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A “Sala de Espera” de Carlito Carvalhosa e a “Obra” de Mauro Restiffe no Anexo do MAC Ibirapuera | São Paulo | BR

“…projeção da linha enquanto força autónoma que conduz à invenção da abstração…” 1

A nova sede do MAC/USP localiza-se em Ibirapuera, num edifício projetado em 1950,

da autoria de Oscar Niemeyer, inaugurado em 1954. Os 6º e 7º pisos apresentam obras selecionadas da Coleção, subordinadas a organizações curatoriais específicas. A considerar as esculturas e instalações situadas logo no andar térreo. Subindo ao terraço do 8º andar, o visitante depara-se com uma vista panorâmica notável, sublinhando o alinhamento de recortes da cidade em grande angular.

Progressivamente, serão ocupadas outras salas, nos demais pisos, com intuito de assegurar o conhecimento organizado de inúmeras obras pertença da Coleção MAC- USP. Em paralelo, atenda-se à programação complementar, que propicia um maior

contato aos públicos, como é o caso do ciclo de conversas - às 3fs protagonizadas por artistas representados na Coleção.

O

diretor do MAC/USP, Tadeu Chiarelli vem desenvolvendo uma atividade museológica

e

de programação relevante e lúcida, que abrange desde há anos atrás, o Museu de

Arte Contemporâneo (MAC) no Campus da Universidade de São Paulo (USP). Carlito Carvalhosa 2 foi convidado, por Chiarelli, a conceber um projeto para inaugurar o Anexo da nova Sede em Ibirapuera. Trata-se de uma área extensa, com cerca 1800m2, anterior garagem do recinto.

O

processo de remodelação está plasmado nas imagens (residuais), que testemunham

o

espaço conquistado para o novo MAC/USP. Apresentam-se 12 fotografias de grande

formato, autoria de Mauro Restiffe, numa série intitulada “Obra”. Uma e a outra abordagens são presenças autorais decisórias, privilegiando a autonomia das respetivas incidências - olhares poiéticos que transportam a razão e a operacionalidade estética tão clarividentes sobre o lugar.

O fotógrafo paulista registrou o processo de arquitetura recuperativa do edifício, ao

longo de 3 anos, para se configurar como Museu, após ter alojado, sucessivamente, a Secretaria de Agricultura do Estado e o Detran. As imagens fotográficas de uma clarividência estética extrema - alastram pelo vasto espaço do Mezaninno, permitindo ao “olhar estrangeiro” tornar confratenizar com um processo que não foi vivido pelo público que atualmente visita o Museu. É o tempo cativado, “tempo do antes” que configura o “tempo de agora”, afirmando decisões ajustadas de uma política cultural

coerente e atuante, por parte dos responsáveis. Faz o tempo do depois, portanto viabilizando concretizações imensas. Tudo isso consta das diferentes leituras que se façam ao contemplar as fotografias de Mauro Restiffe. Esta ambiguidade complementarizadora, quanto à vidência e experiência dos tempos, reside em toda propriedade na “Sala de Espera”. Nela se presentifica a consciência vivida pelo espetador no espaço, instaurador de uma abundância perceptiva, conduzindo distintas interpretações e estabelecendo persistências conceptuais.

1 VV. Le Dessin, Paris, Skira, 1979, p.200

2 Carlito Carvalhosa participa na I Trienal no Alentejo, Portugal, a acontecer neste Verão de 2013.

O projeto “Sala de Espera” apropria-se do andar térreo, povoado por pilares (colunatas), que é conforma o Anexo. Foi inaugurado a 9 de Março passado, ficando

patente até 8 de Setembro próximo. Ao entrar na linha de horizonte da “Sala de Espera” decidida por Carlito Carvalhosa, o visitante acha-se ou mergulha num lugar que redesenha uma arquitetura ilusória, materializada e conforme. A natureza da intervenção, clamando pelo olhar, tanto quanto provocando a audição, olfacto ou tacto, apela à duração da visita. Prolonga-se

a permanência, experimenta-se o enigmática da envolvênciaEis os factores e

condições que providenciam forte imersão a quem nela se adentre. A concretização do projeto indicia uma dinâmica expansiva, consentânea à concentração que é detalhista e silenciosa: “A estratégia de Carlito Carvalhosa para ativar o espaço que lhe foi oferecido, consistiu em tomar como ponto de partida, justamente, o caráter

atemporal, “entre parêntesis”…” 3

A instalação incorpora cerca de 80 postes (de 9 a 12 m de comprimento) de madeira,

pertencentes à rede elétrica (e que serviram a iluminação pública) e que foram reaproveitados pelo artista paulistano. Como assinala Maria Hirszman 4 , já anteriormente, o artista recorrera a postes que nessa ocasião - foram suspensos, ao conceber a intervenção realizada em 2010 no vão central do Palácio da Aclamação em Salvador (Bahia). Salvaguardadas as diferenças constitutivas e as estruturas implementadas, num e outro local, a identidade da arquitetura jogou com as estipulações gráficas dos elementos tridimensionais utilizados. Perante a amplitude do espaço proposto e a configuração modernista da arquitetura, Carlito Carvalhosa referiu que: “…a primeira vez que vi o espaço ele me pareceu um mundo muito ideal, com suas colunas que se multiplicam”, isento, nessa altura de referência direta que o declarasse espaço museológico. Estaria, ainda, em estado de “epoché” - em suspensão e, talvez, não somente em espera… A espera supõe a vinda, acolhe quem todavia não estará. Em setembro de 2010, tive oportunidade de visitar, no espaço “Octógono” da Pinacoteca do Estado de São Paulo, a instalação “Soma dos dias” de Carlito Carvalhosa, obra que teve presença colaborativa de Philip Glass. Essas espirais de tecido que se desorganizavam em movimentos centríptos e centrífugas, quase em simultaneidade, provocavam uma recepção estética também “em suspensão” e, então, (ainda) “em espera”. No caso, a translucidez prevalecia, gerando sombras e indiciando silhuetas de quem penetrasse nesse quase labirinto. O corpo podia deformar a descida dos tecidos, num movimento quase de raiz ontológica. Primado de um ar que se grudava nos drapejos austeros que se deixavam apropriar pela luz. Ao visitar a presente intervenção, em manhã de domingo e perante a quase ausência de público voltou esse estado dominado pela luz em suspensão que foi estabilizada pela distribuição dos postes que não geram a opacidade que se poderia acreditar. A volumetria resulta dos intervalos entre os elementos de madeira, distribuídos que lembram uma terra que se ausentou. Pois quase se acredita não haja necessidade de um chão para eles. Prevalece a recepção visual do entorno vivido/existido como todo.

3 Tadeu Chiarelli, reflexão e prospecção: sobre sala de espera, de carlito Carvalhosa”, 2013 in http://www.carlitocarvalhosa.com/textos/141 (consultado em 16 junho 2013) 4 In http://www.carlitocarvalhosa.com/expos/108 (consultado em 16 junho 2013)

Subtilmente, quanto mais me demorava no Anexo, mais me pareceu que a densidade e peso da madeira se diluíam, adelgaçando e isolando linhas. Estas transfiguram-se num desenho que é composto e sólido (sendo “algo” potencialmente etéreo), assim alastram pelas zonas vazadas da sala. A consignação da “Sala de espera” dos postes que são instrumento para “desenhar” no vazio e que são, igualmente, desenhos implica, assim, uma ação por parte do espetador, tornando-o protagonista de uma aventura singularizada. O desenho (entenda-se a completude da intervenção como todo) constrói, por assim dizer, identidades diferenciadas perante uma mesma proposta gráfica. Ou seja, o desenho/intervenção rege a constituição de linhas de movimento do corpo do espetador, para cativação e sequencialidade no ato de ver.

J’ai découvert que dessiner n’était pas seulement/regarder, mais aussi toucher. » Jan Fabre]

Neste sentido, “ver” um desenho será efetivamente “desenhar”, pelo movimento do corpo próprio (do espetador), um ato único de perceção visual. A sensação que descrevo, encontrei-lhe paridade recente ao visitar, então pela primeira vez, a exposição “Arte Vida/ Vida Arte”, do escultor português Alberto Carneiro, no Museu de Serralves (Porto). Foi urgente voltar, sentir as diferentes instalações, uma e outra vez, para usufruir com uma certa gula estética, uma experiência quase única, pois frutifica da sabedoria do artista que assim regimenta a sua produção. Se, no caso de Carneiro, a madeira assegura presença através da ductilidade orgânica da sua materialidade, afirmando a condição de paisagem natural/pensamento natural, em Carlito Carvalhosa, a madeira procede da intervenção técnica do homem que a funcionalizou para efeitos “civilizacionais”. Alguns foram cativados, testando a gravidade pois estipulam pontos de equilíbrio inesperados. Formam sinais elementares que integram uma linguagem visual antes da escrita (antegrafia). São antegráficos e gráficos. Olhados desde uma perspetiva aérea desmaterializam-se, o que origina um questionamento: a espera que pertence ao absurdo de Beckett. Efetivamente, de tão intenso e espesso que é o pensamento de Carlito Carvalhosa, institui-se uma encenação que tanto isenta, quanto convoca pessoas. Compreende-se, ao conhecer a “Sala de espera”, o que é a noção de escala, o cânone para o antropomorfo, as residências de um objeto estético que é uma obra de arte inquestionável. A intervenção assume uma internalização de paisagem que pode ser contemplada desde diferentes ângulos, impelindo o espetador, deslocando-o. Consignando uma intersecção conceitual, o pilotis vê subvertida a sua função construtiva, pois os postes elevam-se em vez de descerem para o chão e sedentarizarem. Avançam, atravessam-se e cruzam o ar; apoiam-se, estabilizam-se pressupondo o chão sem o incentivar. Ajustados por parafusos, rebites e demais estratégias de fixação, as sombras alongam-se, repercutindo as linhas de ritmos e diâmetros desiquilibrados. Contudo, essa profusão de linhas que delimitam sectores dentro de uma área que tem de ser percorrida para ser vista, apenas certifica que é um privilégio estar ali. Beleza e sublime como Kant, entre outros soube entender, são definições nómadas que encontraram uma de suas sedentarizações. Nesta sala de espera estão os pensamentos e sensibilidades de mitos, mitologias, poéticas, filosofias, técnicas, artes e ciências. É uma cativação plural do mundo humano que interroga a sustentabilidade atual.

Maria de Fátima Lambert

São Paulo, Maio/Junho 2013