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PAISAGEM E ARTE Uma estratégia de aproximação, leitura e projeto do espaço urbano Luciana Bongiovanni

PAISAGEM E ARTE Uma estratégia de aproximação, leitura e projeto do espaço urbano

Luciana Bongiovanni Martins Schenk

Introdução

Esse trabalho segue um caminho que entrelaça definições e estratégias de pesquisa sobre o urbano em geral e sobre a paisagem em especial, para tanto estabelece alguns movimentos que, como numa composição se articulam nessa tarefa.

A idéia de uma investigação acerca das possíveis estratégias para a elaboração de projetos para áreas livres públicas ocorre a partir de nossa experiência didática e profissional. Foram estabelecidos então desenvolvimentos das chamadas chaves de investigação, a saber: espaço público, paisagem e arte. A hipótese que se coloca é a questão da reflexão projetual acerca de áreas livres públicas, algo que se procura configurar como Arquitetura da Paisagem, e sua associação ao campo das artes e à chamada arte urbana.

Tal preocupação em gerar formas de abordagem decorre do fato de percebermos cotidianamente um hiato que separa o conceito e o projeto, do objeto construído e em uso. A idéia de utilizar a arte como ponte entre essas instâncias, como elo que, ao mesmo tempo em que une, tenciona, a um só tempo transpassa e permanece, é a tentativa de não só associar campos afins, mas de engendrar uma lógica atinente às artes contemporâneas, especialmente as obras pensadas para áreas públicas e que na sua prática, materializam reflexões críticas acerca desse mesmo espaço.

- PPG-AU - Faculdade de Arquitetura / PPG-AV - Escola de Belas Artes / PPG-LL - Instituto de Letras UFBA

I SEMINÁRIO ARTE E CIDADE

Salvador, maio de 2006

Sobre o espaço público atual, deparamo-nos com falas acerca de sua desinstitucionalização e encolhimento sintomático, bem como da sua colonização pelo poder privado 1 . Uma argumentação que desvenda a estetização de certos lugares e mesmo cidades que, escolhidos pelo capital nesses tempos de flexibilização transformam em mercadoria a paisagem.

Se num primeiro momento a leitura parece ser de total esvaziamento da disciplina e profissão 2 , num segundo afirma-se a necessidade de redefinição do papel do arquiteto urbanista na concepção e feitura do tecido urbano 3 .

O aporte teórico que se estabelece compartilha a tese de Habermas (1990), que afirma a transição do

paradigma da consciência para o paradigma da compreensão, um modelo de “ação orientada para a

compreensão”. Habermas concebe a ação racional através da teoria da ação comunicativa: o conhecimento não é mais algo validado por sujeito, ou sistema, mas é antes um acordo entre os participantes sobre aquilo que se procura compreender e decidir.

A ação é positiva no sentido em que se busca resgatar um certo tipo de razão que sobrevive à

falência, ou desencantamento, de um mundo racional, anunciado como uma progressiva evolução para um futuro melhor. O projeto Iluminista de redenção pela razão, ora nublado pela barbárie sempre presente aparece, segundo alguns autores 4 , ainda como projeto possível, senão o único, para a vida cívica e democrática.

O trabalho procura estabelecer a possibilidade de síntese, conceitual e de projeto, como algo que se

realiza a partir da idéia de totalidade 5 . A totalidade não significará o conjunto de todos os fatos, a

atualidade do termo exprime um todo que se estrutura dialeticamente, num processo de correlações que longe de apresentar uma derradeira verdade para o assunto, apresenta uma perspectiva, um possível, que coteja idéia e fenômeno.

Elabora-se então, um primeiro movimento no qual certas definições são apresentadas para uma futura articulação sobre o tema espaço público e arte; um segundo movimento que trata do estatuto da paisagem, da natureza do termo à sua inserção dentro do campo dos saberes da Arquitetura e Urbanismo; um terceiro movimento, agora mais estreitamente ligado à abordagem desse lugar que se configura revelando um projeto, e que trata da construção de períodos, recortes de aproximação – estratégia de leitura e reflexão acerca do urbano, esse processo de construção de um conceito para o lugar procura reunir aspectos qualitativos, eleger e recortar elementos da paisagem e da história

1 PALLAMIN, 2002.

2 ARANTES, 2002.

3 “Toda ação ligada ao urbanismo e à construção é inescapavelmente política. É portanto, uma ação pela qual todos os construtores e

urbanistas devem ser responsáveis (

cidades e torná-las comunicativas, e essa noção parece ter sido tragicamente esquecida por várias entidades que nos governam”.

(RYCKWERT, 2005, p 348).
4

5 Noção que veremos apresentadas em SARTRE (1967) e KOSIC (1963 / 1985).

a constante participação e envolvimento da comunidade são necessários para moldar nossas

)

Como ARENDT, (1958 / 1997), ROUANET, 1987, ou DEUTSCHE, 1996.

dessa paisagem, elementos que marcam o território e que projetam possibilidades. Uma eleição de pontos significativos que podem ter sua visibilidade ampliada e desvendada através do projeto.

Um quarto movimento trata dos modos pelos quais essas intervenções devem ser conquistadas e

desenvolvidas, uma vez que o projeto de uma área livre pública, dentro de uma sociedade organizada

se

insere dentro da perspectiva de um planejamento da cidade por seus cidadãos. Daí a necessidade

de

investigar a ligação entre a idéia de plano e ideologia. O intuito é desmistificar chaves ideológicas

e localizar o plano como tradução de um tempo-espaço de uma sociedade – aqui a dimensão da

teoria da ação comunicativa, (Habermas, 1990), opera como uma espécie de agente que auxilia no desvendamento das falas ideológicas, embora sujeito às dificuldades e desafios que a vida em grupo estabelece. Daí devém o quinto e último movimento que versa sobre arte e projeto de áreas públicas

– a dimensão trabalhada é aquela da arte urbana.

“Destacamos a arte urbana como prática crítica exatamente nesse momento em que o

horizonte não possui mais a carga utópica que já teve um dia. Isso não significa propor o

Tampouco significa uma

aproximação com uma atitude cínica ou decepcionada. Pelo contrário, potencializada pela idéia de tornar a cidade disponível para todos os grupos, essa prática crítica inclui dentre seus propósitos estéticos o desafio a certos códigos de representação dominantes, a introdução de certas falas e a redefinição de valores como abertura de outras possibilidades de apropriação e usufruto dos espaços físicos e simbólicos 6 ”.

alinhamento

com

uma

atitude

melancólica

ou

nostálgica

(

).

A natureza da proposta é cúmplice da natureza do lugar, o que vincula essa composição de

movimentos ao fenômeno. Um ponto se clarifica: a leitura resgata aspectos atuais e históricos, físicos

e ambientais, de uso; informações muitas vezes pouco visíveis, ou intencionalmente colocadas ao

largo. Revela-se, pela prática projetual do espaço livre público, o que pode ter ficado à sombra, em associações tão diversas quanto necessárias, pois que o necessário é que a cidade contemple o encontro, aquilo que fecunda e engendra a cultura. 7

primeiro movimento: definições

- espaço e lugar / cidade / urbano e urbanização / paisagem e arquitetura da paisagem.

No segundo capítulo do livro intitulado A Natureza do Espaço, o geógrafo e professor Milton Santos, apresenta seu percurso intelectual na tentativa de definição de espaço. Suas primeiras considerações, ainda na década de 70, apresentavam o espaço como par: fixos e fluxos, duplo que amadureceria até a tese que acreditava, melhor expunha esse objeto fundamental para a geografia:

cabe estudar o conjunto indissociável de objetos e sistemas de ação que formam o espaço”.

6

PALLAMIN, 2002, p 103.

7 “O essencial é que a cidade ensaia a convivência com aquele que eu não conheço, que me é estranho, e que, no entanto, não é excluído”. NEGT, 2002, p 22.

Seu esforço era o de contribuir na construção de uma epistemologia própria à geografia, e evitar a utilização de conceitos migrados de outras áreas, carregados de outros percursos, estranhos ao campo disciplinar em questão. Ele se apercebera de que o debate filosófico, bem como interdisciplinar, aconteceria apenas a partir dessa construção, daí a importância de precisar termos, afinar idéias e definições.

A paisagem, segundo sua conceituação, é um conjunto de formas que num dado momento, exprimem as heranças que representam as sucessivas relações localizadas entre homem e natureza. Essas formas somadas à vida que as anima seria o espaço. A paisagem é, portanto, uma “construção transversal”, uma imagem de diferentes tempos que une objetos presentes e passados, um sistema material que existe através da coexistência de suas formas, expressando diferentes momentos históricos 8 . Aqui, a definição de paisagem carrega uma fixidez que só ganha movimento a partir da idéia de espaço, esse sim, articula as ações humanas e cria as condições de existência, portanto de realidade filosófica.

Entretanto, conhecer esse duplo, paisagem / espaço é algo que merece incessantes mediações, em outras palavras, há algo como uma coleção de informações de diferentes naturezas que coexistem nessa estrutura que se pretende apreender:

“O espaço é hoje um sistema de objetos cada vez mais artificiais, povoado por sistemas de ações igualmente imbuídos de artificialidade, e cada vez mais tendentes a fins estranhos ao lugar e seus habitantes. Os objetos não têm realidade filosófica, isto é, não nos permitem o conhecimento se os vemos separados do sistema de ações” 9 .

O desafio é justamente criar condições para a aproximação, a leitura e compreensão desse par que no limite expressa permanência e mudança, ao mesmo tempo em que se efetua um movimento paralelo, e não necessariamente posterior, pertinente ao projeto. Em outras palavras o que se afirma aqui é que conhecer já é parte da atividade de projeto.

O termo paisagem participa de diversas áreas do conhecimento. Uma gama de profissionais, especialidades, ou simplesmente interesses operam sobre essa temática, recortando, de acordo com sua formação, a visada que lhes desperta a atenção. A percepção da paisagem pelo geógrafo, ecólogo ou arquiteto – urbanista expressa conceituações potencialmente distintas.

Interessa aqui reter que essa percepção diferenciada redunda em distintas prioridades, reflexões e propostas sobre a paisagem, o que gera grande desafio no estabelecimento de uma epistemologia, bem como de um campo disciplinar consistente.

8 SANTOS, 2002, p. 103 e 104.

9 idem, p, 63.

Se nos voltarmos à origem do termo veremos que a distinção do léxico surge apenas no século XV 10 , e acontece de modo correlato em diversas línguas a partir da palavra que designa terra, no sentido de país. Land / Landschaft, em alemão; land / landscape, em inglês; Pay / Paysage, em francês; Paese / Paesaggio, em italiano; País / Paisagem, em português – essa estreita ligação descortina uma noção histórica do termo paisagem presente na sua raiz.

“Todos os que se iniciam no conhecimento das ciências da natureza – mais cedo ou mais tarde, por um caminho, ou por outro – atingem a idéia de que paisagem é sempre uma herança. Na verdade, ela é uma herança em todo sentido da palavra: herança dos processos fisiogeográficos e biológicos, e patrimônio coletivo dos povos que historicamente as herdaram como território de atuação de suas comunidades 11 ”.

O colega geógrafo de Milton Santos, Aziz Ab’Saber, compartilha a dimensão histórica e de herança

que o termo paisagem guarda, enfatizando, entretanto, também seus aspectos naturais.

Dentre os diferentes campos disciplinares que se debruçam sobre a paisagem, cabe ao arquiteto urbanista, cuja natureza da formação é criativa, a intervenção, sob a forma de plano e projeto. Desse modo, embora existam pontos de contato bastante intensos, seja com a geografia, seja com a biologia e ecologia, a construção da disciplina Arquitetura da Paisagem ainda ensaia sua epistemologia e esta está, sem dúvida, estreitamente ligada ao campo das artes.

A argumentação de que a paisagem nasce em primeiro lugar no olhar que se modela, na percepção

que se amplia a partir desse contato com as artes em geral e com a pintura em particular, é defendida por Alain Roger que explora, segundo seu testemunho já há duas décadas, a hipótese culturalista no estabelecimento das idéias de beleza e paisagem. Segundo o autor, que elabora retomando um

termo inaugurado por Montaigne e traduzido aqui por artealização, cujo significado seria a afirmação de nossa experiência como fruto de uma percepção gerada a partir de modelos artísticos, “são aquisições, ou melhor, invenções culturais que podemos datar e analisar. 12

Entretanto, cumpre precisar uma face da construção aqui pretendida. O vínculo entre arte e paisagem se atualiza num tempo-espaço presente, escapando de românticas tomadas que transformam a paisagem em paisagismo, termo carregado de significados que reduzem em muito a atividade do arquiteto urbanista, nublando assim o estabelecimento de um campo disciplinar consistente. A paisagem é testemunho de relações sociais complexas, construção cultural e histórica

10 ROGER, 2000, p34.

11 AB’SABER, 2003, p. 9.

12 Existem dois modos de artealizar um terreno para transformá-lo em paisagem. A primeira consiste em inscrever diretamente o código artístico na materialidade do local, sobre o terreno, a base natural. Artealiza-se in situ. É a arte milenar dos jardins, o landscape gardening a partirr do século XVIII, e, mais próxima de nós, a Land art. O outro modo é indireto. Não se artealiza mais in situ, mas in visu, trabalha-se sobre o olhar coletivo, fornece-se lhe modelos de visão, esquemas de percepção e de fruição. Junto-me portanto ao ponto de vista de Oscar Wilde – é a natureza que imita a arte.” Roger,2000, p

Se a arquitetura da paisagem ainda ensaia seu estabelecimento, os esforços de definição do urbano colecionam muitos momentos, desde tentativas meramente quantitativas, relativas ao número de população, às qualitativas, como as ligadas a uma cultura urbana existente apenas a partir da geração de excedentes na produção, o que possibilitaria o desenvolvimento de outras atividades não ligadas diretamente à sobrevivência. Não cabe aqui recolocar questões amplamente desenvolvidas por diversos autores 13 , mas firmar um momento nesse esforço de definição em que a visada relacional se estabelece. Em outras palavras, o urbano, melhor posto como urbanização, uma vez que o termo denota processo, se dá a partir de um tipo especial de relação, ou relações que se estabelecem.

Um percurso que nos parece referencial é o estabelecido por David Harvey , 1973 14 , que elabora sua definição a partir de categorias baseadas no uso do espaço, bem como na relação entre usuário e lugar.

Esse é um ponto que nos interessa reter: o lugar guarda contornos mais definidos que o espaço, seu recorte é correlato à distinção estabelecida pela chamada nova geografia em relação a urbano e cidade. 15

É o lugar que se revela como objeto de intervenção ao arquiteto urbanista – a dimensão científica e

artística de sua atividade, a arquitetura dessa paisagem, bem como as estratégias para desenvolvê-la pretendem fazer parte dessa investigação.

segundo movimento: ciência contemporânea, paisagem e arquitetura da paisagem.

A dimensão do investigar a paisagem deve ultrapassar o simples colecionar de fatos, ou a mera descrição de qualidades, a atividade que se apresenta é de reflexão e crítica.

Um dos pontos que fundamenta uma investigação é a escolha, o recorte do objeto de estudo. Operação que não implica em isolar, pois isso significaria um retorno a uma matriz de pesquisa analítica pouco compatível com o estudo urbano e o projeto da cidade.

É necessário compreender que essa ação é antes uma convergência tática de várias disciplinas que

se desloca do objeto para as condições de possibilidade dos objetos. Essa lógica amplia os horizontes para reconstituir práticas, técnicas, preceptivas, regras, num esforço de correlação entre obras, discursos, práticas, objetos, fragmentos, de sorte que a idéia de interpretação como geradora de um sentido, ou solução para um problema resulta desestruturada em seu sentido corrente 16 .

13 MUNFORD, 1982; MORRIS, 1984 ; SINGER, 1977; HARVEY, 1973 e 1993; CASTELLS, 1972 E 1993 .

14 O autor se baseia na idéia de existência formulada por Lebniz que afirma o existir de algo sempre em relação a outro.

said to exist only insofar as it contains and represents within itself relationship to the others objects”. HARVEY, 1973, p13.
15

“O urbano é freqüentemente o abstrato, o geral, o externo. A cidade é o particular, o concreto, o interno, não há o que confundir”. SANTOS, 1994, p. 69.

an object be can

16 HANSEN, 2002

Em seu livro, A Estrutura das Revoluções Científicas, Thomas Kuhn 17 analisa a mudança ocorrida dentro do universo científico, no qual a chamada ciência normal, ou cumulativa, que opera baseada em paradigmas – realizações científicas reconhecidas, e por isso mesmo modelares, é substituída pela nova ciência. Enquanto a tendência geral da ciência cumulativa é ampliar sempre mais a precisão e alcance de uma ordem já conquistada, a nova ciência trabalha com a percepção voltada para a mudança. “A descoberta começa com a consciência da anomalia, o reconhecimento de que, de alguma maneira, a natureza violou as expectativas paradigmáticas que governam a ciência normal”. (p. 78).

Não se trata apenas de estabelecer relação entre informações, mas fundamentalmente de como colecionar essas informações. O alinhamento a qualquer modelo vinculado a uma teoria a priori torna-se incompatível com objeto que investigamos: a urbanização, ou o processo de desenvolvimento de uma parte do tecido urbano, a paisagem que se configura num determinado trecho da cidade, qualquer um desses processos será refratário a uma postura de investigação explicativa, o par causa – efeito aqui resultará simplificador e parcial, dada a complexidade inerente ao objeto.

Empreender uma investigação sobre uma paisagem, tendo como horizonte a realização de um projeto é freqüentar, vivenciar e construir esse lugar a partir dessa experiência 18 .

O fenômeno e os meios de investigá-lo são vitais à atividade de projeto, a investigação em si já faz

parte do projeto – desse modo neutralizam-se os modelos abstratos, baseados em assertivas conquistadas do desdobramento de grandes Verdades.

O lugar é uma construção revelada a cada aproximação, o cotidiano, ou esse freqüentar, participa e

revela a totalidade.

A princípio parecerá haver uma incongruência na utilização do termo totalidade, uma vez que no texto

do professor Hansen anteriormente mencionado, o termo totalidade aparece associado às noções de sentido, negatividade, superação e finalidade, cujos significados se esvaziam contemporaneamente dentro do âmbito da crítica. Entretanto, essa totalidade sobre a qual se fala não é um Todo que abarca a soma das partes, a coleção de todas as partes que traz a confortável, porém falsa idéia de havermos completado e conhecido uma realidade.

É justamente nesse contexto atual de presença marcante da parcialidade e da impossibilidade de

prescrição na crítica cultural que o termo totalidade pode ser utilizado: como uma construção de

17 KUHN, 1989.

18

a

atitude dos filósofos que defendem a precisão remonta à época que Matemática e Física eram ciências exatas – eles ainda estão

Todavia, a fertilidade não é decorrência da exatidão, mas da percepção de novos problemas onde ninguém os havia visto

encantados. (

antes, e da invenção de novas maneiras de resolvê-los.” POPPER, 1977, p.31.

)

significado móvel, algo que se estrutura a partir da concepção de que mesmo a totalidade é algo que

se percebe parcialmente 19 .

Embora pareça impossível abarcar a realidade de um fato, existe a possibilidade de percebê-lo através da idéia de uma construção possível, realizada em um período.

A paisagem em sua dimensão histórica é o plasmar de muitas relações; os diferentes tempos

agregados num mesmo lugar testemunham mudanças entre diferentes relações. A atualidade de seu uso revela disposições e mudanças. Daí a pertinência de estabelecermos a construção de períodos como categorias de leitura da paisagem.

terceiro movimento: construção de períodos

Como estratégia trabalham-se chaves históricas, para que o processo de construção do lugar seja conhecido; reúnem-se dados primários e secundários, criando situações para conhecer e freqüentar o lugar. Os períodos são estabelecidos dentro de um tempo – espaço.

A história conta o processo de mudança pelo qual passa um lugar, e ao mesmo tempo, testemunha épocas pelas quais ele atravessa. Como num grande jogo de montar, as partes que poderíamos elaborar funcionando como peças. Cada peça guardaria em si a qualidade de uma proporção. Atingiríamos, ao construí-las, “uma fração do acontecer humano” 20 .

O processo de elaboração dessas peças é dialético na medida em que estabelece, entre objeto e

pensamento, uma especial relação. Sartre nos fala de um “vaivém da razão” na construção de um cenário, uma época: conhecer a biografia, que poderia ser a biografia de uma paisagem urbana é aprofundar sua época, ou épocas, e estas aprofundam a biografia 21 .

Essa estrutura relacional nasce em estreito diálogo com o tempo, pontuam-se as mudanças no fluxo dos acontecimentos. As associações e dissociações, as afirmações e negações, são estabelecidas dentro de um período de validade. O conjunto de relações que se estabelece tem algo como uma fixidez momentânea – uma totalidade que assinala o período que circunscreve – uma prática que elabora tantas peças quanto forem as escalas de observação.

Dois eixos de construção para o colecionar das informações são propostos: o das sucessões e o das coexistências. 22 . O primeiro trata dos eventos cuja observância se dá linearmente – a mudança histórica dos lugares. O segundo, também chamado das simultaneidades, extrapola objeto e

19 “A cultura jamais nos dá, pois, significações absolutamente transparentes, a gênese do sentido jamais se conclui. O que bem chamamos nossa verdade, nunca a contemplamos, a não ser num contexto de símbolos que datam o nosso saber.” MERLEAU-PONTY, 1984, p143.

20 SANTOS, 1994.

21 SATRE, 1967.

22 SANTOS, 1994.

mergulha num universo de potenciais informações que podem, a partir dele, objeto, ser desvendadas

e 23

Tecer esses dois eixos é estabelecer um período, e montar uma das possíveis interpretações, configurando uma estratégia que participa dessa composição. O interpretar reaparece agora reestruturado como categoria de reflexão crítica.

Importante notar que essa atividade de construção dos eixos é, em si, atividade de projeto, rompendo com a falsa dicotomia que coloca em diferentes momentos o pensar e o projetar enquanto representação.

quarto movimento: plano e planejamento / espaços públicos e desenho

A figura do plano sobrevoa o território concreto. O plano traduz, ainda que parcialmente, em termos

teóricos, intenções de um tempo-espaço. Desse modo, ideológicas são as tentativas de colocar o plano em campo oposto ao da política, transformando-o apenas em peça técnica, fruto do discurso competente que afasta a participação dos cidadãos.

Vivemos o primado da técnica, especialmente aquela que comparece nos discursos que justificam sistematicamente as decisões tomadas para a resolução dos problemas da cidade. Essa forma- técnica tornada ideologia nubla as reflexões realizadas acerca das coisas e, em especial, acerca do urbano, impedindo que os reais interesses, os conflitos, ganhem visibilidade. A existência de um poder emanado pela ciência e pela técnica esvazia outras falas, neutraliza a participação política e desautoriza outros, que não os especialistas, através do discurso competente.

Buscando operar como antídoto, a lógica de pesquisa que se apresenta procura expor conflitos e desvendar ideologias que justificam soluções, ao mesmo tempo em que nos permite uma aproximação mediada, sem pretensas verdades a priori, mas com verdades válidas para aquele tempo-espaço com o qual tratamos naquele período. 24

De um modo geral, soluções chamadas modernas são vinculadas ao uso da tecnologia e fazem com que uma solução apresentada à população pareça a única possível, senão a única desejável. Assim, são elas convencidas da necessidade dos viadutos, dos rebaixamentos de leitos de rios e alargamentos de vias. Algumas, entre tantas obras encantadas pela técnica. 25

Permanecemos, ainda, atados a esse paradigma. É esse modelo que inclusive transforma a paisagem em algo como um cenário que se constrói como peça de marketing para lançamentos

23 “São relações entre variáveis de natureza diferente que permitem aproximação da noção de estrutura”. (Santos, 1994, p.64).

“Desvendar a simbologia urbana é reconhecer a estrutura de interesses e conflitos que opera através do que somos capazes de reconhecer como símbolos. É conhecer a lógica e desmistificar as falas ideológicas que embaralham as argumentações e justificativas”. CASTELLS, 1972.

24

25 O encantamento pela técnica como tema é recorrente na crítica filosófica a partir de pensadores da chamada Escola de Frankfurt, com desdobramentos em outros autores, Lefébvre e Castells, bem como no território nacional com Rouanet, Matos e Santos, entre outros.

imobiliários, ao mesmo tempo em que neutraliza a cruzada pela visibilidade do meio ambiente como informação relevante na gestão e projeto das cidades. Faces de um discurso que afirma o científico enquanto técnico, esvazia o perceptível como romântico. Uma fala que desarticula o estatuto da disciplina Arquitetura da Paisagem que nos esforçamos para construir.

Por isso é fundamental que conheçamos as lógicas que conformam o meio ambiente urbano. Da

mesma forma é importante que precisemos a idéia de que a atividade de projeto extrapola o desenho.

O desenho será um dos momentos dessa aproximação e leitura do lugar para o qual se projeta. A

obra construída uma etapa cuja dimensão do uso transforma, ele traduz a crítica do usuário sob a forma de fruição, ou abandono. Momentos que exprimem a complexidade de uma intervenção, algo amplificado em sua condição quando os contornos são de espaços públicos.

Em artigo intitulado O Retorno à Cidade, Philippe Panerai reitera a falência da fé nas virtudes da planificação e no progresso técnico. Ele afirma um ponto que nos interessa: a sintomática perda de qualidade urbana resultante dos modelos de planejamento, especialmente os modernos sob inspiração funcionalista.

Sua argumentação retém, das chamadas cidades antigas, valores que comporiam a qualidade urbana mencionada, a saber, proximidades, hierarquia e legibilidade, bem como uma surpreendente capacidade de adaptação a novos usos. O fundamento de sua fala é que essa qualidade referida é fruto do arranjo dos espaços públicos, o modo como se articulam, o aspecto e configuração. Dessa leitura, que se apóia nas experiências passadas, devém a afirmação de que o espaço público deva ser o ordenador do construído em geral:“Trata-se de pensá-lo como elemento positivo do projeto e não como o vazio residual a organizar por último”. 26 Uma inversão de perspectiva que vem de encontro ao objetivo desse trabalho.

O que está em jogo aqui é o que se torna importante como informação para uma sociedade, o que é

percebido como importante. Nosso papel é justamente o de explicitar as qualidades das razões que

levam à eleição deste ou daquele ponto como prioridade; ao mesmo tempo em que atentamos, enquanto arquitetos-urbanistas, para o ganho de visibilidade do meio ambiente como um todo:

sociedade, natureza e uso.

Tomemos as áreas livres públicas, lugar de potenciais projetos como exemplo: um projeto para uma praça de área central pode, a partir do papel desempenhado por essa parte do acontecer urbano, algo que se desvela durante sua leitura, ampliar-se até a compreensão de que não se trata do projeto de uma praça singularmente, mas de um sistema de áreas livres, associado a um curso de água que permanecia talvez invisível aos habitantes da cidade, quer porque estivesse canalizado, ou mesmo tamponado, quer porque esse mesmo curso de água, ora pequeno filete de água, ora rio caudaloso

26 PANERAI, 1994.

provocasse enchentes nos meses de chuva e fosse então percebido meramente como um problema. Que as diretrizes do plano para a área em questão privilegiasse não a solução meramente técnica, como a construção de um “piscinão”, mas que procurasse trazer visibilidade às lógicas naturais, apresentando alternativas dentro da perspectiva da arte urbana que colocassem essas lógicas de exclusão a descoberto. Nesse momento o plano opera chaves da arte urbana. Essa é uma dimensão da Arquitetura da Paisagem enquanto expressão artística que precisa ser apresentada: associadas aos conceitos de Panerai de proximidade, hierarquia e legibilidade, a fisionomia do território surge como qualidade positiva, como característica que nutre uma outra forma de proximidade, gera identidade e alimenta vínculos entre uma população

A disciplina apresenta portanto as relações do meio ambiente como informação fundamental.

Ao mesmo tempo, e como extensão da expressão cultural que a domina, pensa-se na exclusão social sobre a qual a arte urbana se debruça, e que não são mais do que faces de uma mesma realidade / moeda: as exclusões se aproximam, são visíveis na população que permanece à margem dos cursos de água que alagam, são todos esses participantes de uma lógica que gera a paisagem, e que no limite exclui boa parte do meio-ambiente, compreendido como meio físico natural e sociedade, exclui aquela parte que não serve, porque não reproduz o capital. Temos então como imagem do nosso exemplo, uma área alagável, ocupada por uma população exposta ao risco, em síntese, uma paisagem de exclusão.

A construção de uma inteligibilidade não é uma questão quantitativa, mas qualitativa. Não é o número de profissionais envolvidos, ou a tecnologia em questão, mas quais problemas se elegem como principais, a clareza de que essa decisão é política e traduz quais interesses e conflitos foram levados em conta no momento em que se decide por uma intervenção na cidade.

Essa proposta de um caminho possível para a criação de projetos para áreas livres públicas retém a arte urbana como pivô que estrutura o futuro projeto, por sua potencial capacidade de apresentar conflitos próprios ao espaço público sob outra mediação, revelando-os como memória, reflexão e síntese.

Os entraves e descaminhos que funcionam como obstáculos a uma gestão em que essa lógica seja relevante são de ordem ideológica e informacional, assim a tarefa é ampla: engendrar campos disciplinares que possibilitem articular pesquisas cuja estrutura escape da velha ordem de valores estabelecida, bem como veicular e expandir a informação, pois a razão comunicativa 27 parece ser a única a desfazer o caleidoscópio de mitos em que estamos envolvidos.

27 HABERMAS, 1989 e 1990.

num mundo que inventa cada dia uma novidade, tornamo-nos todos cada dia ignorantes

do que são as coisas novas, do que elas trazem como impulso na produção e na ideologia. Essa criação cotidiana do homem ignorante é que impõe o discurso, impondo essa nova categoria de análise indispensável ao entendimento do que as coisas e os homens são”. 28

pois “

quinto movimento: arte, espaços públicos e arquitetura da paisagem

Em maio de 1889 apareceu em Viena um pequeno livro intitulado A Construção da Cidade segundo Princípios Artísticos. Nele, seu autor, Camillo Sitte analisava o caráter, tanto urbano quanto artístico das antigas cidades européias que haviam se mantido em relativo bom estado desde a época industrial. Da aparentemente casual disposição de seus monumentos, praças, ruas e edifícios, procurou extrair uma série de princípios através dos quais passa a criticar as realizações dos planejadores e arquitetos urbanistas de seu tempo.

O que lhe interessava era a continuidade de efeitos memoráveis no tecido urbano, a cena urbana, em

especial o conteúdo, o espaço formado pelas edificações.

Sitte, um homem do final do XIX, procura pelos bons exemplos já instituídos, consagrados pelo uso através dos tempos, busca no fenômeno o exemplo a ser apreendido. No entanto, não se trata da mera cópia, a reprodução indiscriminada de cenários. Sua série de sugestões a respeito de como poderiam ser reintegrados, sob bases artísticas, os planos e projetos urbanos, estão baseadas em princípios que generalizam percepções, proporções e experiências.

Com a derrocada das preceptivas que até então criavam parâmetros para a produção do Belo nessa época, temos um período de intensa busca – esses “modernos” estão à procura de algo que possa, de algum modo, fundamentar sua produção.

A par de termos figuras como Sitte - cujos olhos procuram depreender do passado as principais

lições, temos também os que vêem no futuro a fonte de inspiração, ou seja, formulam-se bases perspectivamente programando num futuro vindouro um novo homem, uma nova arquitetura, uma nova cidade.

O vínculo com a produção artística sempre esteve presente nas chaves da modernidade em relação

ao urbano: da articulação entre cultura e cidade que fundamenta a investigação de Sitte, aos modelos abstratos de cidades que corroboravam das posturas das vanguardas. Essa chave da chamada

modernidade sem dúvida foi a que mais se projetou, entretanto a existência de linhas que não consideraram a ruptura com a história uma necessidade, lidam com o tema do espaço livre realizando

28 SANTOS, 1994, p. 104.

estreito diálogo com os aspectos do lugar urbano, dentro do contexto cultural do qual eles não se sentiram separados. 29

Quando Rossi afirma em seu livro na década de 60 30 , a tese da cidade como arquitetura, - algo para além da imagem visível da cidade e de seu conjunto de arquiteturas, mas a construção da cidade no tempo, ele participa dessa chave que se recusa a definir a cidade de modo abstrato, buscando escapar de modelos idealizantes sempre presentes - lembremos da República de Platão aos modelos da modernidade racionalista.

Procura o autor da Arquitetura da Cidade nortear sua construção pelos fatos urbanos, mas dentro de uma lógica comparativa, relacional. Justamente aí reside a crítica à Sitte, cuja defesa da construção da cidade segundo princípios artísticos faz a exegese dos espaços, mas argumenta apenas em favor do episódico segundo Rossi, compreendendo o caráter relacional e complexo da sua arquitetura apenas em termos formais, de tamanho, escala, volume, textura, localização e disposição de obras de arte. Nesse sentido Rossi se associa às pesquisas que se desenvolvem a partir do final da década de 60, críticas do conceito de história do urbanismo que colecionam fatos urbanos estanques e não atentam às complexidades sociais e políticas que geravam os fatos. E essa ampliação merece ser pontuada: não apenas a forma imagem, mas a forma como expressão de um contexto.

Rossi estabelece clara vinculação entre cidade e obra de arte: a cidade como arte-fato, os monumentos como sinais da vontade coletiva. Tese contemporânea ao período no qual Argan afirma ser a arte “atividade tipicamente urbana, não apenas inerente, mas constitutiva da cidade”. A arte seria então associada à necessidade de quem vive e transforma o espaço, de representar para si uma forma, autêntica ou distorcida, da situação espacial com a qual se relaciona.

“É preciso dizer pois, que a cada momento nossas idéias exprimem, ao mesmo tempo que a verdade, nossa capacidade de atingi-la nesse momento. O ceticismo começa, quando se conclui a partir daí que nossas idéias são sempre falsas. Mas só se pode faze-lo se nos referimos a algum ídolo de saber absoluto. É preciso dizer, ao contrário, que nossas idéias, por mais limitadas que sejam num dado momento, exprimem sempre nosso contato com o ser e com a cultura e são suscetíveis de verdade desde que as mantenhamos abertas ao âmbito da natureza e da cultura que devem expressar31 .

A tentativa de trazer dois autores que trataram da cidade segundo uma perspectiva artística nos auxilia nessa construção que procura ser um possível; cada qual foi uma expressão da cultura de seu

29 “O aspecto distintivo de arquitetos da linha moderada no Movimento Moderno é, acima de tudo sua relação com a história. Sem renunciar os ideais e teorias da modernidade, eles não consideram a quebra com os velhos séculos de tradição da cidade européia necessários.” Giorgio Lombardi, Spazio Urbano e Cittá Contemporanea, in revista OTTAGONO 93, p41.

30 ROSSI, Aldo. A Arquitetura da Cidade. São Paulo : Martins Fontes, 2001, primeira edição de 1966. 31 MERLEAU – PONTY, 1990, P56. Grifos nossos.

tempo, o que interessa reter é como a arte foi compreendida por diferentes autores dentro da perspectiva de associá-la à cidade, perceber como a fala foi operada em relação ao projeto.

Não há, e o espaço urbano a isso não se presta, um método no sentido de caminho único, nada de novo aqui se coloca, apenas se reitera que cada abordagem que se realiza, cada investigação que se faz, ou projeto que se propõe é a alternativa que parece ser visível hoje, dentro de uma leitura e construção, nesse mundo desencantado de superações e finalidade. Mas se não há um ídolo do absoluto como nos alerta Merleau – Ponty, não há espaço para ceticismos.

Como final de movimento e com o intuito de avançar nessa abordagem para projeto de áreas livres públicas, compartilha-se a defesa do vínculo necessário entre cultura e cidade realizada por Oskar Negt em seu texto Espaço Público e Experiência:

“A importância da vida urbana esteve sempre ligada a alguma forma de ambiente público transparente a seus participantes. Nesse sentido, a cidade sempre estava ligada a formas de

ambiente público como praças e assembléias públicas (

Quando desaparece essa forma ambiente, desaparece também a vida urbana” 32 .

sua forma não é fenômeno casual.

),

Ao apresentar categorias como intimidade e distância como chaves para de uma compreensão possível, vislumbra-se a oportunidade de engendrar, a partir dessas idéias tão ricas em significados, aproximações e leituras para uma área urbana. Ao mesmo tempo, e como categorias que se inspiram na fala do professor Milton Santos, promover um outro momento de aproximação e leitura, agora privilegiando a percepção de fixos e fluxos, nas suas múltiplas manifestações, físicas ou imateriais.

E ainda, a par dos jogos criados a partir dos pares mencionados, propor uma subversão da atividade do arquiteto – urbanista, fazendo-o pensar não nos objetos mas, como apontaram Sitte ou Panerai, no vazio que conformam. Um tencionar que atualizado é convite ao estranhamento, qualidade firmada e operada pelo campo das artes.

“ a faculdade metafórica é essencial ao modo como ocupamos o mundo; as metáforas

funcionam tão bem na linguagem precisamente porque são parte do nosso equipamento conceitual inato. Somente a metáfora pode nos fornecer a chave para negociar com nosso meio físico. É tarefa da arquitetura – e em certa medida de outras artes também – cativar e alimentar essa faculdade.” 33

Diferentemente do aporte apenas estético, a metáfora pode ser objeto de uma discussão racional. Enquanto figura de linguagem ela opera no território da arte e da cultura sob a égide da expansão,

32 NEGT, 2002

33 RYCKWERT, 2002, p374.

sua potencia enquanto comunicação experimenta a mudança como um território que pode ainda gerar-lhe novo fôlego.

Dar visibilidade ao conflito 34 , tornando-o operativo, significa procurar por uma dimensão que é aquela que opera como um antídoto contra o processo de homogeneização, perda de significado e abandono do espaço urbano contemporâneo.

O desafio é projetar espaços públicos urbanos dentro de um contexto de conflito e esvaziamento faz entrever então na prática artística uma alternativa possível na construção de lugares. Entretanto, e no âmbito da constituição de um campo disciplinar ligado à Arquitetura e Urbanismo, e com a atenção voltada para a Paisagem que se conforma, parece que a arte urbana deva contemplar o fenômeno de exclusão em geral, de sorte que a exposição de conflitos é social e ambiental a um só tempo, pois que se a percepção agora está atenta a essas informações, não há como não fazê-las participar.

“E gostaria que vocês levassem em conta o contrário do que é por definição sua missão: não projetem apenas construções, criem também espaços livres que preservem o vazio, para que o cheio não nos obstrua a vista – que ele deixe o vazio para o nosso descanso”.

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34 “Neste contexto, a Arte Pública é tratada como um modo de materializar relações sociais urbanas, um dos modos tangíveis de como a cidade se mostra e apresenta seus conflitos”. Pallamin, V. Arte Urbana – Aspectos Contemporâneos, in Sinopses São Paulo, no. 22, p24 – dez. 1994.

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