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Coleção Memórias da Figueira
Volume: I

Editora – AVBL
2009

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
1
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

MÜLLER, Elio Eugenio

“De Pés e a Ferros – Coleção Memórias da Figueira
– Volume: I” – Elio Eugenio Muller -- Curitiba/PR.
Editora AVBL, 2009. -- Bauru/SP
150p. il. 14,8 X 21 cm.

ISBN: 978-85-98219-49-3

1. Contos: Literatura Brasileira. I. Título.

03-06-09 CDD-869.93

Índice para catálogo sistemático:
1. Contos: Literatura Brasileira - CDD-869.93

Copyright © - ELIO EUGENIO MÜLLER
eliomuller@uol.com.br - eliomuller@gmail.com

DE PÉS E A FERROS

ISBN: 978-85-98219-49-3

Direitos reservados segundo legislação em vigor
Proibida a reprodução total ou parcial
sem a autorização do autor.

EDITORA AVBL
www.editora.avbl.com.br
e-mail: editora@avbl.com.br

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“De Pés e a Ferros”
Coleção Memórias da Figueira - I

O início da Colonização Alemã
no vale do rio Três Forquilhas

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
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ÍNDICE

- AGRADECIMENTOS 6
- PALAVRA AO LEITOR 7

- MEMÓRIAS DA FIGUEIRA 11
- A idade da figueira 13
- A chegada dos colonos alemães 14

- SEMEAR OU PERDER A SEMENTE 16
- Descobrindo o vale do rio Três Forquilhas. 18
- O primeiro Natal na Colônia 20
- Reunião dos Colonos 26
- A Ceia do Natal 32
- Hora de dormir 37

- MELHOR SERIA IR PARA A GUERRA... 40
- Reunião com Paula Soares 44
- O culto do preparo 51

- “DE PÉS E A FERROS...” 58
- Uma casa desocupada vira escola 60

- UM TEMPORAL QUE TRAZ UM PRESENTE VALIOSO 66
- Ficha de proposta para integrar o Eforado 69
- Texto da Carta do Pastor Voges à (...) 72
- Análise da Carta de pastor (...) 77
- Que haja uma esperança enquanto existimos... 78

- O PROGRESSO CHEGOU 83
- Nasce a primeira criança na nova Colônia 86
- A navegação pela Lagoa 91

- O PASTOR ESTENDE A MÃO AO PADRE 95
- Médico, sempre é bom ter mais que um 98

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- “Te amo mais do que tudo no mundo...” 100
- Leite é que não falta... 102

- NASCE O PRIMEIRO HOMEM DA COLÔNIA 107
- O batismo de João Niederauer Sobrinho 109
- A Colônia ganha mais vida 112
- A sensação da solidão e do isolamento 115
- Cada perda é única 124
- Uma história de partos e de sacrifícios 127

- A TERCEIRA LEVA DE COLONOS 132
- Uma Carta ao Imperador 134
- Texto da Carta ao Imperador D. Pedro I 137
- Análise da Carta ao Imperador 138

- CONCLUSÃO 140
- DADOS BIOGRÁFICOS DE JOSÉ FELICIANO (...) 141
- DADOS BIOGRÁFICOS DE FRANCISCO DE (...) 142
- FONTES DE CONSULTA 144
- NOTAS EXPLICATIVAS 145
- FIGURAS em “De pés e a Ferros”. 149
- COLEÇÃO MEMÓRIAS DA FIGUEIRA 150

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
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AGRADECIMENTOS

Agradeço a Deus fonte da vida e de toda a boa
inspiração, que me permitiu a realização desta obra. Que
estas memórias sirvam como um instrumento para a
edificação do Seu Reino sobre a terra.

À Doris, minha esposa, pelo permanente
incentivo, como companheira valorosa, ao longo destes
40 anos de pesquisa e trabalho, que me ajudou a
localizar e dar vida aos personagens, muitos dos quais
parentes dela, que viveram esta saga contada em
"Memórias da Figueira".

À Profa. Dra. Solange T. de Lima Guimarães (Sol
Karmel), amiga e conselheira, pela avaliação da obra e
orientação final, mediante a criteriosa revisão do texto de
"Pés e a Ferros".

Ao publicitário Rodrigo Sounis Saporiti pela
orientação, na fase inicial, para a escolha do formato
literário da obra.

À escritora Maria Inês Simões, Presidente da
Academia Virtual Brasileira de Letras - AVBL, pela
orientação na fase de publicação do livro.

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PALAVRA AO LEITOR

Para início de conversa quero explicar aos leitores
o sentido do termo “De pés e a ferros”. O termo era
usado em épocas antigas, para denominar dois tipos de
partos difíceis. Havia o parto somente “a ferros”, quando
realizado mediante o uso de instrumento de metal (por
exemplo, o uso de duas colheres de ferro ou fórceps),
para extrair o bebê do útero materno. Havia também o
parto “de pés”, ou parto pélvico, quando a posição do
bebê era ao contrário, sentado no útero, e nascia pelos
pés e, às vezes, também com a ajuda de ferros.

“De pés e a ferros” não foram apenas alguns
partos difíceis, ocorridos nos primórdios da colonização
alemã da região de Torres, no Litoral Norte, da então
Província de São Pedro do Rio Grande do Sul.

“De pés e a ferros” foi, no meu entender, o
nascer da Colônia Alemã de Três Forquilhas.

“De pés e a ferros” foi também este trabalho
de pesquisa, que já vem completando quarenta anos,
que permitiu a elaboração desta obra que denomino de
“MEMÓRIAS DA FIGUEIRA”, desenvolvido em meu
reduto e refúgio do “Sítio da Figueira”, em Itati/RS.

Para a viagem literária, pelas “MEMÓRIAS DA
FIGUEIRA”, no propósito de enfocar aspectos da
história do povo onde resido, confesso: - Recebi uma
forte influência do grande escritor Carlos Drummond de
Andrade. Ele me proporcionou um mundo novo e uma
descoberta que transformou o meu universo literário e,
por que não dizer, invadiu até o meu mundo real.

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Observem que Drummond (1981) registra, na
minha compreensão, um toque de ficção espetacular em
“Contos Plausíveis”:

“Não é mistério para os entendidos que há
uma linguagem das plantas, ou, para ser mais
exato, que a cada planta corresponde uma
linguagem. Como a variedade de plantas é
infinita, faz-se impossível ao entendimento, por
muito atilado que seja, captar todas as vozes de
vegetais. E só os mais perspicazes entre os
humanos conseguem entender a conversa entre
duas plantas de espécies diferentes: cada uma
usa o seu vocabulário, como por exemplo, num
diálogo em que A falasse em espanhol e B
respondesse em alemão”.

Além de Drummond veio à minha mente o
também grande escritor Monteiro Lobato. Ele criou um
sabugo falante – Visconde de Sabugosa -, e uma
inteligente boneca – Emilia -, perspicaz e não menos
falante, dentre outros personagens do “Sítio do Pica-Pau
Amarelo”.

A partir destas influências recebidas, o “Sítio da
Figueira”, que a minha esposa herdou em 1970, no atual
município de Itati, no Litoral Norte do Rio Grande do Sul,
foi transformado num espaço criativo. Um espaço que
passou a envolver meus planos e minhas propostas, de
ação pedagógica e cultural, direcionados para a
população local.

Fiquei encantado com antiga figueira que ali vive
há muito mais do que uma centena de anos. Em torno
desta figueira começaram a surgir, para mim,
personagens reais e fictícios, do mundo natural, de fauna
e flora.

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Observei, por exemplo, duas corujas que ali
haviam estabelecido habitação. Além do ninho, elas
encontraram nessa árvore alimento, que consistia na
caça a morcegos que à noite ali circulavam, além dos
figuinhos, que amadureciam no outono.

Surgiu a idéia de criar a “Confraria Coruja da
Figueira”, um movimento voltado para uma ação ampla
em defesa do meio ambiente. Este movimento foi
coroado de sucesso. Hoje, pode ser encontrado até no
mundo virtual, em página da Internet
http://confrariacoruja.ning.com.

A figueira passou a ter um significado ainda mais
abrangente, para mim, e para o meu universo literário e
criativo.

Memórias da Figueira é, portanto, a narrativa
de histórias antigas da Colônia Alemã de Três Forquilhas
que tiveram como testemunha silenciosa, a mais que
centenária figueira, que ainda hoje se eleva altaneira, em
meu Sítio, no município de Itati (RS). Contam os antigos
que naquele local, uma vez, existiram três figueiras.
Esta, que hoje ali vemos, pode ser uma das três que
tenha sobrevivido, ou então, talvez seja a filha de uma
delas.

Nas Memórias da Figueira, neste seu primeiro
volume, sob o título “De pés e a ferros” quero falar
sobre o nascimento complicado e difícil desta colonização
de Torres.

Não fosse a teimosia do Comandante Philipp Peter
Schmitt, não fosse a visão clarividente do Coronel, do
Exército Imperial, Francisco de Paula Soares Gusmão,
não fosse o dinamismo do pastor Carl Leopold Voges e o

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heroísmo de todos os colonos pioneiros que acreditaram
na idéia, esta Colônia não teria nascido.

Através das páginas deste primeiro volume, de
uma série, quero homenagear os colonos pioneiros. Estas
páginas foram escritas sob a forma de uma narrativa
romanceada, apresentada mediante diálogos fictícios,
criados a partir da imaginação do autor, porém sempre
tendo por pano de fundo a história ocorrida nesta região,
a partir do ano de 1826.

Quero conceder realce para a tocante epopéia
destas famílias e, ao mesmo tempo, lembrar o agora já
180º aniversário de surgimento desta Colônia.

Desejo a todos, leitura prazerosa, com o voto
latino: Lectori salutem! (ao leitor, bom proveito!).

ITATI (RS), 03 de junho de 2007

ELIO EUGENIO MÜLLER
Membro da Academia de Letras dos
Municípios do Rio Grande do Sul
– ALMURS –

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MEMÓRIAS DA FIGUEIRA

Sentado à sombra da figueira, pensei: - “Esta
figueira1 viu muita coisa, neste lugar. A memória dela
deve ser captada por alguém... Alguém que tenha a
sensibilidade e a persistência, para estabelecer um
diálogo”. Lembrei de Drummond e do seu personagem
Levindo, o jardineiro, em “Fala Vegetal”:

“Levindo, experiente, chegou a dominar as
linguagens que se entrecruzavam no jardim. Um
leigo diria que não se escutava nada, salvo o
zumbir de moscas e besouros, mas ele chegava a
distinguir o suspiro de uma violeta, e, suas
confidências ao amor-perfeito não eram segredo
para os ouvidos daquele homem.” (DRUMMOND,
1981, p.).

Peguei uma cadeira velha, da cozinha da nossa
casa centenária e com calma e em silêncio sentei-me à
sombra da figueira. O tempo foi passando. Não olhei para
o meu relógio, pois as árvores não seguem a nossa
marcação das horas. Fiquei envolto pelo ambiente
vegetal e, sem perceber direito, mergulhei no mundo da
figueira.

No princípio ouvi apenas um farfalhar de folhas,
dos galhos, sacudidos pelo vento. Pensei: - “É apenas o
vento. A figueira não vai querer conversa comigo. Ela já
sofreu muito com os humanos. Com certeza não confia
mais na raça humana...”.

Eu estava enganado. A figueira já me conhecia há
quase quarenta anos, pois passara a contar com a minha
atenção, para protegê-la contra os vândalos.

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Figura 1: O autor conversando com a figueira
(Fotografia de Cristiane Müller Sounis Saporiti, 2008.
Arte final do autor, 2009).

Eu conseguira que a Câmara de Vereadores de Itati
aprovasse um decreto, instituindo a figueira como
“Símbolo Ecológico do Município” e “Patrimônio Natural
da Itati”. Não sei de que forma, mas ela deve ter tomado
conhecimento desta conquista, em favor do
reconhecimento de seu valor real e simbólico, para a
população local.

Eu estava até um pouco distraído, olhando as
borboletas e um colibri que esvoaçavam em torno dela
procurando pelas florzinhas de plantas e parasitas, na
coleta de alimento. A princípio ouvi um sussurro, macio e
melodioso e que se tornou cada vez mais audível.

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Finalmente captei algumas palavras. A figueira dizia: -
“Amigo, o que fazes aqui, com esse livro e essa caneta?”.

Olhei, com espanto. Era necessário “espantar”,
sim, o assomo de incredulidade, que anuviou meu
pensamento. Fechei os olhos e respondi: - “Amiga
figueira, tenho dificuldade para acreditar que aceitaste
estabelecer comunicação comigo. Podemos conversar um
pouco?”.

Ela respondeu: - “Podemos conversar o tempo
que tiveres. Sei que o teu tempo é bem diferente do
meu. Tenho todo o meu tempo disponível, na ocasião
que lhe for mais adequada...”.

A idade da figueira.

O encanto tomou conta de minha mente. Eu não
podia perder tempo. Era preciso trabalhar, com afinco,
aproveitando da melhor forma o contato, que ela
estabelecera comigo.

Algo que nunca me saía da mente, era a questão
da idade da figueira, me recordando quantas pessoas já
haviam perguntado a esse respeito e não soubera
responder. Criei coragem e perguntei: - “Amiga figueira.
Qual é a tua idade?”.

Ela respondeu: - “Sou de um tempo muito antigo.
Na nossa realidade não temos nem calendário e nem
datas. Temos apenas épocas e acontecimentos”.

- “Qual é a época mais antiga que tens, registrada
em tua memória?” - Eu quis saber.

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Ela continuou: - “Ora. Carrego, registrada em
minha memória, a memória de minhas antepassadas. É
do tempo quando aqui somente viviam aqueles que
vocês chamam de índios. Eles moravam aqui e se
entendiam muito bem conosco, procurando a harmonia
com as árvores, com o rio... Enfim, com toda a natureza.
O entendimento dos índios a nosso respeito, e o nosso
sobre eles, era de verdadeira amizade. Depois vieram
pessoas de outros lugares. Gente que chegou para logo
enxotar os índios. Os habitantes nativos não souberam
mais, desde então, qual o lugar que ainda era deles. Os
invasores, não só agrediram os índios... Eles agrediram
tudo, a floresta, o rio, os bichos e, tudo o mais...”.

A chegada dos colonos alemães

Pedi licença à figueira, para continuarmos em
nosso diálogo: - “Amiga figueira. Ouvi esta história sobre
o sofrimento dos índios, desde o meu tempo de infância,
na escola. Mas não imaginei que a relação dos chamados
brancos, com toda a natureza fora tão drástica... Posso
te perguntar outra coisa, que desperta a minha
curiosidade há quarenta anos, quando em 1969, pela
primeira vez aqui pisei?”.

A figueira sorriu: - “Lembro-me bem daquela
época... Não esqueço quando já em 1970 tu aparecias
aqui, só tendo olhos para a Doris. Tu estavas tão
apaixonado que quase não conseguias ver a minha
presença. Passavas por mim, de passos compridos... Mas
fale, pergunte. Sou, toda, ouvidos... O que estiver
guardado em minha memória haverei de contar para ti,
com todo o prazer.”.

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Acho que fiquei um pouco ruborizado com essa
indiscrição. Eu nem imaginava que eu fora tão desatento
com a amiga figueira. Mas o que ela dizia, era verdade.
Minhas idas ao Sítio da Figueira haviam sido, sempre, em
razão de Doris. Estava interessado em cativar o coração
dela, com os meus agrados. Eu vinha com rosas e
abraços apaixonados...

Continuei o diálogo: - “Bem, amiga figueira.
Desde que aqui cheguei, ouvi histórias, contadas pelas
pessoas mais idosas deste lugar... Histórias a respeito da
chegada dos imigrantes alemães que aqui se
estabeleceram. Colonos que aqui desejavam viver, para
buscar um futuro melhor para eles e para seus
descendentes... Tens algum registro a esse respeito?”.

- “Oh! Se eu tenho?”. - Disse a figueira. - “É a
época que no calendário de vocês levou o número de
1826. Guardo vivamente este acontecimento. Era a
semana que antecedia o dia do Natal. O Natal... Essa
festa cristã importante, que vocês comemoram. Eles
vieram do acantonamento2 de Torres (RS), onde viviam
em agonia, esperando por seus lotes de terra”.

E então, a figueira começou a fazer o relato de
suas memórias, iniciando pela história do “Semear ou
perder as sementes”.

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SEMEAR OU PERDER A SEMENTE

O comandante Schmitt falou: - “Ou semeamos ou
perdemos a semente. Não temos outra escolha”.

Ele se encontrava diante do Coronel Francisco de
Paula Soares, diretor da Colonização, no Baluarte
Ipiranga, em Torres, no Litoral Norte da Província de São
Pedro do Rio Grande do Sul. O imigrante estava
acompanhado pelo seu intérprete, o pastor Carlos
Leopoldo Voges.

Visível era a preocupação estampada no rosto do
Comandante Schmitt. E ele continuou: - “Faz quase um
mês que aqui estamos acantonados, aguardando por
uma solução, para nos designarem as terras que nos
foram prometidas. Trouxemos sementes de trigo, de
aveia, e outras mais... Elas são muito valiosas e tendem
a se perder, se não forem colocadas na terra, com
urgência”.

O Coronel Paula Soares examinava o interlocutor
com muita atenção. Finalmente falou: - “Confesso que
encontro dificuldades para a designação das terras para a
Colonização Alemã em Torres. Esse problema já vem me
tirando o sono. Sei que as terras no vale do Mampituba
não estão agradando a ninguém. Com certeza é um
terreno que não corresponde ao sonho do Visconde de
São Leopoldo, que foi o idealizador de uma Colônia nesta
localidade”.

Paula Soares permaneceu pensativo por alguns
instantes. Observou atentamente os dois interlocutores.
Finalmente concluiu: - “Hoje terei que fazer algo que irá
ferir o projeto original desta colonização, definida pelo
então Presidente da nossa Província, Dr. Fernandes

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Pinheiro. Em minhas andanças por esta região eu vi um
lugar muito mais propício para receber as vossas
lavouras. Trata-se do vale do rio Três Forquilhas.
Pretendo assentá-los lá...”.

Figura 2: O Coronel Paula Soares (e pastor Voges
traduzindo suas palavras...) Gravura feita pelo autor, 1974.

Depois que pastor Voges traduziu estas palavras,
Paula Soares continuou: - “Apenas peço que, por
enquanto, não divulguem esta minha providência entre
os colonos. O trabalho terá que andar em surdina. Por
isto, solicito que os senhores escolham um grupamento
de aproximadamente dezesseis casais jovens, sem filhos,
ou solteiros, para que os mesmos nos acompanhem
nesta viagem. Um agrimensor nos acompanhará. Permito
que alguns dos casais colaborem com o Comandante
Schmitt, na abertura de roçados e instalações de
lavouras, para a semeadura pretendida. Os demais
ficarão à disposição do agrimensor, para realizar um
mapeamento do terreno, que permita a futura medição e
distribuição de lotes para os colonos do credo
protestante”.
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Comandante Schmitt, ao ouvir esta tradução,
mostrou-se emocionado. Ele se emocionava facilmente...
Aproximou-se da mesa de Paula Soares, para agradecer,
com lágrimas nos olhos: - “O senhor é merecedor de
minha grande admiração. Com certeza ficaremos lhe
devendo a nossa eterna gratidão!”.

Quando apertaram as mãos, Paula Soares notou
algo peculiar no cumprimento e acrescentou: - “Senhor
Schmitt. Eu já notei isso, nestes últimos dias, diante da
sua insistência por um pedacinho de chão para a
semeadura de vossas preciosas sementes trazidas da
Europa. Agora me veio a certeza... Estamos irmanados
em um mesmo ideal de servir o Arquiteto e Soberano do
Universo”.

Descobrindo o vale do rio Três Forquilhas

As dezesseis famílias, de colonos alemães jovens
e voluntários, agora já se encontravam nesta área, fazia
cinco dias. Era tempo de verão. Os dias pareciam ser
mais longos que na Europa... Dias geralmente
ensolarados... Muito sol e muito calor, com muito
mormaço, às vezes sufocante... E surgiam
aparentemente do nada, ocasionais chuvas... Eram as
chamadas chuvas de verão, chuvas passageiras, rápidas.
Admirável era o número de borboletas, esvoaçando sobre
a relva, em busca de flores, nas muitas clareiras, junto à
margem do rio Três Forquilhas. Muitos pássaros,
esvoaçando pelo ar e fazendo ouvir seus trinados
melodiosos... As águas límpidas jogavam reflexos de luz
contra a vegetação, tão abundante e rica, em todo o
vale. E a floresta, até então intocada, virgem, lhes
parecia assustadora, desafiadora, com suas sombras e
ruídos...

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Vemos o jovem pastor Carlos Leopoldo Voges
parado numa clareira recentemente aberta. Podem ser
vistos troncos de árvores seculares derrubadas,
colocados à margem da trilha principal que vem da Lagoa
Itapeva e segue na direção da Serra do Pinto.

Uma choupana estava ali, com aparência vistosa.
Fora construída pelos índios caingangues, vindos da
aldeia de Três Pinheiros e requisitados especificamente
para esta tarefa de apoio aos colonos.

Era, na verdade, um rancho bem simples,
provisório destinado para servir de templo e escola, até
que uma edificação mais sólida fosse construída.

Figura 3: Dando uma noção da aparência: Choupana
Templo/Escola de Três Forquilhas, de 1826,
coberta com folhas de palmeira.
Fotomontagem feita pelo autor. Arte final, 2009.

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A choupana3, com cobertura feita com folhas de
palmeira, devia medir em torno de 7 x 5 metros, sendo
considerada espaçosa, naquela situação inicial e precária.
Aquele era o local escolhido por Voges, para a realização
do primeiro culto da colonização alemã luterana, de Três
Forquilhas.

O primeiro Natal na Colônia

Pelos cálculos do pastor, o espaço na choupana
era pequeno para acomodar todos os convidados. Por
este motivo, no dia 24 de dezembro, ele fez construir um
altar a céu aberto, diante de um cedro secular que
decidira manter no pátio como testemunho4 (para
mostrar, no futuro, a todos os visitantes, essa árvore de
madeira de lei, preciosa, que ali estavam encontrando
em grande profusão).

Diante do altar foram enfileirados alguns troncos
deitados, para servir de banco, para quem desejasse ter
um acento, durante a celebração. Ao entardecer do dia
24, começaram a chegar os convidados, todos que
integravam a leva de trabalhadores, imigrantes alemães
jovens, na maioria recém casados, mais alguns soldados
(entre os quais se viam índios missioneiros, fardados) e,
finalmente, alguns dos índios da aldeia de Três Pinheiros
que os socorreram no difícil trabalho para a edificação de
seus ranchos e rústicas moradas, índios que ainda por ali
se demoravam.

O pastor e o casal Petersen residiam na choupana
do templo e aguardavam ansiosos, pela chegada dos
demais... Apareceram Philipp Peter Schmitt com a esposa
Elisabetha Justin Schmitt (grávida de cinco meses) e os
filhos Christovam (seis anos) e Elisabetha (quatro anos).

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Philipp Jacob Feck (na época assinava Veeck), com
esposa Dorothea Niderauer (grávida de sete meses). Dr.
Elias Zinckgraf, médico e solteirão. Jacob Menger e
esposa Dorothea Sperling (grávida de três meses).
Johann Peter Jacoby, a esposa Bárbara Helbig (grávida
de três meses). Jacoby estava acompanhado de filhos de
matrimonio anterior: Margarida (nove anos), Johann
Peter (sete anos), Ana Cristina (cinco anos), Ana Izabel
(quatro anos); Ana Catarina (três anos) e Paulo (onze
meses). Paul König estava sozinho, pois deixara a
esposa, grávida de oito meses, no acantonamento dos
imigrantes no Presídio das Torres, aos cuidados da
mulher de Friedrich Eigenbrodt.

Chegaram também Valentim Justin e esposa
Bárbara Knewitz, Friedrich Schütt com sua nova
companheira Isabel Brehm e mais os filhos dela Wilhelm
e Martin Brehm; Nicolau Helbig, esposa Margarida e
filhos Bárbara (vinte e dois anos), Cristina (com vinte
anos e casada com Christian Mauer, ali presente), Maria
(dezoito anos) Maria Eva (quinze anos) Catharina (treze
anos) e Daniel (dois anos). Philip Leonard Niederauer e
esposa Catharina Diehl (grávida de cinco meses)
acompanhados da filhinha Catharina (dois anos).
Chegaram ainda Johann Bobsin e sua esposa Charlota
Marlow e mais os pais dela Adam e Maria Marlow. Estava
ali também o agrimensor Frederico Carlos Voss
encarregado da medição dos lotes, e que contava com a
ajuda destes imigrantes voluntários.

Precisavam ser somados a esta relação, os
soldados vindos do destacamento de Torres, chefiados
por João Silistrio. Além disso, Paula Soares incluíra no
grupamento de apoio aos colonos, o índio missioneiro
Esteban dos Santos que conseguira reunir quase duas
dezenas de índios caingangues civilizados da aldeia de
Três Pinheiros, liderados pelo Cacique Aivuporã. Estes

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caingangues tinham sido decisivos para o trabalho de
edificação das choupanas. Somando todos, o culto
natalino contara com a participação de mais de setenta
pessoas. Algo extraordinário para aquela realidade.

É de se imaginar que os soldados e os índios
observaram tudo com muita curiosidade, pois não lhes
era nada familiar um culto luterano, em língua alemã.

Enquanto o pastor se preparava para iniciar o
culto as crianças ainda aproveitavam para correr atrás de
pirilampos5. O céu estava muito limpo e estrelado e um
leve luar descia sobre a clareira.

Figura 4: Pastor Carlos Leopoldo Voges na Colônia de
Três Forquilhas. Fonte: Arquivo da Família Voges.
O ano da foto é desconhecido.

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O pastor trajava casaco e calça de cor escura,
bem ao estilo dos clérigos daquele tempo.

Ele trouxera consigo apenas a sua Bíblia e dois
hinários. O segundo hinário ele o entregou para Christian
Mauer por saber que o mesmo era um ótimo cantor.
Desta forma Mauer e esposa puderam acompanhar o
pastor durante os cânticos.

Para dar início ao culto, o pastor anunciou o,
então já tradicional hino luterano: “Eu venho a vós dos
altos céus”.

Ele avisou: - “A Catharina Diefenthaeler Petersen,
que aprendeu a tocar flauta na Comunidade Luterana de
Biebelnheim, atuará conosco, nesta noite santa, com sua
flauta encantada”. - Diante do elogio, Catharina sorriu,
fazendo uma mesura para todos, de modo encantador.

Elisabetha, esposa do Comandante, sempre muito
loquaz e comunicativa não perdeu o momento e, bem no
estilo jocoso dos Justin, falou: - “Pastor, porque você não
busca a Elisabetha, irmã da Catharina, para ter uma
dupla de flautistas, em nossa Comunidade?”.

Risos ecoaram, em uníssono, pela clareira. O
pastor, surpreso, retrucou: - “Antes, é preciso saber, se
ela quer casar comigo. Depois, quem sabe...”.

Catharina, com um largo sorriso, disse: - “Até há
poucos meses, fui a filha mais velha, lá em casa. E, na
qualidade de irmã mais velha, digo que, da minha parte,
o casamento já está autorizado... Afirmo que o pastor me
dará uma grande felicidade se conseguir trazer a minha
irmã para cá”.

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Catharina fizera vinte e três anos de idade e,
recentemente, casara diante do pastor Voges, em São
Leopoldo (RS). Ela se dispusera a acompanhar o marido,
no sonho de participar da construção de uma Colônia
Alemã na região de Torres, no litoral norte do Rio Grande
do Sul. Catharina era uma mulher de traços bem suaves,
esbelta e cabelos castanho-claros que lhe caíam até além
dos ombros, em cachos naturais. Chamava a atenção a
sua extrema palidez, fato que acentuava ainda mais a
cor de sua pele, tão branca. Os seus olhos eram
marcantemente verdes. Trajava um vestido longo, de cor
azul (aliás, todas as mulheres trajavam vestidos longos,
pois era o costume da época) e, tomando a flauta para
inicialmente dar o tom, conduziu o cântico, onde
sobressaía a bela e melodiosa voz do pastor.

A reação mais notória foi entre os índios
caingangues. Pareciam hipnotizados e deslumbrados.
Foram se aproximando até a ponta do altar, para ver, de
perto, a atuação da flautista.

O pastor, em seguida, desenvolveu uma breve
liturgia e uma oração. Finalmente, chegou o momento
mais esperado da noite, quando ele passou a fazer a
pregação. Voges leu a história do primeiro Natal, com
base no texto do Evangelho de Lucas, Capítulo 2,
versículos 1 até 20. Após a leitura, ele comentou o
texto, destacando que eles ali se encontravam, em
simples choupanas que muito bem poderiam representar
o estábulo onde Jesus nasceu. Finalizou, conclamando a
todos, para permitirem que se realizasse o verdadeiro
Natal também nesta localidade, dizendo: - “Importa que
Jesus encontre lugar em cada coração e em cada
choupana, nesta nossa Colônia em formação”.

Comandante Schmitt que sofria de graves
problemas de saúde e ali estava com as pernas bastante

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
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inchadas, em meio a grandes sofrimentos físicos, foi
tomado pela emoção. Lágrimas deslizaram pela sua face,
pois era muito emotivo, externando com facilidade seus
sentimentos, sem nenhum constrangimento.

Ao finalizar a breve celebração, o pastor chamou
todas as crianças presentes para que se postassem
diante do altar e explicou: - Quero presenteá-los, como é
o costume nas comemorações natalinas do nosso povo
germânico. Não tenho guloseimas, mas tenho algo muito
valioso para lhes conceder. Venham aqui e recebam a
imposição das minhas mãos. Quero abençoar cada uma
de vocês, pois é o que de melhor tenho ao meu alcance,
para vos oferecer nesta noite santa”.

Até duas crianças indígenas, que estavam em
companhia dos pais, num ponto mais distante, vieram se
posicionar diante do pastor, mesmo sem entender o que
ali era feito.

O pastor dirigindo-se ao seu rebanho de
imigrantes, falou: - “Não sei se estes que vivem, aqui na
selva, já foram batizados. Mas não me nego a impor
minhas mãos também sobre suas cabeças, pois os pais
deles, tenho certeza, estão sendo uma grande benção
para todos nós. Vejam só as choupanas que eles já
construíram para cada família! Vejam esta choupana do
nosso templo e de nossa escola! Que estes índios tenham
sempre um lugar em nossos corações e nesta nossa
Igreja que aqui estamos construindo”.

Novamente as lágrimas assomaram nos olhos do
Comandante Schmitt. Livremente elas desciam pela sua
face. Agora ele estava rindo e murmurando algo
inteligível.

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
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Christian Mauer levantou-se e pediu permissão ao
pastor para cantar um hino natalino que ele aprendera
em sua terra natal, na Comunidade Luterana de
Bischmisheim, intitulado: “Ao pé da manjedoura”, com a
música do grande compositor alemão, Johann Sebastian
Bach. Num lindo solo, porém, acompanhado pela
flautista, ele cantou de modo muito inspirado, que tocou
no fundo do coração de todos os presentes.

Desta vez não foi apenas o Comandante Schmitt,
a revelar emoção. Diversas mulheres também choraram,
lembrando parentes e amigos que haviam deixado na
distante Europa e que deviam estar comemorando o
Natal, talvez cantando este mesmo hino e, quem sabe
pensando neles que agora se encontravam tão distantes,
no Brasil. Será que lá na Europa, eram capazes de
imaginar as experiências que aqui estavam vivendo, em
meio a mata, cercados por selvagens e por bichos
desconhecidos?

Reunião de colonos

O culto durou cerca de meia hora. Quando
encerrado, o Comandante Schmitt pediu um pouco da
atenção de todos. Falou que era oportuno aproveitar este
encontro, realizando uma breve reunião, já que todos os
voluntários para ajudar na demarcação de lotes, estavam
ali presentes.

O Comandante fez um levantamento sobre os
roçados que cada grupo conseguira abrir, na respectiva
área. O grupo nordeste, liderado por Bobsin estava com
a terra preparada para lavoura. Estavam em condições
para semear as preciosas sementes que Schmitt e Justin

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
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haviam trazido da Europa, entre elas a aveia e o trigo,
além de outros cereais.

Bobsin quis saber: - “Pode-se semear estes
cereais neste final do mês de dezembro e no mês de
janeiro, aqui neste clima tão diferente, do que
conhecemos lá na Europa?”.

O Comandante falou: - “Já expliquei muitas vezes
e volto a repetir. Não temos escolha. Ou semeamos ou
perdemos a semente...”.

Isto era verdade. Não havia nada mais urgente,
além da necessidade de semear. E, afinal, todos sabiam
que o Comandante Schmitt fizera muita pressão sobre o
Coronel Paula Soares, diretor da colonização de Torres,
para liberar este grupo de voluntários, com o objetivo,
além de ajudar na demarcação de lotes, de também
preparar a terra e colocar as sementes no solo, antes que
se perdessem. Até já haviam aparecido aqueles que, na
chegada ao acantonamento de Torres, desejavam utilizar
os sacos de semente como alimento para pessoas e
animais, com a desculpa que já não mais vingariam, em
solo algum.

Em nome dos colonos do núcleo sudeste, falou
Johann Peter Jacoby:- “Também estamos com roçados,
em condições de plantar alguma coisa. No entanto, a
nossa área é bem menor que a da gente liderada pelo
Bobsin. Tivemos outras dificuldades para enfrentar. Não
pudemos contar com o Schütt que, incumbido pelo
Coronel Paula Soares, instalou uma ferraria, com
equipamento trazido de Torres. E o Justin, o König e eu
tivemos que acompanhar o agrimensor, que organizou o
plano para a medição dos lotes. Andamos com ele por
todo este lugar. Ele quis conhecer bem o terreno, para

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
27
dar aos colonos lotes em condições para neles praticar a
agricultura”.

Niederauer falou em nome dos integrantes do
núcleo da igreja: - “Preciso explicar que o pastor Voges,
o Petersen e eu não temos afinidade com machados e
foices. Já o Hellwig foi lá para o outro lado do rio, ajudar
o genro dele, o Mauer. E eu estou ansioso para instalar a
minha casa de comércio, assim que tiver a certeza da
concessão e definição do meu lote de terras”.

O pastor Voges pediu licença para corrigir as
palavras de Niederauer e explicou: - “Com a ajuda dos
soldados e dos índios caingangues gastei a maior parte
do meu tempo na escolha da melhor área para a
localização de escola e templo. Além disso, já defini o
local para a construção do nosso cemitério, pois penso
que precisamos estar preparados, para eventuais
falecimentos, que não pedem nossa permissão para
acontecer”.

Christian Mauer pediu a palavra para dar
explicações sobre os seus planos: - “Nas minhas horas
livres, fiquei procurando por uma área bem especial, no
lado sudeste, para ali construir meu moinho. Encontrei
um ponto bastante apropriado, onde será possível abrir
um canal para trazer a água, tão fundamental, para
mover a roda e fazer a mó funcionar”.

Petersen também queria se justificar: - “Vim para
cá, muito mais pelo amigo pastor Voges, para fazer-lhe
companhia. Neste momento quero também ajudar, no
que posso, no trabalho que o agrimensor está realizando,
para providenciar a medição dos nossos lotes de terra.
Porém, quero deixar bem claro de que não pretendo me
fixar no trabalho da lavoura. Nada entendo disso. Quero
receber meu terreno, como todos os demais e ser vizinho

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
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do pastor Voges. Depois irei para Torres, para ver a
possibilidade de estabelecer uma navegação e transporte
de pessoas e de mercadorias de lá até Três Forquilhas,
pelas águas da Lagoa”.

De fato, Petersen era perito em navegação,
profissão que ele exercera na Europa, durante diversos
anos e se considerava com experiência suficiente, para
lançar um empreendimento de tal envergadura.

König comunicou: - “Estou com o meu retorno a
Torres já definido para amanhã. Vocês devem estar
sabendo que estou com a mulher em fase final de
gestação, prestes a dar à luz. Estou bem tranqüilo... A
mulher do Eigenbrodt ficou ao lado dela, para assisti-la,
inclusive no parto, se houver necessidade. Não sei se
todos vocês já sabem... Tenho dois filhos, de matrimonio
anterior, a Charlotta que está com sete anos e o Peter
com quatro. A menina até que já consegue ajudar um
pouco, nem que seja para fazer companhia e dar carinho
para a minha mulher. Eu só voltarei, para cá, depois do
nascimento do meu nenê. Quero ver se consigo segurar
também o pastor, em Torres, para logo batizar a minha
criança”.

Comandante Schmitt falou em nome do núcleo da
sede: - “Nós, da sede, não conseguimos preparar
nenhum roçado, adequado para semeadura. Eu estou
num momento difícil, com os males que afligem o meu
corpo. Além disso, não sou lavrador. Pretendo seguir nas
intenções do Niederauer e do Jacoby, para estabelecer
uma casa comercial. Já o meu vizinho Menger está a
procura de um ponto favorável para a construção do seu
curtume. O Feck está, a maior parte do tempo, ao meu
dispor. É como se ele já fosse meu empregado. Ele me
acompanha em tudo, para onde quer que eu vá. E,
quanto ao médico, afinal, ele está aí para quê? A

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
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presença dele é de cuidar, exclusivamente, da saúde de
todos. E eu tenho sido um paciente constante. Recebo
cuidados quase que diários. Foi por este motivo que exigi
a vinda dele e ordenei a morada dele nas imediações da
minha propriedade”.

Niederauer pediu a palavra e quis saber: -
“Falando em médico, onde fica mesmo o rancho do Dr.
Elias? Onde podemos procurá-lo, se necessitarmos
dele?”.

O próprio médico respondeu: - “O meu rancho foi
erguido lá no Sítio das Figueiras6, um pouco além do
rancho do Comandante Schmitt”.

Continuando na discussão sobre as lavouras para
a semeadura, Bobsin lançou uma proposta: - “Sugiro que
a nossa lavoura, no núcleo nordeste, seja considerada,
neste momento, uma área comunitária, com a finalidade
de fazermos a semeadura, em conjunto, num só local. O
Helwig também já veio nos ajudar. Então basta que mais
um ou outro do núcleo sudeste se prontifique, para
estabelecermos um dia, para o plantio.”

A proposta foi considerada como louvável. Todos
os que tivessem tempo e aptidão, iriam até o núcleo
nordeste, tanto na fase da semeadura, bem como,
depois, para a colheita, em época a ser determinada.

Comandante Schmitt sugeriu: - “Diante da
proposta do Bobsin, que nós aceitamos, considerando a
lavoura do núcleo nordeste como sendo uma lavoura
comunitária, sugiro que os demais núcleos assumam o
mesmo procedimento. Que fique decidido nesta hora que
as nossas lavouras, por enquanto, são todas provisórias.
Elas irão servir a todos os que aqui vierem se
estabelecer. Na sede, no sudeste e no núcleo da Igreja,

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
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mesmo em áreas ainda pequenas, façamos lavouras de
sementes dos produtos que já chegamos a conhecer aqui
no Brasil, sementes de milho, de mandioca, de feijão e
cana-de-açúcar, em mutirão. À medida que cada família
vier, terá suprimentos disponíveis. Sou de opinião que o
milho, a mandioca e cana-de-açúcar são bons alimentos,
não só para os animais mas, também para todos nós,
conforme hoje ainda nos será dado experimentar, com
essa gostosa carne, tendo mandioca e farinha de
acompanhamento”.

Todos aplaudiram, aprovando a proposta do
Comandante.

Como último assunto da reunião, foi dada a
palavra ao agrimensor Voss. Ele explicou: - “Já estou
com o plano de medição dos lotes praticamente
concluído. Amanhã estou seguindo para Torres em
companhia do pastor, do casal Petersen, do König e mais
o Jacoby. Vou fazer a indicação de quatro núcleos,
conforme vocês já me ajudaram a definir. Pretendo
também oficializar o lote que o pastor escolheu para
Templo/Escola e o local para o cemitério. Já fui notificado
pelo Coronel Paulo Soares que a primeira edificação a ser
feita aqui, será a Igreja/Escola. Acredito que a
construção poderá ser neste lugar onde agora nos
encontramos. Por isto é muito importante que o pastor
esteja lá em Torres, conosco, para vermos com o Coronel
os detalhes da obra. Tomei conhecimento que será um
trabalho que correrá totalmente por conta de recursos do
Governo Imperial. Pretendo ainda, aproveitar para
requisitar mais colonos alemães, imigrantes, para nos
ajudarem. Para finalizar, quero informá-los, de que defini
duas áreas como impróprias para agricultura, sem
condições para demarcação de lotes para a colonização.
A área maior começa no núcleo sudeste, a partir da trilha
do Chapéu, e vai até o núcleo nordeste, a uns 300

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
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metros do rancho do Bobsin. Todo este trecho de terras
não serve para a atividade agrícola. É uma área bem
grande pois, em linha reta, é uma extensão de
aproximadamente 1.000 a 1.500 metros e, que
continuará sendo terra nacional.”

O Comandante Schmitt agradeceu ao agrimensor
Voss pelas valiosas informações e encerrou a reunião,
com elogios e agradecimentos para todos.

A Ceia de Natal

Finda a reunião, os colonos alemães, curiosos,
foram ver um braseiro que os soldados haviam
preparado, à margem da clareira.

– “Para que é isso?”. - Todos desejavam saber.

Um soldado tentou explicar: - “Nossa ceia de
Natal... Vai ser churrasco...” Alguns soldados estavam,
nesse momento, espetando carne, para ser assada.

Os índios haviam caçado, ao entardecer, e
também haviam oferecido o resultado do seu abate, para
ser incluído ao assado, juntamente com a carne de uma
novilha que os soldados haviam carneado a tarde. Os
soldados argumentaram entre si, que para a “Noite
Santa” de Natal, eles mereciam um jantar diferente, para
fugir do costumeiro cardápio de charque com farinha.

Os índios haviam providenciado mandioca que
também já havia sido cozida, por um soldado, num
panelão sobre tripé. Agora, o cheiro típico do churrasco
gaúcho, já vinha, com a fumaça, atiçando a saliva de
todos.

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
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Enquanto aguardavam o assado, a conversa girou
sobre as aventuras e desventuras vividas por eles.

O velho Marlow, um pomerano de pouca conversa,
talvez por só dominar o seu dialeto materno,
surpreendeu, sugerindo que o seu genro contasse a
peripécia do encontro com o touro selvagem, vivido nos
campos de Itapeva, durante a vinda a Três Forquilhas,
ocorrida fazia poucos dias, quando o Bobsin mostrou ser
um homem mais forte que um touro.

Johann Bobsin levantou-se. A sua figura parecia
agora ainda mais imponente, diante da luz da fogueira,
em meio à fumaça azulada que se espalhava por toda a
clareira. Parecia um herói saído dos livros de história, das
névoas distantes, do mundo lendário da mitologia
germânica, de Siegfried e Kriemhild, como é contado nos
Nibelungos.

Alto e musculoso, loiro, de olhos muito azuis,
Johann Bobsin encarou os presentes, pronto para o
discurso. Ele gostava de contar histórias e começou
perguntando: - “Quem de vocês ouviu falar do perigoso
touro dos campos de Itapeva?”.

Diversos colonos levantaram a mão. Haviam sido
alertados sobre o perigo, com a orientação de contornar
aquela área, dominada por aquele animal feroz. Pelo fato
de terem viajado em diferentes grupos de carretas,
naquele dia, nem todos haviam vivenciado o encontro de
Bobsin com o perigoso animal. Nas duas carretas,
lideradas pelo Bobsin, tinham estado o casal Marlow e o
Jacoby com mulher e filhos, como retardatários, por
causa de algumas ferramentas especiais, machados e
foices, que eles quiseram receber do diretor da
colonização, visando agilizar a abertura de roçados para
uma lavoura, que o Comandante Schmitt tanto desejava

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
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estabelecer na nova área de colonização em Três
Forquilhas.

Bobsin pediu silêncio e passou ao relato: - “Vou
contar primeiro um pouco da minha vida para
entenderem do que sou capaz. Sou germânico de sangue
puro. Só não sei por que assino Bobsièn. Talvez seja
porque os meus antepassados viveram na França. Eles
foram Huguenotes7, de confraria calvinista. Agora já nem
sei mais se foi o pai do pai de meu bisavô quem escapou,
por milagre, da matança da Noite de São Bartolomeu,
ocorrida em 23 de agosto de 1572. Ele conseguiu fugir.
Veio para a Suécia, onde foi acolhido pelos luteranos.
Meu avô me contava essas histórias. Com ele aprendi a
trançar couro. Sei fazer artefatos de montaria para
cavalos, cordas trançadas em couro, para lidar com gado
xucro. Saí de casa cedo. Fui parar na Pomerânia, na
propriedade deste ali (ele indicou para o Marlow) que
hoje é o meu sogro. Castrei muitos touros no campo dele
e domei tantos cavalos, que também já perdi a conta. O
que quero lhes dizer é que eu não tenho medo de
chifrudos que baixam a cabeça, e babam, e bufam...”.

Figura 5: Assinatura de Johann Bobsin em 1827.
Fonte: Arquivo Nacional, Seção dos Ministérios, Rio de Janeiro.
Carta de agradecimento em francês, assinada por 46 chefes de
família de Três Forquilhas, entre os quais consta Johann Bobsin.
Data: 31.12.1827.

O Justin interrompeu a narrativa e reclamou: -
“Bobsin, você está fazendo propaganda? Você vai abrir
uma casa de comércio, de artefatos de couro? Estamos
ansiosos para saber do teu confronto com o tal de Terror
da Itapeva...”.

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
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A história que Bobsin contara, despertara ainda
mais a curiosidade de todos. O pastor interveio e disse: -
“Bobsin. Acredito que a sua história é muito interessante
para todos nós. Não sabemos direito o que ainda poderá
estar à nossa espera, nesta nossa nova Pátria. Façamos
votos que aqui reine a tolerância religiosa, para um bom
entendimento com todos, principalmente com os
católicos, que, conforme já nos é dado ver, mandam em
todas as coisas, aqui no Brasil. Por este motivo,
aproveito para dar-vos um conselho pastoral, com toda a
humildade. Isso também vale para o Bobsin, para o
Mauer e para outros que, já sabemos, trazem em suas
origens espirituais, a marca do evangelismo que sofreu
até duramente, com os católicos da Europa. Ou então,
lembro aqueles dentre nós, que trazem ascendência
judaica que esconderam essas origens no passado,
tornando-se luteranos. Aqui ninguém tem um passado de
huguenote. Aqui ninguém tem ligação com os legais
piedosos8. Não temos nem judeus e nem gentios e,
muito menos reclusos, que foram tirados de prisões da
Europa. Quero que saibam o que falei ao Coronel Paula
Soares, na presença do Imperador D. Pedro, lá em
Torres. Eu disse que tanto eu como toda a nossa
Comunidade, somos da confraria da fraternidade de
cristãos – Fraternité–Egalitè-Liberté. Pude notar que o
Imperador ficou muito satisfeito com as minhas
declarações. Por isto tenho tanta segurança em vos
solicitar, para que todos guardem muito bem o que digo.
Somos todos cristãos, da fraternidade e da paz. E você,
Bobsin, por favor, continue na sua história, se quiser,
pois o assado da carne ainda não está no ponto, para ser
servido”.

Os olhos de todos, por instantes, dirigiram-se para
o lado do braseiro, de onde vinha um cheiro forte e
apetitoso, do churrasco gaúcho. Mas já retornaram a
atenção, para ouvir o relato.

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
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Bobsin continuou: - “O terror dos campos da
Itapeva era, na verdade, um touro xucro. Tratava-se de
um animal muito agressivo que costumava atacar os
viajantes desprevenidos, conforme fomos avisados.
Mesmo os tropeiros ou viajantes mais corajosos, que já
andaram por estas paragens, costumavam fazer voltas,
para não encontrá-lo outra vez. O animal, no passado, já
ferira seriamente diversos cavaleiros e até cavalos, que
precisavam fugir à galope, para escapar da morte.
Quando vínhamos, minha mulher, na companhia do meu
sogro e dos Jacoby que estão aqui e não me deixam
mentir, decidi que não devíamos fazer aquela volta, para
desviar do touro. Tomamos o caminho que nos conduziu
diretamente até os domínios do selvagem animal. E o
confronto aconteceu. Quando deparei com o touro,
enquanto mulheres e crianças, aos gritos se apinhavam
sobre as carretas, me postei bem no caminho do animal.
Esperei calmamente. E, o animal veio de cabeça baixa,
bufando e babando... Quando estava para me lançar, o
agarrei pelos chifres... Com um forte safanão, o derrubei
sobre o solo, deixando-o de patas para o ar. Foi aí que os
soldados missioneiros, que nos acompanhavam, vieram
me ajudar. Manearam o animal com seus laços e, ali
mesmo o sangraram. Vejam que não fui eu o matador.
Não sou açougueiro. Não tenho vocação para tal
profissão. Eles é que acabaram com o terror daqueles
campos. E, a fama quem levou? Me chamam agora de
imigrante mais forte do que um touro”.

O silêncio foi geral, mostrando que o relato
envolvera totalmente a atenção dos ouvintes.
Admirados, olhavam para o contador de histórias, sendo
interrompidos pelo pastor que avisou: - “Gente, depois
de ouvir sobre a bravura do Bobsin, merecemos comer
um bom assado! Façamos de conta que a carne é do
animal abatido nos campos da Itapeva. Bom apetite para
todos”.

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
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Eles não tinham pratos e nem talheres disponíveis
neste local. Utilizaram folhas de taioba9, colhidas nas
margens do rio, que os índios já haviam providenciado
com antecedência, a pedido de um soldado que revelara
ter experiência com a vida simples das matas. Cada um
foi recebendo uma porção de carne e outra de mandioca.
Algumas mulheres, para alimentar os filhos menores,
cortavam nacos de carne, com as unhas e dedos, e a
colocavam na boca dos pequeninos. Uma cena que
merece registro, pela singeleza do momento e pela
refeição tão solidária, como comunidade em formação.

Hora de dormir

Em certa altura, quase ao final do jantar, Schmitt
reclamou de dores e de cansaço. Pediu desculpas,
informando que tinha necessidade de se recolher. Iria
retornar até a sua choupana, para descansar e tentar
dormir. A sua carroça já estava com os animais
encangados. Foi acompanhado pela esposa e filhos, e
pelo médico e pelos vizinhos, os casais Feck e Menger,
estes dois últimos seguindo a pé. A distância até os
ranchos deles devia ser de aproximadamente dois
quilômetros.

Christian Mauer também se despediu dizendo que
iria pernoitar na casa da sogra e assim os Hellwig o
acompanharam até o rancho que distava uns 200
metros. Nierderauer e esposa também os
acompanharam, para unir com eles as luzes de suas
lamparinas, pois o rancho dele ficava um pouco adiante
do Hellwig.

Johann Bobsin com seu pessoal pediu permissão,
ao pastor, para pernoitarem ali mesmo, junto ao altar,

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
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próximo do secular cedro, onde, um pouco mais distante,
até os índios e os soldados já haviam se acomodado,
acendendo uma fogueira. Os Jacoby, Schütt, Justin, o
König, o Eigenbrodt e agrimensor Voss também
decidiram permanecer no local, para pernoitar. Alegaram
que a distância deles, a ser percorrida era dificultada por
um passo de rio que teriam que cruzar e não desejavam
fazer isto, à noite. Além disso, alguns viajariam já no
amanhecer, para Torres e, assim, poderiam sair juntos,
deste local.

O pastor e mais sua futura cunhada e o Petersen,
recolheram-se para a choupana do templo. Havia um
pequeno compartimento, nos fundos, que o pastor
chamava de sacristia, onde ele se acomodou, com os
seus escassos pertences. As camas eram improvisadas e
consistiam de folhas de palmeira e capim, colocados
sobre um trançado de galhos, que os soldados haviam
confeccionado.

O pastor demorou a pegar no sono. Ficou
meditando sobre o projeto de colonização que o Governo
da Província planejara. Na verdade, o Coronel Paula
Soares quebrara o plano original que o Presidente da
Província de São Pedro do Rio Grande do Sul, José
Feliciano Fernandes Pinheiro fixara em 1825, conforme o
qual todos os colonos, independente de credo, seriam
fixados no vale do rio Mampituba. Quando o Coronel
Paula Soares permitiu, que, de modo clandestino, estas
famílias protestantes, sob o comando de Peter Philipp
Schmitt se deslocassem para o vale do rio Três
Forquilhas, ele interferira, com uma cartada de mestre,
para modificar o rumo de todo o projeto da colonização
alemã de Torres. Ao enviar, junto com estes colonos, o
agrimensor Voss para realizar um estudo da viabilidade
para estabelecer colonos em Três Forquilhas, já se
pudera antever qual seria o resultado.

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Até pegar no sono, Voges se manteve entretido
neste pensamento: - “Deve-se à visão do Coronel Paula
Soares e a sua coragem, de decidir por algo novo e
diferente, que o surgimento da Colônia Alemã de Três
Forquilhas vai se concretizando. Ele quebrou, quase no
sigilo completo, um projeto oficial do Governo da
Província. Paula Soares merece ter o seu nome gravado
com letras douradas, como o artífice e o verdadeiro
criador desta nossa Colônia Alemã Protestante de Três
Forquilhas”.

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MELHOR SERIA IR PARA A GUERRA...

- “Seria preferível ir para a guerra do que alguém
ficar afundado na ociosidade, neste acantonamento”. -
Disse o pastor ao abrir uma reunião com algumas das
lideranças de colonos alemães, acantonados em Torres.

Estavam ali Paul König, Johann Peter Jacoby,
Johann Nicolaus Mittmann, Pedro Frederico Petersen,
Martin Schneider, Professor Jorge Godofredo Engel e
Felipe Pedro Gross.

Johann Nicolaus Mittmann pediu a palavra: - “Sou
de opinião que nós precisamos fixar um regulamento de
conduta para todas as famílias de imigrantes alemães
que aqui estão neste campo de espera. Essa gente não
tem nada para fazer. Vivem causando brigas e
discussões, alguns andam embriagados e outros dormem
o dia todo. Se isso continuar assim por muitos meses,
ainda vamos ter feridos e mortos, pois temos entre nós
até homens que saíram das prisões de Mecklemburgo e
Rostock...”.

Voges respondeu: - “Sugiro que não façamos mais
referências sobre homens que saíram de prisões. Aqui
será a oportunidade de iniciar uma vida nova, para
todos... E outra coisa... Foi por causa da situação, em
que a nossa gente vive neste acantonamento, que eu
afirmei ter sido preferível que eles tivessem ido para a
guerra em companhia do nosso Imperador, quando no
início de dezembro, ele por aqui passou, do que ficarem
na ociosidade...”. - O pastor fez referência aos jovens
que acompanharam D. Pedro I como voluntários para
combater em a favor da nova Pátria, na área conflagrada
da Guerra Cisplatina. Haviam seguido com Sua
Majestade: João Miguel Eberhardt, Carlos Becker, João

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Beck, Valentim Becker, João Wolff, Ernst Friedrich
Hildebrandt, João Jorge Lorey, João Jacob Müller,
Henrique Berghahn, Hans Thron Stollenberg e Nicolau
Schmitt.

Voges continuou falando: - “Constato que já
começou a fazer falta, aqui, a autoridade do Comandante
Schmitt. Ele não manteve ordem, enquanto aqui o
tivemos? No entanto, ele acreditou que a tarefa dele é de
apressar a posse da terra. Nós que o acompanhamos
somos testemunhas que ele está certo. E digo mais, lá
não existe o perigo da ociosidade para alguém. O
trabalho em Três Forquilhas, para a abertura de picadas
para a medição dos lotes de terra, a abertura de roçados
e a organização dos ranchos deixa todos bastante
ocupados, desde o raiar da madrugada até a escuridão
chegar. Lá não vimos discussões , nem brigas, nem
bebedeiras. Todos gastam as energias com o trabalho...”.

Mittmann voltou a insistir: - “Vamos redigir um
regulamento para a conduta das famílias que estão nesta
espera...”.

- “Já não pesa sobre todos o regulamento que o
Coronel apresentou?”. - Quis saber Voges.

Mittmann mostrou-se incisivo e retrucou: - “Eu
falo das regras do Evangelho de nosso Senhor Jesus
Cristo. Não me refiro as regras das autoridades
brasileiras. Nossa gente precisa ser colocada no rumo da
Palavra de Deus. Mas o que eles pensam? Vou lhes
contar o que aconteceu durante a ausência do pastor. Eu
me prontifiquei a realizar um culto para eles, na noite de
Natal. Não sou pastor, mas sei dirigir um culto simples.
Adivinha o que me disseram...”.

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
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- “O que disseram?”. - Quiseram saber König,
Jacoby e o pastor, pois que estiveram ausentes de
Torres.

Mittmann continuou: - “Eles me responderam -
você não é um pastor. O nosso pastor é o Voges. Mas,
onde anda ele? Acompanhando meia dúzia de pessoas, lá
em Três Forquilhas, enquanto aqui, nós que somos
centenas de pessoas, ficamos sem ele”.

Paul König pediu a palavra e falou: - “Estivemos
com o pastor em Três Forquilhas. Realmente, ele realizou
um culto na noite santa do Natal. Mas é preciso deixar
claro que não foi para meia dúzia de pessoas. Entre
nossa gente, mais os soldados e ainda contando os
bugres da localidade, garanto que foram quase cem
pessoas. Foi um culto para nunca mais esquecer”.

Jacoby também pediu a palavra: - “Sou de
opinião que não é de mais regulamentos que essa nossa
gente precisa, aqui, nesta espera que deve estar
corroendo a alma deles. Precisamos fazer reuniões.
Precisamos contar para eles o que já vimos em Três
Forquilhas. Já existe lá, agora, uma igreja. Mesmo que
ela seja só um rancho de palha, mas é a nossa igreja. A
maioria dos colonos que foram ajudar o agrimensor
também já recebeu seus ranchinhos de palha, nos quatro
núcleos previstos. São pequenos ranchinhos, mas eles
dão abrigo contra chuva e contra animais”.

Voges propôs então: - “Além de reuniões com
pequenos grupos, aqui e ali, podemos marcar um culto
para a noite da passagem de ano. Alguns de nós fomos
convocados pelo Coronel para uma reunião no dia 28 de
dezembro. Posso apresentar a proposta para que ele nos
autorize o culto”.

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
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Mittmann quis saber: - “O que este coronel tem a
ver com a nossa prática religiosa? Não nos foi dito que
temos liberdade de crença? Não bastaria marcar o culto,
como algo que nós queremos e nós realizamos?”.

Voges explicou então: - “Ele é a autoridade maior
deste lugar. É bom que sempre conversemos com ele
sobre as coisas que pretendemos realizar. Afinal, não
temos nada a esconder das nossas autoridades.
Recordem do Comandante Schmitt, como ele foi até
Paula Soares. Ele insistiu durante muitos dias, para
receber a autorização de seguir até Três Forquilhas, na
companhia do agrimensor. Ele jamais pensou em sair
sem ter a concordância do Diretor da Colonização. E
agora, agradeçamos a Deus, que o Comandante Schmitt
teve esta idéia e sejamos agradecidos que o Coronel
Paula Soares autorizou a ida de nossos voluntários para a
área da nossa colonização”.

Paul König pediu novamente a palavra: - “A todos
vocês que não tiveram a felicidade de estar conosco em
Três Forquilhas, quero dizer que podem confiar na
orientação que o pastor Voges vem nos concedendo. Eu
mesmo sou testemunha dos bons conselhos que ele já
concedeu para o Bobsin e para o Mauer. Penso que o
Jacoby concorda comigo, que Bobsin e Mauer receberam
o conselho com toda a humildade e até com um sorriso
no rosto...”.

Mittmann mostrou-se curioso e quis saber: - “Que
conselho foi este?”.

O pastor resolveu contemporizar, e contornou a
questão, dizendo: - “Deixemos isto para outra ocasião.
Vamos ao que hoje nos preocupa. Creio que o Mittmann
está certo quando levanta a preocupação com a conduta
inadequada de diversos colonos. Precisamos estar

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
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atentos. Sabemos que ainda teremos diante de nós
muitos problemas, até que cada família esteja instalada
em sua terra e tenha finalmente a sua própria casa”. - O
pastor voltou-se então a Paul König e falou como se
estivesse confidenciando um segredo, mas falou alto,
para todos ouvirem: - “Estou muito seguro de que
Mittmann é um homem de fé e de grande valor, pela sua
firmeza e convicção. Vocês ainda haverão de constatar,
nos próximos anos, o papel que ele poderá e deverá
desempenhar em favor da manutenção da fé evangélica
em nossa igreja, que está surgindo em Três Forquilhas”.

Mittmann sorriu diante do elogio recebido. A
reunião foi chegou ao final, num clima bastante cordial.

Reunião com Paula Soares

No dia 28 de dezembro de 1826, ocorreu a
esperada reunião, convocada pelo diretor da colonização
de Torres, realizada no Baluarte Ipiranga. O Baluarte
Ipiranga, era ainda conhecido como Presídio de Torres,
na verdade, um forte militar, restaurado pelo Coronel
Paula Soares. Além de Baluarte Ipiranga era também
conhecido por Presídio das Torres (que não significava
prisão, mas um posto de guarda militar).

Os soldados diziam: - “Este é o nosso Fortim de
Torres”.

Independente de qual a sua legítima
denominação, se forte, se baluarte ou se presídio, ele
passou a servir de aquartelamento para a guarnição
militar e, logo também, como sede administrativa da
colonização alemã em Torres.

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
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Os colonos, enquanto aguardavam, olhavam
admirados para os dois enormes canhões, postados,
apontando para o mar. Recordavam ainda do dia 5 de
dezembro, quando os mesmos haviam sido ativados,
para saudar a chegada do Imperador D. Pedro I. Haviam
sido tantos tiros que ninguém conseguira contá-los.

Um soldado garantiu: - “Foram cento e um tiros,
para dar as honras ao nosso Imperador”.

Naquela oportunidade, os colonos alemães
também haviam sido reunidos, para recepcionar D. Pedro
com vivas e hurras. A liderança dos colonos, dentre os
quais se destacavam o Comandante Schmitt, Johann
Jasper e o pastor Voges, que na ocasião, puderam
cumprimentar Sua Majestade, pessoalmente. Para o
pastor fora a segunda oportunidade, na primeira, no Rio
de Janeiro, ele beijara a mão do Imperador. Desta vez
Sua Majestade não aceitara o beija mão, ficando tudo
num simples aperto de mãos.

A reunião convocada pelo Coronel Paula Soares,
visava tratar da instalação da Colônia Alemã de Três
Forquilhas. Por isto, solicitara a presença de agrimensor
Voss, do pastor Voges, do barqueiro Petersen, do
carpinteiro Gross, e ainda do Jacoby e do König, Fato
que chamou a atenção é que o piloto10 oficial João José
Ferreira não fora incluído para participar deste encontro.

Paula Soares contava sempre com a presença de
um intérprete, para se fazer entender com os imigrantes.
Ele se dirigiu ao pastor, comentando: - “Pastor, notei que
o senhor domina além da língua alemã, também o
francês, o latim e os rudimentos do português. Isso tem
ajudado muito para ambos nos entendermos sem o
intérprete que, aliás, é fraco. Sugiro que aproveitemos
sua presença em Torres, para que me ensine o básico da

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
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língua alemã. Em contrapartida receberá aula da língua
nacional”.

O pastor se interessou e respondeu: - “Coronel
Franz Paul, a sua idéia é boa. Podemos começar na hora
que lhe for aprazada”.

- “Pois comecemos aqui e agora”. - Disse o
Coronel. - “Vamos aproveitar as palavras chave dos
assuntos que aqui vamos tratar. Eu escrevo a palavra em
português e o senhor anota o termo no idioma alemão”. -
Paula Soares escreveu: - medir - lotes e Voges
acrescentou: messen – Grundstück.

O agrimensor Voss foi então convidado a expor
aos presentes, a situação em Três Forquilhas, no tocante
ao trabalho de medição dos lotes de terra a serem
distribuídos para cada família.

Voss abriu dois rolos de papel. Explicou,
mostrando indicações feitas em seus mapas: - “Trago
aqui rascunhado o mapa de cada lado do rio. Defini as
áreas próprias para agricultura, prontas para a medição.
Iniciei no ponto mais extremo, no norte do núcleo da
igreja, onde será instalado o cemitério. Depois vem vindo
até aqui, onde sinalizei o terreno que o pastor escolheu
para a construção da igreja/escola”.

Paula Soares escreveu: Igreja - Escola e, Voges
acrescentou: Kirche – Schule. - “Que assim seja ou,
amém”. - Falou Paula Soares. - “Vou determinar agora
mesmo as providências necessárias. Como o pastor
prefere que seja a construção? Eu proponho o estilo
enxaimel”.

Voges argumentou: - “Eu dou preferência para
que o templo seja erguido com blocos de pedra. Será

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mais resistente ao tempo”. Voges escreveu: Stein e o
coronel acrescentou: Pedra.

Figura 6: Croqui da região do vale de Três Forquilhas.
Fonte: Mapa feito pelo autor, publicado no livro: “Três
Forquilhas – 1826 -1899”, p. 22.
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Paula Soares alertou então, dizendo: - “Pedras
não são indicadas para uma construção que deve ser
feita em curto prazo. Por isto proponho o estilo enxaimel,
onde precisamos madeira, que existe em profusão na
floresta de Três Forquilhas, além de tijolos e telhas,
disponíveis aqui no nosso destacamento em Torres”.

Estava ali presente o carpinteiro Gross que
declarara ser construtor de casas. Com a ajuda do
intérprete, Paula Soares quis saber: - “Carpinteiro Gross,
quanto tempo leva a construção de uma igreja/escola no
estilo enxaimel?”

Gross respondeu: - “Lamento muito, mas não sou
pedreiro. Nunca mexi com tijolos. Na propriedade de
meus pais, na Europa, ajudei a construir uma casa e
alguns galpões, porém, exclusivamente com madeira.
Para fazer uma construção dessas, no tamanho
solicitado, penso serem necessários apenas dois meses,
se não ocorrer nenhum tempo chuvoso, que dure muitos
dias. Tenho até experiência para fazer um telhado com
folhas de madeira. A casa dos meus pais, lá na Europa foi
assim. O telhado resistiu muito bem ao peso da neve por
ser bem mais leve”.

Paula Soares sorriu: - “Aqui não temos o
problema do peso da neve. Vejamos o que o pastor
pensa sobre uma igreja de madeira...”. - Paula Soares
escreveu: Madeira e o pastor escreveu: Holz.

Voges estava muito pensativo e um pouco
contrariado. Perguntou então: - “Não existe pedreiro
entre os seus militares, coronel?”.

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
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- “Para casa no estilo enxaimel, não. Aqui eles
costumam fazer muita casa de pau-a-pique, ou taipa de
barro...”. - Respondeu ele.

- “Pau-a-pique não. Então prefiro uma igreja de
madeira, já que o Gross fala que em dois meses a
construção poderá estar concluída”.

Paula Soares decidiu a questão, dizendo: - “Está
resolvido. A construção será toda de madeira. Poderá ser
aproveitada madeira de lei, da própria propriedade do
pastor. Eu soube que lá temos cedro, louro e canela da
melhor qualidade. Estou expedindo agora, ordens para
que o carpinteiro Gross receba o auxílio de alguns
serradores, que comecem a fazer tábuas, lá no local da
construção. Ainda no primeiro mês do próximo ano, os
meus trabalhadores deverão seguir até a Colônia de Três
Forquilhas em companhia do carpinteiro Gross”. Paula
Soares escreveu então: Cemitério e Voges acrescentou:
Friedhof. O Coronel explicou: - “O cemitério será uma
obra bem simples e bem rápida. Enviarei entendidos em
construção de taipa de pedra. Tenho gente bem
experiente para isto. Acredito que basta a cerca, de
pedra comum, como proteção. O carpinteiro aproveita a
ida dele e já prepara uma cruz de madeira, para ser
colocada, no ponto que o pastor determinar”. - Paula
Soares escreveu: Cruz e Voges colocou: Kreuz.

Paula Soares escreveu: Pedreiro e Voges
acrescentou: Maurer. O Coronel dirigindo-se ao pastor
falou: - “Pastor, quando o senhor viajar até São Leopoldo
sugiro que procure com as autoridades de imigração por
algum pedreiro qualificado, em particular, que saiba
trabalhar com o estilo enxaimel. Tenha interesse também
por outros profissionais que sejam mestres em seus
ofícios. Mesmo que não forem necessários na Colônia de

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Três Forquilhas, tenho colocação para eles aqui em
Torres, junto ao meu destacamento militar.

O pastor escreveu: Messe e acrescentou: Missa.
Paula Soares o encarou curioso. Voges então disse: -
“Estou com o plano de realizar uma Missa protestante na
noite da passagem para o ano novo. Solicito a sua
permissão e a designação de um local que o senhor
considerar apropriado”.

Paula Soares respondeu prontamente: - “Concedo
a autorização. Vos digo que podem contar com a garantia
da liberdade para a prática da vossa fé protestante.
Sugiro que realizem a Missa no campo da tropa, que fica
bem próximo do vosso acantonamento, na direção da
lagoa. É um lugar bem protegido. E, se o pastor aceitar,
mando os meus soldados da Cantoria dos Reis, para
ajudar e para dar ânimo para o povo”.

Voges aceitou a oferta. Considerou que tal
integração, de um grupo de cantoria do destacamento
militar, só poderia ser benéfica para estabelecer um
maior entendimento com o povo local.

Paula Soares encerrou a reunião, dispensando
todos, menos o agrimensor. Em reunião reservada
ordenou: - “Senhor Voss, organize tudo de tal forma para
que em abril de 1827 o piloto (agrimensor) João José
Ferreira possa se deslocar até Três Forquilhas para dar
início à medição oficial de todos os lotes. Conceda
preferência para que os colonos voluntários que o
auxiliam no trabalho, sejam os primeiros na escolha de
seus respectivos lotes. Os demais terão que se satisfazer
com a terra que lhes for atribuída por sorteio, com
exceção para a concessão de lotes especiais para os
moinhos, os curtumes e para as duas cervejarias. As

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
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empresas devem receber preferência por um local
apropriado, junto às águas do rio”.

O Culto do Preparo

Pastor Voges orientou para que um aviso verbal
fosse difundido a todos: - “VENHAM ASSISTIR O CULTO
DO PREPARO. É a preparação para entrar no ano novo. É
a preparação para entrar na terra prometida, de Três
Forquilhas”.

O efeito do anúncio foi muito bom. A
movimentação e a agitação entre os colonos protestantes
do acantonamento de Torres foram intensos, na noite de
31 de dezembro de 1826. Eram homens, mulheres e
crianças, vestidos com as melhores roupas, procurando o
lugar mais favorável para assistir o culto. As mulheres e
crianças de um lado. Os homens do outro lado. Era um
costume arraigado e antigo, trazido da Europa.

A esposa de Paul Konig, em fase final de
gestação, não pudera vir ao culto. Ela estava muito perto
de dar à luz. Seria a primeira criança dos imigrantes
alemães protestantes, a nascer em Torres.

König se lastimava, dizendo: - “Eu quis tanto que
a minha criança viesse a ser a primeira a nascer em Três
Forquilhas. No entanto, minha mulher teve complicações
na vinda de São Leopoldo e, por isto, não foi
aconselhável uma nova viagem de carroça”. No entanto,
Paul König estava ali, bem diante do altar, ao lado de
Johann Peter Jacoby, mais o casal Petersen e Nicolaus
Mittmann.

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
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O altar estava montado sobre um tablado de
madeira, sendo visível para todos. Uma cruz de madeira
fora erguida no lado direito do altar. Sete archotes
estavam acessos, três em cada lateral e um logo atrás do
altar, fixados em postes, iluminando o cenário. Quando o
pastor se postou atrás do altar, para dar início ao culto,
fez-se um silêncio profundo. Os olhos de todos estavam
como que pregados no pastor e no altar.

Voges solicitou que Catharina Petersen,
juntamente com seus acompanhantes, subisse também
no tablado. Ele iniciou o culto com palavras de praxe,
dizendo: - “Vamos realizar este culto do preparo, em
nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, Amém.
Convido a Catharina Diefenthaeler Petersen, que
aprendeu a tocar flauta na Comunidade Luterana de
Biebelnheim, para que ela nos acompanhe no canto, com
sua flauta”. - Apenas uma flauta era pouco para dar um
fundo musical para cantar ao ar livre. Mesmo assim,
Catharina postou-se resoluta, para entrar em ação.

Voges anunciou o hino natalino: - “Eu venho a vós
dos altos céus”. - Um hino antigo, criado pelo próprio
reformador Martim Luther e muito conhecido e apreciado
por todos. Como momento litúrgico o pastor declamou o
Salmo 23, que ele havia memorizado. Falou de modo
pausado e com entonação poética. A sua voz forte a
agradável, prendeu a atenção dos presentes, que davam
a impressão de estarem sorvendo cada palavra.

Agora o ambiente estava preparado para a
mensagem do pastor. Ficou patente que todos estavam
ansiosos para saber o que Voges teria para dizer sobre o
preparo para o ano novo e sobre o preparo para entrar
em Três Forquilhas. Porém o pastor anunciou mais um
hino: - “Vamos cantar o hino Castelo Forte é nosso Deus,
acompanhados por Catharina com sua flauta”. Este hino

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
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era ainda bem mais conhecido que o anterior e muitos
dos presentes, mesmo sem hinário, acompanharam,
cantando com voz firme e forte. O hino ecoou pelo
espaço...

Nicolaus Mittmann mostrava-se entusiasmado,
ouvindo-se a sua voz firme e forte, somando com a do
pastor, concedendo um destaque muito especial para o
louvor da comunidade de fé reunida diante do altar.
Finalizado o cântico, os olhos de todos dirigiam-se ao
pastor, notando-se a forte expectativa de todas as
pessoas querendo ouvir boas notícias.

Voges falou: - “Querida Comunidade de Cristo
nosso Senhor, que o primeiro hino cantado seja a nossa
forte esperança, sempre na confiança de que Jesus veio
até nós, dos altos céus, trazendo-nos socorro e
encaminhamento. Nesta noite iluminada pela luz dos
archotes, estamos no limiar de um novo ano. Um ano
que nos promete a entrada na nossa terra prometida,
quando todas as famílias haverão de encontrar o seu
novo lar e uma terra que mana leite e mel”.

O silêncio era absoluto. Velhos, jovens e crianças,
de olhos bem abertos e atentos, pareciam despertar para
uma visão ou um sonho, alimentado dia após dia, desde
a saída da casa dos pais ou parentes, lá da Europa agora
já tão distante.

Voges continuou: - “Deus quer preparar o seu
povo para cada nova etapa da caminhada. Nesta noite
trata-se uma vez do preparo para entrar no novo ano, de
número 1827 de nosso Senhor Jesus Cristo. Faltam
poucas horas para isto. Entretanto, Deus quer também
preparar o seu povo para, neste novo ano de 1827,
poderem tomar posse da terra que lhes está prometida”.

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Estava aí a boa notícia que eles esperavam
escutar. Diversas mães e crianças seguraram firmemente
uns as mãos dos outros. Parecia uma corrente de fé e
oração. E o pastor continuou: - “O povo de Deus não
teve permissão para vir e avançar direto para alcançar a
terra prometida. Foi uma jornada que durou quarenta
anos. Tempo de preparação... Tempo de enfrentar o
deserto, tempo de enfrentar duras provas, enfrentar
desânimo, impaciência e até a incredulidade. Por isto
peço que ouçam com muita atenção a palavra de Deus
que vos trago nesta noite. Ouçam o texto de Josué,
capítulo 1 versículos 1 a 18”.

Voges leu, pausadamente, com voz clara e forte,
o texto anunciado. Depois, teceu considerações sobre o
texto, destacando: - “Semelhante aos israelitas, nós que
nos encontramos neste limiar de entrada para o ano de
1827, temos nosso sonho, nosso alvo e nossos objetivos,
que nos são importantes, para o nosso futuro e para as
nossas vidas, seja como pessoa, seja como família ou
como comunidade. Estamos diante de um ano decisivo,
quando nos será dado tomar posse da terra prometida,
que concretamente, leva o nome de Três Forquilhas.
Lendo os primeiros capítulos do Livro de Josué, encontrei
muitas lições da palavra de Deus, que nos querem
orientar nesta jornada. Primeiro: Deus exigiu estrita
obediência às suas ordenações. Segundo: A obediência
não vem sozinha. É necessária a perseverança.
Perseverar é manter a fé. Perseverar é estar disposto a
lutar e trabalhar. Perseverar é manter a união e o
respeito mútuo. Perseverar é ter esperança. São
qualidades que precisam estar presentes já aqui em
nosso acampamento, que se denomina tempo de espera
e tempo de preparação, para a chegada do grande dia,
da nossa entrada plena para formarmos a Colônia de
Três Forquilhas. Quem quiser ser ou ter alguma coisa lá,
naquela oportunidade de vida nova, terá que perseverar,

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já agora e sempre. No Evangelho de Lucas 18, Jesus
manda < orar sempre e nunca desfalecer >. Isto
também é perseverar. A oração é como uma alavanca
poderosa. A oração é capaz de mover montanhas, falo
das montanhas que, nesta hora, se acumulam em vossos
pensamentos, as montanhas do desânimo, as montanhas
da impaciência ou mesmo a pior de todas, que é a
montanha da incredulidade. Por isto realizamos este
culto, para orar pedindo que Deus nos mostre o modo
correto de perseverar. Finalizo com as palavras que Deus
falou a Josué quando disse < Não te mandei eu? Esforça-
te e tem bom ânimo; não pasmes nem te espantes,
porque o Senhor teu Deus é contigo, por onde quer que
andares > ”.

Finda a pregação, o pastor fez a oração final e
depois dirigiu um Pai Nosso comunitário. Convidou, em
seguida, o tal de “cantoria dos Reis” que Coronel Paula
Soares havia gentilmente concedido. Tratava-se de um
grupo de doze integrantes, na maioria trajando o
uniforme militar e portando instrumentos de corda que
os imigrantes desconheciam.

A presença dos cantores agradou a alguns, e
ouvia-se vozes de desacordo. Mittmann sussurrou ao
pastor: - “Essa gente é católica e certamente vão trazer
uma palavra cantada que não é do nosso costume
luterano. Por que o Coronel Paula Soares os mandou
para cá?”.

Voges tentou tranqüilizar Mittmann: - “Fui eu que
aceitei a oferta. O Paula Soares não impôs a presença
deles em nosso meio. Imaginei que isto seria bom, para
nós e para eles. E, afinal, com certeza eles só irão cantar
sobre algum assunto relacionado com o Natal, ou seja,
sobre o nascimento de Jesus”.

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Nisto, os primeiros acordes das rabecas11
começaram a soar. As vozes dos cantores iniciaram
numa espécie de louvação sobre o nascimento de Jesus e
sobre a visita dos Reis Magos. Os colonos alemães nada
entendiam, mas o canto era envolvente.

Finda a apresentação, os rabequeiros saíram em
fila, noite adentro, afastando-se do local.

Novamente sobreveio um momento de silêncio,
todos com a atenção voltada para o pastor Voges. Ele
falou: - “Nosso encontro ainda não terminou. Quero
aproveitar a ocasião para vos fazer um relato sobre o que
vimos e o que fizemos em Três Forquilhas, durante
aquela semana, até a noite do Natal. Convido que Paul
König, Johann Peter Jacoby e o casal Petersen para que
fiquem ao meu lado, aqui na frente do altar e me ajudem
no relato. Alguns já me ouviram falar sobre este assunto,
nestes últimos dias. Para eles apenas será repetição. Mas
tem gente que ainda não puderam ouvir a respeito da
situação que, agora, lá existe. Estou muito feliz com o
que me foi dado ver e com aquilo que já foi feito. Para
mim a maior alegria foi a construção da nossa igreja,
feita com a ajuda de índios daquela região e de soldados
que Paula Soares nos concedeu. É uma simples choupana
de palha, mas é o nosso templo, em Três Forquilhas,
esperando por vocês”.

Voges falou sobre os quatro núcleos previstos,
para a localização dos colonizadores. Deu detalhes sobre
a paisagem, sobre fauna e flora e sobre a terra muito
fértil. Descreveu as aves, os animais, os peixes e os
índios. Em seguida pediu que König e Jacoby também
falassem. König explanou sobre os roçados e da terra
pronta para receber a semeadura. Enfatizou que as
primeiras lavouras serão comunitárias, o que significa
que todos ali também terão a possibilidade de receber

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desses mantimentos, em caso de uma colheita bem
sucedida. Jacoby falou sobre a ferraria já em
funcionamento, sobre a saúde do Comandante Schmitt e
a presença do médico, Dr. Elias. Finalmente Catharina
pediu a palavra e falou sobre a maravilhosa noite de
Natal que ela tinha vivenciado, bem junto à floresta,
rodeada de índios, que pareciam encantados pelo som da
flauta. Falou então sobre a forte saudade que lhe ia no
fundo da alma, saudade da mãe, saudade da irmã
Elisabeth, elas que pareciam inseparáveis. Catharina não
conseguiu se dominar e começou a chorar. Diversas das
mulheres presentes também se contagiaram com o choro
e a acompanharam com soluços e pranto.

Mittmann foi até onde o pastor se encontrava e
aos cochichos pediu: - “Por favor, pastor, anuncie aquele
hino de Natal que cantamos hoje. Creio que isso ajudará
a romper este momento de tristeza”. - Voges agradeceu
pela sugestão e anunciou que cantariam mais uma vez
“Eu venho a vós dos altos céus”.

Catharina, como por encanto, se recompôs, pegou
a flauta e se postou ao lado de Voges e Mittmann, para
acompanhar o cântico. Um clima envolvente cobriu todo
o ambiente, tocados pela brisa suave do mar e das
lagoas, com um cântico que agora lhes chegava até o
fundo da alma. Muitos testemunharam, mais tarde, que
uma grande paz passara a tomar conta deles. Ficaram
ali, reunidos, conversando em pequenos grupos, até a
entrada do novo ano.

Alguém deu então deu um forte, viva, seguido por
muitas outras vozes. Outra pessoa tinha trazido uma lata
de metal e passou a bater nela com um pedaço de pau,
hábito antiqüíssimo de algumas regiões da Europa. Aos
poucos foram se dispersando, retornando até as suas
moradas, no acantonamento.

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“DE PÉS E A FERROS...”

No dia 3 de janeiro de 1827 nasceu, finalmente, o
tão esperado filho de Paul König. Era a primeira criança
de imigrantes alemães protestantes, a nascer em Torres.

Foi um parto difícil. A parteira constatara que a
criança estava em posição errada, no útero. Não ocorrera
aquela virada normal, que deixa a cabeça da criança na
posição adequada, pronta para sair. Diante dessa
complicação a parteira declarou, com desânimo: - “Não
sei mais o que fazer. Temo pela vida tanto da mãe bem
como da criança”.

Às pressas, Paul selou seu cavalo e seguiu até o
destacamento militar, torcendo que o médico do quartel
estivesse em condições de dar atendimento emergencial.
Encontrou o médico, que felizmente estava com um
cavalo pronto. Apressado, este acompanhou o pai
desesperado, tentando transmitir-lhe um pouco de
tranqüilidade. Ele disse: - “Haverá de dar tudo certo.
Confie em Deus...”.

Chegando na casinha simples, de um só cômodo,
o médico entrou e foi direto até a cama para examinar a
parturiente. Constatou a gravidade da situação e disse à
parteira: - “Prepare meus instrumentos, que estão
naquela bolsa. Vai ser preciso fazer um nascimento ‘de
pés e a ferros’ ”.

Logo que a criança nasceu, o médico a trouxe
para perto do pai, que agora já estava bem mais calmo.
O médico recomendou: - “Todo o cuidado será pouco. A
criança nasceu fragilizada, pela demora no parto”.

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König foi procurar, imediatamente, o pastor: -
“Pastor Voges, a criança nasceu. O médico disse que ela
está fraca. Será que precisamos batizá-la agora?”.

- “Sugiro que aguardem. Só por estar fraca, não
significa que tenha que ser ministrado um batismo de
emergência. Aguarde. Caso constatarem qualquer
problema com ela, então sim, me chame que vou até lá
para batizá-la”. - Respondeu Voges.

A criança recuperou-se bem nos dias posteriores e
passou a mamar normalmente. König então falou com
sua esposa: - “Emilia, precisamos escolher um nome
para o menino. Você já o chamou de Hannes. O primeiro
nome até poderá ser este, mas eu gostaria mais outro,
talvez mais um nome bíblico... Vou olhar no Novo
Testamento para ver se encontro o nome de algum outro
apóstolo de Jesus e que combine com Johannes”.

König pegou a Bíblia ficou durante um bom tempo
lendo e examinando a relação dos doze discípulos.
Finalmente voltou até perto de sua mulher e disse: -
“Encontrei. Aqui está um nome que eu acho ser muito
bonito e que soa forte e diferente”. – E disse,
pausadamente: - “Bartolomeus”. - Colocando o dedo
naquele versículo da Bíblia.

- “Se você gostou, para mim também está bom”. -
Disse Emilia.

Quatro dias depois, no dia 7 de janeiro, realizou-
se o batismo de Johannes Bartolomeus König. O pai do
pequeno explicou ao pastor: - “Escolhemos para padrinho
o meu amigo e que será meu futuro vizinho em Três
Forquilhas, o Johannes Peter Jacoby. Será que posso
escolher mais outro padrinho? Porém, preciso dizer que o

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
59
mesmo seguiu com o Imperador para a guerra da
fronteira? O que se faz com um padrinho ausente?”.

Voges explicou: - “Você pode escolher mais outro
padrinho, se quiser, mesmo que seja alguém ausente.
Apenas pedirei que coloque uma pessoa que o possa
representar, na hora do batismo. Quem é o escolhido?”.

- “Quero o Viking, o Hans Thron Stollenberg. Que
ele seja um dos padrinhos do meu Bartolomeus. Faço
votos que Deus proteja o Viking, para que ele volte com
saúde e possa ver este novo afilhado, que ele passa a ter
a partir de agora”.

A realização do sacramento do batismo ocorreu ali
no próprio casebre de König em uma cerimônia bem
simples. Nicolaus Mittmann também marcou presença.
Postado próximo ao pastor, ele observou cada detalhe do
ato, como um discípulo desejoso de aprender com o
mestre.

Uma casa desocupada vira escola

Horas mais tarde, vemos o professor Georg
Gottfried Engel sentado na soleira de seu casebre
provisório, no acantonamento de Torres. O ar estava
mormacento. Ele estava pensativo.

Sentia que havia um vazio, que se fizera na vida
dele e de Sofia Margaretha, sua mulher. Durante a
viagem de navio, rumo ao Brasil, haviam perdido um
casal de filhos, a Catarina com quatro anos e o Georg
Michel com dois. Eles sentiam a falta dos pequeninos. E o
vazio e a dor eram aumentados no coração dele, ao
tomar conhecimento do nascimento do filhinho dos König

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
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Figura 7: Professor pensativo.
Fonte: Fotomontagem do autor, 2009.

e, mais ainda, ao observar as crianças, de seus
compatriotas colonos alemães, que ali corriam em torno
das casas, em algazarra. Essas crianças não tinham o
que fazer e gastavam os dias, na procura por fazer
alguma coisa.

O professor disse para os seus botões: - “Sou
professor e aqui estou sentado, faz horas, curtindo o
meu tédio, a minha dor e desilusão. E ao meu redor
estão crianças, querendo encontrar uma forma de
preencher as horas, com algo interessante. Que
professor sou? Por que não tenho uma sala e reúno essa
meninada para que aprendam a ler e escrever, se ainda
não sabem. Ou então, que aprendam lições novas, para
prosseguir na escolarização?”.

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
61
Engel levantou-se e foi a procura do pastor Voges.
Chegando perto da casa onde Voges e o casal Petersen
moravam, perguntou a um vizinho, igualmente sentado
na soleira da porta, sem fazer nada: - “Me diga. Você viu
o Voges por aí? A casa parece que está fechada!”.

- “Ele foi até o ancoradouro da Lagoa com o
Petersen”. - Foi a resposta.

Já que não tinha nada para fazer, Engel também
foi para o local indicado. Chegando próximo do
ancoradouro, viu Petersen e esposa, mais o pastor em
animada conversa. Aproximou-se e perguntou: - “Estou
atrapalhando?”.

- “O que é isso, professor Engel”. - Respondeu
Voges. - “Você não incomoda jamais. É bem vindo,
junte-se a nós. Eu estava aqui conversando com o
Petersen que anda ansioso para construir uma balsa ou
uma barca simples, para incrementar a navegação daqui
até Três Forquilhas. Parece que a idéia é interessante e
importante, mas não é oportuna”.

Engel quis saber: - “Por que não é oportuna? Não
temos aqui material de construção, telhas e tijolos, a
serem levados até a nossa Colônia?”.

- “Deste ponto de vista, sim, seria bem possível
de se estabelecer um meio de transporte. Contudo, o
Petersen quer receber um lote de terra lá em Três
Forquilhas. Creio que ele terá que escolher entre um ou
outro. O Coronel Paula Soares não vai concordar em dar
terras para alguém que se estabeleça aqui em Torres, no
ramo de transporte”.

- “Isso é verdade”. - Disse Engel, dirigindo o olhar
para Petersen.

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
62
Voges examinou o professor, curioso, imaginando
que este homem certamente viera por algum motivo
muito importante, e perguntou: - “Professor Engel,
aconteceu alguma coisa lá no nosso acantonamento?”.

- “Sim e não, disse Engel. Eu estava sentado na
soleira da porta do meu casebre, quando um grupo de
crianças, correndo e fazendo algazarra, chamou a minha
atenção. Eu ali sem nada para fazer. Elas em torno,
procurando uma maneira de se entreter e de gastar as
energias. Então perguntei para os meus botões, porque
um professor sem nada ter para fazer, não aproveita o
tempo para ensinar algo útil para aquelas crianças?”.

O pastor ficou visivelmente impressionado com o
depoimento de Engel. Encarou-o com grande admiração
e falou: - “Professor Engel. Você merece nossos
cumprimentos. Também sou um professor, além de
pastor. Lá em São Leopoldo estive envolvido com a
escolarização das crianças. Mas aqui, me descuidei desta
realidade. Meu pensamento ficou por demais, direcionado
para tudo o que tem a ver com a instalação da Colônia
de Três Forquilhas e não consigo mais ter olhos para ver
os problemas daqui. Vamos agora até o destacamento do
Coronel Paula Soares. Se ele tiver algum tempo
disponível, vamos já ver o que ele tem a dizer a respeito
deste teu plano. Vamos indo...”.

Eles seguiram rumo à sede de Torres, trocando
idéias a respeito da possibilidade de haver uma ocupação
mais proveitosa, para as crianças. O grupo foi de sorte,
pois o Coronel estava diante da sede da administração,
dando ordens a soldados, na faina de carregar algumas
carretas, com provisões destinadas para os colonos.

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
63
Paula Soares quando viu o pastor perguntou: -
“Pastor, veio para as nossas aulas de alemão e
português?”.

- “Até que pode ser”. - Respondeu Voges. - “Na
verdade estou aqui com um professor e que tem um
plano bastante interessante para lhe ser apresentado”.

- “Venham comigo”. - Disse Paula Soares,
mostrando a porta de entrada do seu prédio.

Sentando em torno da mesa, o pastor tomou a
pena de tinteiro, da mesa do coronel, e escreveu sobre
uma folha: Kinder e acrescentou: Crianças. Depois
escreveu: Schule.

Paula Soares olhou e disse: - “Esta última palavra
eu já conheço. O que está acontecendo com a escola das
crianças?”.

Voges explicou então sobre a situação vivenciada
pelo professor Engel, nessa tarde. Esclareceu que Engel,
não tendo nada para fazer, sentia-se mal. Ele desejava
ver as crianças, aproveitando o tempo de forma útil.

Paula Soares olhou para o professor com
admiração e disse: - “Louvo a visão e a boa vontade
deste professor. É certo que autorizo um atendimento
escolar para estas crianças, até que elas possam seguir
para Três Forquilhas. Já anotei aqui, ordenando
providências para o meu oficial administrativo. Ele
transformará uma das casas desocupadas do
acantonamento, para que sirva de escola. O professor
recebe a total liberdade para estabelecer o conteúdo de
ensino, seja na alfabetização ou para o segmento
seguinte de escolarização. Aguardo que ele apresente a

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
64
lista do material que ele necessita, para o trabalho com
as crianças”.

Na segunda semana do mês de janeiro de 1827, o
professor Georg Gottfried Engel deu início às aulas, em
sua escola improvisada. Ele conseguiu organizar duas
turmas, uma de crianças para alfabetização e outra para
ampliar os conhecimentos.

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
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UM TEMPORAL QUE TRAZ UM PRESENTE
VALIOSO

No dia 27 de janeiro de 1827, um forte temporal
se abateu sobre a região de Torres. O vento fustigava as
casas precárias dos colonos, parecendo querer varrê-las
do cenário. Os ventos mais fortes, no entanto, sopraram
distantes, na direção do alto mar. Foram poucas horas de
fortes ventos, porém, o susto fora muito grande para
todos.

Quando o temporal amainou, pessoas estranhas
desembarcaram de uma frágil embarcação, na altura da
Guarita. Vinham em busca de socorro, pois que o navio
no qual viajavam, fora seriamente danificado.

Figura 8: Náufragos em busca de socorro.
Fonte: Gravura elaborada pelo autor, 1974.

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
66
Os curiosos se reuniram na praia, para ver o navio
distante. Podia-se ver que um dos mastros estava
danificado, com algumas velas sem amarras. O Coronel
Paula Soares se dispôs a socorrê-los, no que lhe fosse
possível. Um grupo de soldados saiu em direção da
floresta, distante, para cortar a madeira que se fazia
necessária para a substituição do mastro danificado.

No dia 31, Paula Soares enviou um estafeta para
chamar o pastor Voges. Assim que Voges chegou ao
Baluarte Ipiranga, o coronel informou: - “Temos um
navio danificado pelo temporal, ancorado em alto mar,
diante de Torres. Descobri agora de que se trata de uma
missão de protestantes procedentes do Rio de Janeiro,
que tencionavam navegar para Porto Alegre...”.

- “Será possível conversar com eles”. - Quis saber
Voges, muito interessado em ter contato com estas
pessoas.

- “Certamente que sim. Venha comigo...”.

Paula Soares seguiu, em companhia do pastor, até
uma casa isolada que ficava no caminho que leva até a
Guarita. Diversos tripulantes do navio estavam ali,
envolvidos no trabalho, preparando um novo mastro para
o navio. Um deles dominava também a língua alemã e
Voges conseguiu comunicar-se com ele. Apresentou-se
como pastor evangélico, nesta localidade. O tripulante
anotou o nome do pastor, combinando então um
encontro para a manhã do dia 2 de fevereiro, nesse
mesmo local, quando um dos responsáveis da Missão
Inglesa viria à terra.

No dia e hora marcados, o pastor Voges
compareceu ao local. Agora mais outro passageiro do
navio também ali se encontrava e que se identificou: -

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
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“Sou o reverendo Mathias Main. Estou concedendo apoio
para a British and Foreign Bible Society que contratou
esta embarcação. O nosso objetivo é o de conhecer
algumas comunidades evangélicas do Brasil e oferecer-
lhes o nosso serviço de difusão da Bíblia Sagrada e da
tradução para as mais diversas línguas faladas no
mundo”.

O reverendo repassou para Voges dez Bíblias em
língua alemã e dois Novos Testamentos em português,
editados pela Sociedade Bíblica Britânica. O pastor olhou
para esta preciosidade com espanto, admiração e grande
interesse, e, finalmente, pegou o presente.

O reverendo Main continuou: - “Estávamos
seguindo para conhecer Porto Alegre, onde deve haver
um grande número de evangélicos, todavia, com as
avarias verificadas em nosso navio e o conseqüente
atraso na viagem, decidimos retornar para o Rio de
Janeiro. O fato é que alguns missionários britânicos,
embarcados neste navio, precisam voltar, em breve, ao
Reino da Grã-Bretanha...”.

- “Posso ser vosso colaborador na Sociedade
Bíblica, para os assuntos do Sul do Brasil, área que agora
já conheço bem! Por exemplo, posso lhes assegurar que
em Porto Alegre os senhores não encontrariam nenhuma
Comunidade Evangélica. Ela fica distante, quase 200
quilômetros, para o interior, numa localidade que leva o
nome de São Leopoldo, onde trabalhei como pastor, até
poucos meses atrás...”.

- “O Senhor pode colaborar, sim, com a British
and Foreign Bible Society. Vou lhe explicar a maneira
como funciona a nossa missão. O pagamento das Bíblias
é feito mediante ofertas voluntárias. É a maneira que
concedemos para que pessoas que tem condições

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
68
possam colaborar com este serviço missionário, de levar
a luz da palavra divina para quem não tem recursos ou
para quem ainda não conhece a Bíblia Sagrada”.

- “A chegada dos senhores até Torres foi
providencial” - Explicou Voges. - “Posso vos mostrar a
situação difícil em que atualmente vivem a maioria
destes nossos colonos evangélicos que cá vieram, para
construir a nossa igreja”.

Pastor Voges continuou: - “O que devo fazer para
me habilitar como colaborador da Sociedade Bíblica?”.

Reverendo Main abriu uma mala, que estava nas
proximidades, de onde tirou papéis, pena e tinta de
escrever e disse: - “Em primeiro lugar, o senhor deve
preencher esta ficha”.

- “Agora?”.

- “Sim, pode ser agora...”.

Voges preencheu os dados solicitados:

British and Foreign Bible Society
Designação de cinco Éforos no Brasil

Ficha de proposta para integrar o Eforado

Nome: Carl Leopold Voges
Nascimento: 01/10/1801
Origem: Hildesheim, do Reino de Hannover
Pai: Ferdinand Voges
Mãe: Anastácia Hammerstein Voges
Formação: Hannover

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
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Residência: Colônia Alemã Protestante de
São Pedro de Alcântara das Três
Forquilhas – Torres – Província de São
Pedro do Rio Grande do Sul – Brasil

Informações adicionais:

Chegada ao Brasil: 11/10/1824, no Rio de Janeiro
27/12/1824, naufrágio em
Mostardas
11/02/1825, chegada a São
Leopoldo
17/11/1826, chegada a Torres

Cargo que exerce na Igreja: Pregador e pastor
evangélico.

Cargo na British and Foreign Bible Society:

- Éforo para o Sul do Brasil

Fonte: AFV

Reverendo Main entregou ao pastor uma fatura,
atestando a concessão de cem exemplares da Bíblia
Sagrada, e duzentos e cinqüenta exemplares do Novo
Testamento, todos em língua alemã. Na fatura constava
a observação: < O material será da edição de 1827 e
será enviado pelo escritório da Sociedade Bíblica, no Rio
de Janeiro >.

Voges guardou o documento com muito cuidado.

O reverendo se despediu do pastor, dizendo que
precisava retornar ao navio para o momento devocional
da tripulação e o almoço. Antes de ser levado ao navio,
solicitou ainda: - “Sei que será um trabalho penoso e
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70
demorado... Mas é importante que o senhor escreva uma
carta, agora, para a British and Foreign Bible Society
descrevendo a situação que o senhor vive no Brasil. Vou
lhe dar alguns tópicos”:

1 – Informe que recebeu a correspondência
da Sociedade Bíblica Britânica e que preencheu a
ficha de colaborador.
2 – Mencione que já recebeu a nossa fatura
de concessão de Bíblias e que aguarda a remessa
das mesmas.
3 – Se tiver dados disponíveis, faça um
relato da situação dos evangélicos, no Brasil e na
sua área de trabalho.
4 – Conceda informações sobre as
Comunidades Evangélicas localizados em sua área
de trabalho.
5 – Descreva um pouco sobre a situação na
qual vivem os evangélicos, informando se existem
pessoas que podem colaborar com a Sociedade
Bíblica.

Pastor Voges levou mais de duas horas para
redigir a carta e para, depois, novamente passá-la a
limpo. Mesmo assim não estava satisfeito com as
palavras iniciais da carta. Afinal, o texto foi escrito às
pressas. Ele tivera o desejo de fazer perguntas ao
reverendo Main sobre o modo de dizer determinadas
coisas. Mas o reverendo já fora embora, para o navio.

Voges enviou a correspondência através de um
dos tripulantes, que ainda se encontravam em terra
trabalhando na conclusão do novo mastro para o navio.

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
71
Texto da Carta do P. Voges à Sociedade
Bíblica - (Traduzida do alemão)

Vossa Excelência:

Recebi corretamente os vossos papéis de
27 de janeiro de 1827 e a fatura referente a 100
Bíblias e 250 Novos Testamentos, encadernados,
que a mui respeitável British and Foreign Bible
Society se digna a doar para o bem da
Comunidade Evangélica de São Leopoldo e que
serão a mim enviados através de Mathias Main, do
Rio de Janeiro. Mas visto que ainda não recebi
essa doação à qual me inscrevi com o Sr. Main,
sabendo que estas Bíblias chegarão ao Rio de
Janeiro. Mandarei notícias sobre o correto
recebimento assim que a doação chegar.

V. Exa. Bem como a mui respeitável
Sociedade tem manifestado o desejo de saber a
respeito do número de membros da minha
comunidade e o número de suíços no Brasil. Por
isso passo a relatar, em seguida, o número
conforme consta em meus registros.

No RIO DE JANEIRO existem 2.500
militares alemães dos quais 2.000 são
evangélicos. Não conheço o número de habitantes
evangélicos que residem no Rio de Janeiro.

Em Pernambuco existem 600 pessoas
alemãs, das quais 581 professam a religião
evangélica. Este número está aumentando pelo
número de novos colonos que estão imigrando. Os
militares demitidos são enviados às colônias
alemãs.

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
72
A COLÔNIA DE SÃO LEOPOLDO, na
Província do Rio Grande do Sul, de 12 léguas
quadradas, tem 308 famílias, 1130 almas. Destas,
apenas 52 famílias, 230 almas professam a
religião católico romana.

A segunda na mesma Província, a COLÔNIA
DE SÃO PEDRO DE ALCÂNTARA, de 28 léguas
quadradas, conta agora com apenas 96 famílias,
448 almas, das quais 8 famílias, 27 almas,
professam a religião católico romana.

Ao norte da missão, imigraram no final do
ano, 12 famílias e alguns solteiros, naturais do
Grão Ducado de Mecklemburgo. Já tinham
chegado à capital do Rio de Janeiro, como tinha
sido acertado. Mas, para assegurar aos colonos o
urgente estabelecimento em suas propriedades, o
governo os enviou para o interior, em terras que
estavam habitadas por índios convertidos.

Na Província da BAHIA, a Colônia Alemã de
Leopoldina, denominada segundo o nome de Sua
Majestade, a saudosa Imperatriz do Brasil, teve a
8 de agosto de 1825, data em que me foi enviada
a lista constando 80 famílias, 345 almas, em parte
suíços reformados, em parte menonitas e
protestantes alemães.

A COLÔNIA SUIÇA DE NOVA FRIBURGO, na
Província do Rio de Janeiro, no distrito de
Cantagalo, tem agora 130 famílias, 430 almas, de
reformados da suíça francesa e 96 alemães, 237
almas, protestantes.

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
73
Para os REGIMENTOS ALEMÃES, por falta
de pregadores evangélicos não está contratado
um pregador (capelão).

As Colônias Alemãs do Brasil recebem um
pregador, um professor, um médico e uma
farmácia.

O ministério de pregador evangélico, em
São Leopoldo, está sendo atendido pelo Sr.
EHLERS, do Reino de Hannover (anteriormente
sacristão-mor em Hamburgo. O professor da
Colônia de São Leopoldo é o Sr. GEORG HEINRICH
MOOTZ, do Reino da Prússia, Província de Hessen
Renano (formado na Escola Normal do Ducado de
Hesse, em Friedberg).

A segunda Colônia Alemã no Brasil, SÃO
PEDRO DE ALCÂNTARA, onde eu estou atualmente
como pregador, construiu o primeiro templo
evangélico no Brasil, com 66 pés de comprimento,
24 pés de largura, tudo feito na mais bonita
madeira de cedro, mas no interior ainda
inacabado porque minha comunidade e eu somos
ainda por demais pobres para completar a igreja
adequadamente. Esperamos por novos imigrantes
para com a ajuda deles, arrumá-la
completamente. O professor da Colônia é PETER
PAUL MÜLLER, do Reino da Prússia, Província da
Renânia, formado na Escola Normal real Prussiana
de Neuwied (um moço erudito, do qual tenho as
melhores esperanças de que irá semear boa
semente nos corações de seus alunos, semente
esta que trará bons frutos também nos anos
posteriores de suas vidas).

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
74
V. Exa. E mui respeitável British and
Foreign Bible Society se dignam a me oferecer um
número maior de Bíblias para as Comunidades
Alemãs no Brasil, se delas eu necessitar. Aceito a
oferta benévola, pedindo mais 800 Bíblias e 800
Novos Testamentos.

Nos corações de todos os alemães,
protestantes e católicos, se faz sentir a falta de
livros de edificação espiritual. Na família que
possui uma Bíblia, as Sagradas Escrituras estão
sendo lidas muito mais. E, está lhes sendo
atribuído um valor muito maior do que na
Alemanha. O pai de família, o qual possui uma
Bíblia, lê aos seus familiares um capítulo da
Sagrada Escritura aos domingos e feriados, e, eles
cantam alguns hinos que aprenderam em sua
juventude, ou hinos de edificação espiritual que as
crianças aprendem na escola. Nisto consiste seu
culto, pois é impossível assistir as prédicas todos
os domingos, em parte por causa da distância da
casa do Pastor, e em parte também por causa do
tempo frequentemente chuvoso e, desta maneira
a religião de JESUS está se alastrando mesmo em
face dos maiores impedimentos.

V. Exa. e mui respeitável Sociedade Bíblica
querem também saber se houvesse porventura
alguns membros da Comunidade Alemã que se
pudessem pagar uma certa quantia para uma
Bíblia ou Novo testamento, em língua portuguesa.
Notifico a V. Exa. e a mui respeitável Sociedade
Bíblica de que a maioria dos colonos pode pagar
uma certa quantia para uma Bíblia ou Novo
Testamento. Peço remeter-me algumas Bíblias,
sobretudo 200 Novos Testamentos em língua
portuguesa, visando acender a verdadeira luz das

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
75
Sagradas Escrituras também nos pobres
portugueses. É que na cadeira dos apóstolos e dos
profetas estão assentados líderes cegos que não
possuem a maneira de pensar dos apóstolos.
Entre a grande maioria dos sacerdotes, no Brasil,
raras vezes se consegue um Novo Testamento e
muito menos ainda uma Bíblia inteira. Entre os
leigos nem se acha um Novo Testamento nem
uma Bíblia inteira. Só um rosário. Existe pois,
muito mais é ignorância e superstição.

Tomo também a liberdade de notificar a V.
Exa. e mui respeitável Sociedade Bíblica, de como
estão sendo tratados os colonos alemães aqui no
Brasil:

1º - Eles são subsidiados por Sua
Majestade, o Imperador. Durante dois anos
recebem subsídios: 8 vinténs por cabeça e
por dia. Um pai de família que tem uma
família numerosa, vive em melhores
condições do que alguém que tem a família
pequena. Daí um pai de família que vivia
na miséria na Alemanha, é um abastado
aqui.
2º - Os colonos recebem os
instrumentos para a lavoura.
3º - Os colonos recebem a roupa
mais indispensável.
4º - Durante 10 anos recebem
médico e remédios gratuitos.
5º - Durante 10 anos estão livres de
impostos estatais.
6 – Cada colono recebe 600 jugadas
alemãs12 de terra

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
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7º Cada colono recebe 3 cavalos, 1
vaca com bezerro, 2 bois de canga, porcos,
gansos e galinhas.

Os colonos também recebem suas casas,
construídas em estilo brasileiro. O clima aqui, é
moderado. Há duas estações, a chuvosa e a seca.
E, uma primavera perpétua. Medram aqui todas
as plantas e frutas européias.

Recomendamos à futura estima de V. Exa.
E da mui respeitável Sociedade, tenho a honra de
chamar-me o mais atencioso servidor de V. Exa.

CARL LEOPOLD VOGES
Pregador da Colônia de São Pedro de Alcântara
(Três Forquilhas).
Éforo das Comunidades Protestantes no Brasil.

Colônia de São Pedro de Alcântara, 02 de
fevereiro de 1827.

Fonte: do livro do autor: “Três Forquilhas 1826 – 1899”.
p. 40 a 43.

Análise da Carta de pastor Voges à Sociedade
Bíblica.

A carta do Pastor Voges, escrita às pressas, em
Torres, para a British and Foreign Bible Society revela
alguns aspectos curiosos. Em particular chama a
atenção que o pastor concede uma tênue referência que
indica para a presença do grupo de colonos em Três
Forquilhas. Fala de doze famílias e alguns solteiros. Ele
não cita o nome do local, mas esclarece que é mata

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
77
virgem, ocupada por índios. Ele fala também sobre a
construção do templo evangélico de sua Comunidade. Ele
descreve aquilo que é o seu grande sonho. Cita que a
obra é feita com a mais bonita madeira de cedro.
Naquela data, ao redigir a carta, o templo de madeira era
ainda um projeto, apenas autorizado por Paula Soares,
sem o início das obras. O que, na verdade, existia, era
uma rústica choupana de palha de palmeira.

Fica evidente que pastor Voges inseriu no teor da
carta o seu maior sonho, além de expor as suas idéias e
preocupações sobre a presença dos imigrantes
protestantes em solo brasileiro.

Que haja uma esperança, enquanto
existimos...

O Coronel Paula Soares e pastor Voges estavam
diante de duas carretas. O carpinteiro Gross e duas
duplas de serradores sendo dois negros escravos de
Torres acomodavam uma serra, ferramenta preciosa para
o trabalho que teriam pela frente. Seguiam ainda, no
grupo, dois carpinteiros, soldados do destacamento, em
condições de apoiar o trabalho de Gross. Paula Soares
comentou com Voges: - “A sua obra de igreja-escola será
uma empreitada simples, pois todo o material para a
construção poderá ser encontrado na nova Colônia. O
que me preocupa é um problema que teremos em junho
ou julho quando as primeiras famílias serão assentadas
em seus lotes de terra já definitivos. Pretendo mandar
telhas daqui, para que se comece a construir as casas
daqueles que lá estão, a começar pelo Comandante
Schmitt e, em seguida, o médico Dr. Elias. O transporte
de telhas será bastante pesado para os nossos

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
78
carreteiros. Precisaríamos de um transporte alternativo e
prático”.

Voges muito atento opinou: - “Coronel, ouvindo as
suas palavras sobre um transporte alternativo, preciso
dizer que o meu futuro concunhado, o barqueiro Peter
Friedrich Petersen, está sonhando desde que aqui
chegamos. Ele fica olhando para as águas da Lagoa e
sonha em ter uma balsa ou barca para estabelecer um
transporte de pessoas e de carga, entre Torres e Três
Forquilhas”.

- “Pastor Voges, por que não me falou antes,
desse sonho do barqueiro? É evidente que o assunto me
interessa...” - Disse o Coronel.

Voges em tom de pedido de desculpas falou: - “O
problema é que Petersen não quer perder a oportunidade
de receber um lote de terra em Três Forquilhas”.

- “Mas isto se resolve”. - Disse Paula Soares. -
“Ele poderá ser contemplado com terra, e ter, além
disso, uma balsa ou barca para transporte, no objetivo
de ligar Três Forquilhas com Torres. Deixa este homem
aqui comigo. Ele não poderá ir contigo, agora. Preciso
resolver esta questão do transporte mais pesado, com
urgência, para aliviar a situação dos meus carreteiros”.

Petersen e esposa estavam ali prontos, para
acompanhar Voges até Três Forquilhas. Quando ele
soube do parecer de Paula Soares, se emocionou muito.
Abraçou longamente a esposa, e falou: - “Catharina,
você vê? Estive certo o tempo todo, com o meu sonho? A
navegação pelas lagoas é viável. Vou ter a minha barca.
Eu sei que alguns sonhos se desfazem, pois nem tudo em
nossa vida pode se concretizar. Mas sei também que a
esperança não deve acabar, enquanto existimos... O

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
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Voges não pregou no ano novo, com tanta ênfase, sobre
o perseverar? Pois é... Acredito agora que perseverar é
também manter a minha esperança”.

Petersen retirou suas coisas de uma das carretas
e Voges passou a se despedir das pessoas que haviam se
reunido diante da sede administrativa de Torres. Vendo a
presença de Mittmann perguntou: - “Você não quer
enviar algum recado ao seu concunhado, o Justin?”.

Mittmann meneou a cabeça negativamente e
respondeu: - “Não tenho nada especial para meu
concunhado. Além disso, considero que ele é muito
jocoso, com coisas sérias. Não gosto quando ele me
chama de Dickkopf (cabeçudo). Nunca sei se ele fala isso
porque a minha cabeça é maior que a dele ou se é para
deboche. Não quero nem pensar em receber a alcunha
de Dickkopf. Gosto quando me chamam de Biebelmann
(homem da Bíblia). Justin e eu somos concunhados, é
verdade. Mas o que significa isto? Eles levam a vida deles
e eu e minha mulher precisamos levar a nossa vida”.

Voges não conseguiu segurar um sorriso. Depois,
dirigindo-se a outras famílias, quis saber: - “Alguém mais
tem parentes lá?”.

Johannes Niederauer se apresentou então e falou:
- “Diga para a minha querida prima Dorothea, a esposa
do Feck, que precisa colocar um pouco de juízo na
cabeça do marido. O Feck vive correndo para tudo que é
lado, fazendo todas as vontades do Comandante Schmitt.
Se o Feck não começar a trabalhar para si mesmo,
amanhã será um homem pobre, como tanta gente que
vive lá na Europa, dependendo dos donos das terras e
trabalhando para a riqueza deles”.

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
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As palavras de Niederauer estabeleceram um
breve silêncio. Voges quis saber: - “Para o seu irmão
Philipp Niederauer, algum recado?”.

- “Ah sim. Um bom parto para a minha cunhada e
que o meu irmão aproveite para escolher um bom local
para a nossa casa comercial...”.

König aproximou-se e lamentou: - “Pastor, você
não imagina a vontade que eu tenho para acompanhá-
los. Mas eu preciso demorar mais algumas semanas ao
lado de minha mulher, para que ela se restabeleça
totalmente e possa cuidar bem do Bartolomeus. Informe
o Comandante Schmitt, e aos demais, da minha alegria”.

- “Jacoby está voltando conosco. Sei que ele fará
o que você pede, pois vai querer dizer, com orgulho, que
ele tornou-se padrinho de batismo de Johann Bartoleus
König”.

- “É certo que sim”. - Disse Jacoby.

Nisto chega a esposa de Eigenbrodt, apressada: -
“Que bom. Vocês ainda não saíram. Digam ao meu
marido, que ele poderia voltar para cá por alguns dias. Já
estou morrendo de saudade... O meu amor por ele é
muito grande... Meu marido que não permita que nossa
criança cresça sem poder dizer papa (papai)...” -
Diversas pessoas riram imaginado que fora uma tirada de
humor da senhora Eigenbrodt.

- “Mais alguém...”. - Perguntou Voges.

Mittmann aproximou-se outra vez e quis saber: -
“Pastor, como fica o atendimento religioso das pessoas
aqui em Torres, durante a sua ausência. Você esqueceu

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
81
de falar a respeito disso durante o culto, na noite de 31
de dezembro?”.

- “Mittmann, você está aqui com eles. Para
qualquer emergência que surgir, tenho certeza que irão
te buscar...”. - Disse Voges.

As carretas estavam prontas para a viagem.
Pastor Voges subiu para a sela do seu cavalo e seguiu ao
lado das carroças, em meio aos soldados. Agora não
havia mais a necessidade de contornar a área que
estivera sob o domínio do terror dos campos da Itapeva.
E Voges, virando o corpo, sobre o dorso do cavalo, ainda
recomendou: - “König, esquecemos de falar aqui, sobre a
bravura do Bobsin. É um bom assunto para entreter o
povo, contando-lhes uma boa história, e que é
verdadeira”.

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
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O PROGRESSO CHEGOU...

Em Três Forquilhas, grande foi a satisfação com o
retorno de Voges e do grupo de trabalhadores. O
agrimensor Voss já viera antes do ano novo e não
soubera dar muitas novidades, além da reunião que ele
tivera com Paula Soares.

Voges decidiu então passar pelos quatro núcleos,
em companhia de Jacoby, para relatarem as novidades e
também para dar notícias sobre parentes, amigos ou
conhecidos que alguém tivesse deixado em Torres.

Ainda na primeira semana do mês de fevereiro,
iniciou a construção da igreja/escola, de madeira, e a
construção do cemitério. O pastor indicou o local exato
onde queria o templo, dando as medidas e a localização
de portas e janelas.

O trabalho das duas duplas de serradores passou
a ser a grande novidade.

- “O progresso chegou até aqui”. - Disse
Niederauer satisfeito.

Até então toda e qualquer madeira para
construção tivera que ser faquejada, a machado, com a
ajuda de soldados e dos índios caingangues.

- “Para onde foram os índios?”. - Quis saber
Voges, quando em visita ao Comandante Schmitt.

- “Eles foram dispensados, pois não havia mais
nenhum rancho a ser construído. Além disso, eles
começaram a ficar impacientes e queriam voltar à vida
deles, de caça, pesca e liberdade”.

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
83
- “Que gente estranha!”. - Disse Elisabeth, a
mulher do Comandante. - “Eles tomam banho todos os
dias. Será que não ficam doentes com isto?”.

Dr. Elias Zinckgraf, ali presente, riu muito e falou:
- “Pelo contrário, isso deve ser muito bom para a saúde
deles, mais ainda neste mormaço que se faz aqui, nesta
época do ano”.

O assunto da conversa, por um bom tempo foi a
respeito do costume dos índios, dos alimentos que eles
traziam, colhidos na margem do rio e na floresta.

Elisabeth Schmitt comentou: - “Descobri agora
que aquela folha grande que foi usada na ceia de natal,
para sobre ela colocarmos a nossa comida, é, na
verdade, um alimento dos índios. Comem a raiz dessa tal
de taioba e até as folhas eles mastigam. Vendo isso
pensei que não poderá fazer mal para nós e preparei um
pouco. Apenas precisamos nos acostumar com o gosto
que é diferente de tudo que já utilizei como alimento”.

O Comandante Schmitt chamou o pastor para um
lado. De modo sigiloso, confidenciou ao pastor, ser um
integrante da maçonaria alemã. Por isto conseguira um
entendimento reservado com o Coronel Paula Soares,
também integrante da maçonaria, aqui no Brasil. A
verdade é que Comandante Schmitt não se agradara,
nem um pouco, com a situação geográfica do vale do rio
Mampituba e por nenhuma hipótese ali desejara morar.
Isto o levara a apelar para a compreensão do Coronel,
solicitando a possibilidade de ser deslocado, juntamente
com as famílias protestantes que o quisessem
acompanhar, para um novo ponto, com a desculpa de ir
cultivar as sementes trazidas da Europa. Paula Soares
então se dispusera a enviá-los para a mata virgem do
vale do rio Três Forquilhas, que poderia ser desbravada.

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
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O pastor Voges ouviu, compreensivo, e
respondeu: - “Eu já sabia da sua ligação especial com o
Coronel Paula Soares. Bem compreendo que a nossa
presença aqui, pode ser considerada como sendo
privilegiada...”.

Comandante Schmitt fez um sinal ao pastor e eles
retornaram para o meio do grupo reunido. O
Comandante falou então sobre a satisfação de saber que
Paula Soares iria a Porto Alegre para conseguir, a
oficialização da Colônia Alemã de Três Forquilhas, para
dar início à construção de casas para os colonos.
Perguntou ao pastor, algo que ele já sabia: - “Pastor
Voges, então, depois da igreja a minha casa será a
primeira a ser construída?”.

- “Sim, ele estabeleceu que a sua casa será a
próxima construção, pois será a sede administrativa na
Colônia. Em seguida virá a casa do médico. Depois
chegará a vez daqueles que já estão aqui, trabalhando
nos quatro núcleos, ajudando na medição dos lotes de
terra”. - Explicou Voges.

O médico falou: - “Nossas choupanas são muito
precárias. Tenho medo de ficar sozinho, à noite, em meu
rancho, imaginando que uma cobra ou um animal feroz
possam vir e me molestar. À noite venho aqui, com a
licença do Comandante. Já tenho agora o meu cantinho
particular, para conseguir dormir sossegado”.

Feck entrou na conversa: - “Temos por aqui um
animal parecido com um gato grande, todo pintado. À
noite ele vem rondar a nossa choupana. Os soldados
disseram que o bicho se chama onça e que ele come
crianças. Precisamos, portanto, ter cuidado...”.

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
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Elisabeth Schmitt olhou para a barriga da
Dorothea, esposa do Feck e falou: - “Olhem para a
Dorothea. Ela deve estar bem perto de dar a luz. E o que
faz o marido? Ele fica aí assustando a mulher com
histórias de bichos que comem crianças...”.

Comandante Schmitt concordou com a esposa: -
“Temos que aprender a lidar com todas as coisas que nos
são novidade. Até com os animais daqui... Nossa vida
será muito diferente daquilo que até aqui estivemos
acostumados.”.

Nasce a primeira criança na nova Colônia

No dia 10 de fevereiro de 1827, ao entardecer, o
médico Dr. Elias Zinckgraf está mais uma vez visitando
Dorothea Feck. Ele é recebido por Margarida, esposa de
Nicolau Hellwig que, há diversos dias, está prestando
cuidados à parturiente.

Dorothea, assim que vê o médico, queixa-se: -
“Doutor. Estou preocupada. O bebê parece estar com
problemas. Ele não se mexe mais tanto como há dias
atrás. O que pode ter acontecido?”.

- “Está tudo normal”. - Respondeu ele. - “O caso é
que o espaço dele, no útero, ficou menor, pois ele
cresceu. É sinal de que está ficando pronto, para nascer”.

- “E o que o senhor me diz das câimbras nas
pernas. Veja os meus tornozelos. Eles estão inchados.
Além disso, aumentou a minha azia”.

- “Isto também é normal. Não constato nenhum
problema na senhora. A sua aparência é muito boa”.

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
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Dr. Elias Zinckgraf continuou fazendo uma
observação cuidadosa da paciente e falou: - “O parto
está próximo. Poderá ocorrer ainda durante esta noite.
Sem tardar, amanhã cedo, a senhora já terá a criança
nos braços”.

Em seguida o médico dirigiu-se, como de
costume, até o rancho do Comandante Schmitt, onde a
sua janta como sempre estava à espera. Ele falou para
Elisabeth Schmitt: - “Vou me recolher mais cedo. Creio
que nesta noite ou amanhã terei serviço a fazer lá nos
Feck”.

Deviam ser três horas da madrugada quando o
Feck chamou pelo médico: - “Doutor. É bom que o
senhor levante. Minha mulher vai ter o bebê...”. -
Rapidamente Dr. Elias se aprontou e seguiu à casa dos
Feck.

Elisabeth Schmitt também já se encontrava ali e
disse: - “Doutor, sei que a minha ajuda pode ser
necessária. Felizmente o Feck deixou o fogo aceso. Vou
já colocar uma água para ferver”.

Dr. Elias tomou o pulso de Dorothea e depois
perguntou pelas contrações. Ela respondeu: - “Doutor.
Eu não sei, pois esta é a minha primeira gravidez”.

O médico, observando atentamente a paciente
falou: - “O processo de parto está em andamento”.

Ele pegou uma vela da valise e orientou: - “Puxe
ar para seus pulmões. Ponha o ar para fora. E, agora,
faça de conta que esta vela está acesa. Sopre como se
quisesse apagá-la”.

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
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Dorothea seguiu as instruções. Ele ordenou a
repetição do mesmo procedimento, por uma dezena de
vezes. Quando o médico constatou que as contrações de
Dorothea aumentavam, ele pediu: - “A senhora não está
disposta para cantar um pouco ou assobiar?”.

Elisabeth Schmitt olhou com ar divertido para o
médico e reclamou: - “O que é isso doutor? O senhor
pede que essa pobre mulher cante ou assovie, numa
hora destas?”.

Dr. Elias respondeu: - “Dorothea não é nenhuma
pobre mulher. Ela é rica. Daqui a pouco todos veremos o
tesouro que ela guardou durante nove meses. O bebê
que ela vai gerar é único. Não existem duas pessoas
iguais no mundo, mesmo que aqui tivéssemos hoje
gêmeas e que fossem idênticas. Frau Schmitt, não
existem duas pessoas iguais... Não é isto uma maravilha
da natureza!”.

Elisabeth silenciou. De repente o pensamento dela
vagou para o passado e vieram à sua lembrança as cenas
no navio, durante a viagem ao Brasil. A Sra. Schmitt
perdera duas de suas crianças, que foram sepultadas no
mar.

Dr. Elias perguntou novamente à Dorothea: -
“Queres cantar ou assoviar?”.

- “Não” - Disse ela.

- “Então grite... Vá gritando Ai! Ai! Ai! Muitas
vezes. Grite bem alto, sem receio”.

Dorothea correspondeu ao pedido do médico.
Alguns minutos mais tarde ela reclamou: - “Doutor,

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
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estou ficando cansada. Está me dando sono... O que
significa isso?”.

- “Não é nada”. - Disse ele. - “O bebê está vindo...
faça força agora... Força... Isso. Mais um pouquinho de
força... Ótimo. Nasceu! Aqui está o bebê”.

O médico cortou o cordão umbilical, limpou a
criança e falou: - “É uma menina! Parabéns para a mãe!
Parabéns ao pai! O parto foi perfeito...”. - Eram quatro
horas da madrugada do dia 11 de fevereiro de 1827.
Nascera a primeira criança da Colônia Alemã de Três
Forquilhas.

Quando o pastor, de manhã cedo, recebeu a
notícia do nascimento da menina dos Feck, foi
imediatamente até o rancho deles para uma visita.

O casal Feck logo quis saber: - “Pastor. Quando
poderá ser o batismo da menina?”.

- “Dia 14 estarei seguindo para Torres. Sugiro que
realizemos o batismo depois do meu retorno”.

- “Mas se o senhor demorar muito para retornar?
Não pode ser antes de sua viagem?”.

- “Pode. Mas terá que ser, sem tardar até o dia
13, à tarde”.

- “Lá na nossa igrejinha?”. - Perguntou Dorothea.

O pastor pediu desculpas: - “Não será possível,
pois o carpinteiro Gross tomou conta da nossa igrejinha.
Lá estão espalhadas as ferramentas dele e material para
a construção da nossa nova igreja de madeira. Ele pediu
o espaço para deixar todas as coisas dele protegidas de

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
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chuvas eventuais. Sobrou apenas um cantinho para mim,
onde durmo à noite”.

- “Que seja aqui em casa”. - Disse Feck. - “Venha
no dia 13 à tarde que estaremos esperando pelo senhor”.

No dia 13 vieram, para presenciar o batismo,
Philipp Niederauer, primo de Dorothea, e esposa. O
próprio Comandante Schmitt com esposa e filhinha
também compareceram. Eles mostravam ansiedade para
ver o primeiro batismo da Colônia Alemã em Três
Forquilhas.

O pastor pediu: - “Qual é o nome da criança? E
quais os nomes dos padrinhos?”.

Dorothea explicou: - “Escolhemos somente uma
madrinha, uma amiga muito querida lá de São Leopoldo.
Antes da viagem para cá, ainda conversei com ela.
Prometi que, se eu tivesse uma menina, ela se chamaria
Catharina, pois que a madrinha é Catharina Neumann”.

O pastor orientou então que alguém
representasse a madrinha. Apresentou-se Elisabeth
Schmitt, que agilmente tomou a criança nos braços e se
postou diante do pastor, dizendo: - “Façamos de conta
que também sou madrinha. Prometo que sempre estarei
atenta com esta pequena Catharina Feck, a primeira filha
de Três Forquilhas”.

Após a realização do sacramento, o pastor
declamou: - “Olhem aqui para a criança, vejam nela uma
semente do amanhã... Não se desesperem, nem parem
de sonhar. Não se entreguem, mas se renovem com as
manhãs! Deixem a luz do sol brilhar, no céu do vosso
olhar. Tenham fé na vida, tenham fé no amor e tenham
fé no que virá!”.

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A navegação pela Lagoa

O pastor chegou ao acantonamento de
Torres acompanhado de Eigenbrodt. Este estava decidido
para levar a sua família ao ranchinho, que já contava
como sendo seu, no núcleo nordeste da Colônia.
Ocorreram muitas demonstrações de alegria com a
chegada dos dois. Eles estavam trazendo alguns cachos
de butiás13 colhidos na planície da Itapeva. De Três
Forquilhas eles trouxeram também um cacho de
pacova14. A curiosidade era muito grande. O que era a
pacova?

O pastor explicou então: - “Comandante Schmitt
mandou este cacho de frutas que os índios lhe trouxeram
da mata. Parece ser um figo brasileiro...”. Mais tarde os
colonos descobriram que a fruta não era nenhum figo.
Era conhecida, entre os brasileiros, como sendo a
banana, alimento preferido dos macacos, dos pássaros e
dos índios.

Muitos rodeavam o pastor, fazendo perguntas,
desejosos de outras novidades, tais como o andamento
da medição de lotes e a construção da igreja. Quando a
curiosidade amainou e a calma se restabeleceu, Petersen
se aproximou do pastor cheio de entusiasmo: - “Meu
futuro concunhado, fiquei esperando que essa gente
largasse do seu pescoço. Tenho ótimas notícias para lhe
dar. Estive em diversos encontros com o Coronel Paula
Soares. Ele deu ordens e a construção da minha balsa já
teve início. Ficará pronta dentro de algumas semanas.
Por isto tenho pressa de ir mais uma vez contigo até Três
Forquilhas, pois é certo que depois terei que iniciar com
meu trabalho de navegação e transporte”.

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- “Você já teve contato com a navegação pela
Lagoa?”. - Quis saber Voges.

- “Sim, o destacamento militar possui um velho
barco à velas, pequeno e em estado precário. Mas ainda
dá para navegar. Criei coragem e aceitei o convite de
Paula Soares para que eu o levasse até o outro extremo
da Lagoa, onde existe um velho depósito deles.
Escolhemos um dia de bons ventos para partir. A nossa
aventura levou dois dias. Passamos perto da foz do rio
Três Forquilhas e alcançamos aquele depósito que agora
vai ser nosso, dos colonos alemães. A idéia do Coronel é
de que transportemos até pertences dos colonos, que
quiserem confiar em nosso trabalho. O percurso principal
será do Porto do Estácio até o depósito dos Alemães”.

Petersen continuou o relato: - “Vai ser instalado
um porto no rio Três Forquilhas no ponto mais no alto
que eu puder alcançar. As cargas para os colonos que
residirem no lado esquerdo, dos núcleos da sede e da
igreja, vão receber suas cargas no depósito dos alemães.
Os colonos que residem no lado direito do rio, nos
núcleos nordeste e sudeste, receberão as cargas no porto
do Três Forquilhas. O Coronel me garantiu que posso
continuar morando na minha terra em Três Forquilhas,
pois no começo, a atividade no transporte, no começo,
somente acontecerá em épocas determinadas, para fazer
uma experiência”.

O pastor Voges interrompeu o relato e perguntou:
- “Você e Catharina ficarão residindo aqui em Torres?”

Petersen reagiu rápido: - “De jeito algum!
Catharina conversou muito comigo sobre os nossos
planos futuros, e não quer saber de morar aqui. Sonha
com a vinda da irmã Elisabeth, casada contigo, para
serem vizinhas na nossa nova Colônia”.

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Figura 09: Voges e Petersen em Três Forquilhas.
Fonte: Gravura elaborada pelo autor, 1974.

- “Pretendo casar somente no próximo ano, talvez
em março de 1828, conforme os planos da minha
querida Elisabeth. Até lá minha cunhada Catharina terá
que se contentar com as outras vizinhas”. - Disse Voges.

Petersen continuou: - “Isso também já está
definido. Minha Catharina decidiu que vamos agora
contigo, para Três Forquilhas. Preciso voltar logo a
Torres, mas ela ficará no rancho do Philipp Niederauer,
cuidando da Catharina dele, que está grávida. Você sabia

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que a minha Catarina é parente da Catharina do
Niederauer: Aquela é uma Diehl...”.

- “Sei sim”. - Respondeu Voges. - “Pelo que me
contaram são primas... Portanto, é também uma prima
de minha futura esposa”.

- “Pois é! Ficou acertado entre elas que a minha
Catharina vai para cuidar da Catharina Niederauer.
Depois aquela cuidará da minha Catarina. Também
decidimos que o nosso nenê vai nascer na nossa nova
Colônia de Três Forquilhas, aos cuidados do Dr. Elias”.

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O PASTOR ESTENDE A MÃO AO PADRE

Paula Soares propiciou um encontro do pastor
Voges com o Frei Joaquim Serrano, Capelão de São
Domingos das Torres.

O coronel explicou: - “O nosso frei anda
preocupado com a presença de tanto povo protestante,
em Torres. Ele já quis saber, por diversas vezes, se todos
estes protestantes ficam aqui. Já o tranqüilizei, de modo
reservado, informando que a idéia é para que todos eles
sejam designados para compor a Colônia Alemã
Protestante de Três Forquilhas. Ouvi com satisfação, que
Frei Serrano considera este plano providencial, para ter o
rebanho católico nas proximidades dele e distante dos
protestantes”.

Pastor Voges sorriu, aproximou-se de Frei Serrano
e lhe estendeu a mão, dizendo: - “Sou o guia espiritual
do povo protestante desta área. Sou um pastor da
confraria da fraternidade e da paz, conforme já tive a
oportunidade de dizer para o nosso Imperador D. Pedro I
e também para o nosso amigo Coronel Paula Soares”.

Frei Serrano falava em um português bem
carregado de espanhol. Não fazia muito tempo que ele
viera se refugiar no Brasil, para escapar de perseguições
que lhe haviam sido movidas no Uruguai. Apertou a mão
do pastor e respondeu: - “Muchas gracias! Folgo em
saber que a sua Ordem Religiosa Protestante, é da
Fraternidade e da Paz. Neste caso tenho certeza que o
nosso relacionamento será amistoso”.

Frei Serrano teve um acesso de tosse. Paula
Soares explicou: - “O nosso frei está acometido de um
mal crônico da tosse de bronquite. Espero que o clima de

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Torres seja salutar e o ajude na melhoria da saúde. Além
disso, na minha botica, que funciona aqui no Baluarte
Ipiranga, temos bons medicamentos e um bom boticário,
para tratar do mal do frei”.

O encontro de Voges com Frei Serrano não foi
demorado. O frei explicou rapidamente ser da Ordem dos
Franciscanos, mas com a expectativa de passar a ser um
padre, para não mais retornar ao convento.

Quando o frei se afastou, o Coronel Paula Soares
falou: - “Quero confidenciar-lhe que Frei Serrano insiste
para que os protestantes não permaneçam nas
proximidades de Torres. Ele se dispõe a me acompanhar
até Porto Alegre, para também interceder junto ao
Governo, com a solicitação de colocar os protestantes em
outro lugar”.

Pastor Voges nada falou, apenas dando sinal de
estar muito interessado no assunto. Paula Soares
continuou: - “Fiz questão de propiciar este encontro.
Notei que Frei Serrano, quando soube que estou
aprendendo a língua alemã, quis saber a respeito do meu
mestre. Quando soube que se tratava de um pastor
protestante, ele ficou muito preocupado e com ciúmes.
Espero que agora ele fique mais tranqüilo...”.

Pastor Voges sorriu e agora comentou: - “A minha
explicação sobre a posição religiosa que eu adoto, de ser
da confraria da fraternidade e da paz, tem ajudado, um
pouco, a derrubar barreiras. Em São Leopoldo, também
tive encontro com sacerdotes católicos. Lá, também
estão mostrando preocupação com a vinda de tanta
gente protestante, para viver no meio deles. Em São
Leopoldo, os católicos e os protestantes estão misturados
num só lugar. Acredito que aqui será menos conflitante.

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Se estamos indo para uma Colônia distante de Torres, é
certo que ficaremos bastante isolados e longe deles...”.

Voges enfatizou ainda o fato da comunidade
protestante estar entrando em forte isolamento, sem
este contato constante e diário que, até ali vinha
ocorrendo, com os católicos de Torres. Voges pediu
licença, seguindo até a mesa de trabalho do Coronel.
Puxou um papel em branco que ali se encontrava e
escreveu: Kuh.

Paula Soares encarou o pastor com seriedade e
quis saber: - “O que ocorre? Não entendo? Algo que falei
sobre a posição de Frei Serrano com relação aos
protestantes, lhe incomodou?”.

O pastor tomou novamente a caneta e
acrescentou: Vaca. - “Precisamos de mais algumas vacas
em Três Forquilhas... Já nasceu a primeira criança na
Colônia e, outras estão para chegar... Depois de
amamentadas pelas mães, estas crianças vão precisar do
leite de vaca...”.

Coronel Paula Soares deu uma sonora gargalhada,
divertido com a situação que se estabelecera.

- “Eu já sabia que Vaca, na língua alemã, é Kuh.
Mas preciso confessar que fui surpreendido, sem ligar
esta palavra escrita com as nossas aulas de línguas. No
tocante ao seu pedido, posso tranqüilizá-lo, já estão
selecionadas algumas vacas de leite, que servirão neste
propósito. No seu retorno para Três Forquilhas um peão
o acompanhará, para conduzi-las...”.

Voges agradeceu por mais este sinal de atenção,
tão grande e especial, que Paula Soares vinha dedicando
aos imigrantes colonizadores. Despediu-se para tomar o

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rumo do acantonamento, onde desejava resolver mais
algumas coisas, antes de voltar para Três Forquilhas.

Médico, sempre é bom ter mais que um...

Quando o pastor saía do Baluarte Ipiranga, foi
abordado por Johann Jasper. Voges imaginara, até então,
que Jasper, que, ocasionalmente, fazia a vez de médico
entre os colonos, fosse um imigrante católico.

Jasper falou: - “Pastor Voges. Precisamos
conversar... Talvez o senhor possa me ajudar... Estou
com um problema... Preciso sair deste lugar... Sou um
enfermeiro militar... Estive a serviço do exército
francês... Vim para servir o Imperador D. Pedro, do
Brasil, mas agora estou dispensado em virtude de
problemas de saúde. Pretendo permanecer nesta região
para estabelecer um ponto que seja bom para a minha
prática da medicina... Um lugar onde eu possa ser mais
útil para todos e, acima de tudo, para garantir o sustento
para minha esposa Anne Marie, para minhas filhas e para
meus filhos. Se eu for designado para o vale do
Mampituba, entre os colonos, como se um agricultor eu
fosse, morreremos de fome, eu e a minha família”.

- “Em que posso ajudá-lo?”.

- “Ouvi o senhor dizendo para nosso Imperador D.
Pedro, do seu vínculo com a Confrérie de la fraternité,
l’egalité et de l’iberté. Pois também tenho esses vínculos.
Por isto creio que a sua ajuda será fundamental para que
eu os possa acompanhar rumo ao vale do Três
Forquilhas”.

- “Não sou maçon”. - Disse Voges, com firmeza.

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- “Nada tema, pastor”. - Continuou Jasper. -
“Posso contar com a sua discrição e a sua intervenção,
para a minha inclusão entre os colonos protestantes?”.

- “Fico até feliz com isto. A sua presença na área
da nossa Colônia Protestante talvez servirá muito, no
futuro que ainda é incerto para nós”. - Disse Voges.
“Sempre é bom ter mais alguém com conhecimento de
medicina e remédios, para o tratamento dos males que
venham a afligir o nosso povo. Posso incluí-lo na relação,
sim. Porém, é necessário que apresente ao Coronel Paula
Soares, a sua condição religiosa.”.

- “Paula Soares já me conhece bem. Ele já sabe
que sou um intelectual e livre pensador. Não tenho
vínculo com a igreja... Portanto, não sou católico, nem
protestante...”.

- “Neste caso não vejo nada que impeça a sua ida
para a nossa área. Onde pretende se radicar?”. - Quis
saber Voges.

- “Tenho um acerto firmado para adquirir um
ponto comercial nas proximidades da passagem do
Sangradouro ou Canal Taraba, que fica depois da Lagoa
do Armazém (Itapeva), e antes da Lagoa da Concha
(Lagoa do Ignácio ou Quadros), na borda da praia e que
já é a passagem principal para entrar na Colônia de Três
Forquilhas. Ali será um ponto estratégico, para me
estabelecer, em condições de socorrer os viajantes e
atender os fazendeiros açorianos das proximidades, que
não possuem a presença de um médico”.

Voges ainda estava surpreso com a conversa e
pediu por mais detalhes: - “O seu nome ficará, portanto,
incluído na relação de colonos, para receber seu lote de
terra na Colônia de Três Forquilhas?”.

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- “O meu nome precisa estar incluído na sua
relação para que a minha família possa ser movimentada
para aquela área de colonização. Estarei aproveitando o
deslocamento para Três Forquilhas, para, depois, sem
mais tardar me fixar no referido Sangradouro. Tenho a
quantia necessária, em dinheiro, para adquirir aquela
pequena propriedade”.

Johann Jasper e o Pastor Voges apertaram as
mãos, selando, desta forma, o entendimento que haveria
de ajudar este imigrante alemão em sua fixação no
referido Sangradouro.

“Te amo mais que tudo no mundo...”

O casal Petersen aproveita o entardecer, para um
passeio pela margem da lagoa mais próxima. Eles terão
mais esta noite e então, partirão com o pastor até Três
Forquilhas. Catharina ficará na casa dos Niederauer por
algum tempo. Ele terá que voltar logo, de novo, a Torres,
para acompanhar a construção da balsa, para fazer uma
experiência de navegação pela Lagoa Itapeva.

Vão caminhando pela areia, braços dados, felizes
e cheios de planos para o futuro.

Ao chegar próximo das águas da lagoa, Peter se
aproxima mais ainda de Catharina e a rodeia com os
seus braços fortes de navegador e remador, porém, de
modo terno e gentil. Pergunta quase aos sussurros: -
“Será menina ou menino?”.

Ela ri e também abraça o marido com força,
respondendo baixinho: - “Não fará diferença, não é? Que

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100
venha o que Deus nos conceder, pois o nosso amor será
o mesmo, seja menina, ou seja, menino...”.

- “Querida, te amo mais que tudo no mundo...”.

Figura 10: Enamorados, em Torres, diante da Lagoa.
Fonte: Gravura elaborada pelo autor, 1974.

Catharina começa a cantar. Ela lembrara de uma
canção de amor que ela aprendera com a mãe, quando
menina. Peter olha enamorado para a sua amada e
segura sua mão com mais força ainda. Depois que ela
finaliza a canção, ele diz: - “Como seria bom se
pudéssemos segurar este momento, para sempre, por
todo o tempo e até na eternidade”.

- “Você sabe o que o pastor falou no nosso
casamento, quando ele pediu os nossos votos de
fidelidade? Ele disse ‘até que a morte os separe’...
Depois, na eternidade o que será?”.

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
101
- “Querida, não vamos falar de morte. Falemos de
vida... Falemos de amor...”.

Os dois ficaram muito tempo, abraçados.
Encostaram as cabeças um no outro, em silêncio. Era
mesmo como se quisessem segurar o tempo. Ficaram
olhando para os últimos raios do sol, cintilando sobre as
águas tranqüilas da lagoa. O céu apresentava um
colorido que eles jamais haviam imaginado. Conseguiam
identificar os tons de lilás, rosa, vermelho, amarelo,
alaranjado, o azul e uma infinidade de seus matizes,
assim como o branco e o negro no céu. Eles não se
recordavam de algum dia, na Alemanha, terem visto
algum anoitecer que se apresentasse tão deslumbrante e
com tantas cores.

Enquanto isto, os pescadores, em suas canoas,
recolhiam o material de pesca e o resultado de mais uma
tarde de trabalho. Agora pretendiam passar no
acantonamento dos alemães para vender-lhes algum
peixe, para a janta.

Peter e Catharina decidiram retornar para casa.
Também comprariam um peixe para reforçar a janta
desta noite.

Leite é que não falta...

A viagem a Três Forquilhas, desta vez foi bastante
penosa, devido a uma forte chuva quando estavam
próximos ao Sangradouro, entre as Lagoas Itapeva e
Quadros. Buscaram refúgio num galpão de um
proprietário português. Paulo König fez um fogo para
secar as roupas dos filhos e da esposa, enquanto

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
102
aguardavam a chuva passar. Petersen também
aproveitou o calor para secar a roupa de Catharina.

Chegaram à Colônia ao entardecer. Pastor Voges
foi direto para o núcleo da igreja e teve uma boa
surpresa. A estrutura do templo já estava erguida. Gross
estava agora trabalhando em duas frentes, um grupo
estava fabricando tabuinhas para ser feita a cobertura do
templo, e outro grupo serrava tábuas para fechar as
paredes e fazer portas e janelas. Tratava-se de um
serviço muito lento que empregaria muitas horas,
semanas e talvez até mais de um mês.

Voges recordou então da carta que ele escrevera,
no dia 2 de fevereiro, para ser entregue ao reverendo
Mathias Main, da Sociedade Bíblica Inglesa. Naquela
oportunidade ele fizera uma descrição, com a visão da
igreja parcialmente concluída. No entanto, passadas
tantas semanas, ali via apenas um esqueleto do templo.
Faltava muita coisa para ter uma igreja em condições de
uso, mas estava satisfeito, pois a obra não parara.

Enquanto isso, Petersen foi à casa de Philipp
Niederauer. Confiando a eles a sua amada, disse: - “Que
a minha Catharina faça companhia e cuide da sua
Catharina, até que nasça o vosso bebê. Depois a sua
Catharina poderá cuidar da minha, quando estiver no
tempo para a chegada da nossa criança”.

O casal Niederauer recebeu Catharina Petersen
com muito carinho. A esposa de Niederauer falou: -
“Você não entra aqui para trabalhar, certo? A Frau Helbig
vem todos os dias me ajudar no serviço do rancho, para
lavar e cozinhar. O que eu preciso é da sua companhia
alegre e agradável...”.

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
103
E a senhora Niederauer continuou: - “Trouxeste a
tua flauta? Quero que o meu bebê possa escutar desde já
os sons de música e canto...”. - Catharina Petersen
mostrando a flauta, foi e abraçou fortemente a prima,
com muito carinho.

Petersen antes de se despedir disse: - “O pastor
conseguiu diversas vacas de leite. Eu trouxe uma para
deixar com vocês. Sei que precisarão alimentar mais
alguém em breve...”.

Niederauer agradeceu e levou a vaca para deixá-
la no pasto.

Paul König já se separara do grupo um pouco
antes de chegar ao Sítio das Três Figueiras, onde havia
um passo que dava para o outro lado do rio. Conduziu a
carroça até o seu rancho e teve uma bela surpresa. Ali já
se encontravam todos os moradores do núcleo sudeste,
que ao constatarem a aproximação da família König,
rapidamente se reuniram ali, diante do rancho deles.
Todos queriam notícias sobre aqueles que ainda
aguardavam em Torres e sobre a instalação definitiva da
Colônia.

A esposa de König foi logo com as crianças para
ver o rancho. Estavam ali diversas camas improvisadas.
Tudo estava limpo, o chão varrido recentemente. Sinal
que os vizinhos andavam por aí, de vez em quando,
preparando com carinho a chegada de pessoas, que eles
bem sabiam, viriam tomadas pela exaustão, depois de
uma longa viagem em carreta de bois.

O menino Peter König pegando na mão da
irmãzinha foi inspecionar as poucas coisas que existiam
no rancho. Parou diante de um tripé onde estava
pendurado um panelão. Paul explicou: - “Crianças. Este é

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
104
o nosso fogão...” Paul König voltou até o lado de fora do
rancho, lembrando que era preciso colocar no pasto, a
vaca que trouxera. Dirigindo-se aos vizinhos, que ainda
lá se encontravam, disse: - “Agora temos aqui mais uma
vaca leiteira. Vai sobrar leite todos os dias, para quem
necessitar...”.

O ferreiro Schütt sorridente informou: - “Pois eu
aceito a sua oferta. A nossa vaquinha está secando. E,
meus dois pequenos Brehm precisam de muito leite para
logo ficarem grandes e bem fortes para poderem me
ajudar na ferraria”. - Todos riram, olhando para os dois
pequenos filhos de Izabel Brehm Schütt.

Justin, sempre jocoso, que não perdia ocasião
para fazer troça e despertar risos, disse: - “O ferreiro que
tenha um pouco de paciência! Estes pequenos ainda vão
tomar muito leite e vão ter que comer bastante para só
daqui a alguns anos ter força para ajudar o padrasto.
Malhar ferro não é serviço para meninos...”.

Eigenbrodt com sua esposa e filhinha
atravessaram o rio, num passo próximo da igreja. Eles
também tinham pressa para chegarem ao rancho deles, e
então, tiveram uma grande surpresa. Os vizinhos Bobsin,
Marlow e Mauer haviam notado que se aproximavam do
núcleo deles. Foram ao encontro dos Eigenbrodt,
receptivos e alegres. Foi, sem dúvida, uma bela
surpresa: o ranchinho estava bem limpo e com sinais de
ter sido varrido recentemente. Uma cama bem mais
larga estava agora ali, num canto, com a palha coberta
com um pano de algodão, fazendo a vez de lençol.

Orgulhoso, Eigenbrodt indicou para a vaca que ele
trouxera, dizendo: - “O leite está garantido para nós. Se
alguém precisar, é só falar...”.

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
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O aspecto da Colônia já começava a dar os nítidos
contornos de um início de colonização. As diversas
choupanas em diferentes pontos das trilhas, nos núcleos
estabelecidos, davam sinal da presença dos
desbravadores. Algumas lavouras podiam ser vistas.
Alguns animais pastando, bois, vacas e cavalos. No
núcleo sudeste podia ser ouvida a bigorna do ferreiro,
com as marteladas fortes desferidas sobre o ferro em
brasa.

E, algo novo eram as vozes dos colonos alemães,
assobiando ou então cantando as suas canções
preferidas, enquanto trabalhavam. Era o despertar da
vida de uma comunidade em formação. Eram pessoas
confiantes e cheias de esperança, trabalhando com
entusiasmo no propósito de construir um futuro
promissor, para eles e para as suas futuras gerações.

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
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NASCE O PRIMEIRO HOMEM DA COLÔNIA

- “Nasceu o primeiro homem da nossa Colônia
Alemã de Três Forquilhas”. - Disse Dr. Elias Zinckgraf,
colocando o recém nascido nos braços de Catharina
Niederauer, que estava deitada sobre uma cama rústica
e sem conforto, tendo o marido ao lado, cheio de orgulho
e visível satisfação.

- “A mais nova mãe da nossa Colônia deve ser a
primeira a segurar seu filhinho”. - Acrescentou ainda o
médico.

A luz de duas lamparinas iluminava parcamente o
ambiente, deixando sombras se projetando para as
diferentes direções, à medida que as pessoas presentes
se locomoviam diante das mesmas.

Catharina chamou pela amiga Catharina Petersen,
que ali se encontrava, zelosa e atenta, e pediu: -
“Coloque logo uma roupinha nele, pois me parece que
está fazendo um pouco de frio”. - A madrugada estava
mesmo um tanto fria, apesar de ser outono.

Catharina Petersen falou ao médico: - “Doutor,
também estou grávida, conforme o senhor já deve ter
notado. Como não tenho nenhuma experiência para lidar
com um bebê, gostaria de lhe perguntar algo...”.

- “Ora, pergunte já. Se eu souber, também será
para já que terá a sua resposta...”.

- “Doutor. Quantos banhos diários a gente deve
dar num bebê?”.

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
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- “Um banho por dia, é bom. É necessário lavar
demoradamente todo o corpo do bebê, para então trocar
a água da gamela. Nunca guarde a água para ser usada
num outro banho e muito menos para o outro dia. Já
ouvi falar de mães que por comodismo guardavam a
água para os próximos dias... Imaginem o estado de tal
água, onde certamente nem se via mais o bebê, no meio
da sujeira... Penso que foi daí que veio aquele ditado
‘não jogue fora o bebê, junto com a água do banho’. Se
diziam isso, então é porque nem mais conseguiam ver
um bebê, em meio da água turva”.

Todos riram, achando graça nas explicações do
médico. Ele continuou: - “A falta de higiene acarreta os
mais inesperados males e até epidemias”.

Agora todos silenciaram, e o médico continuou: -
“Voltando à forma de preparar o banho do bebê, sei que
na Europa, as mães têm o costume de dissolver uma ou
duas colheres de aveia, na água... Isto é muito bom...
Outra coisa, que sempre recomendo, é que a água seja
levemente morna... Depois, para secar a criança, use o
pano mais macio que tiver em casa, de preferência de
algodão... O pano de algodão é leve... Outra coisa que é
preciso recomendar, para uma futura mamãe, é que se
acostume a trocar as panos do bebê, assim que ele
estiver molhado”.

Catharina Niederauer sorriu para o médico e
disse: - “Veja só que eu, hoje, me tornei mãe pela
segunda vez, pois já tive a pequena < Kathren >, que
está ali dormindo. Mas posso afirmar que a gente,
sempre, está aprendendo mais alguma coisa com o
doutor...”.

- “Isso é verdade”. - Disse o médico. “Confesso
que no breve tempo que estou aqui em Três Forquilhas

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
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já aprendi diversas coisas. Talvez vocês não imaginam,
mas aprendi muito, foi no contato que tivemos com
aqueles índios, que vieram construir as nossas
choupanas... Observei o costume que eles tem com a
limpeza. Notei como interrompiam o trabalho, de vez em
quando, iam até o rio para mergulhar na água, e
voltavam. Num dia muito quente que tivemos, eles
entraram na água doze vezes! Sim, eu contei, só naquele
dia, foram se banhar doze vezes! Percebi também que
são muito mais saudáveis do que nós, que viemos da
Europa. Penso que deveríamos nos render ao hábito
deles, mesmo que tem gente que os chamam de
selvagens ou de bichos do mato...”.

Dr. Elias Zickgraf pediu licença para retornar ao
seu rancho e ver se dormia ainda mais um pouco.
Chegando em casa, anotou à luz de uma lamparina: - Na
madrugada do dia 4 de abril de 1827, às 3 horas da
madrugada, nasceu Johannes Niederauer Sobrinho, o
primeiro homem e um legítimo filho brasileiro, dos
imigrantes colonizadores, que entraram no vale do rio
Três Forquilhas.

O batismo de João Niederauer Sobrinho

- “Qual será o nome da criança?”. - Perguntou o
pastor: - “Johannes”. - Respondeu o pai, todo
pressuroso. - “É o nome do meu irmão que será padrinho
do pequeno e também porque gostamos deste nome,
que é bíblico. É o nome de um dos doze apóstolos...”.

Voges concordou e acrescentou: - “É um nome
bíblico, sim. Tenho um livrinho onde está explicado que
Johannes significa ‘Deus é gracioso’”.

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- “Que Deus então seja gracioso com o nosso
menino”. - Disse Philipp.

- “Sim, Deus é gracioso. O batismo testemunha
isso para todos nós, que somos aceitos graciosamente,
como filhos do Pai Celeste”.

Era o dia 14 de abril de 1827. O pastor avisou: -
“Este é o nosso primeiro culto na nova igreja de madeira,
coberta com pequenas folhas de tábua. É a forma muito
simples para inaugurá-la. Ninguém pense que não temos
festa. Temos festa sim, pois será ministrado também o
primeiro sacramento do santo batismo. E só isso já é
motivo de festa em nossos corações...”.

Figura 11: Templo de madeira da Colônia de Três
Forquilhas. Fonte: Gravura feita pelo autor, com informações
do Sr. Alberto Schmitt, 1970.

O templo já estava com cobertura e com paredes.
Não havia nem forro e nem assoalho. Estavam pisando
sobre um simples chão batido. Mas era o novo templo,

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
110
por isto fazendo deste um momento ainda mais solene e
festivo.

O pastor improvisara um altar, com a
entronização de um dos exemplares da Bíblia Sagrada,
recebidos da Sociedade Bíblica Inglesa, do encontro
providencial que ocorrera em Torres. Sobre o altar viam-
se também duas velas acesas.

Catharina Petersen aproximou-se com uma alegria
indescritível e falou: - “Estou pronta para acompanhar os
hinos com a minha flauta”.

O pastor emocionou a todos. Falou sobre a
coragem, o trabalho e a disposição para esta vida
sacrificada, de todos que ali se encontravam, de famílias
reunidas e dispostas a construir uma comunidade de fé,
na esperança de quem acredita que uma vida melhor
está por vir.

O silêncio foi profundo quando a mãe levou o
menino diante do altar. Silêncio quebrado pela voz do
pastor dizendo: - “Johannes Niederauer Sobrinho, eu te
batizo em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”. -
Enquanto por três vezes colocava água sobre a cabeça do
mesmo.

Após a benção para a criança, para os pais e aos
presentes, o pastor, como já era do seu costume,
declamou: - “Olhem para este menino. Vejam nele uma
semente do amanhã... Que a luz do sol da fé brilhe
sempre no céu de seu olhar! Que com destemor em meio
às lutas, jamais deixe de sonhar. Que Deus abençoe este
menino, para ser um orgulho para o nosso povo, e
voltado para o bem desta nossa nova Pátria, para o bem
do nosso Brasil”.

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A Colônia ganha mais vida

No dia 27 de maio, o agrimensor João José
Ferreira, em companhia do ajudante Voss, apresentou-se
a Paula Soares, em Torres, declarando estar concluída a
medição de lotes destinados aos colonos, em Três
Forquilhas.

No dia 03 de junho Paula Soares deu o início à
Colônia, agora de modo oficial, com o deslocamento de
outras 17 famílias, para serem juntados às 16 que lá já
se encontravam há mais de meio ano.

Essas dezessete famílias foram de Johann
Nicolaus Mittmann, Gottlieb Henze, Martin Schneider,
Felipe Dhein, Felipe Pedro Gross, Pedro Reiheimer, Jacob
Hoffmann, Johann Carl Witt, Jacob Klippel, Johann
Andréas Sparremberger, Johann Jost Sparremberger,
Hans Thron Stollmberg (de volta da Cisplatina), Georg
Gottfried Engel, Heinrich Becker, Johann Hoffmann Sofia
Menger e Jorge Sparremberger.

O transporte das famílias foi, como sempre, uma
tarefa das mais difíceis, pois a única opção, que Paula
Soares considerava viável, era através de carretas. Ele
ainda não confiava no transporte pelas lagoas, temendo
algum risco para os colonos, que precisavam ir
acompanhados por mulheres, pelas crianças e até pelos
seus animais (bois, vacas, cavalos, galinhas e gansos).

As carretas saíram quase de madrugada, no raiar
das primeiras luzes e tomaram, como de praxe, quando
se tratava de transporte de pessoas, o caminho do
campo, entre as lagoas e o mar. Foram até o
Sangradouro para dali rumar a Três Forquilhas,
margeando a extremidade Sul da Lagoa dos Quadros.

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Depois desbordaram para a direção do Pântano do
Espinho, para em seguida encontrar a trilha que
margeando o rio, alcança a sede da Colônia.

Pararam diante do Sitio das Figueiras, onde se via
o rancho do Dr. Elias Zinckgraf. Lá se encontravam
também o Comandante Schmitt, o pastor Voges e outras
lideranças que os aguardavam ansiosos para o grande e
esperado momento do sorteio dos lotes para os recém
chegados.

Era um dia de festa para a Colônia. O temor de
ver frustrada esta colonização estava agora superado,
com a vinda de mais esta gente. A concessão de lotes
para estas dezessete famílias, mediante sorteio, foi
conduzida pelo próprio Coronel Paula Soares. Os
números de lotes disponíveis estavam escritos em lascas
de madeira, previamente preparadas e colocadas dentro
de um cesto indígena.

Paula Soares informou: - “Estou fazendo aqui um
sorteio. Entretanto, permitirei que os contemplados
façam a troca de lote entre si, caso quiserem ficar mais
próximos deste ou daquele parente ou amigo”.

A decisão agradou a todos.

Iniciado o sorteio Johann Nicolaus Mittmann foi o
primeiro tentar a sorte. Feliz ele apresentou a sua lasca
de madeira dizendo: - “Peguei o lote que representa a
porta de entrada da Colônia. Poderei ver as carretas
passarem, vindas do Depósito dos Alemães. Ninguém
entra, sem que eu saiba ou sem que eu veja. Verei
todos, seja aquele que vem, ou seja aquele que vai”. -
Todos riram com estas palavras de humor.

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
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O construtor Gross foi o seguinte sorteado com
um lote de terra no lado sudeste, sendo abraçado pelo
Jacoby, Justin, König e Schütt. Martin Schneider pegou o
lote no núcleo sede, como vizinho de Mittmann. O
ferreiro Johann Andréas Sparremberger pegou o lote que
ficava diante do cemitério, junto ao passo. Ele aproveitou
para fazer pilhéria com Mittmann, dizendo: - “Também
serei dono de uma porteira. Se você tentar escapar e ir
para a Serra, terá que sair pelo passo, diante de minha
ferraria. E quem quiser enterrar um falecido terá que,
primeiro, ferrar seus cavalos comigo...”.

Seguiu-se uma gargalhada coletiva.

O professor Jorge Godofredo Engel pegou uma
lasca indicando o seu lote para o núcleo sudeste. Os
moradores daquele núcleo vieram abraçá-lo felizes.
Jacoby falou: - “Teremos garantida a nossa escola... Eu
já estava preocupado porque meus filhos não poderiam ir
até a igreja, para terem aulas na Escola do Pastor, por
causa de distância e do passo de rio. Agora podemos
comemorar. Nosso problema está resolvido...”.

Na seqüência os demais também foram sorteados.
O Hans Thron Stollenberg que retornara doente, da
Guerra Cisplatina, pediu para trocar o seu lote, pois
desejava ficar vizinho de Bobsin, Mauer e Eigenbrodt. Os
demais ficaram assim definidos: para o sudeste foram
Peter Reinheimer e Jacob Hoffmann; para o nordeste
foram Johann Jost Sparremberger, Georg Sparremberger
e Johann Hoffmann I; para o núcleo da igreja foram,
Johann Carl Witt, Jacob Klippel, viúva Sofia Menger e
Heinrich Becker; para a sede foram Gottlieb Henze e
Philipp Dhein,

Comandante Schmitt pediu a palavra e falou: -
“Hoje, dia 3 de junho de 1827 é um dia muito especial

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114
que merece ser registrado. A nossa Colônia ganhou
vida... Com a chegada destas famílias já podemos dizer,
agora, que a Colônia passou a existir, de verdade. Não é
mais a simples teimosia deste que vos fala... Quero
finalizar, dizendo ao nosso amigo e diretor da colonização
Coronel Paula Soares que nossos corações estão cheios
de gratidão. Conte com a nossa estima e a certeza que
pode contar conosco, sempre que a nossa força e o nosso
empenho lhe foram necessários, para o sucesso desta
colonização”.

Vivas e hurras foram ouvidos. O pastor traduziu
as palavras do Comandante para que Paula Soares
tomasse conhecimento desta expressão de gratidão, que
ia no coração de todos. O coronel aproximou-se então do
Comandante e deu-lhe um caloroso aperto de mão,
cumprimentando-o pelas belas palavras proferidas.

Não podemos nos esquecer de lembrar que um
grupo de colonos ainda permanecia no acantonamento de
Torres. Eles não puderam vir por falta de carretas e de
outros meios financeiros. Estes certamente estavam
insatisfeitos com a situação. Afinal, não puderam
compartilhar deste clima festivo que se formava na nova
Colônia Alemã de Três Forquilhas.

A sensação da solidão e do isolamento

Era o dia 4 de julho de 1827. Podiam-se ver
famílias chegando de todos os núcleos. Traziam uma
variedade de produtos colhidos na lavoura e, um após
outro, aproximavam-se do altar para ornamentá-lo com
as dádivas trazidas. Estavam preparando a festa ou culto
de gratidão pela colheita. Era a tradicional Festa da
Colheita, costume que estavam trazendo de suas origens

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
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comunitárias, da Alemanha. A igreja estava agora com
mais apresentação. Não pisavam mais sobre o chão
batido. Havia um assoalho, feito com tábuas de canela.
Portas e janelas também já haviam sido colocadas.

O Pastor iniciou o culto com uma canção bem
tradicional para a época festiva da Festa da Colheita.
Catharina Niederauer estava ali, como sempre, feliz e
radiante, para tocar a sua flauta. Mauer e esposa
estavam ao lado dela para aproveitar a letra e as notas
do caderno que alguém segurava diante dela.

Para o momento litúrgico o pastor declamou o
Salmo 65 - Ações de Graças pelas bênçãos das searas.
Em seguida, fez uma oração pedindo pela assistência
divina para acompanhar e estar presente na vida de cada
família.

Todos esperavam pelo momento do sermão.
Gostavam de escutar o pastor que vinha sempre com
palavras que despertavam a confiança na presença de
Deus. O pastor leu o texto do Evangelho de Lucas
Capítulo 12, 22 – 34, e então falou: - “Alguém se queixa
de solidão? A sensação de solidão é um convite de Deus
para praticarmos mais e melhor a solidariedade, para
estarmos ao lado daqueles que sofrem ou, se sentem
abandonados por Deus e pelas demais pessoas. Alguém
se queixa que entramos no isolamento, no meio desta
enorme floresta, cercados por bichos e bugres? A
sensação do isolamento é um convite para a comunhão.
Precisamos nos reunir e nos encontrar, de preferência,
na casa de Deus, para cantar, para orar, para beber da
fonte pura da Palavra Divina e para experimentar o que
os Santos Sacramentos nos oferecem. Hoje temos aqui
neste nosso novo templo a primeira Festa da Colheita.
Estão aqui em torno do altar tantas variedades de frutos
de nosso trabalho. Hoje será, também, ministrado o

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
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Santo Sacramento do Batismo. Serão batizadas mais
duas crianças, nascidas há poucos dias. Vamos ter
também diante do altar todos os pais que neste ano
batizaram suas crianças, para que a Comunidade reunida
veja essas crianças para que as acompanhem com as
suas orações. E, finalmente, teremos o Santo
Sacramento do Altar, a Ceia do Senhor. A Comunhão do
Altar é para sabermos que Deus está conosco. Jesus
derramou o seu sangue na Cruz para termos vida com o
Pai Celestial. Ele vem repartir tudo o que tem, conosco,
para nos alimentar e nos saciar da sede e da fome mais
profundos. Jesus age em nosso favor também agora e
sempre. Digo para aqueles, que vem desabafando
comigo sobre as sensações que encontraram aqui na
floresta, a certeza que precisamos ter, para superarmos
a sensação da solidão, neste estado de isolamento, que é
tão real desde que aqui nos estabelecemos, deve ser a
presença real do Deus vivo. Ele nos ajude e nos fortaleça
nesta esperança e na fé, para podermos perseverar no
amor, de uns para com os outros. Deus vos abençoe
ricamente, com a Sua Santa Palavra. Amém”.

O pastor convidou que pais e padrinhos viessem
até o altar. Solicitou que também viessem, para formar
uma segunda fila, todos aqueles que neste ano tivessem
batizado uma criança. Grande era a curiosidade de todos,
observando o grande número de famílias se postando
diante do altar.

Inicialmente o pastor ministrou o batismo de
Johann Thron Bobsin, filho de Johann Bobsin e Charlotta
Marlow, nascido em 15.06.1827, tendo por padrinho
Johann Thron Stollenberg, conhecido como “ o Viking”.
Em seguida batizou Peter Paul Dhein, filho de Philipp
Dhein e Elisabetha Müller, nascido em 11.06.1827 tendo
como padrinhos Peter Müller e Paul König.

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Após a realização do sacramento do batismo, o
pastor declamou: - “Olhem aqui para estas crianças,
vejam nelas uma semente do amanhã... Não se
desesperem, nem parem de sonhar. Não se entreguem,
se renovem com as manhãs. Deixem a luz do sol brilhar,
no céu do vosso olhar. Tenham fé na vida, tenham fé no
amor e tenham fé no que virá!”

Pastor Voges fez em seguida a apresentação das
crianças batizadas em outras datas anteriores:

Maria Magdalena Schmitt, filha do comandante
Philipp Peter Schmitt e Elisabetha Justin, nascida em
26.04.1827 tendo por madrinha Maria Magdalena
Zemmermann.
Carl Knopf, filho de Valentin Knopf e Eva Clausen,
nascido em 08.05.1827, sendo padrinho Carl Becker.
Johann Heinrich Hoffmann, filho de Jacob
Hoffmann e Christina Maria Neiss, nascido em
12.05.1827.
Catharina Margaretha Metz, filha de Johannes
Metz e Cristina Claun, nascida em 09.05.1827, tendo por
madrinha Catharina Margaretha Metz.
Catharina Sparremberger, filha de Johann Jost
Sparremberger e Ana Maria Diefenbach, nascida em
27.06.1827 tendo por madrinha Catharina Elisabetha
Sparremberger.
Martin Reinheimer, filho de Peter Reinheimmer e
Margaretha Hoffmann, nascido em 09.06.1827, tendo por
padrinho Martin Zimmermann.

Citou ainda os batismos de Johann Bartholomeus
König, em Torres, de Catharina Feck, primeiro
nascimento na Colônia de Três Forquilhas, Johann
Niederauer Sobrinho, primeiro filho homem, da Colônia.
Explicou que Metz, Köhnlein e Knopf não puderam

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comparecer pelo fato de ainda se encontrarem no
acantonamento de Torres.

Voges chamou então Nicolaus Mittmann dizendo: -
“Quero que a Comunidade tome conhecimento que
Johann Nicolaus Mittmann, encarregado de serviços de
emergência, batizou algumas destas crianças, em Torres,
enquanto eu estava aqui em Três Forquilhas. O trabalho
de Mittmann tem se revelado de grande necessidade e
importância. Por isto agradeço pelo seu trabalho e para
que, também, toda a Comunidade saiba do quanto
precisamos dele e lhe concedam todo o crédito e
atenção, pois que ele atua em meu nome”.

Após o culto, o Comandante Schmitt pediu que
todos que tivessem condições permanecessem no templo
para uma reunião, dizendo: - “Esta é a ocasião para que
todos aqueles que tiverem um problema ou preocupação,
os exponham para ver se podemos ajudar de alguma
maneira”.

Philipp Leonhard Niederauer se levanta e diz: - “O
pastor acabou de falar muito bem a respeito do
isolamento. Quero explicar que eu e minha esposa não
agüentamos mais este isolamento, no meio deste mato e
penso que não vale a pena instalar meu comércio aqui.
Não vejo futuro para meu investimento e para o meu
trabalho. Deus me concedeu inteligência para fazer o
melhor pela minha família e por este filho que nasceu há
poucos meses”.

Niederauer parou um pouco como que para reunir
seus pensamentos e continuou: - “Somos poucos e por
isto são poucos os fregueses para mim e para a minha
concorrência que é feita por Jacoby e pelo Comandante
Schmitt. Para mim sobraram só os moradores do núcleo
da igreja e do núcleo nordeste”.

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Comandante Schmitt interveio: - “Por que estaria
eu lhe fazendo concorrência? Não poderá estar
acontecendo o contrário, pois tenho bem menos
fregueses que você e o Jacoby e não me queixo”.

O pastor procurou contemporizar: - “Todo o
começo é difícil, carregado de dificuldades. Venho
insistindo que cada um e todos juntos precisamos
perseverar, acreditando no futuro desta Colônia. O
coronel Paula Soares me enviou comunicado, para ser
lido nos meus cultos, onde promete que antes do final do
ano virá mais uma leva de famílias, que já devem estar
num desespero bem grande, lá em Torres, pensando que
foram esquecidos pelas autoridades, esquecidos por nós
e quem sabe no perigo de cair na incredulidade, de
pensar que Deus também se esqueceu deles. O coronel
escreve ainda que, a qualquer momento, os nossos
jovens soldados que seguiram para a guerra na fronteira,
poderão estar voltando para casa. Eles virão com o soldo
todo no bolso, com dinheiro para gastar, pois terão que
comprar de tudo. Assim, darão novo ânimo aos nossos
comerciantes”.

Niederauer se levanta e fala: - “Pastor, peço que
me desculpem, pois não gostaria de desanimar os
demais, preciso confessar que não estou mal nos
negócios. O meu irmão e sócio do comércio permanece
no acantonamento de Torres, e está prosperando. Ele me
avisou que está satisfeito e que a freguesia dele tem sido
bem grande, até de soldados, peões e de famílias
brasileiras que fazem compras em nosso armazém”.

Fazendo uma breve pausa, com que para fazer as
idéias funcionarem melhor, ele continua: - “Preciso ser
franco e honesto com vocês. Nunca escondi nada de
meus vizinhos e amigos. Por isto digo que o meu irmão
Johannes enviou um recado, dizendo que tem receio de

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
120
vir para Três Forquilhas. Ele prefere nem receber seu lote
aqui, pedindo para sairmos e tentar melhores
possibilidades de prosperar, em São Leopoldo, ou Campo
Bom ou outro lugar”.

Christian Mauer pede a palavra e fala: - “A minha
situação está bem difícil. Aqui quase não existem
recursos para instalar um moinho. Tudo o que precisa ser
feito é com sacrifício e dificuldade. Contudo, mesmo
assim estou animado, por causa dos bons vizinhos que
tenho. Eles estão me ajudando a construir uma roda
d’água para, finalmente, movimentar meu moinho. Já
fabricamos até a mó15”.

Bobsin e demais vizinhos rodearam Mauer. E o
colono mais forte que um touro explicou: - “Estamos
solidários uns com os outros. Ajudamos o Mauer, sim...
Fomos todos juntos, para abrir o canal que leva a água
do rio para o moinho dele. Aqui uns ajudam os outros e,
até o que parece impossível, já está começando a ser
realizado”.

Jacob Menger, aproveitando a questão sobre o
canal para puxar água do rio,falou: - “Também precisei
ter água do rio para movimentar o meu curtume e
diversos colonos vieram me ajudar para abrir o canal.
Veio gente até de outros núcleos. Isso me deu coragem.
Agora o curtume está em atividade. Couro não falta, só
não sei para quem vou vender a produção”.

Bobsin, num toque de humor, interveio:- “Amigo
Menger, já comprei um dos teus couros. Fabriquei
algumas cordas trançadas (laços) e ainda irei fabricar
outras coisas. Se alguém precisa de artefatos de couro,
fale comigo. É só encomendar que tirarei um tempinho
para servi-los bem”.

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
121
Paul König levantou-se: - “Vocês já devem saber
que sou padeiro. Mas, nem penso fazer pão. Notei que
cada família prepara o seu. Nesta situação só me cabe
cuidar de minhas lavouras e criação. Espero que
tenhamos uma boa colheita neste ano. Fico agradecido a
Deus pela terra boa... Fico agradecido a Deus pelas
colheitas que já tivemos... Fico agradecido a Deus pelos
vizinhos e amigos, que são tão importantes como o pão
de cada dia sobre a nossa mesa”.

Diversos colonos deram vivas, para demonstrar
concordância com as palavras de König. Até o pastor
levantou-se e foi dar um aperto de mão, em sinal de
satisfação por palavras tão sábias e repletas de fé.

O professor Engel pediu a palavra: - “Já iniciei as
aulas no meu ranchinho. Só quero saber se alguém aqui
consegue me explicar, quem vai pagar pelo meu
trabalho? Receberei ajuda do Governo?”.

Jacoby, com rapidez, colocou-se ao lado do
professor, pôs a mão sobre seu ombro e enfatizou: -
“Uma coisa é certa, professor Engel, se o Governo irá te
dar um pagamento para exercer o cargo de professor,
não sei. Mas sei o que nós moradores do núcleo nordeste
decidimos. Nós temos condições financeiras razoáveis, e
não vamos te deixar passando fome. Queremos até, em
conjunto, com a tua orientação e com a ajuda de tua
mulher, preparar uma boa lavoura para vocês onde
encontrarão de tudo, para alimentar a família”.

Professor Engel ficou com os olhos marejados de
lágrimas. Abraçou Jacoby com carinho e disse um
sonoro: - “Muito obrigado!”.

O Comandante Schmitt solicitou que todos
tivessem mais um pouco de paciência, com a demora que

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
122
estava ocorrendo nesta reunião e falou: - “Preciso ainda
tratar com vocês a respeito do trabalho pastoral em
nossa igreja. O nosso amigo pastor Voges veio até a
minha casa, avisar que ele terá que se ausentar por pelo
menos dois meses. Ele pretende casar, em Campo Bom,
no começo do próximo ano...”. Muitos dos presentes
interromperam o Comandante para dar vivas, de alegria,
pela notícia. Schmitt continuou: - “Peço que o pastor
explique para todos a respeito do atendimento que será
proporcionado aos membros, durante a ausência dele”.

Voges falou: - “Chegou a hora certa para me
casar, pois não agüento mais a vida de homem solteiro.
Por isso trarei a Elisabeth, se ela concordar casar comigo,
já no começo do ano que vem. Preciso esclarecer para
tranqüilizá-los que minha viagem não será para agora.
Pretendo sair somente em dezembro, alguns dias antes
do Natal, com o objetivo de estar com Elisabeth e a
família dela, na noite santa. Apenas estou adiantando o
planejamento, para que ninguém reclame de não ter sido
comunicado a respeito de minha ausência mais
demorada. Também quero tranqüilizá-los de que não
ficarão sem atendimento, caso ocorrer a necessidade de
um batismo ou enterro. Até aqui o Johann Nicolaus
Mittmann já conseguiu dar mostras da capacidade e
responsabilidade que ele tem, para atender as
emergências que podem surgir. Quando eu retornar ele
me passará os apontamentos, conforme já vínhamos
fazendo, para que os serviços ministrados sejam
devidamente registrados em meus Livros Pastorais. Caso
alguém queira casar, convém que faça isto agora
enquanto aqui ainda estou ou que aguardem a minha
volta. O Mittmann já declarou que casamento ele não faz,
de jeito algum”.

Finalizada a reunião, o Comandante Schmitt
pediu: - “Vamos realizar um sorteio com as dádivas

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
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colocadas no altar, assim elas serão repartidas entre
todos. Cada chefe de família pode tirar seu bilhetinho e,
começando pelo menor número, um após o outro, pode
passar diante do altar e escolher um produto. O último
terá que se contentar com o que sobrar”.

Cada perda é única

Cada pessoa é única e, por isto, cada perda que
ocorre na vida das pessoas, também é única. Não
existem duas pessoas iguais. E, é isso que se reflete nos
vínculos que vão sendo estabelecidos, seja na família ou
na vida comunitária.

Assim aconteceu também no lar de Paul e Emília
König em relação ao pequeno Bartholomeus que em
Torres nascera “de pés e a ferros”. Desde o parto, ele
revelara uma saúde muito frágil. Os cuidados do casal,
por este motivo, eram dobrados. Os recursos, no meio da
floresta, entretanto, eram poucos.

Buscaram a ajuda de Dr. Elias. Ao tomar
conhecimento das complicações havidas durante o parto,
ele meneou a cabeça e disse: - “Aquele médico
certamente fez uso de duas colheres de ferro, para
facilitar o nascimento, uma vez que a cabeça saiu por
último. Existem parteiras e até médicos, que tem medo,
de que a criança saia sufocada, nestas circunstâncias. É
aí que apelam para o uso de ferros. O lamentável no caso
de Bartholomeus, é que ocorreu um traumatismo
craniano. Além disso, ele deve ter bebido líquido, antes
de sair. Nestas condições, poucas crianças sobrevivem. É
um milagre ele estar em vossos braços”.

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
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Emilia disse: - “Nesses poucos meses, ele ocupou
um lugar muito especial em nossos corações. Nós o
amamos tanto. Queremos criá-lo com os cuidados
necessários, para que encontre a saúde e uma vida boa”.

O médico alertou: - “Quero ser bem franco com
vocês. Não existem recursos para corrigir a anormalidade
causada no cérebro e nos pulmões da criança. A única
coisa é aguardar, para ver como ele se desenvolve...”.

No dia 20 de agosto de 1827, num dia muito frio e
chuvoso, o pequeno teve algumas convulsões.

Dr. Elias foi mais uma vez chamado. Ele disse: -
“Nada posso fazer. Ele não resistirá por muito tempo...
Agora é questão de horas, apenas...”.

De fato, no mesmo dia ele faleceu. Era a primeira
perda de uma pessoa querida, na nova Colônia. Haveria
de ser também o primeiro enterro no cemitério da
Comunidade. König foi em busca do pastor, para acertar
o horário do sepultamento, na intenção de avisar todos
os moradores.

Frau Niederauer, quando viu König passando, já
foi alertando: - “O pastor viajou a Torres. Ele está
bastante preocupado com as famílias que, ainda, lá se
encontram. Devem estar numa verdadeira agonia de
espera, para também serem trazidas para cá... Até o
final do ano o pastor quer viajar a São Leopoldo... Ele vai
casar e, finalmente, trazer para nós uma Frau Pfarrer
(mulher de pastor). Mas, antes de partir, ele gostaria de
ver toda nossa a gente evangélica, reunida aqui, na
nossa Comunidade...”.

Frau Hellwig também ajudou na explicação: - “O
pastor avisou que pretende permanecer em Torres

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
125
durante algumas semanas, para assistir aquelas
famílias... Além disso, ele pretende ter encontros com o
coronel, para saber o que está atrasando a vinda de
outras famílias...”.

König perguntou: - “E agora? O que farei? Torres
fica longe. Não dá tempo para chamar o pastor...”.

Apareceu finalmente Philipp Niederauer que
aconselhou: - “Vá até a casa do Mittmann. Foi isso que o
pastor, antes de partir, recomendou que fosse feito em
caso de alguma emergência pastoral. O Mittmann se
prontificou para nos dar a assistência que se fizer
necessária”.

Johann Nicolaus Mittmann teve que realizar,
assim, o seu primeiro sepultamento e também o primeiro
da nova Colônia. Mesmo que até ali não fizera nenhum
serviço fúnebre, disse, resoluto: - “Eu vos acompanharei,
para vos dar o consolo da Palavra de Deus e para orar
convosco o Pai Nosso”.

A família König já conquistara a estima de todos.
Por isto, dos quatro cantos da Colônia vieram os colonos
e suas famílias, para estarem ao lado destes enlutados,
que sofriam essa perda dolorosa.

A Sra. Elisabeth Schmitt, após o sepultamento,
ainda no cemitério, deu um forte abraço na amiga
enlutada e, em voz alta, para todos ouvirem, disse: -
“Deus sabe por que Ele buscou este anjinho querido do
Paul e da Emília. Eu também perdi dois, no navio,
durante a viagem para cá. Sei também que o nosso
amigo professor Engel e esposa também perderam seus
dois anjinhos, no navio. A dor é muito grande. A única
força que nos é dada numa hora destas, vem de Deus. A
fé em Jesus é o nosso consolo. Pela fé confiamos e

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
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confessamos: - Não importa onde, exatamente, estejam
os nossos anjinhos queridos. A verdade é que sempre
estarão conosco, em nossos corações e no nosso
pensamento, porque a verdade é: - nós os amamos
muito, enquanto Deus os deixou confiados aos nossos
cuidados”.

Muitas mulheres caíram em choro e forte pranto.
Mesmo os homens mais duros e curtidos pelas
dificuldades da vida, enxugaram lágrimas que teimavam
correr-lhes pela face.

Uma história de partos e de sacrifícios

- “Se algum dia alguém inventar de escrever a
nossa história, haverá de fazer um relato somente sobre
partos e sacrifícios”. - Disse Frau Schmitt em tom jocoso.

Estava ali, o seu marido, o Comandante Schmitt,
em companhia de Dr. Elias Zinckgraf e do pastor Voges.
Este retornara de Torres fazia algumas semanas, sem ter
conseguido apressar a vinda dos demais colonos ainda
retidos no acantonamento.

Os três estavam descansando e conversando à
sombra de uma marrequeira16, quando Frau Schmitt
viera com a sua tirada de humor.

Voges, sorrindo, respondeu: - “Frau Schmitt, a
senhora acha graça nisso, não é? Sou de opinião que é
coisa séria. Caso uma pessoa, um dia, seja daqui a cem
ou duzentos anos pegar o meu Livro do Registro
Eclesiástico verá que as famílias, o que melhor souberam
fazer, foram filhos. Se formos contar para saber em qual
dos ranchos da Colônia este ano uma mulher não esteve

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
127
ou então não está grávida, sobrarão poucos, como o
velho Marlow e o velho Sparremberger?”.

O médico interessou-se na conversa: - “Concordo.
Já estou começando a perder a conta dos partos que
realizei”.

Frau Schmitt volta à carga, mostrando um papel:
- “Anotei neste papel o nome de todas as mulheres da
Colônia que me contaram que estão grávidas...”.

O pastor, curioso, aproximou-se dela e pediu: -
“Dá licença para ler? Ou isto é segredinho das
mulheres?”.

- “Não tem problema”. - Disse ela.

Voges conferiu a relação e a passou ao médico.
Esfregou as mãos com satisfação, dizendo: - “Que bela
informação. Isso é sinal de que a nossa Colônia vai
crescer. Não é isso que todos querem?”.

Enquanto eles assim falavam e riam, aparece
Peter Friedrich Petersen, agitado. Fazia semanas que ele
retornara de Torres, onde estivera acompanhando o
projeto de navegação pela lagoa. Ele desejava estar ao
lado da esposa, por ocasião do nascimento do primeiro
filho deles.

- “O que está acontecendo, homem? Aquiete-se e
venha se juntar em nossa conversa, você que também
está com mulher grávida no seu rancho”. - Disse o
Comandante Schmitt.

- “Não há tempo para conversa, comandante. O
senhor me desculpe que não posso sentar agora. A coisa
é urgente e vim chamar Dr. Elias. A Catharina vai ter a

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
128
criança, daqui há pouco”. - Dirigindo-se ao médico, ele
pede: - “Dr.Elias, o senhor pode vir comigo? A Frau
Hellwig já se encontra lá, para servir de parteira, mas ela
acha que o parto não vai ser fácil...”.

- “Claro que posso. Já estou pronto e te
acompanho”. - Dr. Elias pegou sua valise, montou em
seu cavalo e seguiu ao lado de Petersen, que nem se
dera ao trabalho de descer do animal, para dar a mão ao
Comandante e demais presentes, de tão nervoso que
estava.

Dr. Elias chegou ao rancho de Petersen e foi
entrando, sem cerimônia. Examinou Frau Petersen e
avisou: - “Realmente. O parto deve ser para já...”.

Frau Hellwig preocupada falou: - “Estou
acompanhando a Catharina desde cedo. Já a examinei
diversas vezes. Ela parece que não está querendo ter a
criança. Será que o senhor terá que fazer uso de ferros
para tirá-la logo?”.

Dr. Elias muito sério respondeu: - “Todos aqui
sabem que sou contra esse uso indiscriminado e absurdo
de ferros em partos. Temos que buscar sempre o modo
mais natural. Isso é bem melhor tanto para a criança
bem como para a mãe”.

O médico teve que executar todo um trabalho de
orientação, um jogo de paciência, para acalmar a jovem
mãe em hora de parto. Ele foi pedindo: - “Por favor,
Catharina. Você está muito tensa. Volte à calma! Olhe
para mim e ouça minha orientação, que isso vai te deixar
bem tranqüila”.

Catharina era uma mulher muito sensível, frágil,
voltada à musica e as artes e estava sofrendo muito em

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
129
meio a vida rude e difícil, desse mato em que viviam. Dr.
Elias continuou falando: - “Catharina, pense neste parto
como se fosse um arranjo de notas musicais que você vai
executar em sua flauta, num culto de festa e alegria. A
tua criança precisa ser uma obra de arte, da tua e do teu
marido, pois juntos, com amor encomendaram esta vida
preciosa que agora precisa vir à luz”.

Finalmente, Catharina sorriu. Ela passou a prestar
mais atenção para as palavras do médico, e concentrou a
atenção na criança que precisava nascer.

- “Muito bem”. - Disse o médico. - “Agora as
coisas estão ficando bem melhores... Pense na tua
criança que precisa nascer. Solte-a com carinho, mas
com toda a força. Ela quer nascer, viu? Ela precisa de
luz, agora. Força. Mais força... Diga bem alto: eu quero
que ela venha nos alegrar...”

- “Eu quero que ela nos venha alegrar”. - Repetiu
Catharina.

Catharina seguiu tudo o que o médico ordenava.
Foi também repetindo as palavras que ele pronunciava.
A luta de Catharina continuou por mais alguns minutos,
quando o médico falou com firmeza: - “Agora. Força. Já
posso ver a cabeça vindo... Força... Pronto!”. - Cortou o
cordão umbilical e entregou a criança para Frau Hellwig
para que ela a limpasse. E o médico voltando-se para
Catharina anunciou: - “É uma menina e, saiu tão bonita
como a mãe!”.

O nascimento da filhinha de Peter e Catharina
Petersen ocorreu no dia 24 de setembro de 1827. O
batismo foi realizado no dia 04 de novembro, quase dois
meses depois, no templo da Colônia de Três Forquilhas,
quando Catharina já se encontrava restabelecida do

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parto difícil. Ela fez questão de acompanhar os hinos ao
som de sua flauta. Serviram de padrinhos o cunhado
pastor Carlos Leopoldo Voges e Elisabetha Diefenthaler, a
irmã de Catharina, ainda residente em Campo Bom e que
em breve haveria de casar com o pastor.

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A TERCEIRA LEVA DE COLONOS

Era o final do mês de dezembro de 1827.

O pastor Voges nesta altura já viajara a São
Leopoldo, e ele não pode presenciar a chegada da tão
esperada terceira leva de colonos, destinados para a
Colônia de Três Forquilhas.

As carretas avançaram vagarosamente pelo
caminho. Fazia um dia de sol bem quente. Os pais de
família haviam improvisado coberturas de palha sobre as
carroças para proteger mulheres e crianças. Os homens
vinham em seus cavalos, atentos para proporcionar o
bom andamento da viagem. A chegada foi novamente
junto ao Sítio das Três Figueiras. Os moradores da
Colônia de Três Forquilhas estavam ali reunidos para
conceder uma acolhida festiva, com brados de boas
vindas e grande alegria.

O coronel Paula Soares, com seu uniforme azul,
impecável, de oficial do Exército Imperial vinha à frente
da caravana de carretas. Estava montado num
imponente cavalo. Era um chefe militar admirado e
respeitado por todos, devido ao seu modo atencioso,
porém, firme e decidido.

Comandante Schmitt fez a recepção ao coronel.
Assim que o militar apeou, recebeu um efusivo aperto de
mão. Sem delongas Paula Soares como da outra vez, fez
realizar o sorteio de lotes disponíveis, para contemplar
também os recém chegados com a tão sonhada terra.

Johannes Niederauer tomou a frente e foi
avisando: - “Eu acho que já tenho meu lote, escolhido

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pelo meu irmão. Somos sócios no comércio. Precisamos
ficar juntos”.

Houve aqueles que resmungaram, dizendo não ser
justo que os comerciantes escolhessem dos melhores
terrenos, nas proximidades da igreja e escola, sem
sorteio. Mas o murmúrio ficou nisto mesmo.

Além de Johannes Niederauer estavam ali mais 23
famílias, como segue: Martin Zimmermann, Peter
Reinheimer, Hans Wasmer, os irmãos Johannes e
Wilhelm Metz, Gottlieb Heinemann, Joachim Lorey (de
retorno da Guerra Cisplatina), Christoph Klumb, Johann
Kratz, Carl Gitter, Philipp Boehl, Benjamim Schmidt,
Berter Birckenstock, Christian Scholler, Heinrich Casper,
Andréas Köhlein, Valentim Becker, Johann Goethe, Jacob
Schwabenland, Johann Nicolaus Müller, Phillip Hoffmann,
Heinrich Berghahn e Heinrich Geb.

Foram também contemplados com seus lotes de
terra, mesmo que ausentes, os voluntários que haviam
seguido com Sua Majestade o Imperador D. Pedro I, para
a Guerra Cisplatina: João Miguel Eberhardt, Carlos
Becker, João Beck, Valentim Becker, João Wolff, Ernst
Friedrich Hildebrandt, João Jacob Müller, Henrique
Berghahn, e Nicolau Schmitt.

Apenas Joachim Lorey e Hans Thron Stollenberg
haviam regressado antes, enfermos. O último, conhecido
como o Viking, até já viera com a leva anterior e estava
fixado na Colônia.

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
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Uma carta ao Imperador

Finalizado o sorteio, com a ajuda de um intérprete
Paula Soares pediu que todos permanecessem no local
por um pouco mais de tempo. Mostrou uma carta,
dizendo-a dirigida ao Imperador D. Pedro I, com palavras
de agradecimento dos colonos, pelas terras recebidas. O
coronel falou: - “A carta está redigida em francês. Meu
intérprete vai explicar o teor da missiva, explicada em
vossa língua, que, aliás, Sua Majestade não entende. Por
isto ordenei que ela fosse escrita em francês, língua que
tanto o vosso Imperador bem como vosso pastor
dominam bem. Lastimo muito que pastor Voges não
pode estar aqui para também assiná-la...”.

Philipp Feck trouxe uma mesinha do rancho de Dr.
Elias, para servir de apoio para a coleta das assinaturas.
Os colonos fizeram fila, mostrando satisfação com a
iniciativa.

Quando Paula Soares se aproximou novamente do
Comandante Schmitt na intenção de se despedir, este
falou, com a ajuda do intérprete: - “Que notícias o
senhor pode nos dar a respeito da construção das casas
para os colonos que ainda estão na espera?”.

Paula Soares, muito atencioso, chamou Petersen
para se postar ao seu lado e, com a ajuda de um
intérprete, explicou: - “Tivemos muitos contratempos. A
navegação pela lagoa não deu o resultado desejado. O
senhor Petersen, que está aqui é testemunha do que vou
dizer. Ele terá que viajar até São Leopoldo para saber da
possibilidade de conseguirmos equipamento para uma
barca a vapor, que tenha a força de puxar uma balsa
carregada. O nosso barco a velas não teve a força
necessária para dar conta do nosso propósito”.

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Paula Soares, apontando para a casa de telhas do
Dr. Elias Zincgraf, continuou: - “Quanto às telhas, não é
viável fazer o transporte através de carretas, desde
Torres, pelo caminho arenoso. Conseguimos trazer
apenas algumas cargas de telhas. Foi possível a
construção das casas do Comandante Schmitt, dos
comerciantes Niederauer e Jacoby e do médico Dr. Elias.
Foram quatro casas... Podem notar que são de pau-a-
pique, pois que tijolos ainda não estão disponíveis. Sei
que isto gera descontentamento. Porém afirmo que estou
fazendo muito empenho para que as maiores
necessidades, de todos, sejam atendidas”

Paula Soares continuou na exposição do assunto:
- “Já estou estudando providências que irão contornar o
problema que enfrentamos com o transporte das telhas.
Pretendemos encurtar distâncias... A nossa idéia é de
instalarmos uma olaria na região da Sanga Funda. Espero
que durante o ano de 1828, seja possível concretizar este
plano”.

Comandante Schmitt finalizou com mais outra
pergunta: - “Caro Coronel Paula Soares. Quando virão os
demais colonos que ainda permanecem na agonia da
espera, em Torres?”.

Paula Soares manteve o seu tom atencioso,
apesar da crítica que soava com tanta nitidez neste
questionamento. Era visível que ele devotava uma
grande consideração ao Comandante Schmitt. Até fazia
questão de fortalecer o papel de líder que Schmitt
desempenhava junto aos colonos de Três Forquilhas. E
com palavras firmes, explicou: - “Tenho hoje, duas
frentes no estabelecimento da chamada colonização
alemã em Torres. Inicialmente, conforme o plano do
nosso Governador, estava prevista uma só Colônia, no
vale do rio Mampituba. Vocês são testemunhas que

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aquela área não agradou a ninguém. Por isto parti para o
plano de radicá-los, aqui, neste vale do Três Forquilhas.
Permiti que o Comandante Schmitt viesse, em fins do
mês de dezembro de 1826, com o seu grupo de
desbravadores e pioneiros, para aqui abrir roçados de
lavouras e dar ajuda ao trabalho do agrimensor. Vocês
precisam reconhecer que estão em melhor situação que
os católicos que ainda aguardam providências. Estejam
seguros que os poucos protestantes que ainda restam em
Torres, em breve haverão de estar convosco.”.

Comandante Schmitt ficou emocionado, com a
explicação do Coronel. Adiantou-se, estendendo a mão a
Paula Soares, para um efusivo cumprimento e falou: -
“Honroso e fraterno amigo Coronel Paula Soares,
devemos ao senhor a nossa gratidão e o nosso mais
profundo reconhecimento. Sei que as suas palavras são
verdadeiras. Somos testemunhas dos seus esforços e
devemos à sua coragem e à sua decisão, o fato de nos
encontrarmos instalados nesta Colônia de Três
Forquilhas. Leve mais uma vez a certeza que poderá
contar sempre com o nosso apreço e a nossa disposição
de servir Sua Majestade, o nosso Imperador D. Pedro,
como súditos fiéis”.

O aperto de mãos entre Paula Soares e
Comandante Schmitt foi efusivo, postados um diante do
outro e de olho no olho, como líderes decididos que
ambos eram.

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Texto da Carta ao Imperador D. Pedro I
(Tradução do original em francês)

À Sua Excelência o Ministro de Estado.

Nós, abaixo assinados, Colonos da
Comunidade Protestante da Colônia de São Pedro
de Alcântara, Distrito de Torres, em conhecimento
da bondade de Vossa Excelência, atrevemo-nos
apresentar, com o mais profundo respeito, os
nossos agradecimentos à Vossa Excelência como
Protetor desta Colônia que é uma terra bonita e
fértil, esperando que Vossa Excelência não seja
incomodado ao pormos os nossos agradecimentos
aos pés de Vossa Excelência.

Há alguns meses que somos proprietários
desta bela área e plantamos o que queremos:
frutas e hortaliças, tanto as do Brasil quanto as da
Europa.

Entre os colonos se planta centeio, cevada,
trigo, milho, aveia, uvas, cana de açúcar e café;
as uvas saem bem, com muito bom resultado para
a Província e para nós.

Todos os colonos estão contentes da sua
plantação e apresentam a Vossa Excelência os
seus mais sinceros agradecimentos.

Simultaneamente, todos os colonos pedem
a Vossa Excelência ter a bem depor os nossos
sentimentos de agradecimento diante do trono do
nobre e gracioso Imperador.

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Ao mesmo tempo, atrevemo-nos fazer,
também, um pedido à Vossa Excelência: na nossa
Colônia não existe nenhum entendido em ferro ou
madeira; somos obrigados a mandar fazer fora os
nossos utensílios, com muito incômodo e
despesas.

É por isso que pedimos dar ordem aos
nossos colonos que vão chegando para remediar a
nossa triste situação. Como é do conhecimento de
Vossa Excelência, possuímos uma grande e linda
área de terras onde se poderá ceder belos
terrenos a grandes famílias.

Temos a honra de nos recomendar à graça
de Vossa Excelência e ficamos, com a mais
profunda estima, de Vossa Excelência

mui humildes e mui obedientes

Colonos da Comunidade Cristã Protestante

Colônia de São Pedro de Alcântara
Dezembro de 1827.
(Assinatura de 46 colonos)

Análise da Carta Ao Imperador

Detalhes que chamam a atenção no teor da carta:

A carta ignora que, na realidade, diversos colonos
de Três Forquilhas, entre os quais citamos os irmãos
Niederauer, não estavam satisfeitos. Desejavam

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abandonar suas propriedades para sair, e voltar a São
Leopoldo.

Ignora também que a experiência com a
plantação de trigo, (das sementes trazidas da Europa,
pelo Comandante Schmitt e por Justin, não deram bons
resultados). A colheita de trigo, na verdade, foi precária.

Na carta diz que os colonos estavam plantando
uvas, algo que também não ocorrera, muito menos em
condições de exportá-las para outros lugares da
Província.

Tudo indica que o interesse do Coronel Paula
Soares era o de apresentar bons resultados, ao Governo.

Uma carta de agradecimento, neste teor, com
aspectos bem positivos, era favorável ao Diretor da
Colonização que desejava demonstrar a sua competência
na condução do empreendimento.

O que importa é que a Colônia Alemã Protestante
de Três Forquilhas havia sido estabelecida com êxito. A
maioria dos colonos havia sido contemplada e estavam
assentados em seus respectivos lotes de terra.

Esta carta foi, provavelmente, redigida em Torres,
trazida até a Colônia de Três Forquilhas por ocasião da
vinda da terceira leva de colonos, quase no final do mês
de dezembro de 1827, para ser assinada pelos colonos.
Nessa ocasião, Pastor Voges já havia viajado a São
Leopoldo, para o seu casamento com Elisabetha
Diefenthaeler. O pastor era o único na Colônia de Três
Forquilhas que entendia a língua francesa.

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
139
CONCLUSÃO

Concluímos “De Pés e a Ferros” afirmando que os
méritos da colonização alemã no Vale do Rio Três
Forquilhas cabem ao coronel Francisco de Paula Soares
Gusmão. Ele teve a coragem para contrariar o projeto
original da colonização de Torres, idealizado por
Fernandes Pinheiro, que não previa a ocupação do vale
de Três Forquilhas.

Paula Soares é merecedor da nossa admiração e,
certamente, a gratidão dos descendentes de pioneiros
colonizadores que ainda hoje vivem em áreas que os
antepassados receberam a mais de 180 anos atrás, no
vale do rio Três Forquilhas.

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
140
DADOS BIOGRÁFICOS DE JOSÉ FELICIANO
FERNANDES PINHEIRO: o idealizador da Colonização
Alemã no Litoral Norte do Rio Grande do Sul.

Nasceu em Santos, em 09 de maio de 1774, filho
do Coronel José Fernandes Martins (português) e de
Teresa de Jesus Pinheiro.

Estudou na Universidade de Coimbra, Portugal Em
1798, recebeu o grau de bacharel. Em 1800, foi nomeado
Juiz das Alfândegas do Rio Grande do Sul. Em 19 de
setembro de 1801, foi nomeado Auditor Geral de todos
os regimentos sul riograndenses. Em 1812, foi até
Montevidéu com o exército pacificador e assumiu o cargo
de vogal da comissão militar, criada no ano seguinte. Em
1821, foi eleito deputado pela província de São Paulo
para a Constituinte Portuguesa.

Em 1823, foi nomeado presidente do Rio Grande
do Sul. Em uma de suas viagens, ao passar pelo vale do
Mampituba, ele teve a idéia de criar uma colonização
alemã na área de Torres, no Litoral Norte do Rio Grande
do Sul.

Fernandes Pinheiro era um defensor das causas
indígenas. Chama a atenção o que escreveu em 12 de
abril de 1825: "... é necessário atrair e pacificar por meio
de presentes e de maneiras doces os índios selvagens,
servindo-se do intermédio dos que já estão domesticados
e prometer-lhes, assegurando por meio de intérpretes,
que é vontade de nosso Imperador que não haja mais
guerras, nem hostilidades; que, se quiserem aldear
debaixo de nossa proteção, serão bem acolhidos e até
defendidos dos seus inimigos...”. (Ofício de 12/04/1825,
do presidente Fernandes Pinheiro ao cel. Manoel da Silva
Carneiro e Fontoura — liv. 147, Cxa. 58. Arquivo
Histórico RS).

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
141
José Feliciano Fernandes Pinheiro tornou-se o
Visconde de São Leopoldo. Faleceu em 6 de julho de
1847, em Porto Alegre.

DADOS BIOGRÁFICOS DE FRANCISCO DE
PAULA SOARES DE GUSMÃO: o primeiro Inspetor da
Colonização Alemã de Torres.

Nasceu na cidade de São Paulo, da então
Província de São Paulo, no ano de 1784, como filho do
Tenente Francisco Soares e Esméria Antonia de Gusmão.

Iniciou a sua carreira militar, na Província de São
Paulo.

Com a proclamação da independência do Brasil
colocou-se ao lado de Sua Majestade Imperial, D. Pedro
I, para participar das lutas pela consolidação da
Independência. Recebeu o comando das Milícias
Sertanejas colocadas em Torres, para guarnecer o Litoral
Norte do Rio Grande do Sul. Casou com Dona Guiomar
Antonia Soares Gusmão, viúva de um casamento anterior
do qual ela trazia a filha Rita Inácia da Costa. Em 1826,
Paula Soares recebeu o cargo de Inspetor das Colônias
Alemãs de Torres. Era na verdade uma espécie de
Diretor, pelos poderes que lhe foram conferidos. Foi
descrito, a partir da tradição oral de Três Forquilhas
como sendo um homem de estatura baixa, relativamente
gordo. Era do tipo bonachão, porém, firme nas decisões.
Em 1835 o Coronel Paula Soares foi destacado pelo
Exército para participar da defesa da cidade de Porto
Alegre, e procurar conter a investida dos Farrapos. Foi-
lhe entregue o Comando da Companhia de Voluntários
Alemães, convocados nas diversas colônias alemãs.
Certamente recebeu este cargo por dominar, de modo
razoável, o idioma alemão. Perdeu a esposa em Porto

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
142
Alegre, no ano de 1849. Já no ano seguinte voltou a
contrair matrimonio com a Sra. Rita Edalina dos Santos.

Paula Soares não teve filhos nestes dois
matrimônios. Conforme a tradição oral de Três
Forquilhas, mesmo distante de Torres, Paula Soares
continuou na função de Inspetor das Colônias Alemãs de
Torres, contando com a colaboração do pastor Carlos
Leopoldo Voges, no cuidado dos assuntos da Colônia de
Três Forquilhas.

Em 1847, Paula Soares redigiu um minucioso
documento intitulado “MEMÓRIAS DAS TÔRRES”. Com a
aposentadoria de Paula Soares, o pastor Voges teria
assumido a função, inclusive na inspeção da Colônia São
Pedro (Católica) o que ainda merece maior pesquisa e
comprovação. No final da carreira militar Paula Soares
chegou ao posto de Brigadeiro General (hoje seria um
General de Brigada).

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
143
FONTES DE CONSULTA

A FALA VEGETAL, texto de Carlos Drummond de
Andrade, em CONTOS PLAUSÍVEIS, livro publicado pela
José Olímpio Editora, em 1981.

Acervo documental do Pastor CARLOS LEOPOLDO
VOGES. Pastas de documentos, livros, relatórios,
fotografias e papéis avulsos.

Livros do Registro Eclesiástico da COMUNIDADE
EVANGÉLICA DE TRÊS FORQUILHAS, em Itati – RS.
(Registro de Batismos, Casamentos e Óbitos).

Arquivo pessoal do escrivão ALBERTO SCHMITT e
de seu pai, o escrivão CHRISTOVAM SCHMITT.
Depoimentos de Alberto Schmitt vindos da tradição oral.

Arquivo pessoal de BALDUINO MITTMANN, com
acervo de fotos. Depoimentos de Balduino Mittmann com
base na tradição oral.

Depoimentos de EUGENIO BOBSIN, com
memórias sobre os seus antepassados Eberhardt e
Bobsin. Eugenio Bobsin foi criado pelo avô Cristiano
Eberhardt, com o qual colheu memórias valiosas sobre a
história da Colônia de Três Forquilhas.

Depoimentos de JACÓ MAUER, sobre a
personalidade do pastor Voges e as relações do pastor
com o povo do vale do rio Três Forquilhas.

Memórias de OTHILIA VOGES BOBSIN e
fotografias do “Arquivo da Família Voges”.
Vovó Othilia confiou ao autor, em 1970, uma foto
do pastor Voges, depois publicada pelo historiador Dr.

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
144
Carlos H. Hunsche, que esqueceu de mencionar a origem
da mesma.

ELIO E. Müller, em “TRÊS FORQUILHAS 1826 –
1899”, Fonte Gráfica e Editora Ltda, Curitiba, 1992.

FISCHER, Ernesto, em “CRÔNICAS DE TRÊS
FORQUILHAS”, manuscritos de 1967, 1968 e 1970.

NOTAS EXPLICATIVAS

(1) Página 11 – FIGUEIRA: a figueira, árvore majestosa
encontrada no ecossistema da “Floresta Perenifólia
Higrófila Costeira” que faz parte da Floresta Atlântica, no
Litoral Norte do RS, começando pelo rio Mampituba, em
Torres, indo até o município de Osório (RS). No “Sítio da
Figueira” em Itati (RS) pode ser visto um exemplar,
árvore mais que centenária, que desafia o tempo e os
ventos, e resiste contra aqueles que não respeitam a
pródiga natureza do vale do rio Três Forquilhas e região.

(2) Página 15 – ACANTONAMENTO: é a acomodação de
pessoas em um espaço apertado, na forma de
acampamento rústico, no caso de Torres, em pequenas
casas de madeira. Na língua alemã foi definido por
Einquartierung e em francês como Cantonnement. (Nota
do autor).

(3) Página 20 - A LOCALIZAÇÃO DA CHOUPANA TEMPLO:
29º 29' 20.43" de latitude sul 50º 6' 3.63" de longitude
oeste).

(4) Página 20 - TESTEMUNHO: em 1970, o Sr. Alberto
Schmitt, descendente do Pastor Voges, residente naquela
propriedade informou que este cedro secular resistiu até

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
145
por volta de 1900, quando foi derrubado e transformado
em madeira, portanto 7 anos após a morte do pastor.

(5) Página 22 - PIRILAMPO: tem origem no grego, pyris
(pyros)=calor, lampis= Luz, Também conhecido por
VAGALUME; É um inseto coleóptero das famílias
Elateridae, Fengodidae ou Lampyridae, que emite luz.
Alimenta-se principalmente de lesmas e caracóis. A
espécie mais comum no Brasil é a Lampyris noctiluca, na
qual apenas os machos são alados. Habitam matas e
campos, preferindo os lugares úmidos e alagadiços como
os brejos, onde procuram por caramujos, para alimento.
(Nota do autor).

(6) Página 30 - SÍTIO DAS FIGUEIRAS: para informação
ao leitor, hoje sobrou apenas uma figueira, e passou a
ser o “Sítio da Figueira”. Localização: 29º 30' 33.98" S
50º 5' 31.69" W.

(7) Página 34 – HUGUENOTE: é a denominação dada aos
protestantes franceses (quase sempre calvinistas), pelos
seus inimigos, nos séculos XVI e XVII. O antagonismo
entre católicos e protestantes resultou em guerras
religiosas, que dilaceraram a França do século XVI.
Muitos huguenotes eram artesãos, comerciantes e
nobres, concentrando-se especialmente no oeste e
sudoeste da França. Os Bobsien, que entraram em Três
Forquilhas em 1826, foram, conforme a tradição oral,
artesãos franceses que fabricavam artigos de couro.
Fugiram para a Suécia, para escapar da morte.

(8) Página 35 - LEGAIS PIEDOSOS: era uma referência
para pessoas que estiveram vinculadas ao movimento
puritano da Alemanha, conhecidos depois como pietistas.
Consta que o imigrante Christian Maurer (que depois
assinava apenas Mauer), bem como Johann Nikolaus
Mittmann teriam sido influenciados, na Alemanha, pelo

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
146
movimento pietista, liderado pelo conde Nikolaus Ludwig
von Zinzendorf. (Nota do autor).

(9) Página 37 – TAIOBA: a taioba ou Xanthosoma
sagittifolium Schoot é uma “Arácea” folhosa que era
muito apreciada pelos índios desta região e que depois
foi incorporada pelos colonizadores europeus, como fonte
alimentar. A importância da taioba como componente da
dieta humana está no fato de seu total aproveitamento
(folhas, caule e bulbos). Suas folhas possuem maior
riqueza em nutrientes do que os bulbos. É necessário
tomar cuidado, pois existe a taioba brava, que é tóxica.
(Nota do autor).

(10) Página 45 – PILOTO: termo que, na época,
designava a função de agrimensor.

(11) Página 54 – RABECA: instrumento de arco,
precursor do violino, de origem árabe, utilizado no Brasil
em manifestações populares e religiosas desde os
remotos tempos da colonização.

(12) Página 76 - JUGADAS ALEMÃS: uma jugada alemã
corresponde hoje a ¼ de hectare, mais ou menos.

(13) Página 91 - BUTIÁ - Cocos eriospatha, palmeira
nativa da América do Sul, também conhecida por
Macumá e que ocorre nas matas e campos do Rio Grande
do Sul, Santa Catarina e Paraná.

(14) Página 91 – PACOVA: a banana chamada pelos
índios brasileiros de pacóua, ou como ficou escrita,
pacova já existia, sendo nativa, na América. O nome
banana é africano, relativo a determinada espécie trazida
da África. Apesar das origens diferentes da pacoba
brasileira e da banana africana, Gabriel Soares disse que
"não há nas árvores de umas às outras nenhuma

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
147
diferença". Há muitas espécies da banana nativa e uma
delas, talvez a mais saborosa, é por isso chamada no sul
de banana da terra, ou, para outros, de banana-maçã.
Talvez essa fosse a que os índios chamavam
pacovamirim, que quer dizer pacoba pequena, do
comprimento de um dedo, apenas mais grossa.

(15) Página 120 – MÓ: cada uma das peças, do par de
pedras duras, redondas e planas, com as quais, os
moinhos, moem ou trituram grãos de trigo, cevada,
centeio e outros, até se reduzirem a farinha.

(16) Página 127 – MARREQUEIRA: árvore medicinal,
espinhosa que pode medir de 6 a 10 metros de altura, de
folhas compostas e flores avermelhadas, nativa do Brasil,
também conhecida por corticeira, mulungu e bico-de-
papagaio. Uso medicinal na forma de chás: sedativa,
tranqüilizante, para dor de dente, reumatismo,
hemorróidas, tosse nervosa, asma e purgativa.

FIGURAS em “De pés e a Ferros”

Figura 1: Página – 12. O autor conversando com a
figueira. (Fotografia de Cristiane Müller Sounis Saporiti,
2008. Arte final do autor, 2009).

Figura 2: Página – 17. O Coronel Paula Soares (e pastor
Voges traduzindo suas palavras...). Gravura feita pelo
autor, 1974.

Figura 3: Página – 20. Dando uma noção da aparência:
Choupana Templo/Escola de Três Forquilhas, de 1826,
coberta com folhas de palmeira. Fotomontagem feita pelo
autor. Arte final, 2009.

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“De Pés e a Ferros” – Elio Eugenio Müller
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Figura 4: Página – 23. Pastor Carlos Leopoldo Voges na
Colônia de Três Forquilhas. Fonte: Arquivo da Família
Voges. O ano da foto é desconhecido.

Figura 5: Página – 35. Assinatura de Johann Bobsin em
1827. Fonte: Arquivo Nacional, Seção dos Ministérios, Rio
de Janeiro. Carta de agradecimento em francês, assinada
por 46 chefes de família de Três Forquilhas, entre os
quais consta Johann Bobsin. Data: 31.12.1827.

Figura 6: Página – 48. A Colônia de Três Forquilhas.
Fonte: Croqui feito pelo autor, publicado no livro: “Três
Forquilhas – 1826 -1899”, p. 22.

Figura 7: Página – 62. Professor pensativo. Fonte:
Fotomontagem do autor, 2009.

Figura 8: Página – 67. Náufragos em busca de socorro.
Fonte: Gravura elaborada pelo autor, 1974.

Figura 9: Página – 94. Voges e Petersen em Três
Forquilhas. Fonte: Gravura elaborada pelo autor, 1974.

Figura 10: Página – 102. Enamorados, em Torres,
diante da Lagoa. Fonte: Gravura elaborada pelo autor,
1974.

Figura 11: Página – 111. Templo de madeira da Colônia
de Três Forquilhas. Fonte: Gravura feita pelo autor, com
informações do Sr. Alberto Schmitt, 1970.

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COLEÇÃO MEMÓRIAS DA FIGUEIRA
Autor: Elio Eugenio Müller

Volume 1:
“De pés e a Ferros”
O nascer da Colônia de Três Forquilhas.

Volume 2:
“Sangue de inocentes”
Episódio da Revolução Farroupilha.

Volume 3:
“Dos bugres aos pretos”
A tragédia de duas raças.

Volume 4:
“Amores da Guerra”
Histórias da Guerra do Paraguai.

Volume 5:
“Face Morena”
A miscigenação na Colônia de Três Forquilhas.

Volume 6:
“Os Peleadores”
Um episódio da Revolução Federalista.

Volume 7:
“E a vida continua...”
O drama humano diante do flagelo da epidemia.

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