para qualificação deste nível de ensino, através do estímulo à criatividade (capacidade essencial para o efetivo exercício da autonomia almejada na educação), e o desenvolvimento integral sensível e intelectual, de crianças (conforme apregoa a Lei de Diretrizes e Bases da Educação LDB/96) e dos(as) professores(as) responsáveis pela formação de meninas e meninos. A escolha do campo surgiu a partir do convite para visitar uma culminância de trabalho da Escola Municipal Branca de Neve, onde uma das integrantes do grupo de pesquisa, atuava como professora na turma de 2° período. Nossa recepção neste espaço nos surpreendeu. Chegamos com a intenção de pesquisar as propostas de atividades criativas e culturais da turma em que a participante do grupo de pesquisa atuava, e a coordenação pedagógica da escola, nos mostrou a demanda da escola em relação às comemorações de datas festivas e calendário cultural e nos fez o convite para colaborar efetivamente com estes momentos, a partir das atividades realizadas pela turma da professora/pesquisadora. Esta abertura ao grupo de pesquisa e confiança para atuar enquanto colaboradores nas ações planejadas pela escola, nos permitiu optar por mergulhar no universo desta escola publica e da Escola Municipal Edineide Sales Campelo no município de Alto Alegre (interior do Estado de

Roraima), onde outra integrante do grupo de pesquisa atua e também se mostrou receptiva a nossa participação em sua turma. No inicio de nossas ações decidimos por uma atitude respeitosa diante da realidade com que iríamos interagir e para alem de uma observação passiva, que costuma ser constrangedora, na medida que “os donos da casa” querem mostrar o seu melhor, optamos por ofertar o que sabíamos fazer, ou seja, escolhemos chegar nas escolas propondo atividades, mais claramente, chegamos brincando com quem quisesse. Esta postura permitiu a “quebra do gelo” inicial e a encontrar algo que nem imaginávamos nos deparar, como que com uma caixa de pandora de onde imaginação, possibilidades e criação, assumem proporções cada vez mais encantadoras e estimulantes para a pesquisa. Com a base metodológica da pesquisa-ação, que envolve todas as pesquisas do Grupo CrEAr, decidimos realizar nas escolas que atuamos com o projeto formação cultural dos sujeitos da educação infantil, um recorte (dado as diferenças de contexto) da metodologia de Vivências Educativas criada e desenvolvida na Guaimbê espaço e movimento criAtivo, uma organização não governamental ONG, com sede em Pirenópolis/GO, onde a coordenadora do projeto conviveu durante alguns anos. Esta metodologia intercala momentos de sensibilização e integração através da brincadeira de roda, a ser vivenciada por todos os envolvidos, pesquisadores, professora, monitora, crianças, com momentos de criação plástica (desenho, pintura, modelagem, colagem), que permite materializar as emoções, percepções, observações estimuladas anteriormente e a construção de narrativas, histórias, por todos os envolvidos na ação, que sintetizam a vivência do processo agregada a dimensão imaginária e criativa. Esta sistemática é vivenciada em visitas com periodicidade quinzenal, nas duas escolas municipais em que o projeto atua e as interpretações que este processo nos permite realizar estão estruturadas no texto a seguir, que inicia com uma fundamentação teórica a partir das leituras que realizamos no âmbito do grupo, intercalada ao relato de experiência das professoras envolvidas no projeto, responsáveis pelas turmas nas escolas, que encaminham à algumas considerações, que o grupo se sente apto a realizar neste momento, a partir de nossos primeiros passos.

Os Primeiros Passos

Iniciamos com a crença de que crianças e educadores são os sujeitos da educação infantil, ou seja, ambos têm ações características nos processos de aprendizagem que envolvem este nível da educação básica e investigar os fazeres e ações vivenciados na escola, que estimulam a formação cultural e criativa de meninas e meninos, permitiria contribuir para qualificação deste âmbito de ensino e para o processo formativo das crianças. Desde as primeiras linhas de proposta de nosso projeto de pesquisa, o primeiro texto que nos chegou, caracterizava a questão da formação cultural da criança relacionando-a à brincadeira (HORTELIO, 2008). Além desta voz encantada com as potencialidades do brincar, variados são os estudos que tratam do papel da ludicidade para o desenvolvimento da criança. Para além das afirmações teóricas relativas a importância do brincar, começamos a nos perguntar que espaço tinha a brincadeira no cotidiano da educação infantil que estávamos investigando? Esta interrogação nos fez perceber, que muito se investiga teoricamente sobre a brincadeira, a atividade lúdica, o espaço dos jogos, […] para as aprendizagens da criança, mas pouco se lê sobre experiências de partilha entre adultos e crianças, educadores e aprendizes, desta ação característica das crianças. Quando perguntarmos a meninas e meninos “o que criança faz” a resposta unânime é “brinca” (GONÇALVES, 2008). Como estamos tendo a oportunidade de acompanhar ao longo de orientações e participação em banca de defesa de especialização em educação infantil, diversas são as pesquisas que tem o foco na brincadeira enquanto parte de um dos diversos momentos que compõe a rotina da criança, mas em 100% dos mais de 20 trabalhos acompanhados diretamente, que tem como tema a brincadeira, o brincar não é compreendido, estimulado e tampouco vivenciado, como ação que integra as diferentes dimensões e processos de aprendizagem da criança. Nestes artigos, frutos de uma relação intrínseca com a realidade, na medida em que são realizados por professores da rede municipal, que participam dos cursos de especialização, a brincadeira é reconhecida em importância, mas seu uso no cotidiano da educação infantil é restrito a momentos específicos, seja como finalização de diferentes atividades tidas como mais importantes dentro da sala, seja de forma “livre” nos intervalos e recreio da escola. Diante destas observações e para alem de todas as perspectivas anteriores, decidimos por experenciar a brincadeira com a criança e a partir da vivência do brincar, com as meninas e os meninos das escolas em que estávamos atuando, buscamos realizar as leituras/interpretações que nos propusemos, quando do planejamento da pesquisa.

Vejamos um relato de atividade da professora e pesquisadora do grupo, que atua na escola de Alto Alegre, para buscar esclarecer nossos propósitos:

No dia 02 de julho de 2011, foi proposta brincadeira de roda com as músicas:

“batatinha frita”, “pig, pig, pong”, “caranguejo”, “se eu fosse um peixe” e outras que as crianças escolheram. Durante a brincadeira, todos participaram e se envolveram com alegria e entusiasmo. Em seguida, foi proposto que desenhassem com tinta guache o que eles tivessem vontade. Por ser freqüente a utilização apenas de lápis de cor e giz de cera, a proposta de experenciar tinta guache foi aceita com grande empolgação, mas no início ficaram receosos, pois não queriam se sujar. As tintas foram expostas nas mesas para que eles pudessem escolher à vontade. Devido a pouca quantidade de tinta, as cores foram divididas nos potinhos e nas tampas. Alguns começaram usando apenas uma cor depois aos poucos misturaram e perceberam que elas ficavam diferentes e quanto mais eles diversificavam a mistura mais elas mudavam. Apenas duas crianças permaneceram com uma única cor, e ainda houve situações em que algumas utilizaram várias cores sem misturá-las. O resultado desses desenhos foram variados quanto a utilização das cores, mas o espaço utilizado na folha foi basicamente o meio, ou um canto, sem contudo, nenhuma das crianças desenharem preenchendo todo o espaço da folha. Algumas começaram usando apenas um dedo, mas quando perceberam a liberdade que tinham lambuzaram suas mãos com muita alegria, que era facilmente percebida pelo sorriso em seus rostos. Quando começaram a comentar seus desenhos, a maioria os descreviam como sendo de animais, inclusive uma das crianças que geralmente fala quando é solicitado, veio espontaneamente dizer que o seu desenho era de uma tartaruga, ele utilizou na sua composição as cores verde e preto. Foi nítido o prazer que os pequenos sentiram ao participarem dessa atividade.

Este relato da atenção especial à experiência plástica com as cores e as sensações advindas do manuseio com as tintas, ao falar das brincadeiras de roda, se deteve a descrição das músicas brincadas no primeiro parágrafo. No entanto as sensações e qualidades de vivência que estão atreladas a experiência do brincar, quais sejam, prazer, liberdade, alegria, (VYGOTSKY, 1999) se apresentam na proposta da pintura e só foram possíveis pela

qualidade sensorial da experiência plástica encaminhada pela professora, que para além do tecnicismo que costumam caracterizar as “atividades de arte” na educação infantil, buscou ampliar e diversificar o uso costumeiro de materiais, para alem do giz de cera e lápis de cor, e permitiu interpretações relativas ao desenvolvimento dos sujeitos que participaram da ação. Ao mesmo tempo o relato demonstra a defasagem de conhecimento da professora em relação aos suportes e técnicas artísticas, na medida em que se refere aos trabalhos que foram desenvolvidos pelas crianças, como desenho e não como pintura, a linguagem mais correta, por terem sido utilizadas tintas como materiais expressivos. Já de início percebemos que existe um limiar tênue entre o que é brincadeira propriamente dita e as dimensões que envolvem as qualidades da experiência com o brincar. A vivência da imaginação, que segundo Benjamin (1994), qualifica e caracteriza o ato de brincar, transformam em brinquedos, objetos e elementos, que os adultos não enxergam como tal. Desse modo atividades expressivas as mais diversas, podem se caracterizar como atividades envolvendo a dimensão lúdica e contribuir para a formação integral da criança, na medida em que envolvem experiências diversas atrelando sentidos, emoções, à um corpo que experencia, imagina, e interpreta, busca compreender suas próprias ações e os encaminhamentos do mundo adulto. A professora de Alto Alegre nos concede uma imagem deste processo a partir deste outro relato:

O planejamento do dia 07 de julho, veio com a proposta de trabalhar as plantas medicinais, que fazem parte de um projeto que está sendo desenvolvido na escola cujo tema é voltado para o meio ambiente. Cada professor deverá desenvolver um sub-projeto e realizar atividades com seus alunos que posteriormente, serão apresentadas na Feira Pedagógica da Escola.

No primeiro momento falamos do meio ambiente e das plantas medicinais, entretanto, esse diálogo foi partindo sempre do que as crianças já sabem sem trazer conhecimentos prontos e certezas absolutas. Em seguida foi proposto que imaginássemos uma planta e fizéssemos o movimento de uma planta nascendo e crescendo para depois fazermos o movimento do vento batendo em suas folhas e balançando seus galhos. As crianças se propuseram a escolher um tipo de árvore para cada um, suas escolhas foram: pé de jambo, pé de manga, pé de ciriguela, pé de acerola, pé de coco, pé de morango, pé de uva e pé de

goiaba. Alguns alunos dividiram a mesma planta, outras crianças trocaram várias vezes sua árvore, até que resolveu escolher uma. Após essa atividade, a proposta a seguir seria o trabalho de produção desenho com cola colorida. No início houve certo receio quanto à utilização desse material, pois seria a primeira vez que os alunos o usariam. Sabemos que a cola colorida não é como a tinta guache, ela mancha e alguns pais por não compreenderem algumas metodologias do professor acaba trazendo reclamações sobre a sujeira na vestimenta do seu filho e dizendo que o docente é preguiçoso e que apenas brinca com os alunos. A surpresa foi tamanha quando, depois de explicar como proceder de forma cuidadosa para não se sujar com a cola, os alunos desenharam cuidadosamente e com muita satisfação. O fato de utilizar técnicas de como usar a cola colorida não é o mais significativo, mas a clareza de entendimento que elas tiveram diante da explicação. É claro que o mais gostoso é se lambuzar e lambuzar os outros. Durante a produção, foi variada a quantidade de cola que eles usaram, alguns desenharam com delicadeza, outros apenas fizeram pingos, mas quase todos, em sua subjetiva compreensão, desenharam algo concernente a proposta anterior. Entretanto mesmo com toda a proposta anterior, alguns alunos pediram para fazer outros desenhos, com certeza, essa proposta também foi aceita. Ao iniciar a atividade foi proposto que as crianças utilizassem apenas uma cor devido ao pouco material disponível. Quando conversamos sobre suas produções, foram questionados a todos sobre seus desenhos, e apenas dois alunos tiveram dúvidas ao falar sobre o que desenharam.

Estes relatos nos esclarecem, que a dimensão da brincadeira e da criação são muito próximas e ambas relacionam o prazer à liberdade de expressão e o anseio em “fazer sempre de novo”, como diz Benjamin (1994, p.253) “a essência da representação, como da brincadeira, não é 'fazer como se', mas 'fazer sempre de novo', é a transformação em hábito de uma experiência devastadora”. O brincar é assim intrínseco à expressão criativa e necessita ser experenciado nesta unidade viabilizando as aprendizagens simbólicas, que caracterizam o desenvolvimento do pensar (VYGOTSKY, 1996; 1999; 2009) em consonância com a dimensão emocional e afetiva (WALLON, 1989; 1995) que encaminham a formação dos pequenos. E esta teoria ganha cada vez mais sentido quanto mais estamos aprendendo a propor brincadeiras e a brincar. Quanto mais também nós pesquisadores, nos permitimos viver

o prazer da liberdade em participar das atividades que propomos às crianças, quando brincamos com elas, sentimos e nos expressamos, já não como mero observadores e orientadores de processos alheios a nós, mas como mediadores e brincantes. Explicamos melhor esta ideia, esclarecendo no tópico a seguir, alguns entendimentos que a pesquisa tem nos proporcionado.

Alguns Entendimentos

As vezes as coisas/problemas/questões se colocam a nossa frente o tempo todo e não conseguimos enxergar. É assim que nos sentimos em relação à experiência de nutrir nossa pesquisa com e na brincadeira de meninas e meninos. Temos descoberto que na verdade foi sempre assim, as crianças sempre brincaram e brincam, mas e a educação infantil será que permite, alimenta, incentiva essa ação característica da criança ou as dimensões sociais, que tanto contribuem para o aprendizado dos pequenos, segundo nossos referencias teóricos, tem minimizado o grande potencial lúdico de meninas e meninos, relegando a hora do brincar a meros momentos durante uma rotina de educação bancaria, em referência ao conceito de Freire (1996)? Por mais que se busque compreender teoricamente a importância do brincar percebemos – ouvimos, crianças pedirem, “tia brinca comigo!”. Para nós esta frase é como um pedido de socorro, na medida em que reflete não apenas uma solicitação imediata/contextualizada em um tempo e espaço específicos (como o desta pesquisa), mas faz referência a necessidade básica de meninas e meninos. Sentimos como se dissessem, me acompanha neste processo de aprender brincando. Deixar brincar e estimular a brincadeira das crianças é também nos permitir, enquanto adultos, mergulhar profundo nas lembranças de nossa própria meninice. Recordar nossas brincadeiras é experenciar uma troca de igual para com a criança, ou seja, e no sentido de experiência de que nos fala Benjamin (1994), não estamos ali cumprindo papeis e realizando ações simplesmente, mas estamos transformando o concreto (mundo que nos rodeia) e a nós mesmos por meio da experiência histórica rememorada e transformada a cada nova brincadeira, pelos sujeitos que brincam. Dentre as ações do grupo que permitiram vislumbrar tal afirmação, a confecção de um livro feito a partir da montagem coletiva (crianças e educadores) foi particularmente

expressiva. Dentre a diversidade de temas desenvolvidos no segundo semestre de 2011, na Escola Municipal Branca de Neve em Boa Vista/RR, o do folclore resultou em um processo significativo, para todos os participantes. A professora e pesquisadora do grupo, realizou atividades lúdicas, segundo o encaminhamento das Vivências Educativas, com o objetivo de sensibilizar sua turma para os personagens do folclore brasileiro convidando inclusive os pais e mães dos estudantes para conversarem sobre o tema e relatarem histórias lendárias. De forma prazerosa, divertida e fluida, (características da ação do brincar) pesquisou com as crianças os movimentos, sons e possibilidades de ações de diversos personagens folclóricos e compôs uma história, junto as crianças da turma. Da história, um livro foi editado - Boitata e outras historias, e do livro uma peça teatral foi ensaiada, com entusiasmo e interesse pelas crianças. O livro é resultado assim, da rica relação entre brincar e criar Ao brincar a história surgiu, brincando o teatro foi ensaiado, o figurino montado e o livro produzido e todo o processo de criação vivenciado com consciência pelas crianças, que durante o ensaio da peça, não precisaram ficar decorando papeis, mas sim e mais uma vez, vivenciando de sua imaginação de forma prazerosa e criativa. A experiência do brincar integrado a toda a rotina das crianças, permitiu um processo de criação, que trouxe muita satisfação a todos que participaram dele e o reconhecimento dos pares (demais professoras da Escola Branca de Neve) que escolheram a peça Boitata e outras historias, para ser apresentada como representante da escola, em uma mostra pedagógica organizada pela prefeitura de Boa Vista. Foi também estimulando diversos momentos de brincadeiras, algumas mais direcionadas em que as crianças brincam ao realizarem as atividades mais diversas, outras em que ao brincar resolvem conflitos/desafios e ainda outro em que vivenciam conjuntamente (professora e crianças) da dimensão prazerosa e imaginária das atividades lúdicas, que a professora da escola de Alto Alegre e pesquisadora do grupo, também pode perceber que quanto mais os pequenos vivenciam experiências lúdicas, mais desenvolvem suas capacidades expressivas. Tal interpretação resulta da análise dos trabalhos realizados com as crianças com que atua cotidianamente. E no caminho das experiências com o brincar, na turma em que dá aula, realizou ações voltadas para diagnosticar as brincadeiras que crianças e responsáveis mais gostam, o que resultou na análise de que as meninas e meninos que convivem de maneira lúdica com os responsáveis, ou seja, que brincam com seus pais/mães tem um desenvolvimento de sua expressão simbólica, oral ou escrita maior do que aquelas em que os

responsáveis não se preocupam com isso. As duas educadoras que participam desta pesquisa e dos estudos do grupo, experenciaram também realizar brincadeiras propostas pelas próprias crianças, que trouxeram mudança durante a realização do processo e acréscimo ao conhecimento, que as professoras tinham em relação a diversidade de maneiras de brincar a mesma atividade. E neste caminho de experimentação, que segundo a fala de uma das professoras “é de essência”, é possível perceber que o grande desafio está na observação dos sujeitos, pois é a partir da cultura e referências que as crianças trazem, que se torna possível descobrir como realizar o que a escola diz que deve ser trabalhado. Esta afirmação nos lembra que o processo de criação, também é vivenciado pelos próprios educadores, que necessitam criar e transformar suas próprias práticas e, o momento de estudo propiciado pelo grupo, importante na medida em que não acontece na escola. Tais considerações nos levam a salientar a importância em construir um olhar diferente para a prática na educação infantil, especialmente no que diz respeito ao lugar da brincadeira nas atividades e propósito das mesmas, inclusive nos momentos mais livres (recreação). A vivência da liberdade das crianças, se efetiva pela experiência de brincadeiras que permitam a elas desenvolver sua expressão. E nisto mais uma vez se evidencia a importância de brincar e realizar atividades a partir das brincadeiras. Estes entendimentos enchem o grupo de expectativas e nos motiva a levar esta proposta para os outros professores, e a cogitar inclusive uma prática pedagógica na educação infantil cujo caminho didático perpasse a vivência de brincadeiras com vistas a construção/contação de histórias, carro chefe, de onde as demais atividades exigidas pela escola, como as apresentações e culminância de atividades, possam ser resultantes.

Considerações Finais

Dessa forma e como que em uma missão de resgate de nossas raízes crianceiras, a ida a escola tem nos proporcionado belos frutos, não só intelectuais mais e principalmente de (re)descoberta do potencial de (re)criação e aprendizagem que existe no brincar da criança a ação (produção) cultural prioritária da criança. A partilha destes frutos tem nos despertado para o resgate de nossas próprias brincadeiras e nos faz (re)descobrir que para além da fragmentação que se tornou os estudos sobre a formação cultural das crianças, existe um

universo de interações, resgates e troca de saberes, onde as crianças nos contam de si mesmas na medida que permitimos ouvir sua voz, aquela do imaginário do ser brincante, que reside em cada menina e menino e anseiam por uma reverberação nos ouvidos adultos. Percebemos a importância em afinar nossa comunicação, ou seja, em compreender os anseios e expectativas dos sujeitos e contextos que pretendemos investigar, bem como se faz importante esclarecer as nossas próprias expectativas diante da realidade a ser pesquisada. Assim também se processa com as crianças, quando elas são compreendidas e entendem a proposta, quando sua linguagem é ouvida, a linguagem do brincar, que caracteriza esta etapa de formação da criança, o processo flui. E para dialogar com esta linguagem temos sido esclarecidas, que o ouvir não é ato passivo, mas capacidade dinâmica de se fazer receptivo, processar o que se escuta e expressar uma síntese deste entendimento. Este processo profundo, de busca de compreensão, no caso das brincadeiras, não pode partir de uma observação exclusivamente, ou de encantamento pelo que se observa, mas precisa ser vivenciado junto. Diante disso cresce nossa expectativa em quem sabe poder contribuir para uma academia mais brincante, mais (re)encantada com as aprendizagens vivenciadas em companhia dos pequenos e das compreensões e entendimentos resultantes desta vivência, estimular uma formação mais comprometida com o prazer e a construção de sentidos na educação infantil. Entendemos então, que as crianças têm muito a nos ensinar, na medida em que pudermos escutar sua voz brincante e é neste movimento de escuta, descoberta, investigação e contribuição, para a vivência cada vez mais efetiva da brincadeira de meninas e meninos, que pretendemos seguir com nossa pesquisa. E assim como colhemos, estamos dando continuidade ao rico e abundante processo natural de plantio-colheita-nutrição, deixando nossas sementes em uma terra arada, pelo potencial criativo lúdico da humanidade.

Referências

BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política. 7. ed. São Paulo: Brasiliense, 1994. FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários a prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996. GONÇALVES, Larissa Silva. O lugar do ato criativo na aprendizagem da criança na educação infantil. Goiânia, 2008. 129 f. Dissertação (mestrado em Educação) Universidade

Federal de Goiás. Faculdade de Educação. Programa de Pós-Graduação em Educação, Goiânia, 2008. HORTELIO, Lidia. O que é cultura na infância. In: CÓRDULA, Américo. Oficina brincando na diversidade - cultura na infância. Brasília/São Paulo: SID/MinC/ Fundação Orsa, SESC- SP, 2008. VYGOTSKY, Lev. Seminovich. & LURIA, A.R. Estudos sobre a história do comportamento: símios, homem primitivo e criança. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996. VYGOTSKY, Lev. Seminovich. A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. São Paulo: Martins Fontes, 1999. Imaginação e criação na infância: ensaio psicológico. São Paulo: Atica, 2009. WALLON, Henri. As origens do pensamento na criança. São Paulo: Manole,1989. A evolução psicológica da criança. Lisboa: Edições 70, 1995.